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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NA CASA DO REI DRAGÃO / Stephen Lawhead
NA CASA DO REI DRAGÃO / Stephen Lawhead

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Saga do Rei Dragão

1º VOLUME

NA CASA DO REI DRAGÃO

 

A neve recente jazia, profunda e intocada, por debaixo da luz prateada do céu de madrugada. Lá no alto, um corvo vigiava uma paisagem silenciosa, com as negras asas a tactearem o ar frio e fino. O áspero apelo da ave era o único som que se ouvia muitos quilómetros em redor, quebrando a gelada solidão com um staccato irregular. A toda a sua volta, a terra jazia adormecida nas profundezas do inverno.

Todos os ursos, todas as raposas. lebres e esquilos permaneciam ainda no calor das suas tocas rústicas. Os cavalos e o gado mantinham-se, satisfeitos, nos seus estábulos, de cabeças pendentes de sono ou ruminando em silêncio a primeira ração da manhã.

Nos campos, o fumo erguia-se das cabanas dos camponeses para um céu sem vento. subindo pelas rudimentares chaminés, libertado por lareiras que tinham sido mantidas acesas toda a noite. A aldeia, amontoada em volta das poderosas muralhas do castelo de Askelon, dormia num esplendor primitivo, como uma princesa que se sentisse segura nos braços do seu protector.

Nada se movia por toda a terra, salvo o corvo que descrevia lentos círculos no céu.

Quentin estava deitado na sua cela, a tremer, encolhido numa bola coberta por um fino cobertor de lã que apertava com força em volta das orelhas, num esforço resoluto para manter afastado o frio da noite. já estava acordado, e cheio de frio, muito antes de o céu começar a mostrar um leve tom cinzento através da única fresta, muito alta, da sua cela. Agora, a escuridão afastara-se o suficiente para lhe permitir distinguir os contornos dos objectos muito simples que mobilavam o quarto miserável.

Ao lado da enxerga de palha em que dormia encontrava-se um pesado banco em madeira de carvalho, saído das mãos de um qualquer camponês local. Na parede oposta à cama via uma mesa do mesmo estilo. contendo os seus poucos bens pessoais: uma malga de barro para a comida. uma vela num castiçal de madeira, uma pequena campainha para as orações e um rolo de pergaminho onde se encontravam escritas todas as regras e observâncias das suas funções de acólito, e que, ao fim de três anos, ainda se esforçava por decorar.

Algures, nos recessos mais interiores do templo, ouviu-se o toque de um sino. Quentin gemeu, mas depois saltou da cama, enrolando o cobertor em volta dos ombros. Hoje era o dia, recordou-se. O dia da grande mudança. Perguntava a si mesmo qual ela iria ser. pois apesar de ter acompanhado os portentos com toda a atenção, não era capaz de a adivinhar.

Todos os augúrios haviam apontado para uma mudança: o anel em volta da Lua, durante três noites, antes da neve começar a cair, a própria tempestade que surgira no dia do seu nome, a aranha que vira, atarefada, a construir uma teia atravessada na sua porta (o que acontecera havia algum tempo, mas de que não se esquecera).

Não havia dúvidas: estava prevista uma mudança.

A sua natureza exacta permanecia um mistério, mas essa era frequentemente a vontade dos deuses, que mantinham oculta uma parte da profecia. Conseguira, finalmente, deduzir a data da mudança, graças a um sonho em que se vira a trepar a uma alta montanha, saltando depois do próprio pináculo, mergulhando no espaço, não a cair mas a voar. Os sonhos de voo davam sempre boa sorte. Além disso, o seu dia de sorte era sempre um dia santo e, aquele dia, o da festa de Kamali - que tinha de admitir tratar-se de um santo de pouca importância - era de qualquer modo o primeiro dia santo que surgira depois do sonho. Hoje, sem dúvida nenhuma. seria o dia do acontecimento: os sinais eram indiscutíveis. Quentin reviu~os mentalmente enquanto enfiava à pressa, pela cabeça coberta por um cabelo castanho cortado muito curto, o áspero e pesado trajo de acólito. Meteu os pés nas meias largueironas e apertou-as com força com os cordões das sandálias. A seguir. penado na campainha das orações, correu para fora do cubículo, para o corredor frio e escuro.

Quentin ia a meio caminho da galeria de enormes arcos quando ouviu o toque de outro sino. Desta vez era um som profundo e ressoante com três curtos intervalos, seguido por uma pausa breve. O sino repetiu os três toques. Quentin ficou intrigado com o significado do toque. Que se recordasse. nunca antes o tinha escutado.

De súbito, compreendeu! Era o alarme!

Parou. confuso. Quando se virou para correr em direcção ao som do sino, colidiu cegamente com as formas arredondadas e bem acolchoadas de Biorkis, um dos sacerdotes mais velhos.

- Cuidado, rapaz! - gritou o sacerdote. bem-humorado. - Não há motivo para o pânico!

- O sino acabou agora mesmo de tocar a alarme! - exclamou Quentin. procurando rodear o sacerdote ofegante. - Temos de nos apressar!

- Não é preciso. Os servos de Ariel não correm. Além disso - acrescentou, com uma careta -, aquele era o toque de chamada e não o do alarme.

De súbito, Quentin sentiu-se muito estúpido. A cor subiu~lhe ao rosto e os olhos procuraram as lajes de pedra que tinha sob os pés. O jovial sacerdote colocou-lhe um pesado braço sobre os seus ombros jovens.

- Anda, vamos ver qual o motivo para nos arrancarem tão cedo ao calor do sono, nesta fria madrugada.

Seguiram os dois juntos ao longo do corredor e, pouco depois, chegavam à vasta entrada do templo. Um vento frio e penetrante precipitava-se pelas enormes portas abertas. Um sacerdote com sotainas escarlates, um dos da Ordem dos Guardas do Templo, estava já a empurrar as gigantescas portas de madeira, para as fechar. Três outros rodeavam um grande fardo informe que jazia a seus pés. no chão. Fosse o que fosse, aquele volume escuro, tão incerto sob a fraca luz da manhã, acabara de ser arrastado do exterior. Havia um rasto de neve a atestar esse facto, para além da neve que cobria o próprio fardo.

Ao aproximar-se. Quentin percebeu que o fardo era uma forma humana muito embrulhada para se proteger do frio. Os sacerdotes debruçavam-se agora sobre o volume inerte, que, de acordo com todas as aparências. deveria estar morto. Biorkis pousou a mão no braço de Quentin, num aviso. e avançou devagar.

- Que vem a ser isto. meus bons irmãos? Um peregrino obstinado que chega mais cedo ao santuário?

- Pelo aspecto, não se trata de um peregrino - disse o guarda, esfregando as mãos para lhes restaurar o calor. - Parece-se mais com um mendigo em busca do nosso banquete de festa.

- Pois então, tê-lo-á - replicou Biorkis.

- A comida já de nada lhe serve... - comentou Izash, o mais velho sacerdote do templo, cujo símbolo das funções era a longa barba entrançada - ou receio bem que de nada lhe venha a servir muito em breve. - Bateu com o sagrado bastão branco e agitou o ar na sua frente, num gesto que indicava que o homem deveria ser virado para que lhe pudessem ver melhor o rosto. Dois sacerdotes jovens ajoelharam sobre aquela forma sem vida e começaram a puxar pela parte mais larga do fardo, formada pelos ombros do homem. Os sacerdotes, demonstrando demasiada preocupação em não se contaminarem, não estivessem a lidar com um cadáver, puxavam, de uma maneira muito pouco eficiente, pelas pontas das grosseiras peles que o homem usava para se manter quente. Biorkis observou com impaciência aqueles temi~ dos esforços, para acabar por explodir:

- Saiam da frente! Não receio Azrael, as minhas mãos já tocaram em coisas piores! - Dobrou-se para o corpo e fê-lo rolar para os seus braços.

Quentin, que andava em volta do grupo em busca de uma posição em que pudesse ver melhor, ofegou ante a visão. O rosto do homem tinha um tom de cinzas brancas, e os lábios, comprimidos numa linha muito fina, estavam azuis. Parecia completamente gelado. Porém, no preciso momento em que Quentin o observava, avistou um estremecimento nas pestanas cinzentas do homem. Biorkis, que também notara aqueles vestígios de vida, deu ordem a um dos sacerdotes mais jovens:

- Traze-me o vinho, irmão! Despacha-te! E traze também um frasco de unguento! - A seguir ordenou para os restantes: - Vamos, ajudem~me a abrir estas peles. Talvez ainda o possamos arrancar a Heoth!

Os sacerdotes baixaram-se sobre a figura imóvel, abrindo com cuidado as várias camadas de roupas. Quando terminaram. tinham o espanto bem visível nos rostos, tal como na cara do sacerdote que regressara com o vinho e o unguento.

Ali, no chão, na frente deles, jazia um cavaleiro envolvido num rude trajo de batalha. Tinha a cabeça protegida por um elmo de couro coberto por tiras de ferro cruzadas entre si. No dorso exibia um peitoral do mesmo tipo e material, mas equipado com curtos bicos metálicos, e tinha os braços e antebraços protegidos por couro coberto de pregos.

Biorkis, ainda a segurar na cabeça do homem, puxou a tira que mantinha o elmo no seu lugar. Caiu e rolou, tilintando sobre as pedras do chão, e ouviu-se um murmúrio dos homens que o rodeavam. Quentin virou a cara para outro lado. A cabeça do cavaleiro era uma massa de sangue. Tinha uma grande ferida aberta por cima da têmpora, onde a pele e os ossos haviam sido esmagados por um violento golpe.

O amável sacerdote ajoelhou-se, com a cabeça do cavaleiro pousada sobre os joelhos, e afastou-lhe da testa os cabelos manchados. Com cuidado, abriu as correias que seguravam o peitoral, que dois sacerdotes colocaram a um lado. Surgiu um gemido na garganta do homem, ao princípio muito fraco, mas que foi ganhando força.

- O frasco - pediu Biorkis. Agarrando e mergulhando dois dedos na pomada, o sacerdote espalhou o unguento curativo sobre o rosto do homem. Os vapores aromáticos produziram um resultado imediato, pois os olhos do soldado voltaram a estremecer e a seguir abriram-se de repente, como os de um homem que lutasse contra um sonho.

- Ah, vai estar connosco mais algum tempo - disse Izash. - Dêem-lhe um pouco de vinho, talvez nos diga qual era a sua missão. - O velho sacerdote apoiou-se mais e inclinou-se sobre o bordão para melhor ouvir o que o homem pudesse vir a dizer.

Biorkis deu-lhe o vinho a beber enquanto o cavaleiro, sem forças para inclinar a cabeça, deixava que o álcool lhe escorresse pela garganta. Nas mãos de Biorkis, o vinho pareceu ter um efeito mágico. A cor regressou lentamente ao rosto do homem e a respiração, que anteriormente nem sequer era visível, aprofundou-se um pouco.

- Bem-vindo, bom soldado. - Izash dirigiu-se ao cavaleiro com todo o respeito. - Se acha que pode falar, talvez nos possa dizer de onde vem.

O cavaleiro de cabelos claros rolou os olhos e tentou virar a cabeça na direcção de quem falara. O esforço provocou-lhe uma onda de dor que foi bem visível nas suas feições. Voltou a deixar cair a cabeça no colo de Biorkis.

Naquele momento já se encontravam rodeados por muitos outros sacerdotes, que tinham respondido ao apelo do sino. Falavam uns com os outros em voz baixa, especulando a respeito do estranho visitante que jazia na frente deles. O cavaleiro voltou a abrir os olhos. que emitiram um clarão brilhante e duro, como se estivesse a recuperar as forças ou a vontade. Abriu a boca para falar. O queixo agitou-se no ar mas não se ouviu um som.

--Mais vinho - ordenou Biorkis. Quando lhe entregaram o copo, o sacerdote puxou uma bolsa de entre as dobras das roupas. Meteu dois dedos dentro do pequeno saco de couro e despejou uma pitada do seu conteúdo dentro da bebida. A seguir voltou a colocar o copo junto dos lábios do cavaleiro. O homem prostrado bebeu com mais facilidade e. quando terminou, fez uma pausa antes de voltar a tentar falar.

- Agora. senhor, esclareça um velho bisbilhoteiro... se não tiver bons motivos para ocultar a sua missão. - Izash inclinou a cabeça. com a barba branca quase a tocar no chão. Um ligeiro sorriso encarquilhou-lhe a face enrugada, como se quisesse apoiar as suas palavras com uma expressão de simpatia.

- Sou Ronsard - disse o cavaleiro, numa voz rouca. o esforço foi seguido por mais um gole de vinho. Os seus olhos, de um cinzento de aço sob a luz prateada, olharam em volta. para o apertado círculo de rostos dobrados para ele. - Onde estou? - perguntou baixinho.

- Estais entre amigos, senhor - respondeu Biorkis. - Este é o sagrado templo de Ariel e nós somos os seus humildes servos. Podeis falar à vontade. Aqui. nenhum mal vos atingirá,

Como se se sentisse tranquilizado por aquelas palavras suaves. o cavaleiro humedeceu os lábios e declarou. com as forças que foi capaz de reunir:

- Venho da parte do rei.

As palavras eram simples, mas atingiram as orelhas dos que o ouviam como se de um trovão se tratasse. O rei! Vem da parte do rei! O murmúrio elevou-se e ecoou nos elevados arcos do templo.

Apenas Izash. ainda apoiado ao bordão. não pareceu impressionado.

- O nosso rei? Ou outro rei qualquer?

- Eskevar... o rei - retorquiu o cavaleiro caído. num tom mais vivo.

O nome provocou uma nova agitação entre os sacerdotes ali reunidos. O rei estava ausente havia tanto tempo, e o seu nome era tão pouco ouvido entre os seus próprios compatriotas... Ouvi-lo dava novas esperanças a todos os que ali se encontravam.

- Que novas nos trazeis do rei? - prosseguiu o velho sacerdote. Havia um certo método nas perguntas. Estava a manter ocupada a mente do cavaleiro, fazendo-o esquecer-se dos ferimentos e da dor que lhe contorcia as faces rudes.

- Não o posso revelar... Só à rainha. Tomei o compromisso de entregar a minha mensagem apenas a ela. - O guerreiro engoliu o ar e voltou a humedecer os lábios. - Fui atacado a noite passada. emboscado por alguns fora-da-lei que dormem agora no meio da neve.

O cavaleiro mirou os rostos dos sacerdotes debruçados sobre ele. Escorria-lhe sangue fresco da ferida, de novo aberta pelo esforço exercido.

- Não tenhais preocupações - declarou Biorkis num tom tranquilizador. - Permanecereis connosco até poderdes reatar a vossa missão. - Fez um gesto para os sacerdotes mais jovens, para que o ajudassem a colocar o cavaleiro sobre a enxerga que alguém fora buscar. - Ninguém vos incomodará com perguntas sobre a vossa missão. O segredo está a salvo dentro destas paredes. Agora, descansai, não gosto do aspecto desse ferimento.

- Não! - gritou o cavaleiro, enrouquecido, com o rosto a contorcer-se numa agonia. Depois acrescentou num estranho murmúrio áspero: - Estou a morrer. Têm de entregar a minha mensagem à rainha. Não pode esperar.

Biorkis dobrou-se, apoiando gentilmente a cabeça do cavaleiro enquanto este era cuidadosamente transportado para a enxerga. O homem agarrou-se às madeiras dos lados da cama e soergueu-se. apoiando-se sobre os cotovelos. O sangue corria-lhe livremente ao longo da cabeça e do pescoço. provocando manchas de um cinzento avermelhado em cima da túnica verde.

- Têm de me ajudar! - exigiu. - Um de vocês tem de ir até junto da rainha, no meu cavalo. - Oscilou e caiu sobre a cama. A cor fugira-lhe do rosto. Parecia morto aos olhos de todos os que o olhavam, receosos e espantados.

Impotentes, os sacerdotes olharam uns para os outros. Biorkis levantou-se, com as mãos a pingarem o sangue fresco do cavaleiro. Observou o rosto dos seus irmãos e viu-lhes as expressões de preocupação. A seguir aproximou-se de Izash. que lhe fez sinal para se chegar para o lado.

- Temos um problema indesejável - comentou o velho sacerdote. - Não vejo que ajuda lhe poderemos dar, salvo fazer tudo para lhe sarar as feridas e devolvê-lo ao seu caminho o mais depressa possível.

- -Mas o atraso...

- Quanto a isso, receio que nada possamos fazer.

- Todavia, poderemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para o restaurar... e mesmo assim pode vir a morrer - objectou Biorkis. -Isto. se não for já demasiado tarde...

Na voz, e no aspecto do cavaleiro. houvera qualquer coisa que impressionara Biorkis. Sem dúvida que o homem enfrentara grandes dificuldades, e mesmo agora recusava o leito de morte, sustentado apenas pela força da mensagem que tinha de entregar. As notícias sobre o rei eram da mais alta importância, fossem elas quais fossem. Era mais importante do que a própria vida.

Naquele momento, o cavaleiro recuperou a consciência. mas estava demasiado fraco para se conseguir erguer. Escapou-se-lhe um gemido baixo dos lábios cerrados.

- Ainda não nos abandonou - disse Izash. - Que persistente que é este correio.

Biorkis e o velho sacerdote colocaram as suas cabeças junto da do cavaleiro.

- Bom Ronsard - murmurou Biorkis -, não se esforce mais se quer salvar a vida. Dispomos de grandes poderes sobre as doenças e os ferimentos. já arrancámos muitas almas às mãos de Manes. Descanse um pouco. Faremos tudo para curar as suas feridas e para lhe devolver forças para a sua missão.

- Não! - opôs-se o cavaleiro, com uma força surpreendente. -Não há tempo. Um de vocês tem de galopar até junto da rainha. - Os olhos imploravam ao sacerdote.

- Senhor, sabeis o que nos estais a pedir? - retorquiu Izash, agitando um braço para designar toda a assembleia de sacerdotes. - Estamos sob votos sagrados e não podemos abandonar o templo, excepto em peregrinação ou para assuntos da mais alta importância sagrada. O destino das nações, dos reis e das potências não nos diz respeito. Servimos apenas o deus Ariel. Somos seus súbditos e de mais ninguém.

Biorkis olhou com tristeza para o homem moribundo.

- Essa é a fria voz do juramento que prestámos. O meu próprio coração diz-me: "Vai", mas não posso ir. Abandonar o templo para essa missão seria quebrar os meus votos sagrados. Qualquer sacerdote que o fizesse desperdiçaria todo o trabalho da sua vida, e a sua alma perderia a felicidade eterna. Não há aqui ninguém que se arriscasse a fazê-lo, nem eu o pediria.

Os sacerdotes acenaram com solenidade a sua concordância. Alguns encolheram-se e afastaram-se, para não virem a ser arrastados para aquela tarefa, outros levantaram as mãos, numa súplica de impotência.

- Não há um único que troque a sua vida pela minha? Não há um único que se arrisque ao desagrado do deus para salvar o rei? - O desafio do cavaleiro soou com violência aos ouvidos dos que o rodeavam, apesar de o ter proferido em pouco mais do que um sussurro.

- Irei eu - disse uma voz insegura e fraca.

Biorkis, Izash e os outros sacerdotes viraram-se para a voz. Ali, nas sombras de uma arcada, estava a frágil figura do dono da voz. Avançou devagar, para se colocar ao lado do cavaleiro moribundo.

- Tu, Quentin? - perguntou Biorkis, espantado. Os outros sussurraram por detrás das mãos erguidas. - Tu irás?

 

O poderoso cavalo transportava o seu insignificante cavaleiro com uma facilidade incansável. Treinado na dura escola das batalhas, Balder estava habituado a suportar no seu largo dorso o peso de homens adultos equipados com armaduras completas. Quentin, agarrado, como uma folha gelada, ao magnífico pescoço do animal, quase não constituía um fardo.

O dia era ainda uma criança e, apesar de nublado, tal como o anterior, a camada de nuvens baixas dava sinais de se ir desfazer dentro de pouco tempo. O vento refrescara, provocando a cada nova rajada turbilhões de nuvens brancas por cima dos montes de neve. Cada uma dessas rajadas provocava um estremecimento nas costelas de Quentin. Perguntava a si mesmo se alguma vez voltaria a sentir-se quente. De qualquer modo. não se importava muito com o desconforto, pois a mudança há tanto tempo profetizada estava agora em andamento. Onde o levaria e qual o seu significado eram algo que desconhecia. De momento estava envolvido na aventura da mudança, mas mantinha os olhos atentos a qualquer augúrio que se pudesse apresentar.

Nada surgia ante os seus olhos, excepto a vasta expansão branca, quebrada apenas por saliências escuras e irregulares que irrompiam da neve como cogumelos. Eram as cabanas dos camponeses, e por vezes via um rosto a espreitá-lo da esquina de uma ombreira, ou um tímido aceno que reconhecia a sua presença, vindo de uma forma dobrada, no meio da neve, sob o fardo de uma carga de lenha para queimar.

Durante os seus sete anos dentro do templo, a terra, ou pelo menos Quentin assim o julgava, não se modificara muito. No entanto. algo se modificara. Havia qualquer coisa de inconfundível nos olhos dos camponeses que se lhe deparava, algo que chocava sempre que a voltava a ver. Seria medo?

A ideia provocou-lhe uma sensação de inquietação. Haveria alguma coisa à solta naquela terra que levasse a que as pessoas simples sentissem medo?

O grande cavalo castanho avançava com firmeza, com os cascos silenciados pelo colchão de neve. jactos de vapor emergiam-lhe das narinas quando o ar quente tocava no ar gelado. Quentin fez regressar os seus pensamentos à breve sucessão de acontecimentos que o tinham colocado na sela de Ronsard, o cavaleiro do rei.

Após a sua oferta espontânea de ajudar o cavaleiro a cumprir a sua missão, tivera lugar uma longa e agitada discussão. Todos os interessados - Bíorkis, Izash, os outros sacerdotes, e até o próprio cavaleiro - se tinham mostrado contra. -Mesmo assim, depois de analisados todos os factos, continuava a não existir um plano melhor. Quentin partiria imediatamente, após um único dia de descanso e de alimento para o cavalo. o animal fora encontrado pacientemente à espera no pátio exterior do templo onde o seu amo o deixara antes de subir e desmaiar sobre os degraus. Tinham sido os relinchos do cavalo, a chamar o dono, que haviam alertado os guardas do templo, que a seguir haviam descoberto o cavaleiro ferido e meio gelado.

Relutante, Biorkis dera a sua aprovação ao empreendimento, porque, apesar da sua pouca idade estar contra ele, Quentin era a única escolha lógica. Era apenas um acólito, não um sacerdote, uma vez que não prestara votos nem terminara a iniciação, um processo que em geral durava vinte ou mais anos. Quentin completara apenas sete anos de instruçào. Aos quinze, tinha ainda anos de estudo pela sua frente. Outros, com a mesma idade, eram já noviços. A estrada para o sacerdócio era muito comprida, e a maior parte iniciava-a quando ainda eram crianças pequenas. Quentin, apesar de dedicado à vocação que sentira aos oito anos, começara muito tarde.

Agora, a sua carreira terminara. Nunca mais lhe permitiriam regressar ao templo, excepto como fiel adorador para suplicar uma bênção do deus. Ariel era um deus ciumento, quando se lhe virava as costas nunca mais se era reconhecido. Só distinguindo-se num grande acto de heroísmo poderia Quentin ter de novo a esperança de recuperar os favores do deus. jurou fazê-lo... logo que lhe surgisse a oportunidade.

A viagem de Narramoor, a cidade santa, para Askelon, a fortaleza do rei, era uma questão de dois dias a cavalo. O templo, de acordo com as mais velhas tradições do reino de Mensandor, fora construido nas altas vertentes que dominavam as terras que protegia com as suas orações. Na Primavera e no princípio do Verão, os peregrinos surgiam, vindos de todas as partes do país, para pedirem em oração boas colheitas e gado saudável. Cada cidade ou aldeia tinha também o seu pequeno templo, ou casa de orações, presididos, conforme as necessidades. por um ou mais sacerdotes, mas a maioria dos fiéis preferia fazer a peregrinação ao Alto Templo, pelo menos uma vez por ano, ou até com mais frequência se isso lhes fosse possível.

A estrada. serpenteando nas íngremes colinas por debaixo das denteadas e velhas montanhas de Fiskill, não era muito larga mas era bem conservada... ou pelo menos fora-o, até aos tempos em que o rei partira. Quentin não se recordava da partida do rei, pois na altura não era mais do que uma criança de colo. Todavia, nos anos seguintes, ouvira, e mais do que uma vez, os vívidos relatos do esplendor dessa partida.

O rei, vestido com trajos de batalha completos, ostentando o brasão real - um terrível dragão vermelho todo contorcido -, conduzira os seus leais guerreiros através das gigantescas portas do castelo. No meio de um milhar de estandartes flutuando ao vento e do grito de milhares de trompas que tocavam nas altas muralhas, o exército do rei marchara pelas ruas repletas por uma multidão que o aplaudia e dirijira-se para as planícies de Askelon. Dizia-se que o desfile durara meio dia, tantos eram os homens que nele seguiam.

O exército marchara para Hinsen-by-the-sea, ou Hinsen-by, como era em geral conhecida, e embarcara em resistentes navios de guerra que os aguardavam na baía de Hinsen. de onde tinham levantado ferro. Os navios haviam sido fornecidos pelo rei Selric, do pequeno reino insular de Drin, cujo povo era bem conhecido por produzir os melhores marinheiros do mundo.

Tinham-se-lhes reunido outros reis de outras terras, aumentando as suas forças para além de tudo o que jamais fora visto, ou até imaginado. Iam enfrentar os bárbaros Urd. uma raça de criaturas - a quem ninguém tinha a ousadia de chamar humanos - tão brutal e tão selvagem que a sua própria existência punha em perigo todos os outros homens. Os Urd, unidos sob o mando do seu rei Gorr, haviam-se levantado num desafio a toda a ordem civilizada, jurando extinguir ou escravizar as outras nações. Queriam governar o mundo.

Os doze reis das nações civilizadas tinham-se reunido e declarado a guerra a Gorr, navegando ao seu encontro e batalhando com ele, nas suas próprias terras. antes que o diabólico senhor tivesse tempo para lançar o seu exército contra eles. nas suas terras.

A luta começara no princípio da Primavera, e no Verão já se pensava que a campanha chegaria ao fim antes do aparecimento do inverno, tal fora o sucesso inicial dos reis unidos. O astuto Gorr, vendo os seus guerreiros a perderem a coragem ante aquela terrível matança, retirara para a maciça fortaleza amuralhada de Golgor. Instalara-se aí, defendendo-se com uma força e um fervor que ninguém poderia ter previsto. A partir de Golgor, o furioso gigante desafiava as valorosas forças dos reis. Os seus grupos de assalto, apesar de serem quase sempre repelidos com pesadas perdas, iam-lhes desgastando as forças de um modo contínuo. O Inverno surgiu e deparou com os inimigos num beco sem saída.

A guerra, tão facilmente ganha na Primavera, arrastou-se interminavelmente. Os anos passavam e a guerra prosseguia. Milhares de homens morriam naquele horrível país, onde nunca mais veriam os seus amigos e os seres que amavam. Vários reis tinham-se retirado no sétimo ano de guerra, regressando a casa com os esfarrapados restos do que haviam sido os seus outrora orgulhosos exércitos. Porém, Eskear, Selric, Brandon, Calwitha e Troen haviam continuado a lutar.

Tanto quanto Quentin soubesse, ainda combatiam.

Quentin levantou os olhos para o horizonte. A sua visão alcançava, ao que lhe parecia, até ao infinito. A terra descia para todos os lados, sem qualquer obstáculo, excepto quanto às grandes formas ocasionais de um pedregulho gigantesco ou de uma saliência escarpada que de vez em quando surgiam, de um modo abrupto, nas vertentes das colinas. Todavia, o delgado cavaleiro estava a sair das colinas e a linha escura da floresta aproximava-se como por magia.

Askelon, o seu destino, ficava do outro lado da floresta. Para lá dela, para ocidente, jaziam as terras planas e as aldeias agrícolas, bem como as cidades das planícies, entre as quais Bellavee era a mais importante.

Para o extremo norte ficava Woodsend, uma substancial povoação de agricultores e artesãos, firmemente implantada nas margens do rio Wlist, um longo e preguiçoso braço de água que saía de Arvin, cujas águas. tal como acontecia com todos os rios que atravessavam o reino, tinham a sua origem nas montanhas de Fiskill, por cima de Narramoor. Para trás dele ficavam essas mesmas montanhas imponentes, e para lá delas as regiões de SuthIand. para o sul, e Obrev, para o norte.

Eram as denominadas Terras Selvagens. regiões remotas e praticamente inexploradas, habitadas apenas por animais ferozes e por homens ainda mais ferozes, os Dher, ou Jher, como por vezes lhes chamavam. Os Ther eram os descendentes, sobreviventes, dos mais primitivos habitantes da Terra. Continuavam agarrados. como o musgo às pedras carcomidas pelo tempo, às suas maneiras obscuras. e não existia ninguém que se recordasse de alguma vez se terem modificado.

Dizia-se que possuíam muitos poderes estranhos, dons que os dispunham melhor para com as criaturas selvagens, com quem partilhavam as suas terras bravias, do que para com os seres humanos civilizados, para quem não eram companheiros aceitáveis. Durante a maior parte do tempo os Jher mantinham-se nos seus domínios. e eram deixados em paz por todos. Quentin, tal como a maior parte dos jovens, nunca tinha visto nenhum. Existiam, para ele, como se fossem personagens de histórias para crianças, histórias contadas para assustar e levar os mais jovens à obediência sempre que mostravam alguma relutância em comportarem-se como era apropriado.

Quentin despertou das suas meditações sobre todas aquelas coisas e reparou que o meio-dia se estava a aproximar. Começou em busca de um lugar abrigado para parar, onde pudesse comer e deixar o cavalo descansar, apesar de este não parecer nada fatigado com os esforços desenvolvidos. O fraco Sol de Inverno, que se debatera toda a manhã para queimar uma passagem através da neblina, brilhou subitamente no alto, como um ferro em brasa a abrir caminho num pano de estopa. Instantaneamente, a paisagem transformou-se, perdeu o tom fantasma~ górico e ganhou um brilho encandeante.

Com o Sol, apesar de este parecer pequeno e distante, chegou o calor, ou pelo menos Quentin imaginou que sentia o calor a espalhar-se pelas suas costas e ombros, e a penetrar no espesso barrete forrado a peles. Na sua frente avistou um pequeno bosque de bétulas. rodeado por uma confusão de arbustos miseráveis e por algumas outras plantas de folha perene. O local oferecia um ligeiro abrigo contra o vento mordente. que, agora que o Sol aparecera, se tornara mais cortante.

Quentin achou que o Sol era um bom companheiro enquanto puxava as rédeas do cavalo e o amarrava a um ramo próximo. Descendo da montada, o rapaz remexeu no saco pouco fundo que Biorkis lhe fizera e que enchera de provisões para a viagem. Retirou do seu interior um pequeno bolo de sementes, abriu a capa no chão e sentou-se para comer a sua refeição.

O Sol brincava~lhe no rosto. aquecendo-lhe as geladas pontas do nariz e das orelhas. Quentin tirou o barrete e virou o rosto para aquele agradável calor. A sua mente regressou mais uma vez à confusão e agitação da partida, e recordou de novo, como já fizera centenas de vezes, as instruções que lhe tinham dado. Ir ter com o eremita da floresta de Pelgrin. Nunca parar, excepto para comer e descansar o cavalo. Não falar com ninguém. Entregar a carta apenas à rainha.

A última ordem iria ser a mais difícil, mas Ronsard, no seu último acto antes de perder a consciência, entregara-lhe a sua adaga como meio para conseguir uma audiência. A adaga dourada do cavaleiro seria reconhecida e revelaria a gravidade da ocasião. Quentin não estava tão preocupado pela sua próxima presença na corte como seria de esperar. Estava cheio de curiosidade e assustado - mas na realidade a curiosidade sobrepunha-se ao medo - a respeito da misteriosa mensagem agora cosida no interior da sua simples jaqueta verde. Distraído, deu umas pancadinhas no local onde a carta se encontrava, em cima das suas costelas... O que estaria lá dentro? O que é que poderia ser tão importante?

Todavia, apesar de se sentir intrigado com o enigma que transportava consigo, uma parte da sua mente remoía um outro problema, como um cão a roer um osso. Era algo em que não queria sequer pensar: o seu futuro. Evitava aquela ideia como quem evita uma dor, no entanto a mesma pairava-lhe sempre nas franjas da consciência, nunca inteiramente esquecida. Quentin punha a questão de parte, com toda a delicadeza, sempre que a sentia a introduzir-se nos seus pensamentos... -Que vais fazer depois de entregares a carta?"

O rapaz não tinha resposta para aquela pergunta, ou para a centena de outras, sobre temas semelhantes, que o assaltavam constantemente. Começava a recear, a cada quilómetro que percorria, o fim da sua missão. Desejava - e não se tratava de um desejo novo – nunca se ter oferecido. No entanto fizera-o. e lamentara-o imediatamente. Todavia, era como se não possuísse vontade própria. Sentira-se obrigado, por uma qualquer força exterior. a responder ao apelo do cavaleiro moribundo. Talvez o deus Ariel o tivesse empurrado para a frente ou talvez tivesse sido apanhado pela terrível urgência do momento. Por outro lado, os augúrios haviam profetizado Ah. Mas desde quando é que os augúrios diziam a verdade? De olhos fechados, virados para o Sol. Quentin mastigava o bolo de sementes meditando no seu destino. De súbito sentiu um toque de frio no rosto, como se o Sol tivesse pestanejado. Lá no alto. muito por cima dele, ouviu o apelo de uma ave. Quentin abriu um dos olhos e encolheu-se ante o brilho do Sol. Semicerrando os olhos com força e protegendo-os com um braço estendido, Quentin acabou por conseguir determinar a fonte do apelo... e nesse mesmo instante o seu coração contraiu-se-lhe dentro do peito, como um punho fechado. Ali, voando baixo sobre a sua cabeça, estava o pior augúrio que era capaz de imaginar: um corvo descrevia círculos por cima dele, e as suas asas projectavam sombras sobre a sua cabeça.

 

O céu azul salpicado de nuvens dissolvera-se numa cúpula violeta riscada por fios de laranja e de vermelho, e sobre a brancura da neve as sombras haviam ganho um escuro tom azul, ainda antes de Quentin encontrar o seu abrigo para a noite: a rudimentar cabana de troncos de Durwin. o santo eremita da floresta de Pelgrin.

Entre as classes baixas, o eremita era conhecido como sendo alguém que ajudava os viajantes e cuidava dos camponeses e dos habitantes da floresta, que tinham com frequência necessidade das suas artes curativas. Fora outrora um sacerdote, mas abandonara o templo para ser-vir um deus diferente, ou pelo menos era o que constava nas redondezas. Para além disso pouco mais se sabia a respeito do eremita, excepto que nunca se encontrava longe quando a sua ajuda era necessária. Havia também quem dissesse que possuía muitos e estranhos poderes, e que entre os seus talentos se encontrava a capacidade de chamar os dragões para o exterior das suas grutas, apesar de nunca ninguém o ter visto fazê-lo.

A Quentin parecia-lhe estranho que Biorkis conhecesse, ou recomendasse. uma tal pessoa para o ajudar, mesmo que essa ajuda fosse apenas uma cama para passar a noite. Biorkis entregara-lhe uma moeda de prata para dar ao eremita. dizendo: "Saúda esse nosso irmão em nome do deus e dá-lhe este penhor." Fora então que lhe colocara a moeda na mão. Isto irá dizer-lhe muita coisa. Diz-lhe que Biorkis lhe manda saudações..." Fizera uma pausa e depois acrescentara: " ... e que procura uma luz mais brilhante." O sacerdote virara-lhe as costas e afastara-se rapidamente, acrescentando, mas quase só para si mesmo: "Isso ainda lhe irá dizer mais."

Assim, Quentin descobria-se agora sobre a fraca luz crepuscular do que fora um brilhante dia de Inverno. A cabana ficava a curta distância da estrada mas completamente oculta das vistas, por se encontrar rodeada por enormes carvalhos, por folhagem verde e por espessos maciços de tojo e silvas. Quentin precisou de algum tempo para a localizar, mesmo apesar das indicações, muito precisas, que recebera.

Por fim descobrira-a. Era uma construção baixa, achatada, que parecia ser formada quase só por telhado e chaminé. Duas pequenas janelas espreitavam para o mundo e a entrada estava fechada com uma curiosa porta, redonda na parte superior. A residência pouco atraente encontrava-se aninhada num outeiro. na extremidade de uma clareira natural, o que permitia uma espaçosa visão do céu. O chão subia ao encontro da casa numa inclinação suave, pelo que era preciso subir um pouco para se alcançar a porta da frente.

Quentin cavalgou calmamente até à entrada da cabana. Sentado no cavalo, poderia saltar para cima do telhado com toda a facilidade. -No entanto, preferiu deslizar do largo dorso do animal e bater na pesada porta de carvalho com a palma da mão. Aguardou, inseguro: a mão quase não produzira nenhum som, e se não fosse o fumo que se erguia lentamente da chaminé de pedra seria capaz de desconfiar que a casa se encontrava abandonada. No entanto, estivera ali alguém, pois a neve do chão da clareira encontrava-se muito espezinhada, com pegadas de homens e de animais.

Quentin retirou a adaga do cavaleiro do seu lugar, no cinto, por debaixo da capa, e segurando-a pela lâmina utilizou-a para voltar a bater na porta. desta vez com um resultado mais satisfatório. Ficou à espera.

Agora, já o céu estava a escurecer rapidamente. O Sol encontrava-se muito baixo, e sentia que o frio se lançava mais uma vez sobre a terra. Do interior não vinha um único som.

Reunindo a sua coragem, Quentin experimentou o fecho rudimentar e descobriu que o conseguiria mover se fizesse alguma força. Apoiou todo o seu peso na porta e empurrou. A porta de tábuas grosseiras girou nos gonzos e abriu-se com facilidade.

Quentin cambaleou para o interior com um pouco mais de cerimónia do que planeara, tropeçando no limiar.

A sala era muito maior do que teria podido imaginar a partir do exterior. e estava afundada abaixo do nível do chão. Havia degraus de pedra que desciam para a sala, quente e agradável, iluminada pelo fogo que ardia na larga e generosa lareira. Estava mobilada com um estranho conjunto de móveis feitos à mão: cadeiras, mesas grandes e pequenas, bancos, uma grande cama cheia de altos e baixos, e algo que surpreendeu e deliciou Quentin: livros. Havia inúmeros rolos empilhados nas mesas e enfiados em prateleiras de madeira. Muito mais rolos do que jamais vira, mesmo na biblioteca do templo.

Quentin abarcou tudo aquilo enquanto os olhos se ajustavam à relativa escuridão da sala. Verificou também que o lugar estava vazio do seu principal habitante. Aparentemente, Dur-win estava ausente, talvez nalguma missão piedosa na floresta próxima. Quentin decidiu entrar e esperar pelo regresso do eremita, e puxou um banco para junto do fogo que ardia lentamente na lareira.

Quentin não soube se acordou por causa do som ou do cheiro. As vozes pareceram penetrar-lhe na consciência, vindas de muito longe. Não conseguia compreender as palavras, mas apenas o monótono zumbido de duas vozes que conversavam num tom baixo mas com algum entusiasmo. A sua consciência apercebeu-se de um cheiro a comida quente e muito condimentada com alho. Abriu os olhos.

Estava tapado com a sua própria capa, deitado a alguma distância da lareira. Avistou duas grandes figuras junto do fogo. Uma delas estava ajoelhada à beira da lareira, mexendo o conteúdo da panela negra com uma comprida colher de madeira. A outra sentava-se num banco. de costas para Quentin, pouco revelando das feições ou da estatura. Os dois homens usavam largas capas pretas. Enquanto conversavam, as suas longas sombras dançavam na parede oposta como bonecos animados num teatro de sombras.

Quentin pôs-se de pé com cuidado. O movimento chamou imediatamente a atenção do homem atarefado com o borbulhante panelão.

- Ah! O nosso jovem amicro está vivo! Bem to disse, Theido... - Fez uma careta para o outro, que se virou para observar o jovem com uma expressão inquiridora. - Bem te disse que a minha sopa o faria acordar! Enfeitiçado... Bah!

Embaraçado por ter adormecido e por ser agora o centro de todas aquelas atenções, apesar de serem bem-humoradas, Quentin avançou timidamente para o fogo e dirigiu-se aos dois homens ao mesmo tempo.

- Sou Quentin, ao vosso dispor, senhores.

- E nós ao vosso - foi a resposta habitual.

Remexeu no cinto, em busca da moeda de prata.

- Trago-lhe isto. com as saudações de Biorkis, sacerdote do Alto Templo.

As saudações soaram muito rígidas e formais, o que para Quentin estava muito bem, por se sentir inseguro quanto à espécie de recepção que iria ter. No entanto soube. logo que colocou a moeda na mão de Durwin, que nada tinha a temer daquele homem. O rosto de Durwin irradiou uma luz de simpatia. Os brilhantes olhos azuis espreitaram-no de debaixo de uma pele sulcada e enrugada como couro macio. queimado pelo Sol. Umas grandes e espessas sobrancelhas castanhas, que pareciam ter vida própria, davam relevo às palavras do eremita e tinham o seu equivalente. pêlo por pêlo, na vasta floresta de um bigode e uma barba. Por debaixo da capa usavam os trajos simples de um sacerdote, mas em cinzento e não em castanho.

- Então é isso? O velho fuinha enviou-te com isto? De verdade? -Pensativo, o eremita virou a moeda na mão, de um lado para o outro. - Pois bem, suponho que não podemos fazer nada, não é? - A seguir virou-se para Quentin e prosseguiu: - Há um caminho muito mais amplo do que muitos pensam... mas tenho a certeza de que não fazes a menor ideia daquilo que te estou a dizer. - Quentin mirava-o sem expressão. - Pois é. claro que não... - murmurou o eremita para si mesmo. - Disse-te mais alguma coisa? - perguntou o santo homem.

- Só mais isto: que procura uma luz mais brilhante.

Ao ouvirem as palavras, os dois homens explodiram em gargalhadas. Era óbvio que o segundo, o que permanecera em silêncio, acompanhara a conversa com atenção.

- Então disse isso? - Durwin riu-se. - Pelas barbas dos deuses. ainda há esperança para Biorkis!

Quentin ficou mistificado com aquela explosão. Sentia-se desajeitado e um pouco utilizado, transmitindo anedotas de que nada sabia, a estranhos que se riam à sua custa. A sua expressão devia ter mostrado que não aprovava aquela frivolidade, porque Durwin parou imediatamente de se rir e devolveu-lhe a moeda de prata.

- Esta moeda é o símbolo de um sacerdote expulso - explicou. - Olha... - Meteu a mão nas roupas e puxou por uma moeda de prata que usava ao pescoço, numa corrente. - Também tenho uma.

Quentin pegou nas duas moedas e examinou-as. Eram iguais até aos mínimos pormenores, excepto ser visível que a de Durwin era mais antiga e mais usada.

- São moedas do templo, cunhadas para ocasiões especiais e dadas aos sacerdotes quando morrem, ou se vão embora, como pagamento pelos seus serviços ao deus. Fraco pagamento, hem!

- Já foi... um sacerdote - interrogou-se Quentin, em voz alta.

- Sim. claro. Biorkis e eu somos bons amigos. Entrámos juntos

para o sacerdócio. Crescemos juntos.

- Basta de falar dos velhos tempos - interveio o estranho, impaciente. - Durwin, apresenta-me ao teu hóspede, como convém.

Quentin virou-se e encarou o homem moreno. que até àquele momento quase ignorara. Tinha uma estatura acima da média, calculou Quentin, mas sem ter a certeza porque o homem se encontrava sentado num banco baixo, com as pernas cruzadas na sua frente. As roupas eram de uma cor escura e indistinta, e consistiam numa comprida capa usada solta por cima de uma túnica apertada e calças do mesmo tecido escuro. Ostentava um largo cinto preto à cintura, onde se podia ver uma bolsa de cabedal bastante grande. No entanto. foram as feições do homem que dominaram as atenções de Quentin Sob a luz da lareira, o rosto era inteligente, de olhos brilhantes e atentos. Uma testa alta ele vava-se até um cabelo escuro e denso. puxado para trás e caindo quase até aos ombros. O nariz aguçado sobressaía sobre uma boca firme. Que se abria para revelar dentes direitos e brancos. No seu conjunto, a aparência era a de um homem de acção e movimento, de reflexos rápidos e uma inteligência talvez ainda mais rápida.

- Quentin - dizia o ex-sacerdote -. este homem para quem agora estás a olhar é o meu velho amigo Theido, muito bem-vindo a esta humilde casa, onde a sua falta é muitas vezes sentida.

O homem baixou a cabeça, agradecendo aquela cortesia. Quentin fez uma rígida vénia de respeito, dobrando-se pela cintura.

- Tenho muito prazer em conhecer-te, jovem senhor – afirmou Theido. - Sei, por experiência, que os sacerdotes expulsos dão bons amigos. - Os dois homens riram-se outra vez. Apesar de não saber o motivo, Quentin riu-se também.

Os três jantaram uma espessa e saborosa sopa acompanhada por pão escuro, tudo aquilo empurrado por uma forte cerveja de um tom castanho-escuro que Durwin fermentava na perfeição. Depois dos esforços daquele dia, entin tinha um apetite igual ao dos dois homens e comentou, em várias ocasiões, que nunca tinha saboreado comida tão boa.

Depois de comerem, conversaram. A conversa vagueou de tema para tema, cobrindo tudo o que existia no mundo. A Quentin pare~ ceu-lhe que nenhum assunto, desde abelhas a adagas ou livros, fora deixado de fora. Nunca antes Quentin participara numa tal camaradagem, pois as estritas regras do templo obrigavam a que os contactos entre os sacerdotes fossem muito formais e extremamente refinados. Apesar de se ter limitado a escutar durante a maior parte do tempo, Quentin achou que aquela nova sensação, a de se encontrar sentado em volta de uma mesa com boa comida e a conversar com amigos, era inebriante. Divertia-se com ela e absorveu-o tanto quanto lhe foi possível. Do fundo do coração, desejava que aquela noite se prolongasse para sempre. Por fim, Durwin levantou-se e sacudiu a cabeça fatigada.

- A companhia é boa, mas temos de ir para a cama. Amanhã poderemos conversar mais um pouco.

- Amanhã, terei de partir - disse Quentin, que se esquecera completamente da sua missão. Olhou, apreensivo, para os rostos dos dois homens, que o miravam com atenção.

- Tão depressa? - perguntou Durwin. - Pensei que poderias ficar algum tempo. Gostava de te mostrar o que tenho andado a fazer desde que abandonei o templo.

- E como é que te vais embora? - inquiriu Theido.

- O meu cavalo! - cruinchou Quentin. No meio daquela conversa amigável em volta da mesa do eremita, também se esquecera do animal. Correu para a porta e abriu-a, espreitando para a noite negra e gelada. Não havia vestígios do cavalo. Virou-se para os homens com uma expressão de horror. - Perdi-o!

- Como era o cavalo? - perguntou Theido com uma piscadela de olho.

- Castanho... e era o mais belo cavalo que jamais vi. Agora... perdi-o!

- Vem comigo - ordenou Durwin num tom ligeiro. - Creio que iremos concluir que o cavalo não foi para muito longe.

O eremita virou-se e desapareceu por detrás de uma divisória carregada de rolos de pergaminho. Quentin baixou-se por detrás dessa divisória e descobriu que a mesma servia para esconder a entrada de outra sala, com uma porta fechada por uma imensa pele de urso. A sala estava escura e tranquila. mas quente, e libertava um forte cheiro a feno e cavalos. Durwin levava consigo um coto de vela, de que se serviu para acender uma tocha de breu que se encontrava num suporte de parede. A chama fuliginosa estremeceu e deitou imenso fumo, mas depois pegou bem e lançou uma luz firme à sua volta.

Aquele anexo da casa do eremita era uma pequena gruta. A casa de Durwin fora construída exactamente de encontro à entrada da gruta, o que explicava o liso chão de pedra da sala onde se encontrava a lareira. À pálida luz da tocha, Quentin pôde ver a sua montada ao lado de dois outros animais ligeiramente mais pequenos, com o focinho enfiado num monte de feno doce que lhes tinham atirado para que o comessem. Aliviado, e um pouco embaraçado, Quentin agradeceu ao seu hospedeiro por se ter lembrado de tratar do animal.

- Calculámos que não eras um verdadeiro cavaleiro - comentou Theido de bom humor - quando o vimos parado em frente da porta sem estar preso. Um animal vulgar ter-se-ia afastado em busca de qualquer coisa para comer. O teu cavalo está bem ensinado, mas suponho que não és o seu dono.

Quentin abanou a cabeça com tristeza.

- Pertence a outro... ou pertencia...

- Basta! Agora vamos dormir e falaremos destas coisas amanhã de manhã... Manhã que, se não me engano, não está muito distante.

 

Fora decidido, quase sem perguntarem pela opinião de Quentin mas não contra a sua vontade, que Theido o acompanharia durante o resto da viagem. O assunto fora discutido por cima de um alegre pequeno-almoço de papas e leite, com pão mergulhado em mel. Quentin comeu com um entusiasmo pouco vulgar, cheio de boa disposição e de um renovado espírito de aventura.

Os dois homens tinham-se mostrado consideravelmente surpreendidos por Quentin ter conseguido chegar até àquele ponto da floresta sem qualquer incidente. Theido dissera, rindo-se:

- À nossa volta, a floresta de Releria serve de abrigo a malfeitores de todo o tipo. Alguns deles darão um grande valor ao teu cavalo... - e Durwin acrescentara - e muito pouco ao cavaleiro.

- Não ousarão tocar-me - anunciou Quentin de um modo descuidado, muito convencido dele próprio e cheio de boa disposição. Levo uma carta para a rainha.

Ante aquela declaração, a primeira sugestão da missão clandestina de Quentin, os dois homens quase saltaram dos assentos. A boca de Quentin fechou-se de repente, alarmada, ao verificar que revelara o seu segredo.

- A rainha? - exclamou Theido, recompondo-se instantanea~ mente. - Que assunto podes ter tu a tratar com a rainha, meu rapaz?

Quentin revelava-se agora mais cuidadoso e reservado.

- Isso é comigo e não vos diz respeito - retorquiu, um pouco zangado, mas a zanga era por causa do seu próprio descuido e não se dirigia contra o interlocutor, - Essa carta não será, por acaso, do rei? - insistiu Theido.

- Não falarei mais no assunto, senhor - retorquiu Quentin.

Naquele momento. Durwin intrometeu-se na conversa:

- jovem senhor, pode não te ter ocorrido imediatamente, mas já há algum tempo que o meu amigo e eu compreendemos que estás encarregado de um assunto de alguma importância. O teu cavalo, por exemplo, é a montada de um campeão e não a montada de um acólito. Aposto que a tua expulsão do templo não se deveu a qualquer quebra propositada dos votos sagrados, mas sim por necessidade, por causa da missão de que estás encarregado. - Durwin calou-se para olhar Quentin com atenção. Este corou um pouco sob o escrutínio do eremita e pelo súbito reconhecimento de que era demasiado transparente. - Vejo que não me enganei na minha apreciação.

- Rapaz, podes confiar em nós. Não te desejamos qualquer mal. Creio que não poderás descobrir dois melhores homens para guardarem o teu segredo, como se as suas próprias vidas estivessem em jogo. - Theido falou de um modo tranquilo e com profunda convicção. Quentin acreditava naquele alto desconhecido, mas deixou-se ficar sentado, num silêncio sombrio, sem saber se deveria falar mais ou calar-se.

- Possuis uma força de vontade e uma coragem que seriam mais que suficientes para dois do teu tamanho - prosseguiu Druwin. - No entanto, estão em curso acontecimentos contra os quais a bravura e a força, sem mais nada, não chegam. Creio que Biorkis se apercebeu disso e te mandou vir ter comigo, na esperança de que eu adivinhasse a seriedade da tua missão e te ajudasse, se pudesse. Talvez tenha sido o próprio deus quem te levou a revelar o segredo na nossa presença, para te evitar males maiores.

- É assim tão perigoso... que um súbdito queira falar com a sua rainha? - perguntou Quentin num tom sombrio.

Os dois homens acenaram em silêncio. Theido replicou:

- Ver a rainha não oferece qualquer dificuldade... desde que consigas entrar vivo no castelo. Há aqueles que preferem mantê-la ignorante do que se passa no mundo exterior, para melhor poderem plantar as suas sementes diabólicas.

- Sem a nossa ajuda, nunca conseguirás chegar junto da rainha. O príncipe Jaspin apanha-te... se um bando qualquer de fora~da-lei não o fizer primeiro.

- Príncipe Jaspin? - interrogou-se Quentin, admirado por nunca ter ouvido aquele nome.

- O príncipe Jaspin - explicou Durwin - é o irmão mais novo do rei Eskevar. Tem desígnios relacionados com o trono de Askelon, e já fomenta feitos de grande impudência e traição, com uma ousadia cada vez maior. os homens honestos têm medo de perder as suas terras e vidas se se levantarem contra ele. Muitos dos nobres que não alinharam de boa vontade nas suas intrigas perderam tudo o que tinham para esse cão ambicioso. Quentin revolveu na mente todas aquelas novas informações, mas ficou sem saber o que fazer. Por fim decidiu confiar no ansião sacerdote e no seu invulgar amigo, partilhando com eles o resto do segredo.

- Vou procurar a rainha - declarou devagar - para lhe entregar uma mensagem de importância. Há dois dias, apareceu no templo um cavaleiro ferido, que pediu a nossa ajuda. Fora assaltado por bandidos e estava a morrer. Ofereci-me para transportar a mensagem, escrita em segredo e selada. Monto o seu cavalo... e esta é a sua adaga. - Quentin puxou a capa para trás para revelar o punho de ouro da adaga.

- E o cavaleiro Sabes como se chamava? - inquiriu Theido, muito depressa.

- Sim. Era Ronsard.

- Ronsard! Tens a certeza?

- Sim, assisti a tudo. Disse como se chamava e pediu que alguém levasse a mensagem à rainha. Eu ofereci-me.

- Então ainda és mais corajoso do que pensávamos – comentou Durwin.

- Nesse caso. a mensagem é do rei - disse Theido. – Ronsard é um dos seus guardas pessoais, um cavaleiro sem par em coragem e valor. - Olhou com tristeza para Quentin. - Está morto, não foi o que disseste?

- Sim Bom - Quentin hesitou. - Creio que sim. Não fiquei à espera até ao fim, mas encontrava-se muito próximo da morte quando parti. - Calou-se, recordando de uma maneira muito vívida os acontecimentos que o tinham levado até ali. Sentia-se receoso e muito solitário. - Poderei confiar Não me trairão? Prometi não revelar Durwin levantou-se do seu lugar, deu a volta à mesa e colocou a mão no ombro de Quentin.

- Meu filho. prestaste um grande serviço à rainha quando partilhaste o teu segredo connosco. -Muito provavelmente, prestaste um serviço ainda maior ao rei, e penso que Ronsard ficaria satisfeito se esta ideia tivesse sido dele.

- O eremita diz a verdade - afirmou Theido. - Agora, temos de fazer planos para entregarmos a tua mensagem. os fora-da-lei vão ser a menor das nossas preocupações.

Theido e Quentin abandonaram a cabana do eremita por volta do meio-dia, quando ligeiros flocos de neve desciam lentamente para o chão, para se misturarem à brancura, já bem profunda, que o cobria. Durwin deixara-se ficar para trás, para tratar dos seus assuntos habituais, afirmando: "Estarei à espera com uma sopa quente e uma bebida fria, quando voltarem. Se fosse convosco só serviria para vos atrasar." Quando guiaram os cavalos ao longo do estreito trilho que dava para a estrada, escutaram a sua alta voz a gritar, no meio do silêncio do Inverno: "Deus vos acompanhe e apresse o vosso regresso em segurança!"

- Qual é o deus que Durwin serve? - perguntou Quentin depois de terem cavalgado alguns minutos em silêncio, perdidos nos seus próprios pensamentos.

Theido pareceu ficar a pensar na pergunta e levou tempo a responder:

- Não sei se Durwin alguma vez lhe pronunciou o nome... Pode ser que não o tenha.

Um deus sem nome? A ideia ocupou a mente de Quentin durante muito tempo.

Cavalgaram através da floresta, uma densa e velha mata cerrada de antiquíssimos carvalhos que teciam os seus ramos por cima do caminho. numa entrelaçada cobertura de troncos nus. Aqui e acolá, havia pinheiros, finos como dedos, que trepavam por entre os troncos dos carvalhos para procurarem a luz do alto. os cavalos moviam-se com facilidade, porque a neve não atingira grande profundidade no chão da floresta. Theido cavalgava à frente, no seu palafrém castanho e rápido, e Quentin, montado no poderoso Balder, seguia-o não muito atrás, do lado direito.

Quentin escutava os sons da floresta: neve que caía dos ramos das árvores com um suave plop, o estalar de um ramo contraído pelo frio, o apelo solitário de uma ave, nítido e claro, à distância. Até o silêncio estava cheio de sons quando se escutava com atenção.

- Pensas que iremos encontrar foragidos por aqui? - perguntou Quentin passado algum tempo, lembrando-se do que tinha sido dito antes.

- Tenhamos esperança de que iremos encontrar apenas árvores e neve. No entanto há aqui alguns fora-da-lei que são mais honestos do que tu, ou eu, homens que foram empurrados para o refúgio da floresta pelo príncipe Jaspin e pelo seu bando de patifes e ladrões. - As palavras haviam sido pronunciadas com um calmo tom de desafio, que Quentin conseguia perceber com facilidade. Contudo, havia mais qualquer coisa no tom sombrio do homem moreno, que não conseguia entender. - Se por acaso se nos deparar alguém no meio desta floresta, reza para que sirva um único senhor, o Rei Dragão - prosseguiu Theido. - Tenho alguma reputação entre essa gente.

- Talvez a neve os mantenha no interior da floresta - comentou Quentin. No entanto, no preciso momento em que falava, as nuvens por cima da sua cabeça deram sinais de se quererem abrir. Os últimos flocos de neve deslizavam devagar para o chão.

- Sim, talvez. No entanto, um viajante é uma visão bem recebida, nos tempos que correm. Os homens que dantes viajavam para o estrangeiro em negócios ganharam o hábito de contratar escoltas armadas, ou de se juntarem em grandes grupos, na esperança de que os números bastem para afugentar os ladrões. Na maior parte das vezes evitam passar pela floresta. e os que têm a sorte suficiente para a passarem sem problemas são, de qualquer modo, bem observados. Tu, meu jovem amigo, tiveste muita sorte em ter escapado sem dar nas vistas até este momento. Não tiveste medo?

- Não sabia que os ladrões se tinham transformado num problema assim tão sério...

- As notícias nunca chegam ao alto da montanha, hem? Os deuses e seus ser-vos não se preocupam com o que se passa no reino dos homens? - Theido riu-se de uma maneira estranha. - Mensandor está cercada por grandes sarilhos. Homens que outrora eram honestos viraram-se uns contra os outros, o sangue inocente escorre todos os dias. Passamos por uns tempos muito difíceis...

- Não ouvi nada... - replicou Quentin, como que a defender-se. No entanto, não sabia de quê.

- Suponho que não. Talvez fosse melhor assim. A inocência é um dom. Quem sabe, talvez nunca te Oferecesses como voluntário para uma tal missão se soubesses o que tinhas pela frente.

Por fim, quando lhes restava apenas uma hora de luz do dia, a floresta começou a enfraquecer. a tornar-se mais dispersa e aberta. Então, de um modo bastante inesperado, os dois cavaleiros viram-se livres dela. Em frente, do outro lado de um largo vale cortado por uma profunda e estreita torrente, erguiam-se as enormes muralhas de Askelon.

A fortaleza real coroava o alto de uma colina e brilhava sob a fraca luz. As suas altas torres possuíam um amplo campo de visão, até ao horizonte, e podiam ser avistadas de muitos quilómetros em redor. Com a luz avermelhada do céu por detrás dela, a poderosa fortaleza pairava no alto como uma sombra negra e ameaçadora, e parecia-se com um fantástico dragão enrolado sobre um leito de pedra. Quentin estremeceu sobre a sela. Havia muito que sonhara com aquela visão, e agora tinha-a na sua frente.

- Diz-se que este castelo é a coisa mais antiga, feita pelos homens, que existe sobre a Terra - afirmou Theido. - De todas as antigas maravilhas, só Askelon sobreviveu. O rei Celbercor, quando chegou a este país, colocou ele próprio a primeira pedra. O castelo só ficou pronto mil anos mais tarde. Pode abrigar cinquenta mil homens prontos para o combate, e metade desse número em cavalos. Não há nenhuma outra fortaleza, feita pelo homem, que se lhe possa comparar. Resistiu a cercos após cercos e guerras após guerras. Aquelas muralhas já se encontravam de pé quando os pais dos nossos pais eram crianças, e ainda ali estarão quando não passarmos de pó, nos nossos túmulos.

- Nunca foi conquistada?

- Nunca, pelo menos do exterior e à força. Porém, as intrigas, as lutas internas, já derrubaram muitos reis. Nem muralhas como aquelas conseguem deter as traições.

Os dois cavaleiros desceram a suave vertente da colina e atravessaram rapidamente o rio. já começavam a faltar-lhes os últimos clarões do dia, mas havia luzes a brilhar na aldeia que se amontoava por debaixo das protectoras muralhas de Askelon.

Quando se aproximaram, a grande forma negra por cima deles perdeu-se na noite, como uma montanha a desaparecer por detrás de uma sombra. As luzes amareladas das janelas ficavam cada vez mais perto, a cada passo, e lançavam uma luz quente sobre a neve. Quentin ouviu vozes no interior das casas por onde passaram e, ocasionalmente, chegava-lhe às narinas o cheiro a fermento, do pão quente, ou o odor de carne grelhada sobre o fogo. De repente sentiu-se muito cansado e esfomeado.

- Iremos directamente à rainha?

- Não, penso que não. Teremos tempo. amanhã. Quero descobrir como correm as coisas na corte nestes dias. já não vinha aqui há algum tempo. - Fez uma pausa, puxando pelas rédeas do cavalo. para que Quentin se colocasse a seu lado, e falou num tom muito mais baixo.

- Esta noite, és meu sobrinho, se alguém se mostrar curioso. Fala apenas quando te falarem e não digas uma palavra a respeito do rei ou da rainha. Nunca tires os olhos de mim. compreendes? Quentin fez um aceno rápido.

- Então.--- muito bem - continuou Theido, numa voz mais descontraída. - E que tal um jantar?

Quentin levantou os olhos e viu que tinham parado no exterior de uma pousada de dimensões relativamente grandes. Por cima da porta encontrava-se uma tabuleta meio apagada pelo tempo, dando as boas-vindas aos viajantes e exibindo o retrato pintado de alguém, ou alguma coisa, que Quentin não conseguia distinguir. Quando desmontaram, a porta abriu-se de repente e surgiu um homem baixo, com uma túnica curta e calças largas, e um pano branco enrolado em volta da volumosa cintura, que avançou para eles com grande vivacidade.

- Bem-vindos! Bem-vindos! - guinchou o homem. - O jantar está a ser servido. Se se apressarem ainda encontrarão lugares à mesa!

Despachem-se! Não se preocupem, tomarei conta dos vossos cavalos!

- É uma grande amabilidade tua, Milcher - disse Theido com um risinho. - Continuas tão cego como sempre Nem sequer sabes quem é que estás a arrastar lá para dentro... e não te preocupas com isso!

- Pelos deuses! És tu, Theido? - O homem aproximou-se e espreitou o rosto do alto viajante. - Sim, é claro. Sabia que eras tu. Reconheci- te a voz. Entra, entra. Está demasiado frio para dar à língua aqui fora. Entrem os dois! - Tirou-lhes as rédeas das mãos e conduziu os cavalos para o outro lado da estrutura meio arruinada da pousada. - Depressa, o jantar está a ser servido! - gritou uma vez mais, quando desaparecia na esquina da pousada.

Os dois viajantes avançaram para a entrada. Quando Theido empurrou a larga porta, colocou uma das mãos no ombro de Quentin.

- Lembra-te do que te disse. - Levou um comprido dedo aos lábios. Quentin acenou uma confirmação, com um sorriso furtivo.

- Sim ... tio.

 

A sala era barulhenta por causa das pessoas a falarem em voz alta e do tilintar das jarras de cerveja... o fumo das velas sobre a mesa, das tochas das paredes e do fogo que ardia na lareira, com uma chaminé que tirava mal, enchia a baixa sala com um tecto de vigas. A cena era simultaneamente alegre e descontraída, barulhenta e entusiástica. Quentin descobriu-se com um grande sorriso no rosto ainda mal dera dez passos no interior. Theido empurrou-o para uma comprida mesa a apenas alguns passos da lareira. Ao contrário do que Milcher insinuara, havia muitos lugares à mesa, pois naquela noite a maioria dos hóspedes parecia preferir alimento líquido. Porém, o estalajadeiro tivera razão noutra coisa: tinham chegado mesmo a tempo. Mal tinham acabado de se sentar no duro banco numa das extremidades da mesa quando começaram logo a aparecer os pratos de comida fumegante. O amontoado de pratos de carne, vegetais e várias qualidades de pão e queijo foi servido por uma mulher forte, com um sorriso fácil e faces vermelhas, e por um rapaz magricela e de ar apalermado que cambaleou, desajei~ tado, ao colocar os pratos de estanho sobre a mesa.

- Cuidado, Otho! - exclamou a mulher com amabilidade. - já comeste o teu jantar, agora deixa estes bons cavalheiros comerem o deles em paz e sossego!

O par de cómicos bateu em retirada para a cozinha, para reaparecer a intervalos regulares, incomodando os clientes com mais comida e bebida.

- Comam! - ralhava-lhes a mulher. - Comam, comam! Por favor, não estão a comer!

Quando os convivas em volta da mesa terminaram a refeição, deram os lugares a outros. Theido e Quentin, por ordem do primeiro, comeram com uma calma e lenta deliberação. O olhar atento de Theid( mirava constantemente a ruidosa cena que os rodeava, alertado para o menor indício de terem sido descobertos. No entanto, nem os seus olhos rápidos conseguiram ver um homem pequeno e muito moreno que apareceu à porta como uma sombra e deslizou para um corredor escuro. O espião partiu momentos depois, também sem ser detectado.

Passados alguns instantes. Milcher, o pequeno e atarefado proprietário da estalagem, apareceu para ver como se encontravam os seus mais recentes hóspedes.

- Desta vez vais passar a noite connosco. espero? - perguntou

- Sim, tens-nos à tua mercê - replicou Theido com um sorriso

- Belo! Foi o que pensei. e por isso já preparei a cama para os vossos cavalos, Ah, mas quem é este? - exclamou, reparando na mirada benevolente de Quentin. - Não creio que me tenhas apresentado o teu amigo, Theido! - Lançou um sorriso radiante para o rapaz com um rosto muito vermelho de andar sempre a correr de um lado para o outro, ocupado com as suas infindáveis obrigações.

- Ah, não? - respondeu Theido num tom casual. - julguei que já o conhecias. É Quentin, o meu sobrinho.

- Oh, pois claro! -já sabia! Ena. mas que alto que ele está. Isso que foi crescer! - Com aquele comentário, o homenzinho afastou-se outra vez, zumbindo como uma abelha num outro canto da atulhada e barulhenta sala.

- Esperemos que esta noite mais ninguém demonstre interesse pela vida da minha família. Milcher consegue falar mais do que vinte mulheres juntas. Preferia que a nossa pequena visita fosse conhecida por tão poucos quanto possível.

- Achas que pode andar alguém à nossa procura? - A ideia acabava de surgir na cabeça de Quentin.

- É provável. Quem quer que fosse que matou Ronsard, ou que o mandou matar, já deve saber que o segredo que transportava não morreu com ele. Todavia, não podemos ter a certeza. Talvez nada saibam a respeito da mensagem.

- Quer dizer que não foi atacado pelos fora-da-lei?

- Não, rapaz... ou, pelo menos, as coisas não foram assim tão simples.

Os fora-da-lei podem ter sido contratados para o fazerem, pois de outro modo não se atirariam contra um cavaleiro do rei sem um motivo melhor do que apenas a sua bolsa. Creio que até os fora-da-lei dão um maior valor à vida. Não... foi provavelmente alguém que sabia o que ele transportava, ou que suspeitou da sua missão.

- Talvez o príncipe Jaspin? - As intrigas da corte eram uma novidade para Quentin, mas sentia-se irresistivelmente atraído por elas. A sua mente rápida previa toda a espécie de conluios, como uma raposa que se descobrisse no meio de um pátio cheio de galinhas bem gordas.

Talvez. Não seria a primeira vez que se servia de outros para feitos que ele próprio não realizaria. Mas, sabes... acho que há mais qualquer coisa... Não te sei dizer o quê. Sinto-o... aqui. – Theido apontou para o estômago. - Agora, se já tens a barriga bem cheia. É melhor irmos para a cama. Amanhã temos de descobrir uma maneira de conseguir uma audiência privada com a rainha.

Milcher voltou a aparecer e conduziu-os para o quarto, onde a esposa, a alegre mulher de rosto vermelho, já abrira as roupas de uma enorme cama. Uma enxerga mais portátil e pequena fora colocada junto da lareira que aquecia o quarto. Era uma divisão quadrada e simples, mas privada e suficientemente confortável, sem janelas, tal como Theido pedira.

- Durmam bem, bons hóspedes - disse o estalajadeiro, fechando a porta e afastando-se em silêncio, em bicos de pés.

- Se fosse a ti, limitava-me a desapertar o cinto apenas um pouco avisou Theido, quando viu que Quentin, sentado na beira da enxerga, começava a tirar a túnica. - Esta noite, temos de estar preparados para tudo.

Não muito longe dali, no alto da colina, no castelo de Askelon, uma vela ardia com uma chama baixa num quarto espaçoso e ricamente mobilado. O pavimento era de mármore branco e das paredes pendiam requintadas tapeçarias representando a actividade favorita do seu ocupante: a caça. Uma mesa magnificamente esculpida, coberta com uma vasta toalha azul-escura bordada a fio de prata, ostentava a sua superfície coberta de mapas e de rolos de pergaminho. Na outra extremidade da divisão em cúpula - porque se tratava da câmara superior da torre leste - um fogo estalava e ardia com grande brilho numa lareira ornamentada, encimada por um pesado painel de carvalho esculpido com brasão de um anterior residente.

Uma figura melancólica sentava-se, meio encolhida. num grande cadeirão de costas muito altas e orelhas de cada lado, para se proteger das correntes de ar, que eram constantes no interior das velhas paredes do castelo. A cadeira, mais parecida com um pequeno trono, fora arrastada para perto do fogo, mas o seu ocupante parecia não extrair nem calor nem conforto da dança das chamas. Em vez disso, olhava desanimado para o fogo, tendo na mão um alto copo de vinho, feito de chifre, que ainda nem sequer provara.

O príncipe Jaspin mal se moveu quando lhe chegou aos ouvidos o som de uma forte pancada na porta exterior dos seus aposentos privados. Um camareiro ofegante regressava com a notícia de que havia um certo cavaleiro que desejava uma audiência. Depois de saber o nome do homem, o príncipe Jaspin explodiu:

- Manda~o para aqui directamente, idiota! Há dias que aguardo notícias dele e deixaste-o a arrefecer no corredor como se fosse uma peça de carne. Vou mandar-te chicotear!

O camareiro, já habituado aos ataques de fúria do seu amo, não ouviu o que este disse na sua ausência, pois saíra imediatamente para ir buscar um tão desejado visitante, para o conduzir à presença do irado príncipe.

- Diga-me, Sir Bran. que novas me traz? já o encontrou? - Jaspin saltou da cadeira quando viu entrar o cavaleiro.

- Sim, está aqui... na aldeia - respondeu o cavaleiro, dobrando-se pela cintura, numa vénia rápida.

- Na aldeia? Onde? Vou mandá-lo capturar imediatamente!

- Vossa Graça, recomendo que se acautele contra uma tal acção. Atraíria demasiado as atenções. -Não sabemos quantos são. Pode ter trazido alguns dos seus homens com ele. De qualquer modo, essas coisas são mais fáceis de fazer de manhã.

- Sim, suponho que tem razão. - O príncipe voltou a sentar-se nas almofadas de seda do cadeirão, muito satisfeito com a notícia. -Não podemos desperdiçar esta oportunidade, como desperdiçámos a última. - Fez uma pausa e perguntou casualmente: - Tem a certeza de que Ronsard está morto?

- Absoluta. - Sir Bran, de luvas e vestido com uma capa forrada a pele, sobre uma rica túnica de fino brocado de linho. começou a tirar as luvas. O camareiro foi buscar uma cadeira e afastou-se com a capa. o cavaleiro, de forte constituição, serviu-se de uma taça de vinho, de um jarro que se encontrava perto dele, e engoliu metade do líquido de uma só vez. - Não há dúvida que vive bem. meu príncipe - declarou quando se sentou em frente de Jaspin.

Aqueles que apoiam a minha causa não necessitarão de negligenciar os apetites por coisas boas, posso garantir-lho. já lhe terei dito, Bran, que estou a pensar em dar-lhe Crandall como reconhecimento pelos seus esforços? Pergunto a mim mesmo que faria com ela.

- Entregue-ma e verá - retorquiu o cavaleiro.

- Está ansioso, não está? - disse o príncipe, rindo-se. - Sim. daqui a pouco o veremos. Até lha entregava agora, mas aquele desmancha-prazeres do Theido, ou lá como é que se chama agora, ainda anda em liberdade e por aí. Não podemos permitir que apareça e reclame os seus direitos... Seria muito embaraçoso, não acha?

- Sei como lidar com ele - troçou Bran, servindo-se de outra taça de vinho.

Tal como lidou com Ronsard? - murmurou o príncipe com uma careta de desagrado.

Deve estar recordado de que não sabíamos que era Ronsard até ao momento do encontro. De qualquer modo, com os seus ferimentos e o frio de gelar, não pode ter ido longe. Disso tenho a certeza.

- Mas nunca encontrou o corpo, pois não? - insistiu o príncipe. com firmeza.

- Por Zoar, estava a nevar! - ripostou o cavaleiro, irado. - Não me acredita? A neve cobriu tudo imediatamente. O cavalo afastou-se e deixou-o onde caiu, e a neve tapou-o...

- Sim, sim, já sei. A neve... Observou a emboscada de uma certa distância.

- E quando lá cheguei só consegui encontrar dois dos meus homens!

- Bom, esse assunto está arrumado. Agora temos de acabar com outro problema... Esse líder dos fora-da-lei... Como é que lhe chamam?

- O Falcão - disse o cavaleiro num tom sombrio.

- Pois é. Não é estranho que esse Falcão tenha aparecido tão de repente... e à mão? Como é que o explica? - insinuou o príncipe, num tom carregado de intenções.

- Não o explico! - O cavaleiro bateu com a taça de prata no braço da cadeira. O vinho saltou por cima do rebordo, molhando-lhe a mão. - É uma coincidência, nada mais - continuou. numa voz mais calma, esforçando-se por controlar o temperamento. - Ou então. talvez um daqueles inúteis ladrões que contratei para esta... esta transacção, tenha voltado à toca e abanado o rabo ao seu amo.

- É possível, sim. Não há honra entre os ladrões, como sabe - concordou Jaspin.

O príncipe bebericou o vinho e conservou-se silencioso durante algum tempo, mirando o fogo que começava a extinguir-se.

- Suponho que teremos de fazer essa pergunta ao nosso amigo Hawk, amanhã.

O cavaleiro esboçou um sorriso rápido e tomou outro grande gole do vinho.

- Sim, sem dúvida que amanhã o saberemos.

 

Depois de terminar o vinho, o cavaleiro, Sir Bran. trocou mais algumas palavras com o príncipe a respeito da próxima captura do fora-da-lei. Hawk, na manhã seguinte. A seguir mandou-o retirar-se e esperou até que se afastasse antes de chamar o camareiro para dispensar também os seus serviços durante o resto da noite.

Logo que ouviu o ranger da porta da câmara exterior a fechar-se, o príncipe levantou-se, pegou na vela que se encontrava em cima da mesa, caminhou para uma alcova na extremidade do quarto, escondida das vistas por debaixo da parte inferior de uma das gigantescas tapeçarias. Deslizando para trás da tapeçaria, Jaspin penetrou na alcova. Rebuscando entre as dobras das roupas que vestia fez aparecer uma chave, com que abriu uma porta astuciosamente disfarçada no fundo da alcova.

O príncipe avançou em silêncio para essa divisão secreta. pousou a vela em cima de uma mesa e sentou-se numa cadeira. Em cima da mesa encontrava-se uma pequena caixa pousada sobre um elegante tecido de veludo. A caixa, com uns belos esmaltados num tom vermelho de fogo. e com incrustações a fio de ouro e pérolas, era uma magnífica obra de arte e brilhava sob a luz oscilante da chama da vela.

O príncipe não perdeu tempo. Colocou as duas mãos de cada lado da caixa e levantou-a. Na mesa. em frente dele, ficou um curioso objecto pousado sobre o veludo: uma pirâmide de ouro gravada com estranhos hieróglifos. Todas as superfícies da pirâmide tinham sido inscritas com curiosas e fantásticas runas, que eram, pensou, a fonte do seu poder pouco vulgar.

O príncipe mirou a sua presa com um estranho brilho nos olhos, como se estes estivessem iluminados por uma fonte de luz sobrenatural, vinda do seu interior. A pirâmide provocava-lhe sempre aquele efeito: sentia-se ousado, invencível e inteligente para lá de toda e qualquer inteligência humana.

A pirâmide de ouro fora uma oferta de Nimrood, conhecido por "o Necromante", um velho e astuto feiticeiro que Jaspin utilizava como sócio para as suas velhacarias. Jaspin passara muitas noites a tentar decifrar o segredo do estranho objecto e os conhecimentos do seu inventor. Porém, ultimamente, Jaspin recebia cada vez menos apoio do seu cúmplice, e sentia que começavam a brotar as sementes de uma profunda desconfiança.

Colocando as mãos dos dois lados da pirâmide, Jaspin fechou os olhos e murmurou um suave encantamento. -Muito lentamente, a pirâmide, pálida sob a luz oscilante da vela. começou a brilhar com um clarão luminescente. O brilho tornou-se mais intenso, dando um forte relevo às feições de Jaspin. e projectando a sua enorme sombra na parede. Quando aquela luz irreal atingiu o máximo, os lados da pirâmide começaram a tornar-se indistintos e nebulosos, apesar de permanecerem sólidos sob os dedos do príncipe. A pirâmide. agora iluminada por dentro por uma luz quase cegante, tomou-se translúcida. Jaspin podia ver as suas próprias mãos através das faces laterais. Instantes depois, o estranho engenho tornara-se completamente transparente, quase invisível, e Jaspin olhava para as suas profundidades de cristal. Um pálido nevoeiro verde impedia a visão do interior, mas enquanto Jaspin o observava o nevoeiro desfez-se, transformando-se em farrapos em forma de fios, que se contorciam. já se conseguiam distinguir as formas de um homem, que avançava, como que de uma grande distância, na direcção de Jaspin. Porém, à medida que o homem avançava, aproximava-se com uma velocidade alarmante, pelo que, quase instantaneamente,

Jaspin ficou frente a frente com o velho feiticeiro, como se este se encontrasse presente.

Não era uma face digna de ser admirada. Era contorcida e cruel. Dois olhos ardentes espreitavam por debaixo de uma testa pesada e ameaçadora. Apesar da óbvia velhice do feiticeiro, um cabelo negro e encrespado, salpicado de malhas brancas, formava uma formidável juba em volta da grande cabeça do homem. A face estava sulcada por rugas entrecruzadas. e cada uma delas representava algo de diabólico que o seu possuidor contemplara.

- Ah, príncipe Jaspin! - A voz do necromante parecia-se mais com um silvo do que com uma fala humana. - já esperava a tua chamada. Correu tudo conforme eu disse que correria, suponho?

- Sim, as tuas informações são sempre boas. Nimrood - retorquiu o príncipe, de olhos a brilharem. - O cavaleiro Ronsard apareceu, tal como previsto, e foi interceptado antes de poder concluir a sua missão. infelizmente, talvez nunca venhamos a saber qual era essa missão. Foi morto na emboscada.

É uma pena. Sem dúvida que nos poderia ter revelado muita coisa. Todavia. há outras maneiras.

E outra das tuas sementes está prestes a dar frutos, feiticeiro. O fora-da-lei. Hawk, apareceu de novo... tal como sugeriste que aconteceria. Desta vez estamos prontos para o receber... Amanhã, ao meio-dia, o seu incomodativo bando de renegados já não terá um líder.

Não cometas o erro de o subestimar outra vez - avisou o feiticeiro. - já te enganou antes, como muito bem sabes.

O necromante fez uma careta contorcida, o que noutra pessoa qualquer teria correspondido a um largo sorriso.

Não penses que desta vez o vou deixar escapar. A lâmina do meu carrasco está com sede, e o sangue de um fora-da-lei é o refresco que eu recomendaria. A sua cabeça irá adornar um pau. na praça da aldeia. Esses bandidos poderão então ver o medo que tenho das suas ameaças. Não terei oposição quando se reunir o Conselho de Regentes e serei nomeado rei. As petições já estão assinadas. - O príncipe esfregou as mãos, numa ávida antecipação do acontecimento. - Está tudo pronto.

- Então e a rainha? - inquiriu o feiticeiro, trocista. - Estará disposta a abdicar com tanta facilidade? O seu poder já diminuiu assim tanto?

- A rainha concordará em ver as coisas como eu as vejo. É forte. mas é uma mulher. Além disso, creio que. se lhe derem a escolher entre a cabeça do rei ou a coroa do rei, escolherá a cabeça.

- Pode acabar por perder as duas... tal como o rei! Ah! Ah! -cacarejou Nimrood.

Esse problema é teu, e não meu. Não me metas nisso. Tu ficas com Eskevar e eu com a sua coroa. Foi esse o nosso acordo. Não quero dificuldades. Não me posso permitir despertar as desconfianças do povo, pois preciso do seu apoio pelo menos durante algum tempo.

- Sou um teu servo, príncipe Jaspin - replicou o feiticeiro. -Posso ser-te útil em mais alguma coisa?

- Não, creio que não. Agora. está tudo preparado - afirmou o príncipe, acrescentando: - O meu irmão está confortável?

- Oh. sim, sem dúvida, No fim de contas, Eskevar é o rei. - O necromante riu-se subitamente e Jaspin sentiu uma inesperada ira a surgír-lhe dentro do peito.

- Mas não por muito mais tempo! - gritou. - Em breve haverá um outro monarca no trono. É uma jura que te faço!

O feiticeiro pareceu fazer uma vénia e, de repente, a pirâmide apagou-se, com as faces a ficarem cada vez mais opacas e frias. Jaspin voltou a cobri-la com a caixa ornamentada, pegou na vela e saiu imediatamente da sala. Não sabia porquê, mas a simples menção do nome do irmão deixava-o inquieto. Nessa noite. aquele nome perturbou-lhe o sono, com sonhos de dúvidas e medo.

Quentin acordou sobressaltado, num quarto que lhe era estranho. Olhou para a cama de Theido e descobriu-a vazia. Atirou as cobertas para um lado, levantou-se da enxerga, pegou na capa e foi à procura do amigo. Descobriu Theido no estábulo por detrás da estalagem. cui~ dando dos cavalos.

- Bom dia, rapaz. Fico satisfeito por ver que és madrugador. Eu próprio acabei de me levantar. - Endireitou-se, pois estivera a dar de comer aos animais. - Estes já estão despachados. Agora, vamos ver se arranjamos qualquer coisa para nós comermos.

Comeram juntos numa pequena mesa da cozinha. porque Theido desejava alguma privacidade, apesar de nenhum dos outros hóspedes, se é que existia algum, ter dado sinais de vida.

- Tenho um plano que nos irá ajudar - disse Theido, falando num tom baixo.

Quentin comeu em silêncio e escutou o plano que Theído esboçou. Era simples: entrariam como mercadores de peles acabados de chegar das terras selvagens, onde tinham feito comércio, e iriam oferecer-se para mostrar à rainha os belos tesouros que haviam obtido.

- Mas nós não temos peles... - objectou Quentin, ao que Theido respondeu dizendo-lhe que não precisavam de nenhumas. Iam apenas ser admitidos para marcarem uma audiência em forma e para receberem quaisquer trajos que a rainha gostasse de ver ornamentados com as suas mercadorias. Esse tipo de audiências não era invulgar quando se tratava de artesãos ou mercadores de elevada reputação. Todavia, uma vez na presença da rainha, poriam de parte o disfarce e dariam a conhecer a verdadeira finalidade da visita.

- Se alguma coisa correr mal - prosseguiu Theido, com uma voz firme e um olhar intenso e duro - safa-te como puderes. Não pares para pensar ou para olhar em volta, limita-te a correr. Volta para junto de Durwin e conta-lhe o que aconteceu. Ele saberá o que fazer. Escuta o que te estou a dizer e obedece-me. Compreendeste?

Quentin acenou com solenidade. Não considerara a possibilidade de poderem falhar. mas Theido, ao notar a disposição sombria do rapaz, sorriu e acrescentou:

- Nada temas. meu jovem amo. Não é a primeira vez que sou perseguido pelos homens de Jaspin. Mém disso, os meus planos raramente falham.

Quentin não se sentiu reconfortado com a ideia. Acabaram o pequeno-almoço e saíram da estalagem pela porta da cozinha, atravessando o pátio em direcção aos cavalos. Ao chegarem ao estábulo, Theido abriu as largas portas e imobilizou-se.

- Corre! Foge daqui! - gritou para Quentin, enquanto ao mesmo tempo atirava a capa para o lado e puxava por uma curta espada que transportava numa bainha oculta nas roupas. Quentin ficou paralisado de terror. Theido virou-se para ele e empurrou-o. dizendo: - Foge! Tens de ficar em liberdade!

Nesse mesmo instante, dois homens a cavalo saltaram do interior do estábulo. Tinham ambos as espadas desembainhadas e pequenos escudos de protecção nos braços, já levantados para apararem os golpes da sua presa. Quentin virou-se e fugiu, olhando por cima do ombro enquanto corria. Viu Theido enfiar a espada por debaixo do escudo de um dos homens, que desviou o golpe para um lado, enquanto o outro, apertando a sua presa entre os seus cavalos, levantava a espada para desferir o golpe fatal.

- Não o matem, idiotas! - gritou uma voz no pátio, na frente de Quentin. Este virou-se mesmo a tempo de evitar a colisão com um outro homem a cavalo, Daquela vez era um cavaleiro, a avaliar pela armadura bem trabalhada. O cavaleiro gritou mais uma vez: - Temos de o apanhar vivo!

No instante seguinte, Quentin sentiu que a sua capa era agarrada por um braço poderoso, que quase lhe arrancou os pés do chão. Quentin, sem sequer pensar, atacou violentamente uma das pernas do cavalo e acertou-lhe com um violento pontapé, O animal sacudiu a cabeça e levantou os quartos dianteiros, enquanto dava um salto para trás. O cavaleiro perdeu o equilíbrio, largou Quentin imediatamente e este escapuliu-se por debaixo da barriga do cavalo e correu, Atingiu a esquina da estalagem a tempo de ver um dos homens a cavalo a descer o punho da sua espada sobre a cabeça de Theido. Ouviu um estalar abafado e Theido abateu-se no chão.

 

Quentin correu às cegas pelas estreitas ruas, algumas das quais não eram mais do que passagens por entre as habitações fechadas. Lançou um olhar apressado por cima do ombro, enquanto corria, sempre à espera que um dos homens a cavalo caísse sobre ele numa qualquer esquina. As suas fortes pernas desviavam-se de obstáculos, viravam esquinas e voavam tão depressa quanto o medo o fazia afastar-se da cena.

Por fim acabou por ficar sem fôlego e agachou-se numa estreita passagem entre dois edifícios do que poderia ser chamado rua principal da cidade de Askelon. Estava fora das vistas de quem passasse pela rua e esperou, para recuperar o fôlego e pensar. Recordava-se da voz de Theido a dizer "Volta para junto de Durwin, ele saberá o que fazer". Porém, já não tinha cavalo e Durwin ficava a um dia de distância para um homem montado. Não podia ir a pé, sozinho e sem provisões. Precisava de as arranjar, e não fazia ideia nenhuma de onde e como as poderia conseguir.

Não querendo ficar muito tempo parado no mesmo sítio, começou a caminhar pelas ruas. Não fazia ideia nenhuma do sítio para onde ia, e só teve consciência de que se aproximava do castelo quando olhou para cima por acaso e se lhe depararam as enormes muralhas a erguerem-se por cima dele. Parecia ser arrastado para elas. pois, apesar de ter mudado de direcção por duas vezes, de propósito para evitar aproximar-se, para não ser visto e capturado imediatamente, de cada vez que olhava para cima estava mais perto do que da vez anterior.

Entretanto, as lojas do bairro de mercadores, por cujas ruas caminhava, tinham começado a abrir para o seu negócio diário. Apesar de os telhados estarem cobertos por uma pesada capa de neve e de penderem fios de gelo dos beirais, os mercadores abriam as suas portas para uma brilhante manhã sem nuvens e assinalavam o início de outro dia atarefado. Em breve as ruas empedradas começavam a ouvir o ruído de passadas apressadas e as vozes estridentes de lojistas, patrões e vendedores. trocando cumprimentos, apregoando as mercadorias e regateando os preços. Um certo número de agricultores enfrentara o frio para instalarem bancas onde vendiam os produtos de Inverno: ovos e queijo, e vários tipos de cerveja e cidra. Grandes braseiras cheias de carvão ardiam em frente das bancas. Quentin pairou em volta delas, aquecendo-se e tentando desesperadamente arranjar um plano que lhe permitisse sair da situação em que se encontrava.

Por fim, decidiu arriscar-se a voltar à estalagem, para recuperar o cavalo, isto se o animal ainda lá se encontrasse e os raptores não o tivessem levado. Desceu uma rua, que pelo aspecto pertencia ao bairro dos artesãos. Quentin viu várias instalações de artesãos: uma forja de ferreiro, uma fábrica de velas, um peleiro. Havia qualquer coisa que o atraía para mais perto deste último. Parou à entrada durante algum tempo. apenas a olhar, perguntando a si mesmo por que motivo tinha a sensação de pertencer ali, o que era inexplicável. Nunca antes vira aquele lugar em toda a sua vida.

Quentin andou de um lado para o outro no exterior do prédio, mirando a tabuleta brilhantemente pintada com a imagem de uma raposa vermelha com uma cauda excepcionalmente longa e felpuda. Por fim virou-se para se afastar, antes que alguém no interior o visse sem fazer nada e saísse para o mandar embora. Quando se começava a afastar da porta. aproximou-se uma pequena carruagem coberta, de duas rodas. puxada por um pónei com um pêlo castanho e emaranhado. A carruagem estava pintada com brilhante tinta preta e ostentava uma insígnia na porta: um dragão vermelho e contorcido, contornado a ouro.

O condutor, que seguia a pé à frente, deteve o cavalo, com um trote muito animado pelo frio ar da manhã, e abriu-se a porta do cabriolé. Havia uma dama sentada no seu interior, enrolada numa espessa capa e com um capuz sobre a cabeça. Pareceu preparar-se para descer, mas depois viu Quentin de pé mesmo na sua frente. Sorriu e disse:

- Rapaz, aproxima-te.

Lançou o capuz para trás da cabeça e revelou um rosto de belas feições e longas tranças negras sobre os ombros. Quentin pensou que nunca vira uma pessoa tão bonita em toda a sua vida. Ainda por cima. tanto quanto lhe era possível calcular, a jovem deveria ser da sua idade ou, no máximo. um ou dois anos mais velha. No entanto, as suas maneiras e pose convenceram-no de que se encontrava. sem dúvida. na presença da realeza.

Quentin avançou, rígido. para mais perto da carruagem e pousou a mão na porta.

- Sim, Majestade.

A rapariga riu-se e Quentin sentiu o rosto a corar.

- Não sou a rainha - replicou a jovem. - Sou apenas... Uma companheira de Sua Majestade. A minha aia deseja ser visitada, esta tarde. pelo teu amo. - A rapariga fez um aceno para a loja do peleiro. - Leva isto - acrescentou, entregando ao surpreendido Quentin um pequeno pergaminho enrolado, preso com uma fita e selado com cera. - Levar-te-á directamente aos aposentos de Sua Majestade. A que horas devo dizer que vão? Sua Majestade sugeriu que fosse depois do repasto do meio-dia.

Quentin, recordando-se um pouco da etiqueta da corte, fez uma grande vénia e replicou, não muito seguro:

- O vosso gracioso servo assim fará, minha senhora. - Misturara os termos da resposta. mas a intenção fora a boa. A companheira da rainha voltou a rir-se, com uma voz que era o alegre borbulhar de um coração feliz.

- Estou certa de que levarão as vossas melhores peles.

Quentin fez nova vénia e o condutor, sem olhar para a direita ou para a esquerda, pegou nas rédeas e afastou-se com a carruagem.

Quentin olhou para a convocação que tinha na mão. admirando-se com a sua notável boa sorte. O deus Ariel, uma divindade entre cujos muitos atributos se encontrava a capacidade de conceber surpresas agradáveis. tinha, no fim de contas, conseguido que Quentin tivesse a sua desejada audiência com a rainha. Quentin considerava que o erro da aia da rainha fora um milagre do mais alto nível, e meteu a carta na túnica, junto à pele. Afastou-se à pressa. cheio de renovada decisão, esquecendo-se completamente da ordem de Theido para que fosse pedir a ajuda do santo eremita Durwin.

Com várias horas na sua frente para preencher até chegar o momento da audiência. Quentin decidiu ir avançando para as portas do castelo, para já lá se encontrar quando chegasse a hora marcada. Planeava servir-se daquele tempo livre para seu benefício, planeando com precisão o que iria dizer e fazer na presença da rainha. Como iria confessar o subterfúgio, como entregaria a mensagem e, muito em particular, como iria implorar a libertação do seu amigo. Apesar de não saber por que motivo tinham capturado Theido, partia do princípio de que deveria haver alguma ligação com a mensagem secreta cosida dentro da sua jaqueta.

Quentin esqueceu o seu medo dos homens armados e da escaramuça no pátio do estábulo da estalagem na madrugada daquele dia, convicto de que a sua missão era auxiliada pelos deuses. Avançou ousadamente, como se usasse a invencível armadura de um cavaleiro do rei. A visão daquele jovem senhor. com uma vulgar capa castanha e uma túnica verde-escura, umas calças um pouco largas de mais, meias de fora e pesadas sandálias de camponês, que marchava pelo centro da rua como se fosse todo um regimento de homens do rei, foi uma delícia para os habitantes da cidade.

Se Quentin se tivesse apercebido da troça que acompanhou o seu avanço até aos portões do castelo, teria fugido de embaraço. No entanto, assim não aconteceu, tão ocupado estava com os seus pensamentos de valorosas acções e boa sorte.

Contudo, a sua atitude mudou de um modo abrupto ao chegar aos portões da fortaleza de Askelon. Eram construções de uma dimensão gigantesca, em madeira e ferro, suficientemente largas para permitirem que toda uma companhia de cavaleiros cavalgasse através delas em fileiras de doze. Erguiam-se como um desafio a quem quer que desejasse fazer a guerra ao rei Eskevar, e convidavam o inimigo a tentar aplicar-lhes os seus piores golpes. Aqueles portões tinham desafiado o fogo, o machado e os aríetes. em cerco após cerco. Na base da longa rampa que dava acesso aos portões, Quentin deteve-se de boca aberta, maravilhado por aquela visão magnífica. o castelo elevava-se, em linhas majestosas, trepando para o brilhante céu azul de Inverno. Pendões vermelhos e dourados flutuavam na brisa, no alto das inúmeras torres e torreões. Quentin ouvia o estralejar das bandeiras sob o vento gelado.

Das cinco antigas maravilhas, só Askelon ainda se mantinha. As outras, as Fontes de Fogo de Pelagia. os Templos de Gelo de Sanarrath, os Túmulos-Grutas dos Reis Braldurianos, as Pedras Cantantes de Svphria. tinham desaparecido, arruinadas, perdidas em obscuras eras passadas. Porém, Askelon, a poderosa Cidade dos Reis, com o seu dragão enroscado e a dormir sob a colina, continuava de pé e ali permaneceria para todo o sempre.

As fundações de Askelon haviam sido escavadas na pedra viva da colina em que repousava, que por si só era já uma montanha cheia de força e graça. As maciças bases de pedra haviam sido erguidas pela força bruta de dois mil pedreiros e trabalhadores, chefiados por duzentos mestres pedreiros. O trabalho prosseguira, sem interrupções, durante uma centena de anos. Logo que fora erguida a muralha exterior, as torres haviam sido completadas e iniciara-se a construção da casa dos portões. A casa dos portões. o ponto mais vulnerável da fortaleza, era por si só um singular feito de engenharia, montado e aperfeiçoado ao longo dos cinquenta anos seguintes. A seguir iniciara-se o trabalho na muralha interior, a muralha que iria abrigar toda a zona habitacional e de trabalho para o séquito real de soldados, servos, cozinheiros. encarregados. guardas. camareiros, e toda a restante hoste de funcionários necessária para a devida manutenção do império.

A muralha interior, tal como a exterior. era formada por paredes duplas. O interior oco fora cheio com terra e detritos soltos capazes de amortecer os violentos impactes dos aríetes de guerra. Uma vez terminada a muralha interior e as suas torres, começara o trabalho nos apartamentos e aquartelamentos. Com o tempo, a configuração dessas divisões interiores iria modificar-se infindavelmente, com cada um dos novos ocupantes a dirigir a reconstrução de acordo com os seus gostos pessoais e com as modas da época. A estrutura exterior também se modificara, mas mais devagar, sempre que as inovações nas estratégias ofensivas exigiam uma actualização das técnicas defensivas. O castelo crescera e modificara-se ao longo de mil anos, para se tornar naquela coisa de assustadora beleza que Quentin via agora. olhando embasbacado para o alto, tentando abarcar tudo com uma única e prolongada mirada. Era tudo aquilo com que sonhara... e muito mais.

Decorrido algum tempo, passou para a rampa e começou a longa subida até junto dos próprios portões. Na sua deslocação para o alto foi ultrapassado por vários carros de bois e carroças transportando provisões para o castelo. Nem sequer deu por eles. Os seus olhos estavam colados às enormes muralhas e altíssimas torres da fortaleza, que superavam tudo o que de mais ousado conseguira imaginar, e que, na mente de Quentin, estavam de acordo com os exageros que os homens contavam a seu respeito. A caminhada levou-lhe muito mais tempo do que o necessário.

Quando atingiu finalmente o alto da rampa. até à extremidade da ponte levadiça. a plataforma móvel que cobria o vasto espaço desde o fim da rampa até aos portões, a grande altura sobre o fundo rochoso do fosso seco. Quentin parou. Não querendo chamar a atenção dos guardas, de ar feroz, que se encontravam na casa dos portões. abrigou-se à sombra de uma das casas construídas, à maneira de degraus. ao longo da rampa. A última dessas casas fornecia-lhe abrigo contra o vento, pelo que se sentou junto de uma parede amigável, para esperar.

As pessoas passavam, apressadas, de um lado para o outro, tratando dos seus assuntos, mas Quentin a nada prestava atenção. excepto à tarefa que tinha pela frente. Tentou imaginar como seria a rainha. Ouvira histórias a respeito da encantadora Alinea, mas, com a sua extremamente limitada experiência a respeito de mulheres. tinha dificuldade em imaginar que pudesse haver uma ainda mais bela do que a aia que encontrara naquela mesma manhã. Dizia-se que a rainha Alinea possuía compridos cabelos de um castanho que brilhava ao sol. com tons avermelhados, e profundos olhos verdes, da cor das sombras da floresta numa tarde de Verão. A sua voz era considerada como um instrumento de encanto. Quando falava ou cantava, canto que lhe merecera uma grande fama, a sua voz soava nos ouvidos dos homens como se fossem gargalhadas líquidas. Soubera daqueles e de outros pormenores em volta da mesa dos sacerdotes, ou pelas conversas dos peregrinos que ouvira por acaso quando estes, nas noites de Verão, acampavam no exterior do templo aguardando pelo seu oráculo.

A rainha Alinea, dizia-se. era o complemento perfeito, em graça e beleza, à incansável força e vitalidade do rei Eskevar.

Quando Quentin calculou que já tinha passado o meio-dia, esticou-se, satisfeito por estar de novo em movimento. pois arrefecera com a espera, e avançou resolutamente para os portões. Apesar de os portões principais se encontrarem fechados, havia dois outros mais pequenos - mas mesmo assim suficientemente grandes para permitirem a passagem de dois carros, lado a lado - que estavam abertos e vigiados por guardas de feições cerradas. Quentin não conhecia o devido protocolo para se apresentar perante a rainha, mas partia do princípio de que bastava dizer o que desejava à primeira pessoa que encontrasse, para depois deixar que o decurso natural dos acontecimentos lhe dissesse o que fazer.

A primeira pessoa, é claro, era um guarda, de quem Quentin se aproximou com todo o respeito. Porém, quando Quentin abriu a boca para falar, o homem fez-lhe sinal, com a lança, para que continuasse. Encontrou-se imediatamente num túnel baixo e escuro, no interior da casa dos portões. por onde passava a estrada que dava para o pátio exterior do castelo.

Com a sua falta de conhecimentos militares, Quentin esperara que. ao ultrapassar os portões, se viesse a encontrar imediatamente dentro do castelo, tal como acontecia no templo. Achou que a estrada da casa dos portões era desagradavelmente assustadora. A sensação de mau agoiro devia-se às escuras e enormes grades, com aguçados dentes de ferro, sob as quais tinha de caminhar. mesmo que por pouco tempo.

Uma vez passada a casa do portão, viu-se no perímetro externo do pátio interior, a olhar para um outro castelo mais pequeno rodeado pela sua própria cidade de casas, estábulos, cozinhas, armazéns e edifícios de apoio. Alguns eram de pedra, outros eram de madeira e colmo. tal como na cidade que deixara para trás. O castelo interior possuía os seus próprios portões. para onde Quentin se dirigiu imediatamente. Ali, a segurança era mais rígida e o guarda exigiu saber ao que ia. Quentin apresentou-lhe o pergaminho enrolado. O soldado lançou uma olhadela ao selo e mandou-o entrar.

Ao emergir da segunda passagem. Quentin entrou, hesitante, num pátio de grandes dimensões. Todo aquele pátio interior estava ocupado por elegantes jardins que continham todas as plantas de flor e árvores que eram conhecidas no reino e até para lá dele. Na Primavera, aquele pátio seria uma verdadeira explosão de cores violentas, mas agora estava coberto com uma tranquila camada de neve branca.

Enquanto Quentin olhava a sua volta. um homem vestido com uma longa capa de brocado forrada a zibelina - um grande senhor, ou um príncipe, pelo aspecto e riqueza do trajo - emergiu apressado de um arco e atravessou o jardim em direcção a outra parte do castelo.

Quentin esperou que o nobre passasse e depois foi atrás dele. O homem atravessou, quase a correr, o pátio cheio de neve, e desapareceu no castelo, com Quentin logo atrás.

Uma vez no interior, Quentin perdeu o homem de vista quando este desapareceu numa das muitas portas que davam para o corredor central. Estava imóvel, perguntando a si mesmo o que fazer a seguir, quando uma voz áspera gritou atrás dele:

- Que estás tu aqui a fazer, servo?

Quentin deu meia volta, deparou-se~lhe um homem muito forte que avançava para ele com um ar ameaçador.

- Vim para ver a rainha - respondeu, murmurando as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça.

- Ah, sim!? - O homem ganhou uma expressão furiosa. - Desaparece! Sabes muito bem que não gosto de gente por aqui a bisbilhotar! Vai-te embora,

já te disse!

- Que se passa aqui, guarda? - A voz provinha de uma porta aberta e Quentin virou-se e avistou o nobre que seguira até ao interior do castelo.

- Este rapaz aqui diz que veio ver a rainha, mas parece-me que deve estar a preparar alguma patifaria.

O homem avançou para Quentin.

- Deixa-me ver os teus papéis.

Quentin engoliu em seco, com força, e entregou o pergaminho ao nobre. Este pegou na carta, olhou para o selo, quebrou-o, e leu o conteúdo com uma vista de olhos.

- Onde está o teu amo? - inquiriu, mirando Quentin com atenção.

- Ele... não pode vir, e mandou-me à frente para pedir o perdão de Sua Majestade...

- Hum... Diz ao teu amo que para a próxima deve dar um maior valor aos pedidos da rainha, ou perderá os seus favores... e os benefícios das suas aquisições. - Devolveu a carta a Quentin. - Muito bem, segue-me.

O homem não era um príncipe ou grande senhor, tal como Quentin supusera, mas sim o camareiro da rainha, que conduziu Quentin por um labirinto de corredores e antecâmaras, até uma passagem formada por grandes arcos, num dos andares superiores do castelo.

- Senta-te - ordenou o camareiro.

Quentin sentou-se num banco baixo, no corredor, em frente de uma grande porta esculpida. Perto dele encontrava-se uma janela com um vidro espesso e coberto de gelo, que dava para o pátio interior, e Quentin fixou-a sem a ver, tentando recordar-se do que iria dizer a rainha. Esquecera-se de tudo.

O camareiro entrou e saiu várias vezes, tal como outras pessoas, na sua maior parte servos e mulheres. Uma ou duas vezes, Quentin pensou ter visto a própria rainha a emergir das suas câmaras. Essas visões de beleza, descobriu Quentin. eram as aias pessoais da rainha. Contudo. estavam vestidas e comportavam-se, ante os olhos pouco experientes de Quentin, como verdadeiras rainhas.

Após algum tempo. o camareiro surgiu uma vez mais e dirigiu-se-lhe:

Sua Majestade deseja ver-te agora - declarou, acrescentando a seguir, para elucidação do jovem: - Quando entrares no apartamento da rainha. o mais próprio é ajoelhares-te até que Sua Majestade diga que te podes levantar.

Quentin respondeu com um aceno e seguiu o homem através da porta que dava para a câmara exterior. Era uma sala muito grande e aberta, com as paredes cobertas de tapeçarias e ricamente mobilada. Encontravam-se ali algumas mulheres. fiando e conversando enquanto trabalhavam. A um canto, um trovador tocava, acompanhado por várias damas que cantavam. A sala parecia cheia de uma encantadora actividade. Quentin perguntou a si mesmo qual daquelas belas mulheres seria a rainha Alinea. Contudo, o camareiro conduziu-o através da sala, em direcção a uma outra, a câmara privada da rainha.

O camareiro bateu uma única vez na porta maravilhosamente esculpida e abriu-a sem esperar resposta. Fez uma profunda vénia e empurrou Quentin para o interior. Este, sem ousar levantar os olhos, caiu de joelhos no chão.

- Vossa Majestade, eis o peleiro - anunciou o camareiro, retirando-se imediatamente. A voz que Quentin ouviu a seguir era a da rainha.

 

- Ah, como é jovem o nosso peleiro, e tão formal - disse a rainha

Alinea. A voz, tal como os poetas a cantavam, soava a gargalhadas líquidas, pensou Quentin. - Levanta-te, jovem peleiro - ordenou, num tom agradável. Quentin levantou a cabeça. inseguro, meio receoso de lançar um olhar à rainha. Porém, quando a viu, não conseguiu olhar para mais nada.

A rainha Alinea estava de pé em frente de uma janela. O brilhante azul do céu daquela tarde de Inverno formava um fundo iluminado que salientava a beleza castanho~avermelhada dos seus cabelos. As formas graciosas estavam envoltas num vestido muito simples, de um azul turquesa e com capuz, que descia até ao solo em pregas suaves. Usava um cinto de ouro trabalhado e pérolas, que acentuava a sua cintura estreita, e um colar com o mesmo desenho, delicado e elegante, em volta do pescoço gracioso. O brilhante cabelo fora puxado para trás, revelando uma testa alta e nobre, e encontrava-se adornado por um simples diadema de ouro. As tranças castanho-avermelhadas, que desciam em escuras cascatas ao longo do pescoço elegante, enquadravam um rosto que era tão aberto e franco que desarmava o observador. Os olhos brilhava-lhe com um bom humor que também era visível nos cantos da boca encantadora, e que parecia estar prestes a dissolver as feições

requintadas numa sentida gargalhada.

Quentin notou tudo aquilo, esquecido das boas maneiras e com vergonha, de boca aberta de espanto, momentaneamente mudo ante aquela visão de estarrecer.

- O nosso Jovem visitante parece ter ficado encantado com a tua beleza Bria - comentou a rainha, e foi apenas então que Quentin avistou a rapariga que encontrara naquela manhã, agora sentada ao lado da rainha e com um arco de bordar pousado no colo. A rainha estivera a ensinar-lhe uma qualquer técnica de bordar mais fina e complicada. -Digo-o mais uma vez, levanta-te, jovem peleiro - repetiu a rainha, descendo da plataforma elevada em que se encontrava e aproximando-se de Quentin, que se pôs de pé num salto e fez uma vénia respeitosa.

- Trouxeste alguma coisa para me mostrares, jovem senhor - inquiriu a rainha, amável -. ou preferes que te descreva os meus desejos,

para que o teu mestre me surpreenda depois com a sua arte?

Com um sobressalto, Quentin recordou-se repentinamente que não era o peleiro, nem o aprendiz do peleiro, e que nem sequer sabia o nome do homem. A sua mão, a tremer, procurou a carta que Ronsard tentara levar até ali e pela qual dera a sua vida. A rainha detectou aquela trémula hesitação e perguntou:

- Passa-se alguma coisa? Porque estás tão hesitante?

- Vossa Majestade... não sou o ajudante do peleiro - conseguiu Quentin balbuciar. Vendo-lhe no rosto um ar interrogativo. acrescentou: - No entanto, trago-lhe algo mais valioso do que imagina. L. - interrompeu-se, lançando um olhar à aia da rainha. - Penso que talvez Vossa Majestade pretenda recebê-la em privado...

A rainha sorriu ante os seus ares conspiradores, mas de qualquer modo fez um aceno para Bria, que se levantou, não sem lançar a Quentin um intenso olhar de desaprovação.

- Agora, vejamos... - continuou a rainha, com as mãos dadas na frente do corpo - o que é que tens de tão importante que mereça a minha particular atenção...

- Uma carta, Vossa Majestade - disse Quentin, abrindo a capa. Retirou do cinto a adaga de punho de ouro e cortou o fio que prendia à jaqueta o embrulho com a carta escondida.

- Essa adaga... Deixa-me vê-la - pediu a rainha. com um interesse súbito.

Tirou-a da mão de Quentin e deu-lhe voltas, examinando o punho com atenção.

- já vi esta adaga em qualquer lado... - comentou, passados alguns instantes - mas não me recordo onde.

Quentin, que acabara de libertar o embrulho de pergaminho, apresentou-o sem hesitação, dizendo:

- O proprietário dessa adaga mandou-me entregar-vos isto.

Observou-a, enquanto a mulher pegava na adaga e quebrava o selo da carta. Desdobrou o estaladiço pergaminho e leu-o. Quentin, que não conhecia o conteúdo da epístola, não sabia que reacção esperar. Fitou-lhe o rosto. em busca de uma sugestão sobre o conteúdo da carta, recordando-se que um homem a considerara tão importante que dera a vida por ela.

A Quentin pareceu-lhe que o efeito da mensagem sobre a leitora era absorvido com muita lentidão, mas no entanto deveria ter sido instantâneo. O rosto da rainha perdeu a cor, e deixou cair a adaga, que tilintou no chão. Os seus olhos pareceram gelar-se e encheram-se de terror, enquanto afastava a carta para longe de si.

- Meu rei... - murmurou, Quentin permaneceu imóvel como uma estátua de granito, não ousando mover-se para não interferir, de algum modo, no desgosto da rainha.

A mulher tinha os seus belos braços pendentes ao lado do corpo, como se as forças lhe tivessem fugido. A seguir, deixou que o queixo descaísse sobre o peito. Quentin estremecia por dentro, ao ver uma mulher tão bela lançada num tão grande desespero. Nesse mesmo instante, jurou para si mesmo que ele, Quentin, corrigiria o que quer que fosse que causara uma tal calamidade. E se fosse demasiado tarde, vingaria o desgosto da rainha.

Aproximou-se dela, pois o coração a isso o impelia. Instintivamente, a rainha agarrou~lhe um braço e apertou-o. Os seus olhos estavam mais uma vez a examinar a carta. Ficou silenciosa durante alguns momentos. Quentin pensou em precipitar-se para a sala ao lado para pedir ajuda, mas não ousou deixá-la. Por isso deixou-se ficar. oferecendo-lhe o braço e, naquele momento, até seria capaz de lhe oferecer a vida.

De súbito a rainha voltou a falar. mas a voz era muito diferente da que Quentin ouvira apenas momentos antes.

- Conheces o conteúdo desta missiva? - perguntou. Quentin não respondeu. - Então explica-me como foi que a obtiveste, pois receio bem que não se trate de uma brincadeira. Conheço a assinatura demasiado bem, e a adaga que está no chão é outra prova mais do que suficiente.

- Sou Quentin. um acólito do Alto Templo de Ariel. Há três dias apareceu no nosso templo um cavaleiro ferido, que nos pediu ajuda.

Disse que a sua missão era de grande importância para o reino. que se tratava de uma mensagem do rei. Não temia a morte, mas apenas que esta chegasse cedo de mais e não pudesse cumprir a sua obrigação para com Vossa Majestade. Escreveu a mensagem... que tendes agora na mão.

- Ronsard - o bravo Ronsard - enviou-te no seu lugar? A um acólito do templo? - A rainha olhou para Quentin, incrédula ante a possibilidade de um simples rapaz se ter oferecido voluntário para uma tal missão. Quentin, contudo. não entendeu a pergunta.

- Ele não queria que eu viesse... mas não havia mais ninguém...

- E que aconteceu a Ronsard? - A rainha virou a cara para o outro lado, como que para evitar o impacte da resposta. - Está morto? - Quentin permaneceu mais uma vez em silêncio, pois faltava-lhe a coragem para lhe dizer a verdade.

Ante aquilo, a rainha levantou-se, endireitou os ombros e ergueu a cabeça. Quando se virou de novo para Quentin estava já notavelmente recomposta. revelando a sua singular força interior.

- Confiou em ti, e ao fazê-lo colocou nas tuas mãos a segurança do rei e o futuro do reino. Não posso fazer menos do que isso e terei também de confiar em ti.

Avançou para uma grande cadeira almofadada que fora colocada perto da janela. Para lá dela, o céu, ainda há pouco limpo e belo, parecia agora frio e distante, indistinto, como se o tivessem coberto com um véu.

Alinea sentou-se e fez sinal a Quentin para que se aproximasse. Quando este se instalou no banco da janela, perto dela, disse:

- Quentin, esta carta pressagia acontecimentos desagradáveis para todos os que conheçam o seu segredo. O nosso reino está em perigo. O rei está prisioneiro de Nimrood, o necromante, graças a uma traição do seu próprio irmão, o príncipe Jaspin, que quer sentar-se no trono. A carta não diz mais do que isso, mas as consequências podem ser facilmente adivinhadas.

"Tenho estado como cega todos estes anos. Enquanto observava as guerras no estrangeiro, o poder do rei foi diminuindo em casa, na sua ausência, enfraquecido por Jaspin e pelos seus ladrões contratados. Tomei consciência disso demasiado tarde... e eu própria sou uma prisioneira do meu castelo. A minha única esperança estava em que o regresso do rei incutisse o medo no coração desses cobardes, e que, uma vez restaurado no trono, o rei ajustasse as contas.

"Agora, não é provável que isso aconteça. Receio que a nossa causa esteja perdida antes de termos feito soar o alarme. - A rainha virou-se para a janela. mas os seus olhos não viam nada da cena que tinha na frente.

Quentin. sentindo imediatamente uma grande piedade pela rainha e uma ainda maior ira contra Jaspin, falou com uma tranquila resolução:

- Então, é preciso salvar o rei.

A rainha virou a cabeça e sorriu com tristeza.

- És um verdadeiro homem. Ronsard teve razão quando confiou em ti. Porém, se eu conseguisse reunir uma força qualquer o nosso rei perderia a vida. Jaspin iria imediatamente sabê-lo. Os seus espiões estão por todo o lado, e na floresta de Pelgrin não cai uma folha sem que ele não o saiba.

- Tenho amigos - afirmou Quentin. - Talvez... um grupo de pouca gente consiga fazer aquilo que um grupo de muitos não pode fazer. - Quentin não se deteve a pensar até que ponto eram poucos. Eram todo o mundo, as únicas pessoas a quem considerava como amigos, eram. para além de Biorkis, Theido e o eremita Durwin.

- Irias salvar o rei? Tu e os teus amigos. e mais ninguém? - A rainha Alinea pareceu preparar-se para recusar a oferta, mas depois hesitou. Mirou Quentin com muita atenção, com a cabeça inclinada para um lado, como se estivesse a examiná-lo para lhe fornecer todo um novo conjunto de vestes. - Parece uma loucura... mas as tuas palavras podem ser mais sensatas do que pensas. Quem são esses teus amigos?

Quentin vacilou ante aquela pergunta, apercebendo-se que a sua lista era muito curta. e que dela não constava o nome de um único e solitário cavaleiro. No entanto, respondeu com toda a convicção que conseguiu reunir:

- Apenas Durwin, o santo eremita de Pelgrin, e um outro chamado Theido. - Ficou embaraçado com a sua falta de amigos, mas surgiu uma luz nos olhos verde-escuros da rainha, que exclamou:

- É um homem de sorte aquele que conta com o nobre Theido entre os seus amigos. Sabes onde ele se encontra?

A questão levantava um problema. não sabía onde estava Theido e, de facto. pouco sabia excepto que Theido fora capturado por alguns homens, naquela mesma manhã, um pormenor de que se esquecera até àquele momento. Não sabia como responder, mas quando abriu a boca para admitir a sua ignorância a rainha continuou:

- Há algum tempo que ninguém sabe de Theido... Era um dos melhores cavaleiros do rei, e tambéni um nobre. A morte do pai fez com que regressasse das guerras. Porém, ao chegar a casa, foi falsamente acusado de ser um traidor, porJaspin e seus apaniguados. e confiscaram-lhe o castelo e as terras. No entanto, escapou-se, e desde essa altura vive a vida de um fora-da-lei.

A rainha levantou-se e virou as costas à janela, olhando para baixo, para Quentin, com um súbito ar caloroso.

- Além disso. é também uma pessoa a quem confiaria a minha vida. -Não sei quem é esse eremita Durwin, mas, se é teu amigo e de Theido, então é também um dos meus amigos. -Mas porque é que estás com essa cara? Passa-se alguma coisa? - perguntou a rainha de repente, notando a expressão carregada de Quentin.

- Senhora... - gemeu Quentin, obrigando-se a pronunciar as palavras - Theido foi apanhado esta manhã por homens que lhe montaram uma emboscada. Consegui escapar, para vir aqui, e não sei o que aconteceu ou para onde o levaram.

A resposta da rainha a esta aparentemente agourenta afirmação surpreendeu Quentin e encheu-o de alegria.

- Esse é um mistério fácil de resolver - disse a mulher, com um tom de rancor a colorir-lhe a voz. - Existe apenas uma única pessoa capaz de oprimir os inocentes súbditos do rei em plena luz do dia, praticando acções para as quais até os mais impudentes patifes escolhem as mais escuras das noites. Foi o príncipe Jaspin quem raptou o teu amigo. Quanto a isso, não há engano possível. - Pensou por instantes. - Uma tal arrogância nem sequer o impediria de trazer a sua presa para dentro destas próprias muralhas.

A rainha atravessou a sala rapidamente, abriu a porta e chamou o camareiro, que surgiu imediatamente. Falaram em murmúrios à entrada e o camareiro afastou-se à pressa.

- Em breve saberemos o destino do teu amigo Theido. Mandei Oswald fazer algumas perguntas discretas junto do responsável pelos cárceres, para saber se entrou algum novo prisioneiro esta manhã. Veremos se não me enganei...

Esperaram pelo regresso do camareiro. Quentin agitava-se, numa frustração nervosa. Queria precipitar-se para as masmorras. fossem elas onde fossem, verificar ele próprio a verdade e libertar o seu amigo. A rainha, por seu lado, aguentou a espera com uma calma real. Fossem quais fossem as suas emoções. eram de um tipo mais determinado, pensou Quentin. Pareciam ferver a fogo brando por debaixo do plácido aspecto exterior.

Por fim, Oswald, o camareiro, regressou. Fez uma profunda vénia enquanto se aproximava rapidamente da rainha, dizendo:

- Foi aprisionado um fora-da-lei. esta manhã, Vossa Majestade. O carcereiro nada mais sabe, excepto que foi instruído pelo cavaleiro que o levou a não deixar que ninguém veja o preso, e a não fazer qualquer registo da sua presença.

- O carcereiro sabe qual era a identidade desse cavaleiro?

- Foi Sir Bran - replicou Oswald. A rainha agradeceu ao camareiro e mandou-o retirar-se. Voltou para junto de Quentin e declarou:

- Creio que resolvemos o nosso enigma. Agora, porém, surge-nos um outro, que não será tão fácil de solucionar. Como iremos conseguir libertar o cativo?

 

A Quentin parecia-lhe que o Sol da tarde se pusera demasiado depressa. A câmara estava a ficar escura, e não deveria faltar muito para que os servos começassem a acender as muitas velas que se encontravam nos aposentos privados da rainha. O dia passara-se numa actividade frenética, em particular durante as últimas horas.

Agora. contudo. estava tudo pronto e esperavam.

- Pareces ansioso, jovem senhor. - A rainha atravessou a sala em direcção a Quentin, que se mantinha vigilante, no banco junto da janela. Estivera a tratar de pormenores de última hora e acabara de regressar. - Não estejas preocupado, Quentin.

O jovem exibiu um sorriso fraco e desviou os olhos da janela. onde passara a maior parte do fim da tarde a ver os servos da rainha a atravessarem o pátio à pressa, no meio da neve. em actividades furtivas em prol da rainha.

- Não tenho medo - disse Quentin. - Talvez só um bocadinho... - Olhou para a bela Alinea, sob a luz mortiça. Mudara muito, desde a última vez que a vira. Ainda pouco antes a rainha estivera vestida com trajes reais, fora a mais bela entre as belas, e agora apresentava-se. na frente dele, com roupas muito mais simples, com uma vulgar túnica verde (não muito diferente da sua) e uma capa púrpura, muito pesada mas bem feita. Usava à cintura um largo cinto de couro, de homem. e calças. As altas botas de montar completavam o traje.

- Então, aprovas o aspecto da tua rainha? - Alinea riu-se. tentando pôr Quentin à vontade. - Temos o mesmo alfaiate, tu e eu!

Quentin obrigou-se a soltar uma gargalhada e levantou-se.

- Quando é que partimos? O sol já vai bem baixo... Ainda falta muito?

- Não, já não falta muito - tranquilizou~o a rainha. - Oswald virá chamar-nos quando tudo estiver pronto. Não precisamos de nos atormentar. Os nossos preparativos estão em boas mãos.

Quentin estava agora mais inquieto do que anteriormente. Saboreara um pouco do perigo da sua missão, e testemunhara, no caso do Theido, os seus efeitos. Agora, esse perigo fora aumentado e multiplicado por tudo o que tivera lugar nas últimas horas: a mensagem de Ronsard, a precipitada conspiração para libertar Theido, os febris preparativos para a viagem... e agora a espera.

Durante o período de espera Quentin arranjara tempo para pensar em tudo o que já lhe acontecera, para duvidar da sua bravura recentemente descoberta, para questionar mais uma vez os seus presságios, para desejar - mil vezes - não ter saído do templo, e para amaldiçoar a cega impetuosidade que o atirara para o meio daquela sombria aventura.

Desanimado, Quentin virou-se mais uma vez. para olhar pela janela: o pátio lá em baixo estava coberto por profundas sombras violetas, e uma estrela solitária brilhava, como um farol, por cima de uma das torres, a Sul. Era um bom augúrio, pensou Quentin, que ficou um pouco mais encorajado.

Soou uma pancada rápida na porta da câmara da rainha, e Oswald entrou sem esperar. Quentin teve dificuldade em reconhecê-lo, pois estava vestido não como camareiro da rainha, mas sim como alguém de um nível muito mais elevado, apesar de Quentin não ser capaz de dizer quem. O homem parecia um nobre.

- Dás um belo príncipe, Oswald - disse a rainha. - Estás pronto para desempenhar o teu papel?

Oswald fez uma nova vénia, virou-lhe as costas e gritou num tom forte:

- Podem ir! Retirem-se! - Virou-se para a rainha e perguntou com delicadeza: - Acham que será o suficiente para o que se pretende?

Havia um certo tom de sarcasmo na sua voz e Quentin apercebeu-se, com um sobressalto, que Oswald estava a desempenhar o papel do misterioso Jaspin.

- Penso que está muito bem... e tenho esperanças de não vir a perder o meu camareiro. É capaz de gostar de ser um príncipe... mas não um patife como Jaspin, é claro!

Oswald retirou-se para a antecâmara. Quentin ouviu o eco das ordens dadas ao guarda. A rainha virou-se para Quentin e declarou;

- Está na hora. Segue o guarda, que te conduzirá à porta traseira. Os cavalos estarão aí à espera, com provisões. iremos também, logo que seja possível. Depressa. vai!

Quentin seguiu o guarda, um homem baixo e forte como um touro, de olhos negros e um cabelo preto encrespado. Tinha todo o aspecto do soldado que já fora. Quentin não se afastou da esteira do homem, enquanto avançavam por corredores escusos e por passagens pouco frequentadas.

Caminharam depressa, sem pararem para olhar para a esquerda ou para a direita, mas mesmo assim os olhos de Quentin captaram visões de salas muito mais opulentas e luxuosas do que as que a sua mente imaginara possíveis. Ansiava por poder parar e olhar para elas, a partir dos corredores. Passaram por vários apartamentos privados, pelo armeiro, por antecâmaras e câmaras. A certa altura cruzaram uma enorme entrada com duas gigantescas portas de carvalho esculpido. abertas de par em par como que para lhes dar as boas-vindas. No interior. uma dupla colunata suportava um imenso tecto em cúpula. de arcos concêntricos, suspenso sobre um vasto salão que parecia conter todos os tesouros do reino. Quentin nunca vira uma coisa assim: o salão era suficientemente grande para engolir inteiro todo o templo de Ariel. Trenn. o guarda, ao ver os olhos de Quentin a esbugalharem-se enquanto avançavam, explicou:

- É o grande salão do Rei Dragão. Não há outro como ele em todo o mundo.

Quentin não duvidou. nem por um instante.

Mal o guarda acabara de falar quando se virou como um raio, atirando-se a Quentin e agarrando-o pela túnica, por detrás do pescoço. Quentin ficou surpreendido e chocado. Esperneou como uma marioneta e bateu no homem, agitando os braços e as pernas.

- Anda, rufião, ou lanço-te aos cães! - rugiu o guarda.

- Precisas de ajuda, Trenn?

A voz provinha de detrás de Quentin. Virou-se e viu dois homens ricamente vestidos que avançavam para o grande salão. Pela armadura, um deles deveria ser um cavaleiro, mas de um tipo que Quentin nunca vira. A armadura era de prata e fora polida até atingir um brilho incomparável, e a capa era escarlate. forrada a zibelina tal como as luvas e as botas.

O homem de pé ao lado do cavaleiro usava uma capa de seda brocada, com finíssimos fios de ouro incluídos no tecido. A sua túnica era de um púrpura real, e exibia um grande colar de ouro de onde pendia uma insígnia: um abutre com duas cabeças, uma virada para a direita e outra para a esquerda.

Quentin calculou que o homem que falara fora o cavaleiro, apesar de não ter maneira de o saber.

- Posso tratar disto sozinho. meu senhor - disse Trenn, baixando a cabeça numa cortesia. - Apanhámo-lo na despensa, a encher os bolsos.

- Pois bem, dá-lhe o teu cinturào a provar - disse o nobre, impaciente. Os dois homens viraram as costas e Trenn puxou Quentin para detrás de uma das grandes portas, colocando-lhe uma das mãos sobre a boca.

- Silêncio, jovem senhor! Não podemos permitir que nos descubram aqui, sem motivo! - A seguir retirou a mão fazendo-lhe mais um sinal de aviso, para que não gritasse.

- Quem eram aqueles? - murmurou Quentin. Trenn rolou os olhos para o alto.

- Orphe, isto só visto! Era o príncipe Jaspin e um dos seus nobres, Sir Grenett... e nunca conheci pessoa mais torpe!

- Então vamos embora daqui! - disse Quentin, não vendo motivos para permanecerem nas vizinhanças.

- Não podemos... De um momento para o outro. Oswald irá cair numa armadilha, sem dar por isso. Temos de fazer qualquer coisa para o evitar!

O plano que tinham preparado era muito simples, mas existiam elementos de risco. O camareiro, Oswald, faria o papel do principe Jaspin. depois de obter, às escondidas, algumas das roupas do príncipe. Seria enviada uma falsa mensagem ao responsável pelas masmorras, para que colocasse o novo prisioneiro sob guarda e o levasse ao grande salão, que fora o único lugar de que os conspiradores se tinham lembrado onde era improvável que o príncipe Jaspin aparecesse. Porém. como acontece com frequência, os seus piores receios tinham-se materializado em forca.

O príncipe Jaspin e um dos seus nobres haviam escolhido precisamente aquele momento para uma conversa particular no grande salão, onde Oswald. disfarçado, apareceria dentro de momentos... e só o audaz Trenn e Quentin estavam a par desse perigo.

- Receio que os deuses estejam contra nós. jovem senhor. Dentro de instantes irá aparecer Oswald, e logo a seguir trarão o prisioneiro... já se podiam escutar passos no fundo do corredor. Oswald apressava-se em direcção ao salão. - Só temos uma solução - afirmou Trenn. - Uma diversão,

Espreitou pela beira da grande porta e apontou na diagonal. para o outro lado do salão, para o arco obscuro de uma alcova.

- Estás a ver aquela porta além? - perguntou. - É o armazém das mesas, bancos, e de tudo o mais que enche o salão nos dias festivos. Também lá está uma grande quantidade de bandeiras, pendões e outras bugigangas. Pega-lhes fogo! - Colocou nas mãos indecisas de Quentin uma pequena pederneira e um ferro, presos por um fio de couro, que usava numa bolsa, à cintura. - Irei logo atrás de ti, a gritar, para lhes chamar as atenções. Quando me ouvires chamar, deixa tudo e vem. Não teremos muito tempo... mas talvez seja o suficiente.

- Compreendo.

- Vai, então. - Trenn empurrou Quentin com tanta força que o rapaz caiu à entrada do grande salão, largando a pederneira e o ferro, que tilintaram e deslizaram pelo chão de mármore negro, indo parar a menos de cinco passos do local onde o príncipe Jaspin e Sir Grenett se tinham detido para conferenciar.

Quentin pôs-se de pé num salto e mergulhou para apanhar a pederneira e o ferro. Atrás dele, Trenn gritou:

- Agarrem! Agarrem esse ladrão!

O príncipe Jaspin e Sir Grenett viraram-se a tempo de verem Quentin precipitar-se na sua direcção, baixar-se para apanhar o utensílio perdido, e fugir a correr. Sir Grenett, sem pensar, correu atrás do jovem fugitivo, mas o príncipe Jaspin, considerando que era uma pouco oportuna interrupção dos seus importantes assuntos, deixou-se ficar no seu lugar, furioso.

Quentin alcançou a porta do armazém e puxou pelo fecho de ferro com a mão. A porta estava fechada por dentro... Não, cedeu um pouco, mas Sir Grenett estava quase a apanhá-lo. Servindo-se de todo o seu peso, Quentin conseguiu fazer funcionar o fecho, abrir uma nesga da porta, esgueirar-se para o interior e fechá-la outra vez, tudo quase num único movimento. O punho de Sir Grenett já batia na porta quando Quentin a travou por dentro.

A sala estava numa escuridão quase total. A única fraca luz que conseguia abrir caminho provinha de uma estreita seteira colocada no alto, na parede. Acompanhado pela voz excitada de Trenn, pelo tos de Sír Grenett e pelos murros dos dois homens sobre a porta. Quentin cambaleou para a frente e descobriu, a um canto do quarto, as bandeiras colocadas em suportes. Atirou-as ao chão e começou a esfregar o ferro na pederneira. O esforço pareceu-lhe fútil: não havia uma bandeira rasgada. ou um fio em que uma faísca pudesse pegar. Olhou em volta furiosamente, procurando outra coisa qualquer com que iniciar as chamas. No chão, avistou um bocado de pergaminho, uma proclamação, qualquer espécie, que fora lida numa festa há muito esquecida. Pegou-lhe e correu para junto da porta, amarrotando o pergaminho nas mãos. Atirou-o para o chão mesmo em frente da porta, e fez saltar a faísca com o ferro e a pederneira. A faísca pegou na pele velha e ressequida. Soprou com cuidado e a faísca ganhou vida e transformou-se numa chama. A tremer, Quentin colocou o pergaminho a arder ji da fenda inferior da porta e soprou, enviando o fumo para o outro lado.

- Fogo! - ribombou a voz de Trenn. - O patife pegou fogo armazém!

O príncipe Jaspin, cada vez mais impaciente com a impertinência daquele pretenso jovem patife, aproximou-se, a ferver, do local onde Trenn e Sir Grenett davam murros na porta.

- Chamem os guardas! Quero esta porta deitada abaixo imediatamente! - gritou.

- Toda a sala será um braseiro antes de termos tempo para isso, - objectou Trenn. - Meu senhor, permita-me que permaneça a( enquanto Sir Grenett dá a volta até à outra porta, pela antecâmara

- Se bem me recordo, essa sala tem mais duas dessas entradas - explicou o exasperado príncipe, a perder a paciência.

- O meu senhor poderia tratar da outra... - sugeriu Trenn.

O príncipe pareceu querer pôr de parte aquele plano, mas o fumo já se levantava em turbilhões entre os pés deles.

- Por Azrael! Eu próprio arrancarei a pele a esse patife, com o chicote. - praguejou Jaspin, correndo para ir à procura da outra porta, cuja localização conhecia apenas de uma maneira muito vaga. - Sír Grenett! - gritou - ocupe a sua posição. Acabaremos instantaneamente com esta vexação.

Afastaram-se os dois, dirigindo-se para as respectivas portas. Logo que ficaram fora das vistas, Trenn chamou, com o rosto junto da porta.

- já se foram embora. Vamo-nos daqui!

Ao ouvir o sinal, Quentin emergiu do armazém, a tossir. O pergaminho fora completamente consumido e jazia agora no chão, transformado em cinzas. Trenn agarrou-o pelo braço com tanta força que pareceu querer arrancar-lho, e puxou-o para longe. Na entrada do grande salão deparou-se-lhes um confuso Oswald, que estivera a espreitar, receoso, para a cena que tivera lugar.

- O nosso plano foi descoberto... - murmurou, quando chegaram junto Dele.

- Não... - replicou Trenn num tom abafado - mas não fiques aqui toda a noite! Conseguimos mais alguns minutos. Trata do que tens a fazer e foge!

Oswald não pareceu muito convencido, mas o barulho de vozes no corredor por detrás dele, e uma rápida olhadela ao carcereiro e aos guardas que avançavam para eles com o prisioneiro obrigaram-no a decidir-se. O camareiro avançou para o outro lado do salão e ocupou a sua posição, de costas viradas para a entrada. Trenn e Quentin não ficaram no local para verem o fim daquele drama, e apressaram-se em direcção ao local de encontro, a porta das traseiras.

Quentin sentiu no rosto a mordidela do ar gelado quando se precipitaram para o exterior do castelo, para o vasto espaço do pátio. Trenn e Quentin deslizaram como sombras sobre a neve, passaram sob um baixo arco de pedra aberto numa parede e entraram no pequeno pátio de um posto da guarda. Na brancura do pátio encontravam-se três cavalos carregados com provisões. junto deles viram um dos membros da guarda de Trenn, que verificava as selas e os arreios.

- Está tudo em ordem, senhor - declarou o guarda quando se aproximaram.

- óptimo - respondeu Trenn. - Vai ver se a levadiça está descida. os outros devem estar a chegar de um momento para o outro.

O homem virou-se e afastou-se à pressa. Trenn lançou um olhar preocupado para o castelo e disse baixinho para Quentin:

- Forçámos um pouco a nossa sorte para chegarmos aqui. Agora o resto é com os deuses. - Calou-se por um instante e acrescentou com uma voz áspera: - Escuta! Vem aí alguém!

 

Quentin tremia de frio. A Lua, muito grande e brilhante, começava a mostrar o seu disco prateado por cima das montanhas orientais, por entre duas torres. Quentin observou-a, numa excitação nervosa, desejoso de se ver longe dali. Estava de pé na neve, segurando as rédeas da montada. que era nem mais nem menos do que o resistente Balder, recuperado dos estábulos da estalagem por intervenção da rainha. Os participantes na emboscada, tendo conseguido a sua presa, não se haviam interessado pelos cavalos, que tinham deixado ficar para trás.

A rainha permanecia ali perto, conversando baixinho com Trenn, que se mostrava teimosamente obstinado a respeito de qualquer coisa que ela lhe dizia.

- Meu bom guarda - dizia a rainha -, não insistiria se pensasse que corrias apenas um ligeiro perigo. O príncipe está raivoso e exige explicações. julga que és responsável por uma qualquer traição contra ele e não gostou nada da partida que lhe pregaram no grande salão. Quando for informado da fuga do prisioneiro, vai exigir a tua cabeça.

- Como pode ele saber que tive alguma coisa que ver com o seu precioso prisioneiro? - objectou Trenn.

- Aquele que suspeita de todos não necessita de razões para suspeitar de quem quer que seja. Jaspin ficará desconfiado e depois, no mínimo, servir-se-á da tua morte como exemplo para os que queiram interferir com ele. Não é seguro deixares-te ficar para trás.

- já aturei a sua ira muitas outras vezes. Conseguirei suportá-la.

- Desta vez não o conseguirás. Só se contentará com a tua cabeça espetada numa lança. Tens de vir connosco.

Nesse momento surgiram duas figuras a correr do arco de pedra. A da frente era alta e escura, e a segunda, com a capa a brilhar ao luar, seguia-a de perto.

- Theido! - gritou Quentin, quando os dois homens se lhes juntaram.

- Quentin! És tu? - perguntou o homem, com alguma surpresa.

- Despachem-se - interveio Trenn. - De verdade que não há um momento a perder. Têm de partir!

- Trenn, tu vens connosco - afirmou a rainha com firmeza, virando-se para um dos guardas que se encontravam ali perto: Preparem outro cavalo!

- Não há tempo, minha senhora - protestou o teimoso guarda. - Poderei ser-vos mais útil se me encontrar no castelo. Vão e não se preocupem comigo.

- Sim, têm de ir imediatamente - declarou Oswald. - O carcereiro em breve mandará buscar o prisioneiro. Quando descobrirem que desapareceu, Jaspin ficará a saber que houve uma traição.

Quentin encontrava-se já na sela do grande cavalo de batalha. Balder fungava e sacudia a cabeça. As rédeas tilintavam no ar gelado, fazendo Quentin recordar-se de pequenas campaínhas de orações escutadas de muito longe. Theido montou o seu próprio cavalo castanho e o animal agitou-se e martelou com os cascos no chão, como que a dizer: "já chegou o momento! Vamos!"

Com a ajuda da mão firme de Trenn, a rainha trepou para a sela, dando a Oswald as suas últimas instruções.

- Jaspin não pode ter motivos para suspeitar da minha ausência durante pelo menos dois dias. Engana-o durante tanto tempo quanto fores capaz. Faz com que toda a gente acredite que estou de cama com uma súbita doença e que não devo ser incomodada. As minhas aias deverão comportar-se como se me encontrasse nessas condições... e tu próprio te deves esquecer que sabes que não é verdade!

Oswald respondeu com uma vénia e Trenn fez sinal a um dos seus homens para abrirem o portão. Os cavaleiros partiram. Os cascos dos cavalos martelaram no pavimento de pedra da estrada que dava para a porta, ecoaram sobre as tábuas da pequena ponte levadiça lançada sobre a fossa que separava a poterna da casa dos guardas do portão. Prosseguiram ao longo da passagem amuralhada que seguia a vertente pronunciada da colina rochosa em que o castelo fora construído. Quando cavalgaram por cima da última ponte, ultrapassando o segundo fosso seco, Theido virou-se na sela e deteve-se por instantes, esperando que os outros ficassem a seu lado.

- Para além de todos os outros a quem possa ter de agradecer a minha liberdade, agradeço ao meu amigo Quentin - declarou, fazendo uma vénia na sela. Virou-se para a rainha Alinea e acrescentou: - Agradeço também à sua influente amiga.

- Teremos todos de agradecer pelo nosso cativeiro se não nos formos embora daqui bem depressa - respondeu a rainha com uma gargalhada, para depois continuar num tom mais sério: - Meu bom Theido, lamento muito os abusos que cometeram sobre ti, mas talvez os deuses ainda tenham um plano para desfazer todo o mal que o príncipe Jaspin já fez. Pela minha parte, estou contente por ainda estares vivo e te encontrares a meu lado. A nenhum outro confiaria a minha segurança de tão boa vontade.

- Senhora, ainda nem sequer vimos o princípio do nosso percurso. Pode acontecer que venhais a ter motivos para amaldiçoar aquele a quem agora prestais tantas honras.

- Não. já muitas vezes vi a tua coragem ser posta à prova. Não tenho apreensões, sejam quais forem os perigos que temos pela frente.

- Mesmo assim, ainda não é tarde para voltar para trás...

A rainha interrompeu-o, dizendo:

- Tomei a minha decisão e vou mantê-la. Não podia continuar a viver naquela fortaleza depois de saber o que Jaspin. fez... e até que ponto são grandes as suas ambições. Depois de as conhecer, a minha vida seria tão frágil como a do veado apanhado na rede. - Respirou fundo e virou o rosto para leste - Não... o meu futuro jaz naquela direcção. O meu rei aguarda-me.

Theido sacudiu as rédeas.

- Então... partamos!

Os cavalos avançaram na neve, fazendo saltar brilhantes diamantes sob a luz prateada. As sombras dos três cavaleiros oscilavam e deslizavam em silêncio no suave vazio. Eram três sombras em fuga precipitando-se por um mundo adormecido. Fugiam para longe, para leste, na direcção da sombra negra da floresta de Pelgn!n, com as suas formas escuras desenhadas na colher de prata da neve, pela Lua de Inverno que se erguia no céu.

Quentin mantinha-se dobrado sobre o animal, agarrado ao pescoço de Balder, pois abandonara toda a esperança de se manter junto dos outros a não ser que desse rédea livre à sua montada. Não era um bom cavaleiro, pois o templo tinha muito pouco uso para cavalos. Essa parte da sua educação fora negligenciada, a favor de outros estudos mais sacerdotais. Por isso seguia agora encolhido contra o vento, fustigado pelo esvoaçar da crina de Balder,. espreitando para a noite, pestanejando para libertar as lágrimas de gelo, e aguentando a neve atirada pelos cascos dos cavalos que seguiam na sua frente.

A Lua pairava no zénite quando atingiram as primeiras, e dispersas, franjas da floresta. Theido continuava a sua corrida, às curvas por entre as pequenas árvores e arbustos. até o último cavaleiro se encontrar no meio do arvoredo mais denso. Aí chegado, à beira da floresta, Theido puxou as rédeas e parou, para dar um curto descanso aos cavalos. Todos se viraram nas selas para olharem para Askelon, agora a muitos quilómetros de distância. Quentin torceu o pescoço para poder ver o castelo, vagamente delineado pelo luar, erguendo-se como uma montanha, formando uma sombra negra de encontro a uma noite ainda mais negra. Por cima das suas cabeças, um milhar de estrelas lançava brilhantes dardos de luz fria sobre eles. Os cavalos libertavam brancos farrapos de vapor.

- Devemos chegar à cabana de Durwin com a madrugada - disse Theido, virando-se mais uma vez para a vasta extensão branca que tinham atravessado. - Não vejo que nos tenham seguido, mas creio que é melhor contar com isso. Podem ter a certeza de que tentarão deter-nos. A nossa única esperança está em manter um avanço tão grande que os seus esforços surjam demasiado tarde.

- Poderemos ganhar vantagem ou perdê-los durante o caminho -sugeriu a rainha.

- É possível. De qualquer modo, é a nossa melhor solução. Jaspin tem muitos espiões por todo o país e muitas pessoas que lhe devem grandes favores. Tentaremos servir-nos deles. Se os conseguirmos enganar durante tempo suficiente, acabaremos por os perder quando saírmos desta região. Caminharemos tão em silêncio através de Pelgrin quanto seja possível a um grupo a deslocar-se depressa. Contudo. terei de fazer uma paragem ao longo do caminho e dentro de pouco tempo. - Theido encaminhou o cavalo para a floresta e os outros seguiram-no.

Quentin descobriu que o avanço era mais fácil. Agora podia manter-se mais a direito na sela, apesar de os ramos mais baixos o obrigarem a dobrar-se e a desviar-se a todo o momento. Theido prosseguiu num passo incansável durante quase duas horas, tanto quanto Quentin conseguiu calcular pela posição da Lua, que de vez em quando se esforçava por avistar por entre aberturas nas árvores, que lhe permitiam ver o céu.

Mantiveram-se ao lado da estrada principal que atravessava a floresta. e acabaram por atingir um velho carvalho de dimensões imensas, maior do que qualquer outro dos que Quentín vira até aí. Theido pediu que parassem, e depois avançou alguns passos sozinho. A seguir descalçou uma luva, levou dois dedos à boca e soltou um assobio baixo. Repetiu o assobio e trotou de volta para o local onde Quentin e a rainha o aguardavam. Preparava-se para falar quando se ouviu um longo e agudo assobio de resposta.

- Vamos - disse Theido -. já podemos avançar.

Saíram do caminho, junto do carvalho. e Quentin avistou uma estreita abertura entre dois matagais maciços e impenetráveis. O espaço era suficiente para permitir a passagem de um único homem a cavalo. ou a pé... desde que se conhecesse o local. pois este encontrava-se perfeitamente escondido por detrás do velho carvalho. Através daquela muralha de verdura, os cavaleiros entraram numa clareira em forma de taça. O terreno descia suavemente na frente deles. para voltar depois a subir do outro lado. onde havia um rebordo rochoso coroado com bétulas jovens, numa pequena colina. A toda a volta da circunferência da colina cresciam arbustos, espessos e negros sob o luar.

Theido levou o grupo para o centro da "taça", onde esperaram. Quentin não conseguia imaginar por que motivo ali tinham ido, ou quem respondera ao sinal de Theido. porque fora óbvio que se tratara de um sinal. Não teve de esperar muito para conhecer as respostas a todas essas questões. Sentado na sela, observou o limitado horizonte do vale e nada viu de especial mas. quando ainda se encontrava a olhar, apercebeu-se que os arbustos pareciam estar vivos... e que cada um deles era um homem disfarçado por uma hábil camuflagem de ramos e folhas. fixos às costas e ombros. Quentin ficou fascinado ao ver aqueles "arbustos>, a porem-se de pé e a aproximarem-se. Ao todo, eram dezasseis. O líder parecia ser um homem enorme, com um chapéu de folhas secas puxado muito para baixo, para cima do rosto. Aproximou-se com um grande à vontade e parou directamente em frente de Theido, fazendo uma vénia e dizendo:

- Uma muito boa-noite para si, Sir Falcão. O seu sinal fez-nos despertar de um longo sono de Inverno. No entanto, estamos sempre prontos para o ser-vir, e aos seus, a qualquer hora ou seja qual for a necessidade. Em que lhe podemos ser úteis?

- És muito amável. Voss. Neste momento só quero falar contigo e a seguir poderão voltar para a vossa confortável toca.

O homem fez nova vénia e Quentin pôde ver o seu rosto largo bem-disposto sob o luar que enchia a clareira, reflectindo-se no chão coberto de neve. Voss fez um sinal para os seus homens, e instantaneamente os cavaleiros viram-se rodeados por uma estranha mistura de cabeças, braços e ramos. Cada um dos homens transportava uma pequena espada e um comprido arco. Quentin não viu setas, mas calculou que estivessem escondidas no meio da camuflagem.

- Esta manhã, fui feito prisioneiro por homens sob as ordens de Jaspin.

- Cães! - cuspiu Voss. O círculo de homens-arbustos soltou murmúrios ameaçadores. Quentin ficou com a impressão de que se Jaspin, ou quaisquer cinquenta dos seus homens, estivessem ao alcance dos arcos naquele momento, já exibiriam penas a enfeitarem-lhes os corpos. - Como foi que o conseguiram?

- Não sei, mas esse assunto não tem grande importância. Neste momento estou em liberdade graças à intervenção rápida destes meus amigos. - Theido fez um aceno na direcção de Quentin e da rainha.

Os homens-arbustos fizeram uma vénia em conjunto e Voss falou em nome de todos, afirmando:

- Pelgrin nunca vos deixará ficar mal enquanto um de nós estiver acordado e a respirar. Um assobio, assim... - e Voss assobiou - trará ajuda e salvação, tanto das garras dos homens como dos animais. Se a vossa necessidade for de alimentos ou abrigo, terão cama e mesa junto de nós enquanto as barrigas tiverem fome ou os olhos quiserem dormir.

- Aceitaremos a vossa generosa oferta, bravo homem - disse a rainha. - Podes estar seguro de que se alguma vez tiver tais necessidades, apelarei ao cumprimento dessa promessa.

- Por favor... - interrompeu-os Theido. - Não vos incomodaremos mais esta noite, excepto para dizer que iremos directamente para a cabana do santo eremita, Durwin. Muito provavelmente seremos seguidos... se é que não o somos já. Gostaria de ter um vigia no nosso caminho e de ser avisado a tempo logo que algum dos homens do príncipe entrar nestes bosques.

- isso é tão fácil de dizer... - respondeu o habitante da floresta, acenando para vários dos seus companheiros, que se afastaram imediatamente, desaparecendo na floresta tão silenciosamente como sombras - como de fazer. Mais alguma coisa?

- Talvez venha a ser necessário pôr à prova as vossas capacidades, mas penso que não será para já. Vamos partir e agradecemos toda a vossa ajuda. Poderemos não ter tempo para o fazer mais tarde.

- Não são necessários agradecimentos - replicou Voss com um largo sorriso. - Estamos mais que satisfeitos por podermos pagar, em espécie, os serviços que nos foram prestados muitas vezes. A caminho! - gritou de repente, dando uma palmada no pescoço dos cavalos. -Talvez ainda possam sonhar um pouco, antes da madrugada.

Theido saudou o corpulento habitante da floresta e fez uma vénia para o círculo de homens que os rodeavam. Retribuíram a saudação, erguendo os arcos no ar e dizendo:

- Que Ariel vos guie!

Três homens avançaram espontaneamente, pegaram nas rédeas dos cavalos e conduziram-nos para a floresta. Quentin olhou para trás, sobre o ombro, para onde Voss e os restantes continuavam a observá-los. Acenou-lhe e os homens-arbustos acenaram-lhe de volta. Quentin ficou a olhá-los até a floresta se cerrar mais uma vez à sua volta.

 

Quentin acordou ao cheiro de carne a assar, temperada com especiarias perfumadas. O aroma despertou-o, fazendo-lhe crescer água na boca e provocando-lhe uma dor no estômago vazio. Parecia-lhe que se passara um mês desde que comera pela última vez.

As pálpebras pesavam-lhe como chumbo e não tinha forças para as abrir. Assim, deixou-se ficar num estado de animação suspensa, acordado mas imóvel, tentando reunir os seus pensamentos e convencer as pernas - que se mostravam muito relutantes - a moverem-se. Nos dois casos, obteve apenas um êxito parcial. Por fim, dominado pela fome e incitado pelos agradáveis odores que pairavam à sua volta, empurrou a capa para um lado e retirou as palhas que tinha agarradas aos cabelos.

Escutou vozes. Lutando para se pôr de pé e sair do canto, seco e cheio de palha, que lhe servira de cama, aproximou-se da comprida mesa do eremita, onde Theido e Durwin murmuravam um para o outro.

- então temos de ter todas as cautelas. Qualquer erro pode vir a ser fatal. Está tanta coisa em jogo... - Quentin ouviu esta agourenta afirmação quando se aproximou da mesa. Era Durwin quem estava a falar. - Teremos de nos armar. Não vejo outra alternativa,

- Não - replicou Theido com suavidade, mas com a voz tingida por uma teimosa objecção. - Não te posso pedir uma coisa dessas. Deve haver outra maneira.

Quando Quentin chegou junto da mesa, os dois homens interromperam a conversa de repente e saudaram-no com entusiasmo.

- Durwin, o nosso jovem acólito salvou-me a vida, ontem. já to contei? - perguntou Theido, levantando na direcção de Quentin uma taça cheia de um líquido fumegante, enquanto Durwin se apressava a colocar na sua frente uma malga de papas quentes e pão.

- Sim, já mo contaste, mas apenas trezentas vezes desde que nos levantámos. Terei todo o prazer em ouvir outra vez a história - replicou o eremita.

Theido voltou a narrar, em termos brilhantes, tudo o que acontecera na manhã anterior, desde a sua captura à ousada fuga e à cavalgada sob o luar.

- Se não fosse o meu jovem amigo ter desobedecido às ordens., hoje eu seria alimento para os mochos.

- Desobedecer? Quando foi que desobedeci? - protestou Quentin.

- Recebeste instruções para cavalgares de volta aqui se me acontecesse alguma coisa ou os planos falhassem.

Quentin recordou-se da ordem. O susto e a confusão da emboscada tinham sido tais que lha haviam varrido da cabeça. Depois, de qualquer modo, tivera a sorte de conseguir um plano melhor.

- Quentin - continuou Theido -, ficas absolvido de todos os teus erros, mas agora tenho de salientar uma coisa: nunca mais desobedeças às minhas ordens. Cumpre-as, sem te importares com qual possa ser o resultado. Compreendes?

- Sim, senhor! - respondeu Quentin, incerto. Ainda minutos antes fora louvado pela sua coragem e iniciativa... e agora sentia-se severamente repreendido.

- Ora... - fez Durwin. - Não sejas tão cabeçudo, Theido. Creio que o deus interveio com uma ordem sua. Sou eu que to digo, o deus está a interferir neste assunto. - O santo eremita acenou uma aprovação para Quentin, que ficou satisfeito com aquela afirmação.

- Obedecerei até ao mínimo pormenor - declarou Quentin. Sentou-se no banco, começou a partir o pão em bocados e a remexê-los na fumegante papa. - Agora, posso perguntar uma coisa que me tem andado a intrigar?

- Pergunta. Não haverá segredos entre nós.

- Porque é que aqueles homens o trataram por Falcão?

- Por causa do brasão da minha família: o falcão caçador. Entre os homens da floresta, e outros que por aí andam, sou conhecido por Falcão. Consideram-me um fora-da-lei como eles próprios. - Encolheu os ombros. - Isso agrada-lhes e permite-me a liberdade de me deslocar onde um nome diferente seria um empecilho. - Calou-se mas depois acrescentou num tom mais leve: - Os meus amigos, como sempre, conhecem-me por Theido.

- E nenhum que conheça esse nome poderia desejar um amigo mais verdadeiro. - Era a voz da rainha, agora de pé, atrás de Quentin, Fora acordada pelo som das vozes e aproximara-se silenciosamente da mesa. Durwin, parecendo um pouco corado, apressou-se a oferecer-lhe o melhor lugar à mesa, o seu.

- Majestade... - disse, fazendo uma vénia pela cintura - sinto-me honrado por vos receber na minha humilde casa.

- A vossa amabilidade foi apreciada - respondeu a rainha, deslizando para o lugar que lhe fora oferecido. - Porém, a partir de agora, tratem-me apenas por Alinea. Pus a coroa de lado e não serei rainha até que o meu rei regresse para reclamar o seu trono e redimir o meu.

- Será como desejais, Alinea - replicou Durwin com gentileza. Tinha o dom de se relacionar bem com toda a gente, importante ou não, e de fazer as pessoas sentirem-se honradas e bem recebidas na sua casa. Quentin também o sentira desde o primeiro momento. - Agora, acabaram-se as conversas até quebrarmos o nosso jejum...

O príncipe Jaspin corria, furioso e de olhos vermelhos, pelos corredores do antigo castelo. Não dormira durante toda a noite e acabara de ser informado de que a rainha caíra de cama, doente, e que não queria ver ninguém nem receber mensagens. Esse facto fizera-o perder a oportunidade de a interrogar. O príncipe estava irado.

Durante a noite mandara mensageiros à maior parte dos nobres que se encontravam ao seu alcance, marcando uma reunião para o meio-dia, para serem informados de um plano que estudava havia algum tempo. A sua fúria por ter perdido o prisioneiro levava-o a implementá-lo sem mais demoras.

Penetrou na Câmara do Conselho com o rosto magro vermelho de ira e exaustão. Aguardava-o aí um grupo de nobres e cavaleiros, debaixo dos seus pendões e bandeiras. Muitos deles mostravam sinais de terem cavalgado muito e com grande esforço para poderem estar presentes à hora aprazada.

- Meus senhores, por favor sentem-se. Temos muito que discutir. - Todos lhe fizeram uma vénia quando Jaspin lhes fez sinal que avançassem para cadeiras colocadas em volta de uma comprida mesa. Apontou a cadeira à sua direita para Sir Bran e outra à sua esquerda para o musculoso Sir Grenett. Perto deles sentou-se um homem de olhos estreitos e astutos e uma boca saliente e descaída, um homem de inorme riqueza, que estava decidido a ser o primeiro-ministro do novo monarca. Chamava-se Ontescue, um nome pouco apreciado pelos servos que trabalhavam as suas terras e que tinham de suportar o fardo das suas dispendiosas ambições.

- Meu senhor, tendes um aspecto adoentado esta manhã. Espero que o vosso sono não tenha sido perturbado. - Disse Ontescue, que calculara que o príncipe procurava uma oportunidade para se lançar numa narrativa de toda aquela agitação. Queria ser ele a servir de ouvinte atento.

- É verdade, não dormi a noite passada, mas essa questão fica para outra vez. - O príncipe pôs de parte a oportunidade de desabafar os seus problemas, pois tinha um outro assunto, de importância mais imediata. -Meus senhores, a vossa presença é gratificante. Todos sabemos demasiado bem que o nosso reino está há muito tempo sem um monarca, e que na sua ausência é governado pelo Conselho de Regentes. Descobri provas de que certos nobres desse Conselho têm ajudado os fora-da-lei nas suas campanhas de roubos e desafios, em todas as florestas deste país.

"Foi apenas ontem que os meus homens aprisionaram o príncipe desses fora-da-lei... e que o tinha em segurança dentro destas muralhas, até nos poder informar sobre o seu bando e sobre os líderes de outros grupos de fora-da-lei, com quem está bem relacionado.

"O meu desejo é libertar os bosques e colinas desses lobos rapinantes, para devolver as estradas ao povo e ao comércio. Contudo, ainda antes de conseguir pôr os olhos em cima desse chefe de bandidos, o mesmo foi posto em liberdade por companheiros de elevada posição e títulos. Não consegui apoderar-me dos homens que libertaram o vilão, mas sei quem lhes deu as ordens. - Jaspin fez uma pausa. Conseguira a atenção de todos os olhos e ouvidos. - Lord Weldon e Lord Larcott!

Ouviu-se imediatamente um grito.

- Impossível! - Lord Larcott, batendo com o punho sobre a mesa, estava de pé, protestando a sua inocência. Lord Weldon permanecia no seu lugar, estupefacto. Os outros senhores e cavaleiros afogaram os protestos de Larcott com os seus próprios gritos, exigindo justiça.

O príncipe Jaspin levantou uma das mãos e exigiu silêncio.

- Como nobres senhores deste reino, irão ter a oportunidade de responderem pelas acusações que vos são feitas. De momento, e até chegar a altura de serem ouvidos sobre os vossos crimes, apresentar-se-ão na torre para aí serem confinados. - Com um aceno da cabeça, o príncipe Jaspin chamou quatro guardas armados para acompanharem Larcott e Weldon ás masmorras. O furor continuou ao longo da mesa da reunião, enquanto os dois infelizes eram agarrados e conduzidos sob os empurrões dos guardas. Lord Larcott ainda gritou, e todos o puderam ouvir:

- Por Zoar, pagarás por este ultraje! Ainda verei a tua cabeça espetada numa lança!

Lord Weldon deixou-se levar em silêncio, com um ar de profundo desespero e desgosto estampado no rosto acinzentado. Os que lhe viram essa expressão viraram a cara à pressa: os olhos do homem pareciam perfurar as almas de todos os que o acusavam.

Depois de saírem e de a ordem ter sido restaurada, o príncipe Jaspin lançou-se no que constituía a parte principal do seu plano: preencher os dois lugares que acabavam de ficar vagos no Conselho de Regentes.

- Nobres senhores. como sabeis, o povo está cada vez mais dependente de uma liderança forte, para manter a ordem sobre a nossa terra. Proponho, portanto, que elejamos agora dois novos membros do Conselho, e que o façamos sem demoras.

- Bravo, bravo! - gritaram os nobres que se encontravam sob a influência de Jaspin, deliciados com aquela demonstração de liderança eficiente e cheia de visão. Depois, quando a agitação voltou mais uma vez a acalmar-se, uma figura levantou-se do seu lugar.

- Não posso concordar com uma tal acção - disse Lord HoIben. um cavaleiro de não pequeno renome. Era amigo de Larcott, e fora um dos escolhidos pelo rei Esicevar para se sentar no Conselho de Regentes. - Eleger novos membros para este Conselho seria declarar a culpa dos membros anteriores. Não foram apresentados mandados da justiça, não foram afixados os decretos. Uma vez que envolve membros da nobreza, é um assunto da mais alta importância, que só poderá ser julgado pelo rei, quando do seu regresso. - Lord Holben calou-se e sentou-se.

- Tem razão - disse alguém. Os outros protestaram.

- O assunto não pode esperar!

A Câmara do Conselho ressoou mais uma vez com as vozes dos contendores, até que Ontescue levantou as Mãos e conseguiu reduzir aquele tumulto ao silêncio.

- De certeza que o príncipe pretende apenas defender os melhores interesses do reino. Por esse motivo, submeto~me à decisão do príncipe Jaspin no que se refere a este caso - declarou Ontescue, com um aceno e um sorriso contorcido na direcção do príncipe.

- Também me submeto - afirmou Sir Bran. A sua opinião foi apoiada por Sir Grenett, que depois lançou olhadelas furiosas ao longo da mesa, desafiando alguém a contrariá-lo. A maioria, de boa vontade ou com relutância, acabou por se por do lado deles, com a oposição apenas de Lord Holben e de vários dos seus vizinhos, que não tinham grande simpatia porJaspin.

- Pois eu defendo a justiça do rei nesta questão. Não devem ser tomadas novas medidas contra os acusados por este crime - declarou Holben. - O caso fica assim até ao regresso do rei.

- Muito bem - retorquiu Jaspin, irritado. - De momento, o assunto não terá andamento. De qualquer modo, deixar lugares vazios no Conselho de Regentes é igualmente uma violação das leis reais. Dois novos membros deverão preencher esses lugares. Uma vez que estamos todos aqui reunidos, não vejo razões para não procedermos à eleição dos novos regentes.

Lord Holben começou a pôr-se de pé para exprimir as suas objecções, mas os gritos dos lacaios de Jaspin. impediram-no de falar.

- Muito bem - repetiu Jaspin. - Uma vez que a assembleia está de acordo,

proponho-me apresentar os nomes de Sir Bran e Sir Grenett para a vossa recomendação.

- Recomendo-os! - declarou Ontescue. Esta aprovação ecoou inúmeras vezes enquanto o voto dava a volta à mesa, de homem para homem. Quase todos aprovaram de boa vontade a escolha do príncipe, e só se verificaram algumas abstenções no seio do grupo de Lord Holben. O único a ter a ousadia de votar contra foi o próprio Lord Holben.

- Sir Grenett e Sir Bran - declarou o príncipe Jaspin, radiante -, sois agora regentes do reino. Prestareis o vosso juramento dentro dos próximos quinze dias, tal como é requerido pelo decreto real - acrescentou, trocista, fazendo uma vénia para Holben, que contraiu os punhos sobre o colo. - Que dizeis, corajosos cavaleiros? Aceitais a responsabilidade que vos foi dada pelos vossos pares?

- Aceitamos - responderam os dois homens.

Nesse instante verificou-se nova agitação na sala. Por entrejuras iradas, gestos violentos e olhares ameaçadores, Lord Holben e o seu grupo retiravam-se do Conselho de Regentes, numa grande manifestação de protesto. O sorriso que ainda momentos antes encurvava os lábios carnudos do príncipe laspin apagou-se lentamente.

Outros nobres e cavaleiros aproveitaram a oportunidade para se irem embora. rodeados pelos seus pajens e pelos porta-estandartes. cada um dos quais transportava a bandeira e o brasão do seu amo. O príncipe Jaspin levantou-se e chamou Ontescue.

Algumas das vozes não foram suficientemente altas na sua aprovação dos meus novos regentes. Vai ter com eles e amacia-lhes as incerrezas com os meios que achares mais convenientes. Preciso que esses homens, ou tantos quantos for possível conquistar com favores, estejam do meu lado.

- Claro. meu senhor. Como sempre. sabeis qual a melhor posição a tomar. A vossa causa não sofrerá por falta de generosidade da minha parte. Acabarei por os convencer - declarou o candidato a futuro chanceler. Os seus olhos astutos acompanhavam já os nobres que se retiravam, como se calculasse o preço da corrupção para cada um deles.

- óptimo - respondeu o príncipe, acrescentando: -já lhe disse que estou a considerar entregar-lhe Crandall? Não? Pois é verdade. É necessário apenas uma pequena manifestação da sua lealdade para ter essa propriedade garantida. Segundo me informaram, é uma das maiores do reino.

- Sinto-me lisonjeado, meu senhor.

- Vá e mande-me notícias dos seus êxitos logo que lhe seja possível. há outros assuntos a requererem a minha atenção.

Ontescue apressou-se a seguir os outros. envolvendo-se numa conversa privada com cada um deles e pressionando-os com promessas, ouro e declarações de eterna lealdade do príncipe, oleando assim a máquina do Estado com palavras calorosas e grandiosas indulgências.

O príncipe Jaspin apressou-se a sair da Sala do Conselho por uma porta lateral, e dirigiu-se apressadamente para os seus aposentos. em cuja antecâmara o aguardavam cinco homens.

- Estúpidos impertinentes! - resmungou, furioso, ao sair da sala. - Em breve irão ver como Jaspin trata de todos os que levantam problemas! Ah. mas primeiro vamos lançar os "caçadores, sobre o Falcão e os seus miseráveis amigos!

 

- A necessidade é grande... e pode ser já demasiado tarde. Se existisse outra maneira. ou a mais baixo custo, não insistiria. Porém. a escolha é minha. e afirmo que temos de ir para Dekra.

A voz era de Durwin, e tanto quanto Quentin se apercebia. a discussão, que recomeçara logo que a mesa do pequeno-almoço fora limpa. era uma continuação da que ele interrompera anteriormente. Quentin preguiçava debaixo de uma quente mancha de luz de Sol, meio a dormir, sentado no chão sob uma janela de espessos vidros que o baixo Sol de Inverno enchia com uma faixa de luz amarela. Quentin banhava-se naquela luz e deixava que os seus ossos absorvessem o calor.

- Não - retorquiu Theido. de novo a levantar objecções. e com, ou pelo menos Quentin assim o pensou, uma obstinação própria de um deus. - Encontraremos outra maneira. Ainda temos tempo e não sabeinos o que Jaspin prepara...

- Precisamente! Não sabemos quais os planos de Jaspin, mas de certeza que vão ser maus e cruéis. Muito provavelmente a sua malevolência já entrou em marcha. E então Jaspin pretende apenas uma coroa. Nirarood não se satisfará com tão pouco... esse pretende o mundo! Temos de ir para Dekra.

Quentin não sabia o que, ou quem, era Dekra. Todavia. a conversa durava havia tanto tempo que o fizera perder o interesse e batera em retirada para dormitar. A rainha continuava sentada à mesa com os dois homens. mas havia muito que não tinha oportunidade de fazer ouvir a sua voz. Quentin sabia que nada seria resolvido enquanto não fosse solucionado o impasse entre os dois homens.

Levantou-se. bocejou, enrolou a capa em volta do corpo e deslizou silenciosamente para o exterior. O ar frio fazia-lhe arder os pulmões e a violenta luz branca do reflexo do Sol na neve fez-lhe subir lágrimas aos olhos, lágrimas que limpou com as costas da mão. Pela primeira vez desde que deixara o templo, Quentin interrogava-se sobre o que estaria a fazer naquele momento o simpático e amado Biorkes, o seu único amigo entre os sacerdotes do templo. Sem dúvida a trabalhar nos seus remédios... ou a puxar as orelhas de algum pobre acólito por não ter aprendido qualquer coisa. ou não ter lido um rolo de pergaminho...

Quentin ouviu a porta a abrir-se com um estalido e virou-se para ver Alinea a deslizar para junto dele. Ficava tão bela vestida com as roupas das gentes das florestas como com os elegantes trajos de uma rainha. O cabelo brilhava-lhe ao sol e o frio fez-lhe subir ao rosto um leve tom rosado.

- Tens saudades do templo. Quentin? - perguntou-lhe. num tom ligeiro. Alinea olhava-o com um calor e uma compreensão que Quentin raramente encontrara noutras pessoas.

- De certo modo... - respondeu - mas não muitas. Ainda não tive muito tempo para sentir saudades, fosse do que fosse.

- Tens razão - concordou a rainha com uma gargalhada, e a música existia de novo na sua voz. Não a ouvira desde que lhe entregara a mensagem de Ronsard. no momento do primeiro encontro. - Sim, tivemos muito pouco tempo para outras coisas, excepto a fuga. - Sorriu-se. puxou Quentin por um braço e começou a andar. - Conta-me o que fazias no templo. Como é que te tornaste num acólito?

- Não sei. senhora. Era muito novo. Os meus pais morreram na peste que varreu o país durante a Primavera da Morte. Não me recordo deles, nem da minha casa. Por vezes vejo um rosto... que talvez seja o da minha mãe. Vivi quase sempre no templo.

- Então porque é que te ofereceste voluntário para sair se não tinhas outra casa para onde ir?

- Senti... - Quentin hesitou, procurando a palavra apropriada - senti que havia qualquer coisa a empurrar-me. Como se tivesse de o fazer... e fosse essa a minha melhor opção. Nunca antes tive uma sensação semelhante a respeito de qualquer outra coisa.

 

- Deve ter sido uma sensação muito forte. para te obrigar a abandonar tudo o que conhecias... a tua casa. os amigos...

- Não tinha amigos no templo... Apenas Biokis, um dos sacerdotes mais velhos...

- Não te sentias muito solitário?

Ao princípio. Quentin não soube como lhe responder.

- Não... Ou seja. penso que não. O templo é... Os sacerdotes existem para servir o deus. Os acólitos servem os sacerdotes. Há regras e obrigações. Era tudo...

A rainha acenou, pensativa. Quentin não sentira a solidão porque não conhecera nada para além da disciplina rigorosa do templo. onde cada um ocupava o seu lugar e tinha uma tarefa.

- Que estarias a fazer agora se lá estivesses? - perguntou, depois de um prolongado silêncio.

- Oh. a estudar. Tinha muito que aprender... Por vezes até mais do que conseguia dominar. Dentro em pouco estaríamos a prepararmo-nos para o regresso do deus. da sua jornada de Inverno. Chegará na Primavera. como sempre acontece, e o templo tem de estar pronto. Têm de ser executados rituais de purificação. As pedras sagradas têm de ser limpas e ungidas. Há muito que fazer.

- Ali. sim. acredito.

- Depois - continuou Quentin, de olhos a brilhar de excitação. pois começava a ganhar calor com a sua história -. quando tudo está pronto. chega o deus e iniciam-se as celebrações... que se prolongam por semanas. Há festas, e jogos. e muita felicidade. O templo abre-se para os peregrinos que entretanto se amontoaram no exterior das muralhas. e todos se juntam na celebração.

- Sim, são tempos bons para o nosso povo. Eu própria estive nessas celebrações, quando era ainda pequena. Sempre tive medo dos sacerdotes. Pensava que eram eles os deuses.

- Por vezes. também eles pensam que o são - comentou Quentin. com o rosto momentaneamente iluminado por um sorriso. - Ou então... gostam de fazer com que as pessoas acreditem nisso. Porém, penso que deve haver mais qualquer coisa... Não sei... - A voz apagou-se-lhe, incapaz de expressar os sentimentos. Tinham chegado ao sopé da colina, por baixo da cabana do eremita.

- Percebo o que queres dizer. Penso com frequência que os deuses não estão minimamente interessados em nós ou nos nossos problemas. No entanto... mesmo no meio das minhas dúvidas sinto uma presença que não sou capaz de explicar. Algo dentro de mim. Uma ânsia. no meu espírito, por qualquer coisa mais.

- Também já a senti - declarou Quentin com firmeza. - Talvez fosse por isso que preferi partir. já não era capaz de lá ficar mais tempo.

Muitas vezes jazi acordado durante a noite. ardendo com uma estranha febre. Ouvia alguém chamar pelo meu nome, mas no entanto a noite continuava silenciosa à minha volta. Costumava contar essas coisas aos sacerdotes. e respondiam-me que era o deus a chamar-me. que tinha algo de especial preparado para mim. Porém, muito no fundo, sabia que não se tratava disso. Por fim Biorkis disse-me para não voltar a falar no assunto com os outros sacerdotes. Mesmo assim. sempre que ouvia essa voz, ou sentia o fogo dentro de mim. ia ter com Biorkis e conversávamos a esse respeito. Perguntava-me o que eu pensava do seu significado.

- E que era que pensavas?

Quentin respirou fundo e olhou o céu brilhante de sol.

- Não sou um sacerdote. mas penso que se tratava de um deus a chamar-me. Um deus muito maior do que qualquer outro. -Mais elevado, mais sábio... e que me conhecia.

- És um rapaz especial - disse Alinea, levando a mão ao rosto de Quentin. - Soube-o no momento em que te vi, tão nervoso, na minha câmara. Além disso. também sabia que não eras peleiro - acrescentou. soltando uma gargalhada.

O ar pareceu tornar-se mais mordente quando uma rajada de vento soprou em volta das duas figuras. Sem outra palavra, deram meia volta e regressaram. subindo a pequena colina até à cabana.

O príncipe estava enfiado no seu cadeirão de orelhas, remexendo numa macia bolsa de couro cheia de moedas de ouro. Sir Bran e Sir Grenett encontravam-se um de cada lado, e os três homens olhavam. com alguma perturbação, para os três visitantes que tinham na frente. O príncipe Jaspin continuou, depois de pensar por uns instantes:

- Quero-os descobertos e trazidos de volta, a esse Falcão e aos seus amigos, sejam estes quem forem. Não me interessa saber como o conseguirão nem os meios que irão utilizar.

Sir Bran, e Sir Grenett, cavaleiros sem medo e endurecidos por muitas batalhas, encolhiam-se na frente dos "caçadores", homens brutais e violentos, desprovidos de piedade e de qualquer compaixão humana. Os "caçadores". como eram conhecidos em Mensandor, eram os últimos descendentes de um antigo povo do reino, os cruéis Shoth. uma raça selvagem e amante da guerra, que matavam pelo prazer de matar e que tiravam grande satisfação do facto de infligirem dores aos outros.

No decurso de uma longa e interminável história de guerras, os Shoth haviam desenvolvido poderes especiais que lhes permitiam perseguir os seus inimigos com uma precisão inigualável, poderes que os camponeses vulgares consideravam como sobrenaturais: a capacidade de verem no escuro, como os gatos, de sentirem o cheiro de um rasto, de se guiarem pelas emoções intensas das suas presas. Era como se conseguissem captar fragmentos de pensamentos em pleno ar, ou, pelo menos, eram muitos os que assim acreditavam.

No mundo já restavam muito poucos Shoth. Iam morrendo, por teimosia. Porém, os que viviam empregavam-se como soldados mercenários ou como caçadores dos fora-da-lei. Recebiam grandes recompensas dos seus patrões por ambos os serviços. Recompensas tão grandes quanto o desejassem, pois não eram o tipo de homens que alguém quisesse ter como inimigo.

Os "caçadores" eram grandemente receados por todos os que os conhecessem. ou que os encontrassem por acaso, numa daquelas raras ocasiões em que se podia ver um. ou mais, de passagem. De cada lado da cabeça usavam duas compridas tranças, que lhes desciam pelas costas largas. As feições, parecidas com as de lobos e duras como pedra, eram tornadas ainda mais assustadoras pelos desenhos tatuados a azul que lhes cobriam as faces. As roupas eram grosseiras, feitas de peles de animais com o pêlo raspado ou queimado. Calçavam botas macias fabricadas da mesma maneira, com cordões exteriores que iam desde os tornozelos até aos joelhos, Em volta dos pescoços usavam colares feitos de cabelos e de ossos das mãos das vítimas. Nos braços musculosos ostentavam pulseiras de dentes humanos.

Deparar-se-nos um "caçador" era deparar-se-nos o medo. A sua aparência esquisita era friamente planeada para inspirar o terror e para imobilizar as vítimas indefesas.

Transportavam compridas e finas espadas. de lâminas serrilhadas, pelo que um ferimento provocado pela espada de um "caçador" não sarava depressa, nem com facilidade, o que na verdade pouco importava, pois eram muito poucos os que as haviam sentido no corpo e ainda continuavam vivos. Usavam também pequenos escudos de madeira e couro pintados com os grosseiros símbolos da sua religião bárbara, que se dizia incluir sacrifícios humanos regulares. Os "caçadores" que vendiam os seus serviços como pisteiros serviam-se também, com frequência. de aves, em geral falcões, mas também de pequenas águias ou corvos, que os ajudavam a localizar as suas presas humanas a uma grande distância. Essas aves cavalgavam com eles, sobre os peculiares e resistentes cavalos dos "caçadores". instaladas em poleiros ornamentados construídos nas selas, feitos em geral de ossos e peles. os ossos e peles das suas vítimas. Havia quem dissesse que os "caçadores" falavam com as suas aves de mente para mente, tão extraordinária era a comunicação entre os dois tipos de criaturas de rapina.

- São pelo menos três, ou talvez mais. Tenho um relatório de um dos guardas, que viu três cavaleiros a afastarem-se em direcção a Pelgrin a noite passada. - O príncipe Jaspin deteve-se abruptamente e atirou o saco de moedas de ouro para o "caçador>, que se encontrava à frente, que o apanhou com habilidade e o fez desaparecer numa bolsa. no meio das roupas. - Terão ainda mais dinheiro quando regressarem. Serão bem pagos. - Bateu com um punho fechado na palma da outra mão. para dar ênfase às suas palavras: - Quero que os apanhem!

- Assim será feito - respondeu Gwert. o maior dos três "caçadores>,. Então, sem mais uma palavra ou um olhar, os três homens viraram-se e saíram tão silenciosamente como uma nuvem de fumo empurrada pela brisa.

Depois de os ver sair, Sir Bran soltou um profundo sopro por entre os dentes cerrados.

- Meu príncipe, não gosto disto. Preferia que me tivesse pedido a mim e a alguns dos meus homens de armas para trazerem de volta esse prisioneiro. Estes "caçadores"... estes bárbaros... não são de confiança. Entregar-lhe-ào o prisioneiro e seus companheiros, sim... se não se importar de os receber cortados aos bocados.

- Não me importo. - declarou Jaspin, irado. - Só quero que os encontrem e os detenham.

Sir Grenett interveio.

- Meu senhor, porque é que esse homem, esse tal Falcão, é assim uma tão grande ameaça para si? Não passa de um fora-da-lei... E mesmo que fosse um chefe entre os outros. o prejuízo que vos pudesse causar seria sempre inferior ao que tereis de pagar pela sua cabeça. Porque é que o procurais com tanto ardor?

- Isso... - retorquiu o príncipe. raivoso - só a mim diz respeito. Senhor. Não é da vossa conta. - Virou-se para os dois. ameaçador: -Não falarão deste assunto a ninguém. Compreenderam? Além disso... -Jaspin prosseguiu, num tom mais suave - não cabe aos meus novos regentes perderem tempo com tão difíceis perseguições. Há coisas mais importantes para serem feitas.

- Vamos. façamos planos para a nossa pequena surpresa seguinte... - Conduziu-os para a sua mesa. e para um jarro de vinho e taças que se encontravam sobre uma bandeja de prata. Meus amigos. bebo pela vossa saúde e pelo prosseguimento dos vossos êxitos - declarou. levantando a taça até junto da dos outros, depois de as ter enchido. Beberam-nas todos até ao fim e. quando as baixaram, devolveram a saúde que Jaspin fizera:

Ao novo monarca de Askelon.

 

O velho jazia sobre o altar de pedra numa grande e obscurecida sala. As rochas fumegantes colocadas a cada um dos cinco cantos do altar lançavam um brilho estranho e oscilante que ondulava como água sobre o rosto do homem. Este parecia estar a dormir, ou morto, mas mesmo aquele profundo repouso não era suficiente para apagar a malevolência das suas feições. A negra alma que habitava aquele corpo era tão maléfica que contorcia tudo em que tocava. O rosto era uma máscara de ódio, tornada ainda muito mais terrível por se tratar também de um rosto que exibia uma aguda inteligência.

Nimrood afundava-se, ou pelo menos assim lhe parecia, através de camadas de fumo, como se estivesse a cair de uma grande altura. Tinha a cabeça a pulsar. sentia dores abafadas nos membros, mas estava disposto a continuar.

O fumo tomou-se menos denso e acabou por desaparecer completamente. Olhou para baixo e viu a terra sólida a correr sob ele. Ainda a descer muito depressa, mas a planar, e não a cair, o mágico conseguia aperceber-se dos mais pequenos pormenores da paisagem. Para trás dele ficava uma grande cordilheira de montanhas cobertas de neve, as Fiskills, Para a direita, via a longa fita prateada do rio Wilst. agora gelado, no seu ondulante percurso para o mar. Em frente, mas ainda demasiado apagada para se poder ver com clareza, estava a escura massa verde-acinzentada da grande floresta de Pelgrin, parcialmente oculta pelas nuvens. Ainda mais para diante, mas fora das vistas, jazia Askelon, a cidade sobre a colina.

Nimrood abrandou a descida e ouviu o sussurro do ar frio a passar por ele, mas não sentia nada. Fechou os olhos. Quando os abriu outra vez, virou a cabeça e viu uma asa negra subindo e descendo ritmicamente, com o vento a cantar por entre as penas. O feiticeiro tomara a forma de um corvo. Voou em frente, com rapidez.

Ao aproximar-se de Pelgrin, os aguçados olhos de corvo de Ximrood avistaram a forma imprecisa de Askelon, erguendo-se à distância. A luz diminuía e o mundo mergulhava na escuridão de uma longa noite de Inverno. E lá seria noite quando chegasse ao castelo, mas o facto não tinha importância. Nimrood era um amigo da escuridão e de todas as coisas que amavam a escuridão. Servia-se do negrume da noite como capa para ocultar os seus feitos.

Nimrood mergulhara muito profundamente nas artes ocultas e brincara com searedos escondidos desde os tempos da criação do mundo. Viajara muito, aprendendo os segredos de mágicos e feiticeiros de todas as raças. Discípulo insaciável quando jovem. estudara com todos os mestres do oculto até ser tanto ou mais poderoso como qualquer um dos que tinham vivido antes dele. Pousara os olhos no próprio coração do indescritível, e pusera de parte todas as emoções humanas para obter o poder que buscava: o poder de vergar todos os homens sob a sua vontade.

Quando atingiu finalmente o seu destino, Nimrood descreveu círculos sobre Askelon e desceu em espiral. Mergulhou na direcção da torre onde se situavam os aposentos do príncipe Jaspin e pousou no estreito rebordo de uma alta seteira. O príncipe Jaspin estava sozinho. sentado no grande cadeirão perto do fogo. Nimrood pairou até ao chão sem produzir um som, e mudou para a sua forma humana quando tocou no pavimento com toda a leveza.

- Príncipe - Jaspin - disse, divertindo-se com o susto que pregou ao príncipe. - Não estava à espera de mim, pois não?

- Por Zoar. Assustaste-me. - Jaspin atirou-se de novo para a cadeira, agarrado ao coração. - Não, por Azrael. não esperava ninguém... e muito menos a ti, Nimrood. Como foi que chegaste aqui?

- Receio que isso não seja de grande interesse para ti. Na realidade. nem sequer aqui estou. O que estás a ver é um fantasma, uma projecção de uma alma-corpo... ou qualquer outra coisa que lhe queiras chamar. - O feiticeiro atravessou a sala e quando passou em frente do fogo Jaspin viu as chamas a brilharem fracamente através das suas formas fantasmagóricas. Parou directamente em frente do espantado príncipe.

- Que estás aqui a fazer? Podes não querer dizer-me como apareceste, mas espero que ao menos me digas o que queres.

- Sem dúvida que direi. - O feiticeiro cruzou os braços sobre o peito e ficou a olhar para baixo, para o príncipe Jaspin, que se encolheu ainda mais nas almofadas da sua cadeira. - Deixaste-o fugir! - gritou Nimrood. e Jaspin imaginou que tinha ouvido um trovão a estoirar na voz do mágico.

- Teve ajuda... amigos dentro do castelo. Mandei cortar a cabeça ao carcereiro e aos guardas... eu...

- Silêncio! - silvou Nimrood. - Achas que derramar o sangue de guardas sem préstimo será o suficiente para me apaziguares? Isso servirá para trazer a presa de volta?

--imrood fez uma carantonha furiosa e começou a andar de um lado para o outro em frente da lareira. Jaspin observava-o num fascínio assustado.

- Ele pertence-me. É meu. Já o deixaste escapar duas vezes! Bah! - explodiu. irado.

- Duas vezes? - inquiriu o príncipe. timidamente. - Deves estar enganado, só o capturamos uma vez.

- Nimrood, enganado? - Os olhos do feiticeiro cuspiram fogo, mas abriu a boca para soltar uma gargalhada oca e cacarejante. - Conheces-me muito mal, príncipe chacal! Estúpido! - gritou Nimrood, voltando a perder a calma. - Então não sabes? Esse fora-da-lei, o Falcão, não é outro senão Lord Theido de CrandalI, o maior gênio militar do nosso tempo. Eu... - O príncipe ofegava, sem voz.

Esse mesmo! Tiveste-o nas tuas mãos quando o prendeste depois de regressar das guerras. Dessa vez também o deixaste escapar.

- Isso foi diferente - protestou Jaspin. levantando-se da cadeira.

- Levantas a tua voz contra Nimrood? - gritou o feiticeiro. Na lareira. o fogo atiçou-se de repente. com um rugido. cuspindo uma nuvem de cinzas e faíscas para dentro da sala. - Posso reduzir este empilhado de pedras a cinzas fumegantes. meu príncipe. Acautela-te. - Nimrood passou as mãos compridas e delgadas pelos cabelos em desordem e continuou a andar de um lado para o outro.

- Que pretendes fazer quanto a isso? - perguntou.

- Mandei "caçadores" seguirem no seu encalço - respondeu Jaspin. abatido. Devemos tê-los de volta antes que se passem muitos dias.

- Hum... está bem. Vejo que podes servir-te da cabeça quando és obrigado a fazê-lo. Informa-me imediatamente logo que o tenhas de volta. Morto ou vivo, quero-o para mim. Conseguiste uma nova oportunidade e talvez tenhas salvo a tua coroa. No entanto... não falhes desta vez, ou esse poderá vir a ser o teu último acto humano. Ah! -troçou o feiticeiro.

Virou-se e fitou o príncipe Jaspin com um olhar terrível. O príncipe sentiu os membros a ficarem pesados e a perderem a força. enquanto o coração se tornava de gelo dentro do peito.

- Há destinos muito piores do que a morte, posso garantir-to. Conheço vários... igualmente incomodativos. Reservo-os para os que me desapontam de um modo especial. Tens mais uma oportunidade... e não me desapontes. - O feiticeiro virou-lhe as costas e meteu-se no meio das chamas da lareira. Aquele feito levou Jaspin a pôr-se de pé de um salto.

O feiticeiro cacarejou e pareceu esticar-se, tomando-se cada vez mais alto e transparente. No instante em que estava quase a desaparecer, disse:

- Sabes que Ronsard está vivo? Não? Pois não será por muito tempo. Enviei homens para o capturarem. - Riu-se mais uma vez e desapareceu completamente no meio das chamas. O príncipe Jaspin ouviu apenas um fraco eco de uma gargalhada depravada e depois até isso se sumiu.

Jaspin voltou a sentar-se na grande cadeira. O seu rosto ganhara a palidez de um cadáver.

O fogo na cabana de Durwin estivera a arder baixinho. Quentin mergulhara num sono leve, enrolado num canto quente, perto da lareira. Sentia-se como se se tivesse finalmente saturado de sono e a sua mente derivava de sonho para sonho. Fora um dia sem nada de especial, passado em conversas e preparativos, em que Quentin desempenhara um papel muito pequeno. Passara a maior parte do tempo a comer e a dormir, para além de tomar conta dos cavalos, certificando-se de que todos tinham uma ração extra como recompensa pela dura cavalgada da noite anterior.

Theido e Durwin estavam sentados junto do fogo, fumando por longos cachimbos de madeira cheios de ervas aromáticas cultivadas por Durwin. Permaneciam em silêncio, pois já tudo fora dito. De vez em quando sopravam o fumo e resmungavam, revolvendo problemas nas suas mentes.

Alinea dormia confortavelmente esticada em cima da baixa cama de madeira de Durwin. Falara muito pouco durante todo o dia, mas Quentin pensava que os seus olhos haviam sido mais do que eloquentes quanto aos seus tormentos íntimos. Os olhos de esmeralda pareciam chorar para dentro, por causa da angústia que sentia pelo seu rei. Mesmo assim, pusera de parte os sofrimentos próprios e encontrara palavras amáveis para dizer a Quentin, nos momentos em que tinham estado juntos. Só por isso, declarara Quentin para si mesmo, daria alegremente a sua vida pela dela na primeira oportunidade.

Por fim, Durwin levantou-se e espreguiçou-se. Bateu com o cachimbo de encontro à pedra da lareira e virou-se para se ir enrolar na capa num outro canto qualquer, deixando Theido sozinho com os seus pensamentos. Quentin, meio adormecido, julgou ouvir Durwin a emitir um assobio agudo e achou que se tratava de um comportamento muito estranho àquela hora da noite. A seguir voltou a ouvi-lo e despertou um pouco mais, apoiando-se sobre os cotovelos. Durwin imobilizara-se, à escuta. Theido, com a cadeira inclinada para trás, deixara de soprar o fumo do cachimbo e estava também à escuta.

O assobio voltou a soar, mas desta vez vinha de mais perto. Theido levantou-se, dirigiu-se para a porta e escapuliu-se para o exterior. Uma vaga de ar frio envolveu Quentin, despertando-o ainda mais. Ouviu-se outro sinal, mesmo junto à cabana. Era Theido, respondendo aos assobios anteriores.

Alinea acordara e colocara-se perto de Durwin. Baixou a cabeça e falou para o eremita, mas Quentin não conseguiu ouvir as palavras. Estava com todos os seus sentidos postos no que se passava no exterior. Tudo o que ouvia era o estalar do fogo na lareira e a sua própria respiração.

Porém, a seguir ouviu o som suave e abafado de passadas na neve, de regresso à cabana. Theido entrou, dobrando-se e esfregando os braços para os aquecer.

- Voss e os seus homens têm um para nós - explicou.

- Vão trazê-lo aqui.

Mal acabara de pronunciar estas palavras quando se ouviu uma leve pancada na porta. Theido abriu-a, e ali estava o corpulento líder dos homens da floresta. Por detrás dele havia outro homem. seguro por vários companheiros de Voss.

- Entra, Voss - pediu Theido. - Vejamos o que foi que apanhaste.

O forte homem da floresta entrou na cabana e fez sinal ao prisioneiro para que avançasse.

- Trenn! - exclamou a rainha, quando o seu fiel guarda cambaleou para a luz. Oscilou sobre as pernas inseguras e pareceu querer cair para um lado, mas Voss levantou uma das mãos para o apoiar. Durwin puxou por um banco e obrigou o homem a sentar-se.

- Vimo~lo assim que entrou na floresta. Apanhãmo-lo quando percebemos que vinha nesta direcção - declarou Voss com um tom casual.

- Trenn, que estás tu aqui a fazer? - Os olhos de Alinea miravam o rosto do homem em busca de uma resposta. - Jaspin descobriu o nosso jogo?

- Tal como eu receava, senhora - responde Trenn. - Vim avisá-los a todos: Jaspin pôs "caçadores" na vossa pista. Rezei a todos os deuses que conheço para que não chegasse demasiado tarde.

Ao ouvir mencionar os mortíferos "caçadores", o largo rosto de Voss perdeu as cores.

- Más notícias - comentou.

Alinea levou uma das mãos à cara. Lançou um longo olhar para Theido, que se mantivera impassível.

- Aí temos a resposta - murmurou Durwin.

- Há quanto tempo foi isso? - perguntou Theido, com uma calma forçada. Falou com muito cuidado e suavidade, para não trair a inquietação que sentia.

- Vi-os entrar pela poterna esta manhã, por volta do meio-dia, conduzidos por cavaleiros de Jaspin. Esta manhã houve também muita actividade nos portões principais do castelo. Entraram muitos cavaleiros e nobres. alguns de tão longe como as terras planas. Diz-se que Jaspin convocou um conselho de emergência, para apanhar os que vos ajudaram a fugir.

- Quê? O homem está louco! - comentou Theido.

- Foi apenas uma desculpa - explicou Trenn. - O príncipe Jaspin acusou dois nobres de vos terem ajudado a fugir. Soube pelo car cereiro...

pelo novo carcereiro... - o guarda fez um rápido gesto com a mão junto do pescoço, para se explicar melhor - que foram presos dois nobres, os Lords Weldon e Larcott.

- Víbora! - disse Theido num tom baixo. - Está a servir-se da minha fuga para alterar o Conselho de Regentes. Suponho que não perdeu tempo e que nomeou dois outros. Sabes quem ocupou esses lugares?

- Não tenho a certeza, mas penso que foram Sir Bran e Sir Grenett - respondeu Trenn. - Diz-se que o Lord Holben lhe fez frente... e que salvou a vida dos dois outros senhores. O principe queria-os acusados de traição, mas Lord Holben reclamou a justiça do rei.

- Salvou-lhes a vida por algum tempo... e provavelmente irá perder a dele - replicou Theido.

- Jaspin tem a coragem de proceder assim?! - perguntou a rainha. chocada com o facto de na sua própria corte se verificarem afrontas tão descaradas. - Não fazia ideia...

- Não podemos ajudar Weldon e Larcott - murmurou Theido com tristeza. - Agora... temos de nos ajudar a nós próprios. - Trenn, como é que conseguiste chegar aqui sem os "caçadores" te verem?

- Parti antes deles, e como sabia para onde vinha não foi difícil avançar depressa. Provavelmente, quase matei o meu bom cavalo...

- Devem ter-te seguido - observou Voss. - Isso irá tomar-lhes a tarefa mais fácil.

- Espero que não me considerem assim tão estúpido - fungou Trenn. - Alguns dos meus homens cavalgaram comigo, para confundir os rastos. Acompanharam-me durante algum tempo, e depois cada um deles partiu numa direcção diferente. Foi tudo o que consegui fazer em tão pouco tempo.

- óptimo - exclamou Theido, saltando para a frente. - isso irá conceder-nos mais algum tempo.

- Os meus camaradas e eu poderemos fazer-vos ganhar ainda mais tempo - gabou-se Voss. - Vou pô-los a trabalhar imediatamente, para confundirem os rastos. Vamos obrigá-los a andarem às voltas pela floresta durante dias.

- São "caçadores"... e não pessoas vulgares - retorquiu Theido.

- E nós não somos uma caça vulgar. Não nos verão, nem descobrirào os nossos truques, antes de vocês já irem longe. De qualquer modo. não os poderemos deter para sempre.

- Podemos lutar... - sugeriu Trenn.

- Morríamos se o tentássemos - respondeu Theido. - Não, a nossa única esperança está em mantermo-nos à frente deles até atravessarmos a muralha. Duvido até que os "caçadores" nos consigam encontrar depois de termos passado para as Terras Selvagens.

- Aí está! - exclamou Durwin, triunfante. - Agora já admites que temos de ir para Dekra!

- Sim, vamos para Dekra. Vamos fazer-te a vontade, meu amigo... e é a nossa única esperança. Vamos para Dekra... e partimos esta noite.

 

O inverosímil grupo partiu da cabana de Durwin, no coração da floresta de Pelgrin, e sob o manto escuro da noite, para dar início à sua demanda. Não ousavam ter grandes esperanças no êxito dos seus esforços. nem sequer tinham concebido um plano que lhes permitisse atingir a meta de libertarem o rei das garras do mágico maligno, Nimrood.

Durante uma semana de marcha. seguindo para norte e para leste através das mais longínquas paragens de Pelgrin e pelas vertentes mais baixas das montanhas Fiskills, não se lhes deparou qualquer outra alma viva. Isto, contudo, era visto como sendo um sinal auspicioso, pois significava que não tinham visto aquilo que mais temiam encontrar e que os mantinha constantemente a espreitar para trás, por sobre os ombros. quando pensavam que nenhum dos outros estava a ver: não havia o mínimo vestígio dos impiedosos caçadores.

Guiados por Durwin e incitados por Theido, seguiram um percurso que evitaria as traiçoeiras montanhas e que, em vez disso, os conduziria para as serras arborizadas de Askelon, numa permanente curva para leste, em direcção à Muralha de Celbercor. Uma vez do outro lado da muralha - e atravessar esse formidável obstáculo seria, por si só, uma verdadeira provação - o grupo caminharia a direito para a baía de Malmar, que atravessariam a pé sobre os gelos. A salvo. do outro lado de Malmar, teriam um curto período de descanso na pequena povoação de pescadores de Malmarby, um dos poucos locais de habitação humana na vasta península de Obrey. Teriam tempo. ou assim o esperavam, para repor os abastecimentos e conseguir um guia que pudesse ser convencido a conduzi-los até Dekra.

Quentin descobrira finalmente que Dekra não era uma pessoa. mass sim um lugar: a cidade abandonada de um misterioso povo há muito desaparecido. já ninguém se recordava do que acontecera aos estranhos habitantes da cidade, que tinham deixado para trás fantásticas construções, tornadas cada vez mais ricas e maravilhosas com a ajuda das baladas e das lendas, apesar de muito poucos homens as terem jamais visto. Eram ainda menos os que acreditavam na sua existência, considerando-a apenas como uma brilhante fantasia de bardos e trovadores, para obterem uma maior atenção por parte dos ouvidos dos tolos. Outros insistiam em que a cidade existia e que era um lugar diabólico onde os homens não eram bem recebidos. Afirmavam que os que tinham partido para a procurar nunca mais haviam regressado.

- Nunca ouviste falar em Dekra, meu rapaz? - perguntou Durwin. As suas espessas sobrancelhas ergueram-se num arco interrogativo quando Quentin se arriscou a falar no assunto.

- Sim, suponho que não tenhas ouvido. Os sacerdotes de Ariel demonstram uma grande relutância em admitir a sua existência. Pois olha, irás ter a oportunidade de fazer uma coisa que poucos homens conseguiram: irás vê-la com os teus próprios olhos.

- É um lugar assim tão mau? - perguntou Quentin. - Era por isso que Theido não queria lá ir? - Cavalgava no Balder. ao lado do eremita. depois de ter abandonado a sua posição na cauda do grupo, logo à frente de Trenn. Quentin gostava de cavalgar mais à frente, com Durwin, sempre que o trilho o permitia.

- Não... - replicou o eremita, depois de uma pausa em que tentou encontrar as palavras exactas. - Dekra não é um lugar maléfico. apesar de haver muitos que assim pensam. É um dos sete antigos lugares de poder sobre a Terra. Não obstante esse poder ter desaparecido quase inteiramente, ainda há alguns vestígios. para aqueles que sabem onde procurar. Não é um lugar mau... e não foi por isso que Theido se manifestou contra. Sabia que se tratava de uma viagem perigosa e longa, um esforço inútil se lá chegarmos e não conseguirmos obter o que procuramos.

Quentin teve de se contentar com aquela resposta, pois Durwin nada mais quis acrescentar sobre a cidade arruinada, nem sobre os motivos para lá irem. De qualquer modo, Quentin pressentia, na voz do eremita, que este ocultava mais do que dizia. Havia qualquer coisa que Durwin evitava contar-lhe, e Quentin. espicaçado na sua curiosidade juvenil. estava ansioso por descobrir o que era. mantendo-se constantemente a escuta de qualquer indício revelador que Theido ou Durwin pudessem deixar escapar durante as refeições, ou em volta da fogueira, à noite. A maior parte das vezes ficou desapontado.

Theido incitava o grupo a continuar num ritmo inexorável, nunca parando por muito tempo nem permitindo fogueiras durante o dia. As noites eram curtas: paravam ao crepúsculo, dormiam algumas horas e depois prosseguiam muito antes da madrugada. Quentin dominara a arte de dormir na sela quando já não conseguia manter os olhos abertos. De facto, descobrira que se estava a tornar um cavaleiro muito melhor do que fora até aí. Gostava das novas capacidades que desenvolvia de dia para dia, e dos conhecimentos sobre a floresta que obtinha de Durwin, que demonstrara ser uma inesgotável fonte de conhecimentos.

Quentin era agora capaz de designar trinta espécies diferentes de árvores e arbustos. e conseguia distinguir os rastos de todas as criaturas activas da floresta no pico do Inverno. Além disso, conseguia ler os sinais do tempo com um certo grau de precisão. Quentin considerava que se tratava de informações muito mais úteis do que tudo o que aprendera no templo, apesar de ter de admitir que o treino aí recebido fora útil. mas de outras maneiras.

Por estas e por outras razões, provocadas principalmente pela camaradagem criada dentro de um grupo dedicado a uma finalidade comum. Quentin sentia uma profunda sensação de satisfação apesar dos rigores da jornada. esquecendo-se com facilidade dos inumeráveis incómodos da vida numa picada. Além disso, também se esquecera quase completamente do perigo que se aproximava a cada passo. os "caçadores". - No entanto. parecia não existir qualquer indicação da presença dos odiados pisteiros.

Contudo, Theido estava continuamente a deixar-se ficar para trás, por vezes durante horas consecutivas. para observar e esperar, sondando a floresta em busca de um sinal de que estavam a ser seguidos. Sempre que regressava ao grupo comunicava que não notara sinais dos perseguidores. mas mostrava-se mais preocupado a cada dia que passava.

- Receio que estejam à espera que entremos em campo aberto - disse-lhes Theido uma noite. O Sol acabara de descer, e haviam-se instalado em volta de uma fogueira, envolvidos nas capas e em espessas roupas feitas com peles de animais, que Durwin lhes fornecera.

- Pensa que não os conseguimos enganar? - perguntou Trenn, esperançado. - Voss e os seus amigos podem tê-los despistado...

- Não - replicou Theido, numa voz grave. sacudindo a cabeça. - Receio bem que não. Voss pode tê-los enganado por algum tempo, e direi que isso é provável, uma vez que ainda estamos acordados e em movimento. Porém, a cada dia que passa, sinto que a sua presença é mais forte. Tenho a sensação de que os dedos das suas mentes se estendem para nós, aproximando-se cada vez mais. Podem ainda não ter encontrado a nossa pista, mas estão mais perto...

- Por que razão pensas que estão à espera de nos apanhar em campo aberto? - perguntou Alinea. - Porque é que não nos podem apanhar na floresta?

Theido voltou a sacudir a cabeça.

- Não sei. Há qualquer coisa a impedi~los de o fazerem, mas não sou capaz de dizer o que é. Todavia, logo que estejamos livres da floresta, o que acontecerá dentro de dois dias, não terão dificuldade em ver~nos. As colinas para lá da floressta oferecem muito pouca cobertura no Verão, e ainda muito menos no Inverno, para quem se deseja esconder de olhos predadores.

- Sim, mas se conseguirmos atravessar as colinas até à Grande Muralha, talvez tenhamos uma oportunidade - interveio Durwin, que era o único que parecia animado com essa ideia.

- Ainda teremos de descobrir uma maneira de atravessar a muralha... - recordou Trenn - o que poderá levar dias. A não ser que o meu cavalo ganhe asas, não estou a ver como o conseguiremos.

- Deve haver uma maneira - disse Alinea. - A muralha é velha, pode ter brechas...

- Reze para que não existam brechas, senhora - retorquiu Trenn. - Qualquer vantagem para nós será ainda mais benéfica para os nossos captores.

- Os "caçadores" não são os nossos captores - declarou Quentin com uma voz estranha. Os outros calaram-se e olharam-no, levantando os olhos do fogo para lhe mirarem o rosto. Exibia uma expressão de medo e espanto, com os olhos redondos e escuros olhando para lá do círculo de luz lançado pela fogueira. - São estes homens - acrescentou.

Theido foi o primeiro a seguir o olhar de Quentin e a vislumbrar o que ele vira: um anel de rostos - quase invisível na escuridão se não fossem os clarões da fogueira a brilharem-lhes nos grandes olhos - que os rodeava. Estavam cercados.

 

A povoação jher, se é que a palavra povoação podia ser aplicada de um modo tão lato, era quase tão invisível quanto era possível conseguir. Tinham sido levantados abrigos de troncos e ramos, folhas e cascas, para cerca de cinquenta pessoas. Cada um deles fora previamente escavado na terra e tinha a forma de uma cúpula oca. Se não se encontrasse ninguém parado em frente daquelas residências simples ou a espreitar pelas estreitas fendas das portas, Quentin poderia ter passado mesmo pelo meio da povoação sem nunca vir a notar a sua existência.

Porém, as pegadas na neve que cobria o chão contavam uma história completamente diferente.

A neve que cobria o chão fora compactada pela passagem de muitos pés. Parecia que os Jher tinham vivido naquela parte da floresta durante todo o ano, e de facto assim fora. Caçando e montando armadilhas na franja norte de Pelgrin, haviam estabelecido um acampamento de Inverno na floresta. Ir-se-iam embora de novo, na Primavera, quando regressassem ao seu habítat usual, as Terras Selvagens de Obrey.

Ao vê-los agora, em plena luz do dia, Quentin perguntava a si mesmo porque fora que os receara durante aquela longa noite em que se haviam ficado em volta da fogueira mas fora do alcance da sua luz. A estranha vigilância fora mantida durante toda a noite, com rostos que se modificavam apenas ligeiramente quando um partia e outro aparecia para lhe ocupar o lugar. Quentin imaginara toda a espécie de horríveis torturas às mãos daquela gente. Todavia, agora, ao olhar para os rostos largos e escuros, com feições bem formadas mas fortes, e para os tranquilos olhos castanhos, que pareciam sensatos e sábios, Quentin envergonhava-se de ter pensado mal de um povo tão simples.

Quando a madrugada surgira, o chefe, que se designava a si mesmo por Hoet, avançara em direcção à fogueira do acampamento, onde Theido e Durwin estavam à espera, prontos para os receber de acordo com o modo como se apresentassem: em guerra ou em paz. Então, inexplicavelmente, Durwin surpreendera tudo e todos, e mais ainda os jher, que soltaram silvos de espanto quando pronunciou algumas palavras entrecortadas na sua ritmada língua, que parecia cantada.

Só depois Durwin se virara para os outros e dissera, com uma expressão envergonhada:

- Desculpem, meus amigos. Devia ter-lhes dito mais cedo que não tínhamos nada a recear dos jher, mas pensei que era melhor mantermo-nos em guarda, pois já se passou muito tempo desde que encontrei alguns deles nesta parte da floresta, e entretanto o mundo passou por muitas mudanças. Não podia estar certo quanto à recepção que nos dariam. Porém, tal como esperava, dão-nos as boas-vindas. como amigos. - A seguir voltara-se para o chefe dos jher e voltara a falar naquela estranha língua.

Hoet fizera sinais excitados para os seus companheiros, num total de cerca de uma dúzia, que se haviam aproximado soltando murmúrios de espanto ante a raridade que contemplavam: um membro da raça branca que falava a sua língua.

Na verdade, era uma raridade. Os jher eram um povo nómada. Simples e sem complicações, o seu modo de vida não se alterara grandemente em mil anos. Não construíam cidades, não erguiam altares, não liam nem escreviam a sua própria língua. Eram um povo ainda mais antigo do que o dos odiados Shoth, e tanto quanto se soubesse era mais antigo do que a própria Terra. De onde tinham vindo era um mistério tão remoto que não podia ser descoberto, e era apenas um dos muitos mistérios que - tal como a espessa casca que cresce em volta do tronco de um velho carvalho - rodeavam aquele povo tímido.

já só muito raramente eram vistos na região de Askelon, pois a civilização empurrara-os cada vez mais para o norte e para o leste, para as Terras Selvagens. Eram muito poucos os habitantes das cidades que punham os olhos nos jher, e até os camponeses que viviam perto da fronteira norte de Pelgrin só os avistavam em raras ocasiões. Por vezes não eram vistos numa região durante toda uma geração. ou mais, para depois aparecerem de repente, tal como anteriormente.

Os Jher eram um povo pacífico e tímido, que não tinha inimigos, excepto os brutais Shoth, a quem perseguiam tal como aos veados de que se alimentavam. Era uma maravilha verificar que seres tão tranquilos sabiam lutar, pois o seu aspecto não dava a entender que fossem capazes de entrar em conflitos. Porém. dentro das suas surpreendentes características existia um ódio inato pelos últimos dos seus mais antigos inimigos.

Durwin estava sentado, em consultas com Hoet, o chefe jher, no meio da pequena clareira. Quentin podia ver que a conversa avançava devagar. Repetiam constantemente as mesmas palavras, com muitos gostos e interrupções, num silêncio confundido. Porém, Durwin parecia ir entendendo. Acenava com mais frequência e já não fazia tantas perguntas. Quentin chegou a estas conclusões um pouco ao acaso, porque na fala jher não havia nada que se parecesse com palavras, no sentido vulgar do termo. Era mais um murmúrio de sons da floresta e imitações da natureza do que uma língua verdadeira. No entanto, para os ouvidos de Quentin, tratava-se de uma fala estranhamente bela e comovedora. pois ouvia nela os sons da terra no seu avanço através das estações, o ruído do vento nas árvores, da água a salpicar as pedras, de animais brincando. A língua dos Jher estava repleta da beleza da floresta e das suas criaturas.

Enquanto os dois líderes tentavam compreender-se um ao outro. Quentin estabelecia contacto à sua própria maneira: olhando de boca aberta e sem qualquer espécie de vergonha para o curioso povo que se amontoava à volta deles. Os Jher procediam com a mesma ousadia, apontando para os forasteiros (termo que utilizavam para todos os que não fossem jhers) e invejando os cavalos e as lâminas de aço.

Os Jher, concluiu Quentin, eram uma raça muito regular, com mais tendência para a graciosidade do que para a corpulência. Possuíam corpos suaves e bem formados, mais delgados do que musculados, semelhantes - mais uma vez era necessária essa comparação - ao dos veados. Quentin ficou chocado ao notar que até se pareciam com veados, por causa dos grandes olhos escuros, tão calmos e profundos como a própria floresta.

Usavam vestuário feito com peles de veado, cosidos com uma linha feita de tripas e com a ajuda de agulhas de osso. Comiam a carne dos veados e queimavam a gordura nas candeias, que eram feitas com crânios também de veados. A raça tomara-se inteiramente dependente dos veados para a sua sobrevivência, e seguia os animais para onde quer que estes fossem, acompanhando-os durante as mudanças das estações. Em todos os artigos de vestuário ou pessoais que Quentin pôde ver enfeitados com decorações, estas eram em geral imagens de veados. pintadas, riscadas ou esculpidas. Ocasionalmente deparava-se-lhe uma representação do Sol, que os Jher também reverenciavam. Por outro lado, aquele povo possuía também os instintos rápidos e as reacções instantâneas das tímidas criaturas da floresta. Isso a par com uma aguda consciência do que os rodeava, tornava-os invisíveis para as barulhentas e pesadas raças brancas, que atravessavam a floresta sem terem a consciência de que podiam existir por ali outras almas vivas, talvez tão perto como em cima da árvore sob a qual iam a passar.

Quentin estava entretido a fazer sinais de mãos para algumas das crianças jher mais ousadas, que se tinham reunido à sua volta, quando Durwin se levantou e se arrastou de volta para onde os outros estavam sentados na neve, sobre peles de veado, aguardando o resultado da conversa.

- Hoet diz que estamos marcados para morrer - anunciou Durwin, que compreendeu rapidamente o seu erro ao ver as expressões de angústia a aparecerem nos rostos dos companheiros. - Oh, não! Não pelos Jher! Desculpem... estive a ver se conseguia tirar sentido de toda esta história e não me apercebi do que estava a dizer!

"Hoet diz que estamos a ser seguidos por "caçadores", o que já sabíamos. Contudo, estão muito mais perto do que imaginávamos. A noite passada deveria ter sido a nossa última noite. Declarou que foi por essa razão que ficaram connosco durante toda a noite, de vigia, não fossem os Shoth tentarem apanhar-nos. Sem o sabermos, aproximámo-nos muito da aldeia, e não querem nenhum Shoth tão perto deles.

- Ah, então protegeram-nos durante a noite? - comentou Theido. -Estou-lhes grato pela ajuda... mas que acontecerá quando saírmos daqui? Os "caçadores" estarão à nossa espera logo que entremos na floresta.

- Também discutimos isso - replicou Durwin. Sorriu-se e inclinou a cabeça na direcção de Hoet, que se encontrava a alguns passos de distância. O Jher repetiu o gesto. - Hoet diz que nos fornecerá guarda-costas e um guia para nos afastar dos Shoth. por caminhos que só eles conhecem.

- Quantos homens irão para nos ajudar? - perguntou Trenn. Os seus olhos escrutinavam o grupo, em busca de possíveis mobilizáveis. - Cinco ou seis dos maiores seria o adequado, suponho. - No seu cérebro de soldado, Trenn estava já a organizá-los numa unidade combatente, a equipá-los com os capacetes, escudos e pesadas armaduras de couro dos soldados de infantaria.

- Não sei dizer quantos são os que Hoet pretende enviar connosco - respondeu Dur-win, um pouco confuso. Virou-se e regressou ao local onde o chefe estava de pé, de braços cruzados e queixo descansando sobre o peito. juntaram as cabeças e começaram novamente a discussão, com os braços a agitarem-se como se quisessem puxar as palavras do meio do ar. Por fim. Hoet virou-se, assobiou e acenou com a mão para um grupo de homens que se encontravam junto dos cavalos, admirando os animais e o seu equipamento. Um jovem muito delgado, pouco mais velho do que Quentin, deslizou para junto deles e apresentou-se a Hoet, que por sua vez o apresentou a Durwin.

- Aqui está o nosso guarda-costas e guia - declarou Durwin, regressando com o jovem.

- O quê? - explodiu Trenn, desconcertado, de olhos saídos das órbitas e boca aberta. O jovem jher não lhe parecia um oponente de respeito, nem sequer para um dos membros do seu grupo, quanto mais para os sanguinários "caçadores---.

- Este é Toli - continuou Durwin, apresentando o jovem.

A seguir deu a volta a todo o grupo, pronunciando o nome de cada um deles. Toli não fez qualquer tentativa para duplicar os sons. Limitou-se a sorrir e a acenar com respeito.

- Quando partimos? - perguntou Theido, com um suspiro.

Também ele tinha as suas dúvidas a respeito do guarda-costas jher. Lançou uma rápida olhadela para o alto, para ver que o céu, anteriormente limpo, se fizera muito carregado enquanto aguardavam que terminassem as deliberações entre Durwin e Hoet.

- Hoet sugere que durmamos algumas horas. Podemos partir esta noite. Diz também para não nos preocuparmos, porque Toli nos mostrará um caminho secreto para atravessarmos a muralha, que aparentemente os Shoth não conhecem.

 

O rei estava sentado na escuridão da profunda masmorra de Kazakh, a propriedade amuralhada de Nimrood, em plena montanha. À sua volta jaziam as peças espalhadas da armadura, agora a enferrujarem na humidade da masmorra. A cabeça outrora orgulhosa pendia para a frente, desanimada, e os olhos afundados permaneciam fechados para não ter de ver a desgraça que o rodeava. O cabelo comprido e negro, e a barba bem tratada, sempre tão cheios de vitalidade e encaracolados, pendiam como farrapos, sujos e manchados, que começavam a ficar acinzentados. No íntimo, amaldiçoava-se a si mesmo pela sua própria estupidez e falta de previsão. Estivera tão entusiasmado com o regresso a casa, e tão cheio de boa disposição, que entregara os homens aos respectivos comandantes e, acompanhado apenas por um pequeno grupo de cavaleiros, tratara de apanhar o último barco antes de os mares enraivecidos do Outono impedirem toda a navegação. Haviam embarcado e levantado ferro apesar das dúvidas do capitão, enfrentando um mar picado e um céu que brilhava de fúria contida.

A tempestade rebentara ao quarto dia e o capitão dirigira-se para o porto mais próximo, a baía Fallers, na extremidade mais a sul de Elsendor. O capitão recusara-se, com toda a sensatez, a ir mais longe, pelo que Eskevar e os seus cavaleiros haviam iniciado a viagem através dos campos. A um dia e uma noite de distância de Fallers, tinham sido atacados. Uma força de homens armados aguardava-os quando penetraram num estreito desfiladeiro.

O rei e os seus cavaleiros haviam lutado com valentia, apesar da inferioridade numérica, mas tinham acabado por ser dominados.

-Amarrados e atirados para dentro de carros, tapados com panos de velas, tinham viajado durante muitos dias no meio de um território pedregoso. Um dos cavaleiros, Ronsard, conseguira libertar-se das cordas, recuperar o cavalo e as armas e escapar-se, forçado a deixar para trás o seu rei e os camaradas.

Ronsard seguira os carros até ao seu destino final, um navio de velas negras que os aguardavam numa faixa de costa deserta. na esperança de descobrir uma oportunidade para libertar os companheiros. Porém, quando avistara o navio de velas negras e os seus ocupantes, perdera toda a esperança de salvar os amigos apenas com a sua espada solitária, e dirigira-se a Mensandor com a mensagem para a rainha.

Os meses haviam passado, com cada dia a tornar-se mais insuportável do que o anterior. O rei Eskevar recusava render-se à impotência que sentia cerrar-se à sua volta. Ao princípio protestara contra o seu captor, com a poderosa voz a vibrar de uma justa ira. Os salões e galerias de Kazakh haviam ecoado aquele trovejar de fúria.

Nirrirood andara de um lado para o outro nos seus aposentos, cacarejando como um maníaco, com os olhos iluminados por uma luz violenta e fantasmagórica.

Depois de semanas de cativeiro, Nirrirood descera às masmorras para pousar finalmente os olhos na presa. Eskevar desafiara-o, pedira a liberdade para os seus cavaleiros, oferecera um enorme resgate, exigira saber a razão para aquele rapto. A exigência tivera resposta: tinham-lhe dito que o seu irmão, príncipe Jaspin, providenciara para que fosse mantido em todo o conforto mas preso em segurança, até ao momento em que pudesse usar a coroa. Nimi-ood a seguir retirara-se, deixando sozinho o seu miserável prisioneiro, para que roesse o coração de fúria e frustração. Eskevar nunca mais vira qualquer pessoa desde esse breve encontro.

Eskevar ouviu o raspar de um fecho de ferro a ser levantado e largado de novo, seguido pelo guinchar de gonzos com pouco uso. A seguir chegou-lhe o som tilintante de passos que desciam as escadas em espiral que davam para as masmorras. "Vem aí o carcereiro com a comida", pensou.

Momentos depois avistava a luz oscilante de uma tocha lançando clarões sobre as grosseiras paredes de pedra da galeria que seguia ao longo da fila de celas. Escutou e aguardou. Pelo barulho na galeria, apercebeu-se de que o carcereiro não estava sozinho. De súbito a tocha apareceu-lhe à vista. cegando-lhe os olhos nublados com o seu brilho indesejável. Sentiu violentas guinadas de dor no cérebro quando se obrigou a fitar o carcereiro.

Eskevar pôs-se de pé, inseguro, erguendo-se como uma torre acima do carcereiro e dos dois desprezíveis guardas.

- Para trás! - gritou o carcereiro. enfiando a tocha por entre as barras de ferro da porta. A velha porta ferrugenta abriu-se e os dois guardas, com as lanças prontas, entraram apressadamente. Um deles empurrou Eskevar para a frente com o punho da lança, e o rei cambaleou para a galeria. como se fosse um velho. A passagem. a escorrer água. era tão estreita e baixa que tinha de se encolher e baixar para poder avançar. Como medida de segurança, e para lembrar ao prisioneiro que seguia sob escolta, o guarda picava-o periodicamente nas costas com a lança, enquanto avançavam para os degraus em espiral.

Eskevar cambaleou duas vezes nos degraus da escada, mas endireitou-se e continuou a subir devagar e com grande deliberação. Procurava ganhar algum tempo para restaurar parte das suas forças e para ir habituando os olhos à luz pálida, mas que se tornava mais intensa à medida que subiam para fora das masmorras.

Por fim. Eskevar descobriu-se mais uma vez à luz do dia, que era estonteante para os seus sentidos há tanto tempo sujeitos a privações. Respirou fundo, enchendo os pulmões de ar fresco e puro, e descobriu que a sua mente ficava mais clara, sem a sensação de confusão em que mergulhara nos últimos tempos. Endireitou-se com dificuldade, puxou os ombros para trás e levantou a cabeça.

O grupo dirigiu-se para o grande salão onde Nimrood os aguardava, sentado no seu elevado trono negro.

- -Ah. então o nosso prisioneiro ainda vive. não é verdade? - silvou o necromante. - É pena. os nossos bichinhos de estimação ainda terão de esperar mais algum tempo pelas suas carnes! - Riu-se sozinho, e Eskevar notou a enorme e horrível cabeça de uma tremenda serpente a espreitar por debaixo do trono.

- Liberta-me, ou mata-me - disse o rei. - Nunca receberás qualquer resgate, e o meu irmão não se sentará no trono. Os regentes nunca o permitirão.

- Os teus regentes... talvez não, orgulhoso rei. Todavia, vários dos teus regentes estão sob a suspeita de terem cometido certos crimes. Dois deles estão neste momento encerrados nas entranhas da fortaleza de Askelon, à espera do seu destino.

- Canalha! - gritou Eskevar, atirando-se para a frente. Um dos guardas tentou bloquear-lhe o caminho, baixando a lança, mas o rei agarrou a lança. arrancou-lha das mãos e empurrou o guarda para trás com a sua própria arma. A seguir fez girar a lança à sua volta, nun amplo arco, mantendo à distância o carcereiro e o outro guarda. Eskevar baixou a lança e avançou, ameaçador, para Nimrood. O feiticeiro levantou os braços acima da cabeça e gritou um encantamento:

- Borgat Invendum cei Spensus witso borgatti!...

- Os teus poderes não conseguirão... - começou o rei a dizer. mas nesse momento algo como uma rede de chumbo caiu-lhe sobre os membros e sentiu que as forças o abandonavam. Levantou o forte braço para atirar a lança, mas de repente a arma pareceu-lhe pesar tanto como a porta da masmorra. O lançamento foi sem força e a lança deslizou no chão de pedra.

- Vais ver o que os meus poderes conseguem fazer! - retorquiu o irado feiticeiro. - Há muito que espero por este momento. Amarrem-no e levem-no para a torre!

O rei Eskevar explodiu de raiva:

- Mata-me. agora mesmo! Se perderes esta oportunidade irás arrepender-te para toda a eternidade, feiticeiro negro!

Os guardas lançaram-se sobre o indefeso monarca e prenderam-no com correntes. Arrastaram-no para fora do salão, e depois para a torre, onde o prenderam mais uma vez numa estranha sala. Não era uma sala, mas sim uma divisão muito alta, em cúpula, pintada com formas grotescas e misteriosas inscrições.

Mal Eskevar penetrara na sala e a porta se fechara atrás dele, quando se sentira invadir por uma pouco natural e irresistível vontade de dormir.

Os pesados vapores do sono pareciam emergir do próprio pavimento por debaixo dele. A cabeça oscilou-lhe sobre os ombros, e as pálpebras fechavam-se-lhe. Eskevar sentiu os joelhos irem-se abaixo e caiu no pavimento de madeira. Tentou levantar-se e conseguiu pôr-se de joelhos, de uma maneira desajeitada, porque as correntes não lhe permitiam grandes movimentos.

- Espero que aches refrescante o descanso que aqui irás ter - silvou Nimrood. O monarca virou a cabeça para ver as feições agudas e contorcidas do seu atormentador a espreitarem-no pelas fendas da porta.

Amaldiçoo os teus ossos, necromante. - retorquiu o rei. Porém. mesmo enquanto estava a falar, a língua deteve-se-lhe na boca e as pálpebras fecharam-se-lhe. Tentou levantar-se, mas as pernas não o suportavam, e caiu para o lado profundamente adormecido.

- Olha uma última vez para o mundo com os olhos de um mortal, grande rei. É uma dádiva rara que te concedo. Quando acordares, serás um dos meus próprios imortais. Dorme bem!

 

Nos quatro dias desde que tinham abandonado o campo dos nómadas Jher. o grupo de Durwin avançara a uma velocidade tremenda. Estavam todos espantados com as capacidades e a clareza de pensamentos do seu guia, Toli, e o mais espantado de todos era Trenn, que duvidara seriamente que pudessem sobreviver mais de uma hora na floresta.

Porém, Toli conhecia a terra como se da sua pele se tratasse. Sabia instintivamente quando uma pista mudava de direcção, e quando abandonar um caminho para seguir por outro. Aparentemente a floresta não conseguia esconder os seus segredos dos olhos atentos do Jher. De facto. o jovem escuro e delgado lia-a com tanta facilidade como Durwin lia os pergaminhos que coleccionava em tão grande número. Quentin suspeitava que gerações de perseguição aos veados tinham feito com que os Jher se sentissem mais à vontade entre as coisas selvagens da floresta do que no mundo dos homens. Sob esse aspecto, compartilhava do ponto de vista convencional, pois os tímidos Jher eram considerados como um povo que regredia para os hábitos animais, em vez de se estar a libertar deles.

Todavia. não poderiam ter encontrado melhor guia em qualquer outro lado, e se tivessem sido seis iguais a Toli, o grupo não teria estado mais protegido da descoberta por parte dos "caçadores". Toli sabia quando devia parar e quando era melhor avançar. Variava o ritmo das deslocações, sem nunca se manter agarrado a um determinado padrão, movendo-se antes como um animal astuto, e principalmente de noite.

Mesmo assim. ninguém duvidava que os "caçadores" continuavam atrás deles. Toli estava de acordo em que não haveria segurança enquanto não atravessassem a muralha. Ele e Durwin faziam frequentes consultas pouco antes e pouco depois da jornada de cada dia. Durwin começava a ficar cada vez mais apreensivo à medida que se aproximavam da grande estrutura.

A antiga maravilha arquitectónica protegera, de saqueadores e candidatos a conquistadores, e durante mais de mil anos. o reino de Mensandor. Agora permanecia como um aviso do poder e de determinação do povo de Mensandor em viver livre, pois ninguem se recordava que um qualquer inimigo tivesse ousado atravessá-la com um exército. Sabia-se que a Muralha de Celbercor tinha uma altura de quatro vintenas de palmos desde o solo irregular e rochoso até ao alto das ameias denteadas. No topo, a muralha era suficientemente larga para permitir que três cavaleiros cavalgassem lado a lado, ou para que uma coluna de homens marchasse à vontade. Cobria uma distância de cem léguas por sobre uma terra acinzentada e árida, desde a baía de Malmar, onde se projectava para dentro de água, até à cortina rochosa da montanha de Ostenkell. na extremidade norte das Fiskills.

A Muralha de Celbercor pretendera separar Askelon de toda a região das terras selvagens de SuthIand, mas nunca fora terminada. Só fora erigida a extremidade norte. que corria desde o dedo gelado que era a península de Malmar até às traiçoeiras Fiskills, e a um custo muito grande.

Todavia, permanecia intacta. Fora uma realização espantosa: sem costuras, sem aberturas ou brechas provocadas pelo tempo, erguida com uma tal arte de pedreiro que não fora utilizado cimento, mas apenas pedras encaixadas em pedras com uma precisão maravilhosa ao longo de todo o seu comprimento.

Quentin nunca vira a muralha. mas ouvira muitas histórias a seu respeito. A ideia de que ia finalmente vê-la provocava-lhe um toque de excitação, mas Durwin acabou com ela quando anunciou ao grupo:

- Esta noite atravessaremos a muralha. e é quase certo que os "caçadores - tentem fazer-nos parar. Toli pensa que não estão longe e que provavelmente já pressentem o que vamos tentar. Estaremos vulneráveis logo que saiamos do abrigo da floresta. A floresta termina a cerca de uma légua da muralha, mas há um vale orientado na direcção em que seguimos. Vamos entrar nele e segui-lo enquanto for possível. Depois. Toli irá conduzir-nos à passagem secreta conhecida pelos Jher. Se conseguirmos atravessá-la, duvido que os Shoth continuem a perseguir-nos.

Precisariam de semanas para descobrirem uma maneira de atravessarem a muralha com os seus cavalos, e de meses para a contornarem.

- E como é que passamos com os nossos cavalos? - perguntou Alinea.

- Pois é... - interveio Theido. - Levamos os cavalos para o outro lado, ou não?

Durwin chamou Toli, e os dois passaram alguns momentos a discutir o problema. Depois Durwin virou-se para os outros com uma expressão séria.

- Toli não sabe. Os Jher não têm cavalos. por isso nunca se lembraram da possibilidade de os fazer passar a muralha. Sabem, o caminho secreto não é por cima da muralha, mas por baixo. É um túnel.

- Diabo! - murmurou Trenn, a quem o plano agradava cada vez menos.

- Será assim tão mau continuar sem cavalos? - inquiriu a rainha.

- Será muito difícil - replicou Theido.

- É impossível - afirmou Trenn.

- Não é impossível - disse Durwin. - Lembrem-se que Toli e o seu povo vivem nas Terras Selvagens. Poderá mostrar-nos como as atravessar, pois viajam constantemente por essa área.

- O pior é que a perda dos cavalos nos irá atrasar consideravelmente. Dekra ainda está a semanas de distância... e muito mais longe se formos a pé.

Quentin escutava aquela conversa com uma sensação de tristeza. Odiava a ideia de ter de deixar Balder para trás, para se tornar numa presa dos lobos, ou pior ainda, dos "caçadores". Virou as costas aos outros e dirigiu-se para junto do animal, a que se afeiçoara muito no curto espaço de tempo em que tinham andado juntos.

- Dizem que vais ter de ficar para trás, Balder. Preferia ser eu a ficar para trás... - fungou, com lágrimas a formarem-se-lhe nos olhos. - Não quero deixar-te. - Passou um braço em volta do grande pescoço do animal e encostou o rosto às suas espessas espáduas. Balder resfolegou baixinho e virou a cabeça para dar uma mordidela amigável no braço de Quentin.

- Gostas deste animal. - Quentin virou-se e viu Theido junto dele, levantando a mão para afagar a testa branca de Balder.

- Não o tinha compreendido, até este momento - respondeu Quentin, limpando à manga a lágrima que lhe corria pela face.

- Não tens de que ter vergonha. Um cavaleiro deve pensar na sua montada. No meio de uma batalha, são companheiros. Posso garantir-te que este forte cavalo de batalha sabe como proteger o seu cavaleiro no meio de uma luta.

- Será capaz de se governar sozinho quando os soltarmos?

- Oh, sim, melhor do que nós, creio. No entanto, não tenho qualquer intenção de os libertar, se for possível evitá-lo. Precisamos desesperadamente dos nossos cavalos. - Quentin notou o ar de tensão nas linhas em volta dos olhos do amigo.

- É assim tão difícil a estrada que atravessa as Terras Selvagens? - Quentin não considerava a hipótese de ser um caminho muito diferente do que o que tinha experimentado na floresta.

- Sim. Muito pior do que podes imaginar se nunca a viste. Não há estrada, nem pista ou trilho. Toda a região está coberta por maciços de arbustos e silvas, sobre um solo pantanoso e inseguro. Pelo menos teremos a vantagem da neve, para dar alguma firmeza aos nossos passos, mas mesmo assim temos de ter muito cuidado, porque alguns pântanos são alimentados por fontes quentes subterrâneas. Não gelam no Inverno, mas de vez em quando deixam-se cobrir pela neve. Há poucos lugares mais perigosos para um grupo de viajantes.

Quentin exibiu um ar sombrio ante aquelas notícias e desejou que a viagem já tivesse terminado. Começava a ficar cansado da constante montagem e desmontagem de acampamentos, e dos prolongados e gelados intervalos entre eles. Havia muito que tinha deixado de pensar nos "caçadores" e nos terrores que estes trariam consigo. Depois de dias de tensão permanente e de ficar acordado durante a noite, agarrado à adaga, recusara-se a pensar mais neles. Agora era mais uma vez obrigado a interrogar-se sobre o que os "caçadores" lhe poderiam fazer se o apanhassem.

Ao crepúsculo, o grupo pôs-se em movimento uma vez mais. A floresta tomava-se menos densa à medida que se aproximavam da muralha, enquanto aumentavam os terríveis receios. O que seguia atrás deles não demoraria muito tempo a aparecer.

Quentin só em parte se sentia mais seguro. Para aquela cavalgada para a muralha, Toli acompanhava-o montado em Balder, o cavalo maior. Seguiam confortavelmente juntos, com Toli a ocupar o lugar por detrás de Quentin. Apesar de os Jher não possuírem cavalos, pareciam não os temer e eram mais ou menos capazes de os manobrar quando lhes davam essa oportunidade. Porém, como Quentin era. dos dois, o melhor cavaleiro, continuava a segurar as rédeas, enquanto Toli apontava o caminho.

O grupo avançou mais de uma légua, em fila indiana, guiado por Balder. Por cima deles o céu estava escuro, com a Lua e as estrelas obscurecidas por nuvens baixas que se deslocavam depressa. "Tanto melhor", pensou Quentin, "assim talvez os "caçadores" não nos vejam."

Por fim atingiram o rebordo da floresta, e Toli conduziu-os, sem qualquer hesitação, para uma vasta extensão de colinas áridas, de cujo solo saíam rochas aguçadas, inclinadas em estranhos ângulos. A paisagem era uma imagem de desolação, de onde surgiam as raízes expostas das rochas subterrâneas que se iam erguendo para acabarem por formar as Fiskills. Para Quentin, tratava-se de um lugar solitário e perdido. nu e assustador.

Acelerando o passo, Toli conduziu-os por uma vertente íngreme até ao fundo de um largo desfiladeiro que fora formado pelas águas geladas da Primavera, que tinham aberto um caminho no solo solto. Por cima deles, e de cada lado, levantavam-se as margens daquele leito de rio, agora seco. Das extremidades das rochas pendiam longas pontas de gelo, e o ligeiro vento que se levantara atrás deles murmurava por entre as fissuras.

Não conseguiam ver nada para a frente ou para trás, e por cima deles avistavam apenas o céu vazio e negro. Porém, cada um deles começou a ter um pressentimento, quase como um aviso para que não continuassem. Cada passo era um esforço, cada curva do caminho um obstáculo a evitar. Apesar dos incitamentos de Toli, o grupo abrandou. avançando e parando constantemente.

Quentin sentia o medo a abater-se sobre ele. mas sabia que se tratava de um medo que não provinha do seu interior. Como acólito, testemunhara rituais de possessão em que um sacerdote pedia ao deus para que habitasse o seu corpo por um período breve, para desposar as mulheres-oráculos do templo. Sentira a mesma coisa nessas ocasiões, quando uma atmosfera emocional demasiado carregada dava vazão a estranhos procedimentos.

Quentin sabia que a força que pairava sobre eles era estranha, e sobressaltou-se quando descobriu a sua origem: os "caçadores". Por fim, aí os tinham.

No preciso momento em que a ideia lhe surgira, Quentin sentiu um estremecimento gelado ao longo das costelas e virou-se na sela para olhar para trás. No primeiro instante não deu por nada de especial, mas quando ia de novo a virar-se para a frente teve o relance de uma forma negra a confundir-se com o fundo, a alguma distância. Não era possível ver do que se tratava, mas bem no fundo do seu coração Quentin sabia que os "caçadores" os tinham alcançado. Puxou as rédeas com força. Balderparou de repente e Theido quase chocou com ele quando o seu próprio cavalo continuou a avançar no escuro.

- Acabei de avistar qualquer coisa atrás de nós - sussurrou Quentin com uma voz rouca. Via o rosto de Theido apenas como uma mancha escura no negrume que os rodeava.

- Muito longe?

- Não sei dizer - respondeu Quentin, sem fôlego. - Vi apenas qualquer coisa a mover-se. Escutem! - Naquele instante ouviu-se uma pedra a rebolar na ravina a alguma distância atrás deles. O fraco eco perdeu-se instantaneamente no vazio.

- Em frente! - murmurou Theido. A urgência que existia na sua voz fê-la soar fraca e distante. Theido virou o cavalo e passou palavra aos que vinham atrás. Quentin deu uma palmada em Baldere soltou-lhe as rédeas. Lançaram-se na escuridão com grande ruído de cascos.

Cavalgaram pela serpenteante ravina, com Toli teimosamente agarrado a Quentin. O jher gritou~lhe qualquer coisa aos ouvidos e Quentin olhou para a frente e viu que as margens, dos dois lados, começavam a desaparecer enquanto subiam uma pequena rampa. Um impulso final e encontraram-se fora do vale.

Erguendo-se na frente deles encontrava-se a maciça e ondulante forma da Muralha de Celbercor, uma barreira de dimensões espantosas. Quentin incitou a montada a seguir em frente enquanto, por cima deles, a Lua abria caminho por entre as nuvens baixas. Agora podia apreciar bem a vasta construção que pairava no alto, apesar de ainda se encontrarem a alguma distância da base.

A Lua voltou a desaparecer quando descreveram uma curva, seguindo as instruções de Toli, e cavalgaram ao longo da face da muralha, num ângulo em relação à mesma. Pelo som dos cascos que o seguiam, Quentin sabia que os outros não vinham longe. Desceram a galope uma ravina de margens inclinadas e começaram a subi-la do outro lado. Tinham acabado de chegar ao alto da margem oposta quando a Lua voltou a espreitar, lançando a sua luz sobre a paisagem

bravia. Para grande horror de Quentin. avistou o luar a brilhar sobre aço e dois cavaleiros que se precipitavam para eles. Toli puxou pelo braço de Quentin, que atirou as rédeas para um lado e se dirigiu directamente para a muralha.

Um grito agudo cortou a noite. Ao princípio Quentin pensou tratar-se de um grito de mulher, mas depois reconheceu que se tratava do grito de caça de um falcão. Um cavaleiro passou por ele e ouviu Theido a gritar:

- Para a muralha! Conduz os outros para a muralha, - Quentin viu o luar a brilhar na fina linha que era a espada desembainhada de Theido.

Toli gritou e agitou os braços para que os outros os seguissem enquanto arrancavam em direcção à muralha.

- Estão em cima de nós! - gritou Trenn. Nesse instante o seu cavalo tropeçou numa pedra solta e Treen caiu,

A rainha. que seguia à frente, parou e voltou para trás, mas Durwin impediu-a, dizendo:

- Eu trato dele! Continuem!

A montada da rainha pareceu voar sobre o terreno inseguro. ágil como uma sombra, e colocou-se junto de Quentin e Toli num instante.

Mesmo em frente, mas fora das vistas por causa de uma saliência de rocha, Quentin ouvia o frio ressoar de aço contra aço e os relinchos de cavalos que se atiravam uns contra os outros.

Ao atingirem uma cova mais abrigada, Toli saltou para o chão e correu directamente para a face da muralha. Quentin pestanejou, pois sob a incerta luz do luar parecera-lhe ter visto o jovem Jher a desaparecer nas próprias fundações de pedra da Muralha de Celbercor.

Regressou quase imediatamente, gritando e empurrando-os para a frente. Quentin ouviu novo grito no ar, por cima dele, mas desta vez perto. Virou-se instintivamente e colocou um braço em frente do rosto, para o proteger, enquanto Toli, saltando como um gato, o agarrava pelo outro braço e o puxava para o chão. Houve uma agitação no ar e um som de coisas a rasgarem-se enquanto caía, Quentin sentiu uma dor aguda no braço que colocara sobre a cabeça. Avistou Durwin, que caval~ gava para eles, com Trenn pendurado de lado sobre o dorso do cavalo e deixando-se cair para o chão. Quentin levantou os olhos e viu duas asas brancas a erguerem-se nos ares. desaparecendo na noite. Olhou para o braço, notou a túnica rasgada e o sangue a escorrer da ferida.

- Aqui está o túnel. - gritou alguém. Quentin sentiu mãos a colocarem-no de pé e correu para a muralha. Por detrás deles aproximou-se um cavaleiro a galope e soou a voz de Theido, a gritar. De repente, Quentin achou muito estranho estar a fugir como um veado: o que queria era sentar-se. Zumbiam vozes à sua volta e o ar tornou-se quente. Abrandou e virou-se. Theido disse qualquer coisa e Quentin inclinou a cabeça, intrigado, porque o cavaleiro começara a falar numa língua desconhecida. Parou e olhou para as luas gémeas suspensas mesmo por cima da cabeça. Esticou-se para atingir uma delas, como se a quisesse arrancar do céu para a segurar na mão. Ouviu música. o toque de sinos de um templo, muito à distância. Então, o céu negro tornou-se de um vermelho de sangue. Quentin pestanejou e sentou-se. maravilhado com um tão estranho acontecimento. Sentiu a cabeça bater contra a lisa pedra da muralha, e a última coisa que viu foi o rosto de Durwin a pairar sobre ele, como que a uma grande altura, falando-lhe numa linguagem confusa. Uma lágrima rolou pelo rosto de Quentin. que deixou de ter conhecimento fosse do que fosse.

 

A luz estremecia e modificava-se sob a forma de globos brancos. Quentin podia vê-los mesmo com os olhos fechados. Seguia o seu percurso nas pálpebras. durante horas, meio acordado. meio a sonhar. De um qualquer sítio muito distante. de um outro quarto ou talvez de um outro mundo, chegava-lhe o som de música. Sinos muito agudos tilintavam com força. perfurando-lhe os ouvidos com a sua leve melodia.

Não sabia havia quanto tempo observava as luzes que dançavam e escutava o som cristalino dos sinos. Talvez horas. Talvez dias. Talvez para sempre.

Quentin. no seu mundo crepuscular entre a escuridão e a luz, derivava entre a consciência e a inconsciência quase à sua vontade, e de nada tinha percepção excepto dos globos de luz, por vezes vermelhos ou azuis. mas quase sempre com um tom de ouro rosado, e da entoação dos minúsculos sinos.

 

O quarto onde Quentin jazia tinha uma vista para ocidente, para uma cordilheira de montanhas baixas e florestadas. Subiam e desciam em curvas suaves, tal como o pêlo espesso e eriçado de uma qualquer besta mítica dormindo pacificamente através das eras. Do alto parapeito da varanda podia olhar-se para o ocidente e para as violentas cores do Sol a pôr-se.

Todas as tardes, a curva descrita pela descida do Sol passava pelo arco das portas duplas que se abriam para a varanda. A luz banhava a forma inerte de Quentin, transfigurando-o, levando-o a deixar de ser uma pálida imagem de cera para se transformar numa criatura de luz viva. Um pequeno carrilhão de vento, suspenso no centro do arco, dançava na ligeira brisa que de vez em quando entrava pelas portas abertas, soltando os seus sons delicados.

Ao lado da alta e larga cama de Quentin sentava-se uma mulher idosa com um xaile de lã branca. Segurava nas mãos um pequeno recipiente com unguento aromático, que aplicava periodicamente num ponto mesmo por cima do coração e nas têmporas de Quentin. Nesses instantes sussurrava algumas breves palavras entre dentes, mantendo as mãos sobre a forma inerte do jovem, que quase não respirava.

Durante todo o dia verificava-se uma constante torrente de visitantes que paravam aos pés da cama de Quentin ou se limitavam a dar um passo para o interior do quarto. Olhavam para a velha, sempre com a mesma pergunta nos olhos, e partiam sempre com o mesmo tipo de resposta: nada se modificara.

De tempos a tempos, Durwin substituía a mulher, sentando-se durante horas a olhar o corpo imóvel estendido na sua frente. À noite levava consigo uma malga de caldo morno, que administrava a Quentin por meio de um curto tubo de osso. Durwin deixava que o caldo deslizasse muito devagar pela garganta de Quentin, tendo o cuidado de não o engasgar. Nunca havia uma reacção.

Uma noite, acabara Durwin de lhe administrar o caldo quando Theido entrou no quarto.

- Nenhuma mudança?

- Nenhuma. Paira entre a vida e a morte. Por vezes penso que pode acordar, pois parece prestes a levantar-se... mas o momento passa e ele continua na mesma.

- Achas que conseguirá recuperar? Já se passaram quase dois meses.

- Não sei. Nunca antes tinha visto este tipo de doença. De certeza que ninguém recupera do veneno dos Shoth... mas o povo de Dekra tem muitos poderes desconhecidos do resto do mundo. Se a ferida tivesse sido mais profunda, ou mais perto do alvo, a arte desta velhota de nada teria servido. Teria morrido logo, ou durante o percurso.

Durwin suspirou, olhando com tristeza para o magro corpo do rapaz.

- Viemos aqui para nada. Foi por minha culpa que isto lhe aconteceu.

- Não te acuses a ti mesmo. Se é preciso olhar um culpado, então não precisas de ir mais longe do que a porta de Jaspin. Foi ele quem atiçou os "caçadores".

- Mesmo assim, não obtivemos qualquer resultado da nossa vinda aqui, e o nosso número diminuiu. Foi a minha teimosia e orgulho. Theido. Foi por causa delas que o jovem Quentin está a sofrer.

- Não, meu bom eremita. Foi graças às tuas capacidades de curandeiro que ele ainda se encontra vivo.

Theido não voltou a falar durante muito tempo. Depois, à pressa. como se receasse o que ia dizer, declarou:

- Não podemos esperar mais tempo, Durwin. Temos de partir no fim-da-semana. Em breve os navios irão sair dos ancoradouros de Inverno de Bestou. em Tildeen. Temos de conseguir um navio que nos leve até Karsh.

O eremita ergueu as sobrancelhas, surpreendido.

- Pensas que encontrarás um mercador que esteja disposto a arriscar o seu navio desse modo?

- Pelo rei... sim.

- Nem pelo rei nem pelo reino. O destino do rei interessa muito pouco a esses marinheiros. Não se ralam com a ascensão ou queda de nações. A sua lealdade varia com o peso das bolsas...

- Então. o capitão que se junte à nossa empresa receberá um resgate real pelos seus esforços, posso garantir-lho. A própria rainha o afiançará.

- Mesmo assim, não tenhas tantas certezas. São gente primitiva e supersticiosa, piores do que os camponeses no que toca a amuletos e sacrifícios. Karsh pode ter sobre eles um poder que nem o amor pelo ouro consiga vencer.

- Veremos. De qualquer modo, não temos outro plano... Não podemos voar.

- Não, suponho que não. Duvido que até o velho Nirrirood pudesse prever isso - declarou Durwin com uma gargalhada.

A frase pretendera ser uma brincadeira, mas Theido permaneceu muito sério ao ouvir mencionar o nome do feiticeiro.

- Achas que o necromante vê assim tanta coisa? Estará a par do nosso empreendimento?

- Sem dúvida que está... ou por intermédio das suas artes, ou por espiões, sabe que estamos no estrangeiro. Porém. não me parece que considere um grupo de cinco...

- Quatro - corrigiu-o Theido.

Durwin preparava-se para continuar quando ouviu um ruído junto à porta, e Alinea entrou no quarto. Aproximou-se da cama e colocou a mão quente sobre a testa fria de Quentin. Olhou com tristeza para o rosto do jovem e depois caminhou para onde os dois homens conversavam.

- Não poderemos fazer mais nada por ele? - perguntou, numa voz que continha um ligeiro tom de súplica. Via-se-lhe nos olhos uma comovedora piedade pelo companheiro caído.

- Tudo o que podia fazer-se já foi feito. Agora temos de vigiar e esperar - respondeu Durwin.

- Sim, eu sei. já mo disseste o número suficiente de vezes. Só desejava que pudesse existir alguma coisa que modificasse o equilíbrio. Estas semanas não foram fáceis...

- A nossa espera está a chegar ao fim - disse Theido. Captou o olhar interrogativo da rainha e explicou-se: - Temos de partir no fim da semana para iniciarmos a nossa viagem para a ilha Tildeen. Os navios começarão brevemente a navegar, e estou ansioso por garantir o nosso embarque.

- Então temos de o abandonar?

- Creio que é a melhor solução - concordou Durwin. - Não podemos viajar com ele neste estado, é óbvio. Mesmo que recuperasse, continuaria demasiado fraco para conseguir viajar durante as próximas semanas. Temos de o deixar aqui. Os Curatak tomarão conta dele. Quando estiver suficientemente forte, poderá regressar a Askelon. Toli conduzi-lo-á em segurança até Pelgrin.

- Sim - afirmou Theido -, é a melhor solução. Não sabemos qual poderá ser o resultado da nossa missão. É preferível que Quentin chegue em segurança à cabana de Durwin.

- Vai ficar de coração desfeito quando souber que partimos... murmurou Alinea. - Veio até tão longe, para depois lhe negarem...

- Não temos outro remédio, senhora - afirmou Theido. Também ele se sentia mal com o facto de Quentin, que se mostrara um companheiro resistente e valoroso, ter agora de ser deixado para trás.

- Quando é que partimos? - perguntou a rainha. - No fim da semana? Escreverei uma carta de salvo-conduto para ele, não vão deparar-se-lhe os homens de Jaspin.

- Acha que essa carta irá ser muito importante? - inquiriu Theido.

A rainha calou-se e olhou para os dois homens com tristeza.

- Não - respondeu, baixinho -, mas é a única coisa que posso fazer.

É verdade - concordou Durwin - Eu próprio irei escrever uma carta, explicando-lhe o que aconteceu e o que pretendemos fazer. Isso ajudará a fazer-lhe ver que não o abandonámos sem boas razões.

- Belo! É uma óptima ideia. Vou começar a tratar das provisões e do equipamento - disse Theido, sentindo-se um pouco melhor por terem de partir. Tal como acontecia com a maioria dos cavaleiros, não deixava ficar para trás um companheiro caído, fosse em que circunstâncias fosse. se o pudesse evitar. Saiu do quarto com uma resolução maior do que a que tinha quando lá entrara. A sua mente sentia-se mais à vontade.

- Não sei se... - murmurou Dumin para a sua própria barba.

- Que te preocupa, amigo Durwin? - inquiriu a rainha. - Há mais alguma coisa?

Mais do que estou a dizer? Sim, confesso que sim. - Aproximou-se da cama de Quentin e sentou-se na beira. Pousou a mão sobre o peito do rapaz apenas por um momento. - Uma vez, disse-lhe que ele iria ter um papel a desempenhar em tudo isto... e continuo a pensar da mesma maneira. Porém, receio que o deus a quem sirvo não me tenha esclarecido com mais precisão. - Lançou um olhar de amizade para a forma imóvel a seu lado. - Talvez isto seja, para Quentin. um princípio e não um fim...

A rainha Alinea fez um aceno silencioso e pousou a mão no ombro do eremita. Depois de uns instantes de silêncio, saíram os dois juntos, deixando Quentin mais uma vez aos cuidados da mulher idosa.

 

A neve derretia-se no pátio interior de Askelon. A alta cúpula do céu, varrida pelo vento, mostrava-se perfeita e limpa, anunciando uma Primavera temporã. Servos das mais variadas categorias atravessavam o pátio a correr, procurando tanto quanto possível evitar a lama e as poças de água. Cada um deles concentrava-se numa qualquer tarefa importante. Olhá-los era o mesmo que observar um carreiro de formigas a tratar dos seus assuntos com um vigor maior do que de costume.

Nas suas câmaras. onde o príncipe Jaspin concedia audiências no meio da agitação dos servos que embalavam as mobílias e os seus outros pertences. via-se um constante desfile de cavaleiros e nobres, alguns dos quais iriam seguir na sua comitiva. Iam todos reafirmar lealdade e apoio à causa. para em troca receberem uma qualquer indulgência. O sicofanta Ontescue permanecia à esquerda do príncipe. dobrando-se para lhe sussurrar ao ouvido quanto custara a lealdade de um determinado nobre. ou qual a benesse que um determinado cavaleiro exigia para satisfazer a sua consciência.

Um jovem cavaleiro que pretendia autorização para recuperar. pelo direito das pontas das lanças, as terras do pai (que este dissipara) entrou e ajoelhou-se perante Jaspin. Apresentou a sua causa quando o interrogaram, e o príncipe concordou. de acordo com as instruções murmuradas por Ontescue. Quando o cavaleiro se levantou para partir. fazendo uma profunda vénia. o príncipe Jaspin perguntou:

- Irás acompanhar-nos até ao nosso castelo de Verão em Erlott?

- Se for esse o vosso desejo, Sire - respondeu o cavaleiro. Vários dos cavaleiros mais jovens, e alguns dos nobres menos seguros de si mesmos, tinham começado a utilizar aquela designação real, numa mostra de deferência, a qual não deixava de agradar ao ambicioso príncipe, que a considerava como sendo um seu direito. Os mais assisados preferiam comportar-se de um modo mais judicioso.

- Agrada-me ter a vossa lança sempre pronta a meu lado, senhor cavaleiro - replicou o príncipe. Gostava de ser acompanhado com grande estilo sempre que se deslocava pelo reino. - Creio que teremos desportos e jogos suficientes para ocuparem a espada jovem e entusiástica de um jovem cavaleiro, ansioso por demonstrar valor entre os seus pares.

- Sinto-me honrado, príncipe - disse o cavaleiro, fazendo nova vénia. Por sua vontade, iria tratar de recuperar as terras do pai, mas um pedido do príncipe não podia ser recusado com ligeireza.

Depois de o cavaleiro sair, - Jaspin virou-se para Ontescue:

- Enviaste o meu camareiro e os ajudantes à frente, para prepararem Erlott para a minha chegada, não é verdade?

- Sim, é claro. Partiram anteontem e já devem estar a preparar tudo - replicou Ontescue. que nos últimos tempos se conseguira infiltrar numa posição cada vez mais importante na estima do príncipe. Podemos seguir viagem logo que a ordem seja dada.

- Muito bem. Estou farto de viver nesta maldita torre. Quero voltar a ver as minhas próprias terras. Todavia, não me agrada o facto de a rainha ter desaparecido. Está fora há demasiado tempo, sem que tenhamos o menor sinal ou informação sobre o seu paradeiro.

- Porque é que isso o preocupa, Sir?

- Passa-se qualquer coisa... Pressinto-o. Não receio pela sua segurança, mas sim pela minha. enquanto andar pelo reino a fazer sabe-se lá o quê. É capaz de organizar uma facção contra mim.

- Se o fizesse, senhor. não seria preciso muito tempo para o sabermos. Poderia acabar com a conjura num instante e atirar a rainha para uma masmorra.

- Meter a rainha numa masmorra? AhI Boa ideia. já o devia ter feito há muito, mas não tive coragem. De qualquer modo, estaria mais descansado se soubesse do seu paradeiro. - O príncipe fez uma pausa e passou-lhe pelo rosto uma pequena e sombria nuvem de preocupação. - Também já deveria ter notícias dos "caçadores". Há muito que deviam ter regressado com os cativos, ou com os seus ossos. Isso preocupa-me ainda mais do que a ausência da rainha.

- Que poderia correr mal com eles? A sua astúcia não se mostrou já muitas vezes à altura das tarefas? Garanto-lhe que teremos notícias dentro de poucos dias.

O príncipe afagou o queixo e lançou uma mirada irritada ao seu conselheiro.

- Suponho que tens razão. No entanto, iria para a minha residência de Verão com uma melhor disposição se tivesse essas pontas soltas já cortadas e arrumadas.

- Não se preocupe, meu príncipe. Se o desejar. poderei ficar para trás e eu próprio lhe levarei as notícias que pretendeis. - Ontescue exibiu o seu sorriso mais gracioso e encantador.

- És um bom conselheiro, Ontescue - replicou Jaspin, satisfeito por haver alguém para lhe tratar do assunto. - Digo-te uma coisa: posso fazer bom uso de homens com as tuas capacidades quando atingir o poder... o que não demorará muito. Sir Bran e Sir Grenett são bons homens, mas no fim de contas não passam de soldados, pelo que não compreendem as finezas da corte e do governo. Vejo que tu, apesar de talvez não o quereres admitir, és especialmente dotado nessa área.

- Sois demasiado amável para comigo, meu senhor. - Ontescue fez uma vénia e ganhou a expressão apropriadamente inocente para merecer um tal favor. Por dentro. saltava de alegria por a meta que se propusera atingir se encontrar ao seu alcance.

No total, o príncipe levou cinquenta nobres e cavaleiros a acompanharem-no até ao palácio de Verão. Contando com os servos e homens de armas, esse número aumentava para mais de cinco vezes.

A peregrinação para Erlott, o castelo privado do príncipe, onde residia quatro ou cinco meses por ano. era um assunto complicado, que exigia demasiados esforços, mas o príncipe não queria as coisas de outra maneira, Como se encontrava a uma hora de distância do mar. para quem se deslocasse a cavalo, o clima era aí um pouco mais fresco durante os meses quentes, e apesar de o castelo ser muitas vezes mais pequeno do que o de Askelon, estava bem fortificado e tinha a amplidão suficiente para as necessidades do príncipe. O castelo de Erlott abrigava com facilidade a sua população flutuante.

A chegada do príncipe a Hinsenby, a aldeia mais próxima. era sempre um acontecimento de gala. As pessoas amontoavam-se ao longo das estradas para verem passar a caravana real. Maravilhavam-se com os cavaleiros e os cavalos, com as armas. com as dispendiosas mobílias que podiam avistar cuidadosamente transportadas nos carros. Era um verdadeiro espectáculo, cheio de alegria e diversões. Jaspin em geral também participava. fornecendo uma boa parte da carne e do vinho necessários para a ocasião.

Naquele ano, o desejo de Jaspin de se refugiar na segurança das suas próprias fortificações surgira semanas mais cedo do que era costume. Eram dois os motivos para aquela mudança prematura: a crescente inquietação a respeito da aliança com Nimrood. que demonstrava ser um aliado perverso e ambicioso, e o desejo de se manter longe de Askelon até que se reunisse o Conselho de Regentes, para o declarar rei. A seguir, planeava uma entrada gloriosa e triunfal na grande cidade, já como seu monarca. Não queria diminuir o impacte do maior momento da sua vida. permanecendo em Askelon até tudo estar consumado. Jaspin adorava a pompa e o esplendor desses acontecimentos. Sabia como agradar às pessoas vulgares, e entretinha-as com belos espectáculos e diversões baratas para lhes distrair as atenções dos seus problemas, para silenciar desse modo alguma língua difamadora.

Um dia frio mas ensolarado saudou a partida do príncipe e do seu exército de nobres e cavaleiros, servos e soldados, bem como vários trovadores, mestres de-jogos e damas, que tinham sido convidados para ajudarem a passar as frias noites da Primavera. Um bom dia de viagem colocá-los-ia mesmo a sul de Hinsenby, onde acampariam e gozariam de um dia dedicado aos desportos. antes de continuarem para Erlott, a mais meio dia de distância. para ocidente.

O dia demonstrou-se favorável para a jornada e chegaram a Hinsenby muito antes do crepúsculo. Os servos começaram imediatamente a erguer as brilhantes e multicolores tendas utilizadas para essas ocasiões, ocupando os terrenos a oeste da localidade. A cidade de tendas abriu-se, como uma flor, sob os olhos brilhantes e as gargalhadas do povo. Uma enorme fogueira faiscou para a vida no centro do acampamento, enquanto à sua volta, e em frente das várias tendas, ardiam fogueiras mais pequenas, destinadas aos cozinhados.

A comida e bebida continuariam durante toda a noite, e de manhã teria lugar um torneio amigável entre os cavaleiros e os mais aptos dos seus acompanhantes. Realizava-se para divertimento e treino dos cavaleiros, e por constituir uma magnífica visão para o povo, que se amontoava no perímetro para ver o espectáculo dos cavalos a entrechocarem-se, transportando os galantes cavaleiros, perigosamente armados. Eram tomadas grandes precauções para que ninguém se magoasse acidentalmente, pois não se ganhava qualquer renome ao ser-se ferido num torneio amigável, e um cavaleiro incapacitado podia perder a honra ou uma fonte de rendimentos. Tal como os cavaleiros de todos os outros lados, a maioria servia-se da sua habilidade com as armas para garantir os favores e patrocínio de um rico nobre, isto, é claro, quando o próprio cavaleiro não era de nascimento nobre.

Na grande tenda, que se erguia acima das outras sobre uma plataforma de madeira. Jaspin dormia, inquieto, enquanto os roucos ruídos da multidão continuavam a ouvir-se pela noite dentro. O príncipe, que se desculpara por abandonar os seus alegres companheiros, retirara-se cedo, alegando que queria apresentar-se fresco para o torneio da manhã seguinte. Na verdade. sentira-se cada vez mais inquieto e perturbado, depois de ter passado todo o dia a meditar no desaparecimento da rainha Alinea e na falta de notícias dos "caçadores" que enviara para apanharem os fugitivos.

Meteu-se na cama com uma sensação de apreensão, e caiu imediatamente num sono perturbado e repleto de sonhos em que o fantasma do seu irmão se erguia ante ele, acusador, exigindo saber o que acontecera à sua mulher. Alinea.

Acordou duas vezes, durante a noite, com a sensação de uma presença a pairar por perto, como se alguém rondasse no exterior da tenda. Chamou o seu camareiro. em cada uma dessas vezes, e este negou, depois de passar revista à circunferência da tenda, que se estivesse a passar algo fora do normal.

De manhã já quase se esquecera daquela noite desagradável. Sentia-se alegre com a perspectiva dos jogos. Tudo o que restava das dúvidas da noite era uma ocasional sensação de mau presságio, vaga e indefinida, como se pudesse vir a receber más notícias de um momento para o outro e inesperadamente.

Porém, as preocupações diminuíram com os preparativos para o torneio. As fronteiras do campo de luta foram medidas e marcadas com lanças que ostentavam pendões a vermelho e ouro. As tendas que se encontravam a cada extremidade do campo foram convertidas para uso dos cavaleiros que iam participar nos combates. As armas foram aprontadas, com todos os afiados gumes protegidos por couro e as pontas das lanças embotadas com protecções de madeira. Os capacetes, escudos e couraças peitorais foram polidas, enquanto os brasões e insígnias eram pintados de novo em todos os casos em que o uso os tivesse apagado.

A população de Hinsenby, e outras pessoas de mais longe, algumas das quais tinham caminhado toda a noite. reunira-se logo de madrugada no algo ensopado campo de Hinsen. A maioria trouxera consigo cestos com comida e bebida para todo o dia. mas outras negociavam com os mercadores locais que se aproveitavam do súbito afluxo de visitantes para venderem iguarias especiais: enchidos, rolos e empadas de carnes muito condimentadas, que constituíam refeições de pouco volume e fáceis de transportar.

Ao Sol do meio-dia, mais brilhante e quente do que seria próprio da época, tudo estava pronto. Jaspin encontrava-se sentado debaixo de um toldo, sobre uma plataforma elevada que dominava o campo do torneio. Alguns dos seus nobres favoritos tinham obtido a graça de se poderem sentar a seu lado. As damas, com os rostos bem cobertos para se protegerem do Sol, sentavam-se mesmo em frente da plataforma. Publicamente, aquelas belas damas desdenhavam o duro desporto que era o dos torneios, mas não havia uma única que estremecesse ante o choque das armas ou ante o sangue que por vezes caracterizava os jogos.

Depois de todos os concorrentes. vestidos, equipados e montados nos seus fortes cavalos de batalha, ter em dado duas voltas em torno do campo, o mestre-dos-jogos tomou o seu lugar no centro, e leu as regras do torneio aos participantes, agora alinhados em duas filas, uma em cada extremidade do campo.

Tinham sido tiradas sortes para decidir a ordem dos cavaleiros que participariam. Sir Grenett obtivera o primeiro lugar. Avançou através do campo, parou e virou-se, colocando-se na frente do grupo de Jaspin.

- Por Mensandor e pela glória! - gritou. Todo o povo respondeu com um grito.

- Pela liberdade! Lutem!

O príncipe Jaspin fez um aceno com a cabeça e Sir Grenett cavalgou para o cavaleiro que escolhera para oponente, seleccionando-o entre os que se encontravam dispostos numa longa linha na extremidade ocidental do campo. Parou na frente de Sir Weilmar e tocou~lhe no escudo com a ponta da lança. Os dois homens cavalgaram. para irem ocupar os seus lugares de cada lado do terreno da justa.

Ao sinal. a luva do príncipe Jaspin a descer. os dois cavaleiros esporearam os cavalos, de lanças bem erguidas. Quando se aproximaram um do outro, no centro do campo, baixaram as lanças e prepararam-se para o embate.

A pontaria de Sir Weilmar era boa. Colocou o seu golpe precisamente no centro do alvo, o peito de Sir Grenett. Este não foi menos preciso e o choque da colisão fez vacilar os dois cavalos. A lança de Sir Weilmar partiu-se, como se fosse um frágil graveto, ao escorregar na pesada armadura do competidor. Sir Grenett poderia ter tido a mesma sorte se não fosse a superior força do braço, e a vantagem de um maior peso na sela. O seu golpe acertou em Sir Weilmar e ergueu-o da sela, mas a habilidade deste. como cavaleiro, conservou-o no seu lugar, o que provocou a quebra da cinta da sela.

A sela de Weilmar escorregou para o lado e o cavaleiro caiu. Tratava-se de uma pequena vantagem a favor de Sir Grenett, mas nenhum dos cavaleiros dera um golpe decisivo.

Tudo isto tivera lugar no meio dos clamores gerais e dos aplausos das pessoas, muitas das quais tinham feito apostas nos seus favoritos. O mestre~dos-jogos considerou Sir Grenett como vencedor e Sir Weilmar como vencido. Os dois retiraram-se para observarem o resto dos jogos em sossego, depois de ganharem a honra suficiente para aquele dia, e dois novos competidores ocuparam os seus lugares. Sir Grenett recebeu um soberano de ouro pela sua vitória, e Sir Weilmar nada ganhou. excepto uma cinta de sela partida e uma certa dose de desgraça.

Os jogos prosseguiram o seu curso, para grande delícia dos espectadores. Um após outro, os cavaleiros tentaram provar a sua força e destreza com as armas. Porém, mais ou menos a meio do torneio, levantou-se um munnúrio de alarme entre os espectadores que se encontravam do outro lado do campo, em frente à tribuna do príncipe Jaspin. Os cavaleiros que aguardavam o sinal para o combate pararam e viraram-se para a multidão, para verificarem as causas da perturbação.

- Em nome de Orphe, que se passa ali? - praguejou o príncipe quando os espectadores, aparentemente assustados com qualquer coisa, se precipitaram para o interior do campo do torneio.

- Provavelmente, houve alguém que viu uma serpente no meio das ervas! - disse Bascan de Endonny, que se encontrava sentado ao lado do príncipe, soltando uma gargalhada. - Estou certo que não é nada de grave.

Houve outro cavaleiro que resolveu aproveitar aquela graça, acrescentando:

- Mais vale serpentes nas ervas do que ratos na cave.

Toda a gente se voltou a rir.

O príncipe, percebendo que se tratava de um comentário ao facto de ter mandado prender Weldon e Larcott, explodiu:

- Quem se atreve a ridicularizar os meus juízos? Falem!

- Senhor, não foi essa a intenção - balbuciou Sir Bran. - Foi apenas uma brincadeira. Não pretendia ofendê-lo. juro-lho. - Bran preparava-se para dizer mais qualquer coisa quando se ouviram exclamações entre as damas que se encontravam por baixo deles, e vários dos cavaleiros sobre a plataforma se puseram de pé num salto.

- Protege-nos, Azrael! - gritou alguém.

Do outro lado do campo, a multidão chegara-se para os lados, abrindo uma larga avenida para o cavaleiro solitário que entrou lentamente no campo, com um ar digno e de certo modo ameaçador. As cores desapareceram do rosto do príncipe Jaspin, enquanto as suas mãos se agitavam como pássaros assustados.

Um "caçador" avançava através do campo, e só deteve o cavalo quando se viu mesmo em frente do príncipe. No ombro trazia um grande falcão empoleirado, e a seu lado pendia um fardo informe.

Sem pronunciar uma palavra, desprendeu o fardo da sela. Com um ar de desafio, o "caçador" ergueu no ar o seu conteúdo, para que todos pudessem ver as cabeças cortadas e sangrentas dos seus dois companheiros mortos.

 

Quentin estava de pé, junto ao parapeito da janela do quarto. olhando para a floresta escura e envolta em neblina. sentindo-se inútil e infeliz por ter sido deixado para trás. Tinha a mão caída ao longo do corpo. ainda a segurar nas cartas que os amigos lhe tinham deixado e que acabara de ler uma vez mais.

Ouviu um som atrás dele e virou-se. Era Mollena, a sua idosa enfermeira. Entrou, olhou para a cama vazia e depois para a varanda, e exibiu um sorriso desdentado quando o viu.

- Venha para dentro, jovem senhor. Vai ficar gelado se continuar aí parado. O calor também chega a estas montanhas, mas leva o seu tempo. Ainda vai precisar muitas vezes da sua capa.

Quentin não respondeu. mas retirou-se para o interior do quarto com relutáncia e atirou-se para cima da cama.

- Vejo que se está a sentir com mais forças, mas é melhor não abusar. Os seus pés estão ansiosos, mas o coração necessita de descanso. - Fez uma pausa e olhou para a expressão abatida de Quentin. - Que foi que leu que lhe perturba a alma, meu corajoso jovem?

- Abandonaram-me, Mollena. Porquê? - Quentin sabia porquê, mas queria que uma outra pessoa qualquer o tranquilizasse, dizendo-lhe que não fora esquecido.

- Não podia ser de outra maneira. Essa é uma das coisas que sei. - A velha pronunciou estas palavras com um tom estranho.

Quentin virou-se na cama e olhou-a. Os Curatak eram um povo curioso e sabiam muita coisa, de maneira que também não eram muito vulgares.

- E que mais sabes? - perguntou, como se se dirigisse a uma adivinha para lhe pressagiar o futuro.

- Sei que o seu amigo Toli o aguarda lá em baixo. Venha, penso que o passeio lhe irá fazer bem.

Quentin saiu da cama e arrastou-se para a porta.

- Não se esqueça da capa - insistiu Mollena quando o viu sair. Quentin pegou-lhe e colocou-a sobre os ombros, e acompanhou a mulher para ir ao encontro do amigo.

Sob os cuidados da velha curandeira, Quentin voltara à vida e acordara três dias depois da partida dos outros, Abrira os olhos, como se tivesse apenas passado por uma longa noite de sono, esfomeado e com pouco mais do que a cabeça um pouco tonta. Deixara-se ficar deitado durante muito tempo, tentando recordar-se do que lhe acontecera e como fora ali parar. No entanto, essa tentativa não tivera êxito.

Algures nos mais profundos recantos da sua mente ainda pairava um sonho sombrio e indistinto... Um sonho em que tinha um papel a desempenhar. No entanto, parecia-lhe um sonho de há muito, separado dele próprio, como se tivesse acontecido a outra pessoa e o conhecesse por ter lido um relato. E era verdade. Lera-o nas cartas que Durwin e Alinea lhe tinham deixado.

Ao segundo dia Quentin levantara-se e andara em volta do quarto. e no seguinte explorara todo o primeiro andar. Sob a tutela de Mollena, aprendera qualquer coisa a respeito de Dekra e dos misteriosos Curatak, que guardavam as ruínas.

Dekra fora a última fortaleza de uma grande e poderosa civilização, de um povo que desaparecera sem deixar vestígios, mil anos antes de Celbercor forjar o seu reino. Os Curatak,, ou Curadores, haviam colonizado há muito a cidade arruinada e lutavam constantemente contra as ervas daninhas e a vida selvagem que a tentavam invadir, e de tempos a tempos também desencorajavam outros de irem ali instalar-se. Da poeira das paredes e colunas tombadas da outrora orgulhosa cidade de uma raça de nobre nascimento, os Curadores haviam recuperado a memória de Dekra e dos seus habitantes. Haviam mergulhado profundamente no seu passado, aprendido os seus usos e costumes, e até restaurado muito da antiga praça central da cidade, sede do governo local. Fora aí, no palácio de inúmeros quartos do governador de Dekra, que Quentin e os outros tinham obtido abrigo. Servia agora de habitação comunitária para os Curatak, Quentin vira muito pouco da cidade arruinada, mas o suficiente para perceber que a aura que rodeava até a simples menção do seu nome era completamente infundada. As lendas que os homens contavam uns aos outros no escuro, junto das fogueiras, eram absurdamente falsas... e talvez até tivessem sido inventadas de propósito para protegerem a privacidade dos Curadores e a sua missão de restaurar o esplendor original da cidade, uma tarefa que Quentin descobriu que, para os Curatak, era uma verdadeira devoção para com um povo a quem aparentemente adoravam como se de deuses se tratasse.

Os Curadores acreditavam que os Ariga, os habitantes originais de Dekra, voltariam um dia para reclamarem a posse da sua cidade, e pensavam que quando esse momento chegasse eles próprios se tornariam em Ariga. em virtude do longo e esforçado trabalho.

Não havia certezas quanto à origem dos Curadores, que pareciam preocupar-se pouco com a sua própria história, a não ser que esta ajudasse a recordar a de Dekra. Porém, o pequeno grupo original transformara-se em várias centenas de pessoas, ao longo dos anos. De vez em quando alguns estranhos vagueavam até à cidade e ficavam para ajudarem no trabalho. Os Curatak não desencorajavam os visitantes que apareciam com intenções honradas ou que desejavam estudar os usos antigos. De facto, mostravam-se sempre mais do que satisfeitos quando tinham a oportunidade de transmitir as artes dos desaparecidos Ariga a todos os que lhas pedissem. Também isso era considerado como um dever sagrado.

Durwin visitara a cidade em várias ocasiões e, de uma das vezes, ficara durante mais de três anos. Vira e aprendera muito nas ruínas, e ajudara à restauração de um dos principais edifícios, o templo do deus dos Ariga. Um deus solitário que não tinha nome.

- Achas que terei forças suficientes para partir em breve? - perguntou Quentin quando chegaram ao piso térreo.

Penetraram numa grande área que fora dividida em quartos mais pequenos. mas que mantinha uma atmosfera de luz e de espaço no que teria sido um escuro e sólido rés-do-chão em qualquer das outras estruturas que até ali encontrara. Quentin, sentindo-se com falta de fôlego por ter descido tantas escadas, sentou-se numa tripeça enquanto Mollena se instalava noutro canto. Aparentemente, Toli fora-se mais uma vez embora para ir vaguear pela cidade.

- Partir em breve? Isso é convosco. Pode partir quando achar que tem de o fazer. Ou então, pode ficar durante tanto tempo quanto desejar. - Quentin observou os cabelos cinzentos da mulher. o rosto enrugado e o seu aspecto dobrado. Num outro sítio qualquer a mulher seria considerada como uma das filhas de Orphe. No entanto, naquele local, fazia tão parte do ambiente natural como a estranha arquitectura que via e os exóticos murais que cobriam as paredes de quase todos os edifícios. Além disso, no seu espírito havia qualquer coisa que a fazia parecer tão jovem e viva como todas as donzelas que conhecera (e que, no caso de Quentin, haviam sido poucas).

Quentin tinha sempre a impressão de que Mollena se refreava, receando contar-lhe demasiadas coisas, e de que sabia mais do que queria que ele ouvisse. Notava-o não apenas em Mollena, pois todos os outros que conhecera nos últimos dias também falavam de um modo criptico.

- Ensinas-me qualquer coisa? - perguntou, depois de a ver atarefada a preparar-lhe um prato qualquer. Mollena virou-se, para o mirar com um longo olhar de esguelha, a cabeça inclinada para um lado como se procurasse tomar uma decisão.

- São poucas as coisas que lhe poderia ensinar, e há outros muito mais sábios do que eu. Que queria saber? - inquiriu.

- Não sei... Quer dizer... não sei por onde começar. Diz-me o que pensas que devo conhecer deste lugar e do mundo.

- O que penso não tem grande importância. Tem de ser o senhor a escolher o caminho - respondeu Mollena, colocando na frente dele uma pequena mesa com uma taça de frutos secos e uma chávena com um líquido quente e amarelo. - Agora, coma. Recupere as suas forças. Pense no que o ajudará a conseguir o que pretende... e então poderei ensinar-lhe.

Quentin comeu, como lhe tinha ordenado, mas no fim da refeição ainda não se encontrava mais perto da resposta à sua própria pergunta.

- Não vale a pena - anunciou, empurrando a taça de fruta para longe e limpando a boca às costas da mão. - Não sei o suficiente sobre este lugar, ou sobre a sua gente, para poder decidir o que seria melhor aprender.

- Bem dito - afirmou a mulher com um sorriso caloroso. - Esse é o primeiro passo para o conhecimento. Ande, vou conduzi-lo pela cidade e encontrará as respostas que procura.

Toli apareceu à entrada no preciso momento em que iam a sair, pelo que seguiram os três juntos.

Entre Quentin e o tranquilo jher consolidara-se uma amizade firme. Toli parecia encarar o amigo com um medo reverente, como se se tratasse de alguém com fortes poderes místicos. Na sua opinião, e também sob o ponto de vista simplista dos camponeses vulgares, quem quer que fosse que conseguisse sobreviver às garras envenenadas do falcão de um "caçador" era um candidato à divindade. Parecia decidido a servir Quentin como seu guarda-costas e ajudante, e insistira em aprender a língua de Quentin para poder saber como servir o seu amo de um modo mais eficiente.

Quentin, por seu lado, considerava que o único motivo que o levava a ainda se encontrar no mundo dos vivos tinha sido o pensamento rápido e os reflexos de Toli. quando o puxara para o chão naquela negra noite. O falcão mal lhe raspara na pele do braço com as garras metálicas, ocas e cheias de veneno. Na realidade, esses animais estavam treinados para atacarem a garganta. Assim, e por gratidão, Quentin lançara-se na tarefa de ensinar Toli a falar a sua língua, e de ele apreender a dos Jher. Ficou surpreendido ao descobrir que, depois dos rigores da aprendizagem, no templo, da língua codificada dos sacerdotes. a linguagem dos Jher não era tão obscura como receara. Possuía apenas uma mão cheia de sons básicos que se combinavam para formar palavras e frases mais complexas.

Graças a um trabalho constante e a muita paciência, Quentin e Toli começaram a criar um método de comunicação que lhes permitia falar um com o outro.

A mulher conduziu-os ao longo de largas avenidas bordejadas por árvores, que Quentin imaginou que em tempos passados deveriam estar cheias de carros puxados a cavalo e de gente a andar de um lado para o outro, comprando e vendendo... Olhou para os altos edifícios de engenhosa construção, com altivas torres que se elevavam com uma graça sem esforço. Apesar de terem utilizado a mesma pedra que os construtores de Askelon usariam muito mais tarde, em Dekra os arquitectos haviam feito coisas muito diferentes. A sua habilidade era tal que até as estruturas mais sólidas e maciças pareciam aéreas e leves, bem proporcionadas e elegantes. Era uma cidade que fora desenhada por poetas.

O único templo da cidade encontrava-se no centro de Dekra e todas as linhas convergiam para esse ponto. As ruas descreviam anéis concêntricos e ângulos de intersecção em relação ao templo, que era suficientemente grande para acomodar à vontade de todos os habitantes da cidade.

Foi para aí que Mollena os conduziu.

Quentin caminhou pelas ruas silenciosas, algumas delas mais restauradas do que outras, mergulhado numa espécie de sonho acordado. A cidade da raça desaparecida era um lugar estranho e exótico, e era, por si só, uma cidade de sonhos. Olhava espantado à sua volta, maravilhando-se com a estranheza do lugar. Perguntava a si mesmo como teria sido aquele povo.

- Que aconteceu às pessoas?

- Não se sabe... Oh, encontramos coisas de vez em quando, e entre nós há muitas teorias, mas a resposta para a pergunta mais intrigante continua a ser um mistério. No entanto, sabemos algumas coisas: foram-se embora todos ao mesmo tempo, subitamente e muito depressa. Encontrámos potes ainda sobre as cinzas do fogo que ardia sob eles, com os restos queimados das refeições que estavam a ser preparadas. Descobrimos, no bairro dos mercadores, caixas de dinheiro deixadas abertas e com o conteúdo intacto. Uma vez encontrámos uma mesa preparada com instrumentos de escrita, e os restos de uma carta que estavam a escrever... com a pena posta de lado a meio do trabalho. como se o autor tivesse sido interrompido e chamado de repente, para nunca mais regressar.

A velha parou e olhou em volta. O seu rosto exibia uma excitação que não era inferior à de Quentin.

- A resposta está aqui, dentro destes edifícios e muralhas. Um dia, acabaremos por a encontrar.

Quentin ficou em silêncio enquanto prosseguiam com aquele tranquilo passeio. Passado algum tempo, arriscou-se a fazer uma pergunta:

- Como eram essas pessoas, Mollena? Eram diferentes de nós?

- Na aparência, não muito, apesar de serem mais altos e mais fortes. Sabemos disso pelos muitos murais que abundam em todas as casas e edificios públicos. Entre eles encontravam-se artistas e escritores de inigualável habilidade.

"Um dos primeiros edifícios que restaurámos foi o da biblioteca de Dekra, uma vasta colecção de escritos. Muitos dos pergaminhos ainda podiam ser lidos. Muitos outros foram preservados e restaurados, mas trata-se de um processo demorado e muitas vezes frustrante. Agora já aprendemos a ler as suas palavras, e são muitos os Curatak que se dedicam a aprender os ensinamentos dos antigos estudiosos. O que já lemos revela uma raça sábia e benevolente, de elevada inteligência. Os ensinamentos não são fáceis de compreender, mas aprendemos muita coisa, No entanto, há ainda muito por descobrir.

Os três avançavam em direcção ao templo por uma das avenidas que seguiam a direito e cortavam as ruas concêntricas. Enquanto Quentin escutava Mollena, olhava fascinado para o templo. que se tornava cada vez maior à medida que se aproximavam lentamente. O lugar sagrado erguia-se majestosamente por cima das árvores que o rodeavam, todo formado por linhas puras e pináculos erguidos para o céu.

- Quem eram? - perguntou Quentin, mais para si mesmo do que para a mulher, experimentando uma crescente sensação de excitação suprimida, inexplicavelmente misturada com um desgosto que não conseguia identificar, como se alguém, que ele sabia que não existia, pudesse aparecer em qualquer momento.

- Quem eram? - repetiu Mollena, quando pararam na grande praça que rodeava o altíssimo santuário. - Denominavam-se a si mesmos de Ariga, os filhos do deus.

- E quem era o seu deus^, - inquiriu Quentin. - Conhecemo-lo?

- São muitos os que o conhecem, mas não pelo nome. O deus dos .Viga não tem nome. É único. sem nome e supremo. Por vezes serviam-se das palavras -V"hist Orren", ou "O mais Alto", e de "Peran Nim Gadre". ou -Rei dos Deuses". O mais frequente era designarem-no por Dekron, o único" ou Sagrado,>. Porém o seu nome, se tem algum, nunca foi escrito.

Sem mais uma palavra, Mollena levou-os para o interior do grande templo. Quentin viu vários Curatak trabalhando tranquilamente no interior, Uma secção da parede ocidental, em frente deles, abatera. Havia andaimes levantados na zona danificada, e os trabalhadores restauravam. com esforço, o edifício. A Quentin parecia-lhe que todos se moviam com uma grande reverência,

- Nós, Curatak - explicou Mollena -, também nos transformámos em Ariga porque adoramos o seu deus sem nome como se fosse nosso. - Viu o olhar interrogativo de Quentin e prosseguiu: - Acre~ ditamos, tal como os desaparecidos. que o seu deus tinha muitos filhos.

- Onde é que ficam os sacerdotes? - perguntou Quentin, olhando em volta. A maior parte do interior do templo era composta por uma vasta área aberta, com uma plataforma elevada numa das pontas. a que se tinha acesso por uma série de degraus de pedra, que descreviam uma circunferência. Não via lugar nenhum onde pudessem viver sacerdotes, a não ser que os aposentos ficassem debaixo do chão.

- Não tinham sacerdotes... Ou seja, não tinham aquilo que o senhor considera como um sacerdote. Os Ariga aproximavam-se do deus sozinhos, apesar de terem leitores... homens que estudavam exaustivamente os textos sagrados, e que se dirigiam aos outros quando estes se reuniam, recordando-lhes os vários princípios da religião. Todavia, não existiam sacerdotes servindo de intermediários para o povo.

Viraram-se para saírem, e quando se encontravam de novo no exterior Quentin foi atingido por uma ideia subitamente recordada, uma coisa em que pensara muitas vezes e sobre a qual esperara interrogar Durwin durante a viagem para a cidade arruinada.

- Mollena, porque é que Theido tinha receio de vir aqui? Porque queria que Durwin se mantivesse afastado?

A velha olhou-o com a sua cara enrugada:

- Quem disse que Theido tinha medo? - inquiriu.

- Ouvi-os conversar a esse respeito. Durwin disse, desde o princípio, que devíamos aqui vir. Theido estava contra. Depois aconteceu qualquer coisa: Trenn surgiu com a notícia de que os "caçadores" nos perseguiam, e Theido mudou de opinião. De que tinha medo?

- Não me compete a mim dizê-lo, mas pode perguntá-lo a Yeseph. um dos nossos líderes. Talvez lhe possa dar uma resposta a essa questão. Eu não posso.

Mais uma vez uma resposta críptica, pensou Quentin. Que estariam aqueles Curatak a esconder-lhe Até àquele momento. não se encontrara motivo para receios em nada do que vira. Ficou intrigado durante o resto do dia, e durante boa parte da noite, antes de conseguir adormecer. No dia seguinte acordou decidido a falar com Yeseph e a fazer-lhe as perguntas. Porque fora que Theido receara por Durwin? E por que razão mudara de opinião?

 

A sorte está connosco, meus amigos - exclamou Theido depois do seuu regresso das docas de Bestou.

- Encontraste um barco que nos leve a Karsh? - perguntou Alinea.

Ela e Durwin estavam sentados à entrada da Estalagem Peixe-Voador. esperando que Theido conseguisse a passagem para a ilha-fortaleza de Niarood, o necromante.

- Sim, mas não foi fácil. Devo ter perguntado a metade dos capitães que se encontram nas docas se nos podiam dar passagem, e a resposta foi sempre a mesma: "Nós mantemo-nos longe de Karsh. Não nos aproximamos nem por ouro, nem pelos próprios deuses!" No entanto, houve um homem que nos procurou, dizendo que era proprietário de um barco que ia passar perto de Karsh, e que não se importava de nos desembarcar numa costa amigável. se é que na ilha existe tal coisa,

- Dizes que o homem te procurou? - inquiriu Durwin, desconfiado. - É preciso cuidado com todos os que nos ofereçam a sua ajuda com demasiada facilidade. Podem estar sob as ordens de Nimrood,

Impaciente, Theido pôs de parte a observação.

- Não podemos estar sempre a espreitar debaixo de cada pedra e atrás de cada árvore, à procura de espiões. Temos de confiar na nossa própria iniciativa. temos de agir!

- Meu amigo, sou todo a favor de prosseguirmos com a nossa iniciativa. mas precisamos de ter cuidado. O nosso inimigo é um mágico negro de grandes poderes, que não tem relutância em praticar o mal, seja ele qual for. Além disso, a sua rede de intrigas foi lançada até muito longe.

- Pode ser que sim... - retorquiu Theido, um pouco irritado. Aborrecia-o estar parado. Era um homem de acção e queria avançar sem perda de tempo -, mas não é possível ficar à espera, para todo o sempre, de um sinal vindo dos céus. Quer o teu deus nos sorria quer não, temos de partir.

- Senhores, por favor! - implorou Alinea. - A bem da nossa causa, refreiem os vossos temperamentos. - Havia vários dias que observava a crescente inquietação de Theido. enquanto esperavam um resultado favorável nas docas, e já várias vezes desempenhara o papel de moderadora, interpondo uma palavra gentil ou de calma em momentos de acaloradas discussões entre os dois homens. - Estou tão ansiosa como vocês por ver o fim a esta jornada, mas não à custa da inimizade entre nós. Receio que isso pudesse ser desastroso tanto para nós como para o rei.

Theido fez um aceno, aceitando a recriminação, pousando a mão no braço de Alinea e dizendo:

- Tendes razão, senhora. A nossa missão não ficará a ganhar com a troca de palavras azedas.

- Então. pronto, meus amigos. Tomemos uma decisão. As diferenças de opinião são pequenas e é melhor que as atiremos para trás das costas. - Olhou por longo tempo para a expressão fatigada de Theido, e para o rosto de Durwin, em geral bem-disposto mas agora nublado pelas preocupações. - O meu rei nunca teve dois súbditos mais nobres nem tão bravos. Vai ser-lhe difícil encontrar palavras para exprimir a sua gratidão para convosco.

- Para mim. será recompensa suficiente vê-lo mais uma vez vivo e em segurança - retorquiu Theido, com um sorriso. mas as linhas de tensão que tinha em volta dos olhos não se deixaram apagar.

O grupo chegara a Bestou, na ilha de Tildeen, depois de uma dura marcha através da emaranhada floresta que rodeava Dekra. O caminho fora mais fácil e mais seguro depois de terem atingido o entreposto de pesca de Tuck, demasiado pequeno para poder ser chamado povoação. Tinham trepado para bordo do barco que fazia a ligação com a ilha de Tildeen, uma das maiores entre as chamadas Sete Ilhas Místicas. -Na verdade, não havia nada de particularmente misterioso nas ilhas mais pequenas, e só Cotithv. a maior, fora em tempos o santuário de uma religião secreta e primitiva. Diziam que ainda se verificavam estranhos acontecimentos na ilha, que tinha uma forma curiosa e estava frequentemente envolvida por neblinas.

Todavia, Tildeen. a segunda maior ilha, era o local de uma cidade marítima relativamente grande e movimentada, Bestou. Aquele centro comercial servia de refúgio de Inverno para os navios de toda Mensandor, devido a uma imensa e protegida baía que raramente gelava durante os meses mais frios, apesar de a ilha se encontrar tão a norte.

Depois de chegados a Tildeen e de terem sido postos em terra, com rudeza, pelo rústico operador do barco que fazia a ligação, Theido, Dur-win, Alinea e o fiel Trenn enfrentaram uma dura jornada por trilhos de montanha. subindo e descendo a contorcida espinha dorsal da ilha, num percurso serpenteante que ia dar ao porto que se encontrava do outro lado.

A viagem fora realizada em muito mais tempo do que aquele que Theido gostaria de ter gasto. Porém, quando o grupo chegou à vista da baía, aproximando-se como bandidos a descer das altas serras por detrás de Bestou, Theido ficou satisfeito ao ver recompensado todo o esforço a que obrigara o grupo nos trilhos da montanha. Os navios estavam ancorados. com as velas coloridas já preparadas. à espera do primeiro dia de tempo bom para a navegação.

Quando na manhã do dia seguinte se dirigira ao cais, depois de, pela primeira vez em muitas semanas, terem passado uma noite sem frio junto à lareira da Estalagem Peixe-Voador, Theido falara com marinheiros e capitães de embarcações grandes e pequenas. Todos se haviam recusado - alguns com polidez mas outros com uma rude má educação - a garantir-lhes passagem para a ilha maldita.

A relutância era compreensível. Karsh, um grotesco montão de terra, o pico de uma montanha submersa, sobressaía das águas muito para leste da costa de Elsendor, o país vizinho de Mensandor. Havia muito que os marinheiros evitavam a ilha, mesmo antes de Nimrood tomar aí residência e construir uma fortaleza. A ilha era inapropriada para qualquer pessoa normal, e servia de abrigo apenas para as incontáveis aves marinhas, que faziam os ninhos nas altíssimas falésias do lado ocidental, e para os pequenos caranguejos-terrestres que se alimentavam dos restos de peixe podre e crias de aves que se precipitavam das falésias. Theido, com Trenn a acompanhã-lo, calcorreara o cais durante dois dias antes de se lhe deparar o capitão que se oferecera para os levar à odiada ilha. Finalmente satisfeito por ter conseguido o seu objectivo, Theido não se deu à formalidade de inspeccionar o navio ou a tripulação, confiando na palavra do capitão, um homem baixo e com um aspecto opressivo, chamado Py gin. que lhe garantiu que o navio era bom e a tripulação experiente. Regressara à estalagem cantarolando para si mesmo, e deixando Trenn encarregado de embarcar as poucas posses que levavam e de obter as provisões que considerasse necessárias. Logo que terminou essa tarefa. Trenn regressou também à estalagem, mas não tão satisfeito como o seu amigo Theido.

- Há qualquer coisa de estranho a respeito daquele navio - disse para Theido. puxando-o para um lado depois de terem jantado.

- Que foi que viste a bordo? Passou-se alguma coisa? - O cavaleiro perscrutou o preocupado rosto do soldado, em busca de uma explicação para aquelas dúvidas.

- Nada que possa apontar concretamente, senhor. No entanto, reparei que todos os outros homens a bordo dos navios que estão no porto se preparavam para navegar, carregando e armazenando provisões, remendando velas, vedando os cascos e sabe-se lá que mais... enquanto os homens do capitão Pyggin estavam a preguiçar. Permaneciam de pé no convés ou sentados nos barris... como se estivessem à espera de alguma coisa. - Trenn franziu a testa. - Não me agrada...

- Talvez já estejam prontos e esperem apenas os primeiros ventos para içarem as velas. Foi o que o capitão me disse - replicou Theido, desfazendo as dúvidas do outro com tanta suavidade quanto lhe era possível.

- Pois é. talvez... mas nunca vi um navio daquele tamanho que não estivesse sempre a necessitar de pequenos arranjos, nem um capitão que deixasse a tripulação sem fazer nada...

- Não te preocupes. Trenn - disse Theido. - Estou certo que nada temos a recear. Só pedimos que nos coloquem em terra no nosso destino. Não há mal nenhum nisso...

Trenn afagou o queixo e fez uma careta, repetindo a declaração original:

- Pode ser que seja assim, por Ariel! No entanto. continuo a afirmar que há qualquer coisa de estranho naquele navio.

 

Quando o príncipe Jaspin fugiu dos jogos, tão incomodado com o súbito e indesejável aparecimento do "caçador" com as suas sangrentas recordações, retirara-se imediatamente para o castelo de Erlott.

Que prossigam os jogos! - anunciara, magnânimo, depois de pagar a dívida ao odioso pisteiro (que exigira o dobro do pagamento que lhe fora prometido, bem como o pagamento devido aos amigos mortos). O príncipe Jaspin, apanhado numa situação delicada, e tendo o cuidado de não ofender os sentimentos públicos. que eram da opinião que quem tivesse negócios com os "caçadores" era tão vilão como eles, pagara e mandara o homem embora com o mínimo de agitações.

O príncipe e os seus acólitos tinham então fugido para a segurança do castelo de Erlott, onde realizaram uma apressada conferência para discutirem a situação.

A reunião poucos resultados dera, em termos de correcção dos prejuízos já causados e, como o príncipe não podia revelar qual era a fonte dos seus receios, mandou-os embora bruscamente e retirou-se para a sua própria câmara privada.

Depois de bem fechada a porta dos seus aposentos e de mandar colocar guardas para ter a certeza que não iria ser interrompido por intrusos. o príncipe dirigiu-se para o quarto mais interior, uma divisão pequena e escura, sem janelas. escavada numa das maciças muralhas exteriores do castelo, e sentou-se em frente da caixa esmaltada a preto.

Levantando a tampa e colocando as mãos nos lados da pirâmide miraculosa, sentiu o poder a pulsar quando o objecto dourado começou a brilhar, Em breve tinha as feições aguçadas banhadas pela luminosidade cerosa. Escutou nos ouvidos o bater do seu próprio coração, e observou as faces opacas da invenção de Nimrood a ganharem uma aparência enevoada.

Depois, e tal como sempre, Jaspin olhou para as profundezas, cada vez mais claras, daquele objecto encantado, enquanto o nevoeiro aclarava para revelar as feições do seu maléfico cúmplice.

- Bem, bem! Que portentos te levaram a esta inesperada chamada, meu príncipe? Perdeste um alfinete? Ou um trono? - O necromante atirou a cabeça para trás e riu-se, mas o som morreu-lhe na garganta. A seguir fitou Jaspin com um olhar gelado.

O príncipe temia a mensagem que ia ter de transmitir, mas, como não tinha escolha, decidiu-se e preparou-se para enfrentar a terrível fúria do feiticeiro.

- Os "caçadores" regressaram - declarou com simplicidade.

- óptimo! Gozaram dos benefícios de uma caçada com êxito. suponho?

- N... não! - gaguejou Jaspin. - Voltaram de mãos vazias. Ou antes, voltou um deles. Os outros dois perderam a vida.

- Estúpido! Dei-te mais uma oportunidade e desperdiçaste-a! Estás arrumado! Ouves o que te digo, insecto insignificante?

Pensando rapidamente, e num esforço para apaziguar a fúria do feiticeiro e evitar mais ameaças, - Jaspin aproveitou a pequena parcela de informação de que dispunha e atirou-a para a frente. como quem atira uma folha para uma tempestade.

- Sei para onde eles foram, Nimroodl - gritou.

O irado feiticeiro acalmou-se um pouco, mas exigiu, com um rosto ainda furioso:

- Para onde é que foram? Diz-me!

- Primeiro, tens de me prometer... - começou o príncipe Jaspin a dizer, mas Nircrood interrompeu-o.

- Eu, prometer!? Ah! Escuta-me, príncipe cão. Nunca dou a minha palavra a ninguém! Não te esqueças disso! - De repente o mágico negro mudou instantaneamente, modificando o tom, como se estivesse a falar para uma criança infeliz. - No entanto, perdoo-te. Diz-me para onde foram esses malditos e esquecerei este problema entre nós!

Jaspin transmitiu-lhe rapidamente os pequenos fragmentos de informação que conseguira arrancar ao "caçador".

- São seis pessoas e há uma mulher entre eles. Suponho que é a rainha. É quase certo que foram para as ruínas de Dekra, provavelmente para se esconderem. Toda a gente sabe que não há aí nada.

- Há mais coisas em Dekra do que aquilo que as pessoas pensam - declarou Nimrood. Passou-lhe uma leve expressão de preocupação pelo rosto enrugado, que foi instantaneamente substituída pelo seu habitual ar arrogante. - De certeza que vão ter de sair de lá. Vou preparar uma surpresa especial para esses ousados viajantes. Sim. creio que já sei o que irá ser. - Voltou a falar directamente para o príncipe e prosseguiu. - Apesar de tudo, serviste-me bem. orgulhoso príncipe... e tens direito a uma trégua no meu desagrado. Pode ser que ainda te possa vir a utilizar.

- Estás a esquecer-te de qual é o teu lugar, feiticeiro! - revoltou-se Jaspin. enfurecido pela descarada insolência do necromante. Fui eu quem te contratou. Tu estás ao meu serviço.

- Cansei-me dos teus jogos e ambições mesquinhas - silvou o feiticeiro. - Outrora, os teus planos infantis foram-me úteis, mas agora tenho desígnios que nem serias capaz de imaginar. Porém... serve-me e compartilharás da minha glória.

A pirâmide perdeu a sua transparência cristalina e tornou-se uma vez mais fria e sólida.

Quentin implorara a Mollena. com uma incomodativa insistência, para que esta lhe conseguisse um encontro com Yeseph. o mais depressa possível... o que queria dizer o momento em que abrisse os olhos no dia a seguir ao curto passeio pelas ruínas da cidade.

Toli estava sentado em frente de Quentin, do outro lado da mesa do pequeno-almoço, apontando para objectos que se encontravam espalhados pela sala e exigindo que o seu instrutor lhe fornecesse as palavras apropriadas para os designar, para as poder aprender. Quentin, apesar de por vezes a tarefa lhe parecer colossal, estava radiante de prazer com os progressos feitos pelo seu pupilo. Toli já conseguia pronunciar frases entrecortadas. e conseguia compreender a maior parte das coisas que lhe diziam, apesar de nem sempre ser capaz de as repetir. Porém, quando havia outros por perto, em geral limitava-se à sua língua nativa.

Encontravam-se profundamente concentrados quando Quentin ouviu os passos arrastados da mulher nos degraus de pedra, no exterior da cozinha onde terminavam a refeição.

- Mollena! Que notícias tens? Posso ir vê-lo? - perguntou, atabalhoado, mal o rosto enrugado e simpático se tornou visível.

- Nem amanhã ... nem na próxima semana.

- Mollena...

- Hoje mesmo ... Iremos logo que estiver pronto.

- já estou pronto!

- Não, ainda não acabou de comer. Tem de comer, para recuperar as forças.

Toli escutava a conversa, tal como fazia com a maioria de todas as outras, num silêncio atento. Porém. daquela vez interveio, querendo saber o que Quentin se preparava para fazer e fazendo a pergunta na sua própria língua.

Enquanto comia, Quentin relatou-lhe, tão bem quanto foi capaz, a conversa entre Durwin e Theido, o desacordo entre eles e a decisão final que os tinha levado até Dekra. Toli acenou e respondeu:

- E esse chefe, Yeseph, vai dizer-nos o que devemos fazer?

Quentin nunca teria posto o problema daquele modo, mas fez um aceno de concordância com a cabeça, depois de pensar um pouco.

- Sim, poderá dizer-nos o que devemos fazer.

Mollena, que observara aquela conversa, admirando-se com os crescentes laços entre os dois jovens. levantou-se e disse:

- Vamos jovens preguiçosos. Não está certo deixar um líder dos Curatak à vossa espera.

Os três seguiram juntos, caminhando por cima dos montes de pedras das ruas desertas. Quentin ficou mais uma vez impressionado com a elegância e a graça da cidade dos desaparecidos Ariga. Mesmo naquele estado arruinado, os edifícios abandonados falavam de pureza e harmonia, tanto nos pensamentos como nas funções. Sem dúvida que deveriam ali encontrar-se enterrados tesouros mais valiosos do que todas as riquezas materiais. Durante o percurso, onde de vez em quando se encontravam com grupos de trabalhadores curatak carregando pedras ou levantando andaimes em volta de uma parede danificada, Mollena explicou a Quentin quem era Yeseph e qual o modo como se lhe devia dirigir. Quentin escutou com atenção fixando as palavras da mulher, para não vir a ofender o homem mais capacitado para responder às suas perguntas. Viraram para uma passagem, que talvez fosse um pátio estreito, cheia de portas que se abriam para áreas com pequenas árvores e bancos de pedra.

- Estas eram as salas de leitura da biblioteca dos Ariga - explicou Mollena, ao passarem em frente das portas abertas. Quentin espreitou por algumas das portas e viu escribas ocupados com os pergaminhos que tinham sobre as mesas de trabalho.

- Onde é a biblioteca? - perguntou, ao aperceber-se de que não vira nenhuma estrutura suficientemente grande para abrigar a grande biblioteca que lhe tinham descrito.

Mollena viu-o torcer o pescoço para um lado e para o outro, à procura da biblioteca, e riu-se.

- Não. não a encontrará aí. Está em cima dela! - Quentin pousou os olhos nos seus próprios pés e ostentou uma expressão intrigada. - É subterrânea. Venha.

Conduziu-os para o fim do estreito pátio e para uma grande porta. No interior, caminharam por cima do mármore polido de uma grande sala circular, rodeada por murais representando homens com togas.

- Estes eram os líderes dos Ariga - disse Mollena, indicando-os com um gesto largo. - Sabemos pouco a seu respeito, mas estamos a aprender.

No centro da sala redonda que, tanto quanto lhe era possível ver, não continha qualquer outra espécie de mobiliário, erguia-se um arco. Quando se aproximaram Quentin avistou degraus que desciam para uma sala subterrânea.

- É a entrada para a biblioteca - explicou Mollena. - Sim, reparem como os degraus estão desgastados pela passagem de tantos pés dos Ariga, ao longo das eras. Eram amantes dos livros e do conhecimento. Esta... - Mollena fez um novo gesto largo, que incluía todo o edifício - ... é a maior responsabilidade. Temos de proteger os pergaminhos dos Ariga, para que não se percam da vista dos humanos e os seus tesouros não desapareçam tal como a raça que os criou.

Quentin captou algo da reverência com que a mulher se manifestava. Tal como de outras vezes, sentiu mais uma vez uma mistura de reverência e excitação, como se se encontrasse na presença de um poderoso e benevolente monarca que se preparasse para lhe dar um maravilhoso presente.

-Além - disse Mollena, apontando para a escura escadaria - é onde Yeseph está à espera. Vão ter com ele... e espero que encontre o tesouro que procura.

Quentin deu um passo em frente e colocou o pé no primeiro degrau. Instantaneamente, a escadaria escura iluminou-se nas duas extremidades. Virou-se para Mollena e Toli, que pareciam ter querido segui-lo mas depois haviam hesitado, inseguros, e passou pela estranha sensação de que poderia nunca mais regressar. Pondo-a de parte, declarou:

- Não me demoro - e começou a descer as escadas.

Ainda mal atingira o fundo quando ouviu uma voz a chamá-lo.

- Ah, Quentin! Tenho estado à tua espera.

Quentin deu mais um passo em frente. entrou na gigantesca e cavernosa câmara, e avistou muitos mais livros do que alguma vez num só lugar. Estantes que eram três vezes mais altas do que um homem continham um interminável número de rolos, cada um no seu próprio compartimento, com uma fita caída para o exterior. onde se podia ver o título do livro, o autor e o conteúdo. Ficou tão embasbacado por aquela espantosa visão que nem deu pelo homem de pequena estatura que se encontrava de pé na sua frente.

- Sou Yeseph, um dos anciões dos Curatak e responsável pela biblioteca. Bem-vindo.

O homem estava vestido de uma maneira muito simples. com uma túnica azul-escura, sobre a qual usava um manto branco contornado a castanho.

- Sinto~me feliz por o conhecer, senhor - disse Quentin, de certo modo desapontado. Estava à espera de alguém com um aspecto impressionante, de monarca ou nobre, e não de uma pessoa baixinha e careca, que coxeava ligeiramente enquanto o conduzia pelos corredores entre as prateleiras.

- Anda! - chamou-o o ancião. - Temos muito que conversar e muito para ver. - Yeseph parou entre duas altas estantes e disse: - Sei distinguir um amante dos livros, quando o vejo. Tu pertences aqui, sabes?

Quentin pareceu preparar-se para dizer qualquer coisa, mas as palavras como que se desvaneceram da sua cabeça... expulsas pela mais notável das sensações. Era como se já ali tivesse estado antes... tivesse visto tudo aquilo, algures, noutra altura qualquer... talvez há muito, muito tempo. Estivera ali... e agora regressava.

 

Nimrood estava a meditar no seu grande trono negro, enrolado dentro dele como se fosse um farrapo para ali atirado pelo vento. Irritado com a ineficiência do príncipe Jaspin, considerava no entanto, de mau humor. que o encontro ocasional entre Theido e Pyggin iria permitir uma possibilidade ainda melhor do que a que planeara, a oportunidade de derrotar de uma vez por todas o incomodativo eremita, Durwin, que era há tanto tempo uma espinha atravessada na sua garganta.

Enquanto considerava os recentes desenvolvimentos, na sua mente começou a ganhar forma um novo plano. Chamou os servos para que lhe levassem as chaves, o que fizeram, pois obedeciam sempre com tanta pressa a todas as ordens recebidas que quase cambaleavam, não fosse dar-se o caso de desagradarem ao perverso amo.

- Diz a Euric que quero vê-lo imediatamente nas masmorras ordenou Nimrood ao miserável assustado que lhe levou as chaves. Arrancou a grande argola das trémulas mãos do servo e voou do trono, como um morcego, atravessando a sala e saindo. Numa das zonas mais profundas das masmorras, Euric, quase tão depravado como o seu amo. encontrou Nimrood a abrir uma porta especial.

- Permita que o faça por si, patrão - grasnou Euric, um homem muito moreno e com falta de dentes. Pegou nas chaves e abriu a relutante porta em poucos segundos. Nimrood entrou na sala obscurecida. Bateu as palmas e saltaram-lhe chamas dos dedos para a tocha que se encontrava num suporte de ferro, na parede. Entregou a tocha a Euric e indicou-lhe para seguir à frente. Atravessaram a divisão em direcção a uma segunda porta. Para lá dela ficava um estreito corredor que dava para uma sequência de celas. Deixaram-nas para trás apressadamente e foram até ao fim da passagem, que terminava num estreito lanço de escadas que descia, descrevendo uma curva. para uma escura câmara abobadada.

Entraram os dois. Nimrood voltou a bater as palmas, e as tochas que se encontravam em volta da sala acenderam-se e brilharam. Ali, sob a luz oscilante das tochas, jaziam nove maciças mesas de pedra, em fileiras de três. Seis delas estavam ocupadas pelas formas prostradas de seis poderosos cavaleiros envergando brilhantes armaduras, com as espadas seguras sobre o peito e os escudos sobre a cintura. Todos eles tinham um ar composto e sereno, como se dormissem e estivessem prontos para, num instante, responderem a um apelo às armas. No entanto, as carnes tinham o tom de cinza das carnes dos mortos, e os olhos estavam afundados como os dos cadáveres.

- A Legião da Morte - silvou Nimrood. - Olha bem para ela, Euric. É terrível, não é? Em breve estará completa. Darei um sinal, e estes homens, o meu exército. Erguer-se-ão. Com eles conquistarei o mundo. Quem é que poderá enfrentar estes homens, os cavaleiros mais ousados e corajosos que o mundo já viu? - Deslocou-se por entre as mesas. pronunciando nomes: - Hestlerid, Vorgil, Junius, Khennet, Geoffric, Llev,-vI...

Euric indicou as três mesas vazias e perguntou:

- Quem irá ocupar estes lugares, para completar o número?

- Um deles é para Ronsard. que já aqui estaria se não fossem Pyggin e os seus homens... Porém, já lhes dei uma nova oportunidade. Desta vez vão trazê-lo pelo mar. O outro é para o rei Eskevar. que será o comandante da minha legião.. e que muito em breve se reunirá ao seu novo regimento. A sua vontade é forte, ainda resiste. No entanto, a minha vontade é mais forte e em breve será meu. Olha como eles dormem... Nem a morte os conseguiu diminuir...

Os olhos do necromante brilhavam de excitação ao contemplarem o seu trabalho.

E para quem é a última mesa, senhor? - perguntou Euric. que tirava tanto prazer na sua participação nas artes negras como o próprio Nimrood.

- Receei que a última tivesse de ficar vazia. O grande cavaleiro Marsant morreu nessa guerra mesquinha contra os Gorr, e os bárbaros ignorantes queimaram-lhe o corpo. Porém, agora, parece que irei ter todos os guerreiros de que necessito, para conduzirem os meus soldados para a batalha. Theido, esse renegado que só nos tem causado problemas, vai finalmente juntar-se a nós. Sem dúvida que me agradecerá a oportunidade de servir o seu rei na morte, tal como o serviu em vida, nos campos de batalha.

- E como o irá conseguir?

- Ainda não to disse? Os deuses decretaram que eu fosse um homem afortunado. Pyggin encontrou-o a vaguear pelos cais de Bestou, onde aguardam a época boa para a navegação. Ao que parece, o estúpido cavaleiro queria transporte para ele e para os companheiros, para Karsh! Queriam vir para aquí! Uma vez que estão tão ansiosos pela morte, não os quero desapontar. Py gin irá transportá-los até ao seu

destino... e com uma cortesia de que não estavam à espera. Ah!

A face de Euric brilhou sob a luz da tocha. Os olhos reviraram-se-lhe nas órbitas, em êxtase, enquanto se maravilhava com as complicadas e maléficas maquinações do seu senhor. Fez uma grande vénia, dizendo:

- Sereis o senhor do mundo, Nimrood, meu amo!

A baía de Bestou permaneceu envolvida em nevoeiro e chuva durante vários e longos dias desperdiçados. Então, numa tranquila tarde muito húmida, de chuva miudinha, o Sol rompeu as nuvens com um brilho súbito. e todos os marinheiros abrigados nas tabernas e estalagens da cidade se encaminharam para os cais, com os parcos haveres metidos em mochilas e sacos de lona. Era como se tivessem recebido um sinal. Nessa noite dormiriam a bordo dos seus navios e içariam as velas com a madrugada.

Quando o Sol nascente não passava ainda de uma vaga promessa no horizonte oriental, Theido e os companheiros encaminharam-se para o cais e meteram-se na embarcação com alguns outros passageiros que iriam ser distribuídos pelos vários navios ancorados na baía.

Havia já navios encaminhando-se para a estreita abertura da baía, para serem os primeiros a ganharem o mar alto. Durwin e Alinea podiam ouvir os marinheiros a chamarem-se uns aos outros, de navio para navio. os capitães a amaldiçoarem as capacidades que as tripulações haviam perdido durante o Inverno, visíveis agora que se preparavam para partir, e o chocalhar dos remos nas águas verdes.

Quando avançaram mais para o interior da baía, a corcovada espinha de Tildeen ergueu-se no fino nevoeiro que pairava sobre Bestou como uma nuvem diáfana. As gaivotas agitavam o ar com as asas elegantes, queixando-se de tanta actividade na sua baía, enquanto pairavam e mergulhavam entre os navios. Trenn seguia na frente da embarcação, dirigindo os remadores para o navio em que pretendiam embarcar, e Theido seguia na ré, vendo a terra a afastar-se lentamente.

- Parece pensativo. bravo cavaleiro - comentou Alinea, que notara a expressão sombria de Theido. - Diz-nos o que foi que te perturbou a mente numa manhã como esta? Finalmente, vamos a caminho.

- Dormi mal a noite passada, senhora. Tive um sonho assustador e revolvi-me na cama. Acordei com suores frios, mas já não me lembro do sonho. Desapareceu, tal como este nevoeiro irá desaparecer quando for tocado pelo sol da manhã. No entanto, a sensação de mau presságio não me abandonou.

Durwin escutava o amigo, acenando e esfregando o queixo com a mão.

- Também eu me senti mal a noite passada. Pode ser uma confirmação da nossa demanda. Por vezes temos de entrar na corrida pela porta mais improvável... O deus tem os seus próprios caprichos, muitas vezes misteriosos e sempre imprevisíveis.

- Pois bem, vamos a caminho e nada nos poderá deter - replicou Theido. encolhendo os ombros. - Aconteça o que acontecer. os deuses não nos encontrarão inactivos. É bom estar de novo em movimento.

- Só espero que cheguemos a tempo - disse a rainha. Virou o belo rosto para um lado e ficou silenciosa.

- Sim. Jaspin e os regentes convocarão o Conselho muito em breve, creio. Se bem o conheço, já deve ter a coroa bem segura nas mãos - afirmou Theido.

- O tempo não pode ser apressado - murmurou Durwin. -Não podemos andar mais depressa do que é possível. Rezarei ao meu deus, pedindo-lhe que não surjam impedimentos à nossa missão. É um deus íntegro e que adora a justiça. Não permitirá que falhemos.

- Bem dito, santo eremita. Esqueço-me que o deus que serves é diferente dos deuses antigos. -No entanto, prefiro confiar no meu próprio braço para defender a integridade, e na ponta da minha espada para defender a justiça.

- Os braços perdem as forças e as lâminas o fio. Nessa altura é bom recordar de onde vem a força, e quem é que agita uma espada que nunca fica embotada.

Alinea, que escutara com atenção aquela troca de palavras, pediu:

- Santo eremita, fala-me do teu deus. Parece ser muito diferente dos caprichosos imortais que o nosso povo há muito adora. Achas que poderei aprender a seu respeito?

- Ora, é claro, senhora. O meu deus não vira a cara a quem quer que o procure, e será uma honra instruir uma dama tão sábia e bela. Será uma maneira de preencher muitas das horas vazias que teremos pela frente durante a viagem - respondeu Durwin. satisfeito por ter uma discípula e um motivo para falar sobre o seu tema favorito.

Quando pronunciava as últimas palavras, a embarcação a remos embateu no casco do navio do capitão Pyggin.

- Passageiros! - gritou Trenn, agarrando a corda pendente da amurada. Surgiu um rosto a espreitar. O homem olhou-os com atenção e voltou a desaparecer. A seguir alguém lançou uma escada de corda, que os remadores seguraram com firmeza. Trenn trepou pela escada e estendeu a mão para os companheiros. Pyggin só apareceu, apressado, quando já todos se encontravam reunidos no convés.

- Está toda a gente a bordo? Ah, sim... Perdoem-me, não sabia que íamos ter o prazer da companhia de uma dama durante a viagem. Sinto-me honrado. Por aqui... - disse o capitão, como que a querer despachá-los. - Vou conduzi-los às vossas instalações. - Enquanto Pyggin empurrava os passageiros na sua frente, fez sinal à tripulação para levantar ferro. Nem Theido nem Durwin viram esse sinal. e também não repararam em vários membros da tripulação que os seguiam. empunhando malaguetas nos punhos espessos.

- A Gaivota Cinzenta é um navio pequeno mas bom. Penso que não terão razão de queixa dos vossos aposentos. - Pyggin apontou para uma estreita porta que dava acesso à escada que descia para os porões do navio.

- Há mais algum passageiro? - perguntou Theido.

- Não. Raramente metemos passageiros... mas abrimos uma excepção para vós. meus senhores. - O capitão abriu a porta e empurrou-os para as escadas.

Quando Theido, que fora o último a descer as escadas, chegou ao último degrau, ouviu Pyggin fechar a porta com força e gritar:

- Espero que façam boa viagem, senhores!

Ainda antes de o cavaleiro ter tempo de subir as escadas para se lançar contra a porta, escutou-se o som de pesados fechos e o tilintar de fechaduras, que os fez saber que eram prisioneiros. Theido bateu na porta com os punhos:

- Abre esta porta, patife! Em nome do rei, abre a porta!

Para lá da porta bem segura ouviu-se apenas o som de gargalhadas trocistas e de passos que se afastavam sobre o convés.

- Bom, fomos apanhados - disse Theido. - A culpa foi minha. devia ter dado ouvidos aos conselhos de Trenn. o nosso bom guarda.

- Não. não se censure - respondeu Trenn. - É verdade que pressenti qualquer coisa, mas agora é melhor pensarmos sobre o que poderemos fazer.

Nesse instante, e vindo de trás de uma muralha de barris empilhados, chegou-lhes o som de um gemido baixo, quase inaudível.

- Que espécie de monstro andará por aqui ...? - perguntou Trenn num sussurro tenso.

- Escutem... - pediu Theido.

O som ouviu-se outra vez, inicialmente baixo mas tornando-se cada vez mais alto, para depois se apagar a pouco e pouco, como se um animal ferido estivesse a esgotar as suas últimas forças.

- Não é nenhum monstro - declarou Alinea. - É um homem e está ferido.

Apalpando o caminho na semiescuridão do porão, iluminado apenas pela pouca luz que passava por entre as ripas cruzadas da tampa de porão existente no centro do convés, Alinea deslocou-se lentamente em volta dos húmidos barriletes, seguida de perto pelos outros. Sob a fraca luz acinzentada. avistou a forma de um homem deitado em cima de uma pilha de trapos sujos e de cordas. Tinha a cabeça coberta por uma ligadura, e ao avistar os novos companheiros de prisão deixou-a cair sobre a suja cama, desmaiado.

A forma inconsciente tinha qualquer coisa que chamou a atenção da rainha.

- Conheço este homem - declarou Alinea, dobrando-se sobre ele. Segurou nas mãos a cabeça envolta em ligaduras e olhou atentamente para o rosto insensível.

- Poderá ser ... ? - perguntou, abrindo muito os olhos, de espanto, ao reconhecer o ferido.

- Quem é, senhora? - inquiriu Trenn. - Reconhece-lo?

- Vem ver - pediu a rainha. puxando Trenn para junto dela. O navio, já a caminho. mergulhava e balançava, e por instantes a fraca luz vinda do alto acertou em cheio no rosto do ferido.

- É Ronsard! - exclamou a rainha Alinea, segurando com ternura na cabeça do cavaleiro.

- É mesmo! - gritou Trenn. - Pelos deuses, é ele!

 

- Porque é que ficaste aí a pestanejar, jovem senhor? - perguntou Yeseph com simpatia. - Há alguma coisa que o teu coração queira dizer. mas a língua não o consiga?

Quentin, suspenso da sensação de que já uma vez se encontrara naquele preciso local, a falar com aquele homem pequeno e venerável, permanecera imóvel, intrigado.

No entanto, a sensação passou, como se fosse uma nuvem varrida pelo Sol. e Quentín recuperou a compostura.

- Tive a impressão de já aqui ter estado antes, e de o conhecer... - explicou. sacudindo a cabeça como que para aclarar as ideias.

O ancião curatak exibiu um sorriso de compreensão e acenou:

- Talvez tenhas aqui estado... o que é mais uma razão para que eu trate o meu convidado com todo o respeito. - Virou-se e indicou o caminho por entre as enormes estantes. - Estes livros são a minha vida - declarou Yeseph. Fazendo um gesto com a mão para indicar as fileiras de rolos. A seguir continuou. descrevendo os trabalhos que estavam em curso na grande biblioteca. Quentin seguiu-o com uma atenção extasiada, fascinado por tudo o que via, sempre perseguido pela sensação de que o seu lugar era ali, e de que. sem saber como, regressara a casa.

A caminhada acabou por os conduzir a uma fila de mesas de copista. onde os estudiosos curatak trabalhavam nos manuscritos, tirando apontamentos e traduzindo. Yeseph continuou ao longo das mesas, parando em cada uma delas para uma palavra de encorajamento ou para responder a uma pergunta. A seguir dirigiu-se para uma porta aberta e Quentin viu-se na sala de trabalho do próprio Yeseph.

A pequena sala estava escassamente mobilada, com uma secretária, coberta por um monte de rolos, e uma mesa que se vergava ao peso de uma ainda maior quantidade de livros. De uma clarabóia redonda, no tecto, penetrava uma luz generosa.

Havia duas cadeiras de aspecto frágil em frente uma da outra. Yeseph sentou-se numa delas e convidou Quentin para a outra, depois de fechar a porta. para poderem ter um pouco de privacidade.

Mollena disse-me que tens perguntas a que só eu

Muito bem, poderei responder. Vou tentar... - concluiu com um aceno e um sorriso de encorajamento.

Por instantes Quentin esquecera-se completamente das perguntas, mas depois de pensar um pouco voltou a recordar-se. No entanto. agora parecia-lhe que se tratava de questões sem importância, depois das coisas que acabara de ver à sua volta. Quentín explicou a Yeseph, que o escutou com paciência, tudo o que sabia a respeito do desacordo entre Theido e Durwin, e sobre a relutância de Theido em deslocar-se a Dekra. Terminou, dizendo:

- ... apesar de não conseguir ver razões para ter medo... e penso que aqui só existem forças benéficas... - Fez uma pausa e acrescentou: - A não ser que o perigo não se encontrasse no destino em si, mas na razão para cá vir...

- A tua mente é rápida! - disse Yeseph, com um sorriso. - Sim, eu próprio não o teria conseguido dizer com mais clareza. Não há qualquer espécie de perigo em Dekra. As histórias... - pô-las de parte com um gesto e uma careta trocista - que se contam são apenas superstição, e foram inventadas para assustar as crianças. Admito que não as desencorajamos. O nosso trabalho é importante, pelo que é melhor que o mundo se mantenha afastado e só raramente nos incomode. No entanto, não era por isso que Theido não queria cá vir, ou antes, que não queria que Durwin aqui viesse. - Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro na sala, de mãos dadas atrás das costas. como um professor a dar uma lição a um aluno. - Dekra é um lugar de poder, um dos últimos existentes sobre a Terra. Durwin sabe-o, tal como Theido. - Soltou uma gargalhada. - Estás muito mal informado a respeito do teu amigo eremita... que é um homem de múltiplos talentos. Veio ter connosco quando era o alto-sacerdote do templo de Ariel. Veio em peregrinação, procurando aprofundar a sua busca do conhecimento. Nessa altura acreditava que o conhecimento era suficiente para transformar um homem, torná-lo imortal, exaltã-lo à estatura dos deuses. Foi aqui que descobriu até que ponto estava enganado... o que teria dado cabo de qualquer outro homem, mas não dele. Foi ganhando força, pondo de parte todas as suas anteriores crenças tão depressa como conseguia compreender as novas. Aprendeu em apenas três anos tudo o que tínhamos para lhe ensinar. Voltou ao templo e renunciou à sua posição e fé. Quase o mataram, e na verdade tê~lo-iam feito se não tivessem receado o escândalo. - Yeseph deixou de andar de um lado para o outro, pousou as mãos nas costas da cadeira e olhou para Quentin. A seguir continuou:

- Durwin regressou para junto de nós, mas apenas por pouco tempo, apesar de lhe termos implorado que ficasse e nos ajudasse no nosso trabalho. Todavia, tinha coisas mais importantes para fazer... fora o próprio deus quem lho revelara.

"Sabes, regressou aqui apenas para se libertar de todos os seus antigos poderes terrenos. Como alto-sacerdote, estudara durante muito tempo a magia dos feiticeiros, as suas artes, e tomara-se num grande adepto. No entanto, reconheceu essas artes por aquilo que elas eram: o caminho da morte. Deixou os seus poderes aqui, onde sabia que ninguém lhes daria um mau uso. Assim, quando se descobriu que Nimrood se levantara contra o rei e contra o reino, Durwin pensou em voltar cá para recuperar os seus poderes, para poder lutar por uma boa causa, Propunha-se enfrentar Nimrood sozinho. - Yeseph fez um sorriso triste. - Tal não aconteceria...

Quentin apreendia devagar as palavras do ancião, mas o seu significado surgiu-lhe subitamente na consciência. Exclamou:

- Então, que vai ser deles? Vão ao encontro do inimigo, completamente desarmados!

- Pois vão. Podem ir desarmados, mas não vão desprotegidos. Não podíamos permitir que o nosso honrado amigo tomasse sobre si um tão terrível fardo. Iria destruí-lo. Theido compreendeu-o, mesmo que apenas de um modo imperfeito, Sabia que a vinda a esta cidade podia significar a morte de Durwin.

- Todavia, mudou de opinião. Porquê?

- A sua determinação enfraqueceu ante a ameaça posta pelos "caçadores", e por causa da insistência de Durwin - respondeu Yeseph, encolhendo os ombros. - De qualquer modo, isso não teve qualquer importância. Não lhe permitimos concretizar o seu plano. O poder foi posto de parte. Encontra-se aqui. e aqui ficará.

Quentin lutou contra as emoções que o invadiam, mas o receio pelos seus amigos e a ansiedade a respeito da sua segurança borbulhavam no seu interior.

- Como pôde permitir que partissem? - gritou, dando um salto na cadeira.

Quentin nada sabia a respeito de Nimrood. a não ser que toda a gente que via à sua volta parecia tremer quando ouvia proferir o nome do feiticeiro. Aparentemente, o feiticeiro era a causa de todos os problemas existentes sobre a Terra. Não experimentara, em primeira mão,, a malevolência do feiticeiro negro. Fora poupado a uma tal provação, mas na mente formara uma imagem de algo grotesco e deformado por tanto ódio, mais parecido com um monstro maléfico do que com um homem. Era esse monstro, Nimrood, o que os seus amigos iam agora enfrentar, desarmados do poder que Durwin poderia ter dominado.

- Como pôde permitir que partissem? - perguntou outra vez, baixinho, num tom de impotência.

- Como é que podia impedi-los? - retorquiu Yeseph com amabilidade.

- Que irá acontecer agora? - Quentin já estava à espera do pior resultado possível. - Não podem enfrentar Nimrood sozinhos.

Yeseph sorriu para o jovem.

- Os teus amigos não estão sozinhos. O bom deus vai com eles. - Disse-o com tanta simplicidade e confiança que Quentin desejou desesperadamente poder acreditar. Todavia, as suas próprias dúvidas e tudo o que vira no templo afastaram a semente da crença antes de a mesma poder ganhar raízes. A infelicidade banhou-lhe o rosto.

- Os deuses pouco se preocupam com os assuntos dos homens. Para eles, as nossas vidas não têm significado - declarou. com amargura.

- Tens razão... mas. não obstante, estás muito longe da verdade. Yeseph atravessou a distância entre os dois e mirou atentamente os olhos de Quentin. - O mais Alto, é o único. Os deuses da Terra e dos Céus não são mais do que poeira soprada pelo poderoso vento da sua chegada. Não conseguem suportar a sua presença e vão perdendo os poderes...

- Mas... o que faz com que este deus sem nome seja diferente de todos os outros?

- Preocupa-se com os seres humanos.

Mais uma vez Quentin estava desesperado por acreditar, para bem dos seus amigos... e mais uma vez se precipitaram sobre ele os anos de treino no templo. e todas as suas antigas crenças, abafando a pequena faísca de esperança. A esperança de que o que Yeseph lhe estava a dizer pudesse ser verdade.

- Quem me dera poder acreditar em si...

- Nada temas pelos teus amigos - disse Yeseph. colocando a mão sobre o braço de Quentin. - Deus tem-nos na palma das suas mãos.

- Vão ser destruidos! - exclamou Quentin, encolhendo-se de terror ante a ideia dos amigos a marcharem a direito para a batalha contra o monstro Nimrood, indefesos e vulneráveis.

- Podem ser mortos. sim... - concordou Yeseph - mas não destruidos. Há coisas piores do que a morte. embora não espere que saibas alguma coisa a esse respeito. Para Durwin, seria pior ter de enfrentar os poderes que abandonou há tantos anos, e que acabariam por o destruir. Ficaria igual a Nimrood. transformar-se-ia precisamente naquilo que mais odeia. Uma sorte dessas é pior do que uma morte honrosa. Além disso - acrescentou o ancião curatak num tom ligeiro -, achas que a tua presença junto deles iria desequilibrar assim tanto a relação de forças?

Quentin deixou cair a cabeça para o peito. Tinha as faces a arderem de vergonha.

- Sim. quem sou eu para fazer diferença? - perguntou, troçando de si mesmo, com tristeza. - Ninguém...

- Sentes as coisas com demasiada profundidade. Quentin - acalmou-o Yeseph. - És jovem e impetuoso. Deixas que o coração fale antes da cabeça. Descansa. nem sempre irá ser assim...

- Não poderei fazer qualquer coisa para os ajudar? - inquiriu Quentin. Sentia-se impotente e deixado de lado como uma peça de bagagem inútil.

- É assim tão importante para ti? - O ancião olhava-o com atenção.

Em silêncio, Quentin acenou uma confirmação. Procurou Yeseph

com os olhos, em busca de um sinal de que este o ajudaria a descobrir uma maneira.

- Compreendo. Os desígnios do deus são na verdade misteriosos.

Meditarei no assunto. que apresentarei ao nosso Conselho de Anciões.

Há entre nós quem compreenda mais claramente do que eu o modo como a mão do deus se move através do tempo e dos homens. Iremos pedir os seus conselhos.

Os olhos de Quentin brilharam ante a perspectiva. e a esperança reacendeu-se no seu coração. Quando se despediu de Yeseph, deixando-o dedicar-se ao trabalho, sentia-se como se lhe tivessem tirado um grande fardo de cima dos ombros. Não sabia muito bem como entender essa sensação.

- Quentin - dissera o velho "curador", quando o jovem já se encontrava à porta -, há em ti mais do que aquilo que se vê à vista desarmada. Soube-o no momento em que abriste a boca para falar. Quando tudo isto terminar, promete-me que voltarás aqui e te sentarás aos meus pés... Há muita coisa que te posso ensinar.

Nessa noite Quentin voltou a sonhar que voava.

 

Jaspin convocou os seus seguidores para o grande salão do castelo de Erlott. O Sol ia já bem alto e aquecia a terra, dando origem a um verdadeiro dia de Primavera. O príncipe ficava mais inquieto a cada dia que se passava. Umas vezes apresentava-se mais pensativo e meditabundo. outras mais cortês ou até alegre, mas as linhas contraídas em volta da boca informavam, pelo menos aos que o conheciam bem, que o príncipe se encontrava profundamente preocupado.

- Decidi que o Conselho de Regentes deve ter lugar dentro de quinze dias - disse Jaspin à sua assembleia de cavaleiros e nobres.

Alguns tinham partido de Erlott para tratarem dos seus próprios assuntos, mas ainda ali se encontravam muitos. a disposição do príncipe. Soltaram alguns murmúrios ante a sugestão de o Conselho se reunir antes da época habitual, que era em meados do Verão.

- Sire, temos de protestar contra uma tal alteração - declarou Lord NavIor com ousadia. Ele e um seu vizinho, Lord Holben, eram os únicos que tinham a coragem de enfrentar o príncipe abertamente. NavIor. regente-chefe do Conselho de Regentes. não era grande amigo de Jaspin. No grupo, houve mais quem demonstrasse a sua concordância com Lord NavIor. acenando e murmurando uns para os outros. - Ao fim de tantos anos, não há motivos para que o Conselho não possa cumprir os seus deveres na altura habitual. - Soltou uma gargalhada rígida, pois sabia muito bem o perigo que corria naquele momento. - Não vejo motivos para nos afastarmos do calendário estabelecido.

O príncipe estava exasperado com aquele desafio às suas ambições.

- Será feito tal como proponho - declarou com firmeza. - E vós, meu senhor. fareis com que tudo se efectue de acordo com os meus desejos.

Jaspin fitou NavIor com um olhar gelado, e depois olhou em volta para cada um deles, individualmente, desafiando-os a contrariarem-no. A seguir prosseguiu:

- Ordenareis que as cartas sejam escritas e despachadas para todos os membros que não estão aqui presentes, informando-os de que o Conselho se realizará aqui. em Erlott, e não em Paget.

- E se recusar as vossas sugestões? - inquiriu Lord NavIor, que começava a perder o domínio sobre o seu temperamento.

O príncipe não sabia, nem se preocupava com isso, mas estava a tornar a situação mais difícil para ele próprio ao implicar com o líder dos regentes. Jaspin era um homem com uma mentalidade que se agarrava a uma ideia como um cão esfomeado a um osso. e que não desistia com facilidade.

- A recusa seria considerada como uma falha no cumprimento das vossas funções. Poderá ser substituído.

Alguns dos presentes, que pretendiam dar o seu apoio a Jaspin, e que o teriam feito alegremente. numa verdadeira demonstração de livre vontade, estavam agora inquietos com a possibilidade de virem a ter de o eleger para líder do Conselho, por sua própria indicação, pois haviam compreendido que era essa a ideia do príncipe. Não gostavam de o nomear rei no seu próprio castelo, mas sim, tal como ditava a tradição, no salão de Paget. Jaspin pretendera apenas apressar a reunião do Conselho. Uma vez que era ele o objecto da reunião, não poderia estar presente durante as discussões. Assim, pensara que se mudasse o local da reunião para o seu próprio castelo viria a conhecer o resultado muito mais cedo. poupando-se ao incómodo de uma deslocação a Paget, para a qual seria necessária uma viagem de vários dias. No entanto, a sua ideia era claramente pouco popular. Se não tivesse sido o desafio de Lord NavIor. Jaspin poderia ter sido persuadido, por uma cabeça mais fria, tal como a de Ontescue, a abandonar um tal plano. Porém, as posições haviam-se extremado e Jaspin agora não podia recuar.

Seguiu-se uma apressada conferência entre Holben e o líder dos regentes. Por fim, Naylor declarou, por entre os dentes cerrados:

- Farei como ordenais. meu senhor, mas é provável que vos venhais a arrepender de terdes forçado a decisão a respeito deste assunto. - Virou-se e atravessou a sala sob o olhar sombrio de Jaspin: - Com vossa licença... - concluiu, saindo da sala.

Os cativos não ouviam nada, excepto as pragas ocasionais dos seus captores, atarefados no convés por cima deles, e o barulho das ondas de encontro ao casco do navio. Em quatro dias de mar, haviam sido alimentados apenas duas vezes - com uma ração de pão seco -, mas como tinham acesso a toda a água existente a bordo pelo menos não sofriam de sede.

A rainha Alinea conseguira tratar Ronsard e fazê-lo recuperar os sentidos. Com a sua ajuda e graças aos poderes curativos de Durwin, o cavaleiro jurava que se sentia melhor de hora para hora. Alinea insistia em que continuasse deitado. a repousar. mas Ronsard, alegre com a proximidade dos amigos, na maior parte das vezes ignorava esses apelos. Tinham muito que conversar e Ronsard tinha muito para contar.

- Não tenho qualquer prazer em afirmá-lo. senhora - disse Ronsard. apoiado sobre um cotovelo -, mas receio pelo rei. Nimrood é uma serpente manhosa e as suas conjuras estão para além da nossa compreensão. Contudo. podemos estar certos de que todos os que estiverem ao seu alcance correm um perigo mortal.

- Convenceu o príncipe Jaspin. que não precisou de ser muito encorajado, a levar a cabo as suas ousadas afrontas, numa traiçoeira tentativa de se apoderar do trono - afirmou Theido. - Por outro lado, tenho ouvido dizer em muitos sítios que Nimrood está a organizar um exército. Pergunto a mim mesmo quem, ou o quê, seria capaz de lutar por ele. Em Elsender correm boatos a respeito de uma Legião dos Mortos.

- Por Orphe, não! - ofegou Alinea. - Oh. é demasiado horrível para poder acreditar!

- Terá poder para fazer coisas dessas? - perguntou Trenn.

- Tem. sim - respondeu Durwin. - E nós não possuímos os meios para o fazer parar.

- Descobriremos uma maneira - declarou Theido, com olhos que despediam fogo contra a maléfico necromante. - Nimrood será detido. juro-o... pela minha vida.

- Ah, se o meu braço tivesse forças para empunhar a espada... gemeu Ronsard. As suas feições, como que esculpidas em pedra, lutavam contra a dor que os companheiros lhe viam no rosto. Procurou levantar-se.

- Não. bravo cavaleiro. Descansa e permite ao teu corpo recuperar as forças - protestou a rainha, pousando-lhe as mãos nos ombros e empurrando-o para trás com gentileza.

- infelizmente - lamentou-se Ronsard -, já fui capaz de brandir dez espadas. mas não possuo nenhuma nesta hora de infelicidade.

- Muito em breve (e receio que seja breve de mais) não haverá falta de lâminas. mas sim de mãos para as segurarem. Irás ter a tua oportunidade. Ronsard. Até esse momento. resigna-te e reza para que recuperes as forças... - Durwin falou baixinho. fitando as profundezas dos olhos nublados do cavaleiro... Este sacudiu a cabeça, pois começou a sentir as pálpebras a quererem fechar-se. Pousou a cabeça e adormeceu. Durwin murmurou: - Se eu tivesse um tal poder sobre os nossos inimigos como tenho sobre cavaleiros feridos...

Trenn olhou para o eremita com os olhos muito abertos de espanto.

- Tem poder suficiente para muitas coisas. Talvez consiga encantar Nimrood e pô-lo a dormir, como acabou de fazer com Ronsard...

- Podia, sim... mas o poder que resta em mim é curativo. Claro que pode ser empregue para outras coisas. em caso de necessidade... mas se eu pensar em prejudicar alguém com ele, mesmo que seja o diabólico Nimrood, estes últimos restos dos meus antigos poderes desaparecerão imediatamente. É uma das leis a que estão sujeitos os poderes curativos. - Fez uma pausa. mergulhado em pensamentos. para depois prosseguir. excitado: - Porém, o que pode ser feito com maldições, poções e misturas de terras raras ainda está ao meu alcance! Que estúpido que tenho sido. Aproximem-se, depressa! Tenho uma ideia!

Momentos depois os cativos ouviam o estalar de uma chave numa fechadura, e o som de trincos enferrujados a abrirem-se. As correntes tilintaram quando caíram e de súbito a porta do porão escancarou-se. atingindo-os com um clarão de brilhante luz. Uma voz áspera anunciou:

- Espero que os meus passageiros estejam a fazer uma boa viagem. - A voz era do capitão Pyggin, cujas formas corpulentas podiam agora ser vistas a descer as íngremes escadas, seguido por dois dos seus rufiões. - Dêem-lhes a comida - ordenou a um dos homens. O outro ficou de guarda.

- Por Zoar! Eu... - praguejou Trenn. pondo-se de pé num salto.

Instantaneamente. surgiu uma comprida navalha na mão do homem que se encontrava de guarda.

Se não querem morrer... não façam ameaças - avisou Pyggin. Os meus homens são um pouco menos civilizados do que eu. Gostam de matar só para passar o tempo.

Trenn recuou devagar.

- Que queres agora, pirata? - perguntou Theido com toda a tranquilidade.

- Vim apenas dizer-vos para gozarem bem as vossas últimas horas.

Lançou um olhar de luxúria para as formas de Alinea. - Chegaremos ao nosso destino dentro de dois dias. - Fez um sinal com a mão e o marinheiro que segurava na comida pousou um pote de ferro e atirou com dois pães para cima do sujo pavimento do porão.

- Saboreiem a comida! - disse Pyggin, virando-se para sair. Soltou uma gargalhada perversa e subiu os degraus. O guarda não tirou os olhos dos prisioneiros, desafiando-os a tentarem atacá-lo.

A porta fechou-se e o porão mergulhou de novo na escuridão. ouviram as fechaduras e as correntes a serem colocadas no seu lugar. e uma frase trocista do capitão Pyggin.

- Têm dois dias! Aproveitem-nos bem, são os últimos!

- Só de pensar que lhe pagámos pela passagem... - murmurou Trenn, raivoso. depois de Pyggin se ter afastado.

- Ora, está a levar-nos para onde queríamos ir - comentou Durwin.

- Sim. mas não da maneira que desejávamos - replicou Theido. - No entanto. em dois dias podem acontecer muitas coisas.

 

A última luz do dia provocava manchas vermelhas no céu e tingia os rebordos das nuvens com tons de azul e violeta. Quentin caminhava à vontade, embora nervoso. entre Mollena e Toli. Na frente deles erguia-se a graciosa silhueta do templo dos Ariga. Mollena estava vestida com um comprido vestido branco, contornado a prata, e puxara o cabelo para trás, para lhe cair para as costas. Enquanto caminhava, Quentin observava-a, pensando que, durante a noite. a mulher como que rejuvenescera e recuperara parte do aspecto que deveria ter tido. Parecia muito mais nova do que era, com a pele mais lisa e as rugas ocultas por um brilho radiante que nunca lhe tinha visto.

- Sim. sou eu. Mollena, e não outra... - respondeu a mulher ao ver-lhe os olhares interrogativos. Os seus olhos pestanejaram e brilharam quando se aproximaram da avenida de tochas que dava para a entrada do templo.

Quentin. simultaneamente embaraçado e divertido, declarou:

- Estás muito bonita esta noite, Mollena.

- Diz isso porque nunca viu nenhuma das nossas jovens - replicou a mulher, rindo-se.

Com um sobressalto, Quentin compreendeu que nunca viria a conhecer nenhuma dessas jovens. Ele e Toli planeavam partir na manhã seguinte. Retirou os olhos da boca risonha de Mollena e pousou-os nos olhos escuros e profundos de Toli. Este, tal como Quentin, ia vestido com um manto azul-celeste que cobria a túnica branca, bordada a prata no pescoço. Toli, com a sua pele castanha e brilhante cabelo negro, parecia um príncipe pelagian. Depois de tantos problemas para o convencer a retirar as rudes peles com que se vestia, Toli parecia agora perfeitamente à vontade com roupas tão finas.

Quentin, contudo, estava demasiado nervoso para poder gozar aqueles momentos, excepto durante os curtos instantes em que se esquecia do que estava para acontecer. Ia estar presente a um serviço especial. no templo, dado em sua honra. Quentin receberia uma dádiva invulgar. Segundo Yeseph lhe explicara. iria receber a bênção dos Ariga.

Não fazia ideia nenhuma do que se tratava.

- Ah. cá estás! - disse Yeseph. Quentin não o vira quando entrara. Olhava para as linhas ascendentes da estreita e fina torre central do templo. Muitas outras pessoas, vestidas com a mesma elegância simples de Mollena e Yeseph, afluíam ao templo. - Sigam-me, vou levá-los aos vossos lugares.

Quentin obedeceu em silêncio. Estava demasiado ocupado a absorver tudo o que via, para além dos sons. uma vez que um coro começara a cantar mal tinham entrado no vestíbulo do templo. Yeseph conduziu-os rapidamente, e Quentin podia ver, através dos espaços existentes entre as grandes tapeçarias pendentes por onde tinham de passar, que o santuário do templo se encontrava quase cheio de fiéis. Avançaram em volta de um auditório semicircular e chegaram a uma entrada lateral onde os aguardavam três homens de compridos hábitos brancos, acompanhados por meia dúzia de jovens segurando grandes candelabros de ouro polido.

Um dos sacerdotes, pois foi assim que Quentin os considerou. estendeu um hábito branco a Yeseph, que o vestiu por cima das roupas que já usava.

- Bom... - disse Yeseph - estamos prontos. Quentin. segue-me e procede de acordo com as instruções que te demos anteriormente. Mollena. tu e Toli ocupem os vossos lugares na fila da frente, de onde poderão assistir a tudo.

Os três sacerdotes, ou anciões, viraram-se e formaram uma fila Yeseph colocou-se atrás deles, e Quentin imitou-o. Os portadores do fogo colocaram-se dos dois lados da fila com os seus candelabros, formando, na opinião de Quentin, o que devia ser uma procissão impressionante.

Avançaram ao longo de uma larga coxia central em direcção a uma plataforma elevada, atrás da qual estava suspensa uma grande tapeçaria dourada, que brilhava como o Sol sob a luz de centenas de velas.

Na plataforma, por detrás de um grande altar de pedra. havia um semicírculo de assentos. Depois de subirem os últimos degraus, os anciões dirigiram-se para os seus lugares e os portadores do fogo colocaram as velas em receptáculos em volta do altar. Yeseph ocupou um lugar perto do centro do círculo, e Quentin instalou-se à sua direita.

- Escuta com cuidado e faz o que te disser - instruiu-o o ancião Yeseph. - Vai haver uma invocação... um apelo ao único para que escute as nossas orações. A seguir, o ancião Thernu pronunciará uma curta alocução ao nosso povo. Depois disso, será a nossa vez... Entraremos no local sagrado. irei à frente e tu seguir-me-ás.

Quentin acenou que compreendia e o coro cantou um curto verso, que foi seguido pela subida de um dos anciões para cima daquilo que Quentin tomara por um altar. e que era um grande cubo de pedra colocado no centro da plataforma. com degraus na parte traseira, por onde o orador podia subir. À sua volta. em círculo, ardiam as velas que ali tinham sido colocadas pelos portadores do fogo.

- Poderoso Peran ním Perano, Rei dos Reis, Tu, que sempre escutas as nossas orações, escuta-nos agora...

A invocação prosseguiu, e para Quentin parecia-lhe algo semelhante. no entanto muito diferente, das invocações que ouvira no templo de Narramoor. Era semelhante no estilo e nas palavras utilizadas. mas muito diferente na maneira como era proferida. Não demonstrava medo. autoconsciência ou ostensivas demonstrações de humildade. O ancião falava com simplicidade, e com a convicção de que a sua voz era escutada pelo deus. tal como o era pelas centenas que enchiam o santuário. Quentin agitava-se na cadeira. nervoso, um pouco incomodado com a ideia de um deus que estava realmente a escutá~los e a observá-los.

Quentin imaginou que conseguia sentir a presença da divindade. e depois ficou surpreendido quando dentro dele surgiu uma onda de emoções em resposta a essa sua imaginação.

Interrogou-se sobre tudo aquilo enquanto a cerimónia prosseguia o seu curso.

Quentin pôs-se de pé, imitando Yeseph. quando as palavras da alocução do ancião Thernu se desvaneceram no grande santuário. Estivera a sonhar acordado durante todo o discurso, e parecia-lhe que se encontrara sentado apenas por breves momentos, apesar de ter uma vaga lembrança de outros cantos e da leitura de um texto sagrado. Todavia. Na sua mente. tudo isso se reduzira a um instante. Agora encontrava-se de pé e avançava para a pedra, atrás de Yeseph.

- Meus bons amigos... - disse Yeseph para a congregação. Quentin olhou para as centenas de olhos a brilharem sob a luz das velas. Tudo o que conseguia ver eram olhos. - juntámo-nos aqui esta noite para conferir a este jovem, um hóspede entre nós. a bênção dos Ariga. - Houve acenos de aprovação a agitarem as cabeças da multidão.

Ajudem-nos com as vossas orações.

Yeseph fez sinal aos portadores do fogo para que avançassem. Com cada um deles a segurar uma vela dentro de uma taça pouco profunda.

os portadores do fogo avançaram para a traseira da plataforma, seguidos por Yeseph e Quentin e pelos restantes anciões. Quando se aproximaram da bela tapeçaria dourada, dois dos portadores do fogo avançaram mais depressa, puxaram-na para um lado, e Quentin pôde ver uma porta.

Yeseph entrou na estreita passagem, iluminada apenas pela luz tremulante das velas. Depois de percorrido um corredor. entraram numa câmara interior.

A câmara parecia-se com um túmulo, pensou Quentin. Estava completamente nua e fora cortada na rocha macia, com um banco comprido e estreito a todo o comprimento da parede em frente da entrada. Quando os portadores do fogo começaram a colocar as suas velas em volta da câmara, Quentin verificou que não existiam quaisquer símbolos ou ornamentos.

Quentin escutou água a correr suavemente e viu que, numa das extremidades da câmara oblonga. existia uma pequena fonte a cantar dentro de uma espécie de taça escavada no chão.

Os anciões ocuparam os seus lugares no banco de pedra e Yeseph puxou Quentin para perto da fonte.

- Ajoelha-te, Quentin.

Quentin ajoelhou-se em frente da fonte e sentiu a pedra lisa e fria de encontro às pernas. No meio do silêncio, distinguiu perfeitamente as respirações dos anciões que se encontravam atrás dele, e o borbulhar da água da fonte a dançar na taça. Então, Yeseph, de pé junto dele, declarou:

- Este é um lugar de poder, o centro da devoção dos Ariga, e era nesta sala que todos os jovens ariga recebiam a bênção quando se tornavam adultos.

"Recebiam muitas bênçãos durante toda a vida. mas esta era especial, concedida não pelos anciões, ou sacerdotes. mas sim por Whist Orren. o próprio Deus único.

"Era uma bênção que os acompanhava toda a vida, que fazia parte das suas vidas. Não tinham de a ganhar, nem era necessário um ritual de purificação ou obediência. A bênção é uma dádiva do deus. Tudo o que é necessário é um coração puro e o desejo de a receber.

"Agora. diz-me: há alcuma razão para que não recebas a bênção

dos Ariga?

Quentin. de olhos focados na fonte enquanto Yeseph falara, virou-se para fitar os olhos do ancião.

- Não - respondeu. - É meu desejo receber a bênção.

- Assim seja feito - declarou Yeseph. Colocando as mãos sobre Quentin. começou a falar: - Deus poderoso, eis um jovem que deseja ser teu seguidor. Fala-lhe agora, e com toda a tua sabedoria e verdade concede-lhe a tua bênção.

Quentin ficou mais uma vez surpreendido com a simplicidade da oração. Era um pedido. sem qualquer espécie de adornos. proferido com uma convicção tranquila.

Yeseph dobrou-se para a fonte, pôs as mãos em concha e encheu-as de água.

- Bebe - ordenou. oferecendo a água a Quentin.

Quentin bebeu um gole e a seguir Yeseph tocou-lhe na testa com os dedos húmidos.

- A água é o símbolo da vida. Todas as coisas vivas precisam da água para se manterem vivas, e por isso. é também o símbolo do Criador da Vida, Whist Orren.

- Fecha os olhos - pediu Yeseph. começando a entoar uma muito velha canção.

Ao princípio Quentin não reconheceu as palavras: a voz trémula do ancião ecoava de um modo estranho nos seus ouvidos e reverberava na pedra da câmara. O canto de Yeseph pareceu ampliar-se, encher toda a câmara, até que Quentin compreendeu que os outros também estavam a cantar. Era uma canção a respeito do deus e da sua promessa de caminhar entre o povo. para lhe ensinar os seus caminhos. Quentin achou que a canção era comovedora, e como a melodia era simples e repetitiva recitou as palavras para ele próprio.

A pouco e pouco, a canção morreu e Quentin ouviu uma voz. Seria a de Yeseph. ou outra qualquer? Não era capaz de o dizer... Podia até ter sido a sua própria voz. Parecia falar-lhe directamente ao coração, a uma qualquer parte das profundezas do seu íntimo.

Então, Quentin mergulhou num sonho.

No sonho. permanecia ajoelhado sobre o frio chão de pedra, mas à sua volta existia um prado brilhante e de dimensões aparentemente infinitas. O luxuriante vale verde brilhava sob uma luz cor de mel. A própria luz não parecia emanar de uma fonte determinada, mas sim a pairar sobre o prado com um nevoeiro dourado.

O ar cheirava a pinheiros e à fragrância mais leve e doce das ervas. Por cima dele o céu formava um arco com uma delicada iridescência azul, levemente agitada por subtis mudanças de tonalidade mas que. no entanto, parecia nunca se modificar. Não existia nenhum Sol a pairar no céu, mas este. tal como o vale, estava carregado de luz.

Um ribeiro cristalino borbulhava ali perto, oferecendo alegremente a sua música. A água parecia viva, saltando e deslizando por cima das pedras arredondadas e polidas.

Pairava um ar de paz por cima de toda a cena, e Quentin sentiu uma vaga de alegria a nascer dentro dele, como que jorrando de uma fonte. O coração palpitava-lhe no peito como se se quisesse libertar para ir pairar no alto em leves asas de felicidade.

A voz que ouvira antes voltou a chamá-lo, perguntando:

- Quentin, conheces-me?

Quentin olhou em volta, algo assustado. Não via ninguém ali perto que pudesse estar a falar com ele. Estava completamente só, mas a voz continuava.

- já ouviste a minha voz no silêncio da noite. e já procuraste o meu rosto nas profundezas do teu coração. Apesar de me teres procurado em templos não sagrados, não te pus de lado.

Quentin estremeceu e perguntou numa voz fraca:

- Quem és? Diz-mo, para que te possa conhecer.

- Sou o Criador, o único, o Mais Alto. Os próprios deuses tremem na minha presença. São como sombras, leves nevoeiros empurrados pelas brisas e dispersos. Só eu sou merecedor da tua devoção.

Enquanto a voz falava Quentin compreendeu que já a ouvira muitas vezes, ou que pelo menos ansiara por a ouvir, na escuridão da cela do seu templo. quando chorara sozinho. Conhecia-a. apesar de nunca a ter escutado com tanta clareza, nem de um modo tão distinto.

- Oh, Mais Alto. permite que o teu servo te veja - implorou Quentin. Instantaneamente. o pacífico prado desapareceu no meio de uma brilhante luz branca, que obrigou Quentin a colocar um braço em frente da cara.

Quando ganhou coragem para voltar a espreitar por debaixo do braço. viu a forma tremeluzente de um homem, de pé na sua frente.

Era um homem alto, de largos ombros, bastante jovem mas com um rosto marcado pela sabedoria e pela maturidade. A forma do homem parecia vibrar sob os olhos de Quentin, como se estivesse a ver um reflexo na água. O homem em si tinha um aspecto bastante sólido. mas os seus contornos eram difusos. como se fossem formados por feixes de luz viva, ou estivesse vestido com uma aura com a luminescência de um arco-íris.

Todavia, foi o rosto o que chamou a atenção de Quentin. Os olhos do Homem de Luz brilhavam como carvões e o rosto emitia um clarão de bronze. Quentin não conseguia afastar o olhar dos olhos escuros, infinitamente profundos e ardentes do homem. Sustentaram o seu olhar com uma espécie de abraço de amantes: forte mas gentil, dominador mas complacente. Aqueles olhos emitiam um tipo de desejo ardente que Quentin não conseguia especificar, e o jovem começou a ter medo da sua presunção de querer existir na esfera de radiante visão de um ser como aquele.

- Nada receies - disse o homem, num tom infinitamente suave. - Há muito que tenho a minha mão sobre ti e que te amparo. Olha para mim e saberás. no fundo do coração. que sou teu amigo.

Quentin fez o que lhe era pedido e sentiu uma súbita onda de reconhecimento. como se tivesse acabado de encontrar um amigo íntimo ou um irmão ausente havia muito. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas...

- Por favor, não sou merecedor...

- O meu toque irá purificar-te - disse o Homem de Luz. Quentin sentiu uma espécie de calor na testa, onde o homem lhe colocara a ponta de dois dedos. A vergonha desapareceu e o calor espalhou-se-lhe pelo corpo. Queria pular, cantar, dançar ante o Homem de Luz que estava na frente dele.

- Procuras uma bênção - proferiu o homem. - Só tens de dizer qual.

Quentin tentou fazer com que as palavras lhe saíssem. mas não o conseguiu.

- Não sei como pedir esta bênção... mas no meu coração sei que necessito dela...

- Então pediremos ao teu coração que revele o que tem conservado oculto...

Da garganta de Quentin emergiu um som de angústia e tristeza como nunca antes escutara. Era como que alguém tivesse tirado uma rolha a uma garrafa e o conteúdo desta se estivesse a precipitar para o exterior, numa verdadeira inundação.

O grito terminou tão de repente como começara, pairou por instantes no ar e desapareceu. Quentin piscou os olhos de espanto. chocado com a intensidade das suas próprias emoções, pois fora disso mesmo que se tratara. Deixara sair as emoções, cruas e nunca pronunciadas, presas no interior do coração.

- O teu coração está preocupado com muitas coisas - disse o Homem de Luz. - Choras pelos teus amigos. Receias pelo que lhes possa vir a acontecer se não estiveres com eles. Procuras uma garantia de êxito para a libertação do teu rei das garras do maléfico.

Quentin acenou uma confirmação acanhada. Tinham sido aqueles os seus sentimentos nos últimos dias.

- Porém, mais do que tudo isso, procuras coisas mais elevadas: a sabedoria e a verdade. Queres saber se existem deuses verdadeiros a quem os homens possam orar e que escutem essas orações.

Era verdade. Voltou a recordar-se de todas as compridas noites solitárias na cela do templo, de todos os gritos de angústia que soltara.

- Quentin. - O homem de Luz estendeu para ele uma das suas largas mãos, aberta. - Os meus caminhos são a sabedoria e as minhas palavras a verdade. Procura-as e não terás que ter medo. Procura-me e encontrarás a vida. Pedes uma bênção. Vou dar-te esta: o teu braço será o braço da virtude e a tua mão da justiça. Mesmo que te sintas fatigado e caminhes no escuro, nada temas. Serei a tua força e a luz aos teus pés. Serei o teu conforto e o teu guia. Não me esqueças, e dar-te-ei paz para sempre.

Quentin, olhando para os olhos do Homem de Luz. sentiu-se a cair nos infindáveis vazios do tempo. como se se precipitasse nas mais escuras profundezas de uma noite sem estrelas. Viu, não com os seus próprios olhos, mas através dos olhos do deus, a ordeira marcha das eras. o tempo a estender-se na sua frente, para o passado e para o futuro, numa linha sem interrupções.

A seguir avistou um homem que julgou reconhecer: era um cavaleiro. Estava equipado para a batalha e a armadura brilhava como se fosse feita de um único diamante. Usava uma espada que ardia com uma chama irada. e um escudo que emitia uma radiação fria, dispersando a luz como um prisma.

O cavaleiro falou, levantou a espada e a escuridão bateu em retirada na sua frente. A seguir. o cavaleiro, com um poderoso impulso. atirou a espada para o ar, onde ficou a rodopiar, lançando línguas de fogo que encheram o céu.

Quando o cavaleiro se virou, Quentin reconheceu, com um choque, que o cavaleiro era ele próprio... Mais velho e mais forte... mas era ele.

- Sou o Senhor de tudo - disse a voz. - O criador de todas as coisas. - A visão desvaneceu-se e Quentin viu-se mais uma vez a fitar os olhos do Homem de Luz. Porém. agora sabia que se tratava dos olhos do próprio deus, cuja voz ouvira na noite e que o chamara pelo nome.

- Quentin. seguir-me-ás? - perguntou com suavidade.

Quentin. a explodir de emoções em conflito, atirou-se para os pés do Homem de Luz e tocou-lhes com as mãos. Sentiu fluir para ele uma torrente de energia viva, que o deixou mais forte. mais sábio. e mais seguro de si mesmo do que jamais estivera. Era como se tivesse tocado na fonte da própria vida.

- Segui-lo-ei - declarou. numa voz fraca e incerta.

- Então, levanta-te. Recebeste a tua bênção.

Quando Quentin voltou a si, estava deitado de lado. no escuro. Havia uma única vela a arder numa taça. Na sua frente, a fonte continuava a cantar, e o som fazia com que a câmara parecesse vazia. Quentin levantou a cabeça para olhar em volta e verificou que estava sozinho.

Quando se levantou para sair da câmara interior, notou que tinha a mão e o braço direito dormentes e com uma sensação peculiar: sentia-os simultaneamente quentes e frios. Parou para os esfregar e depois saiu.

 

A água caía de um céu baixo, cinzento e infeliz, em chuviscos miseráveis. Por debaix!o dos pés, o trilho tornara-se num ribeiro lamacento que escorria lentamente pela colina por entre as gigantescas árvores sempre verdes da floresta. Quentin. montado em Balder. e Toli, cavalgando um pónei preto e branco, deixado para trás pelos outros, desciam o trilho com alguma insegurança, num silêncio abafado que os envolvia como as pesadas capas em que se tinham enrolado para se protegerem da chuva. O caminho de Dekra para o leste era uma versão muito improvisada do labirinto pantanoso por onde tinham sido obrigados a passar quando a caminho da cidade arruinada. Assim, Quentin permitia que fosse Baldera escolher o caminho e deixava que a sua mente vagueasse para onde quisesse. Voltava a pensar na sua despedida de Yeseph. Mollena e dos outros.

Fora uma triste despedida, pois acabara por lhes ganhar amizade durante o curto tempo em que estivera com eles. Tinham pronunciado algumas breves palavras de adeus - os Curatak não acreditavam em prolongadas despedidas, uma vez que consideravam que todos os que serviam o deus viriam um dia a estar reunidos, para viverem juntos para sempre - e enquanto os cavalos escarvavam o chão, impacientes, Quentin abraçara Mollena e Yeseph com algum embaraço.

- Regressa, Quentin, quando a tua demanda terminar - pedira Yeseph. - Daria as boas-vindas a um discípulo como tu.

- Voltarei logo que puder - prometera Quentin. subindo para a sela. - Estou muito grato por todas as vossas amabilidades. Muito obrigado.

- Deus vai convosco - declarara Mollena, virando a cara para um lado, mas Quentin ainda se apercebera do brilho de uma lágrima no canto de um dos seus olhos.

Olhara-os durante alguns instantes e depois dera meia volta com o grande cavalo de batalha e começara a descer a colina em direcção à floresta. olhara por cima do ombro durante muito tempo. gravando na memória aquela imagem. final. Queria recordá-la para sempre tal como a via agora: a luz alegre do Sol a encher um céu brilhante, que parecia ter sido limpo e esfregado pelas nuvens brancas, as paredes de pedra vermelha da cidade erguendo-se graciosamente no ar da Primavera. e os seus amigos junto dos portões abertos. acenando-lhes até a curvatura da colina os ocultar das vistas.

Quentin nunca experimentara uma despedida tão emocional. Por outro lado, pensou, nunca experimentara nada para além da frieza dos sacerdotes do templo. que nunca se saudavam ou diziam adeus.

Por dentro, Quentin vibrava de excitação. O seu coração pairava no alto como um pássaro finalmente livre de um longo cativeiro. Esqueceu-se rapidamente da melancolia das despedidas, abafada pela boa disposição que sentia por estar vivo. de volta ao caminho. e a rever mais uma vez a visão da noite anterior. Fora-lhe muito difícil conseguir adormecer. Depois da festa em sua honra, em que se tinham verificado mais cantos. danças e jogos. e que se prolongara pela noite dentro, ele e Toli haviam regressado aos quartos de Mollena. na residência palaciana do antigo governador. Fora então que lhes falara na visão. Yeseph e alguns dos outros anciões que se tinham ali reunido haviam-no escutado com atenção. acenando e puxando pelas barbas.

- A tua visão é um presságio poderoso. Foste favorecido pelo deus - dissera Yeseph. - Tem planos especiais para ti.

- A bênção dos Viga - murmurara o velho Thernu. - é por si só uma coisa de poder, pois traz com ela a capacidade para a concretização dos seus próprios fins. O Mais Alto garante uma bênção a todos os de coração puro. e dá-lhes a força para concretizarem os seus desígnios Quando os atingires, encontrarás a tua própria felicidade e realização

Quentin ficara intrigado e perguntara:

- Então, qual é o significado da minha visão?

- Terás de ser tu a descobri-lo. O deus poderá revelar-to. quando chegar o momento, mas é mais frequente que o conhecimento só surja com o esforço. Tu mesmo terás de te esforçar para entenderes o significado. pois a interpretação está na concretização.

- Não há duvida de que é qualquer coisa muito diferente do que é costume com os velhos deuses - dissera Quentin. - No templo, as pessoas iam procurar os sacerdotes para obterem um oráculo. O sacerdote recebia a oferenda e pedia um oráculo. ou um presságio. em nome do peregrino, a quem explicava o seu significado.

Isso era porque os oráculos não passam da estupidez daqueles que são cegos porque não querem ver. São fumo sem fogo - retorquira Themu.

Nessa noite. depois de os convidados terem partido e de se encontrar sozinho na cama. Quentin rezara pela primeira vez àquele novo deus. o que encontrara na sua visão. Esta ainda lhe continuava a parecer mais real do que as vagas dimensões do seu próprio quarto envolto

em escuridão e do que a cama confortável. Orara: "Guia-me na descoberta do teu caminho. Mais Alto. Concede-me forças para te servir..>

Não se recordou de nada mais para dizer. Depois de tantas orações formais no templo. escritas para serem decoradas por meio de uma repetição constante. aquela oração tão simples parecia-lhe ridiculamente inadequada.

Porém. confiando na afirmação de Yeseph de que o deus tinha mais em conta os sentimentos do coração do que o comprimento da oração. Quentin deixou-a ficar assim. Obtivera uma forte convicção íntima de que a sua oração fora ouvida. e por alguém que se encontrava muito perto.

No princípio daquela manhã. quando o Sol ainda espreitava por cima do horizonte ondulado. Quentin e Toli haviam discutido os seus planos.

- É meu desejo seguir Theido e os outros, e talvez apanhá-los. se isso for possível - dissera Quentin. mastigando um bolo de sementes. Toli mirara-o com uns olhos estranhos, que Quentin considerara enervantes. - Porque é que olhas assim para mim?

- Modificaste-te, Kenta - respondera Toli em voz baixa. com um certo ar de admiração. Kenta era a palavra Jher para "águia", (e. por extensão. parecia querer também significar amigo. mestre, amo, tudo ao mesmo tempo). Era também a maior aproximação ao nome de Quentin que Toli tentava atingir, apesar de para o jovem lhe parecer que o seu amigo jher não se esforçava o suficiente. Toli mantinha-se agarrado àquela designação por razões que só ele conhecia.

- Mudei? Como é que mudei? - Quentin tentou exibir o seu antigo sorriso arrapazado, mas saiu~lhe forçado. - Sou o mesmo que era.

Toli via as coisas de uma maneira diferente. Observara a cerimónia da bênção com grande admiração e respeito. Parecera-lhe quase como a coroação de um rei, e tinha um grande orgulho por o seu amo - pois era assim que agora o considerava de uma maneira irrevogável - ter ascendido a uma tal honra.

- Não - respondeu -, não és o mesmo.

Fora tudo o que quisera dizer sobre o assunto e. por isso. Quentin passara a outros assuntos. Cavalgariam até Tuck e depois para Bestou, tal como os outros haviam feito, de acordo com as informações de Mollena.

Tudo o que Quentin sabia era que Nimrood podia ser encontrado em Karsh, apesar de não fazer ideia de onde isso ficava. Mollena recusava-se a falar do lugar, dizendo que se tratava de uma ilha diabólica que não se encontrava suficientemente longe, não obstante poder estar a meio mundo de distância.

Assim, tinham encetado o trilho para Tuck, um trilho esquecido que atravessava as florestas no norte, lar de um grande número de veados vermelhos e javalis. Eram os próprios animais quem mantinha o trilho aberto. dando-lhe o pouco uso que tinha. Os Curatak não precisavam dele.

No segundo dia, Toli acordara Quentin para uma madrugada desagradável. Pouco depois de tomarem o pequeno-almoço, retirado das provisões empacotadas por Mollena, as nuvens espessas tinham começado a libertar uma chuva fina, quase como nevoeiro. Haviam-se abrigado nas capas com capuzes e metido ao caminho com uma disposição mais calma e melancólica. A boa disposição do dia anterior

desaparecia debaixo daquela chuva triste.

Enquanto prosseguiam, Quentin começou a mostrar-se cada vez mais agitado, com a mente inquieta com um pensamento que não deixava de lhe espicaçar a consciência. Resolveu mencioná-lo a Toli na primeira oportunidade. Assim, quando pararam junto de um pequeno ribeiro para dar de beber aos cavalos, Quentin expôs o que o preocupava:

- Toli, sabes o que temos pela frente? - perguntou. O jovem jher semicerrou os olhos e espreitou para as sombras do trilho.

Não - retorquiu, com a lógica típica dos Jher. - Como é possível saber o que se tem pela frente? Até os trilhos bem conhecidos se podem modificar. O bom caçador avança com cautela.

- Não... Não era isso o que queria dizer. Vamos em busca de Theido. Durwin e dos outros... e muito provavelmente enfrentaremos grandes perigos. - Observou o rosto de Toli, em busca de um qualquer sinal de preocupação. Não viu nenhum.

Quentin olhou para baixo. para o ribeiro, vendo o focinho do cavalo profundamente mergulhado na água revolta, e continuou:

- Não tenho o direito de te pedir que me acompanhes até mais longe. A tua gente mandou-te connosco, como guia, por amizade. Agora que atingimos Dekra. e que na verdade já a deixámos para trás, a tua obrigação terminou. Se quiseres, és livre de voltar para o teu povo.

Quentin levantou os olhos e viu profundos sulcos de tristeza no rosto castanho de Toli. Tinha os cantos da boca muito virados para baixo, e um brilho frio nos olhos escuros.

- Se é isso o que desejas, Kenta, regressarei para junto do meu povo.

- O que eu desejo?... O que eu desejo não interessa. Tens de voltar para trás. A viagem é minha, e não tua. Não a pediste. Não posso exigir~te que arrisques a vida... Esta luta não tem nada a ver contigo.

- Tens de me dizer o que queres que faça - pediu Toli, de mãos estendidas e palmas viradas para cima.

- Não posso - lamentou-se Quentin. - Não compreendes?

Toli não compreendia. Pestanejou para Quentin, muito sério, como se estivesse a censurá-lo por uma crueldade inimaginável.

- Podes ser morto - explicou Quentin. Os seus conhecimentos da língua jher estavam a ficar rapidamente esgotados, sob a tensão de tentar comunicar o dilema. - Não posso ser responsável pela tua vida se me seguires.

- Os Jher pensam que cada homem é responsável pela sua própria vida. Os Jher são livres (eu sou livre) e não aceitamos que alguém nos queira dominar. No entanto, um jher pode aceitar um amo, se assim o desejar. - A voz de Toli ergueu-se e as linhas do seu rosto começaram a suavizar-se. - Para um jher, escolher um amo e servi-lo até à morte é a maior das honras, porque servir sob um amo de valor aumenta o valor do servo. Entre os do meu povo, são muito poucos os que têm a oportunidade que eu tive. - Pronunciou a última frase com um tom de orgulho, de olhos a brilharem. - Um grande amo torna grande o seu servo.

- Mas eu não te pedi para me servires...

- Não - retorquiu, orgulhoso -. fui eu que te escolhi a ti.

- Então e os teus? - perguntou Quentin, abanando a cabeça.

- Sabê-lo-ão e ficarão felizes por mim. - O rosto de Toli irradiava satisfação.

- Não compreendo - queixou-se Quentin. apesar de não se importar muito com a sua falta de compreensão.

- Isso é porque o teu povo foi ensinado a acreditar que ser-vir outro é um sinal de fraqueza. Não se serve ninguém por se ser fraco, mas sim por se ser forte.

- De qualquer modo. sentir-me-ia melhor se tivesse sido eu a pedir-to.

- Então pede, mas já te dei a resposta.

- Quer dizer que não tenho maneira de me ver livre de ti? - perguntou Quentin. a brincar. Toli não compreendeu a brincadeira e a sua expressão voltou a entristecer momentaneamente.

- Ser recusado como servo é uma grande humilhação e uma desgraça.

- Um amo de valor nunca mandaria embora com ligeireza alguém que o aprecia tanto - disse Quentin. - Talvez seja melhor que eu te sirva!

Toli riu-se como se Quentin tivesse feito a mais ridícula das afirmações.

Não - respondeu, ainda no meio de risinhos. - Alguns nascem para ser amos, mas um servo tem de começar a ser ensinado ainda muito novo. É melhor ser eu a servir. - Voltou a ganhar uma expressão séria. - Tu, meu amo. ostentas a aura da glória. Só a ti servirei, porque é apenas a teu lado que também poderei vir a encontrar a glória.

- Está bem - acabou Quentin por concordar. - Como na verdade prefiro não ir sozinho. e como de qualquer modo estás decidido a não mo permitir, iremos juntos.

- Se é esse o teu desejo... - retorquiu o Jher com uns ares muito agradáveis.

- Os meus desejos parecem nada ter que ver com o assunto comentou Quentin. Toli ignorou o comentário, segurou Balderenquanto Quentin montava e depois trepou para o seu cavalo preto e branco.

- Então... a caminho, para Tuck - disse Quentin. Tinha o coração mais leve e a mente mais à vontade. Não pretendera desistir da companhia de Toli, e teria tentado persuadi-lo a ficar se tivesse sido esse o caso. Contudo, iria precisar de algum tempo para se habituar àquela nova situação de amo e servo. Ainda não se tinha apercebido da extensão da lealdade de Toli para com ele, e perguntava a si mesmo se seria capaz de ser um bom amo. A sensação de responsabilidade era já mais pesada do que teria imaginado.

Cavalgaram juntos durante toda a tarde húmida, e pararam para passarem uma noite encharcada. junto do trilho, sob o simples abrigo de uma árvore com longos ramos que quase tocavam no chão.

Toli peou os cavalos e deixou-os movimentarem-se com passos curtos para poderem pastar as ervas e a folhagem da floresta. Quentin desenrolou os cobertores debaixo dos ramos e fez uma cama seca e quente com um montão das aromáticas agulhas dos pinheiros. Toli foi à procura de cascas secas e pedras e em breve tinham uma pequena fogueira a arder, para os aquecer e para secar as roupas ensopadas em água.

A noite caiu muito rapidamente na floresta. -jazeram os dois na escuridão, escutando os pingos de água que escorriam dos troncos mais altos e o crepitar da fogueira. Quentin esticou-se em cima da cama improvisada e aspirou a fragância das agulhas dos pinheiros.

- Que pensas tu deste novo deus? - perguntou Quentin, meio distraído, procurando o brilho dos olhos de Toli por entre a escuridão.

Durante todo o tempo que haviam passado em Dekra, não falara a Toli a respeito da religião dos Ariga, esquecimento que agora o deixava embaraçado.

- Não é novo. Os Jher sempre o conheceram.

- Não sabia. Como é que lhe chamam?

- Whinoek.

- Whinock... - repetiu Quentin para si mesmo. - É uma palavra bonita. O que quer dizer?

- Talvez se possa traduzir por Pai... Pai da Vida.

 

- É uma pequena probabilidade... mas é uma probabilidade disse Durwin. levantando a tampa de um dos barris de água,

- Pergunto a mim mesmo porque é que não pensámos no assunto mais cedo - comentou Theido. - Mantém o ouvido encostado à porta e prepara-te para nos avisar - acrescentou, sussurrando através do porão, dirigindo-se a Trenn, que se encontrava agachado no alto dos degraus.

Durwin tirou um punhado de pó amarelo de um saco de pano que Alinea segurava nas mãos. Espalhou o pó na água que se encontrava no barril, que Theido agitou com um remo quebrado, voltando a tapar o barril.

- Achas que virão buscar água? - perguntou Alinea. Deslocaram-se os três para o barril seguinte e repetiram a operação.

- Espero que sim. - Theido rolou os olhos para cima, para indicar o convés. - Vêm buscá-la de dois em dois dias, para encherem de água fresca os reservatórios que têm no convés. Com um pouco de sorte, hoje também o farão. Por outro lado, devemos estar perto de terra. Pode ser que esperem...

- Bom, fazemos o que podemos. O melhor é não contaminar o último barril, Será para nosso uso. - Durwin sacudiu o resto do pó para dentro do barril e limpou as mãos. Nesse instante Trenn começou a raspar com os pés nos degraus da escada.

- Vem aí alguém! - murmurou em voz áspera. - Tapem o barril, depressa!

Theido agitou a água com vigor e tapou o barril, encaixando a tampa com a extremidade do remo. Quando a porta do porão se abriu já os três ocupavam os seus lugares habituais junto aos últimos degraus da escada.

- e tragam um grande bocado - gritou uma voz no convés para as duas figuras que desciam.

- Para trás! - rosnou um dos marinheiros. O outro dirigiu-se para um canto e começou a remexer numa pilha de cordas. Os cativos ficaram a olhar. desapontados.

Depois de os marinheiros terem fechado a porta atrás deles, Durwin disse:

- Não percam a esperança, o dia ainda é jovem. Pode ser que voltem.

Trenn tinha um ar de grandes dúvidas.

- Não temos maneira de saber até que ponto estamos perto de terra. Podem largar a âncora de um momento para o outro.

- É verdade. E se assim for... pois que seja. O deus tem-nos nas suas mãos e procede segundo os seus desejos.

Todavia, enquanto Durwin falava, ouviu-se uma grande agitação no convés, e alguém que mexia, enfurecido. nas correntes que seguravam as trancas. A porta abriu-se mais uma vez e o grito de Pyggin pôde ser ouvido por todos, repreendendo os desgraçados marinheiros:

- A ração de água para o dia. idiotas! Vão buscá-la ou mando-os chicotear!

Três marinheiros desesperados precipitaram-se pelas escadas, guiados pelo marinheiro que tinha a corda. Correram para o barrilete que se encontrava mais perto. sem sequer lançarem uma olhadela aos prisioneiros amontoados no facho de luz proveniente da porta aberta. Levantaram o barril nos braços musculosos e lutaram por o carregar pelas íngremes escadas. Não viram as expressões surpreendidas e satisfeitas dos prisioneiros e desapareceram no convés com a ração de água para a tripulação.

- Continuamos sem saber se Pyggin bebe da mesma água que os tripulantes... - disse Trenn depois de deixarem de ouvir os passos dos marinheiros.

- É um risco que temos de correr - respondeu Theido. Depois virou-se para Durwin. - Quanto tempo é preciso para que a tua poção funcione?

- Varia, é claro. Depende do tamanho do homem. da quantidade de água que beber... No entanto. fi-la de modo a actuar lentamente, mas sem perder a força. Esta noite vão-se todos deitar, e amanhã de manhã nenhum deles acordará, mesmo que sopre a tempestade e as ondas deitem os mastros abaixo. - Riu-se e os olhos brilharam-lhe no escuro do porão. - Porém. antes que nos esqueçamos... Temos um problema mais imediato para resolver.

- É verdade. Se não arranjarmos uma maneira de fugirmos deste porão mal cheiroso. não interessa saber por quanto tempo os patifes irão dormir.

- Talvez uma das outras escotilhas... - sugeriu Alinea. apontando para a zona mais escura do porão, onde se viam dois pálidos quadrados de luz desenhados no convés.

- É uma excelente ideia. senhora. - A voz era de Ronsard. Surpreendidos. todos se viraram, e deparou-se-lhes o cavaleiro, de pé mas algo inseguro. por detrás deles.

- Ronsard! - exclamou Theido. - Há quanto tempo estás aí de Pé!

- Para a cama. imediatamente! - declarou Alinea, correndo para agarrar num dos braços do homem. com a ideia de o puxar de volta para a sua enxerga rudimentar. Ronsard deu um passo em frente e o rosto contorceu-se-lhe de dor. Levou a mão ao lado da cabeça.

- Oh! - gemeu, endireitando-se. - Ainda não estou habituado a ter os pés no chão.

- Logo te habituas - garantiu Durwin.

- Ah. mas há muito tempo que não me sentia tão bem - continuou o cavaleiro, deixando que o sentassem num barril. por insistência da rainha. - Para além destas pulsações na cabeça. sinto-me como novo!

- Ainda bem - manifestou-se Theido. - Há muito que te tinha dado como morto... Mesmo depois de te termos encontrado aqui, o estado em que te vimos não nos deu grandes esperanças. Agora, afinal, parece que irás sobreviver...

- Tudo por causa deste vosso sacerdote feiticeiro - declarou Ronsard. sorrindo-se para Durwin.

- Eu? Não fiz nada. Permiti apenas que o teu corpo tivesse o repouso de que necessitava. Dormiste durante os últimos três dias.

- Disseram qualquer coisa a respeito das escotilhas da proa... recordou Trenn. - Se não se importa que lho diga - continuou, dirigindo-se a Theido -, é esse o nosso problema mais premente.

- É claro. Que sabes da escotilha da proa? Há uma saída por esse lado?

- Pode ser que possamos construir uma - disse Ronsard, levantando-se do barril. - Recordo de ter visto, quando me atiraram para aqui com muito pouca delicadeza, que a escotilha da frente não estava tão bem fechada como as outras.

- Vamos ver.

Theido conduziu o grupo para a frente, escolhendo o caminho, com todo o cuidado, por entre a carga colocada de qualquer maneira. Momentos depois encontravam-se debaixo da escotilha. olhando para as suas barras cruzadas.

- É uma escotilha muito pequena. Não tem espaço para deixar passar um homem - declarou Trenn, pessimista.

- Talvez seja suficientemente grande para uma mulher - declarou Alinea com vivacidade.

- Senhora, proíbo-a de andar a passear pelo convés. E se um dêsses piratas não adormecer? Não, é demasiado perigoso! - Trenn proferiu a frase com um tom autoritário. Theido e Durwin estavam inclinados a concordarem com ele, mas não se manifestaram.

- Ah, então os actos heróicos são apenas para os homens, não são? - perguntou a rainha com os olhos a brilharem de desafio. - Se for necessário, acho que posso enfrentar qualquer dos homens de Pyggin, e de qualquer modo tenho a surpresa do meu lado, isto já para não mencionar as artes de Durwin.

- Talvez seja o melhor plano - murmurou Ronsard. - Estará escuro.

- Sim, e além disso ela poderá mover-se mais silenciosamente do que qualquer um de nós - concordou Theido.

- Seja como for, primeiro temos de encontrar maneira de abrir a escotilha - notou Durwin. - Sugiro que comecemos por aí enquanto ainda dispomos de alguma luz.

- Ajudem-me a empilhar alguns destes fardos e barris - pediu Theido. - Construiremos uma escada que leve a nossa dama até à liberdade.

Os prisioneiros trabalharam durante todo o dia, desgastando a argola do cadeado solitário que segurava a escotilha, servindo-se de bocados de metal e de uma ou duas ferramentas enferrujadas que encontraram no fundo do porão.

Quando o crepúsculo surgiu. chegaram-lhes sons do convés, indicativos de que o navio avistara o seu destino. a cruel terra de Karsh.

A voz do capitão Pyggin, rouca de gritar ordens aos marinheiros amolecidos, podia ser ouvida por cima do barulho de pés a correr e das cordas nos moitões.

- Preguiçosos! Esta noite não terão rum, com terra ou sem terra à vista! Que foi que lhes deu? Estão todos embruxados?

- Hummm... Parece-me que a droga começa a fazer efeito - disse Durwin.

- Será que vão tentar desembarcar esta noite?

- Não, o mais provável é lançar a âncora em qualquer lado, e não querer arriscar os barcos contra as rochas em plena escuridão - replicou Ronsard. da sua cama.

- Belo! - exclamou Trenn. - Assim, teremos tempo para trabalhar. Pela madrugada estaremos em terra e esta banheira repousará no fundo do mar.

- Não vais afundar o navio com todos a bordo - protestou Alinea. empoleirada no alto de um barril, desgastando a argola do cadeado.

- Também não recomendo um acto desses - avisou Durwin.

- Seriam mortes inúteis.

- Mas... estamos em guerra!

- Mesmo na guerra. devemos conduzir-nos de uma maneira própria de homens.

- Além disso - acrescentou Theido -, podemos precisar do navio para fugirmos daqui.

- Ah, isso posso eu compreender! - murmurou Trenn.

Nesse momento ouviu-se um tilintar de metal no convés por cima deles e Alinea anunciou:

- Está aberta! A escotilha está aberta!

- Óptimo. Desça agora, senhora. Esperaremos pela escuridão para entrarmos em acção - disse Theido. - Creio que não teremos de esperar muito.

Furioso, o príncipe Jaspin andava de um lado para o outro nos seus aposentos no castelo de Erlott. O Conselho de Regentes estivera em sessão durante todo o dia, e Jaspin encontrava-se impedido de se aproximar de qualquer local que ficasse perto do local da reunião, que era o seu próprio salão.

- Deixe-os tratar do assunto - acalmou-o Ontescue, o candidato a futuro chanceler do príncipe. - Nada receie, irão recordar-se do seu benfeitor. Se quiser, mandarei alguém à cave dos vinhos buscar um pouco da vossa excelente cerveja... Isso poderá refrescar-lhes as ideias... e servirá como amostra das riquezas que poderão ter sob o vosso reinado, meu senhor.

Apesar de o egoísmo de Jaspin. não apreciar o facto de ter de despejar a sua melhor cerveja pelas gargantas dos regentes. apercebeu-se da sabedoria de uma tal atitude. Seria uma maneira de os recordar quem puxava os cordelinhos...

- Sim, é uma boa ideia, Ontescue. Trata de a pôr em prática imediatamente - ordenou. continuando a andar de um lado para o outro.

- Há quanto tempo lá estão? - gritou momentos depois. Quanto tempo mais terei de esperar? Porque é que se demoram tanto?

Ontescue regressou pouco depois com uma mensagem na mão.

- A cerveja está a ser servida. Os regentes vão fazer um intervalo durante algum tempo. Sir Bran entregou-me isto, em segredo... O ansioso príncipe arrancou a mensagem das mãos de Ontescue e leu-a imediatamente.

- Pelas barbas dos deuses! - explodiu, perdendo o domínio.

- O conselho está num beco sem saída. Aquele patife do Holben conseguiu pôr alguns dos amigos do seu lado. - O príncipe fumegava. - A sua discordância está a bloquear a minha nomeação!

- Como é isso possível? Não tem poder para sugerir outro em vosso lugar. O direito de sucessão é vosso!

- É verdade, mas servem-se de uma velha e poeirenta lei. insistindo em que sejam apresentadas provas que confirmem, sem deixar quaisquer dúvidas, a morte do rei. Não posso apresentar uma tal prova...

- Mas a prova existe?

- Deves sabê-lo tão bem como eu - retorquiu Jaspin. ocultando rapidamente o seu erro. - Se o rei está morto. então há provas.

- O que eu pretendia dizer era isto: mesmo que o monarca continuasse vivo, mas incapaz de continuar com o seu reinado, deve haver uma qualquer prova que possa calar aqueles agitadores.

- Hummm... - A grande testa do príncipe enrugou-se. - Há qualquer coisa de válido nisso que dizes, meu amigo. Pensas depressa...

- Posso sugerir que se proceda a uma busca que faça aparecer alguma coisa, ou alguém que forneça a necessária prova?

- Sim, é isso! - disse Jaspin. esfregando as mãos de satisfação. - Onde é que propões que se inicie a busca?

No rosto aguçado de Ontescue surgiu uma expressão de astúcia. Os seus olhos de furão semicerraram-se de júbilo. Aproximou a cabeça do ouvido de Jaspin e murmurou qualquer coisa.

- Por Azraell - ofegou Jaspin. - És uma raposa esperta! Apressemo-nos, não há tempo a perder.

 

- Shhh. Não faças o mínimo som! - avisou Toli num murmúrio tenso. Tapou a boca de Quentin com uma das mãos, enquanto a outra pingava com os restos de água com que salpicara a cara do amigo, para o acordar.

Quentin lutou contra o sono, sacudindo a água dos olhos, surpreendido. Depois apercebeu-se da expressão que via nos grandes olhos de Toli: uma mistura de preocupação e medo.

Toli retirou-lhe a mão de cima da boca, voltando a avisá-lo para não fazer barulho.

- Que se passa` - perguntou Quentin quase sem respirar.

Deitou-se de lado. apoiando-se sobre um cotovelo, e seguiu o olhar de Toli, fito na floresta. Não se ouvia o mínimo ruído. Espreitou para a noite, A escuridão era total. A fogueira apagara-se e a Quentin pareceu-lhe que ainda faltavam várias horas para a madrugada. Um pesado manto de nuvens tapava toda a luz das estrelas e da Lua. A floresta, à volta deles. jazia imersa num negrume completo.

Nesse momento um dos cavalos resfolegou baixinho. e o outro respondeu-lhe, nervoso. Quentin, esforçando os olhos e os ouvidos para ver se penetrava a escuridão, não via nem ouvia nada. Esperou mais um pouco, e preparava-se para voltar a falar quando avistou uma ligeira mancha entre as árvores, a alguma distância, Era uma figura fantasmagórica, de um cinzento esbranquiçado, de encontro aos troncos negros. Movia-se junto ao chão e deslocava-se com rapidez por entre o mato. Uma forma fina e clara.

Desapareceu quase que imediatamente.

- Que é aquilo? - perguntou Quentin. inclinando-se para Toli. Podia ver a expressão tensa no rosto do amigo e sentia-lhe a respiração rápida e curta.

- Lobos.

A palavra levou o seu tempo a penetrar na mente de Quentin, como se não tivesse um significado óbvio. Depois. de repente, como se lhe dessem uma estalada na cara, compreendeu o perigo em que se encontravam. Lobos! Estavam a ser atacados por lobos!

- Quantos? - perguntou baixinho. tentando conseguir que a voz lhe soasse calma e sem preocupações, mas falhando.

- Só vi um - respondeu Toli no mais fraco dos murmúrios mas onde há um há outros.

Inconscientemente, Quentin estendeu a mão para a sua única arma. adaga de punho de ouro do cavaleiro do rei. Os dedos contraíram-se-lhe em volta do punho enquanto a tirava do cinto. Olhou para os restos fumegantes da fogueira, desejando que um golpe de magia a pudesse reacender. Os lobos têm medo do fogo. pensou. Ouvira isso em qualquer lado e perguntava a si mesmo se seria verdade. Como se lhe lesse os pensamentos, Toli inclinou-se. colocou o rosto junto aos carvões fumegantes e soprou-os. A cara de Toli brilhou sob a fraca luminosidade dos carvões, e por instantes viu-se uma chama. Porém. como não havia combustível para alimentar, a chama morreu e os carvões arrefeceram.

Os cavalos, que se encontravam perto deles mas invisíveis na escuridão, fizeram tilintar os arreios ao agitarem a cabeça para se tentarem libertar.

- Temos de libertar os cavalos - disse Toli - para poderem defender-se.

- Vamos chegar até esse ponto? - perguntou Quentin. Não tinha experiência naquelas coisas. Sentia-se fora do seu ambiente e estranhamente indignado com o facto, uma emoção que o deixou surpreendido.

Nesse momento Quentin teve novo relance de uma forma cinzenta a flutuar por entre as árvores à direita deles. O animal encontrava-se muito mais perto.

- Estão a aproximar-se - disse Toli. Quentin apercebeu-se que estivera a suster a respiração.

- Que vamos fazer? - perguntou, chocado por não ter a menor ideia sobre como reagir.

Em resposta a esta pergunta, Toli entregou-lhe um forte ramo. que tinham apanhado para a fogueira. Era suficientemente pesado para se defender. Com o ramo numa das mãos e a adaga na outra, Quentin sentia-se apenas um pouco mais confiante.

- Mantém-te baixo - avisou Toli. - Protege a garganta.

Toli levantou-se lentamente e, de muito longe por detrás deles, ouviu-se o lamentoso uivo de um lobo. O som fantasmagórico foi repetido por um outro, à direita. muito mais perto. Toli colocou uma das mãos no braço de Quentin, segurou-o com força e obrigou-o a levantar-se.

De repente ouviram um rosnar baixo mas forte, à esquerda. de muito perto. Quentin virou-se para o som e viu uma cabeça branca a flutuar na sua direcção, vinda da floresta.

- Para os cavalos! - gritou Toli, girando sobre os calcanhares e correndo.

Quentin virou-se no mesmo instante e correu para Balder. Encontrou a cabeça do animal e cortou as rédeas que o prendiam ao ramo a que tinha sido preso para passar a noite.

O poderoso cavalo libertou-se e ergueu-se sobre os quartos traseiros enquanto rodava para enfrentar o fantasmagórico atacante. Quentin desviou-se no preciso momento em que um pesado casco calçado a ferro assobiou no ar, no local em que a sua cabeça se encontrara instantes antes.

Balder agitava-se com fúria, escouceando o ar com os cascos da frente. O lobo que mergulhara para eles vindo da floresta, desviou-se para um lado para evitar os cascos do cavalo.

Pelo canto dos olhos, Quentin viu outro lobo a precipitar-se para o atacar, de um dos lados. Deu um salto para a frente, agitou o pau improvisado por cima da cabeça e gritou com toda a força dos pulmões. O grito surpreendeu-o a ele mesmo e assustou o lobo. que se deteve o tempo suficiente para Quentin lhe aplicar um violento golpe em cheio no comprido focinho. A boca do animal fechou-se de repente com um ruído de coisas esmagadas quando o pau o atingiu. O lobo soltou um ganido de queixume e recuou.

Soou um outro ganido nas suas costas e Quentin virou-se. para se lhe deparar Toli a bater com um longo pau num grande lobo cinzento. que se agachava sob os golpes ineficazes. Quentin avançou para Toli para o ajudar. Dera apenas dois passos quando ficou com um pé preso numa raíz e caiu.

Ao cair, Quentin pressentiu um movimento por detrás dele e sentiu um peso sobre as costas ainda antes de embater no chão. Sem sequer pensar. lançou um braço para cima da cabeça no momento em que os longos dentes do lobo se atiravam ao seu pescoço exposto. Sentiu a adaga na mão e tentou libertar o braço, preso debaixo do corpo.

Os dentes do lobo. presos na manga da túnica, começaram a rasgar o tecido. Quentin contorceu-se debaixo do peso do animal. teritando fazer subir a adaga, para a espetar na barriga do lobo.

A adaga brilhou. repentinamente livre, e Quentin espreitou por debaixo do braço para ver o corpo do lobo a voar. de lado. dobrando-se em pleno ar como se não tivesse espinha dorsal. Depois viu a cabeça de Balder bem por cima de si. como se o cavalo estivesse pronto para atirar um golpe semelhante a qualquer predador que ousasse colocar-se ao alcance dos seus cascos.

- Kenta! - gritou Toli. Quentin olhou em volta e avistou o amigo. que mantinha quatro lobos à distância fazendo rodopiar o pau. Três outros aproximavam-se do segundo cavalo, preparando-se para saltar ao pescoço do assustado animal.

Pondo-se de pé num salto. Quentin agarrou no ramo e correu para o amigo.

- Deus, Mais -Alto. ajuda-nos agora! - gritou. enquanto corria. Um dos lobos desistiu de atacar o cavalo para se lançar sobre Quentin. O jovem defendeu-se com o ramo mas a criatura selvagem desviou-se e agarrou-o nas mandíbulas. O lobo puxou o ramo com tanta força que quase arrancou o braço de Quentin pela articulação, obrigando-o a largá-lo. Levantou a adaga na sua frente enquanto o lobo se preparava para novo salto.

Toli gritou qualquer coisa ininteligível e Quentin viu um lobo de pé sobre os quartos traseiros. com as patas da frente apoiadas nas costas do amigo e as mandíbulas a estalarem de raiva.

Ouviu um rosnar na sua frente e Quentin olhou para baixo. para os olhos do lobo. amarelos e diabólicos. O lobo voltou a rosnar, expôs as cruéis presas e encolheu-se, como uma cobra que se prepara para atacar.

Foi então que Quentin ouviu barulho nos arbustos a seu lado. Outro lobo? Não parecia o barulho de um lobo. Ouvia guinchos e o ruído de qualquer coisa muito grande abrir caminho no meio do matagal.

O lobo também ouviu e desviou os olhos de Quentin para olhar para os arbustos.

De repente os arbustos pareceram explodir com o som de guinchos muito agudos e de pequenos cascos a martelarem no chão, Formas escuras. que pareciam grandes pedregulhos, precipitaram-se para a clareira a partir do lado mais afastado da floresta. As formas escuras lançaram-se para cima dos lobos, guinchando e soprando enquanto corriam. Os lobos, rosnando de terror, viraram-se para enfrentar aqueles novos inimigos.

Uma das criaturas negras roçou por Quentin quase o derrubando. Foi então que Quentin percebeu que os animais guinchantes eram javalis selvagens. machos e fêmeas.

Os javalis, conduzidos por um enorme animal de longas presas encurvadas, lançaram-se com toda a fúria sobre a alcateia. Toli saltou para um lado quando os viu entrar na clareira para combaterem os lobos.

Voaram bocados de pêlo. Entre os ganidos dos lobos aterrorizados ouvia-se o rasgar de carne e o estalar de ossos ainda vivos. O grande lobo branco, o líder da alcateia, que iniciara o ataque, soltou um latido e fugiu para a floresta. O resto dos lobos da alcateia. ou pelo menos os que ainda conseguiam correr, meteram o rabo entre as pernas e seguiram-no, com os javalis a guincharem atrás deles.

Momentos depois, todos os animais haviam desaparecido e Quentin lutava por regularizar a respiração, parado no meio da clareira. Agora. tudo o que era possível escutar era o tumulto, cada vez mais afastado. dos javalis em perseguição dos lobos. Toli apareceu a seu lado. espreitando-lhe o rosto com um ar maravilhado. O Jher tinha a cara molhada de suor e de sangue, de um pequeno corte por cima de um dos olhos.

Kenta. estás bem? - perguntou, tocando no braço de Quentin com a ponta dos dedos.

- Sim. estou bem, mas tu estás a sangrar.

- É apenas um arranhão - respondeu Toli, virando-se para onde os sons da perseguição se apagavam, na floresta.

- Nunca vi uma coisa assim - ofegou Quentin. - E tu?

Toli abanou a cabeça.

- É sabido. entre o meu povo. que os javalis por vezes atacam os lobos que lhes ameaçam as crias. Mas isto... é um grande presságio. Whinock levantou a mão para nos proteger.

- O deus deve preocupar-se muito connosco - confirmou Quentin, recordando-se da oração desesperada que proferira momentos antes.

- Sim - concordou Toli, pensativo, - Mas há outra coisa...

Quentin esperou que Toli se explicasse.

- Há muita caça para os lobos nesta floresta, veados e javalis, os velhos e doentes. É muito mais seguro do que atacar humanos com cavalos, Os lobos não atacam os homens... Só raramente, no pico do Inverno, quando a comida escasseia e têm fome.

- Então... o que foi que os fez atacarem-nos? - Quentin abriu muito os olhos. - Nimrood?

Toli respondeu com um criptico encolher de ombros e levantou os olhos para o ponto onde as árvores se juntavam. por cima deles, O pequeno pedaço de céu exibia um baço tom azul.

- O sol vai nascer. Temos de nos por a caminho.

juntos, trataram de acalmar os cavalos e de levantar apressadamente o acampamento. Apesar de nenhum deles o ter dito, era óbvio que queriam afastar-se dali o mais depressa possível.

 

O capitão Pyggin ameaçara não dar aos seus homens a ração de rum que era habitual quando o navio chegava ao porto. Porém, tal como com a maior parte das suas outras ameaças, não falara a sério. Quando a escuridão desceu, as canecas encheram-se de rum e a tripulação começou a festejar.

Os cativos podiam ouvir o clamor rouco das vozes bêbadas que cantavam. Normalmente, a grosseira festa teria durado toda a noite, mas o rum, agindo em conjunto com o poder da droga de Durwin, aumentou o seu efeito. Assim. depois de alguns coros brejeiros e de uma ou duas bebidas, os homens deixaram-se cair sobre o convés nos locais onde se encontravam. Era um acontecimento normal numa noite como aquela, mas que se verificara mais cedo graças às artes de Durwin.

As canções acabaram mais ou menos de repente, e pouco depois podia escutar-se o ressonar da tripulação, contra o fundo do suave marulhar das ondas.

- Pronto! - anunciou Durwin. - O remédio fez efeito. Agora, vamos a isto...

- Tenha cuidado, Alinea - avisou Theido. - Pode haver um ou dois ainda de pé. Mantenha-se fora das vistas até ter a oportunidade de olhar em volta.

- Assim farei - respondeu a rainha. - Não te preocupes, tiro-vos daqui num instante. - Alinea, que tinha um aspecto que era mais de moço de estrebaria do que de rainha, trepou a escadaria improvisada com carga e abriu a escotilha enquanto os outros se juntavam em baixo.

- Senhora... - gemeu Trenn. nervoso - preferia que me deixasse ocupar o seu lugar.

- Não é necessário - afirmou Durwin com um sorriso. - Além disso, com a tua actual forma, o mais provável era não conseguires passar por aquela abertura. Vamos, preparemo-nos para sair daqui...

Os três homens subiram os degraus que davam para a porta trancada. Instantes depois ouviam os suaves passos de Alinea. que se aproximava.

- Que pode ver daí? - perguntou Theido quando a sentiu junto da porta.

- Estão todos a dormir. excepto o cozinheiro e o seu ajudante. Estão a cabecear por cima das canecas. na outra extremidade do convés.

- Poderão ver-nos, de onde estão?

- Não... - respondeu Alinea, depois de uma pausa. - Penso que não. De qualquer modo, dentro em breve já nem conseguirão levantar-se. quanto mais erguer uma espada contra um cavaleiro.

- Temos de encontrar as chaves dessas fechaduras. Quantas são?

- Duas. mais a da porta. Onde é que devo procurar?

- No criado do capitão - sugeriu Trenn. - Se não me engano, foi ele quem abriu a porta quando entrámos aqui pela primeira vez.

- Tens bons olhos. homem! - disse Theido, que depois se dirigiu a Alinea: - Procura o homem que nos recebeu. Parece-me que usa um casaco azul e é vesgo.

- O mais certo é estar ao pé do capitão - sugeriu Trenn.

- Sim, procura o capitão.

Ouviram os passos a afastarem-se e ficaram à espera.

Passou-se um minuto... e outro... e mais outro. Cada minuto que passava parecia prolongar-se muito para lá do seu limite normal. Por fim. ouviram-na regressar.

- Não consigo encontrar o homem. mas encontrei Pyggin. Não tinha as chaves com ele.

- Que fazemos agora? - interrogou-se Theido.

- Se eu lá estivesse em cima, encontraria aquele pirata. As chaves têm de estar aí em cima, numa algibeira qualquer - afirmou Trem cerrando os punhos.

-Mal acabara de pronunciar aquelas palavras quando se ouviu um ribombar baixo, vindo de muito longe.

- Que é isso? Escutem!

- Foi um trovão - disse Alinea. - O céu está limpo, mas posso ver que se aproxima uma tempestade, de leste. Vêem-se raios. Parece uma grande tempestade... e avança depressa.

- Temos de encontrar as chaves - murmurou Theido.

- Então e a outra escotilha? - perguntou Durwin. - A grande, da carga. Podíamos sair por aí com facilidade.

Alinea, vamos experimentar a escotilha da carga. Como é que está fechada? - Enquanto Theido falava, ecoou um trovão a distância.

Escutem - disse Trenn. - Está a levantar-se vento.

Era verdade. Conseguiam ouvir o vento a cantar no cordame mais alto do navio. Soprava com suavidade. mas a sua força ia aumentando.

- É melhor acordar Ronsard - disse Durwin. - Pode precisar de algum tempo para reunir as suas forças.

Alinea regressou da sua inspecção à escotilha principal.

- Tem uma simples argola por onde passa uma tranca. Seguraram a tranca com um taco de madeira. Poderei abri-la se encontrar qualquer coisa com que bater no taco. - Afastou-se outra vez. à pressa. em busca de uma ferramenta.

- Vamos - ordenou Theido -. preparemo-nos para sair logo que a escotilha se abra.

Atarefaram-se mais uma vez em volta dos barris e fardos. que na sua maior parte estavam vazios. para construírem uma espécie de escada que terminava a curta distância da escotilha. Theido mantinha-se no alto da pilha enquanto Durwin e Trenn lhe iam passando mais volumes. Ronsard continuava sentado a um lado, queixando-se:

- já lhes disse que estou bem, posso ajudá-los...

- Poupe os seus músculos, bravo cavaleiro - retorquiu-lhe Trenn. - Pode vir a precisar deles ainda antes de a noite chegar ao fim.

- Precisarei tanto quanto vocês. suponho.

- Talvez... - afirmou Durwim - mas nenhum de nós esteve tão perto da morte como tu. Ainda há muito que fazer antes de a nossa jornada chegar ao fim. Chegará o momento em que necessitaremos das tuas forças.

De cima chegava-lhes o som de Alinea a bater no fecho da escotilha. O instável monte de carga oscilava de uma maneira perigosa com os balanços do barco, agora que as ondas estavam mais fortes.

Os três homens sustinham a respiração e esperavam.

- Abriu-se! - gritou Alinea. A seguir ouviram-na soltar um grito: - Affil - O grito durou pouco tempo e foi rapidamente abafado.

- Passa-se qualquer coisa! - exclamou Theido. subindo pela montanha de carga e empurrando a escotilha.

Quando colocou a cabeça acima do nível do convés. viu Alinea agarrada por uma figura volumosa. que a segurava pela garganta. Lutava com fúria. mas sem resultado, contra a força superior do seu atacante.

- Larga-a, vilão. - gritou Theido. içando-se para o convés.

O atacante da rainha virou-se devagar, meio bêbado. pronto para enfrentar o ataque de Theido. Este atirou-se de cabeça de encontro ao homem, atingindo-o no estômago como um aríete.

- Uuf! - soprou o homem, ao cair.

O pirata embateu no convés como uma árvore a cair e ficou estendido a olhar para o céu. Fez uma fraca tentativa para levantar a cabeça encharcada em álcool. e depois adormeceu e deixou-a cair com um estrondo.

- É o cozinheiro? - perguntou Trenn, agora de pé ao lado de Theido e pronto para a acção se os seus serviços fossem necessários.

- Sim - confirmou Alinea. aspirando o ar com dificuldade.

- Senhora, está bem? - O guarda pegou-lhe pelo braço e fez-lhe um gesto para que se sentasse.

- Não te preocupes, meu bom guarda. Estou incólume. O homem estava bêbado... Assustou-me um pouco. nada mais.

- Venham, todos! - gritou Durwin, trepando pela escotilha e com os olhos postos no céu. - Receio que a tempestade nos atinja demasiado depressa. Temos de partir!

Theido correu pelo convés, chamando:

- Trenn, ajuda-me a descer as embarcações!

- Ronsard, tu e Alinea vão com eles. já lá vou ter. dentro de momentos - disse Durwin, trepando a pequena escada que dava para as instalações do capitão.

Ronsard e Alinea dirigiram-se para onde Theido e Trenn faziam descer um dos botes do navio. A bordo existiam três botes semelhantes e muito velhos. Estavam num estado miserável devido ao tempo e à negligência. Um deles encontrava-se já na água quando a rainha e o cavaleiro do rei se juntaram aos outros.

- Segura bem nesta corda - pediu Theido. enfiando o grosso cabo na mão de Ronsard, A outra ponta estava ligada a um pequeno bote aberto. - Este é o que parece estar em melhor estado.

Trenn e Theido correram pelo convés para irem arriar os outros dois botes.

- Não gosto do aspecto do céu - disse Ronsard, no momento em que caíam a seus pés as primeiras gotas de chuva. que provocavam pequenas poças. O vento assobiava no cordame e o navio começou a balouçar contra as ondas. - Receio que vamos apanhar com o grosso da tempestade.

- Onde está Durwin? - perguntou Theido. aparecendo a correr.

- Penso que foi procurar as instalações do capitão - respondeu Ronsard.

- Bom. vamos para bordo enquanto podemos fazê-lo. - Theido passou uma das compridas pernas por cima da amurada e enterrou as mãos na rede que aí se encontrava pendurada. Desceu ao longo do navio como uma aranha desajeitada e saltou para o bote. Pegou num remo e puxou a embarcação, que agora saltitava na ondulação como se fosse uma rolha. para mais perto do casco.

- Senhora, minha rainha, é a sua vez. Trenn, Ronsard, desçam-na com cuidado.

- Posso descer sozinha - declarou Alinea, passando por cima da amurada como um marinheiro experiente, deslizando pela rede e saltando para o bote. Trenn e Ronsard ficaram a olhá-la, espantados.

- Mexam-se, vocês dois! - gritou Theido.

Foi a vez de Ronsard, que desceu para o bote de uma maneira algo laboriosa. fazendo um movimento de cada vez. Seguiu-se Trenn. que desamarrou os cabos que seguravam as outras duas embarcações.

- Onde é que se meteu esse feiticeiro bisbilhoteiro? berrou Theido, impaciente.

- Deixe-me pegar nos remos. senhor - pediu Trenn, sentando-se no banco central.

- Podem vir a ser precisos dois para remar - acrescentou Ronsard. instalando-se ao lado do guarda. - Pelo aspecto dessas ondas, vamos ter muito que fazer.

Alinea instalou-se em baixo, no meio do bote, à proa. Theido manejava o leme, lançando olhares ansiosos para a amurada, na expectativa de ver, a qualquer momento, o rosto redondo de Durwin.

- O que estará a atrasar o eremita? A tempestade está quase em cima de nós!

Os trovões rebentavam à volta deles e os raios rasgavam as nuvens pesadas. As ondas, cobertas de espuma branca, lançavam salpicos que os deixavam encharcados, e a chuva, que caía agora com mais força, martelava-lhes nos corpos.

- Olhem! - gritou Alinea, com a voz perdida no meio dos rugidos do vento e dos trovões. Os outros seguiram com os olhos o seu braço esticado.

- Valham-nos todos os deuses! - murmurou Trenn. As palavras foram-lhe arrancadas da boca pelo vento que uivava. Emitindo um brilho verde na escuridão. rodando e contorcendo-se como uma gigantesca serpente, uma tromba-d!água avançava directamente para eles. O assustador remoinho, iluminado pelos terríveis clarões que choviam à sua volta. girava e enrolava-se sobre si mesmo, erguendo-se no céu por mais de meia légua. Para lá dele via-se uma cortina de chuva, empurrada por ventos ensurdecedores. Ao lado deles, o navio estremecia cada vez que era atingido por uma onda. O bote agitava-se violentamente, mas mantinha-se no alto das ondas, descendo depois ao vale para wltar a trepar a colina de água do outro lado.

Por fim, o rosto de Durwin espreitou por cima da amurada. Sem sequer lançar um olhar para a tromba-d!água. apesar de a tempestade parecer preencher todo o mundo com os seus uivos, o eremita passou por cima da amurada e desceu pelo casco do navio.

- Cuidado! - gritou Theido. Ninguém o ouviu. mas viram-lhe a boca a formar a palavra.

A rede, agora demasiado escorregadia, estava a revelar-se perigosa. Os pés de Durwin escorregaram por duas vezes, e só evitou mergulhar no mar em fúria por ter enfiado os braços dobrados por entre as malhas da rede.

- Salta! - gritou-lhe Theido. Durwin, tivera a mesma ideia e dera meia volta. Calculou a distância e saltou para o bote. Logo que o eremita atingiu o fundo da embarcação. Theido empurrou-a para longe do casco do navio.

Trenn e Ronsard aplicaram toda a sua força aos remos e começaram a remar furiosamente. O pequeno bote ia mordendo a água e afastando-se lentamente do navio.

Theido atirou-se contra a forte cana do leme e dirigiu-os para a costa, agora visível como uma fina tira branca no meio da escuridão.

Quando tiveram a coragem necessária para a olhar novamente, viram que a tromba-d.água crescera de uma maneira fantástica enquanto varria a superfície do mar. Aspirando cada vez mais água para o seu ciclone, oscilava como um fino dedo maléfico a traçar um percurso de morte em direcção ao pequeno bote. As cegas, o grupo lutava contra as ondas que ameaçavam engoli-los em cada vale e virá-los em cada pico. Sem saber muito bem como, Theido conseguia manter o bote apontado para a costa. enquanto Trenn e Ronsard o faziam avançar a pouco e pouco. Durwin, agarrado à amurada com os dedos muito brancos, levantou os olhos para o céu e orou:

- Deus de toda a criação, poupa-nos à ira da tempestade. Leva-nos a salvo para terra. pois sem a tua ajuda é certo que nos afogaremos.

A bordo ninguém conseguiu ouvir as palavras de Durwin, mas todos sabiam o que o eremita estava a fazer. Os pensamentos dos outros membros do grupo foram como que um eco dos de Durwin.

Ouviram um grito, que os levou a virarem-se para Theido, que agitava os braços. Espreitaram por entre as massas de chuva para o sítio indicado por Theido, e viram, para grande horror de todos, que a tromba~d!água pairava atrás deles, agitando as águas como uma criatura mergulhada na agonia que libertasse toda a sua fúria sobre o mar.

Theido atirou-se para a frente. para o fundo do barco, indicando aos outros que lhe seguissem o exemplo. A água caía sobre eles em verdadeiros lençóis. O uivo da tempestade ensurdecia-os.

Então. de súbito e inexplicavelmente, quando a terrível tromba deveria ter-se precipitado sobre o grupo, não se ouviu um som. Nada. A chuva parou e as águas acalmaram-se.

Durwin levantou a cabeça e espreitou para cima.

- Olhem. a tromba passou por cima de nós!

Era verdade. A tromba-d-água. que ainda momentos antes pairava sobre eles, ameaçando engolir a pequena embarcação com todos os seus ocupantes. passara-lhes por cima e dançava no alto, entre as nuvens. Podiam ver o tornado esverdeado a girar directamente por cima das suas cabeças. contorcendo-se como um verme a enterrar-se e dirigindo-se para terra.

A calma durou apenas breves segundos, porque a seguir o vento e a água voltaram a atingi-los com redobrada violência. o bote oscilava, impotente, sobre a torrente. O leme embateu contra o casco e partiu-se, Theido ainda se atirou para a barra, mas era demasiado tarde. A barra do leme rodou, inútil, nas suas mãos.

- As rochas! - gritou Alinea.

Viraram-se todos, para verem as rochas da ilha a sobressaírem da ondulação e a desaparecerem, para momentos depois voltarem a ver-se quando as vagas deslizavam e desciam em volta delas.

As rochas formavam uma barreira baixa, de dentes aguçados, que protegia a baía que se encontrava do outro lado. Com tempo calmo. as ondas morriam contra elas e até o marinheiro mais incipiente as poderia ultrapassar sem problemas. Agora, contudo, os dentes de pedra rosnavam. furiosos, enraivecidos por aquele mar que fervilhava.

O bote foi erguido muito alto e atirado para a frente com as vagas. Quando a onda que os levava se esmagou numa rocha à direita deles, Ronsard pegou num remo e apoiou-o na pedra no momento em que esta voltou a aparecer, desviando o bote para um lado. Mesmo assim, o frágil casco ainda tocou na sólida massa de pedra.

A seguir, a embarcação foi mais uma vez erguida e empurrada para a frente, Do seu lado, Trenn limpava a espuma que lhe cobria os olhos e mantinha o remo preparado para se afastar de alguma outra rocha. Porém, antes que alguém a pudesse ver, a ponta aguçada ergueu-se do meio da espuma, e ouviram as madeiras a estalarem quando o bote caiu em cheio sobre o alto de uma enorme pedra.

O casco abriu-se e amolgou-se. O barco oscilou, agora completamente fora da água, seguro no alto da rocha enquanto a ondulação descia. Por um segundo, o pequeno bote permaneceu no ar, como um peixe apanhado por um gigantesco dente de pedra serrilhada. Então, com um safanão lateral, o casco cedeu e começou a soltar-se.

Uma onda caiu sobre eles, partiu o barco em dois e atirou os seus ocupantes para o meio da fúria das águas.

 

Nimrood caminhava nas altas muralhas do seu castelo, com a capa preta a flutuar atrás dele. Os cabelos negros como as penas de um corvo, apesar de riscados de branco. tal como os clarões dos relâmpagos no meio das escuras nuvens da tempestade que observa e o delicia, voavam em desalinho. O estrondear cataclísmico dos trovões ecoava nos vales que jaziam por baixo do seu poleiro montanhoso. e o diabólico feiticeiro soltava gargalhadas agudas cada vez que os ouvia.

- Sopra, vento! Ruge. trovão! Raios, iluminem os céus! Sou eu. Nimrood, quem o ordena! Ah! AhI Ah!

O feiticeiro não tinha qualquer poder sobre a tempestade, que era uma simples manifestação da natureza. No entanto, enquanto olhava na direcção da baía onde o navio de Pyggin se encontrava ancorado, parecia retirar uma estranha vitalidade daquelas terríveis forças. Nimrood não tinha possibilidades de ver o navio. Construíra o castelo no mais elevado pico da mais alta das montanhas que se erguiam no mar para formarem aquela ilha perdida. A baía ficava a mais de uma légua, a voo de pássaro. A tempestade. que espalhava a sua raiva até bem alto na atmosfera, abria as suas asas para a ilha, vinda do mar. Nimrood observava-a, com o corpo velho e magro a estremecer em paroxismos de loucura demencial. As suas feições sinistras estavam erguidas para a tempestade e eram iluminadas pela brilhante fúria dos raios. O feiticeiro cantava, dançava e ria-se, arrebatado com a violência que se desenrolava por cima dele.

Por fim, as primeiras pesadas gotas de chuva precipitaram-se para a terra. Odiando sair dali, mas detestando muito mais a humidade, Nimrood, o necromante, virou-se e fugiu para os seus aposentos.

- Euric? - gritou, libertando-se da capa negra. - Acende o incenso. Apetece-me seguir a tempestade.

O ajudante correu na frente dele enquanto desciam a escada de pedra, em espiral. que dava acesso a uma câmara interior, toda em pedra nua, excepto quanto ao altar de cinco lados que se encontrava no seu centro.

Euric. com uma tocha na mão. deslocou-se em volta do altar acendendo os recipientes com incenso, colocados sobre baixos tripés de metal, a cada canto do altar.

- Vai-te! - gritou Nimrood, depois de terminada aquela tarefa.

Nimrood deitou-se em cima do altar e dobrou as mãos sobre o peito. Deixou abrandar a respiração. que se tornou cada vez menos profunda, enquanto o fumo do incenso remoinhava à sua volta. Momentos depois entrava num transe profundo e o feiticeiro pareceu deixar de respirar.

Quando entrou no transe. a sua mente elevou-se, parecendo atravessar camadas de fumos coloridos e erguendo-se com os pungentes vapores do incenso. Quando o fumo se dissipou, voava alto, sobre a Terra, na frente da violenta tempestade.

O feiticeiro fechou os olhos. Quando os abriu, tomara a forma de um francelho. pairando na turbulência dos ares. O corpo tremia-lhe de excitação enquanto brincava por entre as nuvens agitadas, mergulhando nos ares e voltando a subir num abrir e fechar de olhos.

Rodopiando, em êxtase, no meio da fúria dos ventos. observava a Terra a deslizar sob ele. Mesmo por baixo podia ver o seu castelo, que era uma mancha negra no topo da montanha. Para ocidente. descendo rapidamente em direcção à baía, as curvas das colinas cobertas de espessos bosques pareciam dorsos de animais atormentados. Para lá delas ficava o brilhante crescente da própria baía. Sob o súbito clarão de um relâmpago, os seus aguçados olhos de francelho avistaram qualquer coisa na baía.

- Que poderá ser? - perguntou para si mesmo. - Vou voar mais perto, para ver melhor.

Nimrood mergulhou no vento, lançando-se para baixo como um cometa e dirigindo-se para a baía.

- Um navio! - guinchou, quando outro raio revelou os contornos do objecto, Pairou por cima da baía. - Poderá ser o de Pyggin? Tão cedo? Só o esperava dentro de uma semana.

Então, deslizando no ar sobre a baía. com o vento a assobiar-lhe entre as penas, Nimrood viu um pequeno bote a afastar-se do navio.

- Ah! - gritou. - Chegaram os meus convidados!

Nimrood voou de regresso ao castelo, com a velocidade do vento que soprava, e entrou na câmara pela estreita fenda existente na muralha. Pousou na beira do altar e transformou-se num farrapo de fumo cinzento que pairou no ar antes de se dissolver por cima da sua própria figura em transe.

Mal o fumo desapareceu, os olhos do feiticeiro abriram-se de repente e sentou-se com um esticão.

- Euric! - guinchou. - Vem cá, imediatamente! Onde estará aquele estúpido idiota? - murmurou, descendo do altar. - Euric!

Ouviu então os passos rápidos do seu ajudante, precipitando-se para responder à chamada do amo. Nimrood foi ter com ele à porta.

- Chamou-me. sábio senhor? - O miserável Euric fazia vénias e agitava-se todo em frente do feiticeiro.

- Sim, sapo! Temos trabalho a fazer. os hóspedes há tanto tempo aguardados estão a chegar. Temos de nos preparar para os recebermos. Chama os guardas e reúne-os ante o meu trono. Quero dar-lhes instruções. Despacha-te! Não há tempo a perder!

Era a terceira estalagem que tentavam naquela manhã. Esta encontrava-se no cais. mesmo à borda da água. Toli e Quentin ficaram a olhar para a tabuleta esbatida pelo tempo, que oscilava e guinchava sob o vento. Dizia "Estalagem Peixe-Voador" em grandes letras azuis pintadas à mão. com algum cuidado. pelo proprietário, cujo nome, Baskin, se encontrava também pintado por baixo.

Creio que é a última em Bestou. - comentou Quentin. - Deve ter sido aqui que ficaram. Vamos.

Sacudiu a cabeça para que Toli o seguisse ao interior. O Jher, invadido pelo espanto que todos os da sua raça sentiam pelas cidades, fossem elas do tamanho que fossem. seguiu-o com movimentos algo rígidos, olhando para o mar.

Perdoe. senhor... Chama-se Baskin? - perguntou Quentin com delicadeza ao primeiro homem que encontrou no interior.

O homem olhou para ele por cima do saco de moedas que estava a contar. com os olhos a pestanejarem por causa da luz da porta aberta.

- Meu bom amigo! - exclamou, algo surpreendido.

- É o senhor Baskin? - perguntou Quentin mais uma vez. espantado com as maneiras invulgares do homem.

- Ao seu serviço. Sou eu, sim! Se é o Baskin que procuram. o Baskin encontraram. Que posso fazer por... - lançou uma olhadela rápida e não inteiramente aprovadora para Toli - por dois jovens senhores?

- Estamos à procura de um grupo que seguiu viagem a partir de Bestou... há já algum tempo.

O homem coçou a cabeça com um ar intrigado.

- Bom. é uma descrição que serve a um grande número de pessoas, suponho...

- Eram quatro...

- Isso ajuda, mas não muito. Há muitos mercadores a viajarem juntos.

- Uma das pessoas era uma dama... muito bela.

- Assim é melhor... Não, não me parece ter visto um grupo assim. Em que navio partiram?

- Não sei. senhor.

- Disse que ficaram aqui na estalagem?

- É possível... mas não tenho a certeza. É o último sítio em Bestou onde poderiam ter ficado... se é que o fizeram.

- Ora deixem-me ver... - disse Baskin. esfregando o queixo.

- Estão a procura de um grupo que chegou não sabem quando, ficou num sítio que não sabem onde é, e partiu não sabem com quem. É isto?

Quentin ficou com o rosto vermelho e olhou para o chão.

- Ora. não te rales, rapaz. Estava apenas a resumir os factos...

- Lamento tê-lo incomodado - murmurou Quentin, dando meia volta para se ir embora.

- Tens a certeza de que não te consegues recordar de mais nenhuma informação? - perguntou Baskin nas costas deles.

Quentin parou e pensou por instantes, depois disse:

- Queriam ir para Karsh.

Ao ouvir aquela palavra, o estalajadeiro deu um salto no banco e rodeou a mesa para ir ter com Quentin e Toli.

- Shhh! Não pronunciem esse nome! Dá azar! Mas... hum... O homem passou a mão pela testa alta. - Parece-me que me recordo deles... Sim, Era três e a dama. Um era alto e nervoso. Parecia um homem temperamental, o outro era grande, vestia-se como um sacerdote... mas eu nunca tinha visto um sacerdote daqueles. Tinham uma espécie de criado com eles, muito forte. Não o vi muitas vezes. A dama... sim. podia ser bonita, mas não se dava por isso. Só usava roupas de homem. Talvez estivesse disfarçada...

- Sim. são eles! - exclamou Quentin.

- Também me parece. Queriam ir--- para esse tal lugar. Tiveram dificuldades (e quem não as teria para encontrarem um capitão honesto que os quisesse levar.

- Encontraram alguém?

- Sim. creio que sim, Devem ter encontrado. Foram-se embora muito cedo no dia em que os navios se fizeram ao mar pela primeira vez. Tinham pago a conta na noite anterior e saíram. como toda a gente, logo de madrugada.

- Em que dia foi? - Quentin quase não conseguia respirar, de alívio por ter recebido notícias dos amigos.

- Oh. deve ter sido há uma semana. Sim. foi pelo menos há uma semana... talvez mais. Deixem-me ver... - O estalajadeiro virou-se e regressou à mesa. Havia uma estante ali perto, onde levou algum tempo a procurar um pergaminho. que acabou por retirar do seu lugar.

- Sim. aqui está. Recordo-me agora. Deixaram os cavalos no ferreiro, lá mais para cima. Tenho aqui o registo. - O estalajadeiro colocou o papel debaixo do nariz de Quentin.

- Terão dito em que navio iam?

- Não, não ouvi nada. No entanto, tenho a certeza de que por ouro suficiente, deve ter havido quem quisesse arriscar-se. Por outro lado, e como já disse. devem ter sido muitos os que se recusaram.

Baskin olhou para Quentin com um ar confiante e perguntou:

- Não estás a pensar em segui-los. pois não? - Leu a resposta no rosto de Quentin antes de este poder responder. - Esquece-te disso. Daí não pode vir nada de bom. Vou dizer-te o mesmo que lhes disse a eles: ".Mantenham-se longe desse sítio." Volta para de onde vieste. Não te aproximes dessa terra diabólica!

 

O príncipe Jaspin avançava pelos amplos corredores do castelo de Erlott, a caminho do grande salão, onde o Conselho de Regentes se encontrava num beco sem saída pelo terceiro dia consecutivo. Era seguido por dois dos seus próprios guardas pessoais, com alabardas. onde flutuavam pendões reais. Jaspin escolhera aquele momento para recordar aos recalcitrantes regentes o seu poder e prestígio.

Atrás dele seguia também Ontescue transportando um pequeno cofre ornamentado. Ao lado de Ontescue caminhava um homem com umas gastas roupas de soldado, de passos hesitantes. e olhos que giravam de um lado para o outro como se não tivesse uma consciência tranquila e procurasse um buraco onde se esconder.

A parada chegou às altas portas do grande salão, fechadas e com o caminho barrado por três guardas, um dos quais era o marechal do Conselho de Regentes.

- Alto! - gritou o marechal. - O conselho está reunido em sessão!

- O conselho não sabe o que fazer - disse o príncipe Jaspin, com os seus modos mais untuosos. - Tenho comigo tudo o que necessitam para poderem resolver o impasse. Deixa-me entrar! O marechal encheu as bochechas de ar, como se fosse protestar com violência, quando se ouviu uma pancada na porta por detrás dele.

- Afaste-se - ordenou o marechal para o príncipe, virando-se para a porta.

- Marechal, o Conselho receberá o príncipe - disse Sir Bran uma ligeira por fenda na porta. Depois acrescentou, entre dentes, para Jaspin:

- Lamento, mas só agora recebi o seu sinal, não tive tempo para dar instruções para o deixarem entrar imediatamente.

- Humm... - fez o príncipe. - Estás pronto? - Sir Bran acenou que sim enquanto o príncipe entrava. - E os outros?

Ontescue acompanhou-os, fazendo sinal ao homem vestido de soldado para ficar à espera. A enorme porta fechou-se com grande ruído e todas as cabeças se viraram para verem quem entrara para lhes interromper as deliberações.

- Protesto! - gritou uma voz por cima do murmúrio que acompanhou a descoberta de que Jaspin invadira a privacidade do Conselho. - Protesto contra a presença do príncipe nesta reunião. - A voz estridente pertencia a Lord Holben, que se encontrava de pé, apontando um dedo acusador na direcção de Jaspin.

- Venho como amigo deste Conselho. para lhe apresentar as provas de que o mesmo necessita.

Lord Holben cerrou os punhos ao lado do corpo e baixou a cabeça, rígido, para conferenciar com um dos seus amigos.

- O conselho tratará de obter as suas próprias provas - retorquiu Holben. Houve acenos de confirmação em volta de toda a mesa.

- Sem dúvida... - disse o príncipe, com um sorriso amável, mas o Conselho pode também examinar todas as provas provenientes de outras fontes, se assim o desejar. - Verificaram-se mais acenos de assentimento.

- Como é que é do seu conhecimento que o Conselho precisa de provas? - perguntou Lord Holben com uma voz tensa e dificilmente controlada. - Parece ter grandes orelhas, príncipe. Orelhas tão grandes como as de um burro!

- Isso é impróprio, senhor! - gritou Bran, parecendo querer precipitar-se para onde Lord Holben tremia de raiva.

- Senhores, acalmem-se, por favor! - gritou Navior, líder do Conselho. - O conselho tem o direito de decidir se admitirá ou não as provas do príncipe Jaspin. Que me dizem, meus senhores?

A começar pela cadeira que se encontrava à direita de Lord Naylor. todos os regentes manifestaram a sua opinião: sim, ou não, a favor ou contra a admissão do exame de uma prova fornecida por Jaspin. A curiosidade levou a melhor sobre um grande número de membros da assembleia, e o príncipe foi convidado a apresentar a sua prova.

- Vergo-me ante o vosso discernimento - disse o príncipe, fazendo uma grande vénia. Sorriu, mas os seus olhos pareciam de pedra quando os pousou sobre Lord Holben e o seu grupo de dissidentes.

- Constou-me que o Conselho se encontra num impasse por falta de provas de que Sua Majestade morreu. Apesar de me entristecer grandemente (e não podem imaginar até que ponto) ter de transmitir esta má notícia, não seria correcto que, podendo acabar com o beco sem saída em que vos encontrais, me mantivesse de parte e não vos dissesse nada.

Em volta da mesa voltaram a ouvir-se murmúrios de aprovação. Jaspin observou um a um os seus seguidores, a quem pagara generosamente.

- Recebi, ainda há muito poucas horas, uma prova final da morte do rei. Apesar de constituir para nós um grande golpe, pois sempre tivemos a esperança de o ver regressar um dia, o facto confirma as razões para a convocação desta reunião. - Levantou uns olhos muito tristes, que miraram toda a sala. - As nossas piores desconfianças estão agora confirmadas.

O príncipe Jaspin levantou um dedo e fez sinal a Ontescue que se aproximasse com o cofre ornamentado a jóias. O príncipe pegou no cofre e colocou-o em frente de Lord Naylor. Entregou^lhe a chave, dizendo:

- Creio que encontrarão aí dentro a resposta a todas as vossas perguntas.

Sem uma palavra, Lord Navior pegou na chave. colocou-a na fechadura e girou-a. Em todo o salão ouviam-se apenas os estalidos da fechadura a ser aberta. Navior retirou a chave e abriu a tampa do cofre com cuidado. O que viu no interior fez com que lhe desaparecessem as cores do rosto. Fechou a tampa e olhou para outro lado, deixando-se afundar na cadeira, de olhos fechados.

O pequeno cofre dourado foi dando a volta à mesa, detendo-se na frente de cada um dos regentes. O príncipe Jaspin observava o efeito do conteúdo do cofre sobre os diversos membros do Conselho. Alguns olhavam-no, descrentes, outros mostravam uma profunda tristeza, tal como Naylor, e ainda outros nada mais exprimiam do que curiosidade mórbida.

Todos, excepto Holben, pareceram aceitar que se tratava de prova suficiente para confirmar a morte do rei.

- Estará convencido, príncipe Jaspin, de que estes vagos despojos são o suficiente para o esclarecimento das nossas dúvidas? - perguntou. respirando fundo. - É uma fantochada! - gritou a seguir, afastando o cofre para longe e derrubando-o. O conteúdo. um dedo cortado, outrora sangrento e mutilado mas agora descorado e a apodrecer, rolou sobre a mesa. O dedo exibia um anel de sinete do próprio rei Eskevar.

- Vi esse anel na mão de Sua Majestade, com os meus próprios olhos! - gritou alguém.

- Eu também! Posso garantir que é genuíno! - gritou outra voz.

Houve mais vozes a juntarem-se ao coro, mas Holben não se mostrava disposto a ceder.

- O anel pode ser genuíno, meus senhores. Na verdade. o dedo que ostenta o anel até pode ser do rei Eskevar. Todavia. isso nada prova! Nada!.

- Tem razão - comentou um nobre sentado à direita de Holben. - Um anel de rei e um dedo de rei. mesmo que sejam verdadeiros, não são prova da morte do rei. Qualquer pessoa pode ser separada de um ou de outro. sem que essa perda se revele fatal.

As dúvidas começaram a perpassar por vários rostos.

- Um monarca nunca aceitaria que o seu anel. símbolo da soberania, lhe fosse retirado, excepto se se encontrasse à beira da morte. O rei Eskevar preferiria lutar até ao seu último fôlego do que ceder o anel. Para mim. a prova é suficiente. - O orador, Sir Grenett, sentou-se com um ar triunfante. como se tivesse ganho o dia.

Porém, Lord Holben continuava a não ceder.

- Sim, concordo em que o rei Eskevar preferiria ter de enfrentar mil mortes a entregar o seu anel. Porém... Sua Majestade pode nada ter tido que ver com o caso. - Virou-se para Jaspin. a quem olhou com um feroz ar de desafio.

Jaspin sacudiu a cabeça devagar e respondeu, aparentemente com grande relutância:

- Esperava poupar-vos aos pormenores macabros, mas uma vez que Lord Holben quer manchar a ilustre memória do nosso grande monarca com o seu mórbido desrespeito... - Virou-se e fez sinal a Ontescue para mandar entrar a testemunha.

Ontescue. que se encontrava à espera, deu uma forte pancada na porta e o marechal do Conselho abriu-a e deixou entrar o soldado.

- Este homem, este pobre diabo que se encontra na vossa frente, seguiu o nosso rei até terras estrangeiras e lutou sempre a seu lado. Estava presente no fim. quando Eskevar foi morto, na última batalha. e o inimigo lhe cortou o dedo com o anel.

O soldado deixou cair a cabeça e fez o possível para se mostrar cheio de desgosto.

- Como é que o anel foi parar à tua posse? - perguntou Lord Naylor com delicadeza.

- Senhor. a visão do rei caído no campo, morto, encheu os nossos homens de uma tão grande raiva que chacinaram os inimigos que tinham morto o nosso rei, quando já se retiravam, vitoriosos. Foi assim que recuperámos o anel.

- Viste Sua Majestade cair?

- Sim, meu senhor. - Os olhos do soldado saltavam. inquietos, de rosto para rosto.

- E como é que o... anel, foi parar às tuas mãos?

- Como a guerra terminara, regressámos todos a casa. Encontrava-me no primeiro navio a levantar âncora, mas que infelizmente foi o último a partir antes de chegar o Inverno. Ofereci~me para vir à frente e para o trazer.

- Os exércitos regressarão em breve?

- Sim, meu senhor. nos primeiros navios da Primavera.

Lord NavIor voltou a fechar os olhos. como se se encontrasse muito fatigado.

- Obrigado, bom soldado.

Fez um aceno, mandando embora o homem. O soldado recuou, afastando-se da mesa redonda, enquanto fazia uma vénia. O príncipe Jaspin mandou-o retirar-se com um gesto furtivo.

- Onde está o teu comandante? - inquiriu Holben. - Porque é que estes despojos não tiveram direito a uma guarda de honra? Responde-me!

- O homem veio ter directamente comigo assim que lhe foi possível - interveio o príncipe Jaspin, ignorando as perguntas de Lord Holben. A testemunha saiu da sala.

- Sim. é claro... - concordou Navior, cansado. A seguir levantou a cabeça e. com uma voz carregada de emoção, declarou: - é o sufidente para nos decidirmos. No que a mim se refere, escolho acreditar naquilo que vejo e no que foi dito entre nós. Não vejo outra solução se não a de fazermos o que nos trouxe aqui.

- Podemos esperar - sugeriu Holben à pressa. - Esperaremos pelo regresso dos outros. Pelos membros da guarda do rei, por exemplo. Pelos que o enterraram.

- E quantos seriam precisos para o fazer acreditar? - perguntou Sir Bran. - Não quer crer nos seus próprios olhos... Porque iria acreditar nos olhos dos outros?

- Este Conselho foi encarregado de cumprir uma obrigação que não pode esperar - declarou Sir Grenett. - O reino grita por uma liderança forte.

- Será que ouvi bem. Sir Grenett? - troçou Holben. - Desde quando é que uma liderança forte o preocupa assim tanto e ao seu bando de miseráveis ladrões?

- Cuidado com a língua, senhor. Está a ir demasiado longe. Este não é local apropriado para as nossas desavenças - ripostou Sir Grenett, com um grande domínio.

- Tem razão, Sir Grenett - interveio NavIor, fazendo de mediador. - Não é este o momento nem o lugar para resolver essas coisas. Senhor Lord Holben, pode manifestar a sua discordância, mas o resto desta assembléia tem o direito de votar como desejar. Príncipe Jaspin. deixe-nos, para que possamos cumprir o nosso dever. Quando o Conselho tomar uma decisão, trataremos de o mandar informar sem perda de tempo.

- Creio que uma coroação em junho seria uma maravilha! - riu-se o príncipe Jaspin, ao regressar aos seus aposentos. - Que achas, Ontescue? Estou mais que feliz! Finalmente, é minha! Vinho! Precisamos de vinho! Quero celebrar! Manda o camareiro abrir uma garrafa do meu melhor...

- já o fiz, senhor - disse Ontescue. - Eu próprio gostaria de lhe dar os parabéns e aproveitar a oportunidade para o recordar de algumas promessas sobre que chegámos a acordo...

- Ora, não estou com disposição para discutir trivialidades! Voltaremos a falar nisso em breve. Temos muito tempo. Agora... celebremos!

- Não gostaria de ser prematuro... - murmurou Ontescue.

- Prematuro? Foi isso o que disseste? Nem pensar! - No entanto, o brilho desapareceu dos olhos de Jaspin e o sorriso apagou-se-lhe dos lábios. - Pois bem, se achas que devemos esperar. então esperemos. É melhor, é claro. Partilharei a celebração com os meus amigos. Sim, é o melhor.

Jaspin atirou-se para a cadeira, onde passou uma hora de preocupação, à espera da notícia que havia tanto ansiava por escutar. Por fim um camareiro enfiou a cabeça pela fresta da porta, para anunciar que um grupo de regentes do Conselho desejava vê-lo.

- Deixa-os entrar, estúpido! - gritou para o homem, cuja cabeça desapareceu imediatamente.

- Senhor. boas notícias! - Sir Bran atravessou a sala de um salto, seguido por Grenett e por vários outros. - Fui encarregado pelo Conselho de Regentes de o informar que foi nomeado para ocupar o trono de Askelon, rei de Mensandor.

- O conselho fica a aguardar a vossa decisão a respeito da coroação - acrescentou Sir Grenett. - Permita-me que me encarregue de os informar, para que a coroação seja imediatamente anunciada.

- Hum... Ainda não tinha pensado nisso - respondeu o príncipe Jaspin, com um esgar trocista nos lábios carnudos. - Todavia... creio que o vinte e quatro de junho seria um dia perfeito. Sim, é isso mesmo. Ordena que o proclamem.

 

Quentin encontrava-se sentado nas pedras geladas da muralha da baía, batendo com os pés nos espessos musgos verdes. Toli permanecia de pé a seu lado. como uma sombra, de braços cruzados sobre o peito. olhando para a baía. As gaivotas guinchavam e pairavam no ar, demonstrando o seu desagrado por os dois humanos lhes terem invadido aquele lugar ensolarado.

- Os navios partiram - suspirou Quentin. passando os olhos pelo grande e vazio espaço da baía. De todos os navios que uma semana antes se encontravam ali ancorados só dois tinham ficado para trás. mas necessitavam de grandes reparações e tão depressa não iriam a lado nenhum. Quentin já se informara a esse respeito.

- Regressarão - replicou Toli, que tinha um jeito especial para expor os factos óbvios de uma maneira muito misteriosa.

- Sem dúvida. claro que voltarão. mas pode ser já demasiado tarde.

Quentin levantou-se da muralha inclinada, toda em pedra, que evitava que o mar entrasse pelas ruas de Bestou.

- Agora, não sei o que fazer - lamentou-se. Voltou a suspirar e escovou as calças com as mãos.

- Wisí thera ilya murenno - disse Toli, com os olhos sempre postos no mar.

- O vento... diz o quê? - perguntou Quentin, incapaz de traduzir toda a frase.

- O vento sopra para onde ele ordena - replicou Toli. Virou-se para olhar de novo para Quentin, que não pôde deixar de notar que o seu servo tinha ainda uma estranha e distante luz nos olhos.

- Quem é que ordena?

- Whinock.

- Hummm... - fez Quentin. pensativo. - Então deixemos as coisas a seu cuidado. Anda, vamos tratar dos cavalos. - Lançando uma olhadela para o Sol, calculou que se aproximava o meio-dia. - Já era capaz de comer qualquer coisa. E tu?

Treparam a longa vertente da colina em que Bestou fora construída, e que descia das florestas, mais acima, para ir mergulhar no mar. Tinham deixado os cavalos aos cuidados de um agricultor, nos arredores de Bestou, por não saberem se os animais seriam bem recebidos numa cidade de marinheiros.

Atravessaram a cidade num instante. pois esta estendia-se ao longo de toda a baía mas não era muito larga. Os mercadores acumulavam-se junto à costa. Por cima deles ficavam as casas dos ricos proprietários de navios que se tinham instalado em Bestou, e para lá destas encontravam-se as dispersas habitações de pedra e madeira dos habitantes das colinas e dos agricultores. Caminharam sem pressas até a arruinada casa do agricultor. Quando chegaram, Quentin falou com o homem, cuja mulher insistiu em que partilhassem com eles a refeição do meio-dia. Toli levou os cavalos a beber, e depois soltou-os para poderem pastar as novas ervas verdes que tinham nascido em volta da casa.

Os viajantes, e seus anfitriões comeram grandes bocados de pão escuro que a faladora mulher torrava num pequeno lume, na lareira, e grandes fatias de um queijo amarelo. Durante a conversa, o agricultor mencionou e referiu-se várias vezes aos cavalos, com admiração, em especial no respeitante à tremenda força de Balder.

- Aposto que era capaz de trabalhar - disse, como se estivesse a comunicar alguma grande verdade.

- Balder é um cavalo de batalha - explicou Quentin. - Foi treinado para combater.

- Pois, e é muito forte.

- Bom... - Quentin piscou um dos olhos para Toli - tem alguma tarefa apropriada para um cavalo? Veríamos o que ele consegue fazer.

- Oh, não, não. Não estava a pensar... Bem, temos aquela raiz de árvore no meio do campo, mas não... Acha que ele seria capaz?

- Podemos experimentar - disse Quentin, pondo-se de pé com dificuldade. Desde que partira de Dekra que não comera tanto de uma só vez. e isso fora havia muitos dias. - É o mínimo que podemos fazer para recompensar a vossa amabilidade.

Não se incomodem por nossa causa - declarou a mulher do agricultor. - Estamos satisfeitos por termos companhia, a vida de um camponês é muito solitária.

Porém Quentin podia ver que estavam ambos muito satisfeitos com a ideia, e agradava-lhe poder ajudá-los. Dava-lhe uma sensação de satisfação. "É o servir", pensou Quentin.

Aquele toco de tronco tem dado cabo de mim nestes últimos dois anos. Está mesmo no centro do novo campo - explicou o agricultor, enquanto caminhavam para o local.

Os cavalos, apesar de não serem desconhecidos em Tildeen, eram muito raros. Não eram necessários para viajar, pois não havia para onde ir, e Bestou, sendo uma cidade portuária, pouco uso tinha para lhes dar. Só alguns dos agricultores melhor estabelecidos os possuíam, para trabalharem a terra. mas eram muito poucos e verdadeiramente afortunados.

Tinham preparado arreios para Balder. feitos de tiras de couro e cordas. Nebo, o agricultor, transportava um pau comprido e forte, para servir de alavanca. Quentin conduzia Balder e Toli transportava os arreios. Tisha. a mulher do agricultor, agitava-se atrás deles.

Depois de várias tentativas e de muitos ajustamentos nos arreios rudimentares. Balder baixou a cabeça e começou a puxar. As cordas esticaram-se e ameaçaram partir-se. Nebo, Quentin e Toli faziam força no pau, quase o dobrando. Tisha permanecia junto da cabeça de Balder. encorajando-o com palavras suaves.

Ouviu-se um grande estoiro debaixo do chão, seguido pelo ruído de madeira a estalar. Os músculos de Balder sobressaíam por debaixo da pelagem brilhante. Então, de repente, o toco caiu para o lado, com as raízes a pingarem humidade, cobertas de pedaços de terra. expostas ao quente ar da Primavera.

- Ena! Ah! - gritou o agricultor. - É o animal mais forte que jamais vi! Ena! Esperem só até o Hemp saber disto. Ah!

- Agora. Nebo - disse a mulher -, recorda-te que prometeste fazer um sacrifício a Ariel se o tronco fosse tirado a tempo da sementeira. já está tirado, o deus exige o pagamento da dívida.

- Sim, pois é. É verdade - resmungou o agricultor. relutante.

- Farei o sacrifício de uma salva de prata. no templo. - Hesitou um pouco. - De qualquer modo, preferia comprar um novo arado...

Quentin assistia àquela cena sentindo uma curiosa sensação de afundamento.

- Por favor, não façam oferendas ao deus Ariel. Não são necessárias. Ajudem outra pessoa quando a oportunidade surgir. Será esse o vosso sacrifício.

O agricultor e a mulher miravam-no com estranheza e, de repente, Quentin sentiu-se estúpido. Não deveria ter falado.

- Sois um sacerdote, jovem senhor? - perguntou Nebo, com muita cautela.

- Outrora, pertenci ao templo de Ariel - admitiu Quentin -. mas agora sigo um deus maior. Um que não se sente honrado com salvas de prata.

No rosto largo e agradável de Nebo surgiu um ar de grande alívio.

- Então farei o sacrifício que o senhor e o seu deus me sugerem - respondeu alegremente, mais feliz do que nunca. Conseguira ver-se livre do incomodativo tronco e ainda por cima poupara a despesa de uma taça de prata. Aquele novo deus. fosse ele quem fosse, deixava-o muito bem impressionado. Bateu as palmas, numa alegria infantil.

- Estou cansado - anunciou Quentin. - Comi demasiado e o Sol está a deixar-me ensonado.

- Então, o melhor é uma sesta - declarou Nebo. - Um pouco de sono é uma boa coisa.

 

Quentin acordou com relutância. O ar estava fresco, o Sol aquecia-lhe o rosto enquanto descrevia o seu arco sobre as copas das árvores. Já passava o ponto mais alto e iniciava a descida para o crepúsculo. Toli, que já acordara havia algum tempo, estava sentado em silêncio ao lado de Quentin.

- Porque é que não me acordaste? - perguntou Quentin, endireitando-se. jaziam numa pequena colina coberta de ervas, perto da quinta de Nebo.

- Está na hora de voltarmos à baía - replicou Toli.

Virando a cabeça para o lado, Quentin olhou para o amigo.

- Agora? Porque é que dizes isso?

- Sinto que o devemos fazer - respondeu Toli, encolhendo os ombros. Há aqui qualquer coisa que mo diz - acrescentou, apontando para o peito.

Então... vamos. De momento, deixaremos os cavalos aqui.

Não. Penso que devemos levá-los.

Como queiras - concordou Quentin, apesar de não ver motivos para levarem os cavalos para a cidade. Só serviria para terem de os trazer de volta, e era melhor deixar que os animais descansassem. Todavia, não valia a pena entrar em discussões numa tarde tão brilhante como aquela.

Despediram-se do amável agricultor e da mulher e encetaram o caminho pedregoso que ia dar a Bestou. Ao descerem a colina podiam ver toda a cidade, a baía e o mar azul que ficava para lá dela, brilhando à distância.

Caminharam juntos, em silêncio, escutando o matraquear dos cascos dos cavalos, que seguiam tranquilamente atrás deles. Pairava no ar um fresco cheiro a ervas e coisas que cresciam. Quentin pensava que num sítio como aquele, ou num dia assim tão bonito, podia com facilidade esquecer-se da sua missão. Esquecer-se de reis, de feiticeiros. lutas e fugas. Podia perder-se naquelas colinas, no meio do zumbido monótono das abelhas atarefadas por entre as Rores bravas, que acenavam com as suas cabeças amarelas e rosadas, sopradas pela brisa, à beira da estrada.

Quentin despertou da contemplação dos poeirentos caminhos que percorriam. Virou-se, com uma pergunta já pronta nos lábios. e aspirou o ar. preparando-se para falar. No entanto, a pergunta morreu-lhe nos lábios e o ar escapou-se-lhe por entre os dentes quando viu o rosto de Toli.

Nos olhos escuros do Jher brilhava mais uma vez a tal luz distante, que lhe iluminava as feições de um modo estranho. Era como se estivesse a olhar para o futuro, pensou Quentin, para algures fora daquele tempo e lugar, ou talvez para muito, muito longe, para distâncias desconhecidas.

- O que é? Que estás a ver, Toli?

- Vem aí um navio - replicou Toli. com uma expressão de total convicção.

- Um navio? - Quentin virou os olhos para a baía. Não havia ali nada. Olhou para lá dela, para o mar... Nada. Tanto quanto pudesse ver, não havia nenhum objecto no horizonte. Olhou com atenção para o norte e para o sul, até aos pontos em que as colinas lhes tapavam a visão. - Não vejo nenhum navio - confessou.

Toli não respondeu. Continuaram a descer a colina, mais uma vez em silêncio.

Atingiram as casas, e depois as ruas calcetadas, onde os mercadores tinham as suas lojas e bancas, e por fim a própria muralha da baía, em que tinham estado sentados naquela mesma manhã. Quentin perscrutou mais uma vez o horizonte, tal como fizera durante todo o caminho, para tentar ver aquilo que Toli, aparentemente, via com tanta clareza.

As ruas estavam cheias de actividade. Os pescadores, nos seus botes compridos e de cascos baixos, tinham acabado de regressar de um dia de trabalho. Mulheres com cestos de canas apressavam-se, juntando-se em grupos em volta dos pescadores, que expunham o produto da pesca sobre as pedras da rua. As gaivotas guinchavam estridentemente por cima, na esperança de virem a apanhar qualquer coisa.

Quentin observava toda aquela actividade com algum interesse, pois ainda estava a descobrir o que era a vida no mundo exterior ao templo. Tudo lhe parecia novidade. Sentia-se como uma criatura selvagem que era arrastada para um ambiente doméstico, interrogando-se sobre o seu novo tipo de vida. Era tudo muito vulgar, mas diferente. Eram o estranho e o vulgar ao mesmo tempo.

Toli estava parado, como se tivesse ganho raízes naquele lugar, com os olhos postos num qualquer ponto distante.

Não valia a pena discutir com um Jher fosse sobre o que fosse, pelo que Quentin prendeu os cavalos a um grande aro de ferro existente na muralha, que noutras alturas servia para amarrar os navios. Sentou-se, para esperar, e deixou-se mergulhar nas várias actividades que se desenrolavam à sua volta.

O sol brilhava, já baixo, por detrás deles, e a sombra da muralha caía sobre as águas cinzento-esverdeadas da baía. Quentin levantou-se e virou-se para Toli. Estivera a observar um homem com um barril cheio de mariscos, que separava os animais mortos dos vivos.

- Vamos ter de ficar muito mais tempo à espera? - perguntou Quentin, num tom que exprimia uma leve preocupação.

- Não muito - replicou Toli, inclinando ligeiramente a cabeça.

Quentin seguiu a direcção indicada pelo gesto e virou-se para a baía. Ali, entre as pinças que constituíam a entrada da baía, avançando lentamente, podia ver-se um grande navio com as velas tintas de cor-de-laranja pelo Sol que se punha. Quentin abriu a boca de espanto, olhando para o navio e para o amigo. Toli conseguiu finalmente descontrair-se e sorrir.

- O navio chegou - anunciou. A sua voz exibia um tom triunfante, como se tivesse conseguido conjurar o navio apenas com o poder da sua própria vontade. Quentin acreditava que o Jher tinha feito aparecer o navio de uma maneira qualquer, muito misteriosa, e não teria ficado mais surpreendido se lhe dissessem que fora isso o que acontecera. No fim de contas, Toli também possuía muitas capacidades estranhas que Quentin só agora começava a descobrir.

O navio aproximou-se e Quentin começou a distinguir os mastros, o cordame e os marinheiros a moverem-se no convés. Também se apercebia. pelo modo como o navio oscilava de um lado para o outro. que havia qualquer coisa que não estava bem. O barco, agora muito perto, avançava de uma maneira rígida e com estranhas inclinações, primeiro para um lado e depois para o outro. Além disso, em vez de ancorar no centro da baía, aproximou-se do cais.

Quentin e Toli observaram-no até o navio encostar todo o seu comprimento ao cais. e só depois desprenderam os cavalos e caminharam ao loncyo da muralha até se encontrarem a seu lado.

- É o Marribo - leu Quentin.

- Um bom nome - replicou Toli, muito satisfeito consigo mesmo.

- Parece um bom navio - comentou Quentin. Não percebia nada de barcos, mas gostava das linhas direitas do cordame, dos cabos enrolados no convés. e da maneira eficiente como os marinheiros tinham subido e prendido as velas. Tudo lhe parecia bem e em ordem e, portanto. era um bom navio.

A prancha de desembarque já fora descida e os marinheiros andavam ocupados com as mais variadas tarefas, trabalhando de um modo eficiente. O capitão, ou pelo menos Quentin assim o considerou, permanecia de pé à proa e dava ordens para os homens que se encontravam em baixo. Aparentemente estavam com alguma pressa, o que Quentin achou estranho num navio que acabava de chegar ao seu destino.

Senhor capitão... - chamou Quentin, que precisava de um bocado para conseguir arranjar coragem para falar. - Posso perguntar-lhe... - começou.

-Não sou o capitão - gritou o homem de volta, num tom despreocupado, enquanto apontava com o polegar para um outro homem, com uma curta jaqueta azul, que descia a prancha a conversar com um artesão de avental de cabedal, talvez um carpinteiro naval.

Os dois homens permaneceram a conversar de cabeças juntas durante algum tempo, antes de o carpinteiro se afastar à pressa. O capitão sentou-se na beira do cais. e acendeu um longo cachimbo de barro enquanto observava a tripulação a trabalhar.

- Desculpe, senhor, é o capitão? - perguntou Quentin outra vez, agora com um melhor controlo da sua coragem.

- Sim, rapaz. Sou eu e este é o meu navio. Ao vosso dispor.

- E nós ao vosso - replicou Quentin com uma vénia feita por ele e por Toli. - Tem um belo navio.

- Percebes de navios? - O capitão olhou-o de esguelha. soprando fumo.

- Não... quer dizer... nunca estive num navio.

- Azar teu. rapaz. Ah. o mar... Podia contar-te histórias... - Calou-se e perdeu-se no meio de uma nuvem de fumo. - Sou o capitão Wiggam. E tu. quem és?

- Quentin, e este é o meu... amigo, Toli. - Ainda sentia algum embaraço quando pensava em pronunciar a palavra "servo>,.

- E que pode um homem do mar fazer por vocês, jovens senhores? - O capitão estendeu-lhe a mão larga e seca. que Quentin apertou com vigor.

- Pode dizer-nos. senhor, se vai...

O capitão Wiggam interrompeu-o:

- Não vamos a lado nenhum sem o nosso leme. Maidita sorte. Rebentaram-nos os gonzos do leme a meio dia de distância! Pelos deuses! Foi preciso mais meio dia para o fazer dar a volta, e um dia inteiro para nos arrastarmos para o porto. - Fez uma pausa e puxou outra longa fumaça do cachimbo. - Querem ir para algum lado?

- Sim, senhor. Queremos ir para Karsh. - Quentin falou com um ar muito convicto apesar de tudo o que lhe dissera o estalajadeiro

O capitão ergueu uma sobrancelha.

- Karsh! - Olhou-os outra vez de esguelha e perguntou. desconfiado: - E para que querem lá ir?

- Eu... ou seja, temos amigos em dificuldades. Queremos ajudá-los. - Quentin não sabia ao certo se, naquele momento específico. os amigos estariam metidos nalgum problema, mas não poderia encontrar-se mais perto da verdade.

- Se estiverem perto de Karsh. sem dúvida que se encontram metidos em sarilhos.

- Pode levar-nos lá?

- Eu?! Este navio? Nunca! - O capitão virou a cara para outro lado, zangado.

Quentin ficou sem fala. Não tinha quaisquer outros planos. Porém. o capitão. que agora chupava o cachimbo com fúria. pareceu amolecer um pouco.

- Vamos para Andrai, em Elsendor. Posso levá-los, se acharem que isso lhes serve para alguma coisa.

- Não sei onde isso fica, senhor.

- Não sabes?

- Não... Vivi num templo... até há pouco tempo. Era acólito.

- Que templo? Qual era o deus a que servias?

- Ariel. no grande templo de Narramoor. Era para vir a ser sacerdote. - Quentin notava um brilho de interesse nos olhos cinzento-claros do marinheiro. Houve um momento de silêncio enquanto o capitão pensava. Escutava-se o som de marteladas por cima do marulhar das ondas contra o casco do navio.

- Ariel é o deus da sorte e do destino, é o benfeitor dos marinheiros. Não o quero desapontar. virando as costas a um dos seus servos. - Bateu com o cachimbo de encontro a uma pedra e levantou-se.

Vou dizer-lhes isto: levo~os até Valdai, do outro lado da península de Andraj. Não ousarei aproximar-me mais. Em Valdai há quem vá de vez em quando a Karsh. Pode ser que encontrem alguém que os leve onde eu não tenho coragem de ir.

O capitão Wiggam olhou para Quentin e depois para Toli. Notando o ar atrapalhado de Quentin, inquiriu:

- Há mais alguma coisa?

- Não temos dinheiro para pagar a passagem.

- Oh, compreendo. Bom, não pensem mais nisso. O Marribo é um navio de carga, apesar de, de vez em quando, transportarmos passageiros.

- E temos os cavalos... - Quentin tentou depreciar as dimensões e número dos animais fazendo um pequeno gesto na sua direcção.

Wiggam piscou um dos olhos e apreciou os cavalos, presos a un dos aros de amarração da muralha, a poucos passos de distância.

- É um problema... - declarou. O seu tom solene encheu Quentin de dúvidas. Surgiu nova piscadela de olhos. - Mas não é mais grave do que algas no embornal. já temos transportado cavalos. No fim de contas, somos um navio de carga. - O capitão riu-se e Quentin riu-se também. aliviado e grato. O capitão virou-se e começou a afastar-se

- Tenho de ir ver como correm as reparações, rapazes. O Starld( trata de vos meter a bordo. Digam-lhe que fui eu que mandei.

- Quando partimos? - perguntou quando o marinheiro já se apressava ao longo do casco.

- Logo que pudermos... ou seja, logo que o leme esteja reparado. Metam as vossas coisas a bordo, partimos esta noite.

 

Durwin acordou engasgado, a cuspir areia. Tinha o rosto apoiado numa camada de algas que o arranhavam e que emitiam um fétido odor a peixe. Por outro lado, sentia picadas e dores agudas na cabeça. Talvez fosse por causa dessas dores que recuperara a consciência.

Nova picada, e nova dor. Durwin levou um braço à cabeça e fez fugir uma gaivota, que se afastou ao longo da praia guinchando o seu descontentamento.

- Ainda não sou comida para pássaros - murmurou Durwin entre dentes.

Ergueu-se sobre os cotovelos e esperou que se acalmassem as pulsações que sentia na cabeça. Limpou a areia dos olhos com uma das mãos, também sujas de areia, e olhou em volta. jazia numa praia, ao lado de uma rocha que emergia do solo como uma presa a sobressair das gengivas de um velho dragão. A rocha estava envolta em algas malcheirosas. tal como o próprio Durwin.

O sol ainda não nascera, mas o clarão rosado que se espalhava pelo horizonte prometia um novo dia para muito em breve. As ondas da tempestade haviam depositado Durwin bem alto, na praia. Sentou-se e examinou o ambiente em volta, pressentindo olhos estranhos fixados nele. Olhando em torno, avistou uma multidão de caranguejos que se aproximavam, com os olhos a oscilarem sob a nova luz.

- Vão limpar os ossos de outro pobre peixe! - gritou-lhes. - Este ainda precisa da pele durante mais algum tempo.

Durwin ergueu-se sobre as pernas cambaleantes e incertas.

Apoiou a mão na rocha e olhou para os dois lados, ao longo da costa rendilhada e cheia de rochas.

- Ah. este é mesmo um lugar maléfico - resmungou. Avançou para a água, que agora exibia uma ondulação pequena e calma. como se nada pudesse jamais perturbar a sua superfície plácida. Mergulhou nela as mãos, para lavar a cara e o pescoço cobertos de areia. Sacudiu a areia do cabelo e da barba, e depois começou a andar à beira do mar, à procura dos outros, receoso do que pudesse vir a encontrar.

Não dera mais de dez passos quando avistou a forma de um pé elegante a sair detrás de uma rocha coberta de limos.

- Alinea! - gritou, correndo para o lado da dama, cujas pálpebras estremeceram e se abriram.

- Durwin? Oh, que aconteceu? Sinto-me mal...

- Provavelmente bebeu metade do seu peso em água do mar... Tal como eu.

A rainha ganhou um pouco mais de consciência do que se passara e perguntou:

- Os outros?... Theido, Trenn, Ronsard... Onde estão? Encontraste-os? Estão ... ?

- Shh... uma coisa de cada vez - respondeu Durwin. acalmando-a. - Foi a senhora a primeira pessoa que descobri. Os outros não devem estar longe. Iremos procurá~los juntos. - Hesitou e acrescentou. após um instante: - Ou então, se prefere, irei sozinho e poderá descansar aqui.

- Não, vamos os dois. Posso enfrentar o que poderemos vir a descobrir. A espera seria pior.

Durwin ajudou a rainha encharcada e coberta de areia a pôr-se de pé.

- Sente-se nessa pedra por momentos. Respire o ar. com força. Sentir-se-á melhor.

- Devo ter o aspecto da filha de Orphe... mais apropriada para a companhia de peixes do que de seres humanos.

- Todos nós iremos precisar de nos limparmos e arranjarmos posso garanti-lo. Porém ... não há nada mais belo do que estar vivo Depois da noite passada...

- Oh, Durwin... - ofegou Alinea, segurando-lhe num braço apertando-lho.

Durwin virou-se para o ponto onde a rainha fixara os olhos e vi o que tomara como sendo um monte de algas atirado para a praia.

Verificou que o monte de algas tinha uma forma humana, e a seguir percebeu o que fora que Alinea olhara com horror. Havia dezenas de caranguejos a alimentarem-se, reunidos em volta de uma ferida aberta. As pinças dos caranguejos arrancavam bocadinhos de carne vermelha dos flancos do corpo.

- Ah! - gritou Durwin, precipitando-se para o companheiro e obrigando os caranguejos verdes e azuis a escaparem-se; correndo de lado. - É Trenn! - gritou, depois de virar o corpo. Pousou o ouvido em cima do peito do homem. - Está vivo, graças ao deus!

O eremita baixou-se para examinar a ferida no flanco de Trenn. Era um corte longo e irregular, profundo. mas que não sangrava. A água do mar estancara o fluxo do sangue.

- Vai ficar bom? - perguntou Alinea, aproximando-se de Durwin.

- Penso que sim. A ferida é funda, mas não me parece grave. Porém pode ter outros ferimentos que não podemos ver.

Alinea estremeceu ao recordar-se dos caranguejos.

- Vi-os a arrancarem-lhe bocados... Pensei...

- Também eu... mas, olhe! Os caranguejos até foram úteis. A ferida está limpa. cicatrizará mais depressa. - Durwin falou com convicção, mas lançou um olhar duvidoso sobre a forma inconsciente de Trenn.

De súbito ouviu-se um grande ruído nas matas da espessa floresta que rodeava aquela zona da costa. Durwin levantou o rosto e deparou-se-lhe um anel de olhos afundados. em rostos sombrios e sem expressão. Estavam ali talvez vinte soldados, vestidos com cotas de malha e capacetes, com as lanças apontadas para eles. Cada capacete exibia uma crista com a insígnia do cruel amo daquela tropa: o corvo negro de Nimrood, o necromante.

Um cavaleiro. num cavalo preto malhado, saltou por cima dos arbustos e pousou na praia. Observou os miseráveis sobreviventes com um olhar malicioso. Tinha o rosto cortado por uma cicatriz púrpura, que ia da testa ao queixo e lhe torcia o nariz para um lado.

- Apanhem-nos! - gritou o cavaleiro, num tom de troça.

Os impassíveis soldados lançaram-se imediatamente à tarefa de porem Durwin e Alinea de pé, para depois os amarrarem com brutalidade. A seguir. os prisioneiros foram obrigados a avançar, com muitos empurrões, para os bosques por cima da praia.

- Está vivo? - perguntou o cavaleiro, apontando com um gesto de cabeça para o local onde Trenn jazia na areia.

- Sim, está vivo - confirmou Durwin. - Tenham cuidado com ele, está ferido.

- Ah, que pena! Seria melhor que estivesse morto. - O cavaleiro esporeou o seu nervoso cavalo. passou junto de Alinea e Durwin e gritou para os outros: - Levem também o outro.

Foram os três atirados para uma carroça com taipais muito altos. Alinea e Durwin empurraram Trenn, com cuidado, para o fundo da carroça, e instalaram-se, o melhor que puderam, junto dele.

- Nem uma palavra a respeito dos outros - avisou Durwin, num sussurro.

- Levem-nos! - ordenou o cavaleiro da cicatriz, que parecia ser o comandante do grupo que se encontrava na praia.

A carroça avançou para a floresta, aos solavancos, oscilando como se quisesse virar-se. Nem o condutor nem os quatro soldados que os acompanhavam lhes prestavam a mínima atenção. A carroça atravessou uma floresta rala e pouco saudável. de árvores contorcidas e maciços de vinhas bravas. As rochas de pontas aguçadas que saíam frequentemente do solo tornavam o caminho extremamente cansativo. Apesar de o Sol estar a nascer as árvores pareciam afugentar a luz e estarem mergulhadas numa sombra perpétua.

- É um lugar triste - comentou a rainha.

- É verdade! Qualquer sítio a que o necromante chame seu é triste... e receio bem que possa ainda vir a tornar-se muito pior do que isso.

A carroça e o seu conteúdo continuaram a saltar e a estremecer por cima de rochas e raízes. Por fim atingiram um caminho rudimentar aberto no solo pedregoso. A floresta ia-se tornando mais aberta à medida que avançavam.

Em breve se tornava aparente que seguiam o percurso de um ribeiro. porque o barulho da água a correr lhes chegava de muito perto. Surgiram pequenos montes de cada lado do caminho, formando uma espécie de vale, cobertos por uma vegetação densa e de espécies desagradáveis. Por todo o lado pairava um ambiente sombrio e ameaçador. e só o ocasional grito de uma ave e o gemer. e chiar, das rodas não oleadas da carroça quebravam o silêncio opressivo.

Depois de uma hora. ou mais. pois o tempo parecia irrelevante num lugar como aquele, a carroça entrou numa estrada mais larga e encetou uma íngreme subida. Alinea observava a paisagem de olhos muito abertos e assustados.

- Nada receie, senhora - acalmou-a Durwin. - Nimrood não é tão terrível que não possa ser enfrentado. O mal tem sempre um aspecto enganoso. Reze por Theido e Ronsard, que talvez ainda consigam escapar. Tenhamos essa esperança.

- Farei o que pedes, mas não tenho tantos conhecimentos sobre o deus como tu.

- As palavras que utilizamos não têm importância. O deus escuta os próprios corações.

Depois de uma longa subida, a carroça atingiu uma zona plana, um grande rebordo de pedra escavado na montanha. Daí, espreitando por cima dos lados da carroça, os prisioneiros podiam avistar as colinas por onde tinham viajado. O Sol ia já alto e, no entanto, parecia apagado e distante. Havia um nevoeiro triste a envolver as colinas e a amontoar-se, denso, nos vales miseráveis. Toda aquela terra tinha o ar de ter sido envolta num sudário e esquecida.

De algures chegou-lhes um lamento agudo que se ergueu no ar como uma alma perdida a chorar que a libertassem.

- É apenas uma gaivota - disse Durwin, olhando para cima, mas num tom a que faltava a convicção.

O silêncio voltou a abater-se sobre eles, mas por pouco tempo. O ar encheu-se com um gemido prolongado. Durwin olhou para a rainha e depois para Trenn. Estremeceu uma pálpebra. Agitou-se um dedo.

- Ah! Está a acordar! - Durwin, de mãos atadas atrás das costas, nada podia fazer para ajudar Trenn a regressar ao mundo dos vivos, mas debruçou-se sobre a sua cabeça e murmurou-lhe ao ouvido: Descansa, com calma. Não há nada a temer. Estamos contigo.

o guarda abriu os olhos e virou a cabeça com dificuldade.

- Pois estão... amarrados como galinhas, pelo que vejo - murmurou.

- Ah, Trenn. Vejo que estás bem.

- julgo que sim... oh! - Trenn fez uma careta de dor quando tentou mexer-se para se sentar. - Ainda estaria melhor se pudesse ver alguma coisa.

- Tens um corte horrível - disse Alinea. - Deixa-te estar deitado.

 

- Onde estão os outros?

- Shh! - fez Dur-win. num aviso. - Não sabemos, não os conseguimos encontrar esta manhã. - O eremita ostentou uma expressão duvidosa. - De qualquer modo, não tivemos tempo para os procurar.

- Onde estamos? Na tribo do Nimrood?

- Julgo que vamos a caminho para o vermos.

- Não devias falar tanto - sussurrou Alinea. - Aproveita para descansar enquanto o podes fazer.

Depois daquilo, ninguém falou durante muito tempo. Cada um deles entreteve-se com os seus próprios pensamentos, e tentou manter afastado o medo que crescia, como uma dor, a cada passo, passo esse que os punha mais perto do antro de -Nimrood.

- Ali está! - exclamou Durwin, por fim, inclinando a cabeça para espreitar para lá do condutor da carroça. Alinea virou-se. e o castelo de Nimrood, semelhante a um esqueleto negro pousado sobre um rochedo, surgiu-lhe à vista.

- Que ruínas assustadoras! - exclamou Alinea.

- É verdade.

As muralhas de pedra negra erguiam-se sobre a rocha da montanha. Um labirinto de escadas e escuras entradas esculpidas nas pedras assemelhava-se a túneis abertos por vermes. Torres de formas estranhas e alturas diferentes lançavam-se para o alto, por cima da cúpula do grande salão. Os buracos das portas e janelas espreitavam-nos, como órbitas vazias, dos diversos aposentos em volta da cúpula. Viam-se as formas escuras de aves que esvoaçavam no ar frio, por cima do castelo, e que guinchavam à aproximação da carroça.

A estrada serpenteante que dava acesso ao castelo fora construída no dorso de um espinhaço rochoso. A estrada, que só tinha a largura suficiente para a carroça, acompanhada por um homem de cada lado, descrevia curvas pronunciadas. Dos dois lados da estrada a montanha descia, em íngremes vertentes. O espinhaço terminava de repente, ante um abrupto precipício transposto por uma ponte levadiça.

A carroça deteve-se. porque a ponte estava levantada. Na frente deles estava o vazio, com uma altura capaz de tirar a respiração. Muito no fundo, ressoando como espadas a baterem sobre escudos, uma ruidosa catarata abria caminho até terrenos mais baixos. A ponte levadiça começou a descer com um prolongado gemido. Embateu no chão com um som oco e a carroça avançou. O precipício ampliava e devolvia ecos de cada estalido das rodas da carroça, enquanto as pancadas dos cascos dos cavalos soavam como um toque a finados que se repercutia no vazio.

Chiando o seu protesto, a carroça atravessou a ponte levadiça e penetrou no sombrio túnel da entrada, sobre a mirada triste de um mocho empoleirado nas vigas. O túnel, que passava sob a muralha, era escuro e húmido como uma gruta. A água caía do tecto e escorria das paredes, pingando sobre o solo.

Trenn, agora sentado no fundo da carroça, soltou um assobio baixo que ecoou pelo túnel.

- Há um espaço oco por baixo desta estrada - disse, depois de desaparecer o eco do assobio. - Não me agradaria ter de ser obrigado a descobrir o que lá pode andar...

- Coragem, amigos. O nosso inimigo procura quebrar-nos a vontade. Resistam, não cedam ao medo...

- Não receio qualquer mortal - declarou Trenn, com a voz tremente. - Porém, este feiticeiro...

- É um homem. tão mortal como qualquer outro. Tem poderes, é verdade, mas pode ser vencido. Podemos desafiá-lo.

Eskevar está aqui - declarou Alinea. Apesar de Durwin e Trenn não a conseguirem ver na escuridão, pelo tom da voz apercebiam-se de que deveria encontrar-se perto das lágrimas. - Oh! há quanto tempo estará neste horrendo e maldito lugar?

Coragem, minha rainha. O rei é forte, e a não ser que esteja muito enganado, a sua prisão não deverá ter sido insuportável. Conseguirá aguentar-se.

- Foram palavras bem ditas - fungou Alinea. - Sou a rainha e portanto também aguentarei.

A carroça saiu subitamente do escuro túnel da entrada, passando para a luz de um pátio mal concebido e mal conservado. Aguardava-os um homem com uma capa de zibelina. uma túnica escura e calças, com altas botas negras.

- Tragam-nos - ordenou. virando-se e desaparecendo na enorme boca do castelo. Os prisioneiros foram descarregados e levados a caminhar por um labirinto de corredores e passagens. O castelo tinha um ar deserto e encontraram muito poucos servos. inesperadamente. e sem cerimônia, foram atirados para a sala do trono de Nimrood.

O feiticeiro esperava-os, de olhos meio fechados, como se estivesse a sonhar acordado, esparramado sobre o grande trono negro. Dava a ideia de ter sido atirado para ali no auge de uma qualquer paixão monstruosa que o deixara sem forças. Por detrás do trono, as tochas oleosas lançavam na sala um fumo negro e espesso e emitiam um clarão que dava um brilho escorregadio a tudo o que os rodeava.

- Bem-vindos a Karsh, meus amigos - troçou o feiticeiro. sem abrir os olhos ou levantar a mão, para reconhecer que se encontravam presentes. - Tenho estado à vossa espera. Basta-me esperar... e com o tempo todas as coisas me caem nas mãos.

- Incluindo a morte e a destruição.... É o fim dos teus planos respondeu Durwin. calmamente.

- Silêncio, idiota! Posso arrancar-te a língua aí mesmo onde te encontras! - Nimrood pusera-se de pé num salto e olhava-os de cima, irado. Nas mãos segurava uma vara de mármore preto, muito polido.

- Ah, mas não... - acrescentou o feiticeiro, acalmando-se de repente. - Dêem à língua. As vossas palavras são como o balbuciar de crianças. Ruídos e ar. Não têm qualquer poder. Divertem-me. Por favor, continuem.

Durwin permaneceu em silêncio.

- Não tens mais nada a dizer? Veremos se conseguirei dar-te inspiração! Levem-nos para as masmorras! - Fez girar a vara sobre a cabeça, e os guardas que os tinham acompanhado na carroça afastaram-nos dali com os cabos das lanças. Quando saíam da sala, ouviram Nirrirood a cacarejar:

- Em breve terão companhia. Os vossos amigos, a não ser que estejam mortos, não conseguirão escapar-me durante muito tempo. Ah! Não faz diferença. Vivos ou mortos, irão ter companhia. Ah! Ah!

 

Quentin acordou sob o suave toque da mão de Toli no seu ombro. que o sacudia para o despertar. Acordou sobressaltado e confuso. Tranquilizou-se ao sentir o balouçar e estalar do navio. recordando-se que se encontrava a bordo do Marribo, a caminho de Valdai.

- Gritaste durante o sono, Kenta - afirmou Toli.

- Sim? - Quentin esfregou os olhos com os punhos. para afastar o sono. - Não me lembro... - disse, mas depois recordou-se. de repente.

- Oh, Toli. tive um sonho... - Conseguia ver os olhos de Toli no meio da escuridão. Eram lagos líquidos que brilhavam com os reflexos de um céu cheio de estrelas. A Lua desaparecera debaixo do horizonte, deixando que as luzes mais pequenas que cobriam o céu brilhassem e piscassem como lanternas de pescadores nocturnos. espalhadas por um mar infindável.

- Conta-me o teu sonho. Agora, antes que o esqueças!

- Estava no alto de uma montanha... Olhei em volta e vi toda a terra coberta pela escuridão. Sentia que essa escuridão era como um sinal, à espreita, à espera...

À medida que falava, Quentin ia entrando no espírito do seu sonho. Viu de novo, tal como no sonho, mas agora de uma maneira mais clara e real, as terras distantes que se estendiam sob um céu negro e vazio. Era uma terra velha de incontáveis anos. e o negrume rodeava-a como uma criatura predadora: respirando. esperando.

Prosseguiu:

- Depois. surgiu uma luz na escuridão. como se fosse a luz de uma única vela, caindo, como uma fagulha, do próprio pináculo do céu.

Tornou a ver o ponto de luz caindo pelo espaço, descrevendo um arco pelo céu, precipitando-se em direcção à Terra.

- A luz caiu e quebrou-se em milhares de bocados que se espalharam por todo o lado, ardendo na escuridão. Foi uma chuva de luz. Cada um dos seus pequenos fragmentos tornou-se numa chama igual à primeira, começou a brilhar e a escuridão bateu em retirada ante a sua luz. Foi tudo. Nessa altura, acordei.

Quentin permaneceu em silêncio enquanto se recordava da brilhante chuva de luz, tendo ao mesmo tempo a sensação de que o sonho tinha algo que ver com ele. Levantou os olhos para Toli, que mostrava um ar tranquilo mas maravilhado.

- É um sonho de poder - disse Toli.

- Achas que sim? No templo, costumava ter sonhos como este... Visões sonhadas, como eu lhes chamava. No entanto, pensei que já tinham acabado. Nunca mais se me deparou um augúrio ou tive um sonho desde que deixei o templo... se não contar com o que se passou em Dekra. - Calou-se de novo durante um bocado. - Que pensas do seu significado?

- Entre o meu povo, costuma dizer-se que a verdade é como uma luz.

- E que o mal é como a escuridão. Sim, nós dizemos o mesmo. A verdade está a chegar, talvez até já se encontre aqui, vai lançar-se contra a escuridão e vencê-la.

- Um sonho pode querer dizer muitas coisas, todas elas verdadeiras.

- Achas que essa poderá ser uma das respostas?

- O sonho foi teu... e acabarás por encontrar a resposta dentro de ti mesmo.

- Sim, talvez... Foi tão real... Eu estava lá. Eu vi...

Quentin voltou a deitar-se na espessa enxerga de palha. Dava voltas ao sonho, na sua cabeça, e por fim, sentindo-se outra vez com sono. murmurou:

- É melhor dormirmos um pouco. Chegamos a Valdai amanhã de manhã... - Porém, Toli já se encontrava profundamente adormecido.

Quando Quentin se mexeu, sob o cheiro de um fresco ar salgado. o porto de Valdai já se encontrava à vista. O Sol ia alto e enchia o céu com a luz dourada, céu que era um arco de azul-real. por cima da sua cabeça. salpicado por pequenos farrapos de nuvens navegando no vazio.

Toli estava a pé e já tratara dos cavalos. Quentin encontrou-o encostado à amurada olhando para a cidade de que se aproximava.

- Olha - disse, apontando. quando Quentin se lhe juntou.

- Há outro navio a entrar no Porto.

Mesmo na frente deles, um navio arava as águas, separando as ondas e lançando para trás de si uma colheita de espuma branca. Era um navio resistente, achatado, muito afundado na água, de um tipo muito vulgar. mas Quentin sentiu uma sensação estranha ao vê-lo avançar para o porto. O barco tinha algo de fora do normal... O que seria? De repente, percebeu o que o incomodara.

- Toli, aquele navio tem velas negras!

Toli não respondeu, e confirmou o facto com um curto aceno de cabeça.

- É estranho - comentou Quentin. - Sei muito pouco de navios mas nunca tinha ouvido falar de um que tivesse velas negras. Pergunto a mim mesmo de onde será...

- E fazes muito bem em perguntar... - respondeu uma voz forte, atrás dele. Quentin virou-se para o capitão Wiggam. que continuou. Aquelas velas negras são de Karsh. Tomem bem nota disso...

Nos poucos dias da curta viagem, o capitão fizera-se amigo de Quentin, e ficara muito preocupado com os planos deste. de se juntar aos amigos.

- Esquece-te de Karsh - insistiu. olhando para o navio com desgosto. - Vem comigo. Farei de ti um marinheiro e mostrar-te~ei o mundo.

- Não posso esquecer-me dos meus amigos - replicou Quentin. Não era a primeira vez que o capitão lhe fazia aquela proposta. - No entanto. quando regressar...

- Sempre que quiseres - disse Wiggam, mas Quentin viu-lhe alguma tristeza. - Procura por mim em qualquer porto. e onde quer que me encontrares poderás viajar comigo. - O capitão juntou as mãos atrás das costas e afastou-se ao longo da amurada.

- Ele gostava de nos ajudar... - disse Toli. depois de o capitão se ir embora - mas tem medo.

- Achas que sim? - Quentin observou a figura que se afastava e encolheu os ombros. - De qualquer modo. o assunto não é com ele. A missão é nossa.

- A missão é de todos aqueles que a quiserem aceitar - respondeu Toli com um certo ar de convicção.

Valdai estremecia de actividade. Tinha uma baía e um porto mais pequenos do que Bestou, mas com grande movimento. Elsendor. um reino muito maior do que o de Mensandor, possuía muitos portos ao longo da sua costa ocidental, que serviam todo o mundo.

- Ali está o navio negro - declarou Quentin, apontando para o outro lado da baía. Tinham atracado na extremidade norte da baía, enquanto o navio negro, como lhe chamavam, penetrara mais para o interior, por ser mais pequeno. No entanto, Quentin podia ver as velas negras a caírem, sem vida, enquanto a tripulação as recolhia.

A prancha em breve foi colocada e Quentin e Toli fizeram as suas despedidas. Conduziram os cavalos para o cais e lançaram um aceno final para o capitão Wiggam, que os observava do convés, fumando o seu cachimbo. Correspondeu ao aceno e virou-se para outro lado.

- Temos de encontrar um sítio para deixar os cavalos - disse Quentin. Na sua cabeça começava a formar-se um plano. - Deve existir um ferreiro que talvez nos possa ajudar.

A busca não foi longa. O mais difícil foi fazer com que o ferreiro compreendesse o que tentavam pedir-lhe. Os habitantes de Elsendor, que na maior parte das coisas eram semelhantes aos seus vizinhos de Mensandor, falavam um dialecto próprio, muito cerrado, facto que Quentin não previra e que esgotou as suas fracas capacidades linguísticas. O ferreiro, esforçando-se por entender o significado do estranho (para ele) pedido de Quentin, insistia em que este queria os cavalos ferrados de novo.

- Não. Não são ferraduras. Queremos que nos guarde os cavalos, ou que nos diga quem o poderá fazer.

O homem, encorpado e todo sujo de fumo. sempre a sorrir. sacudiu mais uma vez a cabeça. A seguir levantou-se, aproximou-se de Balder, deu-lhe uma palmada no pescoço e levantou-lhe um dos cascos. observou a ferradura, bateu-lhe com o martelo e soltou um grunhido de aprovação. Largou a pata do animal e virou-se para Quentin, abrindo os braços num gesto interrogativo. Toli desaparecera nas traseiras da oficina do ferreiro. Regressou naquele instante, dizendo:

- Aqui por trás há um estábulo com cavalos. Têm água e comida.

Vem - disse Quentin para o ferreiro. Conduziu-o até ao estábulo, e indicou os animais - Guardas os nossos cavalos? - A seguir apontou para Balder e Ela. nome que Toli dera ao seu cavalo, para o próprio ferreiro e para o estábulo. O rosto do ferreiro iluminou-se com o lento clarão da compreensão. Sacudiu a cabeça para baixo e para cima. repetidamente. A seguir estendeu uma das mãos e apontou a palma com um dedo muito sujo.

- Quer dinheiro. Agora, que vamos fazer? - interrogou-se Quentin.

Nesse momento surgiu uma figura familiar à entrada da oficina.

- É o capitão Wiggam. Capitão! - chamou Quentin,

- Pensei que pudessem precisar de ajuda - declarou o homem. com toda a simplicidade. - Querem que ele lhes guarde os cavalos, não é assim? Muito bem.

O capitão virou-se e falou para o homem. muito depressa,

- Está feito - afirmou. - Por quanto tempo?

- Não sei! - Quentin não pensara naquilo.

O marinheiro, de rosto largo e simpático, meteu a mão no bolso e entregou uma moeda ao ferreiro. O homem agitou a cabeça e agradeceu.

- Pronto. os cavalos podem ficar durante uns tempos. Poderão vir buscá-los e pagar o que for preciso quando regressarem.

- Obrigado. capitão Wiggam. Um dia pagar-lhe-ei, se puder.

- Não penses mais no assunto. Se eu estivesse (e que os deuses não o permitam) metido em sarilhos em Karsh, gostaria de ter alguém como tu a tentar salvar-me. És corajoso, rapaz.

Quentin ficou corado. Não se sentia nada corajoso.

- já pensaram em como chegar a Karsh? - perguntou o capitão quando se viram na rua.

-já. sim. - Explicou o plano ao capitão, que o escutou, acenando com a cabeça.

- Clandestinos. hem? - Voltou a acenar, estudando a ideia.

- Pode dar resultado. Depois de se encontrarem a bordo. marinheiros espertos como vocês terão muitos lugares onde se esconderem. Mas como é que querem entrar a bordo sem serem vistos?

- Pensámos aguardar até ser escuro. e trepar por cima da amurada.

- Talvez haja uma maneira melhor - respondeu o capitão. com uma careta. - -Mas... Eh! - exclamou, ao ver que o Sol atingirá o meio-dia. - O melhor é discutirmos o assunto por cima de um empadão de pescador. Que me dizem a isso? Alguma vez comeste empadão de pescador? Não, anda daí. Este capitão vai mostrar-te uma maravilha!

O capitão Wiggam trotou ao longo da estreita rua empedrada. para onde se abriam as portas de todas as lojas possíveis e imagináveis. Quentin e Toli seguiram-lhe na esteira. As ruas estavam apinhadas de marinheiros. mercadores e habitantes, que gritavam, se empurravam e tornavam difícil não perder de vista o capitão, que seguia à frente como um navio a todo o pano. Por fim chegaram a uma estalagem tão cheia de gente que alguns clientes se encontravam sentados na rua com as suas canecas de cerveja. Quando Quentin e Toli, a cambalear, conseguiram alcançar o capitão, este exclamou:

- Ah. que tal este cheirinho, rapazes? Alguma vez ao vosso nariz se deparou um cheiro mais apetitoso?

O capitão abriu caminho para a porta, à cotovelada, e começou a chamar o estalajadeiro. com quem parecia ter relações de amizade.

Quando Quentin deu por isso. já estava sentado a uma mesa com mais três outros marinheiros - todos capitães, como salientou Wiggam - e momentos depois comiam um rico guisado de peixes e vegetais, cozinhados num prato fundo e cobertos com uma espessa crosta castanha. Os jarros de cerveja estavam à disposição e Quentin bebeu a sua parte da bebida, que subia à cabeça com facilidade.

- Só mais uma paragem - garantiu o capitão Wiggam. Já anteriormente o prometera por três vezes. Quentin lançou olhos duvidosos para o céu, onde o Sol já se encontrava baixo, fazendo com que as sombras se alongassem em direcção ao crepúsculo. Tinham andado a correr de um lado para o outro toda a tarde. por aqui e por ali. falando com este e com aquele mercador.

Wiggam, concluiu Quentin, procurava uma determinada informação e aparentemente obtivera-a.

- Eis o que descobri - disse o capitão, quando viraram para uma íngreme rua lateral, longe da rua principal. - O navio, como calculei pelo tamanho, só faz o percurso entre as ilhas. É um navio de abastecimento, para curtas viagens. Karsh está apenas a um dia e uma noite de distância, com bom tempo. Vem aqui muitas vezes para refazerem os abastecimentos, e é disso que estão a tratar agora. Ah, cá estamos.

Tinham-se detido em frente de um pátio aberto. Pelas lascas de madeira espalhadas pelas desgastadas pedras do pavimento, Quentin concluiu tratar-se de uma oficina de carpinteiro. O capitão penetrou no pátio, gritando:

- Aistrop! Onde estás. meu velho amigo? Corre. AIstrop, tens um cliente.

- Estou a ouvir-te! Não precisas de gritar! - foi a resposta, vinda de detrás de uma instável torre de barris.

Uma cabeça coberta por cabelos brancos e encaracolados espreitou de um dos lados da torre para ver quem eram os recém-chegados.

Wiggam! Minha velha raposa dos mares! - gritou o carpinteiro ao ver quem era o cliente. Apareceu de detrás do monte de barris e Quentin verificou tratar-se de um homem que, apesar dos cabelos brancos, era forte e cheio de vida, de grandes mãos e braços musculosos.

- Espero que não tenhas estragado outra vez o teu barco... Seria demasiado azar - declarou o carpinteiro, apertando a mão de Wiggam.

- Não... mas admito que nos podias ter sido útil há alguns dias. Tivemos problemas com o leme.

- Pois, Tinha-te avisado. Bem te disse! Dá-me uma semana para trabalhar no Marribo e ponho-o como novo... mas não queres. Estás sempre demasiado ocupado! Pelos deuses!

- É um bom navio. Até é suficientemente bom para aguentar todas as tuas reparações!

- Ah! - O carpinteiro atirou as mãos ao céu. - Então. que te trouxe aqui?

- Tenho uns amigos que necessitam da tua ajuda. Dois daqueles barris irão servir muito bem.

O capitão explicou o seu plano a AIstrop, enquanto o carpinteiro acenava, muito sério. e coçava o queixo. Os seus brilhantes olhos azuis percorriam tudo: o céu por cima dele, as aparas de madeira no solo. Quentin, o capitão, Toli. os barris. Examinaram tudo o que o rodeava, e depois de o capitão Wiggam ter deixado de falar pareceram virar-se para dentro, para examinarem o próprio carpinteiro.

- Sim. é um plano... - murmurou. num tom vago. - Estou certo que o plano foi teu... pois quem mais poderia ter pensado numa coisa dessas? Ridículo, é o que é! Não é um plano, é uma anedota!

O carpinteiro virou-se, regressou para junto da mesa de trabalho.

de onde voltou com uma curta vara de madeira esbranquiçada. Era o seu "pau de pensar", explicou, batendo com a vara na palma da mão.

- Bom! Os barris podem resultar. Sim senhor. servem muito bem... mas temos de fazer algumas modificações. Além disso, tenho de ser eu a levá-los. Não? Bom, está bem, vamos juntos. Tenho um carrinho de mão. O resto tratamos depois. Ao trabalho! Depressa. o tempo escasseia.

A última luminosidade da tarde já desaparecera e a primeira estrela erguera-se nos céus antes de os dois homens, que se encontravam junto de um carrinho com dois grandes barris, acenarem um para o outro.

- Aqui vamos nós - murmurou um dos homens para os barris. - Esperemos que os deuses vos sorriam.

Empurraram o carrinho de mão. contornaram a esquina e seguiram ao longo da calçada irregular até ao local onde o navio de velas negras se aprontava para partir.

Eh. tu, a bordo! - gritou o carpinteiro para um marinheiro do navio de Nimrood. O marinheiro mirou-os com um ar desconfiado, mas não respondeu. - Diz ao teu capitão que temos carga para embarcar.

Depois de um olhar prolongado e duro, o marinheiro desapareceu e regressou com outro, um homem que exibia um chicote de couro entrançado.

- És tu o capitão? - perguntou AIstrop.

- O capitão está ocupado - respondeu o homem. resmungando. - Vamos partir. Desapareçam daqui!

- Temos barris para embarcar.

- Já carregámos as nossas provisões - retorquiu o homem, agitando o chicote.

- Não digo que não... - replicou o carpinteiro com toda a calma mas estes barris são para embarcar. É melhor ires chamar o teu capitão e deixar que seja ele a decidir.

- Não preciso do capitão para nada, porcos! Desapareçam!

Virou-se para se afastar, fazendo sinal aos marinheiros que se tinham reunido à sua volta para continuarem com os preparativos para a largada.

Wiggam piscou os olhos para o carpinteiro.

- Muito bem, levamo-los de volta... - gritou em voz alta - mas não queria ser eu a ter de dizer ao teu amo que se esqueceram de dois barris, que ficaram aqui mesmo, no cais! - Acenou para o carpinteiro, que se virou e começou a empurrar o carrinho de mão de volta para a povoação.

O marinheiro com o chicote apareceu a espreitar por cima da amurada.

- Esperem! - pediu. - O que é que está nesses barris?

- Nada de especial - respondeu Wiggam. encolhendo os ombros. - Provavelmente. não têm importância.---- concluiu. virando-se também, para seguir AIstrop.

- Esperem aí! - gritou o marinheiro. Agitou a cabeça para alguns dos seus homens e a prancha de desembarque apareceu na amurada. Desembarcaram dois homens, que correram pelo cais, para os barris. Viraram o carro e momentos depois já os barris se encontravam a bordo.

- Agora, ponham-se a andar - rosnou um dos marinheiros.

- Tenham cuidado com os barris - avisou o carpinteiro.

- Não quero ser responsável por mercadoria estragada. Se a quebrarem, serão vocês a pagá-la!

Os dois homens ficaram a ver os barris a serem transportados com todo o cuidado para a popa, enquanto o navio se afastava, empurrado pela ligeira brisa nocturna.

- Que bons ventos vos levem, meus jovens amigos... - disse o capitão Wiggam.

- E que os deuses vos tragam depressa de volta - acrescentou o carpinteiro.

Os dois homens viraram as costas ao mar e desapareceram no escuro do crepúsculo. A Estrela da Tarde brilhava alta, no horizonte, perto da Lua que acabara de nascer.

- Ah! - comentou o carpinteiro. - É um bom augúrio de êxito!

- Sim - respondeu o capitão -, mas a partir de agora irão necessitar de mais do que de bons augúrios. Necessitarão da intervenção da própria mão do deus.

 

Não há fuga possível, senhora - disse Trenn, com uma voz trémula de desespero. - Verifiquei todos os fechos e todas as pedras desta masmorra. Não há saída... excepto pela porta, e é Nimrood quem tem a chave.

A rainha, de braços dobrados e pernas puxadas para cima. não levantou a cabeça.

- Outra coisa não seria de esperar - respondeu, com o mais profundo dos suspiros.

- Não percam as esperanças, meus amigos. - Durwin permanecia de pé sob a pequena mancha de luz que caía de uma qualquer seteira invisível, por cima deles. Aproximou-se do local onde Trenn e Alinea se encontravam sentados e encolhidos. - Deus irá libertar-nos deste buraco.

- Desde quando é que os deuses se importam com o destino dos mortais? - perguntou Trenn, troçando. - Olhe bem para nós... Que tem o seu deus a ver connosco, neste momento? Se se importasse, não tínhamos sofrido tanto como sofremos... e como provavelmente iremos sofrer.

- O mais Alto tem os seus próprios desígnios... que não são os desígnios dos homens.

- Não me fale nos desígnios dos deuses. Estou cansado de ouvir falar neles. - Trenn virou o rosto para outro lado. - Só me interessa aquilo que os homens podem fazer.

- Não digas isso... - acalmou~o Alinea. pousando uma das mãos no braço de Trenn. - De qualquer modo, temos de aguentar, e é melhor que o façamos com dignidade.

- Estás a ver? - perguntou Durwin, agitando um braço por cima da cabeça. - Isto é obra de Nimrood... Esta impotência que se abate sobre nós e que nos atira uns contra os outros. Não ligues. não passa de um truque do inimigo.

Trenn lançou um olhar de pedra sobre Durwin.

- Além disso, enquanto Theido e Ronsard andarem lá fora em liberdade, há esperanças. Neste momento já devem estar a trabalhar pela nossa liberdade e pela do rei.

- Se não estiverem mortos... - replicou Trenn com amargura. A tempestade. os homens de Nimrood...

Durwin não fez comentários e regressou à sua mancha de luz e às orações.

A masmorra não passava de um buraco rudimentar aberto na parte mais profunda do castelo. Não tinha quaisquer aberturas, excepto a da porta enferrujada e um buraco invisível, muito no alto. O chão era de terra batida e lodosa, por causa da humidade que escorria pelas paredes e pingava do tecto. Podiam existir serpentes a deslizar pelas fendas das fundações do castelo. pois era aí que a masmorra se encontrava. nas próprias raízes da fortaleza.

Como o chão estava húmido e cheirava a bafio e às obscenidades sobre ele praticadas. os prisioneiros haviam-se amontoado sobre a escassa palha meio podre que alguém lá colocara. havia muito tempo, para servir de cama. Era aí que se encontravam. encolhidos no meio do buraco malcheiroso.

Na escuridão da masmorra, só aquele fino feixe de luz os informava da passagem dos dias. Viam-no avançar pelo chão. até desaparecer na escuridão da noite que se aproximava. Então. encostavam-se uns aos outros para conseguirem resistir à miséria da mais profunda das noites.

No segundo dia, quando a mancha de luz que mareava a passagem do dia já se aproximara da parede do outro lado, ouviu-se um som a ecoar pelo baixo corredor de pedra que dava acesso à masmorra, situada por debaixo de uma das torres, a partir do subterrâneo principal. que era um labirinto de câmaras e celas.

- Passos! - disse Trenn, pondo-se de pé rapidamente e levando uma das mãos ao flanco ferido. - Vem aí alguém,.

Era verdade. os passos do que parecia ser um regimento completo aproximavam-se cada vez mais. Podiam ouvir uma voz áspera e ininteligível a dar ordens. Então. com um rangido e um estalido, a tranca da porta de ferro foi puxada para trás e a porta escancarou-se.

Pela estreita abertura passaram dois dos soldados de Nimrood. segurando tochas, seguido por um outro, armado com uma alabarda.

- Para trás! - rugiu um dos soldados quando Trenn se aproximou dele.

Depois, na porta da masmorra surgiu uma figura alta, a cambalear. que foi violentamente empurrada por detrás, e caiu de rosto para baixo sobre os degraus da entrada, rolando para o chão da masmorra. O homem gemeu quando o ar lhe fugiu dos pulmões, e ficou imóvel.

Os dois soldados com as tochas recuaram uns passos. pegaram no homem pelos braços e colocaram-no de joelhos.

- Estás a querer dificultar o nosso trabalho. não é? - disse um deles. levantando um pé, colocando-o nas costas do homem e empurrando-o para a frente. As mãos do prisioneiro estavam amarradas nos lados do corpo, pelo que não podia proteger-se da queda. A sua cabeça começou por ser atirada para trás e depois embateu no chão da masmorra. Os dois guardas viraram-se e saíram.

A porta de ferro fechou-se com grande ruído e os passos dos guardas afastaram-se ao longo do corredor.

Durwin correu para o prisioneiro caído, seguido por Alinea, que parou a seu lado. Trenn atirou-se para a frente e debruçou-se sobre o corpo. Depois olhou para cima, para os outros.

- Aqui está a nossa salvação - declarou.

- Theido! - exclamou Alinea, quando Durwin rolou o homem, nos braços.

O rosto do cavaleiro fora espancado. Escorria sangue e exibia manchas azuladas por debaixo de um dos olhos e por cima da têmpora. Tinha os olhos abertos mas não via, pois permaneciam nublados pelas torturas a que estivera sujeito.

- Se tivéssemos água--- - murmurou Alinea. - já não há nenhuma da ração que nos deram esta manhã.

No entanto. Durwin já entrara em actividade. Colocou uma das mãos na testa de Theido. fez um sinal com os dedos e tocou em cada uma das feridas, enquanto pronunciava estranhas palavras por entre dentes. Dos lábios de Theido escapou-se um gemido de dor.

- Agora, irá adormecer. Ajudem-me a desamarrá-lo.

Na realidade, o resistente cavaleiro quase não dormiu e voltou a acordar pouco depois de o libertarem das cordas. O nublado desapareceu~lhe dos olhos, mas precisou de algum tempo para voltar a si. Pestanejou e olhou para os rostos dos amigos.

- Vocês estão vivos! - gritou.

- Theido. estivemos tão preocupados contigo! - disse Alinea, estendendo a mão para segurar na dele.

- Disseram-me que tinham morrido no mar. Que se tinham afogado e que vos haviam deixado na praia para servirem de alimento às aves.

- Mentiras! - Trenn, com o rosto negro de fúria, rangia os dentes e cerrava os punhos.

- Onde está Ronsard? - perguntou Theido, tentando erguer-se do chão sujo.

- Então tu não o viste? - exclamou Alinea, admirada.

- Não. não vi ninguém. Nem sequer os homens que me apanharam. Arrastaram-me da praia, cheio de água do mar e ainda meio inconsciente. Nem sequer os ouvi chegar.

- Quando foi isso?

- Não me lembro... Talvez perto do meio-dia.

- Fomos apanhados ontem, de madrugada - explicou Durwin.

- Devem ter voltado à costa para explorarem as praias com mais cuidado.

- Então Ronsard... morreu? - inquiriu a rainha numa voz trémula.

- Bom, não podemos ter a certeza. Pode ainda estar vivo... Todos nós sobrevivemos ao afundamento do bote...

- Sim, mas não estávamos tão feridos como ele - declarou Trenn com rudeza. - Ronsard morreu.

- De momento, é melhor não pensar no assunto - aconselhou Theido. - Trenn, inspeccionaste este maldito buraco? - perguntou, olhando devagar para a escuridão à sua volta.

O guarda da rainha acenou em silêncio e abriu as mãos num gesto de frustração.

- Estou a ver... Então...

- Escutem! - interveio Durwin. Theido, com as palavras ainda na ponta da língua, calou-se de repente. Ao longe, no corredor, voltavam a ouvir-se passos. - Vêm aí outra vez.

- Provavelmente vêm buscar um de nós, para o torturarem disse Trenn. - Irei eu, e será um alívio!

- Não, não levarão outro de nós - replicou Theido. - Lutaremos!

Os passos estavam mesmo junto à porta da masmorra. A cela encheu-se com o rangido da tranca a ser deslocada e do chiar da porta a abrir-se sobre dobradiças ferrugentas.

Mais uma vez surgiram dois soldados, que entraram com as tochas na frente deles, logo seguidos pelo homem da alabarda, que emitia um brilho frio sob a luz das tochas.

Atrás dele surgiu uma figura baixa e encurvada, que se colocou em silêncio por detrás dos outros, de um lado da masmorra. Seguiu-se-lhe uma forma negra, que atravessou a porta e se instalou na esfera da luz das tochas. Os prisioneiros puderam ver um cabelo escuro riscado de branco.

- !-imrood! - exclamou Durwin.

- Eu mesmo! - retorquiu o feiticeiro, com um sorriso traiçoeiro. - Verifico que o nosso pequeno grupo já está completo. - Mirou-os um a um. e depois endireitou-se e gritou: - Loucos! A meterem-se com Nimrood, o necromante! Vou transformá-los em cinzas!

Desceu os degraus da entrada, com a capa negra a agitar o ar húmido como se fossem as asas de um morcego.

- Começarei por ti, meu arrogante cavaleiro, meu "Falcão"! Oh, sim! - silvou, ao ver que Theido reconhecia o nome. - Há muito tempo que te tenho debaixo de olho. No entanto, não irás arder como estes outros. Para ti, tenho melhores planos. Muito melhores. Há um lugar especial reservado para ti, cavaleiro.

- Morrerei antes de me obrigares a servir-te! - replicou Theido com frieza.

- Oh, sim, sem dúvida. Garanto-te que sim! - cacarejou o maléfico feiticeiro. - Mas antes disso, verás os teus amigos a morrerem gritando. - Escorria-lhe baba dos lábios. Lançou uma medonha careta para os outros, virou-se e voltou a subir os degraus da entrada.

Nimrood voltou a parar sob a luz das tochas, parecendo um fantasma saído da escuridão que o rodeava. Hesitou, antes de se virar para sair, e declarou:

- Gostaria de começar já a tratar de ti... - disse. sorrindo para os cativos, de novo com a sua expressão traiçoeira - mas isso terá de esperar. Talvez vos interesse saber que tenho de estar presente numa coroação. Depois... teremos tempo mais que suficiente para as nossas diversões.

- Qual coroação? - perguntou Durwin.

- Ah, finges que não sabes! A do príncipe Jaspin, é claro. Muito em breve, Askelon terá um novo monarca! Ah! Ah! Ah! Vou partir imediatamente e não me esquecerei de lhe transmitir os vossos melhores cumprimentos. E os seus também, rainha Alinea. Ou julgava que não a tinha reconhecido? O príncipe há muito que se interroga sobre o seu desaparecimento. Dir~lhe-ei o que tem andado a fazer... e os planos que tenho para todos vocês.

Nimrood virou-se e desapareceu na porta, seguido pelo homem dobrado e pelos guardas. Os prisioneiros continuaram a escutar as suas gargalhadas loucas enquanto se afastava pelo corredor. A voz ecoava até eles como um trovão no dia do Juízo Final.

- Ah, ah, ah! Voltarei em breve, e então poderemos começar! Ah, ah, ah! o novo rei de Askelon vai ficar muito satisfeito! Até lá... durmam bem, meus filhos! Durmam bem!

 

O som dos homens que trabalhavam, descarregando a carga do navio. já se tinha apagado. Quentin encostou a orelha ao lado do barril e escutou. Tudo o que se ouvia era o suave marulhar das ondas de encontro ao casco do navio, um som que lhe parecia vir de muito longe mas que sem dúvida se encontrava perto. De vez em quando ouvia o guincho de uma ave marinha que pairava no alto. Todos os sons que lhe chegavam do exterior eram abafados e indistintos por causa da espessa madeira de carvalho do barril.

Enquanto a bordo do navio ocupara o seu tempo dormitando e esperando. à escuta, no interior da pequena prisão. ansioso por poder esticar as pernas mas sem ousar mover um músculo. Por fim. quando todos os seus nervos e fibras gritavam por alívio. permitira-se mudar de posição. Depois de o ter feito pela primeira vez. sem nenhumas consequências desastrosas, passara a mudar de posição com mais frequência, mas sempre tão silenciosamente quanto possível.

De vez em quando empurrava a rolha que tapava o barril e deixava que o ar fresco entrasse no abafado interior. Comprimia o rosto de encontro ao buraco e espreitava para o exterior. mas não conseguia ver nada das actividades a bordo. Era uma coisa simultaneamente boa e má, pensara Quentin. Permitia-lhe aspirar ar fresco com mais frequência sem o receio de alguém reparar nos pequenos movimentos da rolha. mas por outro lado queria dizer que não tinha a menor possibilidade de verificar, com alguma antecedência, se eram descobertos. Como não via o convés. também não podia saber quando chegavam ao destino.

Assim, confiara nos ouvidos para lhe dizerem o que se passava à volta do barril. Estivera a dormir quando o barril fora levantado e transportado para fora do navio. A sensação de estar a ser erguido, sem qualquer aviso, e de acordar a balouçar no espaço surpreendeu-o tanto que teve de abafar um grito de susto.

A seguir fora atirado para a areia da praia. Não se ouvira nenhuma pancada do barril contra o chão, como acontecera no convés, pelo que calculou que a carga fora largada na areia. Antes de ter a coragem de se arriscar a uma nova espreitadela pelo buraco do barril, esperara que desaparecessem os sons da descarga e o barulho dos homens a resmungarem e protestarem contra as suas tarefas.

A nova vista, a partir da minúscula janela. era mais encorajadora. O barril parecia ter sido largado junto de uma rampa de madeira. que via a partir de baixo. Deveria ser o cais improvisado que sobressaía nas águas da baía que os homens de Nimrood utilizavam como porto. Para lá da rampa avistava uma costa lambida pelas ondas, e escutava o barulho de ondas mais fortes a quebrarem-se contra qualquer coisa, ao largo.

Avistou algumas rochas a sobressaírem da areia. cujas longas sombras. a estenderem-se para o mar, lhe disseram que o Sol ia muito baixo e o crepúsculo estava para breve.

Não via marinheiros, nem guardas, nem nada que lhe indicasse uma presença humana por perto. "Muito bem", disse para si mesmo, "espera pela escuridão".

Quentin acabara de fechar a rolha do barril e de se instalar na sua posição enrolada, quando ouviu um ligeiro tilintar - que se foi tornando mais forte - e o murmúrio abafado de vozes. Calculou que se tratava de dois homens a conversarem um com o outro. A seguir ouviu o relinchar de um cavalo e o rangido de uma roda em cima da areia. Pensou: "É uma carroça, trouxeram uma carroça".

- Bom, vamos a isto - disse uma das vozes, abafada pelas madeiras do barril. Quentin retirou a rolha para as poder ouvir melhor.

- Não tenhas tanta pressa! - respondeu a outra voz. - os outros estão a chegar e dão-nos uma ajuda.

- Pois, mas dentro em pouco estará escuro. Não tenho vontade nenhuma de levar a carroça até lá acima, no meio da escuridão. Mesmo de dia, já é suficientemente mau...

Então passamos aqui a noite. Que mal faz? Não sejas tão esquisito...

É fácil de dizer. porque não estás cá há tanto tempo como eu, não ouviste o que ouvi nem viste as coisas que eu vi. Digo-te que...

- Lá estás tu outra vez. Gali-te. sim? Não quero ouvir as tuas histórias. Por Zoar! És um fracalhão.,

Sei coisas, estou a dizer-to. Se tenho medo deste sítio à noite. é porque vi...

- Não viste nada que não possa ser visto noutros sítios. Cala-te, não estou para te aturar!

O outro homem ficou a murmurar sozinho depois daquela troca de palavras irritadas. Quentin não distinguia as palavras mas sabia que tinha de pensar depressa. Tinham-lhe apresentado uma nova alternativa. Ou esperava que o carregassem na carroça, com o resto das provisões, ou tentava escapar-se antes de chegarem os outros. Voltou a fechar a rolha. com cuidado, e passou por um momento de indecisão: ir ou ficar?

Quentin decidiu esperar. Se pudesse entrar no castelo sem ninguém dar por isso, seria melhor do que ter de rondar a toca do inimigo. Porém, no momento em que chegou a essa decisão, a capacidade de escolha foi-lhe repentinamente retirada.

- Eh! - gritou um dos homens da carroça. - Vi qualquer coisa a mexer-se junto de um dos barris!

- Lá estás tu outra vez! Cala-te! Quero dormir! - retorquiu o outro. zangado.

- Mexeu-se, estou a dizer-to! Um dos barris mexeu-se! - protestou o primeiro homem.

- Que Hoeth te leve e mais ao teu barril! Vou provar-te que não há ali nada. Qual foi o barril?

Quentin ouviu os passos do homem na areia, a aproximarem-se.

- Aquele, ali na ponta - indicou o homem assustado, seguindo atrás do que era mais corajoso.

Três passos mais perto. O coração de Quentin martelava-lhe nas orelhas e imaginava que podia ser ouvido em toda a praia. como se fosse um tambor.

Ouviu a respiração do homem. Os passos haviam parado mesmo junto dele. Podia escutar o farfalhar das roupas do homem que olhava para baixo, para o barril.

- Não há aqui nada, por Zoar!

- Vi qualquer coisa, ainda há momentos.

- Uma sombra.

- Não foi uma sombra. Há algo de estranho nestes barris.

- Olha em volta, idiota! Vês alguma coisa? Pelos deuses! Terei de abrir os barris, para to provar?

Quentin sentiu o coração a apertar-se-lhe no peito, como se tivesse sido espremido pela mão de um gigante. Escutou o barulho de qualquer coisa pesada a tocar na tampa do barril. Iam abri-lo...

Quentin colocou os pés debaixo do corpo e agachou-se. A tampa soltou-se.

- Olha para isto! - comentou o homem. - Esta tampa estava muito mal fechada.

Nesse instante, Quentin saltou disparado do barril, atirando a tampa contra o rosto do homem e gritando o mais alto que era capaz.

No momento em que saltou do barril, avistou, de relance, o homem aterrorizado que se virava e cambaleava, num esforço para fugir. O outro, quase tão assustado como o primeiro, por causa daquela estranha criatura a gritar que saltara do barril, caiu para trás na areia e a tampa atingiu-o num dos lados da cabeça.

- Toli! - gritou Quentin - Foge! Fomos descobertos!

Toli, que tinha bem a consciência do que se estava a passar, saltou do seu barril num instante e começou a correr pela areia, em direcção à floresta.

O homem caído no meio dos barris recuperou a consciência quando os dois iam a fugir. O outro estava encolhido debaixo da carroça, com a cabeça escondida na areia.

- Aí vêm os outros, os soldados de Nimrood! Vão apanhá-los! gritou o primeiro.

Quentin olhou por cima do ombro enquanto corria. Viu uma dúzia de soldados a marcharem ao longo da praia, alguns com compridas lanças e outros com as espadas desembainhadas. não muito para lá dos dois carregadores, que gesticulavam muito e apontavam na direcção deles.

Virou-se, baixou a cabeça e acelerou em direcção às árvores.

- Corre, Toli, corre! Vêm atrás de nós! Vamos fugir daqui!

Sem o menor abrandamento da corrida, os olhos de Toli examinaram a floresta. Então, como um veado a fugir em frente de uma seta. dirigiu-se directamente para a zona onde o mato era mais cerrado.

Quentin tinha de dar o seu máximo para o conseguir acompanhar. Toli. alerta e com todos os seus instintos a funcionarem, encontrava-se de novo no seu elemento. Parecia deslizar sem esforço por entre os espessos matagais. desviando-se. fazendo fintas, penetrando pelas mais pequenas aberturas e saltando por cima de rochas e árvores caídas.

Ao princípio Quentin caiu várias vezes, tropeçando nos seus próprios pés, cambaleando atrás dele. mas depois resolveu imitar Toli, desviando-se onde ele se desviava e baixando-se onde Toli se baixava, e o avanço tornou-se mais fácil. Esquecera o medo e corria. completamente livre. Sentia o coração cheio de fria excitação da fuga.

Atrás deles podiam ouvir os soldados a abrirem caminho pela floresta. Tinham-se disposto numa fila. para melhor apanharem a presa. Praguejavam enquanto avançavam, esmagando arbustos e moitas, deixando-se enredar nos ramos baixos e nas urzes. Toli parou por duas vezes. para um curto descanso e para escutar. Os sons da perseguição chegavam-lhes cada vez de mais longe. apagando-se no meio dos sons nocturnos da floresta.

- Vai escurecer em breve - disse Toli. Levantou os olhos para o céu, onde ainda se via um resto de luz. Todavia, em volta, as zonas mais cerradas da floresta mergulhavam rapidamente na escuridão. Quentin já começava a ter dificuldade em distinguir os troncos das árvores da escuridão que os envolvia.

- -Não poderão seguir-nos durante muito mais tempo... Parece que nos estão a perder. - As duas afirmações não passavam de perguntas: Quentin queria sentir-se tranquilizado.

- Agora já não nos apanham... - respondeu Toli - mas temos de continuar. Procuraremos um lugar para acamparmos esta noite. Virou-se e girou a cabeça para um lado e para o outro. - Não te afastes de mim - pediu, começando outra vez a correr.

Mudaram de direcção e começaram a subir a vertente de uma colina. O caminho era cada vez mais inclinado. o que os obrigava a passos mais curtos. Toli abrandou um pouco mas continuou em frente, com decisão.

A pouco e pouco, os ruídos da floresta, atrás deles. foram morrendo. Quentin pensou que os soldados ou tinham desistido ou os haviam perdido completamente.

Agora. no entanto, Quentin tinha os ouvidos atentos a outros sons, os sons de uma floresta que despertava para a vida com a chegada à noite.

Os verdes das folhas e dos musgos, os castanhos das árvores e a terra e os azulados das sombras haviam-se misturado todos numa tonalidade confusa. Seguia Toli com os ouvidos. e não com os olhos, tentando acompanhá-lo às cegas.

- Ui! - fez Quentin, quando caiu, com um gemido. Prendera o pé numa raiz atravessada no caminho e caíra de rosto. Toli ouviu-o cair e voltou para trás.

- É melhor parar, apenas por um momento - sugeriu Quentin - Está demasiado escuro para correr.

- Esqueci-me. Kenta, que tens uma má -visão nocturna. - Toli ficou imóvel e virou a cabeça, à escuta. Quentin ouviu um estranho som abafado. Toli parecia cheirar o ar.

- Este lugar é muito mau. Não podemos ficar aqui - declarou o

jher passado um bocado. Dobrou-se e estendeu uma das mãos para Quentin. ajudou-o, a pôr-se de pé e partiu outra vez. mas mais devagar

O caminho continuava a subir, mas de repente. e sem qualquer aviso, transformou-se numa íngreme descida. Atingiram o fundo de uma garganta. aberta na terra pelas chuvas. Ali perto corria um pequeno ribeiro. Quentin ouvia o ruído da água. Do chão à volta deles começava a levantar-se um nevoeiro pestilento, que se lhe agarrava às pernas, em farrapos. enquanto avançavam por entre os seus tentáculos.

Um mocho piou em qualquer lado. por cima deles. e ouviu-se a resposta de um companheiro, vinda de mais longe. No meio da floresta invadida pela escuridão que descera sobre a terra. chegavam-lhes outros sons - pequenos trinados. rastejares furtivos sobre as folhas secas por onde passavam. o sopro de asas invisíveis.

Houve uma vez em que Quentin escutou um fraco zumbido no ar, muito perto, e sentiu um ligeiro toque no rosto. Recuou ante aquele contacto suave, como se tivesse levado uma pancada. Levou a mão ao rosto e sentiu-o sujo com uma substância pegajosa. Limpou-a com uma careta e continuou.

O nevoeiro malcheiroso adensava-se e tornava-se mais alto, originando remoinhos no ar. Quentin tinha a sensação de que o nevoeiro lhe prendia as pernas, como se o quisesse deter. já nem conseguia ver os pés.

Seguia Toli - que parecia não dar por nada do que se passava à sua volta - sem grande vontade. Ansiava por sair daquele amaldiçoado caminho e voltar a trepar para a floresta.

Todavia, continuou em frente.

O seu pé embateu num ramo podre, que se partiu com um estalido oco, que pareceu encher toda a garganta. De súbito, mesmo de debaixo dos seus pés, surgiu uma forma a guinchar. Era branca e sem contornos, no meio do nevoeiro. e soltava longos gritos que ecoavam nos bosques. Ia direita a ele e Quentin colocou as mãos na frente da cara para se proteger. Porém, no momento em que se deveria ter dado a colisão, não sentiu nada. Afastou as mãos e viu as asas brancas de uma ave que se escapava ao longo da garganta.

- Toli. não haverá um caminho melhor?

Toli parou e olhou em volta. como se calculasse a distância que tinham percorrido.

- Sim. Em breve sairemos daqui. É só mais um pouco...

Cumprindo a sua promessa. pouco depois Toli conduziu Quentin por uma ladeira pronunciada. coberta de vinhas. Treparam-na por uma faixa enlameada, onde um pequeno riacho que corria pelo meio da floresta despejava um fio de água fétida por cima de pedras cobertas de musgos negros.

Quentin escorregou na lama. Endireitou-se e segurou-se. mergulhando as mãos na lama, e continuou a subir agarrado às ervas. Por fim conseguiram sair da garganta e ficaram de pé num espaço largo e plano, rodeado por árvores. Por detrás deles encontrava-se a garganta, com o seu nevoeiro empestado, e na frente via-se uma colina densamente arborizada.

Sem uma palavra. Toli começou a trepar a colina. Quentin seguiu-o. também. em silêncio. Não valia a pena perguntar-lhe onde iam, ou porquê. Toli lá tinha as suas razões e, além disso, Quentin não se lembrava de nenhuma sugestão melhor.

Tinham caminhado durante várias horas, com as árvores negras a ocultarem a escuridão ainda mais profunda que ficava para lá delas. quando Quentin viu qualquer coisa que o sobressaltou. apesar de não compreender porquê.

Não disse nada e continuou a andar, de olhos postos no ponto da colina, muito à sua frente, onde vira aquilo. Voltou a vê~la. Não passava de um pequeno brilho.

Agitou a cabeça e olhou. Lá estava outra vez. Oscilava e dançava e parecia afastar-se enquanto se aproximavam.

O caminho continuava a subir e Quentin ganhou a certeza de que não estava a ver um fantasma.

- Olha - disse. apontando por entre os ramos. - Está qualquer coisa a brilhar lá em cima.

-Mais dez passos e ficou a saber o que era: uma fogueira. Alguém acendera uma fogueira de acampamento.

Aproximaram-se com todas as cautelas. Toli queria evitar a área mas Quentin tinha uma sensação diferente: a de que era preciso inves tigar. Aproximaram-se cada vez mais, movendo-se muito devagar e com cuidados infinitos, sem provocarem o mínimo som.

Depois de uma hora quase a rastejar, atingiram o pequeno e confortável acampamento. detendo-se no exterior do círculo de luz. Observaram e esperaram. Não havia ninguém à vista. Quem quer que tivesse acendido a fogueira não se encontrava por ali.

- Os soldados?

Toli abanou a cabeça.

- Não aqui... - e não com uma fogueira tão pequena para tanta gent

O aviso chegou-lhes demasiado tarde.

Por detrás deles, no trilho, ouviram-se plantas a agitarem-se e passadas pesadas. De súbito, uma forma enorme caiu-lhes em cima, empurrando-os para a frente. Toli mergulhou para um dos lados, mas Quentin foi apanhado e empurrado para o acampamento. O monstro rugiu como se sentisse dores terríveis, e Quentin foi-se abaixo quando os golpes lhe choveram em cima. Contorceu-se, com a cabeça demasiado perto da fogueira. Viu uma coisa clara a passar junto dele. Era u rosto. A seguir ouviu uma voz.

- Fica onde estás!

A ordem fora firme... Talvez com um vestígio de receio, que desapareceu imediatamente. Quentin levantou os olhos devagar e deparou-se-lhe a volumosa forma de um homem pairando sobre ele. empenhando o que parecia ser um pau.

Houve qualquer coisa de familiar naquela figura imponente, que ameaçava rebentar-lhe o crânio de um momento para o outro com o pau.

Voltou a espreitar e procurou ver o rosto sob a luz incerta e oscilante das chamas.

"Impossível!". pensou. "Não pode ser! No entanto lembrou-se, ao mesmo tempo. que encontrar um fantasma num lugar tão desumano não tinha nada de impossível e até era de prever. Seguindo aquela linha de pensamento. Quentin pensou que, tanto quanto soubesse, as sombras não andavam armadas de paus nem batiam nas vítimas.

Mas o rosto... Sim, havia qualquer coisa de familiar naquela cara... Já a vira em qualquer lado. Noutro sítio, muito tempo antes...

De repente. lembrou-se. Lutou contra aquela recordação e tentou afastá-la de si. Lutou para não acreditar. Todavia, o reconhecimento permanecia. apesar de Quentin não ter certezas.

- Ronsard? - perguntou baixinho, com uma voz trémula.

Durante o tempo de uma batida do coração, tudo o que ouviu foi o estalar da fogueira.

O homem ajoelhou-se a seu lado e baixou o rosto para Quentin, que estendeu uma das mãos, a tremer.

- Ronsard... és tu?

 

- Sou Ronsard - anuiu o homem ajoelhado junto da fogueira. Quem é que me conhece pelo nome neste lugar perdido?

A voz era suave, mas Quentin podia ver, quando o homem se aproximou mais da fogueira. as mesmas feições angulares, o mesmo queixo saliente, indicador de força e decisão. No entanto, o cavaleiro parecia cansado e gasto. Tinha pesadas linhas de fadiga rodeando-lhe os cantos da boca e gravadas em volta dos olhos.

- Não me conhece? - perguntou Quentin. - Sou Quentin, o acólito. Entregaste-me a mensagem para a rainha...

O rosto do cavaleiro transformou-se de repente, graças a um vigoroso sorriso que lhe fez desaparecer os cuidados e preocupações, e lhe fez brilhar uma luz nos olhos.

- Poderá ser verdade? Quentin?... Sim, recordo-me... Mas como?

As perguntas surgiam a grande velocidade, enquanto o cavaleiro, tão surpreendido que quase não conseguia proferir uma frase completa. procurava tirar algum sentido daquele aparente milagre.

- Podes aparecer. Toli - chamou Quentin. Sabia que o amigo os espreitava ali perto, fora das vistas, pronto a intervir num instante.

Os arbustos afastaram-se e Toli apareceu e parou junto de Quentin.

- Está tudo bem. É Ronsard... o cavaleiro de quem te falei.

- O portador da mensagem - respondeu Toli, na sua própria língua. - Sim, e um grande guerreiro.

Toli fez uma profunda vénia, tal como Quentin lhe ensinara para ocasiões como aquela. Porém, a formalidade da saudação no meio do mato levou Ronsard a sorrir e Quentin a soltar uma gargalhada.

- Bem-vindo, amigo da floresta - disse Ronsard. - Nunca tinha encontrado ninguém da tua raça... e, para dizer a verdade. também nunca me constou que tivessem tão boas maneiras.

- Estamos ambos ao teu serviço - declarou Quentin. rindo-se e sentindo-se invadido por ondas de alívio.

- E eu ao vosso - respondeu Ronsard. - Bom, meus amigos, temos muito que falar, e muito para discutir. Em primeiro lugar. como vieram aqui parar? Theido disse-me que te tinham deixado em Dekra, gravemente doente. Receavam que não viesses a recuperar.

Quentin lançou-se num relato de tudo o que tinham feito desde Dekra e, antes disso, desde o momento em que abandonara o templo. Enquanto falava. pensou para si que tudo aquilo tinha algo de incrível, como se tivesse acontecido a outra pessoa, e ele. Quentin, ainda se encontrasse no templo. Ao pensar no templo, e ao falar dele, ficou um pouco triste. No entanto sabia, no fundo do coração. que já nada aí restava para ele.

Ronsard escutou tudo com paciência, mas com uma certa ansiedade e atenção, meditando em todas aquelas informações.

- És um rapaz especial - declarou Ronsard no fim do relato.

- Darias um formidável cavaleiro.

Quentin corou ante o louvor.

- Sinto-me satisfeito por te ver vivo e inteiro - respondeu.

- Vivo... sim. Inteiro... talvez o venha a estar, e em breve. Sinto-me mais forte de dia para dia. Se não tivessem sido os naufrágios e os raptos, já estaria tão em forma como sempre estive. - Ronsard prosseguiu, explicando como fora arrancado ao templo por Pyggin e pelo seu bando de patifes, directamente das mãos de Biorkis. - já lá me encontrava havia algum tempo. e começava a ficar bom quando me apanharam. Os guardas do templo foram impotentes contra espadachins. Resistiram muito pouco e eu não me podia defender. Fui atirado para uma carroça. Dei tantos solavancos durante a viagem de Narramoor para Bestou, onde tinham um navio a espera, que quase morri. Foi uma sorte estranha terem conseguido encontrar Theido, Durwin e os outros, mas fiquei satisfeito com a companhia. - A seguir descreveu a tempestade, o afundamento do bote e a sua longa vigília solitária na ilha. - E agora, esta noite, encontro mais uma vez o meu amigo do templo! - Ronsard soltou uma gargalhada. - Para dizer a verdade pensei que nunca mais voltaria a ver-te... e tinha a certeza de que a minha mensagem não seria entregue. No entanto... parece que os deuses resolveram ligar os nossos destinos.

Toli, que escutava a conversa, conseguiu ficar com uma ideia mais ou menos vaga do que estavam a dizer, mas depois cansou-se. bocejou. enrolou-se perto da fogueira e preparou-se para dormir.

- Acho que também devemos ir dormir - disse Ronsard. - Estava a apanhar lenha que bastasse para toda a noite quando deparei convosco no trilho. Não vos vi nem ouvi até quase embater em vocês... e deixei cair toda a lenha.

- Ah, então foi isso! - exclamou Quentin, recordando-se de ter sido atingido várias vezes enquanto caía. - Também não te ouvimos quando apareceste atrás de nós.

- Nesta ilha, não é conveniente dar sinais de vida. É um sítio estranho e nada seguro.

Quentin concordou com um aceno e perguntou:

- E os outros? - Estivera toda a noite ansioso por fazer aquela pergunta, mas não tivera coragem. O facto de se ter recordado deles foi um choque que o devolveu ao presente e à missão que tinham entre mãos.

- Discutimos isso amanhã, sob a luz do dia. - Depois daquela resposta, Ronsard bocejou e deitou-se para dormir.

- Boa noite - disse Quentin, que acrescentou após uma pausa: - Estou muito satisfeito por te ter encontrado outra vez.

- Também eu. Boa noite.

Era óbvio. mal Quentin abriu os olhos, que Toli se levantara com a madrugada ou até talvez antes. Dispostos em volta da fogueira viam-se cestos de folhas cheios de bagas, e vários tipos de raízes comestíveis que tinham sido lavadas e amontoadas com cuidado. Por cima da fogueira encontravam-se a assar dois coelhos magrizelas, esfolados e limpos, e quase prontos. Para além disso - e maravilha das maravilhas -, Quentin avistou, deixando correr o seu néctar dourado para cima de um tapete de folhas frescas. uma colmeia inteira!

- Parece que o nosso amigo nos preparou o pequeno almoço! comentou Ronsard.

Quentin esfregou os olhos, ensonado, e sentou-se.

- Estou a ver que sim. Onde está ele?

Nesse instante surgiu Toli, balouçando três objectos verdes e alongados numa das mãos e três maçãs na outra.

- Aqui têm água - disse entregando-lhes recipientes feitos de grandes folhas verdes dobradas, repletos de água cristalina. A seguir foi tratar dos coelhos.

Comeram como se nunca antes tivessem visto comida. enchendo bem a boca e saboreando cada dentada. O mel, guardado para o fim, foi o que deu origem a mais louvores à habilidade de Toli.

- Nunca tinha comido tão bem, no meio do mato! - afirmou Ronsard. - As minhas forças regressam, em asas de águias. Podem ser necessárias, pois hoje iremos penetrar no covil de Nimrood.

Quentin esquecera-se completamente de Nimrood, ou então preferira não pensar no feiticeiro negro. A referência ao nome do homem provocou-lhe um arrepio na espinha.

- O castelo fica longe daqui?

- A uma certa distância, sim... mas a não mais de uma ou duas léguas a voo de pássaro. Está no topo de uma montanha, e teremos muito que trepar para lá chegarmos. Contudo, o caminho está bem assinalado. já o vi.

- Então, vamos andando - disse Quentin. Toli já estava de pé, apagara o fogo e espalhara as cinzas, fazendo desaparecer todos os vestígios de que tinham ali estado.

Avançaram mais uma vez pelo trilho que Quentin e Toli haviam seguido na noite anterior. Pouco depois, o trilho descia e desembocava num caminho mais largo. Era uma espécie de estrada com sinais de uso recente: pegadas de soldados caminhando nos dois sentidos, marcas de rodas de carroças, marcas de cascos.

- Vou mandar o Toli à frente - propôs Quentin -, para ver se vem aí alguém. As árvores estão tão em cima da estrada que poderíamos chocar com eles ainda antes de os vermos chegar.

- Boa ideia. Manter-me-ei atento à retaguarda, apesar de pensar que não temos de nos preocupar com perseguições.

Assim protegidos, cobriram a distância rapidamente, atingindo o cimo da montanha quando o Sol trepava para o meio-dia. Então, quando descreviam a última curva, avistaram Kasakh. o castelo do feiticeiro.

Ali está ele. - Ronsard protegeu os olhos com a mão e estudou a paisagem. - Não é uma visão agradável.

Quentin observou o castelo com o mesmo terrível fascínio que sentiria se estivesse a olhar para uma mortífera serpente enrolada em cima de uma rocha.

- É assustador - acabou por responder.

Toli apareceu a correr, agachado, dando a volta a uma escarpa coberta com uma pesada confusão de vinhas.

- Os guerreiros do maléfico saíram do castelo - disse para Quentin, que traduziu para Ronsard.

- Vamos sair da estrada e ver o que andam a tramar. - Ronsard saltou para os arbustos ao lado da estrada e Quentin descobriu um lugar bem protegido, a seu lado. que lhe dava uma vista perfeita sobre o caminho.

Ouviu um ruído e o barulho de um ramo a quebrar-se. Quentin virou-se a tempo de ver Toli saltar para a estrada com um ramo de fetos

numa das mãos. Estava a limpar as pegadas do sítio onde tinham parado a conversar.

- Este Jher não deixa nada ao acaso - murmurou Ronsard.

- É astuto e rápido. Gosto dele.

- Os soldados já devem estar muito perto. - Quentin lutou contra o impulso de gritar para Toli, para o avisar, mas resistiu, com receio de que os soldados o pudessem ouvir. Mordeu o lábio quando escutou o barulho de muitos passos sobre a terra do caminho e o tilintar dos arreios de um cavalo.

De súbito Toli apareceu a seu lado, e um segundo depois aparecia o primeiro soldado. Montava um cavalo preto, malhado, e quando se virou na sela para dar uma ordem aos homens. por cima do ombro, Quentin viu-lhe uma cicatriz que parecia dividir-lhe o rosto ao meio.

- já o vi antes - sussurrou Ronsard. - Na praia.

A seguir ao cavaleiro vinha uma carroça com taipais muito altos, seguida por uma pequena força de talvez quarenta homens. A procissão avançava sem qualquer espécie de precauções. Dois soldados iam sentados na traseira da carroça, de pernas penduradas.

- Falta de disciplina - disse Ronsard. - Pretensiosos!

- Devem andar à nossa procura. - Quentin observou o grupo a passar e recordou-se do medo que sentira na noite anterior.

- Como é que sabes?

- Fomos descobertos na praia, a noite passada, e fugimos para a floresta.

Os soldados continuaram pela estrada fora, marchando com passos vagarosos. Depois de desaparecerem, Ronsard esperou mais alguns minutos, viu que não vinha mais ninguém e voltou para a estrada.

Aproximaram-se rapidamente da comprida e serpenteante estrada por cima da crista rochosa. Ronsard, de pé junto da protecção oferecida pelas últimas árvores, comentou:

- Não gosto disto. Seremos vistos logo que ponhamos os pés naquela estrada.

Ronsard estudou o terreno com cuidado, medindo e analisando a distância que os separava do covil do feiticeiro. A seguir acrescentou.

- Que consiga ver, não há outra maneira de nos aproximarmos do castelo. - Virou-se para Quentin e Toli. - Temos duas opções: esperar até que a escuridão nos oculte, ou avançar em pleno dia, arriscando-nos.

- Se esperarmos. os soldados podem voltar. Não gostaria de ser descoberto a rastejar no meio da noite. - Quentin estremeceu só de

pensar nessa possibilidade.

- Bem dito. E eu não gostaria de esperar nem mais um instante para me ver livre daquele lugar, se me encontrasse preso lá dentro - respondeu Ronsard. - Está o assunto resolvido. Avançamos agora.

A mão de Quentin apalpou a adaga de ouro que tinha no cinto. Agarrou-a com força enquanto se precipitava atrás de Ronsard, que avançava em direcção à crista rochosa.

- Até agora, tudo bem. Não há guardas nem sentinelas à vista - disse o cavaleiro.

Estavam agachados na sombra dos poderosos pilares de pedra da ponte levadiça, no fim da estrada, no ponto em que a ponte cobria o precipício entre o castelo e a crista rochosa. Havia dois pilares. um de cada lado da estrada, que pareciam as ombreiras de um monstruoso portão. Do topo de cada um deles espreitavam-nos grifos de pedra.

Fazendo deslizar a cabeça com cuidado para lá da esquina do pilar, Quentin via o túnel negro da entrada, do outro lado da ponte. Estava vazio, tanto quanto lhe era dado ver.

- Também não há guardas lá dentro - comunicou.

- Então, comecemos! - exclamou Ronsard. - Poderemos não voltar a ter uma oportunidade tão boa.

Quentin queria protestar. -No fim de contas, precisavam de ter um plano de qualquer espécie. Era assim que as coisas se faziam, e não agindo às cegas, sem preparação. Quem sabia o que poderiam encontrar pela frente? O próprio Ninrood. podia estar à espera deles mal atravessassem a ponte.

No entanto. Ronsard ia já a caminho, atravessando a ponte a correr. Toli, como uma sombra. corria atrás dele. Quentin. para não se deixar ficar para trás, foi obrigado a fazer o mesmo. Avançaram muito devagar pelo túnel da entrada e espreitaram para o pátio que se encontrava para lá dele quando chegaram ao fim.

- Não há ninguém - disse Ronsard. - Estranho... - acrescentou, franzindo o nariz. Que diabo de cheiro é este?

Por cima do cheiro a humidade e bolor do túnel, sentia-se um odor ligeiramente ácido que parecia proveniente do pátio.

- Bom, não se afastem. Aqui vamos nós... - Ronsard correu para fora do túnel e para a luz. Quentin. que corria a alguns passos de distância, viu o cavaleiro parar de repente. Quentin parou também. interrogando-se sobre o que teria corrido mal. Teriam sido finalmente descobertos? Ronsard virou-se. com o rosto contorcido de agonia...

- O que...? - começou Quentin. mas sem terminar a frase. O cheiro atingiu-o como um punho maciço. Sentiu a garganta a revoltar-se e o ar a faltar-lhe. Os joelhos cederam e caiu com as mãos no chão. Enquanto as lágrimas lhe enchiam os olhos, ouviu Ronsard a vomitar e Toli a tentar aspirar o ar.

Quando lhe passaram as vagas de náuseas, Quentin levantou a cabeça e olhou lentamente em volta. O pátio estava decididamente mal tratado. Havia ervas a crescer por entre as fendas das pedras do chão, lixo acumulado em todos os cantos, e poças de água estagnada sobre as quais zumbiam moscas, que formavam verdadeiras nuvens negras.

- Oh... não... - gemeu Ronsard. Quentin virou a cabeça para onde o cavaleiro tinha os olhos fixos em qualquer coisa. Não conseguíu perceber o que era e aproximou-se mais.

- Maldito seja! - praguejou Ronsard, virando-se para outro lado.

Quentin olhou e viu as carcaças esqueléticas de dois cavalos a apodrecerem ao Sol. Os cavalos ainda permaneciam amarrados aos anéis de ferro cravados nas pedras. Tinham morrido de fome ali mesmo. As aves já se haviam atirado a eles e arrancado grandes bocados dos flancos. Era aquela a fonte do cheiro pestilento. Quentin virou a cara e puxou Toli. O Jher não se manifestara mas os seus olhos haviam escurecido e tornado duros como pedra.

Dentro do castelo, o panorama era o mesmo: estava deserto e negligenciado. e fosse para onde fosse que se virassem deparava-se-lhes sempre uma qualquer atrocidade.

- Estúpido desperdício! - praguejou Ronsard, enquanto os três avançavam lentamente. A pele de Quentin estremecia. e sentia-se sujo. como se tivesse sido contaminado por uma doença nojenta. Sabia que se encontrava na presença do -Mal, impudente e arrogante. e o sangue arrefecia-lhe nas veias.

Continuaram em silêncio até atingirem um grande arco de pedra no fim de um comprido e contorcido corredor.

Que estranho - comentou Ronsard, abanando a cabeça, incrédulo. - Onde é que estão as pessoas?

Nimrood não deve ter muitos amigos - retorquiu Quentin. Ronsard lançou-lhe uma olhadela de apreço.

- As masmorras devem ser lá em baixo - disse Ronsard, apontando uma forte porta de madeira cintada a ferro, com uma tranca de ferro. - Vamos ver.

O cavaleiro experimentou a tranca e descobriu que esta deslizava com facilidade, apesar de não tão silenciosamente como teria desejado. No entanto, a porta abriu-se de imediato e avistaram uma espiral de degraus de pedra que desciam para a escuridão. Havia uma tocha pronta, num suporte de ferro, mesmo junto à porta. com uma vela a flamejar a seu lado. Ronsard pegou na tocha, acendeu-a com a vela, e iniciou a descida. Quentin seguiu-o e Toli foi atrás.

Quentin pensou que as escadas nunca mais acabavam. mas por fim atingiram um patamar que se abria para uma vasta câmara. Por debaixo deles, a câmara estava repleta de fardos, barris. de montões de armaduras e de lanças e espadas por utilizar.

- Deve estar a equipar um exército! - exclamou Ronsard.

- Aqui é a cave. As masmorras devem ficar por baixo.

Continuaram a descida. Os degraus terminavam numa entrada em arco. Ronsard parou. entregou a tocha a Quentin e espreitou. Havia uma passagem baixa e larga que corria para a esquerda e para a direita, alinhada de celas, e na frente deles via-se outra passagem mais pequena que terminava na escuridão. Ronsard voltou a pegar na tocha e disse:

- Vamos ter de revistar todas as celas. Eu sigo para a esquerda e vocês para a direita.

Não precisaram de muito tempo, porque as celas estavam todas vazias. Encontraram-se os três no local onde as passagens se cruzavam.

- Resta apenas... - começou Ronsard a dizer, calando-se de repente. - Escutem!

Ouviram-se passos do outro lado do arco. A seguir escutaram uma voz:

- Euric ! És tu? Traze a tocha, homem. Euric!

Durante um curto instante, Quentin ficou paralisado. mas depois atirou-se de encontro à parede. Ronsard colocou um dedo sobre os lábios e piscou os olhos. Então. quando o homem dava a volta à esquina do arco. Ronsard colocou-se-lhe na frente e, levantando a tocha bem alto. atirou-lhe o outro punho ao rosto. O homem foi-se abaixo e ficou inconsciente. sem chegar a saber quem. ou o quê, o tinha atingido.

- Deve ser o carcereiro - disse Quentin. apontando para o grande cacete que o homem tinha pendurado no cinto por uma tira de couro, ao lado de uma argola de ferro com chaves.

- Sim. estamos com sorte - respondeu Ronsard, já a puxar o homem por debaixo dos braços e arrastando-o para a cela mais próxima. - Vamos. o caminho deve estar livre.

Avançaram rapidamente e em silêncio pelo corredor mais pequeno e desceram os degraus de pedra. A estreita porta de ferro estava bem fechada. Tinha uma tranca atravessada, presa com um cadeado. No interior, os prisioneiros ouviram os passos no corredor, os estalidos de uma chave no cadeado, e depois a tranca deslizou e a porta abriu-se.

- Ronsard! - A rainha foi quem primeiro o reconheceu. - Meu bravo cavaleiro. encontraste-nos!

- Sabíamos que virias - declarou Durwin. Trenn e Theido olhavam-nos, sem fala.

A seguir entrou Quentin. logo seguido por Toli. Parou a olhar para os amigos, com os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas.

- Quentin! - exclamou Durwin. O eremita precipitou-se para ele. de braços abertos. No instante seguinte Quentin descobriu-se a abraçá-lo tal como teria abraçado o próprio pai. Os outros juntaram-se em volta, dando-lhe pancadas nas costas. Alinea beijou-lhe a face.

Toda a gente falava ao mesmo tempo, com as perguntas a serem feitas em catadupa. Como? Quando? Onde? Queriam saber tudo. Quentin nem dava por isso. Limpava as lágrimas que lhe escorriam pelas faces e considerava que se tratava do encontro mais doce que jamais tivera.

Era um momento que iria guardar para sempre no coração.

 

A fuga do castelo de Nimrood não poderia ter sido mais fácil, ou mais rápida. para grande espanto de Quentin. Bastou subir as escadas de pedra, caminhar pelos corredores do castelo, atravessar o pátio empestado que ficava entre as muralhas interior e exterior e percorrer a ponte levadiça que os levou à liberdade. Quentin continuava à espera que Nimrood. aparecesse de um momento para o outro, para os apanhar e aprisionar, ou pelo menos para lhes impedir a fuga. Todavia. não encontraram ninguém, apesar de terem ouvido uma grande cantoria quando passaram pelo corredor que dava para as cozinhas.

- Uma festa? Aqui?! - admirou-se Ronsard.

- A serpente saiu da toca - disse Durwin, explicando que Nimrood partira para assistir à coroação do príncipe.

- O príncipe? O príncipe Jaspin... coroado? Então as coisas ainda estão pior do que eu pensava! - declarou Ronsard.

- É verdade! - admitiu Durwin.

- Bom, de momento nada podemos fazer - disse Theido. - Teremos de tratar disso quando chegar a altura. Agora, temos de ir libertar o rei verdadeiro.

- Sim - concordou Ronsard. - Está na hora de reunirmos em conselho de guerra.

Reuniram-se sobre os pilares no fim da ponte levadiça e discutiram qual seria a melhor maneira de localizar e libertar o rei. Quentin não ficou muito satisfeito com a missão que lhe deram, que era a de conduzir os outros ao longo do trilho, até ao ponto em que a crista rochosa se juntava à floresta, abrigando-os da vista do resto da estrada. Teria de ficar ali e fazer sinal se os soldados regressassem antes de Theido e Ronsard se lhes juntarem.

- Esperar! - queixou-se Quentin, sombrio, para Durwin, enquanto caminhavam para o esconderijo. - Fiz todo o caminho até aqui para ter de ficar à espera enquanto o salvam. Não é justo!

Apesar de anteriormente não ter pensado no assunto, partira do princípio de que estaria presente quando o monarca fosse salvo. Agora que essa perspectiva lhe fora negada, sentia-se enganado.

- Sim, não é nada justo - concordou Alinea com simpatia. No entanto a rainha está satisfeita com a companhia dos seus protectores.

- Lamento muito... - murmurou Quentin, corando. - Não queria dizer que...

- Compreendo muito bem - interrompeu~o Alinea. - Tinhas todo o direito de lá estar, mas cada um de nós tem o seu papel a desempenhar. E estou-te muito grata, de verdade! Não seria capaz de suportar aquela cela nem por mais um instante. Mais uma vez, prestaste um grande serviço à tua rainha. Nunca o esquecerei.

Quentin ganhou um pouco mais de ânimo e encarou a sua tarefa com maior seriedade. Todavia, o caminho de regresso ao longo da crista rochosa passou-se sem contratempos e atingiram o abrigo da floresta com toda a facilidade. Trenn seguia atrás a resmungar. Também se encontrava aborrecido por ter sido mandado embora no grupo que considerava de "velhos, mulheres e crianças".

Detiveram-se para esperar, na pequena clareira afastada da estrada e bem escondida, mas de onde podiam ver o assustador castelo enpoleirado nas rochas. O local dava uma boa visão tanto para a crista rochosa como para a estrada. Cada um deles se instalou como pôde. Durwin fechou os olhos e não tardou a adormecer.

Esperaram. Os minutos foram-se arrastando de um modo enlouquecedor. Passou-se uma hora. Depois outra. Era demasiado para Quentin, que saltava para a estrada com frequência, para ver se via alguém. Trenn tinha a certeza de que algo correra mal e que deviam voltar para trás para salvarem os amigos recentemente capturados.

A pouco e pouco, o Sol foi descendo o céu da tarde. Que observou a chegada de uma comprida caravana de nuvens vindas do oeste. Decidira que daria aos salvadores o tempo necessário para a última nuvem que passasse por cima do castelo, antes de os ir procurar contra todas as ordens em contrário. Foi salvo desse acto de indisciplina para com os seus deveres pelo aparecimento de figuras sobre a crista rochosa.

- Aí vêm eles! - exclamou, quase a gritar. Toli. que estivera a vigiar a parte inferior da estrada, surgiu a correr. Trenn e Alinea saltaram para a estrada.

- Sim, vem aí alguém. Não consigo perceber... Quantos são? Conseguem ver? - Trenn semicerrava os olhos contra o brilho do Sol, que agora se encontrava ao nível da crista.

Quentin também não conseguia ver tão longe, pelo que se virou para Toli, que espreitou com atenção por instantes e anunciou:

- Lea nol epra. Rbunsar en Teedo.

- Que disse ele? - inquiriu Trenn, ansioso. A rainha não pronunciou uma palavra. Uniu as mãos por debaixo do queixo e fechou os olhos.

- Disse que eram apenas dois, Ronsard e Theido. O rei não vem com eles - explicou Quentin. - Lamento muito. senhora.

Momentos depois, Theido e Ronsard aproximavam-se deles. Theido, ofegante por causa da corrida ao longo da íngreme crista. declarou, entre golfadas de ar:

- Não está lá. O nosso rei foi-se embora. Procurámos em todo o castelo... e até forçámos o camareiro, que apanhámos a dormir, a abrir as portas de todos os armários. Disse que tinham todos partido. com Nimrood. mas ele próprio não sabia o que queria dizer com esse ,...

- Têm a certeza? - gritou Trenn. A sua angústia era autêntica e falava em nome dos restantes. - Ali em cima podem existir dez mil sítios onde esconder um homem!

- E nós procurámos em dez mil sítios! - retorquiu Ronsard. com o desapontamento a carregar-lhe o rosto. - Podem ter a certeza de que não se encontra no castelo.

Sim, têm razão - disse Durwin, que se mantivera muito calado durante todo aquele tempo. Quentin pensara que Durwin adormecera. Estive a sondar o éter, em busca de um sinal. Não senti quaisquer vestígios da presença do rei. Ao que parece. o camareiro disse a verdade. o maldito Nimrood levou a sua presa com ele. Devia ter calculado.

- Faz sentido... - admitiu Ronsard com relutância. - Foi por isso que não se nos deparou qualquer resistência quando entrámos no castelo.

- E nenhuma também à saída - acrescentou Theido. - Agora temos de descobrir maneira de sair desta maldita ilha.

- Talvez isso também não seja difícil - disse Quentin. - É provável que o navio que nos trouxe, a mim e ao Toli. ainda se encontre na baía.

- Excelente! Quentin acaba de nos fornecer um navio! Para a praia, vamos!

- Não é um grande navio - acrescentou Quentin com um ar apo logético.

Até podia ser um balde com remos! - exclamou Theido.

Desde que nos leve para longe daqui. serve perfeitamente. Indica-nos o caminho!

Quentin e Toli partiram imediatamente, com Toli a correr à frent para investigar a estrada, não fosse dar-se o caso de se lhes depararem os soldados de regresso. Porém, o caminho estava livre, e atingiram área de floresta rala, junto à praia, quando as suas sombras alcançavam o comprimento máximo. - A baía fica já aí... - murmurou Quent - por detrás dessas árvores. Toli irá ver o que houver para ver.

Fez um rápido sinal ao jovem da floresta, e Toli desapareceu num abrir e fechar de olhos, confundindo-se com as manchas de luz e sonbra lançadas pelo crepúsculo que se aproximava.

Regressou passados poucos minutos. Disse algumas palavras para Quentin. enquanto os outros os olhavam. ansiosos. Quentin virou-se declarou:

- O navio está lá... - A seguir teve de deitar um balde de águ fria sobre as esperanças dos antigos cativos - mas os soldados tanbém. Toli diz que acamparam na praia.

- Que estranho - comentou Theido. - Porque teriam feito uma coisa dessas?

- Pelo menos ficámos a saber por que motivo não os vimos no castelo - disse Ronsard.

- Ora! - troçou Trenn. - Quantos são? Chegamos bem para eles mesmo que sejam dez contra cada um de nós.

- Concordaria contigo... se não fosse o facto de não termos arma

- Não precisaremos de esperar muito para que chegue a escuridão - interveio Durwin. - Talvez possamos ter uma qualquer ideia entre o agora e o então.

O grupo instalou-se para aguardar a chegada da noite. No entanto, mal se tinha arrumado confortavelmente, quando Durwin deu um salto.

- já sei! Descobri uma diversão perfeita!

- Shhh! Não precisaremos de uma diversão se aqueles cães descobrirem que estamos aqui! - protestou Trenn.

Durwin não lhe deu atenção e lançou uma mirada para o céu.

- Depressa! Temos muito pouco tempo. Precisamos de juntar algumas coisas.

Explicou a cada um o que deveriam ir procurar na floresta: a casca de certas árvores. folhas de determinado tipo, algumas pedras e outras coisas vulgares.

- Apressem-se e tragam-me tudo o que encontrarem!

Quando o Sol se pôs, Durwin tinha na sua frente uma pequena montanha das coisas que pedira. Lançou-se ao trabalho, partindo, pulverizando, amassando e misturando as substâncias. e fazendo montinhos diferentes. Quando surgiu a primeira estrela da noite, anunciou:

- Acabei! Agora, estamos prontos! Theido e Ronsard, rastejem pela floresta até à beira da praia. Abram três buracos, assim... - Durwin indicou o tamanho - um de cada lado do trilho que vai da praia para a floresta, e outro mesmo no meio. Quentin e Toli. cada um de vocês leva um bocado disto - prosseguiu, apanhando uma braçada do que preparara - e sigam-me. Trenn, Alinea. recolham lenha. e vão ter connosco à beira da praia.

Toda a gente entrou em acção depois daquelas palavras. Depois de os buracos terem sido escavados na areia e aprovados por Durwin, as depressões foram cheias com as coisas que Durwin pedira, cuidadosamente dispostas em camadas, com uma apreciável paciência. A seguir. Durwin pegou na sua bolsa de couro e despejou o conteúdo por cima dos três montes.

Na praia, os soldados tinham acendido uma fogueira e cozinhavam o jantar. O som das gargalhadas rudes e da grosseira conversa chegava até onde o grupo trabalhava em silêncio. sob os olhares vigilantes de Toli. que fora posto de sentinela, não fosse acontecer que alguns dos soldados decidissem ir até à floresta.

- Agora - disse Durwin - vamos acendê~las.

- Um momento - implorou Ronsard. - Diz-nos o que irá passar-se aqui.

- Ah, não vos disse? Criámos um dragão para entretenimento dos soldados. Posso garantir-lhes que fugirão aos gritos. Acendam as piras que fizemos e escondam-se bem. Quando os soldados fugirem, corra para o barco. Irei ter convosco.

- Mas onde é que vai? - perguntou Theido.

Nesse instante, Trenn dava o alarme:

- Vem aí alguém!

- O dragão precisa de uma voz! - explicou Durwin, virando-se para correr para os bosques.

- Espera! - exclamou Ronsard. num murmúrio tenso. - Não temos com que fazer lume!

- Quê?! - gritou Durwin, com uma expressão espantada. - Oh está bem! Suponho que ainda poderei fazer certas coisas.

Baixou-se e removeu um fino ramo de uma das piras em miniatura. Segurou o ramo na sua frente e levantou a outra mão, colocando-a bem alta, sobre a cabeça, murmurando as palavras de um encantamento antigo, de olhos fechados. Desceu rapidamente a mão e de um dedo para o ramo, saltou uma faísca azul. O ramo começou a arder.

- Pronto! Acendam as piras com isto, rápido. Não há tempo para mais explicações. Metam-se no barco e afastem-se logo que o caminho esteja livre.

- Depressa! - avisou Trenn. - Estão a aproximar-se e irão acabar por nos ver!

Theido, que segurava a chama, acendeu a primeira pira.

- Escondam-se e preparem-se! Quando eu der sinal, corram para o barco!

Acendeu as outras piras e ocultou-se ao lado do trilho. Dos lados da praia chegavam-lhes grandes gargalhadas. Era óbvio que os soldados tinham bebido uma boa quantidade de vinho e começavam a sentir-lhe os efeitos. Dois outros haviam-se juntado ao primeiro e avançavam também para a floresta, para se aliviarem.

Quentin olhou para as piras, nos seus buracos na areia. Tanto quanto pudesse ver, nada de especial se estava a passar aí. Os farrapos de fumo erguiam-se no ar, quase invisíveis na escuridão que descera sobre a floresta.

Então, enquanto olhava, da pira central ergueu-se uma grand bolha de fumo, seguida por uma bolha proveniente de cada uma das outras. As bolhas achataram-se e espalharam-se, serpenteando por cima da areia, em direcção à praia.

- Olha! - disse Quentin para Toli, escondido a seu lado. - É o bafo do dragão!

As piras libertavam agora um fumo azulado que deslizava para a praia, muito baixo, junto ao chão, como se fosse um nevoeiro a cobrir a areia. O fumo avançava, contorcendo-se. iluminado pelo fogo verde da pira que ardia por baixo dele. Contorcia-se e lançava tentáculos, escorrendo pela praia abaixo em direcção à água.

O primeiro soldado, que cambaleava pelo caminho e entoava uma quadra a plenos pulmões, parou e olhou para o chão com um ar de bêbado quando o fumo lhe envolveu os pés e lambeu as pernas. Recuou, quase caindo em cima dos dois que o seguiam. Durante algum tempo ficaram todos a olhar para o misterioso nevoeiro que remoinhava em volta deles, engrossava e continuava a deslizar.

Quentin sentiu-a antes de a ouvir... Uma nota muito baixa que lhe vibrou dentro do peito. Chegou a parecer-lhe que a rocha que se encontrava a seu lado estremecia também, respondendo ao som.

A nota aumentou de volume, tomando-se mais e mais alta. Juntou-se-lhe um silvo agudo, o som de vapor a escapar-se de uma fissura na terra, ou de uma monstruosa serpente encolhendo-se para desferir o ataque. Então, de repente, escutou-se um rugido que fez tremer a floresta. os arbustos agitaram-se como que soprados pelo vento, mas não havia vento. Caíram folhas das árvores.

Quentin sentiu um tremor de excitação a percorrer-lhe as costelas. De olhos muito abertos, virou-se para Toli, que lhe devolveu o olhar com um largo sorriso.

- O rugido do dragão.

Os três soldados que se encontravam na praia, inicialmente intrigados, e agora alarmados, perderam a coragem e recuaram. Viraram-se como que para fugir, mas não se ouviam cantorias, e vários homens olhavam para a floresta.

O rugido voltou a ouvir-se, desta vez ainda mais alto. De algures, no meio dos bosques, surgiu um grande clarão, um raio de luz que apareceu no meio de um céu limpo. Sob aquela breve iluminação, Quentin viu os rostos aterrorizados dos homens na praia. O ar de indizível horror que aparecera como que por magia em todas aquelas caras provocou-lhe uma contracção de medo no estômago. E se o dragão na realidade existisse?

O clarão de luz foi seguido por um estranho som, o estalar de ramos de árvores a serem quebrados e os estouros abafados de troncos a caírem por terra.

- Que os deuses nos valham! - gritou alguém na praia. - Vem aí o dragão!.

O fumo deslizante atingira o grupo de homens que se encontrava na praia.

- o bafo do dragão! Estamos perdidos!

Dois dos homens que se tinham dirigido para a floresta correram de volta para junto da fogueira, deixando o outro caído sobre os joelhos, aterrorizado. tapando as orelhas com as mãos e de olhos fechados com toda a força. Murmurava qualquer coisa. e depois caiu para frente. de rosto enterrado na areia.

- Vamos morrer todos! - gritou alguém. Os cavalos, amarrados à traseira da carroça, conseguiram libertar-se e relinchavam de medo escoiceando quem quer que se aproximasse deles. Os homens começaram a correr de um lado para o outro, na praia, em busca das armas.

Então, das piras fumegantes ergueu-se um estranho brilho que envolveu toda a cena num espectral clarão verde. O rugido voltou a ouvir-se, agitando os ramos e - desta vez Quentin teve a certeza - abalando as rochas. Lançou um tímido olhar por cima do ombro e imaginou ver a enorme forma negra de um terror sem nome, movendo-se através das profundas sombras da floresta. enquanto aumentava o barulho de ramos a estalar e arbustos a serem esmagados. O ar cheirava enxofre a arder. As piras, que lançavam o seu clarão fantasmagórico, explodiram de repente numa chuva de faíscas e minúsculas brasas, tornando-se em fontes que jorravam chamas.

Os soldados, dispersos e confusos. soltaram um grito em uníssono e Os cavalos sobressaltaram-se e fugiram pela praia. Depois de um instante de hesitação, os homens largaram as armas e fugiram, alguns para irem mergulhar no oceano, pedindo a protecção das ondas. Outros correram ao longo da praia para se esconderem entre as rochas. Não foi preciso mais do que o tempo de três batimentos do coração para qi não se visse um único soldado na praia, excepto os que se tinham deixado cair na areia.

- Mexam-se! - gritou Theido. Quentin descobriu que, quando ouviu o grito, as suas pernas já tinham entrado em movimento, tão depressa quanto podiam, em direcção à beira da água.

Atirou-se para a periclitante rampa de madeira. e saltou por cima da amurada para bordo do pequeno navio. Precipitou-se ao longo do convés. em direcção ao cabo de atracação. debatendo-se para o soltar. Nem olhou para cima quando sentiu as mãos de Toli no cabo. trabalhando tão febrilmente como as suas.

- Estão todos abordo? - perguntou Theido.

Ronsard. de pé no fundo da rampa, com os braços cheios de espadas e um ou dois escudos. gritou-lhe de volta:

- Não vejo Durwin. Deve estar a chegar...

Quentin olhou para a praia, em direcção à floresta. No clarão verde das piras Fumegantes. pareceu-lhe ver a forma enorme de um dragão negro a avançar. Dois grandes círculos de luz brilhavam na noite. Soou mais uma vez UM rugido de gelar o sangue nas veias. Então. inexplicavelmente, Durwin emergiu do meio do fumo e pareceu dançar ao longo do caminho até ao barco.

 

Do alto da muralha, o príncipe Jaspin observava os preparativos de última hora para a sua coroação. Em baixo, nos prados de Askelon, nascera uma centena de pavilhões coloridos semelhantes a flores de Verão. Os lordes e as suas damas passeavam pelos relvados enquanto os servos circulavam entre eles. cumprindo as suas importantes tarefas.

O ar estava perfumado com os odores de milhares de ramos de flores, com o saboroso aroma de carne a assar sobre as fogueiras, e com os cheiros dos doces a serem preparados para a grande festa. Por todo o lado para onde olhasse deparava-se~lhe apenas muita cor e um ar festivo. o que deliciava. e encantava até. os seus olhos exaustos.

Esfregou as mãos gorduchas e estremeceu em paroxismos de prazer.

Jaspin assumira apressadamente uma aparência real. Ostentava anéis em todos os dedos e do pescoço pendiam-lhe correntes de ouro. As suas formas rotundas exibiam um belo casaco de brocado com largas mangas de renda. Cobrira a cabeça com um chapéu achatado, bordado a ouro. e os compridos cabelos castanhos haviam sido encaracolados especialmente para aquela ocasião. Calçara os pés com botas de couro dourado e enfiara as pernas nas mais belas meias, que surgiam de uns curtos calções de veludo, apertados nos joelhos com botões de prata. Era a perfeita imagem da graça da realeza.

A sua entrada na cidade, no dia anterior. não fora menos grandiosa e majestosa. Todos os seus cavaleiros. envergando as mais belas armaduras e montados nos melhores cavalos, haviam cavalgado com ele numa procissão triunfante que atravessara a cidade. As ruas estavam cheias de multidões de basbaques que soltavam vivas quando a ocasião os requeria. Para uns ouvidos um. pouco mais objectivos, os vivas talvez não fossem nem muito efusivos nem suficientemente sentidos, mas de qualquer modo para Jaspin, mergulhado na sua própria onda de pompa e circunstância, aqueles aplausos pareciam-lhe a maior adulação possível. Na realidade os seus ouvidos escutavam aclamações tão entusiásticas que o príncipe Jaspin, inesperadamente, abrira os cordões à bolsa e começara a atirar ducados de ouro e de prata para a multidão. Isto. é claro. provocou manifestação de ainda maior aprovação por parte da populaça, que na sua maior parte era formada pelas classes mais baixas do reino. Os que não tinham grande amor por Jaspin, os cidadãos mais sinceros. haviam-se mantido longe da procissão.

Uns olhos mais objectivos teriam verificado que as aclamações provinham de gargantas que poderiam ter sido descritas como pertencendo à ralé. No entanto, para Jaspin, todos eles eram lordes e damas, e pares da nobreza.

Nessa noite tinham-se efectuado cerimoniais apalhaçados, festejara-se e bebera-se até altas horas da noite. Jaspin, ao contrário do que lhe era habitual. retirara-se cedo para que o vinho não viesse a dar-lhe cabo da felicidade daquele dia.

Agora, olhava radiante para a cena da sua glória, como se fosse o próprio Sol despejando uma rara beneficência sobre todos os que passavam sob os seus olhos.

Passou-lhe uma sombra pelos olhos. Jaspin olhou para cima e viu uma grande ave a pairar no céu. Virou-se e regressou aos seus aposentos. para acabar de se arranjar para as cerimônias que iriam começar em breve e continuariam por vários dias. Ouviu um grasnar no exterior da varanda, deu meia volta e verificou que a ave que vira momentos antes se preparava para pousar na balaustrada. Antes de poder pensar ou falar, a ave modificou-se, tornou-se maior, e as suas formas foram-se transformando. Num abrir e fechar de olhos tinha na sua frente a temível figura de Nirmood. que lhe bloqueava a luz do Sol. O frio dedo do medo tocou no coração de Jaspin.

- Que queres? - perguntou o príncipe, ofegando.

- Ora, vamos! Ambos sabemos o que quero. Para quê fingir que não? - O feiticeiro exibiu o seu sorriso de serpente. - Quero o que me prometeste - acrescentou, num tom que era um silvo insinuante.

- O que prometi? Não prometi nada que não te tivesse já dado. Querias o rei... e entreguei-to. Foi esse o nosso acordo.

- E pensaste que me satisfaria apenas com isso? Que ingénuo que és... - Os olhos negros de Nimrood despediam fogo, e o cabelo desordenado agitava-se como que soprado pelo vento. - Não! Prometeste uma parte do teu reino a quem quer que te ajudasse a conseguir o trono. Dei-te o trono. Dei-to. compreendes? - O feiticeiro andava de um lado para o outro. raivoso. - Agora, exijo o pagamento!

- E qual é o pagamento que desejas? - perguntou o príncipe. cautelosamente. Se se sentisse muito apertado. estava preparado para protestar tão alto como qualquer mágico louco. pelo menos no que respeitava à sua riqueza.

- Metade do teu reino. - Nimrood lançou-lhe um sorriso grotesco. - Metade do teu reino, principelho.

- Nunca o terás, por Azrael! Ousas pedir-me tal coisa?! Desaparece, miserável...

As palavras ficaram-lhe subitamente atravessadas na garganta. Jaspin fitava. aterrorizado. os olhos semicerrados de -Nimrood, em cujas profundezas havia um clarão vermelho.

- Podia esmagar-te como a um insecto, príncipe. Não brinques comigo. Sou o teu senhor. Queres ser rei? Muito bem, serás rei... mas ao meu preço.

- E se me recusar? - guinchou Jaspin, sentindo-se miserável.

- Não podes recusar.

- Não posso? - O príncipe tornou-se sombrio. - Quem mo poderá impedir? Dentro de dois dias estarei a usar a coroa. Serei o monarca, independentemente de tudo o resto.

- Pergunto a mim mesmo se os teus regentes te entregariam a coroa com tanta facilidade se Eskevar aparecesse de repente...

- Disseste-me que estava morto. Enviaste-me o anel...

- Não está... mas é como se estivesse. Está aqui perto, mas bem escondido. Nunca o conseguirás encontrar. No entanto, pode ser feito reviver para reclamar mais uma vez o trono. É algo que te posso garantir.

- Não o farias! - troçou o príncipe. - Darias cabo de tudo o que obtiveste até agora, e os teus planos ficariam desfeitos.

- Ah, mas a visão de dois irmãos envolvidos num combate mortal dar-me-ia grande satisfação. Não deve ser preciso dizer-te quem venceria esse combate. - Os olhos de Nimrood brilharam de triunfo.

enquanto se endireitava a toda a sua altura. - Então, o que escolhes? A coroa, ou o regresso de Eskevar no momento menos oportuno?

- És pior do que uma serpente! - Jaspin lançou as mãos ao ar, desesperado. - Está bem! Está bem! Terás o que pedes. E que garantias me dás? Como é que posso ter a certeza de que farás o que dizes?

- Tens, príncipe chacal, a certeza sobre o que farei se me atraiçoares. Para além disso... nada! Nimrood não condescende para com nenhum mortal.

O rosto de Jaspin avermelhou-se de raiva, mas não ousava expressá-la em frente do necromante. Conteve a língua, pois a discrição era em grande parte formada por medo.

- Então, estamos de acordo - tranquilizou-o Nimrood. - Voltarei dentro de quinze dias para receber os necessários títulos das minhas novas terras. Além disso, trarei comigo um penhor, que te recordará a promessa que fizeste... e te mostrará qual poderá ser o teu destino, se a renegares.

Nimrood deu meia volta, com a capa a esvoaçar atrás dele. Saltou para cima da balaustrada e lançou-se no espaço sob o olhar horrorizado de Jaspin. Porém, no instante em que começou a cair, a sua forma modificou-se outra vez, tão depressa que até pareceu nem se ter modificado e ter permanecido sempre como um grande corvo negro que bateu as asas em direcção ao céu.

 

Quentin dormira pouco, e mesmo esse pouco fora um sono muito agitado. Mexera-se e virara-se, durante o sono, como se estivesse com febre. Ouviu vozes a chamar pelo seu nome, mas, quando acordou, as vozes desapareceram, deixando apenas o chapinhar da proa a cortar as águas.

Desistiu de conseguir algum descanso e foi sentar-se ao lado de Durwin, que se encontrava ao leme.

- Navegar pelas estrelas não é difícil, quando se lhe ganha o jeito - respondeu Durwin à pergunta de Quentin. - Como tudo o mais, trata-se apenas de saber o que procurar.

- Havia mesmo um dragão, a noite passada, na praia? Quero dizer... Vi qualquer coisa, mas não sou capaz de dizer o que era.

- Era uma ilusão... Um vapor, nada mais.

- Só isso? Então e aquele terrível rugido, as luzes. o cheiro? - Quentin franziu o nariz ante a recordação. - Como é que o conseguiste?

- Como já disse antes, um antigo feiticeiro, que desistiu do seu poder, ainda pode conseguir algumas coisas. É~me permitido interceder. para o bem, em momentos de necessidade presente, mas mesmo assim há um preço a pagar. O poder exige sempre um preço a pagar. Os meus grandes poderes estão agora fora do alcance, mas ainda bem que desisti deles.

Quentin ficou em silêncio, pensando no assunto. Quando voltou a falar, foi para perguntar:

Por que razão o fizeste?

- Pôr de parte os meus poderes? É muito simples: um homem não pode servir dois amos diferentes ao mesmo tempo. O Poder é um amo terrível. Nunca exige menos do que toda a nossa vida.

- E quem é o outro amo?

- Isso já tu sabes. O outro é o Mais Alto, o deus, o único. Também ele exige toda a nossa vida, mas nele há vida, em vez de morte.. que é onde o Poder acaba sempre por nos conduzir.

- O poder não pode ser usado para o bem? Como esta noite, na praia?

- Ah, sim. Porém, aquilo não passou de um poder muito pequeno Sabes, surge~nos sempre a tentação de o usar cada vez mais. e de no dedicarmos cada vez mais ao seu domínio. Porém, apesar de sermo nós quem o tem, é o Poder quem nos domina. e tudo acaba sempre em escravidão e morte. Mais tarde ou mais cedo, o Poder destrói tudo aquilo em que toca.

- E irá destruir-te? - Quentin odiava a ideia, mas queria saber

- Quem sabe? Talvez! - respondeu Durwin, rindo-se baixinho

- Mas disseste-me que desististe dele.

- É verdade. Porém, o Poder foi forte em mim durante muitos anos. Usei-o como me apeteceu, para os meus próprios fins e. como já disse, temos sempre um preço a pagar. Estive quase para o recuperar outra vez, em Dekra, mas cabeças mais sensatas do que a minha aconselharam-me a não o fazer. Perceberam que. mesmo que se se verifi casse a queda de um reino, esse facto não merecia a perda de uma alma... apesar de essa triste alma ser a minha!

- Então, se o puseste de parte, como é que te pode prejudicar

- Quem o poderá saber? Esta noite, na praia. usei apenas um resto da minhas antigas capacidades... e já estou a sentir um impulso para usar mais... Devora-nos a alma até nada restar. Porém, o deus é ciumento. Desisti de muito do que podia ser seu. Quem poderá saber no que me poderia ter transformado se não tivesse desperdiçado tanto de mim nas artes negras? Durwin falava sem tristeza. mas Quentin pressentia pesar na voz do eremita, Pesar por algo que fora perdido e nunca mais seria recuperado.

- Tu, por exemplo... - continuou Durwin, segurando a barra do leme nas mãos que tinha pousadas sobre os joelhos - tens a melhor oportunidade. Ainda és jovem. Para mim, é muito tarde.

Quentin ficou triste, mas compreendeu o que o eremita lhe queria dizer - Conheço o deus de que falas. O único.

- Conheces? Como?

- Encontrei-o numa visão. Em Dekra. Recebi a bênção dos Ariga de Yeseph e dos anciões. Foi na noite antes de partirmos.

- Conta-me como foi.

Quentin relatou tudo o que lhe acontecera em Dekra, culminando na cerimônia da bênção. Durwin escutou a história com toda a atenção. acenando e fazendo ruídos de aprovação.

Pela segunda vez, Quentin mergulhou na sensação que experimentara naquela noite. Parecia-lhe ter sido há tanto tempo... Descreveu o Homem de Luz e as palavras que este pronunciara. "O teu braço será o braço da virtude, e a tua mão a mão da justiça", citou. Num clarão súbito e muito vivo, entrou mais uma vez no espírito da sua visão. "Serei a tua força e a luz a teus pés. Não me esqueças. e dar-te-ei a paz para sempre."

- Ah... - murmurou Durwin, no fim. - Viste-o. Agora. já sabes. Todos aqueles que o encontraram não podem voltar a ser o que eram antes.

- Vê-lo muitas vezes?

- Nunca o vi - respondeu Durwin com toda a simplicidade.

- Nunca?! - A resposta chocou Quentin. Sempre pensara que, entre todas as pessoas, o eremita deveria ser a que estava em contacto mais íntimo com o Mais Alto.

- Não. nunca. e não preciso de o ver para saber da sua presença e para aprender o seu caminho. Basta-me que me tenha aceite como seu servo. Fico satisfeito.

- Mas eu pensei... Sabes tanto a seu respeito...

- Suponho que sim... que sei a seu respeito. Dá à vida de cada homem uma tarefa especial e uma bênção para a levar a cabo. Foste escolhido para uma grande obra, e a tua bênção é especial. Nunca me apareceu. Sim. recebeste uma bênção do Poder, tal como diria Yeseph.

Quentin estava confuso. Durwin nunca vira o deus que servia com tanta fidelidade. As palavras do eremita ecoavam-lhe na mente: "É suficiente. fico satisfeito.

Quentin deixou-se envolver por aquelas ideias. Só se mexeu quando ouviu os passos que se aproximaram dele.

- Vocês dois têm de ir dormir um bocado antes de a noite chegar ao fim - disse Theido. - Eu tomo conta do leme. Vão descansar. Em breve será manhã e entraremos no porto de Valdai ao meio-dia. Soltou uma gargalhada e acrescentou: - Isto é, se este nosso eremita caçador de dragões não nos tiver levado para o mar alto!

- Mantém a proa alinhada com aquela estrela mais baixa, além (é a do nosso porto) e a Lua por cima do teu ombro direito à medida que for descendo. Isso levar-nos-á ao nosso destino. Boa-noite.

Estavam três grandes navios ancorados no porto de Valdai.

Eram navios de guerra, disse Ronsard, mas não conseguia perceber a quem pertenciam. Encontravam-se ainda demasiado longe para se fosse o que fosse excepto os altos mastros e os grandes cascos recortados contra o fundo nublado do porto.

Ronsard e Trenn mantiveram-se junto da amurada, ansiosos, à espera de verem o primeiro símbolo identificador: um pendão, uma bandeira, alguma cor ou forma que conseguissem reconhecer.

- São do rei Selric! - gritou Ronsard quando finalmente se aproximaram o suficiente para distinguirem a bandeira que flutuava no topo do mastro mais alto. - É o seu estandarte de batalha! Conheço-o

bem como ao meu!

- Sim, parece ser Seldric - confirmou Trenn. - Há quanto tempo eu não ouvia esse nome?

- Que pensas? - perguntou Theido. - É o princípio do regresso dos exércitos?

- Ah, sim! Quase me esquecia disso! - gritou Ronsard, cheio de júbilo.

Quentin, apesar de não saber porquê, foi arrastado pela mesma excitação que invadira os seus companheiros. Ficou a observar enquanto o seu pequeno navio entrava na baía e se dirigia para o logar de atracação. Ao pé dos poderosos navios de guerra, a pequena embarcação de velas negras parecia um brinquedo desajeitado. Quentin ficou de boca aberta ante os enormes cascos e altíssimos mastros. Nunca viu nada tão grande a flutuar nas águas, e agora, de repente, deparava-se-lhe três navios gigantescos, cópias fiéis uns dos outros, que demonstravam, com as suas linhas ousadas e graciosas, o poder e habilidade do seu proprietário.

- Há quanto tempo estarão aqui? - interrogou-se Theido.

- Não muito. creio - replicou Ronsard. - Não se encontravam no porto quando Quentin cá esteve, pois recordar-se-ia de os ter visto. - Quentin acenou um assentimento.

- Ah. sem dúvida que chegaram há pouco tempo! - exclamou Trenn. - Olhem, ainda estão a desembarcar as tropas. O exército de Selric desce para terra. - Agitou um braço, e os que se encontravam junto da amurada verificaram que o guarda tinha razão. Os compridos barcos a remos ainda estavam a transportar soldados para o cais. O último navio estava a ser descarregado.

- Se bem conheço Seiric... - disse Ronsard -, é ali que ele está! - Apontou para o navio mais afastado. - É comandante até ao fim, permanecerá a bordo até ter desembarcado o último homem.

Não perderam tempo e foram à procura de Selric.

Encontraram-no, tal como Ronsard previra, a vigiar o desembarque dos homens a partir do castelo de popa do seu navio. Ao ver Ronsard, Theido e a rainha, precipitou-se pelas escadas para o convés para os receber pessoalmente. Após uma curta troca de palavras com Alinea, convidou-os para uma conferência nos seus aposentos pessoais. Foi aí que a rainha lhe contou a história da traição de Jaspin e a provação do rei.

Apesar de ninguém o ter dito em voz alta, todos haviam partido do princípio de que Selric seria compreensivo para com o problema que enfrentavam. Foi muito mais do que compreensivo. Selric, rei de Drin, extravasou a sua fúria quando soube o que acontecera enquanto ele e os seus exércitos suportavam o Inverno nas costas de Pelagia, esperando pelos primeiros ventos da Primavera para içarem as velas e voltar para casa.

Patife impudente! - gritou Selric, batendo com o punho fechado na palma da outra mão, enquanto andava de um lado para o outro nas suas instalações de comandante. - As suas ambições são muito maiores do que as capacidades! Se depender de mim... isso vai custar-lhe a cabeça!

- Então irá ajudar-nos, meu senhor? - perguntou Alinea.

- Ajudar-vos?! Claro que vos vou ajudar, por todos os deuses do Céu e da Terra! - praguejou Selric. As cores tinham-lhe subido ao rosto, competindo com o cabelo ruivo e inflamando o seu lendário temperamento explosivo.

Prosseguiu, sempre a andar furiosamente de um lado para o outro:

- Não sabem que Eskevar me salvou a vida, e as vidas dos meus homens. mais vezes do que as que consigo recordar? Nenhum dos homens que lutaram contra Gorr deixariam de estender as mãos para o ajudar, por Zoar!

Quentin observava o drama com atenção. Selric era o primeiro monarca que via. Estava fascinado com aquela figura delgada e poderosa. com um cabelo de um vermelho violento, que explodia de energia incontida. Selric não era capaz de estar quieto um instante. Mesmo quando se sentava. o que raramente fazia, as suas mãos agitavam-se e contorciam-se, os olhos saltavam de um lado para o outro, não perdendo um pormenor do que via, por muito trivial que fosse.

Naquele momento, Selric era um leão furioso e pronto para o ataque. Quentin estremeceu por dentro. perguntando a si mesmo o que seria ter de enfrentar aquele feroz comandante.

- Quando é que podemos partir? - inquiriu Theido.

- Ora, imediatamente! Partiremos imediatamente! Nesta mesma noite!

- Mas os homens acabaram de desembarcar... - observou Ronsard.

- Bah1 - trocou Seiric. - Os homens passaram todo o Inverno em terra! Vou ordenar que os trombeteiros toquem imediatamente a reunir!

Selric atingiu a porta com duas longas passadas.

- Kellaris! - gritou. Instantaneamente. apareceu à porta um homem com o rosto cheio de marcas profundas. Baixou a cabeça e entrou nos aposentos do seu monarca, cheios de gente.

- Ao seu serviço. senhor - disse, fazendo uma ligeira vénia com a cabeça.

- Kellaris, acabei de receber más notícias. Envia os trombeteiros a terra, para tocarem a reunir por toda a cidade. Temos de embarcar os homens o mais depressa possível. Mais tarde explicar-te-ei os motivos. Vem informar-me quando tudo estiver pronto.

Ás ordens, senhor. - Nova inclinação da cabeça, e o homem saiu. Quentin inclinou-se para Toli e murmurou-lhe qualquer coisa junto do ouvido. Toli acenou e abandonaram os dois a cabina, sem que os outros dessem por isso, pois estavam de novo a discutir o que iriam ter pela frente.

 

O céu da noite resplandecia com o brilho faiscante de um bilião de minúsculas estrelas, cada uma delas uma jóia resplandecente de encontro ao azul-escuro dos céus.

Fora um dia muito comprido, pensou Jaspin. Um dia longo e glorioso. A coroação fora tudo o que desejara: uma exibição brilhante e estonteante. Um espectáculo de pompa e poder. Finalmente, era rei. Revirava aquele pensamento na cabeça, infindavelmente, enquanto passeava ao longo da varanda que dava para os magníficos jardins por debaixo do grande salão. A noite ainda respirava o calor do dia e oferecia o perfume entontecedor de um milhar de grinaldas que enfeitavam tanto o salão como tudo aquilo em que os olhos pousavam ao acaso.

O rei Jaspin suspirava de profundo contentamento, passeando com as mãos atrás das costas, cantarolando para si mesmo. Os convidados, aos milhares, ainda festejavam e dançavam no grande salão, ou então passeavam, tal como ele, nas varandas ou jardins que lhe ficavam por baixo, sob o suave luar.

Porém, - Taspin. desejoso de ficar sozinho durante algum tempo, virou as costas aos festejos e procurou um lugar mais privado. Subiu um curto lanço de escadas, que levava a uma pequena barbacã aninhada nas muralhas, com vista para a varanda que lhe ficava por baixo. Ali, em tempo de guerra, era costume haver um soldado de sentinela, vigiando o pátio interior.

Mal pusera os pés no último degrau da plataforma quando ouviu um silvo distinto e um leve rastejar sobre as pedras frias. Jaspin ficou como que congelado, receoso de se mexer. Sentiu os cabelos da nuca a porem-se de pé.

Então, sob o luar prateado, viu uma grossa serpente negra estendida sobre a balaustrada de pedra cinzenta. Jaspin avistou com clareza a cabeça angulosa e as contas brilhantes dos olhos quando o réptil se aproximou dele a deslizar.

De repente, sob os olhos de Jaspin, a serpente enrolou-se num monte e desapareceu, tomando-se num fino farrapo de vapor que se contorcia no ar. O vapor condensou-se numa massa amorfa que pairou mesmo em frente do rosto horrorizado de Jaspin. Dentro daquela massa de nevoeiro via os vagos contornos de um rosto que conhecia demasiado bem.

- Nimrood! - exclamou Jaspin num murmúrio abalado, sem desejar chamar a atenção de alguém que andasse por perto. O rosto,

no nevoeiro, tornou-se cada vez mais distinto. As temidas feições do feiticeiro fixaram Jaspin e declararam:

- Não tenho tempo para uma troca de delicadezas. - A voz era fraca e distante.

- Mas tu alguma vez... - começou Jaspin a dizer, mas foi interrompido.

- Vim apenas avisar-te de que os prisioneiros fugiram.

- E que tenho eu com isso?

- Não cometas o erro de brincar comigo, rei chacal. - Mesmo sob a forma de um nevoeiro nocturno, os olhos de Nimrood despediam raios. Jaspin. sentiu o terrível poder do feiticeiro e mergulhou num silêncio rígido.

- Assim é melhor. Tu e eu somos sócios, meu obtuso amigo. Nunca te esqueças disso. No fim de contas, partilho metade do teu trono. Metade de Mensandor é minha... ou sê-lo-á muito em breve. Se me dou ao trabalho de te avisar, é porque o assunto te diz respeito. Não tenhas dúvidas!

- Os prisioneiros, disseste? - Jaspin tentou parecer devidamente preocupado, o que era dificil, atendendo às circunstâncias.

- Esqueceste-te assim tão depressa? Ou nem sequer foste capaz de adivinhar? - Os olhos de Nimrood captaram a expressão que foi a resposta à sua pergunta. - Idiota, concedo-te sempre um crédito de inteligência maior do que mereces! Não sabias que tinha nas minhas masmorras o rebelde Theido e alguns dos seus amigos? A rainha Alinea e vários outros, incluindo um dos teus guardas, bem como um eremita chamado Durwin? Ronsard deveria encontrar-se também entre eles, mas presumiu-se que se tinha afogado.

Por muito que tentasse, Jaspin não conseguia estabelecer qualquer relação entre aquela gente e qualquer possível ameaça para ele, apesar de o grupo lhe parecer muito suspeito. Exibindo uma expressão vazia, pestanejou na direcção do rosto interrogativo de Nimrood.

- Pensei que estavam escondidos em Dekra.

- AIL nem sei porque é que me preocupo contigo! Escaparam-se e estão de volta aqui. Adivinha o resto... se fores capaz. Entretanto, toma em atenção o meu aviso e defende a tua coroa. Tratarei de os apanhar o mais depressa possível. Os meus espiões já estão em campo, em busca do seu paradeiro. Não ficarão em liberdade muito mais tempo.

- Mas... - balbuciou Jaspin. Porém, o vapor que contivera o rosto de Nimrood já estava a desfazer-se. dispersando-se na noite e desaparecendo na brisa.

Jaspin sentiu um estremecimento frio, de medo, a percorrer-lhe o corpo. Virou-se e correu. lançando olhares furtivos por cima dos ombros, para verificar se alguém testemunhara o que acabava de se passar.

- Que estúpido tenho sido! - Jaspin amaldiçoava-se a si mesmo, apressando-se em direcção aos seus aposentos. - Não precisava daquele feiticeiro venenoso... podia ter tratado de tudo sozinho! Agora está a envolver-me nos seus planos...

O grupo dirigia-se para ali, pensou. Theido e a rainha, bem como Ronsard, se é que percebera bem, que afinal estava vivo. Mas quem era o tal Durwin? Haveria outros que não conhecesse? Mas que importância é que isso tinha? Como é que o poderiam prejudicar? A coroação terminara. era rei. Pois muito bem, que viessem. Estaria pronto para tudo.

A cabeça de Jaspin revolvia tudo aquilo enquanto corria. Todavia, ao chegar àquela conclusão, parou e voltou para trás, para se juntar às celebrações. Seguro de que nada poderia correr mal, regressou ao grande salão de Askelon e foi imediatamente rodeado por aqueles que o queriam cumprimentar e desejar-lhe felicidades, e por bajuladores que desejavam apenas lisonjeá-lo.

Uma brisa firme enfunava as velas do navio de Selric, que seguia na frente dos outros. Quentin estava de pé junto da amurada de estibordo e observava a Lua a deslizar lentamente para o mar.

Respirava profundamente, aspirando o odor salgado do mar, e escutava o suave marulhar da água a passar por debaixo da proa do navio de guerra. Ouviu o murmúrio de vozes que se aproximavam e viroupara ver Theido e Ronsard com o rei Seiric, que caminhavam na sua direcção, sobre o convés. Virou-se outra vez para continuar a olhar para as estrelas, que subiam e desciam ao ritmo da lenta oscilação do navio.

Os homens pararam a pouca distância do sítio onde Quentin encontrava. Ouvia a conversa com clareza, apesar de falarem num tom baixo e confidencial. Não lhe agradava o tom das palavras.

Por fim, cansou-se de escutar. A melancolia abateu-se sobre ele, suspirou e afastou-se.

- Algum problema. jovem senhor? - A voz dirigia-se-lhe, vinda da sombra de um mastro.

Quentin parou e espreitou para as sombras, mas não distinguiu ninguém. Avançou para a zona mais escura e deparou-se-lhe Kellaris sentado numa pilha de cabos cuidadosamente enrolados, com as costas encostadas a um barril.

- Oh. és tu - disse.

-já tenho sido cumprimentado com maior entusiasmo... - comentou o cavaleiro de confiança do rei Selric.

- Desculpa... - murmurou Quentin, mas sem convicção.

- Vejo que tens qualquer coisa a preocupar-te. Estás enjoado por causa do mar?

- Não.

- Então o que é?

- Acabei agora mesmo de escutar os outros. Ouvi o que diziam - admitiu Quentin.

- Escutar a conversa de outros sem ser convidado pode não trazer nada de bom.

- Não o pude evitar. De qualquer modo, o que disseram sobre o rei... Sobre Eskevar... Quero dizer... - Quentin calou-se. Não era capaz de encontrar as palavras para se expressar como desejava.

- Pensam que as esperanças são vãs e que é possível que já nàda possa ser ajudado. Não é isso?

Quentin, baixando-se para se sentar de pernas cruzadas sobre o convés, limitou-se a acenar. Sentia-se oco por dentro. Nem sequer levantou a cabeça quando ouviu passos leves sobre o convés.

- É uma conversa só para homens, ou as mulheres podem participar? - Era Alinea. Kellaris pôs-se em pé de um salto e Quentin levantou-se lentamente.

- Por favor, deixem-se estar sentados. Não ficarei aqui, se os incomodar.

- De modo nenhum. junte-se a nós. Majestade. Receberia de bom grado os conselhos de uma rainha a re