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NA REGIÃO DOS BANDOLEIROS / Karl May
NA REGIÃO DOS BANDOLEIROS / Karl May

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NA REGIÃO DOS BANDOLEIROS

  

Desmascarado

A justiça turca tem, reconhecidamente, a sua singularidade, digamos mesmo seus defeitos, que se acentuam quanto mais distantes estão as paragens das quais aqui falamos.

Em tais condições de vida, é de admirar que lá, onde as diversas tribos vivem em constantes rixas, não se faça uso de um “direito” verdadeiro.

Em Ostromdja começa o domínio dos Skipetaros, que só conhecem uma lei: o mais fraco tem que ceder seu lugar ao mais forte.

Se não nos queríamos ver prejudicados, tínhamos que nos valer do mesmo sistema.

Já o tínhamos feito à tarde e, como se sabe, com êxito, e estávamos resolvidos a manter-nos resolutos na reunião para a qual nos encaminhávamos.

Anoitecia quando chegamos ao “palácio da justiça”. Pelo caminho encontramos muita gente que, não tendo achado lugar no pátio, postara-se ali para ao menos ver a nossa chegada.

Quando entramos, fecharam o portão atrás de nós; era este um sinal alarmante. O Mukhank tinha usado a sua influência, e com bastante êxito, segundo parecia.

Mal podíamos passar através da multidão para chegarmos ao lugar destinado ao interrogatório. Onde antes havia somente uma cadeira, tinham posto agora um banco comprido.

O aparelho para a bastonada continuava no mesmo lugar.

Num jarro cheio de óleo, um fio de estôpa ardia, e a chama trêmula projetava luzes românticas na escuridão.

Os senhores do júri encontravam-se no interior da casa quando a nossa chegada lhes foi anunciada. Os Khawassas se postaram em torno de nós para impedir o caminho para o portão de saída.

Como este estava fechado, o procedimento dos policiais aumentava a nossa preocupação.

Reinava um silêncio absoluto, mas não demoraram a aparecer os cinco senhores, e, no mesmo momento, os Khawassas desembainharam as espadas.

- Oh! Alá! - disse Halef em tom irônico. - Que farão conosco, sídi? Estou tremendo de medo!

- Eu também.

- Que achas, devo dar a esta gente, que pensa amedrontar-nos com as suas espadas, uma prova gostosa do meu chicote?

- Nada de tolices! Já te precipitaste uma vez hoje e tens a culpa de nos encontrarmos aqui.

Os cinco juizes tinham tomado assento: o Kodja Baxá na cadeira e os outros no banco.

Uma mulher forçava caminho através da massa do povo e tomava lugar atrás do substituto. Eu reconheci nela Nohuda, a “Ervilha”, que corrigiu e melhorou sua beleza com ocre. Aquele substituto era então o feliz esposo; pouco expressivos eram os seus traços fisionômicos.

Ao lado do Kodja Baxá estava o Mubarek, com um papel sobre os joelhos. Entre ele e o seu vizinho, havia uma tijelinha. Como vi uma pena de ganso espetada na mesma, julguei que o seu conteúdo fosse tinta.

O Kodja Baxá sacudia a cabeça, tossindo para chamar a atenção. Era o sinal para o começo dos debates. Ele falou então em voz rouca e estridente:

- Em nome do Profeta e em nome do Padixá, a quem Alá dê mil anos! Reunimos esta Kasa, para julgar dois crimes que se deram hoje na vossa cidade e nos arredores. Vem, Selim, tu és acusador. Conta-nos, agora, o que se passou contigo.

O Khawassa veio para perto do seu amo e falou. O que ouvíamos era inteiramente irrisório. Disse que se achava empenhado no cumprimento de uma tarefa oficial quando foi por nós atacado sorrateiramente. Só por seu desassombro e por sua corajosa resistência conseguira salvar a vida.

Terminada a narrativa, perguntou-lhe o Kodja:

- E qual deles te bateu?

- Foi aquele, - respondeu, apontando para Halef.

- Portanto já sabemos quem foi e o que fêz; agora continuaremos o conselho.

Começou a murmurar com seus vizinhos da junta do tribunal e, em seguida declarou em voz alta:

- A Kasa resolveu que o criminoso deverá receber quarenta chicotadas em cada sola do pé, sendo em seguida encarcerado por quatro semanas. Isto declaramos em nome do Padixá. Alá o abençoe!

A mão de Halef apertou o cabo do chicote. Tive que fazer um esforço para não dar uma gargalhada.

- Agora tratemos do segundo crime, - declarou o oficial Mavou-nadji: Aproxime-se e fale!

O barqueiro obedeceu à intimação. Sem dúvida tinha mais medo do que eu. Mas antes que pudesse iniciar a sua narrativa, eu me dirigi em termo muito cortês ao Kodja Baxá:

- Queres ter a bondade de te levantar um momento?

Atendeu ao meu pedido, sem a menor suspeita. Eu o empurrei para o lado e sentei-me.

- Agradeço-te, - disse-lhe - É preciso que um inferior respeite a seu superior. Procedeste bem!

Pena ser impossível descrever a sua cara de espanto. A cabeça oscilava perigosamente de um lado para outro. Queria falar, mas tão estupefato estava que não pôde pronunciar uma só palavra. Levantou os braços para o céu, a fim de ao menos demonstrar com gestos a sua indignação. Passou a bater palmas por cima da cabeça bamboleante.

Ninguém dizia palavra. Nenhum Khawassa se movia. Esperavam pela ira do amo. Este, felizmente recuperou o uso da palavra, e irrompeu numa série de injúrias inarticuladas, gritando-me:

- Que pensas tu? Como te atreves a cometer tais desaforos e...

- Hadji Halef Omar! - interrompi, em voz alta. - Pega do teu chicote. Aquele que se atrever a dizer-me uma única palavra menos cortês, tu presentearás com chicotadas até rebentar-lhe a pele, seja ele quem fôr!

O pequeno Hadji empunhou logo o seu chicote.

- Emir, eu obedeço, - disse-me resoluto. - Faze-me um sinal.

Faltava, infelizmente, luz bastante para que se pudesse observar as fisionomias espantadas. O Kodja Baxá não sabia como portar-se.

Nisto o Mubareck sussurrou-lhe algumas palavras e ele ordenou aos Khawassas:

- Prendei-o e levai-o para o porão!

Os polícias se acercaram com as armas brancas nas mãos.

- Para trás! - gritei-lhes. - Atiro em quem me tocar! - e apontei-lhes os meus dois revólveres. No mesmo instante não vi mais um só Khawassa. Perderam-se entre o público.

- O que provoca tua ira? - perguntei ao Kodja Baxá. - Por que estás de pé? Por que não te sentas? Deixa o Mubarek levantar-se e senta-te no seu lugar.

Ouvia-se um murmurio na multidão. Que eu ofendesse ao Kodja, ainda lhes parecia possível, mas que eu me atrevesse a atacar o santo, isto era demasiado ousadia.

Começavam a rebelar-se.

O Kodja encheu-se de nova e considerável energia e gritou-me enraivecido:

- Homem, sejas tu quem fores, por este abuso te castigarei o mais severamente possível. O Mubarek é um santo, um predileto de Alá, um prodigioso. A um aceno seu cairá fogo do céu sobre ti.

- Cala-te, Kodja Baxá! Se queres falar, dize coisas mais sensatas. () Mubarek não é santo, nem prodigioso. Muito ao contrário, é um criminoso, um trapaceiro, um celerado!

Ditas estas palavras, levantaram-se vozes ameaçadoras entre o público. Mais distintamente ouvia-se a voz do próprio Mubarek. Ele se ergueu, estendeu a mão para mim e exclamou:

- Ele é um djaur, um cão descrente. Eu o maldigo. Que o inferno se abra aos seus pés, tragando-o eternamente! Os espíritos maus farão...

Mais não conseguiu dizer. Meu pequeno Hadji, armado do chicote, fustigou-o de tal forma, que o velho pecador se calou, dando um gigantesco pulo no ar. Como em seguida verificamos foi isto uma tremenda ousadia. Após um momento de silêncio ameaçador ressoaram de todos os lados gritos de ira pública. Os que estavam atrás forçavam caminho para a frente. A situação podia tornar-se perigosa. Nisto coloquei-me ao lado do Mubarek e gritei com toda força:

- Rahat süküt - calma, ficai calmos! Eu vos provarei que tenho razão. Halef, vai buscar a luz!... Vou mostrar-vos quem é o Mubarek e como vos enganais. Vedes estas muletas?

Eu tomei o patife pelo cangote com a mão direita e apertei-lhe o pescoço mirrado. Com a esquerda lhe arranquei o cafetã, abrindo-o. De cada lado tinha dependurada uma muleta de juntas, que podia ser dobrada em duas. Nesta ocasião vi que o lado interno do cafetã era de côr diversa da do lado externo. A vestimenta tinha muitos bolsos. Eu enfiei a mão no primeiro e senti uma coisa cabeluda. Puxei-a e vi que era uma cabeleira, igualzinha à de um mendigo, que tinha encontrado.

O sujeito estava tão assustado que nem tentara se defender. Mas em seguida pôs-se a gritar por socorro a plenos pulmões, debatendo-se com os braços no ar.

- Osko, Omar, segurem-no, agarrem-no com força, embora doa! Os dois assim chamados pegaram-no e eu me vi com as mãos livres. Como Halef tinha trazido um dos jarros com óleo, o nosso interessante grupo estava bem iluminado, e todos os presentes puderam ver distintamente.

Eles continuavam em passividade.

- Este homem, que tendes por santo - continuei eu, - é um aliado do Xut ou talvez o Xut. Sua moradia é o refúgio de ladrões e salteadores, como vos provarei depois. Ele atravessa o país sob vários disfarces a espreita de uma oportunidade para os crimes. Ele e o mendigo Sakat são uma e a mesma pessoa. Aqui estão amarradas as muletas debaixo do braço. Se elas, quando ele caminhava, se chocavam uma na outra, vós julgáveis que eram seus ossos. Eis aqui a cabeleira que ele usava como aleijado.

Um após outro, esvasiei os bolsos examinando os diversos objetos e explicando o seu uso. Depois continuei:

- Aqui está uma lata com farinha tinta, que servia para dar rapidamente uma outra côr ao seu rosto. E este é o pano com o qual podia retirar a pintura. Aqui vedes uma garrafa de água, ainda pelo meio, certamente para limpar-se em lugares onde não existia água.

E agora vede - sim, mas o que é isto? Duas bolas de borracha, que colocadas na boca, serviam para lhe aumentar as bochechas, quando queria passar por mendigo. O rosto assim parecia mais gordo. Observais as diversas cores do cafetã? Como mendigo, usava o lado escuro para fora, apertando-o bem, em torno do corpo, dando-lhe uma aparência de pano velho. Já vistes alguma vez o Mubarek e o mendigo juntos? Certamente que não. Isto era inteiramente impossível, pois os dois são uma e a mesma pessoa. E não apareceu o Mubarek justamente no tempo em que o mendigo se mostrava pela primeira vez por estas paragens?

Estes últimos argumentos pareciam convincentes, pois eu ouvia de todos os lados exclamações de inteira aprovação.

Entrementes, tirei-lhe mais um pacotinho do bolso. Embrulhada num pano velho, apareceu uma pulseira, feita inteiramente de velhas moedas, cujo cunho estava ainda bem conservado. Eu vi, à luz da chama, no anverso, o retrato de São Marcos ao apresentar ao Doge a bandeira da Cruzada; no reverso, o retrato de um outro santo, para mim desconhecido, cercado de estrelas e da inscrição: “Sit tibi, Christe, datus, quem tu regis, iste ducatus”.

Continuei:

- Aqui está um Bilezik de doze moedas de ouro, embrulhado neste pano. Sabe-se lá onde ele o roubou? Se indagardes, achareis talvez a dona.

- On iki zikkeler - doze moedas? - exclamou uma voz de mulher atrás de mim. - Mostre-mas! Roubaram-me uma pulseira assim, da arca, na semana passada.

Era Nohuda a “Ervilha” que assim falava. Ela acercou-se e tirou-me a pulseira da mão para examiná-la.

- Alá! - gritou. - É a minha, herdei-a dos meus antepassados! Olha aqui e certifica-te que ela realmente me pertence!

E passou a pulseira ao marido.

- Por Alá, que é a tua, - afirmou este.

- Então recordas-te se o Mubarek esteve contigo no tempo em questão? - disse eu.

- O Mubarek não, mas o aleijado. Foi chamado para receber comida. Eu tinha as minhas jóias em cima da mesa e coloquei-as na arca. Ele estava presente. Quando, passados alguns dias, verifiquei, casualmente, o conteúdo da arca, a pulseira tinha desaparecido.

- Então conheces o ladrão!

- Sim, é ele, está provado! Oh! ladrão! Eu te arranco os olhos! Eu te...

- Cala-te, - interrompi eu, no justo receio de que, uma vez desensencado o rio de suas imprecações, seria difícil contê-lo. - Fica com a pulseira e manda castigar o ladrão. Vedes agora que espécie de homem recebia a vossa veneração. E este homem foi nomeado Basch Kiatib e pode julgar os outros... A mim me ameaçou até com o fogo do inferno e quase sofri a ira desta seleta assistência. Eu exijo que ele seja preso em lugar bem seguro, de onde não possa fugir, e que se o denuncie ao Makredj de Saloniki.

Não só concordaram comigo, como também irromperam em inúmeras exclamações como:

- Surrai-o primeiro! Dai-lhe umas bastonadas! Fustigai-lhe a sola dos pés!

- Sapytyn - iz ona boyunu - torcei-lhe o pescoço - gritava a “Ervilha” cheia de rancor contra o ladrão da sua pulseira.

O Mubarek, até este momento, não tinha pronunciado palavra, mas agora gritou:

- Não acrediteis nele! É um djaur. Ele é que é o ladrão, pois acaba de me colocar a pulseira no bolso. Ele... ai! ai!...

Interrompeu o que dizia, com este grito de dor, porque o chicote de Halef lhe dançava nas costas.

- Espera, patife! - gritava o Hadji. - Quero te escrever nas costas que somente hoje chegamos aqui. Como pôde este emir ter roubado esta pulseira? Demais, um célebre efêndi, como este, não pode ser ladrão. Aqui tens o certificado disto.

Ainda lhe administrava umas chicotadas tão fortes que a vítima berrava em alta voz.

- Aferim, Afertm - bravo, bravo, - exclamou o mesmo povo, que momentos antes me fora hostil.

O Kodja Baxá estava sem orientação para o que devia fazer ou dizer, por isso deixava-me agir. Mas tinha aproveitado sorrateiramente a ocasião para voltar a sentar-se na cadeira oficial. Assim ao menos estava resguardada a sua honra. Seus companheiros se mantinham silenciosos. Sentiam talvez uma espécie de constrangimento. Os Khawassas, reconhecendo que minhas ações estavam subindo, e na previsão de que, em conseqüência disto, me sentiria bem humorado e não lhes seria mais perigoso, chegaram-se, um atrás do outro, para perto.

- Amarrai o sujeito, - ordenei-lhes. - Atai-lhe as mãos!

Obedeceram-me imediatamente e nenhum dos oficiais de justiça presente se opôs à minha arbitrariedade.

O Mubarek sem dúvida reconheceu que era mais prudente submeter-se. Deixou-se amarrar sem resistência e sentou-se todo encolhido no seu lugar. Os jurados, imediatamente, se levantaram dos seus lugares: não queriam compartilhar o mesmo banco com um criminoso.

- E agora tornemos à tua sentença, - disse eu ao Kodja Baxá. - Conheces as leis do teu país?

- Naturalmente devo conhecê-las, - respondeu ele. - Conheço todo o direito canônico que se refere ao Alcorão, à Suna, e à decisão dos primeiros quatro Califas.

- Conheces também o Muuelteka el buher que é um incomparável código de direito civil e criminal?

- Conheço-o. É da autoria do Xeque Ibrahim Halebi.

- Se conheces realmente estas leis, por que não ages de conformidade com elas?

- Eu sempre, e também hoje, me guiei rigorosamente por elas.

- Isto não é verdade. Está escrito que o juiz deve permitir a defesa, mesmo ao mais terrível dos criminosos antes de lhe pronunciar a sentença. Entretanto vós julgastes e sentenciastes o meu amigo e companheiro sem lhe permitir sequer uma única palavra. Por isso, vossa sentença nada vale. Também deveriam estar presentes no interrogatório todos os acusados e todas as testemunhas. E isto não foi observado.

- Mas estão todos aqui.

- Mas, falta Harek, o dono do albergue. Onde está ele?

O juiz meneou a cabeça, embaraçado, e levantando-se, respondeu:

- Vou buscá-lo.

Procurava um pretexto para ausentar-se, mas eu logo imaginei o que tinha acontecido com Harek e segurei o Baxá pelo braço, enquanto ordenei aos Khawassas:

- Ide buscar Harek, mas trazei-o tal qual se acha agora!

Dois deles se foram e apareceram em seguida com o dono do albergue. As suas mãos estavam atadas nas costas.

- Que é isto? Que fêz o homem para ser amarrado? - perguntei eu. - Quem deu ordem para isto?

O Baxá meneando a cabeça de um lado para outro, respondeu:

- O Mubarek assim o quis.

- Então o Kodja Baxá tem que executar o que o Basch Kiatab ordena? E ainda sustentas que estudaste as leis? Assim não é de estranhar que, no teu distrito, os piores ladrões sejam tidos como santos.

- Eu estava no meu direito, - defendeu-se ele, deprimido.

- Isto não me podes provar.

- Oh! Sim! Não vos mandei prender, porque sois estranhos. Mas este dono de albergue é um morador daqui e está sob minha autoridade.

- E tu pensas que te é permitido abusar desta autoridade? Aqui estão algumas centenas dos teus súditos; pensas que podes fazer com eles o que te parece? Talvez que o tenhas feito até agora, mas eles lembrarão os acontecimentos de hoje e futuramente exigirão justiça. Harek foi roubado. Ele veio a ti em busca de auxílio. Em vez de auxiliá-lo, mandaste amarrá-lo e prender. Como queres justificar esta injustiça? Eu exijo que lhe desates imediatamente as cordas.

- Os Khawassas podem fazê-lo.

- Não, tu mesmo o farás como expiação da tua injustiça.

Isto era demais, por isso me gritou, raivoso:

- Quem és tu, afinal, para me dares ordens como se foras nosso Makredj ou Bilad e Kamse Mollatari?

- Vê aqui os meus papéis. Passei às mãos dele os três passaportes. Quando ele viu o teskerch e também o ferman, piscou, assustado, os pequenos olhos lacrimosos, oscilando a cabeça como o metrônomo do célebre Joham Nepomuck Màlzl de Regensburgo.

- Senhor, tu estás à sombra do grão-senhor! - exclamou Ele.

- Toma cuidado, senão farei sombra sobre ti!

- Será como desejas.

E, acercando-se de Harek, desatou-lhe as cordas.

- Estás contente agora? - perguntou-me.

- Por ora, sim. Desejo, porém, mais de ti. O teu Khawassa Selim te deu uma informação completamente errada. O encontro foi muito diferente do que ele afirma. O Mubarek, certamente, o instruiu sobre o que devia dizer para prejudicar-lhes o mais possível.

- Não creio.

- Mas creio eu, não só nisso como também que ele induziu o barqueiro a prestar falso testemunho contra mim.

- Confirmas isso?

A pergunta foi dirigida ao barqueiro, que ao ver que o Mubarek nada mais podia contra ele, resolveu contar toda a verdade.

- Como vês, - disse eu ao Bascha-Baxá - eu não queria de forma alguma a vida deste homem. Percebi que agia como espião do velho e trouxe-o comigo para averiguar a questão. Eis tudo. Se me queres castigar por isto, estou pronto a começar a minha defesa.

- Senhor, não falemos em castigo; tu não cometeste erro nenhum.

- Neste caso, o meu companheiro também não pode ser castigado por causa do Khawassa, pois, não ele, mas sim um outro tem a culpa do sucedido.

- Quem é o outro?

- És tu mesmo.

- Eu?! - Como?

- Quando Harek foi roubado, ele veio a ti para fazer a denúncia. Que fizeste para cumprir o teu dever?

- Tudo que pude.

- É? - E que foi isto?

- Dei ordem a Selim que pensasse no que se devia fazer.

- Aos outros Khawassas, também deste o mesmo encargo?

- Não, era supérfluo. Eles não teriam descoberto nada.

- Então os teus polícias devem ser muito tolos, uma vez que, de antemão, sabes que não terão êxito. O crime foi praticado aqui; por que deste o encargo a Selim, se ele aqui se encontra há pouco tempo?

- Porque é o mais inteligente.

- Eu creio que o motivo foi bem outro.

- Senhor, que motivo poderia ter sido?

- Um bom funcionário faz o possível para descobrir o autor dum tal crime. Mas tu o silenciaste, e àquele, a quem fizeste a revelação, deste uma semana para refletir. Isto parece demonstrar que desejas que os ladrões se escapem.

- Efêndi! Que pensas de mim?

- Meu parecer está de acordo com o teu procedimento. Nada mais lógico que procurassses os autores aqui em Ostromdja.

- Eles foram a cavalo a Doiran!

- Para crer isto, deve-se ser muito curto de vista. Nenhum ladrão dirá para onde se dirige. E isso deves saber, como velho magistrado. Que tal, se eu descobrir que és amigo destes criminosos?

Ele meneou a cabeça, cheio de consternação.

- Senhor, não sei o que deva dizer, - exclamou.

- É preferível mesmo que não digas nada, pois minha opinião permanece imutável. Se tivesses tomado a causa a peito, como era teu dever, os ladrões já teriam sido descobertos.

- Crês que virão se apresentar voluntariamente?

- Não, mas creio que se encontram aqui em Ostromdja.

- Impossível! Em nenhum dos Konak passaram os três cavaleiros.

- Nem se lembrarão de tal. Não se mostrarão tão perto do lugar do crime. Eles se esconderam. Devo saber com quem?

- Por que não? Eu sou um estranho, mas o sei.

- Quê? Tu o sabes?

- Sim, e com toda certeza.

- Então deves ser onisciente.

- Não, mas aprendi a refletir. Patifes como estes só se escondem com gente da mesma laia; e quem é o pior sujeito de Ostromdja?

- Aludes ao Mubarek?

- Adivinhaste-o.

- Encontravam-se com Ele?

- Estou certo.

- Enganas-te.

- Engano-me tão pouco, que estou pronto a apostar contigo. Se queres os ladrões, deves ir à ruína.

Ele lançou um olhar para o Mubarek e este correspondeu. Bem me parecia que os dois estavam de acordo, apesar de tudo.

- A caminhada seria inútil, senhor, - disse ele.

- Eu estou convencido do contrário, e te digo ainda mais que não só acharíamos os ladrões, como também os objetos roubados. Por isto te intimo a me seguires com os teus Khawassas.

- Estás gracejando?

- Não, falo sério.

- Nesta escuridão?

- Tens medo?

- Não, mas esta gente é perigosa, e se realmente estiver lá em cima, tratará de defender-se. Espera o romper do dia.

- Até lá poderão escapar; demais, parece que há gente aqui que avisaria os ladrões.

- Isto ninguém fará, eu mesmo providenciarei para que ninguém se aproxime esta noite da ruína.

- Providencia logo para que nos ponhamos em marcha e dá ordem para levarem lanternas.

- Senhor, desiste da tentativa.

- Não! Se não queres cumprir o teu dever, fica em casa. Eu encontrarei quem mereça melhor o cargo de Kodja Baxá. Foi o argumento decisivo.

Ele continuou a menear a cabeça, mas resolveu redargüir:

- Não deves torcer as minhas palavras. Só penso em teu bem-estar e não desejo que te metas em perigo.

- Não te preocupes comigo! Do meu bem-estar eu mesmo cuidarei.

- Podemos levar o Mubarek?

- Sim, Ele nos conduzirá.

- Então permite que providencie luz e armas.

Ele retirou-se para dentro de casa.

Muitos dos presentes se afastaram, creio que para buscar lanternas ou coisa parecida, para depois nos acompanhar. Harek tinha asssistido silenciosamente aos debates. Agora me perguntou:

- Efêndi, crês realmente que pegaremos os três patifes?

- Tenho a certeza.

- E recebo o que me pertence?

- Estou convencido disto.

- Senhor, não chego a te compreender. Parece que sabes tudo. Acompanho-te com prazer à ruína.

- Que me dizes do eremita? Livraste-o, apesar de temê-lo. E quando falaste dele, eu já desconfiava que ele era o grande patife. Os ladrões de tua propriedade se acham com ele.

O Baxá voltou em seguida. Trazia algumas lanternas velhas, vários archotes e uma quantidade de armas. Outras vieram com luzes semelhantes e em seguida a leva se pôs em marcha.

Uma caça noturna na ruína, em perseguição dos ladrões, era um acontecimento raro e uma diversão para aquela gente. Por isto, quase toda a população do lugar nos seguia.

Como eu não confiava no Kodja Baxá, e muito menos nos Khawassas, mandei guardar o Mubarek por Osko e Omar. Traziam-no entre eles.

À frente, seguiam alguns Khawassas. Depois o Baxá com os senhores do júri, atrás destes o Mubarek com os seus dois guardas, depois eu e Halef e os dois estalajadeiros, e atrás de todos nós vinha a chusma dos velhos e moços de Ostromdja.

Foi divertido ouvir os comentários feitos em torno de nós. Um opinava que eu era um príncipe portentoso, outro me tomava por filho de duques da Pérsia. Um terceiro jurava que eu era um mago da Índia e um quarto gritava em alta voz que eu era um príncipe herdeiro de Moscou e que eu tinha vindo para conquistar o país para a Rússia.

Quanto mais nos aproximávamos da ruína, tanto mais calados se tornaram os homens. Certamente reconheciam que só com muita cautela poder-se-ia pegar os criminosos.

Ao começar o mato, muitos ficaram para trás. Eram os medrosos. Mas eles faziam ver que só se postavam ali, para evitar a fuga dos ladrões, caso se lembrassem de vir para aquele lado.

Ao alcançarmos a clareira, reinava um silêncio tumular. Os heróis sentiam-se opressos. Os fascínoras podiam aparecer a cada instante, podiam mesmo estar atrás de qualquer árvore. Pisavam cautelosamente na ponta dos pés, para não os afugentar, e para evitar uma luta com eles, pois também havia mulheres.

Este silêncio sofreu de repente uma curta interrupção. Um grito estridente estalou de uma boca feminina.

Quando cheguei ao lugar de onde partira o grito achei que Nohuda a “Ervilha” fora infeliz em deitar-se no córrego gelado onde tinha encontrado a margarida. Sentada dentro d'água, fazia um discurso a meia voz ao seu querido - substituto - porém tão perceptivelmente que ainda poderia baixar a voz mais um pouquinho.

Não permitiu que a tirassem d'água, porque, dizia ela, não queria resfriar-se, e quando lhe fiz ver que a água era mais fria que o ar, resolveu contestar.

- Efêndi, seguirei o teu conselho. Tu sabes mais do que os outros e melhor ainda que o meu marido, que me conduziu a este buraco.

Ajudei-a a sair. Felizmente a água só tinha um pé de altura, mas não sei se sua beleza corrigida com ocre sofreu algum dano.

O Mubarek estava com Omar e Osko na porta de sua cabana. Pediu que o deixassem entrar. Mas, como entendia de alquimia e sabia mesmo fazer muitas mágicas, eu não tive confiança nele. Podia muito bem ter preparado alguma coisa para o caso de uma prisão repentina.

- Que queres fazer lá dentro? - perguntei eu.

Ele não respondeu. O bom homem nada queria ter comigo.

- Se tu não me respondes, não esperes que se realize a tua vontade.

Respondeu então:

- Tenho animais lá dentro que precisam comer para não morrerem de fome.

- Eu mesmo lhes darei de comer, amanhã; tua moradia, de agora em diante, é a prisão, mas estou pronto a realizar o teu desejo, se me responderes algumas perguntas que te vou fazer, de acordo com a verdade.

- Pergunta.

- Tens tido visita?

- Não.

- Alguém mais habita esta cabana ou a ruína?

- Não.

- Não sabes se há alguém lá dentro?

- Não há ninguém; se houvesse, eu deveria saber.

- Conheces um homem chamado Manach el Barcha?

- Não.

- Ou um outro de nome Barud el Amasat?

- Também não.

- Mas esta gente afirma conhecer-te muito bem.

- Não é verdade.

- E ainda, que avisaste a minha chegada.

- Mentira!

- E ainda mais: que farias com que me prendessem, e virias depois para me assassinar.

Ele não respondeu imediatamente. Com certeza lhe parecia sobrenatural eu saber de tudo isto. Talvez lhe ocorresse que não encontraria tudo aqui, esta noite, conforme tinha deixado. Engolindo em seco, respondeu:

- Senhor, eu não sei de que falas e o que queres de mim. Não conheço os nomes que me indicaste, nada tenho que ver com gente parecida com esta de quem falas.

- Então negas saber que dois irmãos deverão vir te anunciar que eu fora assassinado em Menlik?

- Oh! Alá! Nem uma palavra sei disso.

- És tão inocente que tua ignorância me causa dó! Tenho tanta pena, que te vou mostrar que gente perigosa tinhas perto de ti! Vem!

Segurando-o pelo braço, levei-o comigo. A um aceno meu, Halef agarrou um archote e seguiu à nossa frente para alumiar o caminho. Os homens que pertenciam à Kasa nos seguiram, como também Osko, Omar e os dois estalajadeiros. Os outros tiveram que ficar para trás porque no interior da ruína não havia tanto lugar.

O que se terá passado na alma do Mubarek, ao notar a segurança com que trilhávamos o caminho que Ele julgava um segredo para todos!

Quando Halef afastou a trepadeira, ouviu uma praga que o velho não pôde conter.

- Quê? Cavalos? - perguntou o Kodja Baxá, quando chegamos à parte que servia de cavalariça.

Como era noite, tivemos algum trabalho com os animais. Eles não estavam amarrados e estranhavam as luzes e o povo.

- Onde há cavalos, também deve haver gente a quem pertencem, - disse Halef. Vinde por aqui, que os acharemos.

Os três algemados ainda se encontravam na mesma posição na qual os tínhamos deixado.

Não se ouvia palavra. Com a ajuda de Halef, livrei os três amarrados, mas somente o necessário para que pudessem fazer uso das pernas e levantarem-se.

- Manach el Barcha, conheces este homem? - perguntei, apresentando o Mubarek.

- Alá te amaldiçoe, - respondeu ele.

- Barud el Amasat, tu o conheces?

- Precipita-te na fonte da morte, em eterna maldição!! - exclamou ele.

Virei-me para o guarda da prisão:

- Apenas praticaste o delito de livrares este criminoso. O castigo destes dois será pesado, mas o teu será mais benigno, sobretudo se mostrares que não és um pecador inveterado. Dize, pois, a verdade. Conheces este homem?

- Sim, - respondeu, após ter consultado por momentos a sua consciência.

- Quem é?

- O velho Mubarek.

- Conheces também o seu verdadeiro nome?

- Não.

- Ele e os teus dois companheiros se conhecem mutuamente?

- Sim. Manach el Barcha esteve muitas vezes com ele.

- Eu deveria ser assassinado em Menlik?

- Sim.

- E hoje tomaram a mesma resolução, isto é, queriam matar-me na prisão?

- É verdade.

- Mais uma coisa. Enquanto tu jogavas as cartas com Harek e seus homens, os dois outros o roubaram, não é verdade?

- Eu não, foram eles.

- Está bem. Mas és cúmplice deles, pois com as tuas artes contribuiste para o êxito do roubo. Eu sei o bastante.

Virando-me para o Kodja Baxá, perguntei:

- Então, não tinha razão? Não estavão os ladrões aqui na ruína?

- Senhor, tu já o sabias quando me falaste neles.

- É verdade. Achei-os em tempo e depressa. Sirva-te como prova de que bem poderias ter cumprido o teu dever. Estes três homens serão metidos na prisão e muito bem guardados. Amanhã bem cedo mandarás o relatório ao Makredj, ao qual ajuntarei o meu também. Ele decidirá o que deve ser feito. Harek, olha aqui para o chão. Creio que são estes os objetos que te foram roubados.

O conteúdo dos bolsos dos três prisioneiros foi por nós deposto no chão em três montinhos. Harek estava radiante de alegria quando tornou a ver o que era seu. Queria apanhá-lo, quando o interrompeu o Kodja Baxá.

- Espera. Assim tão depressa, não. Devo levar estes objetos comigo. Servirão como prova no interrogatório e também para determinarmos o grau da pena.

Eu conhecia os hábitos desta gente. Quem sabe se devolveriam a Harek o que era seu?! Por isto, apressei-me a responder por ele:

- Não é necessário. Eu mesmo farei uma lista destes objetos, calculando também o seu valor. Esta lista fará às vezes dos objetos.

- Senhor, tu não és um funcionário público!

- Já te provei, hoje, que eu seria um melhor funcionário que tu, e por isto, escreverei ao Makredj mais detalhadamente que tu. Cala-te para o teu próprio interesse.

Eu bem vi que Ele queria responder-me com grosseria, mas conteve-se. Decerto considerou que seria para o seu mal, mas logo em seguida veio com outras pretenções:

- Então que fique com o que é seu, mas todo o resto eu confisco.

Dizendo isto, quis se abaixar para agarrar as bolsas com dinheiro e os outros objetos.

- Pára, - disse eu. - Tudo isto já está verificado.

- Por quem?

- Por mim.

- Tens o direito para isto?

- Certamente. Farei uma lista e tu podes servir de testemunha para atestar que nada falta. Depois enviarei as duas coisas, a lista e os objetos ao Makredj.

- Isto deve passar por minhas mãos.

- Também terás o teu direito. Confisca os cavalos e o que lhes pertence, e assim será feita a tua vontade. Mas o resto é meu. Halef, guarda tudo.

O pequeno Hadji foi tão ágil que no espaço de três segundos tudo tinha desaparecido nos seus bolsos.

- Ladrões! - resmungou o Mubarek.

A paga lhe veio incontinenti. O chicote de Halef lhe deu uma resposta sobremaneira clara e evidente.

Os prisioneiros foram transportados através da ruína para a clareira. Lá estavam os espectadores curiosos, aglomerando-se para melhor examinarem os três.

Harek contou em voz alta que tinha recuperado o que era seu. Estava satisfeitíssimo.

Os Khawassas cercaram os prisioneiros e se puseram com eles em marcha. A multidão seguiu a turma, comentando a aventura tão bem sucedida. A volta realizou-se com muito mais ruído do que a vinda.

Também os funcionários seguiam o préstito. Eu e Halef ficamos para trás. Ele me tinha feito um aceno.

- Sídi, ainda tenho meio archote, - disse ele, - que podemos reacender; não achas que seria conveniente examinar a cabana do velho?

- Sim, pelo menos podemos tentá-lo.

- Ainda tens a chave? Eu vi que a guardaste quando esvasiaste os bolsos do facínora, lá no interrogatório.

- Ainda a conservo, mas não sei se é a chave da cabana.

- Deve ser; que outras chaves podia ter o velho?

Esperamos até que os outros desaparecessem completamente e abrimos a porta. Com a ajuda de um fósforo e um pedaço de papel acendemos o archote e entramos.

A miserável construção se apoiava, como já mencionamos, de encontro a um muro. Parecia, vista de fora, antes um único compartimento, entretanto, observávamos que existiam várias peças contíguas. Os compartimentos internos já pertenciam ao velho castelo, e a cabana foi construída de maneira tão inteligente, que tapava a abertura da entrada. O quarto da frente estava quase vazio. Percebia-se que se destinava a receber visitas.

Ao penetrar no compartimento contíguo, observei vários fios que atravessavam a porta de baixo para cima e de um lado para o outro, barrando a entrada. Toquei cautelosamente num fio com o cabo do meu chicote e logo se ouviu a detonação de um tiro. Gatos miavam, corujas piavam, um cachorro latia e várias outras vozes se faziam ouvir.

- Oh! Alá! - Ria Halef. - Estamos provavelmente na arca de Noé. Mas, Sídi, proponho que não penetremos mais; é melhor esperar-o clarear do dia.

Concordei de bom grado. Se bem que não concedesse ao velho Mubarek conhecimentos extraordinários em física, contudo poderia tê-los suficientemente para inventar qualquer aparelho capaz de inutilizar intrusos Indesejáveis. Considerando isto, fechamos a porta e apagamos o archote.

No momento em que empreendíamos o caminho de regresso um vulto feminino veio sorrateiramente ao nosso encontro. Não lhe reconheci o rosto. Mas segurou-me pela mão e sem que eu pudesse impedi-lo depôs seus lábios nela.

- À luz do archote vi que eras tu, efêndi, e vim te agradecer mais uma vez.

Era Nebatja, a colhedora de ervas.

- Que fazes aqui em cima? - perguntei. - Já estavas aqui quando  viemos buscar os prisioneiros?

- Não, para meu coração não é uma alegria ver estes infelizes. Mas eu estava no pátio do Kodja Baxá, quando ias ser condenado. Senhor, fôste corajoso, mas criaste um terrível inimigo.

- Quem? O Mubarek?

- Este nem vivo, apesar de também odiar-te; eu penso no Kodja Paxá.

- Sim, creio que não me dedica o seu melhor afeto, mas como inimigo não vejo razão de temê-lo.

- Apesar disso, peço-te que estejas sempre prevenido.

- É ele uma criatura tão má?

- Sim, representa a autoridade, mas secretamente confraterniza com o pessoal do Xut.

- Ah! como sabes disto?

- Ele esteve muitas vezes de noite, aqui, com o Mubarek.

- Não te enganaste?

- Não, vi-o distintamente à luz do luar e reconheci-o nas noites escuras pela voz.

- Ah! Estiveste muitas vezes aqui em cima?

- Muitas vezes, apesar de me ser proibido pelo Mubarek. Eu amo a noite. É a amiga do homem. Ela o deixa a sós com Deus e não permite que o distraiam das suas orações. Também há plantas que só podem ser rocuradas à noite.

- É verdade?

- Sim, como há plantas que só têm aroma de noite, há outras que só acordam de noite, mas dormem durante o dia. Tenho aqui em cima as minhas amigas noturnas; sento-me ao lado delas para falar-lhes e escutar-lhes a resposta. Nos últimos tempos me dificultavam, mas hoje desmascaraste o meu inimigo, ele está preso, e assim, vim aqui para colher um rei, depois da meia-noite.

- Um rei? É uma planta?

- Sim, não a conheces?

- Não.

- É um rei, pois se morre, todo o seu povo sucumbe com ele.

Via na minha frente uma alma sensível e esquisita de mulher. Esta criatura tinha que providenciar com o suor do seu rosto pelo sustento de sua família e ainda achava tempo de noite para conversar horas a fio com as plantas e perguntar-lhes o segredo da existência.

- Como é o nome desta planta? - perguntei curioso.

- É a Hadj Marryam, é pena que não a conheças.

- Eu a conheço, mas não sabia que tinha um rei.

- Poucos o sabem, e entre estes poucos, raro é aquele que tem a ventura de encontrar um rei. Só amando muito a Hadj Marryam e conhecendo-a bem, pode-se encontrar o rei. O povo dele nasce com preferência em ramas infrutíferas, nas montanhas, rochedos e despenhadeiros íngremes. Colocam-se em círculo, que às vezes é muito pequenino, outras vêzes é muito grande; mas sempre bem no centro do círculo está o rei.

Isto para mim era novo. Hadj Marryam significava: Cruz-de-Maria. Aqui o chamavam pelo mesmo nome: Cruz-de-Maria. Que estranha coincidência! O nome dado a ela nas montanhas das minas de minha terra, é o mesmo que se lhe dá nas montanhas da Babuna ou Plaschkawitza, na Turquia.

A mulher prosseguia no seu tema favorito:

- Este cardo é seco e áspero, não cresce muito e tem uma haste fina, mas o rei é grosso e cada ano engrossa mais. Sua haste é tão fina como o fio de uma lâmina, mas pode engrossar dois palmos e carrega uma cabeça comprida e estreita de cardo; sobre o fundo escuro desta há um desenho claro, representando uma cobra em ziguezague. À noite a cobra brilha suavemente.

- É verdade?

- Eu não te minto, senhor. Eu o vi muitas vezes e vê-lo-ei novamente esta noite. Quando se colhe o rei dos cardos, todos os seus súditos desaparecem; um mês mais tarde todos estão mortos. Ou então muito velhos. O rei que vou colher hoje deve ter dez anos.

- Mas se o vais buscar, o seu povo morre.

- Oh! não! Já nasceu outro rei jovem e novo, por isto posso tirar o velho. Só se pode fazê-lo no domingo, após a lua nova, no dia santo dos cristãos, dos quais Marryam é a rainha dos céus. Neste dia o rei brilha no seu maior esplendor e continua a resplandecer por algumas noites mesmo depois de cortado. Tem então a sua maior força. Hoje é o primeiro domingo após a lua nova, por isto vou buscá-lo esta noite. Se tivesses tempo, podias vir vê-lo brilhar.

- Eu iria contigo, pois me interesso extraordinariamente por estes segredos da natureza, mas tenho que descer à cidade.

- Então eu o trarei amanhã à noite, pois ainda conservará todo o seu brilho.

- Não sei se me encontrarás em Ostromdja.

- Senhor, queres ausentar-te tão depressa?

- Sim, eu não vim para me demorar muito, e o tempo é escasso. Mas dize, qual é a força que se atribui ao rei dos cardos?

- A Hadj Marryam numa bebida, como chá, cura a tuberculose, se esta não fôr velha demais. O cardo tem uma propriedade, mata os micróbios que se encontram no pulmão. Mas do rei se afirma que salva o doente, mesmo quando já está com um pé na cova.

- Já experimentaste?

- Não, porém acredito, pois o Criador é onipotente; se essa fôr a sua vontade, à mais humilde das plantas será concedido o mais alto poder.

- Vem, pois, amanhã para mostrar-me o rei; isto é, se ainda me encontrar aqui. Sabes onde moro?

- Sei; dorme bem, efêndi.

- Boa sorte com o rei, Nebatja.

Ela se foi.

- Sídi, acreditas no que ela disse do rei dos cardos? - perguntou-me Halef em caminho.

- Eu não o duvido.

- Nunca ouvi dizer que as plantas tivessem o seu rei.

- Então não crês? Pois bem, se ela encontrar o soberano da Hadj Marryam, tu também o verás.

Naquele instante nem de longe imaginava que, em breve, deveria a minha vida ao rei dos cardos e que a colhedora de plantas ali estava à sua procura para me fazer um bem.

O rei dos cardos não pertence exatamente ao reino das plantas; passei quatro dias nas montanhas das minas na Saxônia, à procura dele pois tinha encontrado um povinho numa altura íngreme e devastada.

O terreno, sobre o qual os cardos se espalharam, formava realmente um círculo. Eu circundava o lugar e dirigia-me, apertando o cerco, para o centro, mas sem o menor êxito. Finalmente dei com ele num ponto onde tinha passado muitas vezes sem vê-lo, pois estava escondido numa moita de capim seco. Correspondia em tudo a descrição de Nebatja.

Cortei-o e o possuo ainda hoje. Quatro meses mais tarde, quando voltei, não contive minha curiosidade e apesar de grande falta de tempo, fiz uma excursão ao lugar do achado - os súditos tinham desaparecido. Esta é a prova da verdade da descrição de Nebatja, na qual acreditei.

O grande Lineu conta, com um belo gesto de reconhecimento, que via os seus melhores achados e suas melhores observações, às indicações da gente simples, às vezes mais do que simples. O filho do povo tem uma intuição mais terna para os segredos da natureza, do que o homem chamado privilegiado.

Chegados ao lugar, dirigimo-nos ao Kodja Baxá, a quem fiz o relatório. Seus olhos pequeninos brilharam quando contamos o conteúdo das bolsas de dinheiro. Ele perguntou-me, mais uma vez, se eu não queria deixar ao seu encargo a remessa do dinheiro, mas eu insisti em fazê-la pessoalmente. Como breve veremos, fiz bem em proceder assim. Entretanto, exigiu que os sacos fossem lacrados e carimbados com o seu sinête.

Eu naturalmente aquiesci sem vacilar.

Pedi então para ver os prisioneiros. Encontrei-os numa espécie de porão, onde estavam algemados.

Disse-lhe que isto era uma crueldade inútil, mas ele achava que com gente desta espécie nunca se era demasiadamente severo, e que mesmo durante a noite conservaria um dos seus servos de guarda à porta.

Em vista disto me tranqüilisei a respeito da segurança dos criminosos; nem por sombra desconfiei que os tivesse amarrado por suspeitar que eu fosse vê-los.

Em seguida, dirigi-me ao Konak, onde nos esperava a ceia retardada. Estávamos reunidos no mesmo compartimento, como ao meio-dia. A conversa era animadíssima, pois os acontecimentos do dia davam motivos para um vivo intercâmbio de idéias. Meia-noite passada, retiramo-nos para descansar.

Foi-me reservado o quarto de honra situado no topo de uma longa escada. Como há quinze dias, levei o pequeno Hadji comigo, pois sabia que se comprazia com estas pequenas demonstrações de amizade.

Meu relógio marcava pouco mais das duas, quando começamos a despir-nos. De repente ouvimos bater no portão aferrolhado. Abri a janela, e olhei para fora; havia alguém no portão, porém não pude reconhecer quem era.

- Kindir, - quem está aí? - perguntei.

- Oh! é a tua voz, - disse uma boca feminina, - és tu efêndi o estrangeiro?

- E tu és a colhedora de ervas?

- Sim, sídi - desce, pois quero te dizer uma coisa.

- É importante?

- Muito!

- Poderei deitar-me novamente?

- Em seguida, creio que não.

- Espera, eu irei.

Um minuto depois, acompanhado por Halef, encontrei-me com ela.

- Efêndi - disse - sabes o que aconteceu? Espero que tenhas muito tempo ainda. Vê aqui o meu rei dos Hadj Marryam!

Passou-mo. Era um cardo espinhoso de dois palmos de largura, mas tão fino como o fio de uma lâmina. O clarão do desenho da cobra em ziguezague sobre a estreita e comprida coroa, era perfeitamente visíveí na escuridão; “não se poderia dizer que brilhava, mas tinha uma luz suave, quase fosforescente.

- Acreditas agora?

- Nunca duvidei das tuas palavras, porém aqui está muito escuro; visitar-te-ei amanhã cedo para ver melhor o cardo à luz do dia. Mas dize-me agora o que tens a comunicar-me.

- Uma coisa muito ruim: os prisioneiros fugiram.

- Como? É possível?

- Sim, fugiram.

- Como o sabes?

- Eu vi, e até ouvi o que falavam.

- Onde?

- No morro, na cabana do Mubareck.

- Sídi - disse Halef, - temos que ir imediatamente. Subamos ao morro. Vamos abatê-los a tiros, senão pode custar-nos a vida.

- Espera! Primeiro temos que saber tudo. Dize-nos, Nebatja, quantos eram?

- Os três estrangeiros, o Mubarek e o Kodja Baxá.

- Como! O Kodja Baxá estava junto?

- Sim, foi ele que os soltou, e recebeu por isso 5 mil piastras do Mubarek.

- Tens certeza disto?

- Ouvi-o distintamente.

- Prossegue, mas em poucas palavras, nós não temos tempo a perder.

- Eu tinha encontrado o rei dos cardos e voltava pela clareira quando vi quatro homens que vinham da cidade. Para que não me vissem, agachei-me no ângulo que a cabana forma contra o muro. Os quatro quiseram entrar na cabana, mas esta estava fechada. A três deles não conheci, mas o quarto era o Mubarek. Eles falavam no juiz que os tinha libertado e que viria em seguida para receber as cinco mil piastras. Depois de pagarem, fugiriam, mas antes haveriam de vingar-se de ti. Um dizia que tu irias certamente a Radomisch e Istib. No caminho, os Aladji vos atacariam.

- Quem são os Aladji?

- Não sei. Nisto, veio o Kodja Baxá. Como ninguém tinha a chave, forçaram a porta com um pontapé. Acenderam luz e abriram um tampo da janela, bem perto do meu esconderijo. Pela janela aberta fugiam aves, morcegos e outros animais. Senti medo e vim correndo ao teu encontro aqui na cidade. É o que te queria dizer.

- Agradeço-te, Nebatja; amanhã terás a tua recompensa. Volta agora para casa. Não posso mais perder tempo.

Tornei a entrar na casa. Não foi preciso acordar ninguém: como ouviram bater, sabiam que algo devia ter acontecido e se levantaram. Em menos de dois minutos estávamos armados e a caminho. Halef, Osko, Omar e eu. Os dois estalajadeiros quiseram alarmar a cidade, mas eu o proibi, pois os fugitivos podiam ouvir o ruído e ficariam prevenidos. Destaquei um dos estalajadeiros para angariar mais alguns homens valentes e com eles ocupar a estrada que dá para Radowich. Assim, de qualquer forma, os fugitivos deviam cair-nos nas mãos, e talvez até fosse possível aprisioná-los antes.

Nós os quatro corremos morro acima; mas quando alcançamos a clareira, fomos obrigados a prosseguir mais devagar.

Como não era terreno aberto, tivemos de nos precaver para não cair. O caminho seguia íngreme morro acima, e o solo, entre as árvores, estava semeado de pedras, pois a chuva, aos poucos, carregara a terra fofa.

De repente, um agudo grito humano rasgou a noite, um ai afinado e prolongadíssimo, e, em seguida, um baque surdo como um corpo numa queda.

- Parem! - sussurrei aos outros. - Há gente na nossa frente! Fiquem quietos.

Momentos depois, avizinhavam-se passos vagarosos. Eram irregulares, pois o homem pisava mais de leve com um pé do que com o outro. Capengava, talvez machucado na queda.

Agora estava bem na minha frente. A noite era escura, e as trevas entre as árvores era ainda maior. Por isso mais o instinto do que a vista, fêz-me reconhecer um vulto alto é magro, muito semelhante ao do Kodja Baxá.

Segurei-o pelo peito.

- Dur we sus - pára e cala-te, - sussurrei-lhe com voz sufocada.

- Sim, Alá! - respondeu assustado.

- Quieto ou te mato.

- Quem és tu? - perguntou.

- Não me conheces?

- Ah! és o estrangeiro! Que queres aqui?

Talvez por minha voz ou pelo vulto do meu corpo, adivinhara quem tinha diante de si.

- E tu? Quem és tu? - perguntei. - Serás o Kodja Baxá que soltou os bandidos?

- Ei muidjisat! Milagre! - gritou em voz alta, - Ele já sabe. Dizendo isto, deu um pulo para o lado para livrar-se, e eu o segurei em tempo, pois esperava uma tentativa destas, mas o seu velho cafetã não resistiu como eu. Um rasgão: eu ficara com um pedaço de pano na mão e o homem sumia-se mato a dentro, onde uma perseguição tornar-se-ia inútil. Ao longe, gritou com toda a força dos pulmões; Haide, saux kulibeden, koriadja, tchapuk - saiam, saiam da cabana, depressa, depressa.

- Oh! sídi, fôste desastrado, - disse Halef, - tens o homem seguro pelo pescoço e o largas novamente! Se o previsse, eu...

- Quieto! Para reproches não há tempo agora. Temos que voltar ligeiro para a cabana; seu grito de aviso me faz supor que eles estão lá.

Neste momento ouvia-se do alto o grito interrogativo:

- Nitchuin, ne deiji - por quê, por que motivo?

- Yabansdjilar edjenebilar, katchyn, katchyn, sytchryn os estrangeiro - os estrangeiros. Fujam, corram fujam! - gritou o fugitivo, ao longe.

É claro que nos apuramos ainda mais, porém o caminho ruim nos atrasava muito. Demos somente poucos passos, quando ouvimos um estampido acompanhado de um jato de fogo, e logo a mesma escuridão dantes.

- Sídi, bir top fischenkler ile - senhor, isto foi o foguete de um canhão, - opinou Halef, arquejando atrás de nós.

- Alá!

Através das árvores divizamos um clarão de fogo e quando nos adiantamos até a clareira, vimos à nossa frente a cabana, imersa em chamas. De lá gritava uma voz:

- Lá vão eles, vedes? Fogo!

Nós, à beira do mato bem iluminado, apresentávamos um belo alvo.

- Para trás! - exclamei, dando um pulo para junto da árvore mais próxima. Os outros seguiram o meu exemplo muito a tempo, pois três tiros detonaram, não nos atingindo.

Ainda no pulo agarrei da carabina. O relampejar dos tiros mostrou-me o lugar onde se achavam os bandidos. Um segundo mais tarde atirei e acertei, pois uma voz ululava:

- E felaket bre ha! Jaralammyxim! - Oh! desgraça! Acudam! Estou ferido!

- A eles! exclamou o valente Hadji Halef Omar, pulando para fora do seu esconderijo.

- Cautela, - preveni eu, segurando-o pelo braço. Eles talvez tenham dois canos.

- E se tiverem cem bandidos, abatê-los-ei!

Livrou-se de mim, virou a carabina e atravessou a clareira com longos pulos. Nada nos restava senão segui-lo. Era isto muito perigoso, mas felizmente não possuíam carabinas de dois canos e não tiveram tempo de carregar as armas disparadas.

Chegamos bem até ao rochedo, ponto de onde tinham partido os tiros, mas foi o único êxito que obtivemos com a nossa arrancada audaciosa. Não havia mais ninguém.

- Sídi, onde estarão eles? - perguntou Halef. - Tens alguma idéia?

- Onde estão, não, mas o que são, sei muito bem.

- Como?

- Mais inteligentes que nós, principalmente mais sabidos que tu.

- Queres recriminar-me outra vez?

- Se tu o mereces!... Tê-los-íamos pegado, se tu não tivesses te escapado.

- De que modo?

- Se nos tivéssemos abrigado entre as árvores e contornado a clareira.

- Mesmo assim não estariam mais lá!

- É problemático. A um ataque aberto, fugiriam, como fugiram, mas se os tivéssemos surpreendido de emboscada, seríamos melhor sucedidos, garanto, sobretudo se um de nós tivesse ficado no lugar primirivo, atirando a esmo. Decerto acreditariam que ainda nos encontrávamos lá.

- Pensas então que não os agarraremos mais?

- De qualquer maneira devem andar por perto, mas como procurá-los nessa escuridão? O fogo só ilumina a clareira, e mesmo se soubéssemos onde os encontrar, nada podíamos fazer. Sabes o que aconteceria?

- Sim, receber-nos-iam a bala. E ouvi dizer que uma bala é nociva ao desenvolvimento da mocidade. Mas que fazer agora?

- Escutemos!

Esta troca de pensamentos naturalmente foi feita a meia voz. Era de supor que os quatro não estavam muito distantes de nós e podíamos atraí-los com conversas incautas.

Para maior cuidado, postamo-nos no escuro. Assim ficamos a escutar algum tempo. O estalar das chamas na cabana impedia-nos de ouvir bem, mas quando acostumamos o ouvido, distingui com clareza um ruído. Osko também ouviu e perguntou-me:

- Ouves? Estão, para lá, quebrando as moitas, efêndi.

A julgar pelo ruído, estavam, quando muito, a alguns passos de nós. Debaixo das árvores não havia arbustos, portanto o círculo formado pela mata em redor do morro não podia ser muito grande por este lado. Os bandidos sabiam disto e aproveitaram essa circunstância para sua fuga.

- Como podes sabê-lo? És estranho aqui.

- Manach el Barcha esteve aqui muitas vezes e o velho Mubarek está com eles.

Dirigi-me à cabana e arranquei um caibro em chamas. A madeira era betuminosa e me serviu de archote. Com esta luz segui a direção que os fugitivos pareciam ter tomado. Os meus três companheiros com as carabinas em riste, estavam preparados para fazer fogo. O estrepitar do fogo me deixou em dúvida. A largura da área arborizada não era grande como tinha imaginado. Alcançamos em pouco tempo as moitas, que começavam além, e vimos com clareza o lugar pelo qual os fugitivos tinham forçado o caminho.

Seguimos a pista e saímos do matagal no momento em que se apagou o archote. Foi quando ouvimos mais abaixo o relinchar de um cavalo e logo o trotar de vários outros.

- Odujurola kbowardalar - passem muito bem, patifes, - gritou do fundo uma voz para nós.

- Kysartseiz jaryn dejil o bir gün djehennemde - depois de amanhã estareis a gritar no inferno!

Era claro. Se não tivesse sabido que estavam de emboscada, adivinha-lo-ia agora. Muito espertos não eram.

Meu pequeno Halef estava altamente encolerizado com esta ofensa; não se conteve e colocou as duas mãos na boca gritando com toda força, através da escuridão:

- Ata binin schejtanile Jutylin nenesinadan - cavalguem o diabo para que sejam comidos pela sua avó! Koschijniz bana Kambur üzerinde, one kerre jokarija hemjirmr kerre aschazka - subam dez vezes pelas minhas costas, e desçam outras tantas.

E, cada vez mais enraivecido, continuou gritando:

- Siz haidudlar, “oldürüdschülar”, Kundakschylar âerisini, tschykar-makdschilar, dar adschadschy ipleri - Assassinos, ladrões incendiários, patifes, celerados!

Uma gargalhada de escárnio ressoou como resposta. E fora de si pelo esforço feito, perguntou-me o pequeno:

- Senhor - não lhes dei o que mereciam?

- Sim, tão bem que se riram de ti, como viste.

- Eles não têm cultura. Não sabem se portar. Não têm um vislumbre de gentileza, nem conhecem as regras da boa educação. Mesmo ao inimigo deve-se tratar bem, dirigindo-lhe belos e suaves cumprimentos.

- Sim, provaste-o agora mesmo, Halef. Os cumprimentos que lhes deste eram primorosos.

- Isto não fui eu, foi a raiva. Se eu mesmo falasse, teria sido mais delicado. Agora já se foram; que devemos fazer?

- Nada. Estamos como quando da nossa chegada em Ostromdja. Temos os inimigos pela frente, em liberdade e, ademais, acrescidos de um homem. Recomeçaremos a caça, e quem sabe se ainda teremos outra ocasião tão boa como esta?

- Tens razão, sídi - devíamos enforcar o tal Kodja Baxá.

- Ele não só os soltou, como também lhes devolveu os cavalos.

- Achas?

- Naturalmente! Não viste que tinham cavalos? Estavam prontos à espera deles.

- Ele nega-lo-á.

- Suas mentiras de nada lhe servirão. Arranquei-lhe um pedaço da cafetã, que tenho no bolso.

- Mas que pretendes fazer? Tens algum poder sobre ele?

- Infelizmente, não.

- Então eu tratarei disto.

- Que vais fazer?

- Vê-lo-ás!

- Nada de novas precipitações, Halef!

- Não te preocupes, sídi. Não só não me precipitarei, como tratarei do caso com a maior tranqüilidade e calma. Mas não devemos voltar, agora, à cabana?

- Sim, talvez salve-se alguma coisa ainda.

Não me foi difícil achar o caminho, já conhecido, apesar da escuridão. A morada do Mubarek devia conter muito material inflamável, pois as chamas eram enormes. Atraída pelo fogo havia ali alguma gente.

No momento em que saímos de debaixo das árvores, Kodja Baxá apareceu correndo do outro lado. O título de Kodja Baxá é sobremodo curioso para um magistrado, pois quer dizer, “chefe dos matrimônios”. Quando este chefe nos avistou, levantou os braços e apontou-nos, gritando:

- Segurem-nos, peguem-nos, são os incendiários!

Fiquei mais admirado do que furioso com a sua desfaçatez. O homem era de um atrevimento inominável. Os presentes, que sabiam de tudo, principalmente da peça que lhe tínhamos pregado hoje, não se apressaram, naturalmente a obedecer-lhe as ordens.

- Ouviram? - gritou-lhes. - Quero que agarrem os incendiários.

Então aconteceu o que ele dificilmente previra, pois o pequeno Hadjí acercou-se dele, perguntando:

- Ne mi iz sewgülüm - que é que somos, meu bem?

- Harakadschilarsiz - incendiários, - respondeu ele.

- Tu te enganas, Kodja Baxá. Somos coisa muito diferente. Somos curtidores e para demonstrá-lo, vamos curtir-te o couro, não todo, porque para isso não temos tempo, apenas aquela parte, de cuja solidez te alegrarás, pois dela necessitas para sentar-te. Osko, Omar, vinde cá!

Os dois chamados não esperaram repetição. É verdade que me lançaram um olhar interrogativo para perscrutar como eu recebia a intenção do agressivo Halef; mas, como não me pronunciei, pró ou contra, recoIhendo-me à neutralidade, pegaram o velho caduco com braços fortes, deitando-o ao solo.

Este, percebendo o que o aguardava, levantou um berreiro tremendo.

- Alá! Alá! - exclamou, - que vão fazer? Querem cometer o sacrilégio de atacar a minha autoridade divina e humana? Alá vos destruirá! O Padixá vos encerrará nos seus cárceres. Decepar-vos-ão as cabeças e pendurarão vossos corpos nos portais de todas as cidades e aldeias!

- Cala-te, - gritou Halef. - O Profeta ordenou aos seus adeptos que sofressem com paciência o seu destino, porque o livro da vida assim reza. Ontem li nele que devias apanhar, e, como sou um filho crente do Profeta, cuidarei que este belo kismet se realize contigo. Deitai-o de barriga para baixo, se é que Ele tem barriga, e segurai-o!

Osko e Omar seguiram a ordem à risca. É certo que o Kodja Baxá fiz inauditos esforços para escapar ao seu destino, mas os dois rapazes lhe eram tão superiores em força, que a sua resistência de nada lhe valeu, apesar de toda a sua gritaria.

Confesso que não encarei tal proceder com simpatia. Prodigalizar pancadas não é estético, e, além do mais, éramos estranhos ali, e assim não podíamos prever como os nativos reagiriam. Já havia muitos e sempre aumentavam em número. Mas aquela respeitável autoridade tinha manifestado tanta animosidade, seu proceder fora tão incorreto, e ainda mais a acusação de que éramos incendiários era tão grave, que achamos que uma lição não podia fazer-lhe mal. Talvez a surra o auxiliasse futuramente a aplicar e seguir melhor as leis.

A respeito do povo, postado em círculo ao redor de nós, não tive o mesmo cuidado. O Kodja Baxá não tinha provavelmente um amigo que se sacrificasse por ele.

Foi, pois, colocado na posição indicada. Osko segurava-o pelos ombros e Omar ajoelhou-se-lhe sobre as pernas. Mas quando o pequeno Hailef puxou o chicote da cintura, uma voz protestou:

- Quereis permitir que o nosso chefe seja surrado? Defendei o Kodja Baxá!

Entre o povo surgiu um murmúrio ameaçador. Eles se acercavam mais. Devagar lhes fui ao encontro, depus a coronha da minha carabina no chão, cruzei os braços sobre o cano e olhei firmemente para eles, de frente, sem pronunciar palavra. Retrocederam.

- Hakk, tamam, wurzniz onu, Kesyniz onu - Bem feito, bem feito, surrem-no, surrem-no, - gritavam algumas vozes favoráveis a nós.

Halef saudou, inclinando soberanamente a cabeça para o lado de onde tinham partido as vozes e começou a sua obra caridosa.

Entregou-se a este trabalho com afã e nervoso interesse. Quando tornou a guardar o chicote na cintura, não deixou de dar ao castigado o seguinte conselho:

- Peço-te que, durante três dias pelo menos, não sentes em nada duro. Isto poderá alterar o brilho dos teus olhos, a beleza do teu rosto, a harmonia da tua fisionomia e a fluência do teu modo de falar. Não deves destruir o efeito da nossa bela ação e na tua velhice poderás bendizer os estrangeiros, que na tua mocidade te foram tão clementes. Esperamos que para o futuro festejes o dia de hoje todos os anos e nós te lembraremos neste dia com carinho especial. Levanta-te e dá-me o beijo de agradecimento, ao qual tenho direito.

Explodiu uma gargalhada geral estrepitosa, após este discurso, pronunciado com toda a seriedade. O Kodja Baxá, agora solto por Osko e Omar, levantou-se devagar, protegendo com as duas mãos a região do corpo, já dantes por Halef mencionada. Quando o pequeno acercou-se dele, este lhe berrou furioso:

- Patife, cão! Que fizeste? Cometesce um sacrilégio contra a autoridade. Mandarei algemar a ti e aos teus!

- Não te afobes, - interrompeu-o o pequeno. - Se chamas sacrilégio porque recebeste apenas vinte bastonadas poderemos corrigir este erro imediatamente. Deita-te outra vez!

- Não, não, - gritou o ameaçado, - eu vou, eu vou!

Com isto quis se ausentar apressado, mas eu o segurei pelo braço:

- Fica, Kodja Baxá! Tenho que te dizer algo.

- Nada tens a dizer-me, nada, - redargüiu ele, quando eu o puxei para dentro do círculo. - Nada quero saber de todos vós, basta!

- Isto é muito compreensível, mas eu quero saber algo de ti, e por isto esperarás mais um momento. Tira tuas mãos lá dos fundilhos; é falta de respeito têr as mãos em tal lugar, falando com um efêndi.

Ele tentou seguir a ordem, mas lhe foi muito difícil, pois que, ora á direita, ora á esquerda, levava a mão ao trazeiro.

- Tu nos acusaste de incendiarios; que motivos tens para isto? - perguntei em tom severo.

Esta pergunta o deixou mal. Se persistisse na afirmativa, a surra poderia repetir-se; por outro lado, contradizendo-se, confessava-se mentiroso. Resolveu, pois coçar-se com a direita nos fundilhos, com a esquerda na careca, e responder diplomaticamente:

- Eu tinha pensado...

- E por que pensavas assim? Um Kodja Baxá deve saber explicar qualquer um dos seus pensamentos.

- Porque estavas aqui antes de nós. Vimos o fogo e viemos correndo e já te encontramos aqui com os outros. Não basta para suspeitar?

- Não, pois podíamos têr corrido como tu, quando vimos o fogo. Mas lembra-te bem! Estivemos realmente aqui, antes de ti?

- Naturalmente, pois todos vós me vistes chegar.

- E eu penso que te encontravas primeiro aqui.

- Impossível!

- Oh! sim! Vimos-te chegar, daqui.

- É um grande erro vosso.

- Não, reconhecemos-te.

- Senhor, tu te enganas. Eu estava em casa dormindo. Acordei-me com os gritos. Levantei-me e espreitando pela janela vi o fogo no monte e vim correndo, pois, como autoridade, sou obrigado a isso.

- Como autoridade, também és obrigado a prevenir os fugitivos?

- Não te compreendo.

- Não mintas. Onde estão os quatro prisioneiros que te foram confiados?

- Naturalmente, na prisão.

- Estão bem guardados?

- Duplamente. Um guarda na porta e um outro diante da casa.

- Quantos guardas tens?

- Aqueles dois.

- E o que faz este, aqui, em cima?

Era o que pouco antes se tinha manifestado a favor do Kodja Baxá; estava bem perto e reconheci nele o guarda a quem foram confiados os prisioneiros. Tirei-o do meio dos outros, puxando-o para o centro.

A autoridade fingia-se zangada.

- Que estás fazendo, aqui? - gritou-lhe. - Volta já para casa, para o teu posto.

- Deixa-o, - disse eu. - Não há mais nada para guardar. Os prisioneiros estão soltos.

- Soltos? - perguntou ele, dando-se ares assustados.

- Não finjas! Sabes melhor do que eu. Tu mesmo os soltaste, recebendo para isto uma soma considerável do Mubarek.

Pela primeira vez utilizou-se das duas mãos, batendo palmas, e gritou:

- Que dizes? De que me acusas? Quem és tu, que te atreves a fazer um Kodja Baxá passar por criminoso? Recebi dinheiro? Soltei os prisioneiros? Eu te prenderei e te farei sentir o peso da lei... não, sai, deixa-me!

Estas últimas palavras eram dirigidas a Halef, que, agrrando-o pelo braço, ergueu o chicote e perguntou:

- Devo-te curtir também as outras regiões? Ainda não percebeste que esta não é a maneira com que nos deves tratar? Mais uma única palavra que não me agrade ao ouvido e meu chicote te administrará uma saraivada de atravessar telhado.

Dirigi-me ao povo e relatei o que soube por Nebatja, mas sem trair o nome dela. Acrescentei que encontramos o Kodja Baxá e que este tinha avisado os criminosos. Nisto um dos homens que fazia parte do júri, deu um passo à frente e disse.

- Efêndi. o que nos contas, enche-me de surpresa. Nós te agradecemos por teres desmascarado o maior criminoso de todos os tempos. Se ele e os seus cúmplices, realmente fugiram, então, aquele, que os auxiliou, merece ser severamente punido. Eu te vi e ouvi hoje, creio que nada dirás sem refletires primeiro. Deves, pois, têr motivos de peso para acusar o Kodja Baxá, e como eu sou advogado, por conseguinte o primeiro depois dele, vejo-me obrigado a substituí-lo, já que se tornou indigno do seu cargo. Dirige-te, pois, a mim!

O homem parecia pensar bem, apesar de eu não o ter por um caráter decidido. Sem refletir muito, respondi:

- Alegro-me de ver em ti um homem ajuizado, preocupado com o bem-estar do próximo e espero que agirás com desassombro e imparcialidade.

- Fá-lo-ei, mas terás que me provar a verdade das tuas acusações.

- Certamente.

- Dir-me-ás, então, como vieste a saber que o Kodja Baxá esteve aqui em cima com os fugitivos e que recebeu dinheiro do Mubarek.

- Não, não o direi.

- Por que não?

- Não quero prejudicar a pessoa que viu e ouviu tudo.

- Ela não será prejudicada.

- Permite que eu duvide; tu és um homem de bem, mas nem todas as autoridades são assim. Conheço-vos demasiadamente bem. Quando tiver me ausentado, este bom Kodja Baxá, fará o que lhe aprouver, e a pessoa, da qual tudo soube, passará mal, por isto é melhor não mencionar seu nome.

- Mas então nada poderás provar.

- Posso, sim; o dinheiro que o Kodja Baxá recebeu será encontrado no seu bolso ou em sua casa; é que ele esteve aqui em cima e fugiu-me das mãos, será também fácil provar, pois ele deixou comigo um pedaço do seu cafetã.

- Isto não é verdade, - disse o acusado; - vê, aqui, se falta um pedaço.

E apontou com as duas mãos para o lugar por onde o tinha agarrado; a vestimenta estava perfeita.

- Vês como te enganas? - disse o advogado.

- Tu gracejas, - respondi, sorrindo.

- Como? - exclamou ele admirado.

- Se é verdadeira a inteligência que ressumbra do teu rosto, creio que reparaste como o Kodja Baxá se traiu agora.

- Traiu?

- Sim. Ele quer ser o chefe dos maridos e faz cada tolice como um principiante nos crimes. Viste para onde ele apontou quando nos mostrou o seu cafetã?

- Vi, sim!

- Então, para onde?

- Para o peito esquerdo.

- Tinha eu, por acaso, mencionado o lugar donde arranquei o pedaço?

- Não, efêndi.

- Pois, bem, foi justamente do lugar para onde ele apontou. Como o sabe ele?

O representante da lei olhou-me estupfato e perguntou:

- Efêndi, és talvez um superior da polícia?

- Por que me perguntas isto?

- Por que só um superior pode ser tão perspicaz.

- Erraste. Eu não moro no país do Padixá, mas sim no Nemtche memleket, cujos habitantes agem tão de acordo com as leis, que qualquer criança teria percebido a imprudência do Kodja Baxá.

- Assim Alá prodigalizou a vossa terra com mais sagacidade do que a nossa.

- Mas, reconheces que tenho razão?

- Sim, se ele apontou para àquele lugar é porque sabe que lá foi rasgado. Que dizes a isto, Kodja Baxá?

- Eu não digo nada, - respondeu o interrogado. - Sou orgulhoso demais para continuar a tratar com este Nemtche.

- Mas tua atitude não é nada orgulhosa. Que procuras com as mãos atrás de ti? - perguntei rindo.

- Cala-te! - gritou enraivecido. - Cairá um grande castigo sobre ti, e, passados muitos anos ainda te lembrarás das conseqüências da tua calúnia. Pois não vês que o meu cafetã nem está rasgado?

- Certamente, porém vejo também que este é um outro cafetã e que o outro que trazias há pouco, era mais velho do que este.

- Só tenho este.

- Vamos ver!

- Sim o Kodja Baxá só tem este, - afirmou o servo.

- Tu só tens que falar quando te perguntarem, - disse-lhe eu, e virando-me para o advogado, continuei:

- Sabes quantos cafetãs tem o Kodja Baxá?

- Não efêndi; quem se importa com a vestimenta de outrem?

- Mas tu sabes com certeza onde ele deixou os cavalos dos três criminosos.

- Em sua estrebaria.

- Ele mesmo tem cavalos?

- Sim.

- Quantos?

- Quatro. Deixa-os geralmente no potreiro para que possam estar em liberdade.

- De que cores são?

- São pretos, pois ele tem uma predileção pelos cavalos morzelos, não é Baxá?

- Que me importa este homem e seu cavalo? - respondeu ele.

- Muito bem o sabes, - respondi. - Auxiliaste os fugitivos dando-lhes uns cavalos, para que eles pudessem trocar por outros de outra côr. Será muito bom para ti se te acharmos agora na posse dos teus animais. Aqui não há nada a salvar. A cabana está arrasada pelo fogo e em pouco tempo escurece. O velho Mubarek foi muito sabido em incendiá-la antes da fuga; de outra forma teríamos encontrado muitas provas dos seus diversos crimes. Ele até tinha pólvora para, em caso de necessidade, mandá-la pelos ares. Foi uma loucura do Kodja Baxá dizer que a tínhamos incendiado. Tínhamos todo interesse em achá-la intacta. Vamos, pois, à casa do juiz para convencer-vos de que os prisioneiros fugiram realmente.

Quando nos pusemos a caminho, Halef afastou-se rapidamente e logo ouvi de longe a sua voz ameaçadora:

- Pára! Fica! Senão te meto esta faca entre as costelas!

- Deixa-me! - gritou outra voz. - Que tenho que ver contigo?

- Tu, comigo, nada; mas eu tenho contigo. Estás preso.

- Oh! Oh!...

- Sim, e se não te submetes, tenho aqui um chicote, com o qual cravarás conhecimento, após ter acariciado tão bem ao teu amo.

O servo procurava chegar antes de nós à morada do Kodja Baxá, certamente para avistar a família. Levamo-lo conosco.

E pela segunda vez descia um séquito estranho, morro abaixo. Alguns dos homens levavam archotes para iluminar o caminho. Todos os moradores do lugar estavam alarmados, e quando alcançamos o pátio, este estava tão cheio como à noite.

A prisão naturalmente foi encontrada vazia. Os cavalos dos fugitivos estavam na velha estrebaria e os do Kodja Baxá haviam desaparecido. Segundo a declaração dos dois servos, os animais tinham se sumido como os criminosos: inexplicavelmente.

- Agora vamos ver se encontramos o dinheiro e o cafetã do Kodja Baxá, - disse eu ao advogado.

- Onde queres procurá-lo?

- Com sua mulher.

- Ela negará.

- Aguardaremos; depende muito do tom com que a gente lhe falar. Entra comigo!

Seguimos para o interior da casa, sem termos dado licença para que ninguém nos seguisse, muito menos ao Kodja Baxá, O advogado conhecia a disposição da casa inteira. Foi à minha frente, no escuro, e abriu uma porta nos fundos; esta dava para um quarto pequeno, que continha uma mesa e algumas cadeiras. Ao comprido, de uma das paredes, havia um coxim para as pessoas que preferiam sentar-se à moda oriental.

Sobre a mesa via-se um candieiro de barro, e, sentada ao seu lado, estava uma velha.

- Esta é a mulher dele - disse o meu companheiro.

Ela olhou-nos com temor. Acerquei-me dela, descansando a coronha da carabina, com estrondo, no chão, e perguntei em tom ríspido:

- Jaschly Kaftani seuin Kodschanun - vê onde está o cafetã do teu marido!

Se ela estava disposta a negar, minha voz a atemorizou; por isso respondeu, apontando para a segunda porta:

- Sandykda - na caixa.

- Onu getir - traze-o!

Ela saiu; ouvi o barulho da tampa da caixa, e, em seguida, voltou trazendo a vestimenta desejada. Tirei-lhe da mão e examinei-a. Faltava um pedaço do lado esquerdo e sacando do bolso o retalho arrancado, vi que combinava perfeitamente com o rasgão. A mulher observava-nos com olhares medrosos. Certamente sabia de tudo.

- Getir aktscheji - traze o dinheiro, - ordenei-lhe no mesmo tom, ríspido.

- Ne asl aktscha - que dinheiro? - perguntou, indecisa,

- Aquele que teu marido recebeu inda há pouco do Mubarek. Onde está?

- Depressa! - redargüiu o advogado.

Este esforçava-se por falar no mesmo tom autoritário. A mulher ficou, realmente, tão atemorizada, que disse:

- Também está na caixa.

- Traze-o!

Novamente voltou para a peça escura, do lado, mas desta vez demorou mais a voltar. O dinheiro tinha sido escondido bem no fundo da caixa. Tinham-no enrolado num velho e rasgado pano de turbante. O advogado contou-o e condizia exatamente com a soma que a colhedora de ervas me tinha dito.

- Que se fará com Ele? - perguntou-me.

- Isto tu deves saber, - respondi.

- Eu o confisco.

- Tens razão. Assim será feito logo que clarear o dia. Agora vamos sair?

- Não; ainda quero trocar algumas palavras com esta mulher, que passará muito mal se não me disser a verdade. A bastonada para uma mulher desta idade é um caso perigoso.

Ouvindo isto, ela atirou-se no chão e implorou com as mãos erguidas:

- A bastonada, não, a bastonada, não, grande, célebre e benévolo efêndi. Eu vejo que tudo está descoberto e direi a verdade.

- Então levanta-te. Só se deve estar de joelhos perante Alá. Dize, o teu esposo deixou fugir os quatro homens?

- Sim, é verdade.

- Deu-lhes os seus cavalos?

- Sim, todos os quatro.

- Para onde foram?

- Para. . . para. . . para Radowitch.

Como tivesse hesitado em responder, desconfiei que só confessara parte da verdade, por isso ordenei-lhe:

- Dize tudo. Por que não nomeias os outros lugares? Se não fores sincera, terei que trazer o banco e chamar as mulheres para te darem a bastonada.

- Senhor, direi tudo. Eles foram para Radowitch e de lá querem fugir para Sbigawy.

- Talvez para casa do açougueiro Tcherak, que vive lá?

- Sim, para lá.

- E depois para a cabana do vale?

- Senhor, tu a conheces?

- Responde!

- Sim, querem ir para iá.

- E depois?

- Não sei.

- Que querem lá?

- Também não sei. Meu marido não me conta estas coisas.

- Mas ele conhece o Xut?

- Talvez, não sei.

- E sempre teve segredos com o velho Mubarek?

- O que faziam, não sei; mas ele esteve muitas vezes no morro e o Mubarek vinha muitas vezes de noite, aqui.

- Viste bem os prisioneiros, hoje?

- Vi, sim.

- Tu os conheces?

- Só um deles que veio algumas vezes aqui.

- Qual? Talvez Manach el Barcha?

- Não o conheço pelo nome. Ele foi cobrador do imposto de charad em Neskub.

- Que é que sabes mais sobre tudo isto?

- Nada, nada - efêndi. Disse-te tudo o que sabia.

- Vejo que falas a verdade, por isto não te quero maltratar mais. Já ouviste falar em Aladji?

- Também não.

- Efêndi, - disse o advogado, - que há com este?

- Tu os conheces?

- Não, mas ouvi falar dos dois.

- Então são dois? Que ouviste a respeito deles?

- São os piores Skipetaros que existem, dois irmãos de estatura enorme, cujas balas nunca erram o alvo e cujas facas sempre encontram o lugar para onde são dirigidas. Os seus machados são armas terríveis. Eles atiram-nos tão longe quanto um projétil, e acertam tão bem na nuca daquele, cuja espinha querem quebrar, como se o cheitan em pessoa os tivesse atirado. Também no uso da funda nunca foram igualados.

- Onde vivem?

- Estão sempre onde há um roubo ou um assassinato a praticar.

- Já estiveram aqui?

- Em Ostromdja, não, mas nos arredores. Faz pouco tempo que foram vistos pelos lados de Kodjana.

- Isto não é longe daqui. Creio que se alcança este lugar em cinco horas a cavalo.

- Parece que conheces muito bem estas paragens, não é?

- Nem por isto, calculo apenas. Donde são estes dois irmãos, não sabes?

- Diz-se que são lá do alto dos Kankandelos, das montanhas do Schar Dagh, onde vivem os Skipetaros encarnados em gente.

- E por que os chamam de Aladji?

- Porque montam dois cavalos malhados que têm o diabo no corpo, tal qual no dia treze do mês Mohorram, isto é, no dia em que o diabo foi expulso do céu. Os donos lhes dão todos os dias uma página do Alcorão entre a forragem, por isto são invulneráveis, ligeiros como o raio, e imunes a todas as doenças. Além disso não dão um passo em falso.

- Ai de mim! Ver-me-ei mal, então.

- Por quê?

- O Mubarek chamou estes Aladji para que me persigam e me matem.

- Como sabes disto?

- A pessoa que soube de tudo, lá em cima na cabana, ouviu isto.

- E tu o acreditas?

- Inteiramente.

- Pode-se realmenre acreditá-lo, pois os dois celerados foram vistos perto daqui. Efêndi, acautela-te; trinta homens como tu, nada podem contra estes dois Skipetaros. Se te pegarem, estás perdido. Eu te quero bem.

- Agradeço o teu interesse, mas não tenho medo.

- Não te vanglories sídi.

- Não, certamente não o faço, mas eu tenho um protetor amigo, no qual posso confiar.

- Quem é este protetor?

- O pequeno Halef, que já viste.

O homem fêz uma careta, franziu o sobrôlho e disse:

- Aquele? Aquele fedelho?

- Sim, mas tu ainda não o conheces.

- Em verdade, o chicote ele maneja com maestria, mas o que pode uma karbatja contra dois heróis daqueles?

- Dizias que trinta homens como eu nada podiam contra os dois, mas te digo que cinqüenta destes gigantes não se podem comparar com o meu pequeno Hadji Halef. Estou a sua proteção e nada tenho a temer. Disto tenho certeza.

- Se pensas assim, ninguém te pode auxiliar; estás perdido.

- Oh! não! Deves saber que o Hadji não só come diariamente uma folha, mas uma surata inteira do Alcorão. Por isto, mesmo uma bala de canhão, resvala-lhe pelo corpo.

- Ele é inatingível à bala, faca ou pancada. Para experimentá-lo, já engoliu facas, baionetas, pólvora e fósforos, e deu-se tão bem como se tivesse comido um pastel recheado.

Olhou-me perscrutadoramente e disse, após um momento de reflexão:

- Gracejas, efêndi?

- Tanto como aquele que há pouco disse que os cavalos dos dois Skipetaros são invulneráveis.

- Mas não posso acreditá-lo.

- Também eu não acredito a respeito dos cavalos.

- Oh! Isto é uma coisa muito, muito diferente.

- É a mesma coisa!

- Não senhor! Uma folha do Alcorão não faz mal ao cavalo, não é indigesta, mas facas e baionetas! E pólvora e fósforos! Isto deve rebentá-lo pelo meio.

- Bem, sempre deu um pequeno estrondo, mas desapareceu nos intestinos e nem isto se teria dado, se ele tivesse comido duas suratas, em vez de uma.

- Senhor, isto me é incompreensível, mas o Profeta está no sétimo céu e ao seu poder tudo é possível. De agora em diante olharei melhor para este Hadji maravilhoso.

- Faze-o. Tenho a certeza de que ele não teme a cem dos Skipetaros.

- Posso experimentá-lo?

- Como queiras fazê-lo.

- Por-me-ei de atalaia e tratarei de meter-lhe uma bala na cabeça.

- Faze-o, - respondi-lhe, com a mesma seriedade com a qual ele intentava a prova.

- E achas que ele nada sentirá?

- Creio que algo vai sentir; pois quando a bala lhe resvalar pela cabeça ele o sentirá, como podes imaginar.

- É verdade.

- Mas creio que isto não te fará bem.

- Como?

- A bala ao resvalar provavelmente te ferirá.

- Senhor, isto é bem possível!

- E mesmo que tal não se dê, é de esperar que o Hadji, enraivecido, faça uso de uma faca, coisa prejudicial à tua saúde.

- Por que deveria encolerizar-se?

- Pelo teu ceticismo. Ele não aprecia que se façam estas provas sem sua autorização.

- Então vou desistir da idéia, ou pelo menos pedir a sua licença.

- Isto, sim.

- Achas que ele ma dará?

- Sim, se eu falar em teu favor.

- Peço-te que o faças.

- Falarei com ele, mas agora temos coisas mais importantes a fazer. Já te convenceste da culpa do Kodja Baxá?

- Inteiramente.

- Então ponho-o nas tuas mãos. Deves te acautelar com os dois peões; eles o ajudaram. De minha parte, nada mais quero saber deste caso.

- Senhor, como poderei me haver sem ti?

- Tu mesmo deves sabê-lo, pois és o Kasa Mufti. O Padixá te deu esta função julgando-te capaz de exercê-la e creio que não irás decepcioná-lo.

- Com certeza que não. Serei um juz severo e justo. Devo prender a mulher?

- Não, pois ela teve que obedecer ao marido. A mulher não tem alma, não tem ingresso nos altos céus do paraíso, por isto não deve ser instigada pelos pecados cometidos pelo marido.

Isto soava tão bem ao ouvido da velha, que ela agarrou as franjas do meu cinto e beijou-as com devoção. Evitei suas palavras de agradecimento, afastando-me rapidamente.

O “Procurador do Estado” seguiu-me, trazendo o cafetã na mão e o dinheiro no bolso.

Estou convencido de que o considerava, a partir daquele momento como sua legítima propriedade. E quem sabe se, depois de minha ausênsia, não iria afirmar que eu o tinha levado comigo?

Lá fora estavam à nossa espera. Neste ínterim, ajuntaram-se mais os heróis, que sob o comando dos dois estalajadeiros saíram para armar uma cilada aos criminosos. Eu estava deveras curioso por saber o que tinham conseguido. Naturalmente nada, pois do contrário teriam trazido os patifes.

Harek veio ao meu encontro para perguntar-me (com o que causou uma secreta hilariedade) em tom sério:

- Efêndi, não os agarraste?

- Não, como já deves ter sabido por aqui.

- Nós também, não.

- E? Então não temos motivos de nos recriminarmos uns aos outros.

- Certamente que não. Cumprimos todos com o nosso dever.

- Então, o que fizeste, era cumprir com o vosso dever?

- Nós saímos para emboscá-los.

- Meu caro, isto se subentende; não era preciso uma ordem.

- Nós dois chamamos os vizinhos e fomos ao lugar que determinaste.

- Pois fizeste muito bem, mereces os meus louvores. E depois?

- Depois voltamos.

- É o que estou vendo; não aconteceu nada?

- Nada, efêndi.

- Também isto é muito bom; imagina se algo tivesse acontecido! Quantos homens tinhas contigo?

- Éramos doze.

- Mais do que suficiente; doze contra quatro.

- E estávamos bem armados! Teríamos arrasado tudo que encontrássemos pela frente.

- Sei muito bem que Ostromdja é afamada pelos seus valentes habitantes.

- E também os seus arredores, - disse ele.

- Sim, é verdade, tu és dos arredores. Não viste nem ouviste mesmo nada?

- Oh! Sim! Várias coisas.

- Que foi? Dize!

- Vimos o fogo e ficamos muito contentes com isto.

- Ah! Por quê?

- Pensamos que tinhas queimado os bandidos na própria cabana.

- Não, tanta coragem eu não tenho. Demais nem estavam na cabana.

- Depois vimos algumas pessoas atravessar o mato com archotes.

- Fomos eu e os meus amigos.

- Depois ouvimos chamar e praguejar.

- Não reconhecestes as vozes?

- Muito bem. Primeiro, o velho Mubarek gritou para vós, depois o teu Hadji respondeu.

- Sabias, pois, que era o Mubarek?

- Naturalmente, todos reconhecemos a sua voz.

- Pois devias tê-lo detido a ele e aos seus companheiros.

- Isto não era possível.

- Por que não? Sois gente de coragem.

- Mas não podíamos.

- Por que não?

- Porque estaríamos agindo contra as tuas próprias ordens.

- Como? Quê? De que forma?

- Tu ordenaste que lhe atalhássemos a estrada; foi o que fizemos.

- Depois? Continua!

- Eles foram tão espertos, que não atravessaram a estrada; passaram sobre o campo que estava entre a estrada e o rio.

- E não vos dirigistes para lá?

- Não; como poderíamos abandonar o nosso posto? Um homem valente permanece no seu posto até à morte.

Dizia isto com tão orgulhosa arrogância e olhava-me de uma forma tão provocante, como se esperasse um elogio todo especial. É muito provável que a expressão do meu rosto, neste momento, fosse tudo, menos espirituosa, pois Halef deu-me uma cotovelada, murmurando:

- Sídi, fecha a boca. Queres engolir este valentão?

Realmente eu estava estupefacto com a lógica estranha desta defesa, Era isto de admirar. Que se pode fazer com esta gente? Recriminar? Não. Elogiar? Muito menos. Felizmente apareceu o advogado para salvar a situação. A este como autoridade, - o relatório do corajoso estalajadeiro, devia interessar sobremaneira; mas ele nem prestou atenção, pois que a fixara toda no Hadji. E colocando-se entre mim e Halef, disse baixinho:

- Efêndi, creio que este é o melhor momento.

- Para quê?

- Para que fales com o Hadji, conforme me prometeste. Não queres sustentar a tua palavra?

Devia aborrecer-me ou rir? O bom advogado se interessava muito mais pela invulnerabilidade do Hadji, do que pelo caso criminal.

- De manhã, quando tivermos dormido bastante, não agora, - respondi-lhe. - Agora deves cumprir com o teu dever.

- Como então?

- Lá está o Kodja Baxá e aqui tens o cafetã no braço.

- Devo mostrar-lho?

- Naturalmente! Também tens o dinheiro. Toda esta gente espera que ele seja preso e tu ainda hesitas. Nem parece que queres cumprir o teu dever.

- Mas sim, efêndi! Verás com que severidade tomarei conta deste caso.

- Assim espero.

- Às criadas foi ordenado acender novamente os fogos, já anteriormente citados, e assim o pátio ficou tão bem iluminado, que se podiam reconhecer as pessoas.

O advogado adiantou-se e disse:

- Filhos do Alcorão, filhos da verdadeira crença, eu estou aqui em lugar do Padixá, a quem Alá conceda as alegrias do Paraíso. Tenho a comumicar-vos que o Kodja Baxá... Achamos o seu cafetã, do qual o efêndi estrangeiro arrancou um pedaço. É certo que, pela lei, ele terá que lhe pagar o cafetã, o que fará com prazer, pois é muito rico e o dinheiro vai para a caixa do fórum. . . Queria dizer, para o seu próprio bolso. . . Mas ele provou, brilhantemente, que o Kodja Baxá esteve lá de noite, no morfo. Também encontramos o dinheiro que o Kodja Baxá tinha recebido por ter solto os quatro patifes. Demais soubemos que ele lhes deu os seus cavaslos para a fuga. Não há portanto a mínima dúvida sobre sua culpa, e, por isto, te pergunto nobre efêndi, quanto queres pagar pelo cafetã?

- Allah akbar - Deus é grande, - disse Halef, a meu lado.

Eu estava menos admirado do que ele. Diante da concludência das provas, esperava que o Kodja Baxá fosse declarado prisioneiro. Em vez disso, a conclusão era que eu devia pagar o miserável cafetã. Respondi em voz alta:

- Alegro-me eu ouvir, oh! Kasa-Mufti, que tua justiça é tão grande como a tua perspicácia. Por isso, pergunto, quem rasgou, verdadeiramente, o cafetã?

- Foste tu, efêndi!

- Oh, não!

- Senhor, estou admirado! Isso já foi provado e reconhecido por nós.

- Peço-te que tenhas a bondade de ouvir-me.

- Fala!

- É permitido deter um homem que anda pelo caminho do crime?

- Sim, isto é o dever do verdadeiro crente.

- Então não posso ser castigado por querer deter o Kodja Baxá.

- Por isto, não.

- E nada mais fiz.

- Mas sim, tu lhe rasgaste o cafetã.

- Não, eu o intimei a parar e segurei-o pelo cafetã. Teria esta vestimenta se rasgado, se ele tivesse parado?

- Certamente que não.

- E ele parou?

- Não, ele fugiu.

- Quem então rasgou o cafetã? - Demorou algum tempo antes de responder:

- Oh! Alá! Que pergunta difícil. Quero refletir melhor sobre ela.

- Não é preciso; a tua justiça basta para responder a esta pergunta.

- Então vou refletir.

- Para isto não tenho tempo nem vontade. Confesso que o cafetã foi rasgado...

- Confessas? - interrompeu ele. - Então temos terminado. Tu pagas.

- Espera ainda. Eu te pergunto: O pedaço foi arrancado do cafetã ou arrancaram o cafetã do pedaço? Eu estava parado segurando-o; mas o Baxá arrancou-se a ele e ao cafetã.

O “Procurador” olhou pensativo para o chão, depois gritou alto:

- Ouvis, habitantes de Ostromdja? Deveis conhecer como o vosso juiz é justo. Eu decido, em nome da lei contida no Alcorão, que o cafetã foi arrancado do pedaço. Sois da mesma opinião?

Um sim uníssono, foi a resposta.

- Efêndi, ainda deves responder-me uma pergunta. Tu devias pagar o cafetã, porque julgávamos que o tinhas rasgado. Não achas que, de qualquer maneira, aquele que o rasgou, deve pagar?

- Certamente, - respondi eu, interiormente divertido com esta mudança incrível, pois adivinhava sua intenção.

- Quem então o rasgou?

- O Kodja Baxá.

- Quem o tem de pagar?

- Ele mesmo.

- E para onde vai o dinheiro?

- Para a caixa do fórum.

- E quanto ele tem que pagar?

- Tanto quanto valia o cafetã em estado perfeito.

- Muito bem. Tu mesmo deves avaliá-lo. Em quanto o avalias?

- Era velho e sujo; eu não daria mais do que quinze piastras por ele.

- Efêndi, isto é pouco.

- Não valia mais.

- Que são quinze piastras para a caixa do Padixá?

- O Padixá aceita com prazer mesmo as menores somas.

- Tens toda a razão. Mas será digno de um Kodja Baxá usar um cafetã tão sujo?

- Creio que não.

- Certamente que não. A dignidade da posição exige que ele use uma vestimenta boa, comprida e nova. E quanto vale um cafetã novo?

- Eu vi no bazar de Istambul estas vestimentas pelo preço de trezentas e de quinhentas piastras.

- E não são as mais caras. Um cafetã de trezentas piastras pode bastar a um pobre Baxá Kiatib; um Kodja Baxá deve ter um de, pelo menos, quinhentas piastras. Não achas?

- Concordo contigo.

- Devo então avaliar o Kodja Baxá pela sua posição ou pela de tun Baxá Kiatib?

- Pela sua posição.

- Faço-lhe então uma severa advertência, a saber, que ele conceituou pouco a sua posição ao usar um cafetã nestas condições, e condeno-o, de acordo com a sua dignidade, ao pagamento de um novo, pelo preço quinhentas piastras.

- Se ele não tem o dinheiro, penhorarei a sua propriedade pela soma e fá-la-ei chegar à caixa. Isto determinei e ordenei, baseado no santo Alcorão, que nos regula e governa. E agora prendamos o Kodja Baxá e os seus dois servos. A severidade da lei o esmagará.

O Baxá levantou um berreiro de protesto. Mas eu tinha quanto bastava; não queria ouvir mais nada, nem uma palavra. Fiz um aceno para meus dois companheiros e retirei-me.

Seguiam-nos os dois valentes estalajadeiros, que tão corajosamente permaneceram nos seus postos.

Fora do portão esperava-nos uma mulher que se acercou de mim assim que me viu. Era Nebatja.

- Senhor, - disse ela, - esperei por ti; eu tive medo.

- Por quem? Por mim, talvez?

- Oh! Não! Não pensava que algum mal te pudesse acontecer; era mim que temia.

- Por quê?

- Eu temo a vingança dos homens do júri. Deixaste perceber que fui eu quem te disse tudo?

- Não, nem uma palavra.

- Agradeço-te. Posso estar tranqüila então?

- Bem tranqüila. Também cuidarei para que se acabe a tua necessidade. Ao clarear do dia vou te visitar.

- Serás bem-vindo, efêndi, pois o teu aparecimento foi para mim como o nascer do sol. Alá te dê um sono tranqüilo e belos sonhos!

Ela se foi. Nisto lembrei-me de uma coisa que já lá no morro me tinha passado pela cabeça, e chamei-a, interrogando-a:

- Conheces a planta chamada Hadad?

- Sim, muito bem. É espinhosa e tem frutas amargas; estas têm a forma de pimentões.

- Cresce por aqui?

- Aqui não, mas pelos lados de Banja.

- Que pena! Eu precisava das folhas desta planta.

- Posso arranjá-las.

- Com quem?

- Com o farmacêutico, a quem tive que trazer Hadad.

- Contra qual doença ele a aplica?

- Como emplastro contra furúnculos. A poção serve para dor de ouvidos, para gengivas inflamadas, para escurecimento da vista e para as feridas dos lábios.

- Agradeço-te, vou comprar um pouco.

- Devo ta trazer, efêndi?

- Não, eu mesmo vou buscá-la.

A planta tinha uma eficácia estranha. Eu a queria experimentar em mim, pois estava incerto se podia confiar nos resultados.

No caminho de casa, os dois estalajadeiros falavam muito sobre os feitos heróicos que eles teriam realizado se os fugitivos lhes tivessem atravessado o caminho. Nem prestei atenção a esta conversa. Chegados ao novo albergue, subi junto com Halef, para o meu quarto; mas não nos foi fácil adormecer em seguida. O dia passado fora tão impressionante, que, com o espírito excitado, dificilmente se podia conciliar o sono.

- Sídi, - disse o Hadji, - quanto tempo permaneceremos aqui?

- Não tenho vontade nenhuma de permanecer nesta aldeia um minuto além do necessário.

- Também eu não, sídi. Tenho nojo desta gente. Não seria meIhor sairmos amanhã mesmo?

- Amanhã? Queres dizer hoje, pois a alvorada está perto. Vamos dormir, depois irei visitar Nebatja, e em seguida iremos embora.

- Se não nos obrigarem a ficar.

- Não me deixo reter.

- Fiz bem em fazer o Kodja Baxá provar do chicote?

- Hum!

- Ou devíamos receber as suas ofensas com calma?

- Não, neste sentido te dou toda razão. Ele mereceu a surra.

- Um outro também.

- Pensas em quem?

- Neste Kasa-Mufti. É um patife como os outros. Como ficaria satisfeito se me permitisses fazê-lo sentir também a minha kurbatja.

- Querido Halef, estás enamorado do teu chicote, mas deves pensar que isto tem os seus perigos.

- Senhor, somos feitos de molde a temer estes perigos?

- Sim, até agora tiveste sorte.

- E tê-la-ei daqui por diante.

- Também quando eu não estiver mais contigo? Até agora consegui livrar-te dos apuros com o teu chicote. Mas nem sempre isso será possível.

- Sídi, nem quero me lembrar disto. Se devo separar-me de ti, então podem vir matar-me a chicotadas, que eu não darei um pio!

- Apesar disto, deves te familiarizar aos poucos com esta idéia. Dia virá em que nos separaremos. A ti te chama a tua pátria, a mim a minha, e, infelizmente, estão tão distantes uma da outra, que é forçoso que nos separemos.

- Para sempre?

- É provável.

- Então não voltarás mais para a Arábia?

- Que é a vontade humana? Um sôpro contra os desígnios de Deus.

- Implorarei a Alá que te obrigue a voltar. Que é que tens em casa? Nada, mesmo nada. É um deserto, sem camelos, sem tâmaras ou uns miseráveis coloquintos dos que nem os chacais querem comer.

- Tenho mais do que tu - pais e irmãos.

- Oh! Eu tenho a minha Hanna que é a mais encantadora das mulheres e das moças. Onde tens tu uma Hanna? Que moça podes conseguir na tua terra, se te tornaste estranho? Mas nos Beni Arab podes escolher e ficar com a mais bela - exceto a minha Hanna. Tua pátria pode ser bela, mas não é um deserto. Pensa bem, tu nem podes chicotear um homem que te ofende, pois ele vai ao Cadi e tu és aprisionado, ou tens que pagar cinqüenta piastras de multa. Na minha terra eu daria uma surra no próprio Cadi, se ele me exigisse tal coisa. E que tens para comer! Oh! Alá!

- Disto nada sabes.

- Oh! alguma coisa me contaste, e sobre muita coisa me informei em Istambul. Há batatas, com as quais engolem um peixinho, que só deverão comer aqueles que se embriagaram de Kaki. Depois cenouras e cogumelos, cujo veneno corroí os intestinos. E ostras que se parecera com caracóis. E quem come caracóis!? Comeis até carangueijos que vivem de sapos mortos! Deve ser uma vida horrível. Demais, andais enjaulados em estradas de ferro; nestas jaulas não se pode estar de pé, e, se olhais uns aos outros, tendes que tirar o chapéu da cabeça, maculando assim a vossa fronte. Se um mora na casa de outro, tem que pagar grandes aluguéis; e quem é trabalhador, conforme manda a lei de Alá, para sustentar os seus, tem que pagar um imposto de profissão. Se faz frio, tendes que envolver uma focinheira nos cachorros, e se faz calor ainda acrescentais uma corda. Como se isto protejesse contra frio ou calor! Se lá uma mulher deixa cair o seu lenço, todos os homens têm que pular para apanhá-lo, e se um homem quer fumar seu cachimbo, tem que pedir licença. Vossas mulheres usam vestidos, que, em cima, são curtos de mais e, em baixo, compridos de mais; os homens usam anéis nos dedos como as mulheres e repartem os cabelos, ficando a cabeça como que partida. Se alguém lá quer saber as horas, olha para as torres das igrejas; mas se um padre exige que vivais de acordo com a vontade de Alá, o chamais de padreco. Se algum de vós está resfriado e dá um espirro, que é um sinal de alívio e melhora, lhe gritais - Deus te ajude! Mas se ele tosse porque está tuberculoso, ficais quietos, apesar de ser isto muito mais perigoso do que o resfriado. Os vossos filhos são embalados no berço até enjoarem e a mãe acompanha cantando “cala nenê”! Vossas donzelas se apertam com coletes até ao suicídio. Os vossos jovens penduram óculos de vidraça sobre o nariz e os vossos homens, em vez do Alcorão, estudam o jogo das cartas, de dia e de noite. Quem quer se divertir empenha até as roupas e os móveis, para depois pular, como um louco, numa sala de baile. Dize-me: pode ser belo um país assim? Dize-me se realmente podes ter saudade de lá? Dize com sinceridade, sidi!

O pequeno e bravo Hadji não tinha boa impressão a respeito da vida no ocidente. Mas o que devia eu responder-lhe? Se bem que exagerasse e compreendesse mal muitas coisas, em parte não podia deixar de dar-lhe razão.

- Então que dizes a isto? - repetiu ele, quando não respondi logo.

- Daquilo que dizes, muita coisa está errada. Tudo se adapta a muitos países do ocidente, mas pouco à minha terra natal. Muita coisa por lá, pode ser reprovável, mas...

- Para mim, é o quanto basta. Minha vida consiste em obedecer a Alá, amar a ti, meu amo e amigo, e em mostrar o meu chicote a todos os patifes. Assim que alcançar a região onde começa a cultura e há aguardente, darei volta.

- Então não me acompanhadas além?

- A ti? Hum! Sim, se eu pudesse estar perto de ti, e têr minha Hanna comigo, ficaria, sem me importar inteiramente com o resto. Quanto leva para alcançarmos esta região?

- Se nada nos retiver, dentro de uma semana alcançaremos o mar.

- E depois?

- A separação.

- Oh! sídi, tão depressa?

- Infelizmente! Tu seguirás de vapor para Istambul e Egito, para de lá, alcançar a tribo da tua Hanna, e eu viajarei para o norte, para o país, cuja forma de vida te agrada muito pouco, mas que amarias, se tivesses ocasião de conhecê-lo melhor.

- Não imaginava que a separação estivesse tão próxima, mas um consolo eu tenho.

- Qual?

- Que aqui não podemos seguir tão depressa. Estes quatro rapazes que estão na nossa frente, ainda nos darão que fazer.

- Também o creio; além disso temos que contar com os Aladji.

- Os malhados? Soubeste algo de novo sobre eles?

Relatei o que me dissera o famoso advogado e mencionei também que este o julgava agora invulnerável.

- Sídi, - disse Halef, - isto pode se tornar perigoso para mim.

- Ah! não!

- Como não? Que faço eu, se este homem, a título de experiência, me mete uma bala na cabeça?

- Não ousará fazê-lo, pois teme a tua faca.

- Isto é verdade; mas não nos demoramos por aqui, e eu me acautelarei. Muito me divertiria se pudéssemos enganá-lo.

- Já pensei nisto, pois podia ser para nós de grande vantagem.

- Achas?

- Sim. Os nossos inimigos estão nos cuidando e seria interessante se um de nós fosse tido como invulnerável.

- Não se pode arranjar isto, efêndi?

O bom Hadji estava tão eletrizado pela idéia que se sentou na cama.

- Hum! Talvez, - respondi eu.

- Não digas. . . talvez! Eu te conheço. Quando falas neste tom, já tens uma idéia fixa ou tomaste uma resolução. Não há um truque que se possa empregar aqui?

- Vários até.

- Explica-mos.

- Podia-se carregar uma carabina com uma bala preparada; mas isto não serve, porque despertaria suspeita.

- Continua!

- Carregava-se a carabina e mostrava-se primeiro a bala. No momento de colocá-la no cartucho, deixava-se que ela desaparecesse para dentro da manga e empurrava-se só o cartucho pelo cano. Mas a bala facilmente pode cair deixando clara a mistificação.

- Isso não serve. Assim não! Aquele sobre o qual devem atirar, não pode carregar a arma. Isso é serviço para o incrédulo. Ele e todos os outros devem estar convencidos de que há realmente uma bala no cano, e ela ali deve estar. Não se pode fazer isto?

- Talvez.

- E se a gente usasse uma couraça?

- O som da batida a trairia. E se a couraça não estiver bem trabalhada?

- Oh! Alá! Então teu pobre e bom Halef deixaria de existir, Sídi!

- É verdade, isto não pode ser.

- Mas, creio que arranjarás um meio.

- Conheço um, mas não creio que se possa conseguir aqui.

- Qual é?

- Há dois metais, os quais, misturados de uma certa forma, dão uma liga dura que se parece com chumbo, e tem também o mesmo peso. Depois do tiro, esta mistura, a dois palmos da boca do cano, se desmancha em mil átomos.

- Mercúrio e bismuto. O último tu não conheces; é muito caro e muito difícil de se conseguir por estas bandas.

- Onde se poderia consegui-lo?

- Só na farmácia. Irei lá depois.

- Mas tens certeza de que a bala se desmancha? Do contrário, que seria do teu Hadji?

- Não tenhas cuidado! Farei uma prova. Li sobre isso num livro de mágica e experimentei-o em seguida. O êxito foi satisfatório.

- Mas não se vê depois o pó dos metais?

- Não. O metal se esfacela em partículas invisíveis. Mas, para maior efeito, era preciso que tivéssemos uma bala de chumbo na mão. Na ocasião do tiro fingirias apanhar a bala no ar, mostrando em vez dela, a outra. Ainda poderias atirá-la no chão.

- Vamos fazer isto, sídi!

- Se eu conseguir bismuto, sim; do contrário, é impossível.

- Pensas talvez que os Skipetaros chegarão a saber que nenhuma bala pode prejudicar-me?

- Eu creio que eles souberam isso de alguém por aqui.

- Então seria bom que eles pensassem que também tu não podes ser atingido por bala.

- Certamente.

- Então deixa atirar em ti.

- Isso depende de conseguirmos munição e também da quantidade. Demais, temos que ser muito astutos com esta gente terrível. Vou iludi-la a meu respeito.

- Como assim, sídi?

- Amanhã terei uma cabeleira e uma barba loiras.

- Como podes consegui-lo?

- Existe uma planta, cujas folhas, fervidas, dão em pouco tempo um claro colorido ao cabelo mais escuro. As farmácias têm estas folhas.

- Ah! Esta é a planta da qual falaste a Nebatja?

- Acertaste. Isto enganará os dois rapazes. Demais seguirei na vossa frente para examinar o caminho.

- Mesmo assim te reconhecerão, pois saberão que montas o teu Rih, um verdadeiro morzelo árabe com narinas vermelhas.

- Não o montarei.

- Que cavalo montarás então?

- O teu cavalo. Tu mereces o meu morzelo.

Ao terminar de dizer isso, ouvi um baque. Um segundo depois Halef estava sentado na beira da minha cama.

- Que fazes, pequeno? - perguntei.

- Dei uma reviravolta da minha cama até aqui, - respondeu ele, com a respiração entrecortada. - Falas sério, sídi? Posso montar o Rih?

- Não estou brincando.

- Oh Alá, oh Alá, Alá! Oh! posso montar Rih! Que sorte! Já viajo contigo há muitas luas e só me permitiste montá-lo duas vezes! Lembras-te onde foi?

- Sim, estas coisas são fáceis de lembrar.

- E amanhã pela terceira vez! Confias-mo de boa vontade?

- De muito boa vontade, pois és o único que sabe tratá-lo como merece.

Se ele imaginasse que eu tinha a intenção de lhe fazer presente do valioso cavalo, por ocasião da separação, teria dado mais saltos ainda, através da fraca parede de bambu.

- Sim, meu querido, meu bom efêndi, Rih tem mais juízo do que muita gente; compreende cada palavra, cada som, cada aceno. É mais grato do que uma criatura humana por tudo o que se faz por ele. Tratá-ío-ei como amigo e irmão.

- Disto estou convencido.

- Sim, podes contar com isto. Quanto tempo posso sentar na tua sela? Uma hora inteira?

- Muito mais, muito mais. Talvez um dia inteiro e é possível que mais tempo ainda.

- Como! Quê! Efêndi, sídi amigo e dono de minh'alma! Meu coração está cheio de júbilo - prestes a arrebentar. Eu sou apenas um pobre, ínfimo, tolo Ben Arab, e tu és o mais digno dos homens; mas, apesar de tudo, vais permitir que a minha boca toque os teus lábios, que me deram tão alegre notícia. Se não te der um beijo, arrebento de entusiasmo.

- Oh! Halef! Não faças isso, pois não arrebentaste quando engolis-te facas, baionetas, pólvora e fósforos.

- Não arrebentei, mas experimentei um estrondo interno, - exclamou ele, rindo alegremente. Então senti a sua barba, três fios à direita e sete à esquerda, resvalar sobre o meu bigode. Seu respeito era tão profundo que não se atrevia a dar-me um beijo verdadeiro. Eu apertei este bravo e bondoso rapaz contra meu peito e dei-lhe um valente beijo, à moda alemã, na face. Halef não ficou fora de si, mas, ao contrário, esrgueu-se abruptamente, parando firme na minha frente, até que eu perguntei:

- Então, Halef, não continuaremos a conversar?

- Oh sídi, - redarguiu ele, - sabes o que fizeste? Tu me beijaste! Deu alguns passos procurando algo na sua bagagem.

- Que estás fazendo? - indaguei.

- Nada, absolutamente nada, tu o verás amanhã.

Passou algum tempo até que se acercou novamente da cama e tomou assento. Depois falou:

- Por que poderei montar o Rih um dia inteiro ou talvez mais? Não estarás conosco?

- A esta pergunta nada te posso responder por ora, porque eu mesmo ainda não sei o que acontecerá. Farei o possível para mudar o meu exterior, e então...

- Oh! mesmo assim te reconhecerão!

- Duvido-o, pois os Aladji ainda não me viram. Apenas tiveram uma descrição da minha pessoa.

- Então pode ser que os engane. Mas não virão eventualmente aqui para Ostromdja?

- Isto não é provável.

- Por que não? Julgas que eles por aqui terão que recear pela sua segurança?

- De maneira nenhuma. Como me foram descritos, muito pelo contrário, poderão amedrontar toda esta população acovardada. Mas eles não podem se mostrar aqui na minha frente, por isso me esperam certamente ao ar livre. Nem levarei as minhas carabinas; confiá-las-ei a ti. Vou só e faço de conta que sou um simples habitante deste país. Em qualquer hipótese, hei de vê-los.

- Mesmo se eles se mantiverem escondidos?

- Mesmo assim. Achando um lugar que sirva para uma emboscada, procurarei vestígios e tenho certeza de encontrá-los. O que acontecerá depois, ainda não posso prever.

- Mas devemos saber o que fazer.

- Naturalmente. Cavalgas em trote vagaroso, pela estrada, daqui a Rodowitsch. Após duas horas, atravessas o rio, e depois de mais três horas, no máximo, estarás lá. Se no caminho nada tiver sucedido e nada tiver te chamado a atenção, tomaras hospedagem na primeira estalagem que encontrares à direita. Aí teremos três probabilidades, ou eu já estou lá...

- Assim está bem, sídi!

- Ou já saí...

- Nesse caso deixas um recado.

- Ou ainda não cheguei; neste último caso, espera-me.

- E se não chegares?

- Eu chego, com certeza.

- Tu és humano e podes errar. Algo te pode suceder, para o que precisarás de nosso auxílio.

- Então voltarás sozinho, no dia seguinte, mas não antes do meio-dia e não no morzelo. Este fica no Khan sob os cuidados de Omar e Osko. Não quero expô-lo a perigos. Pelo caminho encontrarás sinais meus. Isto é o que tínhamos que combinar antes. Nada mais posso adiantar hoje, e agora vamos terminar a nossa conversa. Precisamos de descanso e vamos tentar conciliar um sono reparador.

- O sono não me vem, a mágica da bala e o morzelo não me deixam sossegar. Boa noite, sídi!

- Boa noite!

- Não era difícil acreditar que o bom rapaz se encontrasse em um eslado de excitação considerável. Havia três criaturas a quem pertencia o seu coração. Indubitavelmente, eu ocupava o primeiro lugar. Depois Hanna, “a mais encantadora das mulheres e moças”, e em terceiro lugar Rih, o morzelo. Montá-lo, devia constituir um extraordinário acontecimento. Tinha certeza de que ele não poderia dormir.

E assim foi. Eu mesmo estava muito nervoso e não encontrava sossego. Se a boa Nebatja não tivesse subido ao morro para buscar o seu Cardo-de-Maria, não teria podido espreitar, nem tão pouco me avisar. Que ninharia é a vontade humana contra os desígnios de Deus! Embora eu fosse o mais valente, forte, corajoso e precavido dos homens, sem Nebatja, estava perdido.

Estas reflexões costumam abrir as portas, através das quais se entrevê o passado. Feliz daquele que então reconhece que pode atuar por livre arbítrio no seu destino! Mas há sempre uma mão poderosa que o segura e guia, mesmo quando julga desprezar esta mão! E assim, meio pensando e meio sonhando, continuei deitado até pegar no sono.

 

Os dois aladji

Quando despertei, empurrei as tampas das janelas, deixando penetrar a luz do dia. Segundo o testemunho do meu relógio, eu dormira três horas e meia. Halef já se tinha levantado. Achei-o, em baixo, na estrebaria, limpando o Rih e com tal afinco que não ouviu os meus passos. Ao dar comigo, perguntou:

- Já levantaste? Na casa tudo dorme ainda. Mas é bom que estejas acordado, pois temos coisas importantes a fazer.

- É? Fazer o quê? - informei-me, apesar de saber muito bem o que ele queria dizer.

- Temos que ir à farmácia.

- Há tempo para isso.

- Não sou tão bobo que não posso imaginá-lo, sídi.

- Como sabes disto?

- Não são tão bobo que não possa imaginá-lo, sídi.

- Talvez tenhas rasão, pois é preciso ferver as folhas; mas eu não sei onde é a farmácia, e na cidade inteira não terá ninguém de pé para me mostrar a casa.

- Um exímio rastejador como tu não achará uma farmácia?

- Vou tentá-lo.

Abri o portão e saí para a praça. Pela lógica, a farmácia não estaria num canto retirado de alguma travessa, mas sim num lugar de fácil acesso, no centro da localidade, onde, aliás, me encontrava.

Olhando de porta em porta, observei uma coisa velha e carcomida com pretenção a casa. Pendurada em dois pregos, também já frouxos, havia uma tabuleta torta, cuja inscrição era, felizmente, ainda bem legível.

“Hadji Omrak Doktor hakemi me bazar bahari”.

Assim estava escrito com letras brancas em fundo verde. Em português: “O peregrino de Meca, Omrak, doutor em medicina; bazar de medicamentos”. Este Hadji era então um médico, que realmente tinha o titulo de doutor, ou o tinha adotado.

A porta estava fechada, mas não resistiria a um forte empurrão. Não havia campainha; nas duas pontas de uma corda havia dois tampos de madeira, ao alcance de uma pessoa adulta. Adivinhando naquilo a campainha da casa, agarrei os tampos e bati-os um contra o outro. Fizeram um barulho capaz de tirar uma pessoa do sono.

Tive que bater algum tempo aquele timbale singular para que me dessem ouvidos. Em cima abriu-se uma janela, aos pedaços, pois as tábuas não seguravam mais, e apareceu o seguinte: uma careca côr de marfim, uma testa formada de rugas verticais, dois olhinhos sonolentos, um nariz, que se parecia com a boca de uma chaleira de barro marrom, como há nas nossas aldeias, uma boca larga descarnada e um queixo adunco, que não era mais largo do que o nariz. Enfim, aquele conjunto esquisito falou:

 - Kim dir - quem está aí?

- Bir chasta - um cliente, - respondi.

- Ne asl chastalik - que doença?

- Mibim Kyran - quebrei o estômago, - declarei com desembaraço.

- Schimdi, tez - já vou! - gritou o senhor “doutor” com uma voz, da qual deduzi que ainda não lhe aparecera um caso semelhante.

A cabeça se retirou com a máxima rapidez; sobre mim, porém, que tive a ousadia de ainda olhar para cima, cairam os fragmentos do tampo da janela, no rosto. Tive a presença de espírito de pular para o lado, as tábuas já estavam no chão.

Não se passara um minuto quando ouvi atrás da porta um barulho, que parecia um projeto de terremoto. Alguns gatos miavam, um cachorro uivava, jarros eram quebrados, uma bela voz de mulher se fazia ouvir, aos gritos, e uma coisa, que creio ter sido o próprio doutor, caiu de encontro à porta; em seguida, esta se abriu, e o sábio com uma profunda reverência, convidou-me para entrar.

Mas que figura eu via diante de mim! Este “doutor” e o seu negócio de medicamentos, colocados num campo de cenouras na minha terra, espantariam os passarinhos de tal forma, que teriam levantado vôo para Marrocos, para nunca mais regressar.

O seu rosto, visto agora de perto, parecia mais antediluviano do que me parecera há pouco. Estava tão cheio de rugas, que não havia um único lugar liso, por pequeno que fosse. Seu chambre era semelhante a uma camisola; dava dos ombros aos tornozelos, mas apenas tapava-lhe metade da nudez, pois se compunha quase inteiramente de buracos e rasgões. Num pé trazia um chinelo gasto, de couro vermelho, no outro uma bota de montaria de feltro negro. Porém, este feltro era tão arejado, que permitia aos dedos uma larga vista para todas as regiões da Turquia. Trazia a careca coberta com uma touca de mulher, com a parte trazeira colocada para a frente, decerto em conseqüência da pressa com que queria trazer salvação a meu estômago quebrado.

- Senhor, aproxima-te! - disse ele. - Entra nesta pobre fábrica de saúde do teu humilde servo!

Inclinou a cabeça quase até ao chão e moveu-se com passos de cegonha, até que se ouviu atrás dele uma estridente exclamação de dor:

- O Jasik - oh! lástima! Kojun, basar seu nassyvlamuiz useri - Oh! velho, tu me pisas nos calos!

Ele se ergueu assustado e desviou-se para um lado. Aí foi que pude ver a débil criatura que murmurou estas maviosas palavras.

Parecia composta de restos, um velhíssimo tapete e dois pés descalços, terrivelmente sujos. Mesmo assim estes pés eram infinitamente mais atraentes que o rosto. O proprietário da “fábrica de saúde” era um verdadeiro Apolo comparado à sua mulherzinha. De bom grado dedico à beleza do seu rosto um silêncio significativo.

Deu um passo para diante e inclinou-se muito profundamente, como há pouco fizera o esposo.

- Chasch gelduizi Sultamum - bem-vindo, nobre senhor, - saudou-me. - Estamos encantados ao ver a aurora do teu semblante. Que desejas de nós? A cascata da nossa obediência se projetará sobre ti.

- Sen gusse tscha ilakessi bunum heyranli tachaghlaguim - e tu és a beleza desta encantadora cascata, - respondi atencioso, fazendo-lhe uma respeitosa reverência.

Ela bateu várias vezes a mandíbula inferior contra a superior, acenou ao marido, levantando a mão direita num gesto de quem chama à atenção, pôs o dedo indicador à testa e disse:

- Bak, ad Koruar beni gusel - Vê! Ele me chama de bela! Dati tchok dahaeji Katschan seniki - seu gosto é muito mais apurado que o teu.

E virando-se para mim, em tom condescendente, continuou, emprestando à voz sons melodiosos:

- Tua boca sabe falar agradavelmente e tua vista reconhece as qualidades do próximo. Mas isto eu, na verdade, esperava de ti.

- Como? Conheces-me?

- Muito bem. Falaste com Nohuda, minha amiga do peito, e com Nebatja, que nos traz plantas; lá em baixo, no poço da saúde, elas nos falaram de ti. Além disso, vimos o Baxá. O mundo está cheio de louvores a ti, e meu coração se abre em canções associando-se a esses louvores. Choramos lágrimas amargas, porque é a doença que aqui te traz. Mas nós temos estudado todos iki bin iladschlar (1) e te livraremos do teu mal. Nem um homem se afastou de nós sem ter achado ajuda e salvação. Por isto,

 

(1)  Mil e um medicamentos

 

podes confiar tranqüilamente em mim.

Isto prometia. Ela bem parecia têr não somente estudado mil e um remédios, como também tê-los engolido a todos, cujos efeitos ainda ia experimentando. A estas duas criaturas eu não quisera me confiar em caso doença. Disse por isso:

- Perdoa, oh! Gunnesch eschachifa (2), se te molesto. Eu mesmo sou um Hekim Baxá, um médico do meu país, e conheço o meu corpo. Ele necessita de outros remédios diferentes dos daqui. Vim apenas buscar alguns dos teus medicamentos para ver se me servem.

- Jasyk, asdcbyuadschak - que pena, grande pena! - exclamou ela. Nós teríamos examinado o rasgo do teu estômago e o teríamos medido com exatidão. Possuímos um Midemelhemi que te teríamos esfregado na ponta do pano do turbante. É infalível este processo e sara qualquer chaga em poucas horas.

- Talvez o vosso emplastro seja igual ao meu, pois este atua também muito depressa. Mas permite que eu mesmo o prepare.

- A tua vontade é a nossa. Entra, pois, na câmara das pomadas milagrosas e eu procurarei o que o teu coração deseja.

Abriu uma porta lateral, por onde entrou primeiro que eu. Eu a segui e atrás de mim também entrou o infeliz proprietário daquela farmácia e daquela cascata.

O que vi proporcionou-me aquele estado de alma, que geralmente traduzimos pela expressão: arrepios de medo.

Encontrava-me num lugar que melhor servia para uma estrebaria do que para uma farmácia. Minha cabeça batia no teto. O chão era de terra batida e as paredes forradas de caibros, dos quais nem as cascas tinham tirado. Pendurados em pregos viam-se saquinhos de linha, um ao lado do outro. Do centro do teto pendia um barbante segurando uma enorme seringa própria para lavagens intestinais. Sobre uma tábua havia várias tesouras de formas esquisitas, velhas sanguessugas, uma bacia de barbeiro, alicates de mandíbulas com uma polegada de largura. Pelo chão havia louça, em parte ou inteiramente quebrada, e sobre tudo isto reinava um cheiro positivamente indescritível.

- Aí tem! - disse ela. - Esta é a casinha dos clientes. Agora, dize-me: de que se compõe a tua pomada para o estômago?

O farmacêutico se postou na minha frente olhando-me com a máxima atenção. Queria, certamente, me filar a receita.

- Tendes Sadar nalgum destes sacos? - perguntei.

- Sadar? Temos, - respondeu a graciosa, virando-se para a parede.

- Sadar? - observou o marido. - Ihn lotos krnar - a ciência o chama “lotos”.

O Hekim queria mostrar-me que era conhecedor do nome latino da planta. Mas como este já era velho, respondi:

- Tanam Um “celtis australis” konar - a verdadeira ciência o chama “celtis australis”.

Abriu desmesuradamente a boca, olhou-me admirado e perguntou:

- Então há duas ciências diversas?

- Oh! - mais de cem!

 

(2)  Sol da convalescença.

 

- Alá! Só conheço uma. Quanto queres de Sadar, senhur?

- Uma mão bem cheia.

- Bem! Porei neste saquinho de papel, senhor! Que mais queres? No chão havia um papel; eu apostaria quinhentas piastras como fora apanhado na rua. Ela o pegou, torceu-o, passou a língua sobre os cantos para grudá-los e encheu com uma mão de “celtis australis”. Como era para uso externo não protestei contra estes modos familiares da famacêutica.

- Tens álcali? - perguntei.

Olhou-me a velha, surpresa, apesar de ser aquela uma conhecida palavra árabe.

O velho, porém, alargou a boca num sorriso e indagou:

- Qual o que queres?

- É indiferente.

- Senhor, ouvi dizer que tua pátria está no ocidente. Tenho um bom álcali que é de lá, e se quiseres podes levá-lo.

- Como o denominas?

- Schawell suyn.

- Mostra-mo.

Trouxe, realmente, conforme eu esperava, uma garrafinha sobre a qual se lia: “Eau de Javelle. Fabrique de Charles Gantur” - Paris.

- Como obtiveste este álcali?

- Comprei vários frascos a um comis voyageur, que esteve aqui. Ele veio da capital da França, que se chama Praga.

- Erras. Praga é a capital da Boêmia; a capital da França se chama Paris.

- Efêndi, tu sabes tudo isto?

Nisto, interrompeu-o a esposa:

- Lus - cala-te! Isto eu sabia há muito tempo. Tu és um bobo, mas não um médico e um farmacêutico! Senhor! que queres mais?

- Tens mercúrio?

- Sim, pois usamo-lo para encher os barômetros, que fabricamos.

- Como, vós mesmos os fabricais?!

- Sim, não nos julgas capazes?

- Oh! muito! Quem estudou tantos remédios, sabe tudo, não é?

- Sim, tu és um homem sábio e ajuizado. Agora recebemos estoque de saloniki. Se por acaso não tivermos mais mercúrio, colocamos leite de cabra que também é branco e marca melhor o tempo que o mercúrio.

- Falas sério?

- Sim, pois não o sabias?

- Não!

- Pois assim tens a prova de que aqui somos mais sabidos que os homrns do ocidente; as cabras prevêem o tempo com exatidão. Se ameaça chover correm para o curral; portanto, o leite deve servir bem para marcar o tempo.

- És uma mulher sagaz. Mas isto notei logo.

- Quanto queres de mercúrio, senhor?

- Mais ou menos quinhentas gramas; tens tanto?

- Mais ainda.

- Então espera. Tenho que verificar se há mais uma coisa de que preciso.

- Qual é?

- Kul kurschuni. É verdade que é um metal raro. Será que o tens?

- Kul kurschuni não temos, mas temos Kal Kalaji (3), pois dele nos utilizamos para fabricar uma bela pintura branca.

- Também serve. Se tens um Vikiey disto, dá-mo e mais dois Vikiey de mercúrio.

- Também devo pô-lo num saco de papel?

- Não! O mercúrio escaparia.

- É verdade! É como o amor dos homens, que também se volatiliza, quando... quando...

- Quando o derramamos numa coisa assim?

- Sim, mas o saco é o coração. Ele não pode segurar o nosso amor. Oh! o amor, o amor! Já fêz a infelicidade de muita mulher.

Depois de dizer isso, lançou um olhar raivoso para o marido, arrancou-lhe a touca da cabeça, colocou-a na própria cabeça e vociferou:

- Homem, como podes enfeitar-te com uma zinet muenneslukun?! Queres profanar a alma de tua esposa?

O velho cobriu lesto a careca com as duas mãos e gritou:

- Mulher, tu profanas a sacra dignidade do homem! Não sabes que nos é proibido ficar com a cabeça descoberta?

Mas a mulher, espirituosa, soube defender-se, respondendo: _

- Bunda, jokary kaldyr kass kutuju - toma, usa a caixa da farinha. Agarrou ao mesmo tempo uma caixa de papelão, redonda, que ainda continha um resto de farinha, e colocou-a, atravessada, sem se importar com o pó, sobre a cabeça do marido, cujo rosto ficou todo branco; mas ele não se atreveu a dizer uma única palavra, e deixou este original enfeite sem protesto, sobre o calvo nimbo da sua sapiência. Como um moslim severo, que não pode descobrir a cabeça, estava bem feliz por ter algo que a cobrisse. A impressão que me causava aquele toucado lhe parecia ser de todo indiferente. Ajoelhou-se no chão e mexeu nos velhos cacarecos.

- Mas que procuras? - perguntou-lhe a cara metade.

- Uma garrafa para pôr o mercúrio do efêndi. Aqui está uma!

Levantou-se e passou a garrafa para a mulher. Esta era tão grande que teria comportado todo o estoque de mercúrio e talvez ainda mais! A mulher segurou-a contra a luz, olhou para o conteúdo e disse:

- Ainda contém verniz velho.

- Que mal faz?

- Muito. Apanha um pouco de água e lava-a.

Passado algum tempo, durante o qual me tinha distraído em conversa com a sábia senhora, Ele voltou, muito vermelho, e disse em tom de desespero:

- Não a consigo limpar, experimenta tu mesma.

- És um desageitado! - redargüiu ela. - Não tens geito para nada.

Afastou-se com a garrafa. Deixei-a fazer a limpeza, sem dizer uma palavra. O marido, em confiança, relatou-me alguns exemplos de sua grande felicidade conjugal, enquanto a mulher voltava, mais corada do que ele tinha estado antes.

 

(3)  Bismuto

 

- Efêndi, - queixou-se, - a garrafa está encantada. O verniz não sai.

- Isto sabia eu.

- Como? Ê mesmo?

- Sim, não é possível tirá-lo com água, somente com terebentina. O verniz não se dissolve com água.

- Mas tu podias ter dito.

- Oh não! - eu vos teria ofendido.

- Por quê?

- Um farmacêutico deve sabê-lo; ademais, isto se sabe mesmo que não se tenha estudado química. Se vos tivesse chamado a atenção, seria uma falta de delicadeza, pois daria a entender que não acreditava que houvésseis estudado dois mil e um remédios.

- Tens razão. És um homem delicado e atencioso. Por isso também recebes o verniz de graça. Ponho o mercúrio por cima. Onde tens n balança, homem?

- Está no pátio. Pesei ontem o coelho que vamos comer hoje.

- Traze-a.

- Oh! Deus! - uma balança de farmácia, na qual se pode pesar um coelho morto! Quando a trouxe, vi que, pelo menos o braço da balança, talhado em madeira, era obra dele. O fiel era um pedaço de arame, que se movia entre dois dentes de um garfo. Os pratos eram duas caixas de madeira, redondas, com as respectivas tampas. Mas apesar de tudo, este instrumento raro, mantinha mais ou menos o equilíbrio.

Com esta balança me foi pesado o que pedi. Fiquei muito satisfeito com o preço que a senhora farmacêutica me fêz, principalmente por vir o bismuto cristalizado em excelentes romboedros.

Após ter comprado também o chumbo, abandonei esta loja singular, acompanhado dos melhores votos de bem-estar e de felicidades para a viagem.

De lá me dirigi à boa Nebatja, que também já estava de pé, e me recebeu com grande satisfação.

Mostrou-me o seu rei dos cardos, que examinei bem à luz do dia. Quis presentear-mo, mas eu não o aceitei. Naturalmente agradeci-lhe pelo aviso, e expliquei-lhe que ele me iria ser muito útil. Quando lhe disse que me salvou a vida, mostrou-se encantada.

Compadeci-me sinceramente daquela boa mulher. Já ontem me viera a ideia de que com facilidade podia tornar-lhe o futuro menos pesado, e naquela ocasião objetivava o meu pensamento. Eu possuía o dinheiro, que foi achado com Manach el Barcha, Barud el Amasat e o guarda-cadeia. Não havia duvida que eu devia entregá-lo. Mas a quem? À boa autoridade de Ostromdja? Não! Ao superior tribunal? Pessoalmente não o podia fazer, pois para isso não havia tempo. E mandar um mensageiro? Boa presa sido para ele. Demais, os três de quem o tomamos, tinham fugido. Devolver-lhes o dinheiro, seria loucura. Nada de melhor podia fazer do que dá-lo aos pobres, e a Nebatja em primeiro lugar.

Devia apenas esconder-lhe a sua procedência, pois do contrário recearia recebe-lo. Se bem que não pretendesse dar-lhe a soma inteira, pois acharia outros igualmente necessitados, estava convencido de que a parte que lhe era destinada, bastaria para preservá-la de qualquer necessidade.

Ficou petrificada de alegria, quando lhe dei o dinheiro ao ficarmos sós. Nem queria acreditar que esta soma, que para ela representava uma fortuna, lhe poderia pertencer. As lágrimas lhe brotaram dos olhos. Sobremaneira encantada estava com o fato de poder consultar um médico de verdade para o seu menino. Tive que me esquivar, à força, dos apertos de mão e das suas palavras de agradecimento.

Halef, neste ínterim, esperava-me com impaciência. Estava parado no portão e gritou-me de longe:

- Finalmente, finalmente, sídi! Temos tanta pressa e te demoras tanto! Como é o negócio da mágica?

- Muito bem. O dono da estalagem já acordou?

- Todos já estão levantados.

- Então vou ao fogão. Preciso cozinhar e derreter.

- Quero assistir, e tu deves explicar-me tudo para que possa imitar-te.

- Não, meu caro, nada de imitações. É necessário alguns conhecimentos, que tu não tens; e mesmo aquele que os possui, pode, por um pequeno descuido, cometer um erro, que certamente custará a vida a si mesmo ou a outrem Por isso não revelarei a ninguém os quatro ingredientes nem a maneira de misturá-los. Osko pode trazer-me o molde das balas; ele tem o calibre dos canos das carabinas que aqui se usam.

Os nossos preparativos não nos tomaram mais do que meia hora. As folhas de Sadar foram fervidas em “Eau de Javelle” e a poção foi coada em um pano de linho velho. Aquela mistura deu oito balas, que tinham toda semelhança com as verdadeiras. Demais, fundimos algumas balas de chumbo, que marcamos levemente com a faca.

Depois disto, peguei a carabina de Osko, e fui para o fundo do terreno, onde não permiti que ninguém me acompanhasse. Carreguei a carabina com uma bala de mercúrio, postei a boca do cano a um palmo e meio de uma tábua e atirei. O tiro não teve diferença de um tiro comum, mas a tábua ficou intacta. No chão não se via a mínima partícula da bala pulverizada.

Esta prova foi o bastante para que eu me certificasse de que não podia acontecer uma desgraça. Uma traição não precisava temer, pois só Halef, Osko e Omar estavam informados do plano, e eu podia confiar no silêncio dos três.

Isto tudo foi feito em boa hora, pois quando regressei, vieram o Kasa-Mufti, o Ajak Naib e mais outros. Quando o primeiro me viu, acercou-se de mim, puxou-me para o lado, e disse:

- Efêndi, podes imaginar a que venho?

- Queres avisar-me o que há com o Kodja Baxá.

- Não, oh! Não! Queria te perguntar, se já pediste permissão ao teu pequeno Hadji para alguém lhe atravessar a cabeça com uma bala?

- Fazes tanta questão disto?

- Sim, pois é incrivelmente milagroso. Ele já comeu hoje as folhas do Alcorão?

- Pergunta a ele mesmo.

- É melhor não lhe perguntar, ele pode levar a mal. É destro na faca! E no chicote também!

- Sim, é um homenzinho às direitas.

- Dize se já lhe perguntaste.

- Sim, imediatamente antes de irmos dormir.

- E o que respondeu?

- Hum! Parecia disposto.

- Isto seria esplêndido, maravilhoso! Quando podemos começar?

- Calma! Isto não vai assim como queres. Meu protetor tem suas esquisitices. Demais não te disse tudo ontem. Nós todos, isto é, os meus três companheiros e eu, temos a mesma propriedade. Não precisamos recear nenhuma bala.

- Quê?! - Também tu?!

- Como te digo.

- Tu também comes as folhas do Alcorão?

- Não perguntes demais! Estes segredos não se revelam de boa vontade.

- Assim é que podemos atirar em todos vós a nosso bel prazer?

- Sim, se é que estais cansados de viver.

- Como assim? Não sinto nenhum cansaço.

- Então toma cuidado e não atires em nenhum de nós sem nos ter pedido prévia licença.

- Por que não efêndi?

- Se concedermos a licença, pode-se fazê-lo sem perigo. Mas quem o fizer traiçoeiramente, a este a bala atingirá e no ponto do seu corpo correspondente ao do outro contra quem atirou.

- Se atiro, pois, a bala na cabeça do teu Hadji ou na tua, a bala atinge a minha?

- Certamente, queres prová-lo?

- Não, efêndi, agradeço. Mas por que o determinaram assim, e não de maneira diferente?

- Isto, a tua sagacidade te pode dizer; é por causa de eventuais inimigos. Para castigá-los não basta que as suas balas não nos causem dano, é preciso que sejam atingidos como quiseram nos atingir. Esta é a velha lei da justa recompensa.

- Frowet, goz itschum goz, disch itschum disch.

- Sim, olho por olho, dente por dente. Assim não queres ser nosso inimigo. Quando saireis daqui?

- Causa-te alegria a nossa partida?

- Não; eu queria antes que ficásseis sempre aqui, pois trouxeste-nos uma grande mudança.

- Para bem?

- Sim, e por isto te agradecemos, apesar de ser melhor deixar tudo assim como Alá o fz.

- Alá quis que o Mubarek vos enganasse e que o Kodja Baxá libertasse vossos prisioneiros?

- Isto não.

- Como vai o Kodja Baxá?

- Ele está bem preso.

- Espero que nada farás para subtraí-lo ao castigo merecido.

- Que pensas de mim?! Sou um servo fiel do Padixá e cumpro sempre com o meu dever. Em vista disso podias fazer-me a gentileza de dizer uma boa palavra; em meu favor, ao Hadji.

- Vou lembrar-lhe.

- Permites que traga mais algumas pessoas?

- Nada tenho a opor.

- Volto já, quero avisar ao bom Torna, que tanto quer vê-lo.

- É um moço que leva e traz recados, fazendo esse serviço daqui para Radowitsch. Um homem correto?

- Muito correu Quando te ausentaste ontem, falou muito bem de ti. Eu lhe contei que teu Hadji comia folha do Alcorão e que em conseqüência disto era invunerável. Ficou muito desejoso de ver-vos; estima-vos e é vosso amigo. Poso trazê-lo?

- Traze-o.

Afastou-se a passsos rápidos. Suspeitei que este bravo homem, Torna, fosse um enviado dos Adadji, mandado para observar-nos e relatar-lhes tudo. Em seguida notei o efeito dos esforços do Kasa-Mufti. Reuniu um número considerável de pessoas, a cujos olhares nós nos subtraímos, indo-nos sentar no quarto. O “promotor” veiu procurar-nos ali.

Trazia consigo um homem de pernas tortas, que me foi apresentado com as palavras:

- Vê, efêndi, êse é o mensageiro de quem te falei.

Olhei-o bem de fente e interroguei-o:

- Tu levas e trajes recados daqui para Radowitsch?

- Sim, senhor, - redargüiu ele,  - mas eu não vou a pé, vou montado.

- Quando segues, a próxima vez?

- Depois d’amanhã.

- Não vais antes?

Respondeu que não, e eu disse:

- Isto é muito bom para ti.

- Por quê?

- Por que este aminho te podia ser perigoso hoje.

- Por que motivo, efêndi?

- Isto não vem ao caso, mas se quisesses seguir, hoje, advertir-te-ia.

- Mas tu mesmo vais?

Sérios e honestos tinham sido até então os seus olhos para mim; logo se tornaram agudos e perscrutadores.

- Certamente! - disse eu, sem fazer caso.

- Quando, efêndi?

- Ao meio-dia em ponto.

- Não é boa hora; deve-se seguir à hora da oração da tarde, duas horas antes do pôr do sol.

- Isto se faz no deserto, mas não aqui. Não se atravessam, de boa vontade, florestas desconhecidas, à noite, ainda mais quando os Aladji se acham perto.

- Estes? - perguntou com uma admiração muito bem imitada.

- Tu os conheces? - redargüi.

Ele negou, sem vacilar.

- Mas já ouviste falar deles? - indaguei mais.

- Pouco. O Kasa-Mufti aqui me disse que eles queriam te atacar.

- Já o soube.

- Por quem?

- Por um bom amigo. Se eles forem espertos, não me tocarão, pois n3o gosto de gracejos.

- Já o soube, senhor, - sorriu ele. - A ti e aos teus nenhuma bala pode atingir.

- Oh! isto não é tudo!

- Sim, as balas se voltam contra aqueles que as atiraram.

Seu olhar resvalou por mim com um brilho astuto, como se quisesse dizer: Ouve, tu também não és tolo; não vamos nos enganar mutuamente. Era mais ladino que o “procurador da Kasa”. Este último viu este sorriso e interpretando-o como favorável perguntou:

- Não queres acreditar nele, Torna?

- O que o efêndi mesmo diz, deve-se acreditar.

- Isto te aconselho. Duvidar seria uma ofensa; e tu sempre fôste um homem cortês.

- Sim, Alá o sabe. Por isto penso que o efêndi também será bastante cortês para nos provar que é invulnerável.

Halef tinha nos observado. Era seu hábito, ao nos encontrar-mos com uma pessoa, ler no meu rosto o que eu pensava dela. De qualquer modo percebeu logo que eu não tinha por este homem de recados nenhuma amizade, pois apanhou o cabo do chicote e disse:

- Homem, queres por acaso ensinar ao nosso célebre emir, o que deve fazer? Se quiseres estou pronto a escrever-te os parágrafos das leis de cortesia nas costas com este chicote.

Erguera-se e deu alguns passos ameaçadores em direção do homem. Este se retirou depressa até à porta e exclamou:

- Dur, dur ej hadschyim - para, oh Hadji! Nem me passou pela mente dar-vos uma ordem. Deixa o chicote no cinto. Não sinto vontade de travar conhecimento com ele.

- Então porta-te de tal forma que possamos estar contentes contigo. Somos filhos do único Profeta e filhos do Padixá e nada suportaremos de um portador de nome Torna, pois assim só se pode chamar a um descrente, que das melancias do moslim, somente pode comer a casca. Demais vamos provar-vos, que não dissemos mentiras, mas sim que praticamos milagres incríveis; ficareis embasbacados! Vamos fazê-lo, efêndi?

- Sim, Halef, se estás de acordo.

- Estou, vamos ao pátio!

Ao sairmos para aí, o pátio estava repleto de gente que esperava, curiosa, o milagre que lhes foi anunciado pelo Kasa-Mufti. Aqueles pelos quais passávamos, olhavam-nos com olhos arregalados, e os mais distantes esticavam o pescoço para não perder um único dos movimentos.

O Hadji agarrou o chicote, e, distribuindo pancadas para a esquerda e para a direita, abria o caminho, que dava para um pequeno galpão.

- Sídi, podes dar-me as balas? - perguntou-me, baixinho.

- Não, quero ir na certa para evitar um acidente. Primeiro tomamos uma bala de chumbo verdadeiro. Tu deves falar com o povo. Tens maior talento do que eu para falar.

Ele se sentia extraordinariamente lisongeado com este elogio. Aprumou-se e sua voz ressoou:

- Homens de Ostromdja, ides têr agora a sorte imerecida de ver quatro homens valentes, cujos corpos não se deixam atravessar pelas balas inimigas. Abri vossos olhos e esforçai-vos cerebralmente para que nada vos escape do milagre a fim de que possais contá-lo a vossos filhos, aos filhos de vossos filhos e tetranetos, se ainda viverdes. É necessário que não façais barulho, para que não haja impedimentos, e mandai-me, agora, o homem que considerais o melhor atirador, com sua carabina.

Ouvia-se um murmúrio à meia voz. Procuraram alguém e finalmente apresentou-se um homem com a carabina na mão. Fora dele não vi ninguém armado.

- Tua carabina está carregada? - perguntei alto.

- Sim, - respondeu.

- Tens várias balas contigo?

- Não, senhor.

- Não importa: dar-te-ei das minhas. Mas, primeiramente, tens que me mostrar que és um bom atirador. Vês aquela tábua nova pregada no galpão? Há ali um nó na madeira. Procura acertá-lo.

O homem deu um passo para trás, apontou e atirou. Alguns presentes verificaram e acharam que ele apenas errara por meia polegada.

- Não acertaste bem, - disse eu. Experimenta mais uma vez. Dei-lhe uma das balas de chumbo recém-fundidas. Osko contribuiu com a munição. O segundo tiro foi melhor: o homem tinha apontado com mais cuidado. Dei-lhe então três das outras balas, tomando secretamente uma bala de chumbo na mão direita, e disse:

Agora tenta acertar o buraco que fizeste agora na tábua. Mas mostra primeiro a bala a esta gente, para que se convença que carregas a arma com precisão.

A bala passou de mão em mão, o que levou algum tempo, pois cada um queria ver e apalpá-la. Quando lha devolveram, carregou a carabina.

- Aproxima-te mais! - ordenei-lhe, empurrando-o para perto do alvo. - Agora podes atirar.

Com estas palavras, postei-me diante da tábua. Ele baixou a carabina erguida e disse:

- Senhor, como posso assim acertar a tábua?

- O que te impede?

- Tu estás na frente!

- Isso não tem importância.

- Tens o peito diante do meu alvo.

- Pois atravessa-o.

- Oh senhor, então serás morto!

- Pois não quero eu provar que a bala não me pode atingir?

Ele passou a mão pela cabeça, coçando-se com embaraço atrás da orelha.

- Pois é isso! - redargüiu ele. - O caso é muito perigoso para mim.

- Como?

- A bala resbalará por ti e me atravessará o peito.

- Não tenhas cuidado. Agarra-la-ei com a mão e segura-la-ei.

Um murmúrio de espanto passou pela fila dos presentes.

- Mas isto será verdade, efêndi? Sou eu quem sustenta minha família. Se eu morrer, só Alá cuidará dela.

- Não morrerás. Prometo, pela barba do Profeta.

- Se tu o dizes, vou tentá-lo, senhor.

- Atira sem receio!

Eu tinha observado atentamente, Torna, o mensageiro. Ele chegou-se agora para bem perto e não tirava os olhos de mim. O atirador fêz pontaria; a distância, entre nós, era somente dez ou onze passos. Mas tornou a baixar a carabina dizendo:

- Nunca apontei a arma para um homem. Senhor, tu me perdoas se eu acertar?

- Nada terei que perdoar-te, pois não me acertarás.

- Mas se eu acertar?

- Então nada tens que te recriminar, pois eu to ordenei.

Ergui a mão direita, deixei, porém, resvalar a bala pela manga, depois mostrei a mão vazia e disse:

- Com esta mão vou apanhar a bala. Eu conto. Quando eu disser “três” - podes atirar.

Abaixei o braço e apanhei, na cava da mão, a bala, que rolava da manga. Não havia um olhar que não fosse dirigido sobre mim.

- Um - dois - três!

O tiro partiu. Com a mão fiz um geito de encontro a boca do cano, como se quisesse apanhar a bala atirada. Em seguida, ergui a bala reserva entre o polegar e o dedo indicador.

- Aqui a tens. Toma, Torna, pega-a!

Este observou bem para ver se era a mesma que saíra do cano. É claro que se parecia inteiramente com a outra. O mensageiro estava parado, de boca desmesuradamente aberta, olhando-me petrificado, como se eu fosse um espírito do outro mundo. O efeito sobre os outros era menor. Tinham duvidado até o último momento; mas agora o suposto milagre tinha se realizado. A bala foi passada para diante. Quando o atirador a recebeu de volta, eu disse muito alto, para que todos pudessem ouvir:

- Agora, carrega-a novamente e alveja a tábua.

Assim o fêz e atirou. A bala, naturalmente, perfurou a tábua.

- Estás vendo? Um buraco assim eu teria agora no peito, se não fosse invulnerável. Agora podes atirar, à vontade, tanto em mim como em meus três companheiros.

Sucedeu o mesmo que acontecera antes, e isto deixou aquela gente simples fora de si. Todos se chegavam para olhar minha mão, e não achavam palavras suficientes para expressar o seu espanto, pois não encontravam o mínimo sinal de ferimento.

- Allah onum ile - Alá está com ele! - ouvi dizer um.

- Saheidan sahibi - Ele tem o diabo! - redargüiu outro.

- Como o diabo pode auxiliá-lo, se ele come o Alcorão? Não. Alá é grande!

Trocaram as mais desencontradas opiniões, enquanto eu dei ao atirador outras três balas, postando Halef, Osko e Omar contra o galpão.

Talvez estes três não confiassem previamente na minha esperiência. Mas como esta não me tinha causado mal, ofereceram-se sem medo, como alvo dos tiros. Apenas o logro de apanharem a bala tiveram que suprimir, pois não lhes teria resultado bem. Isto reservei para mim. Postei-me, pois, a seu lado e apanhei algo no ar, no momento do tiro, devolvendo-lhes depois, de cada vez, uma bala de chumbo, com a qual ia sendo feita a prova de atravessar a tábua.

Após terem eles provado igualmente a sua invulnerabilidade, levantou-se uma torrente indescritível de ovações. O povo acercou-se de nós para apalpar, olhar e interrogar-nos. Teriam sido precisos vários dias para respondermos a todas as perguntas que nos foram dirigidas. Para fugirmos a esta avalanche, retiramo-nos do quarto.

De lá observei Torna, o mensageiro. Ele desistiu completamente de sua incredulidade; isto percebi pelos gestos entusiasmados com os quais procurava ilustrar o acontecido a pessoas que estavam mais afastadas. Fiz um aceno ao Hadji, apontei-lhe o mensageiro e disse:

- Não o percas de vista, e se ele sair, segue-o sem que ele o perceba, para observá-lo.

- Por quê sídi?

- Suspeito que seja um enviado dos Aladji, para nos espreitar.

- Ah! Por isto é que cerraste o cenho quando o olhaste. Logo vi que não confiavas nele.

- Mas em que pode prejudicar-nos?

- Ele avisará aos dois Skipetaros que sairemos daqui ao meio-dia.

- Mas ele disse que não iria.

- Mentiu, fica certo disto. Quando ele voltar agora, sai da cidade e esconde-te em qualquer ponto da estrada, que conduz para Radowitsch. Avisar-me-ás quando ele tiver passado.

- E se ele não víer?

- Neste caso, voltarrás depois de duas horas. É de supor que então ele não irá.

Perguntei onde ficava um salão de barbeiro e segui para lá para fazer a barba e o cabelo. O dono da barbearia também tinha visto o novo milagre. No oriente, os salões de barbeiro são o ponto de reunião predileto dos curiosos, por isto não estranhei encontrar a loja cheia de gente.

Esta boa gente observou os meus menores movimentos e enquanto o barbeiro se ocupava de mim, manteve-se em profundo silêncio.

Um deles, sentado atrás de mim, pôs-se a apanhar as pontas dos cabelos que caíam, até que o barbeiro, após ter reconhecido a inutilidade dos seus olhares ferozes, o contemplou com um valente pontapé, exclamando:

- Ladrão! O que caí aqui é minha propriedade. Não me roubes!

Na volta, entrei numa loja que vendia meias e noutra que vendia óculos. Na primeira comprei um par de meias compridas, que alcançavam as coxas, e na outra comprei um par de óculos com vidros azuis. Numa terceira loja, adquiri um pano verde de turbante, que só pode ser usado pelos descendentes do Profeta. Com isto tinha tudo o que necessitava.

Demorei-me mais de uma hora. Quando voltei, Halef já estava em casa.

- Sídi, tu tinhas razão. O homem se foi.

- Quando?

- Apenas alguns minutos após ter chegado em casa.

- Será que já estava, preparado para ir?

- Certamente, pois do contrário teria que selar os animais.

- Que animais estavam com ele?

- Montava uma mula, levando pelo cabresto quatro burros carregados, seguindo cada um amarrado no rabo do animal precedente.

- Ia devagar?

- Não, parecia ter pressa.

- Quer livrar-se da incumbência. Bem, isto não nos prejudicará. Eu sigo agora e vós abandonareis Ostromdja ao meio-dia.

- Fica então nisto o que combinamos antes de deitar?

- Naturalmente.

- Eu monto o Rih?

- Sim, e eu monto o teu cavalo. Sela-o e segue novamente para fora da cidade; leva, porem, os teus chinelos de oração.

- Por quê, sídi?

- Tens que mos emprestar, pois posso deixar minhas botas.

- E eu devo usá-las?

- Não, pequeno, pois correrias o risco de desaparecer dentro delas. Vou te dar tudo que deves guardar para mim, principalmente as carabinas. Depois me despedirei.

Isso foi mais difícil do que eu imaginava. O dono da estalagem, Harek, que também queria voltar para casa, prometeu-me deixar chibatar bastante aos dois irmãos, que se tinham instalado comigo, porque ele não teve a coragem necessária para fazê-lo.

Enfim, pude acomodar-me na sela. Os dois estalajadeiros se admiravam porque eu não montava o meu morzelo, mas não adivinharam os motivos que eu tinha para isso. Fora da cidade esperava-me Halef e, ao seu lado, Nebatja.

- Senhor - disse ela, - soube que queres deixar-nos e vim para agradecer-te mais uma vez; aqui, ninguém o podia ver. Lembrar-me-ei de ti e jamais te esquecerei.

Apertei-lhe a mão e parti depressa. Doía-me ver-lhe os olhos úmidos.

Halef seguiu-me algum tempo até alcançarmos uma moita. Aí desci e ocultei-me atrás dos arbustos.

O pequeno Hadji teve que trazer a vasilha que continha a poção das folhas do Sadar. Com a ajuda de um paninho, que eu trouxera para este fim, ele me espalhou cuidadosamente o líquido pela barba e pelo cabelo.

- Sídi, porque deixas untar tua cabeça com este líquido?

- Já o verás.

- Será que o cabelo muda realmente?

- Vais ficar admirado.

- Já estou curioso. Mas para que servem estas meias compridas que trouxeste no bolso? Pretendes vesti-las?

- Sim, e calçarei por cima os teus chinelos de oração.

O pequeno, em viagem, levava sempre consigo estes chinelos para que os tivesse à mão, quando encontrasse uma Moschu, pois era prescrição entrar nelas descalço.

Quando terminou de me untar a cabeça, descalçou-me as botas e eu, no lugar delas, enfiei as meias. Os chinelos eram um pouco apertados, mas sempre consegui enfiá-los. Quando, feito isto, encarou a minha cabeça, bateu as mãos de espanto e gritou:

- Alá! Que milagre! Teu cabelo está ficando bem louro!

- Realmente? Então a droga já faz efeito?

- Em alguns lugares.

- Então temos que tornar a molhar os lugares escuros. Aqui tens O pente para espalhar o líquido.

Ele continuou a obra começada, e, quando, alguns instantes depois me olhei no espelhinho de bolso, estava louro. Então coloquei o fêz, e Halef teve que me enrolar o pano verde para turbante, de maneira que a ponta desfiada caísse sobre o ombro direito.

- Sídi, estou cometendo um grande pecado, - disse ele cabisbaixo. - Só os descendentes do Profeta podem usar este distintivo. Mas tu não és adepto do Alcorão, mas sim do Kitab el mukadas. Poderei responder por esta profanação quando tiver que passar pela “ponte da morte”, que tem a largura de um fio de lâmina afiada?

- Com certeza.

- Mas eu duvido-o.

- Não tenhas receio. Um maometano pecaria contra os descendentes do Profeta se usasse o distintivo deles, mas nós cristãos não precisamos observar esta regra. Os adeptos da Bíblia podem usar o que lhes apraz.

- Assim é mais fácil e mais cômodo para vós. Mas um erro estou cometendo. Se tu mesmo colocasses o pano, isto não pesaria na tua consciência, mas como sou eu que o faço, um filho crente do Profeta, serei certamente castigado.

- Não tenhas cuidado, tomarei de boa mente este pecado sob a minha responsabilidade.

- E vais assar em meu lugar no inferno?

- Sim.

- Oh! sídi, não o consinto. Estimo-te demais. Prefiro eu mesmo assar, pois julgo que o suporto melhor do que tu.

- Julgas-te com mais força do que eu?

- Não, mas sou muito menor do que tu. Talvez encontre um lugar onde possa agachar-me entre duas chamas de modo que estas não me causem dor.

O maganão não levava muito a sério as suas considerações, pois eu sabia que no fundo do coração, há muito tempo se havia convertido ao cristianismo.

Para completar a transformação, coloquei os óculos e enrolei-os no pelego, mais ou menos como os mexicanos trazem o seu serape.

- Mudscbugat Allah - Milagre de Deus! - Exclamou Halef, tornaste-te inteiramente outro.

- Deveras?

- Sim, não sei se te reconheceria se passasses assim por mim a cavalo. Só pelo teu porte, saberia que eras tu.

- Este também mudará. Mas nem será preciso. Os Aladji nunca me viram. Só me conhecem através de descrições, e assim é fácil iludi-los.

- Mas o mensageiro te conhece.

- Talvez não o encontre.

- Penso que estará com eles.

- Dificilmente. Queriam emboscar-se no caminho de Radowitsch; mas ele tem os três burros carregados e quer entregar lá a mercadoria. Está pois com a intenção de ir até Radowitsch. Devemos supor que ele os avisará no caminho para depois seguir.

- E julgas mesmo poderes haver-te sozinho com eles?

- Sim, decerto.

- Os malhados são muito mal afamados, talvez fosse melhor que te acompanhasse, pois sou o teu amigo e protetor.

- Agora tens que proteger Osko e Omar, confio-te os dois.

Isto consolava-o e açulava-lhe a vaidade. Por isso respondeu ligeiro:

- Tens toda razão sídi. Que seria dos dois sem mim, teu valente Hadji Halef Omar? Nada, absolutamente nada! Demais tenho o Rih a quem devo dedicar toda a minh'alma. Muito me foi confiado.

- Mostra-te digno desta confiança. Lembras-te de tudo que falamos?

- Tudo. Minha memória é como a goela de um leão, cujos dentes seguram tudo o que apanham.

- Assim é que vamos separar-nos. Adeus! Não cometas nenhuma tolice!

- Sídi, não magoes minh’alma com estas ponderações. Eu sou um homem, um herói, e sei o que tenho a fazer.

Jogou a panela inutilizável entre as moitas, pendurou as minhas botas nas costas e voltou para a cidade. Eu, porém, dirigi-me para noroeste, ao encontro de um destino perigoso, e, quem sabe se também funesto! Por enquanto não havia motivos para recear um perigo. Se os Aladji me reconhecessem, podiam mandar-me uma bala traiçoeira ou atacar-me de emboscada. Assim, apenas podia esperar, na pior das hipóteses, um ataque direto, com o fim de me roubar, como é natural a qualquer outro viajante. Mas para isto, o meu atual aspecto não era muito convidativo.

Eu parecia um pobre e direto descendente de Maomé, que nada tinha de seu, se bem que, tendo deixado as carabinas, tivesse os meus dois revólveres no bolso, e estes bastariam para acabar com mais de dois atacantes. Eles apenas podiam ver a faca e julgar que era minha única arma. Isto os teria induzido a uma despreocupação que lhes poderia resultar perigosa.

A região entre Ostromdja e Radowitsch é muito fértil. Campos e pastagens se sucedem a cada passo. A runitza é a Fada que dá propriedade à região.

Pela esquerda, tinha as montanhas a noroeste do Welitza Darh, pela direita, erguiam-se os altos do Plaschakawitza Pamina. Não encontrei viva alma, e só após uma hora, veio ao meu encontro um solitário búlgaro, facilmente reconhecível como tal, pela sua vestimenta.

Em atenção ao meu turbante verde, parou e inclinou-se para deixar-me passar respeitosamente. Também o mais rico moslim, honra o mais pobre e maltrapilho xerife. Respeita neste o descendente do Profeta, a quem foi permitido em vida ver os céus de Alá.

Retirei o meu cavalo, devolvi a sua saudação respeitosa e perguntei:

- Alá bendiga o ponto de partida de tua viagem! De onde vens, meu irmão?

- Meu caminho começa em Radowitsch.

- E para onde vais?

- Vou a Ostromdja, onde, felizmente, chegarei, se não me negares a tua benção.

- Ela te acompanhará. Encontraste muitos viandantes?

- Não, o caminho foi tão solitário, que pude dirigir, sem distração, os meus pensamentos para os benefícios de Alá.

- Assim é que não viste ninguém?

- Pela estrada só um único, isto é, o mensageiro Torna de Ostromdja.

- Conheces este homem?

- Todos em Radowitsch o conhecem, pois ele faz os recados para lá e para cá.

- Falaste com ele?

- Troquei algumas palavras, sim. Ele passou na pequena olaria, que logo encontrarás, lá onde o caminho atravessa o rio.

- Também pousaste lá?

- Não, não tive tempo para isto.

- Sabes onde pousa o mensageiro, quando chega em Radowitsch?

- Queres encontrá-lo?

- Talvez.

- Ele não pousa num Khan, como talvez julgas, mas sim com um seu parente de lá, cujo nome, mesmo que eu to dissesse, não era o bastante para o encontrares, porque não posso descrever-te muito bem as travessas do lugar onde mora. Por isso te peço indagares novamente em Radowitsch.

- Agradeço-te. Alá te guie!

- Que para ti se abra o céu!

Ele se afastou e eu continuei o meu caminho tão compassadamente como até aí. Agora podia coordenar as idéias e ver como estavam as coisas. Os dois Aladji não se encontravam certamente em Radowitsch, pois isso seria muito perigoso. De certo, esperavam o mensageiro na olaria, e, o que haviam de fazer, dependia do que aquele lhes dissesse. De maneira nenhuma estariam dispostos a um livre ataque, e, se queriam presentear-nos sorrateiramente com uma bala, era agora duvidoso, pois nos julgavam invulneráveis.

Ainda não amanhecera de todo; por isto pensei que os encontraria na olaria. O mensageiro provavelmente lhes dissera que só por estas horas eu seguiria. Assim, pois, teriam tempo para arranjar um esconderijo. Eu me alegrava em tomar-lhe a dianteira e passar por eles sem ser incomodado.

Passada mais ou menos meia hora, alcancei a olaria, que era composta de algumas casas. O caminho formava um retângulo com a ponte e eu tive uma livre vista do fundo do prédio, que estava situado bem próximo à ponte. Ali pastavam duas vacas, algumas ovelhas e também três cavalos, dos quais dois estavam selados e eram... malhados de branco e marrom.

Vi logo que eram animais de meio sangue e calculei que deviam descender de uma égua mescherdi. Estes cavalos são duros, moderados, tem um pescoço forte e fortes patas traseiras, mas são apesar disto, ágeis e resistentes. Um bom cavaleiro pode exigir muito deles.

Seriam estes os dois cavalos dos Aladji? Estariam eles no interior da casa pela qual deveria passar? Eu desejava muito falar-lhes, mas era preciso fazê-lo de maneira insuspeita, para não lhes despertar desconfiança.

Passada a volta, pude ver também o outro lado da casa. Havia um telhado que descansava em colunas; sob esse telhado, estavam dispostas algumas mesas e cadeiras trabalhadas em madeira crua. As mesas estavam vazias, menos uma, na qual viam-se dois homens sentados. Eles notaram a minha chegada. Tinham que estar sempre de sobreaviso, pois gente desta laia deve estar sempre alerta.

Vi com que olhares desconfiados e perscrutadores me observavam, e fiz como se quisesse passar. Nisto se ergueram dos seus lugares e deram uns passos para a frente.

- Dure - pare! - começou um, levantando a mão autoritariamente. - Não queres tomar um copinho de Raki conosco?

Eu estava convencido de têr na minha frente os procurados. Deviam ser irmãos, pois se assemelhavam muito. Todos os dois - de igual altura e ombros largos - eram mais altos e mais fortes do que eu. Seus bigodes compridos e espessos, a côr bronzeada do rosto e suas armas, emprestavam-lhes um ar marcial. As carabinas estavam encostadas à mesa. Nos seus cintos luziam facas e pistolas, e, no lado esquerdo, cada um tinha um machado de heiduques, pendurado, à moda de espada.

Endireitei os óculos no nariz e olhei para eles, como um pedagogo olharia um menino desobediente, e disse:

- Quem sois, que perturbais um neto do Profeta nas suas meditações?

- Somos filhos fiéis do Profeta, como tu. Por isso queremos honrar-te e oferecer-te um refresco.

- Raki!? Chamas isto refresco!? Não conheces a palavra do Alcorão, que proíbe o uso do Raki?

- Nada sei sobre isso.

- Pois vai a um explicador das santas suratas para que te ensine.

- Para isto não tenho tempo. Tu mesmo não queres fazê-lo?

- Se o desejares, estou pronto, pois o Profeta diz: Quem salvar uma alma do inferno, irá logo após sua morte para o terceiro céu. Mas quem salvar duas almas, vai logo para o quinto céu.

- Pois ganha o quinto. Estamos prontos a ajudar-te para lá entrares. Desce, pois, homem devoto, e torna-nos tão santos como tu!

Segurou-me um o estribo e o outro puchou-me pelo braço, para evitar assim qualquer recusa.

Quando me vi apeado, capenguei para a mesa na qual tinham estada sentados e onde tomaram novamente assento.

- Tu arrastas uma perna, - riu-se um deles. - Pisaste-te?

- Não, é o meu kismet, - respondi secamente.

- Nasceste aleijado. Alá te quis fazer um bem, pois a quem ama, manda um sofrimento. Não queres dizer a nós indignos pecadores o teu santo nome?

- Se procurardes nas tabelas de Nakyh “el” Eschraf, que tudo registram a nosso respeito nas cidades, vós o encontrareis.

- Acreditamo-lo. Mas como não temos estas tabelas aqui, far-nos-ás a graça de dizê-lo.

- Pois bem, eu sou Hadji Sebehal Eddim Ald el Kader Ben Hadji Gazali al Farabi Hn Tabit Mrewam Achmed Abu Baschar Chatid esch Schonabar.

Os dois bandidos taparam os ouvidos com as mãos, soltando uma gargalhada. Não pareciam ter a mínima vontade de se deixarem impressionar pela minha qualidade de xerife. Se fossem Skipetaros grego-ortodoxos, isto não me teria admirado, mas como, pela sua vestimenta eu devia tomá-los como adeptos da confissão do Islam, era de presumir que pouco ligavam às leis e aos mandamentos da mesma.

- Donde vens, oh! homem, de nome tão extenso, que ninguém pode lembrá-lo? - perguntou um deles.

Lancei-lhe, por cima dos óculos um olhar longo, sério e reverenciador, e respondi:

- Que ninguém pode lembrar? Pois não te disse agora mesmo o meu nome?

- Perfeitamente.

- Pois deves então sabê-lo e lembrá-lo.

Os dois tornaram a rir.

- Sim, tu! Seria muito ruim se não soubesses o teu próprio nome, mas considero-te o único que possa lembrá-lo.

- Ele não pode ser esquecido, pois está inscrito no livro da vida.

- Ah! sim! - tu és xerife e nenhum deles vai para o inferno. Mas querias salvar-nos explicando-nos que o Raki é proibido.

- Assim é, e severamente.

- Isto está no Alcorão?

- Certo e em verdade.

- Quando o Profeta recebeu a inspiração, já existia Raki?

- Não, disto nada consta na história do mundo e da natureza.

- Portanto não pode ser proibido.

- Mas sim! A palavra em questão reza: Kullu muskurum haram - tudo que embriaga, é proibido, é amaldiçoado. - Portanto o Raki também é amaldiçoado.

- Mas ele não nos embriaga.

- Ainda bem, assim ele não vos é proibido.

- E o vinho igualmente não nos é perigoso.

- Então podeis sorvê-lo com devoção e em pouca quantidade.

- Isso soa melhor! Isto se ouve com prazer! Tu não és um mau esplicador. A ti o Raki embriaga?

- Se eu tomar pouco, não.

- E o que chamas pouco?

- Um dedal, diluído numa garrafa d'água, assim. Apontei para a grande e bojuda garrafa de cachaça, que estava na nossa frente.

- E assim não podes embriagar-te. Vou, pois, buscar água e beberás conosco.

Levantou-se e trouxe um jarro cheio d'água e um copo. Encheu a quarta parte do copo com água e o resto de Raki.

- Aqui tens, - disse ele, colocando-o na minha frente. - Contém água. Agora podes beber conosco sem pecar contra os mandamentos do Alcorão. Alá abençoe a tua vida.

Tomou a garrafa pela boca, sorveu um trago e passou-a para o irmão, que se serviu igualmente. Eu bebia a miúdo e modestamente do meu copo.

Enquanto um parecia querer tomar a palavra, o outro se mantinha calado, observando-me. Ele tornou a falar:

- Então de onde vens?

- Em verdade, eu venho de Avret Hissar.

- E para onde vais?

- A Skopia, para ensinar aos crentes as leis e as regras do Alcorão.

- A Skopia? Não terás muito prazer por lá.

- Por quê? - perguntei eu, com tímida estranheza.

- Não sabes então, que lá se riem dos devotos?

- Ouvi falar, por isto quero ir para lá.

- Falarás até ficares tuberculoso, mas não converterás ninguém.

- O que deve acontecer, acontecerá. Assim está escrito no livro da vida.

- Pareces conhecer muito bem este livro.

- Alá o conhece e só ele o lê. Eu espero que os habitantes de Skopia estejam marcados nele.

- Duvido muito. Dizem que por lá existem Skipetaros e estes não prestam.

- Infelizmente também o soube.

- Que os Skipetaros não prestam?

- Sim.

- Por quê?

- O cheitan os possuiu. Não os conheço, mas diz-se que são ladrões, salteadores e assassinos. O próprio inferno é bom demais para eles.

- Ainda não viste um Skipetaro?

- Ainda não tive a grande infelicidade de encontrar um destes pecadores, - respondi, com um suspiro. Dizendo isto, fiz a careta mais tola. Eles se tocavam, debaixo da mesa, com os pés e pareciam achar muita graça nas minhas bobagens.

- Mas não tens medo deles? - perguntou.

- Por que devo receá-los? Podiam fazer-me outro mal do que aquele que me foi destinado?

- Hum! Tu estás em caminho para o país dos Skipetaros, e se um destes salteadores te atacar?

- Teria pena do seu inútil esforço. Esta é minha única fortuna. Seis piastras joguei sobre a mesa, e eu tinha dito a verdade, pois mais não trazia comigo: dei o meu dinheiro para guardar, ao pequeno Halef.

- Neste caso, não aproveitam muito, mas tu deves ter dinheiro para a viagem!

- Dinheiro? - Para quê?

- Para poder viver.

- Para isto não preciso nada. O profeta não ordenou que fôssemos hospitaleiros?

- Ah, pedes esmolas?

- Pedir esmolas! Queres ofender a um Xerife? Comida, bebida e um canto para dormir, encontro em toda parte.

- Onde dormisce a noite passada?

- Em Ostromdja.

- Ah, lá! Isto é interessante.

Os dois trocaram um olhar, que devia ser secreto.

- Por quê? Sois de lá?

- Não, mas ouvimos dizer que, à noite passada, houve lá um grande incêndio.

- Grande? Oh! Não!

- Dizem que queimou meia cidade.

- Isto vos disse um grande mentiroso. Houve um incêndio, é verdade, mas insignificante e fora da cidade.

- Onde, então?

- No morro.

- Mas lá não existe casa!

- Existia uma cabana.

- Talvez a do velho Mubarek?

- Esta mesma.

- Conhecem-se os incendiários?

- Foi o próprio Mubarek.

- Não acredito. Um homem tão devoto e incendiário?

- Oh! - ele mo era tão devoto como fazia crer.

- Então sempre foi verdade o que ouvimos!

- O que foi que ouvistes?

- Que ele, em verdade, foi um grande patife, um criminoso.

- Desta vez estais bem informados.

- Tens certeza disto?

- Sim, eu estava presente quando ele foi preso. Também estive lá no incêndio e em toda parte.

- Talvez tenhas visto também os quatro estrangeiros, que foram os causadores de tudo...

- Até morei e dormi com eles no mesmo Khan.

- É verdade? Também falaste com eles?

- Com todos os quatro!

- Tu os reconhecerias, se os encontrasses agora?

- Imediatamente.

- Ótimo, ótimo! Nós estamos esperando por eles, pois temos que falar-lhes. Mas como os não vimos ainda, podemos enganar-nos facilmente, Queres chamar-nos a atenção quando eles aparecerem?

- Com muito prazer, se não demorarem muito

- Mas tu tens tempo!

- Não, preciso chegar amanhã em Skopia.

- Terás que esperar apenas três horas.

- Isto é muito para mim.

- Pagar-te-emos pelo auxílio.

- Pagar? Ah! - então o caso muda de figura. Quanto quereis pagar?

- Cinco piastras, até que eles cheguem.

- E se eles não vierem, ou vierem muito tarde, de tal maneira que, pela escuridão eu não possa continuar a viagem?

- Nesse caso, pagaremos o alojamento e a comida aqui.

- Então eu fico, mas tendes que me pagar as cinco piastras adiantadamente.

- Xerife! Pensas, por acaso, que não temos dinheiro?

- Não, mas penso que não o tenho, por isso quero recebê-lo.

- Bem, essa ninharia podemos pagar adiantado. Toma!

Jogou-me dez piastras e quando o olhei, admirado, disse, com ar de desprezo:

- Toma lá, nós somos ricos.

Eles estavam cheios de dinheiro. O bolso do que me jogara as piastras era grande, e dentro dele tinia algo como ouro.

Passaram a interrogar-me sobre a minha própria pessoa. Eu tive que me descrever minuciosamente, e aos meus companheiros também, sem esquecer de contar o caso da nossa invulnerabilidade.

Narrei tudo que tinha acontecido e depois perguntou-me o Skipetaro:

- Não soubeste, então, quando é que estes quatro homens pretendem seguir viagem?

- Eu estava presente quando um deles disse que iam sair ao meio-dia.

- Foi o que nos disseram, mas achamos que não virão.

- Por que não?

- Porque têm medo.

- Oh! - estes estrangeiros são uns descarados. Têm medo!... E de quem deveriam ter medo?

- Dos Skipetaros.

- Não o creio, pois nem eu tenho medo deles. Tanto eu como estes quatro. Deverias ver as armas de um deles.

- Já ouvi falar. Mas parece que lhes disseram que os Skipetaros os esperavam de emboscada.

- Sobre isto nada sei, mas ouvi dizer algo sobre dois salteadores.

- Ah! É assim? E o que há com eles?

- O velho Mubarek contratou dois assassinos para matar os quatro estrangeiros no caminho.

- Donde sabes isto?

- De uma conversa que ouvi.

- Diabo! Que imprudência! Soube-se o nome dos salteadores?

- Não, e eu creio que ninguém os conhece.

- E o que dizem os quatro estrangeiros a respeito?

- Eles riem.

- Alá, Alá! Riem - esplodiu ele. Riem daqueles que pensam atacá-los?

- Sim, de quem mais havia de ser?

- Eu digo que se se trata de verdadeiros Skipetaros, cedo os quatro esquecerão as risadas.

- Não o creio.

- Como? Tu não o crês? Pensas então que os Skipetaros são meninos imberbes?

- Podem ser fortes como quiserem; a estes homens nada podem fazer, pois são invulneráveis.

- Invulneráveis? Malditos! Eu nunca o acreditei e tomaria por um conto da carochinha, que um homem pudesse se tornar invulnerável. Mas observaste-o bem?

- Muito bem, eu estava bem junto deles.

- E as balas não acertam? E o homem até as apanhou?

- Com a mão. E quando tornaram a atirar com as mesmas balas elas atravessaram a tábua.

- É inacreditável!

- Mas havia mais de 500 pessoas presentes, e as balas passaram de mão em mão.

- Então tenho que acreditar. Se com o mesmo processo eu conseguisse fazer o mesmo milagre, comeria todos os dias um Alcorão inteiro.

- De certo não se trata só disto, pois como julgo, há outros segredos para observar.

- Sem dúvida. Eu daria muito, se pudesse saber esses segredos.

- Isto ninguém trairá.

- Hum! Talvez.

- Não o creio.

- Conheço duas pessoas que talvez consigam saber.

- Quem são?

- Os dois salteadores, que os esperam.

- Oh! Estes, muito menos!

- Tu não entendes estas coisas, apesar de seres um Xerife. Julgo que os Skipetaros deixarão um com vida sob a condição dele lhes revelar o segredo.

- Mas esqueces o principal, - disse eu com calma.

- O quê? - perguntou ele, apressadamente.

- Que estes homens não precisam recear os Skipetaros, pois são invulneráveis, como concordais agora.

- Temos que concordar, pois ouvimo-lo ainda há pouco de uma bôca de nossa confiança; mas eu te pergunto: serão também inatingíveis por pancada ou arma branca?

- Hum! Isto não sei.

- Pois não o são, porque se fossem, teriam se gabado disto. Portanto, podem ser atacados. Ou achas que nós, se fôssemos estes Skipetaros, nos amedrontaríamos diante do estrangeiro que monta o cavalo árabe?

- Na luta, não.

- Então não estão tão seguros de si. Mas eu estou convencido que nada lhe sucederá, ainda mais que nós os auxiliaremos.

- Farias isto? - perguntei eu calmamente.

- Por que dívidas? Viemos ao seu encontro de Radowitsch, para recebê-los. Deverão morar conosco, serão nossos hóspedes. E ai daquele que lhes queira fazer mal.

- Hum! Bem o creio. Mas eles poderão ser atacados antes de chegar aqui.

- Oh não; não há um lugar apropriado.

- Entendes tanto disto? - perguntei eu, esforçando-me para fazer uma cara tola.

- Sim, eu fui soldado. Mais adiante para os lados de Radowitsch há um lugar especial, onde o caminho atravessa o mato. Lá existem blocos de rochedos de cada lado do caminho e os arbustos são tão cerrados que não se pode escapar nem para a direita nem para a esquerda. Se forem atacados ali, estarão irremediavelmente perdidos.

Ele se pôs a olhar meditativamente para o chão, e no silêncio que se seguiu ouvi um gemido dolorido que partia do interior da casa. Já o tinha ouvido antes, mas não tão distintamente; parecia uma voz de criança. O caso pareceu-me suspeito, mas considerei que os Skipetaros não teriam se atrevido a praticar um crime aqui, e continuar sentados com esta calma.

- Quem está chorando? - perguntei.

- Não o sabemos.

- Esta casa é um Khan?

- Apenas um pequeno albergue.

- Onde está o dono?

- Lá dentro.

- Vou ver, - disse eu. Levantei-me e dirigi-me para a porta.

- Para onde vais? - perguntou-me um deles.

- Quero ver o dono do albergue.

- Encosta-te aqui na janela!

Adivinhei logo que não me queriam deixar falar a sós com o dono. Com certeza este os conhecia e receiavam ser traídos por ele.

Capenguei, pois, para junto da janela, onde meti a cabeça. Os gemidos perduraram.

- Konakdschy - Estalajadeira! - gritei para dentro.

- Pronto! - respondeu uma voz de homem.

- Quem está gemendo lá dentro?

- Minha filha.

- Por quê?

- Está com dor de dente.

- Que idade tem?

-- Doze anos.

- Consultaste um Berber ou Hekim?

- Não, sou muito pobre.

- Então vou em seu socorro; já entro.

Os dois Aladji ouviram a conversa. Quando me dirigi à porta, levantaram-se e seguiram-me.

A sala era muito pobre. Não tinha ordem. A paciente estava encolhida, gemendo a um canto.

O homem sentara-se num banquinho, de cotovelos sobre os joelhos, com o queixo entre as mãos, e nem olhava para nós.

- Tu és então o dono? - perguntei-lhe. Onde está tua mulher?

- Morreu, - respondeu apático, sem olhar para mim.

- Mereces dó. Tens mais filhos?

- Mais três menores.

- Onde estão?

- Lá fora, à beira do rio.

- Que imprudência! Não se deixam crianças sem governo perto d’água.

Ergueu a cabeça e olhou-me admirado. Não teria ele esperado tanto interesse?

- Por que não vais buscá-los? - continuei a perguntar.

- Não posso.

- Por que motivo?

- Não posso sair.

- Quem te impede?

Lançou um olhar sinistro sobre os dois Aladji, ao mesmo tempo que eu observei que um deles o ameaçava com o dedo. Fiz como se nada tivesse notado; dirigi-me para o canto, disse algumas palavras amáveis à pequena e trouxe-a para perto da janela.

- Vem cá! - pedi em tom suave, para despertar-lhe confiança. - Vou livrar-te já das dores. Abre a boca e mostra-me o dentinho.

Ela assim fêz sem hesitar. Nada se podia ver no dente, talvez fosse uma dor reumática. Para isto não havia remédio. Mas eu sabia, de experiência, quanto influía nas crianças a sugestão. Antes de mais nada devia parar de chorar.

- Fecha a boca e responde-me por sinais - disse eu. Sentes dor ainda?

Ela meneou afirmativamente a cabeça.

- Presta atenção, vou encostar por pouco tempo minha mão na tua face e as dores passarão.

Puxei a cabeça da pequena paciente, coloquei a mão na face dorida, acariciando-a levemente. É certo que nada entendo de magnetismo, mas confiei na imaginação da criança e na agradável impressão que causa a caricia de uma mão quente, na face dorida.

- A dor já passou? - perguntei algum tempo depois. Ela fêz um sinal afirmativo.

- Inteiramente?

- Sim, inteiramente! - respondeu ela, e o rostinho resplandecia e os olhos me sorriam gratos.

- Não fales e respira pelo nariz algum tempo, assim a dor não voltará.

Isto tudo era muito simples, mas, assim mesmo, quando quis sair, o homem acercou-se de mim, agarrou minha mão, e disse:

- Senhor, ela estava gemendo desde ontem. Era insuportável, por isto as outras crianças saíram. Tu sabes fazer milagres!

- Não, isto não é milagre. É um meio muito simples que empreguei e dará resultado se hoje conservares tua filhinha dentro de casa. Os outros três eu vou buscar.

- Tu senhor, tu? - perguntou ele.

- Certamente, pois que tu não podes.

Os dois Aladji lançaram-lhe olhares raivosos. Mas ele se agachou, como se quisesse apanhar algo, e murmurou-me:

- Cuidado! São os Aladji.

- Que foi isto? - gritou um deles que talvez tivesse ouvido um sopro. - Que foi que disseste?

- Eu? Nada! - respondeu o estalajadeiro aparentando naturalidade.

- Mas eu ouvi!

- Estás enganado!

- Cão, não mintas ou te mato!

O Skipetaro ergueu o punho cerrado - eu o peguei pelo braço e disse:

- Amigo, que fazes! Não sabes que o Profeta proibiu que o crente maculasse o rosto com a ira?

- Que me importa o teu Profeta!

- Não te compreendo. Conduzes-te como um ímpio e dizes que és amigo dos quatro estrangeiros, que não ofendem sequer uma mosca?

Ele abaixou o braço, lançando ainda um olhar sinistro e respondeu-me:

- Tens razão, Xerife. Mas eu amo a verdade e odeio a mentira; por isto me zanguei tanto. Vem cá para fora.

 

 

Obedeci, e, lá fora, aparentando naturalidade, ignorando a velada proibição de poder caminhar livremente, capenguei para os lados do rio.

Não havia dúvida que os dois Aladjis me tinham mais ou menos como prisioneiro. Não podiam deixar-me voltar pelo mesmo caminho e prosseguir também não, pois facilmente podia traí-los, mesmo que não os conhecesse e tal não intencionasse. Por isto tinham que me conservar sob suas vistas.

Lá em baixo, perto da água, estavam as três crianças que julguei serem os filhos do estalajadeiro. Dei-lhes as dez piastras que eu tinha recebido, e disse-lhes que deviam ir para casa porque a irmãzinha já estava boa. Com grande júbilo subiram, cabriolando e pulando pelos barrancos da beira do rio, e correram para dentro de casa. Quando tomei novamente meu assento na mesa, percebi que os Aladjis tinham tomado uma resolução. Aqui não estavam a salvo de encontros perigosos e se avisinhava a hora em que podíamos ser esperados, por isto adivinhei que combinaram prosseguir. E para combiná-lo, um deles, aquele que até agora havia falado mais, disse:

- Já te expus que só há um lugar no qual os estrangeiros podem ser atacados. Dize-nos, com sinceridade, qual a tua intenção para com eles. É hostil?

- Por que lhes devo ser hostil? Não me fizeram mal!

- Então, é amigável?

- Sim.

- Isto nos alegra, assim podes auxiliar-nos um pouco para velar pela segurança deles e também pela tua.

- Fá-lo-ei com muito prazer, apesar de não acreditar que alguém se dê ao trabalho de ameaçar a minha segurança. Dize-me o que devo fazer.

- Acreditas, também, que os estrangeiros sejam atacados?

- Ouvi-o como certo.

- Então os Skipetaros estão escondidos no lugar que te mencionei. Meu irmão é de opinião, e eu concordo, que seria muito bom, se nós nos escondêssemos lá. Assim podíamos trazer auxílio aos atacados. Estás pronto para isto?

- Hum! Mas eu não tenho nada com o caso.

- Mas sim! Se os Skipetaros estiverem escondidos lá também te atacarão, quando seguires a tua viagem. Demais, desejamos mostrar-te um verdadeiro feito dos Skipetaros para que possas contá-lo em Skopia.

- Tornás-me curioso. Vou já. - Pagaram o Raki?

- Não, o estalajadeiro deu-o de graça. Foi obrigado a isso! Assim era melhor.

Acerquei-me da janela e joguei minhas poucas piastras no interior do aposento. Naturalmente os dois se riam de mim. Um foi para trás da casa para buscar os cavalos, e o outro ficou comigo, por segurança.

Quando atravessamos a porta voltei-me mais uma vez. Diante da porta estava o estalajadeiro, que levantou a mão para me advertir do perigo. Eu não pensava que o tornaria a ver.

Para lá da ponte a estrada seguia entre campos, pastos e moitas, e, finalmente, alcançamos a mata cerrada.

Não pronunciamos palavra. Os Skipetaros, sem dúvida, me tinham como homem de pouca capacidade observativa, pois naquilo que faziam e diziam, havia tão fortes contrastes, que uma pessoa menos perspicaz o perceberia.

Se realmente havia inimigos escondidos no mato, seria tolice patente querer salvar os ameaçados, escondendo-se também e vir em auxílio, somente no momento da luta. Pelo contrário, devíamos certificar-nos do esconderijo dos ladrões e prevenir em tempo os ameaçados. Talvez pudessem rodear o lugar perigoso e se isto, devido à espessura do mato, não fosse possível, podíamos, reunidos e a pé, atacá-los pelas costas e dar-lhes uma bela derrota.

Bem no centro do mato, o caminho descia; este, bem entendido, não era comparável a uma estrada de rodagem alemã, fazendo uma volta brusca. À direita e à esquerda, havia blocos de rochedos, atrás dos quais era possível a alguém se esconder e, da beirada alta, atirar para o caminho. Era um lugar como que feito de propósito para emboscada, e os dois, realmente, fizeram alto aí.

- Este é o lugar, - disse um deles. - Aqui temos que nos esconder. Vamos lá, pela esquerda, subir o declive!

Ele falou baixinho, para me fazer acreditar que, realmente, julgava os Skipetaros escondidos por ali.

Mas assim eles teriam que ver e nos ouvir, e não nós a eles. Fiquei convencido que meu rosto, só por si, não devia ser muito inteligente, pois, para dar-lhe uma expressão tão tola, não bastava o meu talento artístico. E devia ser-se declaradamente tolo, para não descobrir o intento dos dois. Lá, no alto, na beira do caminho, as árvores eram menos espessas, pelo que podíamos ainda continuar por um pedaço o novo caminho, mas daí tivemos que levar os cavalos pelo cabresto.

Paramos. Os cavalos deviam ser amarrados uns aos outros. Esta circunstância pouco me agradou, pois era meu intento safar-me depois secretamente. Para este fim, o meu cavalo deveria estar tão distante dos outros, que os Skipetaros não o pudessem ver.

No bolso eu trazia um botão de colarinho, alto e bastante pontiagudo. Lacei-o secretamente do bolso. Acerquei-me do meu cavalo, como se quisesse afrouxar-lhe um pouco a sela, em vez disto, apertei-lha ainda mais, colocando o botão por baixo dela, de modo que a ponta do botão penetrasse no pêlo do animal. O botão devia causar dores; o resto era preciso aguardar.

Entretanto os Aladji escolheram um lugar apropriado, do qual podiam ver um bom pedaço da estrada, que ficou para trás e de onde não podiam ser vistos. As carabinas estavam no chão, ao seu lado, e também afrouxaram os machados. Adivinhei-lhes o intento. Eles acreditavam que as suas balas nada podiam contra nós, e queriam matar-nos a machado. Esta gente tinha uma grande agilidade no uso desta arma, mas julguei igualá-los em habilidade, apesar de não ter tido ainda um destes machados na mão, pois eu tinha muita agilidade em atirar o Tomahank.

Sentei-me perto deles, e de agora em diante a troca de palavras foi feita em tom baixo. Eles simulavam estar prontos para a luta. Só queriam livrar os estrangeiros dos Skipetaros... A peça que queriam pregar-nos, atribuindo-a aos Skipetaros, consistia naturalmente em terem obtido o meu auxílio, sendo eles mesmo os assassinos. Pois eu devia, no momento do ataque, estar horrorizado, e, contando-o depois, todos ririam da minha credulidade tola.

Há muito tempo que meu botão tinha produzido o efeito desejador o cavalo de Halef começou a ficar inquieto; relinchando, dava coices e pinoteava.

- O que há com o teu cavalo? - perguntaram-me.

- Oh nada! - respondi, indiferente.

- Nada? Pois ele pode trair-nos!

- Como assim?

- Se continua como agora, os Skipetaros, aqui escondidos, ouvirão o barulho; então, estaremos perdidos.

Mas a razão era que ele receava que fosse ouvido pelos quatro estrangeiros, e esses assim fossem avisados.

- Isto ainda piorará - disse eu.

- Mas por quê?

- Meu cavalo não gosta de estar amarrado perto de outros animais. Isto é uma mania dele, que não lhe posso tirar. Devo sempre afastá-lo um bom pedaço dos outros.

- Então, afasta-o!

Eu me levantei.

- Pára! Deixa o teu cobertor e teu facão. Também o teu turbante.

- Mas por quê?

- Para que tenhamos a certeza de que voltas. Tira o turbante. Que bela encrenca para mim! Eles veriam que eu usava o cabelo comprido, e por conseguinte não podia ser um bom Moslém e muito menos um Xerife. Por isto, respondi com calma forçada:

- Que pensas! Um Xerife não pode descobrir a cabeça. Sou um conhecedor de Mukteka el Elhur do Mischkat al Masabik (1) e do célebre Fetavih de Alem Ghiri e de Hamadan (2). Sei muito bem o que é proibido aos crentes, e agora devo entregar minh'alma aos ventos, para que a tempestade a leve?

- Pois, basta o facão e o cobertor; vai, agora!

Desatei o cavalo e levei-o para um lugar mais distante. Amarrei-o superficialmente e me afastei correndo, com a máxima pressa, atravessando matas e moitas, pulando e correndo, até alcançar o ângulo do caminho, atravessado ainda há pouco, sem ser visto pelos dois salteadores. Aí arranquei uma folha do meu livro de notas e escrevi:

“Ajoy, ajry, hazyrlamyn. Osko, Ornar jawaschly. Halef bojuck dout ual gitir, icki bi nademler tabnirnen”. - Passai um por um. Osko e Omar devagar, Halef em forte carreira a dois mil passos.

Este papel coloquei, com auxílio do canivete, numa árvore situada bem à beira do caminho, onde forçosamente o veriam. Também era possível que, antes deles, outros viandantes passassem por ali, mas era preciso arriscar. Talvez deixassem o papel onde estava. Demais, a passagem de Halef se daria a qualquer momento. A minha ausência durou apenas dois minutos; tornei a correr para o lado do meu cavalo, para amarrá-lo mais fortemente e livrá-lo do botão. Ainda não tinha bem terminado este serviço, quando ouvi passos. O Skipetaro veio à minha procura.

- Onde te demoraste tanto? - indagou em tom severo.

- Aqui com o meu cavalo - respondi com espírito, olhando-o, perplexo.

- Assim vejo, mas isto exige tanto tempo?

- Não sou eu o meu próprio dono?

- Não, agora não te pertences: tens que te guiar por nós.

- E por acaso me disseram quanto tempo podia ausentar-me?

- Não faças perguntas estúpidas, burro! Vai-te para lá, onde estamos sentados.

- Se isto me agradar - redargüi, porque seu modo, apesar do meu papel de Xerife, tornava-se insuportável.

- Quer te agrade, quer não, percebeste? Se não vieres imediatamente, ensinar-te-ei!

Acerquei-me dele e disse:

- Escuta, não exageres! Chamas-me de burro. Se não tens o devido respeito pela descendência de um Xerife, então exijo pelo menos respeito à minha pessoa, e se mo negares, saberei consegui-lo.

Por isto êle não esperava.

- Que atrevimento! - exclamou. - Homem, eu ter respeito à tua figura ridícula! Basta tocar-te, para caires de susto.

Ele agarrou-me pelo braço esquerdo, e apertou-me com tal força, que um menos forte teria gritado. Mas eu sorri serenamente e disse:

- Para isto devias pegar-me de outra forma, assim, assim! Coloquei minha mão de forma tal sobre o seu ombro esquerdo, que o polegar calcava de encontro à

 

(1) Célebre livro de leis.

(2) Um comentário teológico, em 24 livros.

 

clavícula, e os outros quatro dedos de encontro à parte sobresselente da omoplata, que articula o osso da parte superior do braço. Quem conhece este toque e sabe empregá-lo, pode ajoelhar o homem mais forte com uma mão só. Ele deixou escapar um grito agudo, procurando livrar-se, mas não o conseguiu, pois a dor lhe atravessou de tal maneira o corpo, que caiu de joelhos e depois ao solo. O grito atraiu o outro irmão.

- Sandar, que aconteceu? - perguntou ele.

- Tonry hakky - por Deus, isto não compreendo! - respondeu o interrogado, levantando-se do chão. - Este homem venceu-me só com uma mão. Devo ter quebrado a clavícula.

- Venceu-te? Como? Por quê?

- Porque ralhei com ele pela sua demora.

- Por todos os diabos! Homem a que te atreves! Devo reduzir-te a pó?

Agarrou-me pelo peito para me sacudir. Uma contradefesa não estava no meu papel de Xerife; mas deixar-me agarrar e sacudir, como a um menino, era contra meu gosto. Agarrei-o, pois, igualmente pelo peito, puxei-o contra mim e em seguida empurrei-o bruscamente à distância de um braço, de modo que ele teve de me soltar. Depois me agachei um pouco, sem lhe soltar a mão, passei-lhe o braço em torno do ventre, derrubando-o e levantei-o com um gesto rápido, derrubando-o em seguida. Permaneceu um segundo deitado, perplexo de espanto, mas logo se levantou de um pulo, estendendo as mãos para mim.

- Mais uma vez? - perguntei, afastando-me um passo. Eu já estava zangado. Talvez os meus olhos tivessem então uma expressão diferente da de um apático Xerife, pois o Aladji deu outro salto e olhou-me petrificado, gritando-me.

- Homem, és um gigante!

Abaixei a cabeça e respondi em tom humilde.

- Assim está escrito no livro da vida, eu não tenho culpa.

Os dois irromperam em estrondosa gargalhada.

- Sabes, Byhar, o homem nem sabe que força tem, - disse Sandar. Mas este fitou-me, com olhares desconfiados, da cabeça aos chinelos e respondeu:

- Isto não é só força gigantesca, também é prática. Este toque só se pode imitar depois de muito ensaio. Onde o aprendeste, xerife?

- Com os dervixes que se lamentam, em Istambul. Nós nos engalfinhávamos por brincadeira nas nossas horas vagas.

- Ah! Sim! Pensei que eras diferente do que realmente és. Por tua sorte, pois se quisesses ludibriar-nos, tua vida valeria menos que a de uma mosca no bico de um pássaro. Agora não te sentarás ao nosso lado, mas sim no meio de nós. Temos que te tratar com cautela.

Voltamos ao nosso lugar precedente e os dois me ladearam, colocando-me entre eles. Despertara-lhes a desconfiança. Minha situação piorou, mas mesmo assim não tive medo, pois com os meus revólveres era-lhes superior.

Não se falou mais. Os dois heróis de estrada deviam imaginar que, na atual situação, calar era o mais aconselhável. Eu estimei que assim fosse. Se eu tinha alguns receios, não era por mim e sim por meus companheiros. Achariam o meu papel ou passaria alguém, antes deles? E se por acaso de lá se tivesse despregado? Tudo isto era obrigado a aguardar com calma.

Não era nada agradável estar sentado entre dois salteadores de estrada, armados até aos dentes, e exposto à fúria de ursos bravios. Que houvesse muitos destes tipos na Turquia, é explicável, dado o meio. Pois lê-se, ainda hoje, em qualquer número de jornal, violações de fronteira, assaltos e roubos. Ainda há pouco, o governo ordenou, por editais, que cada juiz julgasse de acordo com a lei. Um conhecido e “poderoso” paxá enviou a ameaça ao Portal, que imediatamente apresentaria a sua demissão se não lhe fosse permitido castigar as roubalheiras que em seu distrito tomavam vulto excessivo. É de admirar que nestas regiões o viajante zele por seus direitos, fazendo justiça com o próprio braço? É tão acreditável, que sempre novos bandos aparecem, desbaratados os velhos. O pacífico habitante é obrigado a fazer causa comum com esta gente. Eles são os verdadeiros senhores e mantêem um governo cruel.

Já estávamos sentados tanto tempo, que eu estava prestes a perde a paciência; finalmente, ouvi um ruído do lado direito.

- Escutem! Vem alguém - disse Sandar, agarrando o machado. - Talvez sejam eles!

- Não - respondeu o irmão. - É um cavaleiro solitário. Lá está fazendo a volta.

Olhei para trás, e, com grande alegria minha, vi chegar Omar, que vinha sozinho. Viram e leram, pois, o meu aviso.

Ele vinha devagar, cabisbaixo, como que mergulhado em meditações. Não olhava para a direita nem para a esquerda.

- Vamos... ? - perguntou Byhar, apontando para a carabina.

- Não - respondeu Sandar. - O homem não tem nada com isto, vê-se logo.

Eles não tinham, pois, o mínimo constrangimento de falar, em minha presença, na sua verdadeira profissão.

Omar passou, sem erguer uma única vez os olhos. Percebera ser essa a melhor tática. Passado algum tempo, disse Sandar:

- Lá vem outro!

- Também um joão-ninguém.

- Mas, vamos deixar passar a todos?

- Agora, sim. Lembra-te que ouviram os nossos tiros.

- Naturalmente dos Skipetaros que estão escondidos por aqui, - acrescentei com ingenuidade. Eles perceberão que estamos aqui para lhes estragar a aventura.

- Tolo! - pensei eu, interpretando o sorriso de Sandar.

Era Osko que passava. Também ele fingia a despreocupação de uma pessoa sem cuidados. Pelo seu exterior se deduzia que não possuía riquezas; passou sem novidade.

Agora era a vez de Halef. A respeito deste, havia motivos para eu me preocupar. Podiam querer abatê-lo a tiros, para se apoderarem do esplêndido morzelo. Verdade é que eu não lhes teria dado tempo para isto, pois, preferiria, por certo, contemplar cada um deles com uma bala. Era, porém, preferível, evitá-lo. Por isto eu devia procurar distrair-lhes a atenção. Olhei de soslaio para a volta do caminho, onde deveria aparecer. Foi quando o vi chegar a galope.

Os outros dois ainda nada haviam percebido. Levantei-me, então.

- Para onde vais? - perguntou-me Sandar, rudemente.

- Vou ver meu cavalo. Não ouves como ele está novamente inquieto?

- Que o Cheitan leve o teu cavalo! Tu ficas.

- Não podes comandar-me - respondi em tom ríspido e fazendo como se quisesse afastar-me.

Ele ergueu-se de um pulo e agarrou-me pelo braço.

- Fica, ou te dou um...

Foi interrompido por uma exclamação de Byhar que, distraído em observar-nos, só então percebera Halef.

- Um terceiro cavaleiro! Quietos! - ordenou ele.

Sandar olhou para a estrada.

- Juk gurulhu - mil raios - exclamou. - Que cavalo! Desta vez é o estrangeiro, tem que ser êle!

- Não, o cavaleiro é muito pequeno.

- Mas o morzelo é um árabe puro sangue! Oh! Alá! Vôa como o vento!

Exatamente. Quem isto dizia, tinha razão. O nome do meu cavalo era Rih, palavra que significa “Vento”. Quantas vezes, montado nele, apostei carreira com o vento!... Ainda não tivera oportunidade de apreciar o magnífico espetáculo que oferecia ao correr desabaladamente.

A barriga quase tocava o solo. As pernas eram indistinguíveis. A crina fustigava o rosto do cavaleiro, a cauda se estendia reta como um leme no ar.

Mas, mesmo assim, vi que para Rih aquilo ainda era pura brincadeira. Se eu estivesse sentado na sela, ainda seria mais veloz, principalmente se eu fizesse uso de um “segredo” que lhe comunicava uma velocidade mortal.

Meu pequeno e bravo Halef estava em pé nos estribos, inclinado para a frente. Sua carabina e também as minhas duas armas, estavam penduradas ao seu ombro. Atrás da sela estavam amarrados o meu cafeta e as minhas botas. O seu manto esvoaçava, carregado pela corrente de ar, produzida pela velocidade incrível do cavalo. Ele montava maravilhosamente. O caminho, semeado de pedras menores e maiores, apresentava dificuldades desmesuradas para uma tal carreira. A um passo em falso podiam, homem e cavalo, quebrar o pescoço. Mas o meu Rih jamais tinha dado um passo em falso. Sua vista aguçada, a força elástica e leve de seus membros se confirmavam mais uma vez de maneira encantadora. Se estivesse presente neste momento o diretor de uma cavalariça imperial, quem sabe que soma não teria oferecido por este morzelo nobre e impecavelmente perfeito.

E quanto tempo demoraram, para chegarem até nós, o homem e o cavalo? Foi tão rápido, que quase não se poderiam computar os instantes gastos. Mal vi apontar Halef e mal troquei aquelas palavras com Sandar, já ele ali estava, atravessando o desfiladeiro como uma flecha.

- Detem-no! Atira! Depressa, depressa! - gritou Sandar, tomando da carabina.

Byhar também apontou a sua, mas o morzelo passou célere, sem lhe dar tempo para apontar. Também para mim não sobrou um momento para evitar os tiros: eles partiram. Mas longe, muito atrás de Halef, a bala atravessou o caminho!

- Vamos segui-lo! - gritou Sandar, louco de desespero por lho ter escapado. Lá adiante termina o mato, e aí podemos alvejá-lo!

Pulou o barranco, de pedra em pedra, seguido pelo irmão tão encolerizado, como ele. Agora teria tido tempo e ocasião para me salvar. Mas assim não deveria ser. Quanto a Halef, nada temia. Eu bem podia imaginar que os três mil passos adiante, não parariam, mas continuariam em trote lento, e podendo, então, ser alcançados pelos Skipetaros e arrancados a tiros dos cavalos. É certo que os bandidos não tinham mais carga nas suas espingardas de um só cano, mas podiam carregar rapidamente. Portanto, devia evitar que eles prosseguissem.

Um poderoso pulo levou-me onde estavam os seus cavalos e, num instante, estes estavam desamarrados. Saquei o chicote da cintura e bati neles com força. Empinaram-se e zarparam para dentro da mata, onde, é certo, não podiam ir longe, pois ficariam presos pelas rédeas.

Dei, então, um pulo para trás e gritei aos dois Skipetaros:

- Sandar, Byhar, parai, parai! Os malhados se soltaram!

O truque surtiu efeito: eles pararam. Não queriam perder os excelentes cavalos.

- Amarra-os novamente! - gritou-me Sandar.

- Mas eles fugiram!

- Céus e inferno! Para onde?

- Sei eu? Chama por eles!

- Oh! Bobalhão!

Voltaram correndo. Eu, no lugar deles, não me teria apressado tanto, pois talvez tivesse conseguido o morzelo. Os malhados, de qualquer forma, estavam seguros.

Tornaram a subir o barranco, ralhando comigo em altos gritos. Sandar foi o primeiro a chegar. Um rápido olhar convenceu-o de que os cavalos realmente ali não estavam. Dirigiu-se a mim, gritando:

- Cão, porque não os seguraste?

- Eu não olhei para os cavalos, mas sim para o cavaleiro, como vós.

- Mas podias tê-los cuidado melhor.

- Assustaram-se com os vossos tiros! Porque atirais sobre gente, que nenhum mal vos fêz?! Demais os cavalos não me pertencem e, sim, a vós. Não sou criado e não tenho que os cuidar.

- Atreves-te a dizer-nos isto? Toma a paga!

Ele tinha a espingarda na mão direita, por isso cerrou o punho da mão esquerda e fêz menção de bater-me. Levantei o braço para aparar o golpe e rebatê-lo com um contrapunhaço, sem observar que atrás de mim havia uma pedra; resvalei nela e caí ao solo.

Foi quando ele levantou a coronha e bateu-me com ela no peito. Não me foi possível aparar este golpe suficientemente. O baque tirou-me o fôlego, mas um segundo depois acerquei-me de um salto, segurei-o com as duas mãos pela cintura, levantei-o e joguei-o de encontro a uma árvore distante de nós alguns palmos. Lá ficou ele estirado ao solo, sem movimento.

Foi então que me agarraram pelas costas.

- Patife, pagarás caro! - gritou Byhar, que chegara neste meio tempo. Abraçou-me pela cintura e quis erguer-me. Eu abri as pernas, encolhi os ombros e respirei profundamente para me tornar pesado. Nisto,

senti no tornozelo esquerdo uma dor aguda. O pé negou-me o movimento: eu devia me têr ferido na queda.

O Skipetaro postado atrás de mim, empregou toda a sua força para me erguer. Ele arquejava de raiva e do esforço dispendido. Seu irmão jazia inerte, ao pé da árvore. Talvez o tivesse como morto, e por desforra queria tirar-me a vida.

Eu senti que não podia mais resistir, e que era necessário livrar-me deste abraço. Puxei da faca e vibrei uma facada na mão do meu adversário.

Soltou-me, rugindo de raiva e dor. Disse, enfim:

- Tu me dás uma facada? Então atiro!

Virei-me, naturalmente, muito depressa. Vi que ele arrancava a pistola da cintura. Os dois gatilhos estalavam. Talvez ainda pudesse adiantar-me com o revólver, pois não queria matá-lo. Ele ergueu a arma. Bati contra ela no momento que o tiro partiu. Errara o alvo. Com a rapidez de um raio, dei-lhe tamanho soco, de baixo para cima, no nariz, que a cabeça lhe caiu para trás. Com outro golpe, saquei-lhe a pistola, atirando-a para longe.

Comprimiu com ambas as mãos o nariz e a boca, que sangravam. Deixou escapar um grito agudo e procurou agarrar-me. Agachei-me, e, passando por baixo dele, apertei-o pelas coxas com tanta força, que meus dedos se comprimiam na sua carne, e joguei-o para trás, por cima de mim. Virei-me, então, rapidamente e atirei-me sobre ele, que jazia no solo; e para não lhe deixar tempo para erguer-se, dei-lhe uma pancada na fronte, de tal maneira que, com um prolongado suspiro, perdeu os sentidos. O que eu não julgava possível, realizou-se: não fui vencido pelos dois Aladji! Quando vi jazer na minha frente esses dois corpos colossais, mal me atrevi a acreditar na minha vitória. Cada um deles tinha mais força do que eu, mas fui mais ligeiro: eu conhecia muitos golpes, aprendidos com os dervixes.

Examinei os dois. Mortos não estavam; deveriam logo tornar a si, e assim, era aconselhável ir embora. E para deixá-los por mais algum tempo indefesos, tirei-lhes os sacos de pólvora, que tinham dependurados à cintura e descarreguei as carabinas.

Nesta ocupação, vi que minha perna esquerda estava ferida. Se antes fingia-me de capenga, agora o era de verdade. Acerquei-me do meu cavalo, após têr apanhado os chinelos de oração do pequeno Hadji, que me tinham caído dos pés durante a luta. Soltei o animal e levei-o para a estrada, onde finalmente pude montar. A dor no pé aumentara com a caminhada.

Agora que o cavalo se pôs em movimento, respirei de alívio. Eu e os meus companheiros havíamos escapado de um grande perigo, graças à boa Nebatja. Se tivesse tido um portador seguro, por Deus que teria aliviado os Aladji do dinheiro roubado e lho teria mandado. Mas, assim, tive que os deixar com eles. Não havia outro legítimo proprietário. E entregá-lo às autoridades? Não fiz em Ostromdja experiências prometedoras neste sentido. Com prazer, pensei no que diriam os Skipetaros, se soubessem quem era verdadeiramente o tolo xerife.

Após ter cavalgado um bom trecho, terminou o mato. A estrada seguia para o vale do rio. Não muito longe dali, vi Halef, Osko e Omar, que estavam parados. Eles me reconheceram imediatamente, fazendo chegar aos meus ouvidos exclamações de alegria. Acicatei o cavalo, ou melhor, achinelei-o e galopei ao seu encontro.

- Oh! Sídi! - quanto cuidado tivemos por ti! - gritou-me Halef, de longe. - Onde estiveste metido?

- Lá para trás no mato, como vedes, pois venho de lá.

- Foi o que imaginamos, ao encontrar o teu recado.

- Sempre o encontrastes?

- Sim, mas o deixamos lá, no mesmo lugar.

- Por quê?

- Por patuscada. Pensamos, ou por outra, pensei que raiva estes patifes nos deveriam têr mais tarde, quando descobrissem a peça que lhes pregamos! Achas que fiz mal?

- Um erro não cometeste; é claro que acharão o papel e quando compreenderem o que nele está escrito vão ficar furiosos pois eu, a quem estavam esperando, estive com eles durante várias horas.

- Como? Estiveste com eles?

- Falei com eles, bebi com eles e até lutei com eles. E agora estão sem sentidos no mato.

- Sídi, então temos que voltar depressa para lá, pois também quero trocar umas palavrinhas com eles.

- Não é necessário; ouviram o bastante de mim, pois falei-lhes com o punho cerrado.

- Conta-nos depressa!

- Pois sim! Mas podemos fazê-lo caminhando.

- Então vem montar o Rih.

- Não, eu continuo aqui na sela. Tu podes montar o Rih até Radowitsch, como recompensa de o teres, ainda há pouco, cavalgado esplendidamente.

- Mas tu me viste?

- Muito bem. Passaste bem perto de nós.

- Fiz boa figura?

- Esplêndida, melhor do que eu.

- Ora, sídi, isto é ironia!

- Então quero afirmar simplesmente que fiquei contente contigo. Mas ouviste que também atiraram sobre ti?

- Não, não ouvi nada.

- Só a rapidez do morzelo te salvou. Todos os dois Aladji atiraram em ti; queriam abater-te para depois roubar o cavalo.

Halef conteve o morzelo e exclamou:

- Creio que teremos de voltar ao mato, sídi. Tenho que agradecer aos dois patifes pelas suas balas. Vou dar-lhes um tal gosto do meu chicote, que a sua pele ficará como uma velha bandeira, com cem batalhas nas costas.

- Qual! Vem, pequeno! Estes Aladji não são de brincadeiras. São verdadeiros gigantes, podem sufocar-te com dois dedos.

- Não creio! Mas se julgas que é melhor não os procurar, obedecer-te-ei. Quem sabe se um dia não se atravessarão no meu caminho para que eu possa mostrar-lhes com quantos paus se faz uma canoa?

Em caminho, relatei aos companheiros o meu encontro com os Skipetaros. Ouviram-me com o maior interesse. Quando terminei, Halef observou:

- Achas, senhor, que este querido Bakadji Torna ainda se acha lá em Radowitsch?

- Certamente, do contrário o teríamos encontrado.

- Não devemos procurá-lo um bocadinho? Eu queria dar-lhe merecidos agradecimentos pelo seu comportamento. Devem dizer de mim que não conheço as regras do bom tom...

- Esta recriminação não se deixará de fazer. Posso atestar, porém, que, em outros casos, fôste muito cortês, por exemplo, com o Khawassa Selim e com o Kodja Baxá, em Ostromdja, que provou suficientemente a “doçura” do teu chicote.

- Então não vamos procurá-lo, sídi?

- Não, mas se o encontrarmos, faremos como se não o conhecêssemos.

- Sídi, isto repugna ao meu bondoso coração. Dize-me, ao menos, quanto tempo vamos ficar em Radowitsch.

- Não sei ao certo. Seria melhor, de toda maneira, que passássemos sem demora pela provação; devo, entretanto, examinar, em primeiro lugar, o meu pé. Talvez requeira um tratamento que me obrigue a ficar. Decerto o torci ao cair, o que me obrigará a colocar uma atadura.

- Se assim fôr, sídi, que este bom mensageiro não me caia nas mãos, senão colocar-lhe-ei uma atadura nas costas, da qual se lembrará a vida inteira. Demais em Ostromdja, encontrei alguém em quem de boa vontade lha aplicaria.

- Em quem?

- Nos dois irmãos que nos perseguiram e que deviam anunciar a nossa chegada na ruína.

- Aqueles que estavam hospedados com o pai Harek?

- Sim. Eles devem ter cozido sua bebedeira muito antes do que imaginávamos, pois, mal saiste, eles voltaram.

- Onde os viste?

- Onde? No mesmo Konak, no qual ficamos. Ignoravam o sucedido e subiram logo à ruína. Ao encontrarem apenas os escombros do incêndio, voltaram ao Konak para se informar. Podes imaginar o espanto que se apoderou deles quando souberam do ocorrido.

- Falaste com eles?

- Não. Tinham deixado os cavalos na estrebaria e desapareceram em seguida.

- Também não voltaram antes da nossa saída.

- Hum! Com certeza obtiveram informações. Talvez tornemos a vê-los.

 

Um Hekim

O pé, que contundi na luta com os Aladji, começou a doer-me. Era necessário examiná-lo. Por isso pusemo-nos a galopar para chegarmos mais depressa ao nosso destino. Quando, a pouca distância de Radowitsch, nos acercamos do rio, percebi uma casa pequenina, em cuja frente estava sentado um velho, que nos examinava com especial atenção. Havia um quê de dúvida na sua expressão.

Sem motivo justificado, parei e saudei-o. Ele levantou-se e agradeceu-me respeitosamente, com certeza em atenção ao meu turbante verde.

- Conheces-nos por acaso, paizinho? - perguntei-lhe.

- Oh! Não! Nunca vos vi, - respondeu ele.

- Mas olhaste-nos de uma maneira tão estranha...

- Eu vos tomava por maus Skipetaros.

- Parecemo-nos com Skipetaros?

- Certamente que não, mas este cavalo negro evitou-me. Se o cavaleiro do mesmo fosse de maior estatura, eu pensaria, apesar de não usardes a vestimenta própria, que tinha os Skipetaros diante de mim.

- A quem te referes?

- Perdão, senhor! Mas não devo falar nisso.

- Ah! É! Bem, afirmo-te que não prejudicarás nenhuma pessoa de bem, se o contares.

- Talvez sim. Se tu o divulgas, os Skipetaros chegarão a sabê-lo e continuarão a perseguir estas boas pessoas.

- Nada direi. Halef, dá ao bom velho um bakchich!

O Hadji puxou do bolso e jogou algo no colo do velho. Este esfregou as faces macilentas e se decidiu, então:

- Senhor, tu és um descendente do Profeta, e por isso gostaria de servir-te, mas não posso. Minha consciência mo proibe, pois prometi calar-me. Toma o teu dinheiro.

- Fica com ele, pois vejo que és pobre. Ao que parece, esperavas por Skipetaros.

- Assim é, Senhor.

- Quantos Skipetaros chegarão?

- Quatro. Um deles, o que calça umas compridas botas e usa uma longa barba negra, monta um morzelo árabe. Este cavalo não é árabe?

- Sim.

- Assim pensei e, por isto, quase vos tomei por aqueles assassinos.

- Quem te disse que os Skipetaros deviam vir?

- Hum! Não posso dizê-lo.

- Tu és um homem muito calado.

- Eu talvez não fosse tão calado se uma coisa que trazeis convosco não me parecesse suspeita.

- Sim!? E o que é?

- As duas botas compridas que lá estão amarradas à sela. O morzelo aí está e também vejo as botas. Agora só falta aquele que monta o morzelo e calça as botas. Se tu não fosses um descendente bendito do Profeta e... ah! - lá vem ele de volta!

Um moço atravessava o riacho e vinha direito à casinha.

- Quem é? - perguntei.

- Meu filho, que o guia... Oh! Alá! - não devo falar nisso.

Comecei a compreender de que se tratava. Certamente o Mubarek e seus três companheiros fizeram alto aqui, para tomar o moço como guia a algum lugar, cujo caminho não conheciam bem. Como tivessem quase a certeza de que devíamos passar por aqui pregaram ao pai e ao filho uma mentira qualquer e, com certeza, nos indicaram como Skipetaros. Eu esperava que o filho fosse mais palrador que o pai.

Quando ele chegou mais perto, observei que fazia uma cara muito aborrecida. Mal nos cumprimentou e quis entrar na choupana. Mas o velho agarrou-o pela roupa e perguntou:

- Então, por que não dizes nada? Não recebeste o bom bakchich?

- Sim, bakchich! Coisa muito diferente recebi, mas não bakchich - respondeu o filho, que parecia muito zangado. - Os homens estão cada vez piores. Até nos santos não se pode confiar mais.

- Falas do velho Mubarek? - perguntei eu.

- Por que mencionas este nome? És, amigo dele?

- Oh! Muito ao contrário. Nós somos os Skipetaros dos quais ele vos preveniu.

- Alá, Alá! - exclamou o velho, assustado. Sempre o desconfiei! Senhor, espero que não nos fará mal. Somos tão pobres. Meu filho é cesteiro e faz cestas dos vimes que meus netos estão cortando agora mesmo à beira do rio. Eu é que não sirvo para nada, nem posso descascar os vimes, pois a gota endureceu-me as mãos, como vês.

Ele estendeu-me as mãos.

- Fica descançado! - respondi. - Já vistes alguma vez um Skipetaro com o turbante do Profeta?

- Não, nunca.

- Entre os Skipetaros não há nenhum que descende do Profeta, portanto não posso ser um ladrão.

- Mas tu disseste agora mesmo que sois aqueles Skipetaros, a respeito de quem nos preveniram.

- Somos aqueles sim, mas que somos Skipetaros é uma mentira.

- Onde está o cavaleiro, ao qual pertence o morzelo?

- Sou eu. Trocamos os cavalos e eu vesti uma outra roupa, para não ser logo reconhecido pelas pessoas que quero prender. Tu, porém, pareces ter má impressão do Mubarek?

O filho, a quem esta pergunta foi dirigida, respondeu, porém voltado para o pai:

- Sim, mas não sou só eu, é também o meu cunhado. Viste os cavalos deles?

- Não foi possível. Ainda estava deitado, pois não era dia claro. A neblina espessa circundava a choupana. O que há com o teu genro?

- Roubaram-no!

- Oh! Alá! A este pobre homem, que, além do mais, perdeu há pouco sua mulher, tua irmã, minha filha. Que foi que lhe tiraram?

- O melhor dos seus dois cavalos.

- Oh! Céus! Por que o fizeram?! Podiam ter roubado um outro cavalo de um homem rico, o que seria de mais agrado a Alá. E o Mubarek estava junto? Desde quando os santos eremitas são ladrões de cavalos?

- Não há mais santos, como antigamente. É tudo astúcia, engano e mentira. A mim pode-se chegar o mais devoto Marabut, o mais nobre Xerife e eu não confio mais nele.

A palavra “Xerife”, lançou-me um olhar desconfiado, muito significativo. Eu sabia agora o que lhe haviam dito. Por isto lhe disse:

- Tens razão, há muita astúcia e muito engano neste mundo. Mas eu quero ser honesto e sincero contigo. Não sou nem Skipetaro nem Xerife, mas sim um Franco, que não tem direito de usar o turbante verde. Vê aqui!

Tirei o turbante e mostrei-lhe minha cabeleira.

- Senhor, - gritou ele assustado, - que ousadia! Arriscas a tua vida.

- Oh, não é tanto assim. Em Meca seria mais perigoso do que aqui, onde há mais cristãos.

- Nem és moslim, mas cristão?

- Sou cristão.

- E usas o Hamail no pescoço, o Alcorão, escrito em Meca onde só é possível consegui-lo?

- Eu o trouxe de lá, realmente.

- E apesar disto és cristão? Nem posso crê-lo!

- Já te provarei que vosso Maomé deve ajoelhar-se reverentemente diante de Cristo, o filho de Deus, e adorá-lo. Um moslim diria estas palavras?

- Não, nunca! Dizes uma blasfêmia contra a nossa crença, mas com isto provaste que és cristão, um Franco. Talvez sejas aquele que alvejou o braço do Manach el Barcha!

- Quando aconteceu isto?

- Ontem de noite, na cabana do Mubarek.

- Fui eu mesmo. Então foi a ele que eu feri? Estava escuro, por isso não pude reconhecer as pessoas. Como vieste a saber disso?

- Disseram-me. Então sois os estrangeiros que prenderam o Mubarek e os outros três?

- Sim, somos nós.

- Senhor, então perdoa, que te ofendi. É certo que só ouvi mal de ti, mas o mal, que a gente ruim fala dos outros, se transforma em bem. Sois os inimigos desses ladrões e salteadores, e, por isto, sois gente de bem.

- Tens, pois, agora, confiança em nós?

- Sim, senhor.

- Então relata como te encontraste com aquela gente.

- Com prazer, senhor. Apeia e senta-te no banco. O pai te dará lugar enquanto te falo.

- Agradeço-te. Que ele fique sentado. Seu cabelo é grisalho, e eu sou moço. Além disso, tenho um pé doente, por essa razão prefiro ficar montado. Conta-nos, então.

- Foi hoje de manhã bem cedo. Mal me levantara para começar os labores diários. A neblina era tão espessa, que mal se podia distinguir o ambiente a poucos passos. De súbito, ouvi chegar cavaleiros, que pararam diante da choupana e me chamaram.

- Já te conheciam?

- O Mubarek me conhecia. Quando saí, vi quatro cavaleiros e mais um cavalo de carga. Um deles era o Mubarek, num dos outros reconheci, mais tarde, quando clareou o dia e quando nós já estávamos em caminho, Manach el Barscha, o antigo fiscal de impostos de Uskub. Eles queriam viajar para Taschkoy e me perguntaram se eu conhecia bem o caminho para lá. Eu disse que sim. Então me pediram para guiá-los até lá, prometendo-me por isto um bakchich, que importava, pelo menos, em trinta piastras. Senhor, eu sou um homem pobre e trinta piastras, às vezes, não ganho num mês inteiro. Demais, conhecia o Mubarek e o tinha como santo. Por isto me prontifiquei, e com prazer, a servir-lhes de guia.

- Disseram por que queriam ir para Taschkoy?

- Não, mas disseram que estavam sendo perseguidos por quatro Skipetaros e que esses não deveriam saber para onde os guiei.

- Isto era uma mentira.

- Mais tarde reconheci que era, realmente, mentira.

- Onde fica situado este Taschkoy?

O nome significa aldeia de pedra ou rocha. Por isto deduzi que a povoação devia estar situada nas montanhas. O cesteiro respondeu:

- Fica bem ao norte daqui. Não há estrada de Radowitsch para lá; é necessário, pois, conhecer bem o mato e as montanhas para não errar o caminho. A aldeia é pequena e pobre e está situada na direção de Bregalmtza a Sbiganzy, morro abaixo.

Sbiganzy! Mas este era o lugar que eu devia procurar ao norte de Radowitsch, para perguntar ao açougueiro Tschurak pela Derikuliba e para ouvir pormenores sobre o Xut. Dar-se-ia que o Mubarek seguira para lá? Talvez encontrasse lá toda esta bela tropa reunida.

- E antes de seguirem daqui, - perguntei, - recomendaram-te silêncio?

- Sim. O Mubarek contou-me que, no caminho, foram atacados por quatro Skipetaros, mas que conseguiram escapar deles. Que estes tinham uma vendeta contra ele e os seus companheiros e que era provável que os perseguissem. Que ele devia seguir para o Norte, mas que não queria passar por Radowitsch, porque seria visto, dando, assim, aos Skipetaros informações para onde se tinham dirigido. Ele vos descreveu muito bem, como agora vejo, só que agora usas outras roupas e não montas o morzelo. No caso de passardes por aqui e perguntardes por ele, não podíamos vos dar nenhum esclarecimento, pois nô-lo interditaram. Depois seguimos viagem. Quando clareou mais o dia, reconheci, no cavalo de carga, o animal do meu cunhado, mas julguei enganar-me e por isto nada disse.

- Os cavalos desta gente não pareciam muito cansados?

- Muito! Aqui, diante da casa, suavam e a espuma lhes caía em flocos da boca.

- É de imaginar. Se passaram tão cedo por aqui, devem ter viajado muito depressa, o que, de noite, com esta estrada, significa um considerável esforço. Continua!

- Todos estavam montados, menos eu. Marchei a pé. Mas sempre me adiantei deles. Assim é que ouvi uma grande parte das suas conversas, mantidas a meia voz. Primeiramente ouvi que antes possuíam apenas quatro cavalos. Cada um trazia um pouco da bagagem. Depois, porém, chegando perto da olaria, onde a estrada atravessa a ponte, encontraram dois cavaleiros; estes lhes disseram que meu cunhado tinha dois cavalos atrás da casa e que no alpendre também havia uma cangalha.

Comecei a compreender quem era este cunhado e disse:

- Eu também passei pela olaria e só vi uma casa com alpendre, sob o qual havia uma sela, se me lembro bem. Era uma estalagem, situada à direita da ponte.

- É esta, é esta!

- Então o dono é teu cunhado?

- Sim, ele é o marido de minha irmã, que faleceu há pouco tempo.

- Estive algum tempo com ele.

- Viste-o, falaste com ele?

- Sim. Então o pobre homem foi roubado? Havia, quando lá estive, um cavalo atrás da casa.

- Mas ele tinha dois. Também possuía duas selas, uma para montar e a outra para a bagagem.

- Nada disseram a respeito dos dois cavaleiros com os quais encontraram?

- Sim, mas não comprendi do que se tratava. Falavam sempre de dois malhados, o que naturalmente se refere a cavalos e não gente!

- Neste caso, queria significar os dois homens e os cavalos.

- Estes malhados deviam atacar e matar alguém.

- A nós.

- A vós, Senhor?! Por quê?

- Por vingança. Deves compreender que estes malhados são dois afamados Skipetaros que só vivem de roubo. Deram-lhes este apelido porque montam cavalos malhados.

- Então é assim?! E estes Skipetaros não vos esperavam de emboscada?

- Certamente.

- Mas estais aqui! Conseguiste escapar?

- Com uma dose de astúcia, pois disfarcei-me. Encontrei-os com teu cunhado e estive algumas horas com eles. Mas, por estas horas, já devem saber que os ludibriei. Decerto andam à nossa procura.

- Talvez venham por aqui?

- É possível.

- Se indagarem por vós, devo esclarecê-los?

- Não te quero induzir a mentir. Dize sempre que estivemos aqui e que fomos a Radowitsch. Mas do que falamos agora, nada precisas, dizer.

- Não, senhor, não saberão uma palavra.

- Então continua a falar.

- Pelo que me foi dado ouvir concluí que haviam roubado o cavalo e a sela do meu cunhado. Os pormenores me escaparam porque não falavam alto; havia, mesmo, intervalos, durante os quais não podia escutar. Mas ouvi o bastante para deduzir que o Mubarek devia ter sido um grande ladrão e bandido. A parte mais preciosa do seu roubo achava-se num fardo sobre o animal de carga. O resto, que não era de tanto valor e ocupava muito lugar, foi queimado junto com a cabana. Maior satisfação sentiam, porque os malhados estavam à mão. Eles consideravam os seus perseguidores, a vós, como agora sei, por perdidos.

- Felizmente enganaram-se redondamente. Não se riram de nós, pois continuamos a persegui-los.

- Oh! Se eu pudesse acompanhar-vos!

- Por quê? - perguntei.

- Porque roubaram o meu cunhado e me subtraíram o bakchich.

- É forte esta! Fôste com eles até Taschkoy?

- Mais longe ainda um bom pedaço.

- Que distância é daqui lá?

- Precisamos de cinco horas, para ir até lá.

- E para onde foram depois?

- Queriam descer ao vale do Bregalnitza. Fora isso, nada mais soube.

- Já imagino para onde queriam ir. Não insististe para receber a tua paga?

- Naturalmente! Foram muito sabidos. Se me levassem até Taschkoy, lá, talvez, teria encontrado auxílio para obrigá-los a pagar-me. Mas, pararam no meio do mato e disseram que não precisavam mais de mim. Pedi-lhes o meu bakchich, mas zombaram de mim com risadas. Foi então que me zanguei e exigi que me restituissem o cavalo que pertencia ao meu cunhado. Aí, desceram da sela e dois deles me subjugaram; seguro, fui batido pelo terceiro a chicote. Tive que suportar tudo, porque, estando sozinho, não podia fazer nada. Senhor, homem nenhum ainda me bateu! Caminhei doze horas em marcha forçada. Minhas costas estão em frangalhos graças à surra. Perdi um dia de trabalho e minha língua arde de fome. Em vez de trazer trinta piastras para casa vim surrado e não tenho nem um soldo. Que devo comer? Que poderei dar ao pai e aos meninos, se nada tenho? Se não os tivesse acompanhado teria vendido alguns cestos em Radowitch. Com isto, podíamos matar a fome.

- Consola-te! - pediu-lhe o pai. Recebi deste Xerife que infelizmente não é Xerife, cinco piastras de presente. Podes ir a Radowitch comprar pão.

- Senhor, agradeço-te muito! - disse o cesteiro. - Julguei-te um homem mau e tu és tão bom para nós. Desejava poder prestar-te um serviço.

Antes que pudesse responder-lhe, Halef tomou a palavra. Ele se tinha virado na sela, agitando as minhas botas compridas, redondas e lisas, como se minhas pernas estivessem dentro delas.

Durante a nossa conversação, os filhos do cesteiro voltaram, carregados de vime que tinham ido cortar.

- Estais com fome, meus meninos? - perguntou ele.

Os maiores confirmavam, mas a menorzinha começou a chorar. Na Turquia observa-se fenômeno idêntico ao que se dá na nossa terra. Perguntando-se a uma meninazinha de dois anos se está com fome, responderá, chorando, que sim.

- Então vá buscar uma cesta - ordenou o Hadji ao pai deste povinho faminto. Mas que não seja muito pequena.

- Para quê? - indagou o homem.

- Quero esvasiar estas botas compridas.

O cesteiro tomou uma cesta, na qual cabia muito coisa e ergueu-a. O Hadji encheu-a de frutas, carnes e doces, que tirava das botas, até a cesta transbordar.

- Basta! - disse o velho.

- E agora deixa comer os meninos e que Alá vos abençoe.

- Senhor! - exclamou o cesteiro, beijando-lhe a mão - isto tudo é para nós?

- Naturalmente.

- Mas nem numa semana podemos comer tudo.

- Nem o exigimos. Sede moderados e não comais a cesta também.

- Senhor, agradeço-te! O teu coração está repleto de bondade e a tua boca transborda de gracejos.

- Nem tanto assim. Não estou tão bem disposto; meu coração sangra quando vejo estas botas vazias. Em cada uma delas havia uma galinha, tão bem assada e tostada como se saísse dos fornos do terceiro paraíso. Dedico toda minha alma a galinhas assim. Separar-me delas, enche minha alma de tristeza e meus olhos de lágrimas. Mas como estas galinhas foram feitas para ser comidas, é indiferente em qual estômago sejam sepultadas. Comei-as, pois, com atenção e bem-estar e guardai-me os ossos para quando eu voltar.

Dizia isto tão sério e gravemente que todos desatamos a rir.

- Mas, Halef, que idéia estranha é esta de arranjares estas provisões e usares as minhas botas como depósito?

- Não fui eu quem teve esta bela idéia. Quando quis pagar o dono da estalagem, conforme me ordenaste, ele disse que o devedor era ele e não nós. Pelo serviço, bem entendido, que prestamos ao seu irmão Harek. Vê-se, mais uma vez, que Alá recompensa sempre duplamente uma boa ação, pois ao Harek também nada tivemos que pagar.

- Mas continua!

- Sim, continuo. Como quem nada quer, dei a perceber, com umas palavrinhas, que galinha assada era meu prato predileto...

- Maganão, que tu és!

- Perdoa, sídi! A boca não foi feita para calar, mas sim para falar. O ouvido do homem estava aberto e sua memória registrou a galinha assada. Quando juntei a nossa bagagem, trouxe-me as duas galinhas, desejando que este manjar nos prolongasse a vida. Foi aí que lhe declarei que o homem viveria ainda mais se comesse conjuntamente ainda outras coisas.

- Halef, se isto fosse verdade, merecerias o chicote!

- Mereço os teus agradecimentos, sídi, e nada mais. Se me dedicas estes, fico tão satisfeito, como quando o estalajadeiro me trouxe o resto da comida, que vês aqui reunida nesta cesta, tão agradável à vista e... ao paladar.

- Não devias ter aceito!

- Perdoa, sídi! Se não tivesse aceito, nada podíamos dar agora.

- Mesmo assim, podíamos dar.

- Nada que pudesse mitigar a fome inadiável desta gente. Demais, protestei até quase me tirarem a vida. Declarei que para isso precisava a tua permissão e que nada podia aceitar, porque não estavas presente. Fiz todas as objeções que os Califas poderiam imaginar, mas o homem persistia no seu propósito. Ele observou que não o dava a mim, e sim a ti. Isto enterneceu o meu bom coração, e condescendi. A dádiva foi destinada a ti, e como o estalajadeiro não ta podia fazer pessoalmente, deixei-lhe as botas, como as tuas representantes e procuradoras, e me afastei. Quando, depois, com grande satisfação, tornei a vê-las, estavam gordas e recheadas dos produtos do reino animal e vegetal. Eu, porém, apresentei os teus agradecimentos num bem pronunciado discurso, cobri as botas e amarrei-os na sela. Se pequei, peço um julgamento benévolo da minha falta.

Não se podia guardar rancor desta boa criatura. Eu estava convencido que, de maneira nenhuma, induzira o homem, a fazer-nos esta dádiva. Halef não teria sido capaz disto, pois era de uma honestidade sensibilíssima. Mas gostava de brincar comigo e eu lhe proporcionava grande prazer, fingindo que me deixava provocar por ele.

- Mais tarde ditarei o teu castigo que mereces - ameacei. - Pelo menos, por muito tempo, prescindirás da tua comida predileta. Por tua causa, tão cedo, uma inocente galinha não se separará dos seus pintinhos.

- Contento-me também com um capãozinho, sídi, que é tão gostoso como aquelas maçãs dos nossos pequenos amigos.

As crianças tinham-se reunido em redor da cesta, agarrando primeiramente as maçãs. Era um prazer ver como as suas boquinhas trabalhavam. O velho tinha lágrimas nos olhos, de pura alegria. Seu filho tinha-lhe posto um pedaço de carne na mão, mas ele não comia, embevecido com o contentamento de seus netinhos.

O cesteiro deu a mão a cada um de nós e me disse:

- Senhor, repito que experimentaria um grande prazer se pudesse te prestar algum serviço. Não seria isto possível?

- Sim é. Há um serviço que até queria pedir-te.

- Dize-mo!

- Quero que nos guies a Taschkoy.

- Com prazer, com prazer! Quando, senhor?

- Ainda não sei. Vem amanhã cedo a Radowitch, então poderei dizê-lo.

- Onde posso encontrar-te?

- Hum! Isto também ainda não sei. Podes indicar-me um Konak, onde se fique bem instalado?

- Melhor estarás na estalagem do portão alto. Conheço bem o dono e conduzir-te-ei até lá.

- Não posso consenti-lo. Estás cansado.

- Oh! Até Radowitch vou com facilidade. Estaremos lá, dentro de um quarto de hora. Quero recomendar-te ao estalajadeiro. Às vezes trabalho lá e ele me considera muito não obstante ser eu um homem pobre. Amanhã cedo, vou te ver para saber quando queres ir a Taschkoy.

- Isto dependerá do meu pé, que contundi. Existe na cidade um bom médico, a quem possa confiar-me?

- Se perguntas por um cirurgião, existe um que é célebre em toda região. Cura os males dos homens e dos animais, até sabe vacinar contra variolas, o que nenhum outro sabe.

- Então é realmente o milagre de um médico! Mas temos que falar, agora, do bakchich, que pretendes.

- Para que, senhor?

- Para levar-nos a Taschkoy.

- Senhor, por isto nada aceito!

- Mas eu não quero de graça.

- Já nos presenteates ricamente.

- Isto foi um presente; o outro terás que ganhar. Não confundas uma coisa com outra.

- Mas eu não posso exigir dinheiro de ti. Teria que me envergonhar.

 

- Pois bem. Então, para terminar a questão, vou dar um bakchisch a teu pai.

Pedi a Halef que me passasse a minha carteira e chamei o velho. Quando viu as 50 piastras nos seus dedos encolhidos, exultou de contentamento, mas devolveu-me a maior parte da quantia.

- Não aceito nem uma piastra em devolução - disse eu, decidido.

- Então não sei como deva agradecer-te - redargüiu. - Que o Hekim consiga curar o teu pé, o mais depressa possível.

- Assim desejamos. Mas diga, Kuferschu, como se chama este médico célebre?

- Seu nome é Tschefatasch.

- Deus meu! Se as suas curas condizem com seu nome, agradeço-lhe o auxílio.

Tschefatasch quer dizer: “pedra do martírio”.

- Não tenhas cuidado, - consolou-me o cesteiro. - Ele não te aplicará o seu nome, mas sim um emplastro no pé. E isto ele faz muito bem feito.

- Vem, pois, se queres ir conosco.

Muniu-se de uma pequena provisão para o caminho, e pusemo-nos em marcha. Alcançamos a cidade, um quarto de hora mais tarde. O nosso guia conduziu-nos através de um bazar ao ar livre para uma rua transversal, e, de lá, atravessamos um portal entrando num pátio amplo e também muito limpo. Halef foi com ele à procura do estalajadeiro. Eu continuei montado para não cansar o meu pé inutilmente.

Após pouca demora, reapareceram acompanhados pelo dono, que me declarou com muitas cortesias e desculpas, que só tinha um quarto pequenino à disposição, contíguo à sala comum de refeições. Que não é uso da terra pedirem os hóspedes um quarto separado; que na cidade inteira não existia um, e que também o seu devia primeiramente ser limpo e preparado. E, neste ínterim, me pediu que me contentasse com a sala comum.

Dei-me por satisfeito e apeiei-me. Oh! Céus! O pé estava inchado. Caminhava com dificuldade e tive que me apoiar fortemente em Osko.

Quando chegamos à sala, não havia ninguém lá. Sentei-me no último canto, ao lado da porta, que conduzia ao quartinho a mim destinado. Halef, Osko e Omar, voltaram ao pátio para cuidar dos cavalos. Nem me lembrei durante a viagem, de tirar o meu disfarce. No meio de uma população fanática, isto teria sido muito perigoso, mas aqui não importava tanto.

O cesteiro ofereceu-se para trazer-me o médico, e eu concordei. Mal ele saíra entrou um novo hóspede. Eu estava sentado de costas para a porta e virei o corpo para olhar para o homem. Não era outro senão o Bokadji Toma, o mensageiro que nos traiu, em proveito dos dois malhados.

É bom que o Hadji não te veja! - pensei eu e virei-me novamente, porque nada tínhamos a nos dizer. Mas ele não era da mesma opinião.

Talvez tivesse vontade de conversar um pouco e como eu era o único que se encontrava ali, depois de dar alguns passos pela sala, parou ao meu lado e perguntou:

- És estranho, aqui?

Simulei que não tinha ouvido a pergunta.

- És estranho, aqui? - repetiu ele, em voz alta.

- Sim, - respondi então.

- Dormes hoje, aqui?

- Ainda não sei.

- De onde és?

- De Istambul.

- Ah! Da capital, “brilho das faces do rosto do mundo”! És um homem muito feliz, pois moras ao pé do Padixá.

- Sua presença só favorece os bons.

- Achas que lá existem muitos maus?

- Como em toda parte.

- Qual a tua profissão?

- Escrivão.

- Então és um letrado. Com gente assim, gosto de falar.

- Mas eu não gosto de conversa.

- Alá! És repelente! Ia perguntar-te se me seria permitido sentar no teu lado.

- É permitido, porém não te causará prazer.

- Por que não?

- Meu rosto não agrada a todos.

- Vou ver se me agrada a mim.

Sentou-se à minha mesa, no banco em frente e olhou-me. A careta que fêz é indescritível. Eu tinha o turbante na cabeça e os óculos sobre o nariz, o que o confundiu, não obstante o meu rosto não ter sido modificado em nada. Sua boca se abriu, suas sobrancelhas formaram dois ângulos agudos, e seus olhos descansaram em mim com uma expressão, que me obrigou a conter-me para não desatar a rir.

- Senhor! efêndi! Quem és tu? - perguntou ele.

- Já to disse.

- Disseste a verdade?

- Atreves-te a taxar-me de mentiroso?

- Não, por Alá, não, pois eu sei que tu... que...

O medo e a dúvida não lhe deixaram falar.

- Que é que há? Que sabes de mim?

- Nada. Absolutamente nada, apenas que és escrivão e que moras em Istambul.

- Que asneiras estás dizendo aí?

- Asneiras? Por Deus, sídi, isto não é de admirar, pois pareces ser aquele, de quem penso que é aquele, aquele... oh! Alá! Tens razão. Sou um asno, pois a semelhança é realmente muito grande.

- Mas com quem me pareço tanto?

- Com um efêndi morto.

- Ah! Quando foi que ele morreu?

- Hoje, em caminho.

- Como é triste quando o crente tem que partir em meio da viagem. Assim os seus na última hora, não lhe podem rezar a surata da morte. De que é que ele morreu?

- Foi assassinado.

- Horrível! Viste o seu cadáver?

- Não, senhor.

- Então outros te deram notícia da sua morte?

- É verdade.

- Quem o matou?

- Isto não se sabe. Ele jazia no meio do mato entre esta cidade e Ostromdja.

- Mas, por este mato passei eu ainda há pouco. Como é que nada soube do assassinato? Quiseram roubá-lo?

- Não, foi por vingança.

- Uma vendeta?

- Não. Este homem imprudente provocou uma verdadeira revolução em Ostromdja. Instigou o povo, uns contra os outros, e por fim ainda incendiou a casa de um homem devoto.

- Ah! Isto é, realmente, um crime, que Alá jamais perdoará.

- Este homem não crê em Alá. Era um djaur, um cristão que comia carne de porco.

- Então o inferno abrir-se-á para ele.

- Por vingança, esperararam-no de emboscada e o mataram.

- Ele estava só?

- Não, tinha mais três com ele.

- E onde estão eles?

- Desapareceram. Crê-se que também tenham sido assassinados.

- Para onde transportaram o seu cadáver?

- Não sei.

- É estranho! E eu me assemelho a este descrente?

- Tens a mesma estatura e o seu rosto. Apenas o teu cabelo e a tua barba são mais curtos e mais claros do que os dele.

- Então existe entre nós, o djaur e o xerife, uma diferença, pelo menos, para a alegria do meu coração. Mas quem és tu?

- Um Bokadschi, de Ostromdja.

- Assim é compreensível que estejas tão bem informado. Mas, parece que ouvi dizer hoje, pelo caminho, que existem dois bandidos, dois Skipetaros, apelidados de malhados. Já ouviste falar neles?

- Sim, nós, mensageiros, chegamos a saber de tudo.

- Tu os conheces?

- Não, senhor. Como pode um homem honesto conhecer bandidos! Que há com eles?

- Eles foram vistos, esta manhã, perto de Ostromdja.

- Que Alá proteja esta região!

- Também um Bokadji estava com eles. Parece, penso eu, que se chama Toma.

O mensageiro confrangeu-se de susto, mas eu perguntei com calma:

- Conhecê-lo-ás, talvez?

- Muito bem, é um... camarada meu.

- Seria bom que o avisasses, caso o encontres, que ele está sendo procurado pela polícia.

- Alá! Alá! Por quê?

- Por que é cúmplice num assassinato. Traiu um cristão em proveito dos dois Aladji, os assassinos. Disse-lhes a hora exata em que os estrangeiros deixariam Ostromdja.

- É... É verdade? - gaguejou ele.

- O assassinado assim o disse.

- Mas um morto pode falar?

- Ele não está morto, não foi asssassinado. Ninguém, senão tu, sabe que ele devia ser assassinado, Toma.

O mensageiro saltou da cadeira.

- Tu me conheces? - perguntou, conturbado.

- Certamente, e aqueles lá também te conhecem.

Tirei os óculos e o turbante e apontei para a porta, na qual apareciam neste momento Osko, Omar e Halef. O homem, por alguns instantes, permaneceu petrificado de susto, pois afinal me reconhecia. Mas, em seguida, exclamou:

- Preciso sair, sair depressa! Tenho negócios urgentes.

Deu um pulo para a porta, mas Halef já o tinha pelo cangote.

- Por que queres deixar-nos tão depressa, querido amigo? - perguntou em tom cortês.

- Tenho ainda muito que fazer.

- Pensei que só fazias recados para cá, mas será que também levas algo daqui para Ostromdja?

- Sim, sim, mas não me retenhas.

- Também podes levar algo de mim.

- Para quem?

- Eu to escrevo.

- Que é?

- Uma lembrança, apenas uma lembrança.

- Entregá-la-ei com prazer, mas agora deixa-me ir.

- Assim não, tens que esperar, pois já disse que quero escrever a lembrança e o endereço também.

- Demora muito?

- Não. Com estas cartas de amizade, não costumo fazer cerimônias. Não preciso de papel nem de tinta, pois escrevo logo em pergaminho não curtido. E ajunto também o pagamento da mensagem. Tenho o lápis na cavalariça, terás que te dar ao trabalho de seguir-me até lá, Toma. Vem, pois!

O mensageiro olhou para o pequeno, prescrutadoramente. Desconfiava desta tranqüilidade, se bem que Halef falasse com a máxima gentileza. Encaminhou-se, pois, para fora, e Osko e Omar seguiram-no, sorridentes.

Do meu lugar através da janela aberta, sem vidros, via todo o pátio. Os quatro atravessaram o quadrado e desapareceram atrás de uma porta, com certeza a da cavalariça, que foi fechada em seguida.

Passado algum tempo, ouvi aqueles sons que hoje em dia só se ouvem ainda na China ou na Turquia, aqueles sons indiscutíveis, que costumam ser a conseqüência da relação íntima do chicote com a pele humana.

Em seguida, abriu-se a porta e o mensageiro apareceu. Seu porte não era muito impressionante e seu semblante parecia querer recuperar a paz d'alma destruída. O seu andar parecia o de um orangotango.

Nem tinha a curiosidade de observar que impressão causava a sua saída dramática, e, sem se virar, desapareceu na volta da primeira esquina.

Os três executores procuraram-me imediatamente.

- O seu kismet o trouxe aqui! - disse Halef, alisando a barba escassa, a sorrir satisfeito. - O que disse ele quando te viu, sídi?

Contei-lhe, então.

- Ah! Que criatura atrevida! Bem, que leve para Ostromdja as trinta lembranças que lhe apliquei, para entregá-las lá a quem quiser.

- Ele não se defendeu?

- Vontade não lhe faltou, mas eu disse-lhe, com muita compaixão, que se se defendesse, receberia cinqüenta, e, se deitasse voluntariamente no solo, receberia apenas trinta. Foi muito prudente em escolher o último. Mas eu fiz com que estas trinta lembranças comovessem o seu espírito, da mesma forma que teriam comovido as cinqüenta. Estás conforme, sídi?

- Desta vez, sim.

- Oxalá que o kismet quisesse proporcionar-me maior número desses prazeres, quando se trata de patifes dessa categoria! Ainda existem alguns a quem de bom grado queria oferecer à escolha entre trinta ou cinqüenta. Espero me encontrar em boa hora com qualquer um deles. Mas como está o teu pé, sídi?

- Muito bem. Omar precisa ver se consegue gêsso, aqui, na cidade, para me trazer uns cinco litros. E tu podes ir buscar uma vasilha com água, na qual possa pôr o pé. Só depois é que me tirarás a meia.

Nessa ocasião, também voltou o cesteiro e declarou que custara muito a achar o doutor “pedra de martírio”. Esse senhor estava muito ocupado, mas viria em seguida.

Agradeci-lhe pelo seu trabalho, dei-lhe uma pequena quantidade de tabaco e mandei-o para casa.

Halef trouxe a água. Quando examinei o pé inchado, verifiquei que existia uma luxação, felizmente leve. Eu mesmo podia têr indireitado a junta, mas preferi esperar pelo médico. Um erro qualquer poderia prender-me ali por muito tempo. Enquanto isto, meti o pé n'água.

Finalmente, veio o médico. Mas o teria tomado antes por um carteiro chinês do que por um Esculápio europeu.

Era de pequena estatura e extraordinariamente gordo. Suas faces brilhavam como as maçãs de natal. Seus olhos pequeninos e oblíquos, indicavam que o seu berço estivera pendurado numa tenda mongólica. Sobre a cabeça rapada, havia, derreado para trás, um velho fêz muito gasto, que, em lugar da borla, tinha como enfeite anéis azuis e amarelos, de charutos. O cafetã muito curto alcançava-lhe apenas os joelhos, mas parecia ser composto de um único bolso, enorme, pois de todos os lados, em cima, em baixo, pela direita e esquerda, atrás e na frente, estava cheio de panos. Decerto continha a farmácia ambulante do médico.

Além disso, o artista ainda trazia, pendurado no ombro, um cesto, quadrado e grande, com certeza a caixa dos seus preciosos instrumentos.

Calçava meias grossas de lã com solas duplas de feltro e pantufas enfeitadas de percevejos metálicos. As pantufas pareciam ser das chamadas, de sete léguas.

Ao entrar, desafivelou o calçado e veio, de meias, ao meu encontro, fazendo, à guisa de cortesia, uns esgares e tregeitos sobremaneira cômicos.

Como eu tinha o pé n'água, percebeu logo que era eu quem precisava do seu auxílio.

Fêz-me uma reverência tão profunda, que a cesta escorregou até ao pescoço, parecendo que a correia que a sustentava o queria estrangular. Retribuí a saudação da melhor maneira possível. Tirou, depois, a cesta, depondo-a no chão e disse:

- Gostas de falar muito?

- Não, - respondi secamente.

- Eu também não, por isso, perguntas breves, breves respostas, e pronto!

Não teria imaginado que aquele gorducho fosse de tamanha energia. Mas, com ele, facilmente podia eu impressionar em Radowitch e fazer bons negócios. Parou-se na minha frente, de pernas abertas, olhou-me de alto a baixo e examinou-me:

- És aquele do pé?

- Não, dos dois pés!

- Como? Todos dois quebrados?

Não tinha compreendido a minha ironia.

- Só um, o esquerdo.

- Fratura dupla?

Oh! Deus! Ele falava de fratura dupla! Mas o caso era com ele. Não podia exigir que eu soubesse o que havia com a minha lesão.

- Apenas quebrado - respondi.

- Mostra a língua.

Cada vez melhor! Mas fiz-lhe a vontade e mostrei-lha. Ele examinou-a, apalpou-a, empurrou a ponta para lá e para cá, para cima e para baixo, e disse, meneando a cabeça:

- Luxação perigosa!

- Não, apenas incompleta.

- Quieto! Vejo-o pela língua! Desde quando luxado?

- Três horas, no máximo quatro.

- Tempo de mais. Pode produzir um envenenamento de sangue.

Quase arrebentei de riso! Muito me admirou, porém, que a palavra “envenenamento de sangue” também já se tivesse popularizado na Turquia.

- Dores? - continuou a perguntar.

- Suportáveis.

- Apetite?

- Forte e variado.

- Muito bem, muito bem. Salvar-te-ei! Mostra o pé.

Ele se agachou. Como isto não lhe fosse muito cômodo, sentou-se inteiramente no chão ao lado da vasilha, e eu botei, confiante, o pé molhado no seu colo.

Apalpou-o primeiro levemente, depois mais forte, com a ponta dos dedos, cabeceou finalmente e perguntou-me:

- Gritas com facilidade?

- Não.

- Muito bem.

Um grito rápido, um arranco forte, um leve ranger na junta... e ele, piscando levemente os olhos, perguntou:

- Então, como foi?

- Divertido.

- Então estamos prontos.

- Inteiramente?

- Não, falta pôr a atadura.

Como cirurgião era um homenzinho aproveitável. Quem sabe quanto outro me teria feito sofrer, só para fazer a coisa parecer mais perigosa e ganhar maiores honorários.

- Atar com quê? - perguntei.

- Com talas. Onde há madeira?

- Não quero.

- Por que não?

- Não presta.

- Não presta! Queres talvez talas de ouro ou de prata cravejadas de brilhantes?

- Não, quero uma atadura de gêsso.

- Gêsso? Estás louco. Com gêsso untam-se paredes e muros, mas pernas, não.

Este era o seu lado fraco. Eu me encontrava na Turquia!

- De gêsso fazem-se magníficas ataduras - afirmei.

- Quero ver.

- Podes ver. Mandei buscar gêsso.

- Como queres fazê-lo?

- Espere.

- Mas se não obtiveres gêsso?

- Farei a atadura de cola.

- Cola! - gritou, - queres me pregar uma boa?

- Não.

- Nem queiras tentá-lo!

- Oh! basta querer! - ri-me.

- O quê! - eu sou um sábio!

- Eu também.

- Que estudaste?

- Tudo! - respondi secamente.

- E eu três vezes mais. Conheço até o primeiro Dispensatorium le Sabur Ibu Saheli!

- E eu tenho todo o Dicionário de Medicina de Abd al Meschid na cabeça! Não só o tenho na cabeça, como em todo o corpo, em todos os membros. Uma atadura de gêsso ou até de cola! Gêsso é farinha, e cola é mole. Uma atadura deve ser firme.

- Gêsso e cola ficam firmes. Vais admirar-te! Demais a atadura não pode ser colocada ainda, até abaixar o inchaço e terem diminuído as dores. Compreendes?

- Alá! Tu falas como um médico!

- Também entendo!

- Bem, então endireita tu mesmo os teus ossos, quando os torceres. Por que mandaste chamar-me?

- Para mostrar-te a minha língua.

- Uma língua de vaca é maior e mais impressionante. Lembra-te disso! Minha visita custa dez piastras. Tu és um estrangeiro e pagas dobrado. Compreendes?

- Aqui tens vinte piastras. Mas não me voltes por aqui.

Jogou o dinheiro por uma nesga do cafetã, colocou a cesta no ombro e foi para a porta. Lá meteu nos pés as pantufas e quis, sem se dignar a dar-me adeus, sair pela porta, quando Omar entrou com uma vasilha na mão.

O médico parou, olhou para o conteúdo da vasilha e perguntou:

- O que levas aí?

- Altji - Gêsso.

- Ah! é este o gêsso do qual devem ser feitas as talas? Que loucura, que tolice! É altamente irrisório e só um doido pode ter esta idéia.

Omar mantinha a porta aberta em cujo umbral o médico se tinha parado. Omar fechou-a então atrás de si para que o médico não pudesse sair, depôs a vasilha no chão, agarrou os dois braços do homenzinho e perguntou:

- Tu, salamandra, quem és tu?

- Eu sou o médico, compreendes?

- Que belo emplasteiro serás! Que disseste aí de loucura, tolice e ridicularias? O nosso efêndi pediu o gêsso, porque acha-o necessário e ninguém melhor que ele sabe o que faz. Mil gorduchos como tu não têm tanta sabedoria nas suas cabeças ocas, como ele tem na ponta de um fio dos seus cabelos. Se o ofenderes com palavras assim, facilmente te sairás mal. Logo se vê que a ignorância foi tua mãe.

Decerto, uma coisa assim jamais acontecera ao homem de ciência. Desprendeu-se de Omar, deu uns passos para trás, respirou profundamente e rebentou, como se seus pulmões estivessem carregados de pólvora:

- Devo fechar-te essa tua boca leviana com o meu boné? Toma, aqui, filho de um macaco, neto e tetraneto de um pavão!

Arrancou o boné da cabeça, torceu-o e jogou-o no rosto de Omar. Este agarrou-o, e com uma mão na vasilha, encheu-o de gêsso e disse:

- Aí tens a tampa do teu juízo furado. E jogou-lhe o boné cheio de gêsso ao rosto do médico, que a ira avermelhara. O gêsso espalhou-se e momentos depois o médico parecia um farinhento papai Noel. O gêsso em pó entrou-lhe nos olhos, que ele esfregava, esfregava... Começou a bater com os pés, perdeu as pantufas, gritou como se estivesse no espeto e avançou finalmente. Foi quando pôde ver a cesta, que atirou contra Omar. Este porém, esperava por isso: apanhou-a no ar. Abrindo-se a tampa, todo o conteúdo rolou pelo solo: Alicates, tesouras, lancetes, espátulas, caixas, drogas e naturalmente, o principal instrumento para o médico oriental - a seringa de cristel.

O árabe, lesto, agachou-se e começou a bombardear o doutor com os seus próprios objetos. Este, na sua raiva, não achou outra saída, senão a que lhe permitia usar do mesmo direito de defesa. Cada objeto, que resvalava do seu corpo e caía no chão, jogava-o novamente com toda força, sobre Omar, acompanhando cada projétil de injúrias, que, aqui, não podemos reproduzir, e nas quais ele parecia ser mestre.

Esse bombardeio causava uma impressão tão ridícula, que nós todos caímos numa estrondosa gargalhada. Esta, ouvida lá fora no pátio, atraiu o dono e a gente de casa, que, ao ver aquele estranho duelo, nos acompanhou nas risadas.

Halef teve então a idéia de ir em socorro do seu amigo e companheiro.

- Sídi, tira o pé d'água! - disse.

A estas palavras, tirei o pé e levantei-o. Halef agarrou a vasilha e correu com ela para a porta, impedindo, destarte, que o médico fugisse. Em seguida, levantou a seringa de cristel do chão e começou, com boa pontaria e muito entusiasmo, a molhar o médico, que, dentro de poucos minutos, gotejava como um cão molhado.

- Belo, esplêndido, magnífico! - exclamou Omar. - Agora deve experimentar todo o gêsso. Esguicha com força, Halef.

Omar agarrou a vasilha e sacudiu o gêsso sobre a sua vítima, enquanto Halef cuidava do líquido necessário.

Eu quis intervir, mas, de tanto rir, não pude: o médico apresentava uma figura que só se podia descrever, taxando-a de “belo horrível”. Mesmo o indivíduo mais melancólico, teria acompanhado a unânime hilariedade, pois os espectadores perdiam o fôlego de tanto rir.

O dono ria mais que todos. Ele não era alto, tinha ombros estreitos, uma barriguinha vistosa e pontuda e um par de perninhas feias, que, só com dificuldade, podia suster o corpo. Seu narizinho arrebitado e sua boca larga de dentes brancos condiziam muito bem com as suas maneiras jocosas. Tinha as mãos entrançadas debaixo da barriga trêmula, para sustentá-la. Os olhos inundados de lágrimas. Quase cacarejando de entusiasmo, exclamou repetidas vezes:

- Hai wai, tenim, oudschdum, karnim, midin dschyjenm dallakim bowkim wai haynimr sindirmim - ai de mim, ai de mim, minha barriga, minha barriga, meu ventre, meu estômago, meu fígado. Meu baço, meus rins! Ai, minha digestão, minha digestão! Patlama, rim, patlamarim - eu rebento, eu rebento!

Parecia até que a sua pele não agüentaria tamanhos repuxões.

O adepto de Esculápio refugiou-se num canto. Lá estava ele cobrindo o rosto com as mangas do seu cafetã, mas por debaixo dessa manga, praguejava, ultrajava e descompunha em altas vozes.

Quando a seringa não queria funcionar mais, Halef agarrou da vasilha e despejou todo o seu conteúdo sobre a cabeça do médico, dizendo:

- Assim acontece a todos aqueles que chamam o nosso sídi de desmiolado. Osko, vai buscar mais água para que o sídi possa refrescar a perna. Mas a este homem dos emplastros, dos unguentos e das talas de madeira, vamos sentar nessa cadeira e limpar-lhe o rosto. Quieto, amigo, senão te raspo o nariz também.

Assentou o médico numa cadeira e com uma espátula de madeira começou a barbear-lhe o gêsso. Introduzia nos ouvidos, com toda calma, o que tirava do rosto. O barbeado suportou-o, mas continuou a praguejar.

O gêsso, como se sabe, endurece depressa. Em poucos minutos, torna-se uma massa duríssima. Aqui, o processo foi mais rápido, porque os restos estavam encharcados de umidade. Halef só cessou de rapar, quando a casca estava completamente branca e endurecida.

- Pronto! - disse. - Limpei-te. Mesmo aos inimigos se deve fazer o bem. Entretanto, não podes exigir mais. Tuas coisas tu mesmo ajuntarás e porás na cesta. Levanta-te! A cura está terminada!

O gordo queria erguer-se da cadeira, mas verificou que sua roupa tinha endurecido tanto, que lhe impedia qualquer movimento. Foi este o motivo que me levou a não intervir na brincadeira: a possibilidade de empregar o gêsso como atadura, foi-lhe, assim, demonstrada “ad oculos”.

- Não posso me levantar, não posso me levantar! - gritou, procurando erguer as duas mãos. - Meu cafetã parece vidro, meu cafetã quebra.

Halef agarrou o fêz pelas fitinhas, tirou-lho da cabeça e, levantando-o diante dos olhos dele, disse:

- Vê, isto é a digna cobertura da tua sábia cabeça. Como a achas? O fêz formava agora um sino branco e duro tendo se adaptado à forma do crânio. Era divertido!

- Meu gorro, meu boné! - exclamou o gordo. Cobre-me a cabeça desde a infância. E minha honrada velhice e respeitabilidade são ultrajadas por um Mufeuslar (1). Dá cá!

Quis pegá-lo. Com o gesto, o gêsso da manga começou a estalar.

- Oh! jazik, Oh! jazik - Ai! Ai! - gritou. - Perco a integridade e solidez das minhas extremidades! Que devo fazer? Tenho que ir. Meus clientes esperam por mim. Quis esguer-se, mas quando o cafetã tornou a estalar, desistiu e sentou-se.

- Viram? Ouviram? - perguntou com voz chorosa. - Os contornos de minha estatura e as linhas do meu corpo quebraram-se aos pedaços. Sinto que, também por dentro, tudo me cai em frangalhos.

 

(1) Um homem em bancarrota.

 

A simetria do seu porte desapareceu e a macia rotundidade da cintura enrugou-se em pregas terríveis.

- Fizeram de mim uma figura sem aparência e um homem sem gravidade - continuou. - A admiração dos meus observadores transformar-se-á em riso e a benevolência dos seus olhares em ironia. Na rua, me apontarão com o dedo e lamentarão a perda de meus predicados. Sou um homem inútil agora, e o melhor é levarem-me logo para o cemitério, onde o cipreste chora as suas lágrimas. Oh! Alá, Alá, Alá!

Sua ira transformou-se em melancolia. Abateu-o profundamente a perda de sua elegância. Já queriam responder-lhe com novas gargalhadas quando, com um gesto, ordenei silêncio e lhe respondi:

- Não te lamentes, Hekim! Tua tristeza se converterá em alegria, pois tiveste ocasião de fazer uma experiência muito importante.

- Sim, fiz essa experiência, mas não vejo nada importante para mim. Verifiquei que não se deve tratar com gente que não tem educação.

- Dizes ao teu cliente que a língua dele não é tão impressionante como a de uma vaca. Se chamas a isto educação, então és realmente um sábio muito educado. Além disso, como queres perceber, pela minha língua, a gravidade da minha luxação? Não percebo muito bem onde está a sensatez disso.

- Na tua vida, muito pouca coisa sensata terás percebido. Isto se vê. De qualquer modo, não compreendes que me colocaram numa situação que prejudica a minha honra e sepulta a minha respeitabilidade no país?

- Certamente que não percebo.

- É que a tua sabedoria é tão curta como uma Kan Sudschuki (2) e a tua ignorância tão comprida como os Motewazikar (3) que se pensa existir em roda da terra. Apesar disto, torces o nariz, fazes uma cara e dizes cada discurso, como se fosses professor de todas as ciências possíveis e imagináveis.

- Para ti eu realmente fui um professor, pois te dei instrução prática no emprego de uma atadura.

- Não ouvi disso uma única palavra.

- Eu disse instrução prática e não mencionei falatórios. O que aprendeste, agora, pode te tornar o mais célebre Hekim de todos os países governados pelo Padixá.

- Ainda queres troçar de mim? Se és tão sábio, como afirmas, dá-me um conselho: como poderei sair desta casca de gêsso?

- Depois! Tu riste de mim, quando te disse que de gêsso se fazem ataduras. Não me deixaste falar, por isso os fatos te ensinaram. Pega no teu cafetã: antes era macio, agora é duro como pedra, tão duro, como uma atadura deve sê-lo. Ainda não percebes nada?

Ele ergueu o sobrecenho e olhou-me pensativo. Eu continuei:

- Se pões talas em uma perna quebrada, elas molestam muito o membro, porque não tomam a forma do mesmo. Uma atadura assim não presta.

- Mas não há outra atadura. Os maiores médicos do reino quebraram a cabeça em vão para achar uma atadura, que fosse firme e que se amoldasse à forma do

 

(2) Mortadela.

(3) Círculos paralelos.

 

membro. Eu mesmo possuo um livro, cujo título é: Schifa kenik kyry-klarim (4) Neste se lê que as fraturas somente podem ser tratadas com talas.

- Quem é o autor, do livro?

- O célebre médico Kari Asfan Zulafar.

- Bem, esse viveu há duzentos anos! Naquela época deve ter tido razão, mas agora se ririam dele.

- Oh! Eu não me rio dele.

- Como haverias de rir, se os teus conhecimentos e pareceres condizem com os daquele tempo!? Existem hoje ainda muitas outras ataduras. Olhaste, ainda há pouco, o fêz que agora proteje novamente a tua cabeça?

- Por que não o devia ter olhado? Esta rã venenosa meteu-mo suficientemente diante do nariz.

- Então dize que forma tomou.

- A da minha cabeça.

- E bem direitinho. Pois se dá a mesma coisa com os membros. Se quebrei o braço e mando endireitá-lo, ato-o primeiramente com gaze molhada em gêsso diluído em água, ponho mais umas voltas de ataduras, molhando-as novamente no gêsso. Quando este estiver seco e duro, tenho uma atadura muito firme que se amoldou inteiramente ao braço.

- Ah!... oh!... ah! - exclamou ele, olhando-me algum tempo estarrecido. Depois se dirigiu a Halef: - Dá-me, mais uma vez, o meu gorro.

O Hadji lhe fêz este favor, mas segurou-o em frente ao seu nariz, virando-o de um lado para o outro.

- Melhor ainda - continuei eu - é embeber logo o pano no gêsso úmido, aplicando-o depois ao membro. E para que, depois de endurecido, não moleste o membro doente, coloca-se, por baixo, boa quantidade de algodão. Assim o membro descansa bem e maciamente na atadura perfeita.

Tornou a olhar-me e finalmente gritou:

- Allah, Allah! Nazik idschad buhna, azometli kesch! - Alá, Alá! que descoberta maravilhosa! que esplêndido invento! Eu me curvo e me apresso, tenho que anotar isso!

Ergueu-se de um pulo, sem prestar atenção à dureza do seu cafeta e pulou para a porta.

- Espera, espera! Leva a cesta com as tuas ferramentas - exclamou Halef. - Mas coloca primeiro o teu gorro!

O médico parou. Tinha um aspecto interessante. O gêsso quebrado caía aos pedacinhos. O cafetã não queria sair da posição que tinha tomado ao sentar-se. A parte trazeira estava endurecida e inclinada para a frente, de maneira que estorvava-lhe os passos. Nisso, virou-se o gordo para o Hadji, e, afastando os braços para trás, disse:

- Puxa as mangas. Quero sair!

Halef pegou e segurou-o. O discípulo de Esculápio puxou, puxou até que, finalmente, escapuliu da roupa gesseficada, voando de encontro à porta e daí até ao pátio.

 

(4) Sobre a causa da fratura.

 

- Tekrar gelirim schimdi tekrar gelirim - eu volto, eu volto, eu volto já! - gritou enquanto caía ao solo. Ergueu-se depressa e continuou a correr.

Estava tomado de entusiasmo pela atadura. Foi para casa fazer experiências com as minhas explicações. Não lhe causava a menor preocupação têr deixado as pantufas, o cafetã e o fêz com a cesta dos instrumentos: corria com a cabeça descoberta pelas ruas.

Pelo que se via, estava integrado de corpo e alma na sua profissão, mas infelizmente não pôde aprender mais do que os outros, que nada sabiam.

Agora era preciso limpar o quarto. O cafetã duro, foi colocado sobre o encosto de uma cadeira e os instrumentos ajuntados. Em seguida, prepararam-me meu quartinho. Osko há muito me tinha trazido água, e eu notei, por felicidade minha, que o inchaço estava diminuindo. Dores, não sentia mais. Mais tarde deixei-me transportar para o meu quarto e deitei-me na cama. Fiz compressas e quis, então, de noite, colocar a atadura, mas para isso era preciso buscar novamente gêsso, algodão e gaze.

Três horas mais tarde, ouvi pela porta a voz do médico.

- Onde está o efêndi?

- Lá, no quartinho - ouvi a resposta de Halef.

- Anuncia-me!

Halef abriu a porta e o médico entrou, mas como! - Estava vestido como um noivo. Um cafetã de seda azul cobria-lhe o corpo até aos pés; estes estavam metidos em finas pantufas de couro e a cabeça estava enfeitada com um turbante listado de azul e branco, no qual brilhava um pregador de alabandina. A expressão do seu rosto era festiva e o seu andar sobremodo digno. Parou à porta, cruzou os braços sobre o peito, inclinou-se profundamente e disse:

- Effendim japarim ziaret schukurum ittibarun - Meu efêndi, faço-te a visita de agradecimento e apreço. Gwisch bana ruchsat wer - permite que entre!

Eu baixei cerimoniosamente a cabeça e respondi:

- Jaklaschdyr, chosch sen - Aproxima-te, és bem vindo!

Ele deu três passos pequenos, tossiu um pouco e começou:

- Efêndi, tua cabeça é o berço de toda sabedoria humana e teu cérebro contém o saber de todos os povos. Teu espírito é agudo como o fio de uma lâmina e o teu intelecto tão penetrante como a agulha, com que se furam as feridas purulentas. Por isso tivesse o kismet de resolver tão grandes questões, como fraturas, luxações e entorses. Teu gênio mediu todas as esferas e prescrutou todos os domínios da ciência, até chegar ao sulfato de cálcio hidratado, que por bárbaros ignorantes é chamado de gêsso. Acrescentaste água e o mexeste para que perdesse os cristais e para que pudesse ser empastado na gaze, que enrolaste nos membros, ossos e carnes, para dar firmeza aos mesmos. Devido a isto, no decorrer do tempo, salvarás milhões de pernas e braços de aleijão e deformações, e os professores do futuro colherão piastras para te erguerem um monumento, cuja cabeça será esculpida em puro ouro. Na chapa do monumento, também de ouro, brilharão as letras do teu nome. Até lá, porém, deverão figurar no meu livro de notas, e peço-te que, mas digas para que as possa apontar.

Pronunciara isto em tom cerimonioso de discurso.

- Agradeço-te! - respondi-lhe. O amor a verdade manda que eu te declare que esta invenção não é minha. Na minha terra é tão popular o processo, que todos os médicos e todos os leigos o conhecem. Se queres tomar nota do nome do inventor, dir-to-ei. O sábio, a quem tanta gente deve os seus corpos perfeitos, chamava-se Mathyseu e era um célebre cirurgião holandês. Não mereço o teu agradecimento, mas alegro-me muito por ver que o invento te agrada. Espero que o empregarás com freqüência.

- Que estou firmemente resolvido a aplicá-lo, provar-te-ei. Mas não deves subtrair-te ao meu agradecimento. Ainda que não sejas o inventor, foste tu quem introduziu aqui este benefício incomparável. Jamais esquecerei o dia de hoje! Vejo, para satisfação minha, que meu cafetã ainda existe. Será de agora em diante a minha taboleta de reclame; pendurá-lo-ei ao lado da porta de minha casa, para que todos que tem membros quebrados, vejam, para seu consolo, que os envolvo em gêsso. Já experimentei como fazê-lo e peço-te que examines a minha obra e emitas sobre ela o teu juízo. Queres?

- Com muito prazer! - respondi.

O médico, então, encostou-se à janela e bateu palmas. A porta da sala foi aberta e ouvi passos pesados.

- Entra aqui! - ordenou ele.

Primeiramente entraram dois homens que traziam uma tina, cheia de gêsso líquido. Outro trazia uma boa porção de algodão, que chegava para enrolar dez pessoas; outro, enfim, carregava um pacote de chita. Depuseram tudo ali e se afastaram.

Entraram depois mais dois homens trazendo uma padiola, sobre a qual estava um homem barbado, cujo corpo fora enrolado até o pescoço. Colocaram a padiola no chão e saíram.

- Aqui verás as primeiras ataduras que coloquei - começou o médico. - Comprei o material e mandei vir este operário para me servir de modelo. Ele recebe dez piastras por dia e a comida. Permite que retire o pano e observa o cliente.

Dito isto afastou a cobertura. Quando o meu olhar caiu sobre o modelo, tive que me conter para não rebentar de riso, tal o aspecto que apresentava o homem.

O gordo tinha idealizado toda classe de fraturas e luxações e tinha engessado o pobre coitado, mas como!

As axilas, o braço, o ante-braço, as pernas, as coxas, até as cadeiras, estavam metidas em emplastros de gêsso, que, seguramente, tinham a grossura de uma mão. Também o tórax tinha uma couraça que uma bala de pistola dificilmente atravessaria.

O homem jazia deitado como um verdadeiro paciente, prestes a morrer. Movia-se com dificuldade e quase não podia respirar. E tudo isto por dezoito tostões por dia. Por dia! Este era o lado ridículo da coisa. Dias a fio devia usar as ataduras, e por quê?

- Quanto tempo queres demorar nesta experiência? - perguntei.

- O tempo que ele puder suportar. Quero estudar os efeitos que a atadura de gêsso produz sobre as diversas partes do corpo.

- Numa pessoa sã? O único efeito será esse: a vítima não o suportará por muito tempo. Que aconteceu com o seu peito?

- Quebrou cinco costelas, duas à direita e três à esquerda.

- E com as axilas?

- As clavículas estão quebradas.

- E que há com o osso ilíaco?

- Desconjuntou as duas articulações. Agora falta mais uma coisa, isto é, a mandíbula inferior despregou-se e agora está com cãibras na boca. Como se deve atá-la com gêsso, não sei; seguirei tocante as tuas indicações.

- Oh! Hekim isto não se ata!

- Não? Por quê?

- Posto o maxilar no lugar, está feita a coisa; não há necessidade de gêsso.

- Bem, se te apraz; fazemos de conta que a boca fechou.

- Faze-me o favor de tirar o gêsso do peito dele. Respira com dificuldade!

- Já que mo pedes, vou arranjar a ferramenta com o dono da casa.

Muito curioso estava eu para vêr o que ele ia trazer. Quando voltou, achava-me ocupado com minhas compressas, e por isso só levantei os olhos no ouvir batidas de martelo.

- Por Deus, o que fazes, o que tens nas mãos?

Não pude observar bem por quê êle me virava as costas.

- Tschekidsch ile kalemkiarlyk - martelo e formão - respondeu ingenuamente.

- Assim lhe quebrarás as costelas de verdade e lhe meterás o formão no peito.

- Sim, mas como se deve fazer?

- Tesoura, faca e um serrote adequado, de acordo com o lugar e a espessura da atadura.

- A serra para os ossos está na minha cesta. Vou buscá-la.

- Traze o meu pequeno companheiro; ajudar-te-á, já que não posso. Quando Halef chegou, bastaram umas ligeiras explicações para ele atirar-se sobre a crosta de gêsso, apesar do médico protestar contra isso. Era um árduo trabalho que demorou muito até que o modelo ficasse livre de todas as ataduras. Como já começava a anoitecer, tiveram que acender as luzes. O pobre homem, a quem o médico, além de todas as fraturas possíveis e luxações imagináveis, ainda quis curar da cãibra da boca, não tinha pronunciado palavra. Mas quando a última atadura foi retirada, ele disse para mim:

- Agradeço te, senhor!

Deu um salto, meio desequilibrado, e desapareceu.

- Pára - gritou o gordo. Ainda preciso de ti! Vamos fazer tudo de novo!

Chamara, porém, em vão.

- Lá vai ele! Que faço agora com este belo gêsso, com o algodão e com a chita?

- Deixa que corra! - respondi. Que pensas? O conteúdo dessa tina dará para engessar duas casas. De uma pequena parte posso precisar e creio que está na hora de colocar a minha atadura.

- Bem, bem, efêndi! Vou começar já.

- Devagar, devagar! Fá-lo-ás de acordo com as minhas instruções.

O homem era todo entusiasmo. Enquanto me ligava, contava-me as curas incríveis que já tinha realizado. Quando terminamos, disse:

- Sim, isto é realmente outra coisa. Agora vou em busca do “cliente-de-experiência” que te mandarei amanhã.

- E quando queres enfaixá-lo?

- Ainda hoje, à noite.

- Oh! Alá! E o coitado terá de ficar assim até amanhã? Tu o matarás. Se queres ensaiar com ele, não o deves fazer em todos os membros ao mesmo tempo, mas sim num só. Não te esqueças de tirar a atadura, assim que estiver endurecida. Recorda-te também de que nas ataduras pode-se deixar janelas.

- Para quê?

- Para ver e tratar diversos pontos. Tu não tens professor que te possa ensinar e também não tens um livro para estudar. Portanto, tu mesmo deves refletir e fazer experiências.

- Efêndi, fica aqui e dá-me algumas lições! Todos os médicos desta região serão teus alunos.

- Sim, e nós outros serviremos de modelos! - riu-se Halef. É o que faltava! Já aprendeste o bastante nesta tarde, agora vê se te arranjas sozinho.

- Se não tendes tempo, devo desistir do ensino. É verdade que aprendi muito hoje e não sei como deva agradecer. Dinheiro não aceitarás. Dar-te-ei uma lembrança, efêndi, tu ficarás satisfeito.

- Que é?

- Vários vidros de álcool com todas as qualidades de lombrigas e solitárias, que muito estimo. Mas a ti dou-tos de todo coração.

- Agradeço-te! Os vidros tornar-se-iam incômodos para mim na viagem.

- Que pena! Mas apesar de tudo, verás como te sou agradecido. Dou-te o que de mais valioso possuo: um esqueleto. Eu mesmo fervi e limpei os osssos.

- Também preciso agradecer esse presente.

- Queres ofender-me?

- Certamente que não. Concordarás que não posso montar com um esqueleto na garupa.

- É verdade. Então permite-me, pelo menos, que te aperte a mão cordialmente.

O Hekim, no fundo, era, como a maioria da gente gorda, um homem bondoso. Tinha vontade de aprender e mostrava-se grato. Modificara-se muito com o que aprendeu naquela tarde. Sentiu-se feliz quando o convidei para o jantar. Despediu-se, depois, com tal cordialidade, que parecíamos velhos amigos.

Seus carregadores tiveram que esperar todo esse tempo e levaram depois as cargas. Mas em vez do modelo, seguiu sobre a padiola a cesta dos instrumentos, o cafetã e a tabuleta de reclames.

O resto da noite foi aproveitado para resolver o que devíamos fazer no dia imediato. Eu estava resolvido, não obstante o estado do meu pé, a continuar a viagem, pois não podíamos dar tanta dianteira aos quatro homens que perseguíamos. Do contrário, perderíamos a pista deles.

O papel que Hamd el Amasat tinha escrito e que me chegou às mãos, em Edreneh, dizia assim:

- Zu pripeh beste Ia karanorman chan ali sa panajir menelikde - notícias urgentes em Karanovuan-Kham, mas depois da feira de Menelik!

Menelik ficou para trás; seguimos, até hoje, ao irmão de Hamd el Amasat, sem termos idéia do lugar onde ficava Karanovuan.

De qualquer maneira, este lugar era seu destino e provavelmente os dois se encontravam lá. Tramavam coisas más, o que queríamos impedir. Por esse motivo encetamos a viagem. Se lhe permitíssimos uma dianteira maior, o nosso objetivo seria baldado. Era preciso que nos puséssemos em marcha na manhã seguinte.

Halef considerava-me doente e exigia que me tratasse. Osko e Omar, porém, estavam de acordo comigo. O último citou o provérbio da vingança do deserto: - Eb dem l ed dem - sangue por sangue!

- Jurei vingar a morte do meu pai e cumprirei a minha palavra. Se amanhã não vierdes comigo, irei só. Não terei sossego enquanto a minha faca não estiver cravada no coração do assassino.

Isto parecia feroz e desumano. Como cristão, eu seguia o mandamento: “amai os vossos inimigos”. Mas quando me lembrava daquele momento, no qual seu pai, nosso guia, emergiu naquela terrível crosta salina do chotl, sentia desejos de que esse crime fosse vingado. Se isso devia dar-se à moda de Omar, só o momento podia resolver. De qualquer modo, eu intencionava opor-me a um assassinato bárbaro e cuel.

Teria dormido toda a manhã, se não me tivessem despertado. O cesteiro estava lá fora e queria falar-me. Recebi-o, quase zangado pelo incômodo que me causava, mas quando vi entrar, atrás dele, o seu cunhado, dono da estalagem, percebi que deviam ter motivos para me tirar do sono. Por isso lhes mostrei boa cara.

- Senhor! - disse o estalajadeiro - eu não pensava que te tornaria a ver tão depressa. Perdoa se te perturbamos o sossego, mas tenho que te dizer algo importante. Trata-se de vossas vidas.

- Outra vez! Esperamos que não seja tão grave como pensas.

- Seria grave, se não te avisasse. Os dois Aladji estiveram aqui, com meu irmão.

- Ah! - Quando?

- Ao nascer do dia - respondeu o cesteiro, a quem dirigi a pergunta. - Acordou-nos logo, porque a alegria que nos causaram os teus presentes, não nos deixou dormir. Até as crianças já estavam de pé. Eu tinha descido ao rio para ver os anzóis da noite, que ainda ontem havia deitado. Quando voltei, encontrei dois cavaleiros, montados em cavalos malhados, a conversar com as crianças. Meu pai ainda estava deitado. Quando me viram chegar, perguntaram-me se ontem não tinha visto passar quatro cavaleiros, dos quais um usava o turbante dos xerifes e óculos de côr. Entre os cavalos havia um morzelo árabe.

- Que lhes respondeste? - perguntei com interesse.

- Imaginei logo que fossem os Aladji, dos quais tínhamos falado, e contei-lhes a verdade.

- Hum! Decerto te saíste mal com isso.

- Como o sabes?

As tuas crianças já deviam ter dito alguma coisa.

- Assim foi. Surraram-me a chicote e ameaçaram-me de morte, se eu não dissesse a verdade.

- Fizeste muito bem em lhes ter confessado a verdade.

- Mas sabes que assim fiz?

- Vejo-o pelos teus olhares perturbados. Receias ter cometido uma falta e não tens, por isso, uma consciência tranqüila.

Efêndi, teu olhar não te enganou. Eu poderia ter fugido às suas chicotadas, mas então teriam sido cruéis para com meu pai e as crianças. E como esses já tinham falado, confessei que tinhas estado lá.

- Nada mais?

- Queria dizer apenas isto, mas já tinham perguntado tudo aos pequenos, pelos quais souberam que tinhas despejado as botas e dado dinheiro ao avô, e que eu hoje vos devia guiar a Taschkoy, onde antes tinha estado com os bandidos.

- Diante disso foste obrigado a confessar tudo.

- Sim, não podia deixar de fazê-lo. Tu mo perdoarás?

- Não posso recriminar-te por isso, eu devia ter tido cuidado para não falar nisso diante das crianças. Os bandidos tinham carabinas?

- Sim. Eles próprios pareciam ter passado mal. Um tinha um emplastro sobre o lábio superior e o nariz tinha a côr de uma ameixa.

- Esre se chama Byhar, a quem, com um golpe, abri o lábio. Mas ele usava barba.

- Certamente a cortou, para costurar a ferida. Meu irmão deve sabê-lo. Estava sempre calado; só o outro é que falava. Este montava tão mal como se tivesse quebrado a espinha.

- Atirei-o contra uma árvore. Que fizeram então?

- Aplicaram-me mais algumas chicotadas e foram para o lado de Radowitch.

- Não creio. Penso que foram para o mato, através do qual terás que nos guiar. Quererão atacar-nos lá. Sem dúvida conhecem a região.

- Acertaste bem, efêndi. Eu tive a mesma idéia e segui-os. Mais adiante realmente tomaram a direita, pelas montanhas.

- Agora estão metidos lá e esperam por nós. Antes de mais nada preciso saber a que ponto chegaram as tuas confissões. Disseste que eu estava em Radowitch, mas falaste também no meu pé doente que talvez me obrigue a ficar lá?

- Não, - nem uma palavra.

- Então nos esperarão hoje. Perguntaram quando íamos seguir?

- Sim, e eu disse que o saberia depois. Juraram que me matariam e que incendiariam minha cabana, se eu os traísse. Ao falar assim, disseram-me que eram os Aladji, de quem eu teria ouvido falar, e que realizariam as suas ameaças sem dó.

- E mesmo assim mo dizes?

- É o meu dever, dada a minha gratidão, efêndi. Quem sabe se podes conduzir-te de modo que eles julguem que eu nada disse!

- Isso será muito fácil de arranjar. Naturalmente te sou muito grato pelo aviso; sem ele me veria mal.

- Sim, senhor, estarias perdido! - interrompeu o seu cunhado. - Eu ouvi-o com estes ouvidos.

- Pois tornaram a passar por ti?

- Naturalmente! Mas não me alegrei com isto; a primeira visita deles foi mais que suficiente.

- Isto foi ontem à tarde? Ou os viste antes?

- Já ouvi algo a seu respeito, mas ainda não os tinha visto. Vieram logo de manhã, pediram Raki e sentaram-se na mesa diante da casa, após guardarem os cavalos no pátio, e ficaram lá sentados.

- Imaginavas quem eram?

- Sim. Seus cavalos eram malhados e suas estaturas gigantescas combinavam com a descrição que deles me fizeram. Eu estava furioso com eles, pois tinha-os como ladrões do meu cavalo e da cangalha.

- Já sabias, pois, que ambas as coisas tinham desaparecido?

- Naturalmente, verifiquei-o logo ao levantar.

- Não podias supor que o cavalo tivesse fugido?

- Oh! não! Nunca o fêz e a cangalha teria ficado lá.

- É certo, pois a cangalha não podia ter fugido com o cavalo.

- Eu lhes relatei o roubo e eles certamente perceberam que eu desconfiara de algo a seu respeito. Obrigaram-me assim a ficar dentro de casa.

- E tu te submeteste?

- Que podia fazer?

- Chamar os vizinhos em auxílio.

- Não podia sair para buscá-los e mesmo, se fosse possível, não o teria feito. Onde quer que cheguem os Aladji, todos têm que lhes obedecer, pois se alguém no momento leva vantagem, os bandidos vingam-se mais tarde. Eu preferi ficar dentro de casa. Nem as crianças pude buscar, o que tu mesmo depois fizeste, efêndi.

- Ninguém apareceu durante todo esse tempo? Julgo que a chegada de um freguez os teria afugentado.

- Deixaram-se afugentar pela tua vinda, efêndi?

- Não, decerto.

- Ninguém passou. Só apareceu uma pessoa que parou lá em casa; foi...

- O Bakadji Toma de Ostromdja - interrompi eu. - Este sabia que os Aladji esperavam por ele. Demais, já na noite precedente, sabiam que possuías dois cavalos. Eles são os autores do roubo.

- Assim o soube agora pelo meu cunhado.

- Toma demorou-se muito tempo lá?

- Oh! não! Desceu da mula, sentou-se com eles e estiveram perto de uma hora conversando.

- Não pudeste ouvir o que disseram?

- Do quarto não, mas eu os tinha como ladrões do meu cavalo e temia o pior, porque não me deixavam sair da casa. Por isso resolvi escutar. Notaste, sem dúvida, que no quarto havia uma escada para o sótão, onde está guardada a palha de milho. Eu subi e de lá pude chegar, de mansinho, até ao telhado do alpendre. Ouvi palavra por palavra e soube o que se tinha passado em Ostromdja. O mensageiro relatava-o detalhadamente e disse que ias seguir ao meio-dia, passando assim, por minha casa duas horas mais tarde. Demais, ouvi que já tinhas falado com eles na noite precedente.

- Ah! agora se explica - respondi - como o Mubarek pôde achar tão depressa os Aladji e voltá-los contra mim.

- Parece que já os havia contratado antes da vossa chegada, para fazerem uma das suas. Vós o interrompestes, por isso quis aproveitar a presença deles para uma vingança contra vós.

- Que mais escutaste?

- Que o Mubarek escapara junto com os outros três, e que vós devieis morrer. Ele até designou o lugar onde deveríeis ser atacados, isto é, não longe da volta brusca que a estrada forma no mato.

- Foi realmente lá onde houve a luta entre mim e ele.

- E tu os venceste, como meu cunhado me contou. Efêndi, Alá esteve contigo, de outra forma terias sido vencido!

- É certo. Continua!

- O mensageiro disse-lhes que não se fiassem nas suas espingardas e pistolas, pois éreis invulneráveis. Deram então muitas gargalhadas. Mas quando lhes relatou todos os pormenores, ficaram pensativos e acabaram acreditando em tudo.

- Então, que dizes tu a isso? - perguntei.

- Há duas formas de “feitiço”, efêndi. Para um deles é necessária a ajuda de Alá. Para o outro a ajuda do diabo. Vós aprendestes a magia, mas não a boa, isto é, a que recebe as bênçãos de Alá.

Foi quando lhe respondi:

- Pensas, realmente, que o onipotente pode ser obrigado, por meio de palavras, sinais ou cerimônias feitos ou proferidos por fracas criaturas, a fazer-lhes a vontade?

- Hum! Não! Assim esse homem seria mais poderoso que o próprio Alá. Mas, senhor, eu me assusto. Fazeis então magia com o auxílio do diabo?

- Oh! Não! Nós não fazemos feitiço algum, não sabemos mais que os outros homens.

- Mas sois invulneráveis!

- Teríamos muito prazer se isso fosse verdade. Infelizmente, porém, uma bala deixaria na nossa pele buraco igual ao que deixa na dos outros.

- Não posso acredita- Io. Tu apanhaste as balas com a mão.

- Isto era fita. Eu até já me arrependi de têr apresentado àquela gente um gracejo que a robustece nas suas superstições. Quem sabe se tu me podes servir? Se chegares a Ostromdja, certamente ouvirás algo a nosso respeito. Dize àquela gente o que aconteceu. Que eu ouvi que devíamos ser atacados de emboscada e que me veio então a idéia de espalhar o boato de que éramos invulneráveis, porque assim provavelmente não atirariam sobre nós. Poderei te dizer como consegui isso.

E expliquei-lhe tudo. Seu rosto encompridava mais e mais. Depois refêz-se de sua admiração, escutou-me até o fim e disse, rindo:

- Alegra-me sobremaneira, senhor, a história que me contaste. Farei: um figurão em Ostromdja se puder rir-me do povo e explicar-lhe a verdade. Oh! Se pudesse mostrar-lhe...

- Podes. Ainda tenho vários balas. Se me prometes ser muito cuidadoso e de maneira nenhuma confundi-las com as outras, dou-tas de presente.

- Deixaste-me radiante de alegria. Mas sabes que agora vos tenho um respeito maior do que antes?

- Por quê?

- Porque proteger-se com capacidade é muito mais importante do que fazê-lo recorrendo ao feitiço. Agora também creio que toda magia não consiste senão em artes como estas. Conseguiste o teu intento, pois os Aladji resolveram não atirar sobre vós, mas atacar-vos apenas com facas e machados. O mensageiro fêz uma descrição tão minuciosa das vossas pessoas, que não havia engano possível, e, com isto, afastou-se. Um quarto de hora mais tarde, tu chegaste.

- A quem pensava ter diante de ti?

- A um xerife. Não podia imaginar que tu eras o efêndi estrangeiro, que devia ser assassinado.

- Também escutaste a nossa conversação?

- Não, pois a tua pessoa não me parecia ser importante. Entraste depois e fôste amável comigo e com as crianças. Até curaste a dor de dente de minha filhinha. Eu não sabia o que tencionavam fazer contigo, mas fôste amável conosco e eu te preveni.

- Com o próprio risco!

- Este não era grande. Apenas me arriscava a algumas chibatadas. Quando partiram contigo, receei que te fizessem mal. Tinham-se entreolhado tão estranhamente quando te viraste na porta, que te fiz um sinal de longe.

- Compreendi que querias recomendar-me cautela. Que fizeste depois?

- Fui à procura dos vizinhos e relatei-lhes o acontecido pedindo-lhes que viessem comigo ao mato para te libertar das mãos dos bandidos e também para salvar os quatro estrangeiros que deviam ser atacados.

- Mas eles não quiseram tomar parte na façanha. Temiam a vingança dos Aladji e continuavam escondidos entre quatro paredes. Sim, bem o imagino. O medo é o maior inimigo do homem. Em outra parte os Aladji não teriam ido longe, seriam presos o mais depressa possível.

- Falas de tua pátria?

- Sim, decerto.

- Então todos lá são heróis?

- Não, mas lá é impossível que um Skipetaro infunda terror e medo ao povo. As nossas leis não são severas, são mais benignas que as vossas. Além disso, são cumpridas como devem ser. Ninguém teme a vingança de um homem, pois a polícia é forte bastante para proteger cada pessoa honesta e boa. E quem vos protege?

- Ninguém, senhor. O medo é o nosso único protetor. Quem, por exemplo, se arriscar a oferecer resistência aos Aladji, incorreria na sua ira, e nenhuma autoridade o poderia proteger. Por isso não me admirei que os meus vizinhos nada quisessem ter com o caso.

- Eram todos fracos?

- Sim; demais existe a lenda de que cada Aladji vale por dez homens.

- Hum! Então posso com vinte, pois vencí-os.

- Só com a ajuda de Alá, efêndi! Estes bandidos são terríveis. Mesmo assim resolvi prevenir os estrangeiros. Por isso sentei-me diante da casa e esperei por eles.

- Viste-os?

- Não. As crianças brigaram e estavam chorando e eu entrei para terminar a disputa. Nesse ínterim os estrangeiros devem ter passado. Mais tarde, com grande susto, vi os Aladji voltarem.

- Com os seus cavalos?

- Certamente, efêndi.

- Então os acharam depressa. Estavam de bom humor?

- Por que perguntas isso? Tive que os acompanhar até em casa: era como se com eles entrassem mil cheitans. Passei mal. Mas o que pude deduzir de sua palestra causou-me de certa alegria. Eu soube que o tolo xerife os tinha vencido.

- Não perceberam, pois, que o xerife era o líder daqueles que deviam esperar?

- Essa idéia não tiveram. Porém, mais tarde, quando ficaram mais calmos, e se puseram a bebericar o Raki, um deles puxou um papel, que leram. Ouvi dizerem que ele estava pregado a uma árvore. Mas não sabiam o que pensar dele: sabiam apenas que três cavaleiros tinham passado, agindo de acordo com o papel.

- Tomaram estes três pelos esperados?

- Não, faltava a figura principal. Por isso continuaram à espera. Apesar de o mensageiro lhes ter dito que tínheis sido avisados, sempre quiseram lutar convosco. Estavam tão furiosos que não admitiam ponderações. Suas espingardas tinham sido inutilizadas. Traziam ainda os pedaços consigo; eu os experimentei nas minhas costas. Ao ver-me, as crianças choravam muito e também receberam pontapés e pancadas. Um deles não podia se suster de pé, pois o atiraste contra uma árvore. Ele se despiu, e durante algumas horas tive que lhe fazer massagens nas costas com Raki e manteiga. O outro sangrava sem parar. Deste-lhe um golpe de baixo para cima, de tal maneira que lhe partiste o lábio superior com o polegar do teu punho, como ele mesmo contou. O nariz estava inchado, redondo como uma pêra ou como um ninho de vespas. Esfregou com Raki. Mais tarde, quando vieram os outros dois, um deles cortou-lhe a barba e foi buscar resina do mato que ficava perto; misturaram a resina com manteiga e fizeram um emplastro que colocaram sobre o lábio.

- Dois outros vieram? Quem eram eles?

- Oh! Verdadeiros tipos de bandidos. Certamente os viste! Tinham dormido a noite precedente em Dabila na casa do estalajadeiro Harek e...

- Ah! Conheço-os, são irmãos. Não o notaste?

- Sim, logo, vi que eram irmãos, como os Aladji. Conhecem a esses tanto como vós.

- E sabiam que iam encontrar os Aladji?

- Não. Os dois pares de irmãos estavam admirados com o acaso que os reunira; mas a alegria superou a admiração quando perceberam que o mesmo intuito os tinha trazido aqui, isto é, a vingança contra vós.

- Bem o creio. Decerto falavam muito!

- Muito, muito mesmo; de Edveneh, de Menelik, onde escapastes tão depressa, apesar de todos os planos para vos matar. Por isso vos tornasteis duplamente perigosos: havieis ouvido toda a conversa e sabieis, agora, que aqueles a quem perseguíeis podiam ser procurados na ruína de Ostromdja. E mais perigoso ainda era que o irmão do estalejadeiro, em Ismlan, vos tinha tomado pelo legítimo proprietário da Koptscha e em conseqüência vos disse que devíeis seguir para Sbigazy.

- Sim, cometeu uma grande tolice. Mas, agora, nos será difícil ou de todo impossível aproveitarmos esta vantagem.

- É verdade. Quando os Aladji ouviram dizer que sabieis da Dereknlibe em Sbiganzy, ficaram fora de si e declararam que isso devia ser evitado de qualquer modo, mesmo que tivessem de vos atacar, aqui, ern plena estrada.

- Então continuavam acreditando que ainda não tínhamos passado?

- Sim. Sentaram-se de modo que ninguém podia passar sem ser visto por eles. Os outros dois queriam ajudá-los. Eram agora quatro contra quatro e os Aladji diziam que, assim fortalecidos, eram capazes de lutar com um exército inteiro. Mas este engano só perdurou até Toma, o mensageiro, voltar de Radowitch.

- Ah! Este lhes tirou a venda dos olhos!

- Convidaram-no para entrar. Ao dar com eles, Toma soltou um grito: admirara-se ao vê-los tão estropiados. Disseram-lhe que os quatro ainda não tinham passado, mas ele respondeu que vos vira em Radowitch e que até recebera uma boa surra. Ficaram paralizados de surpresa. Finalmente perguntou-lhes se não tinham visto o xerife, que, certamente, cavalgava o morzelo. Disse que o tal xerife eras tu, pois tinhas te disfarçado.

- Lamento não ter pressenciado esta cena! Queria ver só as caras que faziam.

- Sim, efêndi, era divertido, mas também horrível. Pragas e blasfêmias como nunca ouvi em minha vida. Tudo, que, no quarto, não estava firme e pregado, quebraram. Agiram vandalicamente, como verdadeiros diabos. Nunca acontecera-lhes coisa semelhante. Quiseram pregar uma peça ao tolo do xerife e foram iludidos por ele. Não conseguiram acalmar-se e pareciam touros bravios, contra os quais não há nada a fazer, só fugir.

- Acredito-o de bom grado. O que disse então o mensageiro?

- Estava louco de medo. Ele mesmo te contara que tinhas sido assassinado e com isto traíra-se. Demais, já sabias que ele estava de combinação com os Aladji e agora receiava que todos vós voltasseis a Ostromdja para entregá-lo às autoridades.

- Pode ficar tranqüilo: deixamo-lo entregue a sua má consciência.

- Oh! Esta não o molestará. Causar-lhe-á muito menos dores do que as chicotadas que recebeu.

- Também contou isso?

- Sim, e estava cheio de rancor contra o pequeno Hadji. E o que mais o exasperava é ter sido obrigado a escolher as trinta chibatadas. Disse que valiam por cem. A roupa estava colada nas suas costas chagadas. Pediu encarecidamente aos Aladji para matar-vos, em primeiro lugar, por vingança e, depois, para que não fosse denunciado por vós.

- Eles lho prometeram?

- Sob juramento! - Em seguida quiseram seguir para Radowitch; mas ele lhes disse que íeis pernoitar lá, o que lhes permitiria esperar até ao alvorecer. Deviam, pois, ir dormir para se refazer e para estar descansados de manhã. Também lhes disse que com o meu cunhado poderiam colher pormenores, pois ele ouvira, por acaso, em Radowitch, que este tinha levado os quatro estrangeiros para a Locanda babi humajani.

- E aceitaram esta sugestão?

- Sim. Por caiporismo meu, pois resolveram passar a noite comigo, ficando eu prisioneiro em minha própria casa. Desconfiavam de mim e nem pude pôr o pé fora da porta. Os Aladji não tinham dormido na noite precedente, por isso precisavam descansar enquanto os outros ficavam de guarda, cada um por seu turno.

- E Toma, o mensageiro?

- Ele foi para casa, mas amanhã mesmo deve vir a Radowitch para saber se os malhados vos apanharam e assassinaram.

- Onde é que ele pretende indagar isso?

- Não sei. Disseram o nome, cochichando, com as cabeças bem juntas uma das outras, tão baixinho, que nada pude ouvir. Quando o mensageiro saiu, os dois Aladji compraram de dois as carabinas e a munição dos outros dois. Apesar da raiva que tiveram de ti, sempre se riram porque lhes deixaste o dinheiro.

- Eu fui honesto demais. Se me caírem novamente nas mãos, não tornarão a rir de mim. Mas o que pretendiam os outros dois?

- Eles não vieram juntos, hoje?

- Voltaram para Menlik, entregando a sua missão aos Aladji. Devem a um tal Barud el... el... como era o nome!

- Barud el Amasat.

- Sim, é isso mesmo. A este devem anunciar que seu filho morreu e mais que tendes a Koptscha e, finalmente, que vos podíeis informar com um açougueiro em Sbiganzy a respeito da Dereknlibe.

- Bem, quem sabe se conseguiremos tomar a dianteira ao mensageiro.

- Efêndi, cuidado! Eles também vão a Sbiganzy e conhecem muito bem o caminho mais perto, que é por Tasckoy. Se queres adiantar-te, terás que tomar este caminho, contornando o mato. Mas não sabes onde estão. Eles, ao contrário, esperar-vos-ão de emboscada para atacar-vos.

- Estamos preparados para isso. Quando se conhece bem um perigo, ele só vale a metade. Se eu não tivesse o pé doente, tomaria, apesar disso este caminho. Seguiria a sua pista e saberia sempre a quantas andava. Mas para isso é necessário apear-me muitas vezes, e isto não posso fazer hoje. Por este motivo, também não posso me arriscar a uma luta. No mato não se briga a cavalo, e a pé eu faria uma triste figura. Tomaremos, pois, um outro caminho.

- Que, entretanto, é mais longo.

- Não faz mal.

- Mas assim não te adiantarás, efêndi.

- Mesmo assim. Iremos daqui a Karbingy.

- Mas é um péssimo caminho, senhor.

- Nem tanto. Se formos daqui a Istib e, de lá, por Karaorman a Warzy, teremos sempre a estrada; mas, de lá fazemos uma volta que requer muito tempo. Prefiro ir diretamente a Karbbuzy, se bem que é uma estrada ruim, pois não creio que haja caminho aberto para lá.

- Só em parte, - confirmou o cesteiro, - mas se me permites guiar-te, prometo-te uma viagem suportável.

- Conheces a região?

- Muito bem. Devo guiar-te e assim é me indiferente se vamos a Taschkoy ou a Karbuzy também. A distância é quase a mesma. Posso arranjá-lo de modo que, evitando o mato fechado, passaremos por terras livres. Mas caminharemos muito subindo e descendo morros.

- Bem, isto se suporta.

- Quando vais, efêndi? Posso ainda dar um pulinho em casa?

- Sim, mas dentro de meia hora deves estar de volta. Não podiam me emprestar um cavalo?

- Oh! O dono imediatamente me cede um.

- Pois fala com ele. Eu o pago.

- Também podes levar o meu, que está lá fora - disse seu cunhado.

- Não, tu precisas dele. Teu caminho para casa é longo.

- Sim, e também não sei se ele poderia manter o passo, pois é muito velho. Os patifes levaram-me o cavalo novo. Nunca mais o verei e também não tenho dinheiro para comprar um outro, se bem que precise muito.

- Quanto valia? - perguntei.

- Entre parentes, cento e cinqüenta piastras.

- Vou comprar-to.

- Compará-lo? - perguntou ele admirado. - Falas serio, efêndi?

- Mas, por que não?

- Porque não tenho o cavalo.

- Não faz mal. Irei buscá-lo.

- Onde?

- Com os ladrões. Se os alcançar, tirar-lhes-ei, entre outras coisas, o teu cavalo.

- Não o conseguirás.

- Isso é comigo. Para abreviar a conversa, compro-o, se quiseres fazer a transação.

- Com prazer, pois não conseguiria mais este animal. Mas, efêndi, não leva a mal! Basta que me pagues o animal depois que o possuires.

- Mas não! Quem sabe por quanto tempo tenho que perseguir estes bandidos e quando os encontrarei!? Como poderia enviar-te o dinheiro? Dou-te as duzentas piastras agora mesmo.

- Eu disse cento e cinqüenta.

- Não, duzentas.

- Então me entendeste mal.

- É um defeito meu. Entendi duzentas piastras e declarei que por isto o iria comprar. Queres?

- Mas é demais.

- E como quebra ainda te dou mais cinqüenta piastras para as crianças. Aqui tens, pois duzentas e cinqüenta.

Isto, em suma, não era mais do que pagar cinqüenta marcos pelo melhor cavalo. Mas naquelas paragens têm-se, para cavalos comuns, preços bem diferentes dos de minha terrra. Na campanha, mesmo o pobre possui um cavalo, pois pasto barato, muitas vezes até gratuito, há em toda a parte. O cesteiro não possuía um cavalo, e isso constituía sinal evidente de sua grande pobreza.

Apesar da insignificância da soma, proporcionei-lhe uma grande alegria. O prejuízo que o bravo homem tinha sofrido estava mais do que reparado. E a mim tampouco causava prejuízo, pois pagava o cavalo com o dinheiro daqueles que o tinham roubado. Lamentava não ter ficado também com a bolsa dos dois Aladji. Com o seu conteúdo podia ter feito muito bem à gente pobre e boa.

Almoçamos e nos preparamos para seguir. Vi-me embaraçado por causa do meu pé. Que devia vestir? Pensava neste problema quando entrou o médico.

- Efêndi - disse ele - vim para fazer-te minha visita matinal e para perguntar-te como passaste a noite.

Vestia a mesma roupa da noite anterior e trazia um pacotinho na mão.

- Agradeço-te - respondi. - Meu sono foi tranqüilo e desejo que o teu tenha sido igual.

 

- Alá não realizou o teu desejo, pois não dormi a noite toda. Tinha a cabeça tão cheia do gêsso que me era impossível dormir. Quando afinal consegui fechar os olhos, sonhei que o oceano era cheio de gêsso e água, e o céu todo de chita. Eu estava mergulhado nesse mar de gêsso e enrolado na chita. Esta horrível atadura acabou por me sufocar e perdi o fòlego. Gritei de medo e... acordei. Mas defendi-me tanto contra a atadura, que rolei das almofadas até o meio do quarto.

- Agora tens uma idéia de como se sentia ontem, o teu modelo?

- É claro que ele não gostou, mas apesar disto já está deitado há uma hora lá em casa. Quebrou a perna esquerda e dois dedos da mão direita. Está muito bem atado, fuma Tjibuk e bebe refresco de laranja.

- Ele veio voluntariamente?

- Não, tive de ir buscá-lo.

- E o que há com o teu cafetã engessado?

- Já está pendurado num varão de ferro, ao lado da porta da casa. Eu postei um rapaz que deve explicar ao povo a importante significação do mesmo. Todos podem entrar gratuitamente para ver as fraturas do meu modelo. Dentro de alguns dias serei um homem célebre, graças a ti. Como está o teu pé?

- Muito bem.

- Então recomendo, como teu médico, o máximo sossego para o membro. Lá no pátio estão soltando os cavalos. Pretendes viajar?

- Pretendo.

- Hum! É imprudente.

- Sei que posso correr esse risco.

- Sim ontem já tinhas decidido prosseguir na viagem. Mas o que vais calçar?

- Agora mesmo refletia sobre o caso.

- Pensei nisto durante a noite e lembrei-me de uma boa coisa. Eu tenho lá para a campanha um cliente rico que sofre de gota. Seus pés estão inchados e sente comichão em todos os dedos. Encomendei para ele, aqui na cidade, um belo par de botas, macias, acomodáveis aos seus pés. Facilmente poderei mandar fazer um outro par. Não quiseste aceitar de mim nem lombrigas nem o esqueleto, por isso espero que não me faças corar de vergonha: aceita a oferta que te faço de umas botas, como prova de respeito e gratidão.

Abriu o pacotinho e mostrou as botas. Eram de pano muito forte, solas bem grossas e enfeitadas de couro.

- Contenta-me, efêndi! Experimenta o esquerdo - pediu ele.

Com prazer lhe fiz a vontade. A bota servia e eu declarei que aceitava o presente. A sua satisfação era grande e ele agradeceu-me. Quando lhe quis explicar que eu é quem devia agradecer-lhe, correu porta afora, e, antes de fechá-la, ainda me desejou uma boa viagem.

Na volta do cesteiro, devíamos seguir, por isso pedi a conta ao estalajadeiro.

- Não é nada, efêndi - respondeu.

- Mas temos que pagar!

- Já está paga.

- Quem pagou?

- O Hekim. Ensinaste-lhe uma coisa que lhe renderá muito dinheiro. Ele te manda saudar, devotadamente e deseja-te uma boa volta à tua pátria.

- Sídi - sussurou-me Halef - não o contraries, deixa-o. Este Hekim é um homem mais sábio e mais correto do que a princípio julgava. Ele sabe apreciar as alegrias da hospitalidade e por isto lhe será destinado no livro da vida uma morre suave.

Com muito custo alcancei o pátio e lá me ajudaram a montar o cavalo. Uma vez na sela, a coisa ia bem. Trotamos pátio afora, mais uma vez sem termos pago nada.

Na estreita travessa pela qual passamos, vi um grupo parado. Diante da casa, onde estava postado o grupo via-se pendurado um objeto branco. Quando chegamos perto, reconheci o cafetã. Sobre a gola estava colocado o fêz com a borla de fitinhas. Não era, pois, brincadeira do Hekim. Lá estava o cafetã em realidade - um interessante exemplo de reclame turco. Para mim o caso nada tinha de ridículo. E também o povo, pelo qual passamos, fazia cara bem séria. Parei e mandei o cesteiro saber se o senhor estava em casa. Voltou com uma resposta negativa, e que não era lícito fazermos a nossa visita de despedida à senhora doutora.

Quando deixamos para trás as estreitas travessas com seus bazares vistosos, dirigímo-nos à estrada que dá para Skopia. À distância até lá é quase a mesma de Ostromdja a Radowitch. Mas só atravessamos uma pequena parte da mesma. Enquanto nos achávamos na estrada, seguíamos a galope. Depois o guia desviou para a direita, entre duas elevações arborizadas, cujo vale era atravessado por um córrego.

Este vale subia bruscamente em forte declive, e, em seguida, vimos um planalto liso despido de árvores, que conduzia para o norte e que seguimos a trote.

Que devo dizer da região? Como se sabe, só lembramos aquelas paragens onde vivemos, algo de importante o que não acontecia aqui.

O cesteiro nos conduziu, a maior parte do tempo, através de regiões devastadas, sem panoramas interessantes.

Em Karbinzy, não longe da margem esquerda da Bregalnitza, fizemos alto e despedimo-nos do guia. Ele ainda recebeu uma gratificação à parte, com a qual se alegrou sobremodo. Depois atravessamos o rio para chegar a Warzy, que está situado à margem direita. Através desta aldeia, seguia o atalho conhecido desde tempos remotos. É muito transitado, pois liga as principais povoações, ao sul, Istib, Karatowa, Kostendil, Dubnitza, Kadomir e finalmente Soplue. Ainda atravessamos a pequena Sletowska e achámos-nos na aldeia Sbiganzy, para onde nos destinávamos.

Mais ou menos às nove horas da manhã deixamos Radowitch e, às três da tarde, chegamos. Em passo comum não teríamos alcançado a aldeia, antes da noite.

 

Na  Cabana do Vale

A aldeia de Sbiganzy não era um lugar mal parecido. Denomino-a vila de feira, porque lá existia um bazar.

A terra, situada entre Bregalnitza e Sletowska, é bem regada e produtiva. Contrastava com outras povoações, pelas quais passamos, pois a construção das casas indicava um certo bem-estar dos seus habitantes.

Naturalmente pedimos logo para ver o Khan. Era composto de várias construções, que circundavam um grande pátio e dava a impressão de uma pequena fazenda. Via-se logo que o proprietário devia ser búlgaro. E assim era.

Ele nos recebeu muito amavelmente, deu-me os títulos mais nobres, porque como, conhecedor de cavalos admirava o meu Rih, e convidou-nos para entrar.

Possuía duas salas, uma para os hóspedes comuns e uma outra para aqueles a quem queria distinguir.

Dois servos tiveram que me tirar do cavalo e me levar à sala de cerimônias, onde, para grande admiração minha, existia uma armação, sobre o qual havia um coxim macio e largo. Este móvel quase se podia apelidar de divã.

Quando percebeu o olhar que lancei à peça sobre a qual me assentara, disse-me, com um sorriso satisfeito:

- Causa-te admiração achar este divã aqui, senhor? Foi construído em Sofia e trazido num carro. Estás acostumado ao Rahat otturwak(1), pois vejo que és muçulmano e Hadji, mas eu sou cristão e posso sentar de pernas esticadas. Como os teus pés estão inchados, nele acharás muito cômodo.

- Estou acostumado a esta maneira de sentar desde moço respondi. Eu não sou muçulmano.

- Usas o Hamail dos peregrinos Wekka!

- É proibido?

- Sim, e severamente.

- Por quem?

- Pelas leis do Califa.

- Estas não me dizem respeito, como cristão. Eu também nada tenho a opor se um maometano traz consigo a nossa bíblia.

- Se és cristão e habituado desde moço ao divã, deves ser de muito longe!

- Sou da Alemanha.

- Oh! Conheço-a bem!

- Ah! sim? Alegro-me com isto.

- Sim, está situada ao lado da Baweria (2), perto do rio Wolga e da Iswitschera (3), onde a Tuna desemboca no ak deniz adalary (4).

 

(1) Danúbio.

(2) Ilhas do Mediterrâneo.

(3) Suíssa.

(4) Bavária.

 

- Vejo, com satisfação, que conheces as fronteiras do meu país. Pessoas com tais conhecimentos são raras aqui.

- Porque nada querem aprender e porque não guardam nada - respondeu ele lisongeado. Mas eu abro o olhos e os ouvidos e não deixo escapar nada da memória. Sei mais, muito mais acerca de tua pátria.

- Já o percebi.

- Vosso sultão chama-se Gillem muzajar (5) e também Gillem baryschdfrydschuy (6). Seu Grão-vizir é Ismark bilasatschly (7) e vossos canhões são chamados lakma ijnelevis (8); a capital é Munuik, onde há o melhor Arpa suju (9), que podes beber, aqui, quanto queiras, e no...

- Tens Arpa suju? - interroguei eu. - Tu mesmo o fabricas?

Logo pensei que ali também se havia hospedado o bravo bávaro.

- Sim! - respondeu ele. - Eu mesmo o faço e gostam muito de tomá-lo, principalmente no verão.

- Quais são os ingredientes?

- Senhor, não posso dizê-lo.

- Por que não?

- É um grande segredo.

- Oh, na Bavária, qualquer criança conhece o segredo. Conheço até vários segredos de cerveja e sei como se fabricam tanto as brancas como as pretas, pesadas e leves, até as claríssimas, que se chamam Ak arpa suju (10).

- Senhor, então és um cervejeiro muito mais capaz do que aquele que esteve aqui comigo e com quem aprendi o segredo.

- Donde vinha o homem?

- De Istambul.

- Ah! Era ele, com certeza!

- E para onde queria ir?

- Para sua pátria.

- Mas por qual caminho?

- Pelo Tuna.

Pelo Danúbio. Portanto, para o norte. Eu seguia para leste. Assim não podia alcançar o ágil enviado de Gambrinus. Eu, com prazer, gostaria de “continuar cantando do seu rosto”. (11)

- Já ouvi falar nele e já bebi da sua cerveja - redargüi.

- Como a achaste, senhor?

- Muito quente.

- Então tens que acrescentar água do poço, muito fria. Queres um jarro?

- Quero.

- Queres um jarro grande?

 

(5) Guilherme, o vitorioso.

(6) Guilherme, o mantenedor da pa2.

(7) Bismarke, o sem cabelo.

(8) Agulhas de isqueiro.

(9) Cerveja.

(10) Cerveja branca.

(11) Refere-se a uma poesia alemã.

 

- Dá-me, primeiramente, um pequeno para experimentar.

Ausentara-se, por um momento, quando entraram os meus três companheiros. Tinham levado os cavalos para um pasto atrás da casa entregando-os aos cuidados de um guarda. Mostravam grande contentamento. Mas, parecia-me que o faziam mais para agradar-me, do que por afabilidade natural. Tinham que se alegrar com a principal e forte bebida de minha terra.

O dono trouxe um jarro que tinha a capacidade de litro e meio. Abri a boca e toquei com os lábios a beira do jarro. Senti que subia ao meu nariz um cheirinho de gás carbônico.

- Onde guardas esta Arpa suju? - perguntei.

- Em grandes cântaros, cuja abertura fechei bem.

- Por que a fechas?

- Porque, assim, a Arpa suju cria uma flatulência que a torna mais saborosa. Nascem bolhas e perlas dentro dela.

- Quem te ensinou esse processo?

- O Bawarialy que me ensinou a fazer Arpa suju. Experimenta-a!

Eu não só provei, como bebi, pois o produto não era tão mau. Meus companheiros faziam o mesmo. Por isso encomendei uma bilha maior, e com isso percebi que conquistava o coração do búlgaro.

Ele trouxe uma bilha que nos bastaria até tarde da noite, e perguntou se queríamos algo para comer.

- Mais tarde, agora ainda não - respondi. Temos primeiro que conversar com um habitante dessa povoação. Conheces decerto todo o mundo?

- Todos.

- Também o açougueiro Tschurak?

- Também conheço. Ele foi açougueiro, depois fêz-se tropeiro e viajara por toda a parte.

Por mim teria preferido ir ao Tschurak, procurando-o na sua própria residência. Lá se conhece melhor as pessoas e se pode julgá-las com mais acerto. Mas infelizmente não podia andar. E ir montado até lá e fazer-me carregar para dentro da casa dele seria tão incômodo como ridículo.

- Qual é a situação do homem? - indaguei.

- É muito boa. Antigamente era pobre, mas o comércio parece deixar muito lucro, pois pertence hoje aos mais ricos dessa região.

- E ele goza de boa fama?

- Decerto! É um homem muito honesto, devoto, caridoso e muito benquisto. Se queres fazer negócio com ele, fica sabendo que é um homem correto.

- Alegro-me muito, pois realmente quero realizar com ele uma espécie de negócio.

- E importante?

- Sim.

- Então te hospedaste aqui comigo apenas provisoriamente? Irás morar com ele?

- Não, eu fico contigo. Alegrei-me em conhecer Sbiganzy, pois me descreveram estas paragens como muito pitorescas...

- É uma verdade, senhor. Já a situação, entre dois rios, é vantajosa. Depois as esplendorosas montanhas que sobem até Sletorvo e vão mais além. É tão convidativo para passear, que não imaginas.

- Assim me disseram. E especialmente romântico é o caminho para Derekulibe.

De propósito dirigia a palestra para a cabana do vale. Queria saber, da boca desse homem desinteressado, que espécie de lugar era aquele.

- Para a Derekulibe? - perguntou êle. Não conheço.

- Não é, pois, um lugar muito procurado?

- Nunca ouvi falar nele.

- Mas deve haver nesta região uma construção com este nome.

- Não sei. Nasci e vivi sempre aqui em Sbiganzy. Eu devia conhecer a cabana. se ela existisse.

- Hum! Então, a pessoa que falou comigo é que lhe deve ter dado este nome.

- Provavelmente.

- Mas, mesmo assim, ela deve existir. Pelo nome é uma cabana situada num vale. Conheces alguma?

- É habitada?

- Não sei.

- Se não tiver moradores, conheço-a. Existe, realmente, lá no mato, uma cabana, no canto mais escuro da garganta do monte. Meu pai construiu-a de madeira, pois o mato lhe pertencia. Mas, há oito anos passados, o açougueiro comprou-ma.

Este fato veio me convencer de que era aquela a cabana procurada. Por isso continuei a perguntar:

- Para que teu pai a construiu?

- Para guardar ferramentas: enxadas, pás e outras coisas.

- E para que a usa o açougueiro?

- Não sei! Eu nem creio que a ocupe, apesar de ter colocado nela assentos que lá não existiam antes.

- É fechada?

- Sim. E tem dois compartimentos. Bem no fundo da garganta desce um estreito rego, rochedo abaixo; a este rego encosta-se a cabana. Por quê te interessas tanto por isso?

- Porque me disseram que o caminho para lá é muito romântico.

- Enganaram-te. Primeiramente passa por campos abertos e depois pelo mato cerrado, onde não há vista nenhuma. As paredes do vale estreitam-se cada vez mais e, onde se ajuntam, o mato é mais selvagem e lá está a cabana ao lado de uma vertente que nasce na rocha. Não há ali uma só paisagem bonita.

- Sidi - falou Halef - procuramos um lugar que não podemos achar; hoje de manhã mencionaste um nome parecido. Não falavas de um lugar como aquele que estava escrito no papel de Hamd el Amasat? Disseste que o caminho hodierno podia passar através dele?

- Pensas em Karaorman?

- Sim, era este nome.

- Falta uma letra. Procuramos Kara-Norman.

- Quem sabe se é um erro de escrito?

- É possível. És conhecido em Kara-Norman? - perguntei ao dono.

- Sim, - respondeu ele. - Estive muitas vezes nessa aldeia, pois o nosso caminho para Istib passa lá.

- Existe lá um grande Khan?

- Não, o lugar nem tem estalagem. É tão perto de Istib, que todos preferem hospedar-se na cidade a fazê-lo na aldeia.

- Trata-se de um lugar ou de prédio chamado Kara-Norman-Khan?

- É-me inteiramente desconhecido. Aqui, nas redondezas não pode ser.

- Também já o pensei. - Mas quem é então o chefe da aldeia de Sbiganzy?

- Sou eu. Meu pai já o foi.

- Então exerces a autoridade?

- Sim, efêndi. Mas neste sentido sou muito pouco molestado. Só há gente de bem por aqui. Se acontece algo, quase sempre são estrangeiros os responsáveis. Infelizmente o poder de um Kiaja é muito limitado. Acontece que os patifes se riem da gente, porque sabem que eles são prestigiados com desvantagem nossa.

- Isto é ruim. Nestes casos deves ser severo, para guardar tua respeitabilidade.

- Faço o que posso, mas conto mais comigo do que com os meus superiores. Estes bandidos, que nada respeitam, têm sempre um certo receio de dois punhos fortes; e estes eu possuo. Procedo sumariamente. Acontece que dou bordoada nos dois partidos, mas nem sempre isso é destituído de perigo. Algumas semanas atrás, quase me custou a vida.

- Como assim?

- Já ouviste falar nos dois Aladji?

- Sim.

- São os bandidos mais atrevidos e perigosos que existem, verdadeiros Skipetaros, corajosos até à ousadia, espertos como um jaguar, cruéis e brutais. Imagina só! - um deles, cujo nome é Byhar - o outro se Chama Sandar, - vem aqui uma noite, apeia, passeia pelo quarto, apesar de toda gente estar presente, e exige que eu lhe dê chumbo e pólvora.

- Do Kiaja? É forte!

- Se é! Se lhe tivesse dado a munição, teria sido o fim de minha reputação. Neguei-lhe, pois, o pedido. Aí ele atirou-se sobre mim e desenrolou-se uma luta terrível.

- Naturalmente fôste vencedor, pois havia gente para te auxiliar.

- Oh! ninguém ergueu sequer um dedo: todos receavam a vingança do Aladji. Eu não sou dos mais fracos, mas àquele homem, da força de um touro, não me podia igualar. Subjugou-me e bateu-me tanto, que me teria deixado mal, se dois dos meus peões não tivessem vindo em meu uuxílio. Agarramo-lo pela gola e o pusemos na rua.

- É boa essa! A autoridade de um lugar põe para fora o bandido, quando o devia prender!

- Ria sempre! Eu estava contente por livrar-me de um tipo tão indesejável. Que devia fazer dele?

- Prendê-lo e levá-lo para Uskub, que é a capital do teu Vilajet.

- Sim, este era o meu dever, mas como fazê-lo. Onde devia guardá-lo?

- Na cadeia do lugar.

- Não há.

- Certamente terás, aqui, na casa, um lugar seguro.

- Tenho, e já vários estiveram metidos lá; porém com os Aladji era outra coisa. Para descê-lo ao porão, precisaríamos mais de dez homens. Teria, na certa, feito uso das armas, para defender-se, o que custaria a vida a alguns de nós. E mesmo se tivesse conseguido desarmá-lo e prendê-lo, como o podia transportar para Uskub?

Deviam amarrá-lo e carregá-lo num carro.

- E no caminho seus camaradas atacar-me-iam e até me assassinariam.

- Então eu teria, em teu lugar, mandado alguém a Uskub para pedir reforço militar.

- Isto teria sido possível, sim, mas nesse caso seria hoje um homem morto. Ao afastar-se cuspiu uma série de ameaças horríveis. No outro dia eu fui ao campo. De súbito, partiu um tiro de uma moita, pouco depois de eu ter passado por ela. A pontaria não foi boa, pois a bala me passou entre o corpo e o braço. Duas polegadas mais à direita, e a bala se teria cravado bem no coração.

- Que fizeste então?

- Saltei instantaneamente para trás de uma árvore e saquei da pistola. Aí, Byhar saiu da moita. Montou o seu malhado, rindo de escárneo, e gritou-me que, hoje, apenas me tinha dado uma amostra do que me esperaria mais tarde. Breve me acertaria melhor. Com isto foi-se.

- Encontraste-o novamente?

- Não. Mas não saio mais de casa sem a minha espingarda, e, quando nos encontrarmos da próxima vez, alguém morre: eu ou ele.

- Então prepara-te! Este encontro pode efetuar-se talvez ainda hoje.

- Como? Ainda hoje?

- Eu sei que os dois Aladji virão aqui, hoje, a Sbiganzy, o mais tardar amanhã.

- Santa mãe de Deus! Para que me devo preparar! Donde o sabes?

Contei-lhe então o meu encontro e a minha luta.

- E tu ainda vives! - exclamou, petrificado de espanto. - É um milagre! Um grande milagre!

- Bem, não me saí tão bem como tu. Durante a luta torci o pé, por isso me vês, agora, sentado na tua frente, com estas botas.

- Torceste o pé e lhes escapaste assim mesmo?

- Como vês! Eles souberam depois que eu tencionava vir a Sbiganzy e puseram-se a caminho para se vingar.

- Deus meu! Trazes estes bandidos no teu rasto!

- Queres responsabilizar-me por isto?

- Oh! Não! Pelo contrário, devo proteger-te. Mas como fazê-lo? Pode custar-me a vida.

- Não necessito de tua proteção. Mas causar-te-ei algum transtorno, pois terás que prender um habitante daqui.

- Quem?

- O açougueiro Tschurak.

- Senhor, isto é impossível!

- Talvez seja! Primeiramente examina estes passaportes. Deles deduzirás que posso exigir o teu auxílio, se o necessitar.

Quando ele leu as legitimações, devolveu-mas com uma profunda inclinação e disse:

- Efêndi, eu acertei na minha conjetura: deves ser um homem distinto, pois gozas a proteção do Grão-Senhor. Mas isto é ruim para mim, porque devo obedecer-te em tudo apesar de não poder contar com auxílio de ninguém. Se te nego a minha proteção, tu te queixarás de mim e eu estarei em má situação. Mas se não ta negar e os meus superiores sofrerem as conseqüências disso, estarei nas mesmas condições. Portanto, posso fazê-lo assim ou assado, mas sempre terei prejuízo.

- Não tenhas cuidado. Procederei de maneira que não sejas prejudicado. Ouviste algo a respeito do Xut?

- Certamente. Ele é o chefe de um bando de criminosos, espalhado por toda esta região. Não se sabe quem é e onde mora, mas ele e os seus homens estão em toda a parte.

- Eu o procuro.

- Tu? Ah! És um superior da polícia e andas como polícia secreta por esta região?

- Não, não sou funcionário. Tenho que trocar algumas palavras com Xut, em assunto particular.

- Jamais o encontrarás!

- Já lhe descobri as pegadas. Aqui em Sbiganzy vive um confidente dele.

- É impossível, senhor!

- Não há dúvida!

- Só temos gente de bem, aqui.

- Talvez te enganes!

- De quem falas?

- Outra vez deste Tschurak.

- Senhor, acredito em tudo, mas nisto não!

- Pelo que vejo, este açougueiro é um hábil hipócrita.

- Não, é um bravo homem e é meu amigo.

- Então não fôste precavido na escolha dos teus amigos.

- Aduze provas, efêndi!

- Fá-lo-ei. Antes, porém, devo exigir de ti o mais rigoroso silêncio. Tschurak não deve saber que falei contigo a respeito dele.

- Calar-me-ei.

- Então vou te dizer alguma coisa por enquanto. Já ouviste falar no velho Mubarek de Ostromdja?

- Sim. Ele é tido como um grande santo e dizem que pratica milagres.

- Tu o acreditas?

- Não, não sou muçulmano.

- Este homem é um bandido perigoso. Parece ser a mão direita do Xut.

- Senhor, dizes-me coisas que me deixam perplexo!

- Eu desmascarei o Mubarek e por isso a Kasa de Ostromdja o prendeu, baseando-se nas minhas provas. Mas ele fugiu e está agora com mais três e os dois Aladji, que são seus aliados, em caminho para cá.

- Que Deus me proteja!

- Vêem à procura do açougueiro Tschurak.

- Continuas a afirmar que o mesmo é criminoso?

- Sim. Mas por enquanto nada exijo de ti e espero, apenas, que não me porás obstáculos no caminho.

- Nem penso nisto. Dispõe de mim.

- É impossível que as referidas pessoas já tenha chegado. Desejava sabê-lo com certeza.

- Aqui ainda não se encontram. Se tivessem vindo, eu os teria vista O açougueiro mora la defronte, naquela casa que vês. Ele nem estava em casa, chegou faz uma hora.

- Não queres mandar dizer-lhe que venha cá, pois tenho que falar com ele?

- Como quiseres! Devo estar presente à vossa palestra?

- Não, quero apenas que não lhe deixes perceber nada; trata-o amavelmente como sempre.

Tendo dito isto, saiu para mandar o recado. Eu estava imensamente curioso para conhecer o açougueiro. Preparei-me para ver uma criatura servil, amável, transbordante de cortesias. Julguei que ele era apenas encobridor, e não um membro ativo do bando.

Apanhei a Koptscha, que tirei do estalajadeiro Deselim de Ismilan, e coloquei-a bem na frente no meu fêz. Halef me imitou. É preciso mencionar que eu não usava mais o turbante verde.

A Koptscha, sinal característico do bando, devia legitimar-nos junto ao açougueiro. Se o Mubarek, com seus companheiros, não estivessem para chegar, podíamos esperar e desvendar, naquele dia, o segredo há tanto tempo procurado. Naturalmente insisti com os meus companheiros dizendo-lhes que deviam se mostrar amáveis com o homem e suprimir tudo que pudesse despertar a sua desconfiança.

Em seguida, vi-o sair da sua casa. Enganara-me. Era muito diferente do que eu tinha imaginado.

Sua estatura era alta e forte, delgada e musculosa, como a de um verdadeiro filho das montanhas. Usava um fêz vermelho, bombachas vermelhas, colete azul enfeitado de cordões de prata e um casaquinho vermelho de mangas largas, todo bordado a ouro. Um chalé amarelo, enrolado da cintura, continha o handjar e duas pistolas. Nos pés usava botas lustrosas, que chegavam até aos joelhos, encobrindo-lhe as calças.

Lá fora, no pátio, trocou algumas palavras com o estalajadeiro e depois entrou. Seus olhos escuros prescrutaram-nos com um olhar penetrante que descansou, por algum tempo, sobre a minha pessoa. Aqueles olhos causavam-me uma impressão estranha.

Eram sem bondade, cruéis. Parecia que jamais podiam ter uma expressão terna. Por um momento apertou-os tanto, que dos dois lados se formou uma infinidade de ruguinhas. Depois olharam, indiferentes, por debaixo das pálpebras.

Ele saudou e inclinou-se como um homem que quer ser cortês, sem perder nada do seu orgulho, e perguntou:

- És tu o efêndi que quer falar-me?

- Sim. Perdoa se te incomodo. Senta-te.

- Permite que fique de pé. Meu tempo é escasso.

- Talvez tenha de te ocupar mais tempo do que o que julgas. Quem sabe se o teu tempo é tão escasso, porque tens hóspedes?

- Eu não os tenho.

- E também não os esperas?

- Não - respondeu secamente.

- Então peço-te que te assentes. Tenho um pé doente: não posso estar de pé e mesmo me sentiria constrangido estando sentado diante de ti que és tão cortês. Ele então sentou-se. Por mais penetrantemente que o olhasse, nada pude descobrir que motivasse suspeitas. Era bem o Skipetaro cheio de si, convidado por um estrangeiro para uma entrevista e à espera que lhe esponham os motivos. Não causava, em absoluto, a impressão de um hipócrita, de uma criatura fingida, de um secreto encobridor de crimes.

- Conheces isto? - perguntei, apontando para o Koptscha.

- Não - respondeu ele.

Assim o esperava. Não podia se abrir comigo à primeira pergunta, pois eu era estranho.

- Olha bem para este botão!

Olhou-me com olhares indiferentes e disse:

- Um botão! Mandaste-me chamar só por causa disto?

- Sim! - respondi sem preâmbulos.

- Eu negocio com cavalos e gado, e não com botões!

- Bem o sei. Com esta espécie de botões não se negocia. Eu vim para trazer-te uma saudação.

- De quem? - indagou com frieza.

- De Deselin, o dono da estalagem em Ismilan, e de seu irmão. Foi quando os seus olhos assumiram uma expressão mais amável e seu rosto se tornou menos sério.

- Conheces essas duas pessoas? - indaguei então.

- Naturalmente devo conhecê-los.

- Naturalmente?! Por quê?

- Porque somos irmãos.

- Venho de Istambul. Sou um enviado do Usta, de quem de certo já ouviste falar.

- Eu sei. A quem te mandou?

- Ao Xut.

- Achá-lo-ás?

- Assim creio.

- Hum! É muito difícil.

- Mas a mim será fácil, pois dar-me-ás os necessários esclarecimentos.

- Eu? Que sei eu do Xut? Tomas-me por um bandido?

- Não, mas por um valente Skipetaro, que conhece a significação do Koptscha e que agirá de acordo.

- Senhor, eu sei muito bem o que tenho que fazer. A Koptscha que usas é a de um chefe, mas nós desistimos deste sinal. Nada mais vale, pois abusaram muito dele. Há, agora, outros sinais.

- Quais? - perguntei com calma.

- Perceberás que não tos posso dizer, pois com eles é que devias te identificar.

- São palavras.

- Sim. A primeira palavra significa um lugar. - Onde procuras o

Xut?

- Na Derekulibe.

- Senhor, isto é certo. Vejo que realmente pertences aos nossos. Mas o outro sinal? Tu o conheces?

Infelizmente eu não tinha a menor idéia do que poderia ser. Mas lembrei-me do barqueiro de Ostromdja e da maneira pela qual tinha que se identificar junto ao Mubarek. Bir Sjrdasch - um confidente, era o que ele gritava da porta. Seria este também o sinal, aqui? Eu me animei a usá-lo e respondi:

- Naturalmente devo conhecê-lo, pois eu sou Bir Sjrdasch - um confidente.

Fêz um aceno de satisfação, deu-me a mão e disse em tom quase cordial:

- Também isto é certo. És um dos nossos. Posso ter confiança em ti e dou-te as boas vindas. Não queres deixar esta casa e ser meu hóspede?

- Agradeço-te. Reconhecerás que é melhor que eu fique aqui.

- És um homem inteligente e precavido, isto me alegra e aumenta, a minha confiança. Qual é o recado que tens para dar-nos?

- Só posso dizê-lo ao Xut.

- Ah! Também sabes calar. Hum! Que irei fazer? Ergueu-se e mediu, pensativo, o quarto. Depois perguntou:

- É assunto particular ou de negócios?

- Trata-se de um negócio que pode render muito.

Seus olhos brilhavam, ávidos.

- E o que esperas de mim?

- Que me conduzas a Derekulibe.

- Pensas encontrar lá o Xut?

- Assim espero.

- Bem posso dizer-te em confiança que ele lá te espera se eu o avisar. Isso será questão de uma hora. Tens paciência para isto?

- Se fôr preciso, esperarei, apesar de estar com muita pressa. Tinha todo interêse em adiantar-me ao Mubarek. Se este chegasse neste ínterim eu estava perdido.

- Vou apressar-me - assegurou-me ele. E lançando um olhar penetrante sobre os meus companheiros, indagou:

- Quem são esses homens?

- Meus amigos e companheiros.

- Eles vêm por causa do mesmo negócio? Confirmei e ele continuou a interrogar:

- E também querem ver o Xut?

- Não é absolutamente necessário. Basta que eu sozinho fale com ele.

Aflorou-lhe um sorriso indefinível pelos lábios. Torceu as pontas do comprido bigode, olhou-nos mais uma vez com um olhar prescrutador e respondeu:

- Eles deverão vir também. O Xut quererá vê-los já que vieram contigo.

- Também concordo.

- Mas, senhor, vejo que usas as botas de um doente; o que tens nos teus pés?

- Feri-me na viagem e não posso andar.

- E como queres seguir-me a Derekulibe?

- A cavalo.

- Oh! Bem se vê que não conheces o caminho. A cavalo não poderias passar pela mata cerrada.

- Não seria possível fazer com que o Xut se desse ao incômodo de vir aqui?

- Nem penses nisso! Ele não o faria, nem que o Padixá o pedisse.

- Bem o creio!

- Demais nunca mostra o rosto. Ele o enegresse. E poderia vir aqui com uma cara assim?

- Não, bem o reconheço. Mas como chegarei à cabana?

- Só há um meio. Terão que te carregar.

- É muito incômodo. Os carregadores cansariam.

- Oh! Não! Não precisam te carregar nos braços; usa-se uma liteira. Dar-te-ei uma. Minha mãe é tão velha e fraca, que não pode andar, por isso mandei fazer-lhe uma liteira, para que faça as suas visitas, sem cansar os pés.

- Saberei agradecer-te. Queres contratar também os carregadores?

- Carregadores! Não podemos usar gente estranha. Que seria do nosso segredo? Terás que deixar que os teus homens te carreguem.

- Bem, que tragam a liteira.

- Mas agora, não. Primeiramente tenho que avisar o Xut. Depois terás que dizer ao dono que és meu amigo e que ele terá que fazer tudo o que eu mandar.

- Por quê?

- Porque não sei o que tens a dizer ao Xut e qual será o resultado da vossa conferência. É bem possível que eu tenha de voltar à aldeia, como mensageiro. Quem sabe se o Xut te convida para seu hóspede, ou quem sabe ainda o que será resolvido? Assim posso identificar-me com o dono, dizendo-me teu enviado.

- Também para isso estou pronto - declarei eu.

- Pois bem: daqui há uma hora, mandarei buscar a liteira e seguireis para fora da aldeia, à direita do portal. Espero-te lá fora, pois não quero que sejamos vistos juntos.

Acercou-se da janela, que dava para o pátio, chamou o dono e disse:

- Eu tenho um negócio com este efêndi. Ele se ausentará daqui a uma hora e talvez mais tarde te mande um recado por mim. Por isso ele manda te dizer que deves fazer tudo o que eu pedir em nome dele. Pergunta-o tu mesmo.

O dono olhou-me interrogativamente e eu confirmei. O açougueiro afastou-se. Vi-o entrar na sua casa e abandoná-la em seguida.

- Senhor, eu não te compreendo - começou o estalajadeiro, que tinha ficado perto de mim. - Pensei que o tinhas na conta de um criminoso e mesmo assim lhe dás tais poderes: se ele vier, devo obedecer-lhe?

- Não. Fi-lo só por fingimento; retiro agora os tais poderes. É possível que o mande; mas, neste caso, dar-lhe-ei, aqui, do meu livro de notas, uma folha, sobre a qual escreverei apenas a palavra: Alá. Se ele a apresentar, tu farás o que disser, mas se ele não trouxer uma folha assim, tu te negarás.

- Ele se zangará comigo.

- Isto não é tão prejudicial para ti como se eu me zangasse contigo. Ele poderá têr segundas intenções com as nossas armas e nossos cavalos. Tens uma cavalariça bem fechada e segura?

- Sim, senhor.

- Então manda levar os nossos cavalos para lá. Põe dois peões para guardá-los, eu lhes pagarei. Entregarás os cavalos somente a nós compreendeste?

- Muito bem. Mas colocas-me numa situação, que nada tem de agradáveL

- Não vejo nada de desagradável. Deves guardar os nossos cavalos e cuidar para que não sejam roubados. É tudo! Mas terias que responder pelos prejuízos.

- Pelo amor de Deus! Se eu tiver que te indenizar pelo morzelo, poderia logo vender a minha casa! Eu mesmo ajudarei a guardá-lo.

- Faze-o, e manda-nos a comida.

Jantamos, e, passada uma hora, Osko e Omar foram buscar a liteira na casa do açougueiro. Eu entrei e instruí, mais uma vez, o estalajadeiro como devia comportar-se, e em seguida nos pusemos em marcha.

Os dois acima mencionados carregavam a liteira. Levaram as espingardas penduradas nos ombros. Halef ia na frente carregando três carabinas: a sua e as minhas duas, para as quais não havia lugar na liteira. Quando deixamos a aldeia atrás de nós, vimos o açougueiro. Ele nos viu chegar e ia já um bom pedaço à nossa frente. Só quando começou o mato, onde não se podia ser observado de longe, parou e esperou por nós.

Com olhares admirados, quase raivosos, olhou-nos e disse:

- Estais armados como se quisésseis ir para uma batalha!

- A arma é o emblema do homem livre - respondi.

- Mas aqui não há necessidade disso!

- Estamos acostumados a não nos separarmos delas.

- Mas agora tereis que o fazer, senão não podereis falar com o Xut. Ele não permite que alguém, armado, se aproxime dele. Se depositares as vossas armas diante da cabana, elas estarão bem guardadas, pois eu ficarei com elas.

- Eu não entregarei minhas armas - redargüi; - e se o Xut não quiser falar conosco, não te incomodarei mais.

Dei ordem para voltarmos. O séquito virou-se novamente para a aldeia. O açougueiro, porém, mastigou uma praga e disse:

- Parem! Isto não pode ser! Eu avisei o Xut e me colocarei mal se não vos levar até lá.

- Então trata que ele não faça exigências absurdas, como esta!

- O Xut jamais faz coisas absurdas. Mas eu tentarei conseguir a licença para que possais trazer as armas. Admirar-me-ei se ele fizer uma exceção.

Continuou o caminho, raivoso, e nós seguimo-lo novamente. Pouco me agradava que ele insistisse tanto em desarmar-nos. Já teria chegada o Mubarek? Caminharíamos para uma cilada, da qual não havia saída? Bem, enquanto estivéssemos armados, nada tínhamos a receiar. Mas se fôssemos atacados agora no caminho? Eu era indefeso. A liteira não passava de uma padiola com uma casinha de grades de madeira. Eu tinha que me sentar de pernas trançadas, o que não só molestava muito o pé doente como me dificultava os movimentos. Antes que abrisse a portinhola e pulasse, já teria a bala no corpo. E pular estava fora de cogitação, por causa do pé. Um tiro que partisse de trás de uma moita, devia deixar Halef fora de combate apesar das três carabinas, pois Osko e Omar carregavam a liteira; uma defesa imediata nem lhes seria possível. Estávamos, não havia dúvida, numa situação fatal.

O mato não era tão cerrado, como o açougueiro o descrevera. Bem podíamos têr cavalgado entre as árvores. Também esta circunstância não era de molde a atenuar as minhas desconfianças. Abri um pouco a portinhola da casinha e empunhei o revólver, pronto para qualquer emergência.

Estávamos num vale, cujas paredes, como pude observar, se estreitavam a cada passo que avançávamos. No ponto de juntura, fizemos alto. Necessitamos mais ou menos de meia hora para alcançar este ponto.

- Lá está a cabana - disse o açougueiro, quando os dois carregadores depuseram a liteira. - Desce, senhor!

Escancarei a portinhola e olhei para fora. As paredes do rochedo subiam a prumo e tinham, lá onde se encontravam, um recorte não muito fundo, um rego completamente nú, pois não havia a mínima saliência no Syenit, onde uma planta pudesse criar raízes.

Junto a este recorte estava a cabana, toda construída de cepos de madeira. Até o telhado era do mesmo material coberto com a casca das árvores. A porta parecia apenas encostada.

- Anuncia-me antes que eu desça - respondi.

Ele entrou na cabana, deixando a porta aberta. Vi que, junto das paredes, havia bancos, talhados da forma mais primitiva possível.

Em frente à entrada, havia uma segunda porta, que estava aberta. Era muito estreita e baixa, metida para dentro; tinha um ferrôlho, que passava por uma argola de ferro que, no momento, balançava dentro da cabana.

De certo, era esta a escura repartição interna, que o estalajadeiro tinha mencionado. Mas agora me parecia haver uma luz lá dentro.

Reparei que, do teto da cabana, uma espécie de cerca de pau encobria quase toda a parte inferior do recorte. Não se podia olhar através dela e lá era muito fácil esconderem-se algumas pessoas.

Foi então que voltou o açougueiro.

- Senhor - disse ele, - o Xut exige que depositeis as armas.

- Não o faremos.

- Mas por que não? O Xut está só!

- Não é por medo, temos o hábito de não deixarmos as nossas armas.

- Mas o Xut não permite que um homem se apresente armado diante dele.

- Ah! Não permite?

- Não! Jamais!

- E a despeito disto estiveste agora mesmo com ele, apesar de teres uma faca e duas pistolas contigo!

Ele ficou desorientado, mas respondeu:

- Comigo é caso diferente. Sou o seu confidente mais íntimo.

- Então basta! - redargüi, decidido. - Vamos voltar Halef.

Osko e Omar pegaram logo da liteira, quando o açougueiro observou:

- Senhor, tu tens uma cabeça dura! Vou perguntar novamente.

Daí há pouco voltou com o recado de que podíamos entrar. Eu não desci, mas mandei conduzir à cabana. Halef teve que olhar através da segunda porta e anunciou-me baixinho:

- Só há um homem lá dentro, desarmado, de rosto bem preto.

- Existem portas lá dentro?!

- Nenhuma.

Apesar de ser a porta estreita e baixa, os dois carregadores conseguiram passar a liteira. À luz de uma lanterna, vi que este compartimento-toca era triangular. Na base ficava a porta. Mais compridos eram os dois lados formados pelo rochedo liso. Bem lá no fundo, estava a lanterna, e, ao lado dela, o Xut, sentado. Vestia uma roupa larga preta, à moda dominó, e tinha o rosto enegrecido de fuligem. Também não pude ver de que era composto o teto deste compartimento.

Não lhe pude reconhecer o rosto, contribuindo para isso a fraca iluminação do quarto.

Estávamos dentro do recorte do rochedo. Existia um teto por cima de nós, isto era certo; do contrário a luz do dia teria penetrado.

Osko e Omar depuseram a liteira de modo que a portinhola ficasse em frente ao Xut. Este deu à lanterna uma posição especial para que a luz caísse em cheio sobre mim. À entrada, parou o açougueiro. Isto tudo tinha um ar de aventura, mas não parecia perigoso.

- Mandaste-me chamar - falou o Xut. - Que queres de mim?

Sua voz, sem naturalidade, soava abafada e ôca. Seria isto a conseqüência da má acústica do lugar, ou disfarçava ele a voz, para mais tarde não ser reconhecido?

Mal pronunciara estas poucas palavras, já eu reconhecia aquela voz, que me parecia ter ouvido alhures. Não foi o tom nem o colorido que me pareceram familiares. Foi sobretudo a pronúncia.

- És tu o Xut? - perguntei.

- Sim - respondeu ele devagar.

- Então tenho que te saudar.

- Por parte de quem?

- Primeiramente por parte de Usta, de Istambul.

- Ele nem vive mais.

- Que dizes?

- Morreu. Foi atirado da galeria da torre de Gaiata.

- Cheitan! - murmurou Omar, pois fora ele que o tinha empurrado.

Como o Xut podia sabê-lo? Nenhum mensageiro podia ter chegado mais depressa do que nós.

- Não sabes disso ainda? - perguntou ele.

- Sei - respondi.

- E mesmo assim me trazes sua saudação, a saudação de um morto?

- Não achas que a mesma pode ter sido confiada antes de sua morte?

- É possível. Mas o castigo alcançará o seu assassino, pois este morrerá aos poucos de fome e de sede. Tens mais algumas saudações?

- Sim, do Deselim de Ismalan.

- Também este está morto. Quebrou o pescoço e lhe foi roubada a sua Kopstcha. Também ao assassino dele sucederá o mesmo que àquele do Usta. Continua!

- Ainda trago lembrança do velho Mubarek e dos dois Aladji.

- Estes três já me saudaram pessoalmente. Tua saudação é pois desnecessária.

- Ah! Estão aqui?

- Sim, estão aqui. E sabes quem sou eu?

- O Xut?

- Não, não sou o Xut, a este nunca verás, nem a outra coisa qualquer. Eu sou...

Atrás de nós ouviu-se um forte estrondo. O açougueiro desapareceu e ao sair fechou a porta atrás de si. Vimos que por fora passava o forte ferrôlho.

A lanterna apagou-se.

- Eu sou... o velho Mubarek em pessoa - ouvimos sobre as nossas cabeças. - Ficareis aqui para morrer de sede e fome e para devorar-vos uns aos outros!

Uma risada cínica acompanhava estas palavras; depois lá no alto apareceu uma abertura clara. Vimos uma corda dupla da qual pendia um vulto preto que foi puxado para cima. Em seguida fechou-se a tampa que cobria a abertura e nós nos encontramos na mais profunda escuridão.

Tudo se passou com tamanha rapidez que não nos foi possível impedi-lo. Se eu não estivesse estendido sobre a liteira e se não tivesse o pé doente, não teria sido tão fácil àquele patife engaiolar-nos com uma cilada.

- Alá! - exclamou Halef. - Lá se foi o preto pelo buraco afora e nós o deixamos ir, sem ao menos enviar-lhe uma bala. Havia tempo de sobra.

- É verdade. Senhor, fomos tão tolos! - disse Osko.

- Sim! - ria Halef. - Até agora fomos sempre tolos, cada um por sua vez, mas agora fomos todos em conjunto e o sídi também.

- Realmente, Halef, tens razão, - confirmei. - Mas ouve!

Lá fora, diante da porta, levantou-se um enorme berreiro. Batiam com os punhos contra a mesma e depois cada um dizia o seu nome, acrescentando as mais horrendas pragas. Pintavam-nos o nosso destino em todas as cores. Não havia dúvida que queriam reter-nos ali até morrermos.

- Sídi, não falta nenhum, estão todos aí - disse Halef. - Alá! Se eu pudesse sair, como lhes mostraria o meu chicote!

- Não fales nele, não nos pode salvar!

- Então, devemos morrer de fome! Achas que o faremos?

- Espero que não. Vamos primeiramente examinar este lugar. Dos dois lados não há saída, somente na frente pela porta ou por cima.

- Não tens contigo a tua pequena lanterna, aquela garrafinha que contém óleo e fósforos?

- Sim, tenho-a sempre comigo. Toma-a!

Quando se coloca um pedacinho de fósforo numa garrafinha de óleo, o mesmo brilha no momento que se tira a tampa, porque há entrada de oxigênio. De acordo com o tamanho da garrafinha e com a pureza do vidro, dá uma luz mais ou menos clara.

Eu trago sempre uma garrafinha comigo, mesmo quando não estou em viagem. Presta bons serviços na subida de escadas escuras ou na passagem por lugares desconhecidos, durante a noite. Vidro de cristal é naturalmente o mais adequado para isto.

Halef segurou a lanterna minúscula, deixando-a penetrar no óleo e pôde, assim, iluminar suficientemente a porta. Esta era revestida por dentro com fortes chapas de ferro, colocada em dobradiças de ferro, cujos ganchos estavam presos no rochedo. Talvez pudéssemos afrouxar as dobradiças e depois empurrar a porta. Mas antes tínhamos que ver se não havia outra saída. Examinamos bem todo o compartimento. O chão e as duas paredes eram de rocha. O muro era feito de ásperas pedras de Synit e tão bem cimentado, que tornava-se impossível fazer um buraco.

As folhas de ferro da porta, além do mais, eram pregadas com pregos fortes de cabeça grande; nada se conseguiria, pois, com as facas. E pelo teto? Omar subiu aos ombros de Osko, mas, nem assim, pode alcançá-lo com a mão esticada. Também tivemos que desistir temporariamente desta saída.

O mais viável era afrouxar as dobradiças, e meus três companheiros incetaram o trabalho com toda força. As facas rangiam no ferro, despeitando lá fora uma gargalhada estrondosa.

De certo, esta idéia de salvação não era muito promissora. Mesmo que conseguíssemos abrir a porta, seríamos recebidos a tiros, antes que pudéssemos atirar.

Assim se passaram várias horas. O serviço não progredia. A faca de Osko se quebrou e eu lhe dei a minha boa faca americana, marca Bowie.

Não permitiram que eu os ajudasse nos trabalhos. O tédio apoderou-se de mim. Arrastei-me de joelhos até à porta para verificar o que tinham feito. Nem meia polegada de perfuração! Agarrei a faca e comecei a perfurar mas fui tão mal sucedido, que desisti alguns momentos depois. Era pena ter esperdiçado, tanto esforço assim sem êxito. Quebrou-se também a faca de Omar.

- Deixemos isso - disse eu. - Vamos economizar as nossas forças, pois creio que ainda muito precisaremos delas. Talvez apareça o estalajadeiro. Eu lhe disse que o açougueiro faz parte do bando. Se não voltarmos, preocupar-se-á e virá procurar-nos. Ele sabe que seguimos com o açougueiro.

- Mas não conhece o nosso destino! - interrompeu Halef.

- Realmente esqueci de dizer-lho claramente, mas nós falamos desta cabana e ele seguramente nos procurará aqui.

- Não o creio, ele teme demais os Aladjis. Se os vê aqui, foge.

- Se ainda estiverem aqui.

- Creio que sim, pois não deixarão a cabana sem guardas.

- Agora vamos descansar e esperar. Guardas há lá fora; sobre isso não há dúvidas. Se por algum tempo não trabalharmos, eles pensarão que nos conformamos com o nosso destino, e a sua atenção diminuirá.

Assim é que permanecemos quietos e mais animados. Mas a espera tornou-se pesada para os meus bravos companheiros, e finalmente eu mesmo não pude mais resistir às suas insistências.

- Vamos examinar o teto - resolvi. - Existe lá uma tampa. A questão é que não sabemos como abri-la.

- Omar ainda há pouco, quando estava sobre os meus ombros não pôde alcançá-la - disse Osko.

- Então vamos aumentar a pirâmide. Halef sentar-se-á sobre os ombros de Omar. Talvez dê! Tu tens força bastante para carregar os dois.

Halef colocou a lanterna no bolso e subiu aos ombros de Omar, instalando-se sobre eles. Em seguida Omar subiu às costas de Osko, que estava de quatro pés, firmado no chão como um quadrúpede. Osko ergueu-se devagar e Omar foi-lhe subindo até aos ombros. Todos os três seguravam-se na parede da rocha o mais firmemente possível para não cair. Nesta ocasião Halef ergueu os braços e comunicou-me:

- Sídi, estou tocando no teto!

- Fala mais baixo! Pode alguém estar lá fora. Pega, agora, na lanterna.

Vi brilhar a luzinha, lá em cima, onde tínhamos notado a abertura. Halef segurou-a com a esquerda, enquanto apalpava o teto com a direita.

- É feita de troncos grossos - sussurrou ele; - mas a porta levadiça é feita de tábuas.

- Muito bem! Bate um pouco para ver, pelo som, que grossura tem.

- Mas assim poderão ouvir-me.

- Seria muito bom que não percebessem nada. Precisamos descobrir se aí em cima também não há guardas.

Ele bateu e em seguida ouviu-se uma forte gargalhada e a exclamação:

- Atenção! Estão aí na porta do alçapão!

Lá fora, diante da cabana, ouvia-se a pergunta:

- O ferrôlho está firme?

- Naturalmente.

- Então não passarão. Decerto um subiu em cima do outro.

- Sim, estão fazendo proezas. Bem, se vier a fome, farão ainda outras acrobacias mais artísticas. Preferiria abrir a porta.

- De maneira nenhuma!

- Mas assim poderia dar-lhe uma pancada com a carabina!

- Para isso há muito tempo ainda. Que batam.

- Ouviste, efêndi? - perguntou Halef. - Devemos deixar-nos abater com a coronha?

- Não, vamos pedir a estes senhores que se afastem lá de cima da tampa.

- Certamente não irão obedecer-te.

- Meu pedido será irresistível. Desce Halef! Vou tomar o teu lugar. Osko agachou-se devagar. Omar desceu das suas costas e depois Halef.

- Agora descansem primeiramente um pouco - disse eu, - pois sempre foi um esforço. Eu sou mais pesado do que Halef e terei que me demorar mais, lá em cima, do que ele.

Esperamos alguns minutos; depois Omar me tomou às costas.

- Todo o cuidado agora é pouco! Com meu pé doente, a queda me pode ser duplamente perigosa.

- Não tenhas medo, senhor! - respondeu Osko. - Firmar-me-ei como uma árvore. O recorte do rochedo também é tão estreito que posso me amparar de ambos os lados com os cotovelos. Isto dá firmeza.

Foi quando subiu Omar, da maneira já mencionada, aos ombros de Osko. Eu era mais comprido que o pequeno Halef e não precisava estender muito os braços para alcançar a tampa. Quase bati com a cabeça contra ela. A garrafinha eu tinha comigo. Iluminei as tábuas. A um canto estava o gancho de ferro pelo qual passava seguramente o ferrôlho. As duas pontas do gancho tinham atravessado a madeira e foram depois rebatidas, pegando novamente a madeira.

Bati com o dedo indicador. Pelo som, as tábuas não podiam ter mais do que uma polegada e meia de grossura. Ao bater, também agora, soou uma resposta:

- Ouves? Já estão de novo aí. Teriam que me erguer também, se conseguissem abrir a tampa.

Como me achava bem perto daquele que falou, reconheci perfeitamente a voz do açougueiro. Por suas palavras e pelo som, deduzia-se que estava sentado sobre a tampa. Era uma imprudência, da qual eu não julgava capaz estes bandidos.

Riu cinicamente. Uma segunda risada ecoou e depois ouvi a resposta:

- A estes ratos não será fácil escapar, pois os gatos estão diante do buraco.

Não pude reconhecer aquela voz, mas percebi que o homem estava sentado ao lado da tampa, na altura em que eu tinha a cabeça.

- Ouves? - indagou Halef. - Ainda estão aí; agora podes pedir-lhes para sair. Quero só ver, como o conseguirás.

- Ouvi-lo-ás em breve. Dá-me minha carabina: os dois podem apanhar-me.

- Ah! Agora compreendo. Qual delas?

- A mata-urso.

Naturalmente eu falei baixinho, para que não pudesse ser ouvido pelos guardas, que estavam acima do lugar onde nos encontrávamos. Halef deu a carabina a Osko, e este passou-a para Omar.

- Agora, atenção, Omar! - sussurrei eu. Não tenho espaço, aqui debaixo do teto, para apontar a carabina; só posso segurar os canos na direção onde a bala deve acertar. Agarras a coronha com as duas mãos. Quando eu disser “um”, tu fazes fogo com o cano direito, e depois de eu ter apontado novamente, isto é, ao dizer “dois”, deflagas o cano esquerdo. Compreendeste ?

- Sim, senhor!

Eu tinha o cano duplo na mão e apontei-o para o centro da tampa, lá onde estava sentado o açougueiro.

- Agora! - Um!

O tiro partiu. Sobre a nossa cabeça ouviu-se um grito de susto e de dor.

- Alá! Eles atiram!

Não era a voz do açougueiro e sim a do outro. Este estava sentado na parte do teto que era composto dos troncos redondos das árvores. Apontei o cano para um lugar onde dois destes se ajuntavam e onde a bala não tinha que atravessar a madeira dura, mas apenas resvalar por entre as beiradas.

- Dois!

O segundo tiro do mata-urso ressoou neste compartimento apertado, quase como o estrondo de um canhão.

- Oh! Alá, Alá! - gritou o alvejado. - Estou ferido! Estou morto!

O açougueiro não tinha dito nada. Ouvi o seu grito de dor, mas nem uma palavra. Altos brados se ouviam.

- Osko, estou te cansando? - perguntei.

- Um pouco.

- Então vamos descansar, pois temos tempo.

Ao sentarmo-nos novamente no chão, disse Halef:

- Sim, sídi, fizeste um pedido ao qual não é possível resistir. Acertaste?

- Duas vezes. O açougueiro parece estar morto. A bala decerto lhe penetrou pelos músculos do “respeitável assento” até ao corpo. O outro está apenas ferido.

- Quem será?

- Provavelmente o guarda da prisão. Se fosse um outro, eu o teria reconhecido pela voz. Esse, porém, falou tão pouco, que não lhe guardei o timbre.

- Pensas que nenhum outro virá cá para cima?

- Esta tolice, um terceiro não fará; podia custar-lhe a vida.

- Como, porém, abriremos a tampa? Isto é o principal.

- Arrebentarei os ganchos de ferro a tiros. Alguns tiros bem acertados sobre as pontas, bastarão. Eu carrego duas balas e ele não resistirá.

- Ah! Se conseguíssemos isto!

- Sem dúvida conseguiremos!

- Então, depressa! Para fora e para baixo! - disse Halef.

- Oh! Isto não vai tão depressa. Como queres sair? - indaguei eu.

- Pelos ombros de Omar, e tu também.

- E como subirão Osko e Omar?

- Hum! Puxá-los-emos para cima.

- Um deles talvez, Omar. Mas Osko não podemos alcançar.

- Não faz mal. Descemos por fora e abriremos a porta.

- Isso se nos deixarem descer tão comodamente, o que duvido; é preciso não esquecer que para mim será mais difícil, por causa do meu pé.

- Mas, de qualquer maneira devemos realizá-lo.

- Entende-se! Esperamos que a corda ainda esteja lá em cima. Com o auxílio dela puxaram o velho Mubarek. Poderemos usá-la para descermos lá para fora, mas há muito que considerar ainda. Seremos, naturalmente, recebidos a bala, assim que aparecermos na abertura.

- Penso que não haverá mais ninguém lá em cima - redargüiu Halef.

- Diretamente em cima de nós, não, mas sobre o teto da cabana haverá alguns. Estes podem atirar sobre nós por entre as grades da cerca.

- Oh! Deus! Então não podemos sair?

- Tentaremos sempre! Eu vou à frente.

- Não, sídi, vou eu! Tu não podes ser morto; o que será de nós?

- E tu?

- Que importa! - respondeu Halef, singelamente.

- Muito! Lembra-te de Hanna, a mais adorável das mulheres e moças! Eu não tenho uma Hanna à minha espera.

- Mas tu vales mais sem uma Hanna, que eu com dez flores das filhas da beleza.

- Não briguemos por isso! O principal é, como vou dizer-te com franqueza, que confio mais em mim do que em ti. Eu sou o primeiro e tu podes ser o segundo. Por isso não podes ir na frente; eu não to permito.

Tirei o meu pano de seda verde e torci-o em roda do fêz. Halef viu-o à luz da garrafinha e perguntou:

- Por que fazes isto? Queres enfeitar-te para a morte?

- Não. Vou colocar este turbante na ponta do cano da carabina e fazê-lo aparecer na tampa. Eles, provavelmente, julgarão que alguém está saindo do buraco e atirarão. Assim não terão mais balas no cano, pois não possuem carabinas de cano duplo, e eu me atirarei sobre eles com a minha mata-urso.

- Muito bem, muito bem! Aponta com cuidado e não deixes escapar nenhum!

- É fácil de dizer, com essa escuridão!

- Escuridão?

- Decerto! Considera há quanto tempo estamos aqui. É noite lá fora. Mas agora que já descansamos, vamos começar. Lembrai-vos que quando eu tiver saído, Halef subirá até à tampa mas só pode atravessá-la depois que eu avisar.

Pendurei a carabina nas costas e empunhei a mata-urso, cujos canos estavam carregados cada um com uma bala. Depois Omar me tomou aos ombros e subiu aos de Osko. Tinha que me apressar para não cansar os dois.

- Atiremos como ainda há pouco, Omar - sussurrei ao mesmo. - Primeiro tu fazes fogo com o cano direito e depois com o esquerdo, eu os segurarei e apontarei para as pontas do gancho. Então - um!... dois!

Os tiros soaram e as balas atravessaram as tábuas, pois eu podia ver através dos dois buracos. Lá fora devia haver uma boa iluminação.

- Há fogueira diante da cabana - avisei eu. Isto é vantajoso e ao mesmo tempo desfavorável para nós. Pois, como os podemos ver, assim nos verão também.

- Que há com o gancho? - indagou Halef.

- Vou tentar.

Bati contra a tampa e ela cedeu. A pesada mata-urso tinha cumprido o seu dever.

- Desce a carabina, Omar - ordenei eu. - A tampa se abre. - Agora, firme nos pés! Tenho que me ajoelhar sobre os ombros de Omar.

Com alguma dificuldade, tomei esta posição, mas tive que me agachar, pois batia com a cabeça. De um arranco, ergui a tampa: ela abriu para fora. Com a carabina na mão, pronto para atirar, esperei alguns momentos. Nada ouvi. Mas estava claro lá fora e as sombras do fogo deslizavam sobre os rochedos.

Coloquei então o turbante sobre o cano e empurrei-o devagarinho para fora, deixando escapar um suspiro, como alguém que faz esforços para transpor um obstáculo. O embuste foi coroada de êxito: dois tiros partiram. Uma bala resvalou pelo cano, e a arma quase me foi arrancada da mão.

Num momento, levantei meio corpo para fora da abertura. Vi o fogo. Sobre o telhado, jazia um homem - o cadáver do açougueiro, como reconheci de um relance.

Sobre o teto da cabana havia dois homens, que tinham atirado contra o turbante. Estavam separados de mim e da plataforma, que formava o teto, pela cerca já mencionada, através da qual tinham atirado.

Aquela gente descuidada esquecera o mais importante, isto é, que à claridade das chamas eu podia vê-los melhor que eles a mim. Um estava ocupado em carregar a arma, o outro levantou a carabina para apontá-la na minha direção.

Imediatamente apontei para ele. Não queria matá-lo; Alvejei-lhe o cotovelo esquerdo. Puxei o gatilho. Deixou cair a carabina, deu um grito e caiu cabana abaixo. O outro virou-se ligeiro, pulou para o chão e correu para o lado do fogo. Era Byhar, o Skipetaro. Perto do fogo estavam sentados o seu irmão, Manach el Barxa e Barud el Amasat.

- Aí vêm eles! Saiam do fogo! - rugiu. - Eles vos podem ver e alvejar-vos!

Ergueram-se de um salto e todos os quatro seguiram correndo para o mato. Aquele sobre o qual atirei por último, era provavelmente o velho Mubarek.

Lembrei-me então de que o seu braço estava excepcionalmente grosso. Ele o tinha em ataduras debaixo da manga; conseqüência do tiro que o atingira na ruína do Ostromdja.

Fui de gatinhas até à beirada da plataforma. Lá embaixo no solo, jazia inerte um corpo comprido e magro. Lá de cima não me foi possível reconhecer os dois, pois, através da cerca, apenas pude distinguir os vultos.

A claridade do fogo não alcançava o lado leste da cabana. Se me fosse possível descer por ali não seria visto pelos que estavam escondidos, atrás das árvores.

Uma voz se fêz ouvir atrás de mim:

- Sídi, eu estou aqui. Posso sair?

- Sim, Halef, mas não fiques de pé, senão te vêem e atiram.

- Oh! nós somos invulneráveis!

- Não brinques. Vem! Ele saiu de rastos.

- Ah! Quem está deitado aqui?

-O açougueiro. A bala o matou! conforme pensei.

- O castigo alcançou-o depressa. Alá lhe seja benévolo!

 

Quando examinei melhor os arredores, vi uma argola de ferro fixa no rochedo. Desta argola partia a corda dupla, que servira para puxar o Mubarek.

- Por essa corda desceu o guarda da prisão - observou Halef.

- Provavelmente. Esta disposição obedece a um plano. Será que já fizeram esta brincadeira com outros?

- Ah! Efêndi! Quem sabe se já morreu gente, lá em baixo, de fome e de sede!

Esses bandidos são bem capazes disto, pelo menos conosco a intenção era séria. Devíamos descer esta corda para que Osko e Omar pudessem subir.

Assim fizemos. Dentro em pouco os dois estavam ajoelhados ao nosso lado. Cansamos os olhos, ao tentar, baldadamente, descobrir no mato um dos fugitivos.

Puxei então a corda e fechei a tampa.

- Achas que podemos usar a corda por fora e descer por ela sem sermos visto? - perguntou Halef.

- Sim! - respondi. - Pois está escuro aqui. Demais não custa fazer uma prova. Vamos descer primeiramente o cadáver. Que atirem sobre ele. Eu tenho a carabina em prontidão. Se vejo relampejar os tiros, tenho um alvo.

Passamos a corda por debaixo dos braços do cadáver e o descemos, bem devagar, para provocar os adversários a atirar, mas ninguém se manifestou.

- Então vou descer primeiro - disse eu. Em seguida irei de rasto para a moita e de lá para dentro do mato. Se ainda estiverem por lá, terei de vê-los. Existe ali uma fonte, portanto deve haver sapos ou rãs pelas redondezas. Um chamado assim, não despertará a atenção. Permanecei aqui até ouvirdes o meu sinal. O chamado de uma rã, significa que deveis ficar até se apagar o fogo. Mas se coaxar o sapo, uma vez só e muito fortemente, então podeis descer. Ficareis embaixo até que eu chegue.

- Isto é muito perigoso para ti, sídi!

- Qual! Não sabemos se o velho Mubarek, que está deitado lá embaixo, trama alguma coisa sinistra ou apenas finge. Também o guarda da prisão deve estar metido em alguma parte. Deveis vos precaver com ele. Eu vou.

A espingarda estava na cabana; pus a carabina às costas, agarrei a corda e desci ligeiro. Lá estava o cadáver e ao lado dele o Mubarek, como morto.

A corda tinha um comprimento mais do que suficiente. Cortei um bom pedaço e amarrei o velho patife. Tinha o braço ensangüentado e o cotovelo esmagado. Talvez tenha caído de cabeça, pelo que perdeu os sentidos.

Continuei então de rasto, sempre encostado às rochas, bem abrigado por plantas e cipós. Naturalmente conservei sempre a atenção voltada para o lado do fogo. Assim é que podia notar tudo que havia entre mim e ele.

Sentia-me bem seguro. Que sabia esta gente da maneira indiana de surpreender um inimigo? Julgavam-nos ainda sobre o teto da cabana e provavelmente dirigiam os seus olhares para lá sem pensar em olhar para trás. Mesmo se me tivessem notado, nada precisava receiar. Com minha escopeta de tantos tiros, era-lhes superior. Eu podia ficar sentado comodamente no chão e alvejá-los.

Já havia me adiantado seguramente cinqüenta passos, quando senti o cheiro de cavalos. Continuei a resvalar lentamente e ouvi vozes. Em seguida vi animais e gente. Os primeiros estavam amarrados às árvores, enquanto os últimos paravam uns próximos aos outros, falando à meia-voz.

Os cavalos não permaneceram imóveis. Tinham que se defender dos insetos noturnos e batiam com os cascos e com as caudas. Isto fazia um tal ruído, que permitia o mais desageitado chegar-se perto deles sem ser percebido.

Finalmente os alcancei. Arrastei-me entre dois cavalos e lá me deitei entre junco e capim. Os homens não distavam mais do que três passos.

- O Mubarek foi apanhado - dizia, neste momento, Manach el Barcha. - O velho foi tolo em colocar-se lá em cima.

- E eu? - perguntou o Aladji.

- Fôste mais prudente, pois não deixaste que te alvejassem.

- Ele me teria morto, se eu não tivesse fugido.

- Qual deles?

- Qual? Ainda o perguntas? Naturalmente aquele a quem chamam “efêndi”.

- Aquele com o pé doente, poderia ter subido?

- Certamente. Antes tivesse quebrado o pescoço do que o pé! Eu agradeceria a Alá. Mas sempre se vê que ele também é vulnerável.

- Ora! Que ele é invulnerável, nunca acreditei. É embuste.

- Embuste? Ouve: eu creio-o agora mais do que nunca. O Mubarek apontou para ele e eu também, quando botou a cabeça na abertura. Eu juro mil juramentos sagrados, como o acertei. A boca da minha espingarda, que eu tinha colocada através da cerca, não distanciava duas traçadas de sua cabeça, que podíamos ver distintamente. Ambos acertamos. Vi a cabeça cambalear, pois uma bala assim tem uma força tremenda, mas no mesmo instante ouvi bater as balas contra os rochedos: resvalavam da cabeça e nos teriam acertado se a cerca não nos protejesse. No mesmo momento, o sujeito fêz fogo e matou o Mubarek. Deve tê-lo acertado na cabeça, pois o velho lançou um último grito e caiu morto. Ter-me-ia acontecido o mesmo se eu não tivesse fugido.

- Milagroso, muito milagroso!

- Sim. Sabeis que eu não receio o próprio Cheitan, mas desta criatura tenho medo. Só se pode atingi-lo com a faca ou com o machado, e isto ele receberá hoje.

- E tens certeza de que carregaste a arma? - perguntou Manach el Barcha.

- Tenho toda a certeza. Eu emplastei duplamente a bala.

- Hum! Só queria poder dar-lhe um tiro! Gostaria de fazer uma prova.

- Não te arrisques! Estarias perdido, pois a bala resvala e te atinge. Por que não seguiram o meu conselho de atacar o bandido, quando o levavam para a cabana? Assim, tê-lo-íamos seguro.

- O Mubarek o proibiu.

- Foi uma grande tolice!

- Sim, quem podia prever que tudo acabaria assim! Era uma idéia esplêndida ouvir os cães uivarem de fome lá dentro. Mas o diabo tomou-os sob a sua proteção especial. Esperamos que agora no-los entregará.

- É mesmo o cúmulo matarem o açougueiro através do teto, e espatifar a perna do outro! O pobre teve uma morte miserável.

- Não o lamento - disse Barud el Amasat. - Ele há muito me estorvava e só nos causava empecilhos. Não era possível falar uma palavra confidencial. Por isso, quando o levastes à cabana, eu dei-lhe uma boa coronhada.

Horrível! O guarda da prisão foi assassinado por aquele a quem libertara! Estes quatro bandidos eram verdadeiros demônios.

- Resolvamo-nos, antes que passe o tempo! - disse Sandar. - Vamos atacá-los lá na cabana?

- Não! - respondeu Manach el Barcha. - É muito claro. Eles nos verão e estamos perdidos, porque podem atirar e as nossas balas não lhes causam dano. Temos que cair em cima deles no escuro, sem que o esperem. Quatro golpes ou facadas e eles estão liquidados.

- Concordo, mas onde deve ser?

- Naturalmente no mato.

- Não, é um ataque incerto. Melhor será no fim do mato, entre as moitas. Não é muito claro, mas as estrelas dão luz bastante para que possamos ver onde batemos. Eles irão pelo mesmo caminho pelo qual vieram, pois não conhecem outro. Não podemos errar. O melhor é esperá-los no fim da moita, onde começa o campo aberto.

- Está bem assim! - concordou Byhar; pela voz se notava que estava ferido na boca e no nariz. - Somos quatro e eles também. Cada um toma conta de um. Vós dos carregadores e do pequeno; a mim toca o efêndi. Ele me quebrou a cara, por isso tem que se ver comigo.

- Ele estará na liteira, pois não pode andar. Como te aproximarás dele? Antes que abras a porta, receberás uma bala no corpo.

- Achas que me demorarei tanto tempo junto à liteira? A casinha é composta de sarrafos de madeira fininha. Eu faço um serviço rápido e destroço a liteira com o meu Czakan, deixando-a em mil pedaços e este golpe acertará logo o sujeito de tal maneira, que não precisará de um segundo.

- E se não o conseguires?

- Preciso consegui-lo! - Preciso!

- Lembra-te do ocorrido. Pensamos debalde tê-lo na mão, mas esses protegidos do Cheitan sempre nos escapam. Deve-se ter tudo presente, pensar em tudo. Podíamos ser estorvados, e depois?

- Hum! Se soubéssemos quando partirão de Sbiganzy.

- De certo amanhã. Eles julgarão que temos pressa e nos seguirão.

- Bem, então realisaremos o plano do qual já falei à tarde: mandamo-lhes o nosso Snef, que dará um geito de entregá-los à nossa faca. Ele é o rapaz mais esperto dessa região, e conhece tão bem os arredores, como eu ao meu bolso. A ele podemos confiar essa causa.

- Proponho seguirmos agora. Não sabemos quando este pessoal deixa a cabana. Seria lamentável se saíssem antes de nós.

Eu não podia esperar mais e voltei de rasto para o pé do rochedo, de onde segui para a cabana. Ocultei-me então em distância razoável para certificar-me se realmente se punham a caminho.

Arrastara-me mais alguns passos apenas, quando vi que podia erguer-me e seguir segurando-me com a mão na rocha, capengando. O dobrar da perna esquerda exigiu de mim um esforço demasiado exaustivo. Ainda assim pude continuar só com o pé direito. Desisti de fazer os sinais, pois logo me achei no clarão do fogo, e, como vinha de pé, meus companheiros me avistaram.

- Descei - disse-lhes.

Eles desceram e eu me sentia tão cansado que me sentei.

- Vamos examinar estes dois - disse o Hadji. - Quem sabe se têem algo aproveitável nos bolsos.

- Ao açougueiro deixem com tudo - ordenei. - Não nos pertence. Que o Kiaja faça com ele o que lhe aprouver. Só ficamos com o que o Mubarek trouxer consigo.

Este possuía uma faca, um par de pistolas velhas. Sua carabina estava sobre o telhado da cabana; dela não precisávamos. Mas dois sacos - dois sacos bem recheados - o pequeno lhe tirou dos bolsos.

- Hamdulillah! - exclamou ele - Aqui estão metidas os Califas e as letras do Alcorão! Sídi, também há ouro. ouro, ouro!

- Sim, quem pode dar ao Kodja Baxá uma tal soma pela libertação, deve ter ouro. Podemos tirar-lho, sem recear cometer uma má ação.

- Naturalmente que o tiramos!

- Mas para quem? Vamos repartir, Halef?

- Efêndi, queres me fazer uma afronta? Tomas o teu Halef por um ladrão? O que lho tirar, darei aos pobres. Lembra-te quão feliz ficou Nebatja e como estavam contentes o dono da olaria e o cesteiro. Com este ouro podemos minorar muitas dores e abrir o céu de Alá!

- Isto esperava de ti!

- Então guarda o ouro!

- Não, fica tu com ele. Serás o nosso esmoleiro-mor, querido Halef.

- Então agradeço-te. Serei um fiel cumpridor dos deveres do meu cargo. Vamos contar.

- Para contar não há tempo: temos que ir. Levemos estes dois para dentro da cabana. O guarda morto também já está lá dentro.

- Também o mataste?

- Não, apenas feri-o; Barud el Amasat foi quem o matou, esmagando-lhe o crânio com a coronha, porque lhe estava sendo importuno.

- Que patife! Se pudesse tê-lo nas mãos! Conduzi os dois! Primeiramente levemos o efêndi para dentro.

Quando me depuseram dentro da cabana e se ausentaram para trazer o cadáver do açougueiro e do Mubarek, ouvi um gemido horrível. O guarda não estava bem morto. Halef, quando voltou, teve que buscar um tição, com o auxílio do qual descobrimos a lanterna do velho sobre o banco e a acendemos.

Só então é que pudemos ver melhor quem gemia. Minha bala lhe tinha destroçado a coxa, e em conseqüência do golpe o crânio estava aberto e rachado. O pobre estava irremediavelmente perdido e olhava-nos com olhos estarrecidos.

- Aqui tens o meu fêz, Halef; vai buscar água!

O fêz é confeccionado de tal maneira que até pode reter um líquido. Demos ao moribundo um pouco d'água e lhe borrifamos a cabeça. Isto parecia fazer-lhe bem. Seus olhos tornaram-se mais claros. Ele nos olhava com olhares tão melancólicos, que se compreendia que começava a refletir.

- Conheces-nos? - perguntei-lhe.

Ele afirmou com um sinal de cabeça.

- Dentro de poucos minutos estarás diante do juiz eterno. Sabes quem te rachou o crânio?

- Barud el Amasat - murmurou ele.

- A quem pensaste fazer um benefício. És um desencaminhado e Alá te castigará eternamente se deixares a vida com o remorso na alma. Dize-me: O velho Mubarek é o Xut?

- Não.

- Quem é o Xut?

- Não sei.

- Também não sabes onde ele está?

- Querem encontrá-lo no Kara-Norman-Khan.

- E onde é este lugar?

- No Sehar Dagh, não longe da aldeia que se chama Weiza.

- Para além do Kakandelem?

Ele acenou novamente, pois já não podia mais falar. Tinha respondido com tanto esforço e tão baixinho, que tive de aproximar o meu ouvido da sua boca, para compreendê-lo.

- Sídi, ele morre! - disse Halef, compadecido.

- Vai buscar água!

Ele foi, mas o seu serviço tornou-se desnecessário. O homem morreu nos nossos braços, sem dizer mais uma palavra.

- Levaremos os cadáveres e também o Mubarek para dentro da caverna - disse eu. - Que o Kiaja os vá buscar.

- Senhor, o velho tem os olhos abertos. Voltou a si - declarou Osko, iluminando o rosto do Mubarek com a lanterna.

Halef se inclinou imediatamente para verificar se era verdade. O velho pecador tinha realmente recuperado os sentidos. Evitava falar, mas os seus olhares traíram a sua presença de espírito. Brilhavam de ira, como jamais observei em qualquer outro.

- Vives ainda, velho esqueleto? - perguntou-lhe Halef. - Também seria lástima que a bala te tivesse morto, pois um fim assim não mereces. Deves morrer supliciado, para que tenhas um antegosto dos prazeres que te esperam no inferno.

- Cão! - cuspiu o velho malandro.

- Monstro! Devíamos morrer de fome e sede? Pensas então, bobo, que podes prender heróis célebres e gloriosos como nós? Nós atravessamos pedras, ferro e metal, enquanto tu gritarás em vão, na tua própria cilada, por socorro e alívio.

Naturalmente isto era apenas uma ameaça. Ele foi levado à caverna e deitado entre os cadáveres. Um pouco de angústia não fazia mal a este celerado.

Ao examinar melhor a liteira, notei que a casinha podia ser desmontada. Mandei tirá-la para que assim permitisse o livre movimento dos braços. Depois agarrei a carabina e a escopeta e nos pusemos a caminho, após termos apagado a fogueira. Eu ia carregado.

Ao Mubarek desapertamos primeiro as cordas, pelo que podia erguer-se e dar alguns passos. Mas a porta chapeada de ferro foi fechada com o ferrôlho. Deixamo-lo convencido de que teria que ficar metido aí sem salvação.

De noite, não é vantagem viajar pelo mato, ainda mais de liteira e sem estrada. Mesmo assim, seguimos bem a direção. Os companheiros pisavam o mais levemente possível. Halef tinha sua pistola e eu os revólveres em prontidão para qualquer emergência.

Quando o mato ficou atrás de nós, viramos para a direita, para os pastos da Sletowska, onde havia terreno livre. Era um rodeio para evitar a luta que podia trazer-nos, quando não a morte, pelo menos ferimentos.

Chegamos bem à estalagem, e fui carregado da sala de entrada, onde havia vários hóspedes, para a sala reservada.

Lá estava sentado o dono da casa. Quando nos avistou, ergueu-se de um pulo.

- Tu, senhor? - exclamou ele. - Mas tu partiste.

- Para onde?

- Para Karatowa.

- Quem disse isto?

- O açougueiro.

- Então ele esteve aqui?

- Sim e pediu os teus cavalos; ficou muito contrariado quando lhe declarei que não podia entregar-lhos, porque havias retirado a procuração. Ele ameaçou-me com a tua ira. Que devias ser carregado a Karatowa e que devias encontrar lá os cavalos.

- Sempre desconfiei disto! Queria roubar-me o meu morzelo e talvez também a vida.

- A vida, dizes tu?

- Sim, temos muito para contar-te. O açougueiro está morto.

- Aconteceu-lhe uma desgraça?

- Sim, se a isso chamas desgraça; foi morto por mim a bala.

- A bala! - exclamou ele assustado. - Tu? Certamente que é uma desgraça, e isto para ele, sua família e também para ti.

- Como para mim?

- Fizeste-o de propósito?

- Bem, não pretendia matá-lo; queria apenas que a bala acertasse o ele.

- Então atiraste de propósito, e eu tenho que te prender como assassino.

- Contra isso protesto seriamente.

- Isso em nada te adiantará!

- Oh! sim! Pois tenho que te relatar o acontecido. E mesmo se o tivesse morto de livre vontade, sem motivo imperioso, não me deixaria prender sem mais nem menos. Não confirmaste esta tarde que os Aladji eram conhecidos bandidos e assassinos?

- Sim, isto todo mundo sabe.

- E mesmo assim não seguraste o Byhar quando estava em tuas mãos. Mas a mim, um homem, de cujo passado nada sabes de desonroso, queres prender? Como se entende isso?

- Senhor, é o meu dever - respondeu ele vexado.

- Sim, bem o sei. Ao Aladji deixaste ir porque receavas a vingança do seu irmão e de sua casta e também a sua própria brutalidade. Quanto a mim, porém, pensas que me submeto sem resistência, porque, como estrangeiro, não tenho ninguém que te chame à responsabilidade com a carabina na mão?

- Oh! - gritou Halef. - Quem tocar no meu efêndi será atravessado por uma bala! Eu sou Hadji Halef Omar Ben Hadji Abul Abbas Ibn Hadji Dawud al Gossara e costumo comprir a minha palavra. Agora, experimenta pôr a mão nele!

Pequeno como era, sua atitude era sobremodo enérgica e ameaçadora. Via-se que estava pronto para tornar realidade as suas palavras. O dono da casa e Kiaja da aldeia começou visivelmente a lhe ter respeito.

- Agradeço-te, Halef - disse eu. - Esperamos que a tua intervenção não seja necessária. Este bom Kiaja reconhecerá que eu fui obrigado a matar o açougueiro.

E, voltando para o estalajadeiro, continuou:

- Não me disseste que o açougueiro era um Skipetaro?

- Sim, ele é um Mirídito.

- Então, nem é daqui?

- Não. Seu pai, quando se mudou de Oroschi para Sbiganzy, o lugar principal dos Miriditos, trouxe o filho.

- Então, que tens com a morte dele? Os Miriditos estão sob a lei do Padixá?

- Não, são Arnautos livres.

- Sabes que julgam entre si e isto de acordo com as velhas leis de Sek Dukadschinits?

- Bem o sei.

- Assim é que nada tens que ver com a morte do açougueiro. Eu o matei. Se o fiz, com ou sem razão, não interessa a essa gente. Caí na lei da vendeta e os parentes do morto irão exercer sobre mim os direitos que ela lhes confere. Tu, porém, nada tens com o caso.

- Ah! - respirou ele profundamente. - Isto me é extraordinariamente agradável.

- Assim é que estamos de acordo. Mas há mais um morto.

- Quem é?

- Um guarda-prisão de Edreneh, que libertou um prisioneiro e fugiu com ele. Este o matou depois. Junto com este morto acharás também o velho Mubarek a quem eu esmaguei o cotovelo com uma bala.

- Também ele, senhor? Tu és um homem tremendo!

- Muito pelo contrário, sou um homem bom; mas, como estavam as coisas, não podia proceder de outra forma.

- Mas, que é que houve?

- Senta-te aqui conosco, eu vou te contar tudo.

Tomou assento e eu comecei o meu relatório. Tínhamos tempo. Por isso entrei em longos detalhes. Também lhe contei a razão pela qual perseguíamos Barud el Amasat. Teve então uma clara impressão a respeito das nossas intenções e isto lhe facilitou a compreensão de que estava lidando com uma terrível classe de bandidos. Quando finalmente me calei, ele estava sentado, cheio de acabrunhamento.

- Mas será possível isso! - exclamou. - Sois como os escudeiros do Califa Harum al Raschid, que andavam pelo país inteiro para castigar os maus e recompensar os bons!

- Oh! Não somos, nem por sombra, gente tão nobre e distinta. Aqueles, sobre os quais te falei, fizeram mal aos nossos amigos e também a nós e ainda intentam outros crimes, e nós os perseguimos para impedir esses atentados. Que vais fazer agora?

Ele coçou a cabeça com as duas mãos e respondeu finalmente:

- Dá-me um bom conselho.

- Tu és uma autoridade e deves saber ao certo a que te obriga o dever. Não necessitas do meu conselho.

- Eu saberia o que fazer, se não tivesses cometido uma grande tolice. Por que atingiste o velho Mubarek apenas no cotovelo? Não podia ter alvejado a cabeça ou o peito? Assim não estaria mais neste mundo.

- Assim falas tu, tu, o Kiaja!?

- Não, não é o Kiaja que agora fala contigo. Se o velho estivesse morto, eu mandaria enterrar os três e ninguém mais falaria nisso. Mas assim tenho que me apoderar do velho e entregá-lo aos tribunais. É um caso ingrato.

- Não vejo nada de ingrato. Ainda te distinguirás por causa disto. Ele fugiu da prisão em Ostromdja. Prendê-lo-ás e mandá-lo-ás para Uskub, e está pronto.

- Mas eu também terei de figurar no relatório. E vós também, como testemunhas e denunciantes.

- Iremos com prazer.

- Sim, porque ides abandonar esta região; quanto a mim, os amigos do velho me liquidarão.

- Talvez que te esquentes, o que não é nada mau.

- Não gracejes! Não sabes o que pode acontecer-me. Como já disse, se tivesses matado o patife, eu estaria livre de incômodos e de responsabilidades. Pois se tens que permanecer em Uskub como testemunha, talvez nem deixes o lugar com vida: cairás com certeza na vendeta.

- O açougueiro tem parentes homens, aqui?

- Sim, um irmão.

- Não sabes se ele está em casa, hoje?

- Ele está, pois meu peão lhe deu o recado em vez de ao Tschurak.

- Hum! Isto é digno de reflexão. Se se parece com o irmão, tenho que tomar cuidado com ele.

- É tal e qual. Eu não o considerava tão honesto como Tschurak. Mas como este se revelou um perfeito bandido, seu irmão deve ser pior ainda. Não poderás estar seguro de tua vida, enquanto te encontrares aqui. Vou te dar um bom conselho: monta, sem perder tempo, e vai para Karatowa. Dar-vos-ei um bom guia.

- Não queremos ir para lá.

- Mas o açougueiro assim o disse.

- Era mentira. Queremos ir daqui a Uskub e isto combina muito bem, pois formaremos uma escolta armada, quando transportares o velho Mubarek.

- Deus me guarde! Matar-me-ão em caminho!

- Só se fôssemos muito tolos.

- Vejo que não tens a menor idéia dos costumes daqui. Estás constante-tantemente com os teus amigos em perigo de vida, nem um cabelo de vossa cabeça está em segurança. Melhor é irdes embora. É realmente c melhor que tendes a fazer.

- E também o melhor para tí, não é?

Esta pergunta deixou-o extremamente vexado. Falou tão insistentemente comigo, que só a preocupação com a própria pele poderia justificar. Era um bravo homem, mas, como filho do seu país, tinha que contar com pouca segurança por parte da legalidade da terra.

- Como, para mim? - perguntou.

- Deixarias escapar o velho Mubarek, assim que nós nos tivéssemos ausentado, desta maneira não terias que receiar uma vingança, pelo contrário serias gratificado.

Eu havia adivinhado, pois ele corou. Apesar disso, respondeu:

- Não penses assim de mim! Procederei severamente, de acordo com o meu dever, mas tenho interesse em ver-vos em segurança.

- Disso não tenhas cuidado. Já te provamos que não precisamos do auxílio de outrem. Hoje eu poderia ter recorrido à tua proteção contra os nossos inimigos. Não o fiz para não te incomodar e porque sabia que nós mesmos nos defenderíamos. Assim, também para o futuro, prescindimos de conselhos e auxílios, não obstante seres tu o responsável pelos perigos que enfrentamos.

- Como assim? - perguntou ele.

- Não afirmaste que nenhum estrangeiro havia chegado à casa do açougueiro? Entretanto, já estiveram, aqui, antes de nós.

- Eu não o sabia, pois para a aldeia não vieram. Decerto o Tschurak encontrou-os lá fora. Eu te disse que ele voltou a cavalo para casa. É provável que nesta ocasião se tenham encontrado, tudo combinando então.

- Sim, é provável. Bem, eu não deixarei Sbiganzy hoje; dormirei aqui. Que pensas fazer com os três que fechamos na cabana?

Novamente coçou as orelhas, dizendo:

- Senhor, deixa-me em paz com esta história!

- Infelizmente não posso. Não podem ficar lá fora. Eu exijo que te apoderes, ainda hoje, do velho Mubarek. Os dois cadáveres podem ficar.

- Mas que devo fazer com ele?

- Prendê-lo aqui até amanhã, quando o levaremos para Uskub.

- Santo Deus! Os Aladjis assaltarão a minha casa!

- Ajudar-te-emos a defendê-la.

- Mais tarde me alcançará a vingança!

- Que covardia!

- Sim, vós não tendes cuidados. Saireis daqui e não voltareis jamais. Mas sobre mim cai a borrasca.

- Os Aladji nada te podem fazer, pois levá-los-emos para Uskub amanhã, e Manach el Barcha e Hamd el Amasat também.

- Já os apanhaste?

- Não, mas vamos buscá-los agora mesmo.

- E como?

- Com os moradores de Sbiganzy, que vamos reunir para investir contra eles.

- Não irão.

- Serão obrigados a isso. Não leste que sou um protegido do Grão-senhor?

- Sim, infelizmente assim é.

- Tens que obedecer às minhas ordens. Se te negares, darei queixa contra ti em Uskub.

- Senhor, queres causar minha desgraça?

- Não, mas quero obrigar-te a cumprir com o teu dever. Estes quatro bandidos estão postados lá fora na moita. Nada mais fácil do que rodear e prendê-los.

- Oh! Muito te enganas! Defender-se-ão muito bem.

- Que importa?

Ele abriu os olhos tão desmesuradamente, que Halef deu uma risada.

- Que importa, dizes? Talvez nada? - exclamou o Kiaja. - Se nos matarem, isto não importa? Eu, muito pelo contrário, sou da opinião que nada importa tanto, como perder a vida.

- Também penso assim. Mas tereis que proceder de forma a que nem cheguem a se defender.

- Que devemos fazer?

- Explicarei ao pessoal, quando estiver reunido aqui.

- Oh! Ninguém virá, se eu disser de que se trata.

- Pois não deves dizê-lo. Concordas que, pela lei, tens o direito e também o dever, num caso como este, de apelar para o auxílio dos moradores?

- Sim, tenho este direito.

- E terão que te obedecer?

- Sem restrição.

- Então, chama-os e dá-lhes ordem de se reunirem imediatamente aqui, e que venham armados. Quando todos estiverem reunidos, eu mesmo lhes direi o que planejei. Falar-lhes-ei de tal modo, que se orgulharão em investir contra os bandidos.

- Duvido.

- Pois verás!

Ele ainda ponderou muitas coisas, mas eu insisti até que concordou:

- Bem, já que insistes tão rigorosamente vou buscar o guarda e instruí-lo na tua presença.

Quando ele se ausentou, Halef observou:

- Eu não te compreendo, sídi. Pensas realmente que estes queridos súditos do Sultão pegarão sequer uma mosca?

- Não, quero apenas fazer uma brincadeira. Eu viajo para conhecer países e povos. Quero ver juntos os moradores desse lugar, para observar como palestram e gracejam. Estivemos hoje em perigo e, agora, temos direito a uma hora alegre.

Os companheiros concordaram. Estavam curiosos para ver os defensores armados que se deviam reunir. Passado algum tempo, voltou o estalajadeiro trazendo consigo o guarda. Este não impressionava lá muito bem. Se bem que seu rosto estivesse coberto de uma barba colossal, o resto não se harmonizava com ele. Parecia faminto e sua roupa consistia numa calça que chegava apenas até os joelhos e num casaco velho, rasgado, alinhavado na frente. As pernas estavam descobertas. Na testa tinha amarrado um lenço de chita, daquela qualidade que vendem nas feiras por dois mil réis a dúzia. Mas na mão segurava um bastão de oliveira, da grossura de uma perna de criança. Em vez de cabo, tinha uma foice. Para quê? Como arma? Então, seria bem perigosa.

- Senhor, aqui está o meu guarda - disse o Kiaja. - Queres tu mesmo instruí-lo?

- Não, faze-o tu! És o superior e tens que dar as ordens.

Ele obedeceu às minhas instruções. Depois perguntei pelo seu estoque de cerveja.

- Ainda ontem fiz uma boa quantidade - respondeu. - Tu e teus companheiros podereis beber dela uma semana inteira.

- Queres mandar-ma toda?

- Sim. Mas para que precisas de tanta?

- Teu guarda pode dizer aos homens que receberão toda a Arpa suju existente e ainda Raki, se fizerem direitinho o que lhes fôr exigido.

Nisto o guarda ergueu seu bastão, como para um juramento, e disse:

- Efêndi, tua bondade é grande, mas, por Alá e seu Profeta, nós pelejaremos e brigaremos, como se estivéssemos em campanha contra os descrentes.

- Então sabes de quê se trata?

- Sim, o Kiaja, meu amo e senhor, honrou-me com a sua confiança e disse-mo.

- Mas não falarás sobre isso?

- Nem uma palavra! Minha boca será um livro com sete chaves, que não se pode folhear, e como uma arca de ferro, cuja chave se perdeu.

- Assim to aconselho. E agora apressa-te!

- Voarei, como o pensamento que, num segundo, viaja em redor da terra!

Virou-se e saiu porta afora com passos arremetidos e importantes.

- Isto é novo - disse o dono da casa. - Ninguém dá de beber a todos os homens da aldeia e muito menos um estrangeiro. Senhor, irão louvar-vos por muitos anos e lembrar o vosso nome a vida inteira.

- Quanto custará a cerveja?

- Cinqüenta piastras. (11a)

- E quantos homens virão?

- Talvez vinte.

- E quanto custa um carneiro gordo?

- Oh! Aqui custa mais barato do que em Istambul ou Edreneh, donde vens. Terás que pagar apenas quinze piastras.

- Então dize aos homens, que se forem valentes, poderão mandar assar dois carneiros lá fora no pátio.

- Senhor, chamas a bênção da aldeia sobre tua cabeça. O pessoal fará...

- Está bem! - interrompi. - Tu mesmo tens carneiros gordos; escolhe dois e trata de nos preparar um bom jantar.

- Ficarás satisfeito comigo. Cuidarei de vós, como se o próprio Califa fosse meu hóspede!

E correu para fora.

- Agora está de bom humor - riu Osko.

- Sim, mas esta alegria não me agrada. Ele não parece continuar preocupado com a vida e o bem-estar dos homens. Isto me é suspeito. Decerto já tomou providências e sabe que nada lhe pode acontecer.

- Será que nos trará prejuízo?

- Isto é impossível. Pode espantar os nossos inimigos. É a única coisa que nos pode fazer.

Demorou muito, muito mesmo, antes de chegar o primeiro herói. Quando este finalmente apareceu, o estalajadeiro abriu a porta do quarto da frente e anunciou:

- Efêndi, estão começando a vir. Devo servir logo a Arpa suju?

- Não, devem mostrar primeiro que são valentes.

Pouco a pouco vieram também os outros. Cada um se chegava à porta de comunicação, fazia-nos uma reverência e olhava-nos com curiosidade.

Mas nestes olhares se refletia outra coisa além da curiosidade: a satisfação pela ceia, que os aguardava. Eram olhares bem velhacos! Esta gente tinha algum segredo, que os alegrava intimamente. Estavam todos armados com espingardas, pistolas, espadas, machados, facas, foices e outras ferramentas.

Mais tarde ouvimos um alto grito desta multidão de guerreiros. Vimos entrar o

 

(11a) 30$000.

 

guarda e, atrás dele, vários homens. Estes também estavam armados, mas, fora disso, cada um ainda trazia um instrumento musical.

O guarda vinha têso, cheio de dignidade; acercou-se de nós e os outros seguiram-no.

- Senhor! - anunciou ele - os guerreiros estão reunidos e aguardam as vossas ordens.

- Bem! Que gente é esta?

- São os Tschagydschuylar (12) que executarão primeiro a Tschenk makami (13) e depois en nagmeh. (14) Com isto as tropas se entusiasmarão para a maior valentia possível.

- Ah! Quereis ir, com música, de encontro ao inimigo?

- Naturalmente! É uso assim, no exército. No ataque toca a corneta.

Isto era realmente divertido. Os quatro bandidos deviam ser cercados e aprisionados em silêncio e este guarda queria ir, com música ao seu encontro. Mas como ele falou de ataque e de música de guerra, deveria ter dito já aos guerreiros de que se tratava. Desobedeceu, pois, a minha ordem, mas naquele momento eu nada disse. E sem me deixar falar, tomou a um deles, que tinha uma espécie de tambor amarrado na frente « dois pauzinhos na mão, e revirou-o para que eu o visse bem, explicando:

- Este toca a Dawul. (15) É mestre neste instrumento. Empurrando-o para o lado, puxou um segundo que trazia uma argola sobre a qual se estirava um pêlo.

- Este bate o Dawultschuck (18) e este toca a Duduk (17) .

E passando a apontar outros:

- Este dedilha a Kytara (18) e este sopra a Keman, - esclareceu-nos. Mas agora vem o principal, efêndi. Este último tem o verdadeiro instrumento de guerra. Ele é o herói dos sons, pois bate o compasso e abate o inimigo com um sopro, caso queira. Êle sopra a Zurna (19) que ninguém pode resistir. Ficarás muito satisfeito com a nossa música.

Eu duvidava-o muito. A chamada guitarra, que um procurava arranhar, consistia num pedaço de tábua com um braço.

O violino consistia num braço, sobre o qual foi colado um inchaço em forma de papo. Sobre o cavalete três cordas tão grossas, que um baixo de violão as poderia usar. O arco era uma vara torta, na qual foi esticada um cordão forte. Um pedaço grande de pixe, que o homem segurava na mão, era destinado, com certeza, a dar ao cordão a necessária resistência.

E o trombone?! Sim, era um trombone real, verídico, daqueles de vara. Onde o teria arranjado este homem? Mas em que estado estava! Tão cheio de amassaduras, arranhões e barrocas, como se Sansão o tivesse usado para matar algumas centenas de

 

(12) Músicos.

(13) Música de guerra.

(14) Música de canto e baile.

(15) Tambor.

(16) Tamborine.

(17) Flauta.

(18) Guitarra.

(19) Trombone.

 

filisteus. Sua aparência primitiva modificou-se no decorrer do tempo. Quando retirei esta coisa indiscutível da mão do homem para experimentar se era possível fazê-la funcionar, vi que estava completamente enferrujada.

O seu feliz proprietário parecia deduzir da minha expressão que o trombone não me merecia confiança, pois apressou-se em assegurar-me:

- Senhor, não tenhas cuidado! Este trombone cumpre com a sua obrigação.

- Assim o espero.

- Como tu dás além da Arpa suju ainda um Raki, vou matar com este trombone os dois Aladji!

- Burro! - murmurou-lhe o guarda. - Não o devias saber ainda.

- Ah! Sim! - redargüiu o lírico herói. - Retiro as minhas palavras!

- Já se escapuliram - ri-me eu. - Então já sabeis de que se trata?

- Senhor, não me deixariam em paz, enquanto eu não lhes disesse, - desculpou-se o guarda. - A minha vida corria perigo, se me tivesse calado.

- Fizeste bem em resguardar a tua vida. Agora não preciso mais explicar a estes bravos homens o que deles quero.

- Oh! Um pequeno discurso sempre podes fazer para entusiasmá-los ainda mais, pois então serão invencíveis.

- Farei este discurso. Não é, sídí? - opinou Halef.

Como eu conhecia o seu dom de oratória, confirmei-lhe o meu consentimento com um aceno e perguntei:

- Quem guiará os guerreiros?

O polícia respondeu:

- Naturalmente, como guarda e polícia deste exército, sou eu o seu Muschir (20). Procederei estrategicamente. Reparto o exército em duas metades, que serão comandadas pelo general de divisão. Com elas rodearemos secretamente o inimigo e o prenderemos. Ele não pode escapar se viermos de dois lados.

- Muito bem! E fazem isto com música?

- Sim, com ela já poremos em susto o inimigo, logo que dele nos acercarmos. Deitar-te-emos aos pés estes malvados bem amarrados. Mas, como já deves reconhecer quão valentes e arrojados seremos, não precisas esperar com os dois carneiros até que regressemos vitoriosos. Podes mandar assá-los agora. Eu trouxe algumas mulheres que entendem muito bem deste serviço; elas já estão lá fora no pátio fazendo os devidos preparativos. Os pedaços acima da cauda, que são os melhores e mais saborosos, ficam reservados para vós, pois sabemos muito bem o que a cortesia prescreve.

- Assim é que haverá também mulheres?

- Sim, e muitos outros! Olha para fora no pátio: também verás os filhos e as filhas das mulheres.

- Então, que o Kiaja ordene aos seus criados que não matem apenas dois, mas quatro carneiros, e que os entregue às mulheres.

- Senhor, tu transbordas de bondade! Mas que não esqueçam o principal; quem recebe as quatro peles?'

- Serão distribuídas entre os quatro mais valentes.

 

(20) Marechal.

 

- Então estou certo de receber pelo menos uma. Mas, agora, teu companheiro podia dar início ao discurso, pois o ardor dos meus guerreiros torna-se irrefreável.

Ele retirou-se com os músicos para a sala da frente. Halef postou-se no humbral da porta de comunicação e pronunciou o seu discurso. Este era primoroso pedaço de retórica. Sobremodo liberal, apelidou os ouvintes de heróis, invencíveis, excelentes, entremeando tudo com comentários sarcásticos, apenas compreensíveis por nós.

Quando terminou, ouviu-se um som que me assustou tanto, que me ergui de um pulo da cadeira. Era como se meia dúzia de búfalos americanos estivessem sendo assados vivos no espeto, soltando grunhidos de dor. À minha indignação, respondeu o dono da casa:

- Foi o trombone. Deu o toque de partida.

A sala esvasiou-se então. Lá fora, no portão, ouvia-se a voz do marechal. Dividiu o seu exército em dois esquadrões e, em seguida os heróis se puseram em marcha.

Algumas valentes trovoadas do trombone iniciaram a marcha de ataque. A flauta se esforçava para largar um trinado que acabou num úivo furioso. O tambor começou a rufar, seguido pelo tamborim; do violino e da guitarra não se ouvia nada. Seus sons suaves e delicados morriam entre a potência ruidosa dos outros instrumentos de guerra.

Diminuía a furiosa algazarra, quanto mais se afastava o exército. Ora soava inda, como uma tempestade que uivasse por uma esquina, ora perdia-se um pouco moribunda, como um realejo sem corda.

Abandonamos os valentes ao seu heroísmo e agarramos os nossos Djibuks. Lá fora, no pátio, ardiam algumas fogueiras, onde os carneiros deviam ser assados. Nem chegava a custar um táler (21) cada um.

Uma liberalidade assim podia-se arriscar. O estalajadeiro não tinha o que fazer. Sentou-se conosco, acendeu o seu cachimbo e perdeu-se em conjeturas, no caso que um dos quatro, que perseguia-mos, fosse preso, ou todos os quatro, ou nenhum.

Ao dizer isto, tinha um quê na fisionomia, que me fêz pensar. Era um homem honesto, bem o creio, mas agora nos encondia qualquer coisa, que tinha relação com a campanha tão bem encaminhada.

- Mas se forem derrotados - disse ele, - que se fará então?

- Então pegaremos os patifes.

- Eu digo referindo-me à cerveja.

- Ela será tomada de qualquer maneira.

- E os carneiros?

- Serão comidos.

- Falas como um sábio, senhor, pois, se os Aladjis fugirem, não adianta a maior valentia.

- O marechal fará o possível para que fujam. Sua música os convida para isto. Ou quem sabe se já os preveniu antes?

- Preveniu? Como assim?

- Ora, ele pode ter corrido para junto deles e ter-lhes dito, com toda calma, que nos esperam em vão, porque já nos encontramos aqui contigo.

 

(21) Três marcos.

 

Ele olhou-me atentamente, para vêr se eu falava seriamente.

- Efêndi! Quê pensas!

- Algo que é muito possível, provável mesmo. E nesta ocasião lhes disse também que se afastassem um pouco, porque ia reunir os valentes para um ataque contra eles.

- Não deve ter feito isso; seria contra o seu dever.

- Mas se assim lhe fosse ordenado por ti?

Ele corou, desviou o olhar e respondeu em tom indeciso:

- Consideras-me capaz disto?

- Tens uma cara muito manhosa. O grande cuidado pelos teus heróis desapareceu por completo, e o primeiro deles veio tão tarde, que creio realmente que o teu Zaptie deu antes um passeio pelo lado do mato. Mas não quero te recriminar pelo teu cuidado pelos moradores do lugar. Esperemos que não morram todos.

Eu disse isto em tom zombeteiro. Ele respondeu no mesmo tom:

- Eles lutarão como leões. Se bem que não tenham armas como vós, saberão manejar aquelas que têm. Com uma espingarda das nossas não se podia arrebentar uma grade de ferro. Nunca vi uma carabina tão pesada.

Apanhou a minha carabina da parede e avaliou-lhe o peso nas mãos.

- Não te cansas em carregá-la?

- Não, estou acostumado.

- Mas por que fazem carabinas tão pesadas, na tua terra?

- Agora não se fabrica mais esta arma. Esta carabina é velha. É uma espécie chamada “mata-urso”, porque era usada na caça a esse animal. Existe lá na América uma raça de ursos que têm o pêlo pardo. Este urso pardo é tão forte, que carrega um boi. Nenhuma das balas antigas podia matá-lo: só com carabinas pesadas é que era possível dar um tiro seguro.

- Já mataste destes ursos?

- Sim. Se não fosse isso, para que teria uma arma assim?

- Mas por que a trazes para cá, se nestas regiões não existem ursos?

- Porque, durante a minha viagem passei por lugares, onde não há ursos, mas outros animais ferozes. Eu matei com ela o leão e a pantera negra. Demais, graças ao seu peso, pode-se fazer segura pontaria com a mão livre. E que, além disto, presta outros bons serviços, constataste hoje.

- Está carregada?

- Sim. Logo depois do tiro, costumo carregá-la. É hábito de caçador.

- Então vou deixá-la de mão. E que arma curiosa é a outra espingarda!

Devo mencionar que estávamos sentados numa mesa encostada numa janela aberta. Eu estava de frente e Halef de costas para a abertura da janela. À minha direita sentava o dono da casa, à esquerda Omar, e de pé, atrás de mim, Osko que, tendo acabado de encher o seu cachimbo, levantara-se para acendê-lo no lampião. Ficara atrás de mim para olhar melhor para o estalajadeiro, que colocou a mata-urso de tal maneira, em cima da mesa, que me estava à mão, casual e felizmente. Naquele momento tomei a espingarda nas mãos.

O estalajadeiro perguntou-me pormenores acerca do mecanismo da mesma e eu expliquei-lhe como podia dar vinte e cinco tiros sem carregá-la. Nesta explicação eu fui bruscamente interrompido por um grito de Osko.

- Efêndi! Por Alá! Socorro! - bradou alto.

Virei-me para ele. Apontava para a janela. Seus olhos estavam arregalados e seu rosto tinha a lividez da morte.

Quando segui a direção do seu braço, vi-me enfrente de uma boca de espingarda. O cano da mesma estava apoiado no parapeito da janela. O atirador estava lá fora, na rua, encostado à arma com firmeza para fazer segura pontaria sobre mim. Que o caso era comigo, compreendi imediatamente.

Há momentos em que o espírito concebe em meio segundo, idéias e conseqüências, para as quais precisa, em outras circunstâncias, de muito tempo. O agir parece ser apenas instintivo, mas, em verdade, o espírito procura as conseqüências lógicas, uma vez que se dê uma rapidíssima associação de idéias.

A arma foi dirigida tão diretamente à minha cabeça, que eu não via o cano, mas sim a boca como uma argola. Um momento de pânico ter-me-ia causado a morte. Era preciso agir rapidamente. Mas como? Se eu desviasse a cabeça e o tiro partisse não seria atingido, mas atingiria Osko, que estava de pé, atrás de mim. Para salvá-lo eu não podia subtrair ao assassino a minha cabeça, seu alvo. Movimentei-a, então, tão rapidamente, que o alvo tornou-se incerto e agarrei a “mata-urso”.

Naturalmente é impossível contar ou ler com a rapidez com que se deu o fato. O assassino, não podia ver que eu tirara a carabina da mesa. Sem apontar, pois, te-lo-ia percebido: estiquei-a, encostei as duas bocas dos canos e puchei o gatilho. Os dois tiros partiram quase ao mesmo tempo.

Do grito de Osko até ao estrépido dos dois tiros, o tempo decorrido era tão diminuto, que nem é possível medi-lo. Mal se extinguira o grito, ressoaram os dois tiros, pois aquele que estava parado lá fora, também atirou, felizmente não antes, mas a décima parte de um segundo mais tarde do que eu.

O estouro dos tiros foi acompanhado de um grito estridente que vinha lá de fora.

Halef tinha ouvido o grito de Osko e virara-se para a janela, mas a minha carabina foi tão rápida, como o seu olhar. Não chegara a ver o cano da carabina estranha. Por isso ergueu-se da cadeira e exclamou:

- Que foi, sídi? Por que atiras?

- Um assassino! Um assassino! - respondeu Osko, ainda estarrecido e de braços estendidos, enquanto eu me levantei de um pulo, jogando a “mata-urso” sobre a mesa e tomando a carabina das mãos do estalajadeiro.

Não pude ver quem estava do outro lado da janela, mas se o bandido ainda se encontrava lá, estaria perdido, pois, agora, parado no interior do aposento, onde eu não apresentava outro alvo, descarreguei de seis a oito tiros, tão depressa, que pareciam ser um só.

Halef compreendeu logo de que se tratava.

- Não atira mais - gritou-me.

No mesmo instante estava na abertura da janela e queria sair.

- Halef, estás louco - exclamei, pegando-o pelas pernas para o puxar para trás.

- Tenho que sair! - gritou, arrancando-se das minhas mãos e pulando para a rua.

Eu, com o pé sadio, tinha dado um passo largo que me conduziu à janela. A parede não era forte. Rapidamente passei primeiro a carabina, depois a cabeça e o braço esquerdo pela janela. Mas o meu corpo não podia passar: a janela era estreita de mais para mim. Eu vi Halef correr para a direita, onde o portão do pátio estava aberto e a luz das labaredas da fogueira iluminava a rua.

Ao mesmo tempo, porém, surgiu um vulto na porta da casa fronteira, que era do açougueiro, e correu atrás de Halef.

Seria um inimigo? Apontei a carabina. Nisto vi um homem passar correndo pelo portão. Era bem reconhecível à luz das chamas.

- Manach el Barcha! - gritou Halef atrás dele. Também eu o tinha reconhecido e vi, passar Halef na carreira pelo portão. Apontei para o estreito lugar que estava iluminado e pelo qual devia passar o terceiro, que perseguia o pequeno Hadji.

O seu vulto se delineava então envolvido pelos reflexos da luz. Estava vestido da mesma maneira que o açougueiro. Quando me passou pela mira, atirei. Mas vi que errara, pois como só tinha o braço esquerdo de fora, tive que apontar e atirar com a esquerda. Não há quem possa atirar de noite, em posição tão incômoda e apertada, enganado pelo fogo chamejante, com a carabina apoiada na face esquerda. Era quase impossível aquela pontaria.

Naturalmente retirei-me logo para o interior do quarto e ordenei a Osko e Omar:

- Ide ligeiro! Atravessai o pátio, e segui para a direita, rua acima! Halef está entre dois adversários.

Neste instante soaram vários tiros. Eram tiros de pistola. Os dois agarravam as suas espingardas.

- As espingardas não! Facas e pistolas. Ide, ide depressa!

A estas palavras, correram porta afora. Infelizmente não podia acompanhá-los. No meu estado vi-me obrigado a ficar.

O estalajadeiro ainda permanecia estarrecido, sentado na cadeira. As mãos na mesma posição, como no momento em que lhe arranquei a carabina. Desde o grito de Osko, ainda não fizera um movimento nem dissera uma única palavra.

- Ef... ef... fen... di! - gaguejou então. - Quê foi isto?

- Tu viste e ouviste tudo.

- Alguém at... at. . . irou?

Eu o peguei pelos ombros e sacudi-o.

- Homem, volta a ti! Estás duro de medo!

- Era comigo?

- Não, comigo.

- Pensei que, como eu vos auxiliei, quisessem matar-me.

- Não, tua cara existência não estava ameaçada, mas sim a minha. Mas fecha os tampos da janela; não vamos proporcionar outra ocasião para atirarem sobre nós.

Cambaleando, obedeceu a minha ordem. Decerto não era um covarde, mas a rapidez com que tudo sucedera, deixou-o tonto. Depois de ter fechado a janela, caiu novamente sobre a cadeira e eu tornei a acender o meu cachimbo.

- Fumas, efêndi? - perguntou admirado. - E eles, lá fora, estão brigando!

- Que posso fazer? Se fosses um homem decidido, correrias atrás deles!

- Obrigado! Não tenho nada com isto.

- Então fuma também!

- Ainda estou tremendo. Tua velha escopeta trovejou como um canhão.

- Sim, ela tem um baixo um pouco forte, a boa matrona. Vamos carregá-la logo. Viste como foi bom. Se estivesse descarregada, o caso teria terminado de forma pouco agradável para mim.

- Terias mais esta espingarda.

- Tu a tinhas na mão, enquanto a escopeta estava de jeito. Demais não sei se com aquela o efeito seria igual.

- Mas tu atiraste sobre o assassino!

- Não. Eu nada podia ver dele. Só vi o cano de sua carabina. Ele alvejou a minha cabeça. Não podia fazer outra coisa senão atirar para, com a minha bala, desviar o cano, e isto consegui.

Lá fora, entre as mulheres e crianças, irrompeu um grande tumulto. Elas naturalmente ouviram os tiros e depois viram os homens correr. Todos sabiam que os Aladji estavam perto, por isso se deixaram tomar da maior excitação.

Seguiu-se um profundo silêncio e a porta da sala da frente foi aberta. Osko, Omar e Halef entraram. O último em estado miserável. Suas roupas estavam sujas e rasgadas e da testa lhe corria o sangue pelo rosto abaixo.

- Estás ferido? - perguntei assustado. - É grave?

- Não sei: examina-me, sídi.

- Trazei água!

Como não houvesse água à mão, mergulhei o meu lenço no pote de cerveja e limpei o rosto do valente pequeno.

- Graças a Deus! Apenas um arranhão - consolei-o. - Em quinze dias estás bom.

- Melhor ainda! - riu Halef. - Mas a intenção era outra: queriam tirar-me a vida.

- Quem atirou em ti? Manach el Barcha?

- Não, o outro.

- Tu o conhecias?

- Não. Estava tão escuro, que não pude reconhecer o seu rosto, apesar de estarmos com as barbas tão encostadas, que nos podíamos beijar.

- Creio que foi o irmão do açougueiro.

- É bem provável, pois agarrou-me tal qual um açougueiro.

- Conta como foi! Enquanto isso, Omar pode ir buscar as ataduras na bolsa da minha sela.

- Bem o caso passou-se muito depressa. Quando botei a cabeça fora da janela, vi um homem deitado debaixo dela. Quis pular em cima dele, quando me seguraste por trás. Livrei-me, mas quando retirei as pernas, já ele se tinha levantado de um pulo e fugido.

- Era Manach el Barcha. Ele disse hoje aos outros três, quando eu os espiei, que gostaria de atirar sobre mim. Ele o conseguiu. É, pois, perigoso dar-se por invulnerável.

- Oh! O caso era sério. Estavas tão a jeito. Os patifes julgaram a ocasião oportuna e tentaram acabar contigo. Como Manach queria certificar-se se tua cabeça era mais dura que a bala, recebeu a incumbência de matar-te. De qualquer maneira fariam esta tentativa de assassinato. Disto podes estar certo.

- É realmente provável.

- Bem, adiante! Ao pular caí sobre uma coisa comprida e estreita. Deve ser uma espingarda que ainda está lá fora.

- Decerto lhe foi abatida da mão, com o meu tiro. Ele recebeu um empurrão ou golpe que o derrubou.

- De forma que perdeu os sentidos por algum tempo, senão não continuaria deitado até à minha chegada. Ergui-me num momento e segui-o incontinenti. Quando ele passou pelo portão, reconheci-o, e gritei por vós...

- Eu também o reconheci.

- Ele correu como uma bala, mas eu o segui nos calcanhares. Aí ele tropeçou e caiu. Eu estava tão perto, que não pude parar e caí por cima dele. Aproveitou-se então desse incidente para erguer-se novamente e continuar a correr.

- Foi uma tolice! Podia ter-se jogado sobre ti.

- Certamente. Estes bandidos não têm jeito.

- Quem atirou pois?

- Eu. Ainda ao levantar, arranquei da pistola e alvejei-o. Mas fui tolo, pois atirei quando corria. Se eu tivesse ficado parado para alvejar com calma, tê-lo-ia acertado na certa, pois minhas pistolas alcançam longe. Serviu-me a lição.

Apareceu Omar com as bagagens.

- Lá fora, diante da janela, está a espingarda de Manach - disse-lhe Halef; - vai buscá-la.

- Mas quero ouvir também a tua história.

- Eu espero.

Quando Omar trouxe a espingarda, verificamos que Manach deveria ter recebido um tremendo golpe, pois a coronha apresentava uma racha. Via-se, claramente, na boca, onde a minha bala tinha acertado.

- Ela, porém, não está carregada - opinou Halef, limpando constantemente o sangue do rosto, - portanto deve ter atirado.

- Naturalmente! Ao mesmo tempo que eu.

- Então a tua bala desviou a arma dele para cima, e a bala deve estar metida lá na parede ou no teto.

Osko tomou a lâmpada e não demorou a achar o buraco da bala.

- Lá está - disse ele. Deveria estar na tua cabeça, sídi, se eu não tivesse visto em tempo a arma dirigida contra ti.

- Sim, devo-te a vida.

- Orgulho-me disso. Tenho uma grande dívida contigo, pois livraste a minha filha das garras deste Abrahim Mamur. Sempre me foi possível prestar-te um diminuto serviço.

- Não deves, em absoluto, chamá-lo de diminuto. Fica certo do meu reconhecimento.

- Não deves agradecer-me. Um outro seria morto, a despeito do meu aviso. Como tiveste a idéia de rebentar-lhe o cano com um tiro? Se apenas te inclinasses!

- Mesmo assim ele teria atirado e teria acertado em ti. Ele já estava de prontidão.

- Foi então para salvar-me também?

- Assim pensei. E como achamos a sua bala, podemos procurar também as minhas. Resvalaram para o lado e para cima, pelo cano da espingarda dele. Vejam a beirada da janela.

- É, estão metidas nos tijolos, bem perto uma da outra. Osko esgravatou-as.

- E aquela lá em cima vou buscar também - disse ele. Quero guardar as três balas como lembrança dessa hora. Mas continua, Halef!

Este contou:

- O resto tu sabes tão bem como eu. Alcancei Manach e o agarrei pelas costas. Ele deu um pulo formidável para o lado e desprendeu-se, com o que novamente eu caí. Desta vez ele foi mais esperto. Atirou-se sobre mim e pegou-me pela guela. Eu, então, puxei da faca para cravar-lhe entre as costelas, quando um outro interveiu. Quem foi, não sei, mas posso reconhecê-lo, pois atravessei-lhe o rosto com a faca, o que o obrigou a me soltar. Mas em compensação encostou-me um cano de pistola na cabeça. O sangue decerto o cegou, pois ele disse: “segura-o bem, Manach. Este esforçou-se para isso. Eu estava deitado, com o rosto para o lado. A boca da arma me batia na fronte. Joguei a cabeça para trás e ele atirou. Parecia-me que alguém havia passado pela minha testa um arame incandescente; reuni, então, todas as minhas forças para me livrar. Mas os dois seguravam-me bem, pelos braços e pelo pescoço. De repente, pude respirar; um deles soltou uma praga, pois fora agarrado por trás.

- Por mim - disse Osko, - eu o apanhei pela guela, mas fui apressado demais: não era o golpe decisivo. Ele libertou-se e fugiu.

- Sim, e enquanto isso, Manach fugia também - continuou Halef. Quase perdi o fôlego e quando recuperei o ar, Manach foi-se, sem despedir-se. É de uma sensação estranha e indiscritível a gente encontrar-se repentinamente frente à frente com a morte e ver-se a salvo no mesmo momento. Poucas pessoas, felizmente, fazem uma idéia dessa sensação.

A ferida de Halef era fácil de pensar e deixará, quando muito, um pequeno arranhão.

- Mais um sinal de bravura, meu bom rapaz - disse-lhe eu. - Que dirá Hanna, a pérola do seu sexo, quando souber destes teus rasgos de valentia?

- Ela sabe o que fiz por meu sídi, que ela muito estima. Oh! Quanto terei que contar! Haverá poucos entre os Beni Arab, que tenham feito uma viajem como nós! E depois, quando eu... escutai!

Ouvimos um som longínquo, como o silvar agudo de um mosquito. Tornando-se cada vez mais forte, logo reconhecemos a marcha do exército guerreiro, que voltava.

- Lá vêm eles! - exclamou o estalajadeiro. Só então teve ânimo para se levantar da cadeira.

- Trarão os prisioneiros?

- Qual! neste ínterim, estiveram na aldeia para atirar sobre mim, enquanto os valentes moradores passeiam - respondi eu.

- Senhor, apenas veio um! Os outros três com certeza foram agarrados.

- Pagarei mil piastras por cada um!

- Ainda não sabemos se tiveram êxito. Eu, como autoridade policial, devo recebê-los.

E se foi, provavelmente para prevenir o policia acerca de qualquer confissão que pudesse fazer. Deixou as portas abertas, para que pudéssemos ver a entrada do glorioso exército.

Primeiro apareceu o Muschir, manejando a sua vara, como um tambor o seu bastão. Seguiu-se a banda, fazendo música a toda força, mas sem compasso e harmonia: cada um executava à sua vontade.

Atrás, vinham os heróis, portadores de um entusiasmo de que só poderia ser capaz um Rolando ou um Bayard. Quatro deles carregavam padiolas, feitas de galhos e folhagem e sobre elas jaziam os dois mortos: o açougueiro e o antigo guarda-prisão.

Na sala da frente fizeram alto. A banda ainda deu um toque final e em seguida espalhou-se em profundo silêncio.

O aroma dos carneiros assados, vindo de fora, penetrava na sala. O marechal abriu as narinas, absorveu gostosamente o bom cheiro e veio dignamente ao nosso encontro.

- Efêndi - dise ele, - a campanha está terminada. Aos dois Aladji eu mesmo abati. Mereço, portanto, as duas peles de carneiro.

- Onde estão os cadáveres deles?

- Joguei-os ao rio.

- E onde estão os outros dois celerados?

- Também na Sletowska. Afogámo-los de uma maneira admirável

- E quem os abateu?

- Não se sabe ao certo. Teremos que tirar a sorte para ver quem recebe as outras duas peles.

- É esquisito! Afogastes os dois bandidos para que desaparecessem os seus cadáveres?

- É o meio mais prático de se lidar com essas criaturas.

- Sim, e não é fácil provar que o marechal mente.

- Senhor, não me ofendas!

- Desde quando os mortos entram na aldeia, para atirarem através da janela sobre as pessoas, como alguém fêz comigo?

Ele assustou-se.

- Senhor, que queres dizer com isto?

- Que esses quatro homens, contra os quais daqui saístes, vieram até cá e atiraram aqui dentro.

- Então foram os espíritos deles.

- Tu mesmo és um espírito. Acreditas neles?

- Sim, os espíritos existem!

- Então recomendo a ti e ao teu valente exército que comais os quatro espíritos dos carneiros, pois os corpos não tereis.

- Efêndi, tu o prometeste! Confiamos na tua palavra.

- Eu prometi, sob uma condição que não observastes. Se me tomas como um homem ao qual se pode mentir à vontade, mandar-te-ei administrar o chicote. Tenho poder para isso. Pergunta a Kiaja, que ele o confirmará.

Falei em voz alta, para que todos me pudessem ouvir. Ficaram muito sérios e aproximaram as cabeças murmurando. O polícia parecia um pobre Cristo. O Kiaja, que se achava bem próximo de mim, julgou necessário tomar o partido do seu dependente, mas sem me fazer uma concessão. Disse ele pois:

- Efêndi, estás redondamente enganado. Ninguém te mentiu. Nós não nos atreveríamos a tal!

- Sim, vós vos atrevestes a mentir-me, a enganar-me e tomar-me por um tolo. No entretanto, sabeis que gozo a proteção do grão-senhor e tenho recomendações das altas autoridades. Que é um Kiaja, um polícia, comparado a mim?! E eu venho de um país onde um menino é mais instruído do que o homem que aqui tendes por sábio e culto. Mesmo assim julgastes poder enganar-me. Até as crianças lá fora no pátio sabem que eu fui ludibriado, e nós, que somos a luz da ciência, não seremos mais sagazes do que eles? Não posso e não devo consenti-lo. Eu quero dar aos homens, Arpa suju, Raki e quatro carneiros assados, e, em troca, vós me pagais com estas mentiras! Ficai com a bebida! Os carneiros, porém, levarei amanhã para presenteá-los à gente mais digna.

Se nem uma das minhas palavras causou a impressão desejada, esta última ameaça caiu em cheio. O estalajadeiro encolheu-se todo constrangido. O “marechal” aspirou o aroma do churrasco, apertou os lábios e coçou, embaraçado, a perna. O virtuoso do trombone foi, porém, o homem à altura da situação. Com largos passos acercou-se de nós e plantando-se na minha frente, disse:

- Efêndi, os carneiros não queremos perder. Pesaria na tua consciência tê-los subtraído a nós. Por isso quero livrar-te de recriminações secretas e dizer-te a verdade.

- Vejo que, pelo menos, há um homem honesto aqui - redargüi eu.

- Oh! Somos todos honestos, mas só um pode falar. Eu dou o compasso e tenho o som mais forte na minha Zurna, por isso tomo a palavra. Nós não lutamos, porém fomos à cabana para retirar os mortos. A água da Sletowska não viu nenhum cadáver. Se ordenas, dir-te-ei francamente como isso se deu.

- Fala!

- Eu estava justamente em casa, a polir um pouco a minha Zurna que ontem, recebeu uns golpes quando, abati com ela um inimigo meu. Nesse momento apareceu este polícia, que é meu cunhado, porque casou com a irmã de minha mulher. Falou-me em ti, nos Aladji e no que exigiste do Kiaja. Este último deu-lhe, porém, a ordem secreta de ir ao mato e de dizer aos Aladji que lhes escapaste e que fugissem porque em pouco tempo o exército dos nossos defensores viria para prendê-los.

- Tal qual o imaginei!

- O guarda da tranqüilidade pública, por motivo de parentesco e amizade, quis compartilhar comigo a glória de falar aos Aladji, pelo que me convidou para acompanhá-lo.

- Ou por outra, receiava ir sozinho, por isso te levou.

- Nisto te enganas. No seu como no meu coração, não impera o medo. Não temo o mais forte inimigo, pois tenho aqui na Zurna uma arma tremenda, com a qual já cobri muita cabeça de calos. Assim é que nos pusemos em marcha.

- Mas muito devagar?

- Sim, pois tínhamos que conferenciar acerca da melhor maneira de realizar essa delicada missão. Seguíamos devagar o nosso caminho, gritando, de tempos em tempos, aos Aladji que não íamos para matá-los.

- Isto era realmente uma sábia medida vossa, pois do contrário têr-vos-iam atacado.

- Oh! Não! Nós assim fizemos para não os assustar demasiadamente; mas eles recompensaram a nossa delicadeza com ingratidão.

- Quer dizer - interrompi eu - que eles se riram de vós?

- Oh! Não! Mas como se mostraram muito ingratos, vou te dizer a verdade.

- Em que consiste esta ingratidão?

- Em chicotadas que vibraram abundantemente em meu cunhado. Comigo é que eles não se atreveram a proceder da mesma maneira.

- Alto lá! - interrompeu-o agora o polícia. - Então um dos Aladji não te deu uma bofetada, que te postou no chão?

- Enganas-te, estava escuro e as pancadas caíam tão cerradas sobre ti, que nem podias olhar em redor e muito menos observar o que se passava comigo. As tuas palavras não têm, pois, o valor de um testemunho de importância.

- Não briguem! - ordenei. - Que fizeram então os Aladji?

- Perguntaram qual era o intuito do nosso grupo de guerreiros, e nós declaramos que, primeiramente, devíamos prendê-los e depois retirar o velho Mubarek e os mortos da cabana. Eles consideravam o velho Mubarek como morto. Quando souberam que estava vivo, ficaram contentes e resolveram ir imediatamente para lá, para não o deixar cair em tuas mãos. Meu cunhado ainda recebeu um pontapé de...

- Não, fôste tu que o recebeste! - gritou o polícia.

- Cala-te! Se tu o recebeste ou eu, é indiferente, pois somos parentes muito próximos. Deram, pois, a um de nós mais alguns pontapés e se retiraram cheios de medo, sob o manto noturno da terra.

- Em seguida voltaste para reunir os heróis?

- Sim. Demoramos algum tempo para que não viesses a suspeitar que tivemos de apressar-nos!

- E disseram a todos que nada tinham que receiar, que os inimigos fugiram orgulhosos?

- Sim, senhor.

- Que o único perigo, que os aguardava, consistia em beber Arpa suju e comer assados de carneiro?

- Naturalmente lhes confiamos isto para fazer realçar a tua bondade.

- Não encontraste, durante a expedição, um rasto dos Aladji?

- Não só o rasto, mas os Aladji em pessoa.

- Ah! Onde?

- Na extremidade da aldeia. Lá estavam postados a cavalo: dois à direita e dois à esquerda do caminho, e o Mubarek estava com eles. Nós passamos entre eles executando a música de Janitscharos. Não é brincadeira buscar dois cadáveres, de noite, no mato escuro! Ei-los lá, agora, na sala da frente.

E com um gesto apontou para a porta. Respondi então:

- Tudo que me contaste eu já sabia. Mas como, finalmente, confessaste a verdade, não quero subtrair-vos o saboroso manjar.

- E quem recebe as peles?

- Quem é o homem mais pobre da aldeia?

- Chasna, o lenhador, que está lá no fundo, com o seu machado.

- Que ele as receba. Levai os mortos e mandai trazer a Arpa suju. Esta ordem foi recebida com júbilo. Grandes e bojudos jarros, cheios de cerveja, foram trazidos. O turco há pouco conhecera a cerveja, por isso não tinha nome próprio para ela. Usava para designar essa bebida, da expressão tcheco-eslovaca Piwa ou da denominação já mencionada. Arpa quer dizer cevada, Su é água e ju é o genitivo da palavra Su. Arpa suju significa, pois, literalmente, água de cevada, uma denominação que não tem nada de recomendável.

Enquanto cada um procurava arranjar uma vasilha para beber, puxei o guarda para um lado e perguntei:

- Para onde ides levar o cadáver do açougueiro?

- Para a sua casa, aí defronte.

- Naturalmente acompanharás o transporte?

- Não só acompanharei como até chefiá-lo-ei, pois sou a mão direita da lei.

- Então vou te dar uma incumbência. Estou convencido de que és um diplomata inteligente e consciencioso e que sabes dar o jeito devido às coisas. Eu gostaria que procurasses o irmão do açougueiro.

- Mas isso é muito fácil.

- Talvez não o seja. Ele pode ter motivos de não querer ser visto.

- Oh! Eu sou a polícia, comigo ele tem que vir.

- Assim não! Quero que não uses de violência, mas que procedas com prudência e astúcia.

- Sou o homem de que precisas.

- Procura, pois, encontrá-lo. Dar-te-ei cinco piastras se o conseguirei.

- Isto é tão certo que te peço dar-mas imediatamente.

- Não meu caro. Mentiste já uma vez; daqui por diante serei mais prudente. Não penses que podes chegar e dizer que o viste, sem que isso corresponda à verdade.

- Senhor, não passará por meus lábios uma só palavra menos verdadeira. Mas que é que queres saber?

- Mais tarde! Devemos vê-lo. E isto é o bastante.

- Considera, porém, que exiges um grande sacrifício. Enquanto eu me ausento, os outros bebem a preciosa Arpa suju.

- Receberás a tua parte.

Ele saiu. Vi quando induziu dois homens a levarem o cadáver do açougueiro. O do guarda foi por enquanto levado a um recanto escondido.

Agora estava tudo em ordem. Uma parte dos homens, de pernas trançadas, estava sentada no chão; a outra parte, sentada à nossa moda, ocupava as mesas. Seguravam os heróis toda a classe de vasilhas possíveis e imagináveis, servindo-se delas para beber. Lá fora se divertiam as mulheres e as crianças em roda do fogo. Também lhes foram dados alguns jarros de cerveja. Os meninos e as meninas estavam sobremodo interessados em recolher a gordura que pingava dos carneiros sobre o fogo. Um tinha para esse fim uma pedra, os outros um pedaço de pau, com o qual aparava as gotas para lambê-las em seguida.

Um garôtinho, de talvez oito anos, tinha uma maneira mais gentil e engenhosa para conseguir o prazer tão ardentemente almejado: segurava o seu pequeno fêz debaixo do carneiro até aparar algumas gotas, revirava-o depois de dentro para fora e esfregava tanto o lugar em questão com a língua, que chegava a ter a ilusão de se saciar. Quanto a gordura penetrava demais no pano, ele, sem cerimônia, fazia uso dos dentes. Mandei chamá-lo depois e examinei o fêz. O pequeno o tinha roído em várias partes, a ponto de o deixar cheio de buraquinhos. Muito se alegrou quando lhe recompensei este trabalho árduo e paciente com uma piastra.

Uma das fogueiras foi, por assim dizer, sitiada por um pequeno grupo de conspiradores. Duas mulheres viravam constantemente o espeto. No momento em que uma se descuidava um pouco, já um membro do bando arrojado estava presente para lamber a parte mais apetitosa do carneiro, fugindo em seguida.

Não era um caso tão simples, pois algumas vezes corriam o risco de pegar fogo. Felizmente não vestiam plisses de seda e rendas de bruxelas. Se um conseguia o seu intento, era ovacionado pelos cúmplices com um uivo honroso. Mas se recebia, de uma das mulheres, uma boa palmada ou até uma bofetada pesada, coisa fatal em nove entre dez tentativas, era alvo de uma estrepitosa gargalhada de escárnio.

Havia vários quadros dignos de observação, que se resumiam num total interessante. Todos, velhos ou moços, não se constrangiam mais: as exterioridades cerimoniosas com as quais o oriental gosta de se apresentar aos estrangeiros, foram lavadas pela Arpa suju. Aos poucos se atreveram a chegar-se a nós e por fim estávamos constantemente rodeados de um grupo de rapazes folgazões, dos quais eu podia colher elementos para fazer primorosos estudos.

Quando o polícia voltou de sua incumbência, anunciou-me:

- Senhor, consegui-o! Eu o vi, mas foi uma árdua tarefa! Creio que terás de me dar dez piastras em vez de cinco.

- Por quê?

- Porque precisei triplicar a minha astúcia. Quando perguntei por ele, recebi a resposta de que estava ausente. Mas fui esperto e disse que tinha que lhe comunicar algo importante sobre os últimos momentos do morto. Aí ele me mandou entrar. Estava num quarto, sozinho. Quando o vi, assustei-me, pois tinha um ferimento comprido e fundo sobre o nariz. Partia da testa e ia à outra face. Ao lado dele encontrava-se uma vasilha com água para refrescar o ferimento.

- Perguntaste-lhe como o obteve?

- Certamente. Disse que o machado, que estava dependurado à parede, caíra sobre o seu rosto.

- E quis ouvir a tua notícia importante?

- Eu disse-lhe que seu irmão ainda não estava bem morto e que soltou o último suspiro quando o ergui.

- Isto foi tudo?

- Não é bastante? Deveria sobrecarregar a minha delicada consciência com uma mentira ainda maior? Por um pequeno suspiro ainda posso responder diante do anjo da decisão. Mas se eu dissesse que o morto ainda fêz um longo discurso, minha alma teria sido sobrecarregada de uma forma impossível.

- A respeito disso, eu não te obriguei a dizer uma mentira. E dez piastras soam muito para um suspiro.

- Muito? Para um homem de tão poderosa influência e natural virtude? Se eu possuísse os predicados do teu caráter, a intensidade dos teus sentimentos, a riqueza do teu coração, a gentileza do teu modo de pensar, presentear-me-ia com cinqüenta piastras!

- Pois, mas presenteia também!

- Digo a mim, não a ti! Além disso, o caso não correu tão calmo, como eu queria.

- Como então?

- Ele ficou zangado, levantou-se e soltou uma praga horrenda. Disse que eu me arrependeria. O resto podes imaginar.

- Não. Tão claramente, como julgas, não posso imaginar a situação.

- Bem, recebi o que geralmente se chama uma sova, mas considero-a conseqüência da minha grande dedicação por ti.

- Fortes pancadas, hein?

- Ora se foram!

- Isso deleita-me muito!

- Mas não a mim. Terei de tomar bastante remédio para me curar, uma fricção externa de Raki e, como refrescante interno, Arpa suju. Por fim, assado de carneiro, para reforço da agilidade comprometida.

- Creio que precisarás também do Raki para uso interno; mas, a respeito de tua agilidade, prova-a agora sumindo-te da minha presença. Aqui tens dez piastras!

- Senhor, tuas palavras são ofensivas, mas teus atos as minoram. Conquistaste toda minh'alma e meu coração, e meus rins respiram somente o prazer da dedicação e afeto pelo teu modo gentil e incomparável.

- Vai-te, polícia, senão te ensinarei a pular!

Estendi a mão para o cabo do meu chicote e imediatamente o polícia desapareceu. Sem mais demora, começou a distribuição do assado. Para que não houvesse briga, Halef tomou a seu cargo a partilha, do que ele entendia excelentemente. Os melhores pedaços foram postos à sorte. Nós recebemos pedaços acima do rabo. Eu desisti, porém, deste petisco, porque justamente estes pedaços, em conseqüência de sua situação exposta no espeto, fizeram conhecimento mais assíduo com as línguas dos pequenos gulosos.

Demais o hospedeiro teve o especial cuidado de nos oferecer um bom e apetitoso jantar. A este respeito, podíamos estar satisfeitos com ele.

Após um extermínio quase completo dos quatro carneiros, a orquestra fêz-se ouvir a um canto do pátio. Estava transformada agora numa orquestra de canto e baile.

O que nos foi dado ouvir era realmente jocoso. Dançaram, primeiramente, apenas os homens; mais tarde apresentaram-se também algumas mulheres. A dança consistia em alguns saltos irregulares e selvagens e em esgares mais ou menos desageitados. Um único par apresentava um jogo pantomímico sofrível, sendo, porém, acompanhado apenas de guitarra e violino.

Entre as danças, fizeram-se ouvir os cantores. Executavam solos e choros.

O canto em solo tinha um caráter melancólico, mas possuía, pelo menos, certa melodia e um vislumbre de ritmo no acompanhamento. Os cantos em coro, quase todos guerreiros, foram cantados ou, por outra, berrados em uníssono, interrompidos por gritos que nos ameaçavam romper os tímpanos. O acompanhamento estava à altura. O trombone, o tambor e a flauta desempenhavam o papel principal.

Bem tarde - meia-noite passada, - vi chegar um cavaleiro que queria hospedagem. Era um homem de pequena estatura. Montava um roatungo ossudo e velho, muito maltratado.

Trocou algumas palavras com o hospedeiro e este comunicou-me que talvez tivesse no dia seguinte um companheiro de viagem muito útil.

Lembrei-me logo daquele sujeito, do qual falavam os dois Aladji, que devia entregar-me em suas mãos. Chamaram-no de Suef, um nome genuinamente árabe.

Ele devia entrar em atividade, caso o ataque de hoje fracassasse. Entretanto, o ataque premeditado nem se realizou. Era, pois, de esperar que ele começasse a agir, de acordo com a sua missão.

Era possível que tentasse, ainda esta noite, acercar-se de nós, e neste caso podia ser ele o recém-chegado. Eu devia agir com cautela e sondar prudentemente o terreno.

- Por que me falas em companheiro? - perguntei ao hospedeiro.

- Não precisamos de ninguém.

- Creio que precisarão! Conheces o caminho?

- Nós nunca conhecemos previamente os caminhos que trilhamos neste país, e mesmo assim chegamos sempre ao nosso destino.

- Então não precisas de um guia?

- Não.

- Como quiseres! Julgava que te ia prestar um favor.

Fêz menção de retirar-se. Não parecia que o recém-chegado lhe tivesse dado uma indicação formal, por isso indaguei:

- Quem é este, de quem falas?

- Ora, reconheço que não é uma companhia digna de vós. Ê um pobre alfaiate que nem tem domicílio certo.

- Como se chama?

- Afrit é o seu nome.

- Um nome pouco adequado à sua figura. Chama-se “gigante” e é quase anão.

- Ele não tem culpa de ser chamado assim: deve-o ao pai. Quem sabe se este foi também pequenino assim, e por isso desejou que seu filho crescesse mais que ele?

- Ele é daqui?

- Onde ele nasceu, ninguém sabe. É conhecido em toda parte como o alfaiate-viajante. Onde encontra trabalho, estabelece-se e demora até terminá-lo. Dá-se por satisfeito com a comida e uma pequena recomendação.

- Ele é honesto?

- Em alto grau. Até tornou-se proverbial o seu desinteresse. Honesto como o alfaiate-viajante, costuma dizer-se.

- Donde vem hoje?

- De Sletowo, ao norte daqui.

- E para onde vai?

- A Uskub e mais além. Como também queres ir para lá, julguei oportuno recomendá-lo a ti. A estrada direita é difícil de achar.

- Já falaste com ele a nosso respeito?

- Não, senhor. Ele nem sabe que há estrangeiros aqui. Apenas perguntou se poderia pousar aqui até amanhã cedo. Eu quis dar-lhe trabalho, mas ele não pôde aceitar, porque é esperado por um caso de doença.

- Onde está agora?

- Atrás da casa. Foi levar o cavalo para o pasto. Pelo cavalo podes deduzir quão pobre ele é.

- Então deixa que entre e venha ser nosso hóspede.

Após pouca demora, chegou. Era de constituição fraca e muito pequena e também muito, mal vestido. Parecia acabrunhado. Procurou um recanto modesto e aí se sentou. Armas, afora uma faca, não trazia consigo. Sacou do bolso um pedaço de bolo de milho, duro, para comê-lo. Este pobre coitado, certamente não era um aliado de bandidos e salteadores. Convidei-o a sentar-se perto de nós e servir-se dos restos do nosso jantar, que ainda estavam em cima da mesa.

- Senhor, és muito amável - disse ele cortesmente. - Realmente tenho fome e sede. Mas sou um pobre alfaiate e não posso sentar-me ao lado de tão nobres senhores. Se queres dar-me alguma coisa, aceito-o agradecido, mas peço-te licença para comê-lo aqui.

- Como quiseres. Halef, serve-o!

O Hadji ofereceu-lhe tanta comida, que era suficiente para saciar várias pessoas; também lhe deu cerveja e Raki.

Quando o homem se satisfez, aproximou-se e deu-me a mão, agradecendo por tudo com palavras respeitosas. O seu rosto era mirrado e exprimia honestidade, e seu olhar era tão franco, que logo simpatizei com ele.

- Tens parentes? - perguntei-lhe.

- Nenhum. Tinha mulher e filhos, mas morreram, há dois anos, de varíola. Agora estou só.

- Como te chamas?

- Chamam-me em toda parte o alfaiate-viajante, mas o meu nome é Afrit.

- Podes dizer-me onde nascestes?

- Por que não? Sou de uma aldeia das montanhas do Schar Dagh, de nome Weicza.

Ah! era este o lugar, onde o guarda-prisão moribundo dissera que existia o Khan Kara-Normam. O encontro com este pobre homem podia ser de grande proveito para mim.

- És conhecido lá?

- Muito bem, pois passo freqüentemente por aquele lugar.

- Quando voltarás para lá?

- Agora mesmo. Sigo para casa por Uskub e Kakandelen.

- Para fazer uma visita?

- Não. Mora lá um homem miraculoso, de cujo auxílio eu necessito, pois estou doente.

- Não preferes consultar um médico verdadeiro?

- Já o fiz, mas em vão. O homem miraculoso já me proporcionou grande alívio.

- De que sofres?

- Dizem que tenho pedras no fígado.

Ele parecia mesmo sentir grandes dores internas. Tive muita pena dele.

- Quando segues daqui?

- Amanhã cedo.

- Para Uskub?

- Não é bem para lá. Uskub fica muito distante, para se alcançar em um dia de viagem.

- Existe algum bom albergue no caminho?

- Vários.

- Queres levar-nos?

- Como poderei seguir convosco? Nem sei falar com senhores como vós.

- Mas não estás falando agora comigo? Agradas-me bem tal qual és. Se te convém, vamos, pois, juntos e eu te recompensarei pelos teus serviços de guia.

- Não fales assim! É uma honra para mim poder estar perto de vós, e em companhia viaja-se melhor do que só. Se assim o ordenas, seguirei convosco.

Dito isto, o caso estava resolvido, e ele sentou-se novamente no seu lugar. Mais tarde deu boa-noite a todos e foi se deitar. Os companheiros também concordaram com a minha impressão de que o homem era honesto, c o estalajadeiro confirmou-o mais uma vez.

Aos poucos o pátio e a sala da frente, ficaram vazios e já era tempo de nos deitarmos. O dono da casa preparou-me um leito macio sobre o divã. Os outros, entretanto, tiveram que dormir junto dos cavalos, porque não queriam deixá-los sem guarda, principalmente naquele lugar.

Quando me vi só, fechei á porta por dentro. As janelas estavam também bem fechadas, e, confiando no meu bom ouvido, adormeci despreocupadamente.

 

O Miridito

Na manhã seguinte, só acordei quando Halef bateu à porta. Fui apalpando a parede até à janela, para abri-la. A clara luz do dia entrava em jorros. Dormira demais, mas na casa tinham evitado qualquer ruído para que eu não acordasse.

O alfaiate teve que almoçar conosco. Depois paguei a conta, e aprontamo-nos para seguir.

O estalajadeiro tinha-se ausentado por um curto espaço de tempo. Dirigiu-me, agora, um entusiasmado discurso de despedida, que terminou, fazendo a seguinte observação:

- Senhor, nós nos separamos em amizade, apesar de me teres proporcionado muitas preocupações. Tudo acabou bem e ainda quero dar-te um aviso. Acabo de vir da casa do açougueiro, onde, como vizinho, fui levar os pêsames. Não pude ver o irmão do morto. Disseram que ele havia saído. Mas no pátio vi o melhor cavalo do açougueiro, selado e aparelhado. Isto te diz respeito.

- Talvez ele tenha um negócio.

- Não julgues isso! Se ele realmente estivesse tão ferido, como o meu polícia me disse, então só a vingança o tiraria de casa. Toma cuidado!

- Que cavalo viste?

- Um pardo com uma pinta branca. É o melhor cavalo da redondeza. Se o homem tenciona seguir-te, não voltará antes de estares morto, pois pelas leis da vindita, ele seria considerado desonrado se te deixasse escapar.

- Agradeço-te pelo aviso. Adeus!

- Adeus! E não te assustes se saíres pelo portão!

- Que me poderá assustar?

- Verás e também ouvirás!

Pusemo-nos em marcha. Só então abriram o portão. Eu seguia na frente. Ao atravessar o umbral, no momento em que o meu morzelo punha a cabeça para fora, ouviu-se um estrondo seguido de um barulho infernal.

O morzelo empinou-se assustado e começou depois a escoucear. Tive que me esforçar para contê-lo.

E que ruído espetaculoso era esse? Apenas os músicos que me honravam com um concerto de despedida. Lá estava a orquestra guerreira. O trombone deu o estrondo inicial, trovejando e rumorejando, seguido de outros instrumentos. Por fim, o trombonista, com um trejeito dramático, tomou de sua Zurna e deu o sinal de silêncio.

- Efêndi - disse-me o proprietário, - depois de nos proporcionares ontem tão elevada honra, queremos pagar-te na mesma moeda, postando-nos à testa do teu cortejo para acompanhar-te até à entrada da aldeia. Espero que não nos negarás este pedido.

E, sem mais preâmbulos, o cortejo se encaminhou, debaixo de um ruído ensurdecedor. Fora da aldeia, Halef pronunciou um discurso de agradecimento a estes senhores que em seguida voltaram às suas casas. Nós, porém, seguimos em direção de Warzy, de onde viemos ontem. De lá desviava-se o nosso rumo de hoje do de ontem, pois tínhamos que ir a Jernely.

Quando estava além da ponta de Sletowska, dirigia-me a Halef:

- Continua a passo. Esqueci-me de uma coisa. Tenho que voltar, mas não demorarei.

Eles seguiram. Mas eu nem cogitei de voltar à aldeia; bem outra era a minha intenção; desta nada quis dar a perceber ao alfaiate. Ele ainda me era muito estranho para que pudesse merecer toda minha confiança.

O irmão do açougueiro queria vingar-se, sobre isso não restava dúvida. Ele tinha o seu cavalo pronto para seguir-nos. Se realmente esta era a sua intenção, devia pôr-se a caminho, logo depois de nós. Bastava esperar algum tempo, para ver, se tínhamos motivos para temê-lo. Por essa ponte ele devia passar, de qualquer maneira.

Ocultei-me, com o meu cavalo, entre os arbustos, à beira do rio, e esperei.

Não me enganara. Cinco minutos mais tarde, apareceu ele a trote pela ponte. Montava o pardo malhado de branco. Na sela tinha uma espingarda dependurada e um machado ao lado. Seu rosto estava desfigurado por um emplastro que lhe cobria boa parte da face.

Não tomou a direção de Warzy: seguiu o rio até à sua embocadura no Bregalnitza; um pedaço mais adiante, tomou a direção dos despenhadeiros íngremes que sustentam no seu dorso o planalto de Jernely.

Eu o segui, cautelosamente, com um bom binóculo na mão. O morzelo me levava tão macia e comodamente, que eu não perdia de vista o distante cavaleiro.

Passamos pela estrada que conduz de Kara-Normam a Warzy, e daí o segui através de campos planos, rodeados de pequenas ilhotas, formadas pelos arbustos.

Aqui era mais difícil observá-lo. Segui, pois, o seu rasto e este era bem claro.

À esquerda, estavam os despenhadeiros. O rasto seguia para o encontro. O capim havia terminado, começando então um caminho de pedregulho. Ali o rasto era difícil de reconhecer, mas mesmo assim não o perdi. Eu estava bem à beira do abismo, à margem do qual ele vinha vindo.

De repente, ouvi, na minha frente, o relinchar de um cavalo. Neste momento eu tencionava me desviar de um arbusto, entre cujos galhos pude avistar o pardo emaranhado perto de um tronco. A sela estava vazia.

Avançando mais um passo com meu cavalo, vi o Miridito caminhando devagar e olhando bem para o solo. Não tardou em desaparecer atrás do primeiro arvoredo.

Quem ou quê estava ele procurando? Gostaria de sabê-lo. Não podia espreitá-lo, pois não era possível segui-lo, montado, porque ele me veria logo; e a pé, não era possível, porque eu não podia caminhar.

Mas uma coisa era viável, se houvesse tempo para isso: inutilizar a sua espingarda. Estava pendurada na sela. Na verdade, eu não tinha tempo para estrair a bala, mas havia uma outra forma de fazê-la negar fogo. Se ele me surpreendesse, nada de mal haveria, pois eu estava mais do que à altura de enfrentá-lo. Isso se ele não tivesse companheiros, pois pretendia encontrar-se ali com vários deles.

Apeei-me sem demora e agarrei a minha carabina, em parte para servir-me dela como bengala, em parte como arma de defesa. Poucos passos até ao pardo eu podia arriscar. Quando o alcancei, tirei a espingarda da sela, puxei do gatilho e tirei a cápsula fulminante. Tirei depois um alfinete do casaco e finquei o mais profundamente possível no ouvido da peça, virando-o de um lado para outro até quebrá-lo. O orifício estava assim inteiramente tapado e a espingarda inutilizada como um canhão pregado. Tornei a endireitar a escopeta e baixei o gatilho. Recolocando-a conforme a tinha encontrado, voltei ao meu morzelo e montei.

Achava-me muito perto dele. Voltei para uma moita mais afastada, e lá parei. Passado algum tempo, ouvi o trotar de cavalos e vozes humanas que se avizinhavam.

- Esperamos muito tempo - ouvi dizer. Se não me enganava, era Barud el Amasat. - Não vamos segui-los um dia inteiro inutilmente. É preferível irmos adiante e esperá-los. Enquanto isto, podemos descansar até que eles cheguem.

- Esses cães sairam tarde de mais - respondeu um outro, cuja voz conheci. Era o Miridito. - Também para mim o tempo tornou-se longo. Mas agora vou aproximar-me.

- Toma cuidado, desta vez, para que não fracasses como ontem à noite.

- Agora é outra coisa. Hoje, ele não me escapará. Até carreguei o cano com pedaços de chumbo.

- Toma cuidado! Ele é invulnerável!

- Se está à prova de balas, não estará à prova de pedaços de chumbo.

- É possível que tenhas razão. Esta idéia devíamos ter tido há mais tempo.

- Demais não acredito neste conto.

- Oh! - ouvi responder Manach el Barcha. - Eu, ontem à noite, carreguei com todo cuidado, e, encostando-me à janela, apoiei o cano sobre o parapeito. Depois apontei diretamente sôbre a cabeça dele, e, quando atirei, ouviu-se um estrondo medonho. Nesta ocasião, o meu mosquete jogou-me para trás. Que eu não acertei, tu mesmo o viste.

- Sim eu estava na porta de casa. É milagroso. Eu podia ver-te contra a luz da lanterna que ardia no quarto. E também vi este maldito do inferno, pelo menos meia cabeça. Eu te vi apontar e atirar, o estampido partiu com estrondo e explodiu como se o tivesses carregado com meio quilo de pólvora. Caiste ao solo, mas o homem lá estava de pé, são e salvo. Ainda hoje não o compreendo.

- É invulnerável!

- Bem, então vou tentá-lo mais uma vez com pedaços de chumbo, e se estes também não lhe fizerem mal, experimentá-lo-ei com o meu machado. Sou mestre em manejá-lo, mas este estrangeiro não teve jamais uma arma destas na mão. Não vou matá-lo pelas costas, pelo contrário, vou atacá-lo, francamente, de frente.

- Não te arrisques muito!

- Qual! Antes que tenha tempo de defender-se, está morto!

- Mas, e os seus homens?

- Não os temo.

- Imediatamente investirão sobre ti.

- Para isso não terão tempo. Pensai bem que eu monto o pardo! Demais vou escolher um lugar arborizado, onde, rapidamente, me ocultarei entre os arbustos.

- Esqueces que o morzelo é infinitamente superior ao teu pardo?

- Que mal pode fazer-me o morzelo quando estiver morto seu cavaleiro?

- Um outro o montará e te alcançará, talvez aquele pequeno diabo, que é lesto e ágil como um macaco.

- Seria do meu gosto. Então poderia devolver-lhe a de ontem.

- Bem, que tenhas boa sorte! Temos que vingar o teu irmão, é uma causa justa, que Alá recompensará com a vitória. Se, apesar de tudo, nada conseguires, virás ao nosso encontro. Sabes onde achar-nos, e hoje, à noite, resolveremos como acabar com aquele sujeito.

Agora vamos despedir-nos. Já sabemos que eles partiram e que estão em caminho para Uskub.

- Então não tomais o mesmo caminho que eles?

- Não, passaremos por Engely, emquanto eles passarão por Jerssely. Chegaremos muito antes.

- Assim é que posso seguir ainda algum tempo convosco. Se eu não vier hoje, quer dizer que tive má sorte, e vós jamais tereis ocasião de rever este efêndi, pois estará enterrado em qualquer parte. Adiante!

Novamente ouvi trote de cavalos, desta vez, porém, de cavalos que se afastavam. Deixei seguir, então, cautelosamente o meu morzelo. Avistei os dois Aladjis cavalgando os seus malhados. O Miridito sobre o pardo, Manach ei Barcha, Barud ei Amasat e o velho Mubarek, que estava sentado na sela com um ar fatigado, tendo o braço atado a um lenço que pendia do pescoço.

Se soubessem que eu me achava dez passos atrás deles! Que resultaria? Bastava meu cavalo relinchar e eu estava descoberto. Mas o inteligente animal sabia o que significava, quando eu lhe tapava, por um momento, as narinas com a mão: não fazia um só ruído.

Podia reunir-me aos meus companheiros, que já tinham deixado Warzy atrás de si. Enveredei para a direita, de maneira alguma tocando neste lugar.

Não conhecia, em absoluto, a região, e também não havia uma boa estrada de Warzy e Jerssely, segundo me informara o alfaiate. Mas, apesar disto, achei o rasto dos meus, três quilômetros além da primeira aldeia, a leste, e seguí-o. Guiou-me através de um valado fundo, semeado de pedras enormes, para um mato, em cujo solo macio ele tornou-se muito claro, o que me permitiu não só descansar os olhos como também cavalgar mais depressa. Dentro em pouco alcancei os meus companheiros.

- Sídi, agora mesmo ia pedir que esperassem por ti - disse HaíeL - Que foi que esqueceste?

Antes de responder, lancei um olhar prescrutador para o alfaiate. Ele não manifestava nenhuma curiosidade pela minha resposta.

- Eu queria ver o Miridito, o irmão do açougueiro - respondi. - Creio que ouviste do hospedeiro que estes irmãos se chamam Miridito.

- Que é que temos com este Miridito?

- Muito. Ele quer matar-me no caminho, alvejando-me com pedaços de chumbo ou com o seu machado.

- Como o sabes?

- Ele mesmo disse a pessoas amigas que pretendia deixar-nos morrer de fome e sede.

Relatei o sucedido, mas não disse que tinha entupido a arma do Miridito. Ao falar nisso, conservei o meu olhar firme sobre o alfaiate. Ele tinha um ar de realmente admirado e disse finalmente:

- Efêndi, que gente é essa? Existem mesmo criaturas tão malvadas?

- Sim! Como estás vendo!

- Oh! Alá! Não fazia a menor idéia a esse respeito. Que mal lhes fizeste?

- Isto saberás oportunamente, na continuação da viagem, pois não nos demoraremos em Uskub; daremos apenas uma chegada à cidade e continuaremos a marcha, em seguida, para Kakandelen e Prisrendi.

- Para a minha terra? Que satisfação! O que vos aconteceu eu soube hoje, de manhã pelos peões. Assim, estareis novamente ameaçados de morte. Isso é o bastante para inspirar receios.

- Podes separ-te de nós.

- Nem penso nisto. Talvez dependa somente de mim, para sairdes felizes desta empresa. Guiar-vos-ei de modo que este Miridito não vos ache. Eu vos levarei através de campos e montanhas. Mais tarde desceremos à célebre e frutífera baixada de Mustafá, que se estende de Uskub até Koeprili e onde estão construindo a nova estrada de ferro. Lá temos campo aberto. E se estiverdes de acordo, continuarei sendo vosso guia mesmo além de Uskub.

- É muito amável! Ao que parece, conheces muito bem o país.

- Apenas esta região, mas conheço-a muito bem.

- Nós somos estranhos e ouvimos algumas vezes falar de u