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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NADA É POR ACASO / Zibia Gasparetto
NADA É POR ACASO / Zibia Gasparetto

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NADA É POR ACASO

Romance Mediúnico ditado por Lucius

 

Uma mãe estéril, um menino indesejado, uma ligação de puro e profundo amor, reunidos em três histórias parecidas, porém com desfechos surpreendentes. Nesta emocionante história, aborda-se o tema de mulheres que buscam mães de aluguel para terem seus filhos. Marina, já formada em Direito, ao procurar emprego, encontra com Adele, mulher poderosa e presidente de uma empresa, que lhe propõe ter um filho com o marido de sua filha estéril, para que seu neto possa assumir seu império. Começam assim, as mudanças na vida de todos, e este plano, mesmo gerado na ambição, traz no ventre de aluguel um canal de união entre a mãe estéril e um filho do coração.

 

Marina estugou o passo, esbarrando nos transeuntes para abrir passagem. Estava atrasada. Ainda tinha de passar em dois bancos antes que fechassem e entregar aqueles documentos no escritório do Dr. Moura. Eram sigilosos e fora-lhe recomendado o máximo cuidado com eles, devendo ser entregues diretamente a ele.

Consultou o relógio de pulso e suspirou cansada. Por que tinha de ser tudo ela? No escritório de advocacia em que trabalhava, havia outros funcionários, mas o Dr. Olavo, seu chefe, parecia só ter olhos para ela. Sempre que havia algum documento importante ou transação mais complicada no banco, era ela quem ia.

— Você vai — determinava ele. — Sei que fará tudo certo.

Ela ia. Começara a trabalhar naquele escritório logo que entrara na faculdade de Direito. Havia lutado muito para pagar seus estudos. Sua família morava em Sorocaba, interior de São Paulo. Ofélia, sua mãe, era costureira, e seu irmão menor, Cícero, estava cursando o ginásio. Seu pai deixara a família quando Ofélia ainda estava grávida de Cícero, e nunca mais os procurara.

Quando Marina decidiu fazer faculdade em São Paulo, Ofélia foi contra:

— Somos apenas nós três — disse, triste. — O que faremos se você também for embora?

— Eu não vou embora — respondera Marina com voz firme. — Estou precisando ganhar mais para pagar os estudos.

— Você podia continuar trabalhando na farmácia do Seu José e estudar outra coisa.

— Eu quero progredir na vida, mamãe. Ser alguém. Não quero ficar atrás de um balcão a vida inteira. Vou continuar os estudos e me formar.

— Bobagem! Você já está com vinte anos. Logo vai se casar e deixar os estudos de lado.

Marina apertou os lábios e disse com raiva:

— Não eu! Vou cuidar de minha vida e não vou arranjar ninguém que venha atrapalhar. Pense bem, mãe: vou fazer carreira, ganhar muito dinheiro e levar vocês para São Paulo. O Cícero também vai precisar continuar os estudos.

— Eu ganho o suficiente para viver. Para que mais?

— Você faz o que pode. Mas tem nos sustentado toda a vida. Chegou a hora em que eu posso ajudar a manter a casa.

Ofélia sorriu.

— Boa intenção você tem. Mas, até que possa colaborar com as despesas, vai demorar. Quanto acha que pode ganhar em São Paulo? Depois, terá que se sustentar. Não vai ser fácil.

— Eu me arranjo. A Bete me escreveu. Ela está morando em uma pensão, e não é cara. Vou trabalhar na farmácia até receber o pagamento e depois irei para a pensão. As aulas só vão começar no mês que vem. Enquanto isso, procuro um bom emprego.

— Não me agrada você ficar lá sozinha. Não conhece ninguém.

— Posso tomar conta de mim.

Não houve argumentos que a fizessem mudar de idéia. Recebeu o salário e instalou-se na mesma pensão onde vivia sua amiga Bete. Interessada em fazer carreira na advocacia, procurou emprego e conseguiu ser contratada pelo escritório do Dr. Olavo Augusto Resende. Ele liderava um grupo de advogados que trabalhavam na área civil.

Marina começara modestamente como auxiliar. Desejando progredir, esforçava-se procurando aprender o que podia, interessando-se pelos negócios do grupo e fazendo mais do que lhe pediam. Educada, inteligente e, principalmente, arguta, Marina sabia como lidar com as pessoas. Os advogados do escritório logo perceberam que podiam contar com ela e a encarregavam dos mais complicados assuntos, felizes por se livrarem de atendê-los pessoalmente e seguros de que ela agiria a contento.

À medida que Marina ia avançando nos estudos, suas despesas iam aumentando, tornando sua situação difícil. Esse problema, porém, era amenizado pelos aumentos salariais que ela recebia como incentivo para completar o curso.

Fazia seis meses que Marina havia se bacharelado, e ela desejava mais. Olavo prometera-lhe algumas pequenas causas, para que ela pudesse ir conquistando a confiança dos clientes. Dissera-lhe:

— Em nossa profissão, é preciso paciência. O nome é importante. Você é boa, tem aprendido muito nestes anos aqui, mas ninguém a conhece. Precisa fazer nome.

Ela continuava trabalhando como antes, e as causas não apareciam. No escritório, era ela quem tomava a maior parte das providências jurídicas, redigindo petições, acompanhando o andamento dos processos, analisando-os, sugerindo providências, comparecendo às audiências, conversando com os advogados da parte contrária ou com os clientes e seus adversários.

Trabalhava agora mais do que antes. Havendo terminado os estudos, ficava até mais tarde. Muitas vezes levava processos para ler nos fins de semana.

Vendo-a assoberbada de trabalho, Bete meneava a cabeça contrariada:

— Estão abusando de você. Além de ficar lá até tarde todos todos os dias, ainda traz trabalho para o fim de semana? Não acha que é demais?

— Preciso adquirir experiência. A vantagem é minha.

— Enquanto isso eles lhe pagam pouco e ganham dinheiro à sua custa.

— Não seja mercenária! Eu gosto de trabalhar. Faço isso por mim, não por eles. Um dia ainda terei tudo quanto desejo.

— Se não acabar antes. Hoje tem um baile no clube em que o Carlos é sócio. Ele nos convidou. Vamos?

— Vá você. Prefiro ficar aqui.

— Você não tem jeito mesmo. O Marcelo está louco por você. Ele costuma ir a esse clube.

— Não estou interessada.

— Ele é um pedaço! Se fosse comigo, não ia perder a vez.

— Fique com ele.

— Não entendo você. Não namora, não sai, só trabalha. Desse jeito vai ficar para titia.

— Pouco me importa. Casamento não está em meus planos.

— Que horror! Não diga isso nem brincando. Eu, quando aparecer alguém de quem eu goste, caso mesmo. Não vejo a hora de ter família, de ser feliz.

— Pois eu não. Casamento não dá futuro. Eu quero mais é cuidar da minha vida.

Marina chegou ao banco e olhou desanimada para a imensa fila do caixa. Foi falar com o gerente. Sorriu, conversou, contou uma história que inventou na hora e conseguiu que ele a atendesse rapidamente. Estava habituada a essas gentilezas. Sabia que era bonita, elegante e bem-feita. Seus cabelos castanho-dourados, seus olhos verdes e profundos, sua pele morena e delicada, seus dentes alvos e bem distribuídos, as duas covinhas que se formavam quando sorria e principalmente seu irresistível magnetismo garantiam-lhe bom atendimento onde aparecesse.

Fez o outro banco e foi ao escritório do Dr. Moura. Ele não estava e ela não queria entregar aquele documento à secretária. Era um contrato muito importante. Fora por insistência dela que o Dr. Olavo começara a atender casos na área empresarial.

Marina pensava que os grandes negócios aconteciam a todo momento nas empresas. Participar deles era obter mais lucro em menos tempo. Espólios, heranças e problemas familiares, além de serem causas muito demoradas e trabalhosas, eram menos rentáveis. A princípio Olavo não se interessara muito, mas depois acabou aceitando algumas causas nessa área.

Sentada no sofá macio na penumbra da tarde que ia se findando, Marina sentiu o prazer de usufruir daqueles momentos de descanso. Olhava satisfeita para os magníficos quadros nas paredes, para o vaso de cristal cheio de flores frescas, perfumadas e arrumadas artisticamente, para os móveis finos, de bom gosto, e podia sentir a maciez do tapete sob seus pés.

— O Dr. Moura vai demorar. Tem certeza de que é só com ele?

A secretária estava em pé na sua frente.

— Tenho. Foi um pedido do Dr. Olavo. Ele vai vir?

— Vai. Mas não tem hora.

— Se ele vem, vou esperar.

— Aceita um café ou um refrigerante?

— Um café, obrigada.

Marina tomou o café e colocou a xícara de porcelana revestida de prata na bandeja sobre a mesinha. Dispondo algumas revistas ao alcance dela, a secretária disse:

— Fique à vontade — e retirou-se para a outra sala.

Seja por estar cansada, seja pela maciez do sofá ou pela penumbra do ambiente, Marina recostou-se e sem perceber adormeceu. Sonhou que estava em um campo muito verde, cheio de flores e de pássaros que cantavam alegres. Andava pelas campinas verdes com prazer e alegria, aspirando gostosamente o perfume agradável que vinha das flores. De repente, parou. Uma mulher se aproximava. Seu rosto bonito e jovem a atraía. De onde a conhecia?

— Como vai, Marina? — perguntou ela.

— Bem. De onde nos conhecemos?

— Já faz muito tempo. Você não se lembra.

— Lembro que a conheço, mas de onde?

— De outras vidas.

—Outras vidas? O que quer dizer?

— Esqueceu que já viveu na Terra antes? Precisa se lembrar da reencarnação.

— Não acredito que exista.

— Vai se lembrar quando chegar a hora. Vim vê-la porque preciso da sua ajuda. Você me prometeu, e espero que cumpra.

— Eu? Ajuda? O que posso fazer?

— Em breve, muitas coisas mudarão em sua vida. Está tudo certo. Lembre-se: não há nada errado. Não existe erro.

Marina acordou ouvindo ainda a voz dela repetindo essa frase e sobressaltou-se ao perceber que a secretária estava na sua frente dizendo:

— O Dr. Moura telefonou e avisou que não vai mais voltar ao escritório hoje.

— Desculpe. Acho que cochilei... Aqui está tão agradável, que não resisti. A que horas ele estará aqui amanhã?

— Depois das dez. Tem um encontro com um cliente importante às dez e meia.

— Estarei aqui às dez. Obrigada.

Marina saiu. Já havia escurecido, e o movimento das ruas continuava intenso. Sentiu fome. Decidiu comer alguma coisa e voltar para casa. Passava das sete, não iria mais ao escritório. Estava cansada.

Entrou em uma lanchonete lotada. Encontrou uma mesa, sentou-se, pediu um sanduíche e um guaraná. Enquanto comia, pensava no que fazer para melhorar suas finanças. O dinheiro que ganhava permitiu-lhe sair da pensão e alugar um pequeno apartamento no Largo do Arouche, que mobiliou devagar porém com bom gosto. Era o seu canto. Lá sentia-se dona da própria vida. Tudo fora conseguido com seu próprio dinheiro, e essa pequena vitória dava-lhe a certeza de que poderia conseguir muito mais. Ela só precisava descobrir como.

Imersa em seu pensamentos íntimos, Marina nem sequer percebia os olhares interessados dos rapazes que a observavam. Não que ela fosse indiferente ao assédio masculino. Ao contrário: Gostava de trocar olhares, flertar, conversar quando conhecia alguém interessante, mas nada além disso.

Essa sua atitude despertava mais interesse, e ela era constantemente assediada, recebendo inúmeros convites, que aceitava quando sentia vontade de espairecer um pouco.

Bete não se conformava. Se fosse com ela! Tantos convites, rapazes bonitos, homens inteligentes, e Marina indiferente, como se não fosse nada. Não entendia como ela, agindo dessa forma, tinha tanto sucesso.

Marina pagou a conta e saiu, e enquanto se dirigia para casa continuava pensando em como conseguir o que queria. Começava a desconfiar que estava perdendo tempo no escritório do Dr. Olavo. Aprendera muito com eles, mas agora começava a pensar de outra forma e a achar que eles poderiam progredir muito mais se modificassem alguns conceitos que ela achava antiquados.

Nos últimos tempos eles haviam se acomodado e não pretendiam crescer, abrir outras áreas de atividade. Estavam cansados, velhos, limitados. Para ele, bastava o que tinham. Não se motivavam a maiores esforços.

“Se eu continuar lá, ficarei limitada também”, pensou ela.

Cogitou procurar emprego no departamento jurídico de uma grande empresa. Dessa forma poderia progredir até que tivesse dinheiro e fama para abrir seu próprio escritório.

Chegou em casa, passou os olhos pelo pequeno apartamento e decidiu:

— Amanhã mesmo vou procurar outro emprego. Tenho conhecimento suficiente para obter algo melhor. E estou certa de que vou encontrar.

 

Sentada em uma luxuosa sala, Marina esperava. Havia se preparado para a ocasião. Comprara roupa elegante, fora ao cabeleireiro, sentia-se muito bem percebendo os olhares de admiração das pessoas onde passava. Ia ser entrevistada novamente para conseguir um novo emprego.

Fazia mais de um mês que ela começara a procura. Fora a diversas entrevistas, conversara com gerentes, preenchera cadastros. Pedia um alto salário. Precisava valorizar-se. Não pretendia deixar o Dr. Olavo se não fosse por um salário compensador e um lugar onde pudesse progredir.

Estava em conversações com um grupo formado por uma cadeia de empresas. Fora entrevistada duas vezes e agora a chamaram para uma conversa na sala da presidência. Antes, eles quiseram saber tudo sobre sua vida: família, saúde, aspirações. Ela forneceu as informações, admirada com os detalhes que lhe pediam. Mas o fez de bom grado. Estava muito interessada em conseguir aquele emprego. Percebera que lá poderia chegar aonde pretendia.

— Srta. Marina, queira entrar, por favor.

Ela levantou-se e acompanhou a elegante secretária. Entrou em uma sala grande e luxuosa, decorada com extremo bom gosto. Curiosa, olhou para a escrivaninha, atrás da qual estava sentada uma mulher elegantemente vestida, cujo rosto não lhe era estranho. Onde a teria visto?

— Queira sentar-se, senhorita — disse ela.

Marina procurou refazer-se da surpresa. Não esperava encontrar uma mulher. Acomodou-se e esperou.

— Meu nome é Adele — disse ela, voz grave e educada. — Estive lendo sua ficha e tenho uma proposta a lhe fazer.

— Sim, senhora.

— Antes preciso dizer que o que vamos conversar é estritamente confidencial. Prometa-me que, aconteça o que acontecer, seja qual foi sua resposta, você guardará segredo absoluto.

— Sou pessoa discreta. Pode confiar. Não direi nada a ninguém.

— Eu a escolhi porque me pareceu que tem todas as qualidades que procuro para a tarefa que vamos iniciar. Todavia, preciso da sua promessa, sem a qual encerramos nosso assunto agora.

— Muito bem. A senhora tem minha palavra. Prometo que não contarei a ninguém o que se passar aqui.

Adele suspirou, levantou-se e começou a andar pela sala lentamente, pensativa, escolhendo as palavras para o que ia dizer. Marina sentiu aguçar sua curiosidade. O que ela iria propor-lhe?

Seria algum negócio escuso? As informações que tinha sobre aquele grupo eram as melhores. Tratava-se de pessoas muito respeitadas no mercado. Agora ela já se recordara de onde conhecia Adele. Era das revistas sociais, onde ela brilhava sempre e era tida como uma das mulheres mais importantes.

— Preciso de sua ajuda para resolver um delicado problema pessoal. Sei que pretende um emprego. Posso conseguir isso e muito mais. Sei também que é ambiciosa e não se conforma em levar vida modesta. Se aceitar o que vou lhe propor, receberá uma quantia que a tornará independente. Poderá viver confortavelmente pelo resto da vida.

Marina não perdia nenhuma palavra. Adele continuou:

— Meu marido morreu no começo do ano passado. Metade das suas ações em nossas empresas são minhas e de minha única filha. A outra metade seria do filho varão. Como não tive um filho, e minha filha também não, decorrido o prazo de três anos após o falecimento de meu marido, os bens irão para o meu cunhado.

Ele faz parte do grupo. Com essas ações, se tornará majoritário e terei que deixar a presidência.

Marina ouvia com interesse. Adele calou-se durante alguns instantes, depois prosseguiu:

— Isso seria uma desgraça, porque ele, além de não ter nenhuma competência, não é confiável, tendo sido mantido aqui apenas em consideração ao avô, que foi o fundador da empresa e deixou em testamento essas determinações pensando com isso impedir que nossos negócios caíssem nas mãos de estranhos.

Adele fez ligeira pausa e, notando que Marina ouvia atentamente, continuou:

— Minha filha é casada há cinco anos e não tem filhos. Como eu disse, faz um ano e meio que meu marido morreu. Se ela viesse a ter um menino, tudo estaria resolvido.

— Mas ela ainda poderá ter.

Adele abanou a cabeça e disse com tristeza:

— Maria Eugênia é estéril. Nunca poderá ter filhos. Há dois meses tive essa certeza. Para tentar resolver esse problema, fiz um plano. A princípio ela recusou, mas agora, diante dos fatos, acabou concordando. E a única chance de preservarmos nossos negócios, como sempre fizemos. É para isso que precisamos da sua ajuda. Temos um ano e meio para resolver isso.

— Não estou entendendo. O que posso fazer?

— Tenho tudo planejado. Você deixará seu emprego e se mudará para um lugar que só nós conhecemos. Lá, meu genro irá ter com você. Quero que tenha esse filho por Maria Eugênia.

Marina levantou-se como que movida por uma mola.

— Como?! Eu?!

— Sim. Você é uma moça saudável, inteligente, culta, de boa índole, bonita, competente e ambiciosa. Será a mãe ideal para o meu neto.

— A senhora está se excedendo. Isso nunca dará certo. Não posso fazer uma coisa dessas. Por que faria?

— Não se precipite. Teria um isolamento de nove meses, mas depois estaria livre para fazer o que quisesse e teria minha ajuda e proteção. Além disso, eu lhe darei um milhão de dólares.

Marina deixou-se cair na poltrona, assustada. Um milhão de dólares! Quando recobrou o fôlego, objetou:

— Isso nunca vai dar certo. E se for uma menina?

— Pensei nisso. Mas é a única alternativa; temos que tentar e correr o risco. Espero que seja um menino.

— A senhora não precisa fazer isso. Pode adotar um bebê recém-nascido e registrá-lo como de sua filha. Ninguém descobrirá. Há mães solteiras que não têm como criar os filhos e que

cederiam a vocês.

— Pensei nisso. Esse menino vai herdar todas as ações nossas. O futuro dos nossos negócios estará em suas mãos. Não posso arriscar adotando uma criança de pais desconhecidos. Meu genro é homem inteligente e cheio de qualidades, saudável, lúcido. Por isso selecionei uma mulher como você. Tenho certeza de que vão gerar um ser capaz de arcar com essa responsabilidade.

Marina levantou-se preocupada:

— Mesmo assim, penso que não dará certo. Não tenho como fazer isso. É contra meus princípios.

— Você é diferente das moças que entrevistamos. Não tem o sonho de se casar e largar tudo pelo marido, como a maioria delas. Fará um sacrifício durante alguns meses e depois terá tudo quanto deseja pelo resto da vida. Eu lhe darei um milhão de dólares seja qual for o resultado do nosso contrato. É um bom negócio para você, e estaria nos ajudando muito.

— Disse que sua filha concordou. E seu genro? Ele sabe?

— Sim. Ele relutou, mas por fim aceitou cooperar.

— Ainda assim, me parece impossível.

Não precisa me responder agora. Vá para casa, pense com calma. Dou-lhe dois dias para decidir. Durante o tempo em que ficar de recesso, enquanto espera o nascimento da criança, estará em uma linda casa, com todo o conforto, terá polpuda mesada para gastar no que quiser. Você dirige automóvel?

— Tenho carta, mas não tenho carro.

— Terá um em seu nome assim que concordar.

Adele aproximou-se de Marina e segurou-a firme nos braços. Olhando em seus olhos, disse com voz emocionada:

— Por favor! É um obséquio pessoal pelo qual lhe serei grata pelo resto da vida. Prometa que vai olhar meu problema com simpatia.

Marina sentiu o corpo estremecer. O magnetismo daquela mulher era quase irresistível. Começava a entender por que ela ocupava aquele cargo e era tão famosa.

— Certamente. Sua proposta é tentadora, mas preciso pensar. Não creio que eu esteja à altura do que me pede. Como pensa fazer para que acreditem que é filho legítimo de sua filha?

— É fácil. Ela usará uma barriga postiça. À medida que o tempo for passando, ela irá aumentando a barriga. Ninguém vai desconfiar. Quando se aproximar a hora, ela irá para onde você estiver. Quando o bebê nascer, ela o apanhará e voltará com ele. Quanto aos médicos, é fácil inventar uma viagem para o exterior, à consulta a algum especialista. Quanto a isso não se preocupe, será fácil. Tenho tudo planejado. Sua tarefa será ir para o lugar combinado, relacionar-se com Henrique e ficar lá até o nascimento. Depois estará livre para retomar sua vida.

— Isso me parece loucura. Nunca dará certo! Não posso fazer uma coisa dessas.

— Não se precipite. Embora envolva sua vida pessoal, trata-se de um negócio, findo o qual, cumpridas as partes, tudo voltará ao normal. Se recusar, vai ficar arrependida, tenho certeza.

Marina sentia-se atordoada. Precisava respirar. Resolveu ir embora e tornou:

— Está bem. Vou pensar.

— Lembre-se: você prometeu. Nenhuma palavra a ninguém.

— Pode confiar. Essa é uma história que minha família nunca poderá saber. Passar bem, senhora.

— Até daqui a dois dias. Estarei esperando.

Marina saiu rapidamente. Uma vez na rua, respirou fundo. Aquilo não podia ser verdade. Parecia uma história de filme. Adele estava louca. Ela nunca concordaria. Relacionar-se com um homem casado, com consentimento da esposa, para gerar um filho dele, era coisa de gente psicologicamente doente. Ela nem precisaria esperar pelos dois dias para recusar.

Resolveu ir para casa. Não estava com cabeça para trabalhar. As palavras de Adele, seu perfume delicado, seu olhar emocionado, não lhe saíam da lembrança.

Apesar do inusitado, a proposta era tentadora, um milhão de dólares! Mesmo que conseguisse um ótimo emprego, se esforçasse muito, seria impossível conseguir tanto em tão pouco tempo.

Ela não desejava casar-se. Um filho! Como se sentiria? Deu de ombros. Ele não seria seu. Teria outra família, mas certamente seria muito rico. Viveria uma vida boa, talvez melhor do que ela pudesse oferecer-lhe, caso ele fosse realmente seu.

Adele deixara claro que tudo era apenas um bom negócio, com o qual todos ganhariam. Dissera também que lhe seria grata pelo resto da vida.

Adele era uma mulher forte, sabia o que queria. No mundo dos negócios era preciso ousar, e aquele plano era uma ousadia. Podia não ser um menino, mas, ainda assim, ela queria tentar.

Adele era tão determinada, tão segura de si, que Marina começou a pensar que havia probabilidades de o plano dar certo. Se fosse um menino, ela teria resolvido seus problemas. Havia cinqüenta por cento de chances.

Fazia dois meses que Adele estava procurando com muito cuidado a mulher para gerar seu neto. Se ela recusasse, certamente outra aceitaria. Era muito dinheiro em jogo.

Marina lembrou-se das entrevistas minuciosas que fizera. Haver sido escolhida para essa parceria a envaidecia. Era um caso de confiança. Mas ela não podia aceitar.

Decidiu esquecer o assunto. Estava resolvido. Dois dias depois, quando voltasse a ver Adele, diria "não", definitivamente. Ela devia ter outras candidatas; encontraria logo uma substituta.

Sentiu fome e lembrou-se de que não havia almoçado. Olhou o relógio: passava das sete. Tomou um banho e foi à cozinha preparar alguma coisa para comer. Depois, apanhou um livro, esticou-se no sofá e tentou ler. Mas o rosto de Adele, sua sala, seu olhar, suas palavras voltavam à sua mente, e ela não conseguia entender o que estava lendo.

Era inútil tentar ler. Tinha de reconhecer que a proposta de Adele mexera com sua cabeça.

Um milhão de dólares... O que faria com tanto dinheiro? Compraria um bom apartamento e abriria um escritório de advocacia. Seria um lugar agradável, bonito, diferente do lugar onde trabalhava. Móveis modernos, quadros nas paredes, flores. Uma recepcionista amável, bem vestida, bonita, que soubesse receber os clientes. Uma secretária eficiente e dedicada, um rapaz para os serviços de rua.

Compraria uma boa casa para sua mãe. Não a deixaria mais costurar para fora. Talvez trouxesse a família para morar em São Paulo. Nesse caso, ao invés de um apartamento, compraria uma boa casa, em um bairro de classe média, onde Cícero pudesse ter acesso a um bom colégio. Seria maravilhoso!

De repente, Marina lembrou-se de que havia decidido não aceitar a oferta. Uma dúvida começou a incomodá-la: seria justo recusar e deixar que sua mãe continuasse costurando, que seu irmão ficasse com os horizontes limitados, sem cursar uma universidade?

Apesar disso, ela não se sentia com disposição de aceitar. Dali a dois dias, diria "não" a Adele. Ela que procurasse outra.

Marina pensou que, tendo resolvido o assunto, poderia descansar, mas enganou-se. Naquela noite teve dificuldade para dormir. E, quando conseguiu, teve um pesadelo terrível. Por ter dormido mal, perdeu a hora na manhã seguinte.

Quando entrou no escritório, já o Dr. Olavo a esperava com impaciência.

— O que houve com você? Estou esperando há meia hora. Tenho uma audiência importante esta tarde, vim cedo para estudar melhor os detalhes do processo, e você não apareceu.

— O senhor podia ter apanhado no arquivo as anotações do caso. Estão em dia.

— Não gosto de mexer no arquivo. Depois, a obrigação é sua. Você devia estar aqui no horário. Nunca venho tão cedo. Vai ver que todos os dias chega tarde.

Ele estava sendo grosseiro, e Marina procurou controlar-se. Ela sempre fora cumpridora de suas obrigações, trabalhava além do horário, levava processos para casa, e agora ele reclamava a meia hora de atraso que ela tivera. Era injusto, e ela a custo conteve a indignação.

Respirou fundo, apanhou as anotações no arquivo e voltou à sala do Dr. Olavo. Ele apanhou os documentos, folheou-os, depois disse:

— Eu me recordo de que mandei fazer uma declaração na semana passada que deveria ser juntada ao processo. Pelo jeito, você não fez.

— Claro que eu fiz doutor.

— Pois não está aqui.

Marina apanhou os documentos, folheou-os e devolveu-os, dizendo:

— Aqui está ela, doutor.

— Ah! Bem... Você não arquiva em ordem. Por isso não encontrei.

— Precisa de mais alguma coisa, doutor?

— Você não devia ter feito um resumo das providências e dado um parecer?

— Não foi possível, porque ontem essa pasta não estava no arquivo. Fui informada de que o Dr. Mário a havia apanhado para estudar. Ele vai acompanhá-lo na audiência.

— Por causa disso terei que ler todo o texto.

Marina deixou a sala com raiva. Parecia-lhe estar vendo o Dr. Olavo pela primeira vez. Estava cansada e sem disposição para trabalhar. Procurou a secretária e informou:

— Não estou me sentindo bem. Vou para casa.

— Nesse caso deve ir ao médico.

— Estou com dor de cabeça. Se não melhorar, irei mesmo. Avise o Dr. Olavo, por favor.

Sem esperar resposta, ela saiu. Precisava pensar melhor. De repente, aquele escritório pareceu-lhe feio, triste, desagradável. As pessoas que lá trabalhavam eram medíocres. Aquele lugar não tinha futuro.

Lembrou-se do escritório de Adele e suspirou. Tudo lá era lindo. Seria bom poder trabalhar em um lugar assim, em meio a tantas coisas bonitas, de bom gosto.

Ficou andando pela cidade, olhando vitrines, tentando esquecer um pouco a preocupação, mas não conseguiu. Quando estava cansada, comeu um lanche, depois entrou em um cinema. O filme

era bom, mas ela cochilou, pois estava com muito sono.

Saiu do cinema e foi para casa. Entrou no apartamento, olhou em volta e pensou: por que tudo lhe parecia diferente? Até aquele apartamento, que alugara como uma conquista, agora lhe parecia pequeno, feio, triste.

Ligou o rádio, sentou-se e tentou ler. Mas sentia-se inquieta, agitada, não conseguia parar de pensar em Adele. Foi se deitar e finalmente conseguiu dormir. Estava muito cansada.

Na manhã seguinte, passava das dez quando o Dr. Olavo chegou ao escritório. Chamou Marina, entregou-lhe uma pasta fazendo-lhe algumas recomendações, depois pediu informações sobre um cliente. Marina não se recordava do caso, ao que o Dr. Olavo tornou:

— Não sei o que está acontecendo com você. Está desatenta, sem interesse. Ontem me deixou na mão sem mais aquela. Gostaria que se explicasse.

— Sinto muito, doutor. Ontem não estava bem, mas hoje melhorei.

— Não parece. Você era ativa, agora não presta a devida atenção ao trabalho.

Marina não se conteve:

— Isso não é verdade. Desde que entrei aqui, tenho me esforçado em atender a tudo que precisam, trabalhando fora de hora, levando processos para casa. Ontem, só porque passei mal à noite e atrasei meia hora, o senhor me destratou.

— Se você pretende ganhar dinheiro na sua profissão, precisa tornar-se uma boa profissional. Graças a nós você tem essa chance, mas é claro que temos nossas condições.

— Por falar nisso, doutor, desde que me bacharelei o senhor vem prometendo pequenas causas, mas are agora nada.

— É que você ainda não está preparada.

— Nesse caso, por que todos os casos deste escritório passam por mim, têm meu parecer e na maioria das vezes os senhores fazem o que eu digo?

— O que é isso? Está insinuando que estamos nos aproveitando de você? Que absurdo! É isso que dá ajudar os outros. Faça-me o favor!

A indignação cobriu o rosto de Marina de rubor:

— É o senhor quem está dizendo. Eu quis dizer apenas que já estou preparada para trabalhar por conta própria.

— Nesse caso, pode ir. Está despedida!

Marina saiu e ainda ouviu o Dr. Olavo dizer à secretária:

— Quero ver onde ela vai bater. Por certo voltará correndo para pedir desculpas. Aceitarei só se for nas minhas condições.

Marina apanhou seus pertences e saiu. Sua cabeça doía. Ela entrou em uma lanchonete e pediu uma água. Sua boca estava amarga.

O que estava acontecendo? Por que de repente as coisas não estavam mais dando certo? Precisava pensar esfriar a cabeça. De uma coisa tinha certeza: não voltaria ao escritório do Dr. Olavo. Suas últimas palavras ainda soavam, em seus ouvidos. Haveria de mostrar-lhe que não precisava deles para viver. Havia se preparado, estudado muito, se dedicado, sabia que tinha um bom desempenho.

Comprou o jornal e foi para casa. Talvez fosse melhor procurar outro emprego, pelo menos até conseguir juntar dinheiro para abrir seu próprio escritório.

Comeu um lanche, depois se sentou no sofá e começou a ler o jornal. Não encontrou nada que a interessasse. Havia dois advogados procurando moça para serviços gerais de escritório. O salário era insignificante e não daria para pagar suas despesas. Depois, estava formada, tinha competência.

O telefone tocou. Marina atendeu: Uma voz de mulher perguntou:

— É Dona Marina?

— Sim.

— Aqui é Márcia, a secretária da Dra. Adele. Estou ligando para confirmar sua entrevista com ela, amanhã às dez horas.

Marina estremeceu. Precisava ir.

— Pode marcar. Irei.

Ela agradeceu e desligou. Depois se deixou cair na poltrona, pensativa. Havia pensado em dizer "não", mas agora, na situação em que se encontrava, talvez fosse bom analisar melhor aquela proposta.

Recordou-se das palavras de Adele:

— O tempo passa depressa. Logo você estará livre, com uma boa situação financeira, e eu lhe serei grata pelo resto da vida.

Apesar disso, ela não tinha coragem de aceitar. Parecia-lhe estar se prostituindo, vendendo seu corpo. Adele fizera questão de dizer que era apenas um negócio. Olhando assim, podia-se dizer que era um excelente negócio.

Durante o resto do dia, Marina não conseguiu pensar em outra coisa. À noite, deitou-se tarde. Sentia o corpo doído, como se tivesse carregado pedras o dia inteiro.

Lembrou-se das palavras de sua mãe:

— Quando estiver com um problema e não souber o que fazer, pense em Deus, entregue nas mãos dele. Tudo se resolverá.

Havia quanto tempo ela não rezava? Não que fosse descrente, mas na maior parte do tempo estava tão envolvida com trabalho que se esquecia de rezar.

Respirou fundo e sentiu que precisava de ajuda. Sua cabeça estava confusa. Murmurou uma prece, pedindo lucidez para decidir o melhor. Finalmente, adormeceu.

Sonhou que estava andando em jardim muito florido e perfumado. Encontrou-se com uma mulher de fisionomia agradável. Tinha certeza de que a conhecia.

— Minha querida! Está na hora de cumprir o que me prometeu. Não se esqueça do que combinamos.

— Estou confusa. Não me recordo de nada.

— Vou reavivar sua memória.

Conversaram, e por fim a mulher disse:

— Agora você precisa ir. Lembre-se de que deve guiar-se somente pelas leis universais. Esqueça as coisas do mundo. Cooperar com a vida é um trabalho abençoado.

Ela repetiu essas palavras várias vezes e Marina acordou ouvindo essa frase. O dia havia amanhecido. Ela sentou-se na cama, sentindo uma sensação agradável no peito. Lembrou-se

perfeitamente do rosto da mulher, de suas últimas palavras. De onde a conhecia?

Esforçou-se para se recordar da conversa que haviam tido, mas não conseguiu. Aquele sonho não era igual aos outros. Talvez fosse uma resposta a suas orações.

De repente, ela se recordou do cochilo que tivera na sala de espera do Dr. Mauro. Havia sonhado com a mesma mulher.

Essa descoberta a emocionou. Pelo visto, ela queria que Marina aceitasse a proposta de Adele. Isso não seria um contra-senso?

Fazer da maternidade, do sexo, um negócio a serviço da ambição de uma família?

— Esqueça as coisas do mundo. Cooperar com a vida é um trabalho abençoado.

Talvez estivesse enganada. Deus não podia estar a favor de um negócio como aquele. Marina sentia-se confusa, insegura. Ainda não estava certa de nada.

Horas depois, conforme o combinado entrou na sala de Adele. A empresária abraçou-a, fê-la sentar-se em um sofá a seu lado e perguntou:

— E então? Vai fazer o que lhe pedi?

— Eu estava disposta a recusar, entretanto algumas coisas aconteceram.

— Você está disposta a aceitar!

— Gostaria de conhecer mais alguns detalhes.

— Você terá que se dedicar totalmente ao empreendimento. Ninguém poderá saber onde se encontra durante o desenrolar do processo. Por agora é só o que posso dizer. Pude ter certeza de que terá todo o apoio. Nosso projeto será um sucesso! Então, aceita?

— Sim. Aceito.

— Tenho certeza de que não se arrependerá.

Adele abraçou-a satisfeita e continuou:

— De agora em diante, você ficará sob minha guarda. Cuidarei de tudo pessoalmente. Vamos formalizar nosso acordo.

Ela saiu e voltou em seguida, estendendo-lhe alguns papéis.

— Aqui está o contrato. Leia e assine.

Marina leu, e nele não havia nenhuma menção ao tipo de serviço que ela deveria prestar. Era um contrato simples de trabalho no qual ela se comprometia a ficar trabalhando por um ano em tempo integral, receberia um carro novo e durante esse tempo teria todas as despesas pagas. Findo o prazo, teria um prêmio em moeda nacional equivalente a um milhão de dólares.

A mão de Marina tremia um pouco quando assinou. Adele apanhou o contrato, devolveu-lhe uma cópia e considerou:

— Você tem até amanhã para deixar o emprego e despedir-se de sua família. Uma viagem repentina de negócios, sem maiores detalhes. Depois de amanhã, as dez, passarei em sua casa para buscá-la.

— Um dia é pouco tempo para preparar tudo.

— É mais do que suficiente.

Foi até a escrivaninha, abriu a gaveta, apanhou um envelope e entregou-o a ela:

— Gaste o que precisar. Amanhã as dez irei buscá-la.

Marina deixou o escritório pensando em como resolver tudo em tão pouco tempo. Mas estava feito. Agora não tinha mais como voltar atrás. Ainda não sabia se havia tomado à decisão certa. O tempo se encarregaria de mostrar.

 

Marina olhou em volta emocionada. Faltavam poucos minutos para as dez horas e ela já tinha tudo pronto.

Na véspera, estivera no escritório do Dr. Olavo para receber o que lhe era devido, o que foi fácil, uma vez que não tinha nenhum contrato de trabalho nem era funcionária devidamente registrada. A surpresa do Dr. Olavo deu-lhe uma sensação de prazer. Dissera-lhe que havia recebido uma proposta de trabalho muito vantajosa e teria de viajar imediatamente. Ele perguntou de quem tinha sido a oferta, e ela deu-lhe um nome fictício.

Já com o senhorio do apartamento, Marina teve de negociar a quebra de contrato. Por fim, mandou seus móveis para um depósito, pagando antecipadamente o aluguel de um ano. O dinheiro que Adele lhe dera para essas despesas foi mais que suficiente.

Como última providência, a jovem telefonou para a mãe e informou-lhe que iria para o exterior trabalhar, mas que mandaria dinheiro todos os meses e telefonaria sempre.

O telefone tocou. Era Adele:

— Marina, estarei aí em cinco minutos. Espere na porta.

A moça desceu, entregou a chave ao porteiro e esperou. O carro parou e ela viu que Adele estava na direção. A empresária apertou um botão e o porta-malas abriu-se. Marina colocou nele a bagagem e sentou-se ao lado de Adele.

Seu coração batia descompassado. Mil perguntas cruzavam seu pensamento, mas ela perguntou apenas:

— Para onde vamos?

— Para um lugar bonito, confortável, onde você ficará o tempo todo.

Adele não queria dar detalhes. O segredo fazia parte do jogo. Para Marina, porém, o lugar não importava, nem as pessoas com as quais se relacionaria. Quando tudo terminasse, ela gostaria de esquecer esse episódio inusitado e desconfortante.

O lado prazeroso era pensar no conforto que poderia dar à família. O resto não importava.

Viajaram algumas horas e pararam para almoçar. Estavam no interior de São Paulo. Adele era companhia agradável. Conversaram sobre vários assuntos, e Marina aos poucos foi se sentindo mais à vontade.

Depois do almoço, viajaram mais uma hora, e Adele saiu da rodovia tomando uma estrada vicinal. Por fim, pararam diante de um imenso portão de madeira. Adele desceu e Marina, vendo que ela ia abri-lo, ajudou-a e esperou que ela passasse o carro para fechá-lo.

Entrou novamente no carro e pecorreram uns três quilômetros, até que o carro parou diante de um chalé gracioso, rodeado por frondosas árvores e canteiros floridos. Uma mulher apareceu na porta e, vendo-as, imediatamente apressou-se em cumprimentá-las.

— Marina, esta é Célia, pessoa de minha confiança. Cuidará de você enquanto ficar aqui.

Era uma mulher de uns cinqüenta anos, mulata, cabelos puxados para trás em um coque na nuca, rosto redondo, lábios grossos, olhos vivos. Sua roupa impecável revelava capricho e eficiência. Marina gostou dela. Cumprimentou-a gentilmente.

Entraram e Marina adorou o que viu. Era uma casa espaçosa, mobiliada com gosto e conforto. Havia flores frescas nos vasos, um escritório com uma boa biblioteca, três luxuosas suítes, duas salas de estar e uma de jantar e outras dependências.

— Esta casa faz parte de uma fazenda, propriedade de minha família — esclareceu Adele. — Quero que verifique tudo e diga se precisa de algo mais.

— Está melhor do que eu esperava.

— Vou instalar-me na casa principal, que fica atrás do parque do outro lado do lago.

— Eu gostaria de conversar, saber mais detalhes de como tudo acontecerá.

Adele sorriu.

— Vamos descansar um pouco. A noite conversaremos. Não se preocupe: será bem orientada.

Ela se foi e Marina olhou em volta. O lugar era aconchegante, lindo. Célia pareceu na sala e informou:

— Você deve estar cansada. Preparei um banho com ervas repousantes. Antes, deseja comer ou beber alguma coisa?

— Obrigada, Célia. Estou sem fome.

— Quero que me diga como gosta que arrume suas coisas. Organizei um cardápio: comida nutritiva, saudável. Está na biblioteca, sobre a escrivaninha. É apenas um ponto de partida. O que não aprovar, modificaremos.

Marina notou que ela abrira suas malas, separara as roupas e colocara-as sobre a cama. Célia sugeriu onde achava bom guardar cada coisa, e Marina concordou prontamente.

Depois, a jovem apanhou uma túnica leve e foi ao quarto de banho. A banheira estava cheia e havia um delicado perfume silvestre no ar. Sobre um console ao lado da banheira, havia vários frascos, que Marina examinou encantada.

Imediatamente despiu-se, entrou na banheira e estendeu-se com prazer. Notou que havia vários saquinhos na água. Apanhou um e cheirou. Era deles que vinha o perfume. Notou que eles estavam delicadamente amarrados para que as ervas não se espalhassem.

Enquanto se entregava ao prazer do momento, Marina se perguntava como tudo iria acontecer. Estremecia pensando que teria de entregar-se a um homem que não conhecia e pertencia a outra mulher.

Esse pensamento a deixava inquieta, preocupada. O que ele pensaria a respeito dela? Se ele concordara com o projeto, não seria justo que a criticasse por ter concordado. Mas, no fundo, certamente imaginaria que ela era uma interesseira, que fizera tudo por dinheiro.

De fato, aquele dinheiro representava sua independência financeira. Mais do que isso: a possibilidade de Cícero estudar e sua mãe parar de trabalhar. Não era pelo dinheiro em si, mas pela felicidade que ele proporcionaria à sua família.

Concluiu que não lhe importava o que o genro de Adele ou sua filha pensassem dela. Depois de tudo, não pretendia vê-los nunca mais. Passaria uma borracha nessa fase de sua vida. Afinal, um ano passaria depressa. Enquanto isso, procuraria estudar muito, porque pretendia continuar sua carreira, desta vez por conta própria.

Depois do banho, iria à biblioteca verificar os livros e pedir os que desejava ler. Assim, aproveitaria mais o tempo.

Depois do banho, vestiu-se e foi à biblioteca. O cansaço desaparecera e ela estava excitada demais para tentar dormir. Sobre a mesa, além da pasta com o cardápio, havia um índice indicativo dos livros que estavam caprichosamente dispostos na estante que tomava duas paredes inteiras da sala.

Marina ficou fascinada. Lá havia livros sobre diversos temas, e ela interessou-se de tal forma que nem notou que o dia estava escurecendo.

Célia entrou com uma bandeja, dizendo:

— Trouxe um suco de mamão com laranja e alguns pãezinhos. Está muito calor, e você não tomou nada.

— Obrigada.

Marina apanhou o copo que Célia lhe ofereceu e bebeu com prazer. Estava delicioso.

— Coma um pãozinho, está fresquinho.

A jovem experimentou com satisfação.

— Vim saber o que você quer para o jantar.

— Depois deste lanche, não vou querer jantar.

— De forma alguma! Você precisa alimentar-se bem. Vou preparar um prato leve e nutritivo.

Célia saiu e Marina sorriu contente. Afinal, tudo estava sendo melhor do que imaginara. Ia ficar mal-acostumada e sentir falta quando aquilo acabasse.

Depois do jantar, Marina voltou à biblioteca. Acomodou-se para ler, mas a porta abriu-se e Adele apareceu. Aproximou-se, dizendo:

— Precisamos conversar. Vou embora amanhã bem cedo. Temos que acertar os detalhes.

— Pode falar.

Adele acomodou-se em uma poltrona e continuou:

— Amanhã cedo, virá um médico examiná-la. Ele mora na cidade mais próxima e, apesar de ser do interior, é um ótimo obstetra. Eu lhe disse que você é minha sobrinha, seu marido trabalha em São Paulo e dentro em breve terá que fazer um estágio no exterior. Por isso,você ficou a meus cuidados. Vocês desejam muito um filho, mas depois de cinco anos de casamento não conseguiram.

Vendo que Marina ouvia com atenção, Adele prosseguiu:

— Por recomendação minha, ele foi escolhido para examiná-la. Antes de ir para o exterior, seu marido virá aqui para vê-la. Eu gostaria que até lá ele já tivesse um diagnóstico.

— Tudo bem. O que acontecerá depois?

— O Dr. Gilberto vai examiná-la e dizer quais os seus dias férteis. Vamos programar a visita do meu genro no período certo.

Marina suspirou inquieta e Adele tornou:

— Não se preocupe nem fique constrangida. Nesse dia, eu, minha filha e meu genro viremos para a fazenda. Faremos tudo de um jeito que você não terá que enfrentá-los. Garanto a você que Henrique é um homem saudável, agradável, e a tratará com extrema delicadeza.

— Não nego que estou nervosa, mas saberei controlar-me.

— Não sei se conseguiremos logo. Mas vamos tentar até conseguir.

Adele levantou-se.

— Vou me deitar, pois pretendo madrugar. Você tem meus telefones; pode ligar-me sempre que precisar. Além de nós três, só Célia sabe a verdade. Pode confiar nela. E uma boa pessoa; fará tudo para tornar sua vida mais agradável.

Depois que ela se foi, Marina tentou ler, mas não conseguiu. Ao pensar que teria esse encontro em breve, sentia-se inquieta. Nunca havia permitido a nenhum homem entrar em sua intimidade. Agora, teria de permitir a um desconhecido que o fizesse.

Desejou que o tempo passasse rápido e logo ficasse livre de qualquer compromisso e voltasse a cuidar de sua vida. Tentou acalmar-se. Sentia que, se ficasse muito ansiosa, seria pior.

Naquela noite, custou a dormir. As palavras de Adele não lhe saíam do pensamento. Quando adormeceu, sonhou novamente com a mesma mulher que lhe pedira para aceitar aquele encargo.

Marina caminhava por uma estrada quando ela apareceu, abraçou-a e disse com doçura:

— Acalme-se. Você não está fazendo nada errado. Um dia saberá toda a verdade e se sentirá feliz por ter aceitado esse compromisso. Eu a abençôo por isso e prometo ajudá-la sempre. Não se esqueça de que eu a amo muito.

Toda a inquietação de Marina desapareceu. Uma emoção agradável brotou em seu coração e ela foi acometida de muita alegria. Remexeu-se na cama e mergulhou em um sono reparador.

Acordou na manhã seguinte descansada, contente. Enquanto tomava o café, Célia avisou:

— O Dr. Gilberto virá examiná-la hoje, às dez horas.

— Estarei esperando.

— Dona Adele pediu que lhe dissesse que mandará seu carro dentro de dois ou três dias. Virá em seu nome, com rodos os documentos em ordem.

— Obrigada.

Depois do café, Marina saiu para caminhar um pouco. O dia estava bonito, e ela respirou com prazer o ar puro e agradável.

Lembrou-se de que Adele havia lhe dito que lhe daria um carro, mas lhe pedira que, enquanto o contrato estivesse em andamento, ela não fosse além da cidade mais próxima, para evitar encontrar alguém conhecido.

Caminhou meia hora admirando a beleza do lugar. Quando estava entrando em casa, um carro parou em frente ao portão e um homem alto, de meia-idade, carregando uma valise, desceu.

Marina percebeu que era o médico. Ele abriu o portão e, vendo-a parada na varanda, sorriu. Era moreno-claro, olhos e cabelos castanhos, alto e elegante.

Aproximou-se, distendendo o rosto em um sorriso.

— Você deve ser a sobrinha de Adele.

— Sou. E o senhor deve ser o Dr. Gilberto.

— Isso mesmo.

Marina convidou-o a entrar. Gostou de seu jeito simples, do olhar franco e do sorriso amigo.

Ele a examinou, preencheu uma ficha com os dados e Marina aproveitou para pedir as informações que Adele queria. Anotou tudo. No final, ele disse:

— Você me parece muito saudável. Casada durante cinco anos. Você nunca engravidou?

— Não.

— Seu marido fez os exames necessários para saber se ele é fértil?

— Fez. Não há nada com ele, nem comigo. Só que ainda não conseguimos ter um filho.

— À primeira vista, não noto nada em você. Gostaria que fosse amanhã em meu consultório para um exame mais apurado. Vamos fazer um toque para saber se tudo está em ordem.

Marina remexeu-se na cadeira. O exame médico iria arruinar todo o plano, uma vez que ela nunca tivera relações sexuais. Tentou ganhar tempo:

— Amanhã não será possível. Alguns amigos ficaram de vir buscar-me para uma pequena viagem. Mas assim que voltar eu o procuro para combinar.

Depois que ele se foi, Marina correu em direção a Célia.

— Preciso falar com Adele. Acha que ela está no escritório?

— Penso que sim. Aconteceu alguma coisa?

— O doutor quer me examinar no consultório. Não posso fazer esse exame.

— Por quê?

— Porque ele vai perceber que nunca tive relações sexuais.

Célia olhou-a surpreendida.

— Nesse caso, é melhor mesmo falar com ela.

Marina ligou em seguida e logo Adele a atendeu. Colocada a par da situação, quis saber quando seria o período fértil. Marina informou e ela tornou:

— Faltam dez dias. Contemporize durante esse tempo. Você disse 2 a 4 de abril. Nós estaremos aí no dia 2. Depois falaremos sobre os detalhes.

O coração de Marina acelerou suas batidas e ela esforçou-se para controlar-se.

— Não se preocupe. Daremos um jeito. Ele não vai descobrir.

A partir desse momento, Marina contava os dias perguntando-se como Adele ia programar um assunto tão delicado. Sentia-se ansiosa, mas ao mesmo tempo queria que tudo acontecesse logo, para ver-se livre daquela preocupação.

No dia 2 de abril, Marina estava almoçando quando Célia falou:

— Faz uma hora que Adele chegou. Logo virá vê-la.

Marina segurou a mão de Célia como a pedir proteção.

— Sinto-me angustiada.

Célia passou a mão pelos cabelos dela com carinho.

— Eu sei. Mas logo verá que não há nada a temer. Garanto que tudo será feito com discrição e delicadeza.

Marina suspirou e Célia continuou:

— Quando chegar a hora, vou preparar um refresco calmante. Lembre-se de que precisa ficar calma.

— Você acha que uma vez só será suficiente?

— Talvez não. O que posso dizer é que você está tratando com pessoas de classe, gentis e bondosas. Não precisa ter medo de nada.

Passava das duas quando Adele chegou e foram ao escritório conversar. Notando o nervosismo de Marina, ela disse calma:

— Esta é a parte mais delicada do processo. Maria Eugênia e Henrique vieram comigo.

— Ela também veio? Não será muito difícil para ela?

— Não. Ela está preparada. Sabe que é preciso e que para Henrique você é uma desconhecida. Vamos aos detalhes. Preste atenção. Esta noite, às nove horas, vá se deitar. Deixe o quarto às escuras, mas não tranque a porta. Trate de repousar; pode dormir, se quiser. Mas, em certa hora, Henrique entrará, cumprirá a parte que lhe cabe e irá embora. Não precisa dizer nada. Amanhã e depois ele irá vê-la novamente nas mesmas condições. Penso que três vezes será suficiente.

Marina suspirou e remexeu-se na cadeira. Adele continuou:

— Não se preocupe com Maria Eugênia. Tanto ela quanto Henrique estão muito agradecidos pela sua participação. Se tudo correr como esperamos, ele não virá mais vê-la.

— Espero que tudo isso não seja em vão.

— Não será. Você é uma mulher saudável. Só precisamos torcer para que seja um menino.

— Admiro sua coragem em arriscar.

— Quando você deseja muito uma coisa, tem que ousar e esgotar todos os recursos. Nosso acordo é o último passo, e estou certa de que venceremos.

Depois que ela se foi, Marina procurou acalmar sua ansiedade. Afinal, tratava-se de um negócio que lhe daria condições de melhorar sua vida e a da família.

Aquele dia custou a passar, mas finalmente anoiteceu. Às oito e meia, Célia foi procurá-la.

— Está quase na hora. Vim ajudá-la a preparar-se. Para começar, um banho com flores relaxantes.

Dentro da banheira, sentindo o perfume delicado das flores, Marina foi relaxando. Quando saiu, Célia colocou-a em uma maca e massageou seu corpo com óleo perfumado.

Marina sentiu-se leve e todo o nervosismo desapareceu. Célia vestiu-a com uma camisola de seda e estendeu-lhe um copo de suco.

— Beba. Vai sentir-se bem. Deite-se e não se preocupe com nada. Durma um pouco. Ele virá mais tarde.

Marina aconchegou-se na cama macia. Estava tranqüila. Célia apagou a luz do abajur e saiu fechando a porta.

Marina sentiu sono e um brando calor no corpo. Logo adormeceu.

Acordou sentindo um perfume agradável e uma mão acariciando seu corpo. Estremeceu assustada e murmurou:

— O que foi?

— Desculpe. Pensei que estivesse acordada.

Marina lembrou-se de tudo e não respondeu. Lentamente ele começou a acariciá-la. Ela fechou os olhos, não respondeu. O coração acelerou suas batidas e intimamente ela desejou que tudo acabasse rápido.

Aos poucos, ela foi passando da indiferença ao prazer. Enquanto ele a beijava e acariciava, Marina retribuiu apertando-o de encontro a seu corpo, desejando prolongar a emoção.

Quando acabou, ele estendeu-se a seu lado em silêncio. Ela ainda sentia a força da emoção tumultuando seu pensamento. Minutos depois, recomeçou a acariciá-la e novamente Marina não controlou a emoção.

Quando terminou, Henrique segurou sua mão, levou-a aos lábios com delicadeza e disse:

— Obrigado.

Levantou-se, vestiu-se rapidamente e se foi. Marina ficou ali, ainda entregue à lembrança de momentos antes, perplexa diante da própria reação. Seu corpo estava dolorido, mas sentia-se relaxada, tranqüila, e logo depois adormeceu.

Na manhã seguinte, Célia serviu-lhe o café em silêncio. Era como se nada houvesse acontecido. Marina tentou esquecer, mas aqueles momentos voltavam e ela se questionava. Não podia ser tão libidinosa a ponto de sentir prazer em um relacionamento com um desconhecido.

Tratava-se apenas de um compromisso de negócio, e ela não podia deixar-se envolver daquela maneira. Tentou reagir. Apanhou um livro e começou a ler, mas não conseguia prestar atenção no texto.

O dia decorreu calmo. Adele não apareceu e Marina apreciou sua discrição. Não tinha vontade de falar sobre aquela experiência, principalmente com Adele.

Após o jantar, Célia foi ter com ela:

— Está na hora de se preparar. Ele virá novamente esta noite.

Marina olhou-a séria e perguntou:

— Você acha que precisa?

— Foi o combinado. O tempo é precioso, e não podemos facilitar. Agora não pode voltar atrás.

— Cumprirei o contrato à risca. Não se preocupe.

Depois dos preparativos, Marina deitou-se, mas não conseguiu dormir. Sentia-se inquieta. Sempre fora uma pessoa controlada, habituada a programar seus projetos, disciplinada.

Entrara para aquele compromisso por causa do dinheiro que lhe proporcionaria melhorar as condições de sua vida e da família. Conforme Adele fizera questão de frisar, era um negócio como qualquer outro.

Por que então se envolvera tanto emocionalmente? Por que, apesar de sentir-se fragilizada, aqueles momentos não lhe saíam do pensamento? Não gostava de se descontrolar.

Preferia que ele não voltasse, mas ao mesmo tempo, pensando que logo ele a estaria acariciando, algo a perturbava, fazendo-a estremecer.

Quando ele chegou, Marina fingiu estar dormindo. Mas, assim que ele se deitou do seu lado e a abraçou, ela entregou-se em silêncio.

Depois que ele se foi, Marina sentiu-se relaxada e decidiu não pensar em mais nada. De nada adiantava ficar se torturando. Logo tudo estaria terminado e nunca mais se veriam. Tudo continuaria como sempre havia sido. Virou-se para o lado e logo adormeceu.

Na noite seguinte, quando Henrique entrou no quarto, ela estava mais calma. Seus momentos com ele não lhe saíam da lembrança, mas ela havia decidido não se atormentar por isso. Ao contrário: fora melhor do que esperava, o que tomara menos difícil o cumprimento do trato.

Por isso, quando ele a abraçou, ela correspondeu com prazer. Quando ele se foi, Marina sentiu que nunca mais esqueceria o encontro daquela noite.

No dia seguinte, ao acordar, encontrou uma caixa de veludo sobre a mesa de cabeceira e um envelope. Abriu-a e encontrou um belíssimo anel de esmeraldas.

Com as mãos trêmulas, tirou um cartão do envelope e leu:

 

Nunca esquecerei os momentos que vivemos. Obrigado. Desejo que seja muito feliz.

 

Não estava assinado.

Marina experimentou o anel pensativa. Se tudo saísse como desejavam, eles não precisariam se encontrar mais.

Na mesa do café, Célia disse:

— Eles voltaram para São Paulo logo cedo. Adele pediu para avisá-la.

— Obrigada.

Marina sentiu certa tristeza. De repente, teve a sensação de que o tempo custaria muito a passar.

— Parece que você ficou triste. Está tudo bem?

— Sim. Estava pensando que o tempo vai custar a passar.

Célia riu bem-humorada.

— Que nada! Uma gravidez é uma aventura maravilhosa. Todos os dias são especiais. Você verá.

— Acha que já estou grávida?

— E cedo para saber. Mas foi para isso que veio, não é?

— Claro.

— Depois, você não precisa ficar reclusa aqui. A cidade não é longe e seu carro está na garagem.

— E melhor não. Não conheço ninguém. Além do mais, não quero pessoas estranhas bisbilhotando em nossa vida.

— Nada disso. Não se esqueça de que você é uma sobrinha de Adele, cujo marido está no exterior fazendo um curso importante, e ela comprometeu-se a cuidar de você até que ele regressasse. Conheço pessoas muito agradáveis, discretas, educadas, que se sentirão muito felizes em desfrutar da sua amizade.

— Não sei...

— Para que seu filho seja saudável e alegre, durante sua gestação você precisa se cuidar, levar uma vida feliz.

— Está certo. Será como você quiser. Não sei se terei jeito para viver esse papel.

Célia sorriu:

— Você contará sua história tantas vezes que acabará acreditando nela e sendo muito criativa. Tenho certeza disso.

Marina sorriu. Analisando dessa forma, talvez tudo ficasse mais agradável. Sua função era colaborar para que o plano desse certo. Eles acreditaram tanto nessa possibilidade, que ela agora não se sentia mais com o direito de duvidar.

 

            Durante o mês seguinte, Adele não voltou à fazenda, mas telefonava para saber notícias e dar recomendações. Conforme o combinado, dois dias depois de sua chegada, Marina escrevera uma carta para a mãe, dizendo que fizera boa viagem e mandando o endereço de Londres que Adele lhe dera. Depois, entregou a carta a Adele, que a colocaria dentro de outro envelope e a mandaria a uma pessoa de sua confiança naquele país. Essa pessoa postaria a carta como se Marina estivesse morando lá. Quando recebesse resposta, a mesma pessoa a remeteria a Adele.

Marina levantava-se cedo. Depois de tomar café, ia caminhar pelas redondezas. Às vezes sentava-se na relva para descansar, ouvindo o trinado dos pássaros, olhando o céu azul quase sem nuvens, aspirando gostosamente o ar leve e agradável, deixando-se ficar absorta na contemplação das belezas da paisagem.

Quando voltava para casa, já Célia a esperava com um suco de frutas e ela ia sentar-se na biblioteca, mergulhando prazerosamente na leitura.

Os dias corriam tranqüilos e, se não fossem as lembranças das noites em que Henrique a visitara, teria até se esquecido do que estava fazendo ali.

Uma tarde em que Marina lia estendida em um sofá, Adele entrou na biblioteca. A jovem levantou-se alegre:

— Adele! Que bom que veio!

Adele abraçou-a com carinho e depois aos cumprimentos disse:

— Não pude suportar a ansiedade. Vim saber como você está.

—Bem.

— Faz quase dois meses que ele veio vê-la. E então? Célia me disse que você pode estar grávida.

Marina corou um pouco e respondeu:

— Bem... Não sei. Não estou sentindo nada. Mas minhas regras não vieram.

Adele abraçou-a alegre.

— Vamos fazer o teste. Eu trouxe tudo que precisamos.

Chamou Célia, foram para o quarto e fizeram o teste.

— O resultado vai demorar um pouco. Vamos à copa. Preparei um lanche, assim o tempo passará mais depressa.

Tanto Adele quanto Marina não quiseram comer nada. Só tomaram o suco.

— Trouxe uma carta para você — disse Adele, tirando um envelope da bolsa e entregando-o a Marina. — Chegou ontem.

— Que bom! Estava ansiosa por notícias. Nunca fiquei tanto tempo sem saber deles.

— Fique à vontade. Enquanto lê, vou resolver algumas coisas com Célia.

Marina, emocionada, leu a carta na qual a mãe falava da saudade que sentiam dela e do orgulho que ambos tinham por ela encontrar-se no exterior, ganhando tão bem. Agradecia o dinheiro que ela lhes mandara. Dizia que não gastaria tudo.

Marina sorriu, mas sentiu uma ponta de remorso por estar enganando-os. Nunca havia mentido para eles, mas havia prometido segredo e cumpriria seu voto. O assunto era muito sério, e ela não podia pôr em risco o sucesso do empreendimento.

Guardou a carta. Ouvindo a voz de Adele conversando com Célia na sala ao lado, Marina voltou à biblioteca para continuar a ler. Apesar de o livro ser interessante, ela não conseguia prestar

atenção ao que lia.

Muitas coisas dependiam daquele teste, e ela não conseguia pensar em outra coisa. Se ela não estivesse grávida, Henrique a visitaria novamente. Ao pensar nisso, sentia o coração bater mais forte. Preferia que não fosse preciso ele voltar. Quanto menos intimidade com ele, melhor.

Adele entrou na sala e Marina não se conteve:

— E então?

— Conseguimos. O teste deu positivo!

Marina não dominou a emoção:

— Quer dizer que estou grávida?

— Sim. Agora só resta torcer para ser menino.

Marina levou a mão ao peito preocupada.

— E se não for?

—Manterei nosso contrato. Registrarei a menina como filha de Maria Eugênia. Ela a criará com todo o carinho.

— Nesse caso, não conseguirá o que pretende.

— O fato de Maria Eugênia ter uma filha revela que ela ainda poderá ter um menino. Talvez eu consiga fazer um acordo com meu cunhado. Mas por agora não quero pensar nisso. Tenho certeza de que será um menino. Você vai precisar se cuidar. Terá que ir ao Dr. Gilberto.

— Irei.

— Você vai procurá-lo e dizer-lhe que seu marido ficou alguns dias aqui antes de ir para o exterior. Se ele perguntar, diga que foi entre os dias 2 e 4 de abril. Assim ele terá todos os elementos que precisa para cuidar de você. Será apenas rotina, tanto você quanto Henrique são saudáveis. Acredito que sua gravidez decorrerá sem problemas.

— Está bem. Farei como pede.

— Será bom Célia ir junto para ouvir todas as recomendações e cuidar muito bem de vocês. Estou emocionada. Meu neto será um belo menino e terá todo o nosso amor!

— Também estou emocionada. Nunca pensei que seria mãe!

— Apesar de estar gerando um filho, deve reagir e não se sentir como mãe, uma vez que terá de separar-se dele na hora do nascimento. Lembre-se de que o filho será de Henrique e Maria

Eugênia. Não quero que sofra por ter de separar-se dele. Acostume-se com a idéia de que ele não lhe pertence.

— Claro. Sei perfeitamente o que fazer e cumprirei todas as cláusulas do nosso contrato. Fique tranqüila.

Depois que ela se foi, Marina ficou pensando nas palavras dela e compreendeu que Adele tinha razão. Não podia apegar-se ao bebê. Ele não seria seu. Teria outros pais, que o educariam, amariam, lhe dariam tudo. Seria rico e feliz.

Sentiu uma ponta de tristeza, mas reagiu. Tratava-se de um negócio que lhe daria independência financeira e condições para melhorar a vida da família. Dali para frente, faria tudo para esquecer que estava esperando um filho.

Apesar de haver decidido isso, não era tão fácil como havia pensado. Nos dias que se seguiram, foi com Célia ao médico, que ficou feliz por dizer-lhe que finalmente conseguira engravidar.

Pediu-lhe os exames de praxe e estabeleceu uma rotina saudável, que Marina procurou seguir à risca. Por mais que desejasse esquecer o bebê, era o assunto de todos os momentos, seja nas visitas periódicas ao médico, seja nas caminhadas que precisava fazer todos os dias para manter a forma.

Célia apresentou-a a algumas pessoas, mas, apesar de serem simpáticas, Marina não se sentiu com vontade de estreitar a amizade.

Contudo, quando conheceu Isaura, foi diferente. Alta, morena, testa alta, olhos brilhantes, cabelos castanhos e ondulados, tinha duas covinhas na face quando sorria. Enviuvara havia cinco anos e beirava os quarenta. Seu marido havia sido prefeito de Bauru e morrera em um acidente de carro.

Isaura era muito querida na cidade por suas obras sociais, quando seu marido ocupara a prefeitura. Depois da morte dele, mesmo sem ocupar nenhum cargo, continuou trabalhando incansavelmente pela comunidade. Não tiveram filhos, e essa era a forma que Isaura encontrara para ocupar-se.

Marina simpatizou com ela à primeira vista. Porém, a princípio não procurou estreitar a amizade. Um dia, Célia tornou:

— Convidei Isaura para almoçar conosco hoje. Sei que você a aprecia.                                             

— De fato, gostei dela. Mas não sei se foi uma boa idéia.

— Por quê? Você precisa distrair-se. Não aceitou nenhum dos convites dos nossos amigos.

— Estou vivendo um momento especial. As pessoas vão perguntar sobre minha vida. Não vou poder falar, terei de inventar uma história. Isso não me parece certo. Prefiro continuar assim. O tempo vai passar logo tudo estará terminado e minha vida voltará ao normal.

— Em todo caso, Isaura virá e você vai contar-lhe a mesma história que contou ao Dr. Gilberto, se for necessário. Ela é pessoa discreta, delicada. Não vai perguntar-lhe nada.

Isaura chegou pontualmente ao meio-dia e Marina recebeu-a com carinho. A conversa fluiu com naturalidade. A visitante era pessoa culta, dona de um carisma que tornou sua visita muito

agradável. Não fez perguntas pessoais.

Célia tratou-a com deferência, e as três juntas percorreram os jardins ao redor da casa, bem como o pomar da fazenda. Célia fez questão de mostrar-lhe seus canteiros de ervas e o pequeno salão ao lado da casa, onde fazia seus estudos de fitoterapia.

Era um pequeno laboratório, que Marina ainda não havia visto e que Isaura conhecia muito bem. Célia mostrou-lhe várias de suas anotações e experiências, e Isaura a orientavam de maneira segura, revelando amplo conhecimento do assunto.

Passava das quatro quando Isaura se despediu, convidando Marina para um chá em sua casa no sábado.

Depois que ela se foi, Célia comentou:

— Que bom que ela veio e aprovou meus testes!

— Ela parece que entende muito do assunto.

— Além de formada cm Psicologia e Biologia, é fitoterapeuta. Você precisa conhecer o trabalho que ela tem feito. O Dr. Gilberto a tem auxiliado. Juntos têm conseguido atender os colonos das redondezas, distribuindo medicamentos. Além de as pessoas serem pobres e não terem como comprar remédios caros, o atendimento médico por estas fazendas é precário. Quando era

primeira-dama, Isaura sentiu a necessidade de fazer esse trabalho. O êxito foi tão grande que ela nunca mais parou. As pessoas vêm de longe em busca de tratamento. O Dr. Gilberto atende receita, e ela providencia os remédios.

— É uma mulher extraordinária. Senti desde que a vi.

— Isso mesmo. Sempre me senti atraída pelo tratamento com ervas. A natureza é tão rica e perfeita, que acredito que por meio dela há cura para todas as doenças. O que falta é os cientistas se dedicarem a esse estudo.

— Pelo que sei, há vários deles estudando.

— Poucos.

— Se dá tanto resultado, por que não intensificam as pesquisas?

— Eu descobri que para trabalhar com ervas há que se cuidar muito da parte emocional do paciente. As ervas contêm tipos particulares de energias que atuam no emocional.

— Como a homeopatia?

— Isso mesmo. Para obter êxito no tratamento, você tem que conversar muito com o paciente, ir além dos problemas físicos, e depois juntar as ervas necessárias à sua cura. As pessoas do mato, intuitivamente, sabem disso.

— Minha avó entendia muito de ervas. Quando alguém da família não se sentia bem, ela sempre tinha um chá especial, que, se não curava logo, aliviava bastante.

— Vai ver que ela rezava ao prepará-lo.

— Como assim?

— É um costume antigo de quem mora no campo. Além do carinho com que preparam o chá, fazendo o paciente perceber que é querido, rezam sobre ele para acrescentar energias de cura.

— Acha que funciona?

Célia meneou a cabeça, pensativa. Depois disse:

— Às vezes, sim. Ainda não sei bem por quê. Tenho visto muitas coisas neste mundo. Acredito sinceramente que a vida tem leis que agem cuidando de tudo e de todos a seu modo. Quem

conseguir conhecer essas leis e aplicá-las em sua vida conseguirá viver melhor.

— Eu gostaria de conhecer mais. Acho que aceitarei o convite para um chá na casa de Isaura.

No sábado, na hora combinada, Marina foi com Célia visitar a amiga. Ela morava em um casarão antigo, cercado por um jardim bem cuidado. Isaura recebeu-as com alegria.

O chá foi servido no caramanchão do jardim e a conversa fluiu agradável. Marina mostrou interesse pelo trabalho, e Isaura levou-as ao local onde plantava suas ervas, conversando sobre algumas delas e suas utilidades.

Depois, conduziu-as ao laboratório onde produzia os medicamentos. Um casal trabalhava em meio aos frascos e infusões. Na sala ao lado, havia prateleiras repletas de vidros prontos para serem distribuídos.

Isaura explicou como funcionava o atendimento. Além do casal, que cuidava da preparação dos remédios, uma moça atendia o receituário.

— Hoje ela já foi embora — disse Isaura. — O atendimento é ale a uma. Eu atendo as pessoas, converso com elas. Conforme o caso, marco consulta com o Dr. Gilberto. Nem sempre é necessário. Há casos crônicos ou simples que eu mesma dou a medicação. Ele os atende mediante uma ficha que envio ao consultório com o que observei.

— Tem obtido bons resultados?

— Sim. Há casos de cura surpreendentes. Isso nos estimula a continuar. É gratificante poder fazer alguma coisa pelos outros.

— É tudo gratuito?

— Não. Nós achamos que o pobre deve ter a dignidade de pagar. Mas o preço é simbólico. Quem não tem nada, quando melhora vem ou manda alguém da família dar algumas horas de trabalho. Assim, todos cooperam com alegria.

Marina estava emocionada. Ali havia uma comunidade de auxílio, de respeito aos necessitados, que a encantava.

— Eu gostaria de dar algumas horas de trabalho para ajudar — disse ela. — Acha que há alguma coisa que eu poderia fazer?

— Claro.

— Não entendo nada de ervas, mas farei qualquer serviço que mandar.

— Ficarei feliz em recebê-la.

— Quando poderei começar?

— Segunda-feira, às duas da tarde.

Marina sentiu-se feliz. Aquilo seria uma forma de passar o tempo. Apesar do conforto da casa e da biblioteca, não gostava de ficar ociosa. Célia não a deixava fazer nenhum serviço doméstico.

— Virei com certeza.

A partir daquele dia, Marina começou a ir todas as tardes à casa de Isaura, que a colocou como tua assistente.

— Quero que fique a meu lado, observando a conversa com atenção. Depois me dirá o que percebeu.

A princípio, quando no fim do atendimento Isaura lhe pedia opinião, Marina ficava calada. Mas aos poucos, mais familiarizada com a maneira simples das pessoas que compareciam, percebeu algumas particularidades, anotou-as e no fim do atendimento apresentou-as a Isaura.

— Eu sabia que você tinha um sexto sentido bem desenvolvido.

— Sexto sentido? Como assim?

— Intuição, sensibilidade. Você captou perfeitamente a personalidade de Dona Augusta, percebeu que seu problema é mais emocional do que físico.

— Mas mesmo assim você a mandou voltar dentro de uma semana. Já o João, que está com problema renal, só voltará daqui a quinze dias.

— Isso mesmo. O chá que dei a Augusta é um estimulante que a manterá ativa e tratará sua depressão. Todavia, ela precisa de orientação para perceber como está atraindo tantos problemas em sua vida. A maneira como ela vê os fatos do dia-a-dia é a causa de tudo. Enquanto ela não mudar, não vai sentir-se bem.

— Você faz uma terapia?

— Não. Conversando, tento passar-lhe alguns conhecimentos sobre a vida. Suas crenças erradas a estão desequilibrando.

— Sempre pensei que nosso emocional se descontrola pressionado pelos fatos.

— Isso acontece só em momentos muito dolorosos, em que o sofrimento é verdadeiro. Mas, na maioria das vezes, aquilo a que você dá importância, aquilo em que acredita, faz o mesmo efeito em seu sistema nervoso, ainda que seja uma ilusão.

— Tenho observado pessoas nervosas, que têm medo de tudo, que se descontrolam sem motivo.

— Engana-se. Elas têm motivo: as crenças aprendidas, incorporadas à sua maneira de ser, que consideram certas, mas nem sempre o são.

— Como assim?

— Alguém disse algo, e a pessoa acreditou sem tentar saber se era verdade. As crenças mais absurdas atormentam as pessoas, limitando-as, impedindo-as de ter paz. Muitas acabam prisioneiras dos medos.

— Talvez seja falta de instrução. Aqui vem gente muito pobre.

— Engana-se. Há pessoas muito instruídas sofrendo do mesmo mal. Os consultórios médicos estão cheios delas. Doentes crônicos. Percebendo isso, a medicina moderna tem se voltado muito ao estudo do comportamento.

Marina ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:

— É difícil saber o que é certo ou errado.

— Não se trata disso. A vida tem leis perfeitas que determinam o equilíbrio do universo. Ela criou o homem com destino à felicidade, mas determinou que essa conquista fosse feita com esforço próprio, a fim de que o homem valorizasse suas vitórias.

— As pessoas não valorizam nada que é de graça.

— Isso mesmo. É preciso aprender quanto custa cada conquista para que ela se mantenha. Por isso, Deus criou o homem simples e ignorante, mas colocou dentro de seu espírito como uma semente, tudo quanto precisa para desenvolver sua consciência, evoluir e alcançar a felicidade.

— Estamos longe disso.

— Nem tanto. Ainda que as coisas pareçam ruins no mundo onde a maldade de muitos domina, tem havido muito progresso em todos os setores, aliviando o sofrimento humano, facilitando a vida, permitindo ao homem mais conforto.

— De fato, olhando dessa forma...

— Tudo na vida depende do modo como você olha. Todas as situações têm vários lados. São suas crenças que vão determinar como você vai lidar com elas. Agora, as leis cósmicas são perfeitas e vão agir com verdade, independentemente das suas ilusões.

— Quer dizer que, se eu agir errado, ela vai me punir?

— A vida nunca pune. Ela ensina do seu jeito. Sinaliza de diversas formas, tenta advertir as pessoas provocando situações nas quais elas podem perceber a verdade, mas para os resistentes, que se acomodam e não querem mudar, ela permite que colham os resultados de seus enganos para que aprendam o que já estão maduros para saber.

— Nunca ouvi nada sobre isso. Gostaria de saber mais.

— É preciso observar, prestar atenção aos fatos à nossa volta.

É incrível como tudo se encadeia quando estamos abertos a essa realidade.

— Conhecer essas leis deve ser fundamental.

— Conhecer e aplicar significa ir pela inteligência e sofrer menos. Quem percebe os primeiros avisos da vida e retifica seu caminho, vive melhor.

— É seguir os dez mandamentos?

— É, além disso. Nos dez mandamentos estão as normas gerais, mas cada um os interpreta de acordo com suas crenças. Por isso há tantas religiões, e muitos se equivocam por meio delas, enveredando pelo fanatismo. As leis universais são sábias, perfeitas. Visam ao equilíbrio do universo e ao progresso do homem. Agem com amor e sabedoria.

— Onde posso encontrar essas informações?

— Como eu já disse, observando a vida. Ela nos fala por sinais, e aprende-se experimentando. É preciso estar atento. Um acidente, um fato desagradável, pode ser uma advertência. Uma desilusão é a visita da verdade tentando restabelecer o equilíbrio.

— É a miséria, onde tudo falta?

— Você já disse: é valorizar a falta, em vez de agradecer o que já se tem. É viver relacionando o que falta. Aí, sempre há uma passividade, em que a pessoa acredita que não merece algo melhor ou não é capaz de progredir. A pobreza tem vários aspectos e age em cada um de acordo com suas necessidades.

— Como assim?

— Para os acomodados, os depressivos, os que se julgam menos, e até para os que acreditam que ser pobre é ganhar o céu, a vida vai apertando o cerco, tornando a situação cada vez mais difícil, para provocar uma reação que as obrigue a rever suas crenças e procurar novos caminhos.

— Sempre pensei que a causa da pobreza fosse à falta de instrução e de oportunidade.                                  

— Muitos pensam assim, porém é preciso olhar além do que parece. Há pessoas instruídas, com boa escolaridade, que não conseguem nem se sustentar, enquanto outros, sem nada disso, têm uma vida melhor. Claro que a instrução é importante, mas não é tudo. O mais importante é saber aproveitar as oportunidades. Se você observar a vida de uma pessoa que obteve sucesso em todos os aspectos, perceberá que ela nunca perdeu uma boa oportunidade. Nunca teve medo de ousar, de mudar e procurar aprender.

Marina ficou pensativa. Ela estava ali, aproveitando uma oportunidade que Adele lhe oferecera. Como descobrir se essa havia sido uma boa oportunidade?

— Com vontade de progredir financeiramente, uma pessoa pode fazer coisas erradas. Como avaliar?

— É fácil. Ao analisar uma situação, devemos perguntar: essa atitude vai trazer benefício para todos os envolvidos? Se a resposta for sim, pode aceitar sem medo. Caso contrário, e se prejudicar alguém, não aceite.

Marina respirou aliviada. Aceitando aquela proposta, todos seriam beneficiados.

Era com prazer que Marina ia à casa de Isaura todas as tardes, e a cada dia mais admirava o trabalho, a lucidez, a segurança com que ela atendia todos.

No final, apresentava suas anotações e sentia-se feliz quando conseguia identificar os problemas das pessoas. Mas a alegria maior era com os resultados. A melhora de algumas pessoas era visível, enquanto outras não obtinham o mesmo sucesso. Marina se impacientava:

— Por que a Maria não melhorou? O caso de Dona Odete era semelhante, mas muito pior. No entanto, ela está quase boa. Nem parece a mesma pessoa.

— Neste trabalho precisamos ser pacientes. As pessoas não são iguais. Depois, nossa função aqui é esclarecer, oferecer condições de melhora. Aproveita quem quer.

— Você quer dizer que a Maria não está aproveitando esta oportunidade?

—Eu diria que está aproveitando menos do que a Odete. Mas isso não depende de nós. Há outros fatores que interferem. O ritmo de cada um, à vontade, quanto conseguem perceber. Até o medo de recuperar a saúde.

— Não acredito! Se ela vem, é porque quer sarar ficar bem.

Isaura sorriu, e havia um brilho malicioso em seus olhos quando respondeu:

— E não poder mais manipular os outros? Ter de assumir algum trabalho? Deixar de ser paparicada?

Marina desatou a rir.

— Não havia pensado nisso!

— Sabia que a Maria tem um marido bondoso que, quando volta da roça, faz a comida e cuida dos filhos?

— Então é isso! Ela não quer ficar boa...

— Não é apenas isso. O que ela não quer é perder o apoio dele, o carinho. É uma manifestação quase inconsciente. Mas, se eu disser isso a ela, não vai acreditar.

— Nesse caso, como agir!

— Como sempre, fazendo o melhor que podemos. Não temos a pretensão de salvar ninguém. A vida, quando for oportuno, dará um jeito nisso. E, acredite, ela o fará muito melhor do que nós.

Marina ficava encantada. Conversar com Isaura era estimulante. Quase sempre voltava para casa pensando nos assuntos de que havia tratado admirando sua sabedoria.

O tempo estava passando depressa. Sua gravidez completara o quarto mês e ela dispunha apenas de mais algum tempo para estar com Isaura. Pensando nisso, por vezes sentia-se triste.

Certa tarde, Isaura perguntou:

— Você está triste. Aconteceu alguma coisa?

Apanhada de surpresa, Marina sobressaltou-se e respondeu:

— Não. Está tudo bem. O que me entristece é que dentro de algum tempo terei de ir embora. Estou gostando muito de trabalhar aqui com você.

— Quando precisar ir, sentirei sua falta. Mas espero que venha nos visitar de vez em quando.

— Eu adoraria, mas não será possível.

Isaura fixou-a pensativa, depois disse:

— Seu marido pretende fixar residência fora do Brasil?

Temendo ter falado demais, Marina tentou consertar:

— É uma das possibilidades.

— Espero que aconteça o melhor para vocês. Se tivermos que trabalhar juntas, a vida nos reunirá novamente.

Marina sorriu concordando com a cabeça, mas intimamente não acreditava nessa possibilidade.

Sabia que nunca mais poderia voltar àquele lugar. Essa havia sido uma das cláusulas do contrato: ela nunca tentaria aproximar-se da família nem das pessoas com as quais estivera durante a gravidez.

Assim que cumprisse o contrato, traçaria seu projeto de vida dali para frente. Tinha algumas idéias em mente. Abriria sua empresa, compraria uma boa casa e iria buscar a família.

— Seja como for, Isaura, pretendo aproveitar ao máximo esta oportunidade. Tenho aprendido muito com você. Nunca esquecerei estes momentos de convivência.

Isaura sorriu, e em seus olhos havia um brilho indefinível quando disse:

— Eu também. Nossa afinidade vem de muito tempo, talvez de outras vidas.

— Você crê que tivemos outras vidas?

— Com certeza. A reencarnação é um fato.

— A mim parece algo fantasioso.

— Ao contrário. Só ela explica a desigualdade social e tantas outras coisas que vemos no mundo. Nunca estudou o assunto?

— Não. Para dizer a verdade, nunca me interessei por religião. Tenho uma maneira muito livre de pensar.

— A reencarnação é um acontecimento natural da vida. Nada tem a ver com religião, embora algumas a aceitem e falem sobre elas. Ninguém pode estudar a vida, entendê-la, sem atentar para essa realidade.

— Você tem uma maneira diferente de ver as coisas.

— Apesar de ter muita fé no poder absoluto de Deus, de respeitar a religiosidade de cada um, me permito pensar por conta própria. Sou espiritualista independente.

— Por quê?

— Porque gosto de pensar, questionar, aprender com a vida, entender sua linguagem. As religiões são as interpretações que os homens fizeram das revelações espirituais em todos os tempos. Por isso, quando você as estuda, apesar dos aspectos positivos que encontra, há outros que você não consegue aceitar.

— Não tem medo de estar errada?

— Não. A opinião da maioria nem sempre está absolutamente certa. Se eu errar, prefiro que seja por minha própria cabeça. Depois, errar é natural em quem experimenta, e tenho aprendido

muito com meus erros. Eles ensinam, marcam para sempre.

Marina sacudiu a cabeça sorrindo.

— Compreendo. Eu também gosto de pensar, de ter liberdade para experimentar. Desde cedo procurei cuidar de minha vida do jeito que achei melhor. Apesar de apreciar uma boa opinião, nunca me deixei manipular por ninguém.

— É por isso que nos damos bem. Temos a mesma maneira de pensar.

A conversa continuou agradável. Quando Marina chegou em casa, depois do jantar, foi à biblioteca, apanhou a pasta com o índice dos livros e procurou alguma coisa sobre reencarnação.

Isaura falara com tanta certeza, que aguçara sua curiosidade. Não encontrou nada. Quando Célia entrou avisando-a que o jantar estava servido, Marina perguntou se não havia nenhum livro que tratasse do assunto.

— Há. O Livro dos Espíritos.

— Fala sobre reencarnação? Não é um livro religioso?

— Fala e não é religioso. É de um grande educador francês que realizou pesquisas com médiuns. Leia, é interessante. Agora vamos jantar.

Marina acompanhou-a, decidida a ler o livro após o jantar.

 

Sentada em uma poltrona, Maria Eugênia segurava o livro sem ler, perdida em seus pensamentos íntimos. Havia dois meses que estavam em Paris, e, apesar das atenções de Henrique e da beleza da cidade, ela não se sentia feliz.

Por que concordara com o plano de sua mãe? Por que entrara naquela situação falsa, agindo contra seu temperamento?

Ela nunca soubera resistir aos desejos da mãe. Adele, pessoa inteligente, carismática, habituada ao sucesso e à reverência de todos, impusera-se à filha, que lhe obedecia sem questionar.

Henrique foi seu primeiro namorado. Assim que Adele notou o interesse dela, mandou investigar a vida do rapaz. Embora não fosse rico, pertencia a respeitada família classe-média. Acabara de graduar-se em Administração de Empresas. Adele ofereceu-lhe emprego em uma de suas empresas e ele aceitou. Observou-o por certo tempo. Henrique era esforçado, trabalhador e responsável.

O maior desejo de Adele era casar a filha, porquanto precisava de um neto para perpetuar sua presidência nas empresas da família. Casar Maria Eugênia era seu objetivo. Ficou satisfeita ao notar que os dois se sentiam atraídos um pelo outro.

Um ano depois, o casamento realizou-se. Maria Eugênia amava o marido e estavam felizes. Contudo o tempo passava e o tão desejado herdeiro não aparecia.

Depois de muitas tentativas e exames médicos, ficou constatado que Maria Eugênia era estéril. Nunca poderia ter filhos.

A partir desse dia, Maria Eugenia mudou. Desejava ser mãe. A certeza de sua incapacidade a entristecia, fazendo-a sentir-se deficiente.

Embora Henrique jurasse que a amava e que nada havia mudado entre eles, Maria Eugênia não conseguia manter a alegria de antes.

Pensando em ajudá-la, Henrique sugeriu a adoção. Mas Adele não concordou. Até que uma tarde os chamou em seu escritório e falou sobre seus planos.

Henrique ficou constrangido e Maria Eugênia recusou. Mas Adele conseguiu convencê-los. Era a última tentativa.

Henrique, a sós com Adele, tentou convencê-la a desistir. Ele sentia que aquela situação agravaria a tristeza de Maria Eugênia e a faria sentir-se ainda mais incapaz.

Contudo, Adele não concordou. Estava decidida. Tinha tudo planejado, havia encontrado a moça ideal e não queria perder a oportunidade.

Maria Eugênia suspirou triste. A lembrança daqueles dias não lhe saíam do pensamento e ela arrependia-se de não haver dito "não".

Henrique dissera-lhe que só aceitara porque devia muitos favores a Adele, que naqueles anos todos havia não só lhe ensinado a enfrentar o mundo dos negócios mas também ajudara financeiramente todos os membros de sua família.

Ela era para seus familiares o anjo bom que aparecera em suas vidas, dando-lhes oportunidade de produzir e manter uma vida melhor.

— Ninguém consegue resistir à minha mãe! — respondera Maria Eugênia, convicta.

Quando Adele os chamou, os três foram para o sítio. Maria Eugênia sentia o coração apertado. A custo resistiu ao desejo de fugir dali, de dizer que não queria nada daquilo, que seu marido não podia relacionar-se com outra mulher.

Mas não fez nada. Suportou tudo esforçando-se para controlar o ciúme, a revolta. Henrique, notando o nervosismo da esposa, sentia-se constrangido, tenso. Só Adele estava calma e conversou com eles, afirmando que tudo aquilo era natural.

— Vá, Henrique. Lembre-se de que está colaborando para que continuemos na posse dos nossos bens. Pense que, se nossos negócios passassem para as mãos de Renato, em pouco tempo ele depredará tudo. Vocês o conhecem e sabem que digo a verdade. Fazendo isso, ele também estará protegido: continuará recebendo os lucros da empresa, como sempre.

Henrique saiu e Adele ficou conversando com a filha. Sabia que lhe era difícil pensar que seu marido naquele momento estava se relacionando com outra, ainda que fosse uma desconhecida.

— Os homens são diferentes de nós mulheres. Para eles, um relacionamento sexual não significa nada. Ele ama você. Está fazendo isso por nós, pela nossa família. Ele nem sequer a conhece. Eu combinei com Célia, e eles não vão se conhecer, conversar. Por isso, trate de não levar isso a sério. E apenas um negócio, nada mais.

— Não posso encarar como um negócio. Trata-se de meu marido.

— Trata-se da nossa família. Henrique está se sacrificando pelo nosso bem-estar. Devemos ser gratas a ele.

— E se não adiantar? E se depois de tanto sacrifício nascer uma menina?

— Você a criará como filha. Está no contrato. Filhos não estavam no plano dela. Marina nem sequer deseja se casar.

— Então tudo terá sido inútil.

— Talvez não. Poderei tentar um adiamento. Afinal, você teve uma filha. Poderá ter um varão.

— Isso, não. Nunca farei isso de novo.

— Pois eu tentarei por todos os meios. Se for preciso, dividirei nossa fortuna com Renato para que ele desista da presidência. Afinal, ele não gosta mesmo de trabalhar.

— Por que já não fez isso? Teria sido melhor.

— Descobri que ele tem perdido muito nos cassinos. Dar-lhe dinheiro será um recurso extremo. Depois, quem nos garante que mais tarde ele não volte a reivindicar seus direitos? Nosso plano é definitivo. Se nascer um menino, tudo estará resolvido. Ele não poderá fazer nada.

Quando eles regressaram a São Paulo, Maria Eugênia sentiu vontade de perguntar ao marido como havia sido seu encontro com a outra. Porém ele não mencionava o assunto e ela não tinha coragem de perguntar.

Adele, notando a curiosidade dela, dissera-lhe:

— Não pergunte nada a ele. Esqueça o caso. Não dê a isso uma importância maior do que tem. Foi uma circunstância passageira.

— E se precisar repetir?

— Faremos de novo — respondeu Adele com firmeza.

Maria Eugênia sentiu alívio ao saber que Marina engravidara. Porém, ao mesmo tempo, aquela gravidez lhe dava a certeza de que eles realmente haviam se relacionado, e isso despertava seu ciúme.

Maria Eugênia refletia, procurava tranqüilizar-se pensando que ele nunca mais iria vê-la. Mas a idéia de que ele estivera nos braços de outra a atormentava.

Adele preparou tudo para a viagem da filha com o marido, e na bagagem havia uma barriga postiça que ela usaria mesmo no exterior. Seus amigos costumavam ir à Europa, e Adele não desejava correr nenhum risco.

Depois, queria que Maria Eugênia se habituasse à idéia da maternidade. Quando a criança chegasse, ela precisaria estar preparada.

Foi com alegria que Adele contou para os parentes e os amigos que Maria Eugênia estava grávida. Começou a preparar o enxoval e o quarto para receber o bebê.

Maria Eugênia olhava os preparativos tentando dissimular o desagrado. Era-lhe difícil fingir. Usar a barriga postiça era constrangedor. Mas Adele estava atenta, e, assim que chegou ao fim do quarto mês da gravidez, ela foi forçada a usá-la.

Foi com alívio que Maria Eugênia embarcou para a Europa com o marido. Mesmo tendo de continuar usando o disfarce, não precisaria fingir. Ninguém a conhecia.

Apesar de estarem fora do Brasil, Henrique continuava trabalhando, porquanto a empresa mantinha um escritório em Paris, por intermédio do qual se relacionava com toda a Europa, exportando seus produtos.

Maria Eugênia passava o dia inteiro sozinha. Ler era seu passatempo predileto.

Fechou o livro que tinha nas mãos e sentou-se novamente.

Haviam combinado que, quando o bebê nascesse, Célia os avisaria. Eles seguiriam imediatamente para a fazenda, onde pegariam a criança. Era lá que Maria Eugênia diria que seu filho havia nascido.

Voltariam para casa, onde haveria uma ama esperando por eles. Adele planejava batizar o menino em seguida, convidando parentes e amigos, fazendo uma grande festa.

Maria Eugênia preferia uma cerimônia discreta, mas Adele não concrdou:

— Nada disso! Todos precisam saber que você teve um filho. Assim ninguém suspeitará de nada.

Sabia que seria assim. Adele sempre fazia o que desejava. Maria Eugênia não se atrevia a opor-se.

Henrique entrou, aproximou-se e beijou-a na face:

— Como passou o dia?

— Bem.

Ele notou que ela estava pálida e considerou:

— Por que não foi dar uma volta, fazer algumas compras? Você sempre gostou de fazer isso aqui em Paris.

— Fiquei lendo. O livro estava interessante; nem me lembrei de sair.

Henrique não disse nada. Notava que Maria Eugênia andava triste. Suspeitava que o plano de Adele a estava infelicitando.

Arrependia-se de haver concordado. Maria Eugênia não conseguia aceitar que era estéril. O plano de Adele a deixa ainda mais triste.

Ele esperava que com o tempo ela fosse se modificando. Mas Maria Eugênia parecia-lhe pior. Perdera o prazer de viver, de sair, de conversar. Aos poucos fora se tornando uma mulher apagada, insegura, muito diferente de quando ele a conhecera.

Ao expor seus receios para Adele, temendo que seu plano a entristecesse ainda mais, a sogra lhe respondera que, depois que a criança nascesse, Maria Eugênia esqueceria tudo.

Tentando alegrar a esposa, ele tornou:

— Prepare-se. Esta noite vamos jantar em um lugar adorável. Tem um piano-bar famoso, onde se apresentam bons cantores. Um amigo me indicou.

— Eu preferia ficar em casa.

— Nada disso. Vamos nos divertir. Talvez dançar um pouco. Vá arrumar-se.

Ela levantou-se. Não queria que ele notasse sua tristeza. Foi para o quarto preparar-se.

Ele sentou-se no sofá, pensativo. Apesar de amar a esposa, de entrar naquela aventura contrariado, de ter ido àqueles encontros por obrigação, eles haviam sido muito agradáveis.

Instruído pelo médico sobre como motivar a esposa a fim de que ela engravidasse, Henrique foi ao encontro de Marina pretendendo usar tudo que aprendera para que sua tarefa se cumprisse o mais depressa possível, para não precisar voltar mais vezes.

Quando entrou naquele quarto em penumbra, deitou-se ao lado de Marina, sentiu um agradável perfume e, disposto a cumprir seu papel, começou a acariciá-la. Ela correspondeu de tal forma que ele acabou se esquecendo de tudo.

Ela possuía lábios macios, pele delicada e suave ao toque. E, pelo que pudera perceber, um corpo perfeito. Ao notar que ela nunca havia tido relações, Henrique emocionou-se. Adele não lhe contara aquele detalhe.

Tocado, procedeu com delicadeza e carinho. Quando voltou na noite seguinte, estava ansioso para perguntar algumas coisas. Mas conteve-se. Havia prometido a Adele que evitaria contato maior com ela.

Naquela noite, ao voltar para casa, encontrou Maria Eugênia deitada e notou que ela fingia dormir. Certamente não conseguira conciliar o sono. Sabia que era difícil para ela aceitar aquilo. Deitou-se procurando não fazer ruído.

Era melhor assim. Temia que ela lhe perguntasse detalhes que ele não estava disposto a relatar para não aumentar sua insatisfação.

Apesar de o tempo haver passado, de nunca haver conversado com Marina e não saber como ela era na realidade, Henrique se surpreendia recordando os momentos vividos naquelas noites.

Fosse pelo mistério da aventura, fosse pela curiosidade, pelo fato de haver sido seu primeiro, ele gostaria muito de vê-la, ainda que de longe. Mas Adele fora categórica: não queria que se conhecessem. Pensava assim evitar um possível interesse que pudesse surgir entre eles.

Havia prometido a Maria Eugênia que disporia de tudo para que eles nunca se encontrassem frente a frente depois daqueles momentos em que cumpriram suas obrigações de contrato.

Embora nunca houvesse mencionado o assunto, Henrique sentia que Maria Eugênia pensava constantemente nele. Momentos havia em que ela ficava inquieta, em seus olhos havia curiosidade, mas não formulava nenhuma pergunta.

Ele tentava distrai-la falando de assuntos agradáveis, redobrando as atenções para demonstrar que ela não precisava preocupar-se, porque ele a amava de verdade.

Adele ligava para o escritório para saber como a filha estava. Quando Henrique confidenciava que Maria Eugênia estava triste, deprimida, apesar dos esforços dele para alegrá-la, Adele invariavelmente respondia:

— Tenha paciência, Henrique. Não se preocupe. Quando ela tiver uma criança nos braços, tudo passará. Sei o que estou dizendo.

— Ela me parece muito mudada. Perdeu a alegria, parece outra pessoa.

— Você está impressionado. Precisam esquecer o que passou. Você está esperando seu filho! Quanto a ela, tenho certeza de que se renderá quando vir o menino. A criança emociona e enleva. Procurem aproveitar esses momentos juntos. Verá que tenho razão.

Ele sentia-se mais animado. Um filho! Emocionava-se a esse pensamento. Mas e Maria Eugênia, como se comportaria? Adele tinha razão: eles precisavam reagir.

Maria Eugênia aprontou-se com esmero. Não queria que Henrique notasse sua tristeza. Uma vez no restaurante, ela procurou mostrar-se entusiasmada.

O lugar era elegante, agradável, e o pianista executava música romântica. Alguns casais dançavam. Henrique estava particularmente alegre. Havia fechado um grande contrato e queria comemorar.

Escolheu o vinho e o jantar. Enquanto esperavam, ele perguntou:

— Gostou do lugar?

— Muito.

— Me disseram que a comida é divina.

O garçom trouxe o vinho. Henrique experimentou e mandou servir.

— Vamos brindar ao nosso sucesso!

— Ao sucesso da empresa, você quer dizer!

Ele admirou-se:

— Estou me referindo ao nosso sucesso. À nossa felicidade. Estamos aqui juntos, neste lugar maravilhoso. Temos tudo. A vida tem sido pródiga conosco.

Maria Eugênia suspirou, mas tentou dissimular a tristeza:

— É verdade! Temos tudo. Só nos falta...

Ele colocou sua mão sobre a dela com carinho.

— Não nos falta nada. Para mim, ter você é o suficiente. Não preciso de mais ninguém.

— Quisera ter certeza de que isso é verdade.

— Claro que é.

— Então por que aceitou o plano de mamãe?

— Porque você concordou, e eu pensei que você queria ter esse filho.

— É o que eu mais queria neste mundo. Mas não fui boa o bastante para isso.

— A natureza faz dessas coisas de vez em quando. Não é culpa sua. Você não é menos por isso. Vamos esquecer essa história. Viemos aqui para nos divertir. Vamos dançar.

— Tem razão. Vamos dançar.

Uma vez nos braços dele, Maria Eugênia tentou reagir. Apesar da estranha aventura, Henrique a amava, estavam casados. Ela não tinha nenhum motivo para sentir-se triste. Naquela noite, queria esquecer seus problemas.

Firmou o propósito de não pensar mais no bebê que viria quando voltassem. Enquanto estivessem em Paris, longe de Adele e dos assuntos da empresa, iria aproveitar esse tempo de liberdade para ser feliz. Quando chegasse a hora de regressar, voltaria a pensar neles.

A partir dessa noite Maria Eugênia mudou sua atitude. Tornou-se alegre, bem-disposta.

Quando o marido saía para o trabalho, ela, após arrumar-se com capricho, saía procurando descobrir os lugares da moda, freqüentando institutos de beleza, estilistas, comprando tudo que lhe agradava e ao mesmo tempo informando-se sobre espetáculos, clubes, restaurantes. O único senão era a incômoda barriga postiça que precisava usar, mas, como estava disposta a não pensar mais nela, fingia não vê-la.

Quando Henrique voltava no fim da tarde, encontrava-a muito bem arrumada, sorrindo e com uma lista de lugares onde poderiam ir à noite.

Nos primeiros dias Henrique sentiu-se aliviado. Afinal, Maria Eugênia havia deixado de preocupar-se com o bebê. Mas, depois de um mês levando essa vida, sentiu-se extenuado. Dormindo tarde e acordando cedo, ele ansiava por descansar nos fins de semana, mas Maria Eugênia não lhe dava chance.

Em um sábado, quando ela mostrou duas entradas para o teatro um clube, Henrique tornou:

— Esta noite gostaria de ficar em casa. Iremos outro dia.

— Mas eu já tenho as entradas e fiz a reserva no clube. Depois, combinei de jantarmos com Jamille e o marido. Eles são muito amáveis; não podemos faltar. Será deselegante e imperdoável.

Henrique sentia-se irritado. Havia tido um dia exaustivo na empresa, onde tomara conhecimento de alguns problemas que desejava contornar e encontrar solução. Para isso, queria passar um fim de semana calmo para poder refletir. Depois, não estava com disposição de fazer sala a um casal que vira apenas uma vez.

Maria Eugênia e Henrique conheceram Jamille e Pierre em um desfile de modas. Durante o evento, as duas mulheres haviam conversado, ficado amigas. Na saída do desfile, Maria Eugênia propôs que os casais jantassem juntos dali a alguns dias.

Maria Eugênia esperara ansiosamente pelo encontro. Por esse motivo, a inesperada recusa de Henrique em cima da hora a deixara inconformada:

— Eu gostaria tanto de ir a esse encontro... Porque não quer ir? Vocês não gosto deles?

De fato, Henrique não se sentira à vontade ao lado de Pierre. Embora admitisse que  o francês era um homem culto e sofisticado, aborreceu-se profundamente com sua conversa formal.

— Já que você pergunta... Ela pareceu-me mais agradável do que ele, que olha as pessoas do alto da sua sabedoria, tem regras para tudo.

— Ele é um intelectual. Aliás, sei de gente importante que gostaria muito de usufruir da amizade deles.

— Estou surpreso. Você nunca deu valor a essas coisas!

— Mas agora dou. Afinal, estamos em Paris, a capital do mundo. Aqui é a sede de tudo. Seria imperdoável faltarmos a esse encontro! Temos que ir.

Henrique irritou-se.

— Telefone e diga que não iremos.

— O que direi a eles?

— Invente alguma coisa. Diga que estou mal, que adoeci de repente. Não me sinto com paciência para tolerá-los.

Maria Eugênia levantou-se, irritada.

— Tolerá-los? Foi o que disse? Eles é que precisam de paciência cia para nos receber. Da última vez, você mal conversou com ele, comportou-se como um ignorante.

— Ele estava falando sem parar uma gama de assuntos que não me interessam nem um pouco. Tenho certeza de que não fui indelicado. Pelo contrário: tratei-o com respeito, ouvindo-o exibir suas qualidades.

— Está com inveja do sucesso dele?

Henrique olhou Maria Eugênia como se a estivesse vendo pela primeira vez.

— Inveja dele? Pensou bem no que está dizendo?

— Bem... Você não teve a formação que ele tem... Ele é um homem famoso na melhor sociedade. Nas rodas intelectuais, todos consultam suas opiniões.

— Pois eu não acho. E decididamente não irei a esse jantar. É melhor telefonar logo avisando-os.

— Estou chocada! Não posso fazer isso!

— Nesse caso, vá sozinha. Eu vou ficar em casa.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas.

— Você não pode fazer isso comigo!

— Não pode obrigar-me a fazer uma coisa que me desagrada.

—Eu comprei uma roupa especial, me preparei... Quero muito ver essa peça.

— Pois vá. Diga-lhes que não pude comparecer e aproveite sua noite. Quanto a mim, ficarei em casa. Preciso descansar. Quero sossego para resolver alguns assuntos da empresa que estão me preocupando.

— Nunca pensei que você fosse capaz de fazer isso comigo!

— Pois eu sou. Depois, hoje eu não seria uma boa companhia. Vá, divirta-se, e da próxima vez não marque encontros com pessoas sem perguntar se quero ir.

Maria Eugênia, nervosa, foi para o quarto pensando se deveria ir ou não. Nunca havia saído para passear sem o marido. Gostava de desfilar de braços com ele e notar como as mulheres o olhavam com admiração.

Henrique era um homem bonito, charmoso, elegante. Suspirou pensativa. Mas, entre o desejo de fazer o passeio que havia programado e ficar em casa, ela decidiu ir. Assim, daria uma lição ao marido. Ele precisava saber que ela não ia desistir de algo que lhe dava prazer só porque ele não queria ir.

Foi preparar-se, caprichou e antes de sair foi ter com ele, que lia no escritório. Sentia-se linda, elegante, perfumada. Ela teria sua noite de alegria. Ele é quem estava perdendo, recusando-se a acompanhá-la.

— Que tal estou?

Henrique fixou-a e respondeu:

— Muito bonita.

— Tem certeza de que não quer ir?

— Tenho. Estou cansado. Preciso de um tempo para refletir.

— Refletir. Posso saber em quê? Afinal, estamos aqui para nos divertir enquanto minha mãe trama no Brasil. É nisso que está pensando?

— Que idéia! Claro que não. Tenho que resolver alguns problemas da empresa. É nisso que estou pensando.

Maria Eugênia aproximou-se dele, braços estendidos, e disse irônica:

— Acha que aquela mulher é mais bonita do que eu?

— A que mulher se refere?

— A que se vendeu aos milhões de Adele.

Henrique olhou-a assustado. Maria Eugênia nunca se referira ao caso daquela forma.

— Pensei que tivesse esquecido aquele incidente.

— É. Tenho me esforçado. Havia esquecido mesmo. Sua atitude fez-me lembrar.

— É melhor ir logo, para não estragar sua noite. Afinal, você se preparou muito para ela.

— Isso mesmo. É o que farei.

— Divirta-se.

Ela saiu deixando uma onda de perfume no ar. Henrique suspirou, pensativo. Talvez não tenha feito bem aceitando participar do plano de Adele. Maria Eugênia que parecera concordar de bom grado, estava demonstrando que se sentia magoada, ferida, enciumada. Não parecia mais a moça dócil, delicada que conhecera. Mergulhara na vida social, fizera amizades com pessoas fúteis, mudara sua maneira de ser, falava como eles.

Suas inesperadas palavras de momentos antes demonstravam que ela se tomara amarga, cruel. O que aconteceria quando regressassem ao Brasil e tivessem nos braços a criança?

Seu filho! Henrique estremeceu. Um sentimento de amor brotou em seu peito pensando na criança que pouco tempo depois teria em seus braços.

Apesar do constrangimento com Maria Eugênia, havia o fato de que o plano de Adele lhe dera oportunidade de ter um filho e educá-lo como sempre desejara.

Lembrou-se dos encontros furtivos com Marina, da maciez de sua pele, dos momentos prazerosos que haviam desfrutado. Apesar de estarem ali cumprindo um contrato, em nenhum momento ela se mostrara indiferente. Mesmo nunca tendo se relacionado com alguém, correspondera ao seu carinho, fazendo-o esquecer as circunstâncias daquele encontro.

Adele dissera-lhe que Marina não pretendia casar-se. Preferia dedicar-se à carreira profissional. Uma mulher ambiciosa. Aceitara o contrato por dinheiro.

Henrique suspirou triste. O que faria uma jovem instruída, cheia de vida como ela parecia ser, aceitar uma proposta daquelas? Adele não lhe dissera. Aliás, ao tocar nesse assunto, ela falava o essencial.

De certa forma, sua sogra também era uma mulher ambiciosa. Não se conformava em perder a presidência da empresa. Era uma mulher muito rica. Mesmo que Renato acabasse com a empresa, ela ainda poderia viver muito bem com os recursos que possuía.

O que estava em jogo era o poder. Adele não desejava abrir mão dele. Se Renato se tornasse o presidente, ela ficaria subordinada a ele. Era isso que a irritava.

Henrique gostava de ser rico, de usufruir de tudo quanto o dinheiro pode comprar. Mas casou-se com Maria Eugênia porque a amava. Claro que  sua situação financeira o agradara, mas, se não sentisse atração por ela, jamais teria se casado.

Os pais de Henrique moravam na cidade de Ribeirão Preto, onde ele nasceu e foi criado. Foi o segundo filho de Américo e Estela, ele médico conceituado na cidade, ela professora primária. Jorge, o irmão mais velho, seguira a carreira do pai. Aos dezoito anos, Jorge viera para São Paulo e conseguira ingressar na Escola Paulista de Medicina. Dois anos depois, Henrique viera tentar a mesma coisa. Contudo, como não conseguiu, ficou para fazer o cursinho e preparar-se melhor.

Foi nesse período que conheceu Maria Eugênia, que estudava na mesma escola e preparava-se para fazer Administração de Empresas. Ela logo se interessou por ele. Começaram a estudar juntos, ele a freqüentar a casa dela.

Maria Eugênia não se interessava muito pelos estudos. Não possuía o mesmo interesse da mãe. Ele percebeu logo que fora Adele quem escolhera essa carreira para ela.

Foi Adele que o fez mudar de idéia com relação à carreira. Falava com tanto entusiasmo sobre administração, do prazer de planejar e executar seus projetos, que ele passou a se interessar e acabou gostando.

Seu irmão formou-se médico e voltou para Ribeirão Preto a fim de dedicar-se à profissão ao lado do pai. Henrique cursou a faculdade e ao graduar-se já estava noivo de Maria Eugênia e trabalhando na empresa de Adele.

Ela acompanhara seus estudos, ensinara-lhe coisas que só a prática lhe daria. Além do emprego, dera-lhe a filha em casamento. Era-lhe muito grata por tudo isso.

Maria Eugênia entrara na faculdade, mas desistira no primeiro ano. Adele percebeu que não adiantava insistir. Ela nunca seria boa administradora. Não tinha pique. Já Henrique era seu orgulho. Inteligente, trabalhador, bonito. Tornara-se seu braço direito.

Henrique olhou o relógio: passava da uma. Maria Eugênia ainda não havia voltado. Ele resolveu se deitar. Sentiu prazer em poder estar em silêncio no aconchego do apartamento.

Foi à cozinha, fez um café para tomar com leite, como nos tempos em que morava na casa dos pais. Pensou neles com saudade. Fazia tempo que não os via. No dia seguinte, escreveria uma carta.

Procurou no armário algo para comer. Encontrou um pacote de bolachas. Sentou-se, e foi muito prazeroso tomar sua xícara de café com leite, comer bolachas, recordar-se de sua vida no interior.

Depois, foi para o quarto, preparou-se para dormir. Deitou-se e logo pegou no sono.

Passava das quatro quando Maria Eugênia chegou com o casal amigo. Jamille ficou no carro e Pierre subiu com Maria Eugênia até o apartamento. Ela abriu a porta, voltou-se e estendeu a mão para despedir-se dele.

— Obrigada por tudo. Foi uma noite maravilhosa.

— Eu adorei! — respondeu ele segurando a mão dela e levando-a aos lábios. — Fazia muito tempo que eu não me divertia tanto.

— Eu também.

— Espero que seu marido tenha melhorado. Mas não pude deixar de observar que você sem ele é outra pessoa, alegre, espirituosa. Tive impressão de que, de certa forma, você se contém diante dele.

— Por que diz isso? Henrique respeita minha liberdade. Foi ele quem insistiu para eu sair, mesmo não podendo ir.

Ainda segurando a mão dela, ele considerou:

— Continuo achando que você sem ele fica mais alegre, mais solta.

Ela retirou a mão e sorriu:

— Obrigada. Jamille está esperando no carro. É melhor ir.

Sim. Prometa que logo sairemos de novo.

— Prometo. Agora vá.

Ele se foi e Maria Eugênia suspirou feliz. Os olhos de Pierre brilhavam quando se fixavam nela. Sentia-se linda, cortejada. Estava deslumbrada. nunca sentira aquilo antes.

Henrique fora seu primeiro namorado. Nunca tivera oportunidade de experimentar a admiração masculina como naquela noite.

Fechou a porta, foi para o quarto. Henrique dormia tranqüilo. Ficou irritada. Pelo jeito, ele não sentira nem um pouco sua falta. Mas isso não iria estragar seu bom humor.

Foi para o banheiro, tirou a maquiagem e preparou-se para dormir. Estava feliz. Se Henrique quisesse ficar em casa outras vezes, ela não se impotaria. Faria amigos, sairia, aproveitaria a vida como nunca o fizera.

Tinha certeza de que logo voltaria ao Brasil e teria de entrar no papel da filha obediente, suportar aquela criança e as imposições de Adele.

Não queria pensar nisso agora. Deitou-se e, pensando nos momentos alegres que desfrutara naquela noite, logo adormeceu.

 

Henrique levantou-se, lavou-se e foi à copa tomar café. Era sábado, passava das dez e Maria Eugênia ainda dormia. Provavelmente voltara tarde novamente.

Ele suspirou aborrecido. Maria Eugênia estava mudada. Não era mais aquela moça discreta, tímida, doce, de que ele gostava. Desde que ele se recusara a acompanhá-la àquele jantar com Jamille e Pierre quatro meses atrás, ela não parava mais em casa. Vivia rodeada de amigos, com os quais sempre tinha algum lugar para ir.

No início ela o convidava, mas, como ele invariavelmente não ia, depois de algum tempo ela deixou de fazê-lo. Quando ele chegava em casa no fim da tarde, encontrava-a as voltas com os preparativos para o passeio da noite.

Quase sempre saía em companhia de Jamille, o marido e outro casal. Henrique não gostava deles. Achava-os pedantes e fúteis. Mas Maria Eugênia envolvera-se de tal forma que não fazia mais nada sem eles. Várias vezes Henrique tentara convencê-la de que estava exagerando, ao que Maria Eugênia respondia:

¯ Pela primeira vez estou livre para fazer aquilo de que gosto. Por que não posso? Logo teremos que voltar, então viverei prisioneira de novo.

Ele pedia-lhe que moderasse um pouco, mas era inútil. Maria Eugênia não ficava uma noite em casa.

Na tentativa de convencê-la, ele a acompanhara algumas vezes, e o que vira preocupou-o ainda mais. Notou que ela estava sempre com o copo de vinho nas mãos, bebericando, e seus companheiros providenciavam para que ele estivesse sempre cheio. Nesses momentos, Maria Eugenia tornava-se espirituosa, maliciosa.

Comentavam as fofocas do momento com prazer, falavam dos outros conhecidos, famosos ou não, com maldade, o que desagradava Henrique, que odiava esse tipo de assunto.

Certa vez, ao chegarem a casa, ele lhe dissera:

— Não sei como você agüenta a conversa desses seus amigos. Só sabem falar mal dos outros.

— Pois eu os acho divertidos. Adoro conversar com eles. Não sabia que você era moralista...

— Não se trata de moralismo. Não gosto das futilidades de salão nem de maledicência. É isso que vocês fazem.

— Está falando isso porque não consegue se divertir como nós. Para você, o trabalho é mais importante do que tudo. Pois eu não sou assim. Sou jovem, gosto de me divertir. Estou aproveitando muito a estada aqui.

Henrique serviu-se de café. Enquanto o tomava, pensou que faltava pouco para a volta. Arrependia-se de haver concordado com aquela experiência. Embora obedecesse a mãe, Maria Eugênia não tinha estrutura para aceitar os fatos. Ela havia mudado radicalmente, e isso não era bom.

Maria Eugênia entrou na sala com cara de sono:

— Não sei o que está acontecendo na rua hoje. O barulho está infernal; não me deixou dormir.

— Bom dia.

— Bom dia. Acordei tão irritada que me esqueci de dizer.

Ele não respondeu logo, e continuou tomando seu café. Depois de alguns instantes, disse sério:

— Você se esqueceu de colocar a barriga. Aliás, tenho notado que não está fazendo como se deve. Ela deveria estar muito maior. Está quase na hora de nascer.

— Não gosto desta história. É deselegante ter que sair carregando esta coisa. Acho que aqui eu não precisaria usar este disfarce. Meus amigos não sabem nada sobre o que se passam no

Brasil. Nunca mostraram desejo de ir para lá. Por que eu deveria usar esta barriga horrível?

— Eu também não gosto de nada disso, mas, uma vez que nos metemos nesta, é preciso fazer tudo direito. Estamos fazendo um esforço para ajudar Adele a preservar o futuro da empresa, e não podemos correr o risco de pôr tudo a perder. Já pensou se você encontrar algum conhecido do Brasil?

— Algumas vezes isso aconteceu, mas ninguém perguntou nada.

Claro que não iam perguntar.

— Mas eu tive o cuidado de mencionar minha gravidez falando dos sintomas. Ninguém desconfiou.

— Seus amigos poderão estranhar o fato de que sua barriga não está crescendo o suficiente.

— Não seja implicante. Eles nunca tocam nesse assunto.

— Pelas minhas contas, o bebê esta quase na hora de nascer.

— Nem fale uma coisa dessas! Não quem pensar em voltar. Se eu pudesse, ficaria aqui para sempre. Não sei por que temos que nos preocupar com a empresa. Temos dinheiro suficiente

para viver bem. Depois, se nascer uma menina, esse sacrifício terá sido inútil.

— Se pensa assim, não deveria ter concordado com Adele.

— Você também concordou. Aliás, ficou com a melhor parte.

Henrique fixou-a irritado.

— Não entendi sua alusão. Fiz o que me pediram. Ponha isso na sua cabeça.

— Mas terá um filho, coisa que eu nunca terei.

— Essa criança será seu filho também. Embora tenha sido gerada em outro corpo, ela virá para seus braços, vai precisar de seu carinho, de seu amor de mãe. Um dos argumentos que me convenceram a concordar foi que essa seria a única forma de termos um filho.

— Vamos mudar de assunto. Enquanto estivermos aqui, quero esquecer esse fato. Já chega ter que voltar para casa.

Henrique terminou o café e foi até a janela. Apesar do frio, o dia estava bonito, havia muitas pessoas na rua. Ele voltou-se para Maria Eugênia:

— O dia está bonito. Vamos dar uma volta.

— A esta hora da manhã? Não dormi o suficiente. Estou cansada. Pretendo dormir mais um pouco, descansar. Esta noite iremos ao teatro.

— Você está abusando, bebendo demais, voltando tarde todas as noites. Se deseja descansar, deveria ficar em casa, dormir cedo, pelo menos algumas noites por semana.

— Estou correndo contra o tempo. Logo teremos que ir embora. Não posso perder um minuto.

Henrique olhou-a sério. Ia retrucar, mas mudou de idéia. Foi ao banheiro, escovou os dentes, penteou os cabelos, vestiu o paletó, voltou à sala e disse:

— Vou andar um pouco. Não me espere para o almoço.

Deu meia volta e saiu. Maria Eugênia não se importou. Nos últimos tempos, Henrique estava se tornando cansativo. Não se divertia com nada, olhava-a com ar de reprovação. Dava a impressão de que a estava vigiando.

Ela sentia-se mais alegre quando não estava ao lado dele. Foi para o quarto e deitou-se novamente, procurando dormir.

Uma vez na rua, Henrique começou a caminhar por entre as pessoas que passavam elegantes, conversando animadamente entre si. Mas eram-lhe desconhecidas. De repente, apesar de estar rodeado de pessoas, sentiu-se só.

Lembrou-se dos pais, da fazenda confortável onde passava as férias duas vezes por ano, em meio aos primos e às brincadeiras, sem se preocupar com o futuro, que acreditava ser como até então, alegre e feliz.

Sentiu saudade e vontade de voltar. Uma vez em casa, Maria Eugênia seria forçada a assumir seus compromissos de mãe.

Esse pensamento confortou-o um pouco, mas não o bastante para motivá-lo quanto ao futuro. Sentia-se decepcionado, triste.

Ao alcançar uma praça, sentou-se em um banco discreto, distante dos ruídos das crianças que brincavam alegres. Sentia necessidade de meditar, de repensar sua vida.

Maria Eugênia estava se revelando uma mulher diferente do que imaginava. A ingenuidade, o recato, a modéstia que sempre demonstrara eram fraquezas que a mão de ferro de Adele encobria.

Diante da mãe, Maria Eugênia era discreta, educada, falava pouco, e suas opiniões, quando as externava, refletiam sempre o bom senso de Adele, jamais tendo discordado dela em nada.

Henrique suspirou triste. Descobrir as fraquezas da esposa incomodava-o. Ele buscara nela a companheira suficientemente amadurecida com quem pudesse dividir idéias, afeto, em uma parceria harmoniosa.

Agora reconhecia que isso não seria possível. Distante dos olhos inquisidores da mãe, Maria Eugênia não se dera ao trabalho de dissimular, exteriorizando seu lado infantil, inseguro, fraco.

Descobrir isso fora decepcionante. Henrique sentia que, mesmo depois que voltassem ao Brasil e ela retomasse a antiga postura, estaria apenas dissimulando seus verdadeiros sentimentos.

Dali para frente, ele teria de assumir o comando das decisões em família, uma vez que não confiava que Maria Eugênia possuísse maturidade para ajudá-lo a escolher o melhor.

Não era isso o que ele desejava. Adele conhecia as fraquezas da filha e, talvez por isso, tenha adotado atitudes tão firmes, decidindo o rumo que ela deveria tomar na vida.

Ou teria sido essa atitude de Adele que tornara Maria Eugênia tão imatura? Adotando também essa atitude, não estaria ele também contribuindo para que ela continuasse tão infantil?

Henrique passou a mão entre os cabelos, preocupado. Talvez estivesse exagerando e Maria Eugênia estivesse apenas brincando, qual criança reclusa que por algum tempo consegue liberdade.

Ele precisava refletir melhor. Gostaria de conversar com ela, abrir seu coração, colocando o que estava sentindo. Mas nos últimos tempos, ela tornara-se distante, nunca trocando idéias ou opiniões.

Ele precisava esfriar a cabeça. Levantou-se e caminhou pelas ruas, procurando interessar-se pelas vitrines das lojas. Sentindo saudade da família, decidiu comprar presentes para eles.

Isso o entreteve, fazendo-o lembrar-se das preferências de cada um, o que o fez esquecer as preocupações.

Estava anoitecendo quando regressou ao apartamento carregando as sacolas com os presentes.

Maria Eugênia, estendida em um canapé, conversava animadamente ao telefone. Vendo-o entrar, sentou-se e disse que precisava desligar. Colocou o telefone sobre a mesinha e olhou-o curiosa:

— Esteve fazendo compras. Posso ver?

— São presentes e estão embalados. Não quero desfazer os pacotes.

— Alguma secretária da empresa?

— Não. De onde tirou essa idéia? São algumas lembranças para meus pais e Jorge.

— Não acha que ainda é cedo para isso?

— Nem tanto. Falta pouco para nosso regresso. Não quero deixar para a última hora. Por que não faz o mesmo?

— Não vou levar nada para ninguém.

— Nem para Adele?

— Ela tem tudo, e eu não saberia o que lhe dar.

— Alguma coisa bonita, um agrado, só isso.

— É. Talvez. Mas é cedo. Não quero pensar na volta.

Henrique colocou as sacolas no escritório, voltou e sentou-se ao lado dela.

— Você deveria sair um pouco, caminhar pelas ruas em um sábado como este. Havia muita gente bonita, alegre. As lojas estavam movimentadas.

— Não gosto de sair à tarde. Prefiro à noite.

— Nesse caso, poderemos sair jantar em algum lugar bonito.

— Tenho um compromisso para esta noite. Vamos a um clube fechado. Estou entusiasmada. Jamille diz que é maravilhoso.

— Deixe para outro dia. Esta noite vamos sair só nós dois. Poderemos dançar um pouco.

— Sinto muito, mas não posso desistir. Foi difícil conseguir convites para esse clube. Pierre precisou usar todo o seu prestígio. Não posso cometer essa indelicadeza.

— Tem um convite para mim?         

— Não sabia que desejaria ir. Você não gosta de sair com meus amigos. Infelizmente, os convites são individuais e intransferíveis. Sinto muito.

Henrique olhou-a sério. A situação estava pior do que gostaria.

— Nesse caso, prefiro que você não vá. Há tempos que não saímos juntos, só nós dois.

— Sairemos outro dia. Teremos muito tempo quando voltarmos ao Brasil. Não posso perder a festa desta noite. Havia muito eu desejava conhecer esse lugar. Todos os colunistas sociais falam maravilhas de lá. Depois, quanto mais difícil, mais valioso. Você não pode imaginar o que é isso.

— Você está disposta a ir, mesmo sabendo que eu gostaria ficasse comigo?

— Lamento, mas foi você mesmo quem me aconselhou a sair sozinha com os amigos. Agora que vou conseguir algo que tanto quero, não acho justo desistir.

— Você quer mesmo ir...

— Eu vou.

Henrique teve vontade de impor sua vontade, de discutir, chamá-la à ordem, fazendo-a ver que estava exagerando. Mas preferiu calar-se. Ele detestava discussões.

— Faça como quiser.

Ele foi para o escritório, apanhou um livro ao acaso e sentou-se no sofá. Aquela situação não podia mais continuar. No dia seguinte, teria uma conversa séria com ela. Colocaria sua posição e a proibiria de sair com aqueles amigos.

Henrique odiava ter de impor sua opinião. Em todas as circunstâncias preferia o diálogo, a conversa aberta, sincera. Mas naquele momento sentia que não podia contemporizar com a situação.

Maria Eugênia estava abusando de sua paciência e ele precisava colocar as coisas nos devidos lugares.

Eram quase nove horas quando Henrique procurou por Maria Eugênia, que estava se arrumando para sair.

— Estou com fome e vou pedir alguma coisa para jantar. Você quer?

— Não. Vamos jantar no clube.

Ele apanhou o telefone e pediu um lanche. Enquanto esperava, observou a esposa e notou quanto ela estava mudada: mais magra, inquieta, maquiagem carregada, jóias mais vistosas.

Sentindo-se observada, Maria Eugênia perguntou:

— O que foi? Está me achando bonita?

Ele não respondeu logo, permanecendo pensativo. Depois disse:

— Você está diferente.

— Não acha que estou muito melhor?

— Não. Eu preferia você como era.

— Bem se vê que você não está a par da moda atual.

Maria Eugênia colocou perfume e olhou-se no espelho, satisfeita. A campainha tocou e Henrique foi abrir. Pierre, elegantemente vestido, estava diante dele. Henrique esforçou-se para dissimular o desagrado.

Ele abrira pensando que fosse a comida que havia pedido. Vencendo a repulsa instintiva que Pierre lhe causava, cumprimentou-o educadamente, convidando-o a entrar.

— Obrigado, mas Jamille está esperando no carro. Viemos buscar Maria Eugênia.

Ela apareceu em seguida, dizendo contente:

— Estou pronta. Podemos ir. Até logo, querido.

Henrique nem teve tempo de responder. Ela saiu, Pierre fez ligeiro cumprimento com a cabeça e se foram. Henrique fechou a porta lutando para vencer a sensação desagradável.

Sentiu vontade de ir atrás deles e trazer sua esposa de volta. Pierre, com seus cabelos esticados com gomalina, desviando os olhos quando falava não lhe inspirava confiança.

Conteve-se a custo. Se fizesse o que desejava, Maria Eugênia faria uma cena, e ele não estava disposto a provocar um escândalo. Precisava se acalmar e conversar com ela no dia seguinte. De uma coisa tinha certeza: não permitiria mais que ela saísse com aqueles amigos.

Enquanto isso, Maria Eugênia e Pierre chegaram ao carro e não havia ninguém.

— Jamille não veio? — indagou ela, admirada.

— Ela estava sem paciência de esperar. Foi com Jean para o clube.

Ele abriu a porta, ela acomodou-se e ele sentou-se a seu lado. Ligou o carro e partiu devagar.

— Você está linda!

Ela sorriu contente e perguntou:

— Por que está indo tão devagar?

— Quero admirá-la mais tempo. No clube vão chover admiradores e eu vou ficar morrendo de ciúmes.

Vendo que ela sorria e continuava em silêncio, continuou:

— Por mim, eu nunca a levaria àquele clube.

Ele parou o carro e olhou-a com paixão. Segurou as mãos dela, beijando-as efusivamente.

— Você sabe que eu a amo! Não posso mais segurar essa paixão que está me consumindo. Quero você para mim.

Abraçou-a com força, beijando seus lábios com ardor. Maria Eugênia estremecia de emoção. Havia muito tinha notado que Pierre se sentia atraído por ela. Era excitante notar que era uma mulher atraente, que outros homens além de seu marido a desejava.

Henrique havia sido seu primeiro namorado. Ela nunca tivera oportunidade de conhecer outros rapazes, de experimentar o jogo de sedução. Apaixonara-se por Henrique e sentira-se feliz em casar-se com ele.

Mas agora ele estava diferente, distante, ela em Paris, vivendo uma aventura amorosa. Uma experiência diferente.

Ele continuava cobrindo-a de beijos, murmurando palavras apaixonadas. Maria Eugênia entregava-se prazerosamente a essa emoção.

— Minha querida... Eu preciso de você. Não vamos a esse clube. Vamos a um lugar onde possamos ficar sozinhos com o nosso amor. Sinto que você também me quer.

Ela estremeceu assustada. A brincadeira estava indo longe demais. Não desejava trair seu marido. Pierre insistia, beijando-a nos lábios, no pescoço, na face.

— Vamos viver nosso momento de amor! Logo você irá embora, voltará a seu país e talvez nunca mais nos encontremos.

Maria Eugênia estremecia de prazer com os beijos dele. Reconheceu que Pierre estava certo. Ela logo teria de voltar ao Brasil, suportar aquela criança que odiava por ser fruto de Henrique com

outra, e fazer tudo certinho como Adele queria.

Henrique tivera sua relação extraconjugal; ela poderia fazer o mesmo. Assim, estariam quites. Adele e Henrique nunca saberiam. Ela podia se considerar vingada por lhe haverem impingido aquele filho que ela não desejava.

— Vamos — disse ela, trêmula de desejo.

Ele ligou o carro e dentro em pouco estavam em um prédio de luxo que ela não conhecia.

— É um apartamento que eu tenho quando quero ficar só, pensar.

Eles entraram. Ele fechou a porta e levou-a para o quarto. Lentamente, Pierre começou a despi-la.

De repente, ela lembrou-se da barriga postiça. Pediu licença, foi ao banheiro e retirou o incômodo disfarce. Voltou nua para o quarto. Pierre, olhando-a com um misto de surpresa e cobiça, abraçou-a e beijou-a com ardor, e juntos rolaram na cama.

Quando se acalmaram, Pierre acendeu um cigarro, fitando-a com curiosidade.

— Esta noite você me fez o homem mais feliz do mundo!

— Estou pensando em Jamille. Ela está nos esperando no clube.

— Não se preocupe. Jean a fará se esquecer de nós.

— Como assim?

— Ele e ela já tiveram um caso. Acho que não vão perder tempo nos esperando.

Maria Eugênia não se chocou. Embora ela nunca houvesse feito isso, sabia que em alguns grupos era moda a troca de casais.

Pierre beijou-a de novo, dizendo alegre:

— Fiquei contente em saber que você não estava grávida. Por que usa aquela barriga postiça?

Maria Eugênia sentiu um arrepio de medo. Esquecera-se desse detalhe.

— Eu gostaria de ter um filho. Como não posso, finjo que estou grávida.

— Assim, sem nenhum motivo especial?

— É. Eu gosto.

— Nesse caso, não está mais aqui quem falou. Gosto é gosto.

— Esse é um segredo meu. Preferia que esquecesse isso e nunca contasse nada a ninguém.

— Pode deixar. Sou um túmulo.

De repente, Maria Eugênia sentiu que fora longe demais. Havia um brilho diferente nos olhos dele que a fez desejar sair dali imediatamente.

— Acho melhor irmos embora.

— Vamos ao clube?

Não. Prefiro ir para casa.                   

— Nesse caso, vamos ficar aqui um pouco mais e aproveitar nossos momentos de amor.

Pierre acariciou-a e o receio dela foi embora. Ele estava apaixonado. Guardaria seu segredo. Depois, logo ela iria embora e nunca mais o veria. Era melhor mesmo aproveitar.

— Está bem — murmurou ela, correspondendo ardorosamente ao beijo que ele lhe deu em seguida.

Ela queria esquecer o mundo, as convenções, o marido e a vida cheia de regras que Adele lhe impusera. Se pudesse, nunca mais voltaria ao Brasil. Mas aquele era um sonho impossível.

Pensando assim, entregou-se às emoções do momento com euforia.

Estava amanhecendo quando finalmente conseguiu convencer Pierre a levá-la para casa.

— Tenho que ir, Henrique acorda cedo. Não quero que ele me veja chegar.

— Não se preocupe. Ele não vai desconfiar de nada. Já eu, jamais esquecerei esta noite.

Ela ficou pensativa durante alguns segundos, depois respondeu:

— Quando eu estiver no Brasil, em casa, também vou me lembrar destes momentos.

— Você não parece feliz em voltar. Por quê?

—De fato. Lá terei que assumir minhas responsabilidades de família. Não poderei fazer nada do que fiz aqui.

— Com o marido que você tem, deve levar uma vida sem graça.

Ela não gostou do comentário. Ele notou e não lhe deu tempo de responder:

—Desculpe, não quis ofender. É que não posso compreender como uma mulher como você, jovem, bela, cheia de vida, pode se conformar em viver com alguém que não gosta de nada e só

pensa nos negócios.

— Henrique é um bom homem e muito competente. Depois de minha mãe, é ele quem cuida de todos os negócios da empresa.

Ouvi dizer que a empresa de vocês vai muito bem. Ele deve ser mesmo muito competente.

— Ele é. Mas é minha mãe quem comanda tudo. Ela sempre consegue o que quer. É firme e segura em suas atitudes.

— Fico pensando em como será sua vida entre o marido e a mãe que tem. Começo a entender por que não sente vontade de voltar para casa.

— Não é por causa deles. Eu gosto de ambos. É que aqui sou uma desconhecida, posso agir livremente. Lá há uma sociedade, sou conhecida, as pessoas comentam. Há o nome de família para zelar. Você entende?

Pierre abraçou-a sorrindo:

— Claro que entendo. Você precisa aproveitar sua liberdade enquanto estiver aqui. Eu a ajudarei a se divertir cada vez mais. Vamos viver este tempo e aproveitar a vida.

— É isso que eu quero.

— Já tem idéia de quanto tempo nos resta?

— Menos de um mês. Não sei ao certo.

— Nesse caso, não poderemos perder tempo. Amanhã cuidarei disso.

Maria Eugênia levantou-se dizendo:

— Vamos embora. É tarde.

Desta vez ele não a deteve. Vestiram-se e ele a levou para casa. Faltavam poucos minutos para as quatro quando ela entrou em casa, procurando não fazer nenhum ruído.

Estava se sentindo culpada e receava encontrar o marido. Parecia-lhe que, vendo-a, ele saberia o que ela havia feito.

Tirou os sapatos, cautelosamente entrou no quarto e foi direto ao banheiro. Fechou a porta com cuidado, tirou a roupa e foi para o chuveiro. Sentia-se suja, e a água que lhe caía sobre o corpo era como se estivesse lavando um pouco sua culpa.

Ficou lá durante algum tempo. Depois enxugou-se, vestiu a camisola e foi dormir. Henrique dormia e ela se deitou procurando não encostar para não acordá-lo.

Vendo que nada havia acontecido que tudo escava calmo, Maria Eugênia suspirou aliviada. Então pôde pensar na aventura, reviver os momentos de paixão.

Sabia que a atração que sentia por Pierre não era amor. Mas o prazer daqueles momentos, a experiência nova, a certeza de que era uma mulher desejada, bonita, apreciada, deslumbrava-a.

Maria Eugênia sempre fora uma pessoa apagada diante do brilho carismático de Adele. Enquanto a mãe era reverenciada onde aparecia, ela ficava sempre em segundo plano.

Mas desta vez a mãe não estava presente para ofuscar seu brilho, e ela se sentia viva, forte, requestada. Chegou a pensar que talvez fosse o momento de reagir aos desejos de Adele, de começar a enfrentá-la, não permitindo que continuasse a decidir sua vida.

Em suas fantasias, Maria Eugênia já se via de volta a casa, dizendo não às imposições da mãe. Quanto a Henrique, ele seria mais fácil manejar. Estava sempre ocupado e não seria empecilho a seus desejos de liberdade.

Embalada por esse sonho, Maria Eugênia finalmente adormeceu.

 

Marina levantou-se com alguma dificuldade. Sentia o corpo pesado. Nos últimos dias, de vez em quando uma dor aguda a afligia, como se o bebê estivesse forçando para baixo.

Sentia-se cansada e desejava acabar logo com aquela espera. Ao mesmo tempo, quando pensava que teria de renunciar ao filho, sentia um aperto no peito e uma sensação de culpa. Então pensava nos benefícios que aquela criança traria não só a Adele para consolidar os bens de sua família, mas também a si própria, que poderia dar à mãe e ao irmão uma vida melhor.

Apesar disso, sentia muita curiosidade em ver o rostinho de seu filho, procurar nele os traços de sua família.

Foi para a copa tomar café. Célia, vendo-a, perguntou:

— Como se sente?

Marina suspirou e respondeu:

— Cansada.

— Pelas nossas contas, o bebê deverá nascer por estes dias. Adele chegou ontem à noite. Está na casa-grande. Mais tarde virá vê-la.

— Ela ficará até o bebê nascer?

— Sim. Veio preparada. Trouxe todo o enxoval.

Marina tomou café com leite e comeu um pão com queijo. Depois, disse pensativa:

— Espero que tudo isto não seja em vão.

— Eu também.

Marina estava se levantando da mesa quando Adele chegou e abraçou-a com carinho.

— Então, como se sente?

— Cansada.

— Agora falta pouco. Vamos conversar na sala.

Depois de acomodadas no sofá, Adele continuou:

— Maria Eugênia e Henrique chegam da Europa amanhã. Eles precisam estar aqui quando o bebê nascer.

Marina não respondeu. Se pudesse, gostaria de dormir e só acordar quando tudo houvesse terminado. Às vezes pensava que estava pagando um preço muito alto para ter sua independência financeira. Mas o que estava feito estava feito, e ela não podia voltar atrás. Mesmo que doesse, levaria o projeto até o fim.

— Chegou mais uma carta de sua mãe.

— Que bom! Estou com muita saudade dela.

— Logo poderá vê-los. Mandei vir de Londres alguns presentes para dar a eles.

— Não precisava fazer isso.

— Quero que tudo seja o mais natural possível. Trazer-lhes presentes é o que você faria se estivesse mesmo chegando de lá.

— Tem razão.

Conversaram sobre outros assuntos, e Adele levantou-se dizendo:

— Você deve estar ansiosa para ler a carta. Se sentir alguma coisa de diferente, me avise.

Depois que ela se foi, Marina abriu a carta. As notícias eram boas. Cícero estava terminando o curso ginasial. Seria ótimo, porquanto no ano seguinte Marina contava trazê-los para morar com ela.

Então, era tocar sua vida para a frente e esquecer aquela difícil experiência.

À noite, Adele foi fazer-lhe companhia. Sua conversa agradável encantou Marina, que a admirava muito, não só pela inteligência brilhante, mas também pela maneira clara de expor as idéias.

Durante aqueles meses, de vez em quando ela aparecia na fazenda para ficar um fim de semana. Marina pensava que era um privilégio privar de sua companhia e procurava conversar sobre os assuntos de seu interesse e aprender o que podia.

Falava de seus projetos profissionais, expondo suas idéias. Adele tinha uma maneira especial de ver, fazendo-a enxergar outros lados do assunto, o que a encantava.

Naquela noite não foi diferente. No fim, Adele comentou:

— Tenho certeza de que você terá muito sucesso profissional.

— Não está dizendo isso só para me animar?

— Absolutamente. Em um assunto desses, não costumo brincar. Você tem garra, sabe o que quer, estuda, trabalha para ser cada vez melhor. Além disso, tem uma coisa que para mim é essencial.

— O quê?

— Não cultiva o "sonho de amor".

— Pode não parecer, mas sou uma pessoa amorosa. Adoro minha família. O que não quero é me casar, ter uma pessoa mandando em mim, querendo impedir-me de fazer o que gosto. Se um dia eu vier a gostar de alguém, só vou me relacionar se ele respeitar minha privacidade.

Adele bateu palmas sorrindo:

— Isso mesmo! Tenho visto mulheres que obtiveram sucesso em tudo, inclusive na área profissional, mas quando se apaixonaram foi um desastre. Em pouco tempo se tornaram passivas, sem vontade própria, apagadas e insignificantes. Você é uma honrosa excessão.

— Talvez seja porque vi o sofrimento de minha mãe, que se casou por amor com um homem muito diferente dela. Ela era delicada, bondosa, alegre; ele era grosseiro, machista, implicante. Quando a via triste por causa das grosserias dele, pedia para irmos embora. Mas ela se escandalizava, dizendo que uma mulher precisa obedecer ao marido. E ia ficando cada dia mais passiva e mais triste. Até que, quando ela estava grávida do meu irmão, meu pai acabou nos deixando por causa da filha da nossa vizinha.

— Quantos anos você tinha?

— Treze para catorze. Mas, apesar do desespero dela, senti grande alívio.

— Como se arranjaram financeiramente?

— Não fez nenhuma diferença. Meu pai gastava na rua o pouco que ganhava como vendedor. Minha mãe sempre sustentou a casa costurando para fora.

— É por isso que você não deseja se casar.

— Em parte é. Porque eu nunca agüentaria o que mamãe agüentou. Eu o teria deixado logo no começo. Sempre desejei ser dona da minha vida. Por isso, desde cedo estudei muito, porque acredito que, para conseguir isso, eu preciso ter a independência financeira.

— Por isso aceitou minha proposta.

— Mesmo sem ela, estou certa de que conseguiria meu propósito. Mas sua oferta encurtou o caminho e possibilitou melhores condições de vida à minha família, principalmente a meu irmão, que é jovem e precisa de apoio.

— E seu pai? O que foi feito dele?

— Eu nunca mais soube dele. Desapareceu completamente. Minha mãe ficou muito envergonhada com o que ele fez. A vizinha, que era sua amiga, passou a nos hostilizar, e nós nos mudamos para o outro lado da cidade. Desde então, nunca mais tivemos nenhuma notícia dele.

— Nunca sentiu sua falta?

— Não. Nós não tínhamos nenhuma afinidade. Nem sequer conversávamos.

— E seu irmão? Ele nunca perguntou pelo pai?

— Um dia, eu já estava cursando a faculdade em São Paulo e fui visitá-los. Cícero estava com oito anos e perguntou pelo pai. Então, fiz o que mamãe nunca teve coragem de fazer: contei-lhe a verdade em todos os detalhes.

— Como ele reagiu?

— Muito bem. Não falou mais no assunto e tornou-se mais amigo de mamãe.

Conversaram mais um pouco, e depois Adele foi embora.

Na manhã seguinte, ainda no avião, sentado ao lado de Maria Eugênia, Henrique comentou:

— Estamos chegando. Daqui a pouco estaremos em casa. Não se esqueceu das recomendações?

— Não. Fiz tudo que mamãe pediu, como sempre.

— Você não parece nem um pouco contente com nosso regresso.

— E não estou mesmo. Deixar uma vida deliciosa em Paris para tomar parte desta farsa... Ao invés do prazer de sair com os amigos, uma criança desconhecida para chorar em nossos ouvidos.

Henrique colocou a mão sobre o braço dela, dizendo sério:

— Não devia falar isso do nosso filho.

— Do seu filho, você quer dizer.

Henrique franziu a testa, tentando conter a irritação.

— Se pensa assim, por que aceitou este projeto? Ninguém a forçou a nada. Aliás, eu esperava que dissesse "não".

— Minha mãe é muito convincente.

— Ninguém a obrigou. Você concordou porque quis. Agora precisa fazer tudo direito. Trata-se de um caso muito sério, que, se não for bem resolvido, pode nos causar sérios problemas. No que depender de mim, farei tudo como combinado. E você precisa fazer o mesmo.

— Sei disso. Por isso concordei em voltar. Minha vontade era ficar morando em Paris.

— Você sabe que isso é impossível.

O avião aterrissou pouco depois, e, quando foram liberados, saíram. A secretária de Adele os esperava e, depois dos cumprimentos, disse:

— Dona Adele não pôde vir. Ela foi para a fazenda preparar tudo para o nascimento do bebê. — Dirigindo-se a Maria Eugênia, continuou: — Como se sente? Cansada?

— Sim — respondeu ela. — Não vejo a hora de me livrar desse peso.

— É assim mesmo. O último mês é o pior. Eu me lembro muito bem quando meu filho nasceu. Mas valeu a pena. A alegria de ser mãe compensa tudo.

Maria Eugênia sorriu tentando parecer alegre. Uma vez em casa, Márcia fez questão de mostrar-lhe o quarto do bebê e parte das roupas.

— Você precisa ver as que Dona Adele levou para esperar a chegada dele. São maravilhosas.

Maria Eugênia não via a hora em que a secretária de Adele fosse embora, mas esta, entusiasmada, continuava:

— Quero saber se tudo está do seu gosto. Eu ajudei a decoração, claro que sob orientação de Dona Adele. Mas, se houver alguma coisa de que você não gostou e que deseja mudar, me avise. Quero que tudo fique do seu gosto.

— Obrigada, Márcia, pela sua dedicação. Está lindo. Aliás, como tudo que você faz. Tem muito bom gosto.

Henrique, notando que Maria Eugênia tentava encobrir a irritação, interveio:

— Obrigado pelo seu interesse. Tudo está maravilhoso. Mas Maria Eugênia precisa descansar. Não passou muito bem durante o vôo. A saúde dela em primeiro lugar. Depois, mais descansada, virá examinar tudo detalhadamente.

— Claro, Dr. Henrique, claro. Tem razão. Desculpe. Imaginei que ela gostaria de ver tudo. Afinal, é o primeiro filho. Mas a viagem foi longa. Vou embora. Se precisarem de alguma coisa, é só me ligar. A que horas mando o motorista buscá-los para irem à fazenda?

— Não será preciso. Eu mesmo vou dirigir.

— Como quiser. Até logo.

Ela saiu e Maria Eugênia foi para o quarto. Henrique a acompanhou. A criada já havia aberto as malas e estava arrumando as roupas.

— Pode ir, Dalva — disse Henrique. — Queremos descansar.

Depois que ela saiu, Maria Eugênia estendeu-se na cama, dizendo nervosa:

— Ainda bem que você percebeu. Não agüentava mais aquela conversa. Não vejo a hora de arrancar esta barriga ridícula.

— Não pode fazer isso ainda. Não aqui. Paciência. Está por pouco. Amanhã iremos para a fazenda. Mais alguns dias e tudo estará resolvido. Agora vou tomar um banho. Quero ir até a empresa ver como estão as coisas.

— Que exagero! É melhor descansar, já que amanhã pretende dirigir até a fazenda.

— Não vou demorar. Descanse.

Depois que ele saiu, Maria Eugênia espreguiçou-se e fechou  os olhos. Lembrou-se dos amigos que deixara em Paris, dos momentos que vivera com Pierre, e sorriu.

A despedida fora deliciosa. Ela pretendia voltar assim que fosse possível. Estava disposta a arranjar algum pretexto para ir a Paris encontrar-se com ele.

Era assim que pensava se compensar do sacrifício que estava fazendo em prol dos interesses de Adele. Não sentia culpa por trair Henrique. Afinal, ele estava do lado de Adele. Fazia tudo que ela queria. Merecia ser castigado por isso.

Quando eles chegaram à fazenda na tarde do dia seguinte, Adele os recebeu com alegria. Tinha tudo planejado. Depois dos cumprimentos, foram para o quarto, onde ela explicou:

— O bebê está para nascer de uma hora para outra. Célia vai cuidar de tudo.

— E os empregados da fazenda? Será que não vão desconfiar? — indagou Henrique.

— Sei como fazer. Vocês vão circular pelas proximidades da casa, passeando, para que todos os vejam. Depois que o bebê nascer, mesmo que seja durante o dia, Célia vai esperar a noite, quando os empregados já foram para suas casas. Então, ela trará tudo que for preciso e prepararemos a cena. Pela manhã, quando eles voltarem, você estará na cama, com o bebê ao lado.

— E quanto a ela? — indagou Maria Eugênia.

— Ficará alguns dias mais, até que possa dirigir, e irá embora sem que ninguém veja. No dia seguinte, Célia contará aos conhecidos que o marido dela veio buscá-la para ter o filho na cidade.

Então começou para eles um tempo de espera. Maria Eugênia e Henrique faziam tudo como Adele havia determinado.

Dois dias depois, Célia ligou avisando Adele que as dores haviam começado. Ela foi ter com Henrique e avisou:

— Está na hora. Estou indo para lá. Avisarei assim que tiver nascido.

Henrique sentou-se em uma poltrona, emocionado. Seu filho estava nascendo. Sentiu vontade de ir para lá, acompanhar tudo, saber como ele era.

Mas conteve-se. Não podia. E Marina, como estaria, tendo um filho que nunca seria seu? Não seria cruel demais?

Mil indagações passavam por sua mente. Ela aceitara as condições. Havia escolhido livremente. Que espécie de mulher era ela que gerava um filho a troco de dinheiro?

Ao mesmo tempo, ele também não estava enganando, colocando em risco até seu relacionamento com Maria Eugênia, para manter sua posição financeira?

Apesar disso, era gratificante poder ter um filho. Mesmo tendo sido conseguido por meio de um negócio, ninguém poderia negar o fato de o bebê ser seu filho. Ele nunca saberia como fora gerado, mas o importante era amá-lo, educá-lo, fazer dele uma pessoa feliz. Isso, por certo, ele faria.

Adele chegou à casa onde Marina estava hospedada e foi direto ao quarto.

— Como está indo?

— Tudo bem. Acho que não vai demorar. As dores estão muito próximas.

Adele aproximou-se de Marina e acariciou-lhe os cabelos, dizendo:

— Vai dar tudo certo. Você vai ver.

Marina remexeu-se na cama, nervosa:

— Não sei. E se for menina?

— Não vamos nos preocupar com isso agora — disse Célia.

— Tudo será como combinamos. Não tenha medo — tornou Adele.

As dores voltaram e Marina suspirou aflita.

— Calma — pediu Célia. — Força, vamos.

Enquanto Célia cuidava de Marina, Adele afastou-se um pouco. Ela não era uma pessoa religiosa. Mas, nos momentos decisivos de sua vida, sempre costumava pensar no poder de Deus.

Ela sentia que havia uma força superior que cuidava de tudo. Respeitava essa força de tal sorte que mantinha uma ética pessoal, acreditando que, enquanto fizesse seu melhor e ficasse no bem, estaria sendo apoiada por ela.

Apesar das circunstâncias daquele projeto, Adele estava certa de que sua realização não estava prejudicando ninguém. Ao contrário.

Aquele menino teria uma família, seria amado, estudaria e se tornaria um homem rico. Ele seria muito beneficiado. Por outro lado, Marina era uma mulher honesta que pretendia usar aquele dinheiro para trabalhar, melhorar as condições de sua família. Quanto a ela, Adele, estaria preservando a saúde de sua empresa, cujo maior patrimônio eram seus milhares de empregados.

Estava certa de que, se seu cunhado Renato assumisse a presidência da empresa, poria a perder todo o progresso duramente conquistado, não só pela falta de capacidade administrativa, mas também pela conduta irresponsável que tivera durante toda a vida.

Além disso, Adele estava dando oportunidade a Maria Eugênia de ser mãe e Henrique de ser pai. Assim, ela se sentia à vontade para pedir a proteção divina e em paz para esperar o resultado desse projeto.

Quando voltou ao quarto, Célia ajudava Marina pedindo:

— Vamos, força, está quase saindo.

Um esforço maior, uma contração, e eis que a criança nasceu.

— Deus nos abençoe — gritou Célia, emocionada. — É um menino!

Adele chorava sem conter a emoção, enquanto Marina relaxava aliviada. Um choro forte encheu o quarto, e lágrimas correram pelas suas faces.

— Por favor! Quero vê-lo ao menos uma vez — pediu Marina em voz entrecortada de emoção.

— Claro — concordou Adele. — Tem todo o direito.

Célia cuidou do menino, enrolou-o em uma toalha e levou-o até Marina, que o olhou emocionada.

— É um belo menino — comentou Adele. — Forte, saudável. Obrigada, Marina. Nunca esquecerei o bem que você está nos fazendo.

Abaixou-se e beijou-a na testa com carinho. Fez um sinal a Célia, que saiu levando o bebê. O rosto de Marina contraiu-se e ela apertou os lábios tentando não chorar.

— Avalio o que você deve estar sentindo. Sei que vai cumprir nosso trato e nunca tentar se aproximar dele.

— Sou uma pessoa de palavra. Por mais que me custe, cumprirei nosso trato.

— Tenho certeza disso. Mas, se você um dia precisar de alguma coisa, estarei à disposição. O bem que você nos fez não tem preço. Ser-lhe-ei grata pelo resto da vida.

Célia voltou sem o bebê, que havia deixado dormindo em outro quarto. A tarde estava findando, mas elas queriam esperar para levar o bebê sem que ninguém visse.

— Agora vou cuidar de você — disse ela sorrindo.

— Eu estava bem até agora, mas estou sentindo dores novamente.

— É natural. Ainda tem de expelir a placenta. Depois você vai tomar este chá e dormir. Precisa recuperar as forças.

Adele sentou-se na poltrona ao lado da cama e só se levantou depois que Marina estava bem acomodada e dormindo.

Ela e Célia foram ver o bebê, que dormia tranqüilo. Adele aproximou-se dele e acariciou delicadamente sua face rosada.

— É um lindo menino! — exclamou feliz.

— Lindo e forte. Graças a Deus, deu tudo certo. Seus problemas terminaram.

Adele suspirou satisfeita:

— Agora vou para casa, contar a novidade a eles. Assim que eu perceber que não há perigo, telefono e você o leva.

— Está bem.

— Você vai precisar ensinar Maria Eugênia a cuidar bem dele. Quero que ela faça isso desde o primeiro dia.

— Está bem. Já preparei um roteiro para ela. Mas a alimentação é o mais delicado. Organizei tudo para os primeiros dias. Vamos ver como ele reage. Ela vai precisar de uma babá experiente.

— Já escolhi uma que me parece ótima. Vai começar um dia antes de eles voltarem para casa. Mas quero que Maria Eugênia fique aqui mais alguns dias e cuide dele ela mesma. Ela precisa aprender a amá-lo como se fosse mesmo seu filho.

— É uma boa idéia. Por outro lado, ela vai ter que ficar repousando para não despertar suspeitas.

Quando Adele chegou em casa, Henrique a esperava ansioso. Assim que a viu, perguntou:

— E então?

— Nasceu, Henrique. É um belo menino. Parabéns, papai!

Ele abraçou-a emocionado. Maria Eugênia apareceu na sala e, vendo-a, Henrique correu a abraçá-la, dizendo:

— Nasceu, Maria Eugênia! Temos um menino!

— Você tem um menino! — corrigiu ela.

Adele interveio:

— Nunca mais diga isso. Vocês têm um menino. Mais tarde, quando ele vier para casa, vamos comemorar. Vencemos! Não está contente, minha filha?

— Sim — respondeu Maria Eugênia, tentando fingir alegria.

A criada entrou na sala e perguntou se podia servir o jantar. Adele concordou. Depois que ela se foi, Adele disse:

— Depois que os criados forem embora, Célia trará o menino. Então vamos comemorar.

Passava da meia-noite quando Adele ligou para Célia:

— Pode vir agora. Está tudo calmo. Não se esqueça do que combinamos. Traga tudo como se o parto tivesse acontecido aqui. Não se esqueça de nada.

Alguns minutos depois, o carro de Célia parou na porta da casa. Adele, acompanhada do casal, foi recebê-la. Maria Eugênia tentava controlar a raiva. Aquele menino era um intruso, fruto da ligação íntima do marido com outra mulher e uma prova de que ela não era boa o suficiente para ser mãe.

Sentia-se diminuída, irritada, nervosa, porém esforçou-se para que ninguém notasse.

Quando Célia desceu do carro, apanhou o cestinho em que o menino dormia. Adele aproximou-se e pegou o bebê, mostrando-o ao casal.

Olhando o rostinho rosado, Henrique sentiu forte emoção. Era seu filho! Adele quis colocá-lo no colo de Maria Eugênia, mas ela disse assustada:

— Ele é tão pequeno! Tenho medo de segurá-lo.

— Ele é seu. Pegue-o. Não tem perigo.

Adele colocou-o nos braços da filha. As mãos de Maria Eugênia tremiam, e ela disse nervosa:

— Agora, não. Preciso me acalmar.

Henrique aproximou-se e pediu:

— Deixe-me segurá-lo.

Maria Eugênia entregou-o a ele aliviada. Ele entrou em casa com o menino nos braços, olhando-o embevecido. Sentou-se na sala. Não se cansava de olhar seu rosto, tentando encontrar os traços de família.

Notando os dedinhos rosados que apareciam na manga do casaquinho de lã azul, ele colocou o dedo para examiná-los. Mesmo dormindo, o bebê segurou firme no dedo do pai. Henrique sentiu os olhos marejados e, tomado pela emoção, disse baixinho:

— Vou cuidar de você. Tudo farei para torná-lo feliz.

Enquanto isso, as mulheres tinham ido para o quarto do casal, onde já havia um berço e uma cômoda que Adele enchera com um enxoval para os primeiros dias.

— Agora você vai colocar uma camisola, deitar-se. Acaba de dar à luz e terá que ficar em repouso.

Enquanto Maria Eugênia se trocava, Célia preparava a cena. Ela havia trazido as roupas de cama que Marina usara, as toalhas e tudo o mais, para fazer crer que o parto havia sido ali.

Adele acompanhava satisfeita. Quando Célia terminou, ela foi chamar Henrique, que continuava segurando o menino.

— Venha. Vamos colocá-lo no berço.

Henrique obedeceu. Olhou em volta e comentou:

— Parece mesmo que o parto foi aqui.

— Agora vamos comemorar nossa vitória — tornou Adele, sorrindo.

Sobre a mesa estava uma bandeja com taças e uma garrafa de champanhe. Henrique abriu-a, serviu, e Adele disse contente:

— Hoje iniciamos um novo ciclo. A forma como chegamos até aqui ficou no passado. Nunca mais falaremos sobre isso. A vida aprovou nossos projetos, uma vez que atendeu a nosso pedido. Vamos agradecer essa dádiva e receber este filho com todo o amor e carinho. Brindamos à nossa felicidade e ao futuro.

Eles tocaram as taças e beberam com satisfação. Maria Eugênia sorria para encobrir a contrariedade. Ela não estava feliz. Mas não se atrevia a mostrar seus verdadeiros sentimentos.

Depois, Célia pegou o bebê e aproximou-se de Maria Eugênia.

— Ele deve estar molhado. Você precisa trocar a fralda.

— Eu? Não sei como fazer isso.

— Vou ensinar-lhe.

Colocou o bebe sobre a cama e disse:

— Venha. Veja como eu faço.

Ela trocou a fralda, depois pediu:

— Agora é sua vez.

— Não é preciso. Você já o trocou.

— Fiz para mostrar. Quero ver se aprendeu.

— Não preciso fazer isso. Vamos ter uma babá.

Adele aproximou-se:

— Você é a mãe. Terá que fazer isso, pelo menos enquanto estiver aqui. Quando voltarmos para casa, terá a babá.

Adele falara com firmeza e Maria Eugênia achou melhor obedecer. Sabia por experiência própria que, quando Adele queria uma coisa, não desistia até que ela a atendesse.

Com mãos trêmulas, trocou a fralda. O menino começou a chorar. Ela olhou assustada para as duas.

— Todo bebê saudável chora muito. E a única forma de expressão que ele tem para reclamar quando algo o incomoda — disse Adele.

— Ele deve estar com fome — tomou Célia. — Trouxe uma mamadeira pronta. Acho que ainda está quente. Pegue-o e sente-se na poltrona.

O menino chorava forte. Maria Eugênia tomou-o nos braços e fez o que lhe pediam. Célia colocou a mamadeira na boca do menino, que imediatamente começou a mamar.

— Segure assim, meio inclinada — explicou Célia.

Maria Eugênia obedeceu, satisfeita por ele ter parado de chorar.

Henrique, em um canto do quarto, observava contente. Pela primeira vez sentiu prazer por terem aceitado o plano de Adele. Era mais um dos muitos favores que devia a ela.

Enquanto isso, Célia mostrava a Adele o roteiro que havia feito para Maria Eugênia.

— Acho que ele não quer mais — disse Maria Eugênia. — Eu coloco na boca e ele não suga.

Célia aproximou-se:

— Ele mamou bem. Agora segure-o em pé, de encontro ao peito. Ele tem que arrotar.

Maria Eugênia estava enjoada. Não sabia se era o cheiro do leite ou o nervosismo por ter de cuidar do bebê. Felizmente ele arrotou logo e ela pôde colocá-lo no berço, o que fez aliviada.

— E então? Como está se sentindo? — indagou Célia, sorrindo.

— Apavorada. Espero que você não me deixe sozinha com ele enquanto estivermos aqui.

— Estarei por perto, mas é você quem terá que cuidar dele. Você sempre quis muito ter um filho. Agora tem.

Maria Eugênia não respondeu. Ela queria ter um filho, sim, mas que fosse seu. Aquele era um estranho, filho de uma mulher desconhecida. Suportar sua presença, cuidar dele, seria um sacrifício que teria de suportar pelo resto da vida.

No dia seguinte, tudo saiu conforme previam. Ninguém desconfiou de nada. Três dias depois, Adele mandou preparar tudo para voltarem à cidade. Na véspera da partida, foi ter com Marina, que, conforme o combinado, se preparava para ir embora.

Levou-lhe o comprovante do depósito do equivalente a um milhão de dólares que depositara no banco em nome dela.

— Obrigada por ter aceitado meu pedido. Sempre lhe serei grata. Mas nosso relacionamento termina aqui. Vamos esquecer tudo, fazer de conta que nunca nos encontramos.

— Entendo. Fique tranqüila. Cumprirei o combinado.

— Deixei todas as instruções com Célia. Amanhã, vamos partir antes das sete. Quanto a você, assim que estiver em condições de dirigir, pode voltar a São Paulo. O que pensa fazer?

— Primeiro vou ver minha mãe e meu irmão, contar-lhes meus projetos.

— Desejo-lhe toda a felicidade do mundo.

— Obrigada. Quero que saiba que estou muito grata pela forma como você cuidou de um assunto tão delicado. Apesar de tudo, em nenhum momento me senti desconfortável. Ao contrário. Célia é uma mulher maravilhosa. Se eu pudesse, viveria minha vida ao lado dela. Durante minha estada aqui, aprendi muito. Conheci Isaura, uma mulher maravilhosa, que me ensinou a ser melhor. Sinto ter de ir embora sem poder me despedir dela. Mas reconheço que é preciso. Além de tudo isso, aproveitei sua biblioteca, estudei muito, o que vai me ajudar na carreira profissional.

Adele abraçou-a com carinho.

— Adeus, Marina. Cuidarei do nosso menino com todo o amor. Faremos dele um homem de bem e muito feliz. Sei que vai conseguir tudo que pretende. Você é uma mulher inteligente, forte, capaz.

— Adeus, Adele. Obrigada por tudo.

Depois que ela saiu, Marina sentou-se pensativa. Estava livre para voltar e cuidar de sua vida. Sentia-se bem, tinha certeza de que seu estava em boas mãos.

Foi para o quarto, olhou em volta e, recordando o dia em que chegara lá, sorriu. Sentia-se outra pessoa, havia amadurecido, aprendido.

Foi ao quarto de Célia. Ela ainda não havia chegado da fazenda. Sobre uma cadeira, avistou um casaquinho de lã que o bebê usara no dia em que nasceu. Em um gesto rápido, apanhou-o, foi para seu quarto e guardou-o em sua mala, embaixo de tudo.

Emocionada, ela pensou que pelo menos teria essa lembrança do pequenino ser que ajudara a vir ao mundo, mas que não podia ser seu.

 

Estava anoitecendo quando Adele, Henrique e Maria Eugênia carregando o menino chegaram à casa do casal. Henrique ajudou a esposa a descer enquanto Adele foi entrando.

O mordomo esperava, no hall com uma mulher aparentando uns trinta anos, alta, magra, cabelos castanhos presos por um coque na nuca, vestida de branco.

Adele cumprimentou-os e determinou:

— Ariovaldo, apanhe as malas.

Vendo que Maria Eugênia estava entrando com o bebê, designando a moça disse:

— Esta é Elvira, a babá.

Ela aproximou-se:

— Muito prazer, senhora.

— Obrigada, Elvira.

— Leve-o e cuide dele.

Elvira segurou o bebê e perguntou:

— A que horas ele mamou?

— Quando saímos da fazenda — informou Maria Eugênia.

Adele interveio:

— Faz mais de duas horas. Na maleta dele você vai encontrar o leite que está tomando e a forma de preparar.

— Sim, senhora.

Ela levou o menino e Maria Eugênia disse aliviada:

— Vou descansar um pouco. Esta noite não dormi nada. Ele chorou várias vezes e eu fiquei preocupada.

— Vamos conversar no seu quarto — sugeriu Adele. —Temos algumas coisas para definir.

Voltando-se para o mordomo, que passava carregando algumas malas, Adele pediu:

— Diga a Henrique que o estamos esperando no quarto.

Pouco depois, Henrique foi ter com elas.

— Nós pensamos em vários nomes; temos de decidir. Amanhã você, Henrique, terá que registrá-lo.

— Eu pensei em Dionísio. Era o nome de meu avô. O que acham?

— Para mim está bem — respondeu Maria Eugênia.

— É um lindo nome.

— Então está escolhido. Irei amanhã cedo.

Adele aproximou-se de Maria Eugênia e disse com firmeza:

— Ate agora tudo tem dado certo. Não preciso recomendar o que você como mãe precisa fazer.

— Eu não sou mãe e não sei o que uma mãe faz — disse nervosa.

— Você não era, mas agora é. Esse filho é seu. Está sob responsabilidade. Precisa de seus cuidados, seu carinho, seu amor. É isso que uma mãe dá — tornou Adele. — Escolhi Elvira com cuidado. É uma excelente pessoa e uma babá gabaritada. Saberá cuidar muito bem do menino. Mas não quero que por causa disso você o deixe exclusivamente com ela. Quero que ele fique com você algumas horas por dia. Ele precisa sentir o amor dos pais.

— Ele é muito pequeno. Por enquanto não sabe de nada.

— Engano seu, minha filha. Os médicos dizem que eles sentem as emoções quando ainda estão no ventre materno. Sentem-se rejeitados quando os pais não os amam, o que poderá causar traumas que os acompanharão pelo resto da vida. Desejo que meu neto seja um menino feliz, que tenha saúde física e mental. Por isso exijo que você se esforce por dar-lhe todo o amor. Afinal, ele está lhe dando a chance de ser mãe. Seja grata por isso e faça a sua parte.

Maria Eugenia procurou encobrir a contrariedade. Além de tolerar a presença daquele intruso, ainda teria de fingir um amor que sentia. Baixou a cabeça e disse:

— Farei o que puder.

Henrique aproximou-se dela, abraçou-a e beijou-a delicadamente na face.

— Esqueça como essa criança veio ao mundo. Você agora é sua verdadeira mãe. Tenho certeza de que aquele ser tão pequeno, tão carente de amor, despertará esse sentimento em seu coração.

— Eu tenho que ir — tornou Adele. — Quero descansar. Amanhã teremos que comunicar o nascimento de Dionísio aos parentes e amigos e fazer as comemorações de praxe.

Nesse tempo, Marina, dirigindo o próprio carro, levando os presentes que Adele comprara, chegava à casa da mãe em Sorocaba. Estava escurecendo, e, assim que parou o carro, viu Cícero no portão olhando curioso.

Seu coração bateu mais forte, antegozando a alegria da volta e o prazer de poder dizer-lhes que nunca mais iriam se separar.

Desceu do carro e Cícero correu para ela estendendo os braços. Marina apertou-o de encontro ao peito, beijando-o na face.

 — Você veio mesmo! — exclamou ele, eufórico. — Quando mamãe disse, não acreditei. Estava morrendo de saudade.

— Eu também. Deixe-me ver você.

Afastou-o um pouco e continuou:

— Como mudou! Está mais alto do que eu.

— Já completei quinze anos.

— É um homem, e continua lindo como sempre.

Cícero sorriu orgulhoso.

— Pareço com você.

De fato, os mesmos olhos verdes, a pele morena e os cabelos castanhos dourados.

— Você alugou um carro?

— Não. Comprei.

— Puxa! Deve ter ganhado muito dinheiro!

— Um pouco. Me ajude com as malas.

Cícero tocou a campainha, e logo Ofélia apareceu na varanda. Vendo-os, correu a abraçar a filha. Cícero não se conteve:

- Mãe, ela comprou esse carro. Veja que lindo!

— Você está bem? — indagou Ofélia assim que conseguiu dominar a emoção. — Você, tão longe! Fiquei muito preocupada. Ainda bem que voltou.

— Senti muita saudade — disse Marina. — Mas foi preciso, para conseguir o que queria. Temos muito que conversar. Vamos entrar.

— Podem ir, que eu levo tudo para dentro — disse Cícero.

Elas entraram abraçadas. Marina olhou em volta e, depois de haver morado em uma das casas de Adele, achou a pequena sala menor e mais pobre. Como sempre, tudo estava rigorosamente limpo, havia flores no vaso, mas ela sentiu-se feliz por poder oferecer a eles uma vida mais confortável e melhor.

Uma vez na sala, Ofélia perguntou;

— E então? Gostou de viver na Inglaterra?

Marina preferia não falar sobre isso, mas a curiosidade de Ofélia era natural e ela teve de responder. Descreveu um pouco a cidade, os costumes e finalizou:

— É tudo muito lindo, mas eu não via à hora de regressar. Prefiro morar no Brasil.

— E você acha que valeu a pena ficar tanto tempo longe!

— Muito. De agora em diante, vamos morar todos juntos em São Paulo.

— Lá a vida é muito cara. Acha que vai dar para tudo isso?

Acho. Vou montar minha firma e você não precisará mais costurar para fora. Quero que Cícero continue os estudos.

— Ele acabou o ginásio ano passado. Mas não pude matriculá-lo no colegial. Não conseguimos vaga e eu não tinha dinheiro para uma escola particular.

— Não faz mal. Estamos no começo do ano. Chegando a São Paulo, cuidarei disso.

— Você deve estar com fome. Vou ver o jantar.

— Não precisa. Vamos fazer um lanche; comprei algumas coisas no caminho. Vamos abrir as malas. Eu trouxe algumas lembranças para vocês.

Cícero colocara as malas sobre o sofá e aproximou-se contente:

— Eu sabia que não ia se esquecer de mim.

Marina separou os pacotes, distribuindo-os com alegria. Adele não havia economizado. Comprara vários presentes para cada um baseando-se nas informações que ela lhe fornecera.

Foi um sucesso. Havia roupas, jogos para Cícero, novidades para cozinha que entusiasmaram Ofélia, tudo com muito bom gosto.

— Você deve ter gastado uma fortuna — comentou Ofélia, preocupada.

— Nem tanto. Eu ganhei muito bem. Estou feliz de que tenham gostado.

— Sinta este perfume, Marina! Que delicia! Vou ficar com pena de usar.

— Nada disso! Vai usar tudo e muito mais. Faço questão de que vivam bem, com conforto. Nesse tempo, aprendi que a beleza é muito importante em nossas vidas. Lá, vivi em uma casa linda, cheia de coisas bonitas, e isso me fez muito bem. A beleza toca nossa alma e nos faz desejar ser melhores.

Ofélia olhava-a admirada.

— Você voltou diferente.

— Sim. Hoje sou outra pessoa. Sei o que quero da vida. Mas sei também como conseguir o que desejo. Amanhã mesmo vamos providenciar nossa mudança para São Paulo.

— Assim? Não seria melhor você primeiro se estabelecer lá, ver se dá certo, para depois nós irmos ter com você?

— Nada disso. Iremos o quanto antes. É só o tempo de entregarmos esta casa e darmos um destino aos móveis.

— Não vamos levar nossas coisas?

— Só os objetos de uso pessoal e as lembranças de família.

Cícero esfregava as mãos contente:

— Oba! Sempre desejei morar na capital.

— Continuo achando que é melhor você ir primeiro. Onde vamos ficar até você arranjar uma casa?

— Em um hotel, claro.

— Eu nunca fiquei em hotel — comentou Cícero.

— Você vai gostar. Não se preocupe, mãe. Já fiz as reservas para depois de amanhã.

— Tão depressa! Acha que vai dar tempo para arrumar tudo?

— Vai, sim. Só temos que conversar com Seu Joel e entregar a chave. Pelo que sei você não tem contrato de aluguel.

— Nunca foi preciso isso. Sempre fui de palavra. Nunca atrasei o aluguel.

— Vamos comer e depois iremos a casa dele conversar.

— Está bem. Vou à cozinha fazer o café.

Marina pegou as duas sacolas de comida e disse:

— Venha, Cícero, vamos arrumar a mesa.

Os olhos ágeis de Cícero brilhavam de prazer a cada pacote que abriam e colocavam sobre a mesa. Marina sorria feliz. Fora para proporcionar a eles uma vida melhor que ela aceirara a proposta de Adele.

Não se preocupava com o futuro. Durante os meses que ficara reclusa na fazenda, tivera tempo de planejar passo a passo o que faria.

Assim que chegassem a São Paulo, procuraria uma casa confortável para alugar e compraria o indispensável para se instalarem. Depois, abriria sua firma de advocacia, alugaria um local apropriado, montaria seu escritório.

Tinha de ser um lugar bonito, aconchegante. Contrataria uma secretária e se dedicaria inteiramente ao trabalho. Conhecia alguns empresários importantes com os quais fizera contato quando trabalhava para o Dr. Olavo.

Iria visitá-los, apresentar sua empresa e colocar-se à disposição deles. Tinha certeza de que seria bem-sucedida. Era apenas questão de tempo.

Depois do lanche, foram conversar com o dono da casa, que era mais amigo da família do que senhorio. Apesar de sentir a perda dos amigos, ficou feliz em saber que eles estavam melhorando de vida.

Quando Marina disse que entregariam a chave no dia seguinte, ele comentou:

— Tão depressa? Você acabou de chegar. Por que não fica mais alguns dias? Nossa cidade progrediu muito.

— Eu sei Seu Joel, mas acontece que estive fora do País quase um ano e desejo começar a trabalhar logo.

— Já tratou o caminhão para a mudança? Meu sobrinho Juca tem caminhão e é bom nisso.

— Não vamos levar os móveis — disse Ofélia.

—Não?

— Não — confirmou Marina. — Eu tenho tudo em São Paulo. Vamos deixar na casa. Se o senhor não quiser ficar com eles, pode dar a quem precisar.

— É muita generosidade. Obrigado.

Tudo combinado, na tarde do dia seguinte, já com as malas no carro, eles entregaram as chaves e se despediram.

Cícero estava radiante, Ofélia um pouco assustada. Ela nunca havia ido a São Paulo. Marina sorria observando seu ar preocupado, que ela se esforçava para não mostrar.

No momento de entrar no carro, Marina segurou o braço dela e, olhando firme em seus olhos, disse com voz segura:

— Tudo vai dar certo, mãe. Não se preocupe. Estamos virando uma página de nossas vidas. Alegre-se. Vamos ser muito felizes.

A firmeza de Marina, sua coragem, sempre impressionaram Ofélia. Era uma vencedora. Conseguira formar-se, ir ao exterior, construir uma carreira. Certamente sabia o que estava fazendo.

Ofélia sorriu e respondeu:

— Eu sei filha. Só o fato de podermos viver todos juntos já é uma felicidade. Vamos embora.

— Sim, mãe. Vamos embora sem olhar para trás. Nossa vida está começando hoje.

Todos acomodados, Marina deu partida no carro. Naquele momento, o passado ficara para trás.

Assim que se instalaram no hotel, Marina pediu o jornal e começou a procurar uma casa para morar. Ofélia não queria ir para um apartamento. Gostava de ter quintal, plantar. Marina concordou. Queria que ela se ambientasse logo e, principalmente, se sentisse feliz.

Uma semana depois, haviam alugado um sobrado na Vila Mariana. Era uma boa casa, com três quartos, dois banheiros em cima, duas salas, cozinha, garagem e pequeno quintal.

Para Ofélia e Cícero, parecia um palácio. Marina desejava coisa melhor, mas pensava que seria por pouco tempo. Assim que estivesse ganhando bem, pretendia comprar uma boa casa. Aí, sim faria tudo a seu gosto.

Depois foram às compras. Marina escolhia tudo de boa qualidade; Ofélia ficava preocupada. Em poucos dias a casa estava mobiliada com o indispensável para que pudessem se mudar.

Assim que se instalaram na casa, Marina preparou a documentação para abrir seu escritório de advocacia. Em menos de um mês, ela havia alugado três salas em um prédio no centro da cidade, matriculado Cícero em um bom colégio e estava cuidando da decoração de seu escritório.

Enquanto esperava a documentação para começar a trabalhar, Marina fez uma lista de empresas com as quais havia tido contato quando trabalhava para o Dr. Olavo e agendou visitas com os diretores para apresentar sua firma e colocar-se à disposição deles. Foi muito bem recebida pela maioria deles, que se lembravam de como ela era eficiente e capaz.

Apresentava-se elegantemente vestida, mostrando segurança e firmeza. Ela notava os olhares de admiração que despertava, tinha consciência de que estava mais bonita e mais bem preparada.

Havia ido ao banco onde Adele depositara o dinheiro em seu nome. Deixara uma parte para as primeiras despesas e aplicara o restante.

Quando tudo ficou pronto, ela contratou uma recepcionista e um rapaz para os serviços de rua.

Já no segundo dia o telefone começou a tocar e os primeiros contratos começaram a ser estudados.

Marina dedicou-se inteiramente ao trabalho. Dois meses depois, ela já precisou contratar uma secretária.

Marina sentia-se feliz. Sua mãe havia se ambientado à nova vida. A princípio não queria que se contratasse uma pessoa para os serviços domésticos.

— Não é preciso. Eu posso dar conta de tudo.

— Eu sei, mas quero que tenha seu tempo livre para cuidar de outras coisas.

— Você não me deixou trazer a máquina de costura. Sou uma pessoa ativa. Não posso ficar sem fazer nada.

— Você terá que tomar conta da casa. Quero que ensine a Rosa a fazer as coisas do jeito que só você sabe fazer. Vou estar muito ocupada e você terá que fazer as compras da casa.

— Claro. Pode ter certeza de que aproveitarei cada centavo.

Eu       quero cozinhar. Não vou permitir que outra pessoa cuide da alimentação dos meus filhos.

— Se quer assim, faça. Mas eu gostaria que você arranjasse algumas amigas, que fosse passear. Há muitas coisas bonitas para conhecer nesta cidade.

Quando Marina contratou Rosa para trabalhar na casa, colocou como condição principal a dedicação a Ofélia. Depois de enumerar as condições de trabalho, finalizou:

— Trate de agradar mamãe. Ela sempre viveu no interior. Quero que ela se acostume e seja feliz aqui.

— Fique tranqüila, Dona Marina. Sei como fazer isso.

Rosa era uma mulata de vinte e cinco anos, olhos vivos, sorriso farto, peitos generosos, corpo bem-feito.

— Se você souber mesmo, não vai se arrepender. Sei ser generosa quando a pessoa merece.

— Pode deixar. Comigo Dona Ofélia nunca vai ficar triste.

De fato, Rosa tinha um jeito especial de lidar com Ofélia. Notou logo que ela se ressentia por Marina ter escolhido outra pessoa para trabalhar na casa. Por isso, desde o início procurava fazer as coisas do jeito que Ofélia gostava.

Muito bem-disposta, sempre alegre, em pouco tempo conquistou a boa vontade de Ofélia e a amizade de Cícero, contando-lhes os costumes da cidade, falando sobre os lugares mais bonitos, oferecendo-se para acompanhá-los quando desejassem passear.

Ia às compras com Ofélia na feira, no supermercado, sempre com disposição e alegria, auxiliando-a com presteza.

Marina tinha motivos para sentir-se feliz. Os primeiros clientes estavam aparecendo, o dinheiro começou a entrar e ela confiava que conseguiria tudo quanto havia planejado.

Em meio a tantas ocupações, ela havia quase esquecido seu negócio com Adele. Até que uma tarde, sentada no escritório, abriu uma revista e seu coração disparou.

Lá estava uma foto de Adele, Maria Eugênia e Henrique, este carregando o filho nos braços. Seus olhos ávidos e curiosos fixaram-se no menino. Reconheceu que ele era lindo. Devia estar com seis meses. Ela não se cansava de olhá-lo. Havia outras fotos de Maria Eugênia e Henrique. Estava vendo-os pela primeira vez.

Sentiu uma sensação diferente. Ele estivera em sua cama, haviam se encontrado intimamente. Mas ele era um estranho. Recordou-se das emoções que sentira naqueles momentos.

Sentia as pernas bambas e as mãos trêmulas. Levantou-se e tomou um copo de água. Precisava reagir. Aquelas pessoas haviam passado em sua vida, mas estavam distantes para sempre. Não podia entregar-se à emoção daquela forma.

Fora apenas um negócio, um contrato que fora bom para ambas as partes. Ela estava feliz, havia conseguido o que queria. Eles também. Precisava encarar a situação como sempre fizera com serenidade e calma.

Precisava preparar-se. Moravam na mesma cidade. Poderia acontecer de se encontrarem em algum momento em algum lugar. Se acontecesse, não poderia demonstrar nenhuma emoção. Oficialmente, eram pessoas desconhecidas que nunca haviam feito parte de sua vida.

A esse pensamento, Marina sentiu-se um pouco triste. Admirava Adele, gostaria de continuar tendo contato com ela. Mas era impossível. Apesar do laço profundo que os unia na pessoa daquela criança, era esse mesmo laço que os havia separado para sempre.

Olhou o relógio. Eram cinco horas. Havia ainda um processo que precisava ler, mas não estava com disposição e deixou para o dia seguinte. Decidiu encerrar o expediente, sair, andar um pouco.

Apanhou a bolsa, deu algumas recomendações à secretária e saiu. Uma vez na rua, foi caminhando, olhando as vitrines, procurando distrair-se. Ao passar por uma livraria, decidiu entrar.

Nos últimos tempos, lera quase que exclusivamente livros sobre sua profissão. Seria bom procurar uma leitura mais agradável.

Separou dois que lhe pareceram bons. Folheou-os indecisa.

— Pode levar esse. É muito bom.

Ela voltou-se e viu um rapaz alto, moreno, forte, bem vestido, que a olhava sorrindo levemente.

— Você já leu?

— Li os dois. Gostei mais deste. Apesar de ser um livro leve sem grandes pretensões, é verdadeiro e toca nosso espírito.

— Você é da loja?

Ele sorriu, exibindo dentes alvos e bem distribuídos.

— Não. Sou apenas um leitor assíduo. Ler é meu passatempo predileto. Vim buscar dois livros que havia encomendado.

— Ah! Nesse caso, vou levá-lo.

Marina segurou o livro e foi ao caixa. Estava pagando quando viu o mesmo rapaz atrás dela. Foi apanhar o pacote e logo ele também estava a seu lado.

— Que livros você comprou? — indagou ela, notando que o pacote dele era volumoso.

— Livros profissionais. Sou médico. Permita que me apresente.

Em seguida tirou um cartão do bolso e entregou-o a Marina, que o apanhou e leu:

 

DR. RAFAEL VILARDI – PSIQUIATRA

 

— Escolheu uma profissão difícil — disse ela, sorrindo. — Meu nome é Marina Siqueira, advogada.

— Muito prazer. Aceitaria tomar um café comigo?

Marina havia apanhado o pacote. Fixou o olhar no rosto dele e pensou:

“Por que não?”

Fazia tempo que não tinha com quem conversar. Um homem bonito, inteligente, era justamente do que precisava para distrair-se. Sorriu e respondeu:

— Está bem.

Saíram juntos da livraria e foram conversando enquanto caminhavam. Pararam em uma casa de chá e ele disse:

— Eu gosto daqui. Está bom para você?

— Está.

Entraram, sentaram-se e a princípio falaram sobre suas profissões, comparando os pontos que julgavam semelhantes. Ele discorria com facilidade, sua voz era agradável, e Marina sentiu-se à vontade.

Ele contou que morava havia pouco tempo na cidade, abrira seu escritório e trouxera a mãe e o irmão para viver com ela.

— Você é uma mulher batalhadora, corajosa, que sabe o que quer. Não tenho encontrado muitas assim.

— Não sou conformada, vou atrás do que desejo. Meu pai nos deixou e minha mãe lutou muito para nos criar. Vendo o esforço dela, prometi a mim mesma estudar, progredir, dar a ela e ao meu irmão uma vida melhor. Estou conseguindo.

— A maioria das moças coloca no casamento todas as suas esperanças. Realizar um sonho de amor é tudo que desejam. Você nunca pensou nisso?

— Não. Casamento nunca esteve em minhas cogitações.

— Você é muito bonita. Não deve ter sido fácil conseguir isso. Como fez para espantar os pretendentes?

— Simplesmente não namorando.

Ele a olhou incrédulo.

— Quer dizer que nunca namorou?

— Nunca. Saí com alguns rapazes, fiz algumas tentativas, mas eles logo queriam tomar posse de mim, mandar em minha vida, e eu tinha outros planos.

Ele olhou-a nos olhos e perguntou:

— Você não gosta de homens?

Marina corou e respondeu:

— Não sou homossexual, se é o que quer saber.

— Desculpe, não quis ser intrometido. É difícil acreditar que uma mulher bonita, jovem, como você, não pense em se casar, ter filhos. Mesmo sendo uma pessoa mais lúcida, a função da mulher é essa.

— Eu nunca me apaixonei. Talvez seja por isso.

— Enfrentará o casamento se um dia se apaixonar?

Marina riu:

— Talvez. Depende. Mas até agora falamos de mim. Seria bom falarmos de você.

— Não há muita coisa a dizer. Meus pais moram no Rio de Janeiro, tenho uma irmã casada que também vive lá, dois sobrinhos lindos. Vivo em São Paulo há muitos anos. Vim para cursar Medicina. Depois de formado, fiz especialização nos Estados Unidos. Depois que terminei, fiquei trabalhando lá durante três anos. Quando senti saudade do Brasil, voltei e resolvi morar em São Paulo.

— Não quis viver no Rio?

— Não. Deixei aqui alguns amigos do tempo de estudante. Adoro esta cidade. Comprei um apartamento, montei meu consultório aqui. Quando a saudade bate, vou visitar a família.

— Quanto a casamento...

— Escapei tanto quanto você, e posso garantir que não tem sido fácil. Quando elas cismam com alguém, não desistem, querem casar de qualquer jeito. Para ser sincero, essa idéia não me entusiasma. É difícil viver junto com a cabeça que a maioria das pessoas tem. Dá trabalho antes, durante... E depois da separação fica pior.

Marina riu gostosamente.

— Se você pensa assim, nós podemos ser amigos. Não corremos nenhum risco.

Ela estendeu a mão, que ele apertou contente.

— Encontrar uma mulher como você merece uma comemoração.

— Por que diz isso?

— Gostaria de ter amizade com você. Também não gosto de correr riscos. Aceitaria jantar comigo uma noite destas?

Ela riu bem-humorada:

— Talvez. Estou precisando fazer amigos.

Marina consultou o relógio e continuou:

— Está na hora de ir embora.

— Quer que a leve em casa?

— Não é preciso. Meu carro está no estacionamento perto daqui.

Ela levantou-se. Ele também.

— Tive prazer em conhecê-lo. Obrigada pelo café.

— O prazer foi meu. Não vai dar seu telefone?

Ela apanhou um cartão e entregou-o a ele. Depois do aperto de mão, Marina foi embora.

Rafael sentou-se novamente, apanhou o cartão que ela lhe dera e olhou-o pensativo.

Era uma mulher inteligente, bonita, agradável e de cabeça boa. Seria interessante conhecê-la melhor, saber se ela era mesmo tudo isso.

Acreditava que as mulheres gostam de representar papéis, fantasiar, manipular, para conseguir o que pretendem. Talvez aparentar desinteresse fosse apenas uma tática inteligente para conseguir agarrar um marido. Em sua experiência, já havia visto tudo isso e muito mais.

Ela o olhava nos olhos enquanto falava, e isso revelava sinceridade. Mas ele precisava descobrir se não havia alguma intenção por trás disso.

Rafael era um profundo estudioso do comportamento humano. Gostava de questionar, olhar todos os lados de uma situação, entender o que motivava as pessoas a escolher esta ou aquela atitude.

Marina seria um bom elemento para seus estudos. Não conhecia outras com esse aparente bom senso. Guardou o cartão no bolso, planejando ligar para ela nos próximos dias.

 

Marina chegou em casa um pouco mais tarde do que de costume. O trabalho no escritório estava crescendo. Ela havia contratado uma estagiária além da secretária. Advogara para dois clientes importantes, conseguira acordos vantajosos, e isso lhe trouxera novos clientes.

Ao entrar em casa, notou um ambiente festivo. Havia flores na mesa de jantar, que fora arrumada com capricho. Um cheiro gostoso vinha da cozinha, e ela foi ver o que era.

— Hum! Que cheiro bom! Estou vendo que o jantar vai ser caprichado.

Ofélia sorriu enquanto mexia uma panela e respondeu:

— Hoje faz seis meses que viemos para São Paulo. Temos que comemorar.

— Notei o capricho da mesa. Foi você quem arrumou tudo?

— Claro. Faz um mês que estou fazendo aquele curso.

— Pelo que vi, você está aproveitando muito. O arranjo de flores também foi você?

— Foi. Gostou?

— Está lindo. Cícero já chegou?

— Já. Está no quarto.

— Tenho tido tanto trabalho que não tem sido possível dar a ele a atencão necessária. Como está indo nos estudos?

— Bem. Ele é estudioso, você sabe. O jantar está pronto. Posso servir?

— Vou subir, me lavar um pouco. Cinco minutos e estarei descendo.

— Avise Cícero.

Marina assentiu com a cabeça e foi para o quarto. Calçou um chinelo macio, lavou-se. Ao descer, passou pelo quarto do irmão e bateu.

— Cícero, o jantar está pronto.

— Não quero jantar. Não estou com fome.

Marina estranhou. Ele tinha bom apetite. Era sempre o primeiro a sentar-se para comer. Estaria doente?

Abriu a porta e entrou. A luz estava apagada e Marina a acendeu.

— Não acenda — protestou ele. — Estou com dor de cabeça.

Ela aproximou-se, colocou a mão em sua testa. Não estava quente.

— Febre você não tem. Vou pedir à mamãe um remédio para sua dor de cabeça.

— Não precisa. Vou ficar no escuro descansando e logo vai passar.

— Mamãe fez um jantar especial para comemorar nossa vinda para cá. Ela vai ficar triste se você não descer.

— Não quero que ela fique triste.

— Então vamos lá para baixo. Talvez comendo um pouco você melhore.

— Está bem. Pode ir. Vou lavar o rosto e descer.

Marina desceu e comentou com Ofélia:

— Cícero não quer jantar. Está com dor de cabeça.

— De novo?

— Como assim?

— Nos últimos dias ele não tem estado bem. Chega da escola, fecha-se no quarto, não conversa e, quando pergunto, diz que está com dor de cabeça.

— Nesse caso, vou marcar uma consulta médica.

— Faça isso. Mas eu acho que ele está com algum problema e não quer me contar. Converse com Cícero; talvez ele se abra com você.

Pouco depois, o rapaz desceu e juntou-se a elas na mesa para jantar. Marina notou que ele estava pálido e com olheiras, mas não disse nada.

A comida estava gostosa e o jantar decorreu alegre. Cícero comeu tudo que a mãe colocou em seu prato. Mas, imediatamente após a sobremesa, ele foi novamente para o quarto.

Pouco depois, Marina fez ligeiro sinal para a mãe e foi ter com ele. Encontrou-o deitado no escuro. Ela entrou e não acendeu a luz. Sentou-se do lado da cama, alisou a cabeça dele e indagou:

— Então? Melhorou sua dor de cabeça?

— Ainda não.

Marina continuou acariciando a cabeça dele em silêncio por alguns instantes. Depois debruçou-se sobre ele e beijou-o na testa.

— Eu adoro você. O que mais quero é que seja feliz. Sinto que você não está bem. Aconteceu alguma coisa?

Ele rompeu em soluços e Marina continuou alisando seus cabelos com carinho, esperando que a crise passasse. Quando ele se acalmou, ela perguntou:

— Então, não vai me contar o que o está afligindo? Não confia em mim?

— É que você e a mãe fazem tudo para me ver feliz, mas eu não estou correspondendo.

— Não diga isso.

— Estou indo mal no colégio e você paga um dinheirão para eu estudar. É que aqui tudo é diferente do interior.

— É natural que estranhe a mudança.

— Não gosto daquela escola. Queria voltar para o interior.

— Você acha que aqui o ensino é mais puxado?

— Acho. Eles não explicam bem as matérias. Falam de um modo diferente. Não gosto deles, e dos colegas muito menos.

— Como assim?

— Eles ficam caçoando de mim, imitando minha maneira de falar. Não quero mais ir a essa escola.

— Você sempre foi corajoso. Não vai fugir agora. Vai ficar e enfrentar a situação.

— Mas as meninas riem de mim quando eu falo.

— É o sotaque do interior. Eu, quando vim estudar em São Paulo, passei pela mesma coisa.

Cícero sentou-se na cama:

— Você não fala como eu e mamãe.

— Porque eu aprendi a falar igual às pessoas daqui. É o que você vai fazer.

— Eu não sei como. Eu falo sem perceber. Os colegas, quando chegam perto de mim, imitam meu modo de falar e dão risada.

— E as notas, como estão?

— Baixas. É que não entendo o que alguns professores falam.

— Fui informada de que essa escola é muito boa. Mas penso que o currículo deles é mais adiantado que o da escola em que você estava. Por que não me contou isso antes?

— Depois de tudo que você fez por mim, das roupas que me deu, da casa, tudo, tive vergonha de não corresponder ao que você esperava de mim.

Marina alisou novamente a cabeça dele e respondeu:

— Eu espero que seja feliz. Apenas isso. E, sempre que você não estiver gostando de alguma coisa, quero saber. Seja sincero, fale comigo, conte o que o está incomodando. Juntos vamos resolver a situação.

— É que não sei se vou conseguir passar de ano.

— Não se preocupe com isso. Se não passar, fará tudo de novo. Você mudou de vida e está se adaptando ao novo momento. O que não pode é desanimar.

— Talvez fosse melhor mudar de escola.

— Nada disso. Você vai enfrentar seus colegas, os professores, dar a volta por cima. Vou ajudá-lo a fazer isso.

— Como?

— Vou contratar um professor particular para ajudá-lo nos estudos e vencer esse sotaque.

— Tem certeza de que vai dar certo?

— Tenho. Amanhã irei com você ao colégio informar-me sobre o currículo e os livros utilizados no curso. Com um bom professor, você em pouco tempo terá vencido essa batalha. É inteligente, forte, capaz.

— Você acha mesmo?

— Tenho certeza. Agora, levante-se dessa cama e vamos descer e ver televisão com a mamãe. Há um filme bom que vai passar esta noite.

Marina acendeu a luz e Cícero saltou da cama. Seu rosto estava mais corado e os olhos brilhantes. Abraçados, desceram até a sala.

Na tarde seguinte, Marina foi ao colégio de Cícero conversar com a diretora. Ficou sabendo que ele não estava indo bem nos estudos, não conseguia acompanhar as matérias e, diante das notas que ele trouxera da escola anterior, a diretora acreditava que a escola que ele cursara era muito fraca.

Marina explicou que seu irmão estava tendo dificuldade de adaptação, inclusive por causa do seu sotaque, que era motivo de chacota dos colegas.

— Eles não fazem isso por mal. Gostam de brincar — justificou ela.

— Essas brincadeiras magoam, principalmente na idade em que Cícero está. Ele queria até deixar a escola.

— Se ele fizer isso nesta época do ano, vai repetir.

— Não vai, não. Meu irmão é um menino estudioso e inteligente. Vou procurar um professor particular para ajudá-lo nos estudos, mas gostaria que a senhora conscientizasse seus alunos de que devem respeitar o colega e não desmoralizá-lo apenas porque tem um sotaque diferente. A meu ver, a escola tem o dever de educar seus alunos ensinando-os a respeitar as diferenças de cada um.

— Vou conversar com os professores e ver o que poderemos fazer.

Marina agradeceu e saiu. Era intervalo de aula e no corredor ela encontrou Cícero conversando com uma senhora.

Vendo-a, ele chamou-a:

— Venha, Marina. Quero apresentar-lhe Dona Rute, minha professora de português.

Marina cumprimentou-a e Cícero continuou:

— Dona Rute é a melhor professora que tenho. Quando estou de cabeça quente, ela conversa comigo e me acalma.

Rute era uma mulher de uns quarenta anos, alta, magra, olhos vivos e alegres, cabelos castanhos. Marina gostou dela.

— Ele tem lhe dado muito trabalho? — brincou.

A professora sorriu e respondeu:

— Não. Cícero é um bom menino.

— Ele está tendo problemas de adaptação. A mudança foi

grande. Ele nunca havia saído do interior, está estranhando os costumes da cidade. Só agora descobri que o currículo desta escola é muito mais completo e adiantado que o da que ele cursava.

— De fato. Os cursos de nossa escola são puxados, o que é muito bom, porquanto os prepara melhor. Muitos dos nossos alunos, ao terminar o colegial, nem fazem cursinho: entram direto na universidade.

— Estou querendo contratar um professor particular para ajudá-lo. Mas não conheço nenhum. Estive trabalhando fora do País, e faz seis meses que estamos em São Paulo. A senhora poderia indicar-me alguém?

— Eu sou viúva e tenho uma filha adolescente. Dou aulas particulares para ajudar nas despesas.

Cícero interveio:

— A senhora poderia fazer isso por mim?

— Se sua irmã quiser, farei com prazer.

— Claro que eu aceito.

— Que bom, Dona Rute! Tenho certeza de que vou aprender mesmo.

Combinaram começar na manhã seguinte e Marina despediu-se contente. Notara que Cícero gostava daquela professora. Para ela, isso ajudaria muito sua recuperação.

Quinze dias depois, quando Marina chegou do escritório, Cícero já havia voltado da escola.

— E então? — indagou ela. — Como está indo?

— Melhor. Hoje tive uma aula de matemática e não entendi muito bem. Mas amanhã cedo Dona Rute vai me explicar tudo direito.

— Só que você precisa prestar atenção na aula.

— Eu presto. Mas os outros professores falam depressa, não gostam de repetir nada, e tenho vergonha de perguntar o que não entendo. Outro dia, uma professora chamou um aluno de burro porque ele não entendeu o que ela ensinou. Aí os outros, quando saímos para o recreio, começaram a chamá-lo de burro, fazendo orelhas grandes e relinchando. Fiquei com pena dele.

— Uma professora não deveria chamar um aluno de burro. Ela está sendo paga para ensiná-lo. Se ele soubesse a lição, não precisaria dela.

— Dona Rute é diferente. Explica de novo, dá exemplos, faz a gente repetir o que entendeu. Às vezes conta um caso engraçado, e fica fácil guardar a lição.

— Ainda bem que você a contratou — interveio Ofélia. — É uma mulher muito especial.

— Pelo jeito, já conquistou você também.

— É verdade. Às vezes, depois da aula, conversamos um pouco. Ela perdeu o marido em um acidente quando a filha tinha dois anos. Eles se amavam muito. Você precisa ver como os olhos dela brilham quando fala nele.

— De certa forma, você também passou por isso. Criou os filhos sozinha.

— É diferente. O marido dela morreu; o meu me abandonou. Ela pode pensar nele com amor; eu, não.

— Você ainda se lembra dele?

— De vez em quando. Porém, quando acontece, não sinto saudade, mas raiva, revolta.

— Você precisa esquecer. O que passou, passou.

O telefone tocou e Rosa atendeu. Depois chamou Marina:

— É para você.

— Quem é?

— Um tal de Dr. Rafael Vilardi.

Marina atendeu imediatamente.

— Como vai, Marina? Lembra-se de mim?

— Claro! Vou bem. E você, como tem passado?

— Bem. Quer jantar comigo esta noite?

— Acabei de chegar do escritório. Tive um dia complicado.

— Eu também. É mais uma razão para nos darmos ao luxo de jantar juntos, tomar um bom vinho, jogar conversa fora. Que tal?

Marina pensou um pouco e resolveu:

— Está bem. Estou precisando mesmo espairecer um pouco. A que horas?

— Às oito está bem?

Marina consultou o relógio. Eram sete horas. Daria tempo de tomar um banho e aprontar-se.

— Está.

— Passarei por sua casa às oito. Qual é o endereço?

Ela lembrou-se de que lhe dera seu cartão comercial, no qual só constavam os telefones e o endereço do escritório. Ela disse e ele anotou. Depois desligou o telefone.

Ofélia, curiosa, perguntou:

— É um admirador?

— Não. Um amigo. Nos conhecemos outro dia em uma livraria, conversamos, tomamos um café juntos. Vamos sair para jantar.

Ofélia olhou-a e sorriu.

— Está na hora de você arranjar um namorado. Só trabalha e estuda. Na sua idade isso não está certo.

— Não fique fantasiando. O Dr. Rafael pareceu-me uma boa pessoa, e estou querendo fazer amigos, ter companhia para sair, passear um pouco. Não pretendo me envolver em um namoro. Você sabe que não quero perder minha liberdade. Casar não está em minhas cogitações.

Ela subiu para se arrumar. Ofélia, vendo-se a sós com Rosa, comentou:

— Marina é diferente de todas as moças. Por que será que foge do casamento? Eu gostaria que ela encontrasse um homem bom, casasse, tivesse filhos. Esse é o destino de uma mulher.

— Vai ver que ela ficou assim por causa do que o pai fez.

— Pode ser. Essa é uma culpa a mais daquele safado.

— Não se preocupe, Dona Ofélia. Ela diz isso porque ainda não encontrou um homem que a interesse. Quando o amor aparece, a gente se esquece de tudo. Quando me separei do marido, jurei que nunca mais me ligaria a homem nenhum. Mas, quando apareceu o Nelsinho, foi como se tudo se modificasse. Fiquei caidinha.

— Mas você não quis ir morar com ele.

— Isso eu não faço mesmo. Eu quero é namorar. Ir todos os sábados ao clube com ele, dançar até o dia amanhecer. Depois, volto para casa, ele vai para a casa dele. Não tem brigas, discussões, problemas, e pronto.

— Você não gostaria de ter filhos?

— Eu tive dois que morreram antes de nascer. Agora não vou tentar mais. Estou muito bem aqui.

Às oito em ponto a campainha tocou e Rosa foi abrir. Rafael apresentou-se. Ela pediu que ele entrasse e conduziu-o até a sala onde Ofélia, vendo-o, levantou-se e foi cumprimentá-lo.

— Sou Rafael Vilardi, amigo de Marina.

— Muito prazer. Sente-se, por favor. Minha filha não demora.

Ele acomodou-se no sofá e ela continuou:

— O senhor aceita um café, uma água, uma bebida?

— Não, obrigado.

Ofélia, voltando-se para Rosa, pediu:

— Avise Marina que o Sr. Rafael já chegou.

Ela obedeceu. Ofélia sentou-se na poltrona ao lado e continuou:

— Estou contente de que Marina tenha concordado em sair um pouco. Essa menina estuda e trabalha demais. Não sai para divertir-se. Na idade dela isso não está certo.

— De fato. Eu também às vezes exagero no trabalho.

Marina desceu as escadas e entrou na sala. Estava linda no elegante vestido vermelho escuro, os cabelos dourados bem penteados. Ele levantou-se. Ela foi em direção a ele:

— Desculpe se me atrasei alguns minutos. Gosto de ser pontual. Mas não tive muito tempo para me arrumar—disse, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

— Não notei. Esperei em excelente companhia.

— Já vi que você não perdeu tempo — respondeu Marina, sorrindo.

— Ele está sendo gentil, minha filha. Não tivemos tempo nem de conversar.

— Hoje nós vamos sair, mas prometo que voltarei um dia para conversarmos. A senhora lembra muito uma tia de quem gosto muito e não vejo há tempos. Fez-me sentir saudade de minha família.

— Podemos ir quando quiser — disse Marina.

— Então vamos agora.

Ele despediu-se de Ofélia e saíram. Rosa apareceu e avisou:

— O jantar está pronto. Posso servir?

— Pode. Vou chamar o Cícero.

— Moço bonito, não? Viu como ele olhou para ela quando entrou na sala?

— Vi. Marina estava linda.

— Ela deveria arrumar-se sempre assim. Ele ficou deslumbrado.

— Ela garante que é só amizade.

Rosa balançou a cabeça e respondeu:

— Por enquanto pode até ser. Mas isso pode mudar.

— Não sei se é bom ou ruim. Um amor pode trazer muitas mudanças. Sirva o jantar. Vou avisar o Cícero.

Durante o trajeto para o restaurante, a conversa entre Marina e Rafael fluiu agradável.

— Sua mãe merece o carinho que você sente por ela.

— De fato. Sempre foi muito dedicada a mim e a Cícero.

— Nota-se pelo brilho dos olhos quando fala sobre vocês. É uma pessoa confiável.

— Você deve ser muito bom em sua profissão.

— Por quê?

— Analisa as pessoas com exatidão.

— Nem sempre. Sua mãe é uma pessoa sincera, simples, prática, sem joguinhos psicológicos. Já outras se fecham, com receio de mostrar-se como são, representam papéis o tempo todo e é preciso tempo, esforço, para conhecê-las de fato.

— Do jeito como fala, parece não confiar muito no ser humano.

Ele sorriu e respondeu:

— A experiência tem me mostrado que é melhor não prejulgar. Confiar ou não, depende das circunstâncias.

— Como assim?

— As pessoas agem de acordo com o que acreditam e muitas vezes menosprezam suas próprias qualidades. Preferem fingir, assumindo ser o que não são, pensando em conseguir a admiração dos outros. Cedo ou tarde vão descobrir que, seja qual for sua motivação, o melhor é ser verdadeiro.

Marina não respondeu logo. Talvez não fosse bom aprofundar aquela amizade. Rafael era inteligente, observador. Mas ela não gostava que penetrassem em sua intimidade.

O carro parou em frente ao restaurante, eles desceram e entraram. O lugar era muito bonito, com música ao vivo. Rafael havia reservado mesa.

Uma vez acomodados, ele procurou conversar sobre assuntos do momento. Havia notado que Marina não gostara de falar sobre comportamento. Por quê? Era como se ela desejasse impor distância. Ele, percebendo isso, decidiu contemporizar.

Logo ela sentiu-se à vontade novamente e o jantar decorreu agradável. Alguns casais dançavam, e Rafael convidou-a a ir à pista.

— Eu não sei dançar — esquivou-se ela.

— Não creio. Você não quer dançar comigo.

— Não se trata disso. É que nunca me permiti freqüentar bailes. Não tinha tempo. Trabalhava e estudava duro. Assim, nunca aprendi.

— Você se privou da coisa mais gostosa desta vida.

— Tanto assim?

— Mas ainda está em tempo. Venha, vou ensinar-lhe. Esta música lenta é fácil.

Ela meneou a cabeça negativamente, mas Rafael levantou-se, pegou sua mão e puxou-a.

— Vamos. Você vai adorar.

Os músicos tocavam um blues muito conhecido e Marina decidiu experimentar. Na pequena pista de dança, Rafael enlaçou-a e ela deixou-se conduzir ao ritmo do som. Ela conhecia e apreciava aquela música, por isso não teve nenhuma dificuldade.

Quando a banda parou, Rafael disse sorrindo:

— Você deslizou muito bem. Tem ritmo, é maleável, tem todas as qualidades de uma grande dançarina.

— Não brinque. Foi a primeira vez que me atrevi a dançar.

— Custo a crer.

Os músicos começaram a tocar um samba. Sem dizer nada, ele a enlaçou e começaram a dançar. No início ela se atrapalhou um pouco, mas logo depois acertou o passo e dali para a frente tudo deu certo.

— Você nasceu para dançar. Eu não disse?

— Confesso que gostei. Dançar é muito bom. Eu gosto muito de música, e dançar é integrar-se de corpo e alma a ela.

— É isso. Você definiu muito bem.

Voltaram à mesa, porquanto o jantar estava sendo servido.

Depois da sobremesa, voltaram a dançar. Marina esqueceu-se de tudo, deixando-se conduzir por ele nos vários ritmos.

Rafael dançava muito bem. Era leve, conduzia-a com segurança. Marina, rosto corado pelo exercício, estava feliz.

Passava das duas horas quando Rafael a deixou na porta de casa.

— Foi uma noite muito agradável — disse ela, estendendo a mão para despedir-se. — Obrigada.

— Se gostou mesmo, podemos repetir a dose. Foi tão bom que nem vi o tempo passar.

— Você viu que horas são? Acho que abusamos.

— Nada disso. Os momentos felizes devem ser multiplicados. Conheço lugares muito agradáveis, bonitos, com boa comida, boa música. Quero levá-la a todos eles. Vou ligar combinando.

— Obrigada. Boa noite.

— Boa noite.

Ela entrou e ouviu o ruído do carro dele distanciando-se. Marina estava leve, feliz como havia muito tempo não se sentia. Procurou não fazer ruído e subiu para o quarto.

Alegre, cantarolando uma das músicas que ouvira, tomou um banho rápido e foi se deitar. Logo adormeceu.

Rafael foi para casa pensando em Marina. Era uma mulher maravilhosa. Enquanto dançavam, ele sentira vontade de apertá-la nos braços e beijá-la. Conteve-se com esforço. Sabia que, se ela notasse o que ele estava sentindo, não se encontraria mais com ele.

Ela parecia ser diferente das mulheres que conhecera. Havia nela alguma coisa que impunha distância. Talvez o fato de não querer se apaixonar nem casar fosse o motivo. Mas, por outro lado, por que uma mulher que vibrava ao sabor da dança demonstrando tanta sede de viver, tanto fogo interior, decidira fechar o coração? Medo pela traição e abandono do pai? Ou teria ela tido alguma experiência desagradável que a fizera alimentar esse desejo?

Ela era saudável, isso não lhe parecia natural. Seria excitante tentar descobrir o que se escondia naquele coração. Ela era inteligente, perspicaz. Para atingir seu objetivo, ele teria de ser paciente, ir devagar, conquistar sua confiança aos poucos.

Mas ele estava disposto a conseguir isso. Pensando bem,

essa tarefa não era difícil, porquanto divertira-se muito naquela noite.

Chegando em casa, deitou-se, mas demorou para pegar no sono. Em sua cabeça, a lembrança daqueles momentos reapareceriam e ele sorria satisfeito.

Começou a fazer planos para levá-la aos lugares da moda e decidiu começar a escolher os próximos passeios já no dia seguinte.

Tendo resolvido isso, sentiu-se mais calmo e logo em seguida conseguiu adormecer.

 

O sol estava se escondendo, colorindo o céu de matizes alaranjados, quando Maria Eugênia entrou em casa apressada, sem notar a beleza da tarde nem o perfume delicado das flores que perfumavam o jardim.

Dirigiu-se para o quarto de Dionísio ansiosa.

— Como está ele? — indagou a Elvira.

— Está bem. Não tem mais febre.

Ela aproximou-se do berço onde o menino dormia e colocou a mão sobre sua testa.

— É, parece que cedeu. Ele tomou toda a mamadeira?

— Só a metade. A garganta ainda deve estar irritada.

— Já devia ter passado. Faz mais de um dia que está tomando os remédios. Desde que ele nasceu, há quase dois anos, nunca demorou tanto para sarar.

— É assim mesmo, Dona Maria Eugênia. Ele já melhorou, é só questão de tempo.

O menino acordou e, vendo-a debruçada no berço, sorriu e disse:

— Mamãe...

Imediatamente Maria Eugênia o tomou nos braços, beijando-o delicadamente no rosto. O menino passou a mão em torno do pescoço dela, apertando-a de encontro ao peito, e Maria Eugênia beijou-o novamente. Depois sentou-se no sofá com ele no colo, acariciando seus cabelos crespos.

Henrique entrou no quarto e olhou-os satisfeito.

— Vejo que ele já está melhor — disse, aproximando-se.

— Já. Mas ainda não está se alimentando direito. Fique com ele. Vou até a cozinha ver alguma coisa para ele comer. Tomou só metade da mamadeira e no almoço não comeu nada.

Henrique segurou o menino, mas ele estendeu os bracinhos dizendo:

— Eu quero a mamãe.

— Ela já volta. O papai vai brincar com você.

Henrique apanhou alguns brinquedos e sentou-se no chão com o menino. Enquanto Dionísio se entretinha, ele o observava satisfeito.

Logo o menino faria seu segundo aniversário, e a cada dia ficava mais bonito. Aprendera a falar muito cedo, revelando um senso de observação e uma inteligência acima da média.

Henrique ficava impressionado com o apego que desde os primeiros dias ele demonstrara por Maria Eugênia. Obrigada por Adele a cuidar do menino, no começo ele vira que ela o fazia de má vontade.

Observando as atitudes dela, Henrique notava que ela rejeitava Dionísio, o que o preocupava muito. Embora ela desejasse ficar com ele o mínimo possível, o menino chorava quando ela se afastava e só se acalmava quando ela o colocava no colo.

À medida que ele foi crescendo, notava-se claramente quanto era apegado a ela. Quando estavam juntos, ele passava a mãozinha em seu rosto e dizia em sua linguagem infantil:

— Mamã linda!

Ele demonstrava tanto afeto que Maria Eugênia se comoveu de verdade. Ele era tão pequenino, tão dependente de seus cuidados, seu rosto iluminava-se quando a via, e ela não resistiu.

Ela esqueceu sua origem, os momentos de tristeza que passara por causa de sua existência, e rendeu-se ao amor que desabrochou em seu coração.

A cada dia esse amor tomava conta de sua vida. Ela modificou suas atitudes radicalmente. A vida social que desfrutara em Paris estava completamente esquecida.

Adele observava satisfeita. Ela conseguira tudo quanto desejava. Até a maneira de Maria Eugênia tratá-la modificara-se. Ela tornara-se mais segura e, se concordava com tudo que a mãe dizia no que se referia à empresa, quando se tratava de Dionísio ela reagia, dizendo que era suficiente para cuidar dele.

Maria Eugênia voltou carregando uma bandeja.

— Veja o que a mamãe trouxe para você.

Ele meneou a cabeça negativamente:

— Num qué.

Ela colocou a bandeja sobre a mesinha, pegou-o no colo e disse:

— É um mingau que você adora. Está muito gostoso.

— Se ele não quiser, eu como — disse Henrique.

— Não, papai. Esse eu fiz para o Dionísio. Ele vai comer tudo para ficar grande e com saúde.

— Tem dodói.

— Eu sei. Mas precisa comer para passar logo. Vamos.

Ela começou a conversar e brincar, e o menino aos poucos foi comendo. Henrique olhava embevecido.

Depois de certificar-se de que ele não queria mesmo comer mais, Maria Eugênia entregou-o a Elvira para que lavasse suas mãos e mudasse sua roupa.

Vendo que ela se afastava, Dionísio reclamou:

— Qué mamãe!

— Vou tomar um banho e já volto — disse ela.

Esse apego de Dionísio fazia-a sentir-se amada, desejada. Ela amava Henrique e ele a tratava com amor, carinho e respeito, mas ela muitas vezes questionava em seu íntimo se ele teria se casado com ela se não fosse filha de Adele e herdeira de sua fortuna.

Ele era um homem bonito, inteligente, e ela notava como mulheres o olhavam com admiração. Ela não se via como uma mulher atraente. Desde sua adolescência, esse medo a perseguia. Havia notado quanto às pessoas se modificavam com ela quando descobriram seu sobrenome.

Esse pensamento a fizera sofrer durante o período em que esperavam Dionísio. Por isso, o amor do menino tornou-se muito importante para ela, fazendo desabrochar seu lado afetivo, bloqueado pelo medo de estar sendo usada.

A pureza de uma criança sem medo de demonstrar seus sentimentos eliminava todas as suas dúvidas.

Ela tomou um banho, arrumou-se e passou pelo quarto de Dionísio, que havia dormido. Colocou a mão em sua testa e, notando que estava sem febre, desceu para esperar o jantar.

Assim que chegou à sala, o telefone tocou. A criada atendeu. Maria Eugênia ouviu-a dizer:

— Vou ver se ela pode atender.

Voltando-se para Maria Eugênia, ela continuou baixinho:

— É para a senhora.

— Quem é?

— É um homem, parece estrangeiro. Disse que se chama Pierre.

Maria fez um gesto de desagrado. Nos últimos tempos ela não gostava de lembrar-se de suas escapadas com Pierre. Mas foi atender.

— Pronto.

— Como vai, Maria Eugênia?

— Bem, e você? Jamille está bem?

— Estamos muito bem.

— Você lembrou-se de nós depois de tanto tempo. Como vai essa cidade maravilhosa?

— Bem, como sempre. Mas nós acabamos de chegar ao Brasil precisamente a São Paulo. Meu primeiro pensamento foi de ligar para você. Não suportava mais a saudade.

Maria Eugênia sentiu um aperto desagradável no peito. Eles nunca lhe disseram que planejavam conhecer o Brasil.

— Quanto tempo pretendem ficar em São Paulo?

— Não sei. Temos bastante tempo. O que desejo é vê-la hoje mesmo. Você não me sai do pensamento.

— Não será possível.

— Como não? Você parece evasiva... Não está querendo me ver?

Ela tentou contornar:

— Não é isso. Meu filho está doente, não posso deixá-lo no momento.

— Finalmente o menino nasceu! Eu vi a foto na revista.

Maria Eugênia estremeceu. O tom dele pareceu intencional.

Sentiu medo. Além de Célia, Adele, Henrique e ela, Pierre era o único, a saber, de seu segredo.

Tentou afastar o temor. Procurou dar à voz um tom mais alegre e respondeu:

— Eu gostaria também de vê-los, porém meu filho está com febre e precisa de meus cuidados. Não vou poder sair.

— Já sei. Não teria como justificar sua saída para seu marido. Eu compreendo. Não fui à sua casa porque sei que seu marido poderia não gostar. Vou deixar o telefone do hotel. Espero uma ligação sua amanhã.

Ela anotou o numero, depois disse:

— Se ele melhorar, amanhã eu ligo.

Não vou esperar muito. Se você não ligar, vou até sua casa. Não dá para esperar mais.

— Está bem. De qualquer forma, eu ligo.

— Estarei esperando.

Maria Eugênia desligou o telefone preocupada. O tom de Pierre pareceu-lhe meio inquisidor, muito diferente do que ele usava em Paris.

Naquele instante ela começou a pensar em quanto fora imprudente, deixando que ele descobrisse seu segredo. Arrependia-se sinceramente de haver se envolvido naquela aventura.

Tentou afastar o medo. Ela estava prejulgando. Pierre nunca tinha lhe dado motivo para suspeitar de sua amizade. Ela estava mudada, não era mais aquela mulher insatisfeita, nervosa, inútil.

Agora sua vida tomara outro rumo. Havia Dionísio que se tornara o motivo principal de sua vida. Ele precisava de uma boa mãe, e ela jamais deixaria de cumprir esse papel.

A presença de Pierre e Jamille não lhe traria nenhum problema. Ele gostava de aventuras, não acreditava que a amasse como dizia.

Notando quanto ela havia mudado, perderia o interesse.

Depois, era muito provável que eles fossem embora logo e tudo voltasse a ser como antes.

Henrique aproximou-se:

— O que foi? Parece preocupada. Quem era ao telefone?

— Pierre. Ele e Jamille acabam de chegar a São Paulo. Querem nos visitar.

— Você sabe que não gosto deles.

— Eu também não gostei que eles estivessem aqui. Preferia não vê-los. Vão querer sair divertir-se, e eu agora não tenho mais vontade de voltar àquelas noitadas.

— Fico feliz em saber.

— Porém acho que não vou poder esquivar-me. Pelo menos teremos que recebê-los algumas vezes em casa e sair para mostrar-lhes a nossa cidade.

— Vai ser desagradável.

— Mas, quando estávamos em Paris, eles me levaram para conhecer todos os lugares.

— Diga-lhes que naquele tempo você estava de férias, mas que hoje tem compromissos. Que você precisa acordar muito cedo por causa de Dionísio.

— Essa é minha intenção. Pretendo vê-los o menos possível.

— Quanto tempo eles pretendem ficar?

— Não sei. Ele não disse. Mas logo ficaremos sabendo. Estão passeando. Certamente pretendem conhecer outros Estados do Brasil. Penso que não vão demorar.

— Seria um alívio. O jantar está sendo servido. Vamos.

Ele passou o braço sobre a cintura dela e foram para a sala de jantar. Henrique estava contente. Felizmente Maria Eugênia mostrava que estava realmente mudada. Abençoada hora em que Adele tivera a idéia de arranjar-lhes um filho. Dionísio conquistara Maria Eugênia, equilibrara seu casamento e os tornara felizes.

Enquanto isso, Pierre e a esposa conversavam nas luxuosas dependências do hotel onde haviam se hospedado.

Jamille andava de um lado para o outro, irritada:

— Não sei se fizemos bem em vir para cá. Você afirmou que Maria Eugênia viria correndo nos receber e hospedar-nos em sua casa. Mas, pelo jeito, você estava enganado. Ela não mostrou nenhuma pressa em nos ver.

— Ela ficou surpresa Talvez o marido estivesse por perto. Não acredito que tenha nos esquecido. Afinal, nos a levamos a todos os lugares da moda.

Jamille suspirou nervosa:

— Isso era no tempo em que tínhamos dinheiro. Aliás, graças a você ficamos sem nada.

— Não precisa me lembrar disso. Eu estava ganhando e pensei em multiplicar nossa fortuna. Foi uma infelicidade. Mas eu jurei que iria consertar. Não acredita em mim?

— Vir a este fim de mundo, cheio de gente inculta, na esperança de recuperar o que perdemos, é uma ilusão. Quem garante que ela vai pagar?

— Se eu falar o que sei, eles vão perder muito mais. Garanto que vão pagar o que eu pedir. Dinheiro não lhes falta.

— Tem certeza de que sua suspeita é fundamentada?

— Claro que tenho. Ela usava aquela barriga falsa. Com que intenção?

— Ela podia desejar tanto um filho que fingia estar grávida.

— Nada disso. Eu li naquela revista que o nascimento desse filho veio consolidar a fortuna da família. Há gato escondido aí. Ela usava barriga falsa. Esse filho que ela tem não pode ser dela.

— E se for? Ela pode ter tido esse menino depois que voltou de Paris.

— Nada disso. Não daria tempo. Você viu a idade do garoto?

— Você precisa fazer alguma coisa rápido. Estamos gastando o resto do dinheiro que temos para ficar neste hotel alguns dias. O que faremos quando acabar?

— Estou certo de que ela vai nos hospedar em sua casa. Você vai ver.

— E se isso não acontecer?

— Tomarei minhas providências.

— Poderíamos ter ficado em um hotel mais barato.

— Nada disso. Eles não podem saber que estamos quebrados. Deixe comigo e não se preocupe. Sei o que estou fazendo.

Na manhã do dia seguinte, logo cedo, Pierre não quis tomar café no quarto como Jamille. Desceu para o refeitório.

O garçom colocou na mesa os bules de café e leite e indicou a farta mesa onde se encontravam tentadoras guloseimas.

Antes que ele se afastasse. Pierre perguntou:

— Minha esposa e eu queremos conversar com alguém que conheça bem a cidade e possa nos orientar.

— O senhor pode falar com Milena. Ela faz atendimento aos turistas. Saindo do refeitório, é a primeira porta à direita.

Pierre tomou seu desjejum calmamente e depois foi procurar Milena. Ela era uma morena bonita, muito bem vestida, sorriso amável, olhos espertos, que o atendeu prontamente.

Pierre mostrou-se gentil. Disse que estava no Brasil pela primeira vez e viera a São Paulo para rever alguns conhecidos, mas precisaria de algumas informações.

— O que deseja saber? — indagou ela, olhos brilhantes de interesse.

— Trata-se do Dr. Henrique Silveira Couto.

— Eu os conheço. Ele é casado com a filha da presidente das Organizações Malta.

— Isso mesmo. Nós nos conhecemos a dois anos em Paris e, como estamos em São Paulo, gostaria de obter o endereço deles. Ela sorriu levemente e respondeu:

— Estamos aqui para fornecer apenas informações turísticas, não pessoais.

Pierre já esperava por essa resposta. Ele aproximou-se de Milena:

— Vou ser sincero com você. Minha esposa está querendo muito rever esses conhecidos. Diz que são pessoas de projeção social.

— Ela está certa. Além de projeção, eles têm credibilidade. Muita gente famosa gostaria de privar da sua amizade.

Pierre fixou seu olhar no dela e disse com ar sonhador:

— Como você é linda!

Ela surpreendeu-se:

— Como disse?

— Ficaria aqui horas olhando você.

Pierre fitava-a com admiração. Milena sentiu-se valorizada por ele a estar admirando. Um homem fino, rico. Ela suspirou, pensando:

“Pena que ele é casado!”

Lidando com turistas o tempo todo, Milena sonhava que um dia um deles se apaixonaria por ela e a levaria para conhecer o mundo, como num conto de fadas.

— Pensando bem, não vejo problemas em fornecer-lhe o endereço deles. Espere um momento.

Ela foi à sala contígua e pouco depois voltou entregando um papel a Pierre:

— Aqui está.

— Obrigado. Vou ligar para lá e marcar uma visita. Quando nos encontramos em Paris, a Sra. Maria Eugênia estava esperando um filho.

— É verdade. É um lindo menino. Ela queria muito ser mãe, mas demorou para isso acontecer.

— Ter um filho — disse Pierre, cortando seus pensamentos — é o sonho de muitas mulheres.

— Essa criança não representou apenas isso. Foi muito mais.

— Por quê?

— Ouvi dizer que ele veio em boa hora. Se ela não tivesse tido esse menino, sua mãe, Dona Adele Figueira Rocha, perderia o cargo de presidente das Organizações Malta.

— É mesmo? E isso é muito importante?

— O senhor não conhece as empresas deles?

— Não.

— Pois é como estou lhe dizendo. Foi muita sorte. Às vezes fico pensando... Por que será que tudo dá certo para alguns enquanto para outros só acontecem problemas? Veja só o caso dessa Maria Eugênia. Além de nascer rica, ter uma vida maravilhosa casou com um homem lindo, charmoso, que vive em volta dela o tempo todo, e ainda teve um filho lindo no momento em que precisou dele.

— A vida é assim mesmo. Mas uma mulher como você não deve perder as esperanças. Um dia vai aparecer alguém para você. Ai, se eu não fosse casado!

Milena corou de prazer. Aquela conversa logo pela manhã a fez pensar que ganhara o dia. Pierre despediu-se beijando levemente a mão que ela lhe estendia.

— Voltaremos a nos ver — disse ele sorrindo.

Ele voltou para o quarto, onde Jamille, estendida no sofá, folheava uma revista.

— Como você demorou! Aonde foi?

— Cuidar da nossa vida. Já sei tudo que preciso saber.

Em poucas palavras contou o que ouvira de Milena, depois finalizou:

— Tenho certeza de que por trás dessa história há um plano muito bem forjado para que eles pudessem conservar o poder e a presidência dessas empresas como sempre tiveram.

— Se isso for verdade, eles terão todo o interesse em defender esse segredo.

— Não tenho nenhuma dúvida. Por que Maria Eugênia ficaria tanto tempo fora do Brasil, usando uma barriga postiça? Estou certo de que ela é estéril. O que eles fizeram foi uma farsa.

Ele esfregou as mãos, satisfeito:

— Estamos feitos para o resto da vida.

Jamille olhou-o maliciosa e respondeu:

— Você nunca me disse como descobriu que a barriga dela não era natural.

— Também você nunca me contou como conhece tão bem os problemas de Jean.

— Você sabe que não sou curiosa. O que vai fazer? Até agora ela não nos telefonou.

— Estou de posse do endereço. Vou ligar e dizer que iremos visitá-los esta tarde.

— Ela não se mostrou receptiva.

— Deve estar com medo. Melhor. Assim tudo será mais fácil.

Enquanto isso, Maria Eugênia tentava expulsar a preocupação pela chegada de Pierre e Jamille. Mas ela sentia que aquela visita não lhe traria nada de bom.

Sabia que deveria ligar-lhes, mostrar-se alegre, recebê-los com atenções, porém a lembrança da sua estada em Paris estava muito distante dela naquele momento.

Agora, tendo mudado sua vida, reconhecia que se deixara levar pela revolta, cometendo atos dos quais se arrependia profundamente.

Henrique a rodeava de carinhos e atenções. Com a chegada de Dionísio, tornara-se mais acessível, mais dedicado, empenhando-se em voltar para casa e desfrutar ao máximo a companhia deles.

Ela não queria de forma alguma perder essa felicidade que haviam conquistado, e a presença de Pierre e Jamille fazia-a recordar-se de um tempo que ela desejava esquecer.

Durante toda a manhã ela sentiu-se inquieta. Andava de um lado para o outro pensando no que fazer. Elvira aproximou-se com Dionísio.

Maria Eugênia notou que ele estava agitado, choroso. Preocupada, colocou a mão em sua testa.

— Ele está sem febre, mas não me parece bem.

— Ele acordou assim hoje.

— Talvez seja bom levá-lo ao médico.

Elvira hesitou um pouco, depois respondeu:

— Ele não está doente. Acho que esta com quebranto.

— O que é isso?

— A senhora sabe: olho gordo, inveja.

— Não acredito nessas coisas.

— Pois devia acreditar. Esta noite tive um sonho negativo e também amanheci inquieta. Parece que vai me acontecer alguma coisa ruim.

Maria Eugênia olhou-a admirada. Ela também estava sentindo-se assim. Tentou não dar importância.

— Não vai acontecer nada. Foi só um sonho.

Elvira ficou pensativa durante alguns instantes, depois disse:

— Olha, Dona Maria Eugênia, quando me sinto assim, vou até a casa da Dona Eunice. Ela me dá um passe e tudo isso desaparece.

— É uma benzedeira?

— Não. É uma médium espírita. Ela tem um centro onde trata das pessoas. Minha mãe é voluntária lá. Dionísio está abatidinho, e quando fico perto dele me sinto mal.

— É melhor levá-lo ao médico. De fato, dá para notar que ele não está se sentindo bem. A garganta dele não sarou ainda.

— Está bem melhor. Sinto que não é de médico que ele está precisando. A senhora poderia levá-lo à casa de Dona Eunice. Ela mora nesta rua, no próximo quarteirão.

— Não vou fazer isso. Vamos ligar para o Dr. Oscar.

Maria Eugênia foi ao telefone e falou com o médico, que prontificou-se a atendê-los dali a meia hora. Depois, voltando-se para Elvira, ordenou:

— Você vai comigo. Apronte-o. Vou mandar tirar o carro.

Maria Eugênia chamou um dos empregados e determinou:

— Se alguém ligar, diga que fui levar meu filho ao médico.

Uma vez no carro, apesar de preocupada com Dionísio, ela sentiu-se aliviada por haver deixado aquele recado. Se Pierre ligasse, saberia que o menino estava doente, e ela teria uma boa desculpa para evitar a companhia deles.

Diante do médico, Maria Eugênia externou sua preocupação. Ele procedeu a um cuidadoso exame, depois do qual disse:

— A senhora não precisa se preocupar. Ele melhorou muito de ontem para hoje. A infecção da garganta cedeu. Está tudo bem.

— Mas ele não está querendo comer. Diz que dói.

— Do jeito que está evoluindo, logo estará curado.

— Se o senhor lhe receitar um fortificante, talvez ele se alimente melhor.

O médico sorriu e meneou a cabeça negativamente:

— Seu filho tem excelente saúde, apesar desse resfriado. Está bem nutrido e, pelo que sei dele, tem um apetite invejável. Fique tranqüila: ele está bem.

Uma vez no carro, Elvira não se conteve:

— Eu não disse que o médico não ia dar jeito?

— Esse mal-estar é do resfriado. O Dr. Oscar garantiu que logo ele estará bem.

Elvira notou que Dionísio estava com sono e acomodou-o no colo com carinho. Ele adormeceu, porém Maria Eugênia notou que não era um sono tranqüilo. Seu cenho se contraía e ele se remexia como se quisesse livrar-se de alguma coisa que o incomodava. De vez em quando seu corpo estremecia e ele abria os olhos assustado.

Elvira não desistia de seu propósito de levá-lo a Dona Eunice. Quando estavam passando em frente à casa onde ela morava, Elvira pediu:

— Dona Maria Eugênia, vamos parar aqui e levar Dionísio para Dona Eunice. Ela mora nessa casa bonita.

Maria Eugênia hesitou.

— Não gosto de incomodar os outros. Nem a conheço.

— Vai gostar dela. É uma pessoa muito boa e vai nos atender com muito carinho.

Vendo que Maria Eugênia estava indecisa, continuou:

— Não custa nada. Vai levar só alguns minutos. Por favor.

— Está bem. Vou fazer o que me pede.

Elvira indicou a casa e o motorista parou diante do portão principal.

— Fale você com ela — disse Maria Eugênia, constrangida. — Nós ficaremos no carro.

Elvira desceu, tocou a campainha e conversou com uma moça, que entrou novamente na casa. Pouco depois, uma senhora de meia-idade aproximou-se de Elvira.

Enquanto conversavam, Maria Eugênia, de dentro do carro, viu uma senhora alta, elegante, cabelos louros. Notou logo que era pessoa de classe.

Em seguida, Elvira aproximou-se do carro e pediu:

— Vamos entrar. Ela vai nos receber.

Maria Eugênia entregou Dionísio a Elvira e desceu. Eunice esperava-as do lado de dentro do portão. Estendeu a mão assim que ela se aproximou.

— Como vai?

— Eu vou bem. Desculpe incomodá-la em casa. Mas Elvira insistiu.

— Entre — respondeu ela com simplicidade.

Elas entraram e foram conduzidas a uma sala. Eunice acomodou-as gentilmente.

Era uma casa muito bonita, ambiente agradável. Havia flores naturais nos diversos vasos arrumados com arte. Maria Eugênia não se conteve:

— Que aroma agradável! Que beleza de flores!

Eunice sorriu:

— Elas perfumam nossa vida, enchem de beleza nossos olhos.

Depois, aproximou-se de Elvira e colocou a mão na testa de Dionísio, que, ainda adormecido, remexia-se inquieto.

— Que menino lindo! — comentou.

— Ele não está bem — comentou Elvira. — Tenho sentido muita angústia quando estou perto dele.

Eunice continuava alisando a cabecinha dele, que abriu os olhos e começou a chorar convulsivamente. Maria Eugênia, sentada ao lado delas no sofá, levantou-se assustada.

— Não se preocupe. Isso não é nada. Ele vai ficar bem. Sente-se, por favor, e faça uma oração. É disso que ele precisa — determinou Eunice, olhando Maria Eugênia fixamente nos olhos.

Ela sentou-se novamente e, sem desviar os olhos do menino, começou a rezar em silêncio.

— Como é o nome dele?

— Dionísio — respondeu Elvira.

Ela fixou os olhos sobre ele e murmurou uma prece em que pedia a cura de Dionísio. Maria Eugênia notou que os olhos dela estavam fixos e não piscavam.

Eunice estendeu as mãos para cima e ficou mais alguns instantes em silêncio. Depois começou a passar as mãos sobre Dionísio delicadamente. Aos poucos ele foi se acalmando, até que adormeceu novamente. Mas Maria Eugênia notou que dessa vez seu sono era tranqüilo.

Depois, Eunice disse para Elvira:

— Vá para a sala ao lado com o menino. Preciso conversar com sua patroa.

Ela obedeceu. Quando se viu a sós, Eunice sentou-se ao lado de Maria Eugênia no sofá. Colocou sua mão sobre a dela e disse:

— Você está angustiada, e passou isso para o menino.

— De fato. Hoje não estou muito bem. Mas não entendo. Como Dionísio pode ter sido afetado? Eu o amo muito e jamais faria alguma coisa para prejudicá-lo.

— Eu sei. Porém as crianças sofrem muito a influência do ambiente familiar. Você precisa saber que, quando pensamos, lançamos à nossa volta energias conforme a qualidade dos nossos pensamentos. Suas preocupações criaram um ambiente energético negativo que influenciou o menino.

— O que posso fazer para que isso não aconteça?

— Evite alimentar pensamentos desagradáveis.

Maria Eugênia passou a mão nos cabelos, preocupada. Como evitar o medo que se instalara desde a chegada de Pierre?

Eunice continuou:

— Às vezes não entendemos o que nos acontece, nos deixamos arrastar pela revolta e acabamos cometendo atos dos quais nos arrependemos mais tarde.

Maria Eugênia olhou-a admirada. Como ela podia saber disso? Eunice prosseguiu:

— Esse menino trouxe luz à sua vida. Você mudou para melhor. Contudo a vida está trazendo à tona assuntos mal resolvidos do passado, e você precisa enfrentá-los com coragem para vencê-los.

Maria Eugênia não suportou a pressão e começou a chorar. Soluçava desesperada, e Eunice deixou que ela desabafasse. Quando se acalmou um pouco, Maria Eugênia disse:

— Desculpe. Estou descontrolada.

— Você está com medo de que seu segredo seja descoberto.

Maria Eugênia tentou conter um grito de susto.

— Como à senhora sabe? Quem lhe contou isso?

— Um amigo espiritual que deseja ajudá-la. Foi ele quem a trouxe aqui hoje.

— Como pode ser isso? Ninguém sabe. Minha família conhece o principal, mas não sabe o erro que cometi. Se meu marido descobrir, não vai me perdoar.

Ela voltou a soluçar desesperada. Eunice segurou a mão dela com força e disse:

— Embora haja pessoas tramando contra você, devo dizer-lhe que a ajuda espiritual que a protege é muito grande. Você precisa confiar. Não pode perder a calma nem imaginar o pior.

— Mas não sei o que fazer. Como lidar com isso?

— Acalme-se. Quando estamos fazendo nosso melhor, a vida nos protege. Você está se dedicando a esse menino com muito amor. Ele lhe foi dado como um acréscimo da bondade divina para ajudá-la a conquistar uma vida melhor. Para isso, eles precisaram da cooperação de muitos. E, agora que tudo está caminhando bem, vão ajudar para que o fruto desse esforço não se perca. Entretanto, devo avisar que o sucesso desse projeto depende de você, da forma como vai aceitar os fatos e escolher suas atitudes.

Maria Eugênia estava fascinada. As palavras de Eunice calavam fundo em seu espírito. Olhando os olhos dela, teve a sensação de que a conhecia. Então, como que movida por uma força maior, começou a falar de sua vida.

 

Enquanto Eunice segurava sua mão, Maria Eugênia falava com naturalidade, sentindo-se segura, confiante, sem entender por que ela expunha seus sentimentos mais íntimos como nunca havia feito com ninguém.

Contou a Eunice como fora penoso conviver com sua mãe, do medo que tinha por não se sentir capaz de satisfazer as espectativas dela a seu respeito. Do casamento, do filho que não chegara, da possibilidade de sua mãe deixar de ser a sócia majoritária e ter de deixar a presidência e do plano que ela lançara mão para obter o que desejava. Contou tudo, até o telefonema de Pierre. E finalizou entre lágrimas:

— Agora, analisando o que aconteceu em Paris, reconheço quanto estive errada. E, o que é pior, percebo que Pierre não é confiável. Quando o atendi ao telefone, senti uma sensação de perigo iminente que não sei explicar. Por enquanto ele não fez nada para que eu me sentisse assim. Chego a pensar que estou exagerando, mas esse medo não me deixa.

— Você está certa: essas pessoas não estão bem-intencionadas. Ele perdeu grandes somas no jogo.

— Pierre gosta de jogar.

— Não só de jogar, mas também de gastar. Sua situação financeira é muito ruim. Ele está atrás de dinheiro.

Eunice não usou a palavra "chantagem" para não a assustar ainda mais.

— Meu Deus! Ele não apreciava nosso país. Certa vez disse que nunca viria até aqui.

— Ele sabe que vocês são pessoas de posses. É isso que ele veio buscar. Trata-se de indivíduo sem escrúpulos e de péssimas antecedentes.

— Estou perdida. Meu marido vai descobrir tudo, e nosso casamento pode ir por água abaixo.

— Vamos pedir ajuda aos nossos amigos espirituais. Estou certa de que vão inspirá-la em suas decisões. Você precisa manter a calma.

— Não sei se vou conseguir. Eu errei e estou sendo castigada.

— Deus não castiga ninguém. Se permite alguns desafios, é para que seu espírito amadureça.

— Me ajude, por favor. Sinto que a senhora pode fazer isso.

Vamos orar e pedir ajuda. Procure relaxar, esquecer suas preocupações por alguns momentos. Imagine que estamos sentadas à beira de um lago muito azul, o sol nos envolvendo, as flores recendendo perfume, enquanto do alto desce um facho de luz azul muito brilhante que nos envolve.

Eunice fez ligeira pausa e murmurou sentida prece pedindo a assistência dos espíritos de luz para inspirar Maria Eugênia e auxiliá-la a vencer os desafios que a buscavam.

Enquanto ela falava, Maria Eugênia foi aos poucos se acalmando, ao mesmo tempo em que uma paz muito grande a envolveu. Quando Eunice se calou, ela suspirou e disse:

— Que alívio!

— A prece nos liga com as dimensões de luz e abre espaço para que os espíritos iluminados possam nos envolver e auxiliar.

— O que me aconselha a fazer?

— Não se atemorize. Esse casal vai procurá-la em casa. Receba-os com naturalidade. Em nenhum momento deixe-os perceber que está receosa. Gostaria que escrevesse neste papel o nome deles, o hotel onde estão. Vou continuar orando em seu favor.

— O que farei se ele mencionar nossos encontros em Paris?

— Negue. Faça de conta de que não se lembra. Se ele fizer qualquer alusão à sua falsa gravidez, negue. Diga que ele está enganado, que estava grávida e não sabia. Que o filho é seu e de seu marido.

— E se ele não acreditar?

— Imagine que essa é sua verdade e afirme isso em qualquer hipótese. Vou dar-lhe meu telefone. Qualquer novidade, me avise.

Maria Eugênia levantou-se:

— Não sei como lhe agradecer. Eu estava agoniada, agora estou mais calma.

— Isso. Seu filho está se curando de um simples resfriado. Amanhã estará restabelecido.  É um menino lindo. Seu espírito é ligado a você de outras vidas. Ele a ama muito. Veio para ajudá-la a vencer todos os seus desafios.

— De fato. Ele é muito agarrado comigo. Foi isso que me conquistou. Hoje chego a esquecer que ele não nasceu de mim.

— Melhor assim. Você já sentiu muito ciúme da mulher que deu a ele a oportunidade de nascer. Seja grata a ela. Um dia você saberá por que tudo precisou acontecer desse jeito.

— A senhora mencionou outras vidas. Como pode ser?

— Algum dia falaremos sobre isso. Explicarei muitas coisas que você precisa saber.

— Está bem. Agora temos que ir. Obrigada por tudo.

Foram para outra sala e Maria Eugênia perguntou a Elvira:

— Como está ele?

— Dormindo tranqüilo. Não tem mais aqueles sobressaltos.

Eunice interveio:

— Ele agora vai dormir bastante para se recuperar. Não o acordem nem para comer. Quando ele despertar, estará melhor e com fome.

Elas agradeceram mais uma vez e saíram. Maria Eugênia estava bem mais calma. Dionísio dormia sereno, e isso aumentava sua sensação de paz.

— Viu como ele melhorou? — disse Elvira quando colocou Dionísio na cama e ele nem acordou.

— Vi. Obrigada por ter nos levado lá. Essa mulher é maravilhosa.

— Ela tem me ajudado muito. Eu sabia que a senhora ia gostar.

Uma das criadas aproximou-se:

— Esse senhor ligou e deixou este recado.

Maria Eugênia apanhou o papel, mas antes de ler já sabia que era de Pierre. Ele repetia o número do telefone do hotel e pedia que ela ligasse.

Decidida, ela apanhou o telefone e ligou. Jamille atendeu e Maria Eugênia esforçou-se para mostrar-se alegre.

— Jamille? Que prazer ouvi-la!

— Está tudo bem? Pierre disse que você foi ao médico.

— Devo desculpas a vocês. Acontece que meu filho está doente e precisei levá-lo ao médico. Sou muito apegada a ele. Quando tem qualquer problema, fico desesperada.

— Entendo. Acho que não viemos em boa hora. Mas, desde que você nos deixou, temos nos lembrado muito dos tempos que passamos juntos. Foi maravilhoso! Pensamos em repetir a dose.

— Naquele tempo, meu filho ainda não tinha nascido. Agora preciso cuidar dele e não posso ausentar-me durante muito tempo. Mas Henrique e eu teremos muito prazer em recebê-los em nossa casa esta noite para jantar. Assim poderemos conversar.

Jamille riu e respondeu:

— Está bem. Iremos. Mas estou notando que você mudou muito. Está mais caseira, dona de casa.

— Tem razão. O nascimento de meu filho mudou minha vida. Agora meu maior prazer é ficar com ele.

Jamille ficou calada alguns segundos, depois perguntou:

— Ele já deve estar grandinho. Quando nos encontramos em Paris, você já estava grávida dele.

— Vou confessar uma coisa. Eu tive muita dificuldade para engravidar. Não que houvesse algum impedimento. Mas é que eu temia a deformidade do corpo. Tinha horror de engordar. Se por um lado desejava a maternidade, por outro não queria engordar.

— Pelo que me recordo, você estava grávida em Paris, não estava?

Naquele momento, Maria Eugênia pensou:

“Ela sabe. Pierre lhe contou sobre a barriga postiça.”

Respondeu procurando dar à voz um tom de brincadeira:

— Estava. Porém colocava uma cinta para dissimular e fingia que não. Mas agora está tudo bem. Depois que Dionísio nasceu, meu corpo voltou ao normal.

— Ainda bem. Eu também nunca quis filhos por causa disso.

— Jantamos às oito. Estamos esperando vocês. Anote meu endereço.

Jamille fingiu que anotou. Depois que desligou o telefone, ficou pensativa. Pierre podia ter se enganado.

Uma hora depois, quando ele entrou, Jamille foi logo dizendo:

— Maria Eugênia ligou e nos convidou para jantar esta noite.

Pierre lançou-lhe um olhar vitorioso.

— Ainda bem. Se ela não tivesse ligado, iríamos à sua casa assim mesmo. O que foi que ela disse?

Jamille relatou toda a conversa e finalizou:

— Estou pensando que embarcamos em uma canoa furada.

— Por que? Quando liguei, ela ficou muito nervosa. Percebi que estava com medo.

— Pois hoje ela estava calma, alegre. Disse que, quando o filho adoece, ela fica desesperada. Essa pode ser a causa do nervosismo que você notou. Toda mãe fica neurótica quando o filho está doente.

— Que filho, que nada! Ela usava uma barriga postiça em Paris.

— Aliás, volto a lembrar que você nunca me contou como  foi que descobriu isso.

— Não preciso dizer. Você pode imaginar perfeitamente.

Ela fez uma careta, fingindo ciúme:

— Traidor!

— Aquilo foi providencial. Pode tornar-se nossa salvação.

— E se você estiver enganado? Ela podia mesmo estar usando uma cinta para esconder a barriga. Afinal, nós circulávamos pela noite, íamos a lugares da moda. É compreensível que ela fizesse isso.

— O que eu vi não me pareceu uma cinta. Depois, ela ficou muito encabulada quando percebeu que eu vi. Pediu-me que guardasse segredo. Isso quer dizer que, se os outros soubessem, poderia ser perigoso.

Jamille meneou a cabeça negativamente e respondeu:

— Qualquer mulher no lugar dela ficaria envergonhada. Talvez estivesse interessada em conquistá-lo e queria encobrir essa cinta.

— Não creio. Se ela estivesse grávida, eu teria percebido. Não notei nada.

— Espero que esteja certo, porque nosso dinheiro está acabando. Não sei o que será de nós se não conseguirmos dela o que pretendemos.

— Eu sempre consigo o que quero. Acalme-se. Nesta noite temos que fingir que continuamos tão ricos como antigamente. Você vai a esse jantar com suas jóias e todos os seus atributos.

— Jóias que são tão falsas quanto nossa ostentação.

— Não gosto quando fala assim. Dá azar. Você precisa acreditar que vamos conseguir.

— Estou me esforçando. Mas esta história tem alguma coisa que não bate. Afinal, aonde você foi?

— Dar uma volta pela cidade. E não gostei nada. Estou fazendo um sacrifício imenso de estar aqui. Isso fará com que eu aumente o preço. Eles vão pagar caro por isso.

Jamille deu de ombros e retomou a revista que estava folheando.

Depois que falou com Jamille, Maria Eugênia ligou para Henrique informando-o que teriam convidados para o jantar. E justificou:

— Não tive alternativa. Eles estavam decididos a vir nos visitar. Então eu me antecipei. Assim eles nos visitam e vão embora. Não creio que se demorem por aqui.

— Está bem. Estarei em casa a tempo de recebê-los.

Pouco antes das sete, Henrique já havia retornado ao lar.

— Você levou Dionísio ao médico?

— Sim. O Dr. Oscar disse que era apenas um resfriado e logo ficará bom.

— Como ele está?

— Dormindo tranqüilo. Acho que se recuperando.

— Ainda bem. Estava preocupado com ele.

— Eu também.

Maria Eugênia não contou que levara o menino à casa de Eunice. Preferiu não dizer nada.

Às oito, Pierre e Jamille chegaram. A criada conduziu-os à sala de estar, onde Henrique e Maria Eugênia estavam. Ambos levantaram-se para recebê-los. Após os cumprimentos, acomodados na sala, Pierre tomou:

— Fico feliz em vê-los tão bem. Maria Eugênia remoçou, está mais bonita. E que casa linda vocês têm!

— De fato. Estamos muito bem.

— A maternidade fez bem a Maria Eugênia — comentou Jamille.

Apesar de a visitante ter dito isso com naturalidade, Maria Eugênia notou uma ponta de ironia. Porém não se intimidou. Estava disposta a varrer aquele passado desagradável e desvencilhar-se daquela amizade.

— Você também está ótima — respondeu Maria Eugênia sorrindo.

Henrique ofereceu uma bebida. Eles aceitaram um copo de vinho. Enquanto bebericavam, saboreando alguns salgadinhos que a criada colocara sobre a mesinha, Henrique perguntou:

— É a primeira vez que vêm ao Brasil?

— Sim — respondeu Jamille, olhando nos olhos de Henrique ao mesmo tempo em que pensava:

“Como ele está bonito! Eu nunca havia notado. Esta viagem está começando a ficar interessante...”

— Quanto tempo pretendem ficar em nossa cidade? — indagou Henrique.

Nos olhos de Pierre havia um brilho indefinível quando disse:

— Depende.

— Do quê? — indagou Maria Eugênia.

— Do que encontrarmos aqui. Não temos pressa. Estamos passeando.

— Nossa cidade tem lugares muito bonitos. Tenho certeza de que saberão apreciar. Lamento não poder ciceroneá-los como gostaria. Infelizmente, no momento estamos empenhados em um projeto em nossa empresa que absorve todo o tempo.

— Mas Maria Eugênia poderá nos mostrar tudo — disse Jamille sorrindo.

— Verei o que posso fazer — respondeu ela. — Acontece que meu filho ainda é muito pequeno, muito apegado a mim, e está adoentado. Para ser sincera, atualmente estou desatualizada dos acontecimentos sociais. Desde que ele nasceu, afastei-me da vida social.

— Não é possível! — disse Pierre. — Você adorava a noite, os salões, o movimento. Sempre achei que a maternidade fosse uma prisão, mas não esperava que fizesse isso com você, sempre tão alegre.

— Mas eu continuo alegre. Agora mais do que antes. Meu filho trouxe uma motivação nova para minha vida.

Henrique aproximou-se, passou o braço sobre os ombros de Maria Eugênia e disse:

— É verdade. Dionísio trouxe-nos uma motivação maior para viver. Vocês nunca pensaram em ter filhos?

Jamille teve ligeiro sobressalto:

— Deus nos livre! Nem fale uma coisa dessas!

— Jamille não gosta de crianças. Enquanto pequenas dão muito trabalho; depois que crescem, muitos problemas. Eu concordo com ela. Nós optamos por não ter filhos. Vivemos muito bem, livres, sem precisar sacrificar nossos prazeres por causa deles.

— Vocês se enganam — tornou Maria Eugênia. — Nós não estamos nos sacrificando pelo nosso filho. Ao contrário: ficar com ele dá-nos um prazer muito grande, uma alegria que nunca encontrei nos salões que freqüentamos em nenhum lugar do mundo.

— Já vi que você está mesmo apaixonada pelo seu filho — disse Pierre.

— Estou mesmo. Ele é muito lindo e inteligente.

— Ele se parece com quem? — indagou Jamille.

Maria Eugênia apanhou um porta-retratos sobre uma das mesas e levou-o a Jamille:

— Veja você mesma. Com quem acha que se parece?

Ela segurou o porta-retratos por alguns segundos, depois disse:

— Ele é a cara do pai.

Maria Eugênia sorriu triunfante.

— Vou mostrar-lhe uma coisa.

Ela saiu da sala e voltou em seguida trazendo um álbum de fotografias. Abriu-o e deu-o a Jamille.

— Veja esta foto.

Jamille olhou. Era uma foto antiga de um menino pequeno. No rodapé da página estava escrito:

 

HENRIQUE EM SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

 

Maria Eugênia aproximou o porta-retratos com a foto de Dionísio e perguntou:

— E então?

— Parecem a mesma pessoa — comentou ela, admirada. — Como podem ser tão parecidos?

— Porque sou o pai dele, ora. Do que se admira?—disse Henrique e continuou: — Mas, se reparar bem, verá que possui a boca e a expressão dos olhos iguais às de Maria Eugênia.

Pierre aproximou-se da esposa. Os dois olharam as duas fotos e tiveram de concordar.

A criada avisou que o jantar ia ser servido, e eles se encaminharam para a sala de jantar. Pierre observava as obras de arte, o bom gosto da decoração, o luxo e o conforto daquela mansão. Seus olhos brilharam de cobiça.

A semelhança das fotos deixou-o um tanto inseguro quanto à filiação do menino. Não havia dúvida de que ele era filho de Henriqu. Mas a semelhança dele com Maria Eugênia não era nada evidente.

O jantar decorreu de maneira formal, uma vez que tanto Jamille quanto Pierre estavam com receio de que o plano que haviam idealizado não desse certo.

Henrique estava sendo absolutamente formal, fazendo as honras da casa, tentando ser educado com pessoas que não apreciava e as quais desejava que fossem embora o quanto antes. Maria Eugênia, atenta em fingir alegria e calma, não querendo que eles notassem quanto a presença deles a incomodava, não estava nada comunicativa.

Após o jantar, os casais sentaram-se na sala para conversar.

Pierre e Jamille faziam perguntas sobre os costumes brasileiros, fingindo interesse e tentando ao mesmo tempo descobrir o que pudessem sobre a vida do casal.

A certa altura, Elvira aproximou-se discretamente de Maria Eugênia e disse baixinho:

— Desculpe se a estou interrompendo, porém Dionísio acordou e está chorando, chamando pela senhora.

— Viu se está com febre?

— Ele está normal. Estava dormindo sereno, mas de repente acordou gritando e chamando pela senhora.

Maria Eugênia levantou-se:

— Com licença, preciso ver meu filho.

Jamille levantou-se imediatamente:

— Posso acompanhá-la? Gostaria muito de conhecê-lo.

Maria Eugênia hesitou um pouco, mas concordou:

— Venha comigo.

Elas subiram ao quarto do menino e Jamille, embora fingisse indiferença, observava todos os detalhes da casa. Dentro dela, um pensamento de raiva a incomodava. Por que eles tinham tudo aquilo, viviam no luxo, enquanto ela e o marido tinham de ficar sem nada? Não era justo. Maria Eugênia não sabia valorizar o que possuía. O mesmo se aplicava ao marido, um prosaico pai de família que, apesar de todo o poder que possuía, contentava-se em trabalhar e em viver aquela vidinha limitada, sem aproveitar tudo quanto o dinheiro podia lhes dar. Era bem verdade que viviam no luxo, tinham conforto, bom gosto. Mas para quê, se continuavam acomodados, sem aproveitar os bens que possuíam?

Ela e Pierre, sim, tinham gosto requintado, sabiam dar valor à posição, ao poder social, a tudo que o dinheiro pode comprar. Tinham como regra mais importante que as pessoas valem pelo que possuem. Para eles, não ter mais dinheiro, serem pobres, era o pior dos castigos, e fariam qualquer coisa para voltar a ter os bens que malbarataram.

Assim que elas entraram no quarto de Dionísio, ele, ainda soluçando, disse:

— Mamãe linda... Quelo você!

Maria Eugênia correu para ele e tomou-o nos braços. Beijando seu rostinho com carinho, foi dizendo:

— Estou aqui, meu filho. Acalme-se.

Aos poucos ele foi parando de chorar. Maria Eugênia continuava a acariciá-lo.

— Ele já comeu? — perguntou ela a Elvira.

— Eu trouxe a mamadeira, mas ele ainda não tomou. Acho que teve um pesadelo. Estava dormindo tranqüilo e de repente acordou gritando e chamando a senhora.

Maria Eugênia, lembrando-se de algumas frases que Eunice dissera, perguntava-se intimamente se aquele nervosismo do menino estava sendo ocasionado pela presença daquelas pessoas desagradáveis.

Devido às circunstâncias, sentia que o ambiente da casa estava um tanto pesado, pois dava para notar que nenhum dos quatro estavam à vontade.

— Ele precisa alimentar-se. Vamos ver se consigo que ele tome a mamadeira.

Sentou-se na poltrona, acomodou o menino no colo e e ofereceu-lhe a mamadeira. Ele a olhava fixamente com adoração e logo começou a mamar.

Jamille observava tudo em silêncio. Era difícil imaginar que aquela criança não fosse filho deles. Era muito provável que Pierre houvesse se enganado.

— Desculpe, Jamille. Foi o que eu lhe disse: Dionísio é muito apegado a mim, mais do que ao pai. E agora, que está doente, exige mais minha presença. Foi por isso que eu lhe disse que no momento não posso ausentar-me.

— Entendo — respondeu ela devagar. — Mas penso que você não pode se anular dessa forma. Ele está monopolizando você. Se está fazendo isso agora que é pequenino, já pensou o que fará quando estiver mais velho?

— Ele fez mais por mim do que estou fazendo por ele. Deu-me amor, felicidade, motivação para viver. Você não deve falar do que não conhece. Penso que, se você tivesse um filho, talvez não precisasse perambular pelos salões em busca de entretenimento para passar o tempo. Sei o que estou dizendo. Durante muito tempo foi o que fiz, mas, quando voltava para casa, na solidão do meu quarto, quando os ruídos dos salões desapareciam, eu sentia o peso da solidão, da infelicidade, do vazio que era minha vida naquele tempo.

Jamille remexeu-se na cadeira, inquieta. Ela muitas vezes sentira um vazio depois das orgias em que se envolvia na ânsia de encontrar alguma coisa que a motivasse a viver.

Na verdade, havia muito tempo chegara à conclusão de que a vida não valia a pena, de que tudo não passava de uma luta inglória, em que vence quem é mais forte, mas essa vitória era inútil, porquanto incapaz de dar-lhe felicidade.

De repente, sentiu uma ponta de inveja de Maria Eugênia, com sua vida de mãe, esposa, dona de casa, voltada ao amor de sua família. Ela não sabia o que era isso.

Desde muito cedo sua mãe, uma mulher rica, descendente de uma família importante, cujo casamento fora arranjado pelas conveniências das famílias, ensinara-lhe a valorizar o nome, o dinheiro, o poder, as aparências.

Seus pais relacionavam-se educadamente. Nunca os vira discutir nem trocar carinhos. Conheceu Pierre em uma festa e começaram a sair juntos. A família dele era muito rica. Freqüentavam os lugares da moda.

Até que, uma noite, o pai de Pierre fechou-se em seu gabinete e deu um tiro na cabeça. Ninguém nunca soube por quê. Ele deixou uma breve nota, despedindo-se da família.

A partir daí, a mãe de Pierre fechou-se em uma vila que possuíam na Itália e nunca mais freqüentou a sociedade. Três anos depois do casamento de Pierre e Jamille, em uma fria madrugada, eles receberam a notícia de que, vitimada por uma pneumonia, ela havia falecido.

Filho único, Pierre continuou vivendo a vida de sempre, em meio aos amigos, gastando muito em noitadas, levando vida frenética. Dessa forma, dilapidou toda a fortuna que herdara dos pais.

Todos esses pensamentos passavam pela mente de Jamille enquanto observava Maria Eugênia dando mamadeira ao filho, olhos brilhantes de afeto, coisa que em sua vida nunca conseguira sentir.

Seu relacionamento com o marido era o que esperava que fosse. Ambos gostavam de viver intensamente todas as sensações que a vida podia oferecer, sem desejar nada mais do que isso.

De repente, Jamille sentiu-se cansada de tudo isso. A intimidade com Pierre era morna, convencional, e por isso ambos haviam combinado buscar em outros braços as sensações que não sentiam juntos.

Diante dos amigos, vangloriavam-se de ter um “casamento aberto”, moda que estava pegando na Europa. Aceitavam a vida como se não houvesse nada melhor do que estavam conseguindo obter.

A perda do dinheiro fizera-os sair um pouco desse comodismo e sentir medo do futuro pela primeira vez. Haviam perdido a única coisa que valorizavam: o dinheiro. Como suportar a pobreza, a humilhação?

Dionísio acabou de mamar e Maria Eugênia acariciava-o, murmurando palavras de carinho, querendo que ele se aquietasse.

Na sala, Henrique fazia o possível para manter conversa com Pierre, falando sobre livros, teatro, costumes. Eles não tinham nada em comum.

Por outro lado, Pierre procurava levar o assunto para as empresas de Henrique, na tentativa de saber o máximo a respeito. Porém, como não dispunha de nenhum conhecimento sobre o assunto, que considerava monótono, não obtinha êxito.

Quando Maria Eugênia e Jamille desceram, acompanhadas de Elvira carregando Dionisio, ambos levantaram-se educadamente.

— Ele está bem? — indagou Henrique.

— Sim — respondeu Maria Eugênia. — Não tem febre, mas continua muito nervoso, o que significa que ainda não está se sentindo bem.

Elvira sentou-se no chão ao lado do menino com alguns brinquedos, procurando entretê-lo.

— Ele não tira os olhos de você — comentou Jamille.

— Ele quer ver se estou aqui. Quando está indisposto, só se acalma quando estou por perto.

— Essa é questão de disciplina — comentou Pierre. — Meus pais, por exemplo, quando eu era criança, nunca permitiram minha presença quando recebiam visitas.

— Aqui em casa nós valorizamos o bem-estar do nosso filho. Tenho certeza de que nossos amigos, quando nos visitam, compreendem isso.

— Claro — apressou-se a dizer Jamille, sorrindo. — Também sou partidária da educação mais aberta. Quando eu era criança, fui muito discriminada pelos meus pais, exigentes, que nunca permitiram minha presença na mesa às refeições antes dos doze anos. E, mesmo depois, eu era proibida de falar, emitir opinião nas conversas dos adultos. Acho que é por isso que odeio minha infância. Só passei a existir e fazer parte da família depois dos dezoito anos.

— Felizmente, os costumes mudaram muito — comentou Maria Eugênia. — Mas eu só faço o que acho bom para nós. Meu filho vem sempre em primeiro lugar.

Meia hora depois, o casal despediu-se, para alívio de Henrique e Maria Eugênia. Quando se viram sozinhos, Henrique comentou:

— Ainda bem que se foram. Eu não sabia mais o que dizer.

— De fato. Eles não têm nada a ver conosco. Não entendi como pude estreitar tanto essa amizade em Paris. Acho que estava fora de mim.

— Eles não disseram até quando vão ficar. Certamente ainda voltarão a nos procurar.

— Não creio que fiquem muito tempo mais. Eles não têm nada que fazer por aqui. Depois, nós não os encorajamos a ficar.

— Faço votos de que assim seja.

Assim que entraram no táxi que Henrique chamara para eles, Pierre desabafou:

— Que gente mal-educada! Com os carros na garagem, nem sequer tiveram a gentileza de nos levar para o hotel.

— Deu para ver que não gostam de nós.

— Isso não me importa. Eu também não gosto deles. Mas vão pagar muito caro por isso.

Jamille ficou pensativa por alguns segundos, depois disse:

— Quer saber? Acho que viemos ao lugar errado. Fizemos uma despesa inútil. Eles não têm segredo nenhum. Você está enganado. Não vamos conseguir nada.

Pierre fechou o cenho e respondeu:

— Você é que pensa. Não vou desistir.

— A criança é a cara dele, e o apego que o garoto tem com ela nos faz crer que é a verdadeira mãe. Depois, ela tem uma paixão por ele que certamente não teria se fosse filho adotivo.

— Mesmo que esse menino seja filho legítimo deles, eu possuo outros trunfos.

— Quais?

— Ele me parece careta e antiquado. O que diria se soubesse que sua mulher o traiu comigo?

— O que pretende fazer? Quer levar um tiro no traseiro? Acho que ele seria bem capaz de fazer isso.

Pierre olhou-a arqueando as sobrancelhas, sorrindo malicioso quando respondeu:

— Ele não vai precisar saber de nada. Quem vai nos dar o que precisamos é ela. Já pensou quanto vale para ela manter o casamento? Acha que Maria Eugênia gostaria que o marido descobrisse suas escapadas em Paris?

— Será que isso vai dar certo?

— Tenho certeza. Você vai ver só.

— Precisa ser rápido. Nosso dinheiro está no fim.

— Pode deixar. Sei como fazer.

Chegando ao hotel, Jamille foi para o quarto e Pierre desceu para o bar. Enquanto bebia seu vinho preferido, imaginava o que faria para conseguir o que pretendia.

 

Marina chegou a casa no fim da tarde e encontrou Ofélia preocupada.

— Aconteceu alguma coisa? — indagou.

— Sim. O Cícero chegou da escola indisposto e foi para o quarto. Fui atrás dele, procurei conversar, mas ele começou a chorar e dizer coisas sem sentido. A Rute chegou para a aula e Rosa lhe contou o que estava acontecendo. Ela foi até o quarto e pediu que a deixasse sozinha com ele. Estão lá há mais de dez minutos.

— Vou ver o que está havendo.

Marina subiu ao quarto do irmão e entrou. Cícero estava deitado e Rute, em pé do lado da cama, mantinha a mão sobre a testa dele. Olhos fechados parecia rezar.

Cícero, também de olhos fechados, estremecia de vez em quando. Marina, admirada, não entendeu nada. Rute abriu os olhos, fez-lhe ligeiro sinal para esperar e fechou novamente os olhos.

Depois de alguns minutos, Cícero abriu os olhos. Rute retirou a mão de sua testa e perguntou:

— Como se sente?

— Aliviado. Não sei o que foi. Senti uma angústia, parecia que eu ia morrer. O ar me faltava, não conseguia ficar parado.

— Já passou. Você tem mediunidade. Sabe o que é isso?

— Não.

— Há algum tempo você vem sentindo essas coisas, não é? Acho que desde os doze ou treze anos.

— É verdade. Mas antes não era forte. Passava logo. Agora parece que cresceu.

— Sua sensibilidade está se abrindo. Você e médium.

Marina interveio:

— Será? Custo a crer. Cícero sempre foi um menino equilibrado.

— Mediunidade não é sinal de desequilíbrio.

Marina lembrou-se das conversas que tivera sobre isso com Célia e Isaura quando estava na fazenda e dos livro, que lera sobre o assunto.

— Desculpe. Não foi isso que quis dizer. É que nunca notei nada diferente em Cícero.

— Ele está muito sensível. Talvez a mudança de vida tenha apressado o desenvolvimento de sua sensibilidade. Mas, seja como for, noto que ele possui essa característica.

— Como pode saber?

— Hoje, quando cheguei aqui, ele estava sendo envolvido pelo espírito de uma mulher muito triste e chorosa. Ela conversou comigo e consegui acalmá-la. Com orações, ela foi socorrida e levada. Só então Cícero voltou a seu estado normal.

Marina sentou-se ao lado da cama, sem saber o que dizer. Sabia que essas coisas aconteciam, mas nunca imaginou que fosse ocorrer dentro de sua casa.

— Não sei o que dizer Rute. Estou vendo que conhece o assunto. O que me aconselha?

— Estudar. Há muitos livros a respeito, pesquisas, centros de estudos onde há orientação prática de mediunidade.

Marina aproximou-se de Cícero, alisou-lhe os cabelos e disse:

— Por que você nunca me disse o que estava sentindo?

— Tive medo. Pensei que estivesse ficando louco. Tantos pensamentos estranhos passam pela minha cabeça. Há ocasiões em que estou bem, junto com meus amigos, mas de repente tudo muda. É como se eu fosse outra pessoa: sinto enjôo, raiva, vontade de brigar. Tento controlar, mas nem sempre consigo. Por favor, Dona Rute, tire isso de mim. Não quero sentir essas coisas.

— Acalme-se. Não tenho e ninguém tem o poder de impedir que sua sensibilidade se manifeste. Ela é uma condição natural de todos, embora cada um tenha um tempo certo para que apareça. Mas ser médium é uma bênção. Você não precisa ter medo.

— Mas eu tenho. Não quero esse negócio de espíritos.

— É por isso que o aconselho a estudar o assunto. É o único caminho para que você aprenda a lidar com sua sensibilidade e possa utilizá-la em seu benefício. Com o tempo, perceberá que ser médium é penetrar os segredos do universo. É descobrir as leis da vida, é tornar-se mais lúcido e sábio.

Marina olhava-o dividida. Por um lado, sabia que Rute estava sendo sensata, aconselhando o melhor. Por outro, não queria que o irmão sofresse tantos conflitos.

Rute colocou a mão sobre o braço de Marina e disse:

— Ele é um espírito forte e tem como lidar com isso. Você precisa confiar e auxiliá-lo. Tenho certeza de que ele veio para o seu lado porque você pode fazer isso.

Marina suspirou e abraçou-a com carinho.

— Obrigada, Rute. Você tem sido uma amiga do coração. Seguirei seu conselho. Pode indicar-me alguns livros para começar?

— Posso. Mas gostaria de fazer mais. Tenho uma amiga que é uma médium muito boa, tem um grupo de estudos. Gostaria que vocês fossem a uma sessão lá para uma consulta espiritual.

— O que acha Cícero? Vamos?

— Eu vou se Dona Rute for junto.

— Está bem, irei. Mas antes preciso conversar com ela e saber quando poderemos ir. Agora, levante-se daí. Não pensa que vai escapar da nossa aula hoje.

— Isso mesmo — reforçou Marina. — Vamos descer. Estamos esperando você lá.

Elas saíram e imediatamente Cícero levantou-se, foi lavar-se e pentear-se para descer. Sentia-se leve, alegre. Nem se lembrava do mal-estar que sentira.

Mais tarde, sozinha em seu quarto, Marina lembrou-se daquela mulher com a qual sonhara duas vezes e que lhe falara sobre reencarnação. Tinha certeza de que não havia sido um sonho comum. Aquele contato fora tão real que ela nunca mais o esqueceu.

As conversas com Célia e Isaura na fazenda, sobre vida após a morte, mediunidade, reencarnação, talvez não fossem coisas do acaso, mas mensagens que a vida estava lhe mandando para que estudasse o assunto.

O telefone tocou e ela atendeu. Era Rafael convidando-a para ir ao teatro.

— Não sei se poderei ir. Cícero não passou bem hoje.

— Trata-se de uma comédia inteligente e muito boa. Vamos fazer o seguinte: passarei em sua casa as oito, então veremos; se não quiser ir, ficaremos conversando.

— Venha mesmo. Cícero adora você. Aliás, você Já conquistou todos aqui em casa.

— Ainda bem, porque aí tem sido um oásis para mim. Adoro sua mãe.

As oito em ponto, Rafael chegou e foi recebido com alegria. Rosa foi chamar Marina, que desceu em seguida. Depois dos cumprimentos, sentaram-se na sala e Rafael perguntou:

— Então, como está o Cícero?

O garoto apareceu no limiar sorrindo e respondeu:

— Estou ótimo. Tanto que vou dar uma volta.

Rafael olhou para Marina admirado:

— Ele não estava doente?

Ofélia entrou para cumprimentá-lo e Rafael levantou-se para abraçá-la. Desde que ele fora àquela casa pela primeira vez, havia mais de um ano, tinham ficado amigos.

Talvez por viver distante da própria família, Rafael sentia-se bem com o carinho de Ofélia, com a curiosidade de Cícero, sempre questionando as coisas, e com a inteligência esclarecida de Marina.

Ela era tão espontânea que diante dela ele não precisava recorrer às costumeiras análises de comportamento para saber logo o que ela queria dizer ou fazer. Nem se precaver contra os costumeiros jogos femininos, cheios de subterfúgios e intenções ocultas, que ele odiava.

Marina era direta, simples e prática, ao contrário dele, que questionava os menores gestos das pessoas, querendo descobrir que havia atrás de cada uma de suas atitudes.

Habituado a ser muito valorizado pelas mulheres, a princípio Rafael ficara um pouco desapontado notando que ela não pretendia conquistá-lo, mas depois de algum tempo sentiu-se aliviado e à vontade.

Por outro lado, Marina gostava da companhia dele, de sua inteligência arguta, sua cultura, bom humor e discrição, nunca tendo enveredado pelo caminho da conquista.

Eles saíam juntos com freqüência e Marina apreciava poder freqüentar teatros, cinemas, concertos e restaurantes em sua companhia. Além de Rafael ser muito agradável, ela sentia-se bem por circular pela noite acompanhada.

Foi Ofélia quem respondeu:

— Cícero estava péssimo. Chegou em casa abatido, pálido, foi para o quarto e não queria ver ninguém. Quando Rute chegou para a aula, foi ao quarto dele ver como estava. Não sei o que ela fez, mas, depois que ela e Marina desceram, ele apareceu todo animado, como se não tivesse nada. Comeu muito bem e foi passear coisa que só faz quando está de bom humor.

Rafael olhou para Marina e considerou:

— Deve ter sido uma crise emocional. Na idade dele acontece muito. Nesses casos, atenção e uma boa conversa costumam resolver.

— Desta vez foi mais do que isso — tornou Marina. — Sente-se. Quero conversar sobre o que aconteceu.

— Vou fazer um café bem fresquinho — disse Ofélia, deixando a sala.

— Fale Marina. O que foi?

— Em nossas conversas nunca falamos sobre isso. Você acredita que haja vida depois da morte?

— Acredito. Em meu trabalho tenho deparado com casos que me fizeram refletir muito sobre isso. Por que pergunta?

— Porque quando cheguei no quarto de Cícero encontrei Rute com a mão na testa dele, conversando. Ele estava chorando angustiado. Ela confortou-o, rezou e ele melhorou. Então ela explicou que ele é médium e que as emoções desagradáveis que ele estava sentindo eram de um espírito.

— E ele?

— Sentiu-se aliviado ao saber disso. Sem entender o que estava acontecendo, teve medo de estar enlouquecendo. Ainda bem que Rute entendia do assunto.

— O sexto sentido é uma realidade. Todos nós temos. Penso que precisamos aprender mais sobre nosso emocional e a espiritualidade.

— Os sonhos também são intrigantes. Por duas vezes sonhei com uma mulher que, embora não a tenha visto antes, pareceu-me muito familiar. Estávamos em um jardim lindo, onde as flores, a vegetação, possuem cores muito vivas e belas. Conversamos, mas não me recordo de tudo que falamos. Só sei que ela falou em reencarnação. Mas estou certa de que esses não foram sonhos comuns. Eram tão reais! Eu ainda me emociono quando me recordo deles.

— Os sonhos sempre me fascinaram. São estados diferenciados de consciência, em que muitas variáveis interferem. Na minha profissão são reveladores. Às vezes retratam situações que a pessoa prefere não ver. Estudá-los é parte do meu trabalho. Tenho lido sobre viagens astrais e tive alguns pacientes que chegaram a ver seu corpo dormindo na cama enquanto eles circulavam pelo quarto, com leveza e extraordinário bem-estar.

— Enquanto eu estava fora, tive ocasião de ter sobre isso, mas saber que meu irmão é médium e precisa aprender a lidar com sua sensibilidade me preocupa um pouco.

— É uma coisa nova para você. O desconhecido assusta um pouco. Por outro lado, poder descobrir os segredos da vida, obter provas de que a vida continua após o morte, é uma bênção. Ter essa certeza muda todos os nossos conceitos e atitudes. A reencarnação é uma chave maravilhosa para entender as desigualdades sociais, porque ela revela os resultados de nossas escolhas de outras vidas. Eu tive muitos casos que me fizeram pensar que tudo isso seja verdade. Mas há em mim ainda um lado que duvida um pouco.

— É o que acontece comigo. Eu não procurei esse caminho, mas já que aconteceu aqui, com meu irmão, estou disposta a buscar provas e aprender como essas coisas funcionam, para ajudar Cícero. Rute tem uma amiga médium que dirige um grupo de estudos espirituais. Inclusive, faz sessões espíritas. Ela quer nos levar para uma consulta.

— Nesse caso quero ir com vocês. Tenho muitas perguntas sem resposta dentro de mim. Casos que ocorreram com pessoas amigas, com pacientes, com a vida nos hospitais.

Ofélia voltou à sala com uma bandeja e serviu café com bolo. Depois foi para o quarto ver televisão.

— E sua mãe, o que pensa a respeito?

— Ela sempre freqüentou a igreja católica. Pensei que não fosse gostar do que aconteceu. Rodeei um pouco para contar-lhe, mas fiquei surpresa, porque, quando terminei, ela disse: “Sempre desconfiei que esse menino tinha mesmo algum encosto. Desde pequeno ele tem todos os sinais. Quando eu via que ele estava atormentado, precisava levá-lo a uma benzedeira. Ela rezava na cabeça dele e a melhora era imediata. No dia seguinte ele acordava bonzinho”.

— A sabedoria popular... Sua mãe é uma grande mulher.

— Ela é uma mulher simples, fez apenas o primeiro grau, mas possui uma bondade que eu respeito e admiro. Tenho muito orgulho de ser sua filha.

— Estou muito interessado no caso de Cícero. Há certos fatos que presenciei que a medicina não explica e que sugerem a intervenção espiritual. Certa vez, quando fazia residência em um hospital, um paciente de meia-idade que sofreu um acidente de carro estava em coma. Sua esposa aproximou-se dele e disse palavras de carinho, pedindo que ele não a deixasse que voltasse para ela e os filhos.

Marina ouvia com interesse e ele prosseguiu:

— Como médico, eu sabia que um paciente em coma não sabe o que acontece à sua volta. Querendo acalmá-la, pedi que saísse e afirmei que no estado em que ele se encontrava não poderia ouvir nada do que ela estava dizendo. Mas ela se recusou, afirmando que o traria de volta e que ele não iria embora. Como o estado dele era grave e já era madrugada, deixei-a ficar sentada ao lado da cama. Mais tarde, uma enfermeira me chamou dizendo que o paciente dera sinal de melhora. Corri a examiná-lo, e de fato ele estava saindo do coma. As primeiras palavras dele, ainda atordoado, foram: “Alzira, você me chamou e eu voltei. Agora não vou mais embora”.

— Quer dizer que ele ouviu o que ela lhe dissera?

— Tudo indica que sim. Ela olhou-me triunfante, contente, como se dissesse: “Viu? Eu não disse?” Pela medicina, ele nunca poderia ter registrado as palavras dela. Muitas vezes fiquei me perguntando se realmente somos espíritos e desse modo podemos viver fora do corpo conservando todos os nossos sentidos.

— Essa seria a única explicação.

— Vi pacientes em fase terminal que diziam estar recebendo a visita de seus parentes mortos. Um deles até sabia o dia em que ia morrer. Viu o espírito de um tio que prometeu buscá-lo naquela data. E ele realmente morreu no dia previsto.

— Nesse caso, os médicos poderiam estudar esses fatos com mais facilidade.

— Alguns até o fazem, ou pelo menos respeitam quem crê na vida após a morte, mas infelizmente o preconceito ainda é grande e muitos não mencionam esses casos, com receio de serem confundidos com curandeiros. Depois que me especializei em psiquiatria, muitas vezes, durante o tratamento de um paciente, vi que ele se transformava, como se fosse outra pessoa: a postura, a voz. E alguns diziam coisas inteligentes que iam além da cultura e do conhecimento que eles possuíam. Havia um que, durante um acesso de fúria, começou a destruir tudo à sua volta e não conseguíamos contê-lo para colocar a camisa-de-força. Uma das enfermeiras chegou e entrou no quarto, apesar de querermos impedi-la. Ela estendeu a mão para ele e com voz firme mandou que parasse. Ele olhou-a e ela continuou falando, dizendo que não queria colocar a camisa-de-força, mas, se ele continuasse rebelde, querendo destruir tudo, ela seria forçada a fazer isso e a dopá-lo.

— Mulher corajosa!

— Na hora fiquei apavorado. Achei que ele ia agredi-la e me preparava para intervir quando surpreendentemente ele começou a chorar, soluçando e dizendo que ia embora porque ela era mais forte do que ele. Então ela tomou seu braço e conduziu-o para a cama. Ele soluçou durante algum tempo. Depois disse que ela o havia libertado. Que não era ele quem estava furioso, mas seu perseguidor, que queria acabar com ele. Contou que via o que estava acontecendo, mas não conseguia reagir. Disse que, quando ela entrou e o enfrentou, das mãos dela saíram raios de luz azul muito fortes, que o imobilizaram.

— Que coisa impressionante!

— De fato. Durante alguns dias não consegui pensar em outra coisa. Fui procurá-la. Então descobri que ela era espírita praticante. Seu guia espiritual a mandara ir e atender o caso. Ele a ajudara no processo.

— Temos muitas coisas a aprender. Desta vez não vou perder a chance.

— Nem eu. Afinal, é mesmo muito bom descobrir o que vai nos acontecer depois da morte, uma vez que esse é o caminho de todos nós.

Eles ainda continuaram conversando sobre o assunto. Quando Rafael se despediu, ficou combinado que ele os acompanharia ao centro de estudos espirituais.

O encontro foi marcado para dois dias depois. Rute, Marina, Rafael e Cícero deveriam estar lá pontualmente às oito da noite. Dez minutos antes, chegaram ao local.

Era um casarão antigo em um bairro de classe média. No portão, um moço os recebeu fazendo-os entrar no jardim bem cuidado. Subiram os degraus que conduziam à varanda e entraram no hall, onde uma moça os recebeu e os conduziu a um salão com filas de cadeiras e ao fundo uma mesa grande, rodeada de cadeiras. Sobre a mesa, alguns livros, blocos de papel, canetas. Atrás, encostado na parede, um móvel sobre o qual havia um vaso com flores, bandeja com jarras de água e copos.

Cícero agarrou o braço de Rute. Marina viu e perguntou:

— O que foi Cícero?

— Acho que não vou ficar. Estou todo arrepiado. Vocês ficam. Vou esperá-los no jardim.

— Nada disso — tornou Rute. — Não tenha medo. Aqui você está protegido. Nada de mal vai lhe acontecer.

Eles foram convidados a sentar-se em uma das fileiras. Quase todas as cadeiras estavam ocupadas. O ambiente era acolhedor e alegre.

Uma moça aproximou-se de Rute e perguntou:

— Quem vai passar com Dona Eunice?

— Cícero — respondeu Rute. — Mas Marina, irmã dele, e o Rafael gostariam de conversar com ela para uma orientação.

— Está bem. A reunião vai começar. Eu chamarei quando for o momento de vocês entrarem.

As luzes foram apagadas, ficando acesa apenas uma lâmpada azul. Uma música suave encheu o ar. Um senhor sentado à cabeceira da mesa pediu que todos se concentrassem e fez ligeira prece solicitando a presença e a proteção dos amigos espirituais para os trabalhos da noite.

Depois, as luzes foram acesas e um rapaz levantou-se e começou a falar sobre a necessidade da oração como elemento de ligação com os espíritos de luz. Sua voz vibrante e emocionada, suas palavras ditas com convicção impressionavam enquanto ele afirmava que a ajuda espiritual está à nossa volta o tempo todo, que somos nós que fechamos nosso coração a ela quando nos afundamos no negativismo e que a oração renova nossas energias e oferece campo a que a ajuda espiritual possa atuar em nossas vidas.

Marina sentia uma alegria interior, um bem-estar muito grande. Parecia-lhe já haver estado em um lugar como aquele.

O rapaz sentou-se e logo depois uma moça se levantou e começou a contar uma experiência que tivera fora do corpo. Eles estavam muito interessados, porém naquele momento foram chamados para a consulta.

Eles acompanharam a moça por um corredor até uma pequena sala onde atrás de uma mesa Eunice estava sentada.

Rute ia ficar fora, mas a moça pediu que ela também entrasse. Eunice estendeu a mão a eles olhando nos olhos de cada um. Depois pediu que se sentassem em frente da mesa.

Cícero olhava-a admirado. Ela sorriu:

— Você está vendo um amigo espiritual. Esta aqui para nos ajudar.

— Ele está sorrindo para mim. Parece que já o conheço.

— Vocês fazem parte do nosso grupo.

— Mas é a primeira vez que venho aqui – disse Cícero, admirado.

Eunice sorriu:

— Isso não quer dizer que não tenhamos nos encontrado antes. Você veio aqui por causa da sua sensibilidade. Está na hora de estudar as leis cósmicas e os fenômenos de influências. Você precisa aprender a equilibrar suas energias, a escolher bem seus caminhos.

— Eu também gostaria de estudar tudo isso — interveio Marina.

— Eu sei. Você está pronta, só precisa recordar um pouco. Quanto ao senhor, já poderia ter desenvolvido seu enorme potencial curador se não tivesse ignorado os chamados que a vida lhe fez.

Ela fez uma pausa, depois perguntou:

— Quem é Olinto ou Olívio?

— Olinto, meu avô paterno — respondeu Rafael.

— Um senhor alto, bonito, cabelos castanho-claros, queixo quadrado, olhos alegres.

— É ele! — exclamou Rafael, emocionado.

— Pois é... Ele diz que tem procurado auxiliar seu pai, mas que ele é teimoso e não atende aos conselhos que lhe dá. Diz que adora Diva porque ela tem muita paciência com ele.

Rafael não conseguiu impedir que algumas lágrimas rolassem pelas suas faces. Quando conseguiu falar, disse:

— Diva é minha mãe!

Marina e Cícero não continham a emoção. Naquele momento tiveram provas de que a vida continua após a morte. Não só a presença do avô de Rafael, mas também as palavras que ele dissera, mencionando o nome da nora causaram-lhes grande impressão.

Eunice olhou fixamente para Marina e continuou:

— Está aqui o espírito de uma moça. Diz que se chama Norma. É sua amiga de outras vidas e pede que lhe diga o seguinte: “Está tudo certo. Não existe erro. Você cumpriu a promessa que me fez. Conte comigo sempre. Farei o que puder para que seja muito feliz”.

Marina lembrou-se com muita clareza do sonho naquela tarde na sala de espera do Dr. Moura, do jardim onde conversara com uma mulher que lhe dissera ser sua amiga de outras vidas e que quando chegasse o momento ela se recordaria da reencarnação.

Surpreendida, emudeceu. Eunice perguntou:

— O recado fez sentido para você?

— Sim — respondeu Marina.

Notando que os demais a olhavam curiosos, ela esclareceu:

— Certa vez sonhei com ela, que me disse as mesmas palavras. Nunca mais esqueci esse sonho.

— Foi uma viagem astral, não foi um sonho. Vocês se encontraram no astral enquanto seu corpo dormia. Eu gostaria que

Cícero se matriculasse em nosso curso de médiuns. Lá ele terá aulas teóricas sobre as leis cósmicas e práticas para conhecer as energias que nos rodeiam.

— Está bem — concordou ele.

Eunice prosseguiu:

— Quanto a vocês dois, vou indicar-lhes alguns livros e, se desejarem, poderão freqüentar nossa sessão de estudos uma vez por semana.

Os dois concordaram. Eunice levantou-se e estendeu-lhes a mão.

— Tive muito prazer em conhecê-los. Se quiserem, poderão tomar um passe na sala ao lado. Vão com Deus.

Eles agradeceram e saíram. Foram à sala indicada e cada um sentou-se onde lhes indicaram, enquanto duas pessoas — uma diante, outra atrás — levantaram as mãos e pouco depois as passaram pelo corpo deles sem os tocar. Uma música suave enchia o ar e um delicado perfume das rosas que estavam no vaso sobre a mesinha deu-lhes agradável sensação de bem-estar.

Enquanto Cícero teve uma crise de choro, Rafael intimamente prometia a si mesmo estudar a espiritualidade com persistência, Marina sentia que uma brisa gostosa a envolvia e que aquela energia lhe era familiar. Num misto de reconhecimento e de saudade que ela não podia traduzir em palavras, permitiu que duas lágrimas de felicidade lhe banhassem a face, na certeza de que finalmente havia reencontrado seu caminho.

Eles saíram em silêncio, cada um imerso em seus pensamentos. Uma vez na rua, Rute não se conteve:

— E então? Gostaram?

— Eu senti arrepios o tempo todo. Como é que ela sabia tudo sem eu dizer nada? — tornou Cícero.

— Como você está se sentindo agora? — perguntou Rute.

— Leve, muito bem — respondeu Cícero. — Tanto que estou até com fome.

— Nesse caso, vamos comer alguma coisa — convidou Rafael. — Aqui perto há um lugar muito bom.

Uma vez ao carro, Rafael comentou:

— Essa mulher tem uma mediunidade espantosa! Depois das provas que ela nos deu, não há do que duvidar.

— De fato — interveio Marina. — Como ela poderia saber sobre a moça do meu sonho e das palavras que havíamos conversado?

— Vocês se admiram, mas para Eunice, que vê os espíritos e ouve o que eles dizem, é só narrar os fatos — respondeu Rute.

— Mas nem todos os médiuns são como ela. Eu mesmo já deparei com alguns que afirmam coisas que nunca aconteceram e até confundem a cabeça das pessoas ingênuas — aventou Rafael.

— De fato. Eunice é pessoa lúcida, íntegra e muito generosa, o que lhe garante a presença e a ajuda de espíritos iluminados. Além disso, seu temperamento prático e ativo não permite que se perca nas ilusões e nos dramas do mundo. Líder nata, ai pessoas rendem-se ao seu carisma. Contudo, ela conserva a cabeça no lugar e tem uma enorme capacidade de trabalho.

— Ela passa mesmo uma sensação de confiança — tornou Rafael. — A partir de hoje, vou me dedicar a estudar esses fenômenos. Afinal, morrer é o destino de todos nós. Pensando nisso, não dá para entender por que a maioria das pessoas prefere ignorar esse assunto.

— Talvez o medo seja maior do que a necessidade — comentou Marina.

— O medo — interveio Rute —, quando não é provocado por uma situação real de risco, pode ser dissipado pelo conhecimento dos fatos. Há inúmeras provas da sobrevivência do espírito após a morte. Quando você as descobre, fica mais fácil vencer o medo e olhar o futuro com mais otimismo.

Durante todo o tempo em que estiveram juntos, comentaram os acontecimentos da noite.

Passava das onze quando Rafael, depois de deixar Rute em casa, levou Marina e Cícero. Este despediu-se rapidamente de Rafael, dizendo alegre:

— Mamãe deve estar nos esperando ansiosa. Vou contar-lhe as novidades.

Ele entrou depressa. Marina estendeu a mão a Rafael.

— Obrigada por nos ter acompanhado. Seu apoio foi muito importante para mim. Apesar de gostar de Rute, eu me sentia um pouco insegura. Cícero é um menino sensível; eu temia que ele se impressionasse demais.

— Você sabe quanto aprecio a companhia de vocês. Eu iria junto em qualquer lugar. Porém, confesso que não esperava o que nos aconteceu. Sinto em meu coração uma sensação boa, que renovou minha motivação.

— Você nunca me pareceu desmotivado. Tem uma visão otimista de tudo.

— Esse é um trabalho que realizo diariamente, tentando melhorar minhas condições de vida. Tenho aprendido que o otimismo não só nos ajuda a viver melhor, mais felizes, como também contribui para a manutenção da saúde física e mental. Acontece que, lidando com os problemas humanos, sendo confidente de pessoas altamente iludidas, pessimistas, irresponsáveis, que se comprazem nas mesmas posturas sem que eu possa, por mais que tente fazê-las perceber o que estão fazendo com suas vidas e assumir o comando de seu mundo inferior, tudo isso acabou desgastando minha boa vontade.

Marina colocou a mão sobre o braço dele, olhando-o nos olhos.

— Nunca notei que você se sentia assim.

— Quando me formei, estava cheio de planos, de ideais, acreditando que meus conhecimentos, meu amor pela profissão e o desejo de tornar as pessoas mais felizes seriam suficientes para conseguir um bom desempenho.

— Mas você conseguiu. É um profissional respeitado, escreveu livros, tem ajudado as pessoas.

— Tenho tentado, mas a grande verdade é que ninguém muda ninguém. As pessoas me procuram em busca de orientação para suas vidas, porém poucas são as que realmente ouvem meus argumentos e tentam colocá-los em prática. A maioria vai à consulta em busca de algum remédio que em um passe de mágica a livre de todas as preocupações. Quando você identifica a origem dos problemas e sugere o que fazer para vencê-los, não aceitam.

Ele fez ligeira pausa e, notando que Marina o ouvia com atenção, continuou:

— Por comodismo, não querem reconhecer que foi sua maneira inadequada de ver as coisas que criou as situações problemáticas que as impedem de ter uma vida feliz.

— Isso não deve entristecê-lo. Você está dando o melhor de si, usando seus conhecimentos para seus clientes. Mas a responsabilidade de fazer ou não o que você aconselha é deles. Não depende de você.

— Eu sei disso. O que quero lhe dizer é que, nesta noite, a descoberta da reencarnação como uma possibilidade de aprendizagem fez-me recobrar o entusiasmo pelo meu trabalho. Entendi que minha função é apenas mostrar as várias opções que a pessoa tem naquele momento. Se ela escolher o melhor, tudo bem. Mas, se continuar no mesmo caminho, um dia ela vai tomar consciência do que eu quis lhe mostrar e vai fazer o mais adequado. Esta noite descobri que minha função é apenas mostrar a quem se sente perdido um caminho mais adequado às circunstâncias, sem me preocupar com o que cada um escolheu. Esta noite tive a certeza de que a vida cuida de cada um muito melhor do que eu. Diante dos que me procuram, sou apenas uma chance de mudança que eles usam se quiserem.

Os olhos de Rafael brilhavam e Marina sentiu-se comovida com suas palavras. Geralmente ele não falava de seus sentimentos pessoais. Era a primeira vez que expunha seus pensamentos íntimos, suas expectativas diante do trabalho no qual dedicara toda a sua vida.

— Você é um homem maravilhoso — disse ela, levantando-se na ponta dos pés e beijando-o delicadamente na face.

Ele abraçou-a, respondendo comovido:

— Não. Você é que tem enchido minha vida de alegria e de felicidade.

Emocionado, beijou-a nos lábios. Marina sentiu o coração bater descompassado enquanto uma sensação de prazer a invadia.

 

            Maria Eugênia atendeu o telefone e, ouvindo a voz de Pierre, sentiu um aperto no peito.

— Preciso vê-la com urgência, a sós, não em sua casa — disse ele.

— Infelizmente, você sabe, não posso sair, por causa do meu filho.

— Dê um jeito. Tenho um assunto muito importante para conversar com você. Garanto que é do seu interesse.

— O que é? Pode me dizer por telefone?

— De forma alguma. Espero você esta tarde no meu hotel. Jamille vai sair em excursão e eu estarei esperando. Ela quis escapar:

— Eu não posso. Meu marido pode não gostar.

— Antes você não pensava assim. Se não vier, vou procurá-lo e contar tudo que houve entre nós em Paris.

Maria Eugênia sentiu as pernas bambas. O coração disparou.

— Está bem. Irei — respondeu com voz sumida.

— Às duas horas. Não se atrase. Estou em uma situação de emergência. Se não vier até as duas e quinze, vou procurar seu marido. Não estou brincando.

— Pode esperar. Irei.

Ela desligou o telefone e deixou-se cair em uma poltrona. Mais do que nunca lamentou a leviandade daqueles tempos. Mas era tarde. Precisava enfrentar a situação.

Não duvidava que Pierre estivesse procurando tirar vantagem da situação. Só não sabia como, se queria dinheiro ou se queria divertir-se à custa dela, exigindo que lhe desse a mesma atenção de antes.

Ela não aceitaria nenhuma das duas hipóteses. Porém, o que fazer se ele levasse para frente às ameaças?

Ela não queria de maneira alguma colocar em risco seu relacionamento com Henrique. Eles estavam vivendo a melhor fase de seu casamento. Maria Eugênia amava o marido e não queria perdê-lo.

Por um momento ocorreu-lhe que o mais sensato seria contar-lhe tudo e acabar de vez com a chantagem de Pierre. Mas como Henrique reagiria se soubesse que havia sido traído? Certamente a desprezaria, talvez até a deixasse.

Não. Henrique nunca poderia saber a verdade. Angustiada, Maria Eugênia compareceu ao hotel de Pierre na hora marcada. No saguão, pediu à recepcionista que o avisasse de sua chegada e foi aguardar na sala de estar.

Pouco depois, Pierre chegou elegante como sempre, e cumprimentou-a sério, deixando transparecer tristeza em sua fisionomia.

— O que deseja de mim? — indagou ela.

— O que temos que conversar não pode ser dito aqui. Melhor irmos a meu quarto.

— Não. Prefiro outro lugar.

— Nesse caso, vamos ao jardim-de-inverno. Há esta hora está vazio.

Maria Eugênia acompanhou-o tentando controlar a inquietação. O local era muito bonito, cheio de plantas ornamentais e caprichada decoração. Realmente, não havia ninguém por perto.

Ele conduziu-a a um canto discreto, onde se sentaram nas aconchegantes poltronas.

— E então? — indagou ela.

Ele suspirou triste, depois disse:

— Resolvi vir ao Brasil conversar com você porque estamos atravessando uma situação desesperadora. Eu perdi tudo, estou arruinado.

Ela não escondeu a surpresa:

— Não parece... Vocês estão vivendo como sempre. Este hotel é dos mais luxuosos.

— Para mim, é o estilo de vida que desfrutei durante toda a minha vida. Quando descobri que havia perdido tudo, pensei em suicídio. Jamille impediu-me no momento exato. Por ela, resolvi continuar vivendo, mas não tenho estrutura para viver na pobreza. Por isso resolvi vir vê-la e pedir ajuda.

— A mim? Por mais que eu deseje ajudá-los, não sei como poderia. Minha mãe cuida de todo o nosso dinheiro.

— Informei-me sobre suas empresas. Elas possuem vastos recursos. Creia que, se não fosse pela aflitiva situação em que nos encontramos nunca me atreveria a incomodá-la.  Se quer saber, não temos nem dinheiro para pagar o hotel.

— Não sei o que dizer.

— Peça a seu marido.

— Você sabe que ele não simpatiza muito com você.

— Fale com sua mãe.

— Ela é uma mulher difícil. Nunca consegui enfrentá-la.

— Estou desesperado. Se não puder ajudar-me, vou procurar seu marido. Ele, apesar de não gostar de mim, diante dos fatos vai querer ver-me longe daqui.

Maria Eugênia empalideceu:

— O que pretende fazer? Contar-lhe as loucuras que fiz em Paris?

— Se for preciso...

Maria Eugênia sentiu vontade de esbofeteá-lo, mas conteve-se. Ele continuou:

— Não quero apelar para o escândalo. Sei que sua mãe daria tudo para que eu não falasse sobre aquela barriga postiça que você usava em Paris.

Então era isso! Ele sabia o segredo de sua família e pretendia arrancar dinheiro deles. Maria Eugênia sentiu a cabeça turvar-se e esforçou-se para não desmaiar.

Pierre, notando sua palidez, teve certeza de que suas suspeitas tinham fundamento. Olhou em volta e foi até a mesinha, onde havia uma jarra de água e copos. Serviu-se e voltou até Maria Eugênia:

— Beba isto. Vai sentir-se mais calma.

Ela segurou o copo com mãos trêmulas e bebeu alguns goles. Estava tão assustada que não se atreveu a contestar o que ele dissera.

Pierre continuou:

— Olhe, eu não quero prejudicar ninguém, muito menos você, de quem guardo boas lembranças. Mas estou desesperado. Se me arranjar algum dinheiro, vou embora e nunca mais ouvirá falar de mim.

Maria Eugênia tomou o resto da água, tentando ganhar tempo. Não sabia o que dizer. Quando se acalmou um pouco, perguntou:

— Quanto você quer?

— Você sabe... Devido à situação, estou cheio de dívidas. Quero pagar tudo e ter dinheiro para recomeçar.

— Se você continuar levando a vida que sempre teve, não haverá dinheiro que chegue. Estará sempre pobre.

— Eu pretendo trabalhar — mentiu ele. — Tenho idéia de voltar a Paris e abrir um negócio. Jamille vai me ajudar.

— Quanto?

— Cinco milhões de dólares.

Maria Eugênia olhou-o assustada:

— Tudo isso? É impossível! Nunca conseguirei arranjar dinheiro.

— Pois é do que preciso. Esse valor não significa nada diante do patrimônio das empresas de sua família.

Maria Eugênia torcia as mãos desesperada. Pierre continuou:

— Olhe, vou dar-lhe um prazo para conseguir o dinheiro. Mas lembre-se de que, quanto mais tempo eu ficar neste hotel, mais estarei gastando. Esse valor pode aumentar.

Maria Eugênia levantou-se. Apesar de sentir as pernas bambas, queria sair dali o quanto antes, não ver mais aquele olhar malicioso e falso de Pierre. Sua proximidade a enojava.

— Preciso ir embora. Meu filho ainda não está bem.

— Está certo. Daqui a dois dias volto a ligar para saber se já tem dinheiro.

— É impossível arranjar tanto dinheiro em tão pouco tempo.

— Não posso esperar mais. Se não conseguir, irei procurar sua família.

— Não... Vou ver o que posso fazer. Não faça nada sem falar comigo.

— Está bem. Lembre-se: daqui a dois dias, neste mesmo horário.

Maria Eugênia saiu sem se despedir. Ao entrar no carro, o motorista perguntou:

— A senhora está bem? Está tão pálida!

— É um ligeiro mal-estar. Vamos para casa. Preciso descansar.

Durante o trajeto, Maria Eugênia procurava desesperadamente uma solução. Porém, quanto mais refletia, menos acreditava na possibilidade de conseguir o que Pierre exigira.

Ela nunca precisou pensar em dinheiro porque sempre tivera tudo e todas as suas necessidades satisfeitas. Mas, apesar disso, sabia que cinco milhões de dólares era uma quantia vultosa até para os recursos de sua família.

Depois, que desculpas arranjar para solicitar essa soma? Tanto Henrique quanto Adele eram inteligentes e não se deixariam ludibriar com facilidade. Teria de lhes contar.

No entanto, preferia morrer a ter de contar ao marido que o traíra e à mãe que fora leviana a ponto de deixar que Pierre conhecesse tão importante segredo.

Sua cabeça doía e ela nem sequer conseguia raciocinar direito. Chegou em casa e foi diretamente para o quarto. Não queria que ninguém notasse seu nervosismo. Uma vez lá, atirou-se na cama e rompeu em soluços.

Elvira bateu à porta e Maria Eugênia não abriu. Ela bateu novamente.

— Quem é? — indagou Maria Eugênia.

— Elvira. Preciso falar com a senhora.

Maria Eugênia levantou-se rapidamente e foi abrir. Em sua perturbação, nem havia perguntado de Dionísio. Teria piorado?

Vendo sua fisionomia perturbada, Elvira perguntou:

— Aconteceu alguma coisa? A senhora está doente?

— Não. Estou com dor de cabeça. Dionísio está bem?

— Ele estava até meia hora atrás. De repente, acordou chorando desesperado, chamando pela senhora. Custou para que se acalmasse. Mas ele está inquieto, estremece de vez em quando.

— Viu se a febre voltou?

— Ele não está com febre; só inquieto, nervoso, irritado.

— Vou vê-lo.

Elas foram ao quarto de Dionísio, que, em pé no berço, esforçava-se para sair. Vendo-as chegar, disse chorando:

— Mamãe, quelo você.

Maria Eugênia pegou-o no colo e acariciou-lhe os cabelos.

— Estou aqui, filho. Não chore. Estou aqui.

As lágrimas desceram pelo seu rosto e ela sentou-se, embalando o menino com carinho. Elvira não se conteve:

— Aconteceu alguma coisa? A senhora está muito abatida.

— Aconteceu, sim, Elvira. Mas, infelizmente, não posso lhe dizer o que é. E, por favor, não conte a ninguém que estou com problemas. Nem a Henrique.

— Mas ele vai perceber seu nervosismo.

— Preciso me controlar. Vou me deitar, levo Dionísio comigo. Quando Henrique chegar, diga-lhe que estou com dor de cabeça, tomei remédio e desejo dormir.

— Nesse caso, é melhor que eu fique com Dionísio.

— Ele vai chorar de novo. Sabe como é agarrado comigo.

— Então ficarei com a senhora.

— Está certo.

Elas voltaram para o quarto de Maria Eugênia com Dionísio. Ela deitou-se com o menino e Elvira sentou-se do lado da cama. O quarto em penumbra favorecia a calma.

Dionísio, abraçado a ela, sentia-se mais calmo, mas não dormia. Elvira colocou o cavalinho de pelúcia em suas mãos e ele sorriu.

— Nunca vi uma criança tão apegada à mãe — comentou Elvira. — A senhora não estava bem e ele sentiu. Só pode ser isso. Antes de a senhora sair, ele estava alegre, bem-disposto. Tudo começou de repente. Eu não conseguia descobrir por quê. Mas, quando a senhora chegou abatida, logo vi que ele havia pressentido alguma coisa.

— Eu preferia que ele não sentisse isso. Não quero que ele sofra por nada deste mundo.

— Eu também. Esse anjinho não merece sofrer.

— Se depender de mim, ele será sempre muito feliz.

Elvira ficou calada por alguns instantes. Depois, notando que apesar de aparentar calma Dionísio estremecia de vez em quando, ela disse:

— Acho que seria bom levá-lo a Dona Eunice. Ele ainda está agitado.

— Agora não estou disposta a sair. Vamos ver. Se ele não melhorar, iremos amanhã.

Naquela noite, Maria Eugênia não desceu para jantar. Pretextando dor de cabeça, continuou deitada na penumbra, afirmando a Henrique que não era nada e logo estaria bem.

Ele cuidou pessoalmente de Dionísio e ficou largo tempo brincando com ele, tentando distrai-lo para que Maria Eugênia pudesse descansar.

Quando Henrique foi se deitar, ela fingiu que estava dormindo, porém não conseguiu pegar no sono naquela noite. De vez em quando, vencida pelo cansaço, ela adormecia, mas era acometida de pesadelos nos quais Pierre aparecia cobrando seu dinheiro, ameaçando ir aos jornais contar seu segredo. Ela acordava aflita, corpo coberto de suor, desesperada.

Apesar disso, na manhã seguinte levantou-se antes que Henrique acordasse, tomou um banho e maquiou-se tentando dissimular seu abatimento.

Foi ver Dionísio.

— Então, Elvira, como ele passou a noite?

— Dormiu, mas seu sono não foi tranqüilo. Estremecia de vez em quando e acordava choroso. Eu o pegava no colo e o ninava. Quando ele adormecia, eu o recolocava na cama. Acho que fiz isso umas três vezes.

Maria Eugênia colocou a mão na testa dele. A temperatura estava normal. Lembrou-se de que Eunice lhe dissera que o menino era sensível às emoções dela. Precisava controlar os pensamentos. Mas como?

Esforçou-se por aparentar alegria. Durante o café da manhã, Henrique perguntou se ela estava melhor. Respondeu que estava muito bem.

Depois que ele saiu, Elvira comentou:

— A senhora não está bem. Quando chega perto de mim, sinto um desespero, uma angústia que não sei explicar. Acho que seria bom irmos conversar com Dona Eunice.

— Talvez mais tarde. Não quero incomodá-la a esta hora da manhã.

— Ela é muito boa; não vai reparar. Eu falo por causa de Dionísio. Se ele estiver sentindo o que eu estou, seria bom aliviá-lo.

— Talvez você tenha razão. Acha mesmo que ela não vai se incomodar?

— Acho. Vou ligar para ela e contar o que está acontecendo?

— Faça isso.

Elvira se foi e voltou pouco depois:

— Ela disse que estava pensando em nós e esperando que fôssemos vê-la. Viu como ela é? Sentiu que não estamos bem.

— Então vamos agora mesmo.

Eunice recebeu-as com carinho. Depois de pedir que elas pensassem em Deus, aproximou-se de cada um, impondo as mãos em oração.

Depois pediu que Elvira fosse para outra sala com o menino, pois ela precisava conversar com Maria Eugênia.

Quando se viu a sós com ela, disse:

— Aconteceu o que você temia.

— Sim. Aconteceu e eu não sei o que fazer. Estou desesperada. Ele sabe meu segredo e pediu cinco milhões de dólares para não contar nada. Eu não tenho como arranjar esse dinheiro. Não sei o que fazer.

Eunice fechou os olhos por alguns instantes, depois disse:

— Estou vendo uma pessoa que pode ajudá-la. É uma mulher bonita, elegante, alta, cabelos escuros. Possui tanto carisma, que todos lhe obedecem.

— A senhora está descrevendo minha mãe.

— Essa mulher tem sentido prático, é habilidosa e muito poderosa.

— É mesmo minha mãe. Ela chama-se Adele.

— É essa mesmo. Vá procurá-la e conte-lhe tudo, sem omitir nada.

— Mas ela vai me recriminar. Vai ficar contra mim. Não terei forças para contar-lhe a verdade.

— É sua única saída.

Maria Eugênia chorava desesperada.

— Não terei coragem. Ela vai ficar desapontada comigo.

— Você está sofrendo as conseqüências de suas atitudes passadas. Falar com sua mãe, reconhecer seus enganos é uma forma de reabilitação diante de sua própria consciência.

— Minha mãe não vai entender.

— Ao contrário. Sua mãe a ama muito, embora sempre tenha sido rígida na disciplina. Querer tudo direito é o jeito dela. Vá imediatamente ter com ela, abra seu coração com sinceridade, fale dos seus sentimentos, de como ama seu marido e seu filho. Garanto que ela vai ficar do seu lado e vai ajudá-la a resolver tudo.

— Tremo só de pensar que terei de enfrentar seu julgamento.

— Deixe o orgulho de lado. Ele não serve para nada. Abra seu coração e verá que tudo vai dar certo.

Eunice colocou a mão sobre a cabeça de Maria Eugênia e murmurou sentida prece pedindo aos espíritos de luz que a ajudassem a ter coragem de enfrentar aquela situação.

Depois perguntou:

— Sente-se melhor?

— Sim. Aquele desespero desapareceu. Farei o que me aconselha. Irei procurar minha mãe agora mesmo.

Às duas da tarde, Maria Eugênia entrou no escritório de Adele. Desde que conversara com Eunice, refletira muito e acabara chegando à conclusão de que não lhe sobrava outra alternativa senão falar com a mãe.

Ao entrar na sala dela, sentia o coração oprimido, as pernas bambas, mas esforçava-se para controlar a ansiedade.

Vendo-a entrar, Adele levantou-se e, depois de trocarem leve beijo na face, ela fixou-a firme, dizendo:

— Você não parece bem. Aconteceu alguma coisa com Dionísio?

— Não. Ele está bem.

— Sente-se. Você nunca me procura aqui. Deve ter alguma coisa séria para me dizer. O que é?

Maria Eugênia teve vontade de arranjar uma desculpa, não dizer nada e ir embora. Mas a lembrança de Pierre e de suas ameaças a fez controlar-se.

— Sente-se. Você está pálida. Está doente?

— Não. Preciso conversar com você.

— Pode falar.

— Antes de chegar no ponto em que as coisas estão, preciso dizer que durante toda a minha vida sempre foi muito difícil contar-lhe meus pensamentos íntimos. E, se decidi falar-lhe agora, foi porque estou encrencada e preciso de sua ajuda. Peço que me ouça e não me interrompa, por favor.

— Fale. Seja clara.

— A senhora é uma pessoa brilhante, bonita, admirada, de sucesso, enquanto eu sempre fui uma sombra a seu lado. Eu a admiro, mas reconheço que não tenho sua capacidade e, por mais que tenha me esforçado, nunca consegui o que sempre desejei que era poder ser melhor do que sou para que você me admirasse e sentisse orgulho de mim.

Adele olhava-a surpreendida, como se a estive vendo pela primeira vez. Maria Eugênia fez breve pausa e falou de sua infância, de sua frustração e revolta por não poder ser mãe, da inveja que sentia das outras mulheres.

— Foi muito penoso e difícil aceitar sua proposta para salvar a empresa. Ter de imaginar que Henrique ia manter relações com outra mulher, ainda que desconhecida, atormentou meus dias. Ter de usar aquela barriga postiça era uma humilhação e uma prova viva da minha incapacidade como mulher.

Adele teve vontade de intervir, porém conteve-se. Sentia que Maria Eugênia precisava daquele desabafo.

— Quando fomos para Paris, a depressão tomou conta de mim. Eu não tinha vontade de sair nem de divertir-me. Porém, uma noite, saí para jantar com um casal de franceses que havia conhecido num desfile de moda. Os dois eram incuráveis apreciadores de bares, festas e eventos sociais. A paixão deles pela cena noturna parisiense acabou me contagiando, e então decidi esquecer tudo e aproveitar o tempo me divertindo, porque sabia que quando regressasse teria de suportar uma criança que era filho de Henrique com outra mulher. Henrique não gostou de meus novos amigos e não desejava sair com eles, mas, talvez não querendo que eu voltasse à depressão, permitiu que eu continuasse saindo sozinha com eles. Então mergulhei em noitadas nas quais bebia, me divertia, esquecendo todos os problemas. Henrique tentou mostrar-me que eu estava exagerando, mas não lhe dei ouvidos. Eu estava cheia de ódio, de revolta contra ele, contra você, contra a empresa, contra o filho que queriam impingir-me. Pierre me envolvia com galanteios. Ele e Jamille, apesar de casados, se permitiam relacionar-se com outros parceiros. Uma noite aconteceu o pior. Deixei-me envolver e acabei na cama com Pierre, em seu apartamento. Naquele momento eu não sentia culpa. Ao contrário: achava que tinha o direito de fazer isso, tanto quanto Henrique o fizera.

Maria Eugênia falava olhos perdidos nas lembranças, lágrimas correndo livremente pelo seu rosto, e Adele, pálida, olhos marejados, não se atrevia a intervir. Ela continuou:

— Na ocasião, Pierre descobriu que eu não estava grávida. Porém eu não lhe disse por que usava uma barriga postiça. Pensei que tudo ficaria nisso. Pouco depois voltamos ao Brasil e Dionísio nasceu. Foi então que tudo mudou em minha vida. Essa criança fez o milagre de despertar em mim meu melhor lado. Seu apego, seu amor por mim, preferindo estar comigo a estar com qualquer outra pessoa, seus bracinhos em volta do meu pescoço, seus olhos brilhando de alegria e de amor quando me via tudo isso fez com que eu o amasse de verdade, como se ele houvesse nascido de mim. Eu mudei. Hoje me envergonho das atitudes passadas. Você me deu tudo, Henrique sempre foi um marido carinhoso, adorável, educado, respeitoso, e eu reconheço hoje que amo minha família com sinceridade. Dionísio tornou-se indispensável à minha vida.

Adele aproximou-se e abraçou-a comovida. A sinceridade de Maria Eugênia tocou seu espírito e ela reconheceu pela primeira vez que talvez houvesse subestimado os sentimentos da filha.

— Você falou que precisa de ajuda. O que está acontecendo agora? Por que está me contando tudo isso?

— Porque estou sendo ameaçada por Pierre. Eles vieram procurar-me. São de família rica, mas perderam todo o dinheiro. Estão na miséria. Pierre pediu-me cinco milhões de dólares. Se eu não pagar, ele vai procurar Henrique e contar-lhe tudo. Notei que ele andou investigando nossa família e, embora eu não houvesse lhe contado nada, descobriu nosso segredo.

Adele esforçou-se para controlar-se. Como de hábito, sempre que tinha um problema para resolver, ela não se permitia perder a calma. Sabia que as boas soluções só aparecem quando a pessoa não se descontrola.

— Ele está fazendo chantagem. Era de se esperar.

— Não quero que Henrique saiba o que fiz. Ele pode não querer mais viver comigo. Eu amo meu marido. Não quero perdê-lo. Eu estava louca. Estou muito arrependida.

— Acalme-se, minha filha. Não se deixe levar pelo desespero. Vamos pensar em uma forma de resolver isso.

— Você vai me ajudar?

— Claro! Sou sua mãe. Eu a amo. Depois, há nossas empresas. Não vou permitir que um casal de vigaristas destrua o que levamos uma vida para construir.

— Me perdoe por ter sido tão ingênua e provocar tudo isso.

— Culpar-se agora não vai resolver nada. Precisamos buscar a saída.

— Ele me deu prazo até amanhã à tarde.

Adele pensou um pouco, depois disse:

— Vamos fazer o seguinte: você vai se recompor arrumar-se, sair daqui muito bem. Imagino que não comeu nada hoje.

— Estou sem fome.

— Vou pedir um lanche e você vai se alimentar.

Adele ligou para secretária e mandou trazer um lanche. Enquanto esperavam, ela levou Maria Eugênia à sala contígua, onde havia um lugar de descanso e um toucador, e colocou-a diante do espelho.

— Veja como você está. Aconteça o que acontecer, precisa manter a dignidade. Não pode se permitir esse descontrole, que sempre leva ao fracasso. Precisa reagir. Você errou, mas sua vida não acabou por causa disso. Ao contrário: você gosta da vida que tem, ama seu marido, seu filho. Essa é sua verdade agora. Não deve deixar-se destruir por um chantagista qualquer. Lave o rosto e trate de se maquiar.

Maria Eugênia abraçou a mãe, dizendo emocionada:

— Obrigada por ter me ouvido e não me condenar. Agora compreendo e admiro sua maneira de ser. O que eu pensava ser indiferença era equilíbrio, lucidez.

Adele sorriu e em seus olhos passou um brilho maior. Mas limitou-se a responder:

— Vamos, arrume-se. Fique linda e decente. Pense nas pessoas que você ama.

A secretaria trouxe o lanche e Adele colocou tudo sobre a mesa onde costumava tomar suas refeições. Pouco depois, Maria Eugênia apareceu na sala bem maquiada e sua aparência estava bem melhor.

O fato de haver desabafado, de ter sido ouvida e compreendida a confortava. A ajuda da mãe tornava-a confiante de que haveriam de vencer esse problema.

Mais calma, sentou-se à mesa e comeu o lanche, tomou o suco de frutas e sentiu-se revigorada. Adele serviu-se de uma xícara de café e sentou-se ao lado dela.

— Agora você vai anotar o nome desse casal, o hotel onde estão.

— Você pretende ir falar com eles?

— Ainda não sei. Até amanhã à tarde temos tempo. Quero tomar algumas providências. Obter informações sobre eles. Enquanto isso vá para casa e proceda como sempre. Seja natural. Nem eufórica nem preocupada.

— Se Pierre voltar a ligar, o que lhe direi?

— Ele deu-lhe um prazo. Não vai ligar, vai esperar. Em todo caso, se ele ligar a qualquer pretexto, não receba nem ele nem a esposa em sua casa. Espere, porque eu, assim que puder, irei vê-la para combinarmos o que vamos fazer.

Maria Eugênia despediu-se da mãe, aliviada e refeita, sentindo dentro de si uma força nova. Ela havia se tornado uma mulher feliz e saberia conservar essa conquista.

Depois que ela se foi, Adele ligou para um advogado que, além de amigo pessoal, era a quem ela confiava todos os seus segredos, pedindo que fosse imediatamente a seu escritório.

Quando ele chegou, meia hora depois, Adele recebeu-o com largo sorriso. O Dr. Bernardo Gouveia era um homem de classe, bem-sucedido em sua carreira profissional, que havia sido colega de Adele na universidade.

Naquele tempo, ele fora apaixonado por ela, mas não chegou a declarar-se porquanto Adele aceitou o pedido de casamento de Aurélio Carlos da Rocha, um rico empresário, e ele, embora de família de classe média alta, era recém-formado, estava iniciando a carreira e achava que ainda não tinha condições de dar a Adele a posição que ela merecia.

Além do mais, ela parecia apaixonada, feliz, e isso bastou para que ele ocultasse seus sentimentos. Porém continuaram amigos. Adele sabia que podia confiar nele.

Desde que assumira a direção da holding das empresas da família, Bernardo havia sido seu conselheiro e amigo, a ponto de Aurélio muitas vezes sentir-se enciumado. Quando isso acontecia, Aurélio procurava controlar-se, porque reconhecia que o carisma de Adele fazia com que as pessoas a admirassem e ele observava envaidecido a admiração que ela despertava, por sua classe, lucidez, facilidade com que sabia dizer as palavras certas no momento certo.

Depois dos cumprimentos, ela sentou-se no sofá ao lado de Bernardo e foi direto ao assunto, como era seu costume:

— Minha filha está sendo chantageada e eu preciso que nos ajude.

Ele colocou-se à disposição e Adele contou-lhe toda a verdade. Além de Célia, ele era o único que conhecia a origem de Dionísio. Quando ela terminou, ele perguntou apenas:

— O que quer que eu faça?

— Seria interessante investigar essas pessoas.

— Tenho alguns informantes. Temos pouco tempo.

— Se precisar, darei um jeito de dilatar o prazo.

Adele entregou-lhe os nomes, endereço do hotel, telefone, e ele saiu imediatamente para tratar do assunto.

Quando se viu sozinha, Adele continuou pensando, tentando descobrir a melhor solução.

 

            Maria Eugênia chegou em casa e foi logo saber como Dionísio estava. O apoio que recebeu da mãe a deixara mais confiante. Durante o trajeto, foi pensando em quanto estivera enganada com relação à Adele.

Percebeu que suas atitudes de rebeldia muda, obedecendo passivamente às ordens da mãe, mas guardando a raiva no coração, eram fruto do orgulho, que a impedia de ver as coisas como são.

Ela sentia ciúme do sucesso de Adele porque se habituara a ver-se limitada e incapaz. Ela não era tão fraca quanto sempre pensara. Ao contrário: soubera enfrentar seus medos e desnudar seus sentimentos íntimos, sem receio da crítica que temera durante toda a vida. Reconhecia que Adele sabia mais, tinha mais experiência e, ao invés de recriminá-la, oferecera apoio, ajuda.

Apesar de a situação não haver se modificado, ela se sentia diferente: mais adulta, mais forte, mais confiante.

Dionísio brincava com um carrinho e, vendo-a, foi correndo abraçá-la.

— Mamãe linda!

O rosto de Maria Eugênia iluminou-se e ela pegou-o no colo, beijando suas faces rosadas.

— Como está meu príncipe hoje?

— Ta bem. Não tem cavalo banco.

Maria Eugênia lembrou-se da história que lhe contara de um príncipe montado em um cavalo branco e sorriu encantada.

— Acho que temos de comprar um cavalo. Um príncipe não pode andar a pé.

Ela ficou brincando com ele até que Elvira foi buscá-lo para tomar banho. Maria Eugênia foi para o quarto e telefonou para Eunice.

— Estou ligando para agradecer seu conselho. Deu tudo certo.

— Eu sabia. Sua mãe a ama muito.

— Quando cheguei lá, estava nervosa, com medo, mas decidida a fazer o que a senhora disse. Comecei a falar, abri meu coração, coloquei meus sentimentos e, por fim, contei tudo. Ela ouviu em silêncio, não me recriminou, e até me abraçou. Nunca havíamos tido uma conversa tão sincera.

— Fico contente. Nunca se esqueça de que sua ligação espiritual com ela vem de outras vidas. Há muito ela vem trabalhando pelo seu progresso e para que encontre a felicidade. É hora de você perceber isso.

— Eu senti que ela me ama e apóia. Disse que vai me ajudar. Pediu o nome deles e o telefone do hotel. Mas quer pensar na maneira melhor de agir. Mandou-me para casa e ficou de dar notícias.

— Tenho certeza de que estamos sendo auxiliados pelos espíritos amigos. Vamos confiar e esperar que aconteça o melhor. Continuarei com minhas preces. Se houver alguma novidade, me avise.

— Está bem. Mas quero lhe dizer que conhecer a senhora foi a melhor coisa que me aconteceu. Nunca vou esquecer o que está fazendo por mim.

— Vamos agradecer às forças divinas. Elas é que nos protegem e ensinam.

Maria Eugênia desligou o telefone e foi novamente brincar com Dionísio, estar com ele ajudava-a a manter a calma e conter a ansiedade para esperar.

Após o almoço, Pierre entrou no quarto do hotel e encontrou Jamille mal-humorada.

— Acho que ela não vai ligar.

— Claro que vai.

— O que vai fazer se ela não quiser pagar?

— O que prometi. Falar com o marido, contar tudo. Depois, ainda há a mãe. Estive me informando sobre ela. Tem fama de grande dama, bem-vista na melhor sociedade.

— Onde conseguiu as informações?

— Com a moça do turismo. Ela sabe tudo sobre as pessoas.

— O que me preocupa é o que faremos se eles não derem o dinheiro.

Pierre sorriu quando respondeu:

— Você vai ver. Logo mais, ela estará aqui com o dinheiro. Cuidaremos de transferir para nossas contas e iremos embora.

Passava das três quando o telefone tocou no quarto deles. Pierre correu a atender.

— Sr. Pierre?

Sim.

— Estou no saguão ao hotel e vim em nome de Dona Maria Eugênia. Preciso falar com o senhor.

— É melhor vir a meu quarto.

— Está bem.

Pierre desligou o telefone e olhou triunfante para Jamille:

— Eu não disse? Ela mandou um portador, acho que para trazer o dinheiro. Vá para a outra sala. Vou recebê-lo sozinho.

Ela foi imediatamente, e Pierre olhou-se no espelho. Fazia questão de estar sempre impecável. Sorriu satisfeito.

A campainha tocou e ele foi abrir.

— Sou o Dr. Bernardo Gouveia, advogado das Organizações Malta — disse ele em um francês perfeito.

— Entre, por favor. Queira sentar-se.

Uma vez acomodados, Bernardo disse com voz firme:

— O senhor está chantageando Dona Maria Eugênia, minha cliente sócia das empresas que represento.

Pierre sorriu, tentando dissimular a irritação:

— O senhor não deveria usar palavras tão fortes. Afinal, apenas pedi a uma amiga, com a qual tive íntima ligação em Paris, que me socorresse em uma situação difícil.

— A pedido de minha cliente, fiz uma investigação sobre sua vida. E, pelo que descobri, acho até que estou sendo educado demais.

Pierre levantou-se nervoso:

— Vamos ao que interessa. Trouxe o dinheiro?

— Por que acha que vamos pagar?

— Porque posso revelar a origem daquele menino que ela diz ser seu filho, e isso pode mudar toda a situação financeira deles.

— Escute bem o que vou lhe dizer. Esse menino é filho legítimo de meus clientes e há o hospital, o médico, as enfermeiras que a atenderam na hora do parto, pessoas que, se for preciso, certamente não se negarão a testemunhar isso. Por outro lado, mediante as informações sobre você que me foram prestadas por nosso gerente em Paris, estive em seu consulado esta manhã e descobri que você está sendo procurado pela policia francesa por haver se envolvido em algumas falcatruas.

Pierre empalideceu.

— Isso é mentira! Está querendo intimidar-me. Mas eu não vou aceitar. Se não me derem o dinheiro, irei procurar os jornais e contar tudo.

— Para seu próprio bem, é melhor não fazer nada disso. É bom saber que a Interpol está à sua procura com um mandado de prisão e o consulado está preparando tudo para mandá-lo de volta à França.

— Não pode ser! O senhor está mentindo!

— Estou dizendo a verdade. Pode crer. Depois, é bom saber que meus clientes são pessoas influentes, respeitadas, cuja palavra é sempre muito considerada. Se a esse mandado de prisão se juntar a queixa de extorsão, sua situação em nosso país talvez lhe valesse alguns anos de prisão aqui, antes de cumprir a pena na França.

Pierre a custo tentava controlar o nervosismo. Bernardo continuou:

— Contudo, Dona Maria Eugênia é pessoa bondosa. Apesar de o senhor chantageá-la, não deseja seu mal e conseguiu que sua mãe, Dona Adele, muito indignada, não desse queixa.

Pierre deixou-se cair em uma cadeira, passando a mão nos cabelos, assustado. Nunca imaginou que eles pudessem descobrir o que fizera em Paris. Ele sabia que a polícia o estava procurando. Essa fora uma das razões que o fizeram vir ao Brasil, um país que para ele significava o fim do mundo, onde ninguém poderia encontrá-lo.

Ele não queria ser preso e deportado para a França, onde, além de trapaças e dívidas de jogo, havia crimes mais graves que ele temia que fossem descobertos. Se tivesse algum dinheiro para deixar o hotel e ir para outro país da América do Sul, onde ninguém pudesse encontrá-lo, fie se livraria da prisão.

— Quero falar com Maria Eugênia — disse ele, nervoso.

— Isso não é possível. Estou autorizado a cuidar de tudo.

— Estou sem dinheiro. Preciso pagar o hotel e ir para um lugar onde não possam me encontrar. Peça a ela que me ajude, que arranje algum dinheiro.

— Isso não será possível. O melhor que tem a fazer é voltar para seu país, responder pelo que fez e ficar livre. Então poderá recomeçar sua vida.

Pierre olhou-o com incredulidade. Ele nunca faria isso.

— Vou seguir seu conselho. Voltarei para a França. Não farei nada contra Maria Eugênia. Mas eu queria que o senhor lhe pedisse que em nome dos bons tempos em Paris ela me mandasse algum dinheiro para eu sair deste hotel de maneira civilizada, pagando as despesas.

Bernardo levantou-se:

— Está bem. Falarei com ela e verei o que posso fazer. Adeus, Sr. Pierre.

Assim que ele saiu, Jamille voltou à sala. Ela tentara ouvir a conversa, mas conseguira captar apenas algumas palavras soltas.

— E então? Pelo Jeito, ele não trouxe o dinheiro.

— Não. Nem vai trazer. Estamos perdidos.

— Como assim? Você não disse que ia conseguir?

— Eles foram investigar nossa vida e descobriram que a polícia está me procurando.

— Polícia? O que você fez desta vez?

— Deve ter sido por causa daquelas jóias de Nicole. Eles acham que fui eu quem as roubou.

Jamille estremeceu assustada:

— Foi você?

— Ela me deu as jóias. Você sabe que ela tinha uma queda por mim.

— Mas ela apareceu morta no apartamento. Afinal, o que foi que você fez?

— Nós dois já conversamos sobre isto em Paris. Dei-lhe minha palavra de que não tive nada com aquilo. Ela não escolhia suas amizades. Tinha outros amantes. Qualquer um deles pode tê-la matado.

— Espero mesmo que esteja falando a verdade. Não quero nem pensar que você possa ter feito uma besteira daquelas. E agora, o que faremos? Como vamos sair daqui?

— O advogado vai falar com Maria Eugênia e ver se consegue pelo menos algum dinheiro para podermos pagar o hotel e irmos embora.

— Acha que ela vai dar depois do que você fez?

— Acho. Mas, em todo caso, vamos arrumar as malas e deixar tudo pronto para irmos embora.

Mais uma vez, Jamille arrependeu-se de ter continuado a viver com ele. Depois que ele perdeu tudo e meteu-se em complicações, várias vezes ela pensou em abandoná-lo. Jean não era rico, mas ao lado dele ela pelo menos não passaria necessidade.

Por que se deixara iludir, acreditando que Pierre poderia arranjar dinheiro com aquela história de Maria Eugênia?

Ainda havia o caso de Nicole. Se ele estivesse metido naquele crime, ela poderia ser considerada cúmplice. Estremeceu só de pensar nisso. Naquele momento, decidiu ir embora antes que tudo ficasse pior.

Foi para o quarto, arrumou todas as suas coisas. Ela havia escondido algum dinheiro. Mesmo assim, foi à valise onde ele guardava o que lhes restava e apanhou quase tudo. Depois colocou suas duas malas na sala e disse:

— Já estou pronta. É melhor você ir arrumar suas coisas. Você não gosta do jeito que eu faço.

Ele foi para o quarto. Jamille pegou o telefone e chamou o camareiro. Foi até o quarto e disse a Pierre:

— Estou com fome. Vou descer e comer alguma coisa.

Voltou à sala, apanhou as malas e foi para o corredor, onde o camareiro já estava chegando.

— Vou viajar com uma amiga, mas meu marido vai ficar. Leve minhas malas para baixo.

Minutos depois, ela pegou o elevador e desceu. No saguão, recolheu as malas, dirigiu-se à porta de saída e tomou decidida o caminho da rua.

No quarto, Pierre arrumou as malas e foi verificar o dinheiro na valise. Assustado, percebeu que havia sumido. Nervoso, foi para sala e viu que Jamille não estava, nem suas malas.

Imediatamente ligou para a recepção.

— Aqui fala Pierre, do 1512. Viu se minha esposa saiu?

— Sim. Faz uns cinco minutos.

Ele desligou nervoso. Jamille fora embora levando todo o dinheiro. Um acesso de raiva o dominou. Teve vontade de quebrar tudo à sua volta. Aquela ordinária merecia que ele lhe desse uma boa lição. Mas onde encontrá-la?

Ele precisava sair dali, ir embora, mas como? Chamou o camareiro. Quando ele chegou, disse com naturalidade:

— Você acompanhou minha esposa com as malas?

— Sim, senhor.

— O que ela lhe disse?

— Que ia viajar com uma amiga. O senhor não sabia? — estranhou ele.

— Claro que sabia. Só que me esqueci de perguntar para onde.

— Isso ela não disse.

— Nesse caso, vou esperar que ela telefone. Pode ir.

Ele se foi e Pierre sentou-se sem saber o que fazer. A prudência lhe dizia que seria bom ir embora dali o quanto antes, mas como sair com as malas sem pagar o hotel?

Ele adorava suas roupas finas, não se conformava em ir embora e deixá-las no hotel.  O melhor seria manter a calma e esperar alguma notícia de Maria Eugênia. O advogado deixara um cartão sobre a mesa, para que ele ligasse. O homem não queria que Pierre falasse com Maria Eugênia. Em razão dos acontecimentos, ele achou melhor não irritar aquele advogado.

Bernardo saiu do hotel e foi direto ao escritório, onde Adele o aguardava.

— E então, como foi? — perguntou ela assim que o viu.

— Tudo bem. Acho que esse não nos incomodará mais.

Em poucas palavras, ele contou como fora seu encontro com Pierre. Finalizou:

— Trata-se de um escroque da pior espécie. Agora só falta o último telefonema para meu amigo Homero.

— Pode ligar agora.

— Se você me permite, é o que farei.

Ele apanhou o telefone, ligou e, depois dos cumprimentos, disse:

— Deu tudo certo. Trata-se de um sujeito perigo. Acho que agora é hora de você ligar para aquele seu amigo do consulado e avisar, porque ele está pensando em fugir.

— Vou falar com ele já.

— Obrigado pela sua ajuda. Eu lhe devo essa.

— Você não deve nada. Já me ajudou tantas vezes...

Bernardo desligou o telefone sorrindo.

— Pronto Adele. Acho que tudo está resolvido. Pode falar com Maria Eugênia.

— Obrigado, Bernardo. Não sei o que seria de mim sem você.

— Eu também não sei o que seria de mim sem você.

Ele disse isso sério, olhos brilhantes, nos quais Adele notou uma chama de emoção.

— Você é um grande amigo.

— Eu gostaria de ser mais do que isso.

Ela sorriu, pensou um pouco e disse:

— Apesar de tudo, só vou dar esse assunto por encerrado depois que esse canalha tiver sido levado de volta para a França.

— Deixei um dos meus homens no hotel vigiando. Se ele tentar escapar, saberemos. Os seguranças do hotel não vão deixá-lo sair com as malas. E, pelo que sei, Pierre está sem dinheiro para pagar as despesas.

— Ele pode deixar a bagagem e ir.

— Não creio. Pelo que observei, ele é esnobe e apegado às aparências. Não vai querer ir embora só com a roupa do corpo.

— Temo que ele queira vingar-se de alguma forma.

— Não terá tempo para isso. Fique tranqüila. Agora preciso ir. Mas antes penso que nossa vitória merece comemoração. Quer jantar comigo esta noite?

— Vamos ver. Se até a noite ele estiver devidamente preso, então aceitarei seu jantar de comemoração. Senão, fica transferido para quando realmente pudermos comemorar.

— Combinado. Mais tarde ligarei para dar-lhe notícias.

Depois que ele se foi, Adele ligou para Maria Eugênia contando tudo que aconteceu. Finalizou:

— Você pode ficar tranqüila. Esse não vai mais nos incomodar.

— Tem certeza? E se ele fugir e procurar Henrique? Não quero que ele saiba de nada.

— Não terá tempo para isso. Logo mais será preso e extraditado. Depois disso, nunca mais poderá entrar em nosso país.

— Só vou descansar quando souber que ele já está longe e não mais poderá voltar.

— Bernardo está a postos e, assim que tiver mais notícias, vai me ligar.

— Se souber algo mais, me ligue.

— Não se preocupe. Tudo está sob controle.

Maria Eugênia desligou e foi para o quarto. Sentia-se aliviada. Ela receava o pior. Pensava que Deus não a ajudaria, uma vez que não era merecedora.

Entretanto, ela fora poupada, sinal de que Deus não a havia condenado por ter errado tanto. Nesse momento teve consciência de que precisava agradecer.

Não estava habituada a rezar, mas sentia que, tendo sido poupada, recebera perdão, talvez por ter se arrependido. Juntou as mãos e murmurou sentida prece na qual agradecia a Deus, aos espíritos superiores e a Eunice a ajuda que recebera. E, tocada por um sentimento de gratidão, decidiu que nunca mais faria nada do que pudesse se envergonhar. Ao mesmo tempo, procuraria estudar a espiritualidade, para entender melhor a vida.

Enquanto isso, no hotel, Pierre havia traçado um plano. Esperaria a noite descer e então tentaria fugir levando sua bagagem. Arrumou-se e desceu ao restaurante para comer. Depois, passeou pelo hotel atento ao que precisaria fazer para escapar.

Havia notado que de madrugada o vigia da entrada de serviço dormia em sua cabine. Era por ali que ele pensava escapar. Depois tomaria um táxi e iria para uma estação qualquer.

Para isso, o dinheiro ia dar. Depois venderia seu relógio ou talvez até seus anéis. Com isso contava ir para longe. O Brasil era muito grande. Talvez fosse para o Amazonas. Lá ninguém o acharia. Estando livre, decidiria o que fazer de sua vida. O importante era escapar da polícia francesa.

Voltou para o quarto disposto a descansar para estar bem-disposto quando chegasse à hora de partir. Colocou as malas ao lado

do sofá e recostou-se nele. Estirou as pernas sobre uma banqueta e pegou no sono.

Acordou com o toque insistente da campainha. Levantou-se assustado e, ainda meio sonado, foi atender. Eram dois homens.

— O senhor é Pierre Legrand?

— Sim. O que querem?

Eles não responderam e foram entrando, olhando tudo. Pierre já havia saído do estado de dormência e logo percebeu que estava em perigo. Tentou sair, mas eles o seguraram.

— Interpol. Você está preso.

— Deve ser um engano. Sou um cidadão francês. Não pode prender-me desta forma. Não fiz nada.

— Isso você vai dizer lá.

— Veja as malas. É verdade. Ele estava preparado para fugir.

Um deles tirou um revólver e apontou-o para Pierre, que, pálido, não sabia o que fazer. O outro pegou as algemas, mas Pierre pediu:

— Por favor. Deixem-me calçar os sapatos e colocar o paletó.

— Se tentar qualquer gracinha, passo fogo.

Trêmulo, Pierre calçou os sapatos, vestiu o paletó e eles o algemaram.

— O que vão fazer com minhas malas?

— Ficarão guardadas no hotel. A não ser que tenha dinheiro para pagar a conta.

— Não tenho. O que vão fazer comigo?

— Chega de conversa. Estamos a serviço da polícia francesa.

— Mas preciso das minhas coisas.

— Vamos andando.

Entre os dois, com o revólver apontado em suas costas, Pierre arrependeu-se amargamente de haver procurado Maria Eugênia. Uma raiva surda invadiu-o e ele pensou:

“Vou me vingar. Aquela maldita vai me pagar.”

Quando eles saíram do hotel, despertando a curiosidade dos que estavam por perto, um rapaz que estava no saguão sorriu satisfeito. Acompanhou-os e viu quando puseram Pierre no carro e o levaram. Imediatamente, apanhou seu carro do outro lado da rua e os seguiu.

Dentro do carro, Pierre tentou sua última jogada:

—Vocês são meus compatriotas. Será que não haveria um jeito de resolvermos isso de outra maneira?

— O que você sugere? — indagou um.

— Bem, estou sem dinheiro, mas tenho este relógio de ouro que vale muito.

— Pensei que fosse nos oferecer alguns milhões — brincou o policial. — Pois saiba que nem mesmo se tivesse esses milhões deixaríamos de levá-lo. Nicole era minha prima e foi um prazer para eu ter vindo buscá-lo aqui.

— Você está enganado. Não tenho nada a ver com a morte dela.

— É melhor calar essa boca, senão posso perder a calma. Estou louco para vingar a morte de minha querida prima. Seria um prazer acabar com sua raça aqui mesmo. Afinal, estamos tão longe... Quem iria saber?

Pierre calou-se assustado. Não havia nada a fazer. Dentro em breve estaria de volta à França, preso, sem dinheiro sequer para contratar um bom advogado.

O carro parou diante do consulado da França. O portão abriu-se e eles entraram. O rapaz que os seguia parou diante do portão. Viu quando eles desceram e entraram na casa. Ele colocou o carro em movimento e rapidamente afastou-se do local.

Pouco depois, Bernardo ligou para Adele:

— Pode se preparar para nosso jantar de comemoração.

— Verdade? Tudo certo?

— Tudo. Passarei em sua casa as oito e contarei todos os detalhes. Há esta hora nosso homem deve estar profundamente arrependido de haver se metido em nosso caminho.

— Isso merece mesmo uma comemoração. Estarei esperando.

Assim que desligou o telefone, Adele ligou para a filha.

Na casa de Maria Eugênia, o casal estava se dirigindo à mesa para jantar. Quando o telefone tocou, Henrique disse:

— Deixe que eu atendo.

Maria Eugênia apressou-se a dizer:

— Nada disso, querido. Eu mesma atendo. Pode se acomodar, que já vou.

Ela apanhou o telefone:

— Como vai, mãe?

— Certamente você não pode falar agora. Mas deu tudo certo. Pode comemorar.

— Obrigada, mamãe. Não sabe como me sinto feliz.

— Eu também. Depois contarei os detalhes. Vou jantar com Bernardo para comemorar.

— Dê um abraço nele por mim.

Ela ia continuar, mas viu que Henrique se aproximava e conteve-se.

— Adeus, mamãe. Divirta-se.

— Ela vai a alguma festa?

— Vai jantar com o Dr. Bernardo. Parece que ganharam uma causa e vão comemorar.

Henrique sorriu malicioso:

— Bernardo continua apaixonado por Adele. Não sei por que ele não se declara.

— Acho que tem medo de que ela não o aceite.

Henrique pensou um pouco, depois disse:

— Quer saber? Acho que ele tem chance. É o homem perfeito para agradar Adele. Nem sei por que ela ainda não percebeu isso.

— Talvez mamãe não seja inclinada ao casamento. Com papai, apesar de viverem bem, nunca notei da parte dela vontade de dedicar-se ao lar. Ao contrário. Quando estavam juntos, ela era a cabeça de tudo. Foi por isso que ele a colocou na presidência. Ele não fazia nada sem que ela aprovasse. Sempre duvidei que ela houvesse casado com ele por amor.

— Ele era muito apaixonado por ela. Via-se isso em seus olhos quando a fitava.

— Mas ela, apesar de ter sido uma esposa exemplar, não era dada a manifestações de afeto.

— Talvez você esteja enganada. Adele não me parece uma mulher indiferente. Ao contrário. Em tudo que faz, coloca muita paixão, muita garra.

— Pode ser. Então talvez nunca tenha amado meu pai de verdade. Vamos jantar antes que a comida esfrie.

Abraçados, foram juntos para a sala de jantar.

 

            Marina entrou em casa correndo, tentando controlar a emoção. Aquele beijo inesperado fizera seu coração descompassar. Uma incontrolável sensação de alegria a dominou.

Foi para o quarto, tirou os sapatos e sentou-se na cama, pensativa. Várias vezes Ofélia lhe dissera que Rafael se sentia atraído por ela, porém não levara a sério essa opinião. Eles eram apenas bons amigos. Gostavam de conversar, sair juntos, tinham afinidade, mas nunca notara nele algo mais.

Como haviam chegado àquele beijo? Por que se emocionara tanto? Por que correra para dentro de casa sem dizer nada? Não teria sido melhor ter esperado para conversar?

Mil pensamentos tumultuados a envolviam. Rafael era um homem maravilhoso. Bonito, elegante, culto e de temperamento encantador. Qualquer mulher se sentiria feliz em namorá-lo.

Quando saíam juntos, Marina notava quanto às mulheres tentavam atrair a atenção dele. Nesses momentos, ela sorria orgulhosa por ele preferir sua companhia. Mas isso era apenas vaidade, não amor. Estaria se apaixonando por ele?

A esse pensamento, recordou-se do beijo, e seu coração bateu mais forte. Certamente se sentia atraída por ele. Sua proximidade, seu perfume, seus olhos vivos, seu sorriso amigo, tudo isso a agradava muito.

Ela nunca havia amado. Lembrou-se do relacionamento com Henrique. Ela sentira prazer naquela relação, mesmo sem o amar. O que estava sentindo agora não seria a mesma coisa, apenas uma excitação dos sentidos?

Precisava pensar analisar seus verdadeiros sentimentos. Depois, não tinha certeza de nada. O que aquele beijo teria representado para Rafael? Não teria sido somente uma tentação do momento pela proximidade?

Eles haviam tido uma noite muito agradável, tinham conversado muito, falado de seus sentimentos íntimos, de sua maneira de ver a vida, agora diante da óptica da espiritualidade, que lhes abrira novas portas ao entendimento.

O beijo fora espontâneo, aconteceu naturalmente. Mas o que ele significava de fato?

Ela preparou-se para dormir, mas os pensamentos agitados continuavam e ela demorou a pegar no sono. Acordou um pouco mais tarde na manhã seguinte. Olhando a hora, levantou-se apressada.

Tomou um banho e desceu para o café. Cícero estava à mesa conversando com Ofélia, relatando as experiências da noite anterior. Vendo-a chegar, Ofélia comentou:

— Pelo que Cícero diz essa senhora é boa mesmo.

— De fato. Gostei muito dela.

— Cícero me disse que vai freqüentar um curso de mediunidade. Quero ir com ele.

— Você? Nunca pensei que se interessasse por esse assunto.

— Eu nunca disse, mas de vez em quando vejo a alma de meu pai.

— Por que nunca disse nada?

— Você estudou, é formada. Não queria que risse de mim.

— Eu nunca faria isso.

Marina havia tomado uma xícara de café com leite, comido um pedaço de bolo. Levantou-se apressada. Ofélia cobrou:

— Não vai me contar o que ela disse a você?

— Agora estou atrasada. Depois conversaremos.

Ela saiu e Ofélia comentou:

— Não sei por que ela corre tanto. Desse jeito pode ficar doente. Não deu tempo nem para eu lhe dizer quanto você melhorou.

— Depois eu mesmo falo. Hoje, quando Dona Rute vier, quero fazer-lhe algumas perguntas. Ela entende de mediunidade.

— Trate de estudar. Ela fica alegre quando você aprende a lição.

— Deixe comigo.

Ofélia sorriu. Ver os filhos contentes era seu melhor incentivo. Foi para a cozinha programar alguma coisa gostosa para o almoço.

Marina chegou ao escritório e já encontrou sobre sua mesa algumas petições e um contrato para analisar.

Guardou a bolsa e sentou-se disposta a colocar toda a atenção no trabalho. Não foi fácil. De vez em quando se surpreendia pensando em Rafael. Como seria o relacionamento deles dali para frente? O que ele lhe diria sobre aquele beijo?

Talvez se justificasse, dizendo que fora uma tentação do momento e até se desculpasse, uma vez que era um homem muito educado. E tudo continuaria como antes.

Mas ela sabia que nada poderia ser como antes. Aquele beijo despertara nela uma necessidade de amar e ser amada. Ainda que fosse apenas uma necessidade física, ela existia e estaria presente entre eles.

Marina levantou-se, tomou um copo de água, depois um café, e esforçou-se para focar sua atenção no trabalho. Precisou de todo o seu esforço para conseguir.

Ligou para a mãe e avisou que não iria almoçar em casa. Precisava adiantar seu trabalho, o que lhe valeu uma reprimenda de Ofélia, preocupada com sua saúde.

— Você não vai ficar sem almoço. Trate de comer alguma coisa.

— Pode deixar. Vou mandar buscar um lanche.

Ela desligou o telefone e mergulhou no trabalho, tentando não desviar a atenção.

Passava das seis quando ela deixou o escritório e desceu. Ao sair à rua, encontrou Rafael esperando.

— Rafael! Por que não subiu?

Ele beijou-a levemente na face e respondeu:

— Não quis atrapalhar. Vim porque temos que conversar.  Ela concordou e notou que ele estava tenso.

Caminharam até o carro em silêncio. Uma vez acomodados, ele disse:

— Depois eu a trarei de volta para apanhar seu carro.

Ele ligou o carro e foi dirigindo devagar.

— Aonde vamos? — indagou ela.

— Não sei.

— Noto que você está tenso. Talvez pelo que aconteceu ontem à noite.

Eles tinham entrado em uma rua sossegada. Rafael parou o carro, olhou para ela e disse:

— Não consegui dormir nada esta noite.

— Nem eu.

— Não sei o que está pensando a respeito de ontem. Preciso ser sincero. Há muito descobri que estou apaixonado por você. Como sei que você não sente o mesmo por mim, tentei conter-me o mais que pude, com medo de perder sua amizade. Ontem não resisti. Foi mágico, porque, ao contrário do que eu pensava, você correspondeu. Acha que estou sonhando demais?

Marina olhou o rosto emocionado de Rafael e sentiu desabrochar em seu peito um sentimento de amor imenso. Teve vontade de abraçá-lo, de beijá-lo. Olhando em seus olhos, respondeu:

— Não. Se isso for um sonho, não quero acordar.

Ele a abraçou e beijou seus lábios várias vezes. Permaneceram abraçados, em silêncio, sentindo o coração bater forte e uma sensação de plenitude que dispensava palavras.

Depois de beijá-la de novo, Rafael tornou:

— Você não imagina quanto desejei este momento. Nunca conheci uma mulher que me tocasse tanto quanto você. A seu lado sinto-me à vontade para ser eu mesmo, o que jamais aconteceu antes. É prazeroso estar com você, que respeita minhas opiniões, mas fala o que pensa sem representar papéis tão a gosto das mulheres.

— Foi só por isso que se apaixonou por mim?

— Não. Sua beleza foi o que me atraiu a princípio. Não nego que desde o primeiro dia senti vontade de beijá-la. Mas você cortou logo qualquer chance mostrando que não estava nem um pouco interessada em manter comigo um relação afetiva. Conformei-me e até gostei de ser apenas seu amigo. Tivemos momentos bons juntos, nos quais trocamos idéias, nos conhecemos melhor. Mas uma noite em que fomos dançar, tendo-a nos braços, rosto alegre, cheio de vida, empolgada pela música, descobri quanto você representava para mim.

— Eu não sabia. Não notei nada.

— Foi difícil controlar. Mas você em nenhum momento demonstrou nada além de amizade. Confesso que cheguei a um ponto em que tive muito medo de perdê-la. Então preferi não dizer nada.

Marina acariciou o rosto dele.

— Eu estava apaixonada e não sabia. Ontem, quando me beijou, senti muita emoção. Fiquei confusa, sem entender os meus sentimentos. Cheguei a imaginar que você o fizera cedendo a uma tentação do momento, o que pode acontecer entre um homem e uma mulher, mesmo quando não há amor.

Ele segurou a mão dela e levou-a aos lábios. Depois disse:

— Entre nós sempre houve muito mais do que isso.

— Passei a noite me perguntando o que você me diria a respeito. Mas, assim que nos vimos hoje, eu soube a verdade.

Ele beijou-a novamente e eles ficaram algum tempo abraçados em silêncio. Rafael cortou o silêncio dizendo baixinho:

— Quero passar o resto de minha vida com você.

Ela sorriu e perguntou:

— Está me pedindo em casamento?

— Entenda como quiser. Sei que essa palavra provoca em você uma reação contrária.

— Não é a palavra, mas o que as pessoas fazem quando se casam. Talvez porque eu tenha tido um exemplo triste dentro de casa. Meu pai nos abandonou para viver com outra mulher. Minha mãe era esposa dedicada, mas passiva, e ele sempre abusava dela, o que me enraivecia. Quando ele saiu de casa, dei graças a Deus. Mas eu era pequena, e mamãe estava grávida de Cícero. Mas, embora fôssemos pobres e mamãe trabalhasse muito para manter a casa, pudemos viver em paz. Foi naquele tempo que prometi a mim mesma que nunca me deixaria iludir por um homem, que dedicaria minha vida a estudar e me formar para poder dar conforto e bem-estar à minha família.

— O que você conseguiu brilhantemente.

Marina ficou pensativa por alguns instantes, lembrando-se do contrato com Adele.

— O que foi? Você ficou distante...

— Nada. Apenas algumas recordações do passado.

— O passado passou. Estamos vivendo hoje e temos todo um futuro pela frente. O que quero é viver a seu lado, com ou sem casamento. Você decide como deseja fazer isso.

— Vou pensar. Talvez um contrato sem data de vencimento, mas que possa ser desfeito se for o caso.

— Por que está dizendo isso? Eu quero ficar com você para sempre.

Ela riu e respondeu:

— Não fale assim. Eu amo você, você me ama. Hoje queremos ficar juntos para sempre. Se isso acontecer, será bom. Porém, se em qualquer momento deixarmos de ter prazer em viver um ao lado do outro, teremos o direito de escolher outro caminho.

— Do jeito que você fala, parece que não confia em nossos sentimentos.

— Não é nada disso. O que quero dizer é que ficar junto só é bom enquanto há amor. Não quero que você se julgue preso a meu lado pelo resto de seus dias. Somos livres. Embora vivendo juntos, cada um precisa conservar sua individualidade, ser aquilo que é.

Ele beijou-a delicadamente na testa e respondeu:

— Você não existe! E por isso que tenho certeza de que seremos muito felizes juntos.

Naquela noite, quando entraram em casa, Ofélia estudava na sala. Ela, notando o progresso de Cícero, que havia perdido quase todo o sotaque interiorano e adquiria vocabulário, decidira estudar também. Queria que os filhos se orgulhassem dela e pedira a Rute que a ensinasse.

Vendo-os entrar, Ofélia notou logo que estavam diferentes. Ela gostava de Rafael e suspeitava que por trás daquela amizade havia um sentimento maior. Por isso não se surpreendeu quando Marina disse:

— Mãe, eu e Rafael estamos namorando.

Ofélia levantou-se e abraçou-os contente:

— Eu sabia que isso ainda ia dar casamento. Estou muito feliz por vocês.

— Como é que a senhora sabia? — indagou Rafael.

— Ora, meu filho... Você acha que não notei como você olhava para ela?

Ele riu bem-humorado e respondeu:

— E eu pensei que estivesse disfarçando bem... Mas mãe tem o sexto sentido.

— Marina nunca namorou sério, e eu temia que ela ficasse solteirona.

— Se depender de mim, isso não acontecerá.

— Isso é um acontecimento. Precisamos comemorar. Vou buscar uma garrafa de vinho.

Ofélia foi à despensa e Rafael abraçou Marina.

— Sua mãe ficou feliz.

— Ela o aprecia muito.

Pouco depois, Ofélia voltou com uma bandeja com copos e uma garrafa e pediu a Rafael que a abrisse. Ele obedeceu e serviu. Depois deu um copo a cada um, dizendo:

— Eu brindo a este momento de felicidade.

— Que nossas vidas continuem sempre assim felizes — completou Ofélia.

— Que nosso amor nos traga felicidade — tornou Marina.

Tocaram os copos e beberam. Depois Rafael abraçou as duas e beijou-as na face.

— Obrigado por me deixarem entrar para esta família, que eu adoro.

Ofélia trouxe alguns salgadinhos e eles continuaram conversando mais algum tempo. Rafael despediu-se e Marina o acompanhou até a porta.

Quando ela voltou, Ofélia disse alegre:

— Estou certa de que vocês serão muito felizes.

Marina foi para o quarto e preparou-se para dormir, porém um pensamento a incomodava: o segredo que guardava sobre seu contrato com Adele.

Rafael era um homem bom, sincero. Ela sentia que o amava. Seria justo para com ele não lhe contar a verdade?

Ele a admirava, orgulhava-se dela, julgava-a uma mulher vencedora. O que pensaria se um dia viesse a descobrir que ela se prestara a ter um filho em troca de dinheiro?

Pela primeira vez arrependeu-se de haver concordado com Adele. Decidiu que não contaria nada a ele. Não teria coragem. Porém, como iniciar um relacionamento sério com uma mentira?

Talvez fosse melhor acabar com o namoro. Assim não teria de dizer nada. Eles continuariam amigos como sempre foram. Mas ao mesmo tempo, tendo encontrado o amor, deveria passar o resto da vida sozinha?

O que faria quando seu irmão assumisse a inteira responsabilidade por sua vida e sua mãe morresse?

Naquele momento percebeu quanto amava Rafael e queria viver ao lado dele, usufruindo de sua companhia. Sua cabeça doía e ela permaneceu largo tempo virando na cama preocupada. Por fim, cansada, adormeceu.

Sonhou que estava em um jardim muito lindo. Lembrou-se de que já havia estado ali. Olhou em volta procurando alguém. Logo viu a mesma moça com a qual sonhara outras vezes, que a abraçou com carinho.

— Estou contente em vê-la.

— Não sei como vim parar aqui. Estava inquieta, e este lugar tem o dom de me acalmar.

— Vamos passear um pouco. Venha.

Ela a abraçou e juntas elevaram-se, volitando sobre os jardins, à luz das estrelas. Marina sentia um prazer muito grande e uma sensação de que seu peito se dilatava enquanto olhava as luzes lá embaixo, da cidade que dormia.

Depois, Marina notou que estavam na rua de sua casa. Desceram e adentraram o quarto. Ela pôde ver o próprio corpo adormecido na cama.

Emocionada, agarrou-se à sua companheira, que lhe disse sorrindo:

— Não tenha medo. Tudo isso é natural. Você vai voltar para seu corpo e recordar nosso encontro. Lembre-se: tudo está certo. Você fez o que prometeu fazer. Não há nada errado.

Marina olhou-a preocupada e ela repetiu:

— Lembre-se: tudo está certo. Você fez o que prometeu fazer. Não há nada errado.

Marina remexeu-se na cama e acordou sentindo ainda o prazer que desfrutara no sonho. Em seus ouvidos ainda soavam as últimas palavras de sua amiga espiritual:

— Lembre-se: tudo está certo. Você fez o que prometeu fazer. Não há nada errado.

Ela sentou-se na cama emocionada, sentindo aquela sensação de felicidade, e pensou:

“Não foi sonho. Eu a encontrei de novo. Suas palavras me confortaram. Conversamos sobre várias coisas. Por que não consigo me recordar de tudo?”

Marina deitou-se novamente, sentindo-se mais calma. Com relação a Rafael, decidiu não dizer nada, apenas esperar os acontecimentos. Antes precisava entender por que lhe diziam que não havia nada errado em sua atitude, apesar de haver recebido dinheiro de Adele, o que de certa forma era constrangedor.

Lembrou-se de Eunice. Ela talvez pudesse esclarecer suas dúvidas.

Dois dias depois, conforme haviam combinado, Marina e Rafael compareceram a uma reunião no centro de estudos espirituais dirigido por Eunice. Após a conversa que haviam tido com ela, eles resolveram começar a estudar.

Durante o trajeto, Marina contou-lhe da experiência astral em companhia da amiga espiritual que Eunice mencionara. Disse que na volta vira seu próprio corpo adormecido na cama.

— Fiquei assustada, mas minha companheira afirmou que não precisava ter medo, que aquilo era natural.

— Que maravilha! Eu gostaria muito de experimentar isso.

— É uma sensação maravilhosa, você deslizando sobre os lugares, sob a luz das estrelas, vendo a cidade lá embaixo, e ao mesmo tempo dentro do coração uma alegria que não dá para explicar em palavras.

— O que mais ela lhe disse?

— Durante o sonho eu entendia tudo que ela dizia, mas assim que acordei não consegui me lembrar de nada.

Ela não mencionou as palavras que ainda soavam claras aos seus ouvidos, para não chamar a atenção dele sobre o assunto que a preocupava.

Assim que entraram no prédio, inscreveram-se para participar do grupo de estudos. Como faltava meia hora para iniciar, passaram na pequena livraria na sala ao lado.

Eunice saiu de uma das salas e, vendo-os, aproximou-se para cumprimentá-los. Depois, perguntou por Cícero.

— Ele está bem — respondeu Marina. — Virá amanhã para o curso de mediunidade. Minha mãe decidiu vir com ele.

Eunice sorriu.

— Vai ser bom para ela, que já possui algum conhecimento sobre a vida espiritual.

— Fiquei surpresa quando ela disse que viria com ele. Nunca foi ligada aos assuntos religiosos.

— Não se admire. São coisas do espírito dela. Interessou-se porque sentiu que nós estamos aqui aprendendo sobre os fenômenos naturais da vida e não criando ou seguindo uma religião.

— Esse foi o motivo pelo qual decidi vir aprender aqui — considerou Rafael.

Marina consultou o relógio e viu que ainda faltavam vinte minutos para iniciar o curso. Perguntou:

— A senhora está muito ocupada agora?

— Não. Terminei o atendimento.

— Tive uma experiência fora do corpo anteontem e gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. Serei rápida.

— Está bem. Vamos entrar.

Rafael fez menção de acompanhá-las, porém Eunice tornou:

— Prefiro falar com ela a sós. Também tenho um recado pessoal a dar-lhe.

— Fiquem à vontade. Vou escolher alguns livros.

Elas entraram e se acomodaram. Antes que Marina começasse a falar, Eunice disse:

— Vocês têm muita afinidade. Entendem-se bem e certamente terão uma união feliz e proveitosa. O amor de vocês vem de outras vidas. Quanto a isso, tudo bem. Você é uma pessoa leal e está preocupada porque guarda um segredo no coração e não tem coragem de lhe contar.

Marina olhou-a surpreendida.

— Como sabe?

— Sua amiga Norma está me contando. É com ela que você tem se encontrado quando sai do corpo.

— Isso mesmo. Rafael se declarou e eu descobri que o amava também. Meu segredo envolve outras pessoas e prometi não contar a ninguém. Mas as dúvidas me incomodam. Não quero começar um relacionamento com uma mentira.

— Norma está me dizendo que já lhe falou sobre isso.

— Ela diz que é grata porque eu lhe prestei um serviço e cumpri o que havia prometido. Afirmou que tudo está certo, não há nada errado.

— Ela está repetindo isso para mim. Então, qual é a dúvida?

— Mas é que recebi dinheiro para prestar esse serviço. É isso que me incomoda.

— Você prejudicou alguém?

— Não. Ao contrário: ajudei uma família a resolver um problema. Eu concordei em prestar esse serviço porque precisava do dinheiro. Meu pai nos abandonou quando eu era criança e minha mãe estava grávida de Cícero. Eles moravam no interior. Eu estudei, me esforcei, sempre pensando em lhes proporcionar uma vida melhor. Minha mãe costurava até altas horas para nos sustentar. Eu queria que ela pudesse ter uma vida melhor e meu irmão pudesse estudar ser alguém na vida.

— Os motivos são nobres. Sabe minha filha, há ainda muito preconceito com relação a dinheiro. Entretanto, ele é necessário para fazer o bem, desenvolver a ciência, aliviar o sofrimento humano. Não há mal em querer melhorar de vida, ter dinheiro. Ele é valor, e em si não é bom nem mau. Depende do uso que fazemos dele. É um bem quando usado com inteligência a favor do progresso e um mal quando é acumulado sem proveito ou em prejuízo dos outros.

— Suas palavras me fazem bem.

— Norma está dizendo para você não se preocupar. Quando for oportuno, a vida resolverá isso para você. Guarde seu coração em paz. Viva sua vida e seja feliz.

Marina levantou-se, olhos marejados:

— Obrigada, Dona Eunice. Suas palavras me devolveram a paz.

— Vá com Deus, minha filha.

Ao deixar a sala, Marina sentia-se alegre e bem-disposta. Rafael a esperava. Vendo-a, disse:

— Veio bem na hora. Comprei dois livros. Depois lhe mostro.

Ela segurou o braço dele e disse:

— Vamos. Não quero perder nada desta aula.

Alegres e bem-dispostos, entraram na sala, onde muitas pessoas já estavam acomodadas esperando. Procuraram dois lugares e sentaram-se.

Um rapaz jovem, alto, claro, entrou na sala e postou-se diante de todos, dizendo:

— Vamos unir nossos pensamentos buscando alcançar nossos objetivos de progresso e luz. Juntos pedimos à Inteligência Universal que abra nossa mente a fim de que, mais lúcidos, possamos entender melhor o que a vida quer nos ensinar agora.

Ele fechou os olhos e ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois, abriu-os e tornou:

— Hoje vamos falar sobre as mensagens que os fatos da vida nos trazem e como entendê-las.

Olhos brilhantes, ele começou a discorrer sobre o assunto, e tanto Rafael quanto Marina — que havia estranhado um professor tão jovem para um assunto tão profundo — ficaram presos a suas palavras, que os faziam pensar, maravilhados com que ele se expressava.

Durante quinze minutos ele discorreu e todos na sala, como que magnetizados, ouviam atentos. Depois, ele parou, sorriu e convidou:

— Agora vamos passar às perguntas.

Imediatamente algumas pessoas levantaram a mão e ele as foi ouvindo uma a uma, esclarecendo dúvidas, expondo situações, deixando que tirassem a própria conclusão.

No fim, agradeceu a atenção de todos e encerrou a reunião com uma prece de gratidão aos amigos espirituais.

Rafael e Marina deixaram o local entusiasmados. Foram tomar um lanche e durante o tempo todo trocavam idéias sobre o tema da noite. Eles não viram que o espírito de Norma os abraçava satisfeito, envolvendo-os com pensamentos de alegria e paz.

 

            Seis meses depois destes acontecimentos, voltamos a Paris, onde Pierre se encontrava preso, à espera de julgamento. As provas contra ele avolumavam-se dia a dia e ele estava desesperado.

Os amigos que antes o ajudavam a dissipar sua fortuna haviam desaparecido, o nome de sua família execrado e os parentes que lhe restavam o recriminavam, recusando-se a ajudá-lo.

Sem dinheiro para pagar um bom advogado para defender-se, Pierre a cada dia sentia mais medo de ser condenado. Era intolerável suportar os três companheiros de cela, a precariedade das instalações sem privacidade, sempre cheirando a desinfetante barato, e a humilhação do descaso e da maldade alheia.

Além do tráfico de drogas e da suspeita de assassinato de Nicole, a polícia suspeitava que ele também houvesse assassinado Jamille, uma vez que ela desaparecera sem deixar vestígios e Pierre dizia não saber de seu paradeiro.

Para eles era inadmissível que uma mulher que fora ao Brasil com o marido e desconhecia o idioma daquele país decidisse desaparecer sem um motivo justo. O mais provável era que ela soubesse demais e ele acabara por matá-la a fim de proteger-se.

Pierre, quando pensava nela, sentia seu ódio crescer. Jamille o abandonara no momento mais difícil de sua vida depois de haver desfrutado a seu lado de uma vida faustosa, freqüentando lugares de luxo.

Claro que o abandonara com medo de ser acusada de cumplicidade. No entanto, além de roubar todo o seu dinheiro, ela ainda o deixara em uma situação delicada. Como ele poderia provar que ela ainda estava viva, morando no Brasil?

A quantia de dinheiro que ela possuía daria quando muito para viver durante um mês, isso com muita economia, o que ele acreditava que ela não conseguiria fazer.

O que ela faria quando o dinheiro acabasse? Voltar à França seria impossível, uma vez que não dispunha de recursos. Como era incapaz de trabalhar, certamente acabaria se prostituindo.

O ódio de Pierre era ainda mais violento contra Maria Eugênia. Com aquele ar de pessoa de bem, havia lhe preparado aquela armadilha. Ela e certamente sua mãe, uma executiva esperta e experiente.

Quando pensava nelas, parecia-lhe sufocar. Então levantava-se e andava pela cela de um lado para o outro como fera enjaulada, o que irritava os companheiros, que ameaçavam agredi-lo.

Aquilo não podia continuar. Ele precisava fazer alguma coisa. Enquanto ele sofria por viver naquele inferno, Maria Eugênia desfrutava de sua vidinha sossegada com a família, naquela mansão maravilhosa, posando de dama impoluta da melhor sociedade. Ele precisava agir. Eles tinham de pagar pelo que lhe fizeram.

Pensando em tudo, decidiu mudar sua atitude dentro da prisão. Tendo se mostrado agressivo, revoltado, ele só havia piorado a situação. Era vigiado constantemente e os carcereiros olhavam-no com raiva.

Tinha de engolir a raiva e procurar contornar os fatos. Sempre soubera lidar com as pessoas de qualquer nível. Começou por mostrar-se educado com todos, conformado com a situação, mostrando-se triste pela ingratidão da companheira.

Os carcereiros, aliviados por não terem de vigiá-lo constantemente, começaram a tratá-lo melhor. E aos poucos seus colegas de cela também foram mudando com ele.

Um dia foi procurado por Jacques, um advogado que a Justiça havia designado para defendê-lo no julgamento que estava marcado para dali a três meses.

Com a presença do advogado, Pierre pôde deixar a cela para conversar a sós com ele em sala privada. Contou-lhe sua versão dos fatos, dizendo-se inocente.

O advogado deixou claro que, como seu defensor, precisava saber toda a verdade. Pierre continuou negando aquele crime e afirmando que usava drogas para consumo próprio.

— Há o desaparecimento de sua esposa — insistiu Jacques.

— Ela me deixou quando descobriu que eu estava sendo procurado pela polícia. Não sei onde ela está.

— Acha que voltou à França?

— De modo algum! O dinheiro que tirou de mim não daria para tanto. Imagino que ela ainda deva estar no Brasil. Mas não sei onde.

Jacques coçou a cabeça desanimado.

— Diante das suspeitas que a polícia tem sua palavra não vale nada. Temos que arranjar uma prova de que ela está viva.

— Não sei como fazer isso. O Brasil é um pais muito grande.

— Você disse que tem amigos lá. Não poderia escrever, pedir informações dela? Ela pode ter ido procurá-los.

— Não creio. Eles não simpatizavam muito com ela.

— É sua única chance. Escreva uma carta a eles, peça informações. Talvez saibam de alguma coisa.

Pierre olhou-o pensativo. Uma idéia passou pela sua cabeça e ele respondeu:

— Está bem. Traga-me papel e envelope e escreverei.

Depois que Jacques se foi, Pierre voltou à cela pensativo. Sua situação continuava ruim, mas encontrara um meio de vingar-se de Maria Eugênia.

No dia seguinte, Jacques levou o que ele pedira e ficou de buscar a carta dali a um ou dois dias. Sentado em um canto da cela, Pierre colocou o papel sobre a mesa e começou a escrever.

 

Dr. Henrique Silveira Couto, estou lhe escrevendo para fazer uma confissão. Estou apaixonado por Maria Eugênia e sei que sou correspondido. Quando vocês estavam em Paris, eu e ela nos apaixonamos e nos tornamos amantes. Em nossos momentos de intimidade, descobri que ela não estava grávida, usava uma barriga postiça.

Quando vocês voltaram ao Brasil, sofri muito com a separação. Desde então pensei em ir vê-la em seu país. Quando estivemos em sua casa meses atrás, eu pretendia reatar nossa ligação, porém ela não quis, por causa do menino que diz ser seu filho.

Fiquei desesperado. Minha mulher descobriu tudo e me abandonou. Deixou o hotel onde nos hospedávamos e levou todo o meu dinheiro.

Então fui procurado pelo advogado de sua sogra, que me ameaçou dizendo que, se eu não desistisse de interferir na vida de Maria Eugênia, eles me denunciariam à polícia francesa.

Não acreditei, mas na mesma noite fui procurado por dois policiais que me prenderam e me levaram ao consulado da França. Fui deportado e continuo preso, acusado de crimes que não cometi. Há inclusive suspeita de que eu tenha matado minha esposa.

Sem dinheiro, sem amigos, desprezado, estou esperando pelo julgamento. Recorro a você para que me ajude. Não tenho a quem pedir auxílio. Se não me ajudar, serei forçado no julgamento a contar toda a verdade. Só assim conseguirei provar minha inocência. Certamente os jornais não pouparão vocês, cuja empresa é muito conhecida por aqui. Afirmo que meu único crime foi amar uma mulher e não conseguir esquecê-la.

Aguardo uma resposta sua. Por favor, me ajude.

Pierre Leblanc

 

Leu tudo novamente e, satisfeito, colocou a carta no envelope já sobrescritado e o fechou. Maria Eugênia haveria de sentir o peso de sua vingança. Henrique era um homem sério e não toleraria a traição da mulher. Certamente a repudiaria.

No dia seguinte, o advogado chegou, Pierre entregou-lhe a carta e disse contente:

— Acho que vai dar certo.

— É bom mesmo, porque a amiga de Nicole vai testemunhar contra você e está disposta a vingar a morte dela.

— Ela tem raiva porque eu não quis ter relações com ela, Está mentindo por causa do ciúme.

— Acho bom você pensar bem, ver se descobre um álibi, porque sua situação neste caso não é das melhores.

Pierre ficou sério.

— Vou pensar doutor. Vou pensar.

Depois que o advogado se foi, Pierre sorriu satisfeito. Além de vingar-se, certamente Henrique tentaria abafar o escândalo e se empenharia em livrá-lo da condenação.

Dois dias depois, uma sexta-feira, Henrique ligou para Adele satisfeito, para comunicar-lhe a boa notícia: finalmente, depois de meses de negociação, havia fechado vultoso negócio com uma empresa alemã de grande porte.

— Eles assinaram o contrato do jeito que nós queríamos. Deu tudo certo.

— Ótimo. Parabéns! Você conseguiu! Temos que comemorar. Venham jantar comigo esta noite. Quero saber todos os detalhes.

— Falarei com Maria Eugênia.

— Diga-lhe para trazer Dionísio. Estou com saudade. Vou convidar Bernardo. Ele nos ajudou muito nesta negociação.

— Está bem. Iremos.

Adele desligou o telefone e ligou para Bernardo, que ficou radiante não só com a notícia, mas com o convite.

O jantar na casa de Adele era servido às oito horas. Às sete e meia, Bernardo já havia chegado, tendo levado uma belíssima caixa com rosas. Pouco depois, Henrique e Maria Eugênia também chegaram, trazendo Elvira e Dionísio.

O clima era de festa. Antes do jantar, o menino atraiu todas as atenções com suas gracinhas, seu linguajar muito particular, seu jeito carinhoso de tratar a todos.

Depois, Elvira levou-o à copa, onde deveria servir-lhe o jantar enquanto na sala os adultos se acomodavam para comer.

A conversa fluiu alegre. Na hora da sobremesa, brindaram com champanhe. Todos estavam felizes. Maria Eugênia, depois do problema que havia enfrentado com Pierre, tinha mudado sua maneira de relacionar-se com a mãe.

Ela começara a interessar-se pelos negócios e a dar opinião, demonstrando inteligência e clareza, o que estreitou ainda mais a amizade entre elas.

Finalmente Maria Eugênia entendera que uma empresa não era como imaginara, apenas uma máquina de fazer dinheiro, mas sim uma organização que dava oportunidade de emprego para muitas pessoas, que no trabalho desenvolviam sua capacidade de inteligência e ao mesmo tempo ganhavam seu dinheiro para sustentar a família com dignidade.

Ela descobriu que Adele geria aquela organização exigindo disciplina e esforço próprio, mas atuando com generosidade e justiça, oferecendo cursos de especialização aos mais esforçados e apoio nos momentos em que alguém estivesse em um momento difícil.

Sentiu-se orgulhosa ao perceber que Adele era muito respeitada por seus funcionários, que se sentiam bem por trabalhar para uma pessoa que admiravam.

Passava das dez quando Maria Eugênia quis ir embora. Eles se despediram, porém Adele, que estava particularmente alegre naquela noite, pediu ao Bernardo que ficasse mais um pouco.

— Estou sem sono. Vamos conversar.

— Você não gostaria de sair um pouco? Poderíamos ir dançar em algum lugar.

— Não. Prefiro ficar em casa. Vamos ao jardim de inverno ouvir música.

Uma vez lá, Bernardo perguntou:

— O que você quer ouvir?

— Escolha você.

Ela sentou-se em uma poltrona e logo um blues encheu o ar. Bernardo parou diante dela, depois curvou-se, dizendo:

— Quer dançar comigo?

Ela levantou-se e começaram a dançar. A música os envolveu e Bernardo disse emocionado:

— Parece que o tempo não passou que estamos no clube, dançando como antigamente. Eu fico me perguntando: o que teria acontecido se eu não fosse tão tímido?

Adele riu contente.

— Quer fazer crer que naquele tempo estava interessado em mim?

— Eu estava muito apaixonado.

Adele afastou-se um pouco e olhou-o nos olhos:

— Por que nunca me disse nada?

— Acho que você sempre soube.

— Na verdade, houve um tempo em que desconfiei, mas depois achei que estava enganada. Você sempre foi discreto, nunca demonstrou.

A música acabou. Adele serviu-se de mais champanhe enquanto ele escolhia outro disco. Logo Sinatra começou a cantar uma música romântica e Bernardo enlaçou-a novamente. Dançaram alguns instantes em silêncio, até que Bernardo disse:

— Esconder esse amor foi difícil para mim.

— Você teve vários relacionamentos. Por que nunca se casou?

Ele apertou-a de encontro ao peito e disse ao seu ouvido:

— Porque nunca consegui amar outra mulher.

Havia tanta paixão na voz dele que Adele estremeceu. Separou-se de Bernardo e foi sentar-se no sofá. Ele a seguiu e sentou-se a seu lado, preocupado.

— Desculpe. Acho que me excedi. Você não me deu liberdade para isso.

Adele olhou-se séria e respondeu:

— Não se desculpe. Saber que você me amou desse jeito me emociona e me leva de volta ao passado. Talvez, se você tivesse sido mais ousado, minha vida tivesse sido diferente.

Bernardo olhou-a admirado:

— Por que está dizendo isso? Acha que eu teria alguma chance?

— Não sei. O que sei é que meu casamento não foi o que todos pensam.

Bernardo surpreendeu-se:

— Por quê? Vocês pareciam tão felizes! Alias, foi esse pensamento que me confortou. Apesar de tudo, o que eu mais desejava era que você fosse feliz. O Dr. Aurélio era um homem de sucesso, bonito, respeitado, rico.

— Aurélio era tudo isso mesmo, socialmente. Na intimidade era frio, insensível. Tudo que ele fazia era planejado. Para poder viver com ele, precisei sepultar meu lado apaixonado, meu temperamento ardente, cheio de vida.

Bernardo segurou a mão dela na tentativa de apoiá-la. Olhos perdidos no tempo, Adele continuou:

— Já na lua-de-mel ele mostrava-se irritado sempre que eu tinha alguma atitude exuberante, espontânea. Dizia que era falta de educação. Ensinava a maneira e a hora de rir, de falar, até de chorar. Mas você me conhece, sabe que sou uma mulher prática. Coloquei meus sentimentos de lado e procurei analisar a personalidade dele. Jurei a mim mesma que ele haveria de mudar o tom que falava comigo e me fazer respeitar. Eu sabia que para ele os negócios eram mais importantes e ele admirava as pessoas que conseguiam obter sucesso em seus empreendimentos.

Ela fez ligeira pausa e, notando que Bernardo a ouvia com interesse, continuou:

— Estudei, me preparei e aos poucos fui tomando conta dos negócios. A princípio ele não me levou a sério, até que provei que sabia o que estava fazendo e consegui inverter a situação. Ele passou a não fazer nada sem me consultar e acabou confiando em minha capacidade, deixando a parte mais importante em minhas mãos. Quando ele adoeceu, falou-me do testamento de seu pai e da esperança que colocava sobre Maria Eugênia. Para ele, essas empresas eram mais importantes do que a própria família.

— Foi por isso que você contratou Marina?

— Não. Se Renato fosse um homem capaz, talvez eu houvesse lhe proposto uma sociedade. Mas, irresponsável e jogador, ele iria causar muitos problemas.

— De fato. Tem razão.

— Acontece que gostei de ter dirigido as empresas. Aprendi muito com isso, desenvolvi minha criatividade, observei melhor o ser humano, pude exercitar meus conhecimentos e desenvolver um bom trabalho, dando oportunidade a outras pessoas de crescerem comigo.

— Sempre admirei a forma como você lidera seus funcionários.

— Eu os respeito. Foi mais para continuar a fazer este trabalho que eu quis ficar na presidência da nossa organização.

Bernardo apertou a mão dela com carinho, levou-a aos lábios e beijou-a.

— É por isso que eu ainda amo você.

— Eu me tornei uma mulher sem amor.

— É engano seu. Tudo que você faz é com amor. O capricho, a dedicação, o gosto pela arte, tudo revela sensibilidade.

— Esta é uma noite de comemoração. Vamos dançar Bernardo, esquecer o passado.

Ela levantou-se e ele a enlaçou com carinho. A música suave os embalou enquanto dançavam em silêncio.

Bernardo sentia o coração bater descompassado, e a emoção tomou conta dele. Aquele amor tanto tempo guardado desejava expressar-se e ele cedeu.

Apertou-a de encontro ao peito e beijou seus lábios com paixão. A emoção contagiou Adele, que se entregou àquelas sensações, que faziam seu corpo estremecer de prazer. Abraçou-o também, correspondendo a suas carícias.

Continuaram se beijando até que Adele, puxando-o pela mão, levou-o até seu quarto, onde, inebriado, Bernardo lhe disse, com voz que a paixão enrouquecia:

— Se soubesse como sonhei com este momento! Ter você em meus braços era o que eu mais desejava na vida.

Emocionada, Adele sentiu que estava despertando novamente para o amor, como nunca imaginou que conseguiria.

Beijou-o com carinho. Fechou a porta enquanto ele a esperava com os braços abertos. Ela aninhou-se neles e juntos foram para a cama viver aquele momento de amor.

Na manhã seguinte, Adele acordou e olhou Bernardo adormecido a seu lado. Sentou-se na cama pensativa. A lembrança dos momentos de amor que tinham desfrutado encheu seu peito de calor.

Lembrava-se de ter tomado mais champanhe que o habitual, o que certamente a fizera romper a barreira do convencional.

Bernardo abriu os olhos e, vendo-a, sorriu.

— Estou sonhando ou aconteceu mesmo?

— Aconteceu. Nós dançamos, tomamos champanhe, conversamos, e acabamos aqui.

Ele sentou-se na cama, olhando-a sério:

— Está arrependida?

— Não. Mas me assusta um pouco notar que perdi o controle.

Ele alisou o rosto dela com carinho.

— O amor precisa ser celebrado.

— Quero ser bem sincera com você. O que aconteceu ontem foi inesperado. Preciso pensar avaliar melhor meus sentimentos.

— Pois eu estou seguro do que sinto. Nunca lhe falei do meu amor porque você não deu chance. Sempre tratou-me como amigo. Eu não queria estragar essa amizade. Porem, ontem senti que você também me quer. Talvez seja difícil a uma mulher como você entregar-se ao amor. Habituada a liderar, a falar de acordo com o momento e agir conforme seus objetivos pode ser assustador deixar fluir livremente as emoções, perder o controle. Contudo, você continua a ser a mesma pessoa, capaz de agir como sempre fez só que mais completa capaz de amar e ser amada. Isso não a deixa feliz?

Adele sorriu:

— É verdade. Quando acordei e o vi deitado do meu lado, senti um pouco de medo de perder minha liberdade, minha privacidade, conquistada duramente. Mas agora começo a pensar que pode valer a pena deixar um pouco de lado à líder e ser apenas mulher.

Bernardo abraçou-a e beijou-a nos lábios diversas vezes.

— A vida não é apenas trabalho, sucesso profissional, manter acesa a chama de um ideal, mas também alegria, prazer, amor. São momentos como os que vivemos ontem que nos impulsionam a produzir mais e melhor em todos os outros objetivos. Hoje me sinto como um leão, cheio de força, de otimismo. Estou certo de que tudo que eu fizer hoje vai dar certo.

— Eu também.

— Hoje é sábado. Que tal passarmos o fim de semana em algum lugar agradável, longe de tudo e de todos?

Os olhos de Adele brilharam maliciosos.

— Seria maravilhoso. Aonde iremos?

— Você escolhe. Podemos tomar um avião e ir ao Rio de Janeiro ou a alguma cidade do sul, ou ainda sairmos de carro, sem destino, parando onde nos parecer melhor.

— Gostei da última opção.

— Quanto tempo vai levar para se arrumar?

— Meia hora, Mas antes vamos tomar o café da manhã.

— Faremos isso pelo caminho. Vamos nos arrumar rapidamente. Conheço um lugar delicioso, onde tomaremos nosso café da manhã. Então, passaremos em meu apartamento, onde pegarei algumas coisas. Depois, sairemos pelo mundo, sem rumo. Apenas nós dois, livres para fazemos o que nos der vontade.

Ambos saíram da cama e arrumaram-se rapidamente. Adele, rosto corado de prazer, parecia uma adolescente rumo à aventura. Havia muitos anos que não se lembrava de haver sentido tanta motivação e alegria para um passeio.

Era muito bom não ter de pensar em atender aos compromissos do dia, buscar soluções para os problemas empresariais que se multiplicavam, desafiando sua criatividade e sua eficiente equipe.

Antes de meia hora, estavam saindo. Adele chamou a criada e disse:

— Vou viajar e só volto amanhã à noite. Cuide para que tudo esteja sob controle.

Depois, juntos, foram para o carro, olhos brilhantes, rostos corados, sorriso fácil, alegria no coração.

 

            Na segunda-feira, Henrique chegou ao escritório antes das nove. Tinha um encontro importante com um importador e precisava estudar a proposta que ele lhe fizera.

Sua secretária colocara algumas cartas abertas sobre a mesa, incluindo uma que, por ser pessoal, ela não abrira. Henrique apanhou o envelope manuscrito e, não reconhecendo a letra, olhou o remetente e estremeceu:

PIERRE LEGRAND

O carimbo era de uma prisão em Lyon. Revirou a carta entre os dedos, pensativo. A carta fora enviada de uma prisão. Pierre estaria preso? Por que lhe escreveria?

Curioso, rasgou o envelope, apanhou a folha de papel dobrada, abriu-a e começou a ler. À medida que lia, seu rosto foi enrubescendo e seu cenho foi se fechando. Quando terminou, estava pálido.

Então era isso? Maria Eugênia chegara a apaixonar-se por aquele patife? Entregara-se a ele, traindo sua confiança?

Talvez Pierre estivesse mentindo. Mas como duvidar, se ele sabia que Maria Eugênia não estava grávida? Só podia ter descoberto isso se tivesse mesmo tido intimidade com ela.

Henrique passou a mão trêmula nos cabelos, como para afastar aqueles pensamentos dolorosos que o deixavam arrasado.

Maria Eugênia mudara muito depois do nascimento de Dionísio. Mas essa história escabrosa ocorrera antes, quando ela se mostrara insensível, fútil, revoltada.

Algumas lágrimas corriam pelo rosto de Henrique, e ele não se importava em enxugá-las. Ele fora um marido fiel. Aceitara relacionar-se com Marina para ajudar Adele e também, por que não dizer, pela possibilidade de poder ser pai, o que de outra forma seria impossível.

Maria Eugênia teria feito isso para vingar-se dele? Quando em Paris, ela deixara transparecer sua revolta por ele haver aceitado a proposta de Adele. Mas Pierre dizia que ela estava apaixonada; que, quando ele estivera no Brasil tentando reconquistá-la, ela só não foi com ele para não deixar Dionísio.

Henrique reconhecia que ela, de fato, apegara-se muito ao menino. Essa justificativa era perfeitamente provável. Nesse caso, ela não o amava mais. Preferia o amor daquele patife desclassificado ao dele, que sempre fora um marido dedicado e honesto.

Pierre estava preso, dizendo-se inocente, mas Henrique não acreditava nisso. Além do mais, ameaçava-o, pretendendo contar essa história infeliz aos jornais de Paris, cidade onde eles tinham uma filial da empresa, eram conhecidos e respeitados.

Uma raiva surda tomou conta de Henrique. Se naquele momento Pierre aparecesse em sua frente, certamente não responderia pela sua vida.

Ele precisava tomar uma atitude. Mas qual? De que adiantaria pressionar Maria Eugênia, jogar em seu rosto toda a sua revolta, se ela era mãe dedicada de seu filho e, além disso, Dionísio só se sentia bem ao lado dela?

Por causa do menino, deveria Henrique engolir a raiva e fazer de conta que nada havia acontecido? Certamente não conseguiria. De uma forma ou de outra, acabaria falando.

Poderia separar-se de Maria Eugênia, mas tinha certeza de que Dionísio sofreria muito com isso. Ele amava muito o menino e desejava que ele fosse feliz. Por outro lado, ele não queria deixar a casa e perder a convivência com seu único filho.

Agoniado, Henrique levantou-se, andando de um lado para o outro da sala. Mil pensamentos contraditórios passava pela sua mente.

E se Pierre fizesse mesmo o que estava prometendo? Se ele fosse aos jornais contar a triste história, além do escândalo havia a possibilidade de descobrirem que Dionísio não era filho de Maria Eugênia, portanto Adele teria de deixar a presidência das empresas e talvez até tivessem de responder na Justiça por haverem burlado a lei.

Ele precisava fazer alguma coisa, mas não podia assumir essa responsabilidade sozinho. Por mais que lhe doesse, teria de procurar Adele e contar-lhe tudo. Juntos, talvez pudessem encontrar uma saída.

Queria fazer isso imediatamente, porém tinha aquela entrevista importante logo mais. Sentiu vontade de cancelar aquele encontro, mas controlou-se. A pessoa havia vindo de longe e ele não podia deixar de atendê-la. Cancelar a entrevista daria impressão de desorganização, e ele não poderia fazer isso.

Respirou fundo e decidiu ver Adele depois que se livrasse do compromisso. Estava difícil esperar, mas não tinha outro recurso.

Apanhou a proposta de negócio e tentou examiná-la novamente, mas estava difícil. Não conseguia entender o que estava lendo. Precisou de um esforço muito grande para conseguir fixar a atenção no trabalho, atender a pessoa, mostrar-se amável e bem-disposto, quando se sentia angustiado, aflito, inquieto.

Respirou aliviado quando deu a tarefa por terminada. Apesar das circunstâncias, embora não houvesse sido brilhante, tinha conseguido o indispensável.

Olhou o relógio. Estava na hora do almoço e Adele gostava de almoçar em paz e não tratar de nenhum assunto desagradável nessa hora.

Henrique ficou indeciso. Seria melhor esperar um pouco mais, porém sua ansiedade não o deixou. Foi procurá-la.

Encontrou a sogra na sala de refeições, contígua à sala em que ela trabalhava. Vendo-o, ela disse:

— Henrique! Se tivesse vindo um pouco mais cedo, me faria companhia. Você já almoçou?

— Não, obrigado.

— Nesse caso, vou mandar trazer algo para você.

— Não é preciso. Estou sem fome. Vim porque temos um assunto muito sério para conversar.

Adele lançou um olhar sobre ele e considerou:

— Você não parece bem. Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Mas não quero interromper seu almoço. Vou esperar na outra sala.

— Já terminei — disse ela, levantando-se. — Venha, vamos conversar.

Foram para a outra sala e sentaram-se um diante do outro.

— E então? — indagou Adele.

— Aconteceu uma coisa horrível. Nem sei como começar...

— Pelo começo, com certeza.

— Quando estávamos em Paris, antes de Dionísio nascer, conhecemos um casal de franceses. Eu não os apreciava, porém Maria Eugênia tornou-se muito amiga deles.

— Eu sei. Esse casal esteve aqui alguns meses atrás.

— Sim. Eles foram nos visitar uma vez, depois desapareceram sem se despedir, o que me deixou aliviado. Nunca gostei de Pierre. Hoje, ao chegar ao escritório, encontrei uma carta dele que me perturbou muito.

Adele sentiu que alguma coisa grave estava acontecendo. Disse apenas:

— Deixe-me lê-la.

Sem dizer mais nada, Henrique tirou a carta do bolso e entregou-a em silêncio. Adele começou a ler e procurou conservar a calma. Quando terminou, olhou para Henrique séria e perguntou:

— Você não acreditou no que esse patife disse, acreditou?

— Eu gostaria que fosse mentira, porém os detalhes mencionados me fizeram crer que está dizendo a verdade.

— Ele mente. Deseja vingar-se de nós porque o entregamos à polícia francesa, com a qual ele tinha contas a ajustar.

Henrique admirou-se:

— Vocês o mandaram prender? Por que não me contaram nada?

— Achamos que não valia a pena perturbá-lo com esse mau-caráter. Ele procurou Maria Eugênia, tentou fazer chantagem. Pediu cinco milhões de dólares. Quando estavam em Paris, ele descobriu que Maria Eugênia não estava grávida, pesquisou e soube quanto era importante para nós o nascimento de um filho. Descobriu que ela tivera um menino e pela idade deduziu que ele não era legítimo. Pressionado pelas dívidas, veio à procura dela para arranjar dinheiro.

— Por que vocês não me contaram? Como puderam esconder tudo isso de mim?

— Eu pedi a ela que não lhe contasse nada. Não queria que você pensasse que Maria Eugênia pudesse ter tido um caso com esse sujeito.

— Mas eu penso que ela teve, sim. Ele só poderia ter percebido que ela não estava grávida se tivesse tido relacionamento íntimo.

— Não acredite nisso. Você sabe como Maria Eugênia era descuidada. Não pode esquecer que minha filha era amiga da esposa dele, que pode ter notado isso e contado a ele.

— Mas Pierre diz que tiveram um caso e que Maria Eugênia o amava.

— Não posso crer em um disparate desses. Maria Eugênia casou-se com você por amor e nunca deixou de amá-lo.

— Você não sabe, eu nunca lhe contei, mas quando estávamos em Paris ela mudou muito. Vivia revoltada, juntou-se a esse casal e a outros amigos, saía todas as noites e voltava de madrugada.

— Você não a acompanhava?

— A princípio, sim, mas eu não gostava desses amigos e não queria sair com eles. Ela andava mal-humorada, enciumada por causa de Marina. Naquele tempo cheguei a pensar que ela nunca perdoaria o fato de eu ter tido relacionamento com outra, ainda que não fosse por amor. Eu não queria sair com esses amigos, trabalhava o dia inteiro e não podia ir dormir de madrugada todas as noites.

— Você não podia ter permitido que ela levasse essa vida.

— Acho que tem razão, mas naquele tempo ela queixava-se de ficar sozinha no apartamento o dia inteiro. À noite queria sair, espairecer. Eu também gosto de sair à noite, mas não para ficar até a madrugada, tendo que trabalhar no dia seguinte. Deixei de acompanhá-la, permiti que ela saísse com eles. Acho que foi um erro. Revoltada como estava com nossa situação, ela deixou-se envolver por Pierre, que se aproveitou.

— Eu não acredito que ela tenha chegado a tanto.

— O que ele diz na carta é muito plausível e de acordo com os problemas que vivemos naquele tempo. O que me dói foi ele dizer que Maria Eugênia o ama e só não o acompanhou por causa de Dionísio. Como ele podia saber quanto ela é apegada a ele?

— Ele esteve em sua casa, viu como é o relacionamento deles. Aproveitou a deixa.

— Estou desesperado. Eu amo minha esposa. Estamos casados há oito anos e nunca a traí. Como ela pôde fazer isso comigo?

— Repito: ela o ama, sempre o amou. Quando ele fez a chantagem, ela ficou desesperada e me procurou. Então chamei Bernardo, contei o que estava acontecendo e lhe pedi que tomasse informações de Pierre. Ele entrou em contato com nossa filial em Paris e pediu a Marcel que investigasse a vida dele. Descobrimos que era procurado pela polícia francesa, por suspeita de assassinato, inclusive.

— Assassinato?

— Sim. De uma moça com a qual se relacionava. Desconheço os detalhes. Mas isso foi o suficiente para podermos nos livrar dele. Bernardo procurou-o no hotel, disse que sabíamos de tudo a respeito dele e que a polícia francesa já tinha ordem de prisão contra ele. Bernardo aconselhou-o a ir embora o quanto antes, a fim de evitar a prisão. Disse que não íamos dar-lhe nenhum dinheiro, mesmo porque ele estava enganado e Dionísio é filho de Maria Eugênia.

— Ele acreditou?

— Não sei. Mas, assim que Bernardo saiu de lá, deixou um segurança vigiando o hotel e veio para cá. Telefonou a um amigo seu no consulado avisando onde Pierre estava. Ele foi preso e deportado. Alguns dias depois, soubemos que a polícia francesa estava suspeitando que ele houvesse assassinado Jamille, sua mulher.

— Ela veio com ele. Não a levaram também?

— Não. Nosso vigia viu que, logo que Bernardo deixou o hotel, Jamille saiu carregando uma mala, tomou um ônibus e desapareceu. Como ninguém sabe onde ela está à polícia suspeita de Pierre, mas nós sabemos que ele não a matou.

— Estou perplexo. Apesar de tudo isso, ele está nos ameaçando. Se ele levantar suspeita sobre a origem de Dionísio, pode nos prejudicar.

— Eu sei. Temos que impedir isso de qualquer maneira.

— Ele quer que o ajudemos. Mas penso que isso está fora de cogitação.

— Eu também não estou disposta a ajudar esse canalha. Vou ligar para Bernardo e pedir que venha aqui agora. Juntos encontraremos a solução.

Meia hora depois do telefonema, Bernardo chegou. Colocado a par dos acontecimentos, leu a carta de Pierre com atenção. Depois comentou:

— Esse sujeito é pior do que eu pensava. Espero que você não tenha acreditado no que ele escreveu.

— Confesso que estou transtornado. Quando estávamos em Paris, Maria Eugênia mudou muito de comportamento. Estava revoltada, maldosa, fútil, irreconhecível. Ela saía com eles todas as noites. Bebia demais. Deve ter se deixado envolver por esse canalha.

Bernardo colocou a mão no braço de Henrique e disse em tom firme:

— Está claro que ele está com raiva e desejou vingar-se. Além de não haver conseguido o dinheiro, Maria Eugênia nos procurou e ele acabou preso. Acha pouco? Eu não acredito em nada do que está nesta carta.

Henrique suspirou nervoso. Só de imaginar Maria Eugênia nos braços daquele pilantra já o deixava fora de si.

— Eu também não acredito nele — interveio Adele. — Estou certa de que Maria Eugênia saberá desmentir tudo isso. O que me preocupa agora é o que vamos fazer para evitar que ele cumpra a ameaça.

— Vou entrar em contato com meu amigo do consulado. Trata-se de um advogado muito capaz, de confiança. Posso procurá-lo, falar da carta. Depois vou investigar os passos da esposa de Pierre. Penso que ainda está no Brasil. Sem dinheiro, não acredito que ela tenha voltado a Paris.

— O que pretende com isso? — perguntou Adele.

— Penso que, se ela deixou o marido, deve estar com medo ou com raiva dele. Pierre contou à polícia que ela havia ido embora e levado todo o dinheiro que lhes restava. Acredito que ela poderá nos ser de grande valia.

— Acha mesmo? — perguntou Henrique.

— Ela pode saber tudo sobre ele e nos contar.

— Talvez — tornou Adele.

— Não sabemos quanto dinheiro ela tinha. Pode até já ter acabado. Além disso, não fala nossa língua e pode estar em dificuldade — afirmou Bernardo.

Henrique ficou alguns instantes pensativo, depois disse:

— Quanto à carta, é melhor não responder.

— Também acho — concordou Bernardo.

— Não será perigoso? — indagou Adele, temerosa. — E se ele optar pelo escândalo? É um maneira de consolidar sua vingança.

— Não creio — tornou Bernardo. — Ele teria muito a perder agindo assim. Estou certo de que vai dar um tempo, talvez mandar outra carta. Precisamos agir depressa. Vou sair agora e tomar todas as providências.

— Boa sorte — desejou Adele.

— Mantenha-nos informados — pediu Henrique.

Bernardo concordou, despediu-se e saiu. A fisionomia triste de Henrique, sentado na poltrona, preocupou Adele.

— Vamos tomar um café — disse ela. — Você precisa reagir. Não pode deixar-se levar pelas maldades daquele canalha.

— Estou tentando. Mas está difícil.

— Procure se acalmar antes de falar com Maria Eugênia.

— Não vai ser fácil. Sempre que penso nisso, meu sangue ferve.

— Não está sendo precipitado?

— Não. Em Paris, várias vezes tentei mostrar a ela que Pierre era um escroque, mas ela o defendia ardorosamente. Nunca aceitou minhas ponderações. Devia mesmo estar apaixonada por ele.

— Por que se martiriza dessa forma? Esse sujeito como todo malandro, devia ser bom de conversa. É fácil imaginar que ele deve ter coberto Maria Eugênia de elogios, fazendo-a deslumbrar-se. Ela sempre foi retraída. Bonita, mas não acreditava na própria beleza.

— Pode ser. Lá ela parecia outra pessoa: altiva, vaidosa, ousada, provocante, segura de si.

— Ele soube envolvê-la, pensando em tirar proveito do nosso dinheiro. Não acredito nessa história de amor dele, e dela muito menos. Pense nisso, Henrique. Mesmo que ela tenha se deixado envolver, isso passou. Depois que Dionísio nasceu, ela tornou-se outra pessoa, mas desta vez para melhor. Isso você não pode negar.

— De fato. Mas é isso que dói mais. Nosso relacionamento nunca esteve tão bom. Ela é perfeita em tudo, carinhosa, e além do mais ama Dionísio de verdade. Confesso que eu temia que ela nunca viesse a aceitá-lo.

— Pense nisso. Acalme-se. Maria Eugênia o ama de verdade. Ninguém pode fingir um sentimento desses o tempo todo. Ela tem dado constantes provas de quanto ama você e Dionísio. Não é justo que você esqueça isso e acredite nas palavras de um desclassificado.

Ela levantou-se, aproximou-se do genro, colocou a mão em seu ombro e continuou:

— Venha, vamos tomar um café. Você precisa comer alguma coisa.

Ele acompanhou-a pensativo. Tomaram café. Para contentá-la, Henrique comeu alguns biscoitos.

Adele desviou o assunto, perguntando sobre o encontro de negócios que ele tivera pela manhã. Com isso, mergulharam nos assuntos das empresas.

Uma hora depois, Bernardo voltou. Adele e Henrique o rodearam ansiosos.

— Primeiro fui falar com Adauto e o encarreguei de procurar Jamille. Foi ele quem ficou vigiando o hotel e viu quando ela saiu e tomou o ônibus. Ele foi até a empresa de ônibus ver se descobre alguma coisa. Depois fui ver meu amigo no consulado. René ouviu-me atentamente. Em seguida ligou para Paris e falou com a polícia. Pierre continua preso, e parece que a suspeita de assassinato está cada dia mais forte. Há uma amiga da moça morta que prestou depoimento contra ele. Pierre está encrencado e não sairá tão cedo.

— O que faremos agora? — perguntou Adele.

— Temos que esperar — respondeu Bernardo. — Vamos ver se Adauto descobre alguma coisa.

— Vou esperar no escritório. Preciso me ocupar — disse Henrique. — Se souberem de mais alguma coisa, liguem.

— Fique calmo, tudo vai ficar bem — disse Adele.

— Isso mesmo — reforçou Bernardo. — Enquanto as notícias não chegam, vamos continuar tentando achar uma solução melhor.

Henrique os abraçou e saiu. O apoio de Adele, a ajuda de Bernardo tiveram o dom de acalmá-lo um pouco. Talvez tivesse se precipitado, dado demasiado crédito às palavras de Pierre. Ele não merecia confiança.

Maria Eugênia, ao contrário, depois que voltaram de Paris, nunca lhe dera motivos para suspeitar de seu afeto.

Durante o trajeto, pensou que talvez fosse melhor não contar nada a ela. Mas não sabia se conseguiria ficar calado. De volta ao escritório, esforçou-se para mergulhar no trabalho e esquecer um pouco a preocupação.

Passava das cinco quando Bernardo ligou.

— E então? — indagou Henrique.

— Bem, Adauto conversou com o motorista que trabalha no horário em que Jamille deixou o hotel. Ele lembrou-se dela porque ela foi até o fim da linha e tentou conversar com o cobrador, que teve dificuldade para entender o que ela dizia. Por fim, um dos passageiros, que ouviu a conversa, entendeu que ela perguntava se sabiam de uma pensão modesta. Eles indicaram uma nas proximidades. Mas o motorista não sabe se ela foi mesmo para lá.

— E Adauto foi até a tal pensão?

— Sim. De fato, ele encontrou-a, mas não a abordou porque não fala francês e pediu-me que arranjasse um tradutor. Não deseja assustá-la.

— Eu gostaria de falar com ela.

— Eu também. Passarei aí dentro de quinze minutos e iremos juntos.

Henrique desligou o telefone satisfeito. Avisou a secretária que iria embora e desceu para esperar Bernardo. Ele chegou antes do tempo previsto e ambos se dirigiram ao local onde Adauto os esperava.

— E então? Ela está lá dentro? — indagou Bernardo.

— Está. Saiu, comprou algumas coisas e voltou.

— Nós dois vamos entrar — disse Bernardo. — Você continua vigiando. Não sei se convém que ela o conheça, pelo menos por enquanto.

Eles entraram e perguntaram por Jamille, mas a mulher que os recebeu disse que não conhecia ninguém com esse nome. Então Henrique explicou que era uma mulher francesa e descreveu-a.

— Ah! Vocês estão falando da professora Claire.

— Professora?

— Ela dá aulas de francês. De português sabe pouco, mas dizem que é ótima para ensinar francês. Tem muitos alunos.

— Ela está? — indagou Bernardo.

— Está. Quer que vá chamá-la?

Henrique interveio:

— Sou amigo dela há muito tempo. Temos muitas coisas para conversar. Prefiro ir ao quarto dela. Onde é?

— Venham comigo.

Eles a acompanharam, subiram à escada e seguiram por um corredor. Pararam diante de uma porta. A mulher bateu, dizendo:

— Claire, visita para você.

Ninguém respondeu. Ela bateu mais forte e por fim a porta abriu um pouco e o rosto de Jamille apareceu pela fresta. Ela perguntou:

— Quem é?

Henrique adiantou-se, dizendo em francês:

— Sou eu, Jamille, o marido de Maria Eugênia. Preciso muito falar com você.

— Vá embora — respondeu ela em francês. — Não tenho nada a dizer. Há muito me separei de Pierre. Seja o que for que ele tenha feito, não tenho nada com isso.

— Eu sei — respondeu Henrique. — Não desejamos fazer-lhe mal. Precisamos da sua ajuda, e podemos ajudá-la também.

Ela abriu a porta e eles entraram. O quarto modesto, as roupas de Jamille não lembravam nem de longe a vida faustosa que levava em Paris.

Ela fechou a porta e olhou em volta dizendo:

— Vejam a que ponto fiquei reduzida por causa de Pierre. Eu o odeio. Ele desgraçou minha vida.

— Este é o Dr. Bernardo, advogado, meu amigo.

Bernardo apertou a mão que ela lhe estendia e disse:

— Não estou aqui como advogado, mas como amigo.

— Sentem-se, por favor — pediu ela designando um sofá onde eles se acomodaram.

Jamille pegou uma cadeira e sentou-se na frente deles. Dirigindo-se a Bernardo, comentou:

— Quando eu ainda estava com Pierre no hotel, você foi falar com ele.

— Sim — respondeu ele. — Você deve saber que ele inventou uma história para arrancar dinheiro de Maria Eugênia.

— Sei. Mas nunca concordei com isso. Eu sabia que não ia dar certo. Fiz muitas coisas em minha vida, mas nunca fiz nada contra a lei. Não quero me envolver com a polícia. Quando escutei o que você dizia a Pierre, descobri que a polícia francesa estava atrás dele e fiquei apavorada. Foi então que tomei a decisão de deixá-lo.

— Você sabe por que a polícia o estava procurando?

— Sei. Suspeita de assassinato. Ele se diz inocente. Houve um tempo em que acreditei. Mas depois comecei a juntar os fatos e cheguei à conclusão de que ele pode ser culpado. Tive medo de ser enquadrada como cúmplice.

— Se você tivesse ficado com ele, isso realmente poderia ter acontecido. Mas seu desaparecimento preocupou a polícia. Eles suspeitam que você tenha sido assassinada também.

Ela persignou-se, dizendo:

— Deus me ajude! Que horror!

— Felizmente isso não aconteceu — disse Henrique.

— O que aconteceu com ele?

— Está preso em Lyon, à espera do julgamento. A polícia está juntando provas. Você acha que ele teria mesmo assassinado a moça?

Ela deu de ombros:

— Não sei. Ele teve um caso com ela. Ficou enrabichado. Nosso casamento era livre. Tanto eu quanto ele podíamos manter relações sexuais com outros parceiros. Isso não significava nada para nós. Mas com ela Pierre se enrolou. Ele só queria ficar com Nicole, deu na vista e eu cheguei a chamar a atenção dele. Ela era livre e não gostava que ele ficasse pegando no pé, vigiando com quem ela saía. Até que uma dia ela apareceu morta no quarto onde morava.

— Como ele reagiu? — indagou Bernardo.

— Ficou assustado. Eu perguntei se havia sido ele. Na véspera eu o tinha visto muito nervoso, andando de um lado para o outro, não se podia falar com ele. Naquela noite, saí com algumas amigas e quando voltei o dia já estava amanhecendo. Ele não estava em casa. Chegou pouco depois, eu já estava deitada. Ele fechou-se no banheiro e ficou lá durante muito tempo. Ouvi o barulho do chuveiro. Depois, não se deitou. Ficou sentado na poltrona da sala. Eu peguei no sono, estava cansada.

— O que aconteceu depois? — indagou Henrique.

— Dois dias depois estourou a bomba. O corpo dela foi encontrado no quarto, mas, segundo o laudo da polícia, ela havia sido morta na noite a que me referi. Confesso que isso mexeu muito comigo. Tive medo de que ele houvesse cometido aquele crime. Falei com ele, que negou tudo e me proibiu de falar sobre isso. Ele segurou meu braço e disse: “Nunca mais repita isso. Sou inocente. Quer que polícia suspeite de mim? Ninguém pode saber do meu relacionamento com ela”. Pensei que talvez eu estivesse errada. Pierre não me parecia capaz de cometer um crime daqueles. Mas um mês depois ele foi intimado para depor e ficou apavorado. Então preparou nossa vinda para o Brasil.

— O que ele lhe disse na ocasião? — perguntou Henrique.

— Bem, ele contou a história da barriga falsa de Maria Eugênia e disse que poderia lucrar muito dinheiro com isso. Eu duvidei. Nunca acreditei muito nisso. Quando estivemos em sua casa, vi como Maria Eugênia tratava o filho. Jamais teria tanto apego se o menino fosse de outra mulher. Pierre estava blefando. Fiz tudo para demovê-lo, mas ele insistia. E deu no que deu.

— O que pretendiam fazer se recebessem o dinheiro? — indagou Bernardo.

— Voltar à França não estava nos planos dele. Pretendia procurar um lugar onde pudéssemos ter uma vida boa, luxuosa, como sempre tivemos.

— Mas você preferiu deixá-lo e trabalhar para viver — lembrou Henrique.

— É. Quando deixei o hotel, não sabia o que fazer, nem para onde ir. Antes eu peguei o dinheiro todo. Achei certo, uma vez que foi ele quem botou fora todo o nosso dinheiro, no jogo e em outras coisas mais. Quando cheguei aqui, fui recebida por pessoas simples, mas bondosas, que me acolheram com simpatia, me ajudaram. Eu nunca trabalhei e não sabia como fazer isso. Uma estudante que mora aqui sugeriu que eu desse aulas e eu aceitei. Ela mesma arranjou-me alguns alunos. Foi então que comecei a aprender o que é viver.

— Você sentiu-se útil — disse Henrique.

— Mais do que isso. O dinheiro que ganhei não era muito, mas teve um sabor diferente. Eu me senti viva digna. As pessoas me tratavam com respeito, me convidavam para participar de suas vidas, fiz amigos, conheci famílias. Eu mudei.

— Você está com uma aparência melhor, remoçou — tornou Henrique.

— Por isso peço-lhes que me deixem em paz. Não quero mais me envolver com Pierre nem viver nada daquela vida. Estou feliz aqui como nunca fui em toda a minha vida. Tenho pensado muito e hoje percebo quanto eu estava errada.

— Como eu disse, não queremos prejudicá-la — disse Henrique, estendendo-lhe a carta de Pierre.

Ela a apanhou e, à medida que lia, seu rosto se contraía. Por fim, entregou-a a Henrique, dizendo:

— Isso é bem dele. É bom em inventar histórias, desde que possa tirar algum proveito delas. Espero que não acredite em nada do que ele diz aí.

— O que sabe a respeito? — perguntou Henrique.

— O suficiente para dizer que Maria Eugênia jamais gostou de Pierre. Ela gostava de sair, divertir-se, conhecer a noite de Paris, brilhar nas festas e nos teatros da moda, mas não era uma mulher devassa. Ao contrário. Muitas vezes eu a vi rodeada por homens que se sentiam atraídos pelo seu brilho. Mas ela apenas ria, e nunca se interessou por nenhum deles.

— Acha que ele está mentindo?

— Tenho certeza. Ele inventou isso para vingar-se dela por não lhe ter dado o dinheiro. Isso é muito dele.

Henrique respirou aliviado. O que Jamille dizia combinava mais com o temperamento de Maria Eugênia.

— Obrigado por nos ter recebido. Gostaria de retribuir sua gentileza, oferecer-lhe uma ajuda. Talvez uma casa em um lugar melhor, mais de acordo com seu nível.

— Não faça isso comigo. Eu preciso viver aqui, aprender lições de simplicidade. Não quero dizer que morar bem, no luxo, no conforto seja um mal, ao contrário. Mas no momento, para mim, é muito proveitoso viver aqui, onde tenho aprendido a apreciar amigos sinceros, que têm prazer em ficar do meu lado. Obrigada por querer me ajudar. Se Maria Eugênia me perdoar, eu gostaria até de conservar sua amizade. Mas, no momento, prefiro viver aqui.

Henrique levantou-se:

— Vou deixar meu cartão. Se precisar de alguma coisa, ligue.

Eles despediram-se e saíram.

— Vamos embora — disse Bernardo a Adauto — Não temos mais nada a fazer aqui.

Pouco depois, Bernardo e Henrique despediram-se de Adauto e foram para o carro. Bernardo deixou Henrique no escritório e despediu-se, dizendo:

— Esqueça este desagradável incidente. Vá para casa em paz, abrace sua mulher com o carinho de sempre.

Ele se foi e, pouco depois, Henrique pegou o carro e foi para casa. Ainda não estava seguro sobre qual atitude tomar. Pensaria quando chegasse ao lar.

 

            Rafael e Marina saíram do centro de estudos espirituais comentando a aula da noite. Fazia alguns meses que eles estavam freqüentando essas aulas, e a cada dia sentiam-se mais entusiasmados.

Durante esse tempo, eles ficaram mais unidos e apaixonados. Marina nunca havia amado antes, e o fato de ser correspondida enchia seu coração de alegria. A cada dia apreciava mais as qualidades de Rafael, sua inteligência, sua maneira carinhosa de ser que não anulava sua firmeza quando necessário.

Naquela noite, como faziam quando saíam da aula, foram tomar um lanche, durante o qual a conversa decorreu animada. Foi na volta, dentro do carro parado diante da casa dela, que ele a abraçou e beijou seus lábios com amor. Depois disse, olhando nos olhos dela:

— Quero casar com você. A cada dia fica mais difícil ir embora. Quero passar a seu lado o resto dos meus dias. Vamos marcar a data.

Marina hesitou um pouco e ele perguntou:

— Você não quer?

— Quero. Eu amo você.

— Senti que você hesitou um pouco, mas disse que quer. Há alguma coisa que a está preocupando?

— Eu trabalhei toda a minha vida para reunir a família, e agora não gostaria de separar-me deles.

— Não pretendo separá-la deles. Eu adoro aqueles dois. Tenho possibilidade de comprar uma casa maior, onde poderemos viver todos juntos e com mais conforto. O que me diz?

Ela sorriu satisfeita e respondeu:

— Eles também o adoram. Acho que será a solução perfeita.

— Amanhã falaremos com eles e combinaremos detalhes.

Trocaram mais alguns beijos e depois se despediram. Marina entrou e a casa estava às escuras. Foi direto para o quarto, mas sentia-se inquieta. Preparou-se para dormir e deitou-se. Porém um pensamento a incomodava.

Ela amava Rafael, tinha certeza de que seria feliz com ele, mas o que ele pensaria se um dia descobrisse seu segredo?

Ele a tinha em conta de uma mulher de coragem que havia batalhado e conquistado posição com o próprio esforço. Mostrava-se orgulhoso de vê-la obter sucesso profissional. O que diria se descobrisse que ela fizera aquele contrato com Adele, sujeitando-se a ter um filho com um desconhecido e renunciar ao bebê em troca de dinheiro?

Havia algum tempo que esse pensamento a incomodava. Entendia-se tão bem com Rafael, eram tão afins, que um falava o que o outro estava pensando. Guardar esse segredo até para ele começou a ficar pesado, fazendo-a sentir-se mal. Várias vezes pensou em abrir seu coração, em contar-lhe tudo, mas recuava. Era um segredo que prometera guardar por toda a vida e que envolvia outras pessoas.

E se um dia ela e Rafael não se entendessem mais, se separassem não correria o risco de que ele, por qualquer razão, acabasse falando demais?

Tinha certeza de que ele era um homem sério, honesto, interessado em agir no bem. Mas em sua profissão havia visto vários casos de separação judicial em que um casamento que começara perfeito acabara em brigas e muitos sofrimentos.

Ela não queria ocultar dele seu segredo, mas ao mesmo tempo temia as conseqüências de dizer a verdade. E se ele não aceitasse e rompesse o compromisso?

Mil pensamentos passavam pela sua mente e ela revirava-se no leito, insone. Por fim, decidiu rezar, pedir ajuda aos espíritos de luz. Sentou-se na cama, elevou o pensamento e fez sentida prece, pedindo inspiração.

Depois, deitou-se novamente. Então lembrou-se de Eunice, em quem confiava, e decidiu procurá-la no dia seguinte para pedir-lhe ajuda. Tinha certeza de que ela saberia mostrar-lhe o que precisava fazer.

Tendo decidido isso, sentiu-se mais calma, virou-se para o lado e finalmente adormeceu.

Henrique chegou em casa e encontrou Maria Eugênia bem disposta, brincando com Dionísio. Beijou-os ligeiramente na face e foi para o quarto.

Ela pediu que Elvira tomasse conta de Dionísio e foi ter com ele. Aproximou-se dizendo:

— Você não está bem. Aconteceu alguma coisa?

— Não aconteceu nada. Estou um pouco indisposto.

Ela aproximou-se mais, abraçando-o e encostando o rosto em seu peito.

— Parece triste. Não gosto de vê-lo assim.

— Vai passar. Vou tomar um banho.

Ele foi ao banheiro e ela ficou esperando. Mais tarde, enquanto ele se vestia, ela ficou falando, contando as últimas gracinhas de Dionísio. Mas Henrique, olhar distante, parecia nem ouvir.

Ela aproximou-se dele, abraçando-o de novo, e tentou beijá-lo nos lábios. Henrique não suportou e desvencilhou-se dela.

Chocada, Maria Eugenia disse:

— Por que fez isso? Está zangado comigo?

Sem poder conter-se mais, Henrique tirou a carta de Pierre do bolso do paletó e entregou-a a ela, dizendo:

— Veja você mesma.

Com mãos trêmulas, ela apanhou a carta e, à medida que lia, seu rosto cobria-se de palidez. A surpresa foi tanta que ela se sentou na cama para não cair. Depois, começou a chorar convulsivamente.

Henrique não se conteve:

— Você não tem nada para dizer? Isso faz-me pensar que é verdade. Você ama aquele patife.

Essas palavras tiveram o dom de arrancar Maria Eugênia do choque e ela rebateu:

— Isso é mentira! Eu nunca amei Pierre. Ele quis vingar-se porque nós não quisemos dar-lhe dinheiro. Mamãe e o Dr. Bernardo sabem de tudo.

Henrique aproximou-se dela e colocou-lhe a mão nos ombros:

— Você diz que não o ama, mas pode me jurar que nunca teve um caso com ele?

Ela soluçava desesperada, sem conseguir falar, e ele continuou:

— Naquele tempo você estava irreconhecível. Parecia outra mulher, com raiva de mim por causa da gravidez arranjada. Várias vezes notei que você me odiava. Isso veio-me à lembrança ao ler esta carta.

Maria Eugênia meneou a cabeça negativamente e respondeu:

— Não é verdade. Eu sempre amei você. Eu estava ciúme.

— É absurdo. Eu nem conhecia a moça. Se a vir na rua, nem saberei quem é ela. Tudo foi feito de modo a não pôr em perigo nosso relacionamento. Foi apenas um negócio.

— Agora eu entendo isso. Mas naquele tempo eu morria de ciúme. Ficava imaginando você nos braços dela. Isso me atormentava. Mas eu nunca amei outro homem além de você.

Ele pareceu mais calmo e ficou pensativo por alguns instantes. Depois perguntou:

— Você não o amava, mas responda com sinceridade: teve um caso com ele? Foi assim que ele descobriu que usava barriga postiça?

Maria Eugênia levantou-se, respirou fundo, aproximou-se do marido e respondeu:

— Sim. Não posso negar isso. Eu estava revoltada, havíamos bebido. Fazia tempo que ele estava me cortejando. Uma noite, cedi aos seus impulsos. Acho que fiz isso por vingança, porque depois me senti menos rancorosa com relação a nosso caso. Mas eu juro: nunca amei Pierre.

Henrique sentou-se na cama, cabisbaixo e triste. Maria Eugênia apressou-se em dizer:

— Foi apenas uma vez. Mais tarde, arrependi-me muito. Odiei o que aconteceu. Depois que Dionísio nasceu, me dei conta de quanto eu fora mal-agradecida. Você me deu o privilégio da maternidade. Esse menino é tudo que eu mais amo nesta vida. Por favor, Henrique, me perdoe. Estou envergonhada, arrependida. Você sempre foi um ótimo marido. Eu é que me comportei como uma criança mimada e caprichosa.

As lágrimas desciam pelo rosto dela, mas Henrique, perdido em seu mundo íntimo, arrasado, triste, abalado, nem notava.

Ela colocou a mão sobre o ombro dele.

— Olhe para mim, Henrique. Diga que me perdoa.

— Deixe-me, Maria Eugênia. Preciso pensar.

— Por favor, sei que cometi um erro muito grave, mas naquele tempo eu estava louca. Você é testemunha de que eu mudei. Voltei a ser a pessoa que sempre fui ou ainda muito melhor do que antes. Diga que me perdoa.

— Agora não posso. Vou sair um pouco, esfriar a cabeça. Depois conversaremos.

Ele levantou-se, apanhou o paletó e saiu. Maria Eugênia atirou-se na cama, soluçando desconsolada.

 

Os dias que se seguiram foram um tormento para Maria Eugênia. Henrique não voltara a falar no assunto, mas afastara-se dela, indo dormir no quarto de hóspedes.

Ela tentara várias vezes quebrar o gelo, aproximar-se, conversar com ele, mas Henrique evitava-a e pedia que o deixasse em paz.

Não sabendo mais como proceder, Maria Eugênia foi à procura de Adele, para desabafar e pedir conselhos.

— Ele não fala comigo, mãe. Sai de manhã muito cedo e só volta tarde da noite. Não tem comido em casa. Vai para o quarto de hospedes e não atende quando bato à porta. Estou desesperada. Ele não quer mais saber de mim.

— Calma, minha filha. Precisa ter paciência. Infelizmente ele descobriu o que você fez e está sofrendo com isso. Perdeu a confiança. Questiona os próprios sentimentos.

— Se ele não me perdoar, não poderei mais viver.

— Não seja dramática. O que esperava depois do que fez?

Desesperar-se não vá, melhorar a situação. Pense que Henrique a ama, a admira por ser uma boa mãe. Dê um tempo para que ele reencontre o equilíbrio.

— Acha que isso vai acontecer?

— Henrique é um homem inteligente. Tem discernimento. Ama a família. Acredito que não vai destruir tudo por um momento de loucura que você cometeu. Depois, ele sabe que você está arrependida, que não voltará a fazer novamente. Tudo isso vai pesar e ele acabará perdoado. Nesses casos, o tempo é o melhor remédio. Você precisa ser paciente, esperar.

Apesar dos conselhos de Adele, Maria Eugênia não se acalmou. Chegou em casa e Dionísio correu a abraçá-la, querendo brincar. Porém ela não se sentia disposta para isso.

Abatida pelas noites mal dormidas, rosto vincado de preocupação, ela sentou-se no quarto do menino enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto.

Dionísio abraçou-a, dizendo triste:

— Mamãe tá zangada comigo?

Ela abraçou-o e apressou-se a responder:

—Não querido. Estou com dor de cabeça.

— Mamãe tá dodói — respondeu ele, alisando o rosto dela com carinho.

Elvira aproximou-se e Maria Eugênia pediu que ela levasse Dionísio para tomar lanche e depois o colocasse para dormir, como ele fazia todas as tardes. Depois foi para o quarto. Elvira levou o menino e depois de algum tempo foi procurá-la:

— Ele dormiu. A senhora não almoçou, não comeu nada. Posso buscar um lanche, um suco?

— Estou sem fome.

— Não pude ficar sem comer. Vou buscar assim mesmo.

Pouco depois, Elvira voltou e colocou a bandeja sobre a mesinha.

— Desculpe me meter, mas é que eu gosto muito da senhora. Vi que o Dr. Henrique tem dormido no quarto de hóspedes e que os dois estão tristes. Até Dionísio anda choroso e irritado.

— As coisas não estão bem entre nós — respondeu Maria Eugênia, triste.

— Tenho sentido que o ambiente aqui está tumultuado, triste. Por que a senhora não procura Dona Eunice? Ela pode ajudar.

— Acho que não tem remédio.

— Tudo tem remédio quando Deus ajuda. A senhora gostou dela.

— Gostei. Ela deu-me bons conselhos. Ela me passou o número do telefone, mas não sei se ainda o tenho.

— Eu sei de cor. Vou ligar e a senhora conversa com ela.

Elvira fez a ligação e passou o telefone para Maria Eugênia.

— Dona Eunice? É Maria Eugênia, mãe de Dionísio. Lembra-se de mim?

— Claro, minha filha.

— Aconteceram algumas coisas e eu gostaria de conversar com a senhora. Posso ir à sua casa?

— Você está angustiada, aflita... Prefiro que vá ao centro de estudos. Lá terei mais recursos para ajudá-la.

— A que horas poderei ir?

— Esteja lá às sete e meia. Vou dar-lhe o endereço. Não é longe daqui.

Maria Eugênia anotou tudo.

— Não deixe de ir — pediu Eunice. — Estarei esperando.

Ela agradeceu e desligou. Depois perguntou a Elvira:

— Sabe como funciona esse centro de estudos?

— É um lugar onde ela atende as pessoas. Eu já estive lá fazendo um tratamento espiritual. Foi muito bom. Se eu pudesse, iria com a senhora.

— Não. Você precisa ficar com Dionísio.

Cinco minutos antes da hora combinada, Maria Eugênia entrou no centro de estudos. Atendida por uma moça, deu o nome e foi conduzida a uma sala onde Eunice a esperava.

Vendo-a entrar, abraçou-a dizendo:

— Como está, minha filha?

— Mal, Dona Eunice. Meu casamento está desmoronando e não sei o que fazer.

— Sente-se. Vamos conversar.

— A culpa foi minha. Eu errei, agora estou pagando pelo meu erro.

— Não diga isso. Você está apenas aprendendo uma lição dura, porém necessária.

— Mas estou arrependida. Tenho certeza de que nunca mais farei aquilo novamente. Isso não basta?

— Não. A experiência, o conhecimento, têm seu preço. Ninguém conquista a sabedoria sem aprender o valor de cada sentimento.

— Preciso de seus conselhos. Não sei o que fazer.

Em poucas palavras, Maria Eugênia contou-lhe tudo entre lágrimas. Depois finalizou:

— Ele não fala comigo, está dormindo no quarto de hóspedes. Não quer me perdoar. Eu o amo muito. Nós vivíamos tão felizes!

— Vocês são felizes. Se amam e o amor cobre a multidão de pecados. Vamos confiar. Você está sendo sincera. Não se desespere. Não deixe que um momento de desvario do passado se transforme em uma tragédia.

— Mas ele não me perdoa.

— Por acaso você já se perdoou?

— Eu?! Claro que não!

— Esse é o primeiro passo.

— Mas eu não posso me perdoar. Como pude ser tão cega? Tinha um marido maravilhoso e não valorizei isso; acabei me envolvendo com um patife, chantagista, interesseiro.

— Não seja tão rigorosa com você. Agora tem o propósito de não cometer novamente o mesmo erro. É sinal de que já entendeu o que a vida quis ensinar-lhe. Essa atitude é fundamental.

— Mas Henrique não pensa assim.

— Essa é a cabeça dele. Vamos ver como ele reage. É bom saber que não adianta você insistir, querer que ele mude a forma de ver. O que poderá funcionar é você mudar sua atitude interior para com você. No momento em que compreender que você foi fraca porque ainda não tinha discernimento para agir melhor, que hoje agiria de outra forma, e deixar que sua generosidade a perdoe, vai se sentir aliviada. O desespero desaparecerá, dando lugar a uma espera serena dos acontecimentos.

— É claro que hoje eu não faria mais. Tenho certeza disso.

— Então, minha filha, seja benevolente. Compreenda que você cresceu. Você era uma menina ingênua, mimada, tímida, que não tinha coragem de ousar diante da personalidade de sua mãe, uma mulher que brilha porque tem carisma, beleza, luz. Mas você também tem dentro de si mesma tudo isso. Seu espírito é luz, beleza, brilho, capacidade. Basta aprender a valorizar seus potenciais e permitir que eles venham para fora.

Maria Eugênia soluçava sem parar, e Eunice continuou:

— Você não pode sentir-se diminuída porque errou. Esse foi o preço do crescimento. Agora você é uma mulher mais experiente, e isso deve confortá-la.

— Como seria bom que Henrique pensasse como à senhora!

— Faça sua parte. Mostre a ele que esta consciente e sabe o que quer daqui para frente.

— Como farei isso?

— Não se condene mais. Respeite-se. Pense em você com amor. Não force a situação com seu marido. Dê há ele tempo para refletir. Aja como se não houvesse acontecido nada. Tenha uma postura digna.

— Sinto que tem razão. Acha que conseguirei?

— Tenho certeza. Vou encaminhá-la a um tratamento para reequilibrar suas energias. Quero que venha duas vezes por semana receber este tratamento. Estou certa de que esta noite já dormirá melhor.

Ela fez algumas anotações e entregou-lhe o papel.

— Vamos confiar em Deus.

Maria Eugênia agradeceu e saiu.

Uma moça esperava-a do lado de fora e ela mostrou-lhe o papel. Em silêncio foi conduzida a uma sala em penumbra, iluminada apenas por uma luz azul, onde havia algumas cadeiras atrás das quais se encontrava uma pessoa em pé, em oração. Uma música suave enchia o ar, transmitindo paz ao ambiente.

Maria Eugênia foi conduzida a uma cadeira e sentou-se. A moça que estava atrás dela postou-se em sua frente, estendeu as mãos para o alto por alguns instantes, depois colocou-as sobre a cabeça de Maria Eugênia.

Essa moça era Marina. Havia algum tempo que trabalhava como voluntária no centro de estudos, doando energias, e sentia-se muito bem participando desse trabalho.

Olhos fechados, concentrada na oração, ao postar-se diante da pessoa a quem deveria doar energias, ela foi envolvida por forte emoção. Controlou-se e procurou mentalizar luz e amor sobre a paciente, que soluçava sentidamente.

Quando terminou a doação foi que abriu os olhos e assustada reconheceu que, já um pouco mais calma sentada à sua frente estava Maria Eugênia, olhos molhados pelas lágrimas.

Emocionada, Marina tocou levemente o braço de Maria Eugênia para indicar que o tratamento havia terminado. Ela levantou-se e Marina perguntou baixinho:

— Sente-se melhor?

— Sim. Obrigada.

Depois que ela saiu Marina não pôde continuar.

— Vou sair um pouco — explicou à dirigente da reunião.

Ela deixou a sala e foi até o toalete, buscando se acalmar. Assim que entrou, viu Maria Eugênia, que diante do espelho tentava refazer a maquiagem. Fez menção de sair, porém ela já a tinha visto e perguntou:

— Foi você quem me atendeu naquela sala?

— Foi.

— Preciso agradecer. Quando cheguei aqui hoje, estava desesperada. Agora, graças a Dona Eunice e a você, estou muito melhor. Que Deus as abençoe.

Comovida, Marina respondeu:

— Não precisa agradecer. Vindo aqui, eu também tenho recebido muito mais do que poderia imaginar.

Maria Eugênia parou em frente à Marina e perguntou:

— Ainda parece que chorei?

Marina sorriu.

— Melhorou bem.

— Obrigada. Preciso ir. Estou fora de casa há muito tempo e meu filho é muito apegado. Deve estar sentindo minha falta. Você tem filhos?

— Ainda não. Mas vou me casar logo e pretendo ter.

— É maravilhoso. Vou indo, mas em breve nos veremos novamente. Vou fazer meu tratamento certinho.

— Vá com Deus.

Depois que ela se foi, Marina respirou fundo. O que a vida estava fazendo com ela, colocando Maria Eugênia em seu caminho?

Com tantos lugares para ir, tantas pessoas naquela casa, porque Maria Eugênia se sentara exatamente onde ela estava?

O que estaria acontecendo para que ela estivesse tão aflita e tivesse chorado tanto?

Mil pensamentos sem resposta brotavam em sua mente. Tentou afastá-los. Elas nunca poderiam aproximar-se. Havia prometido a Adele que nunca faria contato com eles.

Acontecera por acaso, e ela não deveria dar tanta importância a isso. O fato de Maria Eugênia freqüentar o centro de estudos não significava que manteriam uma relação de amizade. Isso nunca poderia acontecer entre elas.

Um sentimento de perda envolveu-a e ela procurou empurrá-lo para fora. Maria Eugênia dissera que o filho era apegado a ela. Sinal de que se amavam de verdade. Esse pensamento confortou-a.

Talvez fosse melhor deixar de ir ao centro de estudos por algum tempo. Mas tanto ela quanto o resto da família estavam tão entrosados lá, que logo ela descartou essa idéia.

Ofélia e Cícero estavam na escola estudando mediunidade e sentindo-se muito felizes. Rafael e ela preferiam as pesquisas científicas e sentiam-se bem doando energias como voluntários.

Marina esforçou-se para não dar demasiada importância àquele encontro. Ninguém poderia saber, e tudo ficaria como estava.

Quando deixou o toalete, encontrou Rafael no corredor.

— Você está bem? Disseram que saiu antes de acabar.

— Não foi nada. Eu me comovi no atendimento a uma pessoa e fui espairecer um pouco. Estou bem.

Ele a abraçou e saíram. Foi mais tarde, deitada em sua cama, que Marina voltou a pensar em Maria Eugênia.

Apesar de não querer dar importância àquele encontro, intimamente se perguntava:

“Por que a vida colocara Maria Eugênia em seu caminho?”

Talvez fosse para lembrá-la de que, mesmo tentando esquecer, ela tivera aquele filho. Por que faria isso?

Nos últimos tempos ela se questionava se seria justo para com Rafael casar-se com ele sem lhe contar esse segredo. O que ele pensaria dela se um dia a verdade viesse à tona? Como conservar a confiança sabendo que ela mentira sobre um fato tão importante?

Sua cabeça estava cheia de dúvidas. Ela ainda não tinha a certeza de que seria melhor contar e enfrentar a reação dele. Tinha medo de fazê-lo partilhar desse segredo que não lhe pertencia, e depois, se algum dia se separassem, ele pudesse revelá-lo a outros. Rafael era confiável. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que a garantia de um segredo está em nunca o confiar a ninguém.

— Não vou contar nada — decidiu.

Esforçou-se para dormir.

 

            Maria Eugênia chegou em casa decidida a conversar com Henrique. Como no dia anterior, ele esteve fora durante o dia inteiro e não foi para casa na hora de jantar.

Apesar de triste, ela procurou agir como de costume: brincou com Dionísio, esforçou-se para expulsar da mente os pensamentos de medo e de insegurança.

Ela havia errado, mas entendia que naquele tempo era inexperiente e estava insegura, julgando-se menos pelo fato de ser estéril, querendo provar a si mesma que era capaz de ser amada mesmo assim.

Era vaidade, ilusão. Mas reconhecia que, dentro desse processo, não conseguira agir melhor. Já agora, depois de tudo, estava certa de que não teria se deixado levar por Pierre nem por ninguém. Arrependia-se, mas isso não mudaria o fato em si e seria impossível voltar atrás. Por isso não adiantava nada continuar martirizando-se pelo que não tinha remédio.

Ela estava certa de que durante todos aqueles anos de casamento tinha dado provas suficientes de amor ao marido. Se ele não pudesse perdoar, compreender seu momento de fraqueza, ela não poderia fazer mais nada. Apesar da tristeza que esse pensamento lhe provocava, Maria Eugênia sentia que não lhe restaria outro caminho.

Passava das onze quando finalmente Henrique chegou. Vendo-a lendo na sala, disse um boa-noite e subiu para o quarto de hóspedes.

Maria Eugênia levantou-se e foi atrás dele. Bateu à porta e entrou. Ele havia tirado o paletó e olhou-a surpreendido.

— Quero falar com você — disse ela com voz calma.

— Estou cansado. Quero dormir.

— Serei rápida.

— Está bem.

Ele designou uma poltrona e sentou-se na outra.

— Pensei em tudo quanto aconteceu e preciso dizer-lhe que lamento muito ter agido daquela forma. Essa atitude fez-me rever toda a minha adolescência e juventude, quando me sentia incapaz de ser para meus pais a pessoa que eles esperavam que eu fosse. O brilho e o sucesso de minha mãe, a quem eu sempre admirei, me fazia desejar ser igual a ela, mas ao mesmo tempo eu olhava para mim e acreditava não ter capacidade para isso.

— Você sempre foi tímida — comentou ele.

— Não era timidez, era falta de fé em minha capacidade. Eu pensava que, por mais que fizesse, nunca conseguiria ser o que ela gostaria que eu fosse.

— Mas Adele nunca exigiu nada de você. Sempre a amou e a aceitou como você é.

— Isso eu percebi há bem pouco tempo. Mas na minha cabeça eu imaginava que para ser amada teria de ser igual, ou melhor, do que ela. Eu queria que ela me admirasse. Quando o conheci, me apaixonei, superei um pouco isso. Seu amor deu-me alegria e certa segurança, embora eu não houvesse mudado minha maneira de me ver. Depois do nosso casamento, ao invés de querer brilhar para agradá-la, acrescentei essa necessidade como condição a que você continuasse me amando.

— Eu não sabia que você se sentia assim...

— Eu dissimulava até para mim mesma. Quando descobri que não poderia ser mãe, fiquei arrasada. Senti-me aleijada e inútil. O fato de precisar ter um filho para assegurar a continuidade de mamãe como presidente das empresas fez-me sentir a última das mulheres. Pela primeira vez minha mãe dependia de mim para alguma coisa, e eu não tinha como atendê-la.

— Você não é culpada por isso.

— Mas eu me senti muito mal. A custo dominei o ciúme, a raiva daquela desconhecida que era mais competente do que eu, que podia dar-lhe o filho que tanto queríamos. Quando estávamos em Paris, eu odiava aquela barriga postiça, porque ela lembrava minha incapacidade.

— Por que nunca se abriu comigo? Eu teria compreendido.

— Era humilhante. E, depois, eu estava revoltada com a vida, com a situação, impotente para mudar os fatos.

Henrique passou a mão nos cabelos, pensativo, e pediu:

— Continue.

— Com o que estou dizendo não pretendo justificar o que fiz. A vontade de provar a mim mesma que as pessoas poderiam gostar de mim fez-me mergulhar na vaidade. Quando me recordo das festas, onde bebia demais, provocava a atenção dos homens propositadamente, sinto vergonha. Porém, a verdade é que nunca aceitei a corte de nenhum deles. O que aconteceu com Pierre foi um envolvimento ocasional, eu diria até certa curiosidade, que eu justificava como vingança por você ter se relacionado com outra.

— Isso me machucou muito, porquanto jamais imaginei que pudesse acontecer.

Maria Eugênia suspirou fundo e considerou:

— Em mim também está doendo. Principalmente agora, que posso ver com clareza quanto estava iludida, enganada. Descobri que dentro de mim há uma mulher que ama a família. Que, apesar de minhas fraquezas, tenho sido uma boa esposa, me dedicado a você oferecendo o melhor de mim, principalmente depois que Dionísio nasceu e eu aprendi o valor do amor materno. É um sentimento que encheu minha alma de felicidade, desde que tomei essa criança em meus braços e ele segurou meu dedo com sua mãozinha pequenina.

Henrique baixou os olhos tentando encobrir uma lágrima prestes a cair. Maria Eugênia, olhos brilhantes de emoção, continuou:

— Com ele descobri que o mais importante é o amor, porque ele alimenta nossa vida, dá motivação e faz com que tudo fique mais belo.

— Foi pena ter acontecido o que aconteceu.

— Eu lamento ter machucado você, mas ao mesmo tempo reconheço que essa experiência fez-me crescer e enxergar as coisas boas que a vida me deu e que antes eu não via. Você, mamãe e até a desconhecida que concordou em emprestar seu corpo para que eu pudesse desfrutar esta conquista merecem minha gratidão. Dionísio ensinou-me a viver e a valorizar minha vida.

Henrique, cabeça baixa para que Maria Eugênia não percebesse sua emoção, não sabia o que responder.

— Era isso que eu precisava dizer-lhe. Eu continuo sempre a mesma mulher que o ama e que ama nosso filho. Nada é mais importante para mim do que continuarmos juntos como sempre. Mas eu sei que essa é uma decisão que depende de você. Pense, analise. Se puder entender e perdoar, estarei esperando. Mas, se sentir que não é capaz de esquecer, então aceitarei sua decisão sem reclamar. Só peço que não me separe de Dionísio. Isso eu não poderia suportar. A minha parte eu já fiz, agora fica com você. Tem todo o tempo para decidir.

Ela levantou-se e deixou o quarto. Henrique, tomado de emoção, deixou que o pranto corresse pelo seu rosto e os soluços desabafassem sua mágoa durante algum tempo.

Depois, um tanto aliviado, sentiu-se cansado, foi ao banheiro, lavou o rosto, colocou o pijama e deitou-se. Queria dormir descansar. Parecia-lhe que estava vazio incapaz de raciocinar. Fechou os olhos e em seguida adormeceu.

Maria Eugênia passou no quarto de Dionísio, que dormia, beijou seu rostinho corado e foi para seu quarto.

Apesar de a situação continuar a mesma, ela sentia-se diferente. Dentro dela despontara uma força viva que a fazia levantar a cabeça com dignidade. Pela primeira vez estava segura de que adotara a postura adequada.

A consciência de seu erro, a análise de seus sentimentos haviam acabado com o peso da culpa que a atormentava, deixando em seu lugar a certeza de que ela não era mais a criança dependente da aprovação da mãe, incapaz de resolver seus próprios conflitos, mas sim uma mulher corajosa, consciente de sua própria força para escolher o caminho mais adequado.

O que ela mais queria era que Henrique a compreendesse e perdoasse. Mas, se ele não conseguisse fazer isso, ela seria forte o bastante para aceitar sua decisão.

A certeza de seu amor por ele confortava-a e ao mesmo tempo dava-lhe coragem para continuar esperando que ele conseguisse vencer o orgulho e deixasse o amor falar mais alto. Pensando no amor que os unia, ela sentia um brando calor envolver seu coração.

Aprontou-se para dormir. Antes de deitar-se, ajoelhou-se ao lado da cama e fez uma oração, agradecendo a Deus por haver lhe mostrado todas essas coisas e haver lhe permitido experimentar a grandeza do amor em sua vida. Depois, deitou-se e em seguida adormeceu.

Nos dias que se seguiram, Maria Eugênia procurou ser natural, fazendo tudo que sempre fizera. Henrique continuou calado, só conversando o essencial, não vindo almoçar em casa.

Em seus encontros de trabalho com Adele e Bernardo, ele não mencionara mais o assunto. Ela, discreta, esperava que ele se abrisse.

Uma tarde, Henrique estava no escritório de Adele quando Bernardo chegou dizendo:

— Hoje conversei com René. Tenho notícias de Pierre.

Os dois o olharam curiosos e ele continuou:

— Parece que a situação dele se complicou. A testemunha de acusação foi concludente e seu depoimento coincide com alguns dados que a polícia tinha. O julgamento está marcado para daqui a uma semana.

Adele ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:

— Ele deve estar com medo. Você acha que ele poderá cumprir a ameaça que fez contra nós?

— Não creio. Primeiro, é a palavra de um marginal, possível assassino, contra a de pessoas de bem, como vocês. Depois, ele deve estar tão preocupado em defender-se que não terá tempo de pensar em outra coisa.

— Você acha que, se descobrirem que Jamille está viva, isso poderá ajudá-lo em sua defesa?

— Quanto ao crime em julgamento, não. Eu conversei com René sobre ela, mas ele prefere só falar sobre isso à polícia francesa depois do julgamento. Por enquanto, apesar das dúvidas quanto ao paradeiro de Jamille, não há ainda uma acusação formal sobre seu desaparecimento.

Adele voltou-se para Henrique e perguntou:

— Você está tão calado... O que acha?

— Quero esquecer que esse sujeito existe.

— Eu também, mas no momento ele está nos ameaçando. Mesmo que não o faça, é uma possibilidade que não podemos ainda desprezar.

— Esse sujeito nunca me enganou. Mesmo sob o verniz social, nunca o aceitei.

— Noto que você ainda não superou o que aconteceu — tornou Adele. — Conversou com Maria Eugênia sobre isso?

— Sim. Mostrei-lhe a carta de Pierre naquele mesmo dia.

Adele olhou-o, tentando penetrar seus pensamentos. Como ele continuasse calado, ela disse:

— Ela não me procurou, por isso pensei que você não lhe tivesse dito nada. Mas, se ela sabe e não veio falar comigo, deve estar tão arrasada que não tem coragem para nada.

Henrique olhou-a sério e respondeu:

— Você está enganada. Quando lhe contei, ela ficou desesperada. Mas eu precisava refletir. Então, decidi me afastar dela durante o dia e ficar no quarto de hóspedes à noite.

— Não entendo por que Maria Eugênia não me procurou. Ela deve estar doente, deprimida.

— Não está. Uma noite ela quis conversar comigo. Abriu-se, falou de seus conflitos íntimos na juventude e, por fim, disse que lamenta seu erro, porque machucou a nós dois, mas entendeu também que esse erro a fez amadurecer, perceber todas as coisas boas que a vida lhe deu. Por fim, disse que não ia me pressionar para perdoá-la porque isso é uma coisa que só depende de mim. Disse que ela sempre foi uma esposa boa, fiel, mãe dedicada do Dionísio, a quem ama como filho, e que está disposta a aceitar qualquer que seja minha decisão. Só me pediu que não a separe do menino.

Quando ele se calou, Adele, que ouvia surpreendida, olhos brilhantes de emoção, respondeu:

— Finalmente minha filha se tornou mulher!

— Ela me surpreendeu — continuou Henrique. — Mas, por outro lado, jogou todo o peso da decisão sobre mim. Foi ela quem errou. Eu não fiz nada.

— Mas ela já se colocou, e o fez com dignidade. Tenho certeza de que o que Maria Eugênia mais deseja é que você esqueça o que aconteceu e volte para sua família com o mesmo carinho. Mas ela sabe que isso só poderá acontecer quando você vencer seu orgulho, seu ciúme, sua mágoa. E isso é um trabalho interior que só depende de você. Ela não tem como fazer isso.

— Do jeito que você fala, parece fácil, mas eu não sei o que fazer. Quando penso nela com aquele patife, meu sangue ferve.

Adele aproximou-se e colocou a mão em seu braço.

— Dê um tempo para você. Enquanto não tiver certeza do que fazer, não faça nada.

— Sei que é um assunto de família — interrompeu Bernardo —, mas, como vou fazer parte dela, posso dar uma sugestão?

Henrique olhou-o surpreendido.

— Pode claro. Como amigo, é como se você já fosse mesmo da família.

Bernardo olhou para Adele e pediu:

— Posso contar?

— Eu conto. Eu e Bernardo decidimos viver um namoro que não pudemos ter na juventude. Vamos nos casar.

O rosto de Henrique iluminou-se um pouco.

— Ainda bem que temos uma boa notícia! Eu sempre me perguntei por que vocês ainda não tinham percebido quanto seriam felizes juntos. Parabéns!

— Obrigado. Mas vamos à minha sugestão. Tenho um amigo psiquiatra, o Dr. Rafael Vilardi. Ele é maravilhoso na solução de problemas emocionais.

— Eu não estou doente. Estou arrasado, mas não louco — reclamou Henrique.

— Não seja preconceituoso. Ele é um profissional experiente que pode ajudá-lo a entender melhor suas emoções. Depois, sinto que você e Maria Eugênia se amam. E têm um filho maravilhoso que precisa do apoio de ambos. Vocês estão sofrendo por um acontecimento que, apesar de doloroso, passou e não tem nenhuma possibilidade de se repetir. Tomar uma decisão errada neste momento pode fazer com que sejam infelizes pelo resto da vida.

— Eu não sei se quero me separar dela.

— Ótimo. Mas que vida será a de vocês se continuarem juntos e você guardar no coração tanta mágoa? Acha que seriam felizes?

— Bernardo tem razão. Maria Eugênia, não sei como, conseguiu manter uma atitude firme, mas você está muito machucado. Nunca passou por um problema emocional mais grave e não sabe como lidar com isso. Seja humilde, Henrique. Procure a ajuda de um bom profissional para recuperar o equilíbrio.

Henrique ficou pensativo e Bernardo interveio:

— Vamos falar com ele. Além de um profissional competente, é uma pessoa agradável. Você vai gostar de conversar com ele.

— Está bem. Irei.

Adele abraçou-o satisfeita:

— O que mais desejo é que todos sejamos felizes. Estou certa de que conseguiremos.

— Vou ligar para ele e saber quando poderá receber-nos.

Bernardo apanhou sua pasta, procurou a agenda e ligou. A secretária atendeu e passou o telefone para Rafael, Depois dos cumprimentos, Bernardo disse:

— Tenho um amigo que está passando por um problema difícil e eu gostaria que você conversasse com ele e o ajudasse.

Está bem. Preciso consultar minha agenda.

— Sei que ela está lotada, como sempre, mas o caso é urgente. Veja o que pode fazer.

— Um momento.

Bernardo ficou esperando. Pouco depois, Rafael disse:

— Se é urgente, posso atendê-lo depois do meu expediente. Lá pelas sete horas. Tudo bem?

— Obrigado. Eu sabia que podia contar com você. Estaremos aí às sete. Vou aproveitar a ocasião para abraçá-lo e apresentar Henrique pessoalmente.

Bernardo despediu-se e desligou o telefone, satisfeito.

— Geralmente, o consultório do Dr. Vilardi vive lotado. A espera para consulta costuma ser de um a dois meses.

— Ele foi muito gentil de estender o horário para atendê-los. — considerou Adele.

— De fato. Somos amigos há alguns anos, desde quando ele tratou de um empresário que faliu, caiu em depressão e tentou o suicídio. Felizmente não conseguiu seu intento. Na época eu prestava serviço para aquela empresa. Acompanhei o trabalho de Rafael, cujo resultado me surpreendeu. O empresário conseguiu aceitar a situação e ter motivação para recomeçar.

— É mais fácil quando se trata de perda material — comentou Henrique. — Mas, quando se trata do coração, é pior.

— Isso para você, que valoriza mais a família do que o dinheiro — comentou Bernardo. — Mas para aquele empresário, cujo poder, dinheiro, vinha em primeiro lugar, foi terrível.

Adele convidou-os para um café na sala ao lado.

— Você precisa cuidar da saúde — disse ela a Henrique. — Suspeito que não esteja se alimentando bem. Vou pedir um lanche para nós.

— Não é preciso. Apenas um café — respondeu Henrique.

— Eu também estou com fome — mentiu ela. — Quase não almocei. Vocês vão fazer-me companhia. Depois, há alguns assuntos da empresa sobre os quais eu gostaria de conversar com vocês.

Henrique, depois de receber apoio deles e ter se alimentado um pouco, sentiu-se melhor.

Pouco antes das sete, Henrique e Bernardo entraram na clínica de Rafael. Meia hora depois, foram conduzidos à sala do médico.

Rafael abraçou Bernardo, que apresentou Henrique. A sala era espaçosa e decorada com bom gosto. Rafael pediu que se sentassem em um canto da sala, onde havia poltronas confortáveis. Uma vez acomodados, Bernardo disse:

— É melhor deixá-los à vontade. Vou esperar lá fora.

— Não é preciso — tornou Henrique. — Você sabe mais da minha vida do que eu mesmo. Prefiro que fique.

Bernardo olhou indeciso para Rafael, que concordou.

— Fique. Quero conhecer a situação, e você poderá ajudar.

Henrique hesitou. Ele não queria contar o segredo de Adele. Mas como explicar o caso omitindo esse detalhe? Rafael esperava com tranqüilidade.

— Não sei como começar — disse Henrique, por fim. — Acontece que há em nossas vidas um assunto delicado, um segredo que não posso mencionar porque envolve a vida de outras pessoas.

Bernardo interveio:

— Talvez você não possa omitir esse ponto. É importante que Rafael conheça toda a verdade. Tenho certeza de que o que você lhe contar jamais sairá destas quatro paredes. Eu o conheço e sei que pode confiar nele.

— Sua dúvida é natural. Você não me conhece. Mas posso garantir que saberei respeitar sua vontade. O objetivo do meu trabalho é facilitar que você perceba todos os lados da questão e possa tomar a melhor decisão. Para isso, preciso conhecer todos os fatos e descobrir e mostrar-lhe até aqueles que você ainda não percebeu.

Bernardo completou:

— Quando estamos envolvidos em uma situação desagradável, não enxergamos com clareza. O Dr. Rafael é mestre em nos abrir os olhos nessas horas. Agora, penso que ficará mais à vontade sozinho com ele. Vou esperar lá fora.

Bernardo levantou-se e saiu. Rafael esperou calmo que Henrique falasse. Este começou a contar como conhecera Maria Eugênia, o namoro, o apoio de Adele, o casamento. Contou tudo.

Rafael ouvia em silêncio. Quando Henrique fazia uma pausa, ele mostrava-se interessado, dizendo:

— Continue, por favor.

Aos poucos, Henrique foi sentindo que Rafael o estava apoiando e foi perdendo a inibição. Nos momentos em que ele hesitava, Rafael colocava a mão em seu braço para dar-lhe forças e ele prosseguia. Contou tudo, sem omitir nenhum detalhe.

Terminou falando de sua decepção, do medo de perder o amor de Maria Eugênia, da raiva que sentia quando imaginava a esposa nos braços de Pierre.

Por fim, calou-se. O desabafo fez-lhe bem. Mas sentia-se vazio, incapaz de qualquer sentimento.

Rafael levantou-se, colocou-se diante de Henrique e disse:

— Você está sem energias, mas foi bom ter falado sobre seus sentimentos. Primeiro, vou ministrar-lhe energias de refazimento. Feche os olhos e relaxe. Você está cansado, muito cansado. Não precisa tomar nenhuma decisão agora. Eu estou aqui e vou ajudá-lo. Comece imaginando uma bola de luz azul muito brilhante. Ela está em sua frente. Concentre-se nela enquanto vou ajudá-lo a receber energias vitalizantes.

Rafael levantou as mãos e elevou seu pensamento, pedindo ajuda espiritual para Henrique. Depois, colocou as mãos sobre sua cabeça, irradiando luz, calma, força, alegria, paz.

Continuou mentalizando isso, passando as mãos em volta do corpo de Henrique, sem tocá-lo, durante alguns segundos. Depois, levantou novamente as mãos, recebeu novas energias e colocou-as sobre a cabeça de Henrique. Tocou levemente no braço dele, que abriu os olhos e disse:

— Que coisa boa! Senti um calor agradável, como se alguém estivesse me abraçando e dizendo que era para eu ficar em paz. Nunca nada assim.

Rafael sorriu:

— Meditação, relaxamento, oração ajudam mesmo.

— O que me aconselha?

— Devo dizer-lhe que está casado com uma mulher esclarecida. Em meio ao conflito, ela conseguiu tomar a atitude adequada. Raras conseguem. Esse é o ponto positivo de tudo quanto me contou.

— Ela me surpreendeu. Falou comigo não como uma pessoa culpada, errada, aflita, mas como quem reconhece que cometeu um erro, se arrependeu e tomou a decisão de nunca mais repeti-lo. Além disso, lembrou sua dedicação como esposa e mãe e afirmou que eu deveria levar isso em consideração.

— Ela está certíssima.

— Eu reconheço tudo isso. Mas, quando penso nela nos braços de Pierre, a raiva reaparece com toda a força.

— É isso que vamos precisar trabalhar. Por hoje é melhor ficarmos por aqui. Vá para casa, descanse. Quando se lembrar desse fato desagradável, leve seu pensamento para outra coisa, de preferência algo que lhe seja agradável.

— Meu filho! Ele é para mim a alegria maior.

— Isso mesmo. Aproxime-se dele, sinta seu amor, dê seu afeto. Vai fazer-lhe bem. Desejo vê-lo daqui a três dias. Pode ser as sete, como hoje. Aqui tem meus telefones. Se não se sentir bem durante esse tempo, ligue-me, seja a hora que for.

Henrique despediu-se e saiu. Do lado de fora, Bernardo, vendo-o, perguntou:

— Como você está?

— Cansado, porém mais calmo. Devo voltar daqui a três dias.

— Quer jantar ir a algum lugar?

— Não. Se você me deixar no estacionamento, eu agradeço. Desejo ir para casa.

Uma vez no carro, Bernardo perguntou:

—Você gostou dele?

— Teve a paciência de me ouvir. Ao final, disse que eu estava precisando receber energias positivas. Mandou-me pensar em uma bola de luz, fechar os olhos, e fez uma imposição de mãos.

— Não sabia que os médicos usavam esse tipo de tratamento. O que você sentiu?

— No início, nada. Depois comecei a sentir um calor agradável, que foi muito bom. Depois da tensão dos últimos dias, acho que relaxei. Sinto-me vazio, cansado, e não vejo a hora de estender-me na cama e descansar.

— Acho que, para um primeiro encontro, foi muito bom. Tenho confiança de que estamos no caminho certo.

Henrique chegou em casa mais cedo do que nas noites anteriores e, apesar de cansado, foi procurar Dionísio, que, vendo-o, correu para ele de braços abertos.

— Papai! Papai!

Henrique abraçou-o com carinho, enquanto, olhos brilhantes, Dionísio dizia:

— Tem saudade. Você tem presente?

Sempre que Henrique se ausentava por alguns dias por causa do trabalho, ao voltar costumava trazer um presentinho para ele. Lembrou-se então de que, tendo chegado tarde todas as noites, o menino imaginara que ele estivesse viajando.

— Hoje não trouxe nada. Mas terei uma surpresa para amanhã.

— Oba! Viu mamãe? Amanhã tem presente.

Maria Eugênia, que observava a cena, sorriu.

— Já jantamos. Eu não sabia se você viria para o jantar. Mas vou mandar esquentar e servir.

— Obrigado, mas não precisa. Estou sem fome.

— Vou à copa preparar um lanche. Acho que você não comeu nada.

Ela saiu e Henrique ficou brincando com o filho. Ele não olhara diretamente para Maria Eugênia, mas notou que ela estava arrumada e seu rosto sereno. Henrique não sabia por que, mas não conseguia encará-la de frente.

Aquilo era uma bobagem, porquanto fora ela quem cometera o erro, não ele. Por que se sentia envergonhado? Talvez por julgar que por amá-la muito estava sendo condescendente demais com o que ela fizera. Afinal, um marido traído precisa reagir, mostrar-se ofendido, provar que tem brios. Mas ele não se sentia com forças para isso.

Lembrou-se das palavras de Rafael e procurou concentrar toda a sua atenção em Dionísio, que tentava mostrar-lhe como funcionava um brinquedo novo que a mãe comprara.

O menino, em sua linguagem engraçada, tentava descrever como o brinquedo funcionava e Henrique acabou rindo porque, quando ele não encontrava as palavras, fazia gestos eloqüentes demonstrando seu entusiasmo.

Quando Maria Eugênia voltou e convidou-o a comer, Dionísio foi junto. E Henrique dividiu com ele parte do sanduíche. Depois perguntou ao garoto:

— Já são quase dez horas. Você não devia estar dormindo?

— Eu estava com sono, mas você chegô e eu esqueci.

— Vou levá-lo para a cama.

Eles subiram e Maria Eugênia os acompanhou, preparando Dionísio para dormir. Henrique deu um beijo na testa do menino, um boa-noite para Maria Eugênia e Elvira, que estavam no quarto, e foi para o quarto de hóspedes.

Depois de acomodar Dionísio, Maria Eugênia foi para o quarto. Notando que Henrique parecia melhor, por um momento ela alimentou a esperança de que ele fosse dormir no quarto do casal. Mas isso não aconteceu.

Ela suspirou triste. Precisava ser paciente. Ele ter voltado mais cedo, ter brincado com o menino e aceitado o lanche que ela havia preparado indicava que sua atitude estava se modificando. Ela sabia que não poderia fazer outra coisa senão esperar.

 

            A partir daquela noite, Henrique voltou a almoçar em casa e chegar em casa na hora do jantar. Porém, sua atitude para com Maria Eugênia continuava a mesma: só conversava o essencial e continuava dormindo no quarto de hóspedes. Em contrapartida, ele apegara-se mais a Dionísio, ficando com o menino durante a maior parte do tempo em que estava em casa.

Maria Eugênia continuava indo ao centro de estudos espirituais, onde recebia o tratamento de renovação energética. Quando se sentia triste, procurava Eunice para desabafar e buscar conselhos.

Colocada a par dos acontecimentos, a médium dissera:

— Seja paciente. Ele precisa desse tempo e está amparado pelos espíritos de luz.

— Bom, de certa forma, ele melhorou. Pelo menos agora almoça, janta em casa e brinca com Dionísio. Mas de mim ele não se aproxima. Às vezes penso que deixou de me amar.

— Não é verdade. Por amá-la é que ele sente dificuldade em entender o que houve. Ainda ontem, um amigo espiritual a quem pedi que auxiliasse seu caso me disse que ele está sendo ajudado. Eu peço-lhe que evite pensamentos de medo, de insegurança. Para obtermos bons resultados, é preciso que você coopere. Pensamentos de confiança na intervenção espiritual facilitam a ligação dos espíritos de luz com vocês. Lembre-se de que você valoriza sua família e merece que a harmonia seja restabelecida em seu lar. Fique firme na sua postura, confie em Deus e espere.

Esses encontros com Eunice, às energias que recebia naquela casa acalmavam Maria Eugênia e davam-lhe forças para ficar firme e esperar. Contudo, ela começou a observar que uma vez por semana, às quartas-feiras, Henrique avisava que não iria jantar. Isso começou a intrigá-la. Aonde Henrique estaria indo?

Ele comparecia às sessões de terapia com Rafael, que por vezes duravam mais de uma hora. Ao sair de lá, preferia jantar em algum lugar, para não incomodar a rotina da casa. Era também uma forma de respirar um pouco, ter momentos de reflexão sobre as conversas que estava tendo em terapia.

Naquela noite, a sessão fora mais fundo e ele conseguira perceber melhor o próprio conflito.

Rafael lhe perguntara como estava seu relacionamento com a esposa, ao que ele respondeu:

— Não mudou nada. Eu só converso com ela o essencial. Assim mesmo, não consigo olhar nos olhos dela.

— O que aconteceria se você a encarasse?

— Não sei. Algo desagradável.

— Entre nisso e sinta como é isso.

— Não quero. Me sinto um fraco. Ela é culpada e eu é que sinto vergonha. Porque sou uma pessoa sincera, honesta, enquanto ela...

— Ela traiu sua confiança.

— Isso mesmo.

— E, por isso, ela precisa ser castigada. Um marido não pode aceitar uma atitude dessas. Ela tem que sofrer pagar pelo que fez.

— Mas seu coração não deseja separar-se dela. Você a ama!

Os olhos de Henrique encheram-se de lágrimas e ele gritou desesperado:

— Eu a amo, apesar de tudo! Sou um fraco! Tenho que reagir.

— Não. Você tem que amar. Essa é sua verdade. Você a ama.

— Mas eu não quero isso. Eu não posso amá-la.

— Por quê? É isso que sua alma quer.

— Não, eu não posso. Não é direito.

— Você perdeu a confiança e teme que ela faça a mesma coisa de novo?

Ele pensou um pouco e meneou a cabeça negativamente:

— Isso, não. Ela mudou muito, não seria capaz.

— Nesse caso, o que o impede de continuar amando-a?

— Não sei... Um marido não perdoa uma ofensa dessas!

— Você não é um marido. Você é um homem que ama, é amado e entende que o erro que sua mulher cometeu foi ocasional e não se repetirá.