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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NÃO HÁ SEGUNDA CHANCE / H. Coben
NÃO HÁ SEGUNDA CHANCE / H. Coben

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NÃO HÁ SEGUNDA CHANCE

 

Quando a bala lhe perfura o peito, a única imagem que se forma na mente do Dr. Marc Seidman é a de sua filha Tara, de apenas seis meses. Depois de ficar doze dias em coma, ele descobre que sua mulher foi morta e que Tara desapareceu. E Marc não tem a menor ideia de quem possa ter cometido tais crimes. A investigação não traz boas notícias. A polícia local e o FBI parecem desconfiar dele. Afinal, o médico poderia herdar a fortuna da mulher, que se mostrava insatisfeita com o casamento. Além disso, a arma dele desapareceu. O caso toma novo rumo quando Marc recebe um tardio pedido de resgate. Os seqüestradores querem dois milhões de dólares para devolver Tara. Com a ajuda de uma ex-agente do FBI, cujo marido foi morto em circunstâncias não muito bem explicadas, Marc tenta desvendar o mistério. Quer saber por que atiraram nele e em sua esposa. Mais do que tudo, quer sua filha de volta. E os criminosos deixaram claro: se Marc der um único passo em falso, não haverá segunda chance.

Suspense que lida com os desvãos mais tenebrosos do coração humano, esta trama alucinante é a mostra definitiva do talento de Harlan Coben: repleta de reviravoltas e revelações inesperadas, mantém o leitor ao mesmo tempo preso na solução do enigma e na torcida pelo herói, que tem de fazer frente às manobras de seus misteriosos inimigos — e às de alguns de seus supostos amigos, também.

 

Quando a primeira bala atingiu meu peito, eu pensei em minha filha.

Pelo menos é nisso que quero acreditar. Perdi os sentidos muito rápido. Na verdade, tecnicamente falando, nem me lembro de ter levado um tiro. Sei que perdi muito sangue. Sei que uma segunda bala passou raspando pela minha cabeça, provavelmente quando já estava inconsciente. Sei que meu coração parou de bater. Mas gosto de pensar que naqueles poucos instantes, enquanto eu morria, pensei em Tara.

PSC: Não vi nenhuma luz brilhante, nem me vi andando em um túnel rumo a um ponto de luz. Se vi, não me recordo.

Tara, minha filha, é um bebé de seis meses, e estava deitada no berço. Fico pensando se ela se assustou com o estampido da arma. Provavelmente sim. Deve ter começado a chorar. Pergunto-me se o som estridente e tão familiar do choro dela penetrou meu atordoamento, se em algum nível de minha consciência eu a ouvi chorar. Mas não lembro.

Eu me lembro claramente do momento em que Tara nasceu. Lembro-me de Mônica — a mãe de Tara — fazendo um tremendo esforço final para empurrar o bebé para fora. Lembro-me de ver a cabecinha cabeluda aparecendo. Fui o primeiro a ver minha filha.

Todos nós sabemos das encruzilhadas e dos desdobramentos da vida. Sabemos que quando uma porta se fecha outra se abre, sabemos dos ciclos da vida, dos altos e baixos, das mudanças. Mas o momento do nascimento de um filho... é mais que surreal. Parece que você atravessou um portal para outra dimensão, uma espécie de Jornada nas Estrelas que transforma sua realidade. Tudo fica diferente. Você fica diferente, muda de elemento simples para complexo por meio de uma metamorfose desencadeada por um catalisador impressionante. Seu mundo deixa de existir; ele se reduz a dimensões — neste caso, pelo menos — de três quilos e duzentos gramas de massa corpórea.

A paternidade me confunde. Sim, sei que, com apenas seis meses de experiência, sou marinheiro de primeira viagem. Meu melhor amigo, Lenny, tem quatro filhos. Uma menina e três garotos. Marianne é a mais velha, está com dez anos, e o caçula acabou de completar um ano. Com um semblante invariavelmente feliz e o chão do carro sistematicamente sujo de embalagens fastfood congelada, Lenny é para mim um constante lembrete de que ainda tenho muito que aprender. Eu admito. Mas toda vez que me atrapalho ou me apavoro nesse universo de criar um filho, olho para aquela criaturinha minúscula e indefesa deitada no berço, ela olha para mim, e eu pergunto a mim mesmo se existe alguma coisa no mundo que não faria para protegê-la. Eu não hesitaria nem por um segundo em dar a própria vida. Para falar a verdade, num caso extremo eu daria a sua vida também.

Por isso gosto de pensar que quando aquelas duas balas perfuraram meu corpo, quando desabei no piso da cozinha, com uma barra de cereal ainda pela metade na mão, quando eu jazia imóvel numa poça de sangue que se alastrava ao meu redor, e também quando meu coração parou de bater, que ainda assim eu tentava fazer alguma coisa para proteger minha filha.

Voltei a mim em meio a uma escuridão total.

No princípio eu não sabia onde estava, mas logo ouvi o bipe cadenciado à minha direita. Um som familiar. Não me mexi, fiquei apenas ouvindo o barulhinho intermitente. Eu tinha a sensação de que meu cérebro havia sido marinado em uma espécie de melaço. A primeira coisa que se manifestou foi um impulso primitivo: sede. Eu estava desesperado para beber água. Até então eu não sabia que uma garganta podia ficar tão seca. Tentei chamar alguém, mas minha língua parecia ter se calcificado dentro da boca. Um vulto entrou no quarto. Quando tentei me sentar, uma dor lancinante desceu-me pelo pescoço, feito uma agulhada. Minha cabeça pendeu para trás. E novamente mergulhei na escuridão.

Quando tornei a abrir os olhos, era dia claro. Brilhantes raios de sol infiltravam-se pelas venezianas, e pisquei. Parte de mim queria erguer a mão para tapar a claridade, mas a exaustão não permitiu que o comando se efetuasse. Minha garganta ainda estava totalmente ressecada.

Escutei um movimento e de repente percebi a presença de alguém em pé a meu lado. Ergui os olhos e vi uma enfermeira. A perspectiva, tão diferente da que eu conhecia, me deixou perplexo. Tudo parecia invertido. Eu é que devia estar em pé, olhando para baixo, não o contrário. Um chapeuzinho branco triangular estava encaixado na cabeça da enfermeira, como um ninho de passarinho. Passei grande parte de minha vida trabalhando em diversos hospitais, mas nunca tinha visto um chapéu como aquele, a não ser nos filmes. A enfermeira era uma mulher negra alta e corpulenta.

— Dr. Seidman?

A voz dela era doce e quente e pareceu derramar-se sobre mim como mel. Consegui mover ligeiramente a cabeça.

Aquela enfermeira devia ler pensamentos, porque já segurava nas mãos um copo de água. Ela colocou o canudo entre meus lábios e eu sorvi com avidez.

— Devagar — ela murmurou, gentilmente.

Pensei em perguntar onde eu estava, mas a resposta era óbvia. Então abri a boca para perguntar o que havia acontecido, mas novamente a enfermeira se adiantou.

— Vou chamar a doutora — avisou ela, dirigindo-se para a porta.

Eu balbuciei:

— A minha... família...

— Eu já volto. Procure relaxar, sim?

Percorri o quarto com os olhos. Minha visão estava embaçada, meu discernimento parcialmente entorpecido, mas me sobrara um mínimo de capacidade dedutiva. Eu estava num típico quarto de hospital. Quanto a isso, não restava dúvida. Havia um frasco de soro e uma bomba de infusão intravenosa à minha esquerda, com o tubo conectado a meu braço. As lâmpadas fluorescentes zumbiam de maneira quase, mas não inteiramente, imperceptível. No canto direito havia um pequeno aparelho de televisão, sobre um rack que se projetava da parede. A janela ficava bem à minha frente, a uma curta distância do pé da cama. Apertei os olhos, mas não consegui enxergar através da vidraça. De qualquer forma, provavelmente eu estava sendo monitorado. Isso significava que eu me encontrava numa UTI. O que por sua vez significava que, fosse lá o que estivesse acontecendo comigo, era grave.

Senti coceira no alto da cabeça e tive a sensação de meu couro cabeludo estar sendo repuxado. Minha cabeça devia estar enfaixada, deduzi. Tentei me mover, erguer o pescoço, mas meu corpo não cooperava. Uma dor insidiosa espalhava-se dentro de mim, embora não conseguisse identificar de onde surgia. Meus braços e pernas pesavam, e meu peito parecia uma placa de chumbo.

— Dr. Seidman?

Pestanejei e movi os olhos na direção da porta. Uma mulher miúda, usando vestes cirúrgicas, entrou no quarto. Tinha touca na cabeça, mas a máscara fora removida do rosto e estava pendurada no pescoço. Calculei que tivesse a mesma idade que eu, trinta e quatro anos.

— Sou a Dra. Ruth Heller — anunciou, aproximando-se da cama. Em seguida acrescentou: — O senhor está no St. Elizabeth Hospital.

A porta atrás dela abriu-se novamente e um homem entrou. Era difícil vê-lo com nitidez através da cortina fosca do cubículo, mas a figura dele não me era familiar.

Ele cruzou os braços e encostou-se à parede, com uma desenvoltura natural. Concluí que não era médico. Pelo menos eu conhecia bem a classe para identificar a linguagem corporal.

A Dra. Heller dirigiu ao homem um rápido olhar e voltou a atenção para mim outra vez.

— O que aconteceu? — perguntei.

— O senhor foi baleado — ela respondeu e acrescentou: — Duas vezes.

No breve silêncio que se seguiu, olhei para o homem encostado à parede. Ele continuava ali, parado, imóvel. Eu abri a boca para falar, mas a Dra. Ruth Heller continuou:

— Uma bala arranhou o topo de sua cabeça e literalmente arrancou o couro cabeludo, que, como o senhor sabe, é uma região ricamente irrigada de sangue.

Sim, eu sabia, claro. Os ferimentos no couro cabeludo sangravam profusamente; como se a pessoa tivesse sido decapitada. Bem, isso explicava a coceira no alto da cabeça. Como Ruth Heller permanecesse em silêncio, perguntei:

— E a outra bala? Ela suspirou.

— Essa foi um pouco mais complicada... O projétil penetrou a caixa torácica e perfurou o saco pericárdico. Consequentemente, uma grande quantidade de sangue se espalhou na área entre o coração e o pericárdio. Os técnicos do serviço de emergência médica tiveram dificuldade para localizar seus sinais vitais. Tivemos de abrir seu tórax...

— Com licença... — interrompeu o homem encostado na parede, e por um momento pensei que ele estivesse falando comigo.

Ruth Heller parou, visivelmente aborrecida. O homem afastou-se da parede.

— Poderia deixar os detalhes para outra hora? Não podemos perder tempo.

Ela lançou-lhe um olhar contrafeito. — Quero estar presente, se não houver problema — declarou.

A Dra. Heller passou para segundo plano em meu campo de visão, e o homem se debruçou sobre meu rosto. A cabeça dele era grande demais em proporção aos ombros e dava a impressão de que poderia cair por ser pesada demais. O cabelo era bem curto, com exceção da franja que quase chegava aos olhos, e ele tinha uma verruga no queixo.

Ele sorriu, mas era um sorriso frio.

— Sou o detetive Bob Regan, do departamento de polícia de Kasselton — explicou.

— Minha família...

— Sei que está confuso, doutor, mas preciso lhe fazer algumas perguntas, certo? — ele me interrompeu. — Antes de entrarmos nos detalhes do que aconteceu.

Ele esperou um pouco. Eu fiz um esforço para clarear a mente e respondi:

— Tudo bem.

— Qual é a última coisa de que se lembra?

Revolvi a memória e as lembranças foram surgindo: levantei de manhã, me arrumei, fui dar uma olhada em Tara. Lembrei de ter puxado a corda do móbile musical em cima do berço e perceber que precisava trocar a pilha. Depois desci.

— De comer uma barra de cereal — respondi.

Regan meneou a cabeça, como se já esperasse por uma resposta desse tipo.

— Estava na cozinha?

— Estava. Em pé, perto da pia.

— E depois?

Fiz um esforço para recordar, mas nada mais me veio à mente. Balancei levemente a cabeça.

— Eu já acordei outra vez, antes desta agora. De noite. Acho que foi aqui mesmo.

— Não se lembra de mais nada?

Tentei um pouco mais, em vão.

— Não, nada.

Regan lançou mão de um bloco de anotações.

— Conforme a doutora lhe explicou, você foi atingido por dois tiros. Não tem nenhuma lembrança de ver uma arma, ou de ouvir disparos, alguma coisa assim?

— Não.

— É compreensível, acho. Você escapou por um triz, Mark. Os técnicos da emergência médica deram você como morto.

Senti a garganta seca outra vez.

— Onde estão Tara e Mônica?

— Concentre-se em minhas perguntas, Marc — Regan falou sem desviar os olhos do bloco de anotações. Senti o pavor oprimir meu peito.

— Ouviu alguma janela quebrando?

Eu me sentia muito fraco. Tentei ler o rótulo do frasco para ver qual era a droga que estavam me administrando por via intravenosa, mas não consegui. Analgésico, no mínimo. Provavelmente morfina. Tentei combater os efeitos colaterais.

— Não — respondi.

— Tem certeza? Havia uma janela quebrada nos fundos da casa. Possivelmente por onde o agressor entrou.

— Não me lembro de nenhuma janela sendo quebrada. Sabem quem foi que...

— Ainda não — respondeu Regan. — Por isso estou lhe fazendo essas perguntas. Para descobrir quem foi. Você tem inimigos?

O que ele estava querendo saber? Tentei erguer o corpo, colocar-me numa posição que me transmitisse mais confiança, mas era simplesmente impossível. Eu não gostava de ser o paciente, de estar no lado errado da cama. Dizem que os médicos são os pacientes mais difíceis. Talvez essa súbita inversão de papéis seja o motivo.

— Quero saber onde estão minha esposa e minha filha.

— Compreendo — disse Regan, e algo no tom de voz dele atravessou meu coração como uma lâmina de gelo. — Mas neste momento precisa prestar atenção ao que estou lhe perguntando, tenho certeza de que quer colaborar comigo. E, então, tem algum inimigo, que saiba? Olhei para ele.

— E Mônica? — ele lançou.... Ruth Heller se aproximou.

— Creio que já basta, por ora — determinou.

— O que aconteceu com Mônica? — repeti.

A Dra. Heller e o detetive Regan estavam lado a lado, ambos olhando para mim. Ela já ia protestar outra vez, mas eu a interrompi.

— Pode parar com essa baboseira de devemos-poupar o paciente para cima de mim. — Tentei gritar, mas minha voz soou como um sopro apenas. — Diga logo o que aconteceu com minha mulher...

— Ela está morta — disse o detetive Regan. Simplesmente isso. Morta. Minha mulher. Mônica. Era como se eu não tivesse escutado o que ele disse. A palavra não me atingia.

— Quando a polícia arrombou sua casa, vocês dois estavam baleados. Conseguiram salvar você. Mas nada mais podia ser feito por sua esposa. Eu lamento.

Um flash surgiu em minha mente... Mônica no vinhedo de Martha... na praia, de maiô... os cabelos pretos emoldurando o rosto... sorrindo para mim. Afastei a imagem.

— E Tara?

— Sua filha — começou Regan. Em seguida pigarreou e olhou para o bloco de anotações, mas não me parecia que ele pretendesse escrever nada. — Ela estava em casa, naquela manhã, correto? Quero dizer, no momento da ocorrência.

— Sim, claro que sim... Onde ela está?

Regan fechou o bloco com um estalo.

— Ela não se encontrava no local quando chegamos. Por um segundo meus pulmões viraram duas pedras.

— Como... assim?

— Inicialmente esperamos que ela estivesse com outra pessoa da família, sob os cuidados de uma avó, tia, alguma pessoa amiga... até mesmo uma babá, mas... — Ele deixou a frase inacabada.

— Está querendo me dizer que não sabe onde Tara está? Dessa vez não houve hesitação.

— Sim, é exatamente isso.

Eu sentia como se uma mão gigantesca estivesse esmagando meu peito.

— Quanto tempo... faz?

— Que sua filha desapareceu?

— Sim.

A doutora Heller disparou a falar feito uma metralhadora.

— Procure entender, o senhor foi gravemente ferido, não tínhamos esperança de que sobrevivesse, estava respirando por aparelhos, houve falência de um pulmão e septicemia; o senhor é médico, portanto sabe que não preciso lhe explicar a gravidade da situação. Nós tentamos reduzir as doses dos medicamentos, ajudá-lo a recobrar a consciência...

— Há quanto tempo? — perguntei outra vez.

Ela e Regan trocaram um olhar, e o que Heller disse em seguida me arrancou mais uma vez todo o ar dos pulmões.

— O senhor ficou doze dias em coma.

 

— Estamos fazendo o possível — disse Regan, num tom de voz que parecia estudado, como se ele tivesse ficado ali ao lado da cama ensaiando, enquanto eu estava inconsciente. — Como lhe expliquei, não tínhamos certeza, a princípio, de que havia uma criança desaparecida. Com isso, perdemos um tempo precioso, mas já compensamos o atraso.

A foto de Tara foi enviada para todos os distritos policiais, aeroportos, estações de trem, rodoviárias, postos de pedágio e outros locais estratégicos num raio de cento e cinquenta quilômetros. Examinamos todos os casos anteriores de sequestro com o mesmo perfil, ou semelhantes, para tentar identificar um padrão comum ou um possível suspeito.

— Doze dias... — repeti.

— Grampeamos todas as suas linhas de telefone: de casa, do trabalho, do celular...

— Para quê?

— Para o caso de alguém ligar pedindo resgate — explicou Regan.

— E alguém ligou?

— Até o momento, não.

Minha cabeça afundou, pesada, no travesseiro. Doze dias! Eu ficara doze dias naquela cama, enquanto minha filhinha estava... Afastei o pensamento.

Regan coçou a barba.

—Você se lembra de que roupa Tara estava usando, naquela manhã?

Eu me lembrava. Eu tinha desenvolvido uma espécie de rotina matinal: acordava bem cedo, ia devagarinho até o berço de Tara e me certificava de que ela estava dormindo tranquila. Um bebé não é só alegria, eu sei disso. Sei que há momentos de cansaço, de tédio. Sei que há noites em que o choro estridente dela me dá nos nervos. Não vou dizer que a vida com um bebé em casa seja um mar de rosas, mas eu gostava daquela minha nova rotina matinal. A visão de Tara, tão pequenininha, de alguma forma me fortalecia. Mais que isso, o ato de contemplar a figurinha minúscula de minha filha me enlevava, me extasiava. Isso mesmo, me extasiava. Pode parecer sentimentalismo, mas era puro êxtase o que eu sentia naquele berço.

— Um macacão cor-de-rosa cheio de pinguins, que Mônica comprou na Baby Gap — respondi.

Regan anotou no bloco.

— E Mônica?

— O que tem Mônica?

— Como estava vestida?

— Estava de jeans — falei, recordando o modo como se ajustavam aos quadris dela — e blusa vermelha.

Regan continuou escrevendo.

— Há alguma... Vocês têm alguma pista? — eu quis saber.

— Estamos investigando todas as possibilidades.

— Não foi isso que perguntei.

Regan olhou para mim em silêncio, e o peso que senti em seu olhar foi insuportável.

Minha filha. Desaparecida. Sozinha. Doze dias. Lembrei-me dos olhos dela, do brilho especial que só um pai ou uma mãe conseguem ver, e falei sem pensar:

— Ela está viva.

Regan inclinou a cabeça feito um cãozinho atento a um som desconhecido.

— Não desista — implorei.

— Não desistiremos. — O olhar curioso permaneceu.

— É que... Você tem filhos, detetive Regan?

— Duas meninas.

— Pode parecer tolice, mas eu saberia se ela não estivesse viva. Da mesma forma que eu soube que o mundo nunca mais seria o mesmo quando Tara nasceu.— Eu saberia — repeti.

Regan não respondeu. Eu tinha noção de que parecia ridículo o que eu estava dizendo, sobretudo vindo de um homem que escarnece do sobrenatural e da percepção extra-sensorial.

Eu sabia que aquela sensação provinha meramente do que eu queria que fosse verdade. Quando você quer desesperadamente acreditar em algo, seu cérebro remonta o cenário que está diante de seus olhos. Mas mesmo assim me agarrei à convicção. Falsa ou verdadeira, para mim era a linha a seguir.

— Precisamos que nos dê mais informações — disse Regan. — Sobre você, sua esposa, amigos, finanças...

— Numa outra hora — interveio de novo a Dra. Heller, com um passo à frente e interpondo-se entre mim e o detetive, como para poupar-me daquele olhar. — Ele precisa descansar.

— Não. Agora — disse eu, com voz mais firme que a dela. — Precisamos encontrar minha filha.

Mônica fora sepultada no jazigo da família Portman, na propriedade de meu sogro. Não sei definir o que senti pelo fato de não ter estado presente ao enterro dela.

Meus sentimentos por minha esposa, naqueles duros momentos em que eu era honesto comigo mesmo, sempre foram um pouco confusos. Mônica era uma daquelas mulheres privilegiadas pela beleza, com um rosto lindo, cabelos pretos lisos e sedosos, e aqueles trejeitos naturalmente grã-finos que irritam e encantam ao mesmo tempo. Nosso casamento foi à moda antiga — tivemos de casar. Tudo bem, estou exagerando... Mas Mônica ficou grávida. Eu estava indeciso, não me resolvia, então ela deu um jeito de me ajudar a decidir.

Eu soube dos detalhes do funeral por Carson Portman, tio de Mônica e único membro da família com quem tínhamos contato. Mônica adorava esse tio. Carson sentou-se ao lado de minha cama no hospital, com as mãos cruzadas no colo. Ele era daquele tipo que parece seu professor predileto da faculdade, com cabelos grisalhos, óculos e paletó de tweed. Mas seus expressivos olhos castanhos brilhavam enquanto ele me contava, em sua melancólica voz de barítono, que Edgar, meu sogro, fizera questão de dar à filha um enterro pequeno e bonito.

Quanto a isso, não havia dúvida. Pelo menos quanto ao "pequeno".

Durante os dias que se seguiram, várias pessoas foram me visitar no hospital. Minha mãe chegava todas as manhãs, irradiando uma energia contagiante, usando tênis Reebock brancos e agasalho azul com listras amarelo-ouro, como se fosse a treinadora do St. Louis Rams. Os cabelos dela, embora impecavelmente penteados, exibiam matizes variados em consequência das frequentes colorações e estavam impregnados do cheiro de cigarro. A maquiagem de minha mãe pouco ajudava a disfarçar a angústia de perder a única neta. Ao lado de minha cama, dia após dia, era de uma energia espantosa e conseguia emanar uma carga constante de histeria. Isso era bom. Era como se ela fosse, em parte, histérica por minha causa, e, dessa forma, curiosamente, sua expansividade me acalmava.

Apesar do moderno sistema de aquecimento do quarto — e de meus constantes protestos —, mamãe colocava um cobertor extra em cima de mim quando eu dormia. Acordei certa vez molhado de suor e ouvi minha mãe contando à enfermeira com o chapéu sobre minha internação anterior no St. Elizabeth, quando eu tinha sete anos.

— Ele teve salmonela — dizia minha mãe, num tom de voz sussurrado, como se contasse um segredo, mas que o andar inteiro conseguiria escutar. — Você nunca viu uma diarreia como aquela! Parecia um jato de torneira aberta. E o cheiro? Empestou até o papel de parede.

— Não que cheire a rosas agora — retrucou a enfermeira. As duas riram.

No segundo dia de minha recuperação, mamãe estava de pé ao lado da cama quando acordei.

— Lembra-se disto? — perguntou.

Ela estava segurando o boneco Caco, o Sapo que alguém havia me dado quando fiquei internado com salmonela. O verde tinha desbotado. Ela olhou para a enfermeira.

— Este é o Caco de Marc — explicou.

— Mamãe...

Ela se voltou para mim. A maquiagem estava um pouco carregada naquele dia, acentuando as rugas.

— Caco fez companhia a você naquela época, lembra? Ele ajudou você a melhorar.

Revirei os olhos e os fechei. Veio-me a lembrança de que tinha contraído salmonela de ovos crus. Meu pai tinha o costume de pôr ovo cru no leite batido, por causa da proteína. Lembro-me do terror que tomou conta de mim quando fiquei sabendo que teria de passar a noite no hospital. Meu pai, que recentemente havia rompido o tendão-de-aquiles jogando tênis, estava sofrendo dores constantes, mas ele viu que eu estava apavorado e, como sempre, fez o sacrifício. Trabalhou o dia todo na fábrica e passou a noite comigo no hospital. Fiquei dez dias internado, e dez noites meu pai dormiu na poltrona ao lado da cama.

De repente minha mãe virou o rosto, e percebi que ela estava se lembrando da mesma coisa. A enfermeira pediu licença e se retirou. Toquei as costas de minha mãe.

Ela não se moveu, mas eu a senti estremecer. Ela olhou para o Caco desbotado, e eu o tomei dela devagar.

— Obrigado — murmurei.

Mamãe enxugou os olhos. Meu pai, eu sabia, não viria ao hospital desta vez e, embora eu tivesse certeza de que minha mãe contara a ele o que acontecera, não havia maneira de saber sequer se ele havia compreendido. Meu pai teve o primeiro derrame com quarenta e um anos de idade — um ano depois de passar aquelas noites comigo no hospital. Eu estava com oito, na época.

Tenho uma irmã mais nova, Stacy, que é dependente química (sendo politicamente correto) ou drogada (sendo claro). Às vezes olho as fotografias antigas, anteriores ao derrame de meu pai, as fotos de uma família saudável, um casal na flor da idade com um casal de filhos e um cachorro peludo, num gramado bem-cuidado com uma cesta de basquete e uma churrasqueira ao fundo. Procuro por indícios do futuro no sorriso de minha irmã de seis para sete anos, sem os dentes da frente, algum sinal da tragédia que estava por vir, mas não consigo ver nada. Ainda temos a casa, mas para mim ela parece uma peça obsoleta de cenário de filme. Papai ainda está vivo, mas quando ele adoeceu tudo desabou. Principalmente Stacy.

Stacy não tinha me visitado, nem telefonado, mas nada que ela faça me surpreende mais.

Por fim minha mãe se virou para mim. Apertei Caco, o Sapo com mais força entre meus dedos quando um pensamento me ocorreu: "Éramos só nós outra vez". Papai vivia como um vegetal. Stacy estava perdida, distante de nós. Estendi o braço e segurei a mão de minha mãe, sentindo o calor e a textura da pele. Ficamos assim algum tempo, até que a porta se abriu. A mesma enfermeira de sempre entrou no quarto.

Minha mãe se empertigou e disse para ela:

— Marc também brincava de boneca.

— Super-heróis — corrigi, depressa. — Eram super-heróis, não bonecas.

Meu maior amigo, Lenny, e a esposa, Cheryl, também iam ao hospital todos os dias, para me ver. Lenny Marcus é um grande advogado, um promotor respeitado, mas ele também me dá assistência em assuntos particulares, como quando recorri de uma multa por excesso de velocidade e fechei a compra de nossa casa. Quando Lenny se formou e começou a trabalhar com o promotor do Estado, os amigos e adversários logo o apelidaram de "Buldogue", por sua postura agressiva no tribunal. Posteriormente, a alcunha foi substituída por outra, mais expressiva: "Cujo".

Conheço Lenny desde a escola primária. Sou padrinho de um dos filhos dele, Kevin, e ele é padrinho de Tara.

Não durmo direito no hospital. Fico acordado de noite, olhando para o teto, contando os bipes e ouvindo os sons noturnos do hospital, cuidando para não deixar meu pensamento vagar para minha filhinha e as infinitas possibilidades. Nem sempre consigo. A mente humana, eu aprendi por experiência própria, é realmente um poço escuro infestado de serpentes.

Mais tarde, naquele dia, o detetive Regan voltou ao quarto para me avisar de uma possível pista.

— Fale-me sobre sua irmã — começou ele.

— Por quê? — perguntei, depressa demais. Mas logo em seguida fiz um sinal com a mão indicando que ele não precisava explicar a razão. Eu compreendia. Minha irmã era viciada em drogas, e onde rolavam drogas, certamente rolava um potencial para a criminalidade. Então perguntei: — Houve roubo?

— Creio que não. Não parece faltar nada, mas estava tudo revirado.

— Revirado?

— Sim. Como se tivessem procurado alguma coisa. Tem alguma ideia do que pode ser?

— Nenhuma.

— Fale-me sobre sua irmã.

— Vocês têm a ficha de Stacy?

— Sim.

— Não sei se eu teria alguma informação a acrescentar.

— O relacionamento de vocês está abalado, pelo que sabemos.

— Mais ou menos. Eu gosto muito dela.

— Quando foi a última vez que a viu?

— Há uns seis meses.

— Quando Tara nasceu?

— Sim.

— Onde?

— Onde eu a vi?

— Sim.

— Stacy foi nos visitar na maternidade.

— E o que aconteceu durante a visita?

— Ela estava drogada. Queria segurar Tara no colo.

— E você não deixou...

— Isso.

— Ela se zangou?

— Ela não demonstrou nenhuma reação. Minha irmã perde a personalidade quando está drogada.

— Você a mandou embora?

— Eu disse que ela só faria parte da vida de Tara depois que largasse as drogas.

— Entendo. Você achou que seria uma maneira de forçá-la a se reabilitar.

— Na verdade, não.

— Não compreendo...

Eu não sabia como explicar. Pensei na foto de família, na qual ela aparecia sem os dentes da frente.

— Já ameaçamos Stacy com coisas bem piores — contei. — Mas nada faz minha irmã se afastar das drogas. Ela é completamente dependente.

— Então você não tem esperança de que ela se recupere?

Aquilo era algo que eu me recusava a admitir abertamente.

— Eu não confiava nela, no que dizia respeito à minha filha. Apenas isso.

Regan foi até a janela e olhou para fora.

— Há quanto tempo vocês moram nessa casa?

— Há quatro meses.

— Mas você e sua esposa sempre moraram no bairro, não? Desde crianças.

— Sim.

— Vocês se conheciam havia muito tempo?

Eu estava ficando intrigado com o rumo do interrogatório.

— Não.

— Mesmo tendo crescido na mesma vizinhança?

— Frequentávamos lugares diferentes.

— Sei... Bem, só para me posicionar corretamente: há quatro meses vocês compraram a casa e há seis você não tem contato com sua irmã, correto?

— Correto.

— Quer dizer então que sua irmã nunca esteve nessa nova residência.

— Isso.

Regan virou-se para mim.

— Foram encontradas impressões digitais de Stacy em sua casa.

Eu não disse nada.

— Não parece surpreso com a informação, Marc.

— Stacy é uma drogada, não uma assassina. Não creio que fosse capaz de atirar em mim e raptar a sobrinha. Embora já tenha me surpreendido, anteriormente, com sua capacidade de descer muito mais baixo do que eu poderia imaginar. Vocês verificaram o apartamento dela?

— Ninguém mais a viu depois do incidente.

Fechei os olhos.

— Não acreditamos que sua irmã tenha sido capaz de realizar algo assim sozinha. — continuou Regan. — Provavelmente ela tem um cúmplice... Um namorado, um traficante, alguém que sabia que sua esposa é de família abastada. Tem alguma ideia de quem possa ser?

— Não — respondi. — Vocês suspeitam de sequestro, é isso que está me dizendo? Mas eles mataram Mônica, e tentaram me matar também. Um sequestrador não mata as pessoas a quem vai pedir resgate.

— Eles podiam estar tão dopados que perderam a noção do que estavam fazendo. Ou talvez pretendessem pedir o resgate ao avô de Tara.

— Então, por que ainda não entraram em contato?

Regan não respondeu. Mas eu sabia a resposta. A comoção, principalmente depois de cometer homicídio, era um fardo pesado demais para um drogado. Os viciados não lidam bem com conflitos internos. Por isso mesmo é frequente cometerem suicídio logo em seguida a um ato de violência — para fugir, desaparecer, apagar para sempre.

A mídia devia estar dissecando aquele caso até não poder mais... A polícia devia estar investigando a fundo... Indivíduos drogados se apavorariam sob esse tipo de pressão. Eles fugiriam, abandonariam tudo.

E se livrariam de todas as provas.

Mas o pedido de resgate foi feito dois dias depois.

Agora que eu recobrara a consciência, minha recuperação dos ferimentos a bala evoluía surpreendentemente bem, talvez por minha força de vontade em melhorar ou talvez porque os doze dias que eu passara mergulhado em estado catatônico tivessem sido suficientes para curar as feridas. Ou talvez ainda porque eu estivesse sofrendo de uma dor muito maior do que qualquer ferimento físico seria capaz de infligir. Cada vez que eu lembrava que não fazia a menor ideia de onde Tara estava ou como estava, o pavor me roubava o fôlego. E cada vez que pensava em Mônica dentro de um caixão debaixo da terra, eu me sentia dilacerado por imensas e afiadas garras de aço.

Eu estava louco para sair do hospital.

Ainda sentia dores, mas pressionei Ruth Heller para me liberar. Reconhecendo que eu era a prova contundente do adágio sobre os médicos serem os pacientes mais difíceis, ela acabou vencendo a relutância e me deu alta, com a condição de eu continuar com as sessões diárias de fisioterapia e de três vezes por semana passar por uma avaliação clínica, tudo com atendimento em domicílio.

Na manhã em que eu recebi alta, minha mãe estava em minha casa, deixando tudo pronto para minha volta, nas palavras dela. Curiosamente, a ideia de retornar à cena do crime não me causava nenhum tipo de mal-estar. Afinal, uma casa não passa de uma sobreposição de tijolos e cimento, e eu não acreditava que o simples fato de rever o local onde tudo acontecera pudesse me fazer sentir pior do que eu já estava. Ainda assim, essa convicção podia ser um mecanismo de autodefesa.

Lenny foi me buscar no hospital. Ele me ajudou a trocar de roupa e guardou minhas coisas na sacola. Lenny é alto e magro, com a sombra azulada da barba no rosto, mesmo que tenha se barbeado cinco minutos antes. Quando criança, ele usava botas e calças de veludo cotelê, mesmo no verão, e deixava o cabelo crespo crescer até parecer um poodle perdido. Hoje em dia usa o cabelo impecavelmente cortado. Há dois anos ele se submeteu a uma cirurgia a laser de miopia, o que o livrou dos óculos, e só usa ternos elegantes e de qualidade.

— Tem certeza de que não quer ficar lá em casa? — insistiu Lenny.

— Você tem quatro crianças — lembrei.

— Ah, é verdade. — Ele fez uma pausa. — Posso ficar na sua casa?

Tentei sorrir.

— É sério, você não devia ficar sozinho naquela casa.

— Não se preocupe, ficarei bem.

— Cheryl fez comida para você. Está tudo em pratos individuais, no freezer.

— Foi muito gentil da parte dela.

— Ela ainda é a pior cozinheira do mundo — disse Lenny.

— Eu não disse que ia comer.

Lenny desviou o olhar, e eu o observei enquanto ele se ocupava em verificar se a sacola estava bem fechada. Nós nos conhecemos há um longo tempo, desde a primeira série, por isso não deve ter sido surpresa para ele quando perguntei:

— Por que não fala logo qual é o problema, Lenny?

Era a deixa que estava esperando, pois prontamente retrucou:

— Escute aqui, eu sou seu advogado, certo?

— Certo.

— Pois bem, então quero lhe dar uma orientação.

— Pode falar.

— Eu deveria ter falado antes, mas sabia que não iria adiantar. Só que agora é diferente... acho.

— Do que você está falando, Lenny?

Apesar da maturidade, do visual aprimorado e da experiência profissional de Lenny, para mim ele ainda era o garoto que eu conhecia desde sempre, o amigo de infância, por isso tinha dificuldade de levar os conselhos dele a sério. Não que eu menosprezasse a inteligência e a capacidade dele, ou que ele não merecesse credibilidade, ao contrário. Fomos colegas e amigos durante a infância e a adolescência, comemoramos juntos quando ele foi aceito em Princeton e depois na Faculdade de Direito da Universidade de Columbia. Mas o Lenny que eu conhecia era o companheiro de noitadas, o rapaz que pegava escondido o carro do pai, o penetra de todas as festas.

Sempre junto comigo, é claro. Na maioria das vezes conseguíamos entrar, mas não éramos exatamente bem-vindos. Ficávamos isolados num canto, bebericando cerveja, sempre à sombra dos mais exibidos da classe. Por mais que tentássemos, não conseguíamos sobressair, e geralmente encerrávamos a noite comendo um misto quente no Heritage Diner ou então no campo de futebol atrás do Colégio Benjamin Franklin, deitados na grama, contemplando as estrelas no céu. Era mais fácil conversar, mesmo com seu melhor amigo, quando se olhava para as estrelas.

— Tudo bem — disse Lenny, gesticulando exageradamente, como era seu hábito —, é o seguinte: daqui por diante, não quero que você responda a nenhuma pergunta da polícia sem que eu esteja presente.

Eu franzi a testa.

— Sério?

— Talvez seja excesso de cautela de minha parte, mas já vi casos como este. Não exatamente iguais, mas você entende o que estou falando. O principal suspeito é sempre alguém da família.

— Ou seja, minha irmã.

— Não necessariamente, mas algum parente próximo, sim. Muito próximo, aliás. O mais próximo, muitas vezes.

— Está querendo dizer que a polícia suspeita até mesmo de mim?

— Não sei. Não sei, realmente. — Ele fez uma breve pausa. — Tudo bem, sim, possivelmente.

— Mas fui baleado, esqueceu? Foi a minha filha que desapareceu!

— Exato, e isso é uma faca de dois gumes.

— Como assim?

— A tendência é que as suspeitas recaiam cada vez mais sobre você.

— Por quê? — perguntei, incrédulo.

— Não sei. Mas é assim que funciona. Olhe, o FBI investiga sequestros, como você sabe. Se uma criança estiver desaparecida há mais de vinte e quatro horas, o caso foge à alçada das autoridades locais e passa a ser assunto deles.

— E?

— E no começo este hospital estava infestado de agentes do FBI. Eles grampearam seus telefones e ficaram aguardando o pedido de resgate. Mas depois de... não sei ao certo, uma semana, dez dias... eles decidiram que a coisa não era bem por aí, entende? Dedução óbvia, claro. Não dá para ficar esperando indefinidamente, então reduziram o número de agentes para um ou dois, apenas. E a linha de investigação também mudou. O que inicialmente se afigurava como um caso de sequestro com finalidade de pedido de resgate passou a ser considerado rapto, puro e simples. Ainda assim, eu desconfio de que eles não retiraram o grampo dos telefones. Meu palpite é que continuam monitorando as ligações. Não verifiquei ainda, mas vou fazer isso. Eles alegarão que mantiveram os grampos para o caso de os sequestradores entrarem em contato. Mas pode ter certeza de que estão à espera de ouvir você dizer algo incriminador.

— E?

— E trate de tomar cuidado — advertiu Lenny. — Lembre-se de que todos os seus telefones, em casa, no trabalho, celular... provavelmente estão grampeados.

— E mais uma vez eu pergunto: E?, Lenny. Eu não fiz nada!

— Não fez... — Lenny sacudiu as mãos como se se preparasse para alçar vôo. — Olhe aqui, só estou avisando para você ser cauteloso, está bem? Apenas isso. Talvez você ache difícil acreditar, mas... não se choque com o que vou dizer... não seria a primeira vez que a polícia distorce as evidências e deturpa a verdade.

— Você está me confundindo. Quer dizer que o fato de eu ser o pai e o marido faz de mim um suspeito?

— Sim e não — respondeu Lenny.

— Ah, claro! Agora sim, entendi. Obrigado por explicar.

O telefone perto da cama tocou. Eu estava do lado oposto e apontei o aparelho.

— Por favor, Lenny.

Ele atendeu.

— Quarto do Dr.Seidman. — O semblante dele foi se anuviando à medida que ouvia. Então ele falou abruptamente: — Espere um instante, sim?

E estendeu o fone para mim com expressão de repulsa, como se o aparelho estivesse infestado de germes. Olhei para Lenny, perplexo, e peguei o receptor.

— Alô?

— Alô, Marc. Aqui é Edgar Portman.

O pai de Mônica. Isso explicava a reação de Lenny. Edgar falava naquele tom de voz formal, como sempre. Algumas pessoas medem as palavras. Outras poucas as avaliam uma por uma e as colocam numa determinada escala antes de proferi-las. Este era o caso de meu sogro.

Por um momento, fiquei desconcertado.

— Como vai, Edgar? — perguntei, sentindo-me um idiota.

— Eu estou bem, obrigado. Sinto-me em falta com você por não ter telefonado antes, mas eu soube por Carson que você estava se recuperando, e achei melhor não incomodar.

— Obrigado — murmurei em tom de ironia.

— Você sai hoje do hospital?

— Sim.

Edgar pigarreou, como se hesitasse, um gesto que não condizia com a personalidade dele.

— Eu pensei se você poderia passar em casa.

— Hoje?

— Sim, agora. E sozinho, por favor.

Olhei para Lenny, que me observava, intrigado.

— Algum problema, Edgar? — perguntei.

— Mandei o motorista buscar você, Marc. Ele está aí embaixo, na rua, esperando. Conversaremos quando você chegar.

E antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ele desligou.

O carro, um lustroso Lincoln preto, estava de fato estacionado na área de espera, na rampa de acesso em frente ao hospital. Lenny me levou para fora, na cadeira de rodas. Eu estava, evidentemente, familiarizado com aqueles arredores. Eu havia crescido naquele bairro, morava a poucos quarteirões do St. Elizabeth. Fora para lá que meu pai me levara, esbaforido, quando eu tinha cinco anos e me machuquei (levei doze pontos) e depois, com sete anos, a internação por salmonela, uma história que você já conhece com detalhes. Estudei medicina na então chamada Escola de Medicina do Hospital Presbiteriano Colúmbia, em Nova York, mas depois do período de residência fiz um curso de especialização em oftalmologia reparadora.

Sim, sou cirurgião plástico, mas não do tipo que você está pensando. Corrijo um ou outro nariz, esporadicamente, mas não faço implantes de silicone e coisas do tipo.

Veja bem, não estou criticando quem faz, simplesmente não é minha área de atuação.

O que eu faço é cirurgia reparadora pediátrica, em parceiria com uma ex-colega de faculdade, um dínamo humano do Bronx chamada Zia Leroux. Trabalhamos para um grupo chamado One World WrapAid. Na verdade, nós fundamos o grupo, Zia e eu. Oferecemos tratamento a crianças, principalmente do exterior, que apresentam deformidades congénitas, decorrentes de desnutrição ou de ferimentos de guerra. Viajamos com bastante frequência. Já reparei deformidades faciais em Serra Leoa, lábios leporinos na Mongólia, anomalias cranianas no Camboja, lesões por queimaduras no Bronx. Como a maioria dos profissionais de minha área, fiz vários cursos de especialização, como em otorrinolaringologia, com um ano de cirurgia plástica reparadora e, como já mencionei, oftalmologia. O currículo de Zia é similar ao meu, embora o forte dela seja cirurgia maxilofacial.

Se você está pensando que Zia e eu somos benfeitores, engana-se. Eu fiz uma opção. Eu poderia fazer cirurgia plástica para tornar as pessoas mais bonitas ou rejuvenescê-las — ou poderia atender crianças pobres e carentes. Optei pela segunda, não tanto para ajudar os desamparados, mas por ser um quebra-cabeça mais difícil. A maioria dos cirurgiões plásticos gosta de um bom quebra-cabeça. Somos estranhos. Temos um fascínio por aberrações congénitas e tumores gigantescos. Sabe aqueles livros de medicina com fotos de deformidades horrendas, que você quase não consegue olhar? Zia e eu adoramos isso. É um desafio você se propor a corrigir o que está destruído.

O ar fresco acariciou meus pulmões. O sol brilhava como nunca, zombando de minha tristeza. Ergui o rosto para receber em cheio o agradável calor. Isso era uma coisa que Mônica gostava de fazer. Ela dizia que era "desestressante". O rosto dela relaxava, como se os raios de sol fossem dedos realizando uma suave massagem na pele.

Fiquei ali com os olhos fechados, e Lenny esperou em silêncio, respeitando o tempo de que eu precisava.

Sempre me considerei um homem extremamente sensível. Choro quando assisto a um filme comovente, minhas emoções afloram com facilidade. Mas com meu pai, nunca chorei.

E, agora, com esse golpe terrível, eu me sentia... não sei bem explicar... eu havia ultrapassado o ponto das lágrimas. Um mecanismo clássico de defesa, presumo.

Eu precisava seguir adiante. Como em meu trabalho: quando as rachaduras aparecem, eu trato de fechá-las logo, antes que se tornem fendas profundas.

Lenny ainda estava irritado por causa do telefonema.

— O que será que aquele cretino está querendo? — ele perguntou.

— Não faço a menor ideia.

Lenny voltou a ficar em silêncio, e eu sabia o que ele estava pensando. Ele culpava Edgar pela morte do pai. O pai de Lenny foi gerente da ProNess Foods, uma das holdings de Edgar. Trabalhou duro para a empresa, sem ser devidamente remunerado e reconhecido, durante vinte e seis anos. Tinha acabado de completar cinquenta e dois anos quando Edgar negociou a fusão com uma companhia acionista majoritária. O pai de Lenny perdeu o emprego.

Eu me lembro de ver o Sr. Marcus sentado à mesa da cozinha, com os ombros curvados, cuidadosamente colocando cópias de seu currículo em envelopes, para enviar pelo correio. Não recebeu uma única resposta, e dois anos depois faleceu de enfarte. Nada neste mundo convenceria Lenny de que os dois fatos não estavam relacionados.

— Tem certeza de que não quer que eu vá com você? — ele perguntou.

— Tenho, sim. Está tudo bem.

— Está com o celular? Mostrei o aparelho.

— Se precisar de alguma coisa, ligue.

Eu agradeci, e ele se afastou, empurrando de volta a cadeira de rodas vazia. O motorista abriu a porta do carro e eu entrei, apoiando-me do jeito que podia. O trajeto não era longo: Kasselton, Nova Jersey. Minha cidade. Passamos pelas casas construídas em desníveis dos anos 60, pelas fazendas expandidas dos anos 70, pelas fachadas espelhadas dos anos 80, pelas modernas mansões dos anos 90, e por fim entramos no trecho mais arborizado, onde as casas eram mais recuadas e protegidas pela vegetação do movimento e ruído da avenida. Estávamos nos aproximando da área mais exclusiva, de residências majestosas que se conservavam década após década num cenário imutável, onde o ar tinha sempre aquela fragrância de outono misturada ao cheiro de lenha queimada.

A família Portman se estabelecera naquele bairro logo após a Guerra Civil. Assim como a maior parte da zona residencial de Jersey, no passado aquelas terras pertenciam a fazendeiros, e o tataravô de meu sogro era um deles. Aos poucos ele vendeu lotes de terreno e ficou riquíssimo. Os Portman ainda possuíam dezesseis acres de terra, o que fazia daquela propriedade uma das maiores da região.

Enquanto o carro percorria a alameda de entrada, meu olhar foi atraído para a área à esquerda, na direção do jazigo da família. Avistei de imediato um montículo de terra recém-revolvida.

— Por favor, pare o carro — pedi.

— Desculpe-me, Dr. Seidman, mas recebi ordem para levar o senhor diretamente à casa, o quanto antes.

Eu já ia protestar quando pensei melhor e fiquei quieto. Esperei o carro parar na frente da entrada, saí e comecei a fazer o caminho de volta a pé. O motorista me chamou, mas eu não olhei para trás. Ele chamou novamente, e eu o ignorei. O jardim estava lindo, a grama muito verde e as flores no auge do viço, criando uma maravilhosa miríade de cores.

Tentei andar mais rápido, mas senti a pele repuxar e tive de diminuir o passo. Aquela era a terceira vez que eu ia à propriedade dos Portman. Quando eu era mais novo, passava em frente com certa frequência, mas só conhecia de olhar pelo portão. E nas duas vezes em que eu entrara não tinha nem chegado perto do jazigo. O costume de enterrar os mortos no quintal de casa, como se faz com animais de estimação, era uma dessas manias de gente rica que nós, pessoas comuns, não conseguimos entender muito bem. Nem fazemos questão de entender.

O cemitério particular era uma área cercada por uma grade baixa, com menos de um metro de altura, e tão branca que ofuscava a vista. Ocorreu-me que era provável que tivesse sido pintada especialmente para o último evento. Empurrei o pequeno portão e passei pelas lápides simples que demarcavam as sepulturas, com o olhar fixo no montinho de terra fresca.

Quando me aproximei, senti um calafrio. Sem dúvida, era um túmulo recente. Ainda estava sem lápide, e havia apenas uma placa com as palavras Nossa Querida Mônica escritas em caligrafia de convite de casamento.

Fiquei ali parado, olhando, e pestanejei devagar. Mônica. Minha bela Mônica, com seus olhos enormes. Nosso relacionamento havia sido conturbado — um caso clássico de paixão demais no início e amor de menos no final. Não sei por que isso acontece.

Mônica era diferente, isso não se discute. No princípio, todo aquele fogo, aquele entusiasmo, foi um grande atrativo. Depois, o temperamento instável dela foi me cansando. Eu já não tinha paciência para as mudanças bruscas de humor.

Olhando para o monte de terra, uma lembrança dolorosa me assaltou. Dois dias antes do incidente, entrei no quarto à noite e deparei com Mônica chorando. Não era a primeira vez que isso acontecia. Mais por uma questão de fazer minha parte do que por empatia, perguntei qual era o problema. Já se fora o tempo em que aquilo realmente me afetava. Era sempre a mesma coisa: eu perguntava, ela não respondia; eu tentava abraçá-la, ela se esquivava. Até que cansei. Como na história do menino que gritava "É o lobo!", a falta de reciprocidade de Mônica acabou me tornando insensível. Conviver com uma pessoa depressiva é assim mesmo. A gente não consegue se importar para sempre, chega uma hora em que você se cansa, e então vem o ressentimento.

Pelo menos, era dessa maneira que eu via a situação.

Daquela vez, porém, foi diferente: Mônica respondeu. Não foi uma resposta longa; na verdade, foi só uma frase. "Você não me ama mais", ela disse, num tom de voz de quem faz uma constatação, não de quem se lamentasse. "Você não me ama mais." Eu falei que não era nada disso, aquelas coisas que a gente sempre fala, mas ao mesmo tempo que eu expressava meu protesto, refletia que talvez ela estivesse certa.

Fechei os olhos, revivendo aquele momento. O relacionamento estava complicado, mas nos últimos seis meses nosso foco se desviara em grande parte para nossa filha, e isso amenizara o desconforto, pois tínhamos algo importante em comum que nos acalmava e aquecia. Ergui os olhos para o céu, pisquei outra vez e tornei a olhar para a terra fresca sob a qual se encontrava minha temperamental esposa.

— Mônica — falei em voz alta.

E então fiz uma última promessa à minha mulher.

Jurei, sobre o túmulo dela, que encontraria Tara.

Um criado, ou mordomo, não sei exatamente qual a função da pessoa, me acompanhou pelo corredor até a biblioteca. A decoração era despretensiosa, embora inegavelmente cara — piso escuro polido com tapetes orientais e mobília antiga e tradicional, mais sólida do que decorativa. Apesar de toda a fortuna e da valiosa propriedade, Edgar era discreto, não era do tipo que ostentava riqueza.

Naquele dia, ele estava usando um elegante blazer azul, e encontrei-o sentado atrás da enorme escrivaninha de carvalho, sobre a qual havia dois bustos de bronze, um de Washington e um de Jefferson, e uma pena de escrever que pertencera ao bisavô dele. Foi uma surpresa para mim quando vi que tio Carson também estava lá. Quando ele fora me visitar no hospital, eu estava fraco demais para poder abraçá-lo, mas dessa vez ele tratou de compensar isso. Apertou minha mão e me puxou afetuosamente para perto dele. Eu o abracei em silêncio. Carson também exalava aquela fragrância característica de gente rica e grã-fina, aquele almíscar de outono, de madeira nobre.

Não havia fotografias na biblioteca, nenhuma foto de família, ou de crianças de uniforme no primeiro dia de aula, ou do chefe da casa em alguma cerimônia solene.

Na verdade, acho que nunca vi uma fotografia em nenhum lugar daquela casa.

— Como está se sentindo, Marc? — perguntou Carson.

Eu respondi que estava bem, considerando-se as circunstâncias, e virei-me para cumprimentar meu sogro. Ele havia se levantado da cadeira quando entrei, mas não saiu de trás da escrivaninha para me abraçar, nem estendeu o braço para um aperto de mão. Tampouco disse uma única palavra, simplesmente indicou a poltrona em frente à escrivaninha.

Eu não conhecia Edgar direito. Havíamos nos encontrado apenas três vezes, até então. Não sei quanto dinheiro ele tem, mas mesmo fora daqueles domínios, em qualquer lugar onde ele estivesse, fosse na rua, no bar, até mesmo nu em pêlo, percebia-se que os Portman tinham muito, muito dinheiro. Mônica também tinha aquela postura, aquela classe que não pode ser ensinada, ou aprendida, que só é adquirida por herança genética. A opção de Mônica de morar em uma casa relativamente simples como a nossa provavelmente era uma forma de rebeldia.

Mônica odiava o pai.

Eu também não morria de amores por Edgar, talvez pelo fato de já ter conhecido pessoas do tipo dele. Edgar se considera do tipo batalhador, mas ele ganhou sua fortuna à moda antiga, ou seja, herdou tudo. Não conheço muitos milionários, mas já reparei numa coisa: quanto mais dinheiro uma pessoa tem, mais ela reclama dos projetos assistenciais e dos subsídios do governo. É bizarro. Edgar pertence àquela classe exclusiva de privilegiados que convenceram a si mesmos de que alcançaram a prosperidade por meio de trabalho suado. Todo mundo tem suas justificativas, é claro, e se você nunca teve de batalhar, se você vive no meio do luxo e da mordomia, sem nunca ter mexido uma palha para isso, imagino que as inseguranças aflorem.

Eu me sentei, e Edgar fez o mesmo. Carson continuou em pé. Olhei para Edgar. Ele tinha a constituição robusta dos bem-nutridos, porém o ar saudável desaparecera de seu rosto redondo. As faces normalmente coradas estavam encovadas, com olheiras escuras. Ele cruzou as mãos e apoiou-as sobre o ventre. Para minha surpresa, parecia arrasado, exaurido.

Eu digo para minha surpresa, porque Edgar sempre me passara a impressão de ser pessoa egocêntrica, cujos problemas e êxitos eram sempre mais importantes que os dos outros, uma pessoa que considerava todos à sua volta meros objetos à disposição dele.

Com a morte de Mônica, Edgar já perdera dois filhos. O primeiro, Eddie, morrera dez anos antes, num desastre de automóvel. Nada neste mundo conseguiria convencer Mônica de que Eddie não provocara o acidente. Ela tinha certeza absoluta de que o irmão fizera a ultrapassagem proibida deliberadamente, porque no fundo buscava o próprio fim. Mônica sempre culpara o pai pela morte de Eddie, e por muitas outras coisas.

A mãe de Mônica é outra, que vive esgotada, sempre precisando de "férias". Ou seja, ela passa longos períodos internada em clínicas de repouso. Nas duas vezes em que vi minha sogra, ela estava elegantemente vestida e muito bem maquiada, pronta para algum evento social; linda porém pálida, com o olhar vazio, a fala hesitante, a postura oscilante.

Com exceção de tio Carson, Mônica não se dava com a família. Não que isso me entristecesse.

— Queria falar comigo, Edgar? — perguntei.

— Queria sim, Marc.

Fiquei aguardando, em expectativa. Edgar apoiou as mãos na mesa.

— Você amava minha filha?

A pergunta me pegou desprevenido, mas respondi sem vacilar:

— Claro que sim. Muito.

Tive a impressão de que ele percebera a mentira. Esforcei-me para sustentar o olhar dele com firmeza.

— Mas ela não estava feliz, sabia?

— Não creio que a culpa seja minha — retruquei.

Ele meneou lentamente a cabeça.

— Talvez você tenha razão.

Todavia, meu argumento não me convenceu. As palavras de Edgar foram como um coice em minha consciência, e o sentimento de culpa voltou a galope.

— Você sabia que ela estava se consultando com um psiquiatra?

Olhei para Carson e depois para Edgar.

— Não.

— Ela não queria que ninguém soubesse.

— Como você descobriu?

Edgar não respondeu. Ficou olhando para as próprias mãos por algum tempo, depois disse:

— Quero lhe mostrar algo.

Lancei outro rápido olhar de soslaio para Carson e achei que ele estava um pouco tenso. Voltei a fitar Edgar.

— Tudo bem.

Ele abriu a gaveta da escrivaninha, tirou de dentro uma embalagem plástica transparente e segurou-a no alto, entre os dedos. Demorei alguns segundos para entender o que era aquilo, mas quando percebi arregalei os olhos. Edgar percebeu minha reação.

— Você reconhece isto?

Eu não conseguia falar. Olhei novamente para Carson. Os olhos dele estavam vermelhos. Tornei a olhar para Edgar e meneei a cabeça, em silêncio. Dentro do envoltório plástico havia um pedaço de tecido, um retalho quadrado com cerca de dez centímetros. Vira aquela estampa duas semanas antes, momentos antes de ser baleado.

Cor-de-rosa com pequenos pinguins pretos.

Minha voz saiu como um sopro:

— De onde veio isso?

Edgar me entregou um envelope pardo grande, daqueles revestidos com plástico bolha, também protegido por plástico. Virei o envelope. Do outro lado havia uma etiqueta branca com o nome e o endereço de Edgar impressos. Não tinha endereço de remetente, e o carimbo do correio era de Nova York.

— Chegou hoje, pelo correio — Edgar explicou e apontou para o retalho de tecido. — É de Tara?

Acho que eu disse sim.

— Tem mais — avisou Edgar. Ele voltou para a gaveta. — Tomei a liberdade de colocar tudo em sacos plásticos. Para o caso de as autoridades precisarem analisar.

Edgar me passou outra embalagem plástica, menor, com um tufo de cabelo dentro. Senti um pavor gelado subir pela nuca ao compreender o que era aquilo. Por alguns momentos parei de respirar.

Cabelo de bebé.

A voz de Edgar chegou aos meus ouvidos como se viesse de muito longe.

— São dela?

Fechei os olhos e tentei visualizar Tara deitada no berço. E percebi, horrorizado, que a imagem de minha filha já estava perdendo a forma em minha mente. Como isso era possível? Eu não sabia dizer se aquilo era minha memória de fato, ou se era obra de minha imaginação para substituir o que eu já estava esquecendo. Droga.

As lágrimas afloraram aos meus olhos enquanto eu me esforçava para me lembrar da textura da cabecinha de Tara, da sensação de passar os dedos sobre seus cabelinhos finos e macios.

— Marc?

— Possivelmente, sim — respondi, abrindo os olhos. — Não há como afirmar com certeza.

— Tem mais uma coisa — disse Edgar, entregando-me outra embalagem plástica.

Com todo o cuidado, coloquei a embalagem com o cabelo sobre a escrivaninha e peguei a que Edgar me estendia. Dentro havia uma folha de papel impressa a laser.

Se você contatar a polícia, nunca mais terá notícias nossas, nem dela. Portanto, tome cuidado, porque estamos de olho. Temos um informante infiltrado, e suas ligações telefônicas estão monitoradas. Não toque neste assunto por telefone. Nós sabemos que você é muito rico, vovô. Queremos dois milhões de dólares. Vovô vai providenciar a grana, mas queremos que seja papai a nos entregar o resgate. Junto com este bilhete segue um telefone celular. Nem o aparelho nem a linha podem ser rastreados, mas nós temos o controle. Se alguém discar, ou usar o aparelho, não importa a forma, saberemos. E aí sumiremos para sempre, e vocês nunca mais verão a criança. Vovô, libere a grana e entregue a papai. Papai, fique com a grana e o celular. Vá para casa e aguarde. Entraremos em contato e diremos como proceder. Siga à risca nossas instruções. Um passo em falso, e você nunca mais verá sua filha. Não há segunda chance.

Edgar se levantou e foi até um canto do aposento. Abriu um armário, tirou de dentro uma mochila com o logo da Nike e voltou para perto de mim.

— Está tudo aqui — disse, colocando a mochila em meu colo. Olhei para a mochila e em seguida para meu sogro.

— Dois milhões de dólares? — perguntei, um tanto perplexo.

— A numeração das cédulas não é sequencial, mas por precaução, tenho a lista de todas as séries numéricas.

Olhei para Carson e de volta para Edgar.

— Não acha que deveríamos comunicar ao FBI?

— Não.

Edgar apoiou-se na beirada da escrivaninha e cruzou os braços. Ele recendia a loção pós-barba almiscarada, mas senti outro aroma por trás, algo mais primitivo, rançoso.

Observando de perto, vi como eram profundas as olheiras no rosto dele.

— A decisão é sua, Mark. Você é o pai, e claro que respeitaremos sua linha de ação, seja qual for. Mas, como você deve saber, já tive experiências com as autoridades federais. É possível que meu ponto de vista esteja influenciado pela opinião que tenho deles, de homens incompetentes e irresponsáveis, que colocam seus interesses pessoais na frente de tudo. Se fosse minha filha, eu confiaria mais em meu próprio discernimento do que no deles.

Eu estava um pouco incerto quanto ao que dizer ou fazer. Então Edgar se encarregou disso. Bateu as palmas das mãos e apontou para a porta.

— O bilhete diz para você ir para casa e aguardar. Acho melhor obedecer.

 

O motorista que me trouxera estava lá, à minha espera, ao lado do carro. Entrei e sentei no banco de trás, abraçado à mochila Nike. Minhas emoções galopavam entre um medo pavoroso e uma estranha euforia. Eu podia ter minha filha de volta. Ou podia pôr tudo a perder.

Uma incerteza, porém, permanecia: deveria contar à polícia?

Tentei me acalmar, ficar frio, racional, pesar os prós e os contras. Se bem que isso era impossível. Sou médico. Já tive de tomar decisões de vida ou morte e sei que a melhor maneira de fazer isso é remover a bagagem, o excesso da equação. Só que, agora, era a vida de minha filha que estava em jogo. Minha própria filha. Ecoando o que eu disse no início: meu mundo.

A casa que Mônica e eu compramos fica literalmente dobrando a esquina da casa onde eu cresci e onde meus pais moram até hoje. Meus sentimentos são ambivalentes, nessa questão. Eu não gosto de morar tão perto de meus pais, mas gosto menos ainda da sensação de culpa por me distanciar mais deles. Meu acordo comigo mesmo: morar perto deles e viajar bastante.

Lenny e Cheryl moram a uma distância de quatro quadras, perto do Kasselton Mali, na casa onde Cheryl morava com os pais. Estes se mudaram para a Flórida há seis anos, mas têm um flat aqui, perto de Roseland, para quando sentem saudade dos netos ou quando querem fugir do calor dos verões implacáveis do Estado onde o sol sempre brilha.

Kasselton não é um lugar onde eu particularmente goste de morar. A cidade mudou muito pouco nos últimos trinta anos. Na época de minha juventude, nós criticávamos nossos pais, o materialismo deles, os valores que para nós não tinham sentido. Hoje nós somos nossos pais. Simplesmente ocupamos o lugar que ocupavam antes, empurramos mamãe e papai para a primeira casa de repouso que encontramos. E nossos filhos estão no lugar que antes era nosso.

Mas a lanchonete Maurys continua igual, na Avenida Kasselton; o corpo de bombeiros continua composto na maior parte por voluntários; o time de beisebol ainda treina e joga no mesmo local e horário; os cabos de alta tensão continuam perigosamente próximos da escola onde fiz o primário; o bosque atrás da casa dos Brenners, em Rockmont Terrace, continua sendo o refúgio da garotada, principalmente dos grupinhos que se reúnem para fumar; o colégio de segundo grau continua levando o mérito dos cinco a oito primeiros classificados nos exames universitários, com a única diferença de que em minha época eram os estudantes judeus que se destacavam mais, enquanto hoje é a comunidade asiática.

Viramos à direita na Avenida Monroe e passamos pela casa em desníveis onde passei a infância. Com as paredes externas pintadas de branco, as janelas de venezianas pretas, a cozinha e a sala de estar no nível da rua, a sala de jantar à esquerda e três degraus acima, e a garagem e a porta em arco da entrada lateral à direita e dois degraus abaixo, a casa em si, embora menos bem-tratada do que a maioria, não chamava especial atenção entre as demais do quarteirão. O que a distinguia das outras, na verdade, era a rampa para a cadeira de rodas. Ela foi construída depois do terceiro derrame de meu pai, quando eu tinha doze anos. Meus amigos e eu brincávamos nela de skate.

O carro da enfermeira estava estacionado do lado de fora da garagem. Ela vai todos os dias, mas não dorme. Meu pai está confinado a uma cadeira de rodas há mais de vinte anos. Ele não fala. A boca ficou torta, inclinada para baixo do lado esquerdo do rosto. Metade do corpo ficou paralisada, e a outra metade não fica muito atrás.

Quando o motorista virou na Darby Terrace, vi que minha casa — a atual — estava igual à da última vez que eu a vira. Não sei bem o que eu estava esperando, talvez cordões de isolamento, marcas de sangue, sei lá. Mas não havia nenhum indício da violência que ocorrera ali duas semanas antes.

Na época em que Mônica e eu nos interessamos por aquele imóvel, ele estava judicialmente impedido. A família Levinsky tinha morado ali trinta e seis anos, mas ninguém se relacionava com eles, na verdade. A Sra. Levinsky era uma mulher simpática e doce, com um tique facial. O Sr. Levinsky era um brutamontes que vivia berrando com ela. Todos nós morríamos de medo dele. Certa vez, vimos a Sra. Levinsky correr para fora da casa, de camisola, e o Sr. Levinsky atrás, com uma pá. As crianças da vizinhança pulavam os muros de todos os quintais, menos aquele.

Numa ocasião em que eu estava de férias da faculdade, começaram a correr rumores de que ele abusara da filha Dina, uma garota de olhos caídos e cabelo escorrido que estudara em minha classe desde a primeira série. Ao longo de todos os anos em que fomos colegas de classe, não me lembro de ter ouvido a voz de Dina Levinsky, com exceção de um ou outro murmúrio baixo quando algum professor bem-intencionado a forçava a falar. Eu nunca tomei a iniciativa de ajudar Dina. Não sei como poderia tê-la ajudado, para ser franco, mas gostaria de ter tentado, pelo menos.

Pouco tempo depois, quando os rumores sobre Dina ter sofrido abuso por parte do pai começaram a tomar vulto, os Levinsky se mudaram. Ninguém ficou sabendo para onde eles foram. O banco confiscou a casa e pôs para alugar. Mônica e eu fizemos uma proposta de compra poucas semanas antes de Tara nascer. No começo, depois que nos mudamos, eu ficava acordado de noite, na expectativa de escutar alguma coisa — não sei dizer o quê, ao certo —, algum tipo de som, algum sinal do passado daquela casa, da infelicidade que reinara ali dentro. Ficava imaginando qual era o quarto de Dina, como fora a vida dela ali, como estava sendo agora, mas não havia nenhuma pista na casa. Como eu disse antes, uma casa é apenas uma sobreposição de tijolos e cimento, nada mais.

Havia dois carros desconhecidos estacionados na rua. Minha mãe estava na porta da frente, e quando me viu sair do carro correu em minha direção, igual àqueles noticiários que mostram a chegada de prisioneiros de guerra. Ela me abraçou com força, e senti o aroma acentuado de perfume em excesso. Eu ainda estava segurando a mochila com o dinheiro, por isso não consegui retribuir o abraço com a mesma intensidade.

Por sobre o ombro de minha mãe, vi o detetive Bob Regan aparecer à porta. Ao lado dele estava um homem alto e corpulento, a cabeça negra raspada e lustrosa, usando óculos escuros. Minha mãe sussurrou:

— Estão esperando você.

Acenei com a cabeça e andei na direção deles. Regan levou a mão em concha aos olhos, mais para criar efeito do que para protegê-los da claridade, pois o sol não estava tão forte. O outro homem permaneceu imóvel feito uma estátua.

— Por onde você andou, rapaz? — perguntou Regan. — Faz mais de uma hora que você saiu do hospital.

Pensei no telefone celular em meu bolso, na mochila cheia de dinheiro nas mãos e optei por uma meia-verdade.

— Fui visitar o túmulo de minha esposa.

— Precisamos conversar, Mark.

— Vamos entrar — convidei.

Entramos todos na casa. Eu parei no hall de entrada. O corpo de Mônica tinha sido encontrado a menos de três metros do ponto onde eu me encontrava. Fiquei ali por uns momentos, olhando ao redor, procurando algum vestígio de violência. Havia apenas um, que não demorei a localizar. Na parede perto da escada, logo acima do quadro de Behrens ali pendurado, havia uma camada de massa corrida recente, um remendo branco na parede creme. Obviamente para tapar o buraco criado pela bala que não atingira nem Mônica nem a mim.

Fiquei olhando para o local um longo tempo. Até que alguém pigarreou, e o som me arrancou do transe. Minha mãe passou a mão em minhas costas e foi para a cozinha.

Eu fiz um sinal a Regan e ao colega dele indicando a sala de estar. Eles ocuparam as poltronas, eu me sentei no sofá. Mônica e eu não havíamos decorado a casa direito ainda. As poltronas eram de meu quarto de solteiro e não disfarçavam esse fato. O sofá viera do apartamento de Mônica, uma peça formal e rebuscada que parecia ter saído do Palácio de Versailles. Era pesado e duro, tinha pouco acolchoamento, mesmo quando novo.

— Este é o agente especial Lloyd Tickner — Regan apresentou o companheiro. — Ele é do FBI.

Tickner inclinou a cabeça, e fiz o mesmo. Regan tentou sorrir.

— Que bom ver que você está se sentindo melhor — começou ele.

— Não estou.

Ele franziu a testa.

— Não me sentirei melhor enquanto não tiver minha filha de volta.

— Ah, sim, claro. Temos algumas perguntas a fazer, se não se importar.

Gesticulei indicando que tudo bem.

Regan levou a mão fechada à boca e tossiu para ganhar tempo.

— Por favor, compreenda uma coisa. Nós precisamos fazer essas perguntas. Não necessariamente gosto de fazer isso. Sei que você também não, mas precisamos das respostas, entende?

Eu não sabia se entendia ou não, mas, como não faria diferença mesmo, pedi que ele fosse em frente.

— O que você pode nos dizer sobre seu casamento?

Um sinal luminoso de advertência piscou em meu cérebro.

— O que meu casamento tem a ver com isso?

Regan encolheu os ombros. Tickner continuou impassível.

— Só estamos tentando juntar as peças.

— Mas meu casamento não tem nada a ver com a história.

— Sem dúvida, Marc, mas o fato é que as pistas estão esfriando. Cada dia que passa é uma agonia para nós. Precisamos explorar todos os caminhos.

— O único caminho que me interessa é o que leva à minha filha.

— Entendemos perfeitamente. Esse é o foco principal de nossa investigação, descobrir o que aconteceu com sua filha. E com você também. Não vamos esquecer que alguém tentou matá-lo, certo?

— Acho que sim.

— Mas, veja bem, não podemos ignorar esses outros aspectos.

— Que aspectos?

— Seu casamento, por exemplo.

— O que tem meu casamento?

— Quando você e Mônica se casaram, ela estava grávida, certo?

— O que isso tem...

Eu me calei, ao lembrar da advertência de Lenny para não responder a perguntas da polícia sem a presença dele. Eu devia chamá-lo, eu sabia que devia. Mas alguma coisa no tom e na postura daqueles dois... Se eu interrompesse o interrogatório e dissesse que queria chamar meu advogado, daria a impressão de ser culpado. Eu não tinha nada a esconder. Por que alimentar suspeitas? Obviamente eu sabia que essa era a linha de trabalho deles, o jeito como a polícia jogava, mas sou médico. Pior, sou cirurgião. É comum cometermos o erro de achar que somos mais espertos que todo mundo.

Optei pela honestidade.

— Sim, ela estava grávida. E daí?

— Você é cirurgião plástico, correto?

A mudança de assunto me surpreendeu.

— Correto.

— Você e sua parceira viajam para o exterior para restaurar lábios leporinos, traumatismos faciais, lesões por queimaduras, esse tipo de coisa?

— Mais ou menos isso, sim.

— Quer dizer que você viaja com bastante frequência?

— Sim.

— Na realidade, nos dois anos anteriores ao seu casamento, podemos dizer que você passou mais tempo fora do país do que talvez...

— Sim — respondi, mudando de posição no sofá duro.— Pode me explicar qual a relevância de tudo isso?

Regan deu seu sorriso mais encantador.

— Só estamos tentando completar o quadro.

— Que quadro?

— Sua parceira de trabalho... — Ele consultou as anotações. — Senhorita Zia Leroux, é isso?

— Doutora Leroux — corrigi.

— Sim, Doutora Leroux, obrigado. Sabe onde ela se encontra, no momento?

— No Camboja.

— Ela está lá realizando cirurgias em crianças com deformidades?

— Isso.

Regan inclinou a cabeça para o lado, simulando dúvida.

— Inicialmente, não era você que estava escalado para esse projeto?

— Há muito tempo.

— Há quanto tempo?

— Não entendi o que quer saber.

— Há quanto tempo você cancelou sua participação nesse projeto atual no Camboja?

— Não sei... Oito, nove meses atrás, talvez.

— E então a Dra. Leroux foi em seu lugar, correto?

— Sim, correto. Posso saber aonde isso nos leva?

Mas Regan não se deixava embromar.

— Você gosta de seu trabalho, não é, Marc?

— Sim.

— Quer dizer que gosta de viajar para o exterior? Gosta desse trabalho louvável?

— Claro que sim.

Regan esticou o pescoço exageradamente, fingindo de uma maneira muito óbvia que estava perplexo.

— Mas, então, se gosta de viajar, por que cancelou e deixou que a Dra. Leroux fosse em seu lugar?

Eu começava a perceber aonde ele queria chegar.

— Era um meio de contenção.

— Contenção das viagens, você quer dizer?

— Sim.

— Por quê?

— Porque eu tinha outras obrigações.

— Quando se refere a obrigações, você quer dizer sua mulher e sua filha, correto?

Eu me desencostei e endireitei a coluna, para expressar minha impaciência.

— O objetivo — falei. — Existe um objetivo nesta linha de interrogatório?

Regan recuou na poltrona e Tickner também.

— Estou apenas tentando obter um quadro completo.

— Você já disse isso umas três vezes.

— Ah, sim, só um momento. — Regan folheou o bloco rapidamente. — Jeans e blusa vermelha.

— Como?

— Sua esposa. — Ele apontou para as anotações. — Você disse que ela estava usando jeans e blusa vermelha naquele dia.

Outras imagens de Mônica sobrevieram à minha mente, e eu tentei afastá-las.

— E daí?

— Quando encontramos o corpo... ela estava nua.

Os tremores começaram em meu músculo cardíaco. Depois se espalharam por meus braços até a ponta dos dedos.

— Você não sabia?

Engoli em seco.

— Ela... Ela foi... — Minha voz morreu na garganta.

— Não — respondeu Regan. — Não havia nenhum sinal de violência nela além dos ferimentos a bala.

Ele fez novamente aquele movimento de cabeça-deixe-me-ver-se-entendi-direito.

— Nós a encontramos morta exatamente aqui, nesta sala — prosseguiu. — Ela tinha o hábito de andar sem roupa pela casa?

— Eu já disse que ela estava de calça jeans e blusa vermelha — respondi, tentando processar aquela nova informação, tentando acompanhar a linha de raciocínio de Regan.

— Quer dizer que ela já estava vestida?

Lembrei do som do chuveiro. Lembrei de Mônica saindo do banheiro, afastando os cabelos para trás, deitando na cama, puxando a calça jeans até os quadris.

— Estava.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Vasculhamos a casa toda, e não encontramos nenhuma blusa vermelha. Calças jeans, sim, várias. Mas nenhuma blusa vermelha. Estranho, não?

— Espere um pouco — eu disse. — As roupas dela não estavam perto do corpo?

— Não.

Aquilo não fazia sentido.

— Vou olhar no armário dela — falei.

— Já fizemos isso, mas claro, por favor, examine você mesmo, em todo caso, eu ficaria intrigado se as roupas que ela estava usando tivessem ido parar de volta no armário. Mas tudo bem.

Fiquei sem saber o que dizer.

— Tem alguma arma, Dr. Seidman?

Outra mudança abrupta de assunto. Eu me esforçava para acompanhar, mas minha cabeça estava zonza.

— Sim.

— De que tipo?

— Uma Smith & Wesson 38. Pertencia a meu pai.

— Onde ela fica guardada?

— Em meu quarto, na prateleira superior do guarda-roupa, dentro de uma caixa com segredo no fecho.

Regan esticou o braço para trás e pegou a caixa de metal.

— Esta aqui?

— Sim.

— Pode abrir, por favor?

Ele me entregou a caixa. Ao segurá-la nas mãos senti o metal cinza-azulado frio. Mas, além disso, ela parecia muito leve. Leve demais, constatei chocado. Girei o fecho conforme a combinação do segredo e abri a tampa. Remexi nos papéis — o documento de transferência do carro, a escritura da casa, o contrato de compra — mas era apenas para me recompor, porque eu soube antes de abrir a caixa. A arma desaparecera.

— Você e sua esposa foram baleados por uma 38 — disse Regan. — E parece que a sua sumiu.

Fiquei olhando para a caixa, como se esperasse que o revólver se materializasse ali dentro de uma hora para outra. Tentei encontrar algum sentido naquilo tudo, mas não consegui.

— Tem alguma ideia de onde a arma possa estar? Fiz que não com a cabeça.

— Há outra coisa estranha — disse Regan.

Levantei os olhos para ele.

— Você e Mônica foram baleados por duas armas diferentes.

— Como?

Ele anuiu com um movimento de cabeça.

— Sim, também custei a acreditar. Pedi aos peritos em balística para repetir a análise. Você foi baleado por uma arma e sua esposa por outra. Ambas calibre 38... e pelo jeito a sua arma desapareceu. — Regan sacudiu os ombros. — Me ajude a entender, Marc.

Olhei para o rosto deles e não gostei do que vi. As palavras de Lenny retornaram à minha mente, com mais clareza dessa vez.

— Quero falar com meu advogado — declarei.

— Tem certeza?

— Sim.

— Por favor, então.

Olhei para fora da sala e vi minha mãe em pé, encostada na porta da cozinha, contorcendo as mãos. Até onde ela teria escutado? A julgar pela expressão em seu rosto, o bastante. Mamãe olhou para mim com ar de interrogação. Eu fiz que sim com a cabeça, e ela foi telefonar para Lenny.

Cruzei os braços, mas achei que não era uma atitude adequada. Fiquei batendo o pé no chão, em ritmo cadenciado, como que ao som de uma música.

Então Tickner tirou os óculos, encarou-me e falou pela primeira vez.

— O que tem nessa mochila? Fiquei olhando para ele, em silêncio.

— Nessa mochila que você ainda não largou desde que chegou. — A voz de Tickner era fina, tinha um timbre de falsete que não combinava com o físico avantajado. — O que tem aí dentro?

Aquilo estava tudo errado. Fora um erro não ter feito conforme Lenny dissera. Eu devia ter ligado para ele quando Regan falara que tinha perguntas a fazer. Agora eu não sabia como agir. De onde eu estava, podia ouvir a voz ansiosa de minha mãe ao telefone, dizendo a Lenny que viesse logo.

Eu estava fazendo uma triagem mental para me sair com uma resposta convincente — e não estava conseguindo — quando um som diferente, inesperado, desviou minha atenção.

O telefone celular, aquele que os sequestradores tinham enviado a meu sogro junto com o pedido de resgate, estava tocando em meu bolso.

 

Tickner e Regan aguardavam minha resposta.

Pedi licença e me levantei antes que eles tivessem chance de reagir. Saí apressado da sala, enfiando desajeitadamente a mão no bolso, indeciso entre atender logo ou esperar chegar lá fora. Saí para o calor ameno do quintal e olhei para o celular, tentando localizar a tecla de atender. O teclado era diferente do meu, mas depois de duas tentativas em falso, apertei a tecla certa e levei o aparelho ao ouvido.

Eu sentia os batimentos acelerados de meu coração contra as costelas. Tossi para limpar a garganta e, sentindo-me um completo idiota, falei:

— Alô?

— Diga sim ou não.

A voz tinha aquele timbre robótico dos sistemas de atendimento automático ao cliente, do tipo que diz: "Para isto ou aquilo digite 2; para outra opção digite 3; para falar com nossos operadores digite 4...".

— Você está com o dinheiro?

— Sim.

— Conhece o Garden State Plaza?

— Sim.

— Daqui a exatamente duas horas, esteja com o carro estacionado no pátio norte, Seção 9, perto do NordstronVs. Alguém irá até você.

— Mas...

— Vá sozinho. Se você levar alguém junto, nunca mais terá notícias nossas. Não há segunda chance. Entendeu?

— Sim, mas...

Clique.

Meu braço pendeu ao lado do corpo, e uma letargia tomou conta de mim. Não tentei combater. Eu tinha uma vaga consciência de ouvir as vozes alteradas de duas meninas que eu vira passar na rua, de bicicleta, enquanto escutava as instruções do sequestrador. Pareciam estar discutindo uma com a outra, pois as palavras "eu", não e minha se destacavam no bate-boca.

Uma caminhonete virou a esquina, cantando os pneus, e em seguida freou bruscamente junto ao meio-fio. A porta do motorista abriu antes que o carro estivesse completamente parado. Eu tinha a sensação de estar assistindo à cena de um patamar mais alto, como se estivesse no mezanino de um teatro. Vi Lenny saltar para fora e se aproximar de mim, apressado, e nesse instante voltei a sentir meus pés no chão.

— Marc!

— Você tinha razão. — Gesticulei com a cabeça em direção à casa. Regan estava parado na soleira da porta. — Eles acham que estou envolvido.

O semblante de Lenny ficou sombrio. Os olhos dele se estreitaram, as pupilas se contraíram até se tornarem dois pontinhos minúsculos. Lenny estava incorporando sua personalidade "Cujo", ele olhou para Regan como se tentando decidir qual parte do corpo do detetive ele esquartejaria primeiro.

— Você falou com eles?

— Um pouco.

Lenny direcionou seu olhar assassino para mim.

— Você não disse que queria a assessoria de seu advogado?

— Logo no início, não.

— Mas que droga, Marc, será possível?! O que foi que eu...

— Recebi um pedido de resgate.

A informação sacudiu Lenny como um tranco. Olhei para o relógio. O Garden State Plaza ficava em Paramus, ou seja, um percurso de quarenta minutos de carro. Dependendo do trânsito, poderia levar até uma hora para chegar. Eu ainda tinha tempo, mas não muito. Comecei a pôr Lenny a par dos detalhes. Ele lançou outro olhar fulminante a Regan e me conduziu para um local mais afastado da casa. Fomos até a mureta de pedra e nos sentamos ali no chão, encostados na mureta, com as pernas dobradas, feito dois garotinhos tramando alguma traquinagem.

Em cinco minutos contei a Lenny tudo o que acontecera, desde que chegara à casa de meu sogro até a chamada do sequestrador pelo celular.

— Quer saber minha opinião? — disse ele, depois que terminei.

— Claro.

— Acho que você deve contar a eles.

— Tem certeza?

— Não.

— O que você faria em meu lugar?

Lenny pensou um pouco.

— É uma decisão difícil, mas acho que eu contaria, sim. Eu aposto nas probabilidades. As probabilidades são sempre mais favoráveis quando você pode contar com a polícia. Não que seja uma garantia de sucesso, é claro. Nem sempre funciona, mas eles têm uma experiência enorme com esse tipo de coisa. Nós, não. — Lenny apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, exatamente como fazia quando era menino. — Essa é a opinião do Lenny Amigo. O Lenny Amigo aconselha você a contar à polícia.

— E o Lenny Advogado? — perguntei.

— Esse seria mais insistente ainda, para que você contasse.

— Por quê?

— Porque se você sair daqui com dois milhões de dólares e esse dinheiro desaparecer... mesmo que você traga Tara de volta... as suspeitas deles serão, no mínimo, reforçadas.

— Eu não me importo com isso. Só quero reaver Tara.

— Eu compreendo. Ou melhor, o Lenny Amigo compreende.

Dessa vez foi Lenny quem consultou o relógio. Eu me sentia estranho, como se meu corpo estivesse oco. Parecia que eu estava ouvindo o tique-taque dos ponteiros, os segundos, os minutos passando. Era de enlouquecer qualquer um. Mais uma vez tentei ser racional, fazer uma lista mental dos prós e dos contras em duas colunas, para poder analisar com calma, ponderar, mas o tique-taque ficava cada vez mais alto em meus ouvidos.

Lenny falara em apostar nas probabilidades. Eu não faço apostas. Não corro riscos. Do outro lado da rua uma das meninas gritou "Depois não diga que não avisei!" e disparou a toda rua abaixo. A outra menina riu e montou em sua bicicleta. Senti as lágrimas aflorarem outra vez. Como eu queria que Mônica estivesse ali! Eu não teria de tomar a decisão sozinho. Ela me ajudaria.

Olhei na direção da casa. Regan e Tickner estavam do lado de fora da porta, Regan com os braços cruzados sobre o peito, Tickner com aquela expressão insondável de sempre. Eu poderia confiar a vida de minha filha àqueles dois homens? Eles dariam prioridade à vida de Tara ou, como Edgar insinuara, agiriam visando a seus próprios interesses?

O tique-taque estava se tornando ensurdecedor.

Alguém matara minha esposa. Alguém raptara minha filha. Nos últimos dias, eu não fizera outra coisa senão me perguntar "Por quê? Por que nós?", sempre tentando não afundar no poço da autopiedade, mas eu não atinava com uma resposta. Não conseguia ver um motivo plausível, e talvez isso fosse o que mais me assustava. Talvez não houvesse motivo algum e, nesse caso, tratava-se de pura contingência, de uma tremenda falta de sorte.

Lenny estava com o olhar fixo à frente, esperando que eu me decidisse.

Tique-taque, tique-taque.

— Vamos contar — falei, por fim.

A reação deles me surpreendeu. Regan e Tickner entraram em Pânico.

Eles tentaram disfarçar, é claro, mas a linguagem corporal deles mudou de repente: os olhos passaram a refletir insegurança, os músculos contraídos do rosto evidenciavam tensão, a voz de ambos revelava medo. O tempo era curto demais, o momento crucial estava muito próximo. Tickner apressou-se a telefonar para alguém do FBI, que pelo jeito era o maior especialista em negociação com sequestradores, para pedir orientação. Ele tapou o receptor com a mão em concha, enquanto falava. Enquanto isso, Regan entrou em contato com a polícia de Paramus.

Tickner desligou e virou-se para mim.

— Vamos mandar cobrir toda a área do shopping com policiais à paisana. Vamos também enviar pelo menos um carro para cada saída da Rota 17, nos dois sentidos. Todas as entradas do shopping serão vigiadas. Mas quero que ouça com atenção o que vou dizer, Dr. Seidman. O conselho de nosso especialista é que tentemos prorrogar o prazo. Se conseguirmos negociar, pedir mais tempo...

— Não — eu disse, cortando-o no meio da frase.

— Eles não vão desistir por causa disso — observou Tickner. — Eles querem o dinheiro.

— Faz três semanas que minha filha está nas mãos desses bandidos. Eu não vou prolongar isso por nem um minuto mais.

Tickner meneou a cabeça, claramente contrafeito, mas tentando manter o ar de serenidade.

— Nesse caso, mandarei um de nossos homens com você, no carro.

— Não — falei novamente.

Tickner tentou outro estratagema.

— Melhor ainda. Aliás, já fizemos isso antes. Diremos ao sequestrador que você não está em condições de dirigir. Afinal, você saiu há poucas horas do hospital. E mandaremos um de nossos homens dirigir. Diremos que é um primo seu.

Franzi as sobrancelhas e voltei-me para Regan.

— Você não disse que suspeitava que minha irmã pudesse estar envolvida?

— Sim, é uma possibilidade.

— Então, se esse seu palpite estiver correto, como vou chegar com um completo desconhecido e dizer que é meu primo?

Tickner e Regan hesitaram, e então menearam a cabeça em consentimento.

— Tem razão — disse Regan.

Lenny e eu trocamos um olhar eloquente. Aqueles dois eram os profissionais a quem eu estava confiando a vida de Tara. A ideia não era nada reconfortante.

Comecei a caminhar para a porta, mas Tickner me alcançou e pôs uma mão em meu ombro.

— Aonde o senhor vai?

— Aonde você acha que vou?

— Sente-se, Dr. Seidman.

— Não tenho mais tempo — rebati. — Preciso ir. Não faço a menor ideia de como está o trânsito.

— Podemos desobstruir o trânsito.

— Ah, mas que medida sutil... — retruquei, sarcástico. — Muito discreta. Para não levantar suspeitas, claro...

— Duvido muito que sigam você daqui até lá.

Eu me virei de frente para Tickner e o encarei, desafiador.

— Sei. E você contaria com isso, se fosse a vida de sua filha que estivesse em jogo?

Os segundos de silêncio que se seguiram responderam à minha pergunta.

— Entendam uma coisa — falei, elevando a voz e encarando os dois policiais, alternadamente. — Não estou nem um pouco preocupado com o dinheiro, nem se os sequestradores vão escapar ou não. Tudo o que quero é minha filha de volta!

— Nós entendemos — respondeu Tickner —, mas há um detalhe que o senhor está esquecendo.

— Qual?

— Por favor, sente-se.

— Diga logo o que quer dizer. Não preciso me sentar. Não me faça perder tempo!

Tickner uniu a palma das mãos e inspirou profundamente. Aquela dramatização estava esgotando minha paciência.

— O sequestrador de sua filha... atirou no senhor. E em sua esposa.

— Sim. Não está me contando nenhuma novidade.

— Mas talvez o senhor não esteja levando em conta um aspecto importante — insistiu ele. — Quem fez isso matou sua esposa e acreditou tê-lo matado também. Percebe o risco que está correndo se for sozinho ao encontro deles?

— Marc — interveio Regan, dando um passo à frente —, nós aventamos várias hipóteses, algumas delas ousadas, conforme expus a você no hospital. O problema é que não passam de meras hipóteses. Não sabemos qual é a intenção desses caras, de fato, o que eles realmente querem. Talvez se trate apenas de mais um caso de sequestro, puro e simples; mas, se for isso, é completamente diferente de tudo que já vimos.

O ar ameaçador desaparecera do rosto dele, a pose arrogante de interrogador fora substituída por uma expressão franca e aberta, o olhar direto e as sobrancelhas erguidas tentando transmitir sinceridade e um empenho genuíno em pôr todas as cartas na mesa e encontrar a melhor solução.

— A única coisa que sabemos, com certeza — prosseguiu ele —, é que alguém tentou matar você, e que essa mesma pessoa, ou grupo, levou sua filha. Um sequestrador comum, se é que posso me expressar dessa forma, enfim, se tudo o que ele quer é dinheiro, ele não vai matar justamente os dois principais interessados na negociação.

— Talvez a intenção deles fosse pedir o resgate a meu sogro, que é quem tem dinheiro.

— Mas, nesse caso, por que teriam esperado tanto tempo?

Eu não sabia a resposta.

— É possível que tudo isso não tenha nada a ver com sequestro — disse Tickner. — Pelo menos, não no início. O pedido de resgate pode ser um subterfúgio. Talvez o senhor e sua esposa tenham sido os verdadeiros alvos. E, se assim for, eles vão querer concluir o trabalho.

— Quer dizer que isso pode ser uma cilada?

— É uma possibilidade muito forte.

— E qual é seu conselho?

— Não vá desacompanhado. Deixe que ganhemos tempo para nos preparar adequadamente. Não apareça no horário combinado, assim eles serão forçados a telefonar outra vez. Então você explicará que não está em condições de dirigir.

Olhei para Lenny. Como sempre, entre nós não havia necessidade de palavras. Ele meneou a cabeça e virou-se para os policiais.

— Isso é impossível — declarou.

— Com todo o respeito, doutor, seu cliente está correndo sério perigo! — protestou Tickner, exaltado.

— Minha filha também. — Eram três palavras simples. Não havia mais o que pensar ou debater. A decisão estava tomada. — Digam a seus homens para manter distância.

 

O trânsito estava bom, e acabei chegando ao shopping bem antes da hora combinada. Desliguei o motor do carro e me recostei no assento. Percorri o estacionamento com os olhos. Tinha certeza de que havia policiais de olho em mim, tanto federais quanto civis, mas era impossível distingui-los entre as pessoas que transitavam por ali. Ainda bem. Melhor assim.

Comecei a ficar ansioso. Impaciente, até. Liguei o rádio, mas não estava tocando nada que valesse a pena, então apertei o botão do CD. Quando Donald Fagan, do Steely Dan, começou a cantar Black Cow, cheguei a sentir um tremor percorrer meu corpo. Acho que eu não escutava aquele CD desde a época de faculdade. Eu nem sabia que fim ele tinha levado, não imaginava que estivesse com Mônica... Nesse instante, com outro baque, me dei conta de que Mônica fora a última a usar o carro, e que provavelmente aquela fora a última música que ela ouvira.

Observei os clientes, na maioria mulheres, se preparando para entrar no shopping, prestes a abrir as portas. Concentrei-me em observar duas jovens mães e os movimentos tão parecidos de ambas, embora nenhuma das duas estivesse ciente da outra. A destreza com que tiraram o carrinho de bebé do porta-malas da van, a facilidade com que o abriram, a desenvoltura com que se debruçaram sobre o banco de trás, os movimentos ágeis enquanto soltavam o cinto de segurança e tiravam o filho da cadeirinha para acomodá-lo no carrinho, o porte elegante e orgulhoso enquanto começavam a empurrar o carrinho ao mesmo tempo que se voltavam, com o controle na mão, para travar as portas da van.

Aquelas duas mães eram iguais a tantas outras, todas com aquele mesmo ar blasé. Seus filhos estavam ali, com elas. Elas podiam contar com a comodidade de automóveis modernos e confortáveis e com a segurança de cadeirinhas anatomicamente projetadas para transportar os filhotes. Já eu estava sentado ali, com uma mochila contendo o pagamento do resgate de minha filha, esperando conseguir tê-la de volta. Tive de controlar o impulso de baixar o vidro e avisar aquelas moças para que não se descuidassem nem por um segundo de seus bebés.

A hora crucial se aproximava. O sol batia em cheio no pára-brisa do meu carro. Abri o porta-luvas para pegar os óculos de sol, mas depois, não sei bem por quê, achei melhor não usá-los. O fato de eu estar de óculos escuros poderia deixar o sequestrador nervoso? Não sei. Provavelmente não. Mas era melhor não arriscar.

Eu me empertiguei no assento do carro e olhei de novo ao redor, tentando não demonstrar que estava alerta. Também não sei explicar por quê. Cada vez que um carro estacionava em alguma vaga próxima, ou alguém passava ali por perto, meu estômago se contraía e eu pensava:

"Será que Tara está em algum lugar deste estacionamento?"

Finalmente chegou a hora exata — duas horas após o telefonema pelo celular. Eu queria que aquilo acabasse logo. Os próximos minutos seriam decisivos, eu sabia disso.

Calma. Eu precisava ficar calmo. A advertência de Tickner reverberou em meus ouvidos. E se alguém chegasse perto do carro e explodisse meus miolos?

Reconheci que era uma possibilidade.

Quando o celular tocou, pulei no assento. Levei o aparelho ao ouvido e praticamente rosnei um "alô".

A voz robótica falou:

— Saia pelo portão oeste.

Fiquei confuso.

Qual é o portão oeste?

— Siga as indicações de Saída — Rota 4. Pegue a ponte. Você está sendo observado. Se alguém seguir você, nós desaparecemos. Fique no celular e vá seguindo as instruções.

Eu obedeci sem relutância. Com a mão direita pressionei o celular contra a orelha, com tanta força que chegou a machucar. E com a esquerda segurei o volante, pronto para arrancar.

— Pegue a Rota 4, sentido oeste.

Dobrei à direita e entrei na via expressa. Olhei no retrovisor para ver se havia alguém me seguindo, mas não havia como saber. Ouvi a voz robótica:

— Logo depois da saída para a Paramus Road, tem um centro comercial, à direita. Há uma placa grande, de uma loja de móveis infantis.

— Já estou vendo.

— Entre e siga pelo caminho à esquerda, que contorna o bloco de lojas. Você vai chegar à área dos fundos do centro comercial. Pare, desligue o motor e deixe o dinheiro à mão.

Compreendi imediatamente por que o sequestrador havia escolhido aquele local. Só havia um acesso para chegar ali, que era pela entrada para o centro comercial. Todas as lojas estavam fechadas, com exceção da loja que vendia móveis infantis, que ficava na extremidade oposta à pequena estrada. Era uma área protegida da via expressa pelo bloco de lojas, e não havia possibilidade de alguém chegar ali de nenhum outro lado a não ser por onde eu viera. Eu só esperava que os policiais à paisana tivessem a perspicácia de perceber isso e não resolvessem aparecer.

Antes mesmo de parar o carro, avistei um homem de pé ao lado de uma van, trajando camisa de flanela xadrez vermelho e preto, calça jeans preta, boné e óculos escuros.

Procurei identificar alguma coisa nele que pudesse distingui-lo, alguma característica marcante, mas não havia nada de especial no sujeito. Era um tipo comum, estatura média, constituição média... O único traço, talvez, fosse o nariz. Mesmo a certa distância, dava para ver que era um pouco torto, como o de um lutador de boxe. Mas também não havia como saber se era real, ou se era um disfarce.

A seguir, me concentrei em examinar a van. Tinha uma marca comercial na lateral, B&TMateriais Elétricos-Ridgewood-N.J., mas não havia endereço nem número de telefone.

A placa era de Nova Jersey, e eu decorei o número.

O homem levou um telefone celular aos lábios, no estilo walkie-talkie, e ouvi a entonação mecânica da voz dele:

— Vou até aí. Entregue o dinheiro pela janela. Não saia do carro, nem fale comigo. Quando estivermos a uma distância segura, ligarei avisando onde pegar sua filha.

Ele baixou o celular e começou a vir em minha direção. A camisa dele estava por cima da calça, era impossível saber se ele tinha uma arma. E, mesmo que tivesse, o que eu podia fazer àquela altura? Apertei o botão para baixar o vidro.

Nada.

Eu precisava girar a chave para o sistema elétrico funcionar.

O homem estava chegando perto, com o boné enterrado na cabeça até acima dos óculos. Segurei a chave e dei uma leve virada, com cuidado para não ligar a ignição.

As luzes no painel acenderam, e apertei outra vez o botão para abrir a janela. Para meu alívio, o vidro deslizou para baixo.

Novamente tentei detectar algum traço especial no homem. O andar dele era um pouco incerto, como se ele tivesse tomado uns tragos a mais, mas não parecia nervoso.

A barba estava por fazer, e ele tinha as mãos encardidas. A perna direita da calça tinha um rasgo na altura do joelho, e os tênis de lona estavam bastante surrados.

Quando ele estava a dois passos de meu carro, peguei a mochila e a segurei junto à janela. Por alguns segundos parei de respirar. O homem não parou, nem mesmo diminuiu o passo. Em um único e contínuo movimento ele pegou a mochila, girou nos calcanhares e começou a se afastar de volta em direção à van, um pouco mais depressa agora.

A porta de trás da van se abriu, ele pulou para dentro e a porta tornou a fechar. Era como se ele tivesse sido engolido pela van.

O motor roncou alto, e a van arrancou a toda.

Só então eu percebi que havia outra estradinha, no lado oposto do terreno. A van enveredou por ela e em questão de segundos desapareceu de vista.

Ali estava eu, sozinho, outra vez.

Não me mexi, fiquei parado dentro do carro, esperando o celular tocar. Meu coração martelava furiosamente, minha camisa estava empapada de suor. Ninguém aparecia, não havia sinal de vida, de algum carro se aproximando, nada.

Fiquei olhando para o calçamento rachado do pátio. Encostado à parede havia um latão de lixo transbordando de tão cheio, com algumas embalagens de papel caídas no chão e algumas garrafas quebradas espalhadas em volta. Fixei a vista numa delas, tentando ler o que estava escrito no rótulo.

Quinze minutos se passaram.

Eu não parava de pensar no reencontro com minha filha, no momento em que eu a veria, a pegaria no colo e a abraçaria com força. Mas o celular precisava tocar. Era primordial que tocasse, seria o primeiro movimento para me guiar em direção à minha filha. Todo o cenário em minha cabeça começava com o celular tocando, a voz robótica me dando as instruções. Por que a droga de celular continuava mudo?

Então, um Buick se aproximou pela mesma entrada por onde eu viera e parou, a certa distância de meu carro. Não reconheci o motorista, mas era Tickner quem estava no banco do passageiro. Ele olhou para mim, e tentei decifrar a expressão dele, em vão. O semblante dele continuava aquela máscara impassível.

Voltei a olhar fixamente para o celular, mas o aparelho continuava mudo e quieto. Aí o tique-taque voltou a retumbar em meus ouvidos.

Mais dez minutos se passaram até que o celular emitiu o toque musical de chamada. Apertei a tecla de atender antes do terceiro acorde da melodia.

— Alô.

Silêncio.

Ergui os olhos e vi que Tickner me observava atentamente. Ele inclinou de leve a cabeça, embora eu não tivesse ideia nenhuma de qual poderia ser o significado daquele gesto. Ao lado dele, o motorista continuava com as duas mãos no volante, como que de prontidão.

— Alô? — tentei de novo.

A voz robótica falou:

— Eu avisei para não envolver a polícia.

Meu sangue gelou.

— Sem segunda chance. E a linha ficou muda.

 

Eu estava num beco sem saída.

Eu queria apagar. Queria voltar àquele estado comatoso em que havia ficado no hospital. Queria estar dopado por analgésicos e sedativos. Eu tinha a sensação de que minha pele fora arrancada e de que todos os nervos estavam expostos. Sentia cada célula sangrar e doer insuportavelmente.

O medo e a desesperança me engolfaram. O medo me acuava, e a desesperança — aquela consciência terrível de que pusera tudo a perder e de que estava impotente para proteger minha filha — me sufocava feito uma camisa-de-força e apagava todas as luzes. Era bem provável que estivesse enlouquecendo.

Os dias se sucediam numa espécie de névoa, e eu me perdia um pouco ali dentro, sem uma noção exata. Passava a maior parte do tempo sentado perto de algum telefone, fosse o de casa, fosse meu celular, fosse o celular do sequestrador. Comprei um carregador de bateria para ele e tomava o cuidado de mantê-lo constantemente carregado e ligado. Eu passava horas no sofá, com os dois celulares ali do lado. Eu tentava não ficar olhando para eles, tentava me concentrar na TV, pois lembrava do velho ditado que diz que o leite nunca derrama quando você está olhando. Mas a todo instante meus olhos se moviam para aqueles dois malditos aparelhos, desejando que um deles tocasse.

Eu também tentava ativar aquele sexto sentido paternal que me dava a certeza de que Tara estava viva. Não conseguia de todo, mas restava ainda uma espécie de vibração, fraca, porém presente.

Para piorar meu sentimento de culpa, havia sonhado naquela noite com uma mulher que não era Mônica... Era meu amor antigo, Rachel. Tinha sido um daqueles sonhos confusos e incoerentes, mas que não se questiona na hora. No sonho, Rachel e eu estávamos juntos, nunca havíamos rompido, embora nos encontrássemos no tempo atual.

Eu estava com meus trinta e quatro anos reais, mas ela continuava a garota que eu havia namorado. Tara era minha filha, não houvera sequestro nenhum, e ela era filha de Rachel, mas Mônica também era mãe dela.

Você já deve ter tido sonhos assim. Nada faz sentido, mas curiosamente a gente não se dá conta disso enquanto o sonho se desenrola. É como se fosse tudo normal.

Depois que acordei, tive apenas uma vaga lembrança do sonho, como sempre acontece, e passei o dia inteiro com aquela sensação vívida, persistente e melancólica, aquela vontade de que tivesse sido real.

Minha mãe ia à minha casa com frequência, demais até, e havia acabado de pôr uma bandeja com comida na minha frente. Eu nem toquei nela, e pela milionésima vez minha mãe disse:

— Você tem de se alimentar. Tara precisa de sua força.

— Tudo bem, mãe, se o que está faltando é força, quem sabe se eu passar o dia inteiro fazendo musculação e levantamento de peso eu consiga trazê-la de volta.

Minha mãe balançou a cabeça, recusando-se a responder à infâmia. Fora crueldade minha, porque ela também estava sofrendo muito. A neta desaparecida, o filho deprimido e definhando... Mas ela apenas suspirou e voltou para a cozinha. E eu não pedi desculpas.

Tickner e Regan apareciam com frequência também. Eles me lembravam da frase de Shakespeare, sobre som e fúria não significarem nada. Ficavam me contando sobre todas as maravilhas tecnológicas que estavam sendo utilizadas nas buscas para encontrar Tara, um aparato que envolvia DNA e impressões digitais camufladas, câmeras de segurança, aeroportos, postos de pedágio, estações e trem, rastreadores, vigilância e esquemas de perícia. Toda vez repetiam os mesmos clichés, "não estamos medindo esforços", "vinte e quatro horas por dia", "investigação minuciosa", "explorando todas as possibilidades". Eu só os ouvia falar e acenava com a cabeça de vez em quando.

Eles me mostraram uma série de fotos tiradas dos arquivos da polícia, mas nenhuma delas era do homem a quem eu entregara o dinheiro.

— Investigamos a B&T Materiais Elétricos — dissera Regan naquela primeira noite. — A empresa existe, mas a marca afixada nas caminhonetes é uma película que pode ser facilmente retirada. Uma delas foi roubada, há cerca de dois meses, mas eles acharam que não valia a pena registrar ocorrência.

— E a placa do carro? — lembrei-me de perguntar.

— O número que você nos informou não existe.

— Como assim?

— Eles usaram placas velhas, já canceladas — explicou Regan. — Algumas quadrilhas fazem isso, pegam placas velhas, cortam ao meio e soldam a metade esquerda de uma com a metade direita da outra.

Fiquei olhando para ele, perplexo.

— Há um aspecto positivo nisso tudo — ele acrescentou.

— Ah, sim?

— Estamos lidando com profissionais. A escolha do local para a entrega do dinheiro, totalmente estratégica; a pista falsa da marca comercial no carro e as placas falsificadas, tudo isso é trabalho de profissionais.

— E isso é bom?

— Via de regra os profissionais não são sanguinários.

— O que eles querem, então?

— Nossa teoria é de que eles estão fazendo pressão emocional para depois pedir mais dinheiro.

Pressão emocional. Se fosse isso, estavam conseguindo.

Meu sogro me ligou depois do fiasco do resgate. Detectei o desapontamento na voz dele. Não quero parecer grosseiro — afinal, foi Edgar que providenciou o dinheiro e deixou claro que não hesitaria em fazê-lo de novo —, mas o desapontamento dele me soou mais direcionado a mim, pelo fato de eu não ter seguido o conselho dele de não envolver a polícia, do que propriamente pelo fracasso final.

E, na verdade, ele estava certo. Eu havia metido os pés pelas mãos de uma maneira deplorável.

Tentei fazer parte da investigação, mas a polícia não me encorajou nem um pouco. Nos filmes, sempre há aquela interação entre as autoridades e a vítima, troca de informações. Naturalmente fiz uma porção de perguntas a Tickner e Regan, mas eles não responderam. Em momento algum compartilharam detalhes comigo, chegando quase a demonstrar desdém por minhas interrogações. Eu queria saber, por exemplo, de que forma minha esposa havia sido encontrada, por que ela estava sem roupa, mas não consegui arrancar uma única palavra deles.

Lenny me visitava sempre. Eu percebia claramente o constrangimento dele, o sentimento de culpa por ter me encorajado a envolver a polícia. Regan e Tickner, por sua vez, pareciam divididos entre a culpa por tudo ter saído errado e um fio de suspeita dirigido a mim. Eles ainda não estavam totalmente convencidos de que eu não estava por trás daquilo tudo. Aliás, pareciam cada vez mais inclinados a acreditar em meu envolvimento no esquema. Queriam saber sobre minha crise conjugal com Mônica, queriam saber sobre a arma desaparecida. A medida que o tempo passava, eu me afigurava como o suspeito mais provável.

Depois de uma semana, a polícia e o FBI começaram a recuar. Tickner e Regan já não apareciam com tanta frequência e, quando vinham, não se demoravam muito, sempre olhando o relógio, sempre pedindo licença para fazer algum telefonema, sempre se justificando de que estavam atrasados para outros compromissos. Obviamente eu conseguia compreender isso. Não havia novas pistas, a poeira estava baixando. Por um lado, apreciei aquele respiro.

Então, no nono dia, tudo mudou.

Às dez horas da noite, eu estava sozinho em casa, me trocando para dormir. O apoio da família e dos amigos era muito importante e me sentia grato a todos pelas demonstrações de solidariedade e carinho, mas felizmente também percebiam minha necessidade de ficar só, de vez em quando. Depois que todos foram embora, eu havia ligado para o Hunan Garden e pedido para entregarem uma salada com frios, apenas para me alimentar e ficar forte, conforme a insistente recomendação de minha mãe.

Olhei para o rádio-relógio no criado-mudo, por isso sei a hora exata em que aconteceu — dez horas e dezoito minutos. Relanceei rapidamente o olhar pela janela. Estava escuro lá fora, mas meu subconsciente registrara alguma coisa, algo atraíra meu olhar. Parei e olhei outra vez para fora.

Um vulto de mulher estava na entrada do jardim, imóvel feito uma estátua. Parecia olhar fixamente para minha casa, embora eu não pudesse jurar, pois o rosto dela estava oculto pelas sombras da noite. A única coisa que eu podia ver claramente era que ela tinha cabelos compridos, parecia alta e usava uma espécie de sobretudo.

As mãos estavam enfiadas nos bolsos, mas ela não se movia. Simplesmente estava ali, parada.

Fiquei sem saber exatamente o que fazer. Meu nome estava nos noticiários, claro, o movimento ali na casa e na rua havia sido intenso nos últimos dias, com repórteres e jornalistas entrando e saindo, aquela coisa toda. Vasculhei a rua, de um lado e de outro, mas não vi nenhum carro, nenhuma van, nada. A mulher estava a pé.

Aquilo era estranho. Não que fosse incomum ver pessoas passando por ali a pé. Afinal, eu morava numa rua residencial, e era frequente ver casais andando juntos ou algum vizinho levando o cachorro para passear, mas uma mulher sozinha, àquela hora da noite, era muito esquisito. Por que teria ficado ali, como que hipnotizada?

Talvez um caso de curiosidade mórbida, presumi.

Um arrepio de inquietação percorreu minha espinha. Peguei a camiseta e a calça de moletom que eu havia acabado de jogar no encosto da cadeira e tornei a vesti-las, por cima do pijama. Olhei novamente pela janela, e a mulher se empertigou, alerta.

Ela me vira.

Então, ela deu meia-volta e começou a se afastar, apressada. De repente senti uma forte opressão no peito. Corri para a janela, levantei um pouco o vidro e aproximei o rosto da abertura.

— Ei, moça! Espere! Ela apertou o passo.

— Por favor, espere um pouco! Ela começou a correr.

Eu me virei e disparei para fora do quarto, descalço. Meus chinelos não estavam à vista, e não queria perder tempo calçando sapatos. Desci correndo e saí para o jardim, sentindo a grama pinicar meus pés, e fui para a rua, atrás da moça. Mas ela desaparecera.

Voltei para dentro de casa e telefonei para Regan, para contar o que acontecera. Mas enquanto eu falava com ele, me senti um tolo. "Vi uma mulher parada na rua, olhando para minha casa." E daí? Grande coisa. Claro que Regan não deu muita importância.

Tentei me convencer de que aquilo não significava nada, que era apenas alguma vizinha enxerida. Tirei a roupa, me enfiei debaixo das cobertas e passei por todos os canais, com o controle remoto. Até que o sono — veio, e fechei os olhos.

Mas os eventos daquela noite não haviam terminado.

As quatro horas da manhã o telefone tocou. Eu diria que estava num estado de sonolência. Havia algum tempo que eu não conseguia dormir profundamente. À noite meu corpo descansava, mas minha mente se recusava a parar de funcionar.

Com os olhos fechados, eu repassava mentalmente, pela enésima vez, o episódio do ataque à minha casa e à minha família, começando pelo lugar onde me encontrava naquele momento, ou seja, deitado na cama. Lembrei-me do despertador tocando baixinho. Naquela manhã, Lenny e eu íamos jogar raquetebol. Jogávamos todas as quartas-feiras, fazia já um ano. Mônica já se levantara e estava tomando banho. Eu tinha uma cirurgia agendada para as onze horas. Levantei-me e dei uma espiada em Tara. Quando voltei para o quarto, Mônica já saíra do banheiro e estava vestindo a calça jeans. Desci para a cozinha, ainda de pijama, abri o armário ao lado da geladeira, peguei uma barra de cereal... Havia duas, de framboesa e de morango, e eu escolhi a de framboesa, fato que relatei a Regan posteriormente, como se fosse um detalhe relevante e me encostei na pia enquanto comia.

E isso era tudo que eu lembrava. Depois, acordei no hospital. O telefone tocou outra vez e eu abri os olhos. Tateei com a mão até achar o receptor.

— Alô?

— Detetive Regan falando. Estou com o agente Tickner. Estaremos aí em dois minutos.

Engoli em seco.

— O que houve?

— Dois minutos. E desligou.

Saltei para fora da cama e olhei pela janela, quase esperando ver a mulher ali outra vez. Mas não havia ninguém.

A calça que eu usara na véspera estava no chão, amarfanhada, mas eu a vesti assim mesmo. Enfiei uma camiseta pela cabeça e desci a escada, apressado. No instante em que abri a porta e espiei para a rua, um carro de polícia virou a esquina. Regan estava ao volante, e Tickner no banco do passageiro. Tive um mau pressentimento.

Os dois saíram do carro, e senti uma onda de náusea. Desde o desfecho fracassado do resgate, eu me preparara para aquilo. Cheguei a antecipar mentalmente a cena — Regan e Tickner chegando à minha casa, muito sérios, escolhendo as palavras para me dar a terrível notícia. Imaginei minha reação, meneando a cabeça, depois murmurando palavras de agradecimento por tudo. Cheguei até a ensaiar minha fala. De antemão, eu já sabia como seria.

Mas, naquele momento, vendo Regan e Tickner andando ao meu encontro, minha segurança esvaiu-se e deu lugar ao pânico. Comecei a tremer da cabeça aos pés, a ponto de sentir que meus joelhos fraquejariam a qualquer instante e eu cairia. Apoiei-me no batente da porta, observando os dois homens se aproximarem, lado a lado, caminhando no mesmo passo e ritmo. Veio-me à lembrança uma cena de um filme de guerra antigo, que eu havia assistido, de dois oficiais com os semblantes consternados indo à casa da mãe de um soldado morto em combate, para dar a notícia.

Por um momento senti vontade de mandar aqueles dois embora, mas eles já estavam passando por mim e entrando em minha casa.

— Temos uma coisa para lhe mostrar — anunciou Regan. Eu me virei e fui com eles até a sala, ainda às escuras àquela hora. Acendi um abajur, mas a lâmpada era fraca e não iluminou muita coisa. Tickner se sentou no sofá e abriu um notebook. O monitor se acendeu, banhando o rosto dele com uma claridade azulada.

— Temos um rastro — explicou Regan. Eu cheguei mais perto.

— Seu sogro nos deu uma lista com a sequência numérica das cédulas do dinheiro do resgate, está lembrado?

— Sim.

— Uma delas foi identificada em um banco ontem à tarde. O agente Tickner está abrindo o vídeo que eles liberaram agora há pouco para nós.

— Do banco? — perguntei.

— Sim. Nós carregamos o vídeo no notebook. Há cerca de doze horas, uma pessoa foi até o caixa do banco e pediu para trocar a nota. Dê uma olhada no vídeo.

Eu me sentei ao lado de Tickner. Ele pressionou uma tecla e o vídeo se iniciou. Eu esperava um filme em preto-e-branco, de um ângulo distante e com uma imagem de má qualidade, mas o que vi foi o contrário. A cena fora filmada de cima, a uma distância pequena e a imagem era colorida e nítida. Um homem calvo falava com o caixa, mas não havia som.

— Não reconheço esse...

— Espere.

O careca disse alguma coisa para o caixa, e os dois riram, de modo descontraído. O cliente recebeu um papel das mãos do caixa acenou e foi embora. Então a próxima pessoa da fila chegou perto do balcão do caixa, e sufoquei um grito.

Era minha irmã, Stacy.

O torpor pelo qual eu tanto ansiara me invadiu. Não sei por quê. Talvez porque duas emoções opostas me dominaram ao mesmo tempo. Uma delas foi horror. Minha própria irmã fizera aquilo. Minha irmã, a quem eu amava tanto, me traíra. A outra foi esperança. Agora havia esperança. Tínhamos uma pista. E se era Stacy, eu não acreditava que ela fosse capaz de machucar Tara.

— Essa é sua irmã? — indagou Regan, apontando para a imagem.

— Sim. — Olhei para ele. — Onde foi isso?

— No Catskills — ele respondeu. — Numa cidade chamada...

— Montague — eu completei. Tickner e Regan se entreolharam.

— Como você sabe?

Mas eu já me encaminhava para a porta.

— Eu sei onde ela está.

 

Meu avô adorava caçar. Sempre achei isso um pouco estranho, porque ele era uma pessoa muito amorosa, um homem gentil, de bom coração. Ele nunca falava sobre essa paixão. Não pendurava cabeças de veado em cima da lareira, não decorava as prateleiras com animais embalsamados nem estendia peles de urso no chão para servir de tapete. Ele não caçava com amigos ou pessoas da família. Era uma atividade que meu avô praticava sozinho e sobre a qual não conversava com ninguém.

Em 1956, meu avô comprou uma cabana na reserva de caça de Montague, em Nova York, por menos de três mil dólares. Imagino que hoje em dia custaria mais ou menos isso.

Era uma cabana de dois cômodos, uma construção rústica, no sentido de tosca, não de charmosa. Ficava num lugar quase impossível de alguém achar. Para chegar lá, era preciso ir até o fim da pequena estrada de terra e depois andar cerca de duzentos metros no meio do mato.

Depois que meu avô morreu, há quatro anos, a cabana ficou para minha avó. Isto é, pelo menos foi o que deduzi, porque ninguém se preocupou muito com isso, na verdade.

Já fazia quase dez anos que meus avós haviam se mudado para a Flórida, minha avó sofria de mal de Alzheimer, e presumi que a cabana era um bem que ela possuía. A parte de taxas, impostos e tudo mais, eu imaginava que estivesse bastante atrasada.

Quando minha irmã e eu éramos crianças, nós religiosamente passávamos um fim de semana das férias de verão na cabana, com nossos avós. Eu não gostava nem um pouco.

Para mim não era divertimento ir para o meio do mato, onde não havia nada para fazer além de ser mordido por insetos. Não tinha televisão, a noite era um breu total e durante o dia o silêncio profundo era interrompido apenas pelo som dos tiros de rifle de caça. Passávamos a maior parte do dia caminhando, fazendo trilhas, uma atividade que eu achava tediosa. Até hoje não tenho muita paciência para isso. Houve um ano em que minha mãe pôs somente roupas caqui na minha mala. Passei dois dias apavorado, com medo de que algum caçador me confundisse com um cervo.

Stacy, ao contrário de mim, adorava ir para a cabana. Desde pequena já apreciava aquela fuga da rotina urbana, da escola e dos deveres de casa. Passava horas andando no mato, colhendo folhas, vasculhando a vegetação rasteira à procura de caracóis, que ela colocava dentro de um frasco largo e fundo, para mais tarde libertá-los outra vez. Ela adorava pisar descalça na terra, sem se importar com pedregulhos, raízes ou espinhos.

Contei sobre a cabana para Tickner e Regan enquanto percorríamos velozmente a Rota 87. Tickner comunicou-se pelo rádio com o departamento de polícia de Montague.

Eu me lembrava muito bem de como chegar à cabana, mas teria sido impossível explicar o caminho. Eram quatro e meia da manhã, e com a estrada deserta não havia necessidade de ligar a sirene. Pegamos a saída 16 na New York Thruway e passamos pelo Woodbury Common Outlet Center.

A floresta estava envolta em neblina. Faltava pouco, agora; estávamos perto. Indiquei a Regan onde virar e seguimos pelo caminho de terra estreito e acidentado que não havia mudado nada nos últimos trinta anos. Quinze minutos depois, nós chegamos.

Stacy.

Minha irmã nunca fora uma menina bonita. Talvez esse fato tenha sido parte do problema. Sim, sei que parece bobagem. E é. Mas vá dizer isso a uma adolescente! Stacy não era uma garota popular, não era atraente para os rapazes e tinha poucas amigas.

Ninguém telefonava para ela, ninguém a convidava para sair. Claro que existem várias adolescentes com complexos desse tipo. A adolescência é sempre um período de conflito, ninguém passa por ela incólume. E, sem dúvida nenhuma, a doença de meu pai foi um tremendo golpe para nós. Mas nada disso poderia ser considerado um motivo para a atitude de Stacy.

Levando em conta todas as teorias, análises e traumas de infância de minha irmã, eu diria que algo mais rudimentar foi o que determinou o problema dela. Ela tinha algum desequilíbrio químico no cérebro, algum descompasso hormonal que resultou em excesso de alguma coisa de um lado e falta de outra coisa de outro lado, algo assim. E nós não detectamos os sinais a tempo. Ela tinha crises de depressão numa época em que esse tipo de comportamento era confundido com mau humor. É possível, admito, que toda essa minha racionalização seja um processo de autodefesa para justificar minha própria indiferença para com Stacy. Ela era apenas minha irmã mais nova, esquisita e chata. Eu já tinha meus próprios problemas e o egoísmo de um adolescente que não tinha tempo nem espaço para se preocupar com os problemas dela.

Mas, enfim, fosse qual fosse a origem dos tormentos emocionais de Stacy — fisiológica, psicológica ou uma maneira de chamar a atenção —, o processo destrutivo chegara ao fim.

Minha irmã estava morta.

Nós a encontramos no chão da cabana, encolhida em posição fetal. Era assim que ela dormia quando pequena, com a cabeça e as pernas dobradas para dentro, o queixo encostando nos joelhos. Mas apesar de não haver nenhuma marca nem sinal de ferimento, eu sabia que ela não estava dormindo. Abaixei-me e me inclinei sobre Stacy.

Os olhos dela estavam abertos, fixos em mim, imóveis. Porém interrogadores. Ela ainda parecia a menina confusa e perdida que sempre fora. Não era para ser assim.

A morte deveria trazer alívio, deveria trazer a paz que ela não conseguira encontrar em vida. Por quê, eu me perguntei, Stacy parecia tão desamparada?

Uma agulha hipodérmica estava caída no chão ao lado dela, companheira na morte assim como fora em vida. Stacy se drogara, claro. Se o fizera intencionalmente ou não, eu não sabia. E, àquela altura, essa questão não era primordial. A polícia me pediu licença para iniciar os procedimentos de praxe, e eu desviei os olhos do corpo de minha irmã com certa dificuldade.

Tara.

O interior da cabana estava um caos. Os guaxinins haviam invadido o local e se instalado ali. O sofá onde meu avô costumava cochilar estava rasgado, as molas projetadas para fora e pedaços da espuma do estofamento arrancados e espalhados pelo chão. O lugar inteiro cheirava a urina de animais e putrefação. Parei por um segundo e escutei, para tentar ouvir algum choro de criança, mas não havia som algum. Olhei ao redor da sala e não vi nada, então corri para o quarto, atrás de um dos policiais.

O quarto estava escuro, e levei a mão automaticamente ao interruptor. Nada. Nenhuma luz acendeu. Os focos das possantes lanternas dos policiais cruzaram a escuridão como espadas de aço. Vasculhei o quarto com os olhos e quase gritei ao divisar um bebê-conforto.

Era um daqueles modelos modernos, dobráveis. Mônica e eu tínhamos um. Todo mundo que tem um bebé possui um desses. A etiqueta do produto estava pendurada para fora de uma das laterais, sinal de que o produto era novo.

Meus olhos se encheram de lágrimas. O foco de luz passou pelo bebê-conforto, criando um efeito estroboscópico. Parecia vazio. Meu coração afundou dentro do peito, mas fui até lá assim mesmo, para o caso de ter sido ilusão de ótica causada pela luz e Tara estar aconchegada sob a aba dobrada para dentro.

Mas a única coisa que havia ali era um cobertor de bebé.

Uma voz suave — como um sussurro saído de um pesadelo — soou no quarto:

— Santo Deus!

Virei-me bruscamente na direção da voz, que soou novamente, ainda mais fraca:

— Aqui — disse um policial. — No guarda-roupa. Tickner e Regan já estavam lá, ambos olhando para dentro do guarda-roupa. Mesmo na penumbra, vi o rosto deles empalidecer.

Trôpego, cambaleei até a porta aberta do armário e me segurei nela para não cair. Então olhei para dentro e vi. E, enquanto olhava para o tecido enxovalhado, senti como se minhas entranhas implodissem e depois virassem pó.

Ali, jogado no fundo do guarda-roupa, todo rasgado e desfiado, estava um macacãozinho cor-de-rosa estampado com pequenos pinguins pretos.

 

Um Ano e Meio Depois.

Lydia viu a mulher sozinha no Starbucks, sentada num banco, olhando distraidamente o vai-e-vem de pedestres. O copo de café estava perto da janela, formando um círculo de vapor no vidro. Lydia observou-a por um momento. A dor ainda estava estampada no semblante da viuva: o abatimento, o olhar longínquo, a postura derrotada, os cabelos sem vida, o tremor nas mãos.

Lydia pediu um café com leite grande com espuma. O barista, um rapaz esquálido todo de preto e com uma barbicha rala, deu aquele olhar por conta da "casa". Os homens, mesmo daquela idade, faziam esse tipo de coisa por Lydia. Ela afastou os óculos escuros e agradeceu, e o garoto por pouco não babou na camisa.

Lydia foi até a mesa de condimentos, ciente dos olhos do rapaz fixos em seus quadris. Mas ela estava acostumada com isso. Pingou algumas gotas de adoçante na bebida.

Havia poucos clientes no Starbucks àquela hora, e portanto vários lugares vazios, mas Lydia foi se sentar no banco ao lado da viúva. Percebendo o movimento próximo, a mulher saiu do devaneio.

— Wendy? — murmurou Lydia. Wendy Burnet, a viúva, voltou-se para ela.

— Eu lamento muito sua perda — Lydia disse, e sorriu. Lydia sabia que seu sorriso era caloroso. Estava usando um conjunto cinza, no corpo esguio e delicado, com blusa de gola alta, elegante para o trabalho. Os olhos tinham um brilho expressivo, o nariz levemente arrebitado, os cabelos eram anéis avermelhados, mas ela podia mudar os cabelos e os mudava.

O modo como Wendy Burnet encarou Lydia a fez imaginar se a viúva a reconhecera. Lydia vira aquele tipo de olhar inúmeras vezes antes, aquela expressão de quem reconhece uma fisionomia, mas não consegue se lembrar de onde, apesar de ela não ter aparecido na televisão desde os treze anos de idade. Algumas pessoas chegaram a comentar "Sabe com quem você é parecida?", mas Lydia — cujo nome artístico era Larissa Dane — desconversava.

Mas a hesitação de Wendy Burnet não era desse tipo. Ela ainda estava abalada demais pelo trágico fim de seu amado e levava algum tempo para registrar e assimilar informações novas e inesperadas. É provável que estivesse indecisa sobre como reagir, se era melhor demonstrar que reconhecia Lydia ou não.

Após mais alguns segundos, Wendy Burnet decidiu-se pela resposta menos comprometedora.

— Obrigada.

— Coitado do Jimmy — disse Lydia. — Que morte horrível... Wendy voltou a atenção para o copo descartável com café e tomou um gole. Lydia inclinou-se para mais perto dela.

— Você não sabe quem eu sou, sabe? Wendy olhou para ela, sem jeito.

— Eu... me desculpe, eu...

— Imagine. Na verdade, acho que nunca nos encontramos.

Wendy esperou que Lydia se apresentasse, mas como ela permanecesse em silêncio, Wendy perguntou:

— Você conhecia meu marido?

— Ah, sim, e como!

— Você trabalha no ramo de seguros, também?

— Não.

Wendy franziu a testa. Lydia tomou outro gole, e o desconforto tornou-se mais evidente, pelo menos para Wendy. Lydia se sentia muito à vontade. Quando o mal-estar se tornou insuportável, Wendy levantou-se.

— Bem... foi um prazer conhecê-la — disse.

— Eu... — começou Lydia, e hesitou até ter certeza de que captara a total atenção de Wendy. — Eu fui a última pessoa que viu Jimmy vivo.

Wendy ficou paralisada. Lydia tomou mais um gole e fechou os olhos.

— Hum... Gostoso e forte — murmurou, olhando para o copo. — É muito bom o café daqui, não?

— Você disse que...

— Por favor — falou Lydia, indicando o banco. — Sente-se para que eu possa lhe explicar direito.

Wendy olhou na direção dos baristas e em seguida deslizou de volta para o banco. Por alguns segundos, Lydia olhou para ela em silêncio e Wendy tentou sustentar o olhar.

— Veja bem — começou Lydia, exibindo novamente seu lindo sorriso —, fui eu que matei seu marido.

O rosto de Wendy ficou lívido.

— Isso não tem graça nenhuma.

— Concordo com você, Wendy. Não foi minha intenção fazer graça.

Wendy estava estupefata.

— Quem é você?!

— Calma, Wendy.

— Eu quero saber o que...

— Shhh... — Lydia levou um dedo aos lábios de Wendy com uma ternura exagerada. — Deixe-me explicar, sim?

A boca de Wendy tremeu, e Lydia se deteve com o dedo sobre os lábios dela mais alguns segundos.

— Você está confusa, eu compreendo. Deixe-me elucidar alguns pontos para você. Primeiro... Sim, fui eu que meti uma bala na cabeça de Jimmy. Mas foi Heshy — Lydia apontou pela janela na direção de um homem gigantesco com uma cabeça disforme, que se encontrava na calçada — que fez o estrago inicial. A meu ver, na hora em que atirei em Jimmy, eu prestei a ele um grande favor.

Wendy continuava estática.

— Você quer saber por que eu fiz isso, não é? Claro que sim. Mas bem no fundo, Wendy, eu acho que você sabe por quê. Somos mulheres, afinal. Conhecemos nossos homens.

Wendy permaneceu em silêncio.

— Wendy, você sabe do que estou falando?

— Não.

— Claro que sabe, mas vou contar assim mesmo. Jimmy, seu querido falecido marido, devia uma grande quantia de dinheiro para pessoas não muito boas. Hoje, o valor remonta a quase duzentos mil dólares. — Lydia sorriu. — Wendy, você não vai fingir que não sabia sobre as jogatinas de seu marido, não é mesmo?

Foi com grande esforço que Wendy conseguiu balbuciar:

— Eu não compreendo...

— Espero que sua perplexidade não tenha nada a ver com o fato de eu ser mulher.

— Como?

— Seria uma visão tacanha e preconceituosa de sua parte, não acha? Estamos no século vinte e um. As mulheres podem ser o que quiserem.

— Você — Wendy engoliu em seco — matou meu marido?

— Você costuma assistir à televisão, Wendy?

— Como?

— Televisão. Na tevê, quando alguém como seu marido deve dinheiro a alguém como eu, o que acontece?

Lydia olhou para ela, como se esperasse uma resposta. Por fim, Wendy falou:

— Não sei.

— Claro que você sabe, mas vou lhe dizer assim mesmo. A pessoa como eu... Tudo bem, geralmente a pessoa como eu é um homem, na tevê... faz a ameaça. Depois meu soldado Heshy, ali fora, encurrala a pessoa como seu marido em algum canto e lhe dá uma surra ou quebra as pernas dele. Qualquer coisa assim. Mas eles nunca matam o sujeito.

Essa é uma das regras dos vilões da televisão. Sabe, aquela célebre frase: "Como cobrar uma dívida de um homem morto"?

Wendy meneou levemente a cabeça.

— Mas nem sempre a coisa é bem assim. No caso de Jimmy, por exemplo. Seu marido tinha um vício, que era o jogo. Estou certa? O prejuízo foi enorme, não foi? Primeiro foi a companhia de seguros de seu pai. Jimmy assumiu e arruinou a empresa. Foi tudo para o brejo. O banco confiscou sua casa. Você e as crianças mal tinham dinheiro para comer. Apesar disso, Jimmy não parou. — Lydia balançou a cabeça. — Homens! Certo?

Os olhos de Wendy se encheram de lágrimas. Quando ela conseguiu falar, sua voz soou fraca:

— E, então, você o matou?

Lydia ergueu os olhos e balançou a cabeça.

— Acho que não estou conseguindo me explicar direito. — Ela respirou fundo e tentou de novo. — Você já ouviu aquela expressão "Não se tira sangue de uma pedra"?

Mais uma vez Lydia esperou pela resposta. Quando Wendy finalmente assentiu com a cabeça, ela continuou:

— Então, é o que acontece neste caso. Com Jimmy, quero dizer. Eu poderia ter mandado Heshy liquidá-lo. Heshy é muito bom nesse tipo de coisa. Mas o que eu ganharia com isso? Jimmy não tinha o dinheiro. Ele nunca conseguiria aquela quantia. — Lydia se empertigou no banco. — Wendy, pense como um homem de negócios... ou melhor, como uma pessoa de negócios. Não precisamos ser feministas extremas, mas acho que devemos pelo menos nos colocar em pé de igualdade.

Lydia sorriu e Wendy se encolheu.

— Muito bem. Então, o que se espera que uma pessoa de negócios sensata, como eu, faça? Não posso perdoar a dívida, é claro. Em minha linha de trabalho, isso seria suicídio profissional. E alguém deve dinheiro a meu patrão, esse alguém tem de pagar, é aí, não se discute. O problema é que Jimmy não tinha um tostão no nome dele... — Lydia interrompeu e ampliou o sorriso. — Mas ele tinha uma esposa e três filhos. E ele trabalhava no ramo de seguros. Percebe aonde quero chegar, Wendy?

Wendy mal ousava respirar.

— Oh, acho que você percebe, mas vou explicar assim mesmo. Seguros, Wendy. Mais especificamente, seguro de vida. Jimmy tinha uma apólice. Ele não confessou de imediato, mas o bom e velho Heshy sabe ser persuasivo.

Wendy desviou o olhar para a janela. Lydia a viu estremecer e reprimiu um sorriso.

— Jimmy nos contou que tinha duas apólices, que reverteriam num benefício total de cerca de um milhão de dólares.

— Então, você... — Wendy se esforçava para assimilar — você matou Jimmy pelo dinheiro do seguro?

Lydia estalou os dedos.

— Garota esperta!

Wendy abriu a boca, mas não produziu nenhum som.

— Sabe, Wendy, vou deixar tudo bem claro para você. As dívidas de Jimmy não morrem com ele. Nós duas sabemos disso. O banco vai exigir que você pague a hipoteca. Os juros de cartão de crédito continuam correndo. — Lydia sacudiu os ombros. — Por que meu patrão agiria de maneira diferente?

— Você não está falando a sério.

— Está previsto para você receber o primeiro cheque do seguro daqui a uma semana. Até lá, a dívida de seu marido estará em torno de duzentos e oitenta mil dólares.

Espero um cheque desse valor, nesse dia.

— Mas as contas que ele deixou...

— Shhh. — Lydia a silenciou outra vez com um dedo nos lábios, e sua voz se transformou num sussurro. — Isso realmente não é problema meu, Wendy. Eu lhe dei a rara oportunidade de se reerguer. Declare falência, se for preciso. Você mora num bairro luxuoso. Mude de casa. Ponha Jack... E esse o nome de seu menino de onze anos, certo?

O corpo de Wendy sacudiu ao ouvir o nome do filho.

— Não o mande para o acampamento de verão, neste ano. Ponha-o para trabalhar, arranje um emprego de férias para ele, sei lá, isso é problema seu, não meu. Pague o que deve, Wendy, e nunca mais me verá nem ouvirá falar de mim. Mas se você não pagar... Bem, dê mais uma olhadinha para Heshy.

Lydia parou, para que Wendy olhasse para fora, e obteve o efeito desejado.

— Jack será o primeiro a ser liquidado. Dois dias depois, será a vez de Lila. Se você relatar esta conversa à polícia, nós mataremos Jack, Lila e Darlene, os três em seguida, por ordem de idade. E pode ter absoluta certeza, Wendy, de que depois que você tiver enterrado seus filhos, eu ainda vou fazer você pagar.

Wendy não conseguia falar. Lydia tomou um longo gole de seu café e murmurou um Ahhh de satisfação.

— Delicioso! — exclamou, levantando-se do banco. — Eu gostei muito da nossa conversa, Wendy. Deveremos nos encontrar outra vez em breve. Que tal em sua casa, na sexta-feira, dia 16, ao meio-dia?

Wendy não respondeu.

— Você ouviu o que eu disse, Wendy?

— Sim.

— E, então, o que pretende fazer?

— Vou pagar a dívida — respondeu Wendy.

Lydia sorriu.

— Uma vez mais, meus sinceros pêsames.

Lydia saiu para a rua e respirou o ar fresco. Olhou para trás, e viu que Wendy Burnet não se movera do lugar. Lydia acenou em despedida e foi ao encontro de Heshy.

Ele tinha quase dois metros de altura. Ela tinha menos de um metro e sessenta. Ele pesava cento e vinte quilos. Ela pesava quarenta e nove. A cabeça dele parecia uma abóbora deformada. Ela tinha feições que pareciam esculpidas na mais fina porcelana oriental.

— Problemas? — perguntou Heshy.

— Por favor — Lydia pediu com um gesto de desdém. — Vamos nos ater a assuntos mais lucrativos. Encontrou nosso homem?

— Sim.

— E o pacote já está com você?

— É claro, Lydia.

— Ótimo. — Ela franziu a testa, sentindo seu instinto predador aflorar.

— O que foi? — quis saber Heshy.

— Estou com uma sensação engraçada, só isso.

— Quer voltar atrás?

Lydia sorriu.

— Nem morta, Ursinho Pooh.

— Então, o que quer fazer?

Lydia pensou um pouco.

— Vamos só ver qual será a reação do Dr. Seidman.

 

— Chega de suco de maçã — disse Cheryl ao filho de dois anos, Conner.

Fiquei de lado, observando. O ar de outono estava frio e úmido, e puxei o capuz do agasalho por cima do boné. Eu estava de óculos escuros e me sentia como um policial de filmes de ação.

Estávamos assistindo a uma partida de futebol de garotos de oito anos de idade. Lenny era o técnico. Ele precisava de um assistente e havia me recrutado, talvez porque eu seja a única pessoa que entende de futebol menos que ele. Mesmo assim nosso time estava ganhando de três a dois.

— Por que não posso beber mais suco? — perguntou Conner.

— Porque muito suco de maçã dá dor de barriga — explicou Cheryl, com paciência maternal.

— É?

— É, sim.

Do meu lado direito Lenny encorajava os garotos.

— Você é demais, Ricky! Isso, Peter! Muito bem, Davey!

Lenny tinha o hábito de acrescentar um y ao final do nome de cada menino. Aquilo me irritava muito. Uma vez, num pico de entusiasmo, ele me chamou de "Marky". Uma única vez.

— Tio Marc!

Senti um puxão na calça e olhei para o pequeno Conner.

— O que foi, campeão?

— Suco de maçã dá dor de barriga.

— Ah, é? Que bom saber disso.

— Tio Mark!

— Que foi, Conner?

O menino me olhou com seriedade.

— Não é bom ter dor de barriga.

Olhei para Cheryl. Ela esboçou um sorriso que não conseguia ocultar a apreensão. Voltei-me novamente para Conner.

— Palavras sábias, garotão!

Conner meneou a cabeça, satisfeito com minha resposta. Eu adoro esse menino. Ele me comove e alegra meu coração na mesma proporção. Dois anos e dois meses de idade.

Dois meses mais velho que Tara. Eu acompanho o desenvolvimento dele maravilhado, e com um anseio e uma expectativa capazes de alimentar uma fornalha.

Ele se voltou para a mãe. Cheryl era a típica figura de uma jovem mãe, rodeada dos pequenos produtos que as mães de crianças pequenas sempre carregam: caixinhas de suco, barras de cereal, pacote de fraldas descartáveis, mamadeiras, lencinhos umedecidos com essência de aloé vera, potinhos herméticos contendo mini-cenouras, gomos de laranja sem casca, uvas cortadas ao meio e cubinhos de queijo.

Lenny, o técnico, berrava as instruções de praxe para os jogadores mirins. O método dele é sempre o mesmo: quando o time está na área de ataque, ele grita "Vai em frente, passa!". Quando está na defesa, ele grita "Segura, não deixa passar!". E de vez em quando ele induz o time a penetrar nas sutilezas do jogo, intercalando uma dica bastante subliminar: "Chuta a bola!".

Ele tinha acabado de berrar essa frase umas quatro vezes seguidas quando se virou para mim. Eu ergui o polegar em sinal de positivo e inclinei a cabeça, incentivando-o a prosseguir naquela linha. A vontade dele era fazer um gesto obsceno para mim, mas havia muitas testemunhas menores de idade por ali. Cruzei os braços e olhei para a quadra. Os garotos estavam paramentados como profissionais, com chuteiras e protetores dentro das meias.

Vi Kevin, meu afilhado, seguir a instrução do pai e dar um chute certeiro na bola, que veio com tudo em minha direção e me atingiu como um soco.

Eu cambaleei para trás.

Era sempre assim. Ou eu estava assistindo a um jogo, ou jantando com amigos, ou atendendo um paciente, ou ouvindo música no rádio. Estava sempre fazendo alguma coisa rotineira, sentindo-me perfeitamente normal, e de repente... pronto! Minha visão ficava turva pelas lágrimas.

Isso nunca acontecia comigo antes do assassinato e sequestro. Eu sou médico. Sei manter a compostura, tanto em minha vida profissional como na pessoal. Mas agora uso óculos escuros o tempo todo, como um ator de segunda classe que não quer ser reconhecido.

Cheryl olhou para mim e mais uma vez vi apreensão em seu semblante. Eu me empertiguei e forcei um sorriso. Cheryl estava ficando linda. Isso acontecia com frequência.

A maternidade caía bem para algumas mulheres. Enriquecia a aparência física delas com uma beleza que beira o celestial.

Não quero dar uma impressão errada. Não passo os dias chorando. Eu ainda vivo minha vida. Estou arrasado, é claro, mas não o tempo todo. Não estou paralisado. Eu trabalho, embora ainda não tenha tido coragem de viajar para o exterior. Sempre penso que é bom ficar por perto, para a eventualidade de surgir algum novo fato no caso. Esse tipo de pensamento, eu sei, não é racional e talvez até seja ilusório. Mas ainda não me sinto preparado.

O que me impressiona, posso dizer até que me choca, é o modo como a tristeza se compraz em pegar você desprevenido. A tristeza, quando identificada, se não pode ser superada, pode de alguma forma ser manipulada, refinada, disfarçada. Mas a tristeza gosta de se esconder atrás dos arbustos. Ela se diverte saltando de trás do nada, assustando você, zombando de você, destruindo sua tentativa de simular normalidade. A tristeza embala seu sono, dessa forma tornando sua fragilidade ainda mais pronunciada.

— Tio Marc!

Era Conner me chamando outra vez. Ele falava com desenvoltura para um menino de sua idade. Eu imaginei como seria o som a voz de Tara, e fechei os olhos por trás dos óculos escuros. Percebendo meu desconforto, Cheryl estendeu o braço para puxar Conner, mas eu fiz sinal para que ela deixasse.

— O que foi, garotão?

— E soltar pum?

— Como assim?

Conner ergueu o rosto e apertou um olho num gesto de concentração.

— Soltar pum é bom?

Que pergunta!

— Bem, eu não sei... O que você acha?

Ele pareceu refletir profundamente sobre a questão, até que por fim respondeu:

— É melhor do que ter dor de barriga.

Eu concordei com um movimento de cabeça. Nosso time fez mais um gol. Lenny agitava os punhos fechados no ar e gritava, entusiasmado.

Ele quase deu uma cambalhota ao correr para cumprimentar Craig (ou talvez eu devesse dizer "Craigy"), o menino que marcara o gol.

Os jogadores o seguiram. Já havia muita aglomeração, e eu não me juntei a eles. Minha função, creio, era ser o parceiro silencioso para o histrionismo de Lenny, Tonto para Zorro, Abbott para Costello, e assim por diante. O ponto de equilíbrio.

Observei os pais nas arquibancadas. As mães pareciam um enxame. Falavam sobre seus filhos, e ninguém escutava ninguém direito porque ninguém está interessado nos filhos dos outros. Já os pais eram mais participativos. Alguns filmavam, outros assobiavam e gritavam, encorajando as crianças, outros escarneciam dos filhos de uma maneira que chegava a ser desagradável. Alguns falavam ao celular, ou se entretinham em manipular algum outro aparelho eletrônico portátil, experimentando um pouco de distração depois de uma semana de trabalho.

Por que eu contara à polícia?

Perdi a conta de quantas vezes me disseram, desde aquele dia fatídico, que eu não tinha culpa do que acontecera. Por um lado, eu penso que meu modo de agir não mudou nada. Com toda a probabilidade, os sequestradores nunca tiveram intenção de devolver Tara. Talvez ela até já estivesse morta antes do primeiro pedido de resgate.

Talvez a morte dela tenha sido acidental, e os sequestradores se apavoraram, entraram em pânico... Como saber? Impossível.

E aí é que está o impasse.

Eu não posso, claro, ter certeza de que não sou o responsável. Basicamente, para toda ação existe uma reação.

Eu não sonho com Tara — ou pelo menos, se sonho, os anjos têm a bondade de não me deixar lembrar. Bem, provavelmente é dar muito crédito a eles. Deixe-me reformular.

Eu posso não sonhar especificamente com Tara, mas sonho com a van branca com a placa forjada e o anúncio magnético roubado. Nos sonhos escuto um ruído, abafado, mas tenho certeza de que é um choro de bebé. Tara, agora eu sei disso, estava na van, mas em meu sonho eu não sigo na direção do som. Minhas pernas estão enterradas no lodaçal do pesadelo. Eu não consigo me mover. Quando por fim acordo, não posso deixar de refletir no óbvio. Será que Tara esteve de fato tão perto de mim? E o mais importante: se eu tivesse sido um pouco mais corajoso, teria conseguido salvá-la naquele dia e local?

O juiz da partida, um rapaz do colegial com um sorriso bem-humorado, apitou e agitou as mãos. Fim de jogo. Lenny começou a pular e a gritar, eufórico.

Os meninos se entreolharam, confusos. Um deles perguntou ao colega:

— Quem ganhou?

O outro deu de ombros. Os dois times se alinharam em fila para os cumprimentos finais.

Cheryl se levantou e pôs uma mão nas minhas costas.

— Parabéns pela vitória.

— Obrigado.

Ela sorriu. Os meninos começaram a correr em nossa direção, e eu os cumprimentei com um estóico aceno de cabeça. A mãe de Craig havia levado cinquenta donuts numa caixa decorada com motivos de Halloween. A mãe de Dave levara caixas de um produto chamado Yoo-hoo, uma desculpa perversa para leite achocolatado com gosto de giz. Eu peguei um donut e tomei a bebida insossa. Cheryl perguntou:

— Qual era o sabor do seu? Eu dei de ombros.

— Tem mais de um sabor?

Eu vi os pais interagir com os filhos e me senti terrivelmente deslocado. Lenny se aproximou de mim.

— Bela vitória, não?

— Sim — respondi. — Somos campeões.

Lenny fez um sinal para que nos afastássemos, e eu o segui. Quando nos encontrávamos a certa distância, ele disse:

— O espólio de Mônica está quase concluído. Não deve demorar muito, agora.

— Hum-hum — murmurei, porque não estava interessado.

— Seu testamento também já está pronto. Você precisa assinar. Nem Mônica nem eu havíamos feito testamento. Durante anos, Lenny me advertira a esse respeito. Vivia me lembrando de que eu precisava determinar por escrito para quem eu deixaria meu dinheiro, quem criaria minha filha, quem se encarregaria de cuidar de meus pais, esse tipo de coisa. Mas nós não dávamos ouvidos. Achávamos que viveríamos para sempre. Testamento era coisa para gente morta.

Lenny mudou de assunto bruscamente:

— Quer ir para minha casa e jogar pebolim?

Pebolim, para quem não sabe, é aquele futebol de mesa com bonequinhos jogadores trespassados por espetos.

— Eu já sou campeão mundial — lembrei.

— Isso foi ontem.

— Será que um homem não pode ter um tempo mínimo para se regozijar de sua vitória? Não estou pronto ainda para abrir mão do título.

— Tudo bem, já entendi.

Lenny voltou para perto da família. Vi a filha dele, Marianne, abordá-lo e depois gesticular alucinadamente. Lenny tirou a carteira do bolso, abriu-a e tirou uma nota. Marianne pegou o dinheiro, deu um beijo no rosto do pai e saiu correndo. Lenny observou-a se afastar balançando a cabeça, um sorriso estampado no rosto.

Eu desviei o olhar.

O pior de tudo — ou o melhor, não sei — era que eu tinha esperança.

O que nós havíamos encontrado naquela noite, na cabana de meu avô, era o seguinte: o corpo de minha irmã, fios de cabelo de Tara (confirmado pelo teste de DNA) e um macacão de bebê cor-de-rosa com pequenos pinguins pretos, que só podia ser o que Tara usava no dia do sequestro.

E o que não havíamos encontrado ainda: o dinheiro do resgate, a identidade dos cúmplices de Stacy — se é que havia algum — e Tara.

Essa é a verdade. Nós não havíamos encontrado minha filha.

A floresta é extensa, eu sei disso. A cova seria minúscula e facilmente ocultada. Poderia estar debaixo de um amontoado de pedras, ou algum animal poderia ter farejado, cavoucado a terra e enterrado ainda mais o conteúdo. Ou poderia estar não necessariamente perto da cabana, poderia estar a quilômetros de distância, talvez até em outro lugar completamente diferente.

Ou — esta hipótese eu guardava para mim — talvez não houvesse cova nenhuma.

Portanto, como você vê, a esperança persistia. Assim como a tristeza, a esperança também se esconde e aparece, provoca e não vai embora. Não sei dizer qual das duas é mais cruel.

A teoria da polícia e do FBI é de que minha irmã agiu em parceria com gente da pior espécie. Embora ninguém tivesse certeza se a intenção original havia sido seqüestro ou roubo, era quase unânime a opinião de que alguém, em algum momento, entrara em pânico. Talvez eles não esperassem que Mônica e eu estivéssemos em casa. Talvez achassem que teriam de enfrentar apenas uma babá. Seja como for, o que aconteceu foi que eles toparam conosco e num estado alterado por drogas ou insanidade, alguém atirou. Não, mais alguém atirou, o que ficou comprovado pelos exames de balística, que demonstraram que a bala que me atingiu e a que atingiu Mônica não foram disparadas pela mesma arma. Depois sequestraram a bebê, e mais tarde resolveram tirar Stacy do caminho e a mataram com uma overdose de heroína.

Eu digo eles porque as autoridades acreditam que Stacy tinha pelo menos dois cúmplices. Um deles seria profissional, o cérebro frio e calculista que conhecia as técnicas de falsificar placas e desaparecer sem deixar rastro. O outro seria o que entrou em pânico, provavelmente quem deu o primeiro disparo e quem também teria causado a morte de Tara.

Algumas pessoas não acreditam nessa teoria. Acham que havia somente um cúmplice, que no caso seria o profissional frio e calculista, e que quem entrou em pânico foi a própria Stacy. De acordo com essa teoria, ela teria atirado primeiro, provavelmente em mim, já que não me lembro de ter ouvido nenhum disparo antes, e então o profissional teria matado Mônica para encobrir o erro. Essa teoria é sustentada por uma das poucas pistas que tivemos após aquela noite na cabana: um traficante de drogas que, em alguma negociação bizarra, contou às autoridades que Stacy havia comprado uma arma dele, calibre 38, uma semana antes do ataque à minha casa. Essa teoria é sustentada ainda pelo fato de que os únicos fios de cabelo e impressões digitais encontrados na cena do crime eram de Stacy. Enquanto o profissional frio teria tido a precaução de usar luvas, um cúmplice drogado provavelmente não se lembraria de ter esse cuidado.

Há ainda quem não abrace essa teoria tampouco, razão pela qual alguns membros do departamento de polícia e do FBI se apegam a uma terceira e mais óbvia hipótese:

Eu teria sido o mentor.

A teoria seria mais ou menos assim: primeiro, o marido é sempre o suspeito número um. Segundo, minha Smith &c Wesson 38 ainda está desaparecida. Eles me pressionam com relação a isso o tempo todo. Eu gostaria de ter uma resposta. Terceiro, eu nunca quis ter um filho. A gravidez de Mônica me forçou a um casamento sem amor. Eles acreditam ter evidência de que eu considerava a ideia de me divorciar (algo que de fato tinha em mente) e que por isso planejei tudo, do começo ao fim. Teria convidado minha irmã para ir à minha casa e pedido a ajuda dela para que a culpa recaísse sobre ela. Teria escondido o dinheiro do resgate. Teria matado e enterrado minha própria filha.

Horrível, sim, mas eu já passei do ponto de me enfurecer com isso. Já passei do ponto da exaustão. Não sei mais em que ponto estou.

O maior contraponto dessa hipótese, obviamente, é a questão de eu ter sido uma das vítimas e de ter sobrevivido por milagre. Fui eu que matei Stacy? Foi ela quem atirou em mim? Ou haveria ainda uma terceira possibilidade nesse contexto, uma combinação das duas teorias em uma? Algumas pessoas acham que sim, que eu estava por trás de tudo, mas que tinha mais um cúmplice além de Stacy. Esse cúmplice teria matado Stacy, ou contra minha vontade, ou como parte do esquema para desviar minha culpa e me vingar por ela ter atirado em mim. Ou algo parecido.

E assim ficamos rodando em círculos, indefinidamente.

Em suma, numa avaliação geral, ninguém sabe nada, essa é a grande verdade. Ninguém sabe onde foi parar o dinheiro do resgate; ninguém sabe quem é o culpado; ninguém sabe o motivo. E o principal: ninguém sabe onde está Tara, nem se ela está viva ou morta.

É nesse ponto que nos encontramos hoje — um ano e meio depois do sequestro. Tecnicamente o processo ainda não está encerrado, mas Regan e Tickner já estão envolvidos em outros casos. Não tenho contato com eles há uns seis meses. A imprensa não deu sossego nas primeiras semanas, mas depois, sem nada de novo para acrescentar, os repórteres também desviaram a atenção para assuntos mais suculentos.

Os donuts haviam acabado, e todo mundo começou a andar na direção do estacionamento lotado de carros. Depois do jogo, os técnicos levam seus jovens atletas para a Schraff's Ice Cream Parlor. Já virou tradição na cidade, todos os técnicos, de todos os times de qualquer idade, levarem seus campeões à famosa sorveteria. O lugar estava apinhado de gente. Nada como um sorvete de casquinha Para rebater o friozinho do outono.

Eu fiquei em pé, saboreando minha casquinha de sorvete sabor crocante, observando a cena. Crianças e pais. Aquilo estava se tornando demais para mim. Olhei o relógio e vi que já era mesmo hora de ir embora. Captei o olhar de Lenny e fiz sinal de que estava indo. A distância, ele pronunciou apenas com os lábios a palavra testamento e gesticulou para que eu não esquecesse do assunto. Acenei em resposta, entrei em meu carro e liguei o rádio.

Durante algum tempo, fiquei ali sentado, observando o movimento dos grupos familiares. Eu me detinha mais nos pais. Avaliava a reação deles àquela atividade, esperando detectar uma sombra de dúvida, alguma coisa na expressão deles que pudesse me trazer conforto. Mas não achei.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, olhando. Creio que não mais de dez minutos. Uma música antiga de James Taylor, uma de minhas favoritas, começou a tocar no rádio, trazendo-me de volta ao momento presente. Eu sorri, liguei o motor e rumei para o hospital.

Uma hora depois, eu estava fazendo a preparação para operar um menino de oito anos — usando a terminologia familiar tanto para o leigo como para o profissional um caso de cara quebrada. Zia Leroux, minha parceira, estava lá.

Não sei direito o que me levou a escolher a cirurgia plástica. Não foi a perspectiva de ganhar rios de dinheiro, tampouco o ideal de ajudar o próximo. Eu tinha o desejo de ser cirurgião desde o princípio, mas me imaginava mais na especialidade vascular ou cardiológica. E engraçado como a vida dá voltas, as vezes da forma mais inesperada. No segundo ano de residência, o professor de cirurgia cardíaca de minha turma era completamente intragável. Já o de cirurgia plástica reparadora, o Dr. Liam Reese, era incrível. Era daquele tipo que causa inveja nas pessoas; tinha simplesmente tudo, era perfeito. Bem-apessoado, competente, um médico que transmitia calma e confiança e de uma simpatia e afabilidade cativantes. Todo mundo queria agradá-lo e ser como ele.

O Dr. Reese tornou-se meu mentor. Ele me fez ver como a cirurgia reparadora é criativa, um processo que o força a achar novas formas de consertar o que foi estragado.

Os ossos da face e do crânio são a estrutura mais complexa do esqueleto humano.Trabalhar com eles é uma arte. Se você conversar com um cirurgião ortopédico ou torácico, ele pode lhe descrever os procedimentos cirúrgicos de forma clara e específica. Já o trabalho de reconstrução nunca é exatamente o mesmo, ele muda de caso para caso.

Nós improvisamos. O Dr. Reese me ensinou isso. As aulas dele sobre microcirurgia, implante ósseo e pele sintética instigaram minha curiosidade natural pelos avanços científicos e tecnológicos. Lembro-me de ir visitá-lo em Scarsdale. A esposa dele era linda, alta e esguia, a filha era a melhor aluna da escola, o filho era capitão do time de basquete e o rapaz mais agradável que já conheci. O Dr. Reese tinha quarenta e nove anos quando morreu num desastre de automóvel, na estrada para Connecticut.

Há quem veja isso como resultado de olho gordo. Eu não.

Quando eu estava concluindo a residência, ganhei uma bolsa para fazer um estágio de cirurgia oral no exterior. Eu não concorri à bolsa porque quisesse ser um benfeitor, concorri porque seria uma oportunidade de viajar para a Europa e fazer um pouco de turismo. Mas não foi bem assim. Fomos surpreendidos pela guerra civil em Serra Leoa. Deparei com ferimentos tão horrendos, tão inimagináveis, que me custava acreditar que pudesse existir num ser humano a crueldade necessária para infligi-los.

Mas mesmo no meio de toda aquela devastação, eu sentia uma estranha euforia. Não fico tentando entender por quê. Como eu já disse, meu trabalho me reanima. Talvez em parte pela satisfação de socorrer pessoas que realmente precisam de ajuda, e também penso que um dos fatores que me atraíram para esse tipo de trabalho tenha sido o mesmo que leva as pessoas a praticar esportes radicais: o perigo, a adrenalina que nos faz sentir plenos.

Quando voltei, Zia e eu fundamos a One World, e estávamos no caminho certo. Gosto muito do que faço. Talvez nosso trabalho seja como um esporte radical, mas ele também tem um lado muito humano, e gosto disso. Eu me enterneço com meus pacientes e ao mesmo tempo vibro com o aspecto da frieza, da insensibilidade necessária para realizar o trabalho. Tenho um grande envolvimento com meus pacientes, mas logo eles saem de minha vida, amor intenso misturado a comprometimento transitório.

O menino que seria operado representava um desafio complicado. Meu santo padroeiro — o santo padroeiro de muitos cirurgiões de minha especialidade — é o pesquisador francês René LeFort. Ele jogava cadáveres de cima do telhado de uma taverna, com a cabeça para baixo, para que o crânio se chocasse com o solo, para ver o padrão natural das linhas de fratura no rosto. Sempre achei que isso impressionava as meninas da classe. Atualmente algumas fraturas levam seu nome — mais especificamente, LeFort tipo I, LeFort tipo II, LeFort tipo III.

Zia e eu verificamos mais uma vez as radiografias para confirmar o diagnóstico. Em linhas gerais, a fratura daquela criança de oito anos era LeFort tipo III, causando uma total separação dos ossos da face e do crânio. Se eu quisesse, poderia arrancar o rosto inteiro do menino, como se fosse uma máscara.

— Acidente de carro? — perguntei. Zia assentiu com a cabeça.

— O pai estava embriagado.

— Aposto que ele está bem. Não deve ter sofrido nem um arranhão.

— Ele até se lembrou de pôr o cinto de segurança...

— Sim, claro. Mas não se lembrou de pôr no filho.

— Ora, é muito trabalhoso! E o cansaço de erguer um copo tantas vezes, onde fica?

Zia e eu iniciamos nossa jornada de vida em dois lugares completamente diferentes. Para começar, a pele dela é negra, enquanto a minha é leitosa (para usar a descrição de Zia, "mais branca que barriga de peixe"). Eu nasci no Hospital Israelita Beth, em Newark, e cresci em Kasselton, um bairro de classe média, em Nova Jersey-Zia nasceu numa choupana na periferia de Porto Príncipe, no Haiti. Durante o reinado de Papa Doe, os pais dela foram prisioneiros políticos. Ninguém sabe ao certo os detalhes. O pai foi executado, e o estado da mãe, ao ser libertada, era lastimável. Ela pegou a filha e fugiu numa jangada tosca. Três passageiros morreram durante a viagem. Zia e a mãe sobreviveram e conseguiram chegar ao Bronx, onde conseguiram fixar moradia no porão de um salão de beleza — As duas passavam os dias varrendo cabelos do chão. Zia ficou traumatizada porque durante todo esse período ela nunca conseguia se livrar completamente dos fios de cabelo, que pareciam estar grudados em sua roupa, em sua boca, por toda parte. Mesmo depois de sair de lá, ela passou um longo tempo com a constante sensação de ter um fio de cabelo na boca e não conseguir removê-lo de jeito nenhum. Até hoje, quando fica nervosa, ela cutuca a língua com a ponta dos dedos, como se tentasse tirar um fio de cabelo.

Quando a cirurgia terminou, Zia e eu desabamos em um banco. Ela tirou a máscara cirúrgica e largou-a pendurada sobre o peito.

— Até que foi fácil — disse ela.

— Amém — concordei. — E ontem à noite, como foi?

— Não foi.

— Oh... lamento.

— Estou ficando tão desesperada — disse ela — que estou quase tentada a dormir com você outra vez.

— O que é isso, mulher, você não tem princípios?

O sorriso de Zia era encantador, os dentes muito brancos contrastando com a pele escura. Com quase um metro e oitenta de altura e um corpo escultural, era uma mulher de tirar o fôlego.

— E você, quando vai começar a sair com alguém? — ela perguntou.

— Eu saio de vez em quando.

— Mas não o suficiente para ir para a cama.

— Nem todas as mulheres são fáceis como você, Zia.

— Que pena — murmurou ela, me dando um beliscão no braço.

Zia e eu fomos para a cama uma única vez — e nós dois sabíamos que não haveria uma segunda. Foi assim que nos conhecemos. Nós participamos de um mesmo grupo de atividades em meu primeiro ano de faculdade. Uma única noite. Já tive minha cota de únicas noites, mas somente duas ficaram em minha memória. Uma delas teve consequências desastrosas.

A outra — com Zia — levou uma amizade preciosa para a vida toda.

Eram oito horas da noite quando saímos do hospital. Fomos no carro de Zia, uma coisa minúscula chamada BMW Mini, para o Stop & Shop na Northwood Avenue e compramos alguns mantimentos. Zia tagarelava sem parar enquanto empurrávamos os carrinhos entre as gôndolas. Eu gostava de ouvir Zia falar. A voz dela me transmitia energia.

Ela se deteve por um instante na seção de frios, tentando decidir se levava uma peça de presunto na promoção, mas logo resolveu que não valeria a pena.

Fomos para o caixa, e Zia passou suas compras primeiro. Eu coloquei a tabuleta divisória e comecei a colocar minhas compras na esteira enquanto a caixa registrava os itens de Zia.

— Está com fome? — ela me perguntou. Sacudi os ombros.

— Eu comeria uma duas fatias de pizza na Garbos.

— Então vamos lá.

De repente Zia olhou por cima do meu ombro e ficou paralisada. A expressão dela se modificou, embora eu não soubesse definir como.

— Marc...

— Sim?

Ela desviou o olhar.

— Ah, deixe para lá. Não deve ser...

— O que foi?

Zia olhou novamente por sobre meu ombro e fez um sinal com o queixo. Eu me virei devagar e me senti desmoronar.

— Eu só a conheço por fotografia — disse Zia. — Mas acho que aquela ali é...

Eu movi a cabeça afirmativamente.

Era Rachel.

O mundo pareceu se fechar à minha volta. Eu não deveria me sentir daquela forma, eu sabia que não. Fazia anos que havíamos rompido. Depois de tanto tempo, eu deveria sorrir. Deveria sentir apenas melancolia, uma nostalgia passageira, uma lembrança saudosa de uma época em que eu era jovem e ingênuo. Mas não foi bem assim que me senti. Rachel estava a uns dez metros de distância de mim, e o passado voltou como uma avalanche. O que eu sentia era um anseio imenso, uma emoção tão forte que me partia ao meio, fazendo reviver o amor e a dor da separação, como se tudo tivesse acontecido um dia antes.

— Você está bem? — perguntou Zia.

Eu meneei a cabeça outra vez.

Não sei se você acredita que todo mundo tem uma alma gêmea — um único amor predestinado. Bem, se for verdade, ali, num dos três corredores de caixas do top & Shop, sob uma tabuleta de Caixa rápido — até 15 itens, encontrava-se a minha.

— Pensei que ela tivesse se casado.

— Ela se casou — confirmei.

— Mas não está usando aliança. — Zia me deu um cutucão no braço. — Uau, que emoção, não?

— Nem me fale. O mundo da diversão.

Zia estalou os dedos.

— Sabe o que está parecendo? Aquela música do disco que você gostava de ouvir. Uma que falava de encontrar um antigo amor no supermercado. Como é mesmo o nome?

A primeira vez que vi Rachel, quando eu tinha dezenove anos, não senti um grande impacto. Meu coração não disparou loucamente. Não me lembro de tê-la achado espetacular.

Mas logo eu descobriria que gosto quando uma mulher se torna bonita para mim aos poucos. No começo você diz para si mesmo: "Até que ela é bonitinha". Mas alguns dias depois, por causa de alguma coisa que ela diz, ou do jeito como ela inclina a cabeça ao dizer determinada coisa, você tem a sensação de ter sido atingido por um raio.

Foi assim que me senti naquele dia, mais uma vez. Rachel mudara, mas não muito. O passar dos anos lhe roubara parte da beleza. Ela estava mais magra, os cabelos cor de ébano estavam amarrados num rabo-de-cavalo. A maioria dos homens prefere quando as mulheres usam os cabelos soltos. Mas eu sempre gostei de ver Rachel com os cabelos presos, com o rosto e o pescoço inteiramente à mostra. Ela estava de calça jeans e blusa cinza. Os ombros estavam baixos, a cabeça inclinada naquela pose de concentração que eu conhecia tão bem. Ela não tinha me visto.

Rachel pegou a carteira, tirou uma nota de vinte e entregou ao caixa. Nesse momento, ela levantou os olhos e me viu. Não sei exatamente descrever a expressão dela.

Não pareceu ficar surpresa. Nossos olhares se encontraram, mas não foi alegria o que eu vi nos olhos dela. Medo, talvez. Ou resignação. Não sei. Também não sei quanto tempo ficamos ali parados, olhando um para o outro.

— Será que é melhor eu ficar longe de você? — Zia sussurrou.

— O quê?

— Se ela vir você em companhia de uma gata como eu, vai achar que não tem a menor chance.

Eu devo ter sorrido, mas não tenho certeza.

— Marc

— Hum?

— Não faça essa cara de aparvalhado, feche a boca. É horrível.

— Obrigado.

Senti a mão de Zia em minhas costas, pressionando de leve.

— Ande, vá até lá falar com ela.

Meus pés começaram a se mover por vontade própria, porque não me lembro de meu cérebro ter enviado algum comando nesse sentido. Rachel deixou o caixa empacotar suas compras. Ela deu um passo em minha direção e tentou sorrir. O sorriso dela sempre fora maravilhoso, do tipo que faz você pensar em poemas e chuva de verão, uma luz brilhante que ilumina seu dia. Mas não era esse sorriso que ela exibia agora. Era um sorriso forçado, sofrido. Por um segundo, eu me perguntei se ela estaria se reprimindo ou se não era mais capaz de sorrir como antes, se alguma coisa havia apagado o brilho para sempre.

Paramos a um metro um do outro, sem saber como agir. O que fazer numa situação como aquela? Dar um abraço, um beijo, um aperto de mão? Na dúvida, não fizemos nada.

Fiquei ali parado, assolado pela angústia.

— Oi — balbuciei.

— Oi.

— Como vai?

— Vejo que você ainda sabe ser formal.

Eu forjei um sorriso zombeteiro.

— Ei, gata, tudo bem?

— Melhorou — disse ela.

— Você vem sempre aqui? — perguntei.

— Muito bem. Agora pergunte: "Nós já não nos conhecemos?".

— Ah, não! — Arqueei uma sobrancelha. — Eu jamais me esqueceria de ter conhecido uma garota linda como você.

Nós dois rimos. Estávamos exagerando e sabíamos disso.

— Você está ótima — eu disse.

— Você também. Houve um breve silêncio.

— Olhe, eu não me sinto muito à vontade recitando clichês e fazendo gracinhas forçadas.

— Nem eu.

— O que você está fazendo aqui?

— Compras.

— Não, eu quis dizer...

— Eu sei o que quis dizer — ela me interrompeu. — Minha mãe se mudou para um conjunto residencial em West Orange.

Alguns fios de cabelo haviam se soltado do rabo-de-cavalo e caíam sobre o rosto dela. Precisei de toda a minha força de vontade para me conter e não afastá-los com a mão.

Rachel desviou rapidamente o olhar e voltou a me fitar.

— Eu soube o que aconteceu com sua esposa e sua filha — ela disse. — Eu lamento muito.

— Obrigado.

— Eu pensei em ligar, ou escrever, mas...

— Eu soube que você se casou — falei. Rachel retorceu os dedos da mão esquerda.

— Já descasei.

— E que você é agente do FBI. Ela baixou a mão.

— Também não sou mais.

Outro silêncio. Novamente não sei dizer quanto tempo se passou. A caixa já começara a atender o próximo cliente. Zia se aproximou por trás de nós, pigarreou baixinho e acenou para Rachel.

— Olá! Sou Zia Leroux — apresentou-se.

— Rachel Mills.

— Muito prazer, Rachel. Eu trabalho com Marc, nas cirurgias. — E depois de uma breve pausa acrescentou: — Somos apenas amigos.

— Zia... — comecei, mas ela me interrompeu.

— Tudo bem, desculpe. Rachel, eu adoraria ficar, mas preciso ir. — Ela apontou para a saída, para enfatizar as palavras. — Marc, fique aí conversando, eu volto mais tarde para buscar você. Foi um prazer conhecê-la, Rachel.

— Igualmente.

Zia saiu apressada e eu me voltei para Rachel.

— Ela é uma grande médica.

— Deve ser, mesmo. — Rachel pegou o carrinho com as sacolas. — Também já vou, Marc. Estão me esperando no carro. Foi bom ver você.

— Também foi bom te ver.

Certamente, com tudo o que eu havia passado, alguma coisa eu tinha de ter aprendido, não? Eu não podia simplesmente deixá-la ir assim, sem mais nem menos. Pigarreei e disse:

— Quem sabe nos encontramos, qualquer hora dessas.

— Eu ainda moro em Washington. Vou embora amanhã.

Silêncio. Eu me senti esfacelar por dentro. Minha respiração ficou curta.

— Tchau, Marc — ela disse, mas os olhos cor de avelã estavam marejados.

— Espere um pouco...

Eu tentei não falar em tom de súplica, mas acho que não consegui. Rachel olhou para mim e enxergou a verdade.

— O que você quer, Marc?

— Que a gente possa se encontrar qualquer hora dessas.

— Só isso?

Eu balancei a cabeça.

— Você sabe que não.

— Eu não tenho mais vinte e um anos.

— Nem eu.

— A menina que você amou está morta e enterrada.

— Não é verdade — rebati. — Ela está bem aqui, na minha frente.

— Você não me conhece mais.

— Então vamos nos conhecer de novo. Não tenho pressa.

— É tão simples assim?

Eu tentei sorrir.

— É.

— Eu moro em Washington. Você mora em Nova Jersey.

— Posso me mudar.

Mas mesmo antes de dizer aquelas palavras impulsivas, mesmo antes de ver a expressão no rosto de Rachel, reconheci minha falsa bravata. Eu não podia simplesmente ir embora e deixar tudo para trás, meus pais, meu trabalho e... meus fantasmas. Antes que as palavras chegassem aos ouvidos de Rachel essa consciência me atingiu em cheio.

Rachel virou-se e foi embora, sem mais uma palavra de despedida. Eu a vi empurrar o carrinho e vi a porta automática abrir-se para ela passar. Vi Rachel, o amor de minha vida, desaparecer outra vez sem olhar para trás uma vez sequer. Fiquei ali parado, imóvel. Não fui atrás dela. Senti meu coração naufragar, mas não fiz nada para impedir que ela se fosse.

Talvez eu não tivesse aprendido nada, afinal.

 

Eu bebi.

Não bebo com freqüência — já se foi o tempo, na juventude, em que o álcool era meu elixir favorito —, mas encontrei uma garrafa de gim no armário da cozinha. Misturei com um pouco de água tônica que eu tinha na geladeira, coloquei cubos de gelo, e pronto.

Eu ainda estava morando na velha casa dos Levinsky. Era grande demais para mim, mas eu carecia do desapego necessário para ir embora dali. Ela representava um portal, um elo, embora muito frágil, com minha filha. Sim, eu sei que parece bobagem, mas vendê-la nesse momento seria como fechar uma porta para ela, para sempre. Não posso fazer isso.

Zia queria ficar comigo, mas eu a dispensei, e ela não insistiu. Eu me lembrei da canção de Dan Fogelberg, sobre um casal de antigos amantes que se reencontra e fala até cansar. Lembrei-me do filme Casablanca, de Humphrey Boggart bebendo depois que Ingrid Bergman partiu. Para ele, pareceu fazer bem, eu esperava que para mim também fizesse.

O fato de Rachel ainda exercer esse efeito tão forte em mim me contrariava muito. Era uma reação infantil e imatura. Rachel e eu nos conhecemos nas férias de verão entre meu primeiro e segundo ano da faculdade. Ela era de Middlebury, Vermont, e supostamente uma prima distante de Cheryl, esposa de Lenny, embora ninguém soubesse determinar o exato grau de parentesco. Naquele verão — o mais inesquecível dos verões —, Rachel passou uma temporada com a família de Cheryl porque os pais dela enfrentavam um divórcio traumático. Fomos apresentados e, como eu já disse, demorou algum tempo para o raio me atingir. Talvez por isso mesmo o impacto tenha sido tão forte.

Começamos a namorar, e muitas vezes saíamos com Lenny e Cheryl. Íamos os quatro passar fins de semana na casa de veraneio de Lenny, na praia de Jersey. Foi realmente um verão glorioso, o tipo de verão que todo mundo deveria vivenciar pelo menos uma vez na vida.

Eu estava apaixonado.

Nas festas de fim de ano fomos visitar a avó de Rachel, uma judia da velha guarda, numa casa de repouso. A velhinha segurou nossas mãos e nos declarou beshert o termo iídiche que significa "predestinados".

Então, o que aconteceu?

Nosso rompimento foi comum. Éramos jovens demais, talvez; no penúltimo ano da faculdade, Rachel decidiu que queria passar um semestre em Florença. Eu tinha vinte e dois anos. Eu fiquei com muita raiva e, enquanto ela estava fora do país, dormi com outra mulher, que conheci numa festa — uma única noite, que não significou absolutamente nada. Eu sei que isso não justifica meu comportamento, mas deveria justificar. Não sei.

Enfim, alguém que estava na festa contou para não sei quem e a coisa acabou chegando ao conhecimento de Rachel. Ela me ligou da Itália terminando o namoro, simplesmente, o que julguei precipitado e exagerado. Como eu disse, éramos muito jovens. Primeiro, eu era orgulhoso demais (leia-se idiota demais) para pedir que ela voltasse, então, quando comecei a sentir os efeitos, telefonei, escrevi cartas, mandei flores. Rachel nunca respondeu. Estava tudo acabado.

Eu me levantei, fui até a escrivaninha, peguei a chave que eu havia prendido com fita adesiva debaixo do tampo e abri a última gaveta, onde estavam guardadas minhas lembranças secretas. Meu passado, lembranças de Rachel. Encontrei a foto tão familiar para mim e me pus a contemplá-la. Lenny ainda tem a mesma foto no escritório da casa dele, algo que deixava Mônica enfurecida, com toda a razão. Era uma foto de nós quatro — Lenny, Cheryl, Rachel e eu — num evento formal com minha turma de faculdade. Rachel estava usando um vestido preto de alcinhas, e a lembrança de como elas aderiam aos ombros dela ainda me deixa sem fôlego.

Faz muito tempo.

Eu segui adiante com minha vida, claro. Meu objetivo era ser médico. Eu sempre soube que queria ser médico. A maioria dos médicos lhe dirá a mesma coisa. Raramente é uma decisão que alguém toma pouco antes de ir para a faculdade.

Eu namorei, dormi com garotas, com algumas apenas uma noite, me diverti; porém, acredite se quiser, durante todos esses anos, até hoje, não houve um único dia em que eu não pensasse, ainda que só por um segundo, em Rachel. Eu sei que romantizei demais o namoro. Se ao menos eu não tivesse cometido aquela asneira, provavelmente eu não teria ficado mais tarde vivendo num universo alternativo de esplendor, aconchegado no sofá com minha amada. Como Lenny observou num daqueles momentos de pura franqueza, se meu relacionamento com Rachel tivesse sido tão ideal e satisfatório, certamente teria sobrevivido a incidentes insignificantes.

Se estou dizendo que nunca amei minha esposa? Não. Pelo menos, acho que a resposta é não. Mônica era linda — realmente linda, uma beleza que chamava a atenção. Além disso, era rica e glamourosa. Eu tento não fazer comparações — pois é o tipo de coisa que não leva a nada —, mas não havia nada que eu pudesse fazer para mudar o fato de que meu amor por Mônica ficou sempre na sombra de Rachel, em meu coração. Foi um amor brando, um amor pós-Rachel. É muito possível que, se eu tivesse continuado com Rachel, com o passar do tempo nosso relacionamento também tivesse caído numa rotina, mas isso é usar a lógica, e às questões do coração, a lógica não se aplica.

Durante todo o tempo Cheryl me mantinha informado sobre Rachel. Eu fiquei sabendo que ela havia se tornado agente federal em Washington. Não posso dizer que isso me surpreendeu. Há três anos, Cheryl me contou que Rachel se casara com um agente federal, um homem bem mais velho que ela. Nessa ocasião, fazia já onze anos que nós havíamos rompido, e mesmo assim fiquei arrasado. Eu me dei conta, com um doloroso impacto, de que até então eu assumira que Rachel e eu estávamos apenas dando um tempo, uma pausa, e que, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente nosso bom senso retornaria e voltaríamos a ficar juntos. E agora ela estava casada com outro.

Desde o dia em que Cheryl me deu essa notícia e viu minha expressão de total desolação, ela nunca mais tocou no nome de Rachel na minha frente.

Olhei para a foto e ouvi um carro chegando. Tudo bem, era normal. Não me dei ao trabalho de ir abrir a porta. Lenny tinha uma chave. Ele nunca tocava a campainha.

Ele entraria e saberia onde eu estava.

Eu guardei a foto e Lenny entrou, carregando dois copos de refrigerante tamanho gigante. Ergueu os copos no ar e perguntou:

— Normal ou light?

— Light.

Ele me entregou o refrigerante, e esperei que ele começasse a falar.

— Zia ligou para Cheryl — contou ele. Era o que eu imaginava.

— Não quero falar sobre isso. Lenny se acomodou no sofá.

— Nem eu. — Ele enfiou a mão no bolso e me entregou um envelope com algumas folhas de papel. — Eu trouxe o rascunho de seu testamento e o relatório final do espólio de Mônica. Vou deixar aqui para você ler.

Ele pegou o controle remoto da TV.

— Tem algum vídeo de sacanagem?

— Não.

Lenny deu de ombros e sintonizou a televisão num canal de esportes que transmitia um jogo de basquete. Ficamos assistindo em silêncio por algum tempo, até que falei:

— Por que você não me contou que Rachel tinha se separado? As feições de Lenny se contraíram numa careta de dor, e ele ergueu uma mão para mim, fazendo um sinal para que eu esperasse.

— O que foi? — perguntei.

— Meu nariz... O refrigerante está gelado demais, e bebi muito depressa.

— Por que você não me contou?

— Pensei que não iríamos falar sobre esse assunto.

Eu fiquei olhando para ele, em silêncio.

— Não é assim tão simples, Marc

— O que não é simples?

— Rachel tem passado momentos muito difíceis.

— Eu também.

Lenny se pôs a prestar atenção no jogo, com uma concentração exagerada.

— O que aconteceu com ela, Lenny?Ele balançou a cabeça.

— Quanto tempo faz que você não a vê? Quinze anos?

— Mais ou menos. — Fazia catorze anos, na verdade.

Lenny vasculhou o aposento com os olhos e se deteve por um instante numa fotografia de Mônica e Tara. Em seguida desviou os olhos e tomou um gole de refrigerante.

— Você precisa parar de viver no passado, meu amigo.

Nós dois nos recostamos no sofá e fingimos assistir ao jogo. "Parar de viver no passado", ele dissera. Olhei para a foto de Tara e me perguntei se o conselho de Lenny se estendia além de Rachel.

 

Edgar Portman pegou a coleira de couro e balançou a ponta. Bruno, seu mastim, correu velozmente na direção do som. Bruno ganhara a medalha de primeiro lugar numa exposição de cães de raça em Westminster, seis anos antes. Depois disso, Edgar resolvera que Bruno não participaria de outras exposições. Um cachorro de exposição nunca está em casa, e Edgar queria Bruno sempre a seu lado.

Pessoas decepcionavam Edgar. Cães jamais.

Bruno parou na frente do dono, com a língua para fora e balançando a cauda, e Edgar prendeu a coleira nele. Iam dar um passeio de uma hora.

Edgar parou e olhou para a escrivaninha. Sobre a superfície de madeira polida havia um envelope pardo, idêntico ao que ele recebera dezoito meses antes. Bruno ganiu baixinho, e por um segundo Edgar se perguntou se seria um ganido de impaciência ou se o cão estava pressentindo o pavor do dono. Talvez as duas coisas juntas.

De qualquer modo, Edgar precisava de ar puro.

O envelope de um ano e meio antes havia passado por uma minuciosa análise da perícia, mas a polícia não descobrira nada. Edgar tinha quase certeza, com base na experiência anterior, de que os incompetentes não descobririam nada agora também. Dezoito meses antes, Marc não lhe dera ouvidos. Esse erro, Edgar esperava, não se repetiria.

Ele se encaminhou para a porta, com Bruno na frente. A sensação do ar fresco no rosto era agradável, e Edgar respirou fundo. Aquilo não resolveria suas atribulações, mas ajudava-o a se sentir melhor. Edgar e Bruno começaram a percorrer o caminho habitual, mas alguma coisa fez com que Edgar virasse à direita, em direção ao jazigo da família. Ele passava por ali todos os dias, era algo que fazia parte do cenário cotidiano, de tal modo que já nem prestava atenção. Ele nunca visitava as sepulturas.

Mas, nesse dia, alguma coisa o compeliu a ir até lá. Embora surpreso pela mudança de roteiro, Bruno seguiu seu dono, sem protestar.

Edgar passou por cima da mureta baixa, com alguma dificuldade. Afinal, já não era jovem. As caminhadas diárias já estavam se tornando mais difíceis. Fazia algum tempo que passara a usar bengala a maior parte do tempo — uma que comprara em um leilão e que pertencera a uma celebridade —, mas ele nunca levava a bengala quando saía para passear com Bruno. Por alguma razão, as duas coisas não pareciam combinar bem.

Bruno hesitou por um instante, mas em seguida saltou sobre a mureta. Os dois se puseram a contemplar as duas lápides mais recentes. Edgar tentava não refletir sobre vida e morte, sobre riqueza e a relativa felicidade associada a ela. Aquela altura da vida, ele se dava conta de que não fora um bom pai. Mas ele simplesmente seguira o modelo de seu próprio pai, que por sua vez seguira o modelo do avô de Edgar. E, no final, talvez esse distanciamento o tivesse poupado da mais profunda dor que alguém pode sentir. Se ele tivesse amado ardorosamente os filhos, se tivesse se envolvido a fundo na vida deles, duvidava que tivesse conseguido suportar a morte dos dois.

O cão começou a ganir de novo. Edgar olhou para o companheiro.

— Pronto, garotão, vamos lá — disse ele, carinhosamente. A porta da frente de casa se abriu. Edgar virou-se e viu seu irmão, Carson, sair e andar apressado em sua direção. Ele detectou a apreensão no rosto do irmão.

— Meu Deus! — exclamou Carson.

— Imagino que você tenha visto o envelope.

— Sim, claro. Você falou com Marc?

— Não.

— Ainda bem — disse Carson. — É um embuste. Só pode ser.

Edgar não disse nada.

— Você não acha? — perguntou Carson.

— Não sei.

— Não é possível que você ache que ela ainda esteja viva!

Edgar deu um leve puxão na coleira de Bruno.

— É melhor esperar o laudo da perícia — disse ele. — Então teremos certeza.

 

Eu gosto de trabalhar no período da noite. Sempre gostei. Fui feliz na escolha de minha profissão. Adoro meu trabalho. Não é um sacrifício, uma tarefa penosa, nem um mero ganha-pão.

Eu mergulho de cabeça em meu trabalho, esqueço do resto do mundo. Fico literalmente nas nuvens.

Nessa noite, porém — três noites depois de ter visto Rachel — não era meu plantão. Sentei-me sozinho no escritório e percorri os canais de televisão. Tenho esse hábito comum dos dias de hoje de brincar com o controle remoto. Sou capaz de passar horas diante da TV sem realmente assistir a coisa alguma. Ano passado, Lenny e Cheryl me deram um DVD de presente, com a explicação de que o videocassete logo se tornaria obsoleto.

Verifiquei as horas no relógio digital do DVD. Passavam poucos minutos das nove. Poderia tranqüilamente assistir a um DVD antes de dormir lá pelas onze.

Eu tinha acabado de retirar o filme alugado da caixa e já ia inseri-lo no aparelho, quando ouvi um cachorro latir. Caminhei até a janela. Uma família havia se mudado recentemente para o quarteirão, na segunda casa depois da minha. Um casal com quatro ou cinco filhos, não sei ao certo. É difícil saber com precisão quando são tantas crianças. Confunde-se um com o outro. Eu ainda não havia ido até lá me apresentar, mas sabia que eles tinham um pastor alemão, pois eu vira o animal no quintal deles, um cachorro quase do tamanho de um cavalo. Deduzi que o latido fosse dele.

Afastei a cortina e espiei para fora. Por alguma razão que não sei definir, não fiquei surpreso com o que vi.

A mulher estava exatamente no mesmo lugar onde eu a vira dezoito meses antes, na mesma posição, com os cabelos longos soltos, as mãos nos bolsos do casaco — tudo igual.

Não queria nem por um segundo perdê-la de meu campo de visão, mas também não queria que ela me visse. Eu me ajoelhei e deslizei para o canto da janela, com as costas e o rosto colados à parede, ao estilo superdetetive. Nessa posição, sem me mover, considerei minhas opções.

O primeiro ponto é que eu não estava mais vendo a mulher, e havia o risco de ela se afastar e perdê-la de vista, coisa que eu não queria que acontecesse. Eu precisava dar uma olhada para fora, isso era a primeira coisa.

Estiquei o pescoço e espiei bem do canto da janela. Ela ainda estava lá e tinha chegado um pouco mais perto da porta da frente. O que será que ela queria? E se eu corresse, abrisse a porta de repente e a confrontasse? Parecia uma boa idéia. Se ela fugisse, eu correria atrás dela.

Arrisquei mais uma olhada rápida e vi que a mulher estava olhando para a janela. Escorreguei depressa para baixo. Droga. Ela me vira. Não adiantava mais me esconder.

Apoiei as mãos na janela, pronto para escancará-la, mas a mulher já estava se afastando apressadamente calçada abaixo.

Ah, não, dessa vez não!

Eu estava usando trajes cirúrgicos — todo cirurgião tem alguns para usar em casa — e estava descalço. Corri para a porta, abri-a e olhei para fora. A mulher já estava no meio do quarteirão e quando me viu na porta começou a correr.

Eu corri atrás. Descalço mesmo. De um lado, eu me sentia ridículo, perseguindo uma mulher desconhecida porque ela tinha ficado parada na frente de minha casa. Não sei o que eu esperava descobrir. Era possível que a mulher estivesse fazendo uma caminhada e eu a houvesse assustado. Ela poderia dar queixa à polícia e eu já previa a reação deles. Não contente em ter matado minha própria família, agora passara a perseguir mulheres desconhecidas na rua.

Mas não parei.

A mulher virou à direita na Phelps Road. Ela levava uma boa vantagem sobre mim. Corri alucinadamente, sentindo o calçamento áspero machucar a sola dos pés. Tentei correr sobre a faixa gramada. A mulher estava fora de meu campo de visão, e eu estava fora de forma. Tinha corrido cem metros, se tanto, e já estava ofegante, meu nariz começando a escorrer.

Cheguei à esquina e dobrei à direita, mas não vi ninguém. A rua era comprida e reta, e estava bem iluminada. Ou seja, necessariamente eu veria a mulher, mesmo que ela tivesse uma boa dianteira. Por algum motivo que foge à minha compreensão, olhei para trás, para o lado oposto da rua. Mas estava tudo deserto. Então corri na direção que a mulher tomara, até a esquina seguinte. Ali parei outra vez e olhei para todos os lados.

A mulher sumira. Mas como? Seria impossível ela ter corrido tão depressa. Nem Carl Lewis era tão rápido. Parei, curvei-me com as mãos nos joelhos e respirei fundo várias vezes. Será que ela morava numa daquelas casas? Talvez. E se morasse? Bem, isso significaria que ela estava apenas caminhando pela vizinhança. Vira alguma coisa que atraíra sua curiosidade e parara para olhar.

Exatamente como fizera um ano e meio atrás?

Bem, para começar, eu não podia ter certeza de que era a mesma mulher. Se bem que seria coincidência demais duas mulheres pararem na frente de minha casa, exatamente no mesmo lugar e na mesma posição, olhando feito estátuas.

Não que fosse impossível, mas o mais provável era que fosse a mesma mulher. Talvez ela gostasse de olhar casas, talvez fosse arquiteta ou coisa parecida. Afinal, minha casa era do estilo arquitetônico típico dos anos 70, construída em vários níveis. Por outro lado, se a mulher era inocente, por que ela tinha fugido?

Talvez porque um maluco, Marc, começou a correr atrás dela na rua.

Afastei a voz interior e recomecei a correr, procurando não sei bem o quê, mas quando passei em frente à casa da Sra. Zucker, parei abruptamente.

Será que...

A mulher simplesmente desaparecera. Eu havia olhado para todos os lados da rua, e ela não estava em parte alguma. Isso só podia significar: a) que ela morava numa daquelas casas; b) que estava escondida em algum canto, ou c) que pegara o atalho do bosque pelo quintal dos fundos da casa da Sra. Zucker.

Quando éramos crianças, às vezes cortávamos caminho por ali. Havia uma trilha que começava atrás da casa da Sra. Zucker e cortava o bosque até as quadras de esportes da escola. Era um caminho meio escondido no mato, e a Sra. Zucker não gostava nem um pouco que as crianças atravessassem seu gramado. Ela nunca dizia nada, mas ficava na janela, com aquele cabelo armado, olhando para nós, séria e imóvel. Depois de algum tempo paramos de passar por ali e usamos o caminho normal.

Olhei novamente para um lado e para o outro, e não vi sinal da mulher.

Será que ela sabia da existência do atalho?

Mergulhei na escuridão atrás da casa da Sra. Zucker, quase esperando vê-la atrás da janela da cozinha, olhando para mim, mas ela se mudara para Scottsdale fazia alguns anos. Eu nem sabia quem morava ali agora. E nem sabia se a trilha ainda existia.

O breu era total atrás da casa. Não havia nenhuma luz acesa, nem fora nem dentro. Tentei me lembrar da localização exata do atalho e não tive de me esforçar muito.

Essas coisas de infância ficam gravadas na memória, é automático. Corri na direção da trilha e de repente bati com a cabeça em alguma coisa dura. Senti a pancada e caí para trás, de costas.

Sem entender o que acontecera, olhei para cima e, à luz fraca do luar, vi uma armação de balanço, daquelas de madeira. Aquilo não existia ali antes e, no escuro, eu não vi. Eu estava um pouco zonzo, mas cada segundo era precioso, por isso tratei de me levantar e apertei os olhos, até que enxerguei o atalho.

Ainda estava lá, e mais que depressa enveredei mato adentro, sem me importar com os galhos que me arranhavam o rosto. Tropecei numa raiz, mas continuei adiante.

O caminho não era muito longo, tinha cerca de cento e cinqüenta metros no máximo e terminava numa clareira onde ficavam as quadras de futebol e beisebol. Se a mulher tivesse passado por ali, certamente eu chegaria a tempo de avistá-la na extensa área de recreação ao ar livre.

Eu já conseguia enxergar a claridade difusa das luzes fluorescentes do pátio de estacionamento, ao lado das quadras. Finalmente cheguei à clareira e corri os olhos ao redor. Vi várias traves de gol e uma corrente divisória.

Mas não vi nenhuma mulher.

Droga.

Eu a perdera de vista outra vez. Senti uma frustração imensa não sei explicar por quê. Pensando bem, aquilo tudo era ridículo Olhei para meus pés, que doíam muito.

Tive a impressão de que um deles estava sangrando. Eu me senti um idiota. Um idiota derrotado, para ser mais exato. Virei-me para voltar...

Mas parei e virei-me outra vez.

A distância, sob as luzes do estacionamento, havia um carro. Apenas um, parado ali, no estacionamento deserto.

Então comecei a seguir uma linha de raciocínio. Vamos supor que aquele carro pertencesse à mulher. Talvez sim, talvez não. Se o carro não fosse dela, não faria diferença nenhuma; mas, se fosse, fazia sentido: ela estaciona, atravessa o bosque, vai até a frente de minha casa. Eu não tinha a menor idéia de por que ela faria tudo isso.

Mas estava decidido a descobrir.

Muito bem, então. Partindo da hipótese de que aquele carro era dela, podia concluir que ela ainda não fora embora. E se não fora embora, onde ela estava? Vejamos, ela é surpreendida, ela foge, ela corre pelo atalho...

.. então ela se lembra de que é bem possível que eu vá atrás dela.

Eu quase estalei os dedos. Seguindo aquela linha de raciocínio, a mulher saberia que eu tinha crescido naquela vizinhança e que muito provavelmente me lembraria do atalho. E que, se eu me lembrasse do atalho e suspeitasse (como suspeitei) de que ela poderia ter fugido por ali, eu a seguiria e com certeza a avistaria no descampado.

Nesse caso, o que ela faria?

Pensei um pouco e a resposta me pareceu óbvia. Ela se esconderia no matagal, em algum ponto ao longo da trilha. É provável que a mulher misteriosa estivesse me observando naquele exato instante.

Sim, eu sei que essa hipótese mal chegava a uma vaga conjectura, mas fazia sentido. Fazia todo o sentido. Então, o que fazer? Eu suspirei pesadamente e falei em voz alta:

— Droga!

Assumi uma pose de derrotado, tentando parecer natural, e comecei a percorrer o caminho de volta, em direção à casa da Sra. Zucker. Com a cabeça baixa, movia os olhos de um lado para outro, caminhando a passo regular e com ouvidos atentos ao menor ruído possível.

O silêncio reinava na noite.

Cheguei ao final da trilha e continuei andando, como se estivesse voltando para casa. Quando eu estava passando pelo trecho mais escuro do quintal, joguei-me no chão, depois rastejei feito um soldado em combate até o balanço e fiquei deitado de bruços, atrás da armação de madeira, vigiando a trilha.

Não sei quanto tempo fiquei ali, imóvel, esperando; uns dois ou três minutos, talvez. Já estava pensando em desistir, quando ouvi um ruído. Então vi um vulto emergir das sombras e enveredar pela trilha.

Eu me pus de pé, tomando cuidado para não fazer barulho, mas não sei como a mulher olhou para trás e me viu.

— Ei, espere! — gritei. — Só quero conversar com você Mas ela já tinha mergulhado na escuridão da mata. Fora da trilha, a vegetação é cerrada, alta e muito escura.

Seria quase impossível seguir a mulher. Mas eu não estava disposto a deixá-la escapar outra vez. Então tive uma idéia: eu não conseguiria enxergá-la, mas poderia ouvi-la.

Embrenhei-me no matagal e quase imediatamente trombei com uma árvore. Cheguei a ver estrelas. Que pateta. Então parei e escutei. O silêncio era total.

Ela tinha parado. Tinha se escondido de novo. E agora?

Ela não podia estar muito longe. Considerei minhas opções e então pensei "Ora, dane-se!". Virei-me na direção de onde eu ouvira o último som e saltei sobre o local, com as pernas e os braços abertos e esticados ao máximo, de forma a cobrir a maior área possível. Aterrissei em cima de um arbusto... mas minha mão esquerda encostou em alguma coisa.

A mulher tentou escapar, mas agarrei o tornozelo dela. Ela me chutou com o pé livre, que agarrei com a mão direita.

— Me solte! — ela gritou.

Não reconheci a voz, tampouco a soltei.

— Me deixe!

De jeito nenhum. Tomei impulso e puxei as pernas dela, para não precisar fazer tanta força. Ainda estava muito escuro, mas meus olhos estavam começando a se adaptar à escuridão. Dei outro puxão, e ela rolou de costas. Estávamos muito perto um do outro agora, e já era possível ver o rosto dela.

Meu cérebro demorou alguns segundos para registrar o que meus olhos viam, mesmo porque era uma lembrança bastante antiga. As feições, ou pelo menos o que eu conseguia ver delas, haviam mudado. Ela estava diferente. O que me revelou, o que me fez reconhecê-la, foi o modo como os cabelos caíram sobre o rosto dela durante nossa luta corporal. Isso era quase mais familiar do que a fisionomia — a vulnerabilidade que ela demonstrava, o modo como evitava contato visual. E é claro que o fato de eu morar naquela casa, a qual eu sempre associara a ela, havia mantido a imagem da pessoa sempre em primeiro plano em minha memória.

Ela afastou os cabelos da frente do rosto e olhou para mim. De repente voltei no tempo, para a época de escola, a construção de tijolos a menos de duzentos metros dali onde estávamos. Aquilo começava a fazer sentido. A mulher misteriosa tinha ido rever a casa onde vivera.

A mulher misteriosa era Dina Levinsky.

 

Fiz um chá e nos sentamos à mesa da cozinha.

— Obrigada, Marc — disse Dina quando lhe ofereci a xícara fumegante.

Tinha conhecido Dina desde sempre, apesar de nunca termos trocado mais de meia dúzia de palavras um com o outro. Mesmo que eu não tivesse ido morar na casa onde ela crescera, ainda assim Dina Levinsky sempre seria uma lembrança marcante em minha vida. Acho que todo mundo já teve uma Dina Levinsky na vida, um colega de primário que se destacava por ser alvo de troça dos outros alunos, aquela criança que estava sempre só e triste na hora do recreio e que mesmo você nunca tendo participado das provocações ou ofensas, como metade da classe fazia, você também nunca tomou a iniciativa de se aproximar e oferecer apoio. Mas até hoje se lembra dela.

— Eu soube que você é médico — disse ela.

— Sim. E você?

— Designer gráfica e artista plástica. Vou expor no Village no mês que vem.

— Quadros? Ela hesitou.

— Sim.

— Você sempre teve talento artístico.

Dina inclinou a cabeça, surpresa.

— Você reparou?

Depois de uma breve pausa, me vi dizendo:

— Eu devia ter tomado uma atitude.

Ela sorriu.

— Não. Eu é que devia ter tomado.

A aparência de Dina estava ótima. Não que ela tivesse se transformado de patinho feio em cisne, numa beldade estonteante. Na verdade, Dina nunca fora feia, apenas sem graça. Mas as feições afiladas eram mais atraentes na mulher adulta do que haviam sido na menina. E os cabelos escorridos estavam mais encorpados agora.

— Você se lembra de Cindy McGovern? — ela me perguntou.

— Claro que me lembro.

— Ela me atormentou mais do que todos os outros juntos.

— Sim, eu me lembro.

— Então, pois veja só que coisa engraçada. Há alguns anos, eu fiz uma exposição numa galeria, perto do centro da cidade, e de repente Cindy apareceu lá. Foi falar comigo, me abraçou, me deu um beijo e quis recordar os velhos tempos. Perguntou-me se eu lembrava do Sr. Lewis, de como ele era ranzinza, e outras lembranças daquela época. Você precisava ver como ela estava simpática, sorridente! E eu juro para você, Marc, que ela não se lembrava das coisas que fez. E ela não estava fingindo!

Ela simplesmente bloqueou por completo da memória tudo o que fez comigo, o jeito horrível como ela me tratava. Eu já tinha notado isso antes, sabe?

— O quê?

— As pessoas nunca se lembram de ter sido más, ou mesquinhas.

Dina segurou a xícara com as duas mãos e correu os olhos ao redor da cozinha, observando tudo. Eu refleti sobre minhas próprias lembranças do passado e de mim mesmo.

Será que eu realmente havia apenas me omitido? Ou essa era minha maneira de bloquear o que era melhor esquecer?

— É tão estranho...

— O quê? Estar aqui na casa?

— Sim. — Dina pôs a xícara na mesa. — Imagino que você esteja esperando uma explicação.

Eu esperei que ela continuasse. Dina relanceou os olhos ao redor outra vez.

— Quer ouvir uma coisa estranha?

— Sim, claro.

— Era exatamente aqui que eu me sentava, quando criança. Nossa mesa também era retangular, e eu costumava me sentar bem aqui. Quando entrei na cozinha agora há pouco, vim automaticamente para esta cadeira. Acho que foi mais ou menos o que aconteceu antes.

— Antes?

— Quando vim para perto da casa — explicou Dina. — É a casa que faz isso. Parece que ela me atrai, me enfeitiça.

Dina inclinou-se para a frente e me fitou nos olhos pela primeira vez.

— Você ouviu os rumores, não ouviu? Sobre meu pai e tudo o que acontecia aqui.

— Sim.

— É tudo verdade.

Eu me controlei para não fazer uma careta. Eu não sabia o que dizer. Pensei no inferno que aquela menina passara na escola. Tentei imaginar o outro inferno que ela passara ali, naquela casa. Era inconcebível.

— Meu pai morreu — contou Dina. — Já faz seis anos.

Eu pestanejei e desviei o olhar.

— Eu estou bem, Marc de verdade, mesmo. Eu fiz terapia, quer dizer, ainda faço. Você conhece o Dr. Radio?

— Não.

— É o nome dele, mesmo. Stanley Radio. Eu me trato com ele há anos. Estou bem melhor. Superei a tendência à autodestruição, recuperei a auto-estima. Engraçado, não, como superei tudo? É sério, Marc. Quase todas as vítimas de abuso sexual ficam traumatizadas. Eu nunca tive traumas. Não tenho problemas para me relacionar intimamente.

Estou casada e feliz. Meu marido é um homem maravilhoso.

— Fico contente em saber disso — falei, porque não consegui pensar em outra coisa para dizer.

— Você é supersticioso, Marc?

— Não.

— Eu também não. Mas quando soube sobre o que aconteceu com sua esposa e sua filha, fiquei pensando nesta casa. Fico pensando se pode ter alguma coisa a ver com a energia ruim. Esse tipo de coisa. Sua esposa era uma pessoa adorável.

— Você conhecia Mônica?

— Eu a conheci.

— Quando?

Dina pensou um pouco antes de responder:

— Sabe, quando li a reportagem sobre o que aconteceu aqui, aquilo teve em mim o efeito de um gatilho. Mais ou menos como acontece com o alcoolismo ou a anorexia. Não existe uma cura definitiva. A coisa mais insignificante pode funcionar como um gatilho, e a pessoa tem uma recaída. Fiquei agitada, comecei a roer as unhas a ponto de me ferir. Eu precisava enfrentar esta casa, confrontar o passado, para me livrar dele.

— Foi por isso que você veio olhar a casa?

— Sim.

— E da outra vez? Há um ano e meio, quando vi você da janela, lá em cima?

— Também, a mesma coisa.

Eu me recostei na cadeira.

— Você já veio outras vezes, que eu não tenha visto?

— Eu venho a cada dois meses, mais ou menos. Deixo o carro no estacionamento da escola e pego o atalho da Sra. Zucker. Mas não é só isso.

— Não é só isso, o quê?

— Minhas vindas até aqui. Sabe, existem segredos meus dentro desta casa. Literalmente, quero dizer.

— Como assim?

— Eu tento criar coragem para bater na porta outra vez, mas não consigo. E agora que estou aqui dentro, nesta cozinha, me sinto bem. — Dina sorriu, forçado. — Mas ainda não sei se consigo.

— Não consegue o quê?

— Eu estou divagando.

Dina começou a coçar vigorosamente as costas da mão, enterrando as unhas na pele.

Eu queria fazer alguma coisa por ela, mas pareceria forçado.

— Eu escrevi tudo num diário. E ele ainda está aqui.

— Aqui em casa?

Dina meneou a cabeça.

— Eu o escondi.

— A polícia deu uma busca na casa depois do crime. Eles vasculharam tudo.

— Eles não encontraram o diário, tenho certeza. Mesmo que tivessem encontrado, seria apenas um diário. Nada que interessasse para eles. Uma parte minha prefere deixar quieto. O que passou, passou; acabou, entende? Mas outra parte minha quer revolver e desenterrar tudo. Como se fosse um vampiro que, exposto à luz do sol, então morresse para sempre.

— Onde está?

— No porão. É preciso ficar em pé em cima da secadora para alcançar. Está atrás de um conduto, na área de tubulação em cima do forro. — Dina consultou o relógio, depois olhou para mim e cruzou os braços, como se de repente sentisse frio. — Está tarde.

— Você está bem?

Ela passou rapidamente os olhos outra vez pela cozinha, e sua respiração ficou irregular.

— Não sei quanto tempo eu ainda conseguiria ficar aqui.

— Quer procurar o diário?

— Não sei.

— Quer que eu o pegue para você?

Dina balançou a cabeça com veemência.

— Não. — Ela se levantou e tomou fôlego. — Eu preciso ir.

— Venha sempre que quiser, Dina.

Mas ela já não ouvia mais nada. O pânico se instalara, e ela se dirigia apressada para a porta.

— Dina!

Ela se virou repentinamente.

— Você a amava? — perguntou.

— O quê?

— Mônica. Você a amava? Ou havia outra pessoa?

— Do que você está falando?

O rosto de Dina ficou pálido. Ela começou a recuar, olhando para mim, petrificada.

— Você sabe quem atirou em você, não sabe, Marc?

Eu abri a boca, mas não consegui falar. Quando por fim recuperei a voz, Dina já estava com a mão na maçaneta.

— Desculpe-me. Preciso ir.

— Espere!

Ela escancarou a porta e saiu correndo. Eu fiquei em pé, junto à janela, olhando até vê-la desaparecer na esquina com a Phelps Road. Dessa vez, decidi não ir atrás.

Em vez disso com as palavras "Você sabe quem atirou em você, não sabe, Marc?" reverberando nos ouvidos, desci correndo a escada estreita do porão.

Bem, aqui, preciso explicar uma coisa. Eu não estava descendo àquele aposento sombrio e cheirando a mofo para invadir a privacidade de Dina. Eu não tinha a pretensão de saber o que era melhor para ela ou o que poderia poupá-la de um sofrimento horrendo. Muitos colegas meus da psiquiatria não concordariam comigo, mas às vezes penso se não seria melhor deixar o passado em paz. Claro que não posso afirmar o que é melhor e, como diriam meus colegas psiquiatras, eu não pergunto qual é a opinião deles sobre a melhor maneira de lidar com um caso de lábio leporino. Portanto, a única coisa que sei com certeza é que não cabe a mim decidir o que é melhor para Dina.

Tampouco estava descendo ao porão para satisfazer minha curiosidade sobre o passado dela. Eu não tinha nenhum interesse em conhecer os detalhes do suplício de Dina.

Para ser sincero, não queria saber detalhes. Já estava suficientemente abalado por saber que coisas horríveis haviam acontecido na casa que eu chamava de lar. Para mim, bastava. Eu não precisava ouvir nem ler mais nada.

Então, o quê, exatamente, eu buscava?

Pressionei o interruptor e a lâmpada fraca do teto acendeu. Havia começado a juntar as peças no instante em que pisara no primeiro degrau para descer ao porão. Dina dissera algumas coisas curiosas.

Deixando de lado o aspecto mais dramático, começava a captar outros, mais sutis. Naquela noite todas as minhas ações e reações estavam sendo espontâneas e decidi deixar que continuasse assim.

Primeiro, me lembrei de quando Dina, ainda a mulher misteriosa na calçada, avançara alguns passos em direção à porta. Agora eu sabia, como a própria Dina me contara, que ela estava "tentando criar coragem para bater na porta outra vez".

Outra vez.

Bater na porta outra vez.

A implicação óbvia era que Dina, pelo menos uma vez, já tivera coragem de bater.

Segundo, Dina dissera que havia conhecido Mônica. Eu não fazia idéia de como a conhecera. Mônica também crescera naquela cidade; mas, até onde eu sabia, circulava numa área diferente da nossa. A residência dos Portman ficava num bairro localizado no extremo oposto ao nosso. Ainda bem pequena, Mônica fora para o colégio interno.

Ninguém na cidade a conhecia. Eu me lembro de vê-la no cinema Colony, uma vez, quando estava no colegial. Nessa ocasião, fiquei olhando para ela, mas ela deliberadamente me ignorou. Quando viemos a nos encontrar, anos mais tarde — e dessa vez foi ela quem me abordou —, meu ego inflou até quase explodir.

Mas então, como, eu me perguntava agora, minha rica, diferenciada e linda esposa e a pobre, comum e insossa Dina Levinsky haviam se conhecido? A resposta mais provável, levando-se em conta aquele comentário outra vez, era de que Dina batera à nossa porta, em alguma ocasião, e Mônica a atendera. E assim as duas se conheceram. Talvez tivessem conversado, talvez Dina tivesse comentado com Mônica sobre o diário escondido.

"Você sabe quem atirou em você, não sabe, Marc?"

Não, Dina. Mas pretendo descobrir.

Cheguei ao piso de cimento. Havia caixas empilhadas por toda parte. Reparei, pela primeira vez, que havia manchas de tinta no chão, de várias cores. Provavelmente estavam ali desde a época de Dina, um lembrete das escapulidas solitárias.

A máquina de lavar e a secadora ficavam no canto esquerdo do porão. Caminhei na ponta dos pés até lá, como se receasse acordar os fantasmas de Dina. Bobagem, claro.

Como eu disse, não sou supersticioso e, mesmo que fosse, mesmo que eu acreditasse em espíritos do mal e coisas assim, não havia motivo algum para ter medo de enfurecê-los.

Minha esposa estava morta e minha filha, desaparecida. O que mais poderiam fazer comigo? Nada. Na verdade, se eles existissem de fato, talvez pudessem me dar alguma luz, me deixar saber o que acontecera com minha família, com Tara.

Pronto, o círculo se fechara de novo. De uma forma ou de outra, tudo sempre convergia de volta para Tara. Eu não sabia o que uma coisa tinha a ver com outra, qual poderia ser a relação entre o seqüestro e Dina Levinsky. Provavelmente não havia relação nenhuma, mas não iria recuar agora.

Porque, veja bem, em momento algum Mônica comentou comigo que conhecera Dina Levinsky. E isso era muito estranho. Tudo bem que eu estava construindo uma teoria sem nenhuma base concreta. Mas, se de fato Dina chegara a bater à porta e Mônica atendera, o natural não seria que ela tivesse me contado? Ela sabia que Dina Levinsky havia morado na casa e que havíamos sido colegas de classe no primário. Por que fazer segredo da visita dela, ou do fato de que haviam se conhecido?

Subi em cima da secadora e abri o alçapão do forro. Eu tinha de ficar agachado e ao mesmo tempo olhar para cima. Havia flocos de pó e teias de aranha por toda parte.

Localizei o conduto, estiquei o braço e tateei com a mão, mas era difícil alcançar o outro lado. Havia ali um emaranhado de tubos e canos, e meu braço não passava nos espaços apertados entre eles, coisa que para uma menina teria sido fácil.

Por fim, consegui introduzir a mão no espaço entre os canos e deslizei os dedos até onde consegui, ao longo da tubulação. Dei um tranco, para ver se alguma coisa ali cedia, mas nada. Empurrei um pouco mais e dei outro tranco, e dessa vez algo se deslocou. Arregacei a manga e enfiei novamente o braço no emaranhado de cobre, empurrando com força para abrir espaço, até que consegui alcançar a parte de trás. Apalpei ao redor, até que toquei algo. Peguei o objeto e o puxei para fora.

Era o diário.

Era um caderno escolar clássico, com a tradicional capa de madrepérola preta. Abri e folheei as páginas. A caligrafia era minúscula e uniforme, e a escrita cobria inteiramente as páginas, de cima a baixo e de um lado a outro, pois não havia margens. Dina escrevera na frente e no verso de cada folha.

Eu não li o que estava escrito, pois, como mencionei, não era esse meu propósito. Estiquei o braço de volta, recoloquei o diário no lugar e tateei um pouco mais o espaço atrás do conduto. Eu sabia. Não sei como, mas sabia. Tateei até tocar com a ponta dos dedos em outro objeto. Meu coração disparou. A superfície era macia, parecia couro. Levantei o objeto e, junto com ele, alguns rolos de pó. Pisquei para afastar as partículas de poeira dos olhos.

Era a agenda de Mônica.

Eu me lembrava de que ela a comprara, numa loja chique em Nova York. Tinha calendário e espaço para anotações diárias. Quando fora mesmo que ela a comprara? Eu não tinha certeza. Talvez uns oito ou nove meses antes de morrer. Tentei me lembrar de quando fora a última vez em que eu a vira usar a agenda, mas não consegui.

Segurei-a entre os joelhos e coloquei o alçapão no lugar. Peguei a agenda, desci para o chão e não esperei para abri-la lá em cima, com uma iluminação mais adequada.

Era fechada com zíper e, apesar da poeira acumulada, ele deslizou sem dificuldade.

Assim que abri a agenda, um CD caiu no chão, um círculo brilhante como uma jóia sob a luz fraca. Segurei-o pelas bordas e li a etiqueta. Estava escrito CD-R e embaixo

80 minutos.

O que era aquilo?

Só havia uma maneira de descobrir. Subi correndo a escada e inseri o cd no computador.

 

Quando coloquei o disco no drive a seguinte mensagem apareceu na tela:

Senha:

MVD Newark, NO

Senha de seis dígitos. Coloquei a data do aniversário de Mônica. Inválida. Tentei a data do nascimento de Tara. Inválida. Coloquei a data de nosso casamento e depois a de meu aniversário. Tentei a senha eletrônica de nossa conta conjunta. Nada funcionou. Eu me recostei para trás na cadeira. E agora?

Pensei em chamar o detetive Regan, mas era quase meia-noite e afinal, o que eu diria para ele? "Ouça, achei um CD escondido no porão de minha casa, venha assim que puder"? Não, histeria não levaria a nada. Era melhor ter calma, agir pela razão, não pela emoção. Eu precisava ter paciência, pensar direito, e então pela manhã ligaria para Regan. Mesmo porque àquela hora não havia nada que ele pudesse fazer. Qualquer providência teria de esperar até o dia seguinte para ser tomada.

Quanto a isso, tudo bem, mas eu ainda poderia tentar alguma coisa. Acessei a internet, entrei num site de busca e digitei MVD em Newark. Surgiu uma lista de ocorrências.

"MVD — Mais Valiosas Descobertas: Serviços de Investigação".

Investigação?

Havia um link para o site. Cliquei, e a página inicial apareceu na tela. Vasculhei rapidamente as legendas MVD era umgrupo de detetives particulares que oferecia garantia de sigilo absoluto. Eles ofereciam alguns tipos de informação on-line, por menos de cem dólares. Os anúncios diziam: Descubra se seu novo namorado tem ficha criminal e Quer localizar seu antigo amor? Quem sabe ela também está com saudade de você?. Coisas desse tipo.

Eles também faziam investigações especiais, com total discrição e compromisso com a verdade. Eles eram, de acordo com a legenda principal do site, uma entidade de investigação séria, confiável, completa. O que Mônica teria mandado investigar?

Peguei o telefone e disquei a linha 0-800 da MVD. Atendeu uma gravação — o que não era de admirar, tendo em vista o horário — dizendo como minha ligação era importante para eles e que o escritório abria às nove horas da manhã. Tudo bem. Eu voltaria a ligar no dia seguinte.

Desliguei o telefone e pressionei o botão para abrir a gaveta do drive. O CD apareceu, eu o segurei pelas bordas e procurei alguma pista. Não havia nada. Tudo indicava que Mônica havia contratado os serviços da MVD para investigar alguma coisa, e que aquele CD continha algo relacionado ao assunto que ela quisera investigar. Não era uma dedução muito brilhante, mas era um começo.

Eu não fazia a menor idéia do que Mônica mandara investigar, nem por quê. Mas se eu estivesse certo, se aquele CD de fato fosse de Mônica, se ela tivesse contratado um detetive particular por alguma razão, obviamente algum pagamento teria sido feito a essa entidade.

Ótimo, essa dedução já era mais interessante.

Mas aí eu esbarrava num fato que me deixava um tanto perdido. A polícia havia feito uma varredura minuciosa em nossa conta conjunta, tinha esquadrinhado tudo, extratos, transações, operações com cartão de crédito, cheques compensados, saques no caixa eletrônico. Será que tinham visto algum pagamento em favor da MVD? Se viram, não me contaram. Se bem que eu mesmo tinha examinado os extratos e não vi nenhuma menção a agência de detetives, nenhuma transferência ou saque que tivesse me chamado especialmente a atenção.

O que isso significava? Uma possibilidade era que aquele CD fosse antigo. Os extratos examinados se referiam a um período de cerca de seis meses anteriores ao ataque.

Talvez o contato de Mônica com a MVD tivesse sido antes disso. Eu poderia verificar os extratos anteriores, mas alguma coisa me dizia que não era o caso. Aquele

CD não era antigo. De qualquer forma, não fazia diferença. O espaço de tempo era irrelevante. Recente ou não, as questões cruciais permaneciam. Por que Mônica contratara um detetive particular? Qual era a senha protegida naquele maldito CD? Por que ela o escondera no forro do porão? O que Dina Levinsky tinha a ver com tudo isso, se é que tinha algo a ver? E, o mais importante, o que tudo isso tinha a ver com o ataque, se é que tinha algo a ver também, se todo aquele meu exercício mental não era apenas um anseio meu de encontrar uma pista concreta que pudesse ajudar na investigação do seqüestro de Tara...

Olhei pela janela. A rua estava deserta e silenciosa. O bairro dormia. Eu não obteria mais nenhuma resposta naquela noite. Pela manhã levaria meu pai para nosso passeio semanal e depois eu telefonaria para a MVD, e quem sabe também para Regan.

Fui para a cama e esperei o sono chegar.

 

O telefone na mesa-de-cabeceira de Edgar Portman tocou as quatro e meia da manhã. Edgar acordou sobressaltado, despertou no meio de um sonho e, sonolento, tateou em busca do telefone.

— Alô!

— Você pediu que eu ligasse assim que soubesse.

Edgar esfregou o rosto.

— Saiu o resultado?

— Sim.

— E?

— Positivo. Os dois conferem.

Edgar fechou os olhos.

— Mas isso foi confirmado?

— É um diagnóstico preliminar. Se eu fosse levar ao tribunal, precisaria de mais algumas semanas, mas seria apenas uma questão de seguir o protocolo.

Edgar não conseguia parar de tremer. Ele agradeceu, desligou o telefone e começou a se preparar.

 

As seis horas da manhã saí de casa e caminhei pela calçada até o outro lado do quarteirão. Usando a chave que era minha desde a época do colégio, abri a porta e entrei em meu lar de infância.

O passar dos anos não tornara a casa mais atraente. Tudo continuava igual, a única melhoria que havíamos feito ali fora substituir o antigo carpete azul que, além de puído e desbotado, era felpudo e macio; portanto, inadequado para transitar com a cadeira de rodas de meu pai. O novo carpete era cinza e batido, do tipo usado em escritórios e consultórios. Fora isso, nada mudara na casa. Os móveis continuavam no mesmo lugar, os enfeites de porcelana comprados numa viagem à Espanha muito tempo atrás continuavam sobre as mesinhas de canto, os quadros na parede eram os mesmos.

Havia porta-retratos no aparador acima da lareira. Eu sempre parava para olhar as fotos em que minha irmã aparecia. Não sei bem o que procurava ver ali, ou melhor, acho que sei: procurava uma pista, um presságio, algum indício de que aquela moça jovem, frágil e destruída, um dia compraria uma arma nas ruas, atiraria em mim e colocaria a vida de minha filha em perigo.

— Marc? — chamou minha mãe. Ela sabia desse meu hábito. — Venha me ajudar, por favor!

Fui até o quarto dos fundos. Papai dormia agora no piso térreo da casa, para evitar o transporte da cadeira de rodas para cima e para baixo. Nós o vestimos, tarefa que podia se comparar a vestir um boneco de areia molhada. Meu pai era um peso morto e, embora minha mãe e eu já estivéssemos acostumados, isso não tornava a tarefa mais fácil.

Quando minha mãe me deu um beijo, antes de eu sair, senti o familiar hálito de menta e cigarro. Eu já a havia intimado a parar de fumar, e ela já me prometera que pararia, mas eu sabia que ela nunca faria isso. Notei como a pele do pescoço dela estava ficando flácida, quase cobrindo as correntes de ouro que ela usava. Ela se inclinou e beijou meu pai no rosto, demorando-se com os lábios na bochecha dele por alguns segundos.

— Tomem cuidado — ela advertiu, como sempre fazia.

Demos início ao passeio. Fui empurrando a cadeira de rodas de papai pelo caminho habitual, passando pela estação de trem. Nós morávamos numa cidade em que uma considerável parcela da população trabalhava nos distritos de Nova York. A fila de passageiros era longa àquela hora da manhã, e era formada na maior parte por homens, mas havia também um bom número de mulheres. Estavam todos agasalhados, segurando pastas, muitos seguravam também um copo descartável de café na outra mão. Pode parecer estranho, mas mesmo antes do onze de setembro, eu via aquelas pessoas como verdadeiros heróis. Eles embarcavam naquele trem cinco vezes por semana, iam até Hoboken e faziam a baldeação para o path com destino a Nova York. Alguns ainda seguiam até a rua Trinta e Três e baldeavam mais uma vez para o metrô que levava ao centro da cidade.

Outros desciam no centro financeiro, agora que fora reaberto. Faziam esse sacrifício todos os dias, de manhã e no fim da tarde, sufocando os próprios desejos de sonhos a fim de proporcionar conforto para seus entes queridos.

Eu poderia muito bem ter me dedicado à cirurgia plástica cosmética e ganhar fortunas. Meus pais teriam condições de contratar uma enfermeira qualificada em período integral, poderiam se mudar para uma casa mais nova, que ficasse mais perto de tudo, para ter a vida facilitada. Mas eu não optei por esse caminho, porque, francamente, seria um trabalho que me deixaria enfastiado. Escolhi fazer algo mais excitante, algo que adoro fazer. Exatamente por isso muitas pessoas acham que eu sou o herói, que sou eu quem se sacrifica. Mas o fato é que a pessoa que trabalha com os menos favorecidos em geral é mais egoísta. Nós não abrimos mão de nossas necessidades com tanta facilidade. Não nos contentamos com um trabalho que nos renda o suficiente para dar à família tudo o que ela necessita. Sustentar os entes queridos é um fator secundário. Precisamos de satisfação pessoal, mesmo que isso implique alguma desvantagem para nossa família. Grande parte daquelas pessoas vestidas com elegância, que eu agora via avançar na fila para embarcar no trem, odeia o que faz, bem como o local de trabalho, mas elas vão, assim mesmo. Elas fazem isso pela família, para proporcionar uma vida melhor aos cônjuges, filhos e talvez aos pais idosos e enfermos.

E, então, afinal, quem merece mais admiração?

Papai e eu fazemos o mesmo percurso todas as quintas-feiras. Seguimos pela rua que circunda a praça, atrás da biblioteca. A praça era um local de movimento e atividade constantes, com pessoas fazendo caminhadas, quadras de futebol e áreas de playground. Meu pai se distraía vendo as crianças brincar e ouvindo suas vozes infantis.

Ele fez sinal para pararmos num ponto de onde se tinha uma visão privilegiada de uma das quadras de esportes. Respirei profundamente o ar puro e olhei para minha esquerda, de onde se aproximava um pequeno grupo de mulheres esbanjando saúde, praticando jogging, com agasalhos de lycra de boa qualidade, colados ao corpo. Percebi que papai estava muito quieto e sorri, imaginando se a preferência dele por aquele local específico não teria, afinal, nada a ver com partidas de futebol.

Eu não me lembro mais da figura de meu pai, como ele era antigamente. Quando tento voltar àquela época, as lembranças se resumem a flashes, instantâneos, cenas isoladas.

Nada mais que isso. Lembro-me de que amava muito meu pai, e para mim isso sempre foi o suficiente.

Depois do segundo derrame, há dezesseis anos, a fala de meu pai ficou muito prejudicada. Ele parava no meio das frases, não conseguia articular as palavras e passava longas horas em silêncio, às vezes dias seguidos sem falar. A gente até esquecia que ele estava ali. Ninguém sabia ao certo até que ponto ele estava lúcido, se o raciocínio dele continuava normal e ele simplesmente não conseguia se expressar, ou se o derrame afetara em parte sua capacidade mental.

Mas num dia quente de junho, quando eu estava no último ano do colégio, meu pai subitamente ergueu o braço e segurou minha manga, agarrando-a com força. Eu estava de saída para uma festa, Lenny estava me esperando no portão. A urgência que senti no gesto de meu pai segurar minha manga me deteve, e olhei para ele com certa apreensão. O rosto dele estava lívido, os músculos do pescoço rígidos, e o que mais me impressionou foi a expressão de puro pavor que vi nos olhos dele. Essa expressão no rosto de meu pai assombrou meus sonhos durante anos, a partir daquele dia.

Eu me abaixei ao lado da cadeira e me inclinei na direção dele, ainda sentindo o firme aperto dos dedos dele em minha manga.

— O que foi, papai?

— Eu sei... eu consigo... entender — ele balbuciou com dificuldade, agora apertando meu braço com força. — Por favor... eu consigo... entender.

Isso foi tudo o que ele disse, mas era o suficiente. A mensagem que meu pai queria me transmitir era: "Apesar de não conseguir me comunicar direito, eu compreendo tudo o que se passa. Por favor, não me deixe de lado, não me ignore".

Durante algum tempo, os médicos concordaram com isso. Meu pai tinha afasia, um distúrbio da fala comum em casos de vítimas de derrame. Então ele teve outro derrame, e os médicos já não tinham tanta certeza se a capacidade de raciocínio e compreensão de meu pai fora ou não afetada. Não sei se é o caso de dizer que, neste particular, aplico minha própria versão da Aposta de Pascal: se ele consegue entender, tenho mais é que falar com ele normalmente; e se ele não entende, do mesmo jeito vou falar, porque mal não há de fazer. De um jeito ou de outro, considerava que era o mínimo que eu podia fazer. Por isso converso muito com meu pai, conto tudo para ele. E, naquele exato momento, estava contando a ele sobre a visita de Dina Levinsky — "Lembra-se dela, papai?" — e sobre o cd escondido.

A fisionomia dele estava fechada, imóvel, o canto esquerdo da boca curvado para baixo numa expressão de amuo. Por diversas vezes desejei que aquela conversa de eu consigo entender não tivesse acontecido entre nós. Não sei o que é pior: perder a noção das coisas ou ter total consciência das próprias limitações. Isto é, acho que sei, sim.

Eu estava percorrendo o caminho de volta, que passava perto da nova rampa de skate, quando avistei meu sogro. Edgar Portman estava sentado em um banco, com as pernas cruzadas, muito elegante em seu estilo informal sóbrio, a calça tão impecavelmente bem-passada que seria possível cortar um tomate em fatias com o vinco. Depois do ataque, Edgar e eu tentávamos manter um relacionamento que nunca existira quando a filha dele era viva. Tínhamos contratado juntos uma agência de detetives particulares

— Edgar, claro, conhecia a melhor de todas, mas eles não haviam descoberto nada. Depois de algum tempo, Edgar e eu nos cansamos da cordialidade forçada, O único elo entre nós era também o ponto central da pior coisa que acontecera em minha vida.

A presença de Edgar naquele local poderia, claro, ser uma coincidência. Vivemos na mesma cidade, e era natural que de tempos em tempos nossos caminhos se cruzassem por acaso. Mas dessa vez não era o caso, eu sabia. Não fazia o estilo de Edgar dar uma volta a esmo na praça. Ele estava ali para me encontrar.

Nossos olhares se cruzaram, e eu não gostei muito do que vi. Empurrei a cadeira de rodas para perto do banco. O olhar de Edgar estava fixo em mim, em nenhum momento olhou para meu pai. Era como se eu estivesse empurrando um carrinho de compras.

— Sua mãe me disse que o encontraria aqui — falou Edgar.

Parei a certa distância dele.

— O que aconteceu?

— Sente-se aqui.

Coloquei a cadeira de meu pai do meu lado esquerdo e travei a roda. Meu pai olhava para o nada, a cabeça dele estava inclinada sobre o ombro direito, como acontece sempre que se sente cansado. Virei-me para Edgar e o encarei. Ele descruzou as pernas.

— Pensei muito sobre como lhe contar uma coisa — começou ele.

Eu esperei em silêncio, mas como Edgar não dissesse mais nada, eu o encorajei.

— Edgar?

— Hum?

— Diga. Pode falar.

Ele meneou a cabeça, apreciando minha atitude direta. Edgar tinha esse tipo de sutilezas. Então, sem preâmbulos, disse:

— Recebi outro pedido de resgate.

Eu recuei, atônito. Não sei o que eu esperara que ele dissesse — talvez que Tara fora encontrada morta, mas aquela notícia que ele me dava... eu não estava conseguindo assimilar. Já ia começar a fazer perguntas quando notei que ele segurava uma sacola no colo. Sem que eu dissesse nada, ele a abriu e tirou de dentro uma embalagem plástica — exatamente como da outra vez que havíamos passado por aquela situação — e me entregou. Eu olhei de esguelha para o que Edgar segurava na mão e alguma coisa explodiu em meu peito. Pisquei várias vezes antes de olhar diretamente para o invólucro transparente.

Cabelo. Havia um chumaço de cabelo dentro dele.

— Essa é a prova deles — disse Edgar.

Eu não conseguia falar. Apenas ficava olhando para a mecha de cabelo. Coloquei o saco plástico cuidadosamente em meu colo.

— Eles sabiam que ficaríamos em dúvida — comentou Edgar.

— Quem sabia?

— Os seqüestradores. Disseram que nos concederiam alguns dias de prazo. Eu imediatamente levei os fios de cabelo a um laboratório para um teste de DNA.

Olhei para Edgar e de volta para os cabelos.

— Os resultados preliminares saíram duas horas atrás — contou Edgar. — Não é algo que possa ser usado no tribunal, mas não deixa de ser uma evidência conclusiva.

Eles compararam com o teste de um ano e meio atrás e o resultado foi positivo. O cabelo é da mesma pessoa. — Ele fez uma pausa e engoliu em seco. — Esse cabelo é de Tara.

Eu ouvi as palavras, mas não as compreendi. Por alguma razão, balancei a cabeça em negativa.

— Vai ver que tinham guardado isso antes de...

— Não. Foram realizados testes de idade também. Esses cabelos pertencem a uma criança de aproximadamente dois anos.

Eu já tinha de certa forma chegado a essa conclusão. Só de olhar eu podia ver que aqueles cabelos não eram os cachinhos finos da cabecinha de Tara quando bebê. A essa altura o cabelo dela teria mudado, estaria mais escuro, mais grosso.

Edgar me entregou um bilhete. Ainda entorpecido, eu o peguei. A fonte era a mesma que fora usada no bilhete anterior, um ano e meio atrás, e a frase impressa na dobra externa do papel dizia:

QUER UMA ÚLTIMA CHANCE?

Senti o coração martelar pesadamente no peito. De repente a voz de Edgar parecia vir de muito longe.

— Só não contei logo a você porque a princípio me parecia claramente um embuste. Carson e eu não queríamos renovar sua esperança sem termos certeza de que não se tratava de um alarme falso. Eu tenho amigos que deram um jeito de agilizar os exames de DNA. Ainda tínhamos fios de cabelo da remessa anterior.

Edgar pôs a mão em meu ombro. Eu não me movi.

— Ela está viva, Marc. Não sei como nem onde, mas Tara está viva.

Eu olhava fixamente para a mecha de cabelo. Tara. Aquele cabelo era de Tara. Aqueles fios de um tom dourado brilhante. Eu os acariciei através do plástico. Minha vontade era tocá-los, tocar minha filha, mas tinha medo de que meu coração não agüentasse.

— Eles querem mais dois milhões de dólares. O bilhete adverte outra vez sobre não envolver a polícia. Eles garantem ter uma fonte segura de informações. Mandaram outro celular para você. Estou com o dinheiro no carro. Temos mais vinte e quatro horas, o que nos resta do tempo concedido para fazer o teste. Você precisa se preparar.

Finalmente li o bilhete. Depois olhei para meu pai na cadeira de rodas. Ele ainda tinha o olhar perdido no vazio.

Edgar disse:

— Eu sei que você pensa que sou rico. Mas não é bem assim. Eu sou um emergente e...

Olhei abruptamente para Edgar. Ele parecia agitado, suas mãos tremiam.

— O que estou querendo dizer é que não tenho um patrimônio líquido tão grande como parece. Não tenho uma nascente de dinheiro no jardim de minha casa.

— Me surpreende que você esteja se dando a todo esse trabalho — falei.

Minhas palavras, percebi de imediato, magoaram Edgar. Eu queria engoli-las de volta, pedir desculpas, mas, não sei por quê, não o fiz. Olhei de novo para meu pai.

As feições dele continuavam paralisadas, mas olhando mais de perto, vi uma lágrima escorrendo pelo rosto dele. Isso não queria dizer nada. Meu pai já havia derramado lágrimas em outras ocasiões, geralmente sem motivo explícito. Não interpretei aquilo como algo significativo.

E, então, sem saber por quê, segui a direção do olhar dele. Olhei para o outro lado da quadra de futebol, além das traves de gol, além de duas mães com carrinhos de bebê, para o final da rua, a cerca de cem metros de distância.

Senti um nó no estômago. Ali, de pé na calçada, olhando para mim com as mãos enfiadas nos bolsos, estava um homem de camisa de flanela xadrez, calça jeans preta e boné de beisebol.

Eu não podia jurar que fosse o mesmo homem que fora buscar o dinheiro do resgate. Afinal, flanela xadrez preto e vermelho é um padrão bastante comum. E talvez fosse minha imaginação, pois eu estava a uma distância razoável, mas acho que ele estava sorrindo para mim. Senti um baque sacudir meu corpo inteiro.

— Marc? — Edgar me chamou.

Mal o ouvi. Levantei-me, sem desviar os olhos do homem. No começo ele ficou parado no lugar, e corri na direção dele.

— Marc?

Eu sabia que não estava equivocado. Você não esquece. Você fecha os olhos e o enxerga com nitidez. Ele nunca sai de sua mente. Você anseia por momentos como aquele.

Eu sabia disso, e sabia os efeitos que a força do pensamento podia criar. Mas corri na direção dele, porque naquele caso não havia engano.

Quando eu ainda estava a certa distância dele, o homem ergueu a mão e acenou para mim. Continuei a correr, embora a essa altura já soubesse que seria infrutífero.

Eu estava ainda no meio da praça quando uma van branca parou junto do meio-fio. O homem de camisa de flanela acenou uma última vez para mim antes de desaparecer dentro do automóvel.

A van desapareceu de vista antes que eu alcançasse a rua.

 

O tempo começou a me pregar peças. Indo e vindo, acelerando e reduzindo a velocidade, entrando em foco e de repente se tornando turvo. Mas isso não durou muito.

Deixei que meu lado cirurgião assumisse o controle. O Dr. Marc sabia compartimentalizar. Sempre achei mais fácil fazer isso no trabalho do que na vida pessoal. A habilidade de separar, isolar, me desligar, nunca se transformou. No trabalho, consigo canalizar minhas emoções, fazê-las convergir para um foco construtivo. Mas, em casa, nunca consegui fazer isso.

Porém, aquela crise forçara uma mudança. Compartimentalizar não era tanto uma questão de vontade, mas de sobrevivência. Deixar que a emoção prevalecesse, permitir-me vagar na dúvida, considerar as implicações de uma criança desaparecida havia dezoito meses, tudo isso só serviria para me paralisar. E provavelmente era isso que os seqüestradores queriam. Queriam que eu capitulasse. Mas eu reajo bem sob pressão. É quando dou o melhor de mim, sei disso. E era isso que eu precisava fazer naquele momento, considerar a situação do ponto de vista racional.

Primeira coisa: dessa vez eu não envolveria a polícia. Mas isso não significava que tivesse de ficar andando de um lado para outro, inutilmente.

Quando Edgar me entregou a mochila recheada de dinheiro, tive uma idéia.

Liguei para a casa de Lenny. Ninguém atendeu. Consultei o relógio. Eram oito e quinze da manhã. Eu não tinha o número do celular de Cheryl, mas, pensando bem, seria melhor falar pessoalmente.

Fui até a Escola Willard e cheguei às oito e vinte e cinco. Estacionei atrás de uma fileira de caminhonetes e minivans, e saí do carro. Aquela escola, como tantas outras, já perdeu parte da arquitetura original em favor das muitas reformas e ampliações. As crianças brincavam no pátio, como sempre. A diferença, agora, era que os pais ficavam observando os filhos e conversando entre si; e, quando tocava o sinal, eles se certificavam de que seus rebentos estavam em segurança no interior das paredes de tijolos antes de irem embora. Eu não gostava de ver o medo nos olhos dos pais, mas compreendia perfeitamente. A partir do dia em que você se torna pai ou mãe, a preocupação se torna companheira constante. Minha experiência era o exemplo número um disso.

O carro azul-escuro de Cheryl parou na área de desembarque de alunos, e fui até lá. Ela estava ajudando Justin a descer, quando me viu. Justin despediu-se da mãe com um beijo e correu portão adentro. Cheryl ficou olhando até vê-lo se misturar às outras crianças no pátio.

— Oi — ela me cumprimentou.

— Oi. Queria lhe pedir uma coisa.

— O quê?

— O número do telefone de Rachel. Cheryl voltou a se sentar ao volante.

— Entre.

— Eu estou de carro. Está no estacionamento.

— Eu trago você de volta, ainda vou levar Marianne ao colégio. A aula de natação atrasou.

Cheryl ligou o motor e pulei para o banco do passageiro. Virei-me para trás e sorri para Marianne, que estava com um fone de ouvido na cabeça e concentrada em seu Game Boy Advance. Ela acenou rapidamente para mim, sem tirar os olhos do jogo. Os cabelos dela ainda estavam molhados. Conner estava sentado na cadeirinha, ao lado dela.

O interior do carro recendia a cloro, mas achei o cheiro estranhamente reconfortante.

— Não é de meu feitio ser indiscreta — disse Cheryl, olhando para a frente.

— Mas você quer saber quais são minhas intenções.

— Sim.

— E se não quiser dizer quais são?

— Talvez seja melhor não dizer, mesmo.

— Confie em mim, Cheryl. Preciso do telefone dela.

— Rachel ainda é minha melhor amiga.

— Tudo bem.

— Ela demorou muito tempo para superar.

— Eu também.

— Sim. Marc, tem uma coisa que você precisa saber.

— O quê?

Os olhos de Cheryl continuavam fixos no tráfego à frente.

— Você perguntou a Lenny por que nós nunca lhe dissemos nada sobre Rachel ter se separado.

— Sim.

Cheryl olhou para o espelho retrovisor; não para a rua, mas para a filha. Marianne estava absorta no joguinho eletrônico.

— Rachel não se divorciou. O marido dela morreu. Cheryl parou em frente ao colégio de Marianne, que tirou o fone de ouvido e desceu do carro. Cheryl retomou a estrada.

— Eu sinto muito — falei, apenas porque é isso que se costuma dizer nessas horas. E quase acrescentei: "Pelo menos, Rachel e eu temos algo em comum". Mas felizmente me contive a tempo.

E, então, como se tivesse lido meu pensamento, Cheryl disse:

— Ele foi baleado.

Por alguns segundos ficamos em silêncio, digerindo aquele paralelismo lúgubre. Até que Cheryl acrescentou:

— Eu não sei os detalhes. Ele era do FBI, e Rachel era uma das poucas mulheres lá dentro que ocupavam um cargo no alto escalão, na época. Depois que ele morreu, ela se demitiu.

Cheryl entrou no estacionamento da escola e parou perto do meu carro.

— Estou lhe contando isso para que você compreenda. Muitos anos se passaram desde que vocês namoraram. Rachel não é mais aquela pessoa por quem você se apaixonou.

Tentei manter a voz controlada:

— Só quero o número do telefone dela.

Sem dizer mais nada, Cheryl pegou uma caneta no compartimento lateral do carro e escreveu o número num guardanapo de papel.

— Obrigado — eu disse.

Ela permaneceu séria e em silêncio enquanto eu saía do carro.

Não vacilei. Estava com meu celular, e assim que entrei no carro, disquei o número. Rachel atendeu com um alô hesitante, e fui diretamente ao ponto:

— Preciso de sua ajuda.

 

Cinco horas mais tarde, o trem que trazia Rachel parou na Newark Station.

Eu me lembrei daqueles filmes antigos, em que um casal de amantes se despede, a locomotiva apitando, o condutor fazendo a última chamada aos passageiros, as rodas começando a se mover nos trilhos, um dos amantes debruçado para fora, acenando, e o outro correndo na plataforma. Não sei por que essa cena me veio à mente, porque a estação de trem de Newark está longe de ser um lugar que inspire fantasias românticas.

Mas quando Rachel desembarcou, senti aquela velha e conhecida emoção. Ela estava usando calça jeans desbotada e blusa vermelha, e trazia a sacola de viagem a tiracolo.

Eu tinha acabado de completar trinta e seis anos. Rachel tinha trinta e cinco. Não havíamos tido um contato mais próximo desde os nossos vinte e poucos anos. Havíamos vivido praticamente toda a nossa vida adulta longe um do outro. É estranho que tenha sido assim. Mas, como eu disse, éramos jovens demais, e os jovens fazem coisas estranhas. Não têm tolerância, não pensam a longo prazo, não imaginam que aquela velha e conhecida emoção talvez jamais vá embora.

No entanto, naquele dia, quando compreendi que precisava de ajuda, a primeira pessoa em quem pensei foi Rachel. E ela me atendeu prontamente.

Ela se aproximou de mim sem hesitar.

— Você está bem?

— Sim.

— Eles ligaram?

— Ainda não.

Rachel assentiu e começou a andar pela plataforma, falando comigo em tom formal, imbuída de profissionalismo.

— Me fale mais sobre o teste de DNA.

— Não sei mais nada além do que contei a você.

— Então, o resultado é definitivo?

— Ainda não seria conclusivo como evidência judicial, por exemplo. Mas, em termos práticos, a perícia não tem nenhuma dúvida.

Rachel transferiu a sacola de um ombro para o outro, sem diminuir o passo.

—Teremos de tomar algumas decisões não muito fáceis, Marc. Está preparado para isso?

— Sim.

— Primeira coisa: você tem certeza de que não quer contatar a polícia ou o FBI?

— Eles dizem no bilhete que têm um informante infiltrado.

— Provavelmente estão blefando.

— Eu contatei as autoridades da outra vez.

— Isso não significa que tenha sido uma atitude errada.

— Mas também não foi a certa.

— É difícil dizer, Marc. Não sabemos o que aconteceu da outra vez. Pode ser que eles tenham vigiado sua casa, percebido a movimentação... Mas é muito provável que nunca tenham tido intenção de devolver Tara. Você entende, Marc?

— Sim.

— E ainda assim quer deixar a polícia fora do caso?

— Foi por isso que chamei você.

Rachel assentiu e por fim parou, esperando que eu indicasse o caminho a seguir. Apontei para a direita, e ela disse:

— Tem outra coisa.

— O quê?

— Não podemos deixar que eles imponham prazos desta vez. Precisamos exigir provas de que Tara está viva.

— Eles dirão que a amostra de cabelo é a prova.

— E nós diremos que os testes não foram conclusivos.

— E você acha que vão aceitar esse argumento?

— Não sei. Pode ser que não. — Rachel continuou caminhando, de queixo erguido. — Mas era a isso que me referia quando falei de tomar decisões difíceis. O rapaz de camisa xadrez olhando para você do outro lado da praça é um sinal de que querem intimidar, enfraquecer você. Querem que você lhes obedeça de novo. Tara é sua filha.

Se você quiser simplesmente entregar o dinheiro outra vez sem discutir, cabe a você decidir. Mas eu não o aconselharia a fazer isso. Eles já desapareceram uma vez. Por que não o fariam de novo?

Chegamos ao estacionamento, e eu entreguei o tíquete para o atendente.

— Então, o que você sugere? — perguntei.

— Várias coisas. Primeira, temos de exigir uma troca. Nada de entregue o dinheiro e aguarde contato. Desta vez é toma lá, dá cá.

— E se eles não concordarem?

Rachel olhou para mim.

— Eu disse que as decisões não seriam fáceis.

Meneei a cabeça, concordando.

— Quero também um sistema eletrônico completo de monitoramento, para poder apoiar você. Quero instalar uma câmera de fibra ótica para ver como é a cara desse sujeito, se possível. Não temos força-tarefa, mas existem recursos que podemos utilizar.

— E se eles descobrirem?

— E se eles passarem a perna em você de novo? — contrapôs Rachel. — Seja lá o que façamos, sempre haverá riscos. Estou tentando pensar com base no que aconteceu antes. Mas não há garantias. Estou apenas tentando aumentar nossas chances.

O manobrista trouxe o carro. Saímos do estacionamento e subimos a McCarter Highway. De repente Rachel ficou muito calada. Em questão de segundos, voltei atrás no tempo. Eu conhecia aquela expressão, aquela postura. Já a havia visto antes.

— E o que mais? — perguntei.

— Mais nada.

— Rachel?

Em vez de olhar para mim, ela virou o rosto para fora da janela do carro.

— Tem algumas coisas que você precisa saber.

Eu esperei.

— Eu liguei para Cheryl — disse ela. — Já sei que ela pôs você a par de quase tudo. Você já sabe que não sou mais agente federal.

— Sim.

— Para tudo há um limite.

— Eu sei disso.

Rachel continuava esquisita.

— O que mais?

— Marc, você precisa encarar a realidade.

Parei num sinal vermelho e voltei-me para olhá-la.

— A probabilidade de que Tara esteja viva é mínima — disse Rachel.

— Mas e o teste de DNA? — argumentei.

— Vou tratar disso depois.

— Tratar disso?

— Depois — ela repetiu.

— Que história é essa? O resultado foi positivo. Edgar disse que o laudo final é mera formalidade.

— Depois — Rachel repetiu mais uma vez, com aspereza. — Neste momento, vamos partir da premissa de que ela está viva. Vamos adiante com o pagamento do resgate, presumindo que existe uma criança saudável do outro lado. Mas, ao longo desse processo, é preciso que você se conscientize de que pode ser tudo um engodo.

— Em que sentido?

— Isso não é relevante.

— Não é relevante, uma ova! O que você está querendo insinuar, afinal? Que o teste de DNA foi falsificado?

— Não creio que tenha sido, mas é uma possibilidade.

— Como? As duas amostras de cabelo são da mesma pessoa.

— Está bem. E como você pode ter certeza de que a primeira amostra, que eles enviaram há um ano e meio, era de Tara?

Demorei alguns segundos para assimilar o significado daquilo.

— Por acaso você fez algum teste com a primeira mostra, para verificar se o DNA conferia com o seu? — perguntou Rachel.

— Por que eu faria isso?

— Então, até onde você sabe, os seqüestradores podem ter enviado a você o cabelo de qualquer outra criança.

Eu tentei ordenar meus pensamentos.

— Mas a roupa de Tara estava com eles — lembrei. — O macacão cor-de-rosa com pingüins pretos. Como se explica isso?

— Você acha que a Gap vendeu só uma unidade desse macacão? Escute, Marc, eu não estou afirmando nada, não sei o que aconteceu; portanto, não adianta discutirmos hipóteses. Vamos nos concentrar no que fazer, aqui e agora.

Por algum tempo ficamos em silêncio. Eu comecei a me questionar se fora uma atitude sensata chamar Rachel. Havia excesso de bagagem entre nós. Mas olhando à frente, de modo racional e prático, eu confiava nela. Era preciso manter o lado profissional, continuar compartimentalizando.

— Eu só quero minha filha de volta — murmurei.

Rachel meneou a cabeça, parecia que ia dizer alguma coisa, voltou a ficar em silêncio.

Foi então que o celular dos seqüestradores tocou.

 

Lydia gostava de olhar fotografias antigas.

De alguma forma, elas lhe transmitiam conforto. Heshy nunca olhava para trás, mas Lydia sim, embora não soubesse atinar com o motivo exato.

Aquela foto em especial fora tirada quando Lydia estava com oito anos. Era uma foto em preto-e-branco do clássico seriado de TV Family Laughs, que deliciou os telespectadores durante sete anos — no caso de Lydia, dos seis aos treze. O protagonista era o ator Clive Wilkins, que fazia o papel de um pai viúvo de três crianças adoráveis: os gêmeos Tod e Rod, que tinham onze anos quando o seriado foi ao ar, e a encantadora irmãzinha deles, Trixie, personagem representada pela irrepreensível Larissa Dane. Sim, o sucesso do seriado foi estrondoso, tanto que, até hoje, volta e meia alguma emissora de televisão transmite reprises dos episódios.

De tempos em tempos o El True Hollywood Story também focaliza a vida de um dos artistas do elenco de Family Laughs. Clive Wilkins morreu de câncer no pâncreas dois anos após o encerramento do seriado. Infalivelmente o narrador comenta que Clive era perfeito no papel de pai amoroso, compreensivo, conselheiro, que era exatamente essa imagem e personalidade que ele irradiava no set de filmagem. Lydia bem sabia que isso era uma mentira deslavada. O sujeito bebia e recendia a nicotina. Nas cenas em que ela o abraçava, diante das câmeras, ela precisava recorrer ao máximo de seu considerável talento infantil na arte de representar para não fazer uma careta de repulsa.

Jarad e Stan Frank, os gêmeos idênticos na vida real que faziam os personagens de Tod e Rod, tentam ingressar na carreira musical desde que o seriado terminou. Nos episódios de Family Laughs, eles tinham uma banda e ensaiavam na garagem, cantando músicas de autoria de terceiros, com playback instrumental de terceiros. Mas suas vozes ecoavam tão distorcidas pelos efeitos de sonoplastia que os próprios Jarad e Stan, que não tinham capacidade de sustentar uma nota nem que fosse tatuada na palma da mão, convenceram-se de que eram músicos natos. Hoje, quase quarentões, os dois ainda tentam enganar a si mesmos, alegando estarem cansados de ser celebridades e apenas temporariamente afastados antes de retornar ao estrelato.

Mas o maior atrativo, o principal foco de interesse na saga Family Laughs está relacionado ao destino da adorável bruxinha chamada Trixie, Larissa Dane. Eis o que se sabe sobre ela: na última temporada do seriado, os pais de Larissa se divorciaram e brigaram acirradamente pela tutela da filha — da fortuna dela, bem-entendido.

O pai acabou estourando os próprios miolos, e a mãe casou-se de novo, com um vigarista que desapareceu com o dinheiro.

Como acontece com a maioria das crianças que alcançam a fama no mundo artístico, Larissa Dane logo se tornou um mito do passado. Correram rumores de que ela caíra numa vida de promiscuidade e drogas, embora ninguém estivesse de fato se importando com isso. Uma overdose quase a matou quando ela estava com apenas quinze anos.

Foi internada numa clínica e seu nome caiu no esquecimento. Era como se ela simplesmente tivesse deixado de existir. Na verdade, ninguém sabe o que aconteceu com ela; alguns acreditam que tenha morrido de outra overdose.

Mas, obviamente, não foi isso o que aconteceu.

Heshy perguntou:

— E aí? Preparada para dar o telefonema?

Lydía não respondeu de imediato. Ela pegou a fotografia seguinte, também uma cena de Family Laughs — nesta a legenda era Quinta Temporada, Episódio 112 — a pequena Trixie estava com um braço engessado. Tod queria desenhar uma guitarra no gesso, mas a idéia não agradava a Papai. Tod protestara:

— Mas, papai, eu prometo que só vou desenhar a guitarra, não vou tocar!

A claque de risos soou. A pequena Larissa não entendeu o humor. Tampouco a Lydia adulta entendia. Ela se lembrava muito bem, no entanto, de como quebrara o braço.

Coisa típica de criança. Ela rolou escada abaixo e quebrou o braço. A dor foi insuportável, mas a gravação não podia ser adiada de jeito nenhum. O médico do estúdio conseguiu calar o berreiro de Larissa com só Deus sabe o quê, e dois roteiristas improvisaram uma cena para incluir no episódio, em que Trixie se machucava e precisava engessar o braço. Ela participou da gravação mais dopada do que consciente.

Mas, enfim, o ponto crucial nessa história, o dilema da criança-prodígio, não foram as drogas, o roubo do dinheiro, as longas horas de ensaios e gravações, o tempo escasso para outras atividades, as lágrimas de crocodilo que ela vira nos olhos dos entrevistados em todos os programas de TV, embora a falsidade de certas pessoas deixasse Lydia enojada.

A questão é simplesmente a seguinte: a queda do pedestal.

Ponto final. O resto são desculpas, porque ninguém quer admitir que não consegue lidar com o fato de não estar mais sob as luzes da ribalta. Admitir isso significaria ser fútil. Lydia se tornou estrela aos seis anos de idade, ou seja, as lembranças dela são de sempre ter sido famosa, célebre, uma princesa, quase uma deusa. Essa foi a única realidade que Lydia conheceu. Todo mundo a elogiava, paparicava; todos a achavam adorável, especial, perfeita, exemplar; todos queriam vê-la, chegar perto dela, tocar nela.

E, então, num belo dia, tudo isso acabou. Como ar escapando de um balão, a glória e a fama simplesmente se desvaneceram.

A fama cria mais dependência do que o crack. Quando acontece com um adulto, com alguém que tenha vivido seus dias de glória e depois caído no esquecimento, é comum a pessoa cair em depressão, embora ela tente fazer de conta que aquilo não tem importância nenhuma, que deixar de ser celebridade não é uma coisa que a afete. Ela não quer admitir a verdade. Ela vive uma mentira, vive em função de buscar desesperadamente nem que seja uma pequenina dose da mais potente das drogas: a fama.

Mas, no caso de um adulto, a experiência é diferente. Em algum momento da vida ele provou do mel, que depois lhe foi tirado. Mas, para uma criança famosa, o mel é o leite materno. Aquilo é tudo que ela conhece, a única experiência de vida. Ela não sabe que é algo efêmero, que não vai durar para sempre. Não se consegue explicar isso a uma criança. Não se consegue preparar uma criança para o inevitável. Lydia não conheceu outra coisa a não ser a adulação. E, de repente, da noite para o dia, as luzes se apagaram. Pela primeira vez na vida, ela estava sozinha no escuro.

E a partir daí a coisa degringolou.

Agora Lydia reconhecia isso. Heshy a ajudara. Ele a tirou do fundo do poço de uma vez por todas. Ela havia se tornado uma mulher ordinária, promíscua, drogada. Mas ela não havia feito nada disso para fugir. Ela fizera isso para arrasar com alguma coisa, ou com alguém. O erro de Lydia, como ela própria compreendeu enquanto se recuperava de um horrível e violento incidente, foi que estava fazendo um terrível mal a si mesma. A fama eleva você às alturas, faz com que os outros passem a ser inferiores. Então por que ela estava ferindo justamente quem deveria estar no topo do pedestal? Por que não, em vez disso, fazer mal aos simples mortais, àqueles que a haviam venerado, que haviam contribuído para que o poder lhe subisse à cabeça e depois a haviam desprezado? Por que fazer mal à espécie superior, que fora merecedora de toda aquela adoração?

— Lydia?

— Hum.

— Acho que já podemos telefonar.

Lydia virou-se para Heshy. Eles haviam se conhecido no meio do lixo, e imediatamente foi como se a infelicidade de um se unisse à angústia do outro, dando-se as mãos. Heshy salvara a pele dela quando dois traficantes começaram a pressioná-la. Na época, ele simplesmente dera um chega-pra-lá nos dois, mas os valentões continuaram a fazer ameaças. Só que agora Heshy aprendera a esperar pela oportunidade certa. Ele aguardou. Duas semanas depois, ele roubou um carro e atropelou um dos canalhas.

Enquanto o infeliz estava caído no meio da rua, ferido, Heshy deu ré, posicionou uma das rodas alinhada com o pescoço dele e pisou fundo no acelerador.

Um mês mais tarde, o outro pulha — o traficante-chefe — foi encontrado em casa, com quatro dedos da mão dilacerados. Não arrancados, nem cortados, mas torcidos.

O médico legista constatou isso pelos movimentos rotatórios das articulações. Os dedos haviam sido girados, e girados, até que os tendões e as falanges acabaram se rompendo, deixando tudo solto lá dentro. Lydia ainda tinha um dos dedos guardado em algum lugar, no porão.

Há dez anos, os dois fugiram juntos e mudaram de nome. Fizeram algumas mudanças também no visual, apenas o necessário. Ambos recomeçaram, anjos vingadores, destruídos mas superiores, acima da ralé. Lydia não feria mais. Ou, pelo menos, quando o fazia, encontrava uma justificativa.

Eles tinham três endereços. Para todos os efeitos, Heshy morava no Bronx e Lydia, no Queens. Cada um tinha um endereço e um telefone comercial. Mas era apenas fachada, para que ninguém suspeitasse de que tinham ligação um com o outro, que eram parceiros, que eram um casal. Lydia, usando um nome falso, havia comprado aquela casa amarela quatro anos antes. Tinha dois dormitórios, um banheiro e um lavabo. A cozinha, onde Heshy se encontrava agora, era arejada e alegre. A casa ficava situada na margem de um lago no extremo norte de Morris County, em Nova Jersey. Era um lugar pacífico, e eles gostavam especialmente dos crepúsculos.

Lydia contemplava as fotos da pequena Trixie, tentando lembrar como era aquela época. As lembranças eram escassas. Heshy esperava, de pé ao lado dela, com sua habitual paciência. Muitos diriam que Lydia e Heshy eram assassinos frios e impiedosos. Isso, Lydia logo percebeu, era um equívoco, uma designação errônea, mais uma criação hollywoodiana, como o encantamento da pequena Trixie. Ninguém entra nesse negócio violento simplesmente porque é lucrativo. Há formas mais fáceis de ganhar a vida.

Você pode agir como um profissional, pode manter suas emoções sob controle. Pode até se iludir e se convencer de que é um trabalho como qualquer outro. Mas quando você o encara, reconhece que o motivo pelo qual enveredou por essa linha é porque gosta. Lydia tinha consciência disso. Ferir, matar, destruir a felicidade de uma pessoa... Não, ela não precisava disso. Não era algo que lhe causasse fissura, como as luzes da ribalta. Mas, sem dúvida, havia o aspecto prazeroso, a euforia, a redução do próprio sofrimento.

— Lydia?

— Vamos nessa, Ursinho Pooh.

Ela pegou o telefone celular com a linha clonada, virou-se e encarou Heshy. Ele era pavoroso, mas Lydia não enxergava isso. Ele inclinou a cabeça, encorajando-a; ela abaixou o modificador de voz e discou o número.

Quando ouviu a voz de Marc Seidman, Lydia perguntou:

— Vamos tentar de novo?

 

Antes que eu atendesse ao telefone, Rachel pôs a mão sobre a minha.

— Isto é uma negociação — disse ela. — Intimidar e aterrorizar são técnicas comuns. Você precisa ser firme. Se eles realmente têm intenção de libertá-la, serão flexíveis.

Engoli em seco e abri o celular.

— Alô?

— Vamos tentar de novo.

Era a mesma voz, com o mesmo timbre robótico. Eu senti meu sangue ferver e gelar. Fechei os olhos e falei:

— Não.

— Como disse?

— Quero uma garantia de que Tara está viva.

— Você recebeu amostras de cabelo, não?

— Recebi.

— E?

Olhei para Rachel, e ela inclinou a cabeça, me encorajando.

— O resultado da comparação não foi conclusivo.

— Tudo bem — disse a voz. — Eu bem que poderia desligar agora.

— Espere...

— Sim?

— Você se mandaram, da outra vez.

— Exato.

— Como posso ter certeza de que não vão fazer a mesma coisa agora?

— Você chamou a polícia, dessa vez.

— Não.

— Então, não tem com que se preocupar. Ouça bem minhas instruções.

— Não. Desta vez será diferente.

— O quê?

Eu senti meu corpo tremer.

— Nós vamos fazer uma troca. Você entrega minha filha, eu lhe entrego o dinheiro.

— Você não está em condições de negociar.

— Quero minha filha. Você terá o dinheiro — disse, sentindo que as palavras saíam com dificuldade.

— Não vai ser desse jeito.

— Vai, sim. Você não vai sair correndo com o dinheiro como fez da outra vez. Você entrega minha filha e acabamos com isso — rebati, com um tom mais incisivo.

— Dr. Seidman, ouça. Se eu desligar agora, só voltarei a procurá-lo daqui a um ano e meio.

Senti que respirava com dificuldade. Olhei para Rachel, que me incentivou a me manter firme. Fechei os olhos.

— Eu só quero a garantia de que ela está viva.

— Nós mandamos a amostra do cabelo.

— Você terá o dinheiro assim que entregar minha filha.

— Está tentando impor condições, Dr. Seidman?

— Eu só quero minha filha.

— Então siga as minhas instruções.

— Não sem uma garantia de que ela está viva.

— Adeus, Dr. Seidman. O telefone ficou mudo.

 

A sanidade mental é um cordão frágil. O meu arrebentou.

Não, não surtei. Ao contrário, permaneci muito calmo. Afastei o celular do ouvido e fiquei olhando para ele como se fosse um objeto que tivesse acabado de se materializar em minha mão e eu não fizesse a menor idéia do que se tratava.

— Marc?

Olhei para Rachel.

— Desligou.

— Ele vai voltar a ligar — garantiu Rachel.

Eu fiz que não com a cabeça.

— Só daqui a um ano e meio. Foi o que disse.

Rachel me estudou atentamente.

— Marc...

— O quê?

— Preciso que você preste muita atenção ao que vou dizer.

Aguardei.

— Você fez o certo. Fez o que devia fazer.

— Obrigado. Sinto-me bem melhor, agora.

— Eu já tive experiências semelhantes a esta. Se Tara está viva, e eles têm intenção de devolvê-la, vão acabar cedendo. O único motivo para não cederem é se não quiserem... ou não puderem.

Não puderem. A porção mínima de meu cérebro que permanecia lúcida compreendia isso. Lembrei-me de meu treino: compartimentalizar.

— E agora?

— Agora, vamos nos preparar, conforme planejamos. Tenho equipamento suficiente comigo. Vamos equipar você e, quando eles ligarem de novo, estaremos prontos.

Meneei a cabeça, desamparado.

— Ok.

— Enquanto isso, há algo mais que possamos fazer? Você reconheceu a voz? Lembra-se de algo mais sobre o homem de camisa xadrez, ou sobre a van algum outro detalhe?

— Não.

— Quando você me ligou, comentou que havia encontrado um CD no porão de sua casa.

— Sim.

Resumidamente, contei a Rachel sobre o cd com a etiqueta MVD e a agência de detetives particulares. Ela fez anotações.

— O CD está aí com você?

— Não.

—Tudo bem, não faz mal — disse ela. — Estamos em Newark, então podemos aproveitar para ver o que conseguimos descobrir sobre essa MVD.

 

Lydia ergueu a Sig-Sauer P226.

— Não gostei do rumo que a conversa tomou — disse ela.

— Você fez direito — aprovou Heshy. — Nós sabíamos que isso poderia acontecer. Agora chega.

Lydia olhou para a arma. A vontade de apertar o gatilho era imensa.

— Lydia?

— Eu escutei.

— Estávamos fazendo isso porque era simples.

Simples.

— Sim. Achamos que seria dinheiro fácil.

— Muito dinheiro.

— É verdade — concordou Heshy.

— Não podemos simplesmente desistir.

Heshy viu o brilho das lágrimas nos olhos de Lydia. Aquilo não tinha nada a ver com o dinheiro, ele sabia.

— Ele vai sofrer de qualquer jeito — consolou-a.

— Eu sei.

— Procure pensar no que você acabou de fazer com ele — acrescentou Heshy. — Se ele nunca mais tiver notícias nossas, vai passar o resto da vida atormentado pela culpa.

Lydia sorriu.

— Está querendo me comover?

Lydia sentou-se no colo de Heshy e se aninhou a ele como uma gatinha. Ele a envolveu nos braços gigantescos, e por um momento Lydia se acalmou. Fechou os olhos, sentindo-se segura e serena. Ela adorava se sentir assim, mas sabia, bem como Heshy, que a sensação nunca seria duradoura. Nem suficiente.

— Heshy?

— Sim?

— Eu quero pôr a mão naquela grana.

— Eu sei disso.

— Então acho que seria melhor se ele morresse.

Heshy estreitou Lydia entre os braços.

— Se você acha que é melhor, então é o que vai acontecer.

 

Não sei dizer como eu esperava que fosse o escritório da MVD. Talvez uma porta de vidro fosco no final de um corredor cheirando a mofo, ou uma construção velha de tijolos gastos. Na sobreloja, claro, nem preciso dizer. Talvez esperasse encontrar uma recepcionista de meia-idade gorducha e simpática sentada atrás de uma mesa simples de madeira.

Mas o escritório da MVD não era nada disso. Era uma construção moderna e bem-cuidada, e em vez da escada estreita e escura que eu havia imaginado, subimos num elevador novo e reluzente.

Eu ainda carregava comigo a mochila com dois milhões de dólares dentro. Era estranho, eu me sentia deslocado com aquilo na mão. Saímos do elevador e nos vimos diante de uma parede de vidro. Do lado de dentro havia três recepcionistas sentadas atrás de um balcão alto, usando fones de ouvido. Nós nos identificamos pelo intercomunicador, e Rachel mostrou a credencial de ex-agente do FBI. A porta foi liberada com um zumbido, Rachel a empurrou e eu entrei atrás dela.

Eu me sentia esquisito, meio vazio por dentro, mas lúcido. O horror do que tinha acontecido, o telefonema e o seqüestrador desligando, era de tal magnitude que eu havia ultrapassado o estado de apatia e me encontrava estranhamente focado. Era mais ou menos comparável ao que acontece na sala de cirurgia. Eu entro em campo e me desligo do restante do mundo. Quando enfrento uma situação crítica durante uma operação, como uma parada cardíaca ou respiratória de um paciente, eu consigo manter o foco. Não é exatamente a mesma coisa, mas é um processo parecido.

Ainda mostrando a credencial, Rachel explicou que gostaríamos de fazer uma consulta. A recepcionista sorriu e meneou a cabeça daquele jeito que as pessoas fazem quando não ouviram uma palavra do que você disse, pressionou alguns botões e outra mulher apareceu. Ela nos conduziu ao longo de um corredor até uma sala particular e abriu a porta para nós.

No primeiro momento eu não tinha certeza se a pessoa que estava sentada atrás da escrivaninha era homem ou mulher. Mas então vi a placa de bronze sobre a mesa, com o nome Conrad Dorfman gravado. Portanto, era um homem.

Ele se levantou com gestos teatrais. Era bastante esguio no costume azul risca-de-giz com jaqueta acinturada. Os dedos eram delgados como os de um pianista, os cabelos eram lisos e curtos, emplastrados ao couro cabeludo como os de Julie Andrews em Vítor ou Vitória, e a pele do rosto tinha aquele aspecto de acne disfarçada por uma camada de base.

— Pois não — disse a criatura grotesca em tom afetado. — Sou Conrad Dorfman, vice-presidente executivo da MVD.

Rachel e eu estendemos a mão, e ele nos cumprimentou segurando a nossa entre as dele por mais tempo que o necessário e nos fitando intensamente nos olhos. Depois nos convidou para sentar e perguntou se aceitávamos uma xícara de chá. Rachel respondeu prontamente que sim.

Trocamos algumas amenidades, e Conrad fez algumas perguntas a Rachel sobre a época em que ela trabalhava no FBI. Rachel deu respostas vagas. Ela insinuou que também trabalhava na área de investigação particular e que, portanto, como colega dele, esperava cortesia profissional. Eu não me manifestei, fiquei calado, deixando que ela assumisse o comando.

Ouvimos uma batida na porta, e em seguida a mulher que havia nos acompanhado entrou empurrando um carrinho de chá, com uma bandeja e aparelho de chá de prata. Conrad começou a servir, e Rachel foi direto ao ponto.

— Viemos aqui com a esperança de que o senhor possa nos ajudar — disse ela. — A esposa do Dr. Seidman era sua cliente.

Conrad estava concentrado na tarefa de servir o chá que, em vez de do prático sistema de saquinhos, fora preparado por infusão de folhas. Ele bateu a borda do coador de arame para soltar algumas folhas e coou o chá nas xícaras.

— Vocês deram a ela um cd protegido por senha. Nós precisamos dessa senha.

Conrad entregou uma xícara para Rachel e outra para mim. Em seguida recostou-se na cadeira e tomou um gole de chá.

— Infelizmente não posso ajudar. A senha é cadastrada pelo próprio cliente.

— A cliente faleceu.

Conrad Dorfman não piscou.

— Isso não muda nada — retrucou ele.

— O marido dela — Rachel gesticulou em minha direção — é o parente mais próximo. Portanto, o CD passou a ser dele.

— Isso, eu não sei dizer — falou Conrad. — Não conheço a lei patrimonial. Mas nós não temos controle algum sobre as senhas. Como expliquei, cada cliente cadastra a sua. Se entregamos a ela o cd, o que não tenho condição de confirmar ou negar no momento, não temos como saber qual a senha de acesso que ela cadastrou.

Rachel encarou Conrad, e ele sustentou o olhar por alguns segundos, mas foi o primeiro a desviar os olhos. Pegou sua xícara de chá e tomou outro gole.

— Independentemente da senha, podemos saber por que ela procurou vocês?

— Sem mandado judicial? Creio que não.

— Bem, e o arquivo de vocês? — indagou Rachel.

— Como?

— Vocês têm uma cópia de segurança, é claro. Toda empresa faz backup dos arquivos. As informações não estão perdidas para sempre. Estão registradas em seu sistema, e vocês têm acesso aos arquivos.

— Não sei do que senhorita está falando.

— Eu trabalhei para o FBI, Sr. Dorfman.

— E daí?

— E daí que sei como as coisas funcionam. Por favor, não subestime minha inteligência.

— Não foi essa minha intenção, Srta. Mills. Mas, infelizmente, não há nada que eu possa fazer para ajudar.

Olhei para Rachel. Ela parecia ponderar as opções.

— Ainda tenho amigos no departamento, Sr. Dorfman. Podemos fazer perguntas, podemos investigar. Os federais não vêem com bons olhos os detetives particulares, o senhor sabe disso. Eu não quero criar problemas, só quero saber o que contém o cd.

Dorfman colocou a xícara no pires e esfregou os dedos. Outra vez bateram à porta e a mesma mulher apareceu, fazendo um sinal com a mão para chamar Conrad Dorfman.

Ele se levantou, repetindo os gestos teatrais, e atravessou a sala quase saltitando.

— Com licença, um momento, sim?

Depois que ele saiu, olhei para Rachel, mas ela não olhou para mim.

— Rachel?

— Vamos esperar para ver o que vai acontecer, Marc

Mas não havia muito mais a fazer, na realidade. Conrad voltou, caminhou até perto da cadeira onde Rachel estava sentada e se postou de pé à frente dela, esperando que ela o encarasse. Mas é claro que ela não daria a ele o gostinho.

— Nosso presidente, Malcolm Deward, também é ex-agente federal. Sabia disso, senhorita?

Rachel não respondeu.

— Ele deu alguns telefonemas enquanto conversávamos. — Conrad fez uma pausa. — Srta. Mills?

Por fim, Rachel ergueu os olhos.

— Suas ameaças são vazias. A senhorita não tem amigos no departamento. Já o Sr. Deward tem. Por favor, saiam do meu escritório. Agora.

 

— Que história é essa, afinal? — perguntei:

— Eu já disse. Não sou mais agente federal.

— O que aconteceu, Rachel?

Ela manteve o olhar fixo à frente.

— Faz muito tempo que você saiu de minha vida, Marc. Não havia mais nada a dizer. Era Rachel quem dirigia agora.

Eu estava com o celular na mão, novamente desejando que ele tocasse. Quando chegamos à minha casa, já estava escuro. Entramos, e por um momento considerei a idéia de telefonar paraTickner ou Regan. Mas, àquela altura, de que adiantaria?

— Precisamos confirmar o exame de DNA — disse Rachel. — Talvez minha teoria não pareça plausível, mas sua filha ser refém por todo esse tempo também não é.

Então telefonei para Edgar e expliquei que gostaria de mandar refazer o exame. Ele concordou, e desliguei sem contar a ele que já havia colocado em risco o resgate ao arrolar ajuda de uma ex-agente do FBI. Quanto menos se falasse do assunto, melhor. Rachel chamou uma pessoa que ela conhecia para retirar as amostras com Edgar, bem como para colher meu sangue para análise. Alguém que tinha um laboratório particular, segundo ela me disse. Teríamos uma resposta em até quarenta e oito horas, o que poderia ser tarde demais, em termos de negociação de resgate.

Deixei-me afundar numa poltrona no escritório, e Rachel sentou-se no chão. Ela abriu a bolsa e tirou de dentro alguns fios e dispositivos eletrônicos de toda espécie.

Como cirurgião, tenho uma razoável habilidade manual, mas quando se trata de acessórios de tecnologia de ponta, sou um zero à esquerda. Rachel dispôs cuidadosamente os itens sobre o tapete, concentrando-se nessa tarefa, o que me fez lembrar do tempo em que namorávamos, quando ela resolvia arrumar gavetas, organizar cadernos, livros e coisas assim. Ela enfiou a mão na bolsa e pegou uma navalha.

— Onde está a sacola com o dinheiro? — Rachel me perguntou.

Eu peguei a mochila e entreguei a ela.

— O que vai fazer?

Rachel abriu a mochila. O dinheiro estava dividido em maços de cem dólares. Ela pegou um dos maços e, com cuidado, retirou o dinheiro, sem arrebentar o elástico que o envolvia. Em seguida repartiu o maço ao meio, como se cortasse um baralho de cartas.

— O que está fazendo?

— Vou fazer um furo.

— No dinheiro?

— Sim.

Rachel introduziu a navalha no maço de cédulas e recortou um círculo com o diâmetro de uma moeda de um dólar e cerca de um centímetro de profundidade. Entre os itens dispostos sobre o tapete, pegou uma peça esférica preta, encaixou-a no orifício e juntou as duas partes do maço outra vez. O aparelho ficou totalmente oculto no maço de cédulas.

— É um GPS — disse ela, como se isso explicasse tudo.

— Ah, bom!

— Usando linguagem leiga, é um rastreador. Vou colocar um no forro da mochila também, mas esse truque eles com certeza já conhecem. Geralmente os criminosos transferem o dinheiro para outra sacola, que já levam consigo para essa finalidade, mas com essa quantidade de notas, não terão tempo de examinar cada maço.

— E como esse negócio funciona?

— Com bateria. Preciso garantir que dê sinal pelo menos até uns doze quilômetros de distância. Este aqui vai servir.

— E para onde vai o sinal?

— Você quer dizer, como monitoro a localização deles?

— Sim.

— Vai para um notebook, mas este aqui é mais prático... — Rachel me mostrou um dispositivo que parecia uma caneta Pilot.

— É a própria — confirmou ela, quando fiz a observação. — Equipada com um visor especial de monitoramento. Posso levar comigo para qualquer lugar.

— E todas essas outras coisas, para que servem?

— Equipamento de vigilância. Não sei se será possível usar tudo, mas gostaria de pôr um rastreador em seu sapato. E instalar uma câmera no carro. Tinha pensado em equipar você com uma microcâmera de fibra ótica, mas isso seria arriscado.

Rachel começou a organizar o material, com a concentração de sempre. Ela não levantou os olhos quando disse:

— Tem outra coisa que quero explicar a você.

Eu me inclinei para frente, para ouvir.

— Lembra-se de quando meus pais se separaram?

— Sim, claro. — Foi quando nos conhecemos.

— Apesar de termos sido tão próximos um do outro, nunca falamos sobre isso.

— Eu sempre tive a impressão de que você não queria falar a respeito.

— E não queria mesmo.

"Nem eu", pensei com meus botões. Eu era egoísta. Rachel e eu ficamos dois anos juntos, e em momento algum eu a incentivei a se abrir comigo sobre a separação dos pais. Mas era mais do que uma impressão que me fazia evitar o assunto. Eu sabia que havia ali alguma coisa sórdida e não queria cutucar a onça com vara curta. Poderia acabar sobrando para mim.

— A culpa foi do meu pai.

Eu quase disse uma asneira do tipo: A culpa não é de ninguém ou a culpa nunca é de um lado só, mas um átimo de bom senso me fez ficar de boca fechada. Rachel continuava olhando para baixo.

— Meu pai destruiu minha mãe. Acabou com a vida dela.— Sabe como?

— Não.

— Ele a traiu.

Rachel finalmente ergueu o rosto e olhou para mim. Eu não desviei o olhar.

— Foi um ciclo destrutivo — continuou ela. — Meu pai traía, minha mãe descobria, ele jurava que nunca mais iria acontecer, e sempre acontecia de novo. Aquilo foi corroendo minha mãe por dentro.

Rachel voltou a olhar para sua coleção de engenhocas.

— Por isso, quando eu estava na Itália e fiquei sabendo que você tinha me traído...

Pensei em um milhão de coisas que eu poderia dizer naquele momento, mas nenhuma delas seria relevante. Bem como aquilo tudo que ela estava me contando. Claro que explicava muita coisa, mas era trivial, insignificante, àquela altura. Permaneci sentado, imóvel e em silêncio.

— Eu fiz tempestade em copo d'água — disse Rachel.

— Nós dois éramos muito jovens.

— Eu só queria... Eu devia ter contado sobre meus pais naquela época.

Ela estava se abrindo comigo. Comecei a dizer algumas palavras de conforto, mas me calei. Aquilo era demais para mim, naquele momento. Fazia seis horas que tinha sido feito o pedido de resgate, e o tempo estava passando. O tique-taque do relógio parecia ecoar em meu peito.

Dei um pulo quando o telefone tocou, mas era a linha fixa, não o celular dos seqüestradores. Fui atender, era Lenny.

— O que houve? — perguntou ele, sem preâmbulos. Olhei para Rachel, e ela balançou a cabeça. Fiz um gesto afirmativo, indicando que havia entendido.

— Nada — respondi. — Por quê?

— Sua mãe me contou que você e Edgar se encontraram na praça.

— Está tudo bem. Não se preocupe.

— Aquele velho miserável vai infernizar sua vida, você sabe disso.

Era impossível argumentar com Lenny quando o assunto era Edgar Portman. E eu era obrigado a reconhecer que ele tinha razão.

— Eu sei.

Houve um breve silêncio.

— Você ligou para Rachel?

— Sim.

— Por quê?

— Nada importante.

Outra pausa, e então Lenny falou:

— Você está mentindo.

— Estou.

Ouvi Lenny suspirar.

— Tudo bem. Está de pé a partida de raquetebol amanhã cedo?

— É melhor deixar para outro dia.

— Sem problema. Marc...

— Diga.

— Se precisar de alguma coisa...

— Obrigado, Lenny.

Desliguei. Rachel estava ocupada com seus brinquedos tecnológicos. O assunto anterior se diluíra, dissipara no ar como fumaça. Ela olhou para mim e viu a angústia em meu semblante.

— Marc...

Permaneci em silêncio.

— Se sua filha estiver viva... nós a traremos de volta para casa. Eu prometo.

Pela primeira vez, eu não sabia se acreditava nela.

 

O agente especial Tickner olhava atentamente para o relatório em suas mãos.

O caso do homicídio/seqüestro Seidman ficara por muito tempo relegado a segundo plano. O FBI havia revisto suas prioridades nos últimos anos. Terrorismo era o item número um da lista de prioridades máximas. Os itens de dois a dez também eram terrorismo. O caso Seidman só envolvera Tickner quando ficara caracterizado o seqüestro.

Apesar do que se vê na televisão, a polícia local na maioria das vezes é bastante favorável à participação do FBI nesse tipo de investigação, porque ele tem recursos e know-how. Esperar para chamar o FBI pode, em alguns casos, custar uma vida. Regan tivera o bom senso de não esperar.

Porém, uma vez que o caso de seqüestro estava resolvido — termo que Tickner não gostava nem um pouco de empregar naquela situação, a função dele (pelo menos em caráter não oficial) era se retirar e deixar que a polícia local assumisse o comando. Ele ainda pensava bastante a respeito — não é fácil esquecer uma cena como a de uma roupa de bebê jogada num canto escuro numa choupana abandonada —, mas ele pensava no caso como inativo.

Isso até cinco minutos atrás.

Leu o relatório pela terceira vez, mas ainda não estava tentando juntar as peças. Ainda não. Aquilo tudo era estranho demais para fazer sentido. O que Tickner estava tentando fazer, e esperava conseguir, era encontrar algum ponto de apoio, algum gancho que servisse como ponto de partida. Mas estava difícil.

Rachel Mills. Onde Rachel entrava, naquela história?

Um jovem subalterno, cujo nome Tickner não se lembrava se era Kelly ou Fitzgerald — ele só sabia que era de origem irlandesa aguardava de pé em frente à mesa, sem saber o que fazer com as mãos. Tickner reclinou-se na cadeira e cruzou as pernas. Em seguida, pôs-se a bater a caneta distraidamente no lábio inferior.

— Tem de haver alguma conexão — disse ele ao rapaz.

— Ela disse que era detetive particular.

— E credenciada?

— Não, senhor.

Tickner balançou a cabeça.

— Essa história está mal contada. Verifique os registros da linha telefônica, procure os amigos dela, qualquer coisa. Investigue isso para mim.

— Sim, senhor.

— Ligue para a agência MVD e avise que estou a caminho.

— Sim, senhor.

O rapaz saiu da sala, e Tickner manteve um olhar perdido. Ele e Rachel haviam feito treinamento juntos na Quântico, eram da mesma turma. Tickner pensava sobre o que fazer agora. Embora nem sempre confiasse nas polícias locais, ele gostava de Regan. O sujeito era desligado na medida certa para ser uma boa ajuda.

Tickner pegou o telefone e discou o número do celular de Regan.

— Detetive Regan.

— Há quanto tempo, rapaz...

— Ah, agente Tickner! Ainda usa aqueles óculos de sol para proteger a testa?

— E você continua lustrando aquela sua estrela de xerife? Entre outras coisas?

— Sim para a primeira, depende para a segunda.

Tickner podia ouvir o som de uma cítara ao fundo.

— Está ocupado?

— Não... Só meditando um pouco. Às vezes é bom, sabia?

— É, acho que sim.

— Percebo certa tensão em sua voz... e presumo que haja um motivo para me ligar.

— Lembra-se de nosso caso predileto?

Houve um breve silêncio antes de Regan responder:

— Sim.

— Quanto tempo faz desde a última evolução?

— Eu não diria que alguma vez houve evolução nesse caso.

— Bem, agora houve.

— Diga, estou ouvindo.

— Acabamos de receber uma ligação muito estranha de um ex-agente do FBI. Um sujeito chamado Deward. É detetive particular em Newark, agora.

— E?

— Parece que nosso amigo, Dr. Seidman, esteve no escritório dele hoje. E levou alguém muito especial.

 

Lydia tingiu o cabelo de preto — era o ideal para a noite. O plano em si era simples.

— Depois que confirmarmos que ele está com a grana, eu o matarei — disse ela a Heshy.

— Tem certeza?

— Positivo. E o melhor de tudo é que o crime será automaticamente associado ao primeiro. — Lydia sorriu. — Mesmo que algo dê errado, nada vai apontar para nós.

— Lydia...

— Que foi?

Heshy sacudiu os ombros gigantes.

— Você não acha que seria melhor eu matá-lo?

— Minha pontaria é melhor que a sua, Ursinho Pooh.

— Mas eu não preciso de arma.

— Você está querendo me proteger.

Heshy ficou em silêncio.

— Você é um amor — disse Lydia.

De certa forma, ele era. Mas uma das razões pelas quais Lydia queria ser a executora era para proteger Heshy. Ele era o mais vulnerável dos dois. Lydia não tinha medo de ser apanhada. Em parte, por excesso de autoconfiança. Só os tolos eram apanhados, não os cuidadosos.

Mais que isso, porém, ela sabia que, se fosse apanhada, não seria presa. Não por causa da aparência de moça séria e recatada, embora isso fosse um ponto a favor, claro. Mas o que nenhum promotor ignoraria era o aspecto indiscutivelmente dramático de seu caso. Ela os lembraria de seu "passado trágico", alegaria ter sofrido todo tipo de abuso, verteria lágrimas sentidas e falaria sobre o fardo de ter sido uma menina-prodígio, da calamidade de ser induzida a encarnar a pequena Trixie.

Ela passaria a imagem de inocente e vítima. E o público, para não falar do júri, se enterneceria.

— Vamos deixar como está, é melhor — disse ela para Heshy. — Se ele vir você chegar perto, pode se apavorar e pôr tudo a perder. Mas se for eu... — A voz de Lydia enfraqueceu e morreu na garganta.

Heshy meneou a cabeça, concordando. Ela tinha razão. Era um estratagema infalível.

Lydia afagou o rosto dele e entregou-lhe a chave do carro.

— Pavel entendeu direito o que precisa fazer? — ela perguntou.

— Sim. Ele nos encontrará lá. Ah, e ele vai usar a camisa de flanela xadrez.

— É melhor sairmos — decidiu Lydia. — Vou ligar para o Dr. Seidman.

Heshy destravou as portas do carro com o controle remoto.

— Ah — disse Lydia. — Antes de partirmos preciso verificar uma coisa.

Ela abriu a porta traseira. A criança dormia profundamente, na cadeirinha encaixada no banco.

Lydia verificou o cinto de segurança para se certificar de que estava bem preso.

— É melhor eu me sentar atrás, Urso Pooh. Só para o caso de alguém acordar.

Heshy se sentou ao volante, e Lydia pegou o celular. Abaixou o modificador de voz e discou.

 

Pedimos uma pizza, o que foi um erro, pois só serviu para recriar um vivido cenário do passado. Eu só ficava olhando para o celular, desejando que tocasse. Rachel ficou calada, mas tudo bem. Entre nós dois o silêncio nunca fora desconfortável, e isso também, de certa forma, era estranho. Em parte, estávamos voltando no tempo, retomando do ponto onde havíamos parado, mas, fora isso, éramos dois estranhos ligados por um vínculo frágil e um tanto embaraçoso.

Outra coisa esquisita era que as lembranças de repente se tornaram esparsas. Eu imaginara que, no momento em que voltasse a ver Rachel, tudo voltaria à minha mente, de maneira completa e vivida. Mas eu me lembrava apenas de fragmentos, de situações isoladas. Era mais uma sensação, uma emoção, como a lembrança que eu guardava do frio cortante da Nova Inglaterra. Não sei por que essa dificuldade em lembrar, tampouco sei o que significava.

Com uma ruga na testa, Rachel estava às voltas com seu aparato eletrônico. Ela levou à boca uma garfada de pizza.

— Hum... Não é como a do Tonys.

— Ainda bem. Aquilo era um horror.

— Era um pouco gordurosa.

— Um pouco? A pizza grande não vinha com um cupom para trocar por uma angioplastia grátis?

— Nem pensávamos nisso naquela época.

— Rachel...

— Oi.

— E se eles não voltarem a ligar?

— Se não ligarem, é porque não têm como devolver Tara e estavam blefando desde o início.

Deixei que as palavras de Rachel assentassem em minha mente. Pensei no filho de Lenny, Conner, nas coisas que ele já conseguia dizer e fazer, e tentei transportar aquilo para o bebê que eu vira pela última vez no berço. Era inútil e vão, mas eu ainda tinha esperança e me agarrava a ela. Se minha filha estivesse morta, se o telefone nunca mais tocasse, essa esperança me mataria, eu sabia disso. Mas não me importava. Eu preferia a esperança à resignação.

Por isso, eu tinha esperança e me deixei levar pelo otimismo.

Quando finalmente o celular tocou, eram quase dez horas. Nem cheguei a olhar para Rachel em busca da aprovação dela. Pressionei a tecla de atender na terceira nota do toque musical.

— Alô!

— Tudo bem — disse a voz robótica. — Vamos deixar você vê-la. Eu prendi o fôlego. Rachel chegou mais perto e aproximou o rosto do meu, para escutar.

— Ótimo — falei.

— Você está com o dinheiro?

— Estou.

— Tudo.

— Sim.

— Então, ouça com atenção. Se você não fizer exatamente como eu disser, pode esquecer, entendeu?

— Sim.

— Tudo indica que, até agora, você não entrou em contato com a polícia. Mas precisamos ter certeza. Você irá sozinho até a ponte George Washington. Chegando lá, contate-nos pelo modo rádio no celular. Nós estaremos na área. Então darei as instruções para onde ir e o que fazer. Você será revistado. Se houver alguma arma, algum fio, sumiremos. Entendido?

Senti a respiração de Rachel se acelerar.

— Quando vou ver minha filha?

— Quando nos encontrarmos.

— E como posso ter certeza de que vocês não vão fugir outra vez com o dinheiro e sem me entregá-la?

— Como você pode ter certeza de que não vou desligar na sua cara agora mesmo.

— Estou saindo — falei. — Mas não vou entregar o dinheiro enquanto vocês não me deixarem vê-la.

— É esse o acordo. Você tem uma hora para me ligar.

 

Conrad Dorfman não parecia muito satisfeito por permanecer no escritório da MVD até aquela hora da noite, mas Tickner não estava preocupado com isso. Se Seidman tivesse ido lá sozinho, já teria sido significativo, mas o fato de ter ido com Rachel Mills, o fato de ela estar, de alguma forma, envolvida na história, atiçava muitíssimo a curiosidade de Tickner.

— A Srta.. Mills lhe mostrou alguma credencial? — indagou Tickner.

— Sim. Mas tinha o carimbo de Inativo.

— E o Dr. Seidman estava com ela?

— Sim.

— Eles vieram juntos?

— Creio que sim. Pelo menos, eles entraram juntos em minha sala.

Tickner assentiu.

— E o que eles queriam?

— Uma senha de acesso a um CD.

— Como assim?

— Eles alegaram ter um CD entregue por nós a uma cliente. Nossos CDs são protegidos por senha, e eles queriam saber qual era essa senha.

— E você deu?

— Claro que não — declarou Dorfman, indignado. — Entramos em contato com o departamento de vocês, e eles explicaram que... Bem, eles não explicaram nada, na verdade, apenas deixaram claro que não devíamos cooperar com a agente Mills.

— Ex-agente — emendou Tickner.

"Como?", perguntava-se Tickner, intrigado. "Que raio de ligação havia entre Rachel Mills e Seidman?" Ele já tentara dar a ela o benefício da dúvida. Ao contrário de seus colegas de departamento, Tickner conhecera Rachel, tivera oportunidade de vê-la trabalhar. Ela era eficiente, era muito boa mesmo. Mas agora ele questionava algumas coisas. Questionava o período em que ela surgira, questionava a ida dela à MVD, questionava a atitude dela de exibir sua credencial para exercer pressão.

— Eles disseram como esse CD foi parar na mão deles?

— Disseram que o cd era da esposa do Dr. Seidman.

— E era?

— Suponho que sim.

— Está ciente de que a esposa dele morreu há mais de um ano e meio, Sr. Dorfman?

— Agora, estou.

— Mas não sabia disso quando eles estiveram aqui?

— Exato.

— Por que será que Seidman esperou todo esse tempo para querer descobrir a senha?

— Não sei, ele não disse.

— O senhor não perguntou?

Dorfman mudou de posição na cadeira.

— Não.

Tickner sorriu, compreensivo.

— Claro, não era relevante, num primeiro momento — observou gentilmente. — O senhor deu alguma informação a eles?

— Nenhuma.

— Não explicou por que motivo a Sra. Seidman procurou esta agência?

— Não.

— Certo... Muito bem. — Tickner inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. Já ia fazer outra pergunta quando seu celular tocou.

— Com licença — murmurou ele, levando a mão ao bolso.

— Quanto tempo acha que ainda vamos ficar aqui? — quis saber Dorfman. — Não posso me demorar...

Ignorando-o totalmente, Tickner se levantou e atendeu ao celular.

— Tickner.

— Aqui é o agente O'Malley — disse o jovem funcionário.

— Descobriu alguma coisa?

— Descobri, sim.

— Pode falar.

— Verificamos os registros da linha telefônica de três anos para cá. Até a data de hoje, não consta nenhuma ligação de Marc Seidman para ela, pelo menos não da residência dele nem do consultório...

— Sei. — Tickner esperou, percebendo pelo tom de voz do rapaz que aquilo não era tudo.

— Mas consta uma ligação de Rachel Mills para ele — declarou O'Malley.

— Quando?

— Em junho do ano retrasado.

Tickner fez as contas. Isso fora cerca de três meses antes do ataque à casa de Seidman.

— Algo mais?

— Sim, senhor, encontramos algo que imagino que seja bastante significativo. Mandei um de nossos agentes verificar o apartamento de Rachel em Falls Church. Ele ainda está lá, mas sabe o que ele já achou na gaveta do criado-mudo?

— É um jogo de adivinhação, O'Ryan?

— O'Malley — corrigiu o rapaz.

Tickner coçou a ponta do nariz.

— O que ele achou na gaveta do criado-mudo?

— Uma fotografia. Tirada em um baile de formatura. Pelo estilo de roupas e cabelos deve ter sido tirada há uns quinze, vinte anos.

— Sei... o que isso tem a ver com o caso em questão?

— Tem a ver porque na foto ela está com alguém, um rapaz que era namorado dela... E nosso agente garante que o rapaz é o Dr. Marc Seidman.

Tickner sentiu o sangue correr mais rápido nas veias.

— Continue investigando — ordenou ele. — Me ligue assim que tiver alguma novidade.

— Pode deixar.

Tickner desligou o celular. Rachel e Seidman, juntos num baile de formatura? O que isso significava? Rachel era de Vermont, até onde ele sabia. Seidman sempre morara em Nova Jersey. Os dois não haviam freqüentado o mesmo colégio. Será que haviam se conhecido na época de faculdade?

— Algum problema? Tickner virou-se para Dorfman.

— Deixe-me ver se entendi direito, Sr. Dorfman. O tal CD era de Mônica Seidman?

— Foi o que eles nos disseram.

— Era ou não era, Sr. Dorfman?

Conrad pigarreou.

— Acredito que sim.

— Ela era cliente de vocês?

— Sim, isso nós já confirmamos.

— Então, resumindo, uma cliente de vocês foi assassinada. Silêncio.

— O nome dela foi manchete de todos os jornais do país — prosseguiu Tickner, fuzilando Conrad Dorfman com os olhos. — Como se explica o fato de vocês não terem se manifestado?

— Nós não sabíamos.

Tickner continuou olhando fixamente para Conrad, com expressão feroz.

— Quem acompanhou o caso dela não trabalha mais aqui — Conrad apressou-se em explicar. — Ele já tinha se desligado da agência na época em que a Sra. Seidman foi assassinada. E ninguém aqui associou uma coisa à outra.

Defensivo. Tickner gostava disso. Ele acreditava em Conrad, mas não deixou transparecer. Quanto mais o sujeito ficasse ansioso para agradar, melhor.

— O que continha o cd?

— Imaginamos que contenha fotos.

— Imaginam?

— Em geral os CDs são só de fotos. Com raras exceções. Um ou outro pode conter documentos escaneados, mas realmente não sei dizer se é o caso.

— Como não?

Conrad ergueu as mãos.

— Não se preocupe, temos backup de tudo. Um ano após a data de encerramento do caso, os arquivos são guardados no subsolo. Mas quando eu soube de seu interesse pelo caso, entrei em contato com nosso funcionário responsável por sistemas, apesar de não ser horário de expediente do escritório. Nesse exato momento, ele está verificando os arquivos da cópia de segurança.

— Onde ficam?

— No subsolo. — Dorfman olhou para o relógio. — Imagino que ele já tenha terminado, ou esteja quase acabando. Quer ir até lá para falar com ele?

Tickner se levantou.

— Vamos já.

 

— Há ainda algumas coisas que podemos fazer — disse Rachel. — Isto aqui é alta tecnologia. Mesmo que revistem você, não há perigo. Tenho um colete à prova de bala com uma microcâmera na frente, bem no centro.

— E você acha que eles não vão descobrir isso se me revistarem?

— Tudo bem, Marc, entendo seu receio de que eles descubram, mas vamos ser realistas. Há uma grande probabilidade de que tudo isso seja uma armação. Não entregue o dinheiro antes que eles deixem você ver Tara. Não se deixe encurralar em algum canto sozinho. Não se preocupe com o rastreador, porque, se o resgate se efetivar, nós já estaremos bem longe, com Tara, antes que eles tenham oportunidade de examinar os maços de notas. Eu sei que a decisão não é fácil.

— Não, você está certa. Da outra vez eu me cerquei de segurança e deu tudo errado. Acho que desta vez precisamos arriscar. Mas sem o colete.

— Tudo bem, vamos fazer o seguinte... Eu vou no porta-malas. No máximo, eles vão olhar no banco de trás para ver se tem alguém deitado lá. No porta-malas é mais seguro. Vou desconectar os fios, assim, se eles abrirem o porta-malas, a luz interna não acenderá. Vou tentar acompanhar você, mas preciso manter uma distância segura. Tome cuidado para não cometer nenhum erro. Não sou a Mulher Maravilha. Existe a possibilidade de perdê-lo de vista, mas lembre-se: não procure por mim, nem mesmo disfarçadamente. Esses caras são espertos e perceberiam na hora.

— Compreendo.

Rachel estava inteiramente vestida de preto.

— Parece que você está paramentada para conduzir um ritual no Village.

— Kumbaya, Senhor. E aí... Está pronto?

Nesse momento, ouvimos um carro chegar. Olhei pela janela e senti uma ponta de pânico.

— Que droga — murmurei.

— O que foi?

— É Regan, o policial encarregado do caso. Faz mais de um mês que não tenho contato com ele. — Olhei para Rachel. O rosto dela parecia muito branco em contraste com a roupa preta. — Será uma coincidência ele aparecer aqui justamente agora?

— Não é coincidência — declarou Rachel.

— Mas como ele soube do pedido de resgate?

Rachel se afastou da janela.

— Provavelmente não foi por isso que ele veio.

— Então por quê?

— Meu palpite é que ficaram sabendo de meu envolvimento no caso pela MVD.

— E daí?

— Não há tempo para explicar agora. Preste atenção, eu vou para a garagem, vou me esconder lá. Com certeza ele vai perguntar por mim. Diga que voltei para Washington.

Se ele pressionar, diga que sou uma antiga amiga, só isso, sem entrar em explicações. Ele vai querer interrogar você.

— Por quê?

Mas Rachel já estava se afastando.

— Apenas seja firme e dê um jeito de ele ir embora. Espero você no carro.

Eu não estava gostando daquilo, mas não era hora de protestar.

— Tudo bem.

Rachel foi para a garagem pela porta do escritório. Esperei que ela sumisse de vista e corri para abrir a porta antes que Regan tocasse a campainha.

Ele sorriu.

— Estava me esperando? — ele perguntou.

— Escutei você chegar.

Ele assentiu como se eu tivesse falado alguma coisa que exigisse análise profunda.

— Tem alguns minutos, Dr. Seidman?

— Para ser sincero, agora não.

— Oh. — Regan não se abalou. Passou por mim e entrou no vestíbulo, os olhos atentos a tudo ao redor. — Estava de saída para algum lugar?

— O que você quer, detetive?

— Algumas informações novas chegaram ao nosso conhecimento.

Esperei que ele prosseguisse.

— Não quer saber do que se trata?

— É claro que sim.

A expressão de Regan estava estranha, quase serena. Ele ergueu os olhos e ficou olhando para o teto, como se tentasse decidir qual cor seria a mais indicada para pintá-lo.

— Por onde você andou hoje?

— Por favor, vá embora.

Os olhos dele continuavam fixos no teto.

— Sua hostilidade me surpreende. — Mas ele não parecia nem um pouco surpreso.

— Você disse que tinha novas informações. Se tem, diga logo. Se não, por favor, saia. Não estou disposto a ser interrogado.

Ele fez uma expressão de pouco caso.

— Soubemos que você foi a uma agência de detetives particulares em Newark, hoje.

— E daí?

— O que foi fazer lá?

— Vou lhe dizer uma coisa, detetive. Peço-lhe que vá embora, porque sei que responder às suas perguntas não me ajudará nem um pouco a encontrar minha filha.

Regan olhou para mim.

— Tem certeza disso?

— Peço-lhe encarecidamente que dê o fora da minha casa, já!

— Pois não. — Regan encaminhou-se para a porta, mas antes de sair virou-se para mim e perguntou: — Onde está Rachel Mills?

— Não sei.

— Ela não está aqui?

— Não.

— Faz alguma idéia de onde ela possa estar?

— Ela deve estar viajando de volta para Washington.

— Hum. Como vocês se conheceram?

— Boa noite, detetive.

— Tudo bem, só uma última perguntinha.

Reprimi um suspiro de impaciência.

— Acho que você assistiu a episódios demais de Columbo, detetive.

— Acertou, eu assisti, sim. — Ele sorriu. — Mas vou perguntar assim mesmo.

Eu fiz um gesto com as mãos para que ele perguntasse logo.

— Sabe como o marido dela morreu?

— Ele foi baleado — respondi depressa demais e logo me arrependi.

Regan aproximou-se mais de mim.

— E sabe quem atirou nele?

Não me movi.

— Sabe, Marc?

— Boa noite, detetive.

— Ela o matou, Marc. Com um tiro na cabeça, à queima-roupa.

— Que absurdo você está dizendo...

— Acha que é absurdo? Acha mesmo?

— Se ela o matou, por que não está na cadeia?

— Boa pergunta — disse Regan, finalmente saindo e se afastando em direção ao carro. Antes de ir embora voltou-se para mim e disse: — Talvez fosse o caso de perguntar a ela.

 

Rachel esperava por mim na garagem, dentro do carro. O porta-malas já estava aberto.

— O que ele queria?

— Aquilo que você disse.

— Ele sabe do CD?

— Ele sabe que estivemos na MVD, mas não mencionou o CD. Entrei no carro, e Rachel não tocou mais no assunto. Aquele não era o momento para levantar novas questões.

No silêncio que se seguiu, passei a refletir sobre a linha principal daquela história toda e sobre minha conduta e capacidade de julgamento. Minha esposa foi morta minha irmã foi morta eu quase fui morto. Estava confiando numa mulher que na verdade eu não conhecia. Estava confiando nela não só com minha vida, mas também com a vida de minha filha. Pensando por esse lado, parecia uma insensatez. Lenny estava certo, não era assim tão simples. Na verdade eu não sabia quem Rachel era, não sabia que tipo de pessoa ela se tornara. Eu havia me iludido ao criar uma imagem de Rachel que poderia não ser a verdadeira e agora me perguntava o que isso poderia me custar.

A voz de Rachel penetrou na bruma em que eu havia mergulhado.

— Marc?

— O quê?

— Eu acho que você devia usar o colete.

— Não.

Meu tom de voz soou mais veemente do que eu pretendia. Rachel não insistiu e entrou no porta-malas. Acomodei a mochila com o dinheiro no banco a meu lado. Abri a porta da garagem com o controle remoto e dei partida no motor.

E lá fomos nós.

 

Quando Tickner tinha nove anos de idade, a mãe dele lhe comprara um livro de ilusão de óptica. Eram várias figuras que, dependendo do ângulo pelo qual se olhava, podiam parecer uma coisa ou outra. Por exemplo, um desenho de uma velha nariguda, após alguns segundos de observação, passava a ser o de uma jovem de perfil. Tickner adorava esse livro. Ele ficava observando uma figura longamente até que outra imagem surgisse.

Era o que acontecia naquele caso.

Tickner sabia que num caso criminal, assim como na ilusão de óptica, tudo se alterava. Você observa uma realidade e, de repente, num piscar de olhos, ela se modifica.

Nada é o que parece ser.

Desde o início do caso Seidman, Tickner não engolira realmente nenhuma das teorias convencionais. Para ele, era como ler um livro com páginas faltando.

Ao longo dos anos de experiência em investigações criminais, Tickner não lidara com muitos casos de homicídio. Esse tipo de crime na maioria das vezes ficava a cargo da polícia local. Mas ele conhecia vários investigadores de homicídios. Os melhores eram sempre demasiado teatrais e com uma imaginação muito fértil. Tickner já os ouvira comentar que, em determinado ponto da investigação, a vítima se comunica com eles de além-túmulo. De alguma forma, a vítima entra em contato com eles para conduzilos ao culpado. Ele ouvia os colegas falarem essas bobagens e simplesmente assentia por educação. Mas, para ele, aquilo não passava de hipérbole, uma maneira simbólica de se expressar, para causar efeito no público em geral.

A impressora continuava zunindo. Tickner já vira doze fotos.

— Quantas faltam? — perguntou ele.

Conrad Dorfman olhou para o monitor.

— Seis.

— Iguais a estas?

— Sim. Isto é, são todas da mesma pessoa.

Tickner olhou para as fotos impressas. Sim, a mesma pessoa aparecia em todas elas. As fotos eram em preto-e-branco e foram tiradas sem o conhecimento da pessoa fotografada, provavelmente a distância e com lente zoom.

Naquele momento, a lenda do além-túmulo já não lhe parecia tão tola. Fazia um ano e meio que Mônica Seidman estava morta, e seu assassino continuava impune. Agora, depois de perdidas as esperanças, ela parecia ter se levantado de entre os mortos e apontado um dedo. Tickner olhou mais uma vez para as fotos, tentando compreender.

O objeto das fotos, a pessoa para quem Mônica estava apontando, era Rachel Mills.

 

Quando se passa de carro no trecho leste da Turnpike, no norte de Nova Jersey, avista-se ao longe os contornos de Manhattan. Como a maioria das pessoas que transita na região todos os dias, eu já tinha me acostumado a ela. Mas agora não mais. Depois do atentado, houve um período em que pensava ainda enxergar as torres gêmeas.

Eram como luzes brilhantes que se observa por um longo tempo e, ao fechar os olhos, elas permanecem no lugar. É o mesmo quando enxergamos o círculo de fogo do sol depois que fechamos os olhos. Aos poucos se desfaz. É diferente agora. Quando passo por essa via expressa, ainda olho para elas. Mesmo à noite. Mas algumas vezes não consigo localizar o ponto exato, e isso me causa uma contrariedade indescritível.

Por força do hábito, segui pela passagem inferior da ponte George Washington. Não havia trânsito àquela hora. Eu tinha ligado o rádio e alternava entre duas estações.

Uma transmitia um debate de comentaristas esportivos, a outra trazia um programa de variedades. Nenhum dos dois era muito interessante, mas ajudavam a distrair e desviar o pensamento. Eu estava dirigindo meu carro pelas vias expressas da cidade, levando Rachel no porta-malas, o que era algo bizarro.

Reduzi a velocidade, peguei o celular e pressionei a tecla de chamada. Imediatamente ouvi a voz robótica dizer:

— Siga pela Henry Hudson, sentido norte.

Levei o celular para perto da boca, ao estilo walkie-talkie.

— Ok.

— Me avise quando chegar ao Hudson.

— Tudo bem.

Peguei a faixa da esquerda. Eu conhecia muito bem o caminho. Aquela região era familiar para mim. Eu fizera residência no Hospital Presbiteriano de Nova York, que ficava a cerca de dez quadras ao sul. Zia e eu dividíamos um apartamento com um residente de cardiologia chamado Lester, num prédio no fim da Fort Washington Avenue, no extremo norte de Manhattan, portanto eu fizera aquele percurso inúmeras vezes.

Voltei a falar no celular.

— Já estou aqui — eu disse.

— Pegue a próxima saída.

— No Fort Tryon Park?

— Sim.

Outro caminho que eu conhecia bem. O Fort Tryon flutua como uma nuvem acima do rio Hudson. É um rochedo sereno e pacífico, com Nova Jersey a oeste e Riverdale-Bronx a leste. O parque é uma miscelânea de terrenos e solos — calçadas e amuradas de pedra bruta, escarpas rochosas com pequenas grutas e reentrâncias, e extensas áreas relvadas. Eu havia passado muitos dias de verão naqueles gramados, de short e camiseta, na companhia de Zia e de meus livros de medicina. A hora do dia que eu mais gostava de passar ali era antes do anoitecer, no verão. O brilho alaranjado que banhava a paisagem criava um efeito quase etéreo.

Liguei o pisca-pisca e peguei a rampa de saída da via expressa. Não havia outros carros, e poucas luzes estavam acesas na rua. O parque fecha à noite, mas a avenida que o corta permanece livre para o tráfego. Subi uma ladeira íngreme e me vi entrando numa fortaleza medieval. The Cloisters, um castelo que outrora foi um mosteiro francês, agora pertence ao Museu Metropolitan e abriga uma fabulosa coleção de artefatos medievais. Dizem que é fantástico. Eu já estive no parque centenas de vezes, mas nunca entrei no castelo.

Pensei, com meus botões, que aquele lugar era ideal para um resgate de seqüestro: escuro, sossegado, cheio de caminhos sinuosos, formações rochosas, ravinas, vegetação cerrada, veredas pavimentadas e trilhas de terra. Uma pessoa pode se perder facilmente ali, ou se esconder por um longo tempo sem ser encontrada.

A voz robótica perguntou:

— Já chegou?

— Sim. Já estou em Fort Tryon.

— Estacione perto da cafeteria e suba a pé até o círculo.

Viajar dentro do porta-malas era barulhento e desconfortável. Rachel tinha comprado um edredom acolchoado, que aliviava um pouco o desconforto, mas não o ruído.

Ela tinha uma lanterna na pochete, mas não se deu ao trabalho de acendê-la. Rachel nunca tivera medo de escuro, ao contrário.

O escuro induzia à interiorização, à reflexão. Ela tentou relaxar para não sentir o impacto dos solavancos, enquanto se lembrava do comportamento de Marc logo antes de partirem da casa dele. O tira obviamente dissera alguma coisa que o abalara. Teria sido sobre ela? Talvez. Mas naquele momento esse assunto era secundário. Eles estavam a caminho, e ela precisava se concentrar na tarefa que tinha pela frente.

A situação era familiar para ela. Rachel sentia falta da época em que trabalhava no FBI. Ela adorava o trabalho. De certa forma aquele emprego havia sido tudo o que ela possuía. Era mais que uma fuga, era a única coisa que realmente lhe proporcionava prazer. A maioria das pessoas se arrastava das nove da manhã às cinco da tarde, ansiando pela hora de voltar do trabalho para casa. Para Rachel era o contrário.

Depois de todos aqueles anos de distanciamento, isso era algo que ela e Marc tinham em comum: ambos haviam abraçado uma carreira que amavam. Rachel refletia sobre isso, perguntava-se se haveria uma conexão, se o trabalho havia se tornado para ambos uma espécie de sublimação, um substituto para o amor. Ou tivera uma reflexão profunda demais sobre o assunto?

Marc ainda exercia a profissão, ela não mais. Isso a deixava em desvantagem?

Não. A filha dele desaparecera. Eles estavam empatados.

No escuro do porta-malas, Rachel espalhou maquiagem preta no rosto, para ocultar o brilho da pele clara. Sentiu que o carro subia num ângulo inclinado. Bem, ela estava equipada e pronta para entrar em ação.

Rachel pensou em Hugh Reilly, o miserável. Hugh fora o culpado por seu rompimento com Marc e por tudo o que acontecera a partir de então. Hugh fora seu melhor amigo na faculdade. Era isso que ele sempre dizia que queria ser, apenas "amigo". Sem cobranças. Ele estava ciente de que ela tinha um namorado. Rachel se questionava se fora realmente ingênua ou se se fizera de ingênua. Quando um homem diz que quer ser apenas amigo', na verdade ele está aspirando a ser o próximo da fila, como se a amizade fosse uma ante-sala, um espaço para aquecimento antes de entrar em cena. Naquela noite, ele telefonara para ela na Itália com a melhor das intenções.

"Eu acho que você tem o direito de saber", ele dissera. "E minha obrigação, como amigo, lhe contar." Claro. E então ele contara o que Marc havia feito naquela maldita festa.

Não, chega de pôr a culpa em si mesma, chega de pôr a culpa em Marc. Hugh Reilly. Se o filho da mãe tivesse cuidado da própria vida, como seria a vida dela, hoje?

Impossível saber. Mas Rachel sabia muito bem como fora sua vida, e como era até hoje: ela bebia demais, era mal-humorada, tinha gastrite nervosa, perdia tempo demais lendo revistas de programação de tv. E não podemos esquecer o principal, o grande desfecho: ela se envolvera num relacionamento destrutivo e saíra dele da pior maneira possível.

O carro fez uma curva e subiu um pouco mais, fazendo com que Rachel rolasse dentro do porta-malas. Logo em seguida o carro parou, e ela ergueu a cabeça. Os pensamentos rancorosos se dissiparam.

A hora crucial chegara.

Na torre de vigia da antiga fortaleza, cerca de oitenta metros acima do rio Hudson, Heshy contemplava uma vista espetacular, que abrangia da ponte Tappan Zee à direita até a ponte George Washington à esquerda. Ele efetivamente se deteve por alguns momentos para apreciar a cena antes de se concentrar em sua missão.

Como que, pela força do pensamento, o carro de Seidman surgiu na rampa de saída da via expressa. Não havia nenhum outro automóvel seguindo o dele. Heshy não desviava os olhos da avenida, mas nenhum carro reduziu a velocidade, nenhum carro acelerou, não havia nenhum motorista tentando disfarçar, fazendo de conta que não estava seguindo um outro.

Heshy acompanhou o percurso do carro de Seidman. Por um breve momento perdeu-o de vista, atrás do aglomerado de pedras e árvores, mas logo o carro surgiu outra vez em seu campo de visão. Já estava suficientemente perto para que ele conseguisse distinguir Seidman ao volante. Não havia mais ninguém visível, embora isso não significasse que não podia haver uma pessoa agachada no banco de trás. Mas não deixava de ser um bom sinal.

Seidman parou, desligou o motor, abriu a porta e desceu. Heshy aproximou o microfone da boca.

— Pavel, está pronto?

— Sim.

— Ele está sozinho — disse Heshy, agora se dirigindo a Lydia. — Vão em frente.

— Estacione perto da cafeteria e suba a pé até o círculo.

Eu sabia que o círculo era o Margaret Corbin Circle. Quando alcancei a clareira, o celular guinchou.

— Tem uma estação de metrô à esquerda.

— Desça até o elevador.

Eu devia ter suspeitado disso. Ele me colocaria dentro do elevador e me mandaria para outra ala da estação. Seria muito difícil, se não impossível, Rachel me seguir.

— Já está na escada?

— Estou.

— Logo embaixo, você vai ver um portão à sua direita.

Eu sabia qual era o portão. Conduzia para uma área restrita do parque que só abria nos fins de semana. Era uma área de lazer, com mesas de pingue-pongue — só as mesas, cada um tinha de levar sua rede e raquetes — e quiosques com mesas e bancos de madeira para piquenique. Eram comuns festas de aniversário de crianças ali.

Cheguei ao portão de ferro e falei:

— Estou aqui.

— Certifique-se de que ninguém está vendo você. Empurre o portão, passe depressa e torne a fechá-lo.

Espiei pelo portão. O parque estava escuro. As luzes distantes da rua iluminavam pouco o lugar, e era possível divisar apenas alguns contornos em meio às sombras.

A mochila começou a pesar no ombro e troquei para o outro lado. Olhei para trás. Não havia ninguém. Olhei para a esquerda. Os elevadores do metrô estavam parados.

Coloquei a mão no portão e empurrei. A corrente estava arrebentada. Dei mais uma olhada ao redor, conforme a voz robótica ordenara que eu fizesse.

Não havia sinal de Rachel.

O portão rangeu quando empurrei, produzindo um eco alto na noite silenciosa. Passei pela abertura e mergulhei nas trevas.

Rachel sentiu o balanço do carro quando Marc desceu.

Ela esperou alguns segundos, que pareceram horas. Quando julgou ter se passado um tempo seguro, ergueu a tampa do porta-malas apenas o suficiente para espiar para fora. Não havia ninguém à vista.

Rachel tinha consigo uma pistola semi-automática e óculos de visão noturna, do modelo utilizado pelo exército. A caneta com visor para captar o sinal do rastreador estava no bolso.

Ela duvidava que alguém pudesse vê-la, mas, por precaução, abriu o porta-malas apenas o suficiente para se esgueirar para fora. Ela saiu e logo se abaixou no chão.

Enfiou o braço para dentro do porta-malas, pegou seus utensílios e fechou a porta silenciosamente.

Operações de campo sempre foram sua prática favorita — pelo menos no treinamento. Ela participara de poucas missões que exigiam aquela linha de procedimento. Quase sempre eram utilizados recursos de alta tecnologia, carros, helicópteros. Raramente um agente do FBI se via rastejando noite adentro, vestido de preto e com a cara suja de graxa.

Rachel se escondeu atrás da roda traseira. A distância, ela podia ver Marc subindo o caminho íngreme. Ela enfiou o revólver no coldre e amarrou os óculos de visão noturna no cinto. Ainda agachada, começou a subir atrás dele. A iluminação naquele local ainda era suficiente, não havia necessidade de usar os óculos.

Uma nesga de luar cortava o céu. Não havia estrelas visíveis naquela noite. No alto, ela podia ver Marc segurando o celular junto ao ouvido, carregando a mochila a tiracolo. Rachel olhou ao redor e não viu ninguém. Será que o resgate seria efetuado ali mesmo? Não era um mau lugar, para quem tivesse planejado uma rota de fuga.

Ela começou a ponderar as possibilidades.

Fort Tryon era um lugar geograficamente acidentado, cheio de elevações e declives. O segredo era tentar alcançar o ponto mais alto possível. Rachel começou a escalar e estava se preparando para ficar de tocaia quando viu Marc saindo do parque.

Droga. Teria de se deslocar outra vez.

Rachel desceu a elevação, rastejando no solo. A vegetação era áspera e cheirava a feno, presumivelmente devido à recente estiagem. Ela fazia o possível para não desviar os olhos de Marc, mas ele sumiu de seu campo de visão depois de sair do parque. Ela então resolveu arriscar e correu até o portão. Escondeu-se atrás de uma coluna de pedra e avistou Marc, ainda com o celular ao ouvido. Mas logo ele desapareceu no vão da escada da estação de metrô.

Pouco adiante Rachel viu um homem e uma mulher passeando com um cachorro. Eles podiam fazer parte do grupo, ou podiam ser simplesmente um casal passeando com o cachorro.

Mas naquele momento, com Marc fora de seu alcance visual, ela não podia se dar ao luxo de vacilar. Esgueirou-se ao longo de um muro de pedra em direção à entrada da estação de metrô.

 

Tickner achou que Edgar Portman parecia um personagem de Noel Coward. Ele usava pijama de seda, um robe vermelho cuidadosamente amarrado à cintura e chinelos de veludo. Já o irmão dele, Carson, era o oposto. O pijama dele estava torto e amassado, os cabelos em desalinho e os olhos injetados.

Nenhum dos dois conseguia desgrudar os olhos das fotografias.

— Edgar — disse Carson —, não vamos tirar conclusões precipitadas.

— Precipitadas? — Edgar virou-se para Tickner. — Eu dei dinheiro a ele.

— Sim, senhor — disse Tickner. — Um ano e meio atrás. Nós sabemos disso.

— Não. — Edgar tentou impor um tom de paciência à voz, mas não teve força para tanto. — Eu quero dizer, recentemente. Hoje, para ser exato.

Tickner se empertigou.

— Quanto?

— Dois milhões de dólares. Houve outro pedido de resgate.

— Por que não nos informou sobre isso?

— Ah, claro! — Edgar produziu um som engasgado que parecia uma risada sardônica. — Vocês fizeram um trabalho tão primoroso da outra vez!

Tickner ficou indócil.

— Está dizendo que entregou a seu genro mais dois milhões de dólares?

— É exatamente o que estou dizendo.

Carson Portman ainda olhava para as fotos. Edgar olhou para ele e de volta para Tickner.

— Marc Seidman matou minha filha?

Carson se levantou.

— Você sabe a resposta melhor que ninguém...

— Não perguntei a você, Carson.

Os dois homens olharam para Tickner, mas este não se deixou impressionar.

— O senhor disse que esteve com seu genro hoje?

Se Edgar ficara contrafeito por sua pergunta ter sido ignorada, não o demonstrou.

— Hoje cedo — ele confirmou. — No Memorial Park.

— Essa moça das fotos... —Tickner apontou para as fotografias — estava com ele?

— Não.

— Algum de vocês já viu essa moça antes?

Os dois irmãos responderam que não, e Edgar pegou uma foto.

— Minha filha contratou um detetive particular para tirar estas fotos?

— Sim.

— Eu não entendo... Quem é ela?

Novamente Tickner ignorou a pergunta.

— O bilhete de pedido de resgate foi enviado ao senhor, como da primeira vez?

— Sim.

— Mas... Como o senhor sabia que não era um embuste? Como sabia que se tratava dos mesmos seqüestradores?

Foi Carson quem respondeu:

— Nós pensamos que fosse um embuste, a princípio.

— E por que passaram a achar que não era?

— Eles mandaram outra mostra de cabelo. — Carson explicou rapidamente sobre os testes de DNA e o pedido de Marc para realizar testes adicionais.

— Então vocês entregaram a ele as amostras de cabelo?

— Sim, entregamos — respondeu Carson.

Edgar estava outra vez absorto nas fotos,

— Esta moça... Meu genro estava envolvido com ela?

— Não sei lhe responder isso.

— Por que outro motivo minha filha iria querer estas fotografias?

Um celular tocou. Tickner pediu licença e atendeu.

— Bingo — disse O’Malley.

— O que foi?

— Acabamos de localizar o selo de Sem Parar do carro de Seidman. Ele passou pela ponte George Washington há cinco minutos.

 

A voz robótica instruiu:

— Desça a trilha.

No começo ainda havia claridade suficiente para eu enxergar onde pisava, mas logo o breu se fechou à minha volta. Comecei a tatear com o pé para poder prosseguir, como um cego com bengala. Eu não estava gostando nem um pouco daquilo. Novamente pensei em Rachel, imaginando se ela estaria por perto. O caminho descrevia uma curva para a esquerda, e tropecei numa saliência de pedra no chão.

— Tudo bem, pode parar — comandou a voz.

Eu obedeci. Não conseguia enxergar um palmo à minha frente. Atrás de mim, lá longe, a rua era apenas um estreito feixe de claridade opaca e difusa. À minha direita havia uma elevação. O ar estava impregnado daquela fragrância típica de parque urbano, uma estranha combinação de frescor e poluição.

Aguardei pela instrução seguinte, mas o único som que quebrava o silêncio era o murmúrio fraco e distante do tráfego esparso.

— Ponha a mochila no chão.

— Não — eu falei. — Quero ver minha filha.

— Ponha a mochila no chão.

— Nós fizemos um trato. Mostre minha filha, e eu mostro o dinheiro.

Não houve resposta. Eu sentia a pressão sangüínea em meus ouvidos, o medo se alastrando de dentro para fora. Aquilo não estava indo nada bem. Estava exposto demais.

Olhei para trás, considerando por um segundo a possibilidade de sair correndo e gritando feito louco. Quem sabe alguém me ouvisse e chamasse a polícia?

— Dr. Seidman?

— Sim!

Então um foco de luz atingiu em cheio meu rosto. Pisquei e levei as mãos aos olhos, tentando enxergar alguma coisa. O foco de luz se deslocou um pouco para baixo, apertei os olhos e logo me adaptei, mas isso não era necessário. O facho de luz estava recortado por uma silhueta. Não havia equívoco, eu podia ver claramente o que estava sendo iluminado.

Vi um homem. Acho que vi uma camisa de flanela, mas não posso afirmar. Como eu disse, era apenas uma silhueta. Eu não conseguia distinguir as feições dele, nem a cor da roupa ou outros detalhes. Portanto, essa parte poderia ser minha imaginação. Mas o resto não era. Foi um flash muito rápido, é possível que tenha durado menos de um segundo, mas eu vi claramente as formas e os contornos quando o foco de luz se moveu.

De pé, ao lado do homem, segurando a perna dele logo acima do joelho, encontrava-se uma criança pequena.

 

Lydia gostaria que houvesse mais luz. Ela adoraria ver o rosto do Dr. Seidman naquele momento. O desejo de Lydia de ver a expressão dele não tinha nada a ver com a crueldade que estava prestes a cometer. Era curiosidade. Uma curiosidade muito mais mórbida do que aquela comum à natureza humana, como a de reduzir a velocidade ao passar pelo local de um acidente para ver o sangue.

Imagine só... Aquele homem teve a filha seqüestrada. Durante um ano e meio ele não fizera outra coisa a não ser imaginar o que teria sido feito da criança, revirando noite após noite na cama, atormentado pela insônia, assombrado por possibilidades escabrosas que permanecem guardadas no abismo escuro do subconsciente.

Agora ele acabara de ver a menina. Não seria natural não querer ver a expressão do rosto dele!

Os segundos transcorriam. Era o que Lydia queria. Ela queria prolongar a tensão ao máximo, torturá-lo além do limite que um homem é capaz de suportar, amaciá-lo para o golpe final.

Lydia pegou a arma e segurou-a ao lado do corpo. Espiando de detrás do arbusto, ela calculou que a distância entre ela e Seidman fosse pouco mais de dez metros.

Ela levou o celular com o modificador de voz à boca e sussurrou a ordem. Ela não sussurrou por causa do celular, porque fosse um sussurro ou um grito; com o modificador a voz chegava ao receptor sempre uniforme. Ela sussurrou para que Seidman não a ouvisse além da linha telefônica:

— Abra a sacola de dinheiro.

De onde estava, Lydia viu Seidman se mover como um homem em transe. Dessa vez ele obedeceu sem protestar. Agora era ela quem estava com a lanterna na mão. Direcionou o foco de luz para o rosto dele e em seguida para a mochila.

Dinheiro. Ela podia ver os maços volumosos de cédulas. Ótimo.

— Ok — disse ela. — Deixe o dinheiro no chão e continue andando, devagar. Tara estará esperando por você.

Ela viu o Dr. Seidman pôr a mochila no chão. Com os olhos apertados, ele olhava na direção onde acreditava que a filha estaria. Os movimentos dele eram rígidos, o que provavelmente se devia ao fato de a visão dele ter sido ofuscada pela luz. O quê, aliás, facilitaria as coisas para ela.

Lydia queria atirar de perto. Dois disparos seguidos na cabeça, para o caso de ele estar usando colete à prova de bala. Ela tinha ótima pontaria. Provavelmente conseguiria acertá-lo daquela distância, mas era melhor garantir. Nada de correr riscos.

Seidman caminhava em sua direção. Ele já se encontrava a uns seis metros dela. Cinco. Quatro. Quando ele estava a apenas três metros de distância, Lydia ergueu a arma e mirou.

 

Rachel sabia que, se Marc pegasse o metrô, seria praticamente impossível segui-lo sem ser vista.

Desceu as escadas correndo e, ao chegar lá embaixo, olhou ao redor. Nada de Marc. Droga. A esquerda havia uma placa indicando os elevadores para a plataforma de embarque, e à direita havia um portão de ferro trabalhado, fechado. E só.

Marc só podia ter entrado no elevador.

E agora?

Rachel ouviu passos atrás de si e tratou de limpar com os dedos a sujeira preta no rosto, para não chamar a atenção. Com a outra mão, empurrou os óculos de visão noturna para a parte de trás da cintura.

Dois homens desciam apressadamente a escada. Um deles olhou para Lydia e sorriu. Ela continuou esfregando o rosto e sorriu também. Os homens chegaram ao pé da escada e seguiram na direção do elevador.

Rachel considerou rapidamente suas opções. Aqueles dois poderiam servir de cobertura para ela. Ela os alcançaria, desceria no mesmo elevador, talvez até engatilhasse algum assunto, uma conversa amena. Por que alguém desconfiaria? Tomara que o metrô de Marc ainda não tivesse saído. Se tivesse... Bem, não adiantava pensar pelo lado negativo.

Ela começou a andar na direção dos homens quando algo a deteve. O portão de ferro... Aquele que ela vira do outro lado. Estava fechado, e havia um aviso com os dizeres:

Aberto somente nos fins de semana e feriados.

Mas em meio as folhagens, Rachel viu um feixe de luz se mover.

Ela chegou mais perto e olhou pela grade, mas a única coisa que conseguia ver era o feixe de luz. A vegetação era muito densa. Rachel ouviu o barulho do elevador que chegava e olhou para o outro lado. As portas se abriram e os homens entraram. Não havia tempo para pegar a caneta e verificar o rastreador. Além do mais, a distância entre o elevador e o feixe de luz era muito pequena para que ela pudesse distinguir alguma diferença no visor.

O homem que havia sorrido para ela estendeu o braço para fora para segurar a porta. Rachel não sabia o que fazer.

Então, o feixe de luz desapareceu.

— Vai descer? — perguntou o homem.

Rachel olhou de novo para ver se a luz reaparecia, mas estava tudo escuro do outro lado do portão de ferro. Ela balançou a cabeça.

— Não, obrigada.

Rachel subiu correndo as escadas de volta, tentando encontrar algum canto escuro, para que os óculos de visão noturna funcionassem. Os óculos tinham um sensor que bloqueava luzes fortes, mas ainda assim ela achava que quanto menos luz artificial houvesse, melhor. Posicionou-se ao lado do bloco de concreto que abrigava os elevadores.

A esquerda havia uma reentrância onde, se ela se encostasse à parede, ficaria imersa na escuridão. Perfeito. Ainda havia as árvores e as folhagens cerradas demais para lhe obliterarem a visão, mas era o máximo que ela podia fazer.

Apesar de serem do modelo extra-leve, os óculos de visão noturna eram um trambolho. A única vantagem era que, pelo fato de serem presos ao redor da cabeça, como uma máscara de mergulho, eles a deixavam com as mãos livres. Enquanto Rachel ajustava os óculos, o feixe de luz voltou a cortar a escuridão. Ela tentou acompanhar a direção da luz para ver se descobria o ponto de origem. Parecia vir de um local diferente dessa vez, mais à direita e mais perto de onde ela estava. Mas antes que conseguisse localizar o ponto exato, a luz voltou a se apagar.

Rachel ajustou os óculos de visão noturna no rosto. Não são mágicos, não têm lentes que fazem uma pessoa enxergar no escuro. Na realidade, o segredo da visão noturna não está nas lentes, embora ajudem a intensificar a luz já existente, mesmo que pouca ou fraca. O segredo está num microdispositivo que emite um raio infravermelho invisível ao olho humano, mas que é absorvido pelas lentes, criando um efeito de claridade para os olhos por trás das lentes. Rachel acionou o raio infravermelho, e a noite se iluminou de verde. Era como se ela estivesse vendo o mundo através de uma película, como uma tela de televisor, só que recoberta por uma tênue claridade esverdeada.

A visão não era das mais nítidas, mas Rachel teve a impressão de distinguir a figura de uma mulher, escondida atrás das folhagens de um arbusto. Era uma mulher miúda e segurava um objeto perto da boca, que logo Rachel deduziu tratar-se de um celular. A visão periférica é quase inexistente nesses óculos, abrangendo um ângulo de visão não superior a trinta e sete graus, o que obrigava Rachel a virar a cabeça para a direita e para a esquerda a fim de focalizar as proximidades. No primeiro movimento para a direita, ela viu Marc meio abaixado, colocando a sacola de dinheiro no chão. Em seguida ele começou a andar na direção de onde a mulher estava.

Ele andava com passos curtos e incertos, provavelmente porque estava muito escuro ali e ele não estava enxergando o caminho.

Rachel olhava para a mulher e para Marc, alternadamente. Marc estava chegando perto, e a mulher continuava acocorada atrás das plantas. Era óbvio que Marc não estava vendo a mulher. Rachel se perguntou o que aquilo significava, o que estaria acontecendo.

Então, a mulher apontou um dedo para ele. Marc estava muito perto agora, e Rachel apertou os olhos atrás das lentes, na tentativa de enxergar melhor. Foi então que ela percebeu que a mulher não estava apontando um dedo para Marc. Aquilo era grande demais para ser um dedo. A mulher estava apontando uma arma para a cabeça de Marc.

Uma sombra passou na frente da visão de Rachel. Ela recuou e abriu a boca para gritar e alertar Marc, quando uma mão do tamanho de uma luva de beisebol cobriu sua boca e abafou sua voz.

 

Tickner e Regan subiam a Turnpike. Era Tickner quem dirigia.

— Primeira coisa, se o laudo do laboratório onde Edgar mandou fazer o teste de DNA estiver correto, a criança está viva — observou ele.

— O que é esquisito. — Sentado no banco do passageiro, Regan esfregava o rosto.

— Muito. Mas explica muita coisa, também. Quem seria a pessoa mais provável de manter viva uma criança raptada?

— O pai — disse Regan.

— E de quem é a arma que desapareceu misteriosamente da cena do crime?

— Do pai.

Tickner simulou um revólver com o dedo indicador e o polegar, apontou para Regan e fingiu que atirava.

— Acertou na mosca.

— Então, onde a menina esteve esse tempo todo? — perguntou Regan.

— Escondida.

— Ah, essa é uma informação valiosa.

— Não, pense um pouco. Estávamos de olho em Seidman, e ele sabia disso. Então, quem seria a melhor pessoa para esconder a menina para ele?

Regan percebeu aonde Tickner queria chegar.

— A namorada sobre a qual nós não sabíamos.

— Mais que isso, uma namorada que já trabalhou para o FBI. Uma namorada que sabe como trabalhamos, que sabe como funciona um resgate, que saberia como esconder uma criança. Alguém que conhecia a irmã de Seidman, Stacy, e que poderia pedir a ajuda dela.

Regan refletiu sobre aquilo.

— Tudo bem, supondo que essa teoria esteja correta. Eles cometeram o crime. Eles botaram a mão em dois milhões de dólares e esconderam a criança. E depois? Eles esperaram um ano e meio e voltaram à carga? Resolveram que precisavam de mais dois milhões de dólares e pronto?

— Eles precisavam esperar para não levantar suspeitas. Talvez estivessem esperando que terminasse a burocracia do espólio. Ou planejaram fugir e amealhar um pouco mais de grana antes. Sei lá.

Regan franziu a testa.

— Ainda estamos ignorando a importante questão de sempre.

— Qual?

— Se Seidman está por trás disso, como se explica o fato de ele ter sido baleado e ter quase morrido? Aquilo não foi um arranhão à toa, um ferimento infligido por ele mesmo ou por alguém apenas para disfarçar. O cara quase foi desta para melhor. Os paramédicos acharam que ele estivesse morto. Puxa, nós mesmos consideramos o caso como duplo homicídio, nos primeiros dez dias.

Tickner assentiu.

— Você tem razão.

— E, além disso, para onde ele está indo neste momento? Quero dizer, atravessando a ponte George Washington. Será que ele decidiu que chegou a hora de desaparecer de uma vez por todas com os dois milhões de dólares?

— Pode ser.

— Se você estivesse fugindo, você usaria seu Sem Parar para passar no pedágio?

— Não, mas ele talvez não tenha pensado nisso. Nem imagine que o Sem Parar seja uma pista fácil de rastrear.

— Ora, todo mundo sabe que é! Você recebe a conta pelo correio, discriminando a data e a hora em que passou no pedágio. E mesmo que ele fosse distraído a ponto de não pensar nisso, sua agente Rachel Sicrana não é.

— Rachel Mills. — Tickner assentiu lentamente. — Bem lembrado.

— Obrigado.

— Então, a que conclusão chegamos?

— Que ainda não temos uma pista do lugar para onde ele está indo — respondeu Regan.

Tickner sorriu.

— Voltamos à estaca zero.

O celular tocou, e Tickner atendeu. Era O'Malley.

— Onde o senhor está? — perguntou ele.

— A um quilômetro e meio da ponte George Washington — disse Tickner.

— Acelere fundo.

— Por quê? O que aconteceu?

— O Departamento de Polícia de Nova York acabou de localizar o carro de Seidman — explicou O'Malley. — Está estacionado no Fort Tryon Park, a cerca de dois quilômetros da ponte.

— Estaremos lá em menos de cinco minutos — disse Tickner.

 

Heshy achava que tudo estava transcorrendo bem demais.

Ele viu o Dr. Seidman sair do carro e esperou, mas ninguém mais apareceu. Então começou a descer da torre. E foi quando viu a mulher.

Ele parou e viu que ela descia para o elevador do metrô. Havia dois homens com ela. Até aí, nada demais. Mas quando a mulher parou, ficou olhando para o portão e depois voltou a subir sozinha, a coisa mudou de figura.

Heshy ficou observando. Quando a viu embrenhar-se na escuridão, ele foi atrás.

Ele sabia que sua aparência intimidava qualquer um e que os fios de seu cérebro não tinham uma ligação adequada. Mas ele não se importava com isso e atribuía essa sua indiferença ao problema em si, ao fato de seu circuito cerebral não ser normal. Muitos diriam que Heshy era a encarnação do mal. Ele havia matado dezesseis pessoas, catorze delas com requinte de crueldade. Os seis homens que no último instante ele deixara de matar prefeririam não ter sido poupados.

Supostamente, as pessoas como Heshy não tinham consciência do que faziam. O sofrimento dos outros não os afetava. Isso não era verdade. A dor de suas vítimas não era algo distante para ele. Ele sabia como era a dor. E sabia o que era o amor. Ele amava Lydia. A maioria das pessoas não chega a vivenciar o amor que Heshy sentia por ela. Ele mataria e morreria por ela. Claro que muitos dizem isso com relação aos seus amados, mas quantos são realmente postos à prova?

A mulher escondida no escuro colocou uma espécie de máscara de mergulho na cabeça. Heshy sabia que eram óculos de visão noturna, pois ele vira uma vez num documentário na televisão. Os soldados em campo de batalha usavam aquilo. O fato de ela ter aqueles óculos não significava necessariamente que ela fosse tira. Muitos acessórios militares podiam ser adquiridos pela internet. Bastava ter dinheiro para isso.

Heshy a observou. Queria ouvir se ela estava falando com alguém, se ela tinha algum celular ou rádio. Mas a mulher estava em silêncio. Ela devia estar só, mesmo.

Policial ou não, se aqueles óculos funcionassem, ela seria testemunha de que Lydia cometera um assassinato.

Portanto ela tinha de ser silenciada.

Heshy se aproximou devagar. Estava a uns dois metros dela quando a viu sobressaltar-se. Ela chegou a emitir um murmúrio engasgado, e nesse momento Heshy soube que precisava agir. Ele avançou, com uma agilidade que não condizia com sua constituição física. Levou sua enorme mão à frente do rosto da mulher e tapou-lhe a boca.

A mão de Heshy era suficientemente grande para cobrir o rosto inteiro da mulher, nariz, tudo, impedindo-a de respirar. Ele apoiou a outra mão na parte posterior da cabeça dela e pressionou com força.

Em seguida, segurando firmemente a cabeça da mulher com as duas mãos, Heshy a suspendeu do solo.

 

Um súbito ruído me fez parar. Virei-me para a direita, calculando que o barulho viera lá de cima, da rua. Mas por mais que eu tentasse enxergar, minha visão ainda estava ofuscada pela luz forte da lanterna, e as árvores também ajudavam a bloqueá-la. Aguardei alguma continuidade, mas o silêncio voltara a reinar. De qualquer forma, aquilo não importava. Tara estava esperando por mim no final daquela trilha, e era só isso que contava.

Eu me obriguei a manter o foco. Tara. Fim da trilha. O resto era o resto.

Recomecei a andar, sem me dar ao trabalho de olhar para trás para ver se a mochila com o dinheiro fora recolhida. Como todo o resto, isso também era irrelevante.

Tentei reconstruir mentalmente a silhueta recortada pela luz à medida que avançava, incerto de onde pisava. Minha filha podia estar logo ali, a poucos passos de mim. Eles me deram uma segunda chance de resgatá-la e era nisso que eu mantinha o foco. Compartimentalizar. Não deixar que nada me detivesse.

Assim, continuei descendo.

 

Quando trabalhava no FBI, Rachel recebera treinamento intensivo no manuseio de armas e no corpo-a-corpo. Ela aprendera muita coisa nos quatro meses em Quântico e sabia que uma luta de verdade não era nada daquilo que se via na televisão. Numa luta real, um pontapé na cara, por exemplo, derruba de vez o oponente. Não existe aquele floreio todo de cair, levantar, pular, rodopiar, nada disso.

Um combate corpo a corpo é muito mais simples e direto. Você visa as partes vulneráveis do corpo, como o nariz, por exemplo, que em geral faz os olhos do oponente se encherem de lágrimas; os olhos em si, claro; um golpe no pescoço deixa o oponente baqueado e sem forças para persistir lutando.

Existem também outras partes sensíveis, como o plexo solar, a planta dos pés, os joelhos e, é claro, a virilha, que, em se tratando de um oponente do sexo masculino, é infalível, não como alvo realmente, mas como um engodo: você finge que vai acertar o oponente no meio das pernas, ele instintivamente protege a região com as mãos, e você desfere um golpe certeiro em qualquer outra parte vulnerável que esteja mais exposta.

Mas havia três problemas ali. Primeiro, por mais que Rachel fosse treinada e ágil, ela era uma mulher de constituição delicada. Um homem com a força bruta de Heshy a esmagaria. Se ele quisesse fazer isso, todo o conhecimento de Rachel sobre técnicas de defesa pessoal seria esmagado junto com ela antes que ela tivesse tempo de piscar. Segundo, numa luta corporal, novamente ao contrário do que se vê nos filmes, os oponentes não se mantêm em pé por muito tempo. Com exceção de dois boxeadores num ringue, que é uma modalidade diferente de luta, se você já presenciou uma briga num bar, ou num estádio de futebol, ou na rua, deve ter percebido que os combatentes logo acabam engalfinhados no chão. E se o confronto entre Heshy e Rachel chegasse a esse estágio, ela não teria a menor chance de sair vitoriosa. E, por último, apesar de todo o treinamento de Rachel para enfrentar situações de perigo, fora tudo simulação, e ela nunca se envolvera numa briga corporal de verdade. Não estava preparada para lidar com o verdadeiro pânico, com a violenta descarga de adrenalina gerada pelo puro pavor, que enfraquece as pernas, enrijece a nuca e mina as forças.

Rachel não conseguia respirar. Ao sentir a mão cobrir-lhe a boca e o nariz, ela fez tudo errado. Em vez de imediatamente chutar para trás e acertar o joelho de Heshy ou pisar na planta de seu pé, ela reagiu por instinto e tentou se livrar da mão que a sufocava, na ânsia de se libertar. Claro que ela não conseguiu.

Em questão de segundos, a outra mão do sujeito estava na base de sua cabeça, pressionando. Rachel sentiu os dedos dele dentro de sua boca, apertando-lhe os dentes.

A força dele era tamanha que Rachel teve certeza de que ele esmagaria seu crânio como se fosse feito de casca de ovo. Mas, em vez disso, ele a puxou para cima. Rachel sentiu o pescoço esticar cada vez mais e teve a sensação de que sua cabeça estava sendo arrancada. A mão que lhe cobria a boca e o nariz bloqueava totalmente a entrada de ar. O homem a suspendeu mais, até que os pés dela se ergueram do chão. Rachel se agarrou ao pulso do homem, tentando diminuir o esforço no pescoço. Mas ainda não conseguia respirar.

Seus ouvidos zumbiam, seus pulmões ardiam. Rachel se debatia no ar, balançando as pernas, tentando acertar o homem com golpes tão frágeis e impotentes que ele não se deu ao trabalho de impedi-la. O rosto dele estava bem próximo ao de Rachel, ela conseguia sentir o hálito dele, mas os óculos de visão noturna haviam sido deslocados, embora não totalmente arrancados, e bloqueavam sua visão.

Com a forte pressão, sua cabeça começou a latejar. Lembrando-se do treinamento, Rachel enterrou as unhas no ponto de pressão na mão do homem, na base do polegar.

Não surtiu efeito. Ela tentou dar um pontapé para trás. Nada aconteceu. Ela precisava respirar. Sentia-se como um peixe fisgado, se debatendo, agonizando, morrendo.

O pânico tomou conta.

A arma.

Suas mãos estavam livres, ela poderia pegar a arma. Se conseguisse manter o controle, se tivesse sangue-frio suficiente para levar a mão ao bolso, poderia sacar a arma. Era sua única chance. Seu cérebro estava ficando entorpecido. A consciência estava começando a abandoná-la.

Com o crânio a poucos segundos de explodir, Rachel soltou a mão esquerda do braço do homem. Seu pescoço estava tão esticado que ela achou que arrebentaria a qualquer momento, como um elástico de borracha. Ela levou a mão ao coldre e seus dedos tocaram o cabo do revólver.

Mas o homem percebeu o que ela estava fazendo. Com Rachel ainda pendurada no ar como uma boneca de pano, ele lhe deu uma forte joelhada em um dos rins. Uma dor lancinante se alastrou por seu corpo e a engolfou como uma labareda. Os olhos dela reviraram, mas ela não desistiu. Continuou tentando pegar a arma. Sem escolha, o homem a pôs no chão.

Finalmente ela pôde respirar, embora o ar entrasse ruidosamente, fazendo-a engasgar. Mas o alívio de Rachel não durou muito. Com uma mão, o homem lhe segurou o pulso, impedindo-a de sacar a arma. Com a outra, ele lhe aplicou um golpe certeiro no pescoço, e Rachel desabou no chão. O homem pegou a arma e a jogou para longe. Em seguida sentou-se em cima de Rachel, esmagando-a com seu peso, novamente paralisando sua respiração. Ele levou as duas mãos ao pescoço de Rachel, envolvendo-o por completo entre os dedos descomunais. Foi então que a viatura de polícia passou.

O homem se empertigou repentinamente. Rachel tentou tirar proveito da situação, mas o homem era grande e pesado como uma rocha. Ele tirou um celular do bolso e o aproximou da boca. Num sussurro abafado disse:

— Sujou! Polícia!

Rachel tentava se mover, fazer alguma coisa, mas estava completamente imobilizada. Ergueu os olhos a tempo de ver o homem cerrando o punho e descendo-o em sua direção.

Ela tentou desviar o rosto, mas não havia escapatória.

A cabeça de Rachel chocou-se contra o chão de pedra e depois disso ela não viu mais nada.

Quando Mark passou pelo local onde Lydia estava escondida, ela saiu de detrás do arbusto com a arma em punho. Com o dedo no gatilho, ela mirou a nuca de Marc O aviso de "Sujou! Polícia!" soando repentinamente no fone de ouvido a fez sobressaltar-se e por pouco não apertou o gatilho. Mas seu raciocínio foi mais rápido Seidman continuava descendo a trilha. Num átimo, Lydia visualizou o cenário todo, claramente. A primeira coisa que ela fez foi largar a arma. Mesmo que a encontrassem no meio das folhagens, não haveria evidência alguma que apontasse para ela. Estava usando luvas, portanto não haveria impressões digitais. Com a mente ainda funcionando rapidamente, seu pensamento seguinte foi que nada a impedia de pegar a sacola com o dinheiro. E se ela fosse uma cidadã comum, fazendo um passeio noturno no parque?

Poderia perfeitamente ser e, nesse caso, depararia com aquela sacola no meio do caminho, daria uma olhada para ver o que continha, se surpreenderia ao ver que estava forrada de dinheiro e levaria a sacola consigo com a intenção de comunicar o fato à polícia, como boa samaritana que era. Até aí, tudo bem, sem problema algum, sem riscos.

Não havia absolutamente nada que pudesse levantar qualquer suspeita ou associá-la ao crime que estava em andamento ali. Ela se livrara da arma e do celular, e nada provaria que tinha alguma coisa a ver com aquilo.

Lydia ouviu um ruído. Marc Seidman, que já se encontrava cerca de cinco metros adiante, desatou a correr. Tudo bem. Lydia correu na direção da mochila. Heshy apareceu na curva da trilha, logo adiante, e ela continuou em frente. Sem vacilar, ela agarrou a mochila. Em seguida, Lydia e Heshy dispararam a toda velocidade trilha abaixo e desapareceram na noite.

 

Eu continuei avançando, meio trôpego. Meus olhos estavam começando a se adaptar, mas ainda não o suficiente para que eu enxergasse com clareza. A minha direita, divisei a encosta abrupta com face para o Bronx. Luzes minúsculas tremulavam lá embaixo.

De repente escutei uma voz de criança, não muito alta, mas, sem dúvida alguma, uma voz de criança. Ouvi um farfalhar de folhas e em seguida outra exclamação infantil, em tom de protesto, só que dessa vez mais longe. O farfalhar silenciou, mas eu podia ouvir passos se afastando. Alguém estava correndo. E correndo com minha filha.

Não.

Comecei a correr loucamente. As luzes distantes não eram suficientes para iluminar o caminho à minha frente, então resolvi pegar um atalho. Em linha reta, à minha esquerda, eu me encontrava a poucos metros do trecho que conduzia de volta ao estacionamento. Sem hesitar, escalei a encosta me agarrando às saliências rochosas e aos galhos das árvores, até alcançar uma pequena clareira cujo acesso era vedado por uma cerca de correntes de ferro. Atravessei a clareira correndo, saltei sobre as correntes e cheguei exatamente ao trecho da trilha que previra. Olhei para um lado e para o outro, mas não vi ninguém, nem ouvi nada.

Droga, o que tinha acontecido de errado? Tentei pensar com calma, manter o foco. Tudo bem, se eu estivesse fugindo, que caminho seguiria? Simples. Eu iria pela direita, onde os caminhos eram estreitos e sinuosos e ocultos pela vegetação. Era o local perfeito para alguém se esconder. Parei um instante para tentar localizar a voz da criança.

— Ei!

Era uma voz de adulto, de homem, em tom de surpresa, bem perto dali. Continuei em frente, apressado, vasculhando adiante de mim à procura da camisa xadrez. Não havia nada. Continuei descendo, mas pisei em falso e rolei alguns metros colina abaixo, indo parar na área mais isolada que eu sabia ser visada por alguns sem-teto que se refugiavam naquele local acidentado demais para os transeuntes. Eles se abrigavam nas reentrâncias e covas entre as pedras, ou então sob os entroncamentos cerrados de galhos e folhagens. Volta e meia, quem se aventurasse por aquelas paragens topava com algum mendigo de barba e cabelos crescidos afugentando os intrusos indesejáveis com uma carranca. Não muito longe dali, os garotos de programa faziam ponto, negociando com executivos que desciam do metrô. Houve um tempo em que eu tinha o hábito de ir até ali para fazer jogging, e era comum encontrar embalagens usadas de preservativos no meio das plantas.

Continuei correndo até que cheguei a uma bifurcação. Droga. Tentei mais uma vez me pôr no lugar do fugitivo, mas não consegui escolher um caminho. Diante desse impasse, resolvi pegar a trilha da direita, quando escutei um barulho.

Novamente um farfalhar de folhas.

Sem pensar, corri na direção do ruído. Havia dois homens: um deles de terno, e o outro, bem mais jovem, de calça jeans, estava ajoelhado na frente dele. O de terno praguejou em voz alta, mas não recuei, porque eu já ouvira aquela voz poucos segundos antes. Fora ele que gritara "Ei!"

Sem cerimônia, perguntei:

— Por acaso você viu um homem passar por aqui com uma criança, agora mesmo?

— Cai fora daqui...

Cheguei mais perto e dei um tapa na cara dele.

— Você viu um homem passar por aqui com uma menina? Ele olhou para mim, mais chocado do que zangado, e então apontou para a esquerda.

— Eles foram por ali. Ele estava com a criança no colo.

Voltei para a trilha sem me dar ao trabalho de agradecer pela informação. Se eles continuassem naquela direção, iriam sair do outro lado do arvoredo, não muito longe de onde eu havia deixado o carro. Comecei a correr outra vez, o mais rápido que pude. Passei por um grupo de garotos de programa sentados num muro. Um deles, usando uma bandana azul na cabeça, olhou-me e apontou para a trilha, sinalizando que eu estava no caminho certo.

Acenei com a mão, agradecendo, e continuei correndo. Eu já conseguia avistar as luzes do estacionamento. Então, passando em frente a um poste de luz a distância, avistei o homem de camisa de flanela carregando Tara no colo.

— Pare! — gritei. — Alguém segure esse homem, por favor!

Mas eles sumiram.

Tomei fôlego e continuei correndo e gritando por socorro. Ninguém apareceu nem respondeu ao meu chamado. Quando cheguei ao mirante, novamente tive um vislumbre da camisa xadrez. O homem estava saltando por cima do muro, de volta para dentro do bosque. Corri até lá e já ia pular o muro quando ouvi alguém gritar:

— Pare!

Olhei para trás e vi um policial sacando a arma.

— Pare!

— Ele está com a minha filha! Ele foi por aqui!

— Dr. Seidman?

Reconheci a voz imediatamente. Era Regan. Eu não tinha tempo para pensar em nada.

— Venha, siga-me! — gritei.

— Onde está o dinheiro, Dr. Seidman?

— Você não está entendendo. Eles acabaram de pular o muro — eu disse.

— Quem?

Comecei a ver aonde aquilo ia dar. Havia dois policiais com as armas apontadas. Regan olhava para mim com os braços cruzados. Tickner apareceu atrás dele.

— Vamos conversar sobre isso, está bem?

Não, não estava nada bem. Eles não atirariam em mim. E se atirassem, eu não estava preocupado com isso. Por isso voltei a correr, com eles atrás. Eles eram mais jovens, e sem dúvida nenhuma estavam em melhor forma física que eu. Mas eu tinha um ponto a meu favor. Eu estava ensandecido. Pulei o muro e rolei a encosta. Os tiras vieram atrás de mim, mas desceram com mais cuidado.

— Pare! — berrou Regan novamente.

Parei num trecho plano e me ergui, mas estava ofegante demais para explicar qualquer coisa, ainda mais aos berros, para que eles ouvissem. Eu queria que eles me seguissem, mas de longe.

Então rolei outra vez por outra encosta. A grama seca grudou em mim e no meu cabelo. A poeira subiu e tossi. Comecei a ganhar velocidade, mas minhas costelas se chocaram contra um tronco de árvore. Escutei o baque surdo da pancada ecoar dentro de mim. Soltei uma golfada de ar, mas agüentei firme, até chegar ao sopé da elevação.

Retomei a trilha, com os faroletes dos policiais em cima de mim, me seguindo, mas não muito de perto. Ótimo.

Continuei correndo, embora não houvesse nenhum sinal do homem de camisa xadrez, nem de Tara. Parei por um breve segundo e olhei para os lados, tentando descobrir para que lado ele fora. Nada me ocorreu. Parei, e a polícia se aproximou.

— Pare! — o policial gritou.

Eu estava pronto para correr para a esquerda, para seguir em frente na escuridão quando avistei o rapaz de bandana azul, o mesmo que me mostrara o caminho há pouco.

Fez um sinal para que eu pegasse a trilha oposta àquela em que eu estava. Agradeci e disparei. Alcancei a parede de concreto da estação de metrô. Parei um instante e ouvi passos em algum lugar distante dali. Olhei para cima e vi o homem de camisa xadrez, que estava passando debaixo da luz que iluminava o vão da escada. Parecia que estava recuperando o fôlego.

Corri mais rápido.

Ele também. Calculei que a distância que nos separava fosse de cinqüenta metros, no máximo. Mas ele tinha uma criança no colo, portanto eu estava em vantagem. Corri mais ainda e ouvi um dos tiras gritar para que eu parasse. Torci para que não atirassem.

— Ele está indo para a rua! — gritei por sobre o ombro, sem parar de correr. — Ele está com minha filha!

Não sei se eles me ouviram ou não. Alcancei a escada e subi os degraus de três e três, indo sair próximo ao playground. Eu o perdera de vista outra vez, mas, sem parar de correr, procurei por ele na área deserta do playground. Prossegui até a Fort Washington Avenue e então avistei a camisa xadrez. O homem estava correndo na calçada do colégio Madre Cabrini, em frente à capela.

Minhas pernas pareciam pesadas, mas continuei correndo. Eu já não ouvia a polícia atrás de mim. Olhei para trás, sem parar de correr, e vi os faroletes ao longe.

Enquanto eu passava em frente à entrada da capela, segundos depois do homem, lembrei-me de quando Zia me levara à força para assistir a uma missa ali, alegando que a capela era uma atração turística. Só depois entendi por quê. Madre Cabrini morreu em 1901, e o corpo dela foi embalsamado e colocado dentro de um bloco de lucite, que forma o altar da capela. O padre reza a missa em cima do corpo da madre. Não, eu não estou inventando isso. O embalsamador que preservou o corpo de Lênin na Rússia embalsamou o corpo de madre Cabrini. A capela é aberta a visitação e tem até uma loja para os turistas.

— Aqui! — gritei, com a esperança de que a polícia ou Rachel me ouvisse. — No colégio!

Retomei a corrida, mas meu coração pesava. Eu perdera minha chance. Minha filha fora embora de novo. Senti um peso no peito. Foi quando ouvi um carro ser ligado.

Virei-me abruptamente para a direita. Olhei a rua e saí correndo. Um carro começou a se mover, dez metros à minha frente. Era um Honda Accord. O motorista ainda estava manobrando para sair da vaga e, conforme me aproximava, fui decorando o número da placa, mesmo sabendo que seria inútil. Eu não conseguia ver o motorista, mas tinha de tentar. O pára-choque do Honda encostou no carro da frente e o motorista deu ré. Ele já ia arrancar quando agarrei a maçaneta da porta do motorista.

Por sorte a porta não estava travada. Certamente, na pressa, ele esquecera.

Então, várias coisas aconteceram num curto espaço de tempo. Eu abri a porta com um puxão, mas antes disso eu já tinha visto, através do vidro, que de fato se tratava do homem de camisa xadrez. Ele reagiu rápido, agarrando a maçaneta do lado de dentro para fechar a porta. Por alguns momentos, ficamos nesse entrave. Por fim ele pisou no acelerador e arrancou.

Eu não soltei imediatamente a maçaneta, e a única explicação para isso só pode ser o fato de que meu cérebro demorou alguns segundos para registrar a informação decorrente da imagem que meus olhos haviam acabado de ver. Tanto que já tinha sido arrastado cerca de vinte a trinta metros pelo asfalto quando larguei a maçaneta do carro. Não sei dizer o que teria acontecido se eu não tivesse visto o que vi. Não sei dizer até que ponto eu teria tido a força e a coragem de me deixar arrastar daquela maneira, para salvar minha filha. Mas sei o que me fez desistir, o que rompeu o cordão invisível que me mantinha amarrado àquele veículo. Ainda enquanto eu tentava segurar a porta do carro aberta para impedir que o homem fugisse, eu tive oportunidade de ver com clareza o banco do passageiro do carro. Sim, havia uma criança no banco do passageiro.

Mas não era minha filha.

 

Eu estava novamente no hospital, dessa vez no Presbiteriano de Nova York, um território bastante familiar para mim. Ainda não haviam tirado raios X, mas eu tinha certeza de que havia, no mínimo, uma costela trincada, se não mais, e se não fraturada. Nada a fazer, na realidade, a não ser tomar muito analgésico. Fora isso, tinha um corte na perna que parecia de um ataque de tubarão, e meus cotovelos estavam em carne viva. Mas tudo isso era insignificante.

Lenny chegou em tempo recorde. Eu havia ligado, pedindo que ele fosse até lá, porque não sabia muito bem como lidar com aquilo. Num primeiro momento, enquanto ainda relutava em me soltar da maçaneta do carro, tentei me convencer de que me enganara. Afinal, eu vira Tara pela última vez quando ela tinha seis meses. Agora, depois de um ano e meio, obviamente ela teria mudado bastante.

Mas eu sabia que não era ela.

A criança que estava no banco do passageiro parecia um menino e devia ter cerca de três anos. A pele era clara demais. Não era Tara.

Eu sabia que Tickner e Regan tinham perguntas a fazer. Eu queria cooperar, mas também saber como eles haviam descoberto sobre o pedido de resgate. Eu ainda não tinha visto Rachel. Não sabia se ela estava no hospital. Pensava também que fim teria levado o dinheiro do resgate, o Honda Accord, o homem da camisa de flanela. Será que o haviam pegado? Será que ele tinha seqüestrado minha filha? Ou o primeiro pedido de resgate já fora um engodo? E, nesse caso, qual era o papel de Stacy na história toda?

Em suma, eu estava confuso, perdido.

Olhei para Lenny. Ele estava mais para Cujo que para Lenny, para falar a verdade.

Irrompeu quarto adentro, usando calça caqui e camiseta Lacoste cor-de-rosa, com aquele brilho assustado nos olhos que me transportava ao nosso tempo de infância.

— O que aconteceu?

Contei resumidamente o que acontecera, começando com o encontro com Edgar na praça, meu telefonema para Rachel, a chegada dela, os preparativos com todas as engenhocas, os telefonemas do seqüestrador, o momento do quase resgate, a perseguição e o episódio do carro, quando fui arrastado alguns metros pelo asfalto. Depois retrocedi e contei sobre o CD. Lenny me interrompeu algumas vezes — ele sempre interrompia para fazer perguntas —, mas não com a freqüência habitual. Detectei alguma coisa na expressão dele, embora não tenha conseguido definir o que era, mas imaginei que estivesse um pouco ressentido por eu não ter confiado nele. Mas não durou muito, logo a expressão se desvaneceu.

— Será que Edgar está brincando com você?

— Por que ele faria isso? Ele já perdeu quatro milhões de dólares nessa brincadeira.

— Não, se foi ele quem tramou tudo. Fiz uma careta de descrença.

— Isso não teria o menor sentido.

Lenny ficou contrariado, mas teve de admitir que não fazia sentido mesmo. Claro que ele não perderia uma oportunidade de implicar com Edgar.

— E, Rachel, onde ela está agora?

— Ela não está aqui?

— Não que eu saiba.

— Não sei, então. — Fizemos uma pausa. — Talvez ela tenha ido para minha casa.

— É. Pode ser — concordou Lenny, sem muita convicção. A porta se abriu e Tickner entrou, seguido por Regan. Tickner nunca tirava os óculos escuros do alto da testa, o que eu achava desconcertante. Ele começou, sem preâmbulos:

— Já sabemos sobre o pedido de resgate, sabemos que seu sogro lhe entregou mais dois milhões de dólares, sabemos que você esteve numa agência de detetives particulares chamada MVD, em busca da senha de acesso a um CD que pertencia à sua finada esposa, sabemos que Rachel Mills estava com você e que ela não voltou para Washington, D.C., conforme você informou o detetive Regan. Portanto, podemos pular tudo isso.

Tickner aproximou-se, e Lenny o fuzilou com os olhos, pronto para o bote.

Regan cruzou os braços e se encostou à parede.

— Então, vamos começar com o pagamento do resgate — prosseguiu Tickner. — Onde está o dinheiro?

— Não sei.

— Você o entregou a alguém?

— Não sei.

— Como, não sabe?

— Eles me mandaram largar a mochila no chão.

— Quem mandou?

— O seqüestrador. Sei lá, a pessoa que estava falando comigo pelo celular.

— E onde você deixou a mochila?

— No parque, na trilha.

— E depois?

— Ele mandou que eu continuasse andando.

— E você?

— Eu continuei andando, conforme ele mandou.

— E aí?

— E aí, escutei uma voz de criança, e logo em seguida passos de alguém correndo. E depois disso foi uma loucura só.

— E o dinheiro?

— Eu já disse. Não sei o que aconteceu com o dinheiro.

— E Rachel Mills? — perguntou Tickner. — Onde está ela?

— Não sei.

Olhei para Lenny mas ele estudava atentamente o rosto de Tickner.

— Você mentiu quando disse que ela havia voltado para Washington.

— Eu não disse que ela havia voltado para Washington — me defendi. — Disse que não sabia onde ela estava, e que achava que estava voltando para Washington.

— E onde ela estava?

— Na minha garagem.

— E por que não contou ao detetive Regan que ela estava na garagem?

— Porque nós estávamos nos preparando para levar o pagamento do resgate, e eu não queria que nada nos atrasasse.

Tickner cruzou os braços.

— Por que Rachel Mills está envolvida nesse pagamento de resgate?

— Porque ela é uma amiga antiga — respondi. — E porque é uma ex-agente do FBI.

— Sei. Você achou que a experiência dela poderia ser útil?

— Sim.

— Não poderia ter chamado o detetive Regan, ou a mim?

— Não. Eles disseram para não chamar a polícia — expliquei. — Como da outra vez. Eu não quis arriscar de novo, por isso chamei Rachel.

— Hum. Você chamou Rachel porque ela já foi agente do FBI?

— Sim.

— E porque vocês dois... são muito próximos um do outro?

— Nós fomos, há muito tempo.

— Não são mais?

— Não, não somos mais.

— Não são mais — repetiu Tickner. — E apesar disso você achou por bem pedir a ajuda dela numa questão que envolve a vida de sua filha. Interessante.

— Que bom que você pensa assim — interveio Lenny. — Por falar nisso, qual é a finalidade do interrogatório?

Tickner o ignorou.

— Quando foi a última vez que teve contato com Rachel Mills?

— Que relevância tem isso? — indagou Lenny.

— Por favor, responda à minha pergunta.

Lenny fez menção de protestar, mas eu o detive, tocando o braço dele para que ele deixasse comigo.

— Há cerca de um mês, mais ou menos.

— Em que circunstâncias?

— Nós nos encontramos por acaso no Stop & Shop.

— Por acaso?

— Isso.

— Você quer dizer que foi uma coincidência? Nenhum dos dois sabia que o outro estaria lá?

— Exatamente.

— E antes disso?

— Como, antes disso?

— Antes de se encontrarem por acaso na Stop & Shop, quando tinha sido a última vez que vocês se viram?

— No tempo da faculdade, quando eu era solteiro.

Tickner olhou para trás, na direção de Regan, com ar de descrença. Quando ele se virou de volta para mim, os óculos escorregaram para o nariz, e ele tornou a empurrá-los para a testa.

— Está nos dizendo, Dr. Seidman, que, desde a época em que estava na faculdade até o dia de hoje, a única vez que o senhor esteve com Rachel Mills foi essa vez em que se encontraram por acaso no supermercado?

— Sim, é o que estou dizendo.

— Não se falaram pelo telefone nenhuma vez?

— Não.

— Nunca?

— Mas será possível! — explodiu Lenny.

— Eu não falava com Rachel desde a época da faculdade — declarei. — Depois de encontrá-la no Stop & Shop eu liguei para ela uma vez, que foi ontem, perguntando se podia contar com a ajuda dela na questão do resgate.

Tickner e Regan se entreolharam novamente, com expressão de ceticismo, e aproveitei a pausa para perguntar o que me interessava saber:

— Vocês encontraram o homem que fugiu no Honda Accord?

Tickner voltou a olhar para Regan, que deu de ombros.

— Encontramos o carro abandonado na Broadway, perto da rua 145. Tinha sido roubado poucas horas antes. — Tickner pegou o bloco de anotação, mas não o abriu. — Quando localizamos você no parque, começou a gritar e pedir socorro para sua filha. Acha que era ela que estava no carro?

— Naquele momento eu achava que sim.

— Não mais?

— Não. Não era Tara.

— Como soube que não era?

— Eu o vi. O menino, quero dizer.

— Era um menino.

— Tudo indica que sim.

— Quando você o viu?

— Quando cheguei perto do carro e abri a porta.

— Por que não nos conta a história toda desde o início?

Eu repeti tudo o que já havia contado a Lenny. O tempo inteiro Regan não se afastou da parede. Até então ele não abrira a boca uma única vez. Achei aquilo um pouco estranho. Conforme eu falava, Tickner ia ficando cada vez mais agitado. Ele começou a suar, e os óculos escorregavam para baixo a todo momento. Ele estava com dificuldade para mantê-los no alto da testa.

Quando acabei de falar, ele disse:

— Está mentindo, Dr. Seidman.

Dessa vez Lenny se levantou e se colocou no espaço entre Tickner e minha cama, encarando Tickner.

— Qual é o problema, agente Tickner?

— Seu cliente é um mentiroso.

— Senhores, vamos encerrar por aqui — disse Lenny. — Por favor, queiram se retirar.

— Tenho provas de que ele está mentindo.

Lenny estava mais indignado do que eu. Tickner olhou para mim e assenti para que continuasse e acabasse com aquilo.

— Você esteve com Rachel Mills em outras ocasiões.

Abri a boca para protestar, mas Tickner investiu:

— Se não falava com ela desde a época da faculdade, como sabia que ela tinha trabalhado no FBI?

Troquei um rápido olhar com Lenny.

— Porque Rachel é amiga de Cheryl, a esposa de Lenny. Foi através deles que eu a conheci.

— O quê? — Tickner perguntou, confuso.

— Era essa sua prova? — perguntou Lenny sarcástico.

— Não, não era — respondeu Tickner, na defensiva. — Essa sua história sobre pedido de resgate, telefonemas do seqüestrador, pedido de ajuda de uma antiga namorada. Acha que isso convence alguém?

— Por quê? — perguntei. — Acha que estou inventando? O que você está pensando, detetive?

Ele ficou olhando para mim em silêncio.

— Eu sei o que está pensando — falei. — Está pensando que é tudo uma armação, um esquema para extorquir mais dois milhões de dólares de meu sogro!

— Marc... — Lenny tentou me calar, mas o ignorei.

Olhei para Regan, que continuava quieto em seu canto, e de volta para Tickner.

— Vocês acreditam realmente que eu tramei tudo isso? Acham que se fosse uma armação para ficar com o dinheiro do resgate, eu esquematizaria toda essa encenação? Como eu poderia prever que vocês me seguiriam até o parque? Aliás, ainda não entendi como vocês descobriram que eu estava lá. Por que eu me deixaria arrastar por um carro e me esfolar inteiro? Não seria mais fácil simplesmente esconder a mochila com o dinheiro e inventar uma história qualquer para Edgar? Quer dizer então que, se eu tramei tudo, contratei aquele sujeito de camisa de flanela xadrez? Por que eu faria isso? Por que envolveria outra pessoa, um carro roubado? Pensem um pouco. Não faz sentido!

Olhei para Regan, que ainda não parecia convencido.

— Você não está sendo honesto conosco, Marc.

— Como, não estou sendo honesto?

— Você disse que desde a época de faculdade, até agora, não teve nenhum contato com Rachel Mills.

— Sim, disse. E não tive mesmo.

— Temos registros das linhas telefônicas, Marc Três meses antes de sua esposa ser assassinada, Rachel ligou para sua casa. Gostaria de nos explicar isso?

Virei-me para Lenny, atônito, sem saber o que dizer. Ele me fitava muito sério. Nada daquilo fazia sentido.

— Escutem — falei —, tenho o número do celular de Rachel Vamos ligar para ela agora mesmo e saber onde ela está.

— Por favor, faça isso — disse Tickner.

Lenny foi até a mesinha alta ao lado de minha cama e tirou o telefone do gancho. Dei a ele o número do celular de Rachel e ele discou. Ouvi o telefone tocar seis vezes antes de cair na caixa postal. Estendi o braço para que Lenny me desse o telefone, e deixei recado para que ela retornasse assim que possível.

Finalmente, então, Regan se afastou da parede, puxou uma cadeira para perto da cama e se sentou.

— Marc, o que você sabe sobre Rachel Mills?

— O suficiente.

— Vocês foram namorados?

— Sim.

— Por quanto tempo?

— Dois anos.

Regan abriu os braços num gesto de perplexidade.

— Veja bem, o agente Tickner e eu ainda não entendemos direito por que você chamou Rachel para ajudá-lo neste caso. Quero dizer, vocês foram namorados anos atrás.

Se de lá para cá não mantiveram contato, por que justamente ela?

Pensei um pouco antes de responder.

— Não sei. Talvez porque ainda exista uma ligação entre nós.

— Você sabia que ela se casou?

— Sim. Cheryl, a esposa de Lenny, me contou.

— E você sabia que o marido dela foi assassinado?

— Não. Isto é, fiquei sabendo hoje. — Então, dando-me conta de que já passava de meia-noite, corrigi: — Quero dizer, ontem.

— Foi Rachel quem lhe contou?

— Não, foi Cheryl. — E acrescentei, olhando para Regan — E, depois, você me disse que foi Rachel quem o matou.

Regan olhou para Tickner, que fez a pergunta seguinte:

— Rachel Mills falou sobre isso com você?

— Se ela me contou que matou o marido?

— Sim.

— Você está brincando.

— Você não acredita que foi ela, não é?

— Que diferença faz se ele acredita ou não? — interferiu Lenny.

— Ela confessou — disse Tickner.

Olhei para Lenny, e ele desviou o olhar. Voltei-me outra vez para os dois detetives.

— Então, por que ela não está na cadeia?

O semblante de Tickner se anuviou e percebi que ele cerrava os punhos.

— Ela alegou que foi um acidente.

— E vocês não acreditam nela?

— O marido dela foi baleado à queima-roupa.

— Bem, então volto a perguntar, por que ela não está na cadeia?

— Não estou a par de todos os detalhes — respondeu Tickner.

— Como assim?

— Quem cuidou desse caso foi a polícia local — explicou Tickner. — E eles decidiram não levar adiante.

Mesmo não sendo policial nem psicólogo, percebia claramente que Tickner estava escondendo alguma coisa. Olhei para Lenny. Ele estava sério, o rosto inexpressivo, coisa que não era comum nele.

— Você disse que ainda existe uma ligação entre você e Rachel — prosseguiu Regan. — Isso significa que vocês ainda se amam?

— O que isso tem a ver com o seqüestro da filha do meu cliente? — Lenny interferiu.

— Por favor.

— Por favor! — Lenny voltou-se para mim. — Eles estão querendo usar Rachel como motivo para incriminar você pelo assassinato de Mônica, Marc!

— Eu sei, já percebi — falei calmamente.

— Dr. Seidman, por que só agora foi procurar a agência MVD?

— Como assim?

— Sua esposa morreu há um ano e meio. Por que esse súbito interesse no CD, depois de tanto tempo?

— Porque só agora eu achei o CD. Eu nem sabia da existência dele.

— Quando o encontrou?

— Há dois dias. Estava escondido no porão de minha casa.

— Então, você não estava ciente de que sua esposa havia contratado um detetive particular?

— Não, não estava.

— E faz alguma idéia de por que ela teria contratado um detetive?

— Nenhuma.

Tickner tirou de sua pasta um envelope grande e se aproximou da cama.

— Quer dizer que não teve contato com Rachel desde a época da faculdade, certo? — disse ele, abrindo o envelope e pegando uma foto.

— O que é isso? — perguntou Lenny.

— O conteúdo do cd.

Metodicamente, Tickner posicionou a fotografia para que todos pudéssemos vê-la. Era uma foto em preto-e-branco do Valley Hospital, em Ridgewood. No canto inferior da foto, aparecia uma data, em caracteres brancos. Ela fora tirada dois meses antes do ataque à minha casa.

— Este é seu local de trabalho, Dr. Seidman? — perguntou Tickner.

— Sim, temos um consultório aí.

— Temos?

— Eu e Zia, minha sócia. Zia Leroux.

— Está vendo a data, Dr. Seidman? — indagou Tickner, apontando para a margem da foto.

— Sim.

— Esteve no consultório nesse dia?

— Não sei dizer, preciso consultar minha agenda. Regan apontou para a entrada do hospital.

— Está vendo esta pessoa aqui?

— Sim.

— Reconhece quem é?

Eu aproximei a foto do rosto e olhei com atenção, mas só dava para ver que era uma mulher, de casaco e óculos escuros.

— Não — respondi. — Não sei quem é.

Tickner tirou outra foto de dentro do envelope. Era semelhante à primeira, tirada do mesmo ângulo, mas com lente zoom. Nesta, a mulher estava mais nítida. Mesmo com os óculos escuros, eu podia ver que era Rachel.

Olhei para Lenny e vi a surpresa estampada no semblante dele também. Tickner pegou mais uma foto. No total, eram dez fotos. Elas haviam sido tiradas em seqüência, todas do mesmo ângulo, focalizando a entrada do Valley Hospital. A foto número oito mostrava Rachel entrando no hospital. Na foto número nove, tirada uma hora depois, eu estava saindo do hospital. Na foto número dez, tirada seis minutos depois da anterior, Rachel saía pela mesma porta.

Eu não estava entendendo nada. Não conseguia entender as implicações. Lenny estava tão surpreso quanto eu, mas foi o primeiro a reagir.

— Saiam — disse ele.

— Não quer explicar estas fotos, primeiro? — indagou Tickner para mim.

Eu estava tão perplexo que não sabia o que dizer.

— Saiam — repetiu Lenny, em tom mais veemente. — Saiam agora.

 

Lenny certificou-se de que a porta estava fechada e voltou para perto do leito.

— Eles acham que foi você. Pode escrever o que estou dizendo, acham que foi você, junto com Rachel. Vocês tinham um caso, ela matou o marido, e aí não sei dizer se eles suspeitam de seu envolvimento ou não... vocês mataram Mônica, levaram Tara para não sei onde e simularam um pedido de resgate ao avô rico da criança.

— Que absurdo! Esqueceu que fui baleado e quase morri? Ou será que eles acham também que atirei em mim mesmo?

— Não sei. Mas eles têm provas, Marc você pode negar até a morte que estava tendo algum caso com Rachel, mas Mônica desconfiou e tinha tanto motivo para desconfiar que contratou um detetive. O detetive tira as fotos e as entrega a Mônica. E, dois meses depois, o que acontece? Sua esposa é assassinada, sua filha desaparece e seu sogro perde dois milhões de dólares num resgate fracassado. Passa-se um ano e meio, e aí então o que acontece? O avô da criança se vê de novo forçado a entregar outros dois milhões de dólares. E você e Rachel mentem, negando que têm um relacionamento.

— Não estamos mentindo! Será possível que você também acha que é tudo armação minha para extorquir dinheiro de Edgar? Acha que, se eu tivesse tramado isso, teria todo esse trabalho? Eu simplesmente pegaria o dinheiro e pronto! Não precisaria contratar alguém com uma criança para me arrastar pelo asfalto, precisaria? Isso sem falar em Stacy. Então, eu também teria matado minha irmã!

— Eles têm as fotos, Marc — disse Lenny baixinho, evitando me encarar.

— Eu não sei que fotos são essas.

— Não?

— Não, não sei. Não entendi nada, não sei como alguém tirou essas fotos.

— Está querendo me dizer que você e Rachel realmente nunca mais se falaram, que só se encontraram há pouco tempo no supermercado?

— Claro que é verdade, Lenny. Acha que eu esconderia isso de você?

— Você escondeu de mim o último pedido de resgate.

— Isso é diferente. Eu não vi necessidade de contar. Tudo aconteceu num espaço de algumas horas, eu não sabia até que ponto estava sendo vigiado. Achei que quanto menos se falasse no assunto, melhor, para acabar logo com aquele tormento.

— Entendo.

Mas era óbvio que ele não entendia. E eu não podia culpá-lo por isso.

— Outra coisa... — acrescentou Lenny, dessa vez olhando para mim com expressão intrigada. — Como você foi encontrar esse cd no porão?

— Bem, foi mais ou menos por acaso. Dina Levinsky apareceu lá em casa e...

— Dina Levinsky? — Lenny franziu a testa. — O que ela foi fazer lá?

Contei a ele a história toda, terminando com minha incursão ao porão para procurar o diário e a descoberta do CD.

— Você disse que ela está bem agora? Que está casada?

— Sim.

— É mentira.

— Como você sabe?

— Eu cuidei de alguns assuntos legais para a tia dela. Dina Levinsky esteve internada em várias clínicas psiquiátricas, desde os dezoito anos de idade. Chegou a ser detida por assalto, algum tempo atrás. Ela nunca se casou, e duvido muito que alguma vez tenha participado de alguma exposição de arte.

Eu estava atônito com o que Lenny estava me dizendo. Lembrei-me da expressão de Dina e da palidez do rosto dela quando me disse: "Você sabe quem atirou em você, não sabe, Marc?". O que ela quis dizer com isso, afinal?

— Precisamos pensar bem sobre isso tudo — disse Lenny, esfregando o queixo. — Vou ver o que consigo descobrir. Avise-me se tiver alguma novidade, certo?

— Pode deixar.

— E prometa que não vai dizer mais nada a ninguém, por enquanto. Existe uma boa chance de que eles indiciem você. — Lenny ergueu a mão antes que eu tivesse tempo de protestar. — Eles têm evidência suficiente para emitir um mandado de prisão. Concordo que ainda há muitas pontas soltas, mas com bem menos do que isso eles já botaram muita gente atrás das grades. Portanto, não se esqueça, se aqueles dois voltarem, prometa que não vai dizer absolutamente mais nada.

Eu prometi, mesmo porque a polícia estava na pista errada. Cooperar com eles não ajudaria em nada a encontrar minha filha. Ponto final.

Antes de Lenny sair, pedi a ele que apagasse a luz. Ele apagou, mas o quarto não ficou escuro. Quartos de hospital nunca ficam completamente escuros.

Sozinho com meus pensamentos, tentei pôr alguma ordem naquela confusão toda, extrair algum sentido do que estava acontecendo. Tickner estava todo cheio de si, convencido de que estava de posse de provas importantes contra mim, ou seja, as fotos. Aquilo me incomodava. Eu preferiria que ele não as tivesse. Não sabia até que ponto aquelas fotos representavam, de fato, uma prova concreta. Seriam autênticas ou montagem? Com os recursos digitais atuais, seria muito fácil falsificar aquele tipo de imagem, inclusive as datas. Mas não sei se seria tão simples provar que eram falsificadas. Meu pensamento voltou para Dina Levinsky. Pensando bem, agora, aquelas idas dela à minha casa e a visita daquela noite haviam sido bizarras. Por que ela me perguntara se eu amava Mônica? O que a fazia acreditar que sabia quem atirou em mim? Eu estava refletindo sobre isso quando a porta se abriu.

— É neste quarto que está o paciente duble do James Bond? Era Zia.

— Oi.

Ela entrou, me viu recostado na cama e fez um gesto teatral com a mão.

— Isso tudo é para não precisar trabalhar?

— Seria meu plantão, esta noite, não?

— Sim, senhor.

— Me desculpe...

— Adivinhe para quem eles ligaram, quando não encontraram você? E interromperam um sonho maravilhoso, na melhor parte? Hum? — Zia apontou para a porta. — Quem é o rapagão negro a postos no corredor?

— O de óculos escuros na testa?

— O próprio. Ele é policial?

— É agente do FBI.

— Será que dá para você nos apresentar?

— Vou tentar — respondi. — Se eu conseguir, antes que ele me prenda.

— Pode ser depois, também, não tem problema.

Eu sorri. Zia sentou-se na beirada da cama, e lhe contei tudo o que acontecera. Em nenhum momento ela me interrompeu para manifestar uma opinião ou fazer perguntas.

Ela apenas ouviu, em silêncio, e me senti profundamente grato por isso.

Eu já ia contar a Zia que a polícia me considerava o principal suspeito, quando meu celular tocou. Nós nos entreolhamos por um instante, em seguida estendi o braço, apertei a tecla de atender e levei o celular ao ouvido.

— Marc? — Era Rachel.

— Onde você está?

— Seguindo o dinheiro.

— O quê?

— Eles fizeram exatamente como eu previ — disse ela.

Transferiram para outra sacola, mas não localizaram o rastreador dentro das notas. Neste exato momento, estou na Harlem River Drive. Eles estão a pouco mais de um quilômetro à minha frente.

— Precisamos conversar — eu disse.

— Eles entregaram Tara?

— Não. Foi um embuste. Havia uma criança com eles, mas não era minha filha.

Houve um breve silêncio.

— Rachel?

— Eu não estou muito bem, Marc

— Como assim?

— Eu fui atacada, no parque. Acho que não foi nada grave, mas talvez eu precise de sua ajuda.

— Ei, espere um pouco... em que carro você está?

— Você reparou numa van que estava estacionada perto do círculo? Perto do seu carro, uma van de propriedade do parque?

— Sim.

— Eu roubei. É um modelo antigo, fácil de fazer ligação direta. Achei que não dariam pela falta dela até de manhã.

— Rachel, a polícia suspeita de nós dois. Eles acham que somos amantes e que tramamos tudo isso. Eles encontraram fotos no cd. Você aparece nas fotos, em frente ao hospital onde trabalho.

O silêncio era absoluto do outro lado da linha.

— Rachel?

— Onde você está? — ela perguntou.

— No Hospital Presbiteriano de Nova York.

— E você está bem?

— Um pouco machucado, mas estou bem.

— A polícia está aí?

— Sim, e o FBI também. Um agente chamado Tickner. Você conhece?

— Conheço, sim. — A voz dela se suavizou. — E, então, o que você decide?

— Como assim?

— Quer que eu continue perseguindo os bandidos ou prefere que a polícia cuide disso?

Eu queria que Rachel voltasse logo. Queria perguntar a ela sobre as fotos e também sobre o telefonema para minha casa.

— Acho que é perda de tempo — respondi. — Você estava certa, é tudo um embuste. Eles devem ter usado fios de cabelo de outra criança.

— Marc, você sabe alguma coisa sobre DNA? — ela perguntou.

— Mais ou menos, por quê?

— Não tenho tempo para explicar direito agora, mas o exame de DNA é feito por camadas, uma a uma. E necessário um período de 24 horas para poder afirmar com certeza que um resultado é positivo.

— Sei...

— Eu acabei de falar com meu amigo do laboratório. Só se passaram oito horas, mas, até agora, a segunda amostra de caoelo que Edgar recebeu...

— O que tem?

— Por enquanto o DNA confere com o seu.

Eu não tinha certeza se tinha escutado direito, mas Rachel confirmou o que eu queria ouvir:

— Ou seja, até o momento, não foi descartada a hipótese de você ser o pai da criança de que foi retirada a amostra de cabelo. Aliás, ao contrário, por enquanto os testes estão demonstrando que os cabelos pertencem à sua filha.

Eu quase deixei o celular cair. Zia percebeu e chegou mais perto. Respirei fundo, procurando me manter calmo e centrado. Considerei minhas opções. Seria inútil falar com Tickner e Regan. Eles não acreditariam em mim. Não me deixariam ir ao encontro de Rachel, na verdade o mais provável era que nos prendessem. Havia uma chance mínima de, contando a eles, eu conseguir provar nossa inocência, mas isso era o menos relevante no momento.

A questão principal era que havia uma chance de Tara estar viva. E se ela estivesse viva, eu queria retomar nosso plano original. Confiar nas autoridades, ainda mais agora, com essas novas suspeitas reforçadas sobre mim, não daria certo. Podia haver, de fato, conforme dizia o bilhete, uma fonte interna, e aí eu estaria arriscando a vida de Tara. Naquele exato momento, quem tivesse apanhado a mochila com o dinheiro não fazia a menor idéia de que estava sendo rastreado. Mas o que aconteceria se a polícia local e as autoridades federais se envolvessem? Os seqüestradores fugiriam? Entrariam em pânico? Tomariam alguma atitude extrema?

Havia outra coisa a considerar: até que ponto eu podia confiar em Rachel? Aquelas fotos haviam me abalado. Eu não sabia mais no que acreditar, a única coisa que sabia era que não podia perder de vista meu objetivo, que era Tara. Portanto, eu deixaria que minha intuição e meu bom senso me guiassem pelo caminho, se não o mais garantido, pelo menos o mais provável de me levar ao desfecho pelo qual eu ansiava.

— Você acha que consegue continuar? Acha que agüenta?

— Nós vamos conseguir, Marc

— Estou a caminho.

Eu desliguei e olhei para Zia.

— Você precisa me ajudar a sair daqui.

Tickner e Regan estavam sentados na sala de espera, no final do corredor.

— Acho que deveríamos prendê-lo agora — sugeriu Tickner.

Regan não disse nada.

— Você estava muito calado lá dentro. Por quê?

— Uma coisa que Seidman disse.

— O quê?

— Você não acha que ele tem razão?

— Você quer dizer, quanto a ser inocente?

— Sim.

— Para ser sincero, não. Você acha que ele convence?

— Não sei... Mas, realmente, qual seria o intuito de tanto vaivém? Ele não tinha como saber que tivemos acesso ao CD, ou que localizaríamos o Sem Parar, ou que iríamos atrás dele até o Fort fryon. Mesmo que ele imaginasse qualquer uma dessas possibilidades, para que toda essa maratona quando ele poderia simplesmente esconder o dinheiro? Por que se pendurar num carro em movimento? Ele poderia ter morrido... E tudo isso para quê? O que nos leva de volta ao começo mais uma vez, ao tiro inicial e a todo o problema original. Se ele e Rachel estão juntos nisso, por que ele foi baleado daquela maneira, escapando de morrer por um fio? — Regan balançou a cabeça.

— Ainda há muitas lacunas nessa história.

— Mas aos poucos estamos preenchendo, uma a uma — retrucou Tickner. — Veja só quanta coisa já conseguimos descobrir. Por exemplo, o envolvimento de Rachel. O que precisamos fazer agora é dar um jeito de trazê-la aqui e fazer uma acareação.

Regan não pareceu se entusiasmar com a idéia.

— O que foi? — instigou Tickner.

— A janela quebrada.

— Na cena do crime?

— Sim.

— O que tem a janela?

— Acompanhe meu raciocínio: vamos voltar ao começo de tudo, quando Marc Seidman foi baleado.

— Prossiga.

— A janela foi quebrada do lado de fora — disse Regan. — Ou seja, presumivelmente, foi por onde os criminosos entraram.

— Ou — acrescentou Tickner — o Dr.Seidman quebrou a janela para nos despistar.

— Ou o cúmplice dele fez essa parte.

— Correto.

— Mas de um jeito ou de outro, o Dr. Seidman teria enfatizado isso, não teria? Quero dizer, se foi ele quem tramou tudo.

— Como assim?

— Pense comigo. Vamos supor que Seidman esteja envolvido na história. Nesse caso, concorda que a janela quebrada era parte do esquema, para dar a impressão de arrombamento?

— Sim, claro.

Regan sorriu.

— Então! Por que em momento algum ele mencionou a janela quebrada?

— Espere, explique direito...

— Você leu várias vezes o depoimento dele, não leu? O que ele falou? Que se lembrava de estar comendo uma barra de cereal, e só. Mais nada. Não viu ninguém, não escutou nenhum ruído, nada. Como ele não se lembra do barulho da janela sendo quebrada?

— Porque foi ele mesmo quem quebrou para simular um arrombamento.

— Sim, mas, se fosse isso, ele faria questão de mencionar o fato. Ele quebra uma janela para nos induzir a pensar que alguém de fora invadiu a casa e atirou nele.

E quando questionado sobre a última coisa de que se lembra ele não fala da janela, só da barra de cereal?

Tickner percebeu aonde Regan queria chegar.

— Sim, você tem razão... Ele diria que estava comendo a barra de cereal e que de repente ouviu um estrondo, o barulho da vidraça se estilhaçando..

— Exatamente! — confirmou Regan. — Ele não só diria como enfatizaria, e não nos deixaria esquecer desse detalhe. Mas em momento algum ele falou isso.

— Será que ele pode ter esquecido? Ele foi seriamente ferido e...

— Ou pode ser também — interrompeu Regan — que ele esteja dizendo a verdade.

Tickner refletiu por um momento, antes de observar:

— Só que tem uma pequena falha nessa sua teoria.

— E qual é?

— É justamente o reverso da medalha — explicou Tickner. Se Seidman é inocente, como se explica ele não ter ouvido a janela sendo quebrada?

Bem, nesse caso, realmente pode se tratar de um processo de amnésia, assim como ele não se lembra de quase nada antes de ter sido baleado, com exceção da barra de cereal. Principalmente se ele viu alguma coisa que o chocou profundamente, alguma coisa de que não quer se lembrar.

— Como, por exemplo, a mulher dele sendo estuprada e morta?

— Exatamente — concordou Regan. — Ou pior.

— Pior? O que seria pior que...

Eles ouviram um bipe e olharam na direção do posto de enfermagem, do outro lado do corredor. Em seguida uma voz musical soou no alto-falante, anunciando algum procedimento de rotina como troca de turno, ou coisa parecida.

— Desde o começo, nós depreendemos que existem lacunas neste caso — continuou Regan. — Mas é possível que seja exatamente o oposto. Que nós estejamos acrescentando, por nossa conta, elementos que nunca existiram, compreende?

Tickner franziu a testa.

— O tempo todo focamos em Seidman. Naturalmente, você e eu sabemos que o culpado é o cônjuge em nove de cada dez casos como este. Então, em que nos baseamos? O casamento deles estava estremecido, ele se casou porque ela estava grávida... Mas se o casamento deles fosse como um conto de fadas, nós diríamos, "Ah, aí tem coisa... Ninguém tem um casamento às mil maravilhas assim!". Percebe que tentamos adequar tudo à nossa realidade, à premissa de que Seidman está envolvido? Vamos tentar, só por um instante, imaginar que não, que ele seja inocente, como diz.

Tickner sacudiu os ombros.

— Está bem. E aí?

— Ele admitiu existir uma ligação afetiva com Rachel Mills, um envolvimento que perdurou todos esses anos.

— Certo.

— Então, se ele é inocente e está dizendo a verdade, tudo que ele está dizendo é verdade. Sobre quando ele viu Rachel pela última vez, sobre as fotos... Você viu a cara dele, Seidman não é um grande ator. Aquelas fotos o surpreenderam de verdade. A reação dele foi espontânea, não estava entendendo nada.

Tickner fez uma expressão de dúvida.

— Aí já é difícil saber...

— E tem outro aspecto interessante relacionado a essas fotos.

— Qual?

— Como esse detetive não conseguiu tirar nenhuma foto dos dois juntos? Há uma foto da moça entrando no hospital, outra de Seidman saindo do hospital, depois dela saindo do hospital... mas não tem nenhuma foto dos dois juntos.

— Bom, eles devem ser cautelosos.

— Cautelosos? Ela fica perambulando na frente do local de trabalho dele, entrando, saindo, isso é ser cauteloso?

— Qual é sua teoria?

— Minha teoria é de que, com toda a certeza, Rachel sabia que Seidman estava no hospital. Mas não necessariamente de que ele soubesse que ela estava lá fora...

— Espere aí — interrompeu Tickner, com um sorriso. — Você acha que ela o estava espionando?

— É possível que sim. Tickner fez um gesto de cabeça.

— E não estamos falando de uma mulher qualquer — ele acrescentou. — Estamos falando de uma agente secreta... e muito bem treinada.

— Portanto... — Regan ergueu uma mão e foi contando nos dedos: — ...um, ela teria o conhecimento técnico para planejar uma operação de seqüestro; dois, saberia como matar uma pessoa; três, saberia como não deixar pistas; quatro, conheceria a irmã de Marc; e cinco, conhecia pessoas que poderiam ajudá-la a encurralar a irmã dele e liquidá-la.

— Santo Deus! — Tickner ergueu os olhos. — E aquilo que você disse, que Seidman pode ter presenciado alguma coisa tão horrível que ele bloqueou da memória...

— Que tal ver a mulher por quem está apaixonado apontando uma arma para você? Ou a sua esposa? Ou...

Os dois homens se calaram por um momento.

— E onde Tara se encaixa nisso tudo? — indagou Tickner.

— Um meio de extorquir dinheiro do avô rico da menina? — sugeriu Regan.

Mas nenhum dos dois gostava dessa hipótese. E gostavam menos ainda de cada hipótese que surgia.

— Ainda há outro detalhe de que não podemos nos esquecer .— disse Tickner. — A arma desaparecida, que Seidman guardava num cofre no armário. Só alguém muito próximo a ele saberia onde a arma estava guardada.

— Ou Rachel usou o revólver dela. Lembre-se de que usaram duas armas.

— Mas para que ela precisaria de duas armas?

Depois de alguns minutos, Regan e Tickner chegaram à conclusão de que ainda havia uma ponta solta naquela história, um elo perdido que eles precisavam descobrir.

— Precisamos retroceder um pouco e buscar respostas para algumas indagações.

— Quais?

— Entre outras, por exemplo, por que Rachel se safou do assassinato do marido.

— Posso averiguar isso — prontificou-se Tickner.

— Ótimo — aprovou Regan. — Vamos pôr alguém na retaguarda de Seidman. Ela tem quatro milhões de dólares, agora. Pode querer calar para sempre a única pessoa que é a ligação dela com essa história toda.

 

Zia encontrou minhas roupas no armário, mas minha calça estava suja de sangue e de terra, e a camisa, além de suja, estava rasgada. Então decidimos que seria melhor eu usar uma roupa cirúrgica. Zia conseguiu a roupa para mim, e a vesti com dificuldade por causa das costelas doloridas. Aquilo seria uma operação morosa. Zia saiu para o corredor para ver se a costa estava livre. O corredor estava vazio. Tickner e Regan não conseguiriam nos ver do lugar onde estavam.

Ela fez sinal para que eu saísse do quarto e nos afastamos pelo corredor na direção oposta à da sala de espera. Atravessamos o hospital inteiro, até a saída para o pátio de estacionamento da ala norte, onde estava o carro de Zia, sem que ninguém nos questionasse, ou tentasse nos deter, ou nem mesmo olhasse para nós. Eu me movia com dificuldade, devagar e mancando, mas além das dores não parecia haver problemas maiores. Zia já tinha providenciado um frasco de analgésicos, e eu engolira duas cápsulas antes de sair do quarto.

— Bem, se por acaso alguém me perguntar sobre o carro, vou dizer que deixei em casa e que vim de ônibus, táxi, carona ou coisa assim. Pode ir tranqüilo.

— Obrigado — eu disse. — Será que poderíamos trocar de celular?

— Claro. Por quê?

— Para o caso de eles resolverem tentar me rastrear pela localização do meu celular.

— Eles têm como fazer isso?

— Tudo é possível.

Zia me entregou o celular dela, tão pequeno que cabia na palma de minha mão.

— Você sabe que isso é uma loucura, não?

— Sei.

— Bem, se precisar de alguma coisa é só ligar para o seu celular. E qualquer coisa, eu ligo para o meu.

— Pode deixar — falei, rindo.

Chegamos ao carro de Zia, e ela me entregou a chave.

— Tome cuidado, sim? Não posso ficar sem você.

Eu abracei Zia, entrei no carro e fui embora. Assim que saí do estacionamento, liguei para Rachel. A noite estava clara, tranqüila. As luzes da ponte refletidas nas águas escuras do rio criavam o efeito de um céu estrelado abaixo de mim. O telefone tocou duas vezes e Rachel atendeu, porém não disse nada, ficou em silêncio.

Eu logo percebi por quê: obviamente não havia reconhecido o número de quem estava chamando.

— Sou eu — falei. — Estou com o celular de Zia.

— Onde você está?

— Chegando ao Hudson.

— Continue no sentido norte até Tappan Zee, atravesse a ponte e depois siga para oeste.

— Onde você está agora?

— Estou passando em frente àquele shopping center gigantesco, o Palisades Mall.

— Em Nyack.

— Isso mesmo. Vamos nos falando, até acharmos um lugar onde possamos nos encontrar.

— Tudo bem. Até daqui a pouco.

Tickner falava no celular com o agente O'Malley, inteirando-o dos últimos acontecimentos. Regan voltou correndo para a sala de espera.

— Seidman não está no quarto!

Tickner olhou para ele, contrafeito.

— Como assim, não está no quarto?

— "Como assim"? Quantas interpretações pode haver para "não está no quarto"?

— Ele está fazendo alguma radiografia ou outro exame?

— Segundo a enfermeira, não — respondeu Regan.

— Droga. Bem, o hospital tem câmeras de segurança, certo?

— Não em todos os quartos.

— Mas tem nas saídas.

— Deve haver pelo menos uma dezena de saídas e portões neste hospital. Até conseguirmos as fitas e examiná-las...

— Está bem, está bem. —Tickner pensou um pouco e voltou a falar no celular. — O'Malley?

— Sim.

— Você escutou?

— Sim, senhor.

— Quanto tempo acha que precisa para verificar as chamadas, discadas e recebidas, do telefone do quarto de Seidman aqui no hospital e do celular dele? — indagou Tickner.

— Chamadas recentes?

— Sim, eu diria as que foram efetuadas nos últimos quinze minutos.

— Dê-me cinco Tickner desligou o celular.

— Onde está o advogado de Seidman?

— Não sei. Acho que já foi embora.

— Seria bom ligar para ele.

— Ele não me parece muito prestativo — observou Regan.

— Isso foi antes, quando achávamos que o cliente dele era um criminoso. Agora nossa teoria é de que ele é inocente e está com a vida em perigo.

Tickner entregou a Regan o cartão de visita que Lenny lhe dera.

—Tem toda razão — concordou Regan, já discando o número.

Eu alcancei Rachel em Ramsey, a cidade fronteiriça que abrange parte do norte de Nova Jersey e do sul de Nova York. Fomos nos monitorando pelo celular, até que entrei no estacionamento de um hotel de beira de estrada com uma placa espalhafatosa anunciando Apartamentos com TV em Cores, como se os outros hotéis só tivessem televisão em preto-e-branco. E ainda por cima a palavra cores estava grafada em letras coloridas, provavelmente para o caso de alguém não saber o que significava.

Eu estava assustado quando entrei no estacionamento. Tinha um milhão de perguntas para fazer a Rachel, embora no final fossem todas variantes que convergiam para uma única e principal questão. Eu queria saber sobre a morte do marido dela, claro, mas, mais que isso, queria saber sobre aquelas malditas fotografias.

O estacionamento estava às escuras, iluminado apenas pelas luzes da estrada. A caminhonete roubada do Fort Tryon Park estava parada ao lado de uma máquina de Pepsi, na extrema direita do pátio. Entrei na vaga ao lado dela, e olhei para ver se Rachel saía da van, mas ela já estava abrindo a porta do passageiro de meu carro e se sentando a meu lado.

— Vamos embora — disse ela.

Quando olhei para Rachel, eu me assustei.

— Santo Deus, Rachel!

— Tudo bem, vamos logo.

O olho direito dela estava inchado como o de um boxeador. O pescoço estava coberto de manchas amareladas e arroxeadas, e havia uma marca vermelha em cada face, onde o atacante pressionara os dedos. A pele do rosto estava toda machucada.

— O que aconteceu? — perguntei.

Rachel estava com a caneta rastreadora na mão. O visor brilhava no escuro, dentro do carro. Ela aproximou a caneta do rosto e disse:

— Pegue a Rota 17, rápido, para que eles não ganhem muita distância.

Dei marcha à ré, manobrei e tornei a pegar a estrada. Enfiei a mão no bolso, peguei o frasco de analgésicos e o estendi a Rachel.

— Tome, vai ajudar bastante a aliviar a dor.

— Quantos eu tomo?

— Um.

Rachel ergueu a tampa do frasco de remédio, sem desviar os olhos da caneta. Ela engoliu uma cápsula a seco e me devolveu o frasco, agradecendo.

— Conte o que aconteceu — pedi.

— Você primeiro.

Relatei detalhadamente tudo o que acontecera desde que estacionara perto do círculo, quando ela ainda estava no porta-malas. Prosseguimos pela Rota 17, passamos pelas saídas de Allendale e Ridgewood. As ruas estavam desertas. As lojas — e olhe que há inúmeras lojas ali, a avenida inteira é praticamente um shopping horizontal contínuo, com uma loja atrás da outra — estavam todas fechadas. Rachel me ouviu sem interromper. De vez em quando eu olhava para ela e percebia que sentia dor.

Quando terminei de falar, ela perguntou:

— Você tem certeza de que não era Tara que estava no carro?

— Tenho.

— Eu tornei a ligar para o rapaz do laboratório. As lâminas continuam compatíveis uma com a outra. Não compreendo isso.

Eu também não compreendia.

— O que aconteceu com você?

— Um sujeito me atacou. Eu estava com os óculos de visão noturna observando você. Vi você pôr a mochila de dinheiro no chão e continuar andando. Tinha uma mulher escondida atrás de um arbusto. Você viu?

— Não.

— Ela estava armada. Acho que pretendia matá-lo.

— Uma mulher?

Aquela nova informação me pegou de surpresa, talvez por ser tão diferente do que eu imaginara.

— Você conseguiu ver como ela era?

— Não. Eu ia gritar para avisá-lo do perigo quando um monstrengo me agarrou por trás. O sujeito era mais forte que um urso. Ele me levantou do chão pela cabeça.

Achei que ia esmagar meu crânio e arrebentar meu pescoço.

— Meu Deus.

— Mas bem nessa hora passou uma viatura e o camarada entrou em pânico. Ele me acertou aqui — Rachel apontou para o olho inchado — e eu caí. Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Quando voltei a mim, havia policiais por toda parte. Eu estava encolhida num canto escuro. Acho que eles não me viram, ou então pensaram que eu fosse um mendigo. Mas consegui pegar a caneta com o visor e vi que o dinheiro estava em movimento.

— Em que direção?

— Para o sul, próximo à Rua 168. De repente o sinal desapareceu. E que isto aqui — Rachel gesticulou com a caneta — funciona de dois modos. No modo zoom, o visor abrange um raio de aproximadamente quatrocentos metros. Sem o zoom, a área se expande, e consigo ter uma noção mais exata da localização do alvo. Neste momento, calculo que eles estejam cerca de dez quilômetros à nossa frente, na rota 17.

— Mas quando você olhou pela primeira vez, eles estavam perto da Rua 168?

— Isso mesmo. Depois eles foram em direção ao centro da cidade, bem depressa e descrevendo uma linha quase reta.

— Deviam estar no metrô.

— Foi o que deduzi também. De qualquer jeito, roubei a van e rumei para a cidade. Eu estava perto da Rua 70 quando de repente eles enveredaram para leste. Dessa vez, parando de vez em quando.

— Então já deviam estar de carro, parando nos semáforos. Rachel concordou com um gesto de cabeça.

— Eu vi que eles estavam na Harlem River Drive e os segui. Foi quando liguei para você. Fui o mais veloz que pude e cheguei a manter uma distância de um quilômetro deles.

Fomos obrigados a parar por causa de obras na estrada. Havia uma única faixa livre e um sinal luminoso em ambas as extremidades controlava o fluxo dos carros nos dois sentidos, alternadamente. Olhei de novo para o rosto machucado de Rachel, cheio de hematomas e edemas. Ela retribuiu o olhar, mas não disse nada. Levei a mão ao rosto dela e o acariciei gentilmente. Ela fechou os olhos, e senti que nos comunicávamos num silêncio cúmplice. Uma lágrima escorreu pela face de Rachel e uma onda se espalhou dentro de mim.

Parte de mim queria acabar com aquela busca. Sei o que isso pode parecer. Minha filha estava desaparecida. Minha mulher, morta. Alguém estava tentando me matar.

Era o momento de recomeçar, de ter uma nova chance, de encontrar uma maneira de, desta vez, fazer dar certo. Queria mudar de direção. Não queria mais saber como o marido dela havia morrido, não me interessava mais pelas fotografias em frente ao hospital. Tudo isso e muito mais eu sabia que seria capaz de esquecer. Eu sabia que seria capaz de suturar as bordas do tempo e fazer com que os últimos catorze anos desaparecessem.

Minha linha de pensamento foi interrompida quando o sinal luminoso ficou verde e a fila de carros começou a andar. Mas, ao afastar a mão do rosto de Rachel, eu percebi que nunca deixara de amar aquela mulher. Por mais que eu tivesse tentado me convencer do contrário, por mais que fosse um amor irracional, inadequado, estúpido, eu ainda a amava.

Prosseguimos em silêncio, e poucos minutos depois vi Rachel se empertigar no banco do carro e aproximar a caneta do rosto.

— O que foi? — eu perguntei.

— Eles pararam. Três quilômetros adiante.

 

Steven Bacard recolocou o fone no gancho.

Uma pessoa escorrega para o lado do mal, pensava ele. A pessoa cruza a linha, pisa do lado de lá, e volta correndo. Ninguém está olhando, ninguém viu. Só a pessoa sabe como aquilo pode mudar as coisas para melhor. A linha divisória continua ali, intacta. Tudo bem, pode ser que com o passo para lá e para cá ela tenha ficado ligeiramente borrada, mas ela continua lá, você ainda a enxerga perfeitamente. Pode ser que, ao cruzar a linha pela segunda vez, ela borre um pouquinho mais. Mas você tem suas referências. Você sabe exatamente por onde ela passa.

Não sabe?

Havia um espelho acima do bar abastecido no escritório de Steven Bacard. A decoradora insistira que todas as pessoas de prestígio precisam de um lugar privativo para brindar a seus sucessos e suas conquistas. Então, Steven também tinha seu local de comemorações, embora nunca bebesse. Steven Bacard olhou para seu reflexo no espelho e pensou, não pela primeira vez na vida: Mediano.

Ele sempre fora mediano. Nas notas da escola, na faculdade de direito, no exame da ordem (ele fora aprovado na terceira tentativa). Assim era Steven, não estava entre os melhores nem entre os piores, e sim no meio de uns e de outros.

Bacard estudou direito porque achava que o título de doutor lhe traria prestígio. Mas não trouxe. Ninguém o contratou. Ele abriu seu próprio escritório nas proximidades do fórum, num espaço dividido com um agiota. Não que ele não tentasse; era esforçado, mas não conseguia se destacar. Conseguiu se casar com uma moça de nível social ligeiramente superior ao dele, embora ela não perdesse uma única oportunidade de lembrá-lo disso.

Uma coisa em que Bacard ficava abaixo da média — bem aquém da média — era na contagem de esperma. Por mais que tentasse — e Dawn, sua esposa, não gostava nem um pouco das tentativas —, ele não conseguia engravidá-la. Depois de quatro anos, eles resolveram adotar uma criança. Novamente Steven Bacard deparou com uma luta inglória, pois Dawn desejava ardentemente que a criança fosse um bebê de poucos dias e de pele bem clara. Ele e Dawn fizeram uma viagem à Romênia, mas as crianças disponíveis para adoção ou já eram crescidas ou sofriam de alguma doença ou lesão congênita, por abuso de drogas da mãe.

Mas foi ali, no exterior, naquele lugar abandonado por Deus, que Steven Bacard finalmente teve uma idéia que, depois de trinta e oito anos, o fez distinguir-se na multidão.

— Algum problema, Steven?

A voz o assustou. Ele se virou, desviando a atenção do espelho. Lydia olhava para ele da penumbra.

— Admirando-se no espelho dessa maneira... — disse ela, acrescentando um tsk-tsk ao final da frase. — Não foi essa a causa da queda de Narciso?

Bacard não pôde evitar. Ele começou a tremer. Não era só por causa de Lydia, embora ela quase sempre tivesse esse efeito sobre ele. Fora o telefonema que o havia deixado com os nervos à flor da pele; e o fato de Lydia aparecer assim, do nada, era um reforço, uma comprovação.

Ele não sabia como ela havia entrado, nem há quanto tempo estava ali. Ele queria perguntar o que havia acontecido naquela noite. Queria detalhes, mas não havia tempo para isso.

— Nós temos um problema, sim — disse Bacard.

— Diga-me.

Os olhos de Lydia fizeram Steven enregelar. Eles eram grandes, lindos, brilhantes, e no entanto não havia nada atrás deles, somente um espaço vazio, frio, como janelas de uma casa há muito abandonada.

O que Bacard descobrira na Romênia — o que finalmente o elevara acima das massas — fora uma maneira de ludibriar o sistema. De repente, pela primeira vez na vida, Bacard desempenhava uma função. Ele parou de correr atrás das coisas. Agora as pessoas é que corriam atrás dele. Ele era convidado para eventos beneficentes, era requisitado para palestras. Tanto que Dawn, a esposa, voltara a sorrir para ele, perguntava como fora o dia dele. Ele até já aparecera no noticiário regional — o Nova Jersey TV —, quando a produção queria incluir a opinião de um especialista em leis, em alguma matéria. Mas ele havia parado, porém, quando um colega observara que era perigoso se expor demais. Além disso, ele já não precisava atrair clientes. Eles é que o procuravam, quando precisavam de algum milagre.

Bacard apontou para o telefone.

— Acabei de receber uma ligação.

— E?

— O dinheiro do resgate está grampeado.

— Nós trocamos de sacola.

— Não é só a sacola. Tem um rastreador no meio das notas. O rosto de Lydia ficou muito sério.

— Seu informante não sabia disso antes?

— Meu informante não sabia de coisa nenhuma até agora há pouco.

— Isso significa que, enquanto estamos aqui tranqüilos, a polícia sabe exatamente onde nos encontramos?

— A polícia, não. O grampo não foi plantado por ninguém da polícia.

A informação pareceu surpreender Lydia.

— O Dr. Seidman?

— Não exatamente. Há uma pessoa ajudando o Dr. Seidman, uma mulher chamada Rachel Mills. Ela é ex-agente do FBI.

Lydia sorriu, como se aquilo explicasse alguma coisa.

— Foi ela quem inseriu o rastreador no dinheiro?

— Sim.

— E ela está nos seguindo neste exato momento?

— Ninguém sabe onde ela está — respondeu Bacard. — ninguém sabe onde Seidman está.

— Hum.

— A polícia acha que Rachel está envolvida.

— No seqüestro original?

— Sim. E no homicídio de Mônica Seidman, também.

Aquilo agradou Lydia. Ela sorriu, e Bacard sentiu um calafrio na espinha.

— E ela está envolvida, Steven?

Ele oscilou.

— Não sei.

— A ignorância é uma bênção, não é, Steven?

Ele achou melhor não responder.

— Você está com a arma? — indagou Lydia.

Bacard se empertigou.

— O quê?

— O revólver de Seidman. Está com você?

Bacard não estava gostando daquilo. Ele tinha a sensação de estar afundando. Pensou em mentir, mas, ao fitar os olhos de Lydia, respondeu:

— Sim.

— Pegue-a — ela ordenou, para depois perguntar: — E Pavel? Tem notícias dele?

— Ele não está nem um pouco satisfeito com essa história. Quer saber o que está acontecendo.

— Nós ligaremos para ele do carro.

— Nós?

— Isso. Vamos logo, Steven.

— Eu vou com você?

— Claro.

— O que você vai fazer?

Lydia levou um dedo aos lábios.

— Shh — ela sussurrou. — Eu tenho um plano.

 

— Eles estão em movimento outra vez — disse Rachel.

— Quanto tempo eles ficaram parados? — eu quis saber.

— Uns cinco minutos. É possível que tenham se encontrado com alguém e passado o dinheiro. Ou então pararam simplesmente para abastecer. Vire na próxima à direita.

Entramos na pista local da Avenida Centauro e tínhamos percorrido cerca de um quilômetro quando Rachel apontou pela janela.

— Era aí dentro que eles estavam.

— A placa dizia Metrovista, e havia um estacionamento extenso, a perder de vista. Metrovista era um clássico centro empresarial de Nova Jersey, construído na próspera década de 80. Eram centenas de escritórios, frios e impessoais, atrás de vidraças escuras que bloqueavam a luz e o calor do sol durante o dia.

— Não foi para abastecer que eles pararam — declarou Rachel.

— Então, o que fazemos agora?

— A única coisa que podemos fazer — respondeu ela. — Continuar seguindo o dinheiro.

 

Heshy e Lydia rumaram para oeste, em direção ao Garden State Parkway. Steven Bacard os seguia em outro carro. Lydia tirou o elástico dos maços de dinheiro e separou as cédulas. Ela demorou dez minutos para encontrar o rastreador. Quando o encontrou, puxou-o para fora e ergueu-o no ar para mostrar a Heshy.

— Muito esperto — disse ela.

Em seguida abriu a janela do carro e pôs o braço para fora, sinalizando para que Bacard os seguisse. Ele ergueu o polegar num gesto de que havia entendido. Quando chegaram ao pedágio, Lydia acarinhou o rosto de Heshy e saiu do carro, levando o dinheiro consigo e deixando Heshy sozinho com o rastreador.

Se a tal Rachel, ou até mesmo a polícia, caso chegasse ao conhecimento deles, continuasse seguindo Heshy, ele jogaria o aparelhinho na rua. Eles encontrariam o aparelho, mas não teriam como provar que viera do carro de Heshy. Mesmo que eles o revistassem, não encontrariam nada. Nem criança, nem dinheiro, nada. Ele estava limpo.

Lydia correu para o carro de Steven Bacard e sentou-se no banco do passageiro.

— Pavel está na linha? — perguntou ela.

— Sim.

Lydia pegou o celular, e Pavel começou a esbravejar no idioma dele. Lydia esperou que ele parasse e então combinou o local de encontro. Ao ouvir o endereço que Lydia dizia, Bacard virou-se abruptamente para ela. Lydia sorriu. Pavel, é claro, não entendia o significado do local, mas e daí? Ele não precisava entender nada.

Pavel ainda reclamou um pouco mais, mas acabou se acalmando e disse que iria ao lugar marcado. Lydia desligou.

— Você não está falando a sério — disse Bacard.

— Shh.

O plano de Lydia era simples. Ela e Bacard iriam até o local de encontro e Heshy, que estava com o rastreador, faria uma parada. Quando Lydia estivesse pronta, ela avisaria Heshy pelo celular. Somente depois disso é que Heshy se encaminharia para o local, ainda com o rastreador. A tal Rachel Mills provavelmente o seguiria, pelo menos Lydia contava com isso.

Ela e Bacard chegaram em vinte minutos. Lydia avistou um carro estacionado mais adiante, na rua. Pavel. Era um Toyota Celic roubado. Lydia não gostava daquilo.

Carros não muito comuns estacionados na rua daquele jeito chamavam a atenção. Ela olhou para Steven Bacard, que estava lívido. Lydia quase podia sentir as ondas de medo que emanavam dele. Os dedos seguravam o volante com força, tensos. Bacard não tinha estômago para aquilo.

— Você não pode simplesmente me largar aqui — disse ela.

— Quero saber o que você pretende.

Lydia apenas olhou para ele.

— Meu Deus.

— Me poupe de cometer um ato indigno.

— Não era para ninguém ser ferido.

— Você quer dizer, do jeito que Mônica Seidman foi ferida?

— Nós não tivemos nada a ver com isso.

Lydia balançou a cabeça.

— E a irmã, como era mesmo o nome dela, Stacy Seidman? Bacard abriu a boca como se fosse argumentar, mas desistiu e baixou a cabeça. Lydia sabia o que ele tinha pensado em dizer. Stacy Seidman fora viciada em drogas, fora um estorvo, um desperdício, um perigo, já estava de qualquer modo condenada a um triste fim; ou qualquer outra justificativa parecida. Homens como Bacard precisavam de justificativas. Na cabeça dele, ele não estava vendendo bebês; ele realmente acreditava que estava fazendo o bem. E se ele ganhava dinheiro — muito dinheiro — com esse negócio, se infringia a lei, também estava correndo riscos para proporcionar uma vida melhor a muitas crianças. Era justo que fosse devidamente recompensado.

Mas Lydia não estava interessada em se aprofundar nos mecanismos psicológicos de Bacard, tampouco em confortá-lo. Ela contou o dinheiro no carro. Bacard a contratara.

A parte dela era um milhão de dólares. O outro milhão era dele. Lydia pegou sua parte — e de Heshy —, pendurou a sacola no ombro e saiu do carro.

Steven Bacard olhava fixamente para frente. Ele não recusou o dinheiro. Não a chamou de volta para dizer que lavava as mãos naquele caso. Havia um milhão de dólares no banco ao lado dele, no carro. Bacard queria aquele dinheiro. Sua família tinha uma bela casa em Alpine, agora. Seus filhos estudavam num colégio particular. Por isso, Bacard jamais recusaria. Ele simplesmente olhou para frente e pôs o carro em movimento.

Depois que ele foi embora, Lydia ligou para Pavel no modo rádio do celular. Ele estava escondido atrás de um tufo de folhagens, mais acima no quarteirão. Ainda estava usando a camisa de flanela xadrez. Seu andar era arrastado e ele se locomovia com dificuldade. Os dentes haviam sido castigados por anos de fumo e negligência. O nariz já sofrera fraturas em lutas corporais. Ele já havia visto muita coisa na vida.

— Você — disse ele, com aspereza. — Você não dizer para mim.

Pavel tinha razão. Ela não tinha dito a ele. Em outras palavras, ele não sabia de nada. O inglês de Pavel era abaixo do sofrível, motivo pelo qual era o homem perfeito para aquele trabalho. Pavel viera de Kosovo dois anos antes, com uma mulher grávida. No primeiro pedido de resgate, ele recebera instruções específicas. Fora orientado a esperar determinado carro chegar no pátio, aproximar-se dele sem dizer uma palavra ao motorista, receber uma encomenda que o motorista lhe entregaria e voltar para a van. Ah, e para confundir ainda mais, eles haviam dito a Pavel para segurar um fone perto da boca e fingir que falava no aparelho.

E assim aconteceu.

Pavel não fazia idéia nenhuma de quem era Marc Seidman, não fazia idéia nenhuma do conteúdo da sacola, do seqüestro, do pedido de resgate, de nada. Ele não usou luvas — suas impressões digitais não estavam catalogadas nos Estados Unidos — e não possuía documento de identidade.

Eles lhe deram dois mil dólares e o despacharam de volta para Kosovo. Com base na descrição específica de Seidman, a polícia estava procurando um homem que, para todos os efeitos, era impossível de ser encontrado. Quando eles haviam decidido repetir o pedido de resgate, Pavel era naturalmente o homem indicado para a linha de frente. Ele se vestiria do mesmo jeito, despistaria Seidman do mesmo jeito.

Mas Pavel era realista. Ele se adaptava. Ele vendia mulheres em Kosovo. Escravidão branca sob a fachada de casas de striptease era um mercado lucrativo, mas Pavel encontrara outra maneira de usar essas mulheres. Pavel, habituado a reviravoltas bruscas, fazia o que tivesse de ser feito.

Ele estava pronto para desafiar Lydia, mas quando ela pôs em sua mão um maço de notas totalizando cinco mil dólares, ele engoliu as palavras de protesto. Já não tinha a mesma gana de lutar.

Lydia entregou uma arma a Pavel. Ele sabia como usá-la.

Pavel se postou perto da entrada com o modo rádio acionado. Lydia ligou para Heshy e o liberou. Quinze minutos depois, Heshy passou por eles, de carro, e jogou o rastreador pela janela. Lydia recolheu o aparelho e jogou um beijo para Heshy. Ele continuou dirigindo pela rua. Lydia levou o rastreador para o quintal dos fundos, pegou o revólver e esperou.

 

Aquilo era muito esquisito.

As ruas já eram tão familiares que eu mal as notava. Eu estava elétrico, a dor nas costelas quase esquecida. Rachel estava concentrada na caneta com visor. Ela monitorava o visor, mudava as imagens, esquadrinhava cada ângulo. Até que ela se virou para trás e encontrou o guia de ruas no banco traseiro do carro de Zia. Segurando a caneta entre os dentes, Rachel folheou o guia e em determinada página começou a traçar um caminho com o dedo, não sei com que finalidade.

— Você tinha conhecimento dessas fotos? — perguntei.

— Não.

— Você aparece na frente do hospital onde eu trabalho.

— Sim, você me contou.

Ela falava sem desviar os olhos do visor.

— Elas são autênticas? — eu perguntei.

— Como, autênticas?

— Quer dizer, as fotos são uma montagem ou você estava de fato ali na frente do hospital, dois anos atrás?

Ainda atenta ao visor, Rachel disse:

— Entre à direita. Aqui. — Ela sinalizou com a mão. Estávamos na Avenida Glen, agora. Aquilo estava ficando aterrador. Passamos em frente à minha antiga escola.

— Rachel?

— As fotos são autênticas, Marc

Por alguns segundos fiquei emudecido, porque não sabia o que dizer, até que as palavras saíram espontaneamente:

— Acho que você me deve uma explicação.

— Também acho, mas não agora.

— Sim, agora.

— Temos de nos concentrar no que estamos fazendo.

— O que estamos fazendo é andar de carro. Eu consigo dirigir e conversar ao mesmo tempo.

— Mas eu não consigo.

— Rachel, o que você estava fazendo em frente ao hospital?

— Espere!

— O que foi?

Estávamos nos aproximando do cruzamento com a Avenida Kasselton. Naquele horário, o semáforo ficava apenas com a luz amarela piscando. Reduzi a velocidade e olhei para Rachel.

— E, agora, para que lado?

— Para a direita. Eu gelei.

— Não estou entendendo.

— Eles pararam de novo.

— Onde?

— A menos que eu esteja muito enganada — disse Rachel, finalmente olhando para mim —, eles estão na sua casa.

Eu entrei à direita. Já não havia necessidade de Rachel me orientar. Ela olhava fixamente para o visor. Estávamos a um quilômetro de minha casa. Entrei à direita na Rua Monroe. A casa de meus pais ficava do lado esquerdo. As luzes estavam todas apagadas, claro, com exceção da luz fraca do vestíbulo, como era nosso costume.

Comecei a fazer a curva para entrar em minha rua, quando Rachel me alertou:

— Devagar...

— Eles estão saindo?

— Não. O sinal ainda vem de sua casa.

Eu reduzi a velocidade e olhei para a rua, intrigado.

— Por que será que eles deram tantas voltas antes de vir para cá? Quero dizer, a impressão que dá é que o destino deles era outro, e que depois resolveram vir até aqui. Será que encontraram o rastreador?

— Era exatamente isso que eu estava pensando.

— Se encontraram, então isso só pode ser uma cilada. Chegamos em frente à minha casa, e eu estava a ponto de perguntar a Rachel o que ela achava melhor fazer, quando a primeira bala estilhaçou o pára-brisa do carro. Alguns cacos de vidro atingiram meu rosto. Ouvi um grito abafado e instintivamente me abaixei.

A segunda bala passou tão perto de minha cabeça que eu a senti roçar em meu cabelo. Ela foi se alojar no encosto do banco, produzindo um ruído seco ao perfurar a espuma do estofamento. Novamente agindo por instinto, pisei no acelerador, sem tirar as mãos do volante. O carro saltou para frente, com um guincho dos pneus.

Em algum nível de meu subconsciente e no espaço de poucos segundos refleti que, se fosse eu que estivesse atirando, se fosse eu que estivesse de tocaia esperando alguém chegar, teria me escondido atrás da cerca viva que divide meu terreno e o da casa vizinha.

A folhagem era cerrada e ficava bem ao lado da entrada para carros. Então levantei a cabeça para olhar e posicionei o volante, mirando a cerca viva.

Um terceiro disparo soou e atingiu algum objeto metálico, provavelmente a grade frontal do automóvel. Olhei para Rachel, que estava com a cabeça abaixada e uma mão cobrindo a orelha esquerda. O sangue escorria por entre os dedos dela, dos ferimentos causados pelos estilhaços de vidro.

Olhei de novo para frente e acendi os faróis altos, que iluminaram em cheio a cerca viva. Então, em meio às folhagens, distingui algo colorido... um padrão xadrez.

Nesse instante a revolta explodiu em meu íntimo. Eu comentei há pouco que a sanidade mental é um cordão muito frágil e que o meu havia se rompido. Naquela ocasião, eu permaneci calmo.

Mas agora um misto de fúria e pavor se espalhou por todas as células do meu corpo. Pisei no acelerador até o fundo. Ouvi um grito assustado, e o homem de camisa xadrez se deslocou para a direita. Mas eu estava em ponto de bala.

Virei o volante na direção dele, como se estivesse num carrinho bate-bate num parque de diversões. Joguei o carro contra a cerca viva, produzindo um ruído seco.

Percebi que as folhagens haviam se enroscado no pára-choque. Escutei outro grito e olhei ao redor, à procura do homem, mas não vi ninguém. Levei a mão à maçaneta, preparando-me para descer do carro, quando Rachel sussurrou, aflita:

— Não!

Eu parei. Com a mão esquerda, ela engatou a marcha a ré.

— Vá para trás! — ela ordenou.

Eu obedeci automaticamente. Em algum recôndito de minha consciência, eu sabia que sair do carro seria uma atitude temerária, pois o homem estava armado, e eu não.

Reparei que as luzes se acendiam nas casas vizinhas. Com certeza alguém ligaria para a emergência e chamaria a polícia.

Rachel se moveu a meu lado e de repente percebi que ela segurava um revólver. Nisso, ela apontou para frente e gritou:

— Ali!

Virei-me a tempo de ver o homem de camisa xadrez engatinhando em direção ao quintal dos fundos. Direcionei os faróis do carro para ele, mas ele já desaparecera atrás da casa. Olhei para Rachel.

— Espere — ela falou. — Ele pode não estar sozinho.

— E agora? — perguntei.

Com a arma em punho, Rachel abriu a porta e disse:

— Fique dentro do carro.

— Você perdeu o juízo?

— Continue com o pé no acelerador, ameaçando arrancar. Assim eles pensarão que ainda estamos dentro do carro. Enquanto isso, vou dar uma olhada.

Antes que eu tivesse tempo de protestar, ela rolou para fora. Fiz conforme ela instruíra, enquanto a via desaparecer nas sombras do quintal. Segundos depois, dois tiros cortaram o silêncio da noite.

Lydia assistira a tudo de seu esconderijo no quintal dos fundos.

Pavel se precipitara e atirara antes da hora. Fora um erro da parte dele. De seu local privilegiado, atrás de uma pilha de lenha, Lydia não conseguira ver quem estava dentro do carro, mas ficara impressionada. O motorista não só localizara Pavel, como também conseguira atingi-lo.

Pavel apareceu mancando. Os olhos de Lydia já haviam se adaptado ao escuro o suficiente para ver que o rosto dele sangrava. Ela ergueu um braço e acenou para ele.

Pavel se acocorou novamente e continuou engatinhando na direção dela. Lydia olhou ao redor. Quem estivesse no carro chegaria até ali vindo da frente da casa. Em caso de emergência, ela poderia fugir pelo portão dos fundos.

Pavel continuava se arrastando pelo chão, e Lydia fez sinal para que ele se apressasse, ao mesmo tempo em que mantinha a frente da casa sob vigilância. Ela se perguntava que estratégia a ex-agente federal utilizaria. Os vizinhos haviam acordado, as luzes das casas ao redor estavam todas acesas. A polícia não demoraria muito a chegar.

Lydia precisava ser rápida.

Pavel conseguiu chegar até a pilha de lenha e rolou para junto de Lydia. Por um momento, ele ficou deitado de costas, respirando ruidosamente.

— Quebrei perna — ele falou com dificuldade.

— Logo cuidaremos disso — disse Lydia. — Onde está a arma?

— Caiu.

Bem, pensou Lydia, pelo menos seria impossível de rastrear.

— Tenho uma sobressalente — disse ela. — Fique de olho e me avise se perceber algum movimento.

Pavel assentiu e olhou na direção do quintal lateral da casa.

— Está vendo alguma coisa? — perguntou Lydia, chegando mais perto.

— Não.

Enquanto Pavel olhava, Lydia pressionou o cano do revólver logo abaixo da orelha esquerda dele. Sem vacilar, ela apertou o gatilho, disparando dois tiros na cabeça de Pavel, que desabou no chão feito uma marionete cujas cordas tinham sido cortadas.

Lydia olhou para ele, refletindo que talvez tivesse sido melhor assim, afinal. O plano B talvez fosse melhor do que o plano A. Se Pavel tivesse matado a mulher, uma ex-agente do FBI, a coisa não teria terminado aí. Com certeza a polícia redobraria as buscas para encontrar o misterioso homem de camisa de flanela xadrez. As investigações seriam ainda mais acirradas. Não haveria um desfecho tão rápido. Mas, com Pavel morto, alvejado pela mesma arma usada na cena do primeiro crime na casa dos Seidman, a polícia chegaria à conclusão de que Seidman, ou Rachel, ou ambos estavam por trás de tudo, e eles seriam detidos. Até que ficasse provada a inocência deles, ela e Heshy teriam tempo mais que suficiente para desaparecer com o dinheiro.

Caso encerrado.

De repente Lydia escutou o som de pneus cantando. Ela atirou a arma para o quintal da casa vizinha. Isso retardaria a perseguição, se fosse o caso. Rapidamente, examinou os bolsos de Pavel, mas a única coisa que encontrou foram os maços de notas que ela lhe dera pouco antes. Lydia não pegou o dinheiro. Isso reforçaria a culpa de Pavel e concentraria ainda mais as suspeitas sobre ele.

Além do dinheiro, não havia mais nada nos bolsos de Pavel, nenhuma carteira, nenhum papel, nenhuma identificação. Nada que pudesse associá-lo a mais alguém.

Outras luzes se acenderam nas janelas das casas vizinhas. O tempo de Lydia estava se esgotando. Ela se pôs de pé, e uma voz de mulher gritou:

— Polícia federal! Largue sua arma!

Maldição! Lydia atirou na direção da voz com a arma sobressalente, de detrás da pilha de lenha. Uma rajada de tiros cortou o ar.

Ela fora localizada. E agora? Sem sair do esconderijo, esticou o braço e soltou o ferrolho do portão dos fundos. Em seguida levantou-se e gritou:

— Tudo bem! Eu me rendo!

Então, apertando seguidamente o gatilho, ela atravessou o portão e saiu correndo. Os tiros sibilavam num fogo cruzado ensurdecedor. Lydia correu por cerca de cem metros, até o local onde Heshy a aguardava. Os dois se abaixaram e continuaram fugindo, agachados atrás de uma sebe recém-aparada. Heshy era muito bom naquilo. Ele estava sempre preparado para o pior. O carro estava escondido num beco escuro, a dois quarteirões dali.

Quando já se encontravam em segurança dentro do carro, Heshy perguntou:

— Você está bem?

— Estou ótima, Ursinho Pooh. — Lydia respirou fundo, fechou os olhos e se recostou no banco. — Estou ótima.

Foi somente depois que alcançaram a via expressa que Lydia se lembrou do celular de Pavel.

 

Eu, naturalmente, entrei em pânico. Meu primeiro impulso foi abrir a porta do carro e correr atrás de Rachel, mas meu cérebro reagiu a tempo e parei. Uma coisa era ser corajoso, ou até mesmo imprudente, outra coisa era ser suicida. Eu não estava armado, ao passo que Rachel e seu oponente, sim. Correr em socorro dela sem uma arma seria, no mínimo, inútil.

Por outro lado, eu não conseguiria simplesmente ficar ali de braços cruzados.

Tornei a fechar a porta do carro e pisei no acelerador. O carro deu um solavanco para frente. Virei a direção e dei um cavalo de pau em pleno jardim de minha casa.

O tiroteio viera do quintal dos fundos, então posicionei o carro naquela direção.

Os faróis iluminaram a passagem lateral, e eu estercei o volante para a direita, na esperança de conseguir passar entre a parede e a árvore gigantesca que existia ali havia anos. Mas logo vi que seria impossível. O espaço era muito estreito e, se eu avançasse, o máximo que conseguiria seria ficar entalado ali. Então dei marcha à ré, cantando os pneus, e enveredei pela entrada lateral da casa vizinha. Os faróis iluminaram o gazebo recém-construído de Bill Christie e passei por cima dele.

Ele não vai me perdoar.

Alcancei o quintal dos fundos da casa dos Christie e direcionei os faróis para a grade baixa que dividia o terreno deles e o meu. Então avistei Rachel, de pé ao lado da pilha de lenha, com o revólver na mão, apontando para baixo. Deitado no chão, estava o homem de camisa xadrez. Não precisei abrir a janela do carro para ver a cena, pois em lugar do pára-brisa havia apenas um grande buraco. Não escutei nada, apenas silêncio. Rachel levantou a mão e acenou para mim, fazendo um sinal de que estava tudo bem. Saí do carro e corri na direção dela.

— Você atirou nele? — perguntei.

— Não.

O homem estava morto. Não era preciso ser médico para perceber isso. A parte posterior da cabeça fora esfacelada pela bala.

— Havia alguém com ele — disse Rachel. — A pessoa atirou nele e escapou por ali. — Rachel apontou para os fundos da casa.

Fiquei olhando para o infeliz, e a raiva borbulhou dentro de mim novamente.

— Quem é ele?

— Eu examinei todos os bolsos e não encontrei nenhuma identificação, apenas uma bolada de dinheiro.

Minha vontade era chutar o corpo do miserável, sacudi-lo, exigir que ele dissesse o que fizera com minha filha. Olhei para o rosto destroçado, e foi então que algo me chamou a atenção.

A boca do homem estava aberta. Eu me ajoelhei ao lado dele, sem me perturbar com a porção de massa encefálica exposta. Graças aos anos de experiência no trabalho, meu estômago desenvolvera resistência àquele tipo de coisa. Introduzi os dedos na boca do homem e afastei os dois maxilares.

— O que você está fazendo? — perguntou Rachel, perplexa.

— Você tem uma lanterna?

— Não.

Tudo bem. Levantei a cabeça do homem e virei-a na direção dos faróis do carro para iluminar o interior da boca. Consegui enxergar claramente.

— Marc, o que você está fazendo?

— Uma coisa que sempre me intrigou foi o fato de ele ter deixado que eu visse seu rosto — expliquei a Rachel, enquanto me debruçava sobre a boca do homem, tentando não bloquear a luz com minha cabeça. — Eles foram tão cautelosos em tudo... Disfarçaram a voz ao telefone, falsificaram as placas, tomaram todas as providências para despistar a polícia. E, no entanto, o sujeito apareceu na minha frente de cara lavada.

— Do que você está falando?

— Ele não se preocupou em se disfarçar, porque ele não tem identidade.

— Não estou entendendo o que...

— Os dentes dele.

— O que têm os dentes dele?

— Dê uma olhada nas coroas. São de metal. Lembra-se de que antigamente as pessoas usavam coroas de jaqueta de ouro? Pois bem, atualmente usa-se porcelana. Mas as deste homem aqui são de alumínio barato. Quando eu estava no exterior, observei este trabalho dentário em alguns pacientes. É bastante comum, especialmente nos países soviéticos. Mas aqui, nos Estados Unidos, nenhum dentista ou protético usa esse material.

Rachel se ajoelhou a meu lado, finalmente compreendendo.

— Quer dizer que ele é estrangeiro? Fiz um gesto afirmativo.

— Provavelmente da região dos Bálcãs.

— Faz sentido — disse Rachel. — Nesse caso, as impressões digitais dele não estão catalogadas na polícia americana. Ou seja, este homem não tem identidade. Não existe nenhum registro, nenhum arquivo que o identifique.

— Exatamente.

— Ou seja — prosseguiu ela —, será impossível a polícia saber quem ele é, a menos que quem estava com ele apareça.

— O que dificilmente irá acontecer.

— Meu Deus... Foi por isso que o mataram. Eles sabem que não há como levar as buscas adiante.

O som de sirenes cortou o silêncio da noite. Rachel e eu nos entreolhamos.

— Você tem de escolher, Marc. Se ficarmos aqui, seremos presos. A polícia vai pensar que ele era nosso cúmplice e que nós o matamos. Os vizinhos vão alegar que estava tudo calmo até chegarmos, quando então começou a confusão e o tiroteio. Não que seja impossível explicarmos o que aconteceu, mas isso levará algum tempo.

— Tem razão.

— E tem outra coisa — disse Rachel. — Os seqüestradores armaram esta cilada para nós. Isso significa que eles encontraram o rastreador dentro do dinheiro... o que me leva à seguinte pergunta: como eles ficaram sabendo que havia um rastreador no meio das notas?

Eu me lembrei do que dizia o bilhete de resgate.

— Você acha que havia, de fato, um informante infiltrado?

— Eu não descartaria essa possibilidade.

Rachel e eu saímos correndo na direção do carro. Antes de entrarmos, olhei para ela.

— Se nós fugirmos agora, a polícia não poderá interpretar isso como mais uma prova de que somos culpados? Por mim tudo bem, não tenho nada a perder. Mas e você?

— Eu também não tenho nada a perder — retrucou Rachel. Sem mais uma palavra, entramos no carro de Zia, e manobrei para sair pelos fundos.

— Que coisa inacreditável... — murmurei, enquanto nos afastávamos velozmente pela Rua Woodland. — Nós dois, fugindo da polícia, e nem sabemos por quê.

Rachel murmurou em assentimento.

— Afinal, eu só queria encontrar minha filha ou pelo menos descobrir o que tinha acontecido com ela. Havia uma chance.

— É verdade.

— Mas a caçada acabou, Rachel. O bandido morreu. Sabemos que ele é estrangeiro, mas e daí? Não fazemos a menor idéia de quem ele seja. Não temos mais nenhuma pista a seguir, todas as pontes caíram...

Olhei para Rachel e detectei certo ar de triunfo em seu semblante. Antes que eu perguntasse alguma coisa, ela enfiou a mão no bolso e me mostrou algo. Um telefone celular. Não era o de Zia, nem o dela.

— Nem todas — ela disse.

 

— Precisamos nos livrar deste carro o quanto antes — disse Rachel —, mas primeiro temos de decidir onde vamos nos esconder. Tem alguma sugestão?

— Na casa de Lenny e Cheryl — eu disse. — Eles moram a quatro quadras daqui.

Eram cinco horas da manhã. O negrume do céu começava a dar lugar a uma bruma acinzentada. Em poucos minutos, o dia amanheceria. Peguei o celular e liguei para a casa de Lenny. Ele atendeu ao primeiro toque.

— Estou numa enrascada — falei.

— Estou ouvindo sirenes.

— Elas são parte da enrascada.

— A polícia me ligou — disse Lenny. — Depois que você fugiu do hospital.

— Preciso de sua ajuda.

— Rachel está com você?

— Sim.

— O que está acontecendo, Marc?

— Apenas abra a porta para nós e espere — eu pedi. — Em um minuto estarei aí, e então explicarei tudo.

Lenny nos aguardava com a porta da garagem aberta. Assim que entramos, ele a fechou com o controle remoto. Ele parecia exausto, num conjunto de moletom cinza e chinelos, os cabelos em desalinho. Quando olhou para o rosto de Rachel, ele deu um passo para trás, horrorizado.

— O que aconteceu com você?

Em vez de responder, Rachel falou:

— Preciso acessar a internet.

— O computador fica no escritório — disse Lenny, apontando para dentro de casa. — Você conhece o caminho, fique à vontade.

Rachel entrou correndo, e eu fui atrás. Parei na cozinha, e ela seguiu em direção ao escritório.

— Poderia me dizer o que está acontecendo? — exigiu Lenny.

— Houve um tiroteio no quintal de minha casa. Em linhas gerais, contei a ele o que acontecera.

— Está me dizendo que você fugiu de uma cena de crime?

— Se eu tivesse ficado lá, o que teria acontecido? — perguntei.

— A polícia encontraria você.

— Exatamente.

Lenny balançou a cabeça.

— Eles já não suspeitam de você.

— Como assim?

— Eles acham que Rachel é a culpada.

Eu pisquei várias vezes, sem saber como reagir.

— Ela deu alguma explicação sobre as fotos?

— Ainda não. Espere aí, por que a polícia suspeita de Rachel?

Lenny discorreu rapidamente sobre a teoria da polícia, envolvendo ciúme, vingança e minha criptoamnésia dos momentos cruciais imediatamente anteriores ao tiro que quase me matara.

Eu estava atônito demais para falar. Quando recuperei a voz, tudo o que consegui dizer foi:

— Isso é loucura.

Lenny não respondeu.

— Aquele sujeito de camisa xadrez acabou de tentar nos matar!

— E o que aconteceu com ele, afinal?

— Eu já disse. Havia mais alguém com ele. Essa pessoa o matou, com um tiro na cabeça.

— Você viu a pessoa?

— Não. Rachel... — Então percebi aonde ele pretendia chegar. — Ora, Lenny, faça-me o favor!

— Eu quero saber sobre aquelas fotos, Marc

— Tudo bem. Vamos lá perguntar a ela, sim?

Quando saíamos da cozinha, Cheryl estava descendo a escada. Ela parou num degrau e ficou olhando para mim, com os braços cruzados. Até então, eu nunca tinha visto aquela expressão no rosto dela. Fiquei tão chocado que parei de andar.

— Deixe que eu cuido de tudo — disse Lenny, olhando para Cheryl. — É melhor você voltar para cima.

Ela não disse nada e nós prosseguimos até o escritório. Como de costume, havia caixas de DVD de desenhos de Walt Disney, bonecos Pokemon e outros brinquedos espalhados por toda parte. O jogo de Monopólio estava montado bem no centro do tapete, com o aviso "Favor não mexer em nada!" escrito em uma folha de papel colocada sobre o tabuleiro.

Rachel estava sentada diante do computador, na escrivaninha, debruçada sobre o teclado. O sangue coagulara, grudando parte dos cabelos em sua orelha esquerda. Ela olhou rapidamente para nós e continuou a digitar. Em seguida sorriu e bateu numa tecla, acionando a impressora. Ela olhou para mim.

— Rachel, precisamos conversar — falei.

— Não — rebateu ela. — Precisamos sair daqui já. Acabei de encontrar uma pista importantíssima.

— Que pista é essa? — perguntei.

— Eu verifiquei a relação de chamadas no celular dele — disse Rachel.

— E?

— E não havia nada nas chamadas discadas. Mas nas chamadas recebidas, havia um número. Uma chamada, apenas, recebida à meia-noite. Acabei de consultar o número de origem. A ligação foi feita de um telefone residencial em Huntersville, Nova Jersey. A linha está em nome de Verne Dayton. Já localizei o endereço no site de mapas.

Fica perto da divisa com a Pensilvânia.

Um calafrio se originou em meu âmago e se espalhou para as extremidades do meu corpo. Virei-me para Lenny.

— Preciso que você me empreste seu carro.

— Espere um segundo — disse ele. — O que precisamos aqui é de algumas respostas.

Rachel se levantou.

— Você quer saber sobre as fotos.

— Antes de mais nada, sim.

— Sou eu mesma, nas fotos. Sim, eu fui até o hospital. O resto não é da sua conta. Se eu devo alguma explicação, é a Marc, não a você. O que mais?

Pela primeira vez, Lenny não sabia o que dizer.

— Você também quer saber se eu matei meu marido, é isso? — Rachel olhou para Cheryl, que entrava naquele instante. — Você acredita que matei Jerry?

— Eu já não sei mais no que acredito — disse Cheryl. — A única coisa que sei é que quero vocês dois fora daqui.

— Cheryl... — começou Lenny.

Cheryl lançou a ele um olhar tão fulminante que seria capaz de derrubar um rinoceronte.

— Eles não podiam trazer esse problema para dentro de nossa casa!

— Ele é nosso melhor amigo. É o padrinho de nosso filho.

— Mais um motivo para não arrastar o perigo até aqui, arriscar a vida de nossos filhos!

— Ora, Cheryl, que exagero...

— Não — interferi. — Cheryl tem razão. Precisamos sair daqui imediatamente. Me dê a chave do carro.

Rachel pegou a folha da impressora.

— É o mapa — ela explicou.

— Marc?

Voltei-me para Lenny.

— Não seria bom ligar para Tickner e Regan? — ele sugeriu.

— E dizer o que a eles?

— Eu me carrego de explicar tudo — disse Lenny. — Se Tara estiver aí, nesse lugar — Lenny gesticulou para o papel nas mãos de Rachel e fez um gesto negativo com a cabeça, como se a hipótese fosse absurda —, eles talvez precisem de reforços, de equipamento adicional...

Eu dei um passo à frente e o encarei.

— Eles descobriram a existência do rastreador.

— O quê?

— Os seqüestradores. Como, não sabemos. Mas descobriram. E tem mais, Lenny. No bilhete de pedido de resgate, eles diziam que tinham uma fonte de informações interna.

Na primeira vez, eles ficaram sabendo que eu havia comunicado à polícia. Na segunda vez, ficaram sabendo sobre o rastreador.

— Isso não prova nada.

— E você acha que tenho tempo para procurar provas?

Lenny não respondeu.

— Você sabe que não posso correr esse risco.

— Sim — concordou ele. — Eu sei.

Lenny enfiou a mão no bolso da calça de moletom, pegou a chave do carro e me entregou.

E, então, mais uma vez, Rachel e eu nos pusemos a caminho.

 

Assim que Tickner e Regan receberam o telefonema, informando sobre o tiroteio na casa de Seidman, eles entraram em ação. Estavam saindo do elevador quando o celular de Tickner tocou. Uma voz de mulher, formal e inexpressiva, disse:

— Agente Especial Tickner?

— Ele.

— Aqui fala a Agente Especial Claudia Fisher.

Tickner a conhecia de nome. Talvez até já a tivesse visto uma ou duas vezes.

— Diga — pediu ele.

— Onde você está?

— Estou saindo do Hospital Presbiteriano de Nova York, a caminho de Nova Jersey.

— Não — disse ela. — Por favor, venha para o One Federal Plaza imediatamente.

Tickner consultou o relógio. Eram cinco horas da manhã.

— Agora?

— Sim. Imediatamente significa agora, sim.

— Posso saber do que se trata?

— O diretor assistente encarregado, Joseph Pistillo, o aguarda. Ele espera sua presença aqui, no máximo em meia hora.

O telefone ficou mudo. Tickner desligou.

— O que foi? — quis saber Regan.

— Preciso ir.

— Aonde?

— Meu chefe quer falar comigo.

— Agora?

—Já. — Tickner apertou o passo em direção à saída — Ligue para mim se houver alguma novidade.

 

— Não é fácil falar sobre isso — disse Rachel.

Eu estava dirigindo. As perguntas não respondidas se acumulavam e começavam a pesar sobre nós, sugando nossa energia. Mantive o olhar fixo na estrada à minha frente e esperei.

— Lenny estava com você quando viu as fotos? — ela perguntou.

— Sim.

— Ele ficou surpreso?

— Olhou para mim com aquela cara que você conhece bem.

Rachel desviou o olhar para fora.

— Cheryl provavelmente não ficaria surpresa.

— Por quê?

— Quando você pediu a ela o número de meu telefone, ela me ligou para me advertir.

— Sobre o quê?

— Sobre nós dois.

— Ela advertiu a mim também.

— Quando Jerry morreu... Jerry era meu marido... bem, quando ele morreu, foi uma época muito difícil para mim.

— Entendo.

— Não — disse Rachel. — Não nesse sentido que está pensando. O nosso relacionamento não estava bem. Na verdade, não sei se algum dia esteve. Quando fui para Quântico para fazer meu treinamento, Jerry era um dos instrutores. Mais que isso, ele era uma espécie de mito. Um dos melhores agentes que o FBI já teve. Você se lembra do caso KillRoy, alguns anos atrás?

— Aquele assassino em série?

— Exato. Jerry foi responsável pela captura dele. Ele tinha um dos melhores históricos no departamento. Comigo... não sei exatamente o que aconteceu. Talvez saiba. Ele era bem mais velho quase uma figura paterna. Eu adorava o FBI. E Jerry era apaixonado por mim, o que elevou meu ego às alturas. Mas não sei se, de fato cheguei a amá-lo.

Rachel fez uma pausa, então prosseguiu:

— Quando ele morreu, perdi o apoio que representava. Fui forçada a pedir demissão. Tudo o que eu tinha, meus amigos, meu trabalho, minha vida, estava no departamento. E de repente eu não tinha mais nada. Comecei a beber. Cheguei ao fundo do poço. E quando você chega ao fundo do poço, começa a procurar desesperadamente uma maneira de voltar. Qualquer coisa a que você possa se agarrar.

Rachel tomou fôlego.

— Numa noite, em que eu tinha bebido um pouco demais, liguei para sua casa.

Eu me lembrei do comentário de Regan sobre o registro de um telefonema de Rachel para mim.

— Quando foi isso?

— Pouco tempo antes do ataque. Uns dois meses, talvez.

— Foi Mônica quem atendeu?

— Não. Caiu na secretária eletrônica. Eu sei que parece uma idiotice, mas... deixei um recado para você.

— Como foi esse recado? O que você disse, exatamente?

— Eu não me lembro direito. Eu estava bêbada. Estava chorando. Mas eu disse qualquer coisa do tipo que estava com saudade de você, que queria que ligasse para mim. Não muito mais que isso.

— Nunca recebi esse recado.

— Agora sei que foi isso que aconteceu. Alguma coisa estalou em minha mente.

— Isso significa que Mônica pegou o recado — falei. Pouco tempo antes do ataque. Uns dois meses, talvez, pensei.

Justamente quando o comportamento de Mônica começara a mudar, quando ela começou a se sentir insegura; justamente quando passávamos por problemas sérios. Aquilo desencadeou outras lembranças, como a freqüência com que Mônica chorava de noite e o modo pelo qual Edgar me dissera que ela estava se consultando com um psiquiatra.

E eu, sem suspeitar de nada, continuava a levá-la para a casa de Lenny e Cheryl, submetendo-a à visão daquela fotografia onde eu aparecia com uma ex-namorada, a mesma ex-namorada que havia ligado para mim, tarde da noite, chorando e dizendo que sentia saudade de mim.

— Meu Deus — murmurei. — Não admira que Mônica tenha contratado um detetive particular. Ela queria saber se eu a estava traindo. Com toda a certeza ela contou a ele sobre esse telefonema, sobre nosso passado.

Rachel não disse nada.

— Você ainda não respondeu à minha pergunta, Rachel. O que você estava fazendo na frente do hospital?

— Eu fui a Nova Jersey para visitar minha mãe — começou ela. — Eu contei a você que ela está vivendo numa casa de repouso em West Orange.

— Sim. Mas ela estava internada no hospital?

— Não. — Rachel fez outra pausa, respirou fundo e disse: — Meu marido estava morto. Eu estava sem emprego, havia perdido tudo. Falava com Cheryl com freqüência e deduzi, pelas coisas que ela dizia, que seu casamento estava em crise... — Virou-se para me encarar. — Marc, a coisa sempre ficou mal-resolvida entre nós... Para mim, no fundo, nenhum de nós havia esquecido o outro. Então, naquele dia, fui até o hospital com a intenção de falar com você. Não sei o que eu esperava. Não sei se eu tinha a ilusão de que me tomaria nos braços, sinceramente não sei. Só sei que, chegando lá, fiquei um longo tempo criando coragem para entrar. Acabei entrando e subi até o andar de seu consultório, mas no último instante perdi a coragem. E não foi por causa de Mônica ou de Tara. Quem dera, eu tivesse essa nobreza de espírito...

— Então por que foi?

— Eu recuei porque tive medo que me rejeitasse, e eu não sabia se conseguiria suportar isso.

Ficamos em silêncio. Eu não sabia o que dizer, não sabia nem mesmo o que estava sentindo naquele instante.

— Você ficou bravo? — perguntou Rachel.

— Não sei.

Continuamos em silêncio durante um longo tempo, até que eu falei:

— Vamos esquecer isso. Já passou, não tem mais importância. Tudo o que importa agora é encontrar Tara.

Olhei para Rachel e vi uma lágrima descer pelo rosto dela. No momento seguinte, avistamos a placa na estrada indicando que estávamos entrando no município de Huntersville.

Rachel se aprumou no banco e enxugou a lágrima com a mão.

— E é nisso que temos de nos concentrar — disse, olhando para frente.

 

O diretor-assistente encarregado, Joseph Pistillo, estava sentado à sua mesa, escrevendo. Era um homem corpulento, de peito largo, espadaúdo e calvo. Aparentava sessenta e poucos anos, na verdade já se aproximando dos setenta.

A agente especial Claudia Fisher acompanhou Tickner até a sala do diretor e fechou a porta ao sair. Tickner tirou os óculos escuros do rosto e aguardou em pé, com as mãos para trás, diante da mesa de seu superior. Não foi convidado a se sentar; não houve nenhum tipo de cumprimento, aperto de mão, saudação de boasvindas, nada.

Sem erguer os olhos do papel, Pistillo disse:

— Soube que anda fazendo perguntas sobre a morte trágica do agente especial Jerry Camp.

Tickner ficou tenso. As notícias corriam depressa! Fazia poucas horas que ele começara a investigar aquele assunto.

— Sim, senhor.

— Ele foi seu instrutor em Quântico, correto?

— Sim, senhor.

— Era um excelente mestre.

— Um dos melhores, senhor.

— O melhor, agente — corrigiu Pistillo.

— Sim, senhor.

— Suas indagações a respeito da morte dele — prosseguiu Pistillo — têm algo a ver com seu antigo relacionamento com o agente especial Camp?

— Não, senhor.

Pistillo parou de escrever, pôs a caneta de lado e cruzou as mãos enormes sobre o tampo da mesa.

— Então, qual a origem de seu interesse?

Tickner avaliou as possíveis implicações de sua resposta, as armadilhas e iscas que poderia conter.

— O nome da esposa dele está envolvido em um caso que estou investigando.

— Por acaso, seria o homicídio e seqüestro Seidman?

— Sim, senhor.

Pistillo franziu a testa.

— Acha que existe alguma conexão entre o tiro acidental que matou Jerry Camp e o seqüestro de Tara Seidman?

Cautela, pensou Tickner. Cautela.

— É uma possibilidade que preciso explorar.

— Não, agente Tickner, não é.

Tickner não disse nada.

— Se você conseguir provar o envolvimento de Rachel Mills no caso Seidman, faça-o. A morte de Camp não tem nada a ver com isso.

— As duas coisas podem estar relacionadas — arriscou Tickner.

— Não — retrucou Pistillo, num tom de voz carregado de convicção. — Não estão.

— Mas preciso averiguar...

— Agente Tickner...

— Sim, senhor?

— Eu já examinei o arquivo do começo ao fim. Mais que isso, participei pessoalmente da investigação da morte de Jerry Camp. Ele era meu amigo. Compreende?

Tickner não respondeu.

— Estou plenamente satisfeito com o laudo de que o tiro foi acidental. Isso significa que você, agente Tickner — Pistillo apontou um dedo para Tickner —, também está plenamente satisfeito. Fui claro?

Os dois homens se entreolharam.

Tickner não era tolo. Ele gostava de trabalhar para o departamento. Aspirava a subir vários degraus na carreira policial. Seria uma grande imprudência contrariar alguém com o poder de Pistillo.

Tickner foi o primeiro a desviar os olhos.

— Sim, senhor.

Pistillo relaxou e em seguida pegou outra vez a caneta.

— Tara Seidman está desaparecida há mais de um ano. Existe alguma prova de que ainda esteja viva?

— Não, senhor.

— Então, a investigação do caso não nos compete mais. — Pistillo voltou a escrever, deixando claro que o assunto estava encerrado. — Deixe por conta das autoridades locais.

 

Nós percorremos os cinco quilômetros seguintes, por seis estradas secundárias diferentes, sem encontrar uma única moradia ou carro.

Estávamos atravessando uma mata cerrada, até que começamos a subir a serra.

— Verifique por aqui, do lado esquerdo — disse Rachel.

Logo adiante avistei o portão, com uma caixa de correio. Reduzi a velocidade, procurando localizar a casa, uma construção, qualquer coisa, mas tudo o que eu via era um arvoredo cerrado.

— Continue em frente — avisou Rachel.

Certo. Nós não podíamos simplesmente chegar, parar o carro diante da entrada e nos anunciar. Parei num trecho recuado da estrada de terra, cerca de quatrocentos metros à frente, e desliguei o motor. Meu coração começou a bater mais depressa. Eram seis horas da manhã. O dia estava nascendo.

— Você sabe usar uma arma de fogo? — perguntou Rachel.

— Eu às vezes treinava tiro com um revólver de meu pai, no rancho.

Rachel pôs um revólver em minha mão. Fiquei olhando para ele como se tivesse acabado de descobrir um dedo extra. Rachel preparou a arma dela também.

— De onde veio isso?

— Do quintal da sua casa. Era do sujeito que morreu.

— Céus!

Uma pergunta me assaltou de súbito. Teria sido aquela a arma usada para matar Mônica? Ou para atirar em mim? Mas logo tratei de afastar aqueles pensamentos, pois era pura perda de tempo e, além do mais, Rachel já estava fora do carro. Desci também e a segui para dentro do matagal. Não havia nenhuma trilha, fomos abrindo caminho em meio à vegetação.

Rachel seguia na frente. Ela enfiara o revólver no cós da calça atrás das costas, mas preferi levar o meu na mão.

Seguimos na direção onde imaginávamos que ficasse a entrada de carros. Nós nos aproximamos do caminho de terra batida e nos orientamos por ele, avançando entre as folhagens.

De repente, Rachel parou e apontou para frente.

Havia uma estrutura, uma construção que mais parecia um celeiro do que uma casa. Continuamos avançando, agora mais lentamente e com maior cautela. Andávamos abaixados, procurando nos esconder atrás dos arbustos, sem fazer barulho, sem dizer uma palavra. Então ouvi um rádio, acho que era uma música country. Mais adiante, consegui enxergar melhor e ver que de fato a construção era um celeiro, parcialmente demolido. Ao lado havia outra estrutura, uma construção horizontal, uma espécie de continuação do celeiro, que parecia ser uma moradia simples.

Chegamos mais perto, na extremidade da mata, e nos escondemos atrás das árvores, à espreita. Havia uma clareira logo adiante, e nela um trator e um carro esporte branco, que me pareceu um Camaro antigo.

Do local onde estávamos até a construção, a distância era de pelo menos quinze metros de capim crescido, tão alto que chegava à altura dos joelhos.

Rachel pegou o revólver, o meu já estava na mão. Ela se abaixou e começou a avançar, rastejando no meio do capinzal. Fiz o mesmo. A música ficava mais alta à medida que nos aproximávamos.

De repente, Rachel parou. Eu a alcancei e parei ao lado dela.

— Tudo bem? — ela me perguntou baixinho.

Fiz que sim com a cabeça, mas na verdade estava exausto e dolorido, minha respiração estava ofegante, e Rachel percebeu.

— É possível que tenhamos de fazer alguma coisa quando chegarmos lá — sussurrou. — E preciso estar em plena forma para isso. Se você quiser, podemos esperar um pouco antes de prosseguir.

Fiz um gesto em negativa e continuei me arrastando para dentro do capim. Nada de esperar. Nós nos aproximamos mais, e eu já conseguia ver claramente o carro. Confirmei que era um Camaro.

Estávamos quase chegando à clareira quando um cachorro começou a latir. Ficamos paralisados.

Existem vários tipos de latido: o agudo do poodle; o acolhedor do golden retriever; o de advertência de um vira-lata e o gutural, sonoro e dilacerante, que faz seu sangue gelar.

O latido se encaixava na última categoria.

Eu não estava com medo do cachorro propriamente dito. Eu tinha uma arma e, embora a idéia de atirar num animal não me agradasse, eu o faria se fosse preciso para me defender. O que me aterrorizava era que o latido, é óbvio, seria ouvido pelo ocupante do celeiro. Então, esperamos, e pouco depois o cão parou de latir. Ficamos atentos à porta do anexo do celeiro. Eu não sabia ao certo o que faríamos se alguém aparecesse e nos visse ali espiando. Não podíamos simplesmente atirar, pois não fazíamos a menor idéia do que se passava. O fato de terem feito uma ligação da residência de Verne Dayton para o celular do homem que morrera não significava muita coisa. Nós ainda não sabíamos se Tara se encontrava naquele local ou não.

Na verdade, nós não sabíamos absolutamente nada.

Havia uma pilha de calotas na clareira. Os primeiros raios de sol incidiam sobre elas. Eu avistei, pela janela aberta do anexo, embalagens verdes dispostas numa prateleira. Alguma coisa naquilo captou minha atenção. Deixando a cautela de lado, comecei a me aproximar.

— Espere — sussurrou Rachel.

Mas eu não conseguia parar. Eu precisava examinar aquelas embalagens de perto. Eu não sabia por quê, mas precisava... Engatinhei até o trator e me escondi atrás dele para espiar mais uma vez as embalagens. Elas eram verdes, sim, mas agora eu conseguia enxergar outro detalhe: uma ilustração, de um bebê sorridente.

Fraldas.

Rachel havia me alcançado, e engoli em seco. Pacotes de fraldas descartáveis. Eram pacotes grandes, embalagens de tamanho econômico, do tipo que se compram em mercados atacadistas. Rachel também já tinha percebido, e pegou no meu braço, num gesto de silenciosa advertência para que eu mantivesse a calma.

Continuamos a rastejar pelo chão, e ela fez um sinal indicando que fôssemos até outra janela, na parede lateral do anexo. Fiz um gesto afirmativo em resposta e continuamos avançando, até que, de repente, senti um objeto frio encostar em minha nuca. Olhei de soslaio para Rachel e vi o cano de um rifle pressionando o pescoço dela também.

Então, uma voz ordenou:

— Joguem suas armas!

Era uma voz de homem. A mão direita de Rachel estava dobrada na frente do rosto dela, segurando o revólver. Ela o largou no chão, e eu fiz o mesmo. Então vi uma bota empoeirada chutar as duas armas para longe.

Era um homem com dois rifles, um em cada mão. Eu poderia tentar me desvincilhar. Não havia nada a fazer, mas talvez conseguisse algum movimento que libertasse Rachel.

Olhei para ela e vi que estava em pânico. Ela sabia o que eu estava pensando. De repente o cano do rifle pressionou minha nuca com força, empurrando meu rosto contra o solo de terra.

— Não se mexa — vociferou o homem. — Posso arrebentar os miolos de vocês dois agora mesmo.

Senti uma vertigem, mas minha cabeça ainda funcionava. Coloquei a arma no chão, à minha frente, e vi o homem dar um golpe em minha esperança.

 

Quem mandou vocês aqui? E para roubar o quê? Minhas armas? Minha mulher? Meus filhos? Hein?!

A menção da palavra filhos me surpreendeu e sacudiu alguma coisa em meu emocional, ao mesmo tempo que meu racional me dizia que Rachel e eu nos encontrávamos numa situação em que não havia escolhas a fazer. Eu não tinha mais nada a perder e, já que não havia mais esperança alguma, resolvi apelar.

— Meu nome é Marc Seidman. Há um ano e meio minha mulher foi assassinada e minha filha, seqüestrada.

— Do que você está falando?

— Por favor, deixe-me explicar...

— Ei... espere um pouco... — O homem fixou o olhar em mim. — Eu me lembro de você... estou reconhecendo sua fisionomia. Acho que vi você na televisão algumas vezes.

— Você levou um tiro e quase morreu, não foi? O que quer aqui?

— Quero encontrar minha filha — disse, já cansado.

— Por acaso acha que eu tenho alguma coisa a ver com tudo isso?

— Eu não sei.

Os olhos dele se abriram ainda mais.

— Poderia me explicar, por favor?

Contei-lhe toda a história, e à medida que eu falava, tudo parecia absurdo, até para meus ouvidos.

Verne ouvia atentamente. Eu concluí, dizendo:

— No final, conseguimos achar o celular do homem. Havia registro de uma chamada recebida. Uma só, feita do número de seu telefone.

Verne pensou um pouco.

— Como é o nome do sujeito?

— Não sabemos.

— Eu telefono para dezenas de pessoas, Marc

— A chamada para o celular dele foi feita ontem, por volta de meia-noite.

— Não foi daqui.

— Como assim?

— Eu não estava em casa ontem à noite. Estava na estrada, fazendo entregas. Cheguei de madrugada.

— Espere... quer dizer que não havia ninguém aqui ontem à noite?

Verne deu de ombros.

— Bem, minha mulher estava aqui, e meus filhos. Mas eles têm seis e três anos. Não acredito que algum dos dois fosse ligar para um telefone celular, à meia-noite.

E eu conheço Katarina. Ela não ligaria para o celular de um homem que ninguém sabe quem é.

— Katarina? — perguntei.

— É minha esposa. Ela é sérvia. Tem certeza de que a ligação foi feita do meu telefone?

Rachel, já a meu lado no sofá, pegou o celular, pressionou algumas teclas e mostrou o visor para Verne. Ele ficou visivelmente perplexo.

— Não estou entendendo...

— Importa-se se falarmos com sua esposa, caso ela saiba do que se trata?

Verne concordou imediatamente.

— Ela está na cidade com as crianças, foi ao supermercado. Não deve demorar.

Eu percebi que Verne estava bastante incomodado com a idéia de que a mulher pudesse ter ligado para a o celular de um desconhecido tarde da noite. Mas ele me parecia ser um homem sensato. Perguntou se aceitávamos alguma coisa para beber. De imediato, aceitamos, aliviados. Ele foi até a cozinha e voltou em seguida com uma jarra de suco de fruta gelado para Rachel e uma cerveja para mim. Depois Verne me perguntou se eu gostaria de ver sua coleção de armas. Eu disse que sim e ele orgulhosamente me mostrou as peças, guardadas num armário com portas de vidro, fazendo questão de me explicar que os filhos dele haviam sido ensinados desde que começaram a engatinhar que aquilo era uma preciosidade do pai deles e que em momento algum poderiam mexer. De qualquer forma, Verne me garantiu que o armário permanecia trancado e que obviamente as armas estavam todas descarregadas.

— Sabe como é... por mais que os meninos sejam obedientes, não se pode confiar. Eu sou muito cuidadoso com isso. Mas os garotos estão acostumados a ver estas peças aqui desde que nasceram e nunca tiveram curiosidade de chegar perto.

Estávamos voltando para a sala de estar quando ouvimos um carro chegar. Verne foi até a janela e anunciou, com um sorriso triste no rosto, que sua família havia chegado.

Eu ouvi a voz de Katarina falando carinhosamente com os filhos e a algazarra dos dois lá fora, correndo e gritando. Verne foi receber a mulher na varanda, e eu o escutei saudar as crianças, que retribuíram com um Oi, papai! sem parar de correr um atrás do outro.

Verne entrou de volta na sala com um braço sobre os ombros da mulher.

— Marc, Rachel, esta é minha esposa, Kat.

Ela era linda. Os cabelos lisos e longos caíam soltos até o meio das costas e o vestido de verão amarelo deixava à mostra os ombros perfeitos. A pele dela era alva, os olhos azuis. Mesmo que Verne não tivesse comentado, via-se claramente que ela era estrangeira. Não parecia ter mais de vinte e cinco anos.

Rachel e eu nos levantamos para cumprimentá-la.

— Olá — eu disse, apertando a mão dela.

Os modos de Katarina eram cordiais, porém frios. Não havia calor em seu sorriso, era como se ela estivesse se esforçando para ser simpática. Ela se deteve por alguns segundos observando Rachel, o que era compreensível; a aparência de Rachel era chocante, com o rosto todo machucado.

Ainda com um sorriso, Katarina virou-se para Verne, com uma indagação no olhar.

— Estou tentando ajudá-los — disse ele.

— Ajudar? — Katarina repetiu, e a simples palavra foi suficiente para denotar o sotaque estrangeiro.

— Este senhor — Verne gesticulou em minha direção — está procurando a filhinha, que foi seqüestrada. A mulher dele foi assassinada.

Katarina cobriu a boca com a mão, horrorizada. Em seguida, Verne olhou para Rachel e inclinou a cabeça, encorajando-a perguntar o que quisesse.

— Sra. Dayton — começou ela —, a senhora fez um telefonema ontem à noite?

A cabeça de Katarina se moveu abruptamente, como se ela tivesse tomado um susto. Ela olhou para mim como se eu fosse uma aberração de um circo de horrores e novamente para Rachel.

— Não entendo.

— Foi registrada uma ligação — explicou Rachel — do telefone desta residência para um aparelho celular, ontem por volta de meia-noite.

— Não pode ser... Há algum engano. — Os olhos de Katarina se moviam nervosamente, tentando esquivar-se aos de Verne. — Oh, só se... Espere, acho já sei o que aconteceu.

Ficamos em silêncio, esperando que ela continuasse.

— Telefone tocou, ontem à noite, bem tarde. Eu já estava dormindo. Achei que fosse você, Verne... Então me levantei para atender. Mas disse alô, alô e parece não ter ninguém na linha. Então lembrei que mostrou na TV, você disca asterisco, seis, nove... e chama o número que ligou. Eu fiz isso, e uma voz de homem respondeu, só que não era meu marido. Então desliguei.

Katarina ficou olhando para nós, em expectativa. Rachel e eu nos entreolhamos, e em seguida olhei para Verne, que parecia ansioso e preocupado. Ele passou uma mão pelos cabelos e indicou novamente o sofá:

— Por favor, vamos nos sentar...

Katarina começou a se afastar em direção à cozinha, mas Verne a deteve.

— Por favor, sente-se aqui, Kat — disse ele, em tom autoritário, enquanto puxava uma cadeira.

Ela hesitou por um instante e depois obedeceu, sentando-se com as costas eretas, visivelmente pouco à vontade. Verne ocupou a cadeira ao lado dela e fitou-a.

— Ouça — começou ele.

Katarina inclinou a cabeça em silêncio. Os meninos continuavam brincando lá fora, as vozes infantis e inocentes criando um estranho contraste com a atmosfera tensa que pairava na sala.

— Você sabe o quanto amamos nossos filhos, não sabe? Katarina moveu a cabeça afirmativamente, e eu vi medo nos olhos dela.

— Tente imaginar como você ficaria, como nós dois ficaríamos, se um dos meninos desaparecesse. Imagine que Verne Jr., ou Perry, fosse seqüestrado, e ficássemos um ano e meio sem notícias, sem saber onde ele está, com quem está, ou se está vivo ou morto. — Verne fez um sinal em minha direção. — É exatamente isso que está acontecendo com este homem... A filhinha dele foi seqüestrada há um ano e meio, e até agora ele não sabe para onde a levaram, nem o que aconteceu com ela.

Os olhos de Katarina brilharam com lágrimas, — Se pudermos fazer alguma coisa para ajudá-lo, Kat, é o que vamos fazer. Qualquer informação, qualquer coisa, não importa o quê, mesmo que seja um segredo seu.

Posso perdoar qualquer coisa que você tenha feito, querida. Neste momento, é nossa obrigação ajudar este pai. Se não ajudá-lo, não poderei perdoá-la.

Ela baixou a cabeça e não disse nada. Rachel teve uma intuição.

— Katarina... se você está tentando proteger o homem para quem você telefonou, não se preocupe. Ele está morto. Foi baleado poucas horas depois que você falou com ele.

Os olhos de Katarina continuaram abaixados. Eu me levantei e comecei a andar pelo aposento. Do lado de fora, mais risos e gritos infantis. Fui até a janela e espiei para fora. Verne Jr., o garoto que aparentava ter uns seis anos, gritou:

— Perry... Prepare-se, que lá vou eu!

Não seria muito difícil achar o menino escondido. Eu não conseguia vê-lo, mas o riso dele vinha de detrás do Camaro. Verne Jr. fingiu procurar ao redor, mas logo se esgueirou furtivamente, contornando o carro. Chegando ao outro lado, gritou, triunfante, e escutei o riso alto e nervoso do garoto menor, que em seguida desatou a correr do irmão. Quando vi o rosto do menino, senti como se um violento tremor abalasse o chão onde eu pisava. Porque, imagine só, reconheci Perry.

Ele era o garotinho que estava no carro, na noite anterior.

 

Tickner estacionou em frente à casa de Seidman. A polícia ainda não colocara a fita amarela de isolamento, mas ele contou seis viaturas e duas vans de reportagem.

Ele hesitou por um momento, com receio de ser pego por alguma câmera; Pistillo deixara bem claro que ele não tinha mais nada a ver com aquilo. De todo modo, caso o chefe o visse na cena do crime em algum noticiário de TV, ele simplesmente diria a verdade, que fora até lá para comunicar à polícia local que estava se retirando do caso.

Tickner encontrou Regan no quintal dos fundos, perto do local onde estava o cadáver.

— Quem é? — ele perguntou.

— Não há nenhum documento de identidade — disse Regan. — Vamos recolher as impressões digitais e ver se conseguimos identificar o sujeito.

Os dois policiais ficaram olhando para o homem morto, por um momento.

— Combina com o retrato falado que Seidman nos deu, no ano passado — observou Tickner.

— Sim.

— O que será que isso significa?

Regan deu de ombros.

— O que você conseguiu descobrir até o momento?

— Os vizinhos acordaram de madrugada com o som de tiros, e em seguida ouviram um carro cantando os pneus. Viram um BMW Mini subindo no gramado, o motorista acelerava, freava, manobrava o carro para frente e para trás de maneira brusca, agressiva. Depois ouviram mais tiros. Mais de uma pessoa declarou ter reconhecido claramente Marc Seidmanm e um vizinho tem quase certeza de ter visto uma mulher perto dele.

— Provavelmente Rachel Mills — deduziu Tickner. Ele ergueu o rosto para o céu claro da manhã. — O que tudo isso significa?

— É possível que a vítima trabalhasse para Rachel, e ela o tenha silenciado.

— Na frente de Seidman?

Regan deu de ombros novamente e acrescentou:

— Aquela médica, sócia de Seidman, tem um BMW Mini. Zia Leroux.

— Acha que ela o ajudou a sair do hospital?

— Acho que sim. Os dois devem ter trocado de carro. Tickner suspirou.

— Bem, vim até aqui para comunicar que não estou mais cuidando do caso Seidman — informou ele. — Não somente eu, mas o FBI. Se vocês obtiverem alguma prova de que a criança está viva...

— ...o que nós dois sabemos que não...

— ...ou que ela foi levada para fora do país, reassumiremos as investigações. Mas, até lá, o caso deixou de ser prioridade para o departamento.

Regan meneou a cabeça lentamente.

— O que seu chefe queria, afinal?

— Comunicar o que acabei de lhe dizer. Que o FBI está fora do caso.

— Hum. Algo mais?

Tickner deu de ombros.

— O tiro que matou o agente federal Jerry Camp foi acidental.

— Sua chefia chamou você ao escritório às cinco e pouco da manhã para dizer isso?

— Exato. E também para contar que ele participou pessoalmente das investigações da morte de Camp. Os dois eram amigos.

— Isso quer dizer que Rachel Mills tem amigos poderosos e influentes?

— De jeito nenhum. Se você obtiver alguma evidência da participação dela no homicídio ou no seqüestro Seidman, vá em frente.

— Mas sem envolver a morte de Jerry Camp...

— Exatamente.

Um dos policiais veio avisar que encontraram uma arma no quintal da casa vizinha e que havia indícios de que fora usada poucas horas antes.

— Que conveniente — murmurou Regan.

— Muito — concordou Tickner.

— Alguma idéia?

— Nenhuma. — Tickner balançou a cabeça e fitou Regan. — O caso é todo seu, amigo. Boa sorte.

— Obrigado. — Ei, escute...

Tickner, que já se afastava, virou-se para trás. Regan olhou para o revólver, que tinha sido colocado num invólucro, e em seguida olhou para o corpo a seus pés.

— Nós ainda não fazemos a menor idéia do que aconteceu aqui, certo?

— Absolutamente nenhuma — respondeu Tickner. Com um aceno breve, ele voltou para o carro e partiu.

 

Katarina estava sentada, retorcendo levemente as mãos.

— Ele morreu, mesmo?

— Sim — disse Rachel.

Verne estava de pé, com os braços cruzados e uma expressão contrariada no rosto. Ficou assim desde o instante em que eu dissera que Perry era a criança que estava no Honda Accord.

— Ele se chama... chamava Pavel — murmurou Katarina. — Era meu irmão.

Nós esperamos que ela continuasse.

— Ele não era boa coisa, isso eu tenho de dizer. Ele era cruel, mas a vida em Kosovo faz a pessoa assim. Mas... seqüestrar um bebê? — Katarina balançou a cabeça, como se a idéia fosse inconcebível. — Nós éramos bem pequenos quando nosso pai morreu. Minha mãe trabalhava, mas ganhava muito pouco. Éramos muito pobres. Pavel passava o dia na rua, mendigando e roubando. Tínhamos uma vida precária. Um dia, Pavel me disse que queria sair daquela vida. Ele disse que tinha pensado numa solução para mudarmos de vida.

Katarina olhou de soslaio para Verne, que a fitava com uma expressão pétrea. Percebi que Katarina estava transtornada e à beira das lágrimas.

— Verne, me perdoe por não ter lhe contado tudo... — pediu ela, com voz trêmula. — Eu não pensei que... Eu tive medo que...

— Deixe para lá, diga o que eles precisam saber, por favor — retrucou Verne, em tom severo.

Katarina voltou a olhar para mim e Rachel.

— Meu irmão disse que havia descoberto uma maneira para nos tirar daquela vida. Para isso, eu precisava ficar grávida. Se eu estivesse esperando um bebê, ele conseguiria me trazer para a América, e nós ganharíamos um bom dinheiro, pois aqui um bebê valia muito.

Eu não tinha certeza se escutara direito, mas a reação de Verne foi a confirmação de que eu não me enganara. Ele ouvia o relato da esposa com um ar amuado, o olhar perdido na distância, além da janela. Mas aquela última declaração o fez virar a cabeça abruptamente na direção dela, e o semblante dele assumiu uma expressão de pura incredulidade.

— Eles pagaram para você ter um bebê? — perguntei, horrorizado e incrédulo.

Katarina engoliu em seco, no esforço para não chorar.

— Sim, pagaram — ela disse.

— Santo Deus! — ouvi Verne dizer. — Você vendeu seu... filho?

— Sim, Verne. Acho que você não pode entender.

— Em meu país, os bebês são enviados para orfanatos terríveis. Os pais americanos querem muito adotar, mas é difícil e leva muito tempo. As vezes mais de um ano.

Enquanto isso o bebê vive em condições miseráveis. Os pais da criança têm de pagar para os oficiais do governo. O sistema é corrupto.

— Sei. Então você resolveu ter um bebê em prol do bem da humanidade? — provocou Verne.

Katarina olhou para ele e respondeu:

— Não. Fiz por mim mesma.

Verne começou a tremer. Rachel pôs uma mão sobre o joelho de Katarina, num gesto carinhoso.

— Então você veio para os Estados Unidos? — Rachel perguntou.

— Sim, vim com Pavel.

— E o que aconteceu?

— Nós fomos para um hotel de estrada. Uma mulher de cabelos brancos me visitava, para ver se eu estava bem, se estava me alimentando direito. Ela me deu dinheiro para comprar comida e vitaminas.

Rachel fez um gesto encorajador.

— Onde você deu à luz?

— Eu não sei. Um carro veio me buscar, uma van sem janelas. A senhora que cuidava de mim veio junto. Ela me ajudou a ter o bebê. Escutei o bebê chorar, então o levaram.

Não sei se era menino ou menina. Depois disso, eles me levaram de volta para o hotel. A mulher nos pagou, a mim e Pavel.

Eu estava petrificado. Rachel e eu nos entreolhamos, numa comunicação silenciosa, e ela incentivou Katarina a prosseguir com o relato.

— Eu gostei dos Estados Unidos, mas o dinheiro estava acabando. Três meses depois que dei à luz, conheci Verne. Contei a ele sobre minha vida em Kosovo, mas menti sobre as circunstâncias de minha vinda para cá.

— E Pavel? Para onde ele foi? — Rachel perguntou, tentando retomar o foco.

— Parece que ele voltava para Kosovo de vez em quando. Trazia mulheres de lá. Às vezes ele me procurava e me pedia dinheiro. Nada muito sério. Até ontem.

— O que aconteceu, ontem? — pediu Rachel.

— Ontem, no final da tarde, Pavel me ligou. Disse que viria até aqui para me pedir uma coisa. Eu disse que não queria, mas não podia negar um pedido dele.

Verne se irritou:

— Como não podia?

— Eu tinha medo de que ele contasse a verdade a você —. Katarina respondeu, limpando as lágrimas. — E rezei para que ele não contasse.

— O que aconteceu quando seu irmão chegou aqui? — Rachel voltou ao foco.

— Ele disse que levaria Perry com ele. Pedi que não tocasse nas crianças, mas ele ameaçou contar tudo a Verne. Pavel me bateu, pegou Perry e disse que voltaria em algumas horas. Foram as horas mais difíceis de minha vida.

Eu sabia do que ela estava falando. Verne se aproximou de Katarina, passou as mãos nos cabelos dela com uma ternura que invejei. Não sei se conseguiria.

— Katarina, precisamos de sua ajuda — Rachel continuou. — Você sabe onde seu irmão estava morando?

— Pavel tinha acabado de chegar de Kosovo. Deve ter trazido alguma moça grávida.

— Você sabe onde elas ficam?

— Sim, no mesmo lugar que fiquei. Em Union City. Vocês querem falar com ela? Vão precisar de mim. Elas não falam inglês bem.

Ela olhou para Verne.

— Pode ir, cuidarei das crianças — ele a encorajou. Ficamos paralisados por alguns minutos. Precisávamos reunir forças.

Katarina fechou os olhos e respirou, aliviada, embora ainda tensa e abalada.

Cerca de dez minutos depois, Katarina, Rachel e eu partimos no Camaro branco.

 

Antes de deixarmos a casa de Verne, Rachel tomou uma chuveirada rápida, e improvisei um curativo com gaze e bandagens caseiras que Katarina pegou no armário do banheiro.

Katarina também emprestou um vestido para que Rachel pudesse trocar as roupas sujas de sangue e de terra. Era um vestido de verão, com estampa floral, um modelo simples, mas que caiu com perfeição em Rachel. Quando ela voltou para a sala, depois do banho, usando aquele vestido, com os cabelos úmidos, mesmo com os inchaços e hematomas no rosto, tive certeza de que nunca tinha visto uma mulher tão linda em minha vida.

Katarina quis se sentar no banco de trás e fizemos uma boa parte do trajeto em silêncio. Creio que estávamos, os três, liberando a tensão, descontraindo.

Por fim, Rachel olhou por sobre o ombro, sorriu para Katarina e me fitou.

— Retomando aquele assunto, Marc... — começou ela. Minha atenção estava ao mesmo tempo na estrada e no que Rachel dizia.

— ... eu não matei meu marido.

Ela não parecia se importar com a presença de Katarina. Nem eu.

— O laudo oficial foi de tiro acidental — falei.

— O laudo oficial é falso. — Rachel cruzou os braços e respirou fundo. — Jerry já tinha sido casado antes, e tinha dois filhos da primeira mulher. O mais novo, Derrick, tinha paralisia cerebral. A despesa que Jerry tinha com esse rapaz era descomunal. Ele fez um seguro de vida, para que não faltasse tratamento para o filho, caso alguma coisa lhe acontecesse. Mas Jerry era maníaco depressivo, e nosso casamento começou a desmoronar. De qualquer forma, nunca tivemos um relacionamento tranqüilo, como eu já disse. Quando Jerry parou de tomar o medicamento, ele piorou, e nosso relacionamento também. Então entrei com um pedido de divórcio. No dia em que recebeu a intimação para comparecer à audiência, ele se matou com um tiro na cabeça. Eu o encontrei, tombado sobre a mesa da cozinha. Perto dele havia um envelope pequeno, apenas com meu nome escrito. Reconheci a caligrafia dele e abri o envelope. Dentro havia uma folha de papel, com uma pequena mensagem de despedida que ele deixou para mim: Filha-da-puta.

Katarina colocou a mão sobre o ombro de Rachel, em sinal de solidariedade.

— Eu acho que Jerry fez de propósito — disse Rachel —, porque sabia o que eu teria de fazer.

— E o que era? — perguntei.

— O suicídio significava que o seguro de vida não seria pago. Derrick ficaria financeiramente desamparado. Eu não podia permitir que isso acontecesse. Chamei um ex-chefe meu, um amigo de Jerry, chamado Joseph Pistillo. Ele é um dos chefes no FBI. Ele foi até minha casa, levou um grupo de homens de confiança. Demos um jeito para que parecesse acidente. Para todos os efeitos, a versão oficial seria de que eu o havia confundido com um ladrão. A polícia local e a empresa de seguros foram pressionadas a assinar a papelada.

— Então, por que você pediu demissão? — perguntei.

— Porque alguns dos federais nunca acreditaram nessa história. Pensavam que eu estivesse tendo um caso com algum dos outros chefões. Pistillo não podia me proteger, pois ficaria mal para ele. Eu fiquei de mãos atadas. O FBI não é um lugar onde uma persona non grata possa permanecer por muito tempo.

Rachel recostou a cabeça no banco e olhou para fora. Eu não sabia exatamente o que depreender daquilo tudo. Eu gostaria de dizer alguma coisa reconfortante, mas não consegui pensar em nada. Então continuei guiando até que finalmente chegamos ao hotel em Union City.

Katarina foi até o balcão da recepção, fingindo que não falava inglês, gesticulando alucinadamente, até que o recepcionista, percebendo que seria a única maneira de se livrar dela, informou o número do quarto da única outra pessoa por ali que poderia entender o idioma.

O quarto da menina grávida era meio afastado. Eu me refiro a ela como menina porque era exatamente isso. Dizia que seu nome era Tatiana e que tinha dezesseis anos, mas eu poderia afirmar que era mais jovem. Tatiana tinha os olhos fundos de uma criança que acabou de ser tirada de um campo de refugiados, o que, provavelmente, era o caso.

Rachel e eu ficamos do lado de fora do quarto, enquanto Katarina conversava com Tatiana, que de fato não falava inglês. Deixamos que Katarina tomasse conta da situação.

As duas conversaram durante cerca de dez minutos, sentadas na cama estreita. Por fim, a menina abriu uma gaveta no móvel ao lado da cama e entregou a Katarina um pedaço de papel. Katarina deu um beijo no rosto dela e veio ao nosso encontro.

— Ela está apavorada — disse Katarina. — Não conhece nenhuma pessoa aqui, só Pavel. Diz que Pavel estava aqui ontem e antes de sair mandou que ela ficasse dentro do quarto, que não saísse antes de ele voltar.

Dei uma espiada para dentro do quarto e sorri para Tatiana, numa tentativa de transmitir segurança. Mas acho que falhei.

— E o que ela contou para você? — quis saber Rachel.

— Ela não sabe de nada, claro. Como eu não sabia. Só sabe que o bebê irá para uma casa de boa família.

— Que papel foi aquele que ela lhe deu? Katarina mostrou a folhinha de papel.

— É um número de telefone para onde ela deve ligar, em caso de emergência. Tem o número e um código, para digitar.

— É um pager — falei.

— Sim, deve ser. Olhei para Rachel.

— É possível rastrear o código?

— Duvido que consigamos. A coisa mais fácil é ter um pager com nome fictício.

— Bem, então vamos ligar. Katarina, você pode passar por Tatiana. Invente alguma coisa, diga que está sentindo dores, sangrando, qualquer coisa que justifique a vinda de alguém aqui.

— Calma! — interveio Rachel.

Eu me virei para ela.

— Precisamos atrair alguém até aqui.

— E depois?

— Como assim, e depois? Você os interroga. Não é esse seu trabalho, Rachel?

— Marc, não trabalho mais para o FBI. — Não tenho mais autoridade para interrogar ninguém e, mesmo que tivesse, não poderia simplesmente criar um chamariz, começar a interrogar a pessoa e exigir respostas. Pense bem, se você estivesse envolvido em um esquema ilegal, o que faria se de repente se visse bombardeado de perguntas, insinuações e acusações?

— Faria um acordo.

— Talvez, ou talvez exigisse a presença de um advogado.

— Se ela fizer isso, você sai correndo e deixa comigo, está bem?

— Marc, você não está falando a sério...

— Estou falando da vida de minha filha.

— Não, Marc. Agora estamos falando da vida de muitas crianças. Estamos falando de uma quadrilha de traficantes de bebês.

— Certo. E qual é sua sugestão?

— Mandar uma mensagem para eles, como você sugeriu. A própria Tatiana é quem deve falar, não Katarina.

— Mas por quê?

— Porque muito provavelmente a pessoa que vai ligar é a mesma que virá examiná-la, já que existe a dificuldade do idioma. E assim que ela chegar aqui, vai perceber que não foi com essa menina que ela falou. A pessoa perceberia o truque de imediato, e nós precisamos manter a farsa, para depois seguirmos a pessoa.

— Mas por que precisamos segui-la, se ela virá até aqui?

Rachel fechou os olhos e respirou fundo.

— Marc, pense bem. Se eles desconfiarem de que estamos de olho neles, como acha que vão reagir? Percebe que isto já deixou de ser uma questão pessoal? Estamos lidando com uma quadrilha!

— Tem razão — concordei.

Katarina explicou nosso plano a Tatiana, mas a garota não parecia disposta a cooperar. Estava apavorada, era evidente. Enquanto Katarina tentava convencê-la, a cabeça da menina não parava de se mover num movimento de negativa. O tempo estava passando, um tempo que estava contra nós. Entrei no quarto, peguei o papel das mãos de Katarina e disquei. Tatiana permaneceu imóvel.

— Você vai falar com eles — eu disse. Katarina traduziu em seguida.

Dois minutos de silêncio transcorreram. Quando o telefone tocou, não gostei da expressão que vi no rosto de Tatiana. Katarina inclinou-se para ela e falou, em tom exasperado. A menina cruzou os braços e se recusou a falar. O telefone já estava no terceiro toque. Tocou pela quarta vez. Peguei minha arma.

— Marc! — exclamou Rachel, atrás de mim.

Katarina gritou algo na língua delas. Olhei fundo nos olhos de Tatiana. Ela não reagia. Apontei a arma e atirei. A lâmpada explodiu e o som ecoou pelo quarto. Katarina e Rachel se protegeram no chão. Eu sei, era estúpido de minha parte, mas eu já não sabia se estava preocupado com a repercussão de meu ato.

Raquel puxou meu braço. Afastei-a de mim. Olhei para Katarina.

— Diga que se o telefone parar de tocar...

Não terminei a frase. Katarina disparou a falar. Segurei a arma, agora em minhas costas. Tatiana manteve o olhar. Comecei a suar e tremer. Percebi que a expressão da menina suavizara.

— Por favor — pedi.

No sexto toque a menina atendeu ao telefone e começou a falar.

Katarina assentia para mim, à medida que acompanhava a conversa. Rachel me encarou e eu a encarei de volta. Ela piscou primeiro.

Entramos os três no Camaro, eu manobrei e estacionei do outro lado da rua, num espaço livre em frente ao muro alto de um estacionamento anexo a um restaurante.

Não estávamos com disposição para conversar. Ficamos olhando para todos os lugares, procurando algum ponto de concentração, como desconhecidos num elevador. Eu, pelo menos, não sabia o que dizer. Nem mesmo sabia como me sentia. Tinha usado minha arma e ameaçado uma adolescente. As repercussões de meu ato, se houvesse, se juntavam e dissipavam como nuvens em formação de tempestade.

Liguei o rádio do carro, passando de uma estação para outra, esperando ouvir a voz de algum locutor dizer: "Interrompemos nossa programação para divulgar uma notícia de última hora...". E depois, quem sabe, alertar a população de que um homem, Marc, e duas mulheres, Katarina e Rachel, com determinadas características, estavam na cidade, armados, e que podiam ser perigosos.

Mas não disseram nada sobre tiroteio, nem procurados pela polícia. Rachel e eu estávamos sentados na frente, e Katarina se deitara no banco de trás. Rachel pegou a caneta rastreadora e se pôs a examiná-la. Eu ponderei a idéia de ligar para Lenny, mas o que eu diria a ele? Que eu havia ameaçado uma menor de idade, com uma arma ilegal, encontrada ao lado do corpo de um homem assassinado no quintal de minha casa? O advogado Lenny certamente não gostaria nem um pouco dos detalhes.

— Vocês acham que ela vai colaborar? — perguntei, rompendo o silêncio.

Rachel sacudiu os ombros. Tatiana havia prometido que faria o combinado, conforme Katarina a orientara. Não sei se poderíamos confiar nela plenamente, então Rachel havia deixado o celular ligado, conectado ao meu, escondido, para funcionar como escuta. Katarina já estava com o celular de Zia a postos, para ouvir a conversa e traduzir para nós.

Meia hora depois, um Lexus SC 430 dourado entrou no pátio de cascalho, ao lado do hotel, e estacionou. A porta do motorista se abriu e uma mulher desceu. Os cabelos dela eram curtos e brancos. Tinha um corpo bem-feito, evidenciado pelo conjunto de calça e blusa imaculadamente brancas e justas. A pele do rosto e dos braços era bronzeada de sol. Rachel e eu nos viramos para trás, com uma indagação silenciosa para Katarina, que meneou solenemente a cabeça, em sinal afirmativo.

— É ela — disse Katarina. — É a mesma mulher que fez meu parto.

Rachel voltou a mexer na caneta rastreadora.

— O que você está fazendo? — perguntei.

— Digitando o número da placa, para verificar de quem é o carro.

— Como consegue fazer isso? — indaguei.

— Não é difícil — explicou Rachel. — Uma das vantagens de trabalhar no FBI é que você acaba conhecendo pessoas que podem ajudar.

— Você consegue ficar on-line com essa caneta?

— Ela tem um dispositivo que funciona como modem sem fio. Tenho um amigo, Harold Fisher, que é gênio nesses aparelhos. Ele ficou revoltado com o modo pelo qual o pessoal do departamento me tratou. Então está sempre pronto a me ajudar.

A mulher de branco se debruçou para dentro do carro e pegou o que parecia ser uma maleta de médico. Em seguida colocou óculos escuros e correu para o quarto de Tatiana.

Virei-me para Katarina, que segurava o celular junto ao ouvido, no modo mute para bloquear a transmissão de voz do nosso lado.

—Tatiana está dizendo que melhorou... — informou Katarina. — A mulher está reclamando... Não gostou muito de ter sido chamada sem necessidade...

— Alguém mencionou algum nome? — perguntei. Katarina gesticulou em negativa.

— Ela disse que vai examinar Tatiana...

Rachel levou a caneta para mais perto do rosto e ficou olhando atentamente para o visor.

— Denise Vanech — disse ela, de repente. — Endereço, Avenida Riverview, 47, Ridgewood, Nova Jersey. Idade, 46. Não constam multas de trânsito.

— Já? — perguntei, estarrecido.

— Harold só precisou digitar o número da placa e pronto. Ele vai ver se consegue descobrir mais sobre ela. Mas, enquanto isso, vou pesquisar o nome dela no Google.

Olhei para Katarina, que escutava atentamente. Ela fez um sinal negativo com a mão, indicando que nada estava acontecendo.

— Será que a mulher está examinando Tatiana? — indaguei.

— Duas ocorrências no Google — anunciou Rachel. — Uma é da prefeitura de Bergen County... uma solicitação indeferida. A outra... deixe-me ver... — Rachel não tirava os olhos do visor. — Esta pode ser uma informação interessante...

— O que diz?

— O nome dela está numa lista de ex-formandas. Um grupo de ex-alunas está querendo promover um reencontro da turma da faculdade, e os nomes nesta lista são das ex-colegas que estão tentando localizar.

— De que faculdade?

— Escola de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade da Filadélfia.

Encaixava.

— Acabou a visita, elas estão se despedindo.

— Rápida — comentei.

— Muito.

— A mulher está dizendo para Tatiana se cuidar, se alimentar melhor... e para avisar se sentir alguma coisa...

Olhei para Rachel.

— Parece que o humor dela melhorou.

Rachel concordou com um gesto de cabeça. A mulher que, segundo havíamos concluído, era Denise Vanech, voltou para o pátio de estacionamento. O andar dela era insinuante, como se estivesse se exibindo a possíveis olhares masculinos. Notei que o tecido da blusa era ligeiramente transparente. Com movimentos seguros, entrou no carro e partiu.

Dei partida no Camaro e acelerei devagar, seguindo o Lexus a certa distância. Eu não estava muito preocupado com a possibilidade de perdê-la de vista, porque agora já sabíamos o endereço dela.

— Ainda não entendo como eles conseguem convencer essas moças a entregar os bebês — eu disse.

— Eles vão em busca de mulheres desesperadas. Prometem dinheiro e um lar estável e confortável para a criança — explicou Katarina.

— Mas é tão complicado adotar uma criança — observei. — Eu mesmo já acompanhei casos de crianças, no exterior, crianças deficientes que despertaram o interesse de casais, de pessoas que quiseram trazê-las para cá, e você não acredita na burocracia. É uma dificuldade tremenda, é quase impossível.

— Realmente, não sei dizer como essa parte funciona — disse Rachel.

Denise Vanech pegou a saída para Ridgewood, e eu fiz o mesmo. Em seguida, sinalizou para a direita, entrou num posto de gasolina e estacionou diante do restaurante anexo. Com receio de despertar as suspeitas dela, parei em frente a uma bomba e olhei para Rachel e para Katarina.

— E agora? — perguntei.

Houve uma breve hesitação, e então Rachel abriu a porta do carro.

— Ponha um pouco de gasolina, e depois estacione onde encontrar uma vaga. Esperem dentro do carro. Eu vou entrar lá, depois procuro vocês.

Denise Vanech tinha certeza de que Tatiana estava fingindo.

A garota se queixara de hemorragia, no entanto não havia uma única mancha de sangue, nem na roupa dela, nem no banheiro. Estava tudo limpo e em ordem, não havia nenhuma roupa suja amontoada num canto, lençóis tirados da cama, nada disso. Além do mais, o exame ginecológico não revelara nenhuma anormalidade. Não havia uma única gota de sangue, em parte alguma. Após examinar Tatiana, Denise fora ao banheiro lavar as mãos e reparou que o piso do box estava seco, sinal de que a menina não havia tomado banho há pouco. E quando ela falara com Tatiana pelo telefone, menos de uma hora antes, ela se queixara de que não parava de sangrar.

A garota mentira.

Para não falar no comportamento dela, totalmente atípico. As meninas chegavam à América aterrorizadas. Denise sabia muito bem como era, ela própria saíra da Iugoslávia quando tinha nove anos de idade, durante o relativamente pacífico governo de Tito. Para aquela garota, vindo de onde viera, os Estados Unidos eram como Marte. Mas a reação de Tatiana fora muito estranha. As meninas em geral viam Denise como uma espécie de parente distante, uma esperança, tábua de salvação. Mas Tatiana, não.

O tempo todo a garota evitara o olhar de Denise, disfarçava demais. E havia outro detalhe. Tatiana fora levada até ali por Pavel. Ele costumava ficar por perto, tomando conta, vigiando. Só que ela não vira sinal de Pavel. Denise ia perguntar sobre ele a Tatiana, mas decidiu não dizer nada e esperar para ver o que ia acontecer.

Se não houvesse nenhum problema com relação a isso, se estivesse tudo normal, a menina certamente tocaria no nome de Pavel.

Mas em nenhum momento Tatiana mencionou o nome dele.

Sem dúvida, havia algo muito errado ali.

Mas como Denise não queria levantar suspeitas, fez sua parte. Concluiu o exame, fez as recomendações de praxe e foi embora. Por trás dos óculos escuros, ela vasculhou os arredores, à procura de algum carro que pudesse ser de policiais à paisana, ou algo assim, mas não viu nada. Se bem que ela não tinha experiência nesse tipo de coisa. Fazia quase dez anos que trabalhava com Bacard, e nunca houvera nenhum tipo de problema. Talvez por isso mesmo ela tivesse se tornado confiante demais.

Assim que voltou para o carro, Denise pegou o celular, para ligar para Bacard. Mas logo se deteve, lembrando-se de que, se alguém a estivesse vigiando, seria muito fácil rastrear a ligação. Ligar de uma cabine pública seria ainda mais insensato, pois se ela estivesse sendo observada, a pessoa teria hora e local para solicitar o registro de chamadas. Então teve uma idéia quando viu a placa do restaurante, na área de um grande posto de gasolina, um local de bastante movimento, e onde ela sabia que havia um setor de telefones públicos com vários corredores de aparelhos. Ela poderia tentar ligar dali. Se fosse rápida, eles provavelmente não desconfiariam de que ela fora telefonar. Mesmo que desconfiassem, não teriam como saber qual telefone ela utilizara.

Não que fosse uma estratégia totalmente segura, pensou Denise, mas ela não tinha muita escolha. Se estivesse sendo observada, aquela era a atitude menos arriscada a tomar. Procurar Bacard pessoalmente estava fora de cogitação. Ligar para ele do telefone de sua casa também, pois, se alguém estivesse de olho nela, seu telefone seria o primeiro a ser grampeado. Portanto, ela teria mais chances de despistar possíveis espiões se usasse um dos telefones do restaurante.

Denise pegou um lenço de papel e usou-o para segurar o telefone pela ponta superior, num ângulo que ninguém costumava segurar. Preferiu fazer isso a simplesmente limpar as impressões digitais, pois com isso limparia não só suas impressões como todas as anteriores. Para que facilitar o trabalho da polícia, não é mesmo?

— Alô? — Steven Bacard atendeu.

A tensão na voz dele era evidente, e Denise se apavorou.

— Onde está Pavel? — perguntou ela.

— Denise?

— Eu.

— Por que está perguntando?

— Acabei de fazer uma visita à menina dele. Há algo errado.

— Oh — ele gemeu. — O que aconteceu?

— A garota enviou um recado de emergência. Eu liguei, e ela disse que estava com sangramento. Mas ela estava mentindo.

Silêncio.

— Steven?

— Vá para casa. Não fale com ninguém.

— Ok. — Através da parede de vidro, Denise viu um Camaro antigo parar diante de uma bomba de gasolina. Ela franziu a testa. Onde ela já vira aquele carro?

— Existe algum registro em sua casa? — indagou Bacard.

— Não, claro que não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Ótimo.

Uma mulher saiu de dentro do Camaro e caminhou em direção ao restaurante. Mesmo a distância, Denise viu que ela tinha um curativo no lado do rosto. Antes que a mulher se aproximasse, Denise desligou e saiu apressada para o toalete feminino.

 

Steven Bacard adorava assistir ao seriado Batman na televisão, quando era garoto. Todos os episódios, ele se lembrava muito bem, começavam do mesmo jeito. Acontecia um crime, o comissário Gordon e o chefe O'Hara eram convocados, os dois confabulavam, e por fim chegavam à conclusão de que só havia uma saída. O comissário Gordon acionava o batsinal, Batman atendia, prometia que ia entrar em ação, se voltava para Robin e anunciava: "Para o batplano!".

Ele olhava para o telefone com aquela sensação apavorante na boca do estômago. Não se tratava de nenhum herói que ele ia chamar. Muito pelo contrário, mas, afinal, tudo o que importava era sobreviver. Palavras bonitas e justificativas funcionavam em tempo de paz. Em tempo de guerra, em questões de vida ou morte, a coisa era mais simples: nós ou eles.

Bacard pegou o telefone e discou o número.

Lydia atendeu com voz doce.

— Alô, Steven.

— Vou precisar novamente da ajuda de vocês.

— Fechou o tempo?

— Bastante.

— Estamos a caminho.

 

Quando cheguei lá — contou Rachel —, ela estava no toalete. Mas desconfio de que ela foi telefonar para alguém antes.

— Por que você acha isso?

— Porque tinha fila no banheiro, e eu era a terceira pessoa atrás dela. Ela deveria estar bem mais à frente. E tem um setor de telefonia lá dentro, com dezenas de telefones.

— Existe alguma maneira de descobrirmos para quem ela ligou?

— A curto prazo, não. Claro que o FBI pode obter um relatório, mas é um trabalho que leva tempo, porque inúmeros telefonemas são feitos dali.

— Então, continuamos seguindo.

— É o jeito. — Rachel virou-se para trás. — Vocês têm algum mapa aqui no carro?

— Temos vários — respondeu Katarina com um sorriso. — Mapa é o que não falta aqui, Verne parece que faz coleção. Qual você quer? Mapa-múndi, dos Estados Unidos, do nosso estado, da nossa cidade...

— Tem um das principais estradas e vias de acesso à cidade? Katarina já vasculhava no compartimento atrás do banco do motorista e logo entregou um mapa dobrado a Rachel, que o abriu sobre as pernas, pegou uma caneta e começou a fazer pequenas marcações.

— O que você está fazendo? — perguntei.

— Não sei ao certo, ainda.

O celular tocou e eu atendi.

— Tudo sob controle?

— Sim, Verne, está tudo bem.

— Pedi à minha irmã para ficar um pouco com as crianças e estou indo ao encontro de vocês, com a picape. Onde vocês estão?

Eu disse que estávamos seguindo para Ridgewood. Verne conhecia bem a cidade.

— Estou a uns vinte minutos de lá — disse ele. — Encontro vocês no Ridgewood Coffee Company, em Wilsey Square.

— É possível que estejamos na casa da tal parteira — falei.

— Tudo bem, eu espero lá.

— Ok.

O Lexus virou para pegar a Avenida Linwood, e o segui, com o cuidado de manter uma distância razoável. Rachel continuava debruçada sobre o mapa, alternando a atenção entre a caneta rastreadora e as marcações que assinalava no mapa. Quando nos afastamos do centro da cidade, Denise Vanech virou à esquerda na Rua Waltherly.

— Ela está indo para casa, não resta dúvida — afirmou Rachel. — Deixe-a ir. Precisamos pensar um pouco.

Eu não acreditei no que ela estava dizendo.

— Como assim, precisamos pensar? Precisamos é encurralar essa mulher.

— Ainda não. Eu tenho um plano.

— Qual?

— Me dê apenas uns minutos.

Reduzi a velocidade e virei na Van Dien, perto do Valley Hospital. Rachel continuava concentrada em seus cálculos, e olhei para o relógio digital no painel do carro.

Verne já devia estar perto, então segui pela North Maple, em direção à Avenida Ridgewood. Logo adiante um carro saiu de uma vaga em frente a uma loja chamada Duxiana, e eu tratei de estacionar. A picape de Verne estava parada do outro lado da rua. Rachel saiu do carro levando consigo o mapa e a caneta rastreadora, sem interromper sua tarefa enquanto caminhávamos pela calçada. Verne já estava sondando o rapaz atrás do balcão, e nós nos sentamos a uma mesa.

— E então? — perguntou Verne.

Deixei que Katarina o pusesse a par de nossos movimentos mais recentes. Eu estava observando Rachel. Toda vez que eu começava a falar alguma coisa, ela levava um dedo aos lábios, pedindo silêncio. Insisti com Verne para que ele e Katarina voltassem para casa. Eles já haviam ajudado muito, não havia necessidade de continuarem além daquele ponto, e poderiam retornar para cuidar das crianças. Mas Verne recusou minha sugestão.

Eram quase dez horas da manhã. Eu não me sentia particularmente cansado. A falta de sono, mesmo quando por motivos mais banais, praticamente não me afeta. Acho que isso se deve ao período de residência médica, bem como às incontáveis noites passadas em claro, nos plantões hospitalares.

— Maravilha — disse Rachel.

— O que foi?

Sem desviar os olhos da caneta rastreadora, ela estendeu a mão para mim e pediu:

— Me empreste o celular.

— O que você vai fazer?

— Me empreste logo, depois eu explico.

Eu entreguei o celular, Rachel discou um número e se afastou até um canto da cafeteria. Katarina pediu licença para ir ao toalete, e logo depois Rachel voltou para a mesa.

Ela abriu o mapa sobre a mesa e mostrou as marcações que fizera.

— Ei, foi esse caminho que os seqüestradores fizeram ontem à noite — reconheci. — Quando os estávamos seguindo.

— Exatamente. Agora veja bem. Repare no percurso que eles fizeram. Para norte, depois para oeste, para o sul, outra vez para oeste, depois de volta para leste e para norte.

— Eles estavam querendo despistar — concluí.

— Claro — concordou Rachel. — E depois armaram uma cilada para nós. Mas pense numa coisa. Nossa teoria é de que alguém ligado à polícia os avisou sobre a existência do rastreador, certo?

— Sim...

— Pois é. Só que ninguém tinha conhecimento desse detalhe além de nós dois... isto é, pelo menos até você ir para o hospital. Isso significa que, durante boa parte do trajeto, não imaginavam que estavam sendo seguidos.

Eu não compreendia muito bem aonde ela queria chegar, mas assenti, concordando.

— Você paga sua conta de telefone pela internet? — perguntou Rachel.

A brusca mudança de assunto me confundiu ainda mais.

— Sim...

— Então, tem acesso à conta detalhada, não é? Você clica no link, digita a senha e pode ver a relação de todas as chamadas discadas e recebidas, não só da última conta como da situação atual, até o momento.

Assenti novamente com a cabeça.

— Pois bem, consegui dar uma olhada na conta telefônica de Denise Vanech. — Percebendo meu espanto, Rachel balançou a cabeça. — Como eu consegui, não importa neste momento. Se bem que seja muito fácil. O próprio Harold conseguiria, por meio de hacking, mas um pequeno agrado à pessoa certa é mais fácil. E com os dados disponíveis na internet, é mais rápido ainda.

— Quer dizer que Harold acessou a conta de Denise pela internet e enviou para você nesse aparelhinho aí?

— Sim. Bem, a Srta.. Vanech usa um bocado o telefone. Por isso demorei mais do que pretendia. Nós vasculhamos os números, pesquisamos nomes e endereços.

— E apareceu algum nome significativo?

— Não, um endereço. Eu queria confirmar se ela havia ligado para algum número localizado nesta rota que os seqüestradores fizeram.

Comecei a compreender.

— E presumo que a resposta seja positiva?

— Mais que positiva. Lembra-se de quando paramos no complexo empresarial Metrovista?

— Sim, claro.

— No período dos últimos trinta dias, Denise Vanech efetuou seis chamadas para o escritório de advocacia de um tal Steven Bacard. — Rachel apontou para o ponto no mapa onde estava situado o Metrovista.

— Um advogado?

— Harold vai tentar descobrir alguma coisa sobre ele, mas, independentemente disso, dei uma busca no Google e o nome Steven Bacard aparece em várias ocorrências.

— Em que contexto?

Rachel sorriu.

— A especialidade dele... é adoção de crianças.

— Santa madre de Deus! — exclamou Verne.

Eu me recostei na cadeira, tentando assimilar aquela informação. Sem dúvida, havia alguma coisa muito importante ali, mas eu ainda não conseguia captar o real significado.

Katarina voltou para a mesa e Verne contou a ela o que havíamos acabado de descobrir. Estávamos chegando perto. Eu sabia disso. Mas me sentia à deriva.

Meu celular, ou melhor, o celular de Zia, tocou. Verifiquei o número que estava chamando e vi que era Lenny. Por um momento fiquei indeciso se devia ou não atender, lembrando-me das recomendações de Zia de manter sigilo. Mas obviamente Lenny saberia dessa possibilidade, fora ele próprio que avisara Zia.

Eu atendi.

— Espere eu falar primeiro — Lenny foi dizendo antes mesmo que eu dissesse alô. — Para todos os efeitos, caso a ligação esteja sendo monitorada, isto é um assunto entre um advogado e seu cliente. Dessa forma estamos protegidos. Marc, não me diga onde você está. Não diga nada que possa me forçar a mentir. Entendeu?

— Sim.

— A missão de vocês foi frutífera? — indagou ele.

— Não da maneira como esperávamos. Pelo menos, ainda não. Mas estamos chegando perto.

— Há algo que eu possa fazer para ajudar?

— Não creio. — Então algo me ocorreu. — Ah, espere... Eu me lembrei que Lenny havia atuado como advogado nas ocorrências policiais de minha irmã, nas ocasiões em que ela foi detida. — Por acaso Stacy alguma vez comentou com você qualquer coisa sobre adoção?

— Não entendi.

— Alguma vez ela tocou no assunto de adoção de crianças, ou qualquer coisa parecida?

— Não. Isso tem algo a ver com o seqüestro?

— Talvez tenha.

— Eu não me lembro de nada. Olhe, esta nossa conversa pode estar sendo gravada, então vou lhe explicar por que liguei. Encontraram um cadáver no quintal de sua casa, um homem baleado duas vezes na cabeça. — Lenny sabia muito bem que eu tinha conhecimento desse fato, então imaginei que estivesse dizendo aquilo levando em conta que alguém pudesse estar ouvindo. — Ainda não identificaram o homem, mas localizaram a arma do crime no quintal dos Christie.

Aquilo não me surpreendia. Rachel já imaginara que eles tivessem plantado a arma por ali perto.

— O problema, Marc, é que a arma encontrada é sua, aquela que está desaparecida desde o dia do ataque à sua casa. Já fizeram o exame de balística. Você e Mônica foram atingidos por duas armas diferentes, lembra-se?

— Sim.

— Pois bem, essa arma, a sua arma, foi uma das duas usadas naquele dia.

Eu fechei os olhos e respirei fundo.

— Bem, vou desligar — disse Lenny. — Vou ver se consigo descobrir alguma coisa nos registros policiais de Stacy sobre essa história de adoção.

— Obrigado.

— Cuide-se.

Lenny desligou e contei a Rachel o que ele me dissera sobre a arma e o exame de balística. Ela pensou um pouco e depois falou:

— Então, isso quer dizer que Pavel e toda essa gente estão definitivamente envolvidos no primeiro ataque.

— Você ainda tinha alguma dúvida?

— Bem, não faz muitas horas, nós ainda admitíamos a possibilidade de tudo isso ser um embuste, esqueceu? Imaginamos que esses caras pudessem nos fazer acreditar que Tara estava com eles apenas para arrancar mais dinheiro de seu sogro. Mas agora está claro que não é nada disso. Esse pessoal participou efetivamente do ataque à sua casa, do assassinato de Mônica e do rapto de Tara.

A teoria de Rachel fazia sentido, mas ainda havia alguma coisa que não se encaixava.

— E, agora, qual é o próximo passo? — perguntei.

— O próximo passo é procurar esse advogado, Steven Bacard — disse Rachel. — O problema é que não sabemos se ele é o líder ou apenas mais um do bando. Até onde sabemos, Denise Vanech é a mentora, e ele trabalha para ela. Pode ser ainda que os dois trabalhem para uma terceira pessoa. E se chegarmos lá despreparados para confrontar Bacard, ele certamente vai nos embromar. Como advogado, vai saber nos enrolar. Não sejamos ingênuos a ponto de esperar que abra o jogo para nós.

— O que você sugere, então?

— Para ser franca, não sei... Talvez fosse o momento de chamar o FBI. Eles podem entrar no escritório de Bacard com um mandado de busca.

— Não, isso seria demorado demais.

— Podemos alegar urgência, pedir que agilizem.

— Suponhamos, para começo de conversa, que o FBI leve a sério nossa causa... Coisa que não tenho tanta esperança que aconteça... E que procurem agilizar o máximo possível... Quanto tempo levaria?

— Não sei dizer, Marc.

Aquela idéia não me agradava.

— Suponhamos que Denise Vanech esteja desconfiada. Suponhamos que Tatiana entre em pânico e ligue para ela novamente. Suponhamos que de fato exista um informante infiltrado. São muitas as variáveis, Rachel.

— Então, o que você propõe?

— Uma abordagem simultânea — falei, sem pensar. — Você vai até Denise, eu vou até Bacard. Ao mesmo tempo.

— Marc, ele é advogado. Não vai dizer nada para você.

Encarei Rachel em silêncio, e ela pareceu ler meu pensamento.

— Você vai ameaçá-lo? — perguntou ela.

— Estamos falando da vida de minha filha.

— E você está falando de fazer justiça com as próprias mãos. Isso não vai contar pontos a seu favor — Rachel me advertiu. — Do ponto de vista da lei...

— A lei não fez absolutamente nada para ajudar minha filha — revidei, tentando não gritar. Pelo canto do olho, vi Verne acenando com a cabeça, em sinal de apoio.

— A lei está ocupada demais perdendo tempo com você.

— Comigo? — Rachel se empertigou.

— Lenny me contou. Eles acham que você armou tudo. Sem mim. Acham que você estava obcecada em me conquistar de volta, ou algo assim.

— O quê?

Eu me levantei.

— Olhe, eu vou falar com o tal de Bacard. Se ele souber alguma coisa sobre minha filha, vou descobrir.

— Muito bem — apoiou Verne.

Perguntei a ele se podia pegar o Camaro emprestado, e ele disse que eu podia contar com ele. Achei que Rachel fosse discutir mais, mas não. É provável que soubesse que seria inútil, pois nada me faria mudar de idéia. Ou, então, estava chocada demais com a informação de que os antigos colegas se concentravam nela como a única suspeita.

— Eu vou com você — disse ela.

— Não — retruquei com veemência. Eu não fazia idéia do que encontraria ao chegar lá, mas sabia que boa coisa não era. — A idéia de uma abordagem simultânea continua me parecendo a opção ideal. Assim que eu chegar ao escritório de Bacard, ligo para você. Vamos encostar os dois na parede ao mesmo tempo, ele e Denise Vanech.

Sem dar tempo para Rachel protestar, entrei no Camaro e parti em direção ao centro empresarial Metrovista.

 

Lydia olhou ao redor. Ela se encontrava mais exposta do que gostaria, mas isso era inevitável. Estava usando uma peruca repicada, de um tom loiro quase branco, não muito diferente da descrição que Steven Bacard fizera de Denise Vanech Avançou e bateu na porta do quarto.

A cortina se moveu, e Lydia sorriu.

— Tatiana?

Não houve resposta.

Lydia fora informada de que Tatiana falava muito mal inglês. Ela refletira como agir com relação a isso. Ela e Heshy haviam seguido cada um para um lado. Ela fora até ali, e mais tarde eles se encontrariam.

— Está tudo bem, Tatiana — disse Lydia através da porta. — Estou aqui para ajudar você.

O silêncio continuou.

— Eu sou amiga de Pavel — arriscou ela. — Você conhece Pavel?

A cortina se moveu outra vez. Um rosto feminino apareceu por um breve momento, um rosto jovem e esquálido. Lydia acenou com a cabeça para ela, mas a moça não abriu a porta. Lydia esquadrinhou novamente os arredores. Não havia ninguém prestando atenção, mas ainda assim se sentia exposta demais. Aquilo tinha de terminar logo.

— Espere — disse Lydia.

Então, olhando para a cortina, pegou de dentro da bolsa um pedaço de papel e uma caneta. Rabiscou algumas palavras, certificando-se de que, se houvesse alguém observando, veria exatamente o que ela estava fazendo. Ela fechou a caneta, chegou mais perto da janela e segurou a folha de papel contra o vidro, para que Tatiana pudesse ler.

Foi como atrair um gatinho desconfiado de debaixo do sofá. Tatiana moveu-se devagar em direção à janela. Lydia ficou imóvel, para não assustá-la. Tatiana chegou mais perto, inclinando-se para frente.

Aqui, gatinha, vem, gatinha...

Lydia já podia ver o rosto da menina. Ela apertava os olhos, tentando ver o que estava escrito no papel.

Quando Tatiana chegou bastante perto, Lydia pressionou o cano da arma contra o vidro e mirou entre os olhos da menina. Tatiana ainda tentou se desviar, mas era tarde demais. A bala atravessou o vidro diretamente para dentro do olho direito de Tatiana. O sangue jorrou. Lydia atirou de novo, baixando a mira da arma e acertando o alto da testa de Tatiana, antes de seu corpo cair no chão. Mas a segunda bala foi desnecessária. O primeiro tiro, no olho, havia se introduzido no cérebro e matado a menina instantaneamente.

Lydia se afastou apressada. Arriscou um olhar por sobre o ombro, mas não havia ninguém por perto. Assim que chegou ao shopping center, arrancou a peruca e o casaco branco. Lydia encontrou seu carro estacionado a oitocentos metros de distância dali.

Liguei para Rachel quando cheguei ao Metrovista. Ela havia estacionado o carro na rua, a uma distância razoável da casa de Denise Vanech. Estávamos prontos para entrar em ação.

Não tenho certeza do que eu esperava que acontecesse. Talvez eu tivesse chegado a visualizar a mim mesmo irrompendo escritório de Bacard adentro, encostando o revólver no rosto dele e exigindo respostas. Mas, certamente, o que eu não havia previsto fora encontrar um escritório comum, semelhante a milhares de outros, com uma sala de espera bem arrumada, que inspirava confiança e decência.

Havia um casal sentado na sala de espera. O marido estava absorto na leitura de uma revista de esportes. A esposa era a imagem viva do sofrimento. Ela tentou sorrir para mim, mas parecia que o esforço era demasiado para ela.

Eu me dei conta de como minha aparência devia estar bizarra. Eu ainda estava usando a roupa cirúrgica, minha barba estava crescida. Meus olhos estavam injetados em decorrência das longas horas sem dormir, e meu cabelo urgentemente necessitado de um pente.

A recepcionista, que usava um crachá com o nome Agnes WEISS, sorriu para mim com doçura.

Pois não?

— Quero falar com o Dr. Bacard.

— O senhor tem hora marcada? — A voz ainda era doce, mas havia uma entonação retórica, agora. Ela já sabia a resposta.

— É uma emergência — eu disse.

— O senhor já é nosso cliente, senhor...

— Doutor — corrigi automaticamente. — Diga ao doutor Bacard que o doutor Marc Seidman precisa falar com ele imediatamente. Diga que é uma emergência.

O jovem casal olhava para nós. O sorriso simpático da recepcionista começou a oscilar.

— O Dr. Bacard não tem horário para hoje. — Ela abriu a agenda de couro. — Vou verificar para quando podemos agendar...

— Agnes, olhe para mim!

A moça obedeceu, e eu a encarei com expressão ameaçadora.

— Diga a seu patrão que o doutor Seidman se encontra aqui na recepção. Diga que se trata de uma emergência e que se ele não me receber agora, chamarei a polícia!

O jovem casal trocou um olhar ansioso.

Agnes se moveu desconfortavelmente na cadeira.

— O senhor não quer se sentar e aguardar...

— Vá falar com ele agora.

— Senhor, se não se acalmar, serei obrigada a chamar um segurança.

Eu dei um passo para trás, preparado para investir de novo a qualquer momento. Agnes não se moveu, e recuei um pouco mais. O casal olhava para mim, até que o rapaz disse:

— Ela está enrolando o senhor. E a nós também.

— Jack! — repreendeu a esposa. Mas o marido a ignorou.

— Faz uma hora que Bacard saiu daqui, e ela fica dizendo o tempo inteiro que ele não vai demorar, que já vai voltar num instante.

Reparei em uma das paredes da sala, recoberta de fotografias. Prestei mais atenção e percebi que o mesmo homem aparecia em todas elas, posando ao lado de figuras públicas, políticos, atletas e outras celebridades. Observei as feições alongadas, o queixo proeminente e bem barbeado, e deduzi que o homem fosse Steven Bacard.

Agradeci ao rapaz chamado Jack e me encaminhei para a porta. O consultório de Bacard ficava no primeiro andar de um dos blocos do complexo, e o conjunto dele era a primeira porta, logo no início do corredor. A poucos metros ficava o mezanino do primeiro andar, com vista para o saguão do andar térreo. Então decidi esperar ali fora, para pegá-lo desprevenido e em território neutro, antes que Agnes tivesse chance de avisá-lo.

Cinco minutos se passaram, enquanto eu observava o movimento de pessoas, executivos carregando pastas de trabalho e computadores portáteis. Permaneci no corredor, andando de um lado para o outro.

Um casal se aproximou pelo corredor e entrou no consultório de Bacard. A linguagem corporal deles denotava insegurança e apreensão. Enquanto os observava, imaginei passo a passo a jornada que os levara até ali. Eu os vi entrando na igreja, se casando, se beijando, fazendo amor pela manhã; vi a carreira deles começando a prosperar, vi os dois fazendo planos para o futuro, decidindo que chegara a hora de ter filhos; vi a euforia inicial, a esperança, seguida da frustração diante dos primeiros testes negativos; vi a preocupação lentamente se instalar no coração deles. Depois de um ano, nada. Todos os casais amigos já têm pelo menos um bebê, alguns já esperam o segundo, e não falam de outra coisa. Os pais começam a cobrar, a perguntar quando virá o neto. Eu os vi consultando um especialista, o desconforto da mulher se submetendo a um exame atrás do outro, os intermináveis questionários, as coletas de sangue e de urina. Mais um ano se passa. Os casais amigos se afastam. O sexo agora tem uma única finalidade: procriar. Ele é calculado e sempre permeado de tristeza e ansiedade. O casal já não troca carinhos, não se dão as mãos; ela revira insone na cama, à noite, esperando o período fértil. Vi os medicamentos empilhados no criado-mudo, a absurdamente cara fertilização in-vitro os telefonemas para justificar a ausência no trabalho, para sair mais cedo ou para chegar mais tarde, as incessantes consultas ao calendário, uma decepção atrás da outra.

E, agora, ali estavam eles.

Não, eu não sabia se realmente este era o caso deles, mas tinha uma forte suspeita de que era. Até que ponto, eu me perguntei, um casal seria capaz de chegar para pôr fim àquele tormento? Quanto eles estariam dispostos a desembolsar, que sacrifícios se dispunham a fazer?

— Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

Eu me virei na direção do grito. Lá embaixo, no térreo, um homem atravessou o saguão correndo.

— Ligue para a emergência! Eu desci as escadas correndo.

— O que aconteceu? — perguntei.

Escutei outro grito e corri para a rua no instante em que um terceiro grito, mais agudo, cortava o ar. Olhei para a direita e vi duas mulheres saindo esbaforidas do estacionamento no subsolo. Desci a rampa correndo e passei pela catraca. Outra pessoa gritava por socorro, pedindo que alguém ligasse para a emergência.

Mais adiante, avistei um segurança gritando num walkie-talkie. Então ele também saiu correndo, e eu fui atrás. Contornamos uma parede e o segurança parou abruptamente.

Havia uma mulher perto dele. Ela tinha as mãos no rosto e gritava descontroladamente. Eu me aproximei e olhei.

O corpo estava caído entre dois automóveis estacionados. Os olhos opacos fitavam o vazio. O rosto era alongado, esguio, com o mesmo queixo proeminente e bem barbeado que eu vira nas fotos. O sangue jorrava do ferimento na cabeça. Novamente meu mundo ruiu.

Steven Bacard, talvez minha derradeira esperança, estava morto.

 

Rachel tocou a campainha, que produziu um som musical em escala crescente e decrescente. O sol estava a pino num céu azul sem nuvens.

Um zumbido soou no intercomunicador.

— Pois não?

— Denise Vanech?

— Quem é?

— Meu nome é Rachel Mills. Sou ex-agente do FBI.

— O que quer?

— Precisamos conversar, Srta.. Vanech.

— Sobre o quê?

Rachel suspirou.

— Pode abrir a porta, por favor?

— Só depois que eu souber do que se trata.

— É sobre a menina que você acabou de atender em Union City. Entre outras coisas.

— Eu sinto muito, não falo sobre minhas pacientes.

— Eu disse, entre outras coisas.

— Por que está interessada? O que uma ex-agente do FBI tem a ver com isso?

— Prefere que eu chame alguém ativo?

— Se o FBI tem perguntas a fazer, eles que procurem meu advogado.

— Sei — murmurou Rachel. — E seu advogado por acaso seria Steven Bacard?

Houve um breve silêncio. Rachel olhou rapidamente para o carro.

— Srta.. Vanech?

— Não sou obrigada a falar com a senhora.

— Não, tem razão. Eu posso bater de porta em porta, então. Falar com seus vizinhos.

— Para quê?

— Para perguntar se eles sabem de alguma coisa sobre um esquema de tráfico de bebês que se opera nesta casa.

A porta se abriu com um estalo, e o rosto moreno de Denise, emoldurado pelos cabelos brancos, apareceu no vão.

— Vou processá-la por calúnia.

— Primeiro, terá de provar que não estou dizendo a verdade. E nós duas sabemos muito bem que é verdade.

— Você não tem provas.

— Tenho, sim.

— Fui atender uma paciente que não estava se sentindo bem, só isso.

Rachel apontou para o outro lado do gramado, e Katarina saiu do carro.

— E o que me diz daquela sua ex-paciente? Denise Vanech cobriu a boca com a mão.

— Ela testemunhará que você lhe ofereceu dinheiro em troca do bebê.

— Não. Se ela fizer isso, será presa.

— Ah, claro... o FBI está muito mais empenhado em prender uma pobre mulher sérvia do que em desmascarar uma quadrilha de traficantes de bebês! — Rachel empurrou a porta. — Posso entrar?

— Você está equivocada — falou Denise calmamente.

— Bem, então esta é uma ótima oportunidade para você esclarecer tudo e me mostrar onde estou enganada.

Denise Vanech ficou subitamente incerta quanto ao que fazer. Olhou mais uma vez na direção de Katarina e fechou a porta. Rachel viu-se num aposento inteiramente branco. Havia sofás modulares brancos sobre um carpete branco, estátuas de porcelana branca de mulheres nuas sobre cavalos, mesinhas brancas, pufes anatômicos brancos.

Denise olhava para ela, parada no centro do aposento, e suas roupas brancas pareciam uma extensão do cenário de fundo, criando a ilusão de ótica de que a cabeça dela e os braços estavam suspensos no ar.

— O que você quer?

— Estou procurando uma criança em particular. Denise inclinou a cabeça na direção da porta.

— Dela? — perguntou, referindo-se a Katarina.

— Não.

— Não que faça alguma diferença. Não tenho nenhuma informação sobre os encaminhamentos.

— Você é parteira?

Denise cruzou os braços.

— Não vou responder às suas perguntas.

— Veja, Denise, sei de quase tudo. Só preciso que você me esclareça alguns pontos. — Rachel se sentou em um dos módulos estofados de vinil branco e Denise continuou em pé, imóvel. — Você tem contatos em outros países. Não sei bem quantos, nem quais, mas na Sérvia, com certeza. Você tem gente lá que recruta moças, envia-as para cá grávidas, mas elas não dão essa informação na polícia aduaneira. Você faz os partos e paga as moças em troca dos bebês, que vão para Steven Bacard. Ele é um advogado que atende casais desesperados, dispostos inclusive a burlar a lei para adotar uma criança.

— É uma linda história...

— Está dizendo que não é verdade?

Denise inclinou a cabeça.

— Ficção total.

— Tudo bem. — Rachel pegou o celular. — Vou ligar para o departamento federal. Vou colocá-los em contato com Katarina. Eles podem ir até Union City e interrogar Tatiana. Podem checar os registros de sua linha telefônica, a relação de chamadas, sua conta bancária...

Denise ergueu as mãos.

— Tudo bem, diga logo o que você quer de mim! Você disse que trabalhou para o FBI, não trabalha mais. Se é assim, por que você está aqui? O que você quer?

— Quero saber como vocês operam.

— Por quê? Está interessada em ingressar no ramo?

— Não.

Depois de um breve silêncio, Denise falou:

— Você disse que está procurando uma criança em particular.

— Sim.

— Está trabalhando para alguém, então?

Rachel fez um gesto negativo.

— Escute, Denise, você não tem muita escolha. Ou você me conta a verdade, ou vai passar uns bons anos na cadeia.

— E se eu contar tudo o que sei?

— Então, eu a deixarei fora disso. — Era mentira, mas Rachel não tinha alternativa.

Denise se sentou. O rosto moreno estava pálido. De repente, Denise parecia mais velha, abatida.

— Não é o que está pensando — disse ela.

Rachel esperou.

— Nós não fazemos mal a ninguém, ao contrário, nós ajudamos quem precisa. — Denise estendeu a mão até a bolsa, também branca, e pegou um maço de cigarros. Ofereceu um a Rachel, que recusou. — Você conhece alguma coisa sobre os orfanatos nos países de terceiro mundo?

— Só o que vejo nos documentários na TV.

Denise acendeu um cigarro e tragou.

— Não são lugares que você gostaria de ver. Cada enfermeira tem de cuidar de até quarenta crianças. As enfermeiras não são profissionais capacitadas. Quase sempre conseguem o emprego em troca de favores políticos. Algumas crianças sofrem abusos e maus-tratos. Muitas já nascem com problemas decorrentes do abuso de drogas por parte da mãe. O sistema de saúde...

— Eu entendo o que quer dizer. É uma realidade terrível.

— Demais.

— E então?

— E então nós encontramos uma maneira de salvar algumas dessas crianças.

Rachel recostou-se e cruzou as pernas. Ela já conseguia perceber aonde aquilo levaria.

— Você oferece dinheiro a mulheres grávidas para virem para os Estados Unidos e venderem os bebês?

— Essa é uma colocação grosseira.

— Como você colocaria, então?

— Ponha-se no lugar delas. Imagine que você é uma jovem pobre... muito pobre. Talvez uma prostituta, ou vendida como escrava branca. Está na miséria, não tem onde cair morta. Aí, um homem leva você na conversa e você engravida. Tem a opção de fazer um aborto, ou então de ter o bebê e entregá-lo a um orfanato.

— Ou — acrescentou Rachel — ter a sorte de encontrar uma pessoa caridosa como você.

— Sim. Nós oferecemos a elas assistência médica adequada, recompensa financeira e, o mais importante, garantia absoluta de que o bebê será encaminhado para um lar bem estruturado, para uma família amorosa, equilibrada e com estabilidade financeira.

— Estabilidade financeira... significa uma família rica?

— O serviço custa caro — admitiu Denise. — Mas agora eu é que pergunto: aquela moça lá fora... Katarina, é esse o nome dela?

Rachel ficou imóvel.

— Como seria a vida dela se nós não a tivéssemos trazido para cá? Como seria a vida da criança dela?

— Não sei. Não sei o que você fez com a criança dela.

Denise sorriu.

— Você sabe o que quero dizer. Acha que seria melhor para a criança ser criada por uma mãe prostituta, sem um centavo, vivendo num país desolado pela guerra, ou por uma boa família nos Estados Unidos?

— Entendo — murmurou Rachel, tentando disfarçar a repulsa. — Quer dizer que você é uma benfeitora? Seu trabalho é uma espécie de assistência social?

Denise sorriu.

— Dê uma olhada à sua volta... Eu tenho um gosto refinado. Moro num bairro decente, tenho um filho na faculdade. Viajo para a Europa nas férias. Temos uma casa em Hamptons. Faço isso porque é incrivelmente lucrativo, sim, mas qual é o problema? Que importância têm meus motivos? Meus motivos não mudam as condições precárias daqueles orfanatos.

— Eu ainda não compreendo — disse Rachel. — As mulheres vendem os bebês para vocês?

— Elas nos dão os bebês — corrigiu Denise. — Em troca, oferecemos uma recompensa financeira...

— Tudo bem, não importa. Vocês ficam com o bebê, a mãe fica com o dinheiro. Mas e daí? É preciso documentação para adotar uma criança. Como é feita essa parte? Como o governo não interfere?

— Porque nós contratamos mães americanas.

— Não entendi.

— Por exemplo, suponhamos que Tatiana esteja prestes a dar à luz. Nós pedimos a você, Rachel, para aparecer como mãe. Você entrou em trabalho de parto e foi tudo tão rápido que não houve tempo para ir ao hospital. Acabou tendo o bebê em casa. Portanto, não existe registro de nascimento em nenhuma maternidade. Você chamou uma parteira... que sou eu... e assino uma declaração de que fiz o parto. Para todos os efeitos, você é a mãe. Bacard entrega a você os formulários de adoção para preencher.

— Quer dizer que os pais adotivos não sabem de nada?

— Não, e também não estão muito interessados em saber. Estão desesperados, tudo o que querem é voltar para casa com um bebê nos braços.

Rachel sentia-se sem forças.

— E pense em outra coisa — prosseguiu Denise. — Há quase dez anos fazemos isso. Várias crianças estão crescendo, durante todo esse tempo, em lares felizes, cercadas de amor e de cuidados. Dezenas de crianças. Se você interferir agora, pense no sofrimento que isso causaria para as crianças e para as famílias que as adotaram.

As mães biológicas poderiam exigir seus filhos de volta, e isso destroçaria muitas vidas felizes.

Rachel meneou a cabeça. Não havia tempo agora para avaliar a extensão daquilo tudo. Por ora, ela precisava manter um foco específico, que era Tara. Virou-se para encarar Denise.

— Onde Tara Seidman se encaixa nessa história?

— Quem?

— Tara Seidman.

Foi a vez de Denise parecer confusa.

— Espere um pouco. Não é aquela menina que foi seqüestrada em Kasselton?

O celular de Rachel tocou. Ela verificou o número que chamava e viu que era Marc Já ia atender quando um homem surgiu em seu campo de visão. Rachel prendeu o fôlego.

Pressentindo o movimento, Denise virou-se e estremeceu, sobressaltada.

Era o homem do parque.

As mãos dele eram enormes, dando a impressão de que o revólver apontado para Rachel era de brinquedo. Ele estendeu a outra mão e moveu os dedos.

— Me dê o celular!

Rachel obedeceu, tentando ao máximo evitar o contato com a pele dele. O homem encostou o cano do revólver na cabeça de Rachel.

— Agora me passe a arma!

Rachel abriu a bolsa. O celular continuava tocando e o homem atendeu:

— Dr. Seidman!

— Quem é?

Até Rachel ouviu a voz alta e assustada do outro lado da linha.

— Estamos todos na casa de Denise Vanech. Venha até aqui, sozinho e desarmado, e lhe direi o que quer saber sobre sua filha.

— Onde está Rachel?

— Ela está aqui, na minha frente. O senhor tem meia hora. Não tente bancar o espertinho, como das outras vezes, ou sua amiga estará morta antes que chegue. Entendeu?

— Sim.

O homem desligou e olhou para Rachel. Os olhos dele eram castanhos, com um halo dourado ao redor das pupilas. Eram olhos quase gentis, suplicantes, como os de um cachorro. Ele então se virou para Denise Vanech, e ela se retraiu. Um sorriso curvou os lábios do homem.

Rachel percebeu o que ele ia fazer, e gritou.

Não!

Mas a arma já estava apontada para o peito de Denise Vanech, e três tiros foram disparados. O corpo de Denise amoleceu e despencou do sofá para o carpete.

Rachel começou a se levantar, mas o homem já tinha se virado com o revólver apontado para ela.

— Quieta!

Rachel obedeceu. Denise Vanech estava morta. Seus olhos estavam abertos, e o sangue escorria, criando um chocante contraste de vermelho num mar de brancura.

 

E, Agora, o que eu faço?"

Eu havia ligado para Rachel para contar sobre a morte de Steven Bacard. E agora um homem a mantinha refém. Pensei um pouco, e então liguei para Lenny.

— Um homem chamado Steven Bacard acabou de ser assassinado em East Rutherford — falei, assim que ele atendeu.

— Bacard? O advogado?

— Você o conhece?

— Eu trabalhei com ele num caso, há muitos anos — disse Lenny. — Oh... Ah, não!

— O que foi?

— Você havia me perguntado sobre Stacy e uma adoção. Eu não via nenhuma relação, mas agora que você falou no nome de Bacard... Muito tempo atrás, Stacy me perguntou sobre ele... talvez há uns três, quatro anos.

— O que ela queria saber?

— Não me lembro direito, mas tinha qualquer coisa a ver com ser mãe...

— Como assim?

— Eu realmente não sei, faz tanto tempo, e depois ela não tocou mais no assunto. Só me lembro de ter dito a ela para não assinar nada sem antes me mostrar... Mas como você sabe que ele foi assassinado?

— Acabei de ver o corpo dele.

— É melhor não dizer mais nada pelo telefone, pode não ser seguro.

— Preciso de sua ajuda, Lenny, para pedir à polícia que investigue tudo sobre Bacard. Ele comandava uma operação de tráfico de crianças. E existe a possibilidadede ele ter tido algum envolvimento no seqüestro de Tara.

— Mas como?

— Depois explico.

— Ok, vou telefonar para Tickner e Regan. Aliás, Regan está procurando você dia e noite, sabia?

— Eu imaginava.

Desliguei antes que Lenny prolongasse a conversa. No fundo, eu não tinha grande esperança de que a polícia ou o FBI conseguisse localizar o paradeiro de Tara, mas não era de todo impossível. Na verdade, eu queria que continuassem procurando, mesmo que alguma coisa saísse errado com ele e Rachel, o que era bastante provável.

Eu já me encontrava em Ridgewood. Não acreditava, nem por um segundo, que o homem que falara comigo pelo telefone tivesse dito a verdade, que me contaria alguma coisa sobre Tara. O negócio daquela gente não era passar informações. Eles estavam ali para queimar arquivos. Estavam me atraindo até lá para nos liquidar.

Como eu devia proceder? Eu tinha meia hora, o que não me deixava com tempo livre para refletir com calma e traçar um plano. Se eu demorasse mais dez minutos além desse prazo, o homem certamente começaria a ficar ansioso, o que eu não achava recomendável. A hipótese de chamar a polícia piscava em minha cabeça, mas ele me advertira para não bancar o esperto, e eu tinha medo de arriscar.

Bem, eu tinha uma arma e sabia manejá-la. Tinha uma boa mira, mas isso no tiro ao alvo. Atirar numa pessoa era outra história, bem diferente. Mas eu não teria escrúpulos em matar gente desse tipo. Não sei se alguma vez tive. Finalmente estacionei a um quarteirão de distância da casa de Denise Vanech, peguei o revólver e fui andando pela calçada.

 

Ele chamava a mulher de Lydia. Ela chamava o homem de Heshy.

Fazia cinco minutos que a mulher chegara. Era mignon e bonitinha, e seus olhos grandes br