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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NÃO VERAS PAÍS NENHUM / Ignácio de Loyola Brandão
NÃO VERAS PAÍS NENHUM / Ignácio de Loyola Brandão

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NÃO VERAS PAÍS NENHUM

 

AS SIRENES TOCARAM A NOITE INTEIRA, SEM PARAR.

TODAVIA, PIOR QUE AS SIRENES, FOI O NAVIO QUE AFUNDAVA,

ENQUANTO AS CABEÇAS DAS CRIANÇAS EXPLODIAM

 

Mefítico. O fedor vem dos cadáveres, do lixo e excrementos que se amontoam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam designar tais regiões pelos apelidos populares. Mal sei o que me pode acontecer. Isolamento, acho.

Tentaram tudo para eliminar esse cheiro de morte e decom­posição que nos agonia continuamente. Será que tentaram? Nada conseguiram. Os caminhões, alegremente pintados em amarelo e verde, despejam mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas sempre se sabem. É assim.

Não há tempo para cremar todos os corpos. Empilham e esperam. Os esgotos se abrem ao ar livre, descarregam em vago­netes, na vala seca do rio. O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne, em poucas horas.

O cheiro infeto dos mortos se mistura ao dos inseticidas impotentes e aos formóis. Acre, faz o nariz sangrar, em tardes de inversão atmosférica. Atravessa as máscaras obrigatórias, resseca a boca, os olhos lacrimejam, racha a pele. Ao nível do chão, os animais morrem.

Forma-se uma atmosfera pestilencial que uma bateria de ventiladores possantes procura inutilmente expulsar. Para longe dos limites do oikoumenê, palavra que os sociólogos, ociosos, recuperaram da antiguidade, a fim de designar o espaço exíguo em que vivemos. Vivemos?

Virei-me assustado. Adelaide nunca tinha dado um grito em trinta e dois anos de casados. Treze para as oito. Em quatro minutos devia estar no ponto, ou perderia o S-7.58, minha con­dução autorizada. Estranho, ela sabia. E por que então resolvia me atrasar ainda mais?

— O que foi?

— O paletó. Esqueceu?

— Não agüento esse paletó. Passo o dia suando.

— Mas sem ele não te deixam trabalhar.

— Tomara.

Adelaide me olhou, arisca. Inquieto, encarei o rosto dela e me perguntei. Pergunta que não tenho coragem de enfrentar. Se eu admitir, ela se desvenda. Toma forma, cristaliza, revela. Será que depois de tantos anos compensa ver? Reagir agora? Penso: e se valesse a pena?

Tomávamos o café da manhã juntos, todos os dias. Depois ela me acompanhava até a porta. Eu colocava o chapéu (voltou o seu uso), acariciava seu ombro esquerdo (nem sei mais se há prazer nisto) e consultava o relógio. Ficava angustiado se não estivesse dentro do horário.

— Olha a neblina, está baixa. Vai esquentar muito.

Cada dia, a neblina desce. Quando envolver tudo, vamos suportar? Seis meses atrás, pairava no espaço como a cúpula de uma catedral gigantesca. O mormaço rescalda a cidade, inflama a gente. Às vezes, a neblina some, fica o fedor que dá ânsias de vômito. A cabeça arde.

— Conseguiu dormir?

— Com as sirenes tocando a noite inteira?

— Era alarme de roubo, era? Faço confusão.

— Incêndio. Me deixa com os nervos estourados. Até que a falta de sono agüento. Mas os alarmes me perturbam.

— Não chega o calor infernal durante o dia? Ainda tem incêndio à noite?

— Está tudo ressecado.

— Lembra-se daquele tempo em que os galões de gasolina estouravam? Os prédios queimavam sem parar? Havia um de­pósito em cada casa, logo depois do período de Racionamentos Incríveis.

Trouxe o paletó cinza. Tecido sintético que impermeabiliza. Não deixa passar calor, anunciaram. Nada. Igual à casimira. Me abafa. Vi sobre a mesa os calendários sendo empilhados, ela estava retirando das paredes. Puxa! Hoje deve ser 5 de janeiro. O que me interessa?

Os calendários desta casa permanecem sempre no primeiro do ano. O [1] vermelho, fraternidade universal. O vermelho desbota, chega rosa ao fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tirando o pó das folhinhas, na sala, cozinha, quarto. Ansiosamente.

O [1) eterno. Não é preciso marcar o tempo, basta abandoná-lo, ela me disse uma vez. De que adianta saber que dia é hoje? As horas, sim, são importantes. O dia é bem dividido. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim, O que tiver de acontecer, é dentro dele.

Agora me dou conta. Não parecia coisa dela. Mulher quieta, ex-escriturária de estrada de ferro. Nunca falava. Acei­tava as coisas e só mostrava irritação calando-se e coçando em baixo dos olhos. O lugar coçado tornava-se enrugado e o olho alongava-se, como o de japonesa.

No começo do ano, recolhia os calendários, fazia um pacote com papel pardo. No dia 5 ao sair, pedia: "Não se esqueça do papel".' Repetiu, trinta e dois anos. Nunca me lembrava, ela jamais se esquecia. Dizia a frase, irremediavelmente, ao nos des­pedirmos, treze para as oito.

A substituição dos calendários era automática no dia 5 de janeiro. Pela manhã, Adelaide retirava-os. Nesse dia, eu não ficava na cidade, voltava na hora do almoço. Depois de comer, sempre me deitava um pouco. Mas, agora, o quarto abafado, o suor, não me deixam dormir.

Mesmo assim, fico no quarto. Ao sair, vejo os novos calen­dários no lugar. E sobre a mesa, o embrulho de papel pardo. Devo levá-lo ao antigo quarto de empregada, amontoá-lo junto com os outros. Ali estão empilhadas pela ordem as folhinhas dos últimos trinta e dois anos.

Onze mil e setecentos dias intocados. Empoeirados, amare­lados, não utilizados, conservados. Naquele cômodo, entro uma vez por ano. Nunca tivemos empregada. Adelaide sempre fez tudo, dizia ironicamente que era a sua missão. Só há pouco consegui contratar a faxineira semanal.

E isto porque empregados ganham pouquíssimo. As pessoas trabalham em troca de um prato de comida, um copo de água por dia. Não querem dinheiro, só comer e beber. Aí está a grande dificuldade. Se aceitassem dinheiro, tudo bem. Mas comida? E que dizer da água então?

Os dias guardados. Armazenados. Neles, nenhuma marca. Rasura sequer. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. Agora sei. Cada momento era uma antecedência para nós. Uma espera que se substituía infinitamente. Vivíamos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.

Assim, nossa vida se distendia como um elástico. Esticava-se ao ponto máximo, atingindo o estado de tensão, incômoda inquietação. Quando o dia se acabava, a esperança nascia outra vez dentro de nós. Aguardávamos os instantes que fariam o dia seguinte repleto-vazio.

Instantes despidos daquilo que faltava. Algo que necessitá­vamos e não íamos procurar. Ficávamos na expectativa que acontecesse. Havia uma falta. Não somente dentro do tempo. Porém um vazio real, concreto. Lancinante. Em cada canto da casa se projetava a sua sombra. Compacta.

Fomos preenchendo o apartamento com objetos. Até que ele se assemelhou a um bazar de artigos únicos, invendáveis. Cristaleiras cheias de compoteiras, xícaras, saleiros, copos, taças e licoreiras. Paredes com quadros, reproduções, flâmulas, santos, retratos, relógios parados.

Vasos, bibelôs, criados-mudos, mesinhas de centro, cinzei­ros limpos, estatuetas, imagens, porta-retratos, toalhinhas de renda, tapetes de barbante, caixinhas decoradas, vidros vazios, garrafas cortadas, pesos de papel, abajures, lâmpadas votivas, cestinhas de costura decoradas.

E calendários. Dois ou três em cada cômodo, escolhidos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Ali­mentar. Comprados na Igreja. Folhinhas que nos ensinavam vários costumes obsoletos. Como a boa época para se plantar e colher. Ou que davam o bom e o mau tempo.

Depois de guardar os pacotes, eu vinha olhar, uma a uma, as folhinhas novas. Estampas coloridas. Moças colhendo café. Laranjais em fila indiana sobre a colina. Trigais dourados ao sol, homens com ceifadeiras. Casas à beira de lagos, incêndios na floresta. Tudo tão antigo.

Índios, onças, gatos na cesta, pai preto, anjos velando me­ninos à borda de abismos. Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas oficinas mecânicas. Loiras diáfanas, morenas rechonchudas, sorrindo em tangas mínimas. Contemplava rapi­damente, teria o ano todo para admirá-las.

— Tem um fio de cabelo branco. O que é isso, paizinho? Mal fez cinqüenta anos. Seu pai com noventa ainda tem a cabe­ça preta!

A mãe dela chamava o marido de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se tivemos. Pode parecer um absurdo, mas é verdade. Podem acreditar. Pela minha honra. Tudo se confunde na minha cabeça, o que foi e o que devia ser. O que era realmente e aquilo que eu gostaria que fosse.

— Souza, sonhei outra vez.

— De novo? O mesmo sonho?

— Mudou um pouco. Não foram as sirenes que não me deixaram dormir. Foi o sonho. Tão nítido. Real como aquela noite no porto.

Não. Adelaide, não. Que já temos o inferno no coração. Há coisas que devem ser esquecidas, vamos sepultá-las. É pre­ciso. Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assunto. Afinal, para nós, viver sempre foi tão calmo, reconfortante. Éramos felizes. Ao menos, parecia.

— Souza, foi impressionante. O navio afundava num mar terrível. Não havia tempestade alguma, nem vento, só o silêncio. Sabe o que me congelava? O ruído das lâmpadas quentes estou­rando, quando tocavam a água fria. Os cordões de lâmpadas se arrebentavam, soltando uma fumacinha branca. O mar foi ficando escuro, escuro, até que a última lâmpada se apagou. Eu sem enxergar nada, só ouvindo aquelas explosões. Nem mesmo um gemido. Elas morreram todas, não morreram, Souza? Você vai ter que me contar uma hora. Será que não era o barulho das cabecinhas estourando?

— Não seja louca, Adelaide. Como a cabeça delas ia estourar?

— Criança tem a cabeça tão fraquinha.

— É tudo sonho, Adelaide, não tem nada a ver. Sossega.

— Não posso sossegar, e você também não, até que eu saiba.

O navio, nossa aflição, estava esquecido. Imaginei que jamais retornasse. Antes, mais novos, tínhamos capacidade para suportar. Adelaide, principalmente. Está cansada, acho que do­ente. Desassossegada. Para nós, o tempo não ajudou a esquecer, ao contrário, alimentou lembranças.

Quatro para as oito, se não corro, perco o ônibus. Não fosse esta perna, eu teria uma bicicleta, como todo mundo. Uma artrose no joelho me impede de pedalar. Tive que passar por dezenas de exames, centenas de gabinetes, paguei gorjetas, co­nheci todos os pequenos subornos.

Escorreguei fichas de água nas mãos de funcionários. Fi­chas que me fizeram falta. Transferi cotas de alimentos, e espe­rei, até que saísse a praticamente impossível autorização para o ônibus. Ganhei a ficha especial de circulação para o S-7.58. O desgraçado é pontual, até irrita.

Abro a porta, o bafo quente vem do corredor. Já estou melado, quando chegar ao centro estarei em sopa. Como todo mundo. A vizinha varre o chão, furiosamente. Como se fosse possível lutar contra a poeira negra, a imundície. Não fornecem água para lavar as partes comuns.

Vou pela escada. Há muito desisti desse emperrado eleva­dor solitário, mambembe. Serve trinta andares, cento e cin­qüenta apartamentos. Somente os velhos e inválidos esperam por esse aparelho desconjuntado, ameaçador. O corredor da entrada atulhado de lixo. Uma vergonha.

Lixo que aumenta, dia a dia. Não podemos atirar na rua, e não tem onde depositar. O caminhão carrega o que pode, quando passa. Se passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dilaceram os sacos, o lixo se esparrama, fica o fedor insu­portável. Ora, um cheiro a mais.

Nem sei por que pagamos zelador, ele nunca está, se esque­ce de ligar o Sônico Anti-Ratos. Um zelador hoje em dia precisa ser político, negociar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares de Segurança, dialogar habilmente com For­necedores Oficiais de Água.

A barbearia está abrindo. Antigamente, havia neste hall lojinhas minúsculas, bonitas. Existia até um café, com toalhas xadrez, chás e tortas, sonhos e bolos, sorvetes, água gelada. Fecharam, as vitrines estão cerradas com placas de plástico pregadas aos batentes.

Fechado por placas pregadas por fora. Assim me sinto. Contando os dias, detalhando meus passos. Sensação de que me observo em microscópio, aumentado dezenas de vezes. Quantas vezes não reconheço este Souza que desliza num líquido viscoso. Sou, todavia não pode ser eu.

No corredor, somente o barbeiro resistiu. Sei lá como, ou por quê. Não entendo. Os velhos descem de vez em quando para uma barba, cabelo. Através dos vidros encardidos, mal se perce­be o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz um sinal, gosta de uma prosinha. Inevitável, indolor.

— Tem água esta semana?

— E eu sei? Pergunte ao distribuidor.

— É que você tem aquele sobrinho.

— Não faço a mínima idéia.

— Desorganizaram as entregas, ou aumentaram os prazos.

— Ou os dois juntos.

— Vê se descobre.

Coceira nas mãos. Arde e no lugar está uma pequena depressão, como se eu tivesse apertado uma bola de gude por muito tempo. Fiquei passando o dedo pela depressão, sentindo cócegas. Será uma picada de inseto? Não senti nada. Medo. Anda aparecendo cada bicho mais estranho.

O caminhão descarrega refrigerantes factícios no bar. Por­tanto, um mês se passou. Durante as festas o tempo voa. Bes­teira, o que me interessa a corrida do tempo? Não existe nada a fazer com ele. Que importa a velocidade, se já não tenho uso para minha vida. Quem tem?

 

COÇANDO A PALMA DA MÃO (ALERGIA?),

SOUZA OBSERVA COM FASTIO A OPERAÇÃO

DOS CIVILTARES PARA DOMINAR BANDIDOS

COM BALAS CATALÉPTICAS

 

O ônibus chegou, a coceira voltou. Cruzei a borboleta, não havia lugares vagos. Normal, a esta hora. Cumprimentei pes­soas que vejo aqui, todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do S-7.58, nos permitem este, nenhum outro. É o que dizem as fichas de tráfego.

A ficha aponta onde posso andar, os caminhos a percorrer, bairros autorizados, por que lado de calçada circular, condução a tomar. Assim, somos sempre os mesmos dentro do S-7.58. Nos conhecemos todos, mas não nos falamos, raramente nos cum­primentamos. Viajamos em silêncio.

Sou exceção, grito meu bom dia, os rostos se viram aflitos, perplexos. Depois se voltam para a paisagem, as calçadas con­gestionadas. Mais um louco, pensam. Todos têm certeza, serei apanhado ao descer. No dia seguinte se surpreendem, sem de­monstrar, quando apareço, cumprimentando.

Três pontos antes do final (deve ser dez e vinte) senti uma comichão insuportável. Estava comprimido. Não podia olhar, nem levantar a mão. Segurava a maleta com a esquerda, com a direita me apoiava ao varão. Empurrado para a saída, me despedi. Claro que não responderam.

Acabei de descer, ouvi os estampidos. Secos, ocos. Tão conhecidos. Joguei-me rápido ao chão, conforme severas instru­ções. Num décimo de segundo, todos em volta estendidos. Vi­vemos condicionados, nossos reflexos aguçados. Como aqueles ratos que vão comer, ao ouvir a campainha.

Quantas vezes por dia me atiro ao chão nesta cidade. Se alguém filmasse durante algumas horas, sem registrar o som, veria uma daquelas velhas comédias de Harold Loyd, Gordo e o Magro, Mack Sennet. Deita, levanta, deita, levanta. E os rostos? Todo mundo apavorado, tenso.

As pessoas disputam centímetros de calçada. Batem cabeças, se beijam, ficam rosto a rosto, cheiram o pó, se levantam imundas, xingam, protestam. Teve um dia que levei duas horas para vencer duzentos metros até o escritório. Deita, levanta. Foi tiro para tudo quanto é lado.

Hoje, um tiro só. Os Civiltares são conhecidos e temidos pela excelente pontaria e rapidez. O ladrãozinho, ou o que quer que fosse, garoto ainda (nunca fui bom para determinar idades), estava estendido, de costas. A cápsula enterrada no meio da testa. Nenhuma gota de sangue.

O vermelho da cápsula me permitiu identificá-la como Ca­taléptica. Provoca um estado semelhante à morte, durante duas horas. Quando o atingido acorda, já está encerrado no Isola­mento. E aí, bau-bau Nicolau! Nunca mais. Tem quem afirme que a Cataléptica deixa bobo.

O Civiltar abaixou-se, apanhou a carteira, devolveu a um senhor, ao seu lado. O homem recolheu-a tranqüilamente, reti­rou uma nota, entregou ao policial. Os Acertos das Taxas de Segurança são feitos no ato. Acabou-se a burocracia, papéis, recibos, guichês, filas, esperas.

O Civiltar acionou o walkie-talkie, pedindo carro trans­portador. Puxou o atingido para um canto da calçada e gritou: "Podem se levantar". Mas a gente sempre dá um tempo. Quando ocorre um incidente assim, seguem-se uns quatro ou cinco, os marginais aproveitam a confusão.

Se bem que não é fácil. Para cada homem em circulação, existe praticamente um Civiltar ao seu lado. Eles andam, giran­do a cabeça para todos os lados e se assemelham a robôs. O treinamento intensivo desperta neles, compulsivo, o faro, o ins­tinto. Não sei como, enxergam tudo. Verdade.

Parece que são treinados pelos mesmos métodos com que se ensinavam os antigos cães pastores, na polícia militar. Ficam condicionados e são uma beleza, na eficiência. Por menos que se goste deles, é preciso reconhecer: evitam catástrofes nesta cidade. Pior sem eles.

Chegamos a este ponto. Aceitar os Civiltares como necessá­rios, suportá-los e chamá-los, de vez em quando. Para mim, ter que fazer isso um dia vai ser pior que tomar óleo de rícino. O quê? Óleo de rícino? Ainda existe? Cada coisa que me lem­bro de repente. É engraçado.

A Casa dos Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e quarenta. Tenho meia hora para passear por den­tro dela, sentindo a tranqüilidade que existe ali. Há dois anos não conseguia começar o meu dia, sem entrar e visitar a Casa. Cada dia, uma seção, vagarosamente.

Olhei a mão. A mancha estava de um vermelho vivo e juro que me pareceu perceber um aumento na depressão. Bem funda. Aperto, não dói. Coça ainda, mas é uma coceira agra­dável, dessas que dão prazer, me arrepia todo. Loucura, na minha idade ficar me arrepiando assim com coceiras.

Saio da Casa dos Vidros de Água sempre abalado com o irreparável. Não em relação à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coisas chegaram. Puxa! Não é resignação que me toma, quando deixo a última sala e atravesso o corredor, artificialmente esverdeado.

Como se luz opaca atravessasse floresta espessa, rompendo com dificuldade a galharia, arbustos, ramos, folhas, cipós. Este corredor final me acalma, me reconcilia. Talvez o mal esteja aí. Nesta reconciliação. Há uma interrupção brusca quan­do passo do corredor para a saída.

Mergulho na praça cor de cimento, dominada por imensos out-doors coloridos. Penso no objetivo desta Casa dos Vidros e imagino que ela seja o mal, em lugar do bem. Pura conjetura, a casa é memória perdida, ninguém a visita. Quando entro me imagino em festa inaugural.

Todo dia passeio pelo deserto, broto no vazio de salas e corredores. A sensação de que tudo é meu, é reconfortante. Egoísmo. Mas para mim é como se as pessoas conspurcassem este recinto, quase igreja, catedral de nossos tempos, com seus santos, divindades, imagens.

Certamente, do ponto de vista prático, a Casa é inútil e o que ela exibe também. Coisas perdidas no tempo, irrecupe­ráveis. Tudo funciona em torno da utilidade, conveniência ou não. Esta Casa talvez tenha sido a última obra considerada sem valor prático para a civilização.

Não devia estar na Casa. Saio daqui me perguntando. Sem ter o que responder. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho necessário. Se perder essa lucidez que começo a adquirir, estarei morto. Como os calendários inalterados que dormem no quartinho de minha casa.

Encontrar uma saída. Se as pessoas quisessem, haveria possibilidades. Não há querer, ninguém vê nada. Todos tran­qüilos, aceitam o inevitável. Os jornais não dizem palavra. Calaram-se, aos poucos. Mesmo que falassem, não têm força Nenhuma. A televisão está vigiada.

Ainda que não estivesse, a ela nada interessa. Os noti­ciários são inócuos. Novelas, inaugurações, planos do governo, promessas de ministros. Como acreditar nestes ministros, a maioria centenários? Quase perpétuos, remanescentes da fabu­losa Época da Grande Locupletação.

O povo ainda fala destes tempos insondáveis. Eles sobre­vivem na tradição oral. Os livros de história omitem. Quem se der a um grande trabalho, encontrará nos arquivos de jor­nais alguns elementos. Distorcidos, é claro. Foi um período de intolerância, amordaçamento, silêncio.

Quando eu dava aulas, os estudantes perguntavam sobre tais tempos. Eram alunos que as escolas reputavam incômodos e terminavam afastados dos cursos. A direção ouvia as gra­vações das aulas e me chamava. Para que eu informasse quem tinha me interrogado. Denunciasse.

No início, recusava. Havia justificativas. Naquelas classes de trezentos alunos, eu alegava, era impossível saber quem tinha feito a Pergunta Intragável, como dizia a direção. Que tamanho terão as classes hoje? Quinhentos, seiscentos alunos. Bem que gostaria de saber.

Depois, a situação foi ficando mais difícil, era sempre em minhas aulas que as perguntas intragáveis surgiam. A direção queria saber por quê. Que tipo de coisas eu andava dizendo fora das classes. Mandaram me seguir, plantonaram minha casa, interceptaram meu telefone.

Solucionaram, obrigando a pessoa interessada em pergun­tar a se identificar, antes. Muitos se calaram, outros preferiram enfrentar punições. "Essa época de locupletação não existiu. Foi calúnia", garantia a direção. "Fala-se muito, mas onde os documentos? Invenções, mitos.

Isso, mitos populares. O senhor conhece os mitos popu­lares? O saci existe? O caipora, a mula-sem-cabeça, o lobiso­mem? Que esperança. São fantasias criadas que se perpetuam, para colocar medo nas pessoas. Está vendo como a tradição oral é coisa perigosa, traiçoeira?"

Por que os estudantes não recorriam aos jornais, às bi­bliotecas públicas, aos arquivos microfilmados? Tudo em mãos do governo. Era (ainda é) necessário percorrer um longo cami­nho burocrático, buscando papéis, carimbos, selos. A tarefa se tornava completamente impossível.

Impossível é o termo. Tive alunos que gastaram anos e quando obtiveram o último nihil obstat, os arquivos se muda­ram. Antigos funcionários foram removidos e os novos, avi­sados, não reconheceram as autorizações. Os alunos tentavam outra vez, a tática do governo era clara.

Quando passo pelos bairros da Circunstancial Número 14, vejo os prédios imensos, onde está guardada a memória nacio­nal. Ninguém sabe que fatos estão depositados ali. Para não dizer das pastas carimbadas: A SEREM ABERTAS DENTRO DE DOIS SÉCULOS. São documentos da Locupletação

— Tio.

— Dois séculos, imagine...

— O quê?

— Pensava comigo...

Meu sobrinho, instintivamente, antes de me estender a mão, ia erguendo a palma em continência. Não aceitei, inter­rompi, puxei-o para mim e dei um grande abraço. Ele se con­servou rígido, ainda que o rosto fosse sorridente e cordial. Também, sempre foi um filho para nós.

— O que faz por aqui, tio?

— Visitava a Casa dos Vidros.

— Saudosismo?

— Ééé, quem sabe?

— Fui promovido, tio. Sou o primeiro do Novo Exército a atingir o posto de capitão aos vinte e três anos.

Fiz uma continência irônica. Ele respondeu, a sério. Sem­pre foi circunspecto, compenetrado com noções de dever e obri­gações. Desde criança. Estava sempre em casa, Adelaide dizia: "Você deve entrar para o Exército". Foi quando entendi como ela estava dentro da realidade.

Muito mais do que eu podia pensar. Adelaide sempre foi surpresa constante. Observando nosso relacionamento, vejo que entendi bem pouco a mulher que tive. Quando menos se esperava, ela fazia uma observação justa, adequada. Será tarde demais? Diz o povo que nunca é.

Sim, porque em outros tempos, no século 17, ou 18, teria dito ao sobrinho: "Vá ser padre". E não. Naquele dia, quinze anos atrás, Adelaide começou uma surda campanha para que o menino vestisse farda. Mas não almejava um simples praça, queria que ele fosse Militecno.

Os melhores postos do país se encontravam em mãos de Militecnos. Bancos, ministérios, empresas Multis. E como era difícil romper as barreiras para se formar um Militecno. Além de superar toda a carreira militar, quem suportava as fantás­ticas anuidades cobradas pelas universidades?

— Passo lá para comemorar. Com o senhor e a tia. Posso?

— Eu é que insisto. Nem vou dizer à sua tia. Vamos fazer surpresa.

— Tem comida?

— O normal.

— Vou tentar algo na Subsistência. Ah, quer fichas para água?

— Sempre é bom, jamais consegui me controlar, gasto mesmo.

— E não é para gastar?

— Mas tem o racionamento, para dividir melhor.

— Racionamento, tio? Pensa que é para todo mundo?

No fundo, não gosto dele. Uso suas facilidades. Penso que tenho direito a elas, contribuo para que o Novo Exército exista com todos os seus privilégios. Devo explorá-lo. Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, a carreira. Quanta roupa ela não lavou. E as comidas?

Eu acordava todos os dias quinze para as seis, fazia café, arrancava o preguiçoso da cama. Foram dois anos na Escola Superior de Integração. Os piores, até ele passar por todas as provas, principalmente as da fidelidade, neutralidade ideo­lógica e percepção sensorial.

— Sabe o que vou fazer, tio?

— Não tenho idéia.

— Vou visitar essa tal Casa dos Vidros.

— Boa coisa.

— Quero ver como estão aproveitando esse prédio enorme.

Desta vez, correspondeu ao abraço, soltando o corpo. Co­mo posso gostar desse sobrinho quando sei ao que ele perten­ce? Se tenho plena consciência do que será o país na mão dele, dentro de alguns anos. Se houver alguns anos. Tenho as cartas dele, conheço suas idéias.

Nenhuma vontade de trabalhar. A coceira volta, fico impressionado. O centro de minha mão está afundando. Só pode ser delírio provocado pelo calor. Agarro o braço de um homem, ele se assusta. Sei o risco que corro, toda reação é admitida, quando se trata da própria segurança.

— Calma, meu senhor, calma. Olhe, me desculpe, mas preciso saber. Olhe a minha mão. Tem um afundamento aí?

Ele procurou se livrar. Viu a mão e talvez tenha se apa­vorado mais. Ninguém garante que isto não seja contagioso. Só não saiu correndo, porque é impossível correr nestas calçadas atravancadas. Para mim, a realidade é este afundamen­to, sem dor, coceira. Inexplicável.

Ir ao médico é bobagem, melhor esperar. Estou desmen­tindo Adelaide, ela me julgava hipocondríaco. Não acredita­va em minhas dores de cabeça, nos mal-estares do estômago. Ergui os olhos. Uma sensação inquietante de alto a baixo. O homem careca me olhava penetrante, ameaçador.

 

NAS SUAS DIVAGAÇÕES, SOUZA VÊ

QUE TEM SORTE, POIS AINDA POSSUI MEMÓRIA.

AO CONTRÁRIO DOS MILITECNOS

QUE JÁ PERDERAM AS FACULDADES HUMANAS

 

Um olhar surpreendente. Esquivo e ao mesmo tempo atravessador. O que me impressionou foi a cor da pele. Dava até mal-estar. Vermelha. De pessoa branca que ficou muito ex­posta ao sol. Nem um só fio de cabelo. A pele da cabeça trans­formada em placas ressequidas, como solo de caatinga.

Mais forte, no entanto, foi a sensação de familiaridade. Certeza de já ter visto este homem. Aquelas mãos sem unhas não eram desconhecidas. Bem que Adelaide diz, ando precisan­do de um remédio para a memória. Antigamente, ela compraria peixe, me daria todos os tipos.

Teve época, antes de me aposentarem compulsoriamente, que passei a me esquecer. De tudo, propositalmente. Atrasava aluguel, não pagava luz, roubava nos supermercados, tomava café nos bares e ia embora. Não voltava para casa, à noite, ficava sentado no banco do jardim.

Adelaide me curou com dieta à base de peixe. Frito, en­sopado, à escabeche, à milanesa. Não me fartei, porque gos­tava muito. Coisa tão boa. Há quanto não comemos peixe? Nem factício. Adianta lembrar? Enfrento o olhar fixo do ca­reca. Pessoas se afastam dele, enojadas.

Se não for trabalhar, terei de ficar pela cidade. Quente demais, os abrigos refrigerados estão lotados, não vou me amontoar por aí o dia inteiro. Ainda bem que não vim de pa­letó. Termino optando pela repartição, estou mais do que atra­sado. O que não me perturba.

Declarei no guichê nome e número, matrícula, CIC, IR, ISS, repartição. A luz amarela acendeu. Atraso de meia hora, então. Não sei que punições posso sofrer, nunca abri o Manual. Não li, pouco me importa. Todos sabem, por ele não temos direitos, somente deveres e obrigações.

— E este atraso, senhor Souza?

— Mal dava para andar. Muita segurança na rua. Toda hora a gente estava rastejando.

— Quando é que as pessoas vão aprender a sair mais cedo?

— Pois é.

— Que tal um desconto em folha? O sábado e o domingo perdidos? Um dia de férias?

— Não posso fazer nada, doutor Álvaro.

— Pois é, mas eu posso. Se houvesse neste país mais sen­tido de responsabilidade, mais noções de dever cumprido, res­peito com a coisa pública.

Ele fica falando, vou para minha mesa. Como colegial repreendido. Irritado, porque nestes anos nem faltei, nem me atrasei. Ora, me preocupar? Só fico inquieto com o afunda­mento na mão. Agora todo vermelho, parece que cedeu mais. Meu deus! Será que peguei câncer galopante?

Todo o trabalho sobre a mesa. Fitas longuíssimas de papel amarelo. Fileiras de números, meu trabalho é conferir. Papéis que vieram dos computadores. Somos obrigados a revisar. Faz doze anos que ninguém, mas ninguém, nem um só de nós, des­cobriu um erro, imperfeição, deslize, falha.

Para contentamento do doutor Álvaro. Ele pensa que somos perfeitos, quando o computador é que é. Até hoje não achei a utilidade desta seção. Ninguém descobriu. Meus cole­gas fazem a revisão conscientemente. Eu não. Assino o que cai na minha frente. Para que ficar questionando?

Ao menos, calculo que meus companheiros trabalhem conscientemente. Ficam nervosos diante das pranchas de números. Investigam as colunas, cada um criou seu método, inventou um sistema. Usam réguas, calculadoras. Verificam cifra por cifra. Corrigem os números apagados, mal impressos.

Alguns recorrem a minipotencialidades. Observo o tempo que demoram com cada folha. A média é de cinco folhas por dia, não mais. Procuro estabelecer tempo igual. Apenas vou olhando, e pensando. Gasto um tempo enorme sem fazer nada. Sinto, forte, a sensação do desperdício.

Isto me deixa inquieto. Este tempo não usado, morto. Um homem não pode passar a vida olhando para folhas cheias de números. Então, devo me empenhar nestas verificações? Apro­veito parte de meu tempo contemplando o que se passa na vizi­nhança. A janela fica ao meu lado.

É provável que também me observem do lado de lá. Al­guém que, entediado, me olha cogitando: vejo aquele homem há tanto tempo atrás de sua janela, que vou sentir sua falta, se um dia ele sair dali. Acostumei com ele. Sei de seu trabalho, conheço seus hábitos. A hora que chega, hora que sai.

Antes de sentar-se ele tira o paletó e estende cuidadosa­mente na guarda da cadeira. Acende o cigarro, o primeiro dos dois que fuma durante o dia. Faz um gesto, se espreguiçando, coça o peito e se acomoda. Mas não olha imediatamente para sua mesa. Vira-se primeiro para fora.

Percebo o seu olhar vagando pelo fundo dos prédios. O centro é velho, os pátios internos são sujos, cinzas, repletos de lixo. Telheiros cheios de papéis, plásticos, bujões de gás, vidros enegrecidos, caixotes, chaminés de lanchonete soltando fuma­ça engordurada, engradados, garrafas.

Aquele homem passa boa parte do tempo numa panorâmi­ca, demorando-se em cada coisa. As mesmas coisas há tanto tempo, o que pode mudar por aqui? Um dia, ele viu o homem sair correndo por uma porta com as mãos na garganta, ar de desespero. O homem chegou ao pé de um muro. Assustado.

Este muro dava para um pátio de lajotas enegrecidas. O homem quis pular e caiu. Ficou estrebuchando, como que num ataque epilético. Depois se acalmou. Não apareceu ninguém. À noite, o corpo ainda estava lá; e na manhã seguinte. Aqui de cima, olhávamos, interrogadores.

O dia se passou, o corpo continuou. Preocupei-me com a decomposição, o mau cheiro. Parece que o homem do lado de lá se preocupava também, pois olhava inquieto, e repetida­mente, pela janela. No fim da tarde, ele desapareceu e imaginei que pudesse ter ido investigar lá embaixo.

Desci, acreditando que poderia encontrá-lo. Apesar de não saber como é o seu rosto. Por trás da janela vejo apenas um vulto indistinto, nada concretamente delineado. Na rua, fiquei meio perdido, era difícil saber de que prédio o homem tinha saído, com os seus ataques.

Havia dentistas, escritórios, lanchonetes. Teria sido de uma lanchonete? Pode ser. Mas eu não possuía permissão para aquela. Freqüento outra. Não me deixariam entrar, nem que eu pedisse: "Quero ir ao banheiro, estou apertado". Nem que suplicasse, chorasse. Ou me borrasse todo.

"Se está apertado, vá ao Posto Apropriado", diriam. "Nada podemos fazer aqui, estamos limitados aos fregueses, a um de­terminado número de pessoas por dia". Os Postos Apropriados correspondem aos antigos mictórios públicos, recondicionados. Cheios de sofisticada maquinaria própria.

Os Postos estão espalhados, com a maior concentração no Centro Esquecido de São Paulo. Funcionam como clube inglês, privado, exclusivo. Sanitários limpos, sabão, ar seco para enxu­gar o rosto e as mãos, ventinhos frescos, banquinhos para re­pousar, máquina de fazer vinco em calça.

Os Postos dão o conforto, você fornece a urina. Para fre­qüentá-los, é necessário um exame médico rigoroso, análises de­talhadas dos rins e bexigas. Comprovada sua boa saúde, o cida­dão privilegiado recebe a Ficha de Utilização para o Posto Apropriado, FUPA. Eh, que palavra feia.

A sua urina é comercializada. Com a falta de água, apa­relhos recolhem os mijos saudáveis numa caixa central, onde se procede à reciclagem. Há mistura, tratamento químico inten­so, filtragem, purificação, refinamento, transformação. A urina retorna branca, pura, sem cheiro, esterilizada.

Dizem que dá para beber. Eu é que não vou experimen­tar. Nem o mijo meu, quanto mais o dos outros. Mas os Postos Apropriados têm uma capacidade limitada de recolhimento. Daí também a seleção apurada e o bom ambiente que se encontra nestes banheiros especiais, de luxo, para pessoas de fino trato.

Quem não é autorizado a freqüentar os Apropriados, ou não quer pegar filas, deságua de qualquer jeito, onde puder. Por isso, determinadas ruas fedem. E as escadarias, então? Em último caso, se não tiver mesmo solução, arrisque-se na fila me­nor dos Tapa Visão do Sexo, os TVS.

São pequenos muros, em que a pessoa fica com meio corpo para fora, de cara para a rua. Todos te olham, enquanto você se alivia. Por que o homem fica sem graça, quando urina cole­tivamente? Os TVS são indecentes porque recolhem a urina de graça e a distribuem a privilegiados.

Disse que jamais vou aceitar esta urina reciclada como água. Quem me garante que já não a estou usando em casa, na rua, nas lanchonetes? Se existe alguma coisa neste país, na qual ninguém ponha fé, algo que não vale absolutamente nada, trata-se da palavra do Esquema.

Meu sobrinho, o Militecno, foi quem me contou. Todos pensam que o excedente de líquido reciclado é conduzido para as reservas das Zonas Populopostais, onde se concentram os maiores índices de população. Não, não confundam. Nada têm a ver com os Acampamentos Paupérrimos.

Estes se encontram um pouco mais à frente, além dos Cír­culos Oficiais Permitidos. O povo dos Acampamentos foi im­pedido de entrar, no dia em que um prefeito decidiu: "São Paulo precisa parar". Então, parte desta água-mijada seria uti­lizada para a população destas Zonas.

O resto é reserva. O Ministro das Águas declarou que nossas reservas dão para seis meses, numa emergência. No en­tanto, meu sobrinho afirmou que estamos vendendo água ao Chile, por um décimo do preço que pagamos. Para nós, o preço do barril aumenta constantemente, e sem razão.

Querem que economizemos, para evitar racionamento obri­gatório. Todavia, as fichas representam o quê, senão o racio­namento? Não há como entender. Jogam a gente na chuva e ficam bravos: "Vocês vão se molhar, saiam". A gente quer sair, mas trancam a porta, continuamos na chuva.

A verdade é que as reservas recebem um mínimo de exce­dentes. Os Bairros Privilegiados abiscoitam tudo o que podem.

Ninguém viu, no entanto dizem que existem até piscinas co­bertas. Deste modo, se a emergência chegar, vai dar crepe, por­que os tanques devem estar todos vazios.

Esta emergência é esperada há algum tempo. Algum? Eu nem tinha começado neste escritório e já lia sobre os constan­tes sinais vermelhos que a natureza vem emitindo. É o alerta, declaravam os cientistas. Os poucos cientistas que tinham so­brevivido e tentavam criar defesas.

Cientistas. Categoria mínima, marginalizada. Numa fase quase pré-histórica, o povo era alheio aos seus avisos. Mais tarde, o Esquema percebeu a situação, manipulou jornais e tele­visão e fomentou a ironia. Foi quando surgiu a expressão ga­lhofeira "paranóia científica".

Qualquer ato era "paranóia científica". Um cientista esclarecido, consciente, naquela época, equivalia a ser judeu nos dias de nazismo. Coisa perseguida, maldita, que se camuflava. No entanto, gente continuava a estudar, falar, denunciar. A pro­vocar a opinião pública.

A maioria dos cientistas foi cassada. Outros se retiraram, aceitando convites estrangeiros. Houve quem se aposentou, mu­dou de atividade. Muitos institutos foram fechados, enquanto uma nova ordem crescia e dominava: a dos Militecnos ou tec­nocratas avançados da nova geração.

Hoje, a palavra Militecno é corriqueira, incorporou-se ao linguajar. Mas então não sabíamos bem o que significava. Lía­mos na imprensa, ouvíamos no rádio e não ligávamos. Se tivés­semos previsto o perigo. Como podíamos sequer imaginar que aqueles homens não tinham o cérebro normal?

Ficou demonstrado pelos cientistas. Foi mais uma das ra­zões que os tornaram marginalizados. Provou-se que os Mili­tecnos sofreram metamorfose em seu organismo. O cérebro ficou afetado. Perdeu parte da memória. As emoções foram elimina­das. Tornaram-se serenamente calculistas.

Daí o caráter bastante prático desta nova civilização. Se podemos chamar a isto de civilização. De tanto mexer com nú­meros, cálculos, máquinas, métodos, os Militecnos perderam certas faculdades. Partes do corpo quando não usadas são passí­veis de atrofiamento. Deu no que deu.

Instinto de conservação, fraternidade, capacidade de dis­tinguir beleza, boa qualidade, isso morreu. Tudo foi revelado num relatório apresentado nos Estados Unidos. Cientistas norte-americanos, especializados no estudo de nosso país, chegaram a curiosíssimas conclusões.

As obras destes norte-americanos estão banidas. Encon­tram-se em algumas bibliotecas particulares. Chegaram antes dos Interditos Postais. Hoje, abrem todos os pacotes nos cor­reios, revistam nos aeroportos, confiscam. Computadores for­necem rapidamente as listas de proibidos.

Estes cientistas especializados na mente do homem brasi­leiro surgiram depois do boom de brasilianistas. Toda a histó­ria brasileira foi revista e reescrita por estes amáveis professo­res norte-americanos. Em seguida apareceram os biólogos, os anatomistas, os pesquisadores da mente.

Nós, os brasileiros, não tínhamos acesso aos arquivos, mas eles sim. Trabalhavam livremente, recebiam bolsas, ajuda, microfilmagens, cópias de todo material que um pesquisador ne­cessita em seu trabalho. Não adiantava denunciar, o Esquema ignorava. Mais que isso, nos punia.

Sou lúcido para saber que o controle total, rígido, dos meios de comunicação, aliado à Intensa Propaganda Oficial, IPO, amorteceu as mentes. De tal modo que esta emergência em que vivemos passou a ser considerada normal. A nossa me­mória é admirável, porque este passado é recente.

E nos esquecemos. Tudo se precipitou. Rápido demais. Os Que Se Locupletaram estão hoje em seus territórios isolados, vivendo ricamente. Não conseguem se reproduzir, se perpetuar. Mas não tem importância para eles. São os chamados (ironica­mente?) Homens dos Tempos Presentes.

Através dos anos, temos nos adaptado a tudo. Acaso as gerações dos anos sessenta e setenta não se conformaram, acei­taram, e até buscaram o estado de sítio permanente? Quando penso nestas coisas não me excluo. Eu também sou o povo. E talvez tenha maior responsabilidade.

Afinal, sou professor de história. Cheguei a rir das críticas que os cientistas fizeram. Estão loucos, imaginava. Tais coisas nunca vão acontecer. Ou então a humanidade pode desapare­cer. Agora, vejo. Talvez a humanidade não desapareça, mas nosso povo está nos limites.

Medo. Vivo com medo. Minha mulher repete sempre isso. Mas Adelaide é outro gênero, só quer saber de sua igreja. Acre­dita na vida eterna. Pensa na salvação. Sofrimento agora, pa­raíso depois. O que acontece aqui é simples preparação para encarar o Senhor que está lá em cima.

Assim ela enfrenta a vida, conformada. Aceitando, rece­bendo. Quando quer, sabe ver as coisas. Tanto que conduziu o sobrinho para o Novo Exército. Sou um professor de história que tem um afundamento na mão. Encaro isto com naturalida­de. Deve ser um efeito, não uma causa.

Quantas coisas não têm aparecido? O careca de hoje? Quem tem idéia de onde veio? As pessoas que andam perdendo unhas? Os que sofrem de ossos amolecidos? Os que ficaram cegos? Ou sem dentes? Se a investigação científica existisse, sa­beríamos os porquês. Quem quer saber?

Todos querem apenas sobreviver. Se analisarmos a histó­ria, vamos concluir que o nível de vida do povo baixou a zero. Não de todos. Os Que Se Locupletaram estão lá. Aqueles que os serviram se arranjaram. E todo mundo só quis servir. Foram décadas que derrotaram a civilização.

Tempos em que o povo passou a comer menos. A comer pior. Cada vez com menos qualidade. Não chegamos a comer raízes, porque elas não existem mais. Esgotamos praticamente tudo. Dependemos das indústrias químicas governamentais ou do que é importado das fechadas reservas multinternacionais.

As casas sumiram, edifícios dominaram tudo, os espaços ficaram caríssimos, devido à intensa especulação imobiliária. Tudo produto da Grande Locupletação, quando o país foi divi­dido, retalhado, entregue, vendido, explorado. Tenho medo de pensar nisso. Medo de falar com alguém a respeito.

Eu me perco. Sempre que começo a pensar, vou longe. Talvez minha imaginação seja poderosa. Devia ter aproveitado para coisa melhor que este emprego rotineiro, metódico. Ou até decole nestes vôos de fantasia em função deste trabalho desarticulante, regressivo. Ou esse ou nenhum.

Naquele dia em que desci à procura da entrada para o pátio, não encontrei nenhum dos dois. Nem o pátio, nem o homem que ficava por trás da janela. Voltei à minha mesa e continuei observando. O corpo estava lá. Ficou até apodrecer dias depois, mas nenhum cheiro subiu. Anormal? E daí?

Certa manhã, o esqueleto desapareceu. No seu lugar surgi­ram pacotes metálicos, brilhantes. Estão lá até hoje, enferruja­dos, apesar do tempo seco e firme que faz há anos. Para mim, a ferrugem era provocada pela umidade. Deve existir outra causa. Discussões, reflexões inúteis.

Olho pela janela, há um homem que me observa. Penso que está olhando para mim. Ele interrompe o trabalho e se en­costa no vidro. Me olha e deve pensar: "Vejo aquele homem há tanto tempo, que vou sentir sua falta, se um dia ele sair dali. Acostumei com ele". Meu Deus, deliro. Bela novidade!

 

SIGA O VISUAL EM DIREÇÃO

AO CENTRO ESQUECIDO DE SÃO PAULO

 

Na década de oitenta, uma comissão do patrimônio histó­rico evitou a derrubada dos velhos prédios do centro de São Paulo. Tinham sido comprados, ou estavam em vias de, a grandes Conglomerados Construtores que preten­diam levantar arranha-céus. A comissão conseguiu pre­servar a região, exatamente como ela foi entre as décadas de quarenta e setenta. Conjunto de ruas, praças e prédios em decadência, último produto da centralização excessiva, que se esboroou a seguir, quando se implantou a Divisão em Bairros a Partir de Classes, Categorias So­ciais, Profissões e Hierarquias no Esquema. A região recebeu o nome de Centro Esquecido de São Paulo e foi, por algum tempo, zona turística. Dos raros locais onde se pode circular sem fichas especiais. Ali vale a ficha de qualquer bairro. O problema é passar pelas várias Bocas de Distrito, até se atingir o Centro. O comércio é subde­senvolvido, artesanal, um amontoado de miuçalhas e pe­chisbeques, imitação de mercados orientais, ao estilo de Jerusalém. Marginais, camelôs, especialistas em mercado negro, falsificadores de fichas, receptadores, se concentram por ali. Não são perseguidos pelos Civiltares, por­que estes marginais, camelôs falsificadores e receptadores são Civiltares disfarçados. Realizam o negócio ilícito e, em seguida, prendem o contraventor. Às vezes, são presos, porque os contraventores não passam de Agentes Naturalmente Desconfiados. Disfarçados.

 

ALGUMAS ORIENTAÇÕES A RESPEITO

DA ORGANIZAÇÃO QUE O ESQUEMA

ESTABELECEU NA CIDADE COLOCANDO

ORDEM E PROGRESSO NAS RUAS

 

De qualquer modo, estava contente. A sensação tinha co­meçado no fim da manhã. Não quis almoçar, dei a ficha para o colega manco. O homem vive esfomeado, já foi apanhado roubando fichas. Não o denunciaram por compaixão. A mulher dele enlouqueceu durante a praga dos grilos.

Ela está internada, mas as visitas são proibidas. O manco ronda o hospital, tenta entrar, pular o muro. Quase morreu ele­trocutado nas cercas. Nada pior que ter sido apanhado nos tempos da praga. Afirmar que se ouvia grilos bastava para ser condenado. Milhares ganharam o Isolamento.

O manco também ficou ofendido. A fome crônica que ele sofre não pode ser normal. A gente come pouco num calor des­tes. Vamos à lanchonete, uma saladinha de brotos artificiais com salsicha sintética, e pronto. Mal tocamos na comida. O almoço é apenas fuga do trabalho.

A Rádio Geral, na hora do almoço, tocou apenas valsas. O tempo todo. Discos antigos com os Meninos Cantores de Viena. Os meninos devem ter morrido. Ou estão muito velhos, ainda a cantar valsas com vozes trêmulas. Na minha formatura teve valsa, éramos mais de cem pares a dançar, rodopiando.

Adelaide dançava bem, era campeã. No clube, nas domin­gueiras, ela ainda adolescente não perdia uma só música. Os rapazes adoravam dançar com ela. Alegre, magra, leve, ágil, entusiasmada e cheia de ritmo. Não entendo como abandonou estas coisas para se transformar num rato de igreja.

Ela tem certeza que Deus vai pôr a mão no mundo. Resol­ver a situação. Outras vezes, fica desesperançada. Tem medo de um novo dilúvio. Já imagino que um dilúvio seria bem-vindo. En­cheria tudo de água fria. Vivo ansioso para mergulhar numa poça que seja, boiar por uma semana.

O calor é pior no fim do expediente. O sol está escondido, mas o cimento estala, as pedras racham e devolvem o mormaço. Na calçada, espero o momento, até achar uma brecha na fila da direita, direção dos pontos de ônibus. Caminha-se muito de­vagar, por causa da apatia e da quentura.

— Loteria, moço?

— Barbatana?

— Fotografia para documento?

— Lápis?

— Medalha?

A fila pára, vez ou outra. As pessoas se inquietam. Deve ser alguém discutindo na Boca de Distrito. Cada hora surge um problema. Com gente que perde a ficha de circulação. Que tem prazos vencidos. Que não passou na prova de identidade, foi apanhada com fichas emprestadas.

— Bolsa para fichas?

— Graxa?

— Meias permeáveis?

— Bloco de papel? Bom contrabando.

— Discos?

A mão no bolso, comprimo minha ficha. Está gasta nas bordas, é de alumínio vagabundo e sofre muito manuseio. Se estou nervoso, passo o tempo a esfregá-la, como se fosse amu­leto. Sem as fichas, não se entra no Centro Esquecido da cida­de. A circulação é toda excessivamente controlada.

— Gilete?

— Cigarro?

— Cinzeiro portátil?

— Cotonetes? São raridade.

Na rua, as bicicletas se amontoam. O antigo barulho dos motores foi substituído pelo ruído seco das correntes girando nas rodas dentadas. Milhares de correntes. As buzinas deram lugar a campainhas, assobios, apitos agudos. Xinga-se muito, como nos melhores tempos dos automóveis.

A ausência de veículos não diminuiu a aglomeração, o con­gestionamento, as confusões. Os ciclistas invadem as faixas de ônibus, sobem nas calçadas, atropelam, muitos se equilibram no meio fio. Quem fica no meio da multidão sofre. Empurrões, apertos, batidas, pontapés, insultos e bolinações.

Sensação de corrida no jóquei, com os cavalos se atrope­lando, jogando-se uns contra os outros, os montadores se ba­tendo com chicotes. Ou as corridas de bigas romanas. Ben-Hur. Olhando do alto dos prédios, pode-se ver o rio contínuo de cabeças e pneus, como se fosse água suja.

Tudo funciona no pedal. Os mais bem colocados possuem chofer. Uma ou duas pessoas puxam um pequeno trole, muito leve, onde o Privilegiado vai instalado. Coisa rara de se ver no centro. Os Privilegiados não se arriscam. O povo corre para cima deles, bate, xinga, arranca dos veículos.

Tem gente demais nesta cidade. Um dia, os Departamen­tos Circulantes verificaram que ninguém podia se mexer. Esta­vam todos aglomerados, apertados, comprimidos. Praticamente imóveis. Os empregos ficaram vazios, a maioria não conseguiu chegar. A solução foi criar as Áreas de Circulação.

Cada um recebe sua ficha e está autorizado a penetrar em área determinada. As Bocas de Distrito controlam o tráfego. Só entra na região quem tiver a ficha correspondente. Deste modo foi possível diminuir o fluxo. Mesmo assim, as filas nas calçadas tiveram de ser organizadas.

Não há outra possibilidade, se quisermos chegar a algum lugar. Toma-se a fila e, com paciência, caminha-se. Ao menos, as pessoas aprenderam a ser pacientes. Não adianta rebelar-se, brigar. Aliás é perigoso. Alterações por filas e lugares podem significar apreensão da ficha.

As áreas determinadas são razoavelmente extensas e pos­suem o necessário: restaurante, lojas, lanchonetes, farmácias, bancos, divertimentos. A idéia desta setorização nasceu em fins da década de 50, com a fundação de Brasília. A diferença é que hoje está altamente desenvolvida.

Estudando as cidades mais antigas, os esquemas governan­tes descobriram que o homem circulava sempre dentro de cer­tos limites. Raramente ultrapassava um número estabelecido de ruas e locais. "Portanto, a proibição não vai afetar o sentido de liberdade que o homem goza", concluíram.

Cheguei à Boca de Distrito, coloquei minha ficha no ori­fício, atravessei o corredor de metal. Que alívio. Nenhuma de­núncia. Não vou passar pela prova de identidade. Se ouvisse dois clics, teria que mostrar a carteira de identidade e compa­rar meu número com o número da ficha.

As Bocas de Distrito ficam em plena calçada. São peque­nos corredores azuis de meio metro de extensão, eletronizados. A ficha é devolvida à saída. Os que entram na área, tomam a calçada da direita; os que saem, a da esquerda. As fichas in­formam os horários permitidos de freqüência.

Tem gente que faz o turno da noite. Suas fichas admitem entrada a partir de 17:15 horas. As Bocas de Distrito, de entra­da e saída, são sincronizadas. Para cada um que sai, permite-se a entrada de um. O número de pessoas nas áreas é controlado rigorosamente. Ou então, seria o caos.

— Sônico Anti-Ratos?

Então me bateu, o nosso está quebrado há quinze dias. Adelaide não me lembrava, ao sair de manhã. Precisa de con­serto. Será melhor comprar um novo? A duração desses troços é tão curta. E eles, tão importantes. Viver sem o Sônico é lou­cura. Ameaça. Para mim e para os outros.

— Quanto?

— Quinhentos.

Corro perigo, sem o Sônico. Posso chegar em casa, uma hora, e vê-la tomada pelos ratos. Tem coisas boas na tecno­logia, e o Sônico é uma delas. O aparelho emite um som de alta freqüência, que é a reprodução exata de um guincho que o rato produz após a cópula. A rata entende.

Esse guincho significa: "Deixe-me só". Satisfeito com o im­pulso sexual, o rato quer um tempo para recuperação. E lança este grito de Greta Garbo. Os cientistas conseguiram reproduzir com fidelidade o som e evitam assim a proliferação dos ani­mais. O som contínuo afasta as fêmeas dos machos.

— O dobro do que custa em loja?

— Uai, vai à loja.

Espertos os camelôs. Sabem que odiamos as lojas. Somos obrigados, por decreto, a freqüentá-las em nosso Dia de Consu­mação. Fora desse dia vivemos o Regime da Poupança para Evitar Recessão. Não podemos comprar nada, a não ser pagan­do taxas altíssimas por consumo excedente.

Antes que eu me decida, chega o fiscal. Encanto dos tem­pos que vivemos. O fiscal pode ser o homem à sua frente, ao lado. Em qualquer parte. Freqüentam as filas e locais de aglo­meração. Irreconhecíveis. Camaleões, parecem-se com qualquer um. Identificados, mudam. São os fiscais.

Que medo deles. Podem verificar se estamos circulando na área correta. Olhar em nossos olhos e nos declarar doentes. Perceber uma simples tremedeira e nos enviar ao Isolamento. Fazem os camelôs desaparecerem com um gesto sutil de dedos, um acenar de mãos. Parecem mágicos, todo-poderosos.

É uma estrutura complexa. Porque existe também fiscal para o fiscal. E isso desencadeia uma guerra, entre eles. Para nós, a população, os sem poder algum, sobram as rebarbas. Não me peçam para explicar a mecânica da estrutura. Não há pos­sibilidade, somente vivendo dentro dela.

 

ADELAIDE CONTA COMO OS REPULSIVOS CARECAS

ESTÃO INVADINDO O BAIRRO, SEM NENHUM CONTROLE.

DEPOIS, FAZ GARGAREJO COM A GROSELHA, E DORME

 

Os helicópteros passam quase rasteiros, seguem pelo espa­ço das grandes avenidas. Controlam a multidão. As pás giram com zumbido ameaçador. Quando vejo esses besouros metáli­cos, me vem sensação paradoxal de morte e liberdade. Carre­gam metralhadoras e bombas de efeito desmoralizante.

Lançam redes sobre ajuntamentos, expelem líquidos colo­ridos que paralisam, produzem fumaça tóxica. Têm mil e uma utilidades. No entanto, me fascinam. Essa capacidade de estar acima, onipotente. Este vôo desconjuntado de ave pré-histórica. Ele tem o poder de escapar, partir.

Os helicópteros são auxiliados, em seu trabalho de con­trole coletivo, pelos respiradouros de gás. As bocas camufladas podem ser acionadas eletronicamente a bordo destes aparelhos. Basta utilizar os códigos, segundo a região que estejam rondan­do. Os respiradouros são terríveis.

Fiquei sem o Sônico, mas logo aparece alguém vendendo. Dos cantos de portas, das bocas de lobo, esquinas, tocas, de qualquer lugar, os camelôs ressurgem. Reencontrarão os fiscais, serão perseguidos. Imagino, às vezes, que seja um grande jogo, gato e rato, para afastar monotonia.

Tudo funciona como um ecossistema. Um moto-contínuo. Ah, o moto-contínuo de meu parente, o Sebastião Bandeira. Pensando bem, teve gente interessante em minha família. Até que tenho a quem puxar, com esta cabeça fantasiosa, um pouco febril demais, me dizia Adelaide.

Adelaide me esperava à porta do prédio. Escondida no corredor de entrada, porque não dá para facilitar, com tanta gente desconhecida e estranha. Ainda mais ela que é descon­fiada, e medrosa. Adelaide se esconde ali, esperando o carteiro. Há anos, aguarda uma carta.

— Chegou?

— Não.

— Ainda há de vir.

— Estou perdendo a esperança.

A minha pergunta é automática, como o gesto de acariciar seu ombro esquerdo. Suas respostas também. Há anos, troca­mos estas quatro frases na porta e elas me parecem uma das provas de que há coisas imutáveis neste mundo. No dia em que esta carta impossível chegar, será o vazio.

Entramos. Tomei banho, descansei. Como todos os dias. Tentei fazer tudo normalmente, Adelaide pressente mudanças mínimas no meu modo de ser. Pela entonação da voz, sabe se estou bem, preocupado ou alegre. Tem bom ouvido. A mesa estava posta, uma panela no fogo. Não quis me sentar.

— Você precisa comer.

— Não tenho fome.

— Nunca almoça direito, precisa jantar.

— Está muito quente.

— Se não come por causa do calor, não vai comer nunca.

Ficamos diante da televisão, esperando o início da novela.

Quando surgiram os letreiros, mostrei o furo. Ela me olhou, inquieta. Esperando que eu explicasse, dissesse alguma coisa. Não é normal o marido voltar para casa com um furo na mão, como se nada tivesse acontecido.

Adelaide começou a chorar, quando me viu quieto, indi­ferente. E eu parecia disposto a não explicar. Também, explicar o quê? Uma coisa que eu mesmo não entendia? Ela não é ha­bituada a aceitar, sem que digam o porquê. Tem de ser tudo muito claro. A única exceção é para a religião.

— Dói muito?

— Não dói nada.

— Foi acidente?

— Não. Apareceu.

— Não, Souza. Uma coisa dessas não aparece. Alguma coisa aconteceu. O que foi?

— Nada, estava no ônibus e a mão coçou. Quando coçou de novo, vi que o buraco estava começando. Quando desci na cidade, o furo estava pronto.

— O que você está escondendo?

— Nada. É a pura verdade, juro.

— Você sempre me contou tudo, Souza.

— E estou contando.

Repisaríamos a história a noite toda. Ela remoeria as mes­mas perguntas. Porque não tem sutilezas. Pensei em inventar uma desculpa, arranjar uma história. Nem precisava ser tão verossímil, apenas algo que fosse menos obscuro. Que tivesse uma base sólida, que parecesse palpável.

— Mas não dói nada, nada?

— Não.

— Você foi ao médico?

— Para quê?

— Para examinar isso. Quem sabe o médico tem uma ex­plicação.

— Não quero explicações.

— E fica aí com esse furo?

— Fico. Não me incomoda.

— É, mas a mim incomoda.

— A você?

— É, a mim! Vou ficar andando por aí com um homem que tem um furo na mão? O que vão dizer?

— Ora, Adelaide. Quem é nesta cidade que vai prestar atenção num furo? Você tem visto o que anda de gente estra­nha nas ruas?

— Falar nisso, hoje vieram dois carecas horrorosos pedir esmola.

— Esmola? Você denunciou?

— Dá muita mão-de-obra.

— Você sabe como é importante, Adelaide, esta denún­cia. É para o bem deles. O Esquema cuida.

— Estou cheia dessa gente toda, Souza. Nem atendo mais campainha.

— Quer dizer que têm vindo sempre? Por que não me contou? Como entram no prédio?

— Alguém deixa a porta aberta. Ou entram, como os ladrões entram nas casas. Só sei que eles têm vindo, todos os dias, todas as horas.

— O Esquema não vai segurar, Adelaide. Cada dia, gente nova, diferente. Nem sabemos de onde vem. Vi hoje um dos tais carecas. Terrível. Parecia de outro planeta. Tive receio dele. Não sei o que vai ser, a cidade não comporta mais. Mal dá para andar.

— Fazer o quê? Olha, com essa historiada toda, você se desviou do assunto. E o furo?

— Já disse. Sei tanto quanto você.

Ela foi ao banheiro, escovou os dentes. Agora, gargareja. O gro-gro-gro do líquido na garganta é desconsolador. Adelai­de nunca dormiu sem fazer o gargarejo com o preparado à base de groselha. Pois é, groselha factícia, mas de cheirinho bom e fresco, como aquela de criança.

Adelaide se metia na cama, aroma gostoso na boca. Por instantes, todo o quarto cheirava. Era a compensação pelo gar­garejo. Tenho aqui comigo que é por isso que todos estes anos jamais dormimos sem um bom beijo. A groselha me tranqüi­lizava, devolvia Adelaide, tal como a conheci.

Estávamos mudados. Velhos, talvez habituados demais um ao outro. Vivendo confortavelmente, sem sobressaltos, algumas emoções perdidas. Penso que foi a malícia de Adelaide que descobriu essa groselha. Como reação. Sabia que a sua ima­gem estava profundamente ligada ao refresco.

Nos vimos, pela primeira vez, numa sorveteria, em tarde de calor. Além de muita gente, sempre fui estabanado. Entrei, bati em sua mão, o refresco vermelho se espalhou pelo balcão.

O cheiro ocupou tudo e nos envolveu. Por dentro dessa nuvem de confusão, vi o sorriso.

Isso mesmo, o sorriso dela flutuava naquele perfume de fruta. Na minha cabeça se fundiram duas imagens, o vermelho do refresco e o branco dos dentes. Este instante não se perdeu, é revivido cada noite, nossos rostos encostados aos lençóis, o cheiro de groselha no ar, à nossa volta.

Entrei no banheiro, escovei os dentes. Um colírio para os olhos congestionados. A luz do quarto apagada, Adelaide me esperava à porta. Há trinta e dois anos, na hora de dormir, só entra junto comigo, vou até a cama com a mão em seu ombro. Faz bem aos dois este gesto. Temos a nossa tradição.

Na porta do quarto, olhei para o baú, em cima do guarda-roupa. Olhei para lá, nem sei dizer porquê. Foi automático. O baú de vime já escuro. A última vez que foi aberto, Adelaide estava grávida. Ao menos, pensávamos que estivesse. A barriga crescia, as regras foram interrompidas, ela enjoava.

"Psicológica", disse o médico, e não acreditamos. Estáva­mos tão confiantes. Aquele filho não era planejado, mas gos­tamos, fomos nos acostumando com a idéia. Até que certa madrugada, antes do sol, acordei com o piano e a Patética. Nunca tinha visto tanto desespero colocado dentro da música.

Nem mesmo Beethoven teria imaginado uma Patética mais dolorida. Juro, me deu vontade de chorar, ainda deitado. Só de ouvir os sons que vinham pelo corredor. Pode ser que eu tivesse intuído o que significava aquela música penosamente arran­cada do piano. Uma dor viva, penetrante.

Ela estava à banqueta, sem barriga alguma. Não consegui entender. Algo se rompeu em minha cabeça. De um dia para o outro, no espaço de uma noite, a barriga desapareceu. Não havia realmente gravidez. Durante anos pensei naquilo, me impressionava muito. Meu filho não passou de uma bolha de ar.

Adelaide guardava o enxoval da criança neste baú. Tinha sido da mãe de minha sogra, veio passando, filha para filha. Nele, Adelaide trouxe o seu enxoval. Na semana seguinte ao casamento, ela abriu, distribuiu tudo pelas gavetas, erguemos o baú vazio para cima do guarda-roupa.

Conservado, envernizado, cheio de naftalina contra ratos e baratas. Foi se enchendo de pacotes. Feitos por ela. Todos do mesmo tamanho, amarrados do mesmo jeito, envoltos em papel pardo. O mesmo papel que usamos para os calendários. Eu tentava adivinhar o que havia dentro. Não me contava.

Fora desses tempos, era como se o baú não existisse. Não mexíamos nele, não falávamos a respeito. Eu esquecia até que estava lá com pacotes. Vez ou outra ficava curioso, queria saber que tipo de coisas minha mulher estava guardando. Perguntar por que não me dizia nada.

Está na hora de interrogá-la. Por que esta bobagem? E se eu fosse ciumento? Faria um escândalo. Faria nada! Que se­gredos Adelaide tem? E por que não ter algum, um pouco de um mundo só dela? Claro! Quando coloquei a mão em seu ombro, Adelaide estremeceu. E retirou a minha mão, sem me olhar.

 

ASSUSTADA COM O FURO NA MÃO DE SOUZA,

ELA QUER QUE ELE VÁ À PREVIDÊNCIA

SOLICITAR UMA INVALIDEZ. HÁ MÉDICOS QUE,

SUBORNADOS, AJEITAM TUDO

 

— O que está procurando?

— Ficha para água. Não encontro nenhuma.

— Tem uma. Na xícara azul da cristaleira.

— Qual?

— A que você me deu quando fizemos dois anos de casados.

— Ah, a que tem asa, ou a outra que você deixou cair?

— Não me culpe, minha mão estava ensaboada.

— Quebrou, acabou.

— Você é que começou.

— Está bem, em qual?

— Não sei, numa delas. Sabe quem encontrei hoje? Teu sobrinho. Ele me prometeu umas fichas por fora.

— Nosso sobrinho. Por que você sempre diz assim: Teu sobrinho?

— É filho de tua irmã.

— Acaso você não está mais casado comigo?

— Foi um lapso.

— Com o Dominguinhos você sempre cometeu esses lapsos. Não gosta dele.

— Não gosto por quê?

— Por uma bobagem. Desde que ele perdeu dois livros da tua coleção de romances policiais, você passou a odiá-lo.

— Veja só, veja só. Fiquei com raiva, eram exemplares raríssimos. Senti perder aqueles volumes do Sinete Cinzento. Nunca mais encontrei outros. Mas já esqueci. Não sou maníaco. E se me lembro, ele me desfalcou também de alguns Mistério Magazine de Ellery Queen. Eu tinha a coleção completa, não ficou valendo tostão.

— No fim, a coleção inteira deu em nada. Quando ficou desempregado na universidade, passou tudo nos cobres. Amor a gente não vende. Nunca entendi um professor de história gostar tanto de livro policial. O que tinha a ver?

— Sabe, o teu sobrinho vai passar por aqui, quer come­morar com a gente.

— Comemorar o quê?

— Não te contei? Olha só que cabeça. Ele foi promovido. Agora é capitão.

— Capitão? Nessa idade? Eu tinha certeza, sempre foi menino bom, estudioso, dedicado. Ainda vai subir muito mais:

Se ela encontrar a ficha, teremos água para mais dois dias. Economizando, uns três. Não mais. Quer dizer, é provável que não tenhamos água, depois, por uma semana. Até eu receber nova cota. Já falam em outros racionamentos, em redistribui­ção de cotas. Se houver, e elas diminuírem, agüentaremos?

Ouço Adelaide remexendo nas louças da cristaleira. Às vezes, ela se distrai, fica olhando as taças, compoteiras, licoreiras, lembrando o significado de cada uma. Coisinhas de barro trazidas do Nordeste, quando o Nordeste ainda pertencia ao Brasil; ou a viagem dos dez anos de casados.

A televisão ligada na sala. Exibia aulas de sobrevivência. Ninguém assistia, apesar de ter sido obrigatório, no início.

Agora, são coisas mais do que sabidas. As horas da tarde, por exemplo, em que é aconselhável não sair à rua, por causa do sol, das pedras quentes ou usar um chapéu leve.

As aulas de receitas ainda são seguidas pelas mulheres. Porque existe uma série de produtos novos que poucos sabem manejar. Como o intragável feijão factício, fabricado em labo­ratórios, que nunca dá consistência. Ou vira sopa, ou enrijece feito borracha, cola, gelatina pegajosa na boca.

A necessidade provocou o sucesso de audiência e as aulas de receitas foram transferidas para a noite, horários nobres. Os melhores atores da televisão, apresentadoras bonitas, se des­dobram desajeitadas diante de fogões, auxiliadas por nutricio­nistas, para ensinar o povo a manejar alimentos.

Não se passa semana sem um produto novo. Coisas que tinham desaparecido, voltam, uma vez conseguida sua repro­dução nos laboratórios de Bem-Estar Social. Como o amendoim, a azeitona, tomate, cebolinha, beringela. Ou a semente de abó­bora que se torrava e salgava. Outro dia, vi na vitrine nada menos que Cambuquira.

Sopa de Cambuquira, preparada com fubá. Nas tardes frias, ou de chuva, agasalhados em casa, todos reunidos, a sopeira vinha fumegante. Não, a Cambuquira factícia não tinha o cheiro daquela que colhíamos fresca. Sempre ao cair da tarde, no quintal repleto de pés de abóbora rastejantes.

A falta de cheiro me inquieta nestas comidas vindas das indústrias ministeriais. Sabe-se lá de que modo são sintetizadas. Se fazem água da urina, vai-se ver o que estamos a comer. Estes alimentos são assépticos demais. Deixam na garganta um sabor de plástico que demora a sair.

Meu avô costumava trazer, toda quinta-feira, uma cesta de frutas. Mexericas, abacaxis, bananas, morangos. Dependia da época. Ele conhecia algumas casas de produtos naturais. Eram frutas pequenas, diferentes daquelas esplendorosas que víamos nos supermercados, atraentes, coloridas.

Minha mãe ria das frutinhas de meu avô. Mas, na verdade, quem ria era o velho, quando me levava ao seu quartinho, um puxado no fundo do quintal. Morava ali não porque o despre­zassem por ser velho. Foi exigência dele mesmo, independente e autônomo aos setenta anos. Livre.

Descasque uma, me dizia. Experimente o gosto. A mexe­rica deixava na mão um cheiro forte que demorava a sair, mesmo esfregando com muito sabão e bucha. Um aroma oleoso, adocicado. Nossa, é artificial, eu gritava. E ele fingia-se de irri­tado: Artificial é essa do supermercado.

Eram doces, sumarentas. Havia sabor em cada gomo, em cada uma das "garrafinhas" do gomo. Eu pelava o gomo, sepa­rava as "garrafinhas", mordia uma a uma, bem devagar. Aquela gotinha de suco era sentida, forrava a boca. Como um gás que me penetrasse agradavelmente, excitando.

"Essa gente faz tudo errado", dizia vovô. "Come frutas depois do almoço ou da janta e aí toma café. O perfume da boca desaparece." No entanto, não era contra isso que se revoltava. Ele apanhava as frutas gigantes dos supermercados. E abria as ponkans, os morangos, mangas, abacaxis e me­lancias.

Poncãs de cascas grossas, miolos diminutos. Absoluta­mente sem gosto, como se estivéssemos a mastigar papel. Aba­caxis cujo suco tinha gosto de água. Morangos vermelhos por fora, brancos por dentro. Colocava-se no leite, batia-se e reve­lava uma mistura sem sabor. "Veja o que estão fazendo com as frutas."

O velho odiava tudo que vinha dos adubos. "Frutas e flo­res nascem da terra, se alimentam da terra." Não posso dizer que a sua loucura nasceu disso. Meu pai, uma vez, me con­fessou que provavelmente vovô tenha tomado consciência do que fez, por anos e anos, como lenhador.

Acho um exagero, mas a cabeça das pessoas é muito com­plexa. O que sei é que meu avô foi internado, gritando que as frutas do mundo eram falsas. E um dia, aos oitenta anos, con­seguiu fugir, pulando o muro (vejam só) e afirmando que ia ao sertão porque era preciso deter os caminhões.

— Estava vendo televisão?

Fez que sim, silenciosa. Conheço os silêncios de Adelaide. Há um, normal, ela quieta, correndo pela casa, fazendo suas tarefas. O outro pesa, como se formasse uma aura. O mal-estar se espalha. Quando está magoada, ou emburrada, surgem as rugas, vincando o rosto. Ela envelhece.

— Por quê? Você nunca vê, de manhã.

— Acordei cedo, estava sem sono.

— Preocupada com o furo?

— Com o furo e outras coisas. Esta noite teve muito barulho no terraço lá em cima. Não percebeu?

— Dormi como pedra.

— Como se houvesse muita gente. Parece que afastavam paus, pregavam, serravam. Será que tem alguma obra?

— Os terraços foram trancados pelos Civiltares, lembra-se? Quem sabe é algum bicho? Gambás.

— Bicho, Souza? Gambás? Onde? Só se for na sua ca­beça. Nem no zoológico existe. Só aqueles empalhados da Conservadoria que você adora visitar.

— Quem sabe um milagre?

— Milagre? Não, não tem este tipo de milagre. O homem acaba, o homem paga. Deus não está lá para consertar bestei­ras. Está lá para julgar. Só espera esta gente toda, para o acerto final.

— Como você pode ter fé, Adelaide?

— Não quero ficar discutindo isto com você, Souza. Sei o que vai me dizer, e estou cansada. Não dormi à noite, agora de manhã não tem água. Você vai sem café. Não estou com paciência para conversas. E vamos fazer um curativo nessa mão.

— Curativo? Para quê? Está cicatrizada.

— Não pode estar. Você se machucou ontem. Nem deu tempo de ir ao pronto-socorro.

— Não precisei de médico, de hospital. O furo apare­ceu, e se acabou.

— E não dói, mesmo?

— Nada.

— Conta como foi.

— Já contei. Começou no ônibus. Me deu uma coceira. Uns puxões, a palma da mão ficou ardendo. Quando olhei, mais tarde, lá estava o buraco.

— E se você reclamar na companhia?

— O que tem a minha companhia a ver com isso?

— A sua, não. A companhia de ônibus.

— Nem ela tem nada a ver.

— Podia ter arranjado testemunhas. Movia um processo, ganhava, pedia indenização. Acusando os ônibus por contami­nação. Viu o seu Germano, da lojinha da esquina? Há quantos anos se aposentou por invalidez? Mais de vinte. Tudo por uma picada de abelha. Na Previdência tem uns médicos e uns advo­gados, todo mundo sabe, que arranjam as coisas, Souza. Por que não vai lá? O Esquema está aí para te pagar. Seria a tua vingança contra a aposentadoria da universidade. Chegou tua vez, Souza. Vai lá, agora. Vamos juntos, eu falo. Você fica quieto. Como se estivesse mudo, traumatizado.

Fico realmente confuso em momentos como este. Ouço Adelaide, dou e nego razão a ela. Sua cabeça funciona rapida­mente em instantes práticos. E esta é uma situação prática. O raciocínio dela tem aproveitamento. Adelaide sempre me re­serva surpresas. Vejo alguma razão: pode ser minha vingança.

Os anos que o Esquema me deve. Quanto rondei sem em­prego, amaldiçoado pelo carimbo: APOSENTADO COMPUL­SÓRIO POR LEI DE SEGURANÇA. Agora, nem estou regis­trado. Meu sobrinho me conseguiu o lugar. Estou acuado. Dever, não poder brigar, ter que agradecer. Não gosto dele, me sinto mal.

Mal comigo. Preciso sobreviver, tenho Adelaide, sustento meus pais. Junto a mim carrego um carro de justificativas para permanecer como sou. Por isso, amo este furo. Ele me mostra de repente que existe o não. A possibilidade de tudo mudar. De um dia para o outro. Amo e odeio Adelaide.

De que me adianta não participar do Esquema? Devia ir lá, arranjar outra compulsória por invalidez. Levava o mínimo, ia fazer biscates. Ou não fazia nada, circulava o dia inteiro. Negociando fichas de água, circulação, cartões de permissão para lanchonetes. Como um camelô, um contrabandista.

Quarenta por cento da população vive disso. Senão, vive­ria do quê? De repente odeio minha mulher. Por ela querer participar deste jogo todo. Não sou puro, ingênuo. Nem Dom Quixote. Mas me recuso a tomar parte, a contribuir para que isso aí vá em frente. Todavia, nada vai em frente. Está tudo parado.

Desespero batendo no mundo. Até agora, eu me desviava das asperezas. Hoje, no entanto, tenho que ir sem café. Se não há água para o café, não vai haver para o almoço. Nem para o jantar. Vamos ter que comer frios factícios com maioneses de merda. Preciso roubar uma garrafa de água.

— Como é, vamos ou não à Previdência?

— Não vou, não. Não posso fazer isso.

— Você é bobo, Souza. Sempre achei.

— Por que se casou comigo?

— Com tudo isso, eu te amo. Dá para perceber?

— Às vezes, dá.

— Acho que você deve ir. Pensa, amadurece a idéia. Você funciona devagar. Fica matutando!

Incrível, ela sabe. Raciocino lentamente. Posso até me de­cidir pela Previdência. Tirar dinheiro desse Esquema. O que eu devia fazer é dar uma volta pelo bairro d'Os Que Se Locuple­taram. Contemplar suas casas, a água que gastam nos jardins e piscinas. Me encheria de raiva e mágoa, me revoltaria.

Não sei se adiantaria. Desde os Meses Sombrios de Bus­cas e Atentados, o bairro está isolado. Sem a ficha especial, dourada, não se passa pela Boca de Distrito. Ao que dizem, Os Que Se Locupletaram jamais deixam suas casas. Vivem entre eles, se auto-satisfazem. Além disso, nem sei onde é, se existe mesmo.

— Os pacotes estão na mesa. Te esperando.

— Guardo tudo, já, já.

— Fiquei sentida, ontem, Souza. Você se esqueceu. Em trinta e dois anos foi a primeira vez que você se esqueceu de almoçar em casa no 5 de janeiro.

— Foi um dia diferente, Adelaide. Eu estava perturbado. Com esse furo, minha cabeça não estava bem.

— Você sempre veio. Com vento, tempestade, doente. E ontem, nada. Guardei bem, Souza. Foi desconsideração.

— Uma vez, em trinta e dois anos, e você fala em desconsideração. Devia compreender.

— Claro, entender que você não é mais o mesmo comigo.

— Não é contigo. É comigo, com o mundo.

— Ora, não vem com essa de perturbado. Meu pai fazia igualzinho com a minha mãe. E ela agüentou demais. Não pense que vou fazer como ela.

— Que conversa é essa, Adelaide?

— Estou tentando saber o que há com você. O que vai aprontar. Sinto um cheiro esquisito no ar.

— Eu também, mas é um cheiro diferente.

— Diferente?

— É. Preciso de um pouco mais de clareza. Para ver em volta. Sinto que está à nossa volta.

— Quando quer se desviar de um assunto, você é o rei. Escorrega, diz coisas que ninguém entende. O que é que está em volta? Os problemas estão dentro de nossa casa.

Tentei discutir com ela, nos primeiros anos. Depois, fui concordando. Devia ter continuado a brigar, até que era esti­mulante. Mas eu chegava tão exausto da universidade. Basta­vam as discussões com a administração. As perguntas cujas respostas não podia dar aos alunos. O cansaço físico provocado pelo calor.

Desculpas, vivi rodeado por elas. Não posso mais. Este furo, de repente, me deu uma força com que eu não contava. Não percebia. Necessitava. Desde que acordei, hoje, me sinto um estranho dentro desta casa. Não tenho nada a ver com ela. Quero ir embora, sair, rodar pela cidade. Olhar o mundo.

— Chame o teu sobrinho. Convida para jantar um dia desses.

— Falando nele, reparei uma coisa triste, naquele dia em que nos encontramos.

— Triste?

— A bolsa. Agora, ele já está usando uma daquelas que fazem parte da roupa.

— Qual o mal? Tanta gente usa. Mas tanta, não é de espantar.

— Não é de espantar, mas é triste, deve ser desagradável ter um pedaço de intestino numa bolsa plástica, junto da roupa.

— Melhor do que estar morto.

— Tem dia que não dá para conversar com você, Ade­laide. Vai telefonar para ele, diz para vir jantar.

— Sem água?

— Depois de amanhã recebo a cota de fichas. Pode ser no sábado.

— Sábado? Tenho a novena do Sagrado Coração.

— Então, para almoçar no domingo.

— Nossos almoços de domingo são tão chatos. Você bebe na esquina, come em casa e dorme a tarde toda.

— Não começa. Convida o menino para o almoço de do­mingo. Pode vir até sua mãe.

— Pode, é?

— É... pode.

— E os pacotes?

— De noite guardo.

— No escuro?

— Que bobagem.

— Bom... deixa eu pôr um bandaide nesse furo.

— No furo? Nem morto.

Adelaide me olhou aflita. Perdida. Como se estivesse sen­tada numa barra de gelo, deslizando a toda velocidade por uma ladeira, em dia de calor. O gelo derretendo e ela sabendo que vai se ralar toda. Desse jeito me olhou apenas uma vez na vida. No dia em que eu disse: vamos nos casar.

 

A PUNIÇÃO AO BIÓLOGO QUE TRABALHAVA

HÁ 19 ANOS, FOI UM AVISO DO ESQUEMA.

SE TODOS TIVESSEM SE UNIDO AQUELA TARDE,

TERIA SIDO DIFERENTE?

 

Quando abri a porta, a claridade me bateu, violenta. Tive de fechar os olhos. Ia acabar comprando óculos escuros, não estava suportando a luz. Agora entendo a existência dos lacrimejantes. Quase se podia ver um vapor leve, subindo das lajotas de concreto. Não pode ser, há um bom tempo o orvalho não existe.

— Como está a neblina, hoje?

— Não vejo nada. Quem sabe vamos ter um dia fresco?

— Só se instalarem um ar-condicionado gigante.

— Se fosse possível.

— Dizem que no bairro dos Ministros Embriagados tem um funcionando. Serve uma área imensa.

— Boca do povo é boca do povo. Como acreditar numa coisa destas?

— Vai lá ver.

— Se desse para circular naquela área, ia mesmo.

— Claro, você sempre mete o bico em alguma.

Achei melhor ir embora. Coloquei o chapéu, acariciei li­geiramente seu ombro esquerdo (é, não sinto prazer), olhei o relógio. Inteiro dentro do horário. Súbito, isto me irritou. Sabia que dentro de quatro minutos estaria no ponto de ônibus. Senão, perdia o carro S-7.58 e chegaria atrasado.

No corredor, defronte ao barbeiro, um grupo de três ca­recas. Muito semelhantes aos que eu tinha visto ontem. Cara de perigosos. O que faziam por aqui? Teriam fichas de cir­culação? E se eu perguntasse? Ou mandasse um Civiltar inda­gar? Se não tiverem fichas, é melhor que desapareçam.

Fiquei envergonhado. Culpei o sol por tais pensamentos. Deixe os sujeitos por aí. Não fazem mal a ninguém. Ao menos, suponho que não façam. Vão terminar denunciados. Serão levados para além dos Limites Permitidos. E vão morrer. Co­mentam que além dos Limites não há chance de sobrevivência.

Não seria eu a ter coragem de entregá-los nas mãos de um Civiltar, provavelmente a mais estranha e misteriosa milícia já criada por um governo. Espero que os três não fiquem pela vizinhança. O pessoal anda desconfiado, sobressaltado, alerta-se ao menor ruído suspeito. Não se pode facilitar.

Caminho, mancando um pouco por causa da artrose. A placa branca e azul aponta para a esquerda, com o símbolo visual: Ônibus. Antes da esquina, uma seta e uma série de pequenas figuras (ônibus em miniaturas) coloridas. São as li­nhas que passam pela rua paralela, com todas as conexões.

Não é preciso saber ler. Todas as informações desta ci­dade estão feitas através de visuais. Nenhuma palavra, mas um código específico que o povo aprendeu. Um símbolo para cada coisa, banheiro, bar, restaurante, centro, dentista, farmá­cia, viaduto, ponte, túnel, perigo, favela, escola.

Açougue, praça, fonte, setor industrial, comércio, igrejas, cinemas, lanchonetes, hospital, cruzamento, padaria, campos de descarregamento. Tivemos que decorar imensos manuais, até que a prática substituiu a teoria. Se aparecer uma placa com letras, aposto que ninguém vai conseguir entender.

No ponto de ônibus onde geralmente tinha umas dez pessoas esperando, desta vez estava cheio, agitado. O fiscal das fichas de circulação, irritado, empurrava asperamente todo mundo. Não era exatamente irritado que ele me pareceu, quan­do me aproximei. Era alarmado, amedrontado mesmo.

— A ficha, a ficha. Mostra logo que o S-7.58 vai chegar.

Exibi, receoso. Não era normal. Pela primeira vez em tantos anos, ele apanhou, olhou atentamente. Demorou. Pediu identidade, estranhei. Verificou a carteira, o número. Olhou meu rosto. Vi que suas mãos tremiam ligeiramente. Devolveu a identidade, depois de nova conferida nervosa.

— O que há? Alguma coisa errada.

— Muita gente, muita gente. A maioria não tem fichas. Anda difícil. Cada dia mais difícil. Essa gente quer ir para o centro e ninguém tem permissão. Não sei o que fazer, estão furiosos.

Eu ainda estava de mão erguida, segurando a identidade. Então, ele viu o furo. Não tive o cuidado de utilizar a outra mão, deixar a furada no bolso. Besteira minha, essa gente gosta de perguntar. Me aborrece ter que explicar o que não pode ser explicado e precisa ser aceito, por enquanto.

— O que é isso?

— Um furo.

— Que é um furo, estou vendo. Foi acidente ou doença?

— Não tenho bem certeza.

— Não tem, não tem. Explique.

— Bem, deu uma coceira, apareceu.

— Foi doença, quer dizer que foi doença! Diga logo.

— Doença não foi. Nem acidente.

— É, ah é? É melhor vir comigo para o Posto. Pode ser contagioso.

— Posto coisa nenhuma. Olha o furo cicatrizado, acaba­do! Que contágio que nada.

— Venha comigo.

— Vou perder o ônibus.

— Nesse o senhor não vai subir. Me dê a ficha.

— Nem pensar.

— Tenho que pedir ajuda?

Resolvi concordar. Há um Posto a cada quinhentos me­tros. Para verificações. Por causa de doenças não identificadas que surgiram, principalmente o câncer súbito de pele. A gente testemunhava os casos mais estranhos. De repente, na rua, a pessoa começando a descascar, ficando que é só sangue.

Acontece muito, mesmo com os migrantes, acostumados ao sol forte do Norte e Nordeste. Esses que descem aos magotes, buscando refúgio, esperando escapar do sol e calor lá de cima. Também descem, porque foram expulsos das terras. Estrangei­ros nas suas Reservas. E o povo vem. Morrer no Sul.

Um e outro fato vaza dos corredores oficiais e a gente descobre que existem brechas entre o Esquema Geral e o Estadual. Este declarou tranqüilamente o Estado de Calami­dade Pública, não quer mais assumir responsabilidades. É uma guerra, teria dito o governador, ante o descaso do Esquema.

Acontece que o governador não tem força, influência, nem autoridade. Tem quem assegure que ele foi esquecido no cargo, desde sua nomeação, décadas atrás. São restos da Era das Casuísticas, quando o Esquema alterava as regras do jogo, com a partida em andamento, sem permitir qualquer reclamação.

Quero dizer, não é que o governador tenha sido esquecido. Nada disso. Os cargos passaram a ser perpétuos. Em parte, porque ninguém de cabeça sadia pretende tal posto. Você pode argumentar: Quem é que tem cabeça sadia dentro do Esque­ma? E é evidente que não sei como responder. Juro.

Parece que não há nada a fazer, o dinheiro acabou, os cofres estão raspados, o que entra está comprometido. E des­valoriza a olhos vistos. Foi o legado deixado pelo SOI número 1 e SOI número 2. O primeiro era o Sistema Organizado de Incompetência e o segundo o Serviço Organizado de Inefi­ciência.

As obras e planejamentos eram realizados pelos SOIs e eu me lembro que havia até um jogo de palavras. Comentá­vamos que éramos também parte do SOI, uma vez que consti­tuíamos o Sistema Organizado dos Impotentes. Eram inúteis os nossos protestos, qualquer contestação ou investigações.

Para atingir o SOI 1, era necessário passar por diversos estágios dentro do SOI 2. Mostrando ineficiência máxima em realização, o sujeito era apontado à carreira. Devia apenas com­plementar com uma espécie de pós-graduação, quando mostrava habilidade e agilidade na manipulação da corrupção.

Comer bola sem ser apanhado, molhar a mão, receber su­bornos sem deixar rastros, eram as situações mais importantes. A astúcia, a capacidade, os truques, as armadilhas, eram fero­zes, e o candidato passava por maus momentos, até conseguir provar que era digno, merecia a distinção, o SOI 1.

— Espera um pouco. Arranja um jeito de resolver o caso sem precisar ir ao Posto.

— Está com medo? Sua doença é mesmo contagiosa.

— Não é isso. É que no Posto se perde muito tempo.

— O senhor me diga como arranjar.

— Diga você.

— O senhor tem ficha de alimentação?

— Posso te ceder um almoço.

— Onde?

— No "Aurora Boreal". É a que fica na minha área de circulação. Mas olhe lá, amanhã não me vem com estupidez, querendo me segurar de novo.

Demorou muito para chegar minha vez na Boca de Distri­to. A fila não andava. Um anão, à minha frente, informou que tinham liberado mais autorizações, por decreto, nesta noite.

E que ele, anão, tinha encontrado dificuldades para sair do seu bairro. Era assim, eliminavam uns, entravam outros. Um jogo.

Passei frente à Casa dos Vidros de Água e não senti von­tade de entrar. Tinha sede, um pouco de fome. No "Aurora Boreal" gastei outra ficha na compra de um copo de leite factício, café e duas bolachas. Continuasse a me desfazer das fichas, e ficaria um ou dois dias sem comer, no fim do mês.

O fim do mês é fim de mês. Deixar o problema para lá. Investir agora, ver o que acontece depois. Na hora, os proble­mas se resolvem. Depois de comer, me veio a vontade de passear pela Casa dos Vidros. Eu suava dentro da lanchonete, e as pás que giravam no teto não movimentavam ar algum.

A Casa, ao menos, é fresca, confortável. Talvez influência da água contida nos milhares de vidros, distribuídos pelas es­tantes. As placas opacas do teto deixam entrar uma luz difusa, é dos poucos lugares agradáveis de se estar. No dia em que o povo descobrir isto a calma vai se acabar.

Conheço de cor as salas, corredores, nichos. A ordem dos Vidros de Água, a seqüência em que foram colocados. Um tra­balho bonito, feito nos tempos que antecederam o Corte Final. Um dia desses vou passar pela Floresta Virgem Representada. Para rever o documentário sobre o Corte Final.

Vou olhando sarjeta e latas de lixo. Quem sabe encontro um jornal usado. Ou um pedaço, folha rasgada. Não importa. Sinto necessidade de ler notícia. Ler de verdade. Estou cansado de ouvi-las pela televisão, na Rádio Geral. Sempre encontro um, atirado por aí. Às vezes sujo, emporcalhado.

Durante alguns anos, como professor, fui autorizado a receber um jornal semanal. Havia pouco para ler. Pouco que interessasse. As más notícias estavam proibidas para não alar­mar o povo. Os governantes da Era da Grande Locupletação é que destilaram este conceito de más notícias.

Foi um trabalho gradual de preparação. Filmes na tele­visão e nos cinemas, outdoors com propaganda. Repetição exaustiva até convencer a todos que as más notícias prejudi­cavam a tranqüilidade, traziam inquietação, provocam stress, aumentavam a hipertensão, causavam até mortes.

 

ESTÁ NA HORA DE NOS UNIRMOS, NOS FORTA­LECERMOS.

 

A Era da Grande Locupletação veio logo depois dos Aber­tos Oitenta que tinham se sucedido a uma ditadura grotesca. A imprensa tinha se acostumado a tratar dos assuntos livre­mente, a denunciar e apontar. Incomodava. O Círculo dos Mi­nistros Embriagados sentiu-se ofendido, exigiu reparações.

 

TEMOS TUDO PARA SER A NAÇÃO LÍDER.

NOSSO PODERIO ECONÔMICO E MILITAR COM­PROVA.

 

Tudo começou quando um ministro processou o jornal que o acusara de corrupto. O jornal comprovou, o Esquema cedeu, o ministro caiu. Então, os outros sentiram a ameaça, se uniram e iniciaram uma campanha cívica: "De que servem fatos como este para o país? O Esquema deve governar tran­qüilo."

 

NOSSAS DEFESAS SÃO INVULNERÁVEIS.

O ESQUEMA DESENVOLVEU OBRAS ESTRATÉGI­CAS NOTÁVEIS.

OS OUTROS PAÍSES NOS TEMEM.

 

Era esse o tom. Um governo constantemente atacado tem que passar o tempo respondendo acusações. E não pode gover­nar tranqüilo. O povo devia escolher. Se as más notícias con­tinuassem, o Esquema não teria condições de administrar. Por­tanto não seria culpado se o país estacionasse, até regredisse.

 

PENSEM EM NOSSO SISTEMA DE REPRESAS, NAS HIDRELÉTRICAS,

NA USINA NUCLEAR, NAS FERROVIAS DE MINÉRIOS,

NA POLITICA ENERGÉTICA, NA DESCOBERTA DO ÁLCOOL COMBUSTÍVEL.

 

O povo foi ficando orgulhoso do que tinha. Deixou de ler os jornais que enfocavam más notícias. Assim a grande campanha contra a devastação e concessão do Amazonas mor­reu. Ninguém queria ouvir falar em desmatamento, árvores caídas, pastos substituindo matas, formação de terras estéreis.

 

REGOZIJEM-SE COM O OURO DE NOSSOS GARIMPOS,

COM A MADEIRA QUE PODEMOS EXPORTAR, ORGULHEM-SE

COM AS SAFRAS IMENSAS DAS TERRAS FÉRTEIS, ONDE,

PLANTANDO, TUDO COLHEREMOS. CULTIVEMOS O OTIMISMO,

A CONFIANÇA, ABAIXO OS NEGATIVISTAS.

 

Duas coisas eram pior que o câncer para a Alta Hierar­quia do Novo Exército: os espíritos negativistas e os comu­nistas. Eram caçados e isolados. Na altura do Grande Ciclo de Combate à Abertura da Igreja, também apelidada de Co­liseu, os comunistas tinham se tornado bichos raros, quase extintos.

Um pouco pela repressão, e muito pelo desencanto, extinguiam-se, do mesmo modo que aves e animais da fauna brasi­leira. Com a diferença que os bichos podiam se dar ao luxo de reservas particulares, onde se tentava a sua reprodução em cati­veiro. Já em cativeiro, os comunistas definhavam.

A última notícia sobre o que estava acontecendo ao norte, foi dada por um Ministro, o dos Negócios Imobiliários, cargo criado pela necessidade de se controlar a especulação, não so­mente nas grandes cidades, como em toda área do litoral, onde os loteamentos se sucederam, velozes e devastadores.

Na verdade, o Ministro cuidou voraz e imediatamente de proteger o seu grupo. Controlou a entrada de arrivistas, elimi­nou concorrentes. Uma tarde, célebre, ele declarou na televi­são: "Devemos estar orgulhosos pela conquista que acabamos de fazer. Um grande feito deste governo que pensa no futuro.

Porque, disse ele, a história vai nos registrar como o Esquema que deu ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não é apenas a África que pode se orgulhar do seu Saara, o deserto que foi mostrado em filmes, se tornou ponto turístico, atração, palco de aventuras, celebrado, glorificado.

A partir de hoje — e ele sorriu, embevecido — contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona maravilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, dunas, o curioso leito seco dos rios."

Os filmes da Agência Oficial mostraram, gradualmente, a desertificação, com as imagens mais sofisticadas que o povo tinha visto. Empresas de publicidade promoveram campanhas, induzindo revistas requintadas a realizar caravanas. Os ricos se divertiram, fantasiados de árabes.

A Primeira Dama recebeu, em tendas de seda fincadas na areia, iluminadas por fogueiras e archotes. Ventiladores agi­tavam palmeiras artificiais. Os decoradores assistiram a cen­tenas de filmes hollywoodianos de mil e uma noites, para se inspirarem e produzirem os incomparáveis cenários.

Helicópteros desceram nas areias mornas, trazendo elite misturada a dançarinas do ventre. Um colunista, antes de mor­rer, afiançou que nem a grande festa que o Xá do Irã deu em Persépolis foi semelhante. Outro ria ao se lembrar da pomposa inauguração do conjunto Las Hadas, no México.

Ele gritava, antes de ser reconduzido ao sarcófago, que a noite dos Patino tinha sido uma ingênua festa de criança. O baile da Primeira Dama foi o canto de cisne dos colunistas sociais. A presença destes espécimes assombrou as novas gera­ções que não podiam acreditar em sua existência.

Os colunistas se ergueram das cadeiras de roda nas clí­nicas geriátricas, onde andavam sepultados. Receberam alta nos sanatórios de doenças mentais. Abandonaram confinamentos, seguidos pelos enfermeiros. Foram recolhidos um a um em suas mansões estentóreas, onde jaziam exangues.

Trêmulos, babavam e balbuciavam. Alegravam-se, cientes de novos velhos tempos. Se diziam mudos de prazer. No en­tanto, os maldosos garantiam que balbuciar sempre foi uma característica da classe, incapaz de alinhar quatro palavras se­guidas, formando uma única frase coerente, inteligível.

Os colunistas morreram todos, ao raiar do sol, antes do café da manhã estar servido. Caíram ao amanhecer, como ge­nerais chineses. Deslumbrados, sufocavam-se de bajulação, afogavam-se em gratidão, agradecendo com beijos babosos a dá­diva dos todo-poderosos a quem tinham sempre servido.

Foi quando se deu a punição ao cientista. Quero dizer, a primeira após os Abertos Oitenta. Penso que esta pena mar­cou o início de um novo tempo. Nestes últimos anos, saltamos rapidamente de um ciclo para outro. Mal nos acostumamos a um, precisamos mudar. Incessantemente.

Fomos ingênuos. Como eu, muitos. Tínhamos nas mãos posições através das quais era possível, lentamente, instilar um gesto de lucidez, um pouco de consciência. Semente de inquie­tação. Alarme. Mesmo com toda a vigilância. Afinal, um pro­fessor em quem alunos confiam, é muito mais que um pai.

Sim, aquele cientista protestou. Teve coragem. Quem lem­bra seu nome, hoje? Havia na universidade um livro negro. Intenso relato da perseguição que professores, pesquisadores, médicos, cientistas, sofreram. Até o momento em que os regis­tros não adiantaram. A exceção virou normalidade.

Convivemos com ela, nos habituamos. O cientista punido não me sai da cabeça. Eu estava no hall da universidade, quando ele passou. Soube antes, pelos noticiários da tarde. Ficou esperando, o reitor desceu com um comunicado para a sala dele. Saiu, sem abrir uma gaveta, sem levar um só papel.

Ao passar por nós, no hall, parecia o mesmo homem de todos os dias. Nem a cabeça abaixada, derrotado. Nem erguida, sinal de orgulho e indiferença. Homem normal. Tinha acabado de perder os seus direitos. O de professor, o de circular, com­prar, conversar com os outros. O de viver, enfim.

Eu estava chocado. Não fazia ainda idéia exata do que se abatera sobre aquele homem. Um biólogo com teses nos Esta­dos Unidos e Europa. Dava aulas há dezenove anos. Filhos e netos. Pouco mais e levaria vida tranqüila. No entanto, ele se ergueu. Sua voz indignada clamou. Contra o deserto.

Não calculávamos os resultados. A reação foi violenta. Deixou-nos confusos. Que raios de pesquisadores éramos, se não tínhamos sequer possibilidades de analisar lucidamente a situação? Pessoas com as nossas informações de realidade polí­tica e social deviam estar preparadas.

Prontas a calcular, misturar os dados, observar. Concluir os caminhos aos quais estávamos sendo levados. Nem era ques­tão de previsão. Bastava contemplar os fatos e tirar ilações naturais. Como beber água quando se tem sede. A punição daquele homem foi a chave que nos forneceram, o aviso.

Não a utilizamos. Levei alguns meses perplexo, até a vergonha tomar conta de mim. Senti que devia ter atravessado o hall e me colocado ao lado do professor. Tivéssemos todos feito isso, algo poderia ter mudado. Os gestos decisivos falta­ram em bons momentos de nossa história.

Dar as mãos simbolicamente. Penso muito nisso. Já se passaram tantos anos e ainda me imagino. Nós, juntos, diante da universidade. Ou aniquilavam todos, ou voltavam atrás. Permitimos. Não me conformo. Culpa que carrego. Ela me corrói. Nada pior que a memória do gesto não realizado.

Dos anos setenta em diante, fomos conduzidos dentro de indefinições. Rodeados por coordenadas paradoxais. Sistemas duros, ares democráticos. Repressões justificadas e justificativas aceitas. Democracias em clima de ditadura. Regimes amorfos a respeito dos quais não sabíamos pensar.

Nunca nos ocorreu que era uma nova forma de sistema. Sem contornos definidos. O nosso erro foi procurar na própria história os moldes. Esquecidos que os tempos e os homens tinham se modificado, substancialmente. Como poderíamos chamar a esta nova fórmula? Sistemas dissimuladores?

Assemelham-se, porém não são. São, mas não se asseme­lham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labi­rinto de espelhos, e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas imagens à nossa volta dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, ou permanecer em busca da única?

Não encontro um jornal. Foi uma tentativa. Inútil, eu sabia. Porque todas as manhãs eles passam, procurando por todos os cantos. São rapazes surdos que correm vasculhando os santos do distrito. Arrebanham folhas, inteiras ou rasgadas, colecionam e vão negociar. Vivem disso, sustentam famílias.

Estes rapazes possuem fichas especiais, entram em qual­quer Distrito. Ajudam na limpeza das ruas e assim sobrevivem. Possuem uma freguesia certa, é difícil entrar no círculo. Às vezes, com uma boa oferta, concedem eliminar alguém da lista, trocar por outro que ofereça vantagens.

Deve fazer três anos que não vejo um jornal. Vivo de recordações, tenho que me contentar com a televisão e a Rádio Geral. Encosto-me aos grupos, nas lanchonetes, tentando ouvir trechos de conversa. Já que o Esquema se organizou tanto, devia haver um rodízio para recebimento da imprensa.

Não importa. Hoje é dia de fazer minha loteria, preciso descer às cinco e meia, esta é a minha hora. Ou não vou tra­balhar. A neblina azulada cobre o alto dos prédios, sensação de lona de circo. De onde vem? Antes, eram as queimadas. E agora, quando não há mais o que queimar?

Empurram, acotovelam, chutam, se encostam. A cada dia, penso que tem mais gente neste centro. Tudo me irrita. Vou para a repartição, a falta significa multa e diminui minha proporção de fichas para água, ou lanches. Já ando em falta, dia desses recebo nada. E ficha ninguém empresta.

 

NO ESCURO DO QUARTO, A AUSÊNCIA DO TIQUE-TAQUE.

ENTÃO, OUVIRAM. ANDAVAM SOBRE O TERRAÇO.

NAO ERAM ANIMAIS, POIS ANIMAIS NÃO EXISTEM

 

Um bloco marrom, compacto, saindo do verde. Manchas imprecisas dançam diante de meus olhos fechados. Tenho de saber o que é. Cochilo no ônibus e a mancha surge, com a mesma insistência com que tem aparecido nestes últimos anos. Ela brota no fundo da memória, de tempos em tempos.

Cada vez que ela brota, mergulho na imobilidade. Não consigo mexer os braços, mãos e pernas ficam adormecidas. Por pouco tempo. Sensação angustiante, porque a única coisa que está em meu pensamento é a mancha, movendo-se lenta. Eu, paralisado, semimorto. Porém, consciente.

Volto para casa. O barbeiro está lotado, a esta hora a temperatura baixou um pouco. As pessoas suam e conversam. Falam devagar, ninguém excitado para não gastar energia. Co­nheço alguns, são vizinhos. Outros, completamente desconhe­cidos. Aliás, desconhecidos em maior número.

Não há banho. Meu sobrinho ficou de aparecer. Adelaide reclama que ele não telefonou, nem mandou recado. "Mamãe vai nos emprestar duas fichas". Abri a televisão, desliguei. Fiquei observando a mão furada, senti vontade de sair. Ir para onde? Se ainda houvesse o velho jardim público.

Adelaide ligou outra vez a televisão. A novela começava. Ela não disse nada até o fim, é um dos últimos capítulos. Segui a história desinteressado. Depois ela desligou o som e me olhou interrogativamente. Incrível a quantidade de olhares que ela possui, devia ser atriz. Não fosse tão contida, amarrada.

— Fiz promessa a Nossa Senhora Aparecida. Se ela curar esse buraco, vamos ao santuário ouvir duas missas. E dou sua mão em cera para a santa.

— Aposto que foram essas vizinhas que te deram a idéia.

— Falei com mamãe. Ela achou que eu devia fazer a promessa. Não custa nada!

— Não vou cumprir promessa nenhuma. Vê se me deixa com o furo.

Começou a chorar, foi para a cozinha. Não me importo que chore. Não tenho nada com isso, não mais. Olho com surpresa os móveis, cortinas desbotadas, a pilha de jornais, as revistas de moldes, a prateleira de bibelôs, quadros de santo, toalhinhas de renda, cinzeiro de porcelana.

Sinto-me em outra casa. Na de um amigo, conhecido. Parece que nunca olhei para essas coisas. Tão feias, arrumadinhas, inúteis. Nunca usei essa xícara com iniciais azuis. Nem os pratos chineses que só servem para dar trabalho à faxineira. E essas flores que ela compra todas as semanas.

As mesmas flores factícias, sempre. Feitas de plástico. Maravilhosamente bem feitas, folhas e pétalas finas e suaves ao toque, Um dia (faz quantos anos?) fiquei mais de hora olhando as pétalas de uma rosa branca. Acho que foi a última vez que vi flor verdadeira, não factícia.

A rosa estava no canto da parede, no pequeno altar ao Sagrado Coração. A cada dois dias, Adelaide colocava uma nova, trazida do jardinzinho da frente. A rosa se tornava cinza de um dia para o outro. Recoberta por uma camada de fuligem que aderia ao aveludado da pétala. E não saía.

Quando esmaguei a pétala, fiquei com a mancha preta na mão. Como se fosse graxa. E aquela graxa tinha grudado nos dedos, me deu nojo. Estava me lembrando disso, enquanto dava um puxão no prego que sustentava uma bandeja de charão. Está aqui desde que nos casamos.

Dez dias depois do casamento Adelaide tinha acabado de arrumar a casa. E tudo permaneceu. Estagnado. O prego frou­xo, dei pequenos toques na ponta da bandeja vermelha, com desenhos chineses. Ela acabou caindo, bateu de ponta, partiu-se, os cacos voaram. "Venha jantar", Adelaide chamou.

Ela não quis sentar-se à mesa, ficou com o prato no colo, a um canto. Gato, parece um gato. Eram curiosos os gatos. Cachorro, eu odiava. Nunca fui com esse bicho. Ojeriza, não sei por quê, nunca me fez nada. Talvez eu não goste de quem vive lambendo os outros, correndo atrás, servilmente.

Há muitos anos nos deitamos às 15 para 11, depois de termos ouvido o jornal na Rádio Geral. Adelaide fica com o seu crochê, não se incomoda com as notícias. "Vamos dormir?", propus. Ela jogou para mim outro olhar, desta vez desorien­tado. Como? Da mesa para a cama, sem ouvir o rádio?

Escovamos os dentes, ela passou Antisardina no rosto. Sua pele é bonita. Desde que nos casamos, ao passar pelo corredor, entre o quarto e o banheiro, deixo que ela vá à frente. Coloco a mão em seus ombros e assim entramos no quarto. Nesta noite, pela segunda vez, ela teve um gesto forte de repulsa.

Instintivo, inconsciente. Quando sentiu a mão no ombro (é automático, mesmo), ela se encolheu inteira. Parei, tirei a mão, rápido, enquanto ela continuava, caminhando sem olhar para trás, certa que eu a observava. Talvez querendo saber como era o meu olhar. Surpreso, indiferente?

Tive pena de Adelaide. De repente, ela se via só no mundo. Saltando de um avião, sem pára-quedas. Penetrava num círculo de insegurança. Não me encontrava. Ou melhor, não encon­trava o homem com quem convivia, de quem dependia. Adelaide não compreende minhas atitudes e não tenho como explicar.

Não acendemos a luz do quarto. Nos trocamos na penum­bra. As roupas estavam nos mesmos lugares. O pijama, cami­sola, a meia (apesar do mormaço contínuo, ela tem o pé muito frio). Se um dia ficarmos cegos, ainda assim vamos andar pela casa com naturalidade. Conhecemos cada milímetro dela.

As roupas passadas, sobre a cômoda. Cada noite, antes de nos deitarmos, ela coloca tudo ordenadamente nas gavetas. E por instantes, o quarto é invadido pelo cheiro suave de sol, sabão e naftalina, enquanto que das velhas gavetas ainda vem o aroma longamente conservado do cedro.

Fingimos dormir. Silenciosos, eu percebendo que ela tem vontade de falar. Tenta, e não diz nada. Se movimenta, inquie­ta. Até ontem, Adelaide conhecia tudo de mim, podia prever o que eu diria, os gestos, meus horários. Agora, sente vergonha de estarmos na mesma cama. Sou um desconhecido.

Sinto o rosto ardendo, a pele quente, meu coração bate apressado. Gosto desta mulher, não queria que tais coisas acon­tecessem com ela. Em outros tempos ela teria perguntado, feito uma brincadeira, rido. No entanto, se mostra com medo, esqui­va, se encolhe no seu canto, quase a cair da cama.

Ouvimos, os dois, e nos sentamos de um salto. Andavam pelo terraço. Claro, andavam, com passos firmes. E quem estava lá não procurava disfarçar, caminhava normalmente, para lá e para cá. Não era bicho, que os animais têm o andar macio. Além disso, que ilusão a minha pensar em bichos.

— Ouviu?

— Claro, um barulho desses!

— O que a gente faz?

— Vamos ver.

— Ver? Está louco? E se for um ladrão armado?

— Acende a luz, ele se assusta.

— Melhor ligar para o Posto Civiltar.

— É? E se eles não encontram nada, levamos uma multa.

— Que horas são?

— Como posso ver no escuro?

— Se for mais de duas não podemos acender a luz.

— É emergência.

— Como provar depois?

Conversamos baixinho, enquanto o barulho diminuía. De repente, saltei da cama. Afinal, qual era? Coisa mais ridícula, minha casa ameaçada, eu nem podia acender a luz, nem chamar alguém para me proteger. Gritei. Com toda a força. Tão ines­peradamente que Adelaide se assustou.

Acendi a luz, olhei o relógio. Parado. Pela segunda vez em quantos anos? Uns vinte. Adelaide tinha deixado o empre­go quando ele quebrou pela primeira vez. Fomos comemorar numa pizzaria, nos esquecemos do conserto. Daquela vez fiquei apreensivo, deixei o rádio ligado para não perder a hora.

Adelaide colocou o penhoar amarelo desbotado. Diabo de mania, um calor destes, quem vai prestar atenção em seu pijama curto? As vizinhas andam com as pernas de fora, de shorts, e não se pode dizer que são meninas. Que não há. Neste prédio as mulheres todas beiram os cinqüenta ou ses­senta.

Coloquei as mãos em seus ombros, ela se encostou em mim. O corredor cheio de gente, rostos intrigados. Alguns ainda abriam as portas cautelosamente, observavam o movimento, se juntavam, inquietos. Todos ouviram, o barulho no terraço foi grande, só podia ser gente. Fazendo o quê?

— Pegaram um.

— Pegaram nada. O careca fugiu.

— Quantos eram?

— Sei lá. Acho que uns dez.

— Muito mais. Ouvi o barulho lá do sétimo.

— Alguém subiu?

— A comissão do prédio.

— O que estavam fazendo?

— Ninguém tem idéia de nada. Vamos esperar.

— Chamaram o Posto?

— Estão ocupados, atendendo outros casos. Há falta de viaturas.

— Não estou gostando, tem estranho demais neste dis­trito. O que está acontecendo com o controle de fichas?

— Que controle, que nada. Alguém dá satisfação?

— Corram, a comissão está na casa de dona Alcinda.

— Pegaram alguém?

— Pior, muito pior. Descobriram o que aconteceu!

O apartamento de dona Alcinda era dois andares abaixo. Escadas superlotadas, zum-zum-zum nos corredores, parece que o prédio inteiro levantou. Não dava para entrar, as informações desencontradas circulavam de boca em boca, nunca se sabia se o que chegava até a gente era o concreto.

— Viu o que estavam fazendo?

— O que estavam fazendo?

— Quem estava fazendo?

— Onde estavam fazendo?

Havia quem simplesmente não entendia o que se passava, rebatia pergunta com pergunta, ninguém chegava a um acordo, todos excitados. Um passava ao outro um pedaço do fato, no entanto os fatos juntos não representavam nenhuma situação completa. De modo que o nervosismo foi aumentando.

— Acharam uma mangueira.

— Encontraram a mangueira.

— Tinham perdido a mangueira?

— De quem é a mangueira?

— Estavam dentro da caixa d'água?

— Perderam a mangueira na caixa d'água?

— O que fazia a mangueira na caixa d'água?

— Na caixa? Mas a caixa fica no terraço e o terraço é lacrado.

— Arrombaram o lacre.

— Que horror! Como explicar aos Civiltares?

— Vamos prestar queixa.

— Quem vai acreditar que não fomos nós?

— A comissão do prédio vai fazer o registro de perdas e danos. Levaram muita água.

— Levaram água?

— Quem levou água?

— Tem uma mangueira estendida na lateral do prédio, por fora.

— Estavam roubando água?

— Só faltava essa, roubarem água da gente.

— Foram os carecas? Estão rondando muito por aqui.

— Alguém viu um uniforme do Novo Exército.

— Não posso acreditar.

— Levaram muita água?

— Mais de meia caixa. Sorte nossa que a mangueira estourou, fez um barulhão, eles correram.

— Domingo roubaram no prédio da esquina.

— Só tem uma solução, contratar atiradores. Matar ladrão de água não é crime. O duro é provar que estavam roubando água.

— É que muitos prédios dão o golpe. Arrombam as cai­xas, tiram água, chamam os Civiltares.

— Antes de investigar o roubo agora, investigam os mo­radores. Depois de provada nossa inocência, partem para segunda etapa. Mas aí, já correu tanto tempo.

— Nem vale a pena fazer o registro, só dá amolação. Amanhã o edifício inteiro vai ter de correr atrás do Atestado de Antecedentes.

— Ninguém tem tempo, nem paciência. Deixa pra lá. Vamos nos reunir e racionar.

— Amanhã, a comissão mede o reservatório, faz a divi­são de cotas.

 

O SOBRINHO SENSIBILIZADO VISITA OS EXTREMADOS TIOS,

LEVANDO FICHAS EXTRAS PARA ÁGUA.

ABRE-SE O DIÁLOGO DAS GRANDEZAS DO BRASIL

 

— O tio anda com uma cara. O que é que há?

— Preocupações de velho.

— Está velho, tio? Não parece.

— A cabeça dele está ficando branqueada, é isso.

— Continua com as velhas idéias, tio?

— Você viu o que ele arranjou? Um furo na mão!

— Furo na mão? Como?

— E ele conta? Não quer me dizer, de jeito nenhum.

— Cuidado, tio. Não será contagioso? Foi ao Posto?

— Ele diz que foi. Não acredito. O Posto teria dado uma receita. Ou isolado.

— Ah, ele tem medo do Isolamento?

— Não diz, mas tem. Uma vez me contou que o Isola­mento é o fim. Quem vai para lá, não volta mais.

— Como não volta? O que o tio pensa?

— Ele garante que os isolados somem do mundo.

— Quem sabe, tio, lá tem um forno crematório? Gás, forno, e um montinho de cinzas do outro lado, espalhadas pelo vento. Pode ser, tio, que essa poeira escura que enche nossas casas, todos os dias, seja cinza, hein?

— Não brinca, menino! Seu tio já anda preocupado. Não sei o que vai ser. Cada dia mais quieto. Agora deu de não querer trabalhar. Disse que é inútil, o emprego dele é impro­dutivo.

— É improdutivo? Quem é que está preocupado com isso, tio? Sabe quantos têm à espera do teu lugar? Sabe?

— Ele deve saber. Está vendo as ruas cheias. Cada dia mais cheias. Será que o Novo Exército não vai fazer nada? Está ficando impossível. Só hoje, passaram por aqui dez pessoas pedindo comida e água.

— Não podem fazer isso. Eles têm ficha para circular por aqui?

— E eu sei?

— Peça para ver.

— São mal-encarados, pobres coitados! Tenho nojo dos despelancados. Coisa mais horrível. Por que não isolam esses?

— Não dá para fazer tudo, tia. Estamos tentando. Agora que me promoveram, vão me nomear para o controle das regiões ao redor da Gigantesca São Paulo. Vai ser trabalho pra burro.

— Mas ganha mais?

— Um pouco. Vou ter que montar um esquema, a fim de manter os retirantes fora dos limites da cidade. Já saturou.

— Devolve pro lugar de onde vieram.

— Vieram dos territórios estrangeiros.

— Faz um acordo.

— Acordo. Quem quer saber? Um dia destes, vou levar o tio comigo para visitar os Acampamentos.

— Você podia arranjar uma autorização pro tio visitar o pai dele.

— Visitar o pai? Mas o vovô não está morto?

— Não, foi recolhido ao Patrocínio Silencioso. E seu tio não conseguiu visitá-lo uma só vez.

— O Patrocínio é longe. Tem que passar quatro Distritos. É uma burocracia infernal conseguir fichas de circulação atra­vés desses Distritos. Cada administrador quer dinheiro, ou privilégio.

— Mas você é capitão do Novo Exército.

— Pois é, mas quem tem força é de general para cima.

— Já foi bom este país. Está muito complicado. Qual­quer dia, nem posso ir a minha igreja.

— Continua a mesma, tia. Acreditando que Deus vai resolver os problemas?

— Essa discussão, não admito! Com ninguém. Quero que me deixem com minha fé.

— Sempre igual, tia. Eu me lembro, era garotinho, vinha brincar no seu quintal. Todos os dias, na hora de lavar a mão, você vinha: vai ser padre, filho. Ou entra para o Novo Exér­cito. Depois, parou de falar nos padres, meteu na minha cabe­ça que era o Novo Exército mesmo. Minha mãe queria que eu fosse para o Banco do Brasil. Ou para a Carteira de Habitação.

— Não, era teu pai que falava na Carteira de Habitação.

— Me lembro mal dele.

— Dizia que na Carteira de Habitação você faria carreira, teria futuro, podia garantir casa para a família. Além disso, se subisse, o que era o sonho dele, podia dirigir uma seção qualquer. Como a de compras. Era obsessão dele. A seção de compras para você. Não entendo por quê. "Quem faz as com­pras dá as cartas, está com tudo nas mãos". Por que ele dizia isso?

— Não conheci direito, mas o pai devia ser esperto.

— Mas, chefe da seção de compras? Que bobagem.

— Pois é, tia. E quase virei chefe da seção de compras. Minha sorte foi não ter passado no exame médico. Descobri­ram o meu intestino destruído, fui reprovado.

— Ainda bem que o Novo Exército foi complacente, te aceitou.

— Num batalhão especial, mas aceitou.

— Nem todo mundo é de marchar, fazer ordem unida, sair atirando. Perceberam tua cabeça.

— A maioria dos Militecnos tem um problema. Estômago, pulmão, coluna, intestino. A gente foi a geração que nasceu depois da explosão do reator, tiveram que compensar a gente de algum modo. Acabei capitão.

— Eram tão bonitos os moços em seus uniformes, quan­do desfilavam pela cidade, quando patrulhavam. Teu tio foi um bobo. Eu dizia também para ele: acaba com essa faculda­de, vai para o Novo Exército. Sabe de uma coisa? Ele odiava os soldados que patrulhavam.

— Era, tio?

— Olha a cara dele! Tem ódio quando falo nisso.

— Vai ver, o tio não gosta de mim.

— Como pode não gostar? Você é como um filho.

— Tem pais que odeiam os filhos.

— Não é o caso do seu tio. Ele tem suas esquisitices, mas é boa pessoa.

— Boa? Será, tio? Por que não responde? Gostava de saber.

— Ele te quer bem.

— Não sei, não. Tenho visto pessoas como ele, perigosas. O tio não se conforma com a situação.

— Faz tempo que ele não discute política.

— Gosta ou não do Esquema, tio?

— Não é hora de discutir essas coisas, filho. Você veio almoçar com a gente. Hoje é domingo, vamos descansar, ver televisão, passear.

— Passear? Ora, tia, quem é que passeia com um calor desses? Ninguém mais. O que há? Não tem saído de casa?

— É, faz tempo que não saio. Vou abrir a garrafa que você trouxe.

— Como é, tio? Vai responder?

— Deixa o tio sossegado, ele ficou chocado com o furo na mão.

— Não, olha a cara dele. Tem qualquer coisa estranha aí.

— Não tem, não. Sempre foi assim, um ar irônico. A cara fechada.

— Gosta ou não do Esquema, tio?

— Não.

— Viu, tia? Viu como eu estava com a razão? Ele não gosta.

— Está brincando contigo. Não está, Souza? Diz que está.

— Não gosto do Esquema. E não estou brincando.

— Souza, você está louco? Está falando com teu sobrinho.

— Não gosto do Esquema, não posso gostar. Tudo que está aí foi por causa dele.

— Tudo o que está aí?

— Tudo. O país despedaçado, os brasileiros expulsos de suas terras, as árvores esgotadas, o desertão lá em cima.

— Belíssimo deserto. Nona maravilha.

— Maravilha. E os rios? Cadê os rios, menino?

— Agora vai pôr a culpa no Esquema dos rios terem secado? Do calor? Seja razoável, tio. O mundo mudou. O senhor sabe, é professor de história. A culpa foi dos governos que fizeram experiências nucleares, transformaram a atmosfera.

— Repete a propaganda oficial, repete.

— Foram coisas que aprendi no Curso Infinito da Guerra, tio. Pena que seja um curso limitado a oficiais. Seria bom para todo o povo saber.

— Me responde? Onde está o país?

— Aí, em volta da gente.

— Aí, onde?

— Aqui, ali, tudo em volta.

— Deste tamanhinho? Pensa um pouco, raciocina. Quan­do eu era jovem, o país tinha 8 milhões e meio de quilômetros quadrados. Sabe quanto tem agora?

— De cabeça, não. Posso consultar.

— Consulta. E quando souber a resposta, vem me contar. Está pouco maior que a palma da minha mão.

— Tio, os conceitos de nação mudaram. O que vale agora é o internacionalismo. A multiplicidade. Aqui é um pedacinho. Você soma com os pedacinhos que temos por aí afora. Reservas no Uruguai, na Bolívia, pedação do Chile, na Venezuela. Cada savana na África, quero ser transferido para a África, triplica o soldo e a gente tem casa, comida, economiza.

— Pois é, entregamos o nosso e fomos colonizar outros territórios.

— Não é colonização, tio, é diferente. São reservas mul-tinternacionais. O mundo se globaliza.

— Talvez eu seja velho, com idéias antigas na cabeça. Mas queria meu país inteiro, não um mundo de países dentro do meu, como acontece. Eu te contei daquela viagem. Quis chegar a Manaus e nunca cheguei. Não podia ir lá, fui rodeando, tive que voltar. Foi mais difícil atravessar a Rondônia do que conseguir permissão para cruzar a Bolívia.

— Sua visão é limitada, tio. O senhor pensa em termos individuais, restringe-se a um regionalismo superado. Raciocine em termos mais amplos. Nossa economia, por exemplo, nunca esteve tão forte.

— Forte? Ninguém tem dinheiro. O país endividado. Não há mais terras para plantio. Tudo custa os olhos da cara, esta­mos importando tudo.

— Importamos pouca coisa.

— Pouquíssima. Sal, açúcar, minério de ferro, xisto, fei­jão, eletricidade, papel, plásticos. Quer a lista inteira?

— Não são importações, são acordos feitos quando das negociações com as terras.

— Como é que você não enxerga? Importamos de nós mesmos. Mandamos buscar ali em cima, onde antes era o norte do Mato Grosso, o Maranhão, o Pará.

— Lembre-se que as concessões não são eternas. Tem um prazo.

— Eu vi. O ano passado esgotou-se o prazo da concessão para a Bélgica. E eles devolveram os trechos que mantinham em Goiás? Não, o Esquema comprou. Comprou uma coisa que seria dele, de graça, este ano.

— Foi diferente. Tinha melhorias, projetos industriais, edifícios, plantações, laboratórios.

— Ruínas, tudo ruínas.

— Como sabe?

— Vazou. A informação vazou, meu filho. A gente acaba sabendo. Quem é que lucrou com o retorno da concessão belga? Falam, olhe lá, falam que foi o Círculo dos Ministros Embria­gados. Se você repetir, desminto. Mas é o que corre.

— O Círculo? Como podem dar tanta importância ao Círculo? Estão todos sob controle. Na verdade, vivem em pri­são domiciliar, supervigiados. Eles não têm mais poderes.

— Quem garante que eles estão lá? Nunca mais ninguém viu um só ministro. Não circulam. Vai ver, estão infiltrados no Esquema.

— Cuidado, tio, é perigoso isso que o senhor está dizendo! O atual Esquema liquidou completamente com a Era da Gran­de Locupletação. Foram todos presos, cassados, banidos, eli­minados, mortos.

— O Círculo está lá, vivo.

— O Círculo é um mito.

— O Esquema permite a existência do Círculo. Qualquer hora, ele se organiza e retoma o poder. O Esquema não está dominando a situação.

— Domina, e domina fácil. Tudo está planejado.

— Planejado? Ele não contém as migrações. A saúde pública faliu. Vejo, toda hora, na rua, os homens caindo aos pedaços. Não há mais água. Se você não trouxesse as fichas, eu e sua tia íamos morrer de sede. Sabe que esta semana atra­saram a distribuição de fichas? E atrasaram de propósito, para racionar a água.

— Que limitação, tio. Não acredito que o senhor tenha sido professor universitário, com a mente tão limitada. Vocês sempre se bateram pela estatização geral. Pois chegamos à esta­tização. O governo domina tudo, em todos os setores. Então, o que querem mais?

— Ah, quer dizer que atingimos um estado socialista?

— E não é?

— Ah, é?

— Pois parece.

— Você se esquece que não é o governo que detém a economia nas mãos, mas uns poucos que estão nas boas graças do governo. E o povão, esse continua igual, ou pior do que sempre foi.

— Não vem com essa conversa de povo. Que o senhor nunca ligou para ele. Nem sabe como é. O senhor e essa gente toda que vive gritando que defende o povo.

— Acho que hoje em dia, acima do povo, acima de tudo, sobrou a tentativa de defesa do que resta da gente como país. Reconstruir o país, se ainda for possível, e então pensar no povo dentro dele.

— Na hora de arranjar fichas por fora, o Esquema é bom, hein, tio?

— Por que vocês discutem? Cada vez que ele vem nos visitar, sai uma discussão nesta casa, Souza. Por quê? Não podemos fazer como todas as famílias? Ficar alegres, conversar coisas boas? Há tanto assunto bonito.

— Vamos conversar bonito, tio. Também acho melhor.

— Você é inteligente, meu filho. Não entendo como pode permanecer nesse cargo, como pode estar cego diante da rea­lidade.

— Vivo a realidade, tio. Não sonho. Esta sempre foi a minha realidade, nunca convivi com outra. Quando nasci, os Abertos Oitenta já tinham terminado. Não figuram nem nos livros de história. É ou não é? A eles, só pequenas referências, sem muitas explicações. Então, como posso estar cego?

— Viver dentro de uma realidade é um fato. Aceitar, achar que tal realidade é boa, é outra história. Nunca pensou que a vida pode ser diferente do que é? Você não imagina que as coisas possam ser de outra maneira?

— Se não vivermos organizados, morremos todos. Esta­mos na linha justa, sob rígido controle. Não tem outro jeito.

— Mas havia, não tivessem feito o que fizeram.

— Fizeram, é irremediável.

— Será? Talvez ainda não!

— E agora, tio?

 

ADELAIDE PREPAROU GOSTOSO BOLO DE MANDIOCA

FACTÍCIA PARA LEVAR A MÃE. CORAJOSO, SOUZA

RECUSA-SE A ACOMPANHÁ-LA, DEIXA QUE VÁ SOZINHA,

MANDA LEMBRANÇAS

 

Num sábado, ela encontrou o bilhete debaixo da porta: "Por que não se mudam?" No domingo, havia dois. Escritos em folhas amareladas (onde teriam conseguido?): "Fiquem longe. Levem esse furo na mão para outro lugar". "Vamos chamar os Civiltares, se vocês não se forem". "Desapareçam".

Adelaide me trouxe os bilhetes na cama. Quinze para às sete, eu não tinha me levantado. Ela estranhou, desde que nos conhecemos, nunca fiquei deitado depois dessa hora. As cober­tas puxadas sobre minha cabeça. A madrugada foi fria. Senti que ela ficou parada, indecisa. Depois me tocou.

— Souza. É grave.

— O que é grave?

— Os vizinhos sabem do teu furo. Não dá mais para disfarçar.

Abaixei as cobertas, enquanto Adelaide lia. Qualquer coi­sa a coloca trêmula. Bastou sair do seu normal. Eu me lembro quando chegavam cartas de cobrança, por crediários atrasa­dos. Ela imaginava que ia perder a casa, viriam buscar os móveis. Respeitava os avisos como coisas sagradas.

— Besteiras de vizinhos, fica tranqüila.

— Não fico, não. Preciso te contar. Faz dois dias que ninguém fala comigo.

— O que é normal neste prédio, nesta rua. Todo mundo evita todo mundo. Nas desgraças, de vez em quando, eles se auxiliam.

— Vizinhança é coisa boa, Souza.

— Você sempre teve mania de vizinhos. Por todos os lugares onde passamos, a primeira coisa que fazia era bater na porta ao lado. Avisava: "Somos os novos vizinhos, se preci­sarem de alguma coisa".

— Vivemos sempre bem com eles. Não sei viver sozinha. É tão bom ir a uma casa no meio da tarde, tomar café, fritar bolinhos.

— Há quantos anos você não faz isso?

— Sabe o que encontrei no corredor?

— O despertador.

— Como sabe?

— Eu é que joguei.

— Ficou louco?

Adelaide sacudiu o relógio, para certificar-se que fun­cionava, não tinha quebrado. Pela sua expressão, deu para saber nada. Colocou o despertador sobre o criado mudo, em cima dos bilhetes. E me olhou, como que dizendo: aí estão, depois conversamos. Conheço este olhar. Tem um depois, nele.

— A que horas vamos para a casa de mamãe?

— Não vou.

— Mas hoje é domingo, estão esperando.

— Não vou.

— E o que eu digo? Ao menos, você podia ir, fingir um pouco, para eles não ficarem preocupados.

— Vai você.

— Mamãe vai ficar triste.

— Antes ela do que eu.

Demorei na cama o tempo suficiente para que ela fizesse o bolo de mandioca para a mãe. Todos os domingos faz um. Mandioca factícia é um pó amarelado que vem em sacos plás­ticos. O gosto parece o mesmo, mas a memória pode se enga­nar. Adelaide reclama apenas da consistência. Borracha pura.

Ela veio ao quarto dizer que o café estava pronto. Saiu soluçando. Por um momento tive vontade de correr atrás. Não deixá-la sozinha. No entanto, não me mexi. O quarto estava agradável, na penumbra. Sair ao sol significava suar. Estar o dia todo fora de casa, ao mormaço, me desanimava.

Quando voltou, à noite, me encontrou observando o furo na mão. O chão estava cheio de pontas de cigarro e restos da comida que eu mesmo esquentei. Ela começou a limpar tudo, em silêncio. Nada me perturba mais do que a acusação não dita, velada. O mal-estar dissimulado na atmosfera.

Adelaide aproveita a noite de domingo para limpezas. É mais fresco. Depois, toma banho, vai para a cama. Deixa o serviço grosso para a faxineira. Portas, vidros, azulejos, ba­nheiros. Ela anda pelo quarto e parece ter nojo. Não me olha; estranho que não me olhe; o que pretende?

— Mamãe mandou um abraço para você. Disse que foi pena não aparecer. Falei que a gente vai lá a semana que vem. Que você tinha serviço. Quase morri de vergonha. Acho que papai percebeu.

Passou a enceradeira, lustrou com flanela, deixando o assoalho polido. Faz anos que digo: "Vamos passar verniz sintético, poupa todo esse trabalho". Mas ela acha que a cera dá um brilho que o sintético não consegue. E o cheiro da cera invade a casa, trazendo as manhãs de sábado.

Manhãs de sábado, minha infância. Água de sabão cor­rendo pelos ladrilhos, assoalhos, cobertores estendidos na jane­la e varais. Colchões ao sol. As vassouras na calçada, a água molhando a pedra quente, o cheiro úmido que subia da rua inteira, alegre, mergulhada no mesmo ritual.

Mulheres penduradas nas janelas a limpar vidros. Espana­dores sobre os móveis, escovão indo e vindo nas áreas, varan­das, salas de visita. Compridos cabos com pano na ponta, ex­terminando teias de aranha nos cantos do forro. Lençóis chei­rando a sol e cedro e naftalina retirados das gavetas.

Havia apenas uma casa fechada, quieta, impenetrável. Marginalizada. No canto do quarteirão, uma família sabatista. Encravada como espinho debaixo da unha, no meio de tantas casas católicas. Bem cedo, trancavam a casa e partiam, talvez para não testemunhar aquela azáfama sacrílega.

Tão estranhos para nós quanto o seu Moisés, judeu que vendia ovos. Quanta curiosidade. Minha mãe não deixava que conversássemos com eles. Protestantes eram hereges, negaram obedecer o santo papa. Judeus tinham matado Jesus. Eu ima­ginava seu Moisés atirando ovos podres contra a cruz.

Os homens da prefeitura, de quinze em quinze dias, pas­sando com suas foices. Arrancando a grama que crescia entre paralelepípedos. Durante o dia se ouvia o barulho ritmado do ferro, enquanto das pedras saltavam faíscas. O cheiro forte da grama dilacerada tomava todo o quarteirão.

Cada dia era próprio, tinha o seu jeito, o clima. Segunda, dia de branco, varais repletos, as mulheres encostadas ao tan­que de lavar roupa. Cantavam. No meio da manhã se podia ouvir todas as melodias, estranha mistura de músicas populares que formavam um som único; quase o mesmo.

Na terça, as moças se preparavam para o cinema. Filmes românticos. Às quartas, no fim da tarde, as mulheres subiam em direção à igreja. Quinta, cinema para todo mundo; sexta, o recolhimento. Sábado de manhã era limpeza, à tarde busca­vam-se roupas no tintureiro, à noite, cinema e baile.

Agora, não se sabe se é terça ou sábado, a única diferença é o domingo, porque não se trabalha, mas falam em uma lei para extinguir a folga dominical. De que adianta pensar estas coisas? Pareço um caduco, a sonhar. Pior, a sonhar com a vida fantástica de um planeta perdido.

Velho. Como pode ser velho alguém de cinqüenta anos? No entanto, sou. Às vezes, vejo como me olham surpresos por estar de pé, vivo, andando. As pessoas estão morrendo com trinta e cinco, quarenta anos. Na última década, disse a Rádio Geral, a média de vida decresceu para quarenta e três anos.

"Boa média", comentou meu sobrinho. "Tem gente de­mais. Não pense que o Esquema está interessado em aumentá-la. Ao contrário. Senão, o que seria? Onde colocar tanta gen­te?" E pensar que nos Abertos Oitenta tínhamos chegado à média de 74 anos. "Somos um país jovem", orgulhou-se o sobrinho.

— Você fumou no quarto.

— Um pouco.

— Pouco? Olha a cinzaiada, os tocos. O que há com você, Souza? Me diz? Não se sente bem? Vamos ao Posto?

— Ir ao Posto, só porque fumei no quarto?

— Você nunca fez isso na vida. Sabe que detesto cheiro de cigarros no quarto.

Continuei fumando, enquanto ela reclamava. Ê preciso saber que um dia as coisas mudam. Como Adelaide pode ser tão insensível? O mundo se transforma inteiro lá fora, e ela continua. Bem, eu também continuei, passei anos contemplando sem agir, reagir. Traumatizado pela minha compulsória.

Que fraqueza, reconheço. Mas não sou forte. Sou apenas um homem comum que tenta viver o seu dia a dia, quer ser feliz, realizar alguma coisa na vida. Mas de repente, este rea­lizar não tem sentido. Porque não há para onde ir. Mas não posso me sentar e ficar esperando a morte.

Esperar que me levem a um Patrocínio, asilado. Um lugar onde eu não me comunique com ninguém. Adelaide corre, bate a porta do banheiro, ouço as suas ânsias. Ela vomita. Depois, vem, hesita, vai para a sala. Como viver com uma mulher medrosa que fica trançando como barata tonta?

— Souza, me decidi.

Levei um susto. Tinha cochilado um pouco. Ela estava diante da cama, a caixa dos primeiros socorros na mão. E me olhava. Finalmente, um olhar novo no rosto de Adelaide. Fir­me, decidida. Olhar de ódio, determinação. Sentou-se na cama, pegou minha mão. Puxei, ela pegou outra vez, enérgica. Puxa!

— Ou coloco um bandaide, uma faixa, ou vou me em­bora. Já.

— Não vai colocar. Deixe o furo em paz. Pensei que era assunto resolvido.

 

SEGUNDA É O DIA OBRIGATÓRIO DE COMPRAS.

O POVO DEVE CONSUMIR, PARA QUE AS FÁBRICAS

POSSAM FABRICAR E NÃO HAJA A INSIDIOSA RECESSÃO

 

Adelaide ficou a noite inteira na poltrona. Vigiando, ou à espera que eu adormecesse e ela pudesse enfaixar minha mão. Suportou com bravura os cigarros, fumei todos. Refumei os tocos, gastei minha cota. A noite toda percebi cochichos, não sei se na sala, ou no corredor externo.

Cochilava, acordava, ela não estava lá. E então ouvia os cochichos, ruídos abafados, pensei reconhecer a voz da sua mãe. Ou da vizinha que vive de espanador e vassoura na mão, a lutar contra o pó constante. Cochilava, acordava, ela conti­nuava sentada, eu não sabia se tinha sonhado.

Adelaide sofre. Não devia ter pena, e tenho. Casei-me, quando não gostava mais dela. Não tinha como recuar, estava aferrado a velhos princípios, a coisas como dignidade, palavra empenhada. Namoramos tantos anos, desde adolescentes, quan­do achei que ela me acompanharia, cresceríamos juntos.

Uma decisão no momento exato; ela me faltou. O medo do não. O fascínio que eu tinha por ele. Estranho mecanismo interno o meu, retardado, funcionando como se houvesse uma diferença de fusos horários. Adelaide era boa amiga, mas eu não precisava ter me casado com ela. O que pretendo provar agora?

Sempre aceitei este casamento como fato normal, nunca reagi contra. A gente nem sempre faz as coisas que gostaria, mas termina se adaptando a elas. Desde que consinta. O pior é o consentimento. A aceitação passiva do princípio de "que nem tudo na vida é como a gente quer". Mas tem de ser.

Gostava dela, mas era somente um vácuo dentro da soli­dão. Nunca preencheu nada, não foi essencial. Pensei muitas vezes nisso. Se ela desaparecer não vou sentir sua falta, tudo continuará igual. Ela não era indispensável. Não é um consolo pensar nisso, me inquieta. Por ela, e por mim.

Minha indiferença serviu para torná-la, aos poucos, mu­lher amarga e desesperançada. Sem horizontes, nenhuma pro­messa de futuro. Agora, sem nenhum apoio. Ela tentou cons­truir um lar dentro desta casa. Jamais participei dele, me iso­lava, parece que não queria me comprometer, me assumir.

Para estar em disponibilidade, poder largar tudo a qual­quer hora e fugir. Desde moço tenho esta necessidade. Estar pronto para partir. Não querer nunca o mesmo lugar, renovar-se incessantemente. Escapar de tudo, desprender-se, me atirar. Para longe, encontrar um lugar onde ninguém me encontrasse.

Não penso mais. Sei. Não há mais o longe, o perto. Não há fuga, nem refúgios, tudo foi devassado. Sinto em mim es­tranha nostalgia. Antiga, muito antiga. Não dos tempos em que meus bisavós furavam o sertão do Mato Grosso, ou Paraná. Mais para trás. Muito mais. De tempos em que eu ainda não era.

Leva mesmo. Age na base dos códigos de ética dos antigos bicheiros, o código que regia o jogo, antes do Bicho ser lega­lizado.

Se o inspetor apanha alguém passando mercadoria sobre a cerca, não se sabe o que pode acontecer. Porque não se encontra mais a pessoa. Penso às vezes que estou vivendo dentro de um sonho, uma situação imaginária, surrealista, um balão de gás que pode explodir de um momento para outro.

Vejo, misturados na cerca, os carecas, os despelancados e também uma gente que nunca tinha visto antes. Tem os olhos quase fechados, cheios de remelas, como se os globos estives­sem inflamados. Me dão mal-estar. Todos se comprimem, gri­tam. Sinto-me um privilegiado, porém isso não me afeta.

O Distrito é um tormento para mim. As pessoas parecem gostar. Riem, se divertem, se encontram, bebem, falam alto, entram nas lojas, amontoam-se. Há uma atração neste distrito, não tem dúvida. As galerias são frescas, acondicionadas, luzes naturais filtram através dos telhados de vidro.

O prédio a que temos direito ainda não atingiu a Cotação Limite. A fila quase não pára, a entrada é contínua. Quem não tem direito, não vem mais. No começo, as pessoas tentavam entrar, furar filas, provocavam congestionamentos e tumultos. Agora, desistiram. Em pouco tempo, estamos dentro.

Iluminadas por luz natural, as lojas não têm teto. Econo­mia de eletricidade. Já se foi o tempo dos grandes luminosos, das orgias de placas a neon. Quando a última hidroelétrica parou, por falta de água, o Reator Nuclear das Caatingas começou a funcionar, fornecendo energia para o país inteiro.

Houve problema com as linhas de distribuição por cima da reservas multinternacionais. O Esquema não conseguiu au­torização, tiveram que fazer linhas subterrâneas, bem fundo no solo, para não prejudicar a fertilidade das terras estran­geiras. Custou caríssimo; impuseram novos impostos.

— Pensei em comprar uns cheiros — disse Adelaide.

— Essa idéia até que não é ruim.

— Viu? A gente sempre acha uma coisa que precisa.

— Vamos procurar um Cheiro de Fim de Tarde.

— E também um de Água na Terra Seca. Era tão bom. Um dia quente, o pó, vinham aqueles pingos, batiam forte, o pó subia, o cheiro também.

— Estão em falta, disse o caixeiro.

— Do que tem?

— Folha Seca, Folha Podre Úmida, Eucalipto no Fim da Tarde, Coqueiro, Flores, Verduras, Café Torrado, Papel Novo, Algodãozinho, Chá Mate, Bosta de Vaca, Leite Quei­mado na Chapa, Pão no Forno, Serraria Depois de Cortar Tronco de Cedro, Alfazema, Jasmim, Igreja na Hora da Bên­ção, Sanitário Limpo de Cinema, Moça que Tomou Banho com Sabonete, Roupa Passada, Jatobá Aberto, Frango Assando, Jaca, Hálito de Criança Após Escovar o Dente. E mais uns duzentos.

— Nacionais?

— Só o Bosta de Vaca, o Roupa Passada, o Gás de Escapamento e o Quarto Fechado Há Longo Tempo.

Compramos três sprays. Leite Queimado na Chapa, Ser­raria Depois de Cortar Tronco de Cedro e Carvão Queimado na Fornalha de Locomotiva. Meu avô forneceu muita lenha para a estrada, posso reconstituir o cheiro do vapor, a hora que quiser. Ficava à beira da linha enquanto carregavam o Tender.

— Você viu? Coisa horrível.

— O quê?

— Os mutilados!

— Não, onde?

— Dobraram por aquela galeria. Não tinham braços, um buraco só no lugar do nariz, orelhas imensas. Pareciam bichos. O engraçado é que eram absolutamente iguais, os dois. Como deixam entrar?

Na Boca de Distrito, o fiscal carimbou "Compras Cum­pridas". Salvos por mais uma semana. Enquanto esperávamos o ônibus, eu tinha a mão em pala diante dos olhos. O sol atra­vessando o furo, produzia no chão um círculo de luz, mais mancha que círculo, de tal modo a sombra estava diluída.

Movi a mão, para cima e para baixo. O círculo aumen­tava, diminuía. De cócoras, brinquei com a luz. Ela atravessava a minha mão. Gostei dessa imagem, a luz que traspassa minha mão e forma um símbolo. Claro, aquele pequeno círculo podia ser um meio, um sinal transmissor. Ter um sentido. Ser aviso.

Nas catedrais, muitas vezes, eu passava horas, observando o lento caminhar da luz, através dos orifícios das abóbodas. Até que chegava o momento, em que o sol, batendo direto sobre o altar, iluminava o sacrário. Devia haver naquilo mais do que uma coincidência. Era uma intenção deliberada.

Podia ser homenagem, a luz aos pés do divino. Podia ser a confirmação de que Deus é luz. Também podia representar uma mensagem qualquer que os iniciados entenderiam. Men­sagem que atravessaria milênios e seria sempre captada, não importa em que época, ou tempo. Essa história de iniciados me revolta.

Haveria sempre homens capazes de decifrar alguma coisa contida neste círculo de luz. Sensação de conforto e paz. Isto eu sentia, naquelas catedrais européias, sentado no banco, con­templativo por horas e horas, a observar o movimento tênue, imperceptível, daquela luz em direção ao sacrário.

Harmonia em busca de um objetivo. Sempre alcançado. Todos os dias, há séculos, a luz, variável segundo a época, percorria o seu trecho, batendo primeiro no chão da nave. Continuando, alcançava o altar, na hora determinada. Engra­çado, agora, penso naquilo com uma impressão desagradável: no imutável que representava.

Ao mesmo tempo, era a certeza do imutável nas grandes coisas do universo. No seu funcionamento, na sua estrutura. Será que ainda hoje aquela luz percorre um trecho idêntico, à mesma hora, com igual intensidade? Será que este imutável já não foi alterado? Daria tudo para estar de novo nas catedrais.

Há várias noções de imutáveis, portanto. A primeira, am­pla, geral, necessária, que é a do próprio universo, intocável. A outra, dos pequenos sistemas que nós mesmos construímos e que necessitam de alterações, ajustes de tempos em tempos, a fim de se adaptarem à ordem constituída, maior, soberana.

Ou me confundo? Não sei. Ando sem clareza em relação à situação. Onde fica o homem dentro disto tudo? Qual a sua função dentro da natureza, do universo? Ele rege ou é regido? E este esforço tremendo que o homem fez durante séculos para ser o dominador, o que detém o poder?

Teria o homem ido além, ousando alterar a estrutura in­terna do universo? Modificá-la, antes sequer de compreender, ou dominar, as pequenas estruturas que somadas formam o nosso mundo? Quer dizer: ele ainda não estava preparado para a grande modificação e cometeu um grande erro. Em algum ponto.

 

AO VOLTAR PARA O EMPREGO, SOUZA

ENCONTRA UMA NOVIDADE DESAGRADÁVEL.

O CHEFE, É CLARO, NÃO FORNECE

EXPLICAÇÕES. CHEFES, CHEFIAM

 

Resolvi trabalhar. Não tomei banho, nem fiz barba. Estou suando. Sobre o fogão, um resto de sopa. Esquentei. Nunca tomei sopa de manhã, sempre é dia para se começar um hábito. Caldo de carne, tomate, macarrão de estrelinhas. Factícios. Durante anos, sopa foi nosso primeiro prato, ao jantar.

Só o macarrão de estrelinhas mudou. A antiga fábrica do bairro fechou, faz muito tempo. O velho gostava de trabalhar com trigo, os filhos se contentaram com misturas, os netos aceitaram a farinha química dos laboratórios do governo. Só não agüentaram a pressão das multi-indústrias.

Elas vieram, com pacotes plásticos atraentes, supostamente com melhores valores, vitaminas, proteínas, ovos. Verdade que houve imensa intoxicação, na altura dos anos setenta. Os in­testinos do povo não funcionaram. Formava-se bolos alimen­tares endurecidos, mal digeridos, provocavam cólicas terríveis.

Resultado das excessivas aplicações de produtos químicos não testados. A tecnologia vinha de fora, os técnicos nacionais estavam em fase experimental. Meses e meses até as coisas vol­tarem aos eixos. A imprensa foi proibida de tocar no assunto, ministros tinham interesses nas multi-indústrias alimentícias.

Eu me lembro bem desta grande intoxicação. Ela coincidiu com nossa chegada das praias poluídas. Tivemos de voltar, às pressas, quando as pessoas começaram a morrer. Iam para a praia, contentes, tomavam banho de sol, mergulhavam. Saíam, se deitavam ao sol. No fim da tarde, morriam como baratas sob inseticidas.

Os prefeitos escondiam os fatos. Acusavam os órgãos do governo de contribuir para a bancarrota das estâncias. Pro­cessavam os jornais. Protestavam contra as televisões. Proces­savam as famílias dos mortos que ousavam dar declarações. Compravam todo mundo no poder público. E as pessoas des­ciam às praias, e morriam.

Hoje não se vai mais à praia. É triste chegar ao litoral e ver as cercas de concreto e farpado, isolando as áreas. O mar estagnado, negro. Praia? Se é que se pode chamar aquela areia negra, espessa, oleosa, de praia. Nem água do mar se consegue tirar, para tratamento e distribuição à população.

Construíram-se todos os tipos de filtros para torná-la po­tável. Inúteis. A água termina o ciclo de refinação com uma cor cinza e um cheiro enjoativo de ovo podre. Parece vingança do mar. Então, construíram emissários gigantescos. Os esgotos do país fluem para o oceano, dia e noite.

Duas colheres de sopa. Nada mais. Me enjoou. Tive von­tade de jogá-la no tapete. Esse tapete de retalhos que Adelaide fez neuroticamente nas tardes em que ficou em casa sozinha. Mais de dez mil tardes ociosas, ela sentada na cadeira. Cor­tando pano, unindo e montando tapetes para a família inteira.

Quando os tapetes envelheciam e os retalhos apodreciam, ela fazia outro. Primeiro, tecendo cordinhas bem finas com os panos coloridos. Depois trançando e formando desenhos incom­preensíveis, encontrados em revistas antigas. Ela arranca as páginas e guarda em pastas catalogadas.

Observando o tapete, vou encontrando restos de camisas que tinham desaparecido, lenços, gravatas, vestidos, maiôs. Tudo ali. Vendo o pano azul estampado, eu me lembro do décimo aniversário de casamento. A gravata de bolinhas foi presente de meu pai, nos meus quarenta anos. E o lenço, cueca, meias.

Os tapetes esgarçavam, desbotavam. Aí, ela usava como panos de chão, até apodrecerem e serem amontoados, no quar­tinho dos fundos, o que era usado pela empregada. Devem estar lá, um montão de panos podres. Juntos aos calendários. Por que Adelaide guarda tudo, não se desfaz de nada?

Ela dorme no sofá da sala. Ou finge dormir. Fiz todos os tipos de barulho, não se moveu. Não tem o sono tão pesado assim. Saio. O elevador parado, é infernal esta economia de energia. Desço os andares, devagar. Também, se perder o ôni­bus, pouco me importa. Pouco me importa, já se viu?

Apesar de tudo, cheguei ao ponto, antes do S-7.58 chegar. Que S seria esse? Existem tantos nomes, siglas, números, letri­nhas, desenhos, símbolos, visuais incompreensíveis, cada um designando uma seção, departamento, organização. Acho que um homem levaria mais de um ano para compreender tudo, conhecer todas.

— O senhor toma outro carro, por favor?

— Por que outro carro?

— Ordem da companhia.

— Ah, essa não. A companhia me conhece, por acaso? Vou é nesse.

— Tente.

Subi. Todos no ônibus olhavam mal humorados para mim. Não reconheci ninguém do horário habitual. Alguns carecas, mais vermelhos do que nunca. Abafado no interior. Agora es­tavam dando fichas de circulação para os carecas? Os passa­geiros começaram a descer. O cobrador saiu rápido, o moto­rista chegou.

— Por que o senhor não vai por bem?

— Pago minha passagem, tenho ficha de circulação, por­tanto, tenho o direito de andar no carro que me determinaram.

— O senhor é que pensa.

O cobrador voltou, acompanhado de um Civiltar. Com a rudeza normal, o Civiltar não perguntou nada. São famosos por atirar antes e não perguntar depois. Ele me agarrou. Quem é que pode mais que um Civiltar? Me atirou à calçada, como quem joga uma bolota de papel. Vai ser forte assim no inferno.

A maleta abriu, os papéis se espalharam pela calçada. Ainda sentado, traseiro ardendo, comecei a juntar. De repente, Parei. Para quê? Estes papéis não me interessam. Notas, fatu­ras, recibos, recortes de jornais, cartões de visita, cheques, bilhetes do chefe, memorandos, papéis carimbados. Parece coisa de minha mulher.

Juntar tudo isso. Para quê? Olhei uma vez mais os papéis pardos (só existe um tipo no Brasil, de baixa qualidade, racionadíssimo). Convivo com eles há quantos anos? Para que car­rego este arquivo de nada? Curioso, ontem na cama tentava me lembrar onde eu trabalhava, o que fazia. Deixei a maleta e os papéis ali, no chão.

Os passageiros voltaram depressa ao ônibus. Levantei-me, fiquei encostado ao ponto. Quinze minutos depois, outro carro. Só abriu a porta da frente, algumas pessoas desceram. É uma conspiração. Bati na porta de entrada, chutei. O cobrador colo­cou a cabeça para fora da janela, irritado.

— O que é isso, companheiro? Espere o outro carro.

Decidi ir a pé. Não preciso de condução, tenho meus pés, gosto de andar. São vinte quadras, não me importa a demora. Custei a acertar o passo, depois encontrei um ritmo. À medida que me aproximava do centro, penetrava nas filas. Parava, an­dava. Suava em bicas ao cruzar a Boca de Distrito.

Quando entrei no escritório, passei rápido, sem cumpri­mentar o chefe. Nem olhei meus companheiros. Eles, também, nem ligaram. Sempre fui considerado homem quieto, maníaco com a limpeza das gavetas, da mesa, com a ordem dos papéis, organização na mesa. Tenho a melhor letra, os manuscritos saem de mim.

Havia um paletó estranho na cadeira. Abri a gaveta, não encontrei a minha arrumação, os lápis selecionados por cores, tamanhos, os clips, borrachas, grampeador, carimbos. Tudo re­mexido. Ouvi um "com licença", ergui os olhos. Lá estava o homem gordo, careca, uns trinta anos. Suava, mais que eu.

— Desculpe, esta mesa é minha.

— Sua?

— Me deram hoje de manhã.

— Então, vamos ao chefe.

— Como quiser.

— O que está acontecendo?

— O senhor está demitido.

— Por uma ou duas faltas?

— Passe na tesouraria geral.

— Tem que me explicar. Ora, se tem!

— Se o demitiram, existe motivo.

— Quero saber.

— Para que saber, se já está demitido e não vai adian­tar? Às vezes, é pior saber o motivo.

— Eu quebro isto tudo. Quebro. Quero uma explicação, e já!

— À vontade, quebre. O senhor sempre foi revoltado, seu Souza. Isto não é bom. Assim não ajuda. Não é de gente como o senhor que o Esquema precisa.

— Não saio sem explicação.

— Então, fique aí. Quanto quiser. Só não prejudique o trabalho dos colegas, ou serei obrigado a chamar um Civiltar.

 

O QUE DEVIA SER UMA DIVERTIDA SESSÃO DE CINEMA,

TRANSFORMOU-SE EM AMEAÇA. PODERIA TER TERMINADO

MAL, CASO SOUZA NÃO TIVESSE TIDO UMA IDÉIA RÁPIDA

E BRILHANTE. DEU UM PONTAPÉ

 

Solto na tarde. O corpo melado. A roupa grudada na pele. Ofegante. Um banho. Banho gelado. Ducha violenta batendo no corpo, relaxando músculos. Ora, vivo mesmo no mundo da lua. Duas da tarde, está meio escuro. Não são nuvens. Parecem, isso sim, chapas de metal cinza que se fecharam sobre a cidade.

Os prédios concentram o mormaço, as filas de circulação caminham indolentes. Como era engraçado o tempo em que todo mundo andava apressado em São Paulo, aos encontrões, esbarros. No entanto, a irritação nos rostos e dentro da gente é igual. Por causa deste abafamento constante, interminável.

E sem esperanças. As luzes estão acesas, fracamente. Ama­relas, doentias. "A dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica, tenho febre e escrevo". Era a minha frase predileta, anotei-a, decorei. Como sei de cor a maioria dos versos do poeta. Fernando Pessoa. Tenho febre e penso, num girar infi­nito.

Dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas. O povo se move em câmara lenta, como se vivesse dentro de um efeito especial em cinema. Cabeças baixas, respirando mal, seguindo as filas, entrando e saindo de edifícios. Poupando energia para suportar um pouco mais, e conseguir chegar ao fim do dia.

Nem olho que filme é. Compro bilhete, entro. Penumbra agradável. Procuro as filas do meio, não gosto de ver fita de lado. Não gosto de olhar nada de lado, quero frente a frente. Atrás de mim pessoas cochicharam, se levantaram. Ao sair, uma delas bateu com a bolsa na minha cabeça, se desculpou, apressou.

Formou-se, aos poucos, um movimento na sala, como se fosse o final da sessão, as pessoas todas saindo. Fiquei impaci­ente, com o barulho das conversas, ruídos dos passos, assentos que batiam, uma confusão. As pessoas se amontoavam nos cor­redores, fumavam, mexiam os pés. Ninguém para colocar ordem na casa.

Então, o cinema ficou silencioso. Vi o filme tranqüilo, até o fim. As luzes se acenderam, eu queria esperar o começo. Con­tinuei sentado. Em volta, somente as indicadoras com suas lan­ternas, me observando. Espantadas, achei. As luzes não se apa­gavam, olhei o relógio. Parado, ora essa. Detesto intervalo de sessão.

Dei um tempo, virei-me. As indicadoras tinham desapare­cido. As luzes começaram a baixar, quase se apagaram. Mas os complementos não vieram. Continuei esperando. Barulhos de portas sendo fechadas. Ruído seco de travas. O cinema escure­ceu completamente. Falta de energia decerto.

Melhor esperar no salão. Fui tateando pelo corredor. Es­curo me desnorteia, durmo sempre com uma lâmpada fraca. O quarto fica na penumbra pela lâmpada votiva que Adelaide mantém acesa junto ao Sagrado Coração. Ela pensa até hoje que também sou devoto, por isso ajudo-a a manter a lâmpada.

Encontrei uma porta. Não abria. Droga, o que significa isso? Forcei. Acendi um fósforo, procurei outra. Trancada. Gri­tei. Não é possível terem me fechado aqui. Chamei as indica­doras. O porteiro. O projecionista. Observei a janelinha da cabine de projeção. Escura. Como é que se foram, sem me avisar?

Sentei, meio abobalhado. Meio, nada. Inteiro. Um forno a sala. Não conseguia pensar em nada. Se tivesse um telefone. Também posso pôr fogo no cinema. Veriam a fumaça, chama­riam os bombeiros. Se é que chegariam a tempo. Os incêndios estalam por toda a parte, a todo momento. Eu é que não que­ria ser bombeiro.

Bom, o jeito é esperar a sessão da noite. Fiquei sentado, tentando cochilar. Vou me acostumando, tenho a impressão de que não é escuro total, é penumbra. Pelas frestas da porta, coa uma claridade. Gosto de lugares assim, fechados, onde eu possa ficar sozinho. Ficar a vida toda.

Teve época em que meu sonho era mudar para o interior. Alugar uma casa, me encerrar nela, não sair nunca. Loucura. Seria apontado pelas pessoas como o velho louco da casa ama­rela. As crianças me evitariam. Fuga, pura fuga. Explica-se, logo depois da compulsória eu estava chocado, tonto, revoltado.

Não cochilei, mudei de lugar sete vezes. Fiquei ouvindo os ruídos da rua, sentia-me inquieto. Não é por ficar preso. É alguma coisa que me está faltando. Deve ser a hora da turma descer para o café, conversar, ver mulheres passando. Um recreio não legal, mas consentido. O chefe também vai.

O alívio veio. Não preciso voltar ao escritório. Posso to­mar quantos cafés quiser, ficar olhando rua o dia todo. Aí, dormi. Barulhos surdos, latas, vozes, um zumbido. Acordei, vi a luz amarela, acesa no meio das fileiras de poltronas. Ator­doado pensei: dolorosa luz das lâmpadas elétricas.

Não era hora de poesia, dei um salto na cadeira. Mulheres que faziam a limpeza se assustaram. Gritaram. Veio um ho­mem, provavelmente vigia, com o revólver. Quando me viu, estancou o passo. Se aproximou, cauteloso. O revólver seguro com as duas mãos. Deve assistir muito seriado na televisão.

— As mãos para cima. Para cima e não toque em nada. Não se mexa, não se mexa!

— Calma. Devagar com o andor.

— Ladrão, é ladrão.

— Ladrão, nada. Vim ver a fita, dormi. Quando acordei, estava trancado.

— É? Hoje não teve sessão, seu mentiroso.

— Então, como entrei?

— Vai explicar para o delegado.

Uma das mulheres saiu para telefonar, o vigia me man­dou andar. E agora? Quando passamos pela lâmpada, dei um chute no pedestal. Ela partiu-se no chão. O homem atirou. As mulheres gritaram. Corri, subindo o corredor. Tinha divisado uma porta aberta. Outro tiro. Um impacto seco, perto de mim.

Passei, fechei a porta. Fugir, só assim. De repente, duas mulheres estavam encolhidas a um canto. Havia uma lateral, fui por ela, em direção à praça. Alguém me xingou: "Olha a fila". Que fila, que nada. Na praça, atirei-me num banco. E percebi que estava molhado. Tinha urinado nas calças, como menino.

Abaixei, tirei as meias. Os pés suados, ardiam. Odeio meias de nylon, seguram a transpiração. Noite já, puxa vida! Can­sado. Com os sapatos na mão, encontrei um lugar simpático, atrás de uma grande escola. O canto fedia a coisas podres, a cidade fede, cada dia mais. Nós todos fedemos.

Se Adelaide estivesse aqui, vomitaria. Ela tem mania de cheiros. Mantém as janelas fechadas o tempo inteiro. Não é só por causa da poeira, calor. Ela pensa que pode vedar o apar­tamento contra os cheiros. Ingênua. Aqui não é nada cômodo, mas é melhor do que andar até em casa. Estou desanimado.

Andar, porque não me deixam subir no ônibus. Cidade maluca, esta. Não quero caminhar com esse mormaço. Quase não há gente na rua. O centro se esvazia depois de sete. Fica perigoso. Mas não suportaria chegar no prédio, ver os sacos de lixo no hall, a cozinha arrumada, a louça no escorredor.

Em casa, havia duas latas na cozinha. Uma para coisas que apodreciam fácil. Restos de comida, pó de café, papel, cascas de ovo. Os degradáveis. Outra para vidros, latas, plásticos. Um dia, observei muito bem. A lata vazia, de manhã, enchendo gra­dualmente durante o dia. Completamente cheia à noite.

Depois, a lata ia para fora, o lixeiro apanhava na madru­gada. Ela voltava ao lugar, no dia seguinte. Vazia, pela ma­nhã, enchendo gradualmente durante o dia. Quando descobri a repetição, compreendi também o mecanismo. Repetição. Le­vantar, tomar café, sair, trabalhar, voltar, comer, ver tevê, deitar.

Uma roda girando, sem sair do lugar. Produzindo o quê? O vazio. Moto-contínuo. Funcionaria a vida inteira, sem parar. "A menos que alguém interrompesse. Se ninguém impede, as coisas continuam, eternizadas. É preciso sempre intervenção, que alguém se interponha, se transforme em obstáculo à repe­tição.

Pela manhã, calcei o sapato sem meia. Na lanchonete per­mitida pedi pão, ovo cozido (gosto de plástico), sal. A nuvem cinza continuava baixa sobre a cidade, os relógios marcavam quinze para às nove. As pessoas suando. Dentro em pouco, haverá uma desidratação. Não temos tanta água no corpo.

Andando pelo centro. Estranho estar à vontade, admirando vitrines que nem sabia estarem ali, reparando nos rostos das pessoas. Deixei de prestar atenção ao centro, faz muitos anos. Vejo homens com maleta preta. Maleta? Era disso que eu sentia falta no cinema. A maleta na mão, com minhas coisinhas.

Aquela maleta fazia parte de mim. Era um membro, me dava segurança. Sem ela, meus braços pendem desamparados. Colados ao corpo, com medo de se desgrudarem. Sinto falta do escritório. Não pelo trabalho, nem pelos colegas. Mal conversá­vamos. É que nunca estive livre, numa hora da manhã, como hoje.

— Oitavo.

— Só abre às nove e quinze — disse o ascensorista.

— Você é o Souza?

— Sou.

— Não me reconhece?

— Não.

— Tadeu.

— Tadeu Pereira?

— O próprio.

— O que faz aqui?

— Sou ascensorista. Não vê?

— Começou quando?

— Sempre trabalhei neste prédio.

— Eu também...

Aí, observei que tinha me enganado. Era um hall igual, porém não era meu prédio. Também, são todos semelhantes. Uniformes. Feitos com uma só planta. Arquitetura econômica dos Abertos Oitenta. Graças a este erro, redescubro meu velho amigo Tadeu Pereira. Não é possível. Tão envelhecido, aca­bado.

— Tadeu Pereira. Quem diria?

— E você? O que faz?

— Nada. Fui demitido.

— Por quê?

— Sei tanto quanto você.

— Estão demitindo muita gente baseados nos decretos secretos.

— Nunca ouvi falar.

— São secretos: Produtos do Ministério de Planejamento. Demissões em massa. O Esquema não agüenta mais criar em­pregos artificiais. Está além do limite da capacidade. Prefere o desemprego generalizado, problemas sociais, que uma dívida insuportável. Eles têm horror de dívida externa e ao mesmo tempo usam a dívida como justificativa para tudo.

— Quer dizer. Mais gente nessas ruas, o dia inteiro. Não dá.

– Tenho medo, Souza. Muito medo. Gente como nós o que vai fazer?

— Tadeu Pereira. Quem diria!

Ele jamais poderá saber o quanto estou alegre. Jamais imaginei que pudesse um dia dar de cara outra vez com o Tadeu. Andou desaparecido tantos anos, julgávamos que tivesse morrido. Acabado e acabrunhado, curvado, não me parece o homem que teve tanto ânimo. Tanto peito para enfrentar si­tuações.

 

DOIS APOSENTADOS PREMATURAMENTE CONVERSAM.

QUEM DIRIA QUE TUDO IA ACABAR ASSIM,

NUM CLIMA DE RIDÍCULA E SUBDESENVOLVIDA FICÇÃO CIENTIFICA?

 

— Quer dizer que também entrou na compulsória?

— Há um bom tempo.

— O que anda fazendo?

— Nada, já te disse.

— O que andava?

— Conferia números num escritório. Números, o dia inteiro. Colunas e mais colunas.

— Quem diria que a gente iria acabar assim? Tudo pare­cia tão promissor nos Abertos Oitenta.

— Murcharam rapidamente. Teve gente que nem per­cebeu.

— Temos discutido o assunto, Souza. Estamos chegando à conclusão que nos deixamos enganar. No fundo, era previ­sível o que viria. Quantos homens da antiga ditadura não con­tinuaram nos postos? Todos caquéticos.

— Você disse: temos discutido? Discutido com quem?

— Um pequeno grupo. Pode ser que você conheça alguns. Na casa de um, na casa de outro. É um jeito de mantermos as cabeças em forma, de não perdermos o pé. É difícil, as pes­soas andam espantadas. Ninguém quer saber de mais nada. O que vale é o dia a dia. Só se pensa na sobrevivência.

— Acredita se eu te disser que não converso a sério há uns cinco anos?

— Claro, aconteceu comigo. Não um período tão grande, atrofiador, como o seu. Meu silêncio um dia explodiu na mi­nha cara.

— De vez em quando, falo com um sobrinho meu. Tem vinte e três anos e é capitão do Novo Exército. Mas não dá Para a gente se entender. Ele me irrita. E me faz sentir safado. Corrupto. Pode ser? Me sinto corrupto, porque aceito umas fichas extras para a água.

— Imagine se umas fichas de água tornam alguém cor­rupto, Souza? Isso não dá nem para arranhar a honestidade. Você sempre foi escrupuloso, demais. Tinha noções rígidas, antiquadas, de certo e errado. Andava devagar.

— Era o meu jeito.

— Se somos corruptos por causa de umas fichinhas, ima­gine aquela gente toda? O que dizer do Grupo dos Oito? E a Ala Asa de Galinha? E o Conjunto Pop?

— Fico abismado com tudo que fizeram, sem que hou­vesse uma revolução.

— Eu não. O que me impressiona é que essa gente nunca teve medo do julgamento da história...

— Julgamento da história? Chego a acreditar que aqueles homens pretenderam deliberadamente eliminar a história, ten­tando apagar o futuro. Para que não se lembrem como novos Átilas, os devastadores. Se acreditaram tão poderosos que julga­ram poder cancelar a memória do povo.

— Ao menos, fizeram tudo. Quem penetra no prédio da Memória Nacional?

— Até que dá para penetrar. Mas quem garante o que está lá? Não será um prédio vazio?

— Nem os bárbaros causaram tanto estrago.

— Os bárbaros não tocavam nos templos. E as bibliote­cas, os manuscritos, estavam nos templos. Eles tinham medo dos deuses e não violavam os santuários. As escolas dos sacer­dotes continuaram funcionando. Mais agora. Tudo começou na grande ditadura com as reformas de ensino, as dificuldades para estudar, o analfabetismo grassando. Tentou-se consertar a situação nos Abertos Oitenta. Nem deu tempo para respirar. Quando vimos, tinham se acabado. Estava instalada a Era da Grande Locupletação.

— Fecharam nossos olhos durante os anos abertos.

— É trocadilho?

— Coincidência. Estávamos iludidos e não prestamos aten­ção nas coisas que aconteciam.

— Não se esqueça que aconteciam secretamente. O Esque­ma decidia a portas fechadas. De repente, vinha uma campanha de preparação. Algumas semanas de amortecimento e ficávamos anestesiados para o choque. Por oito anos abastecemos o mun­do de madeira. Convencidos de que não havia problemas, aceitamos que vendessem trechos da Amazônia. Pequenos tre­chos, diziam. Áreas escolhidas por cientistas, para que não se alterassem os ecossistemas. Até que um dia, as fotos tiradas pelos satélites revelaram a devastação. Todo o miolo da flores­ta estava dizimado, irremediavelmente. O resto durou pouco, em alguns anos, o deserto tomou conta.

— O Esquema era inteligente. Negava, negava, e agia ocultamente. Quando se viu, estavam no chão 250 milhões de hec­tares de florestas. Como nunca mais há de haver outra. Tudo no chão.

— E continuamos endividados.

— Mas ganhamos a Nona Maravilha.

— Ganhamos também tempestades de areia, dignas de países desenvolvidos. Não temos mais que invejar os furacões norte-americanos. As tempestades dizimaram o Maranhão e o Piauí. O deserto avançou para o mar.

— Sergipe sofreu duas tempestades de lama, Aracaju foi soterrada. O mar, lá, tem ondas de trinta, quarenta metros.

— Furioso. Tão furioso quanto o Esquema, quando os grupos de defesa do meio fizeram uma denúncia internacional. O Esquema ficou desmascarado.

— E se importou? Estava todo mundo ganhando. O es­cândalo que foi o Grupo dos Oito assinando concessões para as madeireiras estrangeiras! Oito pessoas ganharam mais di­nheiro que toda a população em dez anos de trabalho.

— Os jornais falaram.

— Logo se calaram.

— Obrigados ou subornados?

— Os dois. E a Ala Asa de Galinha?

— Estava sempre debaixo da asa do presidente. O povo chamava de pintinhos. Mas de pintinhos não tinham nada. Eram uns galos ladrões.

— Entregaram tudo. Aí estão as reservas que não deixam ninguém mentir.

— Mas o Esquema negava. Nega ainda. Aliás, não precisa negar, não se fala mais nestes assuntos.

— Todo mundo está preocupado é com viver, arranjar um buraco para morar, um prato de comida.

— Tinha ainda o Conjunto Pop. Tocava música estran­geira. Obrigou a indústria nacional a dançar ao som das multi­nacionais. Os pequenos nem chegaram a entrar no salão.

— Será que eles estão vivos, Souza?

— Ah, uma boa parte já se foi. Eram homens de sessenta e cinco, setenta anos. Aferrados ao poder, deslumbrados com o mando, alucinados pelo lucro.

— E eram tão poucos.

— Mas tão fortes.

— E inteligentes.

— Sou radical. Eram loucos. Insanos. Você tem alguma esperança, Tadeu?

— Ando confuso. Perdido.

— Acho a minha teoria provável. Sabe? Acabando com tudo, eles estariam salvos. Claro que era estreiteza da parte deles. Acreditavam que eliminando o futuro, deles não se guardaria nenhuma imagem. Esquecem a tradição oral. Proibi­ram os livros, cassaram os cientistas, expulsaram os professo­res, prenderam os pensadores. Parece até um complô de nível mundial. Uma divisão do mundo moderno, acertada entre as grandes nações e os amaciados dos países subdesenvolvidos.

— Pois para mim parece ficção científica. São Paulo fe­chado, dividido em Distritos, permissões para circular, fichas magnetizadas para água, uma superpolícia como os Civiltares, comidas produzidas em laboratórios, a vida metodizada, racio­nalizada.

— Tem razão. Vivemos uma situação de ficção científica porque vinte ou trinta pessoas, numa época que o povo, sempre gozador, chamou de Era da Grande Locupletação, resolveram ter lucro, usando poder. No entanto, me parece uma ficção científica ridícula.

— Como ridícula?

— Lembra-se quando líamos os livros de Clark, Asimov, Bradbury, Vogt, Vonnegut, Wul, Miller, Wyndham, Heinlein? Eram supercivilizações, tecnocracia, sistemas computadoriza­dos, relativo — ainda que monótono — bem-estar. E aqui, o que há? Um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica. Sempre fomos um país incoerente, paradoxal. Mas não pensei que chegássemos a tanto. O que há em volta de São Paulo? Um amontoado de acampamentos. Favelados, mi­grantes, gente esfomeada, doentes, molambentos que vão ter­minar invadindo a cidade. Eles não se agüentam muito além das cercas limites. Não há o que comer!

— Bom, Tadeu. A sua cabeça continua igual. Pensei que você estava derrotado. E vejo tua cabeça funcionando, funcio­nando. Speed. Era o teu apelido. Speed. Por causa da tua cabe­ça, a mil por hora. Foi o tempo em que as palavras inglesas substituíam tudo.

— Vamos tomar café? Deixo o elevador no automático. Você tem ficha?

— Gasto a de amanhã...

— Quando olho essas cartelinhas de fichas, tenho a im­pressão de cartelas de anticoncepcionais. O dia determinado para cada café. Onde chegamos, hein? E gente como nós tem culpa, Souza!

— Espera lá. Se aposentaram a gente, foi por alguma coisa.

— Ficamos assustados com a aposentadoria. Recuamos. A mim custou um bom tempo para recuperar a normalidade. Eu não conseguia emprego em lugar nenhum. Sorte que os meninos estavam grandes, foram trabalhar. Vendi a casa, fui para um apartamentinho. Diminuí terrivelmente o nível de vida.

— Quem não diminuiu? O nível de vida neste país ficou abaixo do nível.

— Sempre ruim para piadas, hein, Souza? Você era um chato. Só contava piada sem graça.

Serviram as xícaras de café. Pó solúvel ralo, meia colher de açúcar para cada um. Ao menos, quase todo mundo deixou de comer açúcar, coisa desnecessária. Havia uma porção de garçonetes. Uma colocava o pires, outra a xícara, a terceira despejava a dose exata de açúcar, outra o café, outra a água.

Elas se acotovelavam, davam encontrões por dentro do balcão. É a superespecialização. A fórmula que o Esquema encontrou para combater o desemprego foi a subdivisão e am­pliação de cargos. Agora, diz o Tadeu que isso deve acabar. "No mês que vem, só vai ser duas xícaras por semana para cada pessoa", avisou uma loirinha sem dentes.

— Sabe o que é? Havia gente preocupada. Associações por toda a parte. Grupos que defendiam os rios, organizações contra a proliferação de hidroelétricas desatinadas, os heróicos combatentes contra o Reator de Angra...

— Soube que morreram todos.

— E no fim, o Reator também. Está lá, meio afundado. Fui ver. Atração turística. Parece um imenso navio adernado, metade dentro da água, metade fora. Coisa esquisitíssima, Souza. Um monumento. Um amontoado gigantesco de concreto afundado na terra.

— Monumento?

— Ao imediatismo...

— Não quero ver. Me dá uma tristeza enorme. Assim como a Casa dos Vidros de Água.

— Engraçado, a Casa dos Vidros é a maior prova contra o Esquema. E eles deixam.

— Às vezes, duvido que exista gente por trás do Esque­ma. Esquema, Esquema, ouvimos falar. Há muito que o velho Caldeira está inválido, e continua como presidente.

— Temos que marcar um encontro. Quero te mostrar uma coisa. Aquele nosso caderninho. Guardo há mais de vinte e cinco anos. Você vai chorar!

— Meu deus, tinha me esquecido. Os nossos caderninhos. Vamos lá. Agora.

— Te mostro qualquer dia.

— Vamos logo.

— Não, Souza. O caderninho vai te deixar emocionado, se te conheço bem.

— Ah, que história...

— É o jeito de garantir que a gente se encontre de novo.

— Precisa disso comigo?

— Nunca se sabe. Tudo mudou muito.

— Está me insultando.

— Estamos meio velhos para esse tipo de briga, não?

Atravessamos a rua, vagarosamente. As pessoas à nossa volta também não se apressavam. Pareciam sem reação, refle­xos. Não parecem, são. De repente, quis mostrar ao Tadeu. Tal­vez pudesse me ajudar a encontrar um significado. O meu furo na mão. Ele vai entender o meu orgulho. Tem a cabeça boa.

— Olhe para o chão, Tadeu. O que está vendo?

— A sombra da tua mão.

— Olha bem.

— Tem um círculo de luz no meio. Engraçado!

— O que acha?

— É um furo na sua mão! Veja só!

— É isso!

— Faz tempo?

— Uma semana. Por aí.

— Não é o primeiro que vejo.

— Não?

— Tem outros. Dói? Incomoda? Alguma reação?

— Nenhuma.

— Deve ser uma dessas manifestações que andam apare­cendo aos montes. Difícil dizer como acontece. Devia procurar o médico.

— Para quê? Nem parece que conhece os médicos. Deixo o meu dinheiro, me dão uma bruta receita, gasto um monte na farmácia. Bebo água que é melhor.

— Redondinho, perfeito. Como se fosse cirurgia plástica. Mas tem uma diferença. As coisas que aparecem são desagra­dáveis. Os carecas, os que têm a pele caindo, os olhos infla­mados, os surdos. Vi gente que veio do campo, sem um pêlo no corpo, o nariz corroído por inseticidas, ouvidos purgando, gente que perdeu o controle motor. E os que andam com o pulmão artificial às costas, como os carros que usavam gasogênio na primeira guerra mundial? O seu furo é diferente. Até bonitinho.

— Te mostrei por causa da sombra. Acha que esse círculo de luz pode significar alguma coisa?

— Não exagera, Souza. Para não entender, basta o furo. Não procure pêlo em ovo.

— Tenho certeza que representa. E é mensagem.

— Mensagem? Quer dizer: você é predestinado?

— Isso sim é exagero.

— Exagero nada. Em nosso tempo, você andou numa fase de misticismo. Vai ver, renasceu. Bem, a conversa está boa, mas preciso voltar. O elevador está sozinho.

— Nos encontramos de novo?

 

PENSANDO NO HOMEM QUE NUNCA EXISTIU,

SOUZA TENTA VER STRIP-TEASES. DEPOIS,

UMA SURPRESA AO TOMAR O ELEVADOR

 

O Centro Esquecido de São Paulo, que cerca as estações rodoviária e ferroviária, me dá a sensação de estar montado num carrossel alucinado. As imagens circulam vorazmente, não dá tempo de fixá-las. Tudo que vejo são manchas velozes, im­precisas, misturadas à música, gritos, vozes, passos.

Ê o comércio livre. Onde se vendem objetos de segunda mão, roupas usadas, sobras de remédios, livros e revistas velhas (caríssimos), eletrodomésticos retificados, peças de reposição, tiradas de carros que não funcionam mais, mesquinharias. Aqui, compra quem quer, não exigem fichas apropriadas.

Esta calma e vagarosidade me dão a impressão de doença. Os olhos que entrevejo são baços, as bocas repuxadas. Os mo­vimentos retardados, automatizados. Os narizes tremem, per­turbados pelo fedor à nossa volta. Não há como evitar. Esta é uma cidade sobre a qual se perdeu todo o controle.

O visual indicativo, produto típico do Grande Ciclo das Comunicações, me informa: teatro. As placas de metal são mal conservadas, a pintura descascou, há marcas de tiros. Há quan­tos anos não vou a um teatro? Nem sabia dizer se ainda exis­tiam por aí. Vejo que sim, fiquei curioso.

Estão na Zona Restrita aos Divertimentos. No entanto, os grandes teatros funcionam sob égide das Corporações Empre­sariais. Os ingressos não são mais vendidos e sim trocados pelos tickets de compras. Cada ticket comercial equivale a 70 por cento do preço do bilhete.

São válidos apenas os tickets cujo valor exceda duas vezes e meia o limite mínimo do consumo obrigatório. Falam que, apesar das dificuldades, os teatros vivem cheios. Tanto as peças normais, obrigatoriamente comédias digestivas, como os grandes shows musicais, com os cantores de sucesso.

Passo três vezes diante do teatro. Olhar, interessar, fingir, continuar, voltar. Diante da porta, dois homens me encaram, vou embora. Podem comentar. Besteira, timidez absurda. Uma vez, faz tempo, assisti a um filme curioso. Chamava-se O Ho­mem Que Nunca Existiu. Fita comum, passou desapercebida.

Não para mim. Fiquei fascinado com aquele homem que nunca tinha sido. Tentava entender por que e começo a chegar ao ponto de compreensão. Estou subindo esta escada em cara­col, pensando que não devo subi-la. Carreguei sempre este sen­timento de que não devo estar. Querer, não ir.

Onde vai dar a escada? Os strip-teases prometidos serão reais? Espetáculo de museu, não sei como ainda existe, esque­cido neste centro caótico. O que mais terá o velho centro pre­servado? Sempre tive curiosidade em relação ao desconhecido. Avançava com medo sobre ele. Mas avançava.

Cheguei a elaborar para meus alunos uma teoria interes­sante do Risco Terrível que é o Eterno Conhecido. Uma cópia do trabalho foi anexada ao processo que me deu a compulsória. Não tinha como explicar. Aqueles homens procuravam subver­são e a pasta marrom cheia de folhas forneceu o que dese­javam.

A sala de aulas era o único lugar onde me sentia bem. Liberado. À frente dos alunos, diante do quadro negro. Eles gostavam de mim, porque eu insistia em sair dos currículos estreitos, organizados de modo a formar baterias conformadas de tecnoburocratas. Tecnocratas, disso o país precisa.

Ouvia isso com exaustão, a cada reunião de professores, nas visitas de inspetor, lia nos boletins do ministério. Os alu­nos nem conseguiam mais formular questões. Eu mesmo levan­tava perguntas que nunca me seriam feitas, traziam respostas que nunca outros dariam. Nem eu, mais.

Sala de primeiro andar, espelhos rachados nas paredes. Cortinas vermelhas, remendadas, cobrindo parte dos espelhos. Letreiros recomendando o churrasco especial da casa, frango com farofas e batata. Tinha sido a parte superior de um res­taurante, antes de ser teatro pulgueiro.

Picada dolorida no braço. Bato com a mão, instintivamen­te. Mato um inseto marrom. O braço fica latejando. A sala está quase vazia. Discos fanhosos, cheios de ruídos, boleros, rocks, discotecas, músicas fora de moda, tocam por trás da cortina ensebada. Me sinto solto, de repente.

Toda sensação ruim escorre. Posso ficar aqui, ou em outro lugar, quanto tempo quiser. No mesmo instante, me vem de ir embora. Sobre a porta, o painel desbotado, há muito esque­cido ali. Anuncia o espetáculo: Adão e Suas Sexy Sete Evas. Todas loiras, olhos azuis. Adão com a maçã.

O porteiro corcunda me olha espantado. "Nem começou, doutor, já vai? Não podemos devolver o ingresso". Nem res­pondo, saio, imagino que na parede em frente estão pousados milhares de insetos marrons, a zumbir. A maçã de Adão, dese­nhada como um símbolo fálico. Vermelho, empalidecido.

O vermelho cutuca minha memória, penso em sapatos de mulher. Coisa que sempre gostei. Sandálias vermelhas, luzen­tes, me excitavam. Adelaide não comprou nunca uma. "Cor berrante não fica bem para uma mulher como eu". A maçã vermelha, como um anúncio a neon. Claro, a maçã.

O sol desaparece de repente, como todas as tardes. Não há mais crepúsculo desses que alegram calendários em casa de caboclo. Aliás, não há caboclos, as últimas migrações do campo se deram há cinco anos. Nas zonas rurais não ficou ninguém. Para quê? Somos um país urbano. A terra gretada não produz nada.

É curioso. O dia está quente, o sol ardido. Quando chega pela altura de oito horas, cai o escuro. Quando menos se espe­ra, não há luz. O mormaço continua por algumas horas e sofre uma queda brusca. Certas noites, não dá para dormir sem um ou dois cobertores. Quem entende de física?

Não é sempre. Porém, constante. O melhor é ter a coberta à mão. No entanto, às vezes, o mormaço permanece inalterado, a gente sente falta de ar. Quer beber água o tempo inteiro. Nessas noites, ninguém dorme. Percebe-se por trás das janelas escuras o ciciar abafado das conversas. No dia seguinte, todos mal humorados.

Estou há três dias fora de casa. Talvez mais. Sei lá. Não importa. Ficar andando perde o sentido, sinto falta de minha sala, do quarto. E Adelaide? Se conseguir enganar o fiscal do ônibus, não preciso voltar a pé. Estou cansado, sem vontade de andar tanto. O ponto vazio, o S-7.58 chega.

— Posso viajar neste carro?

— Por que não?

— Pensei que fosse proibido.

— Só se o senhor não tiver ficha de circulação.

— Tem certeza que posso?

— Nunca se proibiu ninguém de andar de ônibus.

— Dois dias atrás não me deixaram entrar. Me jogaram para fora.

— Não deixaram ou jogaram para fora?

— Não deixaram, forcei, entrei, me atiraram fora.

— Algum mal-entendido. Um cobrador substituto... Vai ver foi isso...

— Foi contigo.

— Não me lembro disso, nem do senhor. Vai ver, o senhor bebeu um pouco hoje, imagina coisas. Vai sentar, vai... É melhor.

Viajei olhando bem na cara do cobrador atrevido. Nem se dignou me encarar. Continuou trabalhando como se não tivesse havido nada. Sinto outra picada no braço, bato, é o inseto marrom. Virando praga, como os grilos. São meio boba­lhões, picam e grudam. Não parece mosquito, abelha, motuca, borrachudo.

Quando enfiei a chave na porta, tive um arrepio estranho. Veio um cheiro de casa fechada. O silêncio. A esta hora Ade­laide sempre está vendo sua novela, se não for aula de receitas. Tudo escuro. Nunca senti o cheiro de minha casa parada. Andei por todos os cômodos. Ninguém.

A casa arrumada, chinelos sobre o tapete de retalhos, o urinol debaixo da cama. O meu cotidiano. Um bilhete sobre o travesseiro. Letra de Adelaide. Atirei no urinol e me deitei. Com roupa e tudo, a luz acesa, fumando, jogando a cinza no chão. Depois, larguei a brasa, esperei fazer um furo no tapete.

Quando acordei, ouvi barulhos de rua. Abri a geladeira, só tinha manteiga. Factícia, com gosto de sebo, misturado a plástico. A cozinha estava em ordem, o chão todo limpo, o banheiro cheirava detergente. Minha vida inteira cheirou de­tergente. Urinei fora da privada, cuspi no chão.

Fiz um café fraco, espalhei pó, deixei cair xícaras, quebrei dois pratos. Vesti um paletó que não combinava com a calça.

"Assim você não pode ir, querido. O que vão dizer no escri­tório? Que sua mulher não cuida de você?". Deixei que ela me cuidasse todos estes anos. Eu a fiz assim, na verdade.

Paletó? Estou louco? Queimei o paletó no incinerador de lixo. As cinzas não desceram, o escoadouro estava entupido. O dia nublado. Se ao menos fosse chuva. Fico com a boca seca de pensar na possibilidade de uma chuva. Uma garoinha leve que molhasse tudo, umedecesse a terra, me encharcasse.

As secas definitivas vieram logo após o grande deserto amazônico. Um ano sem gota de água e as represas de São Paulo esgotaram. Apavorado, o povo fazia promessas, enchia as igrejas. Organizavam procissões, novenas, romarias. Inúteis. Poços artesianos começaram a ser abertos às pressas, às cen­tenas.

Por muito tempo, a secretaria de obras trabalhou em po­ços. Todas as verbas foram desviadas para os programas de água. Cada estado contou consigo, não havia possibilidade de ajudar o outro. O problema era igual para todos, estavam à beira da calamidade. Charlatões, fazedores de chuva, enrique­ceram.

As chuvas não vieram. De nada adiantaram procissões, rezas, trezenas, missas, macumbas. Padres gritaram no púlpito que tinha chegado o juízo final. Parlamentares denunciaram o Esquema no congresso. Tanto padres e políticos tiveram que se calar, sob pena de aplicação do Definitivo Julgamento.

Onde será que foi minha mulher? Para a casa da mãe, decerto. Um dia desses, passo por lá. Bom, féria conjugal faz bem. E a faxineira? Devia ser dia dela vir. Ou foi ontem? Es­tava tudo tão arrumado. Caminhei para o escritório, ao sair do ônibus. Maquinal, nem percebi. Fiquei à espera do elevador.

O ascensorista me olhou, amedrontado. Seu rosto se re­fletia nos espelhos enfumaçados do elevador, imagem repro­duzida ao infinito. Não nítida, toda sombreada, apenas um esboço do rosto. E eu vi milhares de rostos aterrados, me con­templando. O ascensorista não sabia que atitude tomar.

— Está lotado!

— Lotado? Como? Está vazio, seu Potiguara.

— Vazio, mas reservado.

— Desde quando se reserva elevador?

— Além disso, me avisaram que o senhor não trabalha mais aqui. Deram ordens para não deixá-lo subir.

— Você me conhece, seu Potiguara, não fiz nada de mal.

— Não sei. Para mim o senhor era até boa pessoa. Não... não é mais...

— Não sou mais?

— É... o senhor sabe... tem quem mande... tem quem diz as coisas como devem ser...

Fechou a grade interna rapidamente, ficou atento, pronto para subir, caso eu tentasse alguma coisa. Atirei-me contra a grade, rindo, vendo o pavor assumir totalmente o rosto de Po­tiguara. Fiz, só para ver o que vão comentar lá em cima os homens-mesa, homens-gaveta, quietinhos, obedientes.

 

SEMPRE ESTEVE CLARO QUE O SOBRINHO

NUNCA FORNECEU FICHAS APENAS PELOS

BELOS OLHOS DO TIO QUE O AJUDOU A CRIAR.

CHEGOU A HORA DE DEVOLVER OS FAVORES

 

— No mundo da lua, seu Souza?

A barbearia vazia, o barbeiro encostado na porta. A esta hora da tarde não tem nunca freguês. A vitrolinha num canto toca tangos. Desde que me mudei para cá, o barbeiro ouve tan­gos e boleros, sem parar. Pilhas de antiguíssimos discos chiantes, LPs arcaicos, compactos, todos amontoados, empoeirados.

— Acho que o senhor precisa de uma barba. Não quer entrar?

Passo a mão no rosto, meu deus, há quantos dias não me barbeio? Se Adelaide me visse, teria um colapso. Onde estará? Não telefonei para a casa dos pais. Viajou, ou me abandonou? Pode ser. Por que não li o bilhete? Estranho a mim mesmo, nunca tive atitudes assim. Afinal, ela não tem culpa.

— O senhor usa água? Ou mijo retificado?

— Acha que ia pôr mijo retificado no seu rosto, seu Souza? Me conhece!

— Não, não conheço ninguém.

Ventiladores de pá, desses de velhos filmes americanos passados no Caribe, giram inutilmente. Não há ar para agitar. A barbearia é abafada. O corredor é suportável ainda que o chão esteja preto. Ninguém vence a poeira cinza, constante. Hoje amanheceu sem neblina, céu limpo, sol tenebroso.

— Vou pôr uma toalha fresquinha.

— Ei, quanto vai me custar?

— Estava pensando, seu Souza. O senhor tem um sobri­nho que é capitão. Não tem?

— Tenho.

— Pois eu soube aqui no prédio, de conversa, que ele facilita certas coisas.

— Que coisas?

— Alguém daqui, não vou dizer quem, já comprou fichas para água. Quem sabe?

— Não sei de nada disso. E não gostaria de tocar no as­sunto com ele.

— O senhor não precisa tocar. Apenas diga que o bar­beiro quer bater um papinho. Ele vem até aqui.

— O senhor tem certeza?

— Absoluta. O meu negócio vai interessar ao seu sobri­nho. Fala com ele.

— Bem, é que não sei quando vou encontrá-lo. Ele só aparece de vez em quando.

— Está lá em cima. Passou por aqui faz meia hora.

— Acaba essa barba logo. Quanto é?

Lá estava ele. Sorridente, meloso, olhos matreiros, bigode negro, semelhante a um cantor de boleros. Tomava uma lata de cerveja. Me abraçou, assim que entrei. Tem pessoas de quem a gente não gosta, sem saber por quê. Vê, e não gosta. Nunca fizeram nada para a gente. Mas é uma antipatia espontânea.

— Senta aí, tio. Vim te propor um negócio. Sei que vai dizer não, de cara! Mas ouça, primeiro. É uma caridade que precisamos fazer.

— Caridade? Você? Desde quando?

— Tio? Não sou tão ruim assim! Só porque o senhor odeia o Novo Exército, não precisa me incluir.

— Até que não tenho queixas do Novo Exército. Mas essa organização que vocês mantêm, os Civiltares, não dá para engolir.

— Para lá, tio. Não temos nada a ver com os Civiltares. Isso é injusto.

— Quer me enganar?

— Tio, os Civiltares foram formados pela ala dura que não concordou com as renovações efetuadas no Exército. Esta ala uniu-se aos civis radicais que não concordavam com as aber­turas do Esquema. Então, formaram sua própria organização.

— Que o Esquema tolera.

— Política não é fácil, tio. É um jogo. O Esquema tem procurado minar as bases dos Civiltares. Demora. A tolerância se dá porque existem grupos muito fortes a apoiar os Civilta­res. Eles formam também a milícia de confiança das reservas estrangeiras. O Esquema vem tentando conquistar as lideran­ças, para destruir a organização.

— Teoria! Na prática, o que acontece?

— Olha aqui, tio. Não vim discutir política. Tenho pressa, preciso de um favor.

— Pode ser que eu faça.

— Não queria dizer isto, tio. Não queria. Mas quando o senhor precisa de fichas, eu trago. Sempre trago, nunca falei nada. E, com boa vontade.

— Para poder cobrar, agora.

— Cospe no copo de água que te dei, cospe.

Fomos até a cozinha. Havia três pessoas sentadas, a tomar cerveja. A mesa cheia de latarias, pacotes, sacos de supermer­cados. Homens na casa dos trinta. Não posso dizer se morenos, porque eram carecas. Nem um pêlo. Nada de cabelo, sobran­celha. Desses que a cada dia aumentam nas ruas.

— Preciso que fiquem por aqui, tio. O senhor acha que a tia se incomoda?

— Ela não está. Vai ficar fora algum tempo.

— É só por uns dias. Trouxemos comida, depois vem mais. Eles estão com fichas de água. O senhor não vai gastar nada, nada.

— A gente se ajeita, pode deixar. Ah, o barbeiro lá de baixo quer falar contigo. Tem um negócio a propor. Acho que você aceita.

As janelas fechadas, insetos zumbem. Olho o forro, man­chas marrom. Os bichinhos vivem juntos, em grupos. Trago a lata de DDT, pulverizo. Eles permanecem no lugar, tenho a impressão de que contentes com o banho fresco que presen­teei. Pulverizo outra vez, e nada. Continuam indiferentes.

 

ENTRE CARROS BLOQUEADOS, DOIS PROFESSORES

CONVERSAM MANIACAMENTE SOBRE A SITUAÇÃO.

POR QUE OS INTELECTUAIS TÊM TANTO COMPLEXO DE CULPA?

 

— Agacha, agacha. Sempre agachado.

Estava engatinhando, me atirei (conheço a técnica), continuei a rastejar. Por quanto tempo? Horas que nos movíamos lentamente sobre o concreto ainda quente. Meu nariz junto ao pó. Espirrava. Coisa boa um espirro, limpa a gente. Que ginás­tica, seu. Será que ainda falta muito?

— Quer me matar, Tadeu? Desde o serviço militar não rastejo assim.

— Vamos descansar atrás daquele pilar.

Rastejávamos no meio da estrada, de modo que ninguém nos visse. A free-way projetava-se a quinze metros do solo, dezesseis pistas, larga fita vazia. Coberta por uma camada de poeira cinzenta. Quer dizer, no escuro não dava para ver a cor, mas é a mesma poeira que vem dos campos calcinados.

Meus cotovelos ardiam, esfolados. Bem que o Tadeu reco­mendou: enfaixa o cotovelo que temos uma longa jornada pela frente, numa posição ingrata. Os primeiros duzentos metros foram difíceis, por causa da artrose, depois entrei no ritmo. Mas me falta fôlego, é natural, não faço exercícios, me ali­mento mal.

— Não dá para descansar aqui, agora?

— Atrás do pilar, atrás do pilar. Não podemos facilitar.

Entrar na free-way não foi fácil. As entradas bloqueadas e vigiadas, laterais muradas. Depois, a estrada se erguia acima do solo. Tadeu me conduziu através das ruínas do que tinha sido Vila Anastácio. Os prédios populares construídos por uma imobiliária, tinham desabado.

Subimos por uma viga de sustentação. Nela, havia uma série de ganchos encravados no concreto que funcionavam como escada. Tive um medo danado de cair. Não é coisa para ho­mem de minha idade. Me admirei mesmo com Tadeu. Alçou-se como gato agilmente, em dois minutos estava lá em cima na estrada.

Ele levou um bom tempo, me ensinando a melhor forma de rastejar, sem machucar. "No começo, vai ter muita esfoladela. Mais tarde, você se acostuma". Avançávamos e devíamos ter percorrido uns dois quilômetros, quando a luz verde me bateu. Ao lado da ponte, observei montanhas de latas de cer­veja.

Dunas verdes. Imensas, ultrapassando a altura da rodovia. Estendiam-se, brilhando ao luar. Começava a fazer frio. Raste­jávamos e julguei ouvir um som estranho. Como se fosse um lamento, vindo do meio daquelas dunas metálicas. Não, im­pressão! Então ouvi de novo.

Era um grito. Um grito somado a outro, e outro, de tal modo que formavam apenas um som. Dolorido. Quase artifi­cial, tal a tonalidade. Deve ser o vento nas dunas, pensei. Vento chora? Parei, contemplando as latas verdes amontoadas, oxidadas, praticamente soldadas umas às outras.

Ora, não há vento, a não ser raramente. Se houvesse, a poeira da rodovia estaria se levantando. No entanto, o colchão de pó permanece inalterado, liso. Olho para trás, vejo o sulco, formado pelo meu corpo ao rastejar. Continuamos, e o som me chega, claro. São gemidos, não há engano.

— Estou ouvindo coisas, Tadeu.

— São os doentes embaixo da montanha.

— Mora gente aí?

— Dentro são cavernas. Abrigam milhares de pessoas.

— Mas o sol deve esquentar barbaridade. Morrem as­sados.

— Não morrem. É o milagre brasileiro.

— Não pode ser.

— Existe uma mecânica que não chegou a ser entendida. Supõe-se que as latas se resfriam de tal modo à noite que, durante o dia, levam tempo para se esquentarem. Quando che­gam ao ponto de aquecimento, já o sol se pôs de novo. Daí que lá dentro é fresco. Hipótese, pura hipótese. Hoje em dia, nin­guém entende nada, anda tudo transformado.

— Como você sabe sobre esse povo?

— Tem gente do nosso grupo que trabalha na assistência aqui. Nunca vim pessoalmente. Leio os relatórios que fazem. A maioria desse povo está louca.

— Louco? Louco furioso?

— Modo de dizer. Estão semi-imbecilizados. Inutilizados. Vivem deitados. Gritam porque o corpo dói, sem parar. Não dormem nunca, estão sempre nervosos, irritadiços, em tensão.

— Mas quem é esse povo?

— Ninguém em particular. Mistura de migrantes. A maior parte veio de Pernambuco, favelados que viviam nos charcos, se alimentavam de caranguejos.

— Mas caranguejo não faz mal a ninguém.

— Só que eram caranguejos contaminados por altas doses de DDT. Para sanear o charco, a saúde pública usava DDT. Não há mais nada que se possa fazer, estão condenados.

— O Esquema devia dar ajuda.

— Ajuda? Interessa é que eles morram! Não oferecem perigo, são passivos, não conseguem se levantar do chão. Cada dia retiram dezenas de mortos, levam embora. É a única coisa que o Esquema faz. Pense bem, por que esta gente há de inte­ressar? Não têm o mínimo poder aquisitivo, não consomem, são apenas problema social.

— E o que o teu grupo faz?

— Traz comida, quando consegue. Um pouco de água. Só dá para remendo. Estamos tentando experiências com eles. Dando legumes para comer, procurando desintoxicá-los. Ainda não temos nenhum resultado.

— Legumes?

— É. Verduras. Alface, tomate abobrinha. Nunca ouviu falar?

— Fresquinhos? Ou factícios?

— Ora, Souza. Comida factícia só serve para envenenar.

— É mas se não fosse ela, estávamos mortos.

— Você tem idéia da grande jogada por trás da comida factícia?

— Poder econômico?

— Também. Só que neste caso não é o mais importante.

— O que é então?

— É a química que eles misturam. Os aditivos tranqüili­zantes. Doses mínimas, homeopáticas que vão minando o orga­nismo. Corroendo a vontade, acomodando. Essa calma que existe é conseguida de que modo? Com ameaças, com a pre­sença ostensiva de Civiltares? Com o aparelhamento de vigi­lância, fiscalização? Que nada! O Esquema está sossegado por­que encontrou um meio infalível. Injeta a tranqüilidade direto no sangue.

Continuamos parados, a olhar para baixo. Gostaria de descer, não há como. À direita, estende-se o valo seco do antigo Tietê. O rio era mais raso do que eu pensava. Como fedia, grosso, coalhado de detritos. Até que foi bom secar, não pas­sava de um estéril caudal de imundície, intestino pobre da cidade.

— Vamos.

— Falta muito?

— Bastante. Bastante mesmo. Quer voltar?

— Já que chegamos aqui, vamos em frente. Mas devagar.

— Não tenho pressa. Você menos ainda. Não trabalha mais. Como vai viver?

— Não pensei. Vou sacar meu Fundo, ver quanto dá para agüentar.

— E se não depositaram teu Fundo?

— Não pode ser!

— Acontece com tanta gente.

— Vou roubar.

— Quero ver de perto.

— Preciso saber se meu sobrinho me providencia um revólver. Agora, ele me deve favor. Estou hospedando uns amigos dele.

— Você negociando com teu sobrinho?

— Não dá para ser intolerante hoje em dia.

— Mas dá para se manter os princípios.

— Dá?

Desapontamento no rosto de Tadeu. Mas sou sincero. Que­ro viver. Vou tentar me manter decentemente. Gostaria muito de ir até o fim. Ser o último, se possível, quando tudo desabar. Ultimo. Que pessimismo. Se me ouvem. Então percebo. Vem do fundo, lembrança aguda. A falta que faz a gente.

De um pouco de alegria. Alguma coisa que me fizesse rir muito. Penso que se desse uma gargalhada, ia ter cãibra. Ou distensão nos músculos da boca. Porque faz tanto tempo. Não, não é só a minha aspereza, o meu fechamento. Adelaide sempre reclamou: "Você não se descontrai nunca. Não se diverte".

Não deve ter sido fácil para ela estar ao meu lado. Cala­do, observador. Sem rir. Preso. A quê, meu deus? Por quê? Como dançávamos e nos divertíamos nos fins de semana. Saíamos das pizzarias, empanturrados de massa e chope e íamos para as gafieiras. Ela era leve, cheia de ritmo, musical.

Horas e horas sem sair da pista. Às vezes, era nas casas de tango. Ou nos grandes salões de baile. Ela ágil, eu pesadão. Fazia uma ginástica terrível para acompanhá-la, desajeitado. Boi em casa de louças. E ria de mim, contente. Me esforçava, porque gostava dela. Eu sei, ainda que negue.

Tento negar, achar desculpas. Sinto falta de Adelaide. Não sei o que fizemos de nossa vida, porque nos deixamos afastar tanto. A certa altura, ela parou de reclamar de minha mudez, e meu tormento. "Sei que não adianta. Talvez um dia perceba que não pode viver assim eternamente".

Também ela se recolheu a um canto. Passou a viver para a mãe e o pai, ela que na verdade nunca se tinha dado bem com eles. Descobriu a igreja, não sei como. Se a encontrasse agora, iria perguntar. Para encontrá-la, basta telefonar para a casa da mãe dela. É só querer. E por que não ligo?

Rastejamos, nos distanciando das montanhas de latas ver­des. Os gemidos desaparecem, vamos deixando nosso sulco na poeira. Calados, avançamos por uma zona de silêncio que me impressiona. Ouço a respiração de Tadeu. Apesar dos cin­qüenta e cinco anos, ele se move rápido.

Ganho ritmo, agora os braços não doem tanto. Quando jogava as peladas, havia um momento angustiante de cansaço. Mas se eu prosseguia, superava aquele ponto e agüentava fir­me até o final. Quer dizer, existe um ponto limite, diante do qual ou a gente desiste, ou prossegue. Ponto teste.

Aqui parece que ultrapassei este ponto, acompanho Ta­deu. Gosto disto. Tinha me habituado ao trajeto casa-escritório, sem notar. Entrara naquele esquema, meio amedrontado pelo que via à minha volta. Casa-ônibus-Casa dos Vidros de Água-mesa-janela-volta. Cada dia, reflexo do outro.

Redescubro São Paulo. Não a minha. Minha. Que ridículo. Como se eu tivesse alguma. Ao dizer minha, prendo-me ao passado, refugio-me no inexistente. Caio no vácuo, daí a inse­gurança. Encontro uma nova cidade, estranha, que apresenta a todo instante novas propostas de vida. Ela continuou, eu parei.

É dar ou pegar. Refazer todos conceitos. Colocar de lado a lamentação. Incluir-me dentro do novo conceito. Encontrar Tadeu mostrou como eu andava distante das coisas, morto. E mesmo Tadeu é um mistério para mim, não sei o que ele pensa, como vê a vida. Mas não me preocupo.

— Só tem este caminho?

— Não, mas os outros dão uma volta imensa. Um deles, o que sai por Guarulhos me deixa doente. Porque é preciso caminhar por dentro de um bueiro abandonado. E no meio dele, sem enxergar luz para lado nenhum, sinto uma sensação espantosa de morte e agonia. Sou claustrófobo.

— Acho aquele elevador bem pior para sua claustrofobia.

— Devia ser mesmo. Se eu vivesse só ali, como você viveu dentro do seu escritório.

— E o outro caminho?

— É pela via Anchieta. Por ali a volta é enorme, exige três dias de caminhada. Entra-se na free-way do litoral que cruza com esta lá na frente. O problema é que as patrulhas Civiltares desconfiaram, instalaram radar por duas vezes.

— E agora? — eu disse, olhando para a frente..

A free-way estava coalhada de carros. De uma amurada a outra, nenhum espaço. Ao luar, via os radiadores enegreci­dos, capôs corroídos, vidros partidos ou cobertos de pó, faróis vazados. Surgiram de repente, ao rastejarmos pela lombada. Na sua imobilidade davam a sensação de velocidade.

Fantasmagóricos, como esqueletos de dinossauros em mu­seus. Bando de monstros, mortos subitamente em pleno ataque. Uma vez, criança, fui ver um velho desenho animado. Se cha­mava Fantasia. A cena que mais me impressionava era a do desespero dos animais pré-históricos, em fuga.

Comida e água tinham se acabado em seus habitats. Eles partiam em manadas, estranhos e gigantescos animais, fustiga­dos pela fome e pelo sol. Iam caindo e o tempo se encarregava de sepultá-los, torná-los esqueletos descarnados, espécie desa­parecida, transformada agora em fóssil.

Isto me vem à cabeça, ao ver estes velhos carros, talvez os últimos do grande sonho brasileiro. Logo depois do Notável Congestionamento, as fábricas foram fechadas e milhares de pessoas ficaram nas ruas. Os que trabalhavam na fabricação e os que viviam das indústrias paralelas. Um tempo de grande dor.

— Pois é, restos do Notável Congestionamento.

— Eu sei, só me espanta, porque já retiraram os carros de quase todos os lugares.

— Aqui foi mais fácil fechar a estrada. Tem duzentos quilômetros de carros.

— Foi uma semana tão louca, pensei que o país ia explo­dir. Pela primeira vez os brasileiros se revoltaram de verdade. Vi gente se armar e sair à rua, tentando formar grupos.

— E aí os Civiltares prestaram o primeiro grande serviço ao governo. Estavam preparados. Eles sim tinham organização, e não nós.

— A gente tinha alguma, sim.

— Qual? O que existia era uma porção de esquerdas con­tra uma direita. Cada um dos grupos de esquerda discordava dos métodos do outro. Não se aceitavam, não se uniam. Foi elementar o que aconteceu.

— Não era tão simples. É primário falar em esquerda e direita, simplesmente. Entraram em jogo tantos fatores, você sabe, Tadeu. Já pensei muito no assunto, analisei. Sabe por que não cheguei a conclusão alguma? Porque não há conclusão. Ou talvez haja uma, mas ainda me recuso a aceitá-la, me parece fácil demais. Ou melhor, óbvia. No entanto, não vejo outra. Sabe o que havia? E ainda há, em minha opinião? Confusão.

— Claro que há confusão.

— Não é essa confusão que se vê aí. É outro tipo, vê se me acompanha. Ela estava instalada nos Abertos Oitenta e veio se ampliando. Não era só no Brasil, não, era por toda a parte. Confusão ideológica, desencontros. Governo pensava uma coisa, oposição outra, mas oposição e governo pensavam igual, ao mesmo tempo. Direita tomava atitudes de esquerda e a esquerda de direita. Nenhuma posição era confortável, trazia segurança. Não havia, como ainda não há, nenhuma certeza, firmeza, decisão. Eu tinha um amigo, conservador como quê. Me trouxe um dia uma teoria que achei louca e reacioná­ria, mas agora começo a cogitar. Sabe o que ele visualizava? Previa que os Abertos Oitenta instalariam um poder tão de direita, mas tão de direita, que terminaria à esquerda, sociali­zado ou o contrário.

— O quê? A sério?

— Penso, nem a sério, nem brincando. Penso. Olha, Ta­deu, já desmoronaram todas as estruturas nas quais acreditá­vamos, confiávamos. Será que estamos numa fase de transição, de substituição? Ou o quê? Navegamos num grande vácuo, orientados vagamente pelas estrelas, sem referências sólidas. As bússolas enlouqueceram, giram velozmente, atraídas por milhares de pólos magnéticos. Nossas bússolas são obsoletas, podemos atirá-las ao mar. Voltemos um pouco aos recursos dos velhos navegadores, enquanto esperamos novos inventos para a navegação estável. Meu único medo é que as estrelas tenham se deslocado e portanto não sirvam como referência. Porém, enquanto flutuamos, alguma idéia há de chegar, há algum marinheiro inteligente na tripulação.

— Sabe do que você precisa, Souza?

— Do quê?

— De um bom chapéu. Para tapar esses miolos. O sol anda esquentando tua cabeça.

— Está certo. Ela ferve, borbulha. Penso sem parar, e só espero que você não tenha parado, Tadeu.

Ele rastejou à minha frente, mandando segui-lo. No meio da pista havia um buraco estreito debaixo dos carros. Passei por pneus estourados, havia um forte cheiro de metal enferru­jado. Cromados descascados, a lua batia na lataria opaca, sem nenhum reflexo. Seguíamos, ofegantes, suados.

Entre um Passat e um Corcel, paramos. De que ano são estes carros? Nunca fui bom para marcas. Nem sequer aprendi a dirigir. Me achava distraído demais, comodista. Adelaide gostava, apanhava o carro do pai, saíamos aos domingos, para a praia ou piquenique à beira da estrada.

Estar no volante me dava tonturas. Os carros à minha volta, prestar atenção a tudo, desviar, ter reflexos, golpe de vista. Era tão fácil tomar o táxi, dar a direção, mergulhar num jornal. Apanhar o ônibus, puxar o cordão, descer. Não dirigir, para mim significava liberdade.

Estar preso a nada. Na família, principalmente na de Ade­laide, me olhavam como bicho raro, esquisito. Meu sobrinho então, esse que é capitão, quantas vezes não disse: "Compra um carro, tio. O carro é que traz liberdade. Fazer o que quer, na hora em que você quer. Tem coisa melhor?"

No meu prédio todos se surpreendiam. Engraçado, não escondiam, abriam os olhos, as bocas caíam: "Seu Souza, o senhor não tem carro? E como faz? Não! Não acredito. Está gozando a gente?" Gozava, a meu modo. Deixando na gara­gem a minha vaga vazia e não alugando a ninguém.

Todos os dias batiam à minha porta: "Quer alugar a vaga? O senhor compreende, o carro da minha mulher está dormindo na rua, é perigoso, podem roubar". Não alugava. Fizeram uma reunião de condôminos para discutir a vaga. Decidiram, una­nimemente, requisitá-la. Para o bem do prédio.

Briguei, lutei pelos meus direitos, coloquei advogado, im­petrei mandados, fiz o diabo. Perdi. Aquilo me ficou na gargan­ta. Não era justo. Só não mudei de prédio, porque era impossí­vel mudar. As migrações tinham começado, passou a despencar gente em São Paulo. Multidões.

Primeiro os que tinham posses. Tiveram sorte, se instala­ram. Suportaram o Período Agudo da Especulação Imobiliária. As construtoras também estavam no fim, não se autorizava mais projetos. Não havia terreno vago. As casas estavam no chão, substituídas por edifícios.

— Quem ia pensar que um dia íamos nos sentar tranqüi­los entre os carros, nesta estrada?

— Estão aí, mortos. Quanta lata velha.

— Os carros ficaram parados dois anos em frente à minha casa.

— Você morava quase no centro. O meu bairro foi pouco afetado.

— Quase fiquei louco, Souza, naquela noite. Queria ma­tar, pegar alguém. Como buzinavam, aceleravam. Podia ver o ar preto de fumaça. A maioria esgotou a gasolina e o álcool do tanque. Ninguém desligava o motor. Pela manhã, as pessoas continuavam dentro dos carros. Como se pertencessem a ele. Câmbio, volante, freio, condutor. Esperavam, não sei o quê.

— Na minha rua teve gente que não acreditou no noti­ciário, tirou o carro da garagem, pela manhã, e foi embora. Voltou a pé.

— Teve motorista que ficou uma semana, duas, sem aban­donar o carro. De vez em quando batiam, pedindo para ir ao banheiro. Recusei, para todos. O que estavam pensando? Que fossem para suas casas. As famílias traziam mudas de roupas, café, comida. E o desespero quando souberam que não circula­riam mais? Choravam diante do automóvel, inconsoláveis, la­mentando como se fosse parente morto. Mulheres desmaiavam, histéricas.

— Tenho fotos dessas semanas. Principalmente dos rostos. Eles me interessavam mais que os carros bloqueados. Rostos patéticos, expressões perplexas. Como se tivessem sido postas ao mundo de repente. Não era ódio, raiva, irritação. Era derro­ta, tristeza, interrogação. Fotografei tanto olhar apalermado!

— Nos primeiros tempos, estranhei o silêncio. Foi então que reparei um zumbido permanente nos ouvidos. Até aqueles dias, não tinha notado. O médico disse que não tinha cura. Continua até hoje, me acostumei.

— Falta muito, Tadeu? Estou dando o prego.

— Dando o prego? Que gíria antiga. Há quanto tempo não ouvia isso.

— Como é, falta ou não falta?

— Se eu soubesse que horas são?

— Falta ou não?

— Mais para a frente, vamos poder caminhar de pé. Quando atravessarmos a Várzea dos Pássaros de Pó. É um trecho deserto, não tem fiscalização.

— Bom, mas diz. Falta muito?

— Umas quatro horas.

 

DEPOIS DA VÁRZEA DOS PÁSSAROS DE PÓ,

ATINGEM A REGIÃO DO GRANDE LIXO PLÁSTICO.

PARALISADOS, HORRORIZADOS,

NÃO ACREDITAM NO QUE ESTÃO VENDO

 

Continuamos a rastejar através do estreito corredor, pas­sando junto às rodas dos carros. Volks, corcéis, opalas, galaxies, kombis, brasílias, camionetas, caminhões, limusines, treilers, mi-cro-ônibus, peruas, passats, emepês. Veículos imensos, outros mínimos, enferrujados, apodrecidos.

Depenados por dentro. Os próprios donos, ao abando­ná-los, ou os saqueadores mais tarde, levaram tudo. Assentos, relógios, toca-fitas, rádios, minitevês, telefones, conta-giros, volantes, ar-condicionado, amplificadores, desembaçador, ante­na elétrica, sistema de alarme.

Trava, console, minibar, vidros ray-ban, aquecedor, e to­da a parafernália que transmitia a sensação de status, conferia poder. Os saqueadores eram organizados e temidos, caçados, da mesma maneira que no antigo Egito procurava-se e comba­tia-se os saqueadores de tumbas reais.

Carcaças vazias, desnecessárias. Mostruários da inutilida­de, provas dos símbolos ilusórios que foram. Ali se desmante­lavam lentamente, corroídos, ocos, demonstração de um sonho perecível que se esgotou muito antes do despertar. E a lem­brança, agora, é tênue, se esvai a cada dia.

— Daquele pilar em diante, podemos ir em pé.

— Já era tempo.

— Vamos junto à amurada, é mais fácil caminhar por ali.

— Perdi a noção do tempo. Imagina que horas são?

— Que horas são? O que interessa, Souza?

— Costume.

— Mania. Não agüento, o dia inteiro naquele elevador, as pessoas me perguntando: Que horas são, por favor? Que horas são? Os que não perguntam, consultam o relógio assim que fecho a porta do elevador. E agora você!

— Você anda irritado, Tadeu!

— E você, comportado. O que aconteceu, Souza? Está diferente, todo cheio de hábitos!

— Não sei, nem reparava.

No pilar, uma frase meio apagada, escrita com spray ver­melho: Mercúrio não é vitamina. Há dez anos, a cidade inteira tinha sido tomada por inscrições, na última campanha em defesa do meio. Os Civiltares caçaram os pichadores, até exter­miná-los. O Esquema foi à televisão.

"Não precisamos que lembrem nossos deveres", disse o presidente. "Estamos alertas aos problemas, equipes estudam, comissões trabalham. Necessitamos tranqüilidade para solucio­nar as questões que afetam o povo. Os agitadores serão comba­tidos dentro da lei e da ordem. Implacavelmente."

Hoje a população está convencida. Mas o Esquema man­tém o sistema de persuasão em estado latente. As campanhas foram iniciativa das agências de publicidade para ganharem favores governamentais. Programas na televisão, curta-metragens nos cinemas, slogans na Rádio Geral. Envolventes, su­focantes.

Vivendo intoxicados, abordados por todos os lados. Pelo ar e com os métodos de insinuação, não mais sutis, com que nos bombardeiam. Dopados. Quantas vezes me vi automatica­mente a defender o Esquema. E então me surpreendia com o desdobramento inexplicável que se produzia em mim.

Estava falando, e me via falando. Eu era o outro a me contemplar. Um ser que ouvia a mim mesmo, duplicado. Surpreso, menos com a duplicação do que com as idéias que es­cutava. Pensei que estava louco, contei a Adelaide, ela reco­mendou o médico, é claro. Mas um psiquiatra significa Isola­mento.

— Pronto, agora a gente anda direito.

— E talvez você possa me dizer onde vamos indo?

— Nem falamos nisso, hein?

— O que mostra minha confiança em você.

— Vamos para a nossa reservinha.

— Não é uma reservinha multinternacional?

— Não é nem intermunicipal.

— Reservinha do quê?

— Faz anos que a gente trabalha no projeto. Está dando certo, ainda que as condições sejam difíceis. Temos um bom número de animais.

— Animais? De verdade?

— Souza, das poucas coisas que os laboratórios do Esque­ma ainda não conseguiram foram animais factícios. Essa não dá! Há quanto tempo fabricam ovos? Mas são ovos que não chocam, não se reproduzem. Falta o essencial.

— Tadeu, Tadeu! Olha bem o que está dizendo. O que está admitindo!

— Admito o essencial, não tenho como fugir.

— E esses animais? Me conta.

— Começou há uns trinta anos, ou mais. Não sou nada bom para datas. Havia uma reserva em Sorocaba. Naquele tem­po a cidade era desligada de São Paulo. Os cientistas de lá conseguiram reproduzir em cativeiro animais que estavam para se extinguir. Trabalharam muito e conservaram exemplares como o cisne de pescoço preto, a anta, as emas, o pato de crista. Ih, não vou te dizer tudo, você vai ver daqui a pouco. Quando as indústrias ocuparam totalmente Sorocaba, Votorantim, Brigadeiro Tobias, São Roque, Cotia, as prefeituras desa­propriaram, mandaram tratores, exterminaram a reserva. Os animais e as aves permaneceram engaiolados por duas ou três semanas. Muitos morreram, enquanto os cientistas tentavam contactos. Naquele tempo, a gente já desenvolvia pesquisas com verduras e frutas, lutando contra o solo contaminado por chumbo. Acertou-se, os animais vieram para a reserva daqui, que fica na altura do antigo quartel de Barueri.

— Essa é a região do lixo! Ali onde chamam Sítio do Inferno?

— Por isso mesmo. Onde estamos, ninguém incomoda a gente. Você vai ver.

A free-way estendia-se por sobre um campo branco-amarelado. Como se fosse um minideserto, raso, plano. O valo seco do Tietê cortava a extensão ao meio. Centenas de estatuetas escuras povoavam o descampado. Pareciam de gesso, por­celana envelhecida, cerâmica cozida, louça, sei lá.

Dava a impressão de ter sido um grande jardim, em que a vegetação secou e as estatuetas sobraram, solitárias, de­samparadas. Curioso, a gente vive anos numa cidade e não a conhece. Jamais ouvi falar que por estes lados tivesse algum parque, horto. Teria sido particular?

— É aqui, Tadeu?

— É a Várzea dos Pássaros de Pó.

— Nunca ouvi falar.

— Era uma várzea alagada. O Tietê enchia, inundava as margens. Houve tempo em que foi a zona de hortas. Fazia parte do cinturão verde. Coisa pré-histórica, seu! Olhe as estátuas. O que são?

— Aves.

— Tem algum outro bicho?

— Não, somente aves.

— Pois é. Elas vieram do litoral. Atravessaram a Serra do Mar e desceram aqui. Ficaram. Nunca mais voaram.

— Por que para cá?

— Instinto de bicho, decerto. Ninguém consegue explicar. Dizem que nos alagados havia alimentação. Bichinhos, caran­guejos, todo esse tipo de coisas. Então, os pássaros vinham.

— E vinham do litoral?

— Eles se alimentavam de peixes, coisas da água. Quando não encontraram mais o que comer no mar, subiram. Tenta­ram mudar de habitat.

— E não voavam por causa da mudança?

— Não. Quando mergulhavam no mar, voltavam com o corpo cheio de óleo. Ficava difícil voar. As aves que chegaram aqui são heróicas. O último vôo. Chegaram, desceram, torna­ram-se bichos de asas que não voariam mais. Com o sol, pre­sume-se que o óleo endureceu, fechou os poros. Elas morreram. Foram cobertas pela poeira, tornaram-se o que você vê aí.

— Até que é bonito!

— Bonito! O pior é que é bonito.

— Sabe, Tadeu? Não sei se agüento chegar lá. Não é só o cansaço, é também a fome. Está demais.

— Vê se firma, falta pouquíssimo. Olha aquele monte de plástico. Fica por trás. Vamos pular fora desta free-way em cinco minutos.

A lua fraca, começava a amanhecer. Fazia tempo que eu não passava a noite acordado, pensava que não conseguiria mais. Por trás das montanhas desenhava-se uma fita de luz. Descemos por uma escada de cordas, meus pés mergulharam numa camada macia de pó que me bateu na canela.

Por dentro dos montes, havia atalhos. Um labirinto. Eu via brinquedos, utensílios de cozinha, galões, bolas, letreiros, as milhares de coisas produzidas em plástico. Que o plástico substituíra tudo, o alumínio, a madeira, os tecidos. Amontoa­vam-se. Coloridos e amassados, indestrutíveis.

— Prepare-se. Isto é quase sagrado. Se você me entende.

Ficamos em silêncio. Eu imaginava que estava comovido. Sentia um frio na barriga. Tadeu virou-se, caminhou alguns passos. Entrávamos na reservinha. Percebi o cheiro de bosta animal. Puxa, foi ao fundo do estômago. Me esfriou. Mas não gelou tanto quanto o grito de dor que Tadeu deu.

Parei. O grito parecia não acabar mais. Não sei se era o eco, ou se Tadeu possuía tal força nos pulmões. Atrás dele, eu não via nada, o atalho era estreito. O grito me paralisava, assustava. Via Tadeu tremendo. Teria sofrido um ataque? Vi­rou-se para mim, perplexo, com lágrimas.

— Olhe só. Olhe sóóóóóóóóóó.

Mordia os lábios, o sangue escorria. Era mais que dor, o que ele sofria. Tremia convulsivamente. Na sua idade, não ia agüentar. Segurei suas mãos. Ele me apertou, como quem pre­cisa de apoio. Precisava mesmo. Ele não estava mais à minha frente. Eu também via, e não acreditava. Não podia.

 

DEPOIS DE CERTA IDADE, AS PESSOAS

COSTUMAM RECORDAR FATOS DA VIDA.

SOUZA SE LEMBRA DO AVÔ, POR COINCIDÊNCIA

UM LENHADOR QUE DEVASTAVA MATAS

 

A reservinha, ou o que restava dela, abria-se à minha frente. Montanhas de plástico, altíssimas, funcionavam como muralhas, cercando uma faixa de terra que se perdia de vista. Teria sido lugar bonito, a calcular pelas ruínas que via. Tadeu se abaixou, apanhou um esqueleto.

De um pequeno animal. Cachorro, gato, coelho, raposinha, coati. Restos de carne chamuscada junto aos ossos. Ma­tança recente, portanto. Difícil saber quando. O fogo crepitava nas casas próximas. Telhados, portas, janelas retorcidas. Tudo plástico. Puxei, Tadeu veio como autômato.

As casas, vazias. Móveis destruídos. Nenhum sinal de gente morta, o que era um alívio. Tadeu procurava restos ani­mais. Víamos ossos na estradinha, quintais, varandas. Jardins pisados, revolvidos. Que planta nasceria nesta terra dura como pedra? Pergunta, é o que faço o tempo inteiro.

O sol esquentou minha cabeça, amoleceu os miolos. Juro que vi plantas amassadas. Folhas de verdade, nada de nylon, plástico. Deixaram meus dedos verdes. A menos que as expe­riências da reservinha tenham sido sofisticadíssimas. Consegui­ram um factício mais verdadeiro que o verdadeiro.

— Tadeu, isto era planta?

— Ah, quero lá saber delas? Vamos procurar os animais.

— Vamos, mas não adianta. Você sabe, mataram tudo.

— Alguma coisa sobrou. Bicho costuma fugir quando o mato pega fogo.

— Sei disso, sei muito bem.

Durante uma hora procuramos. Revistamos cabanas, jaulas, buracos, moitas carbonizadas, pedaços de viveiros. Não sobrou nada. Os que invadiram destruíram, comeram o que havia de comestível. Observava Tadeu e via nele uma ruína maior que a da reserva. Desconsolado, era um homem estropiado.

— Você acha que foram os Civiltares?

— Por que fariam isso?

— Alguém explica as ações deles?

— Sei lá quem fez. Não ficou nada, mas nada. Trinta anos de pesquisa, e não sobrou uma palha. Uma palha. Um palito. Acabaram até com as plantas.

— Então, eram mesmo plantas?

— Não viu que eram? Ficou burro depois de velho?

— Poxa, Tadeu, o que adianta isso? Não tenho culpa do que aconteceu.

— Sei, sei, sei. E também não precisa ficar me enchendo.

— Vamos andar mais. Revistar tudo. Já que estamos aqui, vamos.

— Fica pior, a cada coisa que vejo. Aquele passarinho, meio mordido, comido, não sei, aquilo me derrubou.

— Você ainda se surpreende, Tadeu. Incrível!

Continuamos, revolvendo carvão (carvão? Tinha madeira aqui?), remexendo nas casas. Sensação de guerra medieval, al­deia invadida, incendiada, população exterminada. Impressio­nava o estado de Tadeu. Os ombros caídos denunciavam a der­rota. O pior era não saber o que se passara.

— Um gemido. Ouvi um gemido, Souza!

— Foi meu estômago, ronca de fome e sede.

— Não era barulho de estômago, foi um gemido.

— Com que direito grita comigo?

— Cala a boca. Vamos procurar. Alguém gemeu.

— É o vento.

— Vento? Ficou louco?

— Pode ser que esteja ficando. Como você.

— É a melhor solução. Deixar a cabeça estourar.

— A coisa já aconteceu, o jeito é recomeçar, se possível. Se sobrou alguma coisa.

— Recomeça você!

Encontramos o homem, de bruços, debaixo de uma gaiola. Gemia, bem fraco agora. As varetas de ferro da gaiola enfiadas nas suas costas. Mulato franzino, lábios rachados pela sede. Sangue coagulado no chão, olhos mortiços. Com cuidado leva­mos o corpo para baixo de um telheiro. O sol ardia, suávamos.

— Temos de achar água.

— Quase junto aos montes de plástico tinha um tanque, escondido. Vai ver. Desce por esse atalho. Pode ser que en­contre.

Indicação vaga. Fui. Fui por ir. Olhando os destroços, sentindo uma inquietação. Alguma coisa que subia do estômago, oprimia meu peito. A mancha. A mancha voltou, marrom sobre o verde, enquanto meu corpo paralisava. Queria andar, não saía do lugar. Marrom-verde. Algo familiar.

Durou pouco. Como a ligeira tontura que dá, quando se está deitado e se levanta de repente, os olhos se enchendo de estrelinhas. Segurei a cabeça com as mãos. E vi o furo. Tinha me esquecido. Aprendi a conviver com ele. Não me faz mal. Ainda me intriga. Como veio, por quê? É hora de pensar nisso?

Descendo, cheguei ao canto da muralha de plásticos, à procura do tal reservatório. Estava mesmo bem camuflado. Ha­via um fundo de água suja, apanhei uma vasilha parecida com tigela, recolhi o que pude. Era pouco. Quando voltava, tive idéia nítida da destruição. A terra cinzenta não acabava mais.

Ossos, paus fumegantes, troncos, detritos. Quer dizer que realmente tinha árvores por aqui. Vi duas ou três toras, enor­mes, um metro de diâmetro. Não acreditei. Daquelas que se via nas antigas marcenarias, empilhadas, cheirosas, à espera de serem transformadas em tábuas, caibros.

Coisa de museu. Raspei com a unha, tirando um pouco de matéria podre que envolvia o tronco. Esfarelei, para sentir o cheiro. Estava ligeiramente úmida. Estranho. Raspei mais, que­ria ver a cor do tronco. Que árvore seria? Desconhecida. E no entanto, como eu sabia de árvores, quando menino.

Então, diante da tora e da terra calcinada, vi meu avô. Sim, o meu avô que subia em seu passo curto e rápido. Tra­zendo a caneca de café. Caneca que ele mesmo fez com uma lata de Toddy. Aproxima-se de minha cama e o sol ainda não nasceu. Põe-se a me sacudir com insistência.

Homem de sessenta anos, musculoso, apesar de magro. Sacudido, dizia minha avó. Eu me levantava, lavava os olhos que nem gato, não enxugava. Gostava de sentir o rosto molha­do, me ajudava a despertar de vez. Engolia o café ralo, requen­tado, que minha avó tinha feito na véspera.

Nem eu, nem meu avô, ligávamos. Tomávamos café frio, gostávamos de qualquer jeito. Gosto até destes cafés factícios que fazem hoje, bebo como doido, gasto todas minhas fichas. Sou capaz de roubar ficha de café, isso sou. Depois, partíamos. O caminhão cheio de trabalhadores estava à espera.

Meu avô levava o traçador. Era maior do que eu, muito. A lâmina produzia um som musical, quando se batia nela com a lima de amolar. Era necessário curvá-la numa certa posição, senão o som seria morno, chocho, não ecoaria. Juro, podia ver as ondas sonoras tremelicando no ar.

O traçador ficou em minha memória. Anos mais tarde, substituí a admiração por um sentimento de culpa aguilhoante. Bem que o Tadeu disse, é coisa de intelectual. A figura de meu avô sumiu, ficou apenas o traçador. Como um símbolo. Eu me sentia... me sentia, cúmplice.

Inconscientemente, condenava meu avô. E me acusava por tê-lo acompanhado tantas vezes. Me censurava por ter admirado o seu trabalho, ficando horas a fio diante de sua banca de carpinteiro, vendo os brinquedos, móveis, portas e janelas, tudo que ele fazia com a hábil mão ossuda.

Vivi muito tempo com este sentimento. Quando o Grande Deserto se instalou na Amazônia, quando a Grande Fenda di­vidiu o país, quando as chuvas passaram a castigar caatingas que por anos não tinham visto água, minha confusão me levou à beira da loucura. Fiquei desvairado.

Me agitava, achatado. Claro, um dia melhorei, percebi que era apoteose mental. Mania de grandeza querer assumir sozinho um fardo tão grande. Tinha a minha parcela, mas cada um de nós levava a sua. Todos nós deixamos que as coisas acontecessem, do modo que aconteceu. Não movemos palha.

Bem, não posso esquecer a propaganda oficial, massacrante. A convincente IPO. Flutua por todos os lados, dissolvida no ar que respiramos. É a nossa verdade, hoje. Mais que cortina, é muralha impenetrável. É como espelho de parque, deformante, que inverte, gordo-magro, feio-bonito.

Carreguei esta inquietação. Deixei-me corroer por ela, quase em expiação. Que bobagem. Agora vejo como foi inútil este sentimento de hostilidade. Demorei para perceber a dife­rença. Cabeça dura a minha. Com toda certeza, meu avô não era um simples exterminador. Juro que não era.

Na minha cabeça, criou-se um vácuo. Noções confusas, nascidas daquilo que eu via, misturada às coisas que meu pai dizia. Porque meu pai, modesto empregado na estrada de ferro, às vezes nos acompanhava. Quando as suas férias coincidiam com as grandes derrubadas, ele ia junto.

Os fazendeiros chegavam todos os anos, na mesma época. Recrutando gente. Os caminhões saíam muito cedo. As viagens duravam, primeiro um dia depois dois. Cada ano a derrubada era mais longe. Estradas de ferro tinham avançado, alta araraquarense, alta paulista, noroeste. As fazendas iam atrás.

Não sei quantos anos tinha. Não importava. Dormíamos em barracas abertas, o tempo era quente, seco. Havia arroz, feijão e carne, todos os dias. Os animais eram mortos, limpos, carneados, conservados em sal e tempero. Bichos caçados nas matas que os homens estavam derrubando.

Certa vez, estava no mato, olhando os machados arranca­rem das árvores lascas brancas, vermelhas. Aquele enorme V ia surgindo ao pé do tronco, até a árvore desabar. Meu pai me instalou num tronco recém-cortado, cheio de anéis. Meu avô contou os anéis, um a um e me disse:

— Essa tinha trezentos anos. Oitenta metros. Foi dura de cair.

Havia nele orgulho e desafio. O tronco era quase plata­forma. Devia ter sido uma árvore fantástica. E meu avô tinha derrubado. Ele. Com suas mãos calosas, os braços duros. Sen­tado sobre os anéis, olhava para o velho. Contente. Satisfeito por ser neto de um homem que não se intimidava.

Quando vi a primeira árvore cair, meu pai estava ao meu lado. O barulho foi tão horrível que nem a presença dele impe­diu o meu susto. Chorei. Agora penso: teria sido pena? Não, seria racionalizar os sentimentos de uma criança. Me lembro até hoje o horror que foi a árvore tombando.

Um gigante desprotegido, os pés cortados, solto de repen­te, desabando num ruído imenso. Choro, lamento, ódio, socorro, desespero, desamparo. Ao tombar, tive a impressão de que ela procurava se amparar nas outras. Se apoiar em arbustos frágeis, que se ofereciam impotentes.

Fracos demais para segurá-la. Porém solidários. Morriam juntos, arrastados, esmagados. Ao mesmo tempo que tentava se apoiar, aquela coisa imensa parecia ter vergonha de se mostrar tão fraca. De ter sido derrubada sem nenhuma resis­tência. Urrava de ódio. Poderia resistir? Não via como.

Na confusão que se estabelecia nela, caía. Arrastando tudo, arrebentando árvores menores, fazendo um barulho que me pa­recia cachoeira, ou represa estourando. Uma vez, em Vera Cruz. vi um dique romper. Uma ligeira rachadura, as águas tomaram, aumentaram o buraco, estouraram paredes.

Os homens faziam daquilo o seu ganha pão. Não era simples extermínio. A luta entre meu avô e a árvore era um mano a mano, intensamente disputado. O homem contra a ár­vore era diferente da máquina contra a árvore. A máquina é o poderio desenfreado, o abate descontrolado. Destroçamento.

Meu avô tinha orgulho, achava que sua profissão deveria ser transmitida. Jamais pensou certamente que chegaria este instante em que não haveria matas, ligação céu e terra, alto-profundezas, trevas-luz. Homem contra a árvore era um siste­ma lento, dava à floresta chance de reposição.

Debaixo da terra é a treva, repousa o escuro profundo. Como antes da criação do mundo, dizia meu pai. Acima da terra, é a luz. A árvore é a união destes dois mundos. Leva a luz ao vazio tenebroso. Traz, para o fundo da terra, o ar que ela necessita para se refazer e fornecer a vida.

Portanto, junto com a água, a árvore é o símbolo da cria­ção. Nenhuma outra forma representa a vida tanto quanto ela. As raízes aspiram o húmus. O tronco é o eixo. Os galhos são a. expansão, o domínio da esfera terrestre. Folhas e flores soli­dárias à luz são forças imponderáveis.

Eu ouvia. Meu pai levava um caderno grosso e escrevia muito. Sua letra garranchosa, inclinada para trás, era de leitura difícil. Apanhei mais tarde os cadernos. Não decifrei. Tentei que ele me ajudasse. Naqueles escritos havia alguma coisa muito importante a meu respeito, sobre o avô.

No entanto, meu pai já estava no Isolamento, surdo. Não conseguíamos nos comunicar nem através de bilhetes. Não entendia sua letra. Fiz vários esforços. No entanto, era cada vez mais difícil visitá-lo, o Isolamento superlotado, as fichas de visitas impossíveis de serem obtidas. Ou eu é que evitava?

Descobria uma letra, duas sílabas, três, quatro palavras, um símbolo, um desenho. As coisas nem sempre faziam senti­do, me pareciam anotações para futuro desenvolvimento. Pas­sei noites copiando, buscando chaves, fazendo comparações. Levei os desenhos às pessoas, fiquei sabendo pouco, afinal.

Uma página trazia um desenho de Leonardo Da Vinci: a embarcação conduzindo o urso, com a árvore ao centro.

 

Meu pai escreveu:

 

A árvore é a vela a vida à a força motriz que impul­siona à a coluna vertebral. As flechas em tinta vermelha.

 

O fruto da sabedoria humana é a árvore da vida. Esta ano­tação estava em verde. Vinha uma frase latina Produxit Dominus Deus lignum etiam vitae in medio paradisi. Citações sol­tas: Cedros do Líbano desaparecidos e Cilindros assírios à 3 mil anos antes de Cristo à Arar.

 

O jardim das Oliveiras. Esta anotação em vermelho. Não sei que sentido tinham as tintas, no caso. Em preto: ÁRVORE AEO.

 

A à líquido à vida

AA (alemão) à água

 

R (imitativo de ruído) à AR à água que corre, corrente, torrente.

Monte Ararat. Em vermelho. Arca de Noé, em verde.

ÁRVORE   RE/RA   o sol, Egito.

ÁRVORE — ARTÉRIAS (A árvore retém a água)

A = a água da terra

R = absorvida pela raiz

V = recolhida pelo tronco

O =

R = distribuir pelos galhos. Restituição do ar pela absorção do carbono contido na atmosfera, fogo

E =

 

Não sabia onde ele queria chegar. De que forma desenvol­veria seu raciocínio. Eram somente chaves. Mas para quem? Às vezes, parágrafos inteiros indecifráveis, ocultos. Se eu encon­trasse os livros da velha biblioteca de meu pai, talvez pudesse alcançar um ponto, não tão remoto.

 

ARAR, estava em maiúsculas e em vermelho. Revolver a Ara = altar, trabalhar a terra = mãe. Prepará-la para a árvore. Duplicação de AR = vida. Corrente da vida. Revolver. Vinha então um tipo de raciocínio. Inverter AR à RA = o sol. Por­tanto, Arar à Expor ao sol.

 

Aqui as coisas estavam mais claras. Tirar da terra subter­rânea e colocá-la à luz = criação. Arar = criar a vida. Vinha em verde, uma lista imensa de palavras. Decorei-as todas. Na minha ânsia, lia e relia, como ladainha. Eram palavras sonoras, suaves, bojudas. Como Arapari.

Talvez fosse muito criança para alcançar o que diziam os adultos. Também, não fiquei pensando muito. Vez ou outra, depois de crescido, eu me lembrava. Mas agora, essas coisas voltaram, principalmente aquele imponderável. Tão sonoro, suave, instigante, completamente impenetrável.

Eu gostava de enfiar o pé dentro da cinza fofa. Havia uma camada alta, macia como algodão. Quentinho e o pé se insta­lava confortável. Andávamos, até chegar ao centro do terreno. A mata era derrubada, mas deixavam uma grande capoeira, bem no meio. Ilha de árvores. Dominada pelo silêncio.

Nunca assisti, meu avô me contou. Nem foi meu pai. Ri­tual proibido. "Coisa desnecessária para crianças". À medida que a mata caía os animais se afastavam dos homens e do barulho. Se concentravam numa região, ali ficavam, como que à espera. Todos reunidos, solidários. Como que sabendo.

Os lenhadores deixavam aquela capoeira para o final. Ali havia de tudo. Gambá, Macaco, Cuxiu, Tatu, Rato, Anta, Paca, Onça, Cobra, Lontra, Veado, Coelho, Morcego, Ouriço, Capi­vara, Preás, Cachorro do mato, Furão, Serelepes, Caitetus, Caxinguelês, Guarás e até algumas Preguiças.

Todos juntos, sem brigas, rivalidades. À espera. Amon­toados. Aguardando. E num determinado dia, o acampamento em grande excitação. Os homens lustravam e lubrificavam as espingardas e se dispunham em volta da capoeira. Caía um silêncio muito grande. Alguém tocava fogo, fumaça subia.

Quando os animais saíam para o terreno limpo, eram aba­tidos. Facilmente. Muita carne era comida ali mesmo. Outros salgavam, deixavam ao sol, levavam para casa. Havia os que se interessavam somente por peles de onça, ou couro de anta. No final do dia, sobravam ossos para urubus.

Mais tarde, os arados trituravam os ossos, misturando-se à terra, como adubo. E é isto que revejo aqui. Agora, a terra queimada, juncada de ossos, recoberta de cinzas. Repetição. Nada novo. Levo este pouco de água suja para o homem ferido. Vai adiantar? Ele precisa é de um médico.

O mulato franzino bebe, avidamente. Para ele não im­porta se é suja, ou não. Quer líquido. Tadeu continua com seu olhar de peixe morto, desamparado. Tenho de agüentar a barra sozinho. Levar estes dois de volta. Que jeito? Como rastejar pela free-way arrastando um homem? Ou deixo este sujeito aqui?

— Como se sente?

— Hum, hum, hum.

— Melhor?

Ele geme, abre os olhos, brancos, vítreos. De repente, Tadeu dá um pulo, agarra-o pela camisa, sacode. Vejo o sangue brotando nos buracos de suas costas, onde as varetas penetram. Separo os dois, sem muito custo. Tadeu parece alucinado. Curio­so, o ferido pareceu reanimar com a agressão.

— Ficou louco, Tadeu?

— Ele tem de me contar.

— Vamos levá-lo para a cidade.

— Antes, quero saber.

O homem sangra lentamente. Os olhos adquirem a cor normal. Amarelados. Parece reconhecer Tadeu. Ou talvez seja a nossa presença ali, cuidando dele, que o faz confiante, esti­mulado. Amparo sua cabeça em minha perna, dou o resto de água. Cospe. Parece sentir que a água é suja.

— Dá para falar?

— Hum, hum.

— Fale pouco. A gente pergunta, você sacode a cabeça, sim, não. Entendeu?

— Hum.

— Quem esteve aqui? Os Civiltares?

— Não.

— O Novo Exército?

— Não.

— Gente do Esquema?

— Não.

— Quem, então?

— Homens. Acampamentos...

— Os homens dos Acampamentos?

— Meu deus, o povo dos Acampamentos começou.

— Começou o quê, Tadeu?

— Estão fugindo ao controle. Ia acontecer, uma hora.

— Então vieram, mataram e comeram.

— Com toda a razão. Não dá para falar nada. Você co­nhece os Acampamentos?

— Não, mas nada justifica o que fizeram aqui.

— Nem gente morta de fome? Isto era uma reserva eli­tista.

— O que é isso, Tadeu? E o trabalho científico? A pre­servação das espécies?

— Tinha sentido, Souza? É o que me pergunto e me con­funde: onde está o sentido. O certo?

— Claro que tinha sentido. Ficou louco?

— O que vale mais? A conservação dos animais ou os homens esfomeados?

— Ninguém vai responder isso. Porque nem se trata de uma opção. Esta é uma situação inteiramente anormal.

— Deveria ser anormal, no entanto não é. Este é o nosso dia a dia, Souza, a realidade. Pessoas morrendo de fome junto da gente, sem que possamos fazer nada.

— Será que não?

— Não tenho condição de pensar. Vamos voltar.

— E o homem? Levamos?

— Levar um morto?

 

SOUZA REENCONTRA SUA CASA TRANSFORMADA

EM UM SACO DE GATOS.

POR QUE ESTOCAM COMIDA?

DE QUE ESTRANHOS NEGÓCIOS SE OCUPA ESTE SOBRINHO?

 

Vizinhos devem me julgar bêbado. Cambaleio. O estômago repuxa. A fome está provocando dor de cabeça, náusea. Ou o cansaço. Melhor sair do sol, a quentura começou cedo de­mais. Transpiro, cheiro mal, minha roupa está imunda. Quero um banho de cachoeira, cama, dormir o dia todo.

Não se vê ninguém. Prédios fechados, janelas cerradas. O corredor de entrada, escuro, quase todo obstruído pelo lixo. Moscas. Insetos vermelhos. No salão de barbeiro, as pás dos ventiladores giram como bobas. Entrei, olhei-me ao espelho. La­mentável. Pareço vagabundo.

Se Adelaide me visse assim, saía correndo. Larguei-me na cadeira, o barbeiro veio com a toalha quente. Imagine, com um calor desses. A toalha tem cheiro desagradável, recuso. Aliás, este salão é cada dia mais encardido. Deteriorado, os espelhos racham, o cristal desaparece, as cadeiras furadas.

— Melhor a toalha, seu Souza. A barba está grande, dura. Por onde tem andado?

— Por aí.

— Trabalhando?

— Não trabalho mais.

— Aposentou finalmente?

— Perdi o emprego.

— Oh, lamento muito. E como vai fazer?

— E eu sei?

Me olha interrogativamente. Não pode entender estas rou­pas sujas, me viu a vida toda bem composto, as camisas pas­sadas por Adelaide, o nó da gravata no lugar, sapatos engra­xados, cabelos cortados e penteados. Afinal, ele tem o salão há trinta anos, me conhece desde que nos mudamos.

— A pele está ressequida, queimada. O senhor andou to­mando sol?

— Um pouco.

— Deve tomar cuidado. Olha aí, tem umas manchas es­tranhas. Melhor passar alguma coisa.

— Vou passar.

— Tenho me entendido bem com teu sobrinho. Muito bem para nós dois. Graças ao senhor.

— Ele tem aparecido?

— Vem todos os dias. Traz gente, leva gente. Muita gente.

— Muita?

— Tanta que os vizinhos reclamaram da movimentação. Sabe como é? Neste prédio moram pessoas sossegadas. Muita zanzação assusta.

— Bem, voltei, vou acabar com tudo.

— Ah, o senhor precisa saber. Depois de sete e cinqüen­ta da noite, a porta do prédio não abre mais. Ordens do sín­dico.

— O que há?

— Com a nova lei de poupança energética, só fica acesa uma luz por quadra. Então, por segurança, a porta é trancada. E cada tranca, seu! Também, o que aparece de gente pedindo comida, água, esmola, pouso. Ontem teve tiroteio, mataram um casal de velhos dentro do apartamento. Não está mole, não! Como entram no Distrito?

— Pergunte ao meu sobrinho. O Novo Exército é que controla as Bocas.

Subi a pé, o velho elevador estava parado. Não sei se defi­nitivo, ou apenas quebrado. Subo, degrau por degrau. O tubo da escada uma fornalha. A chave não girou na porta. Empurrei, estava aberta. Preciso dar uma chamada no meu sobrinho. Porta aberta num tempo destes! O que pensa? Cabeça oca!

A sala de visitas na penumbra. Acho que nunca foi aberta, penso mesmo que o trinco da veneziana está enferrujado. Nem Adelaide, nem eu ficávamos aqui, a sala era só para visitas. Que me lembre, foram poucas, tão poucas. Não saíamos para a casa de ninguém, ninguém vinha nos ver.

Nos últimos doze anos, quatro pessoas sentaram nestes sofás e poltronas amarelas, de plástico estampado. Dois padres missionários, um vendedor e o primo de Adelaide que morreu de leucemia. Não, parece que morreu com os tímpanos estou­rados pelo barulho de uma serra de construção.

Na sala de jantar, percebi os cinzeiros cheios e um paletó vermelho na guarda de uma cadeira. Não tenho paletó verme­lho. Na cozinha, vozes abafadas. Como pessoas que num veló­rio contam casos com vozes murmuradas. Quando cheguei, os três homens ficaram me olhando. Eu a eles. Como bobos!

Demoramos um momento, nos observando. Surpresos, po­rém não espantados. Como se eu esperasse encontrá-los ali, e eles também soubessem que, a qualquer instante, eu entraria. Apesar de carecas, um deles com a pele escamada, não eram aqueles que meu sobrinho trouxera quando me pediu a casa.

— A casa é sua, companheiro?

A pergunta era inútil e o seu formalismo circulava seco, gelado, dentro da estranha atmosfera formada à nossa volta. Não nos conhecíamos, porém parecíamos cúmplices. De longo convívio. Como explicar tais coisas? Como entender a vergo­nha que senti ao me confirmar dono da casa? Mundo maluco.

Pareceu-me de repente que havia alguma coisa muito erra­da em ter uma casa, enquanto aqueles homens, certamente, não tinham mais nada. Paredes, forro, telhado, assoalho encerado, móveis. Nada, nem uma simples telha para colocar sobre a cabeça, para se sentirem cobertos, protegidos.

— Estamos de passagem.

— Fiquem à vontade.

As palavras continuavam postiças, como se não saíssem de nossas bocas. Sensação de estar vendo um filme mal dublado, em que o movimento dos lábios não corresponde às palavras. Ora, coisa de intelectual. Por que estávamos a nos tratar cuida­dosamente? Para mim, nada mais eram que invasores.

— Usamos o fogão, a geladeira. Não se preocupe com a água, o teu sobrinho deixou fichas extras.

O homem que estava à ponta da mesa, não tenho certeza se era o líder, mas parecia, me apresentou os outros. Cada um estendeu a mão, disse o nome. Falavam com sotaque, porém corretamente, palavras bem pronunciadas. O terceiro homem, que estava a comer doce, reparou em minha mão. Pediu para ver.

— É um furinho sem importância.

— Dói?

— Não. Nunca doeu. Já me acostumei.

— O senhor viu outros iguais?

— Não, parece que sou o único.

— Penso que não. No meio de um grupo de retirantes que estava parado a uns vinte quilômetros da Grande Fenda, encontrei homens com esse furo na mão. Notei, porque eram muitos.

— O que pode ser?

— Sem a mínima idéia.

— Algum sinal?

— Ou doença.

Tenho vontade de conversar, contar como o furo apare­ceu, como perdi o emprego. Desabafar. Mas parece que já sabem tais coisas. Não pode ser. No entanto a impressão é esta. Olharam o furo com naturalidade, como se todo mundo tivesse um. Quem serão? O homem que comia doces veio, solícito.

— Quer comer alguma coisa? A gente esquenta.

Minha fome, o banho, esqueci de tudo, até o cansaço. Foi o homem falar e o estômago reclamou, violento. Pedi um peda­ço de carne, estava com jeito bom, rodeada de cenoura e vagem. Sei, são coisas factícias, o gosto é o mesmo, ovo, carne ou legumes. O que me interessa é a sugestão.

O banheiro não estava limpo. Não como nos tempos de Adelaide. Via-se que era uma casa só de homens. Urina no chão, cinzas, papel higiênico jogado. Banho longo, não me im­portei de gastar água, as fichas estavam dando sopa. Água quente, boa para relaxar, regula a temperatura do corpo.

— Agora está com a cara melhor.

Nenhum ar hostil, sorriam. Injustiça minha tachá-los de invasores. Eu não podia reclamar, emprestara a casa. Estes ho­mens não têm nada a ver com o meu acordo. Que me inco­moda, incomoda. Penso que estou numa pensão, num hotel e me inquieto. Gostaria de estar à vontade, já que é minha casa. Mania.

Limparam um canto da mesa. Comi em silêncio, observado pelos três. Não puxei conversa, eles também não. Sobre a pia, um monte de pratos, copos, panelas, talheres, sacolas de plás­tico, xícaras. Em volta do lixo, cascas de frutas, tampas de cerveja, pó de café, cigarros.

— Vou dormir, passei a noite em claro.

— Senhor, o seu quarto...

— O que tem o meu quarto?

— Não estranhe...

— Tem gente dormindo?

— Ninguém entrou nele. Quero dizer, ninguém dormiu lá. Apenas aproveitamos o espaço.

— Aproveitaram o espaço?

— Guardamos umas coisas ali, só isso.

Umas coisas! Centenas de latas de comida e ele disse umas coisinhas. A cama estava fora do lugar, encostada a um canto. Será que vou conseguir dormir assim? Latas de todos os tipos, carne desfiada, salsichas, presuntadas, patês, fiambres, ervilhas, molhos, sopas, conservas, leite em pó, café solúvel.

Amontoadas sem ordem, misturadas. Como as latas são preparadas em indústrias do governo, são todas iguais, a dife­renciação de produtos é feita pela cor do rótulo e por um de­senho mostrando o conteúdo. O lado direito do quarto estava inteiramente ocupado por esta inesperada e bem sortida des­pensa.

Custei a dormir. Não apenas porque a cama estava deslo­cada. Também porque o quarto era abafado. Nesse momento recomeçou a dor de cabeça. Muito leve, atribuí ao cansaço e tentei me relaxar. No entanto, só conseguia pensar naqueles três homens e no imenso estoque de alimentos. Por que não per­guntei?

Por que tanta comida? Como arranjavam? Compram, rou­bam, desviam? Deve ser a mão de meu sobrinho. Será que ele tem tanta força assim ou existe mais gente envolvida na joga­da? E que jogada é? Qual o objetivo de esconder esta gente em minha casa? Terminei dormindo, perguntas flutuando na cabeça.

Acordei, a campainha tocando repetida no corredor. Ia pular da cama, ouvi vozes, percebi que os homens tinham aten­dido. As vozes cessaram, decidi me levantar. Agora, os homens estavam na sala, diante da televisão. Parece que se deslocavam juntos, para onde um ia, todos iam.

— A mulher já veio três vezes.

— Como ela é? Os vizinhos nunca procuram a gente.

— Loira, muito pintada. Uma fúria de limpeza. Passa vas­soura e pano cinqüenta vezes nesse corredor.

Era a vizinha de cabelos pintados, boca exageradamente vermelha, rosto enrugado. Adelaide implicava com o batom vivo. Encravado naquela face como um luminoso de neon, a anunciar atrações de primeira classe, logo desmentidas, ao se olhar a fachada corroída pelo tempo, águas e ventos. Uma ruína.

Pagou pelos seus pecados, dizia minha mulher, implaca­velmente. Então, Adelaide já tinha assumido uma incompreen­sível intolerância rígida, proveniente de seu catolicismo exacer­bado. Intolerância que exercia continuamente, em casa e pelo prédio a fora. Foi aí que começamos a nos afastar um do outro. Acho.

Cada vez que via a mulher de cabelos pintados, passeando com o filho pelos corredores, ou brincando no play-ground vazio, Adelaide me olhava. Entre zombeteira e reprovadora. Como se o menino deficiente pudesse ser a prova de hipotéticos desvios, pecados, desregramentos, cometidos por aquela mulher.

Claro que tudo se passou antes da Grande Esterilidade, o movimento que resultou no Tempo das Crianças Extermina­das, dentro do qual vivemos até hoje. Meus pensamentos se atropelam. Se fosse contar esta história a alguém, não conse­guiria ordená-la cronologicamente, com exatidão.

Nem chego, às vezes, a saber quantos anos carrego. Tam­bém, pode ser qualquer idade. O tempo agora é regido por uma duração própria, a contagem não mais por dias, semanas, meses e anos, e sim por etapas vencidas. As etapas têm signi­ficado e temporalidade relativas a cada um.

O que se passou há muito, coloco como recente. Fatos de hoje me são tão irreais que ainda não aconteceram. As pessoas esfumaçam ou se concretizam, a partir de toques mágicos, es­trelas que jorram das pontas de meus dedos. Cada um é dono do seu tempo, dispõe dele como quer.

Ainda assim, tenho noção de quando começaram os meus problemas com Adelaide. A pior fase de nosso casamento foi após sua conversão. Passou do espiritismo para o catolicismo, levada pela febril campanha missionária que a igreja empreen­deu, a partir de uma bula papal, especial para o Brasil.

Foi entre a Era da Grande Locupletação e a curtíssima Fase dos Escândalos Financeiros Abafados. Diante do "caos no maior país católico da América Latina", o Vaticano pres­creveu a bula de alerta. Apelidada de ecológica, pelos conser­vadores. E de entreguista, pelos liberais. Havia mais que sim­ples ecologia.

Padres se espalharam por cada paróquia. Intensificaram os programas, cada fiel transformado em um cruzado da igreja tradicional. Em que confusão deixaram a cabeça de Adelaide, coitada. Sofria ao ver que eu não acreditava. Nem aceitava freqüentar os cursilhos, ou que nome tivessem estas novas missões.

"Se não nos emendarmos, morreremos aqui mesmo, na ca­lamidade". Ela me sermonava, cada noite, depois de um exaus­tivo dia de reuniões, palestras, debates, confissões. Verdadei­ros psicodramas, destinados a lavar o cérebro e a fazer com que cada um se sentisse culpado, caso o mundo não fosse trans­formado.

Com o passar dos anos, Adelaide libertou-se da fúria re­formadora. Diminuiu o ímpeto das arrancadas. Mas a barreira entre nós estava erguida. Não posso acusá-la de tudo. Havia uma terrível anarquia dentro das pessoas. Além do mais, fiquei em silêncio, quando devia ter tentado abrir os olhos dela.

A distância se tornou irremediável. Pensei em me separar. No entanto, além do homem à antiga que existia em mim, eu gostava muito dela. Só que não sabia o que fazer. Nunca fui bom no relacionamento com os outros. Confesso, há em mim uma deficiência em saber das pessoas, penetrar nas crises, per­ceber situações.

Demoro para conhecer alguém, sou dispersivo, não presto atenção em gestos, palavras, pequenas ações que são, às vezes, altamente esclarecedoras. Pode ser excesso de confiança, inge­nuidade. O que é pior, preguiça de raciocinar, alinhar fatos, relacionar lances, observar. Ou me fechei em mim?

Nos últimos tempos, Adelaide não podia cruzar com a vizinha de cabelos pintados. Jamais cheguei a atinar com a razão de tal ojeriza. A mulher não fazia mal a ninguém. Era como todos, limitava-se às conversas habituais e inconseqüen­tes, bla-bla-blás, nas portas, aos diz-que diz-ques normais e ino­fensivos.

Nosso prédio sempre teve pouquíssimas crianças. Os casais quando se mudavam para cá estavam na meia idade, os filhos criados tinham vida própria. Os jovens que cresceram aqui já se foram, estão nas cidades universitárias, aparecem rapida­mente nas férias, ou em feriados, para rápidas visitas.

Havia uma escola no play-ground. Fechou, por falta de me­ninos. Cada prédio tinha a sua, obrigatória, para que as crian­ças ficassem protegidas, não precisassem sair, misturar-se aos desconhecidos que se engavetam nas ruas. Isto foi antes que se organizasse e controlasse a circulação. Antes da esterilização.

Os corredores sombrios, a sujeira, a vida fechada em apar­tamento fechado, o medo da rua, o calor asfixiante, a vizinha que teve um filho, quando ela nunca teve nenhum. Tudo in­fluenciou minha mulher. Forçou sua mente a atitudes que nunca foram dela. Rudeza, aspereza, ela adquiriu aqui, de anos para cá.

Tudo se concentrou num ódio seco, lancinante, contra a vizinha de cabelos pintados. A outra percebeu, é claro. Não subiam no mesmo elevador, não entravam juntas no mercado, nem no cabeleireiro. A mulher espalhou que Adelaide não gos­tava do filho dela, por ser anormal. E que tentava expulsar o menino.

Todos se voltaram contra Adelaide. Chamavam-na o mons­tro sem piedade. Eu utilizava o barbeiro para desmentir tais notícias. Porém, mulheres não vão ao barbeiro. Portanto, era apenas meia arma, quase inútil. Tudo por causa do menino débil mental. E da misteriosa implicância de Adelaide por ele.

Porque o garoto a deixava inquieta, incontrolável. Arre­piava-se toda ao ver o meio-anão de pele escura como coca-cola, secreção constante nos olhos, gengivas brancas pontilha­das de pontos negros, balbuciante. Antigamente, o menino batia de porta em porta, sempre à procura de outras crianças.

Foi então que ela começou a sonhar com o navio ilumi­nado se afundando em noite tranqüila. Passei a encontrá-la, todas as tardes, no portão, à espera do carteiro. Vez ou outra, o carteiro chegava antes dc mim, e ela continuava ali, estática, para me entregar, com ódio, a correspondência.

Bobagens, malas diretas, cobranças de banco, extratos de poupança, correntes de oração, dinheiro, uma e outra carta de aluno. "Não sei para que gastar tanto papel, selo e tempo com inutilidades. Não quero nada disso enchendo gavetas e móveis, jogue fora logo o que não pode prestar".

As famílias foram se fechando. O deficiente provocava mal-estar, era inconveniente. Apertava campainhas, batia nas portas, atirava coisas pelas janelas, prendia elevador, destruía vidros, urinava nos corredores, fazia cocô nas portas, quebra­va lâmpadas, rasgava lixo no hall.

Uivava como lobo, a noite inteira, e o lamento subia pelo fosso central. Abria as bandeiras sobre as portas, jogava lixo e cocô nos apartamentos. Inquilinos fizeram petição. Que se internasse o garoto. Com o tempo, descobriu-se que havia outros meninos semelhantes no bairro. E eram muitos.

Os pais dos deficientes se reuniram. Fato raro, uma vez que as pessoas mal se comunicavam, não saíam de casa. Cada prédio com sua vida, como se fôssemos transatlânticos super­lotados. Flutuando num mar tempestuoso, isolados uns dos outros, ninguém podendo ajudar ninguém. Mas foi um esforço.

Nessa reunião, constataram que eram dezenas de crianças nascidas na mesma época. Todas com problemas. Cabeça gran­de, surdez, falta de braços ou pernas, cegos, mudos, colorações estranhas na pele, pigmentação, problemas de fígado, intesti­nos, rins, genitais atrofiados. Lábios leporinos, artroses.

Passaram a pesquisar, encontraram milhares de casos. Constituíram uma associação de pais para análise do assunto. Descobriram: Anomalias Ligadas à Ingestão de Alimentos Con­taminados por Mercúrio. Correram aos médicos públicos. Al­guns se interessaram. Tentou-se um movimento. Planificação.

Tenho a nítida impressão que estes foram os primeiros sintomas que levaram à Grande Esterilidade. Ninguém fala sobre o assunto, ninguém é louco de comprar briga por coisa alguma. Comentar o Tempo das Crianças Exterminadas é o mesmo que falar nos Acampamentos Paupérrimos. Pura sub­versão.

A Esterilidade, o Extermínio, o menino débil, o navio ilu­minado, a carta que Adelaide esperava (será que ainda espera, onde estiver?), sinto que há em tudo uma ligação. Ou então, eu não pensaria tão obsessivamente em tais coisas. Sei que existe um elo entre elas. Estou quase descobrindo.

Mas todos se calam, como em lei da máfia. Quando os pais adiantaram as investigações, veio o silêncio. Médicos foram transferidos. Alguns pais tentaram prosseguir. Passaram a ser desaconselhados. Se insistiam, aparecia um caminhão, levava mudança, cessavam notícias sobre eles.

— Ei. Está me ouvindo?

— Claro, claro, estou.

— Pois não parece. Tinha o olho vidrado, distante. Eu te falava da vizinha. Sabe quem é?

— Sei bem. O que será que ela quer?

— Disse que volta mais tarde. Ficou olhando para nós, muito desconfiada.

Procuro o cortador, minhas unhas estão enormes, com su­jeira embaixo. Isso me incomoda, nunca suportei. Não encon­tro. Antes, bastava pedir, Adelaide trazia. Ela é que sabia de tudo, onde estavam as coisas. A casa era seu domínio. Eu nem sei onde se encontram as camisas, as meias.

Vou reconhecendo minha casa. Na verdade, conhecendo, descobrindo. As gavetas dos armários, de cedro, perfumadas. Os papéis acumulados em escrivaninhas, apesar da recomenda­ção dela de jogar logo fora. Há quantos anos não tiro nada das gavetas? Só coloco, coloco. A memória de minha vida.

Que vida? Esta memória nunca consultada que vai ser atirada ao lixo, assim que eu morrer. Que sou nada na ordem das coisas. Papéis, fotos, contas, anotações. Que importância têm? Documentos do quê? De um homem comum. Ora, a his­tória jamais se interessou pelo homem comum? E por que havia de?

Lembranças. Nem lembranças tais papéis reativam, não me reencontro através deles. O que significa o recibo de uma chupeta? Sim, claro, significa que existiu uma criança. A ques­tão é saber: havia uma criança nesta casa, ou compramos para dar de presente? Chupeta de presente? Ridículo.

Então, houve uma criança, mas na minha cabeça os regis­tros estão apagados. Prefiro não pensar. Por isso evito gave­tas e armários. Esta casa. O escritório. Encerraram o meu mundo por.longo tempo. Nada existia além destas paredes. E eu de olhos fechados, abrindo-os inexplicavelmente com o furo na mão.

Já nem sonhava com ressurreição, terceiro dia, renascer dos mortos. Habituado ao sarcófago confortável. Houve tempo em que imaginava raios e nuvens nas quais cavalgava veloz, rumo a um intenso ponto luminoso. A intensidade se foi, restou uma pequena e dolorosa lâmpada elétrica amarela.

E essa luz intensa e cegante, um dia, se irradiaria através de mim, escorreria pelo chão e se abriria como um leque, me unindo a tudo. Fiquei esperando que a luz viesse a mim, ela se apagou, nem sei para que lado se localiza. Mas quando en­contrei Tadeu vi que tudo podia ter sentido, outra vez.

A dor de cabeça continua, deve ser a tensão. Os músculos da nuca estão rijos. Vou conversar com meu sobrinho, não quero os estranhos em minha casa. Na verdade, não é isso. Por incrível que pareça, estes homens não me incomodam. Começo me sentir à vontade. Pela primeira vez, em minha própria casa.

Tocaram a campainha de novo. Com fúria. O que esta vizinha quer, tão insistente? Abro a porta. Dois homens me empurram, sem olhar para minha cara. Entram correndo. Têm um aspecto repelente, medonho. Sem pêlos, um buraco no lugar do nariz, baba amarela escorrendo da boca.

 

PERVERSIDADE OU ESPÍRITO PRÁTICO?

SOUZA FICA CONFUSO QUANDO É

IMPEDIDO DE DAR ÁGUA A DOIS

HOMENS QUE MORREM DE SEDE

 

Atravessaram correndo a sala de visitas e deram de cara com os meus inquilinos forçados. Os três estavam de pé, como que à espera. Parece que tinham sido preparados para reagir eletronicamente ao menor sinal de perigo. Rostos tensos. O ho­mem que sempre comia doces apontava o revólver.

— Onde é que vão?

— Comida, queremos comer.

— Que história é essa de invadir a casa?

— Queremos comer.

— Não temos comida.

— Comida, água, comer, comer.

Avançavam, o homem que sempre comia doces engatilhou a arma com calma. O clique ecoou como estrondo na tarde parada, silenciosa. Estávamos todos suados e ofegantes. Minha cabeça latejava. Os invasores recuaram. Tremiam, babavam, cabeças pendidas. Não tinham condições de briga ou coisa se­melhante.

— Vão saindo, saindo, depressa.

— Queremos comida.

— Não tem.

— A vizinha disse que tem. Disse que tem muita.

— Não tem nenhuma.

— Ela disse que aqui todo dia entra bastante comida.

— É na casa dela que tem. Vão lá.

— Não, é aqui. Um homem confirmou no corredor.

— Vão saindo!

— Sem comida, não.

Essa conversa mal parada podia durar a tarde inteira. O homem que costumava sentar-se à ponta da mesa foi para o corredor, saí atrás. Achei que pensava em alguma coisa. "Não sei como entraram. É duro. Mas não podemos dar nada a eles. Senão, amanhã isto vai ser invadido de uma vez".

Estava decidido a não ceder. O homem que comia doces continuava a apontar o revólver. Os invasores tremiam e baba­vam, indecisos. Quem sou eu que não dou nem um copo de água para estes desgraçados? Vou buscar. Não interessa se amanhã vai haver invasão. Nem sabemos se tem amanhã. Que bela frase!

Fui para a cozinha, o homem que se sentava à ponta da mesa percebeu e me seguiu. "Sei como o senhor se sente. Só que não adianta. Um copo de água não resolve nada. Eles pre­cisam de muito mais que isso. Água, comida, hospital. Além do que, não estamos aqui para resolver os problemas do Brasil".

— É um copo, nada mais.

— Eles precisam de um tanque de água. Estão mortos. Conheço os sintomas, o tremor, a baba amarela. É um copo de água perdido.

— O que custa perder um copo de água?

— Oh, meu amigo. Tem que admitir a situação. Esse copo de água deve ser usado em quem tem condição de sobreviver mais tempo.

— Também, a situação não é tanto assim.

Apesar do mau aspecto da pele, os seus olhos eram cal­mos, nada violentos. Não era o olhar de um irracional, desa­tinado, preocupado com a própria sobrevivência. Havia qual­quer coisa nele que me fazia confiar. Ponderação. Aquele ar determinado que eu encontrara em Tadeu Pereira. Sinceridade, acho.

Se ele é sincero ou não, é outro problema. Continuo re­moendo: quem sou para negar a porcaria de um copo de água? O que me interessa se vão morrer? O motivo é melhor ainda. Morrem com a barriga cheia de água. No entanto, o terceiro homem me esperava no meio do corredor e me interceptou.

— Não faça, amigo. É bobagem, pior para nós.

— A casa é minha. O senhor se esquece?

— A casa é nossa. Não tem isso de minha casa.

— Como? Se quiser, tiro vocês daqui num minuto.

— Nem em um, nem em dois. Se quiser, vai reclamar. Sabe a quem?

— Descubro.

— Se o senhor está preocupado com aqueles dois mortos-vivos, é sinal de que tem coração. Portanto, deve se preocupar também com a gente. Acha justo morar sozinho nesta bruta casa, enquanto tantos morrem de doença e insolação fora das barreiras da cidade?

— Vamos fazer um acordo. Dou a água e mandamos em­bora. Se eles insistirem, expulsamos.

— Expulsamos e eles saem contando que temos água e comida. Não, nem água, nem eles saem daqui.

— Como?

— Vamos trancá-los naquele cômodo do fundo, onde era o quarto da empregada. Andei olhando, o senhor usa como despejo, está cheio de pacotes. Tiramos tudo, prendemos os dois.

— E ficam presos até morrer?

— Amanhã eles vão embora. A camionete leva os dois.

— Que camionete?

— A de suprimentos.

— Vem mais?

— Muito mais. Esta casa vai ser um centro difusor. Daqui mandamos para outros entrepostos.

— Entrepostos?

— O senhor só conversa perguntando?

— Me deixa dar este copo! Só este.

— Melhor não.

Afinal, quem é esse homem para me dar ordens dentro de minha casa? O sangue me subiu à cabeça. Quase nunca acon­tece. Não aconteceu quando devia e deu no que deu a minha vida. Foi um segundo de decisão. Passei o copo para a mão esquerda, e decidido empurrei o homem com a direita. Rapi­damente.

O homem recuou, espantado com a minha súbita braveza. Entrei na sala. Nem deu tempo de oferecer o copo. Tem cabi­mento oferecer? Quando os dois invasores viram a água em minha mão, se atiraram com fúria. Com tanta que derrubaram tudo. O homem que se sentava à ponta da mesa ria, às gar­galhadas.

— Contente agora?

— São umas bestas.

— Bestas, não! Desesperados. Olha!

Lambiam o chão, como cachorros. Davam empurrões e cabeçadas na disputa das pequenas poças formadas pela dife­rença de nível entre os tacos. Ansiosos para que a água não penetrasse pelas frestas entre a madeira. Um empurrava ao outro, debilmente. Terminaram caindo, extenuados pelo esforço.

— Levem os dois para o fundo, disse o que eu julgava fosse o líder.

— Ainda não tiramos todas as tralhas.

Limpavam o quartinho, empilhando na cozinha os pacotes de calendários. Tantos anos encerrados nos embrulhos feitos a 5 de janeiro. Nada mais significavam. Papel velho para ser vendido a quilo. Úteis apenas para o Museu da Representação do Tempo, um setor deserto, arquivo morto.

A campainha. Abri. Fechei a porta. Essa não. Alguém tem que descer para saber o que está acontecendo. Tocaram de novo, deixei. Desliguei o fusível da campainha, esmurraram a porta. Socos. Os homens vieram do fundo, tinham prendido os carecas no quartinho. Olharam, surpresos.

Fizeram um sinal: deixe para nós. O homem que sempre comia doces atirou na porta. Dois tiros. Corrida, e o silêncio. Logo cortado por um gemido. Peguei uma cadeira, encostei à porta. Meu prédio é dos antigos, a porta almofadada tinha uma bandeira de vidro azul. Nunca tinha sido aberta.

— Puxa, você tinha de fazer bobagem – eu disse.

— Começou, agora ninguém mais segura.

— Alguém deixou estes homens entrarem. Existe a grade eletrônica, a trava automática, a tevê.

— Mas quem?

— Seja quem for, tem de saber que estamos preparados para nos defender.

A bandeira da porta cedeu a um soco firme. Lá estava o homem caído, sangrando. A camisa empapada. Não dava para enxergar o furo. Olhei pelo corredor, ninguém. No entanto, podiam estar escondidos, à espera que abríssemos a porta. Ou prontos para chamar os Civiltares. Não se sabe.

Puxamos o homem. Levamos ao quarto da empregada, junto com os outros. Minha vontade era vomitar. Tudo isto é loucura. Comi, dormi de barriga pesada, me deu pesadelo. Pre­ciso acordar, me libertar desta obsessão. Nada disto está se pas­sando. Basta eu negar, com todas as forças. Jurar que não.

Não tem ninguém em casa, não estou vendo carecas, não tenho furo na mão, não está fazendo calor, não tenho dor de cabeça, não perdi o emprego, Adelaide não se foi, não existem barreiras, a cidade não está superlotada, não faz calor, minha casa está vazia, sossegada. Em paz.

Puro sonho. Não estamos atirando em gente, os vizinhos não estão fazendo sacanagem, não tem ninguém abrindo a porta aos pedintes e doentes. Daqui a pouco, cumpro a minha rotina diária, imperturbável. Acordo, tomo banho, café, Adelaide me leva à porta, vou ao ponto, apanho o S-7.58.

Tenho vergonha quando penso no que Tadeu Pereira diria, se me visse em tal situação. Bem, e ele? O que faria? Ou o que é que poderia fazer? Gritava comigo: "Você aceitou pas­sivamente o que se passou na universidade, entregou-se como­damente, deixou sua vida escorrer. E agora reclama o quê?"

A vergonha não é pelo julgamento de Tadeu, e sim pelo meu próprio. Concordar é me transformar num deles. Sou eu que preciso me enfrentar. Enfiado em mim, nem percebi as imagens da televisão. E eram familiares. Mostravam um local conhecido. Não pode ser! Tal horror não está se passando.

 

UM DIA CHEIO DE REVELAÇÕES CHOCANTES:

A CASA DOS VIDROS DE ÁGUA, A INSTALAÇÃO DOS

GERADORES SOLARES E A AÇÃO DAS MULTINTERNACIONAIS

 

Vejo prateleiras quebradas, o chão repleto de cacos. Ho­mens recolhendo etiquetas de metal. Civiltares vigiando, presos entrando nos camburões. A Casa dos Vidros de Água em ruínas. As salas que conheço palmo a palmo, vidro a vidro, cada obje­to. Salas que eram meu refúgio.

Os presos: banguelas, mulatos de olhar agressivo, nordes­tinos mirrados, amarelos, orientais baixotes, gente sem nariz, sem orelhas, sem cabelos, olhos pendentes, peles escamadas, tocos de braço, furo na mão. Furo na mão? Pena, o homem já entrou. Tenho certeza, era um furo igual ao meu.

O locutor tem a voz grave, cerimoniosa, dos que procla­mam os noticiários oficiais na Rádio Geral. Civiltar exibe um vidro de água. O único que restou inteiro. Água do Tucumã. Onde, diabos, ficava esse Tucumã? Imagens do prefeito, do chefe estadual, do diretor do museu. E a voz monótona.

 

Às 14 horas de hoje, o Museu dos Rios Brasileiros, conhecido popularmente pela designação de a Casa dos Vidros de Água, localizado no que antigamente foi o Lar­go do Arouche, recebeu uma afluência fora do comum. De repente, para espanto dos vigilantes, centenas de pes­soas começaram a entrar e a se espalhar. Aparentemente, queriam apenas olhar os milhares de litros que conti­nham as águas dos rios, riachos, ribeirões, nascentes, la­gos, lagoas, fontes e olhos de água de todo o Brasil. A Casa dos Vidros de Água foi o mais completo e admi­rado museu hidrográfico do mundo, apreciado por espe­cialistas do universo inteiro que ali sempre fizeram suas pesquisas hídricas. Organizado na década de oitenta por cientistas da Universidade de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Espírito Santo e da Paraíba, teve a colabora­ção de pesquisadores de todo o país. A cooperação popu­lar foi grande. Levou-se doze anos para se atingir a per­feição atual. Em dezenas de salas, cada uma abrangendo uma região, podia-se ver os litros, de colorações diferen­tes, além de gravuras, fotos, mapas, gráficos, legendas. A biblioteca e a filmoteca completavam o conjunto. A discoteca guardava relíquias, como o ruído das cachoeiras, principalmente da Foz do Iguaçu, o som da extinta poro­roca, o murmúrio de regatos. Quando os vigilantes se des­preocuparam, relaxando a fiscalização, tudo aconteceu. Em questão de minutos. Sem que houvesse qualquer chan­ce de impedir. As pessoas passaram a abrir os vidros e a beber a água. Bebiam e se molhavam. Saíam com as rou­pas ensopadas. Quando os Civiltares chegaram, minutos depois, sobrava um só vidro fechado. A maioria dos depre­dadores fugiu, arrebentando portas e janelas. Alguns fo­ram presos. Suspeita-se que tenham sido aliciados por alguma organização. Sabe-se que no começo da tarde, es­palhou-se o boato de que a Casa dos Vidros de Água estava sem corpo de guarda. E que havia muita água esto­cada lá dentro.

Um dos presos, durante a verificação, disse: — Quem é que queria ver água de rio? A gente tinha sede, isso sim. Então, fomos beber a água que era nossa, por direito. Eu procurei a água de um riacho que passava atrás de minha cidade. Um rio onde nadava quan­do criança. Foi dele que bebi. A água está aqui na minha barriga. Podem tirar se quiser.

Pessoas entrevistadas disseram que ninguém supor­tou o calor hoje. Foi o dia mais quente do ano, registrado nos institutos oficiais. O sol deve ter alterado o comporta­mento de todo mundo. Meteorologistas acentuam que a temperatura tende a subir, ainda mais que nos aproxima­mos dos meses que, em outros tempos, correspondiam ao verão. O Esquema está de prontidão para tomar duas providências. Impedir que a migração para esta cidade continue, uma vez que ela é causa de graves problemas. Em segundo lugar, adotar medidas, como a construção de gigantesca Marquise para proteger o povo do sol e da in­tensa onda de calor que se abate sobre o país.

 

Comercial do Esquema. Imagens de poços artesianos se sobrepõem a planos dos leitos secos dos rios. Os rios desapa­recem, a água jorra cristalina dos poços artesianos. Milhares de copos plásticos correm em esteiras, nas máquinas de encher e lacrar. Crianças riem felizes, a música de fundo é clássica, otimista.

A voz oficial anuncia: "Dentro de dois minutos e trinta e dois segundos, novas notícias sobre o atentado ao Museu dos Rios Brasileiros. Informações vindas diretamente dos bastido­res do governo. E uma curiosidade. A re-exibição de um velho documentário, hoje um clássico do curta-metragem histórico: O Corte Final. Aguardem".

Outro comercial mostra a instalação dos geradores de ener­gia solar. Cidades recebendo com festas os técnicos do Esquema. Não se vê o povo, somente as faixas de boas vindas, os slogans pintados. Trilhas sonoras emitem aplausos, gritos de muito bem, muito bem, viva o Esquema. Sinos e buzinas.

— Sucata. Mais porcaria em cima da gente, disse o ter­ceiro homem, o que está sempre silencioso.

— Ferro velho. Tudo que estão mostrando é ferro velho. Veio da Alemanha? Veio nada. Estava em funcionamento na Multinteralemã que funciona onde era Pernambuco e Rio Grande do Norte. Forneceu energia por dez anos, deve ter sido substituído por material mais moderno. Ou por maqui­naria que suporte esse sol. O ferro velho, vendem ao Brasil.

— Como é que você sabe? Como é que vocês sabem? Cada coisa que acontece, um de vocês vem com uma explica­ção, uma história.

— Sei, porque vi.

— Viu? Essa não! Você e esse outro aí, que senta na ponta da mesa viram tudo. Que mania é essa de sentar sempre na ponta da mesa? Quer me dizer?

— Qual é, meu senhor? Tanto para se preocupar e vem me perguntar por que me sento na ponta da mesa? Aposto que a vida inteira se preocupou com besteirinhas assim. Quem se senta na ponta da mesa, quem fuma o cigarro até o toquinho, quem usa lenço verde para assoar o nariz. Ah, deixa a gente sossegado, vai viver sua vida.

— Está bem. Vou viver minha vida e vocês tratem de suas. Fora daqui. Fora. Já e já. Fora. Para outro lugar, que a casa é minha!

— É nossa. Vamos viver juntos, por algum tempo. Quer você queira, ou não!

— É minha, e vocês podem arrumar a trouxa!

— Por que não tenta tirar a gente?

— Pois vou tentar. Vou conseguir. Ainda há lei neste país. O que vocês estão fazendo não é certo!

— Pode ser que não. Mas não é certo por que padrões? Existe algum? Ou cada um tem o seu? Talvez cada grupo tenha estabelecido para si mesmo um padrão, necessário à sua sobrevivência. O Esquema desligou-se. É uma coisa, o país outra, o povo uma terceira. O Esquema existe como segurança. Ou melhor, tentativa de segurança. Amarra as pontas para que todos não se matem. E olhe que os nós estão frouxos, frouxos. Enquanto o Esquema conseguir suprir razoavelmente as barri­gas, a estrutura se sustenta. E quanto tempo vai conseguir? Que preço já pagou só com a importação contínua de alimento? Olha, nós já formamos o nosso grupinho aqui, temos apenas que estabelecer as nossas regras, montar o nosso mundo. Ago­ra, meu amigo, é confiar.

— Confiar? Em quê?

— Sei bem, não.

Fiz sinal para que esperasse. Música familiar na televisão. A câmera passeia no vazio, fecho os olhos. Conheço bem estas imagens. Os violinos do fundo, metais, tom épico. Corrida acelerada. Tranqüilidade. Novamente crescendo, pratos batem. Mussorgsky, Uma Noite no Monte Calvo.

Florestas tomam a tela. A música se dissolve, imagens se fixam. A voz oficial:

 

"Os vândalos que invadiram a Casa dos Vidros de Água, esta tarde, não pouparam sequer os preciosos arquivos. Fotos, filmes, tapes, gravações, documentos, foram quei­mados, rasgados, dilacerados, destruídos. Não se entendeu porque, uma vez que os invasores declararam que apenas queriam beber água. Nada mais. O que teria levado ho­mens a destroçar o acervo, torna-se um mistério que os Civiltares, preocupados, estão ansiosos para desvendar. Os presos estão submetidos ao tratamento habitual. Este tratamento persuasório, científico e indolor, destina-se a fazer com que narrem, em espontânea vontade, como os fatos se passaram. O objetivo é determinar, como se suspeita, se houve um provocador. Este o perigo. Como é de conhecimento, o Esquema preocupa-se com a ma­nutenção da história. Foi encontrado pouquíssimo mate­rial intacto. O Corte Final salvou-se. É uma curiosi­dade, telejornal sem maiores pretensões artísticas. Tra­ta-se de uma reportagem, filmada em super-8 por um amador. Todos porém sabem a importância histórica deste curta-metragem. Quando exibido pela primeira vez, pro­vocou polêmica, debate, manifestações de rua, passeatas, divisões na área militar, protestos internacionais. Intensa agitação dentro do país. Movimento que o governo, na­quele tempo, não teve forças para dominar. Era a anar­quia, a corrupção, o caos absoluto. O Corte Final foi um pequeno filme, despretensioso, mal feito, mas que no entanto favoreceu a queda da elite que formou a Era da Grande Locupletação, possibilitando os primeiros pas­sos para a instalação do atual Esquema. Que, como todos sentem, resolveu os graves problemas internos e externos deste país. Veja agora, a cerimônia do corte da última árvore do Brasil, na pequena vila de Santa Úrsula.

 

Música cresceu, as imagens movimentaram. Planos de flo­restas. Pântanos, lagos, rios, cachoeiras, regatos, troncos colos­sais, o locutor enumerando espécies. Não fossem belíssimas as fotos de árvores extintas há tanto, seria um filme aborreci­díssimo, sem a mínima imaginação. Quantas vezes vi esta fita?

— Santa Úrsula? Ah, essa cidade nunca existiu – disse o homem que comia doces.

— Como não? Você também é um sabe-tudo? Vai me contar outra história? Ando cheio de histórias. Todo mundo sabe que Santa Úrsula foi inundada quando construíram a barragem hidroelétrica de Manguinhos.

— Disseram. Quem prova? Manguinhos sumiu no terre­moto.

— Por que você sabe?

— Na Paraíba, eu trabalhava no instituto geográfico e estatístico. Quando fizeram aquele barulho todo com o filminho, pesquisei. Não havia registro de Santa Úrsula.

— Deve ter pesquisado errado. O filme mostra a vila, a cerimônia aconteceu. No vale do São Francisco.

— No vale do São Francisco existia uma Santa Úrsula. Comparei fotos, escrevi para lá. Havia uma coisa que não batia. A vila do filme nada tinha a ver com as fotos que eu consegui Era muito diferente.

— E daí?

— O filme foi forjado, a cerimônia, tudo.

— Forjado? Com que intenção?

— Está mais ou menos claro. Ao mesmo tempo, não está.

— Vocês são misteriosos demais para mim.

De repente, não me deu vontade de rever o documentário. Não pelo que o homem me contava. Não acreditava numa pa­lavra dos casos deles. Ficar encerrado dentro de casa dá nisso. Para se divertirem, inventam histórias. Eles sabem tudo. Essa não! Desliguei a tevê, me lembrei da conversa interrompida.

— Você me falava qualquer coisa – eu disse ao homem que se sentava sempre na ponta da mesa.

— Falava, você foi olhar televisão. Falava... falava em confiança... ou coisa assim.

— Pois é, dizia que era preciso confiar. No quê?

— Não sei direito. Acho que confiar nas pessoas. Na ética de cada um, no comportamento. Tenho dúvida quando uso a palavra ética. Não faz sentido numa situação como a nossa. Mas ainda acredito em cada homem, em particular. O problema é que estamos todos preocupados com a sobrevivên­cia. Muitos estão de tal modo que se encontram dispostos até a matar.

— Sua teoria pode ser lógica. Mas não lhe dá o direito de permanecer em minha casa. Paguei por ela, vivi a vida intei­ra aqui, lutei. Esta casa sou eu.

— Como frase, bonita. De resto, uma tristeza. Se a sua vida é só esta casa, que vida foi a sua? Não, não precisa res­ponder. O que o senhor não sabe é que também eu, também estes homens que estão aqui tivemos nossa casa um dia. Ba­talhamos, pagamos, suamos. E perdemos. Se ainda não derru­baram a minha, deve ter um belga morando nela. Na daquele ali, esse que come doce o tempo inteiro, tem um sul-africano. Na do outro, um bom de um chinês. Não foi só a casa, não. Tivemos que sair de nosso pedaço, das cidades. Expulsos sim­plesmente, sem ter a quem recorrer. Expatriados. Conhece? Ser um expatriado dentro do seu próprio país? Fomos empur­rados para fora de nossos estados. Um dia, nos embarcaram em ônibus e nos levaram. Nos abandonaram a duzentos quilô­metros de Maceió.

— Quando foi isso?

— Há uns dois anos. Chegava gente de todos os lados. Famílias inteiras expulsas das multinter. Os estrangeiros traziam sua própria gente. Quando utilizavam os brasileiros era para os serviços braçais, servis. Faziam conosco a mesma coisa que fizemos com os negros e índios, quinhentos anos atrás.

— E o governo?

— As reservas foram entregues incondicionalmente. Eram território estrangeiro, com leis próprias, uma estrutura trazida pronta dos países de origem. Não intervenção fazia parte dos acordos.

— Não posso acreditar.

— Nem vendo o que está à sua volta? De onde acha que esse povo vem? Por que vem?

— Tenho um amigo, ex-professor como eu, Tadeu Pereira. Me falava sobre as migrações. Coisas que você está me repe­tindo. Eu me pergunto, onde é que vamos chegar?

— Você era professor? De quê?

— História.

— Não trabalha mais? Parece novo para ser aposentado.

— Compulsória.

— Ah.

— Ah? Só ah? Não me pergunta por quê?

— Precisa? Sabe o que sou? Agrônomo. Tenho uns dez amigos na compulsória. Tenho a impressão que foi uma epide­mia neste país, certa época. Cada família teve a sua. Assim como uma espécie de vergonha particular, de pecado escondido.

— Não sinto vergonha. Para mim, é condecoração.

— Mas não age assim. O senhor é uma pessoa estranha, senhor...

— Souza.

— Muita estranha mesmo. Apático, enquanto o mundo se arrebenta em volta. O senhor não reage, está indiferente a tudo. Desde ontem, observo. Hoje, provoquei. Quando disse que não ia sair de sua casa, estava apenas fazendo um teste. Depois de um leve protesto o senhor se conformou. Teve um esboço de irritação. Qualquer outro teria colocado a gente para fora, aos pontapés. O senhor, não. Aceitou. É difícil acreditar que seja professor de história. Que tenha sido. O senhor está parado no tempo, impassível, não dá para imaginar que algum dia tenha provocado uma compulsória. Não consigo vê-lo fazendo qualquer coisa que desagrade ao Esquema e o obrigue a agir com violência. O que aconteceu? O que foi que o levou a se transformar desse jeito?

Talvez eu saiba. Há muitas coordenadas soltas, é só jun­tá-las. Não é difícil. Nem um pouco. Este homem vai rir, se eu disser que minha cabeça se abriu a partir deste furo na mão. As vezes, olho para ele e penso que não existe. Não está aí, é um produto de minha alucinação. Do sol sobre a cabeça.

Imaginei. Foi o meu modo de readquirir consciência. Du­rante anos, senti meu cérebro fechado. Por mais lúcido que um homem seja, há um ponto sem retorno. Atingido este ponto, a consciência mergulha em estado cataléptico. No entanto, o inconsciente trabalha, se defende. Reage.

Quando voltei, encontrei um mundo que não conhecia. Dia a dia penetro nele. Verifico que preciso, primeiro, me reco­nhecer outra vez, me identificar. Confesso, estou desesperan­çado. A cada momento indago se vale a pena o esforço para sobreviver, ou para renascer. E a resposta custa a chegar.

— Vi uma foto de mulher sobre a penteadeira do quarto. O senhor é viúvo?

— Não, sou casado.

— Cadê sua mulher então?

 

VIZINHOS SÃO BONS, NECESSÁRIOS,

GARANTEM SOLIDARIEDADE.

MAS QUANDO AMEAÇAM SE METER

NA VIDA DA GENTE, IRRITAM

 

— Viajou.

— Quando vai voltar?

— Não acha que está se metendo muito?

Desta vez, ele se excedeu. Tem a desfaçatez de se enfiar em minha vida particular. Se bem que para ele, não quer dizer nada. Vê a vida bem diferente. Reconheço que não detes­to este homem pelas atitudes que me parecem insolentes, e sim pelo que me revela.

Ele me desvenda. A mim que vivia como um altar antigo em semana santa, velado por panos negros. A mancha desapa­rece, seguida de paralisia instantânea. Imagino que desta vez consigo perceber uma forma através de contornos indefinidos. Mas há na mancha um elemento novo.

Existe um movimento leve, quase imperceptível. Este mar­rom que se movimenta não pertence ao verde que o circunda, é algo desligado. A sensação é que foge dele, ainda que exista alguma relação, pois parece emergir do fundo. A inquietação agora é opressiva, tiraram o ar de meu peito.

O piano vem desafinado, no meio da tarde. Domino a pa­ralisia, já posso comandá-la, não dependo mais de algum pro­cesso remoto e desconhecido no interior de minha mente. A Patética. Quando conheci Adelaide, ela aprendia a tocar, passa­va o tempo ensaiando.

Sonhava ser concertista, especialista em Beethoven. Quan­tas coisas havia nela que desapareceram com o tempo. E não vi, deixei que se evaporassem. As mãos de Adelaide naquele piano eram bonitas. Brancas, dedos finos, unhas maltratadas. Nem podia ser de outro modo.

Passava o dia na cozinha, as mãos mergulhadas em deter­gente, ou manipulando a máquina de lavar roupa. Gostávamos de nossa casa limpa, acolhedora, silenciosa. Ela tinha construí­do um retiro perfeito para mim. Ao montá-lo, a cada peça colocada, Adelaide desarticulava o seu sonho.

De vez em quando, voltando no meio da tarde, por causa de uma indisposição qualquer (meu intestino nunca foi bom, são essas comidas sintéticas), de uma greve, ou de um golpe de estado (eram tão freqüentes), eu a surpreendia. Ouvia o piano, ainda no corredor do prédio.

A Patética, repetida. Sua obsessão. Nos primeiros tem­pos, confesso que sofria. Por ela. Podia-se ver, era coisa que Adelaide jamais alcançaria. Tocar bem. Não como os grandes, nem talvez como os médios. Adelaide sequer seria razoável. Bastava compará-la a qualquer daqueles discos.

Coisa que sempre imaginei: as pessoas têm idéia da pró­pria limitação? Será que esta limitação funciona como anteparo à noção de impossibilidade de avançar além de um ponto? Não fosse assim, haveria desespero geral, certamente. Era uma curiosidade, e perto de mim, havia a resposta.

Convivia com o problema, sem discuti-lo. Abrir a cabeça de Adelaide, seria condená-la, reduzi-la apenas a uma astuta dona de casa. Capaz de articular, no caos em que a cidade se estabeleceu, um refúgio como este, movido pelo tempo parado, fora de tudo, como nave perdida no espaço.

Chegando em casa, tentava entrar cautelosamente. Porém, ela me ouvia, tinha sensibilidade, detectava os menores ruídos.

Fechava o piano, ligava a vitrola, fingia estar limpando o pó dos discos. Eram centenas, concertos clássicos. Adelaide não admitia ter estado a tocar piano.

Muitas vezes, após o jantar, eu abria o piano, puxava o feltro que protegia as teclas e pedia: "Toque um pouco para nós". Era uma expressão de espanto, antes que a de conten­tamento atingisse os seus olhos. Eu queria, sinceramente. E é verdade que estes momentos foram poucos.

— Estou cansada, não tenho cabeça.

— Busque uma partitura qualquer. Você sabe que gosto do Monte Calvo.

— Meus dedos estão duros, olhe só, nunca mais vou con­seguir tocar.

— Experimente, estou precisando. Foi um dia tão cheio. Aquela gente passa o tempo discutindo política dentro da história, minha cabeça explode.

— Souza, meus dedos não me obedecem.

Deixava o piano aberto, na manhã seguinte encontrava-o fechado. Sabia que se levantava à noite, passava horas na ban­queta. As mãos varriam o teclado, sem tocá-lo. Era um estudo silencioso, uma prática sem som, talvez para não me acordar. Penso, com muita culpa! Não estive enganado?

Até que ponto não a sufoquei, permanecendo distante? Sem ajudá-la a vencer as barreiras. Por que uma dona de casa não poderia ser pianista? Não me preocupava, aquilo nada mais era que distração ocasional. Ela tinha aprendido, como cente­nas de meninas de sua geração.

Uma coisa que abandonava gradualmente, à medida que os anos passavam e ela amadurecia. Então, naquela noite, ela sentou-se e tocou. Acordei suando, os lençóis molhados, o tra­vesseiro empapado. Cheguei na sala, Adelaide martelava as teclas, furiosamente. Me viu, e continuou.

A música era tremenda, tensa. Sons que me quebravam. Adelaide suava também a camisola ensopada. Foi muito forte para a minha cabeça. Eu estava sob o impacto do furo na mão. Ela, mais do que eu. Pode ser que aqueles dias de nervosa incompreensão tenham estourado dentro dela.

Foi a última imagem de Adelaide como se fosse um velho filme, em tom sépia, os movimentos engraçados, desritmados.

Na manhã seguinte, ela dormia no sofá da sala, fiz todos os tipos de barulho, Adelaide não se moveu. Talvez fingisse. Quando voltei, três dias depois, ela tinha ido.

O piano de agora não é recordação. Vem de dois andares acima, é um velho que vive só. Toca mal, até eu, que não tenho ouvido, percebo o destrambelhamento da melodia. Tam­bém, enfrentar instrumento tão obsoleto. Só alguém de outras épocas, um anacrônico que aposta na ressurreição.

Este velho não sai de casa. Tentaram tirá-lo várias vezes, levá-lo ao Isolamento, redistribuir seu apartamento. Ele deve ter proteção, padrinhos no Esquema. Não recebe ninguém. Toca seu piano, não importa a hora. No meio da noite, descarrega a música, janelas se abrem irritadas.

Ao menos, este homem divisou uma fé, crença onde mer­gulhou fundo. E eu que me encontro na areia movediça? An­sioso por me deixar envolver, ao mesmo tempo aflito para que alguém lance a corda para me agarrar. Onde reencontrar meus valores, algo para me situar? Valores, ora.

Tenho medo de me debater ingenuamente entre bom e mau, certo e errado. Sem prever que os conceitos se alteraram. No distanciamento que ficamos uns dos outros, na ausência de imprensa, nas bibliotecas inacessíveis, como se situar? O meu receio é ter me marginalizado, sem perceber.

Deve ter acontecido uma revolução no pensamento huma­no, nestes anos em que estive isolado. Ou fui mantido. Eu = todos. É importante saber se alguém se interessou em repensar o universo, se houve modificação nas colocações a respeito do homem. Procurar esta nova imagem, deve ser meu objetivo.

Apenas a partir dela poderei me situar. Eu = todos. Apoiar-me em idéia concreta, nada escorregadio. Flutuo numa atmos­fera de perplexidade, querendo acreditar que determinadas concepções, por velhas que sejam, são válidas. Porque elas afirmaram o homem, marcaram sua existência.

Divagações sem nexo de um homem abafado pelo calor. Agora, é também a falta de ar, de uns dias para cá. Há pouco, olhava pela janela, não conseguia firmar a vista, tudo brilhava. Um brilho muito estranho, não natural. Sensação de que tudo ardia, as pedras, os vidros, tijolos.

Um velho professor delira, ante a ameaça de perder sua casa. Velho. Nem tanto. Seria velho se não aceitasse mais, intransigentemente. E no entanto, me instalo aqui, aberto, pron­to a receber. O quê? Não sei. Muito calor deixa a gente de miolo mole, como bem diz meu amigo Tadeu Pereira.

Batem na porta, tocam a campainha. "Aí vem mais", grita o homem que comia doces, devolvendo outra vez a minha sala, o piano patético. "Vamos nos preparar". O ho­mem que se sentava na ponta da mesa pediu: "Vai buscar o revólver". Logo eu, que nem sei onde é o gatilho!

— Atende você, é o dono da casa.

— E se for mais pedinte querendo comida?

— Afaste-se e deixe conosco.

— Não vai matar mais gente!

— O que é isso? Não matamos ninguém.

— Quase.

— Olhe aqui, meu senhor. Se for preciso, não vai ter outro jeito. São eles, ou nós.

— Sei, sei, mas por quê?

— Abre logo, senão derrubam tudo.

Era a vizinha de cabelos pintados, à frente de um grupo de moradores. Quatro ou cinco. Gente de meia-idade, rostos pálidos, olhos fundos, respirando ofegantemente: um deles eu conheço, andava o tempo inteiro de máscara, caía nos cor­redores. Sofria de falta de oxigênio, ou coisa semelhante.

A mulher esticava o pescoço, sem esconder a curiosidade. Abri a porta completamente, saí de lado, deixei que ela olhasse. Ficou intrigada com a minha atitude, mas logo aproveitou. Fitou os homens, agora reunidos na sala de visitas, de pé, numa atitude de desafio, defesa, preparados.

— Se a sua mulher visse isso, que tristeza.

— Tristeza, o quê?

— Essa desarrumação, os vagabundos que vivem entrando e saindo. Parecem bandidos, só falta encher o prédio de pretos.

— A casa está em ordem, não se preocupe.

— Ordem, nada. Uma bagunça, estou vendo. Quer que eu arrume? Afinal sua mulher gostava de ordem e limpeza.

— Por que resolveu se intrometer?

— Sua mulher era muito amiga minha.

— Amiga nada, ela detestava a senhora.

— Como?

— Detestava, não podia ver a senhora nem pintada.

— Deixa de ser estúpido, o senhor não sabe de nada. Éramos unha e carne.

— Vai embora, por favor.

— Está me expulsando, seu Souza? Logo o senhor, um dos melhores condôminos do prédio? Todo mundo respeita o senhor, um grande professor. Nisso é que dá abrigar margi­nais. Se todo mundo abre as portas, daqui a pouco aquela gente que está fora da cidade, toma conta.

— Aquela gente também precisa de casa.

— Seu Souza, o senhor diz coisas perigosas. Imaginou a merdalha dos Acampamentos a invadir os limites? Onde va­mos? E a comida?

— Mesmo que eles não invadam, onde é que vamos?

— Estamos vivendo razoavelmente, o governo controla a situação. Não podemos é permitir furos no Esquema.

— Vai embora, dona, quero fechar a porta, ficar quieto na minha casa.

— Somos da comissão do prédio, zelamos pelo estar. Esses homens têm que deixar o apartamento.

— Nesta casa mando eu.

— Em parte é verdade, seu Souza! Mas dentro de cada prédio, a comissão é responsável por tudo, só assim se tem segurança.

— Podemos ajudá-lo a expulsar tais homens. Temos in­formação que o senhor está sendo coagido.

— Coagido coisa nenhuma. Estão aqui porque deixei, são meus amigos, vão ficar.

— O senhor não tem amigos desse tipo, senhor Souza.

O que falava era o tal da máscara, o que vive caindo pelos corredores. Figurinha ridícula. Me encheu. Pedi licença, cal­mamente. "Já volto", disse, "esperem uns minutos". Fui à cozinha, coloquei uma panela de água no fogo, deixei ferver. Voltei, panela na mão, a comissão estava quase dentro da sala.

— Por favor, saiam.

— Vamos conversar.

— Não temos nada a conversar, saiam.

A loira adiantou-se, atirei a água sobre ela. Deu um berro que foi ouvido na esquina. Com este silêncio, qualquer coisa se torna avassaladora. Empurrei-a, a água tinha banhado todo seu peito. Os outros homens me olhavam assustados. Um deles, o manco:

— Isto vai custar caro, somos obrigados a ir aos Civiltares.

— Um processo, tocamos um processo em suas costas.

— Me mandem a conta do pronto-socorro. Vou intimá-los por invasão de domicílio.

— Nós podemos entrar nos apartamentos. O senhor sabe que podemos. E vamos entrar aí.

— Pois venham, vou ferver mais água.

Partiram. A mulher chorando, mãos no peito. Tomara tenha queimado aquela pele de barata branca, descascada. Ora essa, amiga de minha mulher! Amiga íntima, carne e unha. E se fosse? Eu passava os dias fora de casa, Adelaide podia me dizer uma coisa, fazer outra. Era até o seu direito.

A que ponto cheguei. Convivi com esta mulher durante trinta e tantos anos e de repente penso desta maneira. Eu reclamava que não havia segredos, nenhuma surpresa entre nós, e agora me coloco em guarda, por dúvida. O que aconteceu com a solidariedade que existia entre a gente?

Tenho medo de um processo. Se a loira de cabelos pinta­dos decidir entrar com um recurso, vou ter dificuldades. Não já. Tais coisas trafegam demoradas, os advogados são caros, a tramitação dispendiosa. A desburocratização iniciada no fim da década de setenta, emperrou, poucos anos depois.

Foi afogada num furacão de decretos que tentaram bani-la. Por essa razão, sei que não vou ser incomodado tão cedo. Pode acontecer do marido dela me esperar no corredor. Tem se passado e ninguém faz nada. O Esquema chama de Questões Pessoais Resolvidas de Imediato entre Partes.

Assim denominadas, convenientemente. Para os órgãos de segurança, constituem a maior moleza. Somos a nossa própria polícia. Cada um decide seus assuntos com cautela, porque se houver violência excessiva, pode gerar a Intervenção Ampla. E aí a gente nunca mais se safa.

Ficamos à espera. Silêncio no corredor, sobre a cidade. Estranho silêncio, porque a gente sabe, ele é abafado. Amea­çador. De vez em quando o elevador rangia, carregando velhos resmunguemos. Depois de certa hora, não se ouvia mais nada. Como se houvesse toque de recolher.

— Está na cara a manobra desses vizinhos – disse o homem que costuma sentar-se à ponta da mesa.

— São intrometidos. Nunca dei confiança a eles, morrem de curiosidade.

— Não é nada disso. Querem é te expulsar daqui, ficar com o apartamento.

— Bobagem, o apartamento é meu, estou aqui há vinte anos. Como é isso de expulsar?

— Santa ingenuidade, diria minha mãe. Tenho a impres­são de que você não existe. Me surpreendo como se conservou vivo. Devia estar congelado, hibernando, não é possível. Essa gente está de olho no apartamento, só isso. Pensa que é coisa de velha bisbilhoteira? Nada, nada. Procuram um jeito de se apossar desta casa ótima.

— Tenho garantias.

— Garantia coisa nenhuma. Ninguém tem garantia de nada. Nem da tua vida. Alguém está se incomodando com as pessoas que morrem, ou desaparecem, do que morrem, ou por que somem?

— Se esquece do meu sobrinho?

— Eu sei do teu sobrinho, eles não. Melhor acionar logo o garoto. De repente, tem gente mais alta que o teu sobrinho e aí nada feito.

— Você é desconfiado demais.

— E você, confiado. Tenho visto demais, isto sim. Sabe quanto vale um apartamento destes? Nem imagina o que existe de gente disposta a dar dinheiro, comida, fichas, o que for. Só para sublocar o quarto que tem, só você conseguia umas trinta ou quarenta fichas por mês.

— E vocês se instalaram aqui de graça, não é? Invadiram. Você não está preocupado com minha propriedade. Tem é me­do de ser desalojado.

— Isso mesmo. Não queremos sair daqui, logo vamos nos defender.

— Ah, admite. ..

— Admito. E daí? Acha que gosto de me amontoar nos Acampamentos Paupérrimos?

— Não é justa essa invasão.

— Vai voltar tudo de novo. Você está levando vantagem. Vamos discutir teoria da propriedade outra vez? A posse, hoje em dia, é um gás, líquido, uma coisa que se dissolve, escorre. Agora, presta atenção, vamos sofrer um cerco dessa gente. Eles vão sitiar o apartamento. Já vi isto, lá em cima, melhor nos prepararmos. O barbeiro é teu amigo?

— Parece. Nunca se sabe.

— Tente obter informações com ele. Ofereça fichas em troca, latas de conserva.

— Ele quer um favor qualquer do meu sobrinho.

— Usa isso. Que ele te mantenha informado dos planos.

— Está me parecendo muito neurótico tudo isso.

— E é. O que somos todos? Cada um que se cuide com atenção. Amanhã vamos sair para novos suprimentos.

— Mas não cabe mais nada aqui.

— A gente limpa a área.

— Como?

— Tira esses móveis. Quem precisa deles?

— Eu. São os meus móveis. O que pensa?

— Penso que eles atrapalham.

— Vivi a vida inteira com eles. Preciso deles.

— Pois é, enquanto a vida era outra coisa. Não dá mais. Aquela vida acabou. Vamos tirar os móveis.

— Vocês saem com eles.

— Não vem com valentia, não. Não podemos brigar a cada momento. A situação está bem esclarecida, só temos que conviver em paz, cada um fazendo sua concessão quando ela precisa ser feita.

— Até aqui só eu fiz. Cedi a casa, a comida, agora que­rem meus móveis.

— Puxa vida, o que há? O que estes móveis significam? Deixamos as camas, umas cadeiras. Para que o resto?

— Os móveis são minhas lembranças. Uma certeza que vivi.

— A única certeza que a gente precisa é a de estar vivo. Lembranças, ora essa!

— A vida não é só daqui para a frente, tem tudo que ficou atrás.

— Lembranças. Você é a última pessoa deste país que fala em lembranças. O que elas podem acrescentar?

— Uma visão de mim mesmo. O que fui e o que vou ser.

— Se o mundo ainda seguisse um ciclo normal. Você é um ex-professor de história, devia saber disto. Durante séculos as coordenadas históricas e sociais funcionaram. No entanto, de uns trinta anos para cá, tudo o que temos são descoordena­das. A aceleração histórica prejudicou tudo, a dinâmica se assumiu em sua concepção total, ou seja, contínua transforma­ção, a cada instante, hora, dia.

— Essa nova ordem tem um nome. Caos.

— Não. Caos é muito forte. Implica na desorganização completa, anarquia. Existe confusão, mas não é o caos. Acho que a palavra é apenas desarranjo. Alteração de lugar das situa­ções. Desordenação dos fatos. Como alguém que desmontou um motor, espalhou as peças no chão, em aparente desor­ganização.

— Só que no motor, as peças voltarão aos lugares corre­tos, exatos.

— A menos que o mecânico invente um novo motor, o que é bem possível. Se não funciona de uma maneira, funciona de outra. A diferença do mundo e do motor, talvez, é que o mundo não é estático.

— Tudo é conversa. Não vão levar meus móveis.

— O melhor é dar um tempo. Pense. Precisamos estocar mais comida. Cada dia mais. Olhe o que anda lá fora, ninguém está para brincadeiras. Os Círculos Oficiais daqui a pouco não vão suportar, as barreiras estouram, aquele povo vai invadir a cidade, acabar com esta pocilga. Passei pelo meio de tudo, senti o clima. Aliás passamos os três.

A sala abafada. Estou tenso. Olho em cima do piano a camada de poeira. O retrato de Adelaide. Vontade de chorar. Sou um monstro. O que fiz para achar minha mulher? Nada, nem um passo. Todavia, a cada dia, sinto que a encontro dentro de mim. Não quero que se transforme em lembrança.

 

A TERNURA RESSURGE NUMA FOTO COLORIDA A MÃO.

E OS GALOS NÃO EXISTEM MAIS,

PORÉM CONTINUAM CANTANDO

 

Vendo esse retrato me sinto só. Aposto que se eu dissesse isto aos meus amigos aqui, morreriam de rir. E o que parece o chefe encontraria argumentos para me provar que solidão está fora de lugar. Não são tempos para ela. Diria: estamos todos sozinhos, ninguém reclama. Só o senhor.

Pode ser, mas não tenho nada a ver com os outros. A mi­nha solidão pesa. Pense em outras coisas, veja a situação à sua volta, veja que não é possível ter mais sentimentos subje­tivos. Imagino que me diria isso, parece um homem prático, concreto em suas propostas. Bem, pura cogitação.

Entendo porque ele deseja eliminar as lembranças. Alguma coisa ficou para trás, irrecuperável, e esta privação dói dentro dele. Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória. Uma cirurgia aparentemente simples, única solução. Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim. Agitado.

Adelaide está em alguma parte. Escondida no seu próprio medo. Cada dia que passava, ela se assustava mais. Uma vez chegou a me pedir que não fosse trabalhar, que não me sepa­rasse dela. Não sabia explicar por quê, assim que eu fechava a porta, de manhã, ela entrava em pânico.

Custava muito a se recompor. Fechava as portas e janelas, passava trancas. Não era apenas pelo calor. As pessoas em volta dela eram completamente estranhas, desconhecidas. "Vou ao supermercado e não vejo um só rosto familiar, onde estão os nossos vizinhos, amigos, parentes?"

Durante certo tempo comentamos a multidão que crescia, dia a dia, na cidade. Comentávamos, tranqüilamente, sem me­do, sem realizar o que estava se passando. Era uma constata­ção dos dias que corriam. Não me preocupava de onde tais pessoas vinham, ou porque estavam vindo. Ou quem eram.

As ruas iam se enchendo, cada vez mais intransitáveis. Vieram os primeiros grandes problemas de circulação. E de repente, os meus rostos, aqueles que eu via diariamente, quase que às mesmas horas, em situações idênticas, passaram a desa­parecer. Como se esvaíssem em plena neblina.

Névoa, penumbra, eram sensações que me tomavam, quan­do encarava a multidão, compacta, fechada, mais fechada. An­dávamos ombro a ombro, rosto a rosto, e ninguém se encarava. Olhavam para os lados ou para o chão. E então, apareceram os mutilados, os carecas. Os deficientes, os de olhos pendurados.

Poucos, a princípio. Depois engrossaram fileiras. A po­lícia apanhava, levava. No entanto pareciam se multiplicar. Quando criança, li uma história, havia uns bichinhos, uns tais shmoos, que adoravam os homens. Morriam ao ser acariciados, e se reproduziam de segundo em segundo.

Pois isto me lembrou os cegos, os carecas, os mutilados, os pele-brancas escamosos que tomaram a cidade. Os Civiltares fizeram o que puderam, até instalaram as barreiras eletrônicas que nos separam hoje dos Acampamentos Paupérrimos. Tais coisas eu não podia contar a Adelaide.

Ou aumentaria o seu pavor. Que era instintivo. Porque ela não via nada. Saía pouco. E o bairro ainda não tinha sido tomado. Tais climas se espalham, como fluidos, dominam a atmosfera. Tocam as pessoas, se instalam nelas, como a umida­de, o frio, o calor. Dominam, simplesmente.

Agora sei. Nossas noites longas e silenciosas eram de aturdimento. Ficávamos na cama, de mãos dadas, contemplando o teto, ouvindo os barulhos da rua. Houve época em que eles se arrastavam gemendo, gritando, insultando, pedindo. Vinham os Civiltares e batiam, prendiam, amarravam.

Não ousávamos nem mesmo olhar à janela. Não era pie­dade. Puro medo. Igual aos vizinhos do prédio, da quadra. No dia seguinte, encontrávamos as manchas de sangue e pus pelo chão. Ou aquele farelo pardo, parecendo farinha seca e que, sabíamos, era a pele escamosa dos inválidos.

Tínhamos nojo, muita gente vomitava em plena rua. Ade­laide confessava que não podia olhar para aquilo. Ninguém dizia nada. Nenhum mexerico, comentário. Somente o silêncio cúmplice, que nos enchia de culpa. Porque estávamos prote­gidos atrás de nossas portas e janelas. Nos imaginando seguros.

Não ter com quem dividir esta angústia me deixa mais sozinho. É uma atitude egoísta, eu sei. E não posso fazer nada, assim me sinto. Havia antigamente, e nem sei que tempo é esse antigamente, a possibilidade de divisão. Dor e alegria eram repartidas, porque se vivia em comunidade.

Estávamos juntos, podíamos contar uns com os outros, e isto tornava tudo mais fácil, suportável. Bastava abrir a porta, tocar campainhas, correr a um portão, tocar um telefone, as pessoas se juntavam, partilhavam. Adelaide percebeu a perda de tudo isto bem antes de mim.

O sentimento de solidão era menor, não estávamos encer­rados atrás de quatro paredes, portas trancadas, corredores vazios. Os ruídos exteriores eram normais, não traziam medo. As pessoas podiam se olhar, cara a cara, enfrentar-se sem re­ceios, a língua seca, o coração disparado.

Passam pelas minhas mãos as estatísticas de mortos. Todos os dias, com um prazer necrófilo, examino as causas. Claro, as estatísticas são apenas daqueles que contam, os que moram dentro dos Círculos Oficiais Permitidos. Além das barreiras, é o desconhecido, propositalmente ignorado.

Morre-se do coração. Infartos, derrames, todo tipo de com­plicações cardiológicas aparece nas causa mortis. Ou seriam mentiras? Dissimulações. E por que gente com vinte anos, ou menos ainda, tem o coração estourado? Não dá para acreditar. E de que adianta não acreditar?

Certa tarde, nem tínhamos nos casados, mas a casa estava comprada. Adelaide e eu saímos. Para olhar vitrines. Era um sábado, as lojas estavam fechadas, ninguém na rua. Caminhá­vamos, eu no canto, Adelaide não gostava de ir pelo lado direito, andava sempre junto à guia.

Encontramos o lambe-lambe com a cara tão desanimada que decidimos tirar uma foto. Abraçados, nos beijando e um close de Adelaide. O homem entusiasmado ajeitou várias vezes o rosto dela, empurrando o queixo para cima, numa dessas poses de porta de circo ou vitrine de fotógrafo artístico.

A foto ficou pronta na hora. O lambe-lambe pediu mais vinte minutos para colorir. Ele conseguiu o tom castanho dos cabelos e dos olhos, mas fez a boca vermelha demais. Ficou sendo a nossa foto predileta, talvez porque naquela tarde esti­véssemos muito bem um com o outro. Em ótimo astral.

Por muitos anos passamos naquele lugar e encontramos o lambe-lambe, ali, sempre com o mesmo ar desanimado. Era o seu jeito, talvez uma forma de comover fregueses, ou então uma atitude perante a vida. Nunca mais tiramos outra foto­grafia. Aquela nos satisfazia, era exata. Como gostaríamos de ser, sempre.

Vejo esta foto agora e percebo como era firme a mão do lambe-lambe e agudo o seu poder de observação. O olhar doce e sereno de Adelaide nunca mais foi retratado deste modo. Era ela, delicada e cordial, porém não passiva. Ao menos, não era passiva nos primeiros anos.

Será que eu a transformei de tal modo? Ou foram as situações à nossa volta? Adelaide via o mundo de um modo diferente do meu, gostava de tranqüilidade, da estabilidade, preocupava-se com a segurança. O mundo tinha valores sólidos que custavam a mudar. Podia-se aceitá-los, seguros de que durariam ao menos uma vida.

E quando mudavam, existia toda uma preparação, as pes­soas eram condicionadas, nada explodia subitamente, assus­tando. Valores simples, às vezes. Algo assim como as festas populares onde as pessoas costumavam usar alguma coisa feita de couro novo, ou de pano azul. Ou queimar palha benta para a chuva acabar.

Costumes simples, cerimônias, rituais, hábitos, coisas que permaneceram por séculos, passadas de avô, a pai, a filho, a neto, bisneto. Gestos familiares, espontâneos, falas, comidas. Permaneciam. Deixavam uma impressão de solidez, favoreciam a serenidade, eram certeza. Continuação.

Naquela mesma tarde compramos um porta-retrato, muito simples, em madeira clara, sem pintura, nem verniz. O espaço para a foto era maior, porém Adelaide colocou um passe-partout branco, agora amarelecido. Mas as tintas da fotografia continuam firmes, em seu tom pastel. Tranqüilo.

Falta a mão em meu ombro. Falta a ligeira reprimenda ao jantar, porque costumo tomar a sopa, com ruído. Em vez da Patética e dos discos clássicos tem o rádio de pilha com músicas sertanejas deste homem que invadiu a casa. Querem tirar tudo daqui, preciso salvar o retrato de Adelaide.

Fico impressionado comigo, quero o retrato, me revolto com a idéia de que vão tirá-lo. Adelaide continua desaparecida e me sento a remoer filosofias. Me irrito ante a perspectiva de perder a casa, os móveis, enquanto a perda maior, ela, me deixou insensível longo tempo.

Ou foi pouco tempo? Não tenho noção de espaço, horas, dias, semanas. Quanto se passou entre eu descobrir o furo e Adelaide me deixar? Não sei. Nem tem importância. Tadeu Pereira (preciso procurá-lo) tem razão. O que conta agora não são os dias e os meses, e sim situações e os acontecimentos.

Por duas vezes pensei nestes homens que invadiram a casa. Com meu consentimento, reconheço. Não movo palha para ex­pulsá-los, porque me fazem companhia. Aqui estamos, em co­munidade. Precisamos uns dos outros e isto me reconforta. Acaso ou não, meu sobrinho me deixou gente inteligente.

Podemos conversar, eles me trazem o mundo de fora. Um Brasil que existiu além das barreiras. Reconstituir os fatos. Adianta? E como disse o homem que costuma se sentar à ponta da mesa: "Lembranças, para quê?" Que transformação elas podem operar no mundo diante de nós? Nenhuma.

O sol está nascendo, passei a noite neste sofá, não sei se cochilei, se fiquei ruminando. Apanho o retrato de Adelaide, enfio na gaveta da cômoda, entre camisas passadas, cuecas e meias. A cidade ainda em silêncio, não se ouve nada vindo do corredor. Teriam desistido?

— Hoje à noite vem uma caminhonete. Você tem a tarde toda para arrumar as coisas, disse o homem que me parece ser o chefe.

— Assim, de repente? Pensei que tivesse uns dias.

— É uma operação de guerra, meu amigo. Temos de ga­nhar tempo.

— Guerra? Você exagera.

— Pode ser. De qualquer modo, a caminhonete só pode vir hoje. Por favor, arrume tudo que tem de arrumar.

— E como é que você sabe que a caminhonete vem? Nin­guém telefonou...

— Enquanto você dormia, saí. Passei a noite fora, em busca dos contatos. Agora, fique vigiando, vou dormir. Tem café?

A cozinha era uma bagunça, Adelaide morreria se estivesse aqui. Estou preocupado, pensando nesta mudança, nos móveis a selecionar. Gosto de tudo nesta casa, estou preso às mesas, cadeiras, piano, bibelôs, quadros, cômodas, armários, criados, mesas de centro, estantes, colunas para vasos.

Enfim, ligado a toda esta tranqueira que entulha cada cômodo. Os vasos vazios em cima das colunas. Adelaide jamais permitiu plantas de plásticos, tinha horror delas, por mais per­feitas que fossem. Chegaram a fabricá-las com cheiros naturais, o que as torna espantosamente medonhas.

Somente os muito ricos conseguem plantas naturais. São vendidas em galerias de arte, a preços insuportáveis. Uma planta vale mais do que as pinturas valiam, anos atrás. Nos leilões, trocam-se Picassos por samambaias, Portinaris por avencas. Duke Lee por gerânios. Oiticica por antúrios.

Existem colecionadores, marchands. Estufas com ar-condicionado para o cultivo. Os donos dispõem de quantias extras de água. São privilegiados. Porque se descobrem alguém desper­diçando água, adeus. Pode contar com o Isolamento, é fatal. Evidente que a lei não se aplica a uns poucos.

As colunas de vasos desta casa eram da bisavó de Adelaide. Esguias, de madeira escura, manchadas pela água. Quase em cada canto, existe uma. Eu disse um dia a ela, retire o vaso, coloque um bibelô, é triste um vaso sem nada, inútil. Ela se recusou, tinha suas idéias. As colunas ficaram.

Apesar de factício, o café cheira bem. Neste mundo não existe nada mais desenvolvido que a indústria de cheiros artifi­ciais. Pena que não consigam eliminar essa atmosfera fedida que domina a cidade, a maior parte do tempo. Todavia, o gosto do café é nada, só cheiro mesmo.

Tocam a campainha, o homem que costuma se sentar à Ponta da mesa vai atender. Demora-se. Vozes abafadas. Volta com um papel na mão, sorriso irônico. Ele não precisa dizer, sei que foram os vizinhos outra vez. O que estarão tentando? O homem me estende o papel.

— Uma intimação.

— Para quê?

— Para nos apresentarmos ao Distrito.

— Fazer?

— Um depoimento. Diz que precisamos levar nossas Car­teiras Profissionais, provar que estamos empregados.

— E se não provarmos?

— E eu sei? Só que não vamos lá. É só a gente sair, os vizinhos arrombam a porta e se instalam.

— E a intimação?

— Deve existir milhares. Todo mundo denunciando todo mundo. Eles expedem, mas não devem ter tempo de verificar. Temos que jogar com a sorte. O bom do caos é isso, a ausên­cia de controle, em todos os setores. O homem que está despa­chando intimações ganha para sentar-se à máquina e despachar.

— É, mas você se esquece que os denunciantes devem estar em cima, fiscalizando. Eles fiscalizam de graça, portanto o governo não precisa manter fiscais.

— Não adianta. Se você não é fiscal, não tem autoriza­ção para fiscalizar. Cada Departamento age dentro de sua com­petência.

— Mas você pode comprar os fiscais.

— Isso pode. Aliás, só funciona assim. Eles compram e a gente recompra. Quem pode mais, chora menos.

— Então, não vamos.

— Pode rasgar isso.

— Quanto papel jogado fora.

— É uma indústria organizadinha. Gente que vive de reciclar papel para o governo. Gente que imprime para o Esque­ma. Eles subornam os oficiais, para que estes intimem. E gas­tam papel. É todo um ciclo, por isso ninguém liga, as inti­mações são pró-forma.

— Tenho medo. Quando é coisa oficial, nunca se sabe.

— Você está sempre com medo. Se solta, velho. Descontraia.

— Não sei, as coisas corriam bem, normais. De repente, não tenho onde me segurar, fico nervoso, assustado.

— Pois é, entendo bem. É toda a sua classe. Quando as grandes calamidades passaram a acontecer, ninguém ficou ner­voso, ninguém moveu uma palha. Agora, estão assustados.

— Você vive pregando sermão. Como se fosse o bom. Não me enche, tá bem?

Aborrecido, dono da verdade, vomita regras, não suporto este sujeito por isto. E não porque se apossou de minha casa. Para cada situação tem um conceito, formula uma hipótese, sabe a resposta, emite uma sentença. E bobo sou eu que fico em dúvida, aceito o que ele me diz, me questiono.

— A que horas vem a tal camionete?

— No meio da noite. Não podemos chamar atenção. Co­meça logo essa arrumação, porque me parece que tem muita coisa a levar.

Por onde começar? Ando pela casa, toda revirada, os móveis encostados, a lataria empilhada. Sacos plásticos, caixas, caixotes. Eu sabia tudo desta casa, onde estava o alfinete, a toalha, o sabão, o palito, as meias, os lençóis. Sabia, peça por peça, o que estava dentro do baú de vime.

O baú. Tinha me esquecido dele, por completo. Quantos anos de nossas vida estão naquele baú, escondidos, guardados. Tenho paixão por guardar. Isso me aproximava da Adelaide, nos dávamos bem. O baú deve estar no quartinho, soterrado nas pilhas de calendários. E os homens presos lá?

Vou até o quartinho. Tento ouvir pelo respiradouro da porta. Nenhum som. Mortos? Um estava bem ferido, quando o jogaram aqui. Não há espaço, estes quartos de empregadas são do tamanho de celas solitárias nas prisões. Abafados, es­curos. E ninguém trouxe comida para eles.

A chave está meio caída na fechadura. Devem ter tentado retirá-la, querendo fugir. Dou um tempo, não quero abrir a porta. Tenho medo que estejam à espera disto. No que abro, passam sobre mim como um trator. Que nada, pobres diabos molambentos, não se agüentavam em pé.

Devem estar dormindo, ainda é cedo. Ou desmaiados. Recoloco a chave, com muita cautela, sem fazer barulho. Giro suavemente, torcendo para que a fechadura não faça ruído. Somente um clique seco que faz gelar a espinha. Dou mais um tempo, a mão presa ao trinco, eu imobilizado.

Um tempo que me pareceu suficientemente longo, arrasta­do. Um galo cantou. Por um momento o canto me distrai. Caio em mim. Não pode ser, não existem quintais aqui perto. Há quantos anos não ouço um galo. Pode ter sido um disco, são tantos os que vendem com sons, vozes, cantos.

Algum saudosista que deve ligar o aparelho de som na madrugada. Artificial ou não, me deixo penetrar pelo embalo daquele galo afinado, harmonioso. Se eu soltar minha cabeça, as recordações disparam, memória afetiva descontrolada. Ima­gens desencontradas vão desabar na minha frente.

E não quero. Preciso deixar este hábito, ele me emociona. Mais, me perturba, amoleço. Tem razão o homem que costuma se sentar à ponta da mesa. Preciso de toda a minha lucidez, já fui uma pessoa sóbria, seca, com total autodomínio. E olhe que eu tinha até uma razoável visão histórica.

Não falei? Penso, penso, as situações disparam. Me con­tenho. Meu objetivo agora é este quarto. Esse galo maldito podia bem parar de cantar, alguém desligar a vitrola. Movi­mento o trinco, agora a porta está aberta. Coragem, Souza. Vamos em frente. Como a cabeça da gente é maluca.

Abro esta porta como se fosse a coisa mais decisiva de minha vida. Nem quando enfrentei a banca de examinadores em minha tese. Ou quando me chamaram à diretoria para me comunicar a compulsória. Quando passei na Polícia Política para assinar minha ficha de rebelde. Quando o navio partiu.

Nem quando descobri que Adelaide tinha ido. Em ne­nhuma destas situações senti o medo que tenho neste momento. Como se a minha vida dependesse deste gesto. Vida no sentido físico. Abrir a porta pode significar morrer. Ora essa, somente eu mesmo, com esta farta imaginação.

Pronto, está aberta. Nada aconteceu. Os homens, amon­toados no chão. A parede cheia de sangue. Ué, tem mais um. Um velho de cabelos brancos, rosto emborcado no chão. Este velho não estava entre os que tentaram invadir. Viro o corpo, com certo nojo. O barbeiro está morto. Apunhalado.

 

SOUZA VAI A COZINHA E FICA HIPNOTIZADO

COM O FASCINANTE MISTÉRIO DE UM OVO A FERVER

 

Não deu para entender. De jeito nenhum. Fiquei paralisa­do, vendo a mancha marrom diante de meus olhos, e o formi­gamento correndo pelo corpo. Sem acreditar, sem poder acre­ditar no que estava vendo. Por que mataram o barbeiro? E a que horas foi? Como o trouxeram para cá?

Um homem inofensivo, vivia de suas barbas, não se metia na vida dos outros. Se sabia das coisas do prédio é porque os velhos contavam. Desciam à barbearia para um bate-papo, que gente velha é dada a tais costumes antigos. Não pode ter sido um dos velhos, não teriam forças.

Não tenho prática, mas posso ver que o barbeiro resistiu. A camisa toda rasgada no peito, os cortes do punhal ou da faca, cheios de sangue ressequido, coagulado. Se fosse tiro, seria provavelmente um buraco redondo, pequeno. Foi alguém forte, decidido e de sangue frio. Um profissional.

Nenhuma obra de velho, que os velhos são emocionais, talvez não resistissem a uma cena destas. Quem disse que não? Cada coisa que me vem a cabeça. Curioso, me preocupa muito mais o barbeiro estar em meu quartinho, que a sua morte, dessa forma. Me intriga descobri-lo aqui escondido.

Burro, claro que foi um dos três homens que invadiram. Como entrariam? Mas, a que horas fizeram isso? Quando cochilei? Mas tenho o sono leve, teria acordado ao mínimo ruído. E eu estava no sofá da sala, portanto quase que no meio do caminho deles. Podem também ter me dopado.

Não adianta nada ficar pensando, o melhor é perguntar. Chamar alguém, temos que tirar o cadáver daqui, está enrije­cido, vai feder daqui a pouco. Não quero empestear minha casa. E não me agrada a idéia de conviver com um defunto me rondando. Isso me encheu muito, agora. Já é demais.

A paralisação desaparece, a mancha marrom fica ainda por alguns instantes. Tenho certeza, a mancha não é mais estática, existe alguma coisa se movendo em seu interior. Cada dia toma mais forma, se eu tiver paciência, ela ainda se defi­nirá, vou poder descobrir o que é, por quê.

Quanta coisa a descobrir no mundo de hoje. Tentar en­tender a confusão à minha volta e ainda me debater com esses problemas interiores. Se eu tivesse coragem iria a um médico. Coragem e dinheiro, ninguém suporta o que eles cobram. Além disso, faria tantos exames, mas tantos.

Caiu na mão de um, não se escapa mais. Jamais será o primeiro a encontrar o que tenho. Vou passar de especialista em especialista, deixarei todo meu sangue, fezes e urina nos laboratórios, serei sugado, esmagado, utilizado. E depois, entra­rei no fabuloso ciclo de farmácias.

Por isso a gente evita ir aos médicos. Se não encontram um mal definido, mandam a gente aos Psis. Ah, e aí então, adeus mundo! Porque a função principal dos Psis é te conven­cer que você não tem capacidade de cuidar da própria vida, portanto, é louco. Sem contemplação, te atestam insanidade.

E loucos vão para o Isolamento dos Mentais. No momento em que o paciente entra, automaticamente os seus rendimentos são desviados para a tesouraria do Isolamento, a fim de pagar o tratamento. Não é à toa que existe nesta cidade uma intensa caça, comandada pelos Psis. Peritos, eles nos envolvem.

Se você localiza um deficiente mental e dá o sinal, os Psis mandam buscar. E há uma recompensa em cotas de água, ou outro privilégio qualquer. Entendem agora porque as pes­soas andam na rua com passos comedidos, evitam falar com os outros, não fazem gestos bruscos, nem gritam?

Qualquer movimento suspeito, atitude fora do normal, pode indicar a existência de uma perturbação. E lá vem os Psis pra cima, babando como cachorro louco. É também por esta razão que a maioria prefere não sair de casa. Nunca se sabe. De repente, um espirro com som diferente, e adeus.

A minha vontade agora era sair correndo, gritando, pulan­do. De horror deste homem esfaqueado, largado em minha casa. Ah, Adelaide, você fez bem em sumir, não agüentaria tais cenas. Nem foram feitas para suportar, mas temos que carregá-las, enfrentá-las, são o cotidiano, feijão com arroz.

Há quantos anos penso assim: este é o meu cotidiano, tenho que vivê-lo o melhor possível. Todo mundo pensa as­sim, e, portanto, as coisas andam como andam. Imaginei, muito tempo atrás, que se eu conseguisse estabelecer reformas a nível de grupo, seria possível uma revolução geral.

Cada um agindo a nível de grupo. Então, somaríamos tais reformas e teríamos uma modificação. Claro que haveria uma tendência geral, uma linha a seguir, que desse unidade a tais mudanças. Pensei, mas não fiz. Fiquei preocupado com a so­brevivência, manter minha família, a casa.

Lutei para pagar a casa, aceitei a troca pelo apartamento, briguei para arranjar emprego, aceitei o que me deram, apavo­rado com a perspectiva de não futuro. E foi exatamente ao não presente que cheguei. Olhando para trás, vejo que vivi dentro de um não passado. E a conclusão é simplesmente terrível.

Sim, porque um homem que atravessou um não passado e caiu dentro de um não presente, este homem não existe. Que idéia mais engraçada e louca. Não existo. Aqui estou, posso me tocar, me pegar. Penso, reflito, concluo. Me vejo inteiro, mas não me reflito, não há imagem.

Então, olha só que coisa mais maluca que me ocorre: porque consegui pensar, não existo, não sou. Não fui e não serei. E no entanto, aqui estou. Só quero ver a cara do sabichão que se senta sempre à ponta da mesa, quando eu expuser este raciocínio. O que ele vai dizer, comentar?

Na cozinha, deparo com os três tomando café com bola­chas secas. As bolachas trincadas pelos dentes fazem um ruído uniforme, regular. É a única coisa que se ouve, além de água fervendo no fogo. Há um ovo na panela e fico assombrado. Um ovo. Mais fascinante que a descoberta do cadáver.

Ter um ovo boiando na panela fervente. Tais homens devem ser poderosos. Ou meu sobrinho tem mais poder do que eu penso, e não estou tirando proveito disto. Um magnífico ovo, de casca branca, rolando dentro da panela. Não me con­tenho, o espetáculo me hipnotiza. Nada mais simples que um ovo.

Nada mais impossível que ele. E todavia, ali está, à minha frente, posso tocá-lo, sentir a sua quentura. É um grande con­forto, uma sensação de segurança. O ovo me dá certeza, algu­ma coisa permanece. O ovo é uma verdade. Sinto que me reconquisto. Ao mesmo tempo, o ovo é um mistério, me dá prazer.

— O que vocês fizeram? Tem um cadáver lá no quarti­nho – eu disse ao homem que costuma se sentar à ponta da mesa.

— Morreu um daqueles coitados?

— Não, um de vocês matou o barbeiro lá de baixo.

— Como diz uma coisa dessas?

— Só pode ter sido um de vocês. Quem mais ia entrar com um cadáver?

— Não sei.

— Deixa de ser cínico.

— Não sou, simplesmente não sei. Não sabia. O que você me conta é novidade. Vamos investigar.

— Investigação das mais fáceis.

— Assassinato é coisa séria. Pode ser que nenhum de nós tenha morto o homem. Quem garante que ele não caiu aí na porta e a gente recolheu? Aliás, foi isso o que aconteceu. Ele bateu à porta de madrugada, pedindo socorro. Estava todo ensangüentado. Recolhemos, ele morreu na cozinha, sem dizer o que tinha se passado.

— Boa, a tua imaginação. Por que não me acordaram?

— Para quê? Você ia salvar o homem? É médico?

— A casa é minha, será que vou ter que continuar repe­tindo? Um homem morreu na minha casa e fiquei sabendo por acaso. E se eu não fosse ao quartinho? O cadáver ia apodrecer, empesteava toda a casa.

— Deixa disso, ninguém morre por cheiro. Morresse, não tinha ninguém vivo na cidade, tinha?

— Esta conversa é uma loucura. Tem um homem morto no quartinho. É disso que precisamos cuidar.

— Vai ser cuidado. Tá tudo planejadinho. É só não se afobar.

— Planejado? Quer dizer que existe uma operação que não sei o que é e inclui até assassinatos. Bonito, muito bonito. Demais, não tenho controle nem na minha casa. Onde vamos chegar?

— Calma, esfria essa cabeça. Nós íamos te informar. Estávamos dando tempo ao tempo. Hoje à noite tudo estará resolvido.

— Como resolvido?

— Deixe por nossa conta.

— Cada vez que confio, me acontece uma.

O ovo borbulha, o homem que está sempre comendo doces consulta o relógio. Parece que o ovo é dele, ao menos observa ansiosamente o cozimento. Ele cruza com meu olhar deslum­brado e não tem nenhum gesto de solidariedade. Nem sorriso, ou oferecimento, nem vontade de partilhar.

Enfim, o ovo é dele, faça o que quiser. Já vi tanta coisa que não posso ter, não vou me amargurar por mais uma, tão pequena. Azar. É que não me sai da cabeça o corpo do bar­beiro. Minha obsessão tem um motivo e só agora realizo. A morte está muito perto, nós apenas tentamos sair dela.

Daí minha raiva contra o barbeiro e estes homens. Me devolvem uma idéia que recuso, combato, procuro esquecer. Acho que o processo da cabeça da gente num campo de bata­lha deve ser esse: abstrair a possibilidade da morte, ainda que todo mundo caia em volta de nós. É o único modo de sobre­viver.

Diante do cadáver, tenho que admitir: estou na lista. Posso ser o próximo. Quero me livrar do morto, bem depressa. Eliminar uma situação que me dá consciência. Voltar ao meu isolamento quente e confortável. O problema é que não dá para estar só, existem os invasores. Não vou me livrar deles.

São minha nova família, quer eu queira, quer não. Se mostram decididos a não ir embora e não tenho a quem recla­mar, solicitar, protestar. Este desamparo é que me deixa an­gustiado, sem movimentos. Dá para entender a paralisação que me toma. Vai ver, é por causa da impotência a que nos redu­ziram.

O pavor diante do homem morto, encerrado no quarti­nho de empregada, jogado no meio de feridos desmaiados, tudo vira minha cabeça. Gritar, me jogar contra a parede, dei­xar tudo. Que esses homens tomem conta, assumam a casa. Porcaria de casa que me alucina. Por que a defendo?

Sempre preso a alguma coisa, gente, objetos, pensamen­tos. Cheguei onde cheguei, junto com todo mundo. Vou atrás de Tadeu, ele tem a cabeça boa, me falou de um grupo, ou coisa semelhante. Quero ir, me afastar destes homens. Nem sei quem são, não me disseram. Também, mal perguntei.

— Tem um bom terraço lá em cima? – perguntou o ho­mem que costuma se sentar sempre à ponta da mesa.

— Tem.

— Grande?

— Ocupa toda a extensão do prédio.

— Vazio?

— Sei lá.

— Quer dar uma subida comigo?

— Fazer o que no terraço?

— Examinar. Saber se agüenta peso.

— Que peso?

— Vem, depois explico.

Não esperamos os elevadores, fomos subindo. Ele tem agilidade, vai de dois em dois degraus, pedi que me esperasse. Não estou a fim de arrebentar meu coração. As escadas são imundas, camadas pretas e oleosas empestam cada degrau. Escorregamos, a pasta se gruda aos sapatos.

Meu companheiro parece não sentir, não se incomoda com a sujeira, o cheiro. Subimos tateando, as luzes apagadas, nem trocam mais lâmpadas queimadas. As paredes ardem como brasa, o sol da manhã bate direto. Vai ser mais sufocante que ontem, pior que anteontem. Muito melhor que amanhã.

Suando, paramos no vigésimo nono, ouvindo barulhos familiares de pratos e panelas, o chiado do gás. Ao menos gás é coisa que não falta, produto reciclado do lixo. Sobra matéria-prima nesta cidade. Estrondos longínquos, como se fossem tiros de canhão, dinamite explodindo.

— Não entendo estas explosões – disse ele.

— Faz dias que vem acontecendo.

— E se fossem trovões?

— E se fossem?

Nova escalada, chegamos ao topo. A porta para o terraço está trancada, cadeado e fechadura enferrujados. Há anos as pessoas não devem subir aqui. Quando nos mudamos, Adelaide vinha, de vez em quando, e descobria moças tomando banho de sol. As moças mudaram ou envelheceram.

O homem que costuma se sentar à ponta da mesa tirou o revólver. Jamais imaginei que andasse armado. Dois tiros e o cadeado voou. Engraçado como estamos acostumados com toda sorte de barulhos. Os tiros soaram naturais, a porta esta­va emperrada, um pontapé. Ela se abriu como em filme.

Terraço imenso, me deu a impressão de um deserto, tal a quantidade de pó e areia, trazidas pelo vento (tempos atrás), ou lentamente, através dos meses, anos. Cadeiras quebradas, um tampo de mesa, garrafas empilhadas. Tudo de plástico. Amontoados indefinidos, cobertos de terra.

Nossos pés mergulham fundo, o pó bate na canela, deixa­mos pegadas profundas à medida que caminhamos. Por um instante, um desses raros momentos, se fez um silêncio com­pleto sobre a cidade. Nada mais que segundos. Que parecem, todavia, uma eternidade, de tal modo nos habituamos ao en­surdecedor.

Considero um mistério estas faixas de silêncio. Como se fossem combinadas, longamente ensaiadas, articuladas por um plano preciso, milimétrico. Cessa tudo. Vozes, passos, gritos de orgasmo, berros, batidas, explosões, tosses, pigarros, música, raspados, choques, apitos, murmúrios, gargalhadas.

Como se a própria vida humana tivesse deixado de existir. Cessasse. E flutuamos, soltos, do mesmo modo que os astro­nautas antigos, aqueles homens que na década de sessenta per­correram inutilmente o espaço. Semelhante aos dois que na lua pisaram pó depositado por milênios.

Aqui, neste terraço, sinto a lua, planeta a vogar e eu, isolado da terra, do mundo, pronto para recomeçar. À minha frente, o deserto, e daqui a pouco, do meio desta terra seca e calcinada que recobre o prédio, surgirão larvas, casulos, ame­bas, novas espécies, adaptadas ao sol, calor, secura.

Deliro, certamente. Minha vista embaça, o sol me bate na cabeça, a camisa está empapada. Corro para me abrigar, há um pequeno telheiro, com portas fechadas. O homem que parece o líder dos ocupantes percorre o terraço, batendo com o pé, examinando as bordas. O que pretende?

— Ei, vamos descer, está quente demais, grito.

— Já, já. Vi o que queria. Acho que vai dar certo.

— O quê?

— Agüenta. Vai ser uma operação muito rápida.

— Para que me trouxe aqui em cima?

— Para me acompanhar.

— Só?

— Para que mais? Você está ficando histérico dentro de casa. Precisa sair, tomar ar. Por que não vai para a cidade? Tem ficha de circulação, permissão especial para o ônibus.

— Fico mais abalado na cidade que em casa.

— A casa não é mais casa, é uma prisão.

— Gosto da minha casa, me sinto bem.

— Alguém esqueceu as roupas no varal.

Havia mesmo calças, camisas, uma camisola, um pijama, meias, penduradas em cordas de nylon. A roupa estava esfar­rapada, dura, pendia como estalactite. Alguém que deixou a secar e se foi rapidamente. Teria sido preso? Teria fugido correndo? Quem explica tais mistérios? Ou foi só esqueci­mento?

Toquei na camisola, nem dava para saber se era seda, nylon, algodão. Roupa fossilizada, imaginei. Há quantos anos estaria aqui, exposta ao tempo? O pano era quebradiço, se diluía como areia, manchava os dedos. O passado nos legou peixes, pássaros, animais fossilizados.

Árvores petrificadas, também. Através delas foi possível estudar a história, reconstituir as épocas. Nós estamos legando ao futuro bens de consumo fossilizados. Roupas, carros, apa­relhos eletrônicos, e milhares de outros produtos, úteis e inú­teis, que marcam esta civilização.

Nossa história se resume nesse varal. Toda a insanidade desta época vai poder ser estudada com o que restar nos ter­raços, terrenos, caves dos metrôs, porões, apartamentos aban­donados, supermercados em ruínas, templos vazios. Ah, se as lavadeiras antigas me vissem delirando.

Iam deixar dezenas de peças espalhadas pelos varais, a apodrecer, dizendo: vamos ajudar os moços, eles precisam da gente, senão a história se acaba. O que seria da história sem as lavadeiras do passado? Olha, passado mesmo, que lavadeira de tanque se acabou com minha avó.

— Gosto deste terraço. Ao menos é um lugar vazio, dos poucos, ainda.

Meu companheiro contempla com olhar vago este deserto particular. À nossa volta, observando os edifícios mais baixos, descortinamos outros desertos suspensos, semelhantes. Houve época em que os Civiltares lacraram o alto de todos os pré­dios, por causa dos franco-atiradores.

Os topos ainda são áreas de segurança. Não é convenien­te que alguém nos veja por aqui. Onde quer que se olhe, o que se vê são superfícies empoeiradas, vazias. Se cair chuva, um dia, vai dar um lameiro pesado, pode ser que as lajes não suportem o peso. Imaginaram? Pantanais sobre os prédios.

— Tudo tão igual. Por isso é que minha cabeça funde.

— Igual ao quê?

— A terra de onde vim, as regiões por onde passei.

— Eram assim?

— Pior. Muito pior. Tenho tentado esquecer. Evito o assunto. Mas está na minha cabeça, não é coisa que se esqueça. Entende agora porque você não sabe muito de mim, de onde vim? Tentei apagar a memória, imbecil que sou. Apagar, quan­do devemos fazer o contrário, lembrar, conservar vivo o horror, para lutar contra ele.

Aí vem o falador, teorizando. Sei de tudo isso, ele não precisa me dar aulas. Tenho um pouco de ojeriza por este homem, gostaria de descobrir por quê. O que existe nele que provoca alergia, comichão. Os outros dois quase não existem, circulam como se fossem invisíveis.

Este, não. Pode ser a segurança com que enfrenta situa­ções. Talvez ou veja nele o idealizador da invasão em minha casa. O homem que ocupa os meus espaços privados e procura me provar que há um novo conceito de privacidade. Novo conceito? Que nada, é justificativa. Ele é um enrolador.

Desculpa para explicar a invasão de minha casa, de minha cabeça. Devemos repartir; mas por que apenas algumas classes? Por que não invadem as cúpulas geodésicas, não tomam os Círculos dos Ministros Embriagados, não conquistam as Áreas dos Milionários Adeptos da Energia Nuclear?

— Está pior. Pior como?

— Lá em cima, no Nordeste, nas zonas não tomadas pelas Reservas das Multinter, que era onde podíamos circular, tudo que se via era a terra calcinada, nenhuma vegetação, o chão juncado de esqueletos de animais, empoeirados, se desfazendo ao sol. Também nós quase nos desfazíamos, era só ficar algum tempo ao sol.

— De rachar a cuca, como se dizia antigamente?

— Rachava a cuca, moía os ossos, dissolvia a pele.

— Também não é tanto assim.

— Não? Pois te conto.

 

RECESSÃO NO NORDESTE, QUEM TRABALHA

ESTÁ AMEAÇADO DE MORRER À NOITE.

E OS BOLSÕES DE CALOR AUMENTAM,

SÓ O GUARDA-CHUVA DE SEDA PRETA RESISTE

 

(Narração feita pelo homem que costuma se sentar sempre à ponta da mesa. Souza ouviu, lembrando-se, como professor de história, da primeira cruzada arrasando Jerusalém, em 1099, tal como foi relatada por D'Agiles em HISTÓRIA FRANCO-RUM QUI CEPERUNT HIERUSALEM: "Entre os sarracenos, uns tinham a cabeça cortada, o que era para eles a sorte mais doce; outros atravessados por flechas se viam obrigados a saltar do alto das torres; outros ainda, após longo sofrimento, eram entregues às chamas e por elas consumidos. Viam-se nas ruas e nas praças da cidade pedaços de cabeças, de mãos, de pés. Infantes e cavaleiros abriam caminho através de cadá­veres. Mas tudo isso ainda era pouco. Vamos até o Templo de Salomão, onde os sarracenos tinham o costume de celebrar as solenidades de seu culto! Que aconteceu nesses lugares? Se dissermos a verdade, ultrapassaremos os limites do ina­creditável".)

O homem que se senta sempre à ponta da mesa contou: "Trabalhei numa tecelagem, até que ela se fechou. Quando tudo se acabou no Nordeste, vim embora. Mais ou menos no Fim da Grande Época dos DIs. Os Dêís, como o povo chamava lá em cima, eram os Decididamente Incompententes. Você deve se lembrar, eles dominaram o país por seis anos. Três governos, cada um de dois anos. Os golpes de estado funcionaram como relógio. A cada setecentos e trinta dias, um novo Dêí substi­tuía o anterior, demonstrando incompetência ainda maior que seu antecessor. Os Dêís apenas não eram incompetentes para encherem os próprios bolsos. Se quisessem saberiam governar. No entanto, o Esquema estava manipulado de modo que os pos­tos se mantivessem entre eles inacessíveis a qualquer cidadão. Ora, estou chovendo no molhado, um professor de história sabe disto melhor do que eu. Afinal, sou apenas um operário esclare­cido. Ao menos, me considero um produto daqueles homens óti­mos e lúcidos, exterminados no Período dos Mentirosos Crôni­cos. Meu pai desapareceu naquele tempo, engolido. Bem que os Operários Esclarecidos tentaram se movimentar, se arregimen­tar, abrir as cabeças dos trabalhadores. Os Mentirosos Crônicos castraram as lideranças, sufocaram os rebeldes, amaciaram os dúbios, compraram os fracos, enganaram todo mundo. Novi­dade nisso? Nenhuma. Posso dizer que sou um Operário Es­clarecido, porque não comecei como trabalhador comum. Fiz universidade, peguei meu diploma de sociologia e caí no vazio. Procurando emprego, procurando. Cata daqui, pega de lá, acabei na organização do pessoal numa tecelagem média do Alto São Francisco. O rio tinha entrado em agonia, após anos de devastação em suas margens. Eliminada a cobertura vegetal, vieram as erosões, o escoamento superficial aumentou, assim como o assoreamento dos rios, barragens e cursos de água. Quando o São Francisco se reduziu a um filete tentando sobre­viver na areia quente, o povo ficou maluco. Com razão. Açu­des secos, barragens vazias, o gado morto na caatinga, o sol esquentando, crianças morrendo. Elas não resistiam. A Grande Época dos Dêís coincidiu com o fim das crianças no Nordeste. Elas foram exterminadas antes que o Esquema iniciasse o pro­cesso geral da esterilização do povo, por causa dos acidentes com usinas nucleares. Havia dias em que a fábrica era um forno medonho, pessoas desmaiando, sufocadas, suando em bicas, se desidratando. Eu indagava onde íamos parar. Não havia possibilidade de se deter nada, era um processo bola de neve, desencadeado muitos e muitos anos atrás. Modificar o clima? De que jeito? Empurrar o sol para cima? Era o que dava vontade, para se livrar da quentura que arrancava a pele, ardia a cabeça, torrava os pés. A terra era areia, ou pedras. Me batia o desespero, por não poder mover uma palha. Colocar de novo as montanhas no lugar, plantar a mata, puxar água do fundo da terra e transformá-la em rio? Tá brincando? Estou, é o jeito. Chegar ao governo e denunciar. Denunciar o quê, estava tudo denunciado. E acaso não foram as denúncias que conduziram aos Tempos Lamentáveis das Imensas Escamotea­ções, quando o Esquema mentia e enganava, fazia, desfazia e negava? Há anos os governantes se isolaram, inacessíveis, ina­bordáveis, imunes a qualquer contacto com a população. Adi­antava falar com as pessoas, pobres coitadas, preocupadas, e como, com o trabalho, a comida, o dia a dia? Elas me pergun­tavam: "Está bem, o que a gente faz? Pára de trabalhar? Re­clama com o patrão e é despedido? Organiza um movimento, assina um manifesto?" Tinham razão, quantos movimentos foram planejados e boicotados? E os milhares de manifestos que estão arquivados, se é que estão, no túmulo da memória nacional? O problema era não provocar demissão. A perda do emprego significava morte para a família inteira. Estar na fábrica representava uma cota de água, mínima, um salário vergonhoso, a garantia da maloca em que se morava. A inse­gurança era imensa, quem estava desempregado fazia tudo para arranjar um posto. Tudo. O que amanhecia de gente morta nos terrenos, nos subúrbios das cidades, era inacreditável. Cria­ram-se patrulhas destinadas a recolher cada manhã os corpos. Percorriam os arrabaldes e traziam os cadáveres dos assassi­nados com paus, pedras, peixeiras, tiros, socos, pontapés. Ha­via fossos em volta das fábricas, em torno de qualquer lugar onde houvesse gente trabalhando. Valas, como na idade média, cercando castelos. Os empregados eram escoltados para suas casas e até patrulhas se viam atacadas, porque vigia e segurança também eram profissões. Percorri a caatinga, manhã­zinha, e sofria enjôo, ânsia de vômito, a cabeça latejava. Me lembro de um velho filme, célebre no passado, que a televisão reprisa, você deve ter visto. Chama-se E o Vento Levou e tem uma hora que a câmera sobe, numa estação ferroviária e mos­tra o chão coalhado de mortos. Cena fantástica, clássica no cinema. Jamais se tinha visto tanto morto junto. Coisa de fil­me, se dizia. Hoje sei, não é. (Ouço, pensou Souza, com o mesmo horror com que li a história da primeira cruzada sobre Jerusalém. Cada palavra de D'Agiles, o historiador, me ficou gravada. De repente, estava tudo reproduzido, não no ano 1099, mas na entrada do século vinte e um, No templo e no pórtico de Salomão cavalga-se com sangue até o joelho do cava­leiro e até nas rédeas do cavalo.) Depois de algum feriado, a violência era maior, não sei se pela bebida, se por causa do descuido. Ninguém suportava ficar em casa o tempo inteiro, sem sair nunca. Viver prisioneiro. Morar entre quatro paredes, ir para o emprego em furgões blindados, encerrar-se na fábrica por doze horas, temer a chacina diária. Conviver a cada instan­te com a possibilidade de morrer, preparar-se. Fomos nos habi­tuando, de tal modo que passamos a pactuar com a tragédia, aceitando-a como cotidiano. Me espanta essa capacidade de acomodação da mentalidade, sua adaptação ao horror. Acredito que a gente possua um componente de perversidade que nos leva a encarar como normal esse pavor, a desejá-lo, às vezes, desde que não nos toque. Uma porcentagem de perversidade que tem sido alimentada pelo Esquema, essa coisa tão abstrata, que consegue se manter em meio à anarquia, ao caos estabe­lecido como ordem, à anomalia mascarada em progresso. Não me interrompa, me deixe falar, botar para fora, vomitar o que vi e engoli e aceitei. Me sentia como os judeus caminhando ordenadamente para os fornos crematórios de Auschwitz, Dachau. Conhecedores e impotentes, esperançosos, até a hora do forno, na expectativa de que o fogo se apagasse, o gás perdesse o efeito mortífero, os aliados chegassem para salvar. Aí é que me pergunto, podemos lutar pela salvação, isolados, individua­lizados, ou temos que contar com auxílios exteriores, amparo? Fizeram tudo para massificar, ao mesmo tempo que isolaram cada pessoa em si, tornando-a ferozmente individualista, fecha­da para o outro, sem apoio e sem querer apoiar, medrosa da própria personalidade. Você me acha louco, sinto no jeito com que me olha. Pode ser que seja. Prefiro estar. Minha vontade é que tudo isto seja mentira, delírio. A viagem pelas estradas, à noite, derreteu meu cérebro, fui deixando os miolos em fiapos pelo caminho. Tudo que tenho dentro é uma nuvenzinha leve, sombra do que foi uma cabeça que raciocinava, me fazia agir. Acho que procuro desculpas, para não carregar um grande peso. Eu olhava aquele Nordeste devastado, campo de batalha medieval. Horrorizado a cada novo dia, porque o sol se levantava sobre o sangue seco das pessoas mortas no escuro. Porque eram pessoas que tinham emprego. E cada morte representava uma vaga, disputada violentamente nos portões das fábricas, numa guerra surda, não disfarçada, consentida e incentivada pelas empresas, ignorada pelo Esquema. Na minha cabeça ressoavam as palavras de Isaías: Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos, e fecha-lhes os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos, e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo. Então eu disse: Até quando Senhor? Ele respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, as casas fiquem sem moradores e a terra seja de todo assolada e o Senhor afaste dela os homens e no meio da terra seja grande o desamparo. Estava previsto. Oh! Povo meu! Os que te guiam te enganam, e destroem o caminho por onde deves seguir. Tudo ali, dois mil anos, escrito e repetido, finalmente realizado. Tire daí o que se refere ao senhor e a ficção cien­tífica se concretizou. Engraçado é que fugimos de lá, viemos para cá, e encontramos a mesma coisa. Empregados contra os desempregados, na guerra mais violenta desde a do Paraguai. E sobre tudo o sol. A impressão é que ele desce milímetro a milímetro. Não sei se é possível, não sei nada de ciência. Possível ou não, a gente olhava para cima e a cabeça estoura­va, os olhos lacrimejavam. Começou a ficar impossível sair de casa. As pessoas passaram a usar chapéus, e não adiantava. Veio o tempo de guarda-chuvas. Alguém descobriu que o sol não atravessava guarda-chuvas de seda preta. Só os de seda. Outro pano não resistia. Dois, três dias de uso, o pano se esfarelava. Menos a sede preta. Ela resistia, protegia, formava uma sombra agradável. Não me pergunte por quê. Não me pergunte nada. Ninguém me respondeu, ninguém responde coi­sa alguma neste país. Havia outra situação estranha, curiosa. As regiões de quentura. Verdadeiros bolsões em que era im­possível ficar, passar, atravessar. Você ia andando, mergulhava naquele calor insuportável. Corria, tentando escapar, porque às vezes o bolsão era pequeno, a gente se livrava logo. No fundo, era um divertimento. Dramático, mas engraçado, porque subitamente alguém a sua frente punha-se a pererecar, gritar, voltava correndo. Voltavam todos, sabia-se que era um bolsão. Mais tarde, quando fizemos a grande travessia, vimos que os bolsões existiam por toda a parte. Eram imensos, em certas regiões, estendiam-se por quilômetros. Até que chegou o Tem­po Intolerável. Não dava mais para se expor ao sol. Você saía à rua, em alguns segundos tinha o rosto depilado, a pele descascava, a queimadura retorcia. A luz lambia como raio laser. Como o tempo, o perigo nos bolsões de soalheira, como o povo chamava, aumentou terrivelmente. Quem caía dentro, não se salvava. O sol atravessava como verruma, matava. Ao menos, era a imagem que a gente tinha, porque a pessoa dava um berro enorme, apertava a cabeça com as duas mãos, o olho saltava, a boca se abria em busca de ar. Num segundo, o infe­liz caía, duro, sem contorcer. A gente via, a alguns passos, a pessoa murchando, secando, desidratada, a pele se desgrudava como folha seca, mais um pouco e os ossos dissolviam. Não acredita, não é? Nunca ouviu falar disso. Ninguém falou, a imprensa jamais noticiou. Os cientistas foram estudar e fica­ram perplexos. Apenas conseguiram determinar que os bolsões aumentavam gradualmente, em porcentagem semanal. Fizeram mapas, a população recebeu gráficos, mudaram o trânsito das ruas, as pessoas se deslocaram, alteraram estradas. As crianças brincavam, empurrando cachorros e gatos para dentro dos bolsões. Até que os animais se transformaram em comida e não se deixava mais desperdiçá-los. Os Civiltares utilizavam os bolsões como castigo. Jogavam presos, desafetos, inimigos, sub­versivos, na Soalheira e esperavam. Desaparecido o corpo, sem testemunhas, não há crime, diz a lei. Para conseguir con­fissões ameaçavam as pessoas, no limite dos bolsões: Fala, ou te jogo aí. Falavam. Claro, os bolsões à noite desapareciam. Deve ser aquele fenômeno comum ao deserto. Quente de dia, frio de noite. As famílias andavam pelas ruas, cercanias da cidade, em busca das cinzas de parentes que imaginavam con­sumidos. Não havia como reconhecer quem. Guiavam-se por conhecimentos relativos, baseando-se em dados frágeis: a mãe que tinha mandado o filho à venda, recomendando cuidado com o bolsão da praça. O pai que tinha ido ver um leilão de carne-seca nos arrabaldes. A filha que tinha ido à loja. A tia que tentava visitar uma avó. Namorada querendo se encontrar com namorado. Procura inútil, todo mundo sabia. Ninguém se­guro que estava levando para casa as cinzas certas. Podia ser um bezerro morto, se bem que bezerro fosse coisa rara, preciosa. Na verdade, ninguém suportava ficar dentro de casa. Saíam à noite e se encontravam. Os amigos ajudavam na pro­cura. Ninguém saía só, formavam-se grandes grupos, com me­do de ataques dos Caçadores Implacáveis de Empregados. Pas­seios temerosos, as pessoas sobressaltadas. Se alguém avistava um grupo, desviava-se logo. E o que se via, se pudesse ser visto do alto, era quase um balé, gente indo, vindo, desviando, vol­tando, encontrando outro grupo, se afastando, rodeando, an­dando de costas, girando. Maluquice, seu! Alguém suporta tensão destas? Até que ninguém mais saiu. De dia, ou de noite. Nem aqueles que tinham guarda-chuvas de seda preta. Não confiavam na invulnerabilidade. Também, não adiantava sair. Estava tudo fechado. O padeiro não fazia pão, não existia farinha, nem mesmo a factícia. Os bares esgotaram estoques. A farmácia não tinha nem comprimido. Os fornecedores não chegavam, previa-se que eram apanhados pelos bolsões, em algum ponto da estrada. Os açudes esvaziaram. Quem traba­lhava podia se abastecer na subsistência das fábricas, no en­tanto mesmo estas, apesar de muito estoque, começaram a esva­ziar. As pessoas se divertiam um pouco jogando pelas janelas os restos de comida, se é que sobrava, o lixo das casas, os papéis, bobaginhas. Às vezes, o lixo se incendiava em pleno ar, antes de cair. E então, não houve mais possibilidade de viver. O povo resolveu fugir. A vida intolerável. Sabe o que a gente fazia quando estava apertado, barriga solta? Esperava a noite, ia lá fora. No dia seguinte, o sol incinerava. As noites eram escuras, a energia tinha se esgotado. Verdade, chegaram ao Nordeste alguns geradores de energia solar. Sabe com quem ficaram, não sabe? Com o que sobrou dos coronéis, das famílias que mandavam, daqueles ligados às Multinter. Puxa, você deve estar pensando, não havia mais nada de bom? Tinha, a vonta­de daquele povo de viver, não se entregar. Por isso, começou a sair. Uma decisão automática, inconsciente, maciça. Os gru­pos começaram a partir à noite, protegidos pelos Caça Empre­gados. Para eles, quanto mais gente se fosse, melhor. Instiga­vam, açulavam.

— O quê? Açulavam?

— É, açulavam.

— Açulavam mesmo?

— Está estranhando o quê?

— Faz, no mínimo, sessenta anos que ninguém usa esta palavra, achei engraçado.

— Ah, vê se me leva a sério.

— Levo até demais. Mas que estranhei, estranhei. E daí?

— Os Caça Empregados praticamente começaram a obri­gar as pessoas a migrar. As pessoas esperavam a noite entrar e o calor diminuir. Só alta madrugada refrescava mesmo e aí tudo gelava. Era um período relativamente curto, de três, qua­tro horas. Cada um levava sua mala, pacote, saco, gaiola. Havia caixotes que precisavam de dois, três para sustentar. Puxavam carrinhos com roupas, quadros, estatuetas, bugigan­gas. Incrível como as pessoas não se desprendem das coisas, se apegam a objetos, dependem deles, sentem-se inseguras, apa­voradas. A primeira leva foi trágica. Quando a manhã chegou, estava em plena estrada, a alguns quilômetros da vila. Veio o sol e todos estavam dentro de um bolsão. Perceberam que iam morrer. Olharam em volta, procurando abrigo. A estrada cortava a caatinga, a terra gretada. O asfalto derretido, em bolotas se esparramava para os lados do que tinha sido a pista. Alguns voltaram correndo. Um ou dois chegaram e mere­ciam medalhas de ouro olímpicas pela velocidade. Contaram. Os retirantes viam, aqui e ali uma casa, um abrigo abando­nado. Se amontoavam, se acotovelavam, pulavam uns sobre os outros, disputando a réstia de sombra. Chegavam a derru­bar a casa de pau-a-pique, tanta gente entrava. Outros cor­riam, corriam, na esperança de sair do bolsão. Outros ainda colocavam sobre a cabeça o que podiam. Roupa, telha, chapéu, tábua, quadro, guarda-chuva. O solo fervia, o chão queimava a sola dos pés. E o que se via era a dança mais incrível, todos pulando, os pés mal tocando o solo e se erguendo, como que impulsionados por molas. Pulavam e gritavam de dor. À me­dida que o dia crescia, a dança da morte ao sol aumentava em intensidade. Parecia um ataque histérico, um transe cole­tivo, o santo baixado em todo mundo. Logo, ia diminuindo. O sol comia as roupas, os quadros, guarda-chuvas que não eram de seda preta. Lambia os cabelos, a pele, as carnes, os ossos. Pelas nove da manhã sobravam montes de cinzas espa­lhados pela terra, misturados ao asfalto derretido. Quem tinha sobrevivido nos poucos abrigos, esperava a noite para recome­çar a marcha. Tinham visto as pessoas se consumirem. Sem orientação, tomavam as estradas que iam para o sul. Os gráfi­cos dos Bolsões não adiantavam. Os indicados não se encon­travam nos lugares, talvez fossem realmente móveis. Em com­pensação, surgiam outros. As pessoas sabiam que a caminhada seria cheia de voltas, teriam que contornar as reservas das multinter, territórios proibidos a brasileiros, você conhece bem o assunto. A esperança era que no Centro, no Leste e no Sul existissem cidades que o sol não tivesse atingido.

— Bom, mas os Bolsões também atingiam as Reservas, não atingiam? As empresas afinal não são tão poderosas assim que conseguissem formar uma barreira contra o clima.

— Não tenho a mínima idéia. Nunca entrei. Os que mora­vam lá e eram brasileiros foram obrigados a sair e não se sabe o que acontece dentro. O mistério é esse.

— Alguém sabe!

— Pois é, me mostre esse alguém! Continuo? Está bem. Aos poucos, a multidão engrossava com as correntes vindas de outras cidades. Se encontravam nos cruzamentos, no meio dos campos. Atravessavam aldeias, a população se juntava. Os doentes permaneciam, ficavam acenando das janelas, das portas. Vi muitas famílias levando os velhos para o meio da rua, a pedido deles mesmos. Queriam esperar o dia nascer. Não podiam caminhar, não queriam ficar sozinhos, decidiam pelo meio da rua. Colocavam os velhos em grupos, e eles, tranqüilos, se punham a conversar, as mulheres de terço na mão, esperando o sol. Alguns, não! Gritavam, esperneavam, tentavam acompanhar o estirão. Muitos acompanharam até o fim, até chegar a esta cidade. Todo mundo dizia: "Vamos para a cidade estrela, lá dá para viver, comer, trabalhar."

— Eu me lembro, meses atrás, quando era permitido, a televisão noticiou esta marcha. Filmaram os retirantes de heli­cóptero e era de impressionar a massa que se deslocava. Pare­cia visita do papa. Lembra-se das fotos da década de oitenta, quando o papa visitou o país? Aquela multidão que não acaba­va mais, acalmando. Meu deus, como o povo andava necessi­tado de líderes naquele tempo. Era um período de transição, não entendiam que a era dos líderes estava acabada, não surgi­ria mais nenhum. Sentiam-se órfãos, desamparados, sem guia, condutor.

— Você está desviando a conversa.

— Não, foi só para me lembrar daquele episódio. O ajun­tamento de povo era muito semelhante, a esperança a mesma. Os historiadores deram um nome a essa marcha. A Estirada Ciclópica. Só mesmo sociólogos sem o que fazer, intoxicados de ociosidade podiam inventar expressão tão boba. Aliás, há dezenas de anos, as situações vêm sendo batizadas, rotuladas, catalogadas. Não nos referimos mais aos fatos pelos anos, mas pelo conjunto de situações que se abrigaram sob uma deno­minação.

— Denominação, ou não, a marcha, o estirão, foi uma loucura, quem chegou é porque era muito forte.

— Estou cansado desta conversa. Zonzo de calor. Vamos descer.

— Não quer ouvir o resto?

— Não. Não acredito muito.

— Tenho cara de mentiroso?

— Qual é a cara de um mentiroso?

— É melhor não saber as coisas, não é?

— De que adianta saber? Quero descer, estou suando, me sinto mole.

— Não te entendo, juro que não. Falta tanto para contar. Não disse nada ainda sobre as pessoas com os globos dos olhos suspensos.

— Como os Jardins Suspensos da Babilônia? Ou os De­sertos Suspensos de São Paulo?

— Vamos descer? Temos um monte de coisa a provi­denciar. Vê se providencia essa arrumação.

Passamos pelos geradores solares. Cada prédio tem o seu, fornece energia para elevadores, lâmpadas de corredores. Par­te dessa energia, unida àquela que vem do gás do lixo, alimen­ta os apartamentos. As antenas de televisão e os espelhos dos geradores são os símbolos desta civilização.

— A neblina azul permanece. O dia vai ser de rachar.

— Por que não estendem as cúpulas geodésicas climati­zadas sobre toda a cidade? Ao menos seria uma forma de manter parte da população em boas condições.

— Para mim que você pergunta?

— Tem uma coisa. Essa neblina é constante. Ela nos acompanhou o todo inteiro do estirão. Às vezes mais baixa, outras mais alta. Controlávamos a temperatura do dia, nos orientando pela altura da neblina. Nunca consegui saber o que significava. Cientificamente, quero dizer. Qual a explicação, a relação. Como ela se forma. Ainda descubro, pode deixar.

— O que viemos fazer aqui? Passear no telhado?

— Vim fazer uma inspeção, pode ser que a gente precise usar este terraço, à noite.

— Para uma festa de São João, com fogueira e tudo?

— Se esquece que tem um homem morto na sua casa? Precisamos nos desfazer do corpo de algum modo, e com cuidado.

— Quem matou?

— Acredite, não foi nenhum de nós. Pode ter certeza. Não sou de esconder coisas. Imagina se numa situação destas faz diferença.

— E então?

— Agora que me desabafei, me sinto de bom humor. Tem coisas que não podemos guardar. Envenenam a gente. Aquelas lembranças me provocavam azia. Evitava pensar nelas. Sabe o que é? Estava tudo comprimido na cabeça, eu não contava. E era necessário colocar para fora, compartilhar, dividir a dor como dizia uma canção de minha adolescência. Fui cantor, pode imaginar?

— Cantor mesmo? Profissional?

— Aos sábados, alegrava o auditório na rádio da minha cidade. Assim de meninas me procurando. Venci vários con­cursos de calouros. Nunca chegou a me ver na televisão? Can­tei no último concurso de Miss Bahia.

— Programas de música não me interessavam. Eu via futebol, noticiário. Minha mulher não perdia novelas. Debates também me provocavam.

— Não, debates, não!

— Eu me divertia. Apelidei aquele tempo de A Estéril Época dos Inúteis Debates. Falavam, falavam, e nada aconte­cia. O Esquema consentia, havia toda uma fachada, as pessoas se esgoelavam, denunciavam, gritavam. E nada, tudo perma­necia estático. Teve um autor que li muito em minha juven­tude, Cassou, um francês. E ele dizia que todos os combates são causas perdidas. Mas que em cada combate, o que subsis­te é o combate em si, que permanece propriedade do comba­tente. Entendeu?

— Não muito. Enquanto você pensava nessas coisas, o país ia andando, de lado e para trás.

Este sujeito não gosta de mim. Encontra sempre maneira de me colocar na parede, mostrar que estou errado. E ele, um santo, perfeito. Descemos as escadas infectas. Sinto o suor, a roupa melada. Já que as fichas de água sobram, vou mergu­lhar num chuveiro.

Tenho fome e uma dor aguda na nuca. Penso no dia que terei pela frente. Absolutamente nada a fazer. Me esqueço, é preciso arrumar os móveis, ver o que pode ir embora. Me assusto, estou indiferente. São os meus móveis, um pedaço de minha vida que deve se acabar esta noite.

Inútil. Não me comovo. Levar os móveis, os trecos, não me afeta. Queria que me tocasse, me emocionasse. Ainda bem, melhor assim. Nem vou escolher nada, eles levem o que quise­rem. Talvez eu retire objetos que me lembrem de Adelaide. Onde estará?

Não tenho idéia por onde começar a procurá-la. Será que venho contemporizando de propósito? Me sinto mal, não, não sou assim. Ou não quero enfrentar a verdade. Que é simples.

Não procurei minha mulher. Deixei que se fosse, dei um tem­po para que voltasse.

Para ela, era a sério. Se foi. Não vai voltar. Não tentou se comunicar comigo. E quero saber onde está. Querer é uma coisa, procurar é outra. Estamos quase chegando. Com um calor desses nem os santos ajudam na descida. Estamos os dois pondo os bofes de fora.

— Como vai se desfazer do corpo?

— Vamos esperar a noite chegar, tudo se acalmar e fazer a operação.

— Pelo telhado?

— Se a gente sentir que não dá para tirar normalmente, vamos ter de pedir ajuda. Teu sobrinho está avisado.

— Ele sabe do morto, já?

— Muito mais do que você imagina.

— O que quer dizer com isso?

 

O SEGREDO DE ADELAIDE ESTÁ ENCERRADO

NOS PACOTES GUARDADOS NO BAÚ

ESQUECIDO SOBRE O GUARDA-ROUPA

 

Como posso suportar a bagunça em que a casa se encon­tra? Sempre fui ordeiro, e aí me dava bem com Adelaide. Cada coisa em seu lugar, nada esparramado. Quando meu sobrinho vinha passar o fim de semana em casa, ainda criança, eu fica­va quase maluco, correndo atrás dele.

Picava papel, eu recolhia. Largava pedaços de chiclete no tapete, desmontava brinquedos, esparramava os lençóis, deixa­va lápis pelo chão. Eu não suportava a desarrumação, ainda que Adelaide me dissesse: deixa o menino em paz, quando ele se for, a gente arruma tudo.

Percebo que quase não brinquei com ele, na ânsia de deixar a casa em ordem. E agora estes homens instalaram o caos, montaram um quartel-general ao jeito e gosto deles, indi­ferente ao que eu goste ou não. Sinto que não conto para eles, não me consideram. Apenas estou aí.

Tenho fome, a cozinha me dá nojo, a mesa cheia de latas abertas, restos de comida. Ao menos não fossem tão porcos, afinal vivendo aqui, é melhor que o lugar esteja decente. Me ouvem? Um fica colado ao rádio, outro come doces, o terceiro é enigmático, cheio de frases.

Perdi noção do tempo, fico inquieto, quero o relógio, não sei para quê. Talvez por ser a hora de comer, tenho maus hábitos, não é cômodo abdicar deles. Se não como na hora certa, vem a dor de cabeça. Se descuido, vira enxaqueca, tenho que passar o dia no escuro.

Meu dia era dividido, setorizado, tranqüilo de viver den­tro. Café, ônibus, trabalho, almoço, trabalho, condução, casa, Adelaide, televisão, noticiário, dormir. Tempos exatos, razoa­velmente elásticos. Tudo desandou, me sinto perdido, me refu­gio no relógio.

— Tem comida aí?

— Hein?

— Tem comida aí?

— Pode gritar que quase não escuto.

— QUERO COMER! COMER!

— Comida? Tem fritada nessa frigideira em cima do fogão. Fria, se você não se importa.

— Importo sim. Importo com a fritada.

— O quê?

— Não gosto de fritada.

— Grita bem alto.

— Não gosto de fritada, detesto ovos factícios.

— An, an, sei, sei, sei. Ovo é bom. Até esses aí.

— Tem gosto de plástico, e a liga é bem estranha.

— O quê?

Ora, veja se vou ficar gritando nesta cozinha como um imbecil. O sujeito não é surdo, não, é cretino mesmo. E eu que fico discutindo sobre ovos com ele também devo ser creti­no. Que coisa insuportável. Ainda por cima vou acabar comen­do fritada com ovos factícios.

— Não gosta por quê?

— Porque não!

— Quanto luxo. Se tivesse vivido como eu, sem ver ovo por anos e anos, anos mesmo, não ia ficar olhando com essa cara de quem comeu e não gostou, sem mesmo ter comido ainda. Quando entrei na sua casa e vi a geladeira cheia de ovos, juro mesmo que fiquei maluco, doido da cabeça, tudo batendo e chacoalhando, porque ovo é uma coisa que não dá mesmo para te dizer como é bom. A última vez que vi ovo, antes de entrar aqui foi na geladeira da Subsistência, na empresa onde eu trabalhava. Não podia, não mesmo, era proibido entrar na cozinha, mas meu chefe me mandou buscar um facão. Entrei, o cozinheiro não estava, fui olhando, abri a geladeira e fiquei maluco, maluco mesmo, com o que vi. Sabe o que vi, pode adivinhar?

— Um ovo?

— Hein?

— Um ovo!

— Acertou, acertou mesmo, veja só. Tava lá, um bruta ovo, enorme, até brilhava e foi aí que veio o cozinheiro. Fi­quei vidrado, perguntei:

— De quem é esse ovo?

— Do superintendente.

— E como arranjaram ovo, se as galinhas não existem mais?

— Pergunta pro superintendente, foi ele quem apareceu com uma caixa.

— Uma caixa? Quer dizer que tinha muito ovo? E não dividiu com o pessoal?

— Dividir com o pessoal? Está pancada, está? Pro pes­soal é o rango. Teve um enguiço desgraçado por causa desse ovo aí. Acabaram com um peão, porque pegaram o tipinho tentando roubar o ovo. Por isso, fecha essa porta e nem se aproxima. E não liga não, ouvi dizer que no outro Acampa­mento vai ter comida da boa. Os donos do morro aqui é que são morrinhas. Assim que acabar aqui, vocês vão enfrentar uma bruta montanha.

— Viu, viu só, eu achava muito errado exibir um ovo assim na geladeira, errado mesmo, porque a peãozada só comia carne de soja, frango de soja, leite de soja, e por cima soja de laboratório. Não sei quem foi o infeliz que inventou essa comida.

— Se não inventassem alguma coisa, você estava morto há muito tempo.

— Não podiam dar gosto? Se tem até cheiro, e o cheiro é bom, igualzinho àqueles de quando eu era menino. Quem faz cheiro, faz gosto, não faz?

— No que você trabalhava?

— Ih, faz tempo. Mais de dez anos que ando desempre­gado, a última vez foi quando vi o ovo. Companhia enorme de terraplenagem, enorme mesmo, dava gosto de trabalhar para eles. Cada maquinona seu, valia a pena mesmo, comiam terra que era uma beleza, iam engolindo os morros, não tinha mon­tanha para elas. Dava gosto, dava mesmo, dirigir uma bichona daquelas, tudo hidráulico, levinho, era só bater nas alavancas, ela ia derrubando, arrasando, enchendo os caminhões de terra. Trabalhei uns doze anos naquela maquinaria, dava até medo quando a gente ia entrar no bichão, todo de ferro amarelo, monstrão de pás e esteiras, ninguém podia com ele. Eu ficava manejando tudo, tudo mesmo na minha mão, pensou como uma máquina daquelas faz da gente um cara poderoso, nin­guém podia me desafiar ali, ninguém mesmo. No começo tive medo, depois me acostumei, eu e ela, amigões, entrava e gri­tava vamos comer morro, porque minha função era desbastar morros, nem sei quantos botei abaixo, acho que uma vez nive­lei um estado inteiro ali por perto do Maranhão, conheceu o Maranhão? Amigo, que terraplenagem aquela, durou um ano, trezentas máquinas pondo abaixo montanhas de pedra, e enchendo cada vale que parecia buracão do inferno. Tirava pedra, terra, mato daqui, jogava lá embaixo, o morro descia, o buraco diminuía, até que tudo se igualava, ficava aquele campão lindo, de terra vermelha, ou então se era terra branca parecia uma praia sem fim. Não sei o que iam fazer naqueles terrenos, falavam que iam construir cidades novas, outros que eram plantação, agora me diga, o senhor já ouviu falar de nive­lar terreno para fazer plantação? Eu nunca, nunca mesmo, acho muito sem propósito, sabe o que meu chefe sempre dizia, ele era doido por aquele trabalho, doido mesmo, a gente chegava lá, ele estava a postos, quando a gente saía, ele continuava, era de ferro. O sonho dele era nivelar o Brasil inteiro, então, dizia ele, seria o país mais plano do mundo, valia a pena gastar dinheiro numa terraplenagem no país inteiro, porque então iriam economizar muito para fazer estradas, estradas de ferro, pistas, o que se quisesse. Não sei, não, mas aquela companhia igualou muita terra por aí, se deixassem ela mudaria este país. Me diga, diga mesmo, o senhor não acha que ia ser melhor para o Brasil? Muita economia de asfalto, cimento, sem todo esse sobe e desce, sem precisar aterros, pontes, viadutos, mesmo não é? As pessoas se cansariam menos, as cidades todas no plano, retinhas, sem ladeiras, quanta economia de energia, era o que dizia meu chefe, eu concordava com ele, um sujeito positivo. Não acha, também? Veja, enfiamos uns dois ou três rios nos tubos, e olha que um deles era bruto riozão, mas doma­mos o bicho, fizemos uma cobertura bonita, toda de cimento, enorme, mas enorme mesmo, o batelão ficou lá embaixo, a gente podia ouvir o barulhão pelos respiradouros, parece que ficou bravo de prenderem ele daquele jeito. Mas podia perder tanto espaço que existia em cima do rio? Era o que me expli­cava meu chefe, nem devia ser só chefe, era homem para ser patrão mesmo, dono daquela companhia toda, ele tinha cabeça, boa cabeça, cuidava de tudo, direitinho, era um amor por aquelas máquinas, empregado que não cuidasse direito da sua, levava cada uma, multa, suspensão, demissão, até mesmo pau, é isso, tinha lá uns camaradas gringos que davam cada pau nos empregados.

Xi, o homem desandou. Tudo por um ovo visto na gela­deira dez anos atrás. O que fazer para que desligue? Estou com fome, vou providenciar comida, apanhar uma dessas latas que enchem o quarto. Vontade de uma boa salada de pal­mito. Com tomate, alface, junto a um churrasquinho.

Quero dar uma espiada no quartinho, ver o barbeiro, tenho medo que comece a cheirar. Deve estar se decompondo, com tal calor. O melhor seria entregá-lo aos Colhedores Notur­nos. O problema é explicar a morte por faca, vão chamar os Civiltares, fazer a Perquisição Necessária. E então.

Aquele corpo me incomoda, queria retirá-lo depressa, nin­guém gosta de cadáver nas proximidades. Nem nas proximida­des, nem longe. Ainda mais uma pessoa que a gente conhecia, com quem convivia, e a descobre assassinada. Se bem que o barbeiro era um sujeito saliente, desagradável.

O que me deixa arrepiado, na verdade, não é o cadáver ali jogado. É pensar que um destes homens é assassino. Não tem outra explicação. Mas por que o barbeiro? Um homem aborrecido, apenas isso, só perturbava com seus pedidos, an­sioso por uma mordomia, queria mamar em todas.

Todo mundo quer, é a única alternativa de sobrevivência. Vivemos dentro de uma charada, quem soluciona ganha o direito. Encontrar a forma de rachar o Esquema. Descobrir uma brecha. Nada é permitido, tudo é consentido. Foi a fórmula aplicada, para que o país não estourasse.

Solução de emergência, proclama. Vivemos nela há dez anos, menos ou mais, não sei. Acabei como Adelaide, me iso­lando da contagem do tempo, alheio aos seus limites. Tudo se dissolveu na desequilibrada soma de dias e semanas, horas e meses. As barreiras foram estouradas.

De repente, me dou conta de que estou dentro de uma armadilha. Construída com inteligência, ou acidental? Dificí­limo de se determinar. Com os meios que têm em mãos, e o controle que exercem, eles podem ter provocado esta fissão nas fronteiras convencionais do tempo.

Como recurso para dissimular as barreiras físicas, concre­tas, que ergueram em torno de nós. Os limites da cidade, as zonas neutras impostas entre o Urbano e os Acampamentos Paupérrimos. As fichas de circulação que impedem de tran­sitar, penetrar nos bairros da redoma.

As Bocas de Distrito que nos seguram. Sim, sim, tudo teve que ser organizado, a fim da vida seguir normal, o caos não se instalar. Que idéia eles fazem do caos? Gostava de saber. Tenho que pensar nisso, recompor a minha cabeça, talvez discutir com Tadeu Pereira, é um homem lúcido.

Está muito claro o objetivo. Eliminar a linha divisória que demarcava o tempo e ao mesmo tempo nos impor balizas estrei­tas a fechar nosso espaço físico. Aí é que estava a confusão, repousada em sutileza. E explicava a divisão que permanecia em nossas cabeças, incoerência obscura.

— Ei, você não está prestando atenção.

— Estou com fome.

— Ainda não te contei o melhor.

— Conta depois.

— Não sei se vou estar com vontade depois.

— Não sei se estou com vontade de ouvir agora.

— Você é um velhote chato.

— E daí?

— Quero te contar das barragens que ajudei a fazer, lindo mesmo, fechamos quase todos os rios deste país, fizemos cada lago que parecia mar mesmo.

Estou de costas, ele matraqueia. Saio da cozinha com salsi­chas num pão de estranha coloração marrom, enganosamente macio. Cada vez que mastigo sanduíches, minha ponte se des­loca. Ainda bem que o gosto não é dos piores e o cheiro é de pão fresco. Artificial, mas gostoso.

Vou para o quarto, pensei em eliminar a cama, ocupa muito espaço. Posso dormir num sofá, arranjo um saco de campanha. Olhei para o baú, em cima do guarda-roupa. Olhei para lá, nem sei dizer por quê. Foi automático. O baú de vime já escuro. Ah! Estava aqui e não no quartinho da empregada!

Velho baú inviolado. Me sinto como ele, repleto. Qual a serventia do que foi empilhado dentro de mim? Para saber, é preciso sacar fora. Olhar, mandar ao lixo o desnecessário. Mas se o que está dentro foi sucata tantos anos, se jamais teve serventia, terá agora?

Duvido. Trastes velhos se jogam ao fogo, só ocupam lugar. Posso abrir o baú de Adelaide, ver o que tem, por que ela guardou tão misteriosamente. Não que houvesse proibição. Ape­nas uma vez me disse: "São coisas minhas, preferia que você não mexesse". Obedeci, por que não?

E então, enquanto subia na cadeira, uma decisão me veio à cabeça. Fria, tranqüila. Resolvi limpar a casa inteira, arrasar as paredes, esvaziar armários, eliminar duas presenças. Ao mes­mo tempo, vi que seria desonesto com Adelaide se abrisse o seu baú secreto.

Abrir para quê? O que posso descobrir nesses pacotes de papel pardo? Cartas a um amante? Um diário? Velhas foto­grafias? De que adianta penetrar neste passado de Adelaide, se ela mesma é passado? Deixar o que está para trás. Se eu a reencontrasse, iria ser muito diferente.

Claro, se ainda houvesse possibilidade. Um encontro real. Fico imaginando como levei anos preso a um cheiro de grose­lha, enquanto a vida verdadeira girava ao nosso redor. Tudo acontecia, se transformava, e eu estava somente à espera da noite e do cheiro de groselha.

Imaginava que a vida fosse feita por estes detalhes. Uma colcha de retalhos, quebra-cabeças, lajotas que compunham um piso quando reunidas. Jamais tive capacidade para aprender o mundo como um todo, em sentido abrangente. Fui colecio­nando trechos, momentos, partículas, instantes.

Quando concentrei tudo, deu em quê? Ao codificar mi­nha vida, faltavam elementos essenciais. Abandonei o vital, iludido. Entre o cheiro de groselha que vinha perfumado da boca de minha mulher, à noite, e as mãos que tocavam piano, preferi a groselha. Puro engano.

Se eu me mantivesse acordado, talvez pudesse sentir, logo depois, o seu hálito verdadeiro. O cheiro humano, efetivo, não produzido por uma droga factícia, comprada na farmácia. Convivi com a distorção, aceitei-a como realidade. Também, já perdemos o conceito de real.

Não estou querendo me justificar. Só que tenho o direito de me admitir confuso, sem coordenadas onde me apoiar. Delírios, continuo pensando sem parar, abafado, os pés incha­dos. Nunca tive pé inchado. E de ontem para hoje os sapatos não me servem mais, apertam.

Fico a imaginar se tenho o direito de abrir o baú. Não é simples assim, basta levantar a tampa e arrancar os pacotes. Não é o problema se Adelaide vai voltar, ou não. Havia um acordo entre nós, e ele vai continuar. Um mínimo de lealdade. Destruir o baú, sem olhar dentro.

Quantas vezes subi na cadeira e colocava ordenadamente os pacotes pardos que ela passava. As instruções eram precisas: "Este lado para cima, a fita para a esquerda". Por que será? O baú cheirava naftalina, todos os meses fazíamos uma revisão contra ratos e baratas.

Ela entregava o pacote, me olhando. Se houve uma coisa bonita nela, era o jeito de me contemplar. Gratificante. Os olhos meio abaixados, mas vendo tudo. Parecia tímida, enver­gonhada. Pelo jeito de olhar gostei dela, naquele balcão em que derramei a groselha perfumada.

Sempre tive pavor de quem me olha diretamente. Gente que encara, obriga a olhar também. Nunca consegui, desde criança, fazer aquela brincadeira de jogar a sério. Eu perdia sempre. Quando vi que ela me olhava baixo, me observando sem que eu percebesse, me apaixonei.

Podem achar que minha cabeça é louca, mas é a que eu tenho, única. Prefiro que ela fique aí, bem firme em cima do pescoço, pensando suas coisas. Engraçado, minha vida com Adelaide teve uma série de rituais, posso sentir o quanto está­vamos presos a eles. Mantínhamos.

Agora, por exemplo, me sinto só diante desse baú. Porque jamais mexi nele sem ter Adelaide ali embaixo, ao meu pé, me entregando os embrulhos. Quando eu descia, passava a mão nos ombros dela e íamos para a cozinha. Como se fôssemos para uma festa, comemoração.

Era uma comemoração, à nossa maneira. Vivíamos muito dependentes um do outro, nos bastávamos. Estávamos bem, mesmo dentro do enorme silêncio que nos envolvia, vez ou outra. Na cozinha, fazíamos um chá preto (ela detestava o mate) e Adelaide abria a lata de bolinhos.

As latas enchiam uma prateleira da cozinha. Cada dia, ela fazia um bolo novo, uma bolacha, biscoitinho. Redondos, retangulares, estrelados, quadrados, triangulares, furados no meio, com açúcar cristal em cima, com geléia no meio, rechea­dos de queijo, ou goiabada.

Cada lata, cuidadosamente vedada, para conservar os bis­coitos sequinhos, crocantes. Eram abertas em dia certo, num rodízio. Quando vinham visitas, o que era muito raro, a mesa se enchia de bolachas de todos os tipos, caprichosamente ar­ranjadas em pratinhos de sobremesa.

Café, leite e chá preto. Quando estávamos noivos ainda, ela pediu para que a casa tivesse um fogão a lenha. Sonho que tinha desde criança. Vinha desde o fogão da avó, sempre aceso, a chapa quente, aquele cheiro de madeira queimada e fumaça tomando a casa inteira.

O que custava satisfazer as nostalgias? Se ela quis, assim foi feito. Morávamos num bairro, casa pequena, sempre gosto­samente aquecida. No inverno, era só fechar tudo, deixar o calor invadir os cômodos. Imagine que loucura um fogão des­ses hoje em dia, dentro dessa fornalha.

Eram diferentes os assados, as frituras, o arroz, o feijão preto na panela de barro. Hum, que me dá água na boca! Nem é bom lembrar tais coisas. Aliás, nem adianta lembrar, mas que era bom, era. Tinha suas inconveniências. Arranjar lenha ficou cada vez mais difícil.

Impossível. Uma hora, não teve mais. Na minha rua, no interior, criança ainda, eu via todos os dias a carrocinha do lenhador passando, fazendo entregas nas casas. O depósito era perto, a molecada brincava entre as pilhas de paus. Fazía­mos cabanas e trincheiras.

Roubávamos paus para as fogueiras de São João e Santo Antônio. Era uma operação complicada, nessa época, o lenha­dor ficava de orelha em pé, vigiava o depósito dia e noite. Formávamos um grupo de despistamento e outro que surrupia­va a madeira, passando por baixo da cerca.

Depois, a carroça começou a espaçar entregas. O depósito vivia quase vazio. As pessoas começavam a comprar fogão elétrico. Um dia, apareceram na cidade os bujões de gás. O lenhador vendeu burro, carroça, foi-se, o terreno virou depó­sito de materiais de construção.

Meu pai que conhecia bem o negócio de mato e lenha disse, no dia que trouxeram nosso fogão a gás: "Agora, em volta da cidade, só tem pasto e cana. Não existem mais árvo­res, nem essa vegetaçãozinha raquítica de cerrado. A lenha vem cada vez de mais longe, fica muito cara".

Adelaide não gostou, quando, após um ano e meio, tive­mos que nos mudar. Iam construir um conjunto habitacional, estavam comprando tudo em volta. Ficamos pressionados. Resistimos. Os tratadores arrasaram a terra à nossa volta. Fi­cou a nossa casa, solitária num descampado.

Caminhões e máquinas destruíram a rua. Carros-pipa trans­formavam tudo num lodaçal. Colocavam tabuletas: Desculpem o incômodo, estamos trabalhando para o futuro da cidade. Britadeiras chegavam à noite para quebrar pedras descarrega­das durante o dia, como que por acaso.

Bate-estacas funcionavam permanentemente. Inútil tele­fonar para as administrações regionais. Gravações eletrônicas atendiam, anotavam recados. Holofotes antiaéreos iluminavam as obras noturnas, varavam por dentro de casa. Para não in­ternar Adelaide, vendi tudo.

Nem foi venda. Trocamos por este apartamento. O que ela sentiu foi perder o fogão a lenha. "Quem sabe dá para fazer um no quarto de empregada?" Como se os condomínios não tivessem leis, não fossem regidos por um conjunto de restri­ções. Ah, minha ingênua Adelaide.

Continuou a fazer seus doces e bolos no fogão a gás. Mes­mo quando o trigo e outros produtos se tornaram factícios. Verdade, diminuímos muito nossos pequenos prazeres, por causa do gás. Não que houvesse racionamento. Mas os preços? Quem podia pagar? A situação melhorou quando ela teve co­ragem. Para uma coisa simples.

Coragem de pedir ao sobrinho que fornecesse fichas suplementares. E como ele conhecia os bolinhos da tia, trouxe alegremente. Não é à toa que se trata de um Militecno compe­tente, com sua casa bem montada. Sua casa? Olha só que coisa mais estranha venho de descobrir. Nem acredito, que não dá.

 

SITUAÇÃO COMPLICADA PORQUE SOUZA

NÃO ENTENDE AS MANOBRAS DO SOBRINHO

QUE PARECE ESTAR ENROLANDO MUITO

 

Não sei onde ando com a cabeça. A casa do meu sobrinho. Será que sou tão desligado assim? Então, Adelaide tinha toda a razão. Vai ver, é o sol. A gente amolece, nem se lembra das coisas. Neste abafamento, tudo perde a importância. O que in­teressa é uma sombra.

Um pouco de ar fresco, agüinha gelada. Tenho os lábios rachados, aliás todos nesta casa têm. Não dá para admitir isto. Nem sei onde é a casa do meu sobrinho. Ele jamais me convidou. Disse, um dia, que mora bem, Adelaide até descon­fiava que fosse nos Palácios de Acrílico.

Nem tenho o telefone, o endereço. Se precisasse dele, numa emergência, não teria como chamar. Não, não deve ser nos Palácios de Acrílico, onde ficam os superfuncionários. O sobrinho é competente, mas ainda não chegou aos escalões dos invisíveis mordomizados, esta nova raça.

Moleza sem tamanho, me encosto na cama, cochilo gosto­so, o ventilador movimenta ar quente, embarco, abro os olhos, tudo quieto, imagino um cheiro podre, calmo.

 

— Como é? Vai dormir quantos dias?

— Cochilei um pouco.

— Um pouquinho só. Pensamos que tivesse morrido, dormiu um dia e meio. Vai ser preguiçoso no inferno, dormir pesado com um calor desses.

— Um dia e meio. Está maluco, sempre fui de dormir pouco.

— Teu sobrinho tá aí, veio providenciar as mudanças.

Anos atrás me incomodaria ter dormido tanto, perdido tempo. Agora, se pudesse, mergulhava no sono e acordava o mês que vem, daqui a um ano. Hibernar, como os ursos. Hiber­nar, não. Veranizar, à espera de tempos frescos e confortáveis. É, parece que ainda não acordei.

— Como é, tio, não arrumou as coisas?

— Nem vou arrumar, levem o que quiserem.

— A gente escolhe?

— Antes preciso saber se não dá para ter minha casa de volta, eu sozinho.

— Não dá, não. É sobre isso que eu quero falar. Vem mais gente.

— Mais?

— Quatro pessoas. Por alguns dias.

— Que tráfico misterioso você pratica? Vai explicar?

— Faço caridade, tio. Abrigo gente que podia morrer sem teto.

— Ah, é? E por que não cuida daqueles que estão nos Acampamentos.

— Tio, vem me falar dos Acampamentos? Aquela gente está condenada, não dá para contar com eles. Enquanto que estes homens são técnicos importantes.

— Olha, tem um tipo aqui dentro, um que fica de rádio colado no ouvido, que não pode ser técnico nem importante, em lugar algum. É um perfeito imbecil.

— Quem sabe ele finge? Quem sabe está de orelha em pé, observando tudo. Hein?

Nunca pensei, mas bem pode ser. Tais tipos existem por aí, rondando por toda a parte. São conhecidos, aprontam cada uma. Colhem informações, não sei de que gênero, ou para quê, o que vão fazer com estas informações. Também, isso de in­formação virou neurose.

Quer informar, informe. Vai ver, o rádio é transmissor, ele fica ouvindo ordens, senhas, códigos. Também emite in­formações, o que se passa nesta casa. Maravilha para o Esque­ma um infiltrado dentro de cada casa, segurança total. Não, não, é demais, besteira minha, delírio.

Que importância pode ter isso, agora? Se fosse informante, já saberiam do barbeiro morto e os Recolhe Cadáveres esta­riam na porta. Com suas ameaças, toma dinheiro que são. Posso me tranqüilizar, o homem do rádio é um cretino mesmo, ficou pancada de tanto terraplenar.

— Não vai escolher nada?

— Nada, levem logo.

Ajudo os homens a amontoar tudo na sala de visitas. Me­sas, cadeiras, cristaleira, o bar de cedro. Não estou ligando. Cada copo da cristaleira foi comprado por Adelaide, aos pou­cos. Nunca tivemos dinheiro para um aparelho, de uma só vez. Um dia ela chorou por um conjunto de xícaras.

Um par de xícaras cor-de-rosa, letras douradas: ELE-ELA. Foi da mãe dela. Ganharam no dia do casamento. Cada se­mana, Adelaide abria a cristaleira, lavava as xícaras, tirava o pó das prateleiras de vidro. Depois trancava a chave, ninguém mais abria, apenas ela.

Um pontapé na cristaleira. Arranco copos, xícaras, cálices, taças, licoreiras, compoteiras, miniaturas. Atiro pela janela. Um a um. Só atirava o próximo, depois de ouvir a louça se despe­daçando na calçada. Os homens gostaram da brincadeira. En­traram também.

"Essa é minha", gritei quando o homem que comia doces apanhou a xícara cor-de-rosa. Com tamanha fúria, que ele se assustou e deixou cair. Apanhei os cacos, soltei de novo no chão, pisei. A outra, atirei para a rua. Os vizinhos logo esta­vam na janela, protestando.

— Ficou maluco, tio?

— Me divirto.

— A tia adorava essas xícaras.

— Pois é. E onde está ela?

— Onde está?

— Na sua casa, tenho certeza!

— Por que na minha casa?

— Você aceitou com naturalidade a ausência dela. Nun­ca me perguntou sobre Adelaide. Vocês se adoravam. Eram mãe e filho, grudados. Quando pensei nisso, fiquei tranqüilo. Adelaide está com você. Não está?

Não respondeu, foi dar ordens. Se é que havia ordens a dar. Mas Militecnos adoram lideranças, comandos, se julgam logísticos, estrategistas. Mesmo que seja dentro de um aparta­mento, numa faxina, mudança. São capazes de comandar uma ida ao banheiro, o puxar da descarga.

Continuei jogando minha tralha pela janela. Bateram à porta. Claro, só podia ser a vizinha de lábios pintados. Não era. Ando ruim de pressentimentos. O velho que vive tocando a Patética. Quer saber se é mudança, ou o quê. Entrou pela sala, extremamente magro.

Tipinho frágil, branco, idade indefinida. Vinte ou cem anos. Fortes entradas e cabelos brancos muito compridos, des­ciam pelos ombros, escorridos. As mãos no entanto lisas, per­feitas, como se ele tivesse vinte anos. Um olho bom, azul, e o outro de vidro, imóvel.

— Não quero intrometer. Pensei que o senhor estivesse brigando com sua mulher. Sou amigo dela, vim ajudar.

— Não ia ajudar muito, se fosse briga mesmo.

— É o que o senhor pensa.

— Eram amigos?

— Muito. Ela subia à tarde, tocávamos a Patética juntos. Tínhamos interpretações diferentes, discutíamos. Ela podia ter sido uma grande pianista. Por que desistiu?

— Por conta dela, nunca me falou sobre o assunto. Há pouco tempo pensei nisto, e me senti mal, fiquei pensando se fui eu que a bloqueei.

— Sua mulher carregava problemas, era muito contida. Se controlava o tempo todo, não se soltava, nem na música se permitia, sempre fixada à pauta insatisfeita, obcecada. Custei a convencê-la de que a pauta era uma linha a seguir, correta se o pianista se ativesse a ela, porém fria. Depois, muito depois de ver o que eu fazia em cima da composição, passou a se aven­turar, como dizia, a colocar situações dela. Foi descortinando a liberdade com muito medo, pois quem passou anos amarrado, tem os movimentos atrofiados, precisa muita ginástica e espaço e orientação para se repor. Sentir que podia fazer o que bem desejasse transformou completamente sua cabeça, penso que foi por essa razão que desapareceu. Não subiu mais e muitas vezes toquei a Patética por tardes e noites, sem parar procurando mexer com ela, esperando a todo momento que me batesse na porta.

— Quando foi isso? (Perguntei, enquanto pensava: toca­va e me enchia.)

— Dois meses atrás, deixe-me Ver, a descoberta dela se deu há dois meses e pouco, numa tarde em que fiz doce de banana, e meu intestino se enrolou, estas bananas factícias não funcionam, passei mal que o senhor nem calcula. Fiquei atrapalhado, nem podia me sentar para ouvi-la, precisava correr para o banheiro. Inquieto, suava, me segurava quase rachei a dentadura de tanto que rangi os dentes com as cólicas. Aque­la tarde era importante para ela, e foi para mim também, pois consegui até me abstrair das cólicas e mergulhar na Patética dolorida que ela me passava.

Estranha Adelaide. Foi aí que se afastou de mim e ficou apenas à espera de um ponto para se agarrar. Algo que justifi­casse o rompimento. Amadurecia a idéia na cabeça, rezava por um momento. Um modo de me dizer, sem me ferir. Ao menos, tivemos isto, todos estes anos.

Não nos machucarmos. Todo dedos, um com o outro. Nenhuma agressão. Discussões amáveis, um acabava concor­dando quando o tom subia. Vivendo mansamente. Vivendo? Ah, malandra, você percebeu antes de mim. Se ao menos tivéssemos o costume de dizer o que se passava dentro de nós.

— Ela está dormindo?

— Adelaide?

— O senhor tem outra mulher?

— Foi-se embora.

— Para onde?

— Sumiu.

— Não deixou bilhete?

— Foi por isto aqui.

— Um furo na mão?

— Te assusta?

— Tanto quanto um rato.

— Pois assustou Adelaide.

— Não pode ser. Era mulher tranqüila. Tinha visto ou­tras pessoas com furo na mão. Dois alunos meus têm. Ela subia, eles estavam ao piano. No primeiro dia ela achou estra­nho, com o tempo se acostumou. Nada é anormal nesta cidade.

Traição, Adelaide! Sinto como se estivesse sendo traído. Este homem sabe mais a teu respeito que eu, através destes anos todos. Não vale. Se tivesse imaginado, teria aprendido piano, ficávamos os dois a tocar, a conversar. Sim, sim, estou entendendo, agora vejo tudo.

Quem sabe, eu teria ido junto quando você se foi. Ao se descontrolar, você se liberou de mim. Ao me abandonar, me fez te descobrir. O furo na mão foi pretexto, simples e ocasional tábua de salvação. Bastou se mostrar abalada, desa­parecer. Terei tempo para te dizer tais coisas?

— Tenho que ir, não quero perder o programa dos super-heróis, adoro desenho na televisão. Estão levando uma série com o super-homem baseada em O Ser e o Nada, de Sartre. Conhece?

— O super-homem ou Sartre?

— Por que não os dois?

Não me encara com olhar irônico. Tenho certeza que este velho vai desaparecer, volatizar. Não existe, é um gênio das florestas perdidas, desencontrado numa cidade moderna que nem tem arbustos, nem suporta os mitos. Esse olhar azul de um olho só é minha fantasia.

— Tem mais gente em casa? Está um barulhão na co­zinha.

— O senhor é curioso, hein?

— Gosto de gente. Faz bem para mim. Quase não saio, vez ou outra visito parentes, mas estão sempre comendo. Não sei como não morrem, vivem se empanturrando.

— Então não vai gostar dessa gente daqui. Também vi­vem na cozinha comendo.

— Parentes?

— Amigos de meu sobrinho. Esse aí, esse aí é meu so­brinho.

— Capitão?

— Capitão. O senhor conhece a hierarquia. Como?

— Conhecendo. Tão novo e capitão. Parabéns.

— O professor mora no prédio?

— Dois andares acima. Há vinte e oito anos.

— Gosta daqui, então?

— Detesto, queria morar num barril como Diógenes, não posso nem ver essa velharada. Que idéia desse governo de colocar velhos dum lado, quarentões do outro, jovens sepa­rados.

— Nossos Planificadores para o Bem-Estar Social sabem o que fazem, a sociedade tem se comportado, responde à al­tura.

— O senhor fala como um documento oficial.

— O professor mora sozinho?

— Hum, hum.

— Que tal uns companheiros?

— Inquilinos?

— Digamos, companheiros. Amigos. Por algum tempo.

— Vai arranjar sarna para se coçar, vão ocupar sua casa, como ocuparam a minha (tentei advertir).

— Não tem nada de ocupação. O tio está perturbado com o desaparecimento da tia. Vai ser bom para o senhor.

— Se ninguém mexer em meu piano.

— Trato pessoalmente disso, ninguém toca em seu piano.

— É, mas tem outro problema. Não sei se vai dar.

— Professor, não existem problemas para nós.

— Existe para mim. O meu pijama.

— O pijama?

— É, o pijama! Um problema sem tamanho, me perse­gue pela vida a fora.

— Precisa de pijamas? Trazemos quantos forem.

— O capitão resolve tudo na base da compra?

— Resolvo.

— Pois não vai ajudar nada.

— O que é que há com esse pijama? Não tenho paciên­cia para coisas de velho.

 

O NEVOEIRO QUE CAIU SOBRE A

HISTÓRIA DO BRASIL LOGO DEPOIS

DAS VERGONHOSAS FILAS DO FEIJÃO

 

— Vovô, como é que fica? Já é noite.

— Ué, dependo de piano e do pijama.

— Piano e pijama?

— Ninguém pode mexer em meu piano.

— Nenhum de nós sabe tocar.

— Pois é, quem não sabe é que gosta de brincar de aprender.

— Quem se aproximar do piano será posto para fora imediatamente. Garanto.

— Garante agora, quero ver depois.

— Palavra.

— Palavra de quem trabalhou para o governo? Sabe quanto vale?

— Está bem, está bem. E o pijama?

— Quero ele bem dobradinho.

— O que significa?

— Dobrado direitinho e ajeitado embaixo do travesseiro. Odeio dobrar pijama. Tenho ojeriza por vê-lo esparramado na cama, largado no chão. Lugar de pijama é debaixo do tra­vesseiro.

— Está certo, vovô. Vamos dobrar o pijama. Tudo orga­nizado, por turnos. Cada dia um. Quem não cumprir, já sabe.

— Palavra?

— Palavra! No duro. Só me responde uma coisa, se me permite. Com um calor destes, o senhor dorme de pijama?

— Tenho medo de um golpe de vento na madrugada.

— Vento? Não tem vento, quanto mais golpe. Não tem mais nem golpe de estado.

— Dobram o pijama, mesmo?

— Certamente.

— Suba, capitão. Vamos ouvir uma musiquinha boa, da­quelas que eu e a sua tia tocávamos. E se tiver notícias de sua esposa, caro amigo, me comunique. Também estou preocupado.

— Tio, desço já. Continuem amontoando as coisas.

— E o morto?

— Morto? – perguntou o velho.

— É uma gíria nossa, nada mais.

— Gíria esquisita.

Saíram. Nem tinham chegado à escada, quando as luzes bateram nas janelas. Violentas como holofotes. Aqueles mes­mos holofotes antiaéreos que usaram para nos expulsar de casa. Luzes e um barulho aterrador. Fiquei atordoado, depois corri à janela. Os vizinhos também olhavam.

Meu sobrinho voltou aos pulos. "Conseguiram", gritou. Chamou os homens, foram para a cozinha. Discutiam alto. Fi­quei olhando minhas coisas amontoadas. Deveria me despedir delas. Afinal me acompanharam pela vida, foram companhei­ras. Como se objetos pudessem se humanizar.

Os homens deixaram a cozinha, passaram por mim veloz­mente, saíram para o corredor. "Tudo pronto, tio?". Estava e não estava, por mim era apanhar o que quisessem. Meu so­brinho disparou porta a fora, gritando, "trouxeram o helicóp­tero". Então, penso que entendi tudo.

Devia haver muita gente envolvida. Mas envolvida no quê? Não posso acreditar que meu sobrinho, garotão de vinte e poucos anos, tenha tal influência. E aí as perguntas se en­cadeiam na minha cabeça: influência sobre o quê? Em que áreas? Qual o setor em que se movimentam?

Se ao menos tivéssemos uma idéia da organização do governo, das divisões hierárquicas, dos grupos que agem, do­minam. Houve tempo em que conhecíamos os mecanismos do poder, a ascendência dos partidos em épocas mais remotas, e o que representavam as uniões e alianças.

Isso foi bem antes da tecnocracia. As facções se dividiam por idéias. Vivia-se dentro de um jogo de combinações apro­ximadas, factuais, oportunistas. Repartia-se o mando, de algu­ma forma. Todos partilhavam, tinham um quinhão. Cada tem­porada, um grupo geria.

Na altura das décadas de setenta e oitenta, os ventos mu­daram, os tecnocratas adquiriram a supremacia. Suas falanges ocuparam os postos, sem dar tempo a ninguém de adaptação. Romperam violentamente com os esquemas, se instalaram. Cer­tos de que o futuro era deles.

Durou algum tempo esta arrogância. Encavalados na ad­ministração, narizes empinados, não perceberam que nova clas­se subia. Os Militecnos englobaram a organização militar e o racionalismo dos tecnocratas. Hierarquia, rigidez, disciplina, e idéias curiosas de mando.

Constituídos em estirpes, arrogavam-se o direito divino. Foram implacáveis, encerrados em suas fortalezas. O poder era dividido entre eles através de pactos, cabalas e concha­vos. Recuperaram o uso do velho conchavo político, colocando mineiros nas assessorias.

Na universidade, muitas vezes, os alunos de ciências polí­ticas queriam que eu destrinchasse a estrutura do poder. Não ousavam indagar dos outros professores, com medo de serem acusados de formular Perguntas Intragáveis. Mas não adianta­va, nos faltavam os elementos.

Só encontro uma comparação: nos assemelhamos aos etruscos. Os historiadores, por mais que pesquisassem, conse­guiram saber pouco a respeito de como se organizavam, ou estava montada a sua civilização. Informações retiradas dos objetos, cerâmicas pintadas, painéis.

Aqueles desenhos e gravuras forneceram elementos in­completos, isolados. Nada além de situações esparsas. Poucas probabilidades de se aprender o conjunto, ter uma visão abran­gente de como eram governados ou mantinham a sociedade. Estamos hoje na mesma posição insondável.

A partir de um momento, tudo obscureceu. Se os meus conhecimentos de história não andam falhos, o nevoeiro se cristalizou logo após as Vergonhosas Filas do Feijão. Um tem­po sombrio de fome, mortes e massacres. Adelaide era mocinha, nem tínhamos planejado nos casar.

Meu sogro brincava: "Você só pode se casar depois que ti­ver um saco de feijão. Como entregar minha filha a um fra­cassado na vida? Tem casa, móveis, roupas, carro, cheques especiais, cadernetas de poupança, mas jamais enfrentou a fila de feijão. Não é homem".

Obter feijão era o meu desafio. Sogros e genros andam sempre em pendência. Os velhos brincam, mas estão espicaçan­do, querem saber exatamente que tipo de homem a filha esco­lheu. Por trás da ironia, eu sentia nele a verdadeira decepção. Minha grande prova: furar a fila.

Subornar pessoas, comprar os guardas, dar bolas aos fiscais. De que maneira, se haveria sempre alguém com um suborno maior do que o meu? O dinheiro não era garantia. Os contro­ladores eram honestos neste ponto. Suprema honra, todavia, era furar fila sem dinheiro.

Mas os furões eram raça temida. Odiada, desprezada. Algo pior que colaborar com os nazistas, durante a ocupação da França. Raspavam cabeças, apedrejavam pelas ruas, lincha­vam. A cada massacre de um furão, a polícia respondia com uma ação intensa e progressiva.

Adelaide e eu combinamos nos revezarmos. Nunca tive jeito para entrão, furão, aventureiro. Que posso fazer? Está errado, mas sou assim. Inclusive, eu raciocinava ao inverso: enquanto todo mundo procura fazer seus arranjos, os meios normais estão sendo esquecidos.

Contava achar uma brecha. Claro que não achei. Poucas vezes enfrentei uma tortura maior que as Vergonhosas Filas.

Eram quilométricas, cheias de curvas, como as antigas estra­das de ferro, quando engenheiros ganhavam por quilômetro construído. Serpenteavam pelas colinas.

A localização nos morros da Cantareira foi proposital. Jogada do Ministério de Abastecimento para dificultar. Não era fácil agüentar-se nas inclinações peladas, cheias de erosão, onde tinha sido a maior reserva florestal de São Paulo. Solo seco, pedregoso, calcinado.

Esse grande mormaço que acachapa todos nós não tinha se instalado. Todavia, era muito quente, o abafamento subia da terra vermelha, rachada, penetrava pela sola dos pés. Dez dias de suplício. Tomara nunca mais tenha de entrar numa fila dessas. Morreria.

As filas foram para a Cantareira, como solução para di­minuir as catástrofes. Incapaz de evitar chantagens, agressões, mercado negro, assassinatos, câmbio paralelo, rebeliões, quebra-quebra, suprema violência policial cotidiana, o ministério deci­diu-se pela mudança.

A situação, naquela fase pré-histórica do atual Esquema, era diversa. Havia pessoas que se tocavam. Os cadáveres inco­modavam. A política da indiferença total não tinha sido adota­da ainda. O governo só se manifestou quando um grupo resol­veu erguer o Monumento aos Caídos.

A primeira idéia foi construí-lo num local que tivesse sido antiga plantação de feijão. Encontraram uma várzea que foi apelidada Vale dos Caídos. Como era de difícil acesso, acaba­ram transferindo para o Ibirapuera, então parque verde, com um rio, muitos lagos e árvores.

Hoje é gigantesco estacionamento cimentado, obsoleto. In­compreensivelmente lacrado, quando há tanta falta de espaço. Dizem que a municipalidade terminará por arrendar o terreno às imobiliárias. Só não entregou ainda por uma questão de acerto nas caixinhas dos funcionários.

O monumento está lá, rodeado por cercas de arame, a fim de evitar que o povo viva acendendo velas, supersticiosa­mente. Gigantesca pirâmide de pedras lisas e pretas, a cem metros da agulha dos mortos de 1932. Cada pedra representa uma vítima das Vergonhosas Filas do Feijão.

As pedras foram doadas pelas famílias que também finan­ciaram a construção. Por muito tempo foi um centro de pere­grinação. Local onde se deitou muita falação. Por uns dez anos aquilo funcionou como um Hyde Park Caboclo. Quando a falação perdeu o sentido, esqueceram a pirâmide.

Houve proposta para se construir um caldeirão em torno dela. Transformando-a em Mausoléu da Feijoada, homenagem ao antigo produto típico nacional. Se faltava o feijão, ao menos sobrava ironia, que sem ela não é possível viver. Ah, como seria bom um pouco de ironia agora.

Adelaide e eu nos revezamos nas filas. Perdi três dias de trabalho e ela sete. Voltamos com oito gloriosos quilos de feijão preto e conquistei meu sogro. Passou a me olhar dife­rente, deixei de ser um imprestável. Ele me apresentava aos ami­gos, contava a façanha.

Seus olhos faiscavam nas conversas. Quando me pergun­tava de que maneira tinha conseguido, eu entrava no jogo e desconversava, esperto e malicioso. Ele me piscava, cúmplice, crente que estava diante de um furão, alguém que sabia se mover convenientemente pelos canais.

Até a sua morte falou no feijão. Morreu supliciado por dores terríveis, os sovacos roídos pelo câncer spray. Eu o visi­tava diariamente, era no caminho do emprego. Dopado pela morfina, o velho entrava em consciência em raros períodos. Quando me via, exclamava: feijão.

Morreram milhares de pessoas cavadas pelo câncer spray. Nem assim o governo proibiu os desodorantes. Foi o próprio povo que tomou a iniciativa, abandonando o seu uso. Então a indústria farmacêutica pressionou. Só vendia pasta de dente e analgésicos a quem levasse desodorante.

Os lixos se enchiam de tubos. Os pobres viviam catando nos monturos, para usar aos sábados como perfume. Não tinham, não podiam ter consciência de que levavam o touro para dentro da loja de louça. Como podiam saber? A imprensa se calava, os postos de saúde não avisavam.

Visitar uma favela. Ou qualquer aglomerado de barracos, desses que se amontoavam aos milhares, ainda que infinitas vezes menor que hoje, ao redor da cidade, era uma viagem de terror. Para encontrar pescoços furados, rostos sem pele, peitos dilacerados. Comidos pelos desodorantes.

Na manhã que descobri o furo na mão me ocorreu que podia ter sido o uso do sabonete. Ou a lavanda de maçã fac­tícia, uma vez que não suporto qualquer cheiro nas mãos. Por isso vivo a lavá-las. Tive medo, porque não há cura para estas infecções provocadas pela química.

Mas essa é outra história. O que eu queria dizer é que nada representava para meu sogro. Ter um bom diploma. Pos­suir uma tese nota dez sobre o verdadeiro número de mortos na Batalha de Tuiuti. Passar um ano nos Estados Unidos ava­liando os métodos históricos dos brasilianistas.

Oito quilos de feijão bastaram para que estourasse de orgulho. Chegou a passar a mão carinhosamente (fato raro) em minha cabeça, murmurando: "Ah, se no nosso tempo ti­véssemos tal coragem, ousadia. Estes jovens vão longe, porque são completamente destrambelhados".

— Desgraçados, desgraçados, aqueles merdas me pagam. Vão ver. Não perdem por esperar.

Meu sobrinho entrou aos berros, seguido pelos acólitos. O homem que ouvia rádio deu um murro na cristaleira, o vidro desmilinguiu. O que parecia o líder dos três correu ao telefone, ficou tentando uma ligação. A cada discagem fracassada, batia raivosamente no gancho.

— Ia dar zebra. Tem gente querendo me passar para trás. Até sei quem é. O pior é que preciso desse helicóptero.

— Deixa prá lá, capitão. Saímos por baixo, vai tudo na camionete.

— Na camionete, não. Fizeram isso para que a gente saia com os corpos pela camionete. Aí tascam em cima os Recolhe Cadáveres, não temos como explicar.

— E você precisa explicar, capitão?

— Não é esse o problema. Tem coisa, armadilha no meio, cheira mal.

— Muita desconfiança sua. O senhor vive de pé atrás.

— Quem não vive? Tenho certeza que preparam uma.

— Quando querem preparar, preparam.

— Sim, mas pegar um capitão com um cadáver na mão, prontinho, é prato cheio. Promove, fornece regalias, ganha pri­vilégios.

— É, só que eles não sabem do cadáver. Ninguém sabe.

— Meu tio sabe.

— O velho nem saiu daqui, não falou com ninguém.

— E o pianista maluco? Garante que meu tio não passou um bilhetinho a ele?

— É o teu tio, meu caro. Você está na casa dele. Aliás, estamos.

— Sim, mas você mesmo me disse que ele não anda con­tente com a invasão. É uma boa chance para nos ver fora daqui.

— Bem, a família é sua, vocês é que se conhecem. Que posso fazer? Estou na mão de vocês dois. Além do mais, o que adianta ficar discutindo? Vamos é nos arrancar.

— E o helicóptero?

— Esquece o helicóptero.

— Vão querer a parte deles, do mesmo jeito.

— Faço igual fizeram com a gente. Se tivesse um jeito de sabotar o aparelho.

— Atraímos os dois para baixo, vamos lá e serramos a hélice.

Agora falam de assassinato com a maior tranqüilidade. Como se decidissem a compra de meio quilo de café. Se não estou louco, esses caras estão. Não posso deixar. Se os pilotos descerem, aviso os dois. Aconteça o que acontecer. Ainda bem que Adelaide não está vendo uma dessas.

— Tio, quer chamar os dois pra gente?

— Nem morto.

— Do senhor eles não vão desconfiar.

— Está bem.

Ficou mais fácil do que pensei. A noite é abafada, vai demorar talvez uma hora para a temperatura dar a virada. A cidade às escuras, apenas as luzes vermelhas acesas no topo dos prédios. Os pilotos se assustam quando me aproximo do helicóptero inteiramente apagado.

— Vocês têm que se mandar.

— Quem é você?

— Para que explicar agora?

— Por que temos que nos mandar?

— Querem matar os dois.

— Quem quer matar?

— Meu sobrinho, o capitão, e os homens dele.

— E por que o senhor vem avisar?

— Simplesmente porque não gosto de assassinatos.

— É um argumento razoável. Mas por que querem nos matar? O que fizemos?

— Dizem que passaram eles para trás.

— Não é bem assim. Houve realmente confusão, mas estamos aqui à espera.

— Melhor vocês se mandarem.

— Está bem, está bem. Mas isso cheira mal. Tem trambique no meio.

Há quantos anos não ouvia esta palavra? Para mim esta­va morta. De repente, no alto de um telhado, numa noite escu­ra pontilhada de manchas vermelhas que me lembram não sei se sarampo ou árvore de natal, um desconhecido, do qual nem vejo o rosto, me ressuscita: trambique.

Os pilotos se entreolham. Quero dizer, se entreolham é uma imagem, porque os rostos estão cobertos por capacetes, com visor de plástico. Batem a porta e ligam o motor. Me afasto depressa, as hélices levantam uma poeira infernal, caio para trás, literalmente enterrado.

Gostei deste literalmente. Usavam muito na universidade. Literalmente e a nível de. Se me fosse dado batizar alguma era de nossa história, eu denominaria uma delas de A Nível De. Todo mundo falava e todo mundo empregava, sem mesmo co­nhecer o sentido, ou saber se ajustava.

Esses dois merdas podiam ter me matado. Não ando tão resistente assim que o vento de duas pás imensas não possa me jogar para baixo. O helicóptero levantou vôo, acendendo todos seus holofotes, todas as janelas se abriram outra vez. Fiquei enterrado num monte de poeira.

Sufocado, tossindo, a boca cheia de terra, um olho fecha­do, raspando, cheio de areia. Demorei um tempo para me recuperar. Quando fiquei bom, não havia mais o ruído do motor. A noite mergulhada numa melancolia quieta, sem os habituais gritos e choros e bater de latas.

— Ôô, tio, o que aconteceu? Parece que te enterraram vivo.

— Os caras me agrediram e fugiram.

— Por que te agrediram?

— Pergunta para eles. Tá?

— Já estamos descendo as coisas. Ajuda a gente?

Horas descendo móveis pelo elevador. Nunca imaginei que tivesse tanta coisa. Cadeiras e objetos menores iam pelas escadas. O homem que ouvia rádio e o que comia doces esta­vam suados, arriados. Se fôssemos contar com o elevador, leva­ríamos três meses para descarregar.

— Sei lá. O que interessa?

— Nada, estou acostumado a ver horas.

— Cada mania tem essa gente antiga.

Criei coragem, passei pelo quartinho da empregada. Vazio. Os corpos já desceram. Engraçado, estou falando como eles: os corpos. Estarão todos mortos? E por que razão não sinto absolutamente nada? Deveria sentir horror, náusea, afinal a violência sempre me espantou, chocou.

Não sinto mal-estar nem em relação a mim mesmo. E aí está o motivo maior de minha admiração. Percebo a situação e fico alarmado. Ou afinal esta surpresa não passa de condicio­namento? Deveria me sentir assim, porque sempre fui levado a sentir assim, tradicionalmente?

Os cômodos vazios. As latas de conservas, pacotes de alimentos factícios, as embalagens de água cristalizada, os re­frescos aditivos, me deixam a impressão de um depósito de supermercado. Comidas caras, bebidas raras. Esta casa se tor­nou um entreposto valioso de especiarias.

Andei pela casa toda, como um gato fazendo reconheci­mento. A casa vazia, despojada de meus objetos, perdeu a per­sonalidade. É uma casa qualquer. Pode ter sido habitada por mim, Adelaide, ou um desconhecido. Não há diferença. A nossa marca estava impressa nos objetos.

Este pensamento me faz estremecer. Humanizamos os ob­jetos, fizemos deles os nossos representantes. Eles nos simbo­lizavam, definiam. Eram a nossa expressão. Eles eram nós. Transferimos, nos ligamos, promovemos um culto que nada mais foi que uma substituição deformadora.

Talvez tenha sido melhor assim. Esta situação não me faz sofrer. Percorrer a casa vazia não dói nada. Espremo a cabeça e não encontro recordações, lembranças. Bom. Se ao menos isto significasse que estamos abandonando a mania de cultivar o trágico, endeusar o dramático.

— Chama isso de camionete?

— Não, isso é caminhão mesmo. Consegui mudar. Quan­do avaliei o monte de coisas a transportar, vi que não dava.

— E como te colocam nas mãos um caminhão desses?

— Colocando.

— Uma hora, vai ter que me explicar.

— Tio, vive a vida, pede menos explicações.

— O que me sustenta em pé são as explicações, os por­quês.

— Essa não entendi. E não explica, não, que é compli­cado. Conheço o senhor e suas enrolações.

O homem que comia doces conduziu. Parecia conhecer bem a cidade. Os faróis batiam em cantos de muros, portais de igrejas, baixos dos viadutos, iluminava colunas que susten­tavam free-ways obsoletas. A luz mostrava pessoas se erguendo depressa, rostos surpresos, congestionados.

Gente procurava esconder. Olhos saltados, horror. Medo. O homem que comia doces tocava a buzina. Gente saía corren­do em grupos. Alguns tentavam saltar as grades dos prédios, recebiam os choques, gritavam e caíam. Esqueciam que as grades são eletrificadas.

Havia grupos em redor de fogueiras, comendo em latas, cobertos de trapos. Tão admirados com nossa intromissão que nem se moviam. Continuavam paralisados, imaginando porque não parávamos. Sem entender que tal caminhão não fosse uma patrulha da madrugada fazendo batida.

— O vazamento aumenta a cada dia. Está ficando um perigo. O povo não suporta os Acampamentos Paupérrimos.

— Não controlam eletronicamente as barreiras?

— Sempre se encontra um furo.

— É, mas um furo na tecnologia tem que ser descoberto por alguém com cabeça boa. Não esses pobres coitados.

— Pois acho mais fácil um pobre coitado que se mete através da barreira, ignorando conseqüências, que um super-cérebro arquitetando uma forma de neutralizar radar e olhos mecânicos. Não pense que não morre gente nas barreiras.

— Sei disso.

— É por mero acaso que uma parte ultrapassa os Círcu­los Oficiais Permitidos. Nem imagina como são caçados. Por is­so se apavoram com a luz do caminhão.

Ao virar uma esquina, o homem que comia doces teve que frear repentinamente. Tambores-obstáculos, de concreto, obstruíam a rua. Era comum os habitantes fecharem as vias por conta própria. Um holofote iluminou o caminhão. "Iden­tifiquem-se", gritou uma voz, por megafone.

O motorista engrenou a marcha à ré, tiros furaram o motor, os pára-lamas. Nos abaixamos, os tiros continuavam. Um grupo de carecas correu atrás do caminhão. Enquanto não tomamos velocidade, eu podia vê-los ao lado da cabine, peles vermelhas, nenhum pêlo no corpo.

— A noite está fresca. Mas se a neblina azulada continuar a descer, é melhor a gente se preparar. Vai ser pior que no Nordeste.

— Pior?

— Aqui tem muito cimento, asfalto, pedra. Coisas que superaquecem. Lá era só a terra e a terra absorve quentura. Quando devolve, não devolve como o concreto.

— Precisamos arranjar um guarda-chuva de seda preta para o nosso amigo.

Subitamente, apareceu na frente do pára-brisas, caindo de cima da capota, um careca. E veio outro. O homem que comia doces brecou, esterçou a direção, os dois perderam o equilíbrio, caíram. O caminhão foi acelerado. Logo, outro careca saltou sobre o motor.

— Devem estar em cima do caminhão.

— Acaba com eles.

O homem que ficava na ponta da mesa puxou o revólver. Logo ele. Me parecia um sujeito pacífico, não violento. Com a mão por fora da janela, atirava. Determinado. Um dos care­cas sobre o motor caiu. Os outros foram pulando fora. Não gritavam, mas guinchavam como macaquinhos.

Além do ruído do motor e dos pneus grudando no asfalto mole, ouvimos um resfolegar que dominava todo o bairro. Como se houvesse uma locomotiva a vapor, parada num pátio de manobras. Nenhuma luz nas janelas. Numa e noutra guarita uma lâmpada amarelada, girando lentamente.

E no entanto, a sensação de estar sendo vigiado prosse­guia. Pensei, a certo momento, ter ouvido pás de helicóptero se agitando em cima de nós. Mas o céu escuro nada indicava. A não ser que façam vôos cegos. Minha nuca arde, alguém está me acompanhando. Quem?

O caminhão continuou avançando e recuando, entrando e saindo de ruas fechadas. Fomos obrigados a contornar grandes trechos. Eu sem a mínima orientação, ruas que jamais pensei existir. O homem que comia doces era excelente motorista, parecia habituado ao caminho.

Entramos muitas vezes pelas faixas exclusivas de ambu­lâncias, tanques, carros de polícia, ônibus de presos, veículos do Isolamento. Durante o dia equivaleria a prisão, sem maio­res perguntas. Como podem abandonar a cidade assim, à noite, deixando-a ao deus-dará?

À medida que andávamos, os bairros iam se modificando, os conjuntos residenciais eram mais simples, cada vez mais feios, maltratados. Cruzamos uma grande avenida e mergulha­mos numa zona em completa decadência. Mais um pouco, atra­vessamos blocos de ruínas sombrias.

— Ainda estamos em São Paulo?

— Ué, que pergunta.

— Acho que dormi, andamos tanto.

— Estamos perto da Quarta Parada.

— Quarta Parada? Longe pra danar. O que viemos fazer aqui?

— Descarregar no lixão.

— Por que não jogou os móveis na rua? A cidade estava deserta.

— E os corpos?

— Morreram todos os do quartinho?

— Todos. Estavam mal.

— Ou mataram?

— Juro pela minha alma. O único morto foi o barbeiro. Os outros não iam sobreviver. As chances de vida dos carecas são pequenas, são pessoas contaminadas. Condenadas. Se aca­bam mais que mosquito.

— E o barbeiro? Quem matou?

— Ora, ora, vê se interessa discutir tais coisas numa hora destas.

— Me diz, o que custa?

— Olha, o importante é descarregar os corpos sem que ninguém veja.

— Continuo sem entender por que não largaram os cadá­veres numa esquina. Estava tudo escuro.

— E os vigias de Quadra? Os Síndicos Alertas da Noite? Os Mobilizadores? Pensam que não estão de olho? Por trás das janelas, atrás das colunas, escondidos nas guaritas, vigiando através de câmeras dotadas de infravermelhos. Todos viram a gente atravessar a cidade.

— Por que não denunciaram?

— Para eles era apenas um caminhão. Vai que denun­ciam e é Alguém de Mando? Se encalacram que não é vida. Se vissem descarregar bagulhos e corpos, então era outra coisa.

— Até parece que gente morta tem importância nesta cidade.

— Não são os mortos, é o jogo político que se pode fazer com eles. Todo um sistema de trocas, barganhas, acertos, in­junções.

Neste setor, havia movimento. Que aumentou gradualmen­te, a ponto de o caminhão andar muito lento. As pessoas olha­vam espantadas para nós. O mesmo olhar de medo, surpresa. Todos carregavam alguma coisa. Um saco, uma caixa, cadeira, bastões de plásticos, embrulhos.

De quadra para quadra, mais e mais gente. Carregavam lanternas feitas de arame e lata, com uma vela dentro. Uma luz débil que mal clareava o caminho. Lembranças de antigas procissões de semana santa, o senhor morto na sexta-feira, os fiéis com suas velas, o canto fúnebre.

Desta vez, não havia o canto, mas um murmúrio denso, compacto, quase ritmado. E acima de tudo o mau cheiro. Pavo­roso. Mefítico. Havia um professor de geografia, no ginásio, muito pedante. Usava esta palavra a propósito de tudo, e todos. Para ele, era um insulto.

Para mim, ficou como um símbolo de mistério, um código. Sinônimo de coisas ruins. É uma palavra que nem todos os dicionários registram. Daí a sensação que ela é especial. Mefí­tico. O que chega até mim é um cheiro de morte e decomposi­ção. De lixo e excrementos, de esgotos e suor.

Cheiro acre, penetra. Cortante. Como esse povo suporta? A massa é cada vez mais compacta, até que desembocamos num imenso terreno. Se eu estivesse assistindo a um filme não acreditaria. Montanhas de lixo, repletas de gente encarapitada. Amontoados de quinquilharias.

Montões de plástico, colinas de latas. Pilhas de ferro ve­lho, entulhos, refugos, bugigangas, trastes, badulaques, rebo­talhos. Não sei se parecia mais um armazém geral de bagatelas ou uma grande feira de miuçalhas, percorrida por uma gente incompreensivelmente entusiasmada.

Povaréu miserável, maltrapilho, piolhento vagueava pelas aléias apodrecidas, com a mesma excitação que Adelaide e eu sentíamos nos Hiperalimentadores, em dias de consumo obri­gatório. Como se as montanhas de inutilidades fossem gôndolas de produtos raros, especiarias.

Grande parte estava reunida em torno de fogueiras. Quei­mavam plásticos e havia mais fumaça que fogo. Maltrapilhos em bandos escalavam as montanhas de lixo, catando, catando. Paravam, observando o caminhão atravessar lentamente através do vale cinzento de imundícies.

— Não tem Civiltares vigiando aqui?

— Não sei – respondeu meu sobrinho.

— E essa gente não se pega entre si?

— Também não sei. Mas é até bom que se peguem, a jogada é deixar morrer o maior número.

— Loucura, não pode ser uma coisa proposital.

— Tio, essa gente é útil para todos nós. Eles estão consu­mindo o lixo, provocando reciclagens.

— Não podem viver de sujeira.

— Os besouros não vivem? O organismo se condiciona. O senhor é um professor, tio. Professor de história, portanto sabe que o homem se adapta a qualquer coisa. O homem é um camaleão infernal. Se ajeita.

— E aceita isso?

— Estes aqui são milionários. Já viu os Acampamentos Paupérrimos? Viu? Lá, ficam estendidos uns sobre os outros, sem forças para se levantar. Não se revoltam por quê? Porque só sabem abrir a boca e fechar, pedindo comida e água. Já viu filhote de passarinho? Igual, só falta piar.

— Que horror!

— Horror? O senhor está falando em horror? Fala por falar. Tem uma vida confortável, conseguiu ficar dentro do Círculo, tem casa, comida, um sobrinho influente.

— Não tão influente. Aconteceu alguma coisa com o heli­cóptero que mostrou uma brecha na sua influência.

— Briguinha de rua, ciumada, mas está tudo bem.

— Se está bem, e a influência é grande, por que nunca me ajudou a encontrar sua tia?

— A tia está bem. Deixa pra lá.

— Como bem? Tem notícias dela?

— Não... quer dizer, tive...

— Me diz, vai, me diz.

— Tira a mão de mim, tio. Outro dia eu soube, está na casa de uma amiga.

— Como soube? Que amiga? Ela falou de mim?

— Não... alguém me telefonou... falou por ela...

— Está na sua casa? Não está?

— Que isso?

— Sempre te achei muito calmo. Você nunca tocou no desaparecimento de sua tia. E os dois eram ligados. Apesar de mau caráter, você sempre dependeu dela. Vou te dizer. Se algum dia você gostou de alguém, esteve apaixonado por alguém, foi pela sua tia. Desde pequeno.

— Que isso, tio?

— Com dez anos você se escondia debaixo da cama, para olhar as pernas dela. Era ou não era?

— Toda criança faz isso.

— Faz. Mas continuar fazendo aos dezoito anos já é estranho.

— Eu? Aos dezoito anos?

— Quantas vezes não te surpreendi olhando pela fecha­dura do banheiro?

— O senhor está doente.

- Por que nunca se casou? Por que, uma vez arranjou uma namorada que era a cara de sua tia? Até brincávamos que era filha nossa e que você ia se casar com uma prima.

— Doente.

— E quando ela sofreu um acidente e teve que fazer plás­tica, modificando ligeiramente o nariz e o queixo, o que acon­teceu? Você largou dela. Sem explicações.

— Não gostava mais dela.

— Não, ela deixou de parecer com Adelaide e o seu in­teresse morreu.

— Cala a boca, tio. Te mando pro Isolamento.

— Mesmo sabendo que esse Isolamento pode fazer Ade­laide sofrer?

— Ela não gostava do senhor.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Como pode saber?

— Ela me contava. Ficávamos sozinhos os dois, a maior parte do tempo. Lembra-se? Então, ela tocava piano o dia inteiro, sem parar. Modificava-se, era alegre, cantava, enfei­tava-se.

— Enfeitava-se... Você fala como um velho.

— O que você fazia para ela? Quando você voltava, o piano se fechava, as roupas iam para o guarda-roupa. As rou­pas mais bonitas dela eram escondidas. Por que, tio? O senhor não permitia roupas alegres. Decotes. Ela me disse um dia que o senhor era ciumento, brigou muito com ela, quando namo­rados, por causa de uma minissaia.

— Nunca me importei com roupas. Só uma vez, ela com­prou um vestido um número menor, ficou justo, os seios quase de fora. Nem foi briga, falei calmamente que ela não devia sair daquele jeito.

— E a cabeça dela, tio? O que ela pensava?

— Como, o que pensava?

— O que pensava da vida, o que ela queria?

— O que é isto, interrogatório?

— O senhor começou, agora...

— Ela está em sua casa? Não está? Você mantém sua tia prisioneira?

— Anda vendo televisão? Outro dia, com insônia, pas­sei a madrugada assistindo a uma fita velhíssima. O sujeito gostava da menina e prendeu-a em sua casa. Como se chamava?

— E eu sei?

— O senhor gosta de cinema. Devia saber.

— Acho que era O Colecionador.

— Isso. Então, pensa que prendi a tia em casa, hein? Pois vai lá.

— Me empresta tua ficha de circulação que vou mesmo.

— Pensa que entra assim?

— Chefe, aqui está bom?

O homem que comia doces parou o caminhão. Havia um pequeno descampado e estávamos bem no meio. Dos monturos, as pessoas continuavam a nos olhar, inquietas, desconfiadas. A neblina azulada estava muito baixa. Os picos dos montes maiores estavam enfiados na névoa. Paisagem européia.

Começava a clarear. Naquela luz indecisa, os maltrapilhos do lixão pareciam mais terríveis. O cheiro era insuportável. Como estas coisas se passam em volta da gente e acabamos sem conhecer? E nem se pode dizer que foram escondidas. Estão aí, à nossa vista, abertas.

Estranho. Não passamos por uma Boca de Distrito. Cru­zamos vários bairros e não me recordo de uma só cabine fun­cionando. E não me consta que fechem à noite, ao contrário, redobram a vigilância, por causa dos furões. Seria o caminhão com as cores oficiais?

Descemos e tanto o homem que comia doces, quanto o que ouvia rádio, saíram de revólver na mão, cautelosamente. Meu sobrinho saiu descontraído, como se estivesse acostumado. Co­meçaram a descarregar os móveis. As colinas em torno passa­ram a ficar cheias de gente.

Contemplavam em silêncio, talvez aturdidos com os mó­veis. Há quanto tempo não viam madeira? Um careca desceu meio como quem não quer nada. Colocou a mão numa cadeira, observou, agarrou-a e saiu correndo. Vimos ainda quando a partia em pedaços jogando sobre a fogueira.

Os outros criaram coragem, vieram descendo vagarosa­mente. Não se atreviam a invadir, com medo dos revólveres, bem à vista. Foram apanhando, surpreendentemente em ordem, os móveis. Arrebentavam e alimentavam suas fogueiras. Meu sobrinho chegou até um grupo de cegos.

Os cegos estavam provavelmente sem entender os baru­lhos. Meu sobrinho sacudiu uma garrafa de água. Não posso dizer que os olhos brilharam, mas as bocas banguelas sorriram chochamente. Emitiram sons guturais, estenderam as mãos para o vácuo.

— Querem água?

— Hum, hum, hum.

— Têm que me ajudar a cavar. Aceitam?

— Hum, hum, hum.

— Cavar muito, bem fundo.

— Er, ur, er, er, hum, hum.

— Dá aí as ferramentas para o pessoal.

O homem que comia doces abriu a mala lateral do cami­nhão, retirou picaretas, pás e enxadões e distribuiu para uns dez cegos. Meu sobrinho gritou que podiam cavar fundo, ele diria quando parar. Organizou o grupo, antes que um come­çasse a dar enxadada ou picaretada no outro.

Fiquei olhando o fogo. Mesas, cadeiras, armários, cômo­das, toaletes. A fogueira do meu casamento. Todas as coisas que escolhemos juntos, compramos a crédito, pagamos com dificuldade. Estão se acabando num segundo. Não eram nada. Só madeira trabalhada. Terminou tudo.

Num minuto. Eu podia contar para esses homens a histó­ria de cada móvel. O que havia em cada gaveta. Cada papel que passou por ali, cada roupa, grampo, alfinete. Que impor­tância tinha guardar as coisas, manter tudo arrumado? De re­pente, me sinto um bobo, aqui parado.

Um homem de olhos despencados arrasta o baú. Outro vem ajudar. Um terceiro. Todos de olhos caídos. Eles se atra­cam, a tampa do baú se abre, vejo os pacotes de papel pardo rolando, se misturando com o lixo e poeira do chão. Que diria Adelaide? Ou não diria? Ora essa.

Das colinas descem outros homens de olhos caídos. Parece que os grupos se dividem por desgraças. Os mutilados, os deformados, os carecas, os despelancados, os sovacos cancero­sos. Será que devo procurar os homens com furo na mão? Para me integrar à minha classe?

Ao mesmo tempo que sinto algo familiar nestes homens (mas o quê?), a mancha marrom e verde volta, enquanto todo o lado esquerdo do meu corpo paralisa, momentaneamente. Desta vez, a mancha veio acompanhada por um latejar lanci­nante que me toma toda a nuca e a fronte.

Fecho os olhos, mas a mancha aí está. O verde imóvel e o marrom se movendo por dentro dela. Uma imagem começa a se formar, com alguma nitidez. E logo se desfaz, o mal-estar passa, recupero meus movimentos. E quando vejo estes homens de olhos caídos, me volta a infância.

Na mancha, o verde é imóvel e o marrom se move por dentro. Uma imagem começa a se formar, com alguma nitidez. Se conseguir que ela permaneça por mais tempo, saberia o que é. Recupero meus movimentos, a mancha se desfaz. Aliás, ela se liquefaz, marrom e verde se confundindo.

E o que vem, violenta, é minha infância. Era menino e havia guerras entre quadrilhas dos bairros. Não de marginais, apenas da criançada maluca, fingindo um amor desgraçado ao lugar em que morava. Não admitíamos invasão, menina só namorava menino local, conhecido.

Bastava aparecer alguém estranho, corria-se a saber quem era. Se um morador, ou espião inimigo. Não provasse direito o que fazia, levava uma surra, voltava com o rabo entre as pernas. Depois desta surra, podia-se esperar, a qualquer mo­mento, uma invasão de moleques.

Estávamos sempre prontos a rebater. Havia locais estra­tégicos entre as árvores, nos vãos de muros, em cima de telha­dos. As ruas eram vazias, quase sem automóveis. Na guerra voava pedra, pau, cabo de vassoura, estilingue com bolinha de gude. A batalha durava pouco.

Era a forma de viver aventuras, transportar para a vida real os duelos do cinema, guerras entre brancos e índios, luta polícia-ladrão. Diante do primeiro pé machucado, galo na cabe­ça, corte na perna, as turmas debandavam. Inconscientemente evitava-se golpes no rosto.

Havia um código de ética, não declarado, pacto não assi­nado. Afinal como íamos pensar em Convenção de Genebra e outros tratados que regulam a guerra? A briga era franca, de certo modo alegre. Descarregávamos as inquietações. No dia seguinte, todo mundo se encontrava no grupo escolar.

Sem ressentimentos. Uns olhavam feio para os outros. Necessidade, os machos se afirmavam, rosnavam. Não passava disso. Formavam-se alianças entre dois ou três bairros, quando o provocador era muito forte. Terminada a guerra. Desfaziam-se alianças, continuavam as "inimizades".

Até que um dia, pela primeira vez, surgiu polícia no meio de uma batalha. Chamada por um vizinho, desses homens into­lerantes, irritadiços. Desconhecendo os códigos, os soldados se alarmaram. Talvez tenham feito por maldade, com o instinto sádico que marca o policial.

Desceram de cacete. Então, surpresa. Os meninos se volta­ram contra eles. Lutou-se bravamente contra as armas de ver­dade. Dezenas de moleques malucos, se jogando contra meia dúzia de policiais. Não há como vencê-los, são ágeis, espertos, ativos, brigam gozando, tudo diverte.

Até que um soldado sacou o revólver. Atirou no meio da criançada. Esparramou gente por todo lado, gritando. Era um tal de moleque subindo pelo poste, pulando muros, se atirando pelas janelas das casas, voando para os bueiros. Um menino ficou na rua, pasmado, olhando em volta.

Os policiais entraram na viatura e se foram, depressa. O menino continuava parado. Demorou um pouco para gritar. Os outros vieram saindo lentamente, assustados. Eu estava dentro de um quarto, de uma casa que nem sabia de quem era, saltei pela janela aberta.

Acho que fui o primeiro. Pulei a janela e caí bem na frente do garoto. O que vi me fez vomitar, comecei a tremer. O tiro tinha arrancado um pedaço do osso, ao lado do olho. Sei lá como, o globo saltou para fora, ficou pendurado, junto ao nariz. Do buraco corria sangue.

Sangue e uma meleca amarela. Desmaiei, acordei em casa. Meu pai, ainda por cima, me dando bronca: "Podia ter sido você, viu no que dá essas brincadeiras de rua?" Não dormi por muitos meses. Anos depois, acordava de noite, vendo o olho saltado, gosmento, sangrento.

Foi meu primeiro contato com violência verdadeira. Até então, brincávamos de violência, sem saber o que era. Aquele tiro marcou o fim de nossa fantasia. Foi a última batalha entre quadrilhas. Ninguém mais teve coragem de sair a campo. Mer­gulhamos na realidade.

Falou-se muito na cidade. Principalmente porque o solda­do agressor permaneceu impune, nada aconteceu. "Cumpri­mento do dever", disse o delegado. Ficou por isso. O pai do menino era simples demais para pensar num processo. Nem tinha coragem de acusar a polícia.

Por algum tempo, a meninada saiu à rua, estilingue no bolso, saquinhos cheios de bolinhas de gude. Se encontrásse­mos aquele soldado certamente sairia outro massacre, de conse­qüências imprevisíveis. Estávamos dispostos a tudo, queríamos vingança. Mas os pais intervieram.

Nos obrigaram a desistir. Nunca me conformei por ter aceitado aquele conselho. "A coisa pode ficar pior", disse meu pai, "melhor não complicar. O assunto está resolvido, deixa assim". O nosso ódio, de repente, se voltou contra nós mesmos. Por termos concordado, não reagido.

— Vai deixar que eles se peguem? – grito para o homem que comia doces.

— O que posso fazer?

— Dá uns tiros, espalha essa gente.

— Para quê?

— Olha o que estão fazendo com as coisas.

— O senhor é um homem muito estranho. Não dá para entender. E daí? Não jogamos fora? Façam o que quiserem.

— Eram as minhas coisas!

— Estranho demais.

Os homens de olhos caídos gritavam, brigavam, rolavam pelo lixo, caíam em cima do fogo. Os móveis estavam alimen­tando fogueiras. Agarraram os pacotes de papel pardo, passa­ram a abrir. Um arrancava da mão do outro, misturavam-se numa balbúrdia infernal, aos berros.

Não sei como aqueles olhos despencados não eram arre­bentados. Na confusão, era tão fácil alguém puxar um daqueles cordões. Parece que se entendiam, dentro de sua ferocidade. Os pacotes de papel pardo começaram a se desfazer. Fiquei a observar, completamente fascinado.

Então, era verdade. O que eu via era a confirmação. Da distância irreparável que me separou de minha mulher. Trinta anos juntos, sem saber. E em menos de meia hora, a revelação veio por inteira. Assegurada pelos pacotes que se estraçalha­vam, mostrando o que havia dentro.

 

A ADELAIDE QUE SURGE DOS PACOTES DEIXA SOUZA PERPLEXO.

QUAL A IDENTIDADE REAL DE SUA MULHER? E AGORA?

 

Era verdade. Fiquei furioso ao ver que meu sobrinho tinha razão. Logo ele, que odeio. Me senti mal, tanto ou pior quanto daquela vez em que concordei com meu pai que não vingaríamos o menino de olho vazado. Os pacotes abertos mos­travam os vestidos de minha mulher.

Roupas de seda, de cetim. Cores estampadas, vistosas, flo­res imensas, desenhos malucos, decotes, minis. As mulheres de olhos despencados uivavam, ao disputar. Eram ferozes, mas não bobas. Faziam de tudo para ganhar, sem rasgar. Al­guém já viu uma briga cheia de gentilezas?

Pois ali estava uma. Na minha frente, aquelas mulheres horrorosas despiam seus trapos colocando os vestidos berran­tes de Adelaide. E era quando se transformavam realmente em aberrações, princesas tornadas sapos, um sabat, bruxas dan­çando ao luar no pátio de milagres.

Tentei imaginar Adelaide naquelas roupas, não consegui. Estava habituado a sua figura frágil dentro de tailleurs discre­tos ou vestidos leves de cores sóbrias. Para mim, ela não encai­xava em roupas cintilantes. E se fosse esta a sua verdadeira imagem, extrovertida?

De repente, o mundo acabou de se desequilibrar. O ritmo foi todo quebrado. As peças, com os dentes comidos, não se ajustaram. Necessário refazer tudo, reatar conversas não havidas, recuperar milhares de carinhos não feitos. A mulher que amei nunca existiu. Veio um vácuo.

Amei, sim. Ao meu modo. Pode ter sido uma forma erra­da, no entanto era o meu jeito. De que adianta teorizar agora sobre as formas de amar? Dentro de mim só existe uma per­gunta: ainda tenho tempo, ou o meu se esgotou? Quantas chances o homem tem na sua vida?

Quer dizer então de nossas noites, tão rápidas, insones? Teria sido diferente? Me bateu uma sensação de perda. Sem tamanho, fronteira. Tem uma palavra que meu avô usava muito, referindo-se às matas: incomensurável. Perder, para sentir que um dia se teve, é coisa injusta.

Estas noites perdidas, sei bem, não há como recolocá-las. Os gestos, carícias, murmúrios, gemidos, risos, cheiros, o suor, nunca mais. É como estar partido ao meio, despedaçado sob as rodas de um trem. Com toda a dor que é possível suportar consciente, sem anestesias.

Que loucuras poderíamos ter feito naquele quarto. Explo­rar um ao outro no limite máximo. Limite. Temos sempre barreiras em nossa cabeça. Poderíamos ter ido até o fim. Ou além dele, se soubéssemos o que é o fim. No entanto, em silên­cio, concordávamos com aquela coisa morna.

Um amor comportado, perpétuo. Cheio de respeito, é o que pensávamos. Não, não, Adelaide não tem nada com isso. Eu é que pensava em respeito, ela jamais disse essa palavra. A esta altura sei que não posso responder por ela, não somos mais o casal tão unha e carne.

Viver na dependência do se. Se tivesse sido, se tivesse procurado, se tivesse tentado. Existir confiando numa hipótese passada. Certa vez, li num jornal uma frase que me pareceu sem sentido: a salvação sem amanhã. Acho que agora pene­trei, compreendi, o significado.

Escalei uma colina putrefata. Com dificuldade, em meio ao fedor. Dizem que aqui era o cemitério da Quarta Parada. Alqueires e alqueires coalhados de túmulos. Foi uma grande conquista das imobiliárias, quando se esgotaram as possibili­dades de terrenos na área urbana.

Demolida a última casa, erguido o último edifício, restava apenas o subúrbio longínquo. Aí se deu a descoberta dos cemi­térios. Tradicionais, populares, de luxo, para indigentes. Ca­tólicos, judeus, protestantes, crentes, batistas, dos mórmons, da esquerda.

Veio uma intensa campanha publicitária. De amortização. A fim de preparar as pessoas que renegavam a idéia de ver removidos os seus mortos sagrados. Os projetos de substitui­ção eram belíssimos. Agulhas brancas, altíssimas, capazes de furar nuvens, chegar ao céu.

As famílias comovidas disputavam os andares altos, aque­les que se situavam perto do senhor, segundo os anúncios. Assim, notáveis extensões de terras foram conquistadas pelas imobiliárias. Ali plantaram seus conjuntos mastodônticos, ossos e cinzas como alicerces.

Não posso assegurar se de fato aqui foi o cemitério. Há muitos anos, desde que estabeleceram os projetos de circulação, tenho andado pouco pela cidade. Tudo o que posso ver, do alto destas colinas em forma de pirâmides, são prédio iguais. Repetitivos, monótonos.

De tal modo que não dá para dizer se estou na Quarta Parada, na Bela Vista ou no Brooklyn. Conjuntos e mais con­juntos de paredes lisas. Janelas, grades, fachadas limpas. Elas se assemelham, uma vez que todas construtoras utilizam plan­tas e projetos estandardizados.

Desenhos, divisões, materiais, houve unificação geral, a fim de baratear os custos. As diferenças ficaram por conta dos nomes pomposos como Mansão Rimbaud, Solar Maria Anto­nieta, Fontes de Versalhes, Hall dos Nobres, Torre Aristocrata, Vila Real, Brilho de Florença.

Tadeu Pereira e eu andávamos bastante. Percorríamos a pé as ruas do velho centro, estendíamos para os bairros antigos como Campos Elíseos, Higienópolis, Brás. Procurávamos vestígios da Finlândia e Lituânia nos becos da Vila Zelina, peda­ços do Japão nas vielas da Liberdade.

A manhã de domingo era preenchida com os passeios, enquanto Adelaide ia para a missa, depois para a casa dos Pais. Resmungava que os fins de semana tinham se acabado. Ela sentia falta do nosso churrasco dominical. Também, na­quele tempo a carne já começava a faltar.

Não sabíamos fotografar. Até mesmo as máquinas automá­ticas nos causavam embaraços. Anotávamos nossos achados em cadernetinhas. Um trabalho lento, exigia atenção. Como passar um pente fino, agitar bateia em garimpo. Mas não tínha­mos nenhuma pressa. O tempo era nosso.

Tadeu ainda se arriscava a fazer um desenho, de vez em quando. Nostalgia de seus cursos na faculdade. Ele quis ser arquiteto, em vez de professor de cálculo. Acabou reprovado naqueles vestibulares lotéricos, porque errou umas cruzinhas diante das respostas opcionais.

Registrávamos a presença de velhas casas, mansões, sobra­dos. Arquitetos amigos nos ajudavam a decifrar estilos, épo­cas. Descobríamos vilas escondidas e protegidas. Praças quase secretas, ruas intactas desde a década de vinte, construções que resistiam ao avanço das imobiliárias.

Uma figueira centenária na rua Piratininga. Uma coleção de vitrais art-décor na rua Bresser. Imagens de Calixto se dete­riorando numa capela esquecida em Santana. Um resto de projeto de Warchavchik, deformado pelo acréscimo de uma ga­ragem de plástico e pastilhas na fachada.

Uma escultura de Brecheret perdida entre anões de jardim, no Tremembé. Um mosteiro colonial transformado em oficina mecânica. A basílica dos armênios com um tesouro: pedaços de baixos relevos, trazidos da Igreja de Althamar. Uma porta de bronze em sinagoga do Bom Retiro.

Não tínhamos método científico. Fazíamos por divertimen­to, um pouco por nostalgia. Vontade também de nos reencon­trarmos através de pistas geográficas que andavam à deriva. Sentir que ainda havia pontos de apoio. Talvez o que pro­curássemos fosse uma espécie de segurança.

Um vidro floreado. Floreiras nas janelas de uma quadra sombria da rua Aurora. Uma escada de ferro batido, desampa­rada, demolida a varanda a que ela dava acesso. Grades de jardim, enferrujadas. Fachadas com marchetaria em mármore, ou louça. Galerias. Abóbadas com nervuras.

Cúpulas, pavilhões, estufas, terraços, belvederes, pilastras, vigamentos, entablamentos, arcos superpostos, ornamentos, bai­xos relevos, estuques, grinaldas, florões, zimbórios, formas despojadas de ferro e concreto, colunas, portas art-nouveau, edifícios barrocos, góticos.

Submerso por uma barreira de letreiros em acrílico e lata, encontramos o primeiro projeto em concreto aparente, feito pelo Paulo Mendes da Rocha. O edifício todo repintado em rosa e azul. Assim, fizemos um imenso rol, até o dia em que nos olhamos e perguntamos: para quê?

Nos bateu, como um raio. Ficamos de tal modo constran­gidos que nos separamos. Sem dizer uma palavra. Cada um sabia, dentro de nós o porquê. Quanto mais circulávamos, mais nos aproximávamos das periferias. E aquele trabalho foi pe­sando, tornando-se inútil, inconseqüente.

Não era radicalismo, nem o que se chamava festividade. Nossa, há quantos séculos não usava esta palavra. Esqueci minha cadernetinha. Quando reencontrei Tadeu, não falamos mais sobre o assunto. Somente agora, semanas atrás, ele se lembrou e me excitou a curiosidade.

Hoje, ainda que nebulosamente, vejo um certo sentido. De fixação. Ei, mas o que estão fazendo lá em baixo? Claro que é um corpo que carregam, embrulhado nos lençóis borda­dos por Adelaide. E são cinco. Cinco. Como cinco? Quer dizer que morreram todos? Não eram cinco.

Meu Deus do céu, o que está acontecendo? Mataram todos os infelizes. No entanto, eram somente quatro. Os três que invadiram e já andavam mais para lá do que para cá. E final­mente o pobre barbeiro. Para mim, foi o sujeito que ouve rádio quem matou. Tem tudo de paranóico.

Aquele quinto pacote me incomoda, desço a montanha de lixo aos trambolhões, me agarro ao meu sobrinho. Por que vão enterrar, assim meio escondido? Que monte de coisas não entendo. Só posso constatar que atrás da impunidade deles existe um medo. De quê? De quem?

— Sente-se mal, tio? É o cheiro.

— Cheiro, coisa nenhuma. Quero saber quem é o outro defunto.

— Um dos caras do quartinho.

— Eram três.

— Quatro.

— Estou velho, não caduco. Eram três.

— Teve mais um, noite dessas. Nem contamos ao senhor.

— Quero ver.

— Sem essa, tio! Estão bem acondicionados.

— Acondicionados coisa alguma, me mostre.

— E se não mostrar?

— Adianta mostrar? É um desconhecido. Um surdo que andava pedindo comida.

— Deixe-me ver, para me tranqüilizar.

— Esquece tio. Não temos tempo, o dia está aí. Se cla­rear de vez, estamos perdidos.

— Pelo amor de sua tia.

— Não me vem com história, outra vez.

— Me conta quem é.

— Um surdo, já disse.

— Um surdo não significa nada. Existem milhares na ci­dade.

— Acho que era um surdo por serra de construção.

— Não brinca comigo.

— Verdade, eles existem.

— Chega.

— Nervoso, tio?

— Quem é o outro morto? Estou com pressentimento ruim.

— Acho que acertou, tio.

— O professor de piano?

— Ele.

— Por quê? Por quê?

— Morreu do coração, não fomos nós. Não agüentou a subida da escada, a notícia do desaparecimento da tia. Teve um ataque.

— Descarado.

Me atirei sobre ele, vejam só. Com o braço esquerdo, me jogou no lixo. Brincadeira de criança para quem seguiu escru­pulosamente as noções rígidas da educação esportiva dos Militecnos. Tenho ódio de levar tapa. Beliscão, então nem se diga. Me tira completamente do sério.

Avancei de novo, às cegas. Há uma diferença quando a gente briga, acreditando que pode bater. E quando já entra para perder. Agora estava apenas com raiva. Nem era mais questão de honra, dessas histórias de homem não apanha. Ain­da com a esquerda, ele me segurou.

— Pára com isso, tio. Olha seu coração.

— Você não presta.

— Me xinga, tio. Xinga de verdade, aí desabafa.

— Você me paga.

— Em prestações?

— Não acredito, escuto e não acredito.

— Pára com essa conversa, tio. Absolutamente, não me comove. É uma conversa muito antiga, nem sei como o senhor sobreviveu tanto tempo pensando assim.

— Tenho desprezo por você.

— E eu nem ligo. Vou lá me importar com o que sente por mim?

— Diz que não era o professor.

— Era.

— É um horror. Te entrego aos Civiltares.

— Mato o senhor, antes disso.

— Teria coragem?

— Precisa?

Adelaide conheceria este sobrinho a quem se dedicou tan­to? Ele substituiu o nosso filho. Ensinamos a ele tudo o que pudemos. Não sobrou nada. A certeza que tenho é absoluta. Ele somente ainda não me matou, porque alguma coisa dentro dele o impede, um resto de decência.

O helicóptero surgiu por trás do monte de lixo com velo­cidade incrível. Quando ouvimos o barulho e erguemos a cabe­ça, ele já estava em cima de nós. Começava a clarear, o sol ainda não tinha saído, a luz era indefinida. Dois holofotes na barriga do aparelho nos deixavam expostos.

Uma metralhadora giratória começou a funcionar, despe­jando fogo cerrado. Fitas intermitentes de luz, intensamente brilhantes naquela claridade indecisa da madrugada. O fogo penetrava no chão com um barulho fofo, levantando pequenas explosões. Todos começaram a gritar.

Carecas, molambentos, aleijados, os de olhos despencados, mancos, velhos, pelanquentos, corriam. Meu sobrinho rolava pelo chão, com uma agilidade admirável, seguido pelas raja­das. Eu simplesmente não tinha a mínima idéia do que devia fazer em combate, fiquei apavorado.

 

SIGA O VISUAL EM DIREÇÃO AOS CAMPOS DE DESCARREGAMENTO

 

Baseado em experiência japonesa, o Departamento de Bem-Estar Social construiu, junto aos bairros privilegia­dos, os Campos de Descarregamento. Eles funcionam como clubes, com mensalidades, e também alugam os serviços por hora. São imensos ginásios, despojados e ladrilhados. Bonecos de plástico, espuma ou borracha factícia, pendem de travessões. O sujeito tem o direito de socar, xingar, insultar, gritar, cuspir, fazer xixi sobre os bonecos. Se acaso tais sujeitos, denominados pacientes terápicos, pretendem atirar no boneco, têm que usar salas privativas. Se a intenção é apenas esfaquear, existem bonecos especiais que sangram. Os Campos de Descarre­gamento aliviam tensões reprimidas, atenuam o stress, diminuem o nervosismo, combatem dor de cabeça, fadi­ga, relaxam e acomodam. Evitam as discussões e dissen­sões domésticas ou profissionais que resultam em divór­cios e desempregos. No plano social eliminam a possibi­lidade de Isolamento.

 

INSTIGADO POR SOUZA, O SOBRINHO

REVELA A VERDADE A RESPEITO

DO BARBEIRO. E NÃO DÁ PARA ACREDITAR

 

O ar deslocado pelas pás atirava lixo miúdo, com violên­cia, em todas as direções. A podridão me batia no rosto, pene­trava na boca, feria as narinas, grudava na testa. Melecas inde­finíveis, gosmentas, sabor amargo, se agarravam em meu pes­coço, escorriam pelos braços.

Sentia-me sujo e desconfortável, esquecido das balas que espocavam ao meu lado. Mais lamentável que porco refoci­lando em pocilga. Fico espantado com minha capacidade de abstração, capaz de num momento como este esquecer a morte caindo sobre mim, como fogo de artifício.

Mas, era certeza, não queriam matar ninguém. Nada mais fácil de nos acertar com aquelas metralhadoras girando como carrossel enlouquecido. Ainda assim corríamos. Meu sobrinho rolava pelo chão, levantava-se, saía em zigue-zague, com admi­rável agilidade. Seguido pelas rajadas.

Houve tempo em que observando estes helicópteros sobre a cidade, em sua vigília fiscalizadora, associava o ruído das pás ao da liberdade. Não sei onde encontrei isto, nada tem a ver. É algo que provoca pânico. Fico paralisado. Na imobi­lidade, a mancha verde e marrom volta.

Desta vez, a reação foi inversa. A paralisia chegou pri­meiro, a mancha depois. O marrom se move por dentro, como lagarta deslizando num útero gelatinoso. O verde é fixo, não, não é, tem também um movimento oscilante, leve. Se durar mais um pouco, saberei o que é.

Despreocupar, deixar que a mancha me envolva. Antes era o medo, eu sentia que ela podia crescer, me tomar. Eu mergulharia através dela como se caísse num buraco negro no universo. Agora, não me importa onde possa me levar, tudo o que desejo é chegar ao conhecimento.

Estar perto, sem poder tocar. Ter a palavra na ponta da língua, e não expressar. Sentimentos de agonia. O movimento verde é cada vez mais ondulante, como vento a varrer arbustos. A mancha me toma, penetro através dela, e o vento provocado pelo helicóptero agita ramos.

Vegetação. Troncos, galhos, folhas. Não entendo como o vento das pás penetrou assim em minha visão, sacudindo furio­samente esta floresta que faz parte de uma lembrança. A idéia de morte me busca novamente, me atinge como uma destas balas luminosas que se desprendem.

Que descem festivas do ventre bojudo do helicóptero e me fazem ver, em relâmpagos intermitentes, o verde da man­cha se definindo como floresta. Meus olhos sofrem uma suces­são de transformações, lente de aumento, lupa, luneta, micros­cópio, telescópio de longo alcance.

Me aproximo dos troncos, faço um corte nos arbustos, nas folhas, vejo ramificações nervosas, células, de tal modo que tenho a sensação de me integrar a esta vegetação. No entanto, tudo é rápido demais, não há tempo para me fixar, continuo perdido dentro da mancha.

Não distingo o marrom, sei que não pode ser terra por causa do movimento, o marrom sai de dentro do verde, se destaca dele, não pertence. É como se fugisse, depois de ter rompido. Outra vez uma sensação de desligamento me arre­piando. Se ao menos acabasse este barulho infernal.

Se este helicóptero me deixasse pensar. Aliás, se me dei­xasse, eu não estaria parado como um imbecil, completamente exposto ao fogo mortífero. Corro para trás de uns tambores, rastejo para uma colina de lixo, agora o fogo come as monta­nhas de detritos inflamáveis.

Por pouco. Por muito pouco não morro e também não descubro o que vem a ser esta mancha que me paralisa. Vejo o homem que sempre ouve rádio subindo, alguma coisa na mão pronta a ser atirada, enquanto o helicóptero desce sobre a sua cabeça. Descendo, sem atirar. Descendo.

Até bater, e o homem que sempre ouve rádio cair. O objeto de sua mão rolando à altura do rosto, logo o helicóp­tero alçou vôo, vertical, imponente. Bicho bonito, taí! Por um segundo, menos que isso vi o rosto do homem se desfazendo no meio de um forte clarão.

Aquilo me assustou realmente. O homem era um desco­nhecido, invasor de minha casa. Porém tínhamos nos ligado, nos poucos dias em que convivemos. Nem era ligação, mais um hábito. Alguém com quem falar, se eu quisesse falar. Ouvir, quando ele queria falar. E era falastrão.

De repente, estoura como balão em festa de criança, bem à minha frente. Há coisas que não dá para aceitar. Esta é uma delas. Me recuso a admiti-la como normal. Sei que se eu repe­tisse continuamente: tudo bem, assim é que é! Acabaria acei­tando, não levaria um choque.

Você já viu uma cabeça se liquefazer? Foi a primeira. Entrou em mim, gravado em câmera lenta. O objeto emitindo uma claridade violenta. Engraçado, não percebi nenhum som. Talvez por estar tão espantado que conservei apenas a ima­gem, a se repetir como tape em replay.

A claridade se desprendeu do objeto, bomba, granada, sei lá o que, nunca mexi com esses troços. Iluminou o rosto e começou a comer a pele, os olhos, o nariz. Expulsava os dentes que se esparramavam pelo ar, estilhaçados. Roía os ossos, redu­zia tudo a pasta, massa, poeira.

E então, ossos, dentes, carne, pele, massa, pareceram se juntar de novo, transformando-se em poeira. Soprada por um vento, que nada mais era que o próprio ar deslocado pela claridade. Não sei se me entendem, foi assim que vi, naquele breve espaço em que o tempo estancou.

Contar para Adelaide, saber se as cabeças das crianças estouravam deste modo, em contacto com a água gelada do mar. Loucura minha, aquilo era apenas um pesadelo, um espec­tro que a perseguiu por anos e anos, algo que ela foi alimen­tando na cabeça, enquanto a carta não vinha.

— Proteja-se, tio. No chão, atrás do monte de lixo.

Sim, se eu encontrasse lugar no meio desse amontoado de gente. Vejo meu sobrinho saltando sobre as pessoas, chutando, abrindo caminho. Fazendo daqueles corpos uma trincheira hu­mana, o espertinho. Se eu contasse uma história destas em casa, Adelaide jamais acreditaria.

O helicóptero se afastou alguns metros, ficou imobiliza­do acima de nós. Com suas pás ronronando suavemente. Cer­teza que nos observa, todo eriçado, pronto para cair sobre a gente, furioso. Gato e rato. Realmente meu sobrinho está me­tido numa grossa, em disputa grande.

Se não, iam deslocar um bruta helicóptero, gastando mu­nição, só para caçar um coitado qualquer? Para esses infeli­zes que vivem comendo lixo, basta um Civiltar sem arma. O uniforme assusta, um tapa derruba, um grito faz com que fu­jam. Não admira o terror em que se encontram.

Gastando muita reza para pouco pecado. E eu? Entrei como Pilatos no credo. Podia estar em casa, não tinha nada que vir com eles. No entanto, me trouxeram por alguma razão. O mais importante era me tirar de lá. As peças não se ajustam, por mais que eu quebre a cabeça.

Por que me tirar? Posso impedir o quê? Ou queriam sim­plesmente que eu não visse? Se colecionasse num caderno todas as perguntas que venho fazendo nos últimos anos, teria hoje uma enciclopédia. Montaria um Livro dos Por Quês, como aquele do antigo Tesouro da Juventude.

O helicóptero se moveu em círculos, dando a impressão de procurar. Um homem se debruçava à porta, binóculo apon­tado para baixo. Meu sobrinho e seus dois acólitos mantinham as cabeças enfiadas no lixo, a poucos metros de mim. Sinal de que também estavam com medo.

Acho mais fácil eles morrerem por contaminação no cha­vascal que pelos tiros inimigos. Continuo sem saber se o pessoal aí de cima está apenas intimidando, ou se quer exterminar o bando. Tudo o que se ouve são os motores, o crepitar das fogueiras e as respirações ofegantes.

Choros esparsos. Todo mundo na espera. Descubro que estou completamente exposto, sem saber o que fazer para me proteger. Qual o melhor lugar, a posição em que o fogo da metralhadora não me apanhe. Também, nunca estive na guerra e nos filmes não entendo a estratégia.

O tempo vai passando, permanecemos estatelados, como bobos, vigiados por um urubu metálico que não se decide. Hoje em dia a gente tem que ter muita paciência, vá pro inferno. Subitamente, comecei a me sentir bem ridículo, dei­tado na imundície, sem nenhuma razão aparente.

Eu quase ia dizendo: venho falando com meus botões. Tem maior besteira que esta: falar com os botões? Nem que tosse costureira. Mas tenho repetido para mim mesmo que é inútil buscar explicações. O jeito é ir aceitando, levando, viven­do momento a momento, sobrevivendo.

Somando os segmentos para ver se no final resulta numa vida. Quando criança, minha mãe socava na cabeça da gente os dogmas e preceitos da igreja. Havia palavras proibidas: Por quê? Como? Jesus está dentro da hóstia. De que jeito? Está. O papa é infalível. Como? Ele é.

Adão foi feito por deus. E deus? É, foi, sempre será. Fal­tava o princípio, mas meu pai dizia que deus era um moto-contínuo, bastava por si. Anos mais tarde, eu passaria horas e horas no quintal de um parente que a família considerava maluco: Sebastião Bandeira.

Sebastião tentava montar um moto-contínuo. Era um ho­mem rude, sem estudos, não conhecia um princípio de física. Com paus e arames montou uma gerigonça que ficava girando dias e dias. Todavia, Sebastião não estava satisfeito, porque ele era obrigado a dar partida.

Minha mãe nunca podia imaginar que as afirmações cate­góricas me conduziam a dúvidas intransponíveis e a uma nega­ção natural. Cada dia a hóstia se transformava mais e mais numa rodela de farinha sem gosto, não tinha nem o valor de uma bolachinha, tão delgada, tênue, inócua.

Quem não conseguia me responder, contar o porquê, era um mentiroso, falava sem provas. O Esquema sempre me lem­brou aquela igreja católica intangível, inquestionável. Hoje, admitimos tudo. Aos poucos, emprenhados pelos ouvidos, fomos concordando, acabamos resignados.

Tadeu garantia que não foi apenas a propaganda oficial a responsável pelo amolecimento. Culpava também a química nos alimentos. Ainda mais com a tal comida mundial, nin­guém sabe se produzida aqui e exportada ou feita fora e im­portada. Faz diferença se é daqui ou de lá?

O helicóptero voltou, atirando. Voava baixo e a linha de fogo derrubava, arrancando braços, pernas, pedaços de cabeça.

Fumaça, gritaria, lixo voando como andorinhas no verão. As pessoas não reagiam, permaneciam estáticas debaixo da arti­lharia. Absolutamente indiferentes.

Outros corriam. Se é que se pode chamar de correria o deslocamento arrastado de gente pesadona, vagarosa. Penso que estão numa corrida de sacos, saltitando sem equilíbrio, loucos pela chegada. Olhos esgazeados, não pelo medo, mas porque estão continuamente dopados.

O helicóptero deu quatro ou cinco voltas, a esmo, atiran­do. As balas provocaram fogo em várias colinas inflamáveis. A fumaceira de plásticos e coisas podres cobriu tudo, mais espessa que fumaça de borracha. Meus olhos ardiam, a língua secou, a garganta raspava dolorida.

Um tosse-tosse geral, unido aos gemidos e choro dos feri­dos esparramados. Onde estão os Civiltares? Por que não apa­recem agora para impedir um massacre? Ora, Souza, tudo gente da mesma laia. Para eles, quanto mais morrer, melhor fica, resolve-se o problema do Esquema.

A fumaça não me deixava ver, mas o barulho do motor foi se afastando. Meu sobrinho ergueu a cabeça, sorridente. O homem que só comia doces mostrava o ar apalermado, vai ver nem tinha idéia do que se passara. O homem da ponta da mesa levantou-se com ar preocupado.

— Machucado, tio?

— Não.

— Assustado?

— Bastante.

— Não foi nada. Só queriam pegar a gente.

— E olhe quantos derrubaram.

— Melhor. Estavam condenados. Cedo ou tarde, os Civil­tares fariam um rapa, levariam a maioria. Tudo gente que fugiu dos Acampamentos, conseguiu penetrar na cidade.

— E agora?

— Vamos voltar para casa.

— E o pessoal que você matou?

— Não matei ninguém, tio.

— Fui eu, então?

— O senhor anda com idéia fixa. O que adianta?

— Para mim, adianta.

— Sabe, tio? O senhor é um velho moralista, um chato, sua cabeça não tem nada a ver, está chacoalhando. Pensa na morte em termos ultrapassados. Vou te confessar uma coisa. A minha patente no Novo Exército tem permissão para matar.

— Permissão?

— Surpresa. Viu só?

— Pode ser que para matar bandidos. Não o Barbeiro, nem o professor de música ou aqueles pobres coitados molambentos.

— Os pobres coitados invadiram sua casa, lembra-se?

— E vocês?

— Outra vez essa história? O senhor cansa, é um velho repetitivo. Anda esclerosado (disse o homem da ponta da mesa).

— O barbeiro, tio? O barbeiro não era nenhuma flor que se cheire.

— Boa pessoa, conhecia ele há trinta anos.

— É? Quer que te diga? Chefiava um bando naquele pré­dio, um bando enorme no bairro. Uma quadrilha especializada em roubar água. E em desalojar famílias dos apartamentos. Lembra-se que me procurou? Quando soube que eu era capitão do Novo Exército se apavorou. Queria ficar ligado aos nossos, como quem não quer nada. Se tivesse se infiltrado, estaria pro­tegido, teria informações.

— Não acredito numa só palavra. Calúnia contra um pobre velho.

— Quer acreditar, acredita.

— Me dê uma prova?

— Tio, pensa que o Serviço de Informações do Novo Exército fica fornecendo atestados com firma requerida, cópias, divulgação pela imprensa?

— Não acredito mais em você.

— Para mim dá na mesma. Ninguém se preocupa com acreditar ou não. O que importa é ir vivendo o melhor que se possa, até que alguém nos apanhe.

— Os do helicóptero quase que nos apanharam (disse o homem que comia doces).

— Não foi desta vez.

— Amanhã a gente pega eles.

— E o professor de música? Quem matou? Por quê?

— Oh! Como deixar o Sherlock satisfeito? Ou é Poirot? Ou James Bond? Qual daqueles detetives antigos que o senhor lia quando mocinho? Acho que é isso, não é, tio? Me lembro de uma estante sua cheia de livros policiais. Fora as coleções de revistinhas.

— Quem matou o professor?

— Vê se descobre. Vamos fazer um jogo? Damos as pistas, o senhor conduz a investigação. Primeira pista: não foi um capitão.

 

DA INUTILIDADE DE SE DESCOBRIR OS

VERDADEIROS RESPONSÁVEIS E O TRAUMA

DE SOUZA AO TELEFONAR PARA TADEU PEREIRA

 

— Segunda pista (disse o homem da ponta da mesa): tem diabete, mas não vai morrer.

— Terceira pista: vive comendo doces.

— Quarta pista: está bem ao seu lado.

— Quinta pista: está morrendo de rir.

— Sexta pista: é meio pancada, mas um touro para traba­lhar, quebra qualquer galho, tem uma força descomunal.

— Sétima pista: fui eu, velho.

— Descobriu, ou precisa de mais elementos?

— Como é possível, Dominguinhos?

O dia completamente claro. Suávamos. A neblina azul esta­va logo acima das montanhas de lixo. O mormaço, mais o calor das fogueiras tornava o lugar irrespirável. Continuei tossindo, queria sair dali, o mais depressa. Desisti de desafiar estes ho­mens. Quem são eles?

Roupa melada, grudada ao corpo, suor escorrendo do rosto. Imundos. Ao nosso lado, a vida parece ter retomado a normali­dade, os mendigos, cegos, molambentos, olhos pendurados, alei­jados, se movendo como andróides, catando entre as colinas podres algo utilizável.

— Me levem para casa.

Os três se entreolharam. Sem disfarce. Não preciso mais para saber. Não me querem de volta. Vão me deixar onde? Meu sobrinho se afasta, o homem da ponta da mesa me apanha pelo braço, me puxa. Resisto. Ele segura mais firme, puxa decidido, não está para brincadeira.

— Me larga.

— Vou levar o senhor.

— Para onde?

— Sua casa.

— E meu sobrinho, não vai?

— Foi buscar o caminhão. Somente com o caminhão pode­mos atravessar as Bocas de Distrito.

— Não é o que parecia de madrugada.

— O que parecia de madrugada, muda com o nascer do dia.

— Poeta, é?

— Vamos embora.

— Vocês não vão me levar para casa. Para onde vou?

— Para casa, meu senhor.

— Que quentura, meu deus. Hoje vai ser de rachar.

— Se não corrermos, vamos acabar caindo num bolsão quente.

— Já chegaram aqui?

— Nesta zona tem muitos. Em pequena intensidade, ainda. Não tão fortes como os do Nordeste. Neles o sol deixa escamado, não mata.

Caminhamos entre colinas fumegantes, remexidas por uma população de danificados, que se movia como autômatos, em gestos quase eternos. Conseguiam ser mais lerdos que o pessoal da cidade. Bem, estes comem, bebem, têm suas casas. Meu deus, acho que estamos todos danificados.

— Se os bolsões aumentarem, vai ser fogo.

— Você disse que aumentam. Ao menos, no Nordeste au­mentavam. Como vai ser?

— Os Militecnos do Esquema devem arranjar solução.

— Ninguém mais vai sair de casa.

— É, quem tem casa. E os outros? Os desabrigados são cinco ou seis vezes mais.

— O Esquema se interessa por eles? Não é tudo gente dos Acampamentos Paupérrimos?

— Que nada. Tem muita classe média solta no espaço. Estou só imaginando a hora que descobrirem os guarda-chuvas de seda preta.

— Que guarda-chuva?

— Te contei. No Nordeste, a única coisa que segurava o sol era guarda-chuva de seda preta.

— Não existe seda, hoje é tudo nylon, sintético.

— Tem uma seda factícia. Funciona, mas é caríssima.

— Onde tem?

— É o que andamos procurando também. Estávamos qua­se descobrindo, quando deu um rolo que não sabemos de onde partiu. É muita gente atrás da mesma coisa. Um descobre, logo se espalha, não dá para guardar segredo. Estávamos perto de uma pista, por isso usamos o teu apartamento, como QG. A coisa cheirava por ali.

— Tinha ligação com o barbeiro?

— Pensamos que tinha, depois vimos que não. O homem estava em outra, roubo de água e desalojamento. Muito baixo astral, gangsterismo. A nossa é diferente, não prejudicamos as pessoas.

— Ah, que bom! Não prejudicam ninguém! Comovente! Aí vem o caminhão.

Atravessando com dificuldade pelo meio dos grupos, rodi­nhas. Buzinando muito. Os miseráveis abismados, contempla­vam o veículo, se afastavam. Outros demoravam a compreender o que se passava, eram empurrados, puxados. O homem da ponta da mesa me socou, fortemente. Caí.

Atordoado, a respiração presa, como alguém tentando me estrangular. Desesperado, levei as mãos ao pescoço, tentando desobstruir a garganta. Não havia nada, era somente o efeito da pancada, pegou o carocinho-de-adão, foi ao queixo; meio-nocaute. Recuperei a respiração.

Muito pouco, a princípio. Os olhos nublados, a cabeça ene­voada. Quando consegui perceber o que se passava, me vi de joelhos, enquanto as pessoas riam, em volta de mim. Os rotos rindo do esfarrapado. Não sei qual a graça. O caminhão tinha desaparecido. Nem sinal.

Larguei o corpo, não conseguia mesmo me erguer. Que for­taleza aquele nordestino. Desconfio que não era nordestino, coisa alguma. Nem nada do que me contou. Inventou todas aquelas histórias. Não passa de um capanga de meu sobrinho, deve ser praça do Novo Exército.

Seja o que for, não interessa, me derrubou. Nem tive tempo de me defender, me colocar em guarda. Aliás, ia ser pior, se ele me visse preparado para a defesa, ia bater para valer. Assim, lar­gou um murro num resvalão. Jamais imaginei que fosse tão fraco, que desilusão.

Cagada de arara! E agora? Pensar não adianta. Ir embora, como? Cada uma. Bom, o negócio é me mexer. Reclamar é boba­gem. Finalmente na minha vida me encontro diante de uma situa­ção extremamente concreta. Limite. Esperar é me transformar num destes danificados inúteis.

Esperar o que, de quem? Ou me movimento, ou me arre­bento. Quero dar o fora depressa, porque se tem coisa que jamais suportei, foi mau cheiro. Decido tudo pelo olfato. Foi assim que me apaixonei por Adelaide, ela estava sempre arrumadinha, fresca, perfumada. Uma delícia.

Para voltar a casa, vou precisar da Ficha de Circulação. Sou uma besta, como fui sair assim, sem ela? A menos que en­contre um atalho, desses pelo meio das quadras, seguindo a via de trânsito dos ônibus. Besteira, nem tenho noção de onde estou. Será que alguém informa?

Ei, espere aí. E se eu revistar os bolsos do homem que sem­pre ouvia rádio? Boa idéia. Onde é que estávamos? Que labi­rinto. Procuro voltar, os montes de lixo são iguais. Mas eu me lembro daquela moça sem nariz, ali sentada. Indo reto, chego a um tipo de pernas amputadas.

Tenho nojo do que estou fazendo. Reviro os bolsos do homem morto. Não ficou nada de sua cabeça, nem do pescoço. Me contenho para não vomitar. Ele trazia dinheiro, uns cartões que não sei para que é, fichas telefônicas. Mas nada de Ficha de Circulação. Droga.

Só se escondeu a ficha na bota. Usa um coturno marrom, igual aos do exército, todo amarrado, cambaio. Juro que ele devia ser um praça, ninguém me tira da cabeça. Migrante nordestino coisa nenhuma. Tudo farinha do mesmo saco. Será que ele ma­tou também o professor de música?

Acabei me perdendo no caminho de volta. Mas quem ga­rante que a saída é por ali? Afinal, eu estava apenas acompanhan­do aqueles marginais que planejavam me abandonar. Imbecil, tive a intuição aquela hora, quando se entreolharam. Por que não fiquei de sobreaviso?

Um bando se reunia em torno de um rádio, ouvindo música. Casais maltrapilhos dançavam lentamente, descombinando o pas­so com o tom da música que era agitado, quente. Ninguém é louco de se chacoalhar com um calor destes. Nem tem forças. Vai como se fosse um bolerão.

Dois para lá, um para cá, apenas pelo prazer de dançar, recuperar velhos costumes. O sol continua encoberto pela nebli­na azul, parada no mesmo lugar. O mormaço nos envolve, abate. Ao meu redor, as pessoas estão prostradas, mas parecem despreo­cupadas, a dançar.

Como se fosse um grande feriado, a se prolongar indefini­damente. O homem tendo conquistado o grau extremo de liber­dade, o trabalho excluído do cotidiano, a não ser o necessário para sobreviver. A humanidade recuperando sua disponibilidade pré-histórica, a despreocupação.

A inquietação pelo instante seguinte, a insegurança na ob­tenção da comida, tudo foi distendido além dos limites, a força de tensão se rompeu, as pessoas se mantêm em repouso. Um estado que ainda não alcancei, pertenci a uma categoria que obteve colocação, fazer.

Um dos milhares que passaram nos testes de exclusão, es­pécie de reprodução dos antigos vestibulares escolares. Os em­pregos artificiais criados pelo Esquema selecionaram um em cada cem habitantes. Uma escolha aleatória, bastante incompre­ensível em meu caso.

Afinal, recebi compulsória em meu primeiro emprego, o de professor. O normal era que os indicadores dos serviços de infor­mação me excluíssem como indesejável. No entanto, recebi nota plena e me deixaram escolher. O que mostra o descontrole, mas­carado sob rígido controle.

Agora, não consigo carregar minha disponibilidade, sinto-me abafado por não estar no escritório, continuo querendo saber as horas, penso que estou perdendo tempo, jamais conseguiria ficar parado, ouvindo rádio, ou dançando no meio de um grupo, como essa gente faz.

A Rádio Geral toca Música Mundial, uma fórmula que de­senvolveram para internacionalizar. A composição é feita de tal modo que um francês pode perfeitamente afirmar que está ouvin­do música francesa e o brasileiro não tem dúvidas que tem pela frente um bom chorinho.

Colocaram em computadores as características que marcam as músicas de cada país. Do mundo inteiro. Foram extraindo os acordes, tons, melodias, comuns a todas. Elaboraram um ca­tálogo minucioso. Claro que foi um trabalho que levou muitos anos, orientado pelos melhores técnicos.

Reuniram informáticos, críticos, professores, especialistas em computação, arranjo, concordâncias, alternações, transformações transistorizadas. As comissões estudaram as possibilidades de arranjos e combinações. Elaboraram um código destinado ao uso dos compositores.

O código é complexo e o compositor necessita de um curso intensivo, fornecido pelas gravadoras. Nos casos de criação es­pontânea, aquela que os Militecnos Musicais apelidam pejorati­vamente de música de botequim, aplica-se um processo especial, se a criação recebe boa nota.

A fita gravada pelo compositor é entregue a uma comissão de reciclagem que a adapta aos termos da Música Mundial. O pessoal de botequim não tem acesso aos cursos das gravadoras. É mais ou menos como alguém dos Acampamentos querer pene­trar nos Círculos Oficiais Permitidos.

A Rádio interrompe a música, o locutor anuncia a tempera­tura, prevê que a neblina azul vai desaparecer, haverá sol à tarde, que todos se protejam adequadamente. A voz monocórdia tenta mostrar excessiva animação, pedindo a atenção para im­portante comunicado:

 

As autoridades do Esquema acham-se preocupadas com o clima que está se instalando em nosso país. Dentro de alguns dias, em sua fala de fim de ano, o chefe do governo abordará a importante questão. Pesquisas elaboradas com critério mostram que os índices de Pessimismo mostram-se levemente perturbadores. Pela primeira vez em muitos anos, oscila a intensa alta em que se encontravam os índi­ces de Otimismo, conseguidos pelo Esquema no final dos Abertos Oitenta. Tais índices, considerados os melhores do planeta por uma comissão internacional que se mostrou admirada com o trabalho do Esquema, registraram ligeiro declínio. Está sendo providenciada uma grande pesquisa para saber as razões, uma vez que não existe nenhum moti­vo para Pessimismo. O Esquema pede a compreensão geral no caso de ser necessária uma campanha para erguer os ânimos. Sabe-se o quão importante é para todos nós a ele­vação dos índices de Otimismo, sem o qual o país não poderá prosseguir em sua Escalada de Desenvolvimento. Essa compreensão deverá se traduzir num imposto a curto prazo, dividido em seis parcelas mensais, para financiar uma campanha promocional, a fim de que o otimismo seja recuperado. Ou seja, trata-se de um empreendimento em seu próprio benefício, uma vez que o Pessimismo gera descontentamento, tristeza, depressão, compulsões maníaco-suicidas, derrotista. Não queira se sentir um derrotado, colabore para o Otimismo coletivo.

 

Como não pensei nisto? Se achar um telefone, chamo Tadeu Pereira. Não sei o que ele pode fazer. Alguma orientação decerto. O que não posso é pedir informações em postos oficiais, ou a Civiltares. Teria que explicar por que estou sem ficha alguma, fora do meu Distrito.

As pessoas desenvolveram um ritmo exclusivo para cami­nhar sob a soalheira. Gestos leves, nada de pressa, respiração pausada, aspirar pelo nariz, soltar pela boca. À medida que os dias passam o sol parece mais próximo, a tendência é diminuir o ritmo, andar quase parado.

Ninguém nas ruas, caminho quadras e quadras, uma eterni­dade para vencer cem metros. A artrose me prejudica, as juntas doem. As janelas dos prédios estão fechadas, é uma forma de impedir que o mormaço penetre. Uma cidade abandonada, as pessoas se foram às pressas.

Se houvesse vento, eu esperaria ver galhos voando pelas ruas, como nas cidades fantasmas do oeste, em velhos filmes classe B. O ar parece imobilizado, tão quente que a gente evita a respiração normal, para não se incendiar por dentro, ficar todo ressequido, torrado.

Imagino meus pulmões como as camisas de lampião, frágeis, débeis, tomadas pelo fogo, podendo romper-se a qualquer mo­mento, transformar-se em cinza. As miragens surgem, chafariz jorrando na esquina, fonte luminosa em pleno asfalto, hidrante rompido jorrando água.

A praça de cimento, deserta, os brinquedos de criança para­dos, arruinados, as ferragens enferrujando. Que alguém me expli­que o processo de ferrugem num clima tão árido, ferrugem para mim implica na idéia de umidade. A menos que à noite haja algum sereno, mínimo que seja.

Comportas de barragens se abrem sobre a praça, a água inunda tudo, vem como um maremoto, arrastando. No entanto não me dá medo, quero mesmo me envolver nessa fúria refres­cante. E a água já não está ali, se evaporou. Vejo apenas uma mulher maltrapilha, virando em volta.

Ela gira da esquerda para a direita, depois faz um retorno. Conto, doze voltas para um lado, doze ao inverso. Depois dimi­nui para onze, e onze outra vez. Então, dez, e nove, e oito. Até chegar a uma volta e recomeçar. Só que desta vez recomeça do treze, depois do quatorze.

Chego bem ao seu lado. Me vê, não interrompe seu exercí­cio, ritual, seja lá o que for que está fazendo. É bem jovem ainda, morena de pele queimada, tem uns traços bonitos. Como não fica tonta, girando tanto? Tem o ar espantado e subnutrido das pessoas normais.

— O que está fazendo?

— Girando, não está vendo?

— Estou, mas imaginei outra coisa.

— Só se o senhor está louco. É olhar e ver que estou gi­rando.

— E por quê?

— Porque se eu parar de girar, estarei imóvel.

— Desculpe, perguntei errado. Para quê?

— Precisa de alguma razão para girar? Ou já existe uma lei? O senhor é Civiltar?

— Nada, nada, sossegue. Continue girando.

— Esta cidade está cheia de louco. Agora implicam porque estou girando.

— Desculpe, eu já disse. Só queria saber se é bom.

— Tão bom quanto ficar parado. O senhor gosta de ficar parado. E eu gosto de girar.

— Está bem, está bem, eu me vou.

— Vai? Onde? Por que não aproveita a praça deserta? Ninguém vigiando.

— Vou procurar um telefone.

— Vai telefonar?

— Não. Vou procurar um orelhão, quando encontrar dou um beijo nele.

— Para que um beijo?

— Estava brincando. Você leva tudo a sério.

— Você, sim. Eu estava quieta, girando, você ficou per­guntando. Se ao menos girasse também, eu podia ter mais con­fiança em você.

— Não tenho vontade de girar.

— Nem com a praça deserta?

— Deserta ou cheia, dá no mesmo para mim.

— Vai telefonar para quem?

— Para o Tadeu Pereira. Conhece?

— Quem não conhece?

— Essa não! Quem é?

— Teu amigo.

— O que ele faz?

— Faz.

— Trabalha onde?

— No elevador.

— Então, conhece mesmo?

Não respondeu, continuou girando, para lá e para cá. Sem me olhar. Tinha o rosto interessante. Meio encardido. No entanto, os cabelos maltratados estavam puxados numa trança que descia pelo lado direito do seu rosto. Trança comprida, há tempos ela não cortava cabelo.

Outra miragem, como as águas. Minha cabeça vai acabar fundindo. Inventei essa moça, acabei de formá-la em minha ca­beça. Mulher interessante, tem um jeito sensual que me chama, me desperta. Espero não sentir cheiro perto dela. Mas, se existe, é louca. Como conversar?

— Até logo.

Está girando, sem responder, sem me olhar, ancas se agitan­do. Ancas. Onde encontro tais palavras, de vez em quando? Tem um belo traseiro, redondo. Torneado demais para uma danifica­da como ela. Sozinha. Por que não está no Lixão, junto com todo mundo? Estranho.

Bem, estou sozinho, e não me julgo tão estranho assim. Pode ser que ela me ache. E daí? Traseiro. Por que não digo logo bunda? Vivi sempre amarrado em relação a um mundo de coisas. Gente ou situações. Me bloqueando, me impedindo. Quem disse que ando de breque travado?

Adelaide, deve ter sido ela. Não, também andava de freio puxado. Queimamos lona por muitos anos. Se Adelaide estivesse aqui, me deitava com ela nesse cimento que queima. Fritaria a bunda dela, ou a minha, mas faríamos amor ao sol, olhados por trás de janelas fechadas.

O sol frita meus miolos. Acaso gostaria de participar desta cena? Confesso que não. Fantasias provocadas pela morena que gira. Louca. Ela também pode estar pensando: esse é louco. Em­patamos. Os dois têm razão. A verdade não é mais única, cada um carrega a sua. Sou, és, é.

Divagando. Gosto que me regalo. Talvez exista telefone no bar, do outro lado da praça. Fica debaixo de uma placa, marca­da por logotipos do Esquema. Característica da Intensa Propa­ganda Oficial no desenho e no gigantismo. Devem pensar que somos cegos, fazem tudo imenso.

 

A SOLUÇÃO ESTÁ NAS MARQUISES EXTENSAS.

AGUARDEM.

 

Faz tempo já que se vem falando nestas tais marquises. É sempre assim, meio sutil. De repente desencadeiam uma campa­nha. É quando surgem os visuais, simbolizando a obra. Signos que serão utilizados mais tarde, nas indicações de rua. Dizem que as marquises estão prontas.

 

DIÁLOGOS SEM SENTIDO DENTRO DE UM BAR.

A INUTILIDADE DA COERÊNCIA NAS SITUAÇÕES

E UM TELEFONEMA COM RESULTADO TERRÍVEL

 

Bar simples de subúrbio. Fórmica desbotada, latão dos bal­cões necessitando polimento, prateleiras semivazias, máquina de café desmontada, poeira. Azulejos formando painéis com pa­noramas. Remanescentes da Interessante Época do Domínio Por­tuguês sobre Cafés e Padarias.

Eram os bares que existiam antes da instituição das Lancho­netes Mundiais, padronizadas pelas Multis, para a implantação da fast-food. Eficiência, asseio, rapidez no atendimento. Adoles­cente, apelidamos as lanchonetes de Pé na Bunda. Entrar, comer e cair fora, depressa.

As Mundiais tomaram os bairros classe alta e média, domi­naram os pontos passíveis de lucro, onde a população tinha ca­pacidade aquisitiva. Desprezaram os subúrbios populares, onde os antigos bares-fórmica-colorida-latão-painéis, continuaram fun­cionando, em bases precárias.

Estes bares sobreviveram só deus sabe como. Lutaram con­tra os serviços domiciliares feitos pelas Mundiais. Ou pelas agên­cias de entregas que proliferaram a partir da instauração do Grande Medo de Sair à Rua, um ciclo que foi penoso a todos nós. Funcionou como Prisão.

Quem se atrevia a colocar a cara na janela, o pé fora da porta? Grades, sistemas de tevê, fechaduras, vigilantes, alarmes. Segurança relativa em casa. E fora? As pessoas deixaram de apa­recer no trabalho, a produção começou a cair. O Esquema se deu conta. Preocupou-se.

Ou surgia um sistema de segurança, ou seria a calamidade. Foi diferente da grande crise provocada no fim dos Abertos Oi­tenta, quando o povo deixou de consumir. O comércio faliu, a indústria entrou em recesso, veio a onda de demissões. O Ca­suísmo Econômico fez milagres.

Criaram as famigeradas OC, ou Obrigações de Compra. Ca­da um era obrigado a manter uma cota mensal de consumo. A cota variava em função de classificações determinadas pela Re­ceita Federal, a partir dos níveis salariais dos contribuintes. Es­tabeleceu-se um limite mínimo.

Pudesse ou não, tinha-se de arcar com a OC. Sem ela, ca­rimbada e reajustada de acordo com índices nacionais de preços, a vida nem valia a pena. Não se podia viajar, manter o emprego, a conta bancária, a cota de água, a renovação da matrícula dos filhos nas escolas.

Não se lacravam bicicletas, não podíamos retirar os carnês de álcool combustível. Foi assim que as OCs salvaram o comér­cio, reabilitaram a indústria. Naquele tempo deixei definitiva­mente de tentar entender economia. Era cada vez mais privilégio de um grupo reduzido, isolado.

De que maneira o país não estourou? Não me perguntem. Eu olhava a ampliação das operações de crédito, a extensão dos financiamentos, a liberação de taxas de juros, os limites de che­ques especiais, o florescimento de consórcios para todos os tipos de transação comercial.

O sistema de cartões, ou dinheiro plástico, como o povo chamava, elevou-se a proporções infinitas. Não havia uma só pessoa sem dívida, empenhada nos bancos, financeiras, agiotas. O lema era: Se o país não estourou em Oitenta com a dívida externa, ninguém mais estoura.

Claro, havia quem perdesse alguns bens. A casa, os móveis, os terrenos. Hipotecados. Pessoas sem liquidez que não sabiam manobrar dentro do Esquema. O carro sempre foi a última coisa entregue. Combatia-se por ele até o fim. Era uma coisa admirável de se ver, essa luta.

Que bravura, quanto idealismo, força. Era necessário mais que coragem. Precisava-se de fé, esperança. Bem ou mal, a gran­de crise econômica foi contornada. O governo subsidiava con­sumidores e estes devolviam ao governo. E o Esquema se man­teve, oscilante, porém inabalável.

Não me peçam coerência. O que significa isso? O que sei é que o problema foi diferente, quando se tratou da própria vida. O medo prendeu as pessoas em casa. Apenas segurança poderia devolvê-las de volta às ruas. Segurança a qualquer custo, a qual­quer preço. Total.

Das gavetas do Esquema surgiram, por etapas, organizações tipo você-não-sabe-mas-sou-policial-e-estou-na-tua-vigilância-o-tempo-todo-se-acautele-e-também-tem-um-sujeito-do-meu-lado-que-pode-ser-policial-igualmente-a-me-espreitar-e-vamos-todos-para-o-Isoamento.

Inventaram os Agentes Desconfiados pela Própria Natureza. Nasceram os fiscais, as permissões para matar, os confinamentos. A Intensa Propaganda Oficial contribuiu para montar o clima de insegurança: se-você-é-marginal-fique-prevenido-a-qualquer-momento-poderá-desaparecer.

Conceberam as balas catalépticas. Estavam o tempo inteiro forjando novas formas de proteção. Até que chegou a sofisticação máxima, com a tranqüilidade total. Vieram os aditivos calman­tes, fazendo parte da Comida Mundial, presentes em todos os alimentos. Foi um sossego.

Nossa vida hoje até que transcorre agradável, perto do que já passamos. Como é que nos salvamos, de que modo atravessa­mos todos esses tempos, é outra pergunta que não desejo que me façam. Atravessamos. Às vezes, é mais simples do que se pensa, o medo é fruto da imaginação.

As vitrines do bar estão vazias, empoeiradas. Compridas lâmpadas fluorescentes apagadas. Alguns fregueses sonolentos, cabeças caídas, diante doa copos de pinga. Não pensem que é pinga de cana, não. Purinha, mas factícia, gosto idêntico, raspa garganta e não deixa cheiro.

Três garçons, o que é demais para um frege destes. No entanto, se o dono quiser autorização de funcionamento tem de garantir emprego para determinado número de pessoas. Os salários devem ser nulos, ficam à espera de gorjetas, comem por aqui, levam as sobras.

Sujo, melado, suando, fedendo, com nojo de mim, me encos­to ao balcão. O garçom chega, andar arrastado. Espirra muito, tem o nariz vermelho, olhos lacrimejam. A figura é deplorável, mas ele também me deve achar um trapo. Numa bolsa de valores nossas ações são zero.

— Tem catálogo?

— Só quer o catálogo?

— Não sei ainda.

— Precisa gastar um pouco.

— Quero uma água.

— Água? Tem permissão para esta lanchonete?

— Não.

— Então?

— Me empresta o catálogo, depois a gente conversa.

— Precisa ser boa conversa. Conveniente.

— Só tem esse catálogo? De que ano é?

— E eu sei? Não tem mais capa.

— Só capa? Por sorte meu amigo está na letra P. Se fosse A, ou B, ou W, eu estava perdido. Essa lista não tem começo nem fim.

— Se quer, é essa.

Dois Tadeus Pereiras. Gastar uma ficha com cada um? Checo os endereços. O primeiro é na zona norte, bairro popular. O segundo no setor dos Funcionários Privilegiados, junto aos lagos secos do horto florestal. Tem de ser o outro. E se não for? Já pensou? Ah, filho da mãe.

Ocupado, vai falar assim no inferno. Tento o outro número por desencargo de consciência. Não responde. Volto ao balcão, o garçom espirrento me olha, faz um sinal, surge o que, presu­mo, seja o patrão do boteco. Arqueado, costeletas de cantor de bolero, fala sussurrada, ciciante.

— Zeca Brocha me disse que o senhor não tem permissão.

— E precisa nesta biboca? Estamos nos quintos dos in­fernos.

— Precisa. Não posso servir.

— Nem uma água? O Zeca Brocha deu a entender que com uma conversa conveniente.

— Se for bastante conveniente podemos dar um jeito.

— Jeito?

— Se arranja. O que vai tomar?

— Uma Cola Mundial, bem gelada.

— Nem sonhando, nossos bares são quatro estrelas. E so­mente lanchonete estrela dourada pode servir Cola Mundial.

— E água?

— Reciclada.

— Mijo? Não para mim.

— Ora essa, todo mundo bebe. Puríssima. Fresca, o freezer funciona bem.

Ele abriu o freezer, mostrou o copinho plástico, transpa­rente. Um psicólogo das vendas, este desgraçado. Minha boca se encheu de água. Nada, ficou na vontade de encher de água. Ando tão seco que nem salivo. Eu queria apenas refrescar o rosto, nem ia tomar mijo reciclado.

No entanto, vendo o copo atraente, pouco me importa. Vai ver, tenho engolido muita urina por aí, sem saber. Que venha. Ele faz um gesto, desaparece atrás de uma cortina plástica, de tiras vermelhas. Olho pelas paredes, nenhuma câmera de tevê, nada que me observe.

— Precisa o mistério?

— Pode entrar um fiscal de consumo.

— Manhã dessas, com um calor de rachar?

— Um desses bêbados do balcão pode ser fiscal.

— Eles estão preocupados com caça grossa, não com tico-tico.

— Tem uns que andam atrás de qualquer coisa. O mar não está para peixe.

— Se quer trocar a água por fichas, desista. Estou a zero.

— Pode ser dinheiro mesmo.

— Quanto?

— Milhão e meio.

— Dou milhão e duzentos.

— Não posso. E meu lucro?

— Ora, já está ganhando uns quinhentos por cento.

— Ninguém funciona com menos de oitocentos por cento líquidos. — Milhão e meio.

— Um milhão e trezentos. É tudo o que tenho.

— Deixa de conversa, seu. Milhão e meio, ponto final.

Fico com a água, já fiz boquinha. Se não beber me desi­drato. O bar está abafado, o mormaço pesa uma tonelada. Sabo­rear pequenos golinhos, o fundo do copo virou gelo, o freezer é bom de verdade. Ligo outra vez para Tadeu, tenho de alcançá-lo, de qualquer maneira.

— Alô. Casa do Tadeu Pereira?

— Sim (voz de mulher do outro lado).

— Tadeu Pereira, o ascensorista?

— Sim (a voz era reticente).

— Ele está?

— Não (a voz era dolorida).

— Saiu?

— Saiu.

— Volta?

— Não.

— Como não volta? Mudou-se?

— Não. Morreu.

— Morreu? Morreu como?

— Tadeu suicidou-se ontem.

— Suicidou-se? Então, não