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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NATUREZA SELVAGEM / Christine Feehan
NATUREZA SELVAGEM / Christine Feehan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Quando Saria Boudreaux encontra um corpo morto nos pântanos da Louisiana, perto de sua casa, seu primeiro instinto é ir à polícia. Mas há um problema — parece que a vítima foi morta por um grande gato, e seus irmãos são todos leopardos que mudam de forma.

Enviado para investigar o proprietário do terreno, o leopardo Drake Donovan está pronto para qualquer coisa, exceto à fome insaciável que o abala quando conhece Saria. No fundo de sua alma, sabe que ela está destinada a ser sua companheira. Dividida entre proteger seus irmãos e encontrar a verdade, Saria pisa com cautela em torno do poderoso shifter. No entanto, quando se aventuram profundamente no misterioso pântana numa caçada ao assassino, Saria se encontra ansiosa pelo toque de Drake e a doce libertação da rendição...

 

 

 

 

O pântano possuía quatro estações e nas quatro ele também tinha humores distintos. Naquela noite usava uma manta roxa, de todos os tons, espirais escuros que enchiam o céu da noite e lavandas mais claros que rastejavam entre os ciprestes. A lua iluminava os véus de musgo dispostos à beira d’água, transformando-os num azul pálido e prateado. Vermelho e azul formavam a cor roxa, que ficava evidente nos respingos de um vermelho escuro que percorriam as árvores para se derramarem mais abaixo na água coberta por uma vegetação flutuante. Saria Boudreaux sorriu quando saiu cuidadosamente do seu barco até o esconderijo que tinha montado, construindo-o dia após dia, um pouco de cada vez, para que não perturbasse a vida selvagem ao seu redor. Ela cresceu à beira do pântano e não havia outro lugar onde se sentisse mais feliz. O esconderijo ficava ao lado de um ninho de corujas e esperava tirar fotos noturnas, um acontecimento desejado há tanto tempo e que poderia lhe trazer muito mais dinheiro. Cada vez mais sua fotografia a permitia ter maior independência com relação à loja de sua família do que imaginava possível.

Ir à escola foi bem difícil — ela sofreu — até descobrir o mundo da fotografia. A maior parte de sua infância foi passada correndo pelos pântanos, pescando, capturando siris, até ajudando a caçar crocodilos com seu pai quando seus irmãos não estavam — o que na maior parte do tempo era o caso. Ela não estava acostumada à autoridade de nenhuma forma, e a escola era estruturada demais, tinha regras demais. Não conseguia respirar com tanta gente ao seu redor. Quase fugiu para o pântano para evitar as regras quando uma gentil professora empurrou uma câmera em suas mãos e sugeriu que tirasse algumas fotos do seu amado pântano.

Havia um pouco de lua nesta noite, então não precisaria da luz negra que usou nas últimas noites para revelar a atividade no ninho. Os bebês faziam sons ávidos quando um adulto se aproximou, e enquanto ele descia, Sara soltou a tampa da lente da câmera. Imediatamente houve uma explosão de luz, bem parecida com a de um relâmpago, quando ela ativou o flash eletrônico. Acostumados aos relâmpagos, os pássaros nunca pareciam se incomodar pelo clarão ocasional.

Ela captou um vislumbre de garras e um bico em perfil contra o céu da noite quando a coruja desceu até o ninho, e seu coração cantou. À noite, o pântano tinha uma música diferente no ar. O bramir dos crocodilos podia literalmente fazer a terra tremer. Havia movimento em todo lugar à sua volta, sob seus pés, na água e entre as árvores. O ritmo natural até mudava do dia para a noite. Sua visão noturna parecia bem melhorada, então mesmo sem o flash da câmera, com frequência conseguia ver as corujas adultas retornando com suas presas.

O tremor de uma luz capturou seu olhar. Alguém devia estar caçando ilegalmente, ou pescando próximo ao Fenton’s Marsh[1]. A madeireira Fenton possuía milhares de acres de pântano e os arrendava para a maioria das famílias que ela conhecia. Sete das famílias que viviam ali arrendavam vários acres para caçar, instalar armadilhas de siris e pescar, fazendo do pântano quase que inteiramente seu modo de vida. Alguns dos homens, como seus irmãos, trabalhavam no Mississipi para ganhar mais dinheiro, mas suas vidas se concentravam ao redor do pântano.

Fenton’s Marsh era considerado bem assustador e proibido pelo seu povo. Ela se viu fechando a cara ao imaginar alguém caçando ilegalmente ali. Jake Fenton, o proprietário original, era bem respeitado pelos que ali viviam. Era difícil ganhar a confiança e o respeito de qualquer um que vivia no pântano, ainda assim, todas as famílias gostavam do velho homem e o convidavam às suas casas com frequência.   Ele virou enfeite regular nos pântanos. Mais de uma vez, vários dos caçadores de crocodilos permitiram que ele fosse junto, um enorme privilégio quando o trabalho era bastante perigoso e um principiante nunca era bem-vindo. Ele lhes concedeu arrendamentos generosos e ninguém arriscaria seu ganha-pão mordendo a mão que os havia alimentado. Fenton estava morto, mas todos sabiam que havia petróleo no brejo, e que seu neto, Jake Bannaconni, exploraria aquilo um dia. Por respeito à Jake Fenton, deixavam o brejo em paz.

A coruja adulta voou de novo, o barulho do movimento atraindo brevemente sua atenção, mas ela se conteve de tentar tirar mais uma foto. A luz no pântano a deixava desconfortável, e não queria que os flashes da sua câmera a entregassem. Mudou de posição, aliviando a cãibra no quadril, estendendo a mão quase inconscientemente para a chave do motor. Tinha planejado passar a noite e ir para casa no início da manhã, mas a inquietação se transformou repentinamente em medo, e não existiam muitas coisas que Saria temia.

Começava a descer do seu esconderijo quando ouviu um grito rasgado. O som era humano. Masculino e feio, violento — e aterrorizado. O pântano criou vida num instante, pássaros protestando, sapos e insetos se calando, o mundo normalmente ritimado evaporando dentro do caos. O grito parou abruptamente, uma nota brusca e cortada de agonia.

Arrepios atacaram sua espinha enquanto silenciosamente deslizava para o barco. Um crocodilo conseguiu matar a pessoa que o caçava? Quando atravessou o carpete de plantas flutuantes um urro de absoluta fúria atravessou o pântano. Rugidos e urros reaverbaram pelo bosque de ciprestes. O mundo ao seu redor congelou, cada criatura ficando quieta. Até os crocodilos se calaram. Os pelos em seus braços e nuca ficaram eretos. Arrepiou-se completamente. O ar deixou seus pulmões às pressas.

Um leopardo. Conhecia as lendas e mitos de leopardos no pântano. Os Cajuns[2] falavam ver as elusivas criaturas, e se referiam a elas como “gatos fantasmas”. Alguns naturalistas diziam que não existiam. Outros alegavam que eram panteras da Flórida fora da sua região, procurando novos territórios. Ela sabia da verdade, e todos estavam errados.

Saria sentou bem quieta em seu barco, o corpo tremendo, a mão apalpando a faca em seu cinto. Carregava aquela faca desde que tinha dez anos e descobriu a verdade. Usando movimentos cuidadosos e deliberados, retirou a arma da bolsa ao seu lado e se certificou que estivesse pronta para atirar. Começou a praticar aos dez anos e tinha uma mira mortal — o que a tornou inestimável quando caçava com o pai. Conseguia atingir aquele ponto mínimo na nuca de um crocodilo que o matava imediatamente, sempre que tentava.

Ela umedeceu os lábios repentinamente secos e esperou ali no escuro, o coração a mil, esperando que as árvores e raízes a escondessem. O leve vento carregava seu cheiro além do Fenton’s Marsh. Os rugidos sumiram dentro da noite e o silêncio se prolongou pelo que pareceram horas. Sabia que o enorme predador ainda estava por perto — a noite estava quieta demais.

Durante anos tentou dizer a si mesma que tinha tido pesadelos, e talvez tivesse de fato se convencido que era verdade até ouvir aquele som — aquele rugido. E agora conseguia ouvir um som irritado e uma exalação entrecortada. Fechou os olhos e pressionou as pontas dos dedos nas têmporas, mordendo o lábio inferior com força. Os sons eram inconfundíveis. Podia fingir muitas coisas, mas não aquilo. Uma vez que se ouvia, jamais esquecia. Ouviu aqueles sons quando era criança.

Remy, seu irmão mais velho, tinha dezesseis anos quando ela nasceu e já era considerado um homem. Já trabalhava no rio, assim como Mahieu na época que ela engatinhava. Os garotos iam à escola e trabalhavam quando voltavam por várias horas enquanto sua mãe sucumbia lentamente a uma doença degenerativa e seu pai se retraía mais e mais no mundo do alcoolismo. Na época que tinha dez anos, sua mãe já havia morrido há tempos e seu pai raramente falava. Remy, Mahieu e Dash estavam todos servindo às forças armadas em territórios estrangeiros, e Gage acabava de ingressar. Lojos, aos dezenove anos, dirigia a loja e o bar quase que sozinho e raramente tinha tempo para fazer mais que pegar um pouco de comida antes de sair correndo para o trabalho.

Saria era responsável pela casa e pelas redes de pesca, andando pelo canal sem supervisão alguma desde aquela época. Os garotos voltaram para casa para uma pequena reunião antes de saírem cada um para um lado novamente, de volta ao serviço. Mal tinham ciência de sua existência, comendo as refeições que ela fazia, mas sem realmente prestarem atenção ao fato que era ela quem cozinhava. Desejava desesperadamente atenção e se sentia alienada e deixada de fora — não exatamente com raiva, porém mais triste por não ter se adequado realmente a eles. A noite estava quente e úmida, e ela não conseguia dormir. Estava tão chateada pelo modo como sua família a tratava — como se não existisse, como se estivesse abaixo de qualquer reconhecimento. Cozinhava, limpava e tomava conta do seu pai, mas como ele, seus irmãos também deviam culpá-la por sua mãe ter se afundado na depressão e por sua consequente morte. Ela não conheceu a mãe quando ainda era a mulher vibrante que todos lembravam; era muito pequena quando ela morreu. Aos dez anos, ficava ressentida pelo relacionamento que eles tinham entre si quando ela se sentia como se não pertencesse à família. Se levantou e abriu a janela para deixar os reconfortantes sons do pântano entrarem — um mundo com o qual sempre podia contar, um mundo que amava. O pântano a chamava.

Saria, de fato, não ouviu seus irmãos deixarem a casa, todos se movendo num silêncio assustador — fizeram isso na maior parte de suas vidas — mas quando, ressentida e magoada, saiu pela janela para encontrar abrigo no pântano como fez centenas de noites, ela os vislumbrou adentrando entre as árvores. Ela os seguiu, ficando bem atrás para que não a ouvissem. Se sentia tão ousada e um pouco superior por isso. Suas habilidades no pântano já eram impressionantes, e tinha orgulho de si mesma por ser capaz de segui-los sem que notassem.

Aquela noite se transformou num pesadelo surreal. Seus irmãos tiraram as roupas. Ela sentou numa árvore com as mãos sobre os olhos imaginando o que estariam aprontando. Quem tiraria as roupas num pântano? Quando espiou entre os dedos, já estavam se transformando. Músculos se contorciam grotescamente, embora mais tarde ela admitisse que todos tinham se transformado rápido e com certa facilidade. Pelo cobria seus corpos e eram terrivelmente reais em forma de leopardos. Era completamente — totalmente assustador.

Fizeram os mesmos sons que ouviu esta noite. Fungando. Exalando de forma brusca. Levantavam e arranhavam as árvores com as garras. Os dois menores ficaram bravos e explodiram numa furiosa luta, atingindo um ao outro com os membros afiados. O maior urrou em fúria e pulou em cima deles com força suficiente para que saíssem rolando, separando a briga. O som daquele urro feroz fez todo seu ser estremecer. Seu sangue virou gelo e ela correu todo o caminho de volta até a casa para se esconder debaixo das cobertas, o coração batendo forte, com um pouco de medo de estar enlouquecendo.

Leopardos eram os mais ardilosos dos felinos grandes e os shifters humanos eram ainda mais, escondendo o segredo até mesmo dos membros da família que não podiam se transformar — como Saria. Ela tentou encontrar algo a respeito deles, mas só havia referências não esclarecedoras na biblioteca. Tentou se convencer que imaginou a coisa toda, mas havia outros sinais que não conseguia ignorar completamente, depois que os viu.

Seu pai falava coisas sem nexo quando estava bêbado, e ela prestou atenção nas referências estranhas que fazia sobre shifters. Claro que não podiam existir de verdade, mas às vezes seu pai fazia observações aleatórias sobre correr pelo mundo livre como nasceu para fazer. Ele ia perambulando até a cama e na manhã seguinte havia marcas de garras no chão de terra ao lado da casa e até mesmo no chão do seu quarto. Ele lixava o chão e apagava as da terra antes que ela acordasse. Se perguntasse sobre os arranhões, se recusava a responder.

Sentada no pântano com apenas a noite para protegê-la, sabia que o leopardo era um predador astuto e uma vez que se dispusesse a caçá-la, a encontraria. Só podia rezar para que não tivesse notado aqueles primeiros flashes da câmera e viesse averiguar. Pareceram horas até que o ritmo natural do pântano começou a retornar, os insetos zumbindo e os movimentos tranquilizadores, senão reconfortantes, enquanto as criaturas mais uma vez retornavam às suas próprias vidas.

Ela permaneceu completamente quieta enquanto a terrível sensação ia se exaurindo. O gato fantasma foi embora. Tinha certeza disso. Ela deixou imediatamente a segurança do pântano cipreste e foi na direção do Fenton’s Marsh. Sua boca estava seca, seu coração acelerado pelo terror do que poderia encontrar, mas não conseguiu se conter.

O corpo estava metade dentro, metade fora da água, bem na beira do pântano. Não reconheceu o homem. Parecia ter entre trinta e quarenta anos, agora sem vida e ensanguentado. Foi atingido no estômago, mas morreu de uma mordida na garganta. Ela conseguia ver claramente os ferimentos dos dentes e as marcas das garras no corpo. Sangue vazava na água ao redor dele, atraindo insetos e o interesse dos crocodilos.

Ela pressionou os dedos nos olhos por um momento, doente por não saber o que fazer. Não podia ir até a polícia. Remy era detetive de homicídios. Ele era a polícia. E ela poderia delatar seus próprios irmãos? Alguém pelo menos acreditaria nela? Talvez esse homem tenha feito algo terrível e não tenha dado a um de seus irmãos outra escolha.

Saria traçou seu caminho para casa lentamente, o medo a enchendo quando amarrou o barco e subiu na doca. Ficou lá por um tempo, observando sua casa. O bar estava escuro, como também a casa e a loja, mas sabia, devido àquele estranho radar que sempre parecia ter, que não estava sozinha. Deu a volta na casa, determinada a evitar seus irmãos. Quando alcançou a porta dos fundos, esta foi aberta por dentro e seu irmão mais velho encheu a soleira, impondo sua altura sobre ela, um homem bonito de cabelos escuros com olhos verdes sérios e observadores. Assustada, ela recuou antes que pudesse evitar. Sabia que ele captaria o medo passando em seus olhos antes que tivesse chance de encobri-lo.

Os olhos de Remy se estreitaram, inalando, como se arrastasse seu medo até os pulmões. Ele engoliu o que quer que estava prestes a dizer, a preocupação substituindo sua impaciência. —Está machucada? — estendeu o braço para pegar o dela, para puxá-la para dentro de casa.

Saria saiu fora de seu alcance, o coração batendo com força. Remy franziu o cenho e levantou a voz. —Mahieu, Dash, venham aqui. — Ele não tirou os olhos do seu rosto. Sequer piscou. —Onde esteve, cher[3]? — Seu tom exigia resposta.

Ele parecia tão grande. Ela engoliu em seco, se recusando a ser intimidada. —Por que isso de repente importa? Nunca quis saber antes. — Ela encolheu os ombros casualmente.

Houve passos — seus irmãos se moviam silenciosamente, mas tanto Mahieu quanto Dash estavam ombro a ombro atrás de Remy. Ela podia ver os olhos deles se movendo sobre ela, absorvendo cada detalhe do seu rosto, sem dúvida, pálido.

—Esteve com alguém esta noite, Saria? — perguntou Remy, sua voz gentil —gentil demais. Ele estendeu a mão e do mesmo modo gentil segurou seu braço quando ela se mexeu como se pudesse sair correndo.

Ela queria gritar pela gentileza em sua voz, mas sabia que Remy podia ir de gentil a letal em segundos. O viu lidar com suspeitos em mais de uma ocasião. Quase todos caíam no conto da sua gentileza como se ele realmente fosse tão gentil e bondoso com ela, porém até bem recentemente, nenhum dos seus irmãos a notava.

Ela o olhou com raiva. —Isso não é da sua conta, Remy. Nada do que eu fazia importava para você enquanto eu crescia, e não tem necessidade de começar a fingir que importa agora.

Ele parecia chocado. Ela viu isso em seu rosto bem antes dele ficar todo “Remy” com ela, nenhuma expressão se mostrando. Seus olhos ficaram frios e duros, acelerando ainda mais as batidas do seu coração. —Isso é uma coisa horrível de dizer para mim. Praticamente criamos você. Claro que vamos ficar preocupados quando passa metade da noite fora de casa.

—Vocês me criaram? — Sacudiu a cabeça. —Ninguém me criou, Remy. Nem vocês. Nem papai. Estou um pouco velha demais para que algum de vocês de repente decidir que vai começar a se perguntar o que ando fazendo. E só para sua informação, já que sabe tanto a meu respeito, vou para o pântano quase toda noite. Vou desde que era criança. Como diabos não notou isso com toda sua preocupação?

Dash estudou seu rosto. —Brigou com algo lá no canal Saria, ou com alguém?

Seu coração deu um salto. Aquilo era uma provocação? Não sabia se havia alguma implicação dúbia. Recuou outro passo. —Se eu tivesse problema com alguém, cuidaria disso sozinha, Dash. Por que de repente estão interessados na minha vida?

Remy esfregou a base do nariz. —Somos famille, cher. Se estiver com problemas...

—Não estou, — interrompeu. —O que é tudo isso, Remy? Sério? Porque nenhum de vocês nunca questionou onde eu estava ou se era capaz ou não de cuidar de mim mesma. Fico sozinha no bar por dias. Nenhum de vocês nunca questionou se isso é perigoso ou não, embora eu fosse menor de idade quando comecei.

Seus três irmãos trocaram olhares longos e envergonhados. Remy encolheu os ombros. —Talvez não, Saria, mas deveríamos. Eu tinha dezesseis quando você nasceu, no furor da idade, cher. Você era um bebê. Então talvez não tenha prestado atenção do jeito que deveria, mas isso não quer dizer que não seja minha. Famille é tudo.

—Enquanto todos estavam no furor da idade, eu estava tomando conta do nosso pere[4] bêbado todas as noites. Pagando as contas. Tomando conta da loja. Garantindo que ele comesse e usasse roupas limpas. Fazendo pedidos para a loja. Pescando. Vocês sabem. Coisas de gente adulta. Mantendo o lugar funcionando para que vocês pudessem se divertir.

—Nós deveríamos ter te ajudado mais com o Pere, — admitiu Remy.

Saria piscou contra lágrimas inesperadas. Remy podia ser tão doce quando queria, mas não confiava em sua motivação. Por que agora? Arriscou um olhar rápido para os rostos dos seus irmãos. Todos a observavam intensamente. Estavam completamente calados. Seus olhos estavam quase âmbar com as pupilas inteiramente dilatadas. Precisou de toda coragem que possuía para não virar e sair em disparada.

—Agora sou adulta, Remy. É um pouco tarde demais para começar a se perguntar sobre minha vida agora. Estou cansada e quero ir dormir. Vejo vocês de manhã. — Não se pudesse evitar.

Remy se colocou de lado. Ela notou que todos inalavam enquanto ela passava, tentando ler os aromas dela. Ela cheirava a pântano, mas não tinha tocado no corpo, só chegado perto o bastante para iluminá-lo e ver sua situação.

—Durma bem, Saria, — disse Remy.

       Ela fechou os olhos brevemente, o simples gesto de gentileza dando outro ataque de nervos.

 

SEIS MESES DEPOIS

O vento gemia suavemente um som sinistro e solitário. Uma cobra deslizou pelos galhos baixos de uma árvore Tupelo e caiu na água, nadando para longe, não mais que uma leve onda na água escura. Acima, nuvens escuras, pesadas com chuva, ferviam no calor da noite. Saria saiu da canoa para a frágil doca, pausando para inalar profundamente enquanto olhava cuidadosamente em volta, estudando a margem e o bosque de árvores que atravessou. Anos atrás, um dos fazendeiros implantou um comércio de árvores de Natal que nunca prosperou, ao contrário das árvores. A cidade, pequena como era, cresceu à beira da fazenda, e a variedade de cedro, pinheiro e abetos era bonita, mas as árvores cresceram demais, criando um efeito de floresta por trás do bosque de ciprestes às margens da água.

O musgo pendurava em longas teias prateadas, balançando gentilmente nos galhos tortos dos ciprestes alinhados ao rio. O bosque era bem grande, e com a névoa cinza se espalhando como um fino véu, as árvores pareciam fantasmagóricas. Atrás delas, as maiores se amontoavam numa silenciosa floresta negra. Dedos gélidos desceram por sua espinha enquanto permanecia ali, nas tábuas de madeira, a uma boa distância da civilização.

A noite geralmente caía mais rápido no rio, e esperava que seus irmãos fossem embora, checando as linhas de pesca e as armadilhas de siris, antes de ir para a terra firme. Durante todo o tempo teve a sensação que alguém a seguia. Ficou próxima dos bancos do rio o máximo que pode. Alguém — algo — podia a ter acompanhado e certamente já podia estar à sua frente agora. Seus irmãos saíram no barco, a deixando com a velha canoa, que via de regra era ótima, mas algo indesejado numa noite que a fazia desejar velocidade.

Ultimamente se sentia inquieta e desconfortável, sua pele muito apertada, como se não lhe coubesse bem. Comichões apareciam em ondas como se algo se movesse sob sua pele. Seu crânio parecia muito largo e sua mandíbula e boca doíam. Tudo parecia errado, e talvez isso contribuísse para o medo que estivesse sendo observada.

Saria suspirou, umedeceu os lábios secos e se forçou a dar aquele primeiro passo na direção da fazenda de árvores. Podia passar ao redor dela, mas aquilo levaria um tempo que não tinha. Seus irmãos iriam voltar e ficariam com raiva se a pegassem andando por aí sozinha de novo. Andavam tão irritados quanto ela, e para sua tristeza, começaram a verificar como estava constantemente. As últimas duas semanas a atenção piorou a ponto de se sentir uma prisioneira em sua própria casa.

Começou a andar, tocando a faca amarrada em seu cinto por segurança. Se alguém — ou algo — realmente a estivesse seguindo, estava preparada. Caminhou em silêncio, seguindo o caminho estreito pelo bosque, na direção da antiga igreja.

Atrás dela e um pouco à sua esquerda, um galho se partiu, o som bem elevado no silêncio do bosque. Seu coração começou a bater forte. A névoa engrossava a cada momento, desenhando lentamente um véu sobre as nuvens escuras e o prateado da lua. A névoa transformava a lua crescente num vermelho estranho e nefasto. Ela acelerou o passo, atravessando às pressas a variedade de árvores.

Saria saiu do bosque de árvores de Natal direto para uma calçada levando até a pequena cidade à beira do Rio Mississippi. Uma enorme barragem de contenção ajudava a impedir inundações. A maior parte do lugar foi construída para também ajudar com as inundações. Ela caminhou rapidamente pelo caminho ao longo do rio. O vento arremessava ondas contra a parede e as colunas. Ela deu outra olhada cautelosa em volta, mas não diminuiu o passo. A igreja estava bem à frente, e sentia a necessidade urgente de entrar.

Apesar de ser noite, o ar estava muito quente e pesado pela umidade, prometendo chuva em breve. Ela sentiu o suor escorrer entre os seios, mas não tinha certeza se era por causa do calor opressivo ou por puro medo. Exalou um suspiro de alívio quando subiu os degraus da igreja. Pausou deliberadamente ali, cobrindo o cabelo com o xale que pertenceu à sua mãe. Enquanto fazia isso, se virou e obervou a rua. Antigos postes a gás a iluminavam, brilhando num amarelo estranho na névoa. Ela sentiu o peso de olhos a observando, mas não conseguia pensar em ninguém tão interessado assim nela.

Virou as costas para a rua e subiu o resto dos degraus que davam à porta da igreja. Bem entre suas omoplatas sentiu um comichão, e o cabelo de sua nuca arrepiou. Empurrou a porta e entrou, o coração acelerado. O interior da igreja estava fracamente iluminado. Sombras aderiam às paredes e criavam vales escuros entre os assentos vazios. Ela mergulhou os dedos na água benta e fez o sinal da cruz enquanto caminhava devagar até o confessionário. As estátuas a olhavam com olhos vazios e acusadores. Foi ali várias vezes desde que achou o primeiro corpo, mas não conseguia confessar, nem mesmo para o Padre Gallagher, nem mesmo agora que já haviam mais dois.

Sem dúvida se sentia culpada a respeito disso, embora se tentasse conseguir ajuda, isso só a colocaria em perigo. Agora, o padre era sua única esperança — se dessa vez conseguisse juntar a coragem necessária para pedir. Esperou sua vez, fechou a porta do confessionário e ajoelhou no pequeno banco alcochoado. Abaixou a cabeça.

A escuridão e a tela de privacidade do confessionário obscuro impediam que o Padre Gallagher identificasse que fiel acabava de entrar na pequena cabine. Ele sabia que era mulher pela leve fragrância de lavanda e mel. O cheiro era extremamente sutil, mas, no calor sufocante do confessionário, a fragrância era uma mudança bem-vinda em comparação ao suor que às vezes era levemente fedorento. —Padre, — sussurrou a voz.

Ele se inclinou mais, alarmado pela nota de desespero em seu tom. Ao longo dos anos aprendeu a reconhecer o medo real.

—É Saria, — continuou a voz.

Ele conhecia Saria, a conhecia desde que era um bebê. Perspicaz. Inteligente. Não era dada a voos de fantasia. Sempre soube que era uma garota alegre e trabalhadora. Talvez trabalhadora demais. Vinha de uma família grande, como muitos dos Cajuns que iam à sua igreja, mas ela parou de vir à missa e ao confessionário anos atrás. Há uns seis meses, retornou ao confessionário — mas não ao serviço dominical — vindo fielmente toda semana, mas não confessando nada de importância que pudesse causar essa necessidade repentina de voltar à igreja. Seus sussurros o faziam pensar que talvez houvesse outra razão para que viesse se confessar mais uma vez.

—Está tudo bem, Saria?

—Preciso passar uma carta para o senhor. Não pode ser endereçada a essa paróquia, Padre. Tentei, mas a carta foi interceptada. Fui ameaçada. Pode enviá-la para mim de alguma outra forma?

O coração do Padre Gallagher deu um salto. Saria tinha que estar com problemas se pedia uma coisa assim, e sabia por sua longa experiência que as pessoas no canal, bem como as do rio acima e abaixo, eram de clãs grandes e trabalhadores que geralmente mantinham seus problemas para si mesmos. Ela tinha que estar desesperada para vir até ele.

—Saria, foi até a polícia?

—Não posso. Nem você. Por favor, Padre, só faça isso por mim e esqueça esse assunto. Não diga a ninguém. Não pode confiar em ninguém.

—Remy é policial, não é? — perguntou, sabendo que o irmão dela se juntou à força policial anos atrás. Não entendia sua hesitação, mas tinha uma sensação na boca do estômago. Seu comentário encontrou silêncio. Suspirou. —Me dê a carta.

—Preciso de sua palavra como homem de Deus, Padre.

Ele franziu o cenho. Saria também não era dramática. Aquela conversa estranha era completamente incomum à sua personalidade radiante. Ela temia muita pouca coisa. Tinha cinco irmãos enormes que provavelmente esfolariam vivo qualquer um que tentasse machucá-la. Eles cresceram robustos, garotos fortes que se transformaram em homens formidáveis. Não conseguia imaginar porque ela não procuraria Remy. Era o chefe da família desde a morte do pai deles há alguns anos atrás.

—Deveria temer por você, Saria? — murmurou, baixando a voz ainda mais e pressionando o ouvido na tela. A situação pareceria irreal e dramática caso fosse outra pessoa, mas com Saria tinha que ser crível.

—Algo ruim está acontecendo no canal, Padre, mas não posso ligar para a polícia. Precisamos de outra pessoa. Se conseguir mandar essa carta sem que ninguém daqui saiba, ele vai fazer algo. Por favor, Padre Gallagher, faça isso por mim.

—Dou minha palavra que não contarei a ninguém, a não ser, — enfatizou, — que eu julgue necessário para salvar sua vida.

Houve outro pequeno silêncio. Um barulho de papel. —É justo. Por favor, tenha cuidado, Padre, — sussurrou Saria e empurrou o envelope pela abertura. —Ninguém pode vê-lo com isso. Não nessa paróquia. Não nessa cidade. Tem que levá-la para longe daqui para postá-la.

Padre Gallagher pegou o envelope notando que estava selado. —Reze três Ave Marias e o Pai Nosso, — sussurrou, lembrando-a de manter a farsa da confissão se não fosse realmente confessar nenhum pecado. Ele esperou, mas ela continuou calada, e ele a abençoou, enfiando o envelope na batina.

Saria se benzeu e deixou o confessionário, indo até a primeira fileira de bancos para se ajoelhar na frente do altar. Havia várias pessoas na igreja e ela deu uma olhada sorrateira em volta, tentando ver se alguém poderia tê-la seguido. A maioria das pessoas que conhecia ia à igreja e podiam fingir, como ela fazia, que tinham negócios legítimos ali.

Há pouca distância de onde estava, os gêmeos Lanoux acendiam velas. Dion e Robert perderam sua avó recentemente, e fazia sentido que estivessem na igreja. Os dois eram parrudos com músculos enormes e cabelos encaracolados e escuros. Homens bonitos, tinham belas reputações como favoritos das mulheres na comunidade. Os considerava dois cavalheiros sob seus jeitões bruscos e gostava de ambos.

Armande Mercier estava sentado ao lado da sua irmã, Charisse, sem saber o que fazer enquanto ela rezava religiosamente, na penúltima fileira. A cabeça de Charisse estava abaixada, os olhos fechados, os lábios se movendo, mas ainda assim, duas vezes quando Armande suspirou pesadamente e correu o dedo pela gola da camisa ela o olhou de forma aguda. Ele olhou para Saria e rapidamente desviou o olhar, coisa incomum para Armande. Provavelmente era o maior paquerador da cidade. Ela o achava egoísta, mas charmoso, e ele definitivamente protegia sua irmã, de quem Saria era bem próxima. O irmão de Saria frequentemente dava uma cerveja de graça a Armande quando ele ia ao bar, sentindo pena por ele ter que tomar conta de sua mãe tirana e de sua irmã extremamente tímida.

As duas idosas lá atrás eram tão conhecidas para ela quanto o senhor, Amos Jeanmard, sentando no canto, sua bengala ao lado. Ela foi à escola com sua filha, Danae, e conhecia seu filho, Elie, que era alguns anos mais velho. Conhecia todos, do mesmo modo que a conheciam. Sempre foram amigos e vizinhos — membros de uma das sete famílias à beira do pântano onde residia. Visitou suas casas, foi a casamentos e funerais com eles. Ajudavam na loja de pesca de sua família e no mercadinho. Agora, a amedontravam. Estava até com medo de seus pares.

Fez o sinal da cruz e deixou a igreja, ansiosa para sair antes do Padre Gallagher terminar com as confissões. Não sabia se podia encará-lo sem se entregar. O estresse a estava consumindo, e seu estômago começou a arder. Correu pelos degraus e se dirigiu de volta à doca onde deixou a canoa.

A noite parecia mais escura, as sombras maiores, a alcançando enquanto se apressava pelo bosque que lhe daria a rota mais curta até a doca. Passava rapidamente pelo caminho estreito no meio das árvores espessas. Os pelos de sua nuca se eriçaram, seus braços ficaram arrepiados e ela estremeceu, praguejando em silêncio quando hesitou, quase voltando para as luzes da cidade apagadas pela névoa. Para piorar, a chuva começou a cair, um aguaceiro de gotas mornas que a ensoparam instantaneamente. O dilúvio a levou por entre o bosque onde as copas largas podiam protegê-la um pouco do ataque. Ela se apressou pela trilha, a cabeça erguida, procurando por algo que pudesse estar fazendo o seu radar de perigo desligar.

Uma sombra larga se mexeu nas árvores. Seu coração parou e então disparou. Algo pareceu se mover, empurrando contra sua pele de dentro para fora, deixando uma coceira atrás ao retroceder. Sua pele parecia apertada e sua mandíbula doía. Ficou ciente que suas mãos também doíam. Olhou abaixo e viu os dedos curvados com força e as unhas afiadas pressionando sua palma. Atrás dela, bloqueando sua fuga para a cidade, ouviu uma exalação baixa e seu sangue ficou gelado. A batida do seu coração acelerou fora de controle, trovejando em seu crânio. Sua respiração estava entrecortada.

Ela deu um passo cauteloso na direção da doca, a mão tirando a faca do cinto. O punho da faca pareceu sólido em sua palma e ela apertou os dedos em volta como se fosse um talismã. Seus próprios irmãos não iriam matá-la, iriam? Sua boca secou.

Ela tentou ouvir enquanto se apressava, mas seu próprio coração e a respiração forçada enchiam seus ouvidos, o trovejar um rugido terrível que abafava todo o resto. Os véus de Musgo da Espanha balançavam, criando uma presença sobrenatural em todas as árvores. Os galhos, retorcidos e nodosos, se estendiam no escuro como mãos mórbidas. Nunca sentiu medo em meio às árvores que cercavam o rio. Nunca temeu os crocodilos ou o pântano, mesmo à noite. Era cuidadosa, como seu pai a ensinou, mesmo assim o terror agora a dominava.

Sabia que não devia correr, sabia que isso só atiçaria os instintos do leopardo, mas não pôde evitar apressar o passo, se movendo tão rápido quanto podia pela chuva torrencial, sem de fato correr. Ouviu um bufar, como o barulho apressado de um trem de carga. Algo a atingiu por trás, golpeando tão forte em suas costas que ela sentiu como se seus ossos estivessem se despedaçando. O peso a derrubou e ela atingiu o chão com força, caindo com as mãos ainda fechadas, a faca ainda firme no seu punho, mas completamente inútil. Sentiu um fungar quente na nuca e ficou tensa, pronta para lutar. A coisa era pesada demais para empurrar. Não conseguia ficar de joelhos e no momento que começou a lutar, ela enfiou os dentes em seu ombro.

Saria abriu a boca para gritar, mas acabou a enchendo de lama. Lágrimas queimavam seus olhos enquanto esperava que aquilo a matasse. Garras agarraram o seu quadril com força, avisando-a para não se mover. Ela ficou quieta sob seu enorme peso. Por um momento, nenhum dos dois se mexeu. Bem devagar, ela virou a cabeça. O leopardo se moveu para trazer a cabeça ao lado da dela. Ela se viu encarando olhos amarelo-esverdeados. Com os olhos abertos e sem piscar, a criatura a olhava. Havia inteligência ali, e um aviso. O ar exalou quente em sua pele.

Ela estremeceu quando a enorme cabeça se aproximou do seu rosto. A boca se abriu e ela fechou os olhos, certa de que aqueles dentes terríveis iam se fechar em seu rosto. A língua áspera passou pelo seu rosto, removendo a corrente de lágrimas. Ela prendeu o fôlego e sentiu fogo atacando suas costas, rasgando sua camisa. Gritou outra vez, lutando para tirá-lo de cima. Suas garras se enfiaram em sua pele e entalharam quatro linhas de suas omoplatas até a cintura.

       Bem dentro dela, algo selvagem ergueu a cabeça como se despertasse. Adrenalina pulsava por ela, correndo como uma droga em suas veias, força e energia derramando-se nela, emprestando uma força fenomenal. Ela levantou, se apoiando nas pernas o bastante para criar uma pequena distância, o suficiente para rolar. Ao mesmo tempo levantou a faca, a arremessando contra a jugular do leopardo.

A pata dianteira do felino voou na direção da mão que segurava a faca, o pesado corpo a prendendo quando a grande pata se transformou, e para seu horror, dedos seguraram seu pulso e jogaram sua mão de volta ao chão. Aquela mão humana, vindo do corpo de um leopardo, a aterrorizou. Era grotesco e errado e de modo algum romântico, como alguma criança teria imaginado. Dentro do seu próprio corpo algo se movia e mudava, puxando o medo de lado para engatar uma poderosa raiva.

       Enquanto se olhavam, fúria ardia em seu interior. Ela quase conseguia sentir algo dentro dela vivo e respirando, furioso que o leopardo ousasse tocá-la. Sua pele coçava e sua mandíbula doía. Seu corpo inteiro doía, provavelmente da terrível queda que o felino lhe deu.

—Vá em frente, — cuspiu as palavras, tentando não soluçar, tremento com uma combinação de medo e raiva. —Faça logo.

Ele a segurou com suas pesadas patas, respirando novamente contra seu pescoço. Ela fechou os olhos e esperou pela mordida mortal. Diferente da maioria dos felinos, leopardos preferiam morder a garganta de sua presa e prender os dentes até que a vítima sufocasse. Devagar, quase que relutantemente, o enorme leopardo recuou de cima dela. Ela espiou sob seus cílios e o observou recuar gradualmente, uma pata de cada vez. Enquanto isso, aqueles olhos amarelo-esverdeados permaneciam em seu rosto.

Ela não ousou se mover, com medo de incutir mais agressão no animal. Muito tempo depois dele desaparecer dentro da névoa, ela continuou deitada no chão, tremendo, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Doeu para se sentar, suas costas em chamas. A chuva aliviou um pouco os temíveis rasgos. Sangue escorria da mordida em seu ombro. A infecção era uma ameaça real no pântano. Não podia ir a um médico, e se fosse à treateur[5] o que diria? Que um leopardo a atacou no bosque de ciprestes bem ao lado da cidade? A mulher a internaria.

Ela sentou na chuva, escutando. Os sons irregulares da noite já seguiam e dentro do seu corpo, o que quer que existisse, se subjulgou. Por vários minutos, ficou sentada na lama com a chuva se derramando sobre ela, em jorros. Seu estômago se agitou de modo inesperado, e ela girou dolorosamente sobre as mãos e os joelhos para vomitar repetidamente.

Era uma Boudreaux e foi ensinada desde o nascimento a não confiar em estranhos. Sua família era cheia de segredos e estava isolada do mundo. Podia deixar o rio — mas não conhecia outra forma de vida. Para onde iria? Quem procuraria? Saria levantou a cabeça devagar e olhou em volta.

Aquele era seu lar, nos confins do rio, os canais e lagos, os pântanos e o brejo. Não conseguiria respirar numa cidade. Ela limpou a lama do rosto com a manga. O movimento causou um espasmo de fogo pelas suas costas e pequenas chamas queimaram seu ombro. Seu estômago se agitou. Prendendo um pequeno soluço, ela se ergueu com uma mão vacilante. A exaustão se estabeleceu. Foi cambaleando pelo caminho até à doca, cada passo doloroso. Temia que o leopardo tivesse quebrado algo em suas costas.

Foi difícil entrar na canoa, mas respirou profundamente várias vezes antes de conseguir. Os músculos das suas costas queimavam a cada movimento. Olhou para trás, para o bosque, enquanto empurrava a canoa para longe da doca. Seu coração deu um pulo. Olhos vermelhos a miravam entre a névoa. Ele ainda a observava. Ela o encarou diretamente enquanto se empurrava até a corrente e a deixava levá-la de volta rio abaixo. Os olhos vermelhos de repente desapareceram e ela teve um vislumbre do grande felino correndo, num ritmo acelerado, tecendo o corpo entre as árvores, dirigindo-se para o pântano.

Tentando alcançá-la em casa? Acreditava que algum dos seus irmãos a machucaria? Um deles poderia ser um assassino em série? Encontrou um segundo corpo três meses atrás, e agora um terceiro. Tentou postar a carta, mas a encontrou espetada no fundo de sua canoa por uma de suas facas de pesca, quase a matando de susto. Seus irmãos eram homens durões, todos capazes de matar se a necessidade surgisse. Mas por prazer? Algum deles? Sacudiu a cabeça, não querendo acreditar que fosse possível. Mas a evidência... Talvez se simplesmente contasse a todos quando estivessem juntos, disparasse que achou os corpos, poderia ser possível saber pelas suas reações.

Saria achou impossível pensar no resto do caminho para casa. Usar remos ou uma vara exigia muito dos músculos das costas, e seu corpo protestava a cada movimento. Ela nem se importou em ver se o leopardo atravessou os pântanos e chegou antes dela ao seu destino. Havia vários botes atracados na doca e a música fazia barulho sobre a água. A luz se derramava por cima do rio. Dois homens estavam do lado de fora do bar, mas nenhum dos dois olhou quando ela amarrou a canoa na doca.

O bar estava aberto, o que significava que pelo menos um dos seus irmãos estava em casa. Ela gostaria de dar uma espiada e ver exatamente qual deles estava lá, porque isso o excluiria como suspeito, mas não ousava arriscar que alguém a visse.

A casa ficava disposta mais atrás, próxima às árvores, com o rio correndo de um lado e cercada por árvores dos outros três. Costumava encontrar conforto nas árvores, subindo nelas com frequência e observando o mundo do alto quando criança. Agora procurava freneticamente nos galhos por sinais de um gato grande enquanto rodeva até os fundos da casa, esperando evitar seus irmãos, se algum deles estivesse lá.

Não havia luzes acesas, e ela parou nas escadas dos fundos, procurando por sons. Sua audição parecia mais aguda às vezes, como um interruptor que ligava e desligava, assim como sua visão noturna. No momento só conseguia ouvir a própria respiração entrecortada. Entrou na casa escura, sem se importar com as luzes, tentando não fazer ruídos enquanto seguia caminho até seu banheiro.

Saria tirou a jaqueta rasgada e examinou os buracos antes de tirar a camiseta. A camisa estava ensopada de sangue. Ela segurou os farrapos, olhando para os rasgos que só poderiam ser feitos pelas garras de um felino grande. A visão de todo aquele sangue e os rasgos fez com que passasse mal. Ela amassou a camisa, a jogou na pia e virou as costas para o espelho de corpo inteiro. O vidro estava rachado em alguns lugares, mas olhando por cima do ombro, podia ver as fendas em sua pele. Pareciam bem feias — definitivamente uma infecção só esperando para acontecer.

Ela tocou os ferimentos dos dentes no ombro e explodiu em lágrimas. Saria ficou no chuveiro, estremecendo, a água quente se derramando sobre ela, levando o sangue, suas costas e ombros ardendo horrivelmente. Suas pernas cederam e ela caiu no chão do boxe do chuveiro e chorou, deixando a água lavar suas lágrimas.

Puxou os joelhos e os abraçou com força, ignorando a queimação em suas costas. Por que o leopardo não a matou? Claramente ele sabia que havia encontrado os corpos. Ela respirou fundo para não vomitar. Não tinha ideia do que fazer, a não ser esfregar todo o cheiro do seu corpo e então se livrar daquelas roupas. Leopardos tinham excelente olfato, e não queria indagações.

Forçando seu tronco a levantar, pegou com relutância o sabonete e derramou o gel sobre as costas, usando uma escova de banho para esfregar seus ferimentos. Teve que parar várias vezes e respirar fundo para não desmaiar. Doía mais que qualquer coisa que pudesse imaginar. Enxaguou e repetiu a escovação na mordida em seu ombro. Secou o corpo e vasculhou a farmácia até encontrar o iodo.

Saria conteve um grito mordendo o lábio quando o iodo queimou por dentro das marcas em suas costas e na mordida em seu ombro. Ela empurrou a cabeça entre os joelhos, respirando profundamente quando sua visão começou a ficar turva. A bile subiu à boca e lutou bravamente para não vomitar.

—Fils de putain.[6] — Chiou as palavras entre os dentes, lutando para se impedir de cair de cara no chão quando o mundo girou à sua volta e pontos brancos se formaram em sua visão.

Levou vários minutos para seu mundo voltar ao eixo e ser capaz de levantar de novo sem que suas pernas virassem geléia sob seu peso, embora suas costas protestassem com uma feroz ardência. Ficou respirando enquanto aquilo passava e cobriu com cuidado a mordida no ombro com um curativo. Não podia fazer nada a respeito das costas e sabia que o que quer que usasse ficaria arruinado, então vestiu uma camiseta velha e uma calça macia de moleton.

Não podia simplesmente ir para cama e se esconder sob as cobertas, tinha que se livrar das roupas rasgadas. Pegou a jaqueta e a empurrou dentro da pia. Seus irmãos sentiriam o cheiro nelas se não fizesse nada a respeito do sangue antes de jogá-las fora. A única coisa que pôde pensar foi em derramar alvejante nelas, o que fez. As deixou de molho enquanto foi buscar água e aspirina.

O cheiro de alvejante e sangue permeava o banheiro na hora que voltou. Aquilo não ia dar certo. O alvejante definitivamente mascararia o cheiro em suas roupas, mas seus irmãos ficariam desconfiados. Enxaguou a camiseta e a jaqueta e limpou a pia. Levaria as roupas para o pântano e as queimaria.

Saria tentou frear sua mente caótica tempo suficiente para analisar a situação enquanto saía sorrateiramente pelos fundos da casa e entrava no denso bosque que levava ao pântano. Por que o leopardo não a matou? O shifter sabia que ela encontrou o corpo. Não seria bem mais simples apenas matá-la — a não ser que o assassino fosse um dos seus irmãos e não tivesse coragem de matar um membro da família.

—Saria! Onde diabos está, cher?

Seu coração deu um pulo ao som da voz de Remy chamando da varanda dos fundos. Ultimamente, ele aparecia para dar uma olhada nela várias vezes à noite, para ter certeza que estava no quarto.

Praguejando para si mesma, cavou um buraco às pressas e meteu o que sobrou das roupas nele. Tinha que responder. Ele teria visto sua canoa amarrada à doca e viria procurar por ela. —Já estou entrando, — gritou enquanto enterrava as evidências. —Só estou tomando um pouco de ar.

—Rápido, Saria, não devia ficar sozinha à noite no pântano. — Sua voz sempre era gentil. Aquele era Remy, mas sob toda a suavidade de veludo, havia aço. Sabia que ele viria atrás dela se não entrasse.

Limpou as mãos e levantou. —Estou indo. Não se preocupe. Estou cansada hoje.

Quando ouviu vozes na frente da casa, ela entrou às pressas e se certificou de fechar a porta do quarto bem forte. Deitou-se de bruços, acordada a maior parte da noite, ouvindo o barulho de seus irmãos, mas depois que as vozes sumiram, só havia os sons reconfortantes do pântano.

 

O sol descia do céu, uma bola de fogo derretido, derramando chamas vermelhas e laranjas nas águas escuras do Rio Mississippi. O ar estava pesado, quase opressivo pela umidade, bem do jeito que gostava. Drake Donovan saiu da lancha com uma graça casual, levantou uma mão para os homens a bordo em despedida, e parou por um momento ali, no caminho de madeira, para admirar a correnteza do rio. Com a noite caindo, sombras se enterravam docemente dentro das ondas, dando a água uma aparência misteriosa e atraente. A atração dos lugares secretos do rio era fortíssima. Bosques de tupelos e ciprestes gracejavam as margens das águas de uma maneira encantadora. Ele viu várias baías e ilhas enquanto se aproximavam das margens. Garças azuis magníficas percorriam as águas mais rasas dos afluentes, canais e pântanos, figuras graciosas que atraíam o olhar de todos para a beleza do que havia ao redor.

Ele ouviu os sons da noite rastejando enquanto observava o primeiro dos morcegos, mergulhando e girando no ar, lá em cima, capturando os insetos atraídos pelo massivo corpo de água. Não muito longe da beira do rio, uma pequena raposa corria atrás de um rato que se metia entre as folhas. Uma coruja estava empoleirada bem quieta no anoitecer, esperando que o sol afundasse no rio, esperando a noite cobrir os pântanos e canais.

O selvagem nele reagiu, se levantando de um salto, exigindo liberdade. Passou muito tempo. Tempo demais. Sua barba, que já começava a crescer àquela hora do dia, era composta de pelos tangíveis e incrustados a fundo no tecido epitelial que forneciam informações palpáveis às suas terminações nervosas. Desde sempre, aquele sistema de orientação o levava dentro das correntes de ar e permitia que fizesse a leitura dos objetos a distância, e desta vez, inesperadamente, quando reuniu informações, seu felino reagiu agressivamente, atacando-o com as garras, rosnando com suas exigências.

Drake levantou o nariz na direção do vento, absorvendo a noite profundamente dentro dos pulmões, absorvendo — ela. Seu coração parou de bater e então começou a acelerar. Cada terminação nervosa do seu corpo criou vida. A necessidade o socou com maldade e baixeza, um golpe inesperado que o fez vacilar. O cheiro dela era sedutor, cativante e liberava um comando primitivo impossível de ignorar.

O animal nele saltava, desafiando o homem. O pelo crescia sob sua pele numa onda de demanda, deixando atrás um terrível comichão. Sua mandíbula doía e sentiu os caninos crescerem na boca. Tentou respirar, tentou acalmar a fera letal que surgia tão próxima à superfície. Seus músculos ondearam, se contorcendo antes que pudesse se controlar. Experimentou a ânsia do seu felino uma vez, mas não desse jeito, não tão perigosa desse jeito — o leopardo temperamental tão próximo que não conseguia distinguir homem e fera.

Sua mente se tornou um nevoeiro de instintos primitivos e hostis que abafavam o homem civilizado. Drake sempre teve uma enorme força, contendo seu lado animal com mais disciplina que a maioria dos de sua espécie, mas desta vez a luta por supremacia era mais um combate mortal. Os ossos doíam e sua perna esquerda pulsava de dor. Estranhamente, foi a dor que permitiu que prosseguisse. Estava exposto demais, um perigo para qualquer macho — humano ou leopardo — próximo a ele. Manteve o rosto nas sombras e simplesmente inspirou e expirou, confiando na simples mecânica de um reflexo automático para manter o animal selvagem enjaulado. —Só por enquanto, — sussurrou — uma promessa que pretendia cumprir não importava o preço. Seu leopardo já estava preso há tempo suficiente. —Espere mais um pouco.

A fera se acalmou, rosnando sua obediência relutante; mais, Drake tinha certeza, por causa do cheio sedutor que foi carregado pela brisa noturna que pelo homem ser mais forte que ele. Queria seguir aquele aroma — precisava segui-lo, mas era tão elusivo quanto o das fêmeas de sua espécie. A fragrância sensual desapareceu e ele foi deixado com uma necessidade e com uma dor na virilha quando o cheiro deu vez aos aromas normais da beira do rio.

—Sr. Donovan? Drake Donovan?

Ele fechou os olhos brevemente, saboreando o som melódico de um tom de mulher. Ela tinha aquele jeito lindo de falar cantando dos Cajun, na voz. Ele virou a cabeça devagar, não acreditando que qualquer mulher pudesse bater aquela voz fisicamente. Não sabia o que esperava, mas com certeza não esperava sua reação a ela. O mesmo soco baixo e perverso golpeou sua virilha, o mesmo ataque aos seus sentidos à flor da pele que experimentou antes, se repetiu com ainda mais força.

Ela estava a vários metros dele, mas ficou instantaneamente ciente de tudo a seu respeito. Seus sentidos estavam aguçados devido ao seu leopardo, não tinha dúvida disso, mas desta vez sua reação era completamente humana. Ela usava uma calça jeans rasgada e uma camiseta curta que moldava sua forma curvilínea de um modo adorável. Seu rosto era jovem, mas seus olhos velhos. O cabelo cheio, de um loiro escuro, mas altamente marcado com mechas prateadas, douradas e platinadas. Belos olhos da cor de chocolate apimentados com manchinhas douradas pareciam fora de lugar junto àquele cabelo clareado pelo sol e num corte todo repicado e irregular que nunca combinaria com outra pessoa, mas que de alguma forma apenas favorecia mais sua aparência.

Drake mal pôde respirar, sabia que a estava olhando fixamente, mas não conseguia se conter. Ela ficou lá, só olhando para ele com uma expressão curiosa, esperando uma resposta. Seus cílios eram longos, e tinha uma pequena cicatriz no queixo, e covinhas de derreter corações. Sua boca era algo tirado de uma fantasia, lábios cheios como um fascinante arco, os dentes pequenos e brancos, embora seus caninos fossem mais afiados que o normal. Ele sentiu uma estranha necessidade de pegá-la nos braços e provar seu gosto.

Ela o olhava com uma mistura de reticência e cautela. —Sou Saria Boudreaux, sua guia. Você é Drake Donovan, não é? — Ela inclinou a cabeça de lado, o estudando com preocupação. —Se não se sente bem para o passeio, tudo bem, podemos esperar antes que volte a andar de barco. Talvez queira comer alguma coisa?

Seu sotaque se enroscava em seu estômago. Podia sentir a reação pulsando pela sua virilha. —Estou bem, Senhorita Boudreaux. Vou ficar na hospedaria Lafont, como recomendou. Disse que ficava perto dos canais e dos pântanos que vou visitar? — Ele se certificou que a pensão que ela recomendou raramente fosse visitada e ficasse perto do canal onde havia bosques, brejos e pântanos. Reservou a pensão inteira devido à possibilidade que precisasse do seu time, bem como para garantir privacidade.

Ela assentiu. —Me chame de Saria, vai ser mais fácil já que vamos passar a semana juntos. Essa bagagem é sua? — Ela indicou uma pequena bolsa de lona com um aceno da cabeça.

Uma ova que ela ia carregar aquilo para ele. Ele abaixou e a levantou, fazendo uma prece silenciosa para que sua virilha altamente inchada permitisse que caminhasse. —Só Drake, então. Obrigada por me encontrar tão tarde. — Nunca teve uma reação daquelas com outra mulher. Tinha que ser a necessidade pungente do seu felino.

Ela encolheu os ombros e se virou, andando pelo caminho de madeira na direção do bosque de ciprestes que mergulhava suas longas barbas brilhantes de musgo na água. Ela não fazia barulho enquanto andava, com um balanço gracioso e silencioso do quadril tão sedutor que o ar ficou preso em sua garganta. Não era um homem dado a criar imagens eróticas fortes ao ver uma mulher caminhar, mas cada célula do seu corpo ficou alerta e sentiu o desejo maluco de pular em cima dela, prendê-la debaixo dele e devorá-la. Sacudiu a cabeça para tentar apagar a loucura do seu cérebro.

Era o seu leopardo; essa era a única resposta sã. Machucou a perna há muito tempo atrás e seu felino não foi capaz de emergir. Recentemente, o homem para quem escolheu trabalhar, bem, certo — Drake estremeceu de fato antes de admitir — seu amigo, Jake Bannaconni, conseguiu uma operação para ele, um enxerto de ossos de sua espécie em sua perna problemática, na esperança que ele um dia pudesse se transformar de novo. Não estava totalmente curado, e quando estava cansado ainda andava mancando, mas seu felino estava ficando cada vez mais inquieto com o passar dos dias, ávido por testar o novo material de sua perna.

       Cada vez mais o leopardo lutava para vir à superfície. Pediu de propósito que sua guia encontrasse uma hospedaria numa área remota com a ideia que pudesse tentar permitir que seu lado animal tivesse liberdade — era isso ou ficar louco. Ele afastou a voz do seu cirurgião o aconselhando a ir com calma. Tinha ido com tanta calma que realmente estava enlouquecendo, e sua pobre, inocente, linda guia estava correndo o perigo de ser atacada.

Era um homem que automaticamente notava tudo e não como não notar o andar de Saria. Se sentia tão velho e ela parecia tão cheia de frescor e inocência, e tão longe do seu alcance que não era nada engraçado — mas ainda assim — o fato dela não usar um anel na mão esquerda fez com que seu lado selvagem se acalmasse ainda mais. Ele respirava normalmente agora, anos de disciplina assumindo o controle. A pequena brisa acariciava as pontas finas do cabelo beijado pelo sol dela e seu coração se despedaçou. Saria virou a cabeça e olhou para ele por cima do ombro, um leve franzir em sua testa, os olhos o avaliando. Ela diminuiu o passo. —Tudo bem?

Ele deu um olhar direto, do tipo que normalmente matava as pessoas de medo. —Por que não estaria? — Foi mais brusco do que pretendia, mas ela parecia tão jovem e inocente e não estava tendo muito sucesso controlando as imagens do seu corpo nu se retorcendo sobre o dele — e isso o fazia se sentir como um velho tarado.

—Você está mancando.

Lá estava de novo, aquele sotaque que afundava em sua pele e fazia seu pênis se sacudir com força. E não estava mancando. De jeito nenhum. Manteve o olhar firme, olhando-a sem expressão. —Eu não manco. — Caminhou com facilidade agora, com força e fluidez e, mas que merda, foi de velho tarado a velho decrépito aos olhos dela. Diante da mulher mais sexy do mundo, claro que tinha que esquecer como se portar com dignidade.

A sobrancelha dela subiu levemente. Uma covinha se formou. Ela deu um pequeno meio sorriso. —Fico feliz que tenhamos deixado isso claro porque a pensão fica longe. Podemos cortar caminho pela cidade e pela floresta de árvores de Natal e rodear o bosque de ciprestes. Isso vai encurtar um pouco a distância.

Ele deu um sorriso fraco, que não admitia nada. —Quanto mais rápido começarmos, melhor.

O sol que se punha derramou uma feroz fonte de luz pouco antes de afundar completamente no rio, a banhando em chamas vermelhas e laranjas. O dançar sedoso do seu cabelo o convidava, impossível de resistir. Ele estendeu a mão e enfiou uma madeixa solta atrás de sua orelha, o coração a mil. Sentiu uma pontada de calor pela sua corrente sanguínea. O sangue urrava em suas orelhas, trovejava em sua cabeça.

Ela era forte, sem dúvida. Ficou completamente imóvel quando a tocou, mas não empurrou sua mão como tinha todo direito de fazer. Seus olhos ficaram líquidos e ela piscou, prendendo o olhar no dele. Ela parecia indomável, inatingível, e tudo de masculino nele respondia àquele desafio. Ele sentiu a onda de resposta correr pelos fortes músculos, sentiu a força e o poder do seu próprio corpo. Ela fazia com que tivesse plena consciência do seu poder.

Ele tinha a habilidade de saltar grandes distâncias com absoluta agilidade. Conseguia muito bem, em ambas as formas — felina ou humana. Podia afundar sobre o chão que nem água fluindo, tão silencioso que nem as folhas ousavam se mexer. Como seu gato, o simples poder dos seus músculos permitia que se movimentasse rapidamente para controlar a presa. Aqueles mesmos músculos permitiam a discrição de movimentos em câmera lenta, mantendo-o completamente oculto já que desaparecia em meio ao que o cercasse.

Era poderoso, e naquele momento, sabia que ela tinha certeza absoluta disso. As manchas douradas nos seus olhos cresceram até rodearem o chocolate mais escuro. Ela não desviou os olhos. Não piscou. Seu corpo entrou num ritmo acelerado, firme e cheio e repentinamente agressivo. A mulher incitava a mesma reação no homem que a fêmea esquiva de sua espécie incitava no leopardo. Teria que revisar sua opinião a respeito dela. Saria Boudreaux era mais que a jovenzinha que inicialmente pensou que era — muito mais — e tinha a intenção de descobrir cada segredo que ela guardava.

Saria estremeceu enquanto encarava os olhos penetrantes e incomuns de Drake Donovan. Seu olhar firme e direto era perturbador. Ela tinha a sensação que ele conseguia ver seus pensamentos mais profundos. Ruborizou pela ideia, agradecendo que a escuridão caía rápido. Drake Donovan era um homem incomum. Ele ficou tão quieto lá atrás, embora seu perfil aparecesse por causa do rio, que mal conseguia enxergá-lo — e tinha uma visão noturna extraordinária. Ele parecia ter o dom de desaparecer no meio do ambiente.

Não fazia sentido que pudesse desaparecer assim tão facilmente. Era um homem impressionante, se não esplêndido. Seus ombros eram largos, seu peito cheio e musculoso. Tinha os braços mais fortes que qualquer outro homem que conhecia. Músculos ondeavam de uma forma encantadora toda vez que dava um passo. Ele tinha o cabelo liso e loiro e um rosto esculpido com linhas fortes. No momento que colocou os olhos nele, a batida do seu coração ficou muito rápida e milhões de borboletas bateram asas em seu estômago. Mesmo agora se sentia nervosa.

Estava acostumada a ficar perto de homens, até de ficar sozinha com eles. Trabalhava no bar, às vezes sozinha, e nunca antes se sentiu tão ciente do fato de ser uma mulher. Mal conseguia respirar. O calor da noite parecia um pouco pior. Podia sentir o suor descendo pelo vale entre os seios e era uma luta manter a respiração constante. Cada inspiração trazia o cheiro selvagem e incomum dele mais fundo dentro do seu corpo. Nunca ficou tão consciente assim da presença de um homem em toda sua vida.

Ele estava tão calado enquanto caminhavam que não conseguia evitar olhar por cima do ombro de vez em quando para se certificar que a estava seguindo. Ele era do tipo de homem que normalmente evitaria a todo custo. Viu outras mulheres ao seu redor sucumbirem à atração física, ou até mesmo ao amor genuíno, e todas acabaram da mesma forma, capachos de maridos autoritários e dependentes. De jeito nenhum deixaria que o mesmo acontecesse com ela.

Ela nem chegava perto do seu nível e não era boba suficiente para fingir que sim. Ele tinha uma sofisticação bruta e transmitia autoridade tão facilmente quanto respirava. Atração física morria bem rápido com o dia-a-dia e então, como ela ficaria? Donovan era o tipo de homem que controlava tudo e todos em seu campo de influência com um punho de ferro.

Ele usava uma calça jeans azul baixa, e suas coxas eram duas colunas gêmeas de força. Não pôde evitar dar alguns olhares furtivos no impressionante pacote na frente. Drake Donovan era tão perfeito quanto um doce, mas precisava se controlar, e rápido. Ele comeria uma mulher viva.

Ela procurou um pouco desesperadamente por algo para dizer, sentindo-se desconfortável. —Já esteve aqui? — Era uma guia profissional, pelo amor de Deus, e ainda assim não conseguia nem iniciar uma conversa trivial.

—Não.

Disse um palavrão bem baixinho. Uma semana com ele. Uma semana inteira. O dinheiro era bom, mas não conseguia controlar sua reação a ele e estava muito claro que ele não queria sequer jogar conversa fora com ela, nem por educação. Mordeu o lábio com força e acelerou o passo. Outro olhar por cima do ombro disse que ele a acompanhava com facilidade.

—Você parece um pouco jovem para ser guia dos pântanos, — disse Drake.

Saria conteve sua resposta imediata. Ótimo. Pela primeira vez sentia uma atração assim por um homem e ele achava que era nova demais. Quem ligava para o que ele achava? Só porque era o cara mais lindo do planeta não significava porcaria nenhuma. Não queria nada com ele, mas bem que poderia vê-la como mulher, não como criança.

—Cresci aqui. Se não estiver familiarizado com o pântano ele pode ser bem perigoso. — Não pôde evitar a pontada de grosseria na voz. —Não existem placas por aqui. Se preferir outro guia tem outros disponíveis. Não vai ter problema em conseguir alguém com o tanto de dinheiro que está pagando. — Como se pudesse perder aquela fonte de renda. Orgulho era uma coisa terrível, lembrou a si mesma, mas não ia implorar pelo trabalho.

—Quando pedi alguém que conhecesse o pântano, as plantas e a vida selvagem dessa área, você foi altamente recomendada por várias pessoas, — disse Drake. —E disse que seria possível estendermos o período, se fosse preciso.

Ela não pôde evitar dar outra olhadinha nele. Mon Dieu, era lindo. Podia passar o tempo que fosse com ele — era um colírio para os olhos. E pelo menos estava falando com ela agora. —Sim, se me avisar com antecedência, posso providenciar isso. — Talvez não. Toda vez que olhava para ele perdia a cabeça. Tinha algo atraente em seus olhos, aqueles olhos de um verde amarelado profundo e rodeados por cílios impossivelmente compridos. A barba estava nascendo e isso fazia com que parecesse ainda mais durão.

Ela passou pela pequena cidade, evitando se aproximar demais da igreja, com medo de dar de cara com o padre. Não voltou ao confessionário desde que lhe deu a carta, e agora não queria arriscar contato. Os rasgos em suas costas e a mordida no ombro estavam cicatrizando um pouco, mas deixaram uma dor que, junto com os pesadelos, a convenceu a cuidar de sua própria vida. Não queria o Padre Gallagher fazendo nenhuma pergunta. Conseguiu evitar seus irmãos, e agora, aceitando esse trabalho, ficaria pelo pântano por pelo menos outra semana.

—Você é casada? — A voz de Drake era bem casual.

Seu coração deu um pulo. —Não.

—Não achei que fosse. Nenhum homem com juízo deixaria alguém como você andar com um estranho sozinha pelo pântano.

Ela tocou a faca em seu cinto. —Eu sei me cuidar. — Por que ele perguntou? Viu o jeito que a olhou, checando tudo. Não podia deixar de notar a falta de um anel. Ainda assim, talvez algumas mulheres não usassem seus anéis. Permitiu-se soltar o ar. Talvez sob aquele rosto sem expressão estivesse um pouco mais interessado nela do que deixava passar. —Você é? — Não conseguia imaginar isso. Não conseguia imaginar mulher alguma prendendo seu interesse por muito tempo.

O silêncio se esticou até que ela parou outra vez e olhou para ele. Ele deu um pequeno sorriso que não alcançou os olhos. —Duvido que possa encontrar uma mulher que me aguentaria.

Ergueu as sobrancelhas. —Você é tão difícil assim?

—Imagino que deva ser, sim, — admitiu ele. Sua voz desceu uma oitava — tornou-se suave, sedutora, numa intimidade com a qual estava totalmente desacostumada. —Vai ficar comigo pela próxima semana. Vai ter que me dizer.

Sua boca ficou seca. Seu coração saltou e todo calor se juntou em seu corpo. O olhar dele estava preso ao dela e experimentou imediatamente a sensação de cair dentro dele. Era bizarro, mas não conseguia desviar os olhos, como se a fizesse prisioneira de uma forma misteriosa. Seu olhar era ao mesmo tempo carismático e perigoso. Seu coração começou a bater com toda força num aviso bem real. Tudo de feminino nela respondia a ele, e mesmo assim, ao mesmo tempo, tudo a encorajava a fugir.

Estava perdida em seu olhar, por isso testemunhou a abrupta mudança. As cores verdes e douradas de repente ficaram da cor do ouro envelhecido. As pupilas redondas dilataram três vezes mais. Ele se moveu, ou não? Ela achava que não tinha piscado, mas seu corpo estava mais perto do dela, quase de forma protetiva, a protegendo de algo que viu sem sequer virar a cabeça. Dedos gelados se arrastaram pela sua espinha. Seu radar explodiu, e desta vez a ameaça não emanava do homem à sua frente. Talvez não emanasse desde o começo, mas seu magnetismo predatório a confundiu. Quaisquer que fossem as razões, não reconheceu os avisos pelo que eram.

—Tem um homem nas sombras, bem na entrada do bosque. Está olhando para você. — Sua voz estava bem baixa, quase inaudível. Se não tivesse uma audição tão boa, não ouviria o sussurro. —O conhece? Olhe por cima do meu ombro esquerdo. — Ele deu outro passo à frente, inclinando a cabeça na direção da dela como se fosse beijá-la.

Sua respiração se prendeu na garganta. Tudo dentro dela parou. Colocou uma palma no peito dele, bem em cima do coração que batia notoriamente, mas se para afastá-lo ou para se apoiar enquanto levantava a cabeça, não sabia dizer.

Ela deu uma olhada rápida na linha das árvores e sua garganta quase se fechou. Olhos vermelhos brilhantes a olhavam. Com certeza havia algo lá — alguém. Sabiam que ela atravessava as árvores que davam nas docas sempre que vinha à cidade. Sabiam que estava com um cliente? Não conseguia dizer quem era, só que olhos humanos não refletiam a luz daquela maneira. Quem quer que estivesse na floresta de pinheiros era seu agressor.

—Não precisamos passar pelo bosque para chegarmos à doca. Essa estrada faz uma curva ao redor e vai até os canais. Fica um pouco mais distante, mas...

—Acho que uma caminhada pelo bosque é exatamente o que estou a fim de fazer, — interrompeu Drake.

Ela sacudiu a cabeça. —Não sei se leu sobre os gatos-fantasma que as pessoas acham que avistaram nos pântanos, mas às vezes essas coisas são mais reais que queríamos que fossem. Me sentiria mais segura se ficássemos na cidade.

—Olhe para mim. — Ele manteve a voz baixa, e ela jurou que o tom era quase um ronronado de tão suave e sedutor, mas definitivamente lhe deu uma ordem.

Sob sua pele, sentiu um comichão. Se fosse uma gata juraria que ele alisou seu pelo pelo lado errado, mas antes que pudesse se conter, o olhar voou para o dele. Instantaneamente foi capturada por aquele olhar concentrado e autoritário. Os olhos dele eram lindos, aterrorizantes e sensuais ao mesmo tempo.

—Está segura comigo.

Seu tom era tão íntimo, tão certo — tão certo que quando olhou em seus olhos, apesar do seu cérebro dizer para ser lógica, ela acreditou nele — e quanto era idiota ao fazer isso quando sabia que havia um leopardo perseguindo e matando pessoas? Drake Donovan podia ser um homem poderoso em seu mundo, e claramente tudo nele gritava que podia se cuidar muito bem — mas não com uma máquina de matar como um shifter. Perspicaz e inteligente, o shifter usava tanto a fera quanto o homem para matar sua presa.

Ela engoliu com força, incapaz de escapar àqueles olhos penetrantes. Ele tinha se prendido a ela e não havia escapatória. Ocorreu-lhe de repente que estava dizendo uma coisa completamente diferente do que havia imaginado. Franziu o cenho, mas ele já a estava virando gentilmente, porém com firmeza, de volta na direção do bosque. Relutantemente deu alguns passos, confusa com Drake, confusa com sua reação a ele.

Fechou a cara. Drake Donovan a tirava do eixo. Olhou dentro das sombras. Nada se mexia. Olhos não a fitavam. Quem quer que estava lá mudou de posição. Ainda assim, se sentia desconfortável e isso não era um bom sinal. Desceu a mão bem casualmente até a faca em sua cintura, desabotoando a bainha com o polegar.

—Tudo bem, — disse Drake suavemente. —Um homem às dez horas e mais dois na trilha à nossa frente. — Sua carranca aumentou. Ela era a guia. Era seu dever protegê-lo no pântano. Aquela era sua cidade e devia ter avistado os outros bem antes de Drake ficar ciente deles. Ele estava estragando seu radar. Tinha a desconfortável sensação que ele desarmava os alarmes e não conseguia ver além dele. Então por que se sentia segura ao seu lado?

Ela jogou o olhar na posição que ele passou. Caminhando pela trilha que dava na deles vinha Amos Jeanmard. Ela olhou atrás e identificou os gêmeos Lanoux, Robert e Dion, um raramente visto sem o outro. Foram à escola com seu irmão, Mahieu, mas passavam com frequência no bar tarde da noite para dizer oi. Ela suspeitava que Robert a paquerava por diversão, mas que Dion era bem sério. Pela sua cara, não estava muito feliz em vê-la com Drake.

Ela vinha de uma sociedade onde as pessoas eram amigáveis, mas davam muito valor à privacidade. Os adultos há muito tempo atrás tentaram dizer ao seu pai que ela era uma menina muito selvagem, mas quando ele não respondeu, todos acharam que precisavam ficar de olho nela, de longe, claro.

—São vizinhos, — anunciou, relaxando um pouco. Se um assassino estava à espreita no bosque, não apareceria com tantas pessoas juntas. Assim que pagasse a estadia dele na pensão, voltaria para casa e pegaria mais armas. Não ameaçaria ninguém, mas precisava ganhar dinheiro.

Donovan estava pagando bastante e precisava dele. Se recusava a depender dos seus irmãos. Isso daria um tipo de controle sobre ela, e agora que era adulta, não ia deixar que opinassem em sua vida. Deu um sorriso para os irmãos Lanoux. Obviamente tinham apressado o passo para alcançá-los.

Ao seu lado, Drake reagiu tão sutilmente que não conseguiu dizer o que fez, mas o ar ficou carregado de tensão e ele pareceu repentinamente perigoso, não mais o homem tranquilo que aparentava à primeira vista. Seu olhar colou nos dois homens e não vacilou. Ela sentiu a diferença, o sentiu se preparando e de repente não tinha certeza se alguém ficaria seguro ao lado de Donovan. Seus olhos brilhavam com ameaça e ele muito gentilmente, mas firmemente, a levantou pela cintura e colocou atrás de si, enfrentando sozinho os dois irmãos.

Dion e Robert estavam quase do mesmo jeito, dividindo-se para alcançarem Drake um de cada lado, parecendo dois lutadores profissionais ao invés dos homens amáveis que sabia que eram. Rapidamente ela perdia o controle da situação, a tensão deixando o ar tão denso que podia ser cortado com uma faca, que nem manteiga.

—São meus vizinhos, — reiterou. —Meus amigos. — Enroscou os dedos em volta do bíceps de Drake como se isso pudesse contê-lo. Seu corpo era morno, não, quente. Sentiu os músculos ondearem sob a pele e uma resposta acalorada pulsou entre suas pernas.

Drake hesitou, e então, para seu alívio, o viu sorrir brevemente. Seus olhos estavam focados do mesmo jeito e ela notou que seu corpo ainda protegia o dela, mas um pouco da tensão abrandou. Tensão não, corrigiu a si mesma — os irmãos Lanoux causaram aquilo — mas Drake certamente estava preparado caso um ataque ocorresse.

—Dion. — Saria projetou mais cordialidade que o normal na voz. —Como está? O que faz na cidade?

—Podia fazer a mesma pergunta, cher, — respondeu Dion, parando a uma curta distância deles, o olhar percorrendo Donovan, o medindo. Aparentemente, o que quer que visse, não gostava, porque não havia nenhuma amabilidade.

—Consegui um trampo de guia. — Ela levou Dion a entender que era algo lucrativo e que seria melhor que não estragasse aquilo para ela. —Drake, esse é Dion Lanoux e seu irmão, Robert. São vizinhos próximos. Dion, Robert, esse é Drake Donovan. Vou mostrar a ele o pântano e os canais.

—Sério? — Robert ergueu as sobrancelhas. —Por quê?

—Robert! — Saria estava chocada. —Cuide da sua vida.

—Não se importe, Donovan, mas preciso falar com Saria um momento, — disse Dion suavemente, e estendeu a mão para Saria.

Ela sentiu uma forte onda de poder correr sob a pele de Drake. Seus olhos pularam para seu rosto. Ele olhava para Dion, não Robert, e havia algo muito mortal em sua expressão. —Saria. — Sua voz era bem macia. —Se estiver com medo deles, não precisa ir.

Ele sabia. Achava que foi muito esperta e cuidadosa. Escondeu seu terror dos seus próprios irmãos, dos seus vizinhos, e ainda assim aquele absoluto estranho que a conheceu há poucos minutos sabia. Ela forçou um sorriso, um pouco impressionada que estivesse tão disposto a brigar com os dois irmãos por sua causa. —Não, embora claramente tenham esquecido a educação que receberam, são amigos. — Talvez se dissesse isso muitas vezes, os dois lados parariam com aquilo e se comportariam direito.

Ignorando a mão de Dion, ela rodeou Drake, ou quase o fez. Ele mudou o peso nas pernas de leve, bloqueando seu caminho. Seus dedos mal roçaram seu braço até seu pulso, se estabelecendo ali com gentileza infinita. —Tem certeza absoluta, Saria? Garanto que não há necessidade de me proteger. — Ele deu um sorriso fraco.

Seu coração quase parou e depois saiu em disparada. Era tão lindo. E o jeito que a tocava, como a carícia de uma pena — que conseguia sentir até os ossos. Calor jorrou em suas veias e ela engoliu em seco, tentando não ceder à atração física.

—Está errado a respeito disso, — disse Dion, a cara cheia de ódio pela visão dos dedos de Drake formando um bracelete frouxo no pulso de Saria.

Ela seguiu seu olhar irritado e teve que lutar para não corar ao puxar o braço e circular Drake com bastante determinação. —Podia ter usado o telefone, Dion, — disse, —se precisava tanto falar comigo. — Ela passou por ele, mas parou onde podia ficar de olho em Drake e Robert. Se os gêmeos planejavam algum ataque surpresa no seu cliente, ia fazer com que soubessem de uma vez por todas que podia tomar conta de si mesma.

—Seus irmãos sabem o que está fazendo? — chiou Dion entre os dentes. —Esse homem é perigoso, Saria. Não sabe com quem está lidando. — Ela bateu os dedos na coxa, completamente ciente do interesse de Drake. Teve o cuidado de não olhá-lo.

—Isso não é da sua conta, Dion, nem da dos meus irmãos. Sou uma guia licenciada. Caso não tenha notado nos últimos anos, é como pago minhas contas.

Dion sacudiu a cabeça, se aproximando dela e baixando mais a voz. —Não com esse homem. Se quer um guia, farei isso no seu lugar. Não tem ideia do que está se metendo.

—Então me diga, — desafiou. —Isso é por que ele não se jogou no chão nem começou a gritar quando você e seu irmão tentaram o atacar em plena desvantagem? — Fúria a queimava. —Se sabe algo sobre esse homem, me diga agora.

—Já convivi com tipos como ele, Saria. Você não. É quieto demais. Ele nem sequer piscou quando chegamos nele, e acredite em mim, cher, homens normais nos temem.

Ela acreditava nele. Robert e Dion eram fortes e podiam lutar bravamente. Os outros os deixavam em paz, sabendo que se brigassem com um, brigariam com o outro.

Ela encolheu um ombro. —Então acho que ficarei bem com ele lá no pântano.

Drake podia ouvir a conversa sussurrada bem facilmente, assim como seu leopardo. Seu felino já estava muito próximo à superfície e mais uma vez se viu lutando para manter o animal sob controle. Saria estava cercada de leopardos, e se ele não sabia antes, com toda certeza sabia agora: não queria nenhum macho, de nenhuma forma, perto dela.

Os gêmeos Lanoux, bem como o homem nas sombras, quem quer que fosse — e Drake não podia dizer até conseguir ir até o lugar e farejar — certamente eram leopardos. O homem mais velho — Amos Jeanmard, como ela o chamou — que os observava da trilha com interesse, também era leopardo. Ele se deparou com um verdadeiro covil de shifters onde não uma, mas várias famílias se agruparam para formar certa aliança. Não conhecia nenhum shifter que vivesse fora das florestas tropicais.

Ele inalou o cheiro forte dos machos, furioso por outro ter adentrado seu reino. Um estranho, possivelmente um vagabundo. Não tinha medo deles — tanto ele quanto seu leopardo lutavam desde que era criança — mas não se transformava há um bom tempo. O cirurgião foi inflexível para que tivesse calma e permitisse que sua perna se recuperasse completamente antes de tentar se transformar outra vez. Para seu felino isso pouco importava.

O animal se enraivecia, se jogando contra Drake, mas Drake foi um alfa por muitos anos, liderando times de leopardos machos pela floresta tropical, onde suas naturezas primitivas frequentemente ultrapassavam a civilidade de seus lados humanos. Era preciso força, paciência e disciplina para controlá-los — tudo isso ele possuía em abundância. Mais que qualquer coisa, tinha que afastar Saria dos machos. Se conseguia ler sua linguagem corporal corretamente — e era muito bom lendo pessoas — ela era tão independente quanto eles.

Ignorando os outros, como também o homem mais velho se aproximando por trás dele, ele deu um sorriso pequeno e provocador. —Se seu homem é contra você me mostrar o lugar, Srta. Boudreaux, talvez possa me recomendar outro guia.

Saria se virou, uma vermelhidão subia pelo seu pescoço. —Monsieur Lanoux não é meu homem. Eu sou sua guia, Sr. Donovan, e ninguém vai tirar meu trabalho.

Ela saiu de perto de Dion, andando em sua direção, os ombros rígidos de ultraje. Ela de fato empurrou Robert quando passou por ele, o ombro batendo no dele. Era uma coisinha, mas sólida, e surpreendeu e até chocou o outro macho. Fez até com que ele balançasse, observou Drake com satisfação. Seu sorriso aumentou, e ele permitiu que a admiração se mostrasse por um momento em seus olhos. Amava seu sotaque e notava que ele ficava mais acentuado quando ficava com raiva, algo que valia a pena lembrar.

Saria pegou sua bolsa e apontou o caminho até o bosque com ela. Ao mesmo tempo, olhou com ódio para os irmãos. —Sou muitíssimo capaz de nos manter a salvo no pântano.

—Seus irmãos... — começou Dion.

—Eles tem o que fazer, como vocês deveriam, — disparou de volta. —Boa noite, Sr. Jeanmard, — ela cumprimentou o homem mais velho enquanto continuava a descer o caminho sinuoso entre as árvores.

Era magnifica. Drake se viu sorrindo mesmo quando reconheceu que o recém-chegado era definitivamente um leopardo. Seguiu Saria, resistindo ao desejo do seu gato de urrar seu triunfo para os outros machos. Às vezes, meu amigo, usar a cabeça é bem melhor, acalmou seu felino. Estamos perto agora. Não vai demorar. O pântano acenava para a selvageria nele.

—O que foi aquilo lá trás? — perguntou, sabendo que ela ia estranhar se não perguntasse. —Estão com raiva por que conseguiu o trabalho e não eles?

—Levo clientes ao pântano o tempo todo, — disse ela. —Não sei o que deu neles. Não são parentes meus e não namoramos, então não ligue pra isso.

Drake olhou para a esquerda sem virar a cabeça. Dion Lanoux andava de um lado para o outro, aparecendo e sumindo entre as árvores espessas. À sua esquerda, Robert Lanoux fazia o mesmo. Não havia dúvida que os felinos deles farejaram o seu. Aquela seria uma investigação muito interessante. Mais que qualquer outra coisa, precisava descobrir quantos leopardos havia naquele covil e se um deles se tornou um assassino em série. Olhou para a mulher que liderava o caminho pelo bosque. Ela andava com confiança, mas estava nervosa. Duas vezes sua mão roçou o punho da faca e deu vários olhares discretos ao redor.

—Não quero causar problemas, — disse.

Ela o olhou rapidamente por cima do ombro. É. Ela sabia que os irmãos Lanoux estavam no bosque os seguindo e não gostava nem um pouco. Tinha que ser ela a fêmea pela qual seu felino reagiu. Fazia sentido. Ele estava reagindo à mulher. Os homens estavam nervosos com um estranho em seu meio. Isso podia ser natural, mas desafiar um de fato não era — a não ser que uma fêmea estivesse próxima a emergir.       

O Han Vol Dan, período onde uma fêmea shifter de leopardo bem como a mulher estavam ao mesmo tempo prontas para acasalar, era a época mais perigosa para todos os shifters. Os machos ficavam nervosos e inquietos, combativos e difíceis de controlar. Drake estudou Saria. Não havia sinal presente do felino, nada que desse uma dica que uma fêmea leopardo pudesse estar escondida sob toda aquela pele gloriosa.

Levou bons minutos para que percebesse que tudo nele, cada célula, cada músculo, tudo que era, pedia por ela. Saria Boudreaux pertencia a ele, e teria que roubá-la sob os narizes de cada homem do que parecia ser um covil considerável. E tinha que fazer isso bem no meio de uma investigação de homicídio. Não era uma tarefa fácil, mas não havia dúvida que não via a hora de executá-la.

—O que foi? — Saria o olhou por cima do ombro outra vez.

Ele estava sorrindo, não pôde controlar. Sentia-se muito bem por estar vivo.

—Nada. Só curtindo a noite — e a companhia. Vive num lugar lindo, Saria.

Ela deu um sorriso fraco e satisfeito. —É mesmo, não é? Poucas pessoas o apreciam.

Ele a seguiu contente, e com o perigo andando perto e a noite se fechando, se sentiu em casa.

 

Saria e Drake estavam sendo seguidos pelas margens do pântano, e seus seguidores não estavam sendo nada sutis. Seu felino, sempre letal, se esticou languidamente, com as garras de fora, pronto para a batalha — até mesmo ávido por ela. Por alguns momentos, Drake só conseguiu ficar parado e travar aquela luta interna pela supremacia. Seu felino ficou agitado ao sentir o cheiro dos machos correndo pelos flancos ao seu redor. O leopardo foi de razoavelmente irritado a furioso em questão de minutos. Drake virou o rosto para o céu. As nuvens passavam acima, uma mistura turbulenta de calor e umidade, ameaçando se romper. O clima combinava com seu humor, imprevisível e tempestuoso. Não podia permitir que seu leopardo emergisse, não ali no barco com Saria tão perto do perigo. Não com leopardos machos rondando à beira d’água atrás de brigar com ele. Forçou a necessidade de se transformar, usando cada pedacinho de disciplina e controle que aprendeu a ter ao longo dos anos para conter seu felino raivoso.

A dor em sua mandíbula diminuiu, mas seus ossos doíam, particularmente sua perna machucada. Mudou o peso da perna para aliviar a carga enquanto respirava profundamente várias vezes para espantar o maluco desejo de se transformar. Empurrou o leopardo de volta ainda mais. Suas juntas estavam pegando fogo e as pontas dos dedos latejavam. Um uivo baixo escapou e sentiu Saria ficar rígida e lançar um olhar. Fingiu grande interesse no que havia em volta.

O barco deslizava pelo carpete suave de plantas flutuantes, levando-o mais além no nebuloso pântano. Folhas começavam a cair, fazendo os galhos baixarem por cima das águas escuras, como dedos ossudos enormes prontos para arrastar os descuidados para dentro dos canais e afluentes infestados de crocodilos. Passaram por prados de grama quando a lua subiu, jogando um brilho prateado nas águas turvas. Ciprestes e salgueiros bordeavam os bancos de areia. Tupelos se erguiam por entre as videiras emaranhadas e a vegetação do solo do brejo. Garças limpavam suas penas brancas, parecendo não mais que sombras franzinas contra o céu escuro.

Nuvens de tempestade prometiam mais chuva, tornando o céu ainda mais cinza. Ele usou sua visão felina para penetrar o véu, avistando um nútria[7] os observando passar. Uma lontra estava sentada num tronco, mas sua atenção estava focada no bosque de ciprestes à beira do pântano. Não surpreendeu Drake quando um enorme coelho pulou no banco e correu para se proteger, assustado, sem dúvida, pelos leopardos seguindo o progresso do barco de Saria.

Procurou por placas ou marcações, mas não havia nenhuma. —Parece saber seu caminho, ainda assim tem muita pouca coisa indicando qual direção tomar.

—Você nunca iria querer voltar aqui sem um guia, — ela o alertou. —Não estou dizendo isso para que eu tenha o trabalho. A maioria dessas áreas são arrendadas e atirarão para proteger suas terras. Ganham a vida aqui capturando animais, caçando e pescando. É uma vida difícil e satisfatória, mas temos caçadores ilegais e alguns outros que tem negócios que não querem que ninguém fique sabendo. Isso ameaça nosso modo de vida.

—Estou prestando atenção, — disse para satisfazê-la. Podia ver que estava genuinamente preocupada — e ordinariamente tinha razão para ficar. Mas ele era leopardo e conseguiria encontrar seu caminho em qualquer lugar — até mesmo num pântano. Tinha absoluta confiança em si mesmo.

Como se lesse seus pensamentos, ela continuou a alertá-lo. —Boa parte dessa terra é de areia movediça, um passo errado e afunda.

Ele avistou um felino grande se movendo rápido pelas árvores próximas ao banco e escondeu seu sorriso. Leopardos tinham instinto sobre onde colocar os pés. Podiam nadar e eram bons em se locomover pelas árvores. Podia atravessar o pântano tão bem como qualquer nativo.

O lugar era lindo. As árvores, metade submersas, se levantavam nuas, torcidas, ossudas e nodosas, os galhos se esticando acima e para os lados com grandes lençóis de musgo os cobrindo. Manteve os olhos no leopardo. Shifters conseguiam manter a velocidade e viajavam maiores períodos de tempo que qualquer outro felino grande, mas mesmo assim, não milhas e milhas, e não naquela forma. Com certeza, um gato parava e outro que estava esperando retomava a perseguição. Todos já sabiam e o covil estava convocando seus defensores.

Teve que virar para esconder o riso. Deviam ter perguntado a Saria onde ela o levaria, o que os salvaria do incômodo. Mesmo assim, o teriam seguido para garantir a segurança da fêmea. Ele o faria. Em qualquer caso, haveria companhia naquela noite. Sabiam exatamente onde estava, farejaram o leopardo nele e o fato de não parecer intimidado não cairia bem entre o grupo, não com uma fêmea envolvida.

Olhou para o relógio. Faria uma chamada via satélite para Jake Bannaconni em breve. Pegou o último barco, mas havia se atrasado somente para fazer uma última visita ao cirurgião. Se transformaria assim que tivesse oportunidade. Seu leopardo foi muito paciente. Os dois estavam definhando sem poderem ser capazes de serem verdadeiros à sua natureza selvagem.

A névoa se amontoava, se movendo lentamente pelas árvores, engrossando num pesado véu cinza. Sons mudavam quanto mais penetravam no pântano. Ele viu um campo de caça, uma pequena cabana usada para os mesmos fins. A cabana representava um estilo de vida em extinção, homens vivendo da terra, independentes e terrivelmente orgulhosos. Famílias ainda bem unidas, pessoas trabalhadoras que ajudavam umas às outras a sobreviverem.

Olhou da cabana para o rosto de Saria, que tinha uma mão descansando levemente no remo. Seu cabelo soprava em volta do rosto, ainda assim havia uma característica elegante e de realeza em sua calça jeans simples e rosto lavado, sem nenhuma maquiagem. Para ele, ela manifestava o espírito da natureza. Forte e ao mesmo tempo frágil. Independente e ao mesmo tempo vulnerável. Esquiva e tão tentadora. Seus lábios estavam levemente separados, os olhos brilhando. O vento colocava cor em suas bochechas. Ela olhou para ele e riu, claramente gostando do passeio pela água. O som foi levado pelo vento e tornou-se uma parte do ritmo do pântano para ele.

Seu corpo reagiu imediatamente, endurecendo do lado de fora, derretendo por dentro. Nunca experimentou uma sensação de necessidade antes — e necessidade definitivamente era o que estava sentindo. O riso de Saria era pura mágica, o envolvendo em seu feitiço. —Você é de uma família grande? — Ele tinha ouvido o comentário sobre seus irmãos, no plural, então ela tinha mais de um.

—Sim e não.

Ela deu de ombros casualmente, talvez casualmente demais. Ficou instantaneamente em alerta. Seu olhar tocou o dele e se desviou. Ela ficou olhando a água. Não mudou a expressão, mas sentiu que se retraía internamente. Não ficava muito empolgada falando da família. Essa era a reticência natural da espécie deles, ou havia algo mais sinistro?

—Tenho cinco irmãos, mas sou seis anos mais nova que o mais novo. Minha mãe morreu alguns anos depois que nasci, e antes que realmente tivesse uma chance de conhecer algum deles, já estavam todos trabalhando longe de casa. Mandavam dinheiro, claro, mas não fui criada com eles de fato, então em alguns aspectos sou filha única.

—Deve ter sido bem solitário.

Ela franziu o cenho, sacudindo a cabeça. —Às vezes, quando eles estavam em casa e falavam juntos, sem realmente notar que eu estava por perto, me sentia de fora, mas na maior parte do tempo, tive uma ótima infância. — Ela deu um sorriso. —Fazia tudo que tinha vontade.

Ele meio que se apaixonou por ela quando deu aquele sorriso de camaradagem, como se esperasse que entendesse completamente seu estilo de vida. Não pôde evitar dar outro sorriso em resposta. Era linda, dando-lhe aquele pequeno vislumbre de quem era e do que precisava. Armazenou a informação em algum lugar de sua alma onde nunca pudesse perdê-la. Depois de passar pela vida nesses últimos anos se sentindo como se estivesse morto por dentro, ela certamente o acordou para valer.

A viu virar a cabeça e ficar tensa, procurando pelo pântano à sua esquerda. Olhou cuidadosamente para a direita em caso de espiá-lo. É. Ele sabia. Havia dois deles correndo juntos. Definitivamente estava em menor número, e se viessem para cima dele em massa, o que estava provando ser uma possibilidade, alguém ia se machucar.

Drake arriscou um olhar rápido para seu rosto. Tinha ficado pálida. Sua boca se apertou numa linha inflexível e seus ombros se endireitaram. Ele seguiu seu olhar até o tronco de árvore à sua frente. Apostava seu último dólar que tinha armas naquele tronco. Então sua guiazinha estava preparada para defendê-lo. Um calor se derramou dentro dele.

—Segure-se. — Ela soou irada.

Ele obedeceu e se agarrou para não cair. O barco virou abruptamente, cortando o espesso tapete de algas flutuantes para dentro de outro canal. Juncos dividiam a viela estreita de água, levando-os para longe do pântano, para onde os felinos, em vigilância, tinham seguido. Um rugido de fúria fez com que os pássaros berrassem no ar — um leopardo macho expressando seu desagrado.

Seus olhos encontraram os de Saria. —O que diabos foi isso? — Com certeza a pergunta tinha que ser feita.

—Tem coisas ruins no pântano, — explicou ela. —Não se preocupe. Conheço todos os caminhos.

—Posso ver isso. Não estou preocupado, Saria. Sou bem capaz de tomar conta de mim — e de você — se houver necessidade, — assegurou. —E a contratei como guia, não para se colocar em perigo. Se tivermos problemas aqui, quero que fuja.

Ela fez algum tipo de som que terminou numa tosse. Tinha quase certeza que tinha sussurrado “até parece” baixinho, mas ela consertou o deslize muito bem. -Bom, cher, — amaciou. —Não teria muito trabalho se deixasse meus clientes no pântano para serem devorados por crocodilos, teria? — Soava como se ele não fosse muito inteligente.

—Entendo o que quer dizer, — disse, e não pôde evitar a risada.

Ela riu com ele. —Fico feliz que concordemos. Os últimos três que deixei para serem iscas de crocodilo me denunciaram nos órgãos de defesa do consumidor. Bobagens do tipo perder um braço ou uma perna, nada muito grande, entende?

—Que absurdo denunciá-la por uma coisinha tão insignificante dessa.

O barco mudou de direção novamente e deslizaram para dentro de um ponto estreito no matagal, que os levou de volta ao canal principal. Sem aviso, a água mudou para um azul escuro espelhado. Estavam em alto rio e o lago era belo à noite.

Ela apontou para uma baía pequena e convidativa. —Vê aquela prainha ali? As pessoas nadam lá o tempo todo. Um dos maiores crocodilos que já vi usa aquela área sempre para tomar sol. Seu território fica bem à esquerda. São loucos em trazer os filhos aqui.

—Alguém já tentou capturá-lo?

—Capturá-lo? — ecoou ela. —Não relocamos crocodilos, Drake. Vivemos deles, mas sim, todos tentamos caçá-lo. Ele é esperto. Pega a isca, entorta os ganchos, rouba a carne e nos deixa com cara de idiotas. — Havia respeito em sua voz.

Um cinza azulado se via ao redor dos troncos das árvores beirando a costa, a cor mudando numa capa de mistério. Era difícil para qualquer coisa penetrar muito além daquele véu espesso. Ele estudou o terreno quando o barco fez uma curva e troncos de ciprestes deram vez a carvalhos e pinheiros. As árvores abrigavam uma casa grande inspirada na era Vitoriana. De um azul pálido coroado em branco, a casa se misturava à névoa cinza-azulada que vinha do canal. A varanda que a abraçava era convidativa e os balcões do segundo piso eram largos, seduzindo qualquer visitante a sentar e observar a água correr por cima das pedras. Havia redes penduradas nas árvores, a alguns metros de distância da beira da água, que proporcionavam uma boa sombra. Podia ouvir os sapos-boi e as cigarras chamando.

Saria irradiou um sorriso para ele. —Não é uma joia? A Srta. Pauline Lafont dirige a hospedaria agora. Antes era a casa da avó dela. Sua mãe a transformou em pensão e a Srta. Pauline fez várias melhorias.

—É tudo que disse que seria, — concordou Drake. A maior parte da casa tinha privacidade. O lugar tinha uma elegância antiga, de toda uma era passada. Quieto, escondido, uma joia acolhedora, exatamente como Saria prometeu quando a contatou pelo anúncio de guia. —Perfeito, — adicionou com satisfação.

Ainda não disse a Saria que reservou a hospedaria inteira por duas semanas com intenção de trazer seu time no momento que encontrasse alguma coisa. E sabia que acharia algo. Tropeçou num covil de shifters bem ali, no meio do brejo da Louisiana. Eram tão esquivos e discretos quanto os shifters das florestas tropicais pelo mundo — mas tudo fazia sentido agora.

Drake esperou pacientemente enquanto era apresentado à mulher cuja família possuía a bela casa vitoriana há mais de cem anos. Pauline Lafont era uma mulher pequena com linhas de riso ao redor dos olhos e um sorriso fácil. Gostou dela instantaneamente.

—Gostaria de um tour? — perguntou com graciosidade.

—Adoraria, senhora, — disse, falando sério. —A casa é incrível. — Era essencial que conhecesse a casa. Cada cantinho, cada esconderijo, onde Pauline Lafont dormia e vivia quando não interagia com os hóspedes.

—Vou deixá-lo nas mãos da Senhorita Pauline, — disse Saria. —Mas volto ao amanhecer para buscá-lo de novo.

Sentiu uma relutância em permitir que ela saísse de suas vistas. Se o líder do covil de leopardos sabia que estava perto do Han Vol Dan, podia não deixar que se aproximasse mais de Drake. —Podia dormir aqui para que começássemos bem cedo? Podia ser mais fácil. Em caso de eu querer ir ao pântano à noite.

—Já combinei com a Senhorita Pauline para ficar, — admitiu Saria, —mas preciso pegar mais algumas coisas em casa. Estarei aqui antes do amanhecer, se não puder voltar hoje.

Não podia sequestrá-la, por mais que quisesse. Ao invés disso, prendeu o olhar no dela, sabendo que seus olhos ficaram totalmente felinos, hipnotizadores, a prendendo a si por pura força de vontade. Ela tinha que ver a fome nele, a necessidade urgente, que não conseguia suprimir mesmo quando dizia a si mesmo que ela precisava — até mesmo merecia — ser cortejada. Até um leopardo macho cortejava sua companheira e com cuidado. O ar ficou pesado e o calor percorria por entre os dois.

Pauline limpou a garganta. Saria piscou rapidamente e desviou os olhos. Suas bochechas estavam vermelhas.

—Senhorita Pauline, — disse, não arriscando olhar outra vez para Drake. —Voltarei assim que possível. — Saria se virou, mantendo a cabeça baixa para evitar olhar para ele.

—Saria, — disse suavemente, incapaz de deixá-la ir embora assim, simplesmente.

Ela parou, mas não virou a cabeça.

—Tenha cuidado. E volte para mim. — Disse aquilo deliberadamente, usando um ronronar aveludado misturado a um comando de ferro.

—Vou ter. — Sua voz mal era um sussurro. Ele sentiu aquele som suave vibrar pelo corpo. Apertou os dedos com força nas palmas quando ela foi embora, Pauline seguindo atrás dela. Seu leopardo estava perto — perto demais. Podia sentir as garras de estilete perfurando suas palmas. Respirou devagar até o animal ir embora.

Pauline levou Saria até a porta e ficou lá por um minuto a observando correr levemente até a doca. —Ela é uma menina inteligente, — anunciou, obviamente sentindo seu interesse. Pauline Lafont, decidiu, era uma romântica incurável e no momento que mostrou seu interesse por Saria, ela começou a fazer planos. Pelo menos alguém ali estava ao seu lado. —E doce.

—Muito competente no pântano, — disse Drake. —Me surpreendi com ela. É muito bem educada, ainda assim escolhe ficar aqui. Teria achado que a maioria dos jovens procura empregos em outros lugares. — Saria não o olhou de novo. Ele sabia, porque a observou durante todo seu percurso até o barco. Ela nem sequer espiou por cima do ombro.

Pauline assentiu. —Via de regra isso é verdade, embora a maior parte de nós volte quando envelhecemos. Tem algo nesse lugar que nos chama de volta. Saria vem de uma das sete famílias mais antigas da área. Eles quase nunca deixam o pântano, mesmo se trabalham longe dele. Remy, o mais velho dos irmãos, trabalha como detetive em Nova Orleans. Todos os seus irmãos serviram no exército e a maioria trabalha no rio, mas sempre voltam para casa. — Ela olhou diretamente para ele, passando a informação como um aviso. —Ela tem cinco irmãos.

—Famílias grandes por aqui, — comentou, mostrando confiança. —É incomum os filhos voltarem para o pântano depois de irem à escola? — perguntou Drake enquanto a seguia, armazenando a estrutura da casa na memória.

—Acho que a maioria dos jovens acha que merece algo melhor. Certamente desejam mais, — disse Pauline. —A vida no pântano pode ser difícil. Todos se educam e vão embora, como eu disse.

—Com exceção de famílias como as de Saria? — Manteve a voz casualmente interessada.

Pauline franziu o cenho um pouco enquanto pensava a respeito. —As sete famílias que vivem mais perto umas das outras parecem sempre voltar para casa, — admitiu. —Fazem isso desde que eu me lembro — estudavam fora e voltam. Os filhos assumem os negócios dos pais e se estabelecem bem aqui no pântano. Minha irmã, Iris, casada com um membro da família Mercier, e seu filhos, Armande e Charisse, foram para a universidade e voltaram. Nunca tive filhos, então meu sobrinho e sobrinha são muito especiais para mim — assim como Saria. Charisse é extremamente talentosa. — Sua voz ressoava com orgulho. —Ela e seu irmão são donos de uma perfumaria em Nova Orleans, mas Charisse na verdade produz os perfumes e os exporta para o mundo todo. A loja se tornou um tremendo sucesso por causa do seu talento. Ainda assim, vivem na casa da família Mercier e não na cidade.

—Ao invés de viverem em Nova Orleans?

Pauline assentiu. —Remy, o irmão de Saria, é um detetive de polícia e sempre fica na casa da família. Fiquei muito surpresa com eles. Charisse em particular costumava dizer que não via a hora de ir embora daqui e morar na cidade. As famílias são bem próximas, mas como eu disse, é um modo de vida bem difícil.

—Posso imaginar, — disse Drake, colocando admiração na voz. Tinha crescido na floresta tropical e entendia a necessidade de permanecer na área. O pântano da Louisiana era o local mais selvagem que os leopardos poderiam encontrar por ali. —Sete famílias? Você é parte de uma dessas famílias? — Ela não era leopardo. Na sua idade, sua leopardo já teria emergido, mas esse era um modo de mantê-la falando.

Pauline abriu a porta para a sala de jantar com seu piso brilhoso e mesa polida. —Oh, não, mas certamente as conheço há anos. Elas são bem unidas. Participam de reuniões sociais, mas via de regra são bem discretas. Bastante isoladas.

Isso fazia sentido. Leopardos, animais ou shifters, eram via de regra elusivos e muito discretos. Sete famílias faziam daquele um enorme covil para uma área tão pequena.

—Quais são as sete famílias? — Curiosidade se mostrava em sua voz, uma tentativa deliberada de fazer com que falasse mais. —Os nomes são tão intrigantes por aqui.

—Vamos ver. Boudreaux, claro. Lanoux, Jeanmard, Mercier, Mouton, Tregre e a família Pinet. Acho que todos vêm dos primeiros habitantes da área.

Drake levou um soco nas tripas e respirou até que passasse sem mostrar nenhuma reação. Tregre? Conhecia esse nome. Conhecia uma mulher de seu próprio covil que casou com um homem com aquele sobrenome. Voltou para casa viúva, com seu filho Joshua. O mesmo Joshua que agora era empregado do rancho Bannaconni como guarda-costas da esposa de Jake, Emma.

Joshua nunca disse uma palavra a nenhum deles sobre uma ligação com uma família na área de Louisiana. Ele pelo menos sabia que seu pai era dos pântanos da Louisiana? Joshua era parte do time que Jake mandaria para lhe dar suporte. Poderia ser confiável se tivesse que fazer justiça com os de sua própria espécie?

Por que Elaina voltou para casa? Lembrava-se bem dela. Foi estudar nos Estados Unidos, casou, e então, alguns anos depois, Joshua com quatro ou cinco anos, voltou para a floresta tropical de Bornéu, para sua família. Ninguém mencionou o pai de Joshua. Elaina nunca voltou a se casar. A teia estava ficando mais emaranhada a cada momento que passava.

Drake subiu as escadas na direção do seu quarto depois de dar boa noite à proprietária e assegurá-la que não precisaria comer até de manhã cedo. A primeira coisa que fez foi contatar Jake Bannaconni pelo telefone via satélite.

—Com certeza temos um problema aqui, Jake, — saudou Drake. —Não tenho ideia do tamanho ainda, mas há um covil de shifters aqui.

Houve um pequeno silêncio enquanto Jake Bannaconni digeria a informação. —Você está seguro?

—No momento, espero uma visita esta noite. Sabem que estou aqui e sabem que sou leopardo. Não vão me querer farejando pelo território deles, e se descobrirem por que estou aqui, tenho certeza que nenhum deles será receptivo.

—Já descobriu quem escreveu a carta para mim? — perguntou Jake.

—Ainda não, mas do jeito que foi escrita, com tanto cuidado, implicando ainda que sabia a respeito dos shifters, tem que ser alguém de uma das sete famílias. Conheci minha guia e a dona da hospedaria, mas elas não parecem ter ideia da existência dos shifters, embora não possa dizer nada com certeza sobre nenhuma das duas. Seu bisavô tinha que saber. Ele arrendou as terras para eles.

—Jake Fenton era um homem que jogava com as cartas próximas ao peito, — disse Jake. —Era cuidadoso com o que me dizia, mas me deixou as propriedades e meu palpite era que esperava que eu protegesse esse povo.

—Não se um deles virou assassino, Jake, — alertou. —O que sabia de Jake Fenton? Quem ele era?

—Era avô da minha mãe. Perguntei diretamente uma vez se podia se transformar e ele disse que não. Admitiu que sua família tentou deliberadamente achar mulheres que carregavam o gene dos shifters para poder gerar uma criança que pudesse se transformar. Procuravam uma criança que pudesse achar petróleo.

—Como você.

—Como eu, mas não sabiam o que tinham. Meu bisavô suspeitava que eu era um shifter, — disse Jake, —mas não admiti isso nem mesmo para ele. Foi ele quem sugeriu que eu fosse para Bornéu procurar meu povo e aprender sobre ele.

—Ele sugeriu alguma vez que viesse à Louisiana? Ou fez referência a essa área em alguma conversa sobre shifters? — estimulou Drake.

Houve um pequeno silêncio enquanto Jake recordava suas conversas com o bisavô. Foram bem poucas e Jake era novo e bem fechado. —Não lembro dele mencionar shifters e Louisiana na mesma frase. Sabia que havia óleo aí. Comprou as madereiras, não pela madeira, mas pelo petróleo, — explicou Jake. —Não passei muito tempo explorando o lugar. Com toda honestidade, isso não estava na minha lista por pelo menos mais uns dois anos. Continuei com os arrendamentos. Fenton parecia ser amigo de sete ou oito famílias daí e lhes deu o uso da terra para caça e pesca.

—Pode me conseguir os nomes das famílias? — perguntou Drake. —Posso comparar os nomes nos contratos de arrendamento com as famílias que suspeito serem shifters. Apostaria meu último centavo que toda família arrendando as terras do seu avô é shifter. Parece haver um covil bem real aqui. Mais cedo ou mais tarde o líder deles vai ter que aparecer. Primeiro vai mandar seus soldados. Assim que ele se revelar, posso descobrir de onde vêm.

—Não gosto disso, Drake.

—Já lidei com coisas piores. O que sabe sobre a família de Joshua?

Houve um curto silêncio. Conseguiu chocar Jake Bannaconni, o homem que nunca se chocava com nada. —Você falou em favor dele. Foi tudo que importou para mim. — Havia cautela em sua voz.

—Seu sobrenome é Tregre, um dos nomes das famílias que suspeito estarem no contrato. Sua mãe o trouxe de volta para a família dela na floresta tropical, então ele pode nem conhecê-los, mas é preocupante.

—Quer que eu o questione?

—Não. Conheço Joshua desde que era menino. Não nos trairia. Sua lealdade não está em questão, mas também pode não ser o melhor para ele vir para cá. Não iria querer colocá-lo em posição de ter que escolher a família acima do time.

Jake soltou um palavrão. —Ele é um dos melhores que temos. Quero mandar os garotos para lhe darem cobertura. E maldição, Joshua é da família. Da nossa família.

—Estou dizendo, não duvido dele. Não quero que pense que ele não morreria para proteger Emma, as crianças ou você, se fosse o caso. É um bom homem. Só quero descobrir um pouco mais sobre a família do seu pai antes de colocá-lo numa posição ruim. Devíamos falar com Rio e pedir que pesquise um pouco para nós. — Rio Santana era o líder de um time de shifters em Bornéu. Viajavam ao redor do mundo sempre que precisavam. Drake confiava implicitamente nele.

—Talvez devêssemos recuar, reagrupar e voltar com pessoal, — sugeriu Jake.

Drake limpou a garganta. —Consigo me virar, Jake. Não precisa, a não ser que um dos leopardos aqui ande matando inocentes.

—O que não está me contando, Drake?

Praguejou baixinho. Não tinha como deixar nada passar com Jake. O homem era infinitamente perspicaz. —Tem uma fêmea próxima ao Han Vol Dan. A farejei e meu felino ficou louco.

—E? — antecipou Jake.

—E eu também. — Isso dizia tudo. Tudo. Um aviso. Um desafio.

Jake ficou mudo. Drake se recusava a falar mais. Ficou completamente calado, fitando a água lá fora. A escuridão tinha descido há tempos. Sapos-boi coaxavam. Cigarras cantavam insistentemente. O calor em suas veias rachava com o mesmo poder das veias de relâmpagos que rachavam as nuvens negras no céu.

—Drake, se estiver morto, ela não vai te servir de nada.

—Não serei o único morto.

—Se essas pessoas são da família dela e tentarem protegê-la, ela não vai ficar muito impressionada com você as matando, — alertou Jake.

Drake se viu sorrindo, e um pouco da tensão diminuiu de suas entranhas. Veio da floresta tropical de Bornéo para ensinar Jake como ser um shifter — e como se manter calmo e sob controle. Era preciso uma grande dose de disciplina e poder para manter um leopardo macho controlado, e Drake era conhecido pelo seu controle, mantendo times de shifters juntos em situações tensas, e ainda assim seu próprio aluno agora o alertava.

—Acho que ela não vai ficar, — admitiu Drake. —Ligo para você assim que vir o corpo com os meus próprios olhos.

—Os garotos estão em stand by, Drake. Use-os se precisar deles. E me diga se eu puder mandar Joshua. Enquanto isso vou entrar em contato com Rio.

—Mande meu amor para Emma.

Drake desligou o telefone enquanto estudava a área abaixo da varanda. Precisava saber como os shifters chegariam até ele e estar preparado. Não tinha muito tempo para colher informações. Saria o deixou há uma hora, voltando para sua casa. Ficou relutante em deixar que se fosse, mas não havia razão que pudesse dar para mantê-la ali, e estava ótimo que não estivesse no meio de qualquer batalha que se aproximava. Não queria que ficasse com medo dele.

Respirou profundamente e pulou da varanda para o chão do lado de fora. Aterrissando de cócoras, suas pernas agiram que nem molas, absorvendo o choque. Foi a primeira vez que realmente testou a perna para ver se aguentaria as necessidades rigorosas de um shifter. No que dizia respeito a testes, a queda era uma das boas, já que tinha pulado do segundo piso. Caiu com um pouco mais de força do que de costume, o que não o surpreendeu, já que estava sem prática, mas a onda de selvageria crescendo como um maremoto estava lá.

Sob sua pele, o pelo ondeava e coçava. A mandíbula doía pela necessidade de acomodar a mudança. Não ia conseguir esperar. Seu felino precisava daquilo — assim como ele. Não queria ser cauteloso nem paciente. Queria a liberdade absoluta que seu leopardo fornecia. Não, precisava da liberdade de deixar sua verdadeira natureza vir à tona, aquela natureza selvagem e primitiva que era mais instinto que razão. Foi forçado a suprimi-la por muito tempo, e seu corpo inteiro doía pela urgência. Os ossos doíam. Os músculos espasmavam.

Tirou a camisa e abaixou depressa para remover os sapatos. Suas articulações já se curvavam e as pontas dos dedos queimavam enquanto o esqueleto se redesenhava para obter a flexibilidade máxima que permaneceu dormente conforme sua forma humana se esticava em antecipação. Tirou os sapatos e desabotoou a calça, a tirando rápido quando o calor tomou conta de si. Os ossos estalavam. Os músculos se contorciam. A experiência dolorosa e violenta parecia maravilhosa, uma libertação, aquela primeira onda inebriante de liberdade.

A dor perfurou sua perna, roubando-lhe o ar, mas mesmo assim era bem-vinda quando sentiu o osso mudar, remodelar, finalmente obedecendo a demanda de seu leopardo. Seu coração falhou e lá no fundo ele sentiu garras serem expostas, sentiu sua natureza feroz tomar posição. Foi na direção dela, aceitando aquele lado de si, grato por estar sozinho e sem machos mais jovens para mantê-lo na linha. Essa primeira emergência depois de tanto tempo merecia ser indomável, incontrolável, uma transformação bruta, feroz — até mesmo violenta em sua pura tolice.

Caiu no chão, de quatro, deixando a dor e a beleza da transformação tomar conta de si. Os músculos firmes deslizavam sob toda sua figura, seu focinho se estendeu, a boca encheu de dentes. Músculos fortes se formaram sobre os ossos em uma estrutura solta, cheia e bem flexível, dando-lhe um movimento felino gracioso e sinuoso. Fogo penetrou em sua perna, correu do quadril à pata, chamas lambendo seus ossos, enquanto encolhiam e protestavam contra aquela nova formação, mas ele glorificou a habilidade, não importando qual fosse seu preço. Seu pelo ficou úmido e escuro enquanto seu corpo estremecia, tentando superar a deformação daquele último osso.

Enfim ele estava lá, completamente transformado, um leopardo altamente musculoso, se sacudindo, sentindo cada músculo, saboreando o momento conforme absorvia lentamente o fato que depois de mais de dois anos sendo incapaz de se transformar — ou acreditando que isso nunca mais aconteceria de novo — fez exatamente isso. Era grande para um leopardo — a maioria dos shifters era bem maior que suas contrapartes animais — mas pesava por volta de noventa quilos de sólido músculo. Mesmo para sua própria espécie, era um leopardo dos grandes.

Cada leopardo tinha uma pelagem única, uma bela mistura de pelo dourado salpicado aleatoriamente com rosetas escuras para que quando permanecessem parados, o padrão criasse uma ilusão óptica de pontos em movimento. Grossa, mas solta, a cobertura fornecia ampla proteção numa briga feroz. Drake era um lutador terrível e habilidoso, muito experiente, e levava cicatrizes que provavam isso. Era anormalmente forte num mundo de shifters que tinham enorme força.

No mundo interior onde realmente vivia, bem no fundo dele, havia um fogo que outros vislumbravam através dos seus olhos verdes resplandecentes. Sua penetrante inteligência sempre brilhava ali, revelando uma mente astuta e sagaz. Seu leopardo queria correr, caçar, encontrar sua parceira. A necessidade feroz o chocou, enquanto o animal agora corria livre, com o cheiro de outros machos na parte frontal de sua mente, ao mesmo tempo em que a fúria sombria de um macho em sua glória buscando por sua companheira crescia em seu coração.

Drake permitiu que o leopardo corresse por um curto tempo, esticando as pernas, sentindo a liberdade pura da forma animal, mas controlou aonde a fera ia, se recusando a deixá-lo ir atrás de Saria. Antes de tudo, tinha que estabelecer seu território, marcá-lo bem, clamando a área ao redor da hospedaria, para que tivesse uma reclamação legitima se algum macho o desafiasse. Isso ia acontecer. Mandariam seu lutador mais feroz. Teria que lutar e ter cuidado para não matar seu oponente no calor da batalha — só em caso do desafiante ser alguém ligado à Saria. Seu leopardo entendeu e imediatamente começou a reclamar cada pedacinho de terra por onde passava.

Levou tempo, embora sentisse uma sensação de urgência, mas estava determinado a reclamar o maior território e do modo mais eficiente possível. Arranhou árvores, seu cheiro as marcando, rolou num círculo cada vez maior, cobrindo toda a terra cercando a pensão até a beira d’água. Não havia evidência de nenhum outro leopardo e não esperava que houvesse. Cada uma das famílias reclamava sua parte de terra arrendada, se fossem fiéis ao estilo de vida shifter. Eles beirariam o território uns dos outros e até dividiriam um ou outro lugar, mas evitariam contato dentro desses territórios.

Levou sua reivindicação até o pântano ao redor, prestando atenção no terreno. Seu leopardo guardava cada cheiro, cada forma e cada galho. Subiu em árvores e deixou seu cheiro nos galhos retorcidos, testando cada um deles para ver o quanto aguentavam e se podiam servir de esconderijos. Foi até ali para achar um assassino e agora tudo mudou. Estava ali para reclamar uma companheira. Cortejar uma leopardo fêmea era no mínimo arriscado. Como o felino, a contraparte humana podia ter um humor volátil, temperamental e altamente sedutor. Somando a isso um assassino e um covil inteiro de leopardos machos teria um longo e difícil caminho pela frente — justo o que o seu felino precisava.

O leopardo explorou mais a fundo o pântano, penetrando em seu interior e marcando um território cada vez maior. Sabia que quando a primeira leva de defensores viesse, sua reclamação os enfureceria. Esses shifters podiam não ter nascido nas florestas tropicais, mas as regras e instintos seriam parecidos, se não fossem iguais.

Circulou de volta na direção da pensão, memorizando cada pedacinho do novo território, marcando a ferro o mapa do pântano em sua mente. O radar do seu leopardo o deixava saber onde cada criatura estaria bem antes que a encontrasse. Os instintos animais o guiavam pelo terreno traiçoeiro, achando facilmente terra firme para pisar. Seu objetivo final era reclamar Fenton’s Marsh. Nenhum outro leopardo devia ter posto os pés na propriedade, mas de acordo com a carta misteriosa, era ali onde o leopardo estava cometendo seus assassinatos.

Voltou para a pousada onde pulou nas árvores, usando os galhos como escada natural de uma árvore para outra até ficar do lado da estrutura de dois pisos. Sua varanda apresentava um salto arriscado, mas conseguiu — o que significava que outros leopardos também conseguiriam. Relutante em voltar para sua forma humana, Drake andou pela varanda por vários minutos antes de pular para o telhado. De novo, foi uma manobra difícil, mas tinha que saber como os outros leopardos poderiam chegar nele.

Satisfeito por ter feito tudo que podia como leopardo, pulou nas patas acolchoadas de volta ao seu quarto para se transformar na segurança do isolamento. A dor correu pela sua perna machucada, roubando seu ar enquanto seus ossos se reformavam com estalos violentos. Ficou deitado no chão de madeira por vários minutos, lutando para respirar, uma boa camada de suor cobrindo seu corpo. Quando a dor diminuiu um pouco, ficou de pé e testou sua habilidade de pôr peso na perna machucada. Precisava estar em forma se ia lutar contra um desafiante e não podia ser visto mancando. O fato de Saria de alguma forma ter notado o incomodava. Tinha tanta certeza que caminhava sem favorecer a perna machucada. Se ela conseguia notar, quando estava com aquilo sob controle, um leopardo esperto certamente avistaria a fraqueza.

Drake deixou a água fria lavar o calor primitivo de sua pele. Tinha que usar o cérebro agora, pensar nas linhas de ataque que os seus oponentes provavelmente usariam e se preparar para elas. A coisa mais importante era estabelecer dominância imediatamente para atrair o líder deles. Saria complicou as coisas imensamente. Uma fêmea no difícil período do Han Vol Dan devia ser protegida a todo custo e cada macho na vizinhança ficaria nervoso, imprevisível e às vezes subjugado — a condição mais perigosa que um leopardo macho podia se encontrar.

Caminhou nu pelo espaçoso dormitório, jogando a toalha longe, testando a perna enquanto andava. A dor voraz diminuiu até se transformar num latejar maçante. A perna ia servir. Só para ter certeza, posicionou armas pelo quarto e pela varanda. Uma faca debaixo das calhas. Era um homem cuidadoso e conhecia leopardos e seus temperamentos. Seria melhor estar preparado para tudo.

Vestiu uma calça folgada de algodão, algo que podia facilmente despir, e foi descalço até a varanda. Colocando uma cadeira próxima à parede, mas bem distante do parapeito, sentou do lado de fora e esperou pacientemente pela companhia que sabia que viria.

 

Drake aprendeu há muitos anos a tirar vantagem de cada intervalo e cochilar um pouco. No meio das piores batalhas, quando tudo era calmaria, com frequência conseguia tirar uma pequena soneca. Permitiu que seus olhos se fechassem, mas deixou seu felino em modo de alerta. Seu leopardo o deixaria saber quando os inimigos viessem. Sonhou com ela. Saria. Sua pele macia. Suas curvas. Seu cabelo de seda. O formato e a sensação de sua boca de sonho. Sonhou que a tomava numa cópula selvagem e primitiva que o deixou insaciável, desesperado por ela. Viciado nela. Acariciou uma mão pelas suas pernas esbeltas e sentiu o calor da parte interna de suas coxas. Precisava prová-la, encontrar seu aroma selvagem e exótico, e devorá-la. Queria conhecer cada centímetro seu, cada zona erógena que a fazia gemer e se contorcer sob ele, cada lugarzinho que a fizesse ronronar e estremecer.

Aquela junção macia entre seu pescoço e ombros clamava para que a reivindicasse, que a marcasse. Que colocasse nela sua impressão pessoal. A necessidade de deixar que os outros soubessem que ela tinha dono era uma exigência viva, urgente, que nunca o deixaria descansar até que conseguisse cumpri-la. Ouviu o rugido baixo de alerta, um ruído insistente que aumentou de volume, alertando os outros machos de sua espécie para que se afastassem do que era seu.

Seus olhos abriram, sua mente imediatamente clara. A música da noite enchia cada um dos seus sentidos. Se espreguiçou languidamente, um movimento felino e sinuoso, uma ondulação de puro poder. Fazia muito tempo que não dava boas-vindas a uma batalha, estava até mesmo ávido por ela. O chamado selvagem estava nele agora, uma necessidade urgente e cativa de defender o que era seu.

Os leopardos estavam ali, andando silenciosamente pela névoa, esperando capturar seu inimigo desprevenido. Sabia que não estavam acostumados a ter que defender seu covil ou suas fêmeas. Mandaram naquele território por muito tempo e não precisaram travar batalhas por ele, já que era desconhecido por pessoas de fora. Ele era um shifter que foi aprimorado em batalhas ao redor do mundo. Lutava sempre que era necessário — e às vezes quando não era. Era habilidoso, cruel e muito rápido.

O território que reclamou foi deixado em aberto — e isso era um erro da parte deles. Deixaram uma brecha para uma posse legítima, e tinha todo o direito, por lei, de defendê-la. Por direito, não podiam vir até ele em bando — teriam que mandar um lutador para desafiá-lo. Esperou, esticando os músculos, testando a perna, se preparando.

Seu leopardo aguardava no modo silencioso e reservado de sua espécie. Teve um momento de fraqueza, caindo em cima da perna machucada, mas testou o ferimento e sabia que aguentaria uma briga, especialmente uma curta. Tencionava dominar rapidamente, tomar o controle para que o outro não tivesse dúvida que teria que se submeter para não morrer. Esperava que seu oponente optasse pela submissão. Não tinha completa certeza, em seu estado atual, com uma fêmea — sua fêmea tão próxima ao Han Vol Dan — se conseguiria controlar seu leopardo caso o outro se recusasse a se render.

Um rugido alto sacudiu a noite, o som sendo levado para o lago e para dentro do pântano. Os insetos ficaram mudos. Os crocodilos e os sapos pararam de coaxar, sabendo que um predador estava por perto. Drake esperava por aquele desafio feroz. Instantaneamente, captou a localização exata do leopardo, sua visão já se associando às ondas de calor, enquanto desamarrava o cordão de sua calça, apoiava uma mão no parapeito e saltava.

Seu corpo se contorceu numa transformação precisa que poucos conseguiam executar. Rápido e abruptamente, Drake se jogou em sua outra forma, a abraçando, a alcançando, se transformando em pleno ar para que fosse inteiramente leopardo quando aterrissasse nas costas do macho oponente. A sensação violenta fez o sangue queimar em suas veias e com que se sentisse verdadeiramente vivo. A noite quente, pesada com a umidade, afundou em sua alma, o calor jorrando dentro dele e o enchendo com a alegria do combate.

Partiu do céu da noite, um guerreiro vingador, esmagando o grande leopardo posicionado no gramado circular que levava à margem do rio. Atingiu seu inimigo com força, o outro felino grunhindo quando o ar deixou seus pulmões e suas pernas vacilaram. Impiedoso, Drake enfiou os dentes em sua nuca e as garras a fundo, nas laterais do seu corpo, aderindo-se ao outro leopardo enquanto rolavam sem cessar em direção ao rio.

Rosnados encheram a noite enquanto os outros assistiam, incapazes de ajudar seu companheiro. As regras mantinham toda sociedade unida e, embora primitivas, viviam pelas leis de sua espécie, e o recém-chegado tinha todo o direito de defender seu território. Olhos vermelhos e dentes perigosos brilhavam enquanto os leopardos rodeavam os lutadores à distância.

O oponente de Drake se retorcia desesperadamente, usando a espinha flexível para se curvar quase formando um ângulo de noventa graus, desesperado para sair debaixo daqueles dentes mortais e das garras que rasgavam sua barriga e os lados do corpo, deixando atrás rasgos profundos e grandes que deixariam cicatrizes, caso não o matassem. Os dentes eram impiedosos e a cada movimento que fazia afundavam ainda mais num alerta. Estava claro que tinha que se submeter ou morreria. Não havia como desalojar aquela fera enorme de suas costas.

Ele se submeteu, com ódio nos olhos, mas sem outra alternativa viável e ficou quieto, concedendo ao estranho sua vitória — sabendo que seria curta. O patife o pegou de surpresa, mas os outros estariam mais preparados. Estremecendo, ficou imóvel e esperou enquanto o recém-chegado o segurava.

Drake se afastou com um rosnado de advertência e um tapa com a pata no focinho ensanguentado do seu oponente. O leopardo ficou deitado na grama, machucado e ferido, estremecendo. Girou e cautelosamente se pôs nas quatro patas, a cauda sacudindo, os olhos em Drake com um brilho dourado e sinistro. Uma satisfação brilhou neles por um breve segundo.

Drake saltou de lado e o leopardo que o atacou o perdeu por meros centímetros. Girou no ar, pousou e saltou, se dirigindo à lateral do seu novo atacante, derrubando-o. Saltou outra vez, tentando segurar a nuca do animal, perdendo-a e afundando os dentes em sua orelha e crânio. Seu leopardo estava furioso com o segundo ataque, tornando mais difícil ainda impedi-lo de matar.

Uma sede de sangue surgiu. Fúria. Uma necessidade voraz de afastar os machos do seu território ou de matá-los para assim afastá-los de sua fêmea. O oponente de Drake tinha um focinho mais escuro e uma listra do mesmo tom que descia até a metade de suas costas. Havia várias cicatrizes indicando que travou batalhas, e o leopardo de Drake se arremessou sem cessar em cima dele, girando-o para que se golpeassem com garras letais e afiadas, rosnando e rugindo enquanto se esmurravam, apoiados somente nas patas traseiras.

Drake foi com mais força, retalhando a barriga exposta, e quando seu oponente se agachou para se proteger, com a velocidade de um raio afundou os dentes em seu pescoço. Os rosnados e rugidos dos que assistiam morreram. A luta agora seria para manter seu leopardo sob controle. Mal notou as garras rasgando sua carne, ou os dentes afundando em seu ombro enquanto o leopardo fazia uma tentativa desesperada de se libertar.

Ele urrou e sacudiu seu oponente, sangue manchando seu focinho e o pelo do outro quando fechou os dentes com mais força na garganta.

—Submeta-se, Dion, — uma voz gritou. —Use seu cérebro. Ele vai ter que lutar com o leopardo dele para evitar matá-lo. Não está facilitando as coisas. Maldição, submeta-se.

Como se fosse de bem longe, Drake ouviu a voz humana penetrar sua fúria insensível, a demanda por matar. Reconheceu vagamente a voz. O leopardo debaixo dele se sacudia em fúria e o rasgou outra vez, enviando uma sensação de queimação por suas costelas. Ele urrou bem fundo na garganta, lutando para manter uma aparência de humanidade enquanto seu leopardo exigia que matasse. Estava com toda razão. O oponente estava em seu território. Se recusava a se submeter. A fúria o varreu inteiro. Afundou os dentes mais fundo. Usando sua enorme força, manteve seu adversário imóvel num aperto sufocante.

—Dion! — A voz aumentou em comando e medo. —Submeta-se agora!

O leopardo debaixo dele ficou mole de repente, a luta o esgotando, os membros pesados, a boca aberta, os olhos brilhando.

—Solte ele. — A voz continha uma nota suplicante.

Drake buscou calma, lutou para controlar seu leopardo. Aquela briga não era sobre território, não com aquele leopardo. Era a fêmea tão próxima do Han Vol Dan que engatilhou a luta feroz. Seu oponente o queria morto e seu leopardo sabia disso. A necessidade de matar era uma entidade viva e custou cada pedacinho de disciplina que tinha para conseguir lutar contra seu leopardo. A razão pareceu fora de alcance por vários minutos preciosos — minutos em que os outros felinos prenderam o ar.

—Robert, não! — Uma segunda voz soou, forte. Insistente. Autoritária. —Aperte esse gatilho e não terei outra coisa a fazer senão matá-lo. Afaste-se. Ele está se controlando.

—Vai ser tarde demais.

—Foi Dion quem escolheu isso.

A voz possuía comando. Pesar. A perda de um macho em sua juventude era um golpe árduo para qualquer covil. Drake se controlou mais uma vez e forçou seu leopardo a recuar. O felino o fez bem relutantemente, rosnando e rugindo a cada centímetro que se afastava, atacando Drake, dando a volta para encarar os outros leopardos do covil, urrando desafios, perigosamente próximo a uma onda de matança insana. Sangue o molhava e descia pingando pelos seus flancos, manchando o pelo grosso, mas ele rosnava e posicionava cada pata cuidadosamente, observando seus inimigos, desafiando que se movessem.

Dois voltaram à forma humana. Drake, pela névoa vermelha da loucura, reconheceu Robert Lanoux e o homem mais velho, Amos Jeanmard. A um sinal de Jeanmard, o outro homem se afastou com relutância. A retirada o ajudou a acalmar mais um pouco seu leopardo, embora andasse de um lado para o outro e se abaixasse, levantasse e andasse de novo, nunca muito longe do seu oponente derrotado.

—Precisamos pegar nosso familiar, — disse Jeanmard. —Está controlado? —Essa era uma boa pergunta. Drake não tinha certeza. Afastou seu leopardo com mais força, lutando pela supremacia. Virou-se para encarar Robert, que deu um passo na direção de seu irmão no chão. Drake se esforçou ao máximo até que seu leopardo cedesse espaço de mau grado, um centímetro de cada vez. Reuniu o controle necessário para virar a cabeça do leopardo na direção do líder do covil de Louisiana e assentir.

Jeanmard fez uma curta saudação formal, mais uma inclinação com a cabeça que qualquer outra coisa. —Merci, meu covil é seu. Vá até seu irmão agora, Robert, já é seguro tratar dos seus ferimentos.

Sem hesitar, Robert se apressou para o lado de Dion.

O leopardo de Drake que ainda rosnava recuou ainda mais, permitindo que o homem mais velho se aproximasse também do leopardo no solo. Os dois humanos se agacharam ao lado do felino ensanguentado e mutilado, deixando a si mesmos expostos ao ataque do furioso leopardo. Drake exerceu mais controle, retrocedendo lentamente, embora observasse com cuidado, não tão confiante quanto os dois homens. Seus amigos deviam estar por perto ou não arriscariam suas vidas tão facilmente.

Robert tinha uma arma, uma violação ao seu código. Se estivesse na floresta tropical as repercussões por trazer uma arma humana para uma luta justa entre leopardos seriam severas. Drake não tinha como saber o que Jeanmard faria com o homem. Era uma mancha na reputação de todo o covil, e na de Jeanmard em particular. Era esperado que um líder conseguisse manter seus leopardos na linha, e Robert o desmoralizou. Se um membro do time de Drake fizesse algo do gênero, a retaliação seria imediata, brutal e pública. Ao lidar com machos-alfa líderes, às vezes a necessidade de firmeza total era absoluta. Em qualquer caso, Robert Lanoux não lutava de forma justa nem com honra, algo que Drake guardaria para futura referência.

Drake, rosnando e urrando a cada passo, se afastou, encarando o bosque de ciprestes onde sabia que os outros leopardos machos se refugiaram perto da beira da água para respeitar seu território e ainda assim proteger seu líder. Drake viu as roupas que deixou atrás mais cedo, todas estilhaçadas. Rasgaram a camisa e a calça jeans completamente e os sapatos não estavam muito melhores.

Em sua fúria, seu leopardo arremessou uma pata pesada na roupa rasgada, mandando pedaços de tecido pelo ar antes de se preparar para pular no galho da árvore mais próxima da casa. Chegou à sua varanda e a rodeou antes de entrar pelas portas abertas para observar e escutar, alerta a qualquer perigo.

Os leopardos se transformaram em homens e saíram às pressas das árvores para ajudar Jeanmard e Lanoux a cuidarem do seu familiar derrotado. Dion foi levantado e colocado num barco. Drake esperou um longo tempo depois que os sons do barco indo embora desapareceram, mantendo-se quieto. Tentou escutar o sussurro de pelos contra as árvores, que lhe diria que estava sendo caçado. As cigarras retomaram sua sinfonia. Sapos cantavam o refrão sem cessar. Ouviu o som do deslizar de um crocodilo entrando na água.

A dor o atingiu então, e não esperou, não hesitou, se transformando antes que pudesse pensar muito no preço da batalha para seu corpo humano. Viu-se no chão, suprimindo um gemido. Fogo queimava sua barriga e costelas. Sua perna machucada gritava em protesto e havia várias mordidas e marcas de garras em seu corpo. Ficou lá, olhando para o céu noturno, no momento que nuvens explodiram e a chuva se derramou sobre ele, levando um pouco da selvageria embora.

Seu coração batia muito rápido e adrenalina varria seu corpo com a força de uma bola de fogo. Respirou fundo para esclarecer a mente, para atravessar aquela necessidade de violência. Um leopardo era uma máquina de matar perfeita, e misturando a astúcia e o temperamento de um com a inteligência de um humano, sua espécie era extremamente perigosa, sob a melhor das circunstâncias. Mal havia conseguido conter sua fera selvagem, mas não matou — pelo menos era o que achava.

Com um gemido, girou e levantou nas mãos e joelhos, tentando ignorar o grito de dor em sua perna. Seu estômago sacudiu. Conseguiu ficar de pé, tonto e fraco. Perdeu mais sangue que havia pensado. Cambaleando, conseguiu entrar no quarto, deixando pegadas de sangue na cerâmica de mosaico para a chuva lavar. O chão de madeira do quarto não teve tanta sorte; as manchas permaneceram quando caminhou até o banheiro.

A água quente doía, mesmo assim parecia ótima caindo sobre ele. Ficou com as pernas tremendo enquanto a água o livrava do que restava da selvageria. Fez uma pequena prece para que não tivesse matado Dion. As leis do seu mundo ditavam que estava em seu direito, mas intelectualmente, sabia que Dion apenas tentou proteger seu mundo de um forasteiro — como Drake mesmo podia ter feito.

Podia sentir pesar por Dion se o homem não sobrevivesse, mas Dion sabia das regras de combate e escolheu não se submeter até que fosse quase tarde demais. Todos sabiam como era difícil controlar seu leopardo durante um desafio. Juntando a isso uma fêmea se aproximando do Han Vol Dan, dificilmente poderia ser culpado.

Apesar de todos os machucados, Drake se alegrou por seu corpo ter aguentado, se transformado em pleno ar e bem rápido. Como testou a perna na outra forma apenas uma vez, aquela habilidade o agradou. Continuou em forma, malhando incansavelmente depois de colocar pinos e parafusos na perna e ainda não poder se transformar. Estava determinado a permanecer em forma, embora não acreditasse na época que teria outra vez a chance de permitir que seu leopardo se libertasse. Jake e seu cirurgião realizaram um milagre. Acabou a primeira luta quase antes dela ter começado com um ataque surpresa.

Conferiu cuidadosamente cada aspecto de sua técnica de luta. Foi rápido, mas não rápido o bastante. Precisava de mais tempo para que seu leopardo corresse mais, para que mais uma vez sentisse a força e o poder do seu próprio corpo. O teste foi com membros do covil da Louisiana, mas o covil era numeroso e se tivesse que lutar com todos, mesmo com um de cada vez, teria problemas. Dion acertou alguns rasgões feios e perdeu sangue. Perda de sangue significava fraqueza.

Enxugando-se cuidadosamente, examinou cada ferimento. Felinos podiam deixar veneno atrás, o que rapidamente resultava em infecção. Isso queria dizer que teria que passar iodo. Derramou-o generosamente por dentro dos machucados, explodindo em suor ao fazê-lo. Praguejando a cada picada, costurou os três ferimentos mais graves e deu pontos em outros antes de colocar uma loção antibactericida em cada um deles e cobri-los com gaze. No fim das contas, não estava tão mal assim. Não tinha dúvidas que se sentiria bem dolorido pela manhã, mas no momento, só importava dormir.

Esfregou a evidência de sangue, trancou o quarto com cautela e deitou devagar na cama. Sorrindo, os dedos entrelaçados atrás da cabeça, vagou para algum lugar entre o sono e o despertar. No mesmo instante Saria apareceu, um sorriso curvando sua boca macia, os olhos brilhando com travessura. Tentou alcançá-la, com intenção de puxá-la para a cama consigo. Seu coração acelerou, sentiu o gosto do desejo na boca e gemeu pela necessidade que sentia por ela.

Um único ruído escapou. Penetrou em sua camada de sono. Não o gemido correspondente dela, nem mesmo um choramingo de desejo, mas um sussurro suave de movimento. Seus olhos abriram imediatamente e permaneceu imóvel e quieto, com o gosto dela na boca e com seu gato rugindo. Algo se movia pelo gramado lá fora. Ficou de pé, consciente que os outros leopardos ouviam tão bem quanto ele. Com muito cuidado, se aproximou das portas francesas que davam para a varanda e as abriu só o suficiente para permitir que seu corpo passasse.

Abaixo dele, o gramado estava composto, em sua maior parte, apenas por sombras, mas com sua visão noturna facilmente pôde ver Pauline Lafont andando por lá vestida com um roupão. Ela segurava um revólver numa mão e um enorme saco de lixo na outra. Recolheu meticulosamente cada pedaço de pano das roupas esfarrapadas de Drake, bem como seus tênis e meias. Levou tempo, certificando-se de remover cada frangalho e fiapo.

Ele continuou imóvel, sabendo que não podia vê-lo. Não era uma leopardo, sabia disso, teria farejado caso fosse. Foi bem amigável ao dar informações sobre as sete famílias que arrendavam as terras no pântano e não farejou nenhuma mentira, mas claramente, tinha ciência da briga entre os leopardos. Devia ter ouvido o terrível barulho. Leopardos em fúria não expressavam sua raiva silenciosamente. Levava uma arma por proteção, mas não parecia muito assustada. Uma mulher sozinha no meio do nada, longe de qualquer ajuda, com leopardos brigando em seu gramado frontal deveria estar aterrorizada. Mesmo assim, Pauline Lafont caminhava lentamente em volta de sua propriedade, removendo meticulosamente todas as evidências da luta.

Tinha que saber sobre os shifters. Sua família vivia na área há cem anos e obviamente coexistiu lado a lado com as famílias de shifters. Eles tinham se misturado. Ela disse que sua irmã casou com um homem de uma das famílias — os Merciers. Era possível que seu cunhado ou um sobrinho estivessem presentes e ela estivesse destruindo as evidências para acobertá-los? Fazia sentido. Família era família e sem dúvida protegeram os seus por centenas de anos — do mesmo modo que os covis nas florestas tropicais faziam.

Pauline iluminou as árvores com sua lanterna na área onde a luta ocorreu. Dois crocodilos, sem dúvida atraídos pelo cheiro do sangue, deslizaram de volta para a água quando a luz os atingiu. Ela estudou as poças de sangue antes de se aproximar da casa e voltar trazendo uma mangueira comprida. De novo ela demorou, a arma no punho enquanto lavava as áreas onde a batalha se desencadeou. Foi bem precisa nisso, obviamente determinada a eliminar todos os traços.

Enrolou meticulosamente a mangueira, pegou o saco de lixo contendo as roupas de Drake antes de dar uma última olhada ao redor, balançar a cabeça com satisfação e voltar para dentro de casa. Drake quase se voltou para entrar também, mas capturou um movimento com o canto do olho. Mais alguém observava Pauline. A figura nas sombras estava entre as árvores e o vento estava a favor de Drake, então não conseguiu captar seu cheiro. Seu felino também não se alarmou, mas não havia dúvida que algo — alguém — estava na árvore bem à beira da água, próximo à doca.

Drake relaxou os músculos numa espreguiçada vagarosa. Cada um dos ferimentos repuxou, lembrando-o que os pontos não aguentariam se tivesse que se transformar outra vez. Manteve os olhos focados no galho que mal se movia. Tudo ficou quieto de novo. Um crocodilo atravessou a água em algum lugar próximo. Os arbustos balançavam como uma onda. As folhas da árvore fizeram o mesmo. Quem quer que fosse, se movia conforme o vento, descendo da árvore até o chão.

A figura obscura era menor do que esperava, andando agachada, segurando um rifle numa mão e uma pequena caixa na outra. Ele pôs a mão debaixo da varanda procurando pela arma que escondeu ali mais cedo. Apostava que era um atirador melhor, mas ainda assim, a arrogância podia acabar sendo a morte de um. Robert Lanoux voltou para terminar o trabalho? Robert era um homem grande com muito músculo. A figura agachada próxima à árvore parecia pequena demais. Destravou a arma e esperou.

Saria Boudreaux correu na direção das árvores mais próximas à pousada, mantendo-se abaixada e fora do alcance da luz da lua. Mesmo na chuva a reconheceu facilmente com só aquele relance mínimo. Seu coração vacilou quando ela deslizou para as sombras mais escuras, observando a casa e o bosque de ciprestes.

Tirou uma calça de algodão macio e uma camiseta larga da bolsa por precaução. Saria mirava as árvores mais próximas do seu quarto. Não tinha ideia do que estava tramando, mas não queria que visse a evidência da briga que teve.

Levou alguns minutos para que ela corresse até a árvore bem ao lado da sua varanda, aquela que ele marcou onde o galho ia até uma altura que dava para que pulasse sobre o parapeito sem maiores problemas. Ela colocou uma alça em volta do pescoço e do ombro para livrar as mãos da caixa e do rifle e subiu na árvore depressa. Era uma escaladora silenciosa e apta, subindo os galhos facilmente, como uma aranha, até chegar ao segundo piso da pensão.

Ele esperou, o coração na garganta, morrendo de medo que ela caísse, enquanto se equilibrava pelo galho alto. Ela conseguiu se equilibrar e sentiu a boca secar e o pulso acelerar. Não ousava chamá-la, com medo que pudesse perder o equilíbrio se a surpreendesse. Ela agachou e percorreu o galho até chegar à varanda. Também se adiantou. Ela segurou o parapeito no mesmo tempo que ele segurou seus pulsos.

Ela o olhou, chocada, os olhos arregalados. Podia ver que os pontinhos dourados em seus olhos escuros abrangiam quase toda sua íris, apagando todo aquele chocolate. Seu felino fêmea estava perto da superfície, e seu leopardo a farejou de novo, aquela fragrância bela e sedutora que quase o fazia perder o controle.

Ele a puxou com facilidade para dentro da varanda. —Boa noite. Gentileza sua ter aparecido, — a saudou, a colocando de pé.

—Era para você estar dormindo, — acusou, soando irritada.

—Planejava engatinhar na minha cama ou atirar em mim? — perguntou.

       Ela torceu o nariz. —Atirar em você pode ser mesmo a melhor solução. Estou me inclinando nessa direção.

Estendeu o braço, abrangendo sua garganta com a palma da mão, levantando seu queixo. —Para futura referência, Saria, pode querer lembrar que consigo sentir o cheiro de mentiras.

Ela piscou. Franziu o cenho. —Ninguém pode fazer isso.

—Não aposte nisso. — Cada inspiração que enchia seus pulmões era repleta de Saria. Ela era potente, madura, uma mulher tão sedutora que era impossível resistir, ainda assim completamente inconsciente de seu poder de atração.

Ela estudou seu rosto, incerta se acreditava nele. No fim capitulou, não querendo se arriscar. —Vim para proteger você. Têm acontecido umas coisas estranhas por aqui e todo muito está um pouco nervoso. Achei que era melhor cuidar de você. Está me pagando dinheiro bastante para me sustentar enquanto vendo minhas fotos por uns dois meses ou mais, se eu tiver cuidado. Não vou perder você para um gato-fantasma qualquer.

Ele a soltou devagar e se afastou, com medo que se não o fizesse, pudesse arrastá-la para dentro do quarto e jogá-la em cima da cama. Sonhou bastante em fazer exatamente isso. A chuva emplastrou sua camiseta na pele e podia ver seus mamilos duros como duas pedrinhas demandando sua atenção. Seu leopardo rosnou quando se afastou. Teve que respirar fundo para conter o animal.

—Querida, não preciso de proteção. Pareço um engravatado da cidade para você? — Sentia-se ao mesmo tempo contente e indignado. Gostava da ideia que passaria a noite inteira em sua varanda para garantir sua segurança, mas estava chocado por ela pensar que era incapaz de se defender. Obviamente voltou para casa para pegar mais armas.

—Não quis ofender, — disse. —Tem havido... — Calou-se.

Ele deu a volta para encará-la de novo, começando a entender. —Você mandou a carta para Jake.

Ela ficou totalmente quieta. Quieta demais. Viu as mãos dela apertarem o rifle. Seu rosto ficou pálido. Ele cheirou medo. A ponta de sua língua umedeceu os lábios repentinamente secos. —Quem é Jake?

—Eu já disse, Saria, consigo cheirar mentiras. Fez o Padre Gallagher enviar uma carta para um padre no Texas com instruções para entregá-la a Jake Bannaconni. Por que não a mandou diretamente? E por que não a assinou?

—Não devia ter enviado a carta, — disse. —Foi bobagem minha. Se veio até aqui por causa da carta, só posso me desculpar e devolver o dinheiro.

—Está me dizendo que não encontrou corpos de homens que pareciam ser atacados por um leopardo? Um leopardo e um homem?

Ela sacudiu a cabeça, mas se recusou a vocalizar a resposta. Seu olhar se desviou do dele. Drake tirou a arma de suas mãos e a colocou cuidadosamente atrás da porta que dava para seu quarto, fora do seu alcance.

—Docinho, não vai querer mentir para mim. Por que não enviou a carta diretamente para Jake?

Ela apertou os lábios com nervosismo e olhou para a árvore como se pudesse saltar de volta por onde veio.

Como precaução, Drake prendeu seu pulso com dedos gentis. —Está com medo de mim? Ou de alguém lá fora? — Não queria interrogá-la, queria abraçá-la e confortá-la.

Quando a tocou ela ficou imóvel, um animal selvagem encurralado procurando uma saída. Ela era muito vulnerável e muito perigosa. Seu felino estava perto, Drake pôde dizer pelo brilho de sua pele, pelo dourado tomando seus olhos e pelo aroma selvagem e feroz que exalava. Seu leopardo rondava e seu corpo estava duro como uma rocha. O leopardo dela a protegeria de qualquer perigo. E na verdade, ela podia facilmente pular da varanda e aterrissar sem se machucar quer soubesse ou não. Precisava ser cauteloso. Um leopardo fêmea era, na melhor das hipóteses, bem imprevisível, e próximo ao Han Vol Dan ela podia ficar terrivelmente arisca e volátil, num momento receptiva, uma gatinha sedutora, e no outro toda garras e dentes.

—Saria, — incitou-a com gentileza. —Precisava de ajuda. Estou aqui para ajudá-la. Me deixe fazer isso.

Não achava que fosse responder. Não o olhou, mas fitou a noite. A chuva caía sobre eles, mas nenhum dos dois fez menção de entrar.

Ela suspirou e encolheu os ombros. —Vou levá-lo até Fenton’s Marsh. Foi lá onde vi os corpos, mas a esta altura, os crocodilos já os devoraram. Não vai achar nada que possa ajudá-lo de uma forma ou de outra. — Suas palavras saíam às pressas, como uma confissão.

—Eu trabalho para Jake, Saria. Se sabia o bastante para contatá-lo, sabe com o que estamos lidando aqui. — Tinha que ir sondando o assunto, sentir como estava, ver o quanto realmente sabia sem lhe pôr medo.

Ela levantou a cabeça de repente e o olhou diretamente nos olhos. Os dela brilhavam dourados na noite. Seu leopardo se precipitou na sua direção, desesperado. Teve que conter a transformação com a respiração, mantendo os olhos presos aos dela durante todo o tempo. Ela estava muito perto, muito quieta. Tão perigosa e sequer sabia disso.

—Você é um deles? — Sua voz era quase um ronronar.

—Um shifter? — Manteve a voz gentil e ficou absolutamente quieto. Não havia nada mais perigoso que uma leopardo fêmea próxima a emergir, mas que ainda não estava receptiva. —Sim. — Esperou um segundo. Dois. —Assim como você.     

Ela franziu o cenho, sacudiu a cabeça e se afastou para longe dele. Não soltou seu pulso e seguiu seus passos.

—Não sabia? Com certeza sua família conversou com você sobre isso. Não é por isso que hesitou em ir à polícia, por que percebeu que quem quer que tenha matado esses homens podia ser alguém que conhecia?

—Não sou, — negou. Parecia confusa. Até mesmo assustada. —Não sou uma shifter.

Aquilo seria bem mais complicado do que imaginou inicialmente. Ela parecia saber pouco a respeito dos shifters. Podia ver o choque genuíno e a negação quando disse que era um leopardo fêmea. A ideia a aterrorizava. Ele estava num território desconhecido. Podia lidar com machos-alfa, mas uma mulher à beira do Han Vol Dan era algo completamente diferente.

—Vamos entrar, Saria, e nos secar. Está tarde e temos que levantar cedo, — disse. —Pelo menos ficaremos confortáveis enquanto conversamos. Tenho uma camiseta seca e pode ficar sob as cobertas enquanto falamos. Vou ficar do outro lado do quarto se isso a faz se sentir melhor.

—Podia devolver meu rifle.

—Acho que é melhor ficarmos somente com a faca que carrega escondida.

Ela deu um pequeno sorriso, encolheu os ombros, um erguer feminino que endureceu seu corpo a ponto de rachar, antes de entrar em seu quarto. De uma só vez, seu aroma encheu o ar, a fragrância sedutora de chuva e a selvagem, sensual e única Saria. Ele a sorveu profundamente, lutando para manter a sanidade. Ela não confiava completamente nele, mas tinha confiança em si mesma, tinha que lhe conceder isso.

Saria estava com medo, mas não por si mesma. Sua frieza o chocou. Era inteiramente leopardo, entrando no covil de um inimigo em potencial sem piscar um olho. Seria uma mãe feroz, protegendo sua cria, permanecendo ao seu lado durante todas as horas difíceis. Temia por sua família — tinha que temer. E gostava ainda mais dela por essa lealdade. A desejava mais do que nunca.

Drake abriu a porta do banheiro para ela e se afastou para permitir que entrasse, agradecido por limpar toda evidência de sangue dos azulejos. —As toalhas ficam na prateleira ali. Vou pegar uma camiseta para você. Pendure as roupas no boxe do chuveiro e estarão secas pela manhã.

Ela assentiu, já secando o cabelo com uma toalha. Drake remexeu em sua bolsa atrás de outra camiseta limpa. Forçou-se a não olhar quando ela colocou a mão para fora da porta para pegá-la. A ideia dela se despindo com apenas uma mera porta entre eles fazia com que se sacudisse de desejo.

Entrava e saía pelas portas francesas, inalando o cheiro fresco da chuva. Precisava se acalmar. Sua temperatura já tinha subido vários graus e se ia convencer aquela mulher que era digno de confiança, tinha que ser um cavalheiro — não — um santo.

Ela saiu do banheiro vestindo apenas sua camiseta. Esta ia até pouco acima do seu joelho, era larga demais para ela, mas conseguia ficar sexy na maldita peça. Seu cabelo estava bagunçado, como se acabasse de fazer amor. Ele deu um sorriso fraco quando ela levantou uma sobrancelha.

—Você é linda demais, — disse. —Essa pode não ser a melhor ideia.

—Pode me devolver a arma na hora que quiser, — salientou.

—Entre debaixo das cobertas. Ainda tem sua faca.

Não tentou esconder a faca dele. Estava em sua mão direita, mas tinha o pressentimento que ela era adepta em usá-la com ambas as mãos — e estava tão fora de si que até isso o excitava. Ficou do outro lado do quarto, virou uma cadeira com a ponta do pé para sentar nela, bem entre as portas abertas, onde poderia fugir de sua força se seu felino lhe desse ainda mais trabalho.

Saria sentou na cama, puxando o edredom sobre as pernas. Se encararam. Podia ver o calor recíproco nos olhos dela, o que não tornava as coisas mais fáceis. Ela mexia a mão sem pensar pelo edredom, mas o gesto fez com que suprimisse um gemido. Era naturalmente sensual, o jeito como seu corpo se movia, o calor em seus olhos, os lábios entreabertos. Exalava tanto sexy appeal que fez o impossível para não correr de volta à chuva. Tinha o pressentimento que também acharia as gotas da chuva sensuais.

—Me fale sobre os corpos.

Ela sacudiu a cabeça devagar. —Me fale você sobre os shifters.

—Não vou jogar esse joguinho de gato e rato com você, Saria, — disse Drake. —Enviou uma carta pedindo ajuda, e Jake me mandou pra cá.

—Não devia ter mandado a carta. Errei.

—Maldição. — Levantou num pulo, tão inquieto quanto seu leopardo. —Agora está mentindo descaradamente para mim. O que diabos está fazendo na minha cama se vai mentir? — Antes que ela pudesse responder à pergunta, ele continuou. —Não houve erro nenhum. Só abra o jogo comigo de uma vez e corte os rodeios. Entendo que sua família esteja envolvida e que não quer decepcioná-los. Há boas chances que não seja nenhum deles. Teria sentido o cheiro deles nos corpos. Conheceria o cheiro em qualquer lugar.

Ela agarrou o edredom com força. —O que vai fazer se um shifter realmente estiver matando pessoas?

—Investigo com meu time. Se um shifter se transformou num assassino, não temos escolha. É uma sentença de morte. É uma realidade difícil, Saria, mas não podemos ter um assassino em série à solta. Tirando as vítimas e suas famílias, não podemos ser descobertos. — Não ia mentir de jeito nenhum para ela quando exigia a verdade. Seus olhos brilharam como fogo e se virou, andando de um lado para outro de novo, tentando acalmar seu felino quando o calor marcou sua linha de visão e o leopardo se aproximou da superfície.

O nível de aflição de Saria devia estar afetando seu leopardo. Este se esforçaria ao máximo para protegê-la enquanto suas emoções estivessem um caos. Ela não tinha ideia do por que dos seus hormônios a estarem jogando num estado tão grande de desejo, ou do por que seu corpo estava tão quente e necessitado. Queria confortá-la, abraçá-la, mas não ousava chegar perto dela.

—Não sei o que fazer. Você é um estranho e está me pedindo para colocar as vidas das pessoas da minha família nas suas mãos.

Ele a encarou, alto e ereto, os olhos de um dourado rico, olhos de gato. Não tentou ocultar isso dela. —Docinho, não importa, estou aqui agora, quer me ajude ou não. Não posso permitir que um shifter ande por aí matando pessoas. Duvido que também possa. Não ia preferir muito mais estar a par da investigação e me ajudar do que ficar de fora sem saber o que está acontecendo?

Ela respirou e assentiu. —Sim. Só se lembre que são meu povo.

—Lembre que se está comigo, está sob minha proteção. Tenho a suspeita que algo aconteceu para assustá-la tanto assim. Me conte.

Seu olhar desviou do dele. —Tentei enviar a carta pelo nosso posto dos correios local. É bem pequeno e todo mundo se encontra lá pra conversar e saber das últimas novidades. O nome Jake Bannaconni é bem notável. Ele aparece em todas essas revistas de fofoca de quinta, assim como é notícia principal nos jornais. É possível que alguém tenha visto seu nome no envelope. De qualquer modo, no dia seguinte encontrei minha carta espetada com a faca de pesca que uso no casco da minha canoa. Sou a única que a usa, nenhum dos meus irmãos o faz. Quem quer que tenha colocado a carta lá, claramente estava me alertando para que eu desistisse. Se não foi um dos meus irmãos, temo por eles.

Drake empurrou a mão pelo cabelo, precisando de algo para aliviar a raiva repentina. Ela foi ameaçada. Estudou seu rosto. E aquilo não era tudo. Não tinha contado a história inteira. Respirou fundo para aliviar a tensão que se formou no quarto. —Me conte o resto, Saria. Tudo. Preciso saber de tudo.

Ela mordeu o lábio, o olhar pulando para seu rosto e então se desviando. —Ele me atacou. Na noite que entreguei a carta ao Padre Gallagher, quando voltava para minha canoa, me atacou no meio das árvores.

O coração de Drake quase parou de bater e então começou um ritmo progressivamente acelerado. Ouviu o urro em sua cabeça e por um momento sua visão se borrou com listras amarelas e vermelhas. —Como? — Mal conseguia falar. Seu leopardo estava tão perto que sua voz era mais um rugido que um som humano.

Os olhos dela procuraram seu rosto. Bem devagar se virou até ficar de costas para ele e levantou a camiseta.

Drake fitou com absoluto horror os quatro rasgões enormes que desciam pelas costas de Saria. Por um momento ficou paralisado, incapaz de se mexer ou falar. Seu leopardo ficou louco, urrando tão alto que abafava qualquer outro som. Para um leopardo abusar de uma fêmea daquela maneira era algo inescrupuloso. Alguém que cometeu uma atrocidade assim com Saria não merecia nem ter nascido.

Cruzou o espaço entre eles, se aproximando dela. Seus dedos doíam, as articulações dobravam. O suor se formou enquanto lutava para não se transformar. O pelo cobriu sua pele como uma onda e se retraiu. Seu leopardo urrava e chiava, se enfurecendo, cheio de cólera ante a injustiça. A necessidade de violência era poderosa e aguda.

 

Saria pressentiu imediatamente o perigo. Na parede, viu a sombra de um homem se aproximando dela, embora não o ouvisse. Sua sombra era larga e assustadora, uma alta forma masculina de ombros largos que parecia diminuí-la. Ela sentiu o cheiro selvagem, feroz, leopardo. Cheirou aquele aroma particular antes. Cada célula do seu corpo congelou. O pânico se formou. Seus dedos se apertaram em volta do punho da faca. O que pensou, se colocando em tal posição? Sabia que Drake era leopardo, algum instinto a alertou claramente, e mesmo assim sentia uma compulsão fortíssima em ficar com ele.

Devia se sentir repelida pelo assassino dentro dele, mas ao invés disso, estava tão atraída pelo seu feitiço que mal conseguia respirar. Não pôde conter o arrepio que correu pela sua espinha, nem a ânsia entre suas pernas. Sentia-se a ponto de explodir, a pele apertada, os seios doloridos, tão sensíveis que jurava que havia uma corrente elétrica entre seus mamilos eretos e sua vagina — e ele.

Ela olhou por cima do ombro. Os olhos de Drake a percorriam, a marcando, os olhos semiabertos, quentes, tão sensuais que não conseguia desviar os seus. Ele parecia faminto, um predador focado na presa, e seu corpo ganhou vida após ter dormido um longo sono. Ela o queria. Oh, Deus, desejava-o com cada célula do seu corpo. A química entre eles era intensa, muito mais como uma forte corrente elétrica. As ondas de choque corriam pelo seu corpo, parando em cada extremidade nervosa até fazer sua pele rastejar de desejo. Drake Donovan a fazia completamente ciente de si mesma como mulher quando estava perto dele. E completamente ciente dele como homem. De alguma forma toda aquela química tirou todo seu bom senso e ela entrou em sua toca. Podia sentir o calor irradiando dele, a infectando com uma fome selvagem da qual não conseguia resistir, não importava o quanto assustadora fosse. Devia estar preparada para fugir, mas ao invés disso prendeu a respiração e esperou que ele a tocasse. Ansiava seu toque.

—Ele mordeu você?

Sua voz era um suspiro sedoso deslizando pela sua pele como o toque dos dedos. Sua respiração era morna em seu pescoço. Calor masculino a cercava. Ela fechou os olhos e continuou imóvel. Sua boca estava tão seca que mal conseguia falar algumas palavras. —Sim. — Seu coração pulsava forte, o sangue correndo quente em suas veias. O suor descia pelo vale entre seus seios. Umidade ensopava a calcinha estilo cueca boxer de algodão que usava.

Os dedos dele traçaram o lado de um dos longos rasgões em sua pele, o mais leve dos toques, mas ela o sentiu queimar, como uma marca a ferro quente passando pela sua pele e chegando aos ossos. O ar deixou seus pulmões num único ofego.

—Onde?

A boca dele estava na ferida aberta, os lábios roçando levemente, a coisa mais sensual que já havia experimentado. Um relâmpago rachou seu corpo. Ele beijou todo o caminho acima do comprido ferimento, sua mão levantando a camisa. Eletricidade correu por cada fibra do seu corpo como se os lábios dele de alguma forma estivessem conectados aos seus nervos. Podia sentir as dobras dos seus dedos deslizarem por suas costas junto com a camisa. Nada a preparou para o modo com que seu corpo acordava ante seu toque. Sua mente, corpo, cada parte sua respondia a presença dele.

Era ao mesmo tempo assustador e estimulante sentir como se uma parte sua estivesse escapando para se tornar uma parte dele. Deveria pará-lo, aquilo dificilmente era decente, mas já estava perdida no feitiço de sua boca. Seus lábios eram macios e sussurravam em sua pele, frios e firmes, mas ao mesmo tempo deixavam pequenas chamas atrás que queimavam com força.

Ela o ouviu prender o fôlego quando empurrou mais sua camisa e revelou a marca da mordida em seu ombro. Seus lábios lavaram sua pele, a experimentando, marcando da forma mais deliciosa. Seu toque era sempre leve como de uma pena, ainda assim ela sentia como se seus lábios e dedos afundassem em sua pele e encontrassem o caminho até seus ossos.

—Ele marcou você de propósito. De um jeito desajeitado e muito errado, — disse ele. —Quem era ele?

Desta vez havia um tom perigoso naquela voz de veludo que enviou um arrepio por sua espinha.

—Não entendo o que isso quer dizer, — admitiu, odiando o fato de sua voz tremer.

Ele roçou a boca em cada marca de dentes em seu ombro e então abruptamente soltou sua camisa e levantou, se afastando dela. O silêncio se prolongou até um ponto que se tornou ensurdecedor. Relutantemente, Saria virou para encará-lo, sentindo-se muito só e perdida.

Drake estava de pé próximo às portas francesas, a chuva caindo em forma de lençóis de prata atrás dele, desenhando sua silhueta. Tentou não fita-lo, mas não conseguia tirar os olhos dele. Era fisicamente lindo para ela. A largura dos seus ombros, a grossura do seu peitoral, os conjuntos de músculos, tão definidos que pareciam ondear com poder a todo momento. Sua voz sensual e olhos hipnóticos enfeitiçavam. O intenso desejo sexual estampado em cada linha do seu rosto a fazia querer dar tudo a ele.

Seu pulso latejava em sua cabeça — e entre suas pernas. Sentia-se excitada, necessitada e inquieta. Não sabia se queria pular em cima dele e violá-lo, ou rasgá-lo. Tudo que sabia era que seu corpo rastejava por seu desejo por ele. O outro leopardo — o que a reclamou e marcou — não deixou um desejo assim atrás, mas Drake com seus beijos suaves a infectou com uma dor tão violenta que duvidava que um dia passaria.

—O que está acontecendo comigo? — Era aterrorizante se sentir tão fora de controle. Saria dirigiu sua vida inteira e agora se sentia como se não pudesse nem controlar seu próprio corpo.

Drake esfregou o rosto com a mão. —Isso se chama Han Vol Dan. Quando uma fêmea leopardo começa a entrar no cio na mesma época que sua humana, ela emerge pela primeira vez. As duas se tornam uma. Você é tanto leopardo quanto humana.

—No cio? — Saria não conseguiu controlar o violento rubor que subia pelo seu pescoço até o rosto. Ela o desejava — ansiava por ele. Ela… precisava. Drake corria grave perigo de ser atacado se ficasse ali parecendo um deus do sexo. —Como um animal? Está dizendo que tenho uma fêmea de leopardo vivendo dentro de mim e que ela quer...

—Um companheiro, — ele terminou por ela.

Ela queria negar aquilo, mas se sentia selvagem, desinibida. Necessitada. Excitada. Sua pele parecia apertada demais e seus seios doíam. Odiava a sensação das roupas em seu corpo e fez tudo ao seu alcance para não arrancar a camiseta fora — para longe de sua pele. Tinha um desejo terrível de engatinhar pelo chão até Drake e arrancar a calça dele. Seus dedos se dobraram no edredom, apertando com força para mantê-lo no lugar. Sabia que estava se contorcendo, mas não conseguia ficar sentada parada, não com o fogo que crescia entre suas pernas. Sua respiração vinha em rápidos ofegos. Não sabia se chorava — ou implorava.

—Não consigo pensar, — sussurrou de forma desesperada. —Meu sangue está me ensurdecendo. — O apelo em sua voz foi sem intenção, mas o ouviu e viu o efeito que teve nele.

Drake parecia abalado. Seu olhar foi atraído para a saliência grande e maciça na frente da sua calça de algodão. Sua boca ficou seca e mudou o peso antes de conseguir se conter, deslizando de forma sensual sob o fino edredom.

Ele estendeu uma mão, a palma virada e recuou até ficar na chuva. —Querida, tem que parar por aqui. Quero você mais do que possa imaginar e não sou santo. Vamos ter que lidar com isso juntos.

Isso era exatamente o que ela tinha em mente. Lambeu os lábios, as imagens dela deslizando aquela calça de algodão pelo seu quadril aumentando. Não tinha certeza se suas pernas conseguiriam suportar seu peso e foi até o chão, arqueando as costas num voluptuoso alongar.

Drake grunhiu, o som rouco, sexy, uma nota desesperada que enviou mais excitação para provocar suas coxas. Sua temperatura subiu ao ponto de parecer que havia um incêndio fora de controle entre suas pernas. Não conseguia parar de se mover, seu corpo ondulando de maneira erótica enquanto o perseguia pelo chão como o leopardo que disse que era.

—Maldição, Saria, vai me odiar de manhã. Respire fundo, vai passar. Tem que tomar o controle dela. Se me tocar não vou ser capaz de me conter. Não tem ideia do que acontece com um macho quando sua mulher está perto do Han Vol Dan. Estou no extremo, querida. Tente isso por mim. Saria, por favor, docinho, tente por mim.

O apelo na voz dele era tanto um afrodisíaco quando um sinal vermelho. Ela amava o fato de fazer seu corpo endurecer e que estava quase tão fora de controle quanto ela. Seus olhos ficaram dourados, aquele dourado reluzente e inestimável que não conseguia resistir, mas ele a chamou de sua mulher. Ela era dele. Queria ser dele. Queria que mordesse seu ombro e a reclamasse, não um maldito bastardo que não se importava com seus sentimentos. Drake se sacudia pelo esforço de se conter — por ela. Conseguia ver facilmente a preocupação que sentia por ela. Poucas pessoas já se mostraram verdadeiramente preocupadas com ela.

Ela respirou profundamente, a cabeça baixa enquanto o quadril se erguia atrás, a necessidade tão terrível que sentiu lágrimas escorrendo pelo seu rosto, mas conseguiu ficar onde estava, a menos de um metro dele. Podia sentir seu cheiro selvagem em cada inspiração que enchia seu corpo. Podia sentir o gosto dele na boca, um sabor forte, viciante e feral que começava a ansiar.

—Quero que você me reclame. — Havia uma sedução absoluta em sua voz, um apelo rouco e desesperado que saiu mais como um ronronar sem vergonha. —Como ele fez. Me marque como ele fez. Não quero o cheiro dele em mim. Quero o seu… — Ela levantou os olhos para ele. Sua visão parecia estranha, um mix de cores. —Quero seu cheiro dentro de mim.

—Querida, está acabando comigo assim, — sussurrou Drake.

Seus olhos estavam completamente dourados, a observando com uma atenção sexual obscura e pesada. A sensualidade estava estampada em suas feições firmes, em sua boca. O corpo dela instintivamente se inclinou mais na direção dele e a mão dele desceu para acariciar inconscientemente aquela saliência dura. A visão dele, tão erótica, enviou outra onda de fogo através do seu corpo.

Ela se forçou a parar novamente, sorver ar, o som brusco e entrecortado. —Vou tentar se prometer fazer isso — me marcar como sua.

Um dom escapou da garganta dele, meio urro, meio gemido. —Sua leopardo virá em breve. Se ainda quiser que eu faça isso depois que ela se for, farei. Mas tem que ser sua decisão quando não estiver sob o domínio de nada. Tem que me querer, e não apenas qualquer macho por sua leopardo estar fora de controle.

Ela se deleitou com a rouquidão em sua voz. Ele estava sofrendo assim como ela. Podia ver sua necessidade queimando tão forte quanto a dela. Lágrimas apertaram sua garganta. Tinha que achar força para resistir à necessidade de implorar desesperadamente que a tomasse. Era humilhante saber que a estava negando e que o estava incitando descaradamente, mas seu corpo queimava e latejava até ela ficar tão louca de desejo que não conseguia ficar parada.

—Fale comigo. Qualquer coisa. Me fale sobre os leopardos. — Qualquer coisa que desviasse sua mente daquela fome dilaceradora.

—Somos uma espécie existente há muito tempo, — disse ele. Sua voz tinha um tanto de rouquidão, mas lutou para suavizá-la. —Há bandos nossos por todo o mundo, a maior parte nas florestas tropicais. Fiquei chocado ao saber que tinham um covil aqui. Acho que Fenton arrendou as terras de sua empresa para as famílias para dar um lugar que tivessem liberdade para se transformar sem medo de serem descobertas.

Ela correu a mão pelo corpo dolorido, tentando a todo custo se concentrar em suas palavras enquanto queimava de dentro para fora. Sentou nos calcanhares, segurando os seios doloridos, os dedos apertando com força os mamilos em chamas.

Drake praguejou. Havia gotinhas de suor em sua testa. —Maldiçao, Saria. Me ajude aqui.

Ele deu um passo na sua direção e ela o incentivou a continuar, tirando a decisão de suas mãos. O olhou faminta. Seu rosto estava entalhado em linhas sensuais, os olhos dourados e baixos, brilhando com fome pura e absoluta. O levou além do que suportava. Se o tocasse, seu controle acabaria e a tomaria bem do jeito que desejava, bem ali no chão, com selvageria e desinibido, seu corpo afundando no dela, aliviando aquela dor terrível. Ele deu mais um passo com um gemido de desespero.

O som ecoou bem alto em sua mente. Drake Donovan era um homem de honra. A estava tentando salvar de si mesma. Estava tentando salvar os dois. O que diabos estava fazendo com ele? Chocada, pressionou uma mão na boca e levantou a outra para pará-lo. Ele fez de tudo, exceto jogar água fria nela.

—Posso fazer isso, Drake. — Determinação rastejou em sua voz. —Só me dê um minuto. Me diga como controlá-la.

Ele respirou fundo e correu as mãos pelas coxas acima e abaixo como se sua pele coçasse, ou estivesse muito apertada — exatamente como a dela.

—Ela é você, querida, — explicou. —Você está sentindo as necessidades das duas formas. Não ajuda eu estar no quarto com você. Se formos companheiros, como tanto eu quanto meu felino acreditamos, nos conhecemos pelo menos numa vida passada, e conhecemos o corpo um do outro. O vício já estava presente. Está lutando contra tudo isso.

Ela engoliu com dificuldade. —Saia do quarto. Só por um momento. Me dê um minuto.

Ela sabia que ele sairia, embora não soubesse porque confiava tanto nele. Ou como podia se comportar de uma forma tão devassa e ainda olhá-lo nos olhos. Não tinha vergonha de desejá-lo — só de seu comportamento. Se ele conseguia agir com honra, ela também conseguiria.

Drake a olhou por mais um demorado momento, seu olhar quente, revelando que estava traçando a extremidade final do seu controle antes de se afastar dela. A tensão nele era tangível, como era nela, uma necessidade torturante que rastejava sobre a pele e apertava a barriga que nenhum dos dois tinha esperança de poder ignorar.

—Não vai me fazer desonrá-lo, — chiou para a entidade vivendo dentro dela. Respirou profundamente e determinou que a leopardo fêmea retrocedesse. —Preciso de tempo para me acostumar com você. Me dê um espaço para poder respirar.

Sua pele coçava e sua mandíbula doía, mas o fogo terrível abrandou um pouco sem Drake nas proximidades imediatas. Ela fechou os olhos e deixou a luxúria se derramar, aceitando o desejo terrível e quase violento que corria por ela como uma bola de fogo. Seu sangue estava fervendo e continuou respirando para tentar esfriá-lo.

Levou mais alguns minutos de respiração profunda antes que ousasse olhar em sua volta. Sua visão clareava lentamente. O corpo tremia incontrolavelmente. Não havia como ficar de pé, mas graças a Deus, a razão estava voltando.

Agradecida, Saria rastejou até a cama e se impulsionou para que pudesse descansar a barriga na beira da cama, inclinar-se e deitar o rosto no edredom frio. Chorou por alguns minutos, incapaz de se conter. Nada em sua vida a preparou para um desejo tão violento. O que teria acontecido se estivesse com qualquer outro homem que não fosse Drake e sua leopardo estivesse tão necessitada? Não podia culpar apenas a leopardo. Desde o momento que colocou os olhos em Drake Donovan o desejou. Não podia evitar — talvez por ele ser um lindo estranho com um poder indefinido que emanava dele. Talvez fosse apenas uma interiorana sem experiência real com um homem assim, mas qualquer que fosse a razão, ele fazia seu sangue correr quente e seu pulso acelerar. Isso tinha que ter somado à fome dilaceradora que a conquistava por dentro.

Drake estava na soleira da porta, observando Saria enquanto ela se inclinava na cama e chorava. A camisa subiu pela curva do seu traseiro, revelando uma calcinha pequena e rosa. O material a abraçava adoravelmente, exibindo o desenho macio de suas nádegas perfeitamente arredondadas. Seu pênis, já pulsando com um desejo urgente, gotejou, a rigidez intensa. Cada terminação nervosa parecia estar centrada em sua virilha.

Ela era tudo com que já tinha ousado sonhar. Queria uma mulher corajosa. Apaixonada. Uma que preferisse o campo e que não temesse ser sua parceira. Queria muita ousadia e um pouco de ferocidade. Saria era a personificação de todas essas coisas. Sabia que ela pertencia a ele, mas era jovem e inexperiente. A ideia de ser uma shifter era nova para ela e a intensidade do ciclo do acasalamento de suas espécies devia ser assustadora.

—Saria? — Drake manteve a voz gentil, tentou — sem muito sucesso — esconder a paixão e a luxúria do seu tom. A ânsia por ela não diminuía, nem por um segundo, e sabia que nunca diminuiria ainda que ela o rejeitasse.

Saria virou devagar, deslizando para o chão para sentar com os joelhos levantados e as costas contra a cama. Ela deu uma tentativa de sorriso e seu coração tremeu daquele jeito estranho. Sabia quanta coragem aquele sorriso devia custar.

Ela não se esquivou, mas o olhou diretamente nos olhos. —Acho que está a salvo agora. Não vou pular em cima de você.

Ele deu uma risada suave e autodepreciativa. —Não tenho certeza se isso é uma boa notícia. Não acho que já tenha desejado mais uma coisa na vida do que desejo você. Isso não vai passar. — Ele queria que ela ouvisse a verdade em sua voz. —Temo que possamos estar com um probleminha aqui, docinho. — Ele tirou uma garrafa de água do bolso, a abriu e passou para ela.

Saria pegou a garrafa e bateu no chão próximo a ela.

       Drake hesitou, com medo do que poderia acontecer perto assim dela, mas ela não desviou o olhar do dele e não pôde resistir à tentação de sua confiança. Afundou no chão ao seu lado e levantou os joelhos. Seus quadris e ombros se tocavam. Uma coxa macia esfregou na dele quando ela se mexeu um pouco, tomando um gole comprido e devolvendo a garrafa.

—Isso vai acontecer de novo?

—Sim. E da próxima vez vai acabar bem diferente. — Ele colocou a boca no gargalo da garrafa, onde a dela esteve. Podia sentir o gosto de toda aquela luxúria contida — ou talvez aquela fosse a dele. —Quantas vezes passou por isso com uma mulher?

Ele franziu o cenho. —Vi uma mulher passar pelo Han Vol Dan, e claro que meu leopardo foi afetado, isso deixa os machos eriçados, mas ela não era minha mulher. Não tive que lutar assim para ganhar controle. Isso foi... além do que eu podia imaginar.

—Quer que isso aconteça de novo — comigo?

Ele sacudiu a cabeça ante o absurdo da pergunta, seu olhar indo de forma possessiva para o seu rosto. —Penso em você como minha. Claro que quero que aconteça, e se ficarmos juntos, Saria, será inevitável. Tem que enfrentar isso e estou falando sério. Da próxima vez que estiver naquele estado estarei dentro de você. Uma vez que a tenha, não vou me colocar de lado, então saiba no que está se metendo antes de tomar uma decisão.

Ela estendeu a mão para a garrafa d’água, tomou outro gole e lambeu os lábios. Seus olhos escuros encontraram os dele de novo. —Me beije.

Ele estudou seu rosto. —Gosta de brincar com fogo?

—Não entendo. É um beijo.

Ele pegou sua mão e colocou sua palma em cima da enorme protuberância na frente da sua calça de algodão. Calor se espalhou pelos dois. Uma corrente elétrica surgiu entre eles. —Não é só um beijo, Saria. Não tente se enganar.

—Tenho que saber.

Ele arqueou uma sobrancelha para ela. —Não tem senso algum de autopreservação. Se eu fosse outro tipo de homem...

—Mas não é, — acentuou.

A confiança em sua voz o abalou. Ele praguejou e tomou outro gole frio. Ela não tinha removido a mão e sua alma estava condenada ao inferno, mas não queria que a tirasse.

Ele enroscou os dedos em sua nuca e inclinou seu rosto para cima, em direção ao dele, enquanto descia a boca na dela. Tentou ser gentil, mas não se sentia gentil, sentia-se bruto e desesperado e ela tinha gosto de paraíso. —Abra sua boca. — Rugiu a demanda.

Ela obedeceu, os lábios estremecendo, e sua língua deslizou contra a dela, atraindo sua doçura para dentro dele. O quarto girava enquanto se deleitava. Fez tudo que pôde para não devorá-la. A boca dela parecia ter uma conexão direta com cada terminação nervosa sua. Sua virilha endureceu de uma forma impossível, uma dor que temia nunca mais ceder. Ela se derreteu nele, tanto que respirava por ela, trocando algo intangível enquanto devoravam um ao outro.

Foi o primeiro a recuar, com medo que queimassem de uma maneira fora de controle outra vez. Olharam um para o outro por muito tempo, os olhares presos, as respirações entrecortadas, arfares bruscos, com aquela estranha corrente elétrica chiando entre os dois.

—Isso responde sua pergunta? — Se não respondia, Drake não tinha certeza se poderiam se tocar de novo outra vez. Sua boca na dela era como acender uma banana de dinamite.

Ela assentiu, tocando os lábios com os dedos tremendo. —Nunca gostei de beijar, — explicou. Ela apertou os lábios, como se quisesse conter seu beijo. —Essa definitivamente não foi uma reação normal.

—Graças a Deus por isso, — disse Drake, falando sério. O pensamento dela beijando outro homem daquele jeito era suficiente para deixá-lo com vontade de cometer homicídio.

—Tinha que saber. — Saria parecia um pouco confusa. Ela o olhou com expectativa. —Então, tudo bem.

Seus cílios eram incrivelmente longos. Ele se inclinou e roçou com a boca o canto do seu olho. —Tudo bem o quê?

—Faça aquilo. Quero que faça o que quer que disse que aquele leopardo fez comigo. Não quero ele. Se realmente vou me tornar uma fêmea leopardo totalmente fora de controle, quero você. — Ela o olhou diretamente nos olhos. —Estou escolhendo. Quero que seja você, não outro homem qualquer com o qual não quero ficar.

Seu pênis sacudiu sob a quentura de sua mão. Seus dedos prenderam seu punho e ele gentilmente afastou sua mão antes que perdesse a razão. Sua boca ficou seca e seu coração batia forte demais, alto demais, rápido demais. —Docinho, não sabe o que está dizendo. Se marcar você e sua leopardo me aceitar, vamos ficar juntos a vida toda. Jamais a deixaria ir embora. Nós nos casaríamos, teríamos filhos e faríamos todas as coisas que não tem certeza que quer fazer. Não sou um garoto para viver uma paixonite. Tem que ter certeza que sabe onde está se metendo.

—Estou tentando entender tudo isso, — disse Saria, e tomou a garrafa dele de novo. Ela derramou o conteúdo garganta abaixo. —Me disse que isso vai acontecer de novo, certo?

Ele se inclinou para lamber uma gota que escapou pelo canto do seu lábio antes que pudesse se conter. Se olharam. Ele sentiu como se estivesse caindo dentro daquela expansão escura de chocolate quando mal conseguiu assentir.

—Então quero você. O que quer que aconteça, é um homem de honra e posso viver com isso.

Ela não sabia o que estava dando para ele. Era nova demais e não tinha ideia das leis do seu povo. —Uma vez que consumarmos nossa relação, se um homem tocar você, um do nosso povo, um leopardo, está me desafiando para lutar até a morte por você, Saria. Entenda isso. Sou leopardo, nascido e criado na floresta tropical e mesmo como homem tenho as leis daquele mundo impressas em meus ossos. Vivo por essas leis. Lutaria por você até meu último suspiro.

Ela engoliu em seco, mas não desviou os olhos. —Assim como eu lutaria por você.

—Por quê? Por quê se ligar a alguém desconhecido?

—Quem então? O macho que me atacou?

—Há outros.

—Meus irmãos... e isso seria... argh.

Ele sacudiu a cabeça, sabendo que estava acabando com suas chances, mas se sentia protetor com relação a ela e em qualquer caso, uma vez que usasse sua marca — seria dele. Pouco importava se seu relacionamento fosse consumado ou não. Podia esperar até que estivesse pronta e se sentisse segura juntando sua vida à dele, mas queria que viesse até ele sabendo de todas as opções.

Levantou e estendeu a mão para ajudá-la. —Fenton arrendou suas terras para sete famílias. Aposto que todas as sete são de leopardos. Deve haver machos disponíveis nessas famílias.

Ela era inteligente e rápida. Sabia exatamente a que sete famílias se referia. Conhecia todas as famílias no pântano e devia ter notado que permaneciam juntas.

—Sim, conheço todos os homens disponíveis.

—Todos vão querer uma chance para ver se sua leopardo os aceita.

—Não os quero. — Ela ficou perto dele, olhando-o diretamente nos olhos. —Mas não quero que se sinta como se isso fosse algo que tivesse que fazer. Meu lugar não é com nenhum deles. Cresci com eles. Se estivesse atraída por algum já não teria sentido isso?

—Acha que pode se apaixonar por um homem como eu? Leopardos machos são mandões, arrogantes, temperamentais e ciumentos ao extremo.

Um sorriso provocou os cantos de sua boca. Podia ver o medo em seus olhos, mas se recusava a recuar. —Já percebi.

Um sorriso vagaroso se formou em algum lugar nas extremidades do seu coração. —Tenha certeza, porque não há volta. Vão sentir meu cheiro em você.

—Não conseguiu sentir o cheiro dele, — assinalou.

—Ele não sabia o que diabos estava fazendo. Nenhum leopardo de respeito rasgaria sua pele desse jeito. Estava tão ocupado tentando marcá-la como uma propriedade que negligenciou injetar seu cheiro em você. Sua leopardo não devia estar perto de emergir senão o leopardo dele teria reagido.

—Não entendo, — disse ela, —mas não importa. — Seus braços delgados deslizaram em volta do seu pescoço e ela inclinou o corpo no dele, levantando o rosto para o seu.

Ele sentiu seus seios macios contra a ampla expansão do seu peitoral e um pequeno gemido escapou quando abaixou a cabeça. Tomou sua boca com mais avidez dessa vez, deixando um pouco de sua fome extravasar, permitindo-se a indulgência de se alimentar de sua doçura, de assumir o comando de sua boca. Moveu-a de forma mais completa em seus braços, os músculos prendendo-a ali, o beijo agressivo e exigente.

Uma parte dele ainda esperava resistência, mas ela se derreteu inteira, dócil, toda calor e pele macia. Ela simplesmente se abriu para ele e ele se derramou dentro dela. Se ela podia se apaixonar ou não, sabia que ele sim, podia. Qualquer que fosse a estranha conexão entre eles não era um cio de leopardo.

—Deite na cama, querida. De bruços.

Ela estremeceu, os olhos enormes. Aquele era um enorme passo de confiança. Ela ficaria completamente vulnerável, mas, ele percebeu, esteve o mais vulnerável que uma mulher podia ficar mais cedo, e a havia protegido. Ela o olhou por um bom tempo antes de fazer o que pediu. Ele notou que teve muito cuidado para puxar a camisa por cima das coxas. Seu cabelo sedoso se derramou em cima do travesseiro, as pontas irregulares fazendo com que parecesse com uma princesa das fadas.

Drake engatinhou na cama ao seu lado, se esticando, apoiando a cabeça numa mão enquanto massageava a tensão dela com a outra. —Preciso que me diga tudo que se lembra sobre os corpos, — murmurou, a voz baixa, quase hipnótica.

Seus longos cílios bateram. Ela ficou tensa, esperando que a machucasse como o outro macho fez, mas ele simplesmente massageou os nós em seus ombros enquanto esperava sua resposta.

—Não conhecia nenhum deles. Encontrei o primeiro alguns meses atrás. Estava no pântano tirando fotos de uma família de corujas, a mãe alimentando os bebês, e vi luzes vindo de Fenton’s Marsh. Ninguém vai lá. É tipo uma regra não dita. Todos mantivemos nossa palavra a Jake Fenton e vigiamos aquele pedaço de terra para ele.

—Há petróleo inexplorado lá, — disse Drake, mais para ver sua reação.

—Todos sabemos disso. Esse não é o nosso modo de vida. E não acho que o corpo jogado lá tenha alguma coisa a ver com o petróleo. Havia dois barcos. Pensei em tráfico de drogas ou de armas, sabe. O pântano é isolado e se souber como andar por ele pode evitar facilmente as autoridades. Pode sair no lago, no rio ou no golfo.

Ele rolou de bruços, colocando o peito em cima dela, as duas mãos trabalhando seus músculos, os cotovelos segurando seu peso. Esperou até que a chama de tensão nela cedesse sob seus dedos. Queria que se sentisse relaxada e sem medo.

—Então viu luzes no meio da noite, pensou que era tráfico de drogas, ou possivelmente de armas, pulou no barco e foi até lá sozinha. Entendi tudo certo, não entendi? Achou mesmo que essa era uma boa decisão?

Ela bufou de forma não elegante, meio riso e meio escárnio. —Esperei que fossem embora, Drake. Não ia meter minha cabeça num laço. Não esperava encontrar um corpo.

Os dedos dele ficaram gentis, acariciando e massageando. Não, não esperava um corpo, mas mexeu nele dentro da água e o examinou com crocodilos em volta, no meio da noite. Suspirou. Ela definitivamente ia lhe causar problemas.

—Não o conhecia. Parecia ter uns quarenta anos. Estava em boa forma, tinha uma tatuagem nas costas da mão. A desenhei. Alguém o esfaqueou no estômago, mas não foi isso que o matou. Um leopardo mordeu sua garganta e o sufocou. Foi uma mordida letal.

Ele puxou a camisa e a subiu lentamente pelo seu traseiro redondo e por aquela intrigante calcinha em formato de cueca masculina. Mais acima, além de sua cintura e pela extensão de suas costas até a camisa ficar em seu pescoço, expondo toda aquela pele macia.

Saria engoliu com dificuldade e começou a virar a cabeça para olhá-lo, mas ele acariciou com gentileza a mão pelo seu cabelo, impedindo-a. —E porque foi tanto esfaqueado quando mordido, temeu que fosse um de seus irmãos, — aventurou-se. Começou a traçar círculos em suas costas, entre suas omoplatas, deslizando ocasionalmente uma carícia nos rasgos enormes e quase curados.

Levou um momento para que começasse a relaxar novamente. —Vivi aqui a minha vida inteira. Se não visse acidentalmente meus irmãos se transformarem, não acho que descobriria sobre os leopardos. Parece impossível demais. Até mesmo agora tenho dificuldade em acreditar realmente nisso e olhe o que aconteceu comigo.

—Então não contou a ninguém.

—Não. Sei que isso é errado, mas Remy é um investigador de homicídios. E se for ele? E talvez não tivessem escolha.

Ele soprou ar morno em sua pele e fungou seu ombro por cima da terrível mordida que o leopardo macho colocou ali. —E o segundo corpo? — Roçou alguns beijinhos acima e abaixo das marcas de dentes.

—Esse me assutou. Foi uns dois meses depois do primeiro e um pouco diferente. Só um barco e havia garrafas de cerveja por perto. Pensei que talvez tivessem ido para lá juntos, o assassino e a vítima, que fossem amigos — e que começaram uma discussão. O primeiro homem eu tinha certeza que tinha algo a ver com alguma atividade criminosa, mas o segundo não me parecia criminoso, embora tivesse sido esfaqueado e sufocado com uma mordida de leopardo.

Drake sentiu o tremor que percorreu seu corpo. —Vamos descobrir, — disse suavemente e deu um beijo no doce ponto onde seu ombro e pescoço se encontravam. Ela estremeceu e ele sentiu uma corrente elétrica repentina surgir entre eles. —O que aconteceu então?

—Escrevi uma carta para Jake Bannaconni. Tentei colocar em palavras, para o caso que ele tivesse ciência dos shifters ou também fosse um deles percebesse o que estava acontecendo e viesse para Fenton’s Marsh investigar. Levei a carta para o posto dos correios e a coloquei na caixa de envio. Dois dias depois a carta estava presa por uma das minhas facas de pesca no casco da minha canoa.

—Um aviso.

—Definitivamente entendi dessa forma. Fiquei brava comigo mesma por não ter sido mais cuidadosa com a carta. Qualquer um poderia tê-la visto.

Ele levou tempo explorando aquele pedaço suave de pele, beijando seu ombro, os dentes provocando, arranhando e enviando arrepios por sua espinha antes de mordê-la gentilmente. —E o terceiro corpo?

—Não pude evitar prestar atenção em Fenton’s Marsh e uns dois meses depois da segunda morte, o terceiro corpo estava lá. Desta vez no fundo, ancorado. Ninguém que reconheci como amigo, mas o vi antes, talvez no French Quarter[8]. Não consegui dizer quem era, mas seu rosto era familiar. Sabia que não podia ignorar aquilo, então levei a carta até o padre e pedi que a enviasse para Bannaconni.

—Então os corpos apareceram a cada dois meses. Poderia haver outros?

—Claro. Tem muita água lá fora e crocodilos costumam comer tudo que encontram, especialmente se for carne em decomposição.

Ele provou sua pele macia, a língua traçando seu ombro, os lábios seguindo. Mudou de posição, mantendo as mãos em seu ombro enquanto se transformava parcialmente, permitindo que seu leopardo emergisse. Sabia que ela sentiria o deslizar repentino do pelo contra a pele, o fôlego mais quente do gato, mas já estava afundando os dentes profundamente na mordida de contenção do leopardo macho. Sentiu a fêmea se erguer bem abaixo da pele de Saria.

Saria gritou, jogando a cabeça atrás, o corpo se contorcendo sob o dele, mas suas pernas prenderam suas coxas, mantendo-a deitada. Sua respiração era chocada, ofegante, seu corpo queimando sob seu toque. Seu macho chamava a fêmea. No momento que sentiu a aceitação da leopardo fêmea ele se transformou de novo, lambendo as marcas dos dentes e pressionando beijos pelo ombro de Saria. Respirando profundamente, pressionou a testa contra sua nuca.

—Acabou, docinho. Sua fêmea vai aceitar meu macho. — Não havia como ela não sentir a necessidade urgente do seu corpo. Estava pressionado nela com força, mas ficou imóvel, respirando a luxúria que se elevava afiada e rápida e muitíssimo crua. Esperou por suas lágrimas, pela recriminação que estava certo que viria. Recusava-se a se mover de cima dela, abraçando-a perto de si, tentando confortá-la, quando sabia que devia ter acabado de matá-la de medo.

Ela ficou deitada debaixo dele, respirando com dificuldade, tentando parar o quadril enquanto empurrava atrás, contra ele, a respiração ofegante. —Por que foi tão erótico quando fez isso?

Ele fechou os olhos e expirou uma oração silenciosa de agradecimento. Bem cuidadosamente, levantou o corpo do dela, retendo as mãos para que pudesse girá-la para seu lado, querendo ver seu rosto. Ela o olhou com olhos enormes e impressionados. Estavam quase totalmente dourados, e ela parecia um pouco estupefata. Sua boca estava entreaberta e ofegava um pouco. Parecia que acabava de fazer amor.

—Não entendo o que faz comigo.

—O que quer que seja, Saria, — disse suavemente, inclinando-se para roçar um beijo gentil em sua boca. —Agradeço. Não quis machucá-la.

—Eu a senti. Ela pulou na sua direção. — Havia um deslumbre em sua voz.

Drake tirou os fios sedosos de cabelo que caíam em sua testa. —É realmente linda, sabia disso?

—Não, não sou. Minha boca é muito larga e meus olhos grandes demais para meu rosto. Mas obrigada, você na verdade me faz sentir bonita e nunca senti isso antes.

Seu coração deu aquela estremecida estranha. Era tão cândida com ele. O leopardo apreciava que não mentisse sobre seus sentimentos. Podia estar lutando para entender, mas não se escondia da atração intensa, quase violenta que havia entre eles. Ele viu atração física intensa entre outros leopardos e certamente sentiu a reação do seu leopardo às mulheres na época do Han Vol Dan, mas nem mesmo ele estava preparado para as necessidades brutais que pareciam consumi-los.

—É incrível por não estar correndo o mais rápido que pode para longe de mim. Não a culparia se o fizesse.

Ela disparou um sorriso e sentou. —Acho que o quer que esteja acontecendo comigo, teria que viver de todo jeito. Não posso fugir de mim mesma, de fato, posso? De certa forma, sinto pena de você. Está tipo preso a mim, não é?

Ele entrelaçou os dedos atrás da cabeça. Ela não tinha ideia — ainda — a que ou a quem se ligou, mas ele ia garantir que não se arrependesse de sua decisão. Sorriu. —Não acho que precise se preocupar comigo, docinho. Já sou crescido.

—Os outros leopardos machos vão poder sentir seu cheiro em mim?

—Sim. Incluindo seus irmãos.

Ela fez uma careta. —Ai. Vão ter algumas palavras bonitas para me dizer — ou a você. — Enviou um sorriso hesitante.

—Podem dizer o que quiserem para mim, mas é melhor que tenham cuidado com o que dizem a você. — Seu leopardo urrou baixo e de uma forma perversa. Sabia que seus olhos tinham ficado completamente felinos. A posse enchia seu tom.

Ela se inclinou e deu um beijo em sua testa. —Vejo você de manhã. Preciso pensar um pouco em tudo isso. — Ela sorriu, sacudiu a cabeça e deixou seu quarto sem outra palavra.

 

Drake sabia que devia ter lidado com Saria de forma diferente. Não tinha ideia do que exatamente poderia fazer sob aquelas circunstâncias, quando mal tinha controle de si mesmo, mas enquanto tomava banho, se repreendeu severamente. Ela provavelmente estava chorando em seu quarto, apavorada em sair de lá e encará-lo. Viajou o mundo inteiro; ela viveu nos pântanos da Louisiana. Era mais velho por uns bons dez anos; ela era jovem e inexperiente. Cresceu conhecendo os costumes dos leopardos; ela não tinha ideia das necessidades urgentes nem das leis estritas do seu mundo. Soltou um palavrão e jogou a cabeça atrás, permitindo que a água lavasse seus pecados. O que diabos deu nele? Tirou vantagem dela. Não resistiu a ela e sabia que era a ela a quem pertencia. Porém, ela não sabia que ele era seu companheiro; pensava nele como o menor de todos os males. Ela cresceu com homens em sua vizinhança, com outras famílias leopardo, e achava que aqueles homens eram suas únicas opções. Não contou sobre todos os covis nas várias florestas tropicais. Claramente, ainda que tivesse a alertado, ela não sabia que estava selando um compromisso para o resto da vida, ainda assim a marcou como sua do mesmo jeito.

Tinha que se colocar nos eixos. Ela era nova demais, inocente e inexperiente para um homem como ele, e ainda assim sabia com todas as células de seu corpo que era sua companheira. Fechou o chuveiro e começou a se enxugar. Disse a si mesmo que estava preparado para lágrimas e olhares desaprovadores. Talvez ela tentasse desistir do trabalho. Fez uma parada. Será que já havia desistido? E se fugisse logo cedo? Se fosse para casa, onde seus cinco irmãos esperavam, enfrentaria um inferno. Sentiriam seu cheiro em seu corpo inteiro, procurariam pelo leopardo desgarrado e iam querer seu sangue.

Vestiu-se rapidamente e se apressou pelo corredor até o quarto onde sabia que Saria dormiu. Podia ouvir o chuveiro ligado. Um pouco da tensão em sua barriga diminuiu e ficou de pé por um momento, respirando profundamente na biblioteca ampla e circular no topo das escadas antes de tomar o caminho para a sala de estar principal. Se Saria não fugiu dele, tinha chance de cortejá-la, de fazê-la ver que não cometeu um erro ao escolhê-lo.

Enquanto isso, teria que descobrir o jogo da proprietária da pousada. Ela ouviu a briga de leopardos na noite anterior, não havia dúvidas disso. Também removeu todas as evidências. Suspeitava dele? Teria a farejado se estivesse perto o suficiente para que o identificasse antes ou depois de se transformar. Seu perfume era distintivo, uma mistura de várias fragrâncias, predominantemente lavanda. Ele o achava incomum e agradável, não excessivamente doce como tantos outros.

No momento, o aroma do café da manhã corria pela casa, guiando-o direto para a formal sala de jantar. Várias bandejas de prata estavam centradas no meio da mesa ornada e três pratos dispostos.

Pauline Lafont levantou o olhar enquanto derramava suco de laranja recém-espremido em taças de vinho. O olhou com um sorriso quando entrou.

—Bom dia, Srta. Lafont, — cumprimentou Drake. —Que barulheira ontem à noite. Tenho que admitir que me senti na África.

A proprietária franziu o cenho. —Devia ter avisado que os crocodilos ficam bem agitados algumas noites. Não notei que estavam mais barulhentos que o normal, mas tomei um remédio para ajudar a dormir.

As sobrancelhas de Drake se elevaram pela descarada mentira, mas desempenhou seu papel de homem da cidade não muito acostumado aos barulhos de uma área tão rural. —Sério? Não ouviu aquela luta horrível de gatos ontem à noite?

A mulher mais velha sacudiu a cabeça. —Não temos muitos animais selvagens por aqui. Os crocoldilos caçam a maioria.

Ela gesticulou para que sentasse e virou as costas, impedindo que visse sua expressão, mas era leopardo e podia sentir o cheiro de uma mentira — e ela estava mentindo. Tinham uma grande população de gatos selvagens e ela sabia disso. Definitivamente estava acobertando os leopardos. Sua irmã era casada com um Mercier, uma das famílias que suspeitava serem leopardos. Tinha uma conexão com eles e os estava protegendo.

—Esses eram grandes, — insistiu, puxando uma cadeira de costas altas.

Saria entrou na sala, o cabelo ainda molhado do banho, os olhos escuros brilhando, a pele também, parecendo um raio de sol para ele. Sua calça jeans azul desbotada era antiga e de um jeans mais fino, moldando suas curvas. Usava botas de caminhada e uma regata fina que abraçava seus seios e grudava em sua cintura. Por um momento não conseguiu tirar os olhos dela. Era tão sexy e não tinha como esquecer a visão dela rastejando pelo chão do seu quarto na direção dele, os olhos fixos com fome em seu pênis. Ele quase gemeu em voz alta e sentiu o corpo tremer pela lembrança. Não conseguiu dormir exatamente, deitado na cama, duro que nem uma rocha. Nenhum banho frio, nem masturbação ajudou. Saria, maldita seja, parecia como se tivesse dormido muito bem e estava tão cheia de frescor quanto a manhã.

Estudou seu rosto, procurando sinais de lágrimas e culpa. Ela deu um lindo sorriso, como se nada tivesse acontecido entre eles. De fato, era como se mal o conhecesse, além do necessário para ter uma relação guia-cliente. Isso feriu um pouco seu ego, teve que admitir. Quase preferia vê-la chorando que ignorando o que aconteceu entre eles.

Foi só a ciência que Pauline o examinava com um sorriso entendedor que o tirou de seu estado quase hipnótico. Ele deu um sorriso sem graça e puxou uma cadeira para Saria.

—Bom dia, — cumprimentou-a, ignorando o desejo de chocá-la beijando sua boca perfeita. Passou várias horas no inferno pensando em sua boca.

—É um dia lindo, — disse ela e sentou na cadeira, aparentemente como se tivesse esquecido os acontecimentos da noite. —O café da manhã da Senhorita Pauline tem um cheiro delicioso. Apressei meu banho porque meu estômago não parava de roncar. — Ela soltou um beijo para a mulher.

Drake sentou na cadeira oposta à Saria. Ela estava fazendo a coisa certa, mas de uma forma perversa, ele queria sua atenção. Tinha um desejo louco de pular por cima da mesa e beijá-la só pelo simples ato de poder fazer isso. Pauline recebia beijos, mesmo que fossem soltos ao ar, mas para ele, nada.

Ele se forçou a também agir de forma casual. Se Saria agia como se fossem cliente e guia, ele também podia. —Parece maravilhoso mesmo, Senhorita Lafont. Não esperava que acordasse tão cedo e fizesse algo para que comêssemos.

—Não podia deixar que saíssem sem comer, — respondeu a proprietária. —E por favor me chame de Pauline. Todo mundo me chama assim.

Ele voltou sua atenção para a quantidade de comida espalhada na mesa, determinado a ser tão blasé[9] quanto Saria. Cuidadosamente levantou cada tampa das bandejas para olhar quais eram os pratos quentes.

—Isso é filé de peixe empanado com ovos poché[10] e molho à holandesa, — ofereceu Pauline, uma pontada de orgulho na voz.

Saria colocou um pouco no prato. —E ninguém faz isso como a Senhorita Pauline, Drake. Tem que experimentar. Tentei durante anos acertar esse prato. Estou quase lá, também, mas ainda não completamente. Preciso de mais tempo para descobrir o tempero certo.

Ele se serviu generosamente, ignorando o jeito arrastado e sexy com que ela pronunciou seu nome. —Posso ver que vou engordar aqui, — disse. —Realmente amo comer.

Pauline sorriu de alegria. —Amo cozinhar. Experimente um pouco do meu bolo de arroz crioulo. — Ela tirou a tampa de outra bandeja.

Tanto ele quanto Saria se serviram.

—Tem que experimentar um couche-couche[11], — acrescentou Saria. —É um prato Cajun tipo um mingau de milho frito, muito gostoso.

Pauline serviu café aos dois e adicionou um enorme prato com donuts recém-assados ao alcance de ambos. —O creme é fresco, — disse ela. —Vai gostar dele no seu café.

Ele sorriu. —Acho que isso quer dizer que o café é forte.

Saria assentiu. —Donuts são melhor com café au lait[12] de qualquer forma. — Ela deu um gole no líquido com um rico aroma e então abocanhou o donut morno.

Ele a olhou e seu coração quase parou. Seus olhos estavam risonhos e da cor de chocolate escuro, as manchinhas douradas brilhando com travessura. O tentador arco de sua boca tinha um traço de açúcar refinado e quase se debruçou na mesa para lambê-lo. Era tão linda para ele, tão cheia de vida, tão sexy que mal conseguia respirar em sua necessidade de tê-la.

—Está comendo a sobremesa antes da refeição. — Tentou soar sério, mas era impossível ao vê-la apreciando tanto. Ela definitivamente atacava a comida, sem medo de arruinar sua silhueta.

—Sãos as calorias, meu amigo, — disse. —Coma.

Ele de fato se inclinou na mesa, incapaz de se conter, e tirou o açúcar de sua boca com dedos gentis, demorando um pouco, encantado pela suavidade do seu carnudo lábio inferior. Os olhos dela escureceram, desejo queimando por um momento, o suficiente para satisfazê-lo.

Pauline limpou a garganta, lembrando-o que não estava sozinho com Saria. A dona da hospedaria conseguiu não sorrir para ele. Drake a cortou bem antes que pudesse mudar de assunto. —Estava comentando com Pauline sobre os barulhos horríveis que ouvi esta noite. Alguma coisa grande estava lutando com ou matando algo. Me pareceram gatos grandes.

Saria não levantou os olhos, remexendo seu guardanapo. —Isso seria estranho, Drake. Não temos mais gatos grandes no pântano. O último foi caçado em sessenta e seis, não foi, Senhorita Pauline? Lembro que mon pere nos contou o quanto foi triste.

—Há lendas, — indicou Pauline. —O marido de minha irmã e o pai dele estavam pescando quando ele era jovem e alegaram ver uma pantera, mas se viram, foi um fantasma, porque não deixou nenhum traço.

—Tem que se acostumar aos sons do pântano, — adicionou Saria. —Vou muito ao pântano à noite para trabalhar e ele pode ser um pouco sinistro.

Levantou a cabeça. —O que diabos faz no pântano à noite? — Ele olhou para Pauline para confirmar. —Ela não devia fazer isso, devia?

—Não, não devia, — disse Pauline com candura. —Que horas voltou ontem à noite? Não ouvi nada.

—Provavelmente por causa do remédio para dormir, — disse Drake esperançosamente. Se serviu de mais truta e ovos. A mulher mentia na cara dura, mas ele apreciava sua comida e não havia sentido em dispensar uma refeição daquelas.

Saria se inclinou na direção de Drake com uma risada. —Não foi o remédio para dormir, meu homem. Sou uma ninja. Ninguém nunca me ouve a não ser que eu queira que escutem. Assisti um monte de filmes sobre artes marciais, então se alguma coisa der errado, fique atrás de mim e estará a salvo naquele pântano assustador.

—Vou me certificar de fazer isso, — concordou. —Consegue pegar balas com os dentes? — Ele gostava que o chamasse de “meu homem” ao invés de “meu amigo”. Provavelmente era só modo de falar, mas aceitaria tudo que pudesse. Era bem patético procurar pelos menores sinais que estivesse tão encantada com ele quanto ele com ela, mas aparentemente se apaixonou com muito mais força que esperava.

—Ainda não adquiri essa técnica, — admitiu Saria, rindo. Se virou para Pauline. —Estava no pântano ontem, tentando tirar fotos de novo. Consegui um comprador interessado em fotos da vida selvagem no inverno. O humor do pântano é tão diferente à noite. Fiquei sentada num esconderijo por horas e morri de frio, mas não fiquei feliz com a maioria das fotos.

—Esteve no pântano ontem à noite? — exigiu Drake. —Sozinha?

Saria encolheu os ombros. —Sempre vou sozinha ao pântano à noite.

—Onde estão seus irmãos? — perguntou Pauline. —Aposto que não estavam em casa.

Saria riu. —Não importaria se estivessem. Faço o que quero. Remy está trabalhando num caso grande. Acho que Mahieu está apaixonado pela sua sobrinha, Charisse — anda a cortejando recentemente — e o resto saiu para ajudar no rio.

Pauline parecia contente. —Gostaria desse par, embora Charisse pareça um pouco frívola para um homem como Mahieu. A amo e ela é muito inteligente, mas é um pouco... — Ela se interrompeu e então sorriu. —Excêntrica.

—Mandona, — disse Saria ao mesmo tempo. Também riu. —Não se preocupe, Senhorita Pauline, Mahieu também é mandão. Podiam dar um ótimo casal. Além do mais, ela é um gênio, não é? Ninguém faz perfume numa combinação tão perfeita quanto ela faz.

Pauline sorriu mais ainda. —Ela tem mesmo um dom, não tem?

Combinações exatas de perfumes não interessavam nenhum pouco a Drake, mas a tendência de Saria em vagar pelo pântano sozinha era de supremo interesse. —Então seus irmãos simplesmente deixam você sozinha? — Drake não conseguia deixar passar o fato que ela tinha cinco irmãos e que nenhum deles estava tomando conta dela. —E vai ao pântano para tirar fotos.

—Bem, Lojos deve estar por perto, mas não o vi, — disse Saria, obviamente despreocupada. —E não são simples fotos.

Drake tinha vontade de estender os braços e sacudi-la. Ela não entendia o perigo que corria com um leopardo matando pessoas. O assassino provavelmente ficava observando cada movimento seu. —Você se arrisca para tirar fotos?

As marcas em suas costas significavam que um leopardo macho já tinha reivindicado uma posse — um macho que não tinha interesse. Saria não era o tipo de mulher que encorajaria um homem frivolamente e definitivamente estava atraída por Drake. Ele não estava interpretando mal os sinais. Seus irmãos deviam estar a protegendo. Tinham que saber que estava perto do Han Vol Dan, ainda assim nenhum deles a protegia e simplesmente permitiam que corresse por aí à noite sozinha, onde qualquer coisa podia acontecer. Estava começando a formar uma opinião muito ruim a respeito de seus irmãos.

—Fui a uma palestra certa vez de uma mulher que fotografava o pântano e ganhava dinheiro com isso. Mostrei a ela algumas das minhas fotos e ela me passou alguns contatos, lugares onde poderia vender minhas fotografias. — Saria levantou o queixo e deu um olhar que basicamente dizia que podia ir para o inferno se não gostasse disso.

Ele estudou seu queixo teimoso. É. Aquele queixo seria um problema nos anos vindouros. Ela o levantava e seu coração derretia. A mulher ia conseguir praticamente tudo que quisesse dele se fosse estúpido o bastante para deixar que soubesse o quanto o afetava. Teria que trabalhar muito para encontrar um equilíbrio entre seu espírito selvagem e a necessidade que tinha de protegê-la.

Saria o ignorou e se voltou para Pauline. —Quando os contatei, os dois disseram que pagariam pelas minhas fotos. Já consegui bastante dinheiro. Muita coisa está contando com essas fotos e quero conseguir as certas. Um dos lugares quer fazer um calendário do pântano e se eu conseguir as fotos do jeito que querem, vai significar muito dinheiro para mim. Não vou ter que caçar crocodilos.

Drake grunhiu e colocou a cabeça na mesa. O pensamento dela caçando crocodilos estava além da sua imaginação. Qual diabos era o problema dos homens da família dela?

—Posso ver as fotos que tirou ontem à noite? — perguntou Pauline.

A proprietária era sutil, decidiu Drake. Ele se endireitou e pegou outro bolo de arroz, parecendo casual, sem deixar parecer que estava considerando sacudir Saria e acusar a dona da hospedaria de ser uma completa mentirosa. Pauline não deixava passar nada, mas queria saber se Saria tirou fotos no pântano durante a briga dos leopardos. Apostaria tudo que tinha que Pauline ia insistir em ver as fotos e teria muito cuidado em examinar a impressão da data.

Saria pareceu contente. —Sério? Meus irmãos nunca quiseram vê-las. Espero horas para tirar a foto certa e quando o faço, fico tão empolgada, mas é meio que uma decepção quando ninguém quer vê-las. Se estiver falando sério, eu mostro quando voltarmos esta noite.

—Adoraria vê-las, também, — disse Drake. —Já que cresceu na beira do pântano, provavelmente viu muitas coisas incomuns que outros nunca tiveram o privilégio de ver. — Inclinou-se para ela. —É uma mulher muito fascinante, Saria. Como entrou no ramo da fotografia?

A admiração calorosa em sua voz fez com que Saria corasse e com que Pauline o olhasse de novo numa aberta especulação, mas não se importava. Tudo sobre Saria o fascinava e queria saber mais. O fato era que estava se sentindo bastante possessivo com relação a ela e não ligava muito sobre quem ficasse sabendo disso, não quando ela conseguia ser tão blasé.

Saria deu outro sorriso travesso. —Não fui exatamente o tipo de criança que amava o colégio. Não estava acostumada com ninguém me dizendo o que fazer e nos dias mais bonitos, queria ficar no pântano, não enfurnada numa sala de aula. A fotografia era a única coisa que me mantinha lá.

—Foi uma criança selvagem, mesmo, — confirmou Pauline. —Ninguém sabia o que fazer com você. Seu pere parou de ligar para as coisas depois que sua mere morreu. Ficamos todos desesperados para que criasse juízo.

Saria riu. —Sabe o que ela quer dizer com isso, não sabe, Drake? Toda boa garota Cajun deve se casar e ter filhos. Muitos filhos. E devem cozinhar, limpar e fazer tudo mais que seus homens digam que façam.

—O que mais você quer, Saria? — perguntou Pauline, genuinamente confusa. —Casar é uma coisa boa. Seu pere precisava ter colocado um pouco de juízo na sua cabeça.

—Tarde demais agora, — disse Saria com um sorriso tenso. —Ele não tinha nada a dizer antes de morrer e com certeza não tem agora.

Drake a olhou. Suas pálpebras estavam baixas, ocultando seus olhos. Seu tom se mantinha o mesmo, mas definitivamente existia uma alienação entre Saria e seu pai.

—Ele devia ter lhe dado umas palmadas de vez em quando, — declarou Pauline.

Saria sorriu, seu bom humor instantaneamente restaurado. —Eu não cozinharia para ele se fizesse isso e gostava de comer vez por outra.

—Ela atendia no bar quando tinha treze, — Pauline torceu o nariz. —E gerenciava o depósito da família. Não era certo.

—Assim todos me diziam — e mon pere. — A risada de Saria se derramou. —Não que tenha adiantado muita coisa. Até o Padre Gallagher ficou chateado com o lance do bar.

—Treze. — Drake estava chocado. —Como isso é possível? Deve haver uma idade para poder trabalhar em um bar.

—Claro que há, — disse Pauline. —O bar fica no pântano. Sem turistas ou polícia.

—Achei que tivesse irmãos. — Drake ficou horrorizado em nome de Saria. Não conseguia imaginar uma garotinha cercada por homens bêbados. Seus irmãos ausentes tinham muito pelo que responder. Podia ele mesmo lhes ensinar uma boa lição.

Saria encolheu os ombros. —Estavam fora a maior parte do tempo. E cresci em volta de vários homens que eram frequentadores permanentes do bar. Tomavam conta de mim.

Pauline torceu o nariz de forma dramática. —Ninguém tomava conta de você. Se não gostasse de algo simplesmente desaparecia no pântano e ninguém conseguia encontrá-la.

Drake ergueu as sobrancelhas. Os sotaques estavam ficando mais fortes conforme as mulheres ficavam mais exaltadas. —Realmente era uma selvagenzinha.

—Não gostava que ninguém me dissesse o que fazer. — Saria fez disso a declaração de um fato, não um pedido de desculpas.

—Oh, ela trabalhou muito, com certeza, — disse Pauline. —Cozinhava e fazia toda a limpeza daquela casa. Era uma coisinha miúda, que mal alcançava o fogão.

—Eu usava um banco, — explicou Saria.

Pauline bufou outra vez. —E também pescava e montava armadilhas.

—Faz isso parecer terrível, Pauline. Eu amava minha vida. Era minha casa e meu pântano, meu mundo. E ainda é.

—Vê? — apelou Pauline para Drake. —Sempre foi assim. Nunca importou o que alguém dissesse, fazia o que queria. Todos nos reunimos para tentar conversar com o pere dela, mas ele não deu ouvidos. Nos disse para cuidarmos de nossas vidas.

Saria soprou um beijo para ela. —E agradeço o que fizeram.

—É por isso que cada uma das mulheres que tentaram intervir acabou com um filhote de crocodilo depois de intercederem em seu benefício? — exigiu Pauline. —Ela entrou na casa delas e deixou um presente para todas — um presente bem significativo. Também recebi um.

Saria jogou a cabeça atrás e riu. Drake teve uma visão repentina de uma preciosa criança com o cabelo brilhoso de um dourado quase branco, travessa e correndo livre por aí. Achou-a mais fascinante que nunca. Sua Saria tinha que ter uma espinha de aço se enfrentou uma comunidade inteira com tão pouca idade.

—Entrou mesmo nas casas...

—Oito casas, — assinalou Pauline. —Tudo numa só noite e ninguém a flagrou.

Drake sacudiu a cabeça, incapaz de evitar gargalhar. —Invadiu oito domicílios e deixou um filhote de crocodilo em cada um?

Pauline assentiu, começando a rir da lembrança. —Ela é muito criativa essa aí. Amarrou um laço em volta dos pescoços dos crocodilos contendo um pequeno bilhete, como um pergaminho enrolado, e deixou um em cada banheiro. Ou na banheira ou no boxe do chuveiro. Todas mulheres da igreja e muito decentes.

—Aposto que isso deu muito certo.

—Tenha em mente, — adicionou Pauline. —que essas eram mulheres da cidade. Elas viviam no rio, mas não eram como nós aqui do pântano. Pode imaginar o caos que essas senhoras fizeram quando encontraram crocodilos em seus banheiros granfinos? Acho que todo mundo ouviu os gritos de uma ponta a outra do Mississippi.

Saria explodiu em gargalhadas de novo e Pauline, sacudindo a cabeça, juntou-se a ela.

—O que dizia o bilhete? — perguntou Drake.

—Espere, ainda tenho o meu, — Pauline pulou tão rápido que a cadeira balançou com o movimento.

Drake segurou a cadeira enquanto Pauline saía da sala para pegar o bilhete.

—Me lembre de não deixá-la com raiva de mim, — sussurrou Drake. —Você crê na vingança.

—Boa coisa para se saber ao meu respeito, — disse Saria. —Não gosto de ninguém me obrigando a nada, nem mesmo ma famille. Tinha que ser adulta e ninguém chegaria na minha casa e me diria o que podia ou não fazer.

—Nós estávamos tentando lhe dar uma infância, — apontou Pauline quando colocou o bilhete na mesa na frente de Drake.

—Sei disso agora, Senhorita Pauline, — disse Saria. —É por isso que disse que apreciava a intervenção. Depois, quando minha raiva passou, entendi e percebi que fizeram isso porque se importavam. Deixei um pedido de desculpas em cada casa algumas semanas depois.

Drake baixou os olhos para o bilhete esperando ver um rabisco infantil e irado. Ficou impressionado quando viu que o bilhete apresentava uma belíssima caligrafia. Levantou os olhos e encontrou os de Pauline.

—Vê por que guardei o bilhete? É uma completa obra de arte. Ela deu a todos nós filhotes para cuidarmos porque tínhamos muito tempo de sobra e ela não precisava da nossa preocupação. Disse para derramarmos nossos sentimentos de solidão no novo bebê. — Pauline se serviu de mais um copo de café e pegou um donut. —Claro que era um bebê de crocodilo, mas muito inteligente pensar nisso.

—E o que fez para se desculpar? — perguntou Drake, mais fascinado que nunca. Claramente havia muito o que aprender sobre Saria e queria saber de tudo.

—Assei para elas um pão Cajun raríssimo, uma receita que está na ma famille há anos. Embalei cada um com um lindo papel de seda que minha mãe guardou por anos, caso algo importante acontecesse, entrei escondido de novo em suas casas e os deixei nas mesas. Foi bem mais fácil que colocar os crocodilos nos banheiros.

Pauline sorriu com contentamento para ela. Era óbvio que tinham uma grande afeição uma pela outra. Drake podia entender por que. Pauline não tinha filhos e Saria não tinha pais. Naturalmente iam se atrair.

—Tem que lembrar que eu tinha muito tempo sobrando para fazer o que queria, então os assuntos que me interessavam, como cozinhar, arte e fotografia, eram com o que eu passava boa parte do tempo. Coisas que não gostava... — Ela se interrompeu com um triste dar de ombros.

—Saria caçava crocodilos durante a estação de caça, sozinha. A maioria dos homens não faziam isso, — acrescentou Pauline com um pouco de timidez.

Drake sabia que a mulher estava jogando verde. Soltou aquilo para testar sua reação. Ele se forçou a conter a primeira reação explosiva e tomou um gole de café. —Por quê? Tem vontade de morrer?

Saria encolheu os ombros. —Quando era bem nova, ia com mon pere. Todos fazem isso quando precisam de dinheiro. Consegue muitas pratas e eles os compram pelo tamanho. Acontece que tenho boa mira e não se tem um alvo grande num crocodilo. É mais ou menos do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos. O crocodilo geralmente rola e luta bastante, então tem que ter bons reflexos. Mom pere me levava quando meus irmãos estavam a serviço ou trabalhando no rio. Quando ele ficou doente e não pôde mais ir, não tinha mais ninguém. — Ela encolheu novamente os ombros. —Fiz uma roldana para me ajudar a tirar o crocodilo da água depois que o matasse.

Drake fechou os olhos brevemente, sorvendo ar. Saria estava, sem rodeios, descrevendo sua infância. Para ela era um modo de vida, não uma coisa ruim. Fez o que tinha que ser feito e não perdia tempo desejando que as coisas fossem diferentes. Mais ainda, tinha orgulho das coisas que fez e ele — ou qualquer outra pessoa — podia ir para o inferno se não gostasse disso.

Saria encarava a vida de frente e se recusava a ser intimidada por ela. Quanto mais sabia dela, mais achava sua coragem tanto assustadora quanto atraente. Uma mulher como Saria ficaria ao lado do seu homem, lutaria pelos seus filhos e pela relação, não importava quão difícil ficasse.

—Claro que fez uma roldana, — disse e colocou outra garfada de truta na boca. Tinha que admitir que o prato era incrível. —Não ficaria surpreso se andasse sobre a água, Senhorita Boudreaux.

Pauline explodiu em risos. —Não é o primeiro a dizer isso. Os meninos Lanoux ficam intimidados com ela. Estava falando com eles no posto dos correios e disseram que cortejá-la era como agarrar um crocodilo pela cauda. — Ela apoiou o queixo na mão. —E você não colocou Elie, o garoto de Amos Jeanmard, para correr? Ele parecia um homem com o coração partido quando foi embora para servir o exército.

—Eu tinha quinze anos, Senhorita Pauline, — disse Saria, rolando os olhos. —Dificilmente parti o coração dele. Joguei um vaso de flores na cabeça dele e se tivesse colocado a mão debaixo da minha camiseta outra vez, atiraria nele com meu rifle. Era um cachorro. Sempre perseguindo a coitada da Charisse também.

Pauline parecia horrorizada. —Devia ter dito aos seus irmãos.

Saria fez uma careta. —Sério? Porque ficavam muito em casa e prestavam tanta atenção em mim? Mandavam dinheiro e achavam que era o suficiente. Não iam cuidar do pere, ninguém ia. — Ela sorriu de forma travessa para Pauline. —Na época, superei os ressentimentos e fantasias infantis de ser mimada por cinco irmãos e percebi que era bem melhor não ser notada por eles. De outra forma tentariam mandar em mim. — Enrugou o nariz. —Mais ou menos como fazem agora.

Pauline assentiu com a cabeça. —É verdade, cher, seu pere era um bêbado nojento.

Drake suprimiu um gemido. Se seu pai era um bêbado nojento, por que todos achavam que estava tudo bem com Saria tendo que aguentá-lo sozinha? O que diabos estava errado com todo mundo?

O olhar de Saria encontrou o dele. —Ele nunca encostou a mão em mim.

Havia um humor dissimulado em seu tom. Não estava mentindo exatamente, mas com certeza não dizia toda a verdade.

Pauline a olhou com severidade. —Ele bateu em você, criança?

—Só quando conseguia me pegar, o que não acontecia com muita frequência, e então eu ia embora por dias. Ele não conseguia muito o que comer. Aprendeu rápido a não se importar, não importava o quanto estava bravo. — Saria sorriu para ela, sem ligar que seu pai tivesse lhe dado surras de vara.

—Agora é um pouco tarde para perguntar isso a ela, — disse Drake, sem se desculpar pela raiva e acusação em sua voz. Malditos todos, deixando uma criança sozinha com um pai bêbado no pântano. —Onde diabos estavam as mulheres da igreja?

Saria se inclinou na mesa e colocou uma mão em cima da dele. —Não fique chateado. Eu não estou. Tive uma infância incrível. Pere me amava. Ele se afogou em pesar depois que ma mere morreu. Não fui a criança mais fácil de se criar.

Não, Drake tinha que concordar que ela provavelmente não foi fácil de criar, não com sua necessidade de independência e sua vontade de ferro. Saria Boudreaux era uma em um milhão. Não pensou em reclamar com alguém sobre seu pai ou sobre o quanto trabalhava. Lealdade era uma grande parte dela, mesmo pelos seus irmãos ausentes. Não delatou Elie Jeanmard quando podia ter lhe dado um enorme problema. Se seu pai se importava como dizia, e era leopardo, como devia ser — Elie seria surrado quase até a morte por ter tocado em Saria contra sua vontade.

—Devia ser protegida. — Qualquer covil de leopardos sabia que suas mulheres eram de fundamental importância.

—Meu pai me ensinou a cuidar de mim mesma, — disse Saria, —e eu o agradeço por isso.

—Ouvi que Elie e sua irmã, Danae, estão em casa de férias, — disse Pauline. —Minha irmã me disse que foram ao posto dos correios quando ela estava trabalhando. Iris disse que Elie está muito bonito e claro que Danae está linda. — Ela se inclinou e abaixou a voz, como se revelando um grande segredo. —Danae está saindo com um rapaz na universidade e Amos e Elie estão muito descontentes com isso. Acham que é sério.

—Pobre Danae, — simpatizou Saria. —Prefiro bem mais mon pere que o dela.

—Saria, — Pauline chiou seu nome. Saria só riu enquanto pegava outro donut.

—Você tem uma queda por ele, — acusou. —Ouvi um rumor que Amos andou parando aqui para jantar, mas não acreditei até agora. Me conte tudo, Senhorita Pauline.

Bandeiras gêmeas rubras acenderam as bochechas de Pauline. Ela se abanou. —Amos Jeanmard era o garoto mais bonito da escola. Bem... ele e Buford Tregre. Iris estava completamente apaixonada por Buford. Planejávamos nos casar, mas as famílias deles se opuseram — ferreamente. — Ela encolheu os ombros. —Buford deixou Iris e ela ficou arrasada. Ficou trancada no quarto por dias chorando e então Bartheleme Mercier começou a ligar. Bartheleme desafiou seu pere e casou com Iris, mas Amos não conseguiu enfrentar sua família. Ela era grande e muito devota, e o mundo inteiro dele.

Ela parecia tão triste que Drake quis confortá-la. Seu amor por Amos Jeanmard obviamente nunca morreu.

Pauline conseguiu dar um sorriso triste. —Bem Romeu e Julieta. Eu nunca me casei. Amos sim e teve dois filhos. Era muito fiel à sua esposa, mas me visitava frequentemente e nos sentávamos e conversávamos na varanda. Não ousávamos entrar na casa. Depois que sua mulher morreu, ele começou a me cortejar de novo. Aprecio suas visitas, mas nós dois já temos nossos próprios caminhos. Ele ama o pântano e eu amo essa minha casa. — Ela encolheu os ombros. —Estou muito velha para mudar de vida agora. Sentimos falta do tempo que passamos juntos, mas não temos arrependimentos.

—Sempre me perguntei por que nunca se casou, — disse Saria.

—Eu o amava. Ainda o amo, — disse Pauline simplesmente. —Não houve outro homem para mim.

Ela não era leopardo, mas foi a mulher que Amos amou. Podia ter sido leopardo em outra vida? Era possível. Se as famílias eram antigas e conseguiam traçar suas linhagens em centenas de anos, podiam ter casado entre si, como Bartheleme Mercier obviamente fez — casando com pessoas que não eram da espécie dos shifters. Isso não teria sentido sem uma vasta gama genética disponível.

Drake suspirou. O mundo era um lugar grande e havia poucos shifters restantes. Encontrar a companheira de um era, no mínimo, difícil. Pauline podia ser a companheira verdadeira de Amos Jeanmard, mas sua alma estava agora no corpo de alguém que não era shifter e Amos escolheu colocar a espécie acima de suas próprias necessidades. Drake não sabia se isso era uma coisa boa ou não. E a mulher de Jeanmard? Leopardos farejavam mentiras. Ela podia muito bem ter vivido uma vida infeliz sabendo que não a amava realmente.

Ele olhou para o outro lado da mesa, onde Saria estava. Podia ver a compaixão e a empatia por Pauline em seus olhos. Ele queria colocá-la nos braços e abraçá-la.

—É bom pensar em envelhecer com alguém, — apontou Saria. —Talvez ele ficasse feliz sentado na sua varanda com você. Ainda podia sair para o pântano sempre que quisesse. Pode discutir isso com ele antes que decida alguma coisa.

Pauline forçou uma risada e olhou para Drake. —Isso da garota que não quer nada com casamento nem filhos.

Os olhos de Drake encontraram os de Saria. Era muito bom que ela se acostumasse com a ideia de casar e ter filhos porque como ele avisou, uma vez que reivindicasse sua posse, não havia retorno. O que ela pensava — que quando sua leopardo estivesse pronta, teriam sexo selvagem e ele iria embora em seguida? Suprimiu um grunhido. Ela provavelmente achava isso. Maldição. Devia ter sido mais específico.

Prendendo o olhar no dele, Saria deu de ombros. —Na minha experiência, Pauline — e tenho cinco irmãos — homens costumam ser muito mandões. Algumas das minhas amigas são casadas, e acredite em mim, as que ficam em casa são definitivamente manipuladas.

Pauline jogou as mãos para o ar e falou num Francês-Cajun por alguns minutos. Saria não se abalou. Fez uma careta para a dona da pousada. —Acabou de dizer que estava velha demais para mudar seus hábitos, o que significa que está com medo que ele mande em você. — Olhou com raiva para Drake. —Homens são arrogantes e mandões e acham que estão sempre certos.

Drake sorriu de forma rápida e impertinente, parecendo mais um lobo que um leopardo. —Talvez os homens em sua vida não tenham finesse.

—Está vendo? — Saria recuou fisicamente como se ele tivesse invadido seu espaço. —Isso é arrogância. E noto que não nega ser mandão e arrogante.

—Claro que não. Não tenho o hábito de mentir. Tenho confiança em minhas habilidades ou seria um péssimo líder, não acha?

—O que exatamente você lidera? — perguntou Pauline.

Tinha que admitir. Ela não era somente esperta, mas extremamente rápida. —Tenho um time de campo. Vão me encontrar aqui em alguns dias. Umas semanas atrás um barco bateu num poço abandonado de petróleo e arrancou a tampa. Represento a empresa de Jake Bannaconni. Ele quer saber o dano exato ao ambiente e como melhor repará-lo. O senhor Bannaconni tem uma afeição especial por essa área e quer mantê-la tão pristina quanto possível. Assim que eu determinar a extensão do dano, posso formular um plano e meu time virá para me ajudar com ele. O senhor Bannaconni implementará o plano assim que completarmos o estudo.

—Conheci o avô dele, — disse Pauline. —Um bom homem.

—Nunca tive o privilégio, mas o sr. Bannaconni fala muito bem dele. — Ele se levantou quando Saria o fez. —Obrigado pelo maravilhoso café-da-manhã, Pauline. Estava delicioso. Saria, quando formos atravessar o pântano se importa em indicar a propriedade dos Tregre?

Houve um momento de silêncio como se ele tivesse derrubado uma enorme bomba. As duas mulheres se olharam com desconforto.

—Por quê? — Saria e Pauline perguntaram ao mesmo tempo.

O encolher de ombros de Drake foi casual, mas seu radar gritava um aviso. —Um amigo meu tem parentes com esse nome nessa área. Não lembra deles, mas achou que eu poderia me deparar com alguém com esse nome.

—Não ia querer que isso acontecesse, — disse Saria. —Não queremos pôr os pés na propriedade deles.

Ele levantou uma sobrancelha. —Achei que se davam bem com todos os vizinhos.

—Nos damos bem com eles, — confirmou Pauline, —porque não os importunamos.

Drake deu de ombros. —Sem problemas. Só disse a ele que ficaria de olho. Vou pegar minha bolsa, Saria, com meu kit de testes. Volto já.

—Vou arrumar o barco, — disse ela. —Vou levar comida, água e ferramentas só por precaução. Encontro você lá em dez minutos. — Ela pegou um último donut e saiu da sala.

Drake a observou ir. —Ela com certeza é linda.

—E nunca esqueça que tem cinco irmãos, — alertou Pauline.

—Terei isso em mente, — disse com um sorriso quando começou a sair da sala. Voltou-se. —Outra coisa, Pauline, e estou meio envergonhado a respeito disso. Na noite passada choveu um pouco na minha varanda. Me despi e deixei minhas roupas e sapatos no parapeito. Não queria molhar o chão e achei que os pegaria de manhã, mas sumiram. Procurei no pátio, mas não os encontrei.

Pauline deu um sorriso que não alcançou seus olhos. —Os malditos guaxinins carregam qualquer coisa. Devia ter avisado você sobre deixar as coisas do lado de fora.

 

Sair da pensão era como entrar num outro mundo. Tudo era cinza e assustador. O som era abafado pela grossa neblina fantasmagórica que flutuava sobre a água e soprava por entre as árvores. Drake fez seu caminho até o barco e arrumou suas coisas. Saria parecia competente no leme, uma pintura viva em sua calça jeans e moletom frouxo que cobria seus braços esbeltos enquanto indicava que sentasse e os levava pela água. Drake esperou até que ela manobrasse pela pequena seção do lago e voltasse pelo canal até o pântano. Ciprestes se erguiam como se guardassem a terra do outro lado da água, cheia de algas flutuantes. A neblina matinal parecia particularmente densa acima da água, e não disse nada que pudesse distrai-la enquanto levava o barco por um labirinto de canais e baías, entrecruzando as árvores altas até parecer estabelecer uma velocidade contínua.

—Antes de irmos para Fenton’s Marsh, gostaria de ver um pouco do pântano que Fenton arrendou para as sete famílias. Vai me ajudar a entender melhor essas pessoas.

Saria o olhou. —Como? Pântano é pântano em todo lugar.

Ele sacudiu a cabeça. —Cada leopardo é diferente e seu território me dirá muito sobre ele.

Ela encolheu os ombros. —Sem problema, mas mais cedo ou mais tarde alguém vai nos avistar e pode haver confusão.

—Então eventualmente vão nos ver.

—Muito provavelmente.

—Nesse caso, pare o barco. — Colocou um tom de comando na voz.

Ela franziu o cenho, mas obedeceu, diminuindo a velocidade até parar o barco. Este parou na água com o motor ocioso enquanto os dois se encaravam. A chamou com o dedo. Sua testa franziu ainda mais, mas foi até ele, desenrolando com facilidade o balanço do barco que os sacudia de um lado para o outro.

Drake apertou os dedos na frente de sua camisa e a puxou, forçando-a a se abaixar em sua direção. Ela pôs uma mão em seu ombro para se aprumar. Ele não parou de puxar, pressionando gentilmente até que seu rosto estivesse praticamente colado ao dele.

—Não me beijou esta manhã. — Sussurrou as palavras contra seus lábios e antes que pudesse responder, tomou posse de sua boca.

Quando tocou Saria, o mundo acabou, deixando apenas os dois como as únicas pessoas com vida. Para um homem que sempre estava no controle, era um pouco assustador desaparecer dentro de sua boca, do seu sabor exótico, de se perder tão completamente numa mulher. Tinha começado o beijo pensando em reafirmar sua reivindicação dela, talvez abalar só um pouco sua calma, mas o beijo se transformou em algo completamente diferente.

A luz do sol explodiu por trás dos seus olhos. Fundiu-se a ela. Dentro dela. Flutuou com ela pelo céu. Esqueceu onde estavam. Só havia Saria e sua pele macia, e sua boca quente. Beijou-a sem cessar. Dividiu respirações. Que viraram ofegos rasgados. Estavam voando. Pairando. Trouxe-a mais perto, moldando-a nele para que ficasse confortável no berço do seu quadril. O movimento balançou o barco, então ele teve que equilibrar ambos. De mau grado ergueu a cabeça, chocado por ter ficado tão perdido no céu de sua boca.

Saria colocou a testa na dele, as duas mãos em seus ombros. —Então isso é real. — Seus olhos estavam arregalados com um tipo de choque confuso que achou lindo.

—Muito real, — concordou. —E não quero que esqueça disso.

—É um pouco assustador, — admitiu.

Circulou seu rosto com as mãos. —Sei que é, Saria. Sei que estou pedindo muito pedindo a você que confie em mim, mas vou achar uma saída para nós em tudo isso. Não vou decepcioná-la.

Ela estudou seu rosto por muito tempo. Ao redor deles, a água batia gentilmente no barco quando um grande pássaro levantou vôo, o som das asas surpreendentemente alto quando a criatura se lançou no ar. Podia ler o medo em seu rosto — mas também determinação. Sua mulher não fugiria, não como os pássaros em volta deles; iria até o fim não importava o quanto estivesse com medo. Cada demonstração de coragem adicionava mais uma amarra em seu coração.

Drake deslizou uma mão naquele cabelo sedoso, juntando-o nas mãos. —Eles não vão desistir facilmente, Saria. Tem que saber disso. Essa comunidade é pequena. Cada fêmea é valiosa. Amos Jeanmard sacrificou sua própria felicidade por seu povo. Acredito que seja seu líder, mas não está mais os mantendo unidos como fez um dia. Mais cedo ou mais tarde um leopardo mais jovem desafiará seu direito de liderança. Em qualquer caso, ele vai esperar que fique em seu covil e se junte a um dos machos daqui para preservar a linhagem dos shifters. Se um macho mais novo desafiá-lo, pode designar que outros a recuperem.

—E você lutará com todos eles.

—Tenho uma experiência que eles não têm. E meu time chegará em breve. São todos experientes em lutas.

—São meus amigos e minha família, — assinalou Saria.

Ele roçou os lábios gentilmente sobre os dela. —Sou um líder, Saria. Nós não sacrificamos nossa própria espécie sem necessidade. Farei o possível para não permitir que isso fique fora de controle, mas não irão tomá-la de mim.

Ela lambeu o lábio inferior, traindo seu nervosismo. —Eu nunca... — Se interrompeu. —Pode ficar bem desapontado.

Seu coração parou de bater por um segundo. —Nunca?

Ela sacudiu a cabeça. —Crescendo aqui, todo mundo parece seu irmão. Eu não sinto nada além de afeição por eles. Nenhum… fogo. — Seu olhar encontrou o dele de maneira firme. —Como com você.

Queria envolvê-la nos braços e confortá-la. Ela estava lutando para aceitar sua leopardo, a química entre eles e sua lealdade perante seu covil. Não via seu covil como seu ainda, mas ele sabia que essa era uma enorme parte de sua preocupação. Era um verdadeiro estranho para ela, um com o qual sentia uma extraordinária química, um que confiava instintivamente, mas não sabia se pensava muito nisso. Aceitou que transariam, mas não estava se permitindo pensar no que havia além disso.

—Não vou ficar desapontado, Saria. Muitos homens tem um desejo egoísta de saber que sua mulher é só sua. Não sou diferente.

Ela franziu o cenho. —E se eu fosse experiente?

—Teria colhido os benefícios. De qualquer forma, eu ganho. — Ele roçou a boca de novo. Amava a sensação dos seus lábios cheios e macios.

—Não acho que vão haver muitos benefícios tal como é. Embora ache que minha leopardo seja uma tremenda safada.

Ele riu. —Ela não vai ter problemas com isso, mas talvez então seja melhor irmos um pouco devagar da próxima vez que ela se empurre para a superfície, e não ficará tão chocada com ela.

—Tem como ser devagar? Cada vez que me toca, sinto como se estivesse queimando.

A honestidade nela era surpreendente. Achava-a perfeita. Saria não era tímida nem retraída, e abordaria sexo e paixão como fazia com todo o resto.

Ela explodiu em risos, os dedos se apertando em seus ombros. —Está me olhando como se eu fosse uma coisa muito especial. Não tem ideia de como eu sou.

Ele deu um sorriso breve. Não o conhecia também. —Essa não é a parte divertida? Aprender um sobre o outro? Já sei que devo olhar antes de entrar no chuveiro ou numa banheira, no caso que me dê algum presente.

—Aprende rápido, — disse e voltou para seu lugar no barco.

Não pôde evitar admirar o jeito que ela se movia naquele jeans apertado. Era muito fluida. Sua leopardo esteve por perto na maior parte de sua vida, talvez sem seu conhecimento, mas sua coordenação era boa demais, seus reflexos muito rápidos. Ela almejava a liberdade e a selvageria do pântano quando a maior parte das mulheres rejeitariam o ambiente bastante úmido e perigoso. Teve sucesso, vivendo da terra e aprendendo a evitar os perigos.

Havia pássaros em todo lugar, garçotas altas caminhavam graciosamente pelas águas mais rasas. Outros pássaros menores voavam de galho em galho. Cada um chamava, cantava ou ralhava enquanto procurava por comida na névoa fria e cinzenta. O sol começava a levantar, transformando o pântano inteiro em sombras de dourado e vermelho, abafadas pela densa neblina.

—Essa área começa o arrendamento dos Tregre, — disse Saria. —Eles tem nove mil acres e pode ver o quanto é selvagem. Provavelmente é a vegetação mais densa do pântano. Essa seção de vegetação nunca foi derrubada. A vegetação é original.

—Me fale sobre eles.

Ela o olhou rapidamente e então voltou sua atenção para o percurso. —São uma das famílias mais antigas. O avô, Buford Tregre, era um homem cruel e feroz. Bebia muito e batia até se cansar em seus três filhos e mulher. Diziam que também abusava das suas noras, mas isso foi abafado bem rápido. Ele morreu alguns anos atrás, mas não antes de causar muito dano à família. Há uma garota com mais ou menos a minha idade, mas ela nunca sai da propriedade. Dois dos seus filhos ainda vivem lá, as esposas foram embora muito tempo atrás. O avô não permitia que levassem seus filhos. Então a garota e pelo menos dois rapazes vivem lá, mas não os vemos muito, um pouco mais depois que o velho morreu. Um irmão foi morto. De novo, há um boato não confirmado que morreu fugindo com a esposa e com o filho e que o velho o matou.

Drake tinha muita ciência do grau de depravação que um shifter poderia se afundar, caso não controlasse seu animal com pulso firme. Temperamento e luxúria podiam ditar facilmente suas vidas. Parecia que o líder do covil permitiu que o clã Tregre vivesse de fora das suas leis. Se o avô era corrupto, certamente seus descendentes podiam se tornar assassinos. A mãe de Joshua Tregre levou o menino de volta para a floresta tropical e nunca disse uma palavra ao seu povo sobre o motivo de seu retorno. Suspeitava que foi o pai de Joshua que morreu ajudando sua família a escapar do velho.

Drake estudou as vinhas selvagens e enroscadas e o arbusto espesso entre as árvores. Dois homens — irmãos — que levavam surras do pai e despachavam suas mulheres, viviam ali com dois filhos e uma filha. Viviam basicamente isolados naquela selva emaranhada de plantas e árvores. A não ser que uma queixa fosse prestada, ninguém se aventuraria naquele pântano para dar uma conferida na família.

O covil era bem maior do que imaginou. Cajuns colocavam a família sempre em primeiro lugar, e os shifters que se estabeleceram séculos atrás abraçaram essa filosofia e estilo de vida. Definitivamente precisaria de seu time e teria que pedir que viessem rápido. Assim que soubessem que havia reivindicado Saria, o covil de Louisiana se prepararia para a batalha. Se fossem tão indisciplinados e fora de controle quanto pareciam, haveria mais problemas do que esperou inicialmente.

—Me leve mais perto.

Ela olhou devagar e com cuidado em volta. —Não podemos entrar na terra deles. Podem decidir atirar em nós, — alertou, mas manobrou o barco tão perto quanto podia sem adentrar o emaranhado confuso de raízes.

Drake usou seus binóculos altamente poderosos para estudar o lugar. Havia vários sinais sinistros de “não ultrapasse”. Cada um declarava claramente que violadores seriam baleados. Aquilo dava conta de visitantes humanos. Estudou as árvores. Marcas de arranhões eram visíveis na maioria delas. Inalou e farejou a demarcação de território pungente do leopardo macho, alertando outros de seu domínio. Havia moitas de folhas erguidas de lugar em lugar. O macho esteve ocupado, determinado a assegurar que nenhum outro macho entrasse em sua terra.

—Qual é o arrendamento vizinho da família Tregre?

—A terra dos Mercier beira a deles e temos um cantinho do nosso arrendamento que faz fronteira com o deles. Remy proibiu todos os meus irmãos de irem lá — e eu, especialmente.

—Deu ouvidos a ele?

—Todos dão ouvidos a ele. É muito parecido com você, fala mansa, mas dá pra ver o aço por baixo. — Encolheu os ombros, manobrando o barco numa curva e mais uma vez se aproximando dos ciprestes com suas raízes nodosas se projetando acima da superfície da água.

—Foi até lá. — Declarou como um fato. Estudou o perfil do seu rosto com os olhos cerrados. É, ela definitivamente visitou o lugar onde as duas propriedades se encontravam. Iria lhe dar um trabalho terrível.

Saria riu. —Claro que fui, mas realmente escutei meu irmão. — Por um momento seus olhos brilharam com travessura.

—E? — incentivou.

Deu-lhe um olhar velado por baixo dos cílios compridos. —Fiz amizade com Evangeline, a filha, e nós nos encontramos às vezes e saímos juntas.

Ele fechou os olhos brevemente, tentando não imaginar o que poderia ter acontecido se fosse pega pelo avô de Evangeline. —Lá na propriedade?

—Eu disse, ela não sai de lá — nunca.

—Nem pelo menos para ir à escola?

—Foi educada em casa. Eu levava livros para ela às vezes.

—E seus irmãos não sabem.

—Claro que não. Remy ficaria bem bravo. Evangeline é diferente e muito sozinha. Não vi mal em manter nossa amizade em segredo.

—Se o velho morreu alguns anos atrás, por que ela ainda tem que esconder que a conhece?

Saria deu de ombros. —O pai dela e o tio podem não gostar, é só isso. Não queremos arriscar que proíbam nossa amizade.

Ele suprimiu um gemido. A teimosa tendência de Saria em ser independente deve ter deixado seu pai louco. Ela fazia tudo do seu jeito, e poucas coisas pareciam a deter — nem mesmo o perigo.

Ela apontou para um banco de lama. —Vê aquilo, como a lama tem essas marcas de deslizamento. São de crocodilo. Eles também têm territórios. Podem ficar bem grandões e são bem perigosos, Drake. Se vai andar pelo pântano ou pelos canais, tem que ter consciência dos predadores.

Ele a olhou de forma aguda. Estava lhe dizendo que podia tomar conta de si mesma — e provavelmente podia, na maioria das circunstâncias. —Às vezes há predadores ao seu lado por anos, docinho, e não consegue vê-los.

Seu olhar encontrou o dele, o prendeu e o manteve até que o desviou. —Amos Jeanmard arrenda essa propriedade, — disse. —Ama pássaros e me permite fotografar aqui sempre que quero.

Drake podia ver porque ela ia querer tirar fotos. Jeanmard tinha um pedacinho de paraíso. Pássaros de todas as cores voavam pelas árvores. Outros voavam mais acima em enormes bandos coloridos. Viu falcões e gaviões e todo tipo de pássaro.

—Estava aqui na primeira noite. Montei um esconderijo para tirar uma série de fotos de corujas, — disse Saria. Assentiu em direção ao lago. —O começo de Fenton’s Marsh é ali.

A névoa foi vagarosa em desaparecer, mesmo com o brilho do sol laranja a golpeando. Mal conseguia ver a curva da terra a que ela se referia.

—Só pude ver a luz de dois barcos. Alguém gritou. Foi bem assustador.

Suspirou. —Pelo menos sabia que devia sentir medo, embora isso não tenha a impedido de sair para investigar.

Ela encolheu os ombros, sem se deixar abalar pelo seu julgamento. Voltou sua atenção para a propriedade de Jeanmard. Havia reveladoras pilhas de folhas e as marcas de garras. Estas eram bem grandes e profundas, mas menos frequentes, como se o leopardo residente tivesse menos a provar. Estudou os arranhões profundos por alguns momentos. Em três das árvores, um segundo leopardo havia arranhado com força três das marcas de Jeanmard. Um desafio, então.

Drake não estava surpreso. Só das pequenas observações durante a briga da noite anterior e com o que Saria disse, podia ver que o covil estava numa necessidade desesperada de liderança. Jeanmard deu tudo ao seu covil e queria se aposentar. Queria sentar na frente do terraço com a mulher que amou por anos e dar um fim às suas obrigações para com os shifters.

—O que foi? — perguntou Saria.

Teria que lembrar que ela era rápida e observadora. Passou o binóculo. —Dê uma olhada nos arranhões naquelas árvores.

—Eu costumava vê-los em casa e nas árvores em volta da nossa propriedade. Mon pere lixava as paredes para tirá-los. O que são? — Saria devolveu o binóculo.

—Um leopardo macho marca seu território. Como humanos podemos adentrar o território e isso não é considerado um desafio, mas se eu me transformar em leopardo e entrar, ele teria o direito de me atacar. Notou uma segunda marca?

Ela franziu o cenho e tirou o binóculo de suas mãos outra vez para estudar os arranhões. —Ela é um pouco diferente, não é tão alta.

—Exatamente. — Não pôde evitar sentir uma onda de orgulho e admiração por ela. Poucas pessoas teriam visto a segunda marca mesmo se apontadas para elas. Seus anos no pântano afiaram sua habilidade de observação.

—O que ela quer dizer?

—Todo covil tem seu líder. Acredito que Jeanmard vem sido o líder desse aqui por muito tempo e quando sua esposa morreu alguns anos atrás, quis sair de cena. Acho que alguém o desafiou.

Saria sentou de novo no barco e estudou seu rosto. —Acha que tem algo de errado por aqui, não acha?

—Sim. Acho que o covil precisa de liderança forte e ninguém se habilitou em assumi-la. Quem quer que esteja competindo pela posição agora, não está decidido. Seus arranhões não são tão profundos quanto deveriam ser, nem cobrem toda a extensão dos de Jeanmard.

—Cresceu sabendo de tudo isso, não foi?

Assentiu. —Já vi o bastante aqui, vamos continuar. Gostaria de checar mais algumas propriedades. Posso ser capaz de combinar as marcas e dizer quem está desafiando a liderança de Jeanmard. Se soubermos quem é, você pode me fornecer informações a respeito.

Ela franziu o cenho. —Como isso vai nos ajudar a pegar quem quer que esteja matando pessoas?

—Vamos precisar da colaboração do covil. Só podemos conseguir isso através do líder.

—E se...? — Ela se interrompeu e mordeu o lábio com força, virando o rosto.

—Por que persiste em achar que o assassino pode ser um dos seus irmãos? — perguntou. —O que não está me contando, Saria?

O barco deslizava pela margem, dando-lhe uma ótima visão das plantas e pássaros. O sol queimava lentamente a névoa, até erguer aquele véu acinzentado, revelando a verdadeira beleza da região selvagem. Para um homem que precisava de um ambiente indomado da mesma forma que precisava respirar, o pântano era algo de uma magnificência absoluta.

—Reconheci as garrafas próximas aos dois últimos corpos, — admitiu Saria relutantemente, enquanto acelerava mais para levá-los à próxima locação. —Nós produzimos nossas próprias bebidas e usamos garrafas bem distintas. Eram nossas.

—Mas vocês tem um bar onde todos os seus vizinhos vão, certo? Todas as famílias que arrendam as terras de Jake Bannaconni frequentam seu bar?

—Sim, até mesmo a família Tregre. Aqui é o mais perto que posso te levar da terra dos Lanoux. A propriedade deles tem um formato de V. Fica ao lado da nossa.

O leopardo de Drake rugiu em protesto. Sentiu uma explosão de calor pelo corpo. Sua mandíbula doeu e teve que virar o rosto da direção de Saria. Aquela informação o perturbou. Não deveria, mas o pensamento de Robert e Dion crescendo perto de Saria deixou seu leopardo numa espécie de fúria. Sentiu as garras o rasgando e uma necessidade terrível de destruir seus inimigos. Respirou até que a necessidade de caçar passasse e se forçou a estudar as árvores.

Saria diminuiu a velocidade do barco para permitir que encontrasse as marcas nas árvores. Fixou as poderosas lentes num dos ciprestes mais altos à beira do pântano. Reconheceu instantaneamente que haviam duas marcas distintas por cima de uma versão mais antiga — possivelmente do pai deles — e uma era do desafiante de Jeanmard.

Os pelos de sua nuca se eriçaram. O vento soprava para longe da terra, levando todo cheiro com ele, mas sabia que havia alguém os observando. Mais de uma vez houve um rifle de longo alcance mirado nele. Tinha a mesma sensação no momento, aquela coceira no meio das costas. Manteve o binóculo nas árvores.

—Tire-nos daqui, Saria, — ordenou.

Ela estremeceu, como se um arrepio passasse por sua espinha. Aumentou a velocidade e o barco virou de volta para o centro do canal. —Tem alguém nos vigiando.

—Não o vi, mas com toda certeza senti, — disse Drake.

—Não quero mais fazer isso, Drake. Acho que coloquei você numa posição terrível.

—Está quase na hora do almoço, Saria. Vamos achar um lugar para comer e relaxar. — Não a queria fugindo dele agora. Achava interessante que temesse mais por ele que por si mesma.

—Liguei para Charisse na noite passada e perguntei se podíamos fazer um piquenique em sua propriedade. Ela tem a terra mais firme daqui e conheço alguns lugares que são escondidos e lindos, — concordou. —Eles arrumaram uma seção só para piqueniques com a ideia de um dia trazer turistas para visitar os jardins, embora não a tenham levado adiante.

A paisagem mudou de árvores, arbustos e grama para campos e campos de flores coloridas e plantas exóticas. Drake levantou para conseguir uma vista melhor. Acres de flores competiam por espaço. O vento gentil as movimentava, produzindo ondas de cores hipinóticas, roxas e azuis dando lugar a amarelos, laranjas e vermelhos ofuscantes.

—Os jardins dos Mercier, — disse Saria, respondendo à sua pergunta muda. —Conseguem cultivá-las por mais tempo que as flores selvagens. Acho que usam calefatores como nos vinhedos. — Ela riu quando disse isso, meio séria e meio brincando. —Tem todos os tipos de flores que possa imaginar, nativas da Louisiana e exóticas.

—Nunca vi tantas flores. Devem ter uma demanda enorme.

Saria assentiu um pouco orgulhosa. —Charisse é mesmo um gênio e tem habilidades de olfato incríveis. Um cliente vai à sua loja e ela consegue elaborar um perfume individual tão incrível que ninguém pode competir com ela. Ela realmente conseguiu se fazer e fico feliz por ela. Não tem o melhor talento social, honestamente, mas seu irmão Armande compensa isso. Todo mundo gosta dele. Ele atende na loja e cuida dos pedidos e das encomendas e ela cria as fragrâncias e cuida do laboratório. Claro que os jardineiros cuidam das plantas. São um time grande, embora a estufa e os híbridos sejam todos cultivados por Charisse.

—Com uma produção grande assim, devem ganhar bem.

—Exportam para o mundo inteiro, — confirmou Saria. —E Charisse é generosa com a comunidade. Coloca dinheiro na escola e a mantém para que as crianças não tenham que se transferir para longe quando o estado fecha as escolas menores.

Ela levou o barco para um pequeno píer, amarrando-o na estrutura de madeira. Drake não tinha certeza se o píer aguentaria seu peso, mas Saria pulou nele, levando uma enorme e enfeitada cesta de piquenique e uma manta grossa consigo.

A seguiu, consciente da madeira balançando de modo preocupante debaixo dele enquanto se apressava atrás dela. O chão era esponjoso, o solo de uma cor rica e escura.

—Devem ter acres de flores.

—Têm todos os tipos de plantas. Muitas delas nativas da Louisiana, como a orquídea rosa barbuda, Susan olhos castanhos, madressilva e sálvia azul. Outras, não nativas, são cuidadosamente controladas, como a lavanda, papoulas, e claro que tem todo tipo de plantas e gramas, muitas para nomear. Charisse mandou os jardineiros fazerem um tour comigo uma vez. As crianças da escola vêm uma vez ao ano aos jardins e vêem como o perfume é extraído das plantas e como é feito. É tudo muito interessante.

Drake estava mais interessado nas árvores altas nas margens rasas do pântano e nas marcas de garras nelas. Saria sabia onde estava indo e seguiu por uma trilha estreita até um ponto plano acima da linha da água onde colocou a manta e indicou que podia sentar.

—Não tem que me dar almoço, Saria.

Ela riu enquanto abria a cesta de piquenique. —Não, não preparei o almoço, embora a Senhorita Pauline seja uma romântica incurável e quisesse que eu dissesse que preparei. Ela tem certeza que o caminho para o coração de um homem é pelo seu estômago. Fez tudo isso aqui e queria que eu levasse o crédito.

—Ela devia te conhecer melhor, — disse Drake. —De jeito nenhum levaria o crédito se não foi quem fez.

—Nem pelo menos para te impressionar? — provocou.

—Sabe que não tem que me impressionar. Fiquei impressionado na primeira vez que abriu a boca.

Ela ergueu a sobrancelha. —Que abri a boca? Não foi pela minha beleza?

—Há muitas mulheres bonitas no mundo, Saria, e você é certamente uma delas, mas sua coragem e honestidade é um prêmio muito além de qualquer coisa. Isso e sua lealdade.

—Não me sinto muito leal levando você até o pântano, — respondeu numa voz baixa enquanto passava uma garrafa de água fria.

—O que deveria fazer, Saria, deixar que ele continue matando? Mais cedo ou mais tarde mataria alguém que conhece. Alguém que ama.

—E se for um dos meus irmãos? — Sua mão tremeu quando passou um sanduíche.

—Acho que é seguro dizer que se fosse um dos seus irmãos, o resto deles saberia e já o teria impedido. Costumamos vigiar os nossos.

—A razão pela qual o leopardo macho não me marcou corretamente pode ter sido porque aquilo foi um aviso, não seu leopardo tentando fazer com que a minha o aceitasse, — assinalou.

Ele pegou o sanduíche com um aceno de obrigada e passou um braço ao seu redor. —Saria, sua leopardo não aceitou o dele. Ela não veio à superfície procurar um companheiro em potencial. Ela não o quis. E aquele leopardo macho provavelmente não tem nada a ver com recado. Achou que era um aviso, mas ele teria parado depois de arranhar suas costas. Deve ter feito isso por seu leopardo estar furioso, mas ele mordeu seu ombro na esperança que sua fêmea ganhasse o controle sobre você.

—Tem muita coisa nesse negócio de leopardos que não entendo, — disse, se inclinando um pouco, buscando conforto.

—Dê um tempo. Só estamos começando. Sua leopardo recuou e ficou escondida por muito tempo. Está perto da emergência, mas não exatamente lá ainda, e acredite em mim, se algum leopardo macho a pressionar, vai revidar ferozmente.

—O que vamos fazer agora?

—Quero ver o pântano onde encontrou os corpos e depois acho que preciso fazer uma visita aos seus irmãos.

Ela ficou rígida como uma vareta. —Não acho que seja uma boa ideia.

—Não vou agir pelas costas deles, Saria. Preciso falar com eles sobre nós.

—Sou adulta. Não é assunto deles o que faço. — Levantou o queixo.

Drake se inclinou na direção dela, roçando seu queixo com um beijo leve. —Vão pensar de forma diferente. Nunca respeitaria um homem que tentasse roubar minha irmã ao invés de cortejá-la apropriadamente com o conhecimento de sua família. — Puxou-a mais perto, sob a proteção do seu ombro. —Do que tem medo, Saria? Caso se oponham, vai se afastar?

—Não. Não, claro que não. Por que ia achar isso? Só não acho que seja uma ideia maravilhosa falar com meus irmãos. Eles têm agido bem estranho ultimamente. Bem estranho.

O que era outra razão para ela se preocupar que o assassino pudesse ser um de seus irmãos. Drake sabia que não podia vocalizar aquilo outra vez, mas definitivamente estava preocupada.

—Estranho como?

—Nunca prestaram atenção em mim quando estava crescendo. Bem, Remy às vezes tentava me dizer o que fazer, mas estava sempre com pressa e saía antes de me dar alguma ordem estúpida. Viveram suas vidas e de repente estão todos de volta e posso sentir que me vigiam. Querem que eu fique em casa à noite. Remy disse para que não saísse para o pântano à noite e mais de uma vez aparece para averiguar onde estou.

Teve que esconder seu sorriso pelo desprezo em sua voz. —Imagine só. Seu irmão mais velho preocupado com você, — murmurou.

Ela o olhou com raiva por um momento e depois começou a rir. —Acho que isso parece mesmo bobo. Não acho que nenhum deles tenha percebido que cresci, e de repente notaram e querem me vestir de novo com roupinhas de bebê. Não estou gostando nem um pouco dessa atenção. — Ela mordeu o sanduíche e mastigou, pensando. —É estranho quando pensa nisso. Passei boa parte da minha juventude tentando chamar a atenção deles e agora que a tenho, definitivamente me sinto ressentida.

Ele esfregou o ombro no dela, um pequeno gesto felino de afeição. —Não acho que tenha apreciado figuras autoritárias alguma vez na vida, Saria. Só queria fazer parte.

Ela esfregou o queixo no joelho. —Fiquei feliz quando me contou sobre minha leopardo, porque todos esses anos me senti como se meu lugar não fosse com meus irmãos. Isso me assusta, mas pelo menos realmente tenho uma família.

Ele acariciou seu cabelo sedoso, os dedos demorando em sua nuca. —Ainda teria todos os instintos. Fui ferido um tempo atrás e não conseguia me transformar. Me transformo desde garoto. Pela primeira vez experimentei o que é para alguém do nosso sangue ter todos os impulsos de um leopardo sem ser capaz de soltá-lo.

Ela tomou um gole de água. Fascinado, ele assistiu sua garganta mexer. O sol banhava sua pele macia num brilho dourado. Estava ficando rapidamente viciado no movimento dos seus cílios longos e em seu rosto expressivo. Sabia que estava intrigado com ela, atraído por mais que a química entre seus leopardos. Sua falta de pretensão o atraía. O fato de captar algumas olhadas daquela mulher ardente e sexy escondida sob aquele rosto inocente só aumentava o apelo.

—O que quer dizer com isso? — Ela esfregou a boca com as costas da mão e virou a cabeça para olhá-lo diretamente.

Seu coração recuou. Aqueles olhos escuros enormes pareciam um poço fundo em que corria o risco de cair. Drake riria se alguém dissesse, alguns dias atrás, como se apaixonaria rápido e intensamente por uma mulher, mas agora... Estava sob seu encanto de uma forma que não havia como fugir. Queria se perder nela para sempre.

—Leopardos são mal-humorados, cruéis, e isso pode resultar num indivíduo muito perturbado. — Seus dedos permaneceram de uma forma um pouco possessiva em sua nuca.

Ela não se afastou dele, ao contrário, se aconchegou mais, a coxa deslizando na dele quando pegou uma das famosas tortas de limão de Pauline. O pote foi colocado na geladeira para manter a torta o mais fria possível.

—Me sinto mal-humorada às vezes, — admitiu Saria enquanto tirava delicadamente a torta do pote. —Especialmente quando alguém tenta me dizer o que fazer.

Ele riu. Nunca viu alguém apreciar tanto a comida do jeito que ela parecia apreciar — parecia aproveitar a vida mais que qualquer outra pessoa com quem já havia convivido. Simplesmente vivia cada momento, no presente.

—É verdade, — disse e entregou a torta para ele. —Tem que experimentar isso. Ninguém faz uma torta de limão do jeito que Pauline faz. Ela é incrivelmente incrível. Quando era pequena ia a casa dela quase todo dia e ela me ensinava a cozinhar. Nunca ficou irritada comigo, nem impaciente, e fazia das aulas uma diversão. Amo cozinhar por causa dela.

Drake notou o amor inconsciente em sua voz. Pauline Lafont era uma mulher muito especial na vida de Saria, quer ela soubesse ou não. Não tomou a torta de suas mãos, mas se inclinou para dar uma mordida. Ficou com o olhar preso ao dela. Seus olhos ficaram escuros, aquelas machas douradas incandescendo. Os lábios abertos, num convite, embora parecesse não saber disso. O sabor forte de limão explodiu em sua boca e não pôde evitar uma leve expressão de choque. —Isso é o paraíso.

Ela usou o dedo para limpar seu lábio. Ele abriu a boca e o sugou. Seus olhos se abriram ainda mais, escurecidos de desejo — por ele. Aquela era Saria, não sua leopardo, e desejava Saria. Demorou, saboreando o gosto de limão sobre sua pele macia.

—Vou casar com você pela sua comida.

Ela parecia mais chocada que nunca. Puxou o dedo, franzindo o cenho um pouco. —Ei. Devagar, meu homem. Casamento não é uma palavra para ser usada assim, nem mesmo brincando.

Ele pegou a torta de limão de sua mão. —Quem disse que estava brincando? Se consegue fazer uma dessas, acredite em mim, querida, eu morreria feliz.

Ela bateu os cílios. Resistiu à vontade de tirar aquela expressão confusa de seu rosto com beijos.

—Talvez deva se casar com Pauline.

Ele riu. —Teria alguns benefícios me casando com você.

Saria tirou uma torta de limão do pote e a mordeu de forma pensativa. Os dois observaram as garçotas caminhando com suas longas e finas pernas pelo brejo enquanto saboreavam a sobremesa. A água batia gentilmente num ritmo calmante e um vento leve farfalhava as folhas das árvores. Drake se sentia em paz. Esperou que Saria terminasse sua torta e tomasse outro gole de água antes de mudar sua posição para que se deitasse com a cabeça em seu colo. A brisa criava uma onda pelos campos de flores, uma profusão de cores brilhando no sol do começo da tarde. Ficaram em silêncio por muito tempo, com o sol batendo neles e o vento beijando seus rostos.

Saria de repente abriu os olhos e o pegou olhando para ela. Levantou a mão para traçar sua mandíbula forte com as pontas dos dedos. —Pensei nesses benefícios, — disse. —Acha que valeriam a pena, mas eu o deixaria louco. Ou você me deixaria louca. Casamento parece conceder uma licença aos homens para mandarem em suas esposas.

Ele capturou seus dedos e os trouxe para a boca para morder gentilmente as pontas. —Tem uma visão muito negativa de relacionamentos, Saria. Tenho certeza que existem homens que mandam nas suas mulheres, mas alguns buscam parceiras. Se me sinto atraído por você do jeito que é, com sua independência e suas opiniões, por que iria querer mudá-la?

—Sempre me perguntei isso — porque homens iriam querer mudar as mulheres.

—Eu não quero, — disse firmemente, mordiscando seus dedos.

—Então estava errada quando pensei que ficou chateado hoje de manhã porque fui ao pântano sozinha? Não achou que precisava da permissão dos meus irmãos para isso? — Havia desafio em sua voz.

—Nunca pensei que precisasse da permissão de ninguém, docinho, mas há um assassino à solta e sabe disso. O fato da carta ter desaparecido do posto e acabado estacada no seu barco foi um aviso claro que o assassino sabe que encontrou os corpos. E há um pequeno detalhe de um leopardo macho a ter atacado. O bom senso nos diz que corre perigo e não deveria andar vagando sozinha pelo pântano — especialmente quando ninguém sabe onde está.

Ela ficou quieta por alguns momentos. Emaranhou os dedos nas madeixas sedosas do seu cabelo. Grosso, como o da maioria dos leopardos, ela mantinha o cabelo bem curto e repicado. Nela, achava que ficava bem.

—Levei isso em consideração, — admitiu. —Geralmente teria parado de ir ao pântano, porém, para ser sincera, não tenho certeza do quanto poderia ficar longe dele.

Ele entendia. Sua leopardo precisava do pântano.

—Mas tenho a chance de uma vida com minha fotografia. Se estragar isso, vou voltar a caçar crocodilos, e acredite em mim, é um trabalho difícil. Preciso de dinheiro. Não quero meus irmãos pensando que me sustentam. Recebi um adiantamento por esse trabalho, mais do que já fiz num ano inteiro, e se eu completá-lo, vou receber o triplo. Não tenho escolha, na verdade.

Não ia discutir com ela. Claro que havia escolha, mas ela estava começando uma carreira. Fotografia não era seu modo de vida — mas algo que sua natureza exigia que fizesse. Recebeu dinheiro e se comprometeu. Não era do tipo de quebrar um compromisso — uma das coisas que particularmente achava muitíssimo atraente. Não, não tentaria proibi-la de entrar no pântano, mas com toda certeza a teria protegido.

O vento mudou levemente, carregando o traço de um cheiro. Com muito cuidado ele segurou seus ombros e a sentou. Virou o corpo, colocando-se de costas entre Saria e o perigo certo. Podia cheirar a mistura de fúria e a emersão do leopardo.

 

O homem caminhando na direção de Drake e Saria estava vestido numa calça jeans e camiseta leve, parecendo casualmente belo como só alguém com muito dinheiro podia parecer. Lentes escuras cobriam seus olhos, mas Drake pôde ler a fúria em seu cheiro, no movimento do seu corpo e nos punhos apertados contra suas coxas. Estava armado — a arma num coldre amarrado em sua perna, mas Drake sentia o cheiro de óleo que indicava uma limpeza recente. Levantou, um movimento fácil e fluido, e colocou a mão atrás para oferecê-la a Saria. Levantou-a facilmente e manteve a posse de sua mão, mantendo-a levemente segura atrás de si. As ondas de raiva que vinham do estranho que se aproximava eram pessoais, ao invés da esperada raiva causada pela invasão de propriedade.

—Armande Mercier, — sussurrou Saria.

O rosto de Armande escureceu. A ouviu claramente. Se Drake o estava lendo corretamente, seu leopardo estava perto, lutando pelo controle.

—O que diabos está fazendo, Saria? — exigiu Armande, avançando para cima deles, invadindo o espaço pessoal de Drake, obviamente esperando que recuasse. O movimento era praticado, uma intimidação que funcionou bem no passado.

Drake manteve sua posição, ficando quase com o nariz encostado no do homem. —Saria está me guiando pelo pântano. Sou Drake Donovan, representante do Sr. Bannaconni. — Derramou autoridade em sua voz. Esse homem estava com os outros na noite anterior, mas não lutou com Drake. Pôde ver o choque quando registrou que estava associado com Jake Bannaconni, o dono de todas as propriedades que arrendavam.

—Isso não lhe dá direito nenhum...

—Assumo que não tenha familiaridade com o contrato de arrendamento que seu pai assinou. — Drake o cortou. —Afaste-se, Mercier. Não quero ninguém metendo a cara na minha. — Quando o outro homem hesitou, Drake avançou. —Afaste-se, agora. — Manteve a voz baixa, até mesmo suave, mas o aço estava presente — e a ameaça.

Armande o olhou diretamente nos olhos, mas o felino de Drake já havia pulado para encontrar a ameaça. Continuou sem piscar, o olhar de um predador, o olho quase inteiramente dourado ao invés de seu verde normal. Armande recuou com relutância.

—Não sei que motivo teria para reagir com tanta raiva e má educação mesmo se pensasse que tínhamos invadido a propriedade sem advertência, mas agora que sabe que tenho todo direito legal de estar aqui, talvez possamos recomeçar.

—Não sei de direito legal nenhum, — disparou Armande.

Atrás dele, Saria mudou o peso, mas não reagiu. Drake apreciava que ficasse quieta, esperando, como ele estava, para ver as intenções de Armande. Um movimento em falso e o homem certamente explodiria em violência. Drake queria acalmar a tensão. Precisava encontrar um jeito de fazer com que o covil aceitasse sua reivindicação de Saria, sem derramamento de sangue.

O olhar furioso de Armande foi de Drake para Saria. —Com certeza estou com raiva. Não quero essa putinha usando minhas terras como seu bordel pessoal. Fode com todos seus clientes, Saria, ou só com os ricos?

Drake o esmurrou. Com força. O soco sacudiu Armande e empurrou seus óculos para o lado. E se esforçou tanto para acalmar a tensão. O pelo ondulava sob sua pele, e sua mandíbula doeu quando sua boca se encheu de dentes. Tinha que ficar com a cabeça fria, e no momento, o homem queria bater até cansar em Armande, mas o leopardo queria mesmo matá-lo.

Armande arrancou os óculos do rosto e puxou a camiseta, como se quisesse rasgá-la.

Drake se aproximou dele. —Faça isso e não serei capaz de controlar meu leopardo. Ele vai acabar com você. Já o viu e o que ele pode fazer. Está com raiva, mas não porque Saria é uma puta. Tentou forçar seu leopardo no dela e ela não gostou disso. É o tipo mais baixo de homem, Mercier, achando que tem o direito de ter quem quiser, sem considerar seus sentimentos. Saria não pertence ao nível de escória como você.

A fúria de Armande explodiu num urro ameaçador, dirigido pela necessidade feroz do seu felino.

—Armande! — A voz feminina gritou como um chicote.

Armande ficou imóvel. Foi preciso muito esforço, mas abaixou a cabeça, respirando profundamente para se acalmar antes de se afastar de Drake e de Saria para encarar a recém-chegada. Charisse Mercier era de tirar o fôlego. Sabia que era uma mulher bonita e andava como se todos a observassem, o quadril balançando gentilmente e o comprido cabelo escuro derramando sobre suas costas. Usava uma saia longa e toda justa, uma blusa de seda e uma jaqueta que combinava com sua figura e exibia sua cintura fina. Suas botas eram de grife, mas pareciam fora de lugar nela, mesmo à beira do pântano.

—Saria, cher, como é bom ver você, — saudou, com genuína afeição em sua voz. —Armande, dei permissão à Saria para fazer um piquenique aqui. — Ela sorriu para Drake e ofereceu a mão. —Sou Charisse Mercier e esse é meu irmão Armande.

Drake pegou sua mão. Estava tremendo, mas tentando esconder. Não havia mentiras, estava genuinamente feliz em ver Saria, mas tremia de medo pelo seu irmão. As notícias corriam rápido num covil e o intruso derrotou dois dos seus melhores lutadores. Não o queria atacando seu irmão.

—Drake Donovan. — Ele se identificou e moveu o corpo sutilmente. Saria, abençoada seja, entendeu a dica e passou ao seu lado, oferecendo a Charisse um beijo nas duas bochechas.

—Obrigada por nos deixar usar sua propriedade, Charisse. É tão lindo aqui.

—Bien merci. Também acho, — disse Charisse com facilidade. Ela colocou a mão no braço do seu irmão e o olhou. —Perdão, Armande, devia ter dito que Saria viria aqui hoje.

Ele puxou o braço e Charisse pareceu ser golpeada pelo gesto. Ela virou as costas para eles, mas Drake captou o brilho de lágrimas em seus olhos. Armande deu um olhar ameaçador para Drake, olhou para Saria e cuspiu no chão antes de se afastar deles. Deliberadamente pisou nos óculos de sol, esmagando-os antes de ir embora.

Charisse ofegou e se colocou de joelhos, juntando os pedaços de vidro quebrado nas mãos. Drake franziu o cenho e olhou para Saria. Ela encolheu os ombros, enviando um olhar que dizia que Charisse era diferente e que ninguém conseguia prever seu comportamento estranho. Ela foi até a mulher e colocou um braço à sua volta, confortando-a.

Drake arrumou a cesta de piquenique e dobrou a manta, tentando entender o que acabava de acontecer. Charisse parecia estar sob controle de seu irmão, ainda assim impediu seu leopardo de atacar. Como? Se não era a irmã dominante, como conseguiu impedir um leopardo em fúria de uma tentativa de assassinato? Armande agiu com ciúmes, mas ainda assim, se seu leopardo estivesse tão enamorado pelo de Saria, ninguém, nem mesmo sua irmã, poderia impedi-lo. Agia mais como uma criança petulante que como um amante ciumento.

Também, as lágrimas de Charisse pareciam genuínas, quase infantis, quando só alguns momentos atrás, ela agiu como uma mulher equilibrada e muito confiante. Algo naquela situação o deixava desconfortável. Seu felino estava imensamente ciente, estudando a situação, tão tenso quanto Drake. Deu uma olhada cautelosa em volta enquanto colocava as coisas do piquenique no barco. As duas mulheres estavam juntas, sussurrando, Saria abraçando Charisse como faria com uma criança, dando tapinhas em suas costas e acariciando seu cabelo.

Drake inalou, mudando de posição, permitindo que seu felino viesse à superfície para processar a informação. Armande não foi muito longe. Estava nas árvores, observando, e agora não estava sozinho. Robert Lanoux estava com ele. Estavam sendo caçados. Charisse era uma distração? Ela sabia? Um terceiro homem se aproximava do outro lado das árvores.

—Saria. — Ele manteve a voz baixa, mas o tom de comando foi transmitido. —Temos que ir agora.

Ela virou a cabeça e o viu levantar seu rifle e checar a munição. Não hesitou, correu até ele. —Está carregada. — Ligou o motor. —Armande?

—E Robert Lanoux. Um terceiro homem. Acho que o primeiro que me desafiou.

Charisse, parecendo confusa, correu até a doca e acenou, mandando beijos para Saria. Parecia completamente ignorante de que algo estivesse errado.

—O primeiro que o desafiou?

Ele manteve os olhos grudados na terra e o punho do rifle preso no ombro, o dedo no gatilho. Tinha Armande na mira e o bastardo estaria morto se fizesse um movimento em falso.

—Vieram ontem à noite. Reconheci seu cheiro. — Sem tirar os olhos de seu alvo, deixando Armande saber que estaria morto se viesse a se mexer. —Tire-nos daqui, Saria.

—Charisse armou pra nós?

É, aquela era sua mulher, rápida no entendimento, mas havia dor em sua voz, e isso apertou seu coração. —Não sei, querida, talvez. Ou talvez a tenham usado.

Ela os levou até o canal bem rápido, fazendo uma curva e indo para longe da bela, mas traiçoeira terra dos Mercier. Drake deslizou o rifle de volta no coldre suspenso que ela usava e sentou. Tinha que trazer seu time. As coisas estavam indo rápido demais e ainda nem tinha ido ao Fenton’s Marsh.

—Me leve ao brejo agora, — disse. —Preciso dar uma olhada nele antes que façam qualquer outra coisa.

—Acho que precisamos falar com meus irmãos, — disse Saria. —Eles podem não gostar de estarmos juntos, Drake, mas não vão permitir que sofra alguma coisa.

A primeira lealdade de seus irmãos devia ser com ela, mas depois de algumas coisas que ouviu, não tinha certeza se seria assim e se arriscaria a ficar perto de Saria quando o covil se lançasse inteiramente em cima dele? Precisava escolher seu próprio campo de batalha. Os locais teriam vantagem no pântano. Tinham crescido ali e conheciam cada pedacinho dele.

—É culpa minha? — perguntou Saria. —Porque escolhi você ao invés deles? — Virou a cabeça para olhá-lo nos olhos. —Me diga a verdade.

—Não sei do que tudo isso se trata, Saria. E a questão final para um shifter é se seu leopardo aceitará sua escolha de companheiro. Leopardos fêmeas podem ser extremamente difíceis.

—Para mim ela me parece uma tarada, — murmurou Saria. —Pularia em cima de você se pudesse.

—Não me lembre, — deu um pequeno sorriso saudoso, esperando aliviar a tensão. —Devo ter ficado louco tentando ser tão galante.

—Gosto disso em você. Claro, na hora, não apreciei muito esse traço.

Seu sorriso era um vislumbre largo de seus dentes brancos, mas de algum modo não alcançava seus olhos. Olhou para a terra de cada lado deles e de volta para ele. —Para nos seguir, vão ter que usar um barco para chegar ao brejo ou vão levar horas. Vamos ouvi-los vindo se usarem um barco.

Drake estava feliz por não ter mencionado os irmãos de novo. Não queria magoá-la com suas desconfianças, mas tinha complicações suficientes sem adicionar sua família à mistura. Simplesmente assentiu. Estava armado com pistolas e facas. Seu leopardo estava próximo à superfície e sua mulher tinha um rifle e pelo menos uma faca. Não tinha certeza absoluta se atiraria num de seus amigos, se precisasse, mas se fossem atacados, não entraria em pânico.

—Acha realmente que foi Armande quem rasgou minhas costas e me mordeu?

—Sim.

Saria sacudiu a cabeça. —Eu não. Eu o conheço. Teria reconhecido seu cheiro.

Isso era verdade. Mas seu próprio leopardo reagiu com ódio feroz e permanente como se tivesse reconhecido o cheiro. Tão certa quanto Saria estava que Armande não era seu atacante, Drake tinha certeza que era. Mas por que? A reivindicação não teve sucesso. Armande não era um adolescente, certamente era vivido e se portava com muita confiança. Deveria saber como reivindicar uma fêmea de leopardo. O que diabos havia de errado com aquele covil?

Drake esfregou a mandíbula, desejando ter dito a Jake para enviar seu time. Tinha certeza que podia proteger Saria, mesmo se fossem até ele em grupo, mas teria que matar alguns deles, e não estava certo se ela o perdoaria. Maldição tudo aquilo, para todo lado que olhava via que estava fodido.

—Drake. — A voz de Saria era suave, mas persuasiva.

Ele a olhou, encontrando aqueles enormes olhos escuros. Parecia tão jovem e inocente, tão além do seu nível que tinha vontade de grunhir. Estava de pé, uma mão descansando no leme, o vento despenteando seu grosso cabelo de um dourado branqueado, o olhar encontrando o dele sem piscar. Foi atingido pela alegria que o inundou, uma emoção que só experimentou na forma de leopardo, correndo livre pela floresta tropical. Agora, a olhando, sabia que seu mundo era feito de uma mulher.

—Tirando o fator leopardo, e minha escolha quanto a você, quero que saiba que se estiver em algum tipo de perigo, eu o protegeria. Recebi seu dinheiro e isso coloca você, como qualquer outro cliente, sob minha proteção. Isso tem importância para mim e qualquer um que me conheça sabe que protegeria meu cliente com minha vida contra qualquer perigo no pântano — incluindo humanos ou shifters. Essa é só uma razão. Realmente o escolhi. Se minha leopardo aceitá-lo ou não, ou se isso for ou não uma coisa permanente, queria que fosse o homem que me guiasse durante a emersão da minha leopardo. Isso cabe a mim decidir, a ninguém mais, homem ou mulher, do covil ou de fora. Ficarei do seu lado. Dou minha palavra.

Deus. Não conseguia olhar para ela, não com aquele bolo em sua garganta e com o coração expandindo. Maldita fosse. Estava tão longe dentro dele que não conseguia mais pensar depois do “e se isso for ou não uma coisa permanente”. Queria deitá-la ali no barco e garantir que nunca pensasse em procurar outro homem para alimentar suas necessidades.

Também sentiu uma necessidade de confortá-la. Ela estava ali de pé, levando-os rápido pela água, as pernas absorvendo o impacto forte da água sob o barco, o corpo se movendo com facilidade, com familiaridade, a expressão determinada, mas nos olhos havia confusão e medo — até mesmo dor. Seu leopardo pulava para protegê-la, tentando alcançá-la da mesma forma que o homem queria.

—Isso pode ficar feio bem rápido, docinho, — avisou-a.

Ela assentiu. —Eu sei. Só achei importante dizer que não fugiria — nem trairia você.

—Não tinha que me dizer isso. — Ainda não tinha certeza se ela podia apertar o gatilho contra um amigo ou vizinho, mas cabia a ele evitar que tivesse que fazer tal escolha. —Mas agradeço, Saria. Vamos esperar que ninguém seja estúpido aqui.

—A beira do Fenton’s Marsh fica ali à esquerda, — disse, diminuindo a velocidade do barco só um pouco. —Na próxima curva há uma doca pequena, mal conservada. Está quase podre, mas podemos amarrar o barco lá e seguir a pé. É um pouco perigoso, mas estamos no ponto mais longe de onde os outros possam nos alcançar por terra. Acho que pode dar uma olhada em volta e podemos sair antes que cheguem, a não ser que tenham seguido a barco.

—Estou dentro, — disse Drake. —Vamos terminar logo isso. Me leve até os lugares de desova. Antes preciso marcar esse território rápido. Fique no barco e mantenha o rifle preparado.

Ela franziu o cenho. —Marcar o território?

—Se vierem como leopardos e estiverem em meu território, por lei terão que vir um por vez.

—Não é seguro, Drake, e sabe disso.

Ela sabia que se os três haviam se juntado como homens para caçá-lo, era lógico pensar que fariam o mesmo como leopardos. Claro, pensou nisso, mas ficaria com a razão então, se as coisas terminassem mal, e Jake e seu time teriam a lei do seu lado. Não discutiu, simplesmente pulou do barco. A água estava na altura de seus joelhos. Era uma sensação esquisita andar pisando em ovos por entre a vegetação alta e espessa sabendo que um crocodilo podia estar por perto.

Saria ficou no barco, o rifle na mão e o olhar na água. Ficou muito quieta, só seus olhos se moviam, sem cessar, pela área que o cercava. Ele acenou quando chegou à terra seca. A terra era esponjosa sob seus pés e seu leopardo buscou a transformação num esforço para protegê-lo. Respirou profundamente para contê-la. A dor corria pelo seu joelho quando apertou o passo, lembrando-o dos ferimentos da noite anterior.

Conseguiu chegar ao abrigo relativo da primeira leva de árvores, sabendo que não estava completamente fora da vista de Saria, mas seu leopardo estava impaciente em ser presenteado com sua liberdade. Havia uma certa urgência que o animal exibia, e ao longo dos anos Drake aprendeu a confiar nos instintos do leopardo. Jogou as roupas de lado, sem se importar se Saria o veria com todas as cicatrizes e ferimentos que mapeavam seu corpo. A transformação já estava nele, seu leopardo se erguendo para alcançar o abraço da transformação.

Poder se derramou dentro dele. Músculos fortes esticaram e estava correndo, o leopardo arranhando árvores e fazendo pilhas de folhas para marcá-las enquanto corria contra o tempo para reclamar a maior parte de território possível para alertar os outros machos a permanecerem fora dele. Levou mais tempo do que queria, enquanto o leopardo apreciava sua liberdade e o lugar intocável que se ampliava à sua frente.

Forçou seu leopardo a ficar consciente que sua companheira estava desprotegida, a única forma que sabia que deteria o animal de prosseguir. Assim que o fez dar a volta, Drake processou a informação que o leopardo coletou do próprio brejo. Um lugar bonito que parecia relativamente intocado pelo homem ou por leopardos e isso o impressionou por sua peculiaridade. Se um leopardo estava matando ali, marcaria seu território. Não havia traços de cheiro, marcas, e nenhuma árvore foi tocada antes de Drake.

Que leopardo faria isso? Aquele covil era confuso. Um leopardo tinha natureza similar no mundo todo. Instintos eram enraizados. Pouco importava de que região era, se era shifter ou animal, a maior parte de seus instintos eram os mesmos. Shifters geralmente tinham parceiras para o resto da vida, ao contrário de seus irmãos animais, mas havia poucas diferenças em suas naturezas. Covis, regiões onde shifters viviam em harmonia, tinham regras específicas que eram impostas pelo bem de todos. Viviam sob leis rígidas para impedir a agressividade e que os machos dominantes se machucassem. Sem essas leis, nenhum covil sobreviveria. Estava aquele à beira do caos?

Voltou à árvore onde deixou suas roupas, só para encontrar Saria no alto dela, esperando por ele, o rifle deitado no colo.

—Espere, — disse. —Não se transforme ainda. É seguro eu descer?

Drake a olhou, seu leopardo a encarando, curvando o lábio, franzindo o nariz e fazendo careta com a boca aberta, indicando que achava a leopardo de Saria muito atraente e que sabia estar perto do cio. Só Saria arriscaria sentar no galho de uma árvore com um rifle no colo e perguntar casualmente depois se era seguro. O leopardo assentiu.

Ela não hesitou, descendo da árvore despreocupadamente, embora tenha percebido que encarava o leopardo o tempo todo e nunca soltou o rifle. Podia ter dito que seu leopardo estaria nela num segundo, rápido demais para que pudesse se proteger caso fosse uma inimiga, mas não pôde evitar admirar o jeito com que encarava a vida. Era uma leopardo e escolheu não temer isso, e sim aproveitar uma oportunidade para examinar um leopardo de perto.

O tamanho de sua confiança nele o mortificava. Não a merecia. Seus instintos tinham que vir de uma vida juntos, embora não se lembrassem, mas seus leopardos lembravam. Qualquer que fosse a razão, não iria decepcioná-la. Controlou firmemente seu leopardo, que quase a derrubou, esfregando-se em sua pele. Usou sua enorme cabeça para esfregá-la e marcá-la com suas glândulas de odor.

Ela afundou os dedos no pelo grosso, uma expressão de pura alegria. Drake podia dizer que não sabia que o leopardo macho queria que sua contraparte fêmea absorvesse seu cheiro em todo seu corpo para alertar qualquer rival. Esperou pacientemente, embora estivesse ciente de cada minuto que passava, permitindo a Saria uma chance de tocar e acariciar o leopardo tanto quanto queria.

—Pode se transformar comigo tocando seu ombro? Quero vê-lo e senti-lo crescer. — Olhou o leopardo bem nos olhos, sem medo daquele olhar penetrante e inteligente.

Ele ficaria completamente nu quando emergisse, mas se isso era o que sua dama queria, podia conceder seu desejo. Era um homem enorme, com um peito largo e os músculos definidos e pesados de sua espécie. Suas coxas eram duas torres gêmeas de músculos, sua cintura definida e quadril estreito. Até mesmo para um shifter, tinha um pênis impressionante, e enquanto se transformava, na mesma transição rápida, a visão do seu olhar pulando para sua virilha enviou uma onda de sangue quente que o encheu. Ela levantou os olhos lentamente para seu rosto.

—Sem dúvida, docinho, meu corpo definitivamente te pertence, — disse ele quando pegou a calça. A subiu com cuidado pela sua ereção bem dolorosa, permitindo-se relaxar. Ela não correu, embora pela primeira vez, parecesse um pouco abalada.

—É muito rápido em ir de humano a leopardo.

—Tenho que ser. Lidero um time que resgata reféns e protege pessoas em situações perigosas. Temos que ter certas habilidades para sermos capazes de fazer o trabalho sem acabarmos mortos.

Seu olhar voou para seu corpo machucado, para as cicatrizes velhas e os machucados recentes causados pela briga de leopardos. Tinha que ter visto a terrível cicatriz que corria pela sua perna — a não ser — que seu olhar tivesse pulado para sua virilha de novo. A onda instantânea foi quente e urgente. Ela lambeu os lábios e seu pênis sacudiu, se apertando contra o tecido do jeans.

—E se eu não conseguir... Quero dizer, Drake, você é maior do que eu imaginava.

—Você cresceu com homens.

—Irmãos. Não olhava para eles. Estou dizendo que mal estavam por perto e quando estavam, inevitavelmente, eu ia para o pântano.

       Ele vestiu a camiseta e estendeu o braço, pegando a camiseta dela e a puxando até que seu corpo ficasse apertado contra o dele. Segurou sua nuca.

—Vai me aguentar. Foi feita para mim, Saria. E vou ter certeza que esteja pronta. Continue confiando em mim, docinho. Prometo que vou resolver tudo isso.

Seus olhos escuros varreram seu rosto com uma mistura de medo, confusão e séria especulação. Aquela era sua Saria, se recusava a recuar. Beijou-a. Com vontade. Um beijo profundo. Havia calor correndo como uma tempestade de fogo pelo seu corpo. O lugar dela era bem onde estava, junto ao seu corpo, a boca na dele. Podia ficar ali para sempre. Deslizou a mão pelas suas costas, até seu traseiro, para apertá-la com mais força contra si. Beijou-a até que nenhum dos dois pudesse respirar. Quando levantou a cabeça, ela tinha aquele olhar confuso de desejo que aprendeu a saborear.

—Temos que terminar isso, — murmurou, contra seus lábios.

—Terminar o que?

Ele riu suavemente e a beijou de novo. —Me leve ao lugar da desova, docinho. Vamos ter companhia em breve e prefiro que voltemos para a pousada.

—Oh. Certo. — Saria piscou.

Ele a beijou porque tinha que beijar. Podia viver dos seus beijos. Beijou outras mulheres, mas nunca houve — fogos de artifício. Nunca voou. Nem luxúria rastejou pelo seu corpo misturada a algo que temia rapidamente estar virando amor. Podia realmente acontecer assim tão rápido? Mergulhar em seus olhos? Viciar-se em seu gosto? Precisar dela até que a dor o consumisse? Viu alguns dos seus amigos se apaixonarem, e achou que tinham ficado todos meio malucos. Foi assim com eles?

Num momento a reconheceu como a escolhida de seu leopardo, mas no momento seguinte, seu leopardo não importava muito porque ela era sua escolhida. Mal podia tirar os olhos dela. Amava aquele queixo teimoso. Aqueles olhos escuros enormes com todas aquelas lindas manchas douradas e cílios curvados e compridos. Sua boca, tão macia, tão quente e perfeita. Seu nariz pequeno e reto. Seu jeito tão direto de encarar a vida de frente.

—Tem que me soltar se vamos atrás dos locais, — indicou Saria.

Ela ficou quieta, os braços em volta do seu pescoço, o rosto erguido para o dele, o corpo junto. Drake podia sentir seus seios macios contra os firmes músculos do seu peitoral. Havia algo tão constante a respeito de Saria, como a floresta tropical que amava. A corrente do rio, o vento soprando pelas árvores. O ar que respirava. Ela era tudo junto numa só mulher. Podia estar perdendo a cabeça, os pensamentos tão poéticos que sentia vontade de rir de si mesmo. O que é que tinha nela?

—Drake? — Seus cílios baixaram sobre aqueles olhos escuros.

—Sim, querida?

—Me beija de novo.

—Se eu beijar, podemos não sair daqui.

—Isso importa? — Seus cílios espanaram sua bochecha. Os lábios se abriram num convite, o rosto levantado para ele.

Ele ouviu o gemido suave que escapou de sua garganta. Aquilo não era sua leopardo devassa, aquilo era Saria, o corpo se mexendo sem cansar contra o dele, um despertar inocente, uma entrega de si. Não havia como resistir e não tentou. Abaixou a cabeça e tomou posse daquela boca macia e incrível. Uma mão deslizou debaixo de sua camiseta, os dedos procurando pela expansão de pele morna. A pele dela dava a sensação de uma pétala de rosa acompanhada pela fragrância suave de pêssego.

Acariciou sua barriga chapada com os dedos, absorvendo a sensação dela, guardando-a na memória. A língua de Saria dançava e duelava com a dele, acariciando, o atraindo mais para seu feitiço. Sua mão se fechou sobre um seio, segurando o leve peso em sua palma. Sempre havia algo de perfeito na forma de uma mulher, mas Saria, percebeu, era diferente. No momento que sua mão reclamou seu seio, um raio explodiu dentro dele, uma onda elétrica que correu direto até seu pênis. Sentiu-se completo, explosivo, mas ao mesmo tempo, seu coração pareceu pular para fora do peito. A mistura de tão intensa luxúria com um amor tão tenro era chocante e arrebatadora, um afrodisíaco pelo qual não esperava. Não esperava que seu coração se envolvesse tão rápido, mas aprendeu há muito tempo que muitas coisas se encaminhavam sozinhas, e ali, o destino estava com cem por cento do controle.

—Você é um milagre, Saria, — murmurou, a boca passeando pelo seu rosto. Beijou seus olhos, nariz, os cantos da boca e aquele doce e teimoso queixo.

—Sou apenas eu, Drake, — soava confusa.

Sorriu para ela. —E isso, docinho, é o milagre. — Traçou beijos pela sua garganta, os dentes mordendo seu pescoço, seus seios, enquanto puxava sua camiseta. A boca se fechou num seio, sugando com força por cima do fino sutiã de renda que usava. Ela gritou e se arqueou, pressionando mais o corpo no dele. A mão subiu para massagear forte o suave montículo.

Um pássaro gorjeou alto, respondido por outro. O leopardo de Drake saltou e recebeu uma resposta da fêmea de Saria. Drake de fato sentiu a onda de pelo deslizando sob sua pele, o calor escaldante, e inalou o aroma selvagem e exótico. A língua golpeou seu mamilo mais uma vez antes de erguer a cabeça com relutância.

—Maldição, docinho. Estamos ficando sem tempo.

Ela soltou um pequeno ofego de choque, como se tivesse voltado de uma grande distância. Ajeitou sua camiseta, e a ajudou a se recompor, enquanto levantava a cabeça, farejando o ar. —Estão vindo atrás de nós como homens ao invés de leopardos. Isso não é bom, Saria. Volte para o barco.

Ela olhou em volta atrás do seu rifle. O tinha deixado escorado à árvore sem perceber. Sacudiu a cabeça. —Sério, Drake, perco a noção do que estou fazendo quando me beija.

Drake colocou um braço à sua volta e a puxou sob seu ombro, a abraçando apertado por um momento. —Devia saber que viriam atrás de nós o mais rápido que pudessem. Não querem que os outros membros do covil saibam o que estão aprontando. Charisse delataria o próprio irmão?

—Você a viu. De jeito nenhum. O acoberta sempre.

Assentiu. —Tenho armas, docinho. Vou ficar por aqui. Você pega o barco e vai até...

Ela sacudiu a cabeça. —Isso não vai acontecer, então pare bem aí. Não vamos nos separar, embora aprecie o gesto. Não tem sentido em discutir comigo, Drake. Não vou mudar de ideia.

Ele aceitou sua palavra. —Vão usar balas. Precisamos de um lugar para nos defender. Não vou arriscar ficar em aberto na água com você comigo.

—Nem eu. — Ela deu um sorriso forçado enquanto imediatamente fazia um sinal para que a seguisse. Ela andava com confiança pela vegetação emaranhada. —Estou achando que vão atirar em você assim que o virem e espero não ficar no meio, a não ser que não queiram uma testemunha.

Pensou nisso. Também estava um pouco preocupado com o que três homens, ditados por seus leopardos, cheios de luxúria e fora de controle, fariam com Saria se a pegassem sozinha. Estava certo que Armande a atacou uma vez. Onde infernos estava a liderança?

—Posso ter que matá-los. — Disse de forma direta, sem desculpas. —Estão nos caçando e não posso arriscar sua vida.

—Estou bem ciente da posição que estão nos colocando. — Ela deu um olhar carregado de emoção por cima do ombro. Continuou andando, cortando caminho entre a grama alta e os arbustos. —Não pise ali, nem mesmo na beira. A crosta é fina e vai afundar.

Ele nem se incomodou em tentar esconder seus rastros. Aqueles homens cresceram no pântano e eram caçadores. Também eram leopardos com todos os instintos e vantagens de seus felinos. Pisou exatamente em cima das pegadas de Saria enquanto ela andava por um pedaço estreito de terra que mal os suportava. A grama alta começou a minguar e os arbustos tomaram seu lugar. Ao invés de ciprestes com suas raízes nodosas e retorcidas, sempre-verdes e pinheiros apareceram, o bosque engrossando quanto mais o adentravam.

—Já esteve aqui — várias vezes. Pensei que ninguém vinha aqui.

Ela deu um pequeno sorriso, sem interromper o passo. —Era o único lugar onde ninguém pensava em me procurar. Venho aqui desde que era criança. É meu refúgio particular. Ninguém mais vem aqui, então achei um lugar do outro lado para levar meu barco até a terra e escondê-lo.

—Está evitando que caiamos em toda armadilha que conhece, não está? — O terreno ficou molhado e macio de novo. Evitava as áreas que ela evitava. Seu leopardo se mexeu dentro dele, pisando longe dos pontos que pareciam ser de areia movediça. O musgo espanhol que cobria os ciprestes estava de volta, crescendo no solo fino. Ao redor deles, pequenas palmeiras, íris e grama de pântano competiam por espaço com vinhas intricadas.

Tartarugas descansavam em madeiras e uma estava na areia. Havia pássaros em todo lugar. Saria não se preocupava em perturbá-los. O zumbido dos insetos era constante, tornando-se uma espécie de música em seus ouvidos. Viu que estava começando a se acostumar aos sons do pântano. Conhecia a floresta tropical do mesmo modo que ela conhecia seu ambiente e a seguia sem questionamento.

Ela de repente puxou seu braço para que evitasse pisar perto de uma árvore que ocultava uma cobra d’água venenosa.

—Devia ter visto isso, — admitiu.

—Estava olhando para a minha bunda, — acusou.

—Verdade. — E maldição, era verdade. Percebeu que tinha se deixado viajar por um tempinho enquanto a seguia. —A vista é espetacular.

Ela sacudiu a cabeça com um riso abafado e apertou o passo, apressando-se pelo bosque de cipreste que cedia vez para a grama alta. Ele parou. Até onde podia ver havia garças azuis e garçotas brancas. Elas caminhavam graciosamente pela água rasa, mergulhando os bicos e pescando.

—Nunca vi nada assim.

Ela pareceu contente. —Sabia que acharia legal. Devia vê-las quando voam.

—Já tirou fotos disso?

—Sim. Mas a foto que dá dinheiro é a delas subindo para levantar vôo, com suas asas abertas, mal tocando a água.

—Você é mesmo muito boa, não é?

—Sim. E vou fazer um nome com a National Geographic. Quero ter meu próprio livro um dia. — Ela começou a andar rápido novamente.

—Como se sentiria tirando fotos das florestas tropicais do mundo afora?

O chão ficou sólido outra vez e os ciprestes cederam espaço para outro bosque denso. Saria baixou a cabeça para passar sob um galho baixo. Algo jogou estilhaços de madeira nos dois e o som de um tiro ecoou pelo pântano. O ar grunhiu devido à repentina migração de pássaros quando voaram aterrorizados. Um crocodilo deslizou dentro da água com um sinistro plop. Drake abaixou Saria, o corpo cobrindo o dela.

Ficaram bem quietos por um momento, os corações acelerados, Drake praguejando silenciosamente.

—Não era para terem nos seguido tão rápido, — sussurrou.

—Estão usando as duas formas, humana e animal, o que é contra toda lei que temos. — Sua voz estava irada. —Saia de baixo de mim, Saria. Tente alcançar sua leopardo. Ela vai sair à superfície para protegê-la. Não tenha medo dela. Seus sentidos serão melhores que os seus.

—O que vai fazer? — perguntou. Pela primeira vez pôde ouvir medo em sua voz e isso partiu seu coração. Malditos todos, iam morrer hoje por isso.

—Não quer que ela se machuque, venha sozinho, — desafiou Armande.

Saria segurou seu braço. —Nem sequer pense nisso. Sabem que eu nunca me calaria se o matassem.

—Vão ter uma chance comigo. Rasteje até chegar naquele arbusto, corra pela direita. Há muita cobertura a não ser que enlouqueçam e varram a área com balas. Me dê um minuto antes que decida atirar em alguém. Vou me transformar e ir atrás deles.

—Vão matá-lo, Drake, e sabe disso. É isso que querem. Podem explicar a morte de um leopardo, mas não a de um ser humano. Estão te provocando para que se transforme.

Seu leopardo rugiu em fúria, determinado a remover a ameaça à sua companheira, sem se preocupar com a vida humana. Os três homens ousaram disparar próximo a Saria — mereciam morrer. Sentiu a dor familiar nos ossos, a convulsão de músculos.

—Não. — Saria se virou debaixo dele, de costas, jogando os dois braços à sua volta, abraçando-o com força, como se de algum modo pudesse conter o pelo deslizando sob sua pele e os dentes que enchiam sua boca. Recusou-se a soltá-lo, mesmo quando uma expiração quente explodiu em sua garganta. Ela fechou os olhos, recusando-se a ver seu rosto se transformar, mas não o soltou.

Houve um momento em que não teve certeza se podia parar seu leopardo. Garras afiadas como estiletes explodiram pelos seus dedos e tudo que conseguiu fazer foi enfiá-las na terra macia de cada lado de sua cabeça enquanto respirava até que seu leopardo se submetesse.

As mãos dela tocaram seu rosto. Havia lágrimas em seus olhos quando os abriu. Sabia que olhava em olhos, que eram completamente de leopardo.

—Por favor, Drake, — sussurrou. —Não faça o que eles querem. Podemos lutar contra eles.

Ele não tinha escolha. Não se ela ia chorar. A verdadeira faca no coração de um homem eram as lágrimas de sua mulher. Ele baixou a cabeça e a beijou gentilmente. —Vamos, então. Rasteje para longe, fique abaixada e não mova os arbustos.

Os dois estavam ensopados pelo chão molhado e ela estremeceu um pouco, ainda o abraçando com força.

Atrás deles houve uma explosão de som, um urro terrível e selvagem e o som de um grito agudo e humano de terror.

 

Saria ficou imóvel, deitada debaixo de Drake em centímetros dentro da água e lama, olhando-o com olhos aterrorizados. Os sons que emanavam do bosque de árvores ao redor deles eram horríveis. Soava como se mil leopardos estivessem disputando a presa. Os pássaros voaram de novo, o som deles se misturando aos ferozes rugidos e rosnados que aumentavam de volume. Galhos quebravam e arbustos tremiam quando corpos pesados caíam neles. Drake saiu de cima de Saria e estendeu a mão para ajudá-la a levantar. Ela segurou com mais firmeza o rifle, indo atrás dele quando ele tomou a dianteira, indo na direção dos sons da luta. Ele abriu a camiseta para se preparar para a transformação. Ensopados e cobertos de lama correram pelos arbustos, batendo em teias de aranha enquanto iam pela trilha estreita, evitando os buracos e a areia movediça até chegarem ao bosque de sempre-verdes.

Cinco homens, todos fortemente armados, cercavam dois leopardos dourados e um preto enorme. Drake apontou a arma, mas Saria baixou a dela.

—Não atire. É Elie Jeanmard e quatro dos meus irmãos, — sussurrou, a voz tremendo um pouco. —O leopardo negro é meu irmão mais velho, Remy. O vi uma vez.

Drake balançou um pouco nos calcanhares. Esperava lidar com seus irmãos, mas não com todos juntos.

Havia roupas jogadas pelo chão, rasgadas e em tiras. Pelo cheiro, Drake sabia que os dois leopardos dourados tinham que ser Armande e Robert. Tinham tirado as roupas rapidamente, para evitar serem atacados em forma humana pelo feroz leopardo negro. Remy explodiu das árvores e correu até eles, dando-lhes pouco tempo para se transformar antes de atingir Armande, o derrubando.

Pelos caíam pelo ar e havia sangue manchando a grama alta. Tão rápido quanto os dois leopardos dourados levantaram, por puro desespero em sobreviver, o leopardo negro implacavelmente os derrubou de novo, seus movimentos rápidos, mudando de posição no ar, usando sua espinha flexível e em formato de acordeom para rasgar de maneira selvagem as laterais e barrigas dos felinos.

Os dois leopardos não tiveram chance de coordenar sua defesa contra ele. Remy os atacou com tamanha ferocidade que Drake suspeitava que a sede de sangue de seu leopardo estava fora de controle. Se não tivesse cuidado, mataria os dois. Os ferimentos que os dois dourados já tinham, levaria muito tempo para curar — e Remy estava longe de ter terminado.

Um leopardo negro era raro na natureza e ainda mais raro entre shifters. Nos shifters, como regra geral, eram maiores e mais fortes e nesse caso, mais rápidos. Remy se movia à velocidade da luz, punindo os outros dois leopardos, recusando-se a aceitar qualquer sinal de submissão, forçando-os a ter que se levantar para se protegerem mesmo quando era claro que desejavam parar o castigo.

Mais de uma vez cada um dos leopardos sinalizou sua submissão para o macho enfurecido, mas ele os ignorou, se afastando, rondando, chutando folhas e poeira na direção dos dois leopardos caídos com um movimento furioso das patas e então pulando neles outra vez, atacando-os e rasgando-os sem piedade.

Ninguém fez menção de ajudar os dois leopardos indefesos. Drake sabia que aquilo era mais que uma punição. Remy Boudreaux estava furioso. Drake entendia, ainda que ninguém entendesse. Pessoalmente, mataria os dois bastardos. Ousaram atirar contra Saria Boudreaux. Remy e seus irmãos os perseguiram e ouviram o tiro que Armande disparou na direção de Drake e Saria.

O irmão mais velho de Saria era um lutador poderoso, um dos melhores que viu, e para um homem ser tão experiente assim, devia ter viajado como shifter para fora do afluente da Louisiana. Drake não se surpreenderia se soubesse que Remy serviu em seus próprios times na floresta tropical. Remy Boudreaux devia ser o líder do covil, não Amos Jeanmard, decidiu Drake. Ele conseguia transmitir a nota exata de terror naqueles que assistiam. Era impossível dizer se pararia antes que fosse tarde demais, mas os outros não pareciam terrivelmente preocupados.

Drake estudou Elie Jeanmard, de pé passivamente enquanto assistia a briga dos leopardos. O cheiro dizia que o homem foi seu primeiro desafiante na noite anterior e o terceiro homem que o perseguiu pela propriedade dos Mercier. Ele assistia a surra com o rosto amargo, mas não fez movimento algum para pará-la. Aquele era o filho de Amos Jeanmard e se Drake estava certo e Jeanmard fosse o líder do covil de Louisiana, Elie não desejava a liderança. Era compreensível. Elie viu a obrigação de seu pai para com o covil, mas era infeliz, e muito provavelmente sua mãe também foi. Ainda assim, quando percebeu que Armande e Robert estavam caçando Drake e Saria, não pensou duas vezes em chamar seus irmãos.

—Ow-ow, — sussurrou Saria baixinho. —Talvez seja melhor ficar atrás de mim, ao invés do contrário. — Ela se mexeu para rodeá-lo, para protegê-lo.

Drake segurou seu braço num firme aperto, mantendo-a no lugar. Seu corpo bloqueava parcialmente o dela do campo de batalha. Um por um seus irmãos tiraram os olhos de Remy e dos leopardos ensanguentados e os dirigiram para Drake. Podia sentir a tensão se esticando como um fino fio metálico, que até mesmo o leopardo negro notou e lentamente virou a cabeça. Olhos vermelhos ficaram fixos em Drake. O leopardo negro andou mais próximo ao chão no movimento de perseguição em câmera lenta de sua espécie.

—Não vai me achar uma presa fácil como esses dois, — disse Drake, calmamente tirando a camisa. Flexionou os ombros para soltar os músculos enquanto tirava os sapatos com os próprios pés. —Não seria uma luta justa, Boudreaux. Está cansado e eu não. Podia acabar com você de qualquer jeito, mas se insistir em querer se passar por idiota na frente desses dois sacos de lixo, farei sua vontade.

Manteve a voz baixa, divertida, um pouco provocadora e ela foi registrada pelo leopardo negro. O animal rosnou, as orelhas baixas, os dentes aparecendo numa careta. A fúria de matar ainda estava nele e desta vez tinha um alvo — um estranho — um que ousou reivindicar sua irmã. Sabia que não deveria devolver o desafio ao irmão de Saria, mas maldição, estava farto da política daquele covil fora de controle, ataque-primeiro-e-faça-perguntas-depois. Alguém precisava dar-lhes uma lição.

Ainda estava dominando seu intelecto a ponto de saber que seu próprio leopardo o estava governando um pouco, furioso pelo ataque à Saria, mas que fosse. Queria ceder à natureza selvagem do seu leopardo. Suas mãos desceram até a calça, abrindo rapidamente os botões.

—O que está fazendo? — exigiu Saria, impedindo-o com uma mão em seu pulso. —Está louco? É meu irmão.

Era tarde demais para Saria parar alguma coisa. Seus outros irmãos estavam tirando as camisas e os sapatos. Aquela não seria uma briga homem-a-homem com Remy. Saria era irmã deles e nos que lhes dizia respeito, foi roubada — sequestrada — forçada a aceitar um homem que não conheciam, como companheiro. Podiam cheirar seu aroma nela e isso os deixou loucos. Remy continuou a se aproximar naquele andar vagaroso que precedia um ataque a toda força.

O tiro encheu o ar. Simultaneamente, uma arma automática disparou balas a poucos centímetros dos irmãos de Saria, jogando terra e ramos no ar. Mais tiros foram disparados na frente do leopardo negro. Eli se virou, o rifle no ombro, mas não havia alvo. Todos congelaram.

—Parados. O próximo a se mexer, morre.

Drake reconheceu a voz de Joshua Tregre. Soava mortal e ninguém, muito menos Drake, era bobo o bastante para se mover.

—Drake, recue até a cobertura, — instruiu Joshua. —Os demais fiquem onde estão e não cometam o erro de achar que não vamos matá-los. Vocês não significam porra nenhuma para nós. Bastardos malditos, virando-se contra a própria espécie. — Cuspiu as palavras com desprezo.

Dois irmãos de Saria estremeceram, os rostos escurecendo. Um olhou para a arma que colocou no chão próxima à camisa.

—Não, — alertou Drake. —Estará morto no primeiro passo. Eles não erram.

O leopardo negro se contorceu, o pelo ondeando, juntas e ossos estalando enquanto o homem emergia da fera. Saria ofegou e colou o rosto na camisa de Drake para se impedir de ver seu irmão mais velho nu.

Remy estava coberto de sangue e arranhões, mas levantou sem fazer careta, seus olhos azuis glaciais varrendo as árvores. —Não se mexam. Nenhum de vocês, — comandou os irmãos. Olhou para Drake. —Vejo que seus garotos chegaram.

Era uma mostra de força Remy ter lutado contra a vontade de matar do seu leopardo e soar direto, até mesmo casual. Também estava atraindo a atenção para si. Não funcionaria. Os membros do time de Drake eram muito bem treinados. Cada um tinha um alvo, ou nesse caso, uns dois. Os irmãos de Remy estavam muito próximos uns dos outros.

Drake deu um curto aceno. —Lidero alguns times na floresta tropical. — Era um palpite esperto, mas Remy não era nenhum garotinho criado em casa. Rodou o mundo. Um leopardo procurava ambientes selvagens. Se Remy viajou, teria cruzado com um covil, e com pelo menos alguns dos homens que trabalhavam com reféns e resgates.

—Mahieu, jogue minha calça antes que Saria tenha um derrame.

O irmão de Saria era tão grande quanto Drake, com os mesmos músculos pesados, mas seu cabelo era muito negro e o usava comprido e solto. Seus olhos eram de um azul cobalto impressionante. Seu rosto era duro, forte, as linhas bem desenhadas. Uma cicatriz ao lado do pescoço indicava que uma faca quase acabou com sua vida, em algum momento.

—E se apresse, — adicionou Saria. —Não quero ver Remy em toda sua glória. Vou ter medo pelo resto da vida. — Sua voz tremeu um pouco, mas Saria não desmoronaria, nem mesmo sob aquela situação tensa.

—Deixem, — disse Drake ao seu time. Estavam escondidos nos arbustos, impossíveis de serem avistados, embora os irmãos Boudreaux deviam sentir seus cheiros agora.

Mahieu, usando movimentos cuidadosos, pegou a calça do irmão e a jogou para ele.

Remy a pegou com uma mão e a subiu pelo quadril.

—Remy, os garotos precisam de atenção médica, — apontou Elie Jeanmard, preocupação margeando sua voz. —Já pode ser tarde demais.

—Que pena, — disparou Remy. —Não ligo particularmente se vão viver. — Olhou para Drake. Aqueles olhos azuis penetrantes não vacilavam. —Quero falar sozinho com minha irmã. Preciso saber se ela está bem. Saria, saia de trás dele para que eu possa vê-la. Não tenha medo. Se esse homem a está fazendo de refém...

Drake manteve a mão em Saria. —Um pouco tarde para bancar o irmão mais velho preocupado. Onde diabos estava quando ela foi atacada?

Saria sorveu o ar audivelmente. Os dois leopardos feridos e ensanguentados, deitados de lado, com as línguas de fora, sacudiram em reação e começaram a tentar se arrastar até os arbustos. Remy se virou para olhá-los e ambos pararam. Ele se virou lentamente para fitar Drake com cenho franzido e confuso.

—Do que diabos está falando?

—Essa é a questão. Algumas semanas atrás um membro do seu covil decidiu forçar seu leopardo em Saria. Vi que ela não tinha, nem tem nenhuma proteção. Nem do covil, nem de sua família.

—Você não dá muita trégua. — Declarou Remy.

—Pode querer se lembrar disso da próxima vez que me desafiar para uma luta.

Um sorriso breve tocou a boca de Remy. —Também é a porra de um bastardo.

—Aposte sua vida nisso, — concordou Drake sem remorso. —Não tomou conta dela. — Ele praticamente cuspiu a acusação.

Saria endireitou os ombros. —Eu estou aqui, — disse para os dois. —E não sou uma refém. Estou com ele por livre e espontânea vontade.

—Tem certeza, Saria? — perguntou Remy. —Venha aqui, cher.

Antes que pudesse ceder, Drake ficou bem à sua frente, impedindo que chegasse aos seus irmãos. —Acho que não. Não vai colocar a mão nela.

Os olhos penetrantes de Remy o perfuraram, as íris quase inteiramente preenchidas. Seu leopardo ainda estava perto — ainda furioso. —Eles ousaram disparar contra minha irmã, — chiou. —Não me importo muito se vão morrer ou viver. Não acho que seja muito pedir para dar uma olhada nela para ter certeza que não esteja ferida. Saria, venha logo aqui antes que eu passe por cima do seu Romeu. — A voz era bem baixa, uma bainha de veludo por cima de uma adaga de aço. —E não se esconda atrás dos seus homens. Escolha, homem ou leopardo, — desafiou.

Seus irmãos se mexeram, como se fossem protestar.

Armande e Robert, com grande esforço, voltaram à forma humana, grunhindo, chorando, tentando parar o sangue caindo em volta deles.

Os olhos de Drake ficaram âmbares. Podia sentir a onda de calor e o chamado selvagem do seu leopardo que saltava na direção do desafio aberto.

—Atiramos para assustá-la, — esclareceu Armande numa voz fraca e conciliadora. Tinha voltado à forma humana, então seus ferimentos também podiam ser vistos. —Tive cuidado de não atingi-la.

—Cale a porra da boca, — disparou Remy, a voz glacial. —Ainda posso matá-lo. — Estava falando sério, era óbvio quando não conseguiu controlar andar de um lado para o outro repentinamente, apesar das armas apontadas para ele. Olhou com raiva para Drake. —Mande minha irmã aqui agora.

A situação ficava cada vez mais tensa, beirando um incêndio explosivo enquanto os dois leopardos saltavam e urravam por supremacia, pressionando suas contrapartes humanas. Drake tentou respirar para controlar a fúria. Por regra, era um leopardo equilibrado e calmo. Sua confiança e força de vontade em controlar seu animal era a razão porque foi escolhido para liderar times, ainda assim, agora estava se sacudindo pela necessidade de atacar.

—Qual é o problema? — sussurrou Saria. —Acha que meu irmão me machucaria?

Achava? Essa era uma boa pergunta. O que diabos havia de errado com ele? Remy podia ter razão em acreditar que Saria foi levada contra sua vontade, mas não tinha razão para acreditar que o homem machucaria sua irmã. Então a que inferno seu leopardo estava reagindo?

Drake esfregou a base do nariz, estudando o outro homem. Sentia-se como se alguém tivesse alisado seu pelo do lado errado. Cada célula estava alerta e pronta para o combate. Seu leopardo estava colérico.

—Drake? — a voz de Saria vacilava.

O som da nota de medo estabilizou o homem. Seu leopardo continuava a arranhá-lo para que o libertasse, mas Drake se virou imediatamente para Saria. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados. Estava tentando ser forte, mas com seus irmãos tão perto de perderem o controle e Drake se somando à situação caótica, estava apavorada. Para seu crédito, manteve sua palavra e ficou com ele, o aperto no rifle não vacilava, nem correu para seus irmãos — mas queria tranquilizá-los. Que irmã não ia querer?

—Acredita que Remy me machucaria? — Ela olhou de Armande e Robert, deitados em poças de sangue, para seu irmão.

—Não. Ele a defenderia com sua vida, — disse Drake e se forçou a ficar de lado. Aquele era o momento decisivo. Se seus irmãos conseguissem persuadi-la que agiu precipitadamente, estava perdido.

Remy estendeu a mão para a irmã, a chamando com um dedo. Drake se aproximou um pouco mais, numa melhor posição para defendê-la se fosse necessário, mas não fez menção de impedi-la de ir até o irmão.

—Me deixe ajudar os dois no chão, — pediu Elie, movendo-se com cautela na direção dos dois shifters.

—Vá em frente, —Drake assinalou para seu time permitir que Jeanmard desse assistência aos dois lutadores vencidos.

Saria levantou a cabeça com vergonha para limpar as manchas de lama do rosto. Drake segurou seu pulso e gentilmente baixou sua mão. —Está linda, Saria, e não fez nada errado. Protegeu seu cliente e se não veem sua coragem e que estava certa em fazer o que fez, fodam-se todos.

Ela piscou, engoliu o que quer estava prestes a dizer e assentiu. Dirigiu-se pelo chão macio até o mais velho dos seus irmãos. Remy colocou as duas mãos em seus ombros e a inspecionou com cuidado, atrás de ferimentos.

—Estou bem, Remy, só um pouco assustada. Nunca ninguém atirou contra mim antes. — Soava um pouco chocada por seus irmãos terem ido atrás dela.

Remy colocou os braços em sua volta, e a puxou num abraço apertado e feroz. —Nos matou de medo, cher. Quando Eli nos disse que estava sendo perseguida no pântano por Armande e Robert armados... — Ele parou de falar, aquele olhar azul quente indo com intenção assassina para Armande outra vez.

Saria olhou seu irmão. —Sinto muito. Não tinha ideia que iam reagir assim. Qual o problema com todo mundo?

Remy inalou profundamente, aspirando o cheiro combinado de sua irmã e de Drake nos pulmões. O olhar penetrante voltou para Drake. —Acho, ma soeur, que aquele homem que tem o cheiro sobre você inteira é o problema.

Com a acusação em sua voz, Saria se ruborizou.

—Esse homem se forçou à você? — exigiu Remy.

Com a pergunta, os outros irmãos de Saria se aproximaram, formando um círculo mais fechado. Instantaneamente um temporal de balas levantou água em seus pés. Saria ofegou e virou na direção dos atiradores. Drake sacudiu a cabeça, levantando a mão para cessar o fogo. Manteve-se onde estava. A camisa desabotoada, e como muitos shifters, conseguiria tirar os sapatos rápido, mas seu jeans seria um problema. Ainda assim... Esperou, assim como todos fizeram. Todo homem ali olhava para Saria, não para ele, e não a teria culpado se cedesse à pressão.

Ela levantou o queixo, olhou para Remy diretamente nos olhos e sacudiu a cabeça. —Eu pedi que me marcasse. Outra pessoa me atacou, rasgando minhas costas e me mordendo. Me matou de medo e doeu pra caramba. Pedi que me dissesse o que era o Han Vol Dan, que conversasse comigo sobre shifters, porque ninguém fez isso. — Dessa vez a acusação era bem clara, direcionada diretamente de volta aos seus irmãos.

Os dois mais novos se olharam e depois fitaram o chão.

—Ele a coagiu de alguma forma, Saria? — Remy ignorou sua acusação. —Uma fêmea felina emergindo pode ser bem amorosa. Ele sabe disso.

—Eu o coagi, se precisa saber a verdade, Remy. Foi um cavalheiro o tempo inteiro, mesmo quando fiz meu melhor para seduzi-lo. É isso que queria saber? — Agora havia desafio e uma ponta de lágrimas em sua voz.

—Saria, — disse Drake gentilmente. —Não tem que falar mais nada. Venha aqui, querida.

Remy manteve os braços em volta da irmã quando ela se virou na direção deDrake. —Ele devia ter nos procurado.

—Foi tudo rápido demais, Remy. Não sabia o que estava acontecendo comigo. E também pedi a ele que não o procurasse.

—Não importa, ele devia ter procurado. — Dessa vez os olhos de cobalto perfuraram Drake.

Ele encolheu os ombros. —Se está insinuando que eu estava com medo, está errado. Teria aparecido hoje à noite. Tinha assuntos importantes que não podiam esperar e Saria estava a salvo comigo.

—Estava tão segura que atiraram nela.

Drake encolheu os ombros de novo. —Eu os teria matado antes que chegassem nela. — Seu tom era claro e absolutamente confiante.

Remy o estudou. —De onde você é?

—Originalmente das florestas tropicais de Bornéu. Trabalho para Jake Bannaconni. — Drake olhou para os dois homens, machucados e ensanguentados no chão. —Nunca vi um covil como esse. Ninguém que eu conheça feriria uma fêmea e se existisse um macho dessa estirpe, seria morto e queimado, os restos enterrados bem fundo na terra. — Derramou nojo na voz, nojo de todo aquele maldito covil.

Remy não piscou. —Vamos cuidar desse assunto. — Ele levantou o queixo de Saria para que fosse forçada a olhá-lo nos olhos. —Sabe o que essa reivindicação quer dizer? Ele explicou? Não precisa aceitá-lo, Saria, mesmo que sua leopardo aceite.

—Estou ciente disso. Eu o escolhi. Ainda escolho ele.

Remy suspirou. —Se ele é sua escolha, Saria, então iremos apoiá-la. Contudo, preciso saber quem a atacou.

—Não sei. Realmente não sei. Não consegui farejá-lo. Só o leopardo. Estava com muito medo.

—Devia ter me procurado.

Ela engoliu com dificuldade, abaixou a cabeça e assentiu. —Sei que deveria, mas não podia, Remy, não na época. Tenho meus motivos.

Ele ergueu a sobrancelha. —Vai explicar isso para nós?

Ela baixou a voz. —Em casa. Quando estivermos sozinhos, Remy.

Ele estudou seu rosto, a mandíbula firme. Deu um pequeno aceno. —Vem pra casa, então.

—Temos que acabar o que viemos fazer, então voltaremos imediatamente, — assegurou.

—Terminar o que? — exigiu Remy. Seus olhos se estreitaram na irmã, aquele azul escuro cobalto que parecia penetrar qualquer cobertura.

—Jake me deu um trabalho, — respondeu Drake, interrompendo Saria. Ela não queria responder na frente dos outros membros do covil, mas não queria mentir. Ele tirou o assunto de suas mãos.

Remy deu um olhar irritado. —Chame seu time. Ninguém vai atacá-lo. — Ele conseguiu fazer isso soar como se Drake fosse um filhotinho cuja mamãe urso estava na floresta pronta para protegê-lo, caso houvesse necessidade.

Drake o olhou friamente. —Não tem que gostar de mim, Boudreaux, não mais do que tenho que gostar de você. Deixou isso acontecer e pode me culpar se não consegue aguentar a responsabilidade, mas não pense nem por um minuto que suas táticas de intimidação vão funcionar comigo. Não sou uma garota desejando que seus irmãos a amem.

Saria ofegou, virando-se para encarar Drake. —O que está fazendo? Está o provocando para que brigue com você.

Talvez estivesse. Não conseguia acalmar seu leopardo. O animal o rasgava, querendo avançar no irmão de Saria. Remy parecia ter o mesmo problema, e se a tensão emanando do resto dos irmãos dela quisesse dizer alguma coisa — também estavam lutando para se controlar.

Drake franziu o cenho, sacudindo a cabeça, tentando afastar a névoa sangrenta. Olhou para os dois leopardos no solo, completamente rasgados, Eli agachado, tentando ajudá-los. Sua mente parecia pesada como o chumbo, confusa e densa, como se a névoa vermelha tivesse penetrado seu cérebro, tornando impossível pensar com clareza. Por um breve momento, seus olhos encontraram os de Armande.

Armande Mercier e Robert Lanoux estavam deitados em poças de sangue, os corpos estilhaçados, costelas quebradas, ambos lutando para respirar. Os irmãos Boudreaux os olhavam com um intento mortal, ainda não satisfeitos com a punição que Remy infligiu, ainda assim tinha alguma coisa errada. Um alarme disparou em Drake, mas não conseguia perceber exatamente o que estava havendo.

—Tem algo errado aqui, — disse em voz alta para Remy. O homem era um detetive de homicídios, obviamente um líder. Com certeza também podia sentir.

Remy abriu a boca, fechou de novo e olhou em volta. É. Também estava sentindo. Fez um sinal para os irmãos terminarem de se vestir. Drake acenou para Joshua, chamando-os, mas estava incerto.

Joshua Tregre saiu dos arbustos, a arma automática a postos, embora parecesse relaxado. Ele rodeou os irmãos para ficar ao lado de Drake, a uns vinte pés de distância. Seu cabelo dourado pelo sol, todo despenteado, fazia com que parecesse mais um surfista que um leopardo, até que se olhasse para seus penetrantes olhos azul-esverdeados. O olhar carregava um mar tempestuoso e turbulento, ao invés de calmo, camuflando as linhas de riso em volta dos seus olhos. Tinha o peito largo e o tronco forte da maioria da sua espécie. Carregava a arma de uma forma tão confortável que parecia fazer parte dele.

Um segundo homem saiu à direita de Remy, só a trinta pés dos leopardos no chão. Drake fez uma pequena saudação. Jerico Masters assentiu. Era o chefe de segurança do rancho Bannaconni quando Drake estava ausente, o que era boa parte do tempo. Um homem calado, de cabelo escuro e olhos verdes observadores. Drake ficou um pouco preocupado em vê-lo ali. Com Jerico longe, quem estava cuidando de Jake, sua esposa Emma e seus filhos?

O último homem surpreendeu Drake. Evan Mitchelson era um homem muito quieto, grande e musculoso, um ex-lutador profissional com dificuldades na fala. Mal falava, mas usava sinais. Nunca se transformou na frente dos outros e Drake imaginava com frequência se podia se transformar. Segurava uma arma como se tivesse nascido com ela.

—É bom ver vocês, caras, — saudou Drake baixo. —Temos um pequeno problema aqui. Preciso saber se seus leopardos estão agindo de forma estranha. Mais raivosos. Pressionando por supremacia, incitando-os a brigar ou a disparar suas armas.

Remy o olhou em choque. Olhou para os recém-chegados. Joshua assentiu. -Quase desde o momento que entramos no brejo. Todos discutimos como estávamos nervosos. Descartamos logo, por saber que estava correndo perigo. Nos apressamos direto para cá.

Evan suspirou freneticamente. Seu leopardo dificilmente se libertava porque era um assassino, muito difícil de controlar sob as melhores circunstâncias e Evan lutava pela sobrevivência no momento. Queria deixar o brejo.

Jerico assentiu sua permissão.

—Como sabiam onde procurar?

—Seguimos seu cheiro — bem, — Joshua parecia culpado. —O cheiro dela. Sua leopardo está exalando alguns feromônios fortes.

Saria rolou os olhos. —Ótimo. Podem me cheirar pelo pântano. Exatamente o que eu precisava saber. — Ela se moveu para mais perto de Drake como se para se proteger. Pôde ver que o movimento sutil era inconsciente.

—Perdão, dona, — desculpou-se Joshua. —Sua leopardo é muito atraente.

O leopardo de Drake o rasgou tão forte que seus músculos se contorceram e sua mandíbula doeu. Sentiu a transformação deslizar quase rápido demais para se dar conta. Sua visão ficou meio leopardo e coincidiu de olhar na direção dos dois homens feridos. Os olhos de Armande encontraram os dele. O homem o olhava com desespero e algo mais — algo indefinível. O olhar estranho firmou Drake de uma maneira que nada poderia. Era como se os dois shifters derrubados soubessem de algo que o resto deles não sabia, e estavam esperando que uma catástrofe acontecesse.

Arriscou olhar para Remy e viu que ele também estava lutando. —Acho que é esse brejo. — Falou alto o bastante para que sua voz fosse levada até os shifters feridos, observando-os pelo canto do olho. Os dois pareciam desconfortáveis, mas estavam tão perturbados quanto o resto deles.

Remy franziu o cenho, mas acenou para os irmãos se esforçarem para controlar seus leopardos. —Talvez todos devêssemos deixar esse lugar imediatamente.

Drake olhou para Saria. —E você, docinho? Ela está quieta ou dando trabalho?

—Está extremamente quieta. De fato, se não fossem por vocês falarem em feromônios, a existência dela podia até passar despercebida para mim. — Seu olhar deixou o dele, e pela primeira vez soube que mentia para ele. Sua leopardo estava reagindo, mas não queria admitir.

—Remy, quero meus homens fora daqui. Evan está tendo uma enorme dificuldade com o leopardo dele.

—Eu também estou, — admitiu Lojos.

—A mesma coisa aqui, Remy, — disse Gage. —Se não me transformar logo, ele vai me rasgar por dentro.

Remy olhou para seus dois irmãos. Mahieu e Dash assentiram sua concordância. —Elie, os rapazes vão ajudá-lo a carregar esses dois. Se tiver um analgésico, dê a eles. — Olhou para os dois shifters feridos. —Vamos tirar vocês daqui, mas todos enfrentamos problemas com nossos leopardos. Calem a merda da boca e permaneçam assim. Nenhum dos dois precisa nos dar outra razão para matá-los, pois nunca é tarde demais para largamos seus corpos nojentos no pântano.

Gage e Lojos imediatamente foram ajudar Elie a levantar os dois homens. Houve muitos palavrões abafados, mas nenhum dos shifters castigados foi estúpido o suficiente para reclamar. Começaram a caminhar de volta à doca onde os irmãos Boudreaux deixaram seu barco de alta potência, pisando cuidadosamente em volta de todos os perigos.

Remy e Mahieu ficaram atrás. Esperaram até que os outros fossem completamente engolidos pelos arbustos antes de abordarem Drake e os membros de seu time.

—Chefe, precisa da gente aqui? — sinalizou com as mãos para Evan.

Drake sacudiu a cabeça. —Encontro vocês na pensão.

Joshua olhou com dureza para Remy e Mahieu, mas seguiu Jerico e Evan na direção que os outros tomaram.

—Sou Remy Boudreaux, o irmão mais velho de Saria. Esse é Mahieu, — Remy estendeu a mão.

Drake a tomou. —Drake Donovan. Jake Bannaconni me mandou checar algumas coisas para ele. Contratei Saria para me guiar pelo pântano e as coisas saíram do controle bem rápido.

Remy assentiu lentamente. —Posso ver como isso pode acontecer, e se é a escolha dela, ficaremos do seu lado. Precisamos de sangue novo por aqui. Nosso covil está desaparecendo. A maioria de nós não tem escolha.

—Podem considerar ir até as florestas tropicais para ver se conseguem encontrar uma companheira, — disse Drake. —Embora tenha quase certeza que já tentaram isso.

Remy encolheu os ombros. —Tentei. Estou mandando meus irmãos assim que as coisas se acalmarem por aqui. Não acreditávamos que Saria tinha uma leopardo.

Drake abriu a boca para cuspir uma resposta. No que lhe dizia respeito, aquela não era razão para negligenciar a irmã mais nova, mas não conhecia todas as circunstâncias e honestamente não podia ter certeza se seu leopardo estava dirigindo sua fúria aos irmãos de Saria.

—Eu tenho sim, — disse Saria inesperadamente, os olhos brilhando.

Drake quis sorrir. Deslizou o braço em volta dos seus ombros e a puxou para perto de si. —Sim, você tem.

—Ela está um pouco difícil de controlar nesse lugar, — adicionou, evitando de novo seus olhos.

—Já esteve aqui, — disse Drake. —O que há de diferente?

Saria franziu o cenho e olhou ao redor. —Não sei. É bonito, mas sempre foi. Mais flores e plantas do que me lembro, mas isso muda o tempo todo, dependendo do tempo e das tempestades. Pode ser a quantidade de água. Às vezes carrega a parte de cima do solo e outras vezes deposita mais solo rico por cima. Esse brejo é muito selvagem e natural. De todos os lugares, essa terra tem a maior variedade de vida e de terra plana. Tudo isso é brejo, mas, embora o chamemos de Fenton’s Marsh, é uma propriedade enorme. A terra fica mais firme quanto mais se entra nela.

—Vai explicar o que está havendo, Saria? Os portões do inferno se abriram no covil. Se Elie não tivesse nos contatado, estaria na cadeia agora por ter matado esses dois, — disse Remy.

—Não acho que ninguém esperava isso, — disse Drake. —Saria precisava de ajuda e eu estava aqui. Nossos leopardos definitivamente se reconheceram. Quando o outro a atacou, a leopardo dela se escondeu dele.

Os olhos de Remy ficaram gélidos. —Quem foi, Saria, e não me diga que não o reconheceu. Deve ter sentido o cheiro dele. E quando a marcou...

Drake sentiu uma onda de raiva ao ouvir essas palavras. Virou Saria e levantou sua camiseta, revelando as marcas compridas, ainda vermelhas, embora em início de cicatrização.

Remy e Maheiu rosnaram, quase simultaneamente, seus leopardos reagindo à visão dos ferimentos de Saria. Pouco importava que os rasgos estivessem quase cicatrizados e que aquilo tivesse acontecido tempos atrás.

Remy se aproximou, inalando fortemente num esforço para detectar um cheiro. Saria sacudiu a cabeça e desceu a camisa, olhando com raiva para Drake.

—Não consegui saber quem era. Não sei por que não consegui sentir o cheiro dele, Remy. Talvez estivesse com muito medo. Pensei que ia me matar. Nenhum leopardo me atacou antes. Nunca estive tão perto de um.

—Devia ter me procurado imediatamente.

—E dizer que um leopardo me atacou? Os únicos leopardos que conhecia eram cinco dos meus irmãos. — Ela fez aquela declaração olhando-o direto nos olhos.

—Você sabia? — perguntou Remy.

Ela assentiu. —Vi todos vocês quando era criança. Na época, Pere ainda estava vivo e o observei com cuidado depois disso. Observei todos vocês. Era empolgante e assustador. Havia marcas de garras na casa às vezes, e vi todos os sinais. Sou boa em seguir rastros.

Remy sacudiu a cabeça, claramente chocado com sua irmãzinha. —Se tivesse nos procurado, teríamos conversado com você a respeito.

Ela apertou os lábios por um momento, mas Drake pôde ver que estava angustiada, embora rapidamente tenha escondido isso com um rápido dar de ombros. —Pensei que talvez não ficassem muito comigo por eu não ser uma de vocês.

Ela tentou ocultar a dor em sua declaração simples e honesta, mas Drake a sentiu — assim como seu leopardo. O grande felino pulou com tanta força contra Drake que seu corpo inteiro se mexeu, os músculos ondeando e se contorcendo. Teve que respirar fundo para manter o animal longe. Evan disse que mantinha seu leopardo sob estrito controle, raramente deixando que escapasse, e só quando estavam completamente sozinhos porque seu animal era intensamente violento. Drake estava começando a achar que seu felino estava no mesmo caminho — pelo menos perto da família de Saria.

Remy recuou, levando Mahieu com ele. —Geralmente tem problemas com seu leopardo? — perguntou em uma voz baixa.

Se Remy soasse provocador ou zombador, Drake tinha certeza que nada poderia impedir seu leopardo, mas havia uma nota de preocupação em sua voz e Remy mais uma vez estava olhando em volta com olhos cautelosos, avaliando.

—Não. Nunca. Meu leopardo é sempre calmo, do contrario jamais poderia liderar times em situações de combate.

Remy assentiu. —Tem alguma coisa errada. Ainda posso sentir e não é a leopardo de Saria, — disse. —Não acho que aqui é seguro para vocês.

—É importante, ou não a manteria aqui, — disse Drake.

—Sou capaz de achar o caminho de volta sozinha, se vocês...

Drake sorriu torto para Remy. —É difícil de discutir com ela.

—Ela sempre foi assim. Espero os dois em casa. — Remy lançou um olhar sério para a irmã. —E vamos conversar, Saria. Quero saber tudo que está acontecendo, está me ouvindo?

—Ouvi, — disse Saria, então murmurou baixinho, —acho que o mundo inteiro ouviu.

—Como é? — disparou seu irmão.

Drake pôde ver o divertimento em seus olhos que traía seu tom. —Estaremos lá. — Deslizou a palma pelo braço de Saria até sua mão, os dedos se entrelaçando nos dela. Deu um leve puxão. Queria sair de Fenton’s Marsh o mais rápido possível.

Saria olhou para Remy, ainda um pouco chocada por seus irmãos virem resgatá-la.

—Bien merci, não tinha ideia que viriam.

Mahieu se aproximou mais para abraçá-la forte. —Claro que viríamos, Saria.

—Não me faça chorar, Mahieu. Eu não sabia.

—Somos uma familie. — Ele se inclinou. —J’aime beaucoup, ma soeur[13]. Como não sabia disso? Se estiver com problemas, Saria, todos viremos.

 

Drake assentiu para os dois irmãos enquanto a levava de volta pelo caminho estreito que ficava longe da água, mas andou com cuidado, os mantendo à vista até passarem para o outro lado das folhagens. Saria levantou a mão para os irmãos num breve aceno, mas não disse mais nada, embora houvessem trocado de posição, com Saria agora à frente. Drake franziu o cenho. Seu leopardo ainda rondava, rodeando e lutando ocasionalmente com ele para escapar. —Tem certeza que sua fêmea não está dando trabalho? — Observou-a de perto, procurando em seus olhos escuros sinais de algo errado.

Saria sacudiu a cabeça, olhando para ele. —Está mais quieta agora.

Drake olhou ao redor. Fenton’s Marsh tinha cheiro de morte para ele. —Vamos andando. Quero fazer isso antes que anoiteça.

Para falar a verdade, queria Saria longe dessa área, embora não pudesse dizer que o brejo não era bonito. Podia ver porque as terras primitivas de Fenton eram o habitat de tantas espécies selvagens, enquanto seguia Saria mais adentro.

Flores cresciam no meio dos verdes mais escuros das plantas, caules altos estranhamente listrados num verde escuro e claro. Pareciam lírios dourados com manchas negras nas pétalas em formato de cones. Espalhadas por entre as flores mais altas havia outras espécies que não reconhecia, cada uma crescendo até a metade do caule listrado do estranho lírio. Bem onde as vinhas se enroscavam nos galhos das árvores formando emaranhados, as flores menores de um colorido vivo faziam o mesmo no chão.

Musgo se pendurava nos galhos em compridos véus, e todo tipo possível de planta parecia competir por espaço no amontoado. Enquanto entravam mais, para longe da beira da água, a folhagem foi ficando mais densa, aparentando uma selva. Cogumelos e fungos cresciam em abundância. Ali, as flores eram tapetes grossos cobrindo o chão sob as árvores.

—Isso parece uma floresta tropical. O solo deve ser incrível.

Ela deu um sorriso por cima do ombro, capturando imediatamente sua atenção. —Eu fotografei cada pedacinho dessa terra aqui. Estou trabalhando lentamente em direção ao sul. No consegui achar o nome de algumas dessas plantas e flores em lugar nenhum. Como disse, ninguém vem aqui, já faz muitos anos. Espero que haja algo importante para a National Geographic ou para outra revista científica.

—Quer batizar uma planta com seu nome? — Ele a observava andar, o balanço fácil e sexy do quadril. Caminhava com os ombros erguidos, e aquele balanço gentil enfatizava sua cintura fina. Não era magra como uma modelo, mas tinha curvas onde um homem como ele mais apreciava.

—Não, isso faz mais o estilo de Charisse. Só quero que prestem atenção nas minhas fotos e algo assim me tornaria famosa. Podia mesmo viver disso. — Ela o olhou outra vez por cima do ombro e ele esqueceu tudo que o cercava. Era um belo lugar, mas para ele não havia nada mais bonito que ela.

—Pare. — Ela riu baixo. —Às vezes não sei o que fazer com você.

—Posso dar um conselho, — disse.

O chão estava ficando mais esponjoso sob seus pés outra vez, indicando que estavam chegando perto da outra margem da água da longa faixa de terra. Sariu riu outra vez, mas não respondeu.

Drake ficou calado por um momento, tentando descobrir uma maneira sutil de abordar o assunto dos seus irmãos. Manteve a voz bem gentil. —Sabe que temos que contar aos seus irmãos que alguém está matando, usando tanto o método de sufocação do leopardo quanto uma faca, — disse Drake, desejando que não os tivesse levado de volta ao objetivo da visita ao pântano.

Por alguns momentos, seriam só os dois novamente, mas ela tinha que aceitar revelar a informação que tinha à sua família. Queria que concordassem sobre isso. Precisavam de aliados para descobrir o que estava havendo dentro do covil. Ninguém contaria a ele, nem ao seu time e nem provavelmente à Saria. Precisavam dos irmãos dela.

—Achei aqueles corpos há muito tempo atrás e não vai haver nenhuma evidência, — assinalou.

—Não temos escolha, Saria. Eles sabem que tem algo errado.

Saria manteve o olhar fixo na trilha enquanto andavam. O caminho estava ficando mais estreito, a área ao redor mais perigosa, mas Saria sabia exatamente onde ia. —Não vai ser fácil, — arriscou. —Remy é um detetive de homicídios e não vai gostar de saber que estava com medo deles.

—Saria, — chamou Drake baixinho. A parou, segurando com delicadeza seu pulso e forçando-a a dar às costas para ele. —O que quer que tenha gerado seus medos foi válido. Aparecer uma vez para resgatá-la não apaga anos de negligência. Tinha razão para suspeitar deles.

—Talvez, Drake, e talvez tenha sido orgulho. Pareciam tão unidos e eu era tão sozinha e excluída. Talvez quisesse castigá-los de alguma forma.

Drake se inclinou para ela e tocou sua testa manchada de lama com um beijo. —É sempre fácil se criticar posteriormente, quando se sabe mais, mas na época, docinho, fez o melhor que podia. Estava tentando protegê-los. — Ela endireitou os ombros e assentiu. —Obrigada por não ter piorado as coisas com meus irmãos lá atrás. Sei que estava irado.

Ele ergueu uma sobrancelha.

Ela sorriu e deu de ombros. —Seus olhos começam a brilhar. Sério, Drake. Ficam dourados e então brilham. Acho que vou ficar tentada a deixá-lo zangado de vez em quando só para poder ver aquele brilho de chama.

Ele fechou a mão em seu cabelo e trouxe sua boca até a dele. Quando levantou a cabeça, seus olhos estavam tão dourados quanto tinha alegado. Saria riu e a tensão em sua barriga se dissipou. Ela estava de volta, segura e confiante. Se abalou por um momento, mas se manteve fiel à sua palavra e ficou ao seu lado.

—Não estava tão irado quanto meu leopardo. Ele estava com um comportamento péssimo.

—Todos estavam com um comportamento péssimo. Pensei que meus irmãos iam matar você. E Remy quase matou Armande e Robert. Ficou muito tenso ali por um tempo. — Ela entortou um pouco o nariz. —Eu era a única com um pouco de bom senso. Estou o levando pelo caminho seguro dando a volta e ficando o mais fora possível do pântano. Por aqui é mais longe, mas menos perigoso, embora estejamos voltando para o capim alto, então olhe direito se passarmos pela água. O que espera ver? — perguntou. —Os corpos já se foram há tempos.

—Meu leopardo vai conseguir farejá-los. Quero saber se houveram outros. É possível que seu assassino esteja usando a ilha como lugar de desova há tempos.

—Não sei por que, mas ainda acho que o primeiro foi diferente dos outros. Havia dois barcos, e suspeito que estavam metidos em alguma coisa ilegal.

—Dois assassinos diferentes?

Ela franziu o cenho, sacudindo a cabeça enquanto andava por entre o capim. —Não. Mais como se daquela vez não fosse algo planejado e das outras vezes sim.

Ele notou que ela mantinha o rifle aninhado cuidadosamente nos braços e estava muito alerta, observando crocodilos enquanto se aproximavam do capim. Ela parou a certo ponto e então verificou cuidadosamente a área.

Caminharam por talvez outra milha. Seu leopardo começou a se acalmar, permitindo que respirasse com mais facilidade. A necessidade terrível de explodir em fúria diminuía gradualmente, e com ela a tensão do seu corpo, deixando sua guarda baixar e apreciando o ambiente.

A folhagem tinha menos flores selvagens entrançadas nos densos arbustos e mais árvores e arbustos mais separados uns dos outros. Havia evidência de pequenos animais por todo lugar. Pássaros estavam empoleirados nos galhos e quando chegaram perto das pontas da propriedade curvada, pôde ver garças e garçotas andando pela água por entre o capim mais baixo.

Saria os levou para uma enseada protegida, onde o chão era sólido e as árvores se alinhavam na beira da água, sombreando a beira do pântano e as macrófitas que sobressaíam da água.

Ela abriu os braços e deu um giro. —Foi aqui onde achei o segundo corpo. Estava metade dentro da água bem ali. — Apontou para um longo caminho mais adiante, onde a grama estava achatada, as plantas aquáticas se destacavam e a água ficava mais funda — provavelmente o caminho de um crocodilo. —E ali. — Ela apontou para um lugar bem longe do primeiro, onde alguém poderia escolher fazer um piquenique, julgando-se a salvo do réptil. —Havia garrafas do nosso bar no chão.

Ele segurou sua mão e a levou de volta ao interior, longe dos crocodilos e dos corpos. O chão era sólido e as árvores cheias de folhas. Se preciso, ela poderia facilmente subir numa, embora não houvesse sinais de crocodilos por ali.

—Vou me transformar e dar uma olhada por aí, Saria. Pode demorar um pouco.

—Quero tirar fotos suas. Tudo bem? Como leopardo.

—Sabe que não é uma boa ideia. — Drake odiava negar algo. —Nem mesmo para uso próprio é uma boa ideia.

—Como alguém conseguiria distinguir um shifter de um leopardo?

Ele lhe passou a camiseta, tirando-a com facilidade. —Vão saber que a foto foi tirada aqui no pântano, docinho. Como vai explicar um leopardo em Fenton’s Marsh?

Saria parecia fascinada por todos os músculos em seu tronco. Olhava-os enquanto dobrava a camiseta. Drake chutou fora os sapatos e colocou as mãos na frente da calça. Seu olhar desceu junto com suas mãos quando ele abriu o tecido e o tirou do corpo. Gostava que estivesse fascinada. Teria que se acostumar a vê-lo nu e não parecia se importar, embora parecesse um pouco intimidada.

—Seu irmão Remy é um homem durão. — Tentou distraí-la.

Ela piscou, tentando focar em seu rosto. —Todos são.

—Esse covil precisa de um líder forte. E ele é imensamente melhor que o lutador que mandaram. Acabaria com qualquer um deles em segundos.

—Meus irmãos ficam na deles.

—Mahieu não está saindo com Charisse? — Ele entregou o jeans, desesperadamente tentando pensar em algo que não fosse sexo. Sexo de repente ocupava toda sua mente, e sendo homem, sabia que seus pensamentos eram impossíveis de ocultar. Já estava intimidada o bastante com a ideia de transar com ele.

—Bem, com meus irmãos você nunca sabe. Lojos e Gage enchem muito o saco dele sobre isso, provocando, sabe. Mahieu não diz muita coisa, mas vai com ela a clubes de jazz.

Ela não tentou desviar os olhos de seu corpo. Seus olhos se arregalaram e ela ergueu as sobrancelhas. —Não sei, Drake, você é um pouco maior do que eu esperava.

A mulher podia fazer o diabo corar. Ao invés de se afastar dele, se aproximou e estendeu a mão de forma hesitante, como se com medo que a empurrasse. Ele ficou imóvel. Bem como seu leopardo. Os dois prenderam o fôlego. Seu olhar saltou para seu rosto, queimando em seus olhos, e desceram de novo até sua poderosa ereção. Tentativamente, os dedos roçaram seu pênis, um deslizar suave, como se pudesse queimar sua pele — ao invés disso, ela queimava a dele.

Todo ar saiu dos seus pulmões. Sangue quente correu pelas suas veias e se derramou naquela necessidade urgente e cruel. Cada terminação nervosa parecia centrada em sua virilha. Seus dedos acariciaram seu comprimento, traçando-o, absorvendo seu formato, descendo para tocar seu saco. Um urro baixo escapou, sua garganta fechando o som, o que fez com que saísse estrangulado.

—Tão quente, — murmurou como se para si mesma. —Vivo.

—Muito vivo, — admitiu, trincando os dentes. Não queria que parasse, mas aquilo era tortura, pura e simplesmente.

Saria voltou a olhar para o rosto de Drake. Linhas de desejo estavam bem traçadas. Seus olhos ficaram de um dourado feroz — como o sol poente. Ela molhou os lábios. Tudo nele era bonito. Amava a ideia que seu corpo ficasse tão quente e ereto só para ela. Havia algo poderoso e libertador em tomar o controle. Seus dedos brincavam pelo seu corpo como se fosse um instrumento musical, deslizando, acariciando e acompanhando sua forma enquanto guardava a sensação de tocar sua pele na memória. Uma gota de sua essência em formato de pérola foi expelida da cabeça macia e aveludada.

Saria olhou para a gota e lambeu os lábios uma segunda vez. Sua boca encheu d’água. Bem no fundo, sentiu sua leopardo se mexer, e então se esticar com lânguido interesse. A felina amorosa a deixou louca mais cedo no pântano — algo que não quis admitir para Drake na frente dos seus irmãos, mas agora não queria a resposta da sua leopardo. Queria que a exploração fosse toda sua. Levantando o olhar, pensou que o rosto de Drake poderia ser esculpido em pedra. Seus olhos estavam baixos, pesados, sua expressão de puro poder e paixão. Seus olhos ficaram completamente dourados pela luxúria e com uma necessidade desenfreada — por ela. Bebeu de sua visão, o coração pulsando com atrevimento.

—Drake. — Olhou para sua ereção. —Me mostre.

Ele não fez perguntas, nem protestou. Pegou sua mão e a colocou em volta dele. Mostrou como masturbá-lo. Parecia veludo sobre aço, uma combinação fascinante. Queria passar muito tempo descobrindo tudo sobre seu corpo, o que o fazia ofegar de prazer e o que o colocava de joelhos. O que colocava aquele brilho sexy e caloroso em seus olhos dourados.

Leu a respeito de sexo, e certamente fantasiou, mas não havia considerado estar com nenhum dos homens com os quais cresceu. Esse homem com seu corpo firme que nem pedra, um calor escaldante nos olhos e uma natureza apaixonada era tudo que tinha imaginado. Seu corpo estava quente e necessitado, a pele tão sensível que a camisa fina machucava. Sentia-se faminta por ele, morrendo de vontade de conhecer sua sensação e gosto. Queria fazer sua própria reivindicação dele.

Não se considerava uma mulher ciumenta, mas a ideia de outra mulher o tocar, a fazia querer cravar as garras com intenção letal. Queria ser a única a lhe dar prazer, ser a única que ele desejasse com a mesma intensidade. A necessidade vinha em ondas, uma levada quente pelas suas veias pulsando no centro da sua feminilidade. O desejo profundo e urgente não era causado apenas pela sua leopardo, embora entendesse a felina bem melhor do que antes.

Drake Donovan era o homem mais sexy que já encontrou e a química entre eles era fora de série. Não havia como resistir à urgência terrível em seu corpo. Sem pensar, abaixou a cabeça para provar aquela gota sedosa, a língua se enroscando na cabeça larga. Ele se sacudiu em sua mão, inchou mais. Um grunhido ressoou em seu peito e ela deu lambidas curtas e delicadas, sorrindo quando foi recompensada com ele mais quente e latejando.

—Não sou um maldito santo, Saria, — chiou, a voz quase demoníaca.

Ela levantou os olhos, um arrepio deslizando pela espinha pelo tom desesperado de sua voz. Seus olhos brilhavam com uma luxúria que só intensificou a fome desesperada para sentir seu gosto. As mãos dele levaram as dela até a base, enroscando seus dedos fortemente em volta da ereção grossa. Ela deixou a mão em seu cabelo guiá-la de joelhos em cima da grama espessa. A quantidade impressionante de carne em seu punho prendeu seu olhar fascinado.

—Puxe para dentro da boca, bem devagar, — instruiu ele. —Assim. Empurre agora, se acostume com o tamanho e com a sensação. — Ele jogou a cabeça atrás e grunhiu quando obedeceu. —Use a língua, querida.

Ela puxou a cabeça e o lambeu, muito como uma gata lambendo uma tigela de leite. Quando ele pulsou contra sua língua, o prendeu dentro da boca. Todo aquele aço sedoso. O gosto dele era feral, quente, completamente masculino. Seu quadril convulsionou e ela o olhou de novo, vendo o dourado incrível dos seus olhos brilharem de tesão.

Seu quadril mexeu de novo num ritmo curto e desesperado que ela imediatamente seguiu. Levou-o mais fundo e permitiu que sua boca o sugasse ao sair. Ele sorveu o ar de forma rápida e falha em resposta. Ouviu seu próprio gemido quando encheu sua boca de novo, quando sentiu o poder aumentar dentro de si, uma paixão obscura que alimentava a luxúria desenfreada que a dirigia. Precisava dele assim, gemendo, perdendo o controle, enquanto sua boca inexperiente o deixava maluco.

—Saria. — Disse seu nome. Aquilo foi tudo, uma única palavra, mas sua voz era rouca e exigente, um apelo brusco por misericórdia, uma ordem para que continuasse.

Ele era grosso, esticava seus lábios, enchia sua boca, quente e pulsante com vida. Tinha um sabor tão masculino, tão apaixonado, quente e delicioso. Lambeu a parte debaixo da cabeça larga e sensível, apreciando a sensação de sua reação. Ele gemeu quando o levou mais fundo. Sua mão de repente se fechou em seu cabelo, mantendo-a parada enquanto seu quadril arremetia numa série de investidas curtas.

—Relaxe, docinho. Relaxe e respire. Inspire e prenda o ar quando eu deslizar um pouco mais fundo. Não vou deixar que nada lhe aconteça.

Ela fez como disse, inspirando, o sentindo deslizar mais fundo até que temesse engasgar, mas ele não foi mais além e a sensação de sentir seu coração pulsando em sua boca fez aumentar a pulsação em seu centro. Sentiu raios romperem pelo seu corpo, como se cada terminação nervosa estivesse ligada à sua boca.

—Estire a língua.

Enquanto as palavras ainda deixavam sua boca ele grunhiu quando ela obedeceu, esfregando aquele doce ponto debaixo da coroa da ereção quando a deslizou para fora. Segurou sua cabeça quando deslizou outra vez para dentro. Começou um ritmo, puxando-a mais para perto, deixando que respirasse e puxando sua cabeça quando arremetia.

—Chupe mais forte, docinho. Isso. Desse jeito. É tão bom. Mais, docinho, com mais força. Preciso que seja mais forte.

Ela ouviu suas instruções bruscas, seguindo-as com cuidado, dando-se para ele, desejando apenas seu prazer, amando os sons dos seus gemidos e o movimento inevitável do seu quadril. Ela enterrou os dedos em seu quadril, mantendo-o perto, usando a língua e o calor de sua boca para trazê-lo para perto do orgasmo. O sentiu ficar maior, seu calor e fogo. Ele pulsava com vida, com uma paixão tão erótica que não conseguiria parar nem se quisesse.

Puxou sua cabeça só um pouco mais para trás quando ela tomou ar, explodindo em jorros curtos, e então ela sentiu seu gozo quente descendo por sua garganta. Ele gemeu, um gemido baixo e comprido, o som tão estimulante sexualmente quanto a carne dura sacudindo no calor de sua boca. As unhas dos seus dedos afundaram em seu escalpo e em um ombro enquanto respirava com dificuldade.

—Use a língua, amor, — estimulou. —Isso é tão bom.

Ela o limpou, um ato gentil para acalmar ambos. Estava respirando quase do mesmo modo que ele. Sentia-se doída em todo lugar, quase desesperada para arrancar as roupas e se empalar com aquela lança grossa de veludo sobre aço.

Drake a levantou, segurando-a bem perto. —Isso foi inacreditável, Saria.

—Tenho certeza que vou melhorar, — disse, o olhar repentinamente preocupado.

—Se melhorar vai me matar. — Roçou um beijo em sua têmpora. —Vamos terminar isso na pensão num quarto confortável e com uma cama. Sua primeira vez tem que ser especial, docinho.

Não tinha certeza se esperava algo especial, mas ele tinha razão. O pântano não era um lugar para se tentar transar. Assentiu, incapaz de conter seu próprio desejo. Precisava ficar longe dele.

Drake podia dizer que Saria estava lutando e se amaldiçoou por permitir que lhe prestasse um serviço daqueles quando não podia mostrar a ela o que era fazer amor. Pôde ver que ela queria ficar sozinha e odiava que tivesse que ceder à sua vontade, de deixá-la chupando o dedo depois de ter lhe dado tanto prazer.

—Vai ficar bem?

—Praticamente vivo no pântano, — disse ela, estudando a copa das árvores. —Posso tirar fotos enquanto você faz o que seja que leopardos fazem.

Desconfortavelmente, ele se transformou, ficando perto dela por um momento para esfregar o pelo em sua pele, de seu modo próprio tentando assegurá-la antes de se distanciar. Drake procurou por toda a área, indo e voltando pelo terreno selvagem, usando todos os meios disponíveis para colher evidências de uma morte causada por um leopardo. Nunca ficou tão frustrado — nem amedrontado — em toda sua vida. Havia vários lugares que farejou sangue e morte, seis para ser exato, e descobriu mais garrafas vazias do bar dos Boudreaux, mas em lugar nenhum achou evidência de leopardo. Nem um rastro sequer. Nenhum cheiro característico. Nem pelo.

Seu leopardo às vezes ficava bem calmo e então repentinamente ficava tão agitado que Drake temia não ser capaz de controlá-lo. O temperamento inesperado parecia não ter padrão de surgimento enquanto Drake percorria vários acres. Saria estava no centro do círculo, cada vez mais amplo, que usou para caçar evidências e se certificar que podia farejá-la a todo momento.

Sabia que Saria não podia ter imaginado a mordida de um leopardo. Era bem distintiva. Ela agonizou para escrever a carta para Jake, então devia haver verdade no que viu. Leopardos deixavam traços. Marcavam tudo. Onde estiveram. Territórios por onde passavam. Era um comportamento natural e, embora fosse extremamente forte e controlado, duvidava que conseguiria impedir seu leopardo de marcar os lugares. Especialmente depois de uma morte.

Traçou outra vez cada passo, ciente que estava ficando sem tempo. Não confiava no pântano à noite. O covil de leopardos estava tão fora de controle que era impossível saber o que podiam fazer em seguida. Antes de qualquer coisa, tinha que manter Saria a salvo. Precisava voltar para a hospedaria, tomar um banho, reunir seu time e se encontrar com os irmãos de Saria. Não havia nada ali indicando leopardos, mas não havia dúvida em sua mente que Fenton’s Marsh era um campo de matança.

Voltou para Saria quando o sol estava se pondo. Camadas de um vermelho escuro, laranja queimado e ouro envelhecido enchiam o céu, fazendo as águas em volta da extremidade de Fenton’s Marsh refletirem tons de cores. Um crocodilo, tão quieto que parecia ser um tronco, estava acomodado num banco de areia, bem acima das plantas aquáticas. Uma leve brisa criava uma onda pelo campo de capim alto, então ondas pareciam quebrar nos pés do réptil. O crocodilo era grande, uns dezoito pés ou mais, uma criatura majestosa e pré-histórica de outra era.

Morcegos giravam e voavam por cima da água, alimentando-se de insetos, corpos pequenos e escuros contra o céu colorido. Os pássaros andando como figuras coladas às plantas não pareciam mais que silhuetas de cartolina contra as cores brilhantes do pôr-do-sol. Os troncos de árvore refletidos na água pareciam pinturas, tremeluzindo vermelho e laranja.

O pântano era de tirar o fôlego quando o sol descia. Saria estava abaixada, o olho na câmera, capturando a beleza da noite que vinha numa imagem congelada. Suas roupas estavam imundas de terra e o cabelo desarrumado, mas seu lugar era ali no meio de toda aquela beleza. Ela tirava seu fôlego. Podia ver a forma dos seus seios empurrando a camiseta, aquela curva macia e convidativa, sua caixa torácica estreita e cintura fina. Quando ela mudou de posição, admirou a curva do seu traseiro e quadril.

Saria se movia com confiança, apesar do sol estar se pondo. Não tinha medo, mesmo que estivesse bem ciente dos perigos do pântano. Tirou várias fotos, clicando rápido, e ele esperou pacientemente para não perturbá-la. Ela era leopardo. Saberia que estava ali.

Quando se levantou devagar, alongando-se para relaxar os músculos tensos, ele se transformou, indo até ela nu para pegar suas roupas. Ela se virou para observá-lo, levantando a câmera outra vez e o clicando enquanto vestia a calça.

—Você não fez isso.

—Só queria ver sua cara. — Riu. —Estava tão chocado que não consegui resistir. É o único pervertido aqui, sabe disso.

Amava o fato dela não sentir culpa por apreciar seu corpo. Achava estranho que acabasse de conhecê-la. Parecia ter se passado uma vida inteira, como se a conhecesse desde sempre, e ainda assim cada encontro era novo e perfeito. Várias vezes imaginou que se apaixonar era um processo lento. Descobrir um sobre o outro, a química incrível que vinha com aquela primeira leva de desejo e então um crescimento lento e em fogo brando, calmo, certo e permanente. Sua experiência com Saria era exatamente e nada assim. Parecia um bloco de uma tonelada de concreto, jogado bem naqueles olhos escuros sem fim dela, que nunca parava de cair.

Sabia que não podia viver sem ela, quando há somente alguns dias nem sabia de sua existência. Viveu pela metade, caminhando pelo mundo sem ver nem apreciar sua beleza. Saria lhe deu o dom de vê-la. O som de sua risada era como música no vento, elusiva e impossível de capturar, ainda assim tinha lhe dado também esse presente. A confiança em seus olhos quando o olhava o deixava de joelhos. O jeito que se entregava sem cobranças a ele, sem inibição, disposta que a ensinasse para que assim pudesse agradá-lo era um presente inestimável.

—Nos leve para casa, Saria. Vamos nos limpar, apanhar meu time e nos encontrar com seus irmãos.

Ela piscou, desviou os olhos dele e gastou uma exagerada quantidade de tempo guardando sua câmera enquanto ele se vestia.

Drake foi para trás dela e passou os braços em volta de sua cintura, descansando o queixo em seu ombro. —Fale comigo, docinho. Se estiver preocupada, fale comigo. Não quero que se preocupe nunca sem necessidade. Podemos resolver isso.

Ela se moveu, ajustando o corpo nele e buscando segurança. —Está esperando problemas com meus irmãos? É por isso que vai levar seu time?

—Foi isso que achou? — Mordiscou seu pescoço, encontrando o doce ponto onde seu pescoço e ombro se uniam. Pôde dizer que o encontrou pelo jeito que sua respiração mudou. Beijou-a ali várias vezes. —Quero que seus irmãos os conheçam como seres humanos. Precisamos de aliados no covil. Não podemos lutar com todos eles de uma vez e seus irmãos formam uma respeitável força. Remy é forte e inteligente, um líder natural. O covil vai escutá-lo.

Ela se virou em seu braços, juntando as mãos atrás do seu pescoço. —Merci. Não quero você brigando com meus irmãos.

—Duvido que haja necessidade. A não ser, é claro, — mordeu gentilmente seu ombro e mordiscou até sua garganta e canto da boca, —que tentem tirar você de mim.

—Acho que estão felizes em se livrar de mim, pelo menos até que minha safadinha emerja.

Ele se afastou para olhá-la. —Saria, não acha que vamos ter uma coisa de uma noite só, acha?

Ela franziu o cenho. —Esperava que praticássemos um pouco antes dela emergir, — admitiu, o rosto ficando vermelho. —Sei que posso te dar prazer se me der a oportunidade.

Ele segurou seu rosto com as duas mãos. —Querida, entendeu tudo errado. Uma reivindicação não é coisa de uma noite. Não é só meu leopardo reclamando a sua. Somos companheiros agora. Ficamos juntos.

Ela parecia assustada. —Leopardos não têm só um companheiro por toda vida. Quero dizer, sei que mencionou isso uma vez, mas pensei que estivesse...

—Shifters sim. Nós somos companheiros. Saria e Drake. Ficamos juntos para o resto da vida. — Olhou para seu cenho franzido. Para seu queixo teimoso. —Está dizendo que planejava me usar, transando comigo, e depois ia simplesmente me mandar embora? — Não conseguiu evitar se sentir um pouco ofendido. Tinha experiência. Era mais velho vários anos. Conhecia o mundo. E ela ia usá-lo e mandá-lo pastar em seguida. Maldição. —Ficamos juntos para sempre, Saria.

Ela baixou os braços e recuou. —Não entendi essa parte.

—Obviamente. — Suavizou a voz. Talvez a tivesse assustado. —Achou que estava tirando vantagem da sua leopardo?

Seu olhar pulou para o dele. —Drake, eu não sabia. Me desculpe, só preciso esclarecer isso na minha cabeça. Achei que ficaria comigo e depois teria que ir embora. Você não vive aqui. Acho que fazia muito sentido que fosse embora — depois.

Ele reprimiu a raiva. Que tipo de homem achava que era? Por outro lado, houve vários sinais para que pensasse dessa forma e isso fazia algum sentido. Ele os ignorou porque queria que sentisse o mesmo sentimento profundo que já tinha desenvolvido por ela. —Olhe, Saria, sei que fui egoísta. Devia ter nos impedido e esperado até que estivéssemos num quarto com uma cama para que pudesse fazer amor com você do jeito certo. Não vou dar desculpas, mas não serei um amante egoísta. Vou colocá-la em primeiro lugar e fazer com que o sexo seja ótimo para você. Mais que ótimo.

Saria parecia mais confusa que nunca. —Você nem me conhece, Drake, não de verdade. Não sou uma garotinha da cidade e nem quero ser. Esse é meu lar e eu o amo. Minha vida é simples por uma razão. Tive escolhas. Foi isso que escolhi.

—Sei disso, querida. Enxergo você. Cada pedacinho. Claro que sei que tem escolhas. Quero ser uma delas.

Ela mordeu o lábio. —Não sou como as outras pessoas, Drake. Simplesmente não sou. Às vezes não consigo respirar longe daqui. Faço o que quero. Não gosto de magoar os outros e sei que se ficarmos juntos, você eventualmente tentaria me dizer o que fazer e sei que nunca faria como manda. — Ela sacudiu a cabeça.

—Não quero acabar com filhos, um marido infeliz e um divórcio.

—A fêmea leopardo não é submissa ao macho, Saria, — disse Drake. —Ela é selvagem e temperamental e ele tem que estar na mesma frequência dela para conseguir ser seu companheiro. Não a escolhi porque achei que seria submissa a mim. Sou um macho dominador? Sim. Não há probabilidade, mas quero uma mulher que fique ao meu lado, que pense por si mesma, que discuta comigo se acreditar que está certa. Quero você. Cabe a você decidir se me quer do jeito que sou. — Olhou-a com raiva. —Mas não vai me usar para transar e me jogar fora depois.

Um sorriso lento alcançou seus olhos. —É difícil barganhar com você. Não via a hora de usá-lo para isso. Você é muito suculento.

Ele a olhou com mais raiva ainda, não cedendo à inclinação de rir ante o absurdo da situação. —Só lembre que da próxima vez que quiser transar, que seja para valer.

Ela rolou os olhos, não impressionada pelo seu ultimato. —É melhor sairmos daqui. Não vai querer ficar pelo pântano à noite. Nem mesmo comigo.

Drake escondeu um sorriso. É. Gostava daquela personalidade teimosa e do desafio que sempre representaria. Ela tinha paixão pela vida e aquela mesma paixão se derramaria no quarto. Seguiu-a de volta pelo pântano enquanto refaziam seus passos, com cuidado para pisar onde o solo era sólido. Na metade do caminho até o barco, sentiu seu leopardo acordar e rosnar. A besta o rasgava, numa necessidade urgente de ser liberta. Viu que seu divertimento estava se esvaindo e sendo substituído por raiva. A raiva aumentava para ódio a cada passo que dava enquanto cortavam rapidamente o pântano escurecido. Quem diabos Saria pensava que era, tratando-o daquele jeito? Usá-lo e se mandar? Era uma obcecada por controle. Precisava que um homem de verdade lhe ensinasse uma lição. Seu leopardo urrava, lutando para se libertar, para... Drake se recompôs rapidamente. No que diabos estava pensando? Saria era jovem e inexperiente. E estava com medo. Não podia culpá-la. Só estava tentando lidar com uma situação não familiar. Nunca machucaria uma mulher, nem sequer consideraria fazer algo assim. Parou e olhou ao redor. Lutou internamente por um tempo enquanto retornavam para a doca, quase como se tivesse perdido a noção do tempo. Seu leopardo se acalmou, dando-lhe um pouco de tempo para respirar enquanto seguia Saria para dentro do barco. O que infernos estava acontecendo? Precisava falar com seu time. Com os irmãos dela. Investigar realmente Fenton’s Marsh e descobrir o que havia de errado com o lugar. Era pavoroso.

A casa dos Boudreaux era um pouco pequena, mas muito bem construída. Mahieu os levou para o interior e o time de Drake imediatamente se posicionou próximo às janelas. Remy manteve as luzes apagadas, com exceção de algumas velas, e se sentaram para discutir a situação.

Drake sentiu a tensão de Saria. Tomaram banho — em quartos separados — e ela ficou calada desde que deixaram o pântano. Não podia culpá-la, estava quieto do mesmo modo, imaginando o que aconteceu entre eles. Mas ela sentou ao seu lado no sofá, algo pelo qual estava agradecido. Encaixou-se sob seu ombro, sua coxa encostanda na dela, e isso parecia lhe dar confiança para começar a contar sua história. Remy e os outros escutaram Saria pacientemente, sem interrompê-la uma vez sequer. Quando ela terminou, o silêncio era mortal. Drake olhou em volta. Os irmãos dela pareciam chocados. Seu time estava mais preparado. Jake os tinha informado antes que aparecessem para ajudar.

—Pensou que um de nós fez aquilo. — Remy fez uma declaração. —Que um de nós se tornou um assassino serial?

Saria deslizou a mão na de Drake, os dedos entrelaçando nos dele. —Não sabia que havia outros shifters, Remy. Não queria trair nenhum de vocês, mas quando achei o segundo corpo, sabia que não podia deixar as mortes continuarem.

—Então tentou enviar uma carta e a encontrou estacada na canoa no outro dia. Nenhum de nós a usa, só você, então soube que a ameaça era dirigida a você, e todos tínhamos acesso à sua canoa. — A voz de Remy era mais pensativa que crítica. Drake ficou calado, mudando de posição no sofá desgastado para trazer Saria um pouco mais perto, num esforço para confortá-la. Seu time permaneceu quieto, posicionados nas janelas abertas, usando seus sentidos de leopardo para assegurar a privacidade.

Saria assentiu. —Estava com muito medo.

—Pelo amor de Deus, Saria, — disparou Remy de repente, —Sou a porra de um detetive de homicídios. Não podia ter achado que era eu.

—Não queria pensar isso de nenhum de vocês. Estava com medo, Remy. — Sua voz estremeceu. Drake limpou a garganta para se livrar do rosnado que se formava. Pelo menos seu leopardo se acalmou, dando-lhe espaço. O som saiu baixo no silêncio da sala, chamando imediatamente a atenção para ele. Todos os cinco irmãos de Saria o olharam.

—Sabia a respeito disso? — perguntou Remy.

Drake assentiu. —Jake recebeu a carta dela. Não estava assinada, e foi escrita com muita cautela. Implicava que alguém estava usando Fenton’s Marsh para permitir que um grande felino matasse humanos, primeiro esfaqueando a vítima e então permitindo que o animal administrasse a mordida de sufocação para terminar o trabalho. Naturalmente ele ficou intrigado e me mandou para investigar. Na época, claro, não tinha ideia que Saria mandou a carta. Pedi um guia do pântano e ela foi altamente recomendada.

Remy assentiu. —Isso faz sentido. É considerada uma das melhores guias por aqui. Mesmo com nossos leopardos, ela é difícil de se achar se não quiser ser encontrada.

Saria sorriu e Remy a fulminou com o olhar. —Isso não foi um elogio.

Drake trouxe sua mão para a boca e beijou seus dedos. Contanto que não fosse ele tentando achá-la, achava que a observação de Remy era um grande elogio. Ela deu um pequeno sorriso.

—O que encontrou lá? — perguntou Remy.

—Corpo nenhum, mas o cheiro de grandes poças de sangue no chão me disseram que vários homens foram mortos ali.

Remy pressionou dois dedos nos olhos. Olhou para a irmã. —Onde estão elas, Saria? — exigiu.

Saria piscou. Apertou os lábios. —Onde estão o que?

—As fotos. Tirou fotos dos corpos e dos ferimentos. Sei que tirou, então pare de enrolar e me deixe vê-las, — disparou Remy. Claro que tinha.

Drake devia ter pensado nisso. Era exatamente o que Saria faria. Teria documentado a cena inteira e a área ao redor. Faria exatamente como disse seu irmão. Rosto, ferimentos, tudo. Era uma fotógrafa e uma das boas. Precisaria de provas para mostrar a Jake Bannaconni. E provavelmente viu bastante cenas de crime para registrá-las corretamente. —Entregue-as a ele, Saria, — disse Drake. —Remy é o investigador.

Ela mordeu o lábio. —Remy, em duas das cenas haviam garrafas do nosso bar. Nossas garrafas exclusivas. E Drake achou evidência de outros lugares de desova. Não havia corpos, mas achou um lugar onde alguém perdeu muito sangue e as mesmas garrafas estavam ali.

—Procurou mais corpos? — perguntou Remy.

Drake assentiu. —Queria confirmar o que Saria nos disse. Os corpos já eram, há tempos. Os crocodilos cuidaram disso, mas meu leopardo encontrou vários outros pontos de assassinatos. — Houve um breve silêncio. Os irmãos trocaram olhares compridos.

Remy suspirou. —Conseguiu o cheiro de um leopardo, algo forte o suficiente que possa ser capaz de reconhecer se senti-lo de novo?

Drake sacudiu a cabeça. —Nada. Nenhuma marca de garra. Nenhuma pilha de folhas. Nenhum cheiro marcando a área, nem nada perto de onde as vítimas foram mortas. Só sangue e morte. Nenhum leopardo.

—Isso é bom, não é, Remy? — O irmão mais novo, Lojos, perguntou. —Talvez Fenton’s Marsh seja um local de desova, mas nenhum leopardo esteja envolvido.

Saria fez uma careta para ele. —Acha que não conheço a mordida de um leopardo quando vejo uma? — Ela se levantou e correu da sala para colher as provas. Remy olhou para seu irmão mais novo, Lojos, que silenciosamente seguiu a irmã. Drake percebeu que Remy estava desconfortável e preocupado com a segurança de Saria, mesmo ali em sua casa, com todos os irmãos e o time de Drake para protegê-la.

—O que é que não está nos contando? — perguntou. Remy suspirou e olhou para Mahieu, que deu de ombros.

—Os corpos em Fenton’s Marsh não são os únicos. Houve cinco mulheres que soubemos que foram mortas de um jeito similar ao que Saria diz que ocorreu no pântano. Todas esfaqueadas e com uma mordida estranha em suas gargantas — mordida de leopardo. A primeira morte foi há vários anos atrás. Achamos que há mais. É fácil desaparecer em Nova Orleans. Temos assassinatos não solucionados de mulheres e pessoas desaparecidas por anos, mas os corpos encontrados eram bem distintos.

—Está dizendo que essas mortes de anos atrás — estão ligadas a essas de agora?

—Acreditamos que sim. Se um assassino em série está à solta e ninguém chegou perto dele antes, então Saria está correndo um sério perigo. Ela fica sozinha o tempo todo no pântano. Todo mundo a conhece e sabe que ela tira fotos de tudo. Se achou seu local de desova atual e mandou uma carta que ele conseguiu interceptor, ela está no radar dele.

Cada músculo no corpo de Drake ficou tenso. A ideia de Saria correndo perigo era mais que perturbadora — tudo de masculino — tanto no leopardo quanto no humano — protestou. —Vocês observam todas as fêmeas em seu covil de perto para protegê-las, — adivinhou com sagacidade.

Remy assentiu. —A mordida de leopardo me perturba. Duvido que seja real, mas suponhamos que alguém saiba sobre nós e esteja tentando nos culpar — nos revelar. Casamos com famílias incapazes de se transformar durante anos. É possível que alguém nascido com traços de um leopardo, mas incapaz de se transformar possa estar fazendo isso.

Drake assentiu. —Nossa espécie é capaz de grandes crueldades. Sem a habilidade de se transformar e permitir liberdade ao leopardo, sim, isso poderia acontecer facilmente.

—Saria tão perto do Han Vol Dan complica tudo, — adicionou Mahieu. —Todo macho numa área de cem milhas está louco. Armande e Robert enlouqueceram.

—É bem mais complicado que uma fêmea próxima à emersão, — contradisse Drake. —Esse covil está com problemas e acho que todos sabem disso. Precisam de uma liderança forte para controlar os leopardos, especialmente em volta de uma cidade. Esse covil carece disso. Não estavam lá na outra noite quando enviaram um lutador para lutar comigo. Robert Lanoux quebrou uma das leis mais importantes de qualquer covil e não foi punido.

—Foi punido hoje, — disse Remy cruelmente.

—Sim, mas você não é o líder do covil, Jeanmard é. Ou era. Sabe que essa situação só vai piorar se algo não for feito.

—Está sugerindo que um de nós se torne o líder do covil? — Remy soava incrédulo.

—Não um de vocês. Você, — disse Drake. —Porque se não fizer isso, vão haver assassinatos por todo lugar. Se acha que o ataque à Saria foi uma coisa isolada, está tristemente enganado. Já vi isso acontecer antes. Leopardos são bem determinados. Precisa alcançar esses objetivos ou seu leopardo se perde. Todos sabem disso.

—Tenho um assassino em série para capturar. Colocar ordem nesse covil outra vez é um trabalho integral.

Drake assentiu. —Vai ter que mandar seus machos para longe para que encontrem fêmeas longe desse lugar para não arriscar que as linhagens se contaminem. Mais que tudo, isso fica cada vez mais perigoso. Existem todos os tipos de problemas aqui, Remy, e alguém tem que resolvê-los.

—Chefe, — interrompeu Joshua. —Temos companhia lá fora e não parecem amigáveis.

 

Drake pulou do sofa, o salto o levando para o outro lado da sala até o corredor onde Saria desapareceu. Ele aterrissou meio de cócoras. A boca num formato cruel, o rosto uma máscara mortal, ele virou os olhos brilhantes para Remy. —Onde está Saria? — Era uma clara demanda, sua voz um rugido. Joshua e Evan imediatamente trocaram de posição, um movimento para dar cobertura ao seu líder enquanto Jerico continuava nas janelas, a arma aninhada confortavelmente em seus braços.

Mahieu e Gabe apagaram as velas, deixando a sala escura, mas com a visão de leopardo, não tinham problema em enxergar.

—O quarto de revelação é uma cabana pequena atrás da casa, — disse Remy. —Lojos foi com ela. — Havia preocupação em sua voz.

—Remy Boudreaux! — A voz de Amos Jeanmard chamou do lado de fora. —Estamos com Saria. Ela é um membro desse covil e foi decidido que não tem permissão para deixá-lo. Precisamos dela aqui. É obrigação dela acasalar com um dos nossos machos. Vai ter a chance de deixar que sua leopardo escolha. Como líder do covil exijo que você e sua família obedeçam pelo bem dela.

Um urro de fúria explodiu de Drake. Ele começou a arrancar a camisa, as garras se formando, deixando finos traços de sangue pelo seu peito. —É melhor escolher onde está sua lealdade, Boudreaux, — cuspiu. —Com sua irmã ou essa desculpa barata de covil.

Jerico abriu a porta e Drake tirou os sapatos com os pés, começando a tirar a calça.

—Desafio a liderança, — rosnou Drake, —como é direito de todo leopardo. — Transformou-se enquanto corria, pulando da sala de estar direto pela porta e aterrissando a vinte pés de Amos Jeanmard.

O líder do covil da Louisiana arrancou rapidamente a roupa, tropeçando atrás ao ver o intruso rosnar e chiar. Não podia recusar o desafio — nenhum líder poderia — mas era óbvio que não esperava que um desafio ocorresse tão rapidamente.

A visão de Drake ficou meio térmica. Localizou Saria, que parecia desgrenhada. Havia um machucado em sua bochecha, seu cabelo estava assanhado e sua boca apertada com raiva. Estava bem perto de um estranho alto, um homem que nunca viu — ou farejou — antes, mas inalou profundamente, sabendo que nunca esqueceria esse cheiro agora. O homem estava tão quieto que podia ser uma estátua de pedra, e tinha uma expressão estranha, quase desesperada no rosto. A alguns metros dele, Drake pôde ver Lojos no chão, imóvel.

O cheiro de sangue o alcançou e fez uma careta, andando de um lado para o outro, urrando seu desafio. Os outros membros do covil recuavam toda vez que chegava perto. Duas vezes correu até Amos, parando a poucos centímetros do homem quando ele finalmente se despiu, seu corpo se contorcendo e estalando enquanto se transformava.

Cheiros surgiam e se misturavam. Medo. Suor. O cheiro do pântano. Saria. O leopardo de Drake sorveu todos, aumentando a necessidade feral e selvagem que sentia. Velho como a terra, seu instinto era proteger sua companheira e afastar qualquer rival. Não haveria arrependimento nem remorso se um rival morresse.

No momento que Amos se tornou inteiramente leopardo, os dentes expostos, seus olhos velhos e sábios vermelhos com fúria, Drake deu a volta e rasgou aquela cara. Como ousava tentar separar Drake da sua companheira escolhida? Como aquele leopardo velho ousava tirar Saria dele à força, permitindo que um macho colocasse as mãos nela, que a machucasse? Drake seguiu a primeira patada humilhante com uma série de golpes poderosos e dilacerantes, fazendo o leopardo mais velho recuar, jorrando sangue por sua cara quando rasgou pele e cravou profundos rasgões em sua carne.

O leopardo velho ficou de pé em duas poderosas patas traseiras, se aproximando num esforço para ganhar supremacia. Drake o encontrou com um arremesso violento, o golpeando abaixo. Houve um barulho audível quando suas costelas quebraram. Ele caiu de lado e Drake estava em cima dele, fechando a boca em volta daquela garganta vulnerável. Seus dentes afundaram e a satisfação surgiu. Rosnou. Os olhos do leopardo velho brilhavam com fúria ou ódio dourado, um velho guerreiro se recusando a ceder o poder por algum momento. Quase que imediatamente, seu humano tomou de novo o controle. Olhando abaixo, com o sangue e a excitação da vitória enchendo sua boca, Drake observou aqueles olhos dourados se transformarem num verde acinzentado humano quando o leopardo se submeteu.

Houve um silêncio sinistro no pântano, como se até os insetos estivessem chocados pela mudança de liderança. Um urro de protesto surgiu. Atrás dele, uma arma foi engatilhada e Drake libertou Jeanmard para se virar e encarar a nova ameaça.

Joshua estava ali com uma expressão impiedosa, os olhos vazios e frios. —Se quer a liderança, desafie-o do modo do nosso povo ou mato você agora. — Nojo e ódio enchiam seu tom. Tinha a arma apontada para um homem que também estava armado e obviamente pensava em atirar em Drake.

Drake inalou e trouxe o cheiro do inimigo para dentro dos seus pulmões. Era quase o mesmo do homem que bateu em Saria. Drake deu boas-vindas à briga, urrando seu desafio, sinalizando que estava pronto para qualquer ameaça. Andava de lá para cá, arranhando com uma pata o chão para jogar terra e folhas na direção do inimigo.

—Gaston, — falou Remy muito calmamente, mas sua voz se transmitia com facilidade. —É melhor se transformar agora antes que eu mesmo atire em você.

Aquela, então, era uma das famílias que Drake não ouviu muito a respeito ainda. Ele se adiantou e retrocedeu, chutando mais terra no homem, rosnando seu desprezo. Gaston Mouton passou devagar a arma para Robert Lanoux. Robert estava coberto por curativos e mancando com a perna direita. Fez careta quando estendeu o braço para pegar a arma. Gaston desabotoou a camisa com uma mão, a todo momento estudando seu oponente. Quando a camisa se abriu, seu peito foi revelado. Era um homem grande com os músculos pesados e definidos de sua espécie. Nem um grama de gordura. Um estômago de tanque de lavanderia. Quadril estreito e coxas grossas e musculosas. Um macho em seu auge — um que sem dúvida acreditava que faria de Saria sua companheira.

Drake viu uma névoa vermelha de fúria quando Gaston se transformou, sua velocidade só um pouco mais lenta que a de Remy. Era bem mais confiante que Drake esperava, quando teve que recorrer a uma arma. Gaston e Drake andavam para frente e para trás, rosnando e chiando um para o outro, cada um estudando o inimigo.

Sem aviso, os dois leopardos explodiram em ação, jogando-se no ar um no outro, corpos colidindo com força quando se encontraram, ambos avançando para a cabeça e o pescoço num esforço para causar o maior dano, mais rapidamente. Sangue jorrou, escorreu pelo pelo pintado dos dois animais. Se separaram e voltaram a colidir, um balé feroz e violento de garras, dentes e força.

A noite ecoou urros de raiva quando os leopardos se separaram, as laterais pesadas, sangue pingando, uma batalha brutal e primitiva com a qual nenhum dos dois machos se importava. Explodiram na direção um do outro outra vez, saltando, colidindo num esforço para atingir um órgão vital. Gaston caiu atrás, as garras rasgando a parte debaixo da barriga de Drake, tentando estripá-lo. Usando sua espinha flexível, Drake se curvou ao cair nas quatro patas, apressando-se para o outro leopardo para tirar vantagem do jeito desajeitado que este caiu. Gaston rolou, levantou rápido e encontrou o golpe de frente.

Drake não queria matar o bastardo e isso só o deixou mais irado. Compartilhava da fúria do seu leopardo em vários níveis, o mais importante é que haviam batido em Saria. Já estava pensando como um líder, tentando fazer o que era melhor para seu covil. Não queria a liderança, só queria Saria.

Aquele lutador era rápido e mortal e exigia cada pedacinho de suas habilidades para evitar ser morto enquanto continha seu leopardo, esperando pelo seu momento. Sua perna estava queimando, mas o aço estava lá, o músculo e a força. Tinha toda a confiança que venceria, mas não estava tão confiante que podia evitar causar muito dano.

Os dois leopardos saltaram no ar de novo, se encontraram e caíram no chão presos num abraço mortal de garras e dentes, rasgando e mordendo um ao outro. Drake viu a abertura, se retorceu e enfiou os dentes na garganta vulnerável. Debaixo dele, sentiu a batida acelerada do coração, o gosto do sangue, a empolgação da matança, e o triunfo da vitória, tudo misturado.

Se encararam nos olhos. Não havia medo nos de Gaston e de certo modo, Drake o admirava. Era um homem que ia querer em seu time, ainda assim podia não haver escolha senão matá-lo.

—Submeta-se, Gaston, — ordenou Remy. —É idiota?

Quando o corpo do shifter foi ficando imóvel debaixo de sua boca, e a tensão no leopardo de Drake se acalmou um pouco, ouviu um grito de advertência e foi atingido por trás, derrubado sem chance de dar a volta para se defender. Caiu com força, abalado pela ferocidade da pancada, seus órgãos sacudidos e machucados. Como se à distância ouviu Saria gritar e um homem grunhir de dor. Nada importou a não ser rolar, ficar de pé e encontrar seu atacante.

—Maldição, Drake, pare de conter seu leopardo. Mate os dois. Não lutam justo e todo o resto deles pode ir pro inferno, — gritou Joshua. —Se não matar esse, juro que atiro em cada um deles.

A fúria de Joshua estava misturada a um ódio e um desprezo profundos. Viviam com leis, firmes, inflexíveis leis de sobrevivência nas florestas do mundo. Sem aquelas leis, leopardos seriam máquinas de matar fora de controle. Tinha que haver ordem e o covil de Louisiana não parecia ter leis de justiça, nem de honra.

As palavras de Joshua penetraram o covil e os sorrisos de esperança se transformaram em expressões de preocupação. Se Drake estava se contendo contra seus melhores lutadores, do que era realmente capaz de fazer?

—O próximo que se aproximar de Drake e tentar emboscá-lo, — disse Remy, —vai ter que passar por mim.

De algum modo, tudo ao seu redor penetrava, mas ele estava em outro reino, um muito antigo quando a lei principal da selva era matar ou ser morto. O sangue trovejava em seus ouvidos, urrando como uma maciça queda d’água afogando gerações de civilização. Saltou alto, esticando suas poderosas patas, encontrando o avanço do outro no ar. Seu oponente errou sua garganta e conseguiu abocanhar uma pele mole e coberta de pelo enquanto o leopardo de Drake afundava os dentes no focinho dele, sacudindo a cabeça.

Empurrou seu oponente atrás, as garras fazendo vários rasgos em sua barriga. O leopardo quase teve convulsões de dor, o arranhando desesperado. Drake soltou seu focinho e avançou para a garganta exposta. Seu ataque era habilidoso, terrível e preciso. Sua força era enorme, abastecida pela raiva e a necessidade de dominar. Naquele momento, era quase inteiramente leopardo, uma máquina de matar primitiva e perfeita.

Perdeu a noção do tempo, sacudindo seu inimigo, punindo com garras e dentes, avançando sem cessar para a matança. O leopardo não tinha chance de voltar a ficar de pé, só de adiar o inevitável com cada vez mais fracos — e ainda assim desesperados — dentes e garras. O leopardo de Drake não sentia nenhum dos arranhões nem mordidas, só a necessidade de aniquilar o inimigo.

—Drake, — chamou-o Jerico. —Já basta. Afaste-se.

Ele ouviu a voz, abafada e distante, incapaz de claramente decifrar as palavras. O som penetrou a névoa rubra de sua mente, mas não tinha sentido. Ninguém se aproximou dele quando uivou seu desafio e arremeteu contra o leopardo caído várias e várias vezes.

—Drake, por favor. — Era Saria. Ela não gritou.

O homem ao lado de Saria tocou seu braço. O leopardo viu isso. Instantaneamente largou seu inimigo no chão e se virou para encarar a nova ameaça, urros ressoando fundo em seu peito. Seu olhar se prendeu ao atacante de Saria. O leopardo de Drake se arremessou, parando a alguns pés do homem que não moveu um músculo, suor escorrendo de seu rosto. O leopardo jogou o peso do corpo nas patas dianteiras antes de se virar para mais uma vez capturar sua presa numa mordida sufocante.

—Drake, volte para mim, — disse Saria baixinho.

Drake tentou respirar e mandar a raiva embora. Forçou seu leopardo para longe de seu corpo. Foi preciso muita força. Duas vezes seu leopardo saiu do controle, correu e arranhou o felino caído antes que conseguisse fazer que a besta dentro dele usasse toda a energia acumulada andando de um lado para o outro, matando de medo o resto do covil.

Foi uma luta rápida e cruel, com o objetivo de intimidar, e o fez. Os homens recuavam cada vez que o leopardo se aproximava deles, urrando seu desafio. Remy se ajoelhou primeiro. Seus irmãos em seguida. Um por um o restante dos membros do covil aquiesceram lentamente até haver os três leopardos que já haviam se submetido e o homem ao lado de Saria. Quando Drake se aproximou, o cheiro de medo beirando terror permeou o perímetro.

—O que diabos há de errado com você, Jules? — exigiu Remy do homem que segurava Saria.

Jules limpou a garganta. —Não posso me mexer. Diga a ele que não posso me mexer. — Ele olhou abaixo entre as pernas.

Drake pôde ver facilmente a lâmina afiada de uma faca apertada nas bolas de Jules. Saria segurava a faca com firmeza. Seus olhos encontraram os de Drake. Ela sorriu e encolheu os ombros. Sangue escorria por dentro da coxa de Jules.

—Ele com certeza conseguiu me irritar.

Drake inalou profundamente, acalmando o leopardo para que pudesse se transformar. A mudança doeu imensamente, um fogo quente e forte correndo pelo seu corpo inteiro, mas o ignorou e pegou o jeans quando Evan o jogou para ele. Forçou seus músculos cansados a trabalharem quando tudo que queria era cair no chão como os outros leopardos. Não mostraria fraqueza àquelas desculpas baratas de shifters, não quando o forçaram a quase matar alguém. Não tinha certeza absoluta se não havia matado.

—Entendo bem isso, docinho, — conseguiu falar Drake, sua respiração um pouco entrecortada. —Segure mais um minuto para mim. — Ele respirou várias vezes e cruzou o que parecia um campo de futebol, embora fossem só alguns passos. Sem aviso, arremessou o punho com força na mandíbula de Jules, mandando o homem para longe da lâmina de Saria.

Drake estendeu o braço para puxar Saria para si. —Acho que devia ter esperado um minuto ou dois para ver se você realmente precisava de um resgate.

Seu sorriso se ampliou. —Foi muito fofo da sua parte se tornar o líder do covil por minha causa. Não tenho certeza do que vai fazer agora, mas mesmo assim, aprecio o esforço.

Ele suspirou e olhou para seus irmãos. Todos sorriam, até Lojos. Ele deu a melhor carranca que tinha. —Dêem assistência médica a esses três. Quero que todas as famílias fiquem sabendo, aquelas que já não estão aqui. Têm vinte e quatro horas para jurar sua aliança ou partirem. — Levantou a cabeça e olhou ao redor, olhos como aço. —As coisas vão mudar por aqui, quer queiram ou não. Viverão pelas regras do covil ou vão embora. Não ligo muito a essa altura quem fica ou vai, mas se ficarem, vão começar a se comportar com honra. Vou limpar esse covil e não vão gostar de como farei isso se não me obedecerem.

Sem esperar por uma reação, com medo que suas pernas de borracha pudessem ceder, passou o braço em volta dos ombros de Saria. Ela pareceu pressentir o quanto realmente estava fraco porque deslizou o braço em sua cintura e caminhou com ele até a casa. Jerico e Evan foram atrás deles, andando de costas, encarando os membros do covil enquanto protegiam Drake e Saria.

Remy levantou devagar, franzindo o cenho para os outros. —O que diabos estavam todos pensando? Se tivessem matado aquele homem eu os teria prendido, leopardos ou não. Idiotas.

—Talvez o problemas deles seja sangue ruim, — provocou Joshua. Ele estava nas sombras, a arma preparada, os olhos firmes. —Não vi muita coisa que valha a pena ser salva aqui, Remy. Covardes. Malditos covardes. — Seu olhar parou nos dois homens mais velhos que estavam atrás, ambos carregando armas.

Os dois olharam um para o outro. Um falou. —Quem é você?

—O nome é Tregre. Joshua Tregre. Acredito que sejam meus tios. — Joshua cuspiu no chão. —Embora minha boca fique com um gosto ruim quando admito isso.

O mais velho dos dois homens arfou. —Você é o filho de Renard. — Os dois trocaram outro olhar. O mais velho passou por Elie Jeanmard e ficou na frente de Joshua, claramente não intimidado. Seu rosto era velho e cheio de rugas, seus olhos outrora azuis ficaram cinzas. Estudou Joshua com cuidado, quase de forma suspeita antes de soltar o fôlego e acenar a cabeça como se o aprovasse. —Se parece com seu pai.

—Acha que não me lembro de você, tio Beau? — Havia amargura em sua voz. —Minha mãe nunca mais falou daquela noite, e só disse coisas boas de você e de Gilbert, mas eu me lembro. Meu leopardo se lembra. Nos traiu e aquele monstro de avô matou seu próprio filho. Vi e toda noite que vou me deitar, ainda vejo. Então não pense nem por um momento que me esqueci porque era pequeno.

—Leopardos não esquecem, garoto, — respondeu Beau com cautela. —Nenhum de nós esqueceu aquela noite. O velho demônio levou nossas mulheres. Ele as teria matado também. Nem Gilbert, nem eu jamais consideramos que podia matar Reinard. Sua mãe corria risco, mas não você ou Reinard, pelo menos era o que acreditávamos, e achamos que Reinard ia ceder. Ele se recusou a deixar sua esposa trazê-lo de volta. Mandou que fugisse com você enquanto lutava com o velho. Foi pior depois para todos nós. Minha mulher se matou e a de Gilbert fugiu.

—Por que simplesmente não mataram o bastardo?

Beau sacudiu a cabeça. —Não sabe como é viver com um monstro.

Joshua sacudiu a cabeça. —Seus filhos?

Beau gesticulou na direção de dois homens feitos que acabavam de se levantar depois de jurar aliança ao seu novo líder.

—E a filha? Um de vocês tem uma filha. Houve rumores.

—Rumores que o velho nunca pôde provar. Dissemos a ele que ela morreu ao nascer.

—Que desperdício, escondendo sua filha, vivendo como ratos. Precisam conhecer um homem chamado Jake Bannaconni. — Havia amargura em sua voz.

—Joshua.

A voz baixa de Drake penetrou a raiva e o desprezo. Joshua sorveu o ar e se virou na direção do homem que sempre fornecia calma quando a raiva se tornava demais. Dando as costas aos seus tios, caminhou para a casa, os ombros rígidos em ultraje.

Drake o observou vir, julgando seu humor. —Sinto muito, Joshua, por colocá-lo numa situação tão ruim. Reconheci o sobrenome, mas não investiguei. Devia ter perguntado antes de colocá-lo...

—Nunca teria deixado que viesse até aqui sem reforço. No minuto que Jake me disse para onde foi, já estava arrumando as coisas. — Joshua o olhou nos olhos. —E o tempo que passar aqui, também ficarei. Ninguém ergueu uma mão para ajudar minha mãe, muito menos aquela família. — Ele olhou para Drake e de repente sorriu. —Acho que devia voltar para dentro da casa antes que pague um mico, chefe.

Drake sorriu de volta, balançando levemente. Joshua Tregre sempre foi um enigma para ele. Por um lado era quieto, mas confiante. Havia pouca arrogância em Joshua, e, diferente de alguns leopardos, raramente se envolvia em brigas. Mas, havia algo muito letal nele. Um bom homem para proteger suas costas, Drake sempre sentiu que ele daria um inimigo amargo, impiedoso e incansável. Trabalhavam juntos há vários anos e nenhuma vez Joshua disse algo sobre seu passado — nem para ele, nem para nenhum dos outros do time.

Drake tropeçou e quase caiu, se chocando. Joshua o segurou quando Remy fechou a porta barrando a vista de qualquer audiência.

—Coloque o filho da puta teimoso no sofá, — ordenou Remy. —Nosso líder destemido derramou sangue pelo chão inteiro.

—Não sou seu maldito líder, — negou Drake, grunhindo quando Joshua o ajudou a sentar no sofá. —Acho que sua irmã é uma dor no momento.

—Ei! — protestou Saria. —Não é minha culpa que se ache o príncipe encantado.

—Para futura referência, — disse Lojos tentando ajudar, segurando um saco de gelo atrás da cabeça. —Todo mundo acha que Saria é uma dor. E para sua informação, o coitado do Jules não bateu na minha irmã. Ele nunca bateria numa garota, muito menos em Saria. Nem Gaston, nem Jules, machucariam uma mulher.

—Ninguém aqui ousaria bater na minha irmã, — disse Remy. —Qualquer um de nós mataria quem fizesse isso. O corpo dele seria enterrado tão fundo no pântano que ninguém jamais o encontraria.

Havia uma tensão na voz de Remy que fez Drake virar a cabeça para estudar suas feições. É, conseguia acreditar que os irmãos eram capazes de se livrar de qualquer um que machucasse sua irmã e Remy estava dando um aviso com isso.

—Então o que aconteceu com seu rosto, Saria? — perguntou Drake, embora mal pudesse ver mais. Sangue escorria dos ferimentos em seu rosto e queimava seus olhos.

Ela ajoelhou ao lado do sofá, entregou um pano frio para o peito enquanto cuidava do seu rosto. —Eles bateram em Lojos quando estávamos entrando...

—É, — interrompeu Lojos. —Jules e Gaston não tiveram problema em bater em mim. — Olhou com raiva para seus irmãos. —É evidente que nenhum de vocês vê isso como um problema.

Remy fingiu indiferença. —Nosso novo exaltado líder cuidou disso.

Drake puxou o pulso de Saria, removendo o pano para que pudesse ver a carranca mais sombria e intimidadora de Remy. —Cale a porra da boca, seu imbecil Cajun. Eu não sou seu líder.

Saria riu baixinho. —Talvez precise mesmo de mim, afinal. Com certeza só se mete em confusões. Não se preocupe, eu tomo conta de você.

Joshua e Jerico abafaram os risos. Evan se virou para a janela às pressas, mas não antes de Drake ver o enorme sorriso.

—Espero que estejam todos se divertindo, — disparou e deitou a cabeça para trás, fechando os olhos, mais porque precisava do que para dispensá-los. —Me fale o que aconteceu com seu rosto, docinho.

Saria não tinha frescura. Ela lavou o sangue dos cortes profundos e então, antes que soubesse o que estava acontecendo, jogou desinfetante nele. Quase caiu do sofá, uivando. Saria rolou os olhos e o deitou novamente.

—Só estamos começando, — assinalou. —É um bebêzão mesmo, não é?

—Você com certeza não é daquelas mulheres que acreditam que devem pegar leve com seus homens, não é? — Sua voz gotejava ácido.

—No sentido de mimá-los? — disparou de volta.

Um dos irmãos bufou. A discussão não estava levando a lugar algum. Por que achava que era jovem, doce e inocente? Tinha um maldito tigre na cauda e nem sequer percebia isso. E pensar que Drake Donovan era um homem cujos instintos nunca falharam. Pegou seu pulso de novo. Desta vez ela estava esfregando seu peito com força. Seus olhos se encontraram e ele se sentiu cair como uma tonelada de concreto. Olhos escuros e enormes se prenderam aos dele. Todas aquelas manchas douradas o intrigavam, todo aquele chocolate o encantava.

—Você é uma mulher bem assustadora, Saria Boudreaux. — Ele tocou o machucado em seu rosto com dedos gentis. —Como isso aconteceu?

Ela rolou os olhos. —Você não é facilmente distraído, nem desiste quando quer alguma coisa, não é?

—Pode querer se lembrar disso no futuro.

Ela suspirou. —Bati o rosto do lado da casa. Jules é forte e sabia que ele ia enlouquecer se eu me machucasse. Não conseguia me soltar dele então me joguei em direção à parede. Não esperava bater com tanta força, mas funcionou. Ele me soltou para me pegar pela cintura para que não caísse. Estava muito preocupado, tanto que nunca ocorreu que eu consegui tirar minha faca e colocá-la no lugar certo até que eu disse.

—Coitado, — murmurou Gage. —Devia esperar que fizesse alguma coisa. Estou um pouco desapontado com ele.

—Dê uma olhada na minha cabeça antes de sentir pena daquele imbecil, — sugeriu Lojos de forma indignante. —Ele quase me matou.

—É um galo, — corrigiu Mahieu, mas deu outra olhada na cabeça do irmão.

—Derrame um pouco do desinfetante de Saria nele, — sugeriu Drake. —Vai curá-lo rapidinho.

—Vá pro inferno, — resmungou Lojos.

—Esse desinfetante é dos bons, — disse Saria. —De qualquer modo, preciso ver suas costas, Drake. Vire-se.

Ele grunhiu. —Eu não quero me mexer.

—Devia ter pensado nisso antes de ter pulado na briga.

Drake abriu um olho e a olhou. Seus olhos ficaram líquidos quando olhou os ferimentos. Seu coração começou a bater forte. —Querida, — disse baixinho, sem se importar com seus irmãos — ou com quem mais o ouvisse. —Não pode chorar. Não agora. Vai partir meu coração.

—Você fez isso por minha causa.

—Fiz por minha causa, — corrigiu. —Meu leopardo e eu somos o mesmo. Idiotas fodidos que pensam que podem intimidar o mundo. Empurraram e eu empurrei com mais força. Isso foi tudo. Vai acontecer de novo. — Estudou seu rosto levemente virado.—Assustei você?

Ela sacudiu a cabeça, mas Saria não queria mentir para ele. Levantou o queixo e o olhou diretamente nos olhos. —Talvez. Um pouco. Nunca vi uma coisa daquelas antes.

Ele enroscou a palma da mão na sua nuca. —Tive cuidado na maior parte do tempo. Não quis realmente machucar ninguém, só ensinar uma lição. — Pressionou a testa na dela. —Não sou um homem violento.

Joshua, Jerico e Evan engasgaram de uma forma dramática e começaram a tossir.

Remy bufou. —E se acreditar nisso, Saria, tenho uma tomada que posso lhe vender como fazenda.

—Não estão ajudando minha causa, — reclamou Drake.

—Ignore-os, sempre faço isso, — aconselhou Saria. Ela engoliu em seco, se inclinou e roçou os lábios nos dele. O mais leve dos toques, mas seu corpo sacudiu — e maldição — doeu.

Jurou que houve um risinho vindo de algum lugar, mas quando olhou em volta da sala, todo mundo estava olhando para o outro lado. Ele girou bem cuidadosamente, a respiração chiando para sair de seus pulmões, o corpo em chamas. —Malditos imbecis. Eu devia ter causado muito mais estrago.

—Oh, acho que eles entenderam, — disse Remy. —Quando parar de paparicar esse homem, Saria, pode me dizer onde as fotos estão. Desta vez, eu as pego.

—As coloquei na primeira gaveta da esquerda numa caixa e escondi os negativos bem longe daqui, só em caso de algo acontecer.

—Como alguém a matar? — exigiu Remy.

—É. Como isso, — admitiu Saria, encolhendo os ombros.

Ele soltou um palavrão baixinho, resmungou algo sobre mulheres teimosas que precisavam de um homem para colocá-las na linha, enquanto levantava. Drake virou a cabeça e deu uma olhada em Joshua, que imediatamente se posicionou atrás de Remy. Não ia arriscar que alguém do covil — ou o assassino — pudesse tentar outro ataque surpresa, não quando seu corpo precisava de tempo para se recuperar.

Gage e Mahieu trocaram um longo olhar. —Ninguém tentaria passar por cima de Remy, — disse Gage. —Ele tem uma reputação por aqui.

—Talvez, mas uma bala não se importa muito com reputação e vi vários dos seus vizinhos prontíssimos para usar uma arma. — Drake não se importou em levantar a cabeça de novo. Sua barriga queimava a cada movimento. Estava ficando velho demais para lutar com três ou quatro desafiantes. Machos tolos que sentiam a vontade do seu leopardo faziam esse tipo de coisa — ou alguém insano o suficiente para desejar liderança — o que não era seu caso.

Teve que sorrir quando ouviu a voz de Remy. —O que diabos está fazendo me seguindo? Acha que preciso de uma maldita babá?

Remy voltou para a casa, Joshua o seguindo. Joshua não respondeu, nem responderia, Drake sabia. Recebeu uma ordem de manter Remy seguro e não ia ser intimidado pelo Cajun rosnando para ele. Joshua simplesmente jogou ao afrontado detetive de homicídios um olhar que dizia tudo. Passou pelo homem e ficou do lado da janela, de frente para o pântano.

—Seus homens são bem hostis.

Drake bufou. Remy tinha as fotos e tinha que vê-las. Apertando os dentes, se endireitou. As lacerações pelas suas costelas e barriga queimavam como o inferno, mas já tinha sofrido ferimentos bem piores. Nenhum osso quebrado dessa vez, só rasgos pequenos e cortes que sarariam rápido. Seu sangue de leopardo cuidaria disso.

—Os seus não? — exigiu Jerico, virando o rosto para o detetive. —Nunca vi um covil como esse, não em todas as minhas viagens. Drake podia ter matado todos aqueles três e talvez devesse ter feito isso. Na floresta tropical, homens que agem sem honra sofrem consequências.

Joshua endureceu. —Esse covil está sem honra há muito tempo.

Os irmãos Boudreaux fumegaram, se levantando.

Drake jogou os pés no chão, levantando a mão pedindo por silêncio enquanto esperava que a sala parasse de rodar. —Um covil precisa de uma liderança forte para controlar os leopardos, todos sabemos disso. E tem mais alguma coisa acontecendo por aqui. Eu não sei o que, mas pretendo chegar ao fundo disso. Todos sentimos isso lá em Fenton’s Marsh. Não vamos nos virar uns contra os outros. As únicas pessoas com quem podemos contar são as que estão nesta sala.

—Infelizmente tenho que concordar com isso, — disse Remy aos seus irmãos. —Embora confie minha vida a Gaston e a Jules. No momento, contudo, não posso arriscar. — Ele passou as fotos para Drake.

Saria tinha catalogado cuidadosamente cada corpo, os ferimentos e a área ao redor. O golpe de faca era o mesmo todas às vezes, uma incisão firme no abdômen, que a vítima não esperava. A faca não o matou. Ficou acordado e viu seu atacante se transformar e provavelmente olhar bem nos seus olhos enquanto ministrava a mordida. A vítima devia ter ficado apavorada.

Drake olhou para Remy e viu a mesma compreensão em seus olhos. Quem quer que estava matando esses homens agiu muito cruel e deliberadamente, precisando ver a vida deixar seus corpos. Um assassino em série, então. Um shifter que gostava de matar pelo simples prazer disso.

—A cena do crime quase parece como se duas pessoas tivessem ido até lá juntas, bebido um pouco e uma matou a outra. — Remy franziu o cenho enquanto estudava uma das fotos. —Disse que não conseguiu pista de outro macho. Nem de leopardo, nem de humano?

—Farejei o cheiro de Saria, mas nada mais, — confirmou Drake. —Havia um cheiro forte de sangue no solo em vários outros lugares. Não acho que Saria tenha encontrado todos os corpos. Se tivesse que adivinhar, talvez uns seis.

Remy sacudiu a cabeça, os dentes cerrados como se quisesse muito morder alguma coisa. —Isso não faz sentido. Os ferimentos são quase exatos em todas as vezes. A facada é bem precisa. Permite que o assassino roube a defesa da vítima rápido e ainda a mantenha viva para passar o tempo que desejar aterrorizando a ele — ou ela.

—Isso é trabalho de um leopardo — de um shifter, — disse Drake pesadamente.

Remy esfregou o rosto como se removesse algo oleoso e pegajoso. —Estava tão certo que era alguém que não podia se transformar, tentando colocar a culpa na gente.

—Não queria que fosse um amigo ou um vizinho.

Remy sacudiu a cabeça. —Não, não queria, mas chequei todos. Meus irmãos primeiro. — Ele deu um pequeno sorriso para Saria. —Pode parar de se sentir culpada por pensar que podia ser um de nós. Vou admitir, duvidei disso, mas chequei de todo jeito.

—Ótimo, mano, — disse Lojos. —Não me disse isso.

—Não achei que fosse necessário. Sou um detetive, Lojos, e levo meu trabalho a sério. A primeira coisa que faço é excluir minha família e montar uma lista de suspeitos. Por pensar que as mulheres foram mortas por alguém com sangue shifter que não conseguia realmente se transformar, a quantidade de suspeitos era enorme. Isso encurta a lista.

—Já chega de divagar, Remy, — disse Drake, —quem seria seu primeiro suspeito?

O olhar de Remy se transferiu só por um momento para Joshua e então sacudiu a cabeça. —Sabe que não é assim que funciona.

—Claro que é assim, — disse Joshua. —Meu avô era um monstro. Por que o líder de vocês não acabou com ele anos atrás, não faço a menor ideia, mas ele batia na minha avó sem cessar e depois começou com os filhos. Sabe por que minha mãe foi embora, certo? — Ele desafiou Remy a dizer as razões em voz alta.

Remy franziu o cenho e sacudiu a cabeça. —Estive fora por anos. A maioria de nós. Só começamos a ouvir rumores sobre uma filha recentemente, e Saria a encontrou no pântano uma vez ou duas. Seu nome é Evangeline. Pensamos que a mãe dela tinha morrido no parto, não se suicidado. Ninguém vai às terras dos Tregre. Fica ao lado das dos Mercier e nem Charisse ou Armande vão lá.

—E ninguém pensou em checar? Professores? Ninguém? — exigiu Joshua.

—Checar o que? — disparou de volta Remy. —Os meninos foram para a escola e ninguém pensava que tinham outros filhos. Eles ficam na deles e têm uma reputação de matar de medo as pessoas que entram em suas terras. Têm o direito de viver do jeito que querem.

—Não assim, — disparou Joshua. —Ele abusava daquelas mulheres.

—E dos homens, — disse Remy. —Sim, ele devia ser impedido, mas ninguém sabia o que estava acontecendo até depois que ele morreu. A morte do seu pai foi reportada como um acidente de caça. Aqui no pântano, acidentes acontecem o tempo todo. Ninguém gostava do velho, e inventávamos histórias sobre ele, mas ele raramente saía do pântano e seus filhos nunca colocavam os pés fora dele. Tudo que pere disse foi para que ficássemos longe deles. Mercier disse aos seus filhos a mesma coisa.

—Então quando Saria chegou em casa dizendo que havia uma filha, uma jovem que ninguém sabia a respeito, não achou que valia a pena investigar? — exigiu Joshua.

O olhar de Remy era firme. —Eu a vi. Ela tem vinte anos, e me disse que recebeu educação domiciliar e que seus irmãos, pai e tio cuidavam dela. Sim, às vezes ela fica sozinha, mas disse que era amiga de Charisse e que cada vez mais estavam deixando que saísse do pântano. Estava nervosa, mas depois de conhecer Saria, acha que vai ficar bem. O que mais eu podia fazer? Ela alega que ninguém jamais encostou a mão nela. Viu o velho Buford uma vez ou duas, mas ele nunca a viu. Estava incutido nela que ficasse longe dele.

—E acreditou nela? — perguntou Drake baixinho quando Joshua fez um som irrisório. —O velho Tregre era leopardo. Como diabos esconderiam o cheiro de uma leopardo...? — Ele parou de falar, os olhos encontrando os de Remy.

—Como esconderiam o cheiro? — perguntou Remy de forma pensativa. —Essa é uma ótima pergunta.

—Os irmãos Tregre poderiam ter encontrado um jeito de esconder o cheiro de um leopardo de todos? E o DNA? Com certeza devia ter saliva nas mordidas das vítimas que encontrou, algo no corpo que indicasse um ataque de leopardo, — disse Drake.

Remy sacudiu a cabeça. —Foi por isso que achei que era um ataque simulado. Como um leopardo poderia dar uma mordida sufocante sem deixar seu cheiro e saliva para trás?

—Ninguém poderia fazer isso, poderia? — perguntou Lojos. —Temos um olfato incrível.

—Acho que alguém fez exatamente isso, — disse Remy, —mas como isso é possível, não tenho ideia.

Saria estremeceu e deslizou para o sofá ao lado de Drake. —Então é possível que não tenha sido Armande quem me atacou, afinal. Pode ter sido qualquer um — o assassino. Talvez seja por isso que minha leopardo não o aceitou. Ficou confusa por não haver cheiro nem outras marcas que o identificasse.

Drake passou o braço em volta dela, fazendo um grande esforço para não fazer careta com o movimento. —Talvez nossa próxima visita deva ser na propriedade dos Tregre.

—Eu levo vocês, — disse Remy. —Podemos ir amanhã. Meus irmãos irão junto com seu time, só para ter certeza que tenhamos um número bom de homens para dar uma olhada em volta.

—Eu levo ele, — Saria olhou de modo firme para seus irmãos. —Ele me contratou e faço meu trabalho.

—Não quero você no meio disso, — rugiu Remy.

—Ela já está no meio disso, Remy, — disse Drake. O cansaço se estabelecia. Tudo que queria era voltar para a pensão e cair em cima da cama. —O assassino sabe que ela esteve no local de desova e metade dos homens daqui perdeu o bom senso. Ela pode ficar onde eu possa ficar de olho nela.

—Não preciso de proteção, — protestou Saria.

Drake riu suavemente e beijou aquele cabelo grosso e claro pelo sol. —Não pode ter tudo, docinho. Ou me guia para o pântano dos Tregre ou fica em casa.

—Claro que vou, — disse Saria.

—Vou ficar com essas fotos, Saria, — disse Remy. —Fez um ótimo trabalho fotografando a cena. Vou recolher as garrafas atrás de impressões digitais se ainda tiverem algumas.

—A maior parte dos lugares fica no brejo, com o solo impossível de se andar, mas há pedaços de terra que são ricos em terra e ele é bem sólido, — disse Saria. —Acho que os dois homens foram para lá, beberam e então um matou o outro e levou o corpo para o brejo.

Drake sacudiu a cabeça. —O leopardo arrastou o corpo para o brejo. Havia uma trilha de sangue de um lugar até o local onde Saria encontrou o corpo. Vou voltar para a hospedaria. Vamos fazer isso amanhã.

Remy assentiu. —Não se meta mais em brigas ou vou ter que te prender.

Drake ouviu o leve humor em sua voz. —Pode tentar sempre que quiser.

 

Drake se dirigiu à porta de entrada da hospedaria, seu time incansavelmente se arrastando atrás dele. Joshua circulou o prédio enquanto Evan ia à frente e Jerico o seguia. Era francamente bem irritante. sabia como Jake e Emma Bannaconni se sentiam quando deixavam a residência cercados por guarda-costas, mas maldição, e era um guarda-costas. Liderava seus próprios times de resgate de reféns tanto para Bannaconni quanto na floresta tropical. Olhou com raiva para Evan. Não ajudou ter certeza que Evan estava escondendo um sorriso. Soltou um palavrão baixo e Saria o olhou imediatamente.

—Está tudo bem? — Soava ansiosa. —Podia pedir para um dos caras me ajudar a levar você lá pra cima.

Ótimo. Ela achava que estava prestes a desmoronar. Suprimindo um gemido, algo entre irritado e divertido, Drake deu um beijo no topo de sua cabeça. —Só não gosto da nossa escolta. Malditos idiotas que pensam que tem que me proteger.

Ela tossiu. Procurou seu rosto virado de maneira suspeita. —Era de se imaginar que minha mulher pudesse sentir um pouco de simpatia pela minha situação. Esses homens nunca vão se esquecer disso.

Pauline Lafont estava de pé na porta da frente, as mãos no quadril, uma expressão séria no rosto quando ele veio mancando. —Ouvi que pulou em defesa de Saria e se meteu num pouco de problema, — saudou.

Drake suspirou. —As notícias correm rápido por aqui.

Pauline ficou de lado para lhe permitir entrar. Evan, já dentro, estava à direita da espaçosa área de estar, a arma baixa, mas pronta em suas mãos. Seu olhar encontrou o de Drake acima da cabeça de Pauline e foi para a esquerda, na direção do canto que Drake não conseguia enxergar. Sua mão fez um aceno sutil. Pauline não estava sozinha. Drake forçou seu corpo a se endireitar e entrou só um pouco à frente de Saria, a empurrando atrás com um braço, sinalizando para Jerico com outro movimento sutil ao fazê-lo.

Saria não protestou, nem fez grande caso disso. Amava aquilo nela. Tinha uma quantidade de confiança nele que não tinha certeza se merecia ainda, mas estava determinado a fazer por onde merecer.

—Ele definitivamente tem tendências heróicas, Senhorita Pauline, — disse Saria, como se Drake não acabasse de sinalizar um possível perigo.

O tinha entendido, sabia que sim, mas não perdia nada. Seu coração inchou de orgulho. Quanto mais tempo passava junto dela, mais sabia que era a certa. Ela ficaria ao seu lado, não importava o perigo, ou os tempos de dificuldades. Saria Boudreaux era o tipo de mulher com quem um homem queria ficar para sempre.

Ele passou por Pauline, já se virando para encarar quem quer que estivesse escondido atrás do canto. O cheiro de sangue e suor o atingiu imediatamente, fornecendo sua identificação. Amos Jeanmard estava deitado no sofá, um saco de gelo na bochecha, o peito completamente enfaixado. Não se incomodou em tentar se levantar, obviamente muito consciente da arma de Evan. O cano estava baixo, mas ainda assim apontado em sua direção.

Joshua veio pela cozinha, arma a postos, o olhar em Jeanmard. Sinalizou para Drake que estava tudo limpo.

—Jeanmard, — cumprimentou Drake.

—Lambendo minhas feridas e deixando minha mulher me mimar um pouco, — disse Jeanmard. —Bate que nem um trem de carga.

Drake cutucou Saria. —Está vendo? A mulher dele o mima. Não o chama de bebezão, — sussurrou, excessivamente alto.

Jeanmard bufou. —Não vai ganhar simpatia da minha parte. Tentei te tirar dessa, mas veio que nem um Rambo para cima de mim. Agora está preso a ela. — Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo. —Eu? Vou me aposentar na varanda e me balançar com minha mulher.

Pauline passou por Drake e afundou numa cadeira do lado oposto de Amos. —Tirei o jantar depois de cuidar de Amos, então por favor, sintam-se à vontade para comer. Tenho certeza que estão todos com fome.

Joshua assentiu. —Obrigada, madame.

—Não acredite nem por um momento que acredito nessa sua conversa, Jeanmard, — disse Drake, se aproximando dele, as mãos no quadril. —Sabia exatamente como eu ia reagir. Jogou comigo. Você e Remy.

Jeanmard sorriu. —Remy não. Sabia que ou você ou ele me procurariam. Não estava esperando um ataque tão violento e pensei que podia fazer uma ceninha antes de passar as rédeas. Ao invés disso, acho que quebrou todas as minhas costelas.

Drake olhou para Jerico e então para Joshua. Os dois sacudiram as cabeças. A casa e a área ao redor estavam livres de inimigos. Jeanmard estava sozinho. Drake sinalizou para seu pessoal para que pudessem baixar a guarda e comer. Eles lhe deram um risinho provocador, sabendo que ele tinha perdido a cabeça ali, no pântano da Louisiana — por causa de uma mulher. Não o deixariam em paz por anos.

—Sente-se antes que caia, — sugeriu Jeanmard. —Não há necessidade de bancar o cara durão perto de mim. Senti o peso da sua pata e já fiquei suficientemente impressionado.

Drake podia ter acreditado nele se não ouvisse uma nota de riso e soubesse que não era nada bobo. O velho queria dar o fora e encontrou o jeito certo para conseguir isso. —Eu podia ter te matado, — sublinhou, afundando numa das confortáveis cadeiras de Pauline. Parecia ter afundado no paraíso.

—Vou pegar comida para você, — ofereceu Saria.

Segurou sua mão e deu um beijo em seus dedos. Ela valia a pena, embora um pouco de simpatia pudesse ajudar mais. Sentiu o escrutínio de Jeanmard e soltou sua mão. —Vocês tem alguns problemas por aqui, Jeanmard.

O homem mais velho deu uma risada curta e sarcástica. —Na verdade, há muitos problemas, mas são todos seus agora, não meus. As costelas quebradas valeram a pena. E me chame de Amos.

Drake olhou para Pauline. Ela não disse uma palavra, mas obviamente sabia que Drake e Jeanmard tinham lutado.

—Ela sabe de tudo, — disse Jeanmard. —Nunca menti para ela, nenhuma vez em todos os anos que esperou por mim. — Havia amor de verdade em sua voz. —Sabia que era minha companheira — meu leopardo a reconheceu — mas ela não tinha uma leopardo e tive medo que nosso covil eventualmente desaparecesse. Foi um erro. Meu erro. Quis manter todos os shifters aqui ao invés de mandá-los para fora como devia.

Ele gemeu quando se mexeu para tentar uma posição mais confortável. —Cumpri com minha obrigação e nunca traí Adrienne. Minha lealdade era a única coisa que podia dar a ela. Foi uma boa mulher e boa mãe. A amei do meu jeito, mas ela merecia mais. — Ele olhou para Pauline. —Você merecia mais.

Drake sentiu o pesar do velho. Os olhares entre a dona da hospedaria e o velho leopardo eram tão íntimos que teve que desviar os olhos. Amar daquele jeito e ter que sacrificar o amor pelo bem de uma espécie. Que desperdício de esforço.

—Toda escolha que fiz em minha vida, — disse Pauline baixinho. —Fiz cada uma sabendo o que estava fazendo. — Sua voz era firme. Ela levantou. —Vou pegar um prato de comida para você se acha que consegue comer agora, Amos.

Saria era como Pauline Lafont — uma mulher que ficaria ao lado de um homem, apesar dos seus erros. Drake esperou até que Pauline entrasse na sala de jantar.

—Aquela mulher deixa a gente se sentindo pequeno. Ela é magnífica.

Amos se forçou a sentar, o rosto ficando cinza. Apertou os dentes para evitar grunhir e Drake não piorou sua indignidade oferecendo ajuda. Amos respirou apressadamente por alguns momentos antes de forçar um sorriso torto. —Sim, ela é. Saria é bem parecida com ela.

—Estava pensando a mesma coisa.

—Espero que a trate melhor do que tratei Pauline.

Drake estirou as pernas. Sua perna operada doía bastante e não ficaria surpreso se visse que estava tudo preto e azul da coxa ao tornozelo. Seus ossos doíam. —Acho que estou velho demais para essas merdas de brigas.

—Eu estou. — Amos olhou na direção da sala de jantar e baixou a voz. —Me fale sobre o garoto Tregre. Como ele é?

—Ele é um bom homem. Duro como rocha. Coloco minha vida nas mãos dele todos os dias e sei que vai estar lá por mim, sem considerar a gravidade da situação. Esse é o tipo de homem que ele é, — respondeu Drake sem hesitação. —Então me responda isso — o que diabos aconteceu naquela família e por que não impediu?

Amos suspirou. —Frequentei a escola com Buford Tregre. Ele assediava os outros na época. Ruim como uma cobra. Todas as garotas morriam de medo dele. Até os professores tinham cuidado com ele. O pai era um bêbado maldoso e ninguém nunca viu a mãe. Eram parte do covil — nós sabíamos que eram leopardos, mas eram isolados. Viviam na maior parte da terra, caçando e pescando. Ele flertava com Iris Lafont, a irmã de Pauline, e prometeu casamento, mas no final das contas a dispensou para se casar com uma shifter, e a manteve amarrada a ele inventando mentiras e dizendo que deixaria sua mulher. Era menos que um filho da puta e tratava as mulheres como lixo. No que diz respeito à mulher dele, depois que pôs os pés na propriedade dos Tregre, ninguém nunca mais a viu.

—E ninguém foi ver como ela estava? Pensei que as famílias por aqui fossem bem próximas.

—Ninguém é próximo da família Tregre. Ninguém.

—E os filhos dele? — Drake quis saber. Alguém estava matando nos pântanos e isso tinha que ser detido. Não havia dúvidas que quem quer que estivesse fazendo isso era shifter. Ainda não tinha checado Amos Jeanmard, nem seu filho. Não ia revelar informações para o homem enquanto permanecesse na pensão onde Saria estava, e ela ia ficar em seu quarto ou um de seus homens ficaria de vigília na porta do dela e outro do lado de fora.

Amos franziu o cenho. —Não sei o que pensar daqueles garotos. — Esfregou o queixo, o cenho franzido virando uma carranca. —Como o pai deles, não os víamos muito. Como eu disse, Buford era um bêbado perverso que fazia os outros obedecê-lo com os punhos. Não acho que tiveram uma infância e não iam muito à escola. Porém os três eram bem próximos. Se brigasse com um Tregre, brigava com todos. Renard era o mais velho e aguentava o pior. Tomava conta da mãe e dos outros dois. Quando passou um tempo fora, todos ficaram chocados. Acho que foi quando o velho piorou.

—Mas então ele voltou com uma esposa. Uma shifter, — disse Drake quando o velho ficou calado.

Amos deu de ombros. —Sim, trouxe uma linda esposa e eu soube que tinha feito tudo errado. Joguei fora minha vida com Pauline e condenei nosso covil à extinção. Sou nascido e criado no pântano. Trabalhei a maior parte da minha vida aqui. Nunca saí, nunca pensei em ir embora. Achei que ia ficar naquilo quando Reinard a trouxe para casa.

—Os outros irmãos casaram com pessoas de fora, não com shifters, certo? — Drake deu um palpite.

—Buford desprezava qualquer um que não fosse shifter. Até chegou a odiar sua mulher e filhos — todos menos Reinard — os outros dois porque se casaram com mulheres que não eram shifters, e sua mulher porque não era sua companheira de verdade.

—Sabia disso e não o impediu?

—Não soube até Reinard me procurar e me contar que todos os garotos iam fugir. Disse que o pai estava insano. Disse que tinha certeza que o velho matou sua mãe e que atacou sua mulher numa noite, quando estava trabalhando no pântano. As outras mulheres admitiram para os maridos que Buford vinha fazendo o mesmo com elas e que ameaçou matá-las se contassem.

—Meu Deus. O que diabos fez quando tudo deu errado e Reinard morreu? — Drake não pôde evitar a acusação em sua voz. Queria pular para o outro lado de sala e esmagar o homem. A esposa e o filho de Reinard conseguiram, mas seus irmãos e respectivas esposas não.

—Ele fez algo. — Disse Pauline. Ela entregou a Amos seu prato e colocou sua bebida na mesa de café. —Acabou com quase todos os ossos do corpo quebrados e ficou em coma por três meses.

Drake soltou o ar. A lama no pântano só parecia aumentar. Quanto mais se explicava, mais perguntas surgiam. —E Tregre não foi preso?

—Na época, o irmão dele era o chefe de polícia. — Amos suspirou. —Está desenterrando um monte de merda, Donovan. Isso foi há muitos anos atrás. Invadi a propriedade deles. Alegaram que os ataquei. Houve uma investigação e Buford foi inocentado de todas as acusações. Implicaram até que eu podia ter matado Reinard. No fim, não foram muito longe, mas não tive outra escolha senão me afastar. Inferno, não me lembrava de muita coisa meses depois. Fiz fisioterapia e meu leopardo demorou muito tempo para emergir de novo. Disse ao covil que a terra de Tregre era proibida e que os deixassem no canto deles.

Saria sentou na cadeira ao lado da de Drake, estendendo um prato de comida. Seu estômago rugiu, lembrando-o que não comia fazia bastante tempo. Sua mente estava nublada, tentando absorver tudo que Amos contava, e ainda ler nas entrelinhas. Não havia dúvida que os filhos de Buford podiam ser tão cruéis e depravados quanto o pai.

Buford Tregre certamente era capaz de ser um assassino em série. Odiar era o que parecia fazer de melhor. E os tios de Joshua tinham filhos, ambos grandes o suficiente para também serem considerados suspeitos. Sacudiu a cabeça. Era tudo complicado e estava se sentindo péssimo. Saria cheirava que nem o céu, aquele cheiro que aprendeu a reconhecer como próprio dela. Obviamente tinha tomado um banho, o que explicava porque Pauline conseguiu trazer a comida de Amos primeiro. Não se importava que não trouxesse sua comida de imediato, Saria devia estar exausta. Estava toda suja de terra e provavelmente sangue e suor dele. Tinha pensado na confusão que se meteu, permitindo que tomasse conta dele ao invés do contrário.

—Você está bem? — perguntou.

Ela deu um sorriso ofuscante. —Não fui eu quem apanhou numa briga. Estou bem. E a Senhorita Pauline se superou. A comida está fantástica. — A tensão apertou tanto que suas entranhas enrolaram. Havia algo incrível no jeito que ela apreciava comida. Talvez fosse o pacote completo — o jeito como apreciava a vida. Quando comia, comia, curtindo cada pedacinho. Se tivesse que se proteger, o fazia com a mesma intensidade que fazia tudo mais. Fazia com que se sentisse vivo — e feliz. Deixou-se sorrir de volta como um tonto idiota. —Ela é uma ótima cozinheira, — admitiu e a observou com admiração atacando a comida em seu prato, com gosto.

Ela franziu o cenho. —Coma. O que está fazendo?

—Gosto de ver você comer.

Amos riu. —Você já era, Donovan. Quando um homem morto de fome passa mais tempo olhando para a mulher do que comendo, está com sérios problemas. — Pauline se juntou aos risos.

—Coma, Drake. Quando Amos me disse o que aconteceu, sabia que precisaria comer alguma coisa para recuperar as forças. Terá todo o tempo do mundo para olhar para Saria.

Ao lado dele, Saria se mexeu um pouco desconfortavelmente. Sabia que ainda não estava convencida que passariam a vida juntos. Estava disposta a considerar a ideia, mas tinha uma convicção tão contrária ao casamento que obviamente os planos que fez para sua vida não incluíam um homem permanente — e ele era totalmente permanente.

—Remy já o ameaçou com uma arma? — perguntou Amos.

—Ainda não, mas queria que tivesse, — disse Drake. Saria engasgou. Ele a ajudou batendo em suas costas. —Alguma coisa errada, Saria? — Ela o olhou com ódio e bebeu um gole de água.

—Não vai se sentir tão cheio de si se Remy aparecer armado. Tudo o que ele faz é para valer.

—Não vejo a hora disso. Pode ser o único jeito de te tornar uma mulher honrada. — Olhou para Pauline. —Ela está dando para trás.

—Está com dúvidas, Saria? — perguntou Pauline. Saria mastigou pensativamente, levando tempo para responder. Não queria mentir, nem mesmo omitir. —Quero ficar com ele, é só a coisa da permanência, entende? Não sei se consigo realmente viver com alguém o tempo todo. Estou acostumada a fazer as minhas coisas.

—Mas você quer ficar com ele, — perguntou Pauline. —Ninguém está te forçando, nem coagindo de alguma forma? — Ela não olhou para Drake, mas ele teve o desconfortável pressentimento que se Saria respondesse sim, ela pegaria uma arma e o mataria ali mesmo.

Estava começando a acreditar que as mulheres da Louisiana eram todas um pouco perigosas. Saria fez um beicinho com os lábios e ele se inclinou para beijá-los. Não conseguiria se controlar nem se Pauline tivesse uma arma apontada direto para o seu coração. Beijou-a outra vez quando arregalou os olhos. —Não devia me tentar, — assinalou.

—Isso é coerção? — perguntou Saria, os dedos tocando os lábios como se segurando seus beijos.

Pauline suspirou. —Case logo com ele e livre os dois desse tormento, — aconselhou.

Saria riu. —Estou vendo que sou minoria aqui.

Satisfeito, Drake se concentrou no jantar. Estava tarde. Estava cansado, e seu corpo doía, mas Saria estava perto e o ambiente parecia confortável. Seus homens estavam perto e assumiriam a vigilância para que pudesse descansar. —Senhorita Pauline, — disse. —Tenho que dizer, é uma cozinheira magnífica.

—Obrigada, Drake. Realmente amo ver as pessoas comerem.

—Pretendo comer bastante e posso garantir que meus garotos estarão perpetuamente famintos.

Ela riu, assentindo como se satisfeita.

—Vamos subir. Acho que vou me afundar numa banheira quente para relaxar um pouco, — anunciou Drake. —Vejo vocês pela manhã.

Pauline assentiu e Amos levantou uma mão. Drake se forçou a ficar sentado. Sua perna não queria funcionar, queimando até suas nádegas. Levantou por um momento, deixando a dor consumi-lo, a aceitando, antes de dar um passo. Estava acostumado com batalhas e com os resultados depois que seu leopardo se metia em terríveis disputas com outros machos, mas aquela dor dilacerante que percorria todo músculo sempre o pegava de surpresa. Saria levou os pratos deles para a cozinha, dando-lhe alguns minutos com Joshua. O homem esperava na escada. —Não tive a chance de contar, mas temos dois homens no pântano. Jake mandou reforços e assim que ouviram que podia estar com problemas, vieram correndo. Conner Vega e sua esposa estão cobrindo com Jake. Elijah está passando a noite no escuro. Pensamos que se Saria viu luzes perto de Fenton’s Marsh mais de uma vez, é possível que quem esteja usando o lugar como desova continue a usá-lo.

—Como conseguiram colocar dois homens no pântano sem um guia? Na verdade, como me acharam?

—Seguimos o cheiro da sua mulher. Está expelindo feromônios bem potentes. A leopardo dela está perto. — Drake expirou. Outra complicação. Não havia dúvida que o Han Vol Dan estava perto. Saria era virgem e precisaria ser introduzida no sexo antes que sua leopardo assumisse o controle e explodisse em cima deles. Tinha que afastá-la de todos os outros machos antes que sua leopardo decidisse se mostrar outra vez. Não podia correr o risco de matar um amigo. —Elijah está com quem?

—Um garoto novo chamado Jeremiah Wheating. Não sei muito sobre ele, mas obedece Elijah e Conner deu o aval dele.

—Elijah tem uma reputação ruim. Pode acabar morrendo aqui.

—Pode ser útil, — disse Joshua com uma encolhida de ombros. —Pode nos ajudar, dependendo do que estiver acontecendo por aqui. Montei turnos para os guardas. Todos precisamos dormir, então vamos ficar só com um homem a postos. Tomara que consiga que Saria durma no seu quarto, ou que você durma no dela. — Drake assentiu e observou ela vir na sua direção. Amava o jeito como se mexia, fluindo pelo chão, toda curvas macias e graça. Sua pele era extraordinária — linda. Não pôde resistir a passar o dedo na curva de sua bochecha só para sentir como era macia. —Vamos, vamos subir.

Ela sequer corou, mas pegou sua mão e foi com ele. A honestidade de Saria era admirável. Não se importava com o que os outros pensavam — nem mesmo seus irmãos. Fez sua escolha e se lutava contra a ideia de permanência, pelo menos lhe dava tudo que tinha enquanto isso. Seus dedos se fecharam nos dela e ele trouxe sua mão para o peito conforme subiam as escadas. —Preciso que fique comigo esta noite, Saria. — Ouviu-a sorver o ar.

Ela olhou de lado para ele por baixo dos cílios. A língua saiu para lamber o carnudo lábio inferior. Seu pênis sacudiu. Tentou evitar que sua mente divagasse naquela direção. Ela não protestou, mas a deixou nervosa.

—Sei que fui muito atrevida hoje no pântano, — disse. —Gostei também, mas não estou...

—Docinho, olhe para mim. Estou mais enfaixado do que conseguiria ficar sem ossos quebrados. Posso garantir que vai dormir sem nenhum problema. — Ele hesitou, querendo ser completamente honesto. —Acordar pode ser diferente.

—Se eu estiver no seu quarto alguma coisa vai acontecer e você sabe disso, — disse ela. —Posso até ser eu a começar. Sonho com...

—Acha que estou com medo? — Piscou para ela quando abriu a porta do quarto. —Pode ser safada comigo sempre que quiser. E um homem gosta de saber que sua mulher sonha com ele.

—E se eu não corresponder às suas expectativas? Homens tem muitas. Não me diga que não têm. Imagino que deva ser bem experiente e a ideia de tentar corresponder a isso é intimidante. — Seu sotaque estava mais forte — e mais sensual.

Drake a arrastou para o quarto, chutou a porta para fechá-la e colocou os braços em volta dela, ignorando os protestos do seu corpo. Sua boca desceu na dela. Aproveitou as sensações por vários minutos, mostrando exatamente o que achava de todas aquelas baboseiras. Quando levantou a cabeça, os dois estavam respirando com dificuldade. —Se eu não acertar da primeira vez, Saria, prometo passar horas, meses, anos, praticando até conseguir. Não vai ter do que se queixar, e se não tiver, acredite em mim, querida, também não vou ter. Um homem gosta de saber que sua mulher está satisfeita. Em qualquer caso, notei que costuma seguir instruções muito bem quando quer.

Saria riu. —Certo, então. Se tem certeza. Tome seu banho que vou pegar algumas coisas. Vamos sair amanhã? — Ele assentiu.

—Quero me orientar e conversar um pouco mais com Remy também e com outros no covil. Mas... — plantou outro beijo em sua boca — ...não tão cedo dessa vez.

—Acho que precisa mesmo dormir.

—Não estava falando em dormir, — admitiu.

Saria sacudiu a cabeça e deixou o quarto. A banheira era grande e funda. Percebeu que era grande o bastante para dois. Uma coisa sobre a hospedaria de Pauline era que tinha bastante água quente e ele afundou na enorme banheira agradecendo por isso. Os rasgões doeram, mas a água era calmante e fechou os olhos e se deixou vagar. Estava exausto. Passou muito tempo desde que lutou com leopardos, e para um teste se sua perna aguentaria ou não, aquele foi um batismo de fogo. Riu baixo consigo mesmo. Seu médico foi bem específico. Se transforme — mas espere a hora certa. Vá devagar. Sinta a perna. Tenha certeza que vai aguentar antes de usá-la incansavelmente. De alguma forma não achava que estava seguindo estritamente as ordens médicas. É. Estava bem. Seu leopardo estava bem. O mundo estava nos eixos de novo — bem, quase. Quando considerava que havia um assassino em série psicótico à solta e um covil inteiro fora de controle com os quais lidar — talvez as coisas não estivessem tão bem assim.

Mas no momento, naquela noite, sabendo que Saria dormiria ao seu lado, aceitaria qualquer tantinho de paz que pudesse e ficaria feliz com isso. —Está planejando ficar na banheira a noite toda? — A voz suave de Saria o tirou de sua divagação. Tinha se deixado levar, flutuando na água quente que já ficava morna. Enfiou a cabeça debaixo d’água para enxaguar o cabelo e saiu procurando por ela.

Ela estava na porta, vestida numa regata curta e um shortinho que se colava ao seu quadril e nádegas de uma forma encantadora. —Dorme assim?

Ela puxou a barra da camisa que não cobria exatamente sua barriga. —O que tem de errado com minha roupa?

—Vou ter que tirá-la em algumas horas.

—Quer que eu vá dormir com você nua?

Ele levantou, completamente nu, permitindo que a água escorresse de seu corpo. —Sim. Quero sentir sua pele na minha.

Saria não desviou os olhos. Pegou uma toalha e ao invés de entregá-la a ele, quando saiu da banheira, começou a secá-lo, as mãos gentis enquanto passava o tecido macio nas lacerações em seu peito e barriga. Quando ela demorou, ele fingiu não notar, esperando pacientemente, esperando que ela reivindicasse seu corpo do seu próprio modo. Parecia fascinada e nem um pouco tímida. Nervosa, sim, mas não tímida. Ela passou a toalha em suas costas e acima do seu traseiro, removendo as gotas de água enquanto descia pelas suas pernas. —Você é mesmo muito lindo, — disse. —Muito simétrico.

Ficou chocado pelo tom em sua voz. Era direto, observador, quase científico. Viu-se sorrindo. —Simétrico? — Tocou seus músculos.

—Cada lado é incrivelmente perfeito quando o corpo humano não é nem um pouco assim.

—Sabe que eu sou de verdade, não sabe?

Tentou não rir.

—Seria perfeito para fotos, Drake.

—Isso não vai acontecer, Saria. — Olhou para a expressão do seu rosto inclinado e de fato riu. Puxando a toalha de suas mãos, a jogou de lado, passou os braços em volta dela e a levou de volta para o quarto. —Não importa o quanto faça bico, o quanto seja linda, não importa que seja a mulher mais sexy do mundo, a resposta é não.

—Considere que devia fazer isso pela arte. Pela ciência.

Levantou-a facilmente e a jogou na cama. —Absoluta e irrevogavelmente, não. — Apagou a luz.

—Veremos. Tem que abrir as portas francesas.

—Está com calor? E a resposta sempre será não.

—Tenho que dormir com a janela aberta ou não consigo respirar.

Ele abriu as portas duplas. A brisa da noite entrou no quarto e Saria sorriu para ele. Não pôde evitar ficar ali nas portas a admirando com a luz da lua se derramando no aposento. Seu cabelo estava assanhado, a pele brilhando como porcelana e o corpo macio, cheio de curvas e convidativo. Ela bateu do seu lado na cama. —Venha deitar.

—Não tem uma câmera escondida em algum lugar, tem? — Colocou suspeita na voz.

—Posso ter, — ela provocou.

—Vou ter que revistá-la. — Ela o estudava tão completamente quanto ele fazia com ela. Sentia seu olhar. Podia estar cansado e ferido, mas aquilo fez com que se sentisse mais vivo e alegre que qualquer outra coisa em sua vida. Aproximou-se da cama devagar, observando seus olhos, vendo aquela chama quente tremeluzir neles. Seus olhos escureceram, mas as pintinhas âmbares brilharam mais, tornando os pequeninos pontos de ouro, agora derretido e se espalhando pelo chocolate. Sua virilha apertou e ele se ajoelhou, segurando seus tornozelos e puxando seu corpo para baixo do dele. Ela molhou os lábios, mas seu olhar nunca o abandonou. Deslizou a palma pela curva de sua perna, traçando sua forma. Seus cílios longos desceram e subiram, para que pudesse vê-lo pelos olhos cerrados. Acariciou mais acima, até seu quadril, segurando seu short minúsculo e tirando-o devagar, a todo o momento prendendo seu olhar. O dourado se espalhou pelas íris dos seus olhos até a cor formar dois círculos perfeitos. Viu o medo lá, mas o desejo o superava.

Deitou ao seu lado, uma mão em seu estômago, sentindo seus músculos contraírem sob a palma. Ela estremeceu, os olhos se abrindo, mas não tentou se afastar. A desejava com cada célula de seu corpo. Roçou um beijo pela sua têmpora até o canto do olho e bochecha. Ouviu sua respiração ficar um pouco ofegante e traçou círculos em sua pele, bem debaixo dos seus seios quando subiu a regata um pouco. Encontrou-se também estremecendo. Precisava dela. Ela trouxe vida quando há muito tempo já havia desistido dela. Tinha um trabalho onde a expectativa de vida não era muito alta. As ondas de adrenalina o comandaram antes, mas agora — agora havia luz do sol e risos. Havia toda aquela pele dourada e sua sinceridade. Havia uma necessidade como nunca conheceu antes.

Drake pegou a parte detrás de sua cabeça, a mantendo quieta enquanto tomava posse de sua boca, capturando seu suspiro. Beija-la o deixava meio bêbado. Havia aquela sensação estranha de flutuar e não era uma pessoa imaginativa. Assim que começava, era impossível parar. Deslizou a língua para dentro de sua boca, mais que disposto a afundar mais em seu feitiço. Sua boca era um veludo macio e quente, sua língua se enroscando tentativamente com a dele. Suas mãos seguraram os ombros quando ele se reposicionou para deixar um peso parcial do corpo em cima do dela.

Os bicos dos seus seios roçaram seu peito nu através do tecido fino da regata. Tirou a camiseta dela num movimento rápido e quando ela ofegou, cobriu sua boca novamente, engolindo seu pequeno grito chocado. Estava um pouco chocado com o desejo queimando nele, o fogo quase desesperado correndo por sua corrente sanguínea. Queria ir devagar e ser cuidadoso com ela. Não podia nem mesmo culpar seu leopardo pelo desejo primitivo de devorá-la inteira. Luxúria se misturava a um amor quase devastador, fazendo suas mãos tremerem quando levou a palma para apalpar seus seios cheios.

Beijou todo seu pescoço, os dentes mordendo gentilmente sua pele cheirosa enquanto seguia a linha que ia de sua garganta até o começo dos seios. Por só um momento olhou para ela, sorvendo a expressão confusa, quase atordoada, seu gemido curto de prazer e os olhos entreabertos. —Você é linda, — sussurrou. —Tão linda que me parte o coração. — Sua respiração ficou agitada, os seios subiam e desciam, tão tentadores com os mamilos rijos erguidos em sua direção num convite. Baixou a cabeça e lambeu gentilmente. Seu corpo inteiro se sacudiu. Ela tinha mamilos sensíveis e sob suas mãos sentiu seu corpo se arrepiar de prazer. Fechou a boca ao redor do seu mamilo direito e sugou. Ela arqueou as costas, empurrando-se mais dentro do calor de sua boca. Seu grito foi baixo, o quadril levantou. Suas mãos seguraram sua cabeça, mas ela não o afastou. Seus gritos eram como música, uma bela melodia que o jogou mais fundo numa febre de desejo. Brincou com a língua em seu mamilo, lambendo e provocando, antes de sugá-lo com força de novo, fazendo com que se contorcesse debaixo dele.

—Drake? — Havia um pequeno tom de medo no meio do seu desejo encharcado.

—Tudo bem, docinho. Estou aqui, — sussurrou, falando sério. Nunca permitiria que algo — muito menos ele — a machucasse de qualquer forma. —Vai amar isso.

Ela engoliu, afundando no travesseiro, assentindo, os olhos arregalados e cheios de ouro. Prendendo seu olhar, ele mudou sua atenção para seu seio esquerdo, apertando seu mamilo gentilmente, vendo o calor flamejar em seus olhos antes de baixar a boca e lambê-lo, bem antes da necessidade de se banquetear tomasse conta dele e o chupasse como um homem faminto — sugasse até que ela se contorcesse e gemesse quase que continuamente — até que puxasse seu cabelo. Uma mão alisou sua barriga, acariciou seu quadril e deslizou brevemente pelo seu montículo para sentir a umidade receptiva que havia ali. Ela jogava a cabeça de um lado para o outro e levantava o quadril para encontrar sua palma, ofegando por ar. Deslizou um dedo em todo aquele mel aquecido, aquela doçura que ansiava.

—Oh, Deus, — sussurrou ela, os olhos ficando completamente dourados e ferozes.

Baixou a cabeça e lambeu seu seio, observando-a de perto quando colocou outro dedo no canal apertado, esticando-a tão gentilmente quanto podia.

—Drake, — chamou seu nome, os olhos levemente chocados pelas sensações que a percorriam. —Eu preciso... — Não conseguiu articular o resto.

—Devagar, — tranquilizou-a. —Não quero machucar você. Temos que ir com calma agora. Precisa que seja devagar, confie em mim, Saria. Devagar é bom.

Acariciou outra vez e, como se de algum modo acendesse uma tocha, um fogo correu por ele como uma explosão. Gemeu. Não tinha certeza se podia ir devagar, não com um desejo daqueles rasgando suas entranhas.

—Preciso provar você, Saria. — Sua voz era quase um rugido. A fome estava quase superando a sanidade. Tinha que possuí-la agora, marcar cada pedacinho dela com seu cheiro. Nunca ficou tão duro em toda sua vida. Foi beijando seu corpo até que pode se ajoelhar entre suas pernas. Ela o olhou com olhos dourados cheios de desejo, tão arregalados, brilhando com tesão e necessidade. Respirou e olhou abaixo, permitindo que seu olhar vagasse sobre ela. —Minha. — Exalou a palavra e pendurou suas pernas em cima dos braços, puxando-a mais perto quando abaixou a cabeça.

Ela tinha um cheiro selvagem, e sua própria natureza primitiva saltou ao desafio. Saria era igualmente indomada, fazia sempre o que queria e não se desculpava por isso. Ele ouviu seu fôlego ficar preso e apertou seu quadril num aviso. Conseguiu o que queria dele e ele permitiu; o desejava mesmo. Agora ela era toda sua e pretendia se esbaldar. Fungou a parte interna de suas coxas e bebeu do seu cheiro. A parte felina precisava se esfregar em sua pele, morder gentilmente e provar, usar cada sentido táctil que possuía para declarar sua reivindicação sobre ela.

Passou a língua em todo aquele calor e ela se sacudiu em seus braços. —Shh, tudo bem, — sussurrou. —Relaxe para mim. — Os olhos encontraram os dela outra vez. Havia confiança neles. Ela engoliu com dificuldade, mas assentiu com a cabeça. Beijou outra vez suas coxas, mordiscando levemente, a deixando se acostumar com ele entre suas pernas. Bem lentamente, com grande ternura, correu a língua pelo seu centro, um artista pintando as ondas gentis do mar quebrando na praia. Demorou, apreciando os tremores que percorriam seu corpo. Sua temperatura subiu tanto que, pele contra pele, ela conseguia irradiar calor nele.

 

Saria sabia que estava se afogando em desejo. Sentia-se consumida pela necessidade, pelo tesão. Olhando para Drake, para seu rosto, cada linha estampada com uma sensualidade pura, a forma de sua boca, seus olhos entalhados com uma fome sinistra. Eram olhos de gato, olhando-a como se fosse a presa, o olhar focado completamente nela enquanto as mãos agarravam seu quadril com força. O medo escorregou pela sua espinha, ainda assim a excitação jorrava que nem uma fonte. Era todo um homem, um homem duro e cheio de cicatrizes no limite do seu controle e saber que estava assim por sua causa — por ela — era revigorante. Queria que a olhasse assim — como um leopardo faminto, um homem morrendo de desejo — necessitando do seu corpo. Seu corpo. Sua pele. Dela.

Os olhos se prenderam aos dela. Ferozes. Concentrados. Seu coração batia tão forte que teve medo que saísse pela boca. Lambeu os lábios. Seu coração pulou. Os olhos entrabertos eram de um dourado escuro, brilhando com uma necessidade brusca.

—Entregue-se a mim. — Ao invés de brusca, sua voz era estranhamente tenra, completamente oposta à sensualidade absoluta. —Completamente. Ninguém vai precisar mais de você.

Um alarme soou em algum lugar no fundo de sua mente, mas ela já estava bem longe. Precisava dele — precisava daquilo. Não podia impedir seu corpo de se mover de forma sugestiva, convidativa, ou o gemido choramingado que escapou de sua garganta quando assentiu. Não podia falar, não conseguia formar uma palavra coerente.

As mãos dele se apertaram em seu quadril. Com as pernas penduradas em seus ombros, estava completamente aberta para ele. Ele continuou olhando para seu rosto quando abaixou devagar a cabeça na direção do seu centro em chamas. Sentiu as lágrimas arderem. Como sobreviveria? Seu corpo estava em chamas, a tensão tão elevada que queria implorar para que parasse, para que fizesse algo — qualquer coisa.

Sentiu sua língua lambê-la, um raspar que enviou um milhão de correntes elétricas pelo seu corpo. Ele gemeu e mudou só um pouco de posição, pressionando-se com mais força nela. Ouviu seu próprio grito, um som estrangulado perdido no meio de sua respiração ofegante. Apertou o edredom com as mãos, tentando se firmar a algo sólido, se ancorar quando ele começou a comê-la — a devorá-la. Ele demorou, lambendo, sugando, traçando círculos e letras com a língua até ela perceber que na realidade estava escrevendo seu nome dentro dela.

Cada golpe de sua língua, o raspar gentil dos dentes, as carícias fortes e as lambidas gentis faziam com que chamas percorressem seu corpo. O fogo aumentava cada vez mais, ficando fora de controle, crescendo e crescendo sem cessar. Sua cabeça ia de um lado para outro incansavelmente e se ele não estivesse segurando seu quadril com força, podia ter caído da cama. Ele não parou com aquele tormento lento e sensual, nem com as carícias com sua língua inteira. Ouviu seu próprio grito que mais pareceu um uivo, implorando alguma coisa... O que, não tinha certeza. Então estava se fragmentando, desabando numa explosão giratória que criou ondas dentro do seu corpo.

Ele se ergueu, colocando suas pernas ainda mais para cima, usando os braços enquanto se posicionava na sua entrada. Sentiu sua ereção maciça acariciar sua entrada e estremeceu de desejo. Ele empurrou gentilmente, só alguns centímetros, mas era largo e a sensação de estiramento e ardência foi instantaneamente intensa. Ela enrijeceu e segurou seus ombros, as unhas cravando na pele.

—Relaxe. Só relaxe. Está pronta pra mim, docinho. Vou devagar.

Ela engoliu em seco. Queria aquilo, o queria dentro dela, a preenchendo, mas talvez estivesse acontecendo cedo demais. Sentia-se encurralada debaixo dele, fora de controle, um fogo queimando dentro dela que já tinha voltado com toda força, quente e poderoso. Mais do que de Drake, estava com medo de si mesma, da forte conexão com ele. Nunca sonhou que teria uma resposta física tão forte a alguém. Ficou imóvel quando ele empurrou mais fundo, a esticando ainda mais.

Era — gostoso — assustador — chocante e oh, tão certo. Listras de fogo corriam do meio de suas coxas para a barriga, até mesmo para seus seios enquanto ele a invadia, deslizando cada vez mais fundo até encontrar resistência. Ela ofegou, arqueando o quadril, precisando abrandar a ardência, e ainda assim desejando mais.

—Calma, querida, isso pode doer um momento. Deixe que eu faço isso. Só fique relaxada. — Sua voz era rouca, áspera, quase incontrolável.

O olhar de Saria se prendeu ao dele. Seu corpo não lhe pertencia mais, mas inteiramente a Drake. Estava em chamas com tanta desejo que só conseguiu acenar com a cabeça, pedindo e implorando com os olhos que a enchesse. Oh, Deus, ele era tão grosso, tão duro, como uma barra de aço, quente e abrasador. Podia sentir a pulsação do seu coração nas veias grossas. Parecia impossível que seu corpo fosse capaz de aceitar mais daquele comprimento. Ele ficou bem quieto, se mantendo pressionado firme contra sua barreira, para que aquele mesmo pulso batesse dentro dela.

O mundo pareceu parar quando ela absorveu a sensação. O calor. O fogo. A necessidade desesperada. Queria se empurrar nele, mas ao mesmo tempo queria sair correndo da cama. Porque uma vez que ele fizesse aquilo, sempre iria querê-lo. Ele seria uma fome que nunca ia parar. Seu corpo já a traía, dando-lhe tudo que queria, exigindo que desse o mesmo a ela.

Fez um único som. Protesto? Ou assentimento? Não sabia. Seu coração falhou quando viu o dourado em seus olhos chamejarem com ternura — com algo próximo a amor, até mesmo enquanto sua boca se curvava de pura luxúria. A expressão em seu rosto era selvagemente excitante, só aumentando a excitação que voava fora de controle em seu corpo.

Ele abriu as mãos e ela institivamente entrelaçou os dedos nos dele. Ele prendeu suas mãos no colchão, subindo mais sua posição em cima dela. Uma dor abrasiva golpeou seu corpo, mas ele ficou quieto de novo e ela ficou ali deitada com o coração batendo acelerado e os dedos apertados nos dele, respirando de maneira entrecortada.

—É tão apertada, Saria. Tão apertada, maldição. — Sua voz soou rasgada e brusca.

Saria amava sua voz, quase desesperada por ela. Havia uma fome em seus olhos, uma determinação implacável que achava excitante. Seu corpo precisava de mais e ela se moveu, experimentando um pouco, erguendo o quadril na direção dele. Ele chiou e seus olhos brilharam de uma forma perigosa.

—Quero você dentro de mim, Drake. Cada pedacinho seu me enchendo, — sussurrou.

O pedido erótico de Saria causou uma explosão no corpo de Drake. Ele se empurrou um pouco mais fundo e a constrição ardente de seu canal jogava lenha no incêndio incontrolável que corria dentro dele. Conseguia contar as batidas do seu coração pelas paredes apertadas do seu canal aveludado. Respirou, determinando a seu corpo para ir devagar, ser gentil. Entrou mais um pouco dentro dela e sentiu seus músculos apertarem e ordenharem.

—Querida, não se mexa, ainda não pode fazer isso.

Os olhos de Saria estavam quentes e espelhados, o corpo se sacudindo sob o dele, o quadril se erguendo, tentando forçá-lo mais fundo. Ele se inclinou para fungar seu ombro, os dentes mordendo para mantê-la quieta. Podia sentir sua leopardo surgindo, e o dele deu um salto para encontrá-la.

—Lute contra ela, Saria. Não está preparada para esse tipo de sexo selvagem, — apelou.

Seu olhar encontrou o dele e ela inspirou, os dedos apertando os dele. Ele empurrou mais, se enterrando fundo. Ela se contorceu debaixo dele, o quadril levantando para encontrar a profunda investida. Um calor em forma líquida o envolveu, e os músculos dela contraíram. Ele se retirou e arremeteu bem fundo de novo, observando seu rosto para captar sinais de desconforto. O tesão ardente o estava consumindo e em breve não conseguiria se conter. Nunca ficou fora de controle com uma mulher antes, mas podia sentir seu controle rapidamente escapando.

Se devido ao leopardo dela estar tão perto, ou pela sensualidade natural de Saria, ela não conseguia — ou lhe dava ouvidos, seu corpo apertando ritmicamente em volta do dele até que achou que ficaria louco de tanto prazer. Ouviu seu próprio grunhido, sua entrega ao inevitável quando a trouxe mais perto, a carícia do seu pênis fazendo com que gritasse, seu tom desesperado.

Ele se retirou lentamente em preparação, esperou um segundo e então investiu fundo e com força, estabelecendo um ritmo feroz e quase brutal. Podia ouvir o sangue berrando em suas orelhas. Seus gemidos e apelos aumentavam o frenesi de necessidade que o levava incansavelmente dentro e fora dela, a empalando em movimentos fortes e frenéticos, cada célula do seu corpo viva com uma velocidade cada vez maior, o pênis um membro de aço a enchendo sem cessar.

Sua cabeça sacudia no travesseiro e a respiração vinha em apelos ofegantes, como um choro. Seu corpo se enrolava cada vez mais apertado nele, um calor estrangulador e abrasador que enviava flechas de prazer pelo seu ser quando a tensão aumentou e ele a levou mais e mais além. Seu quadril se ergueu para encontrar suas investidas, ainda que lutasse contra ele um pouco, tentando se contorcer e sair debaixo dele, a tensão crescendo rápida demais.

Podia sentir seu corpo pulsando em volta do dele, apertando até que ela parecia uma segunda pele escaldante e completamente grudada na dele, extraindo a essência do seu corpo. Ele jogou suas pernas por cima dos ombros, sabendo que não conseguiria se conter, determinado que voasse com ele. Empurrou com força, inúmeras vezes, carícias longas, profundas e fortes, a levando até um frenesi de luxúria e de necessidade. Podia sentir as sensações aumentando em força pelas apertadas paredes do seu canal, ver a intensidade da vontade adentrando a paixão em seus olhos.

—Quando eu disser, querida, deixa que venha. Não lute comigo. Só deixe que aconteça, mas espere, querida, vai valer a pena. — Ele lambeu seu ombro numa pequena carícia enquanto arremetia repetidamente seu pênis dentro dela, a enchendo e estirando, criando uma fricção nos sensíveis feixes de nervos.

       Esperou até que pudesse sentir as chamas ardentes que a ameaçavam consumir antes de jogar suas pernas mais alto, posicionando o corpo para que aplicasse pressão em seu ponto mais erótico e sensível. —Agora, querida. Deixe vir agora. — Ele disparou o comando pelos dentes cerrados, e sentiu sua resposta instantânea.

Ela não hesitou, se deixou levar, o olhar preso ao dele. Havia medo e confiança misturados nas profundidades de seus olhos enormes. O corpo de Saria se contraiu como se tentasse estrangulá-lo. Ele acariciou o ponto uma vez mais e ela ofegou, o olhar ficando de um dourado cintilante quando seu corpo explodiu em ondas poderosas que ordenharam o gozo dele. Os gritos ecoavam os seus quando desmoronou em cima dela, enquanto seu pênis sacudia e pulsava em sua ardorosa cavidade.

Ele lutou para recuperar a habilidade de respirar, o cabelo molhado e o corpo coberto de suor. A luz da lua que vinha das portas abertas se derramava em seu rosto. Seu cabelo também estava molhado e ela parecia atordoada, até mesmo um pouco assustada. Manteve os dedos presos aos dela, permitindo que seu corpo voltasse à terra devagar, depois de subir tão alto. Seus músculos continuavam a balançá-los, pequenos tremores colaterais que continuavam a mandar correntes elétricas pelo seu corpo. Seus seios macios pareciam perfeitos contra seu peitoral, o corpo ainda enroscado firmemente no dela.

Fungando seu pescoço, foi beijando até sua boca, tirando só um pouco do peso de cima dela, embora mantivesse o quadril aninhado no dela. Beijá-la era um passatempo do qual não se cansava. Era fácil se perder no veludo quente de sua boca, naquele gosto proibido e encantadoramente erótico de Saria. Se apoiou nos cotovelos e segurou seu rosto com as mãos, a beijando por todo lugar. Amava beijá-la. Ela se entregou a ele como fez quando fizeram amor. Totalmente. Sem reservas.

—Não posso viver sem você, Saria, — admitiu baixinho, procurando em seus olhos um sinal que dissesse que ela podia se sentir do mesmo jeito. —Estou sozinho há tempo demais. Ninguém nunca vai precisar ou desejar você como eu. Não fuja de mim.

Ela lambeu os lábios. —Estou com medo.

A confissão revirou seu coração. —Eu sei que está, querida. Juro que não quero assumir o controle da sua vida. Quero ser parte dela. Diga que sim. Não quero fazer amor com você uma ou duas vezes e então deixar que desapareça da minha vida.

—É um compromisso muito grande. Não sou fácil, Drake. Nada em mim é. Pergunte aos meus irmãos. Pergunte a Pauline. Não sei se é minha leopardo, mas desde que era criança, faço as coisas do meu jeito e não conheço outra forma de viver.

—Já lhe ocorreu que sua independência é uma das coisas que mais me atraem? Não quero que mude. Gosto de você selvagenzinha, docinho.

—Não quero que me diga que foi um engano terrível daqui a uns meses, Drake. Acho que é seu leopardo e a minha deixando você tão louco por mim. Seu lugar é ao lado de alguém como Charisse ou Danae. Você mesmo me disse que todo leopardo numa área de milhas ficaria louco por mim. Olhe o que aconteceu ontem à noite.

Ele beijou a ponta do seu nariz. —É isso que pensa? Que não sei a diferença entre uma mulher que desejo e uma que meu leopardo deseja? Somos shifters, Saria, não entidades separadas. Sou meu leopardo, assim como você é a sua. Nós dois somos os mesmos e nós dois escolhemos você. Sua leopardo nunca permitiria que escolhesse alguém incompatível. Companheiros podem se encontrar por várias vidas. É você quem eu quero. Exatamente como é.

Ela piscou, mas segurou seu olhar. —Sei que quero ficar com você, Drake. Não tenho medo do compromisso, só de mim mesma. Me conheço. Nao quero desapontar você. E se quiser viver em outro lugar e eu for com você e não conseguir ficar no lugar? Isso pode acontecer. Quando estava na escola não conseguia respirar.

—Então voltamos.

—Mas você vai ficar ressentido.

Ele riu baixo e se inclinou para beijá-la novamente. Foi um beijo bem demorado e completo, até que quase esquecesse o que estavam conversando. —Boba. Não dou a mínima para o lugar que vamos viver. Além do mais, alguém tem que fazer uma faxina nesse covil. E você provavelmente gastaria milhares de dólares no telefone com Pauline.

Um sorriso lento começou na curva de sua boca e entusiasmou seus olhos. Ela levantou a cabeça para capturar sua boca na dela, seu beijo não tão experimental desta vez.

—Então a resposta é sim. — Ele fez disso uma declaração.

—Sim.

—Então, você é católica? Nos casamos numa igreja?

Ela piscou os olhos de novo. Ele quase riu do choque em seu rosto. —Amor. Compromisso. Casamento. Filhos. É isso que sim significa, Saria. Disse que sim e sei que uma mulher como você não volta atrás na palavra dada.

—Compromisso. Estava concordando com compromisso. Pensei que estava me apaixonando por você até mencionar a parte dos filhos. Não saberia o que fazer com um bebê. Nossa, Donovan, você não pede muita coisa, pede?

—Não, somente tudo.

Ela sacudiu a cabeça, mas seus olhos diziam que já era dele. Beijou-a novamente antes que pudesse formar mais protestos. Desta vez quando levantou a cabeça riu baixinho. —Tudo bem, vamos colocar a ideia dos filhos em espera por enquanto, mas não por muito tempo. A Senhorita Pauline vai querer netos.

—Isso é golpe baixo.

—Porque você faria qualquer coisa por ela, — disse.

Drake se retirou dela e girou para o lado, tirando o peso de cima. O olhar de Saria vagou pelo seu rosto.

—É difícil cortar essa conexão física com você. Me sinto um pouco vazia. — Ela pegou sua mão e a colocou em cima do coração. —Sente meu coração batendo? Juro que tem um zumbido na minha cabeça ao invés de cérebro. Acho que conseguiu dar um curto-circuito em alguma coisa.

Passou o braço pela sua cintura e a puxou mais perto do seu corpo, sem querer se livrar da conexão física entre os dois. —Acho que essa é a única forma que me permitirá ser capaz de manter você ao meu lado, Saria — um pouco atordoada e distraída por causa do sexo. Quando passar, me diga que vamos começar de novo. Desse jeito nem vai se dar conta que casou e teve filhos.

Saria bocejou. —Estou de olho em você.

—Está tentando dormir. Ainda não, querida. Deixe-me preparar um banho rápido para você. Vai ficar dolorida amanhã e tenho mais planos para quando acordarmos. — Deu outro beijo em sua têmpora e deslizou da cama.

Saria fez uma tentativa desanimada de pegar sua mão, então se virou para se aconchegar debaixo do edredom. Drake sorriu de novo e foi descalço até o banheiro. A banheira era antiga, funda e convidativa. Lavou seus machucados e dores e estava determinado que Saria fizesse o mesmo. Queria que sua experiência fosse só de prazer. Quando a banheira estava quase cheia ele voltou ao quarto para pegá-la.

Estava deitada de lado, seu cabelo cheio e selvagem cobrindo parcialmente o rosto. As pontas desfiadas de cima estavam um pouco pontudas e se viu sorrindo ao observá-la. Seus cílios deitavam como duas luas crescentes em suas bochechas, e ela respirava devagar e tranquilamente, atraindo sua atenção para a boca curvada. Parecia jovem dormindo, suave, linda e muita areia para seu caminhão. Seu coração estremeceu de novo daquele jeito estranho que o avisou desde a primeira vez que se encontraram que estava perdido. Como sua vida ficou tão emaranhada à dela tão rápido? Como alguém se apaixona por uma mulher e sabe que não conseguiria viver sem ela em questão de dias? Para ele, era como se já tivessem passado uma vida inteira juntos — disso tinha certeza. Sabia que Saria nasceu para ele e que não importava o que acontecesse no futuro, seria Saria quem sempre ia querer.

Pegou-a nos braços, ignorando seu protesto sonolento. Podia não precisar que um homem a protegesse ou tomasse conta dela, mas tinha um que queria — não — precisava fazer exatamente isso. Riu baixo quando ela se contorceu e prendeu a coxa em seu peito quando a levou para dentro do banheiro. Era sólida em seus braços, toda curvas macias e pele de cetim. Não conseguiu evitar beijar seu biquinho natural por alguns momentos lânguidos e indulgentes antes de traçar mais beijos até a ponta do seu seio esquerdo.

Ela não estremeceu nem se afastou como meio que esperava que fizesse. Tinha que estar um pouco dolorida. Havia sangue e sêmen em suas coxas, evidências da sua primeira vez, e era incrivelmente apertada. Era um homem grande e sentiu seu corpo se estirando.

—Perdão se machuquei você, Saria, tentei ser gentil. — Esteve tão perto de perder o controle, algo que nunca aconteceu com ele.

—Bobo. Não me machucou. — Ela olhou para a água formando vapor. —Não está planejando me jogar aí dentro, está?

—Não desta vez, — admitiu. Abaixou seus pés primeiro até que estivesse de pé. —Vai ser ótimo, docinho.

—Assim como dormir. E enquanto estiver sentada aqui, pode me entreter. Não vai dormir enquanto estiver na banheira. — Saria afundou na água quente e suspirou de prazer. —Tem razão, está ótima mesmo. Você é mesmo incrível, sabe.

—Eu queria ser, docinho, mas a triste verdade é que sou egoísta. Quero acordar você amanhã de manhã ou talvez daqui a duas horas. — Drake riu e puxou suas pernas para fora. —Vou entrar também.

Ela escorou a cabeça na porcelana. —Eu provavelmente vou afundar, ou vamos inundar o chão, mas tudo bem para mim. Isso é bem relaxante. Talvez possa dormir bem aqui.

Ele colocou seus pés no colo e começou uma lenta massagem debaixo da água. —Vá em frente, Saria, eu a levo de volta para a cama.

—Me conte onde cresceu, — encorajou ela, abrindo os olhos para olhá-lo por entre os cílios compridos. —Acho que deve ter sido uma criança interessante.

—Venho de um covil na floresta tropical de Bornéu. As crianças lá são cuidadas praticamente por todo mundo. Somos livres e não temos ideia que estamos aprendendo coisas que vão ser bem úteis mais tarde na vida. Sobrevivência, caça, basicamente todas as coisas que aprendeu aqui.

—Escola? — perguntou.

—Obrigatória. Temos professores em nossas vilas e depois temos que ir para escolas de fora. Somos encorajados a viajar para outros covis para buscar nossas companheiras verdadeiras. Isso torna nosso covil forte, assim como torna os outros.

Ela franziu o cenho, sentando um pouco mais reta. Seus seios flutuaram de uma forma tentadora e Drake acariciou uma curva da cor de creme até seu bico mais escuro. Seu mamilo endureceu com seu toque.

—É isso que devíamos ter feito? Todas as crianças quando crescessem deviam procurar em outros covis?

—Claro. As linhagens sanguíneas ficam fracas ou se casam fora do covil e têm filhos com leopardos que não podem se transformar.

Drake sabia que soava distraído, mas ela tinha seios lindos. Ele se inclinou, segurando o leve peso numa palma e atraindo o mamilo para dentro da boca. Seu pênis sacudiu, e uma sensação morna e prazerosa de uma felicidade infinita o encheu. Era assim, então, que as coisas deviam ser. Sabia que a ânsia terrível que sentia por ela ia aumentar, uma necessidade urgente, quase brutal, mas havia aquele — confortável — certo — relaxado contentamento.

Ela correu os dedos pelo seu cabelo. —Amo o jeito que me olha, Drake.

—Ótimo, porque amo olhar pra você.

—Faz eu me sentir bonita.

—Você é bonita.

Ela fez um som irrisório no fundo da garganta. —Minha boca e olhos são grandes demais pro meu rosto. E sou meio... — Ela olhou para o próprio corpo e fez uma careta. —Curvilínea.

Ele deslizou os polegares pelos seus mamilos, enviando um arrepio por seu corpo. —É tão receptiva — e amo suas curvas.

Ela mexeu os dedos dos pés. —Prefiro a massagem nos pés que estava fazendo. Se ficar todo excitado de novo agora, vou dormir em pleno ato.

—Claramente terei que aprimorar minhas habilidades. — Colocou seu pé de volta nas mãos. Ela parecia exausta — feliz — mas exausta.

—Não acho que aprimorar suas habilidades seja uma boa ideia. Vai matar nós dois. — Ela fechou os olhos, um pequeno sorriso curvando o canto da boca.

Não queria que dormisse na banheira, mas a água ainda estava quente e queria que ficasse nela por mais alguns minutos. —Se importaria de me contar a respeito de algumas das famílias? As de shifters, as que fazem parte do covil. Preciso saber como são.

Ela abriu os olhos o bastante para espiá-lo. —Como quais? Não conheço ninguém além dos meus irmãos que sejam shifters. Nem sabia que a família Lafont tinha sangue shifter nela. No que diz respeito a segredos, todos foram muito bons em guardá-los.

—Tem uma família que arrenda de Jake e ninguém a mencionou, — disse Drake. —Pode me falar um pouco sobre eles? O sobrenome é Pinet. Ninguém os mencionou e isso me faz pensar o motivo. Preciso de uma lista completa de suspeitos.

Saria fez um som de zombaria com a garganta. —Pode riscá-los de sua lista de suspeitos. Têm uma família enorme, são muito próximos e se divertem muito juntos. Boas pessoas. O Senhor Pinet estava lá quando lutou com Amos pela liderança.

—Não lutei pela liderança, lutei por você.

Ela encolheu os ombros com um sorrisinho no rosto. —Tanto faz. O Senhor Pinet estava lá, mas seus filhos não. Os três mais velhos, Charles, Leon e Philippe, estão servindo o exército, então não estavam por aqui na época dos assassinatos e não são desse tipo. O Senhor e a Senhora Pinet têm uma filha, Sabine, que foi para a faculdade esse ano. E os dois garotos mais novos ainda estão no colegial.

—Entendo. — O cansaço estava tomando conta dele rápido. Drake pegou seu outro pé. —Conhece a maioria dessas pessoas. De quem suspeitaria? E de quem acha que Remy suspeita? Porque tenho a sensação que está escondendo alguma coisa.

—Provavelmente está certo sobre Remy. Ele joga com as cartas coladas ao peito. — Saria bocejou e cobriu a boca. —Preciso dormir, Drake.

Ele pegou sua mão para olhar para suas unhas, incolores. Ela provavelmente nunca foi a uma manicure em sua vida. Acariciou seus dedos. —Certo, docinho, vamos te colocar na cama. Mas pelo menos pense nisso. Quem quer que esteja fazendo isso não começou agora. Talvez agisse de forma cruel com animais. Intimidasse outras crianças no jardim da infância.

Levantou-se, permitindo que a água escorresse de seu corpo, puxando sua mão para que ela também levantasse. Ele tirou a tampa do ralo para a água descer e a colocou no tapete do banheiro.

Saria alcançou a toalha, mas ele a tomou de suas mãos. —Minha vez. — Ele secou cada pedacinho dela tão gentilmente quanto podia, e então a si mesmo, antes de levantá-la nos braços.

—Podia me acostumar com isso.

—Vai se acostumar com uma porção de coisas, — previu ele.

Seu sorriso era sonolento. —Você se acha tanto.

—Sei no que eu sou bom.

Ela explodiu em risos, um som baixo e musical que apertou sua virilha. Ele afastou o edredom e a colocou no meio da cama. Antes que pudesse se virar, se esticou ao lado dela. Tinha começado a chover e o som que entrava pelas portas abertas criava um ritmo íntimo na varanda.

—Não ama o som da chuva? — perguntou ela.

—Sim. — Mas era o riso dela que amava. Passou o braço em volta de sua cintura e a puxou mais perto. —Onde está sua faca?

—Minha faca? — Ela ecoou a palavra, o tom cheio de inocência.

Ele mordeu levemente seu ombro. —Sei que ela está em algum lugar. Dorme com a maldita faca.

A risada dela era provocante. Deslizou dentro dele e embalou seu coração. —Isso assusta você?

—Claro que sim, — disse. —Uma dessas noites você fica com raiva de mim e...

—Espere!

Saria começou a sentar e então desistiu quando ele se recusou a mover o braço. Prendeu-a com uma perna enroscada em sua coxa.

—O que foi?

—Lojos e Gage vieram para casa um dia muito irritados, faz uns dois anos. Estavam montando armadilhas, e nunca os vi daquele jeito. Não são assim, sabe? Riem muito e brincam do jeito que os homens fazem frequentemente, mas Gage de fato esmurrou a parede da casa e Lojos parecia um urso com um dente dolorido. No começo, pensei que estavam brigando, mas então os ouvi conversando com Dash. Alguém foi nas armadilhas dele e torturou os animais. A maioria ainda estava viva e tiveram que deter o sofrimento deles.

—O que estavam tentando capturar?

—Sabe que o ratão-do-banhado não é típico da Louisiana. Eles vieram da América do Sul para as fazendas de peles e foram soltos. Ninguém sabe se acidentalmente ou de propósito, mas causam um impacto negativo no nosso pantanal. Um estudo vasto foi feito para traçar um plano para controlar a população e nós participamos. Mas não torturamos animais, Drake. Há época de caça, do mesmo modo que com crocodilos. Queremos que o pântano floresça. Com derramamentos de óleo, furacões e tudo mais com que temos que lidar, quase todos andamos dentro das leis. E ninguém que conhecemos nunca torturou um animal por diversão.

—Descobriram quem fez isso?

Ela franziu o cenho. —Isso foi o estranho. Não havia rastros.

—E nenhum cheiro, — palpitou ele.

—E na época não admitiam para mim que eram shifters, então se não havia cheiro, não mencionaram, mas não queriam que eu fosse ao pântano sozinha.

Drake ouvia o som de sua voz de perto ali no escuro, com a chuva fornecendo uma música de fundo. Havia uma dor enterrada em seu tom quando falava dos seus irmãos. Os homens em sua família eram unidos, mas era como se não a tivessem notado até que ficasse mais velha. Na época que quiseram exercer autoridade, ela tinha o firme controle sobre sua própria vida e se ressentia da interferência deles.

Ele esfregou o queixo no topo de sua cabeça. —Diriam a Remy se houvesse evidência de um leopardo como também de um ataque humano?

—Claro. Remy é o cabeça da família e daria uma surra em qualquer um deles que escondesse algo assim.

—Ele não tentou bater em você, — Drake se sentiu impelido a acrescentar.

—Remy nunca bateria em mim. Nenhum dos meus irmãos. — Ela ficou calada por um momento e então meio que se virou para olhá-lo, os olhos arregalados. —Tinha esquecido, mas agora que falou, me lembro de Remy tomando a vareta do meu pai e a quebrando no meio. Me meti num problema por ter saído escondida à noite.

Ela falava tão raramente de sua infância que queria ouvir mais. —Por que saiu escondida?

Um meio sorriso tocou sua boca. —Estava com raiva do mon pere por ter ficado tão bêbado. Ele fez a maior sujeira no chão da sala e no sofá. Pauline tinha feito uma capa linda para ele. Nosso sofá era velho e caindo aos pedaços e ele arruinou a capa. Sabia que nunca tiraria a mancha, então joguei um balde de água nele onde estava deitado no meio do vômito e fui embora. Estava bêbado demais para me pegar naquela noite, mas voltei algumas noites depois e ele veio me dar uma surra com a vareta.

—Quantos anos você tinha?

—Uns nove. — Ela se virou, abraçando o travesseiro. —Não pensava mais nisso há anos. Remy tinha voltado para casa e saiu do quarto, arrancou a vareta da mão de mon pere e disse que se me batesse de novo acabaria com ele. Engraçado eu não ter lembrado disso até agora. É provavelmente por isso que sempre soube que Remy nunca me bateria num ataque de raiva. Ele ficou furioso com mon pere.

—Eu também teria ficado.

Ela riu. —Diz isso agora. Não viveu comigo. Pauline diz que eu podia testar a paciência de um santo. Lembro de você dizendo que não é nenhum santo.

—Eu disse isso mesmo, não disse? — Ele abriu os dedos na leve saliência do seu estômago. Amava o quanto era macia. —Com certeza não sou, por mais que eu queria ser por você.

—Prefiro que não seja santo. Não conseguiria viver com um.

Uma repentina ventania mandou uma porção de chuva dentro do quarto e fez as cortinas voarem. Saria gritou e cobriu a cabeça com as cobertas quando as gotas de água caíram sobre eles. Rindo, Drake pulou da cama para fechar as portas.

—A Senhorita Pauline vai me matar, — choramingou Saria, a voz abafada. —Ela ama essas cortinas.

Drake fechou a primeira porta, mas parou, olhando para a água à distância. A chuva caía em lençóis prateados, enchendo a superfície da água de pontos. Algo se moveu bem na linha das árvores, onde havia redes estavam penduradas.

—O que foi? — Saria espiou debaixo das cobertas.

Quando ela fez que ia se mover, ele levantou a mão como teria levantado para um membro do seu time. Não lhe ocorreu que ela não obedeceria. Saria era inteligente e sabia o perigo do que ele fez — desafiar o líder do covil. Os dois já haviam sido caçados. Armande e Robert juraram que só tentaram assustar Drake, mas Robert tentou isso duas vezes e com uma arma.

Drake não se moveu, mas esperou bem quieto, permitindo que seu leopardo se aproximasse, melhorando sua visão noturna. A chuva pesada tornava difícil ver dentro da pesada folhagem. A água atrás das árvores permitia ver uma sombra que não podia identificar, sendo absorvida pelo interior mais escuro do bosque.

Tinham só um guarda, os outros precisavam dormir, e Pauline Lafont era dona de um pedaço de propriedade bem extenso. Se amaldiçoou silenciosamente por provocar os membros machos do covil. Devia ter tido o cuidado de caçar o assassino e depois se preocupar com o resto.

Uma gazela saiu das árvores e foi até a extremidade do gramado da pousada. Drake não se moveu. Observou o animal andar com cautela, quase delicadamente pela expansão de verde. A criatura olhou cuidadosamente ao redor e foi até uma linha de arbustos que exibiam rosas. A cada três passos o animal parava e esperava. Por duas vezes olhou na direção das árvores onde Drake pensava ter visto uma sombra se mover.

Drake seguiu a linha de visão do cervo. As árvores ficavam bem juntas, alguns dos troncos bem espessos. A chuva batia nas folhas, tornando a noite um véu maciço e acinzentado. De vez em quando uma rajada de vento soprava em direção a casa. Ele inalou, tentando captar um cheiro elusivo. Nada. O cervo continuava a caminhar na direção das rosas, alerta, mas determinado.

O arbusto próximo às árvores se mexeu e um cachorro raquítico emergiu, quase se arrastando na barriga, longe do cervo e na direção de uma lata de lixo. Drake suspirou de alívio e fechou as duas portas, e por precaução também as trancou.

—Nada? — perguntou Saria.

—Nada, docinho. Pode guardar a faca. — Ele engatinhou na cama e a puxou para perto de novo. —Não vai precisar dela.

—Que pena. — Ela roçou a boca dele com a sua e fechou os olhos.

Drake ficou deitado acordado por um tempo, a abraçando, maravilhado como a pele de uma mulher podia ser tão macia e ainda assim abrigar uma estrutura de aço daquelas. Deus, estava mesmo de quatro por ela. Nem sabia como havia acontecido, mas cada momento em sua companhia só fazia com que se apaixonasse mais. Adormeceu, inalando a fragrância do seu cabelo.

Os olhos de Drake se abriram e ele ficou lá deitado, no início do amanhecer, ouvindo a chuva, procurando pelo som que podia tê-lo acordado. Estava exausto e sabia que tinha dormido pesado. Tocou seu leopardo. O animal acordou junto com ele, mas estava se acalmando de novo, como se também não tivesse ideia do que o acordou. Saria estava aconchegada ao seu lado, macia e morna, de lado, sem se mover, nem um pouco inquieta. Isso o surpreendeu. Esperava que fosse difícil para ela dormir ao lado de alguém, ainda assim os dois dormiram juntos com facilidade.

Levantou o canto do seu travesseiro onde sua mão estava escondida. Não ficou nem um pouco surpreso ao ver sua faca a centímetros dos seus dedos. Moveu-a para trás um pouco mais, não querendo se arriscar quando a acordasse. Sorrindo, segurou um dos seus seios, o polegar acariciando seu mamilo. Ela parecia uma pétala de rosa, macia, aveludada e tão quente.

—Vire-se, querida, — sussurrou em sua orelha, demorando em seu lóbulo com os dentes.

Saria murmurou sonolenta, mas obedientemente se virou na direção dele onde podia fungar seus seios. Ela suspirou dormindo e uma mão acabou em seu cabelo, acariciando-o ali. Lambeu seus seios por um momento e então trouxe um para o calor de sua boca. Ela fez um pequeno som apreciativo e aninhou sua cabeça.

—Hum, que jeito bom de acordar.

Ele demorou, dando atenção com a língua a cada centímetro do seu corpo, descobrindo cada ponto sensível que a fazia se retorcer e se agitar contra ele. Entregou-se ao seu próprio capricho, a amando com a boca e com as mãos, tentando conhecer seu corpo tão intimamente quanto conhecia sua força de caráter.

Uma batida na porta fez com que Drake levantasse a cabeça em alerta, e Saria puxasse as cobertas. Ela molhou os lábios, os olhos com uma mistura de desapontamento, diversão e alarme. —Não consigo mais pensar. Você destruiu meu cérebro.

—Ótimo, — sussurrou sem arrependimento, se inclinando para dar outro beijo.

A batida soou de novo, desta vez mais forte.

Saria riu baixinho. —As crianças estão chamando.

Ele grunhiu um palavrão em seu ouvido e mordeu seu lóbulo, fazendo com que gritasse. —O que é? — perguntou, a voz irritada.

—Desculpe por perturbá-lo, chefe, mas precisa ver uma coisa — agora, — disse a voz de Joshua.

 

Joshua Tregre. Saria fez questão de estudá-lo atrás de sinais de depravação e crueldade, assim que ouviu seu sobrenome. Este carregava um estigma terrível no pântano e ainda assim Joshua parecia ser um homem distinto. Drake e os outros certamente confiavam nele. —Só um minuto, — disse Drake e deslizou da cama.

—Vou com você, — informou Saria, pulando da cama com a mesma rapidez. —Me dê um minuto. — Ela correu para o banheiro, colocando a calça e o top enquanto corria. Era melhor que não a deixasse para trás.

Deu uma breve olhada no espelho enquanto atendia seus rituais matinais e rapidamente vestia as roupas. Ficou um pouco surpresa ao ver que parecia a mesma. Não se sentia a mesma. Sentia-se — bonita. Amada. Parte de alguém.

—Vamos, — chamou Drake.

Sorriu para si mesma. Ele soava mandão. Exatamente como alguém que esperava obediência imediata — e provavelmente era o caso — quando falava. Não a tratava nem perto do modo que soava numa crise. Confiava em seu julgamento, o que tornava fácil seguir suas ordens numa situação perigosa. Também amava que a tivesse esperado.

Correu para se juntar a ele, rindo quando o viu vestir a camisa. —Sou tão mais rápida que você, e sou a mulher.

Ele sorriu, aquele sorriso convencido e arrogante que puxava as cordas do seu coração, e pegou sua mão antes de abrir a porta. Joshua estava sério e o sorriso de Drake morreu.

—O que foi?

Joshua sacudiu a cabeça. —Deculpe, chefe. Tivemos uma visita. Deve ter sido há umas duas horas atrás. A presa está fresca no gramado. Um cervo e um cão pequeno. Ele o rasgou em pedaços. Também não estava procurando comida, só o prazer de dilacerar alguma coisa.

—Leopardo?

—Os dois tinham as clássicas mordidas mortais. — Ele olhou sem jeito para Saria. —E usou uma faca neles também. Deve ter entrado quando estávamos do outro lado da casa e matado ao sair. Notei o cervo comendo algumas rosas mais cedo.

—Quer dizer que ele esteve na casa? — exigiu Drake.

O olhar de Joshua foi para Saria e de volta para Drake. Ela sentiu os músculos do estômago darem um nó.

—No quarto dela, Drake.

Drake foi na frente, sinalizando para que Saria ficasse atrás dele. Joshua seguiu atrás dela. Ela tomou ciência do silêncio. Nenhum deles fez um ruído. Podia ouvir sua própria respiração, mas não seus passos. A chuva no telhado emprestava um clima fantasmagórico ao descerem o corredor escuro até seu quarto.

Drake abriu a porta e entrou, avaliando o dano. Saria espiou sob seu braço e o ar ficou preso em sua garganta. Deslizou a mão na de Drake, o coração acelerado. Alguém — algo —rasgou todas as suas peças de roupa. A roupa de cama e o colchão estavam em frangalhos. Podia ouvir seu coração pulando no peito, o sangue urrando nos ouvidos.

—Ele me odeia. Ninguém nunca me odiou antes, — sussurrou. Drake passou o braço ao seu redor e a puxou junto ao calor do seu corpo. Ela não percebeu até aquele momento que estava tremendo. —Ele é louco, Saria.

—Está fixado nela, — disse Joshua.

Saria engoliu o protesto. Seria idiota se opor de qualquer forma. A evidência estava bem na sua frente. Sem dúvida, quem quer que estivesse matando e largando os corpos era a mesma pessoa que acabou com tudo no quarto que lhe pertencia.

—É sinistro pensar que alguém está me vigiando lá fora. Ele deve saber em que quarto eu estava.

—Ele é leopardo, — disse Drake. —Pode encontrá-la pelo cheiro.

Ela pressionou os dedos em sua boca estremecida, determinada a não desmoronar na frente de Drake, nem de Joshua.

—O viu? — Drake perguntou à Joshua.

—Vi por onde foi para o pântano, mas não consegui segui-lo. Deixou traços por cerca de uma milha e depois desapareceu. Nenhum rastro de cheiro sequer. Nenhum, Drake. E não tem nada no quarto. O cheiro dele devia estar em tudo. As portas estavam fechadas e ficou aqui dentro por alguns minutos, o bastante para o lugar ficar com o cheiro dele. É como um maldito fantasma.

—Ele ficou muito perto dela, Joshua, — disse Drake.

Ela viu o olhar que se passou entre os dois homens. Drake estava irado. Por fora parecia calmo, mas Joshua corou e assentiu com a cabeça como se fosse culpado de alguma coisa.

—Não é o trabalho dele me proteger, Drake, — disse. —Eu sequer gosto dessa ideia. Esse é meu lar e sou capaz de me proteger, mesmo contra um assassino. — Teve que lutar para evitar que a voz escapasse de seu controle. —Posso estar com medo, mas consigo lidar com isso.

—Ninguém está dizendo que não consegue, — respondeu Drake. —Ele chegou perto demais. Entrou na casa onde estávamos dormindo e não o ouvimos.

Saria se sentiu ficar branca. Se o assassino entrou na hospedaria com todos dormindo, todos ficaram vulneráveis. —Pauline, — sussurrou em voz alta. Tirou a mão da de Drake, se virou e correu, o medo se derramando pelo seu corpo, ameaçando engasgá-la. Quando seu medo se elevou, sua leopardo fez o mesmo e conseguiu sentir o poder e a energia do felino alimentando sua força.

Sua mãe biológica foi embora muito antes de Saria ter a chance de conhecê-la e seu pai a seguiu lentamente. A ensinou como era no pântano e como cuidar de si mesma, mas foi Pauline a pessoa a quem recorreu durante toda sua vida. Pauline a consolava quando chorava, explicava os mistérios da vida, colocava curativos em cada arranhão e a ensinou a cozinhar, costurar e lidar com a vida. Pauline foi sua mãe adotiva e a amava de uma forma feroz e protetora.

Estava vagamente ciente que Drake corria atrás dela, a seguindo pelo comprido corredor, chamando seu nome, falando para que parasse, esperasse, mas não podia. Seu coração retumbava e havia um barulho ensurdecedor em sua cabeça. Seus pulmões queimaram quando agarrou o corrimão e saltou para o primeiro piso. Aterrissou de pé agachada e correu outra vez pelo hall de entrada até a sala de estar para seguir até a parte detrás da casa onde o pequeno apartamento de Pauline, basicamente toda a ala sul da casa, ficava localizado.

Drake estava em cima dela antes que alcançasse a porta, seus braços segurando em volta da cintura, prendendo seus braços para que não tivesse chance de lutar. —Fique quieta, — chiou ele em sua orelha. —Deixe que eu veja primeiro. — Ela sacudiu a cabeça sem falar nada. Pauline era sua mãe, quer fosse uma relação de sangue ou não. Sempre soube disso, mas não desse jeito — com esse medo terrível de perdê-la para sempre. Drake sinalizou para Joshua e ele ficou de um lado da porta. Jerico havia se juntado a eles e aparentemente Evan estava do lado de fora. Era tarde demais. Devia ter protegido Pauline acima de tudo.

Drake se aproximou da porta e bateu. —Senhorita Pauline? Amos? Está tudo bem aí dentro?

Por um momento em que seu coração parou, o chamado dele encontrou silêncio. Saria colocou o punho fechado na boca. Suas pernas de repente pareciam de borracha. Algo se moveu atrás da porta fechada. Houve um leve farfalhar, passos e Pauline abriu a porta, piscando sonolenta para eles. Ninguém pensou em ligar uma luz, mas Saria capturou uma chama felina em seus olhos. Ela podia não ser uma leopardo, mas tinha sangue de leopardo correndo por suas veias e tinha uma visão noturna excelente.

Saria se jogou nos braços de Pauline e para seu horror, começou a chorar quase histericamente. O alívio de vê-la viva era tão arrebatador depois de um medo tão grande do que poderia encontrar, que não conseguiu se controlar, nem mesmo sabendo que estava fazendo um papelão na frente dos homens de Drake.

Quase derrubou Pauline, mas a mulher fechou os braços ao seu redor firmemente e a abraçou, murmurando num tom confortador enquanto olhava por cima do ombro de Saria para Drake pedindo uma explicação.

Jerico e Joshua saíram imediatamente, dando a Saria um pouco de privacidade. Ela notou, mas estava angustiada demais para reconhecer o comportamento cavalheiresco deles.

—Saria, querida, me diga o que está acontecendo, — pediu Pauline.

—Desculpe, não consigo parar, — admitiu Saria. —Bata em mim ou algo assim.

—O que você fez? — exigiu Amos, olhando com fúria para Drake.

—Não ele, — apressou-se a explicar Saria, gaguejando. —O assassino.

—Assassino? — Ecoou Pauline e olhou para Amos, perplexa. —Saria, não está fazendo sentido. Venha para a sala de visitas. — Ela se afastou para permitir que entrassem em sua ala privada da casa. O aposento que entraram era uma pequena sala de estar. —Drake, sirva um pouco de conhaque.

—Eu odeio conhaque, — fungou Saria.

—Sim, eu sei, — acalmou Pauline, —mas vai ajudar. Amos, pare de olhar assim para o garoto e traga aquele cobertor. Acho que Saria está em choque.

Saria se agarrou a Pauline. —Sei que só fui à escola porque você queria que eu fosse. Sabe disso, não sabe? Fiz tudo que me pediu para fazer. Não dei ouvidos a mon pere, as senhoras da igreja nem aos meus irmãos, só a você. Sabe disso, não sabe?

—Claro que sei.

—Você é ma mere, sempre foi. — Saria apertou os braços ao redor do pescoço de Pauline, enterrando o rosto no ombro da mulher mais velha.

—Claro que sou, — assegurou-a Pauline. —Você é a minha garotinha. Minha filha.

—Pensei que a tinha perdido, Senhorita Pauline. Preciso de você.

—Não vai me perder. Amos e eu sempre nos amamos Saria, mas você é a minha filha. Não importa...

Saria sacudiu a cabeça, sabendo que Pauline não a entendia, não sabia o quanto esteve perto da morte. Pauline tirou os braços de Saria do pescoço e a levou para um pequeno sofá enfeitado. Ela afundou, puxando Saria consigo.

—Não entende, — Saria tentou explicar. —Ele esteve aqui, na casa. Pensei que podia ter matado você e Amos. Ninguém o ouviu. Ele entra e sai dos lugares e não deixa nada atrás. Nenhum rastro.

Pauline franziu o cenho quando Drake estendeu o pequeno copo de conhaque. Saria não o pegou, então Pauline o fez, o segurando na boca de Saria. Ela engoliu o feroz líquido. Queimou tudo por onde passou. Ela tossiu e tentou piscar as lágrimas.

—Melhor? — perguntou Pauline com gentileza.

Saria apertou os lábios firmemente e assentiu. Olhou para Drake para ver se estava horrorizado pela sua loucura repentina. Ele parecia aliviado, mas não prestes a correr. —Desculpe, — sussurrou para ele.

Drake segurou sua mão e a trouxe para a boca. —Não tem por que pedir desculpas. Tem o direito de agir assim. Faz semanas, meses que vêm vivendo um inferno. Já passou por muita coisa.

Ela queria protestar. Acabou o conhecendo por causa dessas coisas terríveis e ele fez cada minuto valer a pena. Fazer amor com ele foi maravilhoso, mas não ia trazer isso à tona na frente de Pauline e Amos. Estavam esperando por uma explicação do seu choro. O conhaque queimava como uma bola de fogo em sua barriga. Ela olhou outra vez para Drake pedindo orientação. Tinha revelado informação importante e confidencial. Talvez até demais. Seus irmãos sabiam o que estava acontecendo, mas não podiam deixar que o covil ficasse sabendo, não antes que tivessem tempo de investigar todo mundo.

Drake assentiu levemente, dando-lhe permissão para revelar a verdade. Seu rosto queimou de vergonha. Nunca ficou tão fora de controle. O medo de perder Pauline a atingiu como uma tonelada de tijolos e entrou em pânico. Nunca sentiu esse tipo de medo antes, esse momento aterrorizante onde uma pessoa podia perder aquele alguém importante que significava tudo no mundo para si.

—Temi por você, Senhorita Pauline, — sussurrou. Até sua garganta estava dolorida depois da tempestade de choro. —Alguém invadiu a pensão à noite. Entrou no meu quarto. — Ela corou, mas encontrou o olhar de Pauline firmemente. —Eu estava no quarto de Drake, mas Joshua descobriu o intruso e o perseguiu pelo pântano.

Amos franziu o cenho. —Ele é leopardo. Tem que ter sentido o cheiro dele. Nós podemos...

Drake sacudiu a cabeça. —É esse o problema. Não há cheiro.

—Isso é impossível. Tudo deixa um cheiro para trás, — protestou Amos.

—Deixe Saria nos contar, — aconselhou gentilmente Pauline. —Tem muito mais nessa história, não tem, cher?

Saria assentiu. Começou do início, quando primeiro viu as luzes em Fenton’s Marsh e descobriu o primeiro corpo. Pauline e Amos permaneceram calados enquanto ela contava tudo. Não deixou de fora o ataque que sofreu, ou o fato que o leopardo não tinha cheiro algum. Drake continuou de onde parou, revelando que Remy investigou uma série de assassinatos onde corpos de mulheres foram descartados nas fronteiras da cidade, à beira do rio e dos canais.

—E vocês acham que esse assassino esteve aqui na pensão? — perguntou Pauline.

Saria mordeu o lábio enquanto assentia. —Esteve no meu quarto, e destruiu todas as minhas coisas. — Por alguma razão seus olhos brilharam outra vez com lágrimas.

Pauline tocou em seu joelho. —Então foi uma coisa boa ter ficado no quarto de Drake, não foi, cher? Tem alguma ideia de quem esse assassino possa ser, Amos? Conhece bem a maioria das famílias.

Amos sacudiu a cabeça. —Todos temos segredos, mas não posso imaginar ninguém além do velho Tregre sendo realmente um assassino — e ele está morto.

—Um dos seus filhos? Ou netos? — perguntou Drake.

Amos suspirou e esfregou a ponte do nariz, sacudindo a cabeça. —Duvido. Não tem muita coragem. Não consigo imaginar um deles matando uma pessoa, muito menos o número que vocês alegam.

—E Elie? — Isso tinha que ser perguntado. Elie Jeanmard chamou os irmãos de Saria quando Robert Lanoux e Armande Mercier os caçaram no pântano. Parecia fora de contexto que fosse uma assassina em série, mas nunca se sabe.

Amos abriu a boca para protestar e então a fechou, numa tentativa óbvia de pensar no assunto. —Não acho que Elie seja capaz de assassinato. Realmente não. Sempre foi um garoto gentil, amava animais e suspeito que alguém capaz do tipo de coisa que você descreveu teria mostrado tendências assassinas na infância. Elie nunca caçou nem crocodilos.

Saria assentiu. —Isso é verdade, Drake. Elie sempre foi o menino mais doce daqui.

Drake andou de um lado para o outro mais para esconder a onda repentina de ciúmes que a necessidade de se mover. A onda inesperada de emoção duvidosa o pegou de surpresa. Tinha confiança em si mesmo, e mais ainda, confiava em Saria. Não fazia sentido que sua inocente declaração fizesse o ciúme rasgar suas entranhas. Não queria ser dono dela, queria amá-la, ser seu parceiro, e dividir a vida com ela. Queria seu espírito livre, aquela vontade indomável que o fascinava e intrigava. Gostava que fosse aberta e amigável como todo mundo — até mesmo com outros homens, ainda assim não foi capaz de conter aquela explosão de ciúme. Era um sentimento feio e um que não queria sentir.

—Drake?

Sua voz era bem baixa. Quase íntima. O som o banhou, tão limpo e fresco quanto a chuva na primavera, levando embora seus demônios. Ele a olhou rapidamente de onde estava, nas sombras. Ficou calado mais uma vez, se afastando dos outros até que conseguisse descobrir o que havia de errado consigo.

Olhou para Amos. O homem estava com a cara fechada, observando cada movimento de Drake de perto com uma expressão suspeita. Drake desviou os olhos, olhando em volta da pequena sala. Era um aposento pequeno, os móveis mais Vitorianos que modernos. Uma pequena lareira era o ponto central do lugar. Uma mesa com uma toalha de renda que cobria a madeira velha. Seu olhar descansou por um minuto no vaso enfeitado e cheio de detalhes que descansava ao lado da lareira. O vaso tinha mais ou menos um metro e quatro pés. Um enorme arranjo floral composto das mesmas flores estranhas que avistou em Fenton’s Marsh, bem como samambaias e outras plantas.

Ele franziu o cenho e atravessou a sala para estudar o arranjo. As flores tinham um cheiro ótimo, as pétalas pareciam macias e cheias de orvalho. Douradas, como rosetas escuras, lembravam o pelo de um leopardo. —Onde conseguiu essas flores?

Houve um longo silêncio. Virou-se para olhar Pauline, silenciosamente exigindo uma resposta. Pauline franziu o cenho, a questão obviamente inesperada.

—São chamadas de Amantes de Leopardo, — disse.

—Não responda nada, — rosnou Amos hostilmente. —Está acusando Pauline de alguma coisa? Primeiro meu filho e agora Pauline. — Ele meio que se levantou, os punhos cerrados.

—Não foi isso que ele quis dizer, Amos. Qual é o problema?

—Drake? — perguntou Saria.

Drake levantou a mão. —Está acontecendo aqui nessa sala — o mesmo que aconteceu lá no brejo. — Levantou a voz. —Joshua, Jerico, venham aqui.

Amos voltou a sentar na cadeira, mas ainda estava com o cenho franzido. Pauline afundou ao seu lado, uma mão descansando em seu braço como se pudesse impedi-lo de atacar como tão claramente desejava fazer.

—O que aconteceu no brejo? — demandou Amos.

Joshua e Jerico vieram de diferentes lados da casa, entrando por portas distintas. Drake acenou para que se aproximassem.

—Sentem alguma coisa? Seus leopardos sentem algo?

Joshua foi o primeiro a assentir. —Ele está agitado. Me sinto hostil e agressivo e isso está vindo dele.

—O meu também, chefe, — concordou Jerico.

—Como o meu, — disse Drake. Ele olhou para o homem mais velho. —E claramente seu leopardo também está reagindo. Mas nenhuma das mulheres sente isso. Por que?

Drake se aproximou do vaso. Seu leopardo o rasgou por dentro quando inalou. —Joshua, cheire-as de perto.

Joshua entregou a arma para Jerico e cautelosamente atravessou a sala até o grande vaso. Agachando-se, inspirou, permitindo que a fragrância da flor entrasse em seus pulmões. Ofegou e recuou. —Meu leopardo ficou louco, Drake. Essa flor é um perigo para nós.

Pauline e Saria pegaram uma das flores de caules compridos do vaso e a cheiraram. Drake pode ver que na verdade eram duas flores, uma enroscada na haste da outra. As pétalas de leopardo eram maiores e tinham o formato de uma flauta larga e as flores menores que subiam pelo caule eram de um chocolate escuro, uma flor bela, mas obviamente mortal.

—Não sinto absolutamente nada, — disse Pauline. —Bem, talvez... — Ela se interrompeu.

Saria sacudiu a cabeça. —Minha leopardo não está com raiva.

Amos levantou e deu uma fungada nas flores. Afastou-se e continuou a retroceder até ficar o mais longe possível das flores. —Meu leopardo enlouqueceu, está fulo comigo. Ele é sempre calmo, mas sentiu vontade de matar.

—Disse que são chamadas de Amantes do Leopardo? — perguntou Saria, confusa. —Tirei fotos delas em Fenton’s Marsh, elas crescem lá. Só as vi num outro lugar. Quando vou me encontrar com Evangeline Tregre no limite da propriedade dela, do lado da dos Mercier, essas flores estão por todo lugar. Como sabia o nome delas? Achei que fosse uma espécie nova e ainda não descoberta.

—Minha irmã trouxe as flores ontem à noite quando veio jantar. Eu sempre as amei. Os Mercier cultivam híbridos o tempo todo, procurando por certas fragrâncias, — explicou Pauline. Ela olhou para o rosto franzido de Drake. —Iris é casada com Bartheleme Mercier. Ele morreu alguns anos atrás, mas foram mesmo Charisse e Armande que ergueram o negócio dos perfumes. São conhecidos no mundo inteiro agora. Iris tem muito orgulho deles e quando os visito vou até a estufa onde desenvolvem os híbridos. A Amante do Leopardo foi desenvolvida há anos. Charisse estava tentando aperfeiçoar o aroma. Ela de fato começou o projeto bem antes de chegar ao colegial e vem trabalhando nele desde a época.

O leopardo de Drake o arranhava, tornando difícil pensar direito. —Temos que sair dessa sala.

Os outros homens assentiram em alívio, saindo pelas portas para ficar longe da fragrância sutil à qual seus leopardos reagiam. Pauline os guiou de volta até a sala de estar maior da pousada, do outro lado de sua ala da casa. A distância forneceu um alívio instantâneo e Drake esperou até sentir seu leopardo se estabilizar antes que tentasse juntar as peças.

—Charisse Mercier, sua sobrinha, Pauline, começou a cultivar flores híbridas bem antes de chegar ao ensino médio, anos atrás. Estou entendendo direito?

Pauline assentiu. —Não consigo lembrar do ano exato, mas ela registra tudo. Essas flores foram inspiradas pelos shifters, claro. Ela ficou muito empolgada com elas e trabalhou anos para conseguir não só a fragrância que queria, mas também a aparência.

—São lindas, — disse Saria.

—E mortais para nossos machos, — acrescentou Drake. —Como saíram da estufa e pararam no brejo? Ela não pode simplesmente plantar flores que não conhece e não esperar que haja impacto no ambiente.

—Eu não sei. Ela mantém todos os híbridos na estufa e ela fica completamente fechada. Charisse é muito cuidadosa. Na verdade possui um ambiente especial onde o ar sopra suas roupas e sapatos para que nada seja transferido para a área externa do pântano.

—Sei que vi as flores espalhadas pela fronteira entre a terra dos Mercier e bastante delas do lado dos Tregre. O solo é bem rico por lá, quase preto, e em Fenton’s Marsh isso se repete, — disse Saria, —O brejo, claro que tem um nível de água mais alto, mas há acres de ótimo solo. Basicamente onde vi as flores.

—Mais algum lugar? — perguntou Drake.

Saria sacudiu a cabeça. —Ando por todos os pântanos e canais. A maioria das pessoas me dá permissão para tirar fotos. Não vou à propriedade dos Tregre e sempre peço a Charisse antes de ir na dos Marcier porque não quero atrapalhar o trabalho deles e nunca sei quando estão colhendo ou semeando. Só vi essas flores em dois lugares. Tirei fotos delas e pensei em perguntar à Charisse a respeito. É possível que ela não saiba que saíram da estufa.

—Não têm como terem saído, — disse Drake. —Ela sabia da reação que o cheiro causa nos leopardos machos?

O cenho franzido de Pauline virou uma carranca. —Claro que não. A fragrância é fantástica, quase do outro mundo. Eu adoro, por isso pedi à minha irmã um arranjo para minha casa. Saria disse que a leopardo dela não se agitou...

Saria fez um pequeno som no fundo da garganta, atraindo atenção para si. Seu rosto ruborizou. —Isso não é exatamente verdade, Pauline. Minha leopardo se agita…

—Você disse que ela não reagiu, — disse Drake.

—Eu sei que disse isso. Ela não reagiu com agressão ou hostilidade, então não liguei sua reação às flores e fiquei com vergonha de dizer alguma coisa. — Seu olhar encontrou firmemente o dele. —Ela fica amorosa.

Imediatamente, a lembrança de Saria de joelhos no pântano, com a boca em seu pênis, inundou sua mente. Não pensou nas flores. Não pensou em nada a não ser naquela boca de sonhos e no prazer que corria pelo seu corpo. O lugar podia estar cheio daquelas flores e não teria notado.

—Pode ser porque está perto de emergir, — disse Drake, mantendo seu olhar, deixando que soubesse silenciosamente que estava orgulhoso de sua coragem de contar na frente dos outros.

—Não é a mesma coisa, — disse. —No começo também pensei que era, mas na sala, bem, vamos apenas dizer que foi uma coisa boa estarmos cercados de pessoas.

Ela era dolorosamente honesta e mais uma vez, Drake sentiu uma onda de orgulho dela. Não podia ser fácil confessar que queria pular em cima dele na frente da mulher que considerava uma mãe — nem dos outros homens.

Pauline olhou para Amos e então limpou a garganta. —Tive essa reação também. Agora que penso nisso, quando estou perto das flores definitivamente me sinto mais amorosa, por falta de uma palavra melhor.

—Isso é loucura, — disse Joshua. —Flores? Está me dizendo que aquelas flores fazem as mulheres quererem transar e os homens brigar?

—Os leopardos, — disse Drake. —E de certa maneira isso faz sentido. Quando uma mulher está perto do Han Vol Dan, todo macho em milhas de distância fica hostil e agressivo. O leopardo macho responde agressiva e sexualmente ao cheiro dela. Se Charisse conseguiu reproduzir o aroma da leopardo fêmea durante a emersão, as flores deixariam qualquer shifter macho louco e aumentariam o desejo sexual da fêmea.

—Não acredito que uma flor faria tudo isso, — disse Amos. —É só uma flor.

—É um aroma, — assinalou Drake. —Cheiros são tudo para um leopardo.

—Concordo com o Senhor Jeanmard nisso, Drake, — disse Joshua. —É uma flor.

—E é por isso que não somos líderes do covil, — disse Amos. —Que outra explicação há? Parece ridículo, mas todos sentimos a reação dos nossos leopardos. Se isso aconteceu lá em Fenton’s Marsh também...

Jerico assentiu. —Todos sentimos. Havia algo lá, algo deixando nossos leopardos agressivos e eriçados.

—Então, o que isso quer dizer? — perguntou Saria. —Charisse não pode saber como os machos reagem, ou teria destruído a flor. Eu a conheço. Se vem aperfeiçoando há tempos essa planta, está atrás de uma fragrância para poder produzir — provavelmente uma fragrância patenteada que vale milhões de dólares.

—Há quanto tempo as flores apareceram na terra dos Tregre? — Drake batia o dedo na coxa, a mente acelerada. Se Charisse vinha experimentando por anos, então as flores podiam estar influenciando sutilmente o covil.

Viajou extensivamente e viu muitos covis. Nenhum estava no grau de destruição daquele. Alguma coisa estava terrivelmente errada, mas, como Joshua, era difícil imaginar que o cheiro de uma flor seria responsável pela lenta desintegração de um covil inteiro.

—Só fui lá pela primeira vez há uns dois anos atrás, — disse Saria. —O velho era assustador e mon pere teria me surrado se chegasse perto dele. Quando ele morreu, desbravei o lugar, e conheci Evangeline. Sinceramente não consigo me lembrar quando as vi pela primeira vez, mas sempre tiro fotos e as tenho num álbum, em algum lugar. Sempre registro as datas, os lugares e a época do ano quando guardo as fotos nos álbuns. Porém, seriamente, duvido que faça mais de dois anos.

—Fale com Charisse. Ela deve ser capaz de dizer, — encorajou Pauline. —Sempre documenta tudo, ela precisa.

Drake sacudiu a cabeça. —Não quero que conte nada à sua irmã, nem a Charisse. — Ele olhou duramente para Amos. —Nem para Elie. Nada que foi dito aqui pode deixar esta casa, não até completarmos nossa investigação. Temos um assassino serial à solta e é um dos nossos. Encontrá-lo tem que ser nossa primeira prioridade. Eu mesmo falo com Charisse. De acordo? — Não estava perguntando. Tecnicamente, Pauline não era membro do covil, mas Amos era e jurou sua lealdade.

Amos assentiu imediatamente, mas Pauline mordeu o lábio, parecendo chateada. —Não entendo. Não suspeita que Charisse tenha feito algo errado, suspeita?

—Não quero que isso se espalhe durante uma investigação de um assassino em série. Temos que ser cuidadosos. Não quero colocar Charisse nem outra pessoa em perigo chamando a atenção para eles. — Drake escolheu suas palavras com cuidado.

Saria o olhou como se pudesse protestar, mas desistiu quando ele levantou a mão e um gesto sutil para impedi-la. Ela apertou os lábios e engoliu como se estivesse se engasgando em sua óbvia necessidade de defender Charisse. Sabia que ele não respondeu exatamente a Pauline e sinceramente não podia responder, não naquele momento.

Pauline pareceu aceitar sua explicação sem maior análise. —Certo. Não direi nada, mas Drake, precisa chegar ao fundo disso rápido.

—Sim, senhora, — concordou.

—Vou subir para ver os danos no quarto de Saria. Acha mesmo que quem quer que esteve aqui é o assassino em série? — perguntou Pauline.

—Sim, — disse Drake. Era a mais pura e dura verdade. Sabia que o assassino esteve na casa — que veio atrás de Saria. A evidência no quarto mostrava raiva — uma raiva muito pessoal. O assassino conhecia Saria, ou pelo menos fantasiava que a conhecia. Quaisquer que fossem as circunstâncias, ela estar com Drake era algum tipo de traição na cabeça do assassino.

—Preferia não voltar lá, se não se importar, — disse Saria.

—Drake pode ir comigo, — proclamou Pauline. —Amos, você fica aqui. Suas costelas estão quebradas e subir todos aqueles degraus não vai ser bom para você.

—Joshua, Jerico, fiquem com Saria, — ordenou Drake.

Seus olhos brilharam um pouco perigosamente na direção dele, mas ela não discutiu, o que era bom, porque no que lhe dizia respeito, ela ia andar com proteção. Queria alertar também seus irmãos. Se o assassino planejava tornar aquilo pessoal, qualquer um que ela amasse podia estar correndo risco.

Pauline foi na frente pelas escadas, parando no topo, na livraria circular para se virar para ele. Ele esperou, sabendo que ela manipulou a situação para ficar a sós com ele.

—Acha que esse homem veio aqui para matar Saria?

Seu olhar era direto e pela primeira vez Drake pôde sentir a leopardo nela. Era tão ferozmente protetora de sua filha do coração como qualquer mãe biológica poderia chegar a ser. Podia não ser capaz de se transformar, mas sua leopardo era forte.

—Sim, acho, — disse, respeitando-a com a verdade.

Não era o que ela queria ouvir e pôde vê-la receber o golpe, mas respirou e assentiu, ainda estudando seu rosto.

—Você a olha do jeito que meu Amos sempre me olhou. Não vai deixar que nada aconteça a ela. — Ela tornou isso uma declaração.

—Não, senhora, não vou.

Ela olhou para seu rosto por mais uns minutos e então, aparentemente satisfeita, liderou o caminho até o quarto de Saria. —Ela é uma boa garota, sabe. Inteligente, engraçada e cheia de coragem. Nunca será feliz longe do seu pântano por muito tempo. Ele sempre foi seu refúgio.

—Me diga por que a família dela não lhe deu atenção.

—Você fala de Remy e dos meninos? Saria foi uma bênção duvidosa para seus pais. Tinham cinco filhos e então Aimee ficou doente. Sua saúde nunca foi boa, você entende, mas LeRoy queria uma porção de filhos. Ele era muito tradicional, um homem muito rígido. Não me leve a mal, amava sua mulher e seus filhos, mas era ele quem mandava e simplesmente não via que Aimee estava doente. Ela engravidou de Saria e praticamente foi se consumindo. Retraiu-se da realidade. Os meninos sabiam e a amavam, e aquela foi uma época árdua para eles, perdê-la daquele jeito. Ela parou de falar e não saía da cama.

—O pai de Saria não maltratava a esposa?

Pauline sacudiu a cabeça, uma mão na maçaneta do quarto. —Não, ele não era desse jeito. Firme, mas nunca encostaria a mão em Aimee, ele a adorava. Quando ela morreu, começou a beber. Retraiu-se do mesmo jeito que Aimee fez. De uma forma diferente, mas estava determinado a beber até morrer e conseguiu.

Pauline abriu a porta e recuou, com uma mão na garganta, olhando o estrago. A roupa de Saria estava em frangalhos, bem parecida como as dele ficaram na noite que chegou. Não havia dúvida que um leopardo esteve no quarto e que tinha surtado.

—Como ele pôde fazer tudo isso e ninguém escutá-lo?

—Para fazer isso levaria minutos, — disse Drake. —Um leopardo enfurecido pode fazer uma tremenda quantidade de estrago num espaço confinado em questão de segundos. Ele entrou e saiu daqui bem debaixo dos nossos narizes. Só havia um guarda acordado no momento e essa propriedade é bem grande para vigiar.

Pauline fechou a porta e se apoiou nela. —Saria é uma menina incomum. Ela não teve mãe e mal teve um pai. Seus irmãos estavam consumidos de pesar e eram bem mais velhos, deixaram a casa para se afastarem da morte. Saria tomou conta do pai. Não era ruim sempre. Ele a levava ao pântano, caçava e pescava, a tratava como um filho. Nunca tive certeza se notava que era uma garota. Ela simplesmente passou a tomar conta das coisas enquanto ele bebia até se matar. Ela vinha aqui, uma menininha com cabelo loiro cheio e olhos grandes demais para seu rosto. Eu nunca tive filhos e ela encontrou o caminho do meu coração.

Pauline olhou para seu rosto e leu sua reação. Não conseguiu evitar. Deviam ter tomado conta de Saria quando era criança — deveria ser amada, não deixada de lado para tomar conta sozinha de um pai bêbado.

—Saria não conhecia outro modo de vida. Tentei convencer o pai dela a me deixar ficar com ela — e ele concordou — mas ela se recusou a vir. Toda noite ela saía pela janela e voltava para casa. Desisti. Talvez tenha sido errado da minha parte, mas não havia como discutir com Saria. Ela não discutia, ficava quieta, não dizia nada, e então fazia o que queria. Estava determinada a cuidar do pai e assim o fez.

—Saria merecia uma infância.

—Ela teve uma, Drake, só não foi uma que o mundo aprovaria. Ela ia para todo lugar com o pai quando era bem pequena. Aprendeu a atirar para que pudesse ajudá-lo com os crocodilos. Ela sabe como perseguir, capturar, pescar e caçar. Pode cuidar de si mesma e mesmo com todos os defeitos, foi LeRoy quem ensinou isso. É uma mulher forte e quando os garotos voltaram e de fato notaram que tinham uma irmã mais nova, era tarde demais para controlá-la. Ela sempre fez o que queria, e faz o que tem vontade sem perguntar a ninguém. Saria nunca foi dada a dramas e é sincera como a luz do dia. A única coisa que me orgulho de fazer foi convencê-la que ir à escola era importante.

Drake sorriu para ela. —Duvido que foi a única coisa que fez por ela. É óbvio que é a mãe dela, Pauline. Ela a ama com tudo que tem em si.

Os olhos de Pauline brilharam com lágrimas. —Por que esse assassino a escolheria?

—Não faço ideia. Talvez porque tenha descoberto que ele era leopardo e tenha pedido ajuda. Às vezes, uma pessoa doente pode se fixar em alguém. Ela está entrando no Han Vol Dan. Está muito perto e todo leopardo macho no covil está bem ciente disso. É possível que ele acredite que fosse reivindicá-la e que ela o tenha traído me escolhendo. Não há como dizer o que impulsiona uma mente doentia a fazer coisas terríveis, mas claramente, ele está com muita raiva dela.

—Ela não vai deixar que a proteja.

Drake olhou bem nos seus olhos. —Vou tomar contar dela, Pauline. Nada vai lhe acontecer, dou minha palavra. Ela pode fazer o que quiser, e estarei bem ao lado dela. Onde eu for, meus homens irão e não vão cometer novamente o erro de deixá-lo se aproximar. O assassino deixou todos fulos da vida.

Pauline começou a descer a escada e parou outra vez, descansando a mão em seu pulso. —Não vai levá-la para longe de mim, vai?

—Não acho que Saria consiga ficar longe de você por muito tempo, Pauline, — disse. —Quero mostrar a floresta tropical para ela, mas sei que aqui é seu lar. Esse é o lugar que ela ama, e não será feliz se estiver longe de você e do pântano.

Pauline sorriu com alegria. —Eu sabia que entenderia.

—Vivi minha vida andando pelo mundo inteiro, — disse. —Nunca tive um lar até achar Saria. Ela é meu lar. Não me importa onde vamos viver, contanto que eu a tenha comigo. Viajo devido ao trabalho e vou ter que continuar fazendo isso por um tempo, mas aqui será minha base. — Suspirou. —Afinal, seu homem me enganou para desafiar sua liderança.

—Foi uma situação onde ele só tinha a ganhar. Se não o tivesse desafiado, Remy teria, ou um dos outros irmãos de Saria.

—Ele conversou isso com você primeiro. Velhaco sem vergonha.

—Claro que sim. Queríamos garantir o melhor para Saria. Se não o tivesse desafiado, não estaria apaixonado por ela e ela não deveria ficar com você.

—Não consigo acreditar que o velho me passou a perna.

Pauline riu. —Aquele velho tem um monte de truques escondidos na manga.

Drake sacudiu a cabeça. Agora que observou Amos Jeanmard um pouco, podia entender como conseguiu o papel de líder. Agora cabia a Drake descobrir o tamanho do dano que a flor híbrida de Charisse Mercier, más decisões e péssimas misturas sanguíneas causaram ao covil e quem entre eles era um assassino.

 

Elijah Lospostos era um homem com olhos de aço e, um tipo durão e assustador, extremamente bonito. Tinha abundância de cabelo negro que caía em seus olhos, que eram da cor do mercúrio num momento e negros como a noite no outro. Saria estava no leme do seu barco, traçando seu caminho pela água agitada, tentando não pensar no quanto ele parecia perigoso nem no por que acataria ordens de Dake Donovan. Elijah e seu parceiro, Jeremiah Wheating, mais dois membros do time de Drake, passaram a noite no pântano e esperaram que amanhecesse para que o time inteiro retornasse. A chuva caía em faixas grossas e prateadas, tornando difícil ver enquanto tentava manter o barco em alto rio o máximo que podia no caminho até a faixa de terra de frente para Fenton’s Marsh. Tinha cinco homens em seu barco, todos calados, com caras fechadas e todos sabendo de algo que desconhecia. Por outro lado, Drake não hesitou em pedir que os levasse ao pântano. Tinha o pressentimento que nenhum deles precisava tanto dela quanto achava.

Olhou outra vez rapidamente para os cinco homens que obedeciam Drake. Eram todos homens perigosos. O covil não tinha ideia do quão perigosos aqueles homens eram, e ainda assim — todos acatavam Drake. Um pequeno tremor de medo desceu pela sua espinha. Não conhecia Drake tão bem como pensava, não se liderava homens como aqueles.

Levantou o rosto para o céu. Nuvens escuras passavam e faziam barulho, levadas por um vento terrível. Suas pernas absorviam o impacto do barco na água enquanto ele deslizava a superfície turbulenta. Notou que nenhum dos homens parecia adversamente afetado, nem pelo tempo horrível nem pelo sacolejar do barco. Não tinha certeza do por que saíram numa noite daquelas, mas todos estavam armados. O que quer que Elijah tenha dito a Drake mais cedo naquele dia, ele voltou do encontro com a cara fechada, os olhos, geralmente calorosos, estavam indiferentes, frios e sinceramente, bem assustadores.

Ela não fez perguntas como normalmente faria, porque ele disse aos seus homens que ela iria com eles e seu tom não deu margem a nenhum questionamento do seu julgamento. Viu o choque nos rostos deles, embora tentassem escondê-lo.

—Está bem agasalhada? — perguntou Drake.

Ele estava perto dela, perto o bastante para que sentisse o calor do seu corpo pelo quebra-vento. Ele descansava uma mão levemente — possessivamente — no final de suas costas. Sentiu seu estômago descer. Não importava que seu cérebro estivesse tentando alertá-la que estava perdendo a cabeça com relação a ele, seu coração — e todo o resto do seu corpo — estavam atraídos por ele.

Assentiu. —Estou acostumada com a chuva. Seus amigos? — Acenou na direção dos homens.

Ele sorriu, parecendo um pouco selvagem com seu cabelo molhado e pingando e seu rosto entalhado em bronze. —Também estão acostumados. — Ele se inclinou para colocar os lábios em sua orelha. —Amo tempestades. Acho que são revigorantes.

Ela sentiu o rubor começar em algum lugar nos dedos dos pés e correr pelo seu corpo como uma onda de calor. Era mais o modo que dizia que as palavras. —Eles não são todos leopardos? — chiou. —Porque se são, a audição deles é excelente.

Seus dentes se fecharam gentilmente em seu lóbulo. Alguém tossiu e mais alguém abafou um riso. É, todos eram leopardos.

Ela socou Drake em seu estômago duro como pedra. —Pra trás, playboy. Tenho trabalho a fazer e está tentando me distrair. Sou responsável pela segurança desses homens. — Ela acenou na direção dos bancos do outro lado deles. —Apontem as luzes para a água e para os bancos de areia do outro lado.

Joshua e Jerico o fizeram. Olhos os encararam de volta. Crocodilos caçavam na água e no meio da vegetação aquática.

Sorriu para Drake. —Todos esses troncos na água não são troncos.

Ele riu. —Isso devia me assustar, docinho?

—Não, — admitiu, porque era absurdo achar que ele estava com medo. Sorriu de novo. —Mas sou eu que estou no leme, e isso devia te assustar. — O aviso era claro quando o barco deu um ziguezague repentino. Não o suficiente para arremessá-lo de lado, mas o bastante para que segurasse nela para recuperar o equilíbrio.

Joshua explodiu em risos e Elijah escondeu um sorriso.

—Tendo problemas com a mulher, chefe? — perguntou Jerico.

—Não posso arremessá-la do barco, — respondeu Drake, —mas já não posso dizer o mesmo quanto a vocês.

Desta vez os homens riram.

—Não sei o que exatamente estamos fazendo aqui, — disse Saria, —mas se envolve discrição, o som é levado pela superfície da água.

—Temos algum tempo até esperarmos companhia, — disse Drake.

Ela arqueou a sobrancelha para ele, prendendo o olhar no dele. —O que não está me contando?

—Não queria falar no assunto perto de Pauline, — admitiu Drake. —Desculpe, Saria. Foi muito paciente não fazendo perguntas na frente dela.

Encolheu os ombros, abraçando seu pedido de desculpas para si. Ele tinha desejado contar, só não havia achado a oportunidade. —Elijah e Jeremiah passaram a noite no seu esconderijo na noite passada.

Ela piscou, olhou para os dois homens e rapidamente voltou o olhar para o caminho que percorria. —Perto do ninho de corujas? Como o encontraram? Não conto a ninguém sobre ele. Trouxe cada pedaço de madeira por vez e o construí sozinha.

—Era bem vigoroso, — disse Elijah. —E agradeço por isso. Havia bastante movimento no chão e agradeci por estar lá em cima.

—Por nada. Mas como o acharam?

Elijah parecia um pouco desconfortável. Drake veio em seu resgate. —Você é uma fêmea de leopardo no meio do Han Vol Dan.

—Eu cheiro mal?

Ele riu. —Seu cheiro é ótimo, coração. Ótimo o bastante para...

Ela mostrou o punho e ele se calou.

—Então passaram a noite no esconderijo e estavam procurando o que? O assassino voltar?

—Não exatamente, — disse Elijah. —Olhei para a rota d’água e percebi que um barco poderia vir e se encontrar facilmente com outro sem ser visto, a não ser de alguém que estivesse passando a noite num esconderijo no pântano e quais são as chances disso acontecer?

—Não entendo. O que isso tem a ver com o assassino?

—Nada, e talvez tudo. Acontece que tenho uma habilidade bem estranha, — admitiu Elijah. —Herdei um dos cartéis de drogas mais bem sucedidos do mundo na atualidade. Conheço uma negociação de tráfico quando vejo uma e essa é uma das grandes.

Saria jogou a cabeça atrás, balançou e quase caiu. As mãos de Drake foram para seu quadril quando ela se equilibrou. —Está louco. Ninguém que eu conheça está traficando drogas aqui.

Elijah deu de ombros. —Não sei quem pode estar traficando, mas isso definitivamente está acontecendo e foi isso que viu na primeira vez que achou um corpo. Teve muita sorte deles não a terem visto. Essa operação é das grandes e se você, alguém que conhece o pântano por dentro e por fora, não a descobriu, provavelmente ninguém mais o fez. Possivelmente o que testemunhou foi uma morte causada por um desentendimento nos negócios. Por isso que pareceu diferente.

Então ele estava por dentro de tudo o que foi dito sobre os corpos. Claro que tinha que estar. E ele tinha certeza que alguém estava traficando drogas. Certeza absoluta. Tinha herdado um cartel bem sucedido? O que isso queria dizer? O que ele estava fazendo no meio do pântano numa noite de tempestade? O que realmente sabia sobre eles?

Drake colocou uma mão em seu ombro. Ela tentou tirá-la. Ele a sentiria estremecer e saberia que de repente estava com medo.

—Ele não está com o cartel, docinho. Está conosco.

Não sabia o que ou quem eram “nós”. Repentinamente desejou que tivesse dito a alguém, aos seus irmãos ou pelo menos a Pauline, o que estava fazendo. Claro que eles deliberadamente não lhe contaram até que já estivessem na água. Os dedos de Drake se apertaram em seu ombro. Ele se aproximou, a circulando. Reduziu a velocidade do barco para fazer uma curva e adentrar em águas mais traiçoeiras.

—Eu preciso me concentrar.

—Não foi minha intenção assustar você, — disse Elijah. —Queria que soubesse que estava dizendo a verdade. No minuto que vi o lugar e dei uma olhada na terra ao redor...

—Que terra ao redor? — Ela tentou não soar hostil, desafiando-o a acusar um dos seus irmãos ou algum dos seus amigos. Eles tinham sentido o cheiro do seu medo. Todos eles. Engoliu com dificuldade e piscou rapidamente para clarear a vista.

—Vê todas essas flores que passamos? Campos delas. Centenas, talvez milhares delas.

—Para produzir perfumes. Caso ninguém tenha lhe dito, há um negócio mundialmente famoso por aqui. Eles não precisam traficar drogas.

—Deu uma olhada na quantidade de papoulas que está sendo cultivada? Eles têm campos de papoulas misturadas com outras flores, provavelmente mais que um acre delas.

—A família Mercier tem uma licença para cultivar todos os tipos de plantas que outros não podem cultivar. Acha que não são vigiados de perto? A propriedade é inspecionada regularmente. Têm centenas de plantas, muitas venenosas.

—E aposto que, em algumas épocas do ano não recebem ninguém em sua propriedade, — persistiu Elijah.

Saria hesitou. Aquilo era verdade. —Quando estão colhendo e Charisse no laboratório, estão trabalhando. Visitantes são uma distração.

—Aposto que são, — murmurou Joshua.

Saria se aproximou das raízes de um enorme bosque de ciprestes quando manobrou por uma estreita passagem. Não gostava nenhum pouco de como a conversa estava prosseguindo. Conheceu Charisse a vida inteira. A mulher era um pouco estranha às vezes, mas sempre, sempre uma amiga. Tinham poucas garotas na área delas e todas eram amigas bem próximas, uma contando sempre com a outra. Saria não conseguia se lembrar de uma vez que Charisse não estivesse em seu laboratório, estudando os aromas. Era considerada brilhante em seu campo e quase obcecada. Essa obsessão tornou o negócio de perfumes dos Mercier multimilionário.

—Estou dizendo a vocês, eles vendem perfumes, loções e sabonetes no mundo inteiro. Não precisam se arriscar comercializando algo ilegal. — Saria tentou evitar ser hostil, mas o que disse acabou por sair assim.

—E vendem perfumes e pequenos sabonetes todos empacotados em lindas caixas, não vendem? — desafiou Elijah.

—Elijah. — Drake disse o nome em voz baixa. Nada mais, mas houve silêncio. Só o vento e a chuva podiam ser ouvidos.

—Deixe ele me dizer, — disse Saria. —Se estiver errada, preciso saber. O que acha que tem nessas caixas? Claro que exportam para o mundo inteiro, sabonetes perfumados fazem parte do negócio.

—E têm vários atacadistas que fazem grandes pedidos, não têm? — continuou Elijah.

—As caixas passam pela alfândega, — defendeu Saria, levantando o rosto para o céu para que a chuva lavasse sua raiva. Gostava de Charisse e Armande. Doavam dinheiro para as escolas, para a igreja e eram respeitados na comunidade, mais do que a maioria dos outros membros do covil. Eram estranhos, mas Charisse em particular sempre foi amiga de Saria.

—Sabonetes finos e perfumes. A alfandêga sela as caixas e são exportadas, com aquela linda bolinha de ópio bem no meio do sabão.

Saria sacudiu a cabeça. —Eles têm farejadores que... — Ela se interrompeu, o coração pulando de repente. Se um leopardo não conseguia sentir o cheiro de outro leopardo, então talvez quem quer que estivesse criando os aromas podia encontrar um modo de mascarar o cheiro.

Sua respiração se prendeu em seus pulmões. Sacudiu a cabeça, os olhos repentinamente queimando com lágrimas. O mundo estava desabando sob seus pés. Claro que toda evidência apontaria direto para Charisse. Ela era o gênio por trás dos aromas. Mas Saria conhecia Charisse. Era bem infantil de muitas maneiras. Saria quase conseguia acreditar que Armande pudesse ser tão ganancioso assim, sua mãe certamente o tinha mimado, mas Charisse... Saria sacudiu a cabeça.

Contudo, Armande não tinha o talento de Charisse com as fragrâncias. Nem tinha ambição nem determinação. Ainda assim era devotado a Charisse. A protegia dos valentões na escola. Ela era bem inteligente, avançando nas notas rápido demais para avançar também emocionalmente. Simplesmente não era capaz de traficar drogas a nível internacional. Não estava em sua índole e Saria não se importava com quantas provas Drake e seu time juntassem contra ela.

Por outro lado, se alguém estava colhendo ópio das papoulas de Charisse, como ela não podia saber? Saria olhou para a frente, ciente do silêncio no barco. Todos chegaram à mesma conclusão que ela. Se um leopardo não podia ser farejado, então alguém desenvolveu um modo de evitar que cães farejassem as drogas — e aquele alguém tinha que ser Charisse.

—Está errado, Drake, — disse em voz baixa. —Sei que tudo aponta para ela, mas ela não é capaz do que você suspeita. Está muito errado.

—Espero que esteja certa, docinho, — disse ele gentilmente.

Odiava a compaixão em sua voz. Olhou por cima do ombro para seu rosto impassivo. —Charisse é incapaz de traficar.

Drake passou o braço em volta da sua cintura. —E o irmão dela?

Armande. Foi um menino mimado e rabugento que se transformou num homem mimado e rabugento. A única pessoa que parecia amar era a irmã. Podia deixar de olhar para o próprio umbigo tempo suficiente para que a enxergasse e por alguns momentos saía do seu mundo tão centrado em si mesmo. Saria honestamente duvidava que fosse inteligente o bastante para maquinar um negócio daqueles. Cherisse tinha o cérebro, mas era infantil demais de várias formas. Armande... Suspirou. Armande era um fedelho egoísta, mas todos gostavam dele. Era charmoso quando queria ser.

—Como planejam descobrir?

—Vamos segui-los no pântano para ver onde nossos traficantes vão. Quem quer que esteja fornecendo está fazendo isso aqui, — disse Elijah.

—No pântano? — ecoou Saria de maneira fraca. —Estão loucos? O pântano não é que nem a floresta tropical de vocês. O faro não vai ser muito útil se afundarem num brejo. Cobras, crocodilos, o que conseguirem imaginar, há perigo por todo lugar. — Ela trouxe o barco para dar a volta em torno das altas plantas aquáticas. —Até chegar na terra a noite é extremamente perigoso.

—É por isso que temos uma arma secreta, — disse Drake.

Ela pulou na terra, pisando um pouco na vegetação alta para amarrar o barco. —E qual é? — Derramou sarcasmo na voz.

—Você. Você vai nos guiar.

—Agora sei que está louco.

—Eles vão ouvir um barco, mas você sabe atravessar as terras e provavelmente conhece os atalhos.

—Vocês querem correr pelos pântanos à noite? — Saria olhou em volta procurando um lugar para sentar. Estava se sentindo meio fraca. Eles não tinham ideia do que era atravessar o pântano. —O lugar é um lamaçal. Há montes de areia movediça. Na verdade há água sob nós com uma fina camada de terra e vegetação. Vocês simplesmente não entendem. — Agitada, correu os dedos pelo cabelo, deixando-o espetado e bagunçado, mas não ligava. Sentia vontade de arrancá-lo, na verdade. Eram todos loucos.

—Estamos bem cientes disso.

—Podem pisar em lugares e simplesmente afundar. E já ouviram falar em moccasins d’água[14]? Porque também temos delas.

—Você caça, pesca e monta armadilhas por todo lugar aqui. E tira fotos. Vem andando pelo pântano sozinha desde que era uma garotinha, Saria, — assinalou Drake. —Pode fazer isso e sabe.

—Eu posso fazer isso, mas não posso guiar todos vocês. Drake, não pode me pedir para me responsabilizar por seis pessoas. Há pelo menos três lugares cheios de água com vegetação alta por onde vamos ter que passar onde os crocodilos estão caçando.

—Nós temos armas, — acentuou Joshua.

—Vocês sabem onde é preciso atirar num crocodilo para realmente matá-lo? Têm alguma ideia do quanto o verdadeiro alvo num crocodilo é pequeno? Tem mais ou menos o tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos e é melhor não errar. Todos podem ser ótimos no ambiente do qual vieram, mas são amadores aqui. Só o fato de terem surgido com esse esquema imprudente sem pedir que alguém que conheça o pântano o mostre para vocês já mostra que são amadores.

Todos os seis homens ficaram calados, olhando-a com olhos fixos e sem piscar. Olhos de gato. Olhos de caçador. Não estavam impressionados com seus argumentos. Suspirou, desistindo. Apenas sacudiu a cabeça, pegou o rifle que Drake passou e virou as costas para eles. Idiotas. Até a criança mais novinha do pântano sabia mais do que eles.

Tentando se livrar dos pensamentos, se concentrou em ouvir. Insetos zumbiam. Sapos-boi se comunicavam. A chuva continuava caindo constantemente. Encurvou os ombros e bloqueou tudo que não fosse o farfalhar da densa folhagem. Sabia exatamente onde pisar, mas frequentemente cruzava caminhos que os crocodilos usavam para deslizar para a água.

—Para onde?

—Precisamos de uma boa visão de Fenton’s Marsh e o melhor caminho para seguir um barco indo na direção da terra dos Mercier, — disse Drake. —Tiraram as folhas das papoulas para extrair o ópio. Vão destruir as evidências agora.

Não ia discutir com ele. Mas se por algum milagre estivesse certo, o que isso significava? Porque se os cães não conseguiam farejar as drogas, isso queria dizer que o assassino teria acesso ao que quer que fosse que impedia que deixasse um cheiro. Era virtualmente impossível que Charisse fosse uma assassina. Ela não tinha um osso ruim no corpo inteiro. Era grudenta, e deixava todo mundo um pouco louco com suas excentricidades, mas ninguém nunca diria que não era uma das pessoas mais compassivas por ali.

Tirou todos os pensamentos sobre Charisse da cabeça. Tinha que ficar concentrada na segurança dos homens que estava guiando. Devia dizer a Drake que desistisse. No pântano, ela era a líder — não ele. Mordeu o lábio e liderou o caminho. Estavam sinistramente calados, mas ela se recusava a olhar por cima do ombro para garantir que estivessem acompanhando seu passo. Estabeleceu um passo brutal, arrodeando arbustos venenosos, tendo a certeza de pisar com cuidado no chão que sabia ser sólido. Do jeito que estava, a chuva foi absorvida, tornando a superfície bem mais esponjosa que o normal.

Drake tocou seu ombro e ela parou de andar automaticamente. Ele se moveu para a frente dela e levantou a mão, os dedos bem abertos. Seus homens pareceram dissolver na escuridão. Num momento conseguia vê-los e no seguinte desapareceram. Não houve som, nenhum farfalhar de folhas, nenhum ramo ou galho quebrando, simplesmente desapareceram.

Não ouviu o som de um barco nem viu luzes, mas seu coração começou a acelerar, e bem no fundo, sentiu sua leopardo mostrar as garras. Saria sentiu o gosto do medo na boca. O fato de saber que sua leopardo de fato estava alerta a assustou mais do que os homens desaparecendo ao seu redor. Estava tão fora de sua abrangência com aquele pessoal. Precisava de tempo para assimilar que também era leopardo. Depois de todos esses anos invejando seus irmãos e se sentindo tão só, tinha tudo que desejou e ainda assim sentia medo. Agora que era uma parte daquilo tudo, queria se esconder em algum lugar quieto e simplesmente ficar lá.

Drake tocou seu ombro e ela se agachou, se perguntando como sabia o que ele queria. Ele apontou para a esquerda e algo se moveu no arbusto, mas ela só conseguiu ouvir a chuva. Houve um longo momento de silêncio. Conseguia contar as batidas do seu coração enquanto a tensão se estendia. A chuva que caía sem cessar diminuiu de intensidade, virando um chuvisco, uma umidade pesada que cobria o pântano e pendurava grossas cortinas em cima da água.

Drake agachou ao seu lado. —Temos companhia. Ao norte, dois barcos na água, lado a lado. Estão com as luzes cobertas. Pode nos levar para uma trilha que dê na propriedade dos Mercier sem nos expor? — Ele sussurrou as palavras em seu ouvido, os lábios bem apertados em sua pele e uma ardência vagarosa — uma reação bem inapropriada — começou em seu centro. Sua leopardo se ergueu para encontrar o dele. Ela fechou os olhos, chocada que sua leopardo fosse acrescentar uma complicação daquela numa noite já impossível.

A palma de Drake se curvou em sua nuca. —Não a deixe escapar ainda. Mantenha o controle.

—Está brincando, — chiou de volta, furiosa com ele, sabendo que era sua leopardo, mas sem se importar de fato. —Como posso ter controle quando nem sei o que esperar?

—Você é forte, Saria. Se a deixar muito perto da superfície e soltar as rédeas, se houver leopardos em qualquer um desses barcos, no momento que o vento mudar, vão saber que está aqui no pântano.

Ela chiou, suprimindo uma vontade desconhecida de arranhá-lo. Sua felina era maior em força e temperamento. A chuva, a proximidade de vários machos e a tensão de sua pele faziam com que se sentisse nervosa e encurralada.

—Querida, me escute, — disse ele. —Sei que é difícil. Ela se aproxima e se retrai...

—Me diga algo que eu não saiba, — disparou. —Estou na maldita chuva, ensopada, cercada por loucos com uma leopardo dentro de mim que vai de safada a megera psicótica em segundos. Tenho tantos hormônios no meu sistema que nem sei o que estou fazendo.

—Respire para que ela se afaste. Empurre-a de volta e seja contundente. Ela tem que entender que você é inteligente e que recusa que as emoções desenfreadas dela a controlem.

Saria olhou devagar em volta, sabendo que seus olhos estavam mudando quando sua visão se encheu de ondas de calor. Sabia onde cada membro do time de Drake estava com a consciência aumentada de sua leopardo. Sua leopardo de repente foi de irritada a presunçosa. —Engraçado como ela de repente gosta de todos esses homens por aqui.

No momento que disse isso soube que cometeu um erro terrível. Um rosnado baixo de aviso ressoou no peito de Drake e ele virou os olhos dourados brilhantes em sua direção. Saria estremeceu. O leopardo dele estava mais perto que a dela, e estava irado pelo cheiro dos machos ao seu redor. Ela conteve a vontade enorme de perguntar para onde todo o controle dele foi, e forçou ar nos pulmões. Um deles tinha que estar são naquela situação tensa e claramente, quando dizia respeito à sua leopardo atrevida, não seria Drake, nem seu leopardo.

Sentiu sua leopardo responder à agressão do dele com uma espreguiçada furtiva e um bocejar lânguido. Agachada como estava, teve que lutar para se impedir de arquear as costas e se esfregar na perna de Drake. Recusava-se a ceder à vontade da sua leopardo de olhar provocantemente para o homem atrás de si. Já conseguia sentir a elevada tensão.

Respirou profundamente outra vez e jogou seu desprazer em cima de sua leopardo. A safadinha tinha uma tendência de escolher o pior momento possível para se mostrar e amava a atenção dos homens à sua volta. Saria, porém, não gostava. E vendo Drake praticamente em cima dela não ajudava seu humor de cão.

—Está brincando comigo, Drake? Não ouse aumentar as complicações agora. Não posso aguentar um homem agindo como um amante doente de ciúmes quando nem ao menos sei como lidar com ser leopardo. Sou responsável por todas essas vidas e acha que quero seduzir um bando de estranhos? Controle-se. Eu com certeza não quero qualquer outro homem e no momento, você também não está me parecendo tão bom assim.

Ela o perfurou com o olhar enquanto mentalmente chutava sua leopardo. Volte a dormir sua gatinha ninfomaníaca inútil. Se quiser brincar, espere até que estejamos num quarto.

       Drake colocou a mão no topo da sua cabeça, esfregando as mechas sedosas entre os dedos. —Perdão, docinho. Leopardos são muito territoriais quando se diz respeito às suas fêmeas, especialmente quando ela está no...

—Não diga. Se disser que estou no cio mais uma vez, juro que vou esfaqueá-lo bem no coração, — cuspiu Saria entredentes. Já era ruim o bastante saber que estava exalando cheiro suficiente para chamar cada macho em milhas sem ter que ouvi-lo dizer aquilo em voz alta. Olhou-o de um modo que seria capaz de atrofiá-lo.

Sua leopardo estava ficando irritada com ela, querendo aparecer e chateada por Saria não estar cedendo às suas exigências. Saria tinha uma vontade de ferro quando era ofendida. Nunca deixou uma surra, nem as mulheres da igreja nem nada mais influenciá-la quando já havia chegado ao seu limite, e virou aquela vontade de ferro para sua leopardo. Afaste-se. Não está me ajudando no momento. Volte a dormir e fique assim até que eu nos tire dessa confusão.

Sua leopardo obedeceu de mau grado. Saria olhou rápido outra vez para Drake por entre os cílios. —Seria bom lidar com você de um jeito tão fácil.

—Eu pedi perdão.

—Ciúme não é um traço atraente, — disse num tom baixo. —E precisamos andar. Não acho que aquele barco vá esperar que seu leopardo idiota se comporte.

—Se tivermos que nos transformar em leopardos para alcançá-los...

Ela o parou com um olhar. —Vou correr com duas pernas, eles também podem fazer o mesmo. — Não ia dar à sua leopardo tarada qualquer desculpa para sair e se esfregar num bando de homens nus.

—Entendi, — disse ele.

Bem atrás dela, ouviu um risinho baixo e viu os olhos dourados de Drake irem naquela direção. Sua mandíbula se apertou, mas não disse nada e ninguém era estúpido o suficiente para fazer outro som pejorativo.

—Mostre o caminho, Saria.

Ela ignorou o duro comando em sua voz, sabendo que seu leopardo o estava comandando, fazendo com que fosse bastante duro com os outros machos tão próximos dela. Não era Drake, repetiu a si mesma, ele não era um homem que desconfiaria dela.

Ele colocou uma mão no seu ombro, a levantando consigo, colocando o pé exatamente onde o dela esteve. Atrás deles, os homens seguiam numa estreita linha, fazendo o mesmo.

—Sei que é difícil não procurar uma desculpa para correr de mim, especialmente quando é tudo tão novo e tão volátil. Agradeço mesmo que tenha escolhido continuar aqui comigo.

Ela deu um pequeno sorriso por cima do ombro, satisfeita que soubesse que foi uma luta.

—Vamos aumentar o passo. Diga a eles que não podem colocar o pé fora desse caminho. Ele fica bem estreito mais a frente e vamos atravessar alguns lugares por onde os crocodilos passam. Algumas milhas mais adentro vamos atingir um solo bastante fino. Só há alguns lugares firmes o suficiente para aguentar peso, então fiquem perto e saibam onde pôr os pés. Esqueça o barco. Sei exatamente o lugar onde podemos vê-lo.

Ela forçou confiança na voz quando não sentia nenhuma. Explorou os pântanos, era verdade, e muitas vezes à noite. Mas era relativamente leve em comparação a eles e esteve vigilante, procurando sinais de crocodilos. Contrário à crença popular, crocodilos não conseguiam correr rápido na terra, mas conseguiam se arremessar na velocidade da luz e em explosões curtas conseguiam se mover rápido o bastante.

Para começar, começou andando rápido. A terra daquela primeira faixa era estável e se alguém vacilasse na pisada, estaria seguro. Mais ou menos uma milha mais à frente, a terra afinava numa faixa estreita. Cada lado dela podia facilmente ceder. No entanto, se recusava a ir mais rápido do que acreditava seguro. Podia sentir a urgência deles, mas não tinha dúvida que poderia chegar antes do barco que circulava os pedaços bem maiores de terra indo pelo interior. Uma vez longe da beira da água, haveria bosques de ciprestes e vegetação aquática, e provavelmente também estariam longe da ameaça de crocodilos.

Era estranho correr em fila. Ouvia o pulsar do seu próprio coração como também sua respiração, e os únicos passos que ouvia eram os seus. Os homens pegaram seu ritmo exato, correndo numa única fila, os pés tocando o chão em uníssono com cada um dos dela. Depois de um tempo, teve vontade de variar o ritmo só para ver se de algum modo antecipariam sua mudança.

Reprimindo-se por ter pensamentos infantis, avaliou o chão à sua frente, usando a estranha visão noturna que sua leopardo fornecia. Conhecia aquela área do pântano por dentro e por fora, praticamente passou toda a sua infância ali, procurando por ninhos para tirar fotos e frequentemente se escondendo de qualquer adulto idiota o bastante para tentar encontrá-la. Aperfeiçoou suas habilidades de atravessar aquele pedaço particular de terra. Conhecia cada perigo e onde os crocodilos gostavam de se reunir. Conhecia os sons e os avisos.

Acelerou mais o passo e passou por entre o bosque mais cheio de árvores, sabendo que os crocodilos não habitavam naquela área em particular. Ficava muito longe da água e dos lugares lamacentos onde descansavam. Nós de vinhas e raízes eram o maior perigo, então conseguiram se mover bem mais rápido. Assim que saíram da vegetação espessa, ela conseguiu capturar um vislumbre das luzes do barco e determinar em que direção iam. Esperava que o barco fosse para bem longe da terra dos Mercier, mas tinha um pressentimento que não ia ter tanta sorte assim.

Quando o bosque deu lugar aos arbustos, ela diminuiu o passo só um pouco, sinalizando que estavam se movendo por uma área perigosa. Manteve os passos bem precisos enquanto se movia sobre o solo, fazendo careta a cada pisada. A água formava poças, tornando a superfície uma mistura de lama e restos flutuantes. A chuva não ajudava, elevando o nível da água de uma forma tão inevitável quanto as marés. Rezando para que os homens fossem precisos em seus passos, ela os guiou por uma faixa cheia de riscos onde um passo em falso os levaria para dentro da água que ficava abaixo.

Os homens a seguiram, lentamente como ela, pisando um atrás do outro no lugar exato do homem à sua frente. Observavam o solo, confiando que ela os guiasse de forma segura. De certa forma, era um pouco empolgante, mesmo com a esmagadora responsabilidade pelas suas vidas. Aquela seção do pântano era perfurada com pontos e buracos cobertos por emaranhados de vinhas onde uma pessoa desavisada podia facilmente afundar. Ela mapeou o caminho na mente, mas a chance do solo ceder sempre estava presente.

Suspirou de alívio quando chegaram à beira do bosque de ciprestes. Levantou a mão e todos pararam instantaneamente. Esperou um segundo, os olhos se esforçando para enxergar a pequena abertura no meio das árvores, onde à distância, um barco passaria em volta e poderia ser visto em menos de um momento. Tinha cronometrado o passo em sua mente, diminuindo quando necessário para assegurar as vidas dos homens aos seus cuidados, mas criando um ritmo rápido o bastante para que fossem capazes de vislumbrar o barco na direção que seguia.

Um segundo depois, uma luz ofuscante piscou na água, à sua esquerda. Ela sabia, com um aperto no coração, que o barco estava passando pelo canal que dava nos pântanos dos Tregre-Mercier.

—Vamos seguir pela vegetação aquática, — sussurrou para Drake, sabendo que com a audição deles os outros poderiam ouvir seu aviso. —Fiquem perto um do outro, mas prestem atenção nos crocodilos. Estarão na água. Vamos andar rápido por aqui.

Seu coração estava acelerado. Tinha um respeito muito sadio por crocodilos. Agarrou o rifle e deu o primeiro passo dentro da água cheia de plantas. A água ia até sua coxa. Respirou fundo e manteve o passo constante por entre a água turva, não muito rápido, não muito devagar, sentindo onde devia ir a cada passo. Sua visão noturna permitia ver as formas parecidas com troncos flutuando na água, esperando na vegetação e as raízes parecidas com canos dos ciprestes que saíam da água.

A tensão aumentou, e os homens ficaram absolutamente calados enquanto se moviam em uníssono pela água traiçoeira. Sentia o gosto do medo na boca, mas se recusava a mostrar. Aqueles homens eram sua responsabilidade e não ia colocá-los em perigo, tendo um ataque de pânico. Deixou de mencionar a Drake que passar à noite por águas turvas em que se sabia serem repletas de crocodilos famintos e agressivos a matava de medo. Fez questão de se lembrar de ter essa conversa com ele no futuro.

Saria sentiu um pequeno galho rolar sob seu pé e mudou o peso para evitar escorregar. Drake a segurou, os dedos se curvando com força em seu braço. Ela lambeu os lábios repentinamente secos. O galho pareceu, por um momento, como um pequeno crocodilo e acelerou seu pulso ao máximo. Estavam perto da terra de novo, o que não a deixava mais feliz. Crocodilos gostavam de passar ao lado dos bancos de areia, por entre a vegetação.

Engolindo o medo, se forçou a andar. Drake manteve a mão no seu braço, provavelmente porque podia senti-la tremendo. No momento que chegou em terra firme, sentiu o alívio inundar seu corpo. Seus joelhos ficaram fracos, as pernas que nem borracha, mas respirou algumas vezes e começou a acelerar o passo. Tinham um caminho mais fácil pela frente e podiam acelerar assim que saíssem do banco.

Foi tão rápido quanto se atrevia, correndo ao invés de ir como se estivesse fazendo cooper. Tinham que chegar ao outro lado do pântano, mais próximo ao banco mais ao sul, antes do barco fazer a curva na propriedade. O barco tinha que percorrer milhas ao redor da terra enquanto ela e o time de Drake cortavam caminho por dentro do pântano. Ganharam muito tempo. A vegetação era espessa, mas a maior parte eram vinhas emaranhadas, árvores e arbustos. O chão era sólido até alcançar os bancos externos. Era mais baixa que os homens e teve que se abaixar várias vezes, mas eles constantemente tinham que evitar galhos baixos, véus de musgo e vinhas para evitar terem suas roupas rasgadas. Nenhum deles diminuiu o passo. Estava começando a acreditar que aqueles eram homens que viam muita ação em vários ambientes diferentes e tinham medo de muita pouca coisa.

Ela corria rápido na chuva, seus pés chutando lama e água enquanto corria por uma estreita trilha de cervos. Passou muito tempo naquela parte do pântano capturando ninhos em filme. Não se preocupava com os predadores ali, a não ser com ocasionais linces e eles sempre a evitavam. Aquela era uma das seções onde podiam ganhar tempo antes que chegassem à segunda travessia pela água atolada de vegetação alta onde tinha certeza que um crocodilo gigantesco morava. Ele era conhecido por matar e comer os de sua própria espécie. Roubava as iscas dos ganchos e de fato deixava as mais fortes e grossas que a maioria dos caçadores usava, tentando capturá-lo.

Tinham que passar pela água até a margem da outra faixa de terra e correr para a ponta do outro lado para dar outra olhada no barco e saber com certeza para onde ia.

Molhou os lábios secos e ousou adentrar nas águas cheias de plantas. Havia ciprestes profundamente enterrados na água turva, um bosque inteiro deles, com vários troncos apodrecidos mostrando o nível da água junto com as raízes em forma de canos sempre presentes. Os crocodilos tinham vários lugares para se esconder. Estava cansada, com o corpo parecendo feito de chumbo, por tantas milhas correndo e sendo tão vigilante o tempo todo.

Para seu horror, na metade do caminho até o banco, viu uma moccasin d’água se aproximando rápido. Tinha o rifle aninhado nos braços, determinada a manter a arma seca e não havia para onde fugir. A cabeça da criatura estava a centímetros do seu quadril e Drake agiu com uma velocidade impressionante. Ele agarrou a cobra bem atrás da cabeça, a puxou da água e jogou bem longe. Ouviu a cobra atingir uma árvore à sua direita.

Saria abriu a boca para agradecer, mas nada saiu, então simplesmente continuou a andar. Se o crocodilo grande que ocupava aquele território estava perto, não havia se revelado e conseguiram chegar à beira do próximo banco, onde começaram a corrida seguinte.

Parecia demorar anos para atravessar o pântano. A menor das distâncias entre os dois canais era perfurada com buracos de alguns centímetros sob a água, tornando difícil achar a minúscula faixa de terra estável. Várias vezes tiveram que pular em pequenas pedras para evitar afundar na lama.

Quando alcançaram o banco, o barco apareceu, desacelerando ao se aproximar da doca da propriedade Mercier. Um homem estava esperando no deque de madeira que tinha a visão do rio. O barco definitivamente era dos Mercier, mas os dois homens nele eram os irmãos Tregre.

Saria exalou devagar e teria sentado se houvesse um lugar para sentar, mas ainda tinham muito a andar.

 

Drake colocou o braço em volta de Saria quando a luz do dia passou pela chuva suave, a encaixando sob o ombro. Estava exausta. Todos estavam. Depois de correrem pelo pântano a maior parte da noite e chegarem na propriedade dos Mercier, descobriram que todas as flores foram cortadas em preparação para o inverno. Se havia evidência, foi destruída. A estufa estava sob segurança pesada, que conseguiram burlar sem problemas, mas não havia papoulas lá dentro, nem evidência de ópio. Encontraram a sala onde a Amante do Leopardo era cultivada, e como Pauline disse, várias precauções foram tomadas para impedir que as sementes das flores saíssem da estufa. O laboratório ficava situado na propriedade, por trás da residência, quase na base da vegetação original, e bem longe dos acres onde os jardins ficavam. A área inteira ao redor da propriedade mais nova era ajardinada, as terras muito bonitas e cuidadas. A casa dos Mercier claramente era uma mansão, dois andares, pelo menos seis ou sete mil pés com uma varanda que abraçava a casa inteira nos dois andares. No que dizia respeito à casas, era impressionante.

Drake decidiu que já tinham deixado cheiro pelos acres de jardins e estufa, então deixou o laboratório e a casa para outra linha de ataque. Queria falar com Remy e dividir as informações que tinha. Era possível que pudessem inspecionar uma carga que fosse deixar o país ou interceptar o transporte local.

Voltaram para a casa de Lafont às nove. Pauline tinha o café da manhã esperando por eles, como também para as visitas que apareceram cedo. Podiam sentir o cheiro da comida de dar água na boca do lado de fora da casa e todos inalaram o aroma de café com muita gratidão.

Saria parou no momento que viu o carro. —Esse carro é dos Mercier. Charisse e Armande devem estar aqui. Não posso deixar que me vejam assim. Estamos todos acabados. Vão saber que passamos a noite no pântano.

—Vamos entrar pelas varandas e tomar banho. Desse jeito podemos descer aparentando estar novos em folha. — Trouxe sua mão para a boca. Ela estava tremendo. Exausta. Não devia tê-la envolvido, mas não queria arriscar deixá-la para trás caso o assassino voltasse. E não podiam atravessar tão rápido o pântano. Conseguiram descobrir que a família Tregre estava envolvida sem nenhum tiro ser disparado.

Ela olhou para a varanda. —Não tenho certeza se tenho força suficiente sobrando para subir, Drake.

Sabia o quanto a admissão custava ao seu orgulho. —Venha, querida, levo você para o quarto. — Puxou sua mão, a levou para o lado da hospedaria onde a árvore ficava perto o bastante para usar o galho como ponte. —Vai estar meio escorregadio, mas você consegue. — Tirou o rifle dela.

Seu time estava espalhado, entrando na casa silenciosamente, traçando o caminho até seus quartos, onde tomaram banho e trocaram as roupas por outras quentes e secas. Ficou perto de Saria, sabendo que estava exausta. Foi uma noite longa e rigorosa. Ela não reclamou nenhuma vez por estar ensopada e com frio quando sabia que devia ter morrido de frio.

Saria subiu na árvore como um macaquinho. Drake estava bem atrás dela, só para garantir, mas ela andou pelo ramo espesso e pulou na varanda. —Trancou ontem à noite, — disse e afundou no canto, sem ligar para a chuva. Seu cabelo estava colado no rosto e estremecia com frequência.

Drake se aproximou da porta e silenciosamente mexeu na fechadura com um dispositivo, abrindo a porta antes de voltar para lhe dar a mão.

Ela sorriu sem aceitar sua ajuda. —Acho que vou dormir bem aqui.

Drake simplesmente a levantou nos braços. —Não posso deixar que faça isso, docinho. Está tremendo sem parar. Vamos tomar um banho quente.

Aninhou-a próximo ao peito, cheirando o topo de sua cabeça. —Se preferir, posso descer sem você. Pode ficar aqui em cima dormindo depois que se aquecer.

—Não tenho certeza se é possível me aquecer novamente. — Saria esfregou o rosto na sua camisa molhada. —Mas se vai descer e enfrentar o pelotão de armas, vou estar ao seu lado.

—Não tem como saberem que os estamos investigando. — Disse Drake. —Não tão rápido assim.

—O que vai dizer a eles? Vão saber que estivemos no pântano.

—É sempre melhor ficar o mais perto possível da verdade, — disse, a colocando no banheiro. —São leopardos. Vão saber que acabamos de chegar. É só mais fácil se aquecer mais um pouco antes de enfrentá-los. Vamos dizer que passamos a noite no pântano. Sou o novo líder. Meus homens estão aqui comigo e estamos nos familiarizando com a área, como também cuidando do negócio que Jake Bannaconni nos enviou para fazer em primeiro lugar.

Ela o observou com sagacidade. —Vai gostar de usar o nome dele porque ele está arrendando a maior parte das propriedades que usam e estão com um pouco de medo de perderem as terras.

Ele sorriu bem antes de beijá-la. Sua mulher era inteligente e gostava disso. Tirou a camiseta ensopada do seu corpo enquanto ela ficava lá, tremendo quase que incontrolavelmente. Teve que agachar para desatar suas botas. Duvidava que pudesse fazer isso, com seus dedos como gelo. O vapor da água quente encheu o banheiro, ajudando a esquentar o ambiente enquanto tirava sua calça jeans molhada e as peças íntimas, ajudando-a a entrar no chuveiro.

Só quando teve certeza que estava apoiada na parede com a água escorrendo em cima dela, a esquentando, foi que tirou suas próprias roupas e se juntou a ela. A água quente parecia o paraíso. Drake simplesmente deixou que corresse sobre seus corpos, mandando embora o frio terrível. Quando os dentes de Saria pararam de bater, passou shampoo em seu cabelo. Ela estava quieta de uma forma incomum e isso o preocupou um pouco.

—Está com medo de Armande ou de Charisse? — perguntou, esperando que só estivesse com frio.

—Claro que não. Agora a mãe deles é outra coisa completamente diferente. Por que acha que são tão próximos? Uma mulher como Iris Lafont-Mercier — e acredite em mim, ela ligou os sobrenomes — nunca está feliz a não ser que esteja dizendo a todo mundo o que fazer. Pode imaginar o que ela pensa de mim.

Sua voz mudou numa imitação bem estridente do que só poderia assumir ser a voz de Iris. —Aquela menina vive andando por aí sozinha e temos o dever cívico de fazer algo a respeito. Liguei para a direção da escola várias vezes e se ela não aparecer nas aulas vou chamar o serviço social.

—Ruim assim, é?

—Não tem ideia. Acho que matou o marido antes da hora. Ele deixou tudo para Armande e Charisse. Iris não ligaria se fosse somente para Armande, o menino dos olhos dela, mas nunca ligou para Charisse.

—Por que? Achei que tinha dito que a filha dela era brilhante.

—Ah, é. Ela é, mas é estranha. Um pouco fora do comum. Diferente. E toda aquela habilidade lhe rendeu uma quantidade horrenda de atenção na escola e da parte do seu pai. Isso meio que tirou as atenções de Armande, que é extremamente bonito e charmoso, mas sem a inteligência dela. A mamãe leopardo não gostou nenhum pouco.

Drake assoviou baixinho. —Ela não tem nada a ver com Pauline.

—Não. É uma força a ser temida. Porém, vai gostar de você. É bem parcial com homens. Não se surpreenda se o paquerar.

—Paquerar? — ecoou fracamente.

—Ela é bem bonita e sabe disso.

—E trabalha no posto dos correios?

—Consegue toda a fofoca local no posto. Sabe dos assuntos de todo mundo e realmente pode ficar de olho no que seus filhos estão aprontando. Todas as mulheres não veriam a hora de lhe contar se Charisse ou Armande fizessem algo de errado. Meus irmãos sempre sentiram pena de Armande porque acham que ele tem que ser babá de Charisse e a mãe está sempre na cola.

—Mas você sente pena de Charisse.

Pela primeira vez em horas, Saria sorriu. —Consigo me identificar totalmente com ela. Evito Iris Lafonte hífen Mercier sempre que posso. Recebo os mesmo sermões que Charisse recebe.

—O que seria agora? — Drake cuidadosamente enxaguou seu cabelo. —Não está mais na escola.

—Ah, verdade, mas não sou uma dama. Aparentemente moças não vão para o pântano e colocam as mãos unidas no colo, usam saias e sentam com as pernas cruzadas na altura dos tornozelos, como apropriado.

—Charisse tem que fazer tudo isso?

—Claro. Ela está sempre perfeita. — Saria tirou as mechas molhadas de cabelo do rosto e se apoiou de maneira cansada em Drake. —Não se preocupe, não vou deixar você sozinho com ela. Nem eu, nem a Senhorita Pauline. Estamos acostumadas a ouvir o quanto somos impróprias.

—Não na minha frente, — disse Drake.

Ela sorriu. Desta vez o sorriso alcançou seus olhos. —É só o jeito dela, Drake. Cresci mesmo solta. Ela nunca inventou nada. Deixei mesmo de ir à escola quando não aguentava mais. Mon pere era um bêbado — isso também é verdade. Não cruzo os tornozelos e nunca uso vestido. E está tudo bem com a Senhorita Pauline e sempre esteve comigo. Charisse é minha amiga. Ela não parece ligar, também.

—Nem eu. Tem ideia de como um vestido atrapalharia ontem à noite? — perguntou.

Ela colocou os braços em volta do seu pescoço e pressionou o corpo no dele. —Você é louco, mas é meu tipo de homem.

—É melhor que eu seja. Realmente nos salvou ontem à noite, Saria. Não tinha ideia do quanto essa terra era traiçoeira.

—Sabia que não, — concordou, soando um pouco convencida.

Seu rosto estava escondido, então não pôde ver sua expressão, mas um pequeno tremor varreu seu corpo. Podia ter dado tudo errado num segundo.

—Desculpe por colocá-la numa situação tão terrível, Saria. Não pensei.

—Pelo menos descobrimos que os Tregre estão envolvidos. Isso pode não ter nada a ver com ópio, nem com os Mercier, — disse Saria.

—Quando Elijah e Jeremiah seguiram o barco, recuperaram vários sabonetes com uma pequena bola de ópio no centro. Os sabonetes eram dos Mercier, Saria, — disse Drake.

Ela levantou a cabeça num flash. Afastou-se dele, e fechou o chuveiro, puxando uma toalha. —Exatamente quando planejava me contar isso?

Estava com raiva. Por um momento seus olhos arderam em fogo na sua direção. Sentiu a sacudida rápida de seu pênis em reação. Ela se virou, enxugando a umidade do corpo, mas podia sentir o calor que exalava, e o crescimento da agressão no próprio corpo na mesma proporção que o da paixão no dela. Fazia com que se sentisse tão vivo. Queria beijá-la, mas Saria Boudreaux estava perto de virar uma leopardo completa e era tão perigosa quanto uma fêmea felina seduzindo um macho. Suas garras e dentes podiam ser letais.

—Quando soubéssemos com certeza que os Mercier estavam envolvidos. Estávamos todos pelo pântano ontem à noite. Os Tregre têm duas cabanas em suas terras ao lado da casa. As estradas que entram e saem raramente são usadas. Ninguém está fazendo sabonetes, nem inserindo droga no meio deles lá, Saria. Você viu a propriedade.

Ela se endireitou, o olhou nos olhos e jogou a toalha no chão. —Charisse não é capaz de fazer o que a está acusando de fazer, e apesar do fato de Armande Mercier ser um bastardo egoísta na maioria das vezes, também não é. Não os conhece como eu. — Ela irrompeu no quarto, pegou sua única calça jeans extra e a vestiu. —Estou ficando sem roupas e preciso ir em casa.

Seu coração vacilou. Ela estava com raiva. Magnífica em sua lealdade, mas com raiva dele. Pensando em se afastar. Ficou calado e pegou a calça ao invés de pegá-la nos braços e jogá-la na cama. Seu leopardo urrava por supremacia, ávido pela perseguição, mas Drake era muito mais cauteloso. Saria era uma mulher que fazia o que queria. Ele tinha que ser sua escolha, primeiramente e sempre. Sua lealdade feroz tinha que ser devotada a ele. Ela não depositava lealdade nem confiança facilmente e ainda assim depositava em Charisse. Havia algo mais ali do que percebeu de início e precisava investigar mais o assunto.

Observou-a pelo canto do olho enquanto se vestia. Estava andando de um lado para o outro, cheia de energia estocada, sua raiva a comandando apesar da exaustão que podia ver em seu rosto. Quando desabasse, desabaria com força. Respirou profundamente para acalmar seu leopardo.

—Claramente preciso conhecer Charisse melhor. Se está do lado dela, Saria, deve haver muito mais coisas sobre ela do que sei. Tudo aponta para ela. A especialidade com as fragrâncias, a flor perturbadora, a falta de cheiro nas cenas dos crimes, o ópio, tudo, e ainda assim frente a toda evidência, você persiste em acreditar na inocência dela. Confio em você e no seu julgamento. Se acha que ela é inocente...

—Eu sei que ela é, —Saria defendeu com firmeza. —Alguém está armando para que ela leve a culpa. Charisse não reconheceria uma armação mais do que seria capaz de ser uma traficante. Ela é infantil de muitas maneiras.

Drake assentiu com a cabeça, tentando encaixar a palavra infantil na mulher que os abordou no piquenique com sua saia justa, botas de salto alto e blusa de seda que moldava e acentuava cada curva. Charisse parecia equilibrada e confiante, até mesmo refinada. Suas unhas eram perfeitas, as pernas esbeltas cobertas de seda, e a maquiagem impecável... até seu irmão gritar com ela. Chorou como uma criança e Saria a confortou. Aquilo parecia afetado e não característico para Drake. Qual era a verdadeira Charisse?

—Vou manter a mente aberta, — prometeu. Não tinha ideia de como ia conseguir isso, mas tentaria — por Saria — ele tentaria. Sabia que se estivesse errada seria um terrível golpe para ela, e tinha uma sensação horrível na boca do estômago que Saria não tinha muitas pessoas no mundo que amava tanto quanto obviamente amava Pauline e Charisse.

Saria passou um pente pelo cabelo. —Agradeceria isso. Sei que sente que a evidência é grande, Drake, mas tudo é realmente circunstancial.

Ele se refreou em apontar que Charisse era uma química brilhante e claramente o cérebro da família Mercier. Discutir só faria com que Saria batesse mais o pé. Não queria que afundasse tanto, caso fosse provado estar errada, ou não conseguiria sair do buraco que cavou.

Saria desceu a escada com ele, mas não segurou sua mão. Até mesmo caminhou um passo à sua frente. Seu leopardo rugiu para ele, com raiva da pequena separação entre eles e Drake não pôde evitar concordar. Foi diplomático demais. A tensão emanando de Saria também não ajudava a acalmar seu leopardo. O cuidado com sua fêmea era primordial todo o tempo e o desacordo não funcionava entre leopardos. Deixava o shifter nervoso, mal-humorado, difícil de lidar — uma circunstância não muito boa para ele quando estava prestes a sentar com o que provavelmente era uma afiada mente criminosa.

No último degrau da escada se virou abruptamente, impedindo Saria de descer. As mãos foram para sua cintura. —Me beija. — Era uma ordem, não um pedido, e francamente não se importava com o tom que saiu.

Ela se afastou sutilmente. —Aqui? Tem pessoas na sala ao lado. A porta está aberta.

—Bem aqui. Agora. Preciso saber que está comigo. Me beije. Beijos não mentem, Saria. Preciso de um beijo.

Os olhos enormes de Saria se arregalaram. Escureceram. Seus longos cílios bateram. Seus dedos se entrelaçaram na sua nuca e ela inclinou o corpo no dele. —Beijos não mentem? Tudo bem, então. Se tem certeza que precisa disso.

Ela não esperou por ele. Tomou sua boca, os lábios roçando gentilmente contra os dele, a língua provocando a abertura da dele, tão quente que imediatamente abriu a boca para ela. O mundo caiu. A raiva. A tensão. Só existia o amor que se derramava de sua boca na dele. Tomou sua paixão — seu compromisso não dito com ele — guardou em seu coração e o trancou firmemente.

—Saria! Que coisa inadequada de sua parte. — A voz feminina chiou com desgosto.

Saria não se assustou, nem se afastou ele. Terminou de beijá-lo como se ninguém os interrompesse, a boca amando a dele. Quando levantou a cabeça, olhou somente para ele — bem nos seus olhos. —Melhor?

—Muito. Obrigado. — Tomou sua mão e beijou os dedos antes de virar para encarar a mulher que falou.

Drake pensou não ter mais como se chocar. Viajou o mundo e viu muita coisa, mas Iris Lafont-Mercier era uma das mulheres mais lindas que já viu. Era a última coisa que esperava. Parecia nova o bastante para ser irmã de Charisse. Sabia que mulheres leopardos frequentemente envelheciam muito bem e se Charisse estava no início dos vinte, Iris devia ter cinquenta ou mais. Sua pele era perfeita, sem uma ruga sequer. Seu cabelo, uma massa espessa de um dourado e se havia fios brancos, pareciam mechas prateadas em meio ao dourado. Tinha uma linda figura, aparentando como se nunca tivesse um filho na vida.

Ela esperava sua reação. Estava acostumada com a admiração dos homens e não o via como exceção. Não havia dúvida em sua mente que Iris manipulava cada homem em sua vida, sem piedade. Drake manteve a expressão absolutamente impassível e não permitiu que seus olhos a varressem com algum interesse.

—Deve ser a Senhora Mercier, — disse deliberadamente.

Os dedos de Saria se enterraram na sua palma, mas ele trouxe sua mão para o peito, pressionando-a sobre o coração para assegurá-la. Ela tremeu? Saria podia estar com um pouco de medo da língua afiada de Iris Mercier?

—É Iris Lafont-Mercier, na verdade, — respondeu Iris num tom levemente superior. —Pauline é minha irmã. Nossa família tem centenas de anos.

—Drake Donovan, senhora, — disse. —A Senhorita Pauline falou de você.

—Vim vê-lo, — declarou firmemente Iris. —Podemos ir até a sala de visitas falar em particular.

—Saria e eu estamos noivos, Senhora Mercier... Lafont-Mercier. Sabe tão bem quanto eu que leopardos não guardam segredos de suas companheiras. Privacidade é desnecessária.

Por um momento, aqueles olhos azuis frios brilharam num turquesa profundo, mas a boca perfeitamente pintada de Iris se curvou num belo sorriso. —Se insiste. É assunto do covil e entendo que derrotou o velho Amos.

Ela fez aquilo soar como se Amos Jeanmard já houvesse passado há tempos dos seus melhores anos e que Drake tirou uma desmerecida vantagem. Pressionou a mão de Saria para evitar que o defendesse.

—Se é assunto do covil, maior razão para Saria estar presente.

Os olhos de Iris se estreitaram. Claramente não lhe ocorreu que, se Drake casasse com Saria, ela seria a fêmea-alfa.

—Isso é simplesmente ridículo. Saria Boudreaux é pouco mais que uma criança. Certamente não está preparada para ajudá-lo a cuidar de um covil. — A rispidez na voz de Iris era efetiva e bem praticada.

Drake apertou a mão de Saria quando a sentiu estremecer. Mostrou os dentes para Iris, sua expressão qualquer coisa, menos um sorriso.

—Felizmente, para todos, Saria é mais sábia que os de sua idade e sabe mais sobre o povo e o pântano em si que a maior parte do covil. Tenho muita sorte que seja minha companheira. — Gesticulou na direção da sala de estar onde sabia que Pauline e seus filhos aguardavam. —Vamos conversar ali. Meus homens estão cansados e precisam comer antes de se retirarem. Não quero perturbá-los.

Iris ficou rígida e virou as costas para ele, saindo da sala, o quadril sedutor apesar de sua óbvia raiva. Usava sua sexualidade sem nem ter mais ciência disso, vinha de uma forma muito natural para ela.

A beleza de Charisse parecia minguar em comparação com a de sua mãe. Parecia abatida nas cores vibrantes que usava e seu cabelo estava preso num estilo severo. Drake não lembrava dela assim, mas estava sentada muito quieta, subjugada, as mãos unidas no colo, olhando para a frente. Ela levantou o olhar para Saria e deu um pequeno sorriso de boas-vindas, olhou para o rosto tenso da mãe e rapidamente baixou os olhos de novo.

—Onde estão seus modos, Charisse? — exigiu Iris. —É demais pedir que cumprimente o grande líder do covil quando ele entra no lugar? Ou está deliberadamente tentando me fazer passar como uma mãe relaxada na sua educação?

O rosto de Charisse ficou vermelho. Ela umedeceu os lábios, olhou sem defesa para o irmão e engoliu em seco. Quando levantou o rosto, lágrimas brilhavam em seus olhos. —Desculpe, Senhor Donovan. É bom vê-lo outra vez. Saria, bom dia.

Drake notou que Armande não foi advertido. Ele tinha a escolha de cumprimentá-los e aumentar a aflição de sua irmã, ou simplesmente acenar com a cabeça em sua direção. Ele acenou e mudou de posição sutilmente, virando o corpo de forma um pouco protetora na direção de Charisse. Drake gostou mais dele por isso, e pôde ver por que Saria o perdoava bastante.

Drake foi até o pequeno sofá na frente de Charisse e Armande, colocando Saria ao seu lado. —Onde está Pauline esta manhã?

—Escravizando-se para seus hóspedes, — disse Iris de forma cáustica. —Por que ela transformou a casa da nossa família numa pensão, quando não precisava de dinheiro, nunca vou saber.

—Ela gosta da companhia, — respondeu Saria, sua voz enganadoramente baixa. —E cozinhar para seus hóspedes é uma boa parte do seu divertimento. Estou surpresa que não saiba disso a respeito dela.

Iris apertou os lábios com força, seus olhos azuis se estreitando. —Vejo que seus modos não melhoraram nada, Saria, mas não espero mais isso de você.

—Acho que pensa que pode ser rude por ser bem mais velha, — disse Drake bem suavemente. Sua voz carregava uma leve ameaça.

Charisse ficou branca, se aproximando mais do irmão por proteção. Sua respiração se tornou audível. Armande colocou o braço nas costas do sofá, em volta dos seus ombros. Iris ficou bem quieta e seus olhos azuis brilharam perigosamente. Dois pontos vermelhos apareceram em suas bochechas. Antes que a mulher pudesse responder, Drake suspirou. —Sei que devem ter vindo tão cedo por causa de algo importante, então vamos logo com isso. Fiquei acordado a noite inteira me familiarizando com a área e estou morrendo de fome e precisando dormir. Como posso ajudá-los?

Iris apertou os lábios num gesto de completo desprazer antes de relaxar e assentir com a cabeça. —Sim. Tem razão. Esse é um assunto do covil e deve ser tratado. Meu filho foi cruelmente atacado por Remy Boudreaux e exijo justiça.

Drake olhou-a por um longo momento sem expressão, deliberadamente permitindo que o silêncio se prolongasse até a sala ficar cheia de tensão. Lentamente virou a cabeça na direção de Armande. Sua visão nublou, então soube que seus olhos viraram olhos de gato. Ter um homem que ousava caçar Saria com uma arma, atirar nela, caçá-lo e então se esconder atrás da mãe. Foi preciso cada pedacinho de disciplina para se impedir de saltar do outro lado da sala e rasgar com uma garra a garganta do covarde.

—Isso é verdade? — Sua voz saiu como um rugido.

Armande corou num vermelho escuro. Ele olhou para sua mãe e sacudiu a cabeça. —Não, senhor. Não é.

—Então acredito que estamos terminados.

Iris chiou uma exalação. —Não, não estamos. Olhe para ele. Mal consegue andar. Seu peito está preto e azul. Está tentando proteger o homem que quase o matou.

—Num covil, Senhora Mercier, os leopardos machos resolvem as coisas do jeito deles. Não podemos ir à polícia e se alguém comete um crime contra outro membro do covil — especialmente contra uma fêmea — ele pode ser banido — expulso do covil — ou morto. Esse é nosso sistema de justiça e assim tem sido por centenas de anos.

—Meu filho nunca cometeu um crime, — disparou Iris. —Está protegendo Remy Boudreaux por causa de Saria. E já disse várias vezes, é Lafont-Mercier, não Mercier.

Drake virou um olhar predador para Iris. —Acabamos aqui, Senhora Lafont-Mercier. E se não está disposta a acatar minhas decisões, é livre para deixar o covil. De fato, não tem escolha a não ser deixar o covil.

—Esse é meu lar, não o seu. — Iris deu um salto e ficou de pé, apertando sua bolsa de mão como se fosse uma arma. Olhou com ódio para Armande, claramente esperando que fosse em seu auxílio.

—Não, se não aceitar a liderança. Claro que sempre pode pressionar seu filho a me desafiar. Eu o mataria, mas talvez seja isso que quer. Não parece ouvi-lo, nem quando lhe diz a verdade.

Os olhos de Iris se encheram de lágrimas. Ela sentou de novo e procurou incontrolavelmente por um lenço. —Isso é algo horrível para me dizer. Amo meu filho — meus filhos. Ele voltou tão destroçado. Não é um lutador. Não foi criado para ser tão — tão bruto. Tem uma boa posição em nossa empresa e trabalha muito. Remy Boudreaux é um valentão. Todos têm medo dele. Todos os garotos Boudreaux cresceram grosseiros. Não sabe, porque acabou de chegar aqui. Saria te dirá que estou falando a verdade. Todo mundo tem medo dos irmãos.

Saria se inclinou na direção de Iris, clara simpatia em seu rosto. —Meus irmão são durões, Iris, é verdade, mas você sabe que são justos. Remy nunca tocaria em alguém, muito menos em Armande, que considera um amigo, a não ser que tivesse sido provocado.

Iris olhou com raiva para o filho. —O que fez? — Seu lábio inferior estremecia.

—Esse assunto já foi resolvido de modo que todos saíram satisfeitos, Senhora Lafont-Mercier, — disse Drake. —Seu filho recebeu seu castigo como homem e ganhou o respeito do covil. Entendo por que uma mãe ficaria angustiada vendo seu filho tão machucado e surrado, mas algumas coisas são melhores deixadas quietas. Armande é um homem adulto e não deveria ter que falar sobre certas coisas com sua mãe — especialmente se pagou o preço por um erro e todos já esqueceram o assunto.

—Mas sou responsável… — Iris se interrompeu quando Drake sacudiu a cabeça.

—Não, senhora, não é. Armande é um homem e está sujeito a todas as leis do covil. Fez sua parte o criando. É um bom homem pelo que todos dizem e deveria estar orgulhosa — mas agora ele responde por si. Nenhum homem no covil irá respeitá-lo se acreditarem que está se escondendo por trás das saias da mãe.

O cenho franzido de Iris era mais um bico gracioso. —Acho que está certo, mas realmente acredito que Remy exagerou. — Olhou com raiva para Saria. —E sempre vou acreditar nisso. Remy despreza meu filho porque é imensamente charmoso.

—Mãe. — Armande esfregou a mão no rosto, claramente mortificado.

—Sinto muito se isso o envergonha, Armande. Pelo menos você puxou a mim na aparência. As mulheres correm atrás de você do jeito que os homens correm atrás de mim. Pobre Charisse, conseguiu herdar a inteligência, e por isso somos eternamente gratos.

Ao lado dele, Saria inspirou subitamente. —Tem muita sorte que seus dois filhos sejam belos, Senhora Lafont-Mercier.

Iris não respondeu. Pauline entrou na sala e preencheu o repentino silêncio. —Sei que você e seus homens estão cansados, Drake. E devem estar famintos. O café está na mesa e Amos e eu vamos ficar a tarde toda fora fazendo compras na cidade. O lugar ficará quieto para que todos possam descansar. Volto antes do jantar e faço bastante comida.

—Obrigado, Senhorita Pauline, — disse Drake. —Admito que estamos todos esgotados. É um lugar bem grande para se explorar. — Ele sorriu para Iris, procurando encontrar o tom certo para se conectar com a mulher difícil, bela e de algum modo infantil. —Vocês têm uma bela casa.

Ela fungou. —Não exatamente do jeito que eu queria, mas vai ter que servir até que consiga remodelá-la. Meu marido tinha um gosto tão extravagante e uma certa pessoa insistiu em fazer a vontade dele.

—Mãe, Charisse fornece uma ótima vida para todos nós e o pai estava morrendo. Ela naturalmente queria lhe dar tudo que o deixasse feliz, — defendeu Armande.

Drake notou Charisse imediatamente fechar os dedos no braço de Armande num sinal óbvio para que parasse. Era tarde demais. O mero fato de Armande ficar do lado de sua irmã, ao invés do de sua mãe, deixou a mulher furiosa.

Iris torceu o nariz de forma indigna. —Charisse foi mimada demais por aquele homem e agora tenho que desfazer todo o estrago que ele fez. Ela tem muito a aprender antes de ser boa o bastante para qualquer um. E se continuar a sair com aquele homem horrível com quem tem saído, posso ter que desonrá-la. Não vou aceitar aquele homem indo à nossa casa. Ele é tão grosseiro e desagradável quanto aquele pai bêbado dele. É dono de um bar, Charisse. No que estava pensando, saindo com ele?

Claramente enojada, a mulher levantou. —Pauline, preciso ir. A ideia de Charisse envergonhando nossa família outra vez com seu terrível gosto para homens está me deixando tonta. — Ela fulminou a filha com o olhar. —O que está esperando? Já vai me fazer morrer antes da hora, bancando a meretriz com aquele homem.

—Iris, — disse Pauline severamente. —Não vai falar com minha sobrinha assim, na minha casa.

Iris virou seu olhar raivoso para a irmã. —Claro que ficaria ao lado dela. Sempre ficou. — Ela deu a volta abruptamente e marchou para fora da casa. Mesmo tão irada quanto estava, ainda conseguia parecer bonita.

Armande levantou lentamente, seu corpo dolorido e rijo. Estendeu a mão para a irmã. —Vamos, Charisse. Vamos para casa. Se tivermos sorte ela vai começar a beber mais cedo e cair na cama num dos seus surtos.

Saria também levantou. —Estou feliz que esteja saindo com Mahieu, Charisse.

Charisse sacudiu a cabeça enquanto permitia que seu irmão a colocasse de pé. —Ela vai colocá-lo para correr ou seduzi-lo. De um jeito ou de outro, vai se livrar dele. Não devia aceitar, mas ele foi muito persistente. Por favor, peça desculpas a ele.

—Mahieu é durão, Charisse, — garantiu Saria. —Ele não vai correr — e certamente não vai ser seduzido.

—Então será o primeiro, — disse Charisse. Ela saiu da sala, a cabeça erguida, o braço de Armande em volta dos ombros.

Drake os olhou partindo. —Nem sei o que falar.

—Desculpe, Drake, — disse Pauline. —Não tinha como avisá-lo. Minha irmã pode ser bem difícil, embora não seja sempre tão ruim assim.

—O que diabos deixaria uma mulher tão bonita, tão amarga? Ela definitivamente não gosta de outras mulheres, nem mesmo da própria filha.

Pauline deu de ombros. —Casou com o homem errado. Bartheleme a desejava por causa de sua beleza, mas não a amava, não como deveria. Era ciumento e possessivo, mas não era seu verdadeiro companheiro. Sua vida foi horrível — intolerável para uma mulher como Iris que precisava de atenção. Bartheleme banhava Charisse de atenção e tratava Armande como se ele não existisse. Tratava Iris do mesmo modo. Pior, o homem pelo qual Iris se apaixonou antes de Bartheleme aparecer, a rejeitou porque não podia se transformar. Ele queria que seus filhos fossem leopardos. Obviamente, tanto Charisse quanto Armande podem se transformar, então no fim, ela não aceitou suas razões. Acredita que não era boa o bastante para os dois homens e se tornou a mulher amarga que vê.

Drake sacudiu a cabeça. —Todos deviam ter viajado para longe dessa área para encontrar outros covis. Casar com alguém para ser capaz de produzir shifters e não por amar a pessoa, não encontrar seu companheiro verdadeiro, eventualmente destrói um covil.

—Amos e eu descobrimos isso do jeito difícil, — concordou Pauline. —Ele era bom para sua mulher, mas acho que no fim ela sabia que me amava. Tentamos muito nunca nos vermos, mas às vezes, simplesmente não conseguíamos nos impedir. Amos foi fiel à sua esposa. Iris conheceu Buford Tregre enquanto ainda estava no ensino médio. Já era casado, mas ela se apaixonou loucamente por ele, acreditou em suas promessas que deixaria a esposa e casaria com ela. Mas claro que não fez nada disso. Ela era louca pelo homem, mas ele foi terrível com ela quando ela não conseguiu se transformar. Disse que não tinha valor, depois de ter roubado sua virtude. Ela ficou grávida e perdeu o bebê. Ninguém soube. Naquela época boas moças nunca ficavam grávidas, e certamente não de um homem casado.

—Acho que ela escapou de uma boa, — disse Saria. —Aquele homem era cruel com a esposa, os filhos e as mulheres dos filhos.

—Quando se é jovem e terrivelmente apaixonada, isso não parece assim, Saria, — Pauline acentuou gentilmente. —Iris é linda, mas os homens pareciam só querê-la para se exibir. Nunca houve um amor firme e verdadeiro para ela, como o que Amos sente por mim. Ela está envelhecendo, embora não queira admitir, e está apavorada. Charisse só a lembra todos os dias que está envelhecendo e que os homens agora estão atrás de alguém mais jovem.

—Talvez se aprendesse a não ser tão cruel com todo mundo, um homem lhe desse uma chance, — acentuou Drake. —Desse jeito, ninguém vai se arriscar a ficar com ela.

Pauline riu. —Acha que ela é boba o bastante para mostrar esse lado dela para um homem que planeja seduzir?

—Acho que não. — Ele limpou a garganta. —Essa criança que perdeu, o filho de Buford. Tem certeza que a perdeu e que não fingiu que Armande era filho de Bartheleme Mercier?

Pauline ofegou. —Não. Não, Drake. Ela perdeu o filho de Buford. Ficou tão angustiada e triste. E Armande é bem bonito.

—Podia jurar que uma vez você me disse que Buford era bonito, — assinalou Drake, mantendo seu tom estritamente neutro.

Pauline respirou. —Acho que era, no começo antes que eu ficasse sabendo o monstro que era. De algum modo não parecia mais tão bonito quando conheci seu caráter. Armande é filho de Bartheleme, — adicionou decididamente.

Drake assentiu, voltando sua atenção para Saria, segurando sua mão. —Está quase dormindo aqui, docinho. Pode comer alguma coisa e depois vamos para a cama?

Saria assentiu e o seguiu até a sala de jantar. A maioria do time já tinha terminado e estava indo para a cama. Joshua fez uma pausa na cadeira de Drake.

—Estou acabado, cara. Quer um guarda a postos?

—Duvido que seja necessário com todos nós na casa. Vamos dormir armados. Ativaremos o sistema de segurança e diremos a Pauline que está ligado para que ela não o acione quando voltar. Vamos dormir e nenhum shifter de respeito vai sair por aí como um leopardo em plena luz do dia. Há muitos de nós para o assassino dar as caras.

Joshua assentiu. —Obrigado, chefe. Por alguma razão, não consigo mais manter os olhos abertos. Devo estar ficando velho e não consigo mais andar com o pessoal novo.

Drake riu e apontou para Jeremiah, o mais novo de todos. Ele desesperadamente tentava esconder um bocejo enorme. Joshua bateu nas costas do garoto e seu time subiu para seus quartos, o deixando sozinho com Pauline e Saria.

Pauline pegou o rosto de Saria nas mãos e beijou sua testa. —Espero que Iris não a tenha magoado com aqueles comentários depreciativos dela.

—Não. Sempre espero que não me ataque desse jeito, mas aí vejo o que ela faz com Charisse e sei que faz isso porque sou amiga dela. Charisse é uma mulher incrível, Senhorita Pauline, e a mãe dela nem ao menos vê isso. Fui com ela uma vez ao hospital. Ela visitou a ala infantil e levou para as crianças todo tipo de coisas, passou horas falando com as da ala de câncer. Todas a conheciam pelo nome. Ela vai lá sempre. A m&atild