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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NINA / J. M. Simmel
NINA / J. M. Simmel

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

N I N A

 

Ele tinha muitos inimigos. Eu era o maior de todos. Muitas pessoas o odiavam. Ninguém o odiava mais que eu. Muitos desejavam a sua morte. Eu estava decidido a matá-lo, pois era o homem a quem odiava além de qualquer medida. Implacavelmente.

O dia chegara. Esperei muito tempo, mas a espera estava terminada. Vacilei muito, mas as vacilações chegaram ao fim. Agora tratava-se de sua vida ou da minha.

Fazia bastante calor em Baden-Baden, nesse dia 7 de abril. O aprazível e arborizado vale onde se erguia a cidade recebia a força do jovem sol absorvendo-a no seio da terra escura e fértil. Muitas flores amarelas, azuis e brancas brotavam em Baden-Baden. Vi primaveras e margaridas, açafrões e violetas nas margens do murmurante Oos, enquanto dirigia o pesado carro pela Lichtentaler Allee. O carro dele, um dos três que possuía: um altaneiro e enorme Cadillac, com pneumáticos de banda branca, pintado de vermelho e preto.

Todas as pessoas que eu via nas ruas tinham fisionomia amistosa. As mulheres sorriam com ar misterioso. Usavam vestidos leves e de todas as cores. Muitas usavam chapéus atrevidos. Naquela manhã, enquanto me dirigia para a chefatura de polícia para apresentar uma denúncia, vi muitos chapéus ousados. Parecia-me que era a primavera dos chapéus.

Os homens usavam roupas cinzentas, castanho-claro, azul-claro ou escuro, muitos já tinham deixado em casa as capas e os sobretudos...

 


Os homens olhavam para as mulheres e perdiam tempo. Não tinham pressa. Ninguém em Baden-Baden tinha pressa naquele dia de primavera, ninguém a não ser eu. A mim me incitava o ódio, me impelia um silencioso mecanismo de relojoaria que eu mesmo pusera em marcha e cuja hora zero seria inevitável para êle e para mim. Meninos brincavam debaixo dos velhos e polvorentos alamos da avenida. Brincavam com arcos multicores e pedalavam em círculo em suas pequenas bicicletas. Bolas saltavam no ar. As vozes dos meninos ressoavam alegres e despreocupadas. Havia entre eles dois franceses, que se interpelavam :

— Armand! Armand! Rends moi Ia bycicíette!

— Mais non, Loulou! Laisse-là moi encore un peu!

Ao fazer uma curva, vi no espelho retrovisor do carro a palidez do meu rosto. Tinha o aspecto de um doente. Tinha olheiras negras. Meus lábios estavam lívidos e pequenas gotas de suor afloravam em minha testa. Tirei o boné e enxuguei o suor. O boné era cinzento tal qual o meu uniforme de gabardina. A camisa também era de popeline cinzenta. A gravata era azul-fôsco e os sapatos pretos. Eu era o seu chofer e estava fardado como tal: como chofer do homem que se chamava Julius Brummer.

Dizendo melhor, chamava-se Julius Maria Brummer. Muito pouca gente sabia disso. Êle me dissera o seu nome todo, numa noite qualquer de inverno, enquanto viajávamos numa auto-estrada qualquer:

— Fui um desapontamento para minha mãe. Ela desejava muito uma filha. Maria era o nome que escolhera. Minha mãe ficou tristíssima quando nasci. Mas, pelo meios, deu-me um nome de mulher...

Estava chegando ao Hotel Atlantic.

No terraço, vários hóspedes tomavam a sua primeira refeição, sentados à sombra de um grande toldo listrado de vermelho e branco. As paredes haviam sido recentemente pintadas de amarelo com tom púrpura.

As sebes que havia abaixo do terraço refulgiam de um verde úmido. O sol dardejava sobre as grandes janelas do cassino que ficava em frente ao Hotel.

A pintura rosa do pavilhão de música brilhava entre as árvores floridas. Havia côr em profusão. O ar cintilava. Parecia que o dia seria quente. Apertei o acelerador. Tinha pouco tempo e devia apresentar a minha denúncia sem tardar.

O policial que estava à porta da delegacia da Sophienstrasse saudou-me amàvelmente levando a mão ao quepe, ao ver-me entrar e olhando para as duas iniciais na minha lapela esquerda. A maioria das pessoas olhava para essas iniciais quando eu passava. Na lapela esquerda do meu jaquetão reluziam as letras J.B. de ouro, seguras por um pega-ladrão. Eram as iniciais do seu nome e Julius Brummer parecia gostar muito dele. Pelo menos, gostava das iniciais e as colocava em toda parte, em suas casas de campo, em sua casa grande na cidade, em sua chácara, sobre os seus três carros, sobre o seu iate à vela e nos uniformes de seus empregados. Sua mulher tinha grande quantidade de jóias. Podia usar peças do maior valor e logo trocá-las por outras. Mas havia uma jóia que ela não podia tirar, era uma delgada fita de ouro que um ourives lhe havia colocado, anos antes, circundando o peito do pé que levava gravadas as iniciais...

— Que deseja o senhor? — perguntou o policial, — Desejaria apresentar uma denúncia.

— Perdeu alguma cousa?

— Não. Por quê?

— Julguei que se tratava de comunicar a perda de alguma cousa — disse-me olhando para as iniciais J.B.

— Trata-se de denunciar delitos.

—. Porta da esquerda. Segundo andar. Sala 31.

— Obrigado — disse-lhe. O edifício fora construído em meados do século passado, a escada era caiada e o conjunto denotava uma sobriedade prussiana.

No segundo andar, sobre a porta da sala 31, estava escrito :

”RECEBIMENTO DE DENÚNCIAS”

Parei diante dessa porta e pensei na jovem esposa de Julius Brummer, Nina; que a amava e por que a amava. Pensei em Julius Brummer, no ódio que lhe tinha, com que intensidade o odiava e por quê.

Pensei pouco tempo em Nina, mas muito tempo em seu marido. Pensei que o odiava mais que amava Nina, mais, muito mais. Não podia amar a mais ninguém com a intensidade de ódio que tinha a Julius Brummer. Transformado em outra forma de energia, meus sentimentos com relação a Julius Brummer seriam suficientes para construir uma catedral, para construir uma represa capaz de iluminar todo um bairro de uma cidade.

No corredor deserto, frente à porta 31, passei os dedos sobre as iniciais de ouro, pregadas no meu peito. Eram lisas e frias ao tato. Ao tocá-las, adquiri a força que me faltava para bater à porta da sala número 31.

Bati.

O ódio era algo muito forte.

Entre — disse uma voz de homem.

A sala 31 era grande e agradàvelmente decorada, em nada se parecia com uma sala de repartição pública. Via-se que a cidade de Baden-Baden procurava agradar ao bom gosto de seus visitantes mesmo em um ambiente policial: os quadros representavam cenas de caça, com matilhas e cavalos seguindo o estilo dos originais ingleses. Cavaleiros com casacas vermelhas e culotes pretos, com fivelas de prata nas botas, guarnições de renda ao peito, cavalgavam velozes corcéis sobre os prados com cores outonais, enquanto toda espécie de caça era acossada pelas matilhas ululantes.

Os móveis da sala 31 eram modernos e adequados. Havia cômodas cadeiras com assento e encosto forrado de verde e castanho, arquivos de côr clara e uma grande secretária de madeira de lei. A secretária estava diante de uma janela aberta. Pela janela entrava a luz do dia que caía sobre os largos ombros do homem que estava sentado à mesa. Quando entrei, êle escrevia, com dois dedos, em uma máquina portátil. Logo baixou os braços e olhou-me.

— Que deseja o senhor?

Tirando o boné do meu uniforme, respondi inclinando-me:

— Mandaram-me aqui. Desejo apresentar uma denúncia.

O homem simpático e de seus trinta anos que estava sentado junto à escrivaninha fêz com as mãos um gesto convidativo, indicando uma cadeira perto dele.

Sentei-me e cruzei as pernas. Deixei que uma de minhas mãos caísse sobre a mesa. Fiz grande esforço para denotar desenvoltura e creio que o consegui. O funcionário tinha uma cabeleira negra e espessa, cortada tão curta que dava a impressão dos pêlos de uma escova, olhos de um azul muito claro e uma boca grande e voluptuosa, com lábios muito vermelhos. Vestia calça de flanela cinza e um casaco esporte de côr bege. A gravata verde não combinava com o casaco mas a camisa sentava bem, como também os sapatos castanhos, sem cordões.

De maneira perfeitamente normal o olhar do funcionário desceu. Olhando para o J. B. de ouro de dezoito quilates, disse:

— Sou o comissário criminal de serviço. Chamo-me Kehlmann.

— O meu nome — disse-lhe pausadamente — é Holden. Robert Holden.

— Mora em Baden-Baden, Sr. Holden?

— Não. Em Düsseldorf. Estou apenas de passagem por Baden-Baden. Sou o chofer e trouxe o meu patrão ao balneário. Êle se chama Julius Brummer.

— Oh! — disse Kehlmann, lentamente. A julgar pela sua reação tão calma, o Comissário Kehlmann era uma pessoa extraordinariamente bem educada. Naturalmente conhecia Julius Brummer. A maioria dos habitantes da Alemanha conhecia Julius Brummer, pois, no decorrer dos últimos seis meses, seu nome aparecera freqüentemente nas manchetes dos jornais. Tinha quase a mesma popularidade que uma estrela de cinema. Várias vezes sua larga e bochechuda cara, com pequenos olhos aquosos e o bigode ruivo descorado, aparecera nos jornais, revistas, na televisão e nos jornais cinematográficos. Falou-se e escreveu-se muito sobre êle por ocasião da sua rumorosa prisão que causou sensação no mundo dos negócios e na sociedade de Düsseldorf e também quando de sua liberação que chegou a motivar uma interpelação no Parlamento... sim, Julius Maria Brummer, era uma pessoa conhecida.

Disse ao Comissário Criminal Kehlmann:

— Se o surpreende que o meu chefe esteja em BadenBaden, saiba que a sua prisão preventiva foi suspensa há alguns meses.

— Oh! — exclamou de novo. A seguir fêz uma pergunta objetiva:

— A denúncia que o senhor quer apresentar é contra o Sr. Brummer?

Isso lhe parecia o mais natural. Denúncias contra Julius Brummer eram freqüentes. Kehlmann parecia estar disposto a receber uma acusação contra o meu chefe.

— Não — repliquei — não se trata de denúncia contra o Sr. Brummer.

— E então, Sr. Holden?

A resposta a essa pergunta eu tinha estudado muito cuidadosamente. Sabia, de cor, o que queria responder. De tal forma havia decorado o que dizer, que as palavras que agora saíam da minha boca pareciam-me estranhas e sem sentido. Respondi fitando os olhos azuis de Kehlmann:

— uma denúncia por roubo, difamação, atentado contra a paz de uma família e defraudação de um banco.

Kehlmann perguntou-me, tranqüilamente:

— Essas denúncias são contra uma só pessoa?

— Sim — respondi eu, com a mesma tranqüilidade — contra um só homem.

— Muito bonito para um só homem — comentou.

— E não é tudo — continuei com seriedade. — Esse homem também tem a intenção de praticar, dentro em pouco, um homicídio.

Neste ponto êle contemplou-me, sem dizer uma palavra. Eu já sabia que nesse ponto de minha declaração êle, ou qualquer outro que recebesse a minha denúncia, ficaria calado. Suportei o olhar fixo de Kehlmann sem demonstrar qualquer emoção e, ao mesmo tempo, comecei a contar, a partir de um. Cheguei até sete. Havia pensado que chegaria até dez.

— Trata-se de denúncia contra pessoa desconhecida, Sr. Holden?

Neste momento pensei que odiava tanto Julius Brummer como nunca em minha vida seria capaz de amar alguém.

Pensei, então, que estava decidido a causar a sua morte. Respondi em voz alta:

— O homem se chama Robert Holden.

O Comissário Kehlmann contemplou as iniciais em minhia gola.

Dei-lhe tempo. Já sabia que êle, neste ponto, precisaria de tempo. Contei outra vez. Cheguei até quatro. Julgara que chegaria, folgadamente, até sete ou oito. Refleti que devia tomar cuidado. Este homem raciocinava com demasiada rapidez. Mal cheguei a quatro, quando êle me disse:

— O senhor se chama Robert Holden e quer apresentar uma denúncia contra Robert Holden.

— Sim, Sr. comissário.

Embaixo, na rua, passava um pesado caminhão. Ouvi perfeitamente o barulho quando o chofer cambiou de velocidade.

— Existe um segundo Robert Holden? — perguntou Kehlmann.

Também, quanto à resposta a essa pergunta eu meditara longamente. Respondi:

— Não. Não existe outro Robert Holden.

— Isto significa que o senhor quer apresentar uma denúncia contra si próprio?

— Sim, Sr. comissário — disse-lhe com a maior cortesia. — É isto mesmo. Precisamente.

O que contei ao Comissário Kehlmann naquele dia levou três horas para terminar. Êle escutou atentamente. Depois ordenou que eu voltasse para o meu hotel e esperasse. Não poderia sair de Baden-Baden, sem antes avisá-lo. Fariam averiguações, disse-me Kehlmann e breve eu teria notícias dele...

Muitos pensariam que o seu dever seria prender-me imediatamente. Mas a história que lhe contei não era tão simples. Era, ao contrário, uma história extraordinariamente complicada e que encherá muitas páginas da minha declaração. O Comissário Kehlmann simplesmente não se atreveu a prender-me. Mandou-me para casa...

Aqui estou, agora, sentado e tremendo de medo em meu quarto de hotel, as mãos frias como gelo, a cabeça estalando de dor e pensando, pensando sempre na mesma coisa. Meus pensamentos giram num círculo: o Comissário Kehlmann teria acreditado na história que eu lhe contara? Teria eu falado de forma clara e convincente?

Se êle não acreditar estou perdido. Tudo terá sido em vão, toda a astúcia, todos os preparativos. Tudo iria por água abaixo.

Entretanto, se não acreditasse na minha denúncia, teria deixado que eu voltasse para casa? Não, certamente que não.

Então é porque acredita em mim.

Acredita-me, de verdade?

Talvez me tenha deixado sair justamente porque não me acreditou. Talvez para que eu me sinta seguro e êle possa observar-me durante dias, semanas, meses talvez. Meus nervos estão muito sensíveis, já passei por coisas demais.

Muito mais não posso, não poderei suportar.

Preciso me acalmar, devo ficar tranqüilo. Nada de atos irrefletidos. Preciso recolher meus pensamentos, ordená-los. Só assim posso esperar vencer o último trecho do meu caminho, o último e o mais difícil.

Não deixa de ser de certa forma irônico que exatamente hoje, 7 de abril de 1957, pela primeira vez na minha vida, comece a escrever um diário. Faz hoje exatamente quarenta e um anos que eu nasci. Entretanto, não é o exame de consciência preparatório a viver o quinto decênio de minha vida que me move a confiar certos secretos e perigosos acontecimentos de minha vida passada a estas folhas, mas sim as reais conseqüências das circunstâncias que me impeliram, depois da minha longa vinda à Chefatura de Polícia de BadenBaden, a refugiar-me no frescor de meu quarto de hotel.

Neste 7 de abril, de qualquer forma que se encarem os acontecimentos, começou, sem dúvida, a parte decisiva de minha vida. Fazendo as minhas declarações ao Comissário Kehlmann coloquei em movimento, segundo a comparação tão usada, mas muito verdadeira — e que neste dia radioso de primavera parecerá ainda menos apropriada — a bola de neve que em breve se transformará em avalancha, cujas proporções nem eu mesmo posso avaliar.

Diante de mim estão quinhentas folhas de papel que comprei depois de sair da Delegacia e ao tomar a resolução de escrever meu diário, a partir desta data. Nas últimas horas já rascunhei uma dúzia de folhas. Nelas declarei que odeio Julius Maria Brummer. Não esclareci por quê. Descrevi a minha visita à Chefatura de Polícia e a primeira parte das minhas declarações ao Comissário Kehlmann. Afirmei que apresentava uma acusação contra mim mesmo.

Agora me sinto coibido.

Isto porque, o que a partir desse ponto contei ao Comissário Kehlmann foi tão fantástico como o que de mais extraordinário me acontecera nos últimos seis meses. O que lhe descrevi era objetivamente verdadeiro e subjetivamente falso. Para que o diário que agora inicio possa no futuro ter algum sentido, é necessário que o seu conteúdo subjetivo e objetivo seja absolutamente certo.

Para conseguir este objetivo é impossível continuar com a narração que fiz ao Comissário Kehlmann. Devo retroceder, descrever desde o princípio como se originou o tremendo acúmulo de aparentes irrealidades que hoje me envolvem e submergem. Tenho que retroceder àquela chuvosa tarde de agosto do ano passado, quando, pela primeira vez, fiquei frente a frente com Julius Brummer. Começando por aquela noite, contarei de forma cronológica o que vem acontecendo até o dia de hoje. Dessa forma, até que o meu relato alcance o momento presente, parecer-me-á que em vez de estar escrevendo um diário, estarei fazendo um livro de recordações. As dozes páginas que enchi até agora, considerarei, colocando-as antes das minhas memórias, como uma espécie de prólogo.

Quanto mais me aprofundo nas idéias que despertaram na minha mente a consciência de minha nova atividade, tanto mais alívio me proporciona essa ocupação. Escrever será, para mim, um paliativo. Ajudar-me-á a ver mais claramen’ te e a agir mais friamente nos preparativos das últimas semanas que fatalmente precederão ao desaparecimento de um canalha.

Quando eu estava no colégio, a força das minhas descrições causou entusiasmo a um dos meus professores. Meus pais ficaram logo cheios de vã esperança de que eu um dia seria um grande escritor. Eles eram pobres e haviam lido em uma revista, que chegara às suas mãos, o quanto ganhava anualmente o escritor Ludwig Ganghofer.

Lamento muito ter desiludido aos meus pobres pais e não apenas quanto à minha carreira literária. Não posso impedir que me aflore aos lábios um irônico sorriso ao pensar que esta tardia atividade literária que hoje, por motivo do meu quadragésimo primeiro aniversário, inicio, muito dificilmente poderá ter qualquer valor econômico.

Há duas possibilidades para o futuro destas páginas. A primeira é que se realizem os acontecimentos que comecei a preparar. Neste caso, o mundo contará com menos um crápula e eu poderei tornar a respirar e viver tranqüilo.

Neste caso, guardarei só para mim estas páginas e as relerei de vez em quando, para delas tirar a conclusão que neste mundo de juizes sem ânimo e de testemunhas corrompidas, ainda existe uma espécie de justiça impalpável, que me elevou até à categoria de seu instrumento.

Em caso contrário, é possível que o que eu iniciei me leve ao fracasso. Se tal acontecer, espero que o senhor, Comissário Kehlmann, queira considerar o meu manuscrito como uma espécie de depoimento de testemunha.

O meu encontro com Julius Brummer foi na tarde de

21 de agosto de 1956. Nesse dia chovia em Düsseldorf. O velho ônibus que me levou do centro da cidade até a Cecilienallee estava cheio. Trabalhadores e empregados em escritórios voltavam às suas casas após o trabalho. Havia um cheiro de roupa molhada, graxa barata, gordura rançosa e esse cheiro indefinível que parece sempre envolver os pobres. A fraca luz que vinha do teto caía, amortecida, sobre rostos cansados. Vários homens liam. Uma cara marcada pelos sinais da varíola tinha nos lábios uma ponta de charuto. As mulheres olhavam para o vácuo com olhos sem brilho. A rapariga que estava perto de mim tentava pintar os lábios com batom. O ônibus sacudia e dava saltos. A mocinha não conseguia o resultado desejado e limpava a boca, pacientemente. A terceira tentativa lhe pareceu bem sucedida, abriu o estôjo e diante do pequeno espelho ensaiou vários tipos de sorriso..

Um cobrador, mal-humorado, forçava caminho entre os passageiros. Gotas de chuva deslizavam pelas janelas e, nas ruas, brilhavam, intermitentemente as luzes. Em cada parada desciam mais pessoas. Lutavam contra o violento vento leste, tentando abrir os guarda-chuvas e eram logo tragadas pela escuridão. A mocinha dos lábios pintados saltou na parada de Malkasten, diante do cinema. Vi quando ela se precipitava, radiante, ao encontro de um rapaz. Êle, por seu lado, olhava fixamente para o relógio de pulso e o seu belo rosto mostrava enfado. Ela chegara atrasada. Tristemente, baixou a cabeça. Enquanto o ônibus retomava a marcha e o jovem par era banhado pela luz das lâmpadas de néon que iluminava o cartaz com a gigantesca imagem de uma beleza americana, de seios opulentos, antevi o fim de um idílio. Êle era bonito demais e ela demasiado tímida. Ela levou a mão à manga molhada da capa do rapaz. Êle sacudiu o braço e com gesto estudado lançou para o ar o seu cigarro meio fumado. Ela o seguiu, tropeçando por causa dos saltos muito altos, chocou-se contra pessoas que vinham em sentido contrário, levou a mão aos cabelos ensopados e parou quieta, insignificante, sob a chuva implacável...

— Hofgarten! — cantarolou o displicente cobrador.

O cinema, a mocinha, as luzes haviam desaparecido. Havíamos chegado ao rio e à longa fileira de elegantes vilas construídas à sua margem.

Saltei. A chuva fria bateu-me no rosto. Diante dos ”Terraços do Reno” estavam estacionados muitos automóveis. Vi janelas iluminadas. Uma orquestra tocava em um bar. Quatro pares dançavam. Não se ouvia a música. Os pares deslizavam silenciosamente sobre a pista.

Levantei a gola de minha velha capa impermeável e comecei a descer a Cecilienallee. Debaixo de uma árvore arregacei as calças a fim de evitar que se sujassem, pois aquela roupa azul era a única que possuía. As únicas peças que tinha, além dessa, eram duas velhas calças de flanela, uma cinzenta e outra marrom, uma jaqueta de pele e uma outra esporte. As calças cinzentas mostravam lugares já transparentes e o forro da jaqueta estava rasgado. Em compensação a roupa azul, à luz artificial, estava em bom estado. À luz do dia brilhavam os cotovelos e os joelhos. Também se poderia notar o brilho dos fundos das calças, mas isso, não se via, pois o casaco, caridosamente, cobria essa parte.

Possuía, também, dois pares de sapatos, um marrom e o outro preto. O sapato esquerdo do par preto já estava com a sola muito fina. Apesar disso eu os usava neste dia, porque sapatos marrons não causam boa impressão com roupa azul. E eu precisava causar boa impressão. Toda a minha fortuna consistia em um marco e trinta e um centavos. Há meses não pagava o aluguel do quarto. A proprietária já não falava comigo.

Os galhos das árvores gemiam sob o impulso do vento leste. No rio, soava a sereia de nevoeiro de uma embarcação. A calçada descrevia uma curva e, subitamente, vi um grande grupo de pessoas, de pé, diante do portão de entrada de um parque iluminado pelos faróis de vários carros. Quando me aproximei vi que, dentro do parque, também havia três automóveis.

”CECILIENALLEE 486” indicava a pequena placa esmaltada presa ao gradil. Esgueirei-me entre o grupo de pessoas, umas trinta, entre homens e mulheres. A maioria tinha guarda-chuvas abertos e dos outros escorria-lhes água pelos rostos. Contemplavam os policiais que andavam apressadamente sobre a grama do parque, em direção a seus carros ou para a bela residência que se erguia por trás das velhas árvores. A chuva caía em prateados torvelhinhos pelos caminhos de luz dos faróis dos automóveis. Todo o panorama tinha o aspeto de cenografia cinematográfica, irreal, construída para uma só cena.

Duas velhas estavam de pé junto ao portão.

— Com gás — disse a primeira.

— Mentira — respondeu a outra, — com ácido clorídrico.

— Com gás — teimou a primeira — Acabo de ouvir o que dizia o sujeito da ambulância. Já está morta.

— Se já está, porque a levaram com tanta pressa, com sereias e tudo?

— Quando se tem dinheiro...

— Foi com ácido clorídrico — voltou a insistir a outra, tossindo ruidosamente.

— Que aconteceu aqui? — perguntei.

As duas velhas me fitaram. A luz difusa dos faróis iluminava seus rostos ávidos por novidades.

— Na mão de Deus — disse-me uma delas e espirrou fragorosamente. — Estamos todos na mão de Deus.

Entrei pelo portão aberto. Um carro da radiopatrulha estava atravessado sobre o largo caminho coberto de cascalho fino que ia até a casa. Passei por um jovem policial que, naquele momento, falava em um microfone de mão:

— Atenção central. Aqui, Dussel três...

Dentro de uma interferência sibilante uma voz soou no alto-falante:

— Fale, Dussel três...

A ambulância está, neste momento, a caminho do Hospital Santa Maria — disse o jovem policial, enquanto a chuva penetrava pelo colarinho de seu uniforme. — Dussel quatro foi buscar o marido em seu escritório...

Segui caminhando. Ninguém olhou para mim. Um canteiro de lírios. Um canteiro de rosas. De uma sebe de rododendros surgiu um enorme cão de pernas tortas, disforme. Andava cambaleando. Seu pêlo amarelado estava molhado e sujo, o coto do seu rabo agitava-se espasmòdicamente.

O velho e triste cachorrão esbarrou em uma árvore e, a seguir, meteu-se entre as minhas pernas. Inclinei-me e afaguei o seu pêlo. Suas moles e caídas orelhas nunca haviam sido cortadas. Verifiquei, então, o motivo de seu esbarro comigo. Olhos leitosos, semicegos, contemplavam-me quase sem me ver. O cão vacilou, caiu, tornou a levantar-se e penetrou novamente por entre os arbustos.

Um homem desolado, arquejante, precipitou-se em minha direção:

— Você é o fotógrafo do Correio da Tarde?

— Não.

— Meu Deus! Isto é para ficar maluco! Onde se terá metido aquele imbecil? — precipitou-se novamente para a escuridão.

Agora eu chegava à casa. Havia luz em todas as janelas, a porta de entrada estava aberta. Havia terraços e balcões. As paredes eram brancas, as janelas eram verdes. Por trás de algumas das janelas iluminadas, moviam-se sombras. Encimando a porta de entrada havia duas enormes letras douradas: um J e um B.

Subi três degraus e entrei no hall. Havia várias portas, uma lareira e o primeiro lance de uma escada de madeira negra que conduzia ao primeiro andar. Sobre as alvas paredes estavam escuros retratos. Sobre o rebordo da lareira alinhavam-se velhos potes de estanho.

O velho cão entrou vacilante no vestíbulo e deitou-se diante da lareira onde ardia um grande fogo, como se preparando para morrer.

Havia muitos homens na sala: um médico com avental branco, três policiais com japonas de couro e quatro outros à paisana. Esses quatro tinham os chapéus na cabeça. Estavam a um canto trocando impressões e tomando notas. Todas as portas do vestíbulo, que davam para diferentes aposentos da casa, estavam abertas e todos os homens fumavam.

Diante da lareira estava um quinto paisano. Tinha um telefone sobre os joelhos e falava com veemência: ”Como? Não há lugar na primeira página? Joguem na cesta as duas colunas sobre a Argélia. O que tenho vale muito mais! Toda casa tresanda a gás.”

De fato, desde que eu entrara na casa, sentia no nariz um cheiro insípido e adocicado. Verifiquei que as janelas estavam abertas de par em par. A chuva salpicava as ricas tapeçarias...

— Café? — perguntou-me uma voz apagada. Virei-me. Diante de mim estava uma mulher baixa, de cabelos brancos. Segurava uma bandeja com xícaras fumegantes. Sobre o vestido preto trazia um avental branco. Os olhos bondosos tinham grandes olheiras roxas.

— O senhor quer café? — disse ela com o áspero sotaque dos tchecoslovacos.

— Não — respondi — muito obrigado.

Ela dirigiu-se para os policiais e os repórteres.

— Café? — perguntou com voz triste. — Os senhores não querem café? — via-se que ela estava dominada por grande tristeza.

Uma mão apoiou-se no meu ombro. Virei a cabeça. Um policial olhava-me com ar desconfiado.

— Quem é você?

— Chamo-me Holden — respondi cortêsmente. Nada de complicações. Não queria ficar mal com a polícia...

— Pertence à casa? — via-se que estava cansado, a pálpebra esquerda tremia nervosamente. Sua japona de couro estava molhada.

— Não.

— Então, como entrou no vestíbulo?

— Pela porta.

— Engraçadinho, não é?

— Perdão. Não quis ofendê-lo — respondi humildemente. Nada de encrencas com a polícia. — Entrei porque a porta estava aberta. Devia apresentar-me nesta casa.

— Para quê?

— Como chofer — tentei sorrir mas fracassei. Não tenho sorte, pensei desanimado. Quando a secretária desse Julius Brummer escreveu que eu poderia apresentar-me, acreditei que a vida me dava uma nova oportunidade. Cinco minutos antes, enquanto corria sob a chuva, estava cheio de otimismo. Agora sentia que novamente me invadia o frio terror, o medo que me havia perseguido toda a vida...

— Tem os seus documentos de identidade? — olhou para as minhas calças com a bainha virada. Viu as velhas meias, meus gastos sapatos que gotejavam água sobre o tapete.

Entreguei-lhe a carteira de identidade.

— É cidadão alemão?

— Se não fosse, não teria carteira alemã.

— Não use esse tom, Sr. Holden.

— Mas eu nada fiz. Por que me trata o senhor como se eu fosse um delinqüente?

— Vive em Düsseldorf? — perguntou-me, sem responder à minha interrogação.

— Sim. Na Rua Grupello, 180.

— Aqui consta Munique como local de sua residência.

— Antes morava em Munique.

— Quanto tempo antes?

Minhas mãos começaram a tremer. Não podia agüentar muito tempo.

— Há um ano. Mudei-me há um ano.

Certamente êle estava notando a insegurança em minha voz.

— Casado? — felizmente êle nada notara.

— Não.

— Conhece o Sr. Brummer?

— Também não. Que aconteceu?

—- A Sra. Brummer — disse e agitou o polegar esquerdo virado para baixo, virado para o caríssimo tapete.

— Morta?

—- Ainda não. -- Suicídio?

— Está cheirando a isso — devolveu-me a carteira de identidade e sorriu cansado. — Por ali Sr. Holden. A segunda porta. Peça à cozinheira que lhe dê café. O senhor terá que esperar algum tempo antes que o Sr. Brummer o receba.

Chamava-se Mila Blehova e nascera em Praga.

Tinha um nariz largo, em forma de bico de pato, uma magnífica, mas postiça, dentadura e o rosto mais bondoso que eu vira em toda a minha vida. Quando se olhava para ela, chegava-se logo a uma conclusão: essa mulher nunca mentiu em sua vida; essa mulher é incapaz de cometer uma indignidade. Pequena e curvada, com os cabelos brancos repuxados para trás, estava diante da grande janela da cozinha, trabalhando enquanto falava. Estava preparando o jantar: rindsroutaden (bifes enrolados). Vermelhos e suculentos, quatro pedaços de carne estavam sobre a mesa da cozinha. Salpicou-os com sal e pimenta-do-reino.

— Que desgraça, que grande desgraça, senhor! — duas lágrimas rolaram sobre a sua face enrugada e ela as enxugou com a manga do vestido. — Perdoe se estou assim mas ela é como se fosse minha filha, mais que minha pobre filha tem sido para mim, a minha Nina.

Eu estava sentado a seu lado, bebendo café e fumando e, apesar das janelas estarem abertas, de par em par, havia um forte cheiro de gás na cozinha. No escuro jardim por trás da casa a chuva continuava murmurando.

— Conhece a Sra. Brummer há muito tempo?

— Mais de trinta anos, senhor — colocava mostarda sobre os pedaços de carne e as velhas mãos, gastas pelo tempo, moviam-se àgilmente. Na alça esquerda do seu avental destacavam-se duas iniciais de ouro: um J e um B. — Fui a babá de Nina. Ensinei-a a andar, a comer com garfo e faca, a pentear-se e a dizer Padre Nosso. Nunca me separei dela, nem um só dia, em todas as viagens os seus santos pais mandavam-me acompanhá-la, sempre estive perto da minha Ninita. Meu Deus, quando teve sarampo e coqueluche!... E logo, quando morreram os pais, um pouco depois do outro, ficamos sempre juntas, suportando tudo, minha pobre Nina e eu...

Agora, cortava delgadas fatias de toucinho e as colocava, cuidadosamente, sobre a mostarda e a carne. De algum lugar da casa vinham as vozes indistintas dos repórteres e dos policiais.

Mila Blehova continuava falando:

... É tão linda, senhor, como um anjo com forma humana. É tão boa... Se morrer eu também não quero mais viver — começou a cortar cebolas em rodelas pequenas e finas. — É como um pedaço de mim mesma, depois de tudo que passamos juntas. A miséria em Viena, e a guerra, e as bombas, e finalmente a grande felicidade.

— Que felicidade?

— Travar conhecimento com o patrão. Como se apaixonou por ela... O casamento. Quanto dinheiro. A capa de vison, as jóias com brilhantes, a casa... — as lágrimas deslizavam pelas velhas faces de Mila Blehova e ela, ao falar, parecia que tivesse tomado água gasosa às pressas. — Estou outra vez com náuseas — disse com humildade. Seu rosto, repentinamente, denotava sofrimento. — Sempre que fico nervosa. É a minha tiróide que funciona demais — colocou as rodelas de cebolas sobre as fatias de toucinho.

Ouviu-se um latido pungente. Era o velho cão. Enrodilhado sobre si mesmo descansava perto do fogão e nos contemplava com seus olhos meio cegos e injetados de sangue.

— Sim, sim, Pupele, meu pobre cachorrinho, é espantoso, não acha?

Falava com o cão que choramingou, chegou-se até ela e esfregou-se em suas pernas. Enquanto isso Mila Blehova enrolava cuidadosamente o primeiro pedaço de carne e disse:

— Se não fosse’ o nosso Pupele, nosso bom cachorro, seguramente já estaria morta a minha pobre Nina...

— Como assim?

— Hoje é quarta-feira e todos nós temos folga à tarde, o empregado, as empregadas e eu. Às duas horas a minha Nina disse-me que fosse ao cinema, mas eu respondi que preferia dar um bom passeio com o Pupele... — o velho cão tornou a gemer. — Fomos em direção ao clube de regatas, mas subitamente o PPupele começou a uivar e puxar-me pela corrente em direção de casa... certamente sentiu algo o pobre animal — o primeiro bife enrolado estava pronto. Cuidadosamente a mulherzinha o perfurou com um espeto de alumínio. — Eu também fiquei assustada e apressei-me em voltar a casa com o cachorro e, quando cheguei à cozinha, encontrei-a junto ao fogão com todas as torneiras de gás abertas e ela quase em cima delas — novamente a incomodou um soluço.

— Quanto tempo esteve fora de casa?

— Provavelmente três horas.

— E três horas foram suficientes para...

— Também tinha tomado veronal, senhor. Um tubo inteiro. Doze comprimidos.

— Que idade tem a Sra. Brummer?

— Trinta e quatro anos — enrolou o segundo bife e jogou um pedaço de toucinho para o pobre cão que saltou para um lado e para o outro para alcançá-lo.

— Por que fêz isso? — perguntei.

— Não sei. Ninguém sabe.

— Era feliz no casamento?

— O casal mais feliz do mundo. O patrão a tratava nas palmas das mãos. Têm dinheiro, não têm preocupação alguma. Não compreendo. Não posso chegar a entender...

Abriu-se a porta e o policial que me pedira a carteira de identidade entrou na cozinha.

— Ainda tem café, mãezinha?

— Tanto quanto quiser, senhor. Aí está a cafeteira. Bote açúcar. Bote muito leite.

— Acabamos de telefonar ao hospital — disse amistosamente, enquanto enchia uma xícara. — O Sr. Brummer prepara-se para vir para casa.

— E a senhora? — os plácidos lábios tremiam. — Como está a senhora?

— Estão tentando um tratamento com oxigênio e cardiasol. Para o coração.

— Ai, meu Jesus do céu! Escapará?

— Se resistir esta noite, sim — respondeu o policial voltando para o vestíbulo

Como se tivesse compreendido tudo, o velho cão recomeçou a queixar-se. Mila Blehova, apesar de suas pernas duras, ajoelhou-se e começou a acariciar o gordo cão. Falava-lhe carinhosamente, em sua áspera língua materna, cheia de consoantes, mas o cão continuou gemendo e continuava o cheiro de gás na cozinha.

 

ACAMPAinHA DO TELEFONE SOOU.

O aparelho era branco, pequeno e estava preso aos ladrilhos da parede, junto à porta. Com ligeireza, a velhinha levou o fone ao ouvido. Na última meia hora havia terminado de preparar o jantar. A couve-flor e as batatas estavam prontas.

Escutou e, nervosamente, engoliu saliva. Sem reparar, levou a mão ao estômago dolorido.

— Sim, senhor. Servirei agora mesmo.

Eu gostaria de já ter ido embora. Mas não sabia para onde. Não me atrevia a voltar ao meu quarto mobiliado com um marco e trinta e um centavos que tinha no bolso. Esse encontro com Julius Brummer era a única esperança que me restava. Eu me agarrava a essa esperança.

Mila Blehova já havia compreendido a minha situação. Fêz-me um sinal amistoso e disse, ao telefone:

— Está aqui o chofer. O senhor o mandou chamar. Já está esperando há algum tempo.

Escutou, novamente.

— Muito bem, direi a êle — desligou o telefone e dirigiu-se ao armário dos talheres onde arrumou uma bandeja com toalhas, guardanapos e talheres. — Pode vir comigo.

— Mas eu não quero incomodar o Sr. Brummer enquanto come.

— Não se preocupe com isso nesta casa, principalmente às quartas-feiras. O criado não está e eu é que sirvo... Não me devo esquecer da cerveja — apanhou duas garrafas no refrigerador e colocou-as na bandeja. A seguir arrumou a comida em outra bandeja e levou-a a um pequeno elevador.

Apertou um botão. O pequeno ascensor desapareceu zumbindo. A velha cozinheira desatou o avental e juntos saímos da cozinha. O cão nos seguia capengando.

O vestíbulo já estava vazio. As janelas tinham sido fechadas bem como a porta de entrada. Os policiais e os repórteres tinham desaparecido. A sujeira dos tapetes, os cinzeiros cheios e as xícaras vazias mostravam que eles tinham estado. Fazia frio no vestíbulo. A umidade da chuva o havia invadido.

Subimos a escada até o primeiro andar. A madeira dos degraus rangia e eu me detinha para ver os escuros quadros nas paredes. Entendia um pouco de pintura, pois, anos antes, tivera contato com a arte. Um Brueghel, representando camponeses, provavelmente autêntico. Árvores, de Fragonard, também legítimo. Uma cópia da Casta Sttzana, de Tintoreto. Os velhos contemplavam libidinosamente a jovem donzela de músculos rijos e de seios atrevidos que olhava, pudicamente para o tanque...

O cão semicego nos precedia por um corredor com várias portas dos dois lados. Mila Blehova abriu a terceira porta. A sala de jantar era grande. Ao centro, uma velha mesa cercada por doze cadeiras antigas. Ao contrário do vestíbulo, aqui sentia-se muito calor. As tapeçarias laterais, de seda, mostravam folhas e sarmentos em tons cinza-prateados e azuis. Nos aparadores encostados às paredes, havia alcatifas com desenhos complicados. Vi como Mila Blehova colocava, num dos extremos da mesa, talheres para uma só pessoa. Sobre a toalha de damasco pôs um candelabro e acendeu as sete velas. A seguir, apagou a luz do teto. A sala estava, agora, numa acolhedora penumbra. A velha cozinheira abriu um painel na parede e apareceu o elevador. Enquanto colocava os pratos sobre a mesa, disse-me Mila Blehova:

— Antes, a sala de jantar era no andar de baixo. Agora a transformaram em sala de reuniões. O elevadorzinho também é novo, mas tudo chega frio à mesa...

O velho cão ladrou, alegremente, e dirigiu-se para uma segunda porta que logo foi aberta. Um homem entrou. A luz das sete velas esbateu-se sobre o seu terno de jaquetão azul, uma camisa branca e uma gravata com tons prateados.

O homem era completamente calvo, muito alto e muito gordo. Apesar de sua obesidade, movia-se quase graciosamente sobre pequenos e finos pés que calçavam elegantes sapatos. Entrou na sala como se flutuasse, tal como uma gigantesca bola que, mesmo quando cai ao chão, eleva-se novamente.

Sua cabeça era redonda, a testa estreita. O rosto era de um rosado saudável e os olhos, pequenos e aquosos, repousavam em duas bolsas de gordura. Sobre a boca, pequena e afeminada, crescia um pequeno bigode ruivo.

O cão ladrava, tristemente. O gigante obeso o acariciou.

— Está bem, Pupeíe, está bem... — logo empertigouse e falou comigo. — Sr. Holden? Boa noite; chamo-me Brummer — sua mão era pequena e macia. — Desculpe tê-lo feito esperar tanto tempo. Provavelmente já sabe o que aconteceu.

Falava com rapidez e objetividade, dando uma impressão de força e domínio. Calculei que tivesse entre quarenta e quarenta e cinco anos.

— Sr. Brummer — disse-lhe, — permita que neste momento eu diga quanto lamento. É uma ocasião imprópria para apresentar-me. Não seria melhor que eu voltasse amanhã, de manhã?

Julius Brummer sacudiu a cabeça. Não respondeu à minha pergunta:

— Tem apetite, Sr. Holden? — notei, então, que movia, sem cessar, as mandíbulas. Devia ter goma de mascar na boca. — Sente apetite?

Fir um gesto dizendo que sim. Realmente sentia-me mal de tanta fome.

— Outro talher Mila.

— Sim, senhor.

— Não fique com esta cara triste, Sr. Holden. O que adiantaria à minha mulher se nós não comêssemos? Esta desgraça me afeta mais que a qualquer outra pessoa. Amo a minha mulher. Éramos felizes, não é verdade Mila?

— Tão felizes, senhor — a velha cozinheira ficou perturbada enquanto colocava outro lugar. Êle aproximou-se e a abraçou. A alva cabeça chegava apenas à altura da corrente de ouro que trazia no colete. — Por que terá feito isto? Por quê?

— Ninguém sabe Mila. Sua voz era quente e cheia. Não me deixaram vê-la, mas saberei de tudo. Podes confiar em mim.

— E se ela morrer. Se a nossa Nina morrer?

Êle sacudiu energicamente a cabeça, como que dizendo:

— Ela não morrerá.

Uma incrível força parecia desprender-se do movimento de cabeça de Julius Brummer. Mila Blehova o contemplou fascinada. Para ela, este homem era o pólo da força e da paz. Com ar fatigado, disse:

— Preparei bifes enrolados, senhor. E couve-flor.

— Com toucinho?

— Ao meio-dia o senhor disse que queria com toucinho. Levantou a tampa de um prato.

— Quatro porções?

— Distraída. Fiz também duas para a senhora...

— Então está ótimo pois temos aqui o Sr. Holden.

— Sou uma velha tola, senhor.

— Minha boa Mila. És o que há de melhor no mundo

— disse Julius Brummer.

Era o mesmo Julius Brummer, cuja morte, enquanto escrevo hoje estas linhas, nove meses depois, preparo com todo o cuidado porque o odeio mais que qualquer homem na face da terra pode odiar outro ser humano.

 

A melhor cerveja do mundo. Para mim só existe a Pilsen — com as costas da mão limpou a espuma dos cantos da boca. Estávamos, agora, completamente sós. — Garrafas originais. Recebo em caixas. Veja o selo com a foice e o martelo na etiqueta. Vem diretamente de Praga. Os vermelhos também sabem fabricar cervejas.

Cortou um bife enrolado em dois pedaços e atirou um dêks ao cão que estava a seu lado. A carne caiu sobre o tapete. Babando copiosamente, o cão começou a comer.

— Já não enxerga nada o pobre Pupele — Brummer lambeu seus dedos engordurados; - já perdeu o pêlo duas vezes e agora não cresce mais. Para nós isso não faz diferença. Gostamos de ti Pupele.

— Que idade tem?

— Onze ou doze anos. Não sei ao certo. No inverno de 1945, encontrei-o quase morto, numas ruínas — atirou outro pedaço de carne sobre o tapete. — Mila vai ficar zangada porque eu sujo tudo Pupele •— via-se que êle gostava muito do velho cão. Subitamente, disse-me: — Espero que não tenha uma falsa impressão, Holden.

— Uma falsa impressão?

— Porque não falo de minha mulher. Não posso. Se falar nela perco a cabeça. Preciso muito dela. Há muita gente agindo contra mim.

Baixei os olhos para o meu prato que tinha as douradas iniciais J. B. Também as facas e os garfos as tinham gravadas.

— Não é curioso, hein?

— Não muito — respondi.

— Magnífico. Sirva-se de mais batatas. E couve-flor. Está muito boa a couve-flor, não acha?

— Sim.

— Precisa saber Holden que atropelei e matei um homem.

Servi-me de couve-flor.

.— Foi uma coisa horrorosa. Êle ouvia mal e meteu-se sob as rodas do carro. Não foi possível evitar, nada pude evitar. Mas eu voltava de uma festa, três ou quatro martinis, talvez cinco. Estava perfeitamente sóbrio, como é natural.

Comi couve-flor e batatas com um pedacinho de bife enrolado.

— Houve a grande comédia de sempre. Carros da patrulha, análise de sangue, que foi positiva. Fiquei sem minha carteira de chofer. Se me pegassem dirigindo um carro novamente haveria uma grande encrenca. Falta de sorte, não acha?

— Sem dúvida, falta de sorte — respondi.

— Desde então sou obrigado a ter chofer. O último que tive revelou, repentinamente, ser um invertido. Era um rapagão homossexual. Suas relações o prejudicavam e êle tentou prejudicar-me. Tive que mandá-lo embora. Não me deixo chantagear, Holden.

— Eu não sou homossexual.

— Não, não o parece. Que há com você?

— Como?

— Qual é o seu ponto fraco?

— Não tenho nenhum.

— Bah! Tolice.

Coloquei o talher sobre o prato.

— Vamos fale de uma vez! Continuei calado.

— Em resposta ao meu anúncio, recebi sete ofertas — esgravatou os dentes com o indicador, nada encontrou e continuou comendo. — A sua foi a que mais me agradou. Sabe por quê?

— Por que, Sr. Brummer?

— Era muito delicada, humilde e resignada. Por que está você tão resignado, Holden?

Não respondi.

— Pertenceu à SS?

— Não.

— Você não quer falar — insistiu êle e tornou a esgravatar os dentes. A chama das velas vacilou. O cão uivou. Disse para mim mesmo que com esse Julius Brummer, não tinha nenhuma probabilidade. Seus pequenos olhos contraíramse até aparecer simples ranhuras. — Tenho muitos inimigos em Düsseldorf, Holden, mas também tenho muitos amigos. Mesmo na polícia. Que lhe parece?

— Não disse nada, Sr. Brummer.

— No serviço de identificações, por exemplo. O chefe se chama Rohn. Bom rapaz. Facilita-me todas as informações que necessito. É interessante, não acha?

— É claro.

— Vou chamá-lo. Qual é o seu nome de batismo, Holden?

— Robert.

— Dirigiu-se para um telefone que havia sobre o aparador.

— Robert Holden, muito bem. Quando nasceu? - - No dia 7 de abril de 1916.

— Onde?

- Não respondi. Começou a discar.

Tem passaporte?

— Sim.

— Entregue-me.

Não me movi. Todas as ruas que eu percorria não tinham saída. Todas as caminhadas eram em vão. Para mim não havia mais caminhos.

— Vamos, Holden, o passaporte.

No silêncio da sala ouvi o ruído do telefone chamando. Zumbia monòtonamente. Então disse:

— Pode desligar, Sr. Brummer. Estive na prisão.

— Ah, bem. Quanto tempo?

Nesse momento menti. Meu passado devia permanecer morto. Eu já havia pago a minha dívida. Abandonara Munique para poder viver em liberdade, para deixar morto o passado. Munique estava longe. Menti:

— Dois anos.

— Quando foi solto? — perguntou, desligando o telefone.

— Há quatro meses.

— Por que o prenderam?

Menti e vi, com desespero, que êle não me acreditava.

— Por falência fraudulenta. Tinha uma loja de tecidos.

— De verdade?

— De verdade — prossegui mentindo.

Nesta ocasião enganei a Julius Brummer. Não estive preso dois anos e sim nove. Não foi falência mas sim assassinato. Matei minha mulher, minha mulher Margit, a quem amava mais que tudo.

Nunca tive loja de tecido em Munique.” Era negociante de antigüidade, perito em objetos de arte. Tinha uma bela loja na Theatinerstrasse.

Era feliz com minha mulher quando rebentou a guerra: Polônia, França, Rússia, África. Sempre sonhava com minha mulher. Era o meu único elo com a vida, pois eu odiava a guerra, o uniforme e a necessidade de matar.

Finalmente voltei para casa, em fins de 1946. Foi uma longa guerra, uma muito longa guerra para mim e eu a perdera mais que qualquer outro. Quando cheguei em casa encontrei-a na cama, com o seu amante. Na cama e nua. Então eu o fiz.

Avancei sobre eles e, de uma ferida na testa que me fizera o indivíduo, antes de sair correndo, corria-me o sangue sobre os olhos e eu via tudo através do véu pegajoso e espesso, de côr vermelha. Bati-lhe e ouvi seus gritos, até que os vizinhos me seguraram e me abateram. Morreu na mesma noite. Margit, minha mulher, o meu único amor.

Eu fui um assassino.

Reconheceram-me circunstâncias atenuantes e fui condenado a doze anos. Ao cabo de nove anos fui indultado.

Abandonei Munique. Vim para cá a fim de esquecer Margit, meu passado, tudo. Perdera tudo, meu negócio de antigüidade, meu lar. Agora queria começar tudo de novo. Por isso menti a Julius Maria Brummer.

Contemplou-me, em silêncio.

Levantei-me porque sentia que êle me mandaria embora. Quem toma um ex-presidiário como chofer? Não tinha sorte. Devia ter sabido, desde o princípio, que não tinha sorte. Com o meu passado jamais poderia voltar a ter sorte.

— Por que se levantou, Holden?

— Para despedir-me, Sr. Brummer.

— Sente-se. Quatrocentos marcos, além de casa e comida. Está bem?

Sacudi a cabeça.

Êle interpretou mal o meu movimento de assombro.

— Pouco?

Assenti. Tudo girava em torno de mim.

— Bom, então, quinhentos. Previno-o desde já que terá muito trabalho porque viajo constantemente a Hamburgo, Munique, Berlim, Paris e Roma. Tenho medo dos aviões.

— Dá-me o emprego, apesar do que contei?

— Precisamente por isso. Pessoas como você inspiram confiança. Outras perguntas, Holden?

— Sim. Poderia adiantar-me um mês? Tenho dívidas.

Tirou um maço de dinheiro do bolso traseiro da calça e umedecendo com saliva o polegar e o indicador contou dez notas de cinqüenta marcos sobre a toalha da mes”a. Senti calor na nuca e meus lábios ficaram secos. As notas côr de lilás formavam um semicírculo à minha frente. Davam-me a impressão de um arco-íris depois de longa tempestade. Senti que Brummer me olhava com curiosidade. Ergui a cabeça.

— Você bebe, Holden?

— Não.

— É condição indispensável. Mulheres?

— Assim, assim.

— Pode começar logo.

— Sim.

O telefone sobre o aparador começou a chamar. Brummer levantou-se, atravessou a sala e ergueu o fone.

— Sim?

Parou de falar e escutou uma voz que chegava até meus ouvidos mas sem que eu entendesse as palavras. Recolhi o dinheiro. O velho cão arrastou-se sobre o ventre até junto ao dono. Fora a chuva batia contra as vidraças.

— Vou — colocou o fone no gancho e enxugou o rosto com a mão.

O cão uivou.

.— Deve levar-me imediatamente ao hospital. Minha mulher está morrendo — disse Brummer.

 

Mais depressa.

Contemplava a chuva e movia ritmadamente as mandíbulas, mascando chicle. Cheirava a hortelã-pimenta. Apertei o acelerador. O ponteiro do velocímetro subiu até cem. Corríamos pela margem do Reno em direção ao centro da cidade.

Na garagem eu havia visto três carros: um Mercedes, um BMW e um Cadillac vermelho e preto. Tínhamos tomado o Cadillac. O cão estava entre nós dois e choramingava. Sua baba, branca e viscosa, caía sobre o couro do assento.

— Mais depressa, maldição — exclamou Julius Brummer.

— Cento e dez, cento e vinte, cento e vinte e cinco. Os limpadores do pára-brisa moviam-se com fúria, o carro começou a dançar sobre a estrada molhada.

— Não se acovarde tão cedo, Holden. Um Cadillac como este pode agüentar muito. Custou-me muito dinheiro.

Percorri a distância até o Hospital Santa Maria em sete minutos. O carro ainda não parara diante da entrada iluminada do hospital quando Brummer saltou ao chão. O cão o seguiu, latindo. Ás portas giratórias brilharam. Os dois haviam desaparecido.

Fiz o carro andar lentamente para trás e o estacionei na escuridão, sob um velho castanheiro. A chuva tamborilava sobre o teto do carro. Liguei o rádio...

”... O gongo assinalou exatamente vinte e duas horas. A Radiodifusora Alemã do Noroeste vai transmitir o seu noticiário. Londres: A Comissão de armamentos das Nações Unidas voltou a reunir-se hoje.

Para a segurança mútua contra um ataque de surpresa por meio de um sistema mundial de controle aéreo e terrestre, o representante dos Estados Unidos, Stassen, em nome da Grã-Bretanha, França e Canadá e com a ausência dos representantes dos Governos da Noruega e da Dinamarca, propôs aos soviéticos o plano seguinte: ”Todo o território ao norte do Círculo Polar na União Soviética, no Canadá, no Alasca, na Groenlândia e na Noruega, assim como todo o território do Canadá, dos Estados Unidos e da União Soviética, situados a oeste dos 140 graus de longitude oeste...”

A rua estava deserta, a chuva crepitava. Eu tinha a mão esquerda no bolso do casaco. Neste bolso havia dez notas de cinqüenta marcos...

”... a leste dos 160 graus, longitude este, e ao norte dos 50 graus, latitude norte, assim como, afinal as partes restantes do Alasca e da Península do Karuchatka além das Ilhas Aleutas e Kurilas, ficarão, também, submetidas a vigilância...”

Quinhentos marcos, casa e comida de graça. Trabalho para um homem que não faz perguntas. Numa cidade onde ninguém me conhece...

”... como uma zona de inspeção européia entre os 10 graus de longitude oeste, no Oeste, e 60 graus de longitude leste, no Leste, assim como nos 40 graus de latitude norte cuja demarcação partirá do oeste da Inglaterra, através do Mediterrâneo e ao largo dos Urais...”

Mas por que queria Nina Brummer morrer? Por que tentava o suicídio uma mulher rica e mimada?

”... as nações européias, entre elas a República Federal Alemã, quase toda a Itália, França, Inglaterra, Irlanda, Portugal e uma grande parte da Grécia...”

Ninguém compreende. Nem mesmo Mila Blehova. Que aspeto terá essa Nina Brummer?

”... e uma parte da Turquia com uma superfície total de três milhões de quilômetros quadrados serão incluídos na zona de inspeção. Em contrapartida a União Soviética deverá, por sua parte...”

Um homem rico. Aparentemente um trapaceiro.

”... permitir a inspeção à sua órbita exterior de satélite...”

Não seria melhor eu não receber o dinheiro?

”... e todo o conjunto dos seus territórios, até os Urais...”

Por que teria querido Nina Brummer envenenar-se? ”... uns sete milhões de quilômetros quadrados, e...” Continuei pensando: já estará morta? E, então, adormeci.

M

 

A porta DO carro foi fechada com força. Levei um susto. O dial do rádio reluzia, vermelho e branco. Soava um jazz sentimental. Um saxofone começou a soluçar. O relógio no quadro de instrumentos marcava a hora: faltavam cinco minutos para a meia-noite.

— Desculpe, Sr. Brummer.

O homem que estava a meu lado não era Julius Brummer. Tinha uma capa impermeável preta, que reluzia de molhada. Gotas dágua caíam-lhe dos cabelos ruivos pela cara ascética. Óculos com aro de aço tornavam seus olhos invisíveis.

— Onde está o Sr. Brummer? — falava com um acentuado sotaque da Saxônia e sua voz era chorosa. — Fale de uma vez! É importante. Estou à procura do Sr. Brummer desde hoje à tarde. A cozinheira disse-me, pelo telefone, que êle estava aqui no hospital.

— Então por que me pergunta?

— Preciso falar com o Sr. Brummer... tenho necessidade de lhe dizer uma coisa...

— Entre e diga-lhe.

Fêz uma cara de criança infeliz.

— Não posso fazer isso. Não tenho licença. O meu trem parte dentro de meia hora. Preciso afastar-me de Düsseldorf.

— Quem é você? — perguntei. O homem parecia ter fome e estar doente. Faltavam-lhe vários dentes e cuspia ao falar.

— O Sr. Brummer me conhece. Meu nome é Dietrich.

Dietrich?

Sim. Êle esperava que eu o chamasse. Que acon...

— Sua mulher. Suicídio.

— Meu Deus — exclamou. — Por aquilo.

— Aquilo quê?

— Não sabe?

— Não sei absolutamente nada — declarei. Olhou-me como se implorasse.

— Que faço agora? Encolhi os ombros.

— Sempre somos os mesmos que estamos metidos nos negócios sujos — exclamou com amargor. — Trabalhos, ordens, contra-ordens e instruções. Ninguém pensou que a mulher pudesse matar-se. A encrenca está formada — piscou, suplicante. — Quer transmitir um recado ao Sr. Brummer, camarada?

— Sim.

— Diga-lhe que seu amigo está aqui. Seu amigo de Leipzig. Traz o material. Amanhã à tarde. Às dezessete horas.

— Onde?

— No cruzamento de Hermsdorfer, na saída da autoestrada que vai a Dresden.

— Na zona?

— Naturalmente — espirrou ruidosamente. — Devo afastar-me antes que me descubram. Não sei se posso confiar em você, mas agora preciso pensar em mim mesmo. Ofício miserável. Nada funciona direito. Toda a organização levou o diabo.

No rádio, soluçava o saxofone.

— Cruzamento de Hermsdorfer, saída para Dresden, dezessete horas — repeti.

— Que seja pontual.

— Okay.

— Seu amigo carregará uma pasta preta e uma capa preta, de borracha. Como eu. Recordará tudo?

— Com toda certeza.

— Para mim é indiferente. Já estou farto de tudo. Tornou a espirrar.

— Saúde — disse eu.

— Porcaria de vida — exclamou tristemente — Melhor seria estar morto. Tem um cigarro?

Estendi-lhe o maço.

— Permite que eu tire dois?

— Leve tudo.

— Não gosto de ser filante, mas estou sem fumo.

— Não se preocupe — disse-lhe. Saiu do carro.

— Bonito cachorro — disse sem entusiasmo, preocupado em despedir-se de modo amável. Passou a mão sobre as iniciais douradas J.B., molhadas pela chuva e que brilhavam na porta. — Nós nunca chegaremos a ter uma coisa assim. Adeus camarada.

— Boa noite — respondi.

Afastou-se rapidamente, rua abaixo, magro, doente, com as calças amarrotadas e solas gastas nos sapatos.

O saxofone terminou o slow-fox.

”E agora, senhoras e senhores, Ray Torro em seu novo sucesso, Dois Corações Felizes sobre o Lago Maior”...

Desci do carro e, sob a chuva, dirigi-me para a entrada do hospital. Queria ver Julius Brummer. Segundo tudo indicava, sua mulher ainda não tinha morrido.

 

ERA UM HOSPITAL CATÓLICO.

As freiras usavam hábitos brancos e amplos e brancas e largas toucas. Fiquei admirado de ver tantas de pé àquela hora. Andavam apressadas, por corredores e escadas e empurravam carrinhos cheios de medicamentos. Eram freiras muito boas e estavam atarefadas naquela noite. Na casinhola da portaria também havia uma freira. Era gorda e usava óculos. Perguntei-lhe pelo Sr. Brummer.

— Está com a esposa — respondeu-me, baixando o jornal que estava lendo. Junto a ela estava o velho cão que me olhou tristemente, tremendo e abanando o rabo. — Cães não podem entrar no hospital — explicou-me a freira.

— Como está a Sra. Brummer?

— Nada bem, receio eu. Devemos rogar a Deus que lhe perdoe o terrível pecado.

Não compreendi logo o que queria dizer mas, a seguir, lembrei-me de que, a seu ver, o suicídio era um enorme pecado e, além disso, havia muito tempo que eu não rezava. A última oração que pronunciara foi em um sótão, quando a casa acabava de voar com a explosão de uma mina. Mesmo daquela vez, é provável que não fosse uma verdadeira oração...

— Tenho que falar com o Sr. Brummer — disse, — sou o seu chofer.

— Suba ao primeiro andar. Corredor à esquerda até o local dos pagamentos. Fale com a vigilante da noite.

Na escada havia muitos nichos e nesses estavam pintados santos, do tamanho de crianças. Estavam pintados em azul, vermelho e amarelo.

Havia poucos santos masculinos, mas muitos femininos e, diante de todos, vasos com flores. Meus passos ressoavam fortemente. Uma campainha começou a tilintar muito próximo.

A freira que estava de serviço noturno na seção de pagamentos estava em sua pequena dependência. Era jovem e bonita, mas rígida e severa.

— O Sr. Brummer está junto de sua esposa.

Ela estava de pé, junto ao armário de medicamentos e remexia caixas de injeções. A luz do teto azul caía sobre ela. -— Poderá salvar-se?

— Só Deus o sabe.

Encontrara o que procurava. Uma caixa de ampolas para injeção, com o rótulo VERITOL. Dirigiu-se para baixo, pelo corredor banhado de luz azul. Eu a segui. A fim de ficar bem com ela, perguntei:

— O que ela fêz é um grande pecado?

— Um pecado mortal. Que Deus a perdoe.

— Amém — conclui.

— A tenda de oxigênio não deu resultado. Nem tampouco os medicamentos para a circulação do sangue. O pulso está caindo. O Dr. Schuster vai agora tentar uma lavagem do sangue.

— Que é isto?

— Retiramos dois terços do seu sangue para substituí-lo por outro. Ao mesmo tempo o Dr. Schuster injetará Veritol diretamente no coração.

— Então ainda tem uma possibilidade.

— Muito pequena — disse-me ao abrir uma porta branca com cristal transparente da metade para cima. A porta fechou-se por trás da bela freira.

Aproximei-me da porta cuja cortina não estava corrida. Vi a jovem freira, um médico e Julius Brummer. E estremeci como nunca estremecera em minha vida. O que eu via naquele momento era espantoso e não sei porque, entre todos os homens, eu é que tive de ver...

Os três rodeavam o leito de uma mulher jovem. Ela estava deitada, de costas, e completamente desacordada. Os cabelos ruivos espalhavam-se pelo travesseiro, o rosto tinha um tom azulado e os lábios estavam exangues. Pálpebras azuis cobriam-lhe os olhos.

A boca estava aberta. Nina Brummer podia ser bonita em vida. Neste momento não o era. Parecia já estar morta há várias horas.

O médico e a freira preparavam a transfusão. Aproximaram os suportes prateados onde estava o sangue. Ligavam tubos de vidro com outros de borracha e fixavam ao antebraço esquerdo da paciente. O marido via tudo, com as costas voltadas para mim.

Neste momento o médico baixou o lençol. Ela ficou nua até a cintura, sobre o Albus lençol. Seu corpo era cheio e formoso, os seios grandes e perfeitos. O médico inclinou-se sobre Nina e auscultou-lhe o coração enquanto a freira quebrava a ampola. Amarelo como o mel o Veritol subiu na seringa de injeções.

O médico colocou a ponta da agulha sobre a branca pele do peito de Nina e calcou.

Desviei o olhar porque, subitamente, sentia-me mal. Não podia por mais tempo suportar a vista daquele corpo. Eu conhecia aquela mulher, eu a conhecia.

Segui pelo corredor até uma pequena capela. Havia um altar e um genuflexório. No altar uma grande imagem da Virgem com seu Filho nos braços. Dois círios bruxuleavam a seu lado. Havia muitas flores e diante do genuflexório três filas de cadeiras duras, sem forro. À esquerda da entrada havia uma capela lateral com outro altar, diante do qual estavam duas cadeiras atapetadas. Cheguei, com dificuldade, até uma delas e deixei-me cair sentado. Tudo girava em roda de mim. Procurei respirar profundamente, para vencer as náuseas e dominar meu cpração que batia desesperadamente dentro do peito. A Virgem olhava-me, pareceu-me que com ar severo, de cima do seu altar.

”A vida é tão curta” — pensei — ”e entretanto é uma grande mentira. Queria esquecer o passado e exatamente neste tranqüilo hospital o passado volta a postar-se em minha frente.”

Contemplei a Virgem e pensei com amargura: ”Por que não me deixas em paz? Pequei, é bem verdade, mas já purguei a minha pena, já sofri muito.”

De cima do seu pedestal, a Virgem olhava-me, impassível...

”Por quê?” — pensava eu. ”Por quê?”

Tudo parecia correr bem até o momento em que olhei através dos vidros da porta do quarto. Nesse momento tornei a vê-la, vi a Margit, minha mulher, ainda não completamente ressuscitada dentre os mortos.

Ao ler o que estou escrevendo, parece tudo fantástico, mas tudo aconteceu assim mesmo. Era o seu corpo que ali estava deitado, seu rosto, seu cabelo ruivo, as pálpebras de Margit, as pequenas orelhas de Margit, suas finas mãos. Ali estava deitada Margit e não era Margit, mas uma estranha, uma mulher rica, Nina Brummer.

No entanto, tinha o mesmo aspeto de Margit, depois do que eu fizera e antes que me arrastassem como a um animal selvagem.

Meus dentes batiam de emoção. Atrás daquela porta jazia uma Margit que não era Margit, detrás daquela porta jazia o meu passado.

”Por que, por quê?” — perguntava, amargamente, à Virgem.

Mas as imagens não falam.

”Devo ir embora”, pensei, tomado de pânico. ”Não devo permanecer ao lado de Brummer. Quem poderá suportar ver, todos os dias, a mulher amada, a mulher que foi por êle assassinada?”

Ninguém.

”E se Nina Brummer morresse? Então não a veria mais. Então o passado estaria definitivamente morto. É este o meu castigo?” — perguntei, em vão, à imagem.

Precisava fazer algo. Ler ou contemplar alguma coisa. Ficaria louco se continuasse a pensar naquilo. Dirigi-me para a porta. As náuseas voltaram, terríveis. Não me atrevi a olhar pelos vidros. Voltei para a capela. Diante do segundo altar estava um livro fechado sobre um lápis. Abri o livro. Até a metade o livro estava cheio de orações e pedidos de ajuda, de exclamações de desespero e de agradecimentos, escritas com letras as mais variadas. Comecei a folheá-lo...

”Santa Mãe de Deus, ajuda-me. Faz com que não seja um tumor. Minha família precisa de mim. Johanne Allensweller, Düsseldorf, Grothestrasse 15 - 45/111.”

”Deus meu, de todo coração agradeço pelo êxito de minha operação da vesícula biliar. Teu fiel Lebrecht Hermine, de Duisburg — Rubrott, Kiepenheuerweg 139.”

”Meu Deus do Céu, tem compaixão de minha pobre mãe. É a terceira operação no olho direito. Faze com que não seja catarata. Adolf e Elisabeth Krambals e seus filhos HeinzDieter e Crista. Düsseldorf. Walgraben 61.”

Havia caligrafias trêmulas ou firmes, grandes e pequenas. Ao fim de cada anotação estava o endereço do pedinte. De quatro em quatro páginas, havia o carimbo da administração do hospital, uma data e sempre a mesma assinatura: Angélica Meuren, superiora.

”O pneumotórax foi por tua vontade. Senhor. Faz com que eu.possa voltar a trabalhar, pois tenho que sustentar a seis. Engenheiro Civil Robert Austand. Düsseldorf — Lohausen, Flanghafenstrasse 44/III, escada da esquerda.”

”Deus meu, dá-me forças para permanecer junto de minha Rosa Maria. Há dez anos que está inválida e os médicos dizem que não há esperança. Perdoa os meus pensamentos e dá-me juízo. Amém. Hans H., Düsseldorf, Farberwerg 14.”

Em uma das páginas, mãos de criança haviam pintado umas flores: ”Para o bom Deus que fêz com que minha mãe não tenha mais dores no ventre, seu servo Rudi, Düsseldorf, Waymayrstrasse 1.”

Um ruído fêz-me erguer os olhos.

Julius Brummer acabava de entrar na capela. Sem me ver, foi tropeçando até o altar principal. Tive a impressão de que êle nada via. Cambaleava como o seu velho cão. Pela cara rosada corriam lágrimas. Deixou-se cair sobre o genufTexório diante da Virgem. Ouvi um ruído como se a madeira tivesse quebrado.

A minha primeira reação de chamar-lhe a atenção foi dominada por uma curiosidade invencível. Como que hipnotizado, vi aquele corpo pesado desabado junto de mim. A luz dos cirios brilhava em sua calva. Gemia profundamente e deixou cair a cabeça que bateu no genuflexório. Agitou o corpo de um lado para outro e levantou-se. Afrouxou a gravata, abriu o colarinho da camisa e fitou a Virgem que tinha o Menino ao colo.

Desajeitado, como um camponês, Julius Brummer cruzou as mãos sobre o peito. Julgava estar só. Com dificuldade, começou a rezar em voz alta:

”Por favor, não deixe morrer a minha Nina. Ajude-a neste momento. Faze com que a transfusão dê resultado e também o Veritol...”

Sua respiração tornou-se ofegante. Levantou-se e dirigiu-se, aos tropeções, para o altar. Apoiou as mãos sobre o brocado. Sua boca pequena tremia.

”Se a fizeres viver, farei penitência por tudo... irei para a cadeia... aceitarei qualquer castigo... não me defenderei contra os cães malditos... eu o juro... juro por sua vida... não irei à zona...”

Agarrou a santa imagem com ambas as mãos, seu corpo desmoronou e parecia que a Virgem ia cair ao chão.

”... Esperarei até que me arrastem para a prisão” — gemeu Julius Brummer — ”mas não deixes que ela morra... por favor, não deixes que ela morra...”

Subitamente emitiu um ligeiro grito, soltou a Virgem e levou as mãos ao coração. Girou e caiu de bruços. A imagem de pedra seguiu a sua queda. Com um ruído surdo bateu sobre o ombro de Brummer, resvalou e quebrou-se em dois pedaços, contra o chão.

Corri e virei o desmaiado de rosto para cima. Seus olhos estavam completamente abertos, mas só se lhes via o branco. Cheirava a hortelã-pimenta. Precipitei-me para o corredor e chamei a bonita freira.

Ela saiu do seu cubículo.

— O Sr. Brummer — disse-lhe. — Na capela. Rápido.

— Que aconteceu?

— Está desmaiado. Não deve saber que eu o encontrei. Olhou-me, refletindo, e agarrou o fone do aparelho que

havia em cima da mesa:

— Ligue-me com o Dr. Schuster, por favor... é urgente.

 

Deitaram-no na cama de um quarto desocupado e deram-lhe Belergal, quando voltou a si. Êle pediu um copo de conhaque e a conta da imagem partida.

— Comprem uma maior e mais bonita. Pagarei tudo.

Não lhe disseram quem o havia encontrado. Quis saber como estava sua mulher e disseram-lhe que ainda estava viva. Então começou a chorar e lhe deram novamente Belergal, apagaram a luz do quarto, aconselhando-o a deitar-se de costas e que respirasse tranqüilamente.

A noite se alongava. Ajudei a jovem e bela freira a pôr a capela em ordem e depois ela fêz café para nós dois. Agora estava muito amável. Contou-me que antes de entrar para a Ordem conhecera um homem que se parecia comigo. Era um piloto. A artilharia antiaérea polonesa o abateu, sobre Varsóvia, em setembro de 1939... Ouvi-a com atenção enquanto ela contava coisas de sua vida e olhei para as velhas e gastas fotografias do piloto, que ela me mostrava e que, realmente, parecia um pouco comigo. Mas estava, no meu íntimo, pensando sem cessar, na singular oração de Julius Brummer...

(”... se a fizeres viver farei penitência por tudo... irei para a prisão... aceitarei qualquer castigo”)

— Mantive correspondência com sua mãe, durante muito tempo — contava-me a bela monja. — A mãe gostava muito de mim, desde o princípio. íamos casar em outubro...

(”não me defenderei contra os malditos cães... eu o juro... juro por sua vida... não irei à zona...”)

— Freqüentemente vejo o seu rosto, quando fecho os olhos — a freira virou a cabeça. — Mas agora isso não acontece sempre. Antes o via todas as vezes.

Às três e meia da manhã Julius Brummer sentiu-se melhor. Tocou a campainha e mandou chamar-me. Fui ao seu quarto. Estava sentado na cama e, como sempre, mascando.

— Sinto muito Holden que o seu trabalho comigo tenha começado assim. Está cansado?

Fiz que não, com a cabeça.

—- Que há com você? Que cara é essa? — observou-me atentamente. — Ouviu algo a meu respeito?

— Ouvi, Sr. Brummer?

— Que desmaiei na capela... Estão falando nisso as monjas? Há sussurros?

Êle agora defendia a sua reputação. A sua dignidade. Eu pensava no rosto desfigurado diante do altar e nos juramentos balbuciados...

  • — Não se fala nada, Sr. Brummer. Disseram-me que o senhor não estava passando bem. Tenho... tenho que lhe dar um recado.

— Quê?

— Enquanto esperava no carro procurou-me um homem.

— Que homem?

Contei-lhe tudo sobre o meu encontro.

Êle estava sentado, imóvel. A cortina da janela por trás dele começou a iluminar-se. A luz do sol nascente dava-lhe uma côr rosada. Passou a língua sobre os lábios. Continuou mascando. Finalmente disse:

—’ Isto seria hoje à tarde, não é verdade?

— Sim, às dezessete horas. Saída para Dresden, no cruzamento de Hermsdorfer.

— Sabe onde fica isto, Holden?

— Naturalmente — respondi. E acrescentei, intencionalmente: — Na zona.

— Na zona — repetiu êle.

(”eu o juro... juro por sua vida, não irei à zona...”) Há muito que eu não via um raiar de sol e fiquei surpreso com a rapidez como transcorria. A cortina tinha, agora, uma côr de sangue e deixava passar tanta luz que Brummer aparecia como uma silhueta, como um macaco gordo e curvado. Raios dourados de luz batiam no teto, passando pelos interstícios da cortina.

— Você falou a alguém sobre isso?

— Não, Sr. Brummer.

Por cima da porta havia um crucifixo. Êle o fixou e foi até a janela, abrindo a cortina. A luz do sol, batendo em cheio, cegou-o. Abriu a janela contemplando o jardim do hospital, silencioso e úmido à luz da aurora. O ar fresco chegou até a mim com o seu perfume de erva molhada. Um pássaro começou a cantar. Ficamos os dois a escutá-lo. Vi como Brummer sacudia a cabeça tenaz e lentamente.

A porta abriu-se.

A bonita freira, que estivera de plantão durante a noite, disse solenemente:

— Deus a perdoou.

— Brummer perguntou, com voz rouca:.— Está morta?

— Viverá — respondeu a monja. Depois sorriu. — A transfusão de sangue teve êxito. O pulso voltou a ser regular. Agora só lhe injetamos Estrofantina.

Passaram-se alguns segundos.

— Não — disse Brummer, perdido entre o medo e a esperança.

— Sim.

— Não é verdade...

O terror sacudia o seu corpo.

— É verdade. O Dr. Schuster mandou-me avisá-lo. Não o teria feito se não estivesse perfeitamente seguro. Sua esposa viverá, Sr. Brummer. Deus é infinitamente misericordioso.

Passaram-se mais três segundos e, então, Julius Brummer começou a rir. Sua gargalhada parecia um trovão. Parecia um ser pré-histórico, um titã saído de uma caverna. Batia no peito com os punhos cerrados, enquanto soavam suas gargalhadas.

— Vive! — cuspiu o chicle. — Vive o meu doce amor! Bateu-me nas costas e, sem parar de rir, abraçou a jovem

freira. Continuava a rir.

— O Dr. Schuster o espera — disse a monja, envergonhada. - Brummer dirigiu-se para a porta. Ao passar por mim disse, sorrindo:

— Deite-se na cama amigo. Descanse duas horas. Depois, para maior segurança, mande trocar o óleo.

— O óleo?

— Há um longo caminho atrás da zona — comentou objetivamente Julius Brummer.

A porta fechou-se atrás dele e da freira.

Agora, a luz do sol invadja completamente o quarto. No jardim cantavam muitos pássaros. Cheguei-me à janela. Soprava uma brisa de leste e o céu parecia completamente limpo.

Tirei o casaco e abri o colarinho da camisa. Deitei-me na cama e cruzei as mãos na nuca.

Ela viverá e eu devo ir-me embora.

Mas, por que tenho que me afastar?

Margit está morta. Não a amo mais. Traiu-me. Que me importa ver outra mulher que se pareça com ela. Foi somente uma impressão, um choque passageiro.

Ficarei. Seria ridículo ter medo de uma mulher estranha. Dentro de poucos dias estarei acostumado a ela.

Logicamente, devo ficar para acabar tudo para sempre. Seria pior se eu me afastasse, sabendo que ela existe.

Dessa forma, Sr. Comissário Kehlmann — para quem estou escrevendo estas páginas pensava eu para justificar o desejo de ficar.

Meus pensamentos eram muito transparentes, não acha? O senhor é homem e sabe como deve interpretar meus pensamentos.

 

Nesse dia, o calor começou logo pela manhã. Recordo-me muito bem porque a elevada temperatura foi a causa do que aconteceu. Do asfalto subia um bafo de ar quente. O teto metálico do carro parecia arder quando eu fui à cidade trocar o óleo. As mulheres vestiam blusas brancas, calças curtas ou vestidos de todas as cores. Exibiam braços, pernas e generosas porções do colo. A maioria dos homens estava em mangas de camisa. Em muitos lugares havia poças dágua, formadas pela chuva da noite anterior. As poças fumegavam.

Enquanto os mecânicos faziam a lubrificação do motor e da caixa de mudanças, fui à Rua Grupellos n 180 e chamei a minha proprietária. Era uma viúva, azeda, mal penteada e de olhos famintos.

— Escute, Sr. Holden, isto já é demais. Não lhe basta ficar devendo o aluguel? Ainda tenho que vir abrir a porta porque o senhor é demasiado importante para abri-la pessoalmente?

Não lhe dei resposta e fui diretamente ao meu feio quarto, tirei a velha maleta do armário e nela enfiei as poucas coisas que possuía.

— Que significa isto — balbuciou, apoiando os magros braços nas ossudas cadeiras. — O senhor pensa que pode ir embora assim? Terei que chamar a polícia...

— Estou deixando a sua casa, Sra Meise. Faça-me a conta de tudo que devo, até o dia primeiro do mês que vem. Ande depressa.

— O senhor não tem dinheiro! Quer que eu saia do seu quarto para poder escapar.

Tirei do bolso as dez notas de cinqüenta marcos e as pus junto ao seu nariz. Escancarou os olhos e saiu à toda pressa. Fechei a maleta. Parecia estar úmida, como sempre me pareceram todas as coisas daquele quarto.

Sempre fora um quarto escuro e úmido, que dava para uma parede cujo reboco estava caindo em placas. As roupas de cama estavam sempre úmidas, como também as camisas no armário e os meus papéis. Tratava-se, porém, de um quarto barato, que me custava apenas trinta e cinco marcos por mês e onde eu só entrava para dormir.

Para dormir vestia uma camisa velha e ficava com as meias nos pés, a fim de evitar a sensação de umidade e visto que não tinha nenhum pijama.

A proprietária voltou com a conta. Paguei e ela recebeu o dinheiro sem proferir uma palavra e retirou-se. Deixei a chave da porta sobre a mesa, peguei a maleta e deixei, para sempre, o quarto onde havia dormido, atormentado por pesadelos, quatro meses de minha existência.

Na garagem já haviam acabado de lubrificar o carro. Fiz encher o tanque de gasolina e coloquei a maleta no assento de trás. Contrastava muito mal sobre o forro de couro vermelho.

— Posso telefonar? — perguntei a um dos empregados do posto. Com o queixo indicou o escritório envidraçado, situado ao lado das bombas de gasolina. Chamei Julius Brummer pelo número de seu escritório que êle me havia dado. O suor escorria pela minha testa, enquanto falava. A cabina envidraçada parecia um banho turco.

— Holden?

— Sim Sr. Brummer. Estou pronto.

— Bem — a voz era firme e autoritária, como sempre, — Ainda tenho duas horas de trabalho aqui. Venha buscar-me aqui. Vá à casa e diga ao criado que me arrume uma maleta.

- Sim, senhor.

— Você conhece a casa de flores Stadler na Konigsallee?

— Não, mas a encontrarei, Sr. Brummer. Protegidos pela sombra da parede da garagem, alguns

meninos brincavam em roupa de banho. Um deles molhava os outros com uma mangueira. Riam e gritavam, fazendo traquinadas e estavam felizes.

— Passe lá e apanhe as flores que encomendei. As flores são para minha mulher. Leve-as ao hospital.

— Sim, Sr. Brummer.

Sim, Sr. Brummer. Não, Sr. Brummer. Imediatamente, Sr. Brummer.

Com que rapidez se adquire a inflexão de voz, com que rapidez uma pessoa se acostuma novamente. Sim, meu tenente. Não, meu tenente. É para já, meu tenente. Naquele tempo eu não me havia preocupado e agora, também, pouco me importava. Na casa de Brummer havia um quarto para mim, com uma cama que, certamente, não era úmida. Tinha dinheiro no bolso e tinha um patrão que, sem dúvida, não faria perguntas.

Não, Sr. Brummer. Sim, Sr. Brummer. Imediatamente, Sr. Brummer. E daí? Na guerra, além dessas coisas corria-se o perigo de ser morto ou de ter que matar.

”- E a conta? — perguntei ao encarregado do posto de gasolina.

— Mandamos uma conta mensal ao Sr. Brummer.

— Muito bem. — concordei e sentei-me por trás do volante. Quando pus o motor em marcha, o ventilador começou a zumbir. O ar espalhou-se pelo carro que deslizou, suavemente, para a rua. O Sr. Brummer já me dissera que, quando voltássemos da zona, um bom alfaiate me faria um uniforme, sob medida.

O uniforme é o uniforme.

Sim, meu tenente. Sim, Sr. Brummer. Tinha trabalho. Tinha tranqüilidade. E nenhuma pergunta. E nem um só olhar de soslaio. Isto era muito para um homem que acabava de sair da prisão.

Parei o carro, desci e tirei a velha maleta do assento de trás e coloquei-a na grande mala dos equipamentos. O carro era belo demais para uma maleta tão feia. Era o presente do porteiro de Hirnschall, no dia em que me soltaram...

 

TRINTA E UMA ROSAS VERMELHAS.

Quando cheguei à loja já estavam envoltas em papel celofane. Era um ramo magnífico, difícil de carregar.

— Recomende, por favor, que cortem um pouco os talos antes de colocá-las nágua.

— Muito bem.

— São rosas da Holanda. O que há de melhor. O Sr. Brummer vai ficar satisfeito.

— E a conta...

— O Sr. Brummer tem conta nesta casa. Muito obrigado, bom dia senhor.

Pouco a pouco eu estava vendo como viviam os ricos. Tinham contas-correntes. Pagavam mensalmente. Tinham crédito porque inspiravam confiança. Esta era a diferença.

Para combinar com o dia, eu vesti a minha roupa azul. Mas à luz do sol, o pano reluzia nos cotovelos e nos joelhos. A senhora da loja de flores havia notado. Afastou os olhos como se tivesse visto algo asqueroso, como um epiléptico ou um homem vomitando. Era uma magnífica loja de flores, e Düsseldorf, uma magnífica cidade, na qual o Sr. Brummer era um dos cidadãos mais eminentes. De qualquer forma, pensei eu, posso fazer um uniforme sob medida quando quiser. E breve terei o meu uniforme...

No Hospital Santa Maria, uma nova freira estava sentada na casinhola da portaria e outra, desconhecida, no escritório da seção de pagamentos. A bonita monja que perdera o noivo nos céus de Varsóvia tinha desaparecido. Em seu lugar estava trabalhando uma outra muito mais velha.

Olhou atentamente para o que estava envolto em celofane.

— Deve-se cortar um pouco dos talos antes de colocálas nágua — disse-lhe.

— Certamente custaram mais de um marco e cinqüenta cada uma — observou maravilhada.

Certamente.

— É um pecado. Muitas famílias poderiam viver durante uma semana, com o que custou este ramo.

Dos quinhentos marcos que me havia dado Brummer, cento e setenta e cinco tinham ficado nas mãos da viúva Meise. Mas com apenas trezentos e vinte e cinco marcos, parecia-me ser um parente próximo de Brummer, um sócio em seus negócios, um membro da classe dirigente. Inclinei-me diante da monja e segui adiante.

Ao descer as escadas pensei que deveria encomendar uma roupa cinzenta leve. Provavelmente com colete. Com ela poderia usar camisas brancas e gravatas pretas. Sapatos e meias pretas. Quase tudo combinava com a côr cinza. Eu...

— Espere, por favor.

A monja de meia-idade vinha apressada em minha direção.

— A Sra, Brummer quer falar com o senhor.

— Comigo? Por quê?

— Não sei. Ainda não recuperou perfeitamente o conhecimento. Mas o senhor deve acompanhar-me. Venha, por favor.

Assim sendo, voltei novamente à seção de pagamentos. Dali a monja levou-me ao quarto de Nina Brummer e me disse, em voz alta:

— A senhora ainda está muito fraca. Não deve falar — e retirou-se.

No quarto também fazia calor. A cabeça de Nina Brummer repousava sobre o travesseiro, meio enviesada. Tinhamlhe lavado o rosto e penteado os cabelos, porém seu rosto ainda tinha a côr branca-azulada, os lábios estavam sem sangue. Parecia ser o rosto de Margit, com uma semelhança indescritível. Mas agora era dia e o sol brilhava. Eu havia agüentado o primeiro choque e suportei a visão daquele rosto. Sobre o cobertor da cama estavam as trinta e uma rosas. Suas mãos trêmulas as acariciavam.

Os lábios cinzentos moveram-se. Falou, mas tão baixo e lentamente que não a pude compreender. Aproximei-me da cama. Ela pronunciou com dificuldade:

— Éo novo chofer?

— Sim, senhora.

Sua respiração crepitante mostrava que ainda tinha grande dificuldade em inalar. Seu peito ergueu-se sob o lençol. Os grandes olhos azuis pareciam ainda meio vidrados, suas pupilas moviam-se descompassadamente. Essa mulher ainda não recobrara perfeitamente os sentidos. Apenas vivia. Havia perdido sangue. Estava fraca. Estava sob o efeito dos medicamentos para fortalecer o coração e combater o envenenamento. Não, essa mulher não sabia o que fazia nem o que dizia. Essa mulher moveu a cabeça, aos arrancos, como uma boneca mecânica e balbuciou, suplicante:

— Ajude-me. Inclinei-me sobre ela.

Quando ela abriu novamente a boca, senti cheiro de gás. Eu sentia calor. Sentia-me mal.

—... deve... ajudar-me...

Naquele momento, sem bater à porta e com a maior naturalidade, entrou a freira, foi até o leito e apanhou as rosas.

— Já encontrei um vaso — dirigiu-se para a porta dizendo, com autoridade: — O doutor ordenou que a Sra Brummer, positivamente, não pode receber visitas nem falar. Isto seria muito mau para ela.

A porta fechou-se, com ruído.

A Sra Brummer balbuciou, com a boca fechada e por onde escorria um fio de baba:

— Todos... me... odeiam.

Acreditei no que dizia. Naturalmente ninguém a amava no hospital. Era a rica e desocupada mulher, a pecadora que havia tentado contra a própria vida.

Não, ninguém aqui gostava de Nina Brummer.

—... posso... confiar... ninguém.

A cabeça pendeu sobre o ombro. A respiração tornou-se mais audível.

Gás... gás... cheirava a gás.

Eu não podia mais suportar o aspeto daqueles olhos vidrados. Parecia-me estar vendo um sonho, ouvindo o balbuciar de um estranho narcotizado.

Olhei para a mesa de cabeceira. Sobre ela havia um telefone branco e, a seu lado, algumas jóias: um anel, uma pulseira larga de ouro, um relógio cravejado com pedras rutilantes.

— Ninguém... deve... saber... nem... Mila...

Não me mexi.

Sua mão direita deslizou sob o lençol e apanhou uma carta.

Não me movi.

— Tome.

Os olhos leitosos e turvos tinham uma terrível expressão de capitulação.

— Por... favor...

A mão com a carta estendeu-se para mim. ”Esta mulher não está em seu juízo” — pensava eu. ”Não sabia o que fazia.” Segurei a carta. Li o que havia sobre o envelope.

Senhor Toni Worm

Düsseldorf ’

Stresernamstrasse 31 A.

As letras eram grandes e torcidas, como estranhas patas de aranha. As letras davam a idéia de febre, de pesadelo.

Coloquei a carta sobre o cobertor, no local onde formava uma pequena depressão, entre os seios de Nina Brummer e sacudi, negativamente a cabeça.

— Deve... receber... esta... carta.

Tentou, em vão, erguer a cabeça que recaiu sobre o travesseiro.

Ela não sabia o que fazia. Entregava-se, completamente, a mim. Arriscava a sua honra, seu futuro, submetia-se a uma chantagem por estar sob a ação de Cardiasol e Veritol. Porque estava debilitada pela perda de sangue e pelo envenenamento. Aquela mulher não estava em seu juízo perfeito.. •—... farei... tudo que... queira...

Não podia continuar ouvindo aquela voz que se arrastava. Não queria mais ouvi-la. Sacudi a cabeça e indiquei o telefone. Não podia falar pois continuava a sentir cheiro de gás e sentia fortes náuseas.

— Não... tem... telefone...

Não sei quando comecei a amar Nina Brummer. Certamente não foi naquela manhã.

Ninguém pode apaixonar-se por uma estranha, por uma mulher às portas da morte. Não é possível. Mas, de uma maneira especial, não era uma estranha para mim. Eu a conhecia, de uma maneira especial, há anos, muitos anos. Conhecia seu rosto, sua pele, seus olhos e seus cabelos, pois eram o rosto, a pele, os olhos e os cabelos de Margit.

Sou um realista. Repugna-me qualquer tipo de metafísica. Mas parece que a morte não existe para os seres vivos. Meu amor por Margit não terminou quando a matei. Ao contrário, matei-a exatamente porque a amava e, por isso, não podia suportar que me enganasse. E agora estava diante de uma mulher que, de forma incompreensível, se parecia com ela. Ela revivia Margit. Meu amor por ela poderia perpetuar-se. Talvez isso explique o que fiz: peguei a carta.

— Muito bem — disse-lhe.

Nos olhos vidrados de Nina Brummer surgiu uma expressão de infinito alívio.

- Espere... a... resposta...

— Certo.

— Chame-me... por... telefone... A monja disse:

— Se não sair imediatamente terei que avisar ao doutor. A cabeça de Nina Brummer pendeu para o lado. Fechou

os olhos.

— Agora eu vou — respondi.

 

A casa da Rua Strbsernam, n» 31-A era velha. Era um sobrado cinzento e sombrio, metido atrás de duas árvores torcidas. Sua construção datava, provavelmente, do princípio do século. Duas cariátides de arenito suportavam a varanda. Ao lado da porta, estava uma jovem vestida de preto. Tinha um chapéu preto, em forma de pastelão e usava óculos com grossas lentes. Com as duas mãos erguia uns jornais.

— Deus vive — disse a rapariga.

— Que aconteceu?

— Seu reinado se aproxima. As testemunhas de Jeová pregam em todo o mundo — ergueu ainda mais os jornais e pude ler o seu título: O Atalaia.

— Quanto? — perguntei.

— Não deve comprar o que não deseja — disse-me a rapariga e acrescentou, sorrindo valentemente: — O dia do Juízo Final se aproxima de nossa geração. Os maus serão condenados no dia do Juízo, mas as testemunhas de Jeová e todos que amam a justiça, como o senhor, serão salvos como se salvaram Noé e sua família durante o dilúvio. Os sobreviventes possuirão a terra no Novo Mundo criado por Deus. Assim está consignado nos evangelhos de São Mateus e nas Epístolas de São Pedro.

Dei-lhe um marco e ela entregou-me um exemplar do jornal, esclarecendo:

— Só custa cinqüenta pfennigs.

— Está bem — respondi entrando pelo sombrio e úmido portal.

Numa parede havia um quadro de campainhas com os nomes dos inquilinos. Havia quatro, dois no andar térreo e dois no primeiro andar. Li:

TONI WORM

MÚSICO

Êle morava no primeiro andar. Na porta havia uma pequena vigia onde apareceu um olho, quando bati.

Assustou-me, um pouco, aquele olho, pois não ouvira passos do outro lado da porta. O olho fixava-me, sem pestanejar.

A boca invisível da cara à qual pertencia aquele olho perguntou:

— Que deseja?

— Trago uma carta. Para o Sr. Worm. É o Sr. Worm? —’ Sim.

Falava com pouca clareza. Ou estava resfriado ou bêbado.

— Então abra.

— Enfie pela abertura para cartas.

— Devo esperar a resposta.

— Pela abertura. Meta a carta pela abertura. Neguei, com a cabeça.

O olho fitou-me, aborrecido. A voz falou zangada:

— Então esqueça o assunto.

— A carta é da Sra Brummer. A porta abriu-se, imediatamente.

Um homem jovem, teria no máximo vinte e cinco anos, apareceu no umbral. Vestia um pijama azul-escuro, brilhante, com finos adornos prateados. Era um rapaz muito bem parecido e não estava resfriado, mas completamente embriagado. Os olhos, grandes e negros, fulguravam. O cabelo curto e despenteado caía-lhe sobre a testa molhada de suor. A boca sensual estava aberta. Tinha pestanas exageradamente grandes e mãos finas e expressivas. Era, realmente, um rapaz muito atraente, com ombros largos e cadeiras delgadas. Estava descalço e por isso eu não o ouvira aproximar-se da porta. Apoiou-se à parede:

— O senhor é da polícia?. — Não.

Passei a seu lado ao entrar no apartamento e pensei em Nina, a dos olhos azuis e em seu corpo branco e perfeito. O moreno Toni com as pestanas de seda. A ruiva Nina. Par encantador... Certamente tinham muitas coisas a dizer-se. E para escrever...

Na sala de estar as janelas estavam fechadas. As lâmpadas elétricas estavam acesas. Cheirava a conhaque e a cigarros.

Sobre o teclado de um piano aberto, havia muitas folhas de papel de música, uma camisa, umas calças e uma gravata.

Havia, também, uma estante, com muitos livros e revistas, tudo em desordem, um sofá muito baixo com uma mesa pequena com tampo de ladrilhos e, diante dela, três cadeiras. A roupa de cama estava em completa desordem sobre o sofá, sobre a mesinha ladrilhada havia quatro jornais matutinos. No meio dos jornais estava uma garrafa de conhaque Asbach—Ural e um copo. Por toda a parte viam-se cinzeiros cheios de pontas de cigarro.

A luz elétrica caía cruamente sobre nós, do lampadário pendehte do teto. Através das venezianas, os raios do sol tentavam penetrar no aposento.

Sentei-me sobre a cama enxovalhada e vi, na parede ao lado um retrato emoldurado de Nina Brummer. Era uma fotografia grande: Nina Brummer na praia, com um colante maiô negro e acenando com a mão. Tinha uma aparência muito atraente. Mais atraente do que estava agora.

Titubeante, êle aproximou-se de mim. Entreguei-lhe a carta e êle, gemendo, sentou-se em uma das três cadeiras e abriu o envelope. Suas mãos tremiam tanto que a carta escapou-lhe dos dedos. Apanhou-a e começou a ler.

Quando virou a página soltou um gemido. Passou a mão trêmula peios cabelos pretos e curtos. Bebeu. Sem dúvida estava bebendo há várias horas. Olhei para os jornais que estavam sobre a mesa ladrilhada e contei as palavras dos cabeçalhos. Vi quatro vezes a palavra Nina e quatro vezes a letra B, três vezes a expressão ”tentativa de suicídio” e três vezes a palavra ”caso”

Dei-me conta, então, que o bonito rapaz havia acabado de ler a carta e olhava para mim. Ergueu o dedo indicador em minha direção.

— Quem é você?

— O chofer do Sr. Brummer.

Worm caiu, novamente, sentado sobre a cadeira e repetiu:

— O chofer do Sr. Brummer.. — fechou os olhos. — Ela deve ter perdido a razão... Onde lhe entregou esta carta?

— No hospital — respondi. — Sou um amigo. Pode confiar em mim. Não tenho nenhum interesse em divulgar nada sobre as suas relações.

— Que relações? — levantou-se, cansado. — Não sei de que está falando.

— Claro, claro, Sr. Worm!

— Saia daqui - balbuciou. Tentou andar, mas caiu sentado sobre uma cadeira. O pijama desabotoou-se. Êle estava completamente embriagado.

Dirigi-me para a porta. Em algum cômodo, alguém tinha puxado a corrente da descarga de uma latrina. A parede ressoava.

— Escute! Você!

Voltei-me. Dava-me pena. Um jovem tão bonito. Podia compreender perfeitamente a Nina.

Firmou-se, com enorme dificuldade, sobre as pernas, dirigiu-se, vacilante, em minha direção, mas caiu sobre o banco giratório do piano. Seus cotovelos apoiaram-se sobre o teclado, arrancando sons discordantes, uns graves e outros agudos. Começou a inclinar-se para o lado e eu precipitei-me para ampará-lo com o meu corpo, antes que caísse sobre o tapete.

— Não posso fazê-lo. Sabe? — disse êle.

— Bem, então não faça.

Tornou a levantar-se. Com as costas apoiadas no piano, conseguia manter-se em pé. Seu hálito tresandava a conhaque. Nessa manhã, eu sentira vários cheiros.

— Está em todos os jornais... a polícia está investigando o caso... que aconteceria se soubessem? Preciso de tranqüilidade. Tenho um bom emprego. Conhece o bar Éden?

— Não...

— Um bom emprego. É verdade. Comecei há pouco. Preciso também pensar em mim. Veja... este apartamento... os móveis... os livros... Tudo comprado por mim. Com meu próprio dinheiro... Ganhei... um prêmio... no Conservatório... aqui — bateu com força sobre uma pilha de folhas soltas — minha rapsódia... já compus três quartas partes. Queria comprar um Volkswagen no ano que vem. Disse-lhe que não me poderia casar com ela... nunca lhe menti... por que faz isso? Por quê?

Encolhi os ombros.

— Se Brummer souber acaba comigo. Por que quer fugir? Pergunto a você. Para onde poderemos fugir?

- Não pergunte a mim. Bateu com a mão sobre a carta.

— Air France! Comprar uma passagem para Paris já. Que loucura é esta? Ela está no hospital. Como conseguirá sair?

— Não pergunte a mim.

— Ela precisa de um passaporte. Onde está êle? —• Não pergunte a mim.

— Que faremos em Paris? Eu não sei falar francês. Não tenho dinheiro, nem ela tampouco — agarrou-me pela gola do casaco. — Por que tentou matar-se?

— Não — disse eu. •. ;v — Quê?

— Não me segure. Não me segure.

Soltou-me. - Que há de tão espantoso que ela não possa suportar?

— (Não tenho a menor idéia, — Mas ela o escreve.

— Isso é seu problema.

— Como meu? Ela é casada.

O retrato mostrava uma Nina Brummer formosa, resplandecente e ruiva mas, pelo que eu estava presenciando, não era bastante tentadora e insinuante.

— Eu não a posso ajudar... — Toni Worm dirigiu-se, cambaleando, para a mesa. Encheu um copo, mas derramou muito conhaque fora... — não quero ter nada a ver com isso. Sempre lhe disse que o meu trabalho estava acima de tudo! – gritou com grande orgulho: —- Nunca aceitei dinheiro dela. Nunca admiti um presente. Sou quase dez anos mais moço que ela — a voz se acalmou. — Foi um acordo absolutamente claro entre nós, desde o dia em que ela se insinuou.

— Foi ela quem teve a iniciativa?

— Sim, no bar Éden... — passou a mão pela boca. — Ela é tão linda. Tão formosa. Tão generosa. Nós... passamos momentos muito agradáveis juntos, é verdade... — bateu novamente sobre a pilha de papel pautado. — Mas isto! Pois terços da obra! Nunca fui fingido com ela.

— Devo retirar-me, Sr. Worm.

— Diga-lhe que não posso. Que não deve mais escrever-me. Que deve ficar quieta. Mais tarde poderemos voltar a encontrar-nos. Depois. Desejo-lhe muitas felicidades.

— Mas não encomenda nenhuma passagem para Paris?

— Não. Nem tampouco escreverei. Não a chamarei pelo telefone.

— Muito bem — disse eu. — Agora pare de beber e procure dormir.

— Não posso dormir... Não me julgue mal... gosto muito dela... muito... é terrível, para mim, o que ela fêz... mas... como posso ajudá-la se nada me diz por que o fêz? Algo terrível. Que havia de tão terrível?

— Eu também não sei — respondi. Depois saí.

Quando deixei a obscuridade da escada e cheguei àluz e ao calor do sol ouvi uma voz amiga:

— Bom dia, senhor.

— Bom dia.

— Deus vivo — declarou a testemunha de Jeová. Estava em pleno sol, compenetrada de sua missão.

— É claro, é claro — respondi, dirigindo-me para o Cadillac vermelho e preto. — Já falamos neste assunto antes.

— Oh, queira perdoar — respondeu a mocinha, sorrindo. Mais tarde eu me lembraria desse sorriso...

 

Brilhante e transparente, construído de vidro, cimento e aço, erguia-se o edifício de escritórios no centro de Düsseldorf. No telhado erguiam-se mastros de antenas. As portas de cristal da entrada abriam-se, automaticamente, quando alguém se aproximava. Células de selênio acionavam o mecanismo de abrir e fechar. Sobre o portal duas enormes iniciais douradas, de um metro de altura, estavam embutidas na fachada...

O gigantesco vestíbulo tinha ar condicionado. Um repuxo espargia água num lago, onde nadavam peixes. Lâmpadas vermelhas, verdes e azuis, alternadamente, iluminavam o conjunto. As paredes estavam pintadas de amarelo e cinzento. Homens de aparência dinâmica apressavam-se em todos os sentidos. Também vi muitas raparigas bonitas.

Havia três elevadores. Diante deles estavam postados homens em uniforme azul e que tinham, nas lapelas, as douradas iniciais...

Sobre a maior parede do vestíbulo havia um imponente mosaico em cores: campônios arando a terra, mineiros trabalhando nas minas, mulheres na faina da colheita de uvas, pedreiros construindo casas, pilotos em suas cabinas envidraçadas, sábios debruçados sobre in-fólios ou retortas, marinheiros ao leme de embarcações navegando sobre um mar estilizado. Sobre o imponente mosaico liam-se estas palavras:

Meu campo é o mundo.

Por baixo do mosaico havia uma balaustrada de mogno, onde estavam seis funcionários, três homens e três mulheres.

Todos vestiam uniforme azul e todos tinham as iniciais douradas.

Uma ruiva sorriu quando me aproximei.

— Venho buscar o Sr. Brummer, sou o seu chofer.

A ruiva telefonou a uma secretária e logo passou-me o fone. Ouvi a voz de Brummer. -Tudo está bem, Holden?

— Sim, senhor. Seu empregado preparou uma maleta. Camisas, roupa de baixo, um terno preto.

— Bem.

— O cão está no carro. A cozinheira preparou sanduíches.

— Dentro de cinco minutos descerei.

— Muito bem, Sr. Brummer.

Devolvi o fone à ruiva que o colocou sobre o aparelho. Estava de bom humor. Todos os que estavam no vestíbulo estavam de bom humor, devido à frescura do ambiente. Perguntei-lhe:

— Que espécie de negócio é este? Olhou-me assombrada.

— Sou novato. Comecei a trabalhar hoje — expliquei sorrindo.

— Exportação — disse a ruiva. E também sorriu.

— Que exportamos?

— Muitas coisas. Madeira e aço. Máquinas e produtos sintéticos.

— Para onde?

— Para toda a parte. Para todo o mundo.

— Hum!

— Como?

— Nada — respondi.

Preciso telefonar outra vez. Assunto particular.

—- Ali adiante há telefones públicos.

Dirigi-me para o outro lado, onde havia seis cabinas telefônicas. Sobre as cabinas havia relógios que indicavam a hora em Düsseldorf e no mundo. Em Düsseldorf faltavam dois minutos para as onze. Em Moscou, faltavam dois minutos para uma. Em Nova York, eram cinco horas menos dois minutos, e no Rio de Janeiro, eram sete menos dois. Entrei numa cabina, procurei na lista e achei o número que queria.

Disquei.

— Hospital Santa Maria.

— A Sra Brummer, por favor.

— Lamento. Não posso ligar — eu já esperava por isso e pelo que se seguiu. — O Dr. Schuster proibiu. A doente ainda está muito fraca. Não deve falar.

Respondi:

— Aqui fala Brummer. Quer fazer a fineza de ligar imediatamente para o quarto de minha mulher ou deverei apresentar uma queixa.

— Peço que me desculpe, Sr. Brummer. Cumpro ordens. Eu não podia saber.

— Minha mulher — interrompi — por favor. Ouvi, então, a voz longínqua de Nina Brummer.

— Diga?

— Sou o chofer.

— Sim... e que...

Por que não lhe disse então a verdade? Por que enganei a Nina Brummer? Seria por compaixão? Ou já seria o amor?

Era incrível. Não era possível, tais coisas não existem. Não era Margit, sempre Margit a quem eu amava. Era a ela que Nina Brummer devia essas consoladoras mentiras.

— O Sr. Worm fará o que a senhora propôs. Pede-lhe apenas que tenha um pouco de paciência.

— Paciência?

— A polícia foi visitá-lo. Silêncio.

— Conseguiu convencê-los. Mas, por enquanto, não pode tentar nada a fim de não levantar suspeitas.

— Já... já... — uma tosse sufocante.

— Por isso também não poderá telefonar.

Silêncio.

Pelo vidro da porta da cabina vi que Julius Brummer saía de um dos três elevadores. Dirigiu-se para a recepção. A ruíva apontou para mim. Continuei falando ao telefone:

— Devo dizer que êle a ama.

Era apenas uma piedosa mentira. Dentro de dois ou três dias ela estaria bastante forte para ouvir toda a verdade. Continuei mentindo.

— Seus pensamentos estão com a senhora. Sempre. Julius Brummer chegou até a cabina e fêz-me um sinal. Assenti com a cabeça.

— Deverá ter paciência. Um pouco de paciência.

— Obrigada — gemeu a voz.

— Adeus — e desliguei.

Saí da cabina. Julius Brummer vestia uma roupa de verão, de côr bege, sandálias amarelas e uma camisa esporte amarela, aberta.

— Tinha que despedir-se rapidamente de sua pequena?

— Fiz que sim, com a cabeça.

— Uma bela morena?

— Uma formosa ruiva. Riu-se.

Em Moscou era uma hora e quatro minutos. No Rio de Janeiro eram sete horas e quatro. Em Düsseldorf, eram onze e quatro e fazia muito calor.

 

O CALOR AUMENTAVA.

Dirigimo-nos ao sul pela auto-estrada que passa por Colônia e Coblenz, em direção à Limburgo. Aí tomei a estrada nacional número 49, em direção a Giessen e Lich. Dessa forma evitei alongar a viagem, passando por Francfurt. A estrada nacional número 49 estava em reparos. Havia três barreiras e dois outros pontos onde tive que parar.

Julius Brummer observava-me.

— Gosta do carro, não?

— Sim, Sr. Brummer.

— Dirige bem, considerando que você não é um profissional.

Calei-me, pois compreendi onde queria chegar. Descobri-lhe uma nova faceta: êle também gostava de dirigir. •— Muito tempo sem dirigir?

— Não, Sr. Brummer.

— Quanto tempo, Holden? Dei-lhe a satisfação que desejava:

— Desde que fui para a prisão.

Grunhiu um assentimento. Apertei o acelerador porque êle já me dissera que gostava de viajar rapidamente.

Chegamos a um bosque onde a temperatura era mais fresca. Paramos. O velho cão, que estava entre nós dois saltou e correu sobre a relva.

Retirei o cesto de vime com a comida e uma caixa térmica portátil que estavam na mala do carro. Na caixa térmica, havia quatro garrafas de cerveja gelada. As garrafas verdes cobriram-se de gotículas ao contato com o ar e a cerveja estava tão fria que doía nos dentes.

Sentamo-nos à beira de um regato que corria paralelo à estrada. Vi as pedrinhas no fundo da água e alguns pequenos peixes que me fizeram pensar nos do lago de Düsseldorf. Os do riacho me pareceram mais bonitos.

O bosque estava silencioso mas, ao longe, ouviam-se lenhadores derrubando uma árvore. Os golpes dos seus machados soavam secamente. Mila Biellova havia preparado três qualidades de sanduíches: queijo, pimentão e tomates. Libélulas dançavam sobre o riacho. O velho cão pousou a cabeça nos joelhos de Brummer.

— O Pupele está novamente com fome — Brummer deu-lhe um sanduíche, que o cão comeu na mão do dono — porque nossa mulherzinha já está fora de perigo — olhoume. -— Vivo com o cão como se fosse uma pessoa. Dorme na minha cama. — ”Então onde dorme a Sra Brummer?” — pensei eu..— Sim, meu velho, és o mais elegante de todos embora não te tenham cortado as orelhas — notava-se indignação em sua voz. — Compreende Holden? Há pessoas que cortam as orelhas dos cães. Porque é a moda. É uma besteira. Se dependesse de mim, mandava-os para a cadeia — começou a rir às gargalhadas. Oh, oh, oh, esta palavrinha, não gosta de ouvi-la, não é verdade?

Pensei que não devia dar maior atenção e pegando um sanduíche de queijo, perguntei-lhe:

— Não vai mover uma ação contra o jornal Tagesspiegel, Sr. Brummer?

— Contra o Tagesspiegel, por quê?

— O Tagesspiegel diz que o senhor está em dificuldades financeiras e que foi por isso que sua esposa tentou suicídio.

Uma sombra invadiu o seu rosto.

— Os porcos! - falava com a boca cheia. — Há dificuldades, sim. Certas dificuldades. Minha mulher levou a sério demais — seus olhos cerraram-se até ficar como estreitas frestas e continuou murmurando de forma quase imperceptível: — Eu me defenderei... esperem que eu volte a Düsseldorf. Querem liquidar-me, os porcos... espere que eu volte da zona, Holden. Então ajustarei contas com todos eles — atirou um pedaço de pão no riacho. — Minha pobre mulher. Tudo a afeta muito porque me ama. Só há três seres no mundo que me amam, Holden — puxou as calças para cima e dirigiu-se para o carro. — Minha mulher, a velha Mila e o meu Pupele. Guarde as garrafas e o papel.

— Sim, Sr. Brummer - respondi e pensei que Julius Brummer contava um velho cão entre os seres que gostavam dele e pensei no jovem Sr, Worm, o das pestanas sedosas.

As libélulas bailavam sobre a água e os raios do sol penetravam, diagonalmente, por entre as velhas árvores. Eu gostara muito de comer à beira do riacho. Os sanduíches estavam excelentes e a cerveja aromática. Era Pilsen. Embalagem original.

 

A auto-Estrada estava quentíssima.

Depois de Alsfeld, fiz uma média de cento e trinta por hora. O vento sibilava ao redor do carro. O velho cão dormia entre nós dois. Julius Brummer fumava um grosso charuto.

Galgamos, à grande velocidade, as curvas dos montes Knull entre Niederjossa e Kirchheim e voltamos à planície antes de Bad Hersfeld. No horizonte, a oeste, pequenas nuvens subiam para o céu. Via-se a grande distância, por todos os lados. Havia prados verdes, campos amarelos ou côr de terra. Viam-se muitos povoados na campina, com paredes brancas e telhados vermelhos e muitas igrejas. Havia muitas igrejas nesta comarca.

Depois do trecho entre Bad Hersfeld e Fulda a autoestrada recomeçava a subir. O bosque ficava muito perto da estrada. As árvores tinham uma côr verde-escuro e, muitas vezes, pareciam negras. Os bosques emanavam um cheiro agradável e refrescavam o ambiente. Agora passávamos por longas colunas de veículos militares americanos. Vimos caminhões de duas toneladas e meia, sem cobertura, carros blindados pesados e jipes. Nos caminhões estavam soldados com capacete de aço e uniforme camuflado. Das vigias dos carros blindados surgiam cabeças de soldados com capacetes de couro e fones nos ouvidos. Nos jipes viajavam muitos oficiais. A maioria dos choferes era constituída de pretos.

Em todas as entradas para a estrada vi muitas bandeiras de várias cores e soldados, solitários, com metralhadoras portáteis. Contei, em um trecho, setenta carros blindados e mais de cem caminhões. Não contei os jipes porque eram em número muito maior.

— Manobras — observou Julius Brummer, sacudindo a cinza do seu negro charuto. — Os americanos estão em grandes manobras.

Baixou o vidro de sua porta e acenou com a sua mão pequena e rosada.

Alguns soldados responderam à saudação mas muitos não o fizeram.

— Se eu fosse uma rapariga bonita, todos me saudariam — declarou Julius Brummer.

Passamos à grande velocidade, pelos caminhões e, pouco tempo depois, alcançamos outra fila de tanques. Estavam pintados de verde e castanho, tinham antenas e ao redor da pequena torre estavam amarrados os capacetes e as mantas dos tripulantes. Os tanques, os caminhões e os jipes dirigiam-se para o oeste.

— Você foi soldado, Holden?

— Sim, Sr. Brummer.

— De que arma?

.— Divisão encouraçada.

— Que lhe parece esse material, imponente, não?

— Imponente.

— Embora tudo pareça ridículo quando se pensa nas bombas de hidrogênio.

— Um tanto ridículo, é claro,

— Quer um cigarro?

— Não, obrigado, Sr. Brummer.

Ao lado direito da estrada havia letreiros em inglês e alemão que diziam:

”atenção faltam apenas cento e cinqüenta metros PARA O LIMITE DA ZONA”

A auto-estrada seguia, novamente, vale abaixo. Tinha-se uma visão ampla para o lado oeste. Havia aldeias com paredes brancas, telhados vermelhos e muitas igrejas. Os campos eram verdes e dourados com alguns pedaços onde aparecia a terra castanha. Vi uma grande cidade, com muitas chaminés que soltavam fumaça.

— Eisenach — disse Brummer. — Já estamos quase do outro lado.

— Sim, senhor — respondi.

Mas não havia nenhuma diferença na paisagem. Viam-se as mesmas coisas. À beira da estrada começaram a aparecer torres de madeiras e alguns bunkers. Nos prados avistei homens com uniformes verdes. Tinham fuzis. Alguns empurravam bicicletas, muitos estavam acompanhados por cães e outros estavam parados com binóculos aos olhos observando a cidade das chaminés fumacentas que se chamava Eisenach e estava ”do outro lado”.

Repentinamente, acabou a auto-estrada, diante de uma ponte destruída. Havia letreiros em três idiomas informando que faltavam vinte e cinco quilômetros para o posto de controle da zona, em Herleshausen — Wartha. Seriam vinte e cinco quilômetros por uma estrada secundária.

O Cadillac começou a sacudir nas desigualdades de um campo onde pastavam vacas. Na última meia hora tudo ficara mais silencioso. Vimos poucos automóveis. A maioria com as chapas brancas da zona. A estrada era muito estreita e poeirenta. Tivemos que levantar os vidros. O campo era cada vez mais pobre e os camponeses pareciam tristes e sérios.

— Isto aqui é o refugo do mundo — comentou Brummer.

— Um bosque de árvores raquíticas. Uma povoação imunda. Posto de gasolina. Lojas de comestíveis. Meninos com os dedos no nariz. Areia e poeira. Casas de taipa, sem revestimento.

— Aqui ninguém faz nada. As ruas são asquerosas. Pronto para a próxima guerra.

— Sim, Sr. Brummer.

— Será uma sorte. Na próxima vez os outros é que serão os culpados.

— Sim, Sr. Brummer.

A rua era, na verdade, uma lástima. Sem calçamento e cheia de buracos.

 

As POVOAÇÕES eram cada vez menores. Em um certo ponto, num local chamado Eschwege, o Sr. Brummer mandou-me parar diante de uma loja.

— Compre bombons e chocolate - deu-me dinheiro. — Dos mais baratos que houver para ser maior a quantidade. Na zona sempre há crianças na beira da estrada. E que culpa têm as crianças?

Entrei na pequena loja e comprei trinta marcos de chocolates e bombons. Deram-me uma grande quantidade, tudo dentro de uma caixa de papelão.

Quando passávamos pela igreja de Eschwege, começaram a soar os sinos. Eram quinze horas. Um carro fúnebre estava parado na praça, diante da igreja, e havia muitos camponeses com suas mulheres. Estavam todos vestidos de preto e de pé, sobre o pó vermelho, olhando, enquanto bombeiros, uniformizados, retiravam o caixão do carro e o levavam para a igreja. Os bombeiros suavam. Tinham calças e botas pretas, túnicas vermelhas com alamares dourados e capacetes pontiagudos nas cabeças. Nesse momento os sinos pararam de tocar. Fêz-se um grande silêncio na praça e só se ouviam as orações das mulheres.

— Um enterro dá sorte — disse Julius Brummer torcendo um botão de sua jaqueta.

O pó vermelho penetrou no carro. Sentia-o na garganta entre os dedos, no volante. O velho cão dormia. Respirava fortemente. O calor começava a amolecer o chocolate destinado às crianças.

O último local, antes da fronteira, chamava-se Herleshausen. Por trás da povoação havia um majestoso viaduto, sobre a estrada, que levava até uma ponte na auto-estrada. Aqui acabava um caminho e um outro, poeirento, seguia até o posto de controle da zona da Alemanha Ocidental. Neste ponto havia alguns caminhões e carros de turismo. Havia um pequeno albergue com um fonógrafo automático e uns doces de aspeto venenoso, sob uma campanula de vidro. Havia um posto de gasolina, pintado de amarelo e vermelho e, também, muitas moscas. Música vinha de dentro do albergue. Frank Sinatra cantava: Hey jealous lover.

As empregadas eram muito amáveis.

Vestiam calças côr de ervilha, camisas verdes e suavam. Apresentamos os nossos passaportes. Os funcionários nos saudaram, desejando boa viagem. A barreira com as cores preta, vermelha e amarela, levantou-se e saímos de uma péssima estrada para entrar na outra Alemanha.

Na outra Alemanha os funcionários também eram muito amáveis e também havia uma bandeira negra, vermelha e amarela sobre a barreira. Os policiais da aldeia usavam uniformes côr de terra e eram mais jovens que os guarda-fronteiras do oeste. Havia, também, raparigas em uniforme. Usavam calças azuis e blusas e suavam tal como os homens com uniformes côr de terra e como os homens, mais além, no oeste.

Para onde vão, senhores? — perguntou o jovem saxão que estava junto à barreira.

— Para Berlim-Oeste — disse Brummer. (Não se podia ir simplesmente até o cruzamento de Hermsdorfer e depois voltar. Era preciso ir até Berlim.)

— Primeira barraca — disse o policial da aldeia.

À direita da estrada havia uma estação de trens com muitas linhas. À sombra do prédio cia estação estavam muitas pessoas sentadas. Esperavam o trem. A estação chamava-se Wartha. Grandes montes de carvão reluziam ao sol, entre os trilhos. Tudo estava em paz em Wartha naquela tarde.

Vesti a minha jaqueta e fomos, os dois, até a barraca onde registravam os documentos, pagamos o pedágio da autoestrada para Berlim e deram-nos um recibo.

Perguntaram-me quantos marcos do oeste tinha comigo e anotaram o total, trezentos e vinte e cinco, sobre a licença para passar.

Fizeram a mesma pergunta a Brummer e êle não sabia de memória, quanto dinheiro tinha.

— Então mostre a carteira, Sr. Diretor — disse-lhe o policial.

Contemplei os grandes quadros que havia nas paredes. Eram retratos de Pieck e Grotewohl, Arndt e Lessing, Joliot Curie e outros personagens que eu não conhecia. Por baixo dos quadros havia máximas e poesias. Li algumas e saí para o ar livre. De algum alto-falante saía música: a orquestra de camera de Leipzig executava uma seleção de peças de Peter Kreuder.

As árvores, por trás do ponto de controle, eram silhuetas escuras contra o céu claro. Quatro policiais da povoação jogavam skat. Uma voz de tenor cantou pelos alto-falantes: ”não preciso de milhões nem me falta um centavo para ser feliz...”

Dirigi-me para o carro junto ao qual estava um jovem policial. O Vopo era magro, muito ruivo e teria, no máximo, vinte anos. Mostrei-lhe a licença para passar e abri a porta. O velho cão ergueu a cabeça.

Tornei a tirar a jaqueta para pendurá-la no gancho do carro. O meu gesto fêz sair do bolso o jornal que foi cair bem aos pés do Vopo. Tinha-me esquecido, completamente, daquele jornal.

 

O calor foi A causa de tudo que aconteceu. Se naquele dia o calor não estivesse tão barbaramente forte, todos teríamos reagido de maneira diferente, inclusive o cão. Foi o calor e nada mais.

— Que é isto? — perguntou o ruivo Vopo. Abaixouse e apanhou o jornal — Testemunha de Jeová. O senhor é uma testemunha?

— Não.

Leu, em silêncio, o cabeçalho de um artigo e também em silêncio eu acompanhava a leitura: O COMUNISMO NÂO PODE EMUDECER A UM VERDADEIRO CRISTÃO. Em voz baixa, perguntou-me o ruivo Vopo:

— Que pretende o senhor com isto?

Parecia desejar que o jornal não tivesse caído do meu bolso e eu, provavelmente, tinha a mesma aparência.

—- Nada — disse-lhe.

- Onde o conseguiu?

—- Em Düsseldorf.

Pensei no vestido preto, no rosto pálido, no chapéu em forma de bolo. Os óculos de grossas lentes. A voz cheia de coragem: ”Bom dia, senhor. Deus vive...”

Julius Brummer aproximou-se rapidamente. Falou com voz alegre:

— Alguma dificuldade?

— Seu chofer — começou o Vopo, mas nunca chegou a terminar a frase.

Talvez êle se tenha movido de forma brusca ou talvez o cheiro de suas botas desagradasse ao cão. Penso, entretanto, que foi tudo por causa do calor que fazia.

O velho cão ladrou subitamente, saltou do carro e mordeu. Seus dentes amarelados cravaram-se nas nádegas do Vopo.

— Pupele — exclamou Julius Brummer, horrorizado.

O velho cão limitou-se a rosnar ameaçadoramente. A calça rasgou-se chiando. A perna esquerda da calça do policial ficou completamente rasgada deixando à mostra a pele, uma parte das cuecas, nada de sangue. O ruivo policial praguejou, enfurecido. Avançou sobre o cão e deu-lhe um pontapé nas costelas. O velho animal voou pelos ares e foi cair gemendo, junto à barraca.

Dois rapazes uniformizados correram em nossa direção. Os quatro policiais que estavam jogando cartas também se aproximaram. Mais pessoas chegaram. Estavam todos em volta, sem falar, sob o sol ardente. O magro e ruivo Vopo contemplava suas calças rasgadas. Ainda tinha em sua mão O Atalaia.

Julius Brummer estava ofegante. Eu sentia que êle estava amedrontado e os outros também pareciam senti-lo. Quase podia-se sentir o cheiro do medo de Julius Brummer. Balbuciou:

— O senhor queira desculpar...

O policial ruivo olhava para aquele homem grande e gordo apoiado contra o Cadillac vermelho e preto com pneumáticos de banda branca.

—... Por favor desculpe. Meu cão é velho. Já não vê nada. Ás vezes se espanta por qualquer coisa...

Continuava a chegar mais gente. Ninguém falava. Pelo alto-falante cantava o tenor: ”nada preciso senão música, música, música...”

— Um cão muito velho — dizia Julius Brummer suplicante. — Quase cego. É verdade, quase cego...

Olhavam-no como se fosse um habitante de outro planeta. Todos eram jovens mas seus rostos eram velhos e não havia ninguém tão gordo quanto Julius Brummer.

— A calça está perdida — disse o ruivo Vopo.

— Eu a pago. Pago tudo. Felizmente o senhor não está ferido. Diga-me quanto custam as calças.

— Eu não sei.

— Deixarei o dinheiro aqui. Depositarei qualquer quantia que queira. O meu seguro cobre tudo que o cão possa fazer.

— Aqui não.

— Como?

— O seu maldito vira-latas deveria ter rasgado minhas calças no Oeste.

Era verdade. Cinqüenta metros mais para o Oeste, as calças não teriam sido nenhum problema. Rrummer perdeu a cabeça.

— Pelo amor de Deus, eu lhe dou o dinheiro. Precisamos prosseguir. Tenho uma importante reunião de negócios.

Cometia um erro após outro. Puxou sua recheada carteira, tirou algumas notas e estendeu a mão em direção ao jovem policial que as contemplou mudo e com repugnância, sem fazer um gesto para apanhá-las.

- Vamos homem.

O ruivo Vopo limitou-se a sacudir a cabeça em sinal negativo e continuava parado, ao sol, pálido e magro, ridículo dentro da calça estraçalhada sob a qual se via a pele acinzentada e as brancas cuecas. O velho cão arrastou-se até Julius Brummer e começou a lamber-lhe os sapatos.

O jovem policial disse a um outro:

— Chama o suboficial de serviço.

— Para quê? — exclamou Brummer desesperado. — Tome o dinheiro. Tenho pressa, meu Deus.

— É preciso fazer um auto.

Julius Brummer virou-se para mim, gritando:

- Não fique aí parado como um idiota. Fale com este homem. Se não tivesse deixado cair esta porcaria, tudo estaria bem.

— Tudo estaria perfeito, também, se tivéssemos chegado num Volkswagen velho e não num Cadillac — respondi, com a intenção de ajudar Julius Brummer. Sorri para o Vopo com a confiança que há ”entre gente pequena” — Não é verdade, amigo?

— Lamento — disse, mais amável. — Mas não há outro remédio senão lavrar um auto.

— Mas, meu velho, deixa de lado coisas descabidas. O chefe tem pressa.

— Eu o lamento.

— Escuta, na volta passaremos por aqui. Recebe o dinheiro como garantia.

— Tenho que lavrar o auto — respondeu teimosamente. Os outros estavam calados, sob o sol ardente. Olhavam

todos para Julius Brummer com aspeto indiferente mas sem simpatia. E êle estava no meio da estrada com a carteira na mão e muito dinheiro do Oeste que desde meio quilômetro antes não servia para nada.

O suboficial de serviço chegou quase imediatamente. Seguimo-lo até um pequeno escritório onde zumbiam moscas. O suboficial sentou-se diante de uma velhíssima máquina de escrever e começou a lavrar, lentamente, o auto e lentamente todos fizemos nossas declarações, o jovem Vopo, Julius Brummer e eu.

Todos suavam no pequeno escritório e quem mais suava era Julius Brummer. Tornamos a ser muito corteses, uns com os outros. Havia um relógio na parede e vi quando indicava às 16h, às 16h30m e às 16h45m. Às 17 horas olhei para Julius Brummer e êle encolheu os ombros. Pensei na pálida rapariga vestida de preto, de Düsseldorf, e ouvi a sua corajosa voz falando do fim do mundo, de Noé e sua família. Também dos homens que amam a justiça tinha ela falado mas disso eu não me recordava.

 

Às 17h e 15m consentiram que prosseguíssemos viagem. A brincadeira acabara custando oitenta marcos a Julius Brummer. Vinte marcos de multa e sessenta para pagar as calças. Pelo menos tinha dois recibos e tudo ficara em ordem. O jornal dos Testemunhas de Jeová foi devidamente confiscado.

— Faltam cento e sessenta e três quilômetros para o cruzamento de Hermsdorfer — disse-lhe quando passamos a segunda barreira e avistei um poste indicador. — Se eu apertar o acelerador estaremos lá em setenta minutos.

— Não vá além dos oitenta, não quero mais encrencas

— disse Brummer. Estava fumando outro grosso charuto. — O sujeito do cruzamento esperará. Para isso é que lhe pago

— parecia ter certo consolo pensando que ainda havia gente que podia pagar.

A estrada que levava à auto-estrada era tão má quanto a do Oeste, as casas também pareciam fora de prumo e os habitantes do campo igualmente pobres.

Em breve chegamos à auto-estrada, logo além de Eisenach. Estava parcialmente destruída e eram freqüentes as tabuletas com o aviso: DESVIO.

As chaminés de Eisenach desprendiam fumaça. As vidraças das casas refletiam a luz do sol que descaía para o Oeste. Nas montanhas, além da cidade, havia muitas rochas brancas destacando-se do bosque negro. Sobre algumas das rochas erguiam-se castelos.

Depois de meia hora de caminhada chegamos onde a auto-estrada estava intacta. Corria reta como uma flecha, em direção a Leste, sobre um altiplano.

Aí encontramos grandes colunas de veículos militares soviéticos. Havia tanques pesados, caminhões abertos e jipes. Sentados nos caminhões estavam muitos soldados russos com uniformes verde-amarelado e nos jipes oficiais com boinas vermelhas. Pelas vigias dos tanques, viam-se cabeças com capacetes de couro e fones aos ouvidos. As colunas que encontramos dirigiam-se para o Oeste.

Comecei, novamente, a contar os carros blindados e Julius Brummer passou a mão pela janela e começou a agitá-la. Alguns dos soldados corresponderam à saudação.

— Aqui também estão em manobras?

— Sim, Sr. Brummer.

Continuamente passavam mais carros de combate e caminhões. Nas montanhas avistavam-se mais castelos. Muitos deles eram negros e pareciam ter sido incendiados, outros eram vermelhos e davam a impressão de serem habitados.

— Há uma quantidade de tanques na estrada! Espero que a guerra não comece antes da nossa chegada a Berlim. Seria uma brincadeira de mau gosto, não é verdade Holden?

— Sim Sr. Brummer, seria uma brincadeira sem graça. Gotha. Erfurt. Weimar. Iena.

17h45m, 18h, 18h30m.

A luz do sol era agora vermelha. A côr das coisas mudava constantemente.

O velho cão descansava no assento de trás. Tinha a intuição que seu amo estava aborrecido com êle e escondia a cabeça entre as patas.

Brummer ligou o rádio do carro que ainda estava sintonizado com uma emissora do Oeste. Ouviu-se a voz do locutor: ”... muitos galãs de cinema ficariam felizes se, em poucas semanas, perdessem quatro quilos de peso. Para Montgomery Clift isto representa uma catástrofe. Premido por muito trabalho cinematográfico e estando em más condições físicas, o aplaudido ator consultou um especialista que prescreveu uma dieta constando de lagosta, caviar...”

Julius Brummer desligou o rádio. Os campos pareciam ser de ouro vermelho, os prados eram violeta e o céu, para o lado oeste, começava a perder a côr.

Às 18h45m chegamos ao cruzamento de Hermsdorfer. No meio das muitas curvas cinzentas da pista vi que havia muita gente. Os Vopos dirigiam o tráfego. Havia uma ambulância na relva ao lado da estrada.. , Um Vopo nos fêz parar „ Disse, cortêsmente:

— Deverão entrar no desvio do ponto de parada.

— Por quê? — perguntou Julius Brummer.

-- Um acidente — explicou o Vopo. — Há duas horas. Um PKW atropelou um homem e fugiu.

O rosto de Julius Brummer ficou cõr de cinza.

O Vopo continuou:

.— Teve morte imediata. Em minha opinião é uma história esquisita. Cheira-me a chamusco.

— Como assim? — perguntei eu.

— Olhe companheiro. O homem estava à margem da estrada. Em pleno sol. Foi atropelado e jogado a vinte metros de distância. E o porco que estava no volante nem sequer parou. Que lhe parece?

— Sabem quem era o homem?

— Não tinha nenhum documento. Era meio velho. Usava uma capa preta de borracha! Com este calor. Devia estar meio louco.

 

Atrás de nós, outros carros pararam. Começaram a buzinar. O Vopo fêz sinal para que continuássemos. Quando o carro recomeçou a rodar, notei que Julius Brummer estava sentado numa postura forçada, com as pernas esticadas e apoiando as mãos no assento. Seu rosto estava pálido e seus lábios tremiam. Murmurou:

— Siga...

Segui pela estrada e detive o carro no grande estacionamento do ponto de parada que fora construído durante o In Reich e tinha o estilo típico daquela época: longas fileiras de janelas, gigantescas portadas e colunas.

Julius Brummer estava imóvel. Seu rosto estava azul, a boca aberta e a língua enrolada. Abri a sua camisa e vi que tinha ao pescoço uma fina corrente de ouro. Na corrente havia uma placa de ouro do tamanho de uma moeda de cinco marcos. Gravadas sobre a placa havia as seguintes palavras:

ESTOU COM UM PERIGOSO ATAQUE DE CORAÇÃO. POR FAVOR TIRE DO BOLSO DIREITO DO MEU CASACO UMA DAS CÁPSULAS E PONHA EM MINHA BOCA. OBRIGADO.

JULIUS BRUMMER.

No bolso direito de sua jaqueta encontrei uma caixinha. Dela tirei uma cápsula mole e transparente que continha um líquido vermelho. Coloqüei-a na boca de Brummer e apertei-lhe as mandíbulas.

Um leve ruído me fêz saber que a cápsula se havia aberto. Esperei um minuto. Êle voltou a respirar, o rosto perdeu a côr azul, abriu os olhos.

— Posso fazer alguma coisa para o senhor?

— Nada. Já me sinto bem, novamente. Isto me acontece com freqüência — abotoou a camisa, meio envergonhado. — Agora, para o futuro já sabe o que é. Preciso de alguns minutos de descanso. Vá ao local do acidente para verificar o que fizeram com a pasta que o morto devia ter na mão. É muito importante para mim. Preciso absolutamente saber o que aconteceu com a pasta.

— Sim, Sr. Brummer.

Desci do carro e voltei à auto-estrada. Ainda havia muitos curiosos. O acidentado e a ambulância já se tinham afastado mas os Vopos estavam fotografando o charco de sangue na pista, as marcas das rodas sobre a relva e pegadas.

Parei perto de dois rapazotes e ouvi a sua conversa:

— Não há sinal de terem freado. Bateram no pobre velho a cem por hora e por trás.

— Algo político. Quê?

— Assunto político. Provavelmente um americano.

— Bah, bobagem.

— Tu mesmo disseste que não frearam. E o morto não tinha documentos.

— Eu também não tenho.

— Mas tu és um menino. Quando uma pessoa maior não tem documentos é porque se trata de algo político.

— Bah, besteiras.

— Não se vire rapidamente — disse a meu ouvido uma voz chorosa. — Não mostre que me conhece.

Acendi um cigarro, voltei-me e ofereci o maço ao homem que estava atrás de mim. Era o Sr. Dietrich, o agente pessimista com dentadura escangalhada e que eu conhecera, na véspera, quando fora buscar o Sr. Brummer. À luz do dia o seu aspeto era ainda mais lamentável. O suor reluzia em sua pálida testa enquanto que o nariz, por causa do resfriado, estava inchado e arroxeado. Os olhos estavam gotejantes. Resignados e sem brilho descansavam por trás dos vidros dos óculos. Dietrich vestia calças cinzentas, muito enrugadas, sapatos muito gastos e um velho casaco marrom. Sentou-se ao chão. Sentei-me a seu lado. Êle cheirava a saliva e a camomila. Os dois meninotes acompanhavam os Vopos que espalhavam pó de magnésio sobre a estrada a fim de encontrar novas marcas.

Expelindo saliva pelas falhas entre os dentes, disse-me Dietrich:

— Eu estava aqui. Aconteceu às cinco menos um quarto — suas mãos estavam sujas e trêmulas..— Foi um OpelKapitan com três passageiros. Posso descrever o carro e tenho o seu número. Vi tudo com exatidão. Pararam, mas lentamente e por isso os Vopos não encontraram sinais de freada. Um deles desceu e correu para trás. Dietrich riu, com um balido.

— A pasta. Foi apanhar a pasta... Onde está o seu patrão?

— No estacionamento.

—- Diga-lhe que tenho que falar com êle.

— Venha comigo.

— Há policiais demais. Preciso ser prudente. Que espere meia hora. Eu irei a pé. Poderão alcançar-me do lado direito da estrada em direção a Eisenberg. Quando me alcançarem subirei no carro, contanto que só estejam nele vocês dois. Diga-lhe que não tente nenhuma bobagem, pois estamos na zona.

 

O SOL DESAPARECERA.

A noite vinha chegando e fazia mais frio. No Oeste o céu ainda estava vermelho, a Leste já perdera a côr. Levei o carro para dentro dos bosques de Eisenberg.

— Ali está — disse Brummer, que já se havia recuperado. Na beira da estrada, adiante de nós, caminhava Dietrich, com as mãos nos bolsos das amarrotadas calças, como se fosse um vagabundo.

Apertei o freio. O cão rosnou quando Brummer abriu a porta e deixou o agente entrar.

— Quieto Pupele,

Estávamos os três sentados no banco dianteiro. Os bosques afastavam-se da estrada e, de quando em quando, aparecia uma grande planície. Dietrich falava com um tom de voz submisso, embora me parecesse também atrevido e zombeteiro.

— Lamento o que aconteceu, Sr. Brummer.

— Como é que veio até aqui?

— Recebi um aviso. Ontem. Em Düsseldorf. Brummer voltou-se para mim:

— Pare na próxima parada. Desceremos os dois para palestrar.

— Sim, Sr. Brummer.

— De forma alguma — declarou Dietrich. Teve um sorriso forçado. — Todos os carros que param tornam-se suspeitos para os Vopos. Especialmente os carros com chapa do Oeste. O senhor julga que eu quero que me prendam por esse caso?

— E você pensa que vou falar na presença do meu chofer?

— Então deixe o carro andar.— o pequeno e triste Dietrich estava irreconhecível. — Não pretendo saltar. Ou falamos com o carro andando ou não falamos.

Houve um silêncio. Brummer acariciava o velho cão e olhava para frente, para a faixa branca do meio da estrada que parecia fugir diante de nós.

Perdera o primeiro round para Dietrich. Agora eu é que sentiria essa derrota.

— Holden?

— Sr. Brummer?

— Você está se tornando testemunha de meus assuntos privados — elevou a voz. — Você vem da prisão, Holden. A mim pouco importa. Eu lhe dou trabalho. Mas se você deixar escapar uma só palavra do que ouvir e vir aqui, estará perdido. Está-me compreendendo? Você nunca mais encontrará trabalho no Oeste. Conheço muita gente. Posso ou não posso liquidar um homem quando quiser, Dietrich?

O agente fêz que sim com a cabeça. — Diga-o.

— O Sr. Brumer pode liquidar qualquer um, se lhe der a vontade. Assim sendo, fique com a boca fechada, camarada.

— Está claro, Holden? — agora voltava a ser o homem forte. Brummer, o patrão. Brummer, o que não admitia resistências. Brummer, o titã.

— Está perfeitamente claro, Sr. Brummer — concordei. Seu ânimo elevou-se de novo depois da sua vitória sobre mim.

— Agora vamos ao assunto, Dietrich. Que espécie de aviso recebeu você?

- Que eles estavam no encalço do nosso homem. Aliás dos papéis.

— De quem procedia o aviso?

— Sou um homem pobre mas tenho amigos. A informação veio de uns amigos.

— Por que não me informou?

— Não consegui encontrá-lo. Telefonei uma vez para O hospital. Palavra de honra.

— Você está mentindo.

— Eu sou um homem pobre.

— Você é um porco.

— Mas um porco pobre, Sr. Brummer. Um pobre porco deve saber onde tem suas dores. Eu estou doente dos pulmões.

— Sim, seu porco — disse Julius Brummer. A estrada recomeçava a subir. Para o norte o horizonte era violeta e brümoso. A luz diminuía. — Agora vejo tudo claro. Você veio até o cruzamento e esperou. Não quis avisar ao seu camarada.

— Não era meu camarada.

— Você pensava: veremos quem o consegue, Brummer ou os outros. Os outros o conseguiram. Assim sendo, você esperou por mim. Se eu o tivesse conseguido, você se uniria aos outros para pegar-me pela garganta.

— Nós, os pobres, não podemos escolher, Sr. Brummer. Quando se é rico, como o senhor, encaram-se as coisas de outra forma — Dietrich espirrou e o cão rosnou.

— Quieto Pupele. Poderia denunciá-lo no próximo pôsto de controle, sabe?

— Sim, Sr. Brummer. Naturalmente, Sr. Brummer. Neste caso eu teria que contar tudo que sei. Seria muito engraçado, Sr. Brummer, não é verdade?

— Meu chofer contou-me que você sabe o número do automóvel. Esse foi o seu segundo erro. Automaticamente estava me envolvendo no assunto.

— É verdade.

— Quem me garante que você não está mentindo?

— Ninguém Sr. Brummer. O automóvel ainda está na estrada, mas dentro em pouco alcançará o anel de Berlim. Na fronteira da zona tenho amigos. Se chegarmos a um acordo, salto em Schkenditz. Ali há um ponto de parada. Telefonarei aos meus amigos e eles seguirão o carro desde que o senhor pague o que queremos. Os papéis estão no carro. Se não chegarmos a um acordo os papéis seguirão amanhã, por via aérea, para o Oeste.

— Provavelmente tudo isso é uma invenção. Nunca vi esses papéis.

— Mas eu os vi.

— Você é um embusteiro.

Dietrich falou com o orgulho dos proletários:

— Eu não me deixo insultar pelo senhor, Sr. Brummer.

— Escute aqui. Isto é uma chantagem!

— Há anos que venho executando um trabalho sujo para o senhor e o senhor me tem pago mal. Por quê? Porque sabe algo a meu respeito. Provavelmente sabe algo sobre muitas pessoas. Agora eu sei algo sobre o senhor.

— Você não sabe nada.

— Espere que os papéis cheguem ao Oeste, Sr. Brummer. Tirou do bolso um lenço muito sujo, assoou-se e olhou cheio de pena de si mesmo, para o resultado da operação.

— Estou cansado da vida. Tenho quarenta anos..

”Este também”, pensei eu.

—... aos quarenta começa-se a pensar. ”Raios”, pensei eu.

~- Quero dizer que todos vêem, uma vez na vida, passar a sorte. Agora está passando a minha. Quero ir para Munique e ser dono de um café. Fui copeiro e entendo algo do assunto.

Passamos por um letreiro:

PARADA DE SCHKENDITZ - 17 QUILÔMETROS.

— Olhe, Sr. Brummer, mesmo os pequenos devem pensar no futuro. Segurança é o que todos querem.

— Quanto?

— Vinte mil.

— Está louco.

— Tenho despesas. Tenho que pagar aos meus amigos de Berlim.

Começava a escurecer. Acendi os faróis baixos.

-- Sabe, Dietrich? Pode ir à m...

-- Vinte e cinco mil, Sr. Brummer. Cinco mil mais pelo que acaba de dizer. Sou pobre mas sou um homem, como o senhor. Não deixo que me insultem.

— Eu não me deixo roubar. Ainda menos por um porco, como você. Holden!

— Sr. Brummer?

— Pare e bote este sujeito para fora.

Levei o carro até a beira da estrada. O ar tornara-se úmido e escorreguei sobre a relva molhada quando desci e passei por trás do carro para abrir a porta do outro lado.

— Não precisa ter trabalho, camarada — disse-me Dietrich descendo. — Quando chegarem os papéis a Düsseldorf você também terá que procurar outro emprego — enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e começou a afastar-se.

Quatro passos. Seis passos. Sete.

— Cinco mil — disse Brummer.

O homem dos óculos de aço continuou a caminhar, coxeando pela estrada, penetrando no crepúsculo.

— Dez mil.

Não houve qualquer resposta.

— Quinze e isto é a minha última palavra.

O homem das calças amarrotadas continuava andando. Um carro, com chapa do Oeste, passou por nós a toda velocidade. O chofer buzinou.

— Senhor Brummer, não posso ficar parado aqui.

— Dietrich — gritou êle, como se grita para um cão. Dietrich não teve qualquer reação. Já se encontrava um tanto afastado. Uma silhueta cinzenta que a noite ia desfazendo. Do bosque subia uma névoa leitosa e fina.

Novamente passou por nós um carro a grande velocidade. Novamente o chofer buzinou longamente.

— Não posso permanecer... comecei...

— Siga atrás daquele porco. Rápido.

Ajeitei-me atrás do volante, liguei os faróis altos e os raios de luz cortaram a bruma e encontraram as velhas calças, a jaqueta manchada e o cabelo de um ruivo sujo. Cheguei até onde estava Dietrich. Êle saltou para a relva e afastou-se, correndo em direção ao bosque. Êle já sabia o que podia acontecer quando um carro ia à caça de um homem. Parei.

Brummer abriu a porta e gritou:

— Venha cá.

O homem continuou correndo em direção às árvores.

— Receberá o seu dinheiro.

O homem parou no meio da relva que lhe. chegava à altura dos joelhos.

— Vinte e cinco mil?

— Sim, vinte e cinco mil.

— Em que forma receberei o dinheiro?

— Cheque — gemeu Brummer. Pensei que ia ter um novo ataque. — Contra um banco do Oeste. Um cheque cruzado que eu poderei reter durante três dias, se ficar demonstrado que você me mentiu...

— Encha-o — disse a voz do homem que estava sobre a relva, do homem feio e resfriado que estava pisando sobre as ervas úmidas.

Julius Brummer tirou um talão de cheques do bolso e começou a escrever sobre os joelhos.

— Venha cá, Dietrich.

O agente veio em nossa direção, com as ervas até os joelhos.

Brummer entregou-lhe o cheque através da janela do carro. Dietrich o examinou com olhar de entendido.

— Se mentiu, farei com que seja preso.

— E, se ao receber o cheque, eu fôr detido, contarei tudo.

A seguir, disse o número do carro que havia matado o homem no cruzamento de Hermsdorfer, sua côr e o nome dos seus amigos no posto de controle do setor Oeste de Berlim.

Julius Brummer anotou tudo. Pusera óculos para encher o cheque e agora escrevia num caderno de notas, com a aplicação de um estudante. Olhou-me, por cima do óculos, que lhe dava um aspeto de uma grande coruja.

— Vamos depressa para Schkenditz. O homem precisa telefonar.

— Sim, Sr. Brummer.

A névoa que vinha deslizando dos bosques começou a ficar espessa. Invadiu a auto-estrada, mas os faróis do carro podiam vencê-la. Sem me importar com os limites de velocidade, corri a uma média de cento e quarenta quilômetros por hora. O céu ficara negro.

Diante de nós, na neblina, algumas luzes pareciam flutuar.

— Isto aqui é Schkenditz — disse o agente.

— Pare no ponto de parada — disse Brummer.

— Não, por favor, um pouco antes.

- Okay.

Dietrich dava explicações a Brummer enquanto nos aproximávamos das luzes:

Dreilinden, posto de controle Oeste. Junto à barraca da alfândega. O homem virá ao seu encontro e o chamará pelo nome. Pelo seu nome inteiro.

Parei o carro. Dietrich saltou.

— Agora porei uma dentadura nova — disse o agente.

Cumprimentou-nos com a cabeça e perdeu-se no nevoeiro.

— Que porcaria de cerração — disse Julius Brummer. — Espero que não piore.

Pensei que a nossa segurança depende, às vezes, de uns papéis, às vezes do número da placa de um carro e muitas vezes da cerração.

Por outro lado...

Três semanas antes juntara-me a uma rapariga da rua, Ela tinha um pequeno aposento. Num pequeno pátio que havia nos fundos, falamos sobre a vida. Ela era muito pessimista. Disse-me:

- Não tenho nenhum prazer em viver. Poucos prazeres e muitos aborrecimentos. Estou farta.

— Gostaria de morrer?

— Seria melhor hoje que amanhã — respondeu-me. — Faço presente de minha vida a quem a quiser.

Era essa a sua opinião.

Uma noite, entretanto, sentimos um forte cheiro de gás. Nus e assustados corremos até a cozinha e vimos quê um dos bicos do fogão estava aberto. Tínhamos preparado chá e, enquanto estávamos na cama, a água ferveu e, transbordando, apagou a chama.

— Meu Deus — disse a rapariga. — Imagine se estivéssemos dormindo... Só de pensar sinto-me mal. Poderíamos ter morrido.

 

Antes de chegarmos ao Rio Elba, a cerração tomara-se tão espessa que tive que reduzir a velocidade a trinta quilômetros por hora. De vez em quando, era forçado a baixar o vidro e meter a cabeça para fora porque o pára-brisas estava completamente embaciado. A névoa cheirava a fumaça, o ar cheirava a umidade. Só via a leste do centro da estrada e, algumas vezes, nem isso. Em certo ponto perdi o sentido de orientação e tive receio de ter passado algum cruzamento. Fiquei atrapalhado e inseguro, embora as luzes dos carros que cruzavam por nós indicassem que eu estava no caminho certo.

Na ponte sobre o Rio Elba, trabalhavam os mecânicos do turno da noite. Suas lâmpadas de acetileno iluminavam a alta torre. Pouco além de Coswig, atropelei uma lebre. Ouviu-se aquele ruído típico, o carro vacilou e foi então que Julius Brummer começou a falar. Não tinha aberto a boca desde que Dietrich saltara mas então recomeçou:

— Há pouco eu o ameacei, Holden. Lamento. Desculpa-me?

— Naturalmente, Sr. Brummer.

A névoa agora movia-se com o vento leste que soprava sobre a estrada. Brummer falava com muita precaução, como um homem que redige o seu testamento. É capaz de morrer muito em breve, pensei. Seria extraordinário se êle morresse agora... Nessa noite falou comigo...

— Você tem vivido intensamente desde que está a meu serviço, Holden. Foram horas muito duras — eu olhava, atentamente, para a faixa branca que separa as pistas. O ombro começava a doer.

O dia tinha sido muito longo. — Mais coisas ainda acontecerão, Holden. Provavelmente precisarei de você. Quer ajudar-me?

Não respondi. Eram 20h30m. Há meia hora que nenhum carro nos ultrapassara e nenhum cruzara por nós.. Corríamos pela treva, como se fôssemos os últimos homens sobre a terra.

— Você não me conhece. Mão peço nenhum serviço por amizade ou sentimentalismo. Eu pago. Ajudar-me-á, se eu pagar?

— Preciso saber o que está acontecendo, Sr. Brummer. O senhor sabe que eu venho...

—... da prisão — acrescentou ele. — Ainda assim, Holden?

— Por favor.

— Por que acaba de sair da prisão? Porque lá expiou a sua culpa. Que expiou? Uma culpa do seu passado — enfiou um chicle na boca e começou a mascar. — Ouça, Holden, a maioria dos homens que Hoje vivem tem um passado desagradável. Uns foram nazistas, outros comunistas e os demais para lá são imigrantes. Alguns deveriam ter saído do país e não o fizeram. Outros não podiam acreditar em Deus. Muitos destruíram seus casamentos. Se existisse alguém que pudesse fazer desaparecer tudo isso... Os pobres têm problemas. Suas famílias se desfazem. Os filhos são as vítimas. Como se pode afirmar hoje aquilo que se negava há um ano. Os homens que fabricaram a bomba atômica não têm apetite para comer. Seria muito bom poder afirmar: Não fomos nós que o fizemos, senhores, foram os outros.

Agora começava a chover. Um letreiro apareceu à nossa frente. Tínhamos chegado a Treuenbritzen.

— Escolha quem quiser, gente gorda, gente baixa... todos têm um passado. Passado grande, passado pequeno, todos têm medo, a todos a consciência remorde. Sabe do que todos necessitariam, Holden?

— O que, Sr. Brummer?

— De um sósia! Por Deus que isto seria a maior invenção do século. Um segundo eu sobre o qual recairia tudo que cada um tivesse feito: as baixezas, as traições, os erros... Deveria patentear esta idéia. Um sósia para a consciência, seria o maior alívio.

Um sósia...Não sei se os senhores já sentiram essa sensação de uma idéia que se apodera de uma pessoa, que se grava no cérebro,, penetra no sangue, não sei se já a sentiram.

Um sósia.

Um homem fala durante um dia inteiro com os senhores. Mas uma única frase fica em suas mentes. Algumas palavras, apenas. Essas palavras não podem ser esquecidas. Já sentiram isso?

Um sósia.

Não existiria mais culpas. Não haveria necessidade de expiá-las.

Eu não cometi o crime, Supremo Tribunal. O crime foi praticado por outro que se parece comigo, que fala como eu, que vive em minha casa, que vive a mesma vida que eu. Mas êle é mau. Eu sou bom. A êle deve castigar, Supremo Tribunal. A êle e não a mim.

Mas, um sósia assim não existe.

Que significa a expressão ”que não existe”?

Os homens dizem que o que não existe é o que ainda não foi descoberto. Nada impede que se descubra.

Entretanto, um sósia assim não existe, por enquanto.

Não sei se os senhores já tiveram a impressão da idéia que se apodera de um ser, que se fixa no cérebro e no sangue, não sei se a conhecem... Nesta noite chuvosa nasceu uma idéia. Entre Treuenbritzen e o Anel de Berlim, nasceu essa idéia. Foi êle próprio, Julius Brummer, minha futura vítima, que a fêz germinar.

 

Com o ruído da chuva, voltei a ouvir sua voz doutoral. Isto me fêz voltar ao presente.

—... também o meu passado, Holden, Sim, naturalmente. Devo falar claro com você. Não porque me interesse a sua opinião. Não, a você eu pago. Mas você quer sabê-lo para ajudar-me...

Pontes destruídas na auto-estrada. Anúncios na chuva.

A INDÚSTRIA DO POVO ZEISS-IENA recomendava seus produtos. Leipzig convidava para sua feira.

— Sim, eu também tenho um passado e não tenho nenhum sósia que assuma a responsabilidade...

Nenhum sósia.

—... nenhum Julius Brummer sobre o qual eu pudesse descarregar tudo...

Preciso meditar. Tenho que meditar sobre tudo isso, quando estiver só.

- Estão atrás de mim, Holden. Querem que eu seja julgado.

— Quem, Sr. Brummer?

— Meus inimigos. Tenho êxito e portanto tenho inimigos. Apresentaram uma denúncia conjunta contra mim, há alguns meses. Homens honrados. Comerciantes de ficha limpa, cidadãos conhecidos. Sabe qual foi a minha atitude?

— Qual foi, Sr. Brummer?

— Disse para mim mesmo: esses senhores também devem ter um passado. É a minha teoria. Todos realmente têm. Custou-me muito dinheiro mas agora tenho o que preciso.

— Que é que o senhor tem?

— O passado dos meus acusadores. Em fotografias e documentos, em palavras e em retratos. Sabe onde?

— Na pasta roubada.

— Exatamente.

— Então não o tem.

— Voltarei a tê-lo, garanto. Em Dreilinden, na barreira Oeste está a minha espera um amigo do Sr. Dietrich. O Sr. Dietrich é meu amigo porque lhe dei dinheiro. O amigo do Sr. Dietrich é meu amigo porque o Sr. Dietrich lhe dará dinheiro. Recuperarei a pasta e terei mais amigos porque terei mais dinheiro e entre esses amigos está você, Holden — sua voz baixou de tom e passou a ser um murmúrio. — Quem ficar de posse da pasta será o homem mais poderoso da cidade. Possivelmente o mais poderoso do país. Ninguém se atreverá a denunciá-lo. Não haverá possibilidade de processo contra êle. Ninguém falará mal dele. Que foi isto? Outra lebre?

— Foi o chocolate, Sr. Brummer. Caiu do banco.

— Que chocolate?

— O chocolate para as crianças da zona.

Hora: 21h10m.

Local: O Anel de Berlim.

Barulhos de entradas e saídas, desvios para Francfurt sobre o Oder, Kustin e Potsdam. Comboios militares: velocidade máxima, trinta quilômetros por hora. A auto-estrada descrevia uma grande curva.

Depois de Babelsberg apareceram novos anúncios. Setas retilíneas indicavam o SETOR DEMOCRÁTICO, flechas anguladas indicavam o SETOR OESTE DE BERLIM. As luzes deslizavam sobre os letreiros. Chovia torrencialmente. O céu, adiante de nós, começava a ficar limpo.

O posto de controle da zona, Dreilinden, apareceu, iluminado pelos faróis, ao terminar uma curva. Havia poucos carros viajando naquela noite. Em frente à cabina do despachante de entradas, não havia ninguém. Voltei a ver retratos, li novas máximas e poesias e todos os policiais foram muito delicados conosco.

Às 23h35m podíamos continuar.

Depois de um quilômetro de escuridão apareceu o pôsto de controle da Zona Oeste, um simples barracão com rampas para carga, no meio da auto-estrada. Um policial de Berlim fêz sinal para que nos aproximássemos. Anotou o número do carro e foi tão delicado como o seu colega de Leste.

— Vieram por Topen?

— Por Wartha — respondi.

No fim da rampa estava um Opel-Rekord preto. Dois homens com capas impermeáveis estavam sentados dentro.

Um deles saltou e se aproximou com as mãos nos bolsos da capa e um chapéu que lhe escondia os olhos.

— Tudo em ordem, podem continuar — disse o amável policial do Oeste. Apertei lentamente o acelerador. O carro rodou em direção ao homem da capa impermeável.

— É êle — disse Brummer. Sua voz soava alegre. — Está vendo, Holden, como tudo funciona bem?

— Sim, senhor.

O homem estava agora, junto a nós. Brummer baixou o vidro da porta a seu lado. O homem era jovem. Inclinou-se para o carro.

— Julius Maria Brummer?

— Sim.

— De Düsseldorf? — Sim.

— Estávamos à sua espera, Sr. Brummer.

— Sim.

— Este é o seu chofer?

— Sim.

— Perfeitamente. Assim sendo o carro poderá voltar para Düsseldorf.

Brummer, atônito, perguntou:

— Que significa isso?

— Julius Maria Brummer — disse lentamente o homem jovem, — chamo-me Hart. Pertenço à Brigada Criminal. Eu o prendo por ordem da Polícia de Düsseldorf.

A chuva tamborilava sobre o teto do carro e, dentro do nevoeiro, relampagueavam muitas luzes vermelhas e brancas.

Hart falou:

— Quando se soube, ao meio-dia, que o senhor havia deixado Düsseldorf com destino a Berlim, a Polícia de Düsseldorf nos ordenou, por telegrama, que o prendêssemos no posto de controle da zona porque havia o perigo de uma tentativa de fuga.

— Como está redigida essa denúncia? — perguntou Brummer com voz suave.

— A denúncia — respondeu o policial Hart — referese à falsificação de documentos, organização de empresas fictícias, emissão de títulos fraudulentos, violência, sonegação de impostos e inobservância das leis sobre divisas.

Desça do carro.

Com o seu amarrotado traje de verão, Brummer desceu sob a chuva. Perguntou, com voz débil:

— Que farão comigo?

— Ficará até amanhã na delegacia e então o enviaremos, de avião, para Düsseldorf.

— Não posso voar. Estou doente do coração.

— Tem um atestado médico?

— Naturalmente.

— Então o transportaremos no trem que atravessa a zona.

O velho cão começou a uivar.

— Sim, Pupele, sim...

— Este animal fica com o chofer — disse Hart. Aborrecendo-se, Brummer exclamou:

— O animal está acostumado comigo. Não deixa que o separem de mim.

— Sr. Brummer, por favor, o senhor está sob prisão preventiva.

— Eu lhe afirmo que o chofer não poderá conter o cão. O cão o matará. Ataca os homens. Não assumo a responsabilidade.

— O senhor não pode levar o cão para a cela da prisão.

Na escuridão, diante de mim, os faróis de um carro foram acesos e apagados. Eu os vi e Brummer também. Hart nada viu porque estava de costas. A batalha a respeito do cão continuou.

— Ao menos, até meu regresso a Düsseldorf deixe o cão ficar comigo.

Novamente, por três vezes, acenderam-se e apagaramse os faróis. Outras pessoas também nos esperavam aqui...

 

Discutiram bastante tempo até que Brummer conseguiu fazer prevalecer a sua vontade. O velho cão seguiu no Opel-Rekord preto. Levei-lhe sua maleta, colocando-a a seus pés.

— Obrigado, Holden. Tome um quarto no hotel. Volte amanhã cedo para Düsseldorf — inclinou-se para mim. E não se preocupe, o leão não é tão feroz como o pintam. Pense na nossa conversa.

— Sim, Sr. Brummer.

— Acabou-se a conversa — disse Hart.

— Boa noite, Sr. Brummer — disse eu.

A porta do carro foi fechada. O Opel arrancou. Esperei que as luzes vermelhas da traseira do carro desaparecessem, voltei para o Cadillac, sentei-me e esperei. A chuva batia sobre o teto. De vez em quando passava um automóvel que saía da zona. Esperei onze minutos. Apareceu um homem, na escuridão, no fim da rampa de carga e dirigiu-se em minha direção. Vestia calças pretas, de algodão, uma jaqueta de couro e tinha a aparência de um lutador de luta livre. Era muito alto e caminhava meio encurvado. A cabeça brutal assentava diretamente sobre os ombros. Não tinha pescoço. Os cabelos eram ruivos e sujos. Os olhos, pequenos e aquosos, estavam metidos em duas bolsas de gordura. Andava meio cambaleante. Parecia uma reprodução barata e popular de Julius Maria Brummer. Sem dizer uma palavra, abriu a porta e deixou-se cair a meu lado. Senti o cheiro de umidade da jaqueta e de pano molhado das calças. Olhei-o e êle olhou para mim.

Depois de um bom momento, perguntoume, com voz guinchante e estridente:

— Não quer pôr o carro em marcha?

— Para onde?

— Para Berlim, homem.

— Você é... ?

— Naturalmente. Sou o irmão.

— Irmão de quem?

— Irmão de Dietrich. Não fique agitado assim. Tudo funciona bem. Dois dos meus camaradas vigiam os homens. Prenderam Brummer, não?

— Sim.

— Breve será solto. Vamos, arranque de uma vez, homem.

Pus.o carro em marcha. As luzes ficaram para trás. Os limpadores de pára-brisas moviam-se ritmadamente. O gigante continuou:

— Chamo-me Kolb.

— Não me disse que era irmão de...?

— E sou.

— Mas...

— Pais diferentes, jovem, pais diferentes.

O pedestal vermelho com um tanque soviético ficou para trás. Dois soldados, com os uniformes ensopados, montavam guarda. Era este o local, segundo um artigo que eu lera quando estava na prisão. Então o tanque realmente estava aqui...

— Você demorou muito, camarada, muitíssimo.

— Havia cerração.

— Apesar disso, os outros chegaram há duas horas. O seu nome é Holden, não?

— Sim.

— Esteve na prisão, não?

— Como sabe?

— Meu irmão, pelo telefone —- suspirou. — Para uns só há dificuldades, para outros tudo corre de vento em popa. Olhe para mim, que diria que me aconteceu?

— Não sei...

— Ruptura e hérnia na virilha. Trágico, não é? Um movimento em falso e, adeus! Sabe o que eu era?

— Quê?

— Ouviu falar alguma vez nos Cinco Arturos?

— Sim — menti.

— Era o melhor número de toda a Europa. Estivemos três vezes nos Estados Unidos. Eu era o homem da base. Fiz um movimento em falso e rebentei a virilha. É trágico, não acha?

Estávamos chegando ao Avus. As lâmpadas vermelhas no topo das antenas da RIAS — Berlim brilhavam na chuva.

— Não me posso queixar — continuou Kolb. — Tenho um irmão que vale ouro. Êle me ajuda, sabe? Afinal pegou caça graúda. Devo tudo a êle. É verdade. Há um bom Deus que recompensa as boas ações e paga ao bom Otto tudo que tem feito por mim.

— Escute Kolb, para onde vamos agora?

— Para casa, homem, para descansar. Não está cansado?

— Sim, mas...

Para Hasenheide.

— Que é isto?

— O nome de uma rua. Em Nenkoln. Pensão Rosa.

— Mas, escute aqui...

— Que quer você? Setor americano. Telefone no quarto. Isto é importante.

— Importante? Por quê?

— Claro, homem. Terei que chamá-lo para dizer onde deve ir buscar a pasta com as coisas.

Agora apareciam novas luzes à nossa frente. O Avus já não era avistado e alcançávamos Charllottenburg. Disse-lhe:

— Está absolutamente certo de que recuperará a pasta?

— Homem! As pastas que eu não posso recuperar não existem.

— Bem, bem.

— Nada de bem, bem. É como se o trabalho já estivesse feito. Há apenas uma pequena dificuldade. Um dos indivíduos tem a pasta presa no pulso. Com uma corrente de prata. Há um cadeado na corrente, nós o vimos. E como conheço os sujeitos é um outro que tem a chave...

— E então?

— Ouça, está querendo ofender-me? A minha ruptura é na virilha e não nas mãos. Isto é uma especialidade minha. Veja ali a velha Funk (Torre de Rádio). Sabe de uma coisa? Cada vez que vejo as luzes da torre fico sentimental. Percorri todo o mundo e nunca vi nada igual. Parece que agora estou começando a falar corretamente, como se tivesse nascido em Berlim e não em Dresden, não é verc’ade?

— Sim, sim, é claro.

- Meu irmão, não pode suportar a atual situação. Para êle tudo está demasiadamente pacífico. Era garçom, sabia? Gosta de alegria, de movimento, de algazarra. Mas eu não, obrigado. Veja só as luzes no alto da torre e as do meio. Ali há um restaurante. Nunca lá fui. Dizem que se come muito bem.

 

O quarto na pensão Rosa era tão pequeno como o que eu tinha na casa da viúva Meise, em Düsseldorf e mobiliado com o mesmo péssimo gosto. Não havia umidade, porém, e sobre a mesa de cabeceira havia um telefone. Numa pequena estante, encontrei uma Bíblia, um livro técnico sobre a criação de coelhos e três revistas francesas. Uma se intitulava Régal, a outra Sensation e a terceira Tabou. Na Régal havia raparigas nuas, em Sensation rapazes nús e em Tabou havia as duas coisas.

Estendi-me sobre a cama e li que os coelhos domésticos são incrivelmente prolíficos: as ninhadas são de até doze filhotes e o espaço entre ninhadas pode ser de apenas cinco semanas, entre março e outubro. Aos seis meses os coelhos já são capazes de procriar, embora continuem a crescer até os doze. Finalmente, procurei na velha Bíblia a história do Noé e o Dilúvio mas não a encontrei por estar cansado demais.

O telefone acordou-me às duas e meia da madrugada. Eu dormira sem apagar a luz.

— Holden?

— Sim.

— Sou Kolb — a voz do castrado tinha um tom alegre. — Acordei-o, velho camarada?

— Sim.

— Perfeitamente. Tudo vai bem. Às 6h30m no aeroporto de Tempelhof. No restaurante. Seja pontual. Lá receberá a coisa.

— Já a tem?

— Ouça, as coisas não se fazem com tanta pressa. O cavalheiro está, neste momento, dormindo em seu hotel.

— Mas...

— Você é muito impaciente. É da Baviera, não?

— Sim.

— Já o supunha. Repito. Restaurante do aeroporto. Encomende tranqüilamente o seu café. Eu irei. Êle também irá. Êle voa às sete, quer dizer, tem lugar reservado para as sete. Será melhor que você não me cumprimente, compreende? Quando eu me dirigir para os lavatórios, saia e leve o carro para o portão de entrada.

— Mas, se você não fôr ao lavatório?

— Não se preocupe, irei.

De manhã brilhava o sol. Fazia tanto calor quanto na véspera. Fui com o carro até o aeroporto, sentei-me no restaurante e pedi café. Embaixo moviam-se os aviões, aproximando-se. Eram abastecidos de combustível. O alto-falante anunciava os vôos. Gente subia para os aviões. Havia muito movimento. O restaurante ficou cheio.

Às 6h25m apareceu Kolb. Usava um terno jaquetão azulmarinho com listras brancas e uma camisa esporte. Sentou-se perto da entrada. Não me cumprimentou nem eu a êle. Ambos tomamos café.

Às 6h40m entrou um homem carregando uma grande pasta de couro de porco, na mão direita. A pasta estava presa a seu pulso por uma corrente de prata. O homem era alto e magro e usava óculos com aro preto. Parecia um intelectual. Um garçom ruivo recebeu a sua encomenda às 6h42m. O ex-homem-base dos Arturos lia o Tagesspiegel.

— Atenção — gritou o alto-falante — a Air France anuncia o seu vôo quinhentos e quarenta e seis com destino a Munique. Pede-se aos senhores passageiros a fineza de saírem pela escada In. Desejamos boa viagem.

Às 6h48m trouxe uma cafeteira cheia para o homem dos óculos de aro escuro. Era um garçom novato. Ao chegar à mesa, tropeçou. A cafeteira virou e o seu conteúdo derramouse sobre a roupa de flanela do homem de óculos.

Foi, então, representada uma pequena comédia. O homem de óculos ficou irritado. O garçom ruivo desculpou-se.

Outras pessoas se aproximaram, dizendo que o garçom fora muito descuidado.

O homem de óculos tentou limpar a roupa com um lenço. Não conseguiu, pois só podia usar a mão esquerda. O desastrado garçom recomendou-lhe que fosse até ao lavatório. O homem de óculos levantou-se furioso e saiu do restaurante. A seguir, Kolb também se levantou. Depois de Kolb, eu também me levantei.

Os lavatórios ficavam à esquerda da entrada do restaurante. Ao passar pela parte reservada aos homens ouvi um ruído estranho do outro lado da porta. Atravessei o vestíbulo e fui em direção ao ponto de estacionamento a fim de tirar o carro.

A gigantesca concha do radar, situada sobre o teto do aeroporto, girava lentamente na luz cinzenta da manhã.

Ao parar o Cadillac diante das portas de vidro, vi Kolb que saía, tendo na mão a pasta de couro de porco. Entrou no carro, sentando-se a meu lado, e eu parti novamente. A pasta estava agora, entre nós dois. A corrente de prata estava quebrada e havia manchas de sangue nos elos.

— Pode deixar-me na Kurfustendamm — disse Kolb, enquanto limpava as mãos com o seu lenço sujo. Também tinha manchas de sangue nas mãos. — De qualquer maneira tem que passar pela Kurfustendamm para chegar à autoestrada e eu tenho que ficar na Saúde.

— Onde?

— Na comissão de saúde pública, agora a chamaria de Escritório Social. Para receber o meu subsídio.

— É um pouco cedo, não acha?

— Assim, pelo menos, serei o primeiro. Não me incomodo de esperar. Enquanto espero leio o jornal. Que- pensa de Kruschev, camarada?

Levei-o, portanto, até o fim da Kurfustendamm e ali êle se despediu de mim:

— Foi um prazer, Holden. Alegro-me por ter podido ser-lhe útil com tanta facilidade. Aconselho a que saia rapidamente da cidade. Depois poderá tomar o tempo que quiser.

— Não se preocupe.

— Meus cumprimentos ao Sr. Brummer e diga-lhe que estou sempre às ordens.

-- Darei o recado.

— Ouça... — seus olhos fixavam, com ansiedade a caixa de bombons que estava no banco de trás — está cheia de chocolate, não é verdade?

— Sim.

— Que vai fazer com ela?

— Nada.

— Não poderei levá-la? Tenho dois filhos que são loucos por chocolate. Creio que o Sr. Brummer pensou um pouco neles.

— Eu também o creio — disse-lhe e êle apanhou a caixa.

Pelo espelho retrovisor ainda o vi durante algum tempo, acenando com a mão. Tinha nas mãos a caixa de bombons e uma expressão de grande contentamento.

Apressei-me a sair de Berlim. Na fronteira da zona tudo havia voltado à calma. Passei pelo controle, sem qualquer dificuldade. Fui até um ponto de estacionamento nas cercanias de Bruck, parei o carro e retirei a pasta de debaixo do meu assento.

Reinava silêncio no estacionamento, naquela hora matinal. Ao longe pastavam vacas negras e vi um moinho de vento cujas pás se moviam lentamente, ao impulso do ar.

Abri a porta e fiquei sentado com as pernas para o lado de fora. Na pasta havia cartas, documentos, fotografias e fotocópias de documentos com carimbos de notários. Olhei atentamente para as fotografias e li com a máxima atenção todas as cartas, todos os documentos e todas as fotocópias de documentos.

O sol subiu e o calor aumentou. Em ambas as direções circulavam automóveis. As vacas pastavam com os focinhos enfiados na erva.

Depois de ter lido todos os documentos e examinado as fotografias, coloquei-os novamente na pasta que guardei, novamente, debaixo do meu assento. Em seguida, retomei a viagem.

O sol estava à minha esquerda. Liguei o rádio e ouvi um concerto de uma emissora. Pensava nas palavras de Julius Brummer: ”Quem possuir essa pasta será o homem mais poderoso da cidade. Provavelmente o homem mais poderoso do país.”

Eu não sabia quanto poderoso podia ser o homem mais poderoso da cidade e o homem mais poderoso do país. Mas o fato era que a pasta a que se referira Julius Brummer estava agora debaixo do meu assento. De vez em quanto a pasta escorregava para um lado e para o outro e freqüentemente a corrente quebrada fazia um barulhinho. Durante esse tempo eu pensava em minha mãe...

O melhor dia da semana, dizia sempre minha mãe, era o sábado e a melhor hora do sábado era o meio-dia. Nossa família era muito pobre e tínhamos muitas dívidas. Mas, ao menos, uma vez por semana, minha mãe mostrava um rosto risonho e então, sempre a ouvia dizer:

”Robert, querido, agora podemos ficar tranqüilos até a segunda-feira de manhã. Nenhum oficial de justiça virá, nem tampouco virão cobrar a conta do gás. Nem mesmo poderão vir cortar a luz, esta tarde e amanhã.”

Eu lhe perguntei: Por que não o domingo, mamãe? Ela respondeu: Porque no domingo começo a ter medo da segunda-feira, meu tesouro. No sábado sempre há mais um dia pela frente.

Essa lógica impressionou-me tanto em minha meninice que eu a adotei para sempre. Nunca a esqueci porque, em toda a minha vida, nunca me abandonou o temor, não do cobrador do gás ou do corte da luz elétrica, mas sim de podêres mais malignos, nem tampouco pelas dívidas, mas dos outros homens, porque todos os homens podem praticar o mal e o praticam.

Também era um sábado o dia 23 de agosto de 1956, durante o qual o Cadillac de Julius Maria Brummer atravessava a zona soviética em direção a Oeste. Enquanto atravessava a pobre campina de Bradenburg, porque neste dia eu escolhi o caminho mais curto para Helmstedt, pensei muito tempo em minha mãe.

O sol subiu mais e a sombra dos pinheiros sobre o solo arenoso e amarelento ficou mais curta. Eu ia pensando que aquele sábado era um sábado extraordinário, um sábado que suprimia todos os outros ou, ainda melhor, eliminava todas as segundas-feiras e os meus temores quanto a elas.

Não sei se os senhores já sentiram essa impressão de ter poder. Até aquele sábado, 23 de agosto de 1956, eu nunca tivera em toda a minha vida poder de qualquer espécie.

Não conhecera ninguém que fosse poderoso. Exatamente por isso, sempre tentara imaginar como se sentiam os poderosos, os corruptores das massas, os milionários e os conquistadores.

O poder que eu agora tinha não era somente meu, mas eu estava decidido a ter uma parte dele, de uma forma modesta, silenciosa. Se fosse necessário eu poderia passar sem Julius Brummer, mas êle não poderia, de forma alguma, passar sem mim. Não parecia ser tão esnobe que considerasse intolerável compartilhar segredos com o seu chofer. Não dava essa impressão. A mim, êle dera a impressão de ser muito democrático.

Não creio que o senhor conheça essa sensação, Sr. Comissário Criminal Kehlmann, de Baden-Baden, a quem, dependendo das circunstâncias, são dedicadas estas linhas. Não creio que conheça o verdadeiro poder. O poder real, o poder da natureza que, a 23 de agosto do ano passado, sob a forma de documentos originais e fotocópias, estava debaixo do meu assento, no carro. É uma sensação embriagadora, Sr. Comissário. Estou certo de que, tal como minha mãe, em quem pensava naquele 23 de agosto, entre Magdeburg, Eichenbarleben e o ponto fronteiriço da zona Helmstedt, enquanto dirigia o carro para Oeste numa daquelas ensolaradas tardes de sábado, que ela sempre amara tanto, o senhor nunca sentiu essa sensação...

 

Quando Nina Brummer saltou do táxi, o vento levantou sua saia e eu vi suas lindas pernas. Seus ruivos cabelos começaram a revoar. Uma tempestade estava começando em volta dela. Estava tão fraca que foi obrigada a apoiar-se no automóvel. O chofer saltou e amparou-a. Depois retirou a bagagem de Nina Brummer. Um casaco de vison do Canadá e uma maleta de jóias preta e com a forma de um dado. E nada mais. Carregou os dois objetos para o interior do vestíbulo envidraçado do aeroporto de DüsseldorfLohausen.

Nina Brummer, vacilante, o seguiu. Vestia um tailleur em pequenos quadrados brancos e pretos, muito justo, sapatos pretos de salto alto e luvas, também pretas. Seu rosto estava branco como a neve e o vermelho do batom dos lábios com êle contrastava de forma gritante.

Eu tinha estacionado o Cadillac um pouco longe da entrada do aeroporto. Há um quarto de hora que esperava por Nina Brummer. Esperei menos que pensara. Eram 18h35m do dia 27 de agosto de 1956. Quatro dias antes eu voltara de Berlim. Muitas coisas tinham acontecido durante esses quatros dias. Eu tinha a cabeça enfaixada e o meu olho esquerdo ainda estava completamente roxo. O meu corpo todo ainda doía muito. Várias coisas aconteceram nesses quatro dias, conforme relatarei muito breve...

Nina Brummer entrou no vestíbulo. Saltei do carro e fui em seu encalço. A ventania aumentava de momento para momento e o sol caminhava para o ocaso, por trás de negras e amontoadas nuvens. O céu resplandecia com tons amarelo e verde, violeta e escarlate.

Os letreiros balançavam ao vendaval, pedaços de jornal enroscavam-se em minhas pernas e a poeira redemoinhava em volta de mim. Eu caminhava coxeando pois ainda sentia os efeitos da surra que apanhara.

No hall do aeroporto brilhavam inúmeras lâmpadas de néon. A sua luz misturava-se com a do poente que entrava pelas enormes janelas, originando uma atmosfera fria e morta. Havia muita luz mas não havia sensação de vida. Os objetos e os homens não projetavam sombra. Como recomendações saindo do reino dos mortos soavam os alto-falantes invisíveis: ”Senhor Egelsing, de Viena, que acaba de chegar pela KLM, queira comparecer ao balcão da companhia. Senhor Egelsing, de Viena, por favor.”

Escondi-me atrás de uma banca de jornais e observei Nina Brummer que estava diante do balcão de Partidas, da Air France, fazendo anotar o seu bilhete de passagem para o próximo vôo. Carimbaram o seu bilhete e entregaram a senha de embarque. Sobre o balcão havia um quadro de avisos onde se lia:

PRÓXIMO VÔO: 20 HORAS AF 541, DESTINO PARIS.

Os olhares de Nina Brummer percorriam o hall. Esperava por alguém. Eu sabia quem era. Mas esperava em vão...

”Atenção, atenção” —• soou novamente o alto-falante. A voz foi interrompida por um ruído que parecia o farfalhar de folhas mortas. ”A Pan American World Airways anuncia a chegada do seu Clipper 231, procedente de Hamburgo. Os passageiros sairão pela porta número IV.”

Olhei para o campo de aviação. Um quadrimotor, envolto em nuvens de pó, parou diante da torre de controle. As hélices pararam. Lutando contra a tempestade os funcionários fizeram rolar até o avião a escada de descida. Nina Brummer apanhou a sua capa de nutria e o seu porta-jóias e subiu a larga escada que leva ao restaurante do primeiro andar. Imediatamente segui os seus passos...

O local parecia abandonado.

Sobre uma das paredes o sol descambante pintava fantasmagorias vermelho-escarlate sobre amarelo-enxôfre e violeta sobre verde de óxido de cobre. A luz fixou-se sobre os seus cabelos e os fez brilhar, como se fossem de ouro. Nina Brummer sentou-se a uma mesa perto da janela. Eu parara no umbral e a observava. Primeiro esteve completamente só. Depois apareceu um garçom que recebeu o seu pedido. Olhava para o campo situado junto à torre de controle. Inclinados e lutando contra o vento os passageiros do avião que acabara de chegar dirigiam-se para o edifício do aeroporto. Os bojudos caminhões tanques dirigiam-se para o aparelho. Os mecânicos erguiam tubos metálicos para alcançar a parte superior das asas. Máquinas e homens, tanques e escadas, pareciam apenas silhuetas cinzentas. Aproximei-me da mesa de Nina Brummer e disse:

— Boa tarde.

Em seus imensos olhos azuis aninhava-se o temor. Nina Brummer estava pálida e formosa. Olhou-me fixamente e disse aliviada:

— Boa tarde.

Senti uma estranha desilusão, como uma punhalada em meu corpo lacerado.

— Não me reconhece?

As mãos exangues se crisparam. Os pequenos punhos apertavam a jaqueta de quadrados brancos e pretos.

— Eu... não, quem é o senhor?

Fiquei calado porque chegava o garçom com um cálice de conhaque que colocou sobre a mesa. Olhou-me com curiosidade e afastou-se. Nina Brummer sussurrou:

— O senhor... é da polícia?

— Sou o novo chofer.

— Oh!

Os pequenos punhos baixaram. As narinas tremeram. Depois descobri que isso era uma das suas características. Podia facilmente dominar-se mas não era capaz de controlar as narinas.

— Desculpe-me, senhor...

— Holden.

— Sr. Holden. As ataduras. Teve um acidente?

— De certa forma, sim.

— Que lhe aconteceu? — não esperou minha resposta e continuou a perguntar: — E como veio até aqui?

— Sabia que iria encontrá-la.

— Como? Ninguém podia sabê-lo... eu... eu fugi do hospital.

— Eu sei.

— Quem lhe contou?

— Eu sei tudo — disse-lhe e sentei-me. Acenderam-se também as luzes de néon do restaurante e lá fora, nas pistas, reluziam lâmpadas azuis, vermelhas e brancas. No Oeste o céu ficou rapidamente, com uma coloração cinzento-escura. Cada vez mais rapidamente os esquadrões de grandes nuvens escureciam o céu para uma nova noite.

Os olhos de Nina Brummer repousavam dentro de duas cavidades azuis. Seu rosto estava pálido. Apesar do medo e da fraqueza, continuava sendo bela. Pensei nas palavras da velha cozinheira tcheca: ”É como um anjo, senhor, como um anjo encarnado. Toca ao coração de todo mundo.”

— Fale — sussurrou ela.

Correntes de ouro tilintaram em seus pulsos quando ergueu o braço para levar o copo à boca. Derramou metade do conhaque. As gotas douradas caíram sobre a toalha.

— Bem, eu... eu... lhe darei uma pulseira.

— Não quero nenhuma pulseira. —... Ou dinheiro.

— Não quero dinheiro.

— Então... que quer?

— Quero que a senhora venha comigo — respondi.

— Mas isto é uma loucura — riu nervosamente. Lá fora a luz do dia tomou um tom verde-mar, durante alguns segundos. Através da alva pele de Nina Brummer percebiamse os ossos de sua face. E onde devo ir com o senhor?

— Para casa. Ou melhor, voltar para o hospital. Acharemos uma desculpa. Dentro de uma hora a senhora estará novamente em sua cama. Ninguém saberá da sua fuga.

Apertou as mãos contra as fontes e gemeu porque já não me entendia.

- Que interesse tem o senhor em que eu fique aqui? O senhor sabe tudo, segundo declarou. Portanto sabe que quero afastar-me de meu marido... e por que motivo...

— Aconteceram muitas coisas depois da última vez que

a senhora me viu. Seu marido...

—... está na prisão.

— Por enquanto.

Olhou em redor e cochichou. - Por enquanto?

— Não ficará muito tempo. A senhora não pode ir para Paris. Seria uma loucura. Eu... eu — parei subitamente porque a revi nua diante de mim, vi o formoso corpo branco que, com todas as suas fibras, parecia-se com outro que não voltaria mais - eu não consinto.

— O senhor deve estar louco. Que significa consentir? O senhor é o chofer.

— O Sr. Worm não virá.

Agora, os formosos olhos se escureceram com lágrimas e senti compaixão, verdadeira compaixão e não mais desejo.

— Êle... não... vem?

— Não.

— Não acredito no que diz. Mandei-lhe a passagem de avião. Marcamos o encontro. Nosso vôo está programado para dentro de uma hora.

Coloquei algo sobre a mesa.

Pequeno e de côr azul-pálido, estava entre nós dois o bilhete. Ambos olhamos para êle e, finalmente, ela sussurrou:

— Seu bilhete?

— Sim.

— Como chegou às suas mãos? Aconteceu-lhe alguma coisa? — seus olhos denotavam pânico.

— Não.

— Mas, o bilhete.

— A senhora quer ouvir-me? Quer escutar tranqüilamente? Tenho algo a contar-lhe.

Mordeu os lábios e assentiu com a cabeça. Comecei a falar:

— Há cinco dias prenderam o seu marido em Berlim. Já o sabia, não?

— Sim.

— Há quatro dias, no sábado, regressei eu a Düsseldorf, cerca das dezoito horas...

 

Havia quatro dias, no sábado às dezoito horas tinha voltado com o carro a Düsseldorf. Tomei um banho quente e fiz a barba. Depois fui à cozinha onde sentei-me e comi um ótimo ensopado de vitela que Mila Blehova tinha preparado para mim. Ela já sabia da minha volta. Eu lhe telefonara de Brunswick. (”São onze horas. Chegarei entre as cinco e as seis da tarde, Sra. Blehova.” — ”Muito bem, Sr. Holden. Mas, por favor, trate-me por Mila. Todos me chamam Mila, a velha Mila.” — ”Neste caso, deverá chamarme de Robert.” — ”Não, por favor, não.” — ”Por que não, Mila?” — ”Porque o senhor é um homem, Sr. Holden, e muito mais jovem que eu. Poderiam murmurar coisas.”)

Eu descansei nesta tarde de sábado, quando regressei para casa. Li o jornal na banheira, sentei-me junto à janela do meu quarto sobre a garagem, fumando um charuto e contemplando o parque que, pouco a pouco, desaparecia na crescente escuridão. Depois sentei-me ao lado de Mila, na cozinha, comi o apetitoso ensopado e bebi a gelada cerveja Pilsen. As duas empregadas tinham ido à cidade dançar e o empregado estava no cinema.

O velho cão dormia junto à lareira. Julius Brummer fora, portanto, forçado a deixá-lo em casa. Mila preparava a massa para uma torta. Quebrou dois ovos sobre o monte de farinha, botou açúcar e cortou muitos pedacinhos de manteiga, que espalhou pela mesa.

Falou-me:

— Estive com a minha Nina esta tarde, Sr. Holden. Deixaram-me vê-la.

— Como está ela?

— Meu Deus, a minha pobre Nina ainda está muito fraca. Mas tinha os lábios pintados e me disse: Sabes Mila, porque receava que fizessem isto a meu marido é que fiz o que fiz — Mila Blehova começou, cuidadosamente, a amassar todos os ingredientes. De vez em quando respirava profundamente. — Eu lhe disse: Nina, bobinha, que imaginaste? Nosso querido patrão é completamente inocente, todos nós sabemos. Foram os invejosos, porque êle ganha tanto dinheiro, que apresentaram denúncias falsas. Serão obrigados a soltá-lo muito breve e os outros é que serão julgados. Nina perguntou-me: como o sabes? Eu respondi que o próprio patrão me havia dito.

— Quando? — perguntei eu.

— Hoje, ao meio-dia. Êle veio com dois senhores da polícia e o advogado, levou roupa limpa e uma porção de papéis. Foi então que me disse: Não fiques nervosa, Mila, tudo isso é um mal-entendido e nada mais. Não voltes a ter os teus soluços, não vale a pena. — Assim é êle, o patrão. Pensa sempre nos outros e nunca em si mesmo.

— Sim — concordei, enchendo novamente de cerveja o meu copo, é um homem admirável.

— Não é verdade, Sr. Holden? Estou muito contente que o senhor pense o mesmo. Para mim é o patrão, o homem mais maravilhoso do mundo. Tão bondoso. Tão generoso. Êle faz muito bom juízo do senhor.

Tornou a respirar profundamente:

— Meu Deus, meu Deus, meus arrotos!

Com um rolo aplainou a massa até ficar muito fina.

— Tudo acabará bem — disse otimista. — Não tenho o menor receio. O patrão é bom e, por isso, todos os homens maus estão contra êle. É o que eu penso — colocou, com cuidado, a fina massa numa fôrma de metal e começou a enchê-la com rodelas de maçã, À torta a alegrava.

— É para o Sr. Brummer?

— Naturalmente. Torta de namorado, sabe? A massa muito fina e muita fruta. Pedi licença aos senhores da polícia. Certamente, responderam, pode levar a torta à prisão, amanhã. Sempre comeu torta aos domingos. Para êle era o melhor dia... - Mila sorriu.

— Pois é, os maus conseguem o poder durante algum tempo, mas só por algum tempo, não é verdade Sr. Holden? Veja, por exemplo, o Hitler. Tornou-se tão poderoso que o mundo inteiro tremia diante dele. Mas, quanto tempo durou? Caiu do seu poder e o bem triunfou. E Napoleão, com todas as suas vitórias, acabou afinal, prisioneiro numa ilha, como o senhor sabe. Também César, que seguramente tinha muito poder, apesar de tudo ouvi dizer que o apunhalaram no Parlamento de Roma. Não, eu disse a minha Nina que o bem sempre acaba vencendo. Por isso nada devemos temer quanto ao patrão, não acha que tenho razão?

— Mila?

— Sim.

— Quer fazer-me um favor?

— Qualquer coisa que queira, Sr. Holden.

Enfiei a mão no bolso e retirei uma chave pequena e de feitio especial.

— Quando a chamei de Brunswick pelo telefone, tinha uma quantidade de papéis no carro. São papéis que provam que o Sr. Brummer é completamente inocente.

— Meu pequeno Jesus de minhalma, eu já sabia.

— Aluguei um cofre num banco de Brunswick e nele guardei todos os papéis. Só eu os posso retirar, com esta chave e um número de código.

— Oh, o senhor teve toda a razão. O senhor é um homem bom e tivemos sorte em conhecê-lo.

— Fique com a chave, Mila. Guarde-a. Não diga a ninguém que está em seu poder. Conhece algum bom lugar para escondê-la?

— Tenho um sobrinho que mora perto daqui. Vou levarlhe a chave esta noite mesmo.

— Ninguém pode fazer nada com a chave, está compreendendo? Só eu posso abrir o cofre com ela mas, apesar disso, não quero ficar com ela.

— Logo que acabe de fazer esta torta irei à casa do meu sobrinho, Sr. Holden.

— Obrigado, Mila.

— Ah, antes que me esqueça, alguém o chamou por duas vezes...

— Sim, um amigo. Precisa falar urgentemente com o senhor.

— Como se chama?

— Não quis dizer o nome. Era um pouco tímido. Está no bar Éden. Pelo nome do bar Éden o senhor deve saber quem é, não?

Concordei, com um gesto de cabeça e pensei em suas longas e sedosas pestanas e na sua rapsódia incompleta.

— Talvez eu vá hoje até lá. O ensopado estava maravilhoso, Mila, o melhor que já comi.

— Não me faça corar, Sr. Holden.

— Não, é a pura verdade. E obrigado pelo assunto da chave.

Enquanto ela abria o forno para ver como ia a torta tive a impressão de ver sobre os ladrilhos brancos da cozinha a figura de minha mãe. De longe, de muito longe, ressoava a voz de uma mulher que durante toda a vida fora perseguida por dívidas, pelos fornecedores, pelos cobradores de impostos e pela necessidade, cada dia renovada, de preparar comida quente para a família: ”O sábado é o mais belo dia da semana...”

Estava muito elegante com o seu smoking e tocava esplendidamente. Era realmente bem dotado. Tinha olhares de quem tem fome, quando fixava mulheres que o contemplavam embevecidas. Um belo rapaz, esse Toni Worm.

O bar Éden estava repleto. Não havia uma cadeira vazia. Muita gente vai passear nos sábados. Sentei-me junto ao balcão em forma de ferradura. Havia muitas velas, muito veludo e algumas mulheres da vida. Estas eram muito modestas.

No balcão estavam uma velha bailarina e três mulheres. Bebi uísque, para comemorar este sábado e sentei-me um pouco cansado da viagem. Fazia muito tempo que eu não me sentava em um bar e que não bebia uísque. Olhei para Toni Worm e êle, atrás do piano, fêz um gesto de reconhecimento. Isso significava que viria a meu encontro, logo que tivesse tempo. Correspondi a seu gesto como que indicando não ter pressa alguma.

O uísque esquentou-me e acalmou-me e pensei em um jardim, da minha infância, onde brincara e colhera cerejas de uma árvore. Éramos pobres mas sempre existira um jardim para brincar.

— Outro uísque? — perguntou a garçonete, por detrás do balcão. Não era muito esbelta mas o seu corpo era passável. Possivelmente era um pouco abundante demais. Desde que eu saíra do presídio, tinha um fraco pelas mulheres bem nutridas. Usava um vestido de noite, preto, sem mangas e muito decotado, muitas jóias falsas e maquilagem exagerada. Os cabelos, pintados de vermelho, estavam penteados para trás.


Ela sorria sem abrir a boca. Provavelmente os dentes não eram bons.

— Sim — respondi. — Quer tomar um, também?

— Com muito prazer.

Encheu o meu copo. Quanto ao seu, encheu-o por detrás do balcão. Olhou-me e sorriu com os lábios cerrados.

— Chá? — perguntei.

— Como?

— Naturalmente o seu copo tem chá em vez de uísque. Seria impossível beber uísque com cada cliente. Além do mais deve estar em condições de prestar contas, no fim da noite.

— O senhor é muito simpático — declarou a garçonete de cabelos ruivos e bebeu à minha saúde. — Em verdade é chá. Gelado não tem gosto mau. Eu tenho uma filha.

As luzes foram apagadas. Apenas um refletor se concentrava sobre a figura de uma rapariga de cabelos pretos que se aproximou do piano e começou a despir-se lentamente. A orquestra parou, somente Toni Worm continuava tocando.

”No, no they can’t take that away from me...”— cantou a rapariga e tirou o casaco do tailleur. A saia também foi tirada.

- Minha filha se chama Mimi — contava-me a garçonete. — Eu me chamo Carla.

... ”the way you wear your hat, the way you sip your tea...” — cantava a rapariga que fazia o strip-tease.

— Ruiva, alta como eu. Mais jovem, é claro. Muito suave. Quero que estude história do teatro.

... ”the memory of all that — no, no, they can’t take that ãway from me...”

A combinação. O soutien. A meia de seda direita. A esquerda. As ligas ela deixou que as tirasse um cliente magnificamente embriagado.

— À sua saúde, Carla! — disse-lhe. — Meu nome é Robert.

— Saúde, Robert. De verdade é uma moça encantadora. O pai nos abandonou. Mimi e eu ficamos muito unidas. Ontem ela foi falar com gente da Grungens. Provavelmente será contratada como cenarista.

— Acaba de completar dezenove anos. Gostarás dela. Tão meiga. Mora comigo.

— Hum.

— Fica um pouco mais. Eu saio às três. Cearás comigo. Mimi ficará contente.

A rapariga dos cabelos negros deixou cair a última peça do vestuário. O projetor apagou-se e Toni Worm parou de tocar. Quando as luzes voltaram a se acender, a rapariga havia desaparecido. Toni Worm vinha em minha direção. Agora tinha tempo. Um tipo muito esquisito apareceu no palco com uma porção de bolas de borracha e mostrou como se pode ser engraçado com muitas bolas. Os assistentes riram muito. Toni Worm sentou-se junto de mim.

A garçonete Carla afastou-se.

— Estou satisfeito que tenha vindo, Sr. Holden. — Que aconteceu com o senhor?

- Isto — meteu a mão no bolso e tirou um caderninho estreito, de côr azul. Era uma passagem da Air France para Paris, com o nome de Toni Worm e carimbado para um vôo no dia 27 de agosto às 20 horas, partindo do aeroporto de Düsseldorf—Lohausen.

— Não lhe disse que não quero nada que ver com ela? Senti que enrubescia.

— Naturalmente que sim.

— Fugir para Paris! Que loucura. Justamente agora que trancafiaram o velho.

— Como pôde arranjar o bilhete? Ela ainda está no hospital...

— Também não entendo. Deve ter pedido pelo telefone. As pessoas ricas têm crédito.

”É verdade”, pensei eu.

— Mandaram o bilhete à minha casa. Com uma nota. Devo estar no restaurante do aeroporto às dezenove...

Inclinou-se para mim.

— Vou dizer-lhe uma coisa. Eu vou embora. Amanhã, pela manhã, sem esperar mais...

— Para onde?

— Há um outro bar Éden. Em Hamburgo. Pertence ao mesmo dono. Falei com êle. Abandono isto aqui.

— Tem tanto medo assim?

— Sim — confessou. As longas pestanas tremeram. — Não sei o que o senhor representa na família. Não me importa. Eu somente tenho a dizer isto: a mulher é perigosa.

— Bah, tolice.

— Com ela corre-se perigo de vida — fêz um sinal a Carla. Ela se aproximou.

— Olha. Vês o que tenho aqui?

— Uma passagem de avião para Paris. Por quê?

— Que estou fazendo com ela?

— Pondo-a no bolso de Robert.

— Lembre-se bem — desceu do banquinho. — Talvez alguém te pergunte sobre esta passagem.

O homem esquisito que fazia malabarismo com muitas bolas inclinou-se. O auditório aplaudiu. Toni Worm disse-me:

— Você se recordará de mim.

Retirou-se.

— Bom rapaz — disse a garçonete. — Nestes últimos dias mudou completamente. Ninguém sabe por quê. Vai embora amanhã.

Toni ”Worm sentou-se ao piano e recomeçou a tocar. Uma rapariga ruiva avançou pela pista com um simpático chimpanzé. O macaco despiu a rapariga loura, que me fêz recordar de Nina- Brummer, pensei no aviso de Toni Worm e lembrei-me de como era Nina Brummer nua.

— A tua filha também é ruiva? — perguntei à garçonete.

— Sim, meu querido. Mas é ruiva de verdade e não à custa de tinturas como esta.

— Podes tentar conseguir sair antes que de costume? — perguntei, colocando uma nota embaixo do meu copo.

 

Sôbre A garçonete Carla e sua filha Mimi nada disse a Nina, porque isso não tinha importância. A não ser isso, contei-lhe, naquela tarde de 27 de agosto, enquanto estava sentado diante dela no restaurante do aeroporto, tudo que acabo de descrever.

Enquanto eu falava escureceu completamente e a noite chegou. A tormenta transformou-se em furacão. Diante da torre do controle vi como bailavam as lâmpadas. Parecia um ballet. Enquanto eu falava, dois aviões aterraram e outro levantou vôo. Sete adultos e um menino estavam agora sentados no restaurante.

—... dessa forma chegou a passagem às minhas mãos. Assim fiquei sabendo que podia esperá-la aqui, esta tarde.

Ela contemplou-me sem se mover. Seu rosto tinha a palidez de uma máscara. Os olhos reluziam febrilmente. Só em seus olhos havia vida.

— Acredita-me, agora?

— Não — disse Nina Brummer. — Não posso acreditar. Não pode ser verdade. Seria terrível demais.

— Vamos embora.

— Devo ficar.

— Por quanto tempo ainda?

— Até que o avião parta. Eram dezenove e vinte e cinco.

— A senhora ainda acredita, mas é em vão.

— Esperarei.

Chamarão pela senhora... Aos dois... o nome dele e o seu...

— Esperarei.

— É bem possível que haja amigos seus aqui..., conhecidos de seu marido.

Dos oihos de Nina Brummer rolaram lágrimas.

— O senhor não me compreende, mas não faz mal. Fico aqui. Esperarei.

— Garçom — exclamei nervoso. - Aproximou-se.

— O senhor deseja?

-— Uísque — disse-lhe. — Um duplo. Traga depressa.

Subitamente reparei que as minhas mãos tremiam. Que coisa estranha — pensei — trata-se do destino de Nina Brummer e não do meu.

 

Por muito tempo pensarei na meia hora que se seguiu. Provavelmente nunca a esquecerei. Fui testemunha de algo fantasmagórico. Uma mulher jovem tornava-se velha. A cada minuto decaía mais e mais.

Nina Brummer virou o rosto. Eu não devia ver que ela estava chorando. Todos os que estavam no restaurante podiam vê-lo. Bebi o uísque e achei que tinha um sabor oleoso e amargo. Apesar disso, encomendei outro.

— A senhora não está se sentindo bem? — perguntou o garçom.

— Vá andando — respondi grosseiramente. — Vá embora, tudo está bem.

Ofendido, êle retirou-se.

— Toni lhe disse, disse mesmo que não queria nada mais comigo?

— Procure compreendê-lo. Um homem jovem, acossado pelo medo. Êle...

— Êle o disse?

— Sim.

— Disse-lhe: Vou-me embora?

— Contei-lhe tudo que êle me disse.

O menino aproximou-se, com o dedo no nariz e olhando fixamente para Nina Brummer.

— Siegfried — chamou sua mãe. — Queres vir imediatamente para aqui?

Às 19h35m o alto-falante começou a reclamar: ”Sr. Tom Worm, passageiro da Air France para Paris. É favor comparecer ao balcão da companhia.”

— Aí está — exclamei!

— Pouco me importa — sussurrou ela.

O garçom trouxe o meu segundo uísque. Eu estava suando. As pessoas estavam nos observando.

Às 19h40m a voz pouco inteligível dos alto-falantes tornou a chamar por Toni Worm e novamente às 19h45m. A voz parecia impaciente e irritada.

-- A nota — pedi.

O garçom, ofendido, recebeu sem dizer palavra o dinheiro que lhe entreguei. Dirigi-me a Nina:

— Pelo menos vamos para baixo, senhora.

— Tenho um encontro marcado aqui. Devo ficar.

— Êle não virá.

— Ainda falta um quarto de hora.

O alto-falante gritou: ”Atenção! Atenção! A Air France anuncia o seu vôo número 541, com destino a Paris. Rogamos aos senhores passageiros dirigirem-se à porta número três para serem conduzidos para bordo. Senhoras e senhores, desejamo-lhes uma boa viagem.”

19h48m.

Abaixo de nós os primeiros passageiros saíram do vestíbulo e foram acompanhados até o aparelho que os aguardava na pista açoitada pela tempestade.

19h50m.

”Sra. Nina Brummer e Sr. Toni Worm que têm passagem da Air France para Paris, pedimos que se apresentem imediatamente para exame de passaportes e despacho de bagagens. O avião está à sua espera.”

— Vai embora de uma vez - murmurou Nina Brummer zangada — deixe-me só.

— Não pense que estou aqui por amor ao próximo. Não me interessa um escândalo neste momento.

— Não lhe interessa um escândalo? Que pretende dizer com isso?

— Aconteceram muitas coisas desde sábado passado. Olhe para o meu rosto.

— Que aconteceu?

— Venha comigo e eu explicarei.

— Não, eu fico.

19h54m

”Atenção, atenção. Sr. Toni Worm e Sra. Nina Brummer, passageiros da Air France para Paris. Venham por favor e imediatamente para apresentar seus passaportes, para despacho de bagagem. Seu avião está prestes a decolar.”

Subitamente ela se pôs em pé, cambaleou e voltou a cair sobre a cadeira.

— O senhor... me... ajudaria.

Passei o braço direito pela sua cintura. Com, a mão esquerda peguei a sua capa e a maleta de jóias. Dessa forma acompanhei Nina Brummer pela escada. Todo mundo olhava para nós. No vestíbulo um empregado do aeroporto perguntou-me:

— É o Sr. Toni Worm?

— Sim — respondi. Para mim, como para ela tudo era indiferente.

— Que tem a senhora?

— Esta indisposta, não pode viajar. Ajude-me, por favor.

— Quer que chame um médico,

— Não, ajude-nos até o carro, só até o carro. Eu sou médico.

Êle e eu levamos Nina Brummer até o portão de saída. Algumas pessoas nos acompanhavam. Subitamente ela começou a gritar, histèricamente:

— Toni... — e outra vez — Toni, oh meu Deus!

— Sim — disse-lhe eu, sentindo o suor escorrer pelas costas. — Sim, querida, sim...

Finalmente conseguimos levá-la ao carro. Dei uma gorjeta ao empregado. Parti tão rápido quanto possível. Os pneumáticos rincharam na primeira curva. Até chegarmos à estrada ela não tornou a falar:

— Sr. Holden...?

— Que há? — eu, agora, estava furioso.

— Por favor, leve-me até êle.

— Já não está em Düsseldorf.

— Só quero tornar a ver a casa. Somente a casa.

— Está fechada.

— Eu tenho a chave.

Subitamente, agarrou-se frenèticamente a meu braço. Eu não esperava isso e o carro desviou-se para o lado esquerdo da estrada. Fiz girar o volante, imediatamente, mas o Cadillac dançou loucamente por alguns instantes. Sem pensar e por um gesto puramente reflexo, bati-lhe com o cotovelo direito, batendo em cheio, no seu peito. Ela se enroscou no canto, uivando de dor.

Pensei: ”Quanto tempo mais ela agüentará? Certamente vai perder os sentidos a qualquer momento e poderei levá-la para o hospital.”

Falei-lhe apaziguadoramente:

— De acordo. Vamos à casa dele. Com a condição de a senhora ficar quieta.

— Ficarei calma. Farei tudo que quiser, Sr. Holden. Apenas leve-me à sua casa, por favor.

— Okay — respondi, — okay.

Ficou calada até chegarmos à cidade. Chorava em silêncio mas, quando chegamos, murmurou:

— Por favor, conte-me o resto... diga-me por que fêz tudo isso...

Fiquei em silêncio.

— O senhor disse que me contaria...

— Muito bem — respondi. — Então ouça...

Fiquei ainda algum tempo em casa... naquele bar. Já era dia claro quando, no domingo, voltei para casa.

 

JÁ era dia claro quando, no domingo, voltei para casa. O sol brilhava e no parque da residência cantavam os pássaros. A grama ainda estava coberta de orvalho mas as flores já abriam suas corolas. Eu estava um pouco bêbado, mas não demais. A mãe e a filha tinham-me dado um café de despedida.

Levei o carro para a garagem. A filha de Carla, Mimi, não tinha dezenove anos, como a mãe dissera, mas, no mínimo, vinte e cinco e, provavelmente, também não era filha de Carla, mas, em compensação, era ruiva de verdade. Agora eu o sabia perfeitamente.

Sobre a garagem estava o pequeno apartamento do chofer. Consistia de uma sala pequena, o quarto de dormir e um banheiro. Tudo isto agora era meu, pois morava sozinho, por cima da garagem. A residência estava a uns duzentos metros de distância, no centro do parque. Subi a pequena escada que levava aos aposentos, pensando, com satisfação, em minha cama. Eu estava cansado.

Eu era esperado. Eles eram três. Não guardo nenhuma idéia precisa de suas fisionomias. Só sei que eram muito altos e estavam de chapéu. Eram mais altos e fortes que eu e eram três.

O primeiro estava atrás da porta e os outros dois sentados em minha cama.

O primeiro, logo que passei pela porta, deu-me uma pancada, com o bordo da mão, sobre a nuca. Fui violentamente atirado para frente e, enquanto voava pelo quarto, pensei que os boxadores chamam a esse golpe rabit punch. (O golpe do coelho).

O segundo atingiu-me a barriga, com um soco.

Caí. Eles cometeram o erro de bater-me com demasiada brutalidade, desde o princípio.

Fiquei estendido sobre o tapete. O sol matinal iluminava o quarto enquanto os três atiravam-se sobre mim, batendo durante algum tempo.

Comecei a gritar mas, como as janelas estivessem fechadas, compreendi que isso não adiantaria. Desisti da idéia.

Dois deles levantaram-me, segurando meus braços e o terceiro tirou tudo que eu tinha nos bolsos e colocou sobre a mesa. Até aquele momento não me tinham causado ferida que sangrasse e eu podia ver claramente e fiquei com a impressão de que ainda estavam com os chapéus nas cabeças.

— Onde está a pasta?.— perguntou o primeiro.

— Não mintas — acrescentou o segundo. — Sabemos que está em teu poder.

— Viram-te, em Berlim — continuou o terceiro — no maldito Cadillac.

Reparei, naquele instante, que haviam revistado meus aposentos. Os armários estavam abertos, minha roupa branca estava no chão e a jaqueta cinzenta tinha o forro arrancado. Isto me irritou e respondi:

— Já não está comigo..

— Onde está?

— Levei-a, imediatamente, á um advogado de Berlim.

Pensei que um nome falso seria tão bom como um verdadeiro e respondi:

— Meise.

Então o primeiro cuspiu-me na cara e os três voltaram a bater. O primeiro e o segundo curvaram meu corpo sobre a mesa e o terceiro começou a desferir socos na minha barriga e em outros lugares.

Vomitei um pouco de bílis. Eles começaram a se revêsar. O segundo atingiu-me no estômago.

Neste momento, caiu-lhe o chapéu da cabeça. Continuavam perguntando sempre a mesma coisa e eu respondia, como antes, que havia deixado a pasta em Berlim, com um advogado chamado Meise.

Começaram a suar e descansaram. O primeiro apanhou a chave do carro, foi à garagem e revistou o Cadillac. Voltou dizendo:

— Nada.

A seguir sentaram-me numa cadeira, segurando-me os braços e começaram a esmurrar minha cara. Comecei a sangrar. Enchi de sangue minha roupa, minha camisa branca, e a gravata prateada com quadrados azuis.

A seguir, ofereceram-me dinheiro, mostrando-me notas graúdas e deram-me um cigarro. Eu tinha um dente quebrado e meus lábios sangravam.

O sol entrava, cada vez mais forte em meu quarto, mas eu só lhe sentia o calor, pois estava cego pelo sangue que escorria sobre os olhos. Os homens fumavam e eu sentia o cheiro dos cigarros e enquanto me seguravam, para que eu não caísse da cadeira, pensava no que freqüentemente dizia meu pai: ”São exatamente as coisas que não possuímos que nos dão mais força.”

A frase destinava-se a consolar minha pobre mãe com a esperança de felicidades metafísicas para contrapor à nossa miséria física. Essa manhã, entretanto, eu a interpretei de outra forma. Pensei que tinha a chave do cofre de alguel...

— Escuta, porco idiota — disse o primeiro homem, — por que está agindo assim? É o teu pescoço que está ameaçado? És tu que estás na cadeia?

— Brummer recebe agora o que merece — disse o segundo..— Diga-nos onde estão os documentos.

— Eu não os tenho.

— Diga-nos o que te paga Brummer — recomendou o terceiro. — Nós te pagaremos mais.

— Não me paga absolutamente nada.

O primeiro cuspiu-me na cara, novamente, acrescentando:

— Estou vendo que assim não adianta, companheiros, temos que tratá-lo com um pouco de dureza.

Não quero descrever o que me aconteceu. Machucaramme demais e com pressa demais. Suporto mal a dor e ao fim de poucos minutos estavam dissipados os meus bons propósitos e queria contar tudo, queria levar os três indivíduos à Brunswick e entregar-lhes os documentos, queria receber o dinheiro deles, não era nenhum herói nem queria sê-lo, queria contar tudo. Não cheguei a fazê-lo porque perdi os sentidos. O erro deles foi ter tanta pressa. A última coisa de que me lembro foi ouvir o ronco e o agitado ladrar de um cão no parque...

 

Mila Blehova estava sentada em minha cama quando recobrei os sentidos. Ela torcia as mãos.

— Jesus, Maria e José, Sr, Holden, que susto e que emoção. Pensei que meu coração ia parar.

O velho cão cheirava o cobertor da cama, lambia-me a mão e gemia surdamente. Verifiquei que estava cheio de ataduras. Havia muita luz no quarto e a claridade fazia-me mal aos olhos. Tinha o rosto inchado e todo o corpo doía.

— Ouvi o cão — disse-lhe.

— Sim, também o velho Pupele ficou louco de repente. Dormia em meu quarto, quando subitamente começou a ladrar e chorar e fêz com que eu viesse com êle até o jardim. Êle precipitou-se para a garagem. Deve ter um sexto sentido o nosso Pupele. Corri tão depressa quanto podia atrás dele, mas já cheguei tarde. Ainda consegui ver os três, os assassinos, os malditos. Saltaram a vala e fugiram. Então encontrei-o aqui, desmaiado e coberto de sangue. Pensei que estivesse morto. Estou velha demais para suportar essas coisas, Sr. Holden. Desde a guerra de Hitler eu não tinha náuseas tão fortes.

— Queriam conseguir os papéis, Mila.

— Já pensei nisto, já...

— Quem fêz os curativos?

— Chamei o Dr. Schneider. Voltará ao meio-dia. A polícia esteve aqui. Também voltará às onze horas.

— Muito bem.

— Também telefonei ao advogado do patrão. Pede que não diga nada a ninguém.

— Hum...

— Estive também na casa do pedreiro. Virá começar o trabalho, hoje mesmo. É domingo, mas êle não se importa. Vamos colocar grades em todas as janelas.— pegou uma folha de papel e colocou óculos com aro de aço. — Anotei tudo. Pode prestar atenção.

— Não por muito tempo.

— Disse o advogado que logo que o senhor possa deve ir à prisão, falar com o patrão. Obteve licença para vê-lo... Puxa, que sujeira.

. — Que foi, Mila?

— O patrão fêz uma petição à administração, pedindo o favor de deixarem o cão ficar com êle, pois está tão acostumado. Pagaria as despesas. Foi recusada. Disseram que o máximo permitido era um canário...

— Naturalmente.

— O advogado também ordenou que não se conte nada à patroa do que aconteceu ao senhor. Ficaria muito nervosa.

— Claro.

— Êle fêz bem em avisar-me porque Nina telefonou, faz uma hora.

- Que queria?

— Tinha receio de que a polícia viesse e apreendesse coisas do patrão e coisas dela.

Tentei sorrir, mas doeu-me muito o rosto.

— Pediu-me que levasse o seu porta-jóias ao hospital e os abrigos de pele. Durante o verão as mandamos guardar numa peleteria.

Pensei que as mulheres, mesmo nos momentos de paixão, conservassem um certo sentido da realidade. Também em Paris é preciso ter alguma coisa para poder viver...

— E documentos e cartas. Queria tudo com ela. Por que está rindo, Sr. Holden?

 

Os policiais vieram mais ou menos às onze e eu lhes disse que três desconhecidos me haviam perguntado por certos papéis.

Que papéis?

— Não tenho a menor idéia.

— Mas devia ter alguma idéia de que se tratava.

Não, eu não tinha nenhuma idéia. Imaginei que se tratasse de algo relacionado com a prisão do Sr. Brummer. O Sr. Brummer parecia ter muitos inimigos. Havia muito pouco tempo que eu estava como chofer do Sr. Brummer. Não tinha idéia de nada.

Depois dos policiais veio o médico que me socorrera. Fêz uns curativos e depois deu-me uma injeção que me fêz ficar muito cansado. Adormeci, sonhei com Nina e subitamente ouvi um grande estrondo que me fêz dar um salto na cama, sufocado. Com o coração batendo loucamente pensei, durante segundos, que me encontrava de novo na Rússia e os tanques soviéticos atacavam; então abri os olhos.

Um homem barbudo e nu da cintura para cima olhavame pela janela. A janela era ao lado da minha cama. Estava aberta e o homem do lado de fora devia estar flutuando no ar porquanto reparei que não se apoiava no peitoril. Várias vezes, durante a minha vida, tive medo de perder a razão. Desta vez tornei a ter medo.

O barbudo contemplou-me sem falar. Tudo estava em silêncio.

— Acordei-o? — perguntou o barbudo, enfiando, curioso, a cabeça para dentro do quarto. O céu, por trás do homem, tinha a côr do mel.

— Quem é o senhor?

— Sou o pedreiro. Estou colocando a grade. Deixei-me cair, aliviado e sem forças, sobre o travesseiro. — Está trepado numa escada?

Sorriu, com a boca muito grande e declarou:

— Claro. O senhor pensa que tenho asas?

 

Sorriu, com a boca muito grande, declarando ”Claro. O senhor pensa que tenho asas?” Acabava eu de contar quando chegamos à casa número 31-A da Rua Stresernam. Retirei a chave da ignição.

— Chegamos.

Nina Brummer estremeceu. Curiosa, contemplou a lôbrega fachada, as cariátides de arenito, a velha entrada e as enfezadas árvores que a sombreavam.

— Quer dar-me a capa? Estou com... muito frio. Coloquei-lhe a capa sobre os ombros. Desceu do carro

e caiu. Ajudei-a a levantar-se. Sujara o casaco e eu o limpei com o lenço. Seu corpo estremecia. Seus lábios tremiam.

— Acompanhe-me... por favor, até em cima.

Tornei a ampará-la e entramos no sombrio vestíbulo.

— O interruptor... à esquerda.

Encontrei o interruptor e liguei-o mas a escada continuou às escuras.

— Quebrado.

Acendi o meu isqueiro e acompanhei aquela mulher com capa de vison pela escada de madeira que estalava e levava ao primeiro andar. A fraca chama iluminava paredes manchadas e úmidas. Nina Brummer pesava, cada vez mais, sobre o meu braço. A certa altura parou, respirando com esforço.

Veio-me à mente uma frase de Leon Bloy que eu lera não sei onde: ”No coração do homem existem recônditos, antes ignorados, onde penetra o sofrimento e constituindo a base do seu vigor.”

Enquanto acompanhava Nina Brummer até a porta do apartamento de Toni Worm pensei que neste lugar e neste momento seu coração sentia o que se encontrava num desses recônditos. Encostou-se, arquejante contra a parede e começou a remexer em sua bolsa. A placa de metal com o nome do antigo ocupante ainda estava na porta. Só Toni Worm faltava. Como o nervosismo de Nina tentando achar a chave me impacientasse, apertei o botão da campainha. Lá dentro soou a campainha, forte e clara. Ela murmurou:

— Por que o senhor está fazendo o que faz?

— E a senhora, por que faz tudo isso?

Nina Brummer não respondeu. Finalmente encontrou a chave e abriu a porta que rangeu. Nina Brummer entrou e acendeu a luz. Entrei atrás dela.

A sala de estar estava vazia. Os móveis tinham desaparecido. Espalhados pelo soalho havia jornais, papel juntado, dois caixotes com aparas de madeira, uma camisa suja e três livros. Apanhei um deles e li: Marcel Proust, À procura do tempo perdido.

Deixei-o cair ao chão. Nina Brummer estava no meio da sala, a luz da lâmpada nua caía sobre seus ombros. Examinava, atentamente, tudo que restava na sala, murmurando baixinho algo que não compreendi. Com os ombros caídos e arrastando os pés, dirigiu-se para o banheiro.

No banheiro havia tubos vazios de creme para barba, um pedaço de sabão, um rolo de papel higiênico e um velho roupão. Nina Brummer dirigiu-se para a cozinha onde só havia um fogão, diante do qual estavam, no chão, muitas garrafas vazias. Comecei a contá-las e, quando cheguei a quatorze, ela comentou, com voz sem expressão:

- É estranho, não? Eu o amava de verdade.

Disse isso olhando para a torneira da pia.

— Vamos embora — roguei.

— Eu sei que o senhor não acredita. Para o senhor sou apenas uma mulher rica e histérica que tem um capricho por um homem jovem. Um homem bonito e muito mais jovem.

— Já viu tudo. Por favor, voltemos. Abriu a torneira que começou a jorrar água.

— O mais surpreendente é que eu acreditava que êle também me amasse — riu. — Disse-me que era o primeiro amor de sua vida.

O único. Antes de mim nunca amara de verdade. Como isso tudo é risível, não acha? — fechou novamente a torneira. — Quantas garrafas há?

— Como?

— O senhor estava contando as garrafas enquanto eu estava falando.

Dirigi-me para ela e a fiz voltar-se para mim. Ela caiu contra meu peito e começou a chorar.

— Eu... eu queria divorciar-me... e então nos casaríamos imediatamente. Sabe que compôs uma rapsódia dedicada a mim?

— Precisamos ir.

— Não posso mais... preciso... sentar-me um pouco. — Aqui não há móveis.

— Não posso mais ficar em pé... ai, Mila, como me sinto mal — exclamou em tom de criança infeliz.

Com muito cuidado, levei-a até o banheiro e a fiz sentar na borda da banheira. Chorou ainda um pouco e depois pediu um cigarro. Fumamos ambos. As cinzas caíam sobre os ladrilhos do chão. Disse-lhe o que ainda faltava contar:

— Tinha visto os documentos e as fotocópias. Não conheço as pessoas a que se referem. Sei entretanto o grande poder que representam. Seu marido tornou-se muito poderoso com esses documentos.

— Êle não os tem ainda. Estão com o senhor.

Agora que me recordo dos fatos, penso que foi uma conversa estranha. Duas pessoas que não se conheciam num apartamento estranho. A mulher, com a capa de peles, sentada na borda da banheira. Seu chofer de pé, diante dela. E o temporal investindo contra as janelas.

Respondi:

— É verdade que tenho os documentos e quero conservá-los. Esse é o meu plano.

— Mas...

— Mas permitirei que o advogado do Sr. Brummer me acompanhe a Brunswick e tire fotocópias dos documentos que estão no banco — declarei com uma vaidade que, muito em breve, me recordaria. — Naturalmente, ficarei com os originais.

— Não! -— Sim. Amanhã, de manhã, vamos a Brunswick.

— Não faça isto.

— Por que não? Respondeu-me com ar muito sério.

— Meu marido é um homem muito mau.

— Apesar disso a senhora tem vivido com êle muito tempo. E vivido muito bem.

— Eu não sabia como era mau. Quando... quando compreendi tentei matar-me — seu cigarro caíra no chão. Pisei sobre êle. Enquanto isto, ela continuava falando e parecia ter esquecido, por alguns segundos, a sua tristeza. — Não o faça, Sr. Holden. Eu sei o que acontecerá quando o meu marido tiver as fotocópias em seu poder.

— Que poderá acontecer?

— Coisas espantosas. Ninguém poderá impedi-lo. Estou dizendo muitas palavras que para o senhor nada significam.

— Estive na prisão — disSe eu. - Já tenho quarenta anos e, durante muito tempo, tudo me correu mal. Agora vai bem. E vai ser ainda melhor. Quem me agradeceria se eu não entregasse as fotocópias a seu marido?

— Outras pessoas.

— Os outros me são indiferentes.

Ela perguntou-me, então, em voz baixa:

— Nunca amou ninguém?

— Deixe em paz o amor. Onde está o Sr. Worm? — respondi exaltado.

— Teve medo... É tão moço... Foi o senhor mesmo quem disse.

Comecei a andar de um lado para outro.

— Não. Não quero correr mais riscos. Com seu marido estou seguro. Graças a mim êle tornou-se invencível. Fique junto de nós.

— Não posso.

— A senhora tem bens? Tem uma profissão? Que acontecerá se abandonar seu marido? Um escândalo. Êle pedirá divórcio. Será absolvido no processo que lhe estão movendo.

A senhora não conseguirá um centavo. Terá que vender suas jóias para poder viver. Uma por uma. Um dia verá que não tem mais nada para vender. Conheço a pobreza e as dificuldades.

— Eu também.

— Pois, então?

— O que o senhor diz não me convence. Prefiro vender logo todas as jóias e começar logo a ser pobre. Como se pode viver com um homem que se despreza e odeia?

— Muitos o fazem — disse-lhe. — Não é tão difícil. Para as mulheres é mais suportável.

Negou, com a cabeça, e ficou calada. Estava muito bela naquele instante e comoveu-me profundamente. Nesse dia começou o nosso amor, nosso estranho amor começou naquela tarde tempestuosa de 27 de agosto.

Tornei a suplicar:

— Por favor, agora venha. Ela não se moveu e murmurou:

— O senhor foi pobre?

— Sim.

— E por que, por que se preocupa tanto comigo.

— Porque se parece com uma pessoa que conheci.

— Quem era.

— Minha mulher — confessei em voz baixa. Subitamente, seus olhos tornaram-se muito escuros, os lábios tremeram como se fosse chorar novamente. Mas não chorou. Aproximou-se de mim e, de uma forma irreal, impossível, tive a sensação de que Margit, minha falecida mulher, estava perto de mim. Olhei-a fixamente. Ela murmurou:

— Onde está sua mulher?

— Está morta — respondi com voz surda, — Eu a matei.

— Por quê?

— Porque a amava. E porque me traiu. Os olhos de Nina tornaram-se escuros. Seu hálito bafejou meu rosto.

Três segundos. Cinco segundos.

Repentinamente cambaleou como se fosse desmaiar. Aparei-a nos braços e beijei-lhe a boca. Ela consentiu como se fosse a coisa mais natural. Mas sua boca permanecia fechada e foi como se eu beijasse uma morta. Seus lábios estavam gelados.

Sim, foi assim que começou o nosso amor.

Ficamos muito tempo apoiados, um no outro e era tal o silêncio que poderíamos crer sermos as únicas pessoas na casa, possivelmente as únicas em todo o mundo. Finalmente ergueu o rosto para mim e pude ver que não havia gota de sangue em suas faces.

— Não posso mais — murmurou. — Leve-me para o hospital.

 

Ela adormeceu no carro. Sua cabeça repousava no meu ombro e eu dirigi com muito cuidado para não acordá-la. Apesar disso ela abriu os olhos, durante segundos, quando fazíamos uma curva. Sorriu mas sem me reconhecer.

”Já foi tão pobre quanto eu”, pensei. Isto era alguma coisa. Era também tão ambiciosa e sem escrúpulos. Isso era melhor. Tinha bom senso e se rendia quando a resistência era inútil. Tudo isso eu tinha pressentido. Lembrei-me de que eu tinha ido ao aeroporto porque já tinha imaginado que assim fosse. De outra forma ficaria indiferente ao que lhe pudesse acontecer.

No Hospital Santa Maria, Nina não recuperou completamente os sentidos. Ali chegara perto de um desfalecimento total e falava como se estivesse sonhando, chamando por Toni e por Mila.

— Sr. Holden, que aconteceu? — quis saber a superiora, Angelika Meuren, a mesma que, de vez em quando, assinava o estranho livro da capela. Era rechonchuda, rosada e muito bondosa.

Eu menti:

— A senhora chamou-me de um café.

— Como foi até tal lugar?

— Queria ver seu marido, madre. Suas preocupações e cuidados com êle a forçaram a fazer isso. Sentiu-se mal e não pôde continuar.

— Naturalmente eu já tinha telefonado para sua casa.

Isto era desagradável,

— Mas ninguém atendeu.

Isto era satisfatório.

— Mila, ajuda-me, Mila — exclamava Nina, enquanto a colocavam sobre uma padiola.

— Sejam tolerantes com ela — pedi. — O destino a trata duramente. Seu marido, a quem ama mais que tudo, está na prisão, inocente.

Ela olhou-me, em silêncio, e temi ter ido além da medida. Parecia que a madre superiora compartilhava da opinião de muita gente que achava que Julius Maria Brummer tinha, finalmente, recebido o que merecia.

Enquanto isso, levavam Nina para o primeiro andar, passando pelos nichos onde estavam imagens de santos e santas e vasos com flores. Tinham estendido sobre ela uma manta cinzenta, que a cobria inteiramente deixando ver apenas uma mecha de seus cabelos ruivos.

Olhei para ela. Afastei-me dois passos para poder contemplá-la por mais tempo. Vi toda a sua beleza embora coberta pela manta que a envolvia; senti o seu perfume embora já não estivesse perto de mim e pensei como era bom que ela também tivesse sido pobre no princípio da vida. Notei, então, que os olhares da superiora se fixavam, pensativamente, sobre mim e apressei-me em perguntar se podia guardar o cofrezinho de jóias e o abrigo de pele na caixa forte do hospital. Sim, era possível. Guardei comigo a chave do porta-jóias.

— De agora em diante, uma irmã ficará, dia e noite, ao lado da Sra. Brummer -— prometeu a superiora e com um sorriso que nada me agradou, acrescentou: — Não fique preocupado, Sr. Holden.

— Boa noite — limitei-me a responder, enquanto pensava: ”Parece que ela já me conhece.”

Saí, rapidamente, do hospital.

Chegando em casa fiquei sabendo por que ninguém havia atendido ao telefone.

— Todos nós, as meninas, o empregado e eu, tivemos que ir prestar declarações. Nada especial. Outra vez por causa da tentativa de suicídio da minha Nina. Estávamos a sua espera. Foi ao cinema?

— Sim.

— Fêz muito bem. Precisa distrair-se um pouco. Viu uma fita triste ou cômica?

— Cômica.

— Naturalmente. Em momentos como este também gosto de ver coisas alegres. De Heinz Ruhmann? Conhece-o?

— Sim.

— É o meu preferido. E também aquele de nariz grande. Creio que se chama Fernandel. Ainda dói a sua cabeça?

— Já não dói mais. Poderia você acompanhar-me, de manhã cedo, à casa do seu sobrinho?

— Claro que sim. Para buscar a chave, não é?

— Às sete? Não será cedo demais? Tenho que fazer outra longa viagem.

— Combinado — concordou ela. - Às sete. Hoje poderemos todos dormir descansados. Já colocaram grades em todas as janelas.

Realmente, dormi um sono profundo e repousante. De manhã, tirei o Mercedes branco da garagem e saí, com Mila. O céu estava de um azul profundo e não havia vento. Estava fresco. O Reno reverberava sob a luz do sol nascente. O velho cão estava entre nós dois. Mila contava:

—...é o único parente vivo que tenho. Filho de minha irmã. O menino •— Santo Deus, sempre digo menino apesar de já ter vinte e oito anos — o menino é bom e o senhor gostará dele. O repórter.

— Onde trabalha?

.— Na redação do jornal local. Escreve os Informes Policiais, crimes, suicídios e tudo o mais. Tem um aparelho de rádio sempre ligado. Eu não entendo nada, sou uma velha boba, mas êle sabe tudo que acontece em Düsseldorf e, com o seu Volkswagen vai a toda parte. Tira fotografias e escreve. A casa é aquela, o número quatorze.

Parei diante de um edifício novo. A rua estava vazia e os raios do sol passavam através dos ramos das árvores. Mila Blehova desceu.

— Espere um momento, êle descerá logo — disse-me.

Atravessou a rua e apertou o botão da campainha do edifício. No quinto andar abriram uma janela. Com sua voz trêmula de velha e erguendo a cabeça, Mila chamou:

— Butzel?

— Já voa descer.

Mila, seguida pelo velho cão voltou em minha direção e ficou de pé junto ao carro.

— Já vai descer, Sr. Holden.

— Qual é o nome dele? Ela riu.

—- Peter Romberg. Mas sempre o chamamos simplesmente de Butzel — falava alongando os a. — Desde que me posso recordar o seu nome é Butzel,

O repórter local, Peter Romberg, saiu do prédio e entrou em minha vida e, desde aquele instante, tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá era inevitável. Naquela manhã de 28 de agosto, ainda cedo, estava jogada a cartada com a vida de Julius Brummer. Ninguém, naquele instante, poderia ter a menor suspeita.

 

Peter Romberg era magro, tímido e usava óculos. Seus cabelos eram de um ruivo arroxeado e cresciam como se fossem uma escova. Seu rosto era sardento e seu nariz, grande. Riu. Sempre que vi Peter Romberg êle estava rindo. Só ultimamente é que êle já não ri.

Vestia calças de flanela cinza e uma camisa acinzentada, com o colarinho aberto. Chegou junto ao carro e beijou a face de sua tia.

— Desculpa se não te reconheci logo.

— Não tem importância, Butzel. Apresento o Sr. Holden.

— Como está? — disse eu.

— Como está o senhor? — disse êle estendendo a mão. — Sou muito míope. Cinco dioptrias. no olho direito e seis no esquerdo. Cego como uma coruja — tinha dentes irregulares mas o seu sorriso era agradável. — Desde que tenho vinte anos uso os mesmos graus.

Mila riu.

— Posso dizer-lhe, Butzel?

— Dizer o quê? — perguntei curioso.

— Tem apenas vinte e oito anos mas é casado e tem uma filha.

— Não! — exclamei, realmente surpreendido. Que idade tem?

— Seis anos e chama-se Mickey.

— Aventurou-se muito cedo, Sr. Romberg.

— É um bom rapaz, Sr. Holden. Sua mulher é muito boa- Se êle se meter com outra terá que ajustar contas comigo. Usarei o rolo de massa.

’- Mila — suplicou êle, encabulado.

— Ah, Sr. Holden, precisa conhecer sua mulher, Carla, e a garota. Eu sou louca pela menina. Ela é um encanto...

— Sr. Romberg, foi um prazer conhecê-lo.

— Muito obrigado — riu. — Aqui está a chave. Coloquei-a no bolso.

Êle falou, com simplicidade.

— Sabe de uma coisa: eu tinha o Sr. Brummer na conta de um trapaceiro. Mas, se existe uma pessoa no mundo em quem confio é em Mila. E Mila há anos que me repete que o Sr. Brummer é o melhor e o mais correto homem do mundo.

— E tem razão — confirmei.

— O senhor deve nos visitar qualquer dia, Sr. Holden.

— Com muito prazer, Sr. Romber.

— Por enquanto ainda não temos tapetes e estamos pagando os móveis da cozinha a prestações. É possível que minha mulher reclame um pouco; o senhor sabe como são as mulheres mas eu gosto muito da minha casa, não é verdade, Mila?

— Claro que sim, meu filho.

— Eu lhe mostrarei minhas fotografias.

— Êle é meu sobrinho mas posso afirmar que faz fotografias magníficas, o meu Butzel.

— O senhor sabe, todas essas fotografias de crimes e de sangue, o rádio da polícia, tudo isso é porque precisamos viver. Quando eu fôr independente farei coisas mais interessantes.

— Que o interessa mais, Sr. Romberg?

— Os animais.

— Gostaria de fotografar animais?

— E também escrever sobre eles — sorria, novamente. — Acho que os animais são muito mais interessantes que os homens.

— Precisa ver as fotografias, Sr. Holden — continuou Mila Blehova. — As dos pelicanos são as mais bonitas que vi em toda a vida. O meu Butzel será famoso, algum dia, por causa delas. Ai, meu Deus, outra vez os arrotos.

 

Julius Maria Brummer tinha entregue a sua defesa a um advogado chamado Zorn, que viajou comigo, naquela manhã, para Brunswick. O Dr. Hilmar Zorn era de baixa estatura e tinha uma cabeça de intelectual. Quando ficava nervoso ou cansado acontecia alguma coisa com seus olhos. As pupilas se afastavam do eixo, e êle ficava vesgo. Além disso padecia nessas ocasiões de certos transtornos orais e tinha uma necessidade incontrolável de enfiar os dedos no colarinho e puxar para o lado. Usava sempre coletes de cores vivas, mesmo quando fazia calor.

Nesta manhã, obrigou-me a dirigir a passo de cágado, durante meia hora enquanto estávamos nas quietas ruas do bairro de Rungfeld. Somente depois de estar absolutamente; certo de que não éramos seguidos é que permitiu que eu dirigisse para a auto-estrada. Disse êle:

— Em nossa situação devemos agir com absoluta segurança em tudo que fazemos. Só assim podemos pretender alcançar êxito.

Falava com grande seriedade e dava a impressão de estar empenhado numa cruzada pela cultura ocidental contra belicosos bárbaros das estepes. Depois compreendi que a seriedade era a sua maior força. Sugestionava. A pessoa defendida por Zorn aparecia imediatamente, ainda que a meia-luz, com a auréola dos injustamente perseguidos.

Na auto-estrada o tráfego era intenso. Dos dois lados da linha branca central as pistas estavam cheias. Separados por poucos metros, os automóveis corriam velozes, para o norte e para o sul. Andávamos a uma velocidade uniforme de cem quilômetros por hora e não se podia nem sonhar, naquelas condições, em tomar a frente dos outros.

Fazia um tremendo calor naquele dia. Dentro do carro, com os vidros fechados, estava um pouco mais fresco. As filas de automóveis não diminuíam. Os pneumáticos cantavam sobre o asfalto. O Dr. Zorn esteve sentado a meu lado imóvel, das oito até as onze e trinta. Usava terno cinza, camisa branca e gravata prateada. O colete era vermelho com sete botões prateados e êle não desabotoou um só deles. Eu dirigia em mangas de camisa, com as mangas arregaçadas e o colarinho aberto. Quando o relógio do painel de instrumentos assinalou 11h30m em ponto, Zorn começou a falar:

— O senhor transpira.

Tive que concordar.

— Olhe para mim.— continuou. — Está me vendo transpirar? Nem uma gota. E por quê? Porque não quero. É uma questão de vontade. Sabe o senhor que sem o colete eu também suaria? Por quê? O colete ajuda a manter a postura. A postura é tudo. Sr. Holden, estamos atravessando tempos difíceis — prosseguiu, sem transição.

— Perdão?

— Bona causa trwmphat, compreende o senhor?

-Até este ponto, sim.

— Muito bem. Apesar de tudo, viveremos tempos agitados. O Sr. Brummer é, hum, um personagem, histórico da atualidade. Não pode ser designado de outra forma. Há muito dinheiro em jogo e, quando isso acontece, as pessoas concebem as idéias as mais disparatadas.

— Não consigo entendê-lo claramente, doutor.

— Posso supor, Sr. Holden, que o senhor também esteja possuído de tais idéias. Imagino, por exemplo, que o senhor tem a ilusão que vou a Brunswick unicamente para fotografar os documentos, deixando os originais no cofre.

— Esta também é a minha idéia — disse-lhe. — O senhor tira as fotografias, os documentos ficam no cofre e eu guardo a chave.

Êle suspirou profundamente, envesgou os olhos e enfiou os dedos no colarinho.

— Eu fotografo, os documentos ficam no cofre e o senhor entrega-me a chave. Já, agora.

Então o verei, novamente

— Oh, não — exclamei.

— Ta, ta, ta — fêz êle. — Então o verei, novamente em Stadelheim.

— Onde?

— É favor segurar o volante com mais firmeza, Sr. Holclen. A esta velocidade pode facilmente acontecer um desastre. Disse-lhe Stadelheim e com isso queria designar a penitenciária da Baviera, situada naquela cidade. Sem dúvida o local lhe é familiar visto que lá viveu durante nove anos.

Baixei um pouco o vidro a meu lado e respirei profundamente, pois parecia que eu ia desfalecer.

— Faça o favor de fechar o vidro, Sr. Holden, não suporto correntes de ar.

— Não pode haver corrente de ar com um só vidro aberto — objetei rudemente. Mas levantei o vidro.

O pequeno advogado tirou um papel do bolso e colocou solenemente os óculos:

— Sr. Holden, acredito que lhe parecerá lógico que em se tratando de uma causa que envolve interesses tão importantes, tomemos informações sobre todos que dela participam. Não acha? O senhor, quando se apresentou como candidato a chofer do Sr. Brummer, disse-lhe que havia possuído um negócio de quadros, em Munique.

— Eo tive.

— Contou-lhe, também, que por motivo da falência fraudulenta do negócio havia sido condenado à prisão.

— É verdade, cumpri uma pena.

— Mas não por motivo de falência, Sr. Holden — começou a manifestar as costumeiras dificuldades de elocução. — Eu lhe peço, pela última vez, que dirija com mais prudência. Segundo informações da justiça do Estado de Munique, o júri o condenou, no dia 13 de abril de 1947 a doze anos de trabalhos forçados pelo assassinato de sua esposa Margit. (Êle pronunciou Ma-margit). O júri reconheceu circunstâncias atenuantes. O senhor foi soldado durante cinco anos e por dois anos foi prisioneiro de guerra. Quando o senhor voltou para casa em — hum — primeiro de setembro encontrou a sua esposa...

-— Cale-se.

—... em situação inconfundível com o pintor de painéis Leopold Hauk...

— Já lhe disse para calar.

—...e bateu sobre ela com a perna de uma cadeira que havia quebrado, de tal forma que Margit Holden, nascida Roniewicz, veio a falecer na mesma noite, em conseqüência dos ferimentos recebidos.

Fiquei em silêncio, agarrado com toda a força ao volante porque tinha dificuldade em manter o carro em linha reta. Vieram-me, então, à mente uns versos da ópera Dreigroschen: ”Sim, faz um plano e te converterás em algo importante, se fizeres um segundo plano os dois desmoronarão.”

O advogado continuou consultando o seu papel!

— As simpatias do júri estavam com o senhor, Sr. Holden. O senhor declarou, várias vezes, ter amado muito sua mulher. Estas coisas sempre causam boa impressão.

Um letreiro azul e branco passou, rápido, por nós. Dizia que estávamos a mil e quinhentos metros dos limites da cidade de Brunswick. O advogado continuava falando:

- O senhor teve bom comportamento na penitenciária. Por isso foi liberado a 11 de janeiro de 1956, por boa conduta. O senhor sabe perfeitamente que terá que cumprir o resto da pena se infringir qualquer artigo do Código Penal.

O doutor passou os dedos por dentro do colarinho.

O suor saía-me pela raiz dos cabelos, caía sobre as pálpebras e escorria pela face. Algumas gotas entravam-me na boca e eu sentia o seu amargo sabor.

— Em Berlim Oeste o senhor praticou vários atos contra a lei — resumiu Zorn. — Penso, também, que a indevida retenção de propriedade alheia causaria uma péssima impressão ao juiz encarregado de rever o seu caso. Em minha imay inação posso vê-lo, novamente em sua cela,

— Que pretende o senhor?

— A chave, Sr. Holden. ”Sim, faz um plano...”

— E se eu entregar a chave, que acontecerá?

— Não sei o que acontecerá, Sr. Holden. Só sei o que acontecerá se o senhor não me der a chave.

”... te converterás em algo importante...”

— Perto do posto de gasolina, ali adiante, há um local para estacionamento. Faça o favor de parar ali.

”...Se fizeres um segundo plano...”

— Caso contrário, seria obrigado a apresentar uma queixa criminal contra o senhor, por infidelidade, extorsão e violência...

Levei o carro para o estacionamento ao lado do posto de gasolina. Havia flores azuis, brancas e vermelhas. O chão estava juncado de papéis, jornais e cascas de laranja. Quando parei, ficou sob a roda dianteira um exemplar do Westdeutschen Allgemeinen. O cabeçalho dizia: A república FEDERAL ALCANÇOU O SEU PONTO CULMINANTE NA EXPORTAÇÃO.

— A chave — disse Zorn, passando o indicador direito por dentro do colarinho.

Entreguei-a. A minha mão estava molhada, mas a dele estava seca. Fechou a mão sobre a chave e declarou:

— Não pense que seria difícil imaginar-me em sua posição. O senhor não tinha outra alternativa senão colaborar.

— O senhor esteve na Rússia, perguntei?

— Estive em Stalingrado. Pode partir novamente -— prosseguiu, dando um puxão na gravata. — Dentro de meia hora estaremos em Brunswick.

Enfiou a chave num bolso do colete, com movimentos rápidos e graciosos.

— Para mim é uma coisa terrível ver como sua, Sr. Holden.

”...e os dois desmoronarão.”

 

Daí por diante foi como se eu não existisse para o pequeno advogado.

Tornou a olhar, impassivelmente, para a frente, as mãos sobre os joelhos, ereto e digno. Dirigia muito lentamente, pois continuava a sentir-me muito mal. Aspirei profundamente e, depois de alguns minutos, comecei a sentir-me melhor, mas continuava incapaz de ligar duas idéias, tal o terror die que estava possuído.

— Gostaria de pedir que andasse um pouco mais depressa, Sr. Holden — falou o homenzinho que estava a meu lado. — Terei, pelo menos, duas horas de trabalho no banco:

Eu era mais forte. Podia abatê-lo, tomar-lhe a chave do cofre, atirar Zorn fora do carro e chegar ao banco. E depois. Existia o telefone que era mais rápido que o automóvel. E se eu o matasse... pelo amor de Deus, isso é uma loucura...

Pisei no acelerador.

— Esta cidade era muito civilizada — disse o pequeno advogado. — Os ataques aéreos destruíram setenta e dois por cento dos edifícios. Tudo foi queimado e ficou em ruínas. Os maravilhosos palácios e as velhas vigas de madeira lavrada. Enquanto eu estiver trabalhando no banco, recomendo que visite a catedral. É do século XII e Henrique Leon lá está sepultado.

Fui, realmente à catedral, depois de levar Zorn ao banco. Contemplei as estátuas góticas e fiquei muito tempo diante do leão de pedra, sob o qual jazia um homem que se chamara Henrique.

Eu tinha quarenta anos. Se Brummer apresentasse uma queixa contra mim, por tentativa de chantagem, passaria vários anos atrás das grades.

Sentei-me na base do monumento porque, novamente, sentia-me mal. Pensei em minha falecida mulher, a quem amara e me havia traído. Agora ela estava morta e eu não a amava. Já havia tempo que eu não a amava.

Um sacristão passou perto de mim e disse:

— O senhor não pode sentar aí.

Levantei-me novamente.

”Meu Deus, ajuda-me, faz com que.

Interrompi, subitamente, minha oração que me pareceu sem sentido. Tentara algo que fracassara. Brummer devia ter desconfiado de mim, desde o princípio, e já antes da viagem a Berlim pedira a seu advogado que sindicasse o meu passado. A sua especialidade eram os passados. Eu deveria ter pensado nisso.

Teria sido fácil demais. Êle tinha muito poder e muito dinheiro. Eu nada tinha. Era impossível... Se eu tentasse ir para o estrangeiro? Tinha o carro e meu passaporte estava em ordem...

Não, seria impossível.

Se eu não voltasse, pontualmente para buscar o Dr. Zorn, tudo estaria perdido. Restava-me, ainda, a pequena possibilidade de que Brummer não apresentasse denúncia. Eu pediria perdão. Ficaria muito submisso. É claro que eu deveria ser muito submisso. Nesse caso, teria uma pequena probabilidade. É muito estranho, mas o homem sempre espera ter uma pequena probabilidade.

E Nina?

Não, por enquanto não podia pensar em Nina. -

Tinha muito que pensar em mim mesmo.

Quando eu amava alguém sempre havia complicações.

— Telhas, senhor? — perguntou-me uma voz fina.

Diante de mim estava uma velha senhora vestida de preto. Era muito curvada. Apoiando-se num bastão, seu magro corpo descrevia um semicírculo. A velha senhora tinha o rosto enrugado e pálido onde luziam dois grandes olhos negros. Na mão esquerda tinha uma caixa de papelão onde havia papéis coloridos. A senhora continuou:

-— O Todo-Poderoso o recompensará. ’— Por que motivo serei recompensado pelo Todo-Poderoso?

— O telhado da nossa catedral precisa ser renovado — explicou pacientemente. — Para isso precisamos de muitíssimas telhas. Cada uma custa cinqüenta pfenings. Quer comprar uma, senhor.

Dei-lhe um marco.

— De que côr? -— Como?

— De que côr quer as duas telhas? Será um telhado de várias cores. Ou quer que lhe devolva cinqüenta pfenings? — a voz saiu meio surda.

— Não. Quanto à côr é indiferente.

— Então lhe darei duas de côr castanha. Umedeceu o indicador e procurou na caixa. Quando fêz

o gesto, caiu-lhe a bengala. Apanhei-a. A velha senhora entregou-me dois papéis de côr castanha que mostravam uma vista da catedral. Debaixo da gravura um arcebispo agradecia o donativo.

— Deus seja louvado. Enfim posso ir para casa.

— Desde quando está a senhora aqui?

— Desde muito cedo — a velhinha explicou: — Cada dia tenho que vender dez telhas. Com estas duas cheguei, hoje, a onze.

— Tem que vender? Quem a obriga a isso.

A senhora inclinou ainda mais a cabeça e sussurrou:

— Fiz uma promessa. Para que Deus me perdoe um pecado.

E com estas palavras foi andando, com o corpo curvado, a cabeça pendendo para o lado, sorridente e amistosa. A moça de Düsseldorf que fazia parte das Testemunhas de Jeová também tinha sorrido assim.

Teria pecado gravemente a velha senhora? Que espécie de pecados podiam cometer pessoas de sua idade? O mais provável é que o pecado tivesse sido cometido na juventude. E agora vendia telhas para a glória do Senhor e para maior alegria de um arcebispo. Durante toda a manhã sentira calor. Agora tinha frio. Procurei, novamente, a luz do sol. A cidade escaldava.

A poeira, com a luz, ofuscava como a neve e todas as coisas pareciam ter perfil mais agudo e mais duro. Levei o carro de volta ao banco.

Zorn estava à minha espera. Elegante e correto estava à beira da calçada, com uma pasta debaixo do braço. Parei a seu lado e êle subiu e queixou-se:

— O senhor chegou com seis minutos de atraso.

— Custei a encontrar a rua.

— Mais quatro minutos e eu teria ido à polícia — esclareceu.

Eu fiquei calado.

— Aluguei um segundo cofre de segurança e nele coloquei a chave do primeiro. A chave do segundo ficou aos cuidados do diretor do banco que é meu conhecido. Estou dizendo isto para que não perca tempo com idéias fantasiosas, durante o regresso.

Sobre a auto-estrada o ar parecia ferver. Durante os primeiros cem quilômetros o homenzinho não abriu a boca, mas notei que me observava, atentamente, com o rabo do olho. Finalmente, não me contive e perguntei:

— Por que está me olhando.

— Curiosidade — respondeu êle. — Estudo os tipos humanos. O senhor não tem tipo de ladrão.

— Não? — perguntei esperançado.

— Não — continuou — tem mais tipo de assassino -- e só falou novamente quando chegamos a Düsseldorf. — Terá notícias minhas — disse-me quando o ajudei a saltar, em frente ao seu escritório.

Eu estava muito cansado e fui diretamente para casa. Mila Blehova informou:

— A minha Nina telefonou. Quer falar com o senhor, Sr. Holden.

— Amanhã — disse-lhe, — amanhã.

— Está com fome?

— Não me sinto bem. Tem algum remédio para dormir? Ela trouxe um remédio e vi, pela bula, que se devia tomar um ou dois comprimidos ao deitar. Tomei quatro e não fizeram efeito. Passei a noite em claro, escutando o ruído dos galhos das árvores junto ao lago. Vi como o céu tomou a côr do chumbo, passou a cinza claro, a rosado e depois amarelo.

Minha cabeça doía horrivelmente e eu estava com muito medo.

O sol subiu mais alto que as árvores e a ramaria parou de fazer ruídos. Ouvi vozes que vinham da rua, campainhas de bicicletas, buzinas de automóveis e, ao longe, os barulhos da cidade que despertava. Às oito soou a campainha do meu telefone. Mila avisou-me!

— Alguém acaba de falar, da prisão. O patrão quer falar com o senhor, com urgência. Obteve permissão para o senhor ir visitá-lo, mas tem que ser antes das onze. Vá imediatamente, por favor.

Pensei como, para certas pessoas, tudo era fácil. Como, por exemplo, para velhas estropiadas senhoras que, depois de cometer um grande pecado, faziam uma promessa e, desse modo, nada tinham que temer de Deus e dos homens. Não, já nada tinham a temer.

 

A sala era GRANDE. Era no quarto andar do edifício do tribunal e suas janelas gradeadas não se podiam abrir. Por isso fazia tanto calor. A sala era dividida em duas partes por duas armações com tela metálica, de malha muito fina e que iam do chão ao teto. As duas armações de tela estavam colocadas paralelamente e a alguma distância, uma da outra. De ambos os lados havia mesas e cadeiras. Entre as armações não havia nada.

Sentei-me debaixo de uma das janelas fechadas e esperei, suando. A dor de cabeça tinha aumentado. Ao fim de dez minutos abriu-se uma porta do outro lado da sala e um funcionário, com uniforme preto, entrou. Coxeava.

-— Por favor Sr. Brummer. Levantei-me.

Julius Maria Brummer entrou pelo outro lado da sala. Vestia camisa branca e calças azuis. Seus sapatos estavam sem cordões e o colarinho da camisa estava aberto. Não tinha gravata. Ao vê-lo estremeci. O rosto redondo estava mortalmente pálido e por baixo dos olhos aquosos encravados em massas de gordura havia grandes sombras violáceas. De vez em quando levantava Brummer o ombro esquerdo em direção à cabeça e fazia um movimento giratório, como se quisesse coçar a orelha com o ombro.

— Sr. Brummer, o senhor tem direito a dez minutos de conversa — informou o funcionário capenga. Sentou-se. Brummer aproximou-se de sua grade e olhou para mim. Eu me aproximei da minha grade e não o olhei.

— Olhe para mim Holden ~ ordenou Julius Maria Brummer.

Fiz um esforço para fitá-lo. Vi os pequenos e pérfidos olhos de um tubarão, vi o bigode ruivo descorado, as faces cinzentas, a testa estreita e os dentes de rato. Apoiava-se contra a grade e o rosto balofo tremia. Mas não disse uma só palavra.

— Dez minutos, Sr. Brummer — lembrou o funcionário.

— Holden — disse Brummer. Sua voz sibilante era quase inaudível através da dupla malha de arame. Meu advogado esteve aqui, ontem à noite. Contou-me tudo.

— Sr. Brummer — comecei, — antes que continue permita que eu...

— Só temos dez minutos — interrompeu. — Não há palavras para o que o senhor fez...

— Sr. Brummer, Sr. Brummer...

— Havia poucos dias que o senhor me conhecia. Nada sabia a meu respeito. Não tinha nenhum motivo para defender meus interesses. E, entretanto — neste ponto elevou a voz — o senhor o fêz. Ajudou-me, o senhor sabe quanto. Foi surrado. Não vire para o lado, quero vê-lo enquanto lhe estou falando. O destino está-me submetendo a rudes provas, neste momento, por isso é que fico tão emocionado e satisfeito encontrando um amigo onde não podia esperar.

Continuei olhando para êle e, enquanto a minha dor de cabeça fazia dançar diante de meus olhos a imagem de Julius Maria Brummer, ouvi-o dizer.

— Protegeu minha propriedade guardando-a em lugar seguro, de maneira genial. E imediatamente entregou-a espontaneamente a meu advogado. Sabe o que mais me emocionou, Holden? O que o senhor lhe disse ao entregar a chave.

— Não me posso lembrar do que disse.

— ”Tomara que possa ajudar ao Sr. Brummer” — disse o senhor. — ”Isto é tudo que desejo.” Nunca, ouça bem, Holden, nunca o esquecerei. Não posso apertar a sua mão porque ainda estou preso. Vá imediatamente ao escritório do meu advogado. Está a sua espera.

Peço que no espírito da verdadeira amizade que agora tenho pelo senhor aceite o que êle tem para lhe entregar Holden, o senhor é um homem de verdade.

— Sr. Brummer — disse eu — o que fiz qualquer outro o faria.

Sacudiu a pesada cabeça e um aroma de hortelã-pimenta atravessou as grades, quando respondeu:

— Ninguém o teria feito. Nem eu. Quem poderia acreditar. Não consegui mais dormir desde que fui forçado a abandoná-lo porque estava convencido de que o senhor... de que faria outra coisa. Sabe o que quero dizer. Ontem foi o dia mais feliz de minha vida, Holden. Devolveu-me a confiança nos homens.

— Só mais três minutos — avisou o funcionário.

— Holden, agora confio-lhe o que mais quero, o que tenho de mais precioso no mundo, minha mulher.

— Mas...

— A quem poderia eu confiá-la que fosse mais digno de protegê-la, Holden? — declarou Julius Brummer emocionado..— Amanhã sairá do hospital. Quero que a acompanhe passo a passo. Não a deixe, nunca, sair só. O senhor já sentiu no próprio corpo aquilo de que são capazes os meus inimigos. Holden, considero-o como a pessoa de minha maior confiança.

— Falta um minuto.

— Já terminei. Está tudo dito — Brummer inclinou-se profundamente. — Inclino-me diante do senhor, Holden. Inclino-me em sinal de agradecimento.

— O tempo está esgotado — disse o guarda.

— Quer dizer a minha mulher que eu a amo?

— Sim, Sr. Brummer, terei tnuito prazer em dizer a sua esposa que o senhor a ama.

— E que tudo irá bem.

— Recomende-me à Mila e diga-lhe que compre um bom pedaço de carne para o meu pobre Pupele.

Saudou-me com um aceno de mão e saiu da sala. Sentei-me e esperei que a cabeça parasse de girar. Depois saí, também, muito devagar porque o chão ondulava e tremia debaixo de meus pés e as paredes, em volta de mim, balançavam e tremiam e, no ar, eu via flutuar pequenos pontos luminosos.

Um bom pedaço de carne. Para o meu pobre Pupele,

 

-O senhor NÃ’o disse a verdade ao Sr. Brummer.

— Por acaso veio aqui para me censurar por isso? — perguntou o Dr. Zorn. Usava nesse dia um colete verde com uma roupa castanho-claro. Estava sentado atrás de sua mesa, fumando um charuto. As janelas da sala estavam fechadas. A fumaça azulada invadia a sala em baforadas sucessivas.

— Por quê me protegeu o senhor?

— Prefiro não responder a isto — disse-me. Usava uma gravata berrante de desenho escocês.

— Mas se antes fêz averiguações por conta do Sr. Brummer...

— Eu as fiz por minha própria conta. O Sr. Brummer nada sabe sobre o resultado das sindicâncias.

- Então, nada lhe disse sobre o meu passado?

— Estaria isso de acordo com as suas idéias, Sr. Holden? Então por que está fazendo tanto barulho sobre este assunto?

— Por que não compreendo o motivo que o levou a fazer o que fêz.

— Para imbuí-lo do sentido do dever e para tê-lo bem seguro — declarou tranqüilamente. — Por outro lado pensei que o senhor estaria em condições de fazer-me um favor, algum dia — começou a puxar o colarinho.

— Que espécie de favor?

— Prefiro não responder a isto — disse-me, pela segunda vez. Olhou para o relógio. — Lamento mas tenho uma pessoa à minha espera, na outra sala. Quer fazer o favor de assinar aqui.

— Assinar?

— Um recibo. De trinta mil marcos. Por motivos fáceis de compreender, o Sr. Brummer prefere não lhe entregar um cheque. Assine, para que eu possa entregar o dinheiro.

Assinei.

Zorn apanhou o recibo, examinou-o atentamente e abriu a gaveta da secretária.

- Espero que não se importe em receber tudo em notas de cinqüenta — contou seiscentas notas de côr violeta, colocando-as sobre a mesa, diante de mim. De quando em quando umedecia os dedos com a língua. Empilhava as notas em maços de mil marcos, cada um. — Não deve depositar este dinheiro em nenhum banco. Não poderá, também, fazer qualquer compra importante enquanto o Sr. Brummer estiver detido. Quero que prometa que continuará com sua vida normal — empurrou uma folha de papel em minha direção. — O senhor o promete por escrito.

Prometi, por escrito, ao assinar a fórmula já preparada.

— Nos próximos dias o senhor será abordado por muitos homens que não conhece — disse o diminuto advogado de basta cabeleira branca. — O senhor deverá me comunicar, imediatamente, toda tentativa de aproximação. E agora, queira me desculpar — levantou-se e estendeu-me a mão fria e seca. — O senhor visitou a catedral?

 

Os raios do sol bateram-me sobre a cabeça, como uma martelada, logo que cheguei à rua. A luz fazia-me mal aos olhos. Esse verão estava-se tornando desumano, os dias eram cada vez mais quentes. Tirei o casaco que pus debaixo do braço. Passei por uma loja de automóveis, uma joalheria e um alfaiate, pensando que, agora, poderia comprar qualquer carro, o melhor relógio e as roupas que quisesse. Isto é, poderia fazê-lo, mas não devia. Havia prometido manter o meu nível de vida. Era uma situação deveras curiosa. De acordo com o meu modo de vida habitual, sentei-me em uma mesa na calçada em frente a um pequeno bar e pedi uma limonada, com muito gelo. Havia seis mesinhas na calçada e doze cadeiras coloridas, mas eu era o único freguês. Tirei as notas do bolso e as contemplei. Primeiramente examinei o maço e, depois, nota por nota.

Tinha na mão o salário do medo, conseguido porque tentara roubar alguém e porque o Dr. Zorn tinha mentido ao Sr. Brummer. Por causa de tudo isto eu agora tinha trinta mil marcos. Se eu não tivesse tentado uma chantagem teria continuado pobre. O mesmo aconteceria se o advogado Zorn tivesse dito a verdade ao Sr. Brummer. Eram necessárias, portanto, duas ações imorais, simultâneas, para que se ganhasse dinheiro, uma só não chegava. Comecei a imaginar como eram feitas as fortunas.

O garçom aproximou-se com a limonada e eu, rapidamente, escondi o dinheiro. Bebi a limonada, a pequenos goles, porque não queria esfriar o estômago e ficar doente com tanto dinheiro no bolso, com tanto dinheiro...

Os cubos de gelo tintilavam no copo que se cobriu, do lado externo, de pequenas gotas de condensação. A limonada é a minha bebida predileta. Quando eu era pequeno, minha mãe preparava, no verão, grandes jarros de limonada que colocava no sótão, porque não tínhamos geladeira.

Com uma das mãos eu segurava o copo e a outra descansava sobre o bolso do casaco onde estavam as notas. Pensei em minha mãe e naquele dia de um verão passado que fora tão quente como hoje. Naquele dia chegou o oficial de justiça para penhorar alguma coisa em nossa casa...

Eu brincava no jardim quando êle chegou e observei que estava muito pálido. Sofria muito com o calor. O Sr. Kolscheit era velho e a sua roupa preta tornara-se brilhante de tanto uso. Trazia sempre uma velha pasta na mão, quando vinha à nossa casa, o que fazia freqüentemente.

Minha mãe, como de costume, acolheu-o com muita cordialidade.

— Meu Deus, Sr. Kolscheit, vir à nossa casa que é tão longe e com este calor. Está de torrar.

— O coração — disse o Sr. Kolscheit — é o coração, sabe a senhora? — teve uma sufocação. — Imagine o que me aconteceu hoje. Um homem agrediu-me a socos.

— Pobre Sr. Kolscheit.

— O susto, Sra Holden. Já não tenho vinte anos.

— Eu que o diga — disse minha mãe, apiedada. — Sente-se um pouco na varanda onde há sombra. E beba um copo de limonada.

— Não, não, muito obrigado,

— Está gelada e eu a faço com limões, nada de produtos químicos, Sr. Kolscheit. É claro que beberá um copo. Robert, querido, corre e traze o jarro.

— Já vou mamãe! Diga-me, Sr. Kolscheit, que aconteceu quando o homem o agrediu a socos?

— O que sempre acontece, meu filho. Vem a polícia, há gritos, safanões e levam o homem. Sua mulher, feia e desaforada, passou-me uma descompostura e lançou sobre mim várias maldições, dizendo que desejava que eu tivesse uma morte lenta, com um câncer no pulmão.

Que acha disso, Sra Holden? Que culpa tenho eu. Eu sou mandado pelo secretário do juiz que me diz: ”Anda, vai penhorar.” É há gente que pensa que isso me dá prazer.

— Pois eu gostaria — disse eu. — Mamãe, quando fôr maior quero ser oficial de justiça do tribunal. É uma profissão emocionante.

— Tu és uma criança que não entende nada disso. Não te metas em conversa de gente grande. Vá buscar a limonada.

Fui correndo buscar o jarro de limonada e um copo. O Sr. Kolscheit bebeu com sofreguidão e depois disse:

-,’Não lhe agradeço pela limonada, Sr» Holden, mas sim pela sua bondade. E agora vamos ao trabalho e grudou um selo de penhora sobre o único móvel de valor que nos restava, um grande armário do tempo da Imperatriz Maria Teresa. Depois, disse: — Só o faço porque é a minha obrigação mas vou lhes dar um bom conselho: paguem, de vez em quando dois marcos. Muito pouco. E nunca levaremos o armário. Os depósitos estão cheios e, entre nós, estamos afogados em móveis e não há maneira de conseguir vendê-los.

— É um bom conselho — agradeceu minha mãe. Ao despedir-se o Sr. Kolscheit beijou-lhe a mão.

— Não me guarde rancor.

— Oh, por favor — respondeu minha mãe.

Quando chegou à estrada, voltou-se várias vezes o pobre velho, saudando-nos com a mão e nós respondíamos. Minha mãe disse-me:

— Olha só, êle está com a meia completamente rasgada. Êle também, deve ter dívidas.

— E se um oficial de justiça tem dívidas e não pode pagar deve êle penhorar coisas em sua própria casa, mamãe? — perguntei.

Hoje, tantos anos depois, recordei-me da cena porque tinha um copo de limonada em uma das mãos e a outra sobre o bolso do casaco onde estavam trinta mil marcos.

Trinta mil marcos, bom Deus!

Bebi rapidamente o resto da limonada, paguei e entrei numa casa de flores que havia perto. Encomendei trinta rosas vermelhas.

— Queira mandá-las à Sra Nina Brummer, que está no Hospital Santa Maria.

— Quer mandar um cartão com as flores?

- Não.

— Quem devemos mencionar com remetente?

— A ninguém. Mande simplesmente as flores — disse.

Nina.

Agora podia novamente pensar nela. Agora eu tinha segurança. Isto nada tinha a ver com o meu amor; decidi, enquanto me dirigia para o local onde o carro estava estacionado. Na situação em que eu estivera, no dia anterior, qualquer um só teria pensado em si mesmo.

Ou talvez não?

Sentei-me no banco quente e fiz andar o carro. Pensava continuamente em Nina, Fiquei triste, eu que estivera tão contente...

Nina.

Não, provavelmente não era amor. Pelo menos, não era amor verdadeiro. De outra forma teria pensado nela, ontem, nela em primeiro lugar. Tratava-se com toda a probabilidade de uma simples atração.

Mas, se assim era, por que sentia esta sensação de culpa? Por que ficava triste ao pensar em Nina? Por que tudo isto não me era indiferente e eu só pensava em estar perto dela?

Ai, Nina.

Devia tentar esquecer minha viagem a Brunswick. Em hipótese alguma deveria falar dessa viagem a Nina. Se viesse a saber os fatos provavelmente sentiria medo de mim. Eu queria ganhar a sua confiança. Não é prova de amor querer merecer a confiança de alguém?

Quando parei diante de um sinal vermelho, aproximou-se um vendedor de jornais que me ofereceu um. Paguei e olhei para os cabeçalhos. Um deles, da largura de quatro colunas, BRUMMER DECLARA: SOU COMPLETAMENTE INOCENTE.

Olhei fixamente para as letras, pensei em Nina, em tudo que iria acontecer e, novamente, senti a cabeça girar.

Atrás de mim outros carros soaram as buzinas. A luz do sinal passara ao verde. Arranquei e pensei que Nina saberia, perfeitamente, quem lhe mandara as rosas vermelhas. Subitamente senti, com toda a nitidez, o seu perfume.

Talvez se tratasse de amor.

 

Meus passos ressoaram quando entrei no vestíbulo da casa. As janelas e as cortinas estavam fechadas para não deixar penetrar o calor. A casa estava obscura e fresca e sentia-se um cheiro de cera para soalho. Sobre a mesa, que ficava ao lado da lareira, havia um monte de cartas.

- Mila!

Não tive resposta.

Entrei na cozinha. Estava limpa e na mais perfeita ordem. Da torneira da pia pingavam gotas dágua que, no silêncio reinante, soavam forte.

- Mila!

Ouvi um débil uivo. A segunda porta da cozinha, a que dava para o quarto de Mila, abriu-se empurrada do interior. O velho cão entrou. Meio cego e cambaleante, chocou-se contra a lareira, gemeu tristemente e veio esfregar-se contra minhas pernas.

- Entre, Sr. Holden — ouvi Mila chamando. — Tive que me deitar por uns momentos.

Eu ainda não vira o seu quarto. Era pequeno e tinha uma janela que dava para o parque. Junto à cama havia uma cadeira de balanço. Sobre a mesa, ao lado, muitas fotografias de Nina, grandes e pequenas. Mostravam-na quando ela era menina, com vestido curto e uma fita nos cabelos; Nina adolescente e vestida de amazona, sobre um cavalo.

A velha cozinheira repousava numa cama de ferro, pintada de branco. À cabeceira estava uma imagem da Virgem. Estremeci ao vê-la. Seu rosto estava cinzento e brilhava.

Os lábios estavam azuis. Mila apertava as mãos contra o corpo. Estava vestida de preto, botinas altas com cordões, à moda antiga e um avental branco. A touca pendia para um lado.

— Pelo amor de Deus, Mila, que aconteceu.’

— Nada, Sr. Holden, nada, não se preocupe, já passou, são as minhas glândulas. Isto me acontece freqüentemente.

-— Precisa de um médico?

— Não. Para quê? Já tomei as gotas. Dentro de uma hora estarei perfeitamente bem. Aconteceu porque fiquei muito excitada, ainda há pouco.

— Por que motivo?

— Sr. Holden, todos foram embora. Arrumaram suas coisas e foram. O jardineiro os instigou porque todos os boateiros dos arredores dizem a mesma coisa, que é impossível que eles fiquem na casa do patrão — engasgou-se e o suor começou a correr pela face bondosa da anciã. — Tivemos uma cena, Sr. Holden... Ameacei denunciá-los se fossem embora sem o prazo de aviso, mas eles riram-se. Pouco se lhes importa! Eu que denuncie! Nada lhes acontecerá porque o próprio patrão está, também, denunciado como chantagista, e dos maiores. Foi então que tive a minha crise, naturalmente. Mas já está passando. Sinto que já estou melhor.

Sentei-me na cadeira de balanço e contemplei as fotografias. A velha cozinheira olhava para mim, atentamente.

— O senhor não irá, não é, Sr. Holden? — Não — respondi.

E olhei para as fotografias.

— Amanhã volta a minha Nina. Vai ver só como cozinharei coisas boas para nós três. Vamos passar muito bem. Enquanto o patrão não seja solto, só tomaremos uma mulher para a limpeza. É só o que precisamos, não é verdade Pupele?

O velho cão gemeu.

— Não fica contente com a volta da senhora para casa, Sr. Holden?

Fiz que sim com a cabeça e desviei os olhos para o jardim. Não podia mais olhar para as fotografias. Uma maçã amarela, perfeitamente madura, caiu da árvore. Eu a vi cair e rolar pelo declive da colina até a beira do lago.

 

Muito obrigada pelas rosas — disse-me Nina Brummer.

Estava sentada sobre sua cama de hospital. Um rapaz apanhava suas malas para levá-las ao carro. Estávamos sós. Nina usava, naquela manhã, um vestido branco, de linho, com estampados, certamente feitos a mão, representando flores fantásticas em azul, vermelho, amarelho e verde. Nina estava muito pálida e muito formosa. Falava em tom amistoso mas pareceu-me preocupada.

— Como sabe — perguntei, de pé diante dela e com o meu boné de chofer na mão — que eu mandei as rosas?

— Porque não vieram com carta, cartão ou coisa alguma — olhou para as flores que estavam em um vaso, perto da janela. — Sr. Holden, devo esclarecer alguma coisa, antes de voltar para casa. Tenho dificuldade para encontrar as palavras apropriadas porque não quero magoá-lo. O senhor se preocupou por minha causa. O senhor ajudou-me — quando moveu a cabeça um raio die sol bateu sobre seus cabelos, fazendo-os brilhar, — sim, ajudou-me muito. Sou grata. Restam-me poucos amigos e seria muito feliz se o senhor quisesse ser um deles. Peço-lhe, porém, que não me mande mais flores vermelhas.

Olhei-a. Ela evitou fixar-me e começou a andar pelo quarto, enquanto o pequeno sino da capela começava a soar. O vestido de linho modelava seu corpo; seus sapatos tinham saltos muito altos e finos. Um pouco de côr voltou às suas faces enquanto me dizia, contrafeita:

— Peço-lhe que seja razoável.

— Já o sou.

Subitamente olhou para mim, seus grandes olhos azuis ficaram escuros, quase negros. Isto me fascinou. Ela tinha, neste momento, a beleza de uma rapariga jovem e inocente.

— É razoável dizer a uma pessoa que a amamos quando apenas acabamos de conhecê-la e sem saber nada sobre ela?

— Eu sei o bastante sobre a senhora — repliquei. — Não quero saber mais nada. Por outro lado, a razão e o amor nada têm a ver um com o outro.

— Para mim sim, Sr. Holden. Sabe por que acabei de passar. Agora serei muito razoável e, por isso, não amarei mais ninguém. Não posso.

— Aprenderá novamente — respondi. — Não tenho pressa.

— E se eu o aprendesse, Sr. Holden, se eu aprendesse. — Então pediria que se divorciasse e consentisse em viver comigo.

— Há poucos dias o senhor me advertia para não abandonar meu marido.

— Há alguns dias eu ainda não tinha dinheiro.

.— Esta resposta foi muito infeliz, Sr. Holden — disse agitada. — Posso calcular de onde veio esse dinheiro ganho tão rapidamente.

— Não foi bem como a senhora supõe — respondi.

— Nem quero saber. Agora o meu marido tem as fotocópias, não é verdade?

— Sim.

— Isto é suficiente para mim. O senhor sabe que eu quis matar-me quando eu soube de que era acusado meu marido. O senhor, enquanto isso, conseguiu ganhar dinheiro com o caso. Isto, naturalmente, não é de minha conta. Mas devo insistir para que o senhor também respeite a minha vida privada, senão...

— Senão, o quê?

— Seria obrigada a pedir-lhe que se despeça.

— Isto seria um dilema — declarei. — Justamente agora, depois que aceitei o dinheiro não poderei despedir-me. Agora precisam de mim. Quanto a respeitar a sua vida privada, senhora...

— Perdoe-me por ter empregado uma expressão errada. É... é muito difícil para mim...

Como um aluno que espera surpreender o professor com uma inspiração genial, lançou-me, de chõfre:

— O senhor diz que me ama. Então, por amor, deixeme em paz.

— Creio que, para a senhora, é indiferente se a amo ou não.

— Isto significa que nunca mais falaremos no assunto?

— Se assim o quer, nunca mais falaremos.

— O seu procedimento é nobre, Sr. Holden. Impulsivamente estendeu-me a mão e eu a peguei.

— É um tratado de paz? — perguntou-me.

— Ao contrário — repliquei. — É uma declaração de guerra.

— Sr. Holden!

— Não tenha receio, senhora. Será uma guerra muito suave. Isto porque a senhora deve ver claramente que ambos agimos de forma pouco louvável. Estamos no mesmo barco, ou nos salvamos juntos, ou juntos pereceremos.

Seu sorriso desapareceu.

Voltou-se, repentinamente, para a porta:.

— Quer trazer-me o cofre de jóias? Não me movi.

— Então? ’ c” Quando chegou à porta virou-se e tentou olhar-me altivamente porque era claro, para nós dois, que aquele cofre representava a primeira prova de força.

— E as rosas? — perguntei.

— Não posso voltar para casa com trinta rosas vermelhas, Sr. Holden. Não seja infantil.

— Com trinta não, mas sim com uma.

— Com uma seria pior, pense nos empregados.

— Os empregados despediram-se. Só ficou Mila. — Já lhe pedi que me traga o cofre de jóias.

— Sim — respondi, — eu o ouvi.

Passaram-se cinco segundos, durante os ouais nos olhamos fixamente. As pupilas de Nina ficaram novamente escuras e senti o meu coração bater desabaladamente. Quando eu era menino, no caminho para a escola eu brincava assim:

”Se eu só der quatro passos até o sinal de trânsito e não pisar em nenhuma das riscas que separam as lajes da calçada, é sinal que não serei castigado na escola.” Naquela manhã de verão fiz outro jogo: ”Se Nina apanhar uma das rosas é sinal que me amará.”

Seis segundos, sete segundos. Oito segundos. Então ela dirigiu-se lentamente, muito lentamente em direção ao vaso que estava junto à janela. Seu rosto tornou-se da côr da rosa que ela cortou, junto à corola, e colocou em cima do ouro, da platina e das pedras preciosas, dentro do pequeno cofre.

A fechadura fêz die, quando ela deixou cair a tampa. Nina olhou-me, novamente. Tive a impressão de que a cena a excitava. Tinha os lábios entreabertos e os olhos semicerrados.

— Agora o senhor apanha o cofre?

— Sim — respondi. — Agora eu o levarei.

Vinte e nove rosas ficavam no quarto, mas que impor’tância tinha isso? A única que ela levava para casa consigo tinha muito mais valor’ que todas as outras juntas.

Descendo a escada e ao passar pelos pequenos nichos com imagens de santos, senti que o suor escorria-me pelo rosto. Uma espécie de suave tonteira invadiu-me quando contemplei Nina, que ia na minha frente, com seus saltos muito altos, o vestido muito justo; quando olhei para seus cabelos; quando senti o seu perfume; quando vi seus pulsos redondos e seus finos tornozelos. Em certo momento, ela virou-se e olhou-me, orgulhosamente.

Eu sorri.

Subitamente virou-me as costas e seus saltos bateram, irritados, no soalho no vestibule Ao ritmo dos seus saltos batia o meu coração.

 

o grande canteiro DE rosas tinha reflexos roxos sob os raios do sol. Os gladíolos azuis, amarelos e brancos contrastavam com a grama verde a seus pés. Pássaros cantavam nos ramos das velhas árvores, um pica-pau martelava com afã e, sobre as águas do lago, as libélulas executavam seus bailados. Enquanto andava pelo amplo caminho de cascalho, carregando o pequeno cofre de Nina eu pensava naquela noite chuvosa, quando pela primeira vez pisei aquelas pedri’nhas. Naquela ocasião homens estranhos agitavam-se neste local, os carros da polícia estacionavam sobre a grama e, na residência sentia-se o cheiro de gás. Parecia-me que anos tinham decorrido entre aquela noite e esta manhã.

Nina caminhava diante de mim e, se ainda hoje fecho os olhos, decorridos muitos meses, vejo sua imagem, a ruiva mulher vestida de primavera e envolta nos raios do sol. Sua recordação excita-me novamente hoje, tal como me excitou contemplá-la naquela manhã de verão.

Quando chegamos a uns cinco metros da casa, abriu-se a porta de entrada e, passando sob as grandes iniciais, J.B., veio a nosso encontro uma menina. Era uma menina muito pequena, vestida de azul-claro. Tinha nas pequeninas mãos um ramo de cravos brancos. Olhou-nos com muita seriedade e passou a língua sobre os lábios. Depois, para pedir auxílio virou-se para a escura abertura da porta. Ouvi vozes que vinham de dentro.

A garota corajosamente fêz que sim còm a cabeça e veio ao nosso encontro. Tropeçou e quase caiu. Conseguiu equilibrar-se e chegou perto de nós, resfolegante.

— Olá, Mickey — disse Nina abrindo os braços. Ao ouvir esse nome ocorreu-me quem seria a menina: a filha do único parente de Mila Blehova, o repórter policial Peter Romberg.

— Bom dia, titia — balbuciou a menina.

Estava encarregada de entregar os cravos a Nina e, a princípio, teve a intenção de obedecer. Algo de inesperado aconteceu, entretanto. Mickey ficou quieta e nós paramos. Os olhos negros da menina pareciam enormes. Com ar sério ficou olhando para mim e eu a olhei timidamente. A pele de Mickey tinha um brilho sedoso e os seus curtos cabelos estavam muito bem penteados.

— Este é o Sr. Holden — explicou-lhe Nina — ainda não o conheces mas êle vai levá-la para passear de carro, muitas vezes.

— Bom dia, Sr. Holden — disse Mickey amistosamente.

— Bom dia, Mickey.

A menina começou a sorrir. A princípio com timidez, depois mais abertamente e, finalmente, começou a rir. Sua diminuta boca estava aberta e eu podia ver os dentes pequenos e irregulares. Mickey, continuando a rir, chegou-se para” perto de mim e entregou-me os cravos.

— Para ti, Sr. Holden.

Virou-se para Nina, fêz uma reverência e declamou: — Seja bem-vinda à casa, tia Nina, estamos todos muito contentes que voltes a estar conosco.

Naquele momento, soou um grito de protesto. Mila Blehova saía precipitadamente da.residência. Atrás dela vinham Peter Romberg e o advogado Zorn que vestia uma roupa bege e um colete de quadrados amarelos e verdes. Enquanto os dois homens riam, Mila queixava-se, desesperadamente:

— Jesus, Maria e José. Que histórias inventas Mickey! Os cravos não são para o Sr. Holden e sim para a patroa. Nós te recomendamos muito bem.

Mas Mickey respondeu:

— Eu achei melhor dá-los ao Sr. Holden!

Eu estava plantado, como um idiota, com o pequeno cofre numa das mãos e os cravos na outra. Nina também começou a rir.

— Mas por que queres dar os cravos ao Sr. Holden? Mila retorcia as mãos enquanto o magro e míope Peter

Romberg tirava instantâneos da cena.

-- Porque gosto dele — respondeu Mickey. Aproximouse carinhosamente de mim: — Brincarás comigo, Sr. Holden?

— Claro que sim.

— Tens que. me fazer perguntas. Cidades ou coisas assim. Já sei muito. Sei até a Capital de Varsóvia.

— O senhor fêz uma conquista, Sr. Holden — disse Nina.

— Sim, uma — respondi.

— Minha querida velhinha...

.— Ai, senhora, não se aborreça com a menina.

— Também podes fazer perguntas sobre animais — murmurou Mickey, agarrada às minhas pernas.

— Meus sinceros cumprimentos pelo seu restabelecimento — o Dr. Zorn inclinou-se profundamente. Suas brancas melenas tinham a aparência da alva corola de um dente-deleão que lhe envolvesse a cabeça. — Transmito as saudações cordialíssimas do senhor seu marido. Espiritualmente êle está a nosso lado neste momento.

— Papai — chamou Mickey, — agora tens que tirar o meu retrato com o Sr. Holden.

Peter Romberg pôs um joelho sobre a grama e Mickey agarrou-se a meu braço, empertigada e como se fosse uma mulher feita. Ambos olhamos para a camera, sorrindo. Estávamos entre flores, iluminados pelo sol e ninguém tinha a menor idéia de que o retrato que estava sendo tirado serviria para envolver-nos muito, muito em breve, a todos, num negro terror, em um tremendo pesadelo...

 

No vestíbulo havia flores em jarros e púcaros, havia grandes ramos e pequenos ramalhetes. As flores eram enviadas por Brummer e por conhecidos. Levei a bagagem para cima e Zorn se aproximou de Nina:

— Tenho alguns assuntos urgentes a tratar com a senhora.

— Está bem, Sr. Holden — disse Nina em tom glacial. — Já não preciso mais do senhor.

Dirigi-me, por conseguinte, para a cozinha. Peter Romberg estava se despedindo, pois tinha que ir à redação. Mickey começou a reclamar.

— Papai, por favor deixe que eu fique. Quero brincar com o Sr. Holden.

— O Sr. Holden tem o que fazer. Não deves incomodá-lo

— Êle me prometeu. Eu incomodo, Sr. Holden?

— Pode deixá-la tranqüilamente — disse a Romberg. - Prometi de verdade. Mickey pode ajudar-me a lavar os carros. — Oh, sim, sim.

— Palavra que não entendo, Sr. Holden. A menina é sempre tão tímida com todos, não fala com ninguém, mas com o senhor...

— Vamos, Sr. Holden, vamos lavar os carros.

Tirei o Cadillac da garagem e levei-o para a sombra de um grande castanheiro, onde estava mais fresco. Levei o Mercedes para a rua e o deixei perto da entrada. Vesti um velho macacão e Mila deu a Mickey as devidas instruções:

— Primeiro, vais tirar o vestido novo, os sapatos e as meias, senão tua mãe ficará zangada comigo quando te vir toda molhada.

Mickey obedeceu e ficou apenas com sua calcinha côr-derosa. O seu corpinho era muito branco, as omoplatas eram visíveis através da pele e tinha um sinal na axila esquerda.

Entreguei-lhe a mangueira dizendo que podia molhar o Cadillac. Divertiu-se enormemente porque, de vez em quando, também molhava-me ”sem querer”. Eu fingia estar muito assustado, torcia as mãos, dizia que meu coração era doente e Mickey quase sufocava, de tanto rir. Depois ensaboamos o carro e, enquanto isso, Mickey mostrou seu grau de cultura.

— Pergunte-me sobre um iceberg, Sr. Holden?

— Que há com um iceberg?

— Nove décimos estão embaixo dágua. Só um décimo está acima. Por isso é que os navios batem neles.

— Puxa.

— Outra coisa, outra coisa, por favor!

— Quem foi Adolf Hitler? Ela olhou-me com tristeza.

— Não ouviste falar nele?

Com a irritação de um perito a quem se fazem perguntas demais, ela declarou:

— Não se pode saber tudo — e com a curiosidade da infância: — Quem foi, afinal, Adolf Hitler?

Com efeito, quem foi?

Comecei a refletir mas só por pouco tempo porque, logo a seguir, ouvimos um tremendo ruído na rua. O aço bateu sobre o aço e os vidros, estilhaçados, caíram sobre as pedras.

— Ai meu Deus — exclamou Mickey assombrada, — alguém bateu em você, Sr. Holden.

Corremos para o portão. Um BMW azul chocara-se contra o Mercedes branco de Brummer. A capota do motor penetrara fundamente na mala posterior do nosso carro. A rua, sob o calor do meio-dia, parecia deserta. Ao lado dos carros estava uma jovem mulher, ou melhor, uma meninota apenas saída da escola. Usava um vestido de linho vermelho com aplicações brancas, sapatos e luvas vermelhas. Seus cabelos eram negros e cortados de forma juvenil, a pele muito alva e a boca era grande e muito vermelha.

A moça pareceu-me bonita mas com aquele tipo de beleza que faz supor uma infância solitária, pobreza e privações. Deveria parecer mais independente, mais segura de si, deveria manter-se mais ereta. Dava, ao contrário, a impressão de estar curvada e ser humilde. Certamente teria sido repreendida com freqüência e tratada sem consideração. Era uma beleza sem classe.

Olhei-a, por duas vezes, porque era difícil acreditar no que via. Ela era muito jovem, teria no máximo vinte anos, mas não podia haver dúvida: estava grávida. Embora inclinada percebia-se, perfeitamente, a saliência do ventre.

— Como pôde acontecer isto? — perguntei.

A moça não me respondeu e eu me senti sem jeito. Nunca tinha visto tanto medo nos olhos de uma criatura. Ou melhor, não era medo o que eu via. Que seria, então? Tragédia. Era esta a palavra, aqueles olhos eram trágicos, tudo era trágico na jovem rapariga.

— Uiuiuiui — exclamou Mickey. — Isto vai te custar muito dinheiro.

A moça fechou os olhos. Seus lábios tremeram e ela sustentou-se contra o BMW.

- Mickey, vai imediatamente para o parque. Vamos, anda.

Afastou-se, aborrecida, mas ficou grudada ao gradil a fim de não perder uma só palavra da nossa conversa. Dirigi-me à moça:

— Fique tranqüila. Afinal de contas o seguro pagará tudo.

Ela cambaleou.

— Quer um copo com água?

— Obrigada, já estou melhor. — forçou um sorriso e, com isto, o seu rosto ficou ainda mais trágico. — Eu... senti uma tonteira repentina e não vi mais nada. Com certeza foi assim que aconteceu. Estou...

— Sim, já notei. Sente-se no carro. Vou telefonar imediatamente para a radiopatrulha.

Atirou-se contra mim e pendurou-se em meu pescoço. Agarrava-me com as duas mãos e sua respiração ofegante batia no meu rosto.

— A patrulha não!

Tentei, sem êxito, libertar-me dela. O pânico dava-lhe uma força incrível.

— Escute aqui, eu sou apenas o chofer, o Mercedes não é meu.

— Sr. Holden — guinchou Mickey por trás do gradil, - quer que eu vá chamar tia Mila?

A moça desconhecida soltou o meu pescoço.

— Também o BMW não me pertence.

’-- Você o roubou? — perguntou Mickey esperançada.

— O carro é de um amigo.

— Como se chama êle?

— Herbert Schwertfeger — murmurou ela.

Eu já tinha ouvido esse nome mas não sabia nem onde, nem quando.

— E qual é o seu nome? Fale mais alto.

Tão alto que até Mickey pôde ouvi-la, respondeu a moça de cabelos negros.

— Chamo-me Hilde Lutz. Moro na Rua Regina, 31.

— Tem carteira de identidade? Fez que não, com a cabeça.

— Nada?....

— Não. Também não tenho carteira de chofer. Olhamo-nos e permanecemos calados.

Eu não sei, Sr. Comissário Kehlmann, (torno a mencionar o seu nome porque me parece apropriado lembrar-me da intenção com que escrevo estas páginas e com que objetivo o faço) não sei, Sr. Comissário Criminal de Baden-Baden se a sua profissão lhe permite, algumas vezes, ter compaixão dos seus semelhantes. Não me contradiga porque isto não teria sentido. O fato é que aquela rapariga grávida, Hilde Lutz, fora de qualquer dúvida, nasceu pobre e isto desperta minha compaixão. A pobreza, Sr. Comissário, uniu-me a ela. A riqueza separa e gera o egoísmo. Este pensamento me ocorreu a propósito do Sr. Brummer e de sua formosa e altiva mulher. A riqueza tira o homem do seu ambiente. Fica separado, mas, ao mesmo tempo, liberado dos maus odores do bonde ou do metrô; andam encerrados, mas separados em seus carros luxuosos e bem vigiadas chácaras, nos carros dormitórios dos trens expressos e nas luxuosas cabinas dos transatlânticos. Protegidos, mas isolados. Eu, provàvelmente, não teria tido compaixão se o Mercedes fosse meu e o BMW de Hilde Lutz.

Espero que compreenda onde quero chegar, Sr. Comissário. Se não puder compreender, então, acrescente mais esta à minha longa lista de prevaricações, como mais uma culpa.

Disse, portanto, a Hilde Lutz:

— Em que situação quer a senhora colocar-me? Se eu não avisar à patrulha, quem pagará os prejuízos?

— Meu amigo, o Sr. Schwertfeger!

— Nem sequer sei onde mora.

— E nós não sabemos sequer se este é o teu verdadeiro nome, Hilde Lutz! — exclamou Mickey.

Ela tinha, portanto, entendido o nome. Naquele momento isto nada significou para mim. Hoje, ao escrever estas linhas, significa tudo. Porque tudo teria sido diferente e inclusive teria ido muito bem se Mickey não tivesse compreendido aquele nome.

Hilde Lutz disse:

— Venha até o meu apartamento. Mostrarei meus documentos. Chamaremos o Sr. Schwertfeger. Êle acertará tudo.

- Mas eu repito que o Mercedes não é meu.

— Por favor! — seu rosto estava lívido.

- Bem, de acordo — disse-lhe, com a intenção inocente, Sr. Comissário Kehlmann, de ajudar aquela pobre moça.

O senhor terá uma decepção, se continuar lendo, sobre os. bons resultados das intenções inocentes.

— Fico muito grata. Dentro de meia hora poderá estar de volta.

— Bem, Mickey, conta a tia Mila o que aconteceu. — Não vá, Sr. Holden, tenho muito medo.

— Não tens por que ter medo, tu ficas aqui.

— Não tenho medo por mim! É por você, Sr. Holden! — exclamou ela. Os olhos negros ficaram arregalados e as costelas de seu pequeno tórax moviam-se agitadamente, ao ritno da respiração irregular. Fique.

Mas não fiquei e fui com Hilde Lutz ao número 31 da Rua Regina e, assim fazendo, caminhava para a injustiça, as trevas e o terror.

 

Entre — convidou-me Hilde Lutz.

Morava num último andar, mais alto que os telhados da cidade, em um edifício novo. O elevador levara-nos ao nono andar. Entramos numa sala muito grande, clara e quente. Havia alguns móveis modernos, um sofá com almofadas de várias cores e um piano. Um rádio, tipo consolo, de côr escura estava sobre o claro linóleo do chão desprovido de tapetes. Alguns livros, dois mapas e um quadro com moldura de cantos agudos. Era uma bonita sala mas com decoração incompleta. Parecia que a moradora ficara sem dinheiro quando só tinha a decoração pela metade. Ou que alguém, o financiador, tivesse repentinamente necessidade de economizar. Freqüentemente, as moradoras em ambientes nessas condições são moças bonitas, de rosto triste. Elas têm um amigo mas não têm nem dinheiro nem uma ocupação remuneradora. As moças vivem de amor e de esperanças. O amigo, geralmente, é casado...

Enquanto Hilde Lutz rebuscava nas gavetas da secretária eu cheguei à janela e olhei para a rua, lá embaixo. Os carros pareciam pequenos vistos de tão alto. Um balão cativo flutuava na imensidade do céu. Em seu bojo prateado lia-se:

”BEBAM UNDERBERG”- Sr. Holden?

Hilde Lutz estava de pé ao lado do piano. Ouvi como seus dentes batiam.

— O senhor queria ver um documento. Aqui está.

Colocou um papel sobre o piano. •— Eu... vou chamar o meu amigo.

Com essas palavras saiu da sala. Dirigi-me para o piano. O que ali se encontrava era a fotografia de um documento oficial.

Li:

”DO CHEFE DA POLÍCIA DE SEGURANÇA E DO SD DA RUTENIA BRANCA PARA O ESTADOMAIOR PESSOAL RETCHSFÜHRER SS AKT NR SECRETO 102/22/43 SOMENTE ATRAVÉS DE OFICIAIS.

”Minsk, 20 de julho de 1943:

”Na terça-feira, 20 de julho de 1943, cerca das 7 horas tomei conta dos oitenta judeus retidos na casa do ComissárioGeral da Rutênia branca, tal como me foi ordenado, e submeti-os ao método especial. Os que tinham ouro nas dentaduras foram, primeiramente, levados ao dentista...”

Assim começava e continuava por toda uma página datilografada em espaço simples. No final, mencionava-se a munição gasta: noventa e cinco tiros. Alguns dos oitenta judeus não teriam morrido imediatamente. O documento estava assinado: ”Herbert Schwertfeger SS Obersturmbannführer”.

Sentei-me sobre o banco do piano e tornei a ler o documento, de cima a baixo, e comecei a entendê-lo. Quando eu acabava de ler, abriu-se uma porta e entrou um homem de cerca de cinqüenta anos. Era baixo e gordote, de cara vermelha e extraordinariamente elegante. Poucas vezes terei visto um homem tão elegante. Tinha sapatos de antílope castanho-claro, meias bege, roupa de tropical côr de areia, camisa creme, gravata de seda da côr dos sapatos, tudo combinando com bom gosto. Seus cabelos grisalhos muito curtos estavam repartidos ao meio e penteados para trás. Seus olhos azuis olhavam para a vida, sem medo. Os lábios eram finos. O senhor ficaria imediatamente convencido da seriedade desse homem, Sr. Comissário Kehlmann.

No bolso do casaco tinha um lenço de seda branca. Exalava um refrescante perfume de água-de-colônia.

Gordote e de estatura baixa, mantinha-se esticado e ereto. Tratava-se, sem dúvida, de um burguês respeitado, que gostava dos clássicos, da música de Bach, uma boa bebida à noite e o carnaval sobre a neve. O homem falou-me com voz baixa e agradável:

-- Eu o cumprimento, Sr. Holden.

— Se não me engano, é o Sr. Schwertfeger. Estendeu a mão e apertou a minha com tal rapidez que

não foi possível evitá-lo.

Olhei para a fotocópia, que, sem dúvida, fora feita pelo Dr. Zorn e li, para enrijecer o ânimo, aquele parágrafo que fala do menino judeu, de dois anos, cuja cabeça foi esmigalhada contra o tronco de uma árvore. Enquanto isso eu aspirava o suave perfume de água-de-colônia que dava uma sensação de frescor naquele calor de meio-dia.

Erguendo os olhos disse-lhe.

— Nunca teria vindo a esta casa se tivesse sabido qual a intenção de sua amiga.

— Minha amiga — replicou êle, sem se exaltar e sempre com o mesmo pausado tom de voz, — não teve outro propósito senão satisfazer um desejo meu.

— Por conseguinte, a sua amiga abalroou propositalmente o Mercedes do Sr. Brummer. O senhor vai pagar o prejuízo ou devo recorrer à polícia?

— É claro que pagarei. Isso não tem importância. Nem vale a pena falar.

— Para mim tem importância. Calculo que os estragos custarão duzentos ou trezentos marcos.

Colocou três notas de cem marcos sobre o piano e perguntou-me:

— O senhor foi soldado?

— Sim.

— Onde?

— Na Rússia — declarei. — Mas se falarmos nisso receio vomitar.

— Eu também estive na Rússia — disse com voz forte. — Sim, eu acabo de ler.

— Guerra é guerra, Sr. Holden. Eu era oficial. Recebia ordens e as cumpria, de acordo com o meu juramento. Terei eu, treze anos depois, que responder por meus atos a uns bandidos que não têm nem idéia do que se passou?

— agora êle falava com desembaraço. — O senhor acredita, por acaso, que foi fácil, para mim, executar aquelas ordens? Os alemães, Sr. Holden, não nasceram para essas coisas.

— E o menino com a cabeça esmagada contra a árvore? — repliquei.

— Foi culpa de um bêbado. Tinha que dar aguardente aos meus homens porque, do contrário, não teriam feito nada — levou o lenço perfumado aos lábios e endireitou a gravata. — Também não é possível olhar tudo, todo o tempo. Basta virar as costas um momento e fazem uma porcaria. O homem, é claro, foi severamente castigado. Voltemos ao nosso assunto, Sr. Holden.

— Passe bem — despedi-me, mas êle me deteve.

— Ouça-me. O senhor é que trouxe esta porcaria — olhou para a fotografia como se ela fosse um réptil repugnante — do leste.

Eu também olhei para a fotografia porque o seu aspeto me era mais agradável que o do Sr. Schwertfeger, e li o trecho em que o SS Obersturmbannführer, queixava-se de que, entre os oitenta judeus havia uma ”feia maioria de mulheres”.

Enquanto isso, êle me dizia:

— São passados treze anos. Trabalhei e prosperei. Agora vem um porco e quer destruir tudo.

— Fale com o Dr. Zorn. Suponho que êle lhe enviou a fotocópia. Eu nada tenho a ver com o assunto.

— O senhor tem muito a ver. Deixe-me falar. A vingança e o ódio devem continuar, toda a vida? Não haverá, nunca, um ponto final? Estou convencido de que já é tempo de riscar o passado.

— O Dr. Zorn — repeti. — É com êle que deve falar. Eu não sou a pessoa indicada.

— Sr. Holden, não quero falar da florescente indústria que fundei com o suor do meu rosto, em treze anos de árduo trabalho, sobre as ruínas de uma cidade destruída. Não, nada disto. Nem tampouco sobre o trabalho que dou a mil e quatrocentas pessoas e que dele vivem. Nem também da minha família.

— Ah — interrompi. — O senhor tem família?

- Minha mulher já morreu — continuou. — Tenho muitos parentes que ajudo e dois filhos, já maiores. Um deles estuda direito e o outro é médico. Mas não faleios nisto.

Escutei atentamente, pois estava intrigado para saber como êle chegaria onde desejava.

— Sr. Holden, o seu patrão é um chantagista que deve ficar na prisão. Deu-me um prejuízo de mais de meio milhão de marcos. Outros foram lesados em quantias ainda maiores. Êle faltou com a palavra, mentiu, enganou e nos prejudicou em nossos negócios. Falemos apenas de fatos concretos. O Sr. Brummer merece a prisão. Parece-me que é lícito recorrer às leis quando somos vítimas de injustiças.

— Por que o senhor se exalta dessa forma. O senhor já recorreu à justiça.

— E que acontece? Responde com este documento. Quer conseguir que eu me cale, que retire a denúncia, que me submeta. O senhor é um homem normal, Sr. Holden. Julgue o senhor mesmo, se isto é lícito. Aqui estou eu — estendeu a mão esquerda — um homem que apenas cumpriu o seu dever, obedeceu ordens que somente perante sua consciência deverá responder. E aqui está o Sr. Brummer — estendeu a mão direita — um miserável embusteiro, um chantagista da pior espécie, um porco, sim, não me envergonho de repeti-lo, um porco. E o senhor ainda vacila para decidir para que lado deve pender?

— Eu não vacilo de forma alguma. Estou do lado do Sr. Brummer.

Êle enfiou as mãos nos bolsos e começou a assoviar, olhando para mim. Fiquei calado. Finalmente êle falou:

— Muito bem, afinal.

Tirou do bolso do casaco um pedaço de papel e colocou-o ao lado da fotocópia.

— Isto é um cheque de cem mil marcos. Só falta a minha assinatura. Não sei quanto Brummer lhe pagou. Certamente não foi tanto assim. Traga-me o documento original e eu assino o cheque. Ande depressa, homem.

— Não posso nem chegar perto do original. Está na caixa forte de um banco.

— Por cem mil marcos qualquer um dava um jeito. Se quiser, divida com o advogado. Faça como entender. Perrguntarei pela sua decisão esta noite.

Hilde o chamará. Isto é tudo.— agora falava rapidamente e com dureza, como um homem para quem não existem dificuldades. — Não admito uma resposta negativa.

Podia agora imaginar como êle teria falado em Minsk.

— Escute...

— Bom dia — disse êle e saiu. Deixou-me só.

O cheque sem assinatura estava ao lado da carta assinada. Li no cheque as palavras ”cem mil” e na fotocópia ”método especial”.

Depois li as palavras ”Pague-se, a débito de minha conta” e as outras ”uma feia maioria de mulheres”. Logo a seguir Hilde Lutz entrou na sala e nos contemplamos mutuamente.

Verifiquei, nesse instante, que havia em sua pele algumas pequenas manchas amarelas. Ela teve que sentar-se. Disse-me:

— Êle foi embora.

”Pague-se a débito de minha conta.”

— Devo telefonar ao senhor. Esta noite, às sete. ”Cem mil marcos. Minha conta. Pague-se.”

— Estou no sexto mês. Juro que nada sabia do seu passado, juro.

— Que idade tem você?

— Dezenove anos. Tirou-me de um café. Sempre foi bom para mim.

— Por que não se casa com você?

— Tem vergonha. Tem medo dos filhos e do resto da família. É trinta anos mais velho que eu. Por causa dele fiquei muito contente quando fiquei grávida... êle gosta muito de crianças... sempre me dizia: ”Quando tiveres um filho eu me casarei contigo.”

— Êle nunca se casará com você. Ela começou a chorar:

— Não poderá casar-se comigo se o meterem na prisão.

— E tampouco se não o prenderem.

— Sim! sim! sim! Êle me prometeu. Gosta muito de crianças!

”Com a cabeça contra o tronco de uma árvore.”

Pobre Hilde Lutz, que culpa tinha ela?

— Deve impedir que êle seja levado a julgamento, Sr. Holden! por favor, por favor, por favor! Receba o dinheiro.

Deve pensar em si mesma, Srta. Hilde Lutz. Agora já sabe algo a respeito dele. Faça-se pagar bem. E vá embora.

- O senhor aconselha a que eu o incomode e explore?

— Aqui todo mundo incomoda e explora os outros. Se você, com um filho no ventre, não fizer isso, está bem. Além do mais, solteira e sem amparo. Arranque o que puder e faça isso depressa.

— Cale-se imediatamente. Eu amava este homem. Não quero saber do seu passado. Eu... eu o quero mais que a própria vida...

”Gasto de munição, noventa e cinco tiros. ”

 

UM minuto antes das sete soou a campainha do telefone.

Eu estava na cozinha, comendo o que Mila havia preparado para mim. A velha cozinheira estava a meu lado, depois de ter servido a Nina e também dispunha-se a jantar. Nina comia, sozinha, no primeiro andar. Depois do seu regresso evitava, a Mila e a mim, o mais que podia.

— Logo agora que eu acabava de me sentar — disse Mila.

Levantou-se e foi até o telefone branco preso à parede e junto à porta. Ultimamente ela andava curvada e parecia cansada (”devo ter água nos pés”).

— Diga. Sim, senhora, está aqui — chamou-me com um aceno. — Um momento, por favor.

A instalação telefônica na casa de Brummer era um tanto complicada. Quando alguém chamava, de fora, soava primeiramente a campainha do aparelho principal, no primeiro andar. Esse aparelho tinha um pino e podia ser ligado na tomada de qualquer aposento. Com este aparelho podia-se falar para qualquer ponto da casa, inclusive a cozinha. Dirigi-me, portanto, até o telefone branco, levei o fone ao ouvido e ouvi a fria voz de Nina:

— Para si, Sr. Holden. É uma senhora que não quer dizer o nome.

— Peço que desculpe o incômodo, senhora — repliquei mas ela já não me respondeu.

Ouviu-se um estalo na linha e logo a voz sussurrante, que eu temia escutar.

— Boa noite, Sr. Holden. Sabe quem fala?

— Sim. Lamento muito, mas a resposta é não. Silêncio.

— Mas... que devo fazer agora?

— O que eu aconselhei.

— E a criança? Tenha compaixão.

— Preciso desligar.

— Eu suplico, não desligue ainda...

Pendurei o fone no gancho e voltei para a mesa. Continuei comendo mas não sentia mais qualquer sabor. Também a cerveja estava insípida. Mila Blehova olhou para mim e começou a rir, baixinho. Falou ao velho e feio cão que estava a seu lado:

— Que achas disto Pupele? Chegou há apenas duas semanas e já tem as garotas caídas por êle?

Continuei comendo, calado. Mila entusiasmou-se ainda mais:

— Não achas que êle é um rapagão Pupele? Que aparência magnífica. Palavra que se eu fosse um pouco mais jovem também arriscaria um olho - riu com ar velhaco e bateu, amistosamente, em minha mão. O telefone tornou a chamar. Desta vez, eu mesmo fui atender.

A voz de Nina soou, duramente:

— A moça, Sr. Holden.

— Sinceramente, senhora, eu...

Mas já estava na linha, novamente, a débil e desesperada voz:

— Por favor, não desligue, Sr. Holden. Por favor. Falei com êle. Se é questão de dinheiro...

- Não — respondi com voz forte. — Não, não e não. Nada posso fazer, compreenda de uma vez. Nada posso fazer e não me chame mais.

Desliguei novamente. O suor corria-me pelo rosto. Se isso fosse continuar...

— É alguma jovem, não? — perguntou Mila, com a curiosidade das velhas.

— Quê? Ah, sim. Dezenove anos.

— Não chego a compreender por que as moças de hoje se atiram nos braços dos homens — Mila jogou um pedaço de carne para o cão, tomou um gole de cerveja e enxugou os lábios com a mão.

— Mas se me lembro bem, eu também fiz das minhas na juventude; ah, sim, quando penso naquelas tardes, em Praga, à margem do Moldava... mas posso garantir, Sr. Holden, nunca me comportei dessa forma. É de pasmar. Mas também restam poucos homens, depois da guerra.

O telefone chamou pela terceira vez.

Peguei o fone.

- Sr. Holden?

— Mande, senhora.

— Suba até meu quarto.

— Imediatamente, senhora.

— Agora vamos ter aborrecimento com Nina, também — consolou-me Mila. — O comportamento dessas moças é verdadeiramente desagradável.

Vesti meu casaco castanho e dei um laço na gravata.

O quarto de Nina era na ala este da residência. Os móveis eram brancos e dourados, estilo império. Sobre seus pés finos e graciosos estavam cadeiras e mesas, uma escrivaninha perto da janela, um armário. A grande cama dominava o quarto, era uma ampla cama francesa. As cortinas eram brancas, debruadas em ouro. Uma porta, aberta, deixava ver um grande banheiro. O grande lustre estava aceso embora ainda fosse claro. Fora, moviam-se, ao vento da tarde, as copas escuras das árvores.

Nina estava sentada diante de um grande espelho. Vestia um roupão de seda preta e chinelos que combinavam. A luz elétrica fazia brilhar sua ruiva cabeleira. Durante a nossa conversa ela mudou, três vezes, a posição de suas pernas cruzadas. Preparava-se para sair. Nem uma só vez virou a cabeça para meu lado. Eu estava atrás dela, junto à porta e ela falava-me, de costas, olhando para o espelho. Fazia todo o possível para transformar a cena em uma humilhação para mim. Estava extraordinariamente exaltada. Suas narinas tinham movimentos espasmódicos. Sobre a penteadeira, entre frascos de perfume, caixas de pó e escovas para cabelo, estava o branco telefone principal.

Quando eu entrei a campainha do telefone soava.

Falando para o espelho, Nina disse-me:

-- Já é a quarta vez. Na terceira vez eu disse à moça que este não era o seu número de telefone, Holden. O telefone soava estridentemente.

— Que sugere, Holden?

— Que levante o gancho e o baixe novamente. Assim o fêz.

Reinou silêncio no quarto. Nina cruzou as pernas pela primeira vez. Eu olhava para o espelho e vi, pela expressão de seu rosto, que ela queria me humilhar.

- Tratava-se de uma chamada particular?

— Não.

— Eu o supunha.

Seus olhos escureceram, vi pelo espelho como se tornavam escuros e isto deu-me um desejo louco de dirigir-me para ela, arrancar-lhe o sedoso roupão e atirá-la sobre a cama. Mas, naturalmente, fiquei junto à porta e ouvi que me dizia:

— Trata-se da moça que esta tarde atirou seu carro contra a nossa Mercedes, não é verdade?

-- Sim.

— Que quer ela com o senhor?

Fiquei em silêncio, olhei para suas pernas e aspirei o seu perfume.

Ela falou com voz gelada:

— Pelo amor de Deus, não pense que me interesso pela sua vida privada. Acontece que tenho a impressão de que, neste caso, trata-se de algo mais que sua vida particular. Por que não me conta? Não lhe parece, Holden que deve ser insuportável, para mim, ver de que forma o meu chofer se intromete em meus assuntos, nos assuntos do meu marido e...

— Eu não me meto — respondi e agora estava furioso, — meteram-me.

O telefone tornou a chamar.

— Sim, compreendo — levantou o fone e recolocou-o no gancho. — Quanto tempo ainda vai durar isto?

— Não sei. Espero que não seja muito.

— Exijo que me diga, imediatamente, o que aconteceu hoje.

— Já lhe contei, senhora, que o Sr. Schwertfeger entregou-me trezentos marcos para consertar o carro.

— E isto é tudo?

— Lamento. Estive com o Dr. Zorn. Proibiu-me de contar à senhora qualquer coisa além do que já disse.

Nina apertou os olhos, fechando-os quase completamente. Mais uma vez cruzou as pernas, lentamente. Eu nunca a tinha visto zangada. Agora via. Os lábios entreabriram e o peito arfou.

— Então é assim, êle proibiu. — Sim.

— Não tem confiança em mim?

— A mim não me cabe julgar. Peço licença para recomendar que fale sobre isso com o Dr. Zorn.

O telefone chamou, mais uma vez. Com os dentes cerrados, ela exclamou:

— Isto é insuportável — ergueu o fone e deixou-o cair novamente. A campainha parou. Era coisa fácil e simples. — Holden, o senhor é meu empregado e eu lhe pago no dia primeiro de cada mês. Está claro?

— Perfeitamente claro, senhora.

— Então eu ordeno que me informe sobre o que aconteceu hoje. Esqueça-se da proibição do advogado.

— Não posso fazê-lo.

— Pode sim. Eu também pago ao advogado.

— O Sr. Brummer é quem lhe paga — disse. — E o advogado é quem paga a mim. Sinto muitíssimo, senhora. Peço, por favor, que não continue a perguntar. É melhor que a senhora nada saiba, estará mais protegida.

Olhamo-nos através do espelho. Finalmente, ela disse:

— Está bem. Pensei que pudéssemos chegar a um entendimento, Holden. Apesar de tudo que o senhor tem feito e do que eu tenho feito. Mas o senhor não o quis. Muito bem. Tome nota disto. De agora em diante o considerarei como meu inimigo.

— Isto é desolador para mim, mas...

— Não me interrompa quando estou falando. Peço-lhe que só me fale quando eu lhe dirigir a palavra. Suponho que este seja o seu primeiro emprego e que, por conseguinte, não sabe se portar como um bom chofer, mas algum dia teria que aprender. Não me olhe assim. Proíbo que me olhe desta maneira.

Tire o carro da garagem. Dentro de meia hora irei à cidade. Compreendeu? Por que ainda está aqui?

— Não percebe que quero trocar de roupa? — continuou ela. — Está louco, Holden? Previno que não admitirei qualquer familiaridade de sua parte. Pouco me importa o que possa saber de mim. Eu também sei coisas a seu respeito e que interessariam a meu marido. Aprenda, portanto, a ficar calado. Portanto, dentro de meia hora. E Holden...

- Senhora.

— Ordeno que só ande vestido à paisana quando não estiver em serviço. O resto do tempo deverá usar o uniforme de chofer, que isto fique bem claro.

Pensava em avançar sobre ela, arrancar-lhe o roupão dos ombros e atirá-la sobre a cama. Respondi: - Sim, senhora.

A campainha do telefone não soara mais. E isto já era alguma coisa.

 

Rua Sonnenblick, 67 — disse Nina Brummer.

Entrou no Cadillac cuja porta eu mantinha aberta, olhando propositadamente para a frente. Usava a sua capa de vison um vestido de noite prateado e curto e sapatos, também prateados de saltos muito altos.

Fechei a porta, depois que ela entrou, ajeitei-me por trás do volante e parti. Na Cecilienallee, Nina disse:

— Está andando depressa demais.

Era verdade, eu estava porque sentia raiva. Diminuí a pressão do pé sobre o acelerador. Pelo espelho retrovisor vi o rosto de Nina. Os reflexos dos faróis que cruzávamos davam aos seus cabelos tonalidades cambiantes de ouro. Essa imagem permanece, até hoje, em meu pensamento. Quando fecho os olhos, logo a vejo diante de mim. Tentei encontrar o olhar de Nina, mas ela percebeu e virou a cabeça.

Na Rua Sonnenblick ajudei-a a descer. Ela chamou-me a atenção:

— É natural que me ajude quando desço do carro mas não deve segurar a minha mão. O senhor só deve estender a mão para que eu me apoie, se assim quiser.

Fiquei calado.

— Venha buscar-me às onze horas. Se desejar pode ir ao cinema.

Também não respondi, limitando-me a inclinar o corpo. Esperei que ela entrasse no jardim da residência e, depois, corri a uma cabina telefônica e chamei Peter Romberg. Perguntei se podia visitá-lo:

— Estou na vizinhança, mas diga-me se minha visita não é importuna.

— Não diga isto. Teremos muito prazer.

A tarde estava magnífica e a temperatura estava mais fresca. Muita gente passeava nas ruas, olhando para as vitrinas. Numa confeitaria, comprei uma caixa de bombons para Mickey.

Quando cheguei à casa dos Rombergs estavam dando banho na garota que se pôs logo a gritar:

— Mamãe, mamãe, feche a porta para o Sr. Holden não me ver.

— Deixe de bobagens, Mickey, o Sr. Holden certamente já viu meninas nuas, muitas vezes.

— Mas eu é que tenho vergonha.

Romberg, mais sardento que nunca, apresentou-me sua mulher que voltava, acalorada, do banheiro:

- Tenho muito prazer em conhecê-lo. Peter e Mickey têm falado muito no senhor. Especialmente a menina que o senhor conquistou completamente.

Carla Romberg era uma mulher pequena e graciosa, tinha cabelos castanhos e olhos, também castanhos, amendoados. Tal como o marido, usava óculos. Não se podia dizer que fosse bonita mas irradiava uma simpatia pouco comum. Quem entrasse naquela casa sentiria, logo, que ali morava uma família feliz.

Não querendo ficar esquecida, Mickey começara a cantar no banheiro: ”Sinto-me tão só, meu coração fica tão triste, quando ouço as canções do México”...

— Mamãe!

— Que foi?

— Abre a porta.

— Ainda há pouco pediste que a fechasse.

— Só um pouquinho para que eu possa ouvir vocês.

— Não deves ficar escutando — disse a Sra. Romberg. Mas entreabriu a porta. Não havia dúvida. Quem mandava era Mickey. Enquanto ela chapinhava na banheira, os jovens pais mostravam-me, orgulhosos, seu apartamento. Tinha três peças e a mobília era de estilo moderno. No primeiro aposento estava uma mesa cheia de fotografias e papéis. Máquinas fotográficas, rolos de filme e livros estavam espalhados por todos os lados.

Em um canto havia um receptor de rádio de ondas curtas. Estava ligado e emitia um monótono tiquetaque.

— É a onda da polícia. Assim posso sair logo que algo acontece.

No quarto contíguo um rádio tocava música de Jazz.

— Acabamos de comprá-lo, Sr. Holden. Veja os comandos por teclas. E já está totalmente pago.

No banheiro, Mickey estava novamente cantando. Era uma família barulhenta. Os três pareciam completamente insensíveis aos ruídos. Havia, também, uma nova lâmpada de pé alto e, na cozinha, um refrigerador elétrico (”Comprado a prestações, mas vamos pagando”) e no pequeno vestíbulo da entrada um cabide de madeira com incrustações.

— Foi um presente do Peter, no dia do meu aniversário — disse a Sra Romberg. — Ainda falta comprar muita coisa.

— Pouco a pouco compraremos tudo — acrescentou êle, orgulhosamente, beijando sua mulher.

Ela ficou corada, como se fosse uma colegial.

— Se êle trabalhar bem, Sr. Holden, poderá ter uma colocação permanente, como redator.

— Os patrões receiam que algum concorrente me conquiste — esclareceu Romberg.

Olharam-se, através das brilhantes lentes dos óculos, enamorados e unidos em um esforço comum e cheios de admiração, um pelo outro.

— Düssel cinco, Düssel cinco — soou, na outra peça uma voz masculina, através do receptor de ondas curtas — vá ao cruzamento das Ruas Goethe e Onze. Houve uma colisão entre um bonde e um caminhão.

— Aqui Düssel cinco, compreendido — respondeu outra voz.

— Terá que ir, Sr. Romberg?

— Não vale a pena. Deve ser coisa sem importância. Não me preocupo com esses casos. Venha comigo, beberemos alguma coisa e eu lhe mostrarei minhas fotografias.

— Daqui a pouco estarei com vocês — disse a mulher. — Primeiro tenho que botar a menina na cama.

Desapareceu no banheiro e de lá veio uma voz aguda que protestava:

— Mas, mamãe, logo agora que o Sr. Holden está aqui. Romberg olhou-me e ambos rimos.

— Somos muito felizes com Mickey — disse Romberg, — mas ela é terrivelmente mentirosa...

— Mentirosa?

— Para parecer importante. Conta as mais fantásticas histórias: Um lobo fugiu do Jardim Zoológico. A mãe de sua amiga Lindi é uma milionária americana. Eu sou um milionário alemão. Ela sofre de asma.

— Eu era igualzinho — afirmei.

— Certamente não tanto quanto ela. O policia] da esquina alguma vez o dispensou de fazer os seus deveres escolares?

— Central, aqui Düssel cinco, Düssel cinco... Precisamos de um caminhão guindaste. O caminhão ficou encravado no bonde, não podemos desimpedir o cruzamento...

— Muito bem, Düssel cinco, mandaremos um caminhão guindaste. Não há feridos?

— Nenhum. Somente uma quantidade de vidros quebrados.

— Vê o Senhor — disse Peter, — coisa sem importância. Eu já tenho faro nestes assuntos.

Mickey entrou na sala. Usava chinelos de cores e uma ampla camisola de dormir, azul. Deu-me a mão, fêz uma reverência e falou a toda a velocidade, receando ser interrompida:

— Boa noite, Sr. Holden. Agora sei quem era Hitler. Procurei na enciclopédia. Foi um homem muito mau. A enciclopédia diz que fêz matar e torturar muita gente. Começou uma guerra e destruiu muitos países — aspirou profundamente, pois estava quase engasgando e continuou recitando, de cor: — escapou à responsabilidade do que fêz suicidando--se. Deixou a Alemanha despovoada, dividida e mais fraca que nunca — e acabou, sem fôlego. — Antes fora pintor.

Dei-lhe a caixa de bombons e, em troca, recebi um úmido Benj.

— Olhem! Papai, mamãe! Recheio de nozes e outras coisas. Posso comer agora um de nozes? Por favor, favor.

— Quando estiveres na cama.

— Sr. Holden, já consertaram o Mercedes?

— Agora venha, ande — mandou a Sra Romberg. — Comer o bombom, rezar e dormir.

Levou Mickey com ela. Na porta do quarto Mickey voltou-se e saudou-me, com a mão. Eu também a saudei e a vi emoldurada pelos animais de brinquedo que havia no quarto: girafas, lebres e ovelhas. O receptor da polícia continuava funcionando e Romberg mostrou-me suas fotografias de animais. Eu me sentia em casa deles, que até agora eram uns estranhos, completamente em família. Nem uma só vez pensei em Nina. Tiramos os casacos e as gravatas e Romberg explicou detalhes de suas fotografias. Para mim, as mais belas de todas eram as dos cisnes. Tinha retratado as aves nos momentos de levantar vôo e de pousar sobre a água.

Um animal destes pesa, muitas vezes, até vinte quilos. Imagina o esforço que precisa fazer para levantar vôo da água? Necessita de vinte a trinta metros de corrida e só com os músculos produzindo o máximo é que pode elevar-se. Se o seu vôo fosse regulamentado como o dos aviões nunca teriam licença para voar porque, como aviões, seriam excessivamente pesados.

Seu rosto denotava animação porque estava falando de um assunto que o entusiasmava. Pareceu-me, até, menos feio. Pensei que aquilo que nos agrada nos faz parecer menos feio.

— Eu ficaria tão feliz se Peter pudesse dedicar-se unicamente a estas fotografias — disse a Sra Romberg em voz baixa.

— Só um pouco mais de paciência querida, até que tenhamos pago nossas dívidas — replicou êle, acariciando a pequena mão, calejada pelos trabalhos caseiros. — Então eu encontrarei alguém que me empreste o dinheiro necessário.

— Para quê?

— Quero editar livros sobre animais, por minha conta. Veja o êxito que tiveram Bernatzik e Trimeck. Todo o mundo se interessa pelos animais. Basta um pouco de capital para começar.

— Atenção — disse a voz masculina, através do receptor, — Düssel dois, Düssel dois... vá ao número 31 da Rua Regina... acabamos de receber um chamado de um transeunte; uma mulher saltou pela janela...

— Eu ainda não compreendera e perguntei:

— Quanto capital precisaria o senhor?

— Oh, pouca coisa. Uns dez ou quinze mil marcos. O resto eu conseguiria com o banco. Por quê? Conhece alguém?

— Sim, — respondi. — Há uma probabilidade. Não imediatamente mas talvez dentro de um mês ou dois.

— Oh, Peter. Seria maravilhoso se fôr verdade.

— Sim, maravilhoso.— exclamou êle, também radiante, ao mesmo tempo que se levantava. — Sr. Holden, fique aqui com minha mulher, eu voltarei logo que possa.

— Aonde vai?

— À Rua Regina. Uma mulher atirou-se pela janela. Não ouviu?

Fiz um grande esforço de concentração e consegui manter um tom de voz sereno ao perguntar:

— Rua Regina, que número?

— Trinta e um. Por quê?

— Nada, nada. Ande depressa, Sr. Romberg.

— Provavelmente nada de interessante, também. Ciúmes ou coisa parecida. Mas temos que publicar alguma coisa. Sempre será melhor que um banal abalroamento de bonde.

Em poucos instantes êle saiu. O relógio da emissora da polícia recomeçou o seu monótono tique-taque e eu via perfeitamente e ouvia o que a Sra Romberg estava me dizendo, mas não conseguia compreender o sentido das palavras.

Porque continua e incessantemente eu pensava, contra toda a possibilidade, contra toda a esperança: ”Que seja outra mulher. Que não seja ela. É jovem demais. É inocente. Ela não, não, não...”

A voz da Sra Romberg tornou-se compreensível:

— Sabe o que isto significa para Peter, Sr. Holden? Uma editora. Suas fotografias. E não mais este trabalho miserável, esta mesquinharia que o mantém nesta incerteza, dia e noite.

Concordei com um aceno de cabeça.

— Atenção — disse a voz — Düssel dois, Düssel dois, já chegou à Rua Regina?

O aparelho silvou e estalou e logo se ouviu outra voz: —• Aqui Düssel dois. Acho que tentos uma boa porcaria pela frente. A mulher saltou do nono... Não, não, não.

— Morta?

— Não me faça rir, camarada. Já disse que ela se atirou do nono andar. Mande imediatamente um rabecão e mais dois carros da patrulha. Não há forma de conter os curiosos. E também temos o pessoal dos jornais.

— Como se chama a mulher?

— Não era uma mulher. Era uma mocinha mas estava grávida. É o que dizem os vizinhos. Talvez seja este o motivo. Chama-se Lutz, Hilde Lutz.

— Soletre.

Lentamente, como que pegajosas, soaram as palavras no alto-falante:

— Holanda, Inês, Luís, Dado, Ernie. Nova palavra Luís, Ursula, Teresa, Zebra.

Repentinamente, abriu-se, a porta do quarto da menina. Mickey apareceu com os olhos arregalados e as mãos apertadas contra o peito:

— Sr. Holden!

— Que estás fazendo aqui? Vá para a cama — gritou sua mãe.

Mas Mickey precipitou-se para mim, as palavras atropelando-se para sair de sua boca:

— Nós a conhecemos!

— A quem é que conheces?

— A Hilde Lutz. A que se atirou pela janela.

— Por que não estás dormindo? Por que ficas horas inteiras escutando o que dizem os mais velhos?

— É que... o rádio estava tão alto mamãe... Sr. Holden por que não diz nada? Diga alguma coisa. Essa Hilde Lutz é a que bateu no Mercedes?

— Mickey, agora estou zangada de verdade. Vais imediatamente para a cama.

O lábio inferior da menina começou a tremer.

— Mas eu conheço essa mulher. Conheço de verdade.

— Mickey!

-— Sr. Holden, diga que é verdade. Eu respondi:

— Mickey, estás enganada. A mulher que mencionas chama-se Olga Furst, sim, Olga Furst.

— Aí está.

O olhar desesperado de Mickey dizia-me: ”Por que me atraiçoas tão covardemente, tão sem motivo, tu a quem eu amo.”

— Vais agora mesmo — e a SraRomberg empurrou ligeiramente a menina em direção ao quarto.

Mickey começou a chorar, silenciosamente, e dirigiu-se para a cama. A porta fechou-se, devagar. Peguei o meu copo, com ambas as mãos, mas a metade do conhaque se derramou, antes de chegar a meus lábios.

— Queira perdoar, Sr. Holden. É uma menina incrível. É só para tornar-se interessante.

 

Às onze da noite estava eu, novamente, diante da porta do número 67 da Rua Sonnenblick. Às onze e um quarto apareceu Nina e eu lhe abri a porta do Cadillac, estendendo a mão para o caso de a Sra Brummer, ao subir, desejar um ponto de apoio, mas ela não quis o apoio. Pus o carro em marcha, com velocidade moderada e não lhe falei antes que ela me dirigisse a palavra, e ela não dirigiu.

Nina ia imersa em seus pensamentos e eu nos meus. Meus pensamentos eram os seguintes:

Pobre, tola Hilde Lutz.

Por que não me escutou? Deveria ter seguido o meu conselho. O Sr. Brummer teve uma idéia. Com o passado de um homem é possível dominá-lo no presente e também no futuro. É uma grande idéia, maior que tu Hilde Lutz e maior que eu. Para uma idéia tão grande, todos nós somos demasiado pequenos. Existem passados particularmente maus que fizemos voltar à tona, com nossas forças reunidas, o Sr. Brummer, o Sr. Dietrich com a sua capa de borracha preta, seu irmão, o valentão Kolb, o pequeno Dr. Zorn e eu. Sangue, muito sangue e crueldade estão unidos nesses passados, mentiras, traições, enganos e assassinatos. Com esses passados fizemos vir à luz muitas ações más que engendram muitas novas maldades. Porque a má ação não pode ser esquecida enquanto não tenha sido expiada. E quem quer expiar toda essa maldade?

Ninguém aqui, ninguém neste país. Pobre e tola Hilde Lutz.

Agora o Sr. Schwertfeger já não precisa casar-se contigo. Talvez, mesmo, lhe tenhas dado uma alegria... Que fará, agora, o Sr. Schwertfeger? Guardará silêncio. O Dr. Zorn não lhe exige outra coisa, não exige outra coisa de ninguém. E se todos se calam não acontece nada a ninguém e o mal prossegue existindo, sem castigo. Neste caso o mal é invencível. Por conseguinte, é um idiota completo o que ousa cruzar-lhe o caminho ou o que acaba com a própria vida, como tu, pobre Hilde Lutz.

Tu estás morta. E os oitenta judeus de Minsk estão mortos. O Sr. Brummer vive e o Sr. Schwertfeger vive. Os vivos negociam e ganham dinheiro. Os mortos têm, finalmente, as bocas fechadas, o que é agradável para os vivos. E estes podem unir-se entre si. E já não há ninguém que os acuse, não, não há ninguém.

Adeus tola e pobre Hilde Lutz. Não quiseste compreender as coisas como elas são. Eu sim, eu vi tudo, eu compreendi.

 

Durante os quatro dias seguintes, Sr. Comissário Kehlmann, quatro pessoas procuraram-me, através de intermediários: os Srs. Joackim von Butzkows, Otto Gegner, Ludwig Marwede e Leopold Rothschu. Os nomes lhe são certamente familiares, pois trata-se de conhecidos industriais de Düsseldorf, Francfort sobre o Meno e Stuttgart.

Por que se dirigiam sempre a mim?

Vim a sabê-lo imediatamente: um dos quatro senhores tinha contratado os homens que, no dia 23 de agosto, me haviam surrado a fim de que eu traísse o segredo do esconderijo dos documentos. não me foi possível averiguar qual deles mas fiquei sabendo que os outros três estavam a par do assunto. Dessa forma, todos tinham a impressão de que eu poderia e estaria disposto a ajudá-los, não por temor a castigos físicos mas sim por dinheiro. Mas estavam enganados. Informei imediatamente sobre cada encontro e repeli toda tentativa de suborno o que me foi bastante fácil porque via muito pouca possibilidade de chegar a recuperar os documentos originais.

Os delitos do passado, pelos quais os quatro senhores tinham medo de um castigo no presente, eram muito variados.

O Sr. Joackim von Butzkows na sua qualidade de presidente de um tribunal, durante o Terceiro Reich, havia torcido a justiça por diversas vezes causando, com isso, a morte injusta de quatorze cidadãos alemães.

O Sr. Otto Gegner conseguira o seu patrimônio entre os anos de 1945 e 1947, através de um florescente comércio de cigarros americanos. Os cigarros provinham de portos gregos, basiante afastados para evitar a possível interferência das autoridades americanas e, aos milhões, passavam por diversos satélites da União Soviética até chegar a Viena e à Alemanha. Os transportes eram protegidos por soldados do Exército Vermelho. A essa prova de amizade o Sr. Otto Gegner correspondia fazendo cair nas mãos da polícia soviética, em Viena e no Leste de Berlim, cidadãos alemães que eram procurados pela referida polícia.

Esses raptos em plena rua eram levados a cabo por uns desconhecidos que agrediam as pessoas designadas por um cochicho e as metiam, rapidamente, em um carro de cõr preta que os seguia. Falou-se muito no assunto mas todos os esforços das autoridades alemãs e austríacas para reunir provas para acusar os delatores das duas nacionalidades sempre fracassaram.

O Sr. Ludwig Marwede era homossexual. Alguns dos seus inúmeros jovens amigos tinham colecionado cartas e fotografias dele.

O Sr. Leopold Rothschu, cujo verdadeiro nome era Heinrich Gotthart, figurava numa lista elaborada pelo Governo polonês, de pessoas procuradas para responder por crimes praticados entre 1941 e 1944. O Sr. Gotthart havia sido diretor de Economia para a defesa da província então chamada Warthegan. Os documentos em poder de Zorn o inculpavam de desvio de bens, de torturas sádicas, de roubo de objetos de arte e de inúmeros assassinatos.

Os quatro senhores tinham as melhores relações. Tinham — com exceção de Marwede — mulheres e filhos e as suas casas eram centros de atração para a melhor sociedade. Seus filhos freqüentavam escolas...

No dia 14 de setembro o pequeno Dr. Zorn chamou-me, pelo telefone, dizendo que eu fosse ao seu escritório às 17 horas, pois precisava falar comigo, e pontualmente cheguei à sua sala de espera desprovida de janelas.

Abriu-se a porta do escritório e o Dr. Hilmar Zorn acompanhou um visitante em direção à porta de saída. Nesta ocasião o advogado vestia roupa azul-marinho com um colete cinzento-pérola que tinha, tal como a roupa, lapelas arredondadas. O visitante estava com roupa cinza com finas riscas brancas, camisa branca e gravata preta. O Sr. Schwertfeger estava elegante, como sempre.

Fiquei tão assombrado ao vê-lo em tal lugar que o cumprimentei mas logo tive vontade de esbofetear-me pelo que fiz.

Herbert Schwertfeger demonstrou mais domínio sobre si mesmo do que eu. Não me cumprimentou e não pareceu surpreso ao ver-me ou, dizendo melhor, agiu como se nunca me tivesse visto em toda a vida. O olhar dos seus olhos azuis e impávidos passou por mim como acontece quando se encontra um estranho. O Sr. Schwertfeger teve que se aproximar para apanhar o chapéu. ”Perdão”, disse então como quem se desculpa diante de um estranho. O Sr. Schwertfeger usava gravata preta e ocorreu-me a idéia de que era um sinal de luto.

— Bom dia, Sr. doutor — disse como despedida.

— Meus respeitos, Sr. Schwertfeger.

Dr. Zorn fechou a porta e aproximou-se de mim, esfregando as mãos.

— Boa tarde, meu amigo. Faça o favor de entrar. Em sua sala de trabalho a janela estava fechada, como

sempre, e o ar cheio de fumaça de charuto.

— Não se sente bem?

— Era o Sr. Schwertfeger!

— Sim, por quê? O senhor fuma? Não? Não se incomoda que eu fume? Bem.— cortou, com carinho, a ponta de um charuto brasileiro, sorriu mansamente e percebi que êle dava a impressão de dominar os últimos acontecimentos com o sangue-frio de um artista consumado.

— Vejo que está surpreso, querido amigo. Por que se espanta? Pelo fato do Sr. Schwertfeger ter-me nomeado seu conselheiro legal?

— O senhor é advogado dele?

— Desde hoje. Passou a mão pela cabeleira branca, estilo Gerhart-Hauptmann. O anel de sinête brilhou em seu dedo.

— Escute — disse-lhe. — C senhor não pode representar, ao mesmo tempo, o Sr. Brummer e o Sr. Schwertfeger.

— Até ontem, não. Os dois cavalheiros eram adversários. Agora já não o são — riu triunfalmente, com admiração pela própria habilidade e eu também o contemplei, cheio de admiração.

— Ao contrário, desde hoje são aliados — puxou pelo colarinho. — O Sr. Schwertfeger esteve duas horas comigo. Êle está muito emocionado. Em primeiro lugar pela morte de uma pessoa querida e também por ter estado a ponto de tornar-se cúmplice de uma monstruosa conspiração contra o Sr. Brummer.

— Uma conspiração, é boa! — disse eu, estúpidamente.

— O senhor é um leigo nestes assuntos. Vou explicar em poucas palavras. O Sr. Schwertfeger, juntamente com outras pessoas, tinha feito sérias acusações contra o Sr. Brummer porque, até ontem, estava convencido de que o Sr. Brummer agia dolosamente. Mas convenceu-se, repentinamente, que fora iludido com falsas informações e balanços adulterados.

— Deve ter comprovado isso subitamente.

— Sim. Sem se dar conta havia, durante meses, ajudado as manobras de um inimigo do Sr. Brummer que o enganara, a êle e a outros senhores, quanto a supostas ações incorretas do Sr. Brummer. Mas caíram as escamas que o Sr. Schwertfeger tinha sobre os olhos — agitou-se e suas deficiências orais voltaram a apoderar-se dele. — Êle agora sabe qual o verdadeiro culpado. Por isso está decidido a lutar ao lado do Sr. Brummer, contra o verdadeiro culpado, um banqueiro chamado Liebling. Este fato representa uma notícia importante. Esta noite, às dezenove horas, daremos uma entrevista à imprensa no Bredenbacher Hof. O Sr. Schwertfeger já entregou-me todos os documentos e cartas que necessitamos para pôr a descoberto as maquinações do banqueiro Liebling.

— Bona causa tviurnphat — disse eu.

— Assim o esperamos.

— Há uma coisa que eu ainda não entendo — declarei. — Não é possível que todos os acusadores do Sr. Brummer tenham telhados de vidro. Não é possível dominá-los, todos, por meio de chantagem!

— Por favor não diga esta palavra, ”Sr. Holden — sacudiu energicamente a branca cabeleira e afrouxou o colarinho com os dedos.

— Eu queria dizer que me parece uma loucura pensar que não há mais uma só pessoa decente em todo o país.

— Há muita gente decente no país. Parece, entretanto e graças a Deus, que o Sr. Brummer não tem negociado com eles. Parece que êle começou a aplicar as suas teorias sobre os passados negros, há muito tempo, imediatamente após a derrota da Alemanha. É verdade que temos uns dois acusadores muito incômodos, contra os quais nada possuímos. Por sorte, suas acusações não são importantes. Se o Liebling cair estamos salvos. E com isto chego ao assunto.

— Qual é?

— O Sr. Liebling pessoalmente, ou por intermédio de outras pessoas, tentou entrar em contato com o senhor?

— Nunca tinha ouvido este nome em toda a vida. Seus olhos de intelectual subitamente tornaram-se maldosos.

— Adivinho quando mente, Sr. Holden, e o senhor sabe disso. Quanto lhe ofereceu Liebling?

Levantei-me.

— Não admito que faça semelhantes acusações.

— Sente-se — gritou.

— Primeiro o senhor terá que me pedir desculpas. Desafiamo-nos mutuamente com os olhares e, subitamente, êle concordou:

— Peço-lhe desculpas.

Tornei a sentar-me.

Zorn continuou:

— Desculpe se estou nervoso, Sr. Holden. Lothar Liebling é o único que está decidido a defender-se. Enviei-lhe fotocópias dos documentos que o acusam. Enquanto os demais senhores prometeram-me seu apoio incondicional, Liebling mandou-me dizer que pretende acusar o Sr. Brummer a fundo, sem temer as conseqüências que, para êle, podem ser graves. Como o senhor vê, é um homem de caráter.

— Como o Sr. Schwertfeger.

— O Sr. Schwertfeger poderá, se necessário, testemunhar que Lothar Liebling foi sempre a mola mestra da conspiração contra o Sr. Brummer.

— Não será isso difícil de demonstrar?

— Difícil, possivelmente, mas não impossível se todos se conservarem unidos. Há, entretanto, algo que seria extraordinariamente desagradável e por isto pedi que viesse até aqui. Faça um esforço de memória. Também pedi ao Sr. Brummer que se concentrasse e procurasse recordar mas não chegamos a resultado algum. Que haverá que dá tanta força ao Sr. Liebling? Que espécie de prova tem êle? Em que estará apoiado?

— Não tenho a menor idéia.

— Não andemos tão depressa, calma. É de importância vital que encontremos a resposta. Liebling não se deve basear em nada, nada deve saber além do que nós sabemos, não pode ser mais forte que todos os outros juntos, compreende?

— Compreendo, mas continuo sem ter a menor idéia.

— Não poderia ter acontecido que no trajeto entre Berlim e Brunswick o senhor tivesse perdido algum documento?

Achei que a pergunta não merecia resposta.

— O senhor bem sabe o que quero dizer quando falo de documentos ”perdidos”.

Conservei a calma:

— Se eu tivesse retido algum documento o senhor acha que eu estaria aqui, permitindo que me insulte?

— É Uma boa resposta — concordou manifestando contentamento. — Convence — pigarreou. — Então só falta a Sra. Brummer.

— Que há com ela? — perguntei elevando a voz sem o querer.

Êle sorriu tristemente.

— Ela queixou-se do senhor, sim, do senhor e não me olhe tão espantado. Ouvi dizer que não trata a digna senhora com a devida consideração. O senhor recusou-se, por exemplo, a responder às suas perguntas.

— Conforme as suas instruções.

— Eu o felicito pela sua noção do dever, Sr. Holden. Vê-se logo que foi soldado muito tempo e que esteve na prisão bastante tempo. Terei muito prazer em ouvir novamente as queixas da Sra Brummer. Ela também queixou-se de mim.

— Do senhor? — desde que encontrara o Sr. Schwertfeger em tal lugar eu me convenci de que era um idiota e continuava agindo como tal.

— Queixou-se ao Sr. Brummer. Estou numa situação embaraçosa. O Sr. Brummer exige, antes de mais nada, segurança para a esposa, porque a ama e porque é o que tem de mais precioso sobre a terra. Por isto, proibiu que ela seja envolvida nestes assuntos. Não quer que ela seja incomodada. Faz isto porque a ama. E a Sra Brummer? O senhor está vendo qual é a sua reação.

”Até onde êle quer chegar com tanto palavrório”, pensei eu, ”surpreendido. Qual o seu objetivo?”

— Assim sendo, o andamento da coisa é o seguinte: o Sr. Brummer ordena que o senhor acompanhe a sua esposa por toda a parte. Conseqüência: a Sra Brummer queixa-se de que sua liberdade está sendo cerceada. O Sr. Brummer ordena, também, que todos os documentos pessoais, coisas de valor e jóias da Sra Brummer sejam depositados em um banco. Conseqüência: a Sra Brummer culpa-me por não poder usar suas jóias. Sr. Holden, acredita que a Sra Brummer possa ser conivente de Lothar Liebling?

Pronunciou a última frase sem transição e sem elevar a voz. ”Graças a Deus”, pensei eu, ”tudo acaba sendo apenas isto. Tudo. Meu cérebro continuava funcionando...”

— Esta acusação é monstruosa — comecei a dizer mas fui interrompido por um gesto seu.

— Trata-se de uma simples pergunta. Sou o advogado do Sr. Brummer. Tenho a incumbência de devolver-lhe a liberdade e o bom nome. Para tanto, é indispensável que eu reduza a nada o perigo que se chama Liebling. A quem devo dirigir-me quando preciso de informações sobre, a Sr» Brummer? A ela própria?... E então?... Ao Sr. Brummer? Ama á mulher. Suas informações não têm valor. Resta o senhor. É neutro e, por outro lado, tem a incumbência de segui-la passo a passo. Peço, portanto, que me avise imediatamente quando vir algo fora do usual no procedimento da Sra Brummer. E não me diga que não o pode fazer, já recebeu uma boa quantidade de dinheiro.

— Eu não disse que não poderia.

Então, êle levantou-se e estendeu-me a mão:

— Eu agradeço.

— Não há de quê — respondi.

E pensei que o pequeno doutor não poderia ter escolhido um pior colaborador. Um quarto de hora antes, êle e os seus semelhantes pareciam-me ser quase super-homens. Agora a minha opinião mudara. Eu acabava de readquirir a confiança em mim mesmo.

”Estamos novamente empatados” — pensei. ”Ainda faço parte da quadrilha. Minha situação melhorou, minha posição está fortalecida.” Assim pensava eu, idiota, cego vaidoso, imbecil sem recuperação.

 

Neste dia houve forte tempestade. Recordo-me da tempestade porque me lembro do dia; não creio que o esqueça, jamais. O temporal ameaçou Düsseldorf, durante horas, sem desabar. O céu estava negro e a luz tinha uma côr de enxofre, por causa do pó que o vento, em cada lufada, levantava até às nuvens. Mas a chuva não caía e os trovões não sucediam aos relâmpagos ofuscantes. Fazia muito calor e escurecera muito cedo. Em muitas lojas já haviam acendido as luzes às três da tarde. Até o vento era quente. Notava-se que todos estavam excitados.

Eu devia ir buscar Nina, em casa de uma amiga, na Rua Delbrück, às 15h30m. Quando me dirigia para lá, liguei o rádio do carro. O vidro a meu lado estava abaixado e o vento, quente e seco, acariciava o meu rosto, enquanto eu ouvia uma voz de mulher que contava a seguinte história, para crianças: ”...mas quando chegaram à ponte, já na escuridão, o irmão mais velho fêz com que o mais jovem carregasse o fardo, tal como lhe havia aconselhado o demônio e quando chegaram ao meio, por cima das águas, atingiu-o, por detrás, com um forte golpe que o fêz cair morto a seus pés. Então o irmão mais velho enterrou o jovem embaixo da ponte, tirando-lhe o tesouro de ouro, tal como ordenara o diabo e o levou à presença do rei, dizendo que o havia encontrado. Por tal motivo obteve a filha do rei como esposa...”

Uma luz vermelha fêz-me parar. Poeira amarela envolVia o carro. A escuridão avançava rapidamente. Eu meditei no fato dos contos alemães estarem repletos de mortes, de mentiras, de muitos enganos e terror, exatamente como na vida real, como na vida.

A luz passou ao verde e eu prossegui,

”... Mas, como perante Deus nada permanece escondido, ao cabo de muitos anos um jovem pastor, ao atravessar a ponte com o seu rebanho, viu sobre a areia um osso, branco como a neve, e pensou que com êle poderia fazer uma boa embocadura para a sua flauta. Desceu, apanhou o ossinho e o cortou na medida...”

A iluminação das ruas foi acesa. Os transeuntes se apressavam. Todo mundo estava nervoso. Também em outra época, todos ficavam nervosos, antes mesmo que soassem as

sereias.

”... Quando o pastor soprou pela primeira vez na nova embocadura da sua flauta, o ossinho começou a cantar, assombrando o pastorzinho:

Ai, querido pastorzinho Que sopras em meu ossinho, Meu irmão é que me matou E debaixo da ponte enterrou Por meu tesouro cobiçar E a mão da princesa alcançar.

”Que flauta maravilhosa — disse para si mesmo o pastorzinho — que canta por si se. Hei de levá-la ao rei...”

Com a sereia uivando e com um farol azul, aproximavase, a toda velocidade, um carro da polícia. Vi, pelo espelho retrovisor, quando êle se acercava e encostei-me ao meio-fio e freei. O carro passou por mim vertiginosamente. ProsseBill, então, com o vento jogando poeira em meus olhos que começavam a arder. E a tempestade não se decidia a estalar.

”.. Quando o pastorzinho chegou diante do rei, a flauta entoou, novamente, a sua canção. O rei compreendeu muito bem, mandou cavar junto à ponte e apareceu o esqueleto completo do assassinado. O mau irmão não pôde negar seu crime. Coseram-no dentro de um saco e o atiraram ao rio. Os ossos do morto foram levados para uma bela sepultura no cemitério da igreja. E aqui, queridos meninos, termina a história.

O mau unira-se ao diabo para conquistar o ouro. Tinha confiado nele e com êle bebêra e comera. Mas, quem come com o diabo precisa de uma colher muito comprida.”

Houve três segundos de silêncio e depois soou uma voz de homem:

”Pela estação do noroeste da Alemanha, em Hamburgo, acabaram de ouvir a hora das crianças. Ingeborg Lechnner acaba de ler, para vocês, o conto O Ossinho Cantor, dos Irmãos Grimm.”

Logo a seguir, sulcou os ares um grande relâmpago. Cegou-me de tal forma que tive que fechar os olhos e apertei o freio. Imediatamente ressoou o trovão, seco e duro como um disparo de espingarda a pouca distância. Uma mulher gritou estridentemente. E finalmente começou a cair a chuva e a luz do sinal passou ao verde.

 

Neste dia ela usava um vestido vermelho, de lã, e já estava à porta da casa quando lá cheguei. Saltei do carro e abri a porta. Ela correu, sobre os seus saltos muito altos, tão depressa quanto podia, através da forte chuva. Os poucos passos foram suficientes: quando se deixou cair sobre o banco o vestido aderiu-lhe ao corpo como um jérsei apertado demais. A água corria-me pelo colarinho do uniforme adentro.

— Para casa — disse Nina, com a respiração entrecortada.

Nada se via além de dez metros. Sem interrupção mediam-se, agora, os relâmpagos e os trovões soavam surdamente. Não havia mais pedestres nas ruas mas os automóveis se amontoavam em todos os cruzamentos. Muitos buzinavam sem cessar. Através de uma luz irreal, como a de um aquário, a chuva forte tamborilava sobre o teto do carro.

— Acabei de dizer-lhe alguma coisa, Holden!

— Não a ouvi, senhora.

— Ande mais depressa.

— É impossível andar mais depressa.

— Mas eu tenho medo do temporal.

Não respondi. Pelo espelho vi que ela se agachou num canto, fechou os olhos e tapou os ouvidos. Tive pena mas, com toda a boa vontade, não podia dirigir mais depressa.

De qualquer forma, chegamos à Cecilienallee em vinte minutos. Sobre o rio, a chuva dava a impressão de um bloco compacto de cimento circundado pela névoa. O temporal tinha quebrado grossos galhos das árvores que estavam sobre a estrada e por sobre os quais corriam pequenos rios que se dirigiam para o Reno. Os canais estavam obstruídos pela lama, pelas folhas, pelas flores e pela grama. O caminho era um lodaçal. A tempestade continuava a rugir e a luz que havia tinha um tom esverdeado. Tinha chegado à residência e dispunha-me a entrar pelo portão do parque quando ouvi o seu grito:

— Pare!

Freei o pesado carro que derrapou para o lado e parou junto ao alpendre do grande portão de entrada. Um homem estava ali parado. Nina o vira primeiro. Era Toni Worm. O mau tempo devia tê-lo surpreendido porque não tinha capa mas apenas calças de flanela cinza, sandálias de camurça côr de carne, casaco azul e camisa com colarinho aberto. Estava protegido da chuva debaixo do alpendre. Estava muito pálido e seus olhos, negros e belos, reluziam, sob as longas pestanas. Com movimentos ágeis dos largos ombros, das estreitas cadeiras e das longas pernas alcançou, em três saltos, a porta do carro que Nina logo abriu.

— Toni!

Deixou-se cair a seu lado. A porta foi fechada violentamente. O olhar de Nina tornou-se leitoso e vago. Levou as mãos ao coração e sussurrou:

— Que fazes aqui?

O jovem de cabeleira negra e ondulada e de mãos finas e expressivas, respondeu:

— Telefonei. Disseram-me que voltarias dentro de uma hora e eu esperei aqui. Bom dia, Sr. Holden.

— Bom dia, Sr. Worm.

Em Munique eu tivera um vizinho que possuía um cão, um carinhoso animal de orelhas pendentes. Esse homem era atormentado pela mulher e, por isto, atormentava o cão. Qualquer pretexto era bom para chicoteá-lo, para dar-lhe pontapés, para retirar-lhe a comida da frente. Batia continuamente no pobre animal. Por fim, arranjou uma coleira que asfixiava. Chamei-lhe a atenção sobre este fato e êle me respondeu:

— Parece não entender do assunto, caro senhor. Estou educando o meu Rex para ser um cão de caça e, para isto, é preciso que êle aprenda a seguir-me, obedecendo à minha palavra. Êle mesmo sabe que é assim, não é verdade, Rex?

Ao ouvir o seu nome, o cão inclinava a cabeça, latia alegremente e abanava a cauda. Seus grandes olhos tinham uma expressão de arroubamento e de submissão total ante seu algoz, um olhar de imensa admiração e rendição total para o homem que o maltratava e para mim uma coisa ficou clara: se existia um ser sobre a terra pelo qual o cão se deixaria, cegamente, cortar em pedaços, este ser era o meu vizinho. A mesma expressão, exatamente a mesma, via eu agora nos olhos de Nina Brummer ao contemplar Toni Worm...

— Que aconteceu? — murmurou ela.

— Aqui não.... :.

— Não podes entrar em casa. Mila... Worm disse:

— Leve-nos mais adiante, Sr. Holden. Não me movi.

Nina gritou, subitamente, como uma louca:

— Não ouviu dizer que deve levar-nos! Worm, em tom conciliador, falou:

— Todos estamos nervosos — brilhou um relâmpago sobre a água e, logo a seguir, retumbou um trovão. — Peço-lhe o favor de ir para diante, Sr. Holden.

Limitei-me a ficar quieto e olhar para os dois.

— Se não quer dirigir, saia do carro. O Sr. Worm dirigirá.

”Os olhos do cão” — pensei eu — ”chicote e pontapés...”

— Para onde?

— Ao longo do Reno — disse Worm.

Dirigi, portanto, seguindo o rio. Pelo espelho eu via como Nina olhava para êle e como êle olhava para Nina. Ninguém falava e a chuva tamborilava no teto do carro, os relâmpagos sulcavam o céu e os trovões reboavam. Em certo momento a mão de Nina escorregou sobre o couro do assento, em direção à mão dele. Mas a sua mão ficou onde estava e êle limitou-se a lançar-lhe um olhar sentimental é evocador de lembranças comuns.

Que pretendia? Pox que tinha voltado? Eu estava ficando furioso porque nenhum deles falava e não atinava com o que êle queria.

— Pára ali adiante — disse Worm.

Apareceu um pequeno bar, com mesas debaixo das árvores e cadeiras encostadas às mesas. A chuva resvalava sobre elas e caía ao chão.

— Não posso entrar aí — disse Nina. — Freqüentemente compramos aqui cerveja ou soda. Os empregados me conhecem.

— O Sr. Holden irá — acrescentou Worm. — Por favor.

Eu sacudi a cabeça. Nos olhos de Nina surgiu uma expressão assassina.

— O senhor irá imediatamente. Tornei a sacudir a cabeça.

— O senhor ficou louco, Holden? Em que está pensando?

— Eu não vou.

Ela abriu subitamente a porta e saiu, debaixo da chuva. De um salto postei-me a seu lado e a segurei pelos ombros. Ela empurrou-me para trás. A chuva golpeava nossos rostos como se fosse granizo. Gritei:

— E se alguém a reconhecer?

— Pouco me importa! Para mim tanto faz.

Toni Worm ficara sentado no carro e seguia, amedrontado, a nossa discussão.

—- Vai botar tudo a perder — tornei a gritar.

Nina safou-se de minhas mãos, bateu-me no rosto com toda a sua força e correu, cambaleando, em direção ao bar. Eu corri atrás dela, alcancei-a e agarrei-a, pensando que oxalá ninguém nos visse. Falei-lhe ao ouvido:

— Está bem. Vou deixá-los a sós.

Ela correu para o carro. A porta fechou-se. Os dois estavam sós e eu apanhando chuva...

O bar estava vazio.

Por trás do balcão, uma rci’lher gorda lia o jornal. Um gato ronronava em seus joelhos. As mesas não tinham toalhas. No teto, uma lâmpada nua iluminava o recinto. Tirei o casaco e sentei-me perto da janela de onde podia ver o Cadillac sob a luz esverdeada do temporal. Não se podiam ver as pessoas que estavam no carro, ninguém podia vê-las naquela escuridão, mas eu sabia que lá estavam, eu sabia.

A mulher gorda aproximou-se com rosto amável:

— Um tempo horrível, não?

Eu olhava para o Cadillac, lá fora.. — Quer beber alguma coisa? -- Sim, um conhaque.

— Com acompanhamento?

— Sim, uma cerveja.

Ela afastou-se, arrastando os pés e o gato gordo de nariz côr-de-rosa chegou-se a mim ronronando, mas eu só olhava para o Cadillac que estava lá fora, só via o Cadillac.

 

Ela me esbofeteou. Ela bateu-me. Há coisas que ainda posso suportar e ela as tem feito até agora. Mas bateu-me e isto não deveria ter feito. Isto já é demais.

— Uma cerveja, um conhaque.

— Outro duplo.

— Outro duplo, sim senhor.

A minha mulher também me bateu, quando eu entrei no quarto. Bateu-me no rosto tal como ela o fêz agora. E então... então fiz aquilo. Tudo girava em volta de mim como agora começa a girar. O sangue batia-me nas frontes tal como agora começa a bater...

— Seu outro duplo, senhor.

Tenho que fechar os olhos porque tudo gira depressa demais. E as artérias na minha fronte batem, batem. Ela me deu uma bofetada, bateu-me, bateu-me.

Lá fora está o carro.

Não quero olhar para êle. Tenho que olhar. Lá fora tudo se move envolto nas verdes brumas da chuva. Mas ali está o carro. Eles estão sentados e falam, não sei de quê. Ela olha, com os seus úmidos olhos de cão, para o formoso jovem com quem já reboleou na cama, nua e arquejante. Êle voltou e todo o seu corpo anseia pelo dele e voltarão a fazê-lo, voltarão...

Não.

Que quer dizer não?

Eu o impedirei.

Idiota. Como poderás impedi-lo?

Já impedi algo, uma vez. Por causa disso fui condenado a doze anos e Margit estava morta. Não podia enganarme outra vez. Fá-lo-ei novamente, sim, vou fazê-lo novamente. Não irei, porém, para a cadeia. Ela me bateu. Quieto. Preciso ter calma. Não. Não quero. Ainda não. Acabarei com isto. O que está acontecendo é demais para mim. Não posso agüentar. Vou acabar com isso. Acabarei comigo e com eles dois.

Vou ao encontro deles. O formoso jovem é mais fraco que eu. É covarde. Margit é apenas uma mulher. Não, não é Margit. Isto foi da outra vez. Chama-se Nina. Margit. Nina. Margit. Nina. Não importa, é a mesma coisa. Arrancarei com o carro sem pronunciar uma palavra. Continua chovendo. Parecerá um acidente. É claro que eles tentarão bater em mim e farão tudo para deter-me. Mas estarão atrás de mim. Não se pode machucar muito a uma pessoa quando se está sentado atrás dela. A meio quilômetro de distância, o Reno se aproxima muito da estrada, conheço o local. Há vários avisos. Torcerei o volante e o carro se precipitará diagonalmente através da estrada. Eles gritarão. Farão o que puderem para sair do ataúde que os leva para o fundo, mas será tarde demais. A água entrará como uma tromba pelas janelas abertas e eles se agarrarão um ao outro como eu me agarrarei ao volante. Margit e Toni. Nina e Toni. Nina e Toni.

O sangue... o sangue que me golpeia as frontes.

Deixo dinheiro em cima da mesa e visto o úmido casaco. Ando devagar, muito devagar porque, agora, é completamente igual se eu me molhar muito ou pouco. Dez passos até o Cadillac que está na meia escuridão, maciço e negro, oscilando diante dos meus olhos como tudo está oscilando.

Andando com cautela, aproximo-me por trás, a fim de que não me percebam. É importante que eles não notem nada.

Cinco passos. Escorrego. Caio. Levanto-me novamente. O sangue. O sangue em meu crânio. Margit e Nina. Margit e Nina...

Ainda três passos.

Como a luz ainda está verde! Também a água será verde. Peixes e plantas nos acompanharão. À noite estará escura e fará frio mas nós já não o notaremos.

Seu formoso corpo apodrecerá, as algas crescerão e os peixes nadarão através de seus cabelos.

Ainda um passo. - Eu penso: ”Ela me esbofeteou. Isto é o fim,”

Abro a porta, de repente, e deixo-me cair atrás do volante. No mesmo instante sinto a mão de Nina cair sobre o meu ombro e ouço a sua voz soluçante.

— Holden. graças a Deus que o senhor chegou!

 

Holden, graças a Deus que o senhor chegou!

Tirei o pé do acelerador e voltei-me lentamente, muito lentamente, porque os meus músculos mal me obedeciam. Nina deixou-se cair sobre o assento, com lágrimas escorrendo pela face. Ali estava ela, com seu vestido molhado e grudado ao corpo, os olhos cheios de lágrimas e as mãos tremendo. Toni Worm estava a seu lado e, quando eu o olhei, levantou as mãos para proteger o rosto:

— Se o senhor me tocar, salto do carro e grito por socorro.

Baixei o vidro da porta, respirei profundamente e passei a mão pelo rosto e falei, gaguejante:

— Quem vai lhe bater, Sr. Worm, quem lhe vai tocar?

No Reno uivou uma sereia. O temporal amainava e só

a chuva continuava com a mesma intensidade.

— Canalha — disse Nina. — Canalha indecente. Worm limitou-se a encolher os ombros.

— Que aconteceu? — perguntei, pensando que bastaria muito pouco para novamente não nos dirigirmos a palavra.

Nina se encolheu tanto que os seus ruivos cabelos caíram abaixo dos joelhos que a saia, encolhida pela umidade, deixava a descoberto.

— Está fazendo uma chantagem — murmurou. Pensei que precisava agir com prudência. Eu próprio

estava à beira de uma crise. Respira lentamente. Fala devagar. Não te deixes levar por um arroubo. Toni Worm falou:

— Sr. Holden, o senhor está a par das nossas relações, apelo para a sua compreensão de homem.

Nina riu histèricamente.

Estava ficando tão escuro que eu apenas podia distinguir os rostos dos dois. Do rio vinha uma névoa que se arrastava sobre a estrada, a luz esverdeada tornara-se cinzenta. Escureceu. Luzes se acendiam na neblina. E novamente soou a sereia, já longe, sobre o Reno.

Toni falava por entre o tamborilar da chuva e os soluços de Nina.

— Ponha-se no meu lugar. Vou a Hamburgo e verifico que não há contrato para mim no bar Éden.

— Como então?

— O dono daqui queria simplesmente descartar-se de mim. Em Hamburgo já têm um pianista com um contrato de três anos. Eu fiquei no meio da rua. Logo que fiz o meu registro de residência fui procurado pelo cobrador de impostos. Atrasos de Düsseldorf. Não posso pagar. Não tenho o que comer. Moro numa pensão onde devo o aluguel. Nem sequer tenho um piano para trabalhar. A rapsódia, recorda-se, Sr. Holden? Minha rapsódia.

Nina riu novamente.

Apertei o freio de mão e retirei a chave de contato, porque não queria ter nenhuma surpresa. Em primeiro lugar não queria, de forma alguma, cair no Reno. Nem mesmo por distração. Como é estranho o ser humano.

Agora que eu compreendera que Nina desprezava e odiava o belo rapaz eu passava a amar a vida que, pouco antes, estava decidido a acabar e a amava com todas as forças da alma. Como podia eu ter pensado em renunciar a ela?

Idiota.

A vida estava cheia de esperanças, voltava a prometerme tudo que eu dela desejava.

Assim é o homem, essa estranha criatura.

Toni disse:

— Nina... -

— Não me chames de Nina!

— A Sra Brummer é injusta. Nós nos amávamos. Justamente porque nos queríamos é que voltei.

”O rapaz tem bons nervos”, pensei.

— Por que regressou o senhor?

— Já passou dificuldades, alguma vez?

— Sim.

— Então poderá me compreender. Vi-me, subitamente, em Hamburgo e coberto de dívidas. Um aperto atrás do outro. E alguém deve ter falado porque começou a correr um boato em toda a cidade.

— Que espécie de boato?

— Que eu tivera uma ligação com a Sra Brummer; já não permite que eu a chame de Nina. Mexericos muito desagradáveis.

— És tão vil... tão mau.

— Cada dia era mais insistente o rumor. Worm e a Brummer. Worm e a Brummer. Fiquei amedrontado! Não queria ter nada a ver com o Sr Brummer. Não acha compreensível?

— Continue — disse-lhe. - Nervos. O rapaz tinha bons nervos.

— Quis emigrar. Ir para o Canadá. Para tão longe quanto possível. Mas não tinha dinheiro. Foi então que me procurou esse homem, chamado Held. Êle afirmou que eu tinha uma carta de Nina. Alguém deve tê-la visto, quando a trouxeram.

— Ridículo — comentei.

— Ninguém viu! — soluçou Nina. — É um canalha, um reles chantagista.

— Deixe que êle fale, senhora — disse-lhe e algo em minha voz despertou a desconfiança do rapaz, a desconfiança covarde de um rato.

— Se levantar a mão contra mim, salto do carro.

— Não lhe farei nada. Continue a falar.

— Esse homem ofereceu-me dinheiro pela carta. Nina falou com voz monótona.

— Nessa carta contei por que tentara o suicídio. Meu iMarido, num assomo de desespero confessara-me as felonias de que era culpado.

— Isto estava na carta? — perguntei estupefato.

— Sim.

— A senhora escreveu que seu marido lhe confessara tudo?

— Tudo não, mas muito. Estava fora de mim...

Finalmente compreendia tudo, agora. Perguntei a Toni Worm que, na escuridão do carro, não era mais que uma sombra:

— Este homem queria comprar-lhe a carta para um tal Lothar Liebling?

—- Como sabe?

— Quanto lhe ofereceu?

- Vinte mil. Dizia que o Sr. Liebling estava nas garras do Sr. Brummer e tinha que tentar livrar-se delas. Uma carta em que a Sra Brummer, com as palavras do próprio marido, por assim dizer, confirmava a sua culpa teria, perante um juiz, uma força muito mais...

- Não me venha com histórias — interrompi. — Como poderia Liebling saber que o senhor tinha a carta que haveria de salvá-lo? Será êle um clarividente?

— Eu...

— Foi o senhor que a foi oferecer.

— Não.

— Então, por que essa carta já não foi queimada há muito tempo?

— Não continue Sr. Holden — disse Nina esgotada — nada disso adianta. Êle quer dinheiro.

Worm retorceu as finas mãos de artista, representando o seu papel com a maior seriedade.

— Estou numa situação desesperada... não quero entregar a carta a Liebling... por isto é que estou aqui...

— Para quê?

— Quer que eu lhe dê dinheiro — prosseguiu Nina. -- Somente porque estou em situação desesperada. A ti não fará diferença... és uma mulher rica...

— Basta.

— Sim — acrescentei, — é melhor que se cale. Ficamos alguns momentos em silêncio. Então continuei:

-- Onde está a carta?

— Na minha maleta no depósito da estação — acrescentou rápida e covardemente:.— Não tenho comigo o talão.

— Meu Deus -” disse Nina em voz baixa. — Meu Deus. E por ti eu queria... — cobriu o rosto com as mãos.

— Estou em uma situação desesperada — insistiu o teimoso, como que pretendendo uma linha de dignidade.

- A senhora deve pagá-lo — disse a Nina.

— Não tenho dinheiro.

— Venda algumas jóias.

— O advogado levou-as, todas.

— Tu tens amigos — disse Worm. — Pede o dinheiro emprestado.

— Vinte mil. O senhor está louco •— observei.

— É quanto oferece Liebling. Chamem-no ao telefone.

Nina declarou:

— Não vale a pena. Não posso conseguir nem a metade. Faze o que quiseres, mas vai-te embora.

— Alto lá — disse eu. — E o seu marido? E o processo?

— O Sr. Holden tem razão, Nina.

— Cale o bico — disse-lhe — e êle, imediatamente, levantou as mãos para defender o rosto.

Nina interveio:

— Sai daqui. Não te posso suportar mais. Dá-me umas duas horas de prazo. Verei o que posso fazer.

— O meu trem parte à meia-noite. Tenho que tomá-lo. Liebling esperará até amanhã ao meio-dia. Estou morando na pensão Elite.

A seguir, Worm abriu a porta e se dirigiu, debaixo da chuva, para a cervejaria.

Ficamos olhando para. êle.

A tempestade afastava-se para o sul. O céu começava a clarear.

— Perdoe-me — disse Nina. Eu inclinei a cabeça.

— Perdoe por ter-lhe batido. Perdoe-me tudo, Sr. Holden. Sinto muito.

Tornei a inclinar a cabeça.

 

Chegando em casa, ela foi para os seus aposentos e eu fui para a cozinha onde Mila estava fazendo outra torta para o Sr. Brummer. Fiquei observando-a e ouvindo soar, de quando em quando, a campainha do telefone. Soava cada vez que Nina levantava o fone, em seu quarto, para discar um novo número.

— Está telefonando muito, a minha Nina — disse Mila com carinho e com carinho encheu a fina massa com rodelas de maçã. — Com certeza é por causa da conferência com a imprensa, esta noite. Ouvi pelo rádio, no noticiário das cinco horas, que estava prestes a haver uma reviravolta sensacional nos acontecimentos. Eu não lhe dizia, Sr. Holden, nada devemos recear quanto ao patrão. No fim o bem sempre triunfa.

Fui para o meu quarto, espichei-me na cama e pensei sobre muitas coisas. Às oito horas jantei na cozinha, com Mila. Continuava a bater a campainha do telefone. À certa altura soou longamente o que era o sinal para chamar alguém na cozinha. Peguei o fone e ouvi a voz de Nina.

— Peço que não se vá deitar, Sr. Holden, é possível que ainda precise do carro.

Assim sendo, comecei a jogar canastra com Mila e, como éramos só dois, cada um tinha nas mãos uma porção de cartas. Eu pensava noutras coisas e perdia. Às dez horas ouvimos o noticiário e o locutor nada disse sobre a conferência com a imprensa.

— Ainda é muito cedo ainda — opinou Mila. — Vamos jogar outra partida?

— Não. Preciso sair e andar um pouco, senão dormiria.

No parque fazia muito calor. À beira do lago coaxavam as rãs. O céu estava agora límpido e viam-se as estrelas. Passeei fumando pelo caminho de cascalho entre o parque e a estrada. Depois da tempestade o ar tornara-se muito puro. Eu respirava profundamente e sentia-me em paz. Assim, também, eu me sentira quando depois de anunciada a sentença, ao fim do julgamento. Agora, também, pensava eu, está tudo resolvido.

Voltei para casa e subi pela escada, que rangia, até o primeiro andar, passando diante dos lavradores de Brueghel, das árvores de Fragonard e da Susana do Tintoretto.

Nina estava sentada junto a uma mesinha, ao lado da janela, com a cabeça apoiada nas mãos. O telefone estava diante dela. Todas as lâmpadas estavam acesas no quarto e os móveis, brancos e dourados, brilhavam. Nina tinha uma saia côr de areia e um jérsei amarelo. Seu rosto estava sem maquilagem, seus lábios tinham um tom cinzento e, por baixo dos olhos, havia sombras negras.

— Que deseja, Sr. Holden?

— Rogo-lhe que não considere a minha pergunta como um atrevimento. Conseguiu reunir o dinheiro?

— Quatro mil marcos. Ainda estou esperando uma resposta. Mas já são dez e meia — continuou. — Só posso pedir àsamigas e não aos homens. É uma quantia muito grande. Minhas amigas fazem o que podem, mas quem tem tanto dinheiro à mão? Na melhor...

O telefone chamou. Rapidamente ela levantou o fone.

— Sim? Elli? — escutou. — Não há nada a fazer. Pelo amor de Deus, estou certa disso... De qualquer forma, muito obrigada pela sua boa vontade... Como? Não, também não é assunto de muita importância. Adeus — desligou. — Ficam os quatro mil.

Uma janela estava aberta, as rãs coaxavam na beira do lago, coaxavam muito alto. O vento da noite fazia ondular as cortinas e eu via tudo com nitidez. As pétalas douradas das rosas da tapeçaria, as pequenas orelhas de Nina debaixo dos seus ruivos cabelos, o pequeno sinal negro que tinha na face esquerda, quando lhe disse:

— Eu tenho o resto. Ela sacudiu a cabeça.

— Sim — insisti, — a senhora precisa, agora, pensar em si mesma.

— O dinheiro é seu.

— Consegui-o num negócio sujo. Por que não gastá-lo em outro negócio sujo?

Ela permaneceu calada. Disse-lhe:

— Eu a amo, não quero que lhe aconteça nada.

— Como pode o senhor amar-me, depois de tudo... depois de tudo que eu fiz?

— Eu não sei mas amo-a.

Dirigiu-se para a janela aberta, dando-me as costas.

— Admito que, a princípio, pensei que viesse, Sr. Holden. Sob o peso do medo perdem-se todos os escrúpulos e a moral. Não É verdade? Eu... eu pensei que o senhor pediria algo em troca...

— E teria concordado?

— Sim — disse com simplicidade. — Porque, nesse caso, se trataria de um negócio e eu saberia que o senhor não me amava.

— Em vez disto, eu nada peço.

— O que significa que exige muito mais.

— Eu exigiria se isso se pudesse exigir. Tal como estão as coisas, só me resta esperar.

Virou-se para mim. Seus olhos tornaram-se muito escuros.

— Não. É impossível. Não posso aceitar o seu dinheiro.

 

Às onze e meia da noite estávamos no grande depósito de bagagens, aberto a todos os ventos, da estação principal de Düsseldorf. Nas prateleiras havia centenas de malas. A sala cheirava a fumaça. As pessoas que lá estavam denotavam cansaço nos rostos. Um menino chorava porque queria dormir. Dois bêbados dormiam em um banco, apoiando-se um no outro. Nina tinha um casaco de seda e sapatos castanhos, sem salto. Não se tinha pintado e estava muito perto de mim.

Cinco minutos depois das onze surgiu Toni Worm com a gola da capa levantada e a aba do chapéu abaixada.

Ao vê-lo, Nina gemeu:

— Não posso. Não posso...

— Tem que fazê-lo — disse. — Eu não saberia se a carta é a verdadeira.

Worm dirigiu-se a um empregado e entregou-lhe o talão de sua maleta. Três quartos de hora antes, Nina telefonara para a sua pensão e marcara o encontro com Worm. Vimos quando recebeu a maleta e a entregou a um carregador.

Worm aproximou-se de nós. Já não perdia tempo em dissimulações. Seu trem partia dentro de vinte minutos e o negócio precisava ser concluído.

— Vamos ao restaurante. Ninguém respondeu.

Atrás do gigantesco carregador — Worm havia escolhido um particularmente forte. percorremos a longa passagem subterrânea que, por debaixo das linhas, levava até o restaurante. Na sala, o ar estava viciado pela fumaça e pelo cheiro de comida e cerveja.

Havia muita gente nas mesas. Toni fêz um sinal ao carregador:

— Aqui.

Sentou-se numa mesa perto da saída. Na mesa ao lado estava um policial bebendo Coca-Cola.

O rosto de Nina estava completamente sem expressão, seus olhos não tinham mais lágrimas. Não pronunciou uma só palavra.

— Onde está o dinheiro? — perguntou Worm.

— Eu o darei — respondi. — Mas não os vinte mil. Dez mil é o máximo.

— Vinte mil. É o que oferece Liebling. Lamento mas preciso do dinheiro.

— Quinze mil — ofereci.

— Não.

— Venha — disse Nina. Levantamo-nos e andamos em direção à saída. Worm pronunciou, à meia-voz:

— De acordo.

Voltamos, portanto, para a mesa e nos sentamos novamente. Êle abriu a maleta e tirou a carta.

— É esta? — perguntei.

Nina fêz um gesto que sim, depois que Worm retirou a carta do envelope e segurou a ambos à altura do queixo, como um prestidigitador mostrando cartola e coelho. Sim, era a carta, eu mesmo reconheci a trêmula caligrafia de Nina, que parecia com patas de mosca...

Tirei um maço de notas do bolso, as notas de cinqüenta marcos que recebera do Dr. Zorn. Comecei a contar e, a cada nota, sentia uma picada no ombro como se alguém me espetasse uma agulha, trezentas agulhas, ao todo...

As notas iam formando uma pilha diante do belo rapaz que, com os lábios, contava juntamente comigo. Quando contei mais de duzentas, o policial da mesa próxima disse:

— Uma coisa assim deveria acontecer-me, de vez em quando.

Worm fêz-lhe um sinal amistoso, sorriu e eu continuei contando até trezentos, ao mesmo tempo que vigiava atentamente a carta que estava sobre a mesa, entre nós dois. Ambos estendemos a mão ao mesmo tempo, êle em direção ao dinheiro e eu para pegar a carta.

— Atenção — disse um alto-falante. — O trem expresso para Hamburgo, via Dortmunt, Bielefeld e Hannover sairá dentro de cinco minutos, da plataforma treze. Desejamos boa viagem.

Worm embolsou o dinheiro e levantou-se. Eu, também, me levantei.

— Fique sentado — disse a meia-voz. Virou-se para o policial. — Por obséquio, o senhor quererá ter a amabilidade de explicar aos senhores o caminho para a Rua Kreuz?

— Com muito prazer — o policial aproximou-se.

— Muito obrigado — disse Toni Worm. Inclinou-se diante de Nina que continuou a’olhar para

o chão. Dirigiu-se logo, rapidamente, para a saída. Não me seria possível segui-lo e abatê-lo num local escuro e recuperar o dinheiro, tal como planejara. O policial estava sentado diante de mim e explicava, amàvelmente, ilustrando o que dizia com coisas que tinha sobre a mesa:

— Supondo que o copo de cerveja seja a estação, subindo por aqui os senhores saem na Praça Wilhelm. A seguir seguem até a Praça Bismarck e caminham por ela a distância de três quarteirões, viram à esquerda...

Toni Worm tinha chegado à porta de saída. Conseguir que o policial nos explicasse o caminho tinha sido um bom truque. Os vidros da porta giratória brilharam. Worm desapareceu. E com êle o meu dinheiro.

 

PRECiso beber alguma coisa — disse Nina. Tínhamos saído da estação e estávamos na praça fronteira e que estava deserta. Ela vacilou e segurou-se em meu braço, para não cair. — Preciso beber qualquer coisa imediatamente. Sinto-me... mal... sinto que vou desmaiar, quando penso nele...

— Não pense mais nele...

— Preciso beber. Só assim ficarei cansada e poderei dormir e não pensar mais... Caiu contra meu peito e, por cima de sua cabeça olhei para a grande praça cheia de poças dágua formadas pela chuva e nas quais se refletiam as luzes. Ela soluçou e ouvi quando dizia: — Eu devolverei... de qualquer forma procurarei obter... O senhor nada perderá. Aquele canalha, aquele canalha.

Uma rapariga da rua, com os lábios escandalosamente pintados, passou por nós, balançando a bolsa e ameaçou-me com um dedo:

— Sujeito mau, não faça chorar a mamãezinha! Apoiei os lábios nos cabelos de Nina e contemplei a

grande praça. Ainda havia muitas poças deixadas pela chuva. Às luzes das lâmpadas eram refletidas por elas.

 

Naquela noite estivemos em quatro lugares. Nenhum deles muito bom. Nos bons, Nina era por demais conhecida. Em todos bebemos uísque e em nenhum ela conseguiu ficar muito tempo.

Em pouco tempo ela perdia a paciência e queria ir-se embora.

— Não se pode respirar aqui. Vamos — dizia, ou então: — Esta música está-me enlouquecendo. Não consigo ouvir nem as minhas próprias palavras — dessa forma, ela e eu andamos por toda a cidade. Formávamos um par bastante estranho: ela, sem maquilagem, de sapatos sem salto, blusa de jérsei e saia de lã. Eu com o meu uniforme de chofer. Muita gente olhava para nós, especialmente quando Nina tornou a chorar. À certa altura ela me disse: — Tire as iniciais, Holden.

Soltei os pega-ladrões e retirei as douradas letras J.B. da lapela do casaco e deixei o boné do uniforme no carro, logo que fizemos uma nova parada. Foi num pequeno bar, no centro da cidade onde havia velas nas mesas e onde não havia iluminação elétrica. Um homem tocava piano e eu era um freqüentador qualquer com roupa azul, camisa branca e gravata azul.

— Isto aqui é bonito — disse Nina. Lá ficamos. Ela estava um pouco bebida mas não cansada. Neste bar o serviço era feito por moças.

— Por favor, uísque — pedi.

— Esta garota é muito interessante, Holden.

— Sim.

— Olhou-o com muito interesse.

— Não.

— Sim, sim. Não gosta dela? p — Não.

— Ora essa, Holden. O uísque chegou.

— Você é uma garota muito bonita. Conte) se chama?

— Lily, senhora.

— Lily é um nome muito bonito.

— Obrigada, senhora — disse a moça.

— Não quer ir para casa? — perguntei. Ela segurou-me a mão.

— Tenho muito medo de ficar em casa. Sinto-me só em meus aposentos. Ainda não quero ir para casa. Não estou embriagada. É verdade, não estou. Eu... eu já estou me sentindo muito melhor, Holden. Sabe de uma coisa, estou contente de que isto tenha acontecido. Estou dizendo a verdade. Eu... eu sempre pensava nele e o adorava. Agora passou tudo.

— De verdade?

— Com toda a certeza. — Eu a amo.

— Então é porque deseja algo mais.

— Sim — respondi. — Naturalmente. — Você é honesto.

Eu também estava um pouco bêbado.

— Nós pertencemos um ao outro. Um dia você compreenderá. Não tenho pressa. Posso esperar.

— Quanto tempo pode esperar?

— Muito, muito tempo. Esperarei por você.

— Há tantas pequenas bonitas, Holden. Olhe para a Lily.

— Eu quero é você.

— Louco. É uma loucura o que estamos falando — subitamente olhou-me com ar tão interrogador que senti calor. — Agora você tem a carta.

Tirei-a do bolso, dizendo:

— Gostaria de lê-la.

— Não — mas ao ver a expressão de meu rosto, continuou, em voz baixa: — Leia.

— Agora já não me interessa — levei a carta à chama da vela e ela queimou-se, com uma chama amarela, retorcendo-se e silvando. Esperei que estivesse completamente queimada, deixei-a cair num cinzeiro e, com uma colher, esmaguei as cinzas. — Nunca mais escreva cartas.

—- Nem mesmo a você?

— A ninguém. Qualquer um pode fazer uma sujeira.

— Houve muitas mulheres na sua vida?

— Não muitas.

— Holden?

— Sim.

— Eu já tive muitos homens.

— Vamos beber mais um pouco.

— Holden, por que você age tão cavalheirescamente?

— Estou apaixonado — respondi. — Isto não é nenhum segredo.

 

FicAMOS no bar das velas.

O pianista mandou perguntar se queríamos que tocasse uma música para nós e Nina pediu-lhe a canção do filme Moulin Rouge, perguntando se eu queria dançar com ela.

— Danço muito mal.

— Não acredito.

— É a pura verdade.

— Venha.

Já eram três horas da madrugada e só havia quatro casais no bar, além de nós dois. Nós éramos os únicos a dançar.

— Não deveria nunca usar maquilagem — disse-lhe. — É uma mulher que fica muito mais bonita sem pintura. A primeira vez que a vi não estava maquilada. E logo me apaixonei por você.

— Quando foi isto?

— Você não pode saber. Estava desacordada, no hospital, e eu a vi através dos vidros da porta do seu quarto.

— Não — estava horrorizada.

— O médico estava fazendo uma injeção diretamente no seu coração, com uma longa agulha.

— Viu-me nua?

— Sim.

— Whenever we kiss — cantou o pianista — / worry and wonder...

— Certamente causei-lhe uma impressão espantosa.

— Sim, foi espantoso.

-...your lips may be near, but where is your heart... cantou o pianista enquanto girávamos lentamente.

— Holden.

— Sim.

— Também viu o sinal?

— Que sinal?

— O que tenho por baixo do... no lado esquerdo do corpo. É muito feio. já fiz tudo para tirá-lo. É do tamanho da unha do meu dedo mínimo. Deve tê-lo visto.

— Eu também tenho um. Na barriga da perna esquerda.

— Ai Holden...

— Acho que você está um pouco no pileque.

— Talvez sim... Gostaria de pintar os lábios.

— Por favor, não faça isto.

— Tenho um batom comigo.

-Não, não quero.

— Seus pais eram pobres, não é verdade?

— Sim.

— Os meus também, Holden.

— Eu já sabia - naquele instante pisei-lhe o pé. sem querer, — Perdão. É verdade que não sei dançar.

— A culpa foi minha. Vamos beber mais.

 

Tornamos A beber e ela perguntou-me:

— Está assombrado por eu não me sentir embriagada?

Fiz que sim, com a cabeça.

— Quando estou infeliz não consigo me embriagar.

— Eu desejaria que estivesse completamente bêbada.

— Ai! Holden,

Uma velha vendedora de flores entrou no bar e Nina foi logo dizendo:

— Não.

— Sim — contrariei-a. Comprei uma única rosa vermelha.

A bela Lily trouxe um pequeno vaso, cortou um pedaço do talo da rosa e colocou-a nágua.

— Você ainda tem a outra rosa? — perguntei. Nina começou a rir.

— Sabe onde ela está, agora? Na caixa forte de um banco. O advogado levou todas as minhas jóias.

— Agora você voltou a rir — disse-lhe.

Às cinco da manhã fechou-se o bar. Quando chegamos à rua o sol começava a surgir. O céu ainda estava bastante pálido mas já começava a fazer calor. Quando nos dirigimos para o Reno vimos jornaleiros e rapazes fazendo a entrega de leite. Nina estava sentada a meu lado, brincando com a rosa. Tínhamos baixado os vidros do carro. O ar estava magnífico, depois da tempestade. Durante muito tempo ficamos em silêncio. Somente quando chegamos ao rio ela falou:

—- Não quero ir para casa.

— Deve ir.

— Não quero ficar só. Se não tiver companhia tornarei a pensar novamente em coisas que não quero. Tome café comigo.

— Pensei numa coisa. Sigo rio acima. Recordo-me de ter visto um lugar. É uma pequena embarcação onde havia um cartaz dizendo que funcionava dia e noite.

A estrada ainda estava úmida em vários pontos, das velhas árvores caíam gotas dágua sobre o teto do carro e pássaros cantavam nos galhos. Ao fim de um quarto de hora chegamos à embarcação. Estava pintada de branco e tinhamlhe acrescentado um bar com grandes janelas de vidro. No convés havia várias mesas e cadeiras. Ás mesas estavam cobertas com toalhas e as cadeiras eram pintadas de vermelho.

Por uma estreita passarela subimos a bordo e sentamo-nos ao sol. Abriu-se uma escotilha e apareceu um velho. Tudo nele era branco: a camisa, as calças, o avental, os cabelos e as suíças. Usava óculos com aros de aço e sorria, feliz.

— Bom dia, senhores — aproximou-se, observou-nos por alguns momentos e decidiu: — Namorados e não cearam — não nos permitiu dar opinião e êle mesmo resolveu o que deveríamos comer com o café: — Tomarão café puro, pão, manteiga e três ovos fritos, com presunto, cada um. Antes, porém, suco de laranja. É bom para a senhora, escute o conselho de um velho. O primeiro a fazer é uma boa base — dito isto desapareceu pela escotilha. Começamos a ouvir os seus vaivéns na cozinha.

— Tem o aspeto de Hemingway — comentei.

— Você conhece seus livros?

— Todos. Dissemos em coro:

— Em outro país.

— Gosta de histórias de amor? — perguntei.

— Sim — concordou em voz baixa. — Muito.

E apressou-se em olhar para a água. O rio era uma grande superfície prateada. Um rebocador, com três barcaças carregadas, passou a nosso lado. Ouvimos o tuctuctuc de suas máquinas e vimos como a fumaça negra, que saía de sua chaminé, dirigia-se diagonalmente para o céu. As gaivotas voavam baixo sobre a água, movendo lentamente suas grandes asas, com movimentos elegantes.

Nosso barco oscilou suavemente com a marola provocada pelo rebocador. Os cabos rangeram. Pus a minha mão sobre a de Nina e assim ficamos até que o velho cozinheiro nos trouxe o café. O café tinha um cheiro maravilhoso e os ovos crepitavam, satisfeitos em suas frigideiras de cobre. O presunto nadava entre eles. O suco de laranja estava muito frio. O pão preto, fresquinho, tinha a casca guarnecida com pequenos grãos de cuminho. E sobre as bolinhas de manteiga formavam-se pequenas gotas dágua... Comemos com apetite e depois nos olhamos sorrindo. O velho voltou, com uma nova cafeteira, encheu novamente as nossas xícaras e também sorriu.

— O senhor trabalha sozinho aqui? — perguntou-lhe Nina.

— Tenho dois empregados que só trabalham de dia. À noite fico só.

— Então quando é que dorme?

— Durmo muito pouco, meia hora mais ou menos. Não consigo mais dormir desde o que aconteceu em Dresden.

— O senhor presenciou o bombardeio?

— Sim. Desde então eu estou só. Perdi toda a família. Eu tive sorte. Só que desde então não posso mais dormir. Por isso comprei esta embarcação. É muito boa. À noite vem gente interessante. Eu gosto de estar sobre a água. Sempre penso que se por acaso isto se queima, sabem? — afastou-se, amável, com a barba por fazer, feliz.

— Holden? -— Sim.

— Que vai acontecer conosco?

— Não sei.

— Mas é uma loucura... tudo isto é um delírio...

— Você tem uma pele tão linda. Quando vivermos juntos proibirei terminantemente que continue a pintar-se.

Cerca das seis horas voltamos para casa.

Sobre os degraus da escadaria da entrada tinham deixado o jornal da manhã. Seus cabeçalhos diziam: ”crise sensacional NO CASO BRUMMER: HERBERT SCHWERTFEGER REVELA A EXISTÊNCIA DE UMA TRAMA MALDOSA”.

 

14DE SETEMBRO

Senhor Holden, aqui fala Zorn. Com referência à nossa última entrevista. Pedi-lhe que fizesse alguma coisa, recorda-se do que era?

— Sim, recordo-me.

— O assunto já foi resolvido de maneira satisfatória para mim. O cavalheiro de quem lhe falei pensou melhor. Ainda não percebi claramente o que aconteceu mas o que importa é o resultado final, não acha? Pode considerar a incumbência que lhe dei como desnecessária.

— Está bem.

— Outra coisa. Receberá amanhã uma notificação para falar com o Dr. Lofting.

— De quem se trata?

— É o juiz de instrução. Os últimos acontecimentos, como é natural, o deixaram desconcertado. Sente necessidade de fazer-lhe algumas perguntas.

— É bem compreensível.

— Exatamente. Deve responder às perguntas de acordo com a verdade, Sr. Holden.

— Certo.

— O senhor deve dizer-lhe o que sabe, tudo que sabe. Compreendeu exatamente?

— Compreendi exatamente, doutor. Devo dizer tudo que sei ao juiz de instrução.

 

Nada sei — disse. — Sinto muito mas não sei absolutamente nada.

As cortinas da sala do Dr. Lofting estavam fechadas, para impedir a entrada do calor. A sala era fresca e escura. Nas paredes havia estantes cheias de livros. O Dr. Lofting, magro e alto estava sentado diante de mim, em uma cadeira antiquada. Falava em voz baixa, tinha o rosto muito pálido, olhos grandes e tristes, com bolsas de pele por baixo. Dava a impressão de trabalhar à noite e tinha uma boca de formosos traços, de artista. A boca de um amador apaixonado e êle era, com efeito um amador, o Dr. Lofting. Êle amava a Justiça.

Disse-me, suavemente:

— Estou convencido de que o senhor está mentindo. Sacudi a cabeça.

— Aqui todos mentem — disse Lofting. Diante dele, sobre a mesa, estava um monte de pastas, de meio metro de altura. Lofting colocou a sua branca mão, com longos e finos dedos manchados pela nicotina, sobre o monte de pastas. — Estes são os documentos da acusação contra o Sr. Brummer. Êle é culpado. O senhor sabe tão bem como eu.

— Eu não sei, eu não sei nada. Prosseguiu, em voz baixa:

— O Sr. Brummer praticou ações que a Lei pune. Muitas pessoas depuseram contra êle neste Juízo: o Sr. Schwertfeger, o Sr. Liebling, o Sr. Von Butzkows, para citar apenas alguns. Agora todos se retratam. Um por um retiram todas as acusações.

Levantei os ombros” e deixei-os cair novamente.

— Sr. Holden, eu trabalho aqui há vinte e cinco anos. Pode acreditar-me, mais cedo ou mais tarde a Justiça sempre triunfa. Às vezes demora muito tempo mas nunca vem tarde demais. Não é possível, Sr. Holden, trata-se da força da razão. O mal nunca vence de forma final e definitiva.

Pensei que, neste ponto, o Dr. Lofting estava de acordo com Mila Blehova e respondi:

— Não sei o que o senhor quer dizer com isso.

— O senhor não sabe, não. Nada sabe, Sr. Holden. O senhor resolveu percorrer o caminho da injustiça e não saber nada.

— Pelo contrário, devo protestar...

— Não — disse calmamente. — Não deve protestar, Sr. Holden. Diante de mim, não. Não adianta. Vejo claramente tudo que acontece neste caso. Não se pode fazer nada. Por enquanto, não, Sr. Holden. Mas sei que algum dia se poderá fazer alguma coisa. E eu ainda estarei vivo para vê-lo. Aqui há injustiça que não poderá subsistir. Não fique demasiadamente contente se, aparentemente, o Sr. Brummer vai sair agora como o vencedor absoluto deste combate. Não é verdade que tenha vencido, algum dia será julgado, algum dia.

— Sinto muito, senhor doutor, mas não posso ajudá-lo em nada. Eu nada sei. E do que está dizendo só entendo a metade.

— O senhor já esteve na prisão!...

— Fui indultado. O senhor não tem o menor direito de censurar o meu passado...

— Não o censuro. Apelo para o seu bom senso. Não prossiga no caminho que está trilhando, pelo menos não vá mais adiante. Se o senhor prestar depoimento, tenho bastante poder para protegê-lo.

— Não tenho nada a declarar.

— Sr. Holden, que aconteceu no dia 22 de agosto, durante a viagem que fizeram a Berlim?

— Nada. Fazia calor.

— Que aconteceu em Berlim, depois da prisão do Sr. Brummer?

— Nada. Fui dormir e, no dia seguinte, regressei.

— Conhece um homem chamado Kolb?

— Não.

Mostrou-me uma fotografia do violento saxão.

— Nunca o vi.

— Quem o agrediu em seu quarto?

— Uns desconhecidos. -— Por quê?

— Pensavam que eu tinha certos documentos. — Que espécie de documentos?

— Não sei.

— Tratava-se de documentos com os quais o Sr. Brummer poderia comprometer os seus inimigos?

.— Não sei.

— Está disposto a confirmar tudo isto, sob juramento?

— Naturalmente.

— Pode ir embora, Sr. Holden, o seu caso não tem remédio.

Levantei-me, inclinei o corpo e dirígi-me para a porta, Quando me virei, vi como o juiz de instrução escondia o rosto pálido nas brancas mãos, com uma expressão de esgotamento, de resignação e de asco. Em sua sala havia obscuridade e frescura.

 

Senhor. Holden, aqui fala Zorn. São 12h50m. Vá ao aeroporto. No balcão da Pan American há uma passagem para o senhor. Para Berlim. Seu avião parte às 15 horas.

— A senhora...

— Já foi avisada por mim. Em Berlim ficará no Hotel Zoo. Já lhe reservamos um quarto.

— É?

— Nada mais. O senhor voa para Berlim e volta amanhã, pelo avião das 13 horas. Desejo que esta noite o senhor visite alguns Bares e faça uma farra. Evidentemente, nós pagaremos as despesas. Faça-se acompanhar por uma garota, chame a atenção e seja generoso. Isto é tudo.

 

Quando me despedi de Nina ela disse, sem pensar:

— Eu o levarei — logo ficou corada. — Mas é impossível. Que acabo eu de dizer?

— Eu ficaria muito feliz — disse-lhe. Ela meditou, com ar sério.

— Se alguém nos visse poderia dizer que o acompanhei para trazer o carro de volta. Por que me olha assim?

— Está disposta a mentir por mim!

— Por favor. Não falemos nisso. Eu... eu irei com você, mas não falaremos nisso.

— De acordo.

Nina sentou-se a meu lado, no carro.

— Qual é o verdadeiro propósito desta viagem?

— O juiz de instrução continua a investigar em Berlim. Lá êle nada mais poderá descobrir. Suponho que Zorn pretenda fornecer uma pista falsa aos investigadores. Por isto devo chamar a atenção e visitar bares.

— Com uma pequena.

— Isto é o que deseja o advogado.

— Conhece alguma pequena em Berlim?

— Não.

— Que vai fazer, então?

— Irei sozinho aos bares e beberei com as garotas que lá encontrar.

— Há uma infinidade de mulheres bonitas em Berlim..— Irei só.

— Mas, de que estamos falando? Que me importa o que o senhor possa fazer em Berlim. Divirta-se tranqüilo, Sr. Holden.

— Irei só e pensarei em você.

— Por favor. Não falemos nisto.

— Você não queria falar nisto. Eu pensarei em você. Penso sempre em você.

No aeroporto despedi-me. Nina arrancou com o carro e eu fiquei, ao sol, acenando com a mão. Ela devia estar olhando para o espelho pois respondeu ao meu aceno enquanto o carro esteve visível. Entrei no edifício e apanhei a minha passagem. Tinha tempo de sobra e, por isso, fui sentar-me no terraço externo, tomei café e vi aviões que chegavam e que partiam. Todo o mundo tinha fisionomia alegre e ares amistosos porque o tempo estava lindo. Bandeirolas de todas as cores ondeavam nuns mastros e num prado vizinho pastava um rebanho de ovelhas. Comecei a contá-las e verifiquei que entre elas havia três de côr preta mas, ao ver melhor, percebi que uma delas era um cão negro.

Bebi o café e apoiei o queixo sobre a mão direita que tinha o perfume de Nina desde que nos despedíramos. Fechei os olhos e a vi, diante de mim, vestida de maneiras diversas, rindo e andando, ouvindo e com fisionomia séria, fazendo, enfim, tudo que eu desejava em meu devaneio.

— Atenção, atenção. A Pan American Wold Airways pede a todos os senhores passageiros do vôo trezentos e doze, para Berlim, a fineza de comparecerem ao balcão da companhia.

Diante do balcão estava uma bela empregada que esperou que todos os passageiros estivessem reunidos.

— Senhoras e senhores, lamentamos ter de comunicar que, devido a reparos exigidos por um motor, o vôo para Berlim foi retardado em três horas. Se o desejarem os levaremos de ônibus para a cidade. O avião partirá às dezoito horas. Muito obrigado.

Alguns ficaram aborrecidos mas, para a maioria, não tinha importância e com alguns deles voltei à cidade. Estive passeando algum tempo, vendo vitrinas mas resolvi tomar um táxi e mandei que fosse em direção ao Reno. Pensava continuamente em Nina e, de vez em quando, levava a mão direita às narinas mas o perfume estava se dissipando e já era quase imperceptível.

Mandei que o táxi fosse até a branca embarcação. Queria sentar-me ali. ao sol, contemplando a água, pois tinha tempo e era muito sentimental.

— Espere — disse ao chofer do táxi quando saltei. No mesmo instante meu coração começou a bater a toda velocidade, pois acabara de ver o Cadillac vermelho e preto estacionado à sombra de uma árvore.

Na coberta da embarcação havia muitas pessoas alegres sentadas às mesas. Depois vi Nina, sentada na extremidade do convés com as costas viradas para os outros, a cabeça apoiada nas mãos e contemplando a água.

Dirigi-me em sua direção e ela, ao ouvir passos, voltou-se, levando a mão ao coração e abrindo a boca mas sem articular uma palavra. Sentei-me e expliquei que o meu avião havia se atrasado e ela levou a mão trêmula à boca.

— Fiquei... fiquei terrivelmente espantada quando o vi. Pensei que o avião tivesse capotado e você estivesse morto... Foi terrível. Foi tão surpreendente vê-lo aqui. Agora... agora, já estou melhor.

Seus olhos voltaram a tornar-se completamente escuros, A água já começava a refletir a luz. Havia muitos barcos sobre o Reno neste dia.

Eu lhe disse:

— Você veio aqui.

— Sim.

— Estava todo o tempo pensando em você.

— Não.

Inclinei-me e beijei-lhe a mão.

— Por favor, vnão faça isto. Ergui o corpo.

— Quando sai o seu avião?

— Às seis.

— São quatro horas. Se eu o levar ainda poderemos ficar uma hora.

— Você quer acompanhar-me novamente ao aeroporto? Fêz que sim, com a cabeça.

Fui despachar o táxi e quando voltei à mesa encontrei o homem das calças e da camisa brancas. Estava com a barba por fazer e reconheceu-me logo.

— Um momento, senhor. As bebidas já vêm. Nina explicou-me, com timidez.

— Encomendei algo para beber. Imagine. O velho tem uísque e refrigerador.

— Magnífico — disse. — Beberemos uísque com soda e gelo, os cubos de gelos tilintarão no cristal dos copos que ficarão embaciados por fora e nós estaremos sentados ao sol, olhando um para o outro, durante uma hora inteira.

— É uma loucura.

— Que é uma loucura?

— Tudo que nos acontece. Seu avião. O uísque. Tudo.

 

A viagem para Berlim foi muito aborrecida. Quando cheguei ao posto de exame de passaportes, depois da chegada, pude constatar que a minha teoria, sobre o motivo desta viagem, estava certa. O funcionário baixou o passaporte, olhou para mim e logo tornou a olhar para o passaporte.

— Alguma coisa errada?

— Oh, não, absolutamente. Aqui está, muito obrigado — disse êle com demasiada amabilidade.

Comecei a andar e, percorridos uns vinte passos, volteime e verifiquei que êle se dirigia para o telefone. O Dr. Lofting não se descuidava dos detalhes. Mas tudo seria em vão. Durante a noite estive em quatro bares. No último, convidei uma ruiva e gastei muito dinheiro, o que não foi difícil porque a pequena tomou-me por um burguês do Oeste e pediu champanha, francês. Ela era muito cacete e ficou decepcionada quando, à uma da manhã, a levei para casa. Perguntou-me se eu estava doente, eu disse que sim e ela disse que o lamentava. À uma e meia já estava na cama e no dia seguinte voei para Düsseldorf. Durante todo o vôo pensei que Nina viria esperar-me, mas antes da descida fiquei pessimista. Por isso, quando a vi, tive uma grande alegria.

Não nos dissemos nada quando nos encontramos. Já no carro, ela disse:

— Nunca, em toda a minha vida havia agido desta forma.

— Como?

— Tão... tão ilògicamente... não queria vir esperá-lo. Pensei que você imaginaria coisas absurdas.

— Falsas?

— Completamente falsas. Mas logo disse para mim mesma: êle é tão cavalheiro. Tem te ajudado tanto. E já somos ambos de maior idade. Por que não poderei ir esperá-lo?

— Certamente, senhora.

— Mas, fora disso, não há mais nada.

— Ora, por favor. É a coisa mais natural do mundo que uma senhora vá esperar o seu chofer quando êle chega de viagem.

— Não seja atrevido — mas riu...

— Posso acrescentar mais alguma coisa?

— Não.

— Queira perdoar.

— Diga.

— Peço-lhe que pelo fato de eu lhe ter emprestado dinheiro não faça disso um motivo para não poder se apaixonar por mim.

Essa frase não foi feliz. Ela não me respondeu e, durante três dias, manteve-se formal, inabordável e estranha. Eu me perguntava quanto tempo poderia ou deveria durar isso. Não sabia o que pensar a respeito de Nina. Provavelmente estaria apenas agradecida por eu ter-lhe emprestado dinheiro e achava que era um dever conduzir-se nobremente comigo, durante algum tempo.

Então, por que teria ido ao aeroporto e, sobretudo, por que teria ido sozinha à nossa embarcação? Por quê?

Eu estava ficando cada dia mais nervoso. Chegou, então, o 29 de setembro e os acontecimentos começaram a precipitar-se. Começou com um convite de Peter Romberg para visitá-lo, depois do jantar. Pedi a Nina que me desse a noite livre e comprei uma caixa de bombons para Mickey e flores para a Sra Romberg. A menina estava na cama quando cheguei. Recebeu a caixa de bombons com cara séria.

— Obrigada.

— Que há contigo, Mickey?

— Por quê?

— Estás me olhando de uma forma tão estranha. Tão... aborrecida.

— Deve estar enganado, Sr. Holden, eu não estou aborrecida.

Mas estava. Os cabelos negros caíam-lhe sobre os ombros estreitos, as mãozinhas descansavam sobre a colcha e ela olhava-me com ar enfadado, enquanto dizia:

— Além do mais estou proibida de tocar no assunto.

— Puxa — disse eu.

Peter Romberg, que estava a meu lado, segurou-me pelo braço e levou-me para sua sala de trabalho. A Sra Romberg fechou as portas e veio sentar-se junto a nós. O receptor da onda da polícia estava funcionando. Romberg aumentou o volume do som e o tique-taque do relógio tornou-se mais forte.

— É para que ela não ouça nada — esclareceu Romberg.

— Com certeza está escutando — acrescentou sua esposa.

— Naturalmente, mas assim não compreenderá nada.

— Mas que aconteceu, afinal? — perguntei.

Os dois contemplaram-se mutuamente e seus olhos amistosos, através das fortes lentes dos óculos, demonstraram indecisão e perplexidade.

— Primeiro bebamos um conhaque — convidou Romberg.

Bebemos e o locutor da polícia anunciou uma briga em uma taverna ao lado da catedral e Düssel sete foi enviado para restabelecer a ordem.

— É uma história curiosa — disse Romberg. — Por favor não me interprete mal.

— Valha-me Deus — eu já estava ficando nervoso com tanto circunlóquio, — explique de uma vez.

— Aproxime-se da minha mesa de trabalho -— disse Romberg.

Fiquei a seu lado. Sobre a mesa, separadas de todas as demais, estavam sete fotografias. Seis delas mostravam diversas mulheres, velhas e jovens. A sétima era a de Mickey comigo, no parque da residência de Brummer. Fora tirada no dia em que Nina voltara do hospital. Estávamos rindo, na fotografia. Banhados pela luz do sol, estávamos no meio dos canteiros floridos e Mickey estava agarrada a meu braço.

Das mulheres das outras seis fotografias eu conhecia uma. Quando a reconheci senti frio e o medo invadiu meu coração, lenta e viscosamente.

Ainda não sabia o motivo e a causa do meu terror, mas êle ali estava, ènvolvendo-me, lentamente.

— Conhece alguma destas mulheres, Sr. Holden?

— Nenhuma — menti.

— Agora não entendo mais nada — disse desconsolada a Sra Romberg. Seu marido não falou. Contemplava-me, pensativo. E eu olhava para as fotografias, especialmente para a que mostrava a mulher que eu conhecia, a jovem, bonita e tola Hilde Lutz. Ela olhava-me, envolta em um abrigo de pele e ria. Era uma fotografia muito manuseada e que Romberg devia ter encontrado, Deus sabe onde, mas êle era repórter e seu ofício era o de encontrar coisas...

— Está certo que não conhece nenhuma dessas mulheres? — Não conheço. Quem são elas?

A Sra Romberg falou com soluços na voz:

— Sr. Holden, recorda-se como eu estava zangada com Mickey, na última vez que o senhor nos visitou?

Fiz um gesto de assentimento e comecei a sentir uma grande irritação ao ver como Romberg me olhava com um frio interesse. Era como um sábio deve olhar para um fenômeno raro que ainda não consegue explicar. E eu, o fenômeno, sabia que não era, de forma alguma, inexplicável. Enquanto o locutor da polícia prometia à tripulação de Düssel sete um médico e uma ambulância porque havia feridos na briga da taverna junto à catedral, a Sra Romberg disse:

— Então o rádio da polícia anunciou que aquela jovem tinha-se atirado pela janela, aquela, como se chama?

”Isto é incômodo demais”, pensei eu e respondi:

Não me recordo do nome.

— Hilde Lutz — acrescentou Romberg que estava sentado de forma que eu não podia vê-lo.

— Possivelmente — concordei. — Tal como disse, não me recordo exatamente.

— Peter foi para o local e Mickey entrou aqui, correndo, dizendo ter visto essa Hilde Lutz, não é verdade?

— Certo — confirmei, representando agora o papel do homem distraído que se recorda — segundo ela, foi essa Hilde Lutz que bateu no Mercedes.

O medo. O medo. Não tinha medo por minha causa mas do que pudesse acontecer a estas pessoas, a êle, a ela, à menina. Não sabiam em que terreno estavam pisando, como o pântano era traiçoeiro e mortal... Disse-lhes:

— Sim, agora me recordo. Mickey deve ter feito confusão. A mulher que avariou o Mercedes chamava-se Fürst, Olga Fürst.

Por sorte aquele nome fictício tinha ficado em minha memória. Sorte?

— Quando meu marido voltou para casa eu contei-lhe a história. No dia seguinte êle falou seriamente com Mickey. Insistiu para que ela deixasse, para sempre, o vício de mentir. Mas ela chorou, bateu pé e disse que não tinha nada que corrigir. A mulher chamava-se Hilde Lutz! Ficou de castigo, em casa. Chorou muito. Na noite seguinte tornamos a falar com ela. A menina continuou firme. Ficou tão excitada que acabou vomitando. Pura bílis. Por causa do nervoso. Era um problema para nós, Sr. Holden, um verdadeiro problema...

”Düssel onze e Düssel vinte e cinco. O vigia noturno informa ouvir barulhos suspeitos no depósito da firma Storm, Rua Tegetthof, esquina de Wialand.”

— Por vários dias reinou uma terrível tensão em nossa casa. Nunca havia acontecido isso. Sempre fomos tão felizes... Procuramos todos os meios e modos para facilitar a Mickey pedir desculpas e confessar que mentira. Sem resultado. Então, ontem, meu marido fêz esta experiência...

A Sra Romberg parou de falar e ficou fixando o chão.

Virei-me e olhei para o seu sardento marido.

Êle tornou a encher nossos copos e falou gaguejante, honrada e desesperadamente, sobre a situação:

— O senhor diz que não conhece nenhuma destas mulheres.

— Não.

— Esta aqui é Hilde Lutz.

— A que saltou pela janela?

Continuava representando o meu absurdo papel.

— Exatamente.

— Onde conseguiu o seu retrato?

— Um funcionário da polícia criminal fêz-me presente. Pedi a fotografia por não saber o que fazer com Mickey. Pelo amor de Deus não pense que eu queria espionar...

— Quem pensa isto? — perguntei e respondi a mim mesmo: Eu.

— Mas eu precisava saber o que fazer com Mickey. Peguei esta fotografia de Hilde Lutz e coloquei-a entre cinco outras fotografias de mulheres. Chamei Mickey a esta sala, dizendo-lhe: ”Já que pretendes ter visto Hilde Lutz diga-me se a sua fotografia é uma destas seis”. Sem hesitar Mickey apontou para uma. Era a verdadeira, Sr. Holden.

Agora, os dois olhavam para mim. Eu guardava silêncio.

O relógio da emissora batia e esperei que o locutor falasse, mas não falou.

— Como se explica isso, Sr. Holden? — perguntou a Sra. Romberg.

— Não sei como explicá-lo.

— Mas deve haver uma explicação. Milagres não acontecem mais.

— Não — respondi. — Milagres já não acontecem.

E pensei: ”Esqueçam tudo. Não pensem mais nisso. Deixem os mortos em paz. Não queiram caçar na escuridão. Mas este homem era um reporter. Era sua profissão caçar na escuridão. E se caçasse durante bastante tempo...”

O pequeno Dr. Zorn tinha erguido uma gigantesca estrutura. Intrigas e contra-intrigas. Testemunhas a favor e testemunhas contra. Tinha pensado em tudo. Em tudo, menos no sentimento de justiça de uma menininha, que fora ferida em sua sensibilidade. Uma criatura ameaçava agora a poderosa estrutura, os planos de largo alcance, a liberdade de Brummer e o nosso futuro comum.

Uma criatura, uma criança.

— Sr. Holden, acho que está se sentindo infeliz porque não nos diz a verdade.

Levantei-me.

— Preciso ir embora.

— Por quê?

— Porque não posso responder às suas perguntas.

— Sr. Holden — disse o sardento repórter — fui ao departamento de registro. Há, em Düsseldorf, vinte e duas mulheres que se chamam Fürst. Apenas duas têm o nome de Olga. Visitei as duas.Uma delas tem setenta e cinco anos e não sai mais de casa, a outra é modelo. No dia em questão ela estava em Roma.

— Eu aprecio muito aos senhores. Muito. Ouçam-me. Esqueçam tudo. Não pensem mais nisso. Estão buscando a desgraça continuando a recordar, acreditem.

Olharam-me e depois olharam um para o outro. A Sra Romberg disse, finalmente:

— Não tocaremos mais no assunto. Mas não se vá. Com indiferença fingida, concluiu Romberg:

— Deixemos de lado essas tolices. Vou mostrar-lhe outras fotografias. À sua saúde, Sr. Holden.

— Saúde, Sr. Holden — brindou também a esposa.

Sentei-me. Por cima de minha cabeça os dois se olharam, sérios e tristes. Pensavam que eu não podia vê-los mas havia um grande espelho atrás deles.

— Saúde — disse eu alegremente.

Foi inútil todo o esforço que fizemos, a conversa se arrastava e a atmosfera, cheia de desconfiança, tornara-se quase insuportável. Ao fim de meia hora retirei-me.

 

HOLDEN?

Eu estava quase chegando à garagem quando ouvi a voz de Nina. A sua silhueta era iluminada pela luz do seu quarto. Andando sobre a grama, dirigi-me para a casa e ela disse-me, em voz baixa:

— Suba até o meu quarto.

Na casa não havia nenhuma luz acesa mas o reflexo do luar bastou-me para subir a escada rangedora. Quando entrei Nina estava sentada na beira de sua cama. Vestia uma camisola vermelha e ampla e, sobre ela, um roupão. Sobre uma mesa, a seu lado, havia um cinzeiro, cheio de pontas de cigarro.

— Sente-se. Sentei-me.

— O Dr. Zorn telefonou. Estava muito excitado. Felicitou-me.

— Por quê?

— Meu marido será posto em liberdade, prestando uma fiança de quinhentos mil marcos.

Minha boca estava seca, minhas mãos ficaram frias como gelo.

— Quando?

— Amanhã à tarde.

Fiquei em silêncio. Que poderia responder?

— Agora conseguiu o que queria.

Já tinha pensado nisto. Eu tinha conseguido. Mas não era verdade que o desejasse.

— Na ocasião eu lhe roguei que não entregasse os documentos.

— Fui obrigado a fazê-lo, não podia... não — interrompi o que ia dizendo — a senhora tem razão, não deveria ter entregue os documentos. Evidentemente, se eu não os entregasse sofreria as conseqüências. E essas conseqüências eu não queria suportar. Eu queria conservar a minha liberdade.

— E dinheiro.

— E dinheiro, sim.

Olhávamo-nos e falávamos como inimigos, pior, como amigos. Onde estava aquela confiança que nos havia unido? Tínhamos rido juntos, estávamos de acordo sobre muitas coisas, nossas relações eram cada dia mais cordiais e agora parecia que tudo estava terminado, que nada mais restava.

— Quando êle voltar sentir-se-á invencível, Holden. O senhor não o conhece. Não sabe como êle é quando se sente poderoso e invencível. Agora vai conhecê-lo.

— Temos que enfrentar a situação. Homens como êle são sempre invencíveis.

— Por sua causa. Por sua causa. O senhor o tornou invencível, Holden. O senhor tem toda a culpa e não poderá livrar-se dela.

— Que quer dizer com culpa? Que quer dizer livrar-se? Eu também queria uma parte da presa.

Ela confessou em voz baixa:

— Eu também não sou melhor. Casei-me sem amá-lo, só para ser rica. Para ter casacos de pele, vestidos, jóias. Não tenho o direito de me considerar melhor. O senhor e eu, gente como nós, fazemos com que gente como êle se torne invencível. Dessa forma nos tornamos tão culpados como êle.

— Que irá acontecer? Que pensa fazer?

— Ainda não sei. — Não sabe?

— Não. Não nos iludamos O senhor já se entregou a êle e eu ainda estou considerando tal resolução. Agora deixe-me só, Holden.

— Boa noite — disse desconsoladamente.

— Boa noite — respondeu-me e fêz, então, o pior que podia fazer: estendeu-me a mão como se fôssemos camaradas e não amantes, tal como eu suspirava que fôssemos; camaradas no mesmo barco, no barco dos malditos. Sua mão estava fria e seca.

Naquela noite não consegui dormir. Da minha cama, através da janela, via a do seu quarto. Sua luz não se apagou. Duas vezes percebi sua silhueta quando ela se pôs a olhar para o parque. Às três da madrugada dormi para tornar a acordar às quatro, banhado em suor. O sol já começava a nascer mas a luz do quarto de Nina continuava acesa. Os pássaros começaram a cantar e eu pensei no barco, no barco dos condenados.

 

DESDE o meio-dia os repórteres estavam sitiando a casa. Diante do portão três policiais impediam que o parque fosse invadido. Repórteres dos noticiários de televisão e equipes técnicas preparavam suas cameras e estendiam cabos até os caminhões onde gravariam os video-tapes. Todos pareciam alegres e trabalhavam com afã. Curiosos, entre eles várias crianças, havia horas se postavam diante das grades do parque.

Às duas e meia saí com o Cadillac. Quando passei o portão, fui fotografado e perguntaram-me, ironicamente:

— Vai buscar o diretor em seu retiro de verão?

Obedeci às ordens que o Dr. Zorn transmitira, pelo telefone: ao passar pela delegacia de polícia do bairro apanhei um agente à paisana que deveria proteger a volta do Sr. Brummer. O homem estava na calçada, à minha espera. Sentouse a meu lado e não abriu a boca durante todo o percurso. A seguir fui à cidade e apanhei o pequeno advogado. Zorn vestia roupa preta e tinha um colete verde-claro. Estava muito nervoso como um homem que receia que os seus audaciosos planos sejam subitamente destroçados pela estupidez de outros.

Quando chegamos ao edifício da prisão preventiva, desceu do carro e falou com os dois policiais que guardavam a entrada. O portão foi aberto e mandaram-me que entrasse com o carro para um pátio muito escuro. Umas trinta pessoas estavam à espera. Vi, novamente, cameras, aparelhos registradores de som, microfones e cabos. Os homens estavam em torno do pátio, sentados ou em pé, fumando e se aborrecendo.

Davam a impressão de já estar esperando há bastante tempo.

O dia tornara-se cinzento e no pátio havia pouca luz. Por isto os repórteres tinham trazido grandes refletores. O policial silencioso e o Dr. Zorn foram para o interior do edifício e eu vi, entre os repórteres, o sardento Peter Romberg. Cumprimentei-o amistosamente. Êle inclinou-se mas não se aproximou.

— Romberg — chamei.

Os outros olharam em nossa direção, o que o desagradou e fêz com que se aproximasse. Estava meio sem jeito mas com ar impenetrável.

— Bom dia.

— Por que não veio falar comigo?

— Não sabia se isto o agradaria.

— Que tolice é esta? — disse impulsivamente. — Não conseguiu esquecer tudo aquilo?

Sacudiu a cabeça indicando que não.

— O senhor é uma pessoa inteligente, Sr. Holden, e acredito que pouco tem a ver com esta comédia.

— Que comédia?

— Tenho uma pista. Ainda não vejo bem claro mas já começo a entrever alguma coisa. O senhor é leal com o Sr. Brummer, tal como Mila e, por isso, não diz tudo que pensa. Mas eu hei de descobrir a verdade, hei de descobri-la.

— O senhor está perturbado. Que lhe importa a verdade?

— A verdade importa a todo o mundo.

Neste momento acenderam-se os refletores, iluminando o lôbrego pátio como se fosse um cenário de cinema. Rostos brancos como espectros apareciam nas janelas gradeadas. Eram presos, funcionários e juizes. Todos olhavam para os três homens que acabavam de sair por uma porta de aço e estavam juntos e em pé: o pequeno advogado, o silencioso policial e Julius Maria Brummer.

— Um momento — exclamou Zorn, erguendo as mãos. Entregou a Brummer uns enormes óculos pretos que este imediatanente colocou.

Brummer estava enorme e maciço, o rosto pálido e inchado, os lábios amarelados. Sobre a calva rosada brilhava a luz dos refletores. Vestia roupa azul, camisa branca e tinha uma gravata prateada. Não pronunciou uma só palavra. Zorn é que, excitado, exclamou:

— Podem tirar fotografias.

Ouviu-se o ruído das máquinas de filmar. Os [lashes relampaguearam e crepitaram os obturadores das Leicas. Diante da porta de aço representava-se uma pantomima: Zorn sacudia a mão de Brummer. Brummer sacudia a mão do policial. Zorn ria. O policial sorria, forçado. Brummer não pestanejava.

Ali, de pé, parecia sinistro. Um colosso inchado de gordura, que noutro lugar teria parecido cômico, parecia a imagem da vingança, que a todos dizia: ”Vamos ajustar todas as contas juntas...”

As cameras continuavam sussurrando. Um homem com um microfone portátil aproximou-se. Fêz-se silêncio no pátio. O homem começou a falar:

— Sr. Brummer, meus companheiros da imprensa, do rádio, da televisão e dos noticiários encarregaram-me de fazerlhe algumas perguntas.

A pequena boca de Brummer tomou um ar de desprezo. Com a mão fêz um gesto altivo e dominador em direção ao pequeno advogado. Este respondeu:

— O Sr. Brummer não responderá a nenhuma pergunta. Peço que se dirija a mim que sou o seu representante legal. Concedo-lhe cinco minutos.

— Que fale Brummer — gritou alguém.

— Temos pouco tempo — disse friamente o advogado.

— Senhor Doutor Zorn — disse o homem do nicrofone — a liberação do seu cliente significa que o processo contra êle foi suspenso?

— O processo não foi suspenso. Ainda não. Entretanto, as acusações ficaram reduzidas a tão pouco que o tribunal não pode conservar preso o meu cliente.

— Pode-se concluir, pelo fato de o senhor ter assumido também a representação legal do industrial Schwertfeger, que os seus dois clientes uniram os seus interesses?

— Não se pode deduzir. Sou advogado. Tenho muitos clientes.

Alguém riu.

O pequeno advogado continuou enfiando os dedos entre o colarinho e o pescoço.

— Vamos propor ação judicial, por difamação, contra nove jornais, uma conhecida revista e duas estações de rádio porque todos difundiram notícias falsas e caluniosas a respeito do meu cliente. É possível que venhamos a propor outras ações.

— De que maneira reduziram-se as acusações?

— Sem comentário.

Alguém se aproximou de mim, era o juiz de instrução Lofting. Magro e curvado, com as mãos nos bolsos da roupa amarrotada, estava pálido e triste. As bolsas sob os olhos pareciam maiores que antes. Inclinei-me, em silêncio, e êle também se inclinou. Estávamos na sombra, por trás dos refletores e por trás das cameras- A instrução foi conduzida de forma imparcial e correta?

— Absolutamente. Em nome do meu cliente e no meu próprio devo agradecer ao Senhor Doutor Lofting pelo seu procedimento nobre, discreto e inatacável. Devo dizer que, neste caso, o juiz de instrução enfrentou uma tarefa extraordinariamente difícil. E agora senhores, lamento, mas os cinco minutos terminaram. O carro, por favor.

- Adeus — disse a Lofting.

— Até à vista — respondeu-me tranqüilamente, — porque tornaremos a ver-nos, Sr. Holden. Não tenha a menor dúvida.

Levei o carro, lentamente, penetrando na zona de luz dos refletores, até a porta de aço. Desci e abri a porta.

Ereto, maciço e poderoso estava, agora, Julius Maria Brummer diante de mim. Estendeu a mão e apertou a minha, longa e calorosamente. O asco subiu-me à garganta mas, ainda mais forte que a repulsão, era o medo que se apoderava de mim. Pensei nas palavras de Nina. Este homem, por minha culpa, era agora invencível.

Um repórter disparou o 5eu flash tão perto de mim que fiquei meio cego e tive que fechar os olhos. Enquanto isto, Peter Romberg se misturara com a massa de repórteres.

Os três homens subiram ao carro e eu os segui As cameras nos perseguiam e a forte luz dos refletores refletiu no espelho retrovisor, cegando-me novamente e iluminando o Dr. Lofting, diante do qual estávamos passando. O Dr. Lofting sorria. Eu desviei os olhos daquele sorriso que não podia suportar.

 

-Está tudo bem em casa, Holden?

— Sim Sr. Brummer.

Atravessávamos a cidade. Fiquei satisfeito porque Brummer, sentado no banco de trás, não podia ver o meu rosto. Um rosto que eu não podia dominar.

— Minha mulher está bem?

— Perfeitamente.

— Mila, o velho Pupele?

— Todos perfeitamente, Sr. Brummer.

Nunca o ouvira falar com esse tom: dominante, exigente, implacável. Conheci um oficial do Estado-Maior que também falava assim, um gorducho e prepotente. O que esta voz ordenava tinha que ser cumprido, não porque o dono da voz fosse poderoso mas porque o poder estava por trás do dono da voz.

— Nos próximos dias vai ter muito trabalho, Holden.

— Muito bem, senhor.

— Berlim, Hamburgo, Frankfurt, Viena. Sempre na estrada.

— De acordo, Sr. Brummer. O pequeno advogado falou:

— O Sr. Holden portou-se admiràvelmente em todas as ocasiões. Devo agradecer-lhe.

— Eu também quero agradecer-lhe — disse Brummer. — Sinceramente e de todo coração. Nunca o esquecerei.

O policial silencioso olhou-me de lado, sem dizer palavra. Ao chegar ao Reno tomei a direção norte. O tempo era instável e havia rajadas de vento.

Sobre o rio levantava-se a névoa.

Também diante da casa acenderam-se os ofuscantes refletores, logo que chegamos, entraram a funcionar as cameras e os [lashes entonteciam. Tinha que dirigir muito lentamente pois os repórteres se apinhavam aos lados do carro. Os três policiais fizeram-nos retroceder, fechou-se o portão e deslizamos, em silêncio, sobre o cascalho do caminho.

Sobre seus diminutos pés, gracioso como uma bola bailando, subiu Julius Brummer os degraus da entrada. No vestíbulo, veio-lhe ao encontro, uivando, o velho boxer que pulou em sua direção, lambeu-lhe as mãos, latindo de alegria.

— Pupele, meu velho Pupele!

Mila entrou no vestíbulo. Estava toda de preto e muito pálida. Brummer a abraçou e beijou-lhe ambas as faces. Mila levantou a mão direita e fêz o sinal da cruz sobre a testa de Brummer.

Na escada, apareceu Nina.

Brummer retirou os óculos escuros e foi ao seu encontro. No meio da escada pararam, um diante do outro e olharam-se longamente. Nina tinha um vestido de verão, de côr verde e sapatos de saltos altos, da mesma côr. Estava muito pintada e parecia esgotada.

Julius Maria Brummer passou-lhe o braço pela cintura e juntos subiram a escada e desapareceram no escuro corredor que levava aos seus aposentos.

— Peço que desculpem se estou chorando — disse Mila, — mas este é o dia mais feliz de minha vida.

 

Os oito dias seguintes foram os piores de minha vida. Vi Nina mas não consegui falar com ela. Levei-a a vários lugares, mas êle estava sempre presente. Tentei fitar seus olhos mas ela os desviava. Não falava comigo, só êle me dirigia a palavra. Nina parecia doente. Quando sorria, percebia-se que tinha maquilagem demais. Sua pele estava seca e sem vida.

Tive, realmente, muito trabalho. Brummer estava sempre usando o carro. Tinha conferências, visitava escritórios, ia ao tribunal e à casa do seu advogado. Chamava-me a qualquer hora, inclusive, uma vez, às quatro da manhã. Queria ir ao Correio-Geral para ir pessoalmente enviar uma carta, tal era a sua importância.

Não me importava que êle chamasse porque, de qualquer forma, eu não conseguia dormir durante aquelas noites. Não era necessário ter vivido o que aconteceu em Dresden, havia outras coisas que faziam perder o sono. Ficava na cama e olhava para as janelas de Nina. Muitas vezes elas logo ficavam escuras, mas, freqüentemente, brilhavam por muito tempo. Outras vezes apagavam-se cedo para serem acesas muito mais tarde e eu pensava sempre a mesma coisa, por que o quarto dele ficava ao lado?

Durante esses dias foram contratados um novo empregado, duas empregadas e outro jardineiro mas mal tive tempo de vê-los porque estava sempre viajando.

Na terceira noite Brummer deu uma festa. Trinta pessoas foram convidadas, escolhidas com o maior cuidado, de forma que entre elas estavam os homens mais importantes da cidade.

Eu estava no parque quando começaram a chegar os carros, um atrás do outro. A noite estava quente. Nina e êle recebiam os convidados diante da porta da casa. Ela tinha um vestido com bordados a prata, muitas jóias e uma orquídea; êle um smoking azul-marinho com colete vermelho. Parecia uma recepção na corte. Carro depois de carro chegava à escadaria, par após par saía, subia as escadas e cumprimentava o anfitrião e a esposa. Era uma atrevida manobra de Brummer, uma reafirmação, uma nova confirmação social, porque, naturalmente, os fotógrafos da imprensa não paravam de fazer instantâneos. Todo o mundo deveria saber quem tinha atendido a seu convite, três dias apenas depois de ser posto em liberdade.

Na cozinha trabalhavam um cozinheiro e três copeiros. Tinham sido contratados para aquela noite. As novas empregadas ajudavam. Parecia um campo de batalha. Brummer tinha mandado preparar o seguinte cardápio para os seus convidados: Caviar Molossol, sopa de tartaruga, foularde de Bruxelas com salada aux fines herbes, queijo, café, etc. Como bebida só havia champanha. Mila, que dirigia todas as operações, como chefe absoluto, irradiava alegria por todos os poros de seu rosto suarento.

— Isto é um redemoinho, como nos velhos tempos, Sr. Holden. Por minhalma, agora começo a sentir-me novamente bem. Tome um trago — serviu-me, tomou, também, um copo de champanha e percebi que ela estava um pouco bebida. — Deve haver caviar para todo o mundo, mais do que poderão comer, já me disse o patrão. E champanha.

Contei seis latas, de quilo, de caviar colocadas sobre blocos de gelo. Era impossível contar as garrafas que estavam por toda a parte, até no quarto de Mila.

Nina entrou.

Os empregados a cumprimentaram, Eu também.

— Tudo em ordem, Mila.

— Dentro de meia hora poderá começar o jantar. Um olhar, apenas um olhar...

— Então mande servir imediatamente os martinis. Nina retirou-se. Não me tinha dirigido um olhar, um só olhar.

Fui para o parque, para perto dos choferes que estavam fumando perto dos seus carros. Estavam desconfiados e não consegui entabular conversa. Fui para o meu quarto. Todas as janelas da residência estavam iluminadas e algumas se achavam abertas, Ouvi vozes e risos e, sem cessar, parecia-me ouvir a voz e o riso de Nina e isso me enchia de raiva impotente e de terríveis ciúmes.

Cerca das dez horas soou o telefone. Pensei que fosse alguém que se sentisse mal e precisasse ser levado para casa, mas ouvi a voz de Mila e não a de Brummer.

— Vista a roupa azul e venha.

— A roupa azul, por quê?...

Mas ela já desligara. Troquei de roupa e fui à cozinha. Um mordomo, de casaca e luvas brancas, disse-me cerimoniosamente:

— Tenha a bondade de seguir-me.

Caminhou, na minha frente, através do vestíbulo onde chegavam vozes e risos que vinham do primeiro andar. Nós continuamos no térreo. O mordomo abriu a porta com painéis e fêz-me entrar numa pequena sala de almoço que eu ainda não conhecia. O teto e as paredes eram de madeira escura. Sobre a mesa coberta com toalha de damasco e ao lado da prata e da porcelana fina, ardiam velas em candelabros que forneciam a única iluminação. A cabeleira branca de Mila brilhava à luz das velas. Usava um vestido preto com gola branca, um broche, um anel e uma pulseira com granadas. Radiante, ela falou comigo:

— Para nós, Sr. Holden, só para nós dois. O patrão quer que tenhamos o nosso banquete. Pode servir, mordomo.

Sentei-me. Os olhos de Mila estavam cheios de lágrimas de alegria.

— Eu mesma não tinha a menor idéia disto, os copeiros prepararam tudo, por ordem sua, como uma surpresa. Assim é o patrão, um grande homem, um verdadeiro socialista.

O copeiro andava de um lado para outro. Encheu-nos as taças de champanha e trouxe uma lata de caviar. Mila serviu-se, abundantemente, dos brilhantes grãozinhos pretos.

— Mais limão, copeiro, por favor. Com meus dentes postiços tenho dificuldades para mastigar — o copeiro trouxe vários limões. Mila comeu vorazmente, — Não, não, sem torradas, comerei com a colher.

Se eu tivesse muito dinheiro, só comeria caviar. Gostaria de comer toda uma lata. Copeiro!

— Diga.

— Não precisa ficar tão empertigado. Tome, também, uma taça.

— Obrigado, estou bem.

Sobre o fundo dos lambris de madeira escura, Mila parecia uma princesa antiga, de um quadro de pintor inglês. Seus dentes postiços faiscavam quando ela falava.

— Hoje o patrão falou sobre o meu futuro. Minhas náuseas não se curam mais e meus calores não desaparecem. Ainda poderei trabalhar, mas não por muito tempo. Copeiro pode trazer o consommé.

O copeiro retirou-se, com uma reverência.

— Como se curva esse tolo. O patrão perguntou se quero que êle me compre uma casinha e me dê dinheiro todos os meses até que eu morra. Mas eu preferiria ficar aqui, gostaria de viver perto da minha Nina, do Pupele e do patrão. Então êle me disse ”sabes, velhinha, procura um quarto que te agrade na casa e fica vivendo conosco, mas sem trabalhar, como uma avòzinha”. Não é um dia de alegria, Sr. Holden?

— Fico muito contente por sua causa, Mila.

— Já sei que o senhor não me tem inveja. Aqui está a sopa de tartaruga e logo depois a poulaíxle... Nossa mãe... tenho um apetite!

 

Passaram-se quatro dias. Cinco. Seis.

Não podia falar com Nina. Sempre que a via Brunnmer estava com ela. À noite tomava, inutilmente, remédios para dormir. Comprei conhaque e conseguia dormir, mas só poucas horas e depois ficava acordado, olhando a sua janela tanto quando havia luz quanto quando estava apagada, ambas as coisas me torturavam.

No sétimo dia resolvi pedir ao Sr. Brummer que me deixasse ir embora. Prometeria guardar nossos segredos. Diria que queria começar uma nova vida com o dinheiro que êle me dera. Já não precisava mais de mim.

Precisava esquecer-me de Nina, rapidamente. Se eu ficasse aqui acabaria acontecendo uma desgraça... Eu tinha pensado que tudo seria demasiado fácil. Na realidade era uma loucura. Nina tinha razão, como poderia ela amar a um homem que mal conhecia e do qual nada sabia? Pura loucura. Eu tinha que desaparecer. Nina era apenas uma mulher. Brummer estava quase reabilitado. Ela o quisera abandonar por Toni Worm, mas este ela havia amado.

Por que deveria deixar Brummer sem amar outro homem?

No oitavo dia choveu copiosamente. Às oito e meia da manhã levei Brummer ao seu gigantesco escritório

— Ah, Holden, antes que me esqueça, amanhã vamos a Munique. Faça engraxar o carro e troque o óleo.

— Sim, senhor.

— Volte agora para casa e apanhe minha mulher. Ela precisa do carro. Não precisarei mais do senhor esta manhã.

— Sim, Sr. Brummer. Nina.

Por fim iria vê-la só. Falar-lhe a sós pela primeira vez em muitos dias. Eu já me sentia feliz em poder vê-la. Estaria só com ela mesmo que fosse dentro deste grande carro, tão frio esta manhã, na chuva...

Vestia um costume de pequenos quadrados pretos e brancos e calçava sapatos pretos, de crocodilo. Uma bôlsa também de crocodilo e um pequeno chapéu, um pouco alto, inclinado em seus ruivos cabelos completavam o vestuário. O novo empregado acompanhou-a, com um guarda-chuva, até o carro. Não me falou enquanto o empregado estava perto. Sentou-se no banco traseiro e ficou em silêncio até chegarmos à rua.

— Vamos à embarcação — disse ela tímida e ruborizada. — Só por alguns momentos, Holden. Às dez tenho um encontro na cidade. Mas antes tenho que falar com você.

— E eu com você.

— Não enquanto dirige.

— Não — respondi, — isso não.

Também não seria possível, estava nervoso demais. Custava-me muito dominar o carro.

Nina... Nina... Nina...

Desta vez, fomos para a cabina com as grandes janelas envidraçadas. Éramos os únicos freqüentadores e, sobre a coberta, batia a chuva. O velho e sempre mal barbeado proprietário veio ao nosso encontro esfregando as mãos:

— Os jovens amantes!

Encomendamos café e êle desapareceu. O rio estava cinzento, como o céu e como o ar. A chuva atapetava o rio com pontos nervosos. A embarcação oscilava suavemente. Tudo estava em silêncio. Olhamos um para o outro e eu, mesmo que tivesse passado aqueles oito dias sem comer, ficaria saciado com a sua beleza tão próxima...

— Disse a meu marido que quero deixá-lo.

— Não!

— Sim. Ontem à noite.

Falava lenta e tranqüilamente como alguém que, finalmente, toma uma decisão.

— Os últimos dias foram horríveis.

— Também para mim.

— Você me disse, uma vez, que se pode viver com alguém que se despreza e que as mulheres o suportam com mais facilidade. Verifiquei que não é verdade.

A chuva tamborilava sobre o teto da cabina envidraçada. Eu olhava para ela e me sentia muito feliz.

— Êle... êle tornou-se desumano. Pensa ser um Deus e que todos os demais estão a seus pés. Na festa, Holden, se visse por que forma todos o adulavam, de que forma procuravam a sua amizade, os elogios que me fizeram...

— É o dinheiro. A imensa quantidade de dinheiro. — Não quero saber nada do seu dinheiro. Não quero mais participar do seu dinheiro e de sua culpa. É horroroso, Holden, vive como se nada tivesse acontecido. Os crimes, que êle mesmo me confessou, nunca existiram. Não se faz de inocente, Holden, perante si próprio êle é inocente. Êle mesmo o disse.

- Quê?

— Tudo que acabo de dizer. Pedi a separação. Não quero nem um centavo do seu dinheiro. Sou moça, posso trabalhar e, graças a Deus, não tenho filhos. Disse-lhe que, se êle quisesse, eu aceitaria a culpa na justiça.

— E êle?

O velho de Dresden, que passava a vida sem dormir e sem fazer a barba, entrou trazendo o café e esperamos que saísse.

— E êle? — repeti.

— Êle esteve maravilhoso.

— Maravilhoso?

— Fiquei com pena ao ver a generosidade com que se portou. Sabe, eu sou, provavelmente, a única pessoa que êle ama de verdade. Êle... êle disse que me podia compreender. Depois chorou abraçado a mim. Conversamos durante longas horas...

— Eu vi a luz. Pensei noutras coisas.

—... disse que era terrível para êle mas que podia compreender-me. Não quer me reter contra minha vontade. Só pede que lhe dê algum tempo. Amanhã vai a Munique. Devo deixar que êle reflita até sua volta. Ah, Holden, estou tão contente por lhe ter contado tudo. Deve-se sempre dizer a verdade. É o melhor.

— Se êle lhe dá a liberdade, que fará você?

— Ainda não sei. Trabalhar. Viver a minha própria vida, desde o princípio.

— E eu? E nós?

— Também não sei. Apenas sei que não quero mentir mais. Talvez, talvez, algum dia, se nos amarmos de verdade mas terá que ser um amor que todo o mundo possa ver. Um amor limpo. Sem baixezas, sem enganos. Não me quero mais sentir tão suja... tão... desprezada. Holden, é muito importante para mim que você me compreenda, quero ser clara e sincera. Isto é mais importante para mim que o próprio amor...

— E como é mais importante, está sentada aqui comigo e explicando tudo.

— Não compreendo...

Olhou-me apavorada, compreendeu o que eu queria dizer e ruborizou. Passei o braço sobre seus ombros.

— Não... — sussurrou.

Beijei Nina. Defendeu-se, mas apenas um momento. Subitamente agarrou minha cabeça com ambas as mãos, apertou-se contra mim e correspondeu ao meu Beijo, com um ardor e uma paixão que eu nunca, nunca, até aquele momento tinha sentido. O chapèuzinho preto caiu-lhe da cabeça. A embarcação oscilava, suavemente, debaixo de nós, muito suavemente e nós nos mantínhamos agarrados, como dois náufragos. Nesse momento compreendi que nós éramos um para o outro, o único apoio, a última tábua de salvação.

 

DUsseldorf, Colônia, Bonn, Frankfurt, Manheim e Karlshue.

Até aqui tudo corria bem. Chovia copiosamente mas a visibilidade era boa. Em Rasthánsen bei Kõln e em Manheim Brummer telefonou para Düsseldorf. Ambas as vezes pediu o mesmo número, o do seu advogado. Quando começou o crepúsculo chegamos a Pforzheim. Aqui no sul, notava-se mais claramente, o outono chegara muito cedo este ano. Estávamos no começo de outubro mas, nos bosques, viam-se folhas amarelas, vermelhas e castanhas. Os prados amarelavam e, nas margens dos rios, viam-se muitas pequenas aldeias. Nos campos ardiam as ramarias secas das batatas mas a chuva mantinha a fumaça rente ao chão.

Cerca das cinco horas começou a névoa a vir dos bosques; primeiro fina como uma gaze, depois em grandes ondas. O céu ficou negro. A chuva continuava. A cerração flutuava, preguiçosamente, sobre a auto-estrada.

— Vamos tomar café e depois iremos direto a Munique — disse Julius Maria Brummer.

Naquele dia êle estava muito tranqüilo e recordo-me que isso me causou surpresa. Se estava sofrendo por causa da decisão de sua mulher de separar-se dele, estava-se comportando admiràvelmente. Falava muito pouco e estou certo que pensava muito em Nina. Eu não deixei, um só instante, de pensar nela.

Na parada de Pforzheim, o velho cão que tinha dormido entre nós dois, saltou desajeitadamente e começou a ladrar para um gato. Atravessando a chuva, entramos na sala. Ali fazia calor.

Quatro viajantes jogavam cartas e um fonógrafo automático lançava ao ar a sua música. A rapariga que nos veio servir era bonita.

— Dois cafés e uma chamada para Düsseldorf. Brummer telefonava novamente para o Dr. Zorn. Eu bebi

o café quente e contemplei a chuva. Quando Nina fôr livre sairemos de Düsseldorf. Talvez para Munique. Ou Hamburgo. Ou Viena. Havia muitas cidades para onde ir. Já éramos velhos demais para ter filhos, ficaríamos sós. Um apartamento. Depois, talvez, uma casinha. Ainda tinha um pouco de dinheiro, para começar. Brummer voltou.

— Assunto desagradável.

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Vamos embora.

No carro êle acendeu, cerimoniosamente, um charuto. A névoa estava agora em movimento. O vento leste a levava, diagonalmente, sobre a estrada. Tive que baixar o vidro do meu lado, pois o pára-brisas ficava fosco a todo instante. A névoa tinha cheiro de fumaça e a chuva cheirava a folhas podres. Entre os bosques, antes de chegar a Stuttgart, eu só podia ver a lista branca do centro da estrada e, algumas vezes, nem a lista podia ver. Reduzi a velocidade para trinta quilômetros. O cão dormia mas movia-se e gemia. Certamente sonhava com o gato.

— O senhor conhece Peter Romberg?

Brummer falou com o charuto na boca, com & cinza lu~ zindo e apagando conforme sua respiração. — Sim.

— A menina deles, conhece-a, também?

— Sim.

— É uma família feliz, não? Os pais devem ser loucos pela menina.

— Completamente.

— Fariam tudo por ela, não é verdade?

— Fazem todas as vontades de Mickey.

— Não quero dizer isto. O que queria dizer é que para não ver sua filha em perigo fariam tudo que lhes fosse pedido, não é?

Agora eu ia a apenas vinte quilômetros. Subitamente as árvores do bosque ficaram mais longe da estrada; a esquerda, sobre uma colina que eu só via como uma silhueta, brilharam subitamente muitas luzes. Devia ser Stuttgart. As luzes ficaram visíveis somente um instante, uma clareira na cerração, depois tudo ficou leitoso e velado.

— Não o compreendo, Sr. Brummer.

— O senhor compreendeu muito bem. Por que não falou no caso com o advogado? Era o seu dever — disse com voz chorosa de menina ofendida.

— Como soube, o senhor?

— Zorn contou-me. Acabo de falar com êie. Tem muita gente trabalhando por sua conta e possui muitas amizades em toda a parte. Esse Romberg anda tagarelando. Sua filha. Hilde Lutz. O Mercedes. Conte-me, de uma vez, o que houve.

Contei tudo. Êle fumava e ouvia. Finalmente sua voz aguda voltou a grasnar, irritada.

— E guardou isso para si?

— Pensei que não tinha importância — menti.

— Que não tinha importância! — seu riso soava como o arquejar de um porco. — Se Romberg conseguir apresentar a prova de que o senhor esteve em casa de Hilde Lutz, naquela tarde, se o juiz de instrução souber alguma coisa a esse respeito... mas homem, o meu advogado havia tornado o meu caso impenetrável. E agora este contratempo. Pode-se comprar Peter Romberg?

— Não creio.

— Que prova tem êle?

— Mickey. Jura ter ouvido o nome de Lutz.

— Pode afirmar que a meisina não estava com o senhor naquela tarde?

— Não.

— Por que não?

— Sua esposa, Romberg e Mila estavam presentes.

— Romberg não conta, é o acusador. Mila e minha mulher sustentarão o contrário.

— Romberg fotografou a menina e a mim.

— Onde está a fotografia?

— Está com êle.

— Tem que obtê-la, bem como o negativo.

— Recusará a entregar.

— O senhor arranjou esta encrenca. O senhor deve...

— Nada posso fazer.

Não me contradiga. O senhor conseguirá a fotografia, com a maior urgência e também o negativo. Se êle não quiser entregar, tanto pior, diga-lhe que está pondo sua filha em perigo. Poderia acontecer alguma coisa a ela.

— Senhor Brummer...

— Que é?

— Queria pedir-lhe que me dispensasse de seu serviço. Tirou o charuto da boca e olhou para mim.

- Eu... eu fiz pelo senhor o que podia. O senhor recompensou-me com dinheiro. Mas eu gostaria de começar uma vida nova. Compreenda, eu...

Começou a rir. Primeiramente em silêncio. O volumoso corpo tremia. Sacudia-o o riso. A respiração saía sibilante de sua pequena boca, soprava, ao rir, como um porco asmático, como um gordo porco matreiro. O cão acordou e começou a grunhir.

— Quieto Pupele, quieto —• dirigiu-se a mim grunhindo:

— Está com os nervos doentes, Holden? São as emoções. Posso compreender. Somos apenas seres humanos. Veja minha mulher, por exemplo — tornou a rir. O porco cevado ria-se. — A minha Nina. Deus sabe que se há alguém que me ama, é justamente ela. Está completamente transtornada. A agitação foi por demais forte para ela. Propôs o divórcio. Fica assombrado, não? Quero dizer, pelo fato de eu falar assim tão abertamente. Por que não me responde?

— O nevoeiro, Sr. Brummer. Preciso ter muito cuidado.

— Tenha muito cuidado, Holden — grunhia e resfolegava ao rir. — Tem razão, tenha muito cuidado. Menciono o exemplo de minha mulher, para mostrar como vocês todos não são os donos de suas resoluções. Ela quer divorciar-se, o senhor quer despedir-se, até parece que os dois estão de acordo — grunhiu demoradamente. — Apenas nervos. Vou mandar Nina para o sul, para que se restabeleça. Não fiquei emocionado quando ela veio com aquela monstruosidade. Não a levei a sério. Posso compreendê-la, disse-lhe. Que outra coisa poderia dizer? Tenho outros problemas na cabeça. Não me divorciaria por nada no mundo.

Preciso dela. É a melhor mulher que existe mas, no momento, está com os nervos abalados, tal como o senhor, Holden. E por isso, também não o levo a sério.

— Mas ainda assim, Sr. Brummer, peço-lhe que consinta que eu deixe o seu serviço.

— E voltar para a cadeia? — perguntou grunhindo cordialmente. — E que fará então, Holden? Agüente o carro, homem, roçamos no meio-fio.

— O senhor sabe por que estive na prisão?.— Naturalmente.

— Desde quando?

— Já faz tempo, por quê?

Meus lábios grudavam-se um ao outro. Com dificuldade, disse, inclinado sobre o volante:

-— Zorn disse-me que o senhor não sabia.

— Esse bom Zorn.

— E apesar disso o senhor deu-me uma recompensa de trinta mil marcos...

— Isso é o que o senhor diz.

— Como?

— Mas Holden, o senhor nos considera completamente idiotas? — o tom queixoso voltou à sua voz. — Pelos trinta mil marcos o senhor assinou um recibo, sim ou não?

— Sim.

— Eu o esperava. Não é mais inteligente que eu, Holden. Que teria acontecido, então, se eu o tivesse denunciado e devolvido à cadeia? Teria ficado sem um colaborador, um colaborador valioso que, a seguir, prestou-me bons serviços. Por isso não o denunciei.

Estávamos agora dentro de uma cerração tão espessa que tive que reduzir a velocidade para dez quilômetros por hora. Há mais de meia hora que não encontrávamos um outro carro.

— Que boa jogada fiz eu então. Porque, veja só, Holden, se o senhor quiser deixar-me, a todo o custo, sempre poderemos denunciá-lo por uma chantagem de trinta mil marcos. Para que entregasse certos documentos. Poderá negar. Mas poderá provar? Não poderá provar nada. Já não tem os documentos. Em compensação nós temos a sua assinatura, Holden, embaixo de um recibo.

De repente pareceu-me ouvir sons misturados, ruídos e uma voz de mulher que lentamente e com simplicidade dirigia-se às crianças: ”O mau irmão tinha-se juntado ao diabo por causa do ouro. Tinha comido e bebido com êle Mas quem come com o diabo precisa de uma colher muito grande...”

— Quando o senhor recebeu o dinheiro perguntou ao Dr. Zorn por que motivo o estava entregando. Êle disse que provavelmente algum dia lhe pediria um favor.

Tinha comido e bebido com êle...

Seu caviar. Seu champanha. Sua poularde de Bruxelas com salada aux fines hetbes.

— Hoje êle reclama esse favor. Exige que lhe consiga a fotografia tirada por Peter Romberg. E o negativo.

— Não posso fazê-lo..., não quero fazê-lo.

— Deve fazê-lo. E o fará.

— Deixe-me ir embora, Sr. Brummer. Tome de novo o seu dinheiro. Já não o tenho todo, mas fique com o que tenho...

— Não quero dinheiro. Já tenho bastante. O senhor fica tal como fica a minha pobre mulher. Vocês não sabem o que lhes convém...

— Quanto tempo... quanto tempo exigirá que eu fique com o senhor?

— Enquanto eu precisar, Holden. Não seja criança. Está mal trabalhando para mim? E então?

”... Mas quem quiser comer com o diabo...”

Nesse momento atropelei um animal. Ouviu-se o ruído usual e repugnante. O carro balançou da forma costumeira e o velho cão ladrou excitado.

- Uma lebre.

”... precisa de uma colher muito grande.”

 

Deja vu...

Já visto. Já ouvido. Já vivido. Conhece o senhor essa sensação do Déjà vu, Sr. Comissário Criminal Kehlmann, para quem eu, pacientemente, estou enchendo tantas páginas, o senhor a conhece? O senhor sai a passear, de manhã cedo, em uma pequena estação balneária. As ruas estão vazias. Há uma casa num lugar ensolarado, com plantas multicores diante das janelas. Uma escada apoiada contra a casa. Uma rapariga ruiva com um xale. O senhor pergunta pelo caminho para os banhos termais. E, repentinamente, é como se já tivesse visto a casa, a escada e as plantas multicores e o senhor já sabe o caminho das termas antes que a moça tenha tido tempo para responder. Conhece o senhor essa sensação, Sr. Comissário?

Naquela noite de nevoeiro, em outubro, entre Stuttgart e Uim, na auto-estrada, esmaguei uma lebre. Algo soou no meu cérebro, em minha memória.

Déjà vu...

Eu já esmagara uma lebre, numa noite de nevoeiro, numa auto-estrada. Tinha sido perto do Elba, antes de Coswig, a caminho de Berlim. Na ocasião em que Nina estava no hospitak, entre a vida e a morte. Foi poucas horas antes de prenderem o Sr. Brummer.

Déjà entendu... Já ouvido.

Coloca-se uma moeda na máquina de jogar, puxa-se a alavanca com o movimento certo e caem uma porção de moedas. Atropela-se uma lebre e recordamos tudo de novo, tudo que naquela ocasião disse Julius Maria Brummer...

”Escolha quem quiser, gente importante, gente modesta,.. todos têm um passado, passado grande, passado pequeno, todos têm medo, todos têm culpa na consciência. Quer saber, Holden, o que todos nós precisamos?”

Palavras pronunciadas no nevoeiro, semanas antes. Perto do Elba, antes de Coswig. Agora as ouço, novamente, semanas depois, outra vez dentro da névoa, entre Stuttgart e Ulm. Ouço novamente as palavras.

”Um sósia. Por Deus que isto seria a descoberta do século. Um segundo eu que tomasse para si toda a culpa do que alguém tivesse feito. Um sósia. Deveria fazer patentear esta idéia...”

Um sósia.

Não quer dar liberdade a Nina. Não quer que eu seja livre. Haverá novas infelicidades. Nunca nos poderemos reunir, nunca.

Um sósia.

”Não penso em separar-me. Por nada desse mundo. Preciso de Nina. A melhor mulher que existe...”

E, se o Sr. Brummer morressse repentinamente?

Julius Maria Brummer tem uu coração fraco. Usa uma placa de ouro pendurada em seu branco e flácido pescoço. E se êle morresse repentinamente?

O sósia fará isso, eu não.

Não tenho nenhuma culpa, não mereço qualquer castigo. Este ato eu não o pratiquei, ilustre tribunal. Este ato foi praticado por outro que tem o mesmo aspeto que eu; que fala tal como eu; que vive como eu; mas êle é mau, eu sou bom. Êle é que deve ser castigado, ilustre tribunal.

Êle sim. Eu não.

Um sósia assim eu não o tenho, não existe; não, na verdade não existe.

Que quer dizer não existe?

Diz-se que uma coisa não existe enquanto os homens ainda não a descobriram. A coisa, em si, não tem qualquer objeção em ser descoberta.

Um sósia assim, ainda não existe. Eu não sei, Sr. Comissário Criminal Kehlmann se o senhor conhece essa sensação de uma idéia que está em nosso cérebro e em nosso sangue e que se apodera de nós, não sei se o senhor a conhece.

Entre Coswig e o anel de Berlim, dentro do nevoeiro, Julius Maria Brummer teve essa idéia. No nevoeiro, semanas mais tarde, entre Stuttgart e Ulm a idéia tomou forma em meu cérebro. Êle foi o pai, agora é a vítima, o próprio Julius Maria Brummer.

É difícil, mas não é impossível, alguém fabricar o próprio sósia. É preciso, apenas, ser capaz de pensar objetivamente. E deve-se ser realista quando se quer criar um fantasma irreal e cruel. Quando se tem o propósito de convencer é preciso meditar clara e judiciosamente. Deve-se contar com a resistência das pessoas ante os fenômenos impalpáveis, metafísicos. Por isso, é preciso proceder matematicamente. Cada uma das fases da experiência deve ser preparada com toda a exatidão. Nunca poderá existir uma sombra de dúvida sobre a realidade do aparentemente irreal, do aparentemente inexplicável. Só se pode provocar desordem nos pensamentos dos outros se tivermos a faculdade de raciocinar na mais perfeita ordem. É difícil, Sr. Comissário, fabricar o seu próprio sósia, mas não é impossível...

Depois de haver decidido, naquela noite de nevoeiro, matar Julius Maria Brummer, sem que a justiça tivesse qualquer possibilidade de castigar-me, pus mãos à obra, sem vacilação. Havia três dificuldades-na execução desse assassinato perfeito.

Em primeiro lugar deveria continuar com o meu modo de vida atual, sem qualquer discrepância, quer dizer, continuar vivendo como se me tivesse rendido incondicionalmente a Brummer.

Depois, e essa era a maior dificuldade, representar, perante Nina, o papel do homem que se resignou. Tinha que temer que ela me desprezasse, mas não havia alternativa.

O que eu projetava tinha que executar sozinho. Ninguém deveria conhecer meus planos.

Enquanto a segunda condição era a mais difícil a terceira era justamente a mais factível: a preparação da criação de um sósia.

 

Com o fito de fazê-lo compreender o que virá, a seguir, Sr. Comissário, e ao mesmo tempo mostrar-lhe o sistema simples que segui, contarei, em primeiro lugar, o episódio do posto de gasolina. Creio que com êle o senhor poderá descobrir as raízes do meu atrevimento: o desenvolvimento paulatino de terrores sem base...

O caso do posto de gasolina começou na quarta-feira que se seguiu ao nosso regresso de Munique. Recordo-me de que foi uma quarta-feira porque é nesse dia que tenho a tarde livre. Os três carros de Brummer estavam na garagem cuja porta ficava aberta todas as quartas-feiras à tarde para que Nina Brummer, caso quisesse, pudesse retirar qualquer deles. As chaves ficavam nos carros e os documentos nos portaluvas.

Não conseguira ver Nina desde o meu regresso. Enquanto me dirigia para a residência tive a impressão de que a cortina de uma das janelas, que estava levantada, fora deixada cair. Mas também podia ser engano meu. Estava fresco esse dia de outubro e as folhas das árvores eram castanhas, amarelas, vermelhas e pretas. Junto ao lago gritava um par de pássaros. No silêncio da tarde seus gritos eram muito fortes e o céu estava cinzento.

Entrei na cozinha e despedi-me da velha cozinheira, tcheca, pois era importante que ela me visse antes de eu sair.

— Não me espere Mila, jantarei na cidade.

Eu estava vestido de cinza, com camisa branca e gravata azul. Voltei novamente à cozinha para que Mila pudesse notar como eu estava vestido...

Também as folhas das árvores da Cecilienallee tinham tomado as cores do outono. Sobre o Reno havia uma pequena capa de névoa. Um rebocador arquejava, contra a correnteza, desprendendo muita fumaça cujo cheiro chegava até mim.

No Hofgarten tomei o ônibus em direção à cidade. Em uma loja perto da estação principal comprei uma roupa castanha e outra preta com listras brancas, ambas de confecção barata. Comprei, também, uma gravata verde com pintas pretas e outra prateada, com listras azuis, tudo do mais barato que havia porque não pretendia usar tais coisas freqüentemente. Depois, comprei uma maleta de baixo preço e meti tudo dentro dela. Finalmente fui à estação e registrei a maleta no depósito. Deram-me uma senha azul numerada. Eram, agora, 17h30m e o trânsito da tarde começara. Gente saía dos escritórios e fábricas, dirigindo-se apressadamente para suas casas. Os carros buzinavam, os bondes soavam seus tímpanos e em todos os cruzamentos havia um pequeno engarrafamento. Tomei um táxi e dirigi-me para o Reno. No cruzamento das Ruas Klever e Schwerin mandei parar e voltei. Eram seis horas menos dez minutos. Quero que comprenda, Sr. Comissário Kehlmann, que lhe descrevo tudo com tantos detalhes para que possa compreender claramente o mecanismo de terror deste primeiro episódio pois esse mecanismo forma a base dos demais.

Andei lentamente até o pequeno cinema que há na Rua Lützov, três quarteirões mais adiante. Nesta quarta-feira exibiam As Diabólicas, fita policial francesa que eu já tinha visto. Era importante escolher uma fita que eu já tivesse visto pois seria possível que, mais tarde, eu tivesse que explicar o enredo. De roupa cinza, camisa branca e gravata azul entrei no vestíbulo do cinema e comprei uma cadeira na primeira fila. Na sala, quase vazia, já reinava a escuridão e estavam projetando anúncios. Ao lado da porta giratória estava a vaga-lume, jovem bonita e de cabelos ruivos. Dirigi-lhe um sorriso, colocando-me de forma a que a luz do dia batesse sobre mim e ela me pudesse reconhecer com facilidade. Ao mesmo tempo disse-lhe:

— Que belezinha, gostarias de sair comigo?

A ruiva fêz uma careta de Brigitte Bardot, inclinou a cabeça para trás, ergueu o peito e precedeu-me na escuridão sem dignar-se a responder. A luz da sua lanterna saltava pelas cadeiras vazias. Alcancei-a e colocando a mão sobre suas redondas cadeiras, sussurrei-lhe ao ouvido:

— Vamos, não sejas má.

Ficou parada, bateu-me sobre a mão e apontou com a lanterna: - Ali.

— Bem, como queiras. Poderíamos passar uma magnífica tarde.

— Estava justamente esperando um como você — respondeu a vaga-lume, — Estaria bem arranjada para o resto da vida.

E desapareceu.

Depois dos anúncios veio o noticiário e, a seguir, acenderam-se as luzes. Virei-me para verificar onde estava a saída e verifiquei que ficava por trás de uma cortina de veludo vermelho. Depois olhei para a ruiva que estava novamente junto à entrada. Fiz-lhe um sinal e ela virou-me as costas. A luz foi novamente apagada e teve início a fita principal. Esperei que acabassem os títulos, tirei os sapatos e pisando cuidadosamente saí agachado até a porta. Detrás da cortina de veludo havia uma passagem escura, com paredes mofadas que levava a um pátio que dava para a rua.

Enquanto calçava os sapatos pensei que certamente poderia voltar ao cinema, passando pela porta de saída. Eram

18h26m e a próxima sessão começava às 20h15m, portanto, a fita que estavam passando duraria, com toda a probabilidade, até às 20 horas. Dispunha de uma hora e meia. Não era muito. Saí correndo pela Cecilienallee. Já começava a escurecer porque o tempo estava muito feio naquela quarta-feira à tarde, o que me favorecia. Em duas das janelas da residência de Brummer havia luz, quando eu entrei no parque, (o portão tinha um dispositivo elétrico dissimulado) ouvi ladrar o velho cão. Tinha, agora, que passar alguns minutos desagradáveis: tinha que tirar o Cadillac da garagem. Não seria uma desgraça se alguém me visse, diria que ia levá-lo ao posto para trocar o óleo. Não, não seria uma desgraça, mas teria que abandonar completamente o meu plano.

Ninguém me viu. O carro rodou silenciosamente pela pista, fechei o portão e parti tão rápido como era possível. Cada minuto que passava me aproximava do objetivo mas, também, de um possível desastre no último momento. Isto porque, se alguém me visse regressar teria, também, que desistir do meu propósito.

O barulhento tráfego da tarde impedia que eu avançasse com rapidez. Diante da estação não havia, naturalmente, nenhuma vaga para estacionar. Deixei o Cadillac junto a um posto com uma placa proibindo o estacionamento e corri para o depósito de bagagens. Se um policial deixasse uma papeleta de multa no limpador de pára-brisa eu poderia ir na mesma tarde pagar os dois marcos da multa, em qualquer delegacia. Neste caso não haveria denúncia e eu não seria forçado a apresentar minha carteira de chofer.

No depósito, retirei rapidamente minha maleta e voltei, correndo, para o carro. Não havia nenhuma papeleta. Estava de sorte. Esperava continuar assim. Pensei em Nina mas forcei o pensamento para coisas diferentes, porque precisava de nervos calmos para o que se aproximava. Não devia pensar em Nina.

Pelo menos no momento presente.

Dirigi-me para o Reno. Já era noite fechada. Numa quieta rua lateral troquei de roupa. Tirei a roupa cinza e vesti a castanha de qualidade inferior; em lugar da gravata azul botei a verde com pintas pretas. A seguir desmanchei um pouco o penteado, coloquei a maleta com a roupa na mala traseira e parti, novamente. Eram 19hl0m. Ainda dispunha de 50 minutos mas o mais difícil estava por fazer.

 

DiRiGi-ME PARA o grande posto de gasolinha da Rua Mantener. Ali todos me conheciam, pois eu vinha com freqüência. Era importante que todos me conhecessem. Deixei deslizar o carro até junto da bomba vermelha e fiquei sentado, ao volante. Muita luz, proveniente das lâmpadas de néon, incidia sobre mim. Na cabina envidraçada, situada à frente do posto, estava sentado um rapaz de seus dezoito anos. Chamava-se Paul e conhecia-me bem e suponho que me apreciava. Freqüentemente falava-me de sua possante motocicleta. Não a possuía ainda e estava economizando para comprá-la mas falava nela como se já a possuísse há dois anos. Seu sobrenome era Hilfreich — Paul Hilfreich tinha muitas espinhas no rosto e certamente teria dificuldades com as meninas. Êle aproximou-se rapidamente de mim, metido em seu limpo macacão branco. Cumprimentou-me alegremente:

— Boa noite, Sr. Holden!

— Boa noite, Paul — e acenei com a mão. — Sobre a sua face esquerda crescia uma espinha enorme. — Encha o tanque.

- Okay.

Segurou a mangueira ligada à bomba e começou a desenroscar o tampão do tanque do carro. Um motor começou a zumbir na coluna vermelha e a gasolina principiou a jorrar. Aos saltos subiram, no indicador, o número de litros e de marcos. Eu fiquei sentado ao volante, esperando. Lamentava ter que fazer aquilo a Paul, mas não havia outro remédio. Pensava em Peter Romberg. Na pequena Mickey. Em Nina. Em mim. Todos nós só poderíamos viver em paz quando

Julius Maria Brummer desaparecesse. Não havia outro caminho e eu o lamentava por causa de Paul Hilfreich.

Soou um clic, na bomba. O tanque estava cheio. Paul veio em minha direção. Pela janela aberta, perguntei cortêsmente:

— O óleo está bem?

— Está bem.

Dezenove horas e quatorze.

— Ar?

— Também.

Dezenove horas e quatorze.

— Água?

— Tudo está em ordem.

E agora eu suava.

Dezenove horas e quinze.

— São vinte e quatro marcos e trinta, Sr. Holden,

— Muito bem, anote na conta do Sr. Brummer.

— Lamento, Sr. Holden, mas não é possível.

— Por que não? — perguntei, apesar de saber perfeitamente a razão.

— O Sr. Brummer não tem mais conta conosco desde que voltou... desde que voltou para casa. Quer que todas as despesas sejam pagas à vista. Mas o senhor sabe muito bem disto, Sr. Holden.

— Que tolice a minha, claro que sei — disse batendo com a mão na testa como se estivesse aborrecido. - Como é que eu fui esquecer e, agora, não tenho o dinheiro comigo. Pode debitar a mim?

— É claro que sim, Sr. Holden — Paul riu. — Pagará quando vier outra vez.

— Obrigado, Paul.

— De nada. Boa viagem.

Pelo espelho retrovisor vi quando êle acenava com a mão, quando dei a partida. Eram 19h16m. E a pequena Mickey estava um pouco mais em segurança. E eu um pouco mais adiantado em meu caminho para Nina. E Julius Maria Brummer um pouco mais adiante em seu caminho para a morte.

Tornei a parar em uma rua lateral e troquei de roupa. A castanha barata e a gravata verde foram para a maleta. Dirigi-me, então, rapidamente para a estação. Parei, novamente embaixo do aviso proibindo o estacionamento, corri até o depósito de volumes e depositei, pela segunda vez nu mesmo dia, a maleta ordinária. Com o talão azul na mão, voltei correndo para o carro. Eram 19h31m. Em meia hora deveria estar em minha cadeira no cinema pois, do contrário, tudo teria sido em vão. Atirei-me para o meu posto atrás do volante e apertei o botão do arranque. Tornei a apertar mais duas vezes.

O motor não pegou.

 

TENTEi tudo. Retirei completamente o choker. Apertei o acelerador ao máximo. Girei diversas vezes a chave de ignição.

O motor não partia.

Comecei a rezar enquanto apertava o botão e girava comutadores. Suava tanto nas mãos que elas escorregavam por toda a parte. Enquanto rezava, refletia que Deus não podia ajudar-me porque era um assassinato que eu estava preparando, um mesquinho assassinato. Mas não, não era mesquinho porque era um ato de justiça. Mas haveria assassinatos justos? Pensei enquanto apertava, desesperadamente, o acelerador. Não, não existiam e então parei de rezar e comecei a blasfemar e, neste momento, o motor pegou.

Dirigi-me, novamente, em direção ao Reno. As ruas estavam vazias e fiz o percurso em oito minutos. Às 19h46m parei, com os faróis apagados, diante da residência de Julius Brummer. Saí do carro. Abri o portão de ferro forjado. Agora havia luz em todas as janelas e nas que tinham cortinas fechadas ela se filtrava pelos interstícios. Levei o Cadillac com todo o cuidado e suavidade, pelo caminho de cascalho, até a garagem. Eu tinha colocado, antes de sair, uma pequena serra na fresta entre a porta e o marco. Quando eu abri a porta a serrinha caiu. Portanto, ninguém tinha tocado na porta. Ou então alguém tinha’aberto a porta, notado a serrinha e a recolocara... Estava no limite de minhas forças, parecia não haver ar para respirar e via faíscas diante dos olhos.

De novo para o carro. O carro para a garagem. Fecho a porta da garagem. Sobre os cascalhos para o portão. De novo, ouço ladrar o velho cão.

Na iluminada janela da cozinha vejo a silhueta de Mila e, enquanto fecho o portão com as mãos trêmulas, escuto a sua fina voz de velha:

— Quem anda por aí?

Corri, na escuridão, em direção à avenida. Não tinha importância que Mila tivesse visto uma sombra que se parecia com a minha sombra, não, não importava...

Corri até o pequeno cinema e sentia dor no coração e latejar a cabeça dolorosamente. Já eram 19h51m, 19h52m,

19h53m. Sem fôlego cheguei ao pátio situado atrás do vestíbulo. Rapidamente tirei os sapatos. Foi quando avistei o casal. Estavam exatamente diante da saída e beijavam-se os jovens namorados. Beijavam-se e ela o abraçava enquanto êle segurava-lhe a cabeça com as duas mãos.

Espremi-me contra a bolorenta parede do pátio e os dois continuavam aos beijos. Êle disse alguma coisa. Tornaram a beijar-se, exatamente diante da saída do cinema...

Vão embora, disse-lhes sem falar, vão, vão, vão.

Mas continuavam beijando e apalpando um ao outro. Um gato passou miando pelo pátio.

19h56m, 19h57m.

— Não — disse a rapariga. — Não, não posso.

— Sim — disse o homem, — sim, podes. Se gostas de mim podes. Se não podes é porque não me amas.

— Mas eu nunca fiz isso — disse a rapariga.

— Se não queres fazer, diz logo — disse o homem.

— Sim — disse a rapariga, — eu quero, eu quero, eu quero.

O homem pôs um braço sobre os ombros da rapariga e vieram em minha direção. Procurei esconder-me ainda mais na escuridão, eles passaram por mim sem me ver e a rapariga disse:

— És o primeiro.

Só com as meias nos pés, corri pelo pátio e pelo corredor. A cortina de veludo vermelho e cheirando mal acariciou meu rosto quando entrei na sala de projeção. O filme ainda continuava, não tinha terminado.

Agachado, voltei à minha cadeira. O assento rangeu. Endireitei os cabelos, enxuguei o suor do rosto e procurei respirar calmamente. Na tela chegava a recompensa para os bons e o castigo para os maus. A justiça triunfava apesar de tudo.

Com a música dramática chegou o final e acenderam-se as luzes. A vaga-lume ruiva veio até o centro da sala dizendo:

— Saída pela direita.

Indicou o caminho aos poucos espectadores e ao defrontar-me eu lhe perguntei:

— De verdade, não pode dar um jeitinho? Levantou a cabeça e falou para a cortina de veludo:

— Os indivíduos deste país acostumaram-se a uma arrogância insuportável.

Para que ela não se esquecesse de mim, ao dirigir-me para a saída, passei a mão pelas suas cadeiras. Ela tornou a bater-me na mão mas, naturalmente, sorria ao mesmo tempo.

Fui, devagar, para casa. Já não tinha nenhuma pressa. Andei ao longo do Reno e contemplei as luzes na outra margem e um barco que deslizava por cima da água escura. Pessoas que estavam no tombadilho do barco cantavam uma alegre canção com o acompanhamento de um acordeão. Respirei profundamente o ar cheirando a fumaça, deste outono, pensando, com antecipação no verão que viria depois do inverno, pois esse verão não o gozaria mais Julius Maria Brummer. Pensei que seria um verão mais bonito, um verão mais formoso para a pequena Mickey e seu pai, para Nina e para mim. Tudo correria muito bem... quando Julius Maria Brummer tivesse morrido.

Eu estava, agora, muito cansado. Doíam-me as pernas quando subi a escada de caracol que levava aos meus pequenos aposentos sobre a garagem. Ao sair tinha fechado a porta com a chave. Agora tornei a abri-la. Atrás da porta estava uma carta. Alguém a enfiara por baixo da porta. Senti calor quando reconheci a letra de Nina. Rasguei o envelope e retirei a carta. Li: ”Preciso falar com você. Meu marido irá à casa do advogado amanhã à tarde. Espero-o na embarcação às 15h30m.” Sentei-me na cama e aproximei a carta do rosto pois esperava sentir o seu perfume.

Só senti cheiro de papel e pensei que Nina recomeçava a escrever cartas. Pela minha janela olhei para a sua. Ela estava por trás da cortina e vi a sua silhueta. Devia ter-me esperado. Agora ela se moveu e, logo depois, apagou-se a luz do seu quarto. Também apaguei a minha. Esse gesto uniu-me a ela em íntima ternura, como se a escuridão se pousasse sobre nós dois como um quente cobertor da cama onde estávamos, abraçando-nos e protegendo-nos, unidos por uma noite.

 

Ela estava com sapatos pretos, uma capa impermeável preta e um lenço, também preto, na cabeça pelas bordas do qual saíam seus ruivos cabelos. O tempo estava instável, naquele dia. Por duas vezes já chovera e agora, à tarde, fazia sol. No céu, de um azul pálido, o vento leste arrastava farrapos de nuvens cujas sombras navegavam na corrente do rio.

Cheguei ao barco-restaurante pontualmente às 15h30m. Nina já estava à minha espera. Estava na estrada meio escondida atrás de um velho castanheiro. Eu tinha deixado Brummer em casa do Dr. Zorn. Devia ir buscá-lo, novamente, às dezessete horas.

Uma hora, dispunha somente de uma hora mas que me parecia representar uma eternidade, foi o que pensei, quando, através do pára-brisas vi Nina correr em minha direção. Abri rapidamente a porta direita do carro e ela deixou-se cair no assento, a meu lado. Fechei novamente a porta. A respiração de Nina era ofegante, o vento corara-lhe as faces e seus alvos dentes faiscavam. Nunca ela me parecera tão bela.

— Precisamos ir para longe.

— Mas, por quê?

Aspirei o perfume dos seus cabelos, estava louco por ela. Disse-me, rapidamente.

— Tenho medo...

— De quem?

— Dele..., dele... -— gritou ela ao meu ouvido. — Depressa, depressa, meu Deus.

Fiz o carro andar rapidamente. Um pequeno campo começava junto à beira da estrada e as sombras das nuvens esparsas passavam sobre o rio, sobre a estrada e sobre nós. Dirigi em silêncio durante dez minutos e ent