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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NINGUÉM É DE NINGUÉM / Zibia Gasparetto
NINGUÉM É DE NINGUÉM / Zibia Gasparetto

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NINGUÉM É DE NINGUÉM

 

                       

 

       Roberto chegou em casa confuso, irritado, batendo a porta com for­ça. Naquele dia fora submetido a um processo de autodestruição e pen­sava raivoso:

       “Isso não vai ficar assim. Não posso tolerar ter sido feito de bobo pela pessoa em quem mais confiava. Quem poderia imaginar que, depois de me alisar a vaidade com elogios e tapinhas nas costas, ele acabasse por me apunhalar sem dó nem piedade?”

       Dentro da sala espaçosa, decorada com simplicidade e sem muitos adornos, ele andava de um lado para outro, como fera acuada, dando vazão a seu mau humor e a sua revolta.

       Sentia a cabeça pesada, doendo, como se a testa estivesse sendo aper­tada sem cessar por um círculo de ferro. Seu estômago queimava, e o al­moço que engolira rapidamente havia mais de cinco horas ainda não tinha sido completamente digerido, provocando de vez em quando uma sensação de azedume em sua garganta.

       Foi ao banheiro e procurou um vidro de sal de frutas. Depois diri­giu-se à cozinha, colocou água num copo e despejou um pouco do re­médio, ingerindo-o em seguida. Sentiu um arrepio no corpo e fez uma careta desagradável.

       Se ao menos o mal-estar passasse! Ele precisava se acalmar. Havia uma situação difícil para enfrentar, e Roberto precisava estar com saú­de. Tinha família para sustentar. Dois filhos na escola: Maria do Car­mo com cinco anos e Guilherme com sete. Ele fora contra a idéia de enviar Maria do Carmo para a escola aos dois anos de idade. Mas Ga­briela trabalhava e não queria deixar o emprego de forma alguma.

       Quando se casaram, oito anos atrás, ele se empenhou de todas as for­mas para que ela deixasse a empresa onde trabalhava como secretária. Afinal, ele havia montado um negócio próprio que lhe rendia bom di­nheiro. Mas Gabriela foi irredutível. Não ia largar o emprego do qual tan­to gostava. Ela dava muito valor à sua independência e gostava de ga­nhar o próprio dinheiro.

       Roberto não concordava com isso. Mulher casada precisava tomar conta do lar. Ele tinha condições de arcar com as despesas. No fundo, sen­tia ciúme. Saber que Gabriela, todos os dias, durante a maior parte do tempo, estava em companhia de outros homens, chegava a tirar-lhe o sono.

Apaixonara-se por ela desde o primeiro dia. Alta, cabelos louro-escuros, olhos verdes, boca carnuda e vermelha, corpo elegante e bem-feito, pele cor de pêssego levemente rosada, Gabriela representava para ele o máximo da atração.

Quando, depois de muita insistência, ela aceitou sair com ele pela primeira vez, Roberto sentiu-se o homem mais feliz do mundo. Namo­raram durante dois anos. Ele confiava nela. Era moça honesta e de bom comportamento. Porém percebia claramente o quanto ela despertava a atenção masculina quando passava indiferente, desfilando sua beleza.

Ele fez de tudo para que ela desistisse de trabalhar depois do casa­mento. Mas ela foi taxativa:

— Não sou o tipo de mulher dependente. Trabalho desde os quin­ze anos. Eu me sentiria muito mal se tivesse que depender do seu di­nheiro. Sou competente para cuidar de mim. Depois, não gosto dos tra­balhos domésticos. Não tenho jeito para certos serviços. Por isso, vou continuar trabalhando depois do nosso casamento. Esse é para mim um ponto muito importante.

— Pense em mim, em como vou ficar nervoso imaginando você lá, junto com todos aqueles homens. Tenho certeza de que muitos dão em cima de você mesmo sabendo que é cómprometida.

Imagino o que fa­rão depois que for casada!

Gabriela fulminou-o com o olhar:

— Estou com você porque o amo. Escolhi me casar com você. Isso deve ser suficiente. Que me importa o que os outros pensam? A malí­cia é deles. Eu sei o que quero da minha vida e o que vou fazer com ela. Se não pode entender isso, sinto muito, mas você não tem condições de se casar, nem comigo nem com qualquer outra mulher.

Roberto sentiu um aperto no coração e resolveu contemporizar. Sabia que ela às vezes era intransigente. Não desejava perdê-la. Por isso concordou a contragosto. Entretanto, guardava a esperança de que quan­do tivessem filhos ela acabasse por desistir. Afinal, cuidar de crianças era coisa trabalhosa, e as mulheres, na maioria, mudavam muito quan­do se tornavam mães.

Porém Gabriela não mudou. Teve dois filhos, planejou tudo com cuidado e conseguiu continuar trabalhando. Ele tentava convencê-la a ficar em casa, cuidar das crianças, mas ela arranjou uma creche, ao con­trário do que o marido e a sogra queriam.

D. Georgina implicava com a nora por causa disso. Nunca vira mu­lher tão teimosa e determinada.

       Dissimulava, porém, seus sentimentos para que o filho não se indispusesse com ela. Sabia como ele era apaixo­nado por Gabriela. Mas, dissimuladamente, a pretexto de estar sentin­do saudade, ia à creche ver as crianças, todavia era para descobrir algu­ma falha, algum problema que pudesse fazer com que a nora resolvesse deixar o emprego e ficar em casa cuidando dos filhos.

       Enquanto o casal estava trabalhando, durante o dia, Georgina ia muitas vezes à casa de­les, sob qualquer pretexto, para verificar se tudo estava bem cuidado.

A empregada fingia não perceber a intenção quando Georgina su­bia nos quartos do casal e das crianças, abria as gavetas e olhava tudo. Nicete sorria satisfeita ao perceber a frustração da velha senhora por não encontrar nada que pudesse criticar. Esse, aliás, havia se tornado um pon­to de honra para Nicete, que trabalhava com Gabriela desde o casamen­to e gostava muito de sua patroa.

Gabriela era objetiva, falava logo como queria as coisas; se não gostava de algo, chamava a empregada e colocava-se de maneira clara, explicando-lhe por que desejava daquele jeito. Ela era muito exigente, mas Nicete preferia assim. Quando caprichava, ela elogiava, e isso era para ela o maior prêmio, porque sabia que, se não estivesse bom, a pa­troa diria logo o que pensava. Depois, Nicete sentia-se respeitada. Ga­briela conversava com ela de forma clara, direta, e não ficava falando mal dela pelas costas, como muitas patroas que Nicete conhecia.

Quando os patrões estavam fora, ela caprichava mais ainda na ar­rumação, desejando até que Georgina aparecesse, para gozar da satisfa­ção de vê-la contrariada.

Durante todos aqueles anos de casamento, Roberto teve de en­golir o ciúme, dissimular.

Gabriela nunca lhe dera motivo de queixa. Tinha suas roupas bem cuidadas a tempo e a hora, comida boa e capri­chada, as crianças estavam saudáveis, alegres e bem alimentadas.

Sentou-se em uma cadeira e passou nervosamente a mão pelos ca­belos. E agora, o que seria dele? Teria de falar com a esposa, contar-lhe a verdade. O que faria para sobreviver?

Ele trabalhava com construção. Tinha um depósito de materiais e sempre sonhara em montar outra empresa, construir casas para vender. Durante anos fizera os cálculos e sabia que construir dava muito dinhei­ro. Sonhava enriquecer, melhorar de vida. Talvez então Gabriela se re­solvesse a deixar o trabalho e, quem sabe, trabalhar com ele. Era uma maneira de conseguir finalmente o que desejava. Por que não? Se ele tivesse uma grande empresa, ela certamente poderia ajudá-lo. Teria um salário bom e tudo ficaria resolvido.

Mas ele precisava de capital. Foi quando conheceu Neumes, en­genheiro civil que construía um grande prédio de apartamentos para uma empresa que comprava o material em seu depósito.

Conversaram mui­to. Roberto confidenciou seus projetos para o futuro e Neumes o ouviu com entusiasmo, ajudando-o nos cálculos dos lucros. Em pouco tempo uma amizade nasceu entre eles, e tanto o engenheiro quanto a esposa passaram a freqüentar a casa de Roberto.

Sempre que podia, Neumes falava com entusiasmo sobre os proje­tos. Não havia como dar errado. Era lucro certo. Resolveram fazer uma sociedade e começar a empresa. Para isso Roberto vendeu duas proprie­dades que possuía, construiu três salas e banheiro no terreno ao lado do depósito e lá instalaram a nova empresa.

Neumes estava construindo um prédio de apartamentos com ou­tro engenheiro e ficou de integralizar sua parte do capital à medida que os imóveis fossem sendo vendidos. Roberto correu com as primeiras despesas, e a empresa foi montada. Neumes apresentou-lhe o dono de um grande terreno interessado em construir nele um prédio. Assinaram um contrato estabelecendo que, dos trinta e cinco apartamentos que se­riam construídos, o dono do terreno receberia dez em pagamento pela sua propriedade.

Tudo parecia ir bem. Neumes entrou com pequena parte do seu ca­pital, Roberto com tudo quanto possuía, e o projeto começou. Fizeram as plantas, aprovaram e começaram a vender os apartamentos.

Não estava fácil, porqüanto a inflação alta obrigava a aumentos su­cessivos de preço, mas mesmo assim o dinheiro começou a entrar no cai­xa, e Roberto não se cabia de satisfação.

Neumes tornou-se seu companheiro inseparável. Iam ao futebol, às corridas de carro, aos restaurantes nos fins de semana com as espo­sas. Tudo estava correndo muito bem. O engenheiro dizia que estava cui­dando das providências iniciais. O estaqueamento do terreno, os alicer­ces iam bem. Roberto, orgulhoso, ia vistoriar a obra e dizia:

— Não vejo a hora em que o prédio comece a subir. Por enquan­to é só alicerce.

Ao que Neumes sorria e retrucava:

- Essa é a parte mais difícil, porque não aparece. Precisa de pa­ciência. Logo estaremos começando a levantar as paredes.

Roberto sorria feliz vendo seu nome colocado na placa do lado de fora do pequeno pavilhão de vendas que Neumes montara. Mas o tem­po foi passando e Roberto achou que a construção estava demorando demais. O preço era barato, os apartamentos muito espaçosos, por isso eles já haviam vendido vinte e oito unidades, recebido bom dinheiro, o bastante para acelerar a construção, ao que Neumes retrucava:

— Estou tendo dificuldade de conseguir mão-de-obra qualificada. Mas estou contratando mais gente e vamos alavancar o projeto.

Gabriela vivia dizendo ao marido:

— Se eu fosse você, cuidava dessa construção pessoalmente. Tudo está nas mãos de Neumes.

Você confia demais nele.

— Há o contador tomando conta de tudo.

— O contador que ele arranjou.

— Deixe de ser implicante. Neumes caiu do céu. Um engenheiro de alto padrão, como ele, está se dedicando a um negócio com alguém como eu, que nem sequer tem capital.

— Você é quem sabe. O negócio é seu.

— Eu quero que você venha trabalhar em nossa empresa.

— Por enquanto não. Meu salário é alto e vocês ainda não têm como pagar. Quando chegar a hora, veremos. Por enquanto é cedo.

— Como você é intransigente! O que custa ganhar um pouco me­nos e vir nos ajudar?

— Não vou fazer isso agora. Vamos deixar o tempo correr.

— Se tudo estiver bem, você virá?

— Veremos.

Roberto passou a mão novamente nos cabelos. E agora, o que lhe diria? Havia alguns dias ele recebera uma intimação judicial. Sem sa­ber do que se tratava, conversou com Neumes, que garantiu que deve­ria ser algum engano.

Dois dias depois, Neumes recebeu um telegrama de seu pai, que morava no interior, pedindo-lhe que fosse ter com eles porque sua mãe estava muito mal. O engenheiro viajou imediatamente.

Por que não percebera o jogo dele? Como fora tão ingênuo a pon­to de entrar naquele negócio? Comparecendo à audiência, tomou co­nhecimento de que algumas pessoas que haviam fechado negócio com os apartamentos haviam reclamado do não-cumprimento do contrato e pediam o dinheiro de volta. O juiz deferiu o processo e a empresa te­ria de cumprir a sentença.

Nervoso, ele foi ao banco e lá descobriu que, antes de viajar, Neu­mes retirara todo o dinheiro da empresa. Desesperado, procurou pelo con­tador e descobriu que ele também desaparecera. Foi ao apartamento do engenheiro, e estava vazio. Ele havia se mudado sem deixar endereço.

Roberto enterrou a cabeça nas mãos, desesperado. Onde arranjar o dinheiro que teria de devolver aos compradores? Se ao menos ele ti­vesse como acabar a construção e entregar os apartamentos... Mas com que recursos? A conta bancária estava zerada.

Ele se deu conta de que estava arruinado. Mesmo vendendo o depósito de materiais, não teria o suficiente para pagar o que devia. Seria a falência, a vergonha, talvez até a prisão. Precisava consultar um ad­vogado, era preciso fazer alguma coisa. Mas em quem confiar numa hora dessas?

O advogado que conhecia fora apresentado por Neumes, e ele seria a última pessoa em quem confiaria.

Pensou em pedir a ajuda de alguém. Um por um, todos os paren­tes e amigos foram desfilando em seu pensamento. Conscientizou-se de que nenhum deles possuía recursos para lhe emprestar.

Havia o pro­jeto. Se encontrasse um sócio que pudesse liquidar o montante da dí­vida, tudo ficaria resolvido. Mas e a construção, quem financiaria? Ele poderia vender sua parte, isto é, sair do negócio sem receber nada. Se conseguisse salvar o depósito e pagar as dívidas, já seria um sucesso!

Mas onde encontrar a pessoa certa, que, além de ter recursos, se in­teressasse por um negócio mal começado?

Roberto pensou, pensou e resolveu, O primeiro passo seria colocar um anúncio no jornal.

Tinha algum dinheiro em sua conta pessoal. De­pois iria procurar um advogado para uma consulta. Talvez sua mãe pudesse lhe indicar um. Apanhou lápis e papel e escreveu o anúncio.

Decidido, saiu e, depois de passar pelo jornal, foi à procura de sua mãe. Vendo-o aparecer em hora tão inusitada, Georgina assustou-se:

— Você aqui a esta hora! Aconteceu algo com as crianças?

— Não. Elas vão bem. Eu é que preciso da sua ajuda.

Você está com uma cara! Foi com Gabriela?

       Não. Foi comigo mesmo. Estou desesperado. Aconteceu uma coi­sa horrível. Preciso de um bom advogado. Você conhece algum?

— Advogado! Valha-me Deus! O que foi que você fez?

— Nada. Eu não fiz nada. Fui vítima de um desfalque! Neumes fu­giu com o dinheiro da empresa e a justiça me condenou a devolver tudo que os compradores pagaram! Estou arruinado!

— Santo Deus! É o que dá querer ser mais do que é! Por que tan­ta ambição? Você não estava bem com o que ganhava?

— Acho que errei vindo buscar sua orientação. Eu preciso de aju­da, não de crítica. Se eu soubesse com quem estava me metendo, nun­ca teria feito esse negócio. Ele é um engenheiro!

Nunca pensei que fos­se querer me passar a perna desse jeito.

Roberto levantou-se nervoso e finalizou:

— Vou embora. Foi um erro vir aqui.

- Não. Vamos ver o que se pode fazer. Vamos conversar. Conte tudo como foi.

Roberto relatou os fatos com detalhes enquanto Georgina balan­çava a cabeça com ar de quem já esperava o trágico desenlace, o que dei­xava Roberto ainda mais nervoso.

— Na verdade, o que preciso de você é saber se conhece algum bom advogado. É só isso que eu quero agora.

Ela pareceu nem ouvir:

- O que disse Gabriela?

— Ela não sabe ainda. E o advogado? Conhece alguém ou não?

- Assim de pronto, de confiança mesmo, não sei. A coisa mais di­fícil é arranjar um advogado honesto. Estão sempre querendo nos en­ganar. Eles conhecem as leis, enquanto nós, não.

— Já vi que não vai poder me ajudar. Vou embora.

— Espere um pouco. Vou fazer um cafezinho. Precisa se acalmar.

— Não estou com paciência para esperar nada. Vou embora, para ver o que posso fazer.

Enquanto ela protestava pedindo que ele tivesse calma, Roberto saiu sentindo aumentar seu desespero. Parou em uma banca e comprou um jornal. Na seção de classificados, procurou atentamente por escritórios de advocacia. Teria de ver os anúncios e arriscar. Ele não estava em condições de perder tempo.

Depois de escolher um escritório no centro da cidade, dirigiu-se para lá. Havia uma pessoa dentro da sala do advogado e outra na sala de es­pera. Ele teria de aguardar.

Seus olhos percorreram a sala. O ambiente era sóbrio, sem luxo po­rém bem cuidado. Ele nunca iria a um escritório de luxo. Não estava em condições de pagar muito pela consulta. Mas, por outro lado, um ad­vogado pobre não lhe inspiraria confiança. Era sinal de que ele não ti­nha muitos clientes e por isso não deveria ser eficiente.

Remexeu-se na cadeira tentando acomodar-se melhor. Parecia-lhe haver escolhido bem. Uma hora e meia depois, quando entrou na sala do advogado, já não suportava mais esperar.

O Dr. Paulo era um homem dos seus trinta e cinco anos, alto, ros­to forte de traços bem pronunciados, olhos castanho-escuros que pare­ciam mais claros quando ele os apertava um pouco para fixar-se em seu interlocutor quando sorria.

Convidado a sentar-se, Roberto respirou fundo e contou-lhe tudo quanto lhe havia acontecido.

O advogado ouviu-o com atenção, o que fez Roberto sentir-se confortado e compreendido.

— Hoje o meu mundo desmoronou — finalizou. — Estou me sen­tindo perdido. Não sei como proceder. Estou arrependido de haver confiado tanto nele, sinto-me um tolo, um idiota de boa-fé que foi passado para trás sem nenhuma cerimônia. O pior é que minha mulher ainda não sabe de nada. Contar-lhe será um horror. Ela sempre desconfiou dele.

— Avalio como se sente. Entretanto, agora, precisa controlar as emo­ções e procurar uma saída. A lei oferece-lhe algumas alternativas. Já deu queixa à polícia?

— Queixa à polícia? Claro que não. Será um escândalo. Não que­ro passar essa vergonha.

— O orgulho é inimigo do bom senso. Você precisa documentar o desfalque. Embora isso não lhe anule a dívida, poderá melhorar suas condições diante do juiz. Precisa provar que foi ludibriado e não agiu de má-fé.

— Claro que não agi. Eu fui enganado, terminei como o maior prejudicado!

Você poderia ter combinado com seu sócio para lesar essas pes­soas e depois dividir o dinheiro.

— Eu sou um homem honesto! Nunca faria isso!

— Eu acredito, mas o juiz pode duvidar. Ele não o conhece e pre­cisa de informações para julgar com justiça. Seu advogado vai precisar de documentos para entrar com recurso, e o mais importante deles é a queixa na polícia para registrar o roubo.

— Entendo. Terei que fazer isso?

- É o primeiro passo. Depois, pode visitar os credores, um a um, contar-lhes a verdade e pedir-lhes um tempo para devolver o dinheiro, o que poderá ser feito de forma parcelada, de acordo com suas posses.

— Se eu tiver que vender o depósito de materiais, não terei como ganhar dinheiro para lhes pagar.

— Esse será um bom argumento para usar com seus credores. Eles desejam receber. Você precisa mostrar boa vontade e o desejo de lhes pagar. Um acordo bem-feito poderá beneficiar ambas as partes.

— O senhor acha que podemos conseguir isso?

— Seu advogado poderá tentar.

- Não tenho advogado, ou melhor, o que eu tinha foi-me indi­cado pelo meu sócio. Não me sinto encorajado em dar-lhe a causa. Vim procurá-lo através do seu anúncio no jornal. Gostei.

Estou sentindo que o senhor poderá me ajudar e gostaria de contratá-lo. Estôu preocu­pado com o preço, porque no momento minha situação é crítica. Se es­perar um pouco até que as coisas melhorem, pagarei tudo que puder.

Paulo sorriu ao responder:

Você poderá pagar os meus honorários no final.

— Sendo assim, fico-lhe muito grato.

— Vamos fazer o seguinte: vou mandar preparar uma procuração, como de praxe, e depois iremos à delegacia mais próxima da sua empre­sa fazer oficialmente a queixa. Tem as informações sobre seu sócio?

— Eu não sei onde ele está.

— Não é isso. Refiro-me ao nome completo, idade, número de do­cumentos, etc.

— Devo ter tudo isso na empresa. Além do contrato social, há os documentos de compra e venda dos apartamentos. Não será difí­cil conseguir.

— Tem consigo seus documentos?

—Tenho.

O  advogado chamou a secretária e deu-lhe as instruções e os do­cumentos de Roberto.

Enquanto esperavam, mandou servir um café. Roberto sentia-se apoiado e agradecido.

Retirou uma foto da carteira e mostrou-a ao advogado.

— Estes são meus filhos. Esta é minha esposa. É por eles que eu tra­balho e vivo. Nem sei como dar essa notícia a Gabriela.

Quanto menos dramatizar, melhor será.

— Como assim?

— Se deseja que eles aceitem a verdade com calma, você precisa apresentar os fatos com naturalidade, contar o que aconteceu e não se lamentar.

— Como não lamentar um caso desses?

- Você já sofreu com o fato em si. Mas aumentar o sofrimento de sua família não vai melhorar em nada a questão. As coisas vão conti­nuar do jeito que estão. Se deseja poupar sua esposa, o melhor é con­servar a serenidade, mostrar que tomou as providências cabíveis e que está fazendo o que pode para solucionar tudo. Isso é o mais importan­te. Para que alarmar sua família inutilmente?

Roberto não respondeu e ficou pensativo. Para o advogado, que es­tava de fora e nada tinha a ver com o caso, isso poderia ser fácil. Mas ele, que fora a vítima, não se sentia calmo o bastante para falar no as­sunto com serenidade. Sua vida se desmoronara, como se manter calmo?

Depois de haver assinado a procuração, Roberto, em companhia de Paulo, passou na empresa, apanhou os dados de que precisava e foram até a delegacia dar queixa.

Roberto sentia-se arrasado. Logo ele, sempre tão sério, tão hones­to, ter de se submeter àquela situação. Parecia-lhe que o policial que da­tilografava suas declarações assumira um ar de deboche quando ele narrava os fatos. Sentia vontade de sair dali correndo, desistir de tudo. En­tretanto, a presença ereta e séria do advogado infundia-lhe coragem.

Ao deixarem a delegacia, Roberto apanhou o lenço e enxugou o suor do rosto. Fora-lhe muito penoso dar queixa. Na porta, foram abor­dados por um repórter que desejava mais informações sobre o caso. Ro­berto queria ir embora, não dizer nada, porém Paulo o impediu. Pres­tou os esclarecimentos enquanto o jornalista anotava tudo.

Quando saíram, Roberto considerou:

— Por que parou para falar com eles? Vai sair no jornal, será uma vergonha! Eu não queria que ninguém soubesse.

— Ao contrário. É melhor que saibam a verdade. Não há como en­cobrir. Os credores vão falar, as notícias vão correr de qualquer forma. Não se esqueça de que você não fez nada. Não roubou ninguém. Não tem do que se envergonhar. Você foi enganado. Está pagando pela ingenuidade. Errar é humano. Depois, quanto mais propagarmos o desfal­que e a fuga do seu sócio, mais estaremos tirando sua responsabilidade. Você foi a maior vítima. Todo mundo vai ficar com pena de você, até os seus credores. Isso é fundamental para negociarmos com eles.

Apesar de sentir-se humilhado, Roberto foi forçado a concordar. Ele era o advogado, sabia o que estava fazendo. Despediram-se combi­nando um encontro no dia seguinte.

Havia anoitecido quando Roberto chegou em casa. Pelo caminho foi se esforçando para controlar a emoção, preparando-se para dar a no­tícia a Gabriela conforme Paulo recomendara. Ele estava certo. Assus­tar a família não iria melhorar a situação.

Mas logo que entrou em casa percebeu que isso não seria possível. Georgina estava lá e, assim que o viu, correu para ele dizendo:

- Graças a Deus que voltou! É tarde, pensei que tivesse feito al­guma besteira, que houvesse acontecido alguma desgraça! Ainda bem que voltou para casa!

Gabriela vinha atrás dela, com as crianças agarradas à sua saia com ar assustado.

- Eu não disse que a senhora estava exagerando? Não há nada. Va­mos nos acalmar.

Roberto arrependeu-se amargamente de ter ido à procura da mãe. Foi dizendo logo:

- Não houve nada mesmo. Por que estão tão assustadas? Está tudo bem. Tudo sobre controle.

— Mas, filho, você não disse que seu sócio fugiu com todo o dinhei­ro e que você terá que pagar os compradores dos apartamentos?

— Mãe, deixemos esse assunto para mais tarde. Estou cansado. Não precisava falar disso agora.

— Quer dizer que eu me preocupei à toa? Você vai à minha casa desesperado, me deixa preocupada e agora diz que está tudo bem, que não precisava falar nisso? Como não? Acha que sou de feno? Eu me preo­cupo com o que acontece com minha família. Ou acha que não?

— Eu sei que você se preocupa, que nos quer bem. Mas veja: as crian­ças estão nervosas.

Parece até que aconteceu uma desgraça. Vamos nos acalmar. Depois conversaremos.

Gabriela olhou para eles com raiva. Por que o marido fora à pro­cura da mãe para se queixar ao invés de falar com ela, a esposa? Se ele tivesse feito isso, não teria de agüentar a sogra, que a fizera sair do em­prego mais cedo, afirmando que Roberto estava arruinado e à beira do suicídio.

Gabriela sentia ímpetos de expulsar a sogra, e fez um grande esfor­ço para se controlar, já-que seria pior se as crianças presenciassem mais uma cena. Estava pálida e nervosa. Voltou à cozinha para mexer nas pa­nelas, colocando o jantar para esquentar.

Roberto percebeu que Gabriela estava no auge da irritação. Conhe­cia-lhe aquele ar controlado, aquela palidez que sempre prenunciava tem­pestade. O que ele precisava fazer era afastar a mãe dali. Por isso, fê-la sentar-se na sala e procurou falar-lhe com calma, embora estivesse no limite da exaustão.

Mãe, arranjei um excelente advogado e tomamos algumas pro­vidências. É melhor se acalmar. Estou muito cansado e agradeceria se nos deixasse descansar. Quero tomar um banho, jantar e dormir. Ama­nhã irei à sua casa e conversaremos.

Georgina tinha lágrimas nos olhos ao responder:

- Você sabe que estou do seu lado! Sou sua mãe, e tudo quanto lhe acontece é como se fosse comigo.

— Eu sei, mãe. Lamento ter lhe dado preocupação. Vá para casa, descanse. Amanhã vou até lá e conto tudo nos mínimos detalhes.

— Você não vai fazer nenhuma besteira? Senti tanto medo!

— Não, eu juro. Estou calmo, está vendo? Pode ir sossegada.

— Está bem. Então eu vou.

Ela foi até a cozinha, despediu-se da nora e das crianças e saiu. Quando a porta se fechou, Roberto deixou-se cair em uma cadeira, exausto. Ainda lhe restava falar com Gabriela. Foi à cozinha, onde ela remexia as panelas.

— Sinto muito, Gabriela. Deu tudo errado.

De repente, toda a sua tensão desmanchou-se em uma catadupa de lágrimas que lhe desciam pelas faces e ele não conseguia conter. Gabrie­la olhou diretamente em seus olhos e disse com voz firme:

— Sei de tudo. Não precisa dizer nada. Vá para o quarto e contro­le-se. As crianças já foram muito traumatizadas hoje. Não agrave mais esta situação tão desagradável.

Roberto ficou indignado. Esperava que ela o confortasse. Vendo que as crianças reapareciam na cozinha, ele correu para o quarto, onde, a portas fechadas, deu vazão à sua frustração, à sua raiva, ao seu desen­canto, chorando copiosamente.

Depois, quando se acalmou, olhou-se no espelho e sentiu vergonha. Estava com os olhos vermelhos, inchados. Não podia aparecer assim dian­te das crianças. Tomou um banho, depois apagou a luz e deitou-se.

Gabriela entrou e informou que as crianças já haviam jantado e se recolhido.

— Você quer jantar?

— Obrigado, mas estou sem fome.

— Quer conversar?

— Só quero dizer que sinto muito o que nos aconteceu hoje. Estou arrasado, envergonhado. Você tinha razão. Por que não percebi nada?

— Vou buscar um calmante. Você precisa dormir, descansar.

— Não vai querer saber tudo que aconteceu?

— O principal eu já sei.

— Eu procurei um advogado. Ele me orientou e assumiu o caso. Va­mos ver o que podemos conseguir. Espero não ter que vender o depósi­to. Pode ter certeza de que farei tudo para sair desta encrenca.

— Está bem.

— Você não está zangada? Não me culpa?

— Melhor não falarmos nisso agora.

- Mas você está zangada. Eu sei que está.

— Estou me controlando. Chega de confusão. Outra hora, quan­do estivermos mais calmos, conversaremos.

— Eu quero que você me perdoe. Eu errei, fui ingênuo. Pus tudo a perder.

—Agora está tentando consertar. Está bem. Chega. Depois falare­mos. Estou cansada e quero dormir.

Roberto ainda tentou conversar, mas ela não quis ouvir. Deu-lhe o calmante e, graças a isso, ele logo adormeceu. Contudo, ela, deitada de costas a seu lado, sentia dentro do peito um desânimo e um vazio que, embora tentasse afastar, não ia embora e a impedia de relaxar e dormir.

 

Roberto passou os olhos pelo jornal, desanimado. Estava difícil. Ele não tinha profissão definida. Sempre trabalhara por conta própria. Não cursara nenhuma faculdade.

— Está cheio de pessoas com diploma universitário que não con­seguiram subir na vida. Vivem de um emprego que mal dá para se sustentarem — costumava dizer para justificar-se de haver parado de es­tudar quando acabou o primeiro ciclo. — Mais vale quem conhece o mercado, quem aprende na escola da vida.

Entretanto essa escola agora não estava sendo suficiente para con­seguir-lhe um emprego em que ganhasse o que precisava para sustentar a família.

O advogado ajudara-o, esforçara-se para controlar os credores, parcelando a dívida, tentando dividir o prejuízo. Mas pouco conse­guiu. O juiz já havia determinado, e os compradores dos apartamentos não quiseram nenhum acordo diferente.

Roberto teve mesmo de vender o depósito e ainda ficar com algu­mas prestações que teria de parar pelo menos durante cinco anos.

Ele reservou algum dinheiro para manter a família durante dois meses. Confiava em arranjar um emprego nesse período. Entretanto, já fazia três meses que estava sem trabalhar e, por mais economia que tivesse feito, essa reserva havia se acabado.

Roberto sempre se orgulhara de dizer que Gabriela trabalhava por­que gostava e que ele não precisava do dinheiro dela. Agora, no entan­to, estavam vivendo com o salário dela, e ele se sentia humilhado por ter de pedir-lhe dinheiro até para comprar o jornal ou ir cortar o cabelo.

Além disso, não estava conseguindo pagar as prestações do restan­te da dívida, e os credores estavam sempre cobrando, alguns até dizendo que ele os estava enrolando, já que morava em uma casa boa e poderia vendê-la.

Roberto ficava agoniado. A casa era a única garantia de sua família. Se a vendesse, para onde iriam? O aluguel de uma casa, mesmo mais mo­desta do que a sua, era caro, e ele, desempregado, como poderia pagar?

Resistia. Vender a casa, não. Pelo menos tinham onde morar sem pagar nada.

Olhou novamente o jornal, revendo os anúncios na esperança de encontrar alguma coisa. As empresas queriam currículo e experiência de pelo menos dois anos na área, e ele não tinha nenhuma dessas duas coisas.

Gabriela ajudou-o a montar um currículo que evidenciava sua ex­periência como gerente do depósito de construção. Graças a esse cur­rículo, algumas empresas o chamaram para entrevistas.

Entretanto, ao saberem que ele sempre fora proprietário e havia perdido tudo, não o escolhiam para a vaga. Desesperado, ele dizia à esposa:

— Acho que não deve escrever que eu era o dono. Como é que vão confiar em alguém que abriu falência? Vão pensar que não entendo nada do ramo.

Gabriela tentou reescrever o currículo, mas, para dizer que ele ha­via sido empregado, era preciso fornecer o nome das empresas nas quais ele havia trabalhado, e isso era impossível.

Roberto pensou em ser vendedor. Ele se considerava com talento para vendas, uma vez que foi negociando que arranjou dinheiro para mon­tar o depósito. Mas mesmo na área de vendas estava difícil. Não con­seguia nada. Se ao menos ele tivesse dinheiro para montar qualquer coisa por conta própria!

Gabriela tinha algumas economias. Já havia gasto uma parte, mas recusava-se a gastar o resto.

E se as crianças adoecessem? E se ele demo­rasse a encontrar um emprego? Não. Ela se sentia mais segura tendo al­gum dinheiro na caixa econômica.

Roberto não tinha coragem de pedir-lhe esse sacrifício, mesmo porque a importância era pequena e não daria para resolver seu pro­blema. O que ele precisava mesmo era arranjar um emprego. Mas como?

A campainha da porta soou e ele foi abrir. Era Georgina, que en­trou dizendo:

— Vim ver você. Fiquei preocupada. Ainda não arranjou nada?

— Está difícil, mãe. Não sei mais o que fazer.

— Se eu tivesse dinheiro, daria para você abrir outro negócio. Mas infelizmente seu pai me deixou quase sem nada. A pensão mal dá para comer. Se não fosse a ajuda de sua irmã, não teria como viver.

- Eu sei, mãe. Vou dar um jeito, não se preocupe. Uma hora o em­prego vai aparecer. Isso não pode ficar assim.

- Ainda se seu cunhado não fosse tão sovina, eu podia falar com Gina. Mas ele é tão mão-fechada que ela sua para conseguir dinheiro dele.

— Não vou incomodar a família. Eu arranjei esta encrenca e eu te­nho que dar jeito.

— Em todo caso, sei que Nando tem dinheiro guardado. Ganha bem leva vida boa. Você podia ir falar com ele, ver se ele arranja um empre­go para você na empresa em que ele trabalha.

— Não vou, mãe. Ele é cheio de pôse. Desde que casou com Gina nunca se chegou do nosso lado. Tem amigos ricos, freqüenta lugares de luxo. Não perde chance de dizer que quem não fez faculdade é ignoran­te. Eu sempre senti que ele não gostava do meu ramo de atividade. É metido a intelectual. Prefiro morrer de fome a ir pedir alguma coisa a ele. E, por favor, nem comente com Gina a minha situação. Não que­ro dar asa àquele pedante.

— Sua irmã já sabe de tudo. Sua falência saiu no jornal, todo mun­do ficou sabendo. Depois, orgulho não enche barriga. Pobre não pode ser orgulhoso. Quem precisa tem que ser humilde.

— Pois eu não sou. Posso pedir ajuda para qualquer um, menos para Nando. Depois, não fique dizendo que minha empresa faliu. Não gosto disso.

— Mas não foi o que aconteceu? Você tentou uma concordata, mas não conseguiu.

— Eu sei. Mas não precisa ficar repetindo isso. Está trovejando e eu vou recolher a roupa do varal.

— Que horror! Você precisa fazer isso? É serviço de mulher!

— Preciso e vou, senão vai molhar tudo. Já está seca.

Ele saiu rápido apanhando uma cesta e recolheu a roupa. Georgi­na olhava-o contrariada. Os primeiros pingos de chuva já estavam cain­do quando ele entrou colocando o cesto sobre a mesa da cozinha.

Georgina tinha lágrimas nos olhos quando disse:

- Meu filho! Que humilhação. Esse serviço deveria ser feito pela sua mulher.

Ele se irritou.

- Gabriela está trabalhando. Estamos vivendo do dinheiro dela, se quer saber. Se ela não estivesse trabalhando, não teríamos o que comer.

— Aquela Nicete antipática, assim que o dinheiro acabou, foi embora.

- Ela não foi embora, mãe. Nós não podemos pagar seu salário, então ela arranjou algumas casas para fazer faxina e garantir seu susten­to. Quando está, faz o serviço como sempre.

— Quer dizer que ela dorme aqui sem pagar nada? Está se aprovei­tando de você!

— Você está sendo maldosa. Ela chega cansada e ajuda Gabriela a fazer todo o serviço da casa.

— Aposto que Gabriela gostaria que você fizesse tudo.

— Eu estou aqui enquanto elas trabalham. Não sei fazer nada em casa, mas se soubesse faria.

Não tem nada de mais. É que não tenho jei­to para essas coisas. Nunca aprendi.

Georgina olhou penalizada para o filho.

— Não encontrou nada no jornal?

— Separei algumas coisas. Vamos ver — mentiu ele, na esperan­ça de que ela se contentasse e fosse embora.

— Vou conversar com alguns conhecidos para ver se arranjo algu­ma coisa.

— Mãe, preferia que não fizesse isso. Deixe comigo. Eu sou auto-suficiente, posso cuidar de tudo.

Ela deu de ombros, foi até a janela. A chuva forte caía do lado de fora, lavando a calçada.

— Preciso esperar a chuva passar.

Ele se resignou e perguntou:

- Vou fazer um café, você quer?

— Até isso você faz, agora?

Ele fingiu que não ouviu. Colocou a água na chaleira, apanhou o bule, colocou o pó no coador, apanhou as xícaras, o açúcar, colocando tudo sobre a mesa. Sentia vontade de gritar, de obrigá-la a sair mesmo na chuva. Por que ela tinha de ser assim tão irritante?

Controlou-se. Afinal, ela não tinha culpa por ele haver perdido tudo e estar naquela situação.

Era sua mãe, devia-lhe respeito e obediência.

Coou o café, serviu, tomaram em silêncio. Quando a chuva pas­sou e ela se foi, ele se deixou cair em uma cadeira, mergulhando a ca­beça entre as mãos. As lágrimas desceram sobre o rosto e ele as deixou correr livremente. Sentia-se arrasado. Por que a vida fizera aquilo com ele? Por quê?

Sempre fora honesto, cumpridor de seus deveres, trabalhador. Res­peitara todas as regras da sociedade, nunca fizera mal a ninguém. Pelo contrário, sempre que podia ajudava as pessoas. Por que Deus o estaria castigando? E se ele não conseguisse emprego? O que faria da vida? Odiava viver à custa da mulher. Era a humilhação máxima.

Enxugou os olhos. A chuva passara. Eram quase cinco horas, e ele precisava buscar as crianças. Fazia isso quando Nicete saía para traba­lhar. Foi ao banheiro e olhou-se no espelho.

Seus olhos estavam verme­lhos. Não podia sair assim. Procurou um colírio, pingou-o nos olhos, lavou o rosto, passou até um pouco de pó de arroz de Gabriela para encobrir o vermelho das pálpebras. Penteou os cabelos e saiu.

Quando ele voltou com os filhos, Nicete já estava na cozinha.

— Ainda bem que o senhor recolheu a roupa. Eu estava na casa da D. Zilda pensando nesse varal cheio de roupas. Fiquei com medo de que o senhor esquecesse.

Enquanto ela providenciava o jantar, Roberto entretinha os filhos. Eram quase sete horas quando Gabriela chegou. Olhou o rosto do ma­rido e notou logo que ele havia chorado. Ele fingia estar bem, brinca­va com as crianças. Contudo, podia enganar qualquer um, menos ela.

Se ao menos ele melhorasse o humor! Ela chegava cansada, mas não se importava de cuidar do bem-estar da família. O que a incomo­dava era o ar de vítima do marido.

Ela fazia o que podia, e sentia-se bem por poder colaborar nessa situação difícil. Mas ele sempre estava com um ar de insatisfação.

Claro que ela entendia que ele não podia estar feliz com uma si­tuação daquelas. Entretanto, de que adiantaria ele agravar mais as coi­sas fazendo cara de vítima? Isso a irritava muito. Nunca imaginara que o marido fosse tão frágil. Ele sempre se mostrara auto-suficiente, traba­lhando no próprio negócio, tomando decisões, parecendo saber sempre o que fazer. Por que mudara tanto?

Ser enganado por um malandro pode acontecer a qualquer um, mas entrar na depressão, ficar remoendo o caso, só agravava o proble­ma. Ela até pensava que ele não conseguia emprego por causa disso.

Uma colega dissera-lhe que, quando a pessoa está com energia ruim, tudo dá errado. A energia de Roberto estava horrorosa. Ela sen­tia isso. Não tinha vontade de ficar perto dele.

Quando ele se aproxi­mava, chegava até a sentir certa aversão. Por quê? Ela se casara por amor. Achava que amava o marido. Então, o que estava acontecendo com ela? O fato de Roberto estar atravessando uma fase ruim não a in­comodava. Ele era moço, saudável, tinha a vida toda pela frente. Ten­do construído um negócio próprio uma vez, poderia fazer isso de novo. Era só não entrar na lamentação.

Mas a cara dele era de tristeza. Ficava constrangido quando ela lhe dava dinheiro. Por que ela podia aceitar dinheiro dele quando ele tinha e ele não podia aceitar o dela, agora que ele precisava?

Mulher prática, Gabriela não podia compreender por que Rober­to fazia tanto drama. O clima em casa era pesado, ele estava sempre abor­recido, calado. Quando falava, era sempre para se queixar. Ela estava ficando cansada daquela situação. Afinal, pensava, ninguém é de fer­ro.

Trabalha, trabalha, e em casa não tem nenhuma alegria? Até quan­do suportaria?

Fingiu não perceber e tratou de fazer o jantar enquanto Nicete cui­dava da roupa. O cesto de passar estava lotado.

Serviu a comida, lavou a louça, viu a lição de Guilherme. Tomou banho, mandou as crianças dormir. Nicete continuava passando roupa.

— Você deve estar cansada. Passe as que vamos precisar e deixe o resto para outro dia.

— Não, senhora. Amanhã aparece mais e eu nunca vou acabar. Não vou poder dormir pensando neste cesto cheio.

— Faça como quiser. Eu vou dormir.

— Se eu deixar o rádio ligado baixinho, não vai incomodar? A música me distrai e nem sinto o tempo passar.

— Não. Para falar a verdade, eu também gostaria de deitar e ficar ouvindo música. Mas Roberto anda com o sono difícil. Se eu deixar o rádio ligado, ele não vai conseguir dormir.

— O Seu Roberto anda muito nervoso. Hoje quando eu cheguei ele estava com uma cara...

Para mim foi conversa da D. Georgina. Quando eu virei a esquina, vi que ela estava saindo.

— Tem certeza de que era ela mesma?

— Tenho.

Gabriela suspirou. Então era isso. Ela com certeza fizera Roberto sentir-se mais atormentado do que o costume. Se ao menos ela os dei­xasse em paz!

— Infelizmente, não posso fazer nada. Não quero me meter no re­lacionamento deles. Evito o quanto posso envolver-me com ela.

— Eu garanto que ela tirou o Seu Roberto do sério. Ele já anda tão triste com a situação...

— Tristeza não resolve. O que ele precisa é tomar uma atitude mais séria.

— Ele tem se esforçado, D. Gabriela. É que a situação anda difícil. Cada dia que passa tem mais gente desempregada.

— Ainda bem que você é minha amiga e tem me ajudado. Estou anotando o que devo para você, e assim que as coisas melhorarem pa­garei tudo. Não sei o que faria sem seu apoio.

— Eu me sinto bem aqui. Enquanto me quiser, ficarei.

— Por mim você fica o resto da vida.

— Se não fosse o dinheiro que preciso mandar para minha mãe todo mês, eu nem ia trabalhar fora. Não gosto de ver a senhora chegar can­sada e ainda ter que trabalhar tanto em casa.

— Você é uma moça tão prestimosa, tão boa. De repente aparece alguém e você acaba casando, nos deixando.

— Isso não vai acontecer, não. Já dei muita cabeçada na vida. Gos­to de namorar, arranjo distração, mas nunca mais quero morar com ho­mem nenhum. Chega o que já passei. Comi o pão que o diabo amassou.

Gabriela sorriu. Nicete era objetiva e direta. Não se deixava levar por ninguém. Era uma mulher forte, prática, sabia o que queria.

— Você pode se apaixonar de novo!

— Apaixonar até que é bom! Não tenho nada contra, não. Mas mo­rar junto é que não. No amor eu quero a melhor parte, que é o namo­ro, quando tudo é bonito, gostoso. Juntou as camas, pronto: começa a confusão. Já tenho quarenta anos, sou solteira, livre. Enquanto o namo­ro está bom, eu fico; quando começa a azedar, eu puxo o carro.

— Se você fosse casada, se tivesse filhos, não faria isso.

— Faria, sim. Filho meu, se fosse pequeno, levaria comigo; se fosse crescido; ia ter que escolher de que lado ia ficar. Não tem papel no mun­do que me faça ficar amarrada a uma pessoa que está me incomodando.

— Você é corajosa.

- Sou. Enfrento o que vier na vida. Tenho disposição. Quando eu larguei do Albino e vim trabalhar aqui, eu estava um lixo. Magra, acaba­da, cansada, desiludida, de tantas que ele me fez.

Eu jurei que nunca mais homem nenhum iria fazer isso comigo de novo. E não faz mesmo. Eu amava muito o Gilberto, moreno, bonitão, dançava que era um gosto. Quando eu ia com ele no salão, as outras ficavam com olho comprido que a senhora tinha que ver. Mas, quando percebi que ele estava me fazendo de boba com a Marli, dei a volta por cima. Despachei o Gilberto na hora.

Mas você não gostava mais dele?

— Eu amava muito. No começo sofri como um cão. A Ofélia me disse que eu era boba, que ia deixar ele livre para ficar com a Marli. Que eu deveria segurar ele de qualquer jeito. Mas eu não ouvi mesmo. Fiz o que eu queria. Mas aí aconteceu uma coisa engraçada. Ele, que já andava cheio de dedos comigo, arranjando desculpas para não sair, mu­dou. Nunca mais quis ver a Marli. Ficou atrás de mim, não dava sosse­go, olha, até me incomodou.

— Então você o perdoou.

— Que nada! Quando aconteceu isso, enjoei dele. A paixão aca­bou. Ele não se conforma até hoje. Quando passo com o Mário, ele fica olhando, com aquele olho comprido... Eu faço de conta que nem per­cebo. O Mário sabe que nós já namoramos e fica nervoso quando vê ele.

Gabriela riu.

— Todas as mulheres deveriam aprender com você. Você gosta mesmo de Mário? Não está com ele só para fazer ciúme a Gilberto?

       Não. Eu gosto mesmo do Mário. Ele me compreende e sabe na­morar como ninguém.

       Enquanto estiver bom, eu fico com ele.

       Gabriela olhou para Nicete, dizendo:

- Você me fez relaxar com suas histórias. Eu estava muito tensa. Obrigada.

       - Eu notei. Sabe, D. Gabriela, não leve a vida tão a sério. Tudo pas­sa neste mundo. Logo Seu Roberto arranja trabalho, fica mais alegre, tudo melhora. O segredo da felicidade é escolher a comédia e largar o drama. Se a senhora soubesse como eu tenho vontade de rir quando vejo a D. Georgina disfarçando e xeretando nas gavetas para descobrir alguma coi­sa errada! É duro segurar.

       Ela fica com uma cara tão engraçada!

— Tem hora que eu sinto vontade de pô-la daqui para fora. Mas respeito por causa de Roberto.

- Experimente olhar para ela e ver como ela é engraçada! Garan­to que a raiva vai embora.

Agora, o duro é segurar o riso.

Gabriela sacudiu a cabeça dizendo:

— Nicete, você não existe! Achar D. Georgina engraçada quan­do ela é irritante, só você mesmo.

- Experimente fazer isso, D. Gabriela. De que adianta se irritar se não pode fazer nada, se tem que viver perto dela por causa do Seu Ro­berto? Se poupe, D. Gabriela. Cuide da sua saúde, da sua paz. Faça dela uma piada e verá que a implicância desaparece. Agora, eu até gosto quando ela chega, só para ter o gostinho de ver a cara que ela faz quan­do não consegue achar nada errado.

- Gostaria de ser como você. Vive de bem com a vida.

- A vida é boa mesmo, mas tem muitos lados para se ver. Depen­de de que lado você se põe.

Eu repito: prefiro a comédia do que o dra­ma, e isso sempre me ajudou. Até no cinema, na televisão, no rádio, eu prefiro o que é engraçado, alegre e me dá disposição.

— Você gosta de história de amor, que eu sei.

- Gosto muito. Mas às vezes me irrita quando a mocinha é bobona, sofre sem reagir. Não gosto de gente fraca.

- Eu também não. As vezes você se engana com as pessoas. Pensa que elas são fortes e se decepciona quando elas mostram que são fracas.

- Ninguém é fraco, D. Gabriela. Todo mundo tem força, só que amolece, quer tudo fácil, espera que os outros façam as coisas para eles e acabam esquecendo que têm. Mas a força continua lá. Quando a vida provoca, quando cria uma situação dura, uma doença, um aci­dente grave, a pessoa encontra ela rapidinho. Lembra da Cleide? Ela vivia se queixando, sempre pendurada no marido, dizia que era doente, fraca, que não podia fazer nada dentro de casa. O coitado chegava cansado do trabalho, ainda tinha que fazer a janta. Quando desabou aquele armário em cima do filho dela e o menino ficou preso embai­xo, ela estava sozinha. Quando os vizinhos chegaram, ela já tinha ti­rado o menino. Ninguém sabe onde ela àrranjou força para levantar um armário tão pesado. Olha que depois precisaram de dois homens para colocar ele no lugar.

— Sempre me perguntei como uma mulher tão fraca tinha conse­guido fazer aquilo!

— É que de tanto se fazer de fraca a pessoa acaba acreditando que é mesmo. Mas é só uma ilusão. A força está lá. E só puxar para fora que ela vem. E por isso que eu não gosto de gente que se faz de fraca. E tudo mentira, só para você fazer as coisas que elas querem. Quando você não entra na ilusão delas, ficam contra você. Af, tome cuidado: mesmo com toda a fraqueza, elas mordem para valer.

- Você está certa. É isso mesmo.

— Eu tenho meu modo de ver e nunca me arrependi. Levo a vida como eu gosto.

Gabriela sorriu e sacudiu a cabeça concordando.

— Vou dormir. Boa noite.

— Boa noite, D. Gabriela.

Quando ela entrou no quarto, percebeu que, apesar de estar com os olhos fechados, Roberto não estava dormindo. Lavou-se, vestiu a ca­misola e deitou-se.

Ele tentou abraçá-la, ela virou de lado, fingindo não perceber. Es­tava cansada e indisposta. Não queria ouvir mais nenhuma queixa. Ele passou o braço em volta dela, dizendo:

— Você está muito cansada?

— Estou. Amanhã terei que levantar muito cedo e adiantar algu­mas coisas antes de sair.

Ele suspirou angustiado.

— Tenho a impressão de que está me evitando. Reconheço que não estou sendo boa companhia. Tenho andado angustiado.

Ela suspirou resignada.

— É impressão sua.

— Não é, não. Você está me evitando. As vezes penso que está com raiva de mim, me olha de um jeito...

— Você está enganado.

— Sei que errei, fui ingênuo, me deixei levar por aquele safado. Mas, que diabo, não foi de propósito. Não arranjei emprego ainda. Está difícil porque não tenho profissão definida, mas estou tentando de to­das as formas.

— Sei disso. Não o estou culpando de nada.

— Você não fala, mas eu percebo que no fundo você está me cul­pando. Isso me derruba.

Gabriela tentou controlar-se. Era quase uma da madrugada. Ela te­ria de se levantar às seis.

Precisava dormir pelo menos algumas horas para ter disposição. Ter boa aparência, ser agradável, fazia parte de suas fun­ções como secretária. Quis contemporizar:

— Você está nervoso e imaginando coisas. Vamos dormir, que é tarde.

— Nunca pensei que você fosse agir assim. Enquanto eu tinha di­nheiro, você me tratava com atenção e carinho. Agora que estou por baixo, precisando do seu apoio, você mal fala comigo. O que foi, dei­xou de gostar de mim?

Foi a gota d’água. Gabriela sentou-se na cama, acendeu a luz do aba­jur e encarou o marido, dizendo com raiva:

— Estou querendo evitar uma discussão, mas já que insiste é bom saber. Não é a falta de dinheiro que me incomoda. O que me irrita mes­mo é ver você se queixando o tempo todo, como se fosse um homem deficiente, incapaz. Por mais que eu tente ajudar, você está sempre com essa cara de vítima, como se o mundo fosse uma tragédia e você não pu­desse fazer nada para sair dela.

Apanhado de surpresa, Roberto enrubesceu.

— Não posso estar feliz atravessando uma crise destas.

— Se não pode sentir-se feliz, pelo menos finja, porque eu, as crian­ças e até Nicete temos o direito de viver em um lugar agradável. Onde está sua força? Onde está o homem que abriu caminho na vida, fez seu próprio negócio, construiu duas casas?

— Como queria que eu ficasse depois do que aconteceu?

— Queria que mostrasse sua capacidade não ficando com essa cara compungida, implorando nossa piedade, para ganhar nossa estima, ten­tando apagar a própria sensação de culpa. Seu orgulho é tanto que não pode admitir sinceramente que caiu no conto do vigário, como qualquer pessoa?

— Você está me arrasando.

— Não. Eu estou falando a verdade. Ela dói, mas é bom que perce­ba o quanto está se rebaixando com essa atitude. O que passou já foi. Ago­ra, é tentar começar de novo, batalhar com coragem. Mas você não es­quece o que aconteceu. Fica pensando nisso todo momento, se lastiman­do, se afundando na depressão. Como arranjar trabalho desse jeito? Quem vai confiar em sua competência quando nem você acredita nela?

— Você está sendo cruel.

— Foi você quem provocou. Eu não queria dizer nada.

- Bem se vê que eu tinha razão. Você estava com raiva mesmo.

— Estava. Você está agravando a situação.

— Está decepcionada comigo. Não sou o que você esperava.

— Se quer continuar falando dessa forma, vamos parar por aqui. Vamos dormir. Tenho que levantar às seis.

— Não precisa me lembrar que agora você sai cedo e eu fico em casa, podendo dormir até mais tarde.

Gabriela franziu o cenho irritada.

— Sabe de uma coisa? Não dá para conversar com você. Vou dor­mir no sofá, no quarto das crianças.

Apanhou o travesseiro, algumas cobertas no armário e saiu deter­minada. Roberto teve um ímpeto de ir atrás dela, mas desistiu. Não queria fazer uma cena e acordar as crianças. Apagou o abajur e tentou dormir. Sua cabeça doía e ele sentia-se oprimido. Por que acontecera aquilo com ele, por quê?

As lágrimas desceram pelo seu rosto e ele as deixou correr livremen­te. Não percebeu que alguns vultos escuros se aproximaram dele, envol­vendo-o. Sentiu aumentar sua angústia enquanto pensamentos tristes o acometiam:

“Ela não me ama! Nunca me amou. Vivi enganado todos estes anos! Se ela me quisesse, agiria diferente agora que eu estou no chão. Nunca pensei que a mulher que eu amo, a mãe dos meus filhos, a quem sem­pre fui sincero e respeitei, me tratasse desse jeito. Minha mãe tem razão. Ela é uma mulher muito independente. Vai ver até que está gos­tando de outro! Sei lá, naquele escritório, com tantos homens de dinhei­ro, podendo darem-se ao luxo de serem amáveis o tempo todo. Vai ver até que ela mudou porque já arranjou outro!”

A esse pensamento, Roberto trincou os dentes com raiva. Por que a deixara trabalhar fora? Se a tivesse obrigado a deixar o emprego quan­do se casaram, ela estaria dentro de casa, como deve ser uma esposa.

Ele estava tão envolvido pelas energias escuras que o circundavam que nem considerou que, se ela não estivesse empregada, eles estariam passando fome. Ele só tinha olhos para seu ciúme, sua revolta, sua dor.

Ficou revirando na cama sem conseguir dormir. Ouviu quando Ga­briela se levantou, foi para a cozinha preparar o café e pôr tudo na mesa da copa, como fazia todas as manhãs antes de sair para o trabalho. Não teve coragem de se levantar. Deixou-se ficar, imerso em seu desespero, sem vontade de fazer nada.

Ouviu quando ela saiu e só então se levantou. As crianças ainda dormiam. Ele se lavou e foi para a cozinha. Nicete estava na lavande­ria colocando roupa na máquina de lavar.

Encheu de café a xícara e sentou-se. Estava sem fome. Sua vida es­tava acabada. Mesmo que ele arranjasse um emprego, como esquecer a atitude de Gabriela? Ela não compreendia sua dor.

Como ele poderia sorrir, ficar alegre, na situação em que se encontrava?

“É na hora da necessidade que se conhecem as pessoas”, pensou ele. “Se ela me amasse, não me negaria conforto nesta hora.”

Nicete entrou na cozinha, olhou para o rosto abatido de Roberto. Gabriela dormira no quarto das crianças, por certo eles tinham briga­do. Fingiu não notar nada. Não gostava de se meter na vida de ninguém.

Roberto, vendo-a entrar, pensou:

“Gabriela e Nicete se dão muito bem. Elas conversam como ami­gas. Se Gabriela estiver me traindo, Nicete deve saber. Pode ser até que a ajude a encobrir. As mulheres se entendem nessas coisas.”

Lançou um olhar desconfiado para Nicete, que lavava louça na pia. Você não vai trabalhar fora hoje?

— Só à tarde. Vou passar roupas na casa da D. Veridiana. Vou adiantar o serviço aqui, fazer almoço, deixar tudo arrumado, levar as crian­ças para a escola. Só não posso ir buscar. O senhor pode ir?

— Sim, pode deixar.

— Quero deixar tudo arrumado, assim D. Gabriela não vai preci­sar fazer nada quando chegar.

— Ela anda muito irritada ultimamente.

- Isso passa. Todos temos esses altos e baixos.

— Ela está muito mudada, você não acha?

— Não, senhor. Está como sempre foi. Só um pouco cansada. Que­ro dar um jeito de fazer ela descansar mais.

— Ela não aceita nossa situação.

— D. Gabriela é uma mulher muito corajosa. Está fazendo o que pode para ajudar.

— Vocês se entendem muito bem, não é? São muito amigas.

— Sim, senhor. Gosto muito de trabalhar aqui.

       — Ela fala com você sobre o que acontece no escritório? Não, senhor. Por que me pergunta isso?

— É que eu pensei que ela pudesse contar como são as coisas lá. Afinal, vocês conversam tanto...

Nicete olhou séria para ele. Por que estaria lhe fazendo aquelas perguntas? O que estava querendo saber?

— D. Gabriela não me faz de sua confidente, se quer saber. Eu éque às vezes conto meus problemas para ela.

— Seria natural que ela contasse os dela para você.

— Mas ela não conta, não.

Ele não disse mais nada. O tom de Nicete não o animava a pros­seguir. Se ela soubesse de algo, ele iria precisar de toda a astúcia para descobrir. Ela era esperta e parecia disposta a não contar nada.

— Vou comprar o jornal.

— Eu trouxe quando fui comprar o pão. Está na mesa da sala.

Roberto foi apanhá-lo. Tinha de arranjar alguma coisa para fazer. Não podia ficar de braços cruzados enquanto sua vida conjugal estava sendo arrasada. Depois, tinha dignidade. Não podia continuar vivendo à custa da mulher. Fora por causa disso que ela perdera o respeito e lhe dissera todas aquelas coisas. Tinha de mostrar a ela que ele era compe­tente para sustentar a família e não precisava mendigar o dinheiro dela. Depois da cena da noite anterior, ele não iria mais aceitar um centavo dela. Teria de dar um jeito, fazer qualquer coisa para conseguir pelo me­nos algum dinheiro para suas despesas e não precisar lhe pedir nada.

Até então estivera procurando um emprego que lhe desse con­dições de manter a família no mesmo padrão a que se habituara. Mas, naquela circunstância, aceitaria qualquer coisa, contanto que não pre­cisasse pedir mais dinheiro à esposa.

Tinha seu orgulho e não abria mão dele. Decidido, abriu o jornal e começou a ler todos os anúncios, sem distinção. Anotou alguns que lhe pareceram melhores.

Procurou Nicete:

— Vou sair agora.

— O senhor vem para o almoço?

— Acho que não.

— Mas vai buscar as crianças na escola.

— Vou. Pode deixar.

Ele saiu e colocou a mão no bolso. Tinha apenas alguns trocados. Mordeu os lábios com raiva.

Tinha de dar pelo menos para a condução. Era uma vergonha. Ele que sempre fora honesto, trabalhador, esforça­do, ficar reduzido àquela miséria.

A vida era perversa, injusta. Enquanto ele, que sempre fora esfor­çado, correto, estava passando necessidade, Neumes, o ladrão, com cer­teza estava levando uma vida boa. A polícia não valia nada, uma vez que não tomara nenhuma providência para encontrá-lo. Cada vez que ia à delegacia, ouvia sempre a mesma coisa: eles estavam procurando, mas o engenheiro havia desaparecido. Suspeitavam até que ele havia saído do Brasil.

Roberto passou a mão pelos cabelos como para afastar os pensamen­tos desagradáveis. Por que a vida o tinha castigado tanto? Nem a mu­lher o respeitava mais.

Claro, ele estava por baixo. Ela tinha de sustentá-lo. Como Gabrie­la iria amá-lo vendo-o como incompetente, incapaz de manter a famí­lia? O amor vem com a admiração, pensava ele. As mulheres só amam o homem que podem admirar. E ele estava a zero. Até na cama ele ha­via fracassado na última semana. Isso nunca lhe acontecera. Fora a hu­milhação máxima.

Quanto mais Gabriela tentava justificar dizendo que ele estava muito tenso, preocupado e que nessas circunstâncias era normal acon­tecer, mais ele se sentia arrasado.

Ela estava diferente. Talvez não o amasse mais. E se estivesse apai­xonada por outro? No escritório em que ela trabalhava havia muitos executivos, elegantes, de bem com a vida, com belo carro, boas roupas, podendo oferecer a ela uma vida melhor.

Ela fizera bastantes horas extras naquele mês. Ganhara bom di­nheiro, inclusive um prêmio, com o qual pagara a escola das crianças. Teria feito horas extras mesmo ou teria saído com alguém?

Ela sempre fora uma mulher séria, mas agora, na situação em que se encontravam, bem poderia ser tentada. Apesar de tudo, andava bem arrumada, perfumada, vestia-se bem. O dinheiro do trabalho da­ria para tudo?

Enquanto esperava no saguão de uma fábrica, Roberto não conse­guia desviar o pensamento de Gabriela. Havia preenchido uma ficha e quando foi chamado informaram-lhe que o único cargo que seria pos­sível para ele era o de faxineiro. Roberto achava que tinha capacidade para fazer algo melhor, mas engoliu o orgulho e prontificou-se a acei­tar. Mas disseram-lhe que sua ficha ficaria à espera de uma vaga no se­tor, porque naquele momento o cargo já estava preenchido.

Desanimado, ele saiu e foi aos outros endereços, mas era sempre a mesma coisa. Mesmo aceitando qualquer serviço, ele não conseguiu nada. Estava esperando a vez de ser atendido pelo gerente em um de­pósito de construção. Ele conhecia o ramo, estava esperançoso. Con­sultou o relógio e percebeu que não podia esperar mais. Tinha de bus­car as crianças na escola.

Olhou o número de pessoas que aguardavam e resolveu ir embora. Não ia dar para esperar.

Tanta gente para uma vaga. Com a sorte que ele estava, não iria dar certo mesmo.

Saiu dali e foi para o ponto de ônibus. Não iria contar a ninguém que nem para faxineiro conseguira emprego. Ele, que fora dono do pró­prio negócio! Se Gabriela soubesse, seria vergonhoso. Sentia o estôma­go enjoado e a cabeça doía fortemente.

De repente, sentiu-se tonto e segurou-se no poste para não cair. Lembrou que não havia almoçado. O dinheiro não dava nem para um sanduíche. Respirou fundo. Tinha de pegar as crianças. Felizmente o ônibus chegou Logo e ele subiu, deixando-se cair em um banco tentan­do conter o mal-estar.

Subitamente teve sua atenção voltada para um carro de luxo que passava. Dentro havia um casal, e Roberto reconheceu Gabriela. Seu coração descompassou e ele sentiu sua vista nublar. O carro parou no farol, o ônibus também, e ele imediatamente desceu, tentando aproxi­mar-se do carro. Queria surpreender os traidores. Porém, antes que ele conseguisse seu intento, o farol abriu e o carro seguiu adiante.

— Parem, eu estou vendo vocês! Parem! — gritou ele.

Sem poder conter a emoção, sentiu tudo girar à sua volta e perdeu os sentidos, ficando estirado no asfalto.

Confusão, buzinas, Logo Roberto foi cercado por curiosos que que­riam descobrir o que estava acontecendo com ele. Finalmente apareceu um policial que, ajudado por algumas pessoas, colocou-o na calçada.

— Melhor chamar uma ambulância sugeriu um homem. — Ele está pálido, parece morto.

       — Vai ver que está bêbado                      disse uma mulher.

       — Não. Bêbado não está. Não cheira a álcool disse outra.

Um homem apareceu com um copo de água, dizendo ao policial:

— Vamos ver se ele consegue beber.

Alguém levantou a cabeça dele enquanto outra pessoa aproxima­va o copo de seus lábios.

Chegou um moço que imediatamente tomou o pulso de Roberto e disse ao policial:

— Sou médico. Abram espaço, ele precisa de ar. Está desmaiado. Enquanto falava, foi tirando a gravata e abrindo o colarinho da ca­misa. Imediatamente as pessoas abriram o círculo, olhando para o moço com respeito. Ele friccionou os pulsos de Roberto, fez com que se sen­tasse, pediu para um dos presentes segurar suas costas. Alguém trouxe uma cadeira e conseguiram fazê-lo sentar. De repente ele respirou fun­do e abriu os olhos, olhando assustado para as pessoas à sua volta.

— Respire fundo — disse o médico.

— Estou tonto, enjoado.

— Vai passar. Baixe a cabeça assim.

Aos poucos, Roberto foi se recuperando. Ficou envergonhado.

— Sente-se melhor? — indagou o médico.

— Sim. Obrigado. Preciso ir pegar meus filhos na escola. Acho que não vai dar tempo.

Tentou levantar-se, mas não conseguiu manter-se em pé.

— Não pode sair desse jeito.

— Tenho que ir.

— Onde é essa escola? — indagou uma mulher.

Roberto informou o endereço. Ficava distante.

— Minha mulher está trabalhando e é minha vez de pegar as crian­ças. Tenho que ir de qualquer jeito.

— Eu vou por aquêles lados, posso deixá-lo na escola. Sei onde é — disse o médico. — Vamos. Meu carro está no estacionamento em frente.

— Obrigado, doutor — disse Roberto. — Não sei como agradecer.

Sentado no carro ao lado do médico, ele não se conteve:

— O senhor está me prestando um grande favor.

Ele sorriu.

— Não custa nada. Vou para lá mesmo.

— Estou com vergonha. Foi a primeira vez que desmaiei.

— Não se envergonhe. Acontece a qualquer um.

— Quando vi minha mulher naquele carro, ao lado de outro ho­mem, não suportei — disse, fechando os punhos e tentando segurar as lágrimas.

— As vezes a gente se engana. Tem certeza de que era ela?

— Estava com um vestido novo, mas eu sei que era ela. Desde que perdi tudo, ela ficou diferente. O que eu temia aconteceu. Ela arran­jou outro.

— O ciúme é mau conselheiro. Não se deixe levar por ele.

— Como não ter ciúme? Gabriela é linda, exuberante, sensual. Eu estou desempregado, sem dinheiro.

— Vai ver que está sem comer.

— Sim, estou. Mas não podia pedir dinheiro para ela. Chega de humilhação.

O  médico deu ligeira olhada para Roberto e tornou:

— Ela não aceitou seu dinheiro desde que se casaram?

— Isso é diferente. O papel do homem é esse.

— A responsabilidade da família é dos dois. Quando um preci­sa, o outro ajuda. Não é nenhuma humilhação aceitar o dinheiro de sua mulher.

— Não depois do que eu vi hoje. Se não fosse pelos meus filhos, eu nem voltava para casa.

— Você não está bem. É provável que tenha se enganado. Não era sua esposa que estava naquele carro, mas uma mulher parecida com ela.

— Era ela. Eu vi. Depois, ela tem feito muita hora extra, voltado para casa mais tarde, tem trazido mais dinheiro.

— Está se esforçando para ajudar a família. Estão casados há quan­to tempo?

— Oito anos.

— É bastante tempo. Ela alguma vez lhe deu motivo para descon­fiar do seu procedimento?

— Até agora, não. Mas naquele tempo as coisas eram diferentes. Eu tinha um negócio próprio, dinheiro para tudo. Insistia para que ela não trabalhasse mais. Eu não queria que ela trabalhasse fora. Mas ela não concordou.

— Ela gosta de sentir-se independente, ter seu próprio dinheiro.

— Era isso que ela dizia. Mas agora ela mudou, tem estado diferen­te, impaciente, não me olha mais como antes. As vezes tenho impres­são de que ela está me evitando.

— Vocês estão atravessando uma situação ruim. Ela pode estar cansada, preocupada.

— E eu, será que ela não pensa em como eu estou me sentindo? Nunca precisei pedir dinheiro a ninguém, e agora estou sendo susten­tado pela mulher.

— Essa é uma fase passageira. Logo encontrará emprego, tudo vol­tará a ser como antes.

— Depois do que vi hoje?

— Não se precipite. Não tome nenhuma decisão no estado de de­pressão em que se encontra.

— Não sei se poderei suportar.

— Você pode estar cometendo uma grande injustiça. Não agrave uma situação que já está difícil.

— Acha que devo passar por cima de uma traição? O que julga que eu sou?

— Você nem sabe ao certo se era ela quem estava naquele carro. E depois, o que você viu?

Os dois sentados, cada um no seu lugar. En­trar em um carro com um homem não significa que uma mulher seja sua amante. Esfrie a cabeça e não faça nada sem confirmar sua versão. A escola deve ser por aqui.

— É naquela casa amarela. Puxa, chegamos cedo. As crianças ain­da não saíram. Obrigado.

Nem sei como agradecer.

- Não precisa. Olhe, fique com meu cartão. Meu consultório é per­to daqui. Você está precisando de cuidados. Vá até lá e vamos cuidar da sua saúde.

— Não tenho me sentido bem mesmo. Não durmo à noite, tenho falta de ar, angústia. Quando arranjar emprego, irei.

— Nada disso. Vá o quanto antes. Terei prazer em recebê-lo e não vou lhe cobrar nada. Sinto que é um homem de bem e gostaria de aju­dá-lo. Não se acanhe. Precisa estar bem, com disposição, para conseguir arranjar trabalho. Com a energia que está, não vai conseguir. Precisa me­lhorar. Vá até lá amanhã à tarde e conversaremos.

— Está bem, doutor. Irei. Nem sei como agradecer.

— Não se incomode. Olhe, as crianças começaram a sair. Até amanhã.

— Até amanhã.

Roberto desceu do carro, fechou a porta e acenou um adeus. De­pois olhou o cartão e leu: Dr.

Aurélio Dutra, médico psiquiatra.

Meneou a cabeça. Era bem o que ele estava precisando: um médi­co de loucos. Ele estava enlouquecendo. A rua ficava poucos quartei­rões adiante e ele resolveu que iria mesmo no dia seguinte. As crianças estavam saindo e ele imediatamente foi ao encontro delas.

 

Na tarde seguinte, Roberto foi procurar o consultório do Dr. Au­rélio. Ele não conseguira pregar olho a noite inteira. A cena do carro pas­sando com Gabriela ao lado de outro homem não lhe saía da cabeça. Ela chegou em casa usando um vestido diferente do que ele vira no carro, mas era bem possível que ela houvesse trocado de roupa no escritório.

Disfarçadamente ele perguntou se ela havia ido fazer algum servi­ço fora naquela tarde.

— Não. Houve uma reunião de diretoria e não pude sair nem para tomar lanche. Foi um dia cheio.

Ela está mentindo, pensou ele. Mas resolveu não comentar que a havia visto, preferindo investigar primeiro. O médico tinha razão: ele precisava obter mais provas. Tinha tempo de sobra para segui-la e con­firmar suas suspeitas. Entretanto, o ciúme incomodou-o e ele não con­seguiu tirar da lembrança aquele carro com ela dentro. Enquanto Ga­briela dormia tranqüila, ele se revirava na cama, angustiado, sofrendo, sentindo-se fracassado e sem estímulo para viver.

Pela manhã, Nicete não se conteve:

— Credo, Seu Roberto, o senhor parece um defunto! Emagreceu, tem olheiras... Desse jeito vai arranjar uma doença.

Ele olhou irritado para ela.

- Como posso estar bem, com minha vida virando de cabeça para baixo? Esse seu palpite era desnecessário.

— Desculpe. Não quis ofender. Mas o senhor precisa se alimen­tar melhor, tratar da saúde...

Não falei por mal. As crianças precisam do senhor.

- Está certo. Não fosse pelas crianças, eu já teria sumido.

— Não diga isso. Se D. Gabriela ouvisse, ficaria muito triste.

— Ela já saiu. Posso falar a verdade.

— É melhor tomar seu café. Olha, eu trouxe aquele pão que o se­nhor gosta. Trate de comer bem e esfriar a cabeça. Logo tudo vai mu­dar, entrar nos eixos, o senhor vai ver. Tem café na térmica, e o leite da jarra ainda está bem quente. Hoje eu mesma vou buscar as crianças.

— É bom mesmo. Tenho um compromisso no fim da tarde.

Ele queria ir ao consultório depois do horário de consulta, para não atrapalhar o médico, que ia atendê-lo de graça.

Quando chegou, a sala de espera estava vazia e o Dr. Aurélio aten­dia ao último cliente.

Roberto apresentou-se à recepcionista e pediu para falar com o médico.

— É consulta?

— Não sei. Ele me deu o cartão e pediu que eu viesse aqui hoje.

— Sei. Tudo bem. Sente-se. Ele está atendendo.

— Obrigado.

Roberto sentou-se e passou os olhos pela sala mobiliada com gos­to e luxo.

— Qual é o preço da consulta?

— Duzentos reais.

Ele engoliu em seco. Nas circunstâncias em que se encontrava, pa­recia-lhe uma fortuna.

- Tudo isso? — deixou escapar sem querer.

— É que ele fica mais de uma hora trabalhando com o cliente. O Dr. Aurélio é conceituado, um dos melhores em sua especialidade. É mui­to procurado.

Roberto sentiu-se acanhado. Não devia ter ido. Levantou-se. O melhor era ir embora. Mas naquele instante a porta da sala do médico se abriu, e ele apareceu com uma senhora.

— Até terça-feira, doutor — disse ela. — Obrigada por tudo. Até — disse ele sorrindo.

Vendo Roberto em pé, indeciso diri­giu-se a ele, dizendo

— Olá! Como vai? Estava pensando em você. Va­mos entrar.

Envergonhado, Roberto entrou e o médico fechou a porta.

— Ainda bem que veio. Sente-se. Vamos conversar.

- Obrigado. Vim porque me pediu. Não vou me demorar. Não quero tomar seu tempo. Sei que é muito ocupado.

Aurélio olhou para ele e não respondeu de imediato. Roberto es­tava constrangido.

— Você não deseja melhorar? Não confia que eu possa ajudá-lo?

— Não é isso! Pelo contrário. Sei que é muito bom profissional. Aliás, nota-se pela sua maneira segura de falar, pela sua postura. O que eu sinto é que não tenho como retribuir sua atenção. Já fez muito por mim ontem.

— Você está constrangido só porque não tem dinheiro para pagar a consulta?

— Bem, isso realmente me incomoda. Afinal o senhor é um pro­fissional competente, estudou anos e merece ser pago pelo seu trabalho.

Aurélio sorriu e considerou:

— Como você é orgulhoso! Pensando assim, não conseguirá me­lhorar sua vida nunca.

— Estou dizendo a verdade. Não é por orgulho, não.

- Você pensa que ter dinheiro é sua maior qualidade e que sem ele não é nada?

— Estou habituado a pagar minhas contas.

— Não estou lhe cobrando nada.

— O que de certo modo me deixa com a sensação de estar me aproveitando da sua boa vontade.

— Engano seu. Julga-me ingênuo a ponto de ser usado pelas pes­soas sem perceber?

Roberto assustou-se:

— Não... não quis dizer isso.

— Pois foi o que me pareceu. Sou um estudioso da vida, dos nos­sos comportamentos.

Descobri que somos nós que, com nossas atitudes, atraímos todos os acontecimentos e situações que vivenciamos. Que, enquanto continuarmos agarrados a elas, os fatos irão se repetindo. Des­cobrindo qual a atitude que está causando uma situação que não nos agra­da, poderemos substituí-la por outra melhor e obter outros resultados. Quando o convidei a vir aqui, não foi por sentir pena de você, nem para tentar ajudá-lo a resolver seus problemas. Foi porque me interessei pro­fissionalmente pelo seu caso. Encontrar a causa dos seus problemas é per­ceber o caminho para a ajuda de muitas pessoas e seguramente aumen­tar o meu conhecimento, ter sucesso em minha carreira.

Roberto abriu a boca e tornou a fechá-la, sem encontrar palavras para responder. Aurélio prosseguiu:

- O que desejo lhe propor é uma troca. Você tem o que eu preci­so para desenvolver meus conhecimentos, e eu posso dar-lhe alguns es­clarecimentos que poderão mudar sua vida se os utilizar. Já vê que em nos­so caso ninguém está abusando de ninguém e os dois poderemos lucrar.

— Sua maneira de pensar me surpreende.

— Gosto de ser verdadeiro. Depois, você estava pensando que sua situação atual pode ter me impressionado e que eu desejava ser carido­so, ajudando-o.

— Não me socorreu na via pública por caridade?

— Não. Prestei socorro, o que é natural na minha condição de médico, mas em nenhum momento fiz caridade.

— Não estou entendendo.

— Um ato de caridade o tornaria uma vítima, um coitado, inca­paz de resolver os próprios problemas.

— Mas eu me sinto assim mesmo, incapaz de solucionar minha vida.

— Mas você não é. Está neste momento emocionalmente pressio­nado por idéias erradas a seu respeito, se desvalorizando, não utilizando sua força interior, sua inteligência, sua capacidade. Mas elas estão lá, dentro do seu ser, à espera de que perceba e faça uso delas de maneira adequada.

Eu não gosto de fazer caridade. Nunca dou nada de graça. Prefiro trocar. Não há ninguém que esteja impossibilitado de dar algu­ma coisa.

— Eu no momento não posso dar nada.

— Não pode me dar dinheiro. Mas pode me contar o que vai dentro do seu coração para que eu possa aprender mais sobre a alma humana.

— Acha que será suficiente?

— Para mim é o bastante. Você acha que estarei à altura de entrar na sua intimidade e mostrar-lhe alguns lados da sua personalidade que não está conseguindo ver?

— Pelo que já fez comigo desde que entrei aqui, penso que tive mui­ta sorte em encontrá-lo.

Aurélio sorriu contente.

— Por que diz isso?

— Porque entrei aqui, acanhado, me sentindo miserável, e agora pela primeira vez em alguns meses comecei a me sentir digno. Tinha me esquecido de como é isso.

— É um bom começo, concorda?

Roberto concordou e eles marcaram hora para a noite seguinte. Quando ele chegou em casa, Gabriela já estava. Ela olhou para ele, mas não teve coragem de perguntar nada. Tinha certeza de que, quando ele arranjasse trabalho, ela seria a primeira a quem ele contaria.

Ela estava notando que ele andava calado, cabisbaixo. Por vezes sen­tia o olhar dele fixando-a com certo rancor. Ela não tinha culpa se ele não conseguia arranjar emprego. Fazia sua parte com boa vontade, mas ele parecia cada dia mais fechado e com cara de poucos amigos.

Nos dias seguintes, ela pouco conversou com ele, nem ao menos para perguntar como fora seu dia. Era difícil conviver, eles estavam cada vez mais distantes. As vezes ela sentia vontade de se separar. Mas não lhe parecia correto fazê-lo exatamente naquele momento em que ele es­tava desempregado. Poderia parecer que ela era interesseira e maldosa. Não queria que os filhos um dia lhe cobrassem isso. Em seu íntimo já começava a formar-se a idéia de que, quando ele resolvesse o problema financeiro, ela pediria a separação.

Roberto não lhe contou nada sobre seu relacionamento com o mé­dico. Não queria falar sobre o desmaio e que a vira naquele carro com um homem. Quando pensava nisso, o sangue subia, ele fazia tudo para se controlar. Havia concordado com Aurélio em investigar, só falar quando tivesse certeza.

Algumas vezes seguiu-a às escondidas, mas apenas constatou que Gabriela ia direto para o trabalho.

Ele se escondeu perto do escritório, vigiando durante o horário de expediente para ver se ela saía com algum colega. Mas isso também não aconteceu.

A noite, desabafou com AuréLio.

— Não agüento mais ficar calado sobre aquela tarde. Mas até ago­ra não consegui descobrir nada, nenhuma prova. Tenho vigiado mui­to, e nada.

- É bem possível que tenha se enganado. Não era ela quem esta­va naquele carro.

— Eu vi. Tenho certeza. Também não posso ficar lá todo o tempo. Tenho que cuidar da minha vida, procurar trabalho.

— Como está se saindo?

- Está difícil. Eu não tenho curso universitário, trabalhava por mi­nha conta, o que equivale a dizer que não tenho profissão definida. Es­tou desesperado, disposto a fazer qualquer serviço, mas onde quer que eu vá eles exigem experiência de pelo menos dois anos no cargo. Quan­do explico que trabalhava por minha conta, que perdi tudo, eles me olham desconfiados e não me chamam para as vagas.

— Você está lhes contando uma história de fracasso. Sua atitude não favorece a que eles confiem em você.

Roberto passou a mão pelos cabelos em um gesto nervoso.

— Sou sincero. Tenho que dizer a verdade. Se não contar, eles irão pensar que nunca trabalhei. Minha carteira profissional está em branco.

— Não estou lhe dizendo para mentir. Por tudo quanto lhe acon­teceu, você está se sentindo um fracassado. Não confia em suas possibi­lidades, como quer que eles confiem em você e lhe ofereçam trabalho?

— Não estou entendendo. Claro que estou me sentindo fracassa­do. Perdi tudo. Não posso estar otimista. Mas sou trabalhador e hones­to. Tenho boa vontade e preciso sustentar minha família. Acha que não basta?

— Não. Isso não basta. Você vai em busca de trabalho, mas carre­ga o desespero, a raiva, a culpa de ter sido ingênuo e deixar-se roubar pelo seu sócio. Além disso, acha que sua esposa deixou de amá-lo porque você foi lesado e não tem como sustentar a família. Pensa que por causa disso o amor dela acabou.

— Essa é minha verdade, doutor. Tenho carregado essa angústia vin­te e quatro horas por dia, desde que a tragédia aconteceu.

— Por causa de um fato que já passou você está destruindo todas as suas possibilidades de sucesso na vida. Você está se prejudicando mui­to mais do que seu sócio, que fugiu com todo o seu dinheiro.

Roberto olhou para o médico sem entender:

— Eu? Como assim?

— Você sente vergonha por haver sido enganado. Acha que os outros o estão culpando, rindo à sua custa, chamando-o de otário.

— Isso mesmo. Eu percebo isso nos olhos das pessoas. O advoga­do me obrigou a ir dar queixa na delegacia e foi um vexame. Nunca so­fri tanto em toda a minha vida. Os policiais me olhavam com ar de go­zação. Foi um horror.

— Por que se envergonha? Você não é o ladrão. Você foi roubado!

— Fui burro. Ele me passou a perna. Acha que é bonito isso?

— Preferia estar no lugar dele?

Roberto fitou-o admirado:

— Claro que não. Nunca seria capaz de fazer o que ele fez.

— Isso porque você é um homem honesto.

— Claro. Nunca tirei nada de ninguém. Tudo quanto ganhei foi com o fruto do meu trabalho.

— Logo, você é um homem de bem. Correto.

— Claro que eu sou.

— Deveria sentir-se digno.

Roberto endireitou-se na cadeira.

— Eu sou um homem digno.

— Então por que se curva e se envergonha diante dos outros?

— Por que não gosto de passar por bobo.

— A opinião dos outros a seu respeito é muito importante para você?

— É.

— Mais do que a sua?

Roberto hesitou e não respondeu. Aurélio continuou:

— Você acha que as pessoas sabem o que vai em seu coração, o que você sente, pensa, quer?

— Não. Ninguém pode saber o inferno que está sendo minha vida agora, a humilhação que estou suportando.

— Quanto mais vaidade, mais humilhação.

— Está enganado, doutor. Nunca fui vaidoso.

—            Preocupar-se com o juízo que você julga que os outros estejam fazendo de você é pura vaidade. Você acredita que os outros estejam percebendo um lado seu menos inteligente, menos bonito, e sente-se inferiorizado.

Roberto baixou a cabeça envergonhado. Lágrimas vieram-Lhe aos olhos e ele esforçou-se para contê-las. Não conseguiu responder.

Aurélio ficou silencioso por alguns instantes. Roberto, cabeça bai­xa, lutava para conter o pranto, mas, embora se esforçasse, algumas lá­grimas teimavam em descer-lhe pelas faces. O médico colocou do lado dele uma caixa com lenços de papel. Roberto respirou fundo, apanhou um lenço e assoou o nariz várias vezes. Pigarreou e disse encabulado:

- Desculpe, doutor. Tenho andado muito sensível ultimamente.

—            Você não merece tudo isso, não é mesmo?

Sentindo o tom amistoso do médico, Roberto não conteve mais o pranto, que jorrou em profusão. Aurélio esperou em silêncio que ele se acalmasse.

Quando conseguiu se controlar, Roberto justificou-se:

—            Isso nunca me aconteceu. Tenho andado muito tenso. A falta de dinheiro, a traição de Gabriela, tudo, tudo, tem me deixado des­controlado.

—            Tem razão. Você está acabado mesmo. Não serve mais para nada. Acho melhor desistir, aceitar a miséria, deixar o barco correr.

Roberto encarou-o surpreendido. Não era o que esperava ouvir.

—            Vim aqui pensando que ia me animar. Pelo que vejo, o senhor está querendo me derrubar.

Acho que vou embora.

- É você quem está fazendo tudo para se derrubar.

- Ao contrário. Tenho lutado, procurado emprego de todas as maneiras.

—            Está difícil. Você não confia em sua capacidade. Acha que não tem experiência. Nem sei como foi que conseguiu montar seu negócio. Você diz que teve um. Será?

Roberto empertigou-se:

- Acha que estou mentindo? Só porque me vê sem dinheiro, não acredita em mim?

- Eu não o conheço o suficiente. Estou me baseando em suas in­formações. Você me diz que é um fracassado, que não consegue nem man­ter o amor da sua mulher, que não tem condições de arranjar trabalho. Está em desespero porque não consegue ver nenhuma saída.

— Pois você não me conhece mesmo. Eu trabalhei muito, primei­ro como vendedor de um depósito de materiais de construção, depois comprei um terreno e construí um galpão onde fui começando a com­prar e revender alguns materiais. Fui progredindo até que cheguei a pos­suir um grande depósito, construí a casa onde moro, comprei outros imóveis. Sempre fui muito bom em negociar, vender, comprar. Meu pai dizia que eu conseguia vender até lata vazia. Quando conheci Gabrie­la, ela era a moça mais disputada do bairro. Não dava bola para ninguém. Quando eu cheguei, ela gostou de mim de cara. Nós nos apaixonamos de verdade. Foi uma loucura. Já fiz muitas coisas boas na vida.

Roberto havia se levantado, postura ereta, olhos brilhantes, fisio­nomia séria.

— Esse é você — disse Aurélio com voz calma. — Um homem for­te, que sabe o que quer, que conseguiu tudo que quis na vida, que não pode ser derrotado por um ladrão sem-vergonha.

Roberto sentou-se, olhando pensativo para o médico. Aurélio continuou:

— Se quer melhorar sua vida, precisa assumir sua força, acreditar em sua capacidade, colocar sua dignidade acima do que os outros pos­sam pensar. Você sabe que é um homem inteligente, trabalhador, ho­nesto, capaz. Esqueça o que passou. Volte a ser o mesmo homem que era antes e logo verá que obterá de novo tudo quanto perdeu e até mais.

— Sei que sou capaz de trabalhar, ganhar dinheiro. É que me dei­xei levar pelas emoções.

— Você entrou na posição de vítima, o que você não é. Ele levou seu dinheiro, mas em troca você aprendeu algumas lições que nunca mais esquecerá. Portanto estão quites. Deixe-o ir, entregue-o ao próprio des­tino, sem ódios ou lamentações.

— Gostaria de poder fazer isso. Mas por enquanto ainda me parece impossível.

— Enquanto não melhorar suas energias, você não vai encontrar trabalho.

— Como assim?

— Nossas atitudes criam um campo magnético próprio que forma nossa aura, que atrai energias afins. As emanações da nossa aura são per­cebidas pelas pessoas que reagem a elas. É a verdade de cada um. Você pode mentir, representar papéis, parecer o que não é, mas as pessoas sentem suas emanações e reagem de acordo com elas. Por isso, algumas são sempre bem recebidas em qualquer lugar, enquanto outras são igno­radas, destratadas e até rejeitadas.

— Isso é questão de sorte.

— Engana-se. Isso é questão energética. Se se aproximar das pessoas sentindo-se errado, fracassado, incapaz, elas não confiarão em você. Para procurar emprego, saber isso é fundamental.

       - Nunca ouvi falar nisso.

— Há muitos estudos a respeito. É a verdade maior. Se você colo­car atenção no que sente quando as pessoas se aproximam, perceberá com clareza o que estou dizendo. Vai notar que as reações que as pes­soas provocam em você são muito diferentes umas das outras. Tudo por causa da emanação do magnetismo delas.

- Será por isso que Gabriela nunca confiou em Neumes? Ela sem­pre foi desconfiada dele.

Vivia me dizendo que eu precisava tomar cui­dado, abrir os olhos.

— Ela registrava as emanações dele e não gostava. Percebia que ele não era de confiança.

— Puxa, se eu soubesse disso antes, não teria entrado nessa.

— Não lamente o que passou, nem se culpe. Você fez o seu melhor. Como é honesto, teve boa-fé.

— Isso é. Eu confiava tanto nele! Nunca imaginei que ele fosse ca­paz de fazer o que fez.

— Você o admirava. Sempre teve vontade de fazer faculdade?

— Sempre. Achava que quem faz faculdade é pessoa inteligente, importante.

— Por que nunca tentou estudar?

— Isso não era para mim, doutor.

— Por que não? Não acho que seja fundamental fazer uma univer­sidade. É bom, abre a mente para várias coisas, mas há muitas pessoas com diplomas universitários que vegetam na vida, sem conseguir sucesso. Há outras coisas que são mais importantes e imprescindíveis ao progresso.

— Quais?

- Inteligência, boa vontade, ousadia, confiança em si, firmeza. Eu poderia citar outras tantas que concorrem para a conquista da feli­cidade. Quando você tem essas qualidades, o sucesso independe de qual­quer diploma. Você ficou envaidecido com a amizade de Neumes.

— Claro. Ele era um engenheiro, formado. Havia projetado e cons­truído um prédio bonito.

Comprava material em meu depósito. Quando ele me propôs o negócio, achei o máximo.

Nem me passou pela cabeça que pudesse ser enganado por ele.

— Para você ver que diploma, conhecimento, só, não bastam. E pre­ciso mais. Gostaria que pensasse em tudo quanto conversamos e tivesse certeza de uma coisa: nesse negócio, Neumes perdeu mais do que você.

Roberto olhou surpreendido para Aurélio:

— Como assim?

— Você perdeu apenas dinheiro. Assim como conquistou tudo quanto tinha, pode recomeçar e fazer tudo de novo, agora mais expe­riente, mais amadurecido. Ele não. Está sendo procurado pela polícia e, ainda que tenha saído do país, continuará lesando pessoas e acabará mal, com toda a certeza. A desonestidade tem um preço muito caro que cedo ou tarde a pessoa terá que pagar para recuperar a própria dignida­de. Acho que chega por hoje.

Roberto levantou-se.

— Vou pensar em tudo isso, doutor.

— Pense. Estarei esperando você no dia marcado para continuar­mos a conversar.

Roberto saiu do consultório pensativo. Ele precisava refletir mes­mo. Nunca fora um fraco.

Sentia-se agora mais forte. Parecia-lhe haver voltado a ser um pouco do que era antes.

Respirou fundo, sentindo que a brisa da noite lhe fazia bem. Olhou para o céu e reparou que estava cheio de estrelas. Há quanto tempo não percebia como estava a noite?

Chegou em casa. Gabriela ensinava a lição para Guilherme na mesa da sala. Ele se aproximou e beijou o filho enquanto Maria do Car­mo, vendo-o, aproximou-se com um papel na mão.

— Olhe, papai: eu fiz este desenho sozinha.

Ele se aproximou dela, olhou o papel e disse:

— Que lindo!

— É uma casa! Eu pintei o céu de verde, e o Gui disse que está er­rado. Mas eu gosto do céu verde e pronto. O desenho é meu e eu pin­to o meu céu da cor que eu quiser.

Roberto riu da careta da menina e respondeu:

— O céu é azul, mas você pode mudar a cor dele no seu desenho para ver como fica. Todos temos direito de experimentar.

Gabriela olhou admirada para o marido, mas não disse nada. Ele sentou-se em uma poltrona, chamou a filha e colocou-a no colo.

— Pai, sabe o que aconteceu hoje na escola com a Juliana?

—Não.

— Ela foi com uma meia de cada cor.

Ele riu divertido e justificou:

— Ela quis experimentar para ver como ficava.

— Todo mundo caçoou dela. Mas ela nem ligou. Disse que esta­va lindo assim e pronto.

Amanhã eu também quero ir com uma meia de cada cor.

Gabriela olhou novamente para o marido. Roberto estava diferen­te. O que teria acontecido?

Onde teria ido? Ele nunca saía sozinho à noi­te. Teria algum rabo de saia nisso?

Roberto sentia-se mais relaxado e melhor. Ficou com as crianças na sala até Guilherme acabar a lição. Em seguida, tomou um banho e foi se deitar. Naquela noite, depois de muito tempo, ele conseguiu dor­mir tranqüilo.

 

Georgina tocou a campainha várias vezes. Roberto teria saído? Ela resolveu visitar o filho na terça-feira à tarde porque sabia que tanto Ga­briela quanto Nicete não estariam em casa. Roberto deveria estar, por­qüanto a janela do quarto da frente estava aberta. Insistiu, até que fi­nalmente ele apareceu na porta.

- Pensei que tivesse saído e esquecido a janela aberta. Aliás, mesmo durante o dia você não deveria deixá-la assim. É um convite ao ladrão.

— Entre, mãe respondeu ele.

Uma vez na sala, porta fechada, ela o abraçou com tristeza, dizendo:

Pelo jeito, ainda não arranjou nada. Em casa a esta hora...

Ele sentiu vontade de não responder. Já tinha problemas demais para ter de agüentar os comentários dela. Conteve-se. Afinal, ela era sua mãe e não tinha culpa pelo que ele estava passando.

— Tenho algumas coisas em vista — mentiu ele. — Tenho certe­za de que algum deles vai dar certo. É só questão de tempo.

Georgina meneou a cabeça, fitando-o triste.

— Dói vê-lo nessa situação! Você, que sempre conseguiu tudo que quis. Fico de coração apertado, pensando em como andará sua cabeça.

— Não se preocupe tanto, mãe. Eu estou muito bem. Já disse que essa situação é temporária. Vai passar.

— Não sei, não. Nessa maré de má sorte em que você anda, tudo pode acontecer.

Aproximando-se mais dele, baixando a voz, ela con­tinuou: — Acho que Dalva está certa.

Você tem trabalho feito. Sabe como é, você estava muito bem e de repente tudo mudou. A inveja e a maldade têm meios de derrubar uma pessoa.

— Não creio nessas coisas, mãe.

— Você devia procurar um centro espírita para desmanchar esse mal. Dalva freqüenta um e entende dessas coisas. Ela me contou alguns ca­sos impressionantes. Garantiu que sozinho você não vai conseguir me­lhorar. Sua vida irá de mal a pior. Eu pedi, e ela fez uma consulta lá e disse que, se você não fizer nada, até sua mulher vai largá-lo.

Roberto sobressaltou-se. Com exceção do médico, ele não conta­ra a ninguém de suas desconfianças sobre Gabriela.

Georgina continuou:

— Vim aqui especialmente para dar esse recado. Quero levar você lá para resolver isso. Não posso mais vê-lo desse jeito. Precisamos fazer alguma coisa.

Ele respirou fundo e decidiu:

— Eu não vou. Não gosto da sua amiga Dalva, nem dessa idéia de me meter com bruxarias.

Largue de se preocupar comigo. Posso cuidar de minha vida.

— Pode tanto que está desse jeito! Não vê que nada tem dado cer­to? Até quando pretende ficar vivendo à custa de sua mulher? Até que ela se canse e lhe diga adeus?

Roberto não se conteve mais.

— Chega, mãe! Não estou com disposição para conversar. Aliás, preciso sair agora, tenho uma entrevista importante.

— Bem que Dalva me avisou que você não ia aceitar. Ela garantiu que a macumba foi muito bem-feita, que quando eu o convidasse você se voltaria contra mim. Aconteceu mesmo. Você está me mandando em­bora. Nunca fez isso antes. Mas saiba, meu filho, que está sendo muito ingrato. O que eu quero é ajudá-lo. Peço-lhe: vamos ao centro.

— Não acredito no que está dizendo. Não quero ir. Entenda. Não estou mandando-a embora.

Tenho um compromisso, já disse. Sei que deseja me ajudar.

— Você não vai arranjar nada se não desmanchar essa macumba. Por que é tão teimoso?

— Deixe que meus problemas eu resolvo. Não se preocupe.

— Eu vou embora, mas, se mudar de idéia, procure-me. Para des­manchar o trabalho, vamos precisar de algum dinheiro. Você não tem, mas eu posso dar um jeito. Eles aceitam uma parte agora e o resto quan­do tudo estiver resolvido. Eu tenho algumas economias, acho que dará para as primeiras despesas.

Roberto impacientou-se:

— Mãe, quantas vezes preciso lhe dizer que não irei a esse lugar? Guar­de seu dinheiro, pode precisar dele. Não o entregue a esses oportunistas.

— Não diga isso, meu filho. São pessoas que fazem isso de coração. Mas eles precisam comprar o material. É justo pagar por isso.

— Espero que você não dê dinheiro a eles. O que recebe mal dá para suas despesas.

— Para salvar meu filho, farei qualquer negócio.

— Não esse, por favor. Chega já minhas preocupações. Não posso também agora cuidar de você. Seja razoável.

— Eles já mexeram no caso! O que direi a Dalva?

— Fez isso sem me consultar. Viu no que deu? Agradeça a ajuda e trate de não arranjar mais confusão. Diga que eu já consegui trabalho, que estou viajando, invente alguma história, mas saia dessa e não me envol­va. Se continuar com isso, ficarei muito zangado com você. Entendeu?

Ela suspirou desanimada. Depois disse:

— Estou desolada, mas farei o que me pede. Contudo, se mudar de idéia, poderemos ir.

Ela se despediu, e Roberto respirou aliviado quando a viu sair. Fe­chou a porta e deixou-se cair em uma cadeira. Era só o que lhe faltava! Pensou em Gabriela naquele carro. E se fosse mesmo verdade? E se ele estivesse sendo vítima de alguma macumba para fazer com que perdes­se tudo, até a mulher? Ela andava calada, diferente, não se chegava como antigamente. Ele tinha até receio de abraçá-la. E se ela o recu­sasse? Andava sempre cansada, dormia logo, não o beijava nem abra­çava na cama, como antes.

Passou a mão nos cabelos num gesto de impotência. Se isso fosse verdade, ele estava vencido. Como lutar contra coisas que ele não via nem sabia como funcionavam? Lembrou-se de alguns casos de conhe­cidos que os amigos diziam terem sido vítimas de feitiçaria. Eles não tinham conseguido sair.

Não havia nenhuma lógica. Ele não podia acreditar que isso exis­tisse. Contudo, uma sensação de medo o invadiu, O sobrenatural, os rituais que vira em filmes de magia estariam destruindo sua vida? Como se defender? Ele não acreditava que Dalva e seus amigos tivessem po­der para resolver seu caso, se ele estivesse mesmo sendo uma vítima dos seres do mal.

E se procurasse um padre? Não, ele não se sentia com coragem de falar com ele sobre esses assuntos sempre tão combatidos pela igreja. E o pastor? A esposa de um conhecido garantira-lhe que ele precisava ir para uma igreja evangélica, que tudo seria resolvido. Se ele fosse la con­tar suas suspeitas, eles diriam que estava sendo envolvido pelo diabo. Só que ele não acreditava nele.

Esses pensamentos angustiados não o deixaram até a hora de ir ao consultório de Aurélio.

Logo que entrou, o médico notou sua preocu­pação. Assim que o viu acomodado na poltrona, foi dizendo:

— Conte o que aconteceu.

— Nada que mereça atenção — disse ele com receio de parecer ignorante.

— Talvez não mereça, mas você deu importância. Prefere não fa­lar no assunto?

— Não foi nada sério. Minha mãe esta tarde veio com uma con­versa louca. Disse que tenho um trabalho feito.

— Uma macumba?

— É.

— Pode ser mesmo.

Roberto surpreendeu-se:

— Você acredita nisso?

— Por que não? O magnetismo, a manipulação de energias, a for­ça mental podem criar e alimentar situações muito penosas.

— Isso seria o cúmulo do azar. Só me faltava essa! Deus está mes­mo contra mim, permitindo que eu seja castigado dessa forma sem que possa me defender.

— Não fale assim sobre coisas que desconhece.

— Como quer que eu me sinta? Depois de haver sido roubado, ter perdido tudo, estar desempregado, a mulher pensar em abandonar-me, ainda as forças do mal estão contra mim. Isso me desespera. Lutar con­tra seres invisíveis que desejam acabar comigo é demais para um ho­mem como eu.

— Do jeito como você está olhando a situação, parece que não tem como sair dela.

— Não tenho mesmo. Tudo quanto fiz até agora não valeu nada. Minha vida está cada vez pior.

— Acalme-se. Vamos fazer um exercício de relaxamento. Deite-se na maca.

Roberto obedeceu. Aurélio apagou a luz, deixando acesa apenas pe­quena lâmpada azul.

Depois, colocou uma música suave, aproximou-se de Roberto e, colocando a mão direita espalmada sobre sua testa, disse.

— Relaxe, deixe seu corpo bem à vontade. Imagine que você está em um parque, as árvores muito viçosas e os canteiros cheios de flores exalando agradável perfume. Há pássaros cantando, o ruído de água caindo do morro, lavando as pedras do caminho, formando uma espu­ma branca que se desmancha ao chegar ao lago. Você está descansan­do. Agora é o seu momento. Não tem que fazer nada a não ser se inte­grar na harmonia da natureza. Respire fundo, aproveite esse ambiente calmo, tranqüilo e vitalizante. Vamos, respire.

Roberto começou a respirar conforme ele mandava e aos poucos foi sentindo sonolência, bocejando seguidamente. Aurélio continuou:

— Vamos, continue respirando o ar puro do parque, usufruindo do gorjeio dos pássaros e da brisa perfumada do lugar. Tudo é perfeito no universo. Você é natureza, você é perfeito. A natureza cuida do seu corpo, do ar que você precisa para respirar, do alimento que você deve ingerir. Ela provê tudo. Nada lhe falta. Você tem tudo para melhorar sua qualidade de vida. Para isso só precisa entender como a vida funciona, fazer sua parte e confiar que o invisível fará o resto.

A vida é luz, bele­za, harmonia, equilíbrio, paz.

De repente, Roberto começou a soluçar. As lágrimas desciam pelo seu rosto e ele tentou contê-las, mas Aurélio tornou:

— Chore. Lave sua alma. Jogue fora todos os pensamentos dolo­rosos que o incomodam.

Você é luz, vida, bondade, beleza, paz.

Roberto soluçou durante alguns minutos. Quando ele se calou, Aurélio perguntou:

— Como se sente agora?

— Melhor.

— Agora, sente-se na poltrona, vamos conversar. Há algumas coi­sas que desejo lhe explicar.

Ele obedeceu. Depois, olhando para o rosto do médico, que havia se sentado à sua frente, tentou sorrir.

— Devo parecer-lhe um fraco.

- Ao contrário. Você é pessoa muito forte.

— Ainda agora, me queixei, chorei.

— É natural. Você está sofrendo.

— O que acaba comigo é sentir-me impotente. Por mais que eu ten­te resolver minha vida, não consigo nada.

— Você está tentando sempre do mesmo jeito. Vai obter sempre o mesmo resultado.

— Não estou entendendo.

— É preciso descobrir como você está atraindo essa situação em sua vida. Cada um é responsável por tudo quanto lhe acontece.

— Eu não. Fui vítima da maldade de Neumes.

— Não creia nisso. Você colheu os resultados das suas atitudes.

Roberto ia interromper, mas Aurélio fez um gesto para que só ou­visse e continuou:

— Sei o que vai dizer. Que o seu sócio era mau-caráter, ladrão, e que você sempre foi honesto. Mas por que ele o procurou para propor o negócio? Por que ele escolheu você e não outro para ludibriar?

— Eu era pessoa de boa-fé.

— Sim, mas sempre se julgou inferior a ele só porque ele tinha um diploma e você não. Você acredita que, para ser importante, é preciso haver cursado uma universidade. Nunca passou pela sua cabeça ques­tionar os atos dele, uma vez que o via como mais sábio, mais capaz.

— Eu nunca saberia construir um prédio daqueles.

— Concordo. Ele possuía conhecimentos técnicos que você não ti­nha. Mas por outro lado, apesar de todo o conhecimento, ele não ha­via conseguido subir na vida. Não possuía o seu capital, o dinheiro que você conseguiu ganhar apesar de não ter o diploma dele. Entendeu?

Roberto coçou a cabeça admirado. Era verdade. Ele sempre fora ca­paz de ganhar sua vida, conseguir o que queria.

— Eu queria que você percebesse que foi você quem se colocou abai­xo dele, considerando-o mais. Por causa disso, confiou cegamente nele, deixou de lado seu talento comercial, sua sagacidade, envaidecido por ele haver se associado a você. Em sua cabeça, ele era muito mais do que você. Não usando o seu bom senso, sua intuição, como sempre havia feito em sua vida, você pôde ser enganado. Você não foi uma vítima. Ao contrário, suas atitudes atraíram e facilitaram o trabalho dele.

Roberto meneou a cabeça, pensativo.

— Lembra-se de como você era antes de fazer essa sociedade?

— Claro. Eu não ouvia ninguém. Fazia o que me parecia melhor.

— E assim você prosperou, casou com a mulher amada, tudo como desejava.

— Até aparecer aquele sem-vergonha. Como pude ser tão burro?

— Não se culpe, para não piorar as coisas. Você precisa colocar sua força em coisas boas, que melhorem sua vida. A culpa, além de disper­sar suas energias, ainda o empurra para o pessimismo. A condenação não ajuda em nada, só atrapalha. O que aconteceu com você foi para o bem, reconheça.

— Isso não, doutor. Tem sido horrível.

— Mas o impulsiona a pensar, a procurar as causas de tudo e en­contrar a melhor solução.

Você está crescendo.

— Experiência eu ganhei, isso é verdade. Nunca mais entrarei noutra.

— As pessoas não são iguais. Se você estiver bem, vai atrair pes­soas boas, nutritivas, que vão concorrer para tornar sua vida melhor.

— Ainda vem minha mãe com essa história de macumba...

— Nós nunca conseguimos agradar todo mundo. Há pessoas que se incomodam com o seu sucesso. Há as que vêem maldade em tudo quan­to você faz. Entre elas pode haver as que, a pretexto de “salvar” você, ou de castigá-lo pelos seus erros, apelam para os espíritos desencarnados mais primitivos, realizando trabalhos de macumba.

— Então existe mesmo isso? Não é enganação para pegar dinhei­ro dos incautos?

— Há espertalhões em todo lugar. Mas estou falando dos que real­mente estão envolvidos com espíritos e desejam interferir na vida das pessoas, manipulando-as de acordo com seus interesses.

— Eles conseguem mesmo isso?

— Só com os que não tomam posse de si mesmos.

— Como assim?

— Acontece com as pessoas muito dependentes, que não têm opi­nião própria, que vivem perguntando tudo aos outros. Essas pessoas são muito vaidosas. Têm medo de errar, preferem não assumir responsabi­lidade por si mesmas. Sempre desejam dividir com outros, querendo opinião para, depois, se der errado, culpar o outro. Uma pessoa mais lú­cida, que usa o bom senso, não se deixa levar com facilidade, não pega macumba. Quem é positivo olha a vida sempre pelo lado bom, nunca dá força nem teme o mal, fica imune a todas essas investidas das trevas. Agora, conhecer a espiritualidade, saber como as energias que estão ànossa volta funcionam, dá segurança. Deus habita dentro de cada alma e, se você se habituar a buscar essa fonte espiritual, acreditar que ela está em você, agir de acordo com ela, nunca terá problemas com espíritos maldosos. A força deles é muito pequena diante da essência divina.

— Então como eles conseguem derrubar as pessoas?

— Atacando os pontos fracos que elas possuem: seus complexos, suas ilusões, crenças que você tem mas que mesmo não sendo verdadei­ras criam suas atitudes.

— Você disse que eu posso mesmo estar com macumba?

— Pode porque se deixou dominar pelo pessimismo, pela falta de confiança em si próprio, pelo ciúme. De fato, é um prato cheio para qual­quer macumbeiro.

— Nesse caso, eu preciso ir a um centro para desmanchar tudo?

— Se descobrir as atitudes que o estão tornando vulnerável a eles e mudá-las por outras melhores, seu padrão energético subirá e haverá uma desconexão natural. Mas para isso você vai precisar aprender como essas energias funcionam.

— Você entende dessas coisas.

— Tenho estudado em decorrência do meu trabalho. Atendendo meus pacientes, acabei descobrindo muitas coisas, inclusive a mediuni­dade, a continuidade da vida após a morte. Foram tantas as provas que obtive que hoje não saberia trabalhar sem analisar essas variáveis. Digo mais, que meu sucesso profissional decorre de cuidar dos doentes inte­grando corpo, mente e espírito.

— Ouvindo você, fico pensando como minha vida está enrolada.

— Nada que você não possa mudar.

- De que forma? Estou me esforçando para encontrar trabalho e parece que fica mais difícil a cada dia.

— É que você se deprime demais. Quanto mais deprimido, mais difícil.

Roberto impacientou-se.

— Como ficar mais otimista sem dinheiro, suportando os olhares de comiseração da mãe, da esposa, dos vizinhos e até da empregada? Sinto-me como se fosse um incapaz. Estou vivendo à custa de minha mulher.

— Você não é incapaz, nem vagabundo ou aproveitador, só por es­tar sem emprego. Essa é uma situação temporária.

- Que já dura alguns meses e estou no limite de minhas forças.

— Enquanto ficar na queixa, não conseguirá nada. A depressão, a queixa, a falta de confiança na vida, isso afasta todas as oportunidades boas. Se quer vencer, tem que se esforçar para mudar essa postura.

Roberto fez um gesto de impotência. Ia falar, mas Aurélio continuou:

        - Sei o que vai dizer. Justificar-se não adianta nada, O que preci­sa é sair desse estado, enxergar as coisas boas que possui, valorizá-las, agra­decer a Deus pelo que já possui. Você tem uma bela família. Sua mu­lher tem sido boa companheira nesses momentos de dificuldade por que vem passando. Não acha que tem muito a agradecer?

— Visto assim...

— Tem mais. Apesar do que você diz ter visto, não acredito que sua esposa o esteja traindo.

É bom valorizar tudo que ela tem feito pela família, para que ela não se sinta desanimada e alguém venha a se apro­veitar, tentando desviá-la. Aí, o que você teme acontecerá realmente.

- Você acha mesmo que posso ter me enganado?

— Acho. Uma mulher só trai o marido quando se apaixona por ou­tro. E então ela faz tudo para se separar.

— Ela está diferente. Não me faz agrados como antes, está sempre cansada. Tenho até receio de me aproximar.

— Será que não foi você quem mudou? Prestou atenção em como você tem se comportado dentro de casa, e com ela?

— Bom, depois do que aconteceu, claro que eu mudei. Fiquei tris­te, sem vontade de conversar, ressabiado. Parece que todos estão me criticando por eu ter confiado naquele patife.

Não me conformo de ter errado tanto e perdido todo o dinheiro.

— Você se critica, julga-se incapaz por não ter descoberto a ver­dade a tempo. Sente raiva por ter sido enganado e pune-se pensando que não merece o amor de sua família.

— Não mereço mesmo. Eu não soube cuidar do bem-estar deles.

— Perceba que está jogando toda a sua força contra você. Está se arrasando de propósito para se castigar.

— Como assim?

— Está com raiva por ter sido ingênuo. No fundo, acredita que merece sofrer pelo seu erro.

Se um lado de você deseja prosseguir, me­lhorar, recomeçar, cultiva o outro, que se compraz em sofrer, em ver-se derrotado, em “pagar” pelos seus erros. No fundo, você acredita que está se depurando, tornando-se “limpo” diante da família. Não apren­deu que “o sofrimento redime”?

— Bom, sempre ouvi dizer que quem sofre está “pagando pelos seus erros ...

- Você acredita nisso. Para você, sofrer significa suportar as con­seqüências dos seus erros e tornar-se melhor.

— Falando assim, dá a impressão de que eu não quero arranjar em­prego. E isso não é verdade.

— Claro que você quer trabalhar. Mas acredita que, para voltar a ter sucesso, dinheiro, precisa merecer. Como é que uma pessoa que fra­cassou pode merecer o sucesso?

Roberto ia retrucar, mas calou-se. Respirou fundo, passou a mão pe­los cabelos como querendo entender melhor.

— Na verdade, Roberto, você se compraz em sofrer, em continuar sendo vítima da maldade dos outros. Pensa que agindo assim está de­monstrando o quanto as pessoas são enganadoras e perversas e tentan­do justificar a lamentável experiência com Neumes.

— Do jeito que você fala, até parece que o único culpado sou eu...

— Não se trata de encontrar um culpado, entenda isso, mas de compreender como você está lidando com os fatos. Você foi engana­do por um malandro. Isso acontece todos os dias com as pessoas de boa-fé. Você está perpetuando esse fato, agravando a situação. Perce­ba isso: o errado não é você, por haver confiado em seu sócio, mas sim ele, por haver se aproveitado da sua confiança. Quem errou foi ele, e um dia terá que responder por esse ato diante dos valores eternos da vida. Quanto a você, continua honesto, capaz, competente, e, se con­tinuasse mantendo essa opinião a seu respeito, há muito teria encon­trado a solução do seu problema.

— Sempre trabalhei por conta própria, não tenho prática para qualquer emprego. As empresas exigem dois anos de experiência.

— Talvez a vida esteja querendo lhe dizer que o melhor será fazer aquilo que sempre fez.

— Precisaria de capital, e não tenho. Depois, um emprego é mais garantido. Salário todo mês, sem preocupações ou incertezas.

— Você está com medo. Não confia mais em sua capacidade. Pen­sar que um emprego lhe dá mais estabilidade é ilusão.

— Você diz coisas que me perturbam e fazem pensar.

— Isso é bom, e vai ajudá-lo a sair mais depressa dessa situação.

— Do jeito que você fala, parece que depende só de mim.

— E depende mesmo. Quando mudar sua postura e voltar a agir como agia antes de conhecer Neumes, aos poucos tudo se normalizará.

— Pode me explicar melhor? Antes eu não estava nesta situação. Não tinha que suportar a penúria, ver minha mulher fazendo tantas horas extras para pagar as contas, nem minha mãe sofrendo por mim. Os fatos agora são outros. Não dá para agir como antigamente.

— Claro que a situação é outra, mas você também é outro. Seus pensamentos são angustiados, depressivos, ansiosos. Está cheio de medo do futuro. Entretanto, precisa reconhecer que esse tipo de atitude, além de dificultar, ainda cria obstáculos à sua recuperação emocional e finan­ceira. Terá que se tornar mais otimista.

— Você já disse isso. Mas não sei como fazer. Como posso fingir que estou bem se tudo vai mal?

— Não estou dizendo que precisa fingir. Estou dizendo que, apesar de estar passando por dificuldades, você continua tendo muitas coisas boas em sua vida. Você perdeu dinheiro, mas ainda tem o que é mais importante: sua família, o amor dos seus. Eles não o abandonaram. Ao contrário, ficaram do seu lado, esforçando-se, cada um a seu modo, para mostrar o quanto o amam e acreditam em sua capacidade.

— Minha mãe me critica porque ajudo a cuidar da casa. Ela acha que um homem não deve fazer isso.

- É preconceito errado dela. Não existe isso de serviço de homem ou de mulher. Em uma família, todos precisam cooperar para que o ser­viço da casa seja feito. Afinal, todos usufruem e dividem o mesmo es­paço. Nada mais justo que quem tenha mais tempo ajude mais.

— É isso que eu penso. Se Gabriela está trabalhando e eu em casa, por que não devo fazer pequenos serviços domésticos?

— Você está muito certo. O que sua mãe pensa não deve afetá-lo.

Reconheça que essa é a forma como ela foi educada. No fundo mesmo, o que ela deseja é apoiá-lo, ajudá-lo a resolver seus problemas. Faz isso do jeito dela, sem perceber que o está constrangendo. É seu jeito de amar. Quando demonstra preocupação, está querendo dizer que o ama e torce para que seja feliz.

— Acho que tem razão. Nunca havia visto por esse lado.

— Quanto à sua mulher, está trabalhando mais horas para que nada falte a vocês, e isso, na minha opinião, não é para que você se sin­ta humilhado, mas para apoiá-lo até que possa assumir sua parte nas despesas. Ela faz isso por amor.

— Você acha mesmo?

- Claro. Ela deseja mostrar que o compreende e quer estimulá-lo a reagir.

— Ela reclama que eu vivo queixoso e mal-humorado.

— Ela sente que, apesar de estar fazendo tudo que pode, você não está entendendo. Percebe sua revolta. Sente-se incompreendida.

— É verdade. Ultimamente ela não conversa mais comigo como antes. Isso me deixa mais deprimido.

— Ela tem razão. Está fazendo tudo que pode e você continua na cômoda posição de vítima.

No lugar dela, você também estaria irritado.

— É... pode ser... Você acha mesmo que a mudança dela pode ser por causa disso?

— Acho. Você pode verificar. Mude sua atitude. Demonstre con­fiança no futuro. Prove a ela que voltou a acreditar na vida e em você mesmo. Garanto que ela também mudará com você.

— Puxa... vou tentar. Eu amo essa mulher. Só de pensar em per­dê-la, sinto a vista turva e uma sensação de pavor.

— Se deseja mesmo isso, você precisa reagir antes que ela se can­se de sua falta de compreensão e o amor acabe.

— Nem quero pensar nisso!

— Então faça alguma coisa. Você perdeu só o dinheiro, mas o que possui de mais valioso ainda está do seu lado. Valorize o que possui de bom, se deseja conservá-lo. Descubra sua felicidade. Você é um homem feliz. Tem uma família linda, uma mãe amorosa, até uma empregada dedicada que chega a trabalhar fora para ajudar. Isso é uma raridade.

Roberto respirou fundo! De repente ele entendeu. Era verdade. Ele perdera só o dinheiro. A família ainda estava do seu lado.

- Acho que tem razão Eu perdi o dinheiro, mas não perdi o que tenho de mais valioso.

— Isso mesmo. O dinheiro foi mas pode voltar a qualquer momen­to, Os bens do coração, quando se vão, dificilmente voltam.

- Roberto levantou-se e agarrou a mão do médico, apertando-a com entusiasmo.

— Obrigado, doutor. Entrei aqui arrasado, destruído, e o senhor me transformou em um homem feliz, cheio de entusiasmo. Tem razão: vou me esforçar para mudar meu comportamento.

— Faça isso. Não se deixe abater pelo que já foi. Amanhã é outro dia e novas oportunidades surgirão em sua vida.

- Não sei como agradecer...

— Ainda é cedo para isso. Vamos continuar. Volte aqui depois de amanhã.

Roberto despediu-se e foi para casa. Quando entrou, Gabriela es­tava na cozinha.

Ele se aproximou dela. Gabriela estava com ar cansado, preparan­do a mesa do café para a manhã seguinte. Vendo-o entrar, olhou para ele e não disse nada.

Não sabia aonde ele ia quando saía à noite, mas estava tão desani­mada que não queria perguntar. As vezes pensava que ele poderia estar se envolvendo com outra mulher. As coisas estavam complicadas demais para que ela arranjasse mais esse problema. Por isso, fingia não notar suas saídas em dias determinados. Ele não dizia, ela não perguntava.

— Deixe-me ajudá-la — disse ele dirigindo-se ao armário e apanhan­do as xícaras.

Ela olhou para ele um pouco surpreendida, mas não disse nada. Roberto continuou:

— Você está cansada. Nicete não podia fazer isso?

— Ela está passando roupa. Amanhã é dia em que ela trabalha para Angélica.

Roberto colocou as xícaras na mesa e abraçou-a, dizendo:

— Você tem sido maravilhosa. Sou um homem afortunado por ter me casado com você.

Gabriela olhou admirada para o marido.

— Por que isso agora?

— Estive pensando. Tenho agido como um bobo. Mas, de hoje em diante, vou mudar. Estou confiante em que tudo voltará a ser como an­tes. Tenha um pouco mais de paciência.

Ela se soltou dos braços dele, dizendo:

— Arranjou emprego?

— Ainda não. Talvez esse não seja o meu caminho. Sempre traba­lhei por conta própria e me dei bem. Pretendo recomeçar.

— Como? Não tem capital.

— Vou dar um jeito. Quando comecei, também não tinha nada.

Ela deu de ombros e respondeu:

— É verdade.

— Estou confiante. Assim como ganhei dinheiro e construí nossa vida, vou fazer tudo de novo.

Pode acreditar, vou fazer. Aí, você pode­rá até deixar o emprego e cuidar apenas dos nossos filhos.

— Deixar o emprego, não. Pretendo continuar a ganhar o meu dinheiro.

— Veremos, quando chegar o momento.

Gabriela olhou para ele e não disse nada. Reconhecia que o mari­do estava diferente. Seria bom mesmo que mudasse, que não ficasse com aquela cara de vítima sofredora. Ela não agüentava mais sua depressão.

— Quer tomar um café com leite antes de dormir? — indagou solícita.

— Quero. Mas hoje eu é que vou preparar e você vai se sentar do meu lado e tomar uma xícara comigo.

— Estou cansada, vou me deitar.

— Nesse caso, levarei a bandeja no quarto. Você vai tomar comigo.

Ela esboçou um sorriso, olhando admirada para ele. Roberto esta­va diferente. O que teria mudado?

Gabriela foi para o quarto, preparando-se para deitar.

 

Gabriela levantou-se apressada. Estava atrasada. Aquele café com leite na cama, a mudança da atitude do marido haviam-na feito relaxar e dormir pesadamente.

Quanto à situação financeira dele, não queria pensar. No prin­cípio, tentara de todas as formas ajudá-lo, sugerindo várias opções de trabalho que, seja por ele não ter prática ou por não ter entusiasmo, nun­ca haviam dado certo. No fim, ela ficava sempre com a sensação de fra­casso.

Nessas ocasiões, sentia que ele a olhava como que a culpando. Por causa disso decidiu não interferir mais nessa questão.

Entretanto, apesar disso, não conseguia manter serenidade diante das contas a pagar, da falta de compreensão dele, do ar de vítima da so­gra e até das pequenas contrariedades domésticas normais do dia-a-dia. Sentia-se esgotada de corpo e alma.

Aprontou-se rapidamente e, tendo dado algumas recomendações a Nicete, saiu após um “até mais” ao marido.

Chegou ao escritório com quase meia hora de atraso. Uma colega informou:

- O Dr. Renato perguntou por você duas vezes.

Nervosa, Gabriela guardou a bolsa no armário, ajeitou a roupa e ime­diatamente foi à sala do chefe. Bateu levemente e entrou.

Ele lia alguns papéis e, vendo-a entrar, levantou os olhos dizendo:

— Onde estava, Gabriela?

— Desculpe, doutor, não consegui chegar no horário.

       Ele           pousou os papéis sobre a mesa e olhou atentamente para ela. Você parece cansada. Está doente?

       - Não, senhor. Estou muito bem.

       - Tenho observado. Ultimamente você tem estado triste, abati­da, emagreceu.

       - Tenho tido alguns problemas pessoais.

Ele continuou fitando-a pensativo. Era um homem fino, elegante, que aos quarenta e cinco anos já podia considerar-se rico. Tinha mu­lher e dois filhos, sua empresa ia muito bem.

— Se continuar assim, vai adoecer — disse. — Tem trabalhado de­mais. Mesmo quando não preciso de você, tem procurado fazer horas ex­tras em outros departamentos. O que está acontecendo?

Gabriela esforçou-se para controlar-se. Não queria mostrar-se fra­ca. Ele poderia despedi-la.

Se ela perdesse aquele emprego, sua família não teria como se manter.

Tentou conter as lágrimas e disse com voz que tudo fez para tor­nar firme:

— Por favor, Dr. Renato! Não me mande embora. Sei que tenho estado cansada, mas não posso perder o emprego agora!

Ele se levantou e se aproximou dela, dizendo:

- Não pensei nisso, Gabriela. Acalme-se. Estou apenas queren­do saber o que está acontecendo com você. Sempre admirei sua alegria, disposição, bom humor. Agora está diferente.

Não me passou pela ca­beça despedi-la. Pelo contrário, desejo sabero que está acontecendo para poder ajudá-la.

Ouvindo essas palavras, Gabriela não conseguiu mais conter a emo­ção. Rompeu em pranto convulso e incontrolável. Tudo quanto ela ha­via represado durante aquele tempo aflorou, e ela não conseguia parar de soluçar.

Sensibilizado, ele a abraçou, apanhou um lenço e colocou-o na mão dela, dizendo:

- Chore, Gabriela. Extravase seus sentimentos. Desabafe.

Ela se deixou ficar ali, abraçada a ele, sentindo o conforto do seu apoio, o delicado perfume que vinha dele. Quando conseguiu se acal­mar, afastou-se e ele imediatamente a largou.

- Desculpe. O senhor não tem nada a ver com meus problemas pessoais. Sinto muito. Não estou sendo profissional. Não devia ter dei­xado acontecer.

— Não se preocupe. Você está exausta, no limite da sua resistên­cia. Sente-se melhor agora?

Gabriela tentou sorrir, enxugando os olhos mais uma vez.

— Sim. Obrigada pelo lenço. Vou levá-lo para lavar, amanhã eu devolvo. O senhor estava me procurando.

— Isso pode esperar. Eu queria que soubesse que pode confiar em mim. Trabalhamos juntos há mais de três anos e somos amigos. Se há alguma coisa que eu possa fazer...

— O senhor já fez muito. Meu marido está desempregado até ago­ra. As coisas estão muito difíceis lá em casa.

- Agora me recordo, ele foi roubado pelo sócio.

- Foi. Como nunca trabalhou como assalariado, está difícil ar­ranjar emprego. Todos pedem dois anos de experiência.

- Por que ele não volta a trabalhar por conta própria?

— Não tem capital.

— Ele tinha um depósito de materiais de construção, não é?

— É.

— Ele pode procurar um sócio e recomeçar.

— Depois do que ele passou? Desta vez ele vai precisar fazer tudo sozinho. Aliás, foi assim que ele começou.

— Não desanime. Ele vai conseguir. Agora vá lavar o rosto, refa­zer a maquiagem e vamos trabalhar.

— Obrigada pela compreensão. Estou melhor agora. Pode ter cer­teza de que vou trabalhar como nunca.

Renato sorriu. Era assim que gostava de vê-la: firme, disposta, ca­paz. Ele sabia que ela era muito eficiente. Gabriela retirou-se e ele ficou olhando para a porta, o lugar por onde ela desaparecera. Que mulher!

Muito diferente da sua, que estava sempre se queixando e para quem tudo era difícil. Havia momentos em que ele não conseguia su­portar sua voz chorosa, lamentando-se por futilidades. Ora porque o trânsito estava ruim, ora porque o cabeleireiro estava lotado, a balco­nista da Loja fora indelicada, uma amiga esquecera o dia do seu aniver­sário, etc., etc.

Se ela tivesse a metade dos problemas de Gabriela, com certeza te­ria um chilique. O que mais o irritava em Gioconda era sua atitude com os filhos, desculpando todas as malcriações, principalmente de Ricar­dinho, que aos dez anos fora expulso de duas escolas e estava difícil de manter na terceira.

Quando Renato chamava a atenção de Gioconda para que ela fos­se mais firme com o filho, ela tinha crises de depressão, dizendo-se in­compreendida, chamando-o de malvado.

Ele tentara várias vezes orientar Ricardinho, porém Gioconda sem­pre interveio, tirando sua autoridade. Pensara até em interná-lo em um colégio, o que deixou sua mulher de cama por dois dias, infernizando sua vida.

Já Célia era mais cordata. Quieta, delicada, falava pouco. Aos oito anos, fazia tudo para agradar a mãe, mesmo percebendo que Gioconda só tinha olhos para Ricardinho.

Renato, por vezes, sentia vontade de intervir, mudar tudo. Mas como? Ficava trabalhando a maior parte do tempo. Depois, Gioconda era tão frágil que ele tinha medo de pressioná-la. E se ela fizesse algu­ma besteira?

Ia levando a vida como dava. Gabriela era o oposto. Forte. Deter­minada. Bonita e indomável como um cavalo de raça.

“Vai ver que o marido dela é um moleirão que não merece tudo isso!”, pensou ele.

Quando Gabriela voltou, estava renovada. Arrumara-se melhor. Não podia desagradar ao patrão. Sabia que ele detestava gente feia e mal ar­rumada. Queria estar sempre rodeado de obras de arte em um ambien­te agradável.

Vendo-a entrar, ele tornou:

— Vamos trabalhar. Há algumas cartas que quero ditar sobre aque­le contrato com a importadora.

— Sim, senhor. Estou pronta.

Ela se sentou com o caderno de anotações nas mãos e ele começou a ditar. Trabalharam durante uma hora, depois ele decidiu:

— Providencie essas cartas com urgência. Pretendo assiná-las logo ao voltar do almoço e mandá-las o quanto antes.

— Sim, senhor. Não levarei mais do que meia hora para tê-las prontas.

— Todas?

—Todas.

— Você não sai para o almoço?

— Não. Costumo trazer um lanche e como aqui mesmo.

- Isso não faz bem à saúde. Você deveria se alimentar melhor. A noite, em casa, faço isso.

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Não parece. Vai ver que é por isso que tem emagrecido e sen­tido cansaço. Precisa se cuidar.

— Sim, senhor. Farei o possível.

Gabriela saiu e tratou de aprontar as cartas. Havia trazido o lan­che, porém não sentia fome.

Quando acabasse, tentaria comer um pou­co. Ela não gostava daquela sensação de estômago vazio que a deixava um pouco tonta.

Atirou-se ao trabalho com capricho. Todos saíram para o almoço e ela continuou trabalhando. Meia hora depois, chegou um mensagei­ro com um pacote. Ela atendeu.

— É para D. Gabriela. É só entregar.

— Gabriela do quê?

— A secretária do Dr. Renato.

- Sou eu. Obrigada.

Curiosa, abriu a embalagem. Era um almoço completo, com refri­gerante, sobremesa e tudo.

Ela corou. Quanta gentileza! Ele almoçava em um restaurante próximo e mandara-lhe aquela comida.

Sentiu-se confortada. Ele se interessara pelo seu bem-estar. Estava habituada a cuidar dos filhos, do marido, da empregada, e foi agradável ter alguém que cuidasse um pouco dela. Era como se houvesse voltado à infância e tivesse a presença de sua mãe, de quem havia se separado desde o casamento porque ela morava em outro estado.

Abriu tudo sobre sua mesa. Ele não se esquecera dos pratos e ta­lheres descartáveis. Abrindo as embalagens e experimentando a comi­da, Gabriela parecia uma criança. Seu apetite voltou como por encan­to e ela comeu tudo, sentindo-se muito bem.

Depois limpou a mesa e foi pegar um café na garrafa térmica na outra sala. Acendeu um cigarro e, enquanto observava as espirais de fumaça que formavam arabescos no ar, pensava que afinal não tinha mo­tivos para ficar tão depressiva.

Roberto encontraria o que fazer, mas enquanto isso não aconteces­se ela garantiria as despesas da família. Era bom também poder contar com a amizade de Nicete. Um dia, quando a situação melhorasse, ha­veria de recompensá-la pela lealdade.

Voltou ao trabalho e, quando Renato chegou, as cartas já estavam em sua mesa, prontas para serem assinadas e despachadas.

Vendo-o entrar, Gabriela seguiu-o até a sala.

— Muito obrigada pelo almoço, Dr. Renato. Não precisava ter se incomodado.

— Pelo menos você comeu?

— Tudo. Estava delicioso. Mas o melhor foi sentir seu apoio. Mui­to obrigada.

— Não foi nada. O que eu fiz foi pensando em mim. Não conse­guia comer sabendo que você, minha secretária, estava aqui, apenas com um sanduíche.

— Mais uma vez obrigada.

— Não me agradeça, porque de hoje em diante vou ter você sob minha vigilância. Terá que cuidar melhor da sua saúde.

— Farei o possível.

— Está bem. Vejamos as cartas.

Ele leu, assinou e, entregando-as, tornou:

— Despache-as e depois volte aqui.

Ela saiu e dez minutos depois voltou.

— Pronto, doutor.

— Tenho alguns contratos que gostaria que você lesse e depois me dissesse o que pensa deles.

— Eu?

— Você. Preciso de uma opinião de alguém que esteja fora da negociação.

Ele apanhou uma pasta e entregou-a a Gabriela, continuando:

— Leia e faça os apontamentos que julgar interessantes. Entregue-me assim que terminar.

- Tem urgência?

— Sim. Pare outras coisas e dê prioridade a estes contratos.

— Está bem.

— Como são vários e diferentes assuntos, eu gostaria que, à medi­da que acabasse um, fosse me devolvendo. Assim estaremos agilizando as providências.

Gabriela saiu, foi até sua mesa e começou a leitura. A princípio não se sentiu muito à vontade.

Analisar um contrato era atividade para pes­soa habilitada, que tivesse mais qualificação do que ela.

Já ao ler o primeiro, sentiu-se muito interessada pelo assunto, pela maneira como ele estava sendo exposto. Fez várias anotações, nas quais, além de questionar algumas propostas, sugeria modificações.

Duas horas depois, ela entrou na sala de Renato com um contra­to na mão.

— E então? perguntou ele.

— Acabei de ler este. Anotei algumas questões. Não é minha área de trabalho, por isso peço que releve minha ignorância.

Ele apanhou o contrato e leu as anotações com atenção.

— Acho que você se saiu muito bem. Só não entendo por que su­geriu esta mudança aqui.

Parece-me melhor fazer como a minuta pede.

— Se fizer como está aí, em caso de o cliente vir a falecer e deixar herdeiros menores, a empresa ficará amarrada, sem poder continuar o projeto. Se desvincular o contrato da área pessoal, colocando-o em nome do banco e o mesmo ficar credor em caso de morte do cliente, nos­sa empresa estará garantida.

Renato olhou para ela admirado.

- Tem razão! Como é que não pensei nisso? Vou modificar tudo.

Nosso negócio será em nome do banco, que garantirá a outra empresa.

- Acha que eles aceitarão isso?

— Acho. Estão muito interessados neste projeto. Afinal, eles é que irão ganhar a melhor parte. Leia os outros e depois conversaremos. Es­tou pensando em uma coisa diferente.

— O quê?

— Em dar-lhe uma oportunidade de melhorar seus vencimentos. Estou falando de uma promoção.

       Gabriela corou de prazer.

       — Promoção?

       — Sim. Você é arguta e observadora. Merece uma oportunidade me­lhor. Vamos ver como se sai com os outros contratos.

       Gabriela ficou alegre. Melhorar sua situação financeira seria qua­se um milagre naquelas circunstâncias.

       Naquela noite chegou em casa feliz. Depois de tanto tempo, acon­tecia alguma coisa boa. Dali para a frente tudo poderia mudar. Era só questão de tempo.

Passava das sete quando Renato deixou o escritório. Olhou o bur­burinho das ruas e decidiu andar um pouco antes de apanhar o carro no estacionamento.

Apesar do vento frio, foi caminhando pensativo, parando em uma vitrine ou outra, procurando alguma coisa interessante. Não sentia von­tade de ir para casa, ouvir as últimas reclamações de Gioconda.

Não se interessou por nada e reconheceu que estava entediado. Advogado bem-sucedido inclusive na área internacional, abrira sua pró­pria empresa de assessoria e negócios, especializando-se em empreendi­mentos de vulto. Podia orgulhar-se de ter como clientes grandes empre­sas que, aliadas à sua capacidade, lhe garantiam notoriedade e sucesso. Bela casa, carro do ano, boas roupas, Renato possuía tudo quanto ha­via desejado.

Olhando sua figura refletida na vitrine iluminada, seu rosto abor­recido, Renato foi forçado a admitir que não estava feliz. O que estaria acontecendo com ele?

Uma mulher jovem, elegante e bonita passou por ele, encarou-o e sorriu. Ele percebeu o interesse dela, mas nem isso o fez sentir-se me­lhor. Fosse em outros tempos, teria pelo menos se entusiasmado.

Continuou andando, tentando encontrar o motivo da sua insa­tisfação, sem conseguir. Não era dado a depressão. Ao contrário, con­siderava-se um otimista. Fora sua postura entusiasta e seu empenho em resolver os desafios que lhe granjearam a confiança dos clientes.

Começou a garoar e ele resolveu apanhar o carro e voltar para casa. Passava das nove quando entrou na sala onde Gioconda, comodamen­te instalada em uma poltrona, folheava uma revista. Elegante, de esta­tura média, cabelos castanhos bem penteados, pele clara e delicada, vestida com apuro, era o que se pode chamar de uma mulher de classe. Vendo-o, levantou-se.

— Finalmente. Fiquei esperando você para jantar.

— Não precisava. Estou sem fome.

— Mandei servir às crianças. Sabe como é, eles precisam se alimen­tar nas horas certas.

- Já lhe disse várias vezes: não tenho horário para chegar. Vocês não precisam me esperar.

— Ainda assim esperei. Afinal, almoçamos sozinhos todos os dias. Você nunca está em casa.

O escritório fecha às cinco e meia... o que fi­cou fazendo até agora?

Renato tentou conter a irritação. Não podia dizer que ficara andan­do na rua sem vontade de ir para casa.

— Nem sempre posso sair junto com os funcionários. Tenho as­suntos sérios a estudar, contratos a resolver. Projetos de muita respon­sabilidade. Não posso brincar em serviço, parar de trabalhar por causa do relógio.

Ela se aproximou dele, dizendo com voz queixosa:

— Sinto tanto sua falta! Por que me abandona desse jeito? Passo o dia contando as horas que faltam para você chegar e dói muito per­ceber que só eu sinto essa necessidade. Você não se importa comigo nem com sua família.

— Você sabe que isso não é verdade. Agora vou subir, me lavar um pouco. Pode mandar tirar o jantar.

— Vê? Você não liga mesmo para mim. Estou sofrendo e você nem se importa.

Ele fez um gesto de impaciência.

— Estou cansado, Gioconda. Tive um dia de muito trabalho. Gos­taria que esta noite você me poupasse.

— Você nunca tem tempo para mim. Os Mendes telefonaram para saber se iríamos jantar com eles no sábado.

— Eu já disse que neste fim de semana pretendo ir ao clube fazer um pouco de exercício. Iremos outro dia.

— Você sabe que eu detesto ir ao clube nos fins de semana.

— Seria bom que fosse e levasse as crianças. Ricardinho deveria pra­ticar algum esporte para equilibrar seu excesso de energia.

— Lá vem você de novo com essa idéia. Ele é como eu, não gosta de nada disso.

— E fica em casa sem se ocupar, só pensando em besteiras.

— Você é um pai omisso. Nunca está em casa, não conhece o pró­prio filho e ainda se queixa das atitudes do menino.

— Vou subir, Gioconda. Depois conversaremos.

Ele subiu as escadas quase correndo para livrar-se da voz queixosa, da mulher. Sentia vontade de dizer-lhe uma porção de desaforos. Con­trolou-se, porém. Não gostava de ser indelicado. Sempre primara pela boa educação, herança da postura firme e ditatorial de sua mãe, que não tolerava a mínima indelicadeza e o educara rigidamente.

Enquanto se lavava, ele idealizava uma forma de não se aborrecer com a postura da mulher.

Reconhecia que ela era assim mesmo. Ele se orgu­lhava de saber manejar as pessoas. Decidiu que a melhor forma de lidar com ela era não a levar a Sério, não entrar em seus desacertos emocionais.

Alguém naquela casa precisava conservar o bom senso. Ele não podia contar com ela na administração dos problemas da família. Por isso, teria de tomar todas as decisões sozinho.

Quando se sentou à mesa do jantar, Renato já conseguira se acal­mar, e, quando Gioconda quis retomar seus assuntos, ele sorriu gentil­mente e pediu:

— Vamos deixar os problemas domésticos para mais tarde. Não há nada como um jantar agradável. Gostaria de um pouco de música. Você pode ver isso?

— O que você quer Ouvir?

— Música de filmes com orquestra. Com seu bom gosto, tenho a certeza de que escolherá adequadamente.

Nada podia alegrar mais Gioconda do que uma referência às suas qualidades. Sorriu e apressou-se em fazer o que o marido pedira.

Quando voltou, ele dirigiu o assunto para banalidades, coisa de que ela gostava de conversar, uma vez que estava a par de todas as no­vidades da sociedade e da moda.

Enquanto a ouvia discorrer sobre as últimas fofocas de Hollywood, Renato lembrou-se de Gabriela. Aquela sim que era mulher! Que dife­rença! Reconhecia que a vida fora injusta com ele, dando-lhe uma es­posa infantil e fraca, muito diferente do que ele desejaria.

Assim que acabaram o jantar, Renato, dizendo que precisava estu­dar um projeto novo, fechou-se no escritório sob os protestos de Gio­conda, que indignada não se conformava em vê-lo trabalhar tanto.

Uma vez Lá, Renato apanhou um livro, afundou gostosamente em uma poltrona macia e mergulhou prazerosamente na leitura.

Esse era seu momento de reflexão e paz, e ele não desejava dividi-lo com ninguém, muito menos com Gioconda. Renato só resolveu ir dor­mir quando percebeu que a esposa já havia pegado no sono.

Na manhã seguinte, na mesa do café, Roberto notou que Gabrie­la estava mais disposta e sentiu-se mais animado. Não se conteve:

— Noto que você está melhor, menos cansada. De agora em dian­te, enquanto eu não estiver trabalhando, farei tudo para ajudar no ser­viço da casa.

— Não se preocupe com isso, Roberto. Nós damos um jeito.

— Tenho pensado muito e acredito que nós ainda vamos re­construir nossa vida. Vou me esforçar para reaver tudo quanto perdi. Você não se arrependerá de ter me apoiado. Quando estiver bem de novo, você pode deixar de trabalhar, ficar só em casa cuidando dos nossos filhos.

Gabriela olhou séria para ele e respondeu:

— Sei que você é capaz e vai reaver o que perdeu. Mas gostaria que entendesse que eu gosto de trabalhar. É verdade que estamos vivendo tempos difíceis, mas não pretendo parar. Você pode ficar milionário que continuarei trabalhando.

Roberto fez um gesto de impaciência.

— Por quê? Meu sonho é vê-la em casa, como uma rainha. Colo­car tudo a seus pés. Você não vai precisar mais de um emprego.

— Esse é um sonho seu, não meu. Nunca lhe ocorreu que eu pos­so desejar outra coisa? Cada pessoa tem o direito de escolher o que de­seja fazer. Eu sinto muita vontade de aprender mais, de melhorar minha cabeça, de participar da vida fazendo coisas inteligentes, boas, que me realizem.

— Você é uma mulher casada, mãe de família. Tem essa responsa­bilidade. Essa é sua realização.

— Não penso assim. Eu posso muito bem ser ótima mãe, boa es­posa e fazer coisas que me deixem feliz.

— É isso que não consigo entender. Você é diferente das outras mulheres que se contentam em cuidar da família. Você não valoriza o lar que tem.

Gabriela olhou para ele com raiva.

— Se não valorizasse, há muito já teria desistido de ficar com você. Gostaria que entendesse de uma vez por todas que eu estou aqui só por­que amo vocês todos e valorizo muito minha responsabilidade familiar.

Roberto mordeu os lábios. Estava sendo injusto de novo. Tentou consertar:

— Desculpe, Gabriela. As vezes não sei me expressar.

— Você sabe muito bem. Já conversamos inúmeras vezes sobre esse assunto e nunca concordamos. Por isso é melhor parar. Estou muito sa­tisfeita no emprego e pretendo continuar mesmo depois que você ganhar dinheiro de novo. Estou sendo promovida, meu salário vai aumentar.

— Promovida? Por quê?

— O Dr. Renato acha que eu posso progredir e deu-me um traba­lho de mais responsabilidade. Além do aumento que ainda não sei de quanto será, há a chance de melhorar meus conhecimentos profissionais.

— Por que será que ele resolveu fazer isso por Você?

— Ele precisava de uma assistente em outra área e eu estou ex­perimentando. Já me disse que estou indo bem e que vai melhorar meu salário.

Roberto sentiu um aperto no coração e tentou disfarçar. Não que­ria que ela percebesse que sentia ciúme. A cena de Gabriela passando den­tro do carro com outro homem surgiu em sua mente e ele apertou a mão na xícara que segurava, sorvendo um gole de café para ganhar tempo.

Quando se sentiu mais calmo, respondeu:

— Você vai aceitar a nova responsabilidade?

— Claro. Além de aprender mais, há o aumento. Neste momento será de grande valia. Temos algumas contas vencidas para pagar. Ago­ra preciso ir. Ontem cheguei atrasada, não quero que aconteça de novo.

Depois que ela se foi, Roberto decidiu-se. Ele não podia ficar mais naquela situação. Tinha de dar um jeito na vida.

Arrumou-se e saiu. Estava disposto a trabalhar em qualquer servi­ço. Pegaria o que aparecesse, contanto que o ocupasse e lhe rendesse al­gum dinheiro. Do jeito que estava não podia ficar mais.

Ao passar por um prédio de apartamentos que estava sendo cons­truído, parou. A estrutura estava em andamento e alguns andares já haviam sido levantados. Viuo mestre de obras e o engenheiro vistorian­do o serviço e foi até eles, que estavam tão entretidos discutindo deta­lhes da obra que nem o viram.

Roberto esperou calado até que o mestre, vendo-o, tornou:

— Se deseja alguma informação sobre os apartamentos, o plantão de vendas é ali na frente.

— Eu desejo é falar com o senhor mesmo.

— Agora estou ocupado.

— Enquanto esperava, ouvi o que conversavam. Posso lhes oferecer uma solução barata e eficiente para o problema que estavam discutindo.

O engenheiro que examinava algumas colunas voltou-se para Rober­to e perguntou:

— Você é da área?

— Desde criança. Sempre trabalhei com construção. Há um ma­terial específico, com uma liga especial e de grande resistência, que vai melhorar toda a estrutura. Além de tudo, é barato e fácil de trabalhar.

— Você é vendedor? — indagou o mestre de obras, olhando-o desconfiado.

— Sou — respondeu Roberto.

— Estou interessado em obter mais informações — tornou o en­genheiro. — Esse problema está atrasando meu cronograma. Tenho ur­gência de solucioná-lo.

— Meu nome é Roberto Gonçalves. O senhor vai ficar aqui até a hora do almoço?

—Vou.

— Até lá estarei de volta com as informações de que precisa.

O  engenheiro olhou sério para ele e respondeu:

— Está bem.

Roberto saiu dali e foi diretamente a uma empresa que ele conhe­cia e que produzia o material.

Procurou pelo chefe de vendas.

— Roberto! Quanto tempo! Prazer em vê-lo.

— Obrigado. Estou retomando os meus negócios.

— Eu sabia que você ia dar a volta por cima. O que é que manda?

— Estou trabalhando com alguns engenheiros, sugerindo mate­riais e ajudando-os a comprá-los. Preciso refazer meu capital.

— Tenho certeza de que conseguirá.

— Gosto dos produtos desta empresa e pretendo comprar grandes quantidades para meus clientes. Vai depender da comissão que você me oferecer.

O  chefe de vendas interessou-se imediatamente. Roberto, de pos­se de todas as informações técnicas, inclusive uma amostra do produto para um teste, voltou à construção, onde o engenheiro o esperava.

Juntos testaram o produto, e no fim o engenheiro resolveu:

— Vamos esperar vinte e quatro horas para ver se resiste ao peso e se mantém a consolidação. Amanhã você volta e, se tudo estiver apro­vado, farei o pedido. Tem pronta entrega?

— Tem. Assim que autorizar, o material estará aqui. Não trabalho só com este produto. Sei que a rotina em uma obra é muito corrida e o trabalho não pode parar. Por isso me especializei em agilizar as compras.

— Costumo pedir três orçamentos — disse o mestre de obras.

— Imagino que por telefone, e sempre para as mesmas empresas. Já no meu caso, eu ando constantemente procurando novos materiais, novas alternativas para facilitar a obra, melhorar o custo, mas manten­do a mesma qualidade. Se precisar de outros produtos, é só me pedir. Com rapidez eu lhe trarei várias opções, sem que precisem perder tempo.

— É interessante conhecer as novidades. As vezes vejo novas opções nas revistas especializadas, mas acabo não tendo muito tempo de ir investigar.

— Pode contar comigo. Vou deixar meu telefone. Infelizmente esqueci meus cartões. Este é o número da minha residência. Fechei meu depósito de construções e no momento estou trabalhando em casa mesmo.

Roberto ficou de voltar na manhã seguinte. Sentia-se animado. Por que não pensara nisso antes? Naquele dia visitou o gerente de ven­das de mais duas empresas onde ele comprara muito material quando teve o depósito e negociou uma comissão nas compras que faria para seus clientes.

Fez os planos para o dia seguinte. Iria visitar outras obras e propor boas soluções para seus construtores.

 

Naquela noite, Roberto chegou ao consultório de Aurélio muito animado. Vendo-o entrar, o médico disse satisfeito:

— Você melhorou.

— É verdade. Retomei o trabalho por conta própria. Nem sei por que não fiz isso antes.

— Não fez porque sua cabeça estava confusa.

— O senhor tinha razão: um emprego não ia dar certo para mim. Sempre trabalhei do meu jeito. Depois, só sei lidar com construção, não tenho prática em outros serviços.

— É o que gosta de fazer. Quando é que isso ficou claro para você?

— Depois daquela conversa que tivemos outro dia. Pensei muito sobre tudo quanto me aconteceu. Percebi que estava com mais raiva de mim, por ter sido tão bobo, do que de Neumes.

— É difícil reconhecer que algumas crenças suas eram erradas.

— Como assim?

— Neumes conseguiu realizar o seu maior sonho, que era formar-se engenheiro. Você o admirava. De repente, percebeu que pensava de forma errada. Um diploma não é suficiente para garantir o comporta­mento ético de uma pessoa. Sentiu-se enganado duas vezes. Diminuí­do duas vezes. Perdeu o referencial. Ficou deprimido, sem confiança em si nem na vida.

— O desânimo tomou conta de mim. Depois, veio o caso da mi­nha mulher.

— Que você não sabe se aconteceu mesmo.

— Eu vi. As vezes penso estar enganado, mas essa cena reaparece em minha cabeça e sempre me angustia.

— Está se torturando sem razão. Não tem certeza de nada.

— Ela está sendo promovida. Isso me deixou angustiado.

— Inseguro é o termo certo. Você sempre coloca sua mulher mui­to acima, como se o amor dela representasse um prêmio que você não merece.

— Ela é muito bonita e tem mais estudo do que eu.

— Na verdade, seu problema é apenas um: despeito por não haver cursado a universidade.

Diga-me: em sua família, quem costumava lhe dizer que a pessoa que não estuda nunca consegue nada na vida?

— Meu pai. Todas as vezes que eu ia mal nos estudos, que não ob­tinha notas altas, ele contava a história de Pinóquio, que fugiu da es­cola para vadiar e acabou virando um burro.

— E você morria de medo de virar um burro.

— Eu fingia que não me importava com o que ele dizia. Sabia que nunca viraria burro. Mas sempre que alguma coisa dava errado eu acha­va que era burro mesmo, por não haver aprendido o suficiente. Por isso, sempre me esforcei para que os outros pensassem que eu era inteligen­te, esperto.

- Trabalhou muito para progredir financeiramente. Sentiu-se va­lorizado tendo conseguido.

— É verdade. Minha família mudou comigo quando eu construí mi­nha casa, aumentei o depósito, comprei carro zero, etc. Meu pai me elogiava, minha mãe tinha orgulho de mim. Quando conquistei Gabrie­la, tão disputada e bonita, foi a glória. Nem eu acreditei.

— Claro. Você nunca acreditou no próprio valor. Estava apenas fa­zendo um papel.

— Isso não. Eu amo minha mulher, e tudo que fiz foi pensando em manter minha família.

— Não duvido. Mas, lá dentro do seu coração, havia a vaidade de provar para seu pai que você era capaz e inteligente.

- Quando ele morreu, eu estava no auge do sucesso. Tudo ia muito bem.

— Ele morreu, mas suas palavras continuam dentro de você, pro­duzindo efeito, fazendo com que você se cobre, se vigie para nunca er­rar. Perceba como você se impressionou com o que ele lhe dizia.

— Não gosto de pensar nisso. Sinto-me angustiado.

- Precisa libertar-se dessa pressão. Você é inteligente e não pre­cisa provar nada para ele nem para ninguém. Tem capacidade, mas éhumano. Pode errar como qualquer um e nem por isso fica burro ou é menos do que os outros. Você sabia que ninguém consegue progredir sem errar? Os erros ensinam mais do que os acertos.

- Não nego que aprendi muito com o que aconteceu. Mas tem sido duro.

— Por causa da sua resistência em aceitar que foi enganado em sua boa-fé, mas que isso é natural em nosso mundo. Acontece a qual­quer pessoa que engane também.

— Nunca enganei ninguém. Sempre fui honesto.

— Enganou a si mesmo, o que é ainda pior.

— Não entendi.

— Você atraiu Neumes em sua vida porque precisava tomar cons­ciência de como enganava a si mesmo.

- Eu confiei nele.

— Mas ele o traiu porque você se traía.

— Não é verdade.

— Como não? Você se esforçava no trabalho, não como uma rea­lização interior mas como um meio de provar aos outros, principalmen­te ao seu pai e à sua família, que era capaz. Essa atitude revela que no fundo você não acreditava nisso, julgava-se pequeno, sem instrução, e dissimulava, receoso de que os outros notassem suas fraquezas. Por isso, escolheu a mulher mais cobiçada, lutou para subir na vida, cumpriu bem esse papel. Diante dos outros era tido como sendo um vencedor, mas, no fundo, não se sentia assim. Por isso o ciúme o incomodava.

— Sinto que isso é verdade, mas nunca traí ninguém.

— Traiu sua alma, sua realidade, seu espírito. Entrou na ilusão, jul­gou-se mal, acreditou na mentira que lhe disseram sem consultar seu co­ração. Creia, Roberto, a nossa verdade maior está no espírito. E nesse particular, apesar das diferenças de níveis de evolução, todos somos iguais. O nosso espírito possui a essência divina que, quando ouvida, nos conduz à felicidade. Por isso, quando mergulhamos nas ilusões, estamos traindo nossa realidade. A vida tenta nos chamar a atenção, colocando pessoas à nossa volta que servem de espelho para que possamos acordar.

— Neumes foi esse espelho?

— Isso mesmo. Se você fosse verdadeiro com seus sentimentos, valorizasse o que sente, percebendo seus limites reais e suas possibilida­des com naturalidade, ele não teria se interessado em trabalhar com você e teria ido ludibriar outro.

— Quer dizer que a culpa é minha?

— Cuidado com isso. Você não tem culpa de nada. Apenas igno­rava o que está aprendendo agora. Você é responsável pelas atitudes que tem, atraiu essa experiência em sua vida por causa disso.

— E Neumes?

— Vai atrair também experiências que dizem respeito às suas ati­tudes, da maneira como só a vida sabe dar.

— Então ele também será castigado.

— A vida não castiga. Apenas ensina. De acordo com suas atitu­des, ela responde com desafios que abrem a consciência e fazem ama­durecer. A vida é muito sábia e trabalha sempre para o melhor.

— Eu estava bem e fiquei pior com tudo que aconteceu.

— Você estava iludido, inseguro. Agora começa a se conhecer mais, a retomar o domínio de suas escolhas com mais experiência e ca­pacidade. Tenho certeza de que daqui para a frente será mais difícil você ser enganado nos negócios.

— Isso é verdade. Estou menos ingênuo.

— Conheceu a dedicação de sua mulher, que tem sido uma boa com­panheira, apoiando-o nos momentos de dificuldade.

— É... reconheço isso.

— Quero que pense em tudo que eu lhe disse. Tente sentir o que vai dentro do seu coração e daqui para a frente nunca mais traia seus sentimentos verdadeiros. Não tenha medo da opinião dos outros. Eles estão sempre interessados em manipular você, tirar proveito, criticar. Ra­ros são sinceros.

— Tenho notado isso. Principalmente depois que perdi tudo.

— Não se iluda com os outros nem espere demais deles. Mas, ao mesmo tempo que observa isso, conviva cordialmente, sem julgamen­tos nem críticas, preservando sua intimidade, tirando do convívio ex­terno apenas o bem que for possível conseguir. Todos precisamos apren­der a nos relacionar bem com as pessoas.

— Ultimamente tenho estado ressabiado. Não confio em ninguém.

— Confie em você. Contudo, afastar-se do convívio com as pes­soas também não é bom. Nós somos seres sociais. Gostamos de partici­par, cooperar, ser incluídos. É preciso ter bom senso, fugir do paterna­lismo, do pieguismo, das críticas e das atitudes radicais. Manter os pés no chão.

Não se deixar envolver pelo que as pessoas dizem. Se você fi­zer isso e agir com sinceridade, obterá melhores resultados. Esse é o se­gredo dos que sabem conviver sem se machucar.

— Gostaria de aprender isso. Minha vida tem sido um tormento. Minha mãe, minha cunhada, todos querem me ajudar, mas, quanto mais eles fazem isso, mais eu me sinto fracassado. Sei que todos têm boa in­tenção e não quero ser ingrato. Mas eu preferia que não se incomodas­sem tanto com meus problemas.

— Você preferia, mas não consegue deixar de se impressionar com o que eles pensam ou dizem.

— Quando perguntam se arranjei emprego, parece que estão me chamando de incapaz, de vagabundo.

— Porque acreditam que, mostrando preocupação com seus pro­blemas, estão mostrando afeto. Para muitas pessoas, preocupar-se com o outro é demonstração de apoio, é amor.

— Não sinto isso. Ao contrário. Aumenta meu desconforto, por­que, além de carregar o peso dos meus problemas, sinto culpa por estar causando preocupação a pessoas da família. Minha mãe fica aflita, quer resolver por mim.

— Cada pessoa é como é, e você não pode mudar isso. Deve apren­der a se isolar dessas influências.

— Como?

— Não as levando a sério. Ouvindo sem dar importância. As pes­soas falam o que querem ou pensam, mas é você quem vai ou não dar crédito ao que elas dizem. Nesses casos, é prudente interessar-se somen­te por coisas que levantem seu moral e o coloquem para cima. As pes­soas podem dar o melhor conselho, mas, se este o deixar deprimido, re­cuse-o, jogue-o fora, esqueça-o.

— Sem analisar?

— Experimente sentir. Nossa cabeça está repleta de idéias ilusórias, regras convencionais, que têm nos aprisionado em obrigações que nos limitam e paralisam. Já a alma não. Ela tem a sensibilidade espiritual na­tural que preserva nosso equilíbrio e bem-estar. Se você a seguir, encontrará o melhor caminho. É ela que sente e reage. Se prestar atenção, per­ceberá que há coisas que abrem seu coração e o deixam de bem com a vida e há outras que provocam aperto dentro do peito e incomodam.

— Já senti isso.

— É assim que sua alma fala com você. Se deseja sentir-se bem, é só seguir esses sinais, valorizando e conservando tudo que o faz sentir-se melhor e não dando importância ao que o deprime.

— Parece simples, mas não e.

— O que dificulta é que nos habituamos a valorizar o racional em detrimento dos sentimentos. A idéia de que somos maus, de que preci­samos domar nossa fera interior e manter controle para não fazer mui­tas besteiras, generalizou-se. Você teme que, se seguir os impulsos do seu coração, se liberar seus sentimentos, acabará fazendo coisas ruins.

— Minha mãe dizia que “é de pequeno que se torce o pepino”, que desde cedo as crianças têm que obedecer às regras e se comportarem. Aí, ela contava histórias de meninos desobedientes que se tornavam maus, ninguém gostava deles e acabavam como marginais. Eu não queria ser ruim. Eu queria que todos me admirassem.

— Você queria ser herói. Todos nós gostamos disso. Mas, para con­quistar a admiração dos outros e sermos aceitos, entramos nas regras, sepultamos nossos sentimentos, enterramos nossos talentos e nos tor­namos meros atores representando papéis de conveniência. Isso cria in­felicidade, aquele vazio no peito, a depressão, o tédio.

— Estou tão condicionado que, quando saio um pouco do habi­tual, torno a ouvir a voz de minha mãe repetindo frases que ela costu­mava dizer.

—  É isso que o impede de ouvir seus verdadeiros sentimentos, de abrir sua intuição e valorizar seu espírito. Faça de conta que você perdeu o con­trole, que pode fazer tudo que quiser, sem censura. O que faria?

Roberto olhou assustado para o médico:

— Não sei. Senti até um arrepio de medo.

—  Faça de conta que está livre de qualquer perigo. É apenas uma suposição. Você é livre e pode fazer o que quiser. O que gostaria de fa­zer agora? Diga a primeira idéia que lhe ocorreu.

Roberto riu e respondeu:

—  Você vai rir de mim. Mas eu vou falar. Eu gostaria de ir para o palco de um teatro cheio de gente e cantar a plenos pulmões.

Aurélio fez um gesto largo:

— Pois faça. Você é livre, pode fazer tudo que quiser.

Roberto abanou a cabeça:

— Seria ridículo. Onde já se viu?

—  Seria você, fazendo uma coisa que seu coração quer e que lhe daria muito prazer.

—  Quando era criança eu gostava de cantar e sonhava que um dia seria um grande cantor, aplaudido, famoso. Um absurdo.

—  Por quê? Talvez seja essa sua verdadeira vocação. Cantar é uma forma deliciosa de expressar sentimentos.

—  Não tem cabimento. Nem sei por que me lembrei disso.

— Quem em sua família costumava dizer que cantar não é profissão?

—  Meu pai dizia que só é digno o dinheiro que se ganha com mui­to trabalho e suor. Cantar para mim é um prazer. Logo não poderia ser uma coisa boa.

—  Isso é mentira, você sabe. Há muitas pessoas que são inteligen­tes o bastante para fazer um trabalho interessante, de que gostam, e ga­nhar muito dinheiro com ele.

—  É mesmo. Os jogadores de futebol, os atores, os pintores.

—  Aliás, só os que trabalham em sua vocação, com prazer e capri­cho, obtêm fama e sucesso profissional. Essa é a verdade. Se você tives­se tentado ser um cantor, não sei se teria sucesso, mas pelo menos teria tentado, experimentado. Quantas vezes imaginamos que ser uma coisa ou outra nos traria felicidade, mas quando a obtemos descobrimos que estávamos enganados?

—  Eu sei que tinha boa voz e que era afinado. Mas senti vergonha. Não tive coragem para enfrentar esse risco.

— Você não ousou. Bloqueou o que sentia. Deixou de experimen­tar e saber aonde poderia chegar, por medo de errar, de fracassar e de en­frentar a critica dos Outros. Só vaidade. Ilusão. Medo de perder o sonho.

É verdade.

— Quantas coisas ainda estão dentro de você, bloqueadas impe­dindo seu crescimento e progresso? Pense nisso. Observe também que, quando se permitiu ser livre, não fez nada de ruim. Procurou a alegria e a arte.

— Cantar é para mim um grande prazer.

— Pois cante, seja onde for, ainda que seja apenas para você. Dei­xe seu espírito se manifestar. Confie na vida. Sua alma é essência divi­na e, quando tem liberdade de se expressar, faz só o bem. Não reprima sua alegria, seja verdadeiro, seja apenas o que você é. Essa é a receita para ser aceito e respeitado pelos outros.

— Puxa! Estou me sentindo tão bem!

— Isso mesmo. Você está muito bem. Penso mesmo que podemos espaçar nossos encontros. O que acha?

- Já? Tem sido tão bom... Isto é, acho até que estou abusando da sua bondade, todo esse tempo.

— Tenho aprendido muito com nossas conversas. Estamos trocan­do experiências. Você virá apenas uma vez por semana.

— Ainda bem.

Ambos riram e Roberto levantou-se. Sentia-se revigorado e alegre. Chegou em casa e encontrou Gabriela ensinando a lição para Guilher­me. Vendo-o entrar, ela se levantou, dizendo:

- Agora seu pai vai ensinar. Tenho que lavar a louça.

— E Nicete? — perguntou Roberto.

— Está cuidando da roupa. Você demorou. Pelo menos veja se aju­da Guilherme com a matemática.

Roberto percebeu a irritação dela, mas não ligou. Nunca lhe con­tara que ia ao consultório de Aurélio. Não queria que ela soubesse que estava sendo tratado por um psiquiatra. O que ela iria pensar? Depois, as coisas estavam começando a melhorar e ele tinha esperanças de logo poder ter dinheiro e colocar as contas em dia.

Olhou-a lavando louça na pia da cozinha. Gabriela não era mulher para fazer esse tipo de trabalho. Era instruída e fina. Assim que a situa­ção melhorasse, iria compensar todo o esforço dela naquele período. Não a deixaria mais trabalhar, compraria boas roupas, jóias e até um car­ro, só dela. Por que não? Ela tirara carta mas nunca dirigira. Quando ele tinha carro, nunca permitira que ela o usasse.

Sentou-se ao lado do filho, que o esperava impaciente, com cara de sono, e com boa vontade procurou ajudar.

Na manhã seguinte, Gabriela acordou cedo, preocupada com o fu­turo. Sentada no ônibus durante o trajeto para o escritório, não conse­guia pensar em outra coisa.

Sentia-se cansada, não de trabalhar tanto, mas da situação de frus­tração dos últimos meses.

Seu relacionamento com Roberto havia se tor­nado desagradável, cansativo. Quando ele a tocava, não sentia prazer como antigamente.

Dependendo do momento, era-lhe até penoso manter intimidade com ele. O que estaria acontecendo com ela? Havia se casado por amor e eles haviam desfrutado preciosos momentos juntos.

Agora, quando perdia o sono, ouvindo-o ressonar a seu lado, sen­tia vontade de empurrá-lo para fora da cama. Reconhecia que estava can­sada, e talvez essa fosse a razão de sua irritação, mas a cada dia mais e mais se tornava difícil dissimular seus sentimentos

Ele estava sofrendo, desempregado, humilhado Ela não podia tri­pudiar sobre a situação, deixando-o notar o que ia dentro de seu cora­ção. Não seria justo para com ele. Precisava controlar-se.

Depois, havia as crianças. Elas precisavam de um lar onde houves­se um pai e uma mãe. Não podia se deixar levar por um momento de cansaço e de desânimo.

Gabriela sacudiu a cabeça como querendo expulsar os pensamentos desagradáveis. Mas não podia deixar de perceber que seus sentimentos ha­viam mudado. A atração por Roberto desaparecera. Havia apenas medo, insegurança, vontade de contemporizar para não magoar a família.

“Isso vai passar!”, reagiu ela, tentando sair daqueles pensamentos de­sagradáveis. “Quando ele melhorar, tudo voltará ao normal.”

Mas, apesar da boa vontade, Gabriela não conseguia sentir-se me­lhor. Lá dentro, bem no fundo do seu coração, havia uma vontade lou­ca de romper as cadeias que a estavam oprimindo e libertar-se.

Ah! Poder viver sem preocupações, como quando era solteira! Seria muito bom. Depois se arrependia, pensando nos filhos que tan­to amava.

“Deus pode castigar-me” pensava. “Sou muito feliz por ter os dois em minha vida.”

Assim, voltavam as preocupações as dúvidas e os medos. Gabriela entrou no escritório e foi procurar um comprimido para dor de cabeça. Tratou logo de mergulhar no trabalho. Talvez com isso pudesse esquecer.

Renato chegou ao escritório e Gabriela apanhou os contratos que ela refizera para que ele os examinasse e levou-os à sua sala.

Bateu ligeiramente e entrou. Ele estava atrás da escrivaninha, apoiando a cabeça entre as mãos, pensativo.

Gabriela notou que ele não estava bem, por isso disse:

— Desculpe, Dr. Renato. Volto depois.

Ele meneou a cabeça:

— Não. Entre. Vamos trabalhar.

— O senhor parece preocupado.

— Há momentos na vida em que as coisas se complicam e exigem mais de nós. É preciso pensar e tomar algumas decisões.

Gabriela suspirou pensando nos seus problemas:

— O que nem sempre é fácil. Mas, pelo que sei, a empresa vai mui­to bem. Novos contratos interessantes, crescimento, produtividade.

— Não me referi à empresa. Essa felizmente está melhor do que eu.

— Desculpe. Não desejei ser indiscreta.

— Não foi. Você tem filhos. Que idade eles têm?

— Guilherme sete e Maria do Carmo cinco.

— São pequenos. Ricardinho tem dez e está me dando trabalho. Foi suspenso no colégio e já prevejo que da próxima vez poderá até ser expulso.

— Essa idade é difícil. É preciso conversar com ele, saber o que está acontecendo na escola. Há crianças que fazem isso para chamar aten­ção, para conseguir afeto.

— Não é o caso dele. Foi expulso de duas escolas e, ao contrário, penso que ele tem afeto demais. A mãe faz-lhe todas as vontades, e isso está estragando o menino. Por mim, eu o colocaria em um colégio in­terno. Mas Gioconda não quer nem ouvir falar nisso.

— Talvez ela possa conversar com ele, fazê-lo entender melhor as coisas. É o que tenho feito com Guilherme todas as vezes que ele tem algum problema na escola. Primeiro me informo direito, com outras pessoas, sobre como as coisas se passaram. Depois, converso com ele.

— Isso é bom. Ricardinho mente mesmo. Nunca conta o que fez e por que está sendo castigado. Para ele, os professores são sempre os culpados.

— Já verificou se isso é verdade?

— Claro que não. Os professores sabem o que estão fazendo. As crianças é que estão sempre querendo enganá-los.

- Desculpe, Dr. Renato, mas não penso assim. Ensinei meu filho a dizer a verdade, doa a quem doer, e, sempre que ele faz isso, eu o apóio. Por isso, quando ele diz alguma coisa, procuro saber se ele tem razão. Ape­sar de achar que os professores precisam ser apoiados pelos país, há al­guns que não respeitam a criança humilhando-a diante dos colegas, valendo-se da sua Posição de superioridade hierárquica para imporse de forma injusta. É claro que isso desperta a revolta e a indisciplina. É uma maneira de reagir, dentro da sua situação de impotência.

Renato fitou-a admirado. Nunca lhe ocorrera que seu filho pudes­se estar sendo injustiçado.

Quando acontecia qualquer coisa com ele, sempre tomava partido contrário Não o deixava falar e o condenava, castigando-o sem ouvir o que ele desejava dizer, por achar que procu­raria enganá-lo de todas as formas.

Não era isso o que todas as crianças faziam com os pais? Não fora isso que ele fizera todo o tempo para escapar da disciplina rígida e au­toritária com a qual fora educado?

— Educar filhos é uma arte. Gostaria de saber como fazer isso.

- Eu também. Procuro conversar muito com eles, saber como pensam, do que gostam, interesso-me pelo que sentem e tento apoiá-los. Acredito que isso seja importante para que eles aprendam a viver a própria vida confiando em sua própria força. Tudo que eles podem fa­zer sozinhos, eu deixo. É uma forma boa deixá-losexperimentar e tor­narem-se independentes. As crianças adoram participar, aprender a fazer coisas.

- Só se são os seus. Ricardinho está sempre fazendo o contrário do que nós queremose nunca quer fazer nada. Isso está começando a me preocupar

- Claro que as pessoas são diferentes e cada uma reage de um jei­to, mas tenho observado que, de um modo geral, as crianças têm mui­ta vontade de saber como fazer as coisas

— Minha mulher acha que eles são pequenos e nunca fazem nada certo. Prefere fazer ou mandar que os outros façam.

Não podendo experimentar, nunca vão aprender.

— Há coisas que são perigosas Eles querem fazer o que não podem. Mexer na cozinha, por exemplo, não é aconselhável.

— Depende. Se você os ensinar, há muitas coisas que eles conse­guirão fazer. Claro que isso dá trabalho, requer acompanhamento e paciência.

- Você trabalha o dia inteiro. Não tem medo de que eles se ma­chuquem quando não está em casa?

— Por isso mesmo os ensinei como fazer e mostrei os perigos. É mui­to pior eles serem muito protegidos e não terem autonomia. Se acontecer algum acidente e ninguém estiver junto, não saberão como resol­ver. Eles são ainda muito pequenos e não os deixo sozinhos. Nicete cui­da deles desde que nasceram.

— Nesse caso ela faz tudo para eles.

— Tudo que eles ainda não conseguem fazer. Essa é a questão. Até Maria do Carmo, que tem cinco anos, escolhe a roupa que quer vestir, toma banho sozinha, coloca seu prato na mesa, os talheres e ainda lava o copo sempre depois de tomar água.

— Isso em minha casa seria impossível. Gioconda vive vigiando para que eles tomem cuidado sempre que pegam um copo na mão. Diz que eles derrubam tudo.

— A pressão deixa-os tensos. Eu mesma, em casa, nunca quebro nada. Parece mentira, mas quando vou à casa de minha sogra aconte­ce de tudo. Derrubo café, deixo cair o talher, esbarro nos bibelôs. Um horror. Sabe por quê?

Ele balançou a cabeça negativamente. Ela continuou:

— Porque ela não tira os olhos de mim, esperando que eu erre para me criticar. Para ela, nenhuma mulher é boa o suficiente para ser sua nora. Vai à minha casa na minha ausência para ver se tudo está em or­dem, do jeito que ela acha que deveria estar.

— Você se importa com ela?

— Nem um pouco. Por mim ela pode falar o que quiser. Mas evi­to ir à sua casa, porque sua postura me incomoda e irrita. Acabo sem­pre provocando alguma situação desagradável, mesmo sem querer.

— Não deve ser fácil ter uma sogra dessas.

— Por isso, Dr. Renato, penso no problema das crianças. Elas são inseguras, precisam do nosso apoio. Se, ao invés de fazê-las acreditar em si mesmas e na própria capacidade, nós as criticamos, dizendo a todo mo­mento que elas ainda não têm condições de cuidarem de si mesmas, au­mentaremos sua insegurança, tudo ficará mais difícil e elas acabarão sempre fazendo os erros que queremos evitar.

— O que você diz tem lógica. Gioconda tem medo de tudo. É pior do que sua sogra.

— Desculpe, Dr. Renato. Não quis dizer isso.

— Não quis, mas foi o que você disse. Aliás, começo a pensar que pode estar certa. Gostaria que ela conversasse com você. Talvez lhe pu­desse ensinar alguma coisa.

— Seria pretensão de minha parte. Nesse assunto todos estamos aprendendo.

— Você acha que Ricardinho tem jeito depois de tudo que ele já fez?

       — Quero crer que sim. Por que não experimenta conversar com ele, sem cobrar nada nem punir, para conhecê-lo melhor?

       — Acha que não conheço meu Próprio filho?

       — Bem... não sei. Nós vemos as pessoas através da nossa óptica e elas gostam de parecer o que não são. Nós nos iludimos uns aos outros. Quando a verdade aparece, nos pega desprevenidos. É por isso que te­nho procurado desde cedo me conhecer e conhecer melhor os meus filhos. Sentir como eles pensam, como olham a vida. Acredito que jun­tos poderemos nos ajudar mutuamente, eu fazendo com que eles acre­ditem que podem viver melhor e eles me ensinando como eu posso li­dar com as minhas ilusões, aprendendo a valorizar o que é verdadeiro.

       Renato fitou-a admirado. Não se conteve:

       — Você é uma mulher maravilhosa!

       Ela Corou e desviou o olhar, tentando ignorar a emoção dele.

       — Sou apenas uma mãe interessada em criar bem seus filhos. Te­nho certeza de que D. Gioconda vai encontrar o jeito certo de ajudar Ricardinho a perceber que não precisa chamar a atenção sobre si dessa forma para ser ouvido.

       - Vou pensar no que você me disse. Talvez ainda possamos dar um jeito nele.

       - Faço votos.

       — Obrigado, Gabriela. Suas palavras me fizeram muito bem. Quan­do entrou aqui, eu estava em um beco sem saída, num final de linha que não levava a nenhuma solução. Agora me sinto aliviado. Gostaria de con­versar mais. Você tem uma forma de pensar diferente das outras pessoas.

       Ela não respondeu de imediato Depois de alguns segundos, esten­deu os papéis, dizendo:

       - Gostaria que verificasse esses contratos e os assinasse.

       Ele assentiu Ela saiu da sala pensando em como tudo ficava fácil quando se conversava com uma pessoa inteligente e culta como Re­nato. Várias vezes havia conversado com Roberto para fazê-lo enten­der sua forma diferente de educar os filhos. Ele era de boa índole e fazia tudo como ela pedia, mas ela percebia que pensava diferente. As vezes pretendia educar as crianças da forma repressiva sob a qual fora educado.

       Ela tinha horror à maneira fingida com que D. Georgina falava com o filho, sempre COmo uma mãe amorosa, mas atrás dessa atitude ha­via a cobrança constante a manipulação

       Quando Gabriela chamava a atenção do marido para esse lado, ele dava de ombros e respondia:

— Coitada. Deixe-a para lá. Sempre foi assim. Não preciso fazer o que ela diz, mas também não quero entristecê-la. Sempre tão dedicada!

Com o tempo, evitava falar nela com Roberto, que reclamava por Gabriela se esquivar de ir visitar a sogra, ao que ela respondia:

— Nós não combinamos mesmo. É ela não sente nenhum prazer em me ver. No Natal e no aniversário dela sempre compareço. É suficiente.

Ele sabia que quando ela falava não adiantava insistir. Foi assim que ela conseguiu paz em sua vida conjugal. E não estava disposta a transigir.

Ele não insistia. Reconhecia que sua mãe se excedia. Claro que era por amor, por querer que tudo andasse melhor com ele e sua família.

 

Renato saiu da empresa no fim da tarde e foi direto para casa. As palavras de Gabriela não lhe saíam do pensamento. Ele sempre se jul­gara um bom pai, cumpridor dos seus deveres.

Afinal, era à mãe que competia educar os filhos. A parte dele era a de sustentar a família, e isso ele sempre fizera muito bem, proporcio­nando conforto e bem-estar aos seus.

Se seus filhos não estavam sendo educados como deveriam, a res­ponsabilidade era de Gioconda. Ela não estava fazendo bem sua parte. Se fosse uma mulher como Gabriela, tudo estaria em ordem.

Suspirou resignado. As vezes se perguntava por que havia se casa­do com ela. Era bonita, exuberante, alegre. Isso o atraíra. Mas mudara depois do casamento. Transformara-se em uma mulher lamentosa, as coi­sas mais simples com ela se complicavam. Era muito sensível. A menor contrariedade era motivo para deixá-la abalada.

A convivência que de início fora agradável tornara-se aborrecida e cansativa. Apesar disso, as palavras de Gabriela haviam-no impressio­nado e ele resolveu ter uma conversa com Gioconda e descobrir como ela via a questão.

Ao entrar, perguntou por ela e soube que estava deitada. Isso não era novidade. Sempre que o filho criava algum problema, ela ficava de­primida e ia para a cama.

Resignado, Renato subiu até o quarto, entreabriu a porta e apro­ximou-se da cama.

— Gioconda! Levante-se, quero conversar com você.

Ela se remexeu, abriu os olhos e respondeu em voz lamentosa:

— O que você quer? Estou com uma tremenda dor de cabeça.

- Faça um esforço. O assunto é importante.

Ela se sentou na cama, dizendo:

— Aconteceu mais alguma coisa? Uma desgraça nunca vem só. O que foi? Você nunca vem tão cedo para casa!

- Acalme-se. Não aconteceu nada. Está tudo bem.

— Nesse caso, por que tenho que levantar?

— Por que não gosto de conversar com uma pessoa que está der­rotada antes de tentar resolver o assunto.

Ela olhou nervosa para ele e retrucou:

— O que você acha que estou sentindo ao ver meu filho nova­mente suspenso na escola? O que será que eu fiz para passar por isso? Onde foi que eu errei?

Renato respirou fundo antes de responder. A atitude dela o irri­tava. Sentia vontade de gritar.

Controlou-se. Foi com voz baixa que tornou:

— Onde você errou é o que estou querendo descobrir.

- Você também me acusa? Já não basta minha própria condenação?

— Onde está Ricardinho?

— No quarto. O que vai fazer? Já lhe dei corretivo. Não precisa di­zer nada. O que tinha que ser feito, eu já fiz.

— Posso saber o que você fez? Já foi à escola saber como as coisas aconteceram?

- Como assim? Eu já sei. A diretora me telefonou e contou tudo.

— O que foi que ela contou?

- Não adianta repetir. Não leva a nada ficar repisando este assun­to. É melhor esquecer. Já disse a ele como essa sua maneira de agir está acabando comigo. Ele sabe que é o responsável pelo meu mal-estar.

Renato fitou-a surpreendido. Era assim que ela agia? Fazendo chan­tagem emocional? Olhou sério para ela e pediu:

— Quero saber o que a diretora contou que ele fez.

— Bem... ela disse que ele desacatou a professora de matemática. Foi malcriado com ela e não quis deixar a sala de aula quando ela o mandou sair.

— E ele, o que disse?

- Como, o que ele disse?

— Ele contou por que fez isso?

— Ele quis se justificar. Mas nem ouvi. Onde já se viu? Ele tem que obedecer aos professores. Não pode ser malcriado. Afinal, o que vão di­zer de mim? Que eu não soube ensiná-lo a respeitar os mais velhos?

— Está preocupada com o que vão dizer de você? Pensei que esti­vesse interessada em saber o que realmente aconteceu lá.

— O que aconteceu eu já sei, infelizmente. A diretora foi categó­rica. Ou ele pede desculpas à professora ou ela dobra a suspensão. Pelo jeito, ela quer mesmo é expulsá-lo. Acho até que é perseguição.

- Ouça, Gioconda: não é perseguição, não. Ricardinho é mesmo muito malcriado. Deve ter realmente desacatado a professora. Mas pre­cisamos saber como foi que isso ocorreu.

— Não estou entendendo você. A diretora já disse como foi.

— Tem certeza de que as coisas aconteceram como ela contou?

       — Claro. Ela não ia mentir. E a diretora de uma escola.

—  É. O mais provável é que ela não tenha mentido mesmo. Mas vou falar com Ricardinho, ouvir o que ele tem a dizer.

—  Claro que ele vai mentir, se defender.

— Mesmo assim vou falar com ele.

Ela olhou para o marido admirada, mas deu de ombros e disse:

— É inútil. Mas cuidado: já o repreendi bastante por hoje. Chega de castigo. Sabe como é, pode traumatizá-lo.

Renato saiu sem responder. Encontrou a criada com uma bandeja no corredor.

—  O que é isso, Maria?

— A bandeja do quarto de Ricardinho.

— Ele jantou?

—  E como. Tem um apetite invejável! Quis até mais sorvete de chocolate.

—  Ele estava triste?

—  Que nada, Dr. Renato. Estava ouvindo música, cantarolando e montando aquele quebra-cabeças grande do avião que D. Gioconda lhe deu ontem.

Renato entrou no quarto do filho. Era evidente que ele não ficara nem um pouco abalado com a “reprimenda” da mãe. Assim que o viu entrar, desligou o rádio e abaixou a cabeça.

—  Ricardinho, temos que conversar.

O menino levantou a cabeça, dizendo em tom lamentoso:

—  Já sei, pai. Fui suspenso e a mamãe está muito doente. Mas não foi culpa minha.

Renato sentiu uma impressão desagradável. O menino estava usan­do o mesmo tom lamentoso da mãe. Sabia que era falso. Ele estava bem-disposto, alegre, com bom apetite. Por que mudara diante dele?

Preocupado, aproximou-se do filho, colocou as mãos em seus om­bros e olhando diretamente em seus olhos disse com voz firme:

—  Você não está triste com o que aconteceu. Está fingindo. Para que isso? Acha que vou castigá-lo?

Apanhado de surpresa, Ricardinho não encontrou palavras para res­ponder. Renato continuou:

—  Sua mãe é uma pessoa frágil, se aborrece com tudo. Você acha bom ficar igual a ela?

—  Não sei, pai... — murmurou ele, tentando descobrir aonde o pai queria chegar.

— Você é um homem! Tem que ser forte. Logo terá que enfrentar a vida lá fora, e as pessoas não vão tratá-lo com delicadeza. Quer tor­nar-se um fraco?

— Não, pai. Eu não sou fraco. Nunca levo desaforo para casa.

— Depende. Nem sempre reagir brigando é ser forte. As vezes é pre­ciso mais força para ser paciente do que para brigar.

— Não acho, não. Lá na escola, se eu não peitar os caras, eles me ignoram. Tenho que ser respeitado.

— Foi por isso que desacatou a professora de matemática?

Ricardinho baixou a cabeça sem saber como responder. Seu pai nunca se interessara em conversar com ele sobre esses assuntos. Aqui­lo bem poderia ser uma armadilha para castigá-Lo mais.

— Responda, meu filho. Foi por isso? Para fazer bonito diante dos colegas?

O  menino remexeu-se e não respondeu. Renato continuou:

— A diretora contou uma história à sua mãe e o suspendeu. An­tes de acreditar no que ela disse, eu gostaria de ouvir a verdade de você. Como foi que aconteceu?

— Não quero falar nisso, pai. A mãe já me repreendeu. Eu prome­to não fazer mais.

— Não é a primeira vez que você promete. Nunca cumpriu essas promessas. A história se repete. Gostaria que soubesse de uma coisa. Es­tou procurando saber a verdade. Sem isso não poderei formar uma opi­nião sobre o assunto. É a palavra dela contra a sua. Gostaria muito de poder acreditar em você. Faço mais: seja o que for que você tenha fei­to errado, prometo nãô o castigar se me disser a verdade.

— Ih, pai... Não vai dar certo!

- Vai, sim. Você é meu filho. Eu preciso saber como você pensa. Que­ro sentir de perto quais os problemas e dificuldades que tem encontrado na escola. Não para castigá-lo, mas para ajudá-lo. Como posso ser seu ami­go se você não me conta a verdade? Você seria amigo de alguém assim?

Ricardinho suspirou e olhou meio acanhado para o pai.

— Você nunca disse isso antes.

- Mas estou dizendo agora. Quero que de hoje em diante você me diga a verdade, sem medo.

Sou seu pai. Sempre farei tudo para apoiá-lo.

- Sabe o que é, pai? A D. Mercedes não gosta de repetir a expli­cação. Ela deu um ponto e eu disse a ela que não tinha entendido. Mas ela ficou zangada e disse que, se eu era burro, não era culpa dela, que não ia repetir. Então eu disse que burra era ela que não sabia dar a aula. Então ela me mandou para fora da classe, e eu não fui. Aí ela chamou a diretora, e pronto. Foi assim.

Renato fez cara séria para esconder o riso. Sentiu vontade de dizer que ele tinha feito muito bem. Mas conteve-se. Vendo que o pai não dizia nada, o menino perguntou:

— Você acha que fui errado, que faltei com o respeito à professora. Mamãe ficou doente por minha causa. Sei que fui errado, mas, pai, ela estava com uma cara tão posuda! Só porque ela é grande e é professora, achava que podia me xingar na frente dos colegas. Não agüentei isso!

— Pelo jeito você não está nem um pouco arrependido.

— Estou só por ver a mãe nervosa.

— Sei que você não queria magoá-la. Obrigado por ter contado a verdade. Gostaria que fosse sempre assim. Amanhã mesmo irei à sua es­cola ter uma conversa com essa diretora.

— O que vai fazer lá?

— Dizer que meu filho está na escola para aprender e não para ser chamado de burro.

— Xi, pai... Vai dar um bode! Aí que ela pode me expulsar mes­mo. Vai dizer que menti.

— Você mentiu para mim?

— Não, pai. Falei tudo como foi. Meus amigos viram, podem con­firmar. Mas na escola nunca o aluno tem razão. É costume.

— Pois desta vez vai ser diferente. Se eles não entenderem, eu tiro você dessa escola. Tenho certeza de que encontraremos outra melhor, onde os professores realmente respeitem os alunos.

Há muitas delas por aí.

Ricardinho deu um pulo e seus olhos brilhavam alegres quando respondeu:

— Puxa, pai! Você vai fazer isso mesmo?

— Vou. Você deve respeitar os outros, mas precisa ser respeitado também.

Ricardinho abraçou o pai. Em seus olhos havia o brilho de uma lá­grima quando disse:

— Você é o melhor pai do mundo!

— E você é o melhor filho do mundo. Agora já sabe: entre nós não há segredos. Fale a verdade, mesmo que tenha feito alguma coisa erra­da. Converse comigo.

Renato saiu do quarto sentindo-se emocionado e alegre. Ricar­dinho era um menino diferente do que falavam. Dali em diante, iria se aproximar mais dele para ajudá-lo a enxergar a vida de maneira melhor.

O problema maior era Gioconda. Se ele a deixasse continuar a educar o filho, Ricardinho acabaria por copiar-lhe as atitudes. Há muito ele desconfiava que ela se fazia de doente e fraca para manipular todo mundo, principalmente ele.

Essa fora a atitude do menino quando entrou no quarto. Estava alegre e no fundo muito satisfeito por haver respondido a ofensa à al­tura. Com certeza todos os colegas o tinham apoiado e elogiado. Ele estava de bem com a própria consciência.

Pela primeira vez Renato começou a pensar nos abusos dos adul­tos para com as crianças.

Recordou-se de todas as injustiças que so­frera na escola, com os pais. Ele nunca tinha razão.

Era verdade que abusava e muitas vezes se divertia perturbando os outros. Não seriam es­sas atitudes uma forma de reação, uma desforra diante da própria impo­tência frente às injustiças que sofria?

Gabriela tinha razão. Que mulher! Se ela fosse sua esposa, certa­mente tudo teria sido diferente. Além de tudo, ela era muito atraente. Quando se aproximava, Renato sentia um calor agradável. Ela tinha um perfume suave que o eletrizava.

Pena que eles eram comprometidos. Ela também não parecia mui­to feliz com o marido.

Apesar disso, ele se continha. Não se sentia dis­posto a misturar afeto com trabalho. Sabia que isso nunca dava certo.

Lamentar não adiantava. Era resistir e manter apenas amizade. Ela, além de estar se mostrando muito competente no trabalho, ainda tinha uma visão clara da vida. Sua presença fazia-lhe muito bem. Ia melho­rar ainda mais seu salário. Sentia-se grato pela ajuda que ela lhe esta­va dando.

No dia seguinte, assim que chegou ao escritório, Gabriela levou-lhe alguns papéis para assinar.

Obrigado — disse ele, olhando-a com satisfação. Vendo que ela ia retirar-se, continuou: — Ontem segui seu conselho e conversei com Ricardinho. O resultado foi surpreendente.

— O que descobriu?

— Que foi bom ter me aproximado dele para ouvi-lo. E que o que ele fez não havia sido tão sério como diziam. Ele reagiu como qualquer pessoa ofendida teria reagido quando é desrespeitada.

Vendo que Gabriela o ouvia com interesse, contou-lhe toda a con­versa que tivera com o filho. E finalizou:

— Fez-me pensar em como as crianças sofrem a pressão dos adul­tos, sentem-se impotentes e reagem para se defender, algumas tornan­do-se tímidas e fracas, outras rebeldes e provocadoras.

Isso ficou muito claro para mim. Para ser franco, acho que nisso elas levam vantagens.

Conseguem infernizar a vida familiar.

       — É por isso que procuro conversar com meus filhos. Fazê-los sen­tir que os apóio. Desejo que eles se sintam seguros do meu lado e que confiem no meu amor mais do que nos amigos.

Renato pensava em Gioconda e não se conteve:

       - Isso nunca acontecerá com Gioconda. Ela está mais preocupa­da com o próprio desempenho como mãe, com que os outros vão dizer dos filhos dela, do que com os sentimentos de Ricardinho. Ele percebe o quanto ela é fraca, e então prefere confiar nos companheiros.

— Converse com Gioconda. Tenho certeza de que ela deseja fazer o melhor.

Renato não conteve um gesto de desânimo ao responder:

— Acho difícil. Por qualquer contratempo se deprime, debulha-se em lágrimas, vai para a cama.

Vendo que Gabriela se mantinha discreta, ele continuou:

— Desculpe, não deveria estar falando de Gioconda dessa forma. É que às vezes a fragilidade dela me preocupa. Gostaria que ela fosse mais forte. Não me agrada vê-la sofrer.

Gabriela pensou em Roberto e respondeu:

— As vezes desejamos dar um empurrãozinho nas pessoas que ama­mos, mas descobri que não adianta. Elas só andam quando querem.

Renato olhou para Gabriela, tentando descobrir o que ela dese­java dizer. E pensou: como seria seu relacionamento com o marido de­sempregado? Talvez estivesse tão deprimido quanto Gioconda. Mas, pelo menos, ele tinha um motivo, enquanto ela, não.

— Seu marido ainda não arrumou emprego?

— Não. Tem saído, procurado. Mas agora parece que está reagin­do um pouco. Vejo-o mais animado.

— Com uma mulher como você do lado, ele vai subir na vida com toda a certeza.

Ela corou um pouco. Talvez Roberto não pensasse assim. Também, com Georgina por perto!

— Por que diz isso? — perguntou ela.

- Porque você trabalha, é esforçada e tem a cabeça boa. Muitos homens gostariam de estar no lugar dele.

- Roberto pensa o contrário. Gosta de mulher que seja dona de casa, fique com os filhos.

Nunca gostou que eu trabalhasse. Quando es­tava bem de vida, brigava comigo para que eu deixasse de trabalhar.

— Foi bom não ter conseguido.

— Foi. Agora, se não estivesse trabalhando, nem sei o que seria de nossa família. Mas é minha sogra que põe essas idéias na cabeça dele.

Ela odeia que eu trabalhe fora. Insinua que lugar da mulher é em casa, com os filhos.

— Ele escuta.

— Não só escuta como concorda. Tem ciúme. Pensa que posso ar­ranjar outro.

— Porque você é muito atraente. Nesse ponto ele tem razão.

— O senhor também, Dr. Renato? Sempre me pareceu um homem moderno, de idéias largas.

— E sou. Entendo que prefira trabalhar fora, ser independente, mesmo porque eu mesmo nunca suportaria viver fechado dentro de casa. Essa é uma forte razão para que eu nunca queira exigir isso de mi­nha mulher. Gostaria muito que ela fosse assim como você, arranjasse alguma coisa para fazer. Fica em casa só se queixando.

— Eu não teria essa paciência. Gosto de sair, fazer coisas, ver pes­soas, conversar. Preciso disso para me sentir viva. Ele não entende isso.

Renato suspirou ao dizer:

— Por que será que só percebemos essas coisas depois de anos de casamento?

— Não sei. Mas apesar de tudo não vou deixar o emprego, mesmo que ele ganhe dinheiro novamente.

— Ainda bem! — Vendo que ela o fitava um pouco surpreendida, ele consertou:

— Não quero perder uma boa funcionária. Ainda mais ago­ra que você está indo muito bem na nova função.

Quando ela saiu, ele continuou pensativo. Compreendia o ciúme de Roberto. Ela tinha muita vida. Quando falava de seus sentimentos, seus olhos brilhavam, sua boca tinha um ricto voluptuoso, e ele sentia uma vontade imensa de beijá-la. Controlava-se, porém.

Estava decidido a não misturar trabalho com outro tipo de relação. Não que ele não tivesse tido algumas aventuras depois do casamento. Como suportar a convivência com Gioconda sem isso?

Sua mulher há muito tempo perdeu o prazer da aventura, do mis­tério. Ele precisava disso para sentir-se bem. O problema era que ele logo se desinteressava, e elas, ao contrário, desejavam continuar.

Não acreditava que o amassem. Descartava-se delas friamente. Ti­nha certeza de que estavam insistindo por causa de seu dinheiro e de sua posição.

Por vezes sentia-se triste. Gostaria de ter uma companheira com quem pudesse conversar mais intimamente, o que nunca seria possível com Gioconda.

Era incrível como depois de tantos anos de vida em comum ela ain­da não o conhecia.

Percebia claramente que, para ela, ele era apenas o marido, cujos deveres e obrigações ela cobrava insistentemente sem tentar descobrir o que ele pensava ou sentia.

Com o tempo, ao invés da companheira para compartilhar sua vida, ele via nela mais uma filha, fraca, dependente, incapaz. Sentir isso o deixava muito angustiado, frustrado mesmo. Até a atração que sen­tira por ela nos primeiros tempos havia desaparecido. E, quanto mais ele espaçava seu relacionamento íntimo, mais ela se entregava à depressão e à dependência.

Suspirou resignado. Apesar de tudo, ele não pensava em separar-se dela. Quanto mais fraca ela se mostrava, mais ele sentia que precisa­va assumir a educação dos filhos. Ainda mais depois que se aproxima­ra de Ricardinho e percebera que ele precisava de ajuda e de disciplina.

Um cliente ligou e Renato atendeu. Ele estava com uma dúvida a respeito do contrato que lhe fora enviado e queria maiores esclarecimen­tos. Tentou esclarecer, mas como o assunto era complexo, resolveu:

— Não se preocupe, Dr. D’Angelo. Uma pessoa irá agora mesmo ao seu escritório para explicar-lhe tudo detalhadamente.

— Obrigado. Estarei esperando.

Renato desligou e chamou Gabriela, dizendo:

— Preciso que você vá até o escritório do Dr. D’Angelo explicar-lhe os detalhes daquele contrato. Ele não está entendendo a mudança que fizemos.

— Agora?

— Sim. Nosso motorista irá levá-la. Trate de convencê-lo a assinar.

Ela hesitou:

— É muita responsabilidade. Tem certeza de que poderei fazer isso?

— Tenho. Aliás, essas mudanças foi você quem sugeriu. Está mais credenciada a explicar do que eu.

— Está bem.

— Se tiver qualquer dificuldade, teLefone. Estou esperando uma ligação importante e não posso me ausentar. Leve os documentos aqui.

Entregou-lhe uma pasta de couro. Gabriela colocou dentro tudo de que precisava. Deu uma vista de olhos em sua aparência. Quando des­ceu, o motorista já estava com o carro na porta esperando.

Ela se sentou atrás, deu a direção. No aconchego do banco macio do carro de luxo, Gabriela sentia-se muito bem. Seu trabalho estava sen­do valorizado. Aquela era uma oportunidade que ela não podia perder.

Sentia prazer em saber que estava progredindo e seguia imaginan­do como deveria abordar o assunto com o cliente. Aquele trabalho era feito sempre pelo próprio Dr. Renato. Era a primeira vez que ele man­dava outra pessoa. Faria tudo para justificar sua confiança e voltar com aquele contrato assinado.

Roberto sorriu com satisfação ao receber os quinhentos reais de comissão da venda do material que fizera para aquele engenheiro. Fi­nalmente ele estava novamente ganhando dinheiro.

Sentia que podia fazer isso e que dali para a frente seria apenas uma questão de tempo. Não procuraria mais emprego. Trabalharia por conta própria, como sempre havia feito.

Como era bom ganhar seu próprio dinheiro, não depender mais de outros para as próprias despesas! Da mãe, ele não tinha vergonha; já de Gabriela, sentia-se humilhado cada vez que ela pagava uma conta ou lhe dava dinheiro para a condução.

Passava das duas, e ele ainda não havia almoçado. Levantara cedo e visitara alguns prédios em construção, deixando seu telefone, propon­do-se a encontrar material bom e barato.

Tinha alguns negócios em vista, mas, antes de ir batalhar pelos preços, resolveu comer um lanche. Havia muito tempo não fazia isso. Entrou em uma lanchonete, sentou-se e escolheu um sanduíche e um refrigerante. Enquanto esperava, sentia-se alegre, bem-disposto. Foi com prazer que comeu tudo. Comprou um chocolate para sobremesa. Há quanto tempo não comia um?

Pensou nos filhos. Mesmo quando tinha dinheiro, nunca levara chocolate para eles. Era Gabriela quem comprava tudo. Mas agora, de­pois do que passara, tudo lhe parecia diferente.

Queria que as crianças compartilhassem sua alegria, que sentissem que ele estava reassumindo seu lugar no comando da família. Levaria chocolates para casa.

Saiu da lanchonete alegre. Tinha de visitar um depósito de mate­riais cujo dono era seu conhecido de longa data. Lá talvez encontrasse o que precisava.

Tomou um ônibus, sentando-se próximo à janela. A certa altura, o veículo parou em um farol e foi aí que ele estremeceu de susto: em um carro de luxo parado do lado de sua janela, estava Gabriela.

Desta vez pôde ver muito bem. Era ela mesma, com um vestido seu conhecido e aquela postura que ele tão bem conhecia: elegante, desa­fiadora, que a fazia parecer uma grande dama.

Quem estaria com ela? Esforçou-se para enxergar, mas o sinal abriu e o carro arrancou, e ele não viu porque logo outros carros avançaram cobrindo sua visão.

Roberto, que se levantara pensando já em descer para abordar o car­ro, deixou-se cair no assento novamente, enquanto uma onda de vio­lento ciúme o atormentou.

Desta vez ele vira bem. Não havia possibilidade de erro. Por que ficara paralisado, não descera para ver de perto quem era o homem que a acompanhava?

Um carro de luxo como aquele, com motorista, só podia ser de um homem muito rico. Ela se cansara de viver aquela vida miserável que ele lhe oferecia e buscara outro caminho.

Talvez estivesse até pensando em deixá-lo para ficar com o outro. Roberto suava frio, sentia-se atordoado. Esqueceu completamente o que estava fazendo ali. Foi até o ponto final da linha e o cobrador cutu­cou-lhe de leve com o picotador, dizendo:

— Ponto final, moço!

— O quê?

— É final. Vai descer?

— Não. Vou voltar. Eu me distraí e passei do ponto. Ficou longe.

O homem deu de ombros e desceu. Roberto ficou ali, perdido em seus pensamentos. A realidade era dura, mas ele tinha de enfrentá-la!

Apesar de julgar-se traído, não queria que ela o deixasse. Não sa­beria viver sem ela. Depois, havia os filhos. Se ela ficasse com outro, ele não poderia permitir que as crianças fossem junto. Isso não. Não supor­taria ver toda a sua família vivendo com outra pessoa. Ele nunca per­mitiria isso. Se ela quisesse separar-se, ele não aceitaria.

Sua alegria de momentos antes foi substituída pela tristeza, pela depressão. Bem que sua mãe o avisara que não deixasse Gabriela traba­lhar fora.

O lugar da mulher era em casa, com os filhos. Por que ele fora tão fraco a ponto de concordar com ela? Angustiado, pensava que, se tives­se bastante dinheiro, poderia exigir que ela deixasse o emprego.

Mas, apesar de estar recomeçando, o que ele podia oferecer na­quele momento? Nada. Nem tinha ainda como pagar todas as despe­sas da casa.

Desceu do ônibus e foi andando. Estava longe de casa mas não to­mou outra condução.

Precisava pensar no que fazer quando chegasse em casa. Nem se lembrou de comprar os chocolates para as crianças. Sen­tia um gosto amargo na boca, o peito oprimido, a cabeça zonza.

Atendida pelo cliente, Gabriela apresentou-se com sobriedade e fir­meza. Apesar de nervosa, soube controlar-se muito bem. Agiu de tal forma que não só tirou todas as dúvidas do cliente mas também conseguiu que ele assinasse o contrato.

Foi com alegria cantando no coração que Gabriela voltou ao es­critório. Tinha sido sua primeira vitória, e ela sentia o prazer da reali­zação. Fora ela quem sugerira aquelas mudanças e conseguira a apro­vação do cliente.

Estava corada, seus olhos brilhavam de alegria quando entrou na sala de Renato, com a pasta de couro nas mãos.

- E então? — indagou ele.

- Consegui. O contrato está aqui, assinado.

- Parabéns. Eu perguntei, mas já sabia. O Dr. D’Angelo ligou-me logo que você saiu de lá.

Estava muito satisfeito. Fez questão de dizer que você, sim, soube esclarecer, enquanto eu não. Cumprimentou-me por ter uma funcionária tão eficiente.

Gabriela corou de prazer. Renato prosseguiu:

- Como não pensei nisso antes? De hoje em diante você irá em meu lugar visitar os clientes mais importantes.

- Obrigada. Eu estava nervosa, mas consegui me controlar. Fechar um negócio desses é emocionante. Quando ele concordou e assinou, sen­ti um friozinho na barriga!

Renato riu com satisfação.

— Você agora foi contaminada com o vírus do sucesso. Vai querer mais. Se continuar assim, vai melhorar a cada dia. Para cada contrato que você redigir, estudar e conseguir a assinatura do cliente, vou dar-lhe uma comissão de dois por cento.

Gabriela não se conteve:

- Do valor do contrato?

Claro.

Ela respirou fundo. Eram contratos vultosos, e dois por cento re­presentavam muito dinheiro.

— Não acha muito?

- Não. A empresa tem bom lucro, e acho justo que você receba essa quota.

- Puxa, Dr. Renato! Não sei o que dizer!

- Não precisa. Trata-se de um negócio rendoso para a empresa. E você o está desempenhando muito bem.

Gabriela saiu da sala feliz. Foi para sua mesa e fez a conta na cal­culadora. Só com aquele contrato, iria receber duas vezes mais do que ganhava pelo mês inteiro.

Pensou em Roberto e sentiu um aperto no peito. Ele iria sentir-se mais humilhado. Por que tinha de ser assim? Por que ele não entendia que essa fase em que ela ganhava dinheiro, e ele não, era temporária?

Gabriela estava feliz e resolveu não pensar mais nisso. A vida ago­ra se abria a novas perspectivas e ela se sentia muito capaz. Não tinha culpa por ele pensar daquela forma e não podia se limitar só porque ele se sentia inferiorizado.

Não era esse o ponto que a preocupava. Gostaria que ele entendes­se seu esforço em prol do bem-estar da família e tratasse por sua vez de reconhecer isso e de acreditar mais na própria capacidade.

Apesar da diferença de instrução, ela sempre admirara no marido sua capacidade de abrir caminho na vida, de subir pelo próprio esforço. Agora que ele estava se revelando um fraco, ela sentia que essa admi­ração estava indo embora.

Esforçava-se para continuar admirando-o, porém cada vez que ele se colocava na postura de vítima, se queixava, dava ouvidos à conver­sa da mãe, ela sentia morrer um pouco em seu coração o amor que sen­tia por ele.

Tentava reagir, repetindo para si mesma que aquela atitude dele era temporária, que ele logo reagiria e voltaria a ser como antes. Mas isso não acontecia e ela angustiada tentava ignorar os próprios sentimentos e continuar seu papel de esposa dedicada e amorosa.

Chegou em casa eufórica com a vitória alcançada. Queria contar ao marido, mesmo com medo de que seu sucesso o incomodasse ainda mais. Era franca. Não gostava de situações dúbias.

Ao entrar na sala, notou Logo que ele não estava bem. Estava sen­tado no sofá lendo o jornal e respondeu ao seu cumprimento sem levan­tar os olhos da leitura.

Resignada, Gabriela foi para o quarto, deixou a bolsa, trocou-se e tra­tou de ver o que havia para o jantar. Vendo Nicete, perguntou baixinho:

— Roberto está com uma cara... Sabe se aconteceu alguma coi­sa com ele?

— Não. Ele chegou da rua assim. Mal falou comigo, e nem ligou para as crianças.

— Vai ver que não arranjou nada hoje. Vamos servir logo o jantar.

Sentados à mesa, Gabriela decidiu tocar no assunto. Assegurar que ia entrar mais dinheiro em casa era uma boa notícia. Começou:

— Consegui uma promoção no trabalho.

Roberto sobressaltou-se:

— De novo?

— Sim. Consegui que um grande contrato fosse assinado e o Dr. Renato disse que, a cada contrato que eu obtiver a aprovação, terei uma comissão de dois por cento. Só no de hoje, vou ganhar dois meses de salário. Sem falar nos que ainda poderei conseguir.

Roberto sentiu o sangue subir e fez grande esforço para se contro­lar. Era essa a desculpa que ela usaria para explicar o dinheiro sujo que estava conseguindo com o amante? Conseguiu dizer com voz irritada:

— Preferia que você não fizesse esse trabalho. Hoje consegui algum dinheiro. Estou trabalhando. Dentro de pouco tempo você nem vai pre­cisar trabalhar mais.

— Você sabe que eu gosto do meu emprego e não pretendo aban­doná-lo. Principalmente agora que estou progredindo, descobrindo que posso subir na vida.

Roberto levantou-se da mesa dizendo nervoso:

— Você deseja subir na vida e eu estou muito para baixo. Com o tempo, tenho certeza de que poderei dar-lhe tudo que quiser. O que pretende? Jóias, carro de luxo, dinheiro, posição?

Gabriela olhou para ele desanimada. Era inútil tentar conversar. Ele tinha o dom de jogar um balde de água fria em seu entúsiasmo.

- Acho melhor sentar-se e terminar o jantar. Não vamos voltar a esse assunto, senão acabaremos brigando. Hoje não tenho vontade de discutir. Vamos parar por aqui.

Ele procurou se acalmar e sentou-se novamente. Mas estava sem apetite. Disse apenas:

— Estou sem fome.

— Arranjou emprego?

- Não. Mas encontrei uma maneira de trabalhar por conta pró­pria. Hoje recebi algum dinheiro.

— Nesse caso, deveria estar contente. Não entendo você. Final­mente encontrou uma solução, mas parece que não foi o bastante para tirá-lo da depressão.

Ele olhou com tristeza para ela e disse com voz dorida:

— Não quero perder você, Gabriela. Mas a cada dia sinto que está se distanciando mais de mim.

— Seria melhor que me compreendesse, que me apoiasse. Tenho procurado fazer isso com você desde que nos casamos. Mas você quer que eu seja o que não sou. Não respeita minha forma de pensar, quer que eu me limite e fique em casa mesmo sabendo que eu gosto de tra­balhar, de aprender coisas, de descobrir que tenho capacidade.

Roberto afundou a cabeça entre as mãos e não respondeu. O que poderia dizer? Que sabia de tudo? Que ela o estava traindo?

Bem que sentiu vontade de gritar sua raiva, sua dor, seu desespero. Mas e depois, o que faria?

Teria de tomar uma atitude, e ele não se sen­tia com coragem para deixá-la.

Gabriela olhou desanimada para o marido. Por que ele não enten­dia uma coisa tão simples?

Ficava irritada quando ele assumia aquela pos­tura triste de vítima, como se ela fosse a última das mulheres. Percebia nele a reprovação e a crítica velada. Preferia que ele falasse abertamen­te ao invés de fazer aquela cara.

Era crime querer progredir, ganhar dinheiro, subir na vida? Seria ele tão vaidoso a ponto de não suportar que ela fizesse sucesso enquan­to ele continuava limitado?

Gabriela levantou-se e resolveu. Estava feliz e não iria perder sua alegria só porque ele sentia ciúme e não compartilhava.

— Vamos encerrar o assunto — disse ela. — Você nunca me entenderia.

Tentando sufocar sua dor, Roberto não respondeu. Gabriela foi àcozinha e contou sua vitória a Nicete, que aplaudiu contente. As duas conversavam alegres enquanto Roberto na sala, cabisbaixo, triste, fazia grande esforço para não chorar.

 

— Aqui está parte dos seus salários atrasados. De hoje em diante, quero que volte a trabalhar só para nós — disse Gabriela a Nicete.

— Não vai lhe fazer falta?

— Não. No próximo mês pagarei o restante.

— Não quero, D. Gabriela. Nem deveria receber este. Tenho traba­lhado pouco aqui, e a senhora não tem obrigação de pagar todo o salário.

- O que você tem feito por nós não há dinheiro que pague. Es­tou feliz em poder dividir com você esse dinheiro. Você merece. É de coração.

- Obrigado. Ainda bem que tudo está melhorando.

Roberto fechou o jornal que fingia ler e aproximou-se, dizendo:

- Eu ia dizer isso mesmo. Estou ganhando dinheiro e de hoje em diante voltarei a pagar as despesas. Aqui há o suficiente para a semana.

Entregou a Gabriela um envelope com dinheiro.

— Arranjou emprego? — indagou ela.

— Não. Resolvi que vou mesmo continuar a trabalhar por conta própria. Os empregadores querem pagar pouco porque não tenho diplo­ma nem experiência. Depois, eu gosto de fazer tudo do meu jeito.

- Talvez seja melhor mesmo. Como você conseguiu ganhar esse dinheiro?

— Não tenho capital para montar um negócio, então estou inter­mediando compras de materiais de construção. Desse ramo eu entendo.

- Ótimo! fez Gabriela sorrindo. — Eu tinha certeza de que você ia reagir. Sempre se saiu bem.

Vendo que ele se sentara novamente e apanhara o jornal, Gabrie­la continuou:

— Apesar disso, você não parece satisfeito. Aliás, tem andado calado, com ar preocupado, não conversa, não brinca com as crian­ças... Não entendo. Deveria estar contente por haver conseguido uma saída.

— Estou contente. Sinto que dentro em breve poderei voltar não só a pagar todas as despesas da casa como até a dar-lhe mais conforto e bem-estar.

- Sinto que você está diferente. Pensei que fosse pela sua situa­ção financeira. Se não é o dinheiro, o que é?

— Sua teimosia em querer continuar trabalhando. Isso me entris­tece muito.

Gabriela trincou os dentes e respirou fundo antes de responder:

       - Por que você é tão preconceituoso? Em teimosia você ganha lon­ge! Em vaidade também.

       Quando irá entender que o fato de eu traba­lhar não significa que você seja incapaz de manter a casa? Quando vai perceber que eu preciso do meu espaço para fazer o que gosto?

— Eu não ia dizer nada. Você perguntou, eu respondi.

- Gostaria que soubesse como me sinto com essa sua atitude. O casamento para mim é parceria, é igualdade, é cooperação. Quando você precisou, eu fiz tudo para ser companheira, para ajudá-lo, fiz o meu melhor. Mas você nunca reconheceu esse esforço. Ao contrário, conti­nua desvalorizando o que faço, como se eu não servisse para mais nada a não ser ficar em casa, como se eu não tivesse querer. Você deseja que eu me torne um objeto de adorno em nossa casa para que seus amigos digam: “Olhe como Roberto é capaz! Como ele consegue ser um bom chefe de família! Para que sua mãe possa finalmente aprovar nosso ca­samento, coisa que ela nunca fez, e dizer: “Roberto soube encontrar uma mulher digna dele!”

Ele se levantou e tentou abraçá-la, dizendo:

- Não é nada disso, Gabriela. Você está enganada!

Ela se esquivou do abraço com raiva:

- É, sim. Que outro motivo haveria para esse seu comportamento?

       - É que eu a amo muito! Sou louco por você. Morro de ciúme vendo-a passar o dia inteiro no meio de outras pessoas enquanto eu es­tou longe.

       - Isso que você sente não é amor! Não é mesmo. É insegurança, é falta de confiança em você, é falta de confiança em mim. Sua manei­ra de falar me ofende. Como se eu precisasse estar sendo vigiada cons­tantemente para não fazer nenhuma besteira... Para não arranjar um amante... O que pensa que eu sou? Como pôde passar nove anos do meu lado e não perceber minha maneira de ser?

       - Não é o que está pensando... Eu confio em você, mas não con­fio nos outros. Você é muito atraente, eu sei como os homens agem.

       - Deveria saber como eu ajo. Isso é que deveria lhe interessar. Quem quer trair não precisa trabalhar fora para isso. Você está sendo injusto. Só que não vou fazer o que você quer. Não vou mesmo. Gosto de ter meu dinheiro, de fazer o que faço, de tomar conta da minha vida do meu jeito. Fazendo isso tenho certeza de que não estou fazendo nada errado. Se quiser continuar comigo, terá que respeitar minha maneira de ser.

Roberto empalideceu. Sentiu vontade de gritar que sabia de tudo, que a vira mais de uma vez num carro em companhia de outro homem, mas conteve-se. Ela parecia decidida, e ele teve medo de perdê-la. O que seria de sua vida se ela o abandonasse?

Respirou fundo e disse com voz baixa:

- Vamos mudar de assunto. Não quero brigar.

— Eu também não, mas é bom saber como eu penso e refletir bem antes de voltar a falar nisso.

Roberto voltou a fingir que lia o jornal e Gabriela foi ter com as crianças. Sentia-se indignada.

A custo tentava controlar-se. Roberto dei­xara bem clara sua insegurança, e aquela fraqueza do marido a incomo­dava e ofendia.

Se ela quisesse, poderia arranjar outro homem com facilidade. Per­cebia a admiração masculina à sua volta, mas não se impressionava com ela. Sabia que eles queriam só aventura, e isso não a interessava.

Amava sua família e acreditava que, sendo correta, sentindo-se digna, teria o direito de viver em paz. Por que Roberto não via isso? Por que teimava em desconfiar dela?

Uma onda de desânimo invadiu-a. Teria de passar o resto da vida ao lado de um homem que não a compreendia? Naquele instante arre­pendeu-se de haver se casado com ele.

“O amor é cego!”, pensou triste.

Ela se casara por amor. Agora, começava a duvidar de seus senti­mentos. Pensou nos filhos e tentou reagir. Estava cansada e nervosa. Pre­cisava ajudar Guilherme com as lições da escola. Ele estava indo bem, e gostava quando ela olhava seus cadernos e via como ele estava pro­gredindo com a leitura.

Depois que ela se foi, Roberto passou a mão pelos cabelos nervo­so. Aquilo não podia continuar. Não estava mais agüentando. Qualquer hora, não iria conseguir dominar-se e então tudo poderia estar perdido. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê?

Um detalhe incomodava-o. As duas vezes que a viu foram duran­te o expediente. Como ela conseguiu licença para sair? De repente es­tremeceu. E se seu amante fosse o próprio patrão? O carro em que a viu era de luxo. Não era para qualquer um.

Ela estava com mais dinheiro. Pagou os atrasados de Nicete. Com­prou roupas para as crianças, para ela e um aparelho de som. Como conseguiu tanto dinheiro?

Remexeu-se na cadeira inquieto. Não desejava separar-se dela, mas não podia aceitar que o traísse. Só em pensar nisso, tinha ímpetos de ir ter com ela e exigir que lhe contasse a verdade.

Não teve coragem. Fi­cou ali, sofrendo, pensando, perdido em sua dor.

Gabriela, depois de tomar a lição de Guilherme, mandou os filhos para a cama e, depois de vê-los acomodados, tomou um banho e dei­tou-se. Gostaria de conversar com o marido, de contar-lhe como se sen­tia valorizada desempenhando suas novas funções, o quanto desejava que ele progredisse e pudessem melhorar de vida.

Queria que seus filhos estudassem, tivessem um futuro melhor, mas acima de tudo que conseguissem viver bem, tornar-se pessoas felizes.

Suspirou triste. Roberto estava diferente. Não era mais o moço ale­gre, cheio de planos e de vontade de vencer. Havia se transformado em um homem ciumento, desconfiado, desagradável, de pouca conversa. Se tentasse conversar, ele não iria entender.

Sempre acreditou que ele era muito diferente da mãe, mas agora notava que ele estava se tornando parecido demais com ela. Por que não percebera isso antes do casamento? Para ela, casar é ter um parceiro, al­guém com quem dividir alegrias e tristezas, desabafar, ser ela mesma sem segredos.

Ela era reservada e não se abria com as outras pessoas. Mas consi­derava o marido uma extensão de si mesma, um companheiro em quem podia confiar e que confiava nela. Infelizmente, ele não pensava assim.

Como lhe contar os detalhes do seu trabalho se ele não aprovava que trabalhasse? Como falar de sua realização por estar progredindo com seu próprio esforço se ele se sentia menos porque ela estava ganhan­do mais do que ele?

Antes, quando ela se deitava, ele já estava na cama, esperando an­sioso que ela acomodasse as crianças e pudessem conversar, ficar jun­tos. Agora, onde estava ele? Por que não ia se deitar?

Acomodou-se e resolveu dormir sem esperar por ele. Estava can­sada, teria de se levantar cedo na manhã seguinte. Se sua vida afetiva estava ruim, pelo menos a profissional ia cada vez melhor.

“Nem sempre se pode ter tudo!”, pensou. “O melhor é aprimorar meu desempenho profissional, porque, se um dia o casamento acabar, terei como viver com as crianças sem esperar nada dele.”

Virou-se para o lado e adormeceu. Quando Roberto subiu, passa­va da uma da manhã.

Vendo-a adormecida, pensou revoltado:

“Como ela pode dormir tranqüila depois do que fez?”

Deitou-se, mas somente conseguiu adormecer quando o dia esta­va clareando.

Quando Roberto acordou, passava das dez. Levantou-se assustado. Ficara de passar em uma obra às dez e meia. Olhou preocupado para o relógio. Daria tempo?

Vendo-o descer apressado, Nicete chamou-o:

— Seu Roberto, a mesa ainda está posta. Tem café na térmica.

— Estou atrasado. Não vai dar para tomar.

— Em cinco minutos sairá alimentado e se sentirá melhor.

Cinco minutos a mais não iriam fazer diferença. Sentou-se, tomou café com leite e comeu uma fatia de pão.

— Papai, olha a boneca que a mamãe me comprou ontem!

Maria do Carmo aproximara-se sorrindo e mostrando a boneca com satisfação.

Roberto sentiu uma onda de rancor. Aquela boneca fora compra­da com o dinheiro sujo da traição.

Levantou-se nervoso e empurrou a filha, dizendo irritado:

— Você não precisa dessas coisas. Jogue-a no lixo.

A menina assustou-se e abraçou a boneca com força, chorando.

— Não jogo. Ela é minha. Minha mãe me deu!

Nicete apareceu assustada:

— O que foi, Maria do Carmo?

— Papai quer jogar minha boneca no lixo. Eu não quero.

Nicete abraçou a menina, dizendo:

— Você não entendeu. Não é nada disso. Vamos, não chore.

Roberto mordeu os lábios nervoso. Tentou contornar. Maria do Carmo não tinha culpa de nada.

— Eu não quis dizer isso. Não chore. Sua boneca é linda. Mas te­nho que ir, estou atrasado.

Saiu rápido, sob o olhar admirado da empregada. Ele nunca grita­ra com a menina. Ainda abraçada a Maria do Carmo, Nicete perguntou:

— O que você disse que deixou seu pai nervoso?

— Eu só disse para ele olhar a boneca que mamãe comprou ontem... Ele disse que eu não precisava dessas coisas e que era para jogar a bo­neca no lixo. Eu não quero... é minha... minha mãe me deu...

— Ele já falou que não quis dizer isso. Ele estava brincando. Você entendeu mal. Ninguém vai tirar sua boneca, sossegue. Depois, quan­do eu acabar o serviço, vamos fazer um vestido novo para ela. Você quer?

— Oba! Faz uma calcinha também?

— Claro. Ela não pode ficar com uma só. Como vai fazer quando precisar trocar? Mas você tem que ajudar.

— Vamos fazer agora?

— Não. Depois do almoço. Hoje você não precisa ir à escolinha. Vamos pegar o saco de retalhos e escolher um pano bem bonito.

— A Biloca levou na escola uma caminha com lençol, travessei­ro e fronha. Dá para fazer uma?

— Dá. Agora vá brincar que preciso lavar a louça do café.

Enquanto a menina se entretinha com os brinquedos, Nicete pen­sava na cena de momentos antes. Seu patrão andava muito estranho nos últimos tempos. Logo agora que ele voltara a ganhar dinheiro, era de admirar.

Notava que as coisas não estavam bem entre o casal. Até que Ga­briela tinha muita paciência.

Reconhecia que para um homem era di­fícil aceitar que a mulher sustentasse a casa. Quando é que os homens iriam aprender que a mulher é tão capaz de ganhar dinheiro quanto eles? Para que aquele orgulho bobo?

Percebia que Gabriela já começava a se cansar do mau humor dele. Se ele continuasse com aquela atitude, poderia acabar mal. Nenhuma mulher agüenta muito tempo uma situação como aquela.

Gostava muito de sua patroa. Era uma mulher decidida, sabia o que queria da vida e, ao mesmo tempo, era dedicada aos filhos e ao ma­rido. Não merecia a ingratidão dele.

Gabriela chegou ao escritório e procurou esquecer seus problemas familiares. Sentia prazer em mergulhar no mundo dos negócios, princi­palmente porque estava podendo participar mais. Lia com atenção os contratos, estudava novas possibilidades de negociação e conseguia en­contrar algumas saídas inteligentes.

Renato admirava-se com o talento que ela demonstrava, com sua inteligência arguta e sua dedicação ao trabalho.

Na verdade, ela se interessava vivamente pelo que estava fazendo. Encontrava grande prazer em se dedicar inteiramente. Esses momentos eram para ela a opção de liberdade, de poder fazer alguma coisa do seu jeito, sentindo que estava sendo valorizada em seu esforço.

Era um grande contraste com sua rotina familiar. Lá se sentia cri­ticada, diminuída, vigiada.

Roberto não falava abertamente, mas ela percebia em seus olhos, em seus gestos e até em algumas atitudes, a re­provação, a crítica.

Ultimamente parecia que ela estava sempre fazendo alguma coisa errada. Entretanto, nunca trabalhara tanto em sua vida, nunca apoia­ra tanto o marido como nos últimos meses.

Quando no escritório, sentia-se outra pessoa, esquecia o resto do mundo, mas quando saía, já no ônibus de volta, seu peito se comprimia e não podia evitar a sensação desagradáveL

Entrava em casa querendo abraçar os filhos, buscando uma com­pensação no amor que sentia por eles. A cada dia estava mais difícil vi­ver ao lado de Roberto.

Renato chamou-a em sua sala:

- Preciso que me traga o contrato com aquela mineradora do Dr. Silveira.

Ela saiu e voltou com os papéis, entregando-os a ele.

— Eles mudaram o contrato social. Fundiram essa empresa com ou­tra e precisamos refazer este contrato.

— É só atualização?

— Vai além. Pretendo renegociar as condições. Vou dar uma olha­da e depois passo para você fazer a minuta.

Ela ia saindo quando ele tornou:

— Estou pensando em mandar Ricardinho para um acampamen­to nas férias. Gioconda é contra. Você, o que acha?

— Seria muito bom para ele. Aprenderá a se socializar.

- É o que eu penso. Tenho conversado muito com ele, dado mais atenção. Tem melhorado na escola, mas em casa, ao lado da mãe, noto que ele muda muito. Quando ela não está por perto, ele se mostra mais equilibrado, mais calmo, menos exigente. Basta ela aparecer, pronto: co­meça a ficar rebelde, cheio de manias, reclama de tudo. Fica impossível.

Gabriela abriu a boca, mas fechou-a novamente sem dizer nada. Re­nato notou:

— O que ia falar? Fale. Você tem jeito para lidar com crianças. In­felizmente, Gioconda é uma nulidade. Só estraga o menino.

— Ele está muito mimado. Já sabe que D. Gioconda cede aos seus caprichos e aproveita quando ela está por perto.

Ele fez um gesto de desânimo.

- É o que eu lhe digo, mas ela não percebe, continua do mesmo jeito. Por isso quero que ele vá para o acampamento.

- Será muito bom se ele agüentar ficar lá.

- Alguns colegas de escola já fizeram as reservas. Ele está com muita vontade de ir. Tenho certeza de que irá com prazer. Gioconda não quer nem ouvir falar nisso. Diz que pode acontecer um acidente, que ele pode adoecer. Em suma, fica arrumando empecilhos, fazendo drama.

- Nesse caso, terá de convencê-la.

— É. Vou tentar. Essa atitude dela me assusta. Não parece natural.

— Se ela se ocupasse com alguma coisa interessante, tivesse algum trabalho, ainda que fosse beneficente, mas que lhe desse prazer, tal­vez se libertasse dessa fixação nos filhos.

— Seria ótimo. Já pensei nisso. Sugeri várias opções, mas parece que nenhuma a atraiu. Fica em casa lendo revistas, visita algumas ami­gas, vai às compras e nada mais.

— Pelo menos ela gosta das atividades caseiras? Da ornamentação do lar, da organização?

— Nunca a vi interessar-se por nada disso. É exigente, diz como de­seja o serviço e pronto.

Pessoalmente não se ocupa com nada em casa.

— Não é de estranhar que se fixe nos filhos. Hesitou um pou­co e concluiu: — E também no senhor. Isto é, deve reclamar, exigir atenção e queixar-se de tudo.

— Você descreveu Gioconda com perfeição. Como sabe?

— A vida dela deve ser muito vazia, monótona. Ela não faz nada por si e espera tudo dos outros. Essa fantasia sempre custa muito caro. Acaba na depressão e na doença.

- Isso já está acontecendo. Gioconda está sempre adoentada, sen­tindo-se indisposta. Nunca se mostra satisfeita com nada.

— Ela foi sempre assim?

— Não. Quando nos casamos era uma moça alegre, bem-humora­da, disposta. O problema apareceu depois que Ricardinho nasceu. Gio­conda é uma boa esposa, honesta, dedicada. Gostaria de ajudá-la, mas não sei como.

- Se eu tivesse um problema, procuraria um terapeuta disse Ga­briela pensando em Roberto.

- Acha que poderia ajudar?

— Se ela aceitasse, sim. Qualquer mudança de comportamento só ocorre se a própria pessoa quiser.

— Esse é o ponto. Mas vou pensar. Pode ser que seja um caminho.

Gabriela saiu da sala do chefe pensando no marido. Seria muito bom se ele fosse procurar ajuda. Talvez conseguisse aceitar a mudança que sua vida profissional tivera. Assim que surgisse a oportunidade, fa­laria com ele.

Roberto foi vistoriar a obra e conseguiu um bom pedido de mate­riais. Imediatamente tratou de concretizar a compra para o cliente. Isso o manteve ocupado até as três da tarde.

Sentado na lanchonete à espera do sanduíche, pensou em Gabrie­la com raiva. Mesmo ocupado, não conseguia tirar de sua mente a cena do carro. Precisava fazer alguma coisa.

Quando deixou a lanchonete, ficou andando a esmo, pensando. De­pois decidiu-se: iria procurar Aurélio novamente. Quando conversava com ele, sentia-se mais calmo.

Na sala de espera do consultório, enquanto esperava, uma senho­ra aproximou-se dele, sentando-se a seu lado.

- Está demorando hoje — disse, olhando para Roberto.

— Não sei. Cheguei agora.

       - Minha sobrinha está lá dentro faz mais de uma hora. Conheço o Dr. Aurélio, é muito bom, mas o caso de Neusa... Neusa é minha so­brinha... acho que não vai adiantar nada. Ela está com obsessão. O que ela precisa mesmo é de ajuda espiritual.

Era uma senhora forte, aparentando uns quarenta anos, de ar agra­dável e sorriso largo. Mais para ser educado, Roberto perguntou:

— Qual é o problema dela?

       - Tem altos e baixos. Vai da euforia à depressão sem mais aque­la.    Está bem e, de repente, começa a tremer, a suar, passar mal. Sente arrepios, tonturas, enjôo de estômago. Fica com frio, pés e mãos gela­das. Eu sei que seu caso é espiritual. Mas ela não acredita. Nos últimos meses tem corrido de médico em médico, fez vários exames mas ne­nhum dá nada. Sem falar do emprego que ela perdeu e do marido que fugiu com outra. Se ela não procurar ajuda de quem entende disso, não vai resolver.

Roberto interessou-se:

— O que quer dizer com espiritual?

— Ela está com perturbação de espíritos desencarnados. Coisa de espiritismo?

— Isso mesmo. Como sabe?

— É fácil. Na vida dela corria tudo normalmente. De repente mu­dou. Ela começou a passar mal, perdeu o emprego, o marido, a saúde, tudo. Os médicos dizem que é sistema nervoso. Mas eu não creio. Te­nho visto muitas coisas neste mundo. Eu sei que a vida continua depois da morte e que os espíritos interferem na vida de todos nós.

- Isso me deixa pensando. Comigo aconteceu a mesma coisa. Será que estou sendo prejudicado por espíritos?

- Pode ser. Seria bom ir a algum centro fazer uma consulta.

— Não conheço nenhum. Nunca fui e tenho receio.

- Procure um lugar sério, de mesa branca, onde fazem trabalho de Allan Kardec. É o mais seguro.

- A senhora conhece algum?

       — Conheço. Tem papel e caneta aí?

       — Tenho. Está aqui. Pode escrever.

Ela apanhou o bloco e a caneta que ele lhe estendeu e escreveu o nome e o endereço.

— Olhe, se quiser pode ir agora. Eles começam a atender às sete. Deixei também meu telefone. Meu nome é Maria, e se precisar de mais alguma coisa, e eu puder ajudar, pode ligar.

Espero que consiga. A ca­beça dura da Neusa bem podia ser como o senhor. Ela vai sofrer mais tempo e no fim terá que acabar indo de qualquer maneira.

Roberto despediu-se e saiu. Não esperou pelo médico. Sua mãe de vez em quando falava de uma senhora que benzia e que lia as cartas. Des­de que Neumes levara seu dinheiro, ela queria que ele fosse lá para uma consulta.

Roberto não acreditava naquilo. Entretanto, aquela senhora con­seguiu descrever uma situação parecida com a sua. Perdera o dinheiro, não se sentia bem de saúde e estava perdendo Gabriela. E se ele esti­vesse sendo vítima de um espírito desencarnado?

Já ouvira contar muitas histórias sobre o assunto. Haveria alguma verdade naquilo?

Tirou o papel do bolso e leu o endereço: Vila Mariana. Não era lon­ge. Decidiu ir.

Tratava-se de uma casa antiga, reformada. A porta estava aberta e ele foi entrando. No hall, uma senhora atendeu-o, perguntando o que ele desejava.

— Uma consulta.

— Temos um plantão de atendimento. O senhor vai para aquela sala conversar com um plantonista. Sente-se lá e espere chamar seu número.

Entregou-lhe uma senha e Roberto foi para a sala indicada. Havia algumas pessoas e de vez em quando alguém saía da outra sala e um nú­mero era chamado.

Enquanto esperava, Roberto começou a sentir-se angustiado. Ar­rependeu-se de ter ido.

Afinal, o que estava fazendo ali? O lugar era lim­po mas muito simples; as pessoas, de condição humilde.

Ele estava sendo ajudado por um grande médico e havia aprendi­do muito com ele. Mas ali, com aquelas pessoas sem qualificação pro­fissional, sem grandes conhecimentos, o que poderia esperar?

Nunca se detivera muito pensando em Deus. Não tinha certeza de nada. Cedo aprendera que, se não cuidasse da própria vida, nin­guém o faria por ele.

— As coisas não caem do céu! — costumava dizer. — É preciso ir à luta.

Por insistência da mãe, ia à igreja de vez em quando. Casara-se nela, batizara os filhos. Mas isso representava apenas uma cerimônia so­cial, um pretexto para reunir a família e oficializar costumes.

Aquela situação era ridícula. O melhor era sair. Fez menção de le­vantar-se, mas a porta abriu-se e alguém chamou:

— Dezessete.

Era o dele. Fez de conta que não ouviu. Uma senhora a seu lado colocou a mão em seu braço, sacudindo-o:

— É o seu número. Não ouviu?

Roberto levantou-se e a moça da porta pediu:

— Entre, por favor.

Roberto respirou fundo e entrou. Na sala ampla havia quatro pe­quenas mesas. Três estavam ocupadas por pessoas conversando. Na ou­tra, apenas uma senhora de meia-idade.

— Pode sentar-se lá — indicou a moça.

Roberto aproximou-se da mesa e a mulher levantou os olhos, fixan­do-os nele com interesse.

— Sente-se, por favor. Meu nome é Cilene. Prazer em conhecê-lo.

— Obrigado.

— Seu nome e endereço, por favor.

Ele falou e ela anotou em uma lista que estava sobre a mesa. De­pois perguntou:

— É a primeira vez que vem aqui? Sim.

— Qual é seu problema?

— Bem, minha vida mudou muito e alguém me sugeriu a ajuda espiritual.

Respondeu acanhado. Não pensou que fossem perguntar-lhe aqui­lo. Imaginou que não fosse preciso dizer nada. Afinal, um médium de­veria adivinhar tudo. Estava claro que eles não tinham nenhum poder. Se nem percebiam o que ele tinha, jamais teriam como resolver seus pro­blemas.

Tinha sido loucura ter ido.

Cilene olhou séria para ele e respondeu:

— Você está realmente precisando muito. Sente-se perdido, não confia em mais ninguém.

Desconfia até de sua família. Esse sentimen­to está infelicitando sua vida e dificultando sua prosperidade.

Roberto olhou admirado para a mulher.

— Por que está dizendo isso?

       — Porque cada um é inteiramente responsável por tudo quanto lhe acontece. É hora de tentar descobrir como você atraiu em sua vida uma mudança tão drástica e por que está tão difícil se recuperar.

— É verdade que minha vida mudou muito, mas não fiz nada para isso. Sempre fui trabalhador e honesto. O culpado foi meu sócio, que me roubou todo o dinheiro, e não pude fazer nada. Até hoje estou ten­tando sobreviver com dignidade.

— Há pessoas honestas. Por que é que você atraiu um sócio deso­nesto ao invés de um correto?

— Não sei. Nunca pensei nisso.

— Está na hora de começar a pensar. É importante que saiba que a vida é muito mais do que parece ser. Vivemos rodeados de energias su­tis que trocamos com as pessoas, e essa troca determina os fatos em nos­sa vida. Nossa atitude interior imprime nas energias que emitimos os sentimentos nos quais acreditamos.

— Não estou entendendo.

— As energias cósmicas são como o ar que respiramos. Elas susten­tam a vida. Todos os seres as absorvem e transmitem conforme suas ne­cessidades. Quando nosso corpo físico sofre um acidente, uma doença, são elas que trabalham na recuperação do nosso equilíbrio, refazendo os pontos atingidos, recompondo a saúde. Os médicos sabem disso. Fazem a parte que lhes cabe e esperam a reação natural. Como pensa que a na­tureza executa todo esse trabalho de refazimento?

Através das energias. São elas que mantêm seu corpo funcionando.

Roberto abriu a boca e fechou-a de novo, sem saber o que dizer. Ela prosseguiu:

- Para compreender melhor os fatos que lhe acontecem, é preci­so que você comece a observar, a estudar as energias que o cercam.

— É uma idéia interessante. Meu médico já tinha dito alguma coi­sa sobre isso.

- O que ele não lhe disse com certeza foi que é você quem trans­forma a energia que recebe, conforme suas atitudes.

— Como poderia fazer isso se nunca ouvi falar a respeito?

— Essa troca é natural. Você faz e não percebe. Mas, se ficar aten­to, começará a notar como.

Por exemplo: quando está se sentindo mal, precisa perceber se essas energias vieram de fora já ruins ou se foi você quem as tornou assim.

— Acho difícil saber isso.

— Não é, não. Se você estava muito bem e de repente, sem nenhum motivo aparente, começou a sentir-se mal sem estar doente, é porque absorveu energias negativas. Elas vieram de fora, de outras pessoas, de­sencarnadas ou não. Se você estava revoltado, negativo, de mal com a vida, julgando-se vítima da maldade alheia, triste, inconformado, foi você quem transformou as energias em ruins. Entendeu?

       - Começo a perceber.

— Nos dois casos, é preciso transformar aquelas energias, tornan­do-as boas.

— De que forma?

— Positivando os pensamentos, tomando atitudes otimistas, es­forçando-se para mudar seu modo de ver. Funciona em qualquer caso. Estamos rodeados por energias de todos os níveis.

Atrair esta ou aque­la é apenas questão de sintonia. Quando você está mal, quando nada dá certo, quando tem problemas financeiros ou de saúde, é porque teve atitudes, crenças que o sintonizaram com padrões negativos, ligando-o a essas faixas. Para sair delas, basta desconectar-se. Às vezes precisa fa­zer o oposto do que vinha fazendo. Em todo caso, é você quem deve prestar atenção e descobrir isso.

— Percebo que nos últimos tempos tenho andado muito preocu­pado. Mas foi por causa do que tem me acontecido. Quando tudo ia bem, eu não tinha pensamentos ruins.

Cilene olhou para ele com seriedade e respondeu:

- Não precisa se justificar. Você tem força bastante para sair do mal e permanecer no bem.

        - Eu não estou no mal! Nunca desejei mal a ninguém. Nem ao sócio que me roubou. Se ele aparecesse, eu só queria que me devolves­se o dinheiro que ganhei com muitos anos de trabalho honesto.

       — Sei que você é pessoa de bons sentimentos e não pensa em vin­gança. Mas quando imagina coisas ruins, se deprime, se angustia, está no mal. Não existe meio termo. Quando não está positivo, está no ne­gativo. Quando não está otimista, está no mal. Entendeu?

       Roberto fez um gesto desalentado:

       — Nesse caso, é difícil ficar no bem. A vida é cheia de surpresas desagradáveis, ninguém pode ficar otimista sempre.

       — Reconheço que neste mundo não é fácil conservar o otimismo. Penso até que foi para fazer este treinamento que reencarnamos aqui. Este mundo é cheio de desafios para que aprendamos a desenvolver nossa força interior. Somos espíritos eternos em evolução. Desejamos viver em um mundo melhor, sem dor, com alegria, com amor. Aliás, a felicidade é nosso maior objetivo. Como acha que alcançaremos tudo isso sem conquistar a sabedoria? E, para conquistar a sabedoria, preci­samos desenvolver nossa força interior, aprender a Lidar com as leis da vida, nos harmonizarmos com elas.

— A senhora é pessoa de fé. Gostaria de ter esse conforto.

— A conquista da fé depende do esforço de cada um. Se você de­seja desenvolver sua fé, comece a experimentar suas crenças e verificar quais são verdadeiras. Não aceite coisas só porque alguém famoso disse ou escreveu. Também não recuse. Procure descobrir até que ponto funcionam. Jogue fora os preconceitos. Teste, questione, busque. Peça a Deus que o ajude a descobrir a verdade.

— Vou tentar. Cheguei aqui angustiado e já estou me sentindo melhor.

— Desde que entrou aqui, está sendo assistido por amigos do pla­no espiritual. Vou encaminhá-lo para um tratamento de renovação energética. Vai fazê-lo sentir-se aliviado, dormir melhor. Entretanto, a conquista do seu equilíbrio depende apenas de você. Gostaria que não se esquecesse de observar seus pensamentos íntimos, as frases que cos­tuma dizer a você mesmo. A chave do que lhe acontece está aí.

Estendeu-lhe um papel, dizendo com simplicidade:

— Terá que vir aqui duas vezes por semana durante um mês para esse tratamento. Depois volte para falar comigo e vamos ver como está.

Roberto pegou o papel, hesitou um pouco, depois perguntou:

— Se eu precisar, isto é, se não conseguir me lembrar de tudo que falamos, posso vir conversar com você antes desse tempo?

— Pode. Mas, se fizer tudo que eu disse, não vai precisar.

Roberto agradeceu, levantou-se e saiu da sala. A moça da porta en­caminhou-o para uma fila em outra sala. Sentia-se sensibilizado. Pare­cia-lhe que de repente as coisas tinham outro significado.

Quando chegou sua vez, entrou no salão iluminado por duas lâm­padas azuis, onde atrás de cada cadeira da fileira havia uma pessoa em oração. Os que entravam sentavam-se nas cadeiras e, quando elas lota­ram, a porta fechou-se. Uma música suave tornava o ambiente particu­larmente agradável.

Roberto não conteve a emoção. Quando a pessoa que estava atrás de sua cadeira ficou à sua frente, ele fechou os olhos como para impe­dir que as lágrimas caíssem, mas foi inútil. Elas desabaram e ele rompeu em soluços, sem conseguir controlar-se.

De olhos fechados, sentia que uma brisa suave envolvia seu corpo e ele perdeu a noção do tempo e do lugar. Sentia enorme alívio naque­le pranto, como se com ele jogasse para fora toda a sua dor, sua angús­tia, seu desvalimento.

Aos poucos foi se acalmando. Depois de alguns segundos, sentiu um leve toque no braço.

Abriu os olhos, e o rapaz à sua frente oferecia-lhe pequeno copo com água que ele bebeu, um pouco envergonhado por não ter conseguido segurar as lágrimas.

Devolveu o copo e saiu, acompanhando os demais. Uma vez fora da sala, foi até o banheiro.

Queria lavar o rosto e refazer-se um pouco. Olhou-se no espelho e a custo conteve o pranto.

O que estava acontecendo com ele? Precisava dominar-se. Não podia ser tão sensível. Mas, quanto mais se esforçava para controlar-se, mais lágrimas brotavam. Quando se sentiu melhor, lavou o rosto e pen­teou os cabelos.

Lembrou-se dos seus óculos escuros que estavam no bolso e colo­cou-os. Sentiu-se mais à vontade depois disso.

Quando chegou à rua, sentiu fome. Olhou no relógio. Àquela hora Gabriela já teria chegado em casa. Ao pensar nela, sentiu um aperto no peito.

As palavras de Cilene voltaram aos seus ouvidos e ele reagiu:

“Não vou pensar nisso agora. Chorar me fez bem. Sinto-me muito aliviado. Só que chegar em casa com esta cara... Acho que vou comer um sanduíche por aqui e dar um tempo.

Entrou em um bar e pediu o sanduíche. Comeu com vontade. De­pois, tirou os óculos e olhou-se no espelho. Estava melhor. Seus olhos não estavam tão vermelhos. Podia ir para casa.

 

Gabriela chegou em casa carregando uma pasta. Havia levado duas minutas de contrato que pretendia examinar depois do jantar. Precisava encontrar um jeito de modificar as condições com as quais os clientes não concordavam, sem prejudicar os interesses e os ganhos da empresa.

Gabriela não costumava levar trabalho para casa porqüanto se ocu­pava com os filhos e o bem-estar da família, o que não era fácil ficando fora o dia inteiro.

Sentia-se satisfeita com o progresso alcançado, com o dinheiro que estava começando a ganhar, e desejava progredir cada vez mais. De­pois, era-lhe muito prazeroso perceber que, ao contrário do que diziam seu marido e sogra, ela tinha capacidade para ganhar dinheiro.

Quanto mais Roberto a criticava por trabalhar fora de casa, mais ela se sentia valorizada, percebendo que tinha elementos para subir na vida.

Claro que considerava importante sua presença ao lado dos filhos, orientando-os, ajudando-os, exercendo suas funções de mãe. Apesar do esforço daqueles dias difíceis, quando não pôde contar o tempo todo com Nicete, nada faltara aos seus. Mesmo quando ela se sentia exaus­ta, procurara tornar o ambiente da casa alegre, apesar do mau humor do marido.

Se tivera capacidade para isso quando tudo estava ruim, por que deveria desistir agora que as coisas começavam a melhorar?

Roberto não havia chegado ainda. Como ele estivesse demoran­do, as crianças comeram e foram brincar. Gabriela sentou-se na sala de jantar, colocou sobre a mesa a pasta que trouxera e começou a ler o pri­meiro contrato, anotando alguns detalhes em um bloco ao lado.

Foi assim que Roberto a encontrou quando entrou em casa. Ime­diatamente ela se levantou, dizendo:

— Vou mandar esquentar o jantar. As crianças já comeram.

— Não estou com fome. Eu me atrasei e acabei comendo um sanduíche.

Nicete, que aparecera na porta da sala, perguntou:

— Coloco a mesa só para a senhora?

— Também não sinto fome. Quando eu terminar isto, comerei um lanche. Pode acabar com a cozinha.

Roberto aproximou-se curioso:

— O que está fazendo?

— Examinando estes contratos. Não deu tempo durante o dia e eles são urgentes.

- Desde quando você examina os contratos de sua empresa? Que eu saiba não é essa sua função.

— Eu disse a você que fui promovida, lembra-se?

— Não é muita responsabilidade? Será que você não vai fazer ne­nhuma besteira?

Gabriela levantou para ele os olhos nos quais havia um brilho de irritação.

- Não. Não vou porque o dono da empresa confia em mim, sabe que tenho capacidade para opinar e dar sugestões que ele usa se quiser. São só sugestões; quem decide é ele. A responsabilidade é só dele.

Roberto sentiu um aperto no peito. Suas suspeitas justificavam-se. Bem que desconfiara que era com o chefe que ela andava se envolven­do. Imagine, ela, analisar contratos. Estava claro que ele fazia isso para conquistá-la.

Não se conteve:

— Cuidado. Esse homem deve estar querendo alguma coisa mais. Por que ele não dá esses contratos para seu advogado ou seu contador? Seria mais adequado.

Gabriela levantou-se fuzilando-o com os olhos e respondeu:

— Já vem você com essa conversa. As vezes chego a pensar que você deve ter muitas amantes na rua, porque não consegue pensar em outra coisa. Quem usa cuida, sabia?

- Não precisa ficar nervosa. Conheço os homens. Sei como agem. Esse parece que tem segundas intenções. É bom tomar cuidado e não cair na lábia dele.

O rosto de Gabriela coloriu-se de vivo rubor. Sentia-se indignada. Colocou as mãos na cintura e disse com raiva:

— Está me chamando de ingênua ou de burra? Acha que não sei diferenciar uma cantada de um trabalho profissional? Há momentos que me arrependo de haver casado com você. Não confia em mim, me ofende julgando-me leviana e, para coroar tudo isso, ainda me passa um atestado de incapacidade. Pois fique sabendo que meu trabalho tem sido muito elogiado, que cada contrato desses, quando conseguimos fe­char, está me rendendo excelente comissão, além do salário normal do mês. Portanto cuidado você com o que diz, porque poderá chegar um momento em que não suportarei mais a tensão e resolverei minha vida de outra forma.

Ela tocou no ponto crucial e Roberto assustou-se. O que faria se ela o abandonasse? Uma onda de desespero acometeu-o e ele tentou contemporizar.

— Não quis dizer isso. Você está torcendo minhas palavras. É que não gosto de vê-la trabalhando tanto. Se eu digo que gostaria que dei­xasse de trabalhar, é porque desejo que tenha uma vida boa, só cuidan­do da família. Desejo poupá-la.

— Não me venha com essa história. Sei muito bem o que você pensa. Sou uma mulher digna, que tem feito tudo pela nossa família. Se ainda assim não consigo agradá-lo, paciência. Estou no limite de minhas forças. Afirmo de uma vez por todas: gosto do meu emprego, estou me realizando profissionalmente, ganhando mais, e tenho à minha frente a oportunidade de progredir como nunca tive. Por isso, se deseja con­tinuar comigo, nunca mais toque nesse assunto. Agora me deixe em paz. Vou terminar este trabalho.

Roberto mordeu os lábios e foi para o quarto. Nicete entrou em se­guida, dizendo:

— D. Gabriela, venha comer um pouco agora. Assim ficará mais calma para trabalhar.

— É melhor mesmo. Estou trêmula de raiva e sem serenidade para discernir. Minha cabeça está fervendo.

— Venha, vou lhe contar a última que a Maria do Carmo apron­tou hoje. Essa menina tem cada uma...

Gabriela sorriu. Nicete tinha um jeito especial para acalmá-la, e falar da filha era sempre prazeroso.

Sentou-se, ouviu o que ela disse e comeu um pouco. Quando ter­minou, Nicete, vendo-a pensativa, procurou confortá-la:

— Um dia ele vai perceber a mulher que tem em casa...

— Só que esse dia pode chegar tarde. Estou cansada e não sei quan­to tempo mais consigo agüentar. Vou ver se consigo trabalhar.

Foi para a sala e mergulhou no trabalho. Passava da meia-noite quando finalmente conseguiu finalizar. Havia feito todas as anotações e preparou-se para dormir.

Quando entrou no quarto, percebeu que Roberto não estava dor­mindo. Tinha os olhos fechados mas permanecia atento a todos os mo­vimentos dela.

Respirou fundo e deitou-se virando-se para o lado. Pretendia evi­tar que ele recomeçasse o assunto. Estava cansada, precisava levantar cedo no dia seguinte. Depois, de que adiantaria conversar com ele? Seu ciúme cegava-o a ponto de não enxergar mais nada.

Roberto virou-se para o lado dela e abraçou-a, dizendo ao seu ouvido:

- Gabi, eu fui rude ainda há pouco. Estou arrependido. Você me desculpa?

— Está bem, vamos esquecer isso.

— É que ultimamente tenho sentido muito medo de perder você. Isso tem me atormentado.

— Por enquanto não corre esse risco. Mas, se continuar me criti­cando como fez hoje, não sei se poderei agüentar.

- Eu a amo demais.

— Nesse caso, me respeite.

— Eu vou fazer o possível para mudar. O que eu mais desejo é vê­-la feliz.

— Se isso é verdade, deixe de me atormentar com seu ciúme. Po­nha na sua cabeça que, se eu não o amasse e tivesse de deixá-lo, teria feito isso quando você ficou sem nada. Eu fiquei do seu lado por amor. Além disso, há os nossos filhos.

Ele a abraçou com força e procurou seus lábios, beijando-a longa­mente. Gabriela não sentiu nenhum prazer com aquele beijo. Sentia-se irritada com a insegurança dele, mas não o afastou.

Também não cor­respondeu como em outros tempos. Deixou-se amar, em meio à apatia, à desilusão e ao cansaço, esforçando-se para não o empurrar para longe.

Ele tentou de todas as formas motivá-la, inutilmente. Quando aca­bou, ele se separou dela dizendo triste:

- Você está magoada comigo. Não me ama mais.

— Por favor, não vamos recomeçar. Não leve para esse lado. É que estou cansada, só isso.

Você já teve dias assim. Veja se me entende.

- Está bem. Não quero discutir. Vamos dormir.

Gabriela virou para o lado e em poucos instantes adormeceu. Ro­berto, no entanto, sentindo o peito oprimido, uma horrível sensação de desconforto e receio, ficou ali, no escuro, tentando vencer seu medo. Mas o medo continuava lá, impávido, levando a melhor. Roberto só con­seguiu adormecer quando o dia começou a clarear.

Levantou passava das dez. Estava atrasado. Respirou fundo tentan­do evitar o mau humor. Foi inútil. A lembrança da noite anterior au­mentou sua depressão.

Tomou uma ducha rápida, engoliu o café puro para espantar o de­sânimo e saiu. Tinha marcado com o engenheiro às oito horas e eram quase onze. Tentou melhorar a expressão de seu rosto, estendendo os lá­bios em um sorriso:

— Desculpe o atraso, doutor. É que passei a noite em claro, meu filho chorou e não nos deixou dormir. Quando consegui pegar no sono, estava tão cansado que não acordei na hora.

— Sinto muito, mas eu tinha urgência do material. Não podia dei­xar os homens parados. Mandei buscar em nosso fornecedor habitual e já deve estar chegando.

— Eu teria conseguido um preço melhor.

— Pode ser, mas e se você não viesse?

- Sou homem de palavra. Não ia deixá-lo na mão.

— Mas deixou. Marcou às oito e são onze. Se fosse de palavra, te­ria vindo no horário.

Roberto conversou um pouco na tentativa de obter outros pedi­dos, mas notou que o engenheiro não estava interessado. Saiu dali aborrecido.

— Hoje não é o meu dia! — pensou.

A obra era grande e estava no início. Ele poderia fazer grandes ne­gócios com aquela construção. Achou melhor não insistir. Deixaria pas­sar alguns dias para que o engenheiro esquecesse o episódio e voltasse.

Embora estivesse ganhando algum dinheiro, não conseguira guar­dar nada. Tinha acumulado algumas dívidas e estava pagando-as. Ha­via também as dívidas com os fornecedores. Roberto planejava pagar tudo para limpar seu nome e poder reabrir seu negócio. Esse era seu objeti­vo, e faria qualquer sacrifício para alcançá-lo.

Ao passar por uma praça, sentou-se em um banco. Pretendia visi­tar outra obra, mas era hora de almoço e achou melhor esperar. Sabia que para eles o horário de almoço era sagrado. Não gostavam de tratar de negócios nessa hora. Não queria arriscar-se a perder outro possível comprador.

Seu pensamento voltou-se para Gabriela. Sua frieza deixara-o sentido. Abraçara-a cheio de amor, mas era tarde. Sua esposa não o amava mais.

A esse pensamento, sentiu o coração oprimido e respirou fundo, ten­tando acalmar-se.

Lembrou-se do centro espírita e do alívio que senti­ra lá. A noite deveria ir novamente para o tratamento.

Iria mais cedo e tentaria conversar com Cilene. Talvez ela o aju­dasse a libertar-se daquela opressão que sentia no peito.

O dia custou a passar e Roberto visitou mais duas obras, sem conseguir nada. Também, com a disposição que estava, nada poderia dar certo.

Passava um pouco das seis quando ele entrou no centro espírita. O atendimento não havia começado, porém ele viu Cilene no hall con­versando com uma senhora. Aproximou-se esperando que ela termi­nasse. Quando a viu só, aproximou-se dizendo:

— Estou precisando conversar. Você disse que me atenderia.

Ela pensou um pouco e depois respondeu:

- Não é nosso costume atender antes do horário, mas vou abrir uma exceção. Vamos entrar.

Vendo-o sentado em sua frente na sala de atendimento, Cilene perguntou:

— E então, melhorou?

— Aquela noite saí daqui aliviado. Fiquei bem. Mas depois tudo voltou a ser como antes. A depressão voltou, sinto-me triste, tenho im­pressão de que algo de muito ruim vai me acontecer.

— Percebeu se esses pensamentos vêm de fora, de repente, ou se évocê quem os está criando?

— Claro que não sou eu. Não gosto de me sentir assim. Mas eles vêm e não tenho como evitar.

- Sei que preferia sentir-se bem. Mas, se está mal, com certeza está olhando a vida pelo lado errado. Foi por isso que eu lhe disse para prestar atenção às conversas que costuma manter consigo mesmo. Elas revelam sua maneira de reagir aos fatos do dia-a-dia.

— Meu médico disse que somos responsáveis por tudo que nos acontece na vida. Mas penso que ele está enganado. Tenho me esfor­çado para fazer as coisas do jeito certo. Sou um homem honesto, amo minha família, meus filhos, minha mulher. Entretanto, fui roubado, mi­nha mulher deixou de me amar, estou sendo traído. Está difícil segurar essa opressão. Como posso fechar os olhos e ser otimista com tudo de mal que está acontecendo à minha volta?

As lágrimas brotaram dos olhos de Roberto, que não se importou e deixou-as cair. Precisava desabafar, contar a alguém seu sofrimento, suas dúvidas, seus medos.

As palavras brotavam em seus lábios e ele foi falando de sua vida, contando o que lhe acontecera e o que ele pensava que poderia acontecer.

Cilene deixou-o falar sem interferir. Sabia que ele precisava desse conforto. Ele finalizou:

— Agora ela não me ama mais. Gosta de outro. Eu vi. Qualquer dia destes vai querer separar-se e eu não vou agüentar. Sei que deveria ter vergonha de gostar de uma mulher que está me traindo, mas não pos­so viver sem ela. Suportarei tudo, menos que ela vá embora.

       Quando ele se calou, Cilene disse com simplicidade:

— O ciúme é mau conselheiro. Cria um inferno para quem o sen­te e afasta as pessoas. Você pode estar destruindo seu lar com seu ciúme.

— Mas eu vi Gabriela em um carro de luxo. Aonde ela ia ao lado de outro homem?

— Estavam abraçados? Podia ser um encontro de trabalho.

— Mas ela nunca me falou nada sobre isso. Por quê? Se fosse um trabalho, ela teria me contado.

— Ela nunca lhe contaria por causa do seu ciúme.

— Tem aparecido com dinheiro. Diz que foi promovida, mas eu a vi no carro do chefe.

— Pode ser verdade. Ela pode estar sendo sincera. Pense em como ela deve estar se sentindo se for inocente, se estiver se esforçando no tra­balho para ajudar você a suprir as necessidades da família e notar suas des­confianças. Deve sentir-se desvalorizada, desanimada, e isso sim pode fazer com que a admiração que ela sentia por você comece a mudar.

— Eu seria o homem mais feliz do mundo se fosse como você diz. Nesse caso ela deveria me odiar. Mas não creio. eu a vi naquele carro. Depois, ela mudou comigo. Não é mais a mesma.

— E vai mudar mais se você não trabalhar esse ciúme e continuar agindo dessa maneira.

Ninguém é de ninguém. Você não é o dono de sua mulher. Ela só vai ficar ao seu lado se quiser, se continuar gostando de você. Por isso, deixe de trabalhar contra seu casamento. Comece a valorizá-la como pessoa enquanto é tempo e ela ainda pode ouvi-lo.

Roberto baixou a cabeça confundido. Era difícil acreditar nas hi­póteses que ela levantava. Percebendo sua hesitação, Cilene continuou:

— Sua mulher alguma vez demonstrou interesse por outro homem depois do casamento?

Roberto estremeceu.

— Claro que não! Ela é inteligente e esperta, nunca deixaria per­ceber. Depois, penso que apesar de tudo ela não teria coragem de me confrontar dessa forma.

— Ela é tímida e passiva?

— Ao contrário. Sempre sabe o que quer e é teimosa também. Só faz o que ela acha que deve fazer. Se me ouvisse, já teria deixado o em­prego e tudo estaria bem.

— Você perdeu tudo, ficou sem emprego. Como viveriam se ela tam­bém não trabalhasse?

Roberto remexeu-se na cadeira inquieto.

— Devo reconhecer que ela tem mantido a casa desde que perdi meu negócio. Agora é que estou começando a ganhar dinheiro nova­mente, assim mesmo não o suficiente.

Cilene olhou seriamente para ele e depois disse:

- Acho que você está precisando de uma consulta especial.

— Como assim?

— Vou marcar e vamos ver o que acontece.

— Como é isso?

- É uma reunião à qual você vai comparecer, sentar-se em uma ca­deira por alguns instantes.

Não precisa dizer nada. Basta dar apenas seu nome e endereço. Os espíritos vão averiguar seu caso e dar orientação.

— Eles vão falar comigo?

— Não. Conversarão com os médiuns videntes que fazem parte dessa reunião. Cada um deles vai anotar tudo que conseguir ver sobre seu caso. Depois você volta aqui e conversaremos.

— Vão poder saber se Gabriela me trai?

- Eles podem ver muitas coisas, mas só vão dizer o que for permi­tido pelo plano superior.

Entretanto, pela experiência que tenho tido, eu o aconselharia a seguir todas as orientações que eles lhe derem.

— Pois eu gostaria que eles me dissessem a verdade. Seja ela qual for, é preferível a este tormento.

— É você quem está se atormentando, imaginando o pior. Por que não tenta olhar para o outro lado? Por que não pensa que sua mulher sempre lhe foi fiel e está se esforçando para ajudá-lo a manter a famí­lia? Tenho certeza de que se sentiria bem melhor e muitos dos seus pro­blemas acabariam.

Roberto suspirou fundo, depois disse:

- Se eu pudesse, faria isso. É que quando penso dessa forma me sinto um bobo, enganado, iludido, fracassado.

- O orgulho é o maior obstáculo à felicidade. Ilude, infelicita, destrói. Cuidado com ele.

- Sou um homem simples. Vim de baixo. Sou de origem humilde.

Cilene sorriu e respondeu:

- Ser pobre, sem instrução, levar vida modesta, não é prova de hu­mildade. Se você fosse humilde, não se sentiria ofendido por sua esposa manter a casa enquanto estava desempregado.

Você se sentia envergo­nhado. A vergonha é sinônimo de vaidade.

- Sentia-me incapaz, e isso dói. Depois, minha mãe é muito preo­cupada e vivia atrás de mim querendo saber como iam as coisas. ELa tam­bém não gosta que Gabriela trabalhe fora. Acha que ela deveria ficar em casa para cuidar dos filhos. Temos dois, como já Lhe contei.

— As mães se preocupam e não percebem que as vezes contri­buem para aumentar os problemas, interferindo indevidamente na vida do casal.

— Minha mãe é pessoa muito dedicada à família. Nunca traba­lhou fora.

— É de outra geração, tem outros costumes. Mas hoje a mulher émais independente. Depois, o casamento é uma sociedade em que tudo deve ser compartilhado. Pense nisso. Vou marcar a consulta e você vai voltar aqui no próximo sábado, às duas da tarde.

Preencheu um papel e entregou-o a ele, finalizando:

- Agora vá tomar seu passe. Pense em tudo quanto eu lhe dis­se. Seja sincero, analise com cuidado tudo que costuma pensar. Faça mais. Pegue um papel e anote todas as vezes que tiver um pensamen­to desagradável.

— Anotar? Não vai ser pior?

- Não. Vai mostrar-lhe como anda sua cabeça.

Roberto saiu. Estavam chamando para o tratamento. Ele entrou no­vamente na sala em penumbra e rezou. Pediu a Deus que o orientasse e esclarecesse. Saiu de lá mais calmo, aliviado.

Na volta para casa, rememorou tudo quanto Cilene lhe dissera. As palavras dela fizeram-lhe muito bem, mas em meio a isso pensava que ela era ingênua, como todas as pessoas que se dedicam à religião, e que por isso não via mal em nada.

Quando dava força a esse pensamento, sentia que a depressão vol­tava. Lembrava-se de que ela lhe pedira para tomar nota dos maus pen­samentos. Arranjou um papel no bolso e resolveu escrever suas dúvidas.

Seria muito bom se o que ela dissera fosse verdade. Se Gabriela nun­ca o houvesse traído, se ela realmente só estivesse cuidando do traba­lho e da família. Esse pensamento dava-lhe alívio, mas logo a dúvida rea­parecia e ele sentia voltar a depressão.

Agitava-se pensando que não podia ser ingênuo e deixar-se in­fluenciar por Cilene. Ela dizia isso para acalmá-lo, era função dela no trabalho que estava realizando. De nada adiantava enganar-se nem ten­tar acobertar uma verdade que ele não desejava ver.

Por mais que tentasse, nunca poderia deixar de notar o quanto Ga­briela havia mudado com relação a ele. Evitava contato íntimo, isso ele não podia aceitar. Certamente estava apaixonada por outro e por isso não sentia prazer aceitando suas carícias.

As mulheres são sensíveis e diferentes dos homens, que podem re­lacionar-se apenas por atração sexual. Sua mãe sempre dizia que, quan­do uma mulher está apaixonada por um homem, sente repulsa em man­ter relações sexuais com outro.

A esse pensamento, Roberto sentiu-se inquieto, faltou-lhe o ar. Respirou fundo e resolveu esquecer os conselhos de Cilene. Era uma boa pessoa, bem intencionada mas muito distanciada da realidade.

Voltaria para a consulta marcada e continuaria o tratamento, por­que se sentia aliviado cada vez que ia lá, contudo continuaria com os pés no chão, vivendo sua triste realidade.

Se ao menos pudesse ter certeza de que um dia Gabriela mudaria, voltando a amá-lo como antes! Para conseguir isso, faria qualquer sa­crifício, inclusive o de continuar sofrendo calado, sem dizer a ela que sabia de tudo.

Ao mesmo tempo que decidia isso, Roberto sentia-se abatido, tris­te. Dizia a si mesmo que não podia esmorecer.

Se era de dinheiro que ele precisava para restabelecer o equilíbrio de sua família, ele não mediria sacrifícios para consegui-lo.

Foi para casa disposto a elaborar um plano de ação que lhe permi­tisse ganhar dinheiro rapidamente.

Ao chegar, Gabriela já estava sentada à mesa, jantando. Vendo-o entrar, disse:

- Não o esperei porque não sabia se viria para o jantar. Ultima­mente você não mantém horário nem avisa quando vai chegar.

— Não tem importância.

— Vou colocar um prato para você.

Nicete apareceu na porta.

- Pode deixar, D. Gabriela. Eu coloco. Vou lavar as mãos disse Roberto.

Ele foi ao banheiro lavar-se, pensando:

“Antes ela me esperava mesmo que eu chegasse à meia-noite!’

Sentou-se à mesa, esforçando-se para distender a fisionomia e dei­xar transparecer um ar amável.

Gabriela comia em silêncio. Ele se serviu e começou a comer, de vez em quando olhando-a disfarçadamente. Ela lhe pareceu distante, per­dida em seus próprios pensamentos. Tentou conversar:

—            Gostaria de ter chegado mais cedo, mas há clientes que não res­peitam os horários. Não têm nenhuma pressa. Gostam de conversar, e é preciso ter paciência, deixá-los falar. No fim, acaba saindo algum ne­gócio ou pelo menos a promessa de alguma coisa para o futuro.

- Tudo bem.

Ele continuou:

— Estou com alguns planos que acredito darão bom resultado. Tenho certeza de que dentro de pouco tempo estarei ganhando mais dinheiro.

Ela não disse nada. Ele se irritou, mas esforçou-se para controlar o mau humor. Gabriela não parecia interessada em manter uma conver­sa com ele.

A situação estava pior do que havia pensado. Sentiu um aperto no peito. E se ela resolvesse separar-se? Agora estava ganhando o suficien­te para manter até a família, não precisava dele para nada.

Remexeu-se na cadeira inquieto. Ele não suportaria uma separação. Precisava tentar todos os recursos. Engoliu a raiva e a tristeza. Termi­nou o jantar e depois da sobremesa, antes do café, ele se levantou, foi até a cadeira dela, pousou a mão em seu ombro e disse:

— Estou achando você muito calada. Aconteceu alguma coisa? Gabriela levantou os olhos para ele, encarando-o.

Não. Está tudo bem.

— Pois não parece. Tenho impressão de que está com algum pro­blema. É algo com as crianças?

— Engano seu. As crianças estão bem.

— É que você me pareceu tão distante, nem se interessou pelos meus planos de negócio, como fazia antigamente.

— Tudo muda, Roberto. Nós mudamos. Hoje estou mais madura, e o fato de eu estar mais discreta não significa que não esteja interessa­da em seu progresso profissional. Fico feliz que esteja encontrando no­vamente o caminho da prosperidade. Você sabe disso.

Ele não respondeu. Voltou para seu lugar, serviu-se de café. De­cididamente ela estava diferente. A Gabriela de antigamente não existia mais.

Tentou dissimular sua tristeza e depois se sentou em sua escrivani­nha, na pequena sala que lhe servia de escritório, e tratou de trabalhar.

Apanhou um caderno que lhe servia de agenda e anotou: no dia seguinte iria à Prefeitura visitar um funcionário seu conhecido e ten­tar conseguir dele uma relação de todos os projetos de construção de imóveis aprovados nos últimos meses. Sabia que com uma boa gorjeta conseguiria.

Depois, analisaria esses projetos e entraria em contato com os pro­prietários desses imóveis.

Desde que recomeçara a trabalhar freqüentando as obras, pretenden­do arranjar material melhor e mais barato para os encarregados, desco­briu que muitos deles enganavam os proprietários, superfaturando os materiais, não só para ter maiores comissões, uma vez que ganhavam por va­lor do material gasto na obra, como engolindo polpudas quantias que certas empresas lhes pagavam pela sua preferência na compra. Por isso não tinham muito interesse em que Roberto conseguisse preços melhores.

Ele pensou que, se procurasse os proprietários, oferecendo seus ser­viços para conseguir baixar os custos da construção, Levando-lhes orça­mentos que comprovassem que, contratando-o, eles economizariam mui­to, tinha certeza de que em pouco tempo voltaria a ganhar dinheiro.

Claro que ele precisava conquistar a confiança desses proprietários. Pretendia trabalhar com muita honestidade e dedicação. Por isso tinha a certeza de que conseguiria seu intento.

De repente ele teve uma idéia: de início não exigiria um salário, apenas uma comissão em tudo que o cliente conseguisse economizar. Era um excelente negócio. Qualquer pessoa aceitaria imediatamente.

Como se tratava de uma comissão sobre algo que o cliente estava ganhando, já que gastaria menos do que lhe haviam pedido, ele pode­ria colocar um índice melhor.

Quem fosse economizar dez mil reais, certamente não se importa­ria em dar-lhe vinte por cento desse dinheiro. Anotou todas as idéias, pretendendo iniciar no dia seguinte.

Quando ele foi se deitar, Gabriela já estava dormindo. Passava das onze horas. Notou que ela não o esperara para dormir, mas estava por demais interessado em seus planos para ficar remoendo isso.

A partir do dia seguinte, tudo iria mudar. Ela deixaria de vê-lo como um incapaz, um imbecil que fora roubado pelo sócio. Ele mostra­ria a ela que era muito capaz. Ganharia mais dinheiro do que aquele em­presário pelo qual ela tinha tanta consideração.

Cerrou os punhos com força, dizendo baixinho:

— Você vai ver, Gabriela, com quem está casada! Eu juro! Aí vai se arrepender de me trair, de jogar fora nossa felicidade. Vou provar para você que sou um homem capaz.

Sentiu-se confortado com esse pensamento. Virou-se para o lado e sem mais problemas conseguiu adormecer.

 

Renato chegou ao escritório nervoso, agitado. Tivera uma discus­são com Gioconda, e ela, como sempre, se refugiara na cama alegando mal-estar.

Estava difícil levar adiante a vida familiar, porqüanto sua mulher

a cada dia mais e mais se mostrava incapaz e fraca. Ele percebia que, com

a desculpa de estar se sentindo mal, ela fazia tudo do jeito que queria,

perturbando a educação dos filhos e o andamento da casa. Até os criados estavam abusando, e ele, embora notasse, não que­ria intervir. Pensava que, enquanto ela estivesse se ocupando com os pro­blemas domésticos, pelo menos desviaria um pouco a atenção dos mem­bros da família. Não podia conceber que uma mulher como ela, forte, saudável, tendo uma família bonita, conforto e bem-estar, se compor­tasse como uma criança mimada, estragando sua própria vida colecio­nando problemas inexistentes, imaginando dificuldades, tornando-se tão alheia à realidade como as crianças.

Enquanto se tratava dela, de sua maneira errada de viver, não qui­sera intervir. Mas, agora, as crianças estavam sendo prejudicadas, e isso ele não iria tolerar.

Estava cansado das chantagens que ela fazia com os filhos a pro­pósito de qualquer coisa, obrigando-os a fazer tudo que ela quisesse.

Ricardinho, inteligente e esperto, percebia o jogo dela. Renato no­tava que o menino perdera completamente o respeito pela mãe, não lhe obedecendo em nada, a não ser quando ele intervinha.

Com ele, o menino mostrava-se completamente diferente. Depois que ele se aproximara, ouvindo-o, levando em consideração suas opi­niões, ele mudara radicalmente seu comportamento na escola.

Tornara-se querido pelos colegas. Os professores, admirados, con­tavam ao pai satisfeito os progressos que Ricardinho fizera, tornando-se mais corajoso em assumir seus erros e interessado em aprender mais.

Mas em casa, com a mãe, ele andava impossível. Quando o pai não estava, divertia-se em atormentá-la, inventando histórias sobre os colegas, deixando-a assustada.

Naquela manhã ela lhe dissera na mesa do café:

— Estou preocupada com Ricardinho. Estou procurando outro co­légio para ele. Nesse não quero que ele fique.

— Por que isso agora? Ele está indo bem nos estudos, os professo­res até o elogiam.

- Isso eles dizem a você. Mas Ricardinho tem colegas perigosos. Ontem ele me contou coisas de arrepiar. São verdadeiros marginais. Não quero que meu filho fique em companhia deles. Já pensou o que pode acontecer?

— Não acredite em tudo que ele diz. As crianças gostam de fanta­siar. Ricardinho tem uma mente fértil. Acho que ele andou lendo mui­tas revistas em quadrinhos.

— O que não posso acreditar é que você ouça isso e não tome nenhuma providência. Se você não for, eu mesma irei ao colégio para pedir sua transferência. Aliás, já escolhi um outro. Eles ficaram de me arranjar uma vaga.

Renato, contrariado, colocou a xícara de café sobre o pires.

— Gioconda, deixe Ricardinho por minha conta. Estou satisfeito com o colégio e com ele. Não vejo motivo para transferi-lo. Estamos no segundo semestre, e uma mudança agora com certeza vai prejudicá-lo.

— Não sei o que está acontecendo com você. Antes deixava que eu cuidasse dos nossos filhos. Agora está interferindo, e isso está sendo desastroso. Ele não me obedece. Quando pergunto das aulas, desconver­sa. Para mim, esse menino está escondendo algo, e você fica aí, nessa postura calma, sem fazer nada. Já pensou se ele estiver fazendo alguma coisa errada?

— Nosso filho não é um marginal, se é disso que você tem medo. É um menino inteligente e não vai deixar-se levar por ninguém.

— Pois eu sinto que não é assim. Não quero que ele estude mais nesse colégio e vou tirá-lo.

Renato levantou-se, olhando para ela e tentando controlar a raiva:

- Você está proibida de fazer qualquer coisa. Ele vai continuar lá e não se fala mais nisso.

— Puxa, você está sendo grosseiro comigo! Nunca pensei que che­gasse a tanto. Logo eu, uma mãe preocupada com o futuro dos nossos filhos. Pode haver maior ingratidão?

— Não se faça de vítima. Você é uma mulher privilegiada, tem tudo de que precisa para ser feliz. Por que prefere colecionar problemas?

— Tenho tudo, menos um marido que me apóie. Começo a pen­sar que você não me ama mais. Está mudado. Não me trata mais como antigamente. O que está acontecendo?

— Nada. Não está acontecendo nada. Quem mudou foi você. Não é mais a moça alegre e agradável com quem me casei. Sempre que che­go em casa tem uma nova reclamação, vive chorosa pelos cantos. As ve­zes olha-me como se eu fosse culpado de alguma coisa.

— É que a vida não é do jeito que eu gostaria. Meus filhos não li­gam para mim, meu marido está se distanciando a cada dia. Eu não fiz nada para isso. Tenho desempenhado meu papel de esposa e mãe com devotamento.

Renato sentia-se irritado. Detestava discutir logo cedo, principal­mente com Gioconda, cujos argumentos infantis o indignavam. Ape­sar do esforço para controlar-se, ele não conseguiu segurar as palavras:

— Isso é o que você diz. Mas passa os dias folheando revistas, con­versando com as amigas ao telefone, circulando pelas lojas. O que você tem é tédio. Está jogando fora sua vida, gastando seu tempo sem fazer nada de útil. Penso que, se procurasse algum trabalho para fazer, ocu­passe seu tempo com coisas interessantes, não ficaria criando problemas para sua família. Há muitas obras filantrópicas precisando de voluntá­rias. Por que não tenta ocupar-se? Garanto que lhe faria muito bem.

O  rosto de Gioconda cobriu-se de rubor, e ela, indignada, le­vantou-se:

— Não dá para conversar com você! Não vou ficar aqui ouvindo. O ar está me faltando. Vou tomar meu remédio.

Saiu revoltada, e Renato, meneando a cabeça contrariado, não terminou o café. No carro, enquanto se dirigia para o escritório, sentia-se desanimado.

Sua mulher era um desastre. Imatura, incapaz, vaidosa e cheia de exigências. Ele sentia que precisava fazer alguma coisa, mas o quê?

Gabriela entrou na sala e percebeu logo que ele não estava bem.

— Dr. Renato, trouxe-lhe aquele contrato que me pediu. Fiz algu­mas considerações sobre o projeto e gostaria que o senhor visse.

— Agora não. Estou sem cabeça para resolver qualquer assunto.

— Desculpe, doutor. Aconteceu alguma coisa?

— O de sempre. Só que hoje Gioconda caprichou. Conseguiu ti­rar-me do sério e acabamos discutindo. Ela foi para a cama, e, se a co­nheço bem, a estas horas já deve ter infernizado a vida de seu médico, dos empregados. Felizmente as crianças estão na escola.

— Podemos deixar para amanhã. Temos prazo.

Ela ia se retirando quando ele disse:

— Espere, Gabriela. Estou arrasado. Sou um homem educado. De­testo discutir logo cedo com uma pessoa tão confusa quanto Gioconda. Ela não se coloca como qualquer pessoa faria. Ela se faz de vítima e ati­ra toda a culpa sobre mim.

— Se o senhor sabe disso, não precisa se aborrecer. Cada pessoa écomo é, e não temos como mudá-las.

— Está difícil continuar convivendo. Estou cansado. Sinto que preciso fazer alguma coisa, mas não sei o quê. Gostaria que ela perce­besse que está jogando fora nossa felicidade. Eu amo minha família.

Gabriela pensou em Roberto e suspirou. Ela também gostaria de fa­zer alguma coisa para que ele voltasse a ser como antes.

— Há muitas pessoas com problemas de relacionamento. Nesses ca­sos, o melhor é procurar um terapeuta. É o que eu faria se tivesse dinhei­ro para isso.

— Você também está com problemas com seu marido?

— Os de sempre. Ele é muito ciumento, como o senhor sabe.

— Nesse caso, quem deveria procurar ajuda terapêutica é ele.

— É. Mas ele nunca faria isso. É um homem antiquado. Sua mu­lher concordaria em procurar ajuda de um psicólogo?

— Não sei. Acho que não. Ela vive com médicos, pretendendo provar que tem alguma doença para nos comover. Para ir a um terapeu­ta, teria que admitir que precisa de ajuda. Isso acho que ela não faria. Pensa que está sempre certa. Os outros é que estão todos errados.

Gabriela sorriu.

— Meu marido é igual. Sempre acha que está com a razão.

Depois que Gabriela se foi, Renato ficou pensando. A idéia era boa. Se Gioconda concordasse em procurar um psicólogo, talvez pudes­se melhorar, O que não dava era para continuar daquele jeito.

No fim da tarde, ao chegar em casa, encontrou-a na sala, folhean­do uma revista. Gioconda não respondeu quando ele cumprimentou.

Renato respirou, tentando segurar o mau humor que tornaria as coi­sas ainda piores. Procurou contornar:

— Vejo que está melhor.

Ela olhou séria para ele e respondeu:

— Preciso me fazer de forte, tenho dois filhos pequenos para criar. Renato sentou-se na poltrona em frente a ela.

— Gioconda, nossa discussão de manhã deixou-me de péssimo hu­mor. Não gosto de discutir com você.

— E você acha que eu gosto? Passei o dia inteiro indisposta. Sabe como tenho a saúde delicada.

Ele procurou ignorar suas palavras e continuou:

— Precisamos conversar. Ultimamente não estamos nos enten­dendo. Não desejo continuar assim. Nossos filhos precisam viver em um lar harmonioso, tranqüilo, alegre.

— Você mudou de algum tempo para cá.

— Não é verdade. Eu amo você, vivo para a família e para meu trabalho.

— Pois não parece. Vive me contrariando. Pode avaliar como me sinto quando me desautoriza diante dos nossos filhos?

— É sobre isso que quero conversar. Com relação à maneira de educá-los, temos idéias diferentes. Temos que discutir e acertar nossas diferenças nesse sentido em benefício deles. Não gosto de intervir quan­do você decide alguma coisa. Tenho certeza de que deseja o melhor para eles. Mas às vezes você não percebe que algumas atitudes que toma não dão bom resultado.

— Quer dizer que não sei educá-los?

— Não diria isso. Você sempre foi uma mãe amorosa, interessada. Mas, Gioconda, você tem se colocado em uma posição frágil diante de­les, e essa não é uma postura adequada.

— Sou uma mulher sensível. Não consigo tolerar certas coisas...

— Respeito sua sensibilidade, mas já reparou como Ricardinho procede exatamente como você? Até Célia, que era mais alegre, está ado­tando sua postura.

— O que há de errado que os filhos copiem a mãe? Isso é natural nas crianças.

- É que você vive se queixando, reclamando de tudo, mostran­do-se fraca. Fazendo isso, eles também se tornarão fracos como você. Enquanto são crianças, estão protegidos. Mas, quando forem viver a pró­pria vida, estarão despreparados. As pessoas só respeitam os fortes, qua­se sempre costumam passar por cima dos fracos, esmagando-os.

Gioconda levantou-se nervosa:

— É isso que pensa que eu sou? Uma fraca? Até que tenho sido mui­to forte agüentando tudo que me tem acontecido. Não pode falar isso de mim, não pode.

As lágrimas estavam prestes a cair, e ela saiu da sala indo fechar-se no quarto. Renato passou a mão pelos cabelos desanimado. Qualquer conversa com ela naquele sentido era impossível. Ela lhe pareceu real­mente desequilibrada. Antes ela não era tanto assim. E se com o tem­po piorasse?

Ele precisava fazer alguma coisa, mas o quê? Aquela tentativa lhe valeria mais alguns dias de cara fechada, de suspiros e idas ao mé­dico. Era isso que ela faria. Ouviu o ruído de alguém discando no te­lefone. Era ela com certeza solicitando a visita do médico, como sem­pre fazia.

No dia seguinte, desanimado, contou a Gabriela o que acontece­ra. Ela ouviu-o com atenção e ao final sugeriu:

— Se D. Gioconda não vai ao terapeuta, porque o senhor não vai no lugar dela?

— Eu?

— Claro. Ele poderá lhe dar sugestões de como ajudá-la. É a pes­soa certa para isso.

— É. Sabe que tem razão? Estou me sentindo perdido. Preciso mes­mo de uma direção de quem entende. Se continuar como está, tenho certeza de que não suportarei por muito tempo.

Como eu disse, amo mi­nha família. Não desejo me separar, por causa das crianças. Nesses ca­sos a lei favorece a maternidade. Sinto que Gioconda não está prepa­rada para educá-Los como é preciso. Tenho que ficar lá, fazendo minha parte. Mas está cada dia mais difícil.

— O senhor é um bom pai. Procurar ajuda especializada é o me­lhor caminho.

— É o que farei.

Gabriela saiu pensativa da sala. Por que na hora de casar as pessoas escolhiam errado? Um homem bonito, rico, culto, amoroso e sincero, por que se casara com uma mulher despreparada, que estava tornando aquele lar infeliz?

Pensou em seu casamento. Se pudesse voltar atrás, não se casaria com Roberto. Lembrou-se de seus sonhos de moça, das idéias que fazia de como deveria ser um casamento harmonioso e feliz.

Na verdade, ninguém conhece ninguém intimamente. As ilusões, os sonhos, são muito agradáveis. Mas as pessoas nunca são como as ve­mos. Com o tempo, a verdade aparece e é preciso esquecer os sonhos, juntar os pedaços de realidade e tentar pelo menos levar adiante.

Renato falara nos filhos. Não fosse por eles, certamente ele já te­ria se separado da esposa. E ela, teria feito o mesmo? Se não tivesse Gui­lherme e Maria do Carmo, também teria se separado?

Lembrou-se dos primeiros tempos de casamento. Ela amava o ma­rido. Casara-se por amor.

Haviam vivido momentos de felicidade. Quan­do tudo começou a mudar?

Percebeu que, mesmo quando ele estava bem, antes de Neumes haver levado todo o dinheiro, as coisas já haviam começado a modifi­car-se. Quanto mais ele ganhava, mais insistia para que ela abandonas­se o emprego. Insistia para que ela mudasse de hábitos, usasse roupas sem graça, não se maquiasse. Quando saíam a passeio, preferia andar por lu­gares com pouca gente. Se ela desejava ir a alguma festa, ele acabava se atrasando, indo sem vontade, criticando suas roupas, vigiando-a o tem­po todo. Era insuportável.

Gabriela era jovem, cheia de vida, gostava de viver. Ele e D. Geor­gina sugeriam que ela era leviana. Isso a ofendia profundamente. Sem­pre fora sincera e respeitara o marido. Nunca lhe dera nenhum motivo para duvidar de sua dignidade.

Gabriela tinha a sensação de que ele de certa forma até gostara de terem ficado sem dinheiro, porque assim não podiam ir a lugar algum.

Apesar de tudo, ela não pretendia mudar em nada. Gostava de ves­tir-se na moda, de ficar bonita, olhar-se no espelho e sentir-se viva, ale­gre, bem cuidada. Não podia entender por que deveria ficar feia, mal­tratada, só porque era casada. Seu marido deveria sentir-se orgulhoso de ser casado com uma mulher bonita, charmosa, agradável.

Lembrou-se de que Renato reclamava exatamente disso, que sua esposa não se interessava em ficar bonita, em cuidar da aparência. Se Gabriela fosse casada com um homem como ele, certamente não o de­cepcionaria. Andaria no maior luxo, ele teria orgulho dela.

Suspirou resignada. Afinal, escolhera Roberto por marido, e Rena­to escolhera Gioconda. Ninguém poderia mudar aquilo.

Renato telefonou a um amigo médico pedindo que lhe indicasse um bom terapeuta. Conseguiu o nome e o endereço e ligou marcando hora. Ficou admirado ao saber que só havia vaga para dali a quinze dias. Não imaginava que tantas pessoas procurassem aquele serviço.

Marcou a consulta, e a sensação de estar fazendo alguma coisa em favor de sua família deixou-o um pouco aliviado. Depois se esforçou em esquecer o assunto. Havia muito trabalho a atender, decisões importan­tes a tomar, e ele precisava estar lúcido para fazer o melhor.

Gioconda olhou o relógio e pensou desanimada:

“Minha vida está cada dia mais sem graça. O que está acontecendo conosco? Renato nunca me tratou dessa forma. Já não me procura como antes. Terá deixado de me amar?”

Levantou-se da poltrona e foi olhar-se no espelho do hall. Seus olhos estavam sem brilho, e as olheiras fundas davam um aspecto en­velhecido a seu rosto. Já não era mais a mocinha com a qual ele se ca­sara. Os anos haviam deixado sua marca.

E se ele houvesse se apaixonado por outra? Isso justificaria sua fal­ta de interesse. E se ele resolvesse abandoná-la?

Gioconda passou a mão pelo rosto preocupada. Sempre ouvira falar que o casamento tinha momentos de crise. A rotina, os filhos, tudo contribuía para que aos poucos a paixão dos primeiros tempos desaparecesse.

Os sintomas eram claros. Seu marido estava entediado e nem se­quer disfarçava. Que ingratidão! Ela sempre se esforçara em ser uma boa esposa e cumprir seus deveres, chegando até o sacrifício de deixar seus interesses de lado para cuidar primeiro da família.

Isso não valia nada. Os homens são venais e estão sempre interes­sados em novas conquistas.

Acreditava haver encontrado um homem fiel e dedicado, mas estava enganada. Ele era como os outros. Bastou ela ficar um pouco mais envelhecida e pronto, ele se mostrava distante e desinteressado.

Renato chegara ao ponto de criticar suas atitudes, como se ela é que fosse culpada pela infelicidade que estavam sentindo. Não adiantava ne­gar. Ele se sentia infeliz dentro de casa, evasivo, preferindo isolar-se com os filhos ou no escritório lendo.

Quando estava em casa, nunca a procurava para trocar idéias, como faziam no começo de casados. Ela nunca sabia se ele estava triste ou ale­gre, preocupado ou relaxado.

A iniciativa para conversar sempre partia dela, e ele a ouvia com aque­le ar distante, sem muito interesse, embora fosse educado, atencioso.

Ultimamente, então, dava mais razão às crianças, aos estranhos, do que a ela. Interferia na educação dos filhos, mostrando claramente que não concordava com sua forma de pensar.

A cada dia que passava as crianças estavam mais difíceis de lidar. Não lhe obedeciam, faziam-se de desentendidas quando ela dava uma ordem. Ela não podia reclamar a Renato, porque com o pai elas agiam completamente diferente.

Renato, com aquela história de ouvir o que eles pensavam, acaba­va por facilitar que o enganassem. Na opinião dela, criança tinha de ou­vir e obedecer. Dar importância ao que elas pensavam seria relaxar a dis­ciplina, favorecer a que mentissem. Estava claro que fingiam diante dele. Por que Renato não percebia?

Ela precisava reagir. Fazer alguma coisa para salvar seu casamento. Mas o quê?

Lembrou-se de que sua amiga Leucádia lhe contara que fora a uma cartomante maravilhosa.

Não só adivinhara detalhes de sua vida mas tam­bém previra muitas coisas do seu futuro.

Resolveu fazer uma consulta. Pelo menos poderia descobrir se havia outra mulher na vida de Renato.

Foi ao telefone e falou com a amiga, pedindo o endereço.

— Vá, sim, Gioconda — respondeu Leucádia com entusiasmo. —Ela é boa mesmo. Falou tudo sobre Geraldinho, até que ele estava com problemas na empresa por causa da inveja de um colega que estava fa­zendo tudo para tomar-lhe a chefia. Acertou em cheio.

— Vou telefonar e marcar logo. Quero ir hoj e mesmo.

— Diga que fui eu quem a indicou. Sabe como é, ela só atende por indicação. Tem medo da polícia. Eles não gostam dessas coisas.

— Compreendo.

— Você está com algum problema?

— Problema, propriamente, não. Mas tenho notado Renato dife­rente nos últimos tempos. Bateu uma desconfiança...

— Huuum... Para isso ela é ótima. Você vai ver. Se não tiver nada, ela fala logo; mas, se tiver, revela tudo.

— Estou ansiosa. Eu ligo depois da consulta.

— Ficarei esperando.

Gioconda desligou e ligou em seguida para a cartomante. Depois de dizer quem a indicara, insistiu. Queria a consulta imediatamente.

— Madame Aurora não tem hora vaga para hoje, minha senhora. Não posso fazer nada.

— Por favor, é urgente... Diga a ela que eu pago o quanto for.

— Ela está atendendo a uma pessoa e não posso interromper. Dei­xe o seu telefone. Vou conversar com ela assim que a cliente sair e li­garei para a senhora. Mas desde já lhe digo que não vai ser fácil. Mada­me respeita a fila. Não passa ninguém na frente.

— Faça uma forcinha. Saberei reconhecer sua boa vontade, tenha certeza. Preciso falar com Madame Aurora ainda hoje.

— Está bem. Verei o que posso fazer.

Ela desligou o telefone e tratou de se arrumar para sair. Sabia que iria conseguir. O dinheiro sempre abre todas as portas. E ela estava dis­posta a pagar regiamente pela consulta. Sua tranqüilidade valia muito mais.

Quase uma hora depois, o telefone tocou: ela havia conseguido uma consulta para aquela tarde. Gioconda sorriu. Quando queria algu­ma coisa, sempre conseguia.

Cinco minutos antes da hora marcada, ela já estava tocando a cam­painha da casa de Madame Aurora. Uma moça convidou-a a entrar, con­duzindo-a a uma sala mobiliada com luxo e bom gosto.

— Queira sentar-se, senhora. Madame está se preparando para atendê-la.

Gioconda não conteve a curiosidade:

— Ela se prepara para atender a cada cliente?

— Claro. Ela faz um pequeno intervalo entre um atendimento e outro para manter a privacidade dos clientes e também para renovar as energias da sala. Mas sente-se, fique à vontade. Não vai demorar.

Gioconda sentou-se e esperou. Estava emocionada. O que iria saber?

A moça apareceu na sala e pediu:

— Vamos entrar, por favor.

Gioconda acompanhou-a pelo corredor até outra sala.

— Pode entrar.

Gioconda abriu a porta e entrou. A sala estava em penumbra e ha­via no ar um forte cheiro de incenso. Pesadas cortinas fechavam as ja­nelas. Atrás de uma mesa, uma mulher de meia-idade estava sentada, à espera. Vendo-a entrar, fixou-lhe os olhos penetrantes.

Gioconda estremeceu. Havia alguma coisa diferente naquela mu­lher. Cabelos castanhos, lisos, presos em um coque na nuca, rosto mo­reno, lábios grossos, traços fortes embora fosse magra.

— Sente-se, Gioconda — disse ela com voz suave.

Ela obedeceu. Sobre a toalha bordada da mesa, um baralho bastan­te manuseado, uma lamparina acesa.

— Você me procurou porque não está segura em sua vida. As mu­danças estão ocorrendo e você não sabe como as enfrentar.

— É. De fato. Meu marido mudou muito. Suspeito que haja ou­tra mulher.

— Vamos ver. Corte o baralho com a mão esquerda três vezes. Gioconda obedeceu, e a mulher, com mãos ágeis, manuseou as car­tas, dispondo algumas delas sobre a mesa, dizendo:

— Você está certa. Sua vida familiar corre perigo. Seu marido está muito distante da senhora.

Veja: ele está Lhe voltando as costas.

— Bem que eu senti isso. Diga, ele tem outra?

Ela continuou manuseando as cartas e continuou:

— Ainda não. Mas está em via de apaixonar-se por outra. Veja: uma mulher bonita, mais jovem do que você.

— Quem será?

— Ela é muito infeliz no casamento. Está sempre do Lado do seu marido.

— Nesse caso tem alguma coisa com ele...

— Não. Ainda não. Seu marido trabalha no quê?

— É empresário. Por quê?

— Porque acho que essa moça trabalha com ele. Está sempre me­xendo com papéis. Você conhece as pessoas que trabalham com ele?

— Não. Nunca vou à empresa. Não gosto de me meter nos negócios.

—  Pois tome cuidado. Trate de ir verificar. Trata-se de uma mulher muito bonita e atraente. Ele a admira muito. Daí a se apaixonar é fácil. Corte o baralho novamente.

Ela obedeceu e Aurora prosseguiu:

—  Veja... De novo! Confirmado! Veja: os dois aparecem sempre juntos. Um olhando para o outro. Ele lhe faz confidências.

—  Confidências? Sobre nossa vida particular?

—  Sim. Ela ouve e aconselha. Ele anda triste com você. Está de­sanimado. Vocês não estão se entendendo bem nos últimos tempos.

—  Se ele está interessado em outra...

—  O afastamento dele ainda não é por isso. Você não está saben­do Lidar com ele. Precisa mudar se quiser conservar o marido.

—  Como assim?

—  Você é que tem de notar o que está fazendo que o deixa descon­tente. Ele se afasta porque você tem estado muito queixosa. Vive recla­mando de tudo.

—  Eu?

—  Sim. Se ama seu marido, trate de mudar sua forma de viver den­tro de casa. Caso contrário, ele vai se afastar cada dia mais.

—  Ele está se apaixonando por outra e a culpa é minha? Acho que você não está vendo direito. Leucádia me disse que você sabia tudo e iria me dizer a verdade. Eu acreditei. Agora vejo que não é bem assim.

—  Sinto que você está resistente. Não quer saber a verdade. Essa postura só vai agravar seu caso. Seu marido é um homem bom, dedica­do, mas eu o vejo cansado do relacionamento em casa.

—  Agora fala bem dele e eu é que sou a errada. Acha que vou acre­ditar nisso? E dizer que prometi pagar um dinheirão por esta consulta. Acho que cometi um erro vindo aqui. Você não sabe de nada. Não fi­carei aqui nem mais um minuto.

Gioconda levantou-se. Aurora olhou para ela sem se perturbar com seu tom irritado e disse calma:

—  Lamento. Você me procurou para que eu lhe dissesse o que você desejava ouvir. Mas eu prefiro lhe dizer o que estou vendo de fato. Se está lamentando seu dinheiro, não precisa pagar nada. É uma norma que tenho. Se meu cliente não está satisfeito, não cobro nada. Vá com Deus e pense no que ouviu aqui.

Gioconda deu-lhe as costas e saiu dirigindo-se à porta da rua sem dar atenção à moça que a acompanhou silenciosa.

Depois que ela saiu, a moça foi ter com Aurora, dizendo:

— Que mulher antipática, Madame.

— Não diga isso, Maria. Ela pensa que sabe, mas está iludida. Não deseja conhecer a verdade.

— Nesse caso, a vida vai cobrar o preço. Toda ilusão deve ser arrancada.

— É por isso que lhe peço para não a julgar. Não vamos agravar seu estado. Já basta o que ela consegue fazer por conta própria.

Maria sorriu.

— Só a senhora para dizer uma coisa dessas!

— É por isso que não gosto de abrir exceções no atendimento. Ge­ralmente os que se deixam levar pelo desespero, que não têm paciência de esperar sua vez, são pessoas mimadas, cheias de ilusões. Atendê-las sempre nos causa problemas. Aprenda. Nunca mais insista para passar alguém na frente.

— Sim, senhora.

Gioconda saiu de lá irritada. Essa era a mulher que adivinhava tudo? Leucádia estava enganada. Era uma embusteira que gostava de ex­plorar o próximo. Ainda bem que não pagara a consulta. Não fora lá para ouvir desaforos nem para ouvir elogios ao seu marido.

Mas apesar disso um pensamento incomodou-a. Haveria mesmo essa mulher ao lado dele, para quem Renato fazia confidências? Podia ser mais uma mentira daquela farsante, mas, diante das circunstâncias, não era demais verificar.

Nos próximos dias faria uma visita à empresa do marido. Iria ver com seus próprios olhos.

 

Na tarde seguinte, Gioconda arrumou-se e foi ao escritório de Re­nato. Sem se preocupar com o ar de admiração dos empregados, dirigiu-se ao andar da diretoria. Lembrava-se vagamente onde ficava a sala de Renato. Aproximou-se e entrou.

Gabriela estava ao lado de Renato, esperando que ele assinasse al­guns papéis. Assim que Gioconda entrou, eles a olharam admirados. Renato levantou-se assustado.

—  Você aqui? Aconteceu alguma coisa?

—  Não. Por que se assustaram com minha presença? Será que não sou bem-vinda aqui?

Gabriela fez menção de retirar-se. Renato deteve-a, dizendo:

- Um momento, Gabriela. Esta é Gioconda, minha esposa. —Voltando-se para ela, continuou:

— Claro que é bem-vinda. Fiquei ad­mirado porque você nunca aparece por aqui. Depois, as pessoas costu­mam bater antes de entrar. Esta é Gabriela, minha assessora.

Gioconda mediu-a de alto a baixo com curiosidade. Claro que a car­tomante dissera a verdade.

Tratava-se de uma mulher muito bonita, de uma beleza picante, como os homens gostam.

- Vejo que está bem assessorado — disse ela com um sorriso, mas em tom que não ocultava uma ponta de ironia.

—  Gabriela tem sido muito competente — disse Renato, esfor­çando-se para conter a irritação.

- Prazer em conhecê-La, senhora — disse Gabriela sustentando o olhar dela com naturalidade.

— Com licença.

Ao sair, Gabriela ainda a ouviu dizer:

—  O ambiente desta sala é aconchegante, não sabia que era tão agra­dável, eu deveria ter vindo antes.

— Não veio porque não quis. Por que está aqui?

—  Curiosidade. Afinal, você passa mais tempo aqui do que comi­go em casa.

—  Preciso trabalhar. Se quer dar uma volta pela empresa para ma­tar sua curiosidade, pedirei a Gabriela que a acompanhe.

—  Pelo visto você pede tudo a ela...

— Não gosto do seu tom. O que quer insinuar?

— Nada. É que ela me parece muito eficiente mesmo. Eu vou aceitar o seu oferecimento. Desejo conhecer cada dependência desta empresa.

Renato apertou um botão, Gabriela atendeu:

— Sim, Dr. Renato.

— Gioconda deseja visitar nossa organização. Gostaria que a acom­panhasse.

— Sim, senhor.

Gabriela abriu a porta, convidando-a a acompanhá-la. Enquanto percorriam as dependências da empresa, Gabriela ia explicando o que era feito em cada seção, porém Gioconda não estava nem um pouco in­teressada em suas palavras, apenas observava atentamente a elegância de seu andar, a classe com que ia descrevendo tudo, o leve perfume que vinha dela, seus gestos delicados.

Assustada, reconheceu que aquela mulher era muito atraente. Por isso seu marido andava tão distante nos últimos tempos. Talvez estives­sem tendo um caso. Afinal, as secretárias querem subir na vida à custa do dinheiro do patrão.

Tratou de dissimular, sorriu e perguntou com naturalidade:

— Faz tempo que trabalha aqui?

— Cinco anos.

— Você é casada? Tem filhos?

— Sou. Tenho dois filhos.

— Suponho que gosta do seu emprego, uma vez que está aqui há tanto tempo.

- Gosto. É bom trabalhar aqui.

- Imagino! Renato sempre foi um bom patrão. As pessoas abusam dele o quanto podem.

Gabriela não respondeu. Percebia que Gioconda estava com ciú­me. Roberto costumava usar o mesmo tom quando queria especular sua vida. Aquela mulher era pior do que havia imaginado.

Pelo que Re­nato deixava transparecer de vez em quando, imaginava que ela fosse difícil, mas ela ia além, conseguia tornar-se muito antipática. Esfor­çou-se para não demonstrar desagrado. Era a esposa do patrão e preci­sava tratá-la com consideração. Não tinha nada com as particularida­des dela.

Depois de darem a volta, Gabriela levou-a até a sala de Renato. Ba­teu levemente na porta. A uma ordem, abriu, esperou que Gioconda pas­sasse e depois, ainda na soleira, indagou:

— Deseja mais alguma coisa, Dr. Renato?

— Não. Pode ir.

Gabriela voltou-se para Gioconda, dizendo:

- A senhora aceita uma água, um chá ou café?

— Não quero nada, obrigada.

Gabriela afastou-se e Gioconda sentou-se na cadeira em frente àescrivaninha do marido.

— Então, gostou do que viu?

— Sim. Parece que tudo está indo bem. Só essa sua assessora é que destoa, não parece uma pessoa dedicada ao trabalho.

— Engana-se, Gioconda. Gabriela é muito profissional, inteligen­te, dedicada. Tem me ajudado muito.

Ela meneou a cabeça negativamente.

— Profissional ela pode até ser, mas não de uma empresa.

Renato impacientou-se. Gioconda estava exagerando.

— Ela é minha melhor funcionária. Além disso, como pessoa é es­posa dedicada. O marido perdeu tudo e ela manteve a família, ajudou-o de tal maneira que agora ele está começando a se recuperar. Você não devia prejulgar as pessoas nem falar de quem não conhece.

— Ela é provocante... Viu como rebola? Acha que isso é adequa­do para quem está trabalhando?

— Acho melhor você parar. Não creio que tenha vindo aqui para interferir no meu trabalho, criticar meus funcionários.

— Agora por causa dela você está me maltratando. Vim aqui na melhor das intenções. Você tem andado diferente nos últimos tempos, tem me deixado de lado. Sabe há quanto tempo não fazemos amor? Pensei que, interessando-me pelo seu trabalho, aproximando-me de você, poderíamos voltar a ser como no princípio do nosso casamento. Mas acho que cheguei tarde...

Você prefere defender essa mulher a ou­vir o que sua esposa tem para dizer.

Renato passou a mão pelos cabelos tentando controlar a impa­ciência. A última coisa que desejava era discutir com ela ali. Resol­veu contemporizar:

—  Vamos sair um pouco, dar uma volta, conversar melhor. Aqui ao lado há uma confeitaria boa. Podemos nos sentar, tomar alguma coisa.

— Deseja que eu vá embora? É isso? Estou arrependida de ter vindo.

- Não torça minhas palavras. Você está reclamando que temos es­tado distantes um do outro.

Convidei-a para dar uma volta a fim de po­dermos trocar idéias. Aqui é um escritório, não é o melhor Lugar para isso.

Gioconda cedeu. Não queria que Gabriela descobrisse que ela sabia a verdade sobre os dois.

Reconhecia que se tratava de uma mulher perigosa. Gioconda queria reconquistar o marido, e para isso precisava de tempo.

Acompanhou-o tentando dissimular o mau humor. Na confeitaria, Renato procurou conversar com naturalidade, mas Gioconda não se interessava por nenhum dos assuntos que ele tocava.

Ao mencionar os filhos, ela não se conteve:

— Ultimamente você tem interferido demais na educação deles. Tenho me sentido inútil, incapaz. Eu digo uma coisa para Ricardinho e você diz outra. Antes você não se envolvia, eu tinha autonomia. Ago­ra ele não me obedece mais.

— As crianças precisam de firmeza. Você cede a tudo que ele pede. Agora ele está estudando mais, tem melhores notas. Além disso, o pai também deve ajudar na educação dos filhos.

Gioconda remexeu-se na cadeira, inquieta.

— Você está dizendo que faz isso porque eu não sei educá-los. Você tem bom coração, cede com facilidade. As crianças são en­diabradas, precisam de pulso, e nesse caso o pai é que precisa intervir.

- Você deu corda a ele contra os professores. Isso é errado. Não dei corda a ninguém. Fui saber o que havia acontecido e agi de acordo com os fatos. Os professores também erram.

Procurei ser justo e saber quem estava com a razão.

— Acreditou nele. Não sabe que Ricardinho mente para fugir à res­ponsabilidade?

— É isso que desejo evitar: que ele viva mentindo. É preciso valo­rizar a verdade, fazer com que ele não tenha medo de assumir o que faz. Isso só vai acontecer quando ele confiar em nós.

- Está dizendo que nossos filhos não confiam em mim? Que sou culpada pelas mentiras que pregam? Isso é absurdo.

— Não adianta tentar conversar com você. Infelizmente pensa­mos de forma diferente. Jamais chegaremos a um acordo. É melhor ir­mos embora. Tenho muito que fazer no escritório.

Gioconda mordeu os lábios. Por que não conseguia controlar-se? Tentou reagir:

— Desculpe, estou nervosa. Sinto que você está se afastando de mim, e isso me deixa muito triste.

— É que você está sempre mal-humorada, insatisfeita. Porque não procura alguma coisa com que se ocupar? O trabalho voluntário em al­guma obra social é gratificante.

Ela se irritou, mas procurou não deixar transparecer. Disse apenas:

       — Pode ser, vou pensar.

       — Faça isso. Vai fazer-lhe bem.

Gioconda chegou em casa preocupada. Apesar de tudo, aquela car­tomante dissera a verdade.

A mulher que estava o tempo todo ao Lado de Renato era perigosa.

Precisava afastá-la do seu caminho. Tinha de ser esperta. Renato nunca a demitiria.

Renato voltou ao escritório aborrecido. As insinuações de Gio­conda incomodaram-no. Era uma injustiça. Gabriela era muito atraen­te, mas ele, apesar da atração que sentia por ela, nunca se insinuara.

Ela sempre se portara dignamente e nunca dera abertura para qual­quer intimidade. Sua conduta sempre impecável fizera-o admirá-la ain­da mais. Respeitava-a.

Por isso a atitude de Gioconda ofendia-o. Apanhou o cartão do mé­dico e Leu: Dr. Aurélio Dutra, médico psiquiatra. Apesar da pressa, teria de esperar pela consulta.

Gabriela fingiu que não vira o olhar rancoroso que Gioconda lhe dera quando saiu com o marido. Respondeu ao cumprimento educada­mente, mas percebeu o que ela estava pensando.

Sentiu-se triste. Além do ciúme do próprio marido, teria de to­lerar as desconfianças de Gioconda? Notara a malícia com que ela a interrogara sobre sua família. Logo agora que estava progredindo na empresa, aprendendo coisas importantes, ganhando melhor.

Se tivesse de deixar o emprego, sentiria muito. Depois, não era fácil ganhar um salário como o seu. Roberto reagiu, estava ganhando algum dinheiro, mas o que ele recebia ainda não dava para pagar nem a metade das despesas.

Pensou em falar com Renato, mas desistiu. Era humilhante tocar em um assunto tão delicado.

Depois, ele poderia pensar que ela estives­se interessada nele. Não. Não diria nada.

Era provável que Gioconda nunca mais aparecesse na empresa e tudo fosse apenas uma impressão sua.

De fato, nos dias que se seguiram ela não voltou Lá nem mencio­nou o assunto com o marido.

Entretanto, ele não saía de sua cabeça. Se Renato demorava um pouco a voltar no fim da tarde, ela o imaginava nos braços de Gabriela, trocando beijos e carinhos.

Quando ele chegava, ela ficava observando disfarçadamente, para ver se encontrava algum vestígio de um relacionamento extraconjugal.

Quando ele se afastava, ela revistava seus bolsos, cheirava suas ca­misas, procurava as marcas da traição.

Esse pensamento tornou-se uma obsessão para Gioconda. Não con­seguia pensar em outra coisa. Em nenhum momento refletiu que não ti­nha nenhuma prova de que isso fosse verdade.

Para ela, estava mais do que provado que eles eram amantes.

Quinze dias depois da visita de Gioconda à empresa, Renato com­pareceu ao consultório do médico para a consulta.

Sentado na sala de espera, ele aguardava. Quando a porta da sala do médico se abriu, Roberto saiu e, vendo-o, sobressaltou-se. O que o patrão de Gabriela estaria fazendo no consultório de Aurélio?

Sabia que ele não o conhecia e tentou disfarçar o mal-estar. Pre­cisava saber por que ele fora justamente ao seu médico.

Foi ao corredor, apanhou um copo com água e voltou à sala de es­pera. Renato já havia entrado. Aproximou-se da secretária e tentou conversar.

— Tenho impressão de que conheço esse senhor que entrou ago­ra. Faz tempo que ele vem aqui?

— Não. É a primeira consulta.

Roberto saiu com mil pensamentos tumultuando sua cabeça na tentativa de encontrar explicação plausível. Estava difícil. Gabriela não sabia que ele estava se tratando. Nunca lhe contara. Sentia vergonha de dizer que estava precisando de terapia. Preferia que ela acreditasse que ele conseguira melhorar sem ajuda de ninguém.

Poderia ser coincidência, mas mesmo assim era intrigante. Que problemas Renato poderia ter? Era um homem bem-sucedido.

Esse pensamento o incomodava. E se ele houvesse se apaixonado por Gabriela e estivesse em crise com a esposa?

Sentiu um aperto no peito, como um mau presságio. E se o rela­cionamento entre eles não fosse uma paixão passageira, se ele estives­se pensando em se separar para ficar com Gabriela? Nesse caso ele pre­cisaria mesmo de um terapeuta.

Roberto passou a mão trêmula sobre os cabelos. Sentiu uma onda de rancor e pensou:

“E se eu esperasse ele sair, me apresentasse e conversasse com ele francamente? Afinal, eu sou o marido. Tenho todo o direito de exigir satisfações.”

Ficou andando na calçada em frente ao prédio durante algum tem­po. Por fim, resolveu não dizer nada. Sua atitude poderia precipitar os acontecimentos. Vendo-se descobertos, eles poderiam assumir a relação, e ele perderia Gabriela. Não. O melhor era fingir que não sabia.

Sentiu que o ar lhe faltava e respirou fundo. Até quando suporta­ria aquela situação? Entrou em um bar e pediu um café. Precisava rea­gir, agüentar.

Renato entrou na sala do médico e depois dos cumprimentos esclareceu:

—  Vim procurá-lo porque preciso de ajuda. Aurélio olhou sério para ele e pediu:

— Pode falar.

—  O problema é minha mulher. Ela mudou muito depois do nos­so casamento. Tornou-se problemática, e nossa vida em família está se deteriorando. A cada dia sinto menos vontade de voltar para casa. Gos­to de minha família, temos dois filhos, faço o que posso para torná-los felizes. Mas está difícil, porque Gioconda vive deprimida, insatisfeita, os filhos abusam dela, é preciso intervir, O clima em casa é pesado. Não sei o que fazer.

—  Vamos ver o que é possível ser feito. Fale-me dela, de como a conheceu e como se casou.

Renato contou tudo ao médico, inclusive a ajuda de Gabriela, que lhe chamara a atenção sobre os problemas de Ricardinho e o aconse­lhara a procurar um profissional.

Quando ele terminou, o médico tornou:

—  Essa sua funcionária é muito inteligente e observadora. Deu-lhe sábios conselhos. Ela é bonita?

—  Muito.

—  Sua indiferença por sua esposa não virá de um interesse maior por sua funcionária?

—  Não. Confesso que ela é extremamente atraente e muitas vezes senti-me atraído por ela. Mas trata-se de uma mulher muito honesta, dedicada ao marido e aos dois filhos, que nunca se insinuou. É extre­mamente profissional. O marido foi roubado pelo sócio, perdeu tudo e ela o apoiou, encorajou, sustentou a família até que ele reagiu e teve ãni­mo para recomeçar. Eu a estimo e respeito. Se fôssemos livres, talvez até eu tentasse alguma coisa. Entretanto, não gosto de misturar negócios com relacionamento afetivo. Não dá certo. Por isso, nunca houve nem ha­verá entre nós qualquer ligação íntima. Gabriela é ótima funcionária e não desejo perdê-la. Tenho certeza de que, se tentasse alguma coisa, ela iria embora.

— Entendo... O senhor disse Gabriela?

— Disse. Por quê? Por nada.

O médico, depois de informar-se de que Gioconda não iria volun­tariamente para um tratamento, sugeriu:

— Se o senhor quiser, poderá vir para algumas sessões. Para tentar alguma coisa, preciso conhecê-lo melhor.

Renato concordou. Depois que ele se foi, Aurélio ficou pensativo. Gabriela não era um nome comum. Depois, a história que Renato con­tou foi a que ele já conhecia. Sua funcionária seria a esposa de Roberto?

O empresário parecera-lhe sincero. Afirmou que nunca tivera in­timidades com Gabriela. Nesse caso, Roberto estaria errado ao afirmar que ela era amante do patrão.

Aliás, ele suspeitava que o ciúme de Roberto era exagerado e suas suposições fantasiosas.

Agora tinha certeza. Gabriela era inocente. Quando ele voltasse a procurá-lo, tentaria ajudá-lo a entender o quan­to estava errado.

Renato apanhou o carro e se foi. Roberto, da porta do bar, viu quan­do ele saiu, mas não teve coragem de abordá-lo. Depois se arrependeu. Por que o deixara ir sem lhe dizer que sabia a verdade? Por que não lhe pedira satisfações da traição odiosa que estava destruindo sua família?

Pensou em voltar ao médico. Chegou à porta do consultório e re­solveu ir embora. Ficou andando pelas ruas sem destino, ruminando sua dor, recordando-se do seu romance com Gabriela, dos momentos de in­timidade que viveram juntos, do nascimento dos filhos.

Estava escurecendo quando resolveu ir até o centro espírita. Lá não precisaria dizer nada. Receberia ajuda e conforto, se é que alguém ou alguma coisa poderia confortá-lo diante daquela tragédia.

Quando chegou lá, a fila para o tratamento espiritual era grande, mas ele pacientemente esperou. Quando chegou sua vez, entrou e sen­tou-se diante dos médiuns, pedindo ajuda a Deus.

O médium à sua frente inclinou-se para ele e disse baixinho:

— Tome cuidado com seus pensamentos. Eles são a causa de sua perturbação. Se não se ajudar, nós não poderemos fazer nada para a so­lução dos seus problemas.

— Tenho me esforçado, mas não depende de mim!

— Depende só de você. Peça a Deus que o esclareça. A maledicên­cia atrai espíritos trevosos e agrava qualquer situação. Confie em Deus, tenha bom senso. Não se deixe levar pelas aparências. Agora vá.

Roberto saiu contrariado. Ele não era maledicente. Aquele mé­dium por certo estava fantasiando. Vai ver que não havia ali nenhum espírito desencarnado.

Arrependeu-se de ter ido até lá. Tudo aquilo era bobagem, e o me­lhor era não se envolver com aquelas pessoas.

Sua cabeça estava pesada e doía. Sentiu arrepios e seu corpo doía. Teria se resfriado?

Ele não viu que um vulto escuro o estava esperando na calçada e colou-se a ele satisfeito. Afinal conseguira seu objetivo. Agora poderia dominar Roberto com facilidade.

Renato chegou em casa disposto a convencer Gioconda a ir se tra­tar com Aurélio. O médico inspirara-lhe confiança, não só pela postu­ra muito profissional mas também pela simpatia pessoal, olhando-o de frente, mostrando-se muito interessado em fazer um bom trabalho.

Encontrou Gioconda na sala folheando uma revista. Vendo-o che­gar, ela se levantou:

— Estava preocupada. Você demorou.

— Cheguei no horário de sempre.

— É que eu precisei falar com você, liguei e não estava no escri­tório. O curioso é que sua secretária também havia saído. Foram juntos visitar algum cliente?

— Não. Gabriela foi discutir um contrato, eu fui a outro lugar. Por que pergunta isso?

— Por nada. Curiosidade.

— O que desejava falar comigo?

— Não era nada de mais. Um pequeno problema em casa, mas já resolvi. Não precisa se preocupar. Mas, se não foi a um cliente, aonde foi?

Apesar de irritado com o tom dela, que, embora procurasse ser amável, indiferente, não encobria uma insinuação maldosa, Renato tentou aproveitar o momento:

— Fui consultar um médico.

— Você está doente?

— Não. Sente-se, precisamos conversar seriamente.

Depois de vê-la acomodada no sofá, sentou-se a seu lado e continuou:

— Tenho me preocupado com nosso casamento. Nosso relaciona­mento não é mais como antes. Por isso fui consultar um psiquiatra em bus­ca de ajuda. Desejo muito que possamos melhorar nosso entendimento.

Gioconda olhou surpreendida para o marido:

— E o que foi que ele disse?

— Que deseja nos conhecer melhor, estudar nosso comportamen­to. Só assim poderá nos ajudar efetivamente. Eu já marquei algumas sessões de terapia com ele, gostaria que você fizesse o mesmo.

Gioconda levantou-se irritada:

— Por que eu faria isso? Não preciso de um psiquiatra. Não estou louca.

— Um psiquiatra estuda o comportamento, não cuida só de loucos. Depois, o Dr. Aurélio foi indicado por um amigo que estava para sepa­rar-se da esposa e, com a ajuda dele, conseguiu encontrar jeito de resol­ver seus problemas. Hoje eles estão vivendo muito bem, são felizes.

— Pois eu não preciso de ninguém para me dizer do que eu neces­sito para ser feliz. E, se você está sendo sincero mesmo quando diz que deseja viver melhor com sua família, podemos resolver sozinhos. Eu sei muito bem o que está errado com você. Se me ouvir, tudo estará resol­vido. Não precisamos que um estranho nos diga como proceder. Aliás, não me agrada nada que você ande fazendo confidências a todo mun­do, falando dos nossos problemas. Eu sei por exemplo que essa sua se­cretária vive se metendo, dando conselhos sobre nossos filhos e até so­bre nós. E isso é revoltante. Mas a culpa é sua. Se não lhe desse asa, por certo ela não teria essa liberdade.

— Você está errada, Gioconda. Eu não vivo fazendo confidências a todo mundo, muito menos a Gabriela. Ela é muito discreta e nunca to­mou nenhuma liberdade. Você está se excedendo com essas insinuações.

— Pois, se deseja melhorar nossa vida, mande embora essa mu­lher. Não gosto dela e não quero que ela continue a seu lado o dia in­teiro. Tenho certeza de que está tramando contra mim, que deseja to­mar meu lugar. Afinal, seu dinheiro pode ser uma boa motivação para essa ambiciosa.

Renato empalideceu e tentou controlar-se. Gioconda estava pas­sando dos limites. Respirou fundo e disse:

— Você está cada dia mais maldosa. Desse jeito não dá para con­versar. Mas tome cuidado. Se a situação aqui ficar insuportável, lembre-se de que eu tentei ajudá-la. Foi você quem escolheu esse caminho.

Renato levantou-se e saiu. Gioconda cobriu o rosto com as mãos e rompeu em soluços. Ela era muito infeliz. Seu marido estava tão apai­xonado pela outra que não atendia a seu pedido para despedi-la. Mas isso não iria ficar assim. Ela teria de fazer alguma coisa para tirar aque­la mulher de seu caminho. Eles não perdiam por esperar.

Gioconda não viu que uma sombra sinistra e escura se aproximou dela, abraçando-a e dizendo ao seu ouvido:

— Isso mesmo. Não seja boba. Não se deixe enganar por essa mu­lher. Reaja. Nós vamos ajudá-la.

Ela não viu nem ouviu nada, mas sentiu aumentar sua raiva e in­timamente firmou o propósito de afastar Gabriela de seu marido. Eles não iriam ficar impunes. Ela era a esposa, tinha todos os direitos. Deus estava do seu lado. Precisava defender sua família.

Enxugou os olhos com raiva. Sentia uma dor forte na nuca e ligei­ro enjôo. Ela não podia ficar nervosa. Era de saúde delicada. Tentou con­trolar-se. Precisava ficar mais calma para resolver o que iria fazer.

 

Roberto chegou em casa radiante. Havia fechado um grande ne­gócio e, se tudo corresse bem, ganharia muito dinheiro.

Ainda estava devendo e pensou em conversar com os credores para convencê-los a retirar os títulos do cartório. Todos sabiam que ele fora vítima e que estava se esforçando para pagar tudo.

Havia sido contratado por um grande empresário para assumir o con­trole da construção de vários prédios.

Dessa forma contava futuramente reabrir seu depósito de materiais de construção. Era a oportunidade esperada não só para reaver o que per­dera como até para crescer mais do que antes. Agora ele estava mais ex­periente, sem o sócio para dividir os lucros ou para prejudicá-lo.

Lembrou-se de que uma semana antes, ao tomar o passe no centro espírita, fora chamado para conversar com o mentor espiritual, que lhe dissera:

— Terminamos seu tratamento espiritual. Não precisa mais vir to­mar passes.

- Eu gostaria de continuar. Meus problemas ainda não foram resolvidos.

- Fizemos o que nos foi permitido. Agora depende de você.

— Eu me sinto bem quando venho aqui.

— Continue freqüentando. Sua vida vai ter uma boa melhora, mas não se esqueça de que quem vive no mundo é bombardeado constan­temente por energias de todos os tipos. Aprender a lidar com elas é fundamental para viver bem e proteger-se dos perigos. Por isso, procu­re estudar as leis espirituais. Será a forma de proteger-se. Nunca se es­queça disso.

— Está bem. Mas, se me sentir mal, posso voltar ao tratamento?

— Nossa casa está aberta para todos. Porém a fonte divina só aju­da quem está pronto para receber.

Roberto saiu de lá preocupado. Não se sentia seguro de que sua vida iria melhorar. Por isso firmou o propósito de estudar seriamente a vida espiritual, conforme lhe fora aconselhado.

Agora, na euforia do que lhe acontecera, lembrou-se das palavras do amigo espiritual. Ele estava certo. Sua vida iria melhorar e desta vez ninguém o derrubaria.

Satisfeito, comprou algumas guloseimas para sobremesa e uma gar­rafa de vinho do melhor. Precisavam comemorar.

Entregou tudo a Nicete e esperou ansioso a chegada de Gabriela. Quando ela entrou, ele a recebeu com flores. Depois lhe contou a no­vidade. Ela sorriu feliz. Finalmente aquele pesadelo iria acabar. Rober­to, reabrindo seu negócio, ficaria de bom humor e talvez eles pudessem voltar a ser felizes como antes.

Nos dias que se seguiram ele se desdobrou para satisfazer o dono dos empreendimentos, fazer um bom trabalho. Saía de casa muito cedo e só voltava tarde da noite. Além disso, aproveitava o tempo para procurar algum credor e conseguir resolver suas dívidas.

Apesar de não tocar no assunto, Roberto acariciava o desejo de con­vencer Gabriela a deixar o emprego. Era para isso que ele trabalhava dia e noite, não se poupando, pensando em ganhar muito dinheiro.

Ficava nervoso por saber que ela estava progredindo no emprego e ganhando mais a cada dia. Desconfiava que isso tinha um preço e quando pensava nisso quase enlouquecia.

Sua mulher estava mais bonita a cada dia. Sempre fora muito ele­gante, mas agora ela comprava roupas de qualidade, o que a deixava com mais classe. Vendo o marido progredir de novo, Gabriela mostrava-se alegre, bem-humorada, chegando a cantar dentro de casa quando desempenhava alguma tarefa doméstica.

Roberto olhava-a preocupado, mas não se atrevia a tocar no assun­to. Esperava o momento certo.

— Este fim de semana terei que trabalhar — disse ela uma noite. Roberto irritou-se:

— Já não chega a semana inteira?

— É importante. Trata-se de um evento especial para grandes em­presários. Nossa empresa está participando. Terei que estar presente.

— Eu não concordo. Vai deixar sua família, não pensou nisso?

— Eu sei, Roberto. Mas tenho interesse em participar. Estamos com um projeto muito importante, e fui encarregada de apresentá-lo.

— Você fala como se já fosse a dona dessa empresa. Isso é tarefa para seu chefe. Por que ele não faz isso?

— Porque essa função é minha. Eu cuidei de todos os detalhes téc­nicos. Eu tenho condições de esclarecer todas as dúvidas. Depois, eu que­ro fazer isso. Estou entusiasmada com esse trabalho.

Roberto não se conteve:

— É bom não ir se entusiasmando. Agora que estou progredindo, você não precisa mais trabalhar. Quero que se demita dessa empresa.

Gabriela olhou-o incrédula:

— Não é possível que ainda pense nisso!

— Pois é só no que eu penso. Acha que gosto de ver minha mu­lher no meio desses empresários? O que pensa que eu sou?

— Não vejo em que meu trabalho possa estar incomodando você.

— Não vê porque não quer. Não imagina o que vai pela cabeça dos homens quando vêem uma mulher insinuar-se nos negócios.

Gabriela empalideceu:

— Se há homens com a cabeça suja, não tenho nada com isso, O que me espanta é que você, que me conhece há tanto tempo, que tem convivido comigo todos estes anos, venha com uma conversa dessas. Fran­camente, Roberto, pensei que já tivesse se curado desse ciúme doentio.

— Pois não me curei e tenho meus motivos. Você sabe do que es­tou falando.

— Não sei, não. Pode falar mais claro?

Roberto titubeou. Se ele falasse que sabia de tudo, teria de tomar uma decisão, e isso o assustava. Tentou recuar.

— São coisas que passam pela minha cabeça quando vejo você toda elegante, perfumada, muito bem vestida, saindo para trabalhar.

— Sua mente é doentia. Mas não vou entrar nesse seu jogo odio­so. Gosto de me vestir bem, de me perfumar. Sempre fui assim. Faço isso por mim, para me sentir bem, não para atrair olhares masculinos. Além do mais, gosto de criar, de usar minha inteligência, de produzir, de ganhar meu próprio dinheiro. As vezes penso que você tem inveja de mim. Quando você estava por baixo, eu achava que você agia as­sim por não aceitar que sua mulher ganhasse mais dinheiro do que você. Mas agora você está novamente ganhando bem. Não há motivo para isso.

— Eu posso sustentar nossa família. Por que não entende isso? Qualquer mulher ficaria feliz em poder ficar em casa, usufruir da com­panhia dos filhos. Eu tenho dinheiro. Posso lhe dar o que quiser: jóias, roupas bonitas, tudo. Por que não pode atender a um desejo meu? Que capricho é esse que põe em risco nossa vida familiar? O que custa fazer o que estou pedindo?

— Custa minha dignidade. Sou uma pessoa. Tenho direito de es­colher o que fazer da minha vida.

— Você será mais digna dedicando-se inteiramente à sua família.

— Não, Roberto. Eu estarei traindo meus verdadeiros sentimen­tos. Desde que nos casamos tenho feito minha parte com dedicação e carinho. Você não pode me acusar de haver negligenciado meu papel de esposa e mãe. Respeito você. Jamais faria alguma coisa que pudesse prejudicar nossa família, mas não reconheço o direito de você interfe­rir em meus sentimentos íntimos, dizendo-me o que eu devo fazer.

— Você não me ama mais. Se você me pedisse alguma coisa, fos­se o que fosse, eu faria de coração.

— Pois então me deixe em paz. Não queira mandar nos meus sen­timentos. Essa é uma tarefa minha, e não estou disposta a ceder o lugar a ninguém.

— O que pede não depende de mim. É mais forte do que eu.

— Nesse caso é você quem precisa aprender a vencer suas fraque­zas. Eu não posso fazer isso.

Roberto não respondeu. Sentiu vontade de gritar que a tinha vis­to no carro com um homem e também no carro de luxo do patrão. Con­teve-se, porém. De que adiantaria?

Tinha receio de que ela aproveitasse a oportunidade para romper com o casamento. Talvez até estivesse esperando um motivo. Ele pre­cisava ter paciência. Com o tempo iria conseguir o que queria.

Gabriela deitou-se e tentou dormir. Porém o sono não vinha. Sen­tia-se decepcionada. Fizera tudo para ajudá-lo enquanto estava sem dinheiro. Acreditara que agora pudessem retomar sua vida, pensando no futuro, na educação dos filhos. Mas não. Roberto nunca mudaria. Es­tava sendo mesquinho, maldoso. Sua natureza generosa não conseguia admirar o marido, vendo-o tão injusto.

Como seria sua vida dali para a frente? Até quando teria de supor­tar suas desconfianças? Sempre fora fiel, e as indiretas dele a ofendiam e desanimavam.

Apesar disso, não pensava em abrir mão do que conquistara com tanto trabalho e estudo. Estava sendo gratificante saber que tinha ca­pacidade para grandes negócios. Por que Roberto não entendia isso?

No dia seguinte acordou indisposta e um pouco abatida. Quando chegou ao escritório, entrando na sala de Renato ele notou logo:

— O que foi, está doente?

— Não, senhor. Apenas um pouco cansada. Ontem custei a dormir.

— Algum problema?

Gabriela deu de ombros.

— O de sempre. As desconfianças de meu marido.

Renato suspirou:

— Esse problema eu conheço bem. Gioconda faz o mesmo. Vive jogando indiretas, dizendo frases com duplo sentido.

— Isso é desgastante. Confesso que estou ficando cansada.

— Eu também. Se não fosse pelos meus filhos, já teria me separa­do. Faço de conta que não entendi e vou levando. Minha mulher é imatura e mimada. Não dá para manter uma conversa franca e colocar tudo no lugar.

— Eu tenho conversado com Roberto, tenho sido sincera, aberto meu coração, falado dos meus sentimentos, do meu amor pela nossa família. Mas tem sido inútil. Ele finge que aceita, mas depois de pouco tempo volta ao assunto.

— Ultimamente venho refletindo muito sobre o relacionamento afetivo. Estive algumas vezes com o psiquiatra em busca de ajuda, mas ele garantiu que o problema está nela. Ela é que precisaria buscar aju­da. Isso ela nunca fará.

— Não haveria uma maneira de Gioconda entender?

— Não. Quando tento conversar, ela não escuta, então acabo desistindo.

— É pena.

- Estou conformado. Alguém disse que a felicidade não é deste mundo, e eu acredito.

— Pois eu não me conformo. Sou uma pessoa boa, dedicada, ho­nesta. Não vou aceitar essa situação.

— As vezes os filhos pequenos merecem nosso sacrifício. Pelo me­nos até se tornarem adultos.

— Uma separação talvez seja menos dolorosa para eles do que uma convivência perturbada, cheia de desentendimentos e descon­fianças. Como eles irão confiar na vida se descobrirem que seus pais são Imaturos?

— Isso também me preocupa. Mas por enquanto vou levando.

— Eu também.

Passaram a falar de trabalho.

Roberto também não dormira bem naquela noite. Gabriela nun­ca faria o que ele desejava. Ele precisava fazer alguma coisa. E se ela fosse despedida da empresa? Ela não desconfiaria dele.

Naquele dia ele quase não conseguiu trabalhar direito. Aquele pen­samento não o deixava. Por que não pensara nisso antes?

Mas Gabriela era muito competente. Ele não tinha acesso aos do­cumentos que ela manuseava para alterá-los, dar prejuízo à empresa. Fazendo isso, ela seria despedida.

Esse pensamento o dominou nos dias que se seguiram. Tinha de des­cobrir um jeito. Chegou à conclusão de que, se não podia atingi-la no trabalho, deveria atingi-la na moral. Renato tinha mulher e filhos. O que aconteceria se ele enviasse uma carta anônima à sua esposa sugerindo a ligação dele com Gabriela?

A princípio assustou-se com a idéia. Mas aos poucos esse pensamen­to foi ganhando força. Se a esposa dele desconfiasse da relação dos dois, exigiria que ela fosse despedida.

Gabriela não podia desconfiar dele. Teria de escrever à máquina em um lugar que ela jamais descobrisse. No dia seguinte, pediu ao clien­te permissão para escrever um contrato, alegando que teria de entregá­-lo em seguida e não haveria tempo de ir fazê-lo em casa.

Tendo conseguido, escreveu a carta, contando que, enquanto Gio­conda ficava em casa cuidando dos filhos, o marido se divertia com a secretária. Ele estava avisando pelo bem da família.

Colocou-a em um envelope branco, endereçou-a e colocou na cai­xa do correio. Pronto. Estava feito. Agora era esperar o resultado.

No dia seguinte, Gioconda acordou particularmente indisposta. Renato telefonara na noite anterior dizendo que não iria jantar e che­garia depois da meia-noite. Aonde teria ido? Certamente não estaria fa­zendo coisa boa.

Sua mãe sempre dizia que “homem quando sai sozinho à noite é por­que está mal intencionado”. Suspirou triste. Enquanto aquela secretá­ria estivesse na empresa, ela não teria sossego.

Estava claro que ele estava tendo um caso com ela. A cartomante dissera-lhe claramente. Por que ele não atendera a seu pedido para des­pedi-la? Se fosse apenas uma funcionária comum, ele o teria feito.

Ele dizia que estava se esforçando para a harmonia da família, en­tretanto se recusara a atender um pedido tão simples. Havia dúzias de boas secretárias procurando emprego. Não lhe seria difícil substituí-la por outra melhor. Mas não. Ele queria aquela. Por quê?

A resposta era clara. Estava apaixonado por ela. Há quanto tem­po estava sendo traída? Havia muito que ele espaçara suas relações íntimas com ela, certamente porque estava com a outra.

Gioconda comprara roupas novas, arrumara-se com capricho, ten­tara interessá-lo em conversas sobre os filhos. Mas nada. Ele se esqui­vava, fechava-se no quarto, brincava com os filhos e ia dormir. Preci­sava fazer alguma coisa. Aquilo não podia continuar.

Na hora do almoço, ela mal tocou na comida. Sua cabeça doía e ela tomou dois comprimidos para ver se passava. Apanhou uma revis­ta e foi ler na sala, mas não conseguia pensar em outra coisa.

A criada entrou e colocou a correspondência sobre a mesa. Gio­conda não se interessou. Mas a moça comentou:

— Há uma carta para a senhora.

Ela estendeu a mão e a criada entregou-a. Gioconda abriu-a e, àmedida que lia, seu rosto ficava mais pálido e ela começou a passar mal.

Maria assustou-se.

— O que foi? A senhora está se sentindo mal?

Gioconda levou a mão ao peito, dizendo baixinho:

— Sim. Acho que vou desmaiar.

— Respire fundo, senhora. Vou buscar um copo d’água.

Saiu correndo enquanto Gioconda pegava novamente aquele pa­pel e o lia. Não havia dúvida. Ali estava a prova da traição. Ela estava certa. Seu marido e Gabriela eram amantes.

Maria trouxe a água e ela bebeu alguns goles. Precisava controlar-se. Não podia deixar-se dominar pelo rancor.

Respirou fundo tentando acalmar-se. Maria perguntou:

— Foi essa carta que a deixou mal?

Fez menção de apanhá-la, mas Gioconda respondeu rápida:

— Não foi isso, não. — Segurou a carta, colocou-a no envelope e continuou: — Você sabe que sou uma pessoa doente. Vou subir e des­cansar um pouco.

Levantou-se e foi para o quarto. Sua cabeça doía ainda mais. O re­médio não fizera nenhum efeito. Estirou-se na cama e chorou de raiva. O que ela sempre temera havia acontecido.

Sentiu vontade de ir ter com o marido na empresa, gritar toda a sua revolta, atirar a carta na cara dos dois. Porém, pensando melhor, achou que de nada adiantaria fazer escândalo. Renato ficaria com mais raiva dela e certamente defenderia aquela sirigaita, que, claro, se faria de vítima.

Não. Isso não daria certo. Precisava pensar em outra coisa. Algo que resolvesse definitivamente a questão. Gabriela era casada. E se pro­curasse o marido para uma conversa? Certamente ele a faria deixar o em­prego e Renato nunca saberia que ela fora a responsável.

Era uma boa idéia. Antes precisava descobrir onde ela morava. Apanhou o telefone e ligou para a empresa:

— Aqui é a secretária do Dr. Guedes. Ele está muito grato pela atenção com que foi atendido pela D. Gabriela e deseja mandar-lhe al­gumas flores. Não para a empresa. Poderia dar-me o endereço da resi­dência dela?

Anotou tudo sorrindo satisfeita. Descobriu o telefone e ligou. Ni­cete atendeu.

— D. Gabriela está?

— Não, senhora. Ela está trabalhando.

— Eu poderia falar com o marido dela, o senhor...

— Roberto. Ele também não está. Quem está falando? É a secretária do Dr. Guedes. Trata-se de um assunto profissio­nal. Poderia dar-me o telefone do escritório dele?

— O Sr. Roberto ainda não tem telefone comercial. Quer deixar recado?

- Não, obrigada. Ligarei à noite.

Gioconda ficou pensando. Precisava encontrar um jeito de conver­sar com ele sem que Gabriela soubesse. Não podia dar o telefone de sua casa. Gabriela poderia descobrir. Pensou, pensou e resolveu procurar um detetive particular. Havia visto o endereço de um numa revista.

Telefonou e marcou um encontro com ele em uma confeitaria. En­quanto tomavam o refresco, foi direto ao assunto:

— Meu marido é amante da secretária. Resolvi procurar o mari­do dela para tirá-la do emprego. Quero que você entre em contato com ele e marque um encontro comigo. Eis o meu telefone. Aqui estão os dados dele.

— Marco para quando?

- Hoje, amanhã, o mais rápido possível.

— Está bem, senhora. Pode aguardar que entrarei em contato. Gioconda voltou para casa, mas não conseguia se acalmar. O tem­po iria custar a passar. Até que no fim da tarde o detetive ligou:

— Já fiz o contato e ele disse que está à sua disposição.

— Onde?

— Está aqui comigo. A senhora marca onde quiser. Está bem. Leve-o até aquela confeitaria em que nos encontra­mos e irei imediatamente.

Ela desligou trêmula. Finalmente iria conseguir o que desejava. Pintaria as coisas de um jeito que ele não teria alternativa senão tirá-la do emprego. Assim estaria livre dela.

Uma vez na confeitaria, o detetive apresentou-os. Gioconda des­pediu o detetive, dizendo:

— Pode ir por enquanto. Ligue-me amanhã.

Depois que ele se foi, Roberto disse educadamente:

— Deseja conversar aqui mesmo?

— Preferia um lugar mais discreto.

— Vamos ver se eles têm mesa reservada. — Voltou logo, dizen­do: — Pode vir, senhora.

Acomodaram-se em uma mesa cercada por um biombo. Roberto pediu dois guaranás e justificou-se:

- Temos que pedir alguma coisa. Deseja algo mais?

- Não. O que eu quero é conversar com o senhor sobre um assun­to do nosso interesse.

- Pode falar, senhora.

- Deve ter estranhado meu chamado, mas garanto que, se não fosse tão importante, eu não o teria incomodado.

Fingindo ignorância, Roberto indagou:

- Do que se trata?

— De meu marido e de sua mulher.

Apesar de saber, Roberto estremeceu. Aquele assunto o tirava do sério.

- Pode ser mais clara?

— Infelizmente o que vou dizer não é nada bom. Meu marido e sua mulher são amantes.

— Tem certeza?

— Tenho. Há muito andava desconfiada. Ele falava nela com ad­miração. De uns tempos para cá, ele mudou comigo. Não me ama mais como antes. Tenho sido esposa dedicada e mãe amorosa, mas ele está cada dia mais distante. Tem vindo mais tarde.

— Eu também andava desconfiado. Minha mulher está ganhando mais, arruma-se cada dia melhor, e eu a vi no carro dele duas vezes.

Gioconda empalideceu de raiva.

— Eles não podem fazer isso comigo. Tenho dois filhos que preci­so defender. Por eles farei qualquer coisa... qualquer coisa!

- Também tenho dois filhos.

— Eu pedi a ele que a despedisse, mas, como era de esperar, recu­sou. Vim procurá-lo para que o senhor obrigue sua esposa a deixar o em­prego. Assim ficaria tudo resolvido. Apesar de traída, quero proteger meus filhos e não desejo que minha família se desfaça.

Roberto abanou a cabeça negativamente:

- Eu não tenho feito outra coisa. Mas ela se recusa a deixar o emprego.

— Você é o marido. Deve saber como obrigá-la!

— Ela é teimosa. Não quer me obedecer.

- Nesse caso foi inútil procurá-lo. Terei que pensar em outra coi­sa. Mas eu garanto: com ele ela não vai ficar, nem que eu tenha de matá-la!

Roberto estremeceu.

— Isso não. A violência não resolve nada. Temos que encontrar outro meio.

— Não sei até quando suportarei saber que, enquanto estou em casa cuidando dos nossos filhos, eles estão juntos, rindo e divertindo-se à nossa custa.

Roberto tentou contemporizar:

— Vou pensar em alguma coisa. Deixe comigo.

— Minha vontade é ir até lá e acabar com tudo de uma vez!

— Espere. Não faça nada. Hoje falarei com ela novamente. Quem sabe resolve me atender.

— Está bem. Vou esperar até amanhã. Ela vai deixar meu marido por bem ou por mal. Isso eu juro!

Gioconda disse isso com tanto ódio que Roberto se arrependeu de haver escrito a carta.

Aquela mulher era bem capaz de fazer uma lou­cura. Ele queria acabar com o relacionamento deles, mas com inteligên­cia, para não ficar mal diante de Gabriela. Não queria ficar sem ela.

— Não podemos perder a cabeça. Apesar de tudo, amo minha mu­lher e não desejo que ela parta. A senhora também não quer que seu lar se desfaça. Precisamos agir com inteligência. Se seu marido descobrir que a senhora fez alguma coisa contra Gabriela, ele ficará do lado dela. O mesmo acontecerá comigo. O que nos interessa de fato é que eles se se­parem definitivamente.

— Sei que tem razão, mas não sei se terei paciência para suportar. Há momentos em que penso em acabar com tudo de uma vez!

— Calma, senhora. Ninguém mais do que eu deseja isso.

Gioconda suspirou pensativa, depois disse:

— O que sugere, então?

— Preciso pensar. Peço-lhe alguns dias.

— Esperarei uma semana. Aqui tem meu cartão. Telefone e volta­remos a nos encontrar.

Despediram-se e Roberto sorriu satisfeito. Agora não estava mais sozinho. Com tal aliada, certamente conseguiria o que queria.

Sentiu um aperto desagradável no peito e pensou: por que Gabrie­la mudara tanto?

Estava escurecendo e ele se lembrou de que era dia de tratamento espiritual no centro. Fazia um mês que ele não ia lá. Sentia-se aliviado quando saía daquele lugar mas por um motivo ou outro nos últimos tempos deixara de ir.

Sentiu vontade de voltar lá. No trajeto, mudou de idéia. Estava can­sado de paliativos. Cada vez que conversava com Cilene, ela lhe dizia que ele precisava fazer sua parte para que fosse ajudado pelos espíritos. Nesse caso, de que lhe adiantaria ir lá? Ele iria fazer sua parte, sim, mas do seu jeito. Tinha certeza de que daria certo.

Foi para casa, pensando em como fazer com que Gioconda pressio­nasse Renato para despedir Gabriela.

Não viu que dois vultos escuros o abraçaram satisfeitos. Mas sen­tiu-se tomado de indignação. Gabriela não tinha o direito de fazer isso com ele e com os filhos.

Ele a amava muito e sempre fora fiel. Lembrou-se de que ela era mais culta e bonita do que ele e sentiu a angústia aumentar. Por que se apai­xonara por ela? Bem que sua mãe o avisara de que ela não era do mes­mo nível que ele.

Mesmo não sendo de família abastada, Gabriela cursara universi­dade, tinha classe, enquanto ele viera de família de operários, deixara os estudos muito cedo para trabalhar. Além disso ela era linda. Qual­quer homem se sentiria atraído.

Roberto trincou os dentes com raiva. Ela era dele, e não iria per­dê-la. A vida sem ela não teria nenhum sentido.

Nos dias que se seguiram, Roberto não pensava em outra coisa. Aos poucos foi elaborando um plano, e quanto mais pensava mais acre­ditava que poderia dar certo. Resolveu ligar para Gioconda e marcar o encontro.

 

Gabriela chegou ao escritório pela manhã, aborrecida. Seu relacio­namento com Roberto estava pior a cada dia. Embora ele não dissesse claramente, ela percebia que o marido a vigiava, controlando seus ho­rários, suas palavras, até seu dinheiro.

Era insuportável e injusto. Ela nunca lhe dera motivos para isso. Sempre fora esposa dedicada, fiel. Amava-o. Se não fosse pelas crian­ças, pensaria em separação. Estava cansada daquela desconfiança.

Ele insistia que deixasse o emprego. Nunca faria isso, O trabalho ajudava-a a esquecer e a suportar os problemas em casa. Gostava de sentir-se útil, inteligente, respeitada, ter seu próprio dinheiro. Sentia-­se viva, participando da vida. Não suportaria ficar sem fazer nada.

Sacudiu a cabeça tentando expulsar os pensamentos desagradáveis e mergulhou no trabalho.

Passava das onze quando um homem procurou por Renato. Depois de falar com seu chefe, Gabriela introduziu-o, retirando-se em seguida. Sentia o coração oprimido e certo mal-estar, mas reagiu. Não podia dei­xar que questões pessoais atrapalhassem seu lado profissional.

Quinze minutos depois, Renato chamou-a. Atendeu prontamen­te. Pelo seu rosto sério, notou logo que estava contrariado.

— D. Gabriela, poderia explicar-me o que significam estas retira­das das contas de nossa empresa?

— Retiradas? Como assim?

— O gerente do banco trouxe-me estes cheques assinados pela se­nhora. Por que fez estes saques?

Atônita, ela apanhou os três cheques que ele lhe estendia, exami­nando-os. As assinaturas eram iguais às suas, mas ela nunca os assinara.

— Não compreendo, Dr. Renato. Eu nunca assinei estes cheques. Deve haver um engano.

— Nega que tenha sacado este dinheiro?

— Claro. Por que o faria? Todos os cheques são sempre assinados pelo senhor...

- Mas a senhora tem minha procuração para assiná-los quando viajo.

— Mas nunca assinei nada sem que o senhor autorizasse.

— Mas estes não autorizei.

— Estas assinaturas são falsas. Nunca vi estes cheques.

Voltando-se para o gerente do banco, Renato disse:

       — Obrigado pelo seu interesse. Pode deixar que eu resolvo isso. Seria bom dar queixa à polícia.

- Pode deixar.

Ele se despediu e Gabriela, pálida, olhava sem entender bem o que estava acontecendo.

— Sente-se, Gabriela. Vamos conversar. Você está passando por al­gum problema financeiro?

— Não, senhor. Meu marido voltou a trabalhar e o que ganho aqui tem dado para nossas despesas. O senhor está pensando que fui eu quem tirou esse dinheiro?

- Custo a crer, Gabriela. Você é a pessoa em quem eu mais con­fiava nesta empresa. Mas conheço sua assinatura. Posso entender um ato de desespero. Não quer me dizer a verdade?

As lágrimas desceram pelas faces de Gabriela, que, trêmula, tornou:

- Como pode pensar isso de mim? O senhor me conhece há tan­to tempo!

- Nega que tenha sacado esse dinheiro?

— Nego. Seria bom que o senhor investigasse para descobrir quem foi. Garanto que não fui eu.

Ele ainda a interrogou mais um pouco, mas ela continuava negan­do. Por fim ele disse:

— O que aconteceu foi muito sério. O gerente disse que recebeu um telefonema avisando que uma pessoa da empresa estava dando um desfalque. Então fez uma sindicância e descobriu estes três cheques, com sua assinatura, sem nenhum comprovante de pagamento. Descon­fiou e veio até aqui.

— Pois eu garanto ao senhor que não fui eu quem os assinou.

Renato suspirou aborrecido. Gabriela parecia sincera, mas as pro­vas eram irrefutáveis. Ele não podia facilitar. Respirou fundo e decidiu:

— Preciso pensar melhor. Vá para casa, tire uma semana de férias. Vou investigar. Gostaria muito de acreditar em você.

- Eu não fiz nada, eu juro. O senhor vai descobrir a verdade!

— Farei o possível para isso.

Gabriela saiu dali arrasada e, sem dizer nada a ninguém, foi para casa. Renato deixou-se cair na poltrona, passando a mão pelos cabelos, preocupado.

Pensou, pensou, depois decidiu. Abriu sua agenda, procurou um te­lefone e ligou:

— Egberto? Preciso de você. Pode vir até meu escritório agora?

— Irei imediatamente, Dr. Renato.

Meia hora depois, Egberto entrava na sala de Renato. Depois dos cumprimentos, Renato colocou-o a par dos acontecimentos. Finalizou:

— Quero que você investigue essa história. Gabriela está aqui há anos e sempre foi excelente.

— As pessoas mudam, doutor.

— Eu sei. Mas ela negou com tal veemência que me pareceu estar dizendo a verdade. Pode mesmo ter sido outra pessoa.

— O senhor gostaria que fosse.

— Sim. Para ser honesto, sim. Ela é minha secretária de confiança.

— Bem, vou investigar. Saber se ela tinha dívidas, se comprou al­guma coisa de valor, se abriu alguma conta em outro banco.

- Faça isso o mais rápido possível. Dei-lhe uma semana de férias. É o prazo que você tem.

— Um detalhe chama minha atenção: o telefonema para o geren­te do banco. Como é o relacionamento dela com os colegas?

— Bom. Não me consta que tenha algum inimigo na empresa.

— Um inimigo, não, mas alguém querendo apenas dizer a verdade.

— É, pode.

— Preciso dos dados dela para começar a trabalhar.

Depois que ele saiu, Renato colocou a cabeça entre as mãos, abor­recido. Aquilo parecia um pesadelo. Nunca havia se enganado com al­guém. Não descansaria enquanto não descobrisse a verdade.

Gabriela chegou em casa abatida. Vendo-a, Nicete preocupou-se:

— O que foi, D. Gabriela? Está doente?

— Não. Aconteceu uma coisa horrível! Alguém tirou dinheiro da empresa falsificando minha assinatura. Eles pensam que fui eu...

— Que horror! Quem teria feito isso?

— Não tenho idéia. Deve ser alguém que conhece minha assina­tura. Estava bem parecida.

Você pode imaginar como fiquei!

Você foi despedida?

— Não. O Dr. Renato deu-me uma semana de férias. Espero que ele consiga descobrir quem foi, caso contrário não sei o que será de mi­nha vida. A quantia desviada foi grande. Não tenho esse dinheiro. Se ele acreditar que fui eu, não vou poder pagar.

Gabriela cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Estava assustada. Se a empresa desse queixa à polícia, ela poderia ser presa.

Nicete tentou confortá-la:

— Não chore, D. Gabriela. Deus é grande. A senhora não fez nada, por isso não deve temer.

Vai ver que em pouco tempo o Dr. Renato des­cobre quem foi e tudo ficará bem.

— Estou me sentindo muito mal. Ser tachada de ladra... Logo eu, que sempre fiz questão de ser honesta. Foi como se alguém me tivesse dado uma paulada na cabeça. Estou tonta, sem rumo.

— Vamos rezar, D. Gabriela. Deus vai nos ajudar.

— Não tenho cabeça nem para isso.

— Vou fazer um chá de cidreira. Enquanto isso, a senhora deve to­mar um bom banho, descansar. Eu levo o chá no quarto.

— Obrigada, Nicete, mas não quero nada.

Nicete não escondeu a preocupação. Durante anos convivera com Gabriela e nunca a vira em tal estado de depressão, nem mesmo quan­do Roberto perdera tudo.

Nicete era pessoa de fé. Depois do jantar iria ao centro espírita fa­zer uma consulta. Tinha certeza de que Gabriela estava sendo vítima de uma injustiça. A situação podia complicar-se. Ela precisava pedir aju­da espiritual.

Quando Roberto chegou e perguntou pela esposa, ela disse triste:

- Está no quarto, foi se deitar.

- Ela está doente? Veio mais cedo hoje. Aconteceu alguma coisa?

O coração de Roberto bateu forte e ele se esforçou para dissimular a satisfação. Ela teria sido despedida?

Imediatamente subiu as escadas e entrou no quarto. Gabriela es­tava deitada, janelas fechadas, e ele acendeu a luz. Ela protestou:

— Apague, por favor. Estou com dor de cabeça.

Ele apagou a luz e aproximou-se da cama, dizendo:

— O que aconteceu?

— Nada. Não estou me sentindo bem, por isso tirei uma semana de férias para descansar.

— Está doente? É melhor chamar um médico.

— Não é preciso. Quero descansar. Não estou disposta a conver­sar. Não é nada sério.

Ele alisou a cabeça dela com carinho:

— Não gosto de vê-La assim. Deu para notar que está abatida, pa­rece ter chorado. Deve ter acontecido alguma coisa. Não vai me contar?

— Tomei um comprimido para dor de cabeça e quero dormir um pouco para ver se passa. Depois conversaremos.

— Deve ter sido alguma coisa no emprego. Eles estão abusando de você. Tem trabalhado demais.

Gabriela suspirou triste. Não sentia disposição para contar o que acontecera. Sabia o que ele pensava sobre seu emprego. Certamente ficaria ofendido por ela ter sido humilhada daquela forma, talvez até fos­se na empresa tomar satisfações, causaria mais confusão, e ela não de­sejava isso.

Renato prometera investigar, o melhor seria esperar. Pediria a Ni­cete que não dissesse nada.

—  Deixe-me descansar. Nicete preparou um chá. Peça-lhe para trazer mais uma xícara.

Ele saiu, e, assim que Nicete entrou, Gabriela perguntou:

— Onde está Roberto?

— Ficou com as crianças na copa.

—  Feche a porta. Olhe, não conte nada a ele sobre o que aconte­ceu. Sabe como ele é. Vai logo querer se envolver, tomar satisfações. Eu prefiro que ele fique fora disso. Só vou contar se for preciso. Está bem?

—  Claro. Pode ficar tranqüila. Eu só disse que a senhora estava indisposta.

—  Fez bem.

— Não vai descer para o jantar?

— Não.

Vou trazer a comida aqui.

—  Não quero nada. Meu estômago parece que tem uma bola den­tro. Cresceu de repente.

—  A senhora não pode ficar sem comer. Vou fazer uma sopa e dei­xar sobre o fogão. Trarei algumas frutas e deixarei aqui. Estou pen­sando em sair um pouco. Vou ao centro pedir ajuda. Lavo a louça na volta. Posso?

—  Vá. Reze por mim.

Depois que ela saiu, Gabriela fechou os olhos e tentou rezar. Mas não conseguiu. A cena de Renato mostrando-lhe os cheques com sua assinatura não lhe saía do pensamento.

Roberto desejava saber como as coisas haviam acontecido. Mas precisava esperar. Não queria telefonar para Gioconda de sua casa. Pre­feria conversar com ela pessoalmente no dia seguinte. Ela lhe garanti­ra que fizera tudo direito. Ele lhe levara alguns documentos assinados por Gabriela e ela conseguira uma pessoa que falsificara as assinaturas. Ele vira os cheques. Haviam ficado perfeitos. Se ele não soubesse a ver­dade, diria que aquelas assinaturas eram de Gabriela.

Depois, Gioconda retirara o dinheiro e guardara em casa. Colocan­do um lenço no bocal do telefone, Roberto ligara para o gerente do banco fazendo a denúncia. Certamente ele fora procurar Renato. Ima­ginava que Gabriela já houvesse sido despedida. Mesmo que Renato a amasse, certamente não suportaria ver-se roubado por ela.

Estava radiante. Gabriela ficaria em casa e, com o tempo, esque­ceria o desagradável incidente. Gioconda prometera interceder para que o marido não desse queixa à polícia. Fazia parte do trato. Assim, tudo estaria resolvido.

Ele não podia demonstrar sua alegria. Tomou conta das crianças para que não incomodassem a mãe, esforçando-se para parecer preocupado diante de Nicete.

Na manhã seguinte, Roberto levantou-se bem-disposto, porém fin­giu preocupação. Gabriela só conseguiu adormecer quando o dia come­çou a clarear, e ele pediu a Nicete:

— Não deixe as crianças fazerem barulho. Gabriela não dormiu bem e está descansando. Não a acorde. Preciso trabalhar. Eu telefono.

Apesar de ter ido dormir muito tarde, Gabriela levantou-se às nove horas. Vendo-a, Nicete disse:

— Vou servir um café reforçado. A senhora não pode adoecer. Está abatida.

- Não tenho fome, Nicete. Só vou tomar um gole de café.

— Nada disso. O pão está fresquinho e tem aquele queijo que a se­nhora adora.

- E as crianças?

— Estão brincando no quintal. Fizeram a lição.

Gabriela sentou-se à mesa, servindo-se de café.

Nicete preparou um sanduíche e colocou-o no prato ao lado dela. Depois sentou-se em frente à patroa, dizendo:

— Coma. Não sairei daqui enquanto não a ver comendo tudo.

Gabriela esboçou um sorriso.

— Está me tratando como se eu fosse criança.

— A senhora precisa reagir. Não pode se abater dessa forma. Fui ao centro e tenho um recado para a senhora. Sabe, eu freqüento lá há mais de cinco anos. Sempre desejei conversar com o Dr. Bezerra de Menezes, que é o mentor espiritual. Nunca consegui. Ontem, coloquei seu nome no livro de orações e, quando menos esperava, me chamaram dizendo que queriam falar comigo. Fiquei tão emocionada! Entrei na sala e o Dr. Be­zerra estava falando com algumas pessoas. Depois me chamou e disse:

— Sei por que você veio. Diga a ela que tenha fé. Nós a estamos protegendo. Tudo será esclarecido.

       — Ele disse isso mesmo?

— Disse. Bom, eu fiquei muito emocionada. Senti um ar diferen­te quando ele falou comigo, uma brisa leve, era como se eu estivesse no ar. Não consegui nem falar. Não via a hora de lhe contar. Seria bom a senhora ir até lá.

Gabriela hesitou:

— Não sei... Nunca fui a um centro espírita. Tenho medo des­sas coisas.

— Pode ir sem medo. Lá é uma casa de oração onde todos só fa­zem o bem. As pessoas são muito agradáveis e há muito respeito. Eu ga­ranto. Tenho certeza de que vai se sentir muito melhor.

— Está bem, Nicete, vou pensar.

— Isso, D. Gabriela. Tenho fé em que tudo será esclarecido.

— Faço votos.

Roberto aproveitou o telefone em uma construção, enquanto es­perava o engenheiro, e ligou para Gioconda:

— Então. Acho que estourou a bomba.

— É. Deve ter acontecido. Renato chegou em casa abatido, com cara de poucos amigos, e por mais que eu insistisse não quis me contar o que o estava preocupando. Estou morta de curiosidade.

— Eu também. Pensei que você soubesse. Gabriela voltou mais cedo para casa e foi se deitar.

Está abatida, chorosa, disse que está in­disposta e por isso tirou uma semana de férias. Não acreditei em nada disso. Ela não quis me contar. Mas acho até que já foi despedida.

— Não diga! Que maravilha!

— Precisamos saber como estão as coisas.

— Hoje à tarde irei à empresa investigar.

— Tome cuidado.

—   Fique sossegado. Arranjarei um pretexto e tentarei descobrir o que aconteceu.

—   Eu ligo no fim da tarde para saber.

— É melhor não. Ligue amanhã cedo, como agora.

— Está bem. Vai ser difícil esperar tanto tempo.

— Se ela está em casa de férias, é porque foi despedida.

—   Não quero que seu marido dê queixa à polícia. A situação pode se complicar se ele fizer isso.

—   Ele gosta dela, não fará nada disso. Estou certa de que vai des­pedi-la e pronto.

—   Espero que seja assim.

Naquela mesma tarde, Gioconda foi ao escritório do marido a pre­texto de fazer hora para uma consulta ao dentista que ficava próximo. Depois de cumprimentar o marido, disse cordata:

— Não desejo atrapalhar. Sei que está muito ocupado.

— De fato. Há uma pessoa importante que já deve estar chegan­do para uma reunião.

— Só vou fazer um pouco de hora. Não gosto de ficar na sala de espera do consultório. Fico nervosa.

Renato foi avisando que a pessoa esperada chegara, e Gioconda le­vantou-se logo, dizendo:

— Pode atender. Faltam quinze minutos para minha hora. Vou dar uma volta pela empresa e sair.

Despediu-se do marido e foi à copa. Disse à funcionária:

— Pode me servir um café?

Enquanto tomava o café, Gioconda deu uma volta pelo escritório, cumprimentando os funcionários. Parou perto de uma que já conhecia e com a qual simpatizava e indagou:

— Gabriela não veio trabalhar hoje? Não, senhora. Ela está de férias.

— Férias? Que eu saiba ela tira férias sempre junto com a escola das crianças. Tem certeza?

— Bom, foi o que eu ouvi dizer...

- Estranho. Teria acontecido alguma coisa com ela?

— Não sei. Ela me pareceu doente. Estava muito pálida, nervosa. Apanhou suas coisas e foi embora antes de terminar o expediente.

- Por que será?

- Não tenho idéia. Também gostaria de saber. Deve ter aconte­cido alguma coisa mesmo. Depois que ela saiu, o Dr. Renato estava mui­to nervoso. A senhora precisava ver. Quando Ana lhe perguntou o que havia acontecido com Gabriela, ele disse que ela estava indisposta e fi­caria de férias por uma semana.

Não era bem o que Gioconda desejava ouvir, mas foi só o que conseguiu. Saiu de lá pensativa. Claro que havia estourado a bomba. Certamente Renato ficara sabendo do desfalque e tivera uma briga com ela. Essa história de uma semana de férias fora só para encobrir a verdade.

A esse pensamento, Gioconda estremeceu de raiva. Apesar de tudo, ele a protegia, e estava claro que não pretendia denunciá-la à polícia. De repente uma idéia começou a incomodá-la. Ele a mandara embora com certeza, porque não queria ser roubado, mas pelo jeito estava muito apaixonado. E se continuasse se relacionando com ela mesmo depois de a ter despedido?

Era até provável que isso acontecesse. Nesse caso, não teria adian­tado incriminá-la. Precisava certificar-se de que, depois que ela saíra da empresa, não se encontrara mais com Renato.

Precisava falar com Ro­berto para que ele a vigiasse.

Ela preferia que a polícia a prendesse, mas, uma vez que Roberto era contra isso, ele que a vigiasse para que não continuassem se encon­trando. Era o mínimo que ele poderia fazer.

Na manhã seguinte, quando Roberto ligou conforme o combina­do, Gioconda foi taxativa:

— Não vamos conversar pelo telefone. Prefiro pessoalmente.

— Já sabe o que aconteceu?

— Uma parte. Vamos nos encontrar às duas horas no mesmo lu­gar da outra vez. Está bem?

— Estarei esperando.

Ela desligou pensando no que desejava dizer-lhe. Conforme o tem­po passava, mais e mais ela temia que eles continuassem se encontran­do. Queria evitar aquilo a qualquer preço.

Quando chegou ao local do encontro, Roberto já a esperava com certa impaciência.

Procuraram uma mesa reservada e sentaram-se para conversar.

Gioconda foi direto ao assunto:

— Renato deve ter mesmo descoberto o desfalque e mandado Gabriela embora.

Roberto exultou:

- Finalmente conseguimos!

— Ele disse ao pessoal do escritório que ela estava indisposta e ti­rou uma semana de férias, mas tenho certeza de que ela não voltará a trabalhar. Ele não permitiria isso. Conheço como Renato é rigoroso nesse aspecto.

— Nesse caso, podemos comemorar.

— Não penso assim. Ele nem tentou chamar a polícia. Deve estar muito apaixonado. Nesse caso, ela não vai mais trabalhar lá, mas receio que o romance deles continue.

— Como assim?

— Talvez eles continuem se encontrando, apesar de tudo.

Roberto empalideceu. Isso bem poderia acontecer. Passou a mão pelos cabelos, preocupado, e perguntou:

— O que podemos fazer?

— Eu já fiz minha parte. Agora você deve fazer a sua: precisa vi­giá-la até termos certeza de que eles acabaram mesmo.

— Não vai ser fácil. Tenho que trabalhar, e às vezes nem posso almoçar em casa.

— Não pode deixar um pouco o trabalho, até que estejamos segu­ros de que romperam mesmo?

— Estou em uma fase de muito trabalho, em que preciso recons­truir o que perdi. Se parar agora, posso perder o que já conquistei.

— Não há uma pessoa de confiança que possa fazer isso em seu lu­gar? Uma criada, você daria algum dinheiro.

— A criada fica sempre do lado dela. Nunca concordaria.

— Pois pense, ache uma solução. Pelo menos nos primeiros tem­pos precisamos ter certeza de que não estão se encontrando.

— Bem que eu gostaria de ter essa certeza.

- Só vai ter se fizer o que estou dizendo.

Depois que Roberto deixou Gioconda, esse pensamento não saiu de sua cabeça. Se por um lado não queria nada com a polícia, por ou­tro reconhecia que qualquer patrão em um caso como aquele teria dado queixa.

Por que ele não o fizera? Por amor, certamente. Gabriela era atraen­te, e, se ele estivesse muito apaixonado, continuaria com a ligação mes­mo depois que ela deixasse o emprego.

Ele precisava ter certeza de que aquilo nunca mais iria acontecer. Depois de muito pensar, decidiu. Iria pedir ajuda à sua mãe. Claro que não lhe contaria o que aconteceu, mas diria que Gabriela estava doen­te e ele queria que ela estivesse sempre ao lado dela para que não fizes­se nada que prejudicasse sua saúde.

Gabriela levantou-se naquele dia abatida, triste. Nicete esperava-a na copa e, vendo-a, disse:

— Está melhor?

— Um pouco. Estou mais calma. Sou inocente. Hoje acordei com a impressão de que logo tudo estará esclarecido. Apesar disso, sinto­-me triste.

— No centro eles me mandaram ir ontem novamente para ajudar. Fizeram um trabalho especial à distância. Mandaram lhe dizer que te­nha fé e coragem. Eles a estão protegendo.

— Acredito, porque esta noite consegui dormir. Foi uma boa ajuda.

— Agora precisa confiar e fazer sua parte. Vai se alimentar bem e entregar tudo nas mãos de Deus.

— Não posso fazer nada mesmo. Nem sequer sei quem falsificou mi­nha assinatura.

— Lembre-se de que, quando você não pode, Deus pode. Vamos confiar.

— Gostaria de ter a sua fé.

— Seria bom que a senhora fosse comigo ao centro esta noite to­mar um passe. Estou certa de que lhe faria muito bem.

- Vamos ver. Agora vou costurar um pouco. Não agüento ficar sem fazer nada. Preciso ocupar minha cabeça para não pensar. Há algumas roupas das crianças que precisam de reforma.

- É bom. Mas tome seu café antes.

Passava das quatro quando Georgina chegou. Roberto fora à sua casa pedir-lhe ajuda para Gabriela, e ela não podia recusar. Sentia-se lison­jeada por ele haver ido à sua procura e firmou o propósito de mostrar sua dedicação.

Encontrou Gabriela costurando e comentou:

- Bem que Roberto me falou que você estava doente! Está tão pálida, abatida. Por que não deixa esse serviço para Nicete? E melhor se deitar.

Gabriela, apesar de contrariada com a presença dela, não deixou transparecer. Respondeu apenas:

— Eu estou bem. Não precisa se preocupar.

- E o médico, o que disse que é?

— Não fui ao médico, D. Georgina. Não é caso para isso.

— Como não? Sua aparência é péssima. Acho que vou chamar o Dr. Miranda. É um excelente médico.

- Não é preciso. Estou muito bem. Já passou

— Mas as pessoas não se sentem mal sem uma causa. Insisto que devemos chamar o médico.

Gabriela sentiu que estava no limite de sua paciência e disse com voz firme:

- Não vou chamar o médico. Obrigada pelo seu interesse, mas estou bem.

— Eu vim para ajudar você. Ficarei aqui até Roberto chegar. Virei todos os dias até que fique bem. Meu filho está muito preocupado com sua saúde.

— Ele não precisava preocupar a senhora. Não há necessidade de ficar aqui. Nicete faz tudo. Estou costurando porque não gosto de ficar sem fazer nada.

— Sei que quer me sossegar, mas vou ficar.

Gabriela suspirou e não respondeu. No estado em que se encon­trava, agüentar Georgina era muito penoso. Por que Roberto contara a ela que não estava bem?

Teve vontade de mandá-la embora, mas conteve-se. Não estava dis­posta a enfrentá-la, muito menos a Roberto. Para se acalmar, pensou que ele estava interessado em seu bem-estar e não podia ser grosseira. Sus­pirou resignada, dizendo:

Nesse caso, vou pedir a Nicete para servir-lhe um café.

Respirou aliviada quando a viu ir para a copa tomar um lanche. Sa­bia que ela gostava de observar os mínimos detalhes de como ela diri­gia a vida da família, e, a pretexto de ajudar Nicete, ficaria lá durante a maior parte do tempo, o que a pouparia de sua presença.

Enquanto costurava, Gabriela pensava, tentando encontrar uma ex­plicação para o que lhe acontecera. Quem teria feito aquilo? Com cer­teza alguém que a conhecia. Em sua mente desfilaram um a um todos os colegas de trabalho, sem que pudesse suspeitar de nenhum. Eram to­dos amigos, formavam uma equipe entrosada, em que se ajudavam mu­tuamente. Renato era um chefe firme porém justo e conseguira formar um grupo interessado em progredir com a empresa.

Alguns estavam com ele havia vários anos, e, quando alguém en­trava, se não se afinasse, acabava saindo. Por isso, Gabriela não conse­guia entender o que lhe havia acontecido. Só podia pedir a ajuda de Deus e esperar.

Renato chegou ao escritório pontualmente às oito. Gabriela esta­va fazendo-lhe muita falta. Entretanto, não pensara em substitui-la an­tes de Egberto terminar as investigações.

A semana que dera a Gabriela estava terminando, e ele ainda não tinha nenhuma informação. Estavam no sexto dia. O que fazer se ele não descobrisse nada que a inocentasse? Quanto mais o tempo passava, mais Renato duvidava que Gabriela tivesse praticado aquele desfalque.

Ela lhe parecia uma mulher de princípios, honesta, cultivando valores éticos verdadeiros. Esse comportamento não se ajustava à sua personalidade.

A secretária ligou, avisando que Egberto estava esperando na recepção.

— Mande-o entrar — ordenou Renato ansioso.

Depois dos cumprimentos, tendo o detetive sentado à sua frente, Renato disse preocupado:

— E então, descobriu alguma coisa?

— Sim. Mas as notícias que eu trago não são muito boas. Estou constrangido.

— Gabriela tirou mesmo aquele dinheiro?

— Não, doutor. Não foi ela.

Renato respirou aliviado.

— Não sabe o peso que tira de cima de mim.

Egberto hesitou:

— É que o caso é mais grave do que parecia à primeira vista. Fun­cionário que dá um desfalque é coisa bastante usual hoje em dia. Mas este caso envolve pessoas tanto da família dela quanto da sua.

Renato olhou admirado:

— Como assim? Não estou entendendo.

— Vou lhe contar tudo. Meus relatórios estão claros.

Egberto entregou algumas folhas datilografadas para Renato.

— Depois eu leio. Conte você. Quero saber tudo.

— Naquele dia fui ao banco, mas não consegui saber nada além do que me contou. Tentei descobrir se ela tinha algum vício, dívidas, que a pudessem empurrar ao desfalque. Uma pessoa que sempre foi hones­ta só faria isso se tivesse desesperada. Tentei descobrir o motivo. Des­cobri apenas que o marido perdera tudo, ainda tinha dívidas que esta­va tentando pagar. Então eu pensei que talvez ele fosse cúmplice no desfalque. O dinheiro teria sido para ele. Assim resolvi segui-lo.

Egberto fez uma pausa e Renato pediu:

— Continue, por favor.

— Ele se encontrou com D. Gioconda em um restaurante. Foram para uma mesa reservada.

Aproximei-me o mais possível tentando ou­vir o que diziam. Algumas palavras me escaparam, mas ouvi o suficien­te para saber que eles planejaram o desfalque.

Renato levantou-se de um salto, dizendo:

— Isso não é possível! Eles não se conhecem.

— Pois eu conheço bem D. Gioconda. Eles estavam curiosos para saber que providências o senhor ia tomar com relação a Gabriela. Pelo que ouvi, ambos queriam que ela fosse despedida.

Renato deixou-se cair na cadeira sem saber o que dizer. Egberto prosseguiu:

— Não deu para saber certos detalhes, mas, pelo que ouvi, penso que foi por ciúme. Eles pensam que o senhor tem um caso com ela.

- Isso é um absurdo! Gabriela é uma moça correta. De fato, Gio­conda vive implicando com ela. Várias vezes pediu que a despedisse. Tra­ta-se de uma excelente funcionária, e eu me neguei a fazer isso. Por outro lado, Gabriela sempre dizia que o marido queria que ela deixasse o emprego.

Mas daí a praticarem esse crime, é difícil de acreditar.

— Pode crer, Dr. Renato. É a pura verdade. Fotografei os dois jun­tos, pode verificar.

Renato, com mãos trêmulas, abriu o envelope que Egberto colo­cara sobre a mesa e tirou as fotos. Não havia dúvida. Eram Gioconda e um outro homem.

- Tem mais, doutor.

- Mais? O que pode ser pior do que isso?

— Mandei um perito examinar os cheques. Eles disseram que as as­sinaturas são falsas, mas que é trabalho profissional. Eles contrataram alguém para o trabalho. Por outro lado, foi D. Gioconda quem sacou o dinheiro.

— Voltei ao banco e conversei com os caixas, descrevendo D. Gio­conda, e uma moça lembrava-se de havê-la atendido. Ela tinha pressa, mas, como a quantia era alta, foi preciso esperar para pagar. Foi ela quem sacou o dinheiro.

- Parece impossível!

- De fato. A princípio eu também duvidei. Mas sei que mulher ciumenta é o diabo! Já vi cada coisa! Ouvi quando ele disse a ela para intervir e evitar que o senhor desse parte à polícia.

- Sabem que eu a estimo e admiro.

— Bem, agora já sabe o que houve.

— Você foi maravilhoso, como sempre.

- O que pretende fazer?

- Ainda não sei. Mas é claro que preciso tomar algumas providên­cias. Eles foram longe demais.

- Já vou indo, doutor. Se precisar de mim é só avisar.

Depois que ele se foi, Renato leu o relatório, inteirando-se de to­dos os detalhes da investigação. Quando acabou, pensou em Gabriela. Pobre moça! Como deveria estar sofrendo!

Renato sentiu o estômago embrulhado. Chamou uma das secretá­rias e pediu que lhe arranjasse um sal de frutas. Pensou em Gioconda e sentiu repulsa. Depois do que ela fizera, não havia mais como continuar com o casamento.

Há muito aquele relacionamento se arrastava desagradável, mas ele, preocupado com as crianças, tentava protelar a separação. Agora não daria mais para conviver com Gioconda. Uma pessoa que faz o que ela fez é capaz de qualquer coisa. Iria pedir a separação e a guarda dos filhos. Sua interferência na educação deles sempre fora perniciosa, mas ele levava em conta sua falta de capacidade, de experiência. Porém o que ela fizera provava que era maldosa, desonesta, falsa.

Por isso esteve no escritório a pretexto de estar fazendo hora. Foi para tentar descobrir se ele despedira Gabriela. Mostrara-se amável, cordata, diferente do que costumava ser.

Um arrepio de raiva percorreu-lhe o corpo. Como é que ela conhe­ceu Roberto? Teria ido procurá-lo?

Renato sentia a cabeça pesada e, quanto mais pensava, mais e mais se sentia indignado.

Tomou então a decisão de se separar. Iria consul­tar seu advogado para decidir como conseguir a guarda dos filhos. Sa­bia que ela jamais permitiria e que as leis favoreciam a mãe.

Mas ele haveria de provar ao juiz que Gioconda não possuía equi­líbrio suficiente para cuidar deles.

Renato passou a mão pelos cabelos angustiado. Sabia que iria ter pela frente um período difícil, porém estava decidido. Não voltaria atrás. Ao praticar aquele ato deplorável, Gioconda, sem o saber, assi­nara a separação.

 

A primeira providência que Renato tomou foi ligar para Gabriela. Nicete atendeu e avisou:

— O Dr. Renato quer falar com você.

Gabriela estremeceu. Deveria voltar à empresa na manhã seguin­te. Por que ele ligara antes?

Nervosa, foi atender:

— Alô. Sim, é Gabriela.

— Preciso falar com você, mas não pode ser pelo telefone.

— O senhor marcou para eu voltar amanhã.

— Não posso esperar. O assunto é delicado e urgente. Já desco­bri quem foi.

Gabriela sentiu ligeira tontura e as pernas bambas. A emoção foi tanta que não conseguiu responder.

— Está me ouvindo?

— Sim — murmurou ela.

— Você está bem? Sua voz está fraca.

— Não tenho conseguido dormir nem me alimentar depois do que aconteceu. Se tudo estiver esclarecido, ficarei bem.

— Temos que conversar sem que ninguém saiba. Não diga nada a ninguém. Pode vir encontrar-se comigo agora?

— Na empresa?

— Não. Nossa conversa precisa ser sigilosa. Passarei perto de sua casa para apanhá-la.

- Aqui não. Roberto é muito ciumento e pode não gostar.

— Onde então?

— Na praça que fica a quatro quadras daqui. Sabe onde é?

— Sei. Vou sair agora. Pode esperar.

Gabriela sentiu seu estômago dar sinal e lembrou-se de não haver jan­tado na véspera nem tomado café da manhã. Procurou Nicete e pediu:

- Preciso sair. Enquanto me visto, pode me arranjar uma xícara de café com leite?

— Claro. O que aconteceu? A senhora parece melhor, está até corada!

— Por ora não posso contar. Tive uma notícia muito boa. Na vol­ta eu explico. Se Roberto aparecer, diga apenas que fui dar uma volta, fazer umas compras. Não fale do telefonema do Dr. Renato.

Arrumou-se rapidamente, engoliu o café com leite, comeu a ge­nerosa fatia de bolo que Nicete colocara ao lado e saiu. Caminhou a passos rápidos até a praça. Ainda não teria dado tempo para ele chegar, então Gabriela sentou-se em um banco para esperar.

Mesmo sem saber o que acontecera, sentia-se aliviada. Finalmen­te saberia quem fez aquela maldade, poderia voltar ao emprego.

Quando viu o carro de Renato aproximar-se, levantou-se e foi até ele, que parou, abriu a porta e ela entrou.

— Espero que esteja melhor — disse ele.

— Fiquei aliviada depois que falei com o senhor.

- Vamos procurar um lugar sossegado para conversar.

Ele deu algumas voltas e parou sob uma árvore em uma rua deser­ta e residencial. Gabriela olhou para ele esperando. Renato começou:

— O que vou dizer é muito grave. Atinge a nós dois.

- Como assim? O senhor disse que descobriu quem falsificou os cheques.

— Com isso resolvemos um problema mas descobrimos outro.

— O senhor me assusta!

— Não é esse meu intento. Eu disse que iria investigar. Para isso contratei um detetive. Hoje à tarde ele apareceu e trouxe este relatório.

Renato tirou alguns papéis do porta-luvas e entregou-os a Gabrie­la. À medida que ela lia, seu rosto foi empalidecendo e seu corpo co­meçou a tremer.

— Não posso crer! Isto não pode ser verdade. Roberto não pode ter feito isso!

- Pois fez. Gioconda e ele. Movidos pelo ciúme. O que me espan­ta é que eles não se conheciam. Como puderam juntar-se para tramar tudo isso?

Seja pela tensão dos últimos dias, seja pela emoção daquela desco­berta, Gabriela rompeu em soluços. Penalizado, Renato apanhou um len­ço, oferecendo-o.

— Sinto muito. Sei que ama seu marido e imagino como se sente.

Gabriela soluçava sem conseguir dominar-se. Renato segurou sua mão para dar-lhe coragem, dizendo:

— Acalme-se, Gabriela. Reconheço que é uma situação muito tris­te, porém verdadeira.

Precisamos aceitar os fatos e decidir as providên­cias a tomar. Penso que não pode ficar assim. Hoje fizeram isso, ama­nhã farão coisa pior. Temos que encontrar coragem para decidir.

Aos poucos Gabriela parou de soluçar e enxugou os olhos. Por fim disse:

— Sinto que tem razão. Mas confesso que não sei o que fazer. Está doendo muito saber que Roberto foi capaz de fazer isso comigo. Ele viu como eu fiquei arrasada, ele sabia como essa suspeita me machucaria. Mesmo assim, não titubeou em me fazer passar por essa vergonha. Pen­sei que ele me amasse, agora vejo que não. Quem ama não age dessa for­ma. Eu seria incapaz de fazer isso a qualquer pessoa, muito menos a ele.

— Tenho certeza disso. Quanto a mim, decidi me separar de Gio­conda. Nunca comentei abertamente com ninguém, mas nossa vida em comum tornou-se desagradável. Arrependi-me de haver casado com ela. Há anos venho suportando essa união por causa das crianças. Ago­ra não dá mais. Sinto que não poderei mais conviver com ela. Vou pro­curar meu advogado para tratar da separação.

Gabriela ficou olhando para ele enquanto pensava em como seu casamento se transformara nos últimos tempos.

- Roberto sempre foi ciumento — considerou —, mas piorou muito depois que perdeu o dinheiro. Vivia pedindo para eu deixar o emprego, mas nunca imaginei que chegasse a tanto.

- Pensei em dar queixa à polícia. Eles usaram um falsário profis­sional. Isso é crime. Por outro lado, trata-se da mãe dos meus filhos e do seu marido. Não sei como proceder.

- Uma coisa eu sei, Dr. Renato. Vou deixar Roberto. Para ser bem sincera, o amor que sentia por ele já não era mais o mesmo. Fiz o que pude para salvar nosso casamento. Mas agora não dá mais.

— Nesse caso, o mais urgente seria consultarmos um bom advoga­do. Pretendo conseguir a guarda dos meus filhos. Gioconda não tem con­dições de tomar conta deles. Você poderia voltar ao trabalho amanhã, conforme havíamos combinado?

- Sim. Agora mais do que nunca preciso do emprego.

— Será seu enquanto quiser. Vou chamar um bom advogado e ama­nhã mesmo faremos uma reunião com ele, expondo os fatos e pedindo orientação. Enquanto isso, será melhor fingirmos que não estamos sa­bendo de nada.

- Não sei se vou conseguir. Só de pensar nele, sinto vontade de brigar.

- Se quisermos agir de maneira adequada, será melhor controlar­mos nossos ímpetos e cuidarmos das providências que precisaremos to­mar. Nossos filhos merecem esses cuidados. Eles devem ser atingidos o menos possível nesta triste história.

— Tem razão. Agradeço a confiança que tem em mim. Se não fos­se isso, nunca teríamos descoberto a verdade.

— Sempre tive uma boa intuição e ela me dizia que você seria in­capaz de fazer uma coisa dessas.

Gabriela suspirou aliviada, mas apesar disso sua cabeça doía, e ela considerou:

— Vou para casa tomar um comprimido e tentar descansar.

- Quer ir comer alguma coisa?

— Não, obrigada. O café que tomei de manhã embolou em meu estômago.

— Posso compreender. Gostaria de recompensá-la de alguma for­ma. Há alguma coisa que posso fazer por você?

— Eu gostaria de voltar ao trabalho ainda hoje. Não quero ficar em casa sem fazer nada com esses pensamentos tumultuando minha cabeça.

— Não seria melhor descansar?

- Acha que eu conseguiria? O trabalho vai me ajudar a suportar essa triste descoberta.

— Nesse caso, pode ir. Vou ver se consigo que o advogado vá ao nosso encontro hoje mesmo. Vou levá-la para casa.

— Se temos que guardar segredo por enquanto, será melhor dei­xar-me na praça onde nos encontramos.

Renato concordou e levou-a até lá. Depois que a deixou, sentiu-se triste. A irresponsabilidade de Gioconda levou-os àquela situação tão desagradável. Claro que Roberto teve culpa também, mas, se ela não con­cordasse, nada daquilo teria acontecido.

O  que mais Gioconda estaria fazendo que ele ignorava? De quem fora a idéia do desfalque? Quem conhecia o falsário profissional?

Talvez fosse melhor pedir a Egberto que continuasse investigando para descobrir mais informações.

Quando Gabriela chegou ao escritório, Renato informou-a que o ad­vogado viria em seguida. Assim que ele chegou, conforme o combinado, Gabriela introduziu-o na sala de Renato. Quando ia sair, ele a impediu:

— Fique, Gabriela. O assunto diz respeito a você também. Sente-se.

Quando os viu sentados, Renato contou tudo ao Dr. Altino, que ouviu em silêncio. Renato finalizou:

— O caso é delicado. Confio na sua capacidade profissional e gos­taríamos que cuidasse de tudo. Tanto eu quanto Gabriela desejamos a se­paração. Eu pretendo obter a guarda dos meus filhos. Como faremos isso?

— Para cuidar do caso, preciso saber toda a verdade. Posso fazer uma pergunta indiscreta?

— Claro.

— Nunca houve um caso entre o senhor e D. Gabriela?

— Nunca. Garanto que nosso relacionamento tem sido muito bom, mas exclusivamente de trabalho.

— Muito bem. O senhor quer a guarda dos filhos. Para isso esse pon­to precisa ficar claro. Suponho que D. Gabriela também pretenda ficar com os filhos.

— Sim, doutor respondeu ela.

— Geralmente a guarda dos filhos menores fica com a mãe, exce­ção feita somente em caso de mau comportamento.

       — Se depender disso, ninguém me tirará os filhos — disse ela. Está certo. Nesse caso, cada um tem que conversar com seu cônjuge e tentar uma separação amigável. Seria o melhor, a fim de evi­tar um escândalo. Acho que é isso que ambos desejam.

— É. Por causa das crianças.

Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:

— Vou falar com Roberto. Não sei se ele vai concordar. Sempre foi muito apegado. Vai pedir perdão, querer outra chance, sinto que não será fácil.

— Gioconda também vai dar trabalho. Vai fingir-se doente, infer­nizar a vida dos meninos, chorar, fazer-se de vítima. Só de pensar nis­so, fico nervoso.

— É uma situação que terão que enfrentar. Há outro meio: dar par­te à polícia e justificar a separação mediante as provas. O falsário seria responsabilizado e é bem possível que o juiz desse uma sentença favo­rável a vocês dois.

- Meu primeiro impulso foi de fazer isso. Contudo repugna-me le­var a mãe de meus filhos à polícia. Prefiro resolver de maneira amigável.

— Nesse caso, cada um deve conversar com o cônjuge, dizer que sabe de tudo e pedir a separação. Estarei esperando o que decidirem para tomar as providências.

Depois que o advogado se foi, Gabriela considerou:

— Não vai ser fácil.

- Temos que tentar. Hoje mesmo falarei com Gioconda. Quero resolver tudo o quanto antes.

- Eu também. Não suportaria ficar calada. Quanto mais penso, mais fico indignada.

— Vou para casa falar com ela. São três horas. Se desejar sair, tam­bém pode ir.

— Não. Roberto só estará em casa à noite. Ficarei até o fim do expediente.

Renato saiu. As crianças estavam no colégio, por isso ele e a mulher poderiam conversar à vontade. Ele temia que Gioconda fizesse cena diante dos meninos.

Chegou em casa e encontrou-a na sala lendo. Vendo-o, levantou-se surpreendida:

       — Você em casa a esta hora? Aconteceu alguma coisa? Precisamos conversar. Vamos até o quarto.

— Que foi? Está com uma cara... Alguma coisa com os meninos?

Ele não respondeu. Subiu para o quarto e Gioconda acompanhou­

o.         Uma vez lá dentro, Renato fechou a porta à chave. Indicou uma ca­deira para que ela se sentasse e sentou-se por sua vez.

— Sei de tudo, Gioconda. Não adianta fingir.

Ela empalideceu e murmurou:

- Tudo o quê?

— O que você e o marido de Gabriela fizeram. O desfalque, a fal­sificação dos cheques, tudo.

Gioconda sentiu a vista toldar e teria caído se Renato não a segu­rasse. Assustada, procurou recuperar-se. Tinha de saber o que estava acontecendo. Respirou fundo e levantou os olhos para ele, dizendo com indignação:

— O que está dizendo? Que calúnia é essa? Quem lhe contou essa mentira? Foi ela, essa mulher que está tentando nos destruir?

— Não adianta fingir. O detetive deu-me todas as provas. Eis o re­latório. Tudo que vocês fizeram está relacionado aqui, horários, conver­sas. Veja estas fotos. Você e Roberto juntos. Como é que se conhece­ram? Qual dos dois tramou essa falcatrua?

Gioconda não encontrou palavras para responder. Percebeu que haviam sido descobertos, estavam perdidos. Tentou comovê-lo.

— Foi ele quem me procurou dizendo que você e Gabriela eram amantes. Foi ele quem fez tudo. Eu concordei, mas estou arrependida. Estava até pensando em contar a você.

— Jamais faria isso. Não acredito em nada que me diz. Você é uma perversa, que não teve escrúpulo de envolver uma moça honesta que tra­balha para viver, uma mãe de família, como você, que tem dignidade.

Gioconda enfureceu-se:

- Você a defende e me acusa! Eu, sua própria mulher. Você está cego de amor por ela. Esse amor ainda vai destruí-lo.

— Você está louca! Se quer saber, admiro Gabriela, porém nunca fomos amantes. O que está nos destruindo é seu ciume.

— Sou uma mulher traída! Como quer que suporte isso?

— Não adianta falar mais. Há muito que nossa vida em comum está se deteriorando. Tenho tentado continuar vivendo a seu lado por cau­sa dos meninos, mas agora você realmente exagerou.

Não estou dispos­to a suportar seu ciúme infundado. Devemos nos separar.

Gioconda levantou-se nervosa, agarrando o marido pelo braço.

— Não, isso não. Pelo amor de Deus! Não faça isso! Talvez eu te­nha exagerado, mas é pelo muito que eu o amo. Por favor, separação não.

— Estou decidido. É melhor que concorde logo. Faremos tudo de forma amigável. Dividirei o que tenho com você e nada vai lhe faltar. Se quiser, poderá ficar com esta casa e tudo que há dentro. Eu me mu­darei. Mas as crianças irão comigo.

— Não. O que pensa que eu sou? Quer tirar até meus filhos? Acha justo? Nunca irei aceitar uma separação.

— Se não quiser, serei forçado a ir à polícia e dar queixa. O falsá­rio será preso, você e Roberto responderão pelo que fizeram. Com você não vivo mais. Acabou, Gioconda. Acabou. Pense e escolha. Tem até amanhã para decidir.

Ele saiu do quarto e Gioconda agoniada atirou-se na cama choran­do em desespero. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê?

Apanhou o telefone e ligou para Roberto. Assim que ele atendeu, disse chorando:

- Roberto, eles descobriram tudo. Estamos perdidos!

— Como?! Quem descobriu o quê?

— Renato contratou um detetive, que descobriu o que fizemos. Renato quer separar-se de mim e tirar meus filhos.

Roberto sentiu que as pernas bambearam. Tentou reagir:

— Acalme-se. Conte tudo. Gabriela sabe?

- Sim. Ele a defende e me acusa. Acha que pode ser isso? Ah! Mas garanto que não vai ficar assim. Gabriela é culpada de tudo. Ela vai me pagar. Você vai ver!

— Calma. Não piore as coisas.

- Não vou suportar uma separação. Antes eu acabo com sua mu­lher. Era isso que eu deveria ter feito.

— Não seja louca. Converse com seu marido. Ele está zangado, mas vai refletir melhor, acabar perdoando. Não se precipite...

— Vou resolver as coisas do meu jeito!

Gioconda desligou e Roberto nervoso imediatamente ligou para casa. Gabriela só deveria retornar ao trabalho no dia seguinte.

Nicete atendeu e explicou:

— D. Gabriela está no escritório. Recomeçou a trabalhar hoje de­pois do almoço.

Ele desligou nervoso. Olhou o relógio. Gabriela deixaria o escritó­rio dentro de meia hora.

Gioconda poderia tentar alguma coisa contra ela. Apanhou um táxi, foi até lá, ficou esperando no saguão, perto da porta do elevador.

Gabriela saiu e ele a pegou pelo braço.

— O que está fazendo aqui? — perguntou ela.

— Vamos para casa. Temos que conversar.

Quando estavam saindo da porta, ele viu Gioconda parada do lado. Tudo aconteceu muito rápido. Ela tirou o revólver da bolsa e apontou-o para Gabriela. Roberto imediatamente colocou-se na frente da espo­sa, gritando desesperado:

— Não atire, Gioconda! Largue essa arma!

Mas era tarde. Ela disparou quatro tiros, atingindo Roberto, que caiu. Gabriela sentiu a vista toldar e perdeu os sentidos.

Gioconda aproveitou a confusão que se estabeleceu e fugiu. Uma colega de Gabriela correu a ampará-la enquanto Roberto gemia estira­do na calçada.

Imediatamente apareceu um guarda, que de pronto chamou uma ambulância e reforço policial. Gabriela voltou a si e assustada olhou em volta para as pessoas que estavam ao seu redor, penalizadas, e logo se lem­brou do que havia acontecido, perguntando à sua colega que a estava amparando:

- E Roberto? Ele precisa de ajuda. Pelo amor de Deus, não o dei­xem morrer! Onde ele está?

— Acalme-se, Gabriela. Ele está aqui do lado. A ambulância já deve estar chegando.

Gabriela olhou em volta e viu Roberto gemendo, estirado no chão. Ninguém vai fazer nada?

Ele está ferido

- Por favor, me ajudem a socorrê-lo.

O policial aproximou-se:

— Calma. Estamos tratando de tudo. Tentei estancar a hemorra­gia, mas é melhor não tocar nele. O socorro está a caminho

Alguém trouxe um copo com água para Gabriela, que, trêmula, bebeu alguns goles. Ela se debruçou sobre Roberto, dizendo aflita:

Roberto, fale comigo. Por favor! Abra os olhos.

Ele perdera os sentidos. Assustada, Gabriela chorava desconsolada. A ambulância chegou, os dois foram colocados dentro e ela partiu rumo ao hospital enquanto dois policiais investigavam o que havia acontecido, procurando testemunhas.

A colega de Gabriela que havia saído com ela pelo elevador havia presenciado tudo. Depois de relatar ao policial o que vira, subiu nova­mente ao escritório e ligou para Renato.

— Dr. Renato, aconteceu uma desgraça! D. Gioconda tentou ma­tar Gabriela, mas atingiu o marido dela que veio esperá-la e colocou-se na frente.

Renato empalideceu.

- Onde eles estão?

— A ambulância levou-os para o hospital. Os tiros não atingiram Gabriela mas o marido dela está muito ferido. A polícia continua arro­lando testemunhas.

— Vou para ai imediatamente. Obrigado por me avisar.

Quando Renato chegou ao local, a polícia estava lá à sua espera. As testemunhas haviam contado que fora Gioconda quem atirara, e Marisa informara que seu patrão estava a caminho.

Ouvindo as informações dos policiais, Renato parecia estar viven­do um pesadelo. Sentiu-se culpado. Sabendo como Gioconda era des­controlada, deveria ter tido mais cuidado. Mas nunca pensou que ela fosse capaz de uma loucura daquelas.

- O senhor sabe se o ferimento de Roberto é grave?

- Ele levou quatro tiros, está mal. Onde está sua esposa?

- Eu estava em casa e não a vi sair. Até aquele momento, ela não havia voltado.

- Vamos até lá.

— Eu pretendia ir até o hospital ver como eles estão.

- Eles estão sendo cuidados. Precisamos encontrar sua esposa.

Renato não teve outro remédio senão obedecer. Marisa tentou confortá-lo:

- Já sei o nome do hospital em que eles estão. Vou para lá ime­diatamente e telefono para sua casa contando tudo.

Renato agradeceu. Suas mãos tremiam na direção do carro, enquan­to a polícia o acompanhava. Estava preocupado com as crianças. Preci­sava tirá-los de casa a fim de poupá-los, porém não teve como fazer isso.

Quando entraram, Renato encontrou Maria nervosa:

— Dr. Renato, estou preocupada. D. Gioconda chegou em casa descontrolada, mandou arrumar as malas das crianças correndo, arru­mou a dela, juntou todas as jóias, colocou tudo no carro e saiu com eles.

— Saiu? Por que não tentou impedir?

- Tentei falar com o senhor, mas a linha do escritório estava sem­pre ocupada. Ela não estava bem.

A polícia entrou e Renato esclareceu:

       — Gioconda enlouqueceu, Maria. Temo pelas crianças.

O  policial pediu fotos dela e das crianças, e, enquanto um ficava na casa, os outros foram para a delegacia. Renato não sabia o que fazer. Imediatamente ligou para seu advogado explicando o que estava acon­tecendo e pedindo que fosse à polícia informar-se.

Depois, dirigiu-se ao policial:

— Vou até o hospital. Preciso saber como estão.

— É melhor ficar aqui. Podemos precisar do senhor.

— Não posso ficar aqui sem saber de nada.

— Vou me informar.

O  policial ligou para o hospital enquanto Renato angustiado espe­rava. Depois disse:

— A moça não está ferida. Ele se colocou na frente e a salvou. Ele, porém, está sendo operado. Está mal.

— Preciso ir até lá.

— Vai ter que esperar. Meu chefe quer que vá à delegacia prestar declarações.

Renato chamou Maria e pediu:

— Se Gioconda der alguma notícia, ligue para este telefone. É da delegacia. Este outro é do hospital. Estarei em um desses dois lugares. Quando puder eu telefono.

Depois que eles saíram, Maria, nervosa, resolveu rezar. Foi para o quarto, ajoelhou-se diante do pequeno oratório e pediu ajuda para aque­la família. Com eles há alguns anos, gostava das crianças e não queria que nada lhes acontecesse.

Era madrugada quando finalmente Renato conseguiu ir até o hos­pital, onde Gabriela, recostada em uma poltrona, esperava.

Vendo-o, ela se levantou, dizendo aflita:

- Por favor, Dr. Renato. Faça alguma coisa! Nunca pensei que isso pudesse nos acontecer!

- Nem eu. Foi uma tragédia. Sinto-me culpado. Deveria saber que Gioconda é doente. Eu podia ter sido mais cuidadoso. Nunca pen­sei que ela chegasse a esse extremo.

— Roberto está mal. Estou esperando sem saber o que está acon­tecendo. Ele está na UTI e no momento não pode receber visitas.

— Disseram-me que estavam fazendo uma cirurgia.

— É. Parece que terminou há pouco. Mas é só o que sei. Eu quero vê-lo, saber de tudo.

— Vou providenciar para que nada falte a ele. Você também pre­cisa descansar. Não pode passar a noite toda nessa cadeira.

— Ficarei aqui até poder vê-lo. Ele me salvou a vida! Se não fos­se ele, talvez eu estivesse morta...

— Nem fale uma coisa dessas!

Nesse instante, Georgina chegou aflita. Aproximou-se de Gabrie­la, gritando nervosa:

— Viu o que você fez? Está satisfeita agora?

Gabriela olhou surpreendida para a sogra.

— O que está dizendo?

— Isso que ouviu. Sempre desconfiei de você. Sabia que traria a desgraça para Roberto. Se ele me ouvisse, não teria se casado com você.

Renato interveio:

— Acalme-se, senhora. Não agrave a situação.

— Meu filho está mal e você quer que eu me acalme? Meu único filho, meu tesouro. Como acha que eu me sinto sabendo que a mulher do amante dela tentou matá-Lo? Ah, mas eu contei tudo ao policial que foi à minha casa.

Gabriela estava trêmula e Renato percebeu que ela estava prestes a desmaiar.

— Venha, Gabriela. Você precisa de um pouco de ar fresco. Vendo que ela mal podia suster-se em pé, pediu: — Apóie-se em mim.

Voltando-se para Georgina, Renato considerou:

— Peço-lhe que respeite este momento de dor. É hora de rezar. Se teme pela vida de seu filho, é o que deveria estar fazendo.

Georgina mordeu os Lábios e não respondeu. Seu olhar enfurecido seguiu-os pelo corredor até que desaparecessem no jardim.

— É o cúmulo. Eles perderam o senso e a vergonha. Onde já se viu? Pobre Roberto, que não tem como se defender dessa traição. Eles vão pagar, lá isso vão.

Ela não duvidava que Gabriela estava traindo o marido. Por isso Roberto se mostrara tão nervoso ultimamente. Por que ele se colocara na frente de Gabriela quando a mulher de Renato disparara os tiros? Por que apesar de tudo tentara salvar-lhe a vida?

Com isso ela não podia se conformar. Agora ele estava lá, entre a vida e a morte, enquanto os dois estavam juntos, talvez até comemo­rando a vitória.

Georgina não viu que duas sombras escuras a abraçaram satisfei­tas, apenas sentiu que um ódio profundo contra aqueles dois a envol­via, provocando náuseas e dor de cabeça.

Sentou-se em uma poltrona ruminando seu ódio, pensando em fazer tudo para que eles pagassem pelo mal que tinham feito a seu filho.

 

Uma vez no jardim, Gabriela respirou fundo tentando reagir. Re­nato conduziu-a a um banco, fazendo-a sentar-se.

—  Vou buscar um café e alguma coisa para comer.

—  Não, por favor. Estou enjoada. Não quero nada.

—  Não pode ficar sem comer.

- Não agora. Estou com medo. Se Roberto morrer, nem sei o que farei.

—  Vamos conservar a calma. Ele é forte, saudável, vai conseguir superar.

—  Estou pensando nas crianças. Como ficarão quando souberem? Ainda mais com D. Georgina inventando histórias...

- Espero que a polícia localize Gioconda. Ela está nervosa, alte­rada, as crianças devem estar assustadas. Não sei o que disse a elas. Re­ceio que lhes aconteça alguma coisa mais grave.

—  Meu Deus, que desgraça! Arrependo-rne de não ter deixado o emprego.

—  Isso não mudaria nada. Ele continuaria ciumento onde quer que você fosse trabalhar. Gioconda faria o mesmo. O ciúme é uma doença grave capaz de Levar à desgraça aqueles que se deixam dominar por ele.

- Estou me sentindo um pouco culpada.

- Não diga isso. Nós não fizemos nada de mau. Sempre respeita­mos nossos compromissos conjugais. Eles não tinham nenhum motivo para fazer o que fizeram. Nós não podemos nos responsabilizar pela lou­cura deles.

- Você está certo. Não temos do que nos culpar. Eles fizeram tudo. Eu fui injuriada, caluniada, ofendida. As palavras de D. Georgina me fizeram mal. Como sempre, ela tenta me responsabilizar por tudo de ruim que acontece ao filho. Ignora que quem errou foi ele, que eu é que tenho de perdoar o que ele fez.

—  Infelizmente, ele se acumpliciou com Gioconda sem notar o quanto ela é desequilibrada. Se ele foi esperá-la na saída do escritório foi porque percebeu que ela tinha intenção de fazer alguma coisa con­tra você. Estava Lá para impedi-la, tanto que salvou sua vida.

—   E foi abatido em meu lugar! Meu Deus, até parece um pesadelo!

— Sente-se melhor?

— Sim. Vamos entrar. Quero saber como ele está.

- Vamos.

Ela se levantou e foram andando devagar até o corredor onde fi­cava a UTI. Renato conduziu-a até um banco e disse:

— Fique aqui. Vou tentar saber como ele está.

Gabriela concordou e ele foi até o médico que havia operado Ro­berto, esperando que ele terminasse o que estava fazendo e pudesse atendê-lo.

Conversaram e ele ficou sabendo que o estado de Roberto era mui­to grave. Apenas duas balas o haviam acertado, porém uma se alojara no pulmão esquerdo e por pouco não atingira o coração, o que o teria matado instantaneamente. A outra perfurara os intestinos, alojando-se na bacia. Haviam retirado um pulmão e as balas, porém ele se encon­trava inconsciente. O médico disse que ele tanto poderia reagir como entrar em coma. Haviam feito o possível e era preciso esperar para sa­ber como o organismo reagiria.

Renato procurou Gabriela e informou:

— Falei com o médico que o operou. Ele disse que fez tudo que po­dia e agora só nos resta esperar.

- O estado dele é muito grave?

— Não vou enganá-la. É grave, mas não desesperador. O médico não sabe como o organismo vai reagir. Temos que esperar.

Gabriela suspirou agoniada.

— Esperar, nesse caso, vai ser uma agonia.

- Temos que pensar no melhor. Ele vai superar. Precisamos ter esperança.

— Tem razão. Precisamos acreditar que ele vai ficar bom.

— Não adianta ficarmos aqui, porque eles não vão permitir que você o veja. É melhor irmos para casa e voltarmos amanhã cedo.

- Não. Quero ficar. Não posso abandoná-lo nesta hora.

- Você precisa se cuidar. Ele vai melhorar e precisar da sua ajuda para ficar bom. Depois, há as crianças. Se ficar, vai esgotar suas ener­gias e amanhã, se ele estiver melhor, você não estará em condições de ajudá-lo.

- Não adianta ir embora. Não vou conseguir dormir. Ficando aqui tenho a impressão de que estou fazendo alguma coisa.

- Nesse caso também ficarei. A polícia sabe que estou aqui e vai me avisar assim que encontrar Gioconda.

- Não precisa fazer isso. Eu ficarei bem. A enfermeira já me ofe­receu um sofá discreto para eu repousar.

       — É que eu também não vou agüentar ficar em casa pensando que as crianças estão acompanhando Gioconda na fuga. Nem quero pensar no que lhes pode acontecer.

Gabriela suspirou. Georgina apareceu no corredor e olhou para ela com raiva. Gabriela fechou os olhos e tentou ignorá-la.

— Ela já se foi — informou Renato, depois de alguns instantes.

— O pior é ficar aqui com ela por perto.

— Não vai se livrar dela tão cedo.

— Reconheço que deve estar desesperada. É alucinada pelo filho. Imagino sua dor. Por isso não respondo quando me agride. Mas estou no limite da minha paciência. Peço a Deus que ela não se aproxime de novo.

— Falei com a administração, e informaram-me que vai vagar um quarto. Está reservado para você, apesar de o hospital estar lotado. Só irão precisar dele se ocorrer alguma emergência. Dessa forma, você não terá que passar a noite no sofá.

- Não precisava se incomodar.

— É o mínimo que posso fazer depois do que minha esposa fez. Há telefone, banheiro, e você ficará mais à vontade. Depois, quando Ro­berto melhorar, precisará mesmo de um quarto.

Obrigada. Eu aceito. Assim D. Georgina não me incomodará.

— Isso mesmo. Quando o quarto estiver pronto, seremos avisados. Apesar do esforço de Renato, o quarto só ficou livre às sete da ma­nhã, e passava das oito quando Gabriela finalmente pôde acomodar-se. Ligou para Nicete, colocou-a a par de tudo e informou-se sobre as crian­ças.

Pediu-lhe que, depois que eles fossem para escola, ela lhe levasse algumas roupas.

Renato telefonara várias vezes para a delegacia, porém eles não ti­nham nenhuma notícia de Gioconda. Depois de um último telefone­ma, dirigiu-se para o quarto de Gabriela a fim de despedir-se. Queria ir até sua casa tomar um banho, trocar de roupa. No corredor, Georgina abordou-o, entregando-lhe um jornal e dizendo:

— Veja o que vocês conseguiram fazer à minha família. Deus é jus­to e vai lhes dar o castigo que merecem.

Saiu chorando antes que Renato pudesse responder. Ele abriu o jornal e viu na primeira página o retrato de Gioconda com a manche­te: “Mulher traída tenta matar a amante do marido mas atinge o ma­rido dela”. Abaixo havia a descrição dos fatos, em que se lia que “ten­do descoberto a relação do marido com a secretária, a esposa atirara nela. Porém o marido traído colocara-se na frente e estava morrendo no hospital”.

Irritado, Renato amassou o jornal. Voltou para o quarto, e Gabrie­la, vendo-o, perguntou:

— O que foi? Você está pálido. Roberto piorou?

— Não. Não foi nada.

Renato dobrou o jornal e fingiu indiferença, porém Gabriela des­confiou:

— O que há nesse jornal? Por que o amassou desse jeito?

- Nada que valha a pena. Esses repórteres não sabem de nada.

Gabriela apanhou o jornal, abriu-o e leu a notícia. Sua voz estava trêmula quando disse:

- Havia esquecido essa possibilidade. Eles estão prejulgando. Pre­ciso impedir que meus filhos vejam isto.

— As pessoas estão sempre prontas a condenar. Assim como esse jornalista, muitos dos nossos conhecidos vão pensar a mesma coisa. Te­mos que estar preparados. O escândalo foi brutal. Não há como esca­par da maledicência popular.

— Tenho que falar com as crianças. Eles precisam saber que sou ino­cente. Talvez seja melhor não irem à escola hoje. Vou ligar novamen­te para Nicete.

— Faça isso.

Renato deixou-se cair em uma cadeira, segurando a cabeça entre mãos desanimado. Por que Gioconda fizera aquela loucura?

Gabriela ligou para casa, mas ninguém atendeu. Olhou o relógio e disse angustiada:

— A esta hora eles já devem estar na escola. Nicete saiu, está vin­do para ca.

Renato levantou a cabeça e respondeu:

— Tenha calma. Pode ser que ninguém conte nada a eles.

— É o que estou pedindo a Deus. Eles terão que saber, mas eu gos­taria que fosse por mim, não através da maldade dos outros.

- Você pelo menos pode conversar com eles. Eu não posso. Isso está me deixando louco!

Gabriela olhou para ele penalizada:

— Estava tão mergulhada em minha dor que nem sequer tive tem­po de imaginar o que você deve estar sentindo.

- Estou atrasado, perdido, agoniado.

— Precisamos ter forças para enfrentar esta tragédia que ainda não sabemos como vai acabar.

— Espero em Deus que Roberto melhore. Seja como for, não nos resta outro recurso.

       - É melhor ir para casa, tomar um banho e descansar um pouco. Se eu tiver alguma notícia, telefonarei.

Depois que Renato se foi, Gabriela deixou-se cair na cama, desa­nimada. Apesar de tudo, não se sentia culpada. Ela nunca traíra o ma­rido. Sempre respeitara sua família. Aquela loucura um dia teria de ficar esclarecida. Temia que os filhos sofressem. Sabia que precisava reagir, ser forte, mas ao mesmo tempo sentia-se impotente. Diante do que acontecera, quem acreditaria que nunca houve nada entre eles?

As lágrimas rolaram pelo seu rosto e ela as deixou cair livremen­te. Depois, exausta, adormeceu. Acordou com algumas batidas na por­ta. Deu um pulo assustada e viu o rosto de Nicete espiando.

— Pode entrar.

— Que horror, D. Gabriela. Ainda não acredito que isso aconteceu!

— Foi horrível! As crianças foram à escola?

— Eu vi o jornal e achei melhor levar os dois para brincar em casa da Alcina.

— Fez bem. Eu liguei, mas você já havia saído. Acha que eles não vão incomodar sua prima?

— Ela adora os dois. Depois, tem a Claudete para brincar.

— Obrigada, Nicete.

— Como vai o Seu Roberto?

— Mal, mas tenho esperanças de que melhore.

— Faço votos. Trouxe algumas roupas.

— Vou tomar um banho para ver se tira um pouco o cansaço. Es­tou moída. Parece que levei uma surra. Meu corpo todo dói.

— É nervoso. Posso imaginar.

— Depois vamos saber como está Roberto. Foi operado e ainda não me deixaram vê-lo. Está na UTI. O que você disse para as crianças?

— Nada. Apenas que vocês não iriam dormir em casa.

— Pretendo contar a verdade a eles assim que puder. Precisam sa­ber que sou inocente. Juro que nunca tive nada com o Dr. Renato, nem com qualquer outro. Sou uma mulher honesta.

— Sei disso. Mas sei também que o ciúme é um monstro que cega e pode causar muito mal.

Depois de tomar um banho e arrumar-se, Gabriela saiu com Nice­te em busca de notícias de Roberto. Ela ficou no corredor da UTI e abor­dou uma enfermeira que passava:

— Por favor, sou esposa de Roberto Gonçalves, que foi operado esta noite. Desejo vê-lo, saber como está.

— Infelizmente na mesma. Não acordou ainda da anestesia.

— Quero vê-lo.

- É melhor falar com o médico. Ele logo estará aqui e poderá in­formar melhor. Só ele pode dar permissão para a senhora vê-lo.

- Por favor! Deixe-me espiar como ele está.

- Não posso fazer isso. Quer que eu perca meu emprego? Gabriela conformou-se e decidiu esperar pelo médico.

— É melhor se alimentar — aconselhou Nicete. A senhora está muito abatida.

— Não quero nada.

— Faça força pelo menos de tomar um café com leite, comer um pãozinho com manteiga. Se a senhora adoecer, quem vai cuidar de tudo?

Gabriela deixou-se conduzir à lanchonete e, apesar de não sentir fome, tomou o café com leite, comeu o pão e sentiu-se melhor. Com­preendeu que Nicete tinha razão. Ela precisava preservar suas forças. Não sabia o que poderia acontecer.

Renato chegou em casa e encontrou Maria inconformada. Ela ha­via lido os jornais, mas não comentou. Pensava que, se seu patrão ar­ranjara outra mulher, tivera bons motivos. Não gostava de Gioconda. Só continuava na casa por causa das crianças, que ela queria muito bem, e da generosidade do patrão, que lhe pagava um salário muito bom.

— Alguma notícia de Gioconda ou das crianças?

- Não, senhor. Eu ia lhe perguntar a mesma coisa. Até agora nada. A polícia está procurando-os.

— Meu Deus! As crianças devem estar assustadas! Célia é tão sen­sível! Depois, D. Gioconda deve estar fora de si, para fazer o que fez...

— Nem quero pensar nisso, Maria.

- Vou acender uma vela para Nossa Senhora dos Aflitos. Quan­do a polícia os encontrar, o que vai acontecer com D. Gioconda?

— Terá que responder pela sua loucura. Infelizmente não vou po­der evitar esse desgosto.

Estou muito cansado, Maria. Vou tomar um ba­nho e depois irei até a delegacia.

- Vou preparar um café reforçado. O senhor não dormiu a noite toda, precisa refazer as energias.

Depois de se barbear, tomar um bom banho e trocar de roupas, Re­nato sentiu-se menos cansado. Maria tinha razão. Sentia um vazio no estômago que chegava a doer, precisava comer alguma coisa.

Sentou-se à mesa e comeu tudo que ela colocou em sua frente. O telefone tocou. Maria ia atender, mas Renato correu e pegou o apare­lho. Era o delegado.

— Tenho notícias para o senhor. Sua mulher foi encontrada e detida na rodovia Fernão Dias, perto de Belo Horizonte. As crianças estão bem. Nossos homens estão trazendo-os para cá.

- Irei para aí imediatamente. Tem certeza de que as crianças es­tão bem?

— Tenho, fique tranqüilo. Não precisa apressar-se. Eles vão de­morar pelo menos três ou quatro horas.

Renato resolveu ligar para seu advogado e contar a novidade. Pe­diu-lhe para cuidar do caso.

Apesar da repulsa que sentia pelo que Gio­conda fizera, não poderia abandoná-la à própria sorte. Era sua mulher, mãe de seus filhos.

Como dispunha de tempo, passou pelo hospital para saber de Ga­briela. Encontrou-a desanimada e triste. Falara com o médico, que não lhe permitira entrar no quarto de Roberto.

Renato contou-lhe que Gioconda fora encontrada, finalizando:

- Pedi ao Dr. Altino que acompanhe o caso. Pelo menos ficare­mos informados de tudo.

Quando Renato partiu para ir à delegacia, Nicete aproveitou para sair com ele. Gabriela queria que ela levasse Guilherme e Maria do Car­mo para casa.

Uma vez na rua, considerou:

- O Seu Roberto está muito mal. A enfermeira disse que não vol­tou da anestesia. Isso não é bom. Está demorando demais. O médico não nos deixou entrar no quarto dele.

Renato passou a mão pelos cabelos em um gesto nervoso.

- Vamos pedir a Deus que ele se recupere. Ele não pode morrer. Até onde vai esta loucura?

Vendo-o afastar-se angustiado, Nicete meneou a cabeça com tris­teza. O que seria das duas famílias se o pior acontecesse?

Renato foi até a delegacia e o delegado informou que eles já esta­vam chegando. A polícia descobrira o carro na estrada, tentara fazer com que ela parasse. Porém ela não obedeceu e acelerou. Percebendo o quan­to ela estava nervosa, os policiais, por causa das crianças, pediram reforço pelo rádio e logo apareceu outro carro policial em sentido con­trário, e ela finalmente parou.

Depois de pedir-lhe os documentos, prenderam-na. As crianças es­tavam pálidas e assustadas, porém os policiais conversaram com natu­ralidade e tentaram acalmá-las.

Ricardinho queria saber o que estava acontecendo, por que eles estavam viajando sem o pai. O policial prometeu que quando chegassem saberiam de tudo e que seu pai os estava esperando.

Colocaram Ricardinho e Célia no carro da polícia, dizendo:

— Vocês já andaram em uma viatura?

— Não — respondeu Ricardinho.

— A mamãe não vem junto? — perguntou Célia, aflita.

- Ela vai, mas não neste carro. Um policial vai dirigir o carro dela de volta. A mãe de vocês está muito cansada, é perigoso dirigir assim.

Eles concordaram e iniciaram a viagem de volta. Passava das cin­co da tarde quando finalmente chegaram à delegacia.

— Estão chegando — avisou o delegado.

Renato saiu para esperá-los. Havia combinado com o delegado que as crianças não entrariam na delegacia. Como os policiais afirmaram que eles estavam bem, bastava que eles declarassem isso. Renato os levaria para casa no carro de Gioconda. Ela ficaria detida. O Dr. Altino já es­tava esperando. As crianças, assim que desceram do carro, correram a abraçar o pai, e Gioconda vendo-os gritou furiosa:

— Conte para eles o que você fez. Diga todo o mal que me causou.

Renato não respondeu, e os policiais levaram-na rapidamente para dentro.

- Pai, o que está acontecendo? Por que a mamãe foi presa? in­dagou Ricardinho, tentando segurar as lágrimas.

— Pai, faça alguma coisa. Não quero que a mamãe fique presa! —disse Célia chorando e agarrando-se a ele.

Renato sentiu um nó na garganta, mas reagiu. Ele não podia dei­xar-se abater.

— O Dr. Altino está cuidando dela. Vamos embora. Em casa conversaremos.

Ricardinho contou que a mãe havia chegado em casa aflita man­dando Maria arrumar as malas deles enquanto ela cuidava da sua. De­pois disse-lhes que precisavam viajar porque estavam em perigo. Colo­cara-os no carro e pegara a estrada. Estava nervosa e não conversava. Tarde da noite haviam parado em um pequeno hotel em uma cidadezi­nha e foram para o quarto. Ela havia comprado lanche e eles comeram. Ficaram lá até o dia amanhecer, depois reiniciaram a viagem.

Uma vez em casa, Renato subiu com eles pedindo que tomassem um banho.

— Nós vamos, pai — garantiu Ricardinho —, mas antes precisa­mos saber o que está acontecendo.

— Está bem, meu filho. Sentem-se aqui e vamos conversar.

Quando os viu acomodados, Renato continuou:

— Vocês sabem como sua mãe é ciumenta. O ciúme faz a pessoa imaginar coisas que nunca aconteceram.

— Eu sei como é — tornou Ricardinho. — A mamãe tem um modo de ver muito diferente. Ela torce tudo que a gente fala.

— Pois é. Ela sentia ciúme de Gabriela, minha funcionária. Eu juro para vocês que eu nunca tive nada com ela. Gabriela é uma mu­lher casada, honesta, tem dois filhos e ama muito seu marido.

Mas, como Gioconda, o marido dela também sente ciúme dela. Bem, os dois se conheceram e acharam que eu estava namorando Gabriela. Ontem sua mãe pegou um revólver e foi esperar Gabriela na saída do escritó­rio. Mas Roberto, que é o marido dela, também foi. Então ele viu quan­do Gioconda ia atirar em Gabriela e tentou impedir. Colocou-se na frente e levou os tiros. Está no hospital.

Célia chorava e Ricardinho abraçava o pai, assustado.

- Ela vai ficar presa para sempre? — perguntou Célia.

— Não. Mas o tempo que ficará lá depende da justiça. Por isso, nós precisamos ser fortes.

Sua mãe agiu sem pensar nas conseqüências. Aliás, é bom que saibam toda a verdade: eu havia decidido me separar de sua mãe.

— Você não gosta mais dela? — perguntou Célia.

- Não se trata disso. É que nós não conseguimos mais viver em paz. Eu penso de um jeito e ela de outro. Não somos felizes.

— Sei disso e tinha medo de que um dia acontecesse. Eu também não consigo falar com ela a sério. Aprendi a não entrar nos jogos dela. A Célia cai direitinho.

— Eu gosto dela. Não queria que ela ficasse triste ou doente. Quan­do eu fazia alguma coisa ruim, ela passava mal. Então eu fazia tudo do jeito que ela queria.

— Sua mãe é como uma criança que nunca cresceu. E como crian­ça vai ter que responder pelo que fez para poder crescer.

— E agora, pai, o que vai ser de nós se ela ficar presa e demorar a voltar? — indagou Célia com voz trêmula, tentando reter as lágrimas.

Renato abraçou-a com carinho, puxou Ricardinho também e pro­meteu:

— Eu estou aqui e farei de tudo para que vocês estejam bem. Nun­ca os deixarei.

— Eu queria que a mamãe voltasse... — retrucou Célia chorando.

Renato afastou-os um pouco e, segurando a menina pelos ombros, olhando-a nos olhos, disse com voz firme:

— Na vida, minha filha, precisamos ser fortes, estar preparados para superar todos os desafios. Você é inteligente e eu sei que vai cooperar. Ape­sar do que houve, nós somos uma família. Um precisa apoiar o outro.

— Mas sem a mamãe não será a mesma coisa.

— Não diga isso. Sua mãe agiu sem medir as conseqüências, agre­diu uma pessoa, não temos como impedir que responda pelo que fez. Mas ainda é a mãe de vocês, e o melhor que têm a fazer é rezar por ela para que se recupere. A esta hora já deve estar arrependida e lamentando.

Ricardinho meneou a cabeça, dizendo triste:

— Quando ela se fingia de doente ou queria nos obrigar a fazer as coisas, muitas vezes eu quis fazer com que ela entendesse que isso não era bom. Mas ela ficava mais zangada, não me ouvia, e continuava.

— Agora não vale a pena criticar.

— Mas eu era como ela. Quando você conversou comigo, me mos­trou as vantagens de dizer a verdade sem medo, e eu aprendi. Nunca mais menti para você.

— Mas continuou a fazer isso com ela — retrucou Célia.

— É que ela só entendia dessa forma.

— Discutir não adianta. De hoje em diante, serei mãe e pai ao mesmo tempo. Sempre estarei pronto e por perto para ajudá-los. Ago­ra vão tomar banho. O jantar logo estará pronto.

Eles obedeceram e Renato deixou-se cair extenuado em uma pol­trona. Apesar de arrasado e temeroso de que a situação de Roberto se agravasse, o que tornaria o problema muito pior, tentou reagir. Dali para a frente sabia que teria de suportar muitos problemas, por isso mesmo não podia entregar-se à depressão.

Gabriela, a cada meia hora, ia até a UTI em busca de notícias, mas Roberto continuava na mesma. Ficou esperando o médico e assim que ele chegou abordou-o perguntando sobre o estado de seu marido.

A resposta foi evasiva:

— Por enquanto ele está agüentando. Vamos ver.

— Disseram-me que ele ainda não voltou da anestesia. Isso não énatural.

— Seu marido está em pré-coma. Não vou enganá-la. Estamos vi­vendo momentos decisivos.

- O estado em que está tanto pode evoluir para o coma profundo e a morte como pode levá-lo a recuperar a cons­ciência e ficar bem.

Gabriela segurou o braço do médico nervosa.

— Há alguma coisa que possamos fazer para salvá-lo?

— Acalme-se. Estamos fazendo todo o possível para isso. Seu ma­rido é jovem, forte, saudável. Tem muitas probabilidades de conseguir. Vamos manter a calma e esperar confiantes.

Depois de agradecer ao médico, Gabriela ia voltando para o quar­to quando foi abordada por uma atendente:

—  D. Gabriela, há um médico que deseja vê-la.

—  Acabei de falar com o médico que operou meu marido.

—  Ele não é do hospital. Pediu para entregar-lhe este cartão.

Gabriela leu: Dr. Aurélio Dutra, médico psiquiatra.

       Surpreendida, perguntou:

       — Onde está ele?

       — No hall da esquerda.

Gabriela foi até lá com o cartão nas mãos. Aurélio esperava-a e le­vantou-se do banco, aproximando-se:

— Eu sou Aurélio, amigo de Roberto. Podemos conversar?

— Claro — concordou ela, admirada.

No corredor próximo ao quarto de Gabriela havia um pequeno hall com algumas poltronas. Foram até lá e sentaram-se.

—  O senhor é amigo de Roberto?

—  Ele nunca lhe falou a meu respeito?

— Não.

Aurélio sorriu levemente e considerou:

— Foi o que pensei. Ontem mesmo fiquei sabendo o que lhe acon­teceu e vim informar-me sobre seu estado. Já conversei com o médico dele.

Gabriela lembrou-se da matéria do jornal e remexeu-se na poltro­na um pouco constrangida. Ele continuou calmo:

— Seu marido foi meu cliente e ficamos amigos.

— Não sabia que ele havia procurado um...

— Médico da alma — completou Aurélio.

       Gabriela suspirou e respondeu:

       — Há momentos na vida em que todos precisamos de um.

— Por isso vim procurá-la. Desejo oferecer-lhe meu apoio neste mo­mento difícil por que estão passando.

— Obrigado, doutor. Para dizer a verdade, eu me sinto perdida. Não sei o que será da minha vida e dos meus filhos daqui para a frente. Se ele morrer, será uma grande perda; se ele viver, nosso relacionamen­to não será fácil.

Aurélio olhou sério para ela e considerou:

— O ciúme é mau conselheiro e arruina qualquer relação.

— O senhor sabe?

— Sim. Certa tarde eu me dirigia ao estacionamento para pegar meu carro quando vi uma aglomeração e um homem caído. Imediatamente fui prestar socorro. Era Roberto. Passara o dia todo procurando empre­go, não havia comido nada e desmaiara. Prestei os primeiros socorros e ele voltou a si. Ainda tonto, disse que precisava buscar os filhos na es­cola. Era distante dali e levei-o até lá. Fomos conversando pelo cami­nho. Ele estava atravessando uma situação difícil. Convidei-o para me procurar no consultório.

— Ele nunca me falou nada...

— Seu marido é muito orgulhoso. Sentiu vergonha.

— Não deve ter sido fácil para ele ter se submetido a um tratamen­to psiquiátrico. Refiro-me à maneira como foi educado.

— A princípio estava constrangido, mas depois nos tornamos ami­gos. Seu marido é um homem bom. O problema de educação é sério. Pen­sando em proteger os filhos, muitas mães transferem para eles os pró­prios preconceitos.

— Já que é amigo de Roberto, gostaria que soubesse a verdade. Nunca traí meu marido.

— Vim aqui para oferecer meu apoio à senhora e a ele. Não pre­cisa me dizer nada.

— Obrigada. Mas preciso falar. O que aconteceu foi um lamentá­vel engano. Uma injustiça não só para comigo mas para com o Dr. Re­nato, meu patrão, que sempre me respeitou, que nunca atravessou os limites de uma relação de trabalho. Quando ele soube que Roberto per­dera tudo e não arranjava emprego, ofereceu-me novas oportunidades de trabalho. Progredi na empresa à custa do meu esforço e consegui ga­nhar mais. Ao invés de agradecer, Roberto ficou irritado com meu sucesso. Tanto que eu nem podia comentar com ele detalhes do que es­tava fazendo.

— Ele se sentia incapaz, primeiro por ter menos instrução que a se­nhora, depois por haver sido enganado pelo sócio e não ter formação profissional para arranjar emprego. Seu sucesso no trabalho fazia-o acre­ditar mais ainda na própria incapacidade.

— Isso eu posso entender. O que me deprime e revolta é o fato de Roberto pensar que eu estivesse me vendendo por dinheiro, perdendo a dignidade, enlameando minha família para subir na vida. Isso não posso tolerar.

— Sua indignação é justa. Porém tenho certeza de que, quando ele se restabelecer, tudo será esclarecido.

— Meu retrato nos jornais, o escândalo. O adultério é mais con­denado na mulher. Depois do que houve, quem acreditará em minha ino­cência? Meus filhos terão que enfrentar a maledicência.

— Que idade têm?

— Guilherme oito, Maria do Carmo seis.

— Precisa conversar com eles, contar a verdade. Prepará-los para enfrentar o que poderá acontecer.

— Quando vi o jornal, não os deixei ir à escola. Mas logo terão que voltar.

Gabriela suspirou fundo e passou a mão pela testa, como queren­do evitar os pensamentos dolorosos. Aurélio interveio:

— As crianças percebem muito mais do que os adultos admitem. Seus filhos já devem ter notado o ciúme do pai e por certo vão com­preender e ajudá-la a superar este momento. Depois, o tempo passa, as pessoas esquecem com facilidade. Dentro de algum tempo, ninguém mais se lembrará de nada.

— O pior é que não sabemos o que ainda falta acontecer. E se Ro­berto morrer? Ficarei sozinha com as crianças. D. Gioconda ficará pre­sa. Tenho certeza de que o Dr. Renato não vai me demitir. Mas terei con­dições de continuar no emprego depois de tudo? A maldade dos outros vai continuar me caluniando, dizendo que estou me aproveitando da au­sência dela. Como sustentarei minha família se perder meu emprego?

Gabriela sentiu que as lágrimas desciam pelo seu rosto e deixou-as correr livremente. Aurélio ofereceu-lhe um lenço, dizendo com voz calma:

— Chore, Gabriela. Está doendo e você precisa jogar fora essa dor. Ela continuou soluçando por alguns minutos, depois parou, enxu­gou os olhos e tornou:

—    Desculpe, doutor. Sou forte. Não choro por qualquer coisa. Mas desta vez não consegui me controlar.

—    Eu sei. Mas Roberto está vivo. Vamos esperar pelo melhor. Ele vai se curar.

—    Estou rezando para isso. Desejo que fique bom logo. Entretan­to, não vou mais suportar sua desconfiança. Pretendo separar-me dele.

—    Posso fazer-lhe uma pergunta?

— Fale.

—    A senhora deixou de amar seu marido?

Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois respondeu:

—    Não sei. Casamos por amor. Sempre o amei muito. Mas ultima­mente ele tem se mostrado diferente, desconfiado, deixou de ser aque­le moço alegre, confiante, bom, pelo qual me apaixonei.

Agora, depois de tudo que ele fez, sinto tanta indignação, tanta raiva. Chego a pen­sar que meu amor acabou.

— Pelo que me contaram, ele se colocou na sua frente quando ela atirou, salvou sua vida.

— Reconheço isso. Mas ele ajudou a provocar o que aconteceu.

Gabriela contou ao médico sobre o desfalque e finalizou:

— Eles arranjaram um falsificador profissional. Só não fui presa porque o Dr. Renato me conhecia bem, sabia que eu seria incapaz de uma coisa dessas e mandou investigar. Muitas coisas ainda precisam ser esclarecidas. Não sabemos como meu marido e D. Gioconda se conhe­ceram e tramaram tudo. O fato é que ele sabia que ela pretendia me ma­tar, por isso foi me esperar na saída do trabalho. Ele não costumava fa­zer isso. Por que foi exatamente naquela tarde?

Aurélio fitou-a sério. Roberto havia ido longe demais. Na ânsia de conservar o amor da mulher, talvez a houvesse perdido para sempre.

— Seja como for, Gabriela, de nada adianta ficar se atormentan­do imaginando o futuro. O melhor será cuidar da sua saúde, conservar o equilíbrio emocional. Preparar-se para enfrentar seja o que for e ir em frente. Seus filhos precisam da sua força. E Roberto ainda mais. Tenho certeza de que não se negará a ajudá-lo a superar essa fase. Quando ele tomar consciência do mal que provocou, ficará em crise. Vai precisar de apoio. O arrependimento dói e o remorso destrói a vontade de viver.

— Tem razão, doutor. Vou reagir. Não tomarei nenhuma decisão antes de Roberto recuperar a saúde.

— Vejo que entendeu. Recebeu meu cartão. Se precisar desabafar, conversar, procure-me.

Tem em mim um amigo.

— Obrigada, doutor. Fico-lhe muito grata pelo seu interesse. Suas palavras deram-me grande conforto.

Aurélio saiu e Gabriela foi mais uma vez tentar informar-se sobre o estado de Roberto. Ele continuava na mesma.

 

Gabriela acordou assustada e olhou para o relógio. Eram seis ho­ras e o dia já havia amanhecido. Levantou-se rápida. Dormira mais de oito horas. Vencida pelo cansaço, deitara vestida pretendendo descan­sar um pouco.

Lavou-se depressa, arrumou-se e quando se preparava para sair em busca de notícias uma enfermeira bateu levemente e entrou.

— Aconteceu alguma coisa? — indagou preocupada.

— O médico deseja vê-la na sala de consultas. Sabe onde é?

- Sim.

Com o coração descompassado, Gabriela entrou na sala do médico.

— Como está meu marido, doutor? Já acordou?

— Infelizmente, D. Gabriela, o estado de seu marido agravou-se esta madrugada. Está em coma.

— Por que não me avisaram? Eu estava cansada, peguei no sono. Meu Deus! Eu não podia ter dormido.

— A senhora estava exausta e foi melhor ter descansado. Vou per­mitir que visite seu marido.

— Ele vai morrer, doutor?

— Seu estado é grave, além disso há uma infecção generalizada que não conseguimos debelar.

A senhora precisa ser forte.

Gabriela sentiu as pernas bambearem e o médico amparou-a, obri­gando-a sentar-se.

— Se continuar assim, não permitirei que vá vê-lo.

— Por favor, doutor. Foi o choque, mas prometo me controlar. De­sejo vê-lo.

— Está bem. Se desmaiar lá dentro, pode atrapalhar o atendimen­to ao seu marido.

— Eu quero vê-lo.

O médico conversou com ela mais alguns minutos, deu-lhe um calmante e quando a viu mais controlada levantou-se dizendo:

— Venha comigo.

Com o coração aos saltos, Gabriela entrou na UTI esforçando-se para controlar a emoção.

Vendo o marido inconsciente, ligado aos aparelhos de controle, respirando de maneira irregular, Gabriela sentiu que as lá­grimas desciam pelas suas faces.

Aproximou-se do leito, segurou a mão do marido e inclinou-se, di­zendo ao seu ouvido:

— Roberto, neste momento difícil de nossas vidas, eu juro por Deus que sempre lhe fui fiel. Nunca o traí. Não nos deixe agora. Reaja.

Ele apertou a mão dela com força e Gabriela olhou para o médico dizendo admirada:

— Ele ouviu minhas palavras, apertou minha mão.

O  médico aproximou-se de Roberto, abriu-lhe as pálpebras, os lá­bios, auscultou-lhe o coração, depois disse sério:

— É impossível, senhora. Ele está inconsciente.

— Mas ele apertou minha mão.

— Deve ter sido algum espasmo. Ele não tem condições físicas de responder a nada.

— Posso ficar aqui com ele?

— Melhor não. A enfermeira ficará o tempo todo e nos avisará no caso de alguma mudança.

— Mas eu gostaria de ficar...

- Não é bom para ele. Precisa de sossego. Depois, no caso de pre­cisar de um atendimento urgente, sua presença poderá prejudicar. O paciente está em primeiro lugar. Ele precisa de toda a atenção.

Gabriela deixou a UTI abatida. Uma atendente aproximou-se:

— Deixei a bandeja do café em seu quarto. A senhora precisa se alimentar.

Gabriela foi para o quarto. Sentia um vazio no estômago e muita inquietação, O que seria de sua vida se Roberto morresse? A esse pen­samento sentiu tontura e resolveu reagir. Tinha de ser forte. Seus filhos precisavam dela.

Serviu-se de café com leite, comeu um pãozinho. O que fazer en­quanto esperava?

Telefonou para casa e conversou com Nicete sobre as crianças, in­formando-a sobre o estado de Roberto.

- Vou levar os dois para a casa da Alcina e logo estarei aí.

— É melhor ficar com eles em casa.

— A senhora não pode ficar sozinha agora. Fique tranqüila, estarão bem lá. Não vou agüentar ficar aqui quando a senhora está passan­do por tudo isso.

- Faça como quiser — concordou por fim. A presença de Nicete lhe daria conforto.

Eram oito horas quando Renato bateu na porta do quarto. Estava pálido e assustado.

— Roberto está em coma! — foi dizendo Gabriela assim que o viu.

— Fui informado assim que cheguei. E você, como está?

Ela deu de ombros, respondendo:

— O que posso dizer? Arrasada. Isso parece um pesadelo, uma men­tira. Como estão as coisas em sua casa?

— As crianças bem. Conversei com elas e expliquei tudo. Ricar­dinho compreendeu. Célia está inconformada. O advogado acompa­nhou o depoimento de Gioconda. Ela não falava coisa com coisa, por isso o delegado resolveu interrogá-la novamente hoje.

— Meu Deus! Até onde nos levará essa loucura?

— O Dr. Altino me preveniu de que nós dois precisaremos depor no inquérito.

— Ainda isso?

— Infelizmente não podemos evitar.

— Não vou sair daqui enquanto ele não melhorar.

— O delegado ainda não marcou nada. O Dr. Altino vai nos dar orientações.

       — Pretendo falar a verdade. Não temos nada a esconder. Isso mesmo. Ele vai nos orientar quanto às providências legais e ao inquérito.

Gabriela suspirou inquieta.

Depois de bater ligeiramente, Nicete entrou no quarto. Após os cum­primentos, indagou:

— Alguma novidade?

— Não — respondeu Gabriela. — Ele continua na mesma.

— Deus vai nos ajudar e ele vai ficar bom.

— Estamos rezando por isso — tornou Renato.

Roberto continuava em coma na UTL. Enquanto seu corpo lutava para manter-se vivo, seu espírito, agitado, lutava para entender o que estava acontecendo.

Quando foi atingido pelos tiros, conservou a consciência, sentiu que havia sido ferido e, apavorado, vendo-se estirado na calçada ao lado de Gabriela, que desmaiara, imaginou que ela também havia sido atingida.

Apesar do seu esforço para manter-se consciente, perdeu os senti­dos. Então começou para ele um período de inquietação, no qual se mantinha entre a semiconsciência e a lucidez. Queria ficar lúcido, acor­dar, saber o que estava acontecendo, porém não conseguia.

Momentos havia em que perdia completamente a consciência, ou­tros em que via seu corpo deitado na cama do hospital e ficava deses­perado. Teria morrido?

Quando freqüentou o centro espírita, disseram-lhe que a vida con­tinuava depois da morte do corpo e que a pessoa se sentia viva, como se ainda estivesse na carne.

Roberto não queria morrer. Apesar dos problemas que enfrentava, nunca lhe passara pela cabeça deixar o mundo. Pensava nos filhos, e as lágrimas desciam pelas suas faces sem que pudesse evitar.

Angustiado, atirava-se sobre o corpo, querendo dar-lhe vida, mas ao fazer isso sentia dores e acabava perdendo a consciência. Acordava novamente, como se estivesse vivendo um pesadelo.

Queria saber a ver­dade, ver Gabriela, os filhos, dizer que estava vivo e que não desejava deixá-los.

Por que havia acontecido isso com eles, por quê? Com medo de per­der a consciência, Roberto não se atirou mais sobre o corpo. Assim, acabou percebendo que estava no hospital. Via a enfermeiras fazendo o atendimento, e, quando o médico chegava, ficava do lado, ouvindo o que ele dizia.

Assim descobriu que seu estado se agravava a cada hora e, apavo­rado, não sabia o que fazer.

Entrar no corpo novamente era inútil, ape­nas conseguia perder a consciência e sentir-se mal.

O que fazer, então?

Arrependia-se de haver-se envolvido com Gioconda. Não pensa­ra que fazendo isso colocaria em risco a vida de Gabriela.

Naquela tarde ele se sentiu mais forte. Pensou que estivesse melhor, mas assustado viu que a enfermeira chamou o médico e que este cons­tatou o coma.

Quando Gabriela entrou na UTI, o espírito de Roberto estava lá. Vendo-a abatida porém ilesa, sentiu-se aliviado. Aproximou-se dela co­movido e ouviu quando ela disse emocionada:

— Roberto, neste momento difícil de nossas vidas, eu juro por Deus que sempre lhe fui fiel.

Nunca o traí. Não nos deixe agora. Reaja.

Foi acometido de incontrolável emoção. Sem pensar em mais nada, atirou-se sobre o corpo no desejo de voltar à vida. Sentiu-se mal, tonto, com dores pelo corpo, mas por alguns segundos teve a mão de Gabriela entre as suas e apertou-a com força. Depois, perdeu a consciência.

Acordou algum tempo depois olhando ansioso em volta, à pro­cura de Gabriela. Mas ela não estava no quarto. Recordou-se das pa­lavras dela, e todo o seu ciúme, sua dúvida, desapareceu como por encanto.

Em seu lugar apareceu o remorso, a certeza de que em sua loucura provocara a tragédia que estavam vivendo. Por que se deixara envol­ver pelo ciúme daquela forma? Por que esquecera toda a dedicação, o amor, o carinho que Gabriela manifestara todos os anos em que vive­ram juntos?

O remorso dói, e Roberto viveu horas de angústia e arrependimen­to, O que fazer agora para remediar o mal que fizera? Por mais que pen­sasse, não conseguia encontrar saída. Estava preso àquele quarto, ten­do à sua frente seu corpo semidestruído lutando para manter-se vivo. E se ele não conseguisse? E se por fim ele morresse, cortando definitiva­mente o vínculo que tinha com o mundo? O que seria dele dali para a frente? Se ao menos a morte fosse o fim de tudo, o esquecimento, odes-canso eterno, talvez fosse bom.

Mas, pelo que estava percebendo, o espírito tem vida própria e pode continuar vivendo sem estar na carne. Teria de sofrer aquele pe­sadelo para sempre?

No auge do desespero, sentindo que precisava encontrar uma saí­da, lembrou-se de Deus. Ajoelhou-se, dizendo entre lágrimas:

— Meu Deus! Grande foi meu erro, minha cegueira, minha lou­cura. Menti, envolvi Gabriela em uma tragédia, acabei com minha vida. Sei que não mereço sua misericórdia, mas estou arrependido. Peço uma nova oportunidade. Ajude-me! Permita que eu volte à vida e possa re­parar esse erro. Enlameei o nome da mãe de meus filhos, da mulher que jurei amar e defender a vida inteira! Preciso voltar, pedir que me per­doe, reparar todo o mal que causei! Sei que vai me ajudar.

Só o senhor pode me tirar deste pesadelo terrível. Não me abandone!

Naquele momento Roberto sentiu ter sido arremessado para outro lugar. Viu-se em uma sala em penumbra, onde algumas pessoas oravam em silêncio. Ele conhecia aquelas pessoas. Cilene estava entre elas.

Emocionado, aproximou-se dela, dizendo:

— Cilene, sou eu, Roberto. Você me atendeu e me ajudou muitas vezes. Vim pedir auxílio.

Estou desesperado.

Repetiu a frase algumas vezes e ouviu quando ela disse em voz alta:

— Está aqui um espírito que precisa de ajuda. Vamos orar.

Então Roberto sentiu uma espécie de tontura e viu que estava ao lado de uma senhora que não conhecia. Disse aflito:

— Por favor, tenho que falar com alguém, me atendam. Eu fre­qüento aqui. Vocês já me ajudaram muito.

Admirado, percebeu que a senhora repetia suas palavras em voz alta e todos estavam ouvindo. Continuou:

—        Meu corpo está em coma no hospital. Preciso que me ajudem. Não quero morrer. Errei, mas estou arrependido. Por favor, vocês falam com os espíritos de luz, me ajudem. Eu preciso viver, tenho dois filhos para criar. Tudo aconteceu por minha culpa.

Cilene respondeu com voz calma:

— Estávamos orando por você. Temos acompanhado seu caso pe­los jornais.

— Não sei o que disseram, mas Gabriela é inocente. Sempre me foi fiel. Oh, o ciúme! Se eu pudesse voltar atrás... Foi por causa dele que armei a cilada que nos precipitou nesta tragédia. Eu desejo viver, defen­der Gabriela e criar meus filhos! Preciso dessa oportunidade para des­fazer todo o mal.

— Acalme-se, Roberto. Acima de nossa vontade está a de Deus. Só ele poderá fazer o que pede. Todavia, estamos intercedendo por você. Procure não agravar sua situação mergulhando no desespero ou na revolta. Sempre que tomamos alguma atitude, não sabemos bem até onde ela nos levará. Mas a vida é mestra e deseja nossa felicidade. Va­mos confiar no futuro, pedir a Deus que nos abençoe e que permita sua recuperação.

— Diga que vou ser atendido.

— Vamos pedir. O resultado pertence a Deus. Mas saiba que, acon­teça o que acontecer, tudo será para o melhor. Confie, ore e espere. Procure cultivar a confiança. Vai acontecer o melhor.

Naquele momento Roberto viu o espírito de uma mulher de meia-idade, cujos cabelos grisalhos estavam rodeados por uma auréola de luz prateada. Ela se aproximou dele, dizendo com doçura:

— Vamos ajudá-lo agora, acalmar seu coração. Só a harmonia pode nos ajudar nos momentos difíceis. Por isso, você vai pensar no bem e manter a confiança.

Ele quis falar, mas não conseguiu. Ela estendeu as mãos sobre a ca­beça dele, e delas saíam energias coloridas que entravam pelo seu coro­nário. Ele sentiu grande bem-estar. Naquele momento, toda a sua an­gústia desapareceu. Em sua mente ele viu como em um filme todos os momentos importantes de sua vida.

Ela se aproximou de uma senhora presente, dizendo:

— Vamos ajudar. Procurem Gabriela no hospital e tragam-na aqui.

— Não a conheço — tornou Cilene —, não sei se virá.

— Vá até lá e nós a ajudaremos a trazê-la.

Cilene prometeu ir falar com ela. Roberto, aflito, olhou para o es­pírito da mulher que o socorrera, ansioso para perguntar, mas com medo de saber se iria morrer ou viver. Ela olhou em seus olhos e disse:

— O momento é de oração e fé. Faça sua parte, mentalize luz e evite dramatizar. Entregue o resultado nas mãos de Deus na certeza de que, embora nem sempre as coisas sejam como desejamos, sempre acontece o melhor. Devo dizer que precisamos muito da sua força e da sua fé.

É importante que nos ajude.

— Está bem — respondeu ele em pensamento, dominado pela energia agradável que vinha dela. Só não quero perder a consciên­cia outra vez.

— Acalme-se. Você agora vai dormir um pouco. Quando acordar, se sentirá melhor.

Ficaremos do seu lado, aconteça o que acontecer.

Cilene saiu da reunião pensando em como saber em qual hospital Roberto estava. Procurou a ficha de atendimento de Roberto e encon­trou o número do telefone de sua casa. Olhou o relógio: passava das nove da noite.

Ligou e Nicete atendeu. Cilene perguntou por Gabriela. Meu nome é Nicete, trabalho aqui. D. Gabriela está no hospi­tal com o marido. Quem está falando?

— Cilene, uma amiga do Sr. Roberto. Poderia me dizer em que hospital eles estão? Pretendo visitá-los.

— O Seu Roberto não pode receber visitas. Pode deixar o telefo­ne que eu falo com a D. Gabriela.

— Preciso ir até lá com urgência. Minha visita não é apenas de cor­tesia. Trabalho no centro espírita que o Sr. Roberto freqüentava. Ora­mos por ele e recebemos a incumbência de ajudar espiritualmente no seu tratamento.

Apesar de estranhar que Roberto houvesse freqüentado um centro espírita, Nicete informou o endereço do hospital imediatamente. Ela tam­bém estava rezando, pedindo ajuda aos espíritos.

— Eles estão precisando muito. Deus abençoe vocês por essa ajuda.

Cilene convidou um companheiro do centro a acompanhá-la até o hospital. Meia hora depois, ela e Hamílton, seu companheiro de tra­balho espiritual, batiam na porta do quarto de Gabriela.

Uma atendente que passava informou que ela estava na lanchone­te. Eles foram até lá e um funcionário indicou a mesa onde Gabriela e Renato conversavam. Ele havia insistido para que ela se alimentasse, to­masse pelo menos um café com leite.

Sabendo que precisava conservar suas forças, Gabriela concorda­ra. Havia terminado e se preparavam para voltar ao quarto quando os dois se aproximaram.

— D. Gabriela?

Admirada, ela assentiu com a cabeça. Cilene continuou:

— Meu nome é Cilene, e este é Hamílton. Somos amigos do Sr. Roberto, seu marido. Precisamos conversar com a senhora em particu­lar. Pode nos dar alguns momentos de atenção?

— Claro. Mas... poderia esclarecer melhor? Não me lembro de vocês.

— A senhora não nos conhece. Somos do centro espírita onde seu marido fazia tratamento.

Gabriela olhou admirada para Renato. Roberto nunca lhe falara nada sobre o assunto. Renato interveio:

- Meu nome é Renato, sou amigo da família. O que desejam?

— Gostaríamos de conversar a sós com ela. O assunto é delicado.

— O Dr. Renato está nos ajudando. Pode falar.

É melhor irmos até o quarto — sugeriu Renato. — Aqui há muito barulho.

Uma vez no quarto, Cilene começou:

— Há mais ou menos um ano, atendi seu marido no centro espíri­ta onde somos voluntários. Ele estava desesperado por haver sido rouba­do pelo sócio. Conversamos e pedi a ele que freqüentasse nossas reuniões de energização e ajuda. Não sei se os senhores sabem como funciona.

— Já ouvi falar — respondeu Gabriela. — Nicete, minha empre­gada, costuma ir a um centro de vez em quando.

- Pois bem. Soubemos o que aconteceu pelos jornais e ontem em nossa reunião espiritual colocamos o nome dele para nossas orações. Então eu vi o espírito de Roberto do meu lado.

Gabriela levantou-se da cadeira, assustada:

— Como assim? Ele ainda não morreu. Sempre ouvi dizer que eles se comunicam depois da morte.

Hamílton interveio:

— Em certas circunstâncias, fazem isso sem terem morrido.

— É difícil acreditar disse Renato, que nunca se interessara por esse tipo de fenômeno.

— Mas ele ficou do meu lado implorando ajuda. Disse que seu cor­po estava em coma no hospital e que ele não queria morrer. Disse tam­bém que tudo aconteceu por culpa dele, que foi ele quem armou toda a cilada que resultou nesta tragédia. Que está arrependido. Que agora sabe que você é inocente e que sempre lhe foi fiel. Que seu ciúme foi a causa de tudo. Implorou nossa ajuda.

Gabriela deixou-se cair na cadeira, emocionada:

— Então ele ouviu o que eu lhe disse na UTI. Eu sei que ouviu. Ele apertou minha mão. Meu Deus! Ele está consciente!

— Os médicos garantem que uma pessoa em coma não ouve nada. Isso não pode ser! — disse Renato.

— Então os médicos estão enganados, e ele não está em coma —tornou Gabriela. — O que sei é que ele apertou minha mão e eu senti que ele entendeu o que eu disse e acreditou em mim. Eu jurei que nun­ca o havia traído. O que mais ele lhe disse?

— Que deseja viver para reparar seu erro, para defender você e criar seus filhos.

— É verdade! Eu acredito. Diga-me: o que podemos fazer para ajudá-lo?

— Nossos guias pediram que você vá orar conosco em nossa reunião.

— Quando? Não quero sair daqui enquanto ele não melhorar.

- O quanto antes, melhor. Vai demorar pouco mais do que uma hora entre ir e voltar.

— Posso levá-la — ofereceu Renato.

Hamílton olhou sério para ele e respondeu:

— É bom mesmo. O senhor também precisa muito da ajuda espi­ritual. Seus filhos estão muito atingidos emocionalmente. Eles fazem o possível para não o preocupar, porém estão sofrendo.

Vejo uma meni­na chorosa, mas o menino fecha-se no quarto e chora agoniado. Quer parecer forte, mas está cheio de medo e de dúvidas.

Renato ia dizer algo, mas desistiu. Como aquele homem podia sa­ber detalhes do comportamento de seus filhos se ele não tinha dito nada? Bem que desconfiava das atitudes de Ricardinho, mostrando-se cordato, alegre, disposto. Suas olheiras indicavam que ele não estava tão bem quanto queria parecer.

— Eles também precisariam ir até lá?

— No momento, não. O desequilíbrio emocional deles vem de muito tempo. As crianças são sensíveis às energias dos pais. Saiba que um relacionamento perturbado no lar acaba sempre os atingindo. A in­segurança de sua esposa afetou-os bastante.

— De fato. Minha mulher sempre foi insegura... Não sei o que dizer.

— Vá com D. Gabriela e vamos orar juntos pelo bem-estar das duas famílias.

— Obrigado — disse Renato, comovido. — Amanhã estaremos lá.

Depois que eles se foram, Gabriela olhou para Renato sem saber o que dizer.

— Estou tão admirado quanto você — tornou ele. — O que eles nos disseram me impressionou muito. Em poucas palavras o rapaz descreveu todos os meus problemas com Gioconda. É difícil acreditar no que disseram, mas eles não nos conhecem, como podem saber tanto so­bre nossas vidas?

— Faz tempo que Nicete me pede para ir a um centro espírita. Apesar de respeitar as crenças dela, nunca levei a sério. Roberto, no en­tanto, estava indo lá e nunca me disse.

— Roberto é reservado. Não falou do centro nem do psiquiatra. É mesmo. Houve um tempo em que ele andou muito deprimi­do, mas depois foi melhorando. Ultimamente começou a ganhar dinheiro novamente e eu pensei que a crise houvesse passado. Mas o ciú­me derrubou-o novamente, e desta vez foi pior.

— Sempre agüentei os desentendimentos com Gioconda porque acreditava que uma separação iria desestruturar nossa família, que as crianças seriam muito prejudicadas. Agora, vendo os resultados, notan­do o sofrimento dos meus filhos, tenho minhas dúvidas. Arrastar um casamento errado e destrutivo como o meu talvez tenha sido a pior coi­sa que fiz.

Gabriela ficou pensativa por alguns instantes, depois, olhos perdi­dos em um ponto distante, considerou:

— Uma separação sempre traz sofrimento para a família. O que resta saber é o que machuca mais. Tenho pensado muito nisso. Preten­do ficar ao lado dele até que recupere a saúde, depois vou me separar. Quando a confiança acaba, não resta mais nada.

Renato fitou-a triste e não respondeu. A tragédia tomara conta das duas famílias e ele estava tão deprimido quanto ela. Não se sentia em condições de dar opinião. Pretendia defender Gioconda na justiça, apoiá­la dando-lhe bons advogados, mas já se considerava separado. Assim que o caso dela fosse julgado, ele partiria para uma separação judicial.

Iria brigar pela posse dos filhos. Depois do que ela fizera, talvez isso não fosse difícil de conseguir. Gioconda não tinha condições para edu­car os filhos.

Gabriela continuou:

— O ideal teria sido escolher melhor a pessoa com a qual quería­mos nos casar. Muitos casamentos estão errados desde o começo.

— Tem razão. O difícil é ter discernimento na hora de escolher. Dei­xamo-nos levar pela atração física, pelos interesses pessoais, pelos nos­sos sonhos de ter uma família ideal. Projetamos nossos desejos em al­guém que “parece” ser tudo que desejamos. Assumimos papéis sociais pretendendo impressionar o parceiro e não temos como avaliar o que cada um é de verdade. Com o tempo e a convivência, percebemos o quanto a pessoa é diferente do que havíamos imaginado. Então vem a roti­na, a insatisfação.

— E a desilusão. Mas é tarde. O mal já está feito. E os filhos é que sofrem pela nossa inexperiência.

— Gioconda disse que deseja falar comigo. Eu não vou. Prefiro que o advogado trate de tudo.

Gabriela suspirou angustiada. Reconhecia que Renato estava em uma situação delicada.

— Nossos visitantes estão certos. Só Deus pode nos socorrer, ali­viar nossa dor. Já pensou se Roberto morrer?

— Isso não pode acontecer. Você tem razão. Está na hora de rezar. Pela primeira vez em minha vida me sinto impotente diante dos fatos. Não podemos nos entregar ao desânimo, pensando no pior. Essa tem­pestade vai passar e a calma voltará em nossas vidas.

— Vamos perguntar sobre Roberto — lembrou Gabriela.

— Sim. Vamos, e depois vou embora. As crianças podem preci­sar de mim.

Roberto continuava na mesma. Depois que Renato se foi, Gabrie­la foi para o quarto. A visita de Cilene e Hamílton confortara-a. Saber que havia pessoas que compartilhavam sua dor e desejavam ajudá-la fa­zia-a sentir-se apoiada. Era uma esperança à qual ela queria apegar-se.

Deitou-se e pensou em Deus. Nunca fora muito inclinada à reli­gião. Sua mãe era católica praticante, mas Gabriela, apesar de respei­tar sua crença, não se detinha pensando nisso.

Seu temperamento prático e objetivo rejeitava as regras, os rituais e os mistérios com os quais seus adeptos tentavam explicar o inexplicá­vel. Não era uma pessoa mística.

Por isso nunca fora a um centro espírita, como aconselhava Nice­te, nem a uma igreja católica, como sua mãe gostaria. Tinha sua própria maneira de olhar a vida. Não era descrente. Acreditava que o univer­so, é sempre perfeito mantendo o equilíbrio dos astros e de tudo; a natu­reza, com sua versatilidade, suas leis inexoráveis; tudo isso era coman­dado por uma força maior.

Porém não se detinha pensando nisso, porque acreditava não ter discernimento para entender.

Pensava que, se isso fosse preciso, a vida lhe daria esse conhecimento.

Agora, depois do que soubera de Roberto, mil perguntas iam-lhe à mente. Pela primeira vez detinha-se nos mistérios da vida e da mor­te, querendo saber como era aquilo.

Se Roberto pôde deixar o corpo em coma no hospital e foi em busca da ajuda dos amigos, era porque ele não dependia do corpo físico para estar consciente. O que o impedia de voltar àquele corpo e tornar à vida? Por que, apesar de estar consciente do próprio estado, não con­seguia acordar?

Quanto mais pensava, mais desejava que o tempo passasse depres­sa. Talvez na noite seguinte, quando fosse ao encontro de Cilene e Ha­mílton, as respostas começassem a aparecer.

Estendeu-se na cama ainda vestida, porque pretendia saber de Ro­berto de madrugada.

Decidiu rezar. Fechou os olhos e pensou na força que move o universo. Essa era sua concepção de Deus. Evocou essa for­ça e abriu seu coração pedindo ajuda e esclarecimento.

Nem sequer percebeu que adormeceu e, pela primeira vez depois de muito tempo, mergulhou em um sono reparador.

 

Gabriela acordou assustada e olhou em volta. A atendente havia entrado no quarto trazendo o café. O dia estava claro e ela olhou o re­lógio admirada. Eram seis e meia.

Levantou-se rápido. Como pudera dormir tanto? Lavou-se, tomou um gole de café preto e saiu em busca de notícias de Roberto. Por que não havia acordado antes? Certamente o cansaço a fizera dormir demais.

No corredor da UTI, procurou por uma enfermeira, que, vendo-a, disse:

— Seu marido ainda não acordou.

Continua em coma?

— Sim.

Demonstrando desânimo, Gabriela passou a mão pela testa. A en­fermeira continuou:

— Não fique triste. Pelo menos o estado dele não se agravou. Está resistindo. Nesses casos, já é um bem.

— Obrigada.

Gabriela voltou ao quarto e procurou se alimentar. Cilene tinha ra­zão: quando Roberto melhorasse, iria precisar muito dela. Depois, ha­via as crianças. Precisava estar forte.

Renato ligou na hora do almoço para saber notícias e combinou que iria ao hospital buscá-la para irem ao centro espírita.

Nicete deixou as crianças na escola e foi ao hospital. A pedido de Gabriela, ela conversou com a diretora do colégio, contando-lhe o que acontecera, pedindo-lhe para dar especial atenção às crianças e as dei­xou assistir às aulas diante da promessa de que não só cuidariam delas como a diretora falaria com as professoras para que não permitissem ne­nhum comentário sobre o que acontecera com seus pais.

— Não gostaria que perdessem o ano — comentou Gabriela.

— A diretora ficou muito sensibilizada. Garantiu que durante o re­creio cuidará deles pessoalmente.

— Nesse caso, fico mais tranqüila.

Gabriela contou a visita dos médiuns e o que havia acontecido.

— Graças a Deus! Então era lá que o Seu Roberto ia. Eu reparei que ele tinha dia certo para chegar mais tarde. Que bom.

— É difícil acreditar numa história dessas. Mas como é que eles po­diam saber o que eu tinha dito a ele na UTI? Depois, tenho certeza de que Roberto ouviu, porque apertou minha mão.

— Os médicos não acreditam.

— Disseram que era impossível. Quem está em coma não ouve nada.

— Mas o espírito dele ouviu. Nesse caso, ele estava fora do corpo e consciente.

— Como pode ser isso?

— Nós somos espíritos, D. Gabriela. Além do corpo de carne, te­mos o corpo astral.

— Será?

— Claro. É com ele que saímos todas as noites quando nosso cor­po de carne adormece.

Muitas vezes visitamos outros mundos durante o sono. A senhora nunca sonhou que estava voando?

— Já, mas daí a acreditar...

- Nunca se perguntou com que olhos a senhora enxerga quando sonha? Seu corpo de carne está dormindo e tem os olhos fechados...

— Nunca pensei nisso.

— É hora de pensar. Cada pessoa tem sua hora de ser chamada para entender da vida espiritual. Faz tempo que eu percebi que vocês estavam sendo chamados. Por isso pedia para a senhora ir ao centro.

— Você está exagerando. Tudo aconteceu por causa do ciúme.

- É verdade. Mas faz tempo que as coisas não estavam bem entre vocês. Quando isso acontece, está na hora de parar e pensar. Vocês vi­veram bem durante anos, mas, desde que o Seu Roberto foi roubado pelo sócio, tudo começou a mudar.

— Isso é verdade. Mas essas coisas acontecem a qualquer um. Não vamos torcer os fatos.

Neumes era desonesto, e um dia isso teria que acon­tecer. Roberto foi ingênuo deixando tudo nas mãos dele.

— A senhora está vendo as coisas como elas parecem ser. Tenho aprendido que, quando a vida coloca desafios em nosso caminho, é hora de mudar. A vida é sábia. Se vocês não tivessem que passar por isso, ele teria descoberto a tempo e desfeito a sociedade.

Gabriela sacudiu a cabeça:

— Você está sendo fatalista. Roberto errou e por isso estamos pas­sando por tantos problemas.

— Concordo com a senhora. Mas o erro é a forma de a vida nos ensinar. Por isso, quando algo nos acontece de mau, o jeito é tentar descobrir o que a vida pretende nos ensinar com isso.

Nada nos acon­tece por acaso. Tudo é resultado das nossas atitudes. Mas, quando des­cobrimos quais as atitudes que não são boas e nos esforçamos para mudá-las, evitamos que o erro se repita. Aprendemos a lição e pronto. Tudo volta ao normal de forma melhor.

Gabriela ficou pensativa alguns instantes. Depois disse:

— O que você diz tem lógica. Mas o que a vida queria nos ensinar com aquele sócio ladrão?

— Isso eu não sei. Só a senhora e o Seu Roberto é que poderão di­zer. O que sei é que para cada um o mesmo acontecimento funciona de maneira diferente. Para mim foi como um alerta.

Desde o começo eu sentia que o Seu Neumes não era gente boa. Dizer isso agora parece bobagem. Ele sempre foi educado, me tratou bem. Mas eu sentia que al­guma coisa dentro de mim rejeitava aquele homem.

— É curioso, mas isso eu também sentia. Várias vezes tentei aler­tar Roberto, que confiava demais nele.

— Nós temos intuição. No centro eles me ensinaram que nosso es­pírito sente se as energias das pessoas são boas ou ruins. E tenta nos pre­venir através da intuição. Com o caso do Seu Neumes, eu aprendi que, quando sinto essa rejeição, não devo confiar na pessoa. Por isso, agora, dou atenção ao que estou sentindo e tomo meus cuidados.

— Nós sentimos, mas Roberto não. Se isso fosse verdade, ele tam­bém teria sentido e reagido a tempo.

— Não pode generalizar. Cada um tem um grau de sensibilidade desenvolvida. Nós temos mais do que ele. As pessoas não são iguais.

— É. Pode ser. Bom, agora vamos ver o que vai acontecer.

— Se eu pudesse, iria com vocês a esse centro. Deve ser muito bom, para fazer um trabalho desses. Mas tenho que ficar com as crianças.

Depois eu conto tudo.

— Os meninos querem vir aqui. Estão sentindo muito a sua falta.

— Diga-lhes para terem paciência. Quando Roberto melhorar, irei vê-los.

— É isso que tenho prometido a eles.

Nicete foi embora e Gabriela estendeu-se na cama. Renato havia-lhe trazido algumas revistas, mas ela não sentia vontade de ler. O momen­to que estava vivendo era difícil, e não conseguia pensar em outra coisa.

Estava apreensiva quanto ao futuro. Se Roberto sobrevivesse, o que faria? Depois do que ele fizera, não poderia continuar vivendo a seu lado. Como confiar em um homem que prometera protegê-la e não ti­tubeara em falsificar sua assinatura para que ela fosse tida como ladra?

Ao pensar nisso, estremecia e sentia que seu amor por ele havia terminado. Apesar disso, não queria que ele morresse. Como continuar trabalhando com Renato se isso acontecesse? Seria muito pior. Gioconda seria condenada, passaria anos na prisão, e ela ficaria constrangida em continuar na empresa. De todas as maneiras, sua vida nunca mais seria a mesma.

Começou a pensar que, acontecesse o que acontecesse, o melhor seria ela ir para outra cidade com os filhos e recomeçar a vida. Deseja­va esquecer. Isso não aconteceria se continuasse a trabalhar com Rena­to, tendo sempre o olhar acusador das pessoas diante dos olhos e principalmente o ódio de Gioconda e de Georgina.

Esquecer seria uma bênção. Quando tudo passasse, era isso que ela iria fazer.

Renato chegou para buscá-la meia hora antes do combinado. Ele também estava ansioso para ir ao centro. Acreditava em Deus, mas não nos homens. Para ele, religião era coisa dos homens.

Deus mandava os profetas, os iniciados, os sábios, e através deles fazia revelações sobre a espiritualidade, porém os homens interpretavam essas revelações conforme os próprios interesses e criavam as religiões. Preconceituosas, inimigas entre si, brigavam competindo sobre quem es­tava com a verdade, chegando às guerras e à violência.

Temia o fanatismo. Por isso tinha sua própria maneira de demons­trar fé. Acreditava que, sendo honesto, justo, tolerante, teria a prote­ção de Deus.

Entretanto, o que Hamílton lhe dissera revelara um lado que ele desconhecia. No momento mesmo em que se encontrava em uma en­cruzilhada, tendo de tomar decisões difíceis que influenciariam o futu­ro de seus filhos, sentia que precisava de algo mais.

Naquela manhã havia ido à delegacia a pedido do advogado de Gioconda. Ela estava desesperada. Não se alimentava e pedia incessan­temente a presença do marido.

O delegado pedira a Altino que o fosse buscar para conversar com ela. Apesar de não desejar vê-la, Renato resolveu ir. Ele e o advogado foram conduzidos a uma sala, e logo depois Gioconda, amparada por um policial, entrou.

Estava pálida, com profundas olheiras, havia emagrecido. Vendo-o, correu para ele gritando nervosa:

— Renato, quero ir embora! Leve-me para casa. Não quero mais ficar aqui.

— Não posso. Você vai ter que ficar.

— Não. Por favor! Quero ver as crianças... Não agüento mais. Por que você fez isso comigo?

Por quê?

Renato, que a princípio ficara penalizado, afastou-se, dizendo:

— Eu não fiz nada. Você e Roberto tramaram tudo. Agora ele está entre a vida e a morte, e você presa. Não posso fazer nada.

- Eu não queria atirar nele. Por que ele se colocou entre mim e ela?

— Porque ele sabia que ela é inocente e arrependeu-se do que fez.

Gioconda trincou os dentes com raiva:

— Inocentes? Pensa que eu acredito? Eu só estou arrependida de haver atirado nele, mas, se tivesse sido nela, eu estaria feliz. Ela me rou­bou tudo que eu tinha e me reduziu ao que sou agora.

A voz de Renato estava fria quando respondeu:

- Você está louca. Se continuar agindo dessa forma, não haverá advogado que consiga tirá-la da cadeia. Gabriela é inocente, e você uma irresponsável. Fez tudo sem ter a mínima prova.

Destruiu não só sua vida, mas também a de todos nós. Duas famílias, quatro crianças mar­cadas pela sua leviandade.

— Você quer me deixar aqui para ficar livre. Agora o caminho está aberto para vocês dois. É isso que não posso suportar!

— Vim vê-la para tentar ajudá-la. Mas estou constatando que é im­possível. Você não está em seu juízo perfeito. Depois do que fez, trate de se acalmar e enfrentar as conseqüências. O Dr. Altino vai fazer sua defesa. É só o que posso fazer por você. Enquanto continuar agindo des­sa forma, não voltarei mais aqui. Não adianta mandar me chamar. O tem­po da chantagem acabou.

Aqui, ninguém mais vai lhe dar ouvidos. Pode se fazer de doente o quanto quiser.

— Não me deixe aqui, por favor. Eu faço o que você quiser. Estou disposta a perdoar tudo.

— Não preciso do seu perdão. Sou inocente. Agora preciso ir. O melhor que tem a fazer é agüentar firme e não agravar sua situação com a justiça.

— Não me abandone, Renato. Sou sua mulher, a mãe de seus filhos.

— Não a estou abandonando. Terá tudo que precisa para se defen­det. Mas quem decide agora não sou eu, é a justiça. Nada posso fazer. Pense nisso e trate de assumir a responsabilidade pelos seus atos. Você não é mais uma criança. Apesar de tudo, não vou abandoná-la. Mas não espere apoio pelo que fez. Isso é impossível.

Ela fez menção de agarrá-lo, mas o advogado interveio conciliador:

— Acalme-se, D. Gioconda. Desse jeito iremos embora e não va­mos poder conversar.

Ela se voltou para ele, aflita:

— Ele quer me deixar aqui! Não tem pena do meu sofrimento!

— Não seja injusta. A senhora está presa e só a justiça poderá dar-lhe liberdade. Seu marido está se esforçando para ajudá-la, apesar do seu gesto. Eu vim a pedido dele para trabalhar para libertá-la, e no momen­to isso é impossível. A senhora foi presa em flagrante, está descontro­lada.

Apesar de ser primária, o juiz determinou que aguarde o jul­gamento na prisão porque entende que a senhora poderá atingir outras pessoas. Seu rancor, sua atitude, tornou mais complicada a situação que já era difícil. Como seu advogado, aconselho-a a moderar sua lingua­gem, a tentar manter-se calma. O delegado sugeriu o tratamento psiquiá­trico. Se aceitasse e colaborasse com um tratamento nesse sentido, tal­vez pudéssemos atenuar sua pena.

— Eu não sou louca. Fiz isso porque estava ferida pela traição.

— Pode alegar ciúme para justificar-se, contudo seu rancor, ma von­tade, descontrole emocional, não está ajudando em nada. Se concordar com a visita do psiquiatra e submeter-se a um tratamento, poderemos ale­gar que agiu sob forte emoção e não tinha condições de controlar-se.

— Quer que eu diga que sou desequilibrada? Nesse caso, quem vai acreditar em mim? Eles se dizem inocentes. Agindo assim, ficarei desa­creditada. Depois, eu não sou uma louca que fantasiou as coisas. Sou uma mulher que foi vítima de adultério e perdeu o controle.

— Pense bem, D. Gioconda. Roberto está em coma no hospital. Se ele morrer, sua situação ficará muito pior. Poderá pegar uma pena de muitos anos.

Gioconda olhou para o marido, gritando nervosa:

- Você vai permitir isso? Vai deixar que eu seja condenada e pas­se anos na prisão?

- Não tente jogar a culpa sobre mim, como sempre faz. Nada te­nho a ver com o que aconteceu. Nunca tive nada com Gabriela, que éuma mulher honesta e preocupada com a própria família. Você criou tudo, fez tudo e agora vai responder pelo que fez. Ninguém poderá ajudá-la se não cooperar. Agora preciso ir. Se concordar com a ajuda psiquiátri­ca, pagarei as despesas.

Gioconda começou a chorar em desespero, e Renato saiu da sala dizendo ao advogado:

— Estou à disposição para o que precisar. Até logo.

Saiu sentindo a cabeça pesada, o peito oprimido. Quando se viu na rua, respirou fundo na tentativa de refazer um pouco as forças. Sentia-se deprimido, irritado.

Gabriela, vendo-o, notou logo que não estava bem.

- Aconteceu alguma coisa? Você está abatido.

- Estou deprimido. Fui com o Dr. Altino à delegacia falar com Gioconda. Ela estava desesperada e o delegado me pediu que fosse conver­sar com ela.

Como Gabriela não respondeu, ele prosseguiu:

— Gioconda está descontrolada. Pensei que estivesse arrependida, mas não. Continua rancorosa, acreditando que foi traída.

— Ela está tentando justificar o que fez. Quer colocar a culpa sobre nós.

- Isso mesmo. Quer que eu a leve para casa, como se não houves­se feito nada. O delegado sugeriu a ajuda de um psiquiatra. Ela não quer.

— Sua mulher sempre teve um comportamento neurótico. Um tratamento adequado talvez tivesse evitado esta tragédia.

— As coisas foram acontecendo aos poucos. Apesar do descon­trole dela, nunca imaginei que chegasse a este ponto. Mas e Rober­to, melhorou?

       Continua na mesma. Estou com medo. Não quero que morra. Eu também não. Estou ansioso para ir a esse centro. Vamos, que está na hora.

No centro, foram recebidos por Hamílton, que os encaminhou para uma sala iluminada por uma fraca luz azul. No meio, um círculo de pessoas sentadas tendo ao centro um banquinho vazio.

No canto, algumas cadeiras vazias, e Hamílton pediu que se sen­tassem. Ouvia-se uma música suave, e Gabriela, assim que se sentou, sen­tiu que estava exausta. Sua resistência chegara ao limite e ela deixou correr livremente as lágrimas que, em profusão, lavavam seu rosto.

Renato sentiu que uma brisa leve o tocava, comovendo-o, fazen­do-o lembrar-se de Deus.

Pensou nos filhos, e pela primeira vez em sua vida pediu a Deus que o inspirasse a encontrar o jeito melhor para re­solver os problemas que o afligiam.

Nunca havia sentido, como naquele momento, o quanto era frágil e limitado, o quanto se via impotente para decidir o rumo que daria à sua vida e à de seus filhos, dali para a frente. Mas, ao mesmo tempo, era con­fortador saber que em algum lugar do universo havia seres bondosos e sábios, capazes de ajudá-lo, e que ele poderia esperar por dias melhores.

Hamílton tocou o braço de Gabriela e ela se levantou. Ele a con­duziu para o meio do grupo e fê-la sentar-se no banquinho e ficou do lado de fora.

No mesmo instante, algumas pessoas remexeram-se na cadeira, in­quietas. Gabriela sentiu que seu desespero aumentava, teve vontade de levantar-se e sair correndo. Olhou para Hamílton e fez menção de le­vantar-se, mas ele lhe fez um sinal para que continuasse sentada.

Gabriela fechou os olhos, tentando controlar-se. Estava apavora­da. Parecia-lhe que algo terrível estava para acontecer.