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Paul Rashid era um dos ingleses mais ricos do mundo. Ele também tinha antepassados árabes, e poucas pessoas poderiam dizer qual das duas influências governava seu coração.
O pai de Paul tinha sido o líder dos beduínos Rashid, na província de Hazar, no Golfo Pérsico, e um soldado por berço e por tradição. Enviado ainda jovem para a Real Academia Militar em Sandhurst, ele conheceu lady Kate Dauncey, a filha do conde de Loch Dhu, em um baile de gala ali realizado. Ele era rico e bonito e, apesar dos óbvios problemas, foi amor à primeira vista. Não obstante o receio dos pais de ambos, eles se casaram, sendo que o pai de Paul viajava de um lado para o outro entre a Inglaterra e o Golfo quando havia necessidade. Ao longo dos anos eles tiveram quatro filhos: Paul, o mais velho, Michael, George e Kate.
Os filhos sentiam um imenso orgulho de ambos os lados da família. Em deferência a seu ilustre passado omani, todos falavam árabe fluentemente e eram beduínos no coração, mas, como Paul Rashid diria, a metade inglesa era tão importante quanto a árabe, e eles defendiam ardentemente o nome Dauncey e a herança de pertencer a uma das famílias mais tradicionais da Inglaterra.
As duas tradições corriam juntas em seu sangue, a medieval britânica e a beduína, gerando uma impetuosidade geral, mais acentuada em Paul, e que talvez fosse mais bem ilustrada por um extraordinário incidente que ocorreu quando Paul estava prestes a se formar em Sandhurst.
Ele havia voltado para passar alguns dias de licença em casa. Michael tinha 18 anos naquela época, George, 17 e Kate, 12.
O conde havia viajado para Londres e Paul foi para Hampshire, onde encontrou a mãe na biblioteca de Dauncey Place, com o rosto muito machucado. Ela se aproximou para abraçá-lo e foi Kate quem disse: — Ele deu um soco nela, Paul. Aquele homem horrível deu um soco na mamãe!
Paul virou-se para Michael e falou cuidadosamente: — Explique isto.
— Andarilhos. Vários deles entraram no bosque Roundhay com quatro trailers e alguns cavalos. Seus cães mataram nossos patos e nossa mãe foi falar com eles.
— Você deixou que ela fosse sozinha?
— Não, todos nós fomos, até Kate. Os homens riram da gente e, em seguida, quando mamãe começou a gritar com eles, o líder, um homem grande, muito alto, muito agressivo, deu um soco no rosto dela.
O rosto de Paul Rashid estava pálido, o olhar sombrio, enquanto ele olhava para Michael e George.
— Então, esse animal colocou as mãos em nossa mãe e vocês deixaram isso acontecer? — Ele esbofeteou ambos. Vocês têm dois corações, o coração de um Rashid e o coração de um Dauncey. Agora vou mostrar-lhes como honrar os dois.
Sua mãe puxou-lhe a manga da camisa.
— Por favor, Paul, não quero mais problemas, não vale a pena.
— Não vale a pena? — Seu sorriso era terrível. — Tem um cachorro aqui que merece uma lição. Eu pretendo dar-lhe uma. — Ele se virou, liderando a retirada.
Os três rapazes foram para o bosque Roundhayem em um Land Rover. Paul havia proibido Kate de ir, mas, depois que eles saíram, ela selou sua égua favorita e seguiu-os assim mesmo, galopando pelos campos.
Eles encontraram os trailers estacionados em círculo, com uma grande fogueira no centro, e cerca de uma dúzia de homens e mulheres reunidos ao seu redor, com diversas crianças, quatro cavalos e cães.
O homem grande descrito pelos dois rapazes mais jovens estava sentado em um caixote perto do fogo, bebendo chá. Ele olhou para os três rapazes, enquanto estes se aproximavam.
— E quem seria você?
— A minha família é proprietária de Dauncey Place.
— Oh, céus, o senhor todo-poderoso, não é? — Ele deu uma risada para os outros. — Para mim, parece mais um fedelho.
— Pelo menos eu não bato no rosto de mulheres. Eu tento agir como um homem, o que é mais do que qualquer um pode dizer a seu respeito. Você cometeu um erro, seu idiota. Aquela senhora é minha mãe.
— Olha aqui, seu merdinha... — O homem grande começou a dizer, mas não teve a chance de acabar.
Paul Rashid enfiou a mão no bolso fundo do casaco e retirou uma jambiya, a faca curva utilizada pelos beduínos. Seus irmãos fizeram o mesmo.
Enquanto os outros homens se aproximavam, Paul deu um golpe com a jambiya no lado esquerdo da cabeça do homem grande, cortando fora sua orelha. Um dos outros homens puxou uma faca do bolso e Michael Rashid, tomado por uma energia que nunca soube possuir, deu outro golpe com a jambiya, fazendo um corte no rosto do homem, que se afastou urrando de dor.
Um dos outros homens pegou um galho e utilizou-o como porrete para atingir George, mas Kate Rashid saiu do lugar onde estava se escondendo, pegou uma pedra e atirou-a em seu rosto, soltando um grito agudo em árabe.
Tudo acabou tão rápido quanto havia começado. O resto do grupo estava cauteloso, em silêncio, nem mesmo as mulheres e as crianças choravam. Subitamente, o céu se fechou e a chuva começou a desabar. O líder, que segurava um lenço sujo de sangue na altura da orelha, ou do que restava dela, disse gemendo: — Vou te pegar por isso.
— Não vai, não — retrucou Paul Rashid. — Porque, se algum dia você se aproximar novamente desta propriedade ou de minha mãe, não será a sua outra orelha que você perderá. Serão seus órgãos genitais.
Ele limpou a lâmina de sua jambyia no casaco do homem, em seguida sacou uma pistola Walther do bolso e disparou duas vezes na lateral da chaleira que estava sobre a fogueira. A água saiu pelos buracos e as chamas começaram a se apagar.
— Vou lhe dar uma hora para ir embora. Acredito que o hospital em Maudsley atenda até lixo como você. Mas leve-me a sério. — Ele fez uma pausa. — Se você e seus amigos incomodarem minha mãe novamente, eu mato vocês. Nunca duvidem disso.
Os três rapazes voltaram no carro pela chuva, com Kate seguindo-os em seu cavalo. Chovia torrencialmente quando eles entraram no vilarejo de Dauncey e dirigiram-se para o pub chamado Dauncey Arms. Paul parou na frente do lugar, eles saíram e Kate desceu de sua égua, amarrando-a em uma pequena árvore.
Ela ficou olhando para eles no meio da chuva, o rosto perturbado.
— Desculpe por tê-lo desobedecido, meu irmão.
Mas Paul a beijou nos dois lados do rosto. — Você esteve maravilhosa, irmãzinha. — Ele a abraçou por um momento enquanto seus irmãos olhavam. — E já está na hora de você tomar sua primeira taça de champanha.
No interior do pub, cujo teto era sustentado por vigas, havia um maravilhoso balcão antigo de mogno com garrafas alinhadas e um enorme fogo queimando na lareira. Meia dúzia de homens da região que estavam no balcão virou-se e, em seguida, tirou seus bonés. A proprietária, Betty Moody, que estava polindo copos, levantou os olhos e disse: — Ora essa, Paul. — O tratamento íntimo era esperado. Ela conhecia todos eles desde a infância e até havia sido babá de Paul durante algum tempo. — Eu não sabia que você tinha voltado.
— Uma visita inesperada, Betty. Tive que resolver alguns problemas.
Os olhos dela endureceram-se: — Você está se referindo àqueles canalhas acampados no bosque Roundhay?
— Como é que você sabe a respeito deles?
— Não há muita coisa que eu não saiba, trabalhando aqui no Arms. Eles estão incomodando as pessoas da vizinhança há semanas.
— Bem, eles não trarão mais problemas para ninguém, Betty, pelo menos de agora em diante. — Ele colocou sua jambiya sobre o balcão.
Eles ouviram o som de veículos passando lá fora, e um dos homens foi até a janela. Ele se virou. — Ora essa! Aqueles merdas estão indo embora.
— Sim, bem... imagino que estejam mesmo — disse Michael.
Betty colocou o copo no balcão.
— Ninguém ama você mais do que eu, Paul Rashid, ninguém além de sua abençoada mãe, mas lembro-me bem do seu temperamento. Andou bancando o menino levado novamente?
— Aquele homem horrível atacou mamãe, ele bateu nela — explicou Kate.
O bar permaneceu em silêncio e Betty Moody disse: — Ele fez o quê?
— Mas já está tudo bem. Paul cortou a orelha dele fora, por isso eles foram embora. — Kate sorriu. — Ele foi maravilhoso.
O silêncio no bar era intenso.
— Ela também não se saiu tão mal assim — disse Paul Rashid. — Descobrimos que nossa pequena Kate é bem hábil com uma pedra na mão. Então, Betty, meu amor, vamos abrir uma garrafa de champanha. Acredito que grandes porções de torta de carne com purê de batatas também seriam uma boa pedida.
Ela estendeu o braço e tocou-lhe o rosto: — Ah, Paul, eu devia ter imaginado. Mais alguma coisa?
— Sim, vou voltar para Sandhurst amanhã. Será que você poderia arranjar um tempo para ver se minha mãe precisa de ajuda? Ah, e desculpe-me pelo fato de a criança aqui ser muito nova para estar num bar.
— Claro que atenderei a ambos os pedidos. — Betty abriu o refrigerador e tirou uma garrafa de Bollinger. Ela acariciou a cabeça de Kate. — Venha aqui para trás do balcão comigo, menina. Isso legitima tudo. — Enquanto tirava a rolha, ela sorriu para Paul. — Tudo em família, não é, Paul?
— Sempre — disse ele.
Mais tarde, depois da refeição e do champanha, ele os conduziu para o outro lado da rua, atravessando o cemitério, até o pórtico de entrada da igreja paroquial de Dauncey, que datava do século XII.
A igreja era muito bonita, bem gótica, e com um teto arqueado. Assim que a chuva parou, uma luz maravilhosa entrou através dos vitrais das janelas, caindo sobre os bancos, as lápides de mármore e as esculturas que constituíam os memoriais da família Dauncey ao longo dos séculos.
A nobreza da família tinha origem escocesa. Seu funda dor foi sir Paul Dauncey, isto até a morte da rainha Elizabeth. Quando o rei James VI da Escócia tornou-se James I da Inglaterra, seu bom amigo sir Paul Dauncey foi um dos homens que galoparam de Londres a Edimburgo para avisá-lo. James I deu-lhe o título de conde de Loch Dhu — o lago negro ou o lugar de águas escuras — nas Terras Altas ocidentais. Como era comum chover seis dias por semana, os Dauncey compreensivelmente decidiram permanecer em Dauncey Place, deixando para trás um castelo pequeno e arruinado nas terras de Loch Dhu.
A maior diferença entre a nobreza escocesa e a inglesa era que o título escocês não morria com seus herdeiros masculinos. Caso não houvesse nenhum, o título podia ser passado para a linhagem feminina. Assim, quando o conde morresse, a mãe de Paul tornar-se-ia condessa. Ele próprio receberia o título honorário de visconde Dauncey. Os outros meninos também seriam agraciados e a jovem Kate tornar-se-ia lady Kate. E, algum dia, Paul também se tornaria conde de Loch Dhu.
Seus passos ecoavam à medida que eles andavam pela nave lateral da igreja. Paul parou ao lado de uma bela escultura, um cavaleiro usando uma armadura e sua dama ao lado.
— Creio que ele teria ficado orgulhoso de nós hoje, vocês não acham? — Paul recitou uma parte do catecismo da família, conhecido por todos: — Sir Paul Dauncey, que lutou por Ricardo III na Batalha de Bosworth Field, conseguindo fugir do cerco e escapar para a França. — E mais tarde, Henrique Tudor permitiu que ele voltasse — disse a jovem Kate — e retomasse suas propriedades.
— O que inspirou o lema de nossa família — acrescentou Michael. — Eu sempre volto.
— E temos voltado sempre. — Paul puxou Kate para junto de si e colocou o braço em torno dos irmãos. — Sempre juntos. Somos Rashid e somos Dauncey. Sempre juntos.
Ele os abraçou com força e Kate chorou um pouco.
Depois de se formar em Sandhurst, Paul foi enviado para a Guarda de Granadeiros, serviu um período na Irlanda em1, e foi convocado para a Guerra do Golfo pelo Serviço Aéreo Especial.
Isso não deixava de ser irônico, pois seu pai era um general omani, amigo de Saddam Hussein, que ajudou o exército iraquiano em seus treinamentos e que também foi apanhado pela guerra, lutando pelo outro lado. Entretanto, ninguém questionou a lealdade de Paul. Para o SAE, era um trunfo inestimável ter Paul Rashid atrás das linhas inimigas. Quando a guerra acabou, ele foi condecorado. Seu pai, no entanto, morreu em combate.
Quanto a Paul, ele aceitou a situação.
— Meu pai era um soldado e ele assumiu os riscos de um soldado — disse ele para seus irmãos. — Eu sou um soldado e ajo da mesma maneira.
Michael e George também estudaram em Sandhurst. Depois, Michael ingressou na Harvard Business School e George no Regimento de Paraquedistas, pelo qual também serviu um período na Irlanda. No seu caso, um ano foi o suficiente. Ele saiu do exército e ingressou num curso de gerenciamento de propriedades.
Quanto à jovem Kate, depois de estudar na escola feminina de St. Paul, ela entrou para o St. Hugh College, de Oxford, e em seguida teve início seu período selvagem, durante o qual abriu caminho na sociedade londrina como um furacão.
Agora era a condessa de Loch Dhu, e eles enterraram o ancião no mausoléu da família, no adro de' Dauncey. Todo o vilarejo compareceu, assim como muitas pessoas de fora, às quais Paul nunca havia sido apresentado.
No Grande Salão de Dauncey Place, onde foi realizada a recepção, Paul saiu à procura de sua mãe e encontrou uma dessas pessoas inclinando-se sobre ela, um homem beirando os setenta anos de idade. Paul aproximou-se enquanto a mãe levantava os olhos.
— Paul, querido, quero que você conheça um de meus amigos mais antigos, o general-de-brigada Charles Ferguson.
Ferguson apertou a mão de Paul.
— Sei tudo a seu respeito. Também servi na Guarda de Granadeiros. O trabalho que você realizou atrás das linhas iraquianas com o coronel Tony Villiers foi fantástico. Você merece bem mais do que uma Cruz Militar.
— Você conhece o coronel Villiers? — perguntou Paul. — Há muitos anos.
— Você parece saber muito, brigadeiro. Aquela operação da SAE era secreta.
— Charles e o seu avô serviram juntos — interveio a condessa. — Lugares engraçados: Aden, Omã, Bornéu, Malásia. Agora ele chefia um grupo especial de informações para o primeiro-ministro.
— Kate, você não devia falar isso — disse-lhe Ferguson.
— Besteira. Todo mundo que tem alguma importância sabe disso. — Ela apertou a mão dele. — Ele salvou a vida do seu avô em Bornéu.
— E ele salvou a minha duas vezes. — Ferguson beijou A morte do conde, em 1993, foi algo totalmente inesperado, vítima do tipo de ataque do coração que chega sem aviso prévio e que mata em questão de segundos. Lady Kate a na testa e em seguida virou-se para Paul. — Se houver algo que eu possa fazer por você, aqui está o meu cartão.
Paul Rashid segurou a mão dele firmemente.
— Nunca se sabe, brigadeiro. Eu posso aceitar sua oferta algum dia.
Por ser o primogênito, Paul foi escolhido para ir a Londres e consultar o advogado da família quanto ao testamento do falecido conde. Quando ele voltou, tarde da noite, encontrou a família sentada em torno da lareira do Grande Salão. Todos levantaram os olhos, exibindo uma expressão de expectativa.
— Então, o que aconteceu? — perguntou Michael.
— Ah, como foi você que estudou na Harvard Business School, você quer saber quanto? — Ele se inclinou e beijou a mãe no rosto. — Mamãe, como de costume, foi muito levada e não me preparou.
— Para quê? — O tamanho da riqueza de vovô. Eu nunca soube que ele era dono de grande parte de Mayfair. Quase a metade de Park Lane, para início de conversa.
— De quanto estamos falando? — sussurrou George. — Trezentos e cinquenta milhões.
Sua irmã engasgou. A mãe apenas sorria.
— E isso me dá uma ideia — disse Paul. — Sobre como utilizar esse dinheiro de forma útil.
— O que você está sugerindo? — perguntou Michael. — Eu servi na Irlanda depois de sair de Sandhurst disse Paul. — Depois disso, na Guerra do Golfo com a SAE. Meu ombro esquerdo ainda dói em dias ruins por causa de uma bala do Armalite que o atravessou. Você estudou em Sandhurst, Michael, e na Harvard Business School. George assou um ano na Irlanda com o Primeiro Esquadrão de Paraquedistas. Kate ainda tem de passar por suas experiências de vida, mas acho que podemos contar com ela.
— Você ainda não nos contou a sua ideia.
— É o seguinte. Está na hora de nós ficarmos juntos, virarmos um negócio familiar, uma força a ser respeitada. Quem somos nós? Nós somos os Dauncey — e também somos os Rashid. Ninguém tem mais influência no Golfo do que nós. E o que o mundo mais quer do Golfo agora? Petróleo. Os americanos e os russos, especialmente, têm metido seus narizes no Golfo há meses, tentando comprar contratos de arrendamento para exploração. Mas, para conseguir o petróleo, eles têm que conquistar a boa vontade dos beduínos. E, para chegar aos beduínos, eles têm que passar por nós. Eles terão que vir a nós, minha família.
— De quanto estamos falando, exatamente? — disse George.
A mãe deles ri: — Acho que eu sei.
— Diga para eles — sugeriu Paul.
— Dois bilhões? — Três — corrigiu ele. — De libras, é claro, não de dólares. — Ele pegou uma garrafa de champanha. — Eu sou, afinal de contas, um árabe extremamente britânico.
Investindo com astúcia e valendo-se da força dos beduínos, os Rashid deram início ao desenvolvimento de novos campos petrolíferos ao norte de Dhofar. O dinheiro veio aos montes, quantias inacreditáveis. Os americanos e os russos realmente tinham de negociar com eles, ainda que contra a vontade, e os Rashid também auxiliaram os iraquianos a recuperar sua indústria petrolífera.
O primeiro bilhão foi obtido em três anos, o segundo nos dois anos seguintes, e eles estavam bem adiantados a caminho do terceiro. George e Michael foram nomeados diretores-administrativos associados da Rashid Investments, e a jovem Kate Rashid, que acabara seu mestrado em Oxford, foi nomeada presidente executiva. Qualquer homem de negócios que a visse apenas como uma bela jovem vestindo tailleur Armani e sapatos Manolo Blahnik rapidamente era convencido do contrário.
Já Paul preferia permanecer como uma eminência parda, trabalhando nos bastidores. Passava grande parte de seu tempo em Hazar com os beduínos. Para os Rashid, ele era um grande guerreiro, que volta e meia encontrava-se perambulando pelo deserto montado em camelo. Um homem que vivia no velho estilo beduíno, no Território Desocupado, protegido pelos companheiros da sua tribo, homens queimados pelo sol implacável. Alguém que comia tâmaras e colocava a carne para secar ao sol.
Frequentemente ele se fazia acompanhar pelos irmãos, ou por Kate, que deixava os nativos escandalizados com suas maneiras ocidentais, mas ninguém podia rejeitá-la, pois a essa altura Paul era uma lenda, com mais poder do que o próprio sultão de Hazar, de quem era primo em segundo grau. Havia rumores de que um dia ele próprio seria escolhido sultão pelo Conselho de Anciões, mas no momento o velho sultão ainda mantinha o poder, apoiado pela força dos Batedores Hazar, um contingente de soldados comandados por voluntários britânicos.
E, então, certa noite, em um acampamento no oásis de Shabwa, enquanto ele estava sentado diante de uma fogueira flamejante, um helicóptero Hawk desceu fazendo barulho e pousou em meio a uma nuvem de areia.
Camelos e burros moviam-se em círculos, as crianças gritavam encantadas e as mulheres repreendiam-nas. Michael, George e Kate surgiram vestindo roupas árabes e Paul cumprimentou-os.
— O que é isso, uma reunião familiar? — Temos problemas — disse Kate.
Ele pegou-a pela mão, levou-a para perto da fogueira e acenou para que uma das mulheres trouxesse café.
Kate fez sinal com a cabeça para Michael.
— Conte para ele a sua parte primeiro.
— Nós atingimos três bilhões.
— Então, finalmente chegamos lá. — Paul virou-se. Eu ficaria mais feliz se não estivesse esperando pelas más notícias. Vamos, Kate. Eu só preciso olhar para o seu rosto para saber se o tempo está ruim, e eu diria que está chovendo.
— Você esteve com o sultão recentemente? — Não. Ele está numa peregrinação às Fontes Sagra das.
— Fontes Sagradas? Isso é uma piada. A única peregrinação que ele fez foi a Dubai para encontrar-se com funcionários do governo e executivos americanos e russos. Eles fizeram um acordo para exploração conjunta de petróleo em Hazar e nos deixaram de fora.
— Mas eles não poderiam fazer isso sem a cooperação dos beduínos. E eles não terão isso sem a nossa ajuda.
— Paul— disse Kate. — Eles não só podem como fizeram. O sultão nos traiu. Você sabe o quanto os americanos e os russos se sentiram incomodados de terem que lidar conosco. Bem, agora eles se livraram da gente. Vão passar por cima de nós e por cima dos beduínos no processo. Sem a nossa intervenção, aquelas malditas companhias petrolíferas vão perfurar poços onde bem entenderem, e os árabes que se danem.
— Isto é verdade, Michael? — perguntou Paul. Michael fez que sim com a cabeça.
— Eles vão estuprar o deserto, Paul. E não há nada que possamos fazer para evitar isso.
Paul balançou a cabeça pensativamente e atiçou o fogo. — Não se afobe, Michael. Sempre há coisas que podem ser feitas quando se quer fazê-las.
— O que você quer dizer? — perguntou George.
— Não é o momento. — Paul se virou para Kate. — Você está com o Gulfstream na base aérea em Haman? — Sim — disse Kate.
Ele puxou-a e beijou-a na testa.
— Durma bem. Amanhã conversaremos.
Ele fez um sinal com a cabeça para seus irmãos e eles se levantaram. Kate virou-se e começou a se afastar, e foi então que tudo aconteceu. Das sombras além de onde eles se encontravam surgiu um beduíno gritando, uma jambiya levantada acima de sua cabeça, correndo em direção a eles, com Kate no meio do caminho. Os seguranças de Paul foram pegos de surpresa, seus AK-47s aos pés, xícaras de café nas mãos, e foi Paul Rashid que se lançou adiante, jogou a irmã no chão e sacou uma pistola Browning de seu cinturão. Ele disparou quatro vezes em rápida sucessão e o assassino caiu na areia.
Houve um outro grito agudo e um segundo homem, jambiya levantada, surgiu da escuridão, mas dessa vez ele foi imediatamente contido pelos seguranças.
— Vivo! — gritou Paul em árabe. — Vivo. — Ele se virou para George: — Quem é ele, de onde ele vem? Descubra.
George correu em direção ao grupo que lutava para imobilizar o homem no chão e Paul ajudou Kate a se levantar.
— Você está bem? Você se machucou? Ela deu um abraço forte nele e disse em árabe: — Não, meu irmão, graças a você.
Ele a abraçou.
— Deixe isso comigo. Vá para a cama.
Ela virou-se relutantemente enquanto Paul Rashid, encoberto pelas sombras, agachou-se perto do segundo assassino, agora imobilizado junto ao solo. O rosto do homem estava enrugado e contraído. As pupilas pareciam alfinetes e a boca estava espumando.
— Um assassino profissional drogado com quat — disse George.
Paul Rashid acendeu um cigarro e fez que sim com a cabeça. O quat era um narcótico encontrado nas folhas de arbustos em Hazar. Muitas pessoas do seu povo eram viciadas nisto. Para algumas, o quat emprestava um sentido falso de coragem.
Para esse homem, daria apenas a morte.
— Faça o que tem de fazer — disse ele para George.
Paul voltou e sentou-se perto da fogueira, bebendo mais café. Kate apareceu e sentou-se ao seu lado. Um grito de dor veio das sombras, um grito súbito, em seguida o silêncio. George e Michael reapareceram.
— E então? — perguntou Paul.
— O sultão contratou-os a pedido dos americanos e dos russos. Eles não podem permitir que fiquemos vivos.
— Tenho pena deles — disse Paul Rashid —, por terem fracassado.
Houve uma pausa. Michael e George se sentaram.
— E agora? — perguntou George.
— Primeiro, acho que já é hora de termos um novo sultão. Sua especialidade é trabalhar junto ao nosso povo em Hazar — disse-lhe Paul. — Faça com que isso aconteça. Mas há uma questão maior em jogo. Nós deixaremos que essas potências façam isso com nosso povo? Deixaremos que elas destruam nossa terra? Deixaremos que elas nos ataquem? Não, creio que devemos atacá-las.
Naquele momento, o telefone celular tocou. Ele o retirou de sua túnica.
— Rashid.
Paul permaneceu sentado à luz do fogo e seu rosto transformou-se diante deles. Tinha um olhar soturno.
— Estaremos aí o mais rápido possível.
Ele desligou o telefone e deu-o a Kate.
— Ligue para Haman. Diga-lhes para preparar o Gulfstream imediatamente. Partiremos no helicóptero agora.
— Mas, Paul, por quê? O que aconteceu? — perguntou Kate.
— Era Betty Moody. Algo terrível aconteceu com nossa mãe.
Algo verdadeiramente terrível. Dirigindo de volta para Dauncey Place, lady Kate envolveu-se numa batida frontal com um carro que trafegava na contramão. Os Rashid chegaram ao hospital dez minutos antes de sua morte, tempo suficiente para. que os quatro, de pé, ficassem segurando suas mãos.
— Meus queridos filhos — disse lady Kate em seu péssimo árabe, que sempre fora motivo de piada na família. — Minha linda filha. Sempre amem uns aos outros. — E morreu.
Michael e George caíram no choro, mas não Kate. Ela segurou a mão de Paul firmemente enquanto ele se abaixava para beijar a testa da mãe. Os olhos dela ardiam, mas não havia lágrimas. Estas viriam mais tarde — depois que ela descobrisse quem fora o responsável por aquilo.
Mas quando o nome surgiu, tiveram apenas notícias ruins. O inspetor-chefe da polícia de Hampshire confirmou que o outro motorista, um certo Igor Gatov, estava dirigindo na contramão, indo de Knotsley Hall, propriedade que pertencia à embaixada russa, para Londres. E que ele estava bêbado, conseguindo milagrosamente sair do acidente apenas com alguns ferimentos leves. Mas infelizmente ele também era adido comercial da embaixada russa em Londres, o que significava que ele tinha imunidade diplomática. O assassino da mãe deles não poderia ser julgado em tribunal inglês.
Em respeito ao cristianismo de sua mãe, eles a enterraram no mausoléu da igreja de Dauncey numa tarde de março. Um dos mais importantes imãs de Londres dignificou a cerimônia com sua presença e, de pé naquele local, os três irmãos Rashid e a jovem Kate nunca tinham se sentido tão próximos.
Mais tarde, na recepção, no Grande Salão de Dauncey Place, Paul Rashid foi abordado por Charles Ferguson. O general disse: — Isso foi uma tragédia, Paul. Meus mais profundos pêsames. Ela era uma grande dama.
— Você sabe de algo que não nos quer dizer, general? — perguntou Kate.
Ferguson olhou para ela. — Liguem para mim quando precisarem.
Ele se retirou.
— Paul? — disse Kate.
— Assim que resolvermos tudo por aqui — disse-lhe o irmão —, nós o visitaremos.
Dois dias depois, Paul e Kate Rashid chegaram ao apartamento em estilo georgiano de Charles Ferguson, em Cavendish Place, Londres. Foram recebidos por Kim, o criado gurca de Ferguson, e descobriram que o general Ferguson não estava sozinho. Havia duas outras pessoas, uma das quais era um homem baixo de cabelos tão louros a ponto de serem quase brancos.
— Lady Kate, este é Sean Dillon, que trabalha no meu departamento — disse Ferguson e, em seguida, apresentou a mulher ruiva. — Detetive superintendente Hannah Bernstein, da Divisão Especial. Lorde Loch Dhu, em que posso ajudá-la? Aceitam uma taça de champanha?
— Não, obrigado. Talvez minha irmã aceite, mas eu preferiria uma dose do uísque irlandês Bushmills que o senhor Dillon está tomando.
— O senhor tem bom gosto — disse-lhe Dillon —, mas primeiro as damas. — E, em seguida, ele serviu o champanha.
Hannah Bernstein disse para Kate: — Acredito que você vem de Oxford. Estudei em Cambridge.
— Bem, ninguém é perfeito — disse Kate, dando um sorriso.
— Servi por algum tempo na Irlanda — disse Paul —, na Guarda de Granadeiros e no SAE. Ouvi muitas coisas sobre Sean Dillon por lá.
— Provavelmente todas verdadeiras — interveio Hannah Bernstein, num tom que Rashid não conseguia decifrar.
— Não dê atenção a ela — disse Dillon. — Sempre serei um carrasco para ela, mas, para você e para mim, major, para os soldados em todos os lugares, nós somos os homens que resolvem as merdas que os civis não conseguem resolver. Um comentário e tanto — acrescentou Dillon e virou-se para Kate. — Você não concorda que foi um comentário e tanto?
Ela não ficou nem um pouco ofendida: — Sem dúvida.
— Então — disse Paul Rashid. — Igor Gatov, um adido comercial da embaixada russa, mata minha mãe, enquanto dirigia bêbado na contramão. A polícia diz que ele possui imunidade diplomática.
— Infelizmente é verdade.
— E ele voltou para Moscou?
— Não, precisam dele por aqui — disse-lhe Ferguson.
— Precisam dele? — perguntou Rashid.
— O Serviço Secreto não me agradeceria por contar-lhe isso, mas eles não são os meus melhores amigos. Conte a ele, superintendente.
— Mas quanto posso contar? — perguntou ela.
— O quanto for preciso — disse Dillon. — Esse russo de merda mata uma grande dama e escapa. — Ele se serviu de mais uma dose de Bushmills, brindou com a jovem Kate, virou-se para Paul Rashid e disse num bom árabe: — Gatov é um patife e tanto. Se a superintendente hesitar, não fique com raiva. Ela é um tanto sensível. O avô dela é um rabino.
— E o meu pai era um xeque — disse Paul Rashid para ela em hebraico. — Talvez tenhamos muitas coisas em comum.
A surpresa dela era óbvia.
— Não estou certa do que dizer — respondeu ela na mesma língua.
— Bem, eu estou. — Dillon interrompeu o diálogo entre os dois, em inglês. — Não é só a embaixada russa que está mantendo Gatov a salvo da justiça. Há também a conexão americana.
Houve uma pausa.
— Sobre o que você está falando? — perguntou Paul Rashid.
— Como você sabe — interveio Hannah —, os americanos e os russos são grandes rivais no sul da Arábia, mas trabalham juntos quando isso lhes convém.
— Sei de tudo isso — disse Paul. — Mas o que isso tem a ver com a morte da minha mãe? Foi Dillon quem lhe contou, em árabe: — Esse merda é um agente duplo. Ele trabalhou para os americanos como espião. Não são só os russos que o querem longe dos tribunais, mas os ianques também. Ele é muito importante.
— Muito importante para quê? — perguntou Paul Rashid.
Foi Ferguson quem respondeu: — Os americanos e os russos estão tentando fechar algum tipo de negócio petrolífero, e Gatov estava servindo como intermediário. Ele está bem no meio. Eles sabem que podem ganhar bilhões por lá.
— Ele está certo — falou Dillon. — Arabia Felix, Arábia Feliz, era assim que o chamavam antigamente.
Kate Rashid, que havia escutado em silêncio, disse: — Então estamos falando sobre dinheiro?
— Eu diria que sim — respondeu Dillon.
— E, para facilitar o funcionamento dos negócios, tanto os americanos quanto os russos veem a morte da minha mãe simplesmente como uma inconveniência?
— Uma inconveniência grave.
Ela fez uma pausa e olhou para o irmão, que fez um movimento afirmativo com a cabeça. Ela falou: — Há alguns dias, no oásis de Shabwa, ocorreu algo interessante. O senhor sabia, general, que o sultão de Hazar aliou-se não apenas a uma grande companhia petrolífera americana mas também a uma russa?
Ferguson franziu a testa: — Não, isso é novidade para mim.
— Dois assassinos tentaram matar meu irmão na noite em que recebemos a notícia do acidente de minha mãe. — Ela inclinou a cabeça em direção a Dillon: — Um deles tentou me matar. Meu irmão salvou minha vida e matou-o a tiros.
— O importante é que descobrimos, através do segundo assassino, que minha cabeça foi colocada a prêmio pelo próprio sultão a pedido dos americanos e dos russos — disse-lhes Paul Rashid.
Ferguson concordou com a cabeça: — Ele lhe contou tudo isso?
— Claro — interveio Dillon.
— Vocês estão sugerindo que a morte da sua mãe foi planejada? — perguntou Ferguson.
— Não — disse Paul. — A polícia analisou as provas conosco e não consigo imaginar o que esses cachorros ganhariam matando minha mãe. Mas para mim ficou claro que, para eles, a vida não vale nada. E pretendo fazer com que eles paguem caro por isso. — Ele se levantou e estendeu a mão. — Muito obrigado pela informação, brigadeiro. — Virou-se para Dillon. — Na guarda de South Armagh, um político legalista contou-me certa vez que Wyatt Earp era responsável pela morte de vinte homens, mas que Sean Dillon nem mesmo sabia ao certo quantos ele havia matado.
— Um pequeno exagero — disse Dillon. — Acho.
Rashid sorriu para cada um deles e virou-se para seguir Kim. Kate ofereceu a mão a Dillon.
— Você é um homem muito interessante.
— Deus, você é boa com as palavras, minha querida. — Ele beijou-lhe a mão. — E tem um rosto divino.
— Você está falando com a minha irmã, senhor Dillon — disse Rashid.
— E como poderia me esquecer disso?
Eles saíram e, antes que Ferguson pudesse dizer qualquer coisa, o telefone vermelho tocou. Ele atendeu, ouviu, conversou rapidamente e em seguida colocou o aparelho de volta no gancho, o rosto preocupado.
— Parece que o sultão de Hazar acaba de ser assassinado. — Ele se virou para Dillon. — Uma coincidência inacreditável, não acha?
O irlandês acendeu um cigarro.
— Ah, claro, incrível. — Ele soltou um pouco de fumaça. — Só sei de uma coisa. Tenho pena de Igor Gatov.
Naquela noite houve uma cerimônia no hotel Dorchester, um evento político que contou com a presença do primeiro-ministro, e Ferguson, Bernstein e Dillon foram destacados para garantir a segurança, não sem alguns resmungos.
Dillon e a superintendente entraram no salão de baile pela porta da Park Lane, verificaram tudo e, satisfeitos, uniram-se a Ferguson. No bar estavam o conde de Loch Dhu e sua irmã.
— Falando em coincidência — disse Ferguson — Hannah e eu continuaremos cuidando da segurança. Veja se consegue descobrir mais alguma coisa, Dillon.
Kate e Paul Rashid estavam juntos, olhando a multidão, quando Dillon aproximou-se.
— Que coincidência.
— Eu nunca acreditei em coincidências, senhor Dillon — disse-lhe Paul Rashid. — O senhor acredita?
— Engraçado você dizer isso assim. Como você, eu também sou um cínico, mas hoje...
Nesse momento, um rapaz interrompeu: — Senhor, o primeiro-ministro gostaria de falar-lhe.
Rashid disse para o irlandês: — Sinto muito, senhor Dillon, nossa conversa terá de ficar para outra hora. No entanto, ficaria muito grato se você cuidasse de minha irmã para mim.
— Seria uma honra.
Rashid afastou-se e Kate virou-se para Dillon.
— Bem, já que você está cuidando de mim, que tal tomarmos algo? Dillon estava se virando para entregar-lhe uma taça quando um homem bem grande, com um rosto corado, surgiu, abraçando-a por trás.
— Kate, minha querida — disse ele numa voz estrondosa.
Vendo que não teria oportunidade de falar com ela naquele momento, Dillon decidiu partir. Mas, enquanto se afastava, pisou propositadamente no pé direito do homem. — Que merda, seu desastrado.
Dillon sorriu. — Desculpe-me. — Ele inclinou-se para cumprimentar Kate. — Estarei no piano-bar.
Atravessou o saguão principal do hotel até o piano-bar do Dorchester, que, como ainda era o início da noite, estava silencioso. Giuliano, o gerente, cumprimentou-o calorosamente, pois eram velhos amigos.
— Uma taça de champanha?
— Por que não? — disse Dillon. — E vou dar uma afinada no piano enquanto seu pianista não chega.
Ele estava no meio de uma peça de Gershwin quando Kate Rashid apareceu.
— Vejo que você é um homem de muitos talentos.
— Um bom pianista de bar é tudo o que eu sou, senhorita. Onde está o cavalheiro?
— O cavalheiro, e uso o termo de forma um tanto leviana, é lorde Gravely, um nobre vitalício que habita a Câmara dos Lordes e nada faz de útil lá.
— Não acredito que seu irmão goste muito das atenções que ele dirige a você.
— Diria que isso é uma forma suave de colocar as coisas. Você realmente precisava pisar no pé dele?
— Sem dúvida.
— Bem, isso me deixa feliz. O homem é um porco completo. Está sempre me agarrando, passando a mão em mim. Ele simplesmente não sabe aceitar um não. Merece um pé machucado e muito mais.
Ela tomou a taça de champanha da mão dele e bebeu o resto.
— Bem, eu só dei uma passada para lhe agradecer. Agora é melhor eu ir embora. Meu chofer foi instruído para me pegar às sete.
Vendo que a conversa havia terminado, Dillon sorriu. — Você teve uma reação sincera.
Kate foi embora, Dillon acabou a música e decidiu segui-la. Ele não sabia exatamente por que, mas parecia haver algo ainda por terminar.
Ele saiu pela entrada principal, virou à direita na Park Lane e viu limusines apanhando pessoas da recepção, na entrada do salão de baile. Lady Kate Rashid estava em pé na calçada com um xale sobre os ombros quando, de repente, lorde Gravely apareceu. Ele colocou o braço em torno dela e puxou-a para perto, sussurrando em seu ouvido. Ela lutava para se soltar quando duas coisas aconteceram simultaneamente. O Daimler de Paul Rashid encostou junto ao meio-fio com Rashid no banco traseiro e, enquanto ele saía, Dillon partiu para cima de Gravely, enfiando os dois punhos em seus rins. Gravely soltou um grito, largou Kate, e seu irmão a puxou para dentro do carro. Gravely virou-se furioso para Dillon, que, girando, ainda de costas, deu-lhe uma cotovelada na boca. Nesse momento, o lorde caiu na calçada.
À medida que se distanciavam, Rashid olhou pela janela traseira do carro e viu Dillon sumir na multidão enquanto um policial se aproximava de Gravely.
— Um homem extraordinário, esse Dillon. Devo um favor a ele. Você está bem?
— Estou bem, irmão, e sou eu que devo um favor a ele.
— Você gosta dele?
— Muito.
— Vou pedir uma investigação minuciosa a respeito dele.
— Não, Paul, eu mesma farei isso.
Depois de uma reunião com advogados na manhã seguinte, os dois voltaram de carro para Dauncey Place. Paul havia telefonado para avisar sobre sua chegada, portanto seus irmãos também se encontravam lá. E eles haviam dado fotos de Gatov a Betty Moody, que por sua vez tinha falado com os frequentadores do bar.
Quando ele a encontrou no bar naquela noite, ela serviu-lhe a habitual taça de champanha e falou em voz baixa.
— Ele está no vilarejo, Paul. Chegou na hora do almoço com um grupo da embaixada russa.
— Ótimo. — Ele saboreou o champanha.
— O que vai fazer? — perguntou ela.
— Vou executá-lo, Betty — Ele disse e sorriu, enquanto ela respirava fundo.
Mais tarde naquela noite, ele falou com os irmãos no Grande Salão. Betty também estava presente — ela viera do pub com uma informação de última hora, entreouvida pelos funcionários de Knotsley Hall: Gatov estava partindo de carro as 11 horas para uma viagem noturna a Londres.
Paul Rashid contou aos irmãos o que ele pretendia fazer, mas deixou Kate de fora.
— Não quero que ela se envolva nisso — disse ele. Este é um trabalho para homens.
O que ele não sabia era que Kate estava na galeria dos menestréis acima, ouvindo tudo. Furiosa, ela estava prestes a gritar com ele quando Betty surgiu por trás dela e apertou-lhe o ombro com a mão.
— Comporte-se, garota. Seus irmãos vão correr perigo. Eles não precisam que você esteja por perto para dificultar ainda mais as coisas.
E lady Kate Rashid, sentindo-se uma criança novamente, obedeceu.
Naquela noite, ao virar a esquina de uma estrada estreita no campo, Ivan Gatov encontrou uma van inclinada dentro de uma vala e alguém deitado no meio da estrada. Ele saiu de seu BMW; aproximou-se e se curvou sobre a pessoa que estava no chão. Era Paul Rashid, que o atingiu com um golpe no pescoço.
Ele e os irmãos usavam macacões pretos das Forças Especiais. Michael e Paul carregaram Gatov, semiconsciente, para o BMW e o puseram atrás do volante.
George foi até a van, entrou e deu marcha-à-ré, tirando-a da vala. Paul Rashid tirou uma garrafa de seu macacão e encharcou Gatov com gasolina.
— O fogo purifica, segundo nos ensina o Alcorão — disse ele, em seguida ligou o motor do BMW e soltou o freio de mão. — Não é uma troca justa pela vida de minha mãe, mas é melhor do que nada.
Ele acendeu o Isqueiro, encostando-o na jaqueta encharcada de gasolina de Gatov, que imediatamente começou a pegar fogo. Em seguida, George e Michael empurraram o BMW; que desceu o morro e bateu contra o trecho final da velha ponte, explodindo numa bola de fogo.
Na manhã seguinte, no Ministério da Defesa, Hannah Bernstein levou uma mensagem confidencial para Ferguson em seu gabinete. A nota detalhava o terrível acidente no qual Ivan Gatov morrera queimado.
— Meu Deus — disse Ferguson. — Mais uma coincidência inacreditável.
Sean Dillon encostou-se na porta e acendeu um cigarro.
— A pergunta é: qual será a próxima coincidência?
Sentado na sala de estar da casa de Kate, na South Audley Street, Paul Rashid disse: — Gatov está morto. O sultão está morto. Essas execuções foram corretas e justas. Mas elas não são suficientes.
— O que você quer dizer com isso, irmão? — perguntou Michael.
— Quero dizer que não é suficiente ter eliminado duas peças menores. Suas mortes serão logo assimiladas e os países poderosos continuarão a andar arrogantemente pelo mundo Como se nada tivesse acontecido. Os Estados Unidos e a Rússia, os dois grandes satãs, atacaram a cultura árabe, pisaram em cima dos beduínos, roubaram da Arábia e de Hazar o que pertence a eles de direito — e a nós. Nós temos de ensinar-lhes uma lição que eles nunca mais vão esquecer.
— O que você tem em mente? — perguntou George.
— Em primeiro lugar, Kate, quero que você entre em contato com nossos amigos no Exército de Deus, na Espada de Alá, no Hezbollah, todo mundo. Quero que eles gritem contra a tentativa dos Estados Unidos e da Rússia de saquear os países árabes. Quero que eles causem danos quando e onde for possível.
— E depois? — perguntou Michael.
— Depois nós matamos o presidente dos Estados Unidos.
Houve um silêncio de perplexidade. Michael disse num sussurro: — Mas por que, Paul?
— Porque Gatov era apenas um empregado. Porque o sultão era apenas um peão. Porque não vale a pena matar pessoas menores. Se nós não nos pronunciarmos, e com isso quero dizer que se não nos pronunciarmos de forma definitiva, os países poderosos não entenderão a mensagem. Eles nunca nos deixarão em paz. Se for orquestrado da maneira correta, o assassinato do presidente Jake Cazalet mostrará ao mundo, de uma vez por todas, que a Arábia pertence aos árabes. Os dias de Cazalet estão contados. Ah, também poderíamos matar o primeiro-ministro russo, que também é culpado, mas o assassinato de Cazalet causará um impacto muito maior.
O silêncio continuou.
— Você está falando sério — perguntou Michael.
— Sim, Michael. Nunca falei tão sério. É chegada a hora de tomarmos partido. — Ele olhou-o de forma dura. — Isto é, dos beduínos. — Em seguida, virou-se para George. — Isto é para Hazar. — Ele fixou seu olhar em Kate e todos se sentaram, os olhos grudados um no outro no que pareceu durar alguns minutos, e ele finalmente disse: — Isto é para a mamãe. — O sussurro estridente parecia encher a sala.
— Mas quem faria isso? — perguntou Kate, após um momento.
— Um mercenário. Com o processo de pacificação tomando conta da Irlanda do Norte, há muitos assassinos profissionais do IRA sem trabalho. — Ele tirou um envelope e repassou-o a ela. — Esse homem, um tal de Aidan Bell, foi muito bem recomendado. Ele pode ser encontrado em County Down. Parece que matou um general russo para os chechenos e explodiu seus auxiliares. Um homem que não tem medo de assumir riscos. Vá vê-lo, Kate. Leve George com você. Ele já serviu por lá e conhece o assunto.
Não havia mais qualquer hesitação. Uma decisão fora tomada.
— Claro, irmão.
— Mais uma coisa. — Paul acendeu um cigarro. — Você gostou de Sean Dillon?
— Disse a você que sim.
— Vá vê-lo. Arrume uma desculpa para encontrá-lo. Invente alguma história. Veja o que ele sabe sobre Aidan Bell.
Ela sorriu.
— Será um prazer.
Ele devolveu o sorriso.
— Bem, não faça disso um grande prazer.
LONDRES, COUNTY DOWN
Kate Rashid estudou as informações fornecidas por seu irmão, e estas eram boas, um material detalhado. Aidan Bell tinha 48 anos, ingressara no IRA aos vinte e nunca passara um dia sequer na prisão. Durante anos, havia sido um membro do Exército de Libertação Nacional Irlandês, uma organização extremista. Ele frequentemente tinha desavenças com o IRA, mas havia sido responsável por assassinatos importantes.
O fato mais interessante era que, ao longo dos anos, ele também trabalhara como mercenário — recebendo o pagamento em dinheiro para muitos movimentos revolucionários estrangeiros.
Kate destacou o chefe de segurança da Rashid Investments, um homem de sua confiança e um ex-páraquedista chamado Frank Kelly, para a missão. Mas não contou todos os detalhes. Ela não confiava em nenhum funcionário a esse ponto. Nessa altura, tudo o que ela queria era uma chance de se encontrar com Dillon, de preferência como que por acaso, e isso aconteceu na noite da segunda-feira seguinte.
Kelly ligou para ela na casa da South Audley Street, que ficava a apenas cinco minutos de carro do Dorchester.
— Dillon acabou de entrar no piano-bar. Ele parece estar vestido para uma noite de diversão, com um paletó azul marinho e uma gravata da Guarda Real.
— Mas ele não serviu na Guarda Real.
— Provavelmente vai encher a cara, se me permite a linguagem, senhora. Eu servi durante um longo tempo no Primeiro Regimento de Paraquedistas. Eu já ouvi falar desse cara.
— Eu não sabia que você tinha servido no Primeiro Regimento de Paraquedistas, Kelly. Você chegou a conhecer meu irmão George? — Sim, senhora, mas ele era bem mais graduado do que eu. Ele era segundo-tenente e eu era apenas um sargento quando servi.
— Tudo bem. Você está de carro aí? — Um dos Mercedes da companhia.
— Venha me pegar. Você deve levar-me ao Dorchester e me esperar. Você pessoalmente, Kelly. Não quero outra pessoa.
— Lady Kate, nunca passaria pela minha cabeça a ideia de chamar outra pessoa — disse Kelly.
Ele a pegou, um homem bem vestido, com pouco mais de, 1,70m de altura, rosto limpo e duro, cabelos cortados bem curtos, um hábito dos tempos de exército que ele não perdera. Ele rapidamente a levou ao Dorchester e estacionou em uma das vagas reservadas.
Ela passou pela porta giratória, muito elegante em seu tailleur preto. Enquanto se encaminhava para o bar, ela ouviu música, e lá estava Dillon tocando piano novamente.
Giuliano apareceu.
— Lady Kate, é um grande prazer. A mesa de sempre?
— Não, aquela no fundo à esquerda, perto do piano.
Quero falar com o pianista.
— Ah, o senhor Dillon. Ele toca bem, não é? De vez em quando ele dá uma canja antes do nosso pianista chegar. Só Deus sabe o que ele faz durante o resto do tempo. Você o conhece? — Pode-se dizer que sim.
Ele a acompanhou até a mesa. Ela acenou com a cabeça para Dillon, pediu uma taça de champanha Krug, sentou-se e pegou o telefone celular, o que era estritamente contra as normas do bar. Ela ligou para o apartamento de George, que ficava a apenas alguns quarteirões de distância.
Quando ele atendeu o telefone, ela disse: — Estou no piano-bar do Dorchester. Dillon está aqui e Frank Kelly está lá fora. Ligue para o celular dele e diga-lhe que vá pegá-lo. Eu preciso de você.
— Claro — disse George. — Vejo-a daqui a pouco.
Dillon realmente era muito bom, reconheceu ela. Ele estava tocando clássicos antigos, o tipo de música que ela gostava. Um cigarro caía de um canto da boca quando ele começou a tocar Our Love Is Here to Stay, com um sorrisinho levemente torto no rosto. Quando terminou, o pianista do bar chegou e Dillon sorriu, deslizou para fora do banco e o outro homem assumiu o posto.
O irlandês aproximou-se dela.
— Uma descoberta inesperada. Não é essa a expressão? É um grande e inesperado prazer.
— Meu Deus, senhor Dillon. Quanta erudição.
— Bem, ao contrário de você, não fui a Oxford. Tive de me contentar com a Academia Real de Arte Dramática.
— Você foi ator?
— Ah! Deixe disso, Kate Rashid, você sabe muito bem quem eu sou, nos mínimos detalhes.
Ela sorriu e, quando Giuliano se aproximou, disse: — O drinque preferido dele costumava ser o Krug, mas ouvi dizer que ele agora gosta mais do Louis Roederer Cristal. Traga uma garrafa para nós.
Dillon tirou uma cigarreira de prata, abriu-a e retirou um cigarro.
— Você poderia oferecer a uma dama — disse ela, estendeu a mão, tirou a cigarreira de sua mão, examinou-a e pegou um cigarro. — É art déco. Um homem de bom gosto. Ou talvez uma lembrança do National Theatre? — Você é bem informada — retrucou Dillon. Ele acendeu seu isqueiro Zippo e ofereceu fogo para ela, enquanto o champanha chegava, então acendeu seu próprio cigarro.
— Sabe, coincidências acontecem, e este encontro pode ser um exemplo disso. Ou estaríamos falando em Carl Jung?
— Você está se referindo à sincronicidade? Você quer dizer que existe uma motivação mais profunda?
— Ele ofereceu um brinde a ela. — Então, o que estamos fazendo aqui? Naquele momento, George desceu as escadas do bar e se juntou a eles, com Frank Kelly acompanhando-o.
— Ah, aqui estão dois corsários do Primeiro Esquadrão de Paraquedistas — disse Kate. — Dillon, este aqui é o meu irmão, George.
Mas foi a Kelly que Dillon se dirigiu: — Eu não usaria um coldre de ombro se fosse você, filho. Torna difícil sacar a arma numa situação de perigo. É melhor colocá-la no bolso, e não me diga para cuidar da minha vida senão eu mando você cuidar da sua.
Kelly na verdade sorriu. — Sente-se na mesa ao lado, Frank — disse Kate —, para que você possa ouvir a conversa.
Ele sorriu novamente para Dillon: — Sim, senhora, como um cão fiel eu obedecerei.
Dillon soltou uma gargalhada: — Bem, gostei desse cão. Ele pode tomar um drinque?
— Não durante o serviço — respondeu Kelly. — Além disso, eu também sou de County Down, seu canalha feniano.
— Então, nós sabemos em que pé estamos. — Dillon sorriu. — Vamos lá, tome uma dose de Bushmills, sente-se e escute o que a dama tem a dizer.
A história dela foi muito convincente.
— O negócio é o seguinte, Dillon, nós, quero dizer, a Rashid Investments, vai efetuar uma mudança geral para o Ulster, por causa das negociações pela paz, mas estamos encontrando alguns entraves, se você entende o que eu quero dizer. Nossas atividades criariam muitos empregos, mas estamos sendo ameaçados.
— E daí?
— Bem, precisamos do que você provavelmente chamaria de proteção. Pessoas que possam nos ajudar.
— E quem seriam essas pessoas?
Ela fez sinal para um garçom e ficou em silêncio até ele terminar de servir mais champanha.
— Você já ouviu falar de um homem chamado Aidan Bell?
Dillon quase caiu da mesa de tanto rir.
— Meu Deus, menina, ele já tentou me matar mais de uma vez. Nosso velho Aidan era importante no que você poderia chamar de organizações marginais da extrema direita do IRA.
— Ouvi dizer que ele possivelmente foi o responsável pelo assassinato de lorde Mountbatten.
— Bem, eu também fui acusado disso.
— Também dizem que você atacou o Número 10 na Downing Street em fevereiro de 1991 com morteiros.
— Nunca provaram nada. — Ele sorriu. — Olhe, se nós tivéssemos mais tempo...
— Tudo bem. Já sei que você é um garoto malvado, mas eu preciso encontrar Aidan Bell para ver se podemos fechar negócio com ele. Um serviço de proteção, chame-o como quiser. Ele vive num lugar chamado Drumcree, em County Down.
— Conheço bem o lugar, também sou de Down, mas é claro que você sabe disso.
— Devo encontrá-lo na quinta-feira. Vou levar o George. — Ela virou-se para Kelly. — Posso contar com você também?
— Sim, senhora.
— Mas que bom rapaz — disse Dillon e virou-se para ela. — E você está pedindo que eu vá também? Eu trabalho para Ferguson.
— Então fale com ele. Esta não é uma missão oficial. Eu só preciso de alguém para me proteger e, naquele maldito lugar, você é o melhor. Qual é o problema, Ferguson não deixa que você faça uns trabalhinhos para outras pessoas?
— Verei o que o bom brigadeiro tem a dizer e lhe avisarei.
Mais tarde, no apartamento de Ferguson, naquela mesma noite, ele fez um relatório ao brigadeiro do que havia ocorrido. Hannah Bernstein também ouviu tudo. Quando Dillon acabou, Ferguson ficou pensativo, em seguida virou-se para ela.
— O que acha?
— Superficialmente, faz sentido. A companhia dos Rashid está definitivamente interessada no Ulster no momento, assim como muitas outras pessoas. Por outro lado, é uma história muito bem contada. Bem contada demais.
Ferguson virou-se para Dillon, que sorriu e disse: — Eu sempre acreditei em policiais femininas. Ela tem razão.
Ferguson concordou com a cabeça.
— Há algo por trás disso tudo. Veja se você consegue descobrir o que há, Sean.
— Aí está você, chamando-me de Sean novamente. Dillon sorriu. — De qualquer forma, no momento está tudo calmo. Eu vou dar uma olhada.
— E mantenha contato — disse Ferguson.
O Gulfstream dos Rashid decolou da base da RAF em Northolt, local preferido dos jatos executivos que enfrentavam problemas de congestionamento no aeroporto de Heathrow. Além dos dois pilotos, as outras pessoas a bordo eram Kate, Dillon, George Rashid e Kelly. Dillon chegou por último. Após a decolagem, ele abriu a caixa do bar e encontrou uma meia garrafa de Bushmills.
— Ainda não sabemos o que está se passando — disse Kate.
— Bem, não é tão complicado assim. Aidan Bell está em Drumcree esperando para encontrá-la em algum momento amanhã e descobrir o que você quer com ele. Nós pousamos hoje à tarde em Aldergrove. Arrumei para irmos a um pequeno porto pesqueiro chamado Magee. Viajaremos de barco durante a noite rumo a Drumcree e você poderá se encontrar com Bell pela manhã.
Houve um silêncio.
— Você está certo de que isso vai funcionar? — perguntou ela.
— É um ótimo barco de quarenta pés chamado Aran. Posso navegá-lo sozinho, desde que esses dois trabalhem como marujos. O fato de você chegar dessa maneira vai deixar Aidan Bell um pouco desconcertado; portanto, uma garota esperta como você pode tirar proveito da situação e se sair bem.
— Seu canalha — disse ela. — Por que será que penso em você nesses termos? — Porque é isso que eu sou.
— Bem, desde que você seja o canalha que me ajudará a fazer este trabalho, certo? Não que ela confiasse nele, mas havia um plano e ela o estava executando.
O voo foi tranquilo, assim como a viagem de carro para o litoral. Magee era um lugar pequeno, o tipo de vilarejo que se ocupava basicamente da pesca. O Aran estava atracado no píer, um barco simples, como Dillon havia avisado, de quarenta pés, mas, como tinha sido Ferguson que o providenciara, ele sabia que pelo menos tinha dois hélices e o tipo de motor necessário para uma missão noturna. Ele esperou até perto da meia-noite para partir.
Eles fizeram uma refeição simples com ovos fritos e espaguete à bolonhesa enlatado, chegando até a dividir uma garrafa de vinho branco tão barato que não tinha rolha, mas uma tampa de metal.
— Vamos zarpar — disse Dillon. — O tempo não está tão ruim. O vento está soprando a seis ou sete nós. Usaremos apenas metade da capacidade do motor durante a maior arte do percurso. — Ele fez um sinal com a cabeça para George e Kelly. — Preparem o barco para sair, em seguida sugiro que vocês durmam um pouco. Não há como saber o que acontecerá pela manhã.
— E quanto a você? — perguntou Kate.
— Eu vou conduzir.
— Dillon, eu velejo há anos.
— Então, se a coisa ficar feia, você pode me ajudar.
Enquanto o Aran partia em direção ao mar, a maré ainda subia. A visibilidade era ruim, a chuva caía. Kate ficou em pé ao lado de Dillon na cabine de comando, apenas com a luz que iluminava a mesa de navegação acesa.
— Talvez tenhamos rajadas de vento, com chuva e nevoeiro pela manhã. Você está bem? Há comprimidos para enjoo na gaveta.
— Já lhe disse, Dillon. Eu já velejei antes. Vou fazer um pouco de chá e talvez um sanduíche.
Pouco depois, ele sentiu o cheiro do bacon e ela entrou na cabine com uma garrafa térmica cheia de chá e três sanduíches.
— Dois para você, um para mim.
— Como é que você, que tem sangue beduíno, come bacon?
— O Islã é uma bela crença moral, Dillon.
— E como é que isso é visto pelos cristãos do século XII da família Dauncey?
— Eles eram pessoas rígidas e suas crenças eram muito similares em alguns pontos. Sabe de uma coisa, Dillon? Eu tenho sangue beduíno, mas, por Deus, orgulho-me de minhas raízes Dauncey. Temos grandes antepassados nela.
Dillon acabou de comer o segundo sanduíche de bacon.
— É uma situação estranha, como posso ver. Não sei se gosto da aristocracia, Kate, mas gosto de você. E quanto George e Kelly?
— A última vez que os vi estavam indo deitar.
— Ótimo. Vou fazer o mesmo e, já que você adora se gabar da sua capacidade para velejar, vou passar o comando a você.
Quando ele acordou, quatro horas mais tarde, o barco balançava. Ele estava deitado num dos bancos do salão, lentamente levantou-se e subiu pela escada de tombadilho. Abriu a porta da cabine de comando a tempo de ver o amanhecer com uma luz acinzentada, o nevoeiro pesado, a chuva, e a costa de Down a cerca de duas milhas de distância. Kate estava lá, em pé, com as mãos firmes no controle do leme.
— Você realmente sabe navegar — disse Dillon. — Vou pegar o controle. — Ele afastou-a gentilmente. — Você está bem?
— Ótima. Não sinto tanto prazer assim há anos. Vou fazer um pouco de chá. Você quer mais sanduíches?
— Veja o que os marujos querem. Eu diria que nós vamos chegar a Drumcree em cerca de uma hora. Eu conheço o lugar desde os velhos tempos. Tem um pub chamado Royal George. Não se deixe enganar pelo nome. É um antro de republicanos. Vamos para lá e perguntaremos por Bell.
— Sua tática é surpreendê-lo?
— Bem, você pode dizer que sim. Deixe-me ver se entendi tudo bem, Kate Rashid. Você não me quer por perto quando se encontrar com ele, certo?
— Trata-se de negócios, Dillon, negócios privados da nossa companhia. George pode me acompanhar.
— Certo. — Sean Dillon virou o leme. — E, então, e quanto ao chá?
George e Kelly logo se uniram a eles na cabine de comando, tomaram canecas de chá e ouviram Dillon.
— O pub, o Royal George, é uma boa instituição feniana e fica bem no píer. Vocês dois serviram no Ulster, portanto conhecem esse tipo de lugar.
— Devemos ir armados? — perguntou Kelly.
— Veja debaixo da mesa de navegação. Tem uma alavanca.
Uma borda abaixou-se, Kelly abriu uma gaveta e encontrou uma variedade de armas.
— Vou levar a Walther no meu bolso, assim, quando for revistado, eles a encontrarão — disse Dillon. — Vocês encontrarão três coldres de tornozelo contendo pistolas calibre 22 de cano curto. Uma para cada um de nós.
— Acha que vamos precisar delas? — perguntou George.
— Estamos em território indígena e eu sou um dos índios. — Dillon sorriu. — Não percam a fé, amigos. Levem as coisas devagar e numa boa.
Drumcree era um lugar pequeno, com um porto mínimo, um píer, casas de pedra cinzenta espalhadas e alguns barcos de pesca. Eles se aproximaram do porto, Dillon diminuiu a velocidade enquanto chegava mais perto do píer, George pulou para fora do barco e amarrou a corda. Estava tudo bem silencioso, ninguém por perto.
— Lá está, Kate. — Dillon apontou. — O Royal George.
O lugar era obviamente do século XVIII, mas o teto parecia firme e o letreiro era verde, com letras em preto que pareciam ter sido retocadas em dourado recentemente.
— E, então, o que fazemos? — perguntou Kate.
— Bem, como em qualquer pub irlandês decente dessas bandas, eles servirão um café da manhã ao estilo irlandês. Sugiro que nós o tomemos, e pedirei ao anfitrião para avisar a Aidan Bell que estamos aqui.
— E isso será o suficiente?
— Sem dúvida. Nós já estamos na mira deles, como eles dizem. — Ele virou-se para os outros dois. — Você fica cuidando do barco, Kelly. E esteja preparado para qualquer coisa.
Um sino tocou quando eles entraram no bar. Dillon e George estavam vestidos com camisas de malha e casacos de marinheiro. Kate usava um macacão preto e carregava uma pasta. Havia três homens sentados perto da janela, tomando café da manhã. Um era de meia-idade e barbado, os outros dois eram mais jovens. Eles se viraram para olhá-los, homens de temperamento forte com rostos duros. Outro homem apareceu por trás do balcão, gordo, com cabelos brancos.
— Em que posso ajudá-los?
— Gostaríamos de tomar café da manhã — disse Kate.
A voz inglesa bem-educada cortou o silêncio como uma faca, e os homens perto da janela continuaram a olhar fixamente.
— Café da manhã? — disse o homem.
Dillon interveio, tornando seu sotaque de Belfast ainda mais acentuado.
— Isso mesmo, meu velho, três fritadas à moda do Ulster. Acabamos de chegar de barco de Magee. Em seguida, ligue para Aidan Bell e diga-lhe que lady Kate Rashid está aqui.
— Ligar para Aidan Bell? — indagou o homem.
— Como você se chama? — perguntou Dillon.
— Patrick Murphy — respondeu o homem, como que por reflexo.
— Você é um bom sujeito, Patrick, agora café da manhã e Bell, na ordem que lhe for mais conveniente.
Murphy hesitou e então disse: — Sentem-se.
Foi o que fizeram, do lado oposto àquele onde se encontravam os três homens. Dillon acendeu um cigarro, houve um murmúrio e então o homem barbado levantou-se e aproximou-se da mesa. Ficou parado, olhando para eles.
— Então, você é inglesa? — perguntou ele a Kate; em seguida, inclinou-se e passou a mão no rosto dela. — Ainda assim, acho que qualquer coisa é melhor do que nada em termos de mulher. Vamos lá, sua cadela britânica, vamos ver se você vale alguma coisa.
Havia uma garrafa grande de um molho marrom sobre a mesa. George tentou se levantar, mas Dillon o segurou, pegou a garrafa e a quebrou no lado esquerdo da cabeça do homem, fazendo com que ele caísse de joelhos. O homem ficou ajoelhado, com sangue e molho em seu rosto, e Dillon empurrou sua cara, fazendo com que ele tombasse violentamente no chão.
Foi nesse momento que Patrick Murphy surgiu, parecendo surpreso, e, enquanto os dois jovens se levantavam, Dillon sacou sua Walther.
— Eu não faria isso.
— Deus do céu — disse o barman. — O que você está fazendo? Eles são soldados do IRA Provisório.
— Quem entra nunca sai, segundo me disseram. E eu sou um membro desde que tenho dezenove anos. Vou dizer-lhe uma coisa: Martim McGuinness não ficaria nada satisfeito com esses tipos. Ele é um homem de família, é o que quero dizer. — Dillon virou-se para os dois jovens e fez um sinal com a cabeça em direção ao chão. — Tirem esse pedaço de merda daqui.
Eles estavam obviamente com raiva, mas levantaram o homem barbudo do chão. Atrás deles, a porta se abriu e um homem quase tão baixo quanto Dillon entrou com passadas largas, cabelos pretos desgrenhados, barba por fazer, vestido com uma jaqueta Barbour para se proteger da chuva, seguido por um homem ruivo e grande.
— Jesus! — exclamou ele. — É mesmo você, Quinn, e todo ferrado assim? — Ele soltou uma gargalhada. — No pé de quem você pisou?
— No meu — respondeu Dillon.
Bell virou-se surpreso e sua expressão era quase de espanto.
— Meu Deus, é você?
— O mesmo de sempre. Faz muito tempo: em Derry, com aqueles Paraquedistas britânicos nos caçando pelo esgoto.
— Você uma vez salvou a minha vida. — Bell estendeu lhe a mão.
— Você tentou me matar duas vezes.
— Ah, bem, nós tivemos uma briga. — Bell virou-se para os dois homens que seguravam Quinn. — Tire-o da minha frente.
Eles levaram o homem barbudo para fora.
— Mas que diabos está acontecendo, Dillon? — perguntou Bell.
— Esta é lady Kate Rashid. Acredito que vocês tenham um encontro marcado.
Bell nem mesmo parecia estar surpreso.
— Devia ter sabido. Pegaram-me de surpresa, não é? E o que esse filho da mãe está fazendo aqui?
— O senhor Dillon está aqui cumprindo uma missão particular. Eu precisava do conhecimento dele sobre County Down e ele recebeu dez mil libras para fornecê-lo.
— Aterrissamos em Aldergrove ontem. Viajamos de barco durante a noite, voltaremos para Magee em uma ou duas horas. Dinheiro fácil — disse Dillon.
— Sem essa, você ainda trabalha para Ferguson, seu traidor. — Ele tirou uma Browning do bolso. — Levante os braços. Reviste-o, Liam.
O homem ruivo revistou Dillon e encontrou a Walther.
Ele virou-se para Kate: — Agora você, querida.
— Seja educado, Casey — disse Bell —, trata-se de uma dama. — Ele fez um gesto na direção da pasta. — Veja o que há aí dentro.
— Não, senhor Bell— disse Kate. — O que há na pasta só diz respeito a nós dois.
— Entendo. — Ele se virou na direção de George enquanto Liam Casey o revistava. — Esse deve ser o irmão mais novo. Do Primeiro Regimento de Paraquedistas.
— O senhor é bem informado — disse Kate.
— Sempre me mantenho bem informado, sei que o seu chefe de segurança está naquele barco e que também serviu no Primeiro Regimento de Paraquedistas. Trata-se de um maldito protestante.
— Assim como você. — Dillon fez um movimento com os ombros para Kate. — Um dos poucos no IRA.
— Então, o que estou fazendo aqui?
— Tratando de negócios, senhor Bell. Como o senhor é tão bem informado, provavelmente saberá que eu sou diretora executiva da Rashid Investments e também que temos grandes planos de desenvolvimento no Ulster.
— Já ouvi falar sobre isso.
— Podemos conversar?
Bell fez um sinal afirmativo com a cabeça para o barman. — Usaremos o escritório. — Ele os conduziu até uma porta, abriu-a para que ela entrasse e virou-se para Dillon: — Sean?
— Você ainda não entendeu — disse Kate. — Dillon está aqui apenas na condição de guarda-costas. Meu negócio é com você, e só com você, em favor da Rashid Investments. — Ela se virou e fez um movimento de cabeça para o irmão: — George, venha conosco.
A porta se fechou. Dillon virou-se e disse ao barman: — Sei que ainda é cedo, mas está frio lá fora. chove muito e eu também sou de County Down, portanto tire uma garrafa de Bushmills para celebrarmos.
Havia um fogo aceso na lareira aberta do escritório, cadeiras em ambos os lados e uma pequena mesa de café no meio.
Kate Rashid sentou-se, seu irmão ficou em pé atrás dela.. Bell sentou-se do outro lado e acendeu um cigarro. Liam Casey ficou em pé atrás dele.
— Bem, ouvi dizer que a Rashid Investments está enfrentando problemas na Irlanda do Norte e precisa de alguma proteção.
— Não exatamente, senhor Bell. Esta é uma história na qual até Dillon acredita. Não, na verdade, não preciso que você me forneça proteção. Você é muito talentoso para desempenhar esse papel.
— Verdade? Então você precisa de mim para fazer o quê?
— No ano passado, você matou o general Petrovsky na Chechênia e também matou a maior parte de seus auxiliares num atentado a bomba. Grande parte do mundo pensou que fosse uma vitória dos revolucionários chechenos, mas sei que você recebeu um milhão de libras de fontes chechenas exiladas em Paris.
— Você sabe disso?
— Sei.
A expressão no rosto dele era calma. — Você ou seu irmão famoso, o conde, não é? Um homem de valor, e com todo o dinheiro do mundo, segundo dizem.
— Não exatamente, mas quase isso. Vocês nunca se conheceram, obviamente.
— Quase. Ele foi tenente na Guarda de Granadeiros. Crossmaglen, em South Armagh. Eu estava com um dos meus melhores atiradores. Seu irmão e uma pequena patrulha se aproximavam. Meu atirador tinha ele na mira, quando um helicóptero apareceu com outros vinte granadeiros e nós tivemos que fugir.
— Se você tivesse atirado nele, teria perdido muito dinheiro. — Ela empurrou a pasta em sua direção. — Dê uma olhada.
Ele soltou as trancas e abriu a pasta. Dentro, estavam duas fileiras de notas de cinquenta libras.
— Quanto tem aqui? — perguntou ele.
— Cem mil libras, como prova da nossa boa-fé. O dinheiro é seu, não importa o que aconteça. Um presente do meu irmão para você.
— E o que eu tenho que fazer?
— Talvez você já saiba disso, mas os americanos e os russos estão querendo explorar petróleo em Hazar. O sultão intermediou o negócio com eles. Envolvia o assassinato do meu irmão.
— O sultão está morto. Saiu nos jornais.
— Exatamente. Um dos assassinos dele quase me matou. Meu irmão matou-o a tiros. Esse é o tipo de homem que ele é.
— Não duvido nada. Hora para urna lição irlandesa, lady Kate. Eu, Dillon, o Casey aqui, seu irmão, nós todos somos farinha do mesmo saco. Eu sei que sou um filho da mãe, mas sou um filho da mãe inteligente.
— Tudo bem. Vou lhe contar tudo. Isso diz respeito a minha mãe e a um homem chamado Igor Gatov.
Mais tarde, Aidan Bell disse: — Desculpe a expressão, mas são todos uns filhos da puta. Os americanos, os russos, os ingleses. Eles usam as pessoas, depois as jogam fora como se fossem copos descartáveis.
— Então, uma vez na vida nós lhes daremos uma lição. E eu estou falando de uma grande lição. Nós vamos direto ao topo. Ouvi dizer que Jake Cazalet é um homem bom, mas e daí? Alguém paga pelos serviços de pessoas como Gatov e, no fim das contas, só pode ser quem está lá em cima, no poder. Para matar o presidente Jake Cazalet, você recebe dois milhões. Então, está dentro ou fora?
— Jesus — disse Liam Casey.
Bell ficou sentado, olhando para ela. — Você está louca, mulher.
— Não, estou falando muito sério. Como disse, você fica com as cem mil libras, não importa o que aconteça. — Ela tirou um cartão telefônico de sua bolsa, uma caneta e escreveu rapidamente. — O número do meu telefone celular codificado. Você tem sete dias. Meu irmão e eu estaremos na Trump Tower, em Nova York, na quinta-feira que vem, no nosso apartamento. Se estiver interessado, apareça por lá com um plano coerente. Se não estiver, você ficará cem mil libras mais rico e continuaremos amigos.
Bell sorriu. — Estarei lá, lady Kate. Trump Tower, quinta-feira. Ela concordou com a cabeça, exibindo alguma satisfação no rosto.
— Não se trata do dinheiro, não é? Trata-se de um jogo para você, exatamente como para Dillon.
— Bem, ainda assim espero ser pago, e, por um trabalho como esse quero receber não dois, mas três milhões de libras esterlinas.
Ele estendeu a mão e ela a apertou.
— Não sei por que, mas esperava que você dissesse algo assim.
— Então, nós nos encontraremos novamente na semana que vem, em Manhattan.
— Estarei lá.
Casey abriu a porta para ela e eles se juntaram a Dillon, que estava no bar bebendo Bushmills.
— Um pouco cedo para isso, mesmo tratando-se de você — disse ela.
— Teremos que caminhar de volta pela chuva, garota. Gosto de me manter aquecido. Já terminamos por aqui, presumo.
— Sim, vamos voltar para Magee.
Dillon virou-se para Bell: — Digo isso com sinceridade, Aidan. Tenho certeza de que você fará tudo o que a dama quiser com sua habitual e impiedosa eficiência.
— Ah, pode contar com isso, Sean.
Kate, Dillon e George saíram e Bell e Casey ficaram na porta, vendo-os partir.
— É uma loucura, Aidan — disse Casey. — Mesmo você não conseguiria fazer isso.
Bell sorriu, com um olhar incrivelmente perigoso.
— Bem, aí é que você se engana, Liam. Eu posso fazer tudo. Já tenho algo maquinando em meu cérebro, algo que li recentemente. Vou dar uma olhada nisso. É uma mulher e tanto. — Ele ficou olhando enquanto ela caminhava entre Dillon e George. — Mas Dillon. É estranho ela o ter trazido aqui.
— Um "guarda-costas", segundo ela.
— Pode ser, mas ainda assim ele trabalha para Ferguson, o que significa que ele não está envolvido nisso. Não faria sentido.
Eles saíram andando pela chuva, em direção ao porto. Quando Kate Rashid e os dois homens chegaram ao Aran e pularam a amurada, encontraram Frank KeIly caído de bruços no convés. Quinn, o barbudo do Royal George, saiu da cabine de comando com um sorriso selvagem no rosto, escoltado por seus dois companheiros. Estavam todos armados.
Sem hesitar, DilIon jogou-se por cima da amurada, mergulhando até o fundo, nadando, e emergindo novamente na popa.
Quinn estava gritando: — Peguem o filho da puta, peguem-no!
Dillon estendeu a mão até o coldre do tornozelo e sacou a 22. Os homens estenderam o pescoço para fora do barco e ele atirou entre os olhos de ambos. Surpreso, Quinn virou-se para ver o que estava acontecendo e George Rashid sacou a 22 de seu próprio coldre e acertou-o no braço direito. Quinn deixou a arma cair, pulou a amurada e fugiu cambaleando.
George colocava-o cuidadosamente na mira quando Dillon subiu de novo no barco.
— Deixe ele para lá e vamos embora daqui. Veja como está Kelly— acrescentou ele para Kate. Em seguida, entrou na cabine de comando e ligou o motor.
Saindo do Royal George, Bell e Casey viram o que estava acontecendo lá embaixo, no barco.
— Aquele merda do Quinn. Ele vai estragar tudo. Venha — disse Bell e desceu o morro correndo em direção ao porto. — Eles viram a ação, Dillon pulando na agua e matando os dois comparsas de Quinn a tiros. Quinn levando o tiro de George Rashid e fugindo em busca de abrigo. Bell e Casey pararam, viram George desamarrar as cordas e o Aran sair do porto, viram Quinn correr trôpego entre os barcos e cair na água.
— Chega, Liam — disse Bell. — O IRA Provisório pode ir para o inferno. Este é o meu território e esse filho da puta por pouco não estraga o maior trabalho da minha vida. Dessa vez ele vai pagar.
Bell correu, seguido por Casey. Para voltar para a praia, Quinn teve de cambalear pela água e, quando passou por trás da popa de um barco pesqueiro, ele ficou frente a frente com Bell e Casey.
— Aidan? — disse ele.
— Você tem sido uma pedra no meu sapato há muito tempo, seu filho da puta. Vamos pôr um fim nisso agora. — Ele sacou a Browning do bolso e deu dois tiros no coração de Quinn, que caiu de volta na água, o corpo boiando semissubmerso.
— Quer que eu faça alguma coisa? — perguntou Casey. — Não precisa, a maré está virando. Vai levá-lo para o mar e, em Drumcree, quem vai perguntar alguma coisa?
O Aran partiu em direção ao mar. Kate dirigiu-se para a popa e sentou-se na chuva, fazendo uma ligação de seu celular codificado. Paul Rashid atendeu.
— Sou eu, querido.
— Como se saiu?
— Conto quando nos encontrarmos. Bell está dentro.
— Ótimo. Como Dillon se saiu?
— Bem, descobri que ele e Bell já tentaram matar um ao outro nos velhos tempos.
— E então, Dillon acreditou na sua história?
— Só Deus sabe. Ele é um sacana esperto. Mas ele salvou a minha vida.
Houve uma pausa e Paul Rashid disse: — Explique.
Depois, ele comentou: — Ele não faz prisioneiros, mata.
— Não. Aliás, George também não decepcionou.
— Estou orgulhoso dele. Diga isso para ele. Vejo-a em breve.
O Aran estava se lançando ao mar em meio a ondas fortes. Dillon e George estavam na cabine de comando, quando Kate chegou com o chá.
— Como está Kelly? — perguntou Dillon.
— Ele vai ficar bem. Só tomou um golpe na cabeça. Ficará com dor de cabeça por algum tempo, mas ele é um cara forte.
— Ótimo — disse Dillon. — Agora, Kate, tem uma meia garrafa de Bushmills embaixo da mesa de navegação.
Ela a encontrou, apanhou-a e encheu duas canecas de chá.
— George, meu garoto,. como qualquer amigo judeu diria, você é um mensch. Obrigado.
— Dillon, já passei por Sandhurst e servi no Primeiro Regimento de Paraquedistas. De vez em quando, eu deixo de lado a administração de propriedades.
— Vamos lá — Dillon riu. — Tire ele da minha frente, Kate.
Assim que eles saíram, ele usou seu celular codificado para ligar para Ferguson. Quando o general atendeu, ele fez um relato dos eventos.
— Cristo, Dillon, você andou matando gente de novo?
— A classe dos ímpios, Charles.
— Tudo bem. Você acreditou na história que ela contou, de estar querendo contratar Bell para fornecer proteção para a Rashid Investments?
— Nem por um segundo.
— Então, por que envolveram você nisso?
— Já lhe disse. Eu conheço Down e conheço Bell dos velhos tempos. Eu matei uns caras que queriam matá-la. Ela me contratou como guarda-costas e eu tomei conta dela. Sem a minha ajuda, ela estaria morta.
— E você ainda acha que algo esteja acontecendo?
— Sem dúvida. Algo grande, mas não tenho ideia do que seja.
— Venha para Londres, Sean, e nós pensaremos a respeito disso.
Na casa de Aidan Bell, Casey estava na cozinha preparando o chá. Repentinamente, a porta se abriu e Bell apareceu com urna revista na mão.
— Eu estava certo. Encontrei a história na revista Tim. Ela conta exatamente como fazer para matar Jake Cazalet.
— Você está louco — disse Casey.
— Nem um pouco, Liam. Isso pode dar certo. Confie em mim.
MANHATTAN, LONDRES, WEST SUSSEX, CASA BRANCA
Aidan Bell e Liam Casey dividiram uma suíte no hotel Plaza, ao lado do Central Park, em Nova York. Eles haviam voado mais cedo no Concorde, com passagens fornecidas pela Rashid Investments, e encontrado uma limusine com chofer esperando para levá-las para o hotel.
— Isso é que é vida, Aidan — disse Casey.
— Bem, não deixe isso lhe subir à cabeça. Faça a barba, tome uma ducha e coloque seu melhor terno. Vamos visitar a realeza hoje à noite. Não quero que pensem que somos dois maltrapilhos.
Bell tomou uma ducha no banheiro do anexo, vestiu-se Com uma camisa branca, gravata azul e um terno escuro sob medida. Quando ele chegou à sala de estar, Liam Case estava de pé, olhando pela janela.
— Jesus, Aidan, que cidade.
Ele virou-se, trajando terno, camisa e gravata pretos. — Como estou? — Você parece um leão-de-chácara do Coliseu — disse Bell. — Vamos embora. Estamos a cerca de dois quarteirões de distância. Comporte-se e faça o que eu disser assim poderemos nos sair bem.
Na Trump Tower, eles subiram num elevador privativo para a cobertura dos Rashid, e foi Kate quem abriu a porta. Ela usava um vestido preto e uma corrente de ouro no pescoço, tudo muito discreto.
— Senhor Bell.
— Lady Kate. O que posso dar a uma mulher que já tem tudo? — Ele abriu uma pasta e retirou uma caixa de plástico barata. — Um presente de County Down. Um amuleto de boa sorte. Um trevo de quatro folhas.
— Bem, vamos precisar de muita sorte, senhor Casey. — Ela acenou com a cabeça. — Entrem. Meus irmãos es. tão esperando.
Paul Rashid estava sentado com Michael e George perto da lareira, na sala de estar. Kate os apresentou.
— Aidan Bell e seu sócio, Liam Casey.
— Senhor Bell. — Paul Rashid não trocou um aperto de mãos. — Minha irmã me disse que você quase me matou em Crossmaglen.
— É verdade, mas Alá foi bondoso com o senhor — disse Bell.
— Gostei disso, gostei muito disso. Quer tomar um drinque?
— Talvez mais tarde. No momento, acho melhor falarmos de negócios.
— Ótimo. Você não estaria aqui se não se achasse capaz de fazer isso, não é?
— Sim, você está certo. Bem, existem dois tipos comuns de assassinato. Um deles é feito por malucos que abrem caminho pela multidão e atiram no presidente de perto, sem chance de fuga depois. Frequentemente, eles nem mesmo querem escapar. Esse não é o meu estilo. O segundo é o tipo inteligente, complicado, como em O dia do chacal, meticulosamente organizado, com todas as possibilidades levadas em conta, como eu fiz na Chechênia quando matei Petrovsky e seus auxiliares. Isso leva muito tempo para planejar. Entretanto, sinto que vocês querem resultados num prazo mais curto.
— Você está certo. — disse Paul. — Então, como resolvemos isso?
— Há uma terceira maneira.
Houve silêncio.
— Qual, pelo amor de Deus? — perguntou Kate. Bell estava se divertindo.
— Bem, atirar no presidente dos Estados Unidos deveria ser impossível— ou poderia ser algo absurdamente simples? — Ele abriu a pasta, retirou uma revista e a ergueu. A América, como a Grã-Bretanha, é uma democracia. Você pode escrever o que quiser sobre os poderosos e os mocinhos. Há um artigo nesta revista sobre Jake Cazalet, o presidente mais popular dos Estados Unidos. Havia ficado na minha memória, então fui procurá-lo, e é tudo o que necessito para armar um plano geral. Agora só preciso acabar de acertar alguns detalhes.
Houve um profundo silêncio. Ele sorriu, sentindo seu poder. — Gostaria de tomar uma dose dupla de uísque irlandês Bushmills, em seguida conversaremos.
Alguns minutos mais tarde, ele estava em pé no terraço, observando o trânsito enquanto Paul Rashid lia o artigo. Em seguida, este o repassou para os outros.
— Certo — disse Paul. — Agora conte-nos qual é o seu plano, senhor Bell.
— Como é mencionado no artigo, Jake Cazalet adora passar seus fins de semana na velha casa de praia em Nantucket. Eles o apanham de helicóptero no gramado da Casa Branca, na sexta-feira à noite, e ele passa o sábado e o domingo lá antes de voltar na noite de domingo. Ele não tem familiares, somente aquela filha em Paris. Cazalet não gosta de muito estardalhaço: ele é famoso por isso. Na casa, até mesmo a cozinheira e a empregada são diaristas. Elas moram na cidade. Há um alojamento para auxiliares, mas ele se recusa a levar mais que dois agentes do Serviço Secreto para os fins de semana. Pesquisei um pouco mais e descobri que um deles chama-se Harper, é o oficial de comunicações. O outro é seu favorito, um ex-fuzileiro grande, negro, chamado Clancy Smith, que lutou na Guerra do Golfo. Smith é inteira mente dedicado a Cazalet. Ele seria capaz de pular na frente de uma bala para salvá-lo. E, por último, há Blake Johnson.
— Sim, ele é mencionado no artigo. Dizem que é o diretor de algo chamado de Departamento de Negócios Gerais da Casa Branca — disse Rashid.
— Conhecido como o Porão, porque é lá que se localiza.
Na verdade, é um esquadrão particular de assassinos do presidente, totalmente independente da CIA, do FBI e do Serviço Secreto. Tem sido passado de presidente para presidente há pelo menos vinte anos, ninguém sabe realmente ao certo há quanto tempo; Johnson também é o melhor amigo de Cazalet, um veterano do Vietnã com uma impressionante lista de serviços prestados.
— E você tem certeza de tudo isso?
— Tenho de ter. É por isso que ainda estou vivo.
— Então, temos um presidente que é um homem simples, que não gosta de barulho e que prefere ficar sozinho — disse Paul. — Você sabe muito bem que todo o perímetro daquela área estará sendo muito bem monitorado pelo Serviço Secreto.
— Exatamente. — Bell abriu a pasta de novo e retirou um mapa. — Veja, em frente à casa do presidente, há uma praia com dunas. Mas, nos fundos, temos essa área pantanosa, que não é muito comum em Nantucket. É o único lugar assim em toda a ilha. Ela se estende por uma boa área: Juncos altos, água, lama, um paraíso para os observadores de pássaros. Cazalet adora o lugar. Ele sai para correr nas trilhas todo dia de manhã com seu cachorro e com o bom e velho Clancy Smith seguindo-o. Smith leva uma arma em baixo do braço esquerdo e um fone de ouvido, naturalmente, mas não há mais ninguém por perto, a menos que seu amigo Blake Johnson esteja por lá nesse fim de semana e decida passear também. Se ele aparecer, mando bala nele também.
Nesse momento, houve uma pausa realmente grande foi Kate quem disse: e — Tudo o que você diz faz sentido, mas não vejo como você conseguiria entrar na área, no pântano.
Bell sorriu.
— Desculpe-me. Eu ainda não expliquei. Você, meu lorde, tem uma casa em Long Island, não é?
— Sim, é isso mesmo.
— Você me fornecerá um barco, um Sport Fisherman será suficiente, e alguém para pilotá-lo. Nós navegaremos até aquela área e ficaremos a cerca de uma milha de distân. cia da costa, flutuando. Você também me arrumará um Dolphin Speed Trailer. Esses troços têm duas baterias grandes e viajam debaixo d'água. Liam e eu vamos mergulhar, algo que nós sabemos fazer bem, e invadir o pântano pela água, por baixo dos juncos.
— E depois? — perguntou Michael Rashid.
— Então, esperamos por Cazalet, matamos os dois, ele e Clancy Smith, e nos mandamos de lá. Levará algum tempo para que Harper comece a se perguntar por que eles não respondem. Nesse meio tempo, nós voltamos com o Dolphin para o Sport Fisherman, em seguida vamos para Long Island, onde vocês estarão com o Gulfstream nos esperando para nos tirar de lá o mais rápido possível a caminho de Shannon.
Ele fez uma pausa, esvaziou o copo e em seguida perguntou para Paul Rashid: — Acha que vai funcionar?
Rashid respondeu em tom calmo: — Acho que vai funcionar muito bem. — Ele se virou para o irmão George. — Uma outra dose de Bushmills para o senhor Bell.
— É um roteiro e tanto — falou Kate —, mas e se der errado? E se não funcionar?
— Nada é certo nesta vida — respondeu Bell. — Haverá passagens perigosas, mas, se prepararmos tudo da maneira correta, funcionará.
— Então, observe para que tudo seja preparado da maneira correta — interveio Paul. — Lembre-se, só teremos uma chance para acertar. Se você fracassar, a segurança de Cazalet será fortalecida de tal forma que se tornará inexpugnável. E então teremos que passar pelo problema de encontrar outro alvo.
— Outro alvo? — perguntou Michael.
— Eu lhe disse, irmão. De uma maneira ou de outra, alguém terá que pagar.
Houve um silêncio. Em seguida, Bell virou-se para Kate: — Você vai cuidar da organização das coisas de que iremos precisar?
Ela olhou para Paul e, em seguida, concordou com a cabeça: — Tudo o que vocês quiserem.
— Certo. O Sport Fisherman que eu já mencionei, o Dolphin Speed Trailer e equipamentos de mergulho para dois.
— Armas? — perguntou Paul Rashid.
— Eu prefiro rifles de assalto AK básicos, com silenciadores. Umas duas Brownings com silenciadores Carswell. Isso é tudo. Muito simples, se tudo correr bem.
— Você disse se de novo — alertou Kate.
Bell sorriu.
— Oh, lady Kate, estou neste negócio há vinte e oito anos, e se você soubesse a frequência com que os melhores planos dão errado, entenderia por que eu sou um cínico. Bem — ele tirou um cartão do bolso —, suas cem mil libras foram um gesto simpático, mas eu quero a parcela seguinte imediatamente. Este é o número da minha conta bancária na Suíça. Deposite um dos três milhões.
Paul Rashid concordou com a cabeça.
— Claro. — Ele pegou o cartão e o entregou a Michael.
— Tome conta disso. — Ele sorriu. — Acho que devemos brindar com uma taça de champanha.
— Uma boa ideia. — Bell sorriu. — Mas é a última vez. Quando eu começo a trabalhar, paro de beber.
— Bem, parece-me algo sensato.
Kate ofereceu champanha para todos. Rashid levantou sua taça.
— Então, vamos mudar o mundo.
Bell soltou uma gargalhada.
— Saúde, meu velho, mas se você acredita nisso, você deve acreditar em qualquer coisa.
Dois dias depois, Kate Rashid levou Bell e Casey para o píer em Quogue, onde encontraram um Sport Fisherman chamado Alice Brown e um homem chamado Arthur Grant, que tinha por volta de cinquenta anos e cabelos grisalhos amarrados em rabo-de-cavalo.
— Senhor Grant — disse Kate —, estes são os cavalheiros sobre os quais lhe falei. Eles querem fazer um passeio até Nantucket, para mergulhar. O senhor Bell está em busca de destroços de navios. O senhor já colocou o Dolphin a bordo?
Grant serviu-se uma dose de Jack Daniels. — Bem, madame, essa é a história que você me contou. Quanto a mim, acho que eles estão atrás de algo mais do que destroços de navios, mas não dou a mínima. Vinte mil dólares e ele é seu.
— Fechado. — Ela virou-se para Bell. — Mantenha contato — e então saiu pela escada de tombadilho.
— Ela tem uma bunda e tanto — disse Grant.
Bell deixou cair a mala contendo as armas e acertou-lhe um chute no tornozelo direito, em seguida virou-o na dire ção de Casey, que lhe desferiu uma testada. Grant caiu para trás no convés e Bell se inclinou.
— De agora em diante, você é minha propriedade, Grant. Está me entendendo? Cuidado com o que diz, faça o seu trabalho direito e você receberá os vinte mil. Do contrário...
Ele fez um sinal para Casey, que tirou uma faca do bol so, apertou um botão e a lâmina saiu.
— Desculpe-me — disse Grant.
— Bem, lembre-se de que você já teve que pedir des culpas uma vez — disse Bell.
Em Londres, Ferguson estava sentado em seu escritório no Ministério da Defesa, fazendo trabalhos burocráticos A detetive superintendente Hannah Bernstein entrou.
— Algo de novo? — perguntou Ferguson.
— Não, senhor. Só aquele negócio com os Rashid. — O quê? — Nossa informação é que eles estão em Nova York.
Algum tipo de reunião familiar.
— O que Dillon está fazendo? — Acredite ou não, senhor, ele foi caçar em West SUssex com Harry Salter. Faisões.
— Salter? Aquele maldito gângster? — Sim, senhor, e com o jovem Billy.
— O sobrinho? Maravilhoso. Ele é quase tão ruim quanto Harry.
— Não preciso lembrar-lhe, senhor, mas ele nos aju dou muito naquela última missão na Cornualha.
— Você não precisa lembrar-me, superintendente. Mas ainda assim ele é um gângster.
— Ele concordou em pular de pára-quedas sem ter fei to qualquer treinamento e matou quatro dos homens de Jack Fox. Dillon estaria morto sem ele.
— Concordo. Mas ainda assim ele é um maldito gângster.
No hotel Compton, em West Sussex, chovia sem parar, mas isto não estragava a expedição de caça, formada por um grupo de trinta criminosos convidados por Harry. Ele desceu de um Shogun usando um boné de pano e vestindo um casaco, calças jeans e botas de borracha de cano curto.
tinha 65 anos. O rosto era gordo e afável, pelo menos enquanto tivesse sorrindo. Um dos mais famosos chefes da máfia londrina, estivera na prisão apenas uma vez em sua longa carreira.
Harry tinha milhões investidos em negócios portuário e do ramo hoteleiro, mas, como o crime corria em suas veias, ele ainda estava envolvido com contrabando proveniente do continente. Dava para se ganhar muito dinheiro com o contrabando de cigarros. Na Europa, eles eram incrivelmente baratos, mas na Grã-Bretanha, os mais caros do mundo. Não havia necessidade de se envolver com drogas ou prostituição quando você podia contrabandear cigarros.
Ele ficou parado sob a chuva.
— Realmente maravilhoso. Maravilhoso mesmo, não é, Dillon?
— É a vida no campo, Harry.
Dillon estava com um boné e uma capa preta de bom beiro. Billy Salter, o sobrinho de Harry, um homem de seus vinte e tantos anos com um rosto pálido e olhos selvagens, surgiu em seguida, usando um boné e um anoraque. Braço direito de seu tio, ele havia sido preso quatro vezes, todas por um curto período de tempo, por agressão e lesão corporal dolosa.
— É tudo culpa sua, Dillon. Em que situação você foi me meter agora.
— Acerte alguns faisões, Billy, respire o ar do campo. Da última vez em que estivemos ao ar livre, eram bandidos que queriam matá-lo. Isso deve ser mais divertido.
Joe Baxter e Sam Hall, os guarda-costas de Harry, estavam vestidos com calças jeans e anoraques.
— Que bando de imbecis. — Billy apontou Com a cabeça para as outras pessoas que saltavam de jipes e de Range Rovers. — Por que estão vestindo aquelas roupas engraçadas? E aquelas calças ridículas? — É como esse tipo de gente se veste para caçar, Billy — disse Dillon. — Trata-se de um antigo vestuário inglês.
O restante dos membros da expedição encontrava-se agrupado em torno de um homem grande de rosto corado, e Dillon ouviu alguém se referindo a ele como lorde Portman. Todos se viraram e olharam para o grupo de Salter com desdém.
— Meu Deus, o que temos aqui? — perguntou Portman. Um outro homem grande, de barba grisalha, aproximou-se: — Cavalheiros, posso ajudá-los? Sou o chefe da expedição, Frobisher.
— Espero que sim, meu velho. Meu nome é Salter, Harry Salter.
Frobisher ficou espantado, hesitou e em seguida virou se para os outros: — Este é o senhor Harry Salter, chefe da máfia. — Os outros olharam, horrorizados.
— Lorde Portman, não é? — perguntou Salter.
— Correto — Portman respondeu num tom gélido. — Presidente da Riverside Construction, não é? Então temos algo em comum.
— Não consigo imaginar o que seja.
— Nem precisa imaginar. Eu assumi o controle de sua companhia na semana passada. Eu represento a Salter Enterprises, portanto, pode-se dizer que você trabalha para mim.
O horror estampado no rosto de Portman era profundo.
Ele chegou até mesmo a recuar e foi Dillon quem inteligentemente disse para Frobisher: — podemos seguir adiante? Joe Baxter e Sam Hall estavam descarregando as malas com as armas.
— Vamos nos espalhar pelo vale até aquela floresta — disse Frobisher. — Vou dar um número para cada um de vocês.
— Sabemos como isso funciona, meu velho — interveio Dillon. — Já expliquei para os meus amigos.
Frobisher hesitou.
— Então, vocês já caçaram antes? — Apenas pessoas — disse Billy. — Portanto, vamos em frente.
Três horas mais tarde, no Shogun, Baxter estava dirigindo e Billy abriu uma garrafa de champanha e serviu a bebida em copos plásticos.
— Que bando de idiotas metidos a besta. A cara que eles fizeram quando atirei antes da hora.
— Bem, sim, nisso você tem alguma prática — disse Dillon.
Harry Salter bebeu seu champanha.
— A porra do rosto que aquele Portman fez foi demais. — Você vai se livrar dele, Harry? — perguntou Billy.
— Não, conheço o desempenho dele no passado e ele é competente. Vou melhorar os lucros dele. E ele vai aceitar o que nós chamamos de negócios, Billy.
— Um troço chato pra caramba. — Billy virou-se para Dillon. — você está metido em alguma coisa na qual eu possa ajudar? — Está se inspirando em Heidegger, não é, Billy? Está sentindo falta de um pouco de ação e paixão? — Vamos, esqueça disso — disse Salter para o sobrinho. — Da última vez você se safou por pouco.
— Está bem, estou entediado. — Billy fez um muxoxo. — E você não vai mais me deixar contrabandear cigarros e bebidas de Amsterdam.
— Porque não quero você preso. Pessoas comuns podem se virar com isso. Quanto a você, comporte-se. Ele serviu mais champanha e Dillon disse: — Não esquecerei de você, Billy.
Billy levantou seu copo.
— Sempre pronto e à disposição, Dillon.
Na Casa Branca, Jake Cazalet estava sentado em sua escrivaninha no Salão Oval, em roupas informais, assinando uma pilha de papéis. A porta se abriu e Blake Johnson entrou. Lá fora, a chuva batia contra a janela. O presidente encostou-se na cadeira.
— O que você tem para me dizer?
— Hazar, senhor presidente.
— A morte do sultão?
— O assassinato do sultão.
Jake Cazalet levantou-se, foi até a janela e olhou para fora.
— A CIA não sabe nada a respeito disso — informou — Eles dizem que estão totalmente perplexos. A pergunta é a seguinte: Perplexos ou envergonhados? Nós sabemos que agentes do sultão tentaram matar Paul Rashid por causa de nossos interesses, e dos russos, nos campos de petróleo. E o sultão era um homem da CIA. Eu diria que eles têm muito o que explicar. E agora a toda essa agitação do Hezbollah, do Exército de Deus, da Espada de Alá e de todos os outros. Algo está prestes a acontecer.
— Merda! — disse Jake Cazalet. — Não gosto nem um pouco disso.
— É um mundo sujo, senhor presidente. Não posso provar, mas aposto que foi vingança de Rashid.
— Charles Ferguson sabe algo sobre isso? — Não sei, senhor presidente. Ainda não o consultei. — Então consulte-o.
Era tarde em Londres quando Ferguson, sentado perto da lareira em Cavendish Place, conversava com Blake.
— Não posso ajudá-lo a esclarecer a questão do sultão, embora meu palpite seja de que foi um assassinato cometido por Rashid.
— Tem certeza? — Absoluta. Tenho um agente no qual confio cegamente, coronel Tony Villiers, que comanda os Batedores Hazar como um oficial contratado. Ele me mantém bem informado. Durante a Guerra do Golfo, ele também comandou a unidade do SAE na qual Rashid serviu.
— Bem, isso é o suficiente. Obrigado, Charles. Como vai Dillon?
Ferguson hesitou.
— Bem, já que você o mencionou... Porra, Blake, isso é estritamente confidencial, mas... sente-se, meu amigo, tenho uma história para lhe contar. Diz respeito aos Rashid. Ele repassou tudo: Drumcree, Aidan Bell, Kate Rashid o assassinato dos homens do IRA Provisório.
— Meu Deus — disse Blake. — O que eles estão planejando?
— Então, você também não acredita na história deles não é? Os Rashid estão se envolvendo na Irlanda do Norte. Isto é um fato.
— Pode ser, mas há muito mais coisa nisso do que eles estão dizendo. Bem, mantenha-me informado, Charles. Dê minhas recomendações a Hannah. E diga a Dillon para tomar cuidado.
Ele desligou o telefone e retomou ao Salão Oval para colocar o presidente a par das novidades.
NANTUCKET, NANTUCKET
Eles fizeram a viagem de Long Island a Nantucket a bordo do Alice Brown durante a noite. Arthur Grant rendeu Casey à meia-noite, assumindo o controle do barco. Aidan Bell o substituiu às 4 horas da manhã.
Ainda estava escuro, e o irlandês sentou na cadeira giratória, fumando um cigarro à luz da bitácula, desfrutando cada momento e pensando em algumas coisas.
Ele havia gostado de encontrar Dillon novamente, um grande companheiro dos velhos tempos, embora tivessem seguido rumos distintos. Além disso, ele também via gostado da garota. Uma mulher e tanto, que o ha via decifrado de primeira. Não era pelo dinheiro, nunca havia sido. Ele realmente dera uma lição naqueles russos na Chechênia: o general, com um tiro na cabeça a uma distância de seiscentos metros, e 25kg de Semtex para mandar seus auxiliares pelos ares. O que eles chamavam de uma fritada do Ulster nos velhos dias do IRA... A porta se abriu com um rangido e Liam Casey entrou com chá e sanduíches.
— Não consigo dormir. Como você está? — Ótimo. — Aidan Bell ligou o piloto automático e pegou um sanduíche enquanto Casey enchia duas canecas com chá. — Como está se sentindo? — Eu vou ficar bem, Aidan.
— E por que não ficaria? Nós conseguimos nos safar na Chechênia, não foi? Casey também pegou um sanduíche.
— Sim, mas o presidente dos Estados Unidos, Aidan, isso é uma coisa completamente diferente.
— Sim, mas temos um ótimo plano. — Ele pegou outro sanduíche.
— Estive pensando — disse Casey. — E se Cazalet não tiver ido para lá neste fim de semana? De vez em quando ele deve fazer isso.
— Eu verifiquei a agenda dele, Liam. Você pensa que sou burro? Também assisti ao noticiário da CNN hoje, naquela tevê que fica ali, acima da mesa de navegação.
Mencionaram que ele estava a caminho da velha casa de praia da família, como de costume. Estamos na América, aqui eles não escondem nada.
— Porra, então por que você não me contou, Aidan? — Porque Grant estava na cabine na hora e você estava no convés, guardando o material. Qual a importância disso? .
Casey deu-lhe um cigarro.
Eu não vou com a cara dele. Ele é o que a minha velha avó chamava de pé-frio.
— Sim, bem, mas, se ele me trair, corto-lhe os pés com botas calçadas para esquentá-los. Não se preocupe. Tenho algo para contar para ele que deve deixá-lo alegre. Deixe comigo. Apenas mantenha-o distante da bolsa com as armas.
Chovia fino, era mais uma névoa marítima do que qualquer outra coisa, quando o Alice Brown começou a derivar próximo ao litoral, a uma distância de cerca de cinco quilômetros de Nantucket. Arthur Grant estava no leme enquanto Aidan Bell e Casey trabalhavam embaixo do toldo da popa, que eles haviam acortinado com redes de pesca. O Dolphin Speed Trailer já estava na água, ao lado do barco, e eles inspecionavam os equipamentos de mergulho.
— Pare o motor — Bell gritou. Grant cumpriu a ordem, de forma que eles simplesmente começaram a flutuar sobre as ondas, enquanto Bell e Casey vestiam as roupas de mergulho e os tanques.
Grant abriu a janela e se debruçou: — Algum problema? — Não — disse Bell—, coloque no piloto automático e desça aqui.
Bell vestiu a jaqueta com os tanques de mergulho, e afivelou o cinto de veleiro enquanto Casey fazia o mesmo.
— Você tem certeza de que vamos conseguir? — perguntou Casey. — Quatro quilômetros e meio em quarenta e cinco minutos?
— Facilmente, com a velocidade que esta máquina atinge. Manteremos a profundidade de cinco metros até chegar lá. Temos um bom suprimento de ar e a corrente favorável.
Ele jogou o saco com as armas no Dolphin e prendeu sua linha de segurança no cinto de contrapeso quando Grant chegou. Bell calçou as luvas.
— Bem, eis o momento da verdade. Nós dois vamos na direção do litoral, em busca de destroços de um barco afundado na Segunda Guerra Mundial. Um barco irlandês chamado Rose of Tralee. — A história estava começando a soar tão boa que ele próprio começava a acreditar nela. — Entre outras coisas, levava um carregamento de ouro do Banco da Inglaterra para ser guardado com segurança em Boston. Muitas pessoas vêm procurando o navio há anos, mas no mês passado eu conheci um velho de oitenta e seis anos que foi marujo e estava no barco quando este foi torpedeado por um submarino alemão. Ele não sabia nada sobre o ouro, mas conseguiu me apontar a localização dos destroços.
— Jesus Cristo — disse Grant.
— Portanto, jogue limpo e eu lhe dou uma parte da grana.
— Claro. O senhor é quem manda, senhor Bell— disse Grant avidamente.
— Tudo bem. Fique por aqui. Solte a âncora. Jogue as redes de pesca no mar. Aparente estar atarefado. Com sorte, estaremos de volta em três horas.
Ele colocou a máscara, o bocal e pulou de costas da amurada da popa. Depois de soltar as amarras do Dolphin, Casey juntou-se a ele. Bell ligou os dois motores de alta potência, subiu no assento dianteiro e, enquanto Casey sentava-se atrás, submergiu o Dolphin a uma profundidade de cinco metros, virando-o em direção à ilha de Nantucket com força total.
Parado diante da varanda da velha casa, usando um uniforme de corrida dos fuzileiros, Jake Cazalet bebeu a primeira caneca de café do dia e observou Murchison, seu adorado perdigueiro, andando com Clancy Smith na praia abaixo. Havia uma pequena escada atrás e, quando Cazalet se virou, Blake Johnson apareceu, também com uma caneca de café.
— É sempre ótimo estar de volta aqui, Blake — disse Cazalet.
— Sem dúvida, senhor presidente.
— Mal posso esperar para dar a minha corrida. Você vem comigo? — Se o senhor me der licença, não esta manhã. Ainda que seja um fim de semana e cedo, Harper está sob grande pressão na Sala de Comunicações. Tem muita coisa chegando de Washington. É melhor ficar por aqui para ajudá-lo.
— Certo. Então venha dar uma olhada no meu novo brinquedo. Eu pedi que o entregassem durante a semana.
Ele deu a volta na casa rumo ao jardim dos fundos. A porta do celeiro estava aberta e lá dentro encontrava-se uma motocicleta grande, apoiada no descanso.
Uma moto de enduro Montesa — disse o presidente. Vai ser muito divertido guiá-la por essas estradas.
— Acredito que sim, senhor. Para dizer a verdade presidente, eu não ando numa moto há anos.
— Deus, uma criança seria capaz de dirigir esse negócio. Pastores utilizam-nas para cuidar das ovelhas. — Ele montou na motocicleta, ligou o motor, deu a partida e andou em círculo pelo jardim. — Viu? — Ele a desligou recolocou-a de volta no descanso. — Pegue-a a hora que você quiser.
— Darei uma volta — disse Blake.
Enquanto eles andavam de volta para a varanda, começou a chover. Murchison estava sentado esperando, a língua para fora. Clancy Smith aproximou-se vestindo um casaco impermeável amarelo com capuz e trazendo outro, que entregou a Cazalet.
— Conhecendo o senhor, senhor presidente, imagino que vamos correr, com chuva ou não.
— Você está sempre certo, Clancy. — Cazalet colocou o casaco, abotoou-o e assobiou para Murchison. — Vamos lá, rapaz.
Ele desceu as escadas e começou a correr, com o cachorro nos seus calcanhares. Clancy Smith ajustou o aparelho de escuta, transferiu a antiga pistola Browning — sua favorita — de lugar, passando-a do coldre de ombro para o bolso direito, e o seguiu.
Aidan Bell errou por pouco seus cálculos. Ajudados por uma maré forte, eles entraram no estuário que levava ao pântano em cinquenta minutos. Era um pântano de água salgada, um ambiente selvagem magnífico, com juncos altos, canais de águas profundas, terras lamacentas e pássaros de todas espécies, que voaram, Incomodados, quando o Dolphin subiu à superfície.
Bell parou num banco de areia, em seguida ele e Casey desmontaram, empurraram o Dolphin levemente para a frente e se livraram da Jaqueta e do tanque de oxigênio. Tudo isso foi feito silenciosamente. Por último, Bell abriu o saco de armas, entregou um rifle de assalto AK e uma Browning para Casey e apanhou suas próprias armas. Eles ficaram parados ali, parecendo estranhas figuras medievais em suas roupas de mergulho negras.
— Algo que sabemos com certeza é que ele sempre corre antes do café da manhã. — disse Bell. — Isso significa que ele já pode estar no meio do caminho, ou que pode aparecer na trilha a qualquer momento. Mas há apenas um caminho principal levando da casa às trilhas do pântano. Imagino que tenha uns trezentos ou quatrocentos metros. Nós o esperaremos lá; vamos pegá-lo na ida ou na volta. Então, vamos em frente.
Ele virou-se e abriu caminho pelos juncos, sentindo-se tranquilo e calmo, sem demonstrar nenhuma emoção.
Jake Cazalet, Clancy e Murchison corriam rápido sob a chuva forte e o presidente estava adorando cada momento da corrida. Como ele dissera muitas vezes, correr era algo que o rejuvenescia e, da maneira como o mundo andava, isso realmente lhe fazia bem.
Murchison corria em ritmo acelerado atrás dos seus calcanhares. Clancy, que estava cinco metros atrás, parou numa velha ponte de tábuas com teto, um abrigo temporário da chuva.
— O senhor está bem, senhor presidente? — perguntou Clancy.
— Estou ótimo. Vou querer o de sempre.
Clancy tirou um maço de Marlboro, acendeu dois cigarros e entregou um para Cazalet, que o pegou e tragou Com enorme prazer.
— Não deixe que ninguém da imprensa o fotografe fazendo isso, senhor presidente.
— Droga, tenho direito a uma fraqueza. Esses troços e ajudaram a aguentar o Vietnã e ajudaram você a aguentar a Guerra do Golfo.
— Com certeza — concordou Clancy.
Eles fumaram num silêncio amigável, em seguida pisaram em cima dos tocos de cigarros para apagá-los.
— Vamos — disse Cazalet e saiu na frente pela chuva, começando a correr de novo.
Escondido entre os juncos, ao lado da trilha principal, Bell os viu chegando. Ele sussurrou para Casey, que estava do outro lado.
— Lá vêm eles. Prepare-se. Você pega o agente do Serviço Secreto. Eu pego o presidente, e não fique muito ansioso. Vá com calma.
Ele esperou. Não havia necessidade de atirar de longe quando ele poderia praticamente atirar à queima-roupa. Ele levantou o AK na altura do ombro, enquanto Cazalet corria diretamente em sua direção.
E como Bell tinha dito a Kate Rashid, até os planos mais bem estruturados podem dar errado. Ele havia planejado meticulosamente, previsto todas as contingências, o instinto de um perdigueiro chamado Murchison.
Com aquele dom extraordinário que só os cães possuem, ele sentiu que havia algo errado, saiu em disparada e mergulhou nos juncos do outro lado da trilha.
Casey saiu em campo aberto, tentando livrar-se de Murchison, que estava com os dentes grudados em seu tornozelo esquerdo, e controlar o AK, que havia disparado.
Jake Cazalet parou de correr a uma distância de cerca de vinte metros. Aidan Bell manteve-se escondido e mirou, mas Clancy Smith foi mais rápido. Simultaneamente, ele derrubou o presidente de lado, e recebeu, no ombro esquerdo, o tiro que era endereçado a Cazalet.
Ele cambaleou, mas em nenhum momento titubeou. — Proteja-se, senhor presidente — gritou e empurrou Cazalet para o abrigo dos juncos.
Cazalet soltou um assobio estridente e, em questão de segundos, Murchison se juntou a eles. O sangue jorrava do buraco da jaqueta impermeável amarela de Smith.
— Está muito ferido? — perguntou Cazalet.
— Ficarei bem. É melhor ficar com isto, senhor presidente. — Clancy entregou-lhe uma Browning.
Bell falou baixo em direção ao outro lado da trilha: mantenha-se escondido, Liam. — Em seguida, ele deu vários tiros na direção em que havia visto Clancy Smith e Cazalet desaparecerem.
Clancy já estava pedindo reforços e Cazalet havia respondido aos tiros duas vezes.
Na Sala de Comunicações, Blake Johnson estava sentado ao lado de Harper, tentando decodificar alguns sinais, quando a voz de Clancy entrou, em meio aos chiados, no alto-falante as palavras desesperadas. "Blake. O império caiu! O império caiu!" No mesmo momento, eles ouviram o som de tiros.
Blake puxou o microfone.
— Onde vocês estão?
— Na metade do caminho da trilha principal. Eu fui atingido, mas o presidente está bem. É ele que está atirando.
— Estou a caminho. — Blake virou-se para Harper. Dê-me a sua arma. Você sabe o que fazer.
Harper, com um olhar selvagem no rosto, repassou-lhe uma Beretta. Blake colocou-a em seu bolso direito, correu imediatamente para a varanda e deu a volta até o celeiro. Momentos depois, ele saiu em disparada pela estrada montado na Montesa.
Examinando através dos juncos, Clancy e o presidente podiam vê-lo se aproximar a alguma distância. Então, certamente, Bell e Liam também podiam.
— Louco filho da puta — disse Cazalet. — Ele vai se matar. Por que ele não pode esperar a chegada da cavalaria?
— Impossível — disse Clancy Smith.
Blake acelerou a pequena moto a noventa quilômetros, uma velocidade absurda levando em consideração a largura da trilha, e Aidan Bell atirou por trás dos juncos, uma breve rajada que estourou o pneu dianteiro e fez com que a Montesa fosse deslizando de lado, enquanto Blake debatia-se para sair de sob a moto.
Foi então que Liam Casey cometeu um grande erro e saiu da cobertura dos juncos com o rifle AK levantado.
— Peguei você, seu canalha.
A mão de Blake saiu do bolso direito segurando a Beretta e ele atirou no peito do grandalhão irlandês. Casey gritou, o AK disparou a esmo e ele mergulhou de cabeça nos juncos ao lado de Bell.
Um pouco mais adiante na estrada, Cazalet levantou-se brevemente: — Venha para cá, Blake, eu lhe dou cobertura.
Ele se escondeu de novo e Blake cambaleou pela estrada, mancando.
— Você consegue pegar o canalha que me acertou, Aidan? — perguntou Lian Casey.
Bell viu Blake seguir em frente, desaparecendo atrás dos juncos.
— Não vale a pena, Liam.
— Meu Deus, como dói, Aidan.
A bala atravessou o casaco de mergulho de Casey na altura do estômago, deixando um furo.
— Imagino que sim.
Ao longe, ouviu-se um som barulhento e ameaçador. Oh, Deus, aí vem a tropa de choque. Hora de partir.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Liam.
— O que quero dizer é que você ganha uma e perde outras, e que desta vez nós definitivamente fracassamos, graças àquele maldito cachorro. Cazalet vai comprar uma coleira de ouro para ele depois dessa. Vou forçá-los a manter a cabeça a abaixada e vou dar o fora.
Ele disparou uma rajada na direção dos juncos onde o grupo do presidente estava escondido, descarregando seu rifle AK. Jogou-o na lama e pegou o de Casey.
— E quanto a mim? — Casey gemeu.
— Isso é um problema, mas tenho a solução. Nossos amigos não viram duas pessoas, apenas uma. Logo, se eles encontrarem uma, isso os deixará felizes enquanto a outra foge.
Ele se levantou e tirou a Browning com o silenciador Carswell de dentro da roupa de mergulho.
— Você não pode me abandonar, Aidan.
— Só estou sendo prático.
Aidan Bell mirou no coração, a Browning fez um barulho abafado, o corpo de Liam Casey balançou e depois ficou imóvel.
— Desculpe, meu velho — disse Aidan suavemente, em seguida colocou a Browning de volta na jaqueta e fugiu pelos juncos. Quatrocentos metros à frente, o Dolphin o esperava. Logo ele estaria submerso, a tempo de evitar os helicópteros de segurança que começariam a vasculhar a área. Além disso, eles achariam Liam em breve, e isso provavelmente os deteria.
Depois daquela longa rajada final, tudo ficou em silêncio. — Talvez ele esteja morto — disse Cazalet.
— Ou tenha fugido — observou Clancy. Murchison ganiu e em seguida farejou para o alto. — Algo está chamando a atenção dele — disse o presidente.
Os helicópteros — dois deles — agora se aproximavam. — Ele não vai ficar esperando esse tempo todo — disse Blake. — Ou está ferido ou já caiu fora. Vou verificar.
Ele saiu da cobertura os Juncos antes que o presidente pudesse ordenar o contrário e ficou de pé na estrada fazendo sinais com os braços, enquanto os dois helicópteros Hawk desciam. Eles aterrissaram, cada um descarregando seis agentes do Serviço Secreto com uniformes de combate azul-marinho e carregando um novo modelo da metralhadora Parker-Hale. Eles se agruparam e o presidente surgiu, ajudando Clancy Smith, que havia perdido uma quantidade considerável de sangue.
— O presidente está bem — disse Blake.
— Graças a Clancy, que tomou um tiro que era endereçado a mim — falou Cazalet. — Quero que dois de vocês o coloquem dentro de um dos helicópteros.
— Quanto ao senhor, presidente, conhece bem as regras. Temos que tirá-lo imediatamente da área de risco até que tudo tenha sido resolvido — disse Blake.
— Tudo bem, dane-se. — Cazalet assobiou para Murchison e os seguiu, enquanto eles removiam Clancy Smith.
Um dos Hawks decolou e Blake virou-se para os outros: — Havia um homem vestindo um casaco de mergulho escuro. Ele tentou atirar em mim com um rifle AK. Tenho certeza de que o acertei e ele mergulhou nos juncos, naquele lado de lá. Não voltem sem ele.
Naquele mesmo momento, Aidan Bell, novamente vestido com a roupa de mergulho, estava deslizando o Dolphin de volta para a água. Ele deu a partida, sentou-se e, por precaução, levou-o a cerca de seis metros de profundidade. Dentro de dez minutos ele estava entrando no mar.
— Um sobrevivente nato, Aidan — disse para si mesmo. — Um sobrevivente nato.
Eles encontraram Liam Casey e, num primeiro momento, acharam que estivesse morto. Um dos homens foi chamar Blake, mas quando ele voltou a situação havia mudado. Estavam retirando Liam Casey do meio dos juncos, levando-o em direção ao segundo helicóptero.
Campbell, o agente encarregado, disse: — Ele está gravemente ferido no estômago, acho que por causa do seu tiro, mas você disse que só disparou uma vez.
— Sem dúvida nenhuma.
— Então havia mais alguém aqui. Alguém tentou dar um tiro no coração dele, provavelmente para matá-lo, mas ele estava com uma Browning dentro da jaqueta e a arma desviou a trajetória da bala. Mesmo assim, acho que ele não deve durar muito.
— Bem, vamos levá-lo para ser operado o mais rápido possível. — Havia um hospital militar numa pequena base aérea a trinta e cinco quilômetros, na costa principal.
— Acabei de ouvir que o presidente já está lá com Clancy — disse Campbell.
— Então, vamos nos mexer.
No helicóptero, eles colocaram Liam Casey numa maca, vedando os ferimentos com cartuchos de munição presos com fita. Seus olhos se abriram e ele olhou em volta, demonstrando algum tipo de reconhecimento quando viu Blake.
— Eu conheço você — sussurrou ele.
Blake inclinou-se para a frente: — Como é que você me conhece?
— O Porão. Você é o amigo do Dillon. O homem do Porão.
Blake nunca havia ficado tão surpreso. — Meu Deus, como é que você sabe isso? — Mas não houve resposta, pois Liam Casey havia desmaiado.
Quando chegaram ao hospital, ele foi levado para a sala de cirurgia e Blake encontrou o presidente tomando café numa sala de estar reservada.
— Como está Clancy, senhor presidente? — perguntou Blake.
— Ele ficará bem. Ele devia ganhar uma medalha. Ele me empurrou e levou o tiro em meu lugar, Blake. Fui informado de que vocês encontraram o assassino. Como está ele?
— Está sendo levado às pressas para a cirurgia. Ele disse uma coisa. — Blake contou-lhe o que ouvira do irlandês.
— O homem do Porão? O amigo de Dillon? Blake, o que está acontecendo?
— Só Deus sabe, senhor. Teremos que esperar.
— Bem, uma coisa é certa. Não quero que isso seja divulgado. Mantenha tudo completamente abafado. Nada aconteceu. Você, eu e o Serviço Secreto — só nós sabemos a respeito disso. Mas o que eu quero saber é o seguinte: quem está por trás disso e por quê?
— Devo ligar para Ferguson, senhor presidente? Afinal de contas, o homem mencionou Dillon. Acho que devo investigar.
— Isso faz sentido. Tudo bem, fale com Charles e Dillon. Ninguém mais. Nem com Murchison. Ele já sabe de tudo.
Murchison, deitado perto da calefação, levantou-se e o presidente dos Estados Unidos beijou-o no nariz.
— Ele foi direto para cima do canalha. Salvou a minha vida.
— Ele realmente é especial. — Blake sorriu. — Com licença. Por favor, acompanhe-me, que vou começar a tratar desses assuntos, senhor presidente.
O Alice Brown balançava no mar agitado quando Bell subiu à superfície com o Dolphin. As redes estavam jogadas na água, aparentando normalidade. Grant aproximou-se da amurada da popa.
Bell abriu as presilhas de velero de sua jaqueta e soltou os tanques de oxigênio na água. Ele tirou a máscara e os pés-de-pato. O AK havia caído a cerca de dois quilômetros dali.
— Jogue-me uma corda.
Grant franziu o cenho: — Onde está o seu amigo?
— Houve um acidente.
Grant não gostou da resposta, seu rosto exibindo uma expressão séria: — Escute aqui, o que está acontecendo?
Bell abriu o zíper do casaco de mergulho, sacou a Browning e acertou-o entre os olhos. Em seguida, alcançou a borda do barco e subiu, virou-se e deu vários tiros no Dolphin, que começou a afundar. Vasculhou os armários da cabine de navegação e encontrou uma corrente, que amarrou nos tornozelos de Grant antes de empurrá-lo pela borda do convés. O corpo deslizou para a água. Bell levantou as redes rapidamente, em seguida desceu, pegou uma garrafa de uísque irlandês na cozinha e voltou para o convés. Entrou na cabine, ligou o motor e partiu, uma das mãos segurava o leme enquanto a outra despejava uma dose de uísque — das grandes — num copo de plástico. Ele virou o copo e em seguida serviu-se outra vez, enquanto começava a chover novamente.
Na sala de estar da casa principal em Quogue, Paul e Kate Rashid estavam sentados perto da lareira acesa. Michael e George estavam em Londres. O celular codificado de Rashid tocou, ele atendeu. Era Bell.
— E então?
— Deu tudo errado. Foi issoo que aconteceu.
Ele contou o que havia acontecido, dando uma versão razoavelmente verdadeira dos fatos, omitindo apenas o detalhe de ter matado Liam Casey.
— Gostaria de dizer que sinto muito — disse Bell —, mas não errei em nada, fiz tudo certo. Foi culpa daquele maldito cachorro.
— Sabe o que os árabes dizem? lnshallah. É a vontade de Deus — disse Paul Rashid. — Você não podia ter atirado no maldito cachorro?
— Não deu tempo.
— Quando você chega?
— Em quatro horas.
— Tudo bem. O Gulfstream estará esperando-o no aeroporto de Westhampton. Minha irmã também está aqui. Voaremos de volta para o Reino Unido juntos.
— Perfeito.
— E quanto a Grant? Detesto imprevistos.
— Já cuidei dele. Como é que se diz mesmo? Arthur Grant está dormindo com os peixes.
— E o barco dele?
— Vou nadar até o litoral.
— Nos veremos em breve, então.
Paul Rashid desligou e virou-se para Kate. — Um cachorro, um perdigueiro chamado Murchison. — Ele começou a rir e em seguida pegou o celular. — Vou ligar para o aeroporto e pedir para aprontar o Gulfstream. Depois beberemos uma taça de champanha.
— Mas a que vamos brindar?
— Como assim? A Murchison, é claro.
No hospital, a luta para salvar a vida de Clancy Smith durou horas. A força aérea trouxe mais dois cirurgiões, além do médico particular do presidente.
Terminada a operação, Cazalet e Blake sentaram-se durante um tempo com Clancy, que havia tomado remédios contra a dor. O cirurgião-chefe entrou para ver como ele estava.
— Você ficará bem, meu filho, ficará ótimo.
— Obrigado, senhor.
O cirurgião fez um sinal com a cabeça para Cazalet, que o acompanhou para fora do quarto.
— Senhor presidente, será que isso significa o que eu imagino?
— Robert, preciso que você jure por Deus que vai ficar calado — disse Cazalet.
— Claro, senhor presidente. Nós retiramos uma bala de AK do rapaz. Eu mesmo fui atingido por uma dessas no Vietnã.
— Bem, essa era endereçada a mim, e esse rapaz corajoso me empurrou, virou as costas e recebeu o tiro em meu lugar.
— Deus do céu. E o outro?
— É o assassino, embora acreditemos que também houvesse outro. Ele sobreviverá? — Não se sabe. Vou manter o senhor informado.
Estamos quase terminando lá dentro.
Cazalet voltou para o quarto e contou as novidades a Blake.
— Espero que ele sobreviva. Trata-se de uma situação muito estranha, e eu gostaria de ter algumas respostas.
Clancy estava começando a adormecer.
— Eu ainda tenho meu emprego, senhor presidente, ou o senhor pedirá a Campbell para me substituir?
— Só sobre o meu cadáver.
Clancy começou a rir sem parar. — Meu Deus, como dói, mas o senhor tem de admitir que é engraçado.
— Descanse um pouco, Clancy — disse Blake. — O presidente e eu vamos arranjar alguma coisa para comer. Veremos você mais tarde.
Aidan Bell realmente teve muita sorte ao aproximar-se de Quogue a bordo do Alice Brown. Havia uma forte neblina encobrindo tudo. Ele jogou o bote com o pequeno motor de popa na água, a menos de um quilômetro da costa, em seguida desceu e abriu as escotilhas. Desceu pela lateral, ligou o motor, distanciou-se um pouco e esperou.
Não demorou muito. O Alice Brown adernou, o convés encheu-se de água e em seguida afundou rapidamente. Bell acelerou e partiu em velocidade rumo à costa.
Na sala de estar, Rashid e sua irmã conversavam. — E agora? — perguntou ela.
— Eu tenho um alvo alternativo, sempre o tive. — Será que posso saber quem é? — Logo saberá, querida. Mas ainda é cedo.
Houve um ruído na janela de batente. Paul Rashid abriu uma gaveta perto de onde ele se encontrava e tirou uma pistola Walther. Ele se levantou e fez um sinal com a cabeça para Kate. Era Bell que estava lá fora.
Quando ela abriu a janela, ele entrou sorrindo, ainda vestindo o casaco de mergulho.
— Deus abençoe a todos aqui, é o que os fenianos dizem.
— Você está bem? — perguntou ela.
— Sim. Mostre-me onde vocês guardaram minhas malas. Estarei pronto assim que tomar uma ducha e trocar de roupa.
— Então, ande rápido — disse Paul Rashid. — Partimos de Westhampton em uma hora.
— A televisão já deu alguma notícia?
— Absolutamente nada, o que me parece muito estranho. Não gosto nada disso. Então, vamos partir.
No hospital, o presidente dormiu em uma pequena cama em um dos quartos reservados aos médicos plantonistas. Blake cochilou numa cadeira na sala de estar e acordou com um toque em seu ombro. Ele olhou para cima e se deparou com um dos cirurgiões, um coronel da força aérea.
— Senhor Johnson, ele acordou, mas não parece nada bem. Está muito fraco.
— Posso falar com ele?
— Você pode tentar, mas acho que não vai conseguir muita coisa.
— Tudo bem. Avise ao presidente. Eu vou entrar no quarto.
Liam Casey estava deitado, ligado a aparelhos. Um enfermeiro cuidava dele.
— Obtive permissão para falar com ele — disse Blake. — Acho que o senhor não vai muito longe.
Blake puxou uma cadeira e Casey abriu os olhos. Por alguns momentos, a voz dele pareceu surpreendente mente forte.
— Estou morrendo, não é?, e você é o sujeito que atirou em mim. O homem do Porão. O amigo de Dillon.
— Diga-me, como você se chama?
Atrás dele, o presidente e o coronel entraram silenciosamente no quarto.
— Não acredito que isso faça nenhuma diferença agora. Casey, Liam Casey.
— De onde você é?
Havia um pouco de sangue na boca de Casey e o enfermeiro o limpou.
— Drumcree. Condado de Down.
Blake franziu a testa. — Já ouvi falar de Drumcree, mas por que você me chama de o homem do Porão, o amigo de Dillon?
— Porque eu vi sua ficha na pasta, sua foto.
— Que pasta?
— A pasta que Aidan preparou, o plano para matar o presidente. Ela prometeu três milhões quando nos encontrou em Drumcree. Ela mentiu para Dillon, disse a ele que ela procurava proteção para seus negócios na Irlanda do Norte.
— O que ele está falando? — perguntou o presidente. Blake fez um sinal para que ele permanecesse em silêncio.
— Você quer dizer que Aidan é Aidan Bell, e que ele esteve aqui e tentou matar o presidente?
— Ele atirou em mim. Pensou que tivesse me matado. Deixou-me para trás para despistar e caiu fora.
— Como?
— Submerso. — Repentinamente, ele pareceu mais forte. — Um barco de pesca a quase cinco quilômetros da costa, em seguida de volta para Long Island. Eles têm uma casa lá. Os Rashid têm uma casa lá.
— Vá com calma. — Blake confortou-o. — Por quê? Por que Paul Rashid iria querer o presidente morto?
— Um agente duplo russo chamado Gatov matou a mãe dele, então ele o matou. Os árabes tentaram matar Rashid para uns negociantes de petróleo ianques e russos. Ele queria vingança.
— Só que ele não conseguiu, não é? Ele fracassou?
— Correto. Há um alvo alternativo.
— Que alvo seria esse?
— Rashid disse que escolheria.
De repente, ele fez uma expressão de dor e teve convulsões. O enfermeiro e o coronel entraram rápido e Blake saiu do caminho.
— Saiam, por favor, senhores — pediu o coronel.
Na sala de espera, o presidente disse: — Pelo amor de Deus, o que está acontecendo?
— Deixe-me lembrar-lhe, senhor presidente, da minha conversa com Charles Ferguson há algum tempo, sobre uma viagem que lady Kate Rashid fez a County Down, utilizando Sean Dillon como segurança.
Quando Blake entrou na sala de espera um pouco mais tarde, o presidente estava tomando café, a testa franzida.
— E então?
— Casey morreu. Eu falei com Harper na sala de comunicações. Ele está investigando a história sobre Long Island e os Rashid.
Cazalet acendeu um Marlboro, levantou-se e começou a andar lentamente pela sala.
— É difícil de acreditar. Rashid é um dos homens mais ricos do mundo, um conde, um herói de guerra, um amigo da realeza. Quem acreditaria nisso?
— Ninguém, senhor presidente, ninguém em todo o mundo. Casey morreu, e o que ele disse pode ser facilmente descartado como delírios de um moribundo. No momento, não temos nenhuma prova contra Rashid.
— Mas por que ele está tão decidido, Blake? — perguntou Cazalet.
— Imagino que por diversas razões. A tentativa de matá-lo, a morte da mãe, a perfídia do sultão, seu desejo de livrar Hazar da nossa influência. Nós somos o Grande Satã, não se esqueça disso. Ele pode ser inglês, mas seu lado beduíno... bem, digamos que eu não gostaria de me encontrar sozinho com ele no deserto.
— Todo aquele dinheiro — disse Cazalet — não significa nada para ele, não é?
— É apenas uma ferramenta de poder. Permite que ele vá para lá de helicóptero para andar de camelo pelo deserto com seus guerreiros. Não há nada mais importante para ele.
Houve uma longa pausa. Cazalet estava prestes a falar quando o celular de Blake tocou. Ele atendeu, ouviu, em seguida disse: — Ótimo, falarei com você depois. — Blake virou-se para o presidente. — Era Harper. Os Rashid estiveram em Quogue.
— E?
— Decolaram de Westhampton há quatro horas. Paul e Kate Rashid, e um homem chamado Thomas Anderson.
— Aidan Bell?
— Eu diria que sim. Com destino à base da RAF em Northolt.
Houve silêncio antes que Cazalet dissesse: — Não há nada que possamos fazer, não é?
— Para ser franco, não, não no momento. Mas falarei com Ferguson.
— Certo. Faça isso, em seguida vá a Londres pessoalmente. Quero que você coordene tudo com o general de brigada.
— Na verdade, ele acaba de ser promovido. Ele é um general de divisão agora.
— É mesmo? Fico muito feliz. Falarei com ele pessoalmente antes de você partir, mas agora, depois do dia infernal que tivemos, vamos voltar para casa.
A bordo do Gulfstream, sobre o Atlântico, os Rashid e Bell fizeram uma refeição leve de salmão defumado, salada e champanha.
Bell esvaziou sua taça.
— E agora?
— Estou pensando sobre isso — disse Paul Rashid. — Tenho outros problemas em Hazar. Manterei contato.
— Bem, não demore muito. Nesse meio tempo, voltarei para Drumcree para ver se as coisas estão em ordem por lá, se os rapazes estão se comportando.
— Tenho certeza de que estão — disse Kate Rashid.
— Eles normalmente se comportam. Eles não gostam de me ver irritado.
Aidan Bell reclinou sua poltrona e fechou os olhos. Afinal de contas, havia sido um longo dia.
LONDRES
Mais tarde, naquela noite, em Cavendish Place, Ferguson sentou-se com Dillon e Hannah Bernstein para examinar toda a situação. Depois de conversarem por horas, sem chegar a nenhuma conclusão em particular, Ferguson disse: — Tudo bem, então o assassino profissional dele, esse tal de Aidan Bell, fracassou no atentado a Cazalet por sorte do destino. Não acredito que eles tentem matá-lo novamente Então quem poderia ser o alvo alternativo?
— Uma vez que ele está com raiva tanto dos americanos, quanto dos russos, general, por que não o primeiro-ministro russo? — sugeriu Hannah Bernstein.
— Não acredito que Aidan Bell seja capaz de trabalhar em Moscou — observou Dillon.
— Ele não teria de fazer isso — disse Ferguson friamente. — O primeiro-ministro russo é aguardado em Londres no dia dezessete do próximo mês. Assuntos de comércio com o nosso governo.
— Eu não sabia disso, senhor — Hannah disse.
— Isso não foi divulgado, superintendente. Mas será daqui a apenas seis semanas.
— Então você acredita que ele possa ser o alvo?
— Quem sabe? O que você acha, Dillon?
— Acho um pouco óbvio demais.
— Mas Cazalet também era, se você pensar retroativamente. Uma coisa maravilhosa, poder olhar para trás. Quem mais poderia ser?
— Não tenho a menor ideia — respondeu Dillon. Portanto, o melhor a fazer é perguntar a ele.
Houve um silêncio de espanto. Hannah Bernstein o quebrou: — Perguntar a ele?
Dillon virou-se para Ferguson.
— General de brigada... — ele riu. — Desculpe-me.., general de divisão. No passado, você falou sobre situações em que eles sabem que nós sabemos e nós sabemos que eles sabem.
— É verdade.
— Então vamos pressionar o conde um pouco. Mostrar para ele que nós sabemos e que estamos de olho nele.
Ferguson fez um sinal positivo com a cabeça.
— Não é uma ideia má. Talvez isso faça com que alguns parafusos se soltem, deixando-o um pouco descuidado.
Vamos esperar até que Blake chegue pela manhã, em seguida encurralamos Rashid em seu próprio covil, por assim dizer.
— Excelente — disse Dillon. — E devemos presumir que Aidan esteja de volta a Drumcree. Vamos ter certeza disso. Você pode arrumar alguém para descobrir se ele voltou mesmo, Charles? Aidan Bell pode estar sem Liam Casey, mas ele ainda tem Tommy Brosnan, Jack O'Hara, Pat Costello... uma turma inteira de canalhas. Vamos investigar para ter certeza se todos eles ainda estão em County Down.
Na noite seguinte, os Rashid entraram no piano-bar do Dorchester e encontraram Sean Dillon sentado ao piano. Ele estava usando um terno azul-escuro e uma gravata da Guarda Real, com um cigarro inclinado ao lado da boca, apagado.
Kate Rashid aproximou-se dele, pegou seu isqueiro de ouro e acendeu o cigarro.
— Melhorou?
— Deus a abençoe, senhora, pela sua alma decente. E só vou perdoá-la por ter me enganado naquela viagem a Drumcree porque eu a amo do fundo do meu coração.
— Enganado?
— Sem dúvida. Eu já sei tudo sobre a tentativa do velho Aidan de matar o presidente. Muito malicioso, Kate, muito malicioso mesmo.
Ela acendeu seu próprio cigarro. — Meu Deus, Dillon, nunca me passou pela cabeça que você tivesse uma imaginação tão fértil.
— Ah, minha querida, eu sou um realista em todos os sentidos. Aidan Bell tentou matar Liam Casey em Nantucket, mas Casey tinha uma Browning, guardada dentro de seu casaco de mergulho, que desviou a bala. É claro que isso ainda o deixou com uma bala na barriga.
— Muito interessante.
— Mesmo assim, ele viveu o suficiente para abrir o jogo. Liam estava muito chateado com Aidan, muito mesmo.
— Sim, bem, imagino que ele teria ficado mesmo — disse Kate.
— O general Ferguson deve chegar a qualquer momento, com Blake Johnson. Eu contaria a você quem Blake é, mas tenho certeza de que você já sabe, não é, Kate? Eu ouviria o que eles têm a dizer, se fosse você.
Ela virou-se e voltou para a companhia dos irmãos. Eles mantiveram as cabeças próximas por algum tempo quando Charles Ferguson surgiu no topo da escada, perto do bar, com Hannah e Blake Johnson. Eles desceram e se juntaram aos Rashid. Enquanto se sentavam, Dillon deslizou do banco do piano e foi unir-se ao grupo.
— Então, senhor Dillon — disse Paul Rashid. — Foi realmente uma história extraordinária essa que você contou a minha irmã.
— O relato da testemunha ocular foi melhor ainda — interveio Blake. — Eu estava lá. Liam Casey tentou me matar e fui eu que atirei em seu estômago. O ferimento acabou matando-o, mas nós tivemos uma boa conversa, Liam e eu.
— Você sabe que não pode provar nada disso — falou Paul Rashid.
— Você tem razão — disse Charles Ferguson. — Ainda não. Mas pretendemos fazê-lo, Rashid. A nossa intenção é persegui-lo pelos quatro cantos da terra. O próprio Dillon está particularmente animado com essa ideia.
— É mesmo? — Paul Rashid sorriu. — Tenho a impressão de que o senhor está declarando guerra contra mim, general Ferguson.
— Exatamente.
Rashid se levantou, seguido pelos dois irmãos e a irmã. — Tenha cuidado. Eu mesmo posso declarar uma jihad contra você. Mas acho que isso não será necessário. Ou será, general?
Ele saiu e os outros o seguiram.
— Você realmente o apertou, Charles — disse Blake.
— Essa era a minha intenção. — Ferguson olhou para Hannah. — O que você acha?
— Você não deixou muito espaço para ele manobrar. — Ele se virou para Dillon: — E você?
— Eu? — Dillon riu. — Deus do céu, excelência. Sou apenas um simples garoto irlandês. O que me deixou intrigado foi o fato de ele não ter negado nada.
— Bem, ele agora é assunto seu. — Ferguson disse a Dillon — Não o deixarei em paz um momento sequer.
— Devemos nos lembrar do que ele disse, senhor — Sugeriu Hannah. — Ele realmente poderia declarar guerra contra nós.
— Você está questionando as minhas ordens, superintendente?
— Ah, não se preocupe — disse Dillon. — Ela sempre obedece ordens, general, não importa quão estúpidas elas sejam. Sou eu que vejo as coisas de forma diferente. Mas, como nós dois sabemos, sempre fui meio louco. Vamos, Hannah, vamos colocar o mundo em ordem.
Dillon virou-se e apontou o caminho, deixando Blake com Ferguson.
Na casa de Kate, Paul organizou um conselho de guerra com os outros três.
— É uma pena mesmo que Casey tenha sobrevivido.
— Uma pena maior ainda que Aidan Bell tenha sido econômico com a verdade — disse Kate.
— Certo, mas é algo que se deve esperar de pessoas como ele. Vou deixar passar por ora. Eu ainda preciso dele.
— E, então, o que faremos?
— Acho que vou dar uma lição em Ferguson. Ele transformou Dillon numa ameaça direta, portanto está na hora de nos livrarmos de Dillon. — Ele virou-se para Michael. — É a sua tarefa. Use Ali Salim, do Partido de Deus. Ele é bom o suficiente. Mas mantenha-se fora disso.
— E para quando você quer que isso seja feito, irmão?
— O mais rápido possível. Se Salim estiver disponível, diga para ele agir imediatamente. Mas deixe ele resolver isso. Você é um bom garoto, Michael, mas não tem nenhuma chance contra os Dillons desse mundo. — Ele virou-se para Kate. — Você está de acordo?
— Sem dúvida. — Ela deu um beijo na bochecha de Michael. — Apenas deixe isso para Ali Salim.
Dillon e Hannah fizeram uma refeição leve num pequeno restaurante italiano perto de onde ele morava, em Stable Mews. Discutiram a situação até a exaustão, sendo que a maior preocupação era se Ferguson havia ou não sido muito duro. Eles estavam tomando chá e café quando Blake, que havia ligado para o celular de Dillon mais cedo, entrou.
— Quer comer alguma coisa? — perguntou Dillon.
— Comi ovos mexidos com Ferguson na casa dele. — Ele se sentou. — Falei com o presidente. Ele acha que Paul Rashid é maluco.
— Então, se ele é, eu também sou. — Dillon balançou a cabeça. — A maldição da nossa civilização contemporânea tem sido o crescimento irrestrito do capitalismo e a intervenção de companhias ocidentais, em lugares como a Arábia, com o único intento de ganhar dinheiro. Nossa sociedade acredita que o dinheiro é tudo. O que nós devemos entender é que podemos estar lidando com pessoas que não dão valor nenhum ao dinheiro, e os beduínos são assim.
— Rashid pode se dar ao luxo de pensar assim — disse Blake. — Ele é um beduíno muito rico.
— Sim, mas todas as coisas com as quais ele está envolvido são controladas pelos beduínos e pelos Rashid. Existe uma diferença. A propósito, você quer dar um pulo em minha casa e tomar um drinque lá?
— Podemos ir de carro, estacionei lá fora — disse Blake. Ele saiu com Hannah, Dillon permaneceu para pagar a conta e, em seguida, foi atrás deles.
Ali Salim era um árabe iemenita de 35 anos, com olhos selvagens e negros, e pele bexiguenta. Ele aceitou o contrato sem hesitar e fez pouco da reputação de Dillon.
— Então, esse homem é um problema, segundo você me diz? Pois vou dar mais problemas a ele do que ele teve em toda sua vida. Onde posso encontrá-lo?
Eles estavam na sala de estar do apartamento de Ali, perto de Marble Arch. Ele abriu uma gaveta e tirou uma Beretta. Michael sentiu-se confuso e triste. O homem o perturbava, mas seu irmão havia insistido para que ele se mantivesse pessoalmente fora do negócio.
— Ele mora em Stable Mews, número cinco. Levo você de carro até lá.
— Então vamos. — Ali pegou um punhado de chaves de uma gaveta. — Chaves mestras, para a eventualidade de ele não estar lá para atender à porta. Fique com seu dinheiro. Isso eu faço pelo seu querido irmão, que é um exemplo para todos nós.
Dillon abriu a porta da frente e foi o primeiro a entrar, Hannah seguindo-o e Blake um pouco mais atrás. Eles passaram pelo corredor e entraram na sala de estar, onde Ali Salim se encontrava escondido atrás de uma porta. Ele deu um forte golpe lateral na cabeça de Dillon com a Beretta. Dillon cambaleou pela sala e caiu, apoiado em um dos joelhos.
Ali agarrou Hanna e a empurrou com força, fazendo com que caísse de joelhos, a bolsa voando para longe de sua mão. Salim avançou e acertou um forte golpe na cabeça de Blake ao mesmo tempo em que mirou a pistola para Dillon. Hanna alcançou a bolsa e tirou sua Walther.
Olhando para ela de soslaio, Ali Salim virou-se e atirou três vezes nela.
Blake agarrou as pernas de Ali Salim e levou outro golpe na cabeça. Dillon levantou-se e enfiou a mão na chaminé da lareira, onde ele mantinha seu trunfo, uma Walther pendurada pelo gatilho em um prego.
Rapidamente virando-se, ele deu um tiro entre os olhos de Ali Salim, fazendo com que ele caísse por cima de uma cadeira. Ali contorceu-se no chão, com sangue espalhando em seu rosto. Dillon aproximou-se e deu-lhe dois tiros no coração.
Ele se ajoelhou e examinou Hannah. Os olhos dela estavam vidrados e havia sangue por toda parte. Ele se levantou, foi até o telefone e discou.
— Hospital Rosedene? Aqui quem fala é Dillon. Ocorreu um terrível acidente. A superintendente Bernstein levou três tiros. Estamos na minha casa. Venham para cá imediatamente.
Ele entrou em seu quarto, vasculhou o armário e voltou com duas ou três embalagens de gaze.
— Ponha estas nela, Blake — disse ele. Johnson estava de pé, parecendo não estar tão mal. Dillon foi até o corpo de Ali, revistou-o e achou uma carteira.
Depois ligou para Ferguson. Quando o general atendeu ele disse: — Voltei para casa com Hannah e Blake. Havia um assassino árabe nos esperando. Segundo a sua identidade ele se chama Ali Salim. Deu três tiros em Hannah e eu o matei. Já falei com o Rosedene. Uma ambulância está a caminho.
— Meu Deus — disse Ferguson.
— Se eu fosse você, avisaria a família dela. Vou mandar Blake com ela. Ficarei aqui para limpar a bagunça.
— Deixe comigo — disse Ferguson, tentando manter a calma.
Dillon fez outra ligação. Foi atendido imediatamente.
— Aqui é o Dillon. Tenho um serviço de remoção para vocês. Venham imediatamente. A entrega é em minha casa.
— Estamos a caminho — disse uma voz.
Dillon desligou o telefone, a campainha tocou e, depois que ele atendeu a porta, três paramédicos entraram com uma maca. Ele os levou até a sala de estar, onde Blake encontrava-se agachado perto de Hannah.
— Três ferimentos de bala. À queima-roupa. Foram feitos com esta Beretta. — Ele entregou a arma de Ali Salim.
Eles trabalharam rapidamente. Deram soro e a puseram na maca.
— Vá com ela, Blake. Eu encontro vocês depois.
Subitamente, ele estava sozinho. Acendeu um cigarro e serviu-se de uma dose de Bushmills. Ele a bebeu e serviu outra, a mão tremendo um pouco.
— Se ela morrer, Rashid — disse ele suavemente —, que Deus o ajude.
Passados alguns instantes, a campainha tocou de novo.
Ele abriu a porta e recebeu dois homens cadavéricos de meia-idade, trajando ternos e sobretudos escuros um deles carregando um grande saco preto no braço esquerdo.
— Por aqui. — Dillon apontou o caminho.
— Meu Deus — exclamou o mais velho quando viu Ali Salim.
— Não tenha pena. Ele deu três tiros na superintendente Bernstein. Estou com a carteira dele. Vou entregá-la ao general Ferguson. Apenas tire-o daqui.
— Claro, senhor Dillon.
Mais tarde, pensando em Hannah Bernstein e em tudo que eles haviam passado juntos, a raiva deu lugar a um sentimento de preocupação. Tratava-se, enfim, do negócio em que eles trabalhavam. A raiva viria mais tarde. Ele apanhou uma capa de chuva de couro e saiu.
Muitas pessoas achavam que Arnold Bernstein era o melhor cirurgião geral de Londres, mas operar a própria filha seria antiético. Esse foi o motivo pelo qual o professor Henry Bellamy, do Guy's Hospital, assumiu a operação. Ele permitiu que Bernstein ficasse na sala de operação. Eticamente, era o máximo que se podia esperar.
Ferguson, Dillon e Blake aguardavam no saguão, acompanhados do rabino Julian Bernstein, avô de Hannah. Eles tomaram café e chá, esperando o término da operação, que durou quatro horas.
— Você deve odiar todos nós, rabino — disse Ferguson.
O homem velho deu de ombros. — Como poderia odiá-los? Foi essa a vida que ela escolheu.
A porta se abriu e Bellamy e Bernstein saíram, ainda vestidos com trajes cirúrgicos. Eles se levantaram e Ferguson disse: — Qual é a situação?
— Muito grave — respondeu Bellamy. — O estômago, a bexiga e o baço foram atingidos. Uma das balas atravessou o pulmão esquerdo e danificou a coluna. É um milagre ela estar aqui.
— Mas ela está...?
— Sim, Sean, ela está... e acredito que ela saia desta, mas vai levar tempo.
— Graças a Deus — disse o rabino Bernstein.
— Não, graças a um grande cirurgião. — Dillon virou se e foi embora, Ferguson chamou-o: — Sean, espere.
Ele alcançou Dillon na escadaria principal, Blake seguindo-o de perto.
— Sean, você não vai fazer nada estúpido, vai?
— Mas por que eu haveria de fazer?
— Eu lidarei com Rashid.
Dillon ficou parado, completamente imóvel, olhando para ele.
— Então faça isso depressa, general. Se não o fizer, eu o farei. Lembre-se disso. — Ele desceu a escada e foi embora.
Blake Johnson disse: — Um homem com raiva, general.
— Sim, e tem todo o direito de estar assim. Vamos conversar sobre o assunto, Blake, para ver se conseguimos encontrar a maneira certa de lidar com esta situação.
De volta a Stable Mews, Dillon atendeu à porta e deu de cara com o mais velho dos dois homens que haviam levado o corpo de Ali Salim. Ele carregava uma urna funerária preta, leve, de plástico.
— Ah, senhor Dillon. Imaginei que você quisesse ficar com elas.
— O que é isso?
— São as cinzas de Ali Salim.
Dillon pegou a urna.
— Ótimo. Farei com que elas sejam entregues no destino certo.
Ele colocou as cinzas na mesinha da entrada e ligou para Ferguson.
— Sou eu. Quando você encontrará Rashid?
— Ainda não tenho certeza.
— Bem, eu tenho. Eu lhe disse: se você não agir, eu mesmo o farei.
— Não há necessidade disso. Eu ligarei para ele e marcarei um encontro.
— Faça isso. — Dillon desligou o telefone.
Para sua surpresa, a campainha tocou novamente e, quando ele abriu a porta, encontrou o rabino Bernstein esperando.
— Posso entrar, Sean?
— Claro.
O velho seguiu Dillon até a sala de estar. Dillon virou se repentinamente, ansioso: — Ela está bem, não está?
— Parece que sim. Sean, não sei de todos os detalhes mas sei o que ela gostaria que eu dissesse a você. Ela não iria querer vingança.
— Bem, eu quero. Desculpe-me, rabino, mas estou num clima de Velho Testamento no momento. Olho por olho.
— Você ama minha neta?
— Não da maneira que você está pensando. Deus sabe que ela não me ama. Na verdade, ela detesta tudo o que eu represento, mas isso não conta agora. Eu a respeito muito, e não tenho a mínima intenção de deixar que o homem responsável pelo seu atual estado saia ileso.
— Mesmo que ela não queira isso?
— Sim. Logo, rabino, a não ser que o senhor queira ficar para tomar uma xícara de chá, é melhor ir embora.
— Que Deus o ajude, Sean.
O velho dirigiu-se para a porta. Dillon abriu-a para ele. — Desculpe, rabino.
Bernstein saiu. Dillon fechou a porta, hesitou um pouco e voltou para a sala de estar.
O telefone tocou. Quando ele atendeu, Ferguson disse: — Amanhã às onze horas, na minha casa. Aguardo você.
— Estarei aí. — Sean Dillon desligou o telefone.
Na manhã seguinte, ele ligou para o hospital e soube que ela estava mal, mas estável. Que ela estava recebendo o melhor tratamento de Londres era um fato — Ferguson não aceitaria menos o que isso — portanto não havia nada que Dillon pudesse fazer.
Ele vestiu-se em roupas de couro preto, uma jaqueta de aviador preta e cachecol branco, depois foi caminhando até o apartamento de Ferguson em Cavendish Place, levando a urna negra de plástico. Kim abriu a porta e Dillon encontrou Ferguson tomando chá com torradas perto da lareira.
— Não tive tempo de tomar o café da manhã. Blake está no meu gabinete falando ao telefone com o presidente. Ele estará conosco em breve. Sirva-se de um drinque. Sei que você gosta de começar cedo.
Dillon serviu-se de uma dose de Bushmills com um pouco de água.
— Alguma notícia de County Down?
— Ah, Bell está lá, com seus três comparsas, Tommy Brosnan, Jack O'Hara e Pat Costello. Acertei os nomes?
— Sem dúvida.
Blake entrou.
— O presidente mandou um grande abraço. Ele está muito preocupado com Hannah. Qualquer coisa que ela precisar, qualquer tipo de tratamento especial, é só pedir.
A campainha tocou. Kim surgiu e olhou para Ferguson, que acenou afirmativamente com a cabeça, e o gurka abriu a porta. Paul e Kate Rashid entraram.
Ela estava usando um tailleur preto, e ele uma jaqueta de aviador preta. Ambos pareciam alegres.
— Algo para beber, senhores? — perguntou Ferguson. — Café, chá, algo mais pesado?
— Tomarei o mesmo que Dillon — disse Kate.
— Uísque Bushmills, garota, às onze e quinze da manhã? Não sei se cai tão em.
— Bem, terei de provar, não é?
— Você é quem sabe. — Dillon serviu-lhe uma dose, acrescentou um pouco de água. — Dizem que é o uísque mais velho do mundo. Inventado pelos monges irlandeses.
Ela tomou um gole.
— A superintendente Bernstein não comparecerá esta manhã?
— Sim, bem, ela tem sorte de ainda estar viva. Ela está no hospital, na UTI. Quando voltamos para a minha casa ontem à noite, havia um sujeito chamado Ali Salim nos esperando. Eu pesquisei sobre ele. Um fanático do Partido de Deus.
Houve um silêncio, quebrado por Paul Rashid: — A superintendente está bem?
— Ah, sem dúvida que sim — disse Dillon. — Ela teve o estômago, a bexiga e o baço atingidos, uma bala no pulmão esquerdo e a coluna foi danificada. O tipo de coisa que você pode esperar quando um fanático religioso dá três tiros numa mulher.
Kate Rashid disse cuidadosamente: — E esse Ali Salim? Onde está ele?
— Ali na mesa. — Dillon fez um sinal com a cabeça para a urna preta de plástico. — Eu trouxe as cinzas dele para vocês. Três quilos. É tudo o que resta. — Ele se serviu de mais uma dose de Bushmills. — Ah, esqueci de lhes contar: eu matei o canalha depois que ele atirou em Bernstein.
Kate bebeu um gole de seu uísque, em seguida pegou a cigarreira da bolsa e tirou um cigarro. Dillon acendeu-o.
— Sinto muito — disse ela. — Sobre a superintendente Bernstein.
— Bem, acredito que sinta mesmo, não é? Afinal de contas, queriam pegar a mim, e não a ela.
— É mesmo?
— Por que fomos chamados aqui, general Ferguson? — perguntou Paul Rashid.
— Para lhe dizer pessoalmente que se o que você quer é guerra, então é isso que terá. Não fico nada satisfeito quando meus agentes são baleados. Vamos apertá-lo tanto que você não terá condições nem para respirar, quanto mais para perseguir seu "alvo alternativo".
— Verdade? E que alvo seria esse?
— Não pude deixar de reparar que o primeiro-ministro russo estará na cidade no mês que vem.
— É mesmo? — disse Paul Rashid. — Interessante.
— E também um tanto óbvio demais — acrescentou Dillon, acendendo outro cigarro. — Não, ele tem outros planos.
— Vocês terão que esperar para ver, não é? — Paul Rashid se levantou. — Vamos, Kate.
Foi Blake quem disse: — Pelo amor de Deus, senhor, por quê? A morte de sua mãe foi uma tragédia, mas por que levar isso tão longe assim?
— Você é um homem decente, senhor Johnson, e no entanto continua não conseguindo enxergar. Os interesses comerciais do seu país pensam que podem chegar a qual quer lugar do mundo, assumir o poder, corromper e pisar em cima dos direitos das pessoas. Os russos são exatamente iguais. Bem, vocês não vão fazer isso no território da família Rashid, em Hazar, ou no Território Desocupado. Tenho recursos financeiros para me manter e tenho o meu povo. Engula isso, amigo. Uma coisa eu prometo: vou surpreendê-los. — Virou-se para a irmã: — Kate?
Dillon os escoltou até a porta.
— Tente fazer com que ele volte à razão, Kate.
— Meu irmão sempre mantém a razão, Dillon — disse ela.
— Então acabaremos todos trilhando a mesma estrada escura rumo ao inferno.
— Um pensamento interessante — comentou Rashid e saiu à frente.
A porta fechou-se e Ferguson falou: — Enfim, sabemos em que pé estamos.
— Só com relação a ele — disse Blake. — Mas não temos a mínima ideia do que ele pretende fazer.
— Agora é a sua vez. — disse Dillon.
Ferguson fez que sim com a cabeça.
— Vamos tentar uma abordagem simples. Nós não vamos conseguir nada tentando ouvir as conversas telefônicas de Rashid, e os celulares codificados tornam as coisas ainda mais difíceis atualmente. Mesmo assim, colocaremos uma escuta. Podemos monitorar suas viagens. Seus aviões precisam de permissão para decolar e a lista de passageiros tem que ser informada com antecedência. O Serviço Secreto pode verificar isso. Nesse meio tempo, vasculharemos seus amigos, seus sócios. Talvez tenhamos sorte.
— Quanto mais cedo melhor — disse Blake. — Rashid tem uma energia que acho um tanto perturbadora.
— O que você vai fazer? — perguntou Dillon.
— Vou para casa. Tenho que conversar muitas coisas com o presidente. Entretanto, se precisarem de mim, seja para o que for, avisem-me e voltarei.
Dentro do carro, Paul Rashid fechou o painel de vidro e disse para Kate: — Eles vão cair em cima de nós de todas as formas possíveis.
— Eu sei. Agora será quase impossível matar o primeiro-ministro russo.
— Ele nunca foi o meu alvo alternativo, Kate.
Ela ficou surpresa. — Mas, Paul, eu presumia que fosse.
— Era isso que eu queria que todos pensassem e foi o que aconteceu. Com exceção de Dillon, obviamente.
— Então quem é?
— Isso é só para os seus ouvidos: trata-se do Conselho de Anciões, em Hazar, todos os doze. Eles estão nas últimas. Eles me temem e não me querem. Eles não confiam na influência que eu tenho sobre as tribos, e têm motivo. Assim que eu me livrar deles e for nomeado sultão, declararei a jihad. Então, todas as grandes potências terão razões para tremer.
— Como pretende fazer isso?
— Eles estarão reunidos em duas semanas. Quero que você vá para lá e fique baseada no nosso escritório em Hazar. Irei encontrá-la mais tarde.
— E como será executado o trabalho?
— Uma bomba adequada, e para isso precisaremos dos conhecimentos de Bell. Também vamos precisar que você vá falar com ele sem que ninguém desconfie. Fale com Kelly. Ele conhece algumas pessoas espertas, do tipo que fazem voos ilegais saindo de pequenos campos de pouso da RAF. Fazem o serviço rapidamente. Planeje isso.
— Seguirei suas instruções, irmão.
E Kelly saiu-se melhor que o esperado. Ele descobriu uma companhia em Surrey chamada Grover Táxi Aéreo, cujo proprietário era um homem de meia-idade de aspecto furtivo, que usava uma jaqueta de aviador marrom e macacão. Ele os encontrou na frente de um abrigo da Segunda Guerra Mundial, atrás do qual havia dois hangares.
— Bem, Mick — disse Kelly. — Digamos que esta senhora se chama senhorita Smith e vamos direto ao assunto. Corno lhe disse, nós precisamos ir a Drumcree. Umas duas horas, no máximo, depois voltaremos.
— Sem problemas. Posso voar no velho Titan. Tem dois motores e uma porta com escada.
— Não teremos problema para pousar?
— Nenhum. Nivelarei o avião numa altitude de seiscentos pés quando chegarmos a cerca de quatro quilômetros da costa. Há uma velha pista de pouso da RAF a uns quinze quilômetros de Drumcree. Falarei com o meu contato no local para deixar um carro lá.
— Ótimo. Então vamos.
— Espere um minuto. E o dinheiro?
Kate abriu a pasta, retirou um envelope de papel pardo e entregou-o.
— Podemos partir agora?
Grover hesitou, obviamente tentado a olhar dentro do envelope, mas mudou de ideia.
— Tudo bem. — Ele virou-se e partiu na frente, andando até o hangar. Lá abriu o portão, revelando o Titan ao fundo.
— Quanto tempo levará? — perguntou Kelly.
— Uma hora e meia, dependendo do vento.
— Ótimo. Vamos embora, então — disse Kelly, ajudando Kate a subir os degraus da escada do avião.
Ela ligou para Bell de seu telefone celular codificado quando atravessavam o mar da Irlanda. Ela o pegou na cozinha de sua fazenda.
— Aqui quem fala é Kate Rashid. Estarei com você dentro de uma hora.
— Você o quê?
— Quero conversar sobre as férias que você vai passar em um lugar de clima bem mais quente.
— O que está querendo dizer?
— Seu grande pagamento. O alvo alternativo.
— Bem, é comigo mesmo, querida.
— Kelly está me escoltando — disse ela. — Encontra remos você no Royal George.
Sem que Ferguson soubesse, Dillon estava seguindo Kate Rashid desde o momento em que ela saiu de Londres.
Vestindo roupas de couro pretas e montado numa motocicleta Suzuki, ele havia ficado num pequeno bosque, observando Kelly, Kate e Grover através do binóculo. Quando eles entraram no Titan e decolaram, Dillon foi até um vilarejo a um quilômetro e meio de distância e entrou no pub. A lareira estava acesa, mas não havia nenhum cliente. Uma mulher de meia-idade surgiu, vindo da cozinha.
— Meu Deus, isto aqui está parecendo um velório — disse Dillon alegremente.
— Ainda é cedo. O que você esperava?
— Quero uma dose de Bushmills e instruções de como chegar a Hoxby. — Ele mentiu sem fazer esforço e acendeu um cigarro. — Fiquei surpreso de ver um avião decolando há alguns instantes.
— Ah, aquilo é o negócio do Mick Grover. Fica um pouco adiante, seguindo a estrada, numa velha estação de — reabastecimento dos tempos da guerra. Ele pulveriza plantações e faz um ou outro voo fretado. Não sei como ele pode ganhar a vida assim.
— Nem eu sei como consigo ganhar a vida. — Dillon sorriu. — Você serve comida?
— Sim, é claro.
— Vou resolver alguns problemas em Hoxby. Provavelmente passarei por aqui na volta.
Grover ficou no avião e Kelly levou Kate de carro até o George. Estava bem silencioso àquela hora da manhã, havia apenas o barman, Patrick Murphy, lendo o Telegraph de Belfast no balcão. Kelly entrou primeiro.
— Aidan Bell nos espera.
— Ele está no escritório.
Kate seguiu na frente e abriu a porta, Kelly veio atrás, Aidan Bell estava sentado perto do fogo, fumando um cigarro e bebendo chá. Ele levantou os olhos.
— Lady Kate. Agora isso realmente parece interessante. O que quer que eu faça?
— O que você faz melhor. Doze xeques árabes, o Conselho de Anciões de Hazar, eles estão se transformando num problema.
— Bem, não queremos que isso aconteça. Por outro lado, sempre imaginei que os beduínos seguiriam o seu irmão até o fim. Todos aqueles selvagens tribais.
— Eles o seguirão, quando os xeques forem eliminados. Este serviço precisa de um toque profissional. Também tem de ser espetacular. Tem de chamar a atenção do mundo. Você precisará de uma equipe, obviamente.
— Quanto a isso não há problema. Tenho alguns rapazes...
— Eles são bons?
— Ainda estamos todos aqui, não é? Para responder a sua pergunta, sim, eles não vão fazer besteira como Lian fez. Então, sobre o que estamos falando?
— A Rashid Investments tem interesses imobiliários em Hazar e eu voarei para lá hoje, supostamente para supervisioná-los. Quero que você e seus "rapazes" estejam depois de amanhã no aeroporto de Dublin. Nosso Gulfstream os levará a Hazar. Acertamos tudo quando você chegar lá.
— O que vocês querem? Uma espécie de emboscada? Uma bomba? Qual a sua vontade?
— Discutiremos isso quando nos reencontrarmos. Qualquer equipamento que vocês precisarem estará lá.
— Então, tudo o que tenho que fazer é pensar sobre a melhor maneira de nos livrarmos de doze xeques árabes e sair com meu traseiro intacto?
Ela deu uma gargalhada.
— É verdade. Essa última questão deve ser levada em consideração. Nós, árabes, somos um povo terrível. Você deve tomar cuidado.
Ele sorriu.
— Tomarei, lady Kate. Pode ter certeza. — Ele levantou a xícara de chá. — Um brinde. À paz, lady Kate, à paz. Tomou um gole. — E que todo o resto se exploda.
Dillon comeu uma fatia de torta de carne com purê de batatas no pub, acompanhada de uma taça de um Sancerre medíocre. Havia uma dezena de pessoas no bar, todas da região, aparentemente. Ele acabou o lanche, pagou e caminhou em direção à Suzuki. Passados quinze minutos Dillon estava de volta ao pequeno bosque perto do campo de aterrissagem, aguardando e ficou sentado, pensando e fumando, protegendo-se da chuva fina. Finalmente ouviu o som dos motores a distância, vendo o Titan aparecer e fazer uma volta para aterrissar. Pelo binóculo, Dillon observou Kate Rashid e Kelly conversarem. Em seguida, ela e seu segurança entraram no Mercedes e partiram. Dillon esperou um pouco, em seguida montou na Suzuki e partiu em direção à pista de pouso.
No velho abrigo, Grover estava botando a água da chaleira para ferver quando ouviu o som da Suzuki. Ele foi até a janela e viu Dillon saltando e colocando a moto no descanso. O irlandês tirou o capacete, deixou-o em cima da moto e abriu a porta.
— Em que posso ajudá-lo? — perguntou Grover.
— Informações — disse Dillon. — Respostas. Esse tipo de coisa.
— De que merda você está falando?
Dillon abriu o zíper de seu casaco de couro, tirou uma Walther com silenciador e derrubou a chaleira do fogão com um tiro.
Grover ficou aterrorizado.
— Meu Deus, o que é isso?
— Bem, para começo de conversa, você me conta o que quero saber e eu não o deixo aleijado. Então, vamos direto ao assunto. O pessoal que você levou para um passeio de avião... — Quem era?
— Um sujeito chamado Kelly. Eu o conheço há anos.
— A mulher?
— Ele disse que o nome dela é Smith. .
— É mesmo? Para onde você os levou?
Grover hesitou e Dillon deu um tiro no chão, entre os pés dele. — Para onde você os levou?
— Condado de Down. Um lugar chamado Drumcree.
— Para se encontrar com quem?
— Como é que eu vou saber isso, porra? Eu os levei até lá, eles me deixaram na pista de pouso e foram de carro até o vilarejo. Isso é tudo que sei. Depois de cerca de uma hora e quinze eles retomaram para voltarmos para cá.
— E você não ouviu nada?
— Não. Não tenho a mínima ideia do que eles foram fazer lá.
Dillon levantou a Walther novamente e Grover pulou.
— Eu não sei de nada, estou lhe dizendo! — Ele fez uma pausa. — A única coisa que sei é que, a uma certa altura, durante o voo, eles estavam conversando. Eu a ouvi dizer "Hazard", "Hazar", algo assim.
— Você é um cara legal. — Dillon enfiou a Walther de volta no casaco de couro. — Agora, vamos deixar algo bem claro. O que acabou de acontecer aqui fica entre nós dois e Deus. Nada de contar a Kelly ou à senhorita Smith. Entendeu? Porque se não tiver entendido, eu volto e estouro seu joelho direito.
— Olhe, não dou a mínima — disse Grover. — Vá embora e me deixe em paz.
— Não me faça voltar.
Dillon saiu, colocou o capacete e partiu.
Grover o viu ir embora.
— Quero que vão para o inferno. Quero que todos vão para o inferno. — Pelo menos ele tinha as 3.500 libras que estavam dentro do envelope de papel pardo.
Ele abriu um armário e apanhou outra chaleira.
Um pouco mais adiante na estrada, Dillon parou no acostamento e ligou para Ferguson de seu celular.
— Onde você está? — perguntou Ferguson.
— Bem, se você ficar calado, velho chato, poderei explicar. Quando ele acabou, Ferguson disse: — Certo, então ela foi encontrar-se com Bell e o piloto a ouviu falar em Hazar. O que isso quer dizer?
— Tenho uma sugestão. A casa dos Rashid em Mayfair. Você já mandou colocar a escuta telefônica?
— Sim. É claro que eles não falaram nada ainda. São muito espertos para fazer isso.
— Bem, ele se sentirá confiante se aparentarmos fazer tudo que ele espera que façamos. Portanto, por que você não chama os caras do seu departamento de comunicações e pede para que eles trabalhem na rua, perto da casa, fingindo que estão mexendo nas linhas telefônicas, o tipo de besteira normal? Mas, na verdade, por que não instalar um microfone direcional? Quem sabe? Pode captar algumas coisas interessantes.
— Tudo bem, deixe comigo. Mas volte para cá. Preciso de você.
Dillon foi para casa, em Stable Mews, trocar de roupa. Em seguida, foi ao hospital visitar Hannah. A enfermeira-chefe permitiu que ele ficasse por apenas cinco minutos, Ela estava deitada, a cabeça um pouco levantada, ligada a vários aparelhos. Dillon ficou sentado por algum tempo e depois saiu, enraivecido e amargo. Ele encontrou o professor Bellamy no corredor.
— Qual é o veredicto? — perguntou Dillon.
— Não é dos melhores, Dillon. Acho que ela sobreviverá mas não posso dizer em que condições.
— Ainda viajaremos de férias. — Dillon disse e partiu.
Em Cavendish Place, ele encontrou Ferguson examinando documentos em sua escrivaninha.
— Tenho notícias interessantes. Seu microfone direcional captou urna conversa entre Rashid e a irmã. Rashid disse: "Esteja lá para encontrar-se com Bell e os três capangas quando eles chegarem a Hazar."
— É mesmo? Bem, isso é interessante. Então, o que fazemos?
— Acho que a questão principal é o que você fará, Dillon. Eu diria que Hazar será o seu próximo destino.
— General, no minuto em que eu aparecer em Hazar, estarei frito.
— Teremos que arriscar. Não posso ficar de olho neles sem você por lá, enchendo o saco, como sempre. Descobri uma desculpa legítima para justificar a sua presença por lá. Meu primo, o professor Hal Stone, da faculdade Corpus Christi, de Cambridge, coincidentemente está em Hazar no momento, chefiando uma operação de mergulho aos destroços de um cargueiro da Segunda Guerra Mundial. Por absoluta falta de verbas, ele está sendo forçado a usar mergulhadores árabes locais.
— Parece divertido.
— E é, na verdade. O mais interessante é que ele encontrou destroços de um navio mercante fenício embaixo do cargueiro. Você é um excelente mergulhador, Dillon. Hal adoraria ter alguém como você por lá para ajudar, principalmente de graça. Você poderá monitorar lady Kate, Bell e os outros. Vou providenciar seu voo e irei em seguida, depois que você já estiver aclimatado. Concorda?
— Vamos tentar. Só tem uma coisa. Eu conheço esses mergulhadores árabes. Eles mergulham com uma pedra em cada mão. Preciso de outro exímio mergulhador para me dar cobertura.
Ferguson suspirou.
— Será que você está se referindo a quem eu estou pensando?
— Billy Salter é um mergulhador de primeira classe.
— E você acha que ele vai topar? — Se eu acho que ele vai topar? — Dillon caiu na gargalhada.
No Dark Man, eles encontraram Harry Salter, Billy, Joe Baxter e Sam Hall sentados a uma mesa de canto.
— Jesus, general de brigada, o que o traz aqui? — perguntou Harry Salter.
— Em primeiro lugar, ele não é mais general de brigada, Harry. Ele foi promovido a general de divisão — disse Dillon.
— Meu Deus do céu! — Salter fez um sinal para Dora, que estava atrás do balcão. — Traga champanha para nós, garota. Trata-se de uma ocasião especial.
Ela apanhou a garrafa e deu a volta por trás do balcão, mas foi o jovem Billy quem disse: — E aí, Dillon? Você não veio aqui para trocar figurinhas.
— Vou viajar para Hazar, no golfo de Oman, Billy. O primo do general estava vasculhando os destroços de um navio da Segunda Guerra e encontrou partes de um navio fenício.
— Ele o quê? — O rosto de Billy ficou pálido de excitação.
— O negócio é que ele não tem dinheiro, Billy, só mergulhadores árabes, portanto ele só vai pagar as despesas da viagem: Billy levantou-se.
— Se ele precisa de você, ele precisa de mim. Quando partimos?
— Amanhã de manhã.
Billy virou-se para sair, mas Ferguson disse: — Diga a verdade ao rapaz, pelo amor de Deus. Da última vez ele matou quatro pessoas para nós. Nós devemos isso a ele.
Billy voltou-se lentamente. — Vamos ter problemas?
— Problemas pesados, Billy. Vamos enfrentar pessoas muito piores desta vez.
— Então é melhor você me contar tudo, porra — disse Billy e sentou-se novamente.
Pouco depois, ele disse: — Que bando de canalhas. O que quero dizer é que se você é inglês, você é inglês. Não me importa se esse tal de Rashid é metade árabe, mas ele devia se comportar. Sei lá, Dillon, desde que conheci você, eu venho tentando salvar o mundo. A que horas partimos pela manhã?
— As dez, saindo de Northolt.
— Quem nos levará? Lacey e Parry, como de costume?
— Em quem mais você confiaria para fazer um salto de uma altitude de seiscentos pés?
Billy sorriu matreiramente.
— Porra, você está certo. Eles foram condecorados com a Cruz da Força Aérea da última vez, não foi?
— Isso mesmo.
— Alguma chance de eu conseguir uma?
— Nem em um milhão de anos, Billy.
— E eles não lhe dariam uma?
— A única coisa que eles me dariam seriam vinte anos de prisão, se eles pudessem.
Harry Salter levantou-se. — Bem, é melhor fazermos as malas.
— Nós? — perguntou Ferguson.
— Eu não sei mergulhar, cacete, mas sei usar uma arma e ficar sentado num barco — disse Salter. — É uma questão de família.
Na casa de Mayfair, Paul Rashid disse a Kate: — Leve George. Ele pode servir de ligação com os membros da tribo. Ele conhece o dialeto e o respeitam por ser meu irmão. Eles a respeitam também, por ser minha irmã, mas, como árabes, eles não se sentem à vontade com uma mulher forte.
— Então, eles terão que aprender.
Ele a abraçou. — Bell é o que importa. Ele é bom, mas terá que descer a você. Se houver qualquer problema, farei com que ele e seus três amigos sejam varridos do mapa. Aqueles lá são o meu povo.
— Eu sei, irmão, eu sei. Não o desapontarei. Vou surpreendê-lo.
Dillon foi visitar Hannah Bernstein novamente. Ela estava um pouco mais consciente e conseguiu falar com ele.
— O que planeja fazer, Sean? — murmurou ela.
— O que importa é o que Rashid planeja fazer. Ele contratou Bell para ir a Hazar com seus capangas. Ainda não sabemos para quê.
— E você vai para lá?
— Vou.
— Conte-me a respeito.
Foi o que ele fez.
Quando ele acabou, ela disse: — Então você, Billy e o velho Harry estão de volta na zona de guerra?
— Parece que sim.
— Você nunca vai desistir, não é, Sean?
— É isso que eu sou, Hannah. Eu preciso de uma boa mulher ao meu lado, esse é o meu problema.
— Ah, deixe disso e pare de dar desculpas.
— Eu também a amo. — Ele beijou-lhe a testa. — Deus a abençoe, Hannah.
E pela primeira vez ela lhe deu um sorriso, um sorriso e verdade: — Deus o abençoe, Sean.
Estranho, mas lá estava ele: Sean Dillon, o último dos durões, ao sair, tinha lágrimas nos olhos.
Quando chegou em casa, ele falou com Blake Johnson ao telefone e informou-lhe sobre os últimos acontecimentos.
— Jesus, Sean — disse Blake. — Hazar é o território dos Rashid, e você, Billy e Harry vão brincar de mergulhadores com o primo do Ferguson? Pois bem, vocês não vão conseguir nem entrar num bar no cais do porto para tomar um drinque sem que alguém tente enfiar-lhes uma faca nas costas.
— É verdade. Vai ser uma festa, Blake. Você devia vir para se divertir também.
— Francamente, meu bom amigo irlandês, sinto-me tentado. O que os Rashid estão tramando, Sean? Por que importar um esquadrão de assassinos do IRA para Hazar?
— Bem, é isso que vou descobrir.
— Então, tome cuidado.
— Tomarei, Blake. — Dillon riu. — Quem diria, um guerrilheiro do IRA e dois dos melhores gângsteres londrinos no meio do deserto. Por que tem de ser sempre nós?
— Sean, não sou um estudioso da filosofia da moral, mas suspeito que você e Billy vão se divertir para valer... Eu também mergulho, você sabe? Acha mesmo que o presidente...?
— Só há um meio de você descobrir.
Em Northolt, na manhã seguinte, eles encontraram Lacey e Parry esperando e, como uma espécie de surpresa, Ferguson.
— Resolvi vir me despedir. Lacey, retire as insígnias. Acho que não precisamos fazer propaganda da RAF. Como estamos classificando o voo, Lacey?
— Um voo fretado das Nações Unidas, general.
— Ah, bem, ninguém vai contestar isso.
O oficial intendente surgiu, um sargento-ajudante reformado, alto e de aspecto ameaçador.
— Há a questão das armas, senhor Dillon. Podemos conversar?
— É claro — disse Dillon.
O oficial intendente conduziu-os a uma antessala. Numa mesa larga encontravam-se vários AK-47s, Brownings, silenciadores Carswell e três submetralhadoras.
— São Parker-Hales, senhor Dillon.
— Excelente, sargento.
— Coloquei equipamentos de mergulho a bordo. Vocês terão de arranjar os tanques de oxigênio por lá. Tomaria cuidado, se fosse vocês. Nunca se sabe o que esses malditos árabes colocarão neles.
— Você tem razão — disse Dillon.
— Ótimo, porque gostaria de encontrá-lo novamente, senhor Dillon.
— Vamos ver como nos saímos.
— Eu colocarei as coisas no avião — disse o oficial intendente.
Enquanto o avião estava sendo carregado, eles tomaram café e chá na sala de espera.
Ferguson disse: — Temos pouca influência em Hazar. Todos esses países pequenos apreciam a independência hoje em dia. Eles não têm um exército, apenas os Batedores Hazar, um pequeno regimento de beduínos árabes tradicionalmente comandados por oficiais britânicos. No momento, Villiers é o comandante. Você o conhece.
— Faço contato com ele? — perguntou Dillon.
— Ele pode ser útil. Está sempre de orelhas em pé, sabe de tudo que está acontecendo. No momento, pelo que sei os soldados estão patrulhando o Território Desocupado. Eles estão tendo problemas com bandidos Adoo lá, homens que estão fugindo do Iêmen: um negócio tipo Lawrence da Arábia. É como nos velhos tempos — qualquer movimento é melhor do que ficar parado. Como na Irlanda do Norte, na verdade.
— O velho camarada está tentando influenciá-lo, Dillon — disse Billy.
— Sim, eu sei que ele está, Billy, mas tudo bem. Dillon sorriu amigavelmente. — O que você quer que eu faça, que mande ele à merda?
— Bem, você tem feito isso de uma forma ou de outra há vários anos, Dillon. — Ferguson se levantou. — Eu não sei o que está acontecendo por lá, mas com certeza é algo estranho. Tome cuidado.
— Ah, eu sempre me cuido. — Dillon apertou-lhe a mão. — Não se preocupe, Charles, você tem a mim, ao Billy e ao Harry. Nós formamos um time imbatível.
Alguns minutos mais tarde, o Gulfstream taxiou ruidosamente pela pista de Northolt. Ferguson esperou, em seguida virou-se e entrou em seu Daimler. Agora tudo estava nas mãos de Dillon, mas isso não era nenhuma novidade.
HAZAR
O aeroporto de Hazar ficava a oito quilômetros da cidade. Tinha uma única pista, que havia sido construída pela RAF nos velhos tempos para fins militares, logo era capaz de receber qualquer tipo de avião, mesmo um Hércules. Quando o Gulfstream aterrissou e eles desembarcaram, dois Land Rovers se aproximaram. O homem que saiu do primeiro tinha seus sessenta anos, estava bronzeado, tinha uma barba branca e usava um chapéu de campanha amassado, uma camisa cáqui e calças compridas.
— Hal Stone. — Ele ofereceu a mão. — Ouvi dizer que você é um excelente mergulhador, Dillon.
— Como me reconheceu?
— As maravilhas da ciência moderna. Computadores, a Internet, o download de belas fotos coloridas. — Ele virou-se para os outros. — Billy e Harry Salter. Que dupla. Até os irmãos Krays ficariam impressionados.
Ele falou algo em árabe e dois homens saíram do Land Rover.
— Coloquem tudo lá dentro. Levem as bagagens para o Sultan.
Lacey e Parry uniram-se a eles e Dillon os apresentou.
— Vocês também vão ficar? — perguntou Stone.
— Não desta vez, senhor — disse Lacey.
— Ótimo, então vocês não precisarão se valer dos meus conhecimentos duvidosos sobre Hazar. Tudo o que se deve evitar, o que constitui efetivamente o que se deve saber. Ele se virou para os outros. — Vamos. Eu quero tomar uma cerveja gelada antes de levá-los para o Sultan.
No Land Rover, Dillon acendeu um cigarro. — Você é mesmo um decano de Cambridge?
— Um membro da faculdade Corpus Christi e professor, em Hoxley, de arqueologia marinha. Há algo mais que você deve saber sobre mim: trabalhei para o Serviço Secreto quando era bem mais novo e ainda mais bobo. Meu primo Charles já me contou tudo sobre você e seus amigos, portanto sei o que vocês vieram fazer aqui mas, francamente, pouco me importa, desde que façam alguns mergulhos para mim.
— Bem, isso não será problema — disse Billy.
— Billy é um excelente mergulhador — acrescentou Dillon. — Dos melhores.
— E você?
— Sou um mergulhador modesto, e tenho outros interesses.
— Interesses com os Rashid? — Stone sorriu. — Kate Rashid apareceu aqui ontem com quatro irlandeses do Norte. Isso o ajudará a se sentir em casa, Dillon.
— E onde é que eles estão hospedados?
— No hotel Excelsior, na zona portuária. Parece cenário de um velho filme da Warner Brothers. Só falta o Humphrey Bogart. Eu disse que queria tomar uma cerveja gelada, e a tomaremos lá. — Dillon acendeu outro cigarro e Stone acrescentou: — Dê-me um.
— Claro.
Stone acendeu-o e tragou com visível prazer.
— Deixe-me dizer-lhe apenas uma coisa. O que você vai fazer é problema seu, mas gostaria de avisá-lo de que este é o tipo de lugar em que cortam seu saco por um maço de Marlboro.
— Uns cachorros — disse Harry Salter. — Não podemos aceitar isso, não é?
Havia chalés no complexo do hotel Excelsior. Kate reservara para Bell e seus três amigos um apartamento tríplex ao lado de um pequeno pátio. Ela estava hospedada na villa dos Rashid, que também alojava a sede da companhia e um pequeno centro de computação e comunicações.
Um jovem árabe entrou no escritório de Kate e colocou alguns papéis sobre a mesa.
— Um avião das Nações Unidas aterrissou há poucos minutos. Esta é a lista de passageiros, retirada do C0111putador.
Kate deu uma olhada e sorriu.
— Interessante.
— O professor Stone foi recebê-los.
— Pegue o meu jipe. Vou dar uma passada no porto.
Atrás deles, Bell, Brosnan, O'Hara e Costello entraram no bar e sentaram nos bancos altos do balcão. No momento em que Dillon os viu no espelho, Bell também o viu. Ele ficou estupefato.
Dillon levantou-se.
— Venha comigo, Billy. — Ele se aproximou. — Aidan, você está bem longe de Drumcree e de toda aquela chuvinha irlandesa.
— Meu Deus — disse Bell. — O que você está fazendo aqui?
— Sendo seu pior pesadelo.
Costello, que acabara de experimentar a cerveja, subitamente levantou o copo, mas Billy deu um chute forte em seu tornozelo direito, prendeu-lhe o braço e tirou-lhe o copo da mão.
— Isso não foi muito inteligente. Faça isso de novo e eu vou quebrá-lo na sua cara.
Uma voz calma disse: — Isso não será necessário.
Dillon virou-se e olhou para Kate Rashid.
— Ora essa, Kate — disse ele —, você é mesmo um espanto... Aparece em todos os lugares.
Eles caminharam de volta para o terraço, enquanto Stone e os Salters mantinham uma incômoda trégua com Bell e companhia.
— Bizarro, não acha? — disse Dillon. — Você conhece Stone?
— Sei sobre ele. Então, o que você está fazendo aqui?
— Vou mergulhar para ele. Se você sabe tudo sobre Hazar, então sabe sobre o Sultan.
O porto de Hazar era pequeno, com vielas estreitas e prédios brancos que ficavam ao pé das colinas. O Excelsior, como Stone dissera, era antiquado, com ventiladores de teto, um enorme bar com balcão de mármore, janelas inteiriças de vidro abertas para o porto. Havia uma variedade de navios lá, alguns pequenos cargueiros costeiros, diversos veleiros. Stone apontou para um a quase dois quilômetros de distância.
— Lá está o Sultan, o velho e grande veleiro. O barco que estamos pesquisando, um navio de munições americano afundado por um submarino alemão quando estava a caminho do Japão, está a cerca de trinta metros de profundidade. — Eles estavam sentados no terraço do hotel, o toldo balançando acima deles com o vento.
— O que é esse negócio fenício? — perguntou Billy.
— Bem, alguns dos rapazes subiram com fragmentos de vasos e de vários outros itens. Com certeza está lá embaixo. O que resta dele. Submeti-os ao teste de idade pelo carbono. Possivelmente são de uns duzentos anos antes de Cristo, mas não dá para ter certeza disso.
— Mal posso esperar para mergulhar.
— Billy é um entusiasta — disse Dillon.
— Ah, é claro que sei tudo sobre ele, assim como sei tudo sobre você e seus amigos, os Salters. Você se mistura com pessoas interessantes, Dillon.
— É verdade, Kate. Harry Salter é um homem limpo agora, quero dizer, quase limpo. Mas mesmo assim continua sendo um dos vilões mais influentes de Londres. Billy já matou quatro pessoas. Eles não são aristocratas.
— Sim, e você tampouco está aqui para gastar seu tempo mergulhando para Hal Stone.
— Estou sim, vou mergulhar para o professor, assim como Billy.
— E nada mais?
— Kate, meu amor, o que mais eu estaria fazendo aqui?
— Você está me vigiando, Dillon.
— Cuidado com o calor do sol, Kate. Pode deixá-la paranoica. — Ele acabou de beber a cerveja e se levantou.
— Terei que amá-la e deixá-la. Mal posso esperar para dar uma olhada naqueles destroços.
Ela voltou para o bar.
— O que esse merdinha está fazendo aqui? — perguntou Bell.
— Não há nada que ele possa fazer aqui — disse ela. Absolutamente nada. Estamos em Hazar. O Conselho de Anciões pensa que controla este lugar, mas não por muito tempo. Em breve, estará tudo na mão dos Rashid. Agora vamos até o seu chalé dar uma olhada nos planos.
Na sala de estar do chalé de Bell, várias folhas de papel estavam empilhadas numa escrivaninha, incluindo um enorme mapa. Bell disse: — Existe apenas uma estrada principal levando até lá.
— Para as Fontes Sagradas, sim. — Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça. — E, na próxima terça-feira, todos os doze membros do Conselho de Anciões estarão indo para lá.
— Você ainda não explicou como quer que isso seja feito. Emboscada ou uma bomba de Semtex? Podemos fazer das duas formas.
— Acho que uma bomba seria mais persuasivo. Vou cuidar para que alguns de meus funcionários levem vocês até lá, para que possam ver o local pessoalmente.
— Excelente. Mas e quanto a Dillon?
— Ah, eu cuidarei disso. Sabe o que dizem? Mergulhar é uma ocupação muito perigosa.
O vento que vinha do mar estava quente e de certa forma perfumado de ervas quando eles deixaram o porto num velho barco a motor conduzido por dois árabes.
— Cristo, Dillon, você vive nos trazendo para lugares estranhos — disse Harry Salter.
— Pare de reclamar, Harry, você adora isso. Este lugar é o limite do perigo. Você vai precisar de uma arma no bolso. Como disse o professor, você estará às voltas com pessoas que cortam o seu saco por um maço de cigarros.
— Gostaria que eles tentassem — falou Salter. — Não me meto em confusões já faz algum tempo. Aquele tal de Sultan parece algo saído de um daqueles velhos filmes de Simbad.
Stone riu. — Você tem alguma razão, Harry, se é que posso chama-lo assim. A grande virtude dele é ser um barco grande. Muitas cabines a bordo.
Dillon respirou fundo o ar salgado e um cardume de peixes-voadores pulou sobre a superfície da água.
— Jesus, Dillon — disse Billy. — Isso é muito legal, isso é demais.
Eles se aproximaram do Sultan. Alguém jogou uma corda, o barco foi amarrado e eles subiram pela escada, um por um.
— Os rapazes cuidarão das coisas — disse Hal Stone.
— Vou mostrar-lhes seus aposentos.
Da maneira como os arranjos foram feitos, Billy e o tio dividiam uma cabine, enquanto Dillon tinha uma só para ele na popa. Ele desfez as malas, em seguida verificou a mala de armas. Colocou os AK-47s, as submetralhadoras ParkerHale, as Brownings com silenciadores e sua arma favorita, a Walther, numa mesa. Houve um chute na porta, que se abriu, e Billy e o tio entraram.
— Vamos para a guerra novamente? — perguntou Billy.
— Bem, nós estamos numa zona de guerra, Billy. Dillon empurrou duas Brownings para eles. — Estão carregadas e têm pentes extras. Vocês precisam ter alguma coisa no bolso neste lugar, especialmente com Bell e companhia por perto.
— Sim, bem, eles que se fodam. — Harry Salter pegou uma Browning. — Sim, esta serve perfeitamente para mim. — Ele colocou-a no bolso, com o pente extra. — Pronta para Bell.
Billy fez o mesmo.
— Bem, então temos artilharia pesada aqui.
— Apenas para quando for necessário usá-la.
— No momento, tudo o que eu quero fazer é descer até aqueles destroços.
— Bem, vamos até o convés dar uma olhada.
Havia três mergulhadores árabes no convés enquanto Dillon e Billy se preparavam. Stone estava lá e Harry Salter balançava a cabeça.
— Não sei não, Dillon — disse Salter. — Quero dizer, esse negócio de ficar mergulhando não é natural.
— Você tem razão. — Dillon estava vestindo uma roupa de mergulho azul. — O ar que nós respiramos é parte oxigênio, parte nitrogênio. Quanto mais fundo se desce, mais nitrogênio é absorvido e é aí que os problemas começam.
Ele prendeu um tanque na roupa inflável e afivelou um computador Orca na altura do manômetro. Vestiu a jaqueta com o tanque, encontrou uma bolsa de mergulho de rede e uma lanterna, cuspiu dentro da máscara e a colocou no rosto. Billy fez o mesmo. Dillon fez um sinal de positivo e mergulhou de costas pela amurada, seguido por Billy.
Havia um grande recife, com vegetação de coral, esponjas, uma espécie de abóbada azul. Um grande cardume de barracudas passou por eles, também peixes-anjo, bodiões, peixes-reis e cavalas. Eles estavam maravilhados. Dillon dobrou o corpo e desceu, checando seu computador de mergulho para conferir as leituras automáticas de profundidade, tempo passado debaixo d'água e o tempo de ar restante.
E lá embaixo, bem no fundo, estava o cargueiro, em condições ainda razoáveis. Dillon virou-se, fez um sinal de positivo para Billy e desceu.
Ele o guiou através de um buraco de torpedo a estibordo, buscou um caminho por um labirinto de corredores, saiu por outro buraco de torpedo no convés e parou. Ele fez um sinal para Billy, com os polegares para baixo, dobrou o corpo de novo.
Dillon observou e remexeu com as mãos, protegidas por luvas, os detritos que se encontravam no leito do fundo do mar, sob a popa do cargueiro. Milagrosamente, ele acertou ..de primeira. Tirou do lodo uma pequena estatueta, uma estatueta religiosa, uma mulher com olhos grandes e a barriga inchada.
Billy aproximou-se e olhou, com uma expressão extasiada, em seguida ele mesmo desceu e começou a procurar. Dillon flutuava enquanto Billy subia com alguma espécie de prato. Dillon balançou a cabeça e eles começaram a subir.
De volta ao barco, entregaram os objetos para Hal Stone e tiraram as roupas de mergulho. O professor estava maravilhado.
— Dillon, esta estatueta é uma senhora descoberta. O Museu Britânico ficaria louco para tê-la.
— E quanto ao meu prato? — perguntou Billy.
— Trata-se de um prato que deve ter pertencido a um templo votivo, Billy. É uma peça absolutamente fantástica.
Billy virou-se para o tio.
— Veja você. Ou seja, trouxemos lá de baixo coisas que o Museu Britânico daria os olhos da cara para possuir.
— E nós estamos apenas começando, Billy — disse Dillon enquanto acendia um cigarro, virando-se para Stone. — Temos visitas.
O coronel Tony Villiers era um membro da Guarda de Granadeiros alto e circunspecto de quase cinquenta anos, muitos dos quais passados no Serviço Aéreo Especial. Ele havia lutado nas Malvinas e na Guerra do Golfo, além de ter servido em missões na Irlanda. Diversas vezes condecorado, não havia quase nada que ele já não tivesse visto, e as missões na Bósnia e no Kosovo provavam isto. Ele estava sentado numa pequena lancha de patrulha, usando um turbante e um uniforme cáqui, junto a um jovem oficial, aproximando-se do Sultan.
Ele subiu a escada e Hal Stone o cumprimentou.
— Já fomos apresentados antes. Sou primo de Charles Ferguson.
— Isso é uma recomendação e tanta — disse Villiers. — E este é o porta-estandarte Richard Bronsby, do regimento Blues and Royals.
— Então ainda continuamos no negócio. Como nos bons e velhos tempos coloniais. Aliás, este é Sean Dillon, e Billy e Harry Salter.
— Sei a respeito de todos — disse Villiers. — Charles Ferguson foi muito direto.
Passados alguns momentos, sentado no convés do Sultan sob um toldo, Dillon perguntou: — E o que o bom e velho Charles lhe disse?
— O suficiente para mostrar que ele não sabe o que os Rashid pretendem, razão pela qual ele enviou você e seus amigos, Dillon.
— Você e eu estivemos próximos no passado mas nunca nos conhecemos, graças a Deus — disse Dillon.
— Só Deus sabe quanto tempo eu passei caçando você em South Armagh.
— Ah, bem. Presumo que agora estejamos lutando juntos. E quanto ao porta-estandarte Bronsby? — Ele ainda está aprendendo.
— Ótimo. Então vamos tomar um drinque e ver o que os Rashid estão planejando.
Eles tiraram cervejas de um recipiente térmico.
— Paul Rashid é um velho companheiro — disse Villiers.
— Nós lutamos no Golfo juntos; ele foi condecorado. Ele é um soldado da melhor qualidade.
— E que manda neste lugar — completou Dillon.
— Manda mesmo. E, antes que você me pergunte, a resposta é sim, sem dúvida foi ele o responsável pela morte do sultão.
— Então, na sua opinião, o que eles estão planejando? Por que você traria um notório terrorista do IRA e sua equipe para um lugar como Hazar?
— Porque eu quero que eles matem alguém para mim, é o que eu imaginaria.
— Mas quem? — insistiu Dillon.
— Teremos de descobrir. Infelizmente, não posso ficar. Nós temos problemas na fronteira causados por marxistas iemenitas, portanto Bronsby e eu temos que voltar para dar uma controlada.
— Mantenha contato — disse Dillon.
— Pode deixar. Só mais uma coisa.
— O quê?
— O caçula dos Rashid, George, o que foi segundo tenente no Primeiro Regimento de Paraquedistas na Irlanda... Meus espiões me disseram que ele está no Território Desocupado, operando com os beduínos a partir do oásis de Shabwa. George não só fala árabe fluentemente, como também o dialeto dos beduínos.
— Que faça bom proveito — disse Dillon. — Meu árabe não é tão ruim assim. Meu irlandês é perfeito.
Villiers riu e respondeu em irlandês: — Eu tinha uma avó em Cork que me forçava a aprender a língua quando eu passava as férias com ela. Você é um ótimo sujeito, Dillon. Não perca a fé. Aqui está o número do meu telefone celular, caso você precise de mim.
Dillon virou-se para o porta-estandarte Bronsby. — Siga os conselhos deste homem, meu filho, ele é um dos melhores. Você convive com pessoas perigosas por aqui, portanto se quiser permanecer vivo... — Ele deu de ombros.
O porta-estandarte Richard Bronsby sorriu, o que o fez parecer ter 15 anos. — Posso dizer que tenho andado na companhia de uma pessoa extraordinária, senhor Dillon.
Ele estendeu a mão e Dillon a apertou. — Bem, como dizemos na Irlanda, tenha cuidado.
No fim da tarde, Dillon e Billy decidiram mergulhar novamente. Ainda havia muita luz e calor quando eles entraram na água. No porto, Kate Rashid estava sentada na proa de seu veleiro em estilo árabe e os observava através do binóculo. Kelly estava ao seu lado.
— Dillon e Billy Salter. Estão mergulhando de novo.
— O que quer que eu faça?
— Mate-os agora — disse ela. — Leve Said e Achmed com você e não cometa erros, Kelly. Há muita coisa em jogo aqui.
— Cumprirei suas ordens, lady Kate.
Harry e Hal Stone verificaram o material.
Dillon colocou a jaqueta com o tanque e Billy fez o mesmo.
— Meu Deus, isso é o máximo — disse Billy.
— Você está com a faca?
— Claro que sim.
— Então pegue um arpão.
— Por que, Dillon?
— Porque há tubarões nestas águas.
— É mesmo? — Billy riu. — Bem, aprende-se algo novo todos os dias.
— Porra, vê se toma cuidado — disse Harry.
Billy deu um risinho, colocou a máscara e mergulhou.
Dillon sorriu para Hal Stone. — Foi Suetônio quem disse "aqueles que vão morrer te saúdam"?
— Poderia recitar a frase para você em latim — falou Stone.
— Ah, o que vale é a intenção. — Dillon se jogou da amurada, acompanhando Billy.
Eles estavam de volta à abóbada azul, com aquela estranha sensação de imensidão que se estendia em todas as direções, com o cargueiro no fundo. Dillon e Billy desceram juntos, segurando seus arpões. Eles viram barracudas novamente e três ou quatro arraias-mantas no fundo.
Sentia-se bem, desfrutando de cada momento enquanto nadava para baixo, com Billy seguindo-o. Eles passaram pelo primeiro buraco de torpedo, seguiram pelo mesmo labirinto de corredores e saíram pelo buraco de torpedo da popa... quando Kelly partiu na direção deles com Said e Achmed, os três segurando arpões.
Dillon bateu nas costas de Billy e o empurrou quando Achmed disparou um arpão que, por pouco, não acertou Billy. Dillon dobrou o corpo, fez uma espiral, nadou rapidamente para cima e acertou Achmed no peito.
Kelly disparou seu arpão, que atravessou a manga direita de Dillon, um golpe que passou raspando sem causar danos, com exceção do rasgo na sua roupa de mergulho. Kelly aproximou-se, com uma faca na mão, e Dillon tentou segurar-lhe o pulso esquerdo. Enquanto lutavam, Said disparou contra Billy, que se esgueirou para um dos lados e lançou seu arpão, acertando Said embaixo do queixo.
Dillon e Kelly lutavam freneticamente, quando Dillon conseguiu virá-lo e cortar o tubo do tanque de oxigênio com a faca. Houve uma grande agitação na água, bolhas para todos os lados, em seguida Kelly parou de chutar e começou a afundar.
Enquanto Achmed lutava para retirar o arpão do peito, Billy deu uma volta em torno dele e cortou o tubo de seu tanque de oxigênio. Em seguida, Billy aproximou-se de Dillon e eles viram os três corpos afundando.
Dillon fez um sinal de positivo com o polegar e ambos começaram a subir.
Eles chegaram à popa exaustos.
— Pelo amor de Deus — disse Hal Stone. — O que foi que aconteceu lá embaixo? A Terceira Guerra Mundial? Eu me debrucei sobre a amurada da popa e consegui ver.
— Fomos atacados — falou Dillon. — Um cara chamado Kelly, ex-membro do Serviço Aéreo Especial. Chefe de segurança dos Rashid. Os outros dois pareciam árabes.
— Jesus — exclamou Harry Salter. — Aquela garota, aquela lady Kate Rashid deve ser a responsável.
— Ah, você pode ter certeza disso, Harry. Nós somos um estorvo, um estorvo dos grandes.
— O que significa apenas uma coisa — disse Hal Stone. — O que quer que eles estejam planejando aqui ainda pode fracassar.
— Sim, tendo a concordar com você. — Dillon levantou-se. — Vamos tomar uma ducha, Billy, colocar roupas limpas, depois reservaremos uma mesa para jantar no Excelsior. Quem será que encontraremos por lá?
Hal Stone permaneceu a bordo enquanto Dillon, Harry e Billy partiram para o Excelsior. Com o bar não muito cheio e o restaurante quase vazio, os funcionários árabes estavam de pé, esperando. Havia toalhas de mesa de linho branco, pratarias e cristais, exatamente como nos velhos tempos.
Eles se sentaram em poltronas perto do bar. Dillon pediu uma garrafa de Veuve Clicquot, em seguida ligou para o celular de Villiers.
— Ainda entre nós, Dillon? — perguntou Villiers.
— Quase que não mais. — Dillon relatou os acontecimentos.
— Isso reforça o que eu lhe disse. O que quer que esteja acontecendo, deve ser algo muito importante. Mantenha-me informado.
Eles estavam sentados conversando quando lady Kate Rashid entrou no bar com Bell.
Dillon levantou-se.
— Cubra-me, Billy, Costello está lá fora, no terraço.
Ele caminhou até o bar, Billy debruçou-se no outro lado do balcão e olhou para Costello, em seguida tirou sua Browning e colocou-a em cima do balcão.
— Disseram-me que a comida daqui não é das piores — disse Dillon.
— Não é exatamente o Le Caprice, mas dá para o gasto.
— Meu amigo Aidan aqui ficaria mais feliz com um picadinho à moda irlandesa, mas não se pode ter tudo. Espero que não esteja procurando pelo Kelly... — Ela ficou paralisada. — Ele tentou estupidamente atacar Billy e eu lá embaixo, no cargueiro. As coisas ficaram meio pretas. Facas, tubos de tanques de oxigênio sendo cortados, uma confusão total. Da última vez que o vi, ele estava no fundo, mortinho, com dois mergulhadores árabes. Um tanto burro, Kate.
— Dillon, seu merda — resmungou Bell.
— Ah, deixa disso, Aidan, você queria que eu desse uma cambalhota e morresse?
Bell sorriu relutantemente. — Você nunca faria isso.
— Nunca, portanto, caso vocês não se importem, Billy e eu temos que ir mergulhar novamente agora.
Bell caiu na gargalhada e virou-se para Kate: — Se você acredita nisso, você é capaz de acreditar em qualquer coisa.
No dia seguinte, Bell e os três amigos se apertaram em um Cessna 310 e voaram até a pista de aterrissagem perto do oásis de Shabwa, onde foram recebidos por George Rashid, vestido como um beduíno.
— Levarei vocês à estrada para as Fontes Sagradas disse ele. — Queremos que vocês tenham uma exata noção da situação.
Ele os conduziu a um jipe com três bancos, sentou-se na frente com o motorista enquanto Bell e seus homens sentavam-se atrás. Eles viajaram no calor, levantando poeira.
— Que merda de país — resmungou Costello.
— Isto separa os homens dos garotos — disse George Rashid. — E há uma outra coisa que é importante que vocês compreendam: esta área aqui, onde Hazar faz fronteira com o Território Desocupado, sempre foi muito disputada, o que significa que ninguém tem jurisdição sobre ela. Você poderia matar o papa aqui e ninguém poderia fazer nada.
— Bem, é muito conveniente — disse Bell.
Quando pararam no campo principal dos Rashid, no oásis de Shabwa, para reabastecer e renovar o estoque de água, eles aproveitaram para comer.
— O que é isso? — perguntou Costello.
— É ensopado de bode com arroz — respondeu George Rashid.
— Desculpe. — Costello se afastou e vomitou atrás de uma palmeira.
Quando ele voltou, George Rashid perguntou: — O senhor está bem, senhor Costello?
— Na verdade, não. Por outro lado, quando você serviu em South Armagh, no Primeiro Esquadrão de Páraquedistas, aposto que provou da boa comida de pubs de todos os vilarejos.
— Certamente. — George deu um sorriso. — Batatas irlandesas com pão e repolho fresco.
— Vai se danar — disse Costello. — Você está conseguindo piorar tudo.
— Vamos, temos de dar uma olhada no local — interveio Bell. — Depois, voltaremos para Hazar e arranjaremos um sanduíche de ovo para você, Pat.
A estrada seguia por um desfiladeiro numa região pedregosa e de pouca vegetação, além da qual dunas de areia se perdiam no horizonte. O jipe parou em uma pequena subida e George saltou.
— Aquele ponto ali embaixo, na estrada, fica em campo fechado. Este é o melhor lugar para a emboscada. As Fontes Sagradas ficam quinze quilômetros a leste.
— Vamos dar uma olhada.
Bell saiu andando em direção ao desfiladeiro, seguido por George e pelos outros. Lá embaixo era silencioso, as paredes do desfiladeiro erguiam-se a cem metros.
— Faremos uma fileira de bombas, rapazes, de um lado ao outro da estrada — definiu Bell. — Eu e Costello faremos isso. Vocês dois podem se posicionar com metralhadoras naquele monte. Neutralizem as pessoas que estiverem dando cobertura. Matem quem sobreviver.
— Bem, parece uma excelente ideia para mim — disse George.
— Então... Vamos voltar para Hazar e verificar os equipamentos que você tem para nos oferecer.
— Você terá o que você precisar — disse George, e os conduziu de volta para o jipe.
Hal Stone chamou Dillon, Harry e Billy até o tombadilho coberto pelo toldo, na popa do Sultan.
— Estive investigando com meus contatos locais e descobri que George Rashid, Bell e seus amigos voaram para o norte num 310. Aterrissaram perto de Shabwa, ficaram por umas duas horas e voltaram.
— E não sabem o motivo?
— Receio que não. Mandei meus rapazes sondarem por aí atrás de rumores, mas não descobriram nada.
Dillon refletiu a respeito disso, em seguida disse: — Se nós voássemos até Shabwa, isso faria alguma diferença?
— No que diz respeito a descobrir alguma coisa? Sei lá... E o que você quer dizer com nós?
— Bem, para começo de conversa, sei pilotar qualquer tipo de avião. Não preciso de um piloto, apenas de um avião.
— Isso é interessante. Ben Carver, dono da Transportes Aéreos Carver, tem dois 31 OS e um Golden Eagle, utilizados somente em voos locais.
— Ótimo, então alugue um aparelho para mim. Harry, Billy e eu vamos voar até Shabwa e bisbilhotar um pouco.
— Bem, se é isso que você quer — disse Stone —, posso providenciar.
Mais tarde naquele mesmo dia, o 310 aproximava-se de Shabwa a uma altitude de cem metros, com Billy e Harry atrás de Dillon.
Na villa, Kate Rashid estava trabalhando em alguns documentos da companhia quando o telefone celular tocou. George disse: — Ouvi de uma fonte em Hazar que Dillon e os Salters estão voando para Shabwa num dos 31 Os de Carver. Dillon está pilotando.
— Às vezes, acho que ele procura a morte — disse Kate.
— O que fazemos? — Estou ficando cansada dele, irmão. Derrube o avião com Dillon e seus amigos.
— Será um prazer.
O céu, de um azul profundo, e as dunas estendiam-se ao infinito. Dillon controlou a velocidade do avião, mudou levemente de direção, passou sobre uma enorme duna e viu, no solo, uma coluna com três veículos, todos cheios de homens. Não demorou muito para que começassem a atirar.
O vidro da frente e um dos laterais foram estilhaçados, e Harry gritou quando um fragmento de vidro cortou seu rosto. Uma rajada de tiros de metralhadora acertou a asa esquerda. Dillon reduziu a velocidade, esquivando-se dos tiros e acelerou novamente. A coluna de veículos ficou para trás, mas os motores do avião engasgaram furiosamente e em seguida pararam de funcionar. Eles foram envolvidos por um silêncio que só era interrompido pelo som do vento.
A duna à frente deles tinha quase duzentos metros de altura.
— Cristo, Dillon, nunca vi nada igual— exclamou Billy.
— Bem, não é exatamente a praia de Brighton, Billy. Segurem-se.
Dillon desacelerou o avião, raspou a beira da duna e fê-lo deslizar até um terreno plano abaixo. O avião quicou duas vezes e virou com as rodas para cima. Após ter aberto um sulco na areia, parou. Dillon desligou o motor.
— Vocês dois estão bem?
— Chega — disse Salter. — Nunca mais viajo de férias para o exterior. Depois disso, não vou nem mais passar o dia em Calais.
Dillon abriu a porta e saiu por cima da asa. Billy e o tio seguiram-no.
— E agora? — perguntou Harry.
— Eles virão atrás de nós — disse Dillon. — Se você quer saber o que eu acho, eles sabiam em quem atiravam, se é que você me entende.
— Em que pé estamos, então? — perguntou Billy.
— Vejamos...
Dillon pegou o celular e começou a vasculhar os bolsos.
— Merda! Não trouxe o número de Villiers comigo. — Ele pensou por um momento. — Tudo bem. — E ligou para Ferguson em Londres, que atendeu prontamente. — CharIes, sou eu. Estamos em perigo.
Depois de explicar a situação, Ferguson disse: — Não se preocupe, vou encontrar Villiers. Darei o seu número para ele. Ele cuidará disso. Ele sabe ser tão cruel quanto você, quando se envolve numa situação dessas.
— Fico feliz de ouvir isso. — Dillon desligou o telefone e disse para os outros: — Só nos resta esperar.
Depois de vinte minutos, o telefone tocou e Villiers disse: — Você ainda está inteiro, Dillon?
— Claro. Eu e os Salters. Eles estavam esperando por nós.
— Bem, o que você esperava? Num lugar do tamanho de Hazar, é claro que eles saberiam que vocês estavam a caminho.
— Então, o que fazemos? Eles vão nos encontrar em breve.
— Estou a cerca de sessenta quilômetros a leste com os batedores. Deixarei Bronsby com metade deles e irei para aí com o resto, mas sugiro que você saia daí. Verifique o seu GPS e me diga mais ou menos onde vocês estão.
— Espere um minuto. — Dillon foi até o avião e obteve as informações necessárias.
— Ótimo — disse Villiers. Agora saia daí. Há um velho forte, não muito longe de onde vocês estão, que servirá como abrigo melhor do que o avião. Ande na direção nordeste. Nós chegaremos o mais rápido possível, mas eles devem estar perto, Dillon, muito perto. Leve o número do meu celular e mantenha-se em contato. Boa sorte.
Dillon virou-se para os Salters e contou o que Villiers dissera.
— Peguem água, comida, um AK para cada um, munição extra, e vamos dar o fora daqui. — Ele sorriu para Harry. — Você vai poder parar de pagar a academia de ginástica, Harry. Você vai perder a barriga em dois dias se continuar por aqui.
Duas horas mais tarde, George Rashid e dez beduínos divididos em dois Land Rovers encontraram o 310. O rastreador do grupo deu uma olhada, voltou e apontou para nordeste.
— Naquela direção, efêndi, eles estão a pé. — Então passe por cima deles — disse George.
Os Salters e DilIon caminhavam lado a lado, usando turbantes para se protegerem do intenso calor. O problema era encontrar um caminho através das dunas. Dillon guiava-os , mas era difícil caminhar na areia fofa. Eles chegaram a uma planície e encontraram o oásis e as ruínas de um forte.
— Isso é uma miragem? — perguntou Billy.
— Atrás de você, Dillon! — gritou Harry.
Eles se viraram e viram George Rashid e os dois Land Rovers aparecendo por trás de uma duna.
— Corram — gritou Dillon. — E é para correr mesmo. Se nos pegarem no descampado, estaremos mortos — e deslizou pela encosta.
Eles passaram correndo por um poço, uma fileira de palmeiras e, em seguida, através do que restava do pontão em ruínas. Dillon seguiu na frente, subindo os degraus que levavam ao topo do muro, de onde viram George Rashid e seus dez beduínos chegando.
Os Land Rovers pararam e os beduínos saíram, com George Rashid à frente. Dillon observava através de uma das aberturas do muro, com Billy e Harry ao lado segurando os AK-47s.
— O que estamos fazendo aqui? — perguntou Harry. — Parece um filme que eu vi quando era menino. Ray MilIand, Gary Cooper, Beau Geste, era assim que se chamava.
— Eu vi esse filme — disse Billy. — Quando os homens morriam, o sargento colocava eles no muro para parecer que estavam vivos.
— Bem, somos apenas três — falou Dillon. — E é melhor nós nos desdobrarmos, porque esses caras realmente arrancam os testículos.
Eles tomaram suas posições e os árabes se afastaram dos Land Rovers. H
arry Salter disse: — Que diabo eu estou fazendo aqui, Dillon?
— Divertindo-se, Harry. Confie em mim e você voltará vivo para Wapping. — Ele mirou cuidadosamente, atirou e um beduíno caiu morto. — Está vendo? Nós temos munição suficiente. Atirem nos canalhas.
Os beduínos voltaram para trás dos Land Rovers e abriram fogo pesado na direção do muro. Dillon e os Salters também atiraram.
— Vá com calma, Billy — disse Dillon. — Atire para matar. Deixe Harry dar rajadas a esmo, mas nós dois temos de escolher alvos individuais. É o que você faz melhor.
Billy deu apenas um tiro, como recomendado, e um beduíno caiu para o lado, em campo aberto, fora da cobertura dos Land Rovers.
— Ótimo, Billy, é isso mesmo. Nós os manteremos a distância até que Villiers chegue por aqui. — Ele retirou um binóculo Zeiss. Houve uma correria de beduínos, movimentando-se de um Land Rover para o outro. Acabei de ver George Rashid.
— Então sabemos em que pé estamos com esses canalhas — disse Harry Salter e disparou uma longa rajada.
Lá embaixo, George Rashid disse para seus homens: — Quero cobertura dos que vão ficar atrás de um dos Land Rovers. Levarei quatro de vocês comigo no outro, até os fundos do forte. O muro está pela metade daquele lado. Nós os pegaremos pelos dois lados. Vamos.
Momentos depois, o Land Rover partiu. Dillon olhou de novo pelo binóculo e viu pernas embaixo do outro Land Rover. Ele mirou com cuidado, atirou e um outro beduíno caiu no descampado, contorcendo-se no chão. Simultaneamente, houve uma rajada de tiros vinda de trás, Dillon virou-se e viu George Rashid e seus homens pularem no pátio abaixo, por cima do muro em ruínas.
Dillon e os Salters caíram com o rosto colado no chão, enquanto as rajadas das armas automáticas varriam o muro. Dillon e Billy responderam ao fogo, e mais um beduíno caiu. No mesmo instante, porém, os homens que estavam atrás do Land Rover no portão da frente tornaram a varrer o muro com as armas automáticas.
Dillon e seus amigos ficaram abaixados enquanto pedaços do muro caíam em cascata sobre eles e, em seguida, houve uma rajada de tiros proveniente de outra direção. Dillon olhou para fora e viu que Tony Villiers e os Batedores Hazar acabavam de aparecer sobre uma enorme duna em cinco Land Rovers. Eles pararam, em seguida abriram fogo pesado sobre o Land Rover que estava na frente do portão principal do forte. Quando o motor foi atingido pelos tiros, o carro explodiu e os quatro homens restantes, que correram para tentar salvar a pele, foram metralhados.
Villiers e seus homens desceram a duna pelo lado e George Rashid e os três sobreviventes de seu grupo desapareceram por trás das ruínas do muro dos fundos. Momentos mais tarde, o Land Rover de George saiu em disparada e desapareceu por um desfiladeiro.
Subitamente, tudo ficou muito silencioso. Dillon encostou na parede com Billy e tirou um maço de Marlboro do bolso. Harry estava deitado no chão.
— Deus do céu, Dillon, já estou velho para isso.
— Você esteve ótimo, Harry.
— Sim, estaria ótimo mesmo se eu fosse um dos atores principais em algum desses velhos filmes preto-e-branco que passam na televisão a cabo. Só que você faz isso acontecer de verdade. Você é um monstro, Dillon.
A fila de Land Rovers dos Batedores Hazar atravessou o portão e parou no pátio. Dillon e os Salters desceram as escadas enquanto Tony Villiers saía do veículo principal e se aproximava.
— Excelente.
Dillon apertou-lhe a mão.
— George Rashid estava no comando.
— É mesmo? Então você realmente se safou de boa, Dillon. Você é um homem de sorte.
— Diria que isso é um fato.
Villiers acendeu um cigarro.
— Certo, vou levá-los para o oásis de Shabwa. Vamos arrumar um avião com Carver para levar vocês de volta para Hazar.
— Isso faz sentido.
— E não se esqueçam de agradecer a Charles Ferguson. Se não fosse ele, vocês estariam mortos, senhores.
Dillon estava sentado no bar do Excelsior com Hal Stone e os Salters.
— Parece o enredo de um filme de segunda categoria, Harry — disse Stone.
— Pode sangrar se disser isso novamente. Alguns dias de férias com Dillon não são exatamente como entrar no píer Palace, em Brighton, para comer peixe, batatas fritas e tomar uma taça de champanha. Esse cara realmente sabe como colocar sua vida em risco.
— Ah, sem essa, Harry — disse Dillon. — Você não se diverte tanto assim há anos... Por que está tão preocupado? São Tony Villiers e os rapazes dele que estão lá fazendo o trabalho sujo.
— Tudo bem, Dillon — interveio Hal Stone. — Mas nós ainda não temos a menor ideia do que os Rashid estão planejando. A única coisa que sabemos ao certo é que eles querem matá-lo, mas por quê? Por que você representa tamanha ameaça?
— Eu mesmo gostaria de saber — disse Dillon.
— Se você analisar as coisas — falou Billy —, o fato mais significativo é que Bell e seus comparsas estão aqui em equipe. Por que eles precisam de uma equipe?
— Bem, isso nós não sabemos, não é? — perguntou o tio de Billy.
Houve um momento de silêncio, em seguida Hal Stone disse: — Mas nós podemos descobrir, é claro.
Todos olharam para ele. — O que você está sugerindo? — perguntou Dillon. — Bem, há quatro deles, incluindo Bell. Suponho que todos eles saibam o que vão fazer.
— Então, se nós conseguirmos capturar um deles... completou Billy. — É isto que você quer dizer?
— Algo do gênero. Sei lá. Parece um pouco óbvio.
— Mas às vezes são os planos mais óbvios que funcionam melhor — concluiu Dillon.
— O que nós precisamos saber é quando podemos pegar um desses canalhas. Sabemos quando eles vêm à cidade e com que propósito — disse Harry.
— Para transar — completou Billy.
Todos riram. — Na verdade, você tem razão — disse Stone. — Tenho mantido meus ouvidos abertos. Um deles, Costello, eu acho, pelo visto, gosta bastante de um estabelecimento chamado Madame Rosa's.
— Então, o que fazemos, sequestramos ele? — perguntou Harry Salter.
— E por que não? — retrucou Stone.
— Tudo bem — interveio Billy. — E o que Bell e seus amigos farão quando descobrirem que Costello desapareceu?
— Não sei. — Stone deu de ombros. — É possível que apenas achem que ele esteja na cama com uma mulher. Ou duas.
— Ora essa, professor. — Harry Salter brincou com ele. — Estou chocado... Um homem culto como o senhor permitindo-se pensamentos tão chulos.
— Pode deixar que sobreviverei a isso.
Dillon deixou a operação a cargo de Harry Salter, que a executou brilhantemente. Naquela noite, ele vestiu uma camisa de linho escura, aberta no pescoço, e um terno bege de linho, aparentando ser bem rico.
Harry sentou-se com Billy na calçada de um café em frente ao Madame Rosa' s e, graças a uma discreta propina, ficou esperando que um funcionário o avisasse que Costello estava a caminho. Quando o aviso chegou, o próprio Harry entrou — um homem mais velho, bem vestido, aparentemente rico, levando as garotas a fazerem fila para ele. Billy esperou até a chegada de Costello, então seguiu-o.
Costello saiu do Excelsior e partiu em direção ao Madame Rosa’s, onde teve uma recepção calorosa. Ele estava com três garotas, que foram escolhidas para satisfazer a todos os seus desejos, incluindo uísque irlandês e cocaína, para deixá-lo no clima. Estava longe de ser South Armagh. Ele nunca havia tido tamanho prazer. Quando elas o levaram para um quarto luxuoso, beijaram-no, acariciaram-no um pouco e sugeriram que ele tirasse a roupa, ele já estava caindo de bêbado. As garotas saíram e Costello começou a se preparar. A porta abriu-se atrás dele. Ele se virou e viu Harry Salter entrar, seguido por Billy.
— Ei, o que está acontecendo? — perguntou Costello.
Harry agarrou-o pela garganta.
— Fique calado. Comece a se vestir de novo.
— Olhe aqui...
Billy retirou uma Browning de seu bolso e golpeou Costello no lado da cabeça.
— Faça o que o homem disse, se quiser permanecer vivo.
E Costello, amedrontado pela primeira vez em anos, seguiu as ordens.
Eles o levaram para o Sultan, onde Dillon e Hal Stone esperavam-nos. Dois marujos árabes levaram Costello até a popa. Dillon grunhiu ordens em árabe. Eles tiraram a jaqueta de Costello e em seguida a calça, deixando-o só de cueca. Os Salters se encostaram na amurada e Hal Stone sentou-se numa cadeira de lona, bebendo cerveja gelada, com dois de seus mergulhadores em pé atrás dele.
— Não me enrole, Patrick. Bell não estaria aqui com vocês todos se não estivesse planejando algo importante.
— Vá à merda, Dillon.
— Bem, gostei disso — interveio Harry Salter. — Achei elegante. Você não achou elegante, Billy?
— Não. Na verdade, Harry, achei grosseiro, estúpido e autodestrutivo.
— Você andou lendo aqueles livros de filosofia de novo. É uma perda de tempo — falou Dillon. Pensei que o homem estivesse são, mas parece que não é o caso. — Ele andou até a amurada, pegou uma corrente e a entregou a um dos mergulhadores, dizendo em árabe: — Amarre os pés dele e jogue-o no mar.
Costello gritou enquanto eles o deitaram no convés e começaram a amarrá-lo.
— Ei, o que está acontecendo?
— Você vai lá para o fundo — respondeu Dillon. — Vai fazer companhia a Kelly e aos dois árabes que tentaram matar a mim e ao Billy.
— Você não faria isso.
Hal Stone levantou-se.
— Pelo amor de Deus, Dillon, você não pode fazer isso.
A atuação do professor como falso bom moço estava impecável.
— Bem, estou cansado de bancar o bonzinho, professor. Assassinatos, atentados à bomba, ele já participou de tudo que você possa imaginar. Se ele for para o fundo do mar, ninguém vai se importar.
Ele fez um sinal com a cabeça para os dois mergulhadores. Eles levantaram Costello pelos pés e o empurraram além da amurada da popa. Ele gritou, apavorado, enquanto mergulhavam sua cabeça no mar.
— Traga o canalha de volta — disse Harry Salter. Talvez ele tenha voltado à razão.
Costello caiu no convés, chorando. Dillon agachou-se ao seu lado: — Então, o que vocês estão planejando, Patrick?
— Vou lhe dizer, eu juro. Há um grupo de líderes árabes conhecidos como o Conselho de Anciões e, amanhã de manhã, eles vão a um lugar chamado Fontes Sagradas... Nós vamos matá-los.
— Meu Deus do céu — disse Hal Stone.
— Onde? — perguntou Dillon.
— Rama. Um lugar chamado Rama.
Dillon retirou a corrente dos pés de Costello, que ainda estava chorando.
— Coloque-o no porão — disse em árabe para os mergulhadores.
— O que você falou? O que você falou? Ah, meu Deus, você vai me matar. — Costello virou-se e se jogou da amurada.
Ele veio à tona sob a pálida luz amarela da popa e Dillon disse: — Billy...
Billy mirou cuidadosamente e atirou na parte traseira da cabeça de Costello.
— Isso era necessário? — perguntou Hal Stone.
— Era, se nós quisermos que o fato de que nós sabemos o que eles estão planejando permaneça em segredo respondeu Harry Salter.
Bell e Kate Rashid esperavam, enquanto Tommy Brosnan e Jack O'Hara saíam para procurar Costello. Eles voltaram de mãos abanando, e Bell ficou furioso.
— Aquele canalha. Vou cortar o saco dele fora. Ele não resiste a um rabo-de-saia. Provavelmente está em algum bordel, bêbado.
— O que fazemos? — perguntou Kate.
— Podemos nos virar. Vou dar uma esculhambada nele depois. Mas, por ora, vamos em frente.
Ben Carver era dono de uma companhia de táxi aéreo no aeroporto. Ele tinha cinquenta anos de idade e era um ex-comandante de um esquadrão da RAF, condecorado durante a Guerra do Golfo. No momento, ele estava um pouco acima do peso. Seus funcionários estavam carregando o Golden Eagle. Bell, seus homens e Kate Rashid aproximaram-se.
— Ouvi dizer que você perdeu um avião, Carver — disse Kate. — Um avião fretado.
— Sim, um senhor Dillon. O avião caiu no Território Desocupado, mas o coronel Villiers e os Batedores Hazar encontraram-nos.
— Ótimo. Espero que você tenha seguro.
— Claro que sim, lady Kate.
— Então, vamos partir.
Quinze minutos mais tarde, o Golden Eagle decolou, subiu a uma altitude de cinco mil pés e rumou para Shabwa.
Dillon encontrou Villiers em seu celular.
— Tenho más notícias, aliás, péssimas notícias, sobre o motivo pelo qual eles estão aqui.
— Diga-me.
E foi o que Dillon fez.
— Você já contou isso a Ferguson? — perguntou Villiers.
— Não. Ele deve estar a caminho daqui a essa altura.
— Dillon, estou a uns duzentos e setenta quilômetros ao sul da estrada que leva às Fontes Sagradas e dividi meus homens, enviando Bronsby para o leste. Cada um de nós está com cinquenta homens. Nós nunca chegaremos em tempo.
— Tudo bem. Então mande o Conselho de Anciões voltar.
— Isso não é possível, Dillon. Eles obviamente estão fazendo tudo isso às escondidas. São pessoas muito antiquadas. Tentei falar com um de seus assessores mais cedo, uma ligação de rotina, mas o celular estava desligado.
— Está sugerindo que fiquemos sentados aqui e deixemos que eles atravessem um dos piores desertos do mundo para encontrar a morte?
— Vou a toda velocidade, mas, nesse terreno, o máximo que dá para fazer é uns trinta quilômetros por hora. Vou ligar para Bronsby dar cobertura.
— Isso não é o bastante. — Dillon pensou um pouco.
— E se nós voarmos até aquela pista em Shabwa?
— Está cercada pelos beduínos Rashid no momento.
Foi quando Dillon encontrou a resposta.
— Deixa para lá. Ligo para você depois.
Hal Stone ligou para Ben Carver: — Ouvi dizer que você tinha viajado para o norte, mas pelo visto já está de volta.
— Claro.
— Quero fretar um voo para um lugar a leste de Shabwa, levando dois paraquedistas que vão saltar a mil pés.
— Você deve estar louco.
— Dez mil libras.
Carver hesitou e houve um silêncio. Stone olhou para Dillon, que fez um sinal positivo com a cabeça.
— Certo, Ben, quinze mil libras. Vamos lá, é um voo de somente uma hora. Eles saltam, você volta.
A ganância, para variar, falou mais alto. Carver disse: — Está bem, concordo.
Dillon pegou o telefone.
— Carver? Quem está falando aqui é o Dillon. Talvez precisemos que você pegue o general de divisão Ferguson mais tarde na base aérea de Haman e o leve para o norte.
— Olhe aqui...
— Vinte mil libras — disse Dillon. — Que tal?
Carver respirou fundo. — Já ouvi falar de Ferguson.
— Bem, imagino que sim. Ele trabalha com o primeiro-ministro.
— Então, é tudo legal?
— É como se você estivesse de volta à RAF, portanto apronte o avião e arrume dois paraquedas.
Dillon foi até a amurada, onde Billy e Harry estavam tomando café.
— Então, quais são as novas? — perguntou Harry. — Esta é comigo e com o Billy.
— O que vamos fazer agora, Dillon? — perguntou Billy.
— Falei com Villiers. Ele dividiu seus homens. Ele dirigirá o mais rápido que puder ao longo da noite, mas é muito chão para cobrir a trinta quilômetros por hora. Além do mais, aquela pista em Shabwa está nas mãos dos Rashid. Villiers aparentemente não consegue entrar em contato com o Conselho de Anciões.
Hal Stone disse: — Então eles simplesmente vão dirigir por toda a noite para encontrar a morte certa amanhã pela manhã.
— Não é como eu vejo as coisas. — Dillon virou-se para Billy. — No ano passado, na Cornualha, você foi brilhante. Saltou de seiscentos pés sem treinamento algum. Alguém devia tê-lo condecorado.
— Vocês estão planejando saltar de um avião lá? perguntou Harry. — Vocês dois estão tentando estragar os planos até Villiers e seus caubóis chegarem? É isso mesmo?
— Harry, é isto que eu vou fazer. Billy é um espírito livre, e nós dois temos em comum o amor pela filosofia.
— O que quer dizer com isso, porra?
— Platão. Lembra-se dele, Billy? E Billy Slater, gângster londrino, quatro vezes preso, um assassino, sorriu o sorriso mais frio possível.
— Certo, eu me lembro: “A vida que não é testada não vale a pena ser vivida." O que equivale a dizer: a vida de quem não corre riscos. Está na hora de corrermos riscos, Sean.
— Bom rapaz. Vou voar com Carver em seu Golden Eagle, como fizemos na Cornualha, Billy, exceto que desta vez saltaremos de uma altitude de mil pés. Alguns dizem que sou louco, Billy, você poderia dizer que me faltam alguns parafusos. Fiz coisas ruins na minha vida, mas os Rashid fizeram coisas piores, e vou detê-los.
— Não, você está errado, Dillon — disse Billy. — Nós vamos detê-los.
— Billy, você ficou louco também? — perguntou Harry.
— O que mais posso fazer? Voltar para Wapping? Caçar pássaros, ficar frustrado e acabar me arriscando a voltar para a cadeia por mais cinco anos? — Billy sorriu. — Prefiro morrer fazendo algo que valha a pena.
Harry Salter ficou espantado. — O que posso dizer?
— Nada — respondeu Dillon. — Apenas nos acompanhe no passeio.
Em Londres, Charles Ferguson estava arrumando a escrivaninha quando a campainha tocou e Kim entrou acompanhado de Blake Johnson.
— Prazer em vê-lo, Blake.
— O presidente pediu que eu viesse para cá. As últimas notícias deixaram-no em estado de choque.
— Você sabe, Blake, que Hazar é uma área neutra. A fronteira com o Território Desocupado é um local disputado. Você pode fazer uma guerra lá, pode destruir o Conselho de Anciões, fazer o que bem entender e permanecer livre de qualquer ameaça externa.
— Sim, nós sabemos disso, Charles, mas as consequências iriam muito além disso.
— Foi por isso que o presidente o enviou?
— Exatamente.
— E ele já falou com o primeiro-ministro...
— Creio que sim.
— Bem, vamos à Downing Street falar com ele agora. Você fez um bom trabalho, Blake: o presidente e o primeiro-ministro no mesmo dia.
No portão do endereço mais famoso do mundo, um assistente os cumprimentou.
— General Ferguson, senhor Johnson. O primeiro ministro está esperando por vocês.
Ele os levou para o segundo andar, passando por fotos de ex-primeiros-ministros, bateu na porta do gabinete e abriu-a. Ele estava trabalhando na escrivaninha, sem paletó, o mais jovem primeiro-ministro há mais de um século. Ele levantou os olhos, com uma expressão firme, e em seguida deu um sorriso familiar.
— General Ferguson. — Ele se levantou, deu a volta na escrivaninha e trocou um aperto de mãos. — E o senhor Johnson. Há quanto tempo. — Ele deu um tapa no ombro de Blake. — O presidente me informou sobre os últimos acontecimentos. Quero ouvir o que vocês têm a dizer.
Um pouco mais tarde, trouxeram o chá e o primeiro-ministro permaneceu sentado com uma expressão calma no rosto.
— É realmente difícil de acreditar que os Rashid façam uma coisa dessas. Conheço o conde muito bem.
— Trata-se de um fato, primeiro-ministro — disse Ferguson.
— É algo estarrecedor. Primeiro ele tenta assassinar o presidente e agora o Conselho de Anciões, em Hazar. — O primeiro-ministro virou-se para Blake: — Você concordaria comigo se eu dissesse que isso seria um desastre?
— Na nossa opinião, senhor, é exatamente o que isso seria.
O primeiro-ministro permaneceu sentado, o rosto calmo, refletindo.
— Bem, vocês podem agir com todo o meu aval. — Ele se levantou. — Tenho um outro compromisso. Faça o que tiver de ser feito, general.
Eles foram acompanhados até o portão. A audiência havia terminado.
— A próxima parada é Hazar, Blake — disse Ferguson.
Em Hazar, Kate Rashid e Bell haviam aterrissado no campo de pouso perto de Shabwa. Quatro horas mais tarde, eles esperavam o Gulfstream dos Rashid na base militar, em Haman. Na luz do amanhecer do sul da Arábia, o avião pousou e vários Land Rovers dirigiram-se até ele. Kate saiu do primeiro, vestida com uma camisa cáqui, calça comprida e um turbante árabe.
Paul Rashid abraçou-a: — Onde está George?
— Com seus homens a caminho das Fontes Sagradas... Com Bell e os homens dele. Como está Michael?
— Ele está segurando as pontas em Londres.
Guerreiros Rashid haviam saído dos Land Rovers e estavam em pé, segurando seus rifles em silêncio total. Kate virou-se e estalou os dedos. Um menino correu até eles, trazendo uma túnica, ajudou Paul Rashid a vesti-la e depois ofereceu-lhe um turbante. Rashid colocou-o, em seguida levantou o braço direito, com o punho cerrado.
— Meus irmãos — disse ele em árabe, dando o braço para Kate.
Eles brandiram os rifles, demonstrando um assentimento caloroso.
— Então, vamos seguir em frente.
Ele a ajudou a entrar no Land Rover e sentou-se ao seu lado.
Paul acendeu um cigarro.
— Então, você quer dizer que Bell e sua equipe estão seguindo os planos conforme o combinado? — Sim. Como lhe disse, George e seus guerreiros estão ajudando-os. O único problema foi que um dos homens de Bell desapareceu. Um bêbado mulherengo. Tentaram encontrá-lo, mas Bell acha que ele está enfiado em algum bordel.
— Eu não gosto disso. Quando um plano começa a dar errado, sempre me pergunto por quê...
— Bem, o sujeito é assim mesmo, Paul.
— E quanto a Dillon?
— Continua no Sultan com o professor Stone e os dois gângsteres londrinos.
— Peixes fora d' água.
— Hazar não é Wapping. Lá eles são alguém, aqui são ninguém.
— É verdade. — Paul Rashid refletiu. — E Shabwa continua sob nosso controle?
— Sem sombra de dúvida. Dillon não conseguiria pousar lá de jeito nenhum.
— E por que ele faria isso? Ele não sabe o que está acontecendo. — Paul Rashid fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Então seguirei com uma escolta até o local da emboscada nas Fontes Sagradas e me juntarei a George, seus homens e Bell. — Ele virou-se e sorriu. — Você viria comigo?
— Seria um privilégio, irmão.
— Ótimo. — Ele acendeu outro cigarro. — Vamos botar fogo no mundo, irmãzinha.
Ela apertou a mão dele, segurando-a firmemente.
No aeroporto, pouco depois do sol nascer, Carver verificava o Golden Eagle. Hal Stone estava lá com Dillon e os Salters. Dillon abriu a mala de armas que ele havia trazido de Londres, as melhores que o sargento-ajudante pôde fornecer. Coletes à prova de balas de titânio, AK-47s, duas Brownings com silenciadores, meia dúzia de granadas de fragmentação, duas metralhadoras Parker-Hales.
Dillon e Billy se animaram. Carver disse: — O que é isso?
— Você ainda é reservista da RAF? — perguntou Dillon.
— Sou, e daí? — Bem, você já foi condecorado. Depois desta, você talvez receba mais uma condecoração. Nós somos os mocinhos, Ben. Estamos do mesmo lado que você. Você vê algum problema nisso?
Carver sorriu instantaneamente. — Não, de jeito nenhum.
— Então, vamos lá. — Dillon virou-se. — Você vem conosco, Harry? Mas foi Stone quem disse: — Dillon, sei que não acreditarão nisso lá no Conselho da Universidade... Mas eu também vou. Billy estava certo. Não vale a pena viver uma vida sem riscos.
No deserto, Bell, O'Hara e Brosnan trabalhavam na estrada que atravessava o desfiladeiro, colocando pacotes de Semtex e esticando os fios até o detonador. Ainda era cedo, o verdadeiro calor do dia estava por vir. Os beduínos, agachados, observavam George, que se encontrava curvado a uma pequena distância.
— Engraçado, não é? — disse Bell. — Lá em South Armagh você estava tentando nos matar.
— Eu estava a serviço de sua majestade como segundo-tenente do Primeiro Esquadrão de Paraquedistas. Vocês eram o inimigo. Eu mesmo matei dois de seus companheiros pessoalmente.
— Canalha — grunhiu Brosnan.
— Não banque o idiota — disse Bell. — Ele estava cumprindo ordens. Continue a puxar os fios.
Uma hora e meia antes, ao nascer do sol, Carver havia voado até o local, a uma altitude de cinco mil pés, e se aproximara. Dillon inclinou-se sobre seu ombro.
— É ali?
— Ali fica Rama, é tudo que eu sei.
— Vamos descer um pouco mais para termos certeza de que eles não estão lá.
O Golden Eagle desceu a uma altitude de mil pés. — Parece que está limpo — disse Carver.
— Ótimo. Dê outra volta e nós saltaremos.
— Você é completamente louco, sabia?
— Sei, mas isso torna a vida mais interessante, Ben. Dillon dirigiu-se para a parte traseira do avião e fez um sinal com a cabeça para Billy.
— Está na hora de irmos. Abra a porta.
Foi Harry quem se movimentou primeiro enquanto ele brigava com a tranca da porta. A escotilha foi aberta, os degraus desceram e houve uma enorme sucção de ar. Stone e Harry se seguraram enquanto Billy e Dillon avançavam, os AK-47s e as Parker-Hales pendurados no peito.
— Vá primeiro — gritou Dillon por sobre o barulho. — Você é mais novo do que eu.
Billy riu.
— Você é mais velho do que eu, portanto chegarei no solo antes para protegê-lo.
Ele deu um passo à frente na escada da escotilha, saltou de cabeça e Dillon seguiu-o. O Golden Eagle começou a fazer a volta enquanto Stone e Harry brigavam com a porta, finalmente conseguindo fechá-la. Harry correu até a janela e, enquanto o avião se inclinava de lado, viu os dois paraquedas aterrissarem.
— Eles conseguiram! — Excelente — disse o professor Stone. — Então vamos dar o fora daqui antes que as pessoas comecem a fazer perguntas.
Enquanto o avião taxiava, ela perguntou: — Os senhores gostariam de alguma coisa?
— Mais tarde, sargento. — Ferguson sorriu. — Você sabe quem eu sou?
— É claro, general.
Ele pegou a Browning extra que o sargento-ajudante lhe dera.
— Presumo que tenha feito um treinamento básico de uso de armas.
— Sim, senhor.
— Ótimo. Pegue isto. Nós vamos de encontro ao perigo. Quero estar certo de que você terá como se defender, caso seja necessário.
Ela agia de forma tão fria que ele podia sentir o ar congelando.
— Agradeço muito, general. Serviremos salada de camarão, cozido à moda de Lancashire, salmão defumado e sopa.
— Parece ótimo — disse Blake.
Ferguson sorriu. — O senhor Johnson trabalha para o presidente dos Estados Unidos. Esteja preparada para usar sua Browning. As pessoas do lugar para onde vamos não são tão simpáticas quanto ele.
— Isso não será problema, senhor. Tenho uma garrafa de Tattinger na geladeira, caso o senhor queira uma taça de champanha.
Ela se retirou.
— Como será que Dillon está se saindo? — perguntou Blake.
Em Northolt, Ferguson encontrou Lacey, Parry, o sargento-ajudante, duas AKs e quatro Brownings aguardando-o junto ao Gulfstream.
— Você vai à guerra de novo, general? — perguntou o sargento-ajudante.
— Bem, o lugar para onde estamos indo não é exatamente agradável, portanto é melhor estarmos preparados. — Ele virou-se para Blake: — Você sabe usar um AK?
— Charles, isso é o mesmo que lhe perguntar se a sua avó sabe cozinhar. Eu lutei no Vietnã.
Ferguson trocou um aperto de mão com o sargento-ajudante e voltou-se para Lacey.
— Quatro Brownings, líder de esquadrilha. Uma para cada um de vocês e para o capitão-voador. Hazar pode ser um lugar perigoso para a saúde. Achei que deviam estar prevenidos quanto a isso.
— Muito atencioso de sua parte, general— disse Lacey. — Temos uma jovem conosco para cuidar do serviço de bordo. Sargento-voador Avon.
Ferguson virou-se para o sargento-ajudante: — Arrume outra Browning.
— É claro, senhor.
Mais tarde, sentados no avião, prontos para partir, a jovem sargento-voador surgiu, vestindo não um uniforme da RAF, mas um vestido azul-marinho, como uma aeromoça de carreira.
— A pergunta deveria ser: como é que os inimigos estão se saindo com Dillon no pé deles — comentou Ferguson.
No chão, Dillon livrou-se do paraquedas, cobriu-o com areia e saiu à procura de Billy. Escalou a duna de areia mais próxima com dificuldade e encontrou-o mais abaixo, de joelhos, enterrando o paraquedas. Dillon desceu a duna em sua direção.
— Você está bem?
— Estou — disse Billy. — Devíamos fazer isso com mais frequência.
Dillon apanhou seu celular e ligou para Villiers. O coronel atendeu quase imediatamente. Dillon disse: — Billy e eu estamos em terra firme, inteiros.
— Algum sinal da operação?
— Não vimos nada quando estávamos sobrevoando. Iremos até Rama, para ver como estão as coisas na estrada. Onde você está?
— A uns quarenta quilômetros de distância.
— E quanto a Bronsby?
— De cinquenta a sessenta, a leste.
— Ótimo. Billy e eu vamos nos apressar para chegar na estrada. Assim que sentir o cheiro deles, ligarei para você.
Ele guardou o telefone num dos bolsos da camisa de campanha, virou-se para Billy, tirou uma bússola e a examinou.
— Bem, vamos indo. Assim que encontrarmos a estrada, subiremos em uma das dunas para tentar ver alguma coisa. — Ele tirou um turbante da mochila e o colocou. Faça a mesma coisa, Billy. Vai esquentar, e muito.
Eles cruzaram a estrada uma hora mais tarde e a seguiram num passo acelerado. Havia uma pequena camada de areia, mas nenhum sinal de pneus ou de qualquer outra coisa. Dillon finalmente parou. O desfiladeiro estava à frente deles.
— Com certeza é aqui. Vamos subir até lá. — Ele apontou para uma duna de areia de pelo menos cento e cinquenta metros de altura. — Dali veremos tudo que estiver se passando nas redondezas.
Foi uma subida difícil, o calor aumentando à medida que eles lutavam para subir pelo lado íngreme da duna. Quando chegaram ao topo, eles se sentaram. Billy tirou uma garrafa de água, tomou um gole e passou-a para Dillon, que bebeu bastante e, em seguida, examinou o horizonte com seu binóculo Zeiss.
— Lá está. — Ele apontou na direção e passou o binóculo para Billy. — Eles estão a leste, na parte mais distante da estrada.
Billy olhou, focalizou as lentes e um Land Rover apareceu em seu campo de visão, com uma fileira deles atrás.
— Meu Deus — disse Billy. — Os Rashid não estão de brincadeira.
— Acho que você tem razão, Billy.
— E somos apenas dois.
— Quando eles chegarem mais perto, eu ligarei para Villiers e direi onde nós nos encontramos.
No desfiladeiro, em Rama, Bell, O'Hara e Brosnan trabalhavam nas bombas. George Rashid estava sentado, aguar dando com alguns de seus homens. Mais acima, à beira do desfiladeiro, os outros observavam. Repentinamente, um deles deu um tiro para cima, levantou-se e acenou.
Momentos depois, dois outros Land Rovers apareceram e frearam. Paul e Kate Rashid saíram dos carros.
Rashid aproximou-se e disse para Bell: — E, então, vamos conseguir?
— Vamos, se pudermos continuar trabalhando em vez de termos um bando de idiotas vestidos com lençóis interferindo com nosso trabalho.
Havia uma garrafa de plástico com água ao seu lado. De repente, um tiro foi disparado e a garrafa voou pelos ares. Dois dos guardas de Paul Rashid correram e puxaram ele e Kate para o lado, protegeram-nos e os levaram para a fileira de Land Rovers. Um outro tiro foi disparado e um deles, baleado nas costas, caiu com o rosto no chão.
No topo da duna, Dillon observava pelo binóculo.
— Paul Rashid e lady Kate estão lá embaixo. Quem escreveu esse roteiro?
— Não sei, Dillon. Tudo o que sei é que tem quarenta caras lá embaixo e somente dois aqui em cima.
— Então viva perigosamente, Billy. Vou atirar no cara da esquerda, que está puxando os fios. Você pega o da direita.
Ele mirou cuidadosamente e atirou nas costas de O'Hara, quando este se levantava. Brosnan estava correndo em ziguezague, em direção à fileira de carros, e Billy atingiu-o no dorso inferior, fazendo com que ele caísse para a frente, de cara no chão.
Paul Rashid olhou para o topo da duna de forma calma, controlada, e, focando as lentes de seu binóculo, conseguiu ver os dois homens.
— Deus do céu... É Dillon.
Ele virou-se e gritou para seus homens enquanto Bell se aproximava.
— Cerquem a duna — disse ele em árabe. — Quero eles vivos.
Dillon pegou o celular, ligou para Villiers e colocou-o a par dos acontecimentos.
Villiers disse: — Já estamos quase aí... Mas vocês vão conseguir aguentar?
— Somos apenas dois, coronel, e só.
— Então aguente firme, Dillon, vou correr o máximo que puder.
— E Bronsby?
— Está indo o mais rápido que pode também, por uma outra direção.
— Bem, espero que vocês consigam. Estão subindo para nos pegar agora mesmo. — Ele recolocou o telefone no bolso superior. — Vamos lá, Billy. — Ele mirou e começou a atirar nos árabes que subiam pela duna.
Billy fez o mesmo.
— Escute, Dillon, se o Conselho de Anciões aparecer por aqui, esse tiroteio vai fazer com que eles voltem para o lugar de onde vieram.
— Exatamente, Billy. E vamos rezar para que o coronel Villiers chegue aqui o mais rápido possível.
Mas Villiers fez algo melhor do que isso. Ele cruzou a estrada um pouco à frente do comboio do Conselho de Anciões, parou-o e falou com o comandante da escolta.
O comboio fez meia-volta e foi embora na outra direção. Villiers então seguiu para Rama, com seus homens.
Dillon e Billy se abrigaram, com apenas uma certeza: eles estavam no ponto mais alto. Eles atiraram em vários dos beduínos Rashid, enquanto estes subiam pela duna de areia, mas ainda assim eles eram apenas dois homens... Até que, a uma certa distância, na estrada, Villiers apareceu.
Um dos homens de Paul Rashid correu até ele e apontou. Rashid virou-se, focalizou as lentes do binóculo e viu Tony Villiers no Land Rover que vinha à frente.
— Merda — disse ele para Kate. — São os Batedores Hazar.
— Então, tudo o que temos lá embaixo é uma bomba inteiramente inútil — concluiu Kate.
— Vamos sair daqui — falou Paul Rashid. — E sobreviver para continuarmos a luta.
Seus homens retrocederam até a fileira, alguns atirando em direção ao topo da duna. Billy e Dillon respondiam. Logo, a fileira foi embora e desapareceu no deserto.
Dillon acendeu um cigarro e viu Villiers e seus homens se aproximando.
— Na hora H... Não é essa a expressão? Eles desceram e se encontraram com Villiers no momento em que os Land Rovers pararam. Dillon disse: — Temos bombas aqui. Se você tiver um par de alicates à mão, posso resolver isso para você.
— Muito gentil de sua parte. — Villiers falou com um de seus homens em árabe. Depois de algum tempo, Dillon recebeu o que precisava.
Mais tarde, eles se sentaram ao lado do Land Rover, beberam chá preto amargo e fumaram cigarros.
— Então, os anciões estão a salvo — disse Villiers.
Dillon retirou um maço de Marlboro e acendeu outro cigarro. Tony Villiers estendeu a mão e pegou um.
— Vou lhe dizer uma coisa... Fui comandante daquele homem na Guerra do Golfo, mas mesmo assim gostaria de saber o que passa pela cabeça dele.
— Rashid? — perguntou Dillon. — Diga-me, coronel. Você serviu na Irlanda... Lembra-se de Frank Barry?
— Quem poderia esquecê-lo?
— Ele também tinha um título. Era da nobreza irlandesa, lorde de Spanish Head lá na costa de Down, uma tonelada de dinheiro. Mas tudo o que realmente importava era o que se passava dentro de sua cabeça. O jogo.
— E você acha que isso se aplica a Paul Rashid?
— Ele já fez de tudo. Ele tem tudo. Sim, diria que a única coisa que realmente lhe resta é o jogo.
— Então, Rama é Bosworth Field atualmente? Foi Billy, o gângster londrino, quem disse: — O nome da família não é Dauncey?
— Isso mesmo — disse Dillon.
— Bem, eles perderam com Ricardo III e perderam contra nós.
Dillon permaneceu sentado, pensando sobre isso, então sorriu.
— Verdade, Billy, é verdade. Você está tentando dizer algo profundo. — Ele virou-se para Villiers: — Billy e eu temos o mesmo gosto pela filosofia da moral. Assim como Paul Rashid.
— O que realmente acho interessante é que Sean Dillon, o orgulho do IRA, seja um amante da filosofia da moral. — O senhor não aprovava a minha causa, coronel, mas eu era um soldado como você, e você sabe muito bem que soldados vão muito além de seus postos, do dinheiro, do sucesso normal. Eles se levantam e pegam a espada.
— Vá para o inferno, Dillon — disse Tony Villiers. Você gosta de bancar o bonzinho.
Eles partiram na direção oeste, seguindo os rastros do comboio de Rashid, e a luz gradualmente mudou, tudo escureceu. A alguns quilômetros de distância, o porta-estandarte Bronsby, dos Blues and Royals, se aproximou com seus homens em direção a um encontro imprevisto e se viu subitamente sob fogo cerrado.
Responderam de imediato. Houve tiroteio. O comboio com o qual eles haviam batido de frente era o de Paul Rashid e seu grupo, que fugia de Rama.
Houve uma breve troca de tiros, mas os homens de Rashid conseguiram contê-los. Foi quando Bronsby decidiu que já era o bastante e mandou que seus homens recuassem.
Durante a confusão, alguns homens surgiram da escuridão e o dominaram.
Paul Rashid, Kate e Bell rumaram para o sul e finalmente se encontraram com George Rashid, descobrindo Bronsby. Paul não estava nada animado. Ele se sentou com Kate, George e Bell, e Bronsby foi trazido a sua presença.
De certa forma, era como se ele estivesse de volta a Sandhurst. Esse jovem inglês decente era simplesmente um soldado que cumpria o dever. Muito parecido com Rashid, em diversos aspectos. Foi uma espécie de momento decisivo que ele não conseguiu explicar para si mesmo. Tudo que sabia era que esse não era o modo como as coisas deveriam ter acontecido...
— Sei onde eles se encontram — disse Villiers para Dillon. — Meus espiões na linha de frente estão cumprindo seu dever. Um dos feridos confirmou que eles pegaram Bronsby.
— Isso não é nada animador, não é?
— Não. São pessoas muito cruéis por natureza. O que você e eu consideramos horrendo eles consideram normal, de uma forma estranha.
— Então, vão fazer com que ele coma o pão que o diabo amassou.
— Temo que sim.
Dillon permaneceu sentado, fumando um cigarro e pensando a respeito.
— Não gosto disso — disse ele a Billy. — Bronsby é o que você chamaria de um engomadinho, mas ele só estava cumprindo ordens.
— Bem, também não gosto disso.
Ele virou-se para Villiers: — Então, para onde devemos ir?
— Eu diria que para Shabwa.
— E o que faremos? Enfrentamos Rashid e a doce Kate, cara a cara?
— De certa maneira. — Houve urna pausa e então Villiers perguntou: — Você gosta dela, Dillon.
— Quem não gostaria? — Dillon riu e acendeu outro Marlboro. — Vá para o inferno, coronel. E vamos nos apressar para ver se há algo que possamos fazer para ajudar Bronsby.
Em torno do oásis de Shabwa, as fogueiras brilhavam. Os beduínos Rashid dominavam as colinas. Villiers e seus homens estavam exaustos, mas ainda tinham força suficiente para cozinhar. Foi então que os gritos tiveram início. Passava um pouco da meia-noite quando começaram e continuaram com alguns intervalos.
Em cima da colina, Paul Rashid, George e Kate se aproximaram do lugar em que o porta-estandarte Bronsby estava amarrado.
— Tem certeza de que é isso que quer, irmão? — perguntou Kate. — Ele serviu no mesmo regimento que você, é um dos seus.
— Sim, mas não é essa a questão.
— Isso não o incomoda?
— Incomoda-me e muito — disse ele amargamente —, mas há coisas mais importantes.
A lua cheia banhava o lado da montanha com uma luz crua e esbranquiçada. Os batedores Hazar esperavam impacientemente, ocultos pelas poucas coberturas disponíveis. Eles fumavam cigarros e bebiam café, servido em canecas térmicas.
Tony Villiers estava sentado atrás de um pedregulho com Dillon e Billy. Ele bebeu chá misturado com uísque Bushmills de uma garrafa fornecida pelo ajudante Ali.
— Você gosta disso, Dillon?
— Muito.
— Eu não. Não bebo — disse-lhe Billy.
Villiers falou para Ali num bom árabe: — Eu lhe ofereceria uma dose, mas sei que o Profeta proíbe.
— Mas o Profeta, cujo nome deve ser louvado, é sempre compreensivo — respondeu Ali. — E a noite está fria.
— Então vamos servir dois goles de uísque. Um para você e outro para o operador de rádio. — Villiers fez um sinal com a cabeça para Aziz.
Ali passou a garrafa para Aziz, que tomou apenas um gole e em seguida devolveu-a para Ali, que limpou a boca da garrafa e bebeu.
Eles ouviram outro grito vindo de cima, que foi sendo abafado gradualmente. Billy perguntou: — O que eles estão fazendo?
— A pele... — disse Ali. — Eles estão cortando a pele do sahb. A masculinidade eles tiram depois.
A gritaria começou novamente.
— Preciso de outra dose — disse Dillon.
Villiers encheu o copo do irlandês com Bushmills. — Isso me dá até vontade de tomar uma dose também, mas não farei isso — falou Billy. O que gostaria de fazer é dar um tiro em Paul Rashid.
— Ali, você sabia que o sahb que está lá em cima tem vinte e dois anos? — perguntou Villiers.
— Um bebê, coronel.
O rádio fez um barulho de estática. Aziz ouviu e virou-se: — Visitas, sahb, um general britânico chamado Ferguson e mais duas pessoas.
— Excelente. Deixe seus homens de sobreaviso.
Subindo a colina em um jipe, Ferguson, Blake e Harry Salter usavam roupas de combate e turbantes árabes. O jipe parou na sombra e os três homens saltaram. Billy aproximou-se e seu tio o abraçou.
— Então, você sobreviveu, seu canalha? Ouvi dizer que foi uma bagunça e tanto. Você está virando um Billy, the Kid.
— Gostei da sua roupa. — Billy sorriu. — Imagino que você não tenha encomendado isso a um alfaiate da Saville Row...
— Billy, estou me sentindo um coadjuvante num show natalino do Palladium.
— Coronel Tony Villiers, este é Blake Johnson — disse Ferguson quando se ouviu outro grito de agonia.
Ferguson ficou aterrorizado: — Quem está lá em cima?
— O porta-estandarte Richard Bronsby, dos Blues and Royals, segundo-tenente da cavalaria local. Ele poderia estar cavalgando por Londres com o peito cheio de condecorações e um capacete. Em vez disso, está aqui, sendo torturado até a morte por beduínos Rashid.
O grito seguinte foi prolongado e aterrorizante. Villiers acrescentou: — Queria poder salvá-lo, mas eles são muitos e estão numa posição privilegiada.
Lá em cima, Paul Rashid, Kate, George e seus homens esperavam ao redor do fogo, e, mais além, nas sombras, o porta-estandarte Richard Bronsby estava deitado no chão, sofrendo sob tortura.
Aidan Bell estava ao lado da fogueira, tremendo de frio, bebendo uísque e fumando um cigarro. Paul Rashid agachou-se ao seu lado.
— Quero que você vá embora o mais rápido possível. Meus auxiliares estarão esperando-o na South Audley Street. O primeiro-ministro russo chegará a Londres na próxima semana. Vou ficar em cima de você. Planeje algo.
— Meu Deus... Você não acha que já basta, depois de Nantucket e disso?
— Não enquanto eu não me vingar. Enquanto eu não estiver satisfeito. Você irá nos Land Rovers. Vá agora e trabalhe rápido. Quero que tenha um plano quando eu chegar lá.
Ele se levantou e andou até Kate e George, junto à fogueira. Ela estava chateada; era difícil suportar os gritos de Bronsby.
— Paul, isso é necessário?
— É a tradição de meus homens. Sei que é difícil, mas é o que eles fazem.
Ela permaneceu sentada, triste, chateada. Bronsby gritou novamente, de forma pavorosa, várias vezes, até parar.
— Acho que ele morreu, sahb — disse Ali.
Villiers ficou sentado, pensativo. Ferguson disse: — Meu Deus...
Dillon virou-se para Blake: — Bem, aí está. Deve fazer você lembrar dos bons tempos dos vietcongues e do Delta do Mekong.
— E nós deixamos esse tipo de gente entrar no nosso país — disse Harry Salter.
Dillon forçou um sorriso severo: — Meu Deus, Harry. Você é um racista.
Villiers pegou um AK.
— Vamos. Já basta. Ali, vamos enfrentá-los. Já esperei demais.
— Você se importaria se nós ajudássemos? — ofereceu Dillon.
Villiers hesitou, em seguida disse: — Acho que, no final das contas, estamos do mesmo lado. Vamos em frente.
Villiers, Dillon, Billy, Harry e Blake subiram a colina e encontraram o porta-estandarte Bronsby arrebentado. Ele estava morto, o peito sem pele, os órgãos genitais enfiados na boca.
— Não havia necessidade disso, sahb — disse Ali. Estou envergonhado. Não é um ato honroso.
Ali trazia um velho rifle inglês Lee Enfield. Enquanto ele se virava para partir, deu um passo em falso, tropeçou e caiu, o rifle voando de suas mãos. Dillon ajudou-o a se levantar e Villiers pegou o rifle.
Ali segurou o próprio braço.
— Ah, não está bom, sahb, talvez quebrado.
— Veremos — disse Villiers. — Voltaremos para o campo. Peça para alguns homens levarem-no, mas diga para serem cuidadosos.
— Não é necessário, sahb. Já se sentem triunfantes pelo que fizeram. Eles não matarão mais. Temos o mesmo sangue. Tenho certeza disso.
— Bem, eu não tenho tanta certeza assim — disse Dillon.
Trouxeram o porta-estandarte Richard Bronsby para o campo, abaixo da colina, colocaram o cadáver num saco e o puseram num Land Rover.
Ferguson deu uma olhada.
— Por que diabos fariam uma coisa dessas?
— Esse tipo de mutilação é um aviso — respondeu Villiers. — Com todo respeito a Dillon, já vi coisas horríveis assim na Irlanda.
Dillon acendeu um cigarro.
— Ele está certo, mas está errado quanto a uma coisa. Eu fui do IRA por mais de vinte e cinco anos. Eu matei soldados, matei legalistas, mas sempre na condição de soldado, nunca dessa forma. — Ele se virou para Villiers. — Eles vão te insultar assim que o sol raiar, você sabe...
Villiers fez um sinal positivo com a cabeça.
— E a quinhentos metros daqui. Engraçado, Dillon. Nunca fui bom atirador com um rifle. Por isso eu usava Ali. Agora que ele quebrou o braço, amanhã de manhã, eles se levantarão, gritarão e farão pouco de nós.
Dillon sorriu. — Espero que eles façam isso, coronel, espero que façam. — Ele pegou o rifle Lee Enfield de Ali. — Meu avô usou um desses em 1917, nas trincheiras em Flandres. Ele foi condecorado com uma medalha por sua bravura no campo de batalha. É um três-zero-três com ferrolho, cinco balas.
Tony Villiers acendeu um cigarro e passou o maço adiante.
— Também me recordo que as armas preferidas dos atiradores de elite do IRA em South Armagh eram os rifles Lee Enfield.
— Bem, como nativo do condado de Down, tenho que concordar com você — disse Dillon.
Ao amanhecer, Dillon, Ferguson e os outros bebiam café enquanto a luz surgia. O globo alaranjado do sol vagarosamente subiu, espalhando a luz da manhã.
De repente, seis silhuetas apareceram na colina, a quinhentos metros de distância. Dillon olhou pelo binóculo Zeiss. Paul Rashid apareceu em seu campo de visão, George, três beduínos e Kate acompanhando-o.
— Adivinhe quem é... — disse Dillon, enquanto passava o binóculo para Villiers.
— Jesus.
Um dos batedores estava atrás dele, segurando o rifle de Ali. Dillon estalou os dedos e disse em árabe: — Na colina, Paul Rashid olhou através de seu binóculo.
— É Dillon — disse ele. — Tony Villiers e Ferguson, Billy Salter e o tio dele.
Um dos batedores passou o rifle Lee Enfield para Dillon, que firmou a correia em torno do pulso. E então, por algum motivo perverso, ele atirou para errar, levantando areia entre os pés de Paul Rashid, que se jogou no chão, em busca de abrigo, puxando Kate consigo. Em seguida, Dillon atirou no homem que estava no fim da fileira, depois em outro.
— Eles estão correndo amedrontados, Sean. Nós nos vingaremos deles em Londres. Deixe para lá — Ferguson disse.
— O diabo que deixarei. Acabei de matar aqueles dois. Agora serão quatro. Olhe.
Ele acertou o terceiro e em seguida o quarto... E o quarto era George Rashid.
Villiers e Ferguson estavam olhando para os quatro árabes, e foi o general quem disse: — Deus do céu... este aqui é George Rashid.
— Algum problema com isso? — perguntou Dillon. — Bem, Paul Rashid não vai ficar nem um pouco agradecido.
— Nem a senhora Bronsby, por isso dane-se Paul Rashid e seu maldito dinheiro — Dillon levantou-se e saiu andando.
Seguiu-se um silêncio e Kate, no topo da colina, caiu de joelhos, aterrorizada. Paul disse: — Deixe-o. — E puxou sua mão. — Venha comigo imediatamente.
Eles alcançaram um dos Land Rovers e partiram. Villiers comandou a subida até o topo da colina. Os quatro árabes estavam inconfundivelmente mortos, olhos abertos, braços estendidos.
— Você é um atirador e tanto, Dillon — disse Villiers. — Meu Deus, eles deviam te apelidar de carrasco —comentou Harry Salter.
Na vila dos Rashid, no porto, Kate estava embaixo do chuveiro, deixando que o calor a envolvesse, numa tentativa inútil de tentar se sentir melhor. Ela havia perdido um irmão, porém, mais do que isso, essa garota, aristocrata inglesa pelo lado materno, com mestrado em Oxford, havia sido forçada a testemunhar a tortura verdadeiramente cruel de Bronsby.
Ela se enxugou, colocou um roupão e saiu. Paul Rashid estava sentado ao lado da porta de vidro aberta, lendo jornais. Ele levantou os olhos.
— Como está se sentindo?
— Como acha que estou me sentindo? George está morto.
— Sim, e foi Dillon quem o matou. Você ainda gosta dele, Kate? — Nós matamos Bronsby, e de uma forma terrível.
— Verdade, e o bom livro fala em olho por olho. Não estou me referindo ao Alcorão, mas à Bíblia.
— Então... Agora vamos voltar para casa para quê? — Nós ainda não voltaremos para casa. Estamos em Hazar. Eu ainda comando os Rashid, mas não o Conselho de Anciões. A tentativa foi feita no Território Desocupado, um território conflagrado. Ninguém pode colocar a mão em nós.
— Então, quais são os seus planos, irmão?
— Jantar no Excelsior. Se eu fosse um apostador, diria que é para lá que nossos amigos vão esta noite. Acho que, de todos eles, Dillon é quem mais vai querer isso. Você sabe que adoro filmes antigos. Eles costumam mostrar a vida de uma forma que a própria vida não se mostra.
— E, então, o que acontecerá? Haverá um confronto, todos sacarão suas armas?
— Não necessariamente. O que quase aconteceu comigo em Shabwa?
— Os assassinos profissionais?
— Essas pessoas estão sempre disponíveis. Eles tomam quat e ficam dispostos a matar até seus avós pelo preço certo. Se nós matarmos Dillon e seus amigos, isto de alguma maneira pagará pela morte de George.
— E depois?
— Voltamos para Londres.
— Para fazer o quê?
— Ah, pensaremos a respeito depois. Agora vista-se. Coloque um belo vestido e iremos ao Excelsior para ver se eu estou certo.
— O que acontecerá agora, Tony? — perguntou Ferguson. — Você não pode prendê-lo, mas isso você já sabe.
— Nós não poderíamos prendê-lo nem em Manhattan — disse Blake.
Dillon concordou com a cabeça. — Ou em Londres.
A bordo do Sultan, eles estavam sentados sob o toldo da popa, bebendo.
— Então, o que acontecerá? — insistiu Ferguson. Houve uma súbita rajada de chuva e Ali, que acompanhava Villiers, estendeu-se para pegar uma garrafa de champanha, o braço esquerdo numa tipoia, e serviu mais uma dose para todos.
— Eu perguntaria ao Harry — disse Dillon. — Ele é um estudante da natureza humana. Os irmãos Krays e AI Capone juntos não chegavam aos seus pés.
Harry tomou um gole do champanha. — Vou tomar isso como um elogio, seu irlandesinho safado. Como você disse, o canalha não pode ser preso aqui nem, aparentemente, em qualquer outro lugar, mas você, com o coronel e Billy ao seu lado, ferrou com os planos de Rashid e matou seu irmão. Agora vai ser como em Brixton nos velhos tempos. Estarão de olho em nós aonde quer que formos. Se nós formos a Hazar para jantar nesse tal de Excelsior, ele saberá em dez minutos.
O professor Hal Stone disse: — Deixe-me corrigi-lo... Em cinco minutos.
— Claro — falou Dillon. — Exatamente como em Belfast numa noite violenta de sábado.
— Então, o que faremos? — perguntou Ferguson. Foi Billy quem respondeu: — Bem, para falar a verdade, estou faminto. Por mim, desembarcaríamos, iríamos até o Excelsior e os enfrentaríamos. Se eles não estiverem lá, poderemos comer uma boa refeição.
Villiers soltou uma gargalhada. — Seu garoto babaca. É maravilhoso descobrir que você confirma tudo que ouvi a seu respeito.
— Só uma coisa — disse Harry Salter. — Se nós formos, temos de estar preparados. — Ele se virou para Hal Stone. — Você sabe o que estou querendo dizer, professor?
— Trabalhei no Serviço Secreto, não se lembra? Você quer dizer que eu vou ter que carregar uma pistola embaixo do braço. Isso me deixaria muito contente.
Dillon riu. — Ah, se eles soubessem tudo sobre você no conselho da faculdade Corpus Christi...
— Posso aguentar isso muito bem — disse Hal Stone.
— A carta de vinhos lá é excelente.
— Então, vamos sair para jantar, todos armados? — perguntou Ferguson.
— Seu velho chato — respondeu Dillon. — Sei que você ficará decepcionado se eles não estiverem lá.
Eles se sentaram no terraço do Excelsior, onde o toldo balançava com o vento, e uma chuva fina caía. Ferguson, Dillon, Billy e seu tio estavam lá. Hal Stone decidiu ficar vigiando as coisas no Sultan. Havia luzes nos barcos no porto e outras na cidade de Hazar.
— Parece um programa de televisão sobre pacotes turísticos — disse Billy.
Foi nesse momento que Paul Rashid entrou com a irmã.
Dillon levantou-se.
— Kate, você está lindíssima.
— Dillon — disse ela.
Paul Rashid vestia um terno tropical de linho e uma gravata da Guarda Real.
Tony Villiers levantou-se e ofereceu-lhe a mão. Rashid apertou-a.
— Kate, este é o coronel Tony Villiers. Você conhece a história. A Guerra do Golfo.
Villiers jogou todo o seu charme.
— Os soldados da Guarda de Granadeiros são todos iguais, lady Kate. Eles veem a gravata e sempre perguntam em qual regimento o outro serviu.
— E você, o conde e o general Ferguson foram todos dos Granadeiros — disse Dillon.
— E o porta-estandarte Bronsby — acrescentou Billy. — Não nos esqueçamos dele. Cavalaria Real, regimento Blues and Royals.
Houve uma pausa. Foi Rashid quem disse: — Acredito que sim.
— O problema com a Cavalaria Real é que todo mundo os vê usando aqueles lindos uniformes — explicou Villiers. — Eles não os veem em lugares como Kosovo, em tanques Challenger ou em veículos blindados.
— Também fornecem um grande número de voluntários para o esquadrão G do vigésimo segundo regimento do Serviço Aéreo Especial — acrescentou Ferguson.
— Bem, esse foi um comentário e tanto — disse Harry. — Sou Harry Salter. Querem tomar alguma coisa?
— Já ouvi falar de você, senhor Salter. Você conhecia os irmãos Krays — disse Kate.
— Eles eram gângsteres, amor, e eu também sou. Éramos todos gângsteres, só que eu fui mais esperto e legalizei meus negócios.
— Quase — disse Billy.
— Tudo bem, quase. Uma taça de champanha, amor?
— Não. Com todo respeito, existe um limite — disse Paul Rashid. Ele virou-se para Dillon: — Eu vi você, sei que foi você. Que matou George, quero dizer.
— E quanto a Bronsby? Ele não significa nada?
— George significava muito mais.
— O lado árabe vem à tona.
— Você não podia estar mais errado, Dillon. É o lado dos Dauncey.
Foi Ferguson quem disse: — Vou ser um pouco formal, milorde. Esqueça isso. Já foi longe demais. Espero que você não esteja querendo levar isso adiante.
— É claro que ele quer — tornou Dillon. — Essa é a razão pela qual Aidan Bell não está aqui.
— É verdade? — Ferguson virou-se para Rashid. — Isto é mesmo verdade?
— Espere e veja.
— Falei com o primeiro-ministro sobre você. Ele ficou muito irritado.
— E o presidente também — disse Blake Johnson.
— Que pena. — Paul Rashid deu um sorriso que seria capaz de gelar a alma. — E eu gostaria tanto de agradar a ambos. Bem, é melhor eu encontrar uma outra maneira de fazer isso. Boa noite, cavalheiros. — Paul Rashid retirou-se de braço dado com a irmã.
Houve um silêncio, e foi Harry Salter quem o quebrou: — Espero que vocês tenham entendido o recado. Vaos nos foder quando sairmos daqui.
— É mesmo? — Ferguson abriu o menu. — Bem, o kebab que eles mencionam aqui parece delicioso. É melhor comermos e nos divertirmos um pouco.
— E em seguida sair andando pelas ruas escuras de Hazar ombro a ombro? — perguntou Blake.
— Sim, algo do gênero, portanto faça seu pedido — disse Ferguson.
O Gulfstream dos Rashid decolou de Haman e Aidan Bell ajeitou-se na poltrona, aceitou uma dose de uísque e começou a ler os jornais britânicos que haviam chegado de Londres na viagem de ida.
O premier russo e o primeiro-ministro iam fazer um passeio pelo rio Tâmisa, até o Domo do Milênio. O artigo de duas páginas do Daily Telegraph mostrava o itinerário. Um passeio noturno pelo rio. As principais emissoras de televisão e os dois líderes juntos, uma festa.
Bell recostou-se com um sorriso maroto no rosto. Era como uma repetição das circunstâncias anteriores, o artigo na revista Time e Cazalet... Não que Nantucket tivesse saído conforme os planos. Mas desta vez tudo poderia ser diferente. Ele sempre se saíra bem em Londres. É certo que ele havia perdido sua equipe, mas este podia ser um daqueles trabalhos em que era melhor fazer tudo sozinho.
Ele chamou o comissário de bordo, pediu outro drinque e começou a estudar o artigo novamente.
Ferguson estava certo. O kebab era maravilhoso, e eles comeram animadamente.
— Então, nós sobrevivemos — disse Billy —, algo que certamente pretendo fazer... Sobrevivemos e voltamos para Wapping inteiros. O que acontecerá então, general? Qual será o próximo passo de Rashid?
— Dillon?
Dillon recostou-se. — Algo que tenha a ver com Bell. Esse é o motivo pelo qual ele não está mais aqui.
— Ele foi visto embarcando no Gulfstream dos Rashid, na base aérea militar de Haman, com destino a Londres — disse Villiers.
— Foi bom o senhor nos contar isso.
— Deixei para depois do jantar, caso você não quisesse a sobremesa.
— E então, Sean, quais são os planos dele? — perguntou Blake.
Dillon acendeu um cigarro.
— Ele fracassou com o presidente americano. Fracassou com o Conselho de Anciões. Talvez seu alvo agora realmente seja a escolha mais óbvia. O premier russo é aguardado em Londres em breve, não é, Charles?
— Espere aí, mesmo ele não tentaria isso agora. Com toda aquela segurança? Impossível.
— Você acha que é impossível? — Blake balançou a cabeça. — Deveria ter sido impossível para Bell chegar tão perto quanto ele chegou do presidente em Nantucket. Com todo respeito ao meu prezado amigo irlandês Sean Dillon, se eu contratasse Bell para fazer o trabalho, ele encontraria um meio. Pessoas como ele sempre encontram.
— Obrigado, também amo você — disse Dillon. — Mas ele tem razão. Rashid tentaria matar o premier russo sem pensar duas vezes.
— E é aí que Bell entra na história? — perguntou Harry Salter.
— Bem, no ano passado, o presidente esteve em Londres. Duas pessoas, terroristas legalistas, um homem e uma mulher, tentaram matá-lo. Eu consegui impedi-los de fazer isso, com alguma ajuda, mas ainda guardo as cicatrizes como lembrança.
— O que você está querendo dizer? — perguntou Blake. — Que, para usar uma expressão do submundo londrino que Harry e Billy conhecem bem, você não precisa de um time para fazer algo assim. Uma pessoa é o suficiente, duas no máximo.
— Isso é verdade — disse Billy.
— Sim, mas estamos falando como se esse fosse o plano de Rashid — interveio Ferguson. — Talvez ele já tenha se cansado.
— General — disse Dillon —, se o senhor acredita nisso, é capaz de acreditar em qualquer coisa.
— Tudo bem. Vamos tomar um café e partir.
— Um chá — disse Dillon. — Sou irlandês. O chá combina melhor com a chuva, general.
Do Gulfstream, Bell ligou para o celular codificado de Rashid, e encontrou-o na villa.
— Escute, tive uma ideia.
— Conte-me.
Bell falou-lhe sobre o artigo no Telegraph.
— Temos uma oportunidade de ouro aqui.
— Tudo bem, mas não mate o primeiro-ministro — disse Rashid. — Mate apenas o premier russo. Assim que chegar a Londres, comece a trabalhar. De qualquer forma, estarei lá em um ou dois dias. Vou dar instruções para que o ajudem no que for preciso.
— E quanto a Dillon e seus amigos?
— Bem, espero que eles se tornem uma página virada esta noite. — Rashid disse e Bell riu. — Você acha graça nisso?
— Apenas na ideia de Sean Dillon tornar-se uma página virada. Ele está na sua cola, ele é o seu pior pesadelo. Agora que já falei isso, vou dar sequência ao trabalho.
A bordo do Sultan, Hal Stone estava de pé na popa, bebendo um copo de cerveja gelada, e Ali andava por perto. Chovia novamente, rajadas mais fortes, o que Stone apreciava. Ele teria de voltar em breve, claro, retomar a Cambridge e aos seus alunos, em vez de estar ali, envolvido com outros assuntos.
Houve um barulho na água enquanto Ali servia um ou tro copo de cerveja. Quando Stone virou-se, um homem com uma faca entre os dentes subiu na amurada.
— Sahb! — gritou Ali.
Hal Stone o viu e, no mesmo momento, procurou pela Browning, que estava embaixo do braço esquerdo. Ele a sacou e, enquanto o homem tirava a faca da boca, atirou nele, fazendo-o cair no mar. Um outro homem surgiu. Stone atirou novamente, mas a Browning travou. Ele agarrou Ali pelo ombro.
— Para a cabine. Vamos. — Em seguida, ele o empurrou.
Lá dentro, ele fechou e trancou a porta; em seguida, pegou a Browning e tirou o pente. Enquanto descarregava as balas, alguém começou a tentar arrombar a porta.
Dillon e os outros andavam por Hazar, prontos para qualquer coisa, sem encontrar nada. Chegaram ao porto, encontraram a lancha, embarcaram e foram para o Sultan.
Eles se aproximaram.
A luz da popa, sob o toldo, estava acesa e o silêncio era total enquanto Billy subia a escada para amarrar a corda. Harry seguiu-o, depois Ferguson, Blake e Dillon.
Naquele momento, Hal Stone conseguiu recarregar a Browning e atirou em direção à porta da cabine. A seguir, quatro árabes surgiram da escuridão para atacar o grupo de Ferguson.
Dillon atirou num deles, mas o homem, enlouquecido pela droga, foi de encontro a ele, jogando-o no mar. Dillon encheu os pulmões, nadou por baixo do Sultan e emergiu do outro lado do barco.
Ele ouviu alguns tiros. Subiu a escada, aproximou-se de um árabe que estava agachado, com uma faca em uma das mãos, agarrou-lhe o pescoço e virou-o. Houve um barulho surdo e o homem caiu morto.
Silêncio. Alguém disse em árabe: — Hamid, você está aí?
— É claro — respondeu Dillon, dando um passo à frente.
Ele agarrou o homem, quebrou-lhe o braço direito, fazendo com que o árabe deixasse a pistola cair, e empurrou o no mar. Fez-se silêncio. Dillon disse: — Sou eu. Vocês estão todos aí?
— No convés, todos inteiros — gritou Ferguson.
— Vamos ver se o professor está bem, em seguida sugiro que nós deixemos este lugar estúpido.
— Uma ótima ideia — disse Ferguson.
Mais tarde, Paul Rashid entrou na sala de estar da villa e disse a Kate: — Nada feito. O ataque ao barco foi um fracasso. Ferguson, Dillon e os outros acabaram de partir para Londres.
— E, então, o que faremos agora?
— Vamos para casa, minha querida... Vamos tentar mais uma vez.
LONDRES, O TÂMISA
Em Londres, Bell passava o tempo subindo e descendo o rio Tâmisa, seguindo o itinerário que o Daily Telegraph apontava para a visita do premier russo.
Ele fez um passeio até o Domo do Milênio, em seguida voltou para o píer Savoy. Refletiu um pouco e fez o mesmo passeio no dia seguinte. Havia um outro artigo descrevendo a visita, desta vez no Daily Mail. Ele o leu meticulosamente, registrou que o barco a ser utilizado na visita seria o Prince Regent e que o bufê ficaria a cargo dos irmãos Orsini.
Bell sentou-se perto da lareira, na sala de estar da casa da South Audley Street, e um plano começou a tomar forma em sua mente.
Paul Rashid e Kate partiram no segundo avião, depois de ele ter feito vários acordos com os povos do Território Desocupado. O que ele estava deixando para trás era um problema tão complicado que nem o Conselho de Anciões, nem os americanos, tampouco os russos poderiam resolver sozinhos. Ele também mandou que apanhassem o corpo de George e o enviassem para a Inglaterra.
Em Londres, Dillon foi visitar Hannah. Ela estava sentada na cama e, por acaso, Bellamy estava lá. Dillon desculpou se e esperou fora do quarto. Finalmente, o professor saiu.
— Como ela está? — perguntou Dillon.
— Um pouco melhor. Ainda em situação indefinida com relação à recuperação. Por outro lado, lembro-me de quando Norah Bell esfaqueou-o nas costas. Você conseguiu se recuperar.
— Eu sei. Dependendo do dia, você pode ser genial.
Bellamy suspirou.
— Quantas vezes tive de salvar você, Sean? Eu não sou infalível... Vê se toma cuidado.
Ele foi embora e Dillon pensou a respeito do que ele disse, em seguida bateu na porta do quarto de Hannah Bernstein.
— Como está você?
— Bem mal. Mas basta uma olhada para ver que as coisas com você não andam muito melhores. Conte-me.
Ele abriu a janela, acendeu um cigarro, sentou-se ao lado dela e falou. Quando ele acabou, ela disse: — O jovem Billy está se transformando numa estrela.
— Pode-se dizer que sim. Bellamy disse que você vai ficar boa.
— Meu pai também, embora eu continue achando que não vou mais poder dar as minhas corridas no Hyde Park pela manhã.
— Bem, não podemos ter tudo.
— Quanto a Rashid, acho que você deve dar uma olha da nos jornais. Leio diariamente um bando deles por uma questão de tédio. Olhe naquela pilha ali. Você encontrará um exemplar do Daily Telegraph. Acho que você vai achar interessante. — Ele leu o jornal e ficou sentado, pensando.
— Acho que faz sentido — completou ela.
— Diria que sim. Você se lembra do caso Norah Bell?
— Como poderia esquecer? Fui eu que a matei.
— Ela e o namorado não tiveram problemas para se misturar com a tripulação do barco...
— Garçons — disse Hannah. — Carregar canapés de um lado para o outro não é das coisas mais difíceis.
Dillon levantou-se subitamente.
— Acho melhor eu ir. Deus a abençoe, Hannah.
— Tenha cuidado, Dillon.
Ele tomou um táxi até Cavendish Place e encontrou Ferguson e Blake sentados perto da lareira, conversando. Ele relatou o que havia descoberto.
— Você está sugerindo que o roteiro será o mesmo que o do caso Norah Bell? — perguntou Ferguson.
— Hannah acredita que sim, e eu também. O que fazemos? Avisamos o Serviço Secreto?
— Aquele bando? Eles só fariam um grande número de patetices. Você sabe disso, Dillon.
— Certo, então o que faremos?
— Vou lhe contar uma coisa — disse Blake. — Adoro rios. Leve-me no mesmo passeio amanhã, Sean, e vamos ver o que nós descobrimos.
A manhã seguinte estava tipicamente londrina, com a chuva caindo, enquanto Dillon e Blake embarcavam no Prince Regent no píer Savoy. Uma manhã cinzenta fora de estação, com menos de quinze pessoas a bordo.
— É uma cidade maravilhosa — disse Blake quando eles se encontravam sob o toldo da popa. — Mesmo debaixo de chuva.
— Dublin é simpática, Manhattan tem o seu quê, mas, sim, o Tâmisa é especial.
— Conte-me sobre o caso Norah Bell, Sean.
— Um grupo fundamentalista iraniano, chamado Exército de Deus, não gostou do acordo que Arafat fez com Israel sobre o novo status da Palestina. Eles também não gostaram do fato de o presidente americano supervisionar o acordo na Casa Branca e aprová-lo. Então, contrataram um atirador legalista do Ulster e sua namorada, Michael Ahern e Norah Bell, pessoas tão más que até a Mão Vermelha do Ulster os havia expulsado de seus quadros.
— E qual foi o trato?
— Cinco milhões de libras para matar o presidente.
— Meu Deus, eu nunca soube disso — disse Blake.
— Bem, o caso foi abafado. O primeiro-ministro organizou uma noite de amenidades e drinques para o presidente, passeando pelo Tâmisa, passando pelo Parlamento e desembarcando no píer de Westminster. Ahern e Norah embarcaram passando-se por garçons. Um comparsa havia deixado duas Walthers a bordo para eles.
— E o que aconteceu?
— Bem, consegui matar a charada e, no último momento, entrei a bordo com Charles e Hannah. Eu matei Ahern, mas Norah me esfaqueou. Hannah matou-a. — Dillon acendeu um cigarro. — Foi uma cena feia. Por algum tempo, parecia que eu ia morrer, mas acabei me salvando, graças à ajuda de alguns amigos.
— Uma história e tanto.
A porta abriu-se atrás deles e uma garçonete saiu. — Café, senhores, ou preferem algo do bar?
— Um café para mim — disse Blake.
Dillon sorriu. — Vou tomar chá e um uísque irlandês ou escocês, se você insiste.
Eles ficaram sob o toldo e a jovem finalmente voltou com uma bandeja.
Dillon disse para ela: — Então, você deve estar muito animada com o grande evento que está prestes a acontecer.
— Ah, é claro — falou ela. — Na verdade, vocês têm sorte. Hoje é o último dia antes que a companhia tire o Prince Regent de circulação para prepará-lo para a grande noite.
— Você estará trabalhando? — perguntou Dillon.
— Temo que não. — Ela estava obviamente chateada.
— Acreditem ou não, eles vão colocar uma tripulação da Marinha Real para cuidar do barco e uma firma para fazer o bufê. Nós não vamos chegar nem perto daqui.
— Isso é uma pena — disse Blake.
— Sim, mas assim é a vida. Com licença, cavalheiros.
Blake bebeu o café e Dillon serviu uma dose de uísque na xícara de chá enquanto a chuva aumentava.
— O que você acha? — perguntou o americano. Dillon suspirou.
— Há algo estranho... Não consigo dizer exatamente o que é. Mas... Olhe... Já fiz trabalhos como este, certo? E eu não gostava que ninguém adivinhasse o que eu estava fazendo. Você tentava despistar as pessoas, para que não soubessem o que você realmente ia fazer. Isso tudo... Está muito na cara.
— Concordo, mas não podemos correr riscos, Dillon. Você tem que reforçar a segurança ao máximo. Todos os seus esforços têm que ser dirigidos para o barco.
Dillon virou-se, sorrindo, o rosto quase transfigurado. — Meu Deus, filho, você tem razão. Todos os nossos esforços. É tudo tão óbvio, óbvio até demais. Como não pensei nisso antes? Ele pegou o celular e ligou para Ferguson.
— Blake e eu estamos no Prince Regent.
— Então, você acha que é aí que eles vão atacar?
— Não. De jeito nenhum. Você está com uma cópia do itinerário aí?
— Sim.
— Onde é que o premier vai se hospedar?
— No hotel Dorchester, na suíte do último andar.
— Perfeito, ligo depois. — Ele virou-se para Blake. Ele vai ficar no último andar do Dorchester. Eu conheço aquela suíte. Da varanda tem-se uma vista espetacular do topo dos edifícios de Londres. Se você ficar lá fora, dá para ver todo mundo, e todo mundo o vê.
— Você acha que é possível?
— Eu poderia estar totalmente enganado, mas se quisesse ter controle da situação, seria isso que eu faria.
Na sala de estar da casa da South Audley Street, Paul, Kate e Michael estavam sentados à mesa com Aidan Bell, que revelava seus planos.
— Ferguson deve estar muito preocupado. Ele está antecipando o ataque e, a essa altura, deve ter certeza de que acontecerá durante o passeio de barco. Mas não será lá.
— O quê? Então qual é o seu plano? — perguntou Kate.
— O premier ficará hospedado no último andar do Dorchester. Há belas coberturas próximas, ideais para um atentado. Subirei numa delas e eu mesmo executarei o trabalho.
Houve silêncio. Michael disse: — Irei com você.
— Ei, isso não é necessário.
— Bell, desta vez eu quero ter certeza. Também fui treinado como atirador. Vou com você.
— E eu também irei — disse Paul Rashid.
— Pelo amor de Deus, Paul, o que você está pensando? Três pessoas? É muito perigoso — disse Kate.
— Não me importo. Esta é a nossa última chance, Kate. Se nós fracassarmos desta vez, pouco importa se formos apanhados. — Ele se virou e sorriu. Pela primeira vez ela notou um sorriso enlouquecido. — Isso é por George, Kate, e por nossa mãe. Não há mais como voltar atrás.
Dillon, Blake e Ferguson visitaram o Dorchester e foram conduzidos até a suíte. A vista da varanda era como fora descrita: extraordinária — e extraordinariamente perigosa.
— Dillon tem razão — disse Ferguson. — o premier não pode ficar hospedado aqui.
— Como você vai cuidar disso? — perguntou Blake.
— Não há necessidade de se fazer barulho. Apenas informarei ao gabinete do primeiro-ministro que não estou satisfeito com as medidas gerais de segurança.
— Isso significa que você não terá que revelar a trama — disse Blake.
— Exatamente. Tudo abafado, e manteremos as coisas assim. Vou encontrar-me com o primeiro-ministro.
Na Downing Street, Dillon ficou esperando no Daimler enquanto Ferguson e Blake eram conduzidos até o gabinete do primeiro-ministro. Ele estava sentado com um homem baixo, de seus cinquenta e poucos anos, cabelos grisalhos e com a aparência do acadêmico que ele havia sido. Era Simon Carter, o vice-diretor do Serviço Secreto e velho desafeto de Ferguson.
— Então, o que aconteceu em Hazar? — perguntou o primeiro-ministro.
— Bem, em primeiro lugar, o Conselho de Anciões saiu ileso, graças a Dillon.
— Vocês não estão trabalhando com aquele porco irlandês novamente... — disse Carter.
— Carter, nós não somos amigos, mas eu nunca duvidei da sua eficiência no passado. Deixe-me contar-lhe o que Dillon fez, se me permite, primeiro-ministro.
— Claro.
Acabado o relato, o primeiro-ministro disse: — Extraordinário. Agora conte-lhe sobre Nantucket. Dessa vez, quando Ferguson acabou, Carter disse: — A história toda é incrível. — Ferguson nunca o havia visto tão abalado.
— Bem, parece-me claro que nós teremos que cancelar todos os compromissos do premier, desmarcar tudo.
— Espere aí — disse Ferguson. — Temos uma ideia melhor.
— Qual ideia? — perguntou o primeiro-ministro.
— A segurança russa tem que ser avisada de que nós poderemos ter um problema em nossas mãos. Eu tenho uma ideia de como tratar isso, não sei se o vice-diretor a aprovará. Nós hospedamos o premier no Dorchester, conforme o combinado. Isso é o que diremos para a imprensa.
— E então?
— Nós cancelamos o coquetel no Prince Regent, mas em cima da hora. Damos uma desculpa qualquer. Mudamos o lugar do jantar para algum outro, como o Reform Club. Tenho certeza de que eles ficariam maravilhados com a sua presença, senhor.
O primeiro-ministro sorriu. — Tenho certeza disso também.
— E em seguida? — perguntou Carter.
— O premier é conduzido de volta, não para o Dorchester, mas para a embaixada.
— Mas qual o objetivo de tudo isso? — perguntou o primeiro-ministro.
— Permitir que eu fique a postos com agentes da minha escolha na suíte do Dorchester.
— Com Dillon?
— Sim, senhor, com Dillon e alguns de seus amigos. Eles prestaram grandes serviços em Hazar. Entretanto, não acredito que o senhor os coloque na lista de condecorações de fim de ano.
— E eles esperariam para ver se Rashid, ou se esse outro homem, Bell, apareceriam?
— Sim, senhor, mas trata-se de algo ainda melhor do que isso. Acredito que o vice-diretor já esteja imaginando o que planejo fazer.
— Sim. — Carter sorriu e virou-se para o primeiro-ministro. — Não há provas suficientes para acusar Rashid até agora. Mas caso ele apareça, ou um de seus homens, e nós o capturarmos vivo, ele não será mais intocável. Ele já deve estar ficando desesperado a essa altura. Finalmente poderemos montar uma armadilha para ele, virando o jogo.
— Então é isso o que faremos. — O primeiro-ministro levantou-se. — Está em suas mãos, cavalheiros. Senhor Johnson, avisarei ao presidente.
Fazia frio lá fora. Dillon estava em pé ao lado do Daimler, fumando um cigarro, quando Ferguson, Blake e Carter se aproximaram.
Ferguson disse a Carter: — Posso oferecer-lhe uma carona?
— Não, prefiro ir andando. Além do mais, sentar-me num carro com alguém que já jogou bombas na residência do primeiro-ministro é um pouco demais para mim.
— Meu Deus, senhor — disse Dillon —, você é mesmo o maioral, e está absolutamente certo.
A despeito disso, Carter riu. — Dane-se, Dillon. — Ele se afastou em direção ao portão da Downing Street, parou e virou-se novamente, desta vez sem sorrir. — Pouco me importa quem ele seja, suas medalhas ou seu dinheiro. Acabe com ele, Dillon.
E foi embora.
Ferguson ligou para Rashid em seu escritório e não o encontrou. Uma secretária pediu que ele aguardasse e, depois de alguns momentos, Kate Rashid atendeu ao telefone.
— General Ferguson. O que posso fazer pelo senhor? — Estarei no piano-bar do Dorchester às oito da noite. — Por que isso me interessaria? — Eu a aconselharia, sinceramente, a me encontrar. E leve o conde.
Ferguson desligou o telefone.
Ela ligou para Paul, que estava no Dauncey Arms com Bell e Michael, e relatou a conversa que teve com Ferguson. — Cuidarei disso, se você quiser — disse ela.
— Não. Iremos para aí hoje à tarde. Não deixarei você se encontrar sozinha com Dillon e Ferguson. Nunca subestime o general. Vejo você mais tarde.
Ele desligou o telefone.
— Temos problemas? — perguntou Michael.
— Ferguson quer uma reunião. Vamos voltar para lá.
— Todos nós?
— Claro. — Ele virou-se para Bell. — Você vai ter de se manter fora de circulação. — Ele sorriu para Betty Moody.
— Estamos indo embora, querida.
Enquanto estavam sentados no Rolls Royce, o vidro que dividia os assentos foi fechado e o conde disse a Bell: — Acho melhor você não ficar na casa da South Audley.
— Onde acha que devo ficar?
— Michael tem um barco ancorado num lugar chamado Hangman's Wharf, em Wapping. Você pode passar a noite lá.
— Parece perfeito.
— Quanto a esse encontro, irmão... — perguntou Michael. — O que Ferguson quer? — O que Dillon quiser. Vamos ver. — Paul Rashid fe chou os olhos e recostou-se no assento.
Mas em Londres, Dillon também estava refletindo a respeito das coisas. Ele havia acessado o computador de Ferguson e estava vasculhando a lista de bens da companhia de Rashid. Em seguida ele ligou para Harry Salter, que estava no Dark Man.
— Harry. Michael Rashid tem um barco ancorado em Hangman's Wharf, em Wapping. Você sabe de tudo que acontece ao longo do rio. O que você sabe sobre isso? — Deixe-me dar uma olhada no meu computador. Depois de um tempo, Salter voltou, rindo: — O nome do barco é Hazar.
— Bem, isso faz sentido. Billy está por aí? — Sim.
— Coloque o telefone no viva voz.
Depois de explicar a situação, Dillon completou: — Portanto, ele deve estar escondendo Bell em algum lugar. O que vocês acham? Na South Audley Street ou em Hangman' s Wharf? — Pode ser em qualquer um dos dois — disse Billy. Vou ficar de olho na casa da South Audley por uma ou duas horas esta noite. Se não encontrar nada, tentarei o Hazar.
Naquela noite, Kate Rashid chegou primeiro e encontrou Dillon esperando por ela.
— Como? Não está tocando piano esta noite, Dillon? Estou desapontada. Vim até aqui só para ouvi-lo tocar. Ninguém acreditaria que seu verdadeiro talento é matar pessoas.
— Mas não torturá-las, Kate. Não matar um rapaz jovem e decente da maneira mais cruel. Bronsby merecia melhor sorte.
— Vá se foder — disse ela.
— Meu Deus, garota, foi isso que lhe ensinaram em Oxford?
Mesmo irritada, ela exibiu um esboço de sorriso. — Ah, garotas sofisticadas podem ser piores do que as vadias.
— Muito excitante.
Ele acendeu um cigarro, ela estendeu o braço, tirou-o de sua boca e fumou-o por um momento.
— Você matou o meu irmão.
— Que foi um dos responsáveis pelo esfolamento de Bronsby... E você e o conde estavam presentes. Você está querendo me dizer que aprova a atitude de um mas deplora a do outro?
Ela respirou fundo. — Na verdade, não. Eu só o odeio por ter matado George.
— Não, Kate, você não me odeia. Esse é o seu problema.
Billy e seu tio estavam sentados num Shogun na South Audley Street, Billy ao volante, enquanto Harry lia o Evening Standard. Ele por acaso levantou os olhos e viu um Mini surgindo de uma saída ao lado da entrada da casa.
— São Bell e Michael Rashid, Billy. Vamos segui-los.
Paul Rashid apareceu no piano-bar ao mesmo tempo em que Ferguson e Johnson entravam. Ele estava com boa aparência, bronzeado pelo sol de Hazar, trajando um terno bege de linho e sua tradicional gravata da Guarda Real.
— General Ferguson. — Sem apertos de mão. — Dillon, senhor Johnson.
Todos eles se sentaram.
— Acabou — disse Ferguson.
— O quê? — perguntou Rashid.
— Você sabe muito bem. Pensei em lhe dar uma última chance: pare imediatamente. Você conseguiu se safar de muita coisa, mas não fará mais isso. E isso eu posso lhe prometer.
Paul falou devagar, em tom baixo.
— Acredito profundamente nos valores familiares. Tive um irmão, um irmão muito amado, assassinado em Hazar.
— Se me dá licença, milorde — disse Dillon. — O fato de fazer todo esse barulho a respeito disso depois do que você fez com Bronsby mostra que está seriamente perturbado. — Kate jogou o champanha de sua taça no rosto dele. Dillon passou a língua pelos lábios e apanhou um guardanapo. — Que desperdício.
Naquele momento, seu celular tocou.
— Com licença. — Ele se levantou e distanciou-se. — Dillon.
— Harry e eu seguimos Michael Rashid e Aidan Bell até Hangman's Wharf — disse Billy. — Eles estão a bordo do Hazar. Vai contar isso a Ferguson?
— Não, isso é negócio nosso. Não queria que Ferguson soubesse a respeito disso, para não corrermos o risco de ele vetar a operação. Estarei com vocês dentro de meia hora.
Ele virou-se para a mesa.
— Desculpem, tenho que ir. Tenho certeza de que o senhor tomará conta das coisas por aqui, general. Diga-lhes que sabemos de seus planos para o passeio de barco, e que eles nunca terão êxito. Este é o fim da linha para eles.
— Você precisa de mim? — perguntou Blake.
— Não desta vez, meu velho. — Ele olhou para Paul Rashid. — Eu prestaria atenção no que o general tem a dizer, muita atenção. — Em seguida, virou-se e saiu. Sorrindo.
Chovia quando Billy e Harry estacionaram, depois de cruzarem o Tâmisa em Hangman's Wharf. Billy deu a volta, abriu o porta-malas do Shogun e retirou um guarda-chuva.
— Bem, isso é ótimo — disse Harry. — Vou lhe dizer uma coisa. Isso não faz com que você pareça com o Humphrey Bogart em À beira do abismo.
— Tudo bem, mas ainda assim estou com uma arma no bolso.
— Na verdade, acho que isso é o que realmente importa.
A bordo do Hazar, Bell e Michael Rashid tomavam um drinque.
— Bem, tenha uma noite tranquila — disse Rashid. Entro em contato amanhã e, à noite, a não ser que haja alguma mudança, executaremos o grande plano.
— Bem, veremos — disse Aidan Bell.
Uma voz veio de fora do barco: — Ei, você está aí, Rashid, você e aquele irlandês de merda?
Bell e Rashid sacaram suas Brownings e se aproximaram da escada do tombadilho.
Dillon havia chegado quinze minutos antes, estacionado atrás do carro de Billy e de Harry e se juntado a eles. Ele ligou para Ferguson do celular.
— Onde você está? — perguntou Ferguson, e Dillon contou-lhe.
— Pelo amor de Deus... O que vocês estão planejando?
— Ainda não temos certeza se o atentado será no rio ou no Dorchester, por isso estou tomando a iniciativa. Estou com Billy e Harry. Bell saiu da casa dos Rashid com Michael, eles o seguiram até o barco de Michael em Wapping e acabo de encontrar-me com eles.
— Dillon, escute-me.
— Não, não vou escutar, general. Depois eu falo sobre como nos saímos.
Ele desligou.
— Ele não gostou? — perguntou Harry.
— Na verdade, não. Talvez ele goste se tudo sair bem.
— Como faremos? — perguntou Billy.
Dillon tirou o paletó e afrouxou a gravata enquanto dizia a eles. Ele retirou a Walther e enfiou-a na cintura, na parte de trás da calça.
— Portanto, caberá a você confrontá-los, Billy, e você deve cobri-lo, Harry.
— Meu Deus, Dillon, vai estar frio lá fora.
— Isso não importa. Apenas tome muito cuidado, Billy. Bell é perigoso.
— Não se preocupe comigo. Preocupe-se com você mesmo, Dillon. Caberá a você segurar as pontas.
— Ótimo. Espere até eu entrar lá e em seguida faça a sua parte.
Harry Salter agachou-se atrás de um poste de amarração no cais. Dillon desceu uma escada na beirada e afundou na água. A água estava muito fria. Ele nadou até o outro lado do Hazar e encontrou, como esperava, uma escada para subir a bordo. Foi então que Billy Salter aproximou-se do Hazar e gritou.
— Ei, você está aí, Rashid, você e aquele irlandês de merda?
Bell disse a Michael Rashid: — Você vai até a popa, que eu cuido da proa. E não faça besteira.
— Eu me garanto.
— Então faça isso.
Bell subiu os degraus que levavam ao convés e Rashid saiu pelos fundos, passou pelas cabines, ergueu-se através do dintel até a escuridão da popa.
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Harry mexeu-se atrás do poste e Aidan Bell atirou, acertando-lhe o ombro direito. O impacto da bala jogou-o para trás, enquanto Bell saltava para a beira do cais e fugia encoberto pelas sombras.
Michael Rashid atirou várias vezes e Billy revidou. Rashid moveu-se para trás, encostando na amurada. Dillon levantou o braço e alcançou-lhe os tornozelos, derrubando-o. Rashid caiu no mar. Dillon agarrou-o pelo pescoço, tomou fôlego, estendeu o braço para segurar a corda da âncora e afundou. Rashid lutou, chutando, mas Dillon o segurou firme até que ele ficasse imóvel. Bell assistiu a tudo, encoberto pelas sombras, em seguida desapareceu.
Dillon soltou o corpo e subiu pela escada que levava ao cais. Harry estava em pé, gemendo, e Billy o amparava.
— Desculpe, Dillon, nós perdemos o Bell.
— Michael Rashid está morto. — Dillon virou-se para Harry Salter. — Entre no Shogun. Você dirige, Billy. Leve-nos até o Rosedene. Vou ligar para Ferguson. Ele chamará o professor Henry Bellamy.
— Dillon, estou ficando muito velho para isso — disse Harry.
— Besteira. Chamaremos Dora para cuidar de você.
Enquanto eles partiam, Dillon ligou para Ferguson. — Vamos precisar de uma equipe de limpeza... Sim, Michael Rashid...Você o encontrará na água, perto de seu barco, o Hazar, em Hangman's Wharf.
— Imagino que você tenha feito o serviço.
— Bell fugiu depois de balear Harry no ombro. Estamos a caminho do Rosedene. Encontre Bellamy. Se ele não estiver disponível, entre em contato com o pai de Hannah. Quero os melhores.
— Seu pedido é uma ordem, Dillon, mas seria simpático de sua parte se de vez em quando você me avisasse antes de fazer essas coisas.
Ao chegarem no hospital Rosedene, Dillon ficou esperando com Billy. Bellamy estava ocupado, fazendo uma cirurgia cardíaca no Guy's Hospital, mas Arnold Bernstein estava disponível.
— Vamos dar uma olhada em Hannah — disse Dillon.
— Por mim, tudo bem — respondeu Billy.
Ela estava sentada na cama, lendo o Evening Standard, e parecia bem melhor do que da última vez em que Dillon a viu.
— Veja só, os dois mosqueteiros. Contem-me as últimas.
E Dillon o fez.
Depois, ela permaneceu sentada, refletindo.
— O que você acha? — perguntou Dillon.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de responder.
— Alguém já lhe contou os detalhes de como Paul Rashid recebeu a Cruz Militar na Guerra do Golfo?
— Não, o que isso tem a ver?
— Bem, eu li os arquivos. Villiers levou vinte homens para trás das linhas iraquianas usando dois tanques russos. Rashid comandou um dos grupos. Dez homens. Mas ele cometeu um erro. Quando pareceu haver perigo, ele ligou para Villiers numa linha aberta. Os iraquianos interceptaram a transmissão, fizeram uma emboscada e mataram todos os homens que estavam sob seu comando.
— Com exceção de Rashid? — disse Billy.
— Exatamente. Entretanto, quando Villiers chegou onde Rashid estava, não havia ninguém lá. Apenas sete soldados iraquianos, todos mortos e castrados.
— E quanto a Rashid? — perguntou Dillon.
— Apareceu nas linhas aliadas dez dias mais tarde, sozinho e a pé.
— Tony Villiers nunca mencionou isso. Por quê? — perguntou Dillon.
Hannah sorriu e balançou a cabeça.
— Isso até serve de consolo: que mesmo o grande Sean Dillon possa ser tão ingênuo. Veja, Rashid é um conde. E ele é um produto de Sandhurst, da Guarda de Granadeiros e do Serviço Aéreo Especial. Portanto, não importa o que essas instituições ensinem aos alunos, tenho certeza de que ensinar a castrar o inimigo não faz parte do currículo. Foi por isso que ele se manteve em silêncio.
— Isso tudo é muito interessante, superintendente — disse Billy —, mas aonde você quer chegar com tudo isso?
— Que ele é um louco. E que ele acredita, e muito, em vingança, nos termos mais cruéis possíveis. Dillon matou seus dois irmãos, logo Dillon terá que morrer. — Ela virou-se. — Trata-se da única coisa certa, Sean. Ele seria incapaz de viver em paz com sua consciência se você permanecer vivo.
— E quanto a Kate? — perguntou Dillon.
— Uma adesão empática. Para aristocratas, a família é tudo, e nesse caso a dose é dupla, com os Dauncey de um lado e os Rashid do outro. Kate tem consciência de sua herança e respeita ele como chefe da família. Não poderia ser diferente.
— Então até ela seria capaz de tentar matar Dillon? — perguntou Billy.
— Diria que sim. — Subitamente, ela pareceu exausta. — Preciso descansar.
A porta foi aberta e seu pai deu uma olhada dentro do quarto, ainda vestido com a roupa de cirurgião.
— Disseram-me que vocês estavam aqui.
— Como está ele? — perguntou Billy.
— Bem, minhas recomendações para o seu tio foram que levar tiros, na idade dele, não é algo muito saudável. Feita esta recomendação, posso dizer que ele não morrerá. — Ele se aproximou da filha.
— Como está? — Cansada.
— Então vá dormir. — Ele se virou para os outros dois. — Fora.
Eles se movimentaram, Dillon abriu a porta e ela disse: — Sean, tome cuidado, pelo amor de Deus. Rashid está obcecado. Ele terá que matá-lo. Na verdade, ele vai desafiá-lo. É como se você estivesse de volta ao deserto, Sean. Ele vai querer matá-lo pessoalmente.
Ela estava chorando. Arnold Bernstein empurrou Dillon e Billy para fora e disse: — Já volto, meu amor.
— Ela está sofrendo muito com isso —, disse Dillon. — Qual a razão? Ela nunca gostou de mim.
— Você é um homem muito esperto. Deve ser, matou pessoas pelos últimos trinta anos e sobreviveu. Por outro lado, se você não consegue entender por que ela está chorando, meu amiguinho irlandês, você deve ser realmente muito burro.
Ele foi embora e Billy disse: — Acho que o que ele quis dizer é que ela gosta de você, Dillon.
Dillon acendeu um cigarro. — Sim, foi essa a impressão que eu tive. Vamos tomar uma xícara de chá. Vamos fazer hora por aqui e talvez deixem você ver Harry antes de irmos embora.
Eles se dirigiram até a sala de espera, fizeram um pedido a uma das garotas e se sentaram.
Aidan Bell seguiu a margem do rio até a High Street, onde pegou um táxi para Mayfair. Ele caminhou os últimos cem metros até a casa da South Audley Street, onde tocou a campainha da porta dos fundos. Foi Kate quem atendeu. Ela ficou boquiaberta.
— O que aconteceu?
— Tudo. Ele está aqui?
— Sim.
— Então, leve-me até ele.
Ela subitamente parecia amedrontada: — Onde está Michael?
— Vamos em frente.
Kate o acompanhou até a grande sala de estar, onde Paul Rashid estava sentado em frente à lareira. Ele olhou para cima.
— O que você está fazendo aqui? Onde está Michael?
— É muito difícil relatar isso a vocês. Dillon apareceu em Hangman' s Wharf com os Salters. Consegui balear Harry Salter, mas Dillon jogou seu irmão na água. A última coisa que pude ver foi ele agarrando-o pelo pescoço e levando-o para debaixo d'água.
Kate soltou um grito agoniado, virou-se e cambaleou para fora da sala. Rashid, com uma expressão extremamente calma, disse: — Conte-me exatamente o que aconteceu.
Dillon e Billy estavam tomando chá no saguão quando Ferguson surgiu.
— Como está Harry? — perguntou ele.
— Ele sobreviverá — disse Billy. — Recompense-o com uma Ordem do Império Britânico.
Ferguson virou-se para Dillon: — Que diabos vocês estavam querendo provar?
— Repentinamente notei que não tínhamos certeza de nada. Temos falado sobre o Prince Regent e sobre o Dorchester e tudo parecia certo, mas nós não tínhamos certeza. Portanto, Billy e Harry seguiram Michael Rashid e Bell até Hangman's Wharf, onde fica o barco de Rashid. O negócio ficou meio complicado por lá. Bell atirou em Harry e fugiu. Eu puxei o jovem Rashid pela amurada e o afoguei!
— Você é um grande canalha, Dillon.
— Bem, esse é o tipo de trabalho que você arruma para eu fazer. A equipe de limpeza já o encontrou?
— Não, foi a polícia que o encontrou. Preferi cuidar da situação dessa forma: uma ligação anônima de alguém que estava passeando com o cachorro no cais e viu o corpo boiando na água.
— E quanto a Paul Rashid?
— Ele já deve saber a essa altura.
— E Bell?
— Só Deus sabe. Imaginei que Bell não fosse mais trazer problemas. Você efetivamente estragou todos os planos de Rashid em relação ao premier. Se Bell tiver juízo, ele deve estar caindo fora a essa altura.
— Interessante — disse Billy. — Tivemos uma conversa muito ilustrativa com a superintendente Bernstein. Não sabia que ela era formada em psicologia. Segundo sua análise, Paul Rashid é um doido completo. Ele terá que matar Dillon, por causa do orgulho familiar, e sua irmã provavelmente faria isso por ele.
— Bell — falou Dillon. — Ele é louco e, para dizer a verdade, eu também devo ser. Não apostaria que Bell vá pular fora. Ele adora o jogo, e se Rashid decidir que ainda precisa dele, poderia oferecer-lhe uma grande quantia em dinheiro.
No necrotério de Kensington, Paul e Kate esperavam numa sala soturna pintada de verde e branco. Havia uma lareira elétrica e uma janela com vista para o estacionamento.
Depois de algum tempo, um enfermeiro entrou. Ele parecia estar em dúvida.
— Senhor Rashid?
Foi Kate quem disse: — Não, meu irmão é o conde de Loch Dhu.
— E o falecido, Michael Rashid?
— Também é meu irmão.
— Vocês querem vê-lo?
— Queremos — disse Paul Rashid sem demonstrar emoção.
— Acabaram de fazer a autópsia. O patologista ainda está lá. Vocês podem achar um pouco desagradável. Estou especialmente preocupado com a jovem.
— Muito gentil de sua parte, mas é algo que temos que fazer.
— Há um problema. Alguns homens estão lá. Um general Ferguson e mais duas pessoas.
Lady Kate soltou uma exclamação, mas o irmão colocou a mão em seu braço.
— Tudo bem. Nós o conhecemos.
Eles foram levados até a sala de operação: paredes brancas, peças de aço inoxidável. O patologista forense estava em pé, ao lado de Ferguson, Dillon e Blake. O enfermeiro foi até ele e sussurrou algo. O patologista virou-se.
— Lorde Loch Dhu. Sinto muito.
— Ferguson — disse Rashid —, caso você possa esperar por mim lá fora, gostaria de falar com você.
— É claro — respondeu Ferguson, num tom extremamente formal, como um aristocrata britânico.
Ele saiu com Dillon e Blake. Kate andou até a mesa onde Michael Rashid estava deitado nu, o corpo costurado com pontos mal dados e com um corte em torno do crânio.
— Isso tudo era necessário?
— Seu irmão se afogou, depois de cair da amurada do barco, mas o juiz encarregado de investigar mortes suspeitas exige uma autópsia completa. Não há como evitar isso. Registrei a morte como afogamento e, com base na seção 3 da lei, posso emitir um certificado liberando o corpo. Não há necessidade de uma audiência para isso.
— É muito gentil de sua parte — disse Paul Rashid. — Tomarei as providências necessárias.
Quando ele e Kate saíram, Ferguson estava no saguão conversando com um homem de meia-idade que vestia uma capa de chuva e um chapéu antiquado.
O general fez um aceno com a cabeça para os Rashid. — Esperarei por vocês lá fora.
O homem do chapéu antiquado disse: — Sou o inspetor-chefe Temple. Não há evidência de crime. Apenas um trágico acidente.
— É claro.
— Presumo que o patologista lhes tenha avisado que, sob essas circunstâncias, segundo a seção 3 da lei, ele pode liberar o corpo sem necessidade de uma audiência com o juiz encarregado das investigações.
— Sim.
— Tenho que assinar o documento na condição de policial responsável pela investigação, portanto farei isso agora. Depois disso, vocês poderão levar o corpo.
Havia algo estranho no seu olhar. Além disso, por que um inspetor-chefe estaria fazendo o papel de um simples investigador num caso de afogamento?
Paul Rashid sorriu e apertou-lhe a mão. — O senhor foi muito gentil.
Ferguson esperava lá fora, na calçada, ao lado do Daimler, o chofer ao volante. Dillon estava próximo, ao lado de Blake, fumando.
— Não sei quanto a vocês, rapazes, mas estou faminto. Tem um restaurante italiano muito simpático perto do Dorchester. Sabem qual é?
— Ferguson virou-se. — Ah, aí estão vocês.
— O corpo do meu irmão George chegou mais cedo de Hazar. Estão liberando o corpo de Michael. Nós os enterraremos depois de amanhã no mausoléu da família em Dauncey. Depois disso, a temporada de caça estará aberta.
— O seu irmão se afogou — disse Ferguson. — E isso é tudo.
Kate aproximou-se de Dillon e deu-lhe um tapa no rosto. — Foi você quem afogou meu irmão.
— Meu Deus, Kate, ele estava tentando me matar. Por que será que os Rashid acham normal atirar nos outros mas não que os outros atirem de volta?
Ela virou-se e sentou-se ao volante do Mercedes. Paul Rashid disse: — A vingança será minha, Dillon. Você deve entender o que estou dizendo. Está no Velho Testamento.
— Bem, vou lhe dizer uma coisa, milorde, farei uma oferta justa. Sendo tão louco quanto você, irei ao enterro. Assim você terá uma chance de me matar... ou talvez eu tente matá-lo. O que acha disso?
Os olhos de Rashid brilharam por um momento e ele pareceu quase sorrir. Em seguida, com um leve aceno, ele disse, antes de partir: — Estarei esperando por você.
— Meu Deus — disse Ferguson. — Você realmente botou pressão nele.
Dillon virou-se para ele. — Está na hora de acabar com essa história toda, general. — Ele ficou olhando para o carro, que se afastava. — De um jeito ou de outro.
Rashid desligou o telefone. Kate disse: — Você está falando sério?
— Kate, eu avisei a eles quando seria o enterro e Dillon reagiu como eu esperava. Portanto, a última coisa em que eles pensariam é em um atentado agora. — Ele deu de ombros. — Isso é algo que Bell sabe fazer bem. Darei uma última chance a ele. Se ele fracassar desta vez, eu mesmo matarei Dillon. Depois de matar Bell.
Ele falou num tom tão calmo, tão seguro, que não havia como discutir o assunto, portanto ela continuou dirigindo.
Enquanto Kate dirigia, seu irmão ligou para um apart hotel que ficava ao lado da casa da South Audley Street. Normalmente, ele ligava para lá atrás de funcionários extras. No momento, ele queria falar com Bell, que estava hospedado lá. Quando ele atendeu, Rashid disse: — Sou eu. Escute-me.
Ele contou a Bell tudo que havia acontecido. Quando ele acabou, Bell disse: — Sean é um grande canalha, mas foi por esse motivo que ele conseguiu sobreviver por tanto tempo.
— Você fala dele como se o admirasse.
— Ele é um cara decente. Temos muito em comum.
— Bem, gostaria eu mesmo de fazer isso, mas, se você puder matá-lo, faça-o. Os três estão a caminho de um restaurante italiano que fica perto do Dorchester. O carro de Ferguson é um Daimler, você não terá problemas em reconhecê-lo.
— O que quer que eu faça?
— Mate-os. Venha até a casa da South Audley Street. Vou lhe dar uma arma. Pagarei pelo serviço, é claro.
— Negócio fechado. Vemo-nos em breve.
Bell entrou pela porta dos fundos da casa da South Audley Street e foi recebido por Rashid, que o levou ao segundo andar. Lá destrancou a porta que dava para um quarto que se revelou uma sala de armas. Havia muitas para escolher, mas Bell preferiu um Armalite.
— Este é um velho companheiro. Com uma coronha dobrável. Imagino que tenha um silenciador.
— Não tão silencioso assim. O que pretende fazer?
— Vou estourar o pneu. Pego-os todos de uma só vez.
— Parece um bom plano. Vamos ver se você consegue fazer isso. Não importa o que acontecer, volte para o apart hotel. Espero encontrar você lá.
— Ótimo. Agora me arrume um guia de ruas.
Bell encontrou uma velha capa de chuva com bolsos grandes de forma que o Armalite, com a coronha dobrável, foi facilmente escondido. Ele desceu a South Audley Street até encontrar o restaurante, na frente do qual estava estacionado o Daimler, com o chofer sentado dentro, as luzes acesas, lendo um jornal.
Ele viu no guia que, ao saírem do restaurante, eles teriam que virar à esquerda na Park Lane, pegar um retorno para passar por Curzon Gate para chegar à Cavendish Place, que ficava do outro lado da Park Lane. Assim, Bell atravessou a rua até as sombras do Hyde Park, pulou a cerca e ficou parado, encoberto pela sombra de uma árvore. Ele tinha um binóculo infravermelho, que prendeu na cabeça, e ficou vigiando a entrada do restaurante.
Ferguson, Blake e Dillon saíram, andaram até o Daimler e entraram no carro. Bell tirou o Armalite, preparou-o e aguardou. Havia pouco trânsito naquela hora da noite, e o Daimler virou em Curzon Gate e ganhou velocidade. Bell mirou no pneu traseiro do lado do passageiro e atirou. Naquele momento, Dillon, por acaso, virou a cabeça e viu um clarão. O pneu estourou e o Daimler derrapou na pista, de um lado para o outro, parando quando atingiu o meio-fio. Ferguson foi jogado contra a porta do lado do passageiro e Blake caiu de joelhos.
— É um atentado — disse Dillon. — Eu vi um clarão. Vou atrás dele.
Ele se jogou para fora do carro, pulou a cerca e sacou a Walther. Aidan Bell virou-se e correu, segurando o Armalite contra o peito.
Dillon foi atrás dele, perseguindo-o pelas sombras. Eles chegaram até um enorme monumento, muito iluminado. Bell tropeçou, caiu e o Armalite saiu voando. Dillon parou e ficou em pé, a respiração ofegante, segurando a Walther ao lado do corpo.
— Que surpresa, Aidan. Foi você, meu velho. Quanto o conde lhe ofereceu?
— Vá para o inferno, Dillon.
Ele tentou alcançar o Armalite e Dillon deu-lhe dois tiros no coração.
Ele voltou para onde estava o carro. Ferguson estava segurando o braço. — Acho que está quebrado.
— O que aconteceu, Sean? — perguntou Blake.
— Era Bell. Eu o matei. Ele está perto do monumento. Não sei como lidar com a situação, general. Você quer deixar que um terrorista famoso do IRA seja encontrado morto a tiros no Hyde Park ou prefere chamar uma equipe de limpeza?
— Nas circunstâncias atuais, é melhor abafar o caso. Ligue para eles, explique onde está o corpo e fique esperando. Francamente, tenho que ir até o hospital Rosedene.
Ele saiu do Daimler com Blake e disse ao chofer: — Peça para o carro ser rebocado. O senhor Johnson me acompanhará.
Mais tarde, sentado nas sombras do monumento, Dillon ligou para o celular de Paul Rashid.
— Sou eu, Dillon. Aidan Bell tentou nos matar, mas temo que esse tenha sido seu último fracasso.
— Você o matou?
— Sim.
— Bem, se você não o tivesse matado, eu mesmo o faria.
— Isso não me causa nenhuma estranheza. Estou aguardando ansiosamente pelo enterro, Rashid. Se acha que pode me matar, você será muito bem-vindo. Isso já foi longe demais.
— Também estarei aguardando ansiosamente, Dillon.
Sentada à sua frente, Kate perguntou: — O que aconteceu?
— Bell está morto.
— Dillon?
— Quem mais?
— Então, ele irá ao enterro?
— Ele irá ao encontro da morte, no que depender de mim.
Dillon ficou sentado nos degraus do monumento, fumando um cigarro, e, depois de algum tempo, a equipe de limpeza chegou.
PLACE DAUNCEY
Blake voltou para casa na manhã seguinte. Bell havia desaparecido da face da Terra. Dillon fez uma visita ao Rosedene e encontrou Ferguson com o braço esquerdo numa tipoia, ao lado da cama de Hannah.
— Como está? — perguntou Dillon.
— Já estive melhor.
Dillon virou-se para Hannah: — E você?
— Sobreviverei. O general Ferguson contou-me o que aconteceu. Então, você matou Bell?
— Você parece desaprovar. Pelo amor de Deus, mulher, ele tentou nos matar. — Ele sorriu. — Ah, agora estou entendendo. Você é contra a pena de morte.
— Vá para o inferno, Dillon. O general contou que você disse a Rashid que vai ao enterro dos irmãos dele amanhã.
— E daí? Você me disse que ele me desafiaria. Decidi desafiá-lo antes.
— Seu estúpido. Eu já lhe disse que ele é maluco. Fará tudo o que for necessário para matá-lo.
— Como já lhe disse várias vezes, Hannah, eu provavelmente também sou maluco.
— Não acho que você deva fazer isso, Dillon — disse Ferguson. — Na verdade, trata-se de uma ordem.
— E se eu disser não, o que você vai fazer? Vai me trancar na prisão de Wandsworth?
— Poderia fazê-lo. Seus antecedentes me permitiriam.
— É mesmo? Quando você me tirou daquela prisão sérvia e me chantageou para que eu trabalhasse como seu assassino profissional, a parte mais importante do acordo era que a minha ficha de antecedentes do IRA seria apagada. Agora você me diz que isso efetivamente não ocorreu. Se estiver falando sério, tudo que posso dizer é que Billy Salter pode ser um gângster, mas a noção de moralidade dele é bem maior do que a sua. — Ele inclinou-se e beijou Hannah no rosto. — Deus a abençoe, garota, e se cuide. Quanto ao fato de Rashid querer me ver morto. Bem, o exército britânico também quis, e eu ainda estou aqui. Ele acenou com a cabeça para Ferguson. — Você sabe onde me encontrar, se é isso mesmo que quer. Senão, irei até Dauncey amanhã, para o enterro. Darei uma chance a Rashid.
Ele se virou e saiu. — O senhor vai mandar prendê-lo? — perguntou Hannah.
— Claro que não. — Ferguson suspirou. — Estava só blefando para tentar demovê-lo da ideia. Ao longo desses últimos oito ou nove anos, passei a gostar bastante dele. Você também, acredito.
— Pode-se dizer que sim, mas ficaria muito grata se o senhor prometesse não contar isso a ele.
— Claro, querida. Agora, como estou me sentindo extremamente mal, acho que vou para casa.
Paul e Kate Rashid entraram no Dauncey Arms na hora do almoço. Betty Moody estava atrás do balcão e todos os frequentadores assíduos também estavam lá. Todos se levantaram.
— Não, meus amigos, sentem-se — disse Rashid. Uma bebida para cada um, Betty, mas estou faminto como um caçador. Quero o que você tiver.
Seus olhos estavam úmidos. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Paul. — Ah, Paul. — Logo, Kate também estava chorando. Betty pegou a mão dela e levantou a portinhola do balcão. — Pare de choramingar, garota. Foi o que lhe ensinei assim que você começou a ser capaz de escutar. Venha fazer algo de útil na cozinha.
Mais tarde, eles fizeram uma refeição e ela abriu uma garrafa de champanha, quando todos se acomodaram perto da lareira.
— E amanhã? — perguntou ela com alguma hesitação. — O enterro. Vocês quase não tocaram no assunto.
— A cerimônia será na igreja, às onze e meia. Estamos fazendo algo mais íntimo desta vez, Betty. Não estamos mandando convites como da última vez. Os moradores da aldeia serão bem-vindos, entretanto. Você poderia organizar um bufê para nós aqui no pub. Não queremos nada agitado. Não quero nem que os empregados de casa fiquem lá depois do enterro.
— Farei tudo conforme a sua vontade, Paul... Deixe comigo.
Ela se afastou. Kate disse: — Ele virá?
— Ah, sem dúvida que sim — disse Paul. — Nunca tive tanta certeza de algo em minha vida.
Dillon foi visitar Harry no Rosedene e encontrou-o sentado na cama, com Dora andando de um lado para o outro, o exemplo perfeito da garçonete dublê de enfermeira.
— Tome cuidado — disse Dillon para ela. — Se você continuar trabalhando tão bem assim, esse velho canalha é capaz de pedi-la em casamento.
Os olhos dela brilharam. — Não misture as coisas na cabeça dela! — Harry deu um tapa no traseiro de Dora. — Vá e arrume uma garrafa de uísque escocês como uma boa garota.
Ela saiu.
— Você acha que ela está apaixonada por você, Harry, mas na verdade é ela quem está por cima. E digo mais uma coisa: você é um cara de sorte. Ela realmente é uma mulher e tanto e seria capaz de morrer por você.
— Você não precisa me dizer isso.
— Então cuide bem dela.
Harry olhou para ele. — Por que você me passa a impressão de não estar exatamente se sentindo bem?
— Todos nós temos nossos altos e baixos. Fui visitar Hannah. Sabe como são as coisas. Ela me ama e me odeia ao mesmo tempo e, além disso, se preocupa comigo.
— Você vai fazer algo realmente burro — disse Harry. — Meu Deus, Dillon, você realmente vai até Dauncey para aqueles dois enterros amanhã...
— Trata-se de um desafio, Harry. Ele quer ficar frente a frente comigo. Matei seus dois irmãos. Ele tem direito a isso.
— Sabe de uma coisa, meu velho, isso me parece mais uma vontade de morrer. Está pensando em levar Billy com você? Não há mais ninguém.
— Não. Vou dar uma passada no Dark Man e comer algo, mas Billy já fez o bastante. Sabe, Harry, ele se diz meu irmão caçula e, de uma certa forma, acho que ele realmente se tornou isso. Não vou colocá-lo na linha do perigo novamente. Não vou chamá-lo para ir comigo a Dauncey amanhã. Da maneira como vejo as coisas, o conde poderia soltar seus cachorros em cima da gente.
— Então você vai até lá vestindo um terno escuro e vai ficar junto com os outros congregados na igreja de Dauncey?
— É algo que tem que ser feito, Harry.
— Ótimo, não é? Logo agora que eu estava começando a aceitar a ideia de você ser o irmão mais velho de Billy, você vai botar a cabeça na guilhotina.
Dillon levantou-se. — Harry, você é durão, assim como Billy, mas chega uma hora em que...
— Sim, eu sei. Em que um homem tem que fazer o que deve ser feito. Descanse em paz, John Wayne. — Dora entrou com uma garrafa de uísque. — Caia fora daqui, Dillon, você está me deixando irritado.
Dillon saiu. Harry ficou sentado um tempo, passando a mão de forma distraída no traseiro de Dora, em seguida estendeu a mão, pegou o telefone que ficava ao lado da cama e ligou para o celular do sobrinho. Billy estava no escritório de Cable Wharf.
— Escute, Dillon acaba de sair daqui. Ele disse que ia chamá-lo para comer algo. Como você sabe, Rashid vai enterrar os irmãos na igreja de Dauncey amanhã, e Dillon decidiu ir até lá para enfrentá-lo. Uma espécie de duelo do Velho Oeste. E digo mais... Ele vai sozinho.
— De jeito nenhum — disse Billy. — Se ele for, vou com ele. Sei que talvez você não me apoie.
— Na verdade, Billy, sinto-me orgulhoso de você, mas não diga isso a ele. Apenas diga que ele é um idiota. Nós deixaremos ele ir na frente e nos encontraremos com ele lá.
— Você disse "nós"?
— Billy, mesmo com a companhia de Dora, não posso ficar aqui para sempre. Pelo menos eu posso lhe dar apoio moral. Seguiremos Dillon até lá.
Havia muita gente no Dark Man, com uma grande quantidade de carros estacionados em Cable Wharf. Chovia novamente no rio, algo comum naquela época do ano. Dillon encontrou um velho guarda-chuva no porta-malas do Mini Cooper, abriu-o, acendeu um cigarro e caminhou por algum tempo.
Ele estava se sentindo estranhamente melancólico, como se estivesse chegando ao fim da linha, de alguma forma. Ele não odiava Paul Rashid, e Kate, como a maioria dos homens teria de admitir, era alguém que ele admirava muito. Dillon havia matado muitas pessoas ao longo dos anos. Fazia parte de sua natureza. Ele se desculpava evocando a morte de seu pai, que foi apanhado no fogo cruzado de um tiroteio entre membros do IRA e paraquedistas ingleses numa rua de Belfast.
Mas e se isso realmente fizesse parte de sua natureza, e a morte do pai fosse apenas uma desculpa? O que isso dizia a respeito dele? Ele podia argumentar que, à sua maneira, havia sido um soldado durante anos, mas poderia ele condenar Rashid, eximindo-se de culpa? A única diferença entre eles, a coisa que realmente era inaceitável, era o terrível assassinato do porta-estandarte Bronsby.
Ele acendeu outro cigarro, sentindo-se um tanto soturno e deprimido. — Merda. Que diabos está acontecendo comigo?
Naquele momento, ele foi chamado da porta do pub e virou-se para ver Billy correndo em sua direção. Ele colocou o guarda-chuva sobre a cabeça.
— O que está tentando fazer, afogar-se?
— Algo do gênero.
— Ah, estou vendo. Um dia ruim. Devemos todos sentir pena de Sean Dillon?
— Vai para o inferno — disse Dillon.
— Sim, bem, você precisa de uma refeição do Dark Man no estômago e de um drinque. O que quero dizer é que, por ser um cara mais velho, você não pode passar por tudo que passamos nas últimas semanas e sair disso se sentindo tão bem como eu me sinto.
Dillon soltou uma gargalhada. — Seu babaca pretensioso.
— Já me parece bem melhor.
Ele o levou para dentro do pub. O bar estava cheio, mas Baxter e Hall estavam sentados na mesa ao fundo. Billy e Dillon foram ao encontro deles.
— Ei, caiam fora, vocês dois — disse Billy. Nós temos que conversar. Diga para a garçonete trazer uma garrafa de Bollinger, duas taças e picadinho à moda irlandesa.
— O que é isso, a semana de ser bonzinho com o Dillon?
— Sai dessa, Dillon. Você matou os dois irmãos dele. Agora Paul quer cortar seu saco e está esperando que você vá a Dauncey amanhã para enfrentá-lo. Foi a superintendente Bernstein quem disse isso e, por algum motivo, você quer dar uma chance a ele, que é o maluco...
— E talvez eu também seja, Billy, como já lhe disse.
— Deixe disso. Você sempre soube exatamente o que estava fazendo. Você fala várias línguas, pode pilotar qualquer tipo de avião, é um mergulhador de primeira. Harry contou-me tudo: foi você quem desafiou Rashid. E agora você meteu essa ideia idiota na cabeça, que vai lá fazer isso sozinho. Não vou deixá-lo fazer isso. Falei isso ao Harry.
— Ele deve ter adorado.
— Na verdade, ele me apoiou. Disse para deixar que você fosse, em seguida nós iríamos atrás. Dar “apoio moral" foi a expressão que ele usou.
Uma das jovens que serviam no balcão trouxe um balde de gelo, uma garrafa de Bollinger e algumas taças. Dillon acenou com a cabeça para Baxter e Hall, que estavam no balcão bebendo cerveja.
— Leve uma taça para eles.
— Você é tão atencioso — disse Billy.
— Vou mostrar como sou atencioso. Na verdade, vou realizar o seu desejo, Billy. Você poderá vir comigo, como se nós estivéssemos num filme de segunda categoria. Eu mesmo vou arranjar Walthers e coletes de titânio, porque ele está falando sério, Billy. Como Hannah Bernstein disse, ele não vai ficar satisfeito enquanto eu não estiver morto. Ele adoraria matá-lo também, Billy.
— Eu sei. Mas vou lhe dar cobertura.
— Só tenho uma objeção, Billy. Ferguson sabe que irei e não vai me impedir, mas Harry, e não importa o quanto ele brinque a respeito disso, realmente está ficando velho. Não quero que ele fique preocupado com você.
— Então, o que faremos?
— Você liga para ele esta noite no Rosedene e diz para ele que Ferguson me colocou na cadeia para impedir que eu fizesse uma burrice. Assim, nós dois poderemos ir tranquilos a Dauncey amanhã de manhã. Você arruma a limusine. A cerimônia será às onze e meia. Você concorda em fazer desta maneira?
— Ele nunca vai me perdoar, mas tudo bem, concordo.
Dillon fez um brinde. — Saúde, como vocês dizem no East End... E, Billy, vê se bota um terno escuro. Eu estarei vestindo um.
— Para ficar com aspecto de agente funerário?
— Exatamente.
— Ótimo. — A garçonete trouxe o picadinho. — Mal posso esperar — disse Billy, e gritou para Joe Baxter e Sam Hall. — Joe, preciso de um Jaguar amanhã de manhã bem cedo. Eu e Dillon vamos passear no campo. Vamos ao castelo dos Rashid, em Dauncey, portanto use um uniforme de motorista. Vamos a um enterro.
— Você é quem manda, Billy.
Billy levantou os olhos para Hall. — Você vai ter que me substituir no armazém, terá que cuidar daqueles cigarros que contrabandeamos de Calais. Tenho mais uma coisa a dizer. Não quero que Harry saiba disso, porque, se souber, ele vai querer vir também, então fiquem calados. Ele já levou uma bala.
— E não queremos que leve outra — disse Dillon.
Baxter concordou com a cabeça.
— Então, devo me comportar como um motorista que leva uma arma no porta-luvas?
— Sem dúvida. Esse tal de Rashid é terrível. Vocês já conhecem a história, rapazes. A escolha é sua, Joe, se preferir não ir — disse Billy.
Baxter ficou inconformado. — Não me insulte, Billy. Estamos juntos desde os dezessete anos.
Billy continuou comendo seu picadinho. — Se Harry perguntar por mim, diga que fui chamado a Southampton para resolver um problema com aquele carregamento de bebidas.
— Ele vai ficar fulo quando descobrir a verdade, Billy — disse Hall.
— Sim, mas não será a primeira vez. Dora o acalmará, mostrando que ele ainda serve para alguma coisa. Não me desapontem. Agora podem ir, comam alguma coisa.
— Então, estamos de volta à linha do perigo? — perguntou Dillon.
— Conte com isso. — Billy deu um sorrisinho. Você mudou minha vida, Dillon, convenceu-me de que tenho um cérebro. O que eu era antes? Já tinha cumprido quatro sentenças bobas de prisão, não passava de um gângster de terceira. Quantas pessoas eu matei, agora que estamos juntos? Como dissemos antes, uma vida que não é testada não vale a pena ser vivida. Depois eu dou um jeito no Harry, com relação a você.
— Como ele diria, você não passa de um garoto babaca.
— Tenho uma ideia. Ouvi dizer que aquele teatro de subúrbio, o Old Red Lion, está levando aquela peça do Brendan Behan sobre o IRA, chamada O refém.
— Uma obra-prima.
— Ótimo. Vamos dar uma olhada. Vai ocupar a nossa noite. E talvez eu aprenda algo sobre você.
— Combinado — disse Dillon.
Eles adoraram o espetáculo. Mais tarde, no bar, eles discutiram as questões que a peça de Behan levantava. Joe Baxter, que os havia levado até o Old Red Lion e foi forçado a assistir à peça, permaneceu sentado, com um ar confuso.
Eles deixaram Dillon em Stable Mews. Em seguida, Billy ligou para Harry no Rosedene.
— Espero que não tenha ligado muito tarde.
— Não consigo dormir, Billy. Fiquei deitado muito tempo. Então, o que aconteceu com Dillon? Esperava que você viesse até aqui.
— Bem, encontrei com ele no pub para almoçar e ele realmente estava decidido a ir ao enterro, exatamente como você disse, mas aconteceu algo esta noite.
— O que aconteceu? — Bem, Ferguson proibiu-o de ir ao enterro. Dillon recusou-se a cumprir as ordens. Ferguson mandou a Divisão Especial prendê-lo. Algo relacionado à ficha de antecedentes de Dillon no IRA.
— Mas Ferguson limpou a ficha quando Dillon concordou em trabalhar para ele.
— Sim, bem, mas ele meteu-o na cadeia. — Billy começou a florear a história. — Levaram ele para o presídio de West End Central. Pelo menos lá tem umas celas decentes.
Harry Salter ficou inconformado.
— Que vexame. Ferguson deu sua palavra quando tirou Dillon daquela prisão sérvia.
— Bem, claro, mas o general é um aristocrata — disse Billy. — É o sistema de classes, Harry. O país ainda é regido por isso.
— E nós é que somos os vilões! — Harry estava espumando. — Espere até eu encontrar Ferguson novamente.
Logo agora que eu estava começando a achar que ele fosse um inglês decente.
— Harry, esse tipo de coisa faz mal para a sua pressão. Durma bem. Ligo para você amanhã.
Na manhã seguinte, em Stable Mews, Dillon vestiu-se com cuidado, como dissera para Billy... um terno preto, camisa branca, gravata preta.
— Deus do céu, filho — disse ele, olhando para si mesmo no espelho. — Você parece que vai fazer um teste para o papel de assassino da máfia em O poderoso chefão. — Ele franziu a testa e disse suavemente: — Será que minha vida sempre foi isso, um teatro de rua? Foi só isso, desde Belfast, durante todos esses anos? A campainha soou. Ele desceu até a entrada e apanhou um casaco Armani preto e a mala de armas. Quando ele abriu a porta, encontrou Billy trajando um terno e gravata pretos, parecendo curiosamente elegante. Baxter estava encostado no Jaguar, uniformizado.
— Ei, você está ótimo — disse Billy.
Dillon abriu a mala de armas e retirou um colete de titânio.
— Como você sabe, isto aguenta até um tiro de quarenta-e-cinco à queima-roupa. O meu já está por baixo da camisa. Entre aqui no banheiro e coloque o seu, Billy. Nós esperaremos.
— Se você insiste.
Billy entrou no lavabo e Dillon fez um aceno com a cabeça para Baxter.
— Abra o porta-malas, Joe.
Baxter fez o que lhe foi pedido. Dillon colocou a mala de armas e o casaco lá dentro. Em seguida, ele abriu a mala de armas, retirando a Browning e um silenciador.
— Com sorte, você não precisará disso, Joe, mas é melhor prevenir do que remediar.
Baxter sorriu friamente. — Quem sabe? — Ele abriu a porta do motorista, estendeu a mão até o porta-luvas e enfiou a arma dentro. Alguns momentos mais tarde, Billy saiu, trazendo um casaco pendurado no braço.
— Presumi que isso fosse para mim, Dillon.
— Pode chover — disse Dillon.
— Ótimo. De qualquer forma, veja só uma coisa. Dá até para esconder uma Uzi num desses bolsos. Eu gosto de caminhar na chuva. É algo que faz com que você entre em contato com seu mundo interior. Vamos.
Eles entraram no banco de trás e Baxter partiu.
Harry estava sentado na cama. Dora, ao seu lado, comia um ovo cozido e torradas. Ele tinha passado a noite acordado. Agora já era a metade da manhã.
— Ligue para o escritório — disse ele. — Quero falar com o Billy.
Com o telefone na mão, ela virou-se, gritando para Harry: — O Billy não está lá. É Sam Hall quem está na linha. Harry apanhou o telefone.
— Onde ele está, Sam?
— Houve um problema com o carregamento de bebidas e ele foi chamado a Southampton.
— Bem, ele podia ter me avisado. Vou ligar para o celular dele.
Hall, em pânico, disse: — Acabei de encontrá-lo em cima da mesa dele.
— Garoto babaca e burro. Tudo bem, se ele ligar, diga lhe para entrar em contato comigo.
Por ser um major da reserva, Paul Rashid tinha o direito de usar uniforme em ocasiões solenes e, enquanto ele vestia o manto e colocava os botões da Guarda de Granadeiros diante do espelho da penteadeira, as medalhas pareciam um espetáculo à parte. Ele pegou o quepe e saiu.
A parte central do segundo andar de Dauncey Place abrigava a galeria circular dos menestréis. Todas as salas levavam a ela. Uma escada descia para o Grande Salão, e outra, em espiral, levava ao alto da torre do sino, acabando no terraço da velha mansão. Paul ajeitou o quepe e desceu a escada, encontrando Kate próxima à lareira. Betty Moody estava perto dela, trajando um vestido negro.
Betty aproximou-se e beijou o rosto dele. — Ah, Paul... Você está realmente maravilhoso.
— Bem, é o mínimo que eu podia fazer pelos rapazes.
O Primeiro Regimento de Paraquedistas queria mandar uma guarda de honra e um corneteiro, em homenagem a George. Mas, como lhe disse antes, eu e Kate queremos algo mais íntimo desta vez.
— Só vim para verificar os últimos acertos. O bufê no pub está pronto para ser servido, assim como o champanha. Vocês vão servir champanha, não vão?
— Nós vamos celebrar a vida deles — disse Rashid.
— Mas e mais tarde? Você disse que não queria ninguém na casa, nem mesmo os empregados.
— Eu e Kate sairemos do bufê cedo, depois de cumprimentar a todos. Nós queremos descansar, ficar a sós.
— Claro. Estou indo. Vejo-os mais tarde.
Ela saiu e a grande porta fechou-se com um ruído metálico. Kate usava um tailleur preto, um colar de ouro em volta do pescoço e brincos de diamantes.
— Você está muito bonita — disse ele.
— E você está maravilhoso. Parece um verdadeiro herói.
— Gostaria de acreditar nisso, irmãzinha. Vamos? Eles entraram no Range Rover, que estava junto aos estábulos. Kate estava ao volante. Desceram o longo caminho que levava até a estrada, viraram em direção à aldeia e, chegando lá, estacionaram no gramado. Já havia alguns veículos.
Ambos saíram do carro e foram até a porta do Dauncey Arms, passando pelo Jaguar estacionado, com Joe Baxter encostado nele, uniformizado. Havia várias pessoas no salão do bar, a grande maioria de moradores da região. Dillon e Billy também estavam lá, de pé, próximos à lareira, trajando seus ternos pretos e casacos.
Kate soltou um longo suspiro. — Ele veio.
— Você achava que ele não viria? — Rashid atravessou o salão de mãos dadas com ela, agradecendo às pessoas por terem comparecido.
— Estou feliz que você tenha vindo, Dillon.
— Um espetáculo e tanto — disse Dillon.
— Fico feliz que você tenha gostado. Adorei seu casaco. Surpreendente o que dá para esconder dentro desses bolsos enormes. E foi muito gentil da sua parte ter trazido seu amigo com você até aqui.
— O que pretende fazer, dar o troco por causa do que aconteceu em Rama? Fazer comigo o que fez com Bronsby?
Billy balançou a cabeça. — Quero só ver você tentar, só isso.
— Vamos, Paul — Kate disse. Betty aproximou-se, fazendo uma careta.
— Algum problema?
— De forma alguma. Esses cavalheiros são amigos meus. — Rashid sorriu. — Teremos um bufê com champanha depois do enterro. — Betty virou-se para o outro lado. — E em seguida eu os esperarei em Dauncey Place, se vocês me concederem essa gentileza.
— Bem, certamente o prazer será todo meu — Billy disse.
— Ótimo. Esperarei ansiosamente. Vamos, Kate. — E eles se viraram e saíram.
As pessoas começaram a entrar na igreja às 11 horas da manhã. Dessa vez, apenas algumas limusines encontravam-se na entrada. Muito diferente dos enterros do velho conde e de lady Kate. Do modo como Rashid organizou as coisas, as pessoas importantes e famosas acabaram não sendo convidadas, ainda que, como da vez anterior, um dos mais importantes imãs de Londres tivesse concordado em comparecer ao lado do prior, uma liberalidade com a religião islâmica que nem sempre agradava aos não-muçulmanos.
Dillon entrou com Billy. Algumas pessoas estavam se sentando, enquanto outras circulavam de um lado para o outro, examinando as esculturas de mármore dos antepassados dos Rashid. Billy estava na frente, misturando-se com as pessoas. Subitamente ele parou e fez um sinal para Dillon.
— Olhe esse babaca, sir Paul Dauncey. Diz aqui que ele morreu em 1510.
— Ele foi o primeiro Paul da dinastia — disse Dillon. — O que lutou ao lado de Ricardo III em Boswonh, um dia ruim para eles. Ele fugiu para a França e o novo rei, Henrique Tudor, o perdoou.
— Como é que você sabe disso tudo?
— Eu fiz uma pesquisa, Billy. Está tudo no Debrett's a bíblia da aristocracia inglesa.
Billy baixou os olhos para ver sir Paul Dauncey.
— Ele até mesmo se parece com Rashid.
— Esse tipo de coisa acontece nas famílias, Billy.
— Só digo uma coisa, ele parece um canalha durão.
— Ele se parece com um guerreiro, Billy, e é exatamente o que ele foi. — Ele deu de ombros. — E é o que Rashid também é. Para dizer a verdade, é o que você também é. Lembra-se de algo que eu disse, certa vez, para você? Há homens de temperamento mais forte que se encarregam das coisas que as pessoas comuns não poderiam fazer. Normalmente, estes são os soldados, de uma forma ou de outra.
— Como você e eu.
— Algo do gênero. — Dillon sorriu. — Agora vamos lá para os fundos da igreja.
A congregação sentou-se, o órgão começou a tocar e o major Paul Rashid, conde de Loch Dhu, e lady Kate Rashid entraram pela porta principal, seguidos pelos agentes funerários que carregavam os dois caixões, um atrás do outro. Cada um estava coberto com uma bandeira da Inglaterra. Em cima do caixão de George estava a boina vermelha de Paraquedista, e sobre o de Michael, o quepe que ele havia usado quando se formou em Sandhurst. Sobre os dois caixões foram colocadas jambyias cerimoniais dos chefes tribais Rashid. O prior havia surgido da sacristia, seguido pelo imã.
Houve um silêncio. O prior disse: — Estamos aqui para celebrar a vida de dois jovens.
George e Michael são Rashid, mas também são Dauncey, uma linhagem de sangue que está ligada à nossa aldeia, que carrega o nome deles desde o século quinze.
A cerimônia havia começado.
Chovia quando, mais tarde, os caixões foram levados para o mausoléu da família. A congregação seguiu adiante. Um agente funerário carregava um enorme guarda-chuva preto sobre Rashid e Kate. Baxter havia estacionado o Jaguar no portão da igreja. Billy correu até ele e voltou com um guarda-chuva.
— Meu Deus, eu nunca vi tantos guarda-chuvas juntos. — É a vida imitando a arte. Não me importaria de fu mar um cigarro e tomar uma dose dupla de Bushmills, nesta ordem.
— Isso significa que iremos ao tal bufê no pub?
— Por que não? Quem está na chuva é para se molhar. Ele virou-se e saiu andando. Billy seguiu-o.
Joe Baxter saiu do Jaguar.
— Vamos a pé. Espere-nos perto do gramado, Joe — disse Dillon.
Baxter olhou para Billy. — É ele quem manda, faça o que ele diz.
— Certo, Billy.
Ele entrou no carro e partiu enquanto Dillon acendia um cigarro. — Não estamos armados ainda — disse Billy.
— Haverá tempo para isso, Billy, muito tempo. Vamos dar uma caminhada. — Eles partiram em direção ao gramado, com Billy segurando o guarda-chuva para ambos.
Em Londres, Harry Salter ligou para Sam Hall mas teve dificuldades para encontrá-lo. Uma jovem secretária informou-lhe que Sam estava cuidando de uma entrega no rio. Na verdade, Sam estava se escondendo.
Inteiramente frustrado, Harry se vestiu e disse para Dora mandar o motorista trazer o carro. Ela teve que ajudá-lo, pois seu ombro ainda precisava da tipoia. Quando ela estava terminando, a enfermeira-chefe entrou.
— O senhor está se dando alta, senhor Salter?
— Não. Estou apenas indo para casa. Voltarei a hora que você quiser para fazer exames.
— Bem, o professor Bernstein está aqui no momento, dando uma olhada no general Ferguson, mas acho que não será por muito tempo.
— Você está dizendo que Ferguson está aqui?
— Exatamente.
— Mostre-me onde ele está.
Um pouco depois, Harry estava sentado na recepção, bastante irritado. Uma porta se abriu e Ferguson surgiu, acompanhado por Arnold Bernstein, que segurava sua pasta.
— Meu Deus, Harry — exclamou Ferguson.
— Não venha com esse papo de "Meu Deus, Harry", seu velho bêbado.
— Não me lembro de ter dito que já podia sair da cama, senhor Salter — disse Bernstein.
— Bem, eu saí e estou indo embora. Assinarei qualquer documento que quiser, mas preciso falar por um momento com esse todo-poderoso aí.
— Meu Deus, mais problemas? — Bernstein suspirou. — Vou ver a minha filha. Volto em breve e peço-lhe encarecidamente que siga o meu conselho. Você pelo menos tem de tomar os remédios adequados.
Ele saiu e Harry partiu para cima de Ferguson.
— Você é um canalha por deixar prenderem o Dillon.
— De que diabos está falando?
— Billy contou ontem à noite. Você mandou a Divisão Especial prendê-lo, valendo-se dos antigos arquivos que provavam a participação dele no IRA. Arquivos que você tinha prometido apagar. E trancou-o no presídio West End Central para que ele não fosse ao enterro dos Dauncey e confrontasse Rashid.
— Eu dei uma ordem a Dillon para que ele não fosse. Ele não quis me escutar. Você está me dizendo que Billy contou isso a você?
— Exatamente.
— Onde está ele? Ligue para ele agora.
— Bem, ele não está disponível. Um serviço em Southampton. — Um olhar aterrorizado tomou conta de seu rosto. — Deus do céu... Ele mentiu para mim. Dillon foi para lá.
— E acho que você logo descobrirá que Billy também foi, para dar-lhe cobertura. É a única explicação plausível para seu desaparecimento.
— Sabia que ele queria ir e falei que eu também iria.
— Bem, isso explica muita coisa. Você já apanhou bastante. Ele queria deixá-lo fora dessa. Sabe, um confronto com Rashid provavelmente será como um faroeste italiano.
— E você está deixando isso acontecer? Você é muito pior do que eu.
— Devido às nossas relações ao longo dos últimos anos, eu realmente mandei investigá-lo — disse Ferguson. — Em seus dias de imperador, como um dos mais importantes chefões, acho que esse é o termo que vocês usam, você lutou contra os irmãos Corelli e três deles sumiram do mapa. Em seguida veio Jack Hedley, aquele que chamavam de Jack Maluco. Foi encontrado num beco perto da Brewer Street. Posso relembrar outros casos.
— Tudo bem — disse Harry. — Mas foram casos de negócios. Só fiz essas coisas em nome dos negócios. Nunca explorei a prostituição nem trafiquei drogas.
— Eu sei, Harry, você apenas matou pessoas que se meteram com você. Eu faço o mesmo, ou arranjo alguém que o faça para mim. Sempre há um bom motivo. É o meu trabalho, Harry, o meu negócio.
— Aonde você quer chegar, então?
— Já aguentei Rashid o bastante. Nem preciso falar sobre isso. Você sabe as coisas que ele fez. Seus dois irmãos morreram, graças a Dillon. Bell e seus comparsas foram varridos. Só sobrou Rashid, e ele vai ter que morrer também.
— Mas você não queria que Dillon fosse lá para aquele enterro e enfrentasse o desafio de Rashid.
— O que posso dizer? Sou um mentiroso, Harry. Eu pressionei Dillon um pouco, mas sabia que ele iria de qualquer jeito. Portanto, se ele acabar com Rashid da forma adequada, não ficarei nem um pouco chateado. Sabe, Dillon é um homem extraordinário não apenas pelos diversos dons, pela inteligência e pelo fato de ele matar pessoas sem ter remorso.
— O que você deixou de fora dessa lista?
— Para ele pouco importa viver ou morrer.
— Isso é esplêndido, me deixa muito mais tranquilo, e imagino que meu sobrinho irá pelo mesmo caminho.
— Seu sobrinho era, para usar uma gíria do submundo londrino, o bom vilão. O envolvimento com Dillon, ao longo dos últimos anos, deu um sentido para a vida dele. Ele também é muito inteligente.
— Certo, eu sei disso, mas o que faremos?
Ferguson deu uma olhada no relógio.
— A cerimônia começou às onze e meia. Haverá um bufê em seguida no Dauncey Arms, basicamente para os moradores da região. Como já é meio-dia e meia, não imagino que haja nada que possamos fazer, a não ser confiar em Dillon.
— E em Billy?
— É claro, e em Billy.
Bernstein voltou. — Então, o senhor ainda está planejando ir embora, senhor Salter?
— Tenho que ir.
— Tudo bem. Venha comigo até o balcão da recepção e lhe darei os antibióticos necessários, mas faço questão de ver vocês dois em meu consultório, na Harley Street, amanhã de manhã às dez horas. Cuidarei de vocês lá.
As pessoas comiam e tomavam champanha no Dauncey Arms, com Betty Moody supervisionando tudo incansavelmente. Dillon e Billy uniram-se a eles, comeram salada, salmão defumado e batatas frescas. Billy, como sempre, tomou somente água. Dillon experimentou o champanha mas rejeitou-o, por ser de qualidade inferior.
Uma jovem debruçou-se sobre o balcão.
— Você é o senhor Dillon?
— Isso mesmo, querida.
— Esta garrafa de champanha é para o senhor. — Ela levantou a garrafa. — Cristal.
— O melhor — disse Dillon. — Mas quem será que me ofereceria algo assim?
— O conde, é claro, senhor.
Enquanto ela tirava a rolha da garrafa, Dillon olhou em volta do salão. Não havia sinal algum de Rashid. A garota encheu a taça, ofereceu uma a Billy, que fez um sinal negativo com a mão.
— Pelo visto, o conde não está aqui. — Dillon virou a taça com um longo gole.
A garota parecia espantada.
— Estranho, senhor. Ele estava perto da lareira com lady Kate.
— Ele disse mais alguma coisa?
— Ah, sim... Ele disse que se você for visitá-lo, ele lhe oferecerá mais champanha.
— Muito simpático da parte dele.
— Mais uma taça, senhor?
— Não, obrigado. Tomarei uma dose dupla de uísque Bushmills. Pode ser a última. Sem água.
Ela trouxe a dose. Betty Moody aproximou-se, vindo da cozinha. O rosto inchado de tanto chorar. Dillon levantou o copo.
— Um dia terrível para você, senhora Moody.
— Para todos nós.
— Echaim — disse ele e virou a dose de Bushmills.
— Echaim? O que é isso?
— Um brinde em hebraico. Quer dizer "à vida". — Ele colocou o copo no balcão e virou-se para Billy. — Temos que ir — e saiu andando na frente.
Dauncey Place estava em silêncio quando Paul Rashid e sua irmã passaram pela enorme porta e entraram no Grande Salão. Conforme ele havia planejado, não havia nenhum empregado: o lugar era todo deles. A lenha queimava na lareira e, na mesa central, havia um balde de gelo, uma garrafa de Bollinger e quatro taças. Ele ajudou Kate a tirar sua capa de chuva e em seguida foi abrir a garrafa de champanha.
— Por que quatro taças? — perguntou ela.
— Uma para Dillon e a outra para Billy Salter. — Ele serviu o champanha. — Eles virão, e sou um anfitrião educado, tanto pelo lado Rashid quanto pelo lado Dauncey. Ele entregou uma taça para ela e levantou a sua. — À nossa, irmãzinha, a George e a Michael, e a Dillon.
Ela tomou um gole.
— Você não o odeia. — Tratava-se de uma declaração, não de uma pergunta.
Ele deu de ombros.
— Kate, nosso pai era um soldado e se arriscava como tal. Sean Dillon é um soldado, eu ainda sou um soldado, George se arriscou como um soldado em Hazar, Michael em Wapping. Em todas essas vezes, Dillon correu os mesmos riscos.
— Você realmente acredita nisso?
— Claro. — Ele levantou a taça. — De Paul Rashid para Sean Dillon, de um homem corajoso para outro.
— Você realmente quer fazer isso, irmão?
Ele encheu sua taça novamente.
— Minha querida, já fiz de tudo na vida, arrisquei-a na linha de fogo e também fiz fortuna, mas, no fim das contas, gastar dinheiro não basta.
— Então, o que realmente o atrai?
— Bem, imagino que Dillon diria que é o jogo.
— E você também tem a mesma opinião?
Ele virou a taça e riu alto.
— Ah, Kate, é claro, trata-se do único jogo que importa. O fogo estalava na lareira, quebrando o silêncio. Ela olhou em volta do Grande Salão.
— Tudo o que nós sempre fomos como Dauncey.
— A expressão certa é "todo o nosso passado".
— O que vai acontecer agora?
— Dillon virá com Billy Salter.
— E o que você fará?
— Vou enfrentá-los, Kate, uma ideia muito mais excitante do que ganhar mais um bilhão de libras.
Houve uma longa pausa e ela suspirou.
— Você ainda não me respondeu, Paul.
Perto do balde de champanha, havia dois pequenos transmissores. Ele pegou um.
— Isto é muito simples. Aperte o botão vermelho e você poderá falar comigo.
— Mas por quê?
Ele sorriu. — Eu explicarei, mas primeiro você tem de tomar uma última taça comigo.
— Não gosto disso. É como se você estivesse se despedindo de mim.
— De jeito nenhum, querida. Nós estaremos sempre juntos, sempre.
Dillon e Billy encontraram Baxter e foram no Jaguar até Dauncey Place, estacionando ao lado dos estábulos. Eles saíram do carro, Baxter abriu o porta-malas e Dillon abriu o zíper da mala de armas. Ele retirou duas Walthers, prendeu uma no cinto, na parte de trás da calça, dando a outra para Billy.
— Só isso? — perguntou Billy.
— Não. — Dillon retirou duas submetralhadoras Parker-Hales. — Como fizemos em Rama. — Ele colocou uma no bolso esquerdo do casaco.
— Então, como vai ser? — perguntou Billy.
— A não ser que tenha trazido reforços, ele deve estar lá dentro sozinho com a irmã. Mas acho que ela não fará nada. — Como é que você sabe?
— Apenas intuição.
— Então, batemos na porta da frente?
— Talvez esteja aberta. Vamos ver. Venha conosco, Joe, e traga a sua Browning.
Os três subiram os degraus até a grande porta cercada por pilares. Dillon tentou a maçaneta esculpida, uma argola saindo da boca de um leão. A porta abriu-se alguns centímetros e ele a fechou.
— Um convite muito óbvio. Vamos pelo terraço. Exatamente como Rashid havia previsto. Eles passaram na frente das grandes janelas de vidro da biblioteca. Uma delas estava aberta.
— Pelo visto ele facilitou as coisas para nós.
Lá dentro, entre cortinas bordadas, havia um armário de livros, o tipo de móvel geralmente pintado em estilo italiano do século XVII, que normalmente era usado como esconderijo. Ele estava entreaberto e Kate escondia-se dentro dele.
— E agora? — perguntou Billy.
— Vou pela porta da frente, você vai por aqui, mas vê se não atira em mim sem querer. — Dillon virou-se para Baxter. — Você vai pela porta dos fundos. Dê três tiros para o alto com a Browning sem o silenciador para ter certeza de que ele os ouvirá.
— E para que pense que nós estamos entrando por lá? Isso nunca vai colar — disse Billy.
— Sei disso, mas é minha melhor ideia. Billy, temos que ver o que Rashid pretende. — Ele virou-se para Baxter. Vá em frente, nós entraremos logo em seguida. Vejo você mais tarde, Billy.
— No inferno — retrucou Billy.
— Sem chance. Uma garrafa de champanha para mim e picadinho irlandês para nós dois no Dark Man. — E Dillon partiu.
— O que está acontecendo? — Ela lhe contou.
— Ótimo. Vou conduzi-lo até a torre do sino, e enfrentá-lo no terraço dos anjos. Fique fora disso.
Ele desligou. Lá em cima, na galeria dos menestréis, ele posicionou-se na balaustrada, armado com umAK-47 munido de silenciador e com a coronha dobrada. Ele ainda estava com o uniforme, mas sem o quepe. Ele aguardou.
Os tiros ecoaram pelo castelo, Baxter correu, Billy empurrou a janela e entrou. Na porta da frente, Dillon virou a maçaneta com a cabeça de leão e entrou.
O saguão estava tomado pelas sombras e as chamas da lareira criavam estranhos reflexos. Dillon estava atrás das cadeiras da enorme mesa de jantar. Rashid viu-o por um instante mas não atirou.
— Ei, Dillon. Por que está usando esse casaco tão grande? Tem uma submetralhadora escondida no bolso? Dillon agachou-se com a Walther na mão. — Posso vê-lo com meu visor infravermelho. Estou aqui em cima, na galeria dos menestréis. Suba a escada principal, depois passe pelo que nós chamamos de arco azul e suba a escada em espiral até o topo da torre do sino. O terraço dos anjos fica no fim dessa escada. Esperarei por você lá, se você tiver coragem de subir. Se vai precisar de uma Parker-Hale, pouco me importa, mas uma Walther é o suficiente, ou nossos punhos.
Ele riu e a porta da biblioteca abriu-se com um estalo.
Billy sussurrou: — Você está aí, Dillon?
Usando o visor infravermelho, Rashid mirou no peito e deu dois tiros. Dillon reconheceu o inconfundível estalo seco de um AK-47 com silenciador. Billy foi jogado para trás.
Tendo ouvido tudo, Kate fechou a porta do armário e chamou o irmão. Ele respondeu imediatamente.
— Um a menos — gritou Rashid, o riso sumindo.
Dillon rastejou até Billy, que estava gemendo, esforçando-se para respirar. Dillon rasgou-lhe a camisa, apalpou o colete de titânio e encontrou as duas balas.
— Fique tranquilo — sussurrou ele —, você teve um choque traumático no sistema cardiovascular, mas o colete impediu que a bala penetrasse. Compre ações da Wilkinson Sword Company.
Billy falou com a respiração entrecortada: — Vou fazer isso.
— Aguente até sua respiração voltar ao normal. Vou subir a torre do sino atrás dele.
Billy ficou deitado, tentando estabilizar a respiração. A porta da biblioteca abriu novamente com o mesmo estalo. Lady Kate Rashid olhou de soslaio para ele, em seguida atravessou a sala correndo e subiu a grande escada, atrás de Dillon.
Ele se levantou, tirou o casaco e largou-o com a Parker Hale. Quando atravessou a sala e subiu a escada, sua única arma era a Walther na mão direita.
Dillon não tomou nenhuma precaução especial ao subir a escada em espiral da torre do sino. Rashid queria encontrar-se com ele lá em cima, queria enfrentá-lo face a face, esse era um aspecto essencial do jogo. Ao lado da porta, no topo, havia uma janela estreita. Ele olhou através dela. Tratava-se, obviamente, do terraço dos anjos.
Dillon abriu a porta, ficou de costas para a parede e olhou para fora. A chuva tinha aumentado para o que poderia ser descrito como uma tempestade tropical. Havia um corrimão em curva e, do outro lado, mais abaixo, um telhado no velho estilo, feito de folhas de chumbo, que dava para um parapeito que parecia ter uns trinta centímetros de granito se estendia para fora, mas não havia nenhum sinal de Rashid.
Atrás dele, embora ele não o soubesse, Kate Rashid subia os degraus. Dillon respirou fundo e saiu na chuva, a mão estendida com a Walther. Nada. Ele respirou novamente. Vindo do alto, do topo da cobertura que ficava acima da porta, Paul Rashid pulou sobre ele, fazendo com que ele caísse no chão de joelhos. Algo atingiu o pulso direito de Dillon, fazendo com que ele deixasse a Walther cair. Dillon ergueu o cotovelo, golpeando o rosto de Rashid, e conseguiu se levantar. Ele se virou e Rashid ficou cara a cara com ele, o magnífico uniforme encharcado pela chuva.
— Então, meu amigo, finalmente...
Ele se jogou contra Dillon. O peito de um chocou-se contra o do outro. Atrás, a porta se abriu e Kate Rashid surgiu. Ela gritou no momento em que o peso maior de Rashid jogava Dillon contra o corrimão. Houve um momento de luta, em seguida ambos caíram nas folhas de chumbo do telhado, cada um escorregando para um lado.
A chuva torrencial havia transformado o metal molhado numa superfície quase tão escorregadia quanto o gelo. Rashid deslizou pelo telhado e ficou pendurado no parapeito de granito.
Dillon teve mais sorte, conseguindo manter-se sobre o parapeito.
Ele se aproximou de Rashid e estendeu a mão.
— Venha.
— Vá para o inferno.
Lá embaixo, Joe Baxter e Billy olhavam para cima. — Pelo amor de Deus — disse Dillon —, pegue a minha mão e vamos discutir isso depois.
— Não, vá para o inferno.
Houve um grito e Kate Rashid surgiu acima deles.
— Não, Paul. — Ela passou por baixo do corrimão e deslizou pelo declive molhado de metal, apoiando os pés sobre o parapeito. Rashid não aguentava mais. Ela se apoiou e conseguiu agarrar-lhe a mão esquerda.
— Vamos, Paul, segure firme na minha mão. — Ele fez isso por um momento, mas seu peso arrastou Kate para a frente, fazendo com que ela quase caísse de cabeça do parapeito.
Ele sorriu para ela, um sorriso de amor, compreensão e uma estranha espécie de dignidade, que a perseguiria pelo resto da vida.
— Ei, irmãzinha, já chega. Não quero que você morra também.
Ele soltou a mão dela e caiu quase que flutuando, virando-se uma vez durante a queda, em pleno ar, antes de bater no terraço abaixo, ao lado de Billy e Baxter.
Ela não gritou; ficou estática. Era como se a possibilidade de reagir tivesse morrido para sempre, tal havia sido o choque. Dillon pegou-lhe a mão direita e procurou, com a outra, agarrar a primeira fileira de chapas de chumbo.
— Vamos. — Por um momento ela hesitou e ele tentou novamente. — Vamos, a não ser que você queira cair também.
Algo saiu de dentro dela, na forma de um suspiro horrorizado, e ele estendeu a mão novamente, conseguindo alcançar o corrimão.
Ela afastou-se rispidamente dele e correu pelas escadas em direção ao Grande Salão. Dillon apanhou seu casaco e foi atrás dela. Lá embaixo, no terraço, Dillon a encontrou ajoelhada ao lado do irmão e cobriu-a com o casaco. Billy, levemente confuso, e Baxter estavam de pé ao seu lado. Ela olhou para cima, o rosto incrivelmente calmo.
— Ele está morto. Você matou todos eles, Dillon, todos os meus irmãos.
— Sinto muito. — Foi a resposta instintiva, vazia e estúpida.
— Vá embora.
— Pelo amor de Deus, garota.
— Este problema é meu, Dillon. Vá embora, você e seus amigos. Lidarei com você num momento mais apropriado.
Dillon hesitou, em seguida fez um aceno com a cabeça para Baxter e Billy.
— Vamos embora.
Eles entraram no Jaguar, Baxter deu a partida. Dillon virou-se e olhou para trás. Ela ainda estava ajoelhada.
— Você está bem, Billy? — perguntou Dillon.
— Morrendo de dor. O que aconteceu lá em cima?
— No fim das contas, foi um combate face a face. Nós caímos por cima do corrimão, deslizamos pelo telhado e ele ficou pendurado. Ofereci-lhe minha mão quando ainda estava agarrado ao parapeito, mas ele não aceitou. Ela veio atrás de nós e também alcançou a mão dele. Mas ele se jogou porque achou que ela também cairia. — Quando Dillon acendeu um cigarro, sua mão tremia. — Ele disse: "Ei, irmãzinha, já chega. Não quero que você morra também."
— Meu Deus — disse Billy. — O que ela quis dizer com "lidarei com você num momento mais apropriado"?
— Simples, Billy. Isso quer dizer que ainda não acabou. Agora acho melhor ligar para Ferguson — e ele apanhou o telefone celular.
EPÍLOGO
LONDRES
Para o mundo em geral e para a mídia em particular, tratava-se de uma história sensacional. No dia de uma grande tristeza familiar, no dia do enterro de seus dois irmãos, Paul Rashid, conde de Loch Dhu e um dos homens mais ricos do mundo, caiu do terraço da torre do sino na antiga casa da família.
A história que sua irmã contou foi simples. Depois de saírem da recepção que se seguiu ao enterro, Paul Rashid estava atormentado. Ele quis ficar sozinho e subiu até o topo da torre do sino, um de seus lugares favoritos. Os boatos foram abafados, sendo os Rashid quem eram. Além do mais, eles tinham grande participação acionária em jornais e redes de televisão. A maior parte dos jornais falava em um acidente trágico, evitando ao máximo falar em suicídio.
Uma história comentada por todos foi a do funeral de Paul Rashid. Todos os jornais a contaram. Foi uma cerimônia simples; nem mesmo os moradores de Dauncey foram convidados. Um imã de Londres uniu-se ao prior e somente Kate Rashid compareceu ao enterro. Como sempre, a mídia errou, pois havia mais alguém presente.
Sean Dillon não entrou na igreja para a cerimônia. Ele permaneceu sentado no Jaguar, com Billy, esperando.
— Está chovendo novamente — comentou Billy.
— Aqui chove quase o tempo todo — retrucou Dillon.
O cortejo saiu da igreja, Kate Rashid, agora condessa de Loch Dhu, seguindo atrás do caixão. Dillon saiu do Jaguar. — Você quer o guarda-chuva? — perguntou Billy.
— Um pouco de chuva não faz mal a ninguém, Billy.
Dillon deixou que eles chegassem até o mausoléu da família Dauncey esperando ao lado do adro enquanto o prior e o imã faziam suas orações. O estranho era que Kate Rashid estava sem guarda-chuva, e não havia ninguém segurando um para ela, que estava de pé na chuva, vestida de preto como de costume, cobrindo-se apenas com uma capa de chuva preta, enquanto o caixão era colocado na cova. O prior e o imã trocaram um aperto de mãos e os agentes funerários se afastaram.
Ela virou-se e começou a andar, caminhando pelo adro em direção ao portão onde Dillon se encontrava. Era como se se movimentasse em câmara lenta. Estava completamente só, o chapéu escuro escondendo o rosto, nenhuma emoção à mostra, nem mesmo quando ela se aproximou de Dillon. Era como se ele não estivesse lá... Mais do que isso, era como se ele nem existisse. Ela passou tão perto que seu casaco quase tocou nele. Ela atravessou o portão e seguiu a estrada em direção a Dauncey Place. Dillon ficou olhando enquanto Kate se afastava, em seguida entrou no Jaguar.
— Vamos voltar para Londres.
Billy ligou o motor e partiu. — Então está tudo acabado?
— Creio que não.
Na noite de sexta-feira daquela mesma semana, Harry, Billy, Ferguson e Dillon encontraram-se no piano-bar do Dorchester. Harry ainda estava usando tipoia e Ferguson parecia bem, sem nenhum sinal do braço quebrado. Dillon aproximou-se do piano, acendeu um cigarro e começou a tocar, dedilhando algumas canções clássicas. Ele notou que ela havia entrado no salão, mas não demonstrou isso, continuando a tocar.
Ela se debruçou sobre o piano.
— Gosto desta, Dillon. A Foggy Day in London Town. — Do filme Dama em perigo, com Fred Astaire.
— Já vi esse filme. Joan Fontaine estava terrível, mas você é bom, muito bom em tudo o que faz.
Sentados na mesa do canto, Ferguson e os Salters conseguiram ouvir toda a conversa. Dillon tirou um Marlboro e acendeu-o com seu velho isqueiro Zippo.
— O que você quer, Kate?
— Não apenas a sua cabeça, Dillon, mas também a dos seus amigos.
Ela virou-se para os outros e ficou de pé, vestida com o tradicional tailleur preto, a única diferença era que este parecia ter custado pelo menos três mil libras na Armani. Os cabelos negros estavam com um corte magnífico, descendo até os ombros, e, pela primeira vez, ela estava coberta de joias. Estava maravilhosa, não apenas incrivelmente bonita, mas parecia ter força e poder.
— A rainha de Sheba — disse Dillon suavemente.
— É mesmo? — Ela sorriu.
— E não se trata apenas de seus antepassados árabes. Naquela igreja há esposas da dinastia Dauncey, esculpidas em mármore, de muito tempo atrás, que têm o mesmo olhar.
— Você não poderia ter feito um elogio melhor.
Dillon deslizou do piano e juntou-se ao grupo.
— Condessa Loch Dhu — disse Ferguson num tom formal e todos se levantaram.
— Sentem-se, cavalheiros. — Eles relaxaram. — Pensei que vocês quisessem saber as notícias de hoje em primeira mão. As empresas americanas e russas chegaram a um acordo com a Rashid Investments para explorar petróleo em Hazar e no Território Desocupado. Houve uma forte alta na Bolsa de Valores. Trata-se de uma empresa familiar da qual eu sou a presidente executiva. — Ela sorriu. — Fortes altas em Nova York e em Londres. Nós pulamos para os sete bilhões de libras. Meus contadores me dizem que isso me transforma na mulher mais rica do mundo.
Ferguson forçou um sorriso. — Excelente, minha querida.
— Tinha certeza de que você pensaria assim, general.
Houve um silêncio.
— Desembuche, Kate — disse Dillon.
Ela virou-se e sorriu. — Desculpe, Dillon. Eu apenas queria dizer que pretendo destruir todos vocês. Acho que você entende, é o meu sangue árabe. Eu tinha três irmãos, agora estou sozinha.
— E como pretende fazer isso? — perguntou ele cordialmente.
— Isso pouco importa. Acredito no velho ditado que diz que a vingança é um prato que se come frio. Não tenho pressa. — Ela sorriu novamente. — Mas isso deixa vocês, cavalheiros, no limite do perigo. Quando vocês ligarem o carro, será que ele explodirá? Os passos na escuridão serão os de um assassino?
— Faça como quiser, meu bem — disse Harry Salter. — Pessoas tentaram me matar nos últimos quarenta anos.
— Obrigado por nos avisar — falou Ferguson. — Muito civilizado da sua parte.
Ela sorriu para Dillon. — Não se esqueça, Sean, e lembre-se do lema da família Dauncey: “Eu sempre volto.”
Ela partiu, incrivelmente bela, a mais perfeita tradução da elegância.
Dillon observou-a ir-se e disse suavemente: — Ah, garota, eu nunca vou esquecê-la.
Jack Higgins
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