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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NOME DE CÓDIGO / Ken Follet
NOME DE CÓDIGO / Ken Follet

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NOME DE CÓDIGO

 

O PRIMEIRO DIA

Domingo, 28 de Maio de 1944

Um minuto antes da explosão a praça em Sainte-Cécile encontrava-se tranquila. A tarde estava quente e uma camada de ar parado cobria a aldeia como um cobertor. O sino da igreja tocava preguiçosamente, chamando os fiéis para a missa com pouco entusiasmo. Felicity Clairet achou que o som parecia uma contagem decrescente.

 

A praça era dominada pelo castelo do século xv. Uma pequena versão de Versailles, tinha uma monumental entrada projectada e alas de ambos os lados que faziam ângulos rectos e desapareciam para trás. Havia uma cave e dois andares cobertos por um telhado alto com águas-furtadas.

 

Felicity, a quem chamavam sempre Flick, amava a França. Gostava dos seus edifícios graciosos, do clima ameno, dos almoços demorados, do povo culto. Gostava de quadros franceses, de literatura francesa e de roupas francesas elegantes. Os visitantes consideravam frequentemente os Franceses pouco amistosos, mas Flick falava a língua desde os seis anos e ninguém percebia que ela era estrangeira.

 

Irritava-a o facto de a França que ela amava já não existir. Não havia comida suficiente para almoços demorados, os quadros tinham sido todos roubados pelos nazis e só as prostitutas usavam roupas bonitas. Como a maior parte das mulheres, Flick envergava um vestido informe cujas cores há muito haviam desbotado. O seu maior desejo era que a verdadeira França regressasse. Isso poderia acontecer em breve se ela e pessoas como ela fizessem aquilo que tinham a fazer.

 

Podia não viver para ver isso aliás, podia não sobreviver aos minutos seguintes. Não era fatalista; desejava viver. Planeava fazer uma centena de coisas depois de a guerra terminar: acabar o doutoramento, ter um filho, ver Nova Iorque, comprar um carro desportivo, beber champanhe na praia de Cannes. Mas se estivesse prestes a morrer, agradava-lhe passar os últimos minutos numa praça soalheira, a olhar para um bonito edifício antigo, com os sons cadenciados da língua francesa nos ouvidos.

 

O castelo fora construído para alojar a aristocracia local, mas o último conde de Sainte-Cécile perdera a cabeça na guilhotina em

1793. Os jardins há muito que haviam sido transformados em vinhas, pois aquela era uma região vinícola, o coração do distrito de Champagne. O castelo albergava agora uma importante central telefónica, localizada ali porque o ministro responsável nascera em Sainte-Cécile.

 

Quando os Alemães chegaram aumentaram a central para permitir a ligação entre o sistema francês e o novo cabo para a Alemanha. Também havia um quartel da Gestapo no castelo, com escritórios nos andares de cima e celas na cave.

 

Há quatro semanas o castelo fora bombardeado pelos Aliados. Aquela precisão nos bombardeamentos era recente. Os pesados Lancasters e Flying Fortresses de quatro motores que rugiam nos céus da Europa todas as noites eram pouco precisos. Às vezes falhavam por completo uma cidade mas a última geração de bombardeiros, os Lightnings e os Thunderbolts, apareciam sorrateiramente durante o dia e atingiam um alvo pequeno, uma ponte ou uma estação de caminho-de-ferro. A maior parte da ala oeste do castelo era agora uma pilha de tijolos vermelhos irregulares do século xvii e pedras quadradas brancas.

 

Mas o raide aéreo falhara. Decorriam as reparações e o serviço telefónico fora interrompido apenas enquanto os Alemães instalavam novas centrais. Todo o equipamento telefónico automático e os amplificadores vitais para as linhas de longa distância se encontravam na cave, que escapara aos danos.

 

Era por isso que Flick estava ali.

 

O castelo ficava situado no lado norte da praça, rodeado por um muro alto de pilares de pedra e grades de ferro, guardado por sentinelas. A leste ficava uma pequena igreja medieval, as suas antigas portas de madeira escancaradas para o ar do Verão e para a congregação que chegava. Em frente à igreja, no lado oeste da praça, ficava a câmara, dirigida por um presidente ultraconservador que tinha poucos desentendimentos com os ocupantes nazis. No lado sul havia diversas lojas e o Café des Sports. Flick encontrava-se sentada na esplanada do café, à espera que o sino acabasse de tocar. Na sua mesa estava um copo de vinho branco produzido na região, leve e claro. Ela ainda não lhe tocara.

 

Era uma oficial britânica com o posto de major. Oficialmente, pertencia à First Aid Nursing Yeomanry, o serviço feminino de enfermagem que era inevitavelmente conhecido por FANY. Mas isso era um disfarce. Na verdade, ela trabalhava para uma organização secreta, o Executivo de Operações Especiais, responsável pela sabotagem nas linhas inimigas. Aos vinte e oito anos, era uma das agentes mais velhas. Não era a primeira vez que estava perto da morte. Aprendera a viver com a ameaça e a controlar o medo, mas mesmo assim sentiu uma mão fria pousada no coração quando olhou para os capacetes de aço e para as espingardas potentes dos guardas do castelo.

 

Três anos antes, a sua maior ambição fora ser professora de Literatura Francesa numa universidade britânica, ensinar aos alunos o vigor de Hugo, a perspicácia de Flaubert, a paixão de Zola. Trabalhava no Ministério da Guerra, a traduzir documentos franceses, quando fora convocada para uma reunião misteriosa num quarto de hotel e lhe tinha sido perguntado se estava disposta a fazer uma coisa perigosa.

 

Aceitara sem pensar muito. Decorria uma guerra e todos os rapazes com quem ela estudara em Oxford arriscavam a vida diariamente; porque não poderia ela fazer o mesmo? Dois dias depois do Natal de 1941 começara o treino do EOE.

 

Seis meses mais tarde era mensageira especial, levando mensagens do quartel do EOE, no número 64 de Baker Street, em Londres, para os grupos da Resistência na França ocupada, nos tempos em que os aparelhos de telegrafia eram escassos e os seus operadores o eram ainda mais. Saltava de pára-quedas, deslocava-se com a sua identidade falsa, contactava a Resistência, transmitia-lhes as ordens e tomava nota das suas respostas, das suas queixas e dos seus pedidos de armas e munições. Para a viagem de regresso apanhava secretamente um avião, normalmente um Westland Lysander de três lugares, suficientemente pequeno para aterrar em seiscentos metros de relva.

 

Pouco depois passara de mensageira à organização de sabotagens. Quase todos os agentes do EOE eram oficiais e na teoria os seus «homens» eram a Resistência local. Na prática, a Resistência não se encontrava sob disciplina militar, e um agente tinha de merecer a sua colaboração mostrando-se duro, conhecedor e peremptório.

 

O trabalho era perigoso. Seis homens e três mulheres tinham terminado o treino com Flick e ela era a única que continuava no activo dois anos volvidos. Sabia-se que dois estavam mortos: um alvejado pela Milícia, a odiada polícia política francesa, e o outro devido à não abertura do pára-quedas. Os outros seis tinham sido capturados, interrogados e torturados e depois haviam desaparecido em campos prisionais na Alemanha. Flick sobrevivera porque era implacável, tinha reacções rápidas e era cuidadosa com a segurança quase ao ponto da paranóia.

 

Ao seu lado estava sentado o marido, Michel, líder do circuito da Resistência com o nome de código Bollinger, sedeado na cidade de Reims, a dezasseis quilómetros dali. Embora prestes a arriscar a vida, Michel encontrava-se recostado na cadeira, o tornozelo direito pousado no joelho esquerdo, e tinha na mão um copo de cerveja pálida e aguada, a única disponível em tempo de guerra. O seu sorriso despreocupado arrebatara o coração de Flick quando ela era aluna na Sorbonne e preparava uma tese sobre a ética de Molière, que depois abandonara com o início da guerra. Na altura ele era um jovem leitor de Filosofia de aspecto descontraído com uma legião de alunas que o adoravam.

 

Continuava a ser o homem mais sensual que ela conhecera. Era alto e tinha uma elegância descuidada nos seus fatos amarrotados e camisas azuis desbotadas. Usava sempre o cabelo demasiado comprido. Tinha uma voz sedutora e um intenso olhar azul que fazia com que uma rapariga se sentisse a única mulher ao cimo da terra.

 

Aquela missão dera a Flick a agradável oportunidade de passar uns dias com o marido, mas não haviam sido uns dias felizes. Não tinham propriamente discutido, mas a afeição de Michel parecera ter esmorecido, como se ele estivesse a fingir, e ela sentira-se magoada. O seu instinto disse-lhe que ele estava interessado noutra pessoa. Tinha apenas trinta e cinco anos, e o seu charme descuidado continuava a fascinar mulheres mais jovens. Também não ajudava o facto de, após o casamento, terem passado mais tempo afastados do que juntos, por causa da guerra. E havia muitas francesas receptivas, pensou ela com amargura, dentro da Resistência e fora dela.

 

Ainda o amava. Não da mesma forma: já não o idolatrava como na lua-de-mel, já não ansiava dedicar a vida a fazê-lo feliz. As névoas matinais do amor romântico haviam-se dissipado, e à luz clara da vida de casados ela apercebia-se de que ele era fútil, egocêntrico e de pouca confiança. Mas quando ele se dispunha a dedicar-se a ela, ainda conseguia fazê-la sentir-se única, bela e estimada.

 

O encanto de Michel também funcionava nos homens, e ele era um excelente líder, corajoso e carismático. Ele e Flick haviam delineado juntos o plano de batalha. Iriam atacar o castelo em duas frentes, dividindo os defensores, depois reagrupar-se-iam no interior para formar uma única força que penetraria na cave, descobriria a sala onde estava o equipamento principal e fá-lo-ia explodir.

 

Tinham uma planta do edifício fornecida por Antoinette Dupert, supervisora do grupo de mulheres locais que limpavam o castelo todas as noites. Antoinette era também tia de Michel. As mulheres da limpeza começavam a trabalhar às sete, na altura das vésperas, e Flick via naquele momento algumas delas, a mostrarem os seus passes especiais ao guarda que se encontrava junto ao portão de ferro forjado. O esboço de Antoinette indicava a entrada para a cave, mas pouco mais, pois era uma zona de acesso restrito, aberta apenas aos alemães, e limpa por soldados.

 

O plano de ataque de Michel era baseado em relatórios do MI6, os serviços secretos britânicos, que diziam que o castelo era guardado por um destacamento das Waffen-SS com três turnos, cada um com doze homens. Os funcionários da Gestapo no castelo não eram tropas de combate, e a maior parte nem sequer devia estar armada. O circuito Bollinger conseguira reunir quinze combatentes para o ataque, que se encontravam naquele momento quer entre os fiéis na igreja, quer na praça a passear, com as armas escondidas na roupa ou em sacolas e sacos. Se o MI6 estivesse certo, as pessoas da Resistência seriam em maior número que os guardas.

 

Mas uma preocupação atormentava Flick e deixava-a apreensiva. Quando ela falara a Antoinette da previsão do MI6, esta franzira o sobrolho e dissera: «Acho que eles são mais.» Antoinette não era tola. Fora secretária de Joseph Laperriére, director de uma das produtoras de champanhe, até a ocupação reduzir os seus lucros e de a mulher dele ter passado a secretária e podia estar certa. Michel fora incapaz de resolver a contradição entre a estimativa do MI6 e o cálculo de Antoinette. Vivia em Reims, e nem ele nem os seus homens conheciam bem Sainte-Cécile. Não houvera tempo para maiores reconhecimentos. Se a Resistência estivesse em minoria, pensou Flick atemorizada, não iria conseguir dominar os disciplinados soldados alemães.

 

Olhou em volta para a praça reparando nas pessoas conhecidas, aparentemente transeuntes inocentes que na realidade estavam à espera de matar ou de ser mortos. À porta da loja de tecidos, a observar uma peça de tecido verde na montra, encontrava-se Geneviève, uma rapariga alta de vinte anos com uma Sten oculta sob o casaco fino. A Sten era uma metralhadora portátil muito apreciada pela Resistência porque podia ser desmontada em três e transportada num saco pequeno. Geneviève podia perfeitamente ser a rapariga que Michel trazia debaixo de olho, mas mesmo assim Flick sentiu-se horrorizada ao pensar que ela poderia ser morta por tiros de metralhadora dali a poucos segundos. A atravessar a praça empedrada dirigindo-se à igreja ia Bertrand, ainda mais jovem, com dezassete anos, um rapaz louro de rosto ansioso e um Colt automático de calibre quarenta e cinco escondido num jornal dobrado debaixo do braço. Os Aliados tinham largado de pára-quedas milhares de Colts. Inicialmente, Flick proibira Bertrand de fazer parte da equipa por causa da sua idade, mas ele implorara para ser incluído e como ela precisava de todos os homens disponíveis acabara por aceitar. Esperava que a sua bravata juvenil resistisse após o início do tiroteio. Parado junto à porta da igreja, aparentemente a acabar de fumar o cigarro antes de entrar, estava Albert, cuja mulher dera à luz o primeiro filho, uma menina, naquela manhã. Albert tinha um motivo extra para sobreviver àquele dia. Transportava um saco de tecido que parecia estar cheio de batatas, mas que, na realidade, continha granadas de mão Mark l Mills n.” 36.

 

A cena na praça parecia normal, à excepção de um elemento. Ao lado da igreja encontrava-se estacionado um carro desportivo enorme e potente. Era um Hispano-Suiza 68 Bis de fabrico francês, com um motor V12, um dos carros mais rápidos do mundo. Era azul-celeste e tinha um radiador de prata alto e de aspecto arrogante encimado pela mascote que era uma cegonha em voo.

 

Chegara havia meia hora. O condutor, um homem atraente com cerca de quarenta anos, tinha vestido um fato de bom corte mas devia ser um oficial alemão mais ninguém teria coragem de exibir um carro daqueles. A companheira dele, uma ruiva alta e vistosa com um vestido de seda verde e sapatos altos de camurça, era demasiado chique para não ser francesa. O homem instalara uma máquina fotográfica sobre um tripé e tirava fotografias ao castelo. A mulher tinha uma expressão de desafio, como se soubesse que os habitantes locais que os observavam enquanto iam a caminho da igreja a rotulavam mentalmente de prostituta.

 

Poucos minutos antes o homem pregara um susto a Flick ao pedir-lhe que tirasse uma fotografia dele e da amiga com o castelo por trás. Falara com cortesia, com um sorriso cativante, e apenas com um ligeiro sotaque alemão. A distracção num momento crucial era absolutamente enlouquecedora, mas Flick achara que uma recusa levantaria problemas, especialmente se estava a fingir que era alguém da zona que nada melhor tinha para fazer do que estar sentada numa esplanada. Por isso reagira como a maioria dos franceses teria reagido nas mesmas circunstâncias: adoptara uma expressão de indiferença e acedera ao pedido do alemão.

Fora um momento grotescamente assustador: a agente secreta britânica atrás da máquina fotográfica; o oficial alemão e a sua amiga a sorrirem para ela, e o sino da igreja a tocar os segundos que faltavam para a explosão. Depois o oficial agradecera e oferecera-se para lhe pagar uma bebida. Ela recusara com firmeza: nenhuma francesa podia beber com um alemão a menos que estivesse preparada para ser chamada de prostituta. Ele assentira com ar compreensivo e ela regressara para junto do marido.

 

O oficial devia estar de folga e aparentava não estar armado, pelo que não oferecia perigo, mas mesmo assim incomodou Flick. Ela meditou sobre aquele sentimento durante os últimos segundos de calma e por fim chegou à conclusão de que não acreditava que ele fosse um turista. Havia uma certa vigilância nos seus modos pouco própria para quem aparentava admirar a beleza da arquitectura antiga. A mulher podia ser exactamente aquilo que aparentava, mas ele era outra coisa.

 

Antes de Flick conseguir perceber o quê, o sino calou-se.

 

Michel despejou o copo e limpou a boca às costas da mão.

 

Flick e Michel levantaram-se. Tentando aparentar um ar descontraído, dirigiram-se ao café e ficaram à porta, abrigando-se de forma discreta.

 

Dieter Franck reparara na rapariga sentada na esplanada assim que entrara na praça. Reparava sempre nas mulheres bonitas. Aquela parecera-lhe bastante sensual. Era loura de olhos verdes e provavelmente tinha sangue alemão não era pouco comum ali no Nordeste de França, tão perto da fronteira. O seu corpo pequeno e elegante encontrava-se envolto num vestido semelhante a uma saca, mas ela acrescentara um lenço amarelo-vivo de algodão barato, com um toque de elegância que ele considerava tipicamente francês. Quando lhe dirigira a palavra, notara o medo habitual nos Franceses sempre que eram abordados por um dos ocupantes alemães; mas logo a seguir vira no seu rosto bonito uma expressão de desafio mal oculta que lhe despertara o interesse.

 

Estava na companhia de um homem bem-parecido que não parecia muito interessado nela provavelmente o marido. Dieter pedira-lhe que lhe tirasse a fotografia apenas porque quisera falar com ela. Tinha mulher e dois filhos bonitos em Colónia, e partilhava o seu apartamento em Paris com Stéphanie, mas isso não o impedia de namoriscar outras mulheres. As mulheres bonitas eram como os quadros dos impressionistas franceses que ele coleccionava: ter um não o impedia de desejar ter outros.

 

As mulheres francesas eram as mais bonitas do mundo. Mas tudo o que era francês era belo: as pontes, as avenidas, os móveis, até as porcelanas. Dieter adorava clubes nocturnos parisienses, foie gras e baguetes mornas. Gostava de comprar camisas e gravatas no Charvet, o lendário chemisier em frente ao Hotel Ritz. Não se importaria de viver para sempre em Paris.

 

Não sabia onde adquirira aqueles gostos. O pai era professor de Música a única forma de arte em que os Alemães e não os franceses eram os indisputados mestres. Mas a insípida vida académica do pai parecera a Dieter insuportavelmente monótona, e ele chocara os pais ao tornar-se polícia, um dos primeiros homens formados na Alemanha a fazê-lo. Em 1939 era já director dos serviços secretos da Polícia de Colónia. Em Maio de 1940, quando os tanques do general Heinz Guderian tinham atravessado o rio Meuse em Sedan e atravessado em triunfo a França até ao canal da Mancha numa semana, Dieter candidatara-se impulsivamente a uma comissão no exército. Devido à sua experiência na Polícia, recebera de imediato um lugar nos serviços secretos. Falava fluentemente francês e um pouco de inglês, por isso haviam-no colocado a interrogar prisioneiros. Tinha talento para o trabalho, e dava-lhe especial prazer sacar informações que poderiam ajudar a sua facção a vencer batalhas. No Norte de África os seus feitos haviam sido elogiados pelo próprio Rommel.

 

Estava disposto a utilizar a tortura sempre que necessário, mas gostava de persuadir as pessoas através de meios mais subtis. Fora assim que conseguira Stéphanie. Calma, sensual e astuta, havia sido dona de uma loja parisiense que vendia chapéus de senhora enormemente elegantes e obscenamente dispendiosos. Mas ela tinha uma avó judia. Ficara sem a loja, passara seis meses numa prisão francesa, e estava prestes a ser enviada para um campo na Alemanha quando Dieter a salvara.

 

Podia tê-la violado. Ela estaria à espera disso. Ninguém teria protestado e muito menos punido Dieter. Mas, em vez disso, ele alimentara-a, dera-lhe roupas novas, instalara-a num quarto vago no seu apartamento e tratara-a com meiguice até que uma noite, depois de um jantar de foie de veau e uma garrafa de La Tache, a seduzira deliciosamente no sofá em frente à lareira.

 

Contudo, naquele dia ela fazia parte da sua camuflagem. Dieter estava de novo a trabalhar com Rommel. O marechal-de-campo Erwin Rommel, a Raposa do Deserto, era agora comandante do Grupo B do exército que defendia o Norte da França. Os serviços secretos alemães esperavam uma invasão dos Aliados naquele Verão. Rommel não possuía homens suficientes para vigiarem as centenas de quilómetros de costa vulnerável, por isso adoptara uma estratégia ousada de resposta flexível: os seus batalhões encontravam-se a quilómetros do mar, prontos a entrar rapidamente em acção sempre que necessário.

 

Os Britânicos sabiam isso também tinham serviços secretos. O seu plano era retardar a reacção de Rommel destruindo as suas comunicações. Noite e dia, os bombardeiros britânicos e americanos destruíam estradas e caminhos-de-ferro, pontes e túneis, estações e pátios de manobras. E a Resistência fazia explodir centrais eléctricas e fábricas, descarrilar comboios, cortava linhas telefónicas e mandava raparigas adolescentes deitar areia nos depósitos de óleo de camiões e tanques.

 

A missão de Dieter era identificar os principais alvos das comunicações e avaliar a capacidade de ataque da Resistência. Nos últimos meses, a partir da sua base em Paris, ele patrulhara todo o Norte de França, gritando às sentinelas ensonadas e apavorando os capitães preguiçosos, aumentando a segurança nos semáforos das linhas férreas e torres de controlo das pistas de aviação. Naquele dia ia fazer uma visita surpresa a uma central telefónica de grande importância estratégica. Por aquele edifício passava todo o tráfico telefónico do Alto Comando em Berlim para as forças alemãs no Norte da França. Isso incluía as mensagens de telégrafo, o meio pelo qual, actualmente, a maior parte das ordens era enviada. Se a central fosse destruída, as comunicações alemãs seriam seriamente afectadas.

 

Claro que os Aliados sabiam isso e haviam tentado bombardear o local, com pouco êxito. A central era uma candidata perfeita a um ataque da Resistência. Contudo, a segurança era demasiado descuidada para os padrões de Dieter. Isso devia-se provavelmente à influência da Gestapo, que tinha um destacamento no mesmo edifício. A Geheime Staatspolizei era o serviço de segurança do Estado, e os homens eram muitas vezes promovidos pela sua lealdade a Hitler e entusiasmo pelo fascismo e não pela sua inteligência e capacidades. Dieter estava ali havia meia hora, a tirar fotografias ao local, e a sua ira aumentava devido ao facto de os responsáveis pela segurança continuarem a ignorá-lo.

 

No entanto, quando o sino parou de tocar um oficial da Gestapo com uniforme de major saiu disparado pelos portões de ferro do castelo e dirigiu-se a Dieter.

 

Dê-me essa máquina! gritou ele num francês mau. Dieter virou-lhe costas, fingindo não ouvir.

 

É proibido tirar fotografias ao castelo, imbecil! gritou o homem. Não vê que isto é um posto militar?

 

Dieter virou-se para ele e respondeu calmamente em alemão:

 

Demorou bastante tempo a reparar em mim.

 

O homem ficou espantado. As pessoas com roupas civis tinham normalmente medo da Gestapo.

 

O que está a dizer? perguntou ele com menos agressividade. Dieter olhou para o relógio.


Estou aqui há trinta e dois minutos. Podia ter tirado uma dezena de fotografias e ter-me ido embora há muito tempo. Você é o responsável pela segurança?

 

Quem é você?

 

Major Dieter Franck, ao serviço do marechal-de-campo Rommel.

 

Franck! exclamou o homem. Lembro-me de si. Dieter observou-o com mais atenção.

 

Meu Deus! murmurou ao reconhecê-lo. Willi Weber.

 

Sturmbannfúhrer Weber às suas ordens. Tal como a maior parte dos oficiais da Gestapo, Weber tinha um posto de SS que considerava de maior prestígio do que o vulgar posto na Polícia.

 

Raios me partam! exclamou Dieter. Não admirava que a segurança fosse desleixada.

 

Weber e Dieter tinham trabalhado juntos na Polícia de Colónia durante os anos vinte. Dieter fora uma promessa, Weber uma desilusão. Weber tinha inveja do êxito de Dieter e atribuía-o ao seu passado privilegiado. (O passado de Dieter não havia sido extraordinariamente privilegiado, mas Weber, filho de um estivador, achava que sim.)

 

Weber acabara por ser despedido. Dieter começou a recordar-se dos pormenores: houvera um acidente de viação, juntara-se uma multidão, Weber entrara em pânico, disparara e um transeunte morrera.

 

Dieter não via aquele homem há quinze anos, mas era capaz de adivinhar qual fora a carreira dele: filiara-se no Partido Nazi, tornara-se um organizador voluntário, candidatara-se a um cargo na Gestapo citando o seu treino na Polícia, e ascendera rapidamente naquela comunidade de frustrados.

 

O que está aqui a fazer? perguntou Weber.

 

A verificar a vossa segurança a pedido do marechal-de-campo.

 

A nossa segurança é boa retorquiu Weber indignado.

 

Boa para uma fábrica de salsichas. Olhe em volta. Dieter indicou com a mão a praça. E se estas pessoas fizessem parte da Resistência? Podiam alvejar os seus guardas em poucos segundos. Apontou para uma rapariga alta com um casaco fino sobre o vestido. E se ela tivesse uma arma debaixo do casaco? E se...

 

Calou-se.

 

Aquilo não se tratava apenas de uma fantasia imaginada por ele para ilustrar a sua argumentação. O seu inconsciente vira as pessoas na praça disporem-se em formação militar. A lourinha e o marido tinham-se refugiado no café. Os dois homens à entrada da igreja haviam-se colocado atrás das colunas. A rapariga alta com o casaco fino, que até há pouco estivera a olhar para uma montra, encontrava-se à sombra do carro de Dieter. Enquanto Dieter a observava o casaco dela abriu-se, e para seu espanto ele viu que a sua imaginação havia sido profética: sob o casaco ela tinha uma pistola-metralhadora com uma coronha em forma de tubo, as preferidas da Resistência.

 

Meu Deus! exclamou.

 

Enfiou a mão sob o casaco e lembrou-se de que não vinha armado.

 

Onde estava Stéphanie? Olhou em volta, o choque transformando-se quase em pânico, mas ela encontrava-se atrás dele, esperando pacientemente que ele acabasse a conversa com Weber.

 

Baixa-te! gritou. Depois ouviu-se uma explosão.

 

Flick encontrava-se à porta do Café dês Sports, atrás de Michel, em bicos de pés para poder ver sobre o ombro dele. Estava alerta, com o coração a bater com força, os músculos contraídos, e observava a cena com desprendimento.

 

Havia oito guardas à vista: dois no portão a verificar os passes, dois logo a seguir ao portão, dois a patrulharem o terreno junto à vedação de ferro e dois no cimo de um pequeno lanço de escadas que conduzia à entrada principal do castelo. Mas a força principal de Michel iria evitar o portão.

 

O lado norte da igreja formava parte do muro que rodeava os terrenos do castelo. O transepto norte entrava alguns metros pelo parque de estacionamento que fizera outrora parte do jardim ornamental. Nos dias do Ancien Regime, o conde tivera a sua entrada privada para a igreja, uma pequena porta na parede do transepto. A porta fora entaipada e estucada havia mais de cem anos, e mantivera-se assim até àquele dia.

 

Havia cerca de uma hora, um cabouqueiro aposentado de nome Gaston entrara na igreja vazia e colocara cuidadosamente quatro barras de duzentos gramas de explosivo plástico amarelo na base da porta bloqueada. Inserira detonadores, ligara-os para que explodissem todos ao mesmo tempo, e acrescentara um rastilho de cinco segundos. Depois camuflara tudo com cinzas da lareira da sua cozinha e arrastara um velho banco de madeira até à porta, para protecção adicional. Satisfeito com o seu trabalho, ajoelhara-se para rezar.

 

Quando o sino da igreja deixara de tocar havia alguns segundos, Gaston levantara-se do banco, dera alguns passos desde a nave até ao transepto, carregara no detonador e atirara-se rapidamente para o chão depois de dobrar a esquina. A explosão devia ter levantado séculos de pó dos arcos góticos. Mas o transepto não se encontrava ocupado durante as missas, pelo que ninguém ficara ferido.

 

Depois do estrondo da explosão houvera um longo momento de silêncio na praça. Toda a gente ficou imóvel: os guardas no portão do castelo, as sentinelas que patrulhavam a vedação, o major da Gestapo, o alemão bem vestido e a sua amiga elegante. Flick, apreensiva, olhou para o outro lado da praça, para os terrenos no interior da vedação de ferro. No parque de estacionamento encontrava-se um vestígio do jardim do século xvii, uma fonte de pedra com três querubins cheios de musgo no lugar de onde outrora haviam saído jactos de água. Em volta da bacia de mármore seca estavam estacionados uma camioneta, um carro blindado, um Mercedes do exército alemão cinzento-esverdeado e dois Citroèns pretos com tracção dianteira utilizados pela Gestapo em França. Um soldado enchia o tanque de um dos Citroèns a partir de uma bomba incongruentemente colocada diante de uma das janelas altas do castelo. Durante alguns segundos nada se moveu. Flick aguardou, retendo a respiração.

 

Misturados na congregação no interior da igreja encontravam-se dez homens armados. O padre, que não era um simpatizante e consequentemente não fora avisado, devia ter ficado satisfeito com o facto de a sua missa da tarde estar tão concorrida, ao contrário do que era normal. Devia ter-se interrogado por que motivo alguns deles envergavam casacos compridos apesar do calor, mas após quatro anos de austeridade as pessoas vestiam roupas estranhas e um homem podia levar uma gabardina à igreja por não ter um casaco. Flick achava que o padre já devia ter percebido. Naquele momento, os dez homens estariam a pôr-se de pé, de armas na mão, e correriam para o novo buraco na parede.

 

Finalmente apareceram junto à extremidade da igreja. O coração de Flick encheu-se de orgulho e medo ao vê-los, um exército heterogéneo com casacos velhos e sapatos gastos, a correr pelo parque de estacionamento em direcção à entrada principal do castelo, os pés a baterem no solo empoeirado, agarrados às armas pistolas, revólveres, espingardas e uma pistola-metralhadora. Ainda não tinham começado a dispará-las, pois tentavam aproximar-se o máximo do castelo antes de o tiroteio começar.

 

Michel viu-os ao mesmo tempo. Emitiu um som entre um resmungo e um suspiro e Flick soube que ele sentia o mesmo misto de orgulho pela sua coragem e medo pelas suas vidas. Chegara o momento de distrair os guardas. Michel levantou a espingarda, uma Lee-Enfield n.” 4 Mark /, a que a Resistência chamava «espingarda canadiana» porque muitas delas eram feitas no Canadá. Puxou a culatra, tirou da segurança o gatilho e disparou. Aguentou o coice com um movimento treinado pelo que a arma ficou de imediato pronta a voltar a disparar.

 

O som da espingarda pôs fim ao momento de silêncio espantado na praça. No portão, um dos guardas gritou e caiu, e Flick sentiu um momento selvagem de satisfação: agora havia menos um homem para disparar contra os seus camaradas. O tiro de Michel era o sinal para toda a gente abrir fogo. No alpendre da igreja, o jovem Bertrand disparou dois tiros que soaram como bombas de Carnaval. Estava demasiado longe dos guardas para lhes poder acertar e não atingiu nenhum. Ao lado dele, Albert puxou a espoleta de uma granada e atirou-a por cima da vedação para os terrenos do castelo, onde ela explodiu na vinha, lançando vegetação pelo ar. Flick desejava gritar-lhes: «Não disparem só para fazerem barulho, assim revelam as vossas posições!» Mas só as tropas melhores e mais bem treinadas podiam conter-se depois do início de um tiroteio. De trás do carro desportivo Geneviève abriu fogo e o som ensurdecedor da sua Sten ecoou nos ouvidos de Flick. Os seus disparos foram mais eficazes, e outro guarda caiu.

 

Por fim os alemães começaram a agir. Os guardas abrigaram-se atrás das colunas de pedra ou deitaram-se no chão, e empunharam as espingardas. Com alguma dificuldade, o major da Gestapo conseguiu tirar a pistola do coldre. A ruiva virou-se e desatou a correr, mas os seus sapatos escorregaram nas pedras e ela caiu. O companheiro deitou-se por cima dela, protegendo-a com o corpo, e Flick percebeu que acertara ao identificá-lo como soldado, porque um civil não saberia que era mais seguro deitar-se no chão que desatar a correr.

 

As sentinelas abriram fogo. Quase de imediato Albert foi atingido. Flick viu-o cambalear levando a mão à garganta. A granada que ele tinha na mão caiu. Em seguida foi atingido por outro tiro, desta vez na testa. Tombou como uma pedra, e Flick recordou pesarosa a menina que nascera naquela manhã e que agora ficara sem pai. Ao lado de Albert, Bertrand viu a granada rolar pelo degrau gasto do alpendre da igreja. Atirou-se para a porta no momento da explosão. Flick esperou que ele reaparecesse, mas isso não aconteceu, e ela pensou com uma incerteza angustiante que ele podia estar morto, ferido ou apenas atordoado.

 

No parque de estacionamento, a equipa da igreja deixou de correr, virou-se para as restantes seis sentinelas e abriu fogo. Os quatro guardas perto do portão foram apanhados num fogo cruzado entre os que se encontravam no interior da vedação e os que se encontravam na praça, e foram mortos em segundos, restando apenas os dois dos degraus. O plano de Michel estava a funcionar, pensou Flick esperançada.

 

Mas as tropas inimigas no interior do edifício já haviam tido tempo de pegar nas armas e correr para as portas e janelas, e começaram a disparar, fazendo de novo pender a balança para o lado alemão. Tudo dependia do número de soldados presentes no castelo.

 

Durante alguns momentos as balas caíram como chuva, e Flick deixou de contar. Depois apercebeu-se, horrorizada, de que havia muito mais armas no castelo do que ela esperara. As balas pareciam vir de pelo menos doze portas e janelas. Os homens da igreja, que naquela altura já deviam encontrar-se no interior do castelo, recuaram para se abrigarem atrás dos carros no parque de estacionamento. Antoinette estivera certa e o MI6 errado a respeito do número de tropas ali posicionadas. A estimativa do MI6 era de doze, contudo a Resistência tinha abatido seis e havia pelo menos catorze ainda a disparar.

 

Flick praguejou. Num combate como aquele, a Resistência podia apenas vencer graças a um ataque súbito e violento. Se não esmagassem de imediato o inimigo estariam metidos em sarilhos. À medida que os segundos iam passando, o treino militar e a disciplina começaram a fazer a diferença. No fim, os militares acabariam por vencer num conflito aparentemente empatado.

 

No andar de cima do castelo, uma janela do século xvii bastante alta foi rebentada e uma metralhadora começou a disparar. Devido à sua posição elevada provocou uma enorme carnificina entre os elementos da Resistência no parque de estacionamento. Flick assistiu horrorizada à queda gradual dos homens que ficavam a sangrar junto à fonte seca, até haver apenas dois ou três a disparar.

 

Acabara tudo, percebeu Flick desesperada. Haviam sido batidos numericamente e tinham falhado. Sentiu na boca o sabor amargo da derrota.

 

Michel estivera a disparar na direcção da metralhadora.

 

Não conseguimos abater aquele soldado! exclamou. Olhou em volta para a praça e depois para os telhados, para a torre do sino e para o primeiro andar da câmara. Se eu conseguisse ir para o gabinete do presidente, tinha um ângulo melhor.

 

Espera. Flick tinha a boca seca. Não podia impedi-lo de arriscar a vida, por muito que o desejasse. Mas podia melhorar as probabilidades. Geneviève! gritou a plenos pulmões.

 

Geneviève virou-se na direcção dela.


Cobre o Michel!

 

Geneviève assentiu vigorosamente, depois saiu de trás do carro disparando na direcção das janelas do castelo.

 

Obrigado disse Michel a Flick, desatando a correr pela praça na direcção da câmara.

 

Geneviève continuou a correr, dirigindo-se ao alpendre da igreja. As suas balas distraíram os homens no castelo, dando a Michel a possibilidade de atravessar a praça incólume. Foi então que Flick viu qualquer coisa à sua esquerda. Olhou nessa direcção e viu o major da Gestapo, encostado à parede da câmara, a fazer pontaria a Michel.

 

Era difícil atingir um alvo em movimento com uma pistola àquela distância mas o major podia ter sorte, pensou Flick receosa. As suas ordens eram observar e não participar no confronto, mas naquele momento ela pensou: «Que se lixe!» Tinha na mala uma pistola automática Browning de nove milímetros, que preferia em relação ao Colt porque tinha treze balas no carregador em vez de sete e porque podia carregá-la com as mesmas balas de nove milímetros Parahellum utilizadas na pistola-metralhadora Sten. Tirou a arma da segurança, armou o cão, esticou o braço e disparou dois tiros na direcção do major.

 

Falhou, mas as balas soltaram fragmentos de rocha junto ao rosto dele, obrigando-o a atirar-se para o chão.

 

Michel continuou a correr.

 

O major recuperou rapidamente e tornou a fazer pontaria.

 

Quando Michel se aproximou do seu objectivo aproximou-se igualmente do major, facilitando a pontaria deste. Michel disparou a espingarda na direcção do major, mas a bala falhou e o major manteve a calma, tornando a disparar. Desta vez Michel foi atingido e Flick soltou um grito de medo.

 

Michel caiu, tentou levantar-se e não foi capaz. Flick obrigou-se a ter calma e a pensar rapidamente. Michel ainda estava vivo. Geneviève chegara ao alpendre da igreja e a sua metralhadora continuava a chamar a atenção do inimigo no interior do castelo. Flick tinha a possibilidade de salvar Michel. Isso ia contra as suas ordens, mas não havia ordens capazes de a obrigar a deixar o marido a sangrar no chão. Para além disso, se o deixasse ali, ele seria capturado e interrogado. Enquanto líder do circuito Bollinger, Michel sabia todos os nomes, todas as moradas, todas as palavras-código. A sua captura seria uma catástrofe.

 

Não havia alternativa.

 

Tornou a disparar na direcção do major. Falhou novamente, mas puxou várias vezes o gatilho e os disparos constantes forçaram o homem a recuar em busca de abrigo.

 

Flick saiu do café e correu para a praça. Pelo canto do olho viu o dono do carro desportivo, ainda deitado em cima da amante para a proteger. Flick esquecera-se dele. Estaria armado? Se assim fosse, poderia atingi-la com facilidade. Mas dali não vieram balas.

 

Chegou junto de Michel e pousou um joelho no chão. Virou-se na direcção da câmara e disparou dois tiros ao calha para manter o major ocupado. Depois olhou para o marido.

 

Para seu alívio viu que ele tinha os olhos abertos e que estava a respirar. Parecia estar a sangrar da nádega esquerda. O medo dela diminuiu um pouco.

 

Tens uma bala no rabo disse ela em inglês.

 

Dói que se farta respondeu ele em francês.

 

Flick tornou a virar-se para a câmara. O major recuara vinte metros e atravessara a rua estreita até à entrada de uma loja. Daquela vez Flick levou alguns segundos a fazer pontaria. Apertou o gatilho quatro vezes. A montra da loja explodiu em mil fragmentos de vidro, e o major cambaleou para trás e caiu.

 

Tenta pôr-te de pé disse ela em francês. Ele rolou, gemendo de dor, e apoiou-se sobre um joelho, mas foi incapaz de mover a perna ferida. Anda incitou ela com aspereza. Se ficares aqui és morto. Agarrou-o pela camisa e levantou-o a custo. Ele apoiou-se sobre a perna boa, mas foi incapaz de suportar o seu peso e apoiou-se nela. Flick apercebeu-se de que ele não seria capaz de andar e gemeu desesperada.

 

Olhou para o lado da câmara municipal. O major começava a levantar-se. Tinha sangue na cara, mas não parecia gravemente ferido. Ela calculou que ele fora superficialmente cortado pelos estilhaços de vidro mas que ainda seria capaz de disparar.

 

Havia apenas uma coisa a fazer: pegar em Michel e transportá-lo até local seguro.

 

Dobrou-se, agarrou-o pelas coxas e pô-lo sobre o ombro, como faziam os bombeiros. Ele era alto, mas magro a maior parte dos franceses era magra nos dias que corriam. Mesmo assim, teve a sensação de que iria desfalecer sob o peso dele. Cambaleou, ligeiramente tonta, mas conseguiu manter-se de pé.

 

Passado um momento, deu um passo.

 

Foi avançando pelo empedrado da praça. Calculou que o major estivesse a disparar na sua direcção, mas não podia ter a certeza devido aos disparos vindos do castelo, de Geneviève e dos atiradores da Resistência ainda vivos no parque de estacionamento. O medo de que uma bala pudesse atingi-la a qualquer momento deu-lhe forças para correr. Rumou à rua que saía da praça em direcção a sul, a saída mais próxima. Passou pelo alemão deitado em cima da ruiva, e por breves momentos os seus olhares cruzaram-se e Flick viu no dele uma expressão de surpresa e de admiração. Depois chocou com uma mesa do café e quase caiu, mas conseguiu endireitar-se e continuou a correr. Uma bala atingiu a montra do café e Flick viu uma teia de linhas de fractura espalhar-se pelo vidro. Logo a seguir, dobrou a esquina e deixou de ser vista pelo major. «Vivos», pensou grata. «Nós os dois... pelo menos durante mais alguns momentos.»

 

Até àquele momento ainda não pensara para onde deveria dirigir-se depois de abandonar o campo de batalha. Dois carros aguardavam-nos para a fuga a algumas ruas dali, mas ela não conseguiria carregar Michel até tão longe. No entanto, Antoinette Dupert vivia naquela rua, apenas a alguns passos. Antoinette não fazia parte da Resistência, mas simpatizava com eles o suficiente para ter fornecido a Michel uma planta do castelo. E Michel era sobrinho dela, pelo que com certeza não iria mandá-lo embora.

 

Fosse como fosse, não tinha outras alternativas.

 

Antoinette morava no rés-do-chão de um prédio com um pátio. Flick chegou à entrada, a alguns metros da praça, e cambaleou. Empurrou a porta e deitou Michel nos azulejos.

 

Bateu à porta de Antoinette, ofegando devido ao esforço.

 

Quem é? perguntou uma voz amedrontada. Antoinette assustara-se com o tiroteio e não queria abrir a porta.

 

Depressa, depressa! exclamou Flick. Tentou falar baixo. Alguns dos vizinhos simpatizavam com os nazis.

 

A porta não se abriu, mas a voz de Antoinette aproximou-se mais.

 

Instintivamente, Flick evitou dizer nomes.

 

O seu sobrinho está ferido!

 

A porta abriu-se. Antoinette era uma mulher de cinquenta anos com as costas muito direitas, e envergava um vestido de algodão que já fora elegante e agora estava desbotado, mas muito bem engomado. O seu rosto encontrava-se muito pálido devido ao medo.

 

Michel! exclamou. Ajoelhou-se ao lado dele. É grave?

 

Dói, mas não estou a morrer disse Michel entre dentes.

 

Coitadinho! Afastou-lhe o cabelo da testa num gesto semelhante a uma carícia.

 

Vamos levá-lo lá para dentro! exclamou Flick impaciente. Pegou em Michel pelos sovacos e Antoinette agarrou-o pelos joelhos. Ele gemeu de dor. Transportaram-no as duas para a sala de estar e deitaram-no num sofá de veludo desbotado.


Olhe por ele enquanto eu vou buscar o carro disse Flick. Correu para a rua.

 

O tiroteio abrandara. Não lhe restava muito tempo. Correu pela rua e dobrou duas esquinas.

 

À porta de uma padaria estavam dois carros com o motor a trabalhar: um Renault ferrugento, o outro uma carrinha com umas letras desbotadas de lado onde se lia a custo: Lavandaria Bisset. A carrinha fora pedida emprestada ao pai de Bertrand, que conseguia arranjar gasolina porque lavava lençóis para os hotéis usados pelos alemães. O Renault fora roubado naquela manhã em Châlons, e Michel tinha trocado as chapas de matrícula. Flick decidiu levar o carro, deixando a carrinha para os sobreviventes que conseguissem escapar à carnificina no castelo.

 

Espere aqui durante cinco minutos, depois vá-se embora disse ela ao condutor da carrinha. Correu para o carro, sentou-se no banco do pendura e exclamou: Vamos, depressa!

 

Ao volante do Renault encontrava-se Gilberte, uma morena de cabelos compridos com dezanove anos, bonita mas estúpida. Flick não sabia por que motivo ela estava na Resistência não parecia ser o seu género.

 

Para onde? perguntou Gilberte, em vez de arrancar.

 

Eu vou-te dizendo... pelo amor de Deus, arranca! Gilberte engatou a mudança e arrancou.

 

Esquerda e depois direita.

 

Durante os dois minutos de inacção que se seguiram Flick percebeu, chocada, que haviam falhado. A maior parte do circuito Bollinger fora arrasada. Albert e os outros tinham morrido. Geneviève, Bertrand e os que estivessem vivos seriam provavelmente torturados.

 

E tudo aquilo para nada. A central telefónica continuava intacta, bem como as comunicações alemãs. Flick sentia-se uma inútil. Tentou pensar no que correra mal. Teria sido um erro tentar um ataque frontal a um edifício militar vigiado? Não necessariamente o plano poderia ter corrido bem não fora a informação errada fornecida pelo MI6. No entanto, teria sido melhor, pensou ela, entrar no edifício de forma mais discreta. Isso teria dado à Resistência mais hipóteses de chegar ao equipamento.

 

Gilberte parou junto à entrada para o pátio.

 

Faz inversão de marcha ordenou Flick, saindo. Michel estava deitado de barriga para baixo no sofá de Antoinette, com as calças nos joelhos e um ar muito pouco digno. Antoinette encontrava-se de joelhos ao seu lado, tendo nas mãos uma toalha ensanguentada, os óculos empoleirados no nariz, e olhava para o rabo do sobrinho.

 

A hemorragia diminuiu, mas a bala ainda ali está disse ela.

 

A mala dela estava no chão ao lado do sofá. Esvaziara o seu conteúdo numa mesinha, provavelmente enquanto procurara os óculos à pressa. Flick viu uma folha de papel escrita à máquina e carimbada, com uma pequena fotografia de Antoinette colada, protegida por uma pequena pasta de cartão. Era o passe que lhe permitia entrar no castelo. Nesse momento Flick teve uma ideia.

 

Tenho um carro lá fora disse. Antoinette continuou a observar a ferida.

 

Ele não devia ser deslocado.

 

Se ficar aqui, os boches matam-no. Agarrou no passe de Antoinette com ar casual. Como é que te sentes? perguntou a Michel.

 

Acho que já sou capaz de andar respondeu ele. As dores diminuíram.

 

Flick enfiou o passe na sua mala. Antoinette não reparou.

 

Ajude-me a levantá-lo pediu ela à mulher mais velha. As duas puseram Michel de pé. Antoinette subiu-lhe as calças de lona azuis e apertou-lhe o cinto gasto.

 

Fique aqui dentro disse Flick a Antoinette. Não quero que a vejam connosco. Ainda não desenvolvera a sua ideia, mas já sabia que ela seria prejudicada se as suspeitas recaíssem sobre Antoinette e as outras senhoras da limpeza.

 

Michel pôs um braço sobre os ombros de Flick e apoiou-se pesadamente. Ela aguentou o peso dele e levou-o a cambalear até à rua. Quando chegaram ao carro, ele estava branco devido às dores. Gilberte olhou para eles da janela com uma expressão aterrorizada.

 

Levanta-te e abre a merda da porta, imbecil! sibilou Flick. Gilberte saltou do carro e abriu a porta de trás. Com a ajuda dela, Flick deitou Michel no banco.

 

Sentaram-se as duas à frente.

 

Vamos embora daqui! exclamou ela.

 

Dieter estava horrorizado e estupefacto. Quando o tiroteio começou a abrandar e as batidas do seu coração regressaram ao normal, ele começou a reflectir no que vira. Não julgara a Resistência capaz de um ataque tão bem planeado e cuidadosamente executado. Por tudo o que aprendera durante os últimos meses, julgara que os seus ataques eram atabalhoados e sem planificação. Mas aquela fora a primeira vez que vira os seus elementos em acção. Estavam carregados de armas e não lhes faltavam munições ao contrário do exército alemão! Pior ainda, tinham sido corajosos. Dieter ficara impressionado com o homem que atravessara a praça de espingarda em riste, com a rapariga da pistola-metralhadora que o cobrira e em especial com a pequena loura que pegara no homem ferido e o carregara. A um homem dez centímetros mais alto que ela para fora da praça, até um local seguro. Aquelas pessoas tinham de ser uma grande ameaça para a força militar de ocupação. Não eram como os criminosos com que Dieter havia lidado enquanto era polícia em Colónia, antes da guerra. Os criminosos eram estúpidos, preguiçosos, cobardes e abrutalhados. As pessoas da Resistência francesa eram combatentes.

 

Mas a derrota delas deu-lhe uma oportunidade rara.

 

Quando teve a certeza de que o tiroteio parara, pôs-se de pé e ajudou Stéphanie a levantar-se. O rosto dela estava corado e ela respirava com dificuldade. Agarrou nas mãos dele e olhou-o nos olhos.

 

Protegeste-me disse. Surgiram lágrimas nos seus olhos. Transformaste-te num escudo para me protegeres.

 

Ele limpou alguma terra da coxa dela. Ficou surpreendido com a sua própria galanteria. O gesto fora instintivo. Quando recordou o que acontecera, ficou sem saber se estaria mesmo disposto a dar a vida para salvar Stéphanie. Tentou aligeirar as coisas.


Não ia acontecer nada de mal a este corpo perfeito disse. Ela começou a chorar.

 

Dieter pegou-lhe na mão e levou-a até aos portões do castelo.

 

Vamos lá para dentro disse. Depois podes sentar-te um bocadinho. Entraram na propriedade. Dieter viu um buraco na parede da igreja. Isso explicava como é que a força principal havia entrado.

 

Os soldados das Waffen-SS tinham saído do edifício e estavam a desarmar os atacantes. Dieter olhou atentamente para os combatentes da Resistência. A maior parte morrera, alguns apresentavam ferimentos, e um ou dois parecia terem-se rendido incólumes. Teria bastantes para interrogar.

 

Até àquele momento, o seu trabalho havia sido defensivo. O máximo que conseguira fazer fora fortificar edifícios-chave contra a Resistência através do aumento da segurança. Os prisioneiros que interrogara haviam-lhe dado poucas informações. Mas agora, com vários prisioneiros, todos provenientes de um circuito grande e evidentemente bem organizado, era outra coisa. Podia ser a sua oportunidade de passar ao ataque, pensou.

 

Você aí! gritou a um sargento. Arranje um médico para estes prisioneiros. Quero interrogá-los. Não deixe nenhum deles morrer.

 

Embora Dieter não estivesse fardado, devido aos seus modos o sargento partiu do princípio de que ele era um oficial e obedeceu.

 

Dieter ajudou Stéphanie a subir os degraus e a entrar no enorme vestíbulo. Era uma visão arrebatadora: o chão de mármore cor-de-rosa, as janelas altas com cortinas elaboradas, as paredes com motivos etruscos em gesso realçados por tons rosa e verdes, e um tecto com querubins desbotados. Dieter calculou que o aposento já tivesse tido móveis muito belos: aparadores com espelhos altos, aparadores com bronze dourado incrustado, cadeiras elegantes com pernas douradas, quadros a óleo, jarras grandes, pequenas estatuetas de mármore. Tudo isso desaparecera, claro. Agora havia uma fila de secretárias com PBX, cada uma com uma cadeira, e um amontoado de fios no chão.

 

As telefonistas pareciam ter fugido para as traseiras, mas agora que o tiroteio parara algumas encontravam-se junto às portas espelhadas, ainda com os auscultadores e os microfones de peito, interrogando-se se seria seguro voltar para dentro. Dieter sentou Stéphanie a uma das secretárias, depois chamou uma telefonista de meia-idade.

 

Madame disse ele num tom educado mas autoritário. Falou em francês. Traga um café quente a esta senhora, por favor.


A mulher avançou, lançando a Stéphanie um olhar de ódio.

 

Muito bem, monsieur.

 

E um conhaque. Ela acabou de sofrer um choque.

 

Não temos conhaque.

 

Tinham, mas ela não queria dá-lo à amante de um alemão. Dieter não insistiu.

 

Então só café, mas seja rápida senão vai arranjar problemas. Deu uma palmadinha no ombro de Stéphanie e deixou-a. Passou pelas portas duplas e chegou à ala oriental. O castelo era uma sucessão de salas, todas ligadas umas às outras no padrão de Versalhes, segundo pareceu a Dieter. As salas estavam cheias de PBX, mas estes tinham um aspecto mais permanente, os fios no interior de tubos de madeira que desapareciam no chão para a cave. Dieter calculou que o vestíbulo tinha aquele ar desarrumado porque fora posto a funcionar à pressa depois de a ala oeste ter sido bombardeada. Algumas das janelas tinham sido tapadas permanentemente, sem dúvida como protecção contra os bombardeamentos aéreos, mas outras tinham cortinas pesadas abertas, e Dieter calculou que as mulheres não gostavam de trabalhar sempre num ambiente nocturno.

 

No fim da ala oriental havia umas escadas. Dieter desceu-as. No fim delas passou por uma porta de aço. Logo a seguir viu uma pequena secretária com uma cadeira e calculou que normalmente estaria ali um guarda. Este devia ter abandonado o posto para participar no confronto. Dieter entrou sem impedimentos e tomou mentalmente nota daquela falha na segurança.

 

Ali deparou com um ambiente diferente do do rés-do-chão. Desenhado para acomodar as cozinhas, as despensas e os quartos das dezenas de criados que deviam ter servido naquela casa havia trezentos anos, tinha tectos baixos, paredes nuas e chão de pedra ou até, em alguns dos aposentos, de terra batida. Dieter avançou por um corredor largo. Cada porta estava identificada com pequenas placas com escrita alemã, mas mesmo assim Dieter espreitou para dentro delas. À sua esquerda, na parte da frente do edifício, ficava o equipamento complexo de uma central telefónica: um gerador, baterias enormes e salas cheias de cabos emaranhados. À sua direita, para as traseiras, ficavam as instalações da Gestapo: um laboratório fotográfico, uma sala grande com aparelhos de escuta para espiar a Resistência, e celas com orifícios nas portas. A cave fora protegida das bombas: todas as janelas estavam tapadas, havia sacos de areia encostados às paredes e os tectos haviam sido reforçados com vigas de aço e cimento, provavelmente para evitar que os bombardeiros aliados destruíssem o serviço telefónico.


No fim do corredor estava uma porta com a indicação «Sala de Interrogatórios». Dieter entrou. A primeira sala tinha paredes brancas despidas, luzes fortes e mobiliário normal para uma sala de interrogatórios: uma mesa barata, cadeiras resistentes e um cinzeiro. Dieter passou à sala seguinte. Ali as luzes eram menos intensas e as paredes de tijolo. Havia uma coluna ensanguentada com ganchos para amarrar pessoas; um suporte para chapéus-de-chuva com vários tacos de madeira e barras de aço; uma mesa para intervenções cirúrgicas com um torniquete para a cabeça e correias para os pulsos e tornozelos; uma máquina de choques eléctricos e um armário fechado que deveria conter drogas e seringas hipodérmicas. Era uma câmara de tortura. Dieter já estivera em várias, mas mesmo assim elas deixavam-no maldisposto. Tinha de lembrar a si próprio que as informações recolhidas em locais como aquele ajudavam a salvar as vidas dos jovens soldados alemães para que eles pudessem regressar a casa para as suas mulheres e filhos em vez de morrerem nos campos de batalha. Mesmo assim, o local deixava-o pouco à vontade.

 

Dieter ouviu barulho atrás de si, e sobressaltou-se. Deu meia volta. Quando viu o que estava à porta, recuou um passo, assustado.

 

Deus do céu! exclamou. Estava a olhar para um vulto baixo com o rosto mergulhado na sombra devido à luz intensa proveniente da sala ao lado. Quem é você? perguntou, e ouviu o medo na sua voz.

 

O vulto avançou para a luz e revelou ser um homem com a camisa do uniforme de um sargento da Gestapo. Era baixo e atarracado, com um rosto carnudo e cabelo louro claro cortado tão rente que o fazia parecer careca.

 

O que está a fazer aqui? perguntou numa voz com sotaque de Frankfurt.

 

Dieter recompôs-se. A câmara de tortura enervara-o, mas recuperou o habitual tom autoritário e respondeu:

 

Sou o major Franck. O seu nome?

 

O sargento adoptou uma atitude imediatamente deferente.

 

Becker, meu major, às suas ordens.

 

Traga os prisioneiros cá para baixo o mais depressa possível, Becker ordenou Dieter. Os que puderem andar devem vir imediatamente, os outros só depois de terem sido vistos por um médico.

 

Muito bem, meu major.

 

Becker afastou-se. Dieter regressou à sala de interrogatórios e sentou-se numa cadeira. Perguntou de si para si quanta informação conseguiria sacar aos prisioneiros. Eles poderiam saber apenas coisas relativas à vila. Se tivesse azar, e a segurança da Resistência fosse boa, cada indivíduo deveria saber apenas pouca coisa do que se passava no seu circuito. Por outro lado, uma segurança perfeita não existia. Algumas pessoas sabiam bastante do que se passava no seu circuito e noutros. O seu sonho era que um circuito conduzisse a outro numa cadeia e que ele pudesse provocar danos irreversíveis à Resistência durante as semanas que antecediam a invasão dos Aliados.

 

Ouviu passos no corredor e olhou nessa direcção. Os prisioneiros estavam a ser trazidos. O primeiro era a mulher que ocultara a pistola-metralhadora sob o casaco. Dieter ficou satisfeito. Era muito útil ter uma mulher entre os prisioneiros. Sob interrogatório, as mulheres podiam ser tão resistentes como os homens, mas muitas vezes a forma de obrigar um homem a falar era espancar uma mulher à frente dele. Aquela era alta e sensual, o que ainda ajudava mais. Parecia ilesa. Dieter ergueu uma mão, fazendo parar o soldado que a escoltava, e dirigiu-se à mulher em francês:

 

Como é que se chama? perguntou num tom amigável. Ela fitou-o com um olhar altivo.

 

Porque haveria de dizer-lhe?

 

Ele encolheu os ombros. Aquele nível de oposição era fácil de ultrapassar. Deu-lhe uma resposta que já o ajudara uma centena de vezes.

 

Os seus familiares podem perguntar se você está detida. Se soubermos o seu nome podemos responder-lhes.

 

Chamo-me Geneviève Delys.

 

Um belo nome para uma bela mulher. Fez-lhe sinal para que avançasse.

 

A seguir veio um homem com cerca de sessenta anos, a sangrar de um ferimento na cabeça e a coxear.

 

O senhor é um pouco velho para este tipo de coisas, não é? perguntou Dieter.

 

Fui eu que pus os explosivos respondeu o homem com uma expressão orgulhosa num tom de desafio.

 

Nome?

 

Gaston Lefèvre.

 

Lembre-se de uma coisa, Gaston continuou Dieter num tom simpático: A dor só dura aquilo que você quiser. Quando decidir pôr-lhe fim, ela acaba.

 

O medo surgiu no olhar do homem quando ele percebeu aquilo que o esperava.


Dieter assentiu, satisfeito.

 

Continue.

 

A seguir veio um jovem com cerca de dezassete anos, calculou Dieter, um rapaz bonito que estava apavorado.

 

Nome?

 

O rapaz hesitou, aparentemente atordoado pelo choque. Depois de pensar, respondeu:

 

Bertrand Bisset.

 

Boa tarde, Bertrand saudou Dieter. Bem-vindo ao Inferno.

 

O rapaz pareceu ter sido esbofeteado. Dieter mandou-o avançar.

 

Willi Weber apareceu, com Becker ao lado como se fosse um cão perigoso preso por uma coleira.

 

Como é que chegou aqui? perguntou Weber a Dieter num tom rude.

 

Caminhando respondeu Dieter. A sua segurança não presta.

 

Isso é ridículo! Acabou de nos ver a rechaçar um ataque.

 

Por uma dezena de homens e algumas mulheres!

 

O que importa é que os derrotámos.

 

Pense bem, Willi argumentou Dieter. Eles conseguiram aproximar-se sem que vocês dessem por isso, depois entraram na propriedade e mataram pelo menos seis soldados alemães. Desconfio que você só os derrotou porque eles pensavam que vocês eram menos. E entrei nesta cave sem impedimentos porque o guarda tinha abandonado o posto.

 

É um alemão corajoso, quis participar no combate.

 

Que Deus me dê forças! exclamou Dieter desesperado. Um soldado não abandona o posto para combater, obedece às ordens!

 

Não preciso que me dê um sermão sobre a disciplina militar. Dieter cedeu, momentaneamente pelo menos.

 

E não tenciono dar-lhe um.

 

O que deseja então?

 

Vou interrogar os prisioneiros.

 

Isso é trabalho da Gestapo.

 

Não seja idiota. O marechal-de-campo Rommel pediu-me a mim, não à Gestapo, para limitar a capacidade da Resistência de danificar as nossas comunicações em caso de invasão. Estes prisioneiros podem dar-me informações valiosíssimas. Tenciono interrogá-los.


Não enquanto se encontrarem sob as minhas ordens respondeu Weber com teimosia. Irei eu próprio interrogá-los e enviar os resultados ao marechal-de-campo.

 

Os Aliados devem invadir-nos este Verão... não acha que chegou a altura de deixar-se de guerrinhas?

 

Nunca é altura para abandonar uma organização eficiente. Dieter teve vontade de gritar. Desesperado, engoliu o orgulho e tentou chegar a um compromisso.

 

Interroguemo-los juntos.

 

Weber sorriu, adivinhando a vitória.

 

De maneira nenhuma.

 

Isso significa que terei de passar por cima de si.

 

Se for capaz.

 

Claro que sou capaz. Só vai conseguir um atraso.

 

Isso é o que o senhor diz.

 

Seu idiota! exclamou Dieter irado. Que Deus guarde a pátria de patriotas como você! Deu meia volta e foi-se embora.

 

Gilberte e Flick deixaram para trás a vila de Sainte-Cécile e dirigiram-se a Reims por uma estrada secundária. Gilberte conduzia o mais depressa possível pela estrada estreita. Flick olhava apreensiva para a estrada. Esta subia e descia pelas colinas baixas e serpenteava pelas vinhas enquanto seguia de uma aldeia para a outra. O seu progresso foi abrandado por vários cruzamentos, mas o seu elevado número impossibilitava a Gestapo de bloquear todas as estradas que saíam de Sainte-Cécile. Contudo, Flick continuava a morder o lábio, aflita com a possibilidade de poderem vir a ser detidas por uma patrulha. Não seria capaz de arranjar uma explicação para o homem no banco de trás a sangrar de um ferimento provocado por uma bala.

 

Depois de muito pensar, concluiu que não podia levar Michel para casa. Depois de a França se ter rendido em 1940 e de Michel ter sido desmobilizado, não voltara a dar aulas na Sorbonne mas regressara à cidade natal para ocupar o cargo de director adjunto de um liceu e organizar um circuito da Resistência, o seu verdadeiro motivo. Mudara-se para casa dos falecidos pais, uma vivenda encantadora perto da catedral. Mas, decidiu Flick, ele não poderia voltar para lá naquele momento. Era conhecida por muita gente. Embora os membros da Resistência muitas vezes não soubessem as moradas uns dos outros por motivos de segurança, revelavam-no apenas em caso de uma entrega ou de um encontro Michel era um dos dirigentes e muitas pessoas sabiam onde ele morava.

 

Em Sainte-Cécile alguns membros da equipa deviam ter sido capturados. Dali a pouco seriam interrogados. Ao contrário dos agentes britânicos, os elementos da Resistência francesa não andavam com cápsulas contendo veneno para se suicidarem. Sabia-se que num interrogatório toda a gente acabava por falar. Às vezes a Gestapo perdia a paciência e matava os prisioneiros devido a um excesso de entusiasmo mas, se fossem cuidadosos e determinados, seriam capazes de levar a personalidade mais forte a trair os camaradas. Ninguém era capaz de suportar a dor por muito tempo.

 

Por esse motivo, Flick tinha de partir do princípio que a morada de Michel era conhecida do inimigo. Para onde poderia levá-lo então?

 

Como é que ele está? perguntou Gilberte com ansiedade.

 

Flick olhou para o banco de trás. O marido tinha os olhos fechados, mas respirava normalmente. Adormecera, felizmente. Olhou-o com ternura. Michel precisava de alguém que olhasse por ele pelo menos durante um ou dois dias. Virou-se para Gilberte. Jovem e solteira, devia viver ainda com os pais.

 

Onde é que moras? perguntou Flick.

 

Nos subúrbios da cidade, na Route de Cernay.

 

Moras sozinha? Gilberte pareceu assustada.

 

Sim, claro que moro sozinha.

 

Numa vivenda, num apartamento, num quarto alugado?

 

Num apartamento de duas assoalhadas.

 

Vamos para lá.

 

Não!

 

Porque não? Estás com medo? Ela pareceu ofendida.

 

Não, com medo não.

 

Então?

 

Não confio nos vizinhos.

 

Não há uma entrada pelas traseiras?

 

Sim, uma viela que dá para uma pequena fábrica admitiu Gilberte com relutância.

 

Parece perfeita.

 

Está bem, tens razão, vamos para minha casa. Só que... apanhaste-me de surpresa, mais nada.

 

Desculpa.

 

Flick deveria regressar a Londres nessa noite. Iria apanhar o avião num prado junto à aldeia de Chatelle, oito quilómetros a norte de Reims. Perguntou-se se o avião daria com o local. Orientando-se pelas estrelas, era muito difícil encontrar um determinado campo perto de uma pequena aldeia. Os pilotos afastavam-se muitas vezes da rota, e era um milagre se chegavam ao local combinado. Flick olhou para o céu claro, que estava a tornar-se azul-escuro com o cair da noite. Haveria luar se o estado do tempo se mantivesse.

 

«Se não for hoje à noite é amanhã», pensou ela.

 

A sua mente regressou aos camaradas que deixara para trás. O jovem Bertrand estaria vivo ou morto? E Geneviève? Talvez estivessem melhor mortos. Vivos enfrentariam a agonia da tortura. Flick sentiu uma enorme angústia ao pensar que os conduzira à derrota. Bertrand devia ter um fraquinho por ela. Era suficientemente jovem para sentir remorsos por amar secretamente a mulher do comandante. Flick desejou tê-lo mandado ficar em casa. Não teria feito diferença no resultado e ele teria continuado a ser um jovem inteligente e simpático durante mais algum tempo, em vez de se transformar num cadáver ou numa coisa pior.

 

Ninguém ganhava sempre, e, na guerra, quando os líderes falhavam, morriam pessoas. Era um facto cruel, mas ela agarrou-se a ele à procura de conforto. Tentou pensar numa forma de impedir que o sofrimento dos camaradas fosse em vão. Talvez a partir do sacrifício deles pudesse obter uma vitória.

 

Pensou no passe que roubara a Antoinette e na possibilidade de entrar clandestinamente no castelo. Uma equipa poderia entrar disfarçada de funcionários civis. Abandonou rapidamente a ideia de os fazer passar por telefonistas: era um trabalho técnico que levava algum tempo a aprender. Mas toda a gente sabia usar uma vassoura.

 

Os alemães reparariam que as funcionárias eram desconhecidas? Provavelmente não prestavam atenção às mulheres que lavavam o chão. E as telefonistas francesas denunciá-las-iam? Podia valer a pena correr o risco.

 

O EOE tinha um excelente serviço de falsificações capaz de copiar qualquer tipo de documento, às vezes fabricando até papel igual ao do original em dois ou três dias. Seriam capazes de falsificar rapidamente o passe de Antoinette.

 

Flick sentiu remorsos por tê-lo roubado. Naquele momento Antoinette podia andar freneticamente à procura dele debaixo do sofá e nos bolsos de todos os casacos, e até no pátio com uma lanterna. Quando dissesse à Gestapo que o perdera estaria metida em sarilhos. Mas no fim acabariam por dar-lhe outro em substituição. E não seria acusada de ajudar a Resistência. Se fosse interrogada, podia afirmar que não se lembrava de onde o deixara pois acreditaria ser essa a verdade. Para além do mais, pensou Flick carrancuda, se ela tivesse pedido autorização para levar o passe de empréstimo, Antoinette poderia ter recusado.

 

Claro que havia uma grande restrição naquele plano. Todas as pessoas que faziam limpezas eram mulheres. A equipa da Resistência que entrasse no castelo teria de ser constituída unicamente por mulheres.

 

«E porque não?», pensou Flick.

 

Estavam a chegar aos subúrbios de Reims. Era já noite quando Gilberte parou junto a um barracão fabril rodeado por uma vedação de arame farpado. Desligou o motor.

 

Acorda! exclamou Flick para Michel. Temos de te levar para dentro. Ele gemeu. Temos de ser rápidos acrescentou. Estamos a violar o recolher obrigatório.

 

As duas mulheres tiraram-no do carro. Gilberte apontou para uma viela nas traseiras do barracão. Michel apoiou-se nos ombros delas e com o auxílio das duas mulheres começou a avançar pela viela. Gilberte abriu uma porta que dava para o pátio de um prédio pequeno. Atravessaram o pátio e entraram por outra porta.

 

Era um prédio de andares baratos com cinco pisos e sem elevador. Infelizmente, Gilberte morava no último andar. Flick mostrou-lhe como fazer um assento com os braços. Cruzaram os braços e deram as mãos sob as coxas de Michel e levantaram-no. Ele pôs um braço sobre os ombros de cada uma das mulheres para se equilibrar. Subiram com ele quatro lanços de escadas. Felizmente não encontraram ninguém durante o trajecto.

 

Estavam sem fôlego quando chegaram à porta de Gilberte. Puseram Michel de pé no chão e ele conseguiu coxear para dentro de casa, onde se atirou para um cadeirão.

 

Flick olhou em volta. Via-se que estavam na casa de uma mulher, bonita, mimosa e limpa. O mais importante de tudo é que à volta não havia outros prédios da mesma altura. Era essa a vantagem do último andar: ninguém podia espreitar lá para dentro. Michel estaria em segurança.

 

Gilberte ocupou-se de Michel, tentando pô-lo mais confortável com o auxílio de almofadas, limpando-lhe o rosto com uma toalha, oferecendo-lhe aspirinas. Era atenciosa mas pouco prática, tal como Antoinette o fora. Michel tinha esse efeito nas mulheres, embora não em Flick e fora em parte por isso que ele se apaixonara por ela: era incapaz de resistir a um desafio.

 

Precisas de um médico disse ela com brusquidão. E que tal o Claude Bouler? Ele costumava ajudar-nos, mas da última vez que falei com ele fingiu não me conhecer. Pensei que ia fugir, de tão nervoso que estava.

 

Ele ganhou medo desde que se casou respondeu Michel. Mas há-de vir ajudar-me.


Flick assentiu. Muitas pessoas abriam excepções por causa de Michel.

 

Gilberte, vai buscar o doutor Bouler.

 

Prefiro ficar com o Michel.

 

Flick resmungou mentalmente. Uma rapariga como Gilberte servia apenas para dar recados, e ainda por cima fazia-se difícil em relação a isso.

 

Por favor, faz o que te digo retorquiu Flick com firmeza. Preciso de estar sozinha com o Michel antes de regressar a Londres.

 

E o recolher obrigatório?

 

Se fores detida, diz que vais chamar um médico. É uma desculpa aceite. Podem acompanhar-te a casa do Claude para ter a certeza de que estás a dizer a verdade. Mas não hão-de vir aqui.

 

Gilberte pareceu perturbada, mas vestiu um casaco e saiu. Flick sentou-se no braço do cadeirão de Michel e beijou-o.

 

Aquilo correu muito mal disse ela.

 

Eu sei. Ele soltou um gemido. Grande MI6. Deviam lá estar o dobro dos homens.

 

Nunca mais vou confiar naqueles palhaços.

 

Perdemos o Albert. Vou ter de dizer à mulher dele.

 

Vou voltar esta noite. E peço a Londres que te envie outro operador de rádio.

 

Obrigado.

 

Vais ter de descobrir quem mais morreu e quem está vivo.

 

Se conseguir disse ele com um suspiro. Ela pegou-lhe na mão.

 

Como é que te sentes?

 

Idiota. É um sítio pouco digno para apanhar uma bala.

 

Mas fisicamente?

 

Um pouco tonto.

 

Precisas de beber qualquer coisa. O que é que ela terá cá em casa?

 

Um uísque sabia bem. Antes da guerra, os amigos de Flick em Londres tinham ensinado Michel a gostar de uísque.

 

Isso é forte de mais. A cozinha ficava numa das extremidades da sala. Flick abriu um armário. Para sua surpresa, viu uma garrafa de Dewar’s White Label. Os agentes da Grã-Bretanha traziam muitas vezes uísque com eles, para consumo próprio ou para os camaradas franceses, mas parecia uma bebida pouco própria para uma rapariga francesa. Havia também uma garrafa encertada de vinho tinto, muito mais indicado para um homem ferido. Ela encheu

meio copo e acabou de o encher com água da torneira. Michel bebeu com avidez: a perda de sangue deixara-o sedento. Esvaziou o copo, depois recostou-se e fechou os olhos.

 

Flick tinha vontade de beber um uísque, mas não era simpático proibir Michel de o beber e depois ir bebê-lo ela. Para além do mais, precisava de estar bem alerta. Tomaria um copo quando chegasse a solo britânico.

 

Olhou em volta. Havia algumas fotografias na parede, uma pilha de revistas de moda já antigas, mas nenhum livro. Espreitou para o quarto.

 

O que estás a fazer? perguntou Michel com aspereza.

 

A dar uma olhadela.

 

Não achas que é falta de educação, não estando ela em casa? Flick encolheu os ombros.

 

Nem por isso. De qualquer forma, preciso de ir à casa de banho.

 

Fica lá fora. Ao fundo das escadas e depois ao fundo do corredor. Se bem me lembro.

 

Ela seguiu as instruções dele. Enquanto estava na casa de banho percebeu que algo a incomodava, algo no apartamento de Gilberte. Concentrou-se. Nunca ignorava os seus instintos: já tinham salvado a sua vida mais do que uma vez.

 

Há aqui qualquer coisa errada disse ela a Michel quando regressou. O que é?

 

Ele encolheu os ombros-, parecendo pouco à vontade.

 

Não sei.

 

Pareces nervoso.

 

Talvez porque tenha sido ferido num tiroteio.

 

Não, não é isso. É o apartamento. Tinha a ver com o nervosismo de Gilberte, com o facto de Michel saber onde ficava a casa de banho, com o uísque. Flick foi até ao quarto. Daquela vez Michel não fez comentários. Ela olhou em volta. Na mesa-de-cabeceira estava a fotografia de um homem com os olhos grandes de Gilberte e sobrancelhas negras, talvez o pai dela. Havia uma boneca na colcha. A um canto estava uma bacia com um armário espelhado por cima. Flick abriu a porta do armário. Lá dentro viu uma lâmina de barbear, uma tigelinha e um pincel da barba. Gilberte não era assim tão inocente: já ali dormira um homem vezes suficientes para lá deixar as coisas da barba.

 

Flick olhou com mais atenção. A lâmina e a escova faziam conjunto e tinham cabos de osso polido. Ela reconheceu-os. Dera-os a Michel no seu trigésimo segundo aniversário.


Então era isso.

 

Ficou tão chocada que durante um momento foi incapaz de falar.

 

Desconfiara que ele estava interessado noutra pessoa, mas não imaginara que tivesse ido tão longe. Contudo, ali estava a prova, diante dos seus olhos.

 

O choque transformou-se em dor. Como podia ele dormir com outra mulher quando ela estava sozinha em Londres? Virou-se e olhou para a cama. Tinham-no feito ali, naquele quarto. Era insuportável.

 

Depois ficou zangada. Fora leal e fiel, aguentara a solidão mas ele não. Enganara-a. Estava tão furiosa com ele que se sentia capaz de explodir.

 

Dirigiu-se para a sala a passos largos e parou diante dele.

 

Seu filho da mãe! exclamou em inglês. Seu reles filho da mãe.

 

Não te zangues comigo respondeu Michel na mesma língua.

 

Sabia que ela achava muita graça ao seu fraco inglês, mas daquela vez isso não ia resultar.

 

Como foste capaz de me trair com uma atrasada mental de dezanove anos? perguntou ela já em francês.

 

Não significa nada, ela é apenas uma miúda gira.

 

E achas que isso muda alguma coisa? Quando ela andava a estudar e Michel fora seu professor, Flick sabia que atraíra a atenção dele desafiando-o na aula as alunas francesas eram deferentes quando comparadas às suas congéneres inglesas, e ainda por cima Flick tinha o hábito de não respeitar a autoridade. Se uma mulher parecida consigo tivesse seduzido Michel, uma mulher como Geneviève, com a sua fibra, teria sido mais fácil de suportar. Custava mais ele ter escolhido Gilberte, uma rapariga sem outro interesse que não o verniz das unhas.

 

Estava sozinho disse Michel.

 

Poupa-me da história do desgraçadinho. Para além de estares sozinho, foste fraco, desonesto e desleal.

 

Flick, minha querida, não vamos discutir. Metade dos nossos amigos acabaram de ser mortos. Tu vais voltar para Inglaterra. Podemos morrer ambos em breve. Não partas zangada.

 

Porque é que não posso estar zangada? Vou deixar-te nos braços de uma sirigaita!

 

Ela não é uma sirigaita...

 

Dispenso os pormenores técnicos. Sou tua mulher, mas tu dormes com ela.


Michel mexeu-se no cadeirão e fez um esgar de dor, depois pousou o seu olhar azul intenso em Flick.

 

Declaro-me culpado disse ele. Sou um patife. Mas sou um patife que te ama, e estou apenas a pedir que me perdoes, só desta vez, para o caso de não voltar a ver-te.

 

Era difícil resistir. Flick comparou cinco anos de casamento com um caso com uma miúda e cedeu. Avançou um passo na direcção dele. Ele abraçou-a pelas pernas e encostou o rosto ao algodão gasto do vestido dela. Flick fez-lhe uma festa no cabelo.

 

Está bem cedeu. Está bem.

 

Lamento muito disse ele. Sinto-me pessimamente. És a mulher mais extraordinária que já conheci, de que já ouvi falar. Não vou voltar a fazê-lo. Prometo.

 

A porta abriu-se e Gilberte entrou com Claude. Flick deu um salto, sobressaltada e, sentindo-se culpada, libertou-se do abraço de Michel. Depois sentiu-se uma idiota. Ele era seu marido, não de Gilberte. Porque havia de sentir-se culpada por abraçá-lo, mesmo que fosse no apartamento de Gilberte? Ficou zangada consigo própria.

 

Gilberte ficou chocada ao ver o amante a abraçar a mulher ali, mas recuperou rapidamente e o seu rosto adquiriu uma expressão de indiferença.

 

Claude, um jovem médico atraente, seguiu-a, parecendo ansioso.

 

Flick dirigiu-se a ele e beijou-o na cara.

 

Obrigada por vires disse. Ficamos-te muito gratos. Claude olhou para Michel.

 

Como é que te sentes, companheiro?

 

Tenho uma bala no rabo.

 

Então é melhor eu tirá-la de lá. Abandonou o ar preocupado e adoptou uma expressão profissional. Virando-se para Flick, disse: Põe umas toalhas na cama para ensopar o sangue, depois tira-lhe as calças e deita-o de barriga para baixo. Eu vou lavar as mãos.

 

Gilberte colocou algumas revistas velhas na cama e cobriu-as com toalhas enquanto Flick ajudava Michel a levantar-se e a saltitar até à cama. Quando ele se deitou, ela não conseguiu impedir-se de perguntar a si própria quantas vezes se teria ele deitado ali.

 

Claude inseriu um instrumento metálico na ferida e fê-lo circular à procura da bala. Michel gritou de dor.

 

Desculpa, meu amigo disse Claude.

 

Flick quase sentiu prazer ao ver o sofrimento de Michel na cama onde ele já devia ter gritado de prazer. Esperava que ele recordasse o quarto de Gilberte daquela forma.


Acaba lá com isso implorou Michel.

 

O sentimento de vingança de Flick desapareceu rapidamente, e ela ficou cheia de pena do marido. Aproximou uma almofada do rosto dele.

 

Morde aqui, vais ver que ajuda.

 

Michel enfiou a ponta da almofada na boca.

 

Claude voltou a remexer na ferida com o instrumento e desta vez a bala saiu. O sangue escorreu durante alguns segundos, depois abrandou, e Claude tapou a ferida com um penso.

 

Mexe-te o menos que puderes durante uns dias aconselhou ele.

 

Isso significava que Michel teria de ficar em casa de Gilberte. No entanto, estaria demasiado dorido para o sexo, pensou Flick com satisfação.

 

Obrigada, Claude agradeceu ela.

 

Ainda bem que pude ser útil.

 

Tenho outro pedido a fazer-te.

 

Qual? perguntou Claude com ar assustado.

 

Vou apanhar um avião às onze e quarenta e cinco. Preciso que me leves a Chatelle de carro.

 

Porque é que a Gilberte não te leva no carro que levou a minha casa?

 

Por causa do recolher obrigatório. Mas contigo estaremos em segurança porque és médico.

 

Porque é que eu hei-de ter duas pessoas comigo?

 

Três. Precisamos que o Michel segure numa lanterna. O procedimento nas recolhas era sempre o mesmo: quatro elementos da Resistência formavam um L gigante com lanternas na mão, indicando a direcção do vento e o local de aterragem do avião. As pequenas lanternas precisavam de estar voltadas para o avião para garantir que o piloto as via. Podiam simplesmente ser colocadas no chão, mas isso era menos seguro, e se o piloto não visse aquilo que esperava ver podia desconfiar de uma armadilha e decidir não aterrar. Era melhor ter quatro pessoas se isso fosse possível.

 

Como é que vou explicar a vossa presença à Polícia? perguntou Claude. Um médico numa emergência não viaja com três pessoas no carro!

 

Havemos de inventar uma história.

 

É muito perigoso!

 

Não leva mais do que uns minutos a esta hora da noite.

 

A Marie-Jeanne vai matar-me. Está sempre a dizer que tenho de pensar nas crianças.


Tu não tens filhos.

 

Ela está grávida.

 

Flick assentiu. Isso explicava por que motivo ele estava tão sobressaltado.

 

Michel rolou na cama e sentou-se. Depois apoiou-se ao braço de Claude.

 

Claude, imploro-te, isto é muito importante. Fá-lo por mim, por favor?

 

Era difícil dizer que não a Michel. Claude suspirou.

 

Quando?

 

Flick olhou para o relógio. Eram quase sete.

 

Agora.

 

Claude olhou para Michel.

 

A ferida dele pode voltar a abrir.

 

Eu sei respondeu Flick. Deixa-a sangrar.

 

A aldeia de Chatelle consistia em meia dúzia de casas construídas em torno de um cruzamento: três quintas, uma fila de pequenas casas, e uma padaria que fornecia as quintas e as aldeias mais próximas. Flick estava de pé no meio de um pasto a quilómetro e meio do cruzamento, tendo na mão uma lanterna do tamanho de um maço de tabaco.

 

Frequentara um curso de uma semana dado por pilotos do Esquadrão 161 para aprender a orientar a aterragem de um avião. Aquele local obedecia às especificações que lhe haviam dado. Tinha quase um quilómetro de comprimento um Lysander precisava de seiscentos metros para aterrar e levantar voo. O chão sob os seus pés era firme, e não havia declives. Um lago próximo era bem visível do céu ao luar, dando aos pilotos um ponto de referência.

 

Michel e Gilberte formavam com Flick uma linha recta que indicava a direcção do vento, e Claude estava alguns metros para o lado de Gilberte, formando a base do L invertido que guiaria o piloto. Em áreas isoladas, podiam usar-se fogueiras em vez de lanternas, mas ali, perto de uma aldeia, era demasiado perigoso deixar uma reveladora marca de fogo no chão.

 

As quatro pessoas formavam aquilo a que os agentes chamavam «comité de recepção». Os comités de Flick eram sempre silenciosos e disciplinados, mas grupos menos bem organizados transformavam muitas vezes as aterragens em festas, com grupos de homens a gritar anedotas e a fumar, e os espectadores das aldeias mais próximas vinham assistir. Isso era perigoso. Se o piloto desconfiasse que os alemães sabiam da aterragem e achasse que a Gestapo podia estar à sua espera tinha de reagir com rapidez. As instruções dadas aos comités de recepção indicavam que quem se aproximasse do avião pelo ângulo errado podia ser abatido pelo piloto. Aquilo nunca acontecera, mas uma ocasião um espectador fora atropelado por um bombardeiro Hudson e morrera.

 

Esperar pelo avião era sempre um inferno. Se ele não aparecesse Flick teria de suportar outras vinte e quatro horas de tensão e de perigo antes da oportunidade seguinte. Mas um agente nunca sabia se um avião ia aparecer. Mas não porque a RAF não fosse de confiança. Como os pilotos do Esquadrão 161 tinham explicado a Flick, navegar um avião pelo luar sobre centenas de quilómetros de campo era uma tarefa monumentalmente difícil. O piloto calculava a sua posição pela direcção, pela velocidade e pelos minutos passados e tentava confirmar o resultado através de pontos de referência como rios, vilas, linhas de caminho-de-ferro e florestas. O problema daquele método era o facto de ser impossível ajustar a rota se houvesse um desvio causado pelo vento. E o problema dos pontos de referência era que ao luar os rios são todos parecidos. Chegar mais ou menos à área já era difícil, mas aqueles pilotos tinham ainda de descobrir um determinado campo.

 

Se houvesse nuvens a ocultar a Lua seria impossível e o avião nem sequer levantaria voo.

 

Contudo, o céu estava limpo e Flick sentia-se esperançada. E poucos minutos antes da meia-noite ouviu o inconfundível som de um avião monomotor, primeiro ténue, depois cada vez mais intenso, como um aplauso, e sentiu a excitação de regressar a casa. Começou a acender e a apagar a lanterna para formar a letra X no alfabeto morse. Se formasse a letra errada o piloto desconfiaria de uma armadilha e ir-se-ia embora.

 

O avião descreveu um círculo, depois foi perdendo altitude. Aterrou à direita de Flick, travou, virou entre Michel e Claude, deslizou até Flick e virou-se de novo para o vento, descrevendo uma elipse e parando já pronto para a descolagem.

 

O aparelho era um Westland Lysander, um monoplano pequeno de asas elevadas, pintado de preto mate. Tinha apenas uma pessoa a bordo. Possuía dois lugares para passageiros, mas Flick já vira Lizzies transportar quatro, um no chão e outro na prateleira das bagagens.

 

O piloto não desligou o motor. O seu objectivo era não ficar no chão mais do que alguns segundos.

 

Flick queria abraçar Michel e desejar-lhe boa sorte, mas também lhe apetecia esbofeteá-lo e mandá-lo manter-se afastado de outras mulheres. Ainda bem que não tinha tempo nem para uma coisa nem para outra.

 

Depois de um breve aceno, Flick subiu a escada metálica, abriu a escotilha e entrou no avião. Fechou a cúpula de vidro sobre a sua cabeça.

 

O piloto olhou para trás e Flick levantou os polegares. O pequeno avião deu um solavanco para a frente e ganhou velocidade, depois levantou voo e subiu num ângulo bastante acentuado.

 

Flick conseguia ver algumas luzes na aldeia: os camponeses eram descuidados com o blackout. Quando Flick aterrara em França, já demasiado tarde, às quatro da manhã, conseguira ver do ar a luz avermelhada do forno de uma padaria e ao atravessar a aldeia de carro sentira o cheiro do pão acabado de cozer, a essência da França.

 

O avião inclinou-se para virar, e Flick viu os rostos de Michel, Gilberte e Claude iluminados pelo luar, assemelhando-se a manchas brancas no pano de fundo negro do pasto. Quando o avião se endireitou rumo a Inglaterra, ela apercebeu-se com um certo pesar de que poderia nunca mais voltar a vê-los.

 

O SEGUNDO DIA

Segunda-feira, 29 de Maio de 1944

Dieter Franck conduziu durante a noite o grande Hispano-Suiza, acompanhado pelo seu jovem assistente, o tenente Hans Hesse. O carro tinha dez anos, mas o seu monstruoso motor de onze litros era incansável. Na véspera à noite, Dieter encontrara mais marcas de balas na curva generosa do pára-choques, uma recordação da escaramuça na praça de Sainte-Cécile, mas não havia danos mecânicos e ele era de opinião que os buracos contribuíam para o charme do carro, como a cicatriz de um duelo no rosto de um oficial prussiano.

 

O tenente Hesse tapou os faróis para percorrerem as ruas de Paris, que estava em blackout, mas destapou-os quando chegaram à estrada que conduzia à Normandia. Revezaram-se ao volante, duas horas cada um, embora Hesse, que adorava o carro e idolatrava o seu proprietário, tivesse conduzido de bom grado durante todo o percurso.

 

Meio a dormir no banco do passageiro, fascinado com as estradas secundárias que se desenrolavam diante dos faróis, Dieter tentou imaginar o seu futuro. Iriam os Aliados reconquistar a França e expulsar as forças de ocupação? Imaginar a Alemanha derrotada era assustador. Talvez houvesse uma espécie de acordo de paz, com a Alemanha a entregar a França e a Polónia, mas mantendo a Áustria e a Checoslováquia. Isso parecia pouco melhor. Teve dificuldade em imaginar a vida em Colónia, de novo com a mulher e os filhos, depois da excitação e dos prazeres de Paris e de Stéphanie. O único final feliz para Dieter e para a Alemanha seria se o exército de Rommel empurrasse os invasores de novo para o mar.

 

Antes do nascer do Sol, naquela manhã húmida, Hesse entrou em La Roche-Guyon, uma pequena aldeia medieval na margem do Sena entre Paris e Rouen. Parou no bloqueio de estrada no final da aldeia, mas eles eram esperados e mandaram-nos rapidamente continuar. Passaram por casas silenciosas e de janelas tapadas até chegarem a outro posto de controlo junto às portas do antigo castelo. Por fim estacionaram no grande pátio empedrado. Dieter deixou Hesse no carro e entrou no edifício.

 

O comandante-em-chefe alemão da zona oeste era o marechal-de-campo Gerd von Runstedt, um general da velha guarda. Sob as ordens dele, encarregue da defesa da costa francesa, encontrava-se o marechal-de-campo Erwin Rommel. O castelo de La Roche-Guyon era o quartel-general de Rommel.

 

Dieter Franck tinha afinidades com Rommel. Ambos eram filhos de professores o pai de Rommel fora director de uma escola e, consequentemente, ambos eram alvo de um certo desdém por parte de militares snobes como Von Runstedt. De resto, eram bastante diferentes. Dieter era um bon vivant, saboreando todos os prazeres culturais e sensuais que a França tinha para oferecer. Rommel era um trabalhador obsessivo que não fumava nem bebia e muitas vezes se esquecia de comer. Casara com a primeira namorada e escrevia-lhe três vezes por dia.

 

No vestíbulo, Dieter encontrou o ajudante de Rommel, o major Walter Goedel, um homem frio com um cérebro formidável. Dieter respeitava-o, mas era incapaz de simpatizar com ele. Tinham falado ao telefone na noite anterior. Dieter contara-lhe o problema que tivera com a Gestapo e dissera que queria ver Rommel o mais depressa possível.

 

Esteja cá às quatro da manhã dissera Goedel. Rommel começava sempre a trabalhar às quatro da manhã.

 

Naquele momento Dieter perguntou a si mesmo se fizera o correcto. Rommel poderia perguntar «Como ousa vir incomodar-me com essas trivialidades?», embora Dieter pensasse que não. Os comandantes gostavam de sentir que controlavam todos os pormenores. Quase de certeza que Rommel daria a Dieter o apoio que ele vinha pedir-lhe. Mas nunca se sabia, especialmente quando o comandante estava sob tensão.

 

Goedel acenou um cumprimento.

 

Ele quer vê-lo de imediato. Venha por aqui.

 

Tem tido notícias de Itália? perguntou Dieter enquanto avançavam pelo corredor.

 

Apenas más notícias respondeu Goedel. Estamos em retirada de Arce.

 

Dieter assentiu, resignado. Os Alemães lutavam com determinação, mas haviam sido incapazes de deter o avanço para norte do inimigo.


Pouco depois, Dieter entrou no gabinete de Rommel. Era um salão no rés-do-chão. Dieter reparou com inveja numa tapeçaria valiosíssima do século xv, da fábrica Gobelin, numa das paredes. Havia poucos móveis, à excepção de algumas cadeiras e de uma enorme secretária antiga que pareceu a Dieter ser da mesma época da tapeçaria. Na secretária havia um único candeeiro. À secretária encontrava-se sentado um homem baixo com cabelo alourado a rarear.

 

O major Franck está aqui, meu marechal anunciou Goedel.

 

Dieter aguardou cheio de nervosismo. Rommel continuou a ler durante alguns segundos, depois fez uma marca numa folha de papel. Parecia o gerente de um banco a rever as contas dos clientes mais importantes até levantar os olhos. Dieter já vira antes aquele rosto, mas nunca deixava de se sentir ameaçado. Era um rosto de pugilista, com um nariz achatado, um queixo largo e olhos muito juntos, e possuía aquela agressividade que tornara Rommel um comandante lendário. Dieter recordou a história da primeira missão de Rommel durante a Primeira Guerra Mundial. Liderando uma patrulha de três homens, Rommel deparara com vinte soldados franceses. Em vez de recuar e de requisitar reforços, Rommel abrira fogo e avançara para o inimigo. Tivera a sorte de sobreviver mas Dieter recordou-se de uma frase de Napoleão: «Mandai-me generais com sorte.» Desde essa altura, Rommel preferia sempre os ataques súbitos e ousados aos ataques cuidadosamente planeados. Nisso era o oposto do seu opositor no deserto, o general Montgomery, cuja filosofia era nunca atacar até se ter a certeza da vitória.

 

Sente-se, Franck disse Rommel com brusquidão. O que é que se passa?

 

Dieter já ensaiara o que iria dizer.

 

Seguindo as suas instruções, tenho visitado edifícios-chave passíveis de serem vulneráveis a um ataque da Resistência e tenho aumentado a sua segurança.

 

Óptimo.

 

Também tenho tentado determinar qual a capacidade da Resistência em provocar danos graves. Serão capazes de prejudicar a nossa reacção a uma invasão?

 

E qual foi a sua conclusão?

 

A situação é mais grave do que imaginávamos.

 

Rommel resmungou entre dentes, como se uma suspeita desagradável tivesse acabado de ser confirmada.

 

Motivos?

 

Rommel não ia arrancar-lhe a cabeça. Dieter descontraiu-se um pouco. Relatou o ataque da véspera a Sainte-Cécile: o plano imaginativo, as armas abundantes, e acima de tudo a bravura dos combatentes. O único pormenor que deixou de fora foi a beleza da loura. Rommel levantou-se e dirigiu-se à tapeçaria. Olhou para ela, mas Dieter achou que ele não estava a vê-la

 

Eu temia isso disse Rommel. Falava baixo, quase de si para si. Sou capaz de rechaçar uma invasão, mesmo com as poucas tropas de que disponho, se puder continuar a ter mobilidade e flexibilidade... mas se as minhas comunicações falharem, estou perdido.

 

Goedel assentiu em concordância.

 

Acho que podemos transformar o ataque à central telefónica numa oportunidade.

 

Rommel virou-se para ele com um ligeiro sorriso.

 

Quem me dera que todos os meus oficiais fossem como você! Continue. O que é que propõe?

 

Dieter começou a achar que a reunião lhe estava a ser favorável.

 

Se eu puder interrogar os prisioneiros capturados eles poderão conduzir-me a outros grupos. Com sorte, poderemos provocar bastantes danos na Resistência antes da invasão.

 

Rommel parecia céptico.

 

Isso soa a fanfarronice. Dieter começou a assustar-se. Depois Rommel prosseguiu. Se fosse outra pessoa a dizê-lo, talvez já estivesse a mandá-la embora. Mas recordo-me do seu trabalho no deserto. Consegue que as pessoas lhe contem coisas que julgavam não saber.

 

Dieter sentiu-se satisfeito. Aproveitando aquele momento favorável, disse:

 

Infelizmente, a Gestapo recusa deixar-me interrogar os prisioneiros.

 

São mesmo imbecis.

 

Preciso da sua intervenção.

 

Com certeza. Rommel olhou para Goedel. Ligue para a Avenue Foch. O quartel-general da Gestapo em França ficava no número 84 da Avenue Foch em Paris. Diga-lhes que o major Franck irá interrogar os prisioneiros hoje, senão o próximo telefonema virá de Berchtesgaden. Estava a referir-se à fortaleza de Hitler na Baviera. Rommel nunca hesitava em servir-se do privilégio de acesso directo a Hitler que tinham os marechais-de-campo.

 

Muito bem respondeu Goedel.

 

Rommel contornou a sua secretária do século xvii e tornou a sentar-se.


Por favor, mantenha-me a par das coisas, Franck disse, voltando a concentrar-se nos papéis. Dieter e Goedel saíram da sala.

 

Goedel acompanhou Dieter à entrada principal do castelo. Lá fora ainda era de noite.

 

Flick aterrou em Tempsford, um campo de aviação da RAF oitenta quilómetros a norte de Londres, perto de Sandy, uma aldeia em Bedfordshire. Apenas pelo gosto fresco e húmido do ar da noite na sua boca seria capaz de dizer que estava de regresso a Inglaterra. Adorava a França, mas ali encontrava-se em casa.

 

Atravessando o campo de aviação a pé, recordou-se de regressar de férias em criança. A mãe dizia sempre a mesma coisa quando voltavam a ver a casa:

 

É bom saír, mas é bom voltar a casa.

 

Flick recordava-se sempre nos momentos mais estranhos das coisas que a mãe dizia.

 

Uma jovem com o uniforme de cabo das FANY aguardava junto a um potente Jaguar para levá-la a Londres.

 

Mas que luxo comentou Flick sentando-se no banco de cabedal.

 

Vou levá-la imediatamente para Orchard Court disse a condutora. Estão à sua espera para o interrogatório.

 

Flick esfregou os olhos.

 

Meu Deus! exclamou. Eles acham que eu não preciso de dormir?

 

A condutora não fez comentários.

 

Espero que a missão tenha corrido bem, meu major.

 

Foi uma SNCF.

 

Desculpe?

 

SNCF repetiu Flick. É uma sigla. Quer dizer «Situação Normal Completamente fodida».

 

A mulher ficou calada. Flick calculou que ela devia sentir-se pouco à vontade. Ainda bem, pensou com amargura, que ainda havia mulheres que se chocavam com a linguagem de caserna.


O dia nasceu enquanto o carro avançava rapidamente pelas aldeias de Stevenage e Knebworth. Flick olhou para as casas modestas com pequenas hortas à frente, para os correios rurais onde as funcionárias distribuíam selos de um penny, e para os vários pubs com a sua cerveja morna e os seus pianos velhos, e sentiu uma enorme felicidade pelo facto de os nazis ainda não terem chegado ali.

 

Esse sentimento deixou-a ainda mais determinada a regressar a França. Queria outra oportunidade para atacar o castelo. Recordou as pessoas que deixara para trás em Sainte-Cécile: Albert, o jovem Bertrand, a bela Geneviève, e os outros mortos ou capturados. Pensou nas suas famílias, aflitas de tão preocupadas ou atordoadas pela dor. Decidiu que o sacrifício delas não seria em vão.

 

Teria de começar imediatamente. Ainda bem que ia ser interrogada: teria oportunidade de propor ainda naquele dia o seu plano. Os homens que dirigiam o ÊOE mostrar-se-iam receosos a princípio, pois nunca ninguém enviara uma equipa só de mulheres para uma missão daquelas. Havia muitos tipos de empecilhos. Mas havia sempre empecilhos.

 

Quando chegou aos subúrbios a norte de Londres o Sol já nascera e as pessoas especiais das madrugadas já andavam na rua: carteiros e leiteiros nas suas entregas, maquinistas e motoristas de autocarros a dirigirem-se a pé para o trabalho. Por todo o lado havia vestígios da guerra: um cartaz a prevenir contra os desperdícios, um papel na montra de um talho a dizer «Hoje não há carne», uma mulher a empurrar um carro do lixo, uma correnteza de casas bombardeadas. Mas ninguém ali mandaria Flick parar nem exigiria ver os seus documentos, nem a mandaria para uma cela, nem a torturaria para obter informações nem a mandaria num comboio de carga para um campo onde ela morreria à fome. Sentiu desaparecer a tensão de viver sob disfarce, recostou-se no banco e fechou os olhos.

 

Acordou quando o carro entrou em Baker Street. Passou pelo número 64: os agentes nunca entravam no quartel-general para não poderem revelar os seus segredos no caso de serem interrogados. Na verdade, muitos agentes desconheciam aquela morada. O carro entrou em Portman Square e parou junto a Orchard Court, um prédio. A condutora saiu e abriu-lhe a porta.

 

Flick entrou e rumou ao andar do EOE. Animou-se ao ver Percy Thwaite. Era um homem calvo de cinquenta anos com um bigode à escovinha que gostava de Flick como um pai. Estava vestido à civil e nenhum deles fez continência, porque o EOE não tinha paciência para formalidades militares.


Pela tua cara calculo que tenha corrido mal disse Percy. O tom compreensivo dele foi demasiado para Flick. A tragédia do que acontecera dominou-a subitamente e ela rompeu em lágrimas. Percy abraçou-a e deu-lhe palmadinhas nas costas. Flick enterrou o rosto no velho casaco de tweed dele.

 

Tudo bem disse Percy. Sei que fizeste o teu melhor.

 

Desculpa estar a comportar-me como uma rapariga.

 

Quem me dera que todos os meus homens fossem raparigas assim disse Percy com a voz embargada.

 

Ela desprendeu-se do abraço dele e limpou os olhos à manga.

 

Não me ligues.

 

Ele virou-se e assoou o nariz num lenço grande.

 

Chá ou uísque? perguntou.

 

Chá, acho. Ela olhou em volta. A sala estava cheia de móveis velhos, rapidamente lá colocados em 1940 e nunca substituídos: uma secretária barata, um tapete gasto, cadeiras todas diferentes umas das outras. Flick sentou-se num cadeirão com molas frouxas. Adormeço se beber álcool.

 

Observou Percy a preparar o chá. Ele sabia ser duro e mostrar compaixão. Muito condecorado durante a Primeira Guerra Mundial, tornara-se um agitador dos operários durante os anos 20 e fora um veterano da Batalha de Cable Street, em 1936, quando os cockneys tinham atacado os fascistas que tentavam desfilar num bairro judeu do East End de Londres. Iria fazer-lhe perguntas minuciosas acerca do seu plano, mas manteria o espírito aberto.

 

Entregou-lhe uma caneca de chá com leite e açúcar.

 

Vai haver uma reunião esta manhã disse ele. Tenho de apresentar um relatório ao chefe às nove. Daí a pressa.

 

Ela deu uns goles no chá quente e sentiu uma onda de energia. Contou-lhe o que acontecera na praça em Sainte-Cécile. Ele sentou-se à secretária e tomou notas com um lápis afiado.

 

Devia ter adiado tudo concluiu ela. Com base nos receios de Antoinette sobre os serviços secretos, devia ter adiado o ataque e ter-te enviado uma mensagem via rádio, informando-te de que estávamos em desvantagem numérica.

 

Percy abanou a cabeça com ar triste.

 

Não é altura para adiamentos. A invasão deve ocorrer daqui a uns dias. Se nos tivesses consultado, duvido que tivesse feito diferença. Creio que te teríamos mandado avançar. Tínhamos de tentar. A central telefónica é demasiado importante.

 

Bem, isso serve de consolação. Flick gostou de saber que não tinha de achar que Albert morrera porque ela cometera um erro táctico. Mas isso não iria trazê-lo de volta.


E o Michel está bem? perguntou Percy.

 

Ferido, mas a recuperar. Quando o EOE recrutara Flick, ela não os informara de que o marido trabalhava na Resistência. Se tivessem sabido, podiam tê-la mandado fazer um trabalho diferente. Mas ela própria não o sabia, embora tivesse desconfiado. Em Maio de 1940 estivera em Inglaterra a visitar a mãe, e Michel estivera no exército, como a maior parte dos franceses sãos, pelo que a queda da França os retivera em países diferentes. Quando ela regressara como agente secreta e tomara conhecimento do papel desempenhado pelo marido, já tinham investido demasiado treino em Flick e ela era demasiado útil ao EOE para ser despedida por causa de hipotéticas distracções emocionais.

 

Ninguém gosta de ser alvejado no rabo comentou Percy. As pessoas devem pensar que fugiste. Levantou-se. Bem, é melhor ires para casa dormir.

 

Ainda não retorquiu Flick. Primeiro quero saber o que vamos fazer a seguir.

 

Vou escrever este relatório...

 

Não, estou a referir-me à central telefónica. Se é assim tão importante, temos de a destruir.

 

Ele tornou a sentar-se e fitou-a com uma expressão astuta.

 

No que é que estás a pensar?

 

Flick tirou da mala o passe de Antoinette e atirou-o para a secretária dele.

 

Aqui está uma forma melhor de entrarmos. Isso é utilizado pelas mulheres da limpeza todas as noites às sete horas.

 

Percy pegou no passe e observou-o.

 

Menina esperta comentou ele com uma certa admiração. Continua.

 

Quero voltar para lá.

 

No rosto de Percy surgiu uma breve expressão de dor e Flick soube que ele receava que ela arriscasse de novo a vida. Mas ele não disse nada.

 

Desta vez vou levar uma equipa inteira comigo prosseguiu. Cada uma terá um passe como esse. Vamos substituir as mulheres da limpeza de forma a entrar no castelo.

 

Presumo que queiras só mulheres.

 

Exacto. Preciso de uma equipa só de mulheres. Ele assentiu.

 

Pouca gente aqui irá levantar objecções... vocês mulheres já mostraram o que valiam. Mas onde irás encontrar as mulheres? As que temos já estão quase todas lá.


Consegue que o meu plano seja aprovado que eu trato de encontrar as mulheres. Vou pegar nas que foram rejeitadas pelo EOE, nas que falharam o curso, todas. Devemos ter várias que falharam por um motivo ou por outro.

 

Sim... porque não tinham preparação física, porque não sabiam ficar de bico calado, porque gostavam demasiado de violência ou porque perderam a coragem no treino de pára-quedismo e se recusaram a saltar do avião.

 

Não interessa que sejam segundas escolhas retorquiu Flick com seriedade. Sei lidar com isso. Na sua mente uma voz perguntou «Sabes mesmo?», mas ela ignorou-a. Se a invasão falhar, perdemos a Europa. Não voltaremos a tentar durante anos. Este é o ponto de viragem, temos de atirar tudo ao inimigo.

 

Não podias usar francesas que já lá estejam, combatentes da Resistência?

 

Flick já considerara e rejeitara essa ideia.

 

Se eu dispusesse de algumas semanas, poderia formar uma equipa a partir de meia dúzia de circuitos da Resistência, mas levaria muito tempo a encontrá-las e a fazê-las chegar a Reims.

 

Ainda pode ser possível.

 

E depois temos de forjar passes com a fotografia de cada uma delas. Isso é difícil de conseguir lá. Aqui podemos fazê-los num dia ou dois.

 

Não é assim tão fácil. Percy levantou o passe de Antoinette e aproximou-o de uma lâmpada despida, observando-o a contraluz. Mas tens razão, o nosso pessoal é capaz de fazer milagres nesse âmbito. Pousou-o na secretária. Está bem. Mas vão ter de ser mulheres rejeitadas pelo EOE.

 

Flick sentiu-se triunfante. Ele iria tentar ajudá-la.

 

Mas partindo do princípio de que encontras mulheres que falem francês em número suficiente, achas que vai resultar? prosseguiu Percy. E os guardas alemães? Não conhecem as mulheres da limpeza?

 

Não devem ir trabalhar sempre as mesmas todos os dias... devem ter folgas. E os homens nunca reparam em quem limpa a porcaria deles.

 

Olha que não sei. Os soldados são normalmente rapazes ávidos de sexo que prestam muita atenção a todas as mulheres que encontram. Calculo que os homens desse castelo namorisquem pelo menos com as mais novas.

 

Vi as mulheres entrarem no castelo ontem à noite e não vi sinais de namoriscos.


Mesmo assim não podes ter a certeza de que os homens não vão reparar no aparecimento de uma equipa completamente desconhecida.

 

Não posso ter a certeza, mas estou suficientemente confiante.

 

Está bem, e quanto às pessoas francesas lá dentro? As telefonistas são da zona, não são?

 

Algumas sim, mas a maior parte vem de Reims num autocarro.

 

Nem todos os franceses gostam da Resistência, ambos sabemos isso. Há alguns que aprovam as ideias dos nazis. Deus sabe que houve muitos idiotas na Grã-Bretanha que acharam que o Hitler oferecia o tipo de governo forte e modernizador de que precisamos... embora hoje em dia não se ouça falar muito nessas pessoas.

 

Flick abanou a cabeça. Percy ainda não fora a França depois da ocupação.

 

Lembra-te de que os Franceses tiveram quatro anos de domínio nazi. Toda a gente lá anseia pela invasão. As mulheres do PBX vão ficar de bico calado.

 

Mesmo depois de a RAF as ter bombardeado? Flick encolheu os ombros.

 

Pode haver algumas mais hostis, mas a maioria saberá como controlá-las.

 

E o que esperas.

 

Volto a dizer que acho que vale a pena tentar.

 

Ainda não sabes se a entrada para aquela cave tem muitos guardas.

 

Não foi isso que nos impediu ontem de entrar.

 

Ontem dispunhas de quinze combatentes da Resistência, alguns com bastante calo. Da próxima vez vais ter uma mão-cheia de refugo.

 

Flick lançou na mesa o seu trunfo.

 

Ouve, muita coisa pode correr mal, mas e depois? A operação é barata e vamos arriscar as vidas de pessoas que já não estavam a contribuir para o esforço de guerra. O que temos a perder?

 

Eu ia chegar aí. Olha, gosto deste plano. Vou apresentá-lo ao chefe. Mas creio que ele irá rejeitá-lo por um motivo que ainda não discutimos.

 

Qual?

 

Só tu podes liderar essa equipa. Mas a viagem de que acabaste de regressar devia ter sido a tua última. Sabes demasiado. Há dois anos que entras e sais de França. Contactaste com a maior parte dos circuitos da Resistência no Norte da França. Não podemos voltar a mandar-te para lá. Se fores capturada, podes denunciá-los a todos.

 

Eu sei admitiu Flick com ar soturno. É por isso que ando sempre com um comprimido para poder suicidar-me.

 

O general Bernard Montgomery, comandante do 21.° Grupo do exército prestes a invadir a França, instalara um quartel improvisado na zona ocidental de Londres, numa escola cujos alunos tinham sido evacuados para instalações mais seguras na zona rural. Por coincidência, era a escola que o próprio Monty tinha frequentado em criança. Faziam-se reuniões na sala maior e todos se sentavam nos bancos duros generais e políticos e, numa ocasião famosa, até o próprio rei.

 

Os Britânicos achavam aquilo engraçado. Paul Chancellor, de Boston, Massachusetts, achava uma parvoíce. Custava-lhes muito levar para ali algumas cadeiras? No geral gostava dos Britânicos, mas não quando eles decidiam exibir as suas excentricidades.

 

Paul trabalhava directamente com Monty. Muita gente achava que isso se devia ao facto de o seu pai ser general, mas não era verdade. Paul sentia-se à vontade com oficiais mais velhos em parte por causa do pai e em parte porque antes da guerra o exército norte -americano fora o maior cliente do seu negócio, que consistia em gravar discos educativos, essencialmente cursos de línguas. Gostava das virtudes militares da obediência, da pontualidade e da precisão, mas também sabia pensar pela sua cabeça, e Monty confiava nele cada vez mais.

 

A sua área eram os serviços secretos. Era um organizador. Certificava-se de que os relatórios de que Monty precisava estavam na sua secretária quando ele os queria, perseguia os que estavam atrasados, combinava reuniões com pessoas-chave e fazia investigações suplementares em nome do chefe.

 

Tinha experiência no trabalho clandestino. Trabalhara para o Gabinete de Serviços Estratégicos, a agência secreta americana, e estivera a trabalhar clandestinamente em França e nas zonas do Norte de África onde se falava francês. (Em criança vivera em Paris, onde o pai fora adido militar na Embaixada dos Estados Unidos.) Paul fora ferido havia seis meses num tiroteio com a Gestapo em Marselha. Uma das balas arrancara-lhe a maior parte da orelha esquerda, mas isso apenas afectara a sua aparência. A outra desfizera-lhe a rótula direita, que nunca mais voltaria a ser a mesma, e essa era a verdadeira razão por que ele tinha um trabalho de secretária.

 

O trabalho era fácil quando comparado à vida permanentemente em fuga no território ocupado, mas não era monótono. Estavam a planear a Operação Overlord, a invasão que poria cobro à guerra. Paul era uma das cem pessoas no mundo que sabiam a data, embora muitas mais fossem capazes de adivinhar. Aliás, havia três datas possíveis com base nas marés, nas correntes, na Lua e nas horas de sol. A invasão precisava de uma lua tardia para que os movimentos iniciais do exército estivessem protegidos pela escuridão, mas teria de haver luar mais tarde, quando os primeiros pára-quedistas saltassem dos aviões e dos planadores. Era necessária maré baixa de madrugada para expor os obstáculos que Rommel espalhara pelas praias. E outra maré baixa antes do cair da noite para o desembarque das forças seguintes. Estas exigências limitavam a intervenção a um pequeno espaço de tempo: a frota poderia partir na segunda-feira seguinte, 5 de Junho, ou na terça ou quarta seguintes. A decisão final seria tomada no último minuto, dependendo do tempo, pelo supremo comandante dos Aliados, o general Eisenhower.

 

Três anos antes Paul teria tentado tudo por tudo obter um lugar na força invasora. Teria ansiado a acção e sentido vergonha por ser um daqueles que ficava em casa. Agora era mais velho e mais sensato. Pagara as suas dívidas: no liceu fora capitão da equipa que vencera o campeonato do Massachusetts, mas nunca mais voltaria a dar um pontapé numa bola com o pé direito. Mais importante ainda, sabia que a sua capacidade organizativa era mais importante para a vitória na guerra do que a sua capacidade de dar um pontapé a direito.

 

Estava encantado por fazer parte da equipa que planeava a maior invasão de todos os tempos. Com a excitação vinha a ansiedade, claro. As batalhas nunca corriam conforme o plano (embora Monty tivesse o defeito de fingir que as suas corriam). Paul sabia que um erro cometido por si um deslize da caneta, um pormenor descurado, uma informação não reconfirmada poderia matar soldados aliados. Apesar do tamanho monstruoso da força de invasão, a vitória poderia pender para ambos os lados, e o mais pequeno dos erros poderia desequilibrar a balança.

 

Naquele dia às dez da manhã, Paul reservara quinze minutos para a Resistência francesa. Fora ideia de Monty. Era um homem minucioso. O caminho para vencer batalhas, acreditava ele, era começar a lutar apenas depois de todos os preparativos terem sido efectuados.

 

Às cinco para as dez Simon Fortescue entrou na sala. Era um dos funcionários mais antigos do M16, o departamento de serviços secretos. Era um homem alto, envergava um fato às riscas, tinha modos ligeiramente autoritários, mas Paul duvidava de que ele soubesse muito sobre trabalho clandestino no mundo real. Vinha seguido de John Graves, um funcionário de aspecto nervoso do Ministério da Economia de Guerra, o departamento do governo que tutelava o EOE. Graves envergava o «uniforme» habitual de Whitehall: casaco preto e calças cinzentas às riscas. Paul franziu o sobrolho. Não convidara Graves.

 

Mister Graves! exclamou. Não sabia que haviam pedido a sua presença.

 

Eu já explico respondeu Graves, sentando-se com ar afogueado num dos bancos da escola e abrindo a pasta.

 

Paul sentiu-se irritado. Monty detestava surpresas. No entanto, Paul não podia expulsar Graves da sala.

 

Pouco depois chegou Monty. Era um homem baixo com um nariz pontiagudo e cabelo a rarear. Tinha um rosto cheio de rugas e um bigode pequeno. Fizera cinquenta e seis anos, mas parecia mais velho. Paul gostava dele. Monty era tão meticuloso que algumas pessoas impacientavam-se com ele e chamavam-lhe «velha». Paul acreditava que a meticulosidade de Monty já salvara a vida a muitos homens.

 

Com Monty vinha um americano que Paul desconhecia. Monty apresentou-o como general Pickford.

 

Onde está o homem do EOE? perguntou Monty olhando para Paul.

 

Foi Graves quem respondeu:

 

Ele foi convocado pelo primeiro-ministro e envia as suas desculpas. Espero poder ajudar...

 

Duvido retorquiu Monty.

 

Paul gemeu interiormente. Aquilo era uma embrulhada e iam atribuir-lhe a culpa. Mas passava-se mais qualquer coisa. Os britânicos estavam a planear algo que ele desconhecia. Observou-os atentamente, à procura de pistas.

 

Tenho a certeza de que posso preencher as lacunas disse Simon Fortescue.


Monty parecia zangado. Prometera ao general Pickford um relatório e a pessoa mais importante estava ausente. Mas não perdeu tempo com recriminações.

 

Na próxima batalha começou sem mais delongas os momentos mais perigosos serão os primeiros. Não era costume ele falar de momentos perigosos, pensou Paul. Costumava falar como se tudo fosse correr sobre rodas. Durante um dia vai parecer que estamos suspensos acima de uma ravina apenas pelas pontas dos dedos. «Ou talvez durante dois dias», pensou Paul, «ou uma semana, ou mais.» Esta vai ser a melhor oportunidade do inimigo. Ele só precisa de nos pisar as pontas dos dedos com o calcanhar da bota.

 

«Seria muito fácil», pensou Paul. A Overlord era a maior operação militar da história do homem: milhares de barcos, centenas de milhares de homens, milhões de dólares, dezenas de milhões de balas. O futuro do mundo dependia do resultado. Contudo, aquela força imensa poderia ser facilmente repelida se as coisas corressem mal durante as primeiras horas.

 

Tudo o que pudermos fazer para abrandar a reacção do inimigo será de importância crucial terminou Monty e olhou para Graves.

 

Bem, a secção F do EOE tem mais de cem agentes em França... aliás, praticamente todos os nossos agentes estão lá começou Graves. E abaixo deles, claro, estão milhares de combatentes da Resistência. Ao longo das últimas semanas temos largado lá muitas centenas de toneladas de armas, munições e explosivos.

 

Era a resposta de um burocrata, pensou Paul. Dizia tudo e não dizia nada. Graves estava prestes a continuar, mas Monty interrompeu-o com a pergunta fulcral:

 

Qual será a eficácia delas?

 

O funcionário público hesitou e Fortescue interveio.

 

As minhas expectativas são modestas disse. O desempenho do EOE tem sido bastante irregular.

 

Havia ali qualquer coisa nas entrelinhas, Paul sabia-o. Os velhos espiões profissionais do MI6 detestavam os recém-chegados do EOE com o seu estilo desempoeirado. Quando a Resistência atacava alvos alemães, a Gestapo procedia a investigações que às vezes conduziam à captura de funcionários do MI6. Paul tomou o partido do EOE: atacar o inimigo era o único objectivo da guerra,

 

O que estaria ali em jogo? Uma disputa burocrática entre o MI6 e o EOE?

 

Alguma razão específica para o seu pessimismo? perguntou Monty a Fortescue.


O fiasco de ontem à noite respondeu Fortescue prontamente. Um grupo da Resistência com um comandante da EOE atacou uma central telefónica perto de Reims.

 

O general Pickford falou pela primeira vez.

 

Julgava que a nossa política era não atacar centrais telefónicas... vamos precisar delas se a invasão for bem sucedida.

 

Tem toda a razão comentou Monty. Mas Sainte-Cécile foi considerada uma excepção. É uma porta de acesso ao novo cabo até à Alemanha. A maior parte do tráfego de telefone e telex entre o Alto Comando em Berlim e as forças alemãs em França passa por aquele edifício. Destruí-lo não iria prejudicar-nos muito... não iremos ligar para a Alemanha... mas afectaria seriamente as comunicações do inimigo.

 

Vão passar a comunicar por telegrafia sem fios.

 

Exactamente disse Monty. E nessa altura conseguiremos ler os códigos deles.

 

Graças aos nossos decifradores de códigos em Bletchley interveio Fortescue.

 

Paul sabia, embora muitas pessoas o desconhecessem, que os serviços secretos britânicos tinham decifrado os códigos utilizados pelos alemães e que por isso conseguiam ler muito do tráfego via rádio do inimigo. O M16 estava orgulhoso disso, embora na verdade o crédito não fosse seu: o trabalho fora feito não pelos seus funcionários, mas sim por um grupo de matemáticos e entusiastas de palavras cruzadas e quebra-cabeças, muitos dos quais teriam sido presos se tivessem entrado num gabinete do MI6 em tempos normais. Sir Stuart Menzies, o director do MI6, odiava intelectuais, comunistas e homossexuais, mas Alan Turing, o génio matemático que liderara os descodifícadores, era as três coisas.

 

No entanto, Pickford tinha razão: se os alemães não pudessem usar as linhas telefónicas teriam de usar o rádio, e nessa altura os Aliados saberiam o que eles diziam. Destruir a central telefónica de Sainte-Cécile daria aos Aliados uma vantagem crucial.

 

Mas a missão correra mal.

 

Quem é que a liderou? perguntou Monty.

 

Ainda não vi um relatório completo... começou Graves.

 

Eu posso dizer-lhe interveio Fortescue. O major Clairet. Fez uma pausa. Uma mulher.

 

Paul já ouvira falar de Felicity Clairet. Era uma espécie de lenda entre o pequeno grupo que conhecia o segredo da guerra clandestina dos Aliados. Ela sobrevivera sob disfarce em França durante mais tempo do que qualquer outra pessoa. O seu nome de código era Leoparda, e as pessoas diziam que ela se movia pelas ruas da França ocupada com as passadas silenciosas de um perigoso felino. Também diziam que era uma mulher bonita com um coração de pedra. Matara mais do que uma vez.

 

E o que aconteceu? perguntou Monty.

 

Má planificação, um líder com pouca experiência e falta de disciplina dos homens respondeu Fortescue. O edifício tinha poucos guardas, mas os soldados que lá se encontravam estavam bem treinados e arrasaram com a força da Resistência.

 

Monty parecia zangado.

 

Parece que não devemos confiar muito na Resistência francesa para destruir as linhas de Rommel interveio Pickford.

 

Fortescue assentiu.

 

Os bombardeamentos são o melhor meio para se atingir esse fim.

 

Não sei se isso é justo protestou Graves com pouca convicção. Os bombardeamentos também tiveram os seus falhanços. E o EOE é bastante mais barato.

 

Não estamos aqui para ser justos, por amor de Deus! exclamou Monty. Só queremos ganhar a guerra. Levantou-se. Acho que já ouvimos o suficiente disse ao general Pickford.

 

Mas o que vamos fazer em relação à central telefónica? perguntou Graves. O EOE elaborou um novo plano...

 

Deus do Céu! interrompeu Fortescue. Não queremos outro fracasso, pois não?

 

Bombardeiem-na disse Monty.

 

Já tentámos respondeu Graves. O edifício foi atingido, mas os estragos não foram suficientes para impedir o funcionamento da central durante mais do que algumas horas.

 

Então tornem a bombardeá-la disse Monty, saindo porta fora.

 

Graves lançou um olhar de fúria petulante ao homem do MI6.

 

Francamente, Fortescue disse. Quero dizer... francamente.

 

Fortescue não respondeu.

 

Saíram todos da sala. No corredor aguardavam duas pessoas: um homem de cinquenta anos com um casaco de tweed e uma loura pequena com um velho casaco de malha azul sobre um vestido de algodão desbotado. Parados junto a uma vitrina com taças ganhas em competições desportivas, faziam lembrar um professor a falar com uma aluna, exceptuando o facto de a rapariga usar ao pescoço um lenço amarelo-vivo atado num estilo que pareceu a Paul claramente francês. Fortescue passou por eles rapidamente, mas Graves deteve-se.

 

Disseram que não informou ele. Vão voltar a bombardear a central.

 

Paul calculou que a mulher fosse a Leoparda, e observou-a com interesse. Era pequena e magra, com cabelo louro encaracolado cortado curto e reparou Paul uns encantadores olhos verdes. Não a consideraria bonita: tinha um rosto demasiado adulto para isso. A impressão inicial de aluna foi passageira. Havia uma expressão agressiva no seu nariz aquilino e no queixo que parecia ter sido esculpido. E havia nela algo de sensual, algo que fez Paul pensar no corpo esguio sob o vestido velho.

 

Ela reagiu com indignação à declaração de Graves.

 

Não serve de nada bombardear o local do ar, pois a base foi reforçada. Por amor de Deus, porque é que eles decidiram isso?

 

Talvez deva perguntar a este cavalheiro disse Graves, virando-se para Paul. Major Chancellor, apresento-lhe o major Clairet e o coronel Thwaite.

 

Paul ficou aborrecido por ser obrigado a defender a decisão de outra pessoa. Apanhado desprevenido, respondeu com uma franqueza pouco diplomática.

 

Creio que não há muitas explicações a dar disse com brusquidão. Vocês estragaram tudo e não vão ter uma segunda oportunidade.

 

A mulher fitou-o furiosa. Era trinta centímetros mais baixa que ele e falou com irritação.

 

Estragámos tudo? O que raio quer dizer com isso? Paul sentiu-se corar.

 

Talvez o general Montgomery tenha sido mal informado, mas não foi a primeira vez que o meu major comandou uma acção deste tipo?

 

Foi isso que lhe disseram? Que a falta de experiência foi minha?

 

Ela era linda, percebeu Paul naquele momento. A ira fazia-a abrir mais os olhos e corava-lhe o rosto. Mas estava a ser grosseira, por isso ele decidiu responder na mesma moeda.

 

Isso e um mau planeamento...

 

Não havia nada de errado com o maldito plano!

 

... e o facto de soldados treinados estarem a defender o local de uma força indisciplinada.

 

Seu porco arrogante!

 

Paul recuou um passo sem querer. Nunca uma mulher lhe falara naquele tom. «Ela pode ter apenas um metro e cinquenta, mas aposto que mete medo aos malditos nazis», pensou ele. Olhando para o rosto furioso da Leoparda, percebeu que ela estava essencialmente irritada consigo própria.

 

Você acha que a culpa é sua disse. Ninguém fica tão irritado com os erros dos outros.

 

Foi a vez dela de ser apanhada desprevenida. Ficou de boca aberta e sem palavras.

 

O coronel Thwaite falou pela primeira vez.

 

Acalma-te, Flick, por amor de Deus! Virando-se para Paul, prosseguiu: Deixe-me adivinhar: o relato foi-lhe transmitido pelo Simon Fortescue do MI6, não foi?

 

Exacto confirmou Paul.

 

Ele comentou por acaso que o plano de ataque foi feito com base nas informações fornecidas pela sua organização?

 

Creio que não.

 

Foi o que pensei disse Thwaite. Obrigado, meu major, não preciso de o incomodar mais.

 

Paul achou que a conversa ainda não terminara, mas fora mandado embora por um oficial de patente superior e restava-lhe apenas afastar-se.

 

Fora apanhado num fogo cruzado entre o MI6 e o EOE. Estava furioso com Fortescue, que se servira da reunião para marcar pontos. Teria Monty tomado a decisão certa ao mandar bombardear a central telefónica em vez de deixar que o EOE tentasse de novo o ataque? Paul não sabia.

 

Ao regressar ao seu gabinete, olhou para trás. O major Clairet ainda estava a discutir com o coronel Thwaite, a voz baixa mas o rosto animado, expressando a sua ira por gestos. Tinha a pose de um homem, a mão na anca e inclinada para a frente, realçando as palavras com um dedo ameaçador apontado, mas mesmo assim havia nela algo de encantador. Paul perguntou de si para si como seria tê-la nos braços e percorrer com as mãos o seu corpo gracioso. «Embora seja rija, é muito feminina», pensou ele.

 

Mas teria ela razão? Seria o bombardeamento em vão?

 

Paul decidiu fazer mais algumas perguntas.

 

A catedral vasta e escura elevava-se no centro de Reims como uma admoestação divina. O Hispano-Suiza azul-celeste de Dieter Franck parou ao meio-dia à porta do Hotel Frankfort, controlado pelos ocupantes alemães. Dieter saiu e olhou para as torres gémeas da enorme igreja. No desenho medieval original constavam elegantes pináculos pontiagudos que nunca tinham sido construídos por falta de verba. Os obstáculos mais mundanos frustravam as mais sagradas das aspirações.

 

Dieter ordenou ao tenente Hesse que levasse o carro para o castelo de Sainte-Cécile e se certificasse de que a Gestapo estava pronta a colaborar. Não queria arriscar ser maltratado uma segunda vez pelo major Weber. Hesse arrancou e Dieter dirigiu-se à suíte onde deixara Stéphanie na noite anterior.

 

Ela levantou-se da cadeira quando ele entrou. Dieter deleitou-se com o que viu. O cabelo ruivo tombava-lhe sobre os ombros nus e ela envergava um roupão de seda castanho-clara e chinelos de salto alto. Dieter beijou-a com avidez e percorreu o corpo esguio com as mãos, grato pela dádiva da beleza dela.

 

Que bom gostares tanto de me ver disse ela com um sorriso. Falavam em francês, como sempre que estavam juntos.

 

Dieter inalou o cheiro dela.

 

Bom, cheiras melhor que o Hans Hesse, especialmente depois de uma noite a pé.

 

Ela empurrou-lhe um cabelo para trás com a mão.

 

Estás sempre a dizer piadas. Mas não terias protegido o Hans com o teu corpo.

 

É verdade. Ele suspirou e largou-a. Bolas, estou cansado!


Vem deitar-te. Dieter abanou a cabeça.

 

Tenho de interrogar os prisioneiros. O Hesse vem ter comigo daqui a uma hora. Sentou-se no sofá.

 

Vou mandar vir qualquer coisa para comeres. Carregou na campainha e um minuto depois um empregado francês de idade bateu à porta. Stéphanie já conhecia Dieter o suficiente para pedir comida para ele. Pediu um prato de presunto com pãezinhos quentes e uma salada de batata. Queres vinho? perguntou.

 

Não... depois fico com sono.

 

Então um bule de café disse ela ao empregado. Depois de o homem se ter ido embora, ela sentou-se no sofá ao lado de Dieter e pegou-lhe na mão. Correu tudo conforme o plano?

 

Sim. O Rommel foi muito simpático. Franziu a testa com uma expressão ansiosa. Só espero ser capaz de cumprir as promessas que lhe fiz.

 

Tenho a certeza de que és. Stéphanie não perguntou mais pormenores. Sabia que ele lhe diria apenas o que queria e nada mais.

 

Dieter fitou-a com uma expressão terna, sem saber se devia ou não dizer-lhe aquilo que estava a pensar. Poderia estragar a atmosfera agradável... mas tinha de o dizer. Tornou a suspirar.

 

Se a invasão for bem sucedida e os Aliados recuperarem a França, vai ser o fim para nós os dois. Sabes isso.

 

Ela fez uma careta como se devido a uma dor e largou-lhe a mão.

 

Será que sei?

 

Dieter sabia que o marido dela fora morto no início da guerra e que não haviam tido filhos.

 

Ainda tens família?

 

Os meus pais morreram há muito tempo. Tenho uma irmã em Montreal.

 

Talvez devêssemos pensar em mandar-te para lá. Ela abanou a cabeça.

 

Não.

 

Porquê?

 

Stéphanie recusava-se a olhar para ele.

 

Quem me dera que a guerra acabasse murmurou.

 

Isso é mentira.

 

Ela pareceu irritada, algo que raramente acontecia.

 

Não é nada.

 

Mas que convencional estás! comentou ele com um ligeiro desdém.


Não me digas que achas que a guerra é uma coisa boa!

 

Tu e eu não estaríamos juntos se não fosse a guerra.

 

E então o sofrimento todo?

 

Eu sou um existencialista. A guerra permite às pessoas serem aquilo que realmente querem: os sádicos tornam-se carrascos, os psicopatas dão excelentes soldados na linha da frente, os rufiões e as vítimas ganham uma nova dimensão e as prostitutas têm sempre trabalho.

 

Ela pareceu irritada.

 

Isso diz-me claramente qual o meu papel.

 

Dieter fez-lhe uma festa na cara e tocou-lhe nos lábios com a ponta do dedo.

 

Tu és uma cortesã... e muito boa, por sinal. Ela afastou a cabeça.

 

Não podes estar a falar a sério. Estás a improvisar, tal como improvisas quando te sentas ao piano.

 

Ele sorriu e assentiu: sabia tocar um pouco dejazz, para desgosto do pai. A analogia era correcta. Ele estava a experimentar ideias em vez de expressar uma convicção firme.

 

Talvez tenhas razão.

 

A ira de Stéphanie evaporou-se e ela pareceu triste.

 

Estavas a falar a sério quando mencionaste a nossa separação, caso os alemães deixem a França?

 

Ele abraçou-a pelos ombros e puxou-a para si. Stéphanie descontraiu-se e encostou a cabeça ao peito dele. Dieter deu-lhe um beijo na cabeça e fez-lhe uma festa no cabelo.

 

Isso não vai acontecer disse ele.

 

Tens a certeza?

 

Garanto-te.

 

Era a segunda vez naquele dia que ele fazia uma promessa que talvez não conseguisse cumprir.

 

O empregado regressou com o seu almoço e o momento passou. Dieter estava quase demasiado cansado para ter fome, mas comeu algumas garfadas e bebeu o café todo. Depois lavou-se e fez a barba e sentiu-se melhor. Quando estava a abotoar a camisa do uniforme, o tenente Hesse bateu à porta. Dieter deu um beijo a Stéphanie e saiu.

 

O carro tivera de contornar uma rua bloqueada: houvera outro bombardeamento durante a noite e uma correnteza de casas junto à estação de comboios ficara destruída. Saíram da cidade rumo a Sainte-Cécile.

 

Dieter dissera a Rommel que o interrogatório aos prisioneiros poderia ajudá-lo a enfraquecer a Resistência antes da invasão mas Rommel, tal como qualquer comandante militar, aceitara o talvez como uma promessa e agora estava à espera de resultados. Infelizmente, não havia nada certo num interrogatório. Os prisioneiros mais espertos diziam mentiras impossíveis de confirmar. Alguns arranjavam formas engenhosas de se matarem antes de a tortura se tornar insuportável. Se a segurança fosse bastante apertada naquele circuito específico da Resistência, cada um saberia apenas o mínimo indispensável sobre os outros e teria poucas informações de valor. Pior ainda, podiam ter recebido informações falsas dos pérfidos Aliados, de forma a que quando finalmente cedessem sob tortura aquilo que dissessem fosse parte de um plano falso.

 

Dieter começou a preparar-se para o interrogatório. Precisava de ser insensível e calculista. Não podia deixar-se comover pelo sofrimento físico e psíquico que estava prestes a infligir a outros seres humanos. A única coisa que importava era a obtenção de resultados. Fechou os olhos e sentiu-se invadir por uma grande calma, um frio interior familiar que às vezes pensava ser o frio da própria morte.

 

O carro parou nos terrenos do castelo. Alguns trabalhadores andavam a substituir os vidros partidos das janelas e a tapar os buracos feitos pelas granadas. No vestíbulo, as telefonistas murmuravam para os seus microfones num zumbido perpétuo. Dieter avançou pelas salas da ala oriental, com Hans Hesse na sua peugada. Desceram as escadas para a cave fortificada. A sentinela à porta fez-lhes continência e não tentou deter Dieter, que vinha fardado. Ele encontrou a porta com a placa a dizer «Sala de Interrogatórios» e entrou.

 

Na antessala, Willi Weber encontrava-se sentado à secretária.

 

Heil Hitler! gritou Dieter, fazendo a saudação e obrigando Weber a levantar-se. Depois Dieter pegou numa cadeira, sentou-se e disse: Sente-se por favor, meu major.

 

Weber ficou furioso por ter sido convidado a sentar-se no seu quartel-general, mas não tinha alternativa.

 

Quantos prisioneiros temos? perguntou Dieter.

 

Três.

 

Dieter ficou desapontado.

 

Tão poucos?

 

Oito inimigos foram mortos durante a escaramuça e outros dois morreram esta noite devido a ferimentos.

 

Dieter resmungou, abalado. Ordenara que os feridos fossem mantidos vivos. Mas naquele momento não valia a pena interrogar Weber sobre o tratamento deles - continuou Weber.

- A mulher na praça e o homem

 

Creio que dois fugiram continuou Weber.

 

Sim confirmou Dieter. A mulher na praça e o homem que ela carregou.

 

Exacto. Então, de um total de quinze atacantes, temos três prisioneiros.

 

Onde é que eles estão? Weber pareceu pouco à vontade.

 

Dois estão nas celas. Dieter semicerrou os olhos.

 

E o terceiro?

 

Weber inclinou a cabeça na direcção de uma sala interior.

 

O terceiro está neste momento a ser interrogado.

 

Dieter levantou-se, apreensivo, e abriu a porta. A figura inclinada do sargento Becker encontrava-se logo a seguir à porta, tendo na mão um taco de madeira semelhante a um cassetete. Becker estava todo suado e respirava a custo, como se tivesse acabado de fazer exercício físico. Olhava para um prisioneiro que se encontrava amarrado a um poste.

 

Dieter olhou para o prisioneiro e os seus receios foram confirmados. Apesar da calma que queria aparentar, fez uma careta de nojo. O prisioneiro era a jovem mulher, Geneviève, que transportara a pistola-metralhadora debaixo do casaco. Estava nua, amarrada ao poste por uma corda que lhe passava sob os braços e sustentava o seu peso inerte. Tinha o rosto tão inchado que era incapaz de abrir os olhos. O sangue que lhe escorria da boca cobria-lhe o queixo e a maior parte do peito. Tinha o corpo cheio de nódoas negras. Um dos braços encontrava-se torcido num ângulo estranho, aparentemente deslocado na zona do ombro. Os seus pêlos púbicos estavam manchados de sangue.

 

O que é que ela lhe disse? perguntou Dieter a Becker. Este pareceu atrapalhado.

 

Nada.

 

Dieter assentiu, reprimindo a raiva. Já estava à espera daquilo. Aproximou-se da mulher.

 

Geneviève, ouça disse em francês. Ela não deu sinal de ter ouvido.

 

Quer descansar agora? continuou ele. Não obteve resposta.

 

Virou-se. Weber encontrava-se parado junto à porta com uma expressão de desafio.

 

O senhor foi informado de que eu iria conduzir o interrogatório disse Dieter furioso.


Mandaram-nos deixá-lo ter acesso aos prisioneiros respondeu Weber cheio de presunção. Não nos proibiram de os interrogar.

 

E está satisfeito com os resultados que obteve? Weber não respondeu.

 

E os outros dois?

 

Ainda não começámos a interrogá-los.

 

Graças a Deus! No entanto, Dieter ficara abalado. Esperara interrogar meia dúzia de prisioneiros, não apenas dois. Leve-me até eles.

 

Weber assentiu na direcção de Becker, que pousou o cassetete e saiu da sala à frente. Sob as luzes fortes do corredor Dieter viu as manchas de sangue na farda de Becker. O sargento parou junto a uma porta com uma pequena janela. Dieter abriu o postigo e olhou lá para dentro.

 

Era uma sala com chão de terra batida. Havia um balde a um canto. Sentados no chão encontravam-se dois homens, calados, a olhar para o vazio. Dieter observou-os com atenção. Vira-os ambos na véspera. O mais velho chamava-se Gaston, e fora ele quem colocara os explosivos. O outro era muito novo, com cerca de dezassete anos, e Dieter recordou-se de que o seu nome era Bertrand. Não tinha ferimentos visíveis, mas Dieter, ao recordar o confronto, achou que ele podia ter ficado atordoado com a explosão de uma granada de mão.

 

Dieter observou-os durante mais algum tempo, pensativo. Tinha de fazer aquilo bem. Não podia dar-se ao luxo de perder outro prisioneiro: só lhe restavam aqueles dois. O rapaz devia ficar apavorado, previu ele, mas poderia suportar muita dor. O outro era demasiado velho para ser torturado a sério podia morrer antes de começar a falar mas teria um coração mole. Dieter começou a delinear a estratégia do interrogatório.

 

Fechou o postigo e regressou à sala de interrogatórios. Becker seguiu-o, fazendo-o lembrar-se de um cão estúpido mas perigoso.

 

Sargento Becker, desamarre a mulher e ponha-a na cela com os outros dois ordenou Dieter.

 

Uma mulher na cela de um homem? protestou Weber. Dieter olhou-o com ar incrédulo.

 

Acha que ela está em condições de sentir vergonha? Beker foi até à câmara de tortura e reapareceu transportando o corpo inerte de Geneviève.

 

Certifique-se de que o velho a vê bem, depois traga-o cá. Becker saiu.


Dieter decidiu que seria melhor ver-se livre de Weber. No entanto, sabia que se lhe desse uma ordem directa Weber resistiria.

 

Acho que devia ficar aqui a assistir ao interrogatório sugeriu. Pode aprender muito com as minhas técnicas.

 

Tal como Dieter esperava, Weber fez o contrário.

 

Não me parece retorquiu ele. O Becker pode manter-me informado.

 

Dieter fingiu-se indignado e Weber saiu.

 

Dieter olhou para o tenente Hesse, que se sentara discretamente a um canto. Hesse percebera como Dieter manipulara Weber e olhava-o com admiração.

 

Dieter encolheu os ombros.

 

Às vezes é fácil de mais.

 

Becker regressou com Gaston. O velhote estava pálido. Sem dúvida ficara bastante chocado ao ver Geneviève.

 

Por favor, sente-se disse Dieter em alemão. Quer um cigarro?

 

Gaston manteve-se imóvel.

 

Isso dava a entender que o homem não percebia alemão, o que era útil saber.

 

Com um gesto, Dieter indicou-lhe que se sentasse e ofereceu-lhe cigarros e fósforos. Gaston pegou num cigarro e acendeu-o com mãos trémulas.

 

Alguns prisioneiros iam-se abaixo naquela altura, antes da tortura, com receio do que poderia acontecer-lhes. Dieter esperou que fosse esse o caso naquele momento. Mostrara a Gaston as alternativas: por um lado, a visão terrífica de Geneviève, por outro, cigarros e bondade.

 

Vou fazer-lhe algumas perguntas disse em francês num tom simpático.

 

Não sei nada afirmou Gaston.

 

Oh, acho que sabe retorquiu Dieter. Tem cerca de sessenta anos e deve ter vivido em Reims ou lá perto durante toda a vida. Gaston não negou. Dieter prosseguiu: Sei que os elementos de uma célula da Resistência usam nomes de código e dão uns aos outros o mínimo de informações pessoais, como medida de precaução. Gaston assentiu involuntariamente. Mas o senhor conhece a maior parte das pessoas há dezenas de anos. Um homem pode dizer que se chama Elegante ou Padre ou Beringela quando a Resistência se encontra, mas o senhor conhece o rosto dele, e reconhece-o como Jean-Pierre, o carteiro, que mora na Rue du Pare e visita às escondidas a viúva Martineau às terças-feiras quando a mulher dele julga que ele vai jogar boliche.


Gaston desviou o olhar, não querendo fitar Dieter, confirmando que este estava certo. Dieter continuou.

 

Quero que perceba que é o senhor quem controla tudo o que acontece aqui. A dor ou o alívio da dor; a condenação à morte, ou a sua suspensão; tudo depende das suas escolhas. Viu com satisfação que Gaston parecia ainda mais apavorado. Vai responder às minhas perguntas prosseguiu. Todos acabam por fazê-lo. Só não se sabe quando.

 

Aquele era o momento em que um homem podia ceder, mas não foi o caso de Gaston.

 

Não tenho nada para lhe dizer disse ele quase num sussurro. Estava assustado, mas ainda lhe restava alguma coragem e não iria desistir sem lutar.

 

Dieter encolheu os ombros. Se não ia a bem iria a mal.

 

Vá à cela ordenou ele a Becker em alemão. Dispa o rapaz. Depois traga-o para aqui e ate-o ao poste na sala ao lado.

 

Muito bem, meu major respondeu Becker. Dieter tornou a virar-se para Gaston.

 

Vai dizer-me os nomes e os nomes de código de todos os homens e mulheres que estiveram consigo ontem, e de outros no seu circuito da Resistência. Gaston abanou a cabeça, mas Dieter ignorou-o. Quero saber a morada de cada um dos membros e de todas as casas usadas pelos membros do circuito.

 

Gaston puxou uma baforada do cigarro e olhou para a ponta incandescente deste.

 

Na verdade, aquelas não eram as perguntas mais importantes. O principal objectivo de Dieter era obter informações que o conduzissem a outros circuitos da Resistência. Mas não queria que Gaston soubesse isso.

 

Pouco depois, Becker regressou com Bertrand. Gaston olhou de boca aberta para o rapaz enquanto ele era levado para a câmara adjacente à sala de interrogatórios.

 

Dieter levantou-se.

 

Fique de olho no velho ordenou ele a Hesse. Depois seguiu Becker até à câmara de tortura.

 

Teve o cuidado de deixar a porta entreaberta para que Gaston pudesse ouvir tudo.

 

Becker amarrou Bertrand ao poste. Antes que Dieter pudesse intervir, Becker deu um soco no estômago de Bertrand. Foi um soco forte dado por um homem forte, e o seu som foi bastante desagradável. O jovem gemeu e contorceu-se com as dores.


Não, não, não disse Dieter. Tal como esperara, a abordagem de Becker não era minimamente científica. Um jovem forte podia suportar ser socado quase indefinidamente. Primeiro coloque-lhe uma venda. Tirou um lenço grande de algodão do bolso e com ele tapou os olhos de Bertrand. Assim, cada golpe atinge-o de surpresa e os momentos entre os golpes são uma agonia expectante.

 

Becker pegou no taco de madeira. Dieter assentiu e Becker brandiu o taco, atingindo a cabeça da vítima de lado, provocando um som de madeira a bater em pele e osso. Bertrand gritou de medo e dor.

 

Não, não repetiu Dieter. Nunca bata na cabeça. Pode deslocar o maxilar, impedindo o indivíduo de falar. Pior ainda, pode danificar o cérebro, e nada do que ele disser terá valor. Tirou o taco das mãos de Becker e arrumou-o no suporte para os chapéus-de-chuva. Das várias armas que ali se encontravam, Dieter escolheu um pé-de-cabra de aço e entregou-o a Becker.

 

Agora lembre-se, o objectivo é infligir a máxima agonia sem pôr em perigo a vida do indivíduo ou a sua capacidade de nos dizer aquilo que precisamos de saber. Evite os órgãos vitais. Concentre-se nas partes ósseas: tornozelos, canelas, rótulas, dedos, cotovelos, ombros, costelas.

 

No rosto de Becker surgiu uma expressão matreira. Contornou o poste e depois, fazendo pontaria, atingiu com força o cotovelo de Bertrand com o pé-de-cabra. O rapaz soltou um grito de verdadeira agonia, um som que Dieter reconheceu.

 

Becker pareceu satisfeito. «Que Deus me perdoe», pensou Dieter, «por ensinar esta besta a infligir dor com maior eficácia.»

 

Sob as ordens de Dieter, Becker atingiu o ombro ossudo de Bertrand, em seguida a mão e o tornozelo. Dieter obrigou Becker a fazer uma pausa entre os golpes, permitindo que a dor abrandasse um pouco e que o rapaz começasse a temer a pancada seguinte.

 

Bertrand começou a pedir misericórdia.

 

Chega, por favor implorou com histeria, devido à dor e ao medo. Becker levantou o pé-de-cabra, mas Dieter interrompeu-o. Queria que o rapaz continuasse a implorar. Por favor, não me batam outra vez! gritou Bertrand. Por favor, por favor!

 

Costuma ser boa ideia partir uma perna no início do interrogatório disse Dieter a Becker. A dor é lancinante, especialmente quando o osso partido é novamente atingido. Tirou um martelo do suporte para chapéus-de-chuva. Logo abaixo do joelho indicou, entregando-o a Becker. Com toda a força.


Becker fez pontaria e brandiu o martelo com força. O som do osso a partir ouviu-se com toda a nitidez. Bertrand gritou e desmaiou. Becker pegou num balde com água que se encontrava a um canto e atirou a água ao rosto de Bertrand. O jovem voltou a si e tornou a gritar.

 

Por fim, os gritos foram substituídos por gemidos de partir o coração.

 

O que é que querem? implorou Bertrand. Por favor, digam-me o que querem de mim!

 

Dieter não lhe fez perguntas. Em vez disso, entregou o pé-de-cabra a Becker e apontou para a perna partida onde a extremidade branca do osso se encontrava à mostra. Becker atingiu a perna naquele sítio. Bertrand gritou e tornou a desmaiar.

 

Dieter achou que já devia chegar.

 

Foi até à sala ao lado. Gaston continuava onde Dieter o deixara, mas parecia um homem diferente. Estava inclinado para a frente, o rosto oculto nas mãos, a soluçar, a gemer e a rezar. Dieter ajoelhou-se à frente dele e afastou-lhe as mãos do rosto molhado. Gaston fitou-o por entre as lágrimas.

 

Só o senhor pode pôr fim àquilo disse Dieter.

 

Por favor, pare com aquilo, por favor gemeu Gaston.

 

Vai responder às minhas perguntas? Houve uma pausa. Bertrand tornou a gritar.

 

Sim! exclamou Gaston. Sim, sim, eu conto-lhe tudo se parar!

 

Dieter elevou a voz.

 

Sargento Becker?

 

Sim, meu major?

 

Chega por agora.

 

Sim, meu major respondeu Becker, parecendo desapontado. Dieter tornou a falar em francês.

 

Agora, Gaston, vamos começar pelo líder do circuito. Nome e nome de código. Quem é ele?

 

Gaston hesitou. Dieter olhou na direcção da câmara de tortura.

 

Michel Clairet respondeu Gaston rapidamente. O nome de código é Monet.

 

Era o ponto de viragem. O primeiro nome era o mais difícil. Os restantes surgiriam facilmente. Ocultando a sua satisfação, Dieter entregou a Gaston um cigarro e acendeu um fósforo.

 

Onde é que ele mora?

 

Em Reims. Gaston expeliu o fumo e o tremor da sua mão começou a diminuir. Forneceu um endereço junto da catedral.


Dieter assentiu na direcção do tenente Hesse, que sacou de um caderninho de apontamentos e começou a escrever as respostas de Gaston. Pacientemente, Dieter levou Gaston a referir-se a cada membro da equipa de ataque. Em alguns casos, Gaston sabia apenas o nome de código, e havia dois homens que ele disse nunca ter visto antes de domingo. Dieter acreditou nele. Tinha havido dois condutores à espera não muito longe, disse Gaston: uma jovem chamada Gilberte e um homem com o nome de código Marechal. Havia outros no grupo, que era conhecido como «circuito Bollinger».

 

Dieter fez perguntas sobre as relações entre os membros da Resistência. Havia alguns romances? Algum deles era homossexual? Alguém dormia com a mulher de outro?

 

Embora a tortura tivesse parado, Bertrand continuava a gemer e às vezes gritava devido às dores fortes dos ferimentos.

 

Ele vai ser tratado? perguntou Gaston. Dieter encolheu os ombros.

 

Por favor, arranje-lhe um médico.

 

Muito bem... mas depois de termos terminado a nossa conversa.

 

Gaston contou a Dieter que Michel e Gilberte eram amantes, embora Michel fosse casado com Flick, a rapariga loura da praça.

 

Até ali, Gaston falara acerca de um circuito que fora praticamente destruído, pelo que as suas informações haviam tido um interesse praticamente académico. Dieter passou para perguntas mais importantes.

 

Quando os agentes aliados vêm a este distrito, quem é que contactam?

 

Ninguém devia saber o que acontecia, disse Gaston. Havia um grande sigilo. No entanto, ele sabia parte da história. Os agentes encontravam-se com uma mulher cujo nome de código era Burguesa. Gaston não sabia o local do encontro, mas sabia que ela os levava para casa e depois os entregava a Michel.

 

Nunca ninguém vira Burguesa, nem sequer Michel.

 

Dieter ficou desapontado por Gaston saber tão pouco sobre a mulher. Mas essa era a ideia do sigilo.

 

Sabe onde ela mora? Gaston assentiu.

 

Um dos agentes descaiu-se. Ela tem uma casa na Rue du Bois. Número onze.

 

Dieter tentou não se mostrar radiante. Aquela informação era crucial. O inimigo provavelmente enviaria mais agentes para tentar reconstruir o circuito Bollinger. Talvez Dieter conseguisse apanhá-los em casa da Burguesa.


E quando se vão embora?

 

Eram apanhados por um avião num campo com o nome de código Champ de Pierre, um pasto perto da aldeia de Chatelle, revelou Gaston. Havia uma pista de aterragem alternativa com o nome de código Champ d’Or, mas ele não sabia onde ficava.

 

Dieter perguntou a Gaston quem era o elemento de ligação com Londres. Quem ordenara o ataque à central telefónica? Gaston explicou que Flick o major Clairet era o oficial dirigente do circuito, e que trouxera ordens de Londres. Dieter ficou intrigado. Uma mulher no comando. Mas ele vira a coragem dela durante o tiroteio. Devia ser um bom líder.

 

Na sala ao lado, Bertrand começou a rezar pela chegada rápida da morte.

 

Por favor pediu Gaston. Um médico.

 

Fale-me só mais um pouco do major Clairet ordenou Dieter. Depois mando alguém dar uma injecção ao Bertrand.

 

Ela é uma pessoa muito importante disse Gaston, ansioso por fornecer a Dieter informações que o deixassem satisfeito. Dizem que sobreviveu mais tempo do que qualquer outro sob disfarce. Tem andado por todo o Norte da França.

 

Dieter estava fascinado.

 

Ela contacta com circuitos diferentes?

 

Creio que sim.

 

Isso era pouco comum e significava que ela podia ser uma fonte de informações sobre a Resistência francesa.

 

Ela escapou ontem depois do confronto. Para onde acha que foi?

 

De regresso a Londres, com certeza respondeu Gaston. Para apresentar o relatório.

 

Dieter praguejou interiormente. Queria-a em França, onde poderia apanhá-la e interrogá-la. Se lhe deitasse as mãos, poderia destruir metade da Resistência francesa tal como prometera a Rommel. Mas ela estava fora do seu alcance.

 

Levantou-se.

 

Por hoje é tudo disse. Hans, arranje um médico para os prisioneiros. Não quero que nenhum deles morra hoje... podem ter mais para nos dizer. Depois dactilografe os seus apontamentos e entregue-mos de manhã.

 

Muito bem, meu major.

 

Faça uma cópia para o major Weber... mas não lha entregue até eu dizer.

 

Com certeza.


Eu levo o carro de regresso ao hotel.

 

E, com isto, Dieter saiu do castelo. A sua dor de cabeça começou assim que ele respirou ar puro.

 

Esfregando a testa com a mão, dirigiu-se ao carro e saiu da aldeia rumo a Reims. O sol da tarde parecia reflectir-se na estrada directamente para os seus olhos. Aquelas enxaquecas surgiam muitas vezes depois de um interrogatório. Dali a uma hora estaria cego e indefeso. Tinha de chegar ao hotel antes de a dor atingir o ponto máximo. Com pouca vontade de travar, não tirou a mão da buzina. Os trabalhadores vinícolas que se dirigiam lentamente a casa afastaram-se do seu caminho. Os cavalos empinaram-se e uma carroça caiu num fosso. Os olhos de Dieter lacrimejavam devido à dor e ele sentia-se cheio de náuseas.

 

Chegou à cidade sem bater com o carro. Conseguiu dirigir-se ao centro. À porta do Hotel Frankfort não chegou a estacionar o carro, abandonando-o simplesmente. Cambaleando escadas acima, conseguiu chegar à suíte.

 

Stéphanie soube imediatamente o que acontecera. Enquanto ele despia a farda e a camisa, ela tirou o estojo de primeiros socorros da mala e encheu uma seringa com a mistura de morfina. Dieter caiu na cama e ela espetou-lhe a agulha no braço. Quase de imediato a dor abrandou. Stéphanie deitou-se ao lado dele, fazendo-lhe festas na cara com as pontas dos dedos.

 

Pouco depois, Dieter ficou inconsciente.

 

Flick morava num estúdio numa velha casa grande em Bayswater. Aquele ficava no sótão: se uma bomba entrasse pelo tecto aterraria na sua cama. Ela passava ali pouco tempo; não devido ao medo das bombas, mas sim porque a sua verdadeira vida decorria noutro local em França, no quartel-general do EOE, ou num dos centros de treino do EOE espalhados pelo país. Havia pouco dela naquele quarto: uma fotografia de Michel a tocar guitarra, uma prateleira com livros de Flaubert e Molière em francês, uma aguarela de Nice que ela pintara com quinze anos. A pequena cómoda tinha três gavetas com roupa e uma com armas e munições.

 

Sentindo-se cansada e deprimida, Flick despiu-se e deitou-se na cama a folhear um exemplar da revista Parade. Berlim fora bombardeada por um esquadrão de mil e quinhentos aviões na última quarta-feira, leu ela. Era difícil imaginar. Tentou visualizar o que teriam sentido os alemães comuns que ali viviam, e só conseguiu pensar num quadro medieval que representava o Inferno, com pessoas nuas a serem queimadas vivas com uma saraivada de fogo. Virou a página e leu uma história tola sobre invólucros de bombas V de segunda categoria que andavam a ser vendidos como recipientes para guardar carvão.

 

A sua mente voltava constantemente ao fracasso da véspera. Reviu mentalmente o confronto, imaginando uma dezena de diferentes decisões que poderia ter tomado, conduzindo-os à vitória e não à derrota. Tal como perdera a batalha, receava estar a começar a perder o marido, e perguntou de si para si se as duas coisas estariam relacionadas. Má líder, má esposa, talvez houvesse uma falha grave no seu carácter.

 

Agora que o seu plano alternativo fora rejeitado, não se via a redimir-se. Todas aquelas pessoas corajosas tinham morrido em vão.


Acabou por cair num sono inquieto. Foi acordada por alguém a bater à porta e a gritar:

 

Flick! Telefone!

 

A voz era de uma das raparigas do andar de baixo. O relógio de Flick marcava seis horas.

 

Quem é? perguntou ela.

 

Só disseram que era do gabinete.

 

Já vou. Vestiu um roupão. Sem saber se eram seis da manhã se seis da tarde, espreitou pela pequena janela do quarto. O Sol estava a pôr-se sobre as elegantes casas de Ladbroke Grove. Correu escadas abaixo até ao telefone do vestíbulo.

 

Desculpa ter-te acordado disse a voz de Percy Thwaite.

 

Não faz mal. Ela gostava sempre de ouvir a voz de Percy do outro lado da linha. Afeiçoara-se bastante a ele, embora ele a mandasse constantemente para situações perigosas. Dirigir agentes era um trabalho emocionalmente muito desgastante, e alguns oficiais anestesiavam-se adoptando uma atitude empedernida em relação à morte ou à captura dos seus agentes, mas Percy nunca o fizera. Chorava cada uma das baixas. Consequentemente, Flick sabia que ele nunca a obrigaria a correr riscos desnecessários. Confiava nele.

 

Podes vir a Orchard Court?

 

Flick perguntou de si para si se as autoridades teriam reconsiderado o seu novo plano para tomar a central telefónica, e encheu-se de esperança.

 

O Monty mudou de ideias?

 

Infelizmente não. Mas preciso que dês indicações a uma pessoa.

 

Ela mordeu o lábio, reprimindo o seu desapontamento.

 

Estou aí dentro de minutos.

 

Vestiu-se rapidamente e apanhou o metro até Baker Street. Percy aguardava-a no andar de Portman Square.

 

Encontrei um operador de rádio. Não tem experiência, mas já fez o treino. Vou mandá-lo amanhã para Reims.

 

Flick olhou para a janela para ver como estava o tempo, como era hábito dos agentes sempre que se fazia referência a um voo. As cortinas estavam corridas, por razões de segurança, mas ela sabia que o tempo estava bom.

 

Para Reims? Porquê?

 

Hoje não tivemos notícias do Michel. Preciso de saber o que é que resta do circuito Bollinger.

 

Flick assentiu. Pierre, o operador de rádio, fizera parte da equipa de assalto. Provavelmente, fora capturado ou morto. Michel podia ter encontrado o rádio transmissor-receptor de Pierre, mas não fora treinado para o operar, e também não sabia os códigos.

 

Mas qual é o objectivo?

 

Mandámos-lhes toneladas de explosivos e munições nos últimos meses. Quero que eles provoquem algumas explosões. A central telefónica é o alvo mais importante, mas não é o único. Mesmo que só reste o Michel e mais dois ou três elementos, podem fazer explodir linhas de caminho-de-ferro, podem cortar linhas telefónicas e alvejar sentinelas... tudo ajuda. Mas não posso dar-lhes indicações se não conseguir comunicar com eles.

 

Flick encolheu os ombros. Para ela, o castelo era o único alvo importante. Tudo o resto era de somenos importância. Mas que se lixasse.

 

Claro que lhe dou indicações.

 

Percy fítou-a. Após alguma hesitação, perguntou:

 

Como estava o Michel... para além do tiro que levou?

 

Bem. Flick ficou em silêncio durante algum tempo. Percy não tirou os olhos dela. Flick não conseguia enganá-lo, ele conhecia-a demasiado bem. Por fim, suspirou e disse: Há uma rapariga.

 

Era o que eu temia.

 

Não sei se resta alguma coisa do meu casamento declarou com amargura.

 

Lamento.

 

Ajudava se eu pudesse dizer a mim mesma que me sacrificara com um objectivo, que ganhara pontos para o nosso lado, que facilitara o êxito da invasão.

 

Fizeste mais do que a maioria durante os últimos dois anos.

 

Mas na guerra não há prémios de consolação, pois não?

 

Não.

 

Ela levantou-se. Estava grata a Percy pela sua compreensão, mas esta começava a fazê-la sentir-se piegas.

 

É melhor dar indicações ao novo operador de rádio.

 

O seu nome de código é Helicóptero. Está à tua espera no escritório. Não é um rapaz muito inteligente, mas é corajoso.

 

Aquilo desmoralizou Flick.

 

Se não é muito inteligente, porquê mandá-lo? Pode pôr os outros em perigo.

 

Como disseste antes... esta é a tua grande oportunidade. Se a invasão falhar, perdemos a Europa. Temos de atacar o inimigo com tudo o que temos, porque não iremos dispor de outra oportunidade.

 

Flick assentiu com ar soturno. Ele usara o seu argumento contra ela. Mas tinha razão. A única diferença era que as vidas que eram colocadas em perigo naquele caso incluíam a de Michel.

 

Está bem anuiu ela, é melhor avançarmos.

 

Ele está ansioso por te ver. Flick franziu o sobrolho.

 

Ansioso? Porquê? Percy sorriu.

 

Descobre tu mesma.

 

Flick saiu da sala e dirigiu-se ao corredor. A secretária dele estava a dactilografar na cozinha e dirigiu Flick para outra assoalhada.

 

Ela deteve-se à porta. «As coisas são assim: levantamos a cabeça e continuamos a trabalhar, esperando acabar por esquecer», disse a si própria.

 

Entrou no escritório, um aposento pequeno com uma mesa quadrada e algumas cadeiras. Helicóptero era um rapaz de pele clara com vinte e poucos anos, que envergava um fato de tweed em tons mostarda, laranja e verde. Via-se que era inglês a milhas. Felizmente, antes de entrar no avião dar-lhe-iam roupa que passaria despercebida numa vila francesa. O EOE empregava alfaiates franceses que faziam roupa de estilo continental para os agentes (depois passavam horas a fazê-las parecer usadas para não atraírem as atenções). Não podiam fazer nada pela pele rosada de Helicóptero e pelo seu cabelo louro-avermelhado, mas a Gestapo iria pensar que ele tinha sangue alemão.

 

Flick apresentou-se e ele disse.

 

Eu sei. Por acaso já nos conhecemos.

 

Lamento, mas não me recordo.

 

Você estudou em Oxford com o meu irmão Charles.

 

O Charlie Standish... claro! Flick recordou-se de outro rapaz louro vestido de tweed, mais alto e mais magro que Helicóptero, mas provavelmente pouco mais inteligente... não chegara a acabar o curso. Charlie falava francês com fluência, recordou Flick... fora algo que haviam tido em comum.

 

Uma vez foi a nossa casa, no Gloucestershire.

 

Flick recordou-se de um fim-de-semana numa casa rural nos anos trinta, e de uma família com um pai inglês simpático e uma mãe francesa muito elegante. Charlie tinha um irmão mais novo, Brian, um adolescente desajeitado de calções, muito excitado com a sua nova máquina fotográfica. Ela conversara um pouco com ele, e o rapaz ficara com um fraco por ela.

 

Então como está o Charlie? Não o vejo desde a faculdade.

 

Morreu respondeu Brian com uma expressão cheia de tristeza. Morreu em quarenta e um. No maldito deserto, por acaso.

 

Flick receou que ele fosse começar a chorar. Tomou a mão dele nas suas e disse:

 

Lamento imenso, Brian.

 

Gosto muito de voltar a vê-la. Ele engoliu a custo. Animou-se com algum esforço. Vi-a uma vez desde essa altura. Você deu uma palestra ao meu grupo de treino no EOE. Na altura não consegui falar consigo.

 

Espero que o que eu disse tenha sido útil.

 

Falou sobre os traidores na Resistência e no que fazer com eles. «É muito simples», disse você. «Encostam o cano da pistola à nuca do desgraçado e puxam o gatilho duas vezes.» Por acaso, deixou-nos bastante assustados.

 

Fitava-a com uma expressão de adoração e Flick começou a perceber onde Percy tinha querido chegar. Parecia-lhe que Brian ainda tinha um fraquinho por ela. Flick afastou-se dele e sentou-se no outro lado da mesa.

 

Bom, é melhor começarmos. Sabe que vai entrar em contacto com um circuito da Resistência que sofreu baixas pesadas.

 

Sim, vou ter de descobrir o que resta do circuito e o que é que ele pode ainda fazer.

 

É provável que alguns dos membros tenham sido capturados durante o confronto de ontem e que estejam neste momento a ser interrogados pela Gestapo. Por isso vai ter de ser muito cuidadoso. O seu contacto em Reims é uma mulher com o nome de código Burguesa. Todos os dias às onze da manhã ela vai rezar à cripta da catedral. Normalmente, é a única pessoa que lá se encontra mas, no caso de haver mais, ela leva sapatos diferentes, um preto e outro castanho.

 

É fácil de recordar.

 

Você diz-lhe «Reze por mim». Ela responde «Rezo pela paz». É essa a senha.

 

Ele repetiu as palavras.

 

Ela há-de levá-lo para casa. Depois vai pô-lo em contacto com o cabecilha do circuito Bollinger, cujo nome de código é Monet. Estava a falar sobre o marido, mas Brian não precisava de saber isso. Por favor, não refira a morada nem o nome verdadeiro da Burguesa a outros membros do circuito quando os conhecer: por razões de segurança, é melhor que eles nada saibam. Fora a própria Flick quem recrutara Burguesa. Nem Michel a conhecia.

 

Compreendo.

 

Quer perguntar-me alguma coisa?

 

Tenho a certeza de que gostaria de lhe fazer centenas de perguntas, mas neste momento não me ocorre nenhuma.

 

Ela levantou-se e contornou a mesa para lhe ir apertar a mão.

 

Bem, então boa sorte.

 

Ele manteve a mão dela na sua.

 

Nunca esqueci o fim-de-semana em que foi a nossa casa. Suponho que fui muito chato, mas você foi muito simpática para mim.

 

Ela sorriu e respondeu com ligeireza:

 

Você era um miúdo simpático.

 

Apaixonei-me por si, por acaso.

 

Flick teve vontade de arrancar a sua mão da dele e afastar-se, mas o rapaz poderia morrer no dia seguinte e ela não tinha coragem de ser tão cruel.

 

Sinto-me lisonjeada respondeu, tentando manter um tom de brincadeira.

 

De nada serviu: ele estava a falar muito a sério.

 

Será que... importava-se... de me dar um beijo, só para me dar sorte?

 

Ela hesitou. «Oh, que se lixe!», pensou. Pôs-se em bicos de pés e beijou-o ao de leve nos lábios. Deixou que o beijo durasse um segundo, depois afastou-se. Ele parecia radiante. Flick fez-lhe uma festa na cara.

 

Mantenha-se vivo, Brian disse, saindo do escritório. Regressou à sala de Percy. Ele tinha uma pilha de livros e algumas fotografias em cima da secretária.

 

Já está? perguntou.

 

Ele não tem perfil de agente secreto, Percy. Este encolheu os ombros.

 

É corajoso, fala francês como um parisiense e tem boa pontaria.

 

Há dois anos tê-lo-ias mandado de volta para a tropa.

 

É verdade. Agora vou mandá-lo para Sandy. Numa grande casa rural na aldeia de Sandy, perto da pista de aviação de Tempsford, Brian receberia as roupas de estilo francês e os documentos falsos de que iria precisar para passar pelas patrulhas da Gestapo e para comprar alimentos. Percy levantou-se e foi até à porta. Enquanto o despacho, importas-te de dar uma olhadela a essa galeria de vilões? Apontou para as fotografias em cima da secretária. São as únicas fotografias de oficiais alemães que o MI6 tem. Se o homem que viste na praça em Sainte-Cécile estiver entre eles, gostava de saber o nome dele. Saiu.


Flick pegou num dos livros. Era um dos livros de curso de uma academia militar, com fotografias do tamanho de um selo de algumas centenas de jovens. Havia cerca de uma dezena de livros semelhantes e várias centenas de fotografias avulsas.

 

Ela não estava com vontade de passar a noite toda a olhar para fotografias, mas talvez pudesse reduzir o leque de possibilidades. O homem da praça aparentara ter cerca de quarenta anos. Devia ter acabado o curso aos vinte e dois, ou seja, por volta de 1926. Nenhum daqueles livros era tão antigo.

 

Virou a sua atenção para as fotografias avulsas. Enquanto as passava, tentou recordar o mais possível acerca do homem. Era bastante alto e estava bem vestido, mas isso não se via numa fotografia. Possuía cabelo escuro espesso, pensou ela, e embora não usasse barba, se a deixasse crescer esta deveria ser abundante. Flick recordava-se de uns olhos escuros, de sobrancelhas bem delineadas, de um nariz aquilino, de um maxilar quadrangular... bem ao estilo de um ídolo das matinés.

 

As fotografias avulsas haviam sido tiradas nas ocasiões mais diversas. Algumas eram recentes, mostrando oficiais a apertar a mão a Hitler, a passar revista às tropas ou a olhar para tanques e aviões. Algumas pareciam ter sido tiradas por espiões. Essas eram as mais inocentes, tiradas no meio de multidões, de carros ou de janelas, mostrando os oficiais às compras, a falar com crianças, a chamar táxis, a acender cachimbos.

 

Flick observou as fotografias o mais rapidamente que pôde, separando-as das outras. Hesitava sempre que via a de um homem de cabelo escuro. Nenhum era tão bem-parecido como o homem que ela se recordava de ter visto na praça. Pôs de lado uma fotografia de um homem com farda de polícia, depois tornou a pegar-lhe. A farda despistara-a, mas após uma observação mais atenta, Flick teve a certeza de que era ele.

 

Virou a fotografia. Colada às suas costas havia uma folha dactilografada. Nela lia-se:

 

FRANCK, Dieter Wolfgang, também chamado «Frankie»; nascido em Colónia a 3 de Junho de 1904; estudou na Universidade de Humboldt em Berlim (não chegou a formar-se) e na Academia de Polícia de Colónia; casou em 1930 com Waltraud Loewe, um filho uma filha; superintendente, Departamento de Investigação Criminal, Polícia de Colónia, até 1940; major, secção de serviços secretos, Afrikakorps, até?

 

Uma das estrelas dos serviços secretos de Rommel, diz-se que este oficial é um interrogador hábil e um torturador implacável.

 

Flick estremeceu ao pensar que estivera perto de um homem tão perigoso. Um detective com experiência que se virara para os serviços secretos militares era um inimigo temível. Aparentemente, o facto de ter família em Colónia não o impedia de ter uma amante em França.

 

Percy regressou e ela entregou-lhe a fotografia.

 

É este o homem.

 

O Dieter Franck! exclamou Percy. Já ouvimos falar dele. Que interessante. Por aquilo que o ouviste dizer na praça, parece que o Rommel o mandou ocupar-se do desmantelamento da Resistência. Tomou algumas notas no seu bloco. É melhor informar o MI6, uma vez que eles nos emprestaram as fotografias.

 

Bateram à porta e a secretária de Percy espreitou para o escritório.

 

Está aqui uma pessoa para vê-lo, coronel Thwaite. A rapariga estava com um ar coquete. Percy, com o seu ar paternal, não inspirava às secretárias esse comportamento, pelo que Flick calculou que a visita devia ser um homem atraente. Um americano acrescentou a rapariga. «Isso explica tudo», pensou Flick. Os americanos eram o paradigma do charme, pelo menos para as secretárias.

 

Como é que ele descobriu esta morada? perguntou Percy. Orchard Court era supostamente um endereço secreto.

 

Parece que foi ao número sessenta e quatro de Baker Street e lá mandaram-no para aqui.

 

Não deviam ter feito isso. Ele deve ser muito insistente. Quem é?

 

O major Chancellor.

 

Percy olhou para Flick. Ela não conhecia ninguém chamado Chancellor. Depois recordou-se do major arrogante que fora tão mal-educado para ela nessa manhã no quartel-general de Monty.

 

Oh, meu Deus, ele! exclamou ela. O que é que ele quer?

 

Mande-o entrar ordenou Percy.

 

Paul Chancellor entrou. Naquela manhã, Flick não reparara que ele coxeava ligeiramente. As dores deviam aumentar à medida que o dia ia passando. O homem tinha um rosto americano agradável, com um nariz grande e um queixo proeminente. Teria sido bonito se não fosse a orelha esquerda, ou o que restava dela: apenas a parte de baixo, essencialmente o lóbulo. Flick calculou que ele devia ter sido ferido em combate.


Chancellor fez a continência.

 

Boa noite, coronel. Boa noite, major.

 

Não costumamos fazer continências no EOE, Chancellor. Sente-se, por favor. O que o traz aqui?

 

Chancellor sentou-se e tirou o boné.

 

Ainda bem que vos apanho a ambos. Passei a maior parte do dia a pensar na conversa desta manhã. Esboçou um sorriso de modéstia. A maior parte do tempo, tenho de confessar, foi passada a imaginar frases perspicazes que podia ter dito se me tivesse lembrado delas na altura.

 

Flick não conseguiu impedir-se de sorrir. Tinha feito o mesmo. Chancellor prosseguiu.

 

O senhor deu a entender, major Thwaite, que o MI6 pode não ter dito toda a verdade sobre o ataque à central telefónica, e isso ficou-me na cabeça. O facto de o major Clairet ter sido tão indelicado para comigo não quer dizer que estivesse a mentir.

 

Flick estivera prestes a perdoar-lhe, mas aquelas palavras deixaram-na furiosa.

 

Indelicada? Eu?

 

Cala-te, Flick ordenou Percy. Ela calou-se.

 

Por isso pedi o seu relatório, coronel. Claro que o pedido partiu do gabinete de Monty, não de mim pessoalmente, por isso foi levado ao nosso quartel-general por uma motociclista das FANY em menos de nada.

 

Chancellor era um tipo directo que sabia accionar os mecanismos da máquina militar, pensou Flick. Podia ser um porco arrogante, mas daria um aliado útil.

 

Quando o li, percebi que a razão principal da derrota foram as informações erradas.

 

Fornecidas pelo MI6! exclamou Flick com indignação.

 

Sim, reparei nisso disse Chancellor com um ligeiro sarcasmo. É evidente que o MI6 tentou disfarçar a sua incompetência. Eu não sou um soldado de carreira, mas o meu pai é, pelo que conheço os truques dos burocratas militares.

 

Oh, fez Percy com ar pensativo. É filho do general Chancellor?

 

Sim.

 

Continue.

 

O MI6 nunca se teria safado se o seu chefe tivesse estado presente na reunião desta manhã para apresentar a versão do EOE. Pareceu-me uma coincidência demasiado grande ele ter sido convocado no último minuto.


Percy não parecia muito convencido.

 

Ele foi convocado pelo primeiro-ministro. Não vejo como é que o MI6 pode ter forjado isso.

 

O Churchill não foi à reunião. Esta foi presidida por um assessor de Downing Street. E fora convocada a pedido do MI6.

 

Raios me partam! exclamou Flick irritada. Que grandes víboras.

 

Quem me dera que fossem tão inteligentes a reunir informações como são a enganar os colegas comentou Percy.

 

Também considerei o seu plano, major Clairet, de tomar o castelo com uma equipa disfarçada de pessoal da limpeza disse Chancellor. É arriscado, claro, mas pode resultar.

 

Isso significaria que o plano seria reconsiderado? Flick não teve coragem de perguntar.

 

O que vai fazer a respeito disto tudo? perguntou Percy.

 

Por coincidência, fui jantar com o meu pai esta noite. Contei-lhe a história toda e perguntei-lhe o que faria o assessor de um general numa situação destas. Estávamos no Savoy.

 

O que respondeu ele? perguntou Flick com impaciência. Estava-se nas tintas para o restaurante em que eles haviam estado.

 

Que eu devia ir ter com o Monty e informá-lo de que havíamos cometido um erro. Chancellor fez uma careta. Não é fácil com alguns generais. Eles nunca gostam de rever decisões. Mas às vezes isso tem de ser feito.

 

E vai falar com ele? perguntou Flick esperançada.

 

Já falei.

 

Você não perde tempo, pois não?! comentou Percy surpreendido.

 

Flick susteve a respiração. Custava a crer que, após um dia de desespero, ela pudesse vir a ter a segunda oportunidade por que tanto ansiava.

 

O Monty acabou por ser bastante simpático disse Chancellor.

 

Flick foi incapaz de conter a agitação.

 

Por amor de Deus, o que é que ele disse a respeito do meu plano?

 

Autorizou-o.

 

Graças a Deus! Ela levantou-se de um pulo, incapaz de estar quieta. Outra oportunidade!

 

Esplêndido! Chancellor levantou a mão.

 

Mais duas coisas. A primeira pode não ser do vosso agrado. Ele pôs-me à frente da operação.


A si?! exclamou Flick.

 

Porquê? inquiriu Percy.

 

Não fazemos perguntas ao general quando ele nos dá uma ordem. Lamento que isso os abale tanto. O Monty confia em mim, mesmo que vocês não confiem.

 

Percy encolheu os ombros.

 

Qual é a outra coisa?

 

Temos uma limitação de tempo. Não posso dizer-vos quando será a invasão, e de facto a data ainda não foi decidida. Mas posso dizer-vos que temos de executar rapidamente a nossa missão. Se não tiveram atingido o objectivo na meia-noite da próxima segunda, será provavelmente tarde de mais.

 

Na próxima segunda! exclamou Flick.

 

Sim confirmou Paul Chancellor. Temos exactamente

 

uma semana.

 


O TERCEIRO DIA

 

Terça-feira, 30 de Maio de 1944

 

Flick partiu de Londres de madrugada, conduzindo uma mota Vincent Comet com um potente motor de quinhentos centímetros cúbicos. As estradas estavam desertas. A gasolina era severamente racionada, e os condutores podiam ser presos por fazerem viagens «desnecessárias». Ela conduzia bastante depressa. Era perigoso mas excitante. A excitação valia o risco.

 

Sentia o mesmo em relação à missão: receio e ansiedade. Ficara a pé até tarde com Percy e Paul, a beber chá e a fazer planos. Tinham decidido que a equipa devia ter seis mulheres, uma vez que as equipas de limpeza tinham sempre esse número de pessoas. Uma tinha de ser especialista em explosivos; outra engenheira electrotécnica, para decidir exactamente onde seriam colocados os explosivos, a fim de garantir que a central ficava permanentemente danificada. Flick queria ainda uma boa atiradora e dois soldados valentes. Consigo totalizavam seis.

 

Dispunha de um dia para encontrá-las. A equipa necessitaria de um treino com a duração mínima de dois dias pelo menos tinham de aprender a saltar de pára-quedas. Isso ocuparia a quarta e a quinta. Seriam largadas perto de Reims na sexta à noite, e entrariam no castelo na tarde de sábado ou de domingo. Isso deixava um dia de manobra em caso de erro.

 

Atravessou o rio por London Bridge. A mota ecoou pelos molhes e casas bombardeadas de Bermondsey e Rotherhithe. Em seguida, meteu por Old Kent Road, o tradicional caminho dos peregrinos rumo a Cantuária. Quando deixou para trás os subúrbios, acelerou e seguiu a toda a velocidade. Durante algum tempo permitiu que o vento lhe fustigasse o cabelo, levando com ele as preocupações.


Não eram ainda seis horas quando chegou a Somersholme, a casa de campo dos barões de Colefield. O barão, William, encontrava-se em Itália, a abrir caminho para Roma com o Oitavo Exército, conforme era do conhecimento de Flick. A irmã dele, a Honourable Diana Colefield, era o único membro da família que ali vivia agora. A enorme casa, com as suas dezenas de quartos para hóspedes e criadagem, estava a ser utilizada como local de convalescença para soldados feridos.

 

Flick diminuiu a velocidade da mota e subiu a alameda ladeada por tílias com cem anos de idade, sem tirar os olhos do amontoado de granito rosado à sua frente, com as suas janelas de sacada, varandas, empenas e telhados, dezenas de janelas e chaminés. Parou ao lado de uma ambulância e de vários jipes no pátio de gravilha.

 

No vestíbulo, as enfermeiras corriam de um lado para o outro com chávenas de chá. Os soldados podiam estar ali a convalescer, mas continuavam a ter de acordar de madrugada. Flick perguntou por Mrs. Riley, a governanta, e foi dirigida para a cave. Encontrou-a a olhar muito preocupada para a fornalha na companhia de dois homens em fato-macaco.

 

Olá, mãe! exclamou Flick.

 

A mãe abraçou-a com força. Era ainda mais baixa que a filha e igualmente magra, mas, tal como Flick, era mais forte do que parecia. O abraço deixou Flick sem fôlego. Por fim, lá conseguiu libertar-se, a ofegar e a rir.

 

Olha que assim esmagas-me, mãe!

 

Nunca sei se estás viva até te ver respondeu a mãe. Na sua voz ainda havia vestígios do sotaque irlandês: deixara Cork com os pais havia quarenta e cinco anos.

 

O que se passa com a fornalha?

 

Não foi criada para aquecer tanta água. Aquelas enfermeiras são fanáticas da limpeza, obrigam os pobres soldados a tomarem banho todos os dias. Vem até à minha cozinha que eu preparo-te o pequeno-almoço.

 

Flick estava com pressa, mas disse a si mesma que tinha tempo para a mãe. De qualquer maneira, precisava de comer. Seguiu a mãe escadas acima até aos aposentos dos criados.

 

Flick crescera naquela casa. Brincara na ala dos criados, correra nos bosques, frequentara a escola da aldeia a dois quilómetros e regressara ali de férias do colégio interno e da faculdade. Fora extraordinariamente privilegiada. A maior parte das mulheres na posição da mãe eram obrigadas a abandonar o emprego quando tinham um filho. A mãe fora autorizada a ficar, em parte porque o velho barão era um homem pouco convencional, mas essencialmente porque era uma governanta tão eficaz que ele temera perdê-la. O pai de Flick havia sido mordomo, mas morrera quando ela tinha seis anos. Todos os anos em Fevereiro, Flick e a mãe acompanhavam a família até à sua mansão em Nice, e fora ali que Flick aprendera francês.

 

O velho barão, pai de William e Diana, gostara muito de Flick e encorajara-a a estudar, pagando-lhe até as propinas. Ficara muito orgulhoso quando ela ganhara uma bolsa de estudo para Oxford. Quando ele morrera, pouco depois do início da guerra, Flick sofrera tanto como se ele tivesse sido o seu verdadeiro pai.

 

A família ocupava actualmente apenas uma ponta da casa. A despensa do velho mordomo era agora a cozinha. A mãe de Flick pôs a chaleira ao lume.

 

Chega uma torrada, mãe disse Flick.

 

A senhora ignorou-a e começou a fritar bacon.

 

Vejo que estás bem comentou ela. E como está o bonitão do teu marido?

 

O Michel está vivo respondeu Flick. Encontrava-se sentada à mesa da cozinha. O cheiro do bacon estava a deixá-la com água na boca.

 

Vivo? Mas pelos vistos não está bem. Foi ferido?

 

Tem uma bala no rabo. Não vai morrer.

 

Então viste-o.

 

Flick soltou uma gargalhada.

 

Mãe, pára com isso! Não posso dizer mais nada.

 

Claro que não. Ele tem-se mantido longe das outras mulheres? Não sei se isso é um segredo militar...

 

Flick nunca deixava de se espantar com a perspicácia da mãe. Era quase sobrenatural.

 

Espero que sim.

 

Hum. Esperas que ele se mantenha longe de alguém em particular?

 

Flick não respondeu directamente à pergunta.

 

Já reparaste, mãe, que às vezes os homens não se apercebem de que uma rapariga é mesmo estúpida?

 

A mãe emitiu um som desgostoso.

 

Então é isso. Calculo que ela seja bonita.

 

Hum.

 

Jovem?

 

Dezanove anos.

 

E falaste com ele?

 

Sim. Ele prometeu parar.

 

Pode cumprir a promessa... se não estiveres longe demasiado tempo.

 

Tenho esperança.

 

A mãe ficou muito abalada.

 

Então vais voltar.

 

Não posso dizer.

 

Não fizeste já o suficiente?

 

Ainda não ganhámos, por isso acho que ainda não fiz o suficiente.

 

A mãe colocou um prato de bacon e ovos à frente de Flick. Devia ser a ração da semana, contudo Flick reprimiu o protesto. Era melhor aceitar aquela dádiva. Para além do mais, sentiu-se subitamente faminta.

 

Obrigada mãe. Estragas-me com mimos.

 

A mãe sorriu, satisfeita, e Flick atacou a comida. Enquanto mastigava, admitiu contrariada que a mãe lhe sacava facilmente tudo o que queria saber, apesar de ela tentar não responder às perguntas.

 

Devias trabalhar para os serviços secretos disse ela com a boca cheia de ovo. Podiam meter-te à frente dos interrogatórios. Obrigaste-me a contar-te tudo.

 

Sou tua mãe. Tenho o direito de saber.

 

Pouco importava. A mãe não repetiria uma palavra do que ouvira. Bebia chá enquanto observava Flick a comer.

 

É claro que tens de ganhar a guerra sozinha disse ela com um sarcasmo terno. Desde pequena que és assim... muito independente.

 

Não sei porquê. Tive sempre quem olhasse por mim. Quando tu estavas demasiado ocupada havia meia dúzia de empregadas a mimar-me.

 

Acho que te encorajei a ser auto-suficiente porque não tiveste um pai. Sempre que querias que eu te fizesse alguma coisa, como arranjar a corrente da bicicleta ou coser um botão, eu costumava dizer: «Experimenta tu fazer isso, e se não conseguires eu ajudo-te.» Nove em cada dez vezes safaste-te sozinha.

 

Flick acabou o bacon e limpou o prato com uma fatia de pão.

 

A maior parte das vezes o Mark costumava ajudar-me. Mark era o irmão de Flick, um ano mais velho.

 

O rosto da mãe ficou inexpressivo.

 

Não me digas.

 

Flick reprimiu um suspiro. A mãe discutira com Mark havia dois anos. Ele trabalhava num teatro como contra-regra e vivia com um actor chamado Steve. Há muito que a mãe sabia que Mark não era «do tipo casadoiro», como ela costumava dizer. Mas, num ataque de honestidade excessivo, Mark cometera o erro de contar à mãe que amava Steve, e que eram como marido e mulher. Ela ficara mortalmente ofendida e não dirigia a palavra ao filho desde essa altura.

 

O Mark ama-te, mãe disse Flick.

 

Pois sim.

 

Gostava muito que o visses.

 

Com certeza. A mãe pegou no prato vazio de Flick e lavou-o no lava-louça.

 

Flick abanou a cabeça, exasperada.

 

És um bocadinho teimosa, mãe.

 

Então presumo que tenhas herdado isso de mim.

 

Flick foi obrigada a sorrir. Fora muitas vezes acusada de teimosia. «Cabeçuda» era o termo utilizado por Percy. Ela fez um esforço para conciliar as coisas.

 

Bem, suponho que não consegues evitar aquilo que sentes. Mas não vou discutir contigo, especialmente depois de um pequeno-almoço tão bom. Mesmo assim, uma das suas ambições era levar os dois a fazerem as pazes.

 

Mas não naquele dia. Levantou-se. A mãe sorriu.

 

Gosto muito de te ver. Ando sempre tão preocupada contigo.

 

Vim cá também por outro motivo. Preciso de falar com a Diana.

 

Para quê?

 

Não posso dizer.

 

Espero que não estejas a pensar levá-la para França contigo.

 

Cala-te, mãe! Quem é que falou em ir para França?

 

Calculo que seja por causa de ela manejar tão bem as armas.

 

Não posso dizer.

 

Ela vai fazer com que te matem! Não sabe o que é disciplina, e também porque haveria de saber? Não foi educada para isso. A culpa não é dela, claro. Mas és uma idiota se confiares nela.

 

Sim, eu sei respondeu Flick num tom impaciente. Tomara uma decisão e não ia voltar atrás por causa da mãe.

 

Ela já teve bastantes empregos durante a guerra e foi despedida de todos.

 

Eu sei. Mas Diana tinha uma excelente pontaria, e Flick não podia dar-se ao luxo de ser esquisita. Tinha de aproveitar o que lhe aparecia. A sua principal preocupação era Diana poder recusar.


Ninguém podia ser obrigado a fazer trabalho secreto. Era estritamente para voluntários. Sabes onde está a Diana?

 

Creio que está no bosque respondeu a mãe. Saiu cedo, atrás de coelhos.

 

Claro. Diana adorava todos os desportos sangrentos: caça à raposa, ao veado, à perdiz, à lebre, e até pesca. Se não havia mais nada para fazer, punha-se a caçar coelhos.

 

Basta-te seguir o som dos tiros. Flick deu um beijo na cara da mãe.

 

Obrigada pelo pequeno-almoço disse, dirigindo-se para a porta.

 

E não vás parar ao lado errado da arma! gritou a mãe. Flick saiu pela porta dos criados, atravessou o jardim da cozinha

 

e entrou no bosque situado nas traseiras da casa. As árvores estavam cheias de folhas novas, e as urtigas davam-lhe pela cintura. Flick abriu caminho pela vegetação com as suas pesadas botas de motociclista e calças de cabedal. A melhor forma de atrair Diana, pensou, seria colocar-lhe um desafio.

 

Depois de ter avançado uns quatrocentos metros pela floresta, ouviu o estrondo de uma caçadeira. Parou, escutou e gritou:

 

Diana!

 

Não houve resposta.

 

Avançou na direcção do barulho, gritando de minuto a minuto.

 

Estou aqui, sua idiota barulhenta, seja você quem for.

 

Vou já, mas por favor baixa a arma.

 

Viu Diana numa clareira, sentada no chão encostada a um carvalho, a fumar um cigarro. Tinha a caçadeira sobre os joelhos, pronta a ser carregada, e meia dúzia de coelhos ao lado no chão.

 

Oh, és tu! Espantaste a caça toda.

 

A caça volta amanhã. Flick observou a sua amiga de infância. Diana era atraente e tinha um ar arrapazado, com cabelo escuro bem curto e sardas no nariz. Envergava um colete de caçador e calças de bombazina. Como estás, Diana?

 

Chateada. Frustrada. Deprimida. De resto, bem.

 

Flick sentou-se na relva atrás dela. Talvez aquilo fosse mais fácil do que ela julgara.

 

O que é que se passa?

 

Estou aqui a apodrecer nos campos de Inglaterra enquanto o meu irmão anda a conquistar a Itália.

 

Como é que está o William?

 

Está bem, contribui para o esforço de guerra, mas a mim ninguém dá um emprego decente.


Talvez eu possa ajudar-te nisso.

 

Tu fazes parte das FANY. Diana puxou uma baforada do cigarro e expeliu o fumo. Minha querida, não posso ser motorista.

 

Flick assentiu. Diana tinha demasiada classe para fazer o trabalho servil que era proposto à maior parte das mulheres.

 

Bem, estou aqui para te propor uma coisa mais interessante.

 

O quê?

 

Podes não gostar. É bastante difícil e perigosa. Diana fez um ar céptico.

 

E o que é que envolve, conduzir durante o blackout?

 

Não posso dizer muito, porque é segredo.

 

Flick, querida, não me digas que estás metida em coisas de capa e espada.

 

Não fui promovida a major por conduzir generais entre as reuniões.

 

Diana fitou-a.

 

Estás a falar a sério?

 

Claro.

 

Deus do Céu! Contra sua vontade, Diana ficou impressionada.

 

Flick tinha de levá-la a oferecer-se para o trabalho.

 

Então? Sempre estás disposta a fazer uma coisa muito perigosa? Quero dizer, há muitas hipóteses de seres morta.

 

Diana pareceu animada em vez de desencorajada.

 

Claro que estou disposta. O William está a arriscar a vida dele, porque não hei-de eu fazer o mesmo?

 

Estás a falar a sério?

 

Muito a sério.

 

Flick ocultou o seu alívio. Recrutara o primeiro membro da equipa.

 

Diana parecia tão receptiva que Flick decidiu aproveitar.

 

Há uma condição, e talvez a aches pior do que o perigo.

 

Qual é?

 

És dois anos mais velha do que eu, e durante toda a vida fizeste parte de uma classe superior. És a filha do barão e eu a filha da governanta. Não há nada de errado nisso, e não estou a queixar-me. A minha mãe diria que as coisas são mesmo assim.

 

Sim, querida, onde é que queres chegar?

 

Eu dirijo a operação. Vais ter de obedecer às minhas ordens. Diana encolheu os ombros.

 

Tudo bem.


Vai ser um problema insistiu Flick. Vais estranhar. Mas vou ser dura contigo até te habituares. Estou a avisar-te!

 

Sim, meu major!

 

Não ligamos muito a formalidades no meu departamento, por isso não tens de me tratar por major. Mas exigimos uma disciplina militar, especialmente depois do início de uma operação. Se te esqueceres disso, a minha ira há-de ser a menor das tuas preocupações. Desobedecer a ordens pode fazer com que se seja morto neste tipo de actividade.

 

Querida, que dramática! Mas claro que compreendo.

 

Flick não tinha a certeza se Diana compreendia mesmo, mas fizera o seu melhor. Tirou um bloco do bolso da camisa e escreveu uma morada em Hampshire.

 

Faz uma mala para três dias. Vais ter de ir ter a este endereço. Apanhas o comboio de Waterloo para Brockenhurst.

 

Diana olhou para a morada.

 

Ora, isto é a propriedade do lorde Montagu.

 

A maior parte está agora ocupada pelo meu departamento.

 

Qual é o teu departamento?

 

O Departamento de Investigação Interserviços respondeu Flick, utilizando o nome falso.

 

Espero que seja mais excitante do que parece.

 

Podes crer que é.

 

Quando é que começo?

 

Preciso que estejas lá hoje. Flick levantou-se. O teu treino começa amanhã de madrugada.

 

Volto para casa contigo e começo já a fazer as malas. Diana levantou-se também. Diz-me uma coisa.

 

Se puder.

 

Diana começou a mexer na arma, parecendo atrapalhada. Quando olhou para Flick, o seu rosto tinha pela primeira vez uma expressão franca.

 

Porquê eu? perguntou. Deves saber que fui rejeitada por toda a gente.

 

Flick assentiu.

 

Vou ser sincera. Olhou para os coelhos ensanguentados no chão e depois para o rosto bonito de Diana. Es uma assassina declarou. E é disso que preciso.

 

Dieter dormiu até às dez. Acordou com dor de cabeça devido à morfina, mas de resto sentia-se bem: animado, optimista, confiante. O interrogatório sangrento da véspera dera-lhe boas pistas. A mulher com o nome de código Burguesa, com a casa na Rue du Bois, podia ser a sua porta de entrada na Resistência francesa.

 

Ou podia conduzi-lo a um beco sem saída.

 

Bebeu um litro de água e engoliu três aspirinas para se livrar da ressaca de morfina, depois pegou no telefone.

 

Primeiro ligou para o tenente Hesse, que estava hospedado num quarto mais modesto do mesmo hotel.

 

Bom dia, Hans, dormiu bem?

 

Sim, obrigado, meu major. Fui à câmara municipal investigar o endereço da Rue du Bois.

 

Muito bem comentou Dieter. E o que descobriu?

 

A casa é propriedade de uma pessoa, que é também a única moradora, a Mademoiselle Jeanne Lemas.

 

Mas pode lá haver mais gente.

 

Também passei por lá de carro, para dar uma olhadela, e pareceu-me tudo muito sossegado.

 

Prepare-se para sair, com o meu carro, dentro de uma hora.

 

Muito bem.

 

E Hans... fez muito bem em usar a sua iniciativa.

 

Obrigado, meu major,

 

Dieter desligou. Perguntou de si para si como seria Mademoiselle Lemas. Gaston dissera que ninguém do circuito Bollinger a vira, e Dieter acreditava nele: a localização da casa era um enigma. Os agentes que chegavam sabiam apenas onde contactar a mulher: se fossem apanhados não poderiam revelar informações importantes sobre a Resistência. Pelo menos, essa era a teoria. Nunca havia uma segurança perfeita.

 

Provavelmente, Mademoiselle Lemas não era casada. Podia ser uma jovem que herdara a casa dos pais, uma solteirona de meia-idade à procura de marido, ou uma velhota. Talvez fosse boa ideia levar uma mulher consigo, decidiu Dieter.

 

Regressou ao quarto. Stéphanie escovara o seu abundante cabelo ruivo e estava sentada na cama, com os seios à mostra por cima da dobra do lençol. Sabia mesmo como ser sedutora. Mas ele resistiu ao impulso de voltar para a cama.

 

Fazes-me um favor? perguntou ele.

 

Por ti faço qualquer coisa.

 

Qualquer coisa? Ele sentou-se na cama e tocou-lhe no ombro nu. Eras capaz de me ver com outra mulher?

 

Claro respondeu ela. Lamber-lhe-ia os mamilos enquanto fizesses amor com ela.

 

Eu sei que sim. Ele riu-se com gosto. Já antes tivera amantes, mas nenhuma como Stéphanie. No entanto, não é isso. Quero que venhas comigo enquanto prendo uma mulher da Resistência.

 

O rosto dela manteve-se inexpressivo.

 

Muito bem disse calmamente.

 

Dieter sentiu-se tentado a obter dela uma reacção, a perguntar-lhe o que achava daquilo, e se tinha a certeza de que não se importava, mas decidiu aceitar o anuimento dela.

 

Obrigado disse, regressando à sala de estar. Mademoiselle Lemas podia estar sozinha mas, por outro lado, a casa podia estar cheia de agentes dos Aliados, armados até aos dentes. Dieter precisava de reforços. Consultou o bloco de apontamentos e deu à telefonista o número de Rommel em La Roche-Guyon.

 

Quando os Alemães tinham ocupado o país, o sistema telefónico francês ficara inundado. Desde então, os Alemães tinham melhorado o equipamento, acrescentando milhares de quilómetros de cabos e instalando centrais automáticas. O sistema continuava sobrecarregado, mas estava melhor do que antes.

 

Pediu para falar com o major Goedel, o assessor de Rommel. Pouco depois ouviu a familiar voz fria e precisa.

 

Goedel.

 

Fala o Dieter Franck disse ele. Como está, Walter?

 

Ocupado respondeu Goedel abruptamente. O que é?

 

Estou a fazer progressos rápidos aqui. Não quero entrar em pormenores porque estou a falar pelo telefone do hotel, mas estou prestes a prender pelo menos um espião, senão mais. Pensei que o marechal-de-campo gostaria de saber isso.

 

Eu comunico-lhe.

 

Mas dava-me jeito alguma assistência. Estou a fazer tudo isto com um tenente. Estou tão desesperado que já pedi ajuda à minha namorada francesa.

 

Isso não parece muito aconselhável.

 

Oh, ela é de confiança. Mas não me servirá de muito contra terroristas treinados. Pode mandar-me meia dúzia de homens?

 

Utilize a Gestapo... é para isso que eles cá estão.

 

Esses não são de confiança. Sabe que eles só colaboram connosco porque são obrigados. Preciso de pessoas em quem confiar.

 

Isso está fora de questão respondeu Goedel.

 

Ouça, Walter, sabe como o Rommel acha que isto é importante... encarregou-me de impedir que a Resistência dificulte a nossa mobilidade.

 

Sim, mas o marechal-de-campo espera que você o faça sem lhe roubar os soldados.

 

Não sei se serei capaz.

 

Por amor de Deus, homem! Goedel elevou a voz. Estamos a tentar defender toda a costa atlântica com um punhado de soldados, e você encontra-se rodeado por homens robustos sem nada melhor para fazer do que perseguir judeus velhos escondidos em celeiros. Faça o seu trabalho e não me incomode! Ouviu-se um clique quando o telefone foi desligado.

 

Dieter ficou perplexo. Não era nada normal Goedel explodir daquela maneira. Deviam andar todos tensos com a ameaça da invasão. Mas a mensagem fora bem clara. Dieter tinha de fazer aquilo sozinho.

 

Com um suspiro, carregou várias vezes no descanso e pediu que o ligassem ao castelo de Sainte-Cécile.

 

Chegou a Willi Weber.

 

Vou arrombar uma casa da Resistência disse ele. Posso precisar de alguns dos seus pesos-pesados. Importa-se de mandar quatro homens e um carro ao Hotel Frankfort? Ou será que preciso de falar novamente com o general Rommel?

 

A ameaça era desnecessária. Weber tinha todo o gosto em que os seus homens participassem na operação. Dessa forma, a Gestapo poderia reclamar os louros. Prometeu enviar-lhe um carro dali a uma hora.

 

Dieter tinha umas certas reservas em trabalhar com a Gestapo. Não era capaz de a controlar. Mas não lhe restava alternativa.


Enquanto fazia a barba, ligou o rádio, sintonizado num posto alemão. Ficou a saber que a primeira batalha entre carros de assalto no teatro do Pacífico tivera lugar na véspera, na ilha de Biak. Os ocupantes japoneses tinham empurrado os invasores americanos do 162.° Batalhão de Infantaria de regresso à sua cabeça de ponte. «Empurrem-nos para o mar», pensou Dieter.

 

Vestiu um fato cinzento-escuro de lã, uma camisa de algodão com ténues riscas cinzentas e uma gravata preta com bolinhas brancas. As pintas eram bordadas no tecido e não estampadas, um pormenor que lhe agradava. Pensou por um momento, depois despiu o casaco e colocou um coldre de ombros. Tirou a pistola automática Walther P38 da escrivaninha e enfiou-a no coldre, e depois tornou a vestir o casaco.

 

Sentou-se com uma chávena de café na mão e observou Stéphanie a vestir-se. Os franceses faziam a roupa interior mais bonita do mundo, pensou ele quando ela vestiu um body de seda amarelada. Adorava vê-la calçar os collants, a alisar a seda sobre as coxas.

 

Porque é que os antigos mestres não pintaram este momento? perguntou ele.

 

Porque as mulheres do Renascimento não tinham meias de seda respondeu Stéphanie.

 

Quando ela ficou pronta, saíram.

 

Hans Hesse esperava-os lá fora com o Hispano-Suiza de Dieter. O jovem olhou para Stéphanie com uma expressão de admiração e temor. Para ele, ela era infinitamente desejável e ao mesmo tempo intocável. Fez lembrar a Dieter uma mulher pobre a olhar para uma montra da Cartier.

 

Atrás do carro de Dieter encontrava-se um Citroen Traction Avant preto com quatro homens da Gestapo vestidos à civil. Dieter reparou que o major Weber também decidira estar presente: encontrava-se sentado à frente, no banco do passageiro, envergando um fato de tweed verde que o fazia parecer um agricultor a caminho da igreja.

 

Sigam-me disse Dieter. Quando lá chegarmos, fiquem por favor no carro até eu vos chamar.

 

Onde raio é que você arranjou um carro desses? perguntou Weber.

 

Fui subornado por um judeu respondeu Dieter. Ajudei-o a fugir para a América.

 

Weber grunhiu com descrença, mas de facto a história era verdadeira.

 

Com homens como Weber, a melhor atitude a tomar era de bravata. Se Dieter tivesse tentado manter Stéphanie escondida, Weber teria imediatamente desconfiado que ela era judia e podia ter dado início a uma investigação. Mas como Dieter a exibia, essa ideia nunca lhe passara pela cabeça.

 

Hans sentou-se ao volante e dirigiram-se à Rue du Bois.

 

Reims era uma cidade de província relativamente grande com mais de cem mil habitantes, mas viam-se poucos veículos motorizados nas ruas. Os carros eram apenas utilizados por pessoas em missões oficiais: polícias, médicos, bombeiros e, claro, alemães. Os cidadãos deslocavam-se de bicicleta ou a pé. Havia gasolina disponível para a distribuição de comida e de outros bens essenciais, mas a maior parte das coisas era transportada em carroças. A principal indústria da zona era o champanhe. Dieter adorava champanhe em todas as suas formas: os vintages mais velhos de travo intenso, os cuvées frescos e leves não vintage, o refinado branco de branco, as variedades meio-secas de sobremesa, até o divertido rosado adorado pelas cortesãs de Paris.

 

A Rue du Bois era uma agradável ruazinha ladeada de árvores na periferia da cidade. Hans estacionou em frente a uma casa alta na extremidade de um quarteirão, com um pátio pequeno num dos lados. Aquela era a casa de Mademoiselle Lemas. Seria Dieter capaz de a fazer vergar? As mulheres eram mais difíceis que os homens. Choravam e gritavam, mas aguentavam-se mais tempo. Ele já chegara a falhar com mulheres, mas nunca com um homem. Se aquela o derrotasse, a investigação dele acabava já ali.

 

Vem ter comigo se eu fizer sinal disse ele a Stéphanie quando saiu do carro. O Citroen de Weber parou atrás, mas os homens da Gestapo ficaram dentro do carro, conforme combinado.

 

Dieter olhou para o pátio da casa. Para lá dele, viu um pequeno jardim com sebes aparadas, canteiros rectangulares e um caminho de gravilha. A dona tinha uma mente arrumada.

 

Ao lado da porta da frente havia uma antiquada corda vermelha e amarela. Ele puxou-a e ouviu lá dentro o toque metálico de uma campainha mecânica.

 

A mulher que abriu a porta devia ter cerca de sessenta anos. Usava o cabelo preso com um gancho de tartaruga. Envergava um vestido azul com pequenas flores brancas. Por cima tinha um avental branco engomado.

 

Bom dia, monsieur cumprimentou ela educadamente. Dieter sorriu. Estava diante de uma senhora da província com comportamento irrepreensível; já pensara numa forma de a torturar. Sentiu-se mais esperançado.


Bom dia... Mademoiselle Lemas?

 

Ela observou o fato dele, reparou no carro estacionado e talvez tenha detectado o sotaque alemão; o medo surgiu nos seus olhos.

 

Em que posso ajudá-lo? perguntou com um certo tremor na voz.

 

A senhora está sozinha? Dieter observou-a atentamente.

 

Sim respondeu ela. Completamente sozinha. Estava a dizer a verdade. Dieter tinha a certeza. Uma mulher como aquela não podia mentir sem se trair com o olhar.

 

Ele virou-se e chamou Stéphanie.

 

A minha colega irá fazer-nos companhia. Não iria precisar dos homens de Weber. Tenho umas perguntas para lhe fazer.

 

Perguntas? Sobre o quê?

 

Posso entrar?

 

Muito bem.

 

A sala para onde ela os levou tinha móveis de madeira escura, muito bem polidos. Havia também um piano sob uma cobertura para o pó e uma gravura da catedral de Reims na parede. A prateleira sobre a lareira tinha vários bibelôs: um cisne de vidro soprado, uma apanhadora de flores em porcelana, um globo transparente com uma miniatura do palácio de Versalhes e três camelos de madeira.

 

Dieter sentou-se num sofá com estofo de pelúcia. Stéphanie sentou-se ao seu lado e Mademoiselle Lemas numa cadeira de frente para eles. Era roliça, observou Dieter. Havia poucos franceses roliços ao fim de quatro anos de ocupação. A comida era o vício dela.

 

Numa mesa baixa havia uma cigarreira e um isqueiro de mesa pesado. Dieter abriu a tampa e viu que a caixa estava cheia.

 

Pode fumar se quiser disse ele.

 

Ela pareceu ligeiramente ofendida: as mulheres da sua geração não fumavam.

 

Eu não fumo.

 

Então para quem são estes cigarros?

 

Ela tocou no queixo, um sinal de desonestidade.

 

Para as visitas.

 

E que tipo de visitas recebe?

 

Amigos... vizinhos... Parecia pouco à vontade.

 

E espiões britânicos.

 

Isso é um absurdo.

 

Dieter esboçou o seu sorriso mais cativante.

 

A senhora parece ser uma pessoa respeitável que se envolveu em actividades criminosas por equívoco disse ele num tom cândido. Não vou brincar consigo, e espero que não cometa o erro de me mentir.


Não vou dizer-lhe nada respondeu ela.

 

Dieter fingiu-se desapontado, mas ficou satisfeito por estar a fazer progressos tão rápidos. Ela já deixara de fingir que não sabia do que é que ele estava a falar. Isso equivalia a uma confissão.

 

Vou fazer-lhe algumas perguntas continuou Dieter. Se não responder, voltarei a fazer-lhas no quartel da Gestapo.

 

Ela dirigiu-lhe um olhar de desafio.

 

Onde é que se encontra com os agentes britânicos? Mademoiselle Lemas não respondeu.

 

Como é que eles a reconhecem?

 

O olhar dela enfrentou o dele com uma expressão calma. Já não estava ansiosa, mas sim resignada. «É uma mulher corajosa», pensou ele. Seria um desafio.

 

Qual é a senha? Ela não respondeu.

 

A quem é que entrega depois os agentes? Como é que contacta a Resistência? Quem é o responsável por ela?

 

Silêncio.

 

Dieter levantou-se.

 

Venha comigo, por favor.

 

Muito bem disse ela num tom firme. Dá-me licença que coloque o meu chapéu?

 

Com certeza. Dieter fez sinal a Stéphanie. Vai com a mademoiselle, por favor. Certifica-te de que ela não faz telefonemas nem escreve nada. Não queria que ela deixasse qualquer espécie de recado.

 

Aguardou no vestíbulo. Quando elas voltaram, Mademoiselle Lemas tirara o avental, vestira um casaco leve e pusera um chapéu cloche que saíra de moda muito antes do início da guerra. Trazia uma mala castanha de pele. Quando se dirigiam os três à porta da frente, Mademoiselle Lemas exclamou:

 

Oh! Esqueci-me da chave.

 

Não vai precisar dela respondeu Dieter.

 

A porta tranca-se sozinha retorquiu ela. Preciso da chave para voltar a entrar.

 

Dieter olhou-a nos olhos.

 

Ainda não percebeu? Tem abrigado terroristas britânicos na sua casa, foi apanhada e está nas mãos da Gestapo. Abanou a cabeça com uma expressão de pena que não era completamente falsa. Independentemente do que acontecer, a mademoiselle nunca mais vai voltar para casa.

 

Ela percebeu então horrorizada o que estava a acontecer-lhe.


Empalideceu e vacilou. Apoiou-se na extremidade de uma mesa em forma de rim. Uma jarra chinesa com umas ervas secas balançou perigosamente, mas não caiu. Depois Mademoiselle Lemas recuperou a postura. Endireitou-se e largou a mesa. Dirigiu-lhe de novo aquela expressão de desafio, depois saiu de casa com a cabeça bem erguida.

 

Dieter pediu a Stéphanie para se sentar no banco da frente, enquanto ele ia no de trás com a prisioneira. Durante a viagem para Sainte-Cécile, Dieter trocou algumas palavras de cortesia.

 

A mademoiselle nasceu em Reims?

 

Sim. O meu pai dirigia o coro da catedral.

 

Um passado religioso. Eram boas notícias para o plano que começava a formar-se na mente de Dieter.

 

Ele aposentou-se?

 

Morreu há cinco anos, após uma doença prolongada.

 

E a sua mãe?

 

Morreu quando eu era menina.

 

Então calculo que tenha olhado pelo seu pai durante a doença.

 

Durante vinte anos.

 

Ah! Isso explicava por que motivo ela era solteira. Passara a vida a olhar pelo pai inválido. E ele deixou-lhe a casa.

 

Ela assentiu.

 

Uma pequena recompensa, poderão pensar alguns, por uma vida de dedicação.

 

Ela lançou-lhe um olhar altivo.

 

Não se fazem coisas daquelas à espera de uma recompensa.

 

Pois não. Dieter decidiu ignorar a reprimenda subentendida. Ajudaria o seu plano se ela se convencesse de que era moral e socialmente superior a ele. Tem irmãos?

 

Não.

 

Dieter imaginou a cena com clareza. Os agentes que ela abrigava, todos homens e mulheres jovens, deviam ter sido para ela como filhos. Dera-lhes de comer, lavara-lhes a roupa, falara com eles, e provavelmente mantivera-se de olho nas relações entre os sexos, certificando-se de que não havia imoralidade, pelo menos não debaixo do seu tecto.

 

E agora iria morrer por isso.

 

Mas primeiro, esperava ele, iria contar-lhe tudo.

 

O Citroen da Gestapo seguiu o carro de Dieter até Sainte-Cécile. Quando estacionaram junto ao castelo, Dieter virou-se para Weber.


Vou levá-la lá para cima para um gabinete disse.

 

Porquê? Há celas na cave.

 

Já vai ver.

 

Dieter conduziu a prisioneira escadas acima até aos gabinetes da Gestapo. Espreitou para dentro de todos e escolheu o mais movimentado, um misto de sala de dactilografia e de correios. Encontrava-se cheia de homens e mulheres jovens de camisa e gravata. Deixando Mademoiselle Lemas no corredor, fechou a porta e bateu palmas para chamar a atenção.

 

Vou trazer para aqui uma francesa. Ela é prisioneira, mas quero que sejam todos simpáticos e educados para ela, compreendido? Tratem-na como se fosse uma convidada. É importante que ela se sinta respeitada.

 

Conduziu-a até à sala, sentou-a a uma mesa e, com um pedido de desculpas murmurado, algemou-lhe o tornozelo à perna da mesa. Deixou Stéphanie com ela e levou Hesse lá para fora.

 

Vá à cantina e peça-lhes que preparem um tabuleiro com um almoço. Sopa, prato, um pouco de vinho, uma garrafa de água mineral e muito café. Traga talheres, copos, um guardanapo. Arranje tudo de forma a ficar bonito.

 

O tenente sorriu admirado. Não fazia ideia daquilo que o seu superior estava a tramar, mas tinha a certeza de que devia ser algo inteligente.

 

Minutos depois regressou com um tabuleiro. Dieter tirou-lho das mãos e levou-o para o gabinete. Colocou-o à frente de Mademoiselle Lemas.

 

Por favor disse. Está na hora do almoço.

 

Não sou capaz de comer nada, obrigada.

 

Talvez só um pouco de sopa. Deitou-lhe vinho para o copo. Ela misturou água ao vinho e bebeu um gole, depois experimentou a sopa.

 

Que tal está?

 

Muito boa admitiu ela.

 

A comida francesa é tão refinada. Nós, alemães, não conseguimos imitá-la. Dieter falou de coisas triviais, tentando descontraí-la, e ela comeu a maior parte da sopa. Ele encheu-lhe um copo com água.

 

O major Weber entrou e olhou incrédulo para o tabuleiro diante da prisioneira.

 

Agora recompensamos as pessoas por albergarem terroristas? perguntou ele em alemão.


A mademoiselle é uma senhora. Devemos tratá-la de forma adequada.

 

Deus do Céu! exclamou Weber, dando meia volta e saindo. Ela recusou comer mais, mas bebeu o café todo. Dieter estava satisfeito. Tudo corria conforme o plano. Depois de ela ter terminado, ele tornou a fazer-lhe as perguntas.

 

Onde é que se encontra com os agentes aliados? Como é que eles a reconhecem? Qual é a senha?

 

Ela parecia aflita, mas mesmo assim recusou-se a responder. Dieter olhou-a com ar triste.

 

Lamento imenso que se recuse a colaborar comigo depois de ter sido tão bem tratada.

 

Ela pareceu intrigada.

 

Agradeço a sua bondade, mas não posso dizer-lhe nada. Stéphanie, sentada ao lado de Dieter, também estava intrigada.

 

Ele adivinhou o que ela estava a pensar: «Acreditavas mesmo que uma boa refeição seria o suficiente para fazer falar esta mulher?»

 

Muito bem disse ele. Levantou-se, preparando-se para sair.

 

E agora, monsieur disse Mademoiselle Lemas. Parecia atrapalhada. Tenho de pedir-lhe que... hum... me deixe ir pôr pó-de-arroz.

 

Quer ir à casa de banho? perguntou Dieter com aspereza. Ela corou.

 

Sim.

 

Lamento, mademoiselle. Isso não vai ser possível.

 

A última coisa que Monty dissera a Paul Chancellor ao fim da noite de segunda-feira, fora:

 

Se fizer apenas uma coisa nesta guerra, certifique-se de que a central telefónica é destruída.

 

Paul acordara naquela manhã com aquelas palavras a ecoarem-lhe na cabeça. Era uma ordem simples. Se ele conseguisse executá-la, teria ajudado a ganhar a guerra. Se falhasse, morreriam muitos homens... e ele poderia passar o resto da vida a reflectir que ajudara a perder a guerra.

 

Dirigiu-se cedo a Baker Street, mas Percy Thwaite já lá se encontrava, sentado no gabinete, a fumar cachimbo e a olhar para seis caixas com pastas de arquivo. Parecia um típico militar absolutamente banal, com o casaco aos quadrados e o bigode tipo escova. Olhou para Paul com uma certa hostilidade.

 

Não sei por que motivo o Monty o pôs a dirigir esta operação disse. Não me importa o facto de o senhor ser apenas major e eu coronel... isso não é importante. Mas nunca dirigiu uma operação clandestina, ao passo que eu não faço outra coisa há três anos. Acha que faz sentido?

 

Sim respondeu Paul. Quando se quer ter a certeza de que um trabalho é executado, entregamo-lo a alguém de confiança. O Monty confia em mim.

 

Mas não em mim.

 

Ele não o conhece.

 

Estou a ver resmungou Percy.

 

Paul precisava da ajuda de Percy, por isso decidiu apaziguá-lo. Olhando em volta, viu a fotografia emoldurada de um jovem oficial com farda de tenente e uma mulher mais velha com um chapéu grande. O rapaz podia ter sido Percy há trinta anos.


É o seu filho? adivinhou Paul. Percy acalmou-se de imediato.

 

O David está no Cairo. Passámos uns maus momentos durante a guerra do deserto, especialmente depois de Rommel ter chegado a Tobruk, mas agora, claro, ele está fora da linha de fogo e devo confessar que isso me apraz.

 

A mulher tinha cabelo escuro e olhos escuros, um rosto forte, atraente mas não bonito.

 

E Mistress Thwaite?

 

Rosa Mann. Tornou-se uma sufragista famosa nos anos vinte e sempre usou o seu nome de solteira.

 

Sufragista?

 

Fez campanha para que as mulheres pudessem votar. Percy gostava de mulheres formidáveis, concluiu Paul; era por isso que gostava de Flick.

 

Sabe, a sua reserva a meu respeito faz sentido disse com ar inocente. Tenho estado no outro extremo das operações clandestinas, mas esta será a minha estreia como organizador. Por isso ficaria muito grato se tivesse a sua ajuda.

 

Percy assentiu.

 

Começo a perceber por que motivo você adquiriu a reputação de conseguir que as coisas se façam disse com um ligeiro sorriso. Mas se quiser um conselho...

 

Por favor.

 

Deixe-se guiar pela Flick. Mais ninguém viveu tanto tempo com uma identidade secreta. Os conhecimentos e a experiência dela são ímpares. Na teoria posso mandar nela, mas na prática o que faço é dar-lhe o apoio de que ela precisa. Nunca tentaria dizer-lhe o que fazer.

 

Paul hesitou. Monty encarregara-o de dirigir a operação e ele não tencionava entregar o comando a mais ninguém.

 

Vou ter isso em conta respondeu.

 

Percy pareceu satisfeito. Apontou para as pastas.

 

Vamos começar?

 

O que são?

 

Registos de pessoas que foram por nós consideradas possíveis agentes, e depois rejeitadas por qualquer motivo.

 

Paul tirou o casaco e arregaçou as mangas.

 

Passaram a manhã a ver juntos as pastas. Algumas das candidatas não tinham sequer sido entrevistadas; outras haviam sido rejeitadas depois de terem sido vistas; e muitas tinham chumbado numa parte do curso de treino do EOE por baralharem os códigos, não terem jeito para armas, ou terem ficado apavoradas quando lhes pediram que saltassem de um avião de pára-quedas. Tinham na maioria pouco mais de vinte anos e apenas uma coisa em comum; falavam uma língua estrangeira com a fluência de um nativo.

 

Havia muitas pastas, mas poucas candidatas indicadas. Quando Paul e Percy eliminaram todos os homens, e todas as mulheres cuja língua estrangeira não fosse o francês, ficaram apenas com três nomes.

 

Paul sentiu-se desencorajado. Ainda mal tinham começado e já deparavam com um obstáculo difícil.

 

Quatro é o número mínimo de que precisamos, mesmo partindo do princípio de que Flick recruta a mulher que foi visitar esta manhã.

 

A Diana Colefield.

 

E nenhuma destas é especialista em explosivos ou engenheira electrotécnica.

 

Percy estava mais optimista.

 

Não eram quando o EOE as entrevistou, mas podem ser agora. As mulheres aprenderam a fazer todo o tipo de coisas.

 

Bem, vamos descobrir.

 

Levaram algum tempo a localizar as três mulheres. Para azar, uma delas já tinha morrido. As outras duas viviam em Londres. Infelizmente uma estava na prisão de Holloway, cinco quilómetros a norte de Baker Street, a aguardar julgamento por homicídio. E Maude Valentine, cuja pasta dizia apenas «psicologicamente inadequada», era motorista nas FANY.

 

Estamos reduzidos a duas! exclamou Paul desanimado.

 

Não são os números mas sim a qualidade que me preocupa retorquiu Percy.

 

Já sabíamos que iríamos analisar rejeições.

 

Mas não podemos arriscar a vida de Flick com pessoas destas! exclamou Percy irritado.

 

Percy desejava desesperadamente proteger Flick, reparou Paul. Estivera disposto a entregar o controlo da operação, mas não era capaz de abandonar o seu papel de anjo da guarda de Flick.

 

A conversa foi interrompida por um telefonema. Era Simon Fortescue, o homem do fato às riscas do MI6 que culpara o EOE pelo fracasso de Sainte-Cécile.

 

Em que posso ajudá-lo? perguntou Paul com uma certa reserva. Fortescue não era de confiança.

 

Acho que quem pode ajudá-lo sou eu respondeu Fortescue. Sei que vai avançar com o plano do major Clairet.


Quem lhe disse? perguntou Paul desconfiado. A operação devia ser segredo.

 

Não vale a pena irmos por aí. Claro que lhe desejo o maior sucesso, embora tenha sido contra a operação, e gostaria de ajudar.

 

Paul ficou irritado com o facto de a operação ser assunto de conversa, mas não valia a pena chatear-se com isso.

 

Conhece alguma engenheira electrotécnica que fale francês?

 

Nem por isso. Mas há uma pessoa com quem vocês deviam falar. Chama-se Lady Denise Bouverie. É uma rapariga muitíssimo simpática, o pai era o marquês de Inverlocky.

 

Paul não ficou impressionado com o pedigree da rapariga.

 

Onde é que ela aprendeu francês?

 

Foi educada pela madrasta francesa, a segunda esposa de lorde Inverlocky. Sei que ela gostava muito de ajudar.

 

Paul desconfiava de Fortescue, mas estava desesperado por arranjar recrutas adequados.

 

Onde posso encontrá-la?

 

Na base da RAF em Hendon. A palavra «Hendon» nada significava para Paul, mas Fortescue explicou: É um campo de aviação nos subúrbios a norte de Londres.

 

Obrigado.

 

Depois diga-me que tal ela se saiu. Fortescue desligou. Paul contou a Percy o que o outro dissera.

 

O Fortescue quer colocar uma espia no nosso campo comentou Percy.

 

Não podemos dar-nos ao luxo de a rejeitar por causa disso.

 

Pois não.

 

Foram primeiro procurar Maude Valentine. Percy combinou um encontro no Hotel Fenchurch, perto da sede do EOE. Nunca se levavam pessoas desconhecidas ao número 64, explicou.

 

Se a rejeitarmos, ela pode adivinhar que pensámos nela para uma missão secreta, mas não saberá o nome da organização que a entrevistou, nem onde são os seus escritórios, por isso, mesmo que dê com a língua nos dentes não nos fará muita mossa.

 

Muito bem.

 

Qual é o nome de solteira da sua mãe?

 

Paul foi surpreendido pela pergunta e teve de pensar um pouco.

 

Thomas. Chamava-se Edith Thomas.

 

Então você será o major Thomas e eu o coronel Cox. Não vale a pena darmos os nossos nomes verdadeiros.

 

Percy não era tão simplório como Paul pensara. Encontrou-se com Maude na recepção do hotel. Ela despertou-lhe imediatamente interesse. Era uma rapariga bonita com modos coquetes. A camisa da farda ficava-lhe bastante justa no peito e usava o bivaque num ângulo elegante. Paul falou-lhe em francês.

 

O meu colega está à nossa espera lá em cima.

 

Ela olhou-o com ar sobranceiro e respondeu na mesma língua.

 

Não costumo ir para quartos de hotel com estranhos disse com atrevimento. Mas no seu caso, major, vou abrir uma excepção.

 

Ele corou.

 

É uma sala, com uma mesa e cadeiras, não um quarto.

 

Oh, bem, assim não faz mal retorquiu ela a gozá-lo. Paul decidiu mudar de assunto. Reparou que ela tinha sotaque do Sul da França.

 

De onde é?

 

Nasci em Marselha.

 

E o que faz nas FANY?

 

Sou motorista do Monty.

 

Ai sim? Paul não devia dar informações a seu respeito, mas não foi capaz de evitar dizer: Trabalhei para o Monty durante algum tempo e não me recordo de a ver.

 

Oh, não é sempre o Monty. Sou motorista de vários generais.

 

Ah. Bom, venha por aqui, por favor.

 

Levou-a para a sala e serviu-lhe uma chávena de chá. Maude estava a gostar das atenções, percebeu Paul. Enquanto Percy fazia perguntas, ele estudou a rapariga. Era pequena, embora não tão pequena como Flick, e engraçada: tinha uma boca em forma de botão de rosa acentuada com batom vermelho, e um sinal que até podia ser falso numa das faces. O cabelo escuro era ondulado.

 

A minha família veio para Londres quando eu tinha dez anos disse ela. O meu pai é chef.

 

E onde é que ele trabalha?

 

É o pasteleiro-chefe no Hotel Claridge.

 

Impressionante.

 

O dossiê de Maude encontrava-se em cima da mesa e, discretamente, Percy aproximou-o alguns centímetros de Paul. Este apercebeu-se e o seu olhar caiu sobre um comentário escrito aquando da primeira entrevista de Maude. «Pai Armand Valentin, 39, ajudante de cozinha no Claridge», leu ele.

 

Depois de terem terminado, pediram à rapariga que aguardasse lá fora.

 

Ela vive num mundo de fantasia disse Percy assim que ela saiu. Promoveu o pai a chef, e mudou o nome para Valentine.


Paul assentiu.

 

Na recepção disse-me que era motorista do Monty... e eu sei que isso é mentira.

 

Foi sem dúvida por causa disso que a rejeitaram antes. Paul achou que Percy se preparava para rejeitar Maude.

 

Mas agora não podemos dar-nos ao luxo de sermos tão picuinhas.

 

Percy olhou para ele surpreendido.

 

Ela seria uma ameaça para a operação!

 

Não temos alternativa.

 

Isto é uma loucura!

 

Percy estava meio apaixonado por Flick, pensou Paul, mas, sendo mais velho e casado, expressava o seu amor de forma paternal e protectora. Paul ficou sensibilizado com isso, mas apercebeu-se de que teria de combater a cautela de Percy se quisesse levar aquela tarefa por diante.

 

Ouça, não devemos eliminar a Maude. A Flick pode decidir quando a conhecer.

 

Calculo que tenha razão admitiu Percy com relutância. E a capacidade de inventar histórias pode ser útil num interrogatório.

 

Muito bem. Vamos convidá-la a subir a bordo. Paul voltou a chamá-la. Gostaria que fizesse parte da equipa que estou a reunir disse. O que acha de participar numa coisa perigosa?

 

E iríamos a Paris? perguntou Maude ansiosa. Era uma reacção estranha. Paul hesitou.

 

Porque pergunta?

 

Adorava ir a Paris. Nunca lá fui. Dizem que é a cidade mais bonita do mundo.

 

Independentemente do seu destino, não terá tempo para ver as vistas respondeu Percy sem ocultar a sua irritação.

 

Maude pareceu não reparar.

 

Que pena disse. Mesmo assim, gostava de ir.

 

Qual é a sua opinião em relação ao perigo? insistiu Paul.

 

Não há problema respondeu Maude com ligeireza. Não sou de me assustar.

 

«Mas devias ser», pensou Paul, achando melhor não dizer mais nada.

 

Rumaram para norte de Baker Street e passaram por um bairro da classe operária que fora bastante afectado pelos bombardeamentos.


Em cada rua pelo menos uma das casas tinha apenas paredes enegrecidas ou não passava de um monte de entulho.

 

Paul deveria encontrar-se com Flick à porta da prisão e entrevistariam Ruby Romain juntos. Percy seguiria para Hendon a fim de entrevistar Lady Denise Bouverie.

 

Percy, ao volante, dirigia com confiança pelas ruas escuras.

 

Conhece bem Londres comentou Paul.

 

Nasci neste bairro respondeu Percy.

 

Paul ficou intrigado. Sabia que era pouco comum um rapaz de uma família pobre ascender ao cargo de coronel do Exército Britânico.

 

O que fazia o seu pai?

 

Vendia carvão nas ruas, com uma carroça puxada por um cavalo.

 

O negócio era dele?

 

Não, trabalhava para o negociante de carvão.

 

Frequentou a escola aqui?

 

Percy sorriu. Sabia que estava a ser investigado, mas parecia não se importar.

 

O vigário da zona ajudou-me a conseguir uma bolsa para uma boa escola. Foi lá que perdi o meu sotaque londrino.

 

Intencionalmente?

 

Não foi por querer. Vou dizer-lhe uma coisa. Antes da guerra, quando eu andava metido na política, as pessoas às vezes diziam-me: «Como é que podes ser socialista com um sotaque desses?» Eu expliquei que era chicoteado na escola por não dizer os agás expirados. Isso calou um ou dois idiotas presunçosos.

 

Percy parou o carro numa rua ladeada de árvores. Paul olhou pela janela e viu um castelo, com ameias, torreões e uma torre alta.

 

Isto é uma prisão?

 

Arquitectura vitoriana explicou Percy.

 

Flick aguardava-o à entrada. Envergava o seu uniforme das FANIS: uma túnica com quatro bolsos, uma saia-calça e um chapelinho com a aba virada para cima. O cinto de cabedal bastante apertado em torno da cintura estreita acentuava o seu tamanho minúsculo, e os seus caracóis louros apareciam sob o chapéu. Paul ficou sem fôlego.

 

Ela é tão bonita comentou ele.

 

É casada observou Percy com rispidez. «Estou a ser avisado», pensou Paul divertido.

 

Com quem?

 

Acho que precisa de saber isto. O Michel faz parte da Resistência francesa. É o líder do circuito Bollinger.


Ah. Obrigado. Paul saiu do carro e Percy arrancou. Paul perguntou de si para si se Flick ficaria zangada por ele e Percy terem arranjado tão poucas candidatas a partir dos dossiês. Só estivera com ela duas vezes, e das duas vezes ela gritara-lhe. No entanto, pareceu animada quando ele lhe falou de Maude.

 

Assim já temos três membros na equipa, contando comigo. Isso significa que estamos a meio do caminho, e são apenas duas da tarde.

 

Paul assentiu. Era uma maneira de encarar as coisas. Estava preocupado, mas não ganhava nada em dizê-lo.

 

A entrada para Holloway era uma guarita medieval com janelas em forma de fenda.

 

Porque é que eles não levaram a coisa mais longe e construíram uma grade e uma ponte levadiça? perguntou Paul. Atravessaram a guarita e entraram num átrio, onde algumas mulheres com vestidos escuros plantavam legumes. Todos os terrenos baldios de Londres tinham legumes plantados.

 

A prisão erguia-se diante deles. A entrada encontrava-se guardada por monstros de pedra, enormes grifos alados com chaves e grilhões nas garras. A casa junto ao portão encontrava-se ladeada por edifícios de quatro andares, cada andar representado por uma longa fila de janelas estreitas e pontiagudas.

 

Que lugar! exclamou Paul.

 

Foi aqui que as sufragistas fizeram greve de fome explicou Flick. A mulher do Percy foi alimentada à força aqui.

 

Meu Deus.

 

Entraram. O ar cheirava a lixívia forte, como se as autoridades esperassem que o desinfectante pudesse matar as bactérias do crime. Paul e Flick foram conduzidos ao gabinete de Miss Lindleigh, a directora adjunta com corpo de barril e um rosto achatado de expressão dura.

 

Não sei por que motivo desejam visitar a Romain disse ela. Depois acrescentou com um certo ressentimento: E parece que não me vão dizer.

 

No rosto de Flick surgiu uma expressão desdenhosa e Paul apercebeu-se de que ela estava prestes a dizer algo mordaz, por isso apressou-se a intervir:

 

Peço desculpa pelo sigilo disse com o seu sorriso mais encantador. Estamos apenas a cumprir ordens.

 

Calculo que todos tenhamos de as cumprir retorquiu Miss Lindleigh, ligeiramente mais calma. Seja como for, tenho de prevenir-vos que a Romain é uma reclusa violenta.


Sei que é uma assassina.

 

Sim. Devia ser enforcada, mas os tribunais hoje em dia são demasiado brandos.

 

Pois são anuiu Paul, embora na verdade não o achasse.

 

Ela veio cá parar por embriaguez, depois matou outra reclusa num confronto no pátio, por isso agora aguarda julgamento por homicídio.

 

Uma cliente difícil comentou Flick com um certo interesse.

 

Sim, major. A princípio ela pode parecer-vos razoável, mas não se deixem enganar. Ela irrita-se facilmente e perde a paciência num abrir e fechar de olhos.

 

E é mortífera quando a perde disse Paul.

 

Estou a ver que já percebeu.

 

Dispomos de pouco tempo interveio Flick impaciente. Gostaria de vê-la agora.

 

Se não se importar, Miss Lindleigh acrescentou Paul rapidamente.

 

Muito bem. A directora adjunta conduziu-os até ao exterior do gabinete. O chão duro e as paredes nuas faziam o local ecoar como uma catedral, e havia um constante ruído de fundo composto por gritos, portas a bater e botas a andar em passadiços metálicos. Seguiram por corredores estreitos e escadas íngremes até uma sala.

 

Ruby Romain já lá se encontrava. Tinha pele acastanhada, cabelo escuro liso e olhos negros penetrantes. No entanto, não possuía a tradicional beleza cigana: tinha o nariz curvo e o queixo pontiagudo, o que lhe conferia o ar de um gnomo.

 

Miss Lindleigh deixou-os com uma guarda na sala ao lado a observá-los através de uma porta espelhada. Flick, Paul e a reclusa sentaram-se em torno de uma mesa barata com um cinzeiro sujo. Paul trouxera um maço de Lucky Strike. Pô-lo em cima da mesa.

 

Sirva-se disse em francês.

 

Ruby tirou dois, pôs um na boca e outro atrás da orelha. Paul fez algumas perguntas de rotina para quebrar o gelo. Ela respondeu de forma clara e educada, mas com um forte sotaque.

 

Os meus pais são nómadas disse ela. Quando eu era miúda percorremos a França com um parque de diversões. O meu pai tinha uma barraca de tiro e a minha mãe vendia crepes com molho de chocolate.

 

Como é que veio para Inglaterra?

 

Aos catorze anos apaixonei-me por um marinheiro inglês que conheci em Calais. Chamava-se Freddy. Casámos... menti a respeito da minha idade, claro... e viemos para Londres. Ele morreu há dois anos, o barco dele foi afundado por um submarino no Atlântico. Estremeceu. Um túmulo gelado. Pobre Freddy.

 

Flick não estava interessada na história da família dela.

 

Conte-nos por que motivo se encontra aqui pediu.

 

Arranjei uma braseira pequena e comecei a vender crepes na rua. Mas a Polícia estava sempre a incomodar-me. Uma noite, depois de ter bebido uns cálices de brande... uma das minhas fraquezas, devo admitir... envolvi-me num confronto. Passou a falar em inglês com um forte sotaque cockney. O chui mandou-me aguentar os cavalos e eu insultei-o. Ele empurrou-me e eu atirei-o ao chão.

 

Paul observou-a ligeiramente divertido. Ela era de altura mediana, e magra, mas tinha mãos grandes e pernas musculadas. Imaginava-a perfeitamente a derrubar um polícia londrino.

 

O que aconteceu a seguir? perguntou Flick.

 

Dois colegas dele apareceram na esquina e eu levei algum tempo a ir-me embora, por causa do brande, por isso eles espancaram-me e levaram-me para a pildra. Vendo a expressão perplexa de Paul, acrescentou: Para o calabouço. Bom, o primeiro chui teve vergonha de me acusar de agressão, não queria admitir que tinha sido derrubado por uma rapariga, por isso fiquei detida quinze dias por embriaguez e conduta desordeira.

 

E depois meteu-se noutra briga. Ela lançou a Flick um olhar curioso.

 

Não sei se consigo explicar a alguém como a senhora o que é isto aqui. Metade das mulheres são loucas e todas têm armas. Pode afiar-se o cabo de uma colher para fazer uma faca, ou aguçar um arame para servir de estilete, ou torcer uns fios para fazer um garrote. E as guardas nunca interferem numa briga entre reclusas. Gostam de nos ver a dar-mos cabo umas das outras. É por isso que tantas reclusas têm cicatrizes.

 

Paul ficou chocado. Nunca contactara com presos. A imagem pintada por Ruby era horrível. Talvez estivesse a exagerar, mas parecia sincera. Parecia não se importar se acreditavam nela ou não, mas apresentou os factos com a forma seca e calma de alguém que não está muito interessado, mas não tem nada melhor para fazer.

 

O que aconteceu à mulher que você matou? perguntou Flick.

 

Roubou-me uma coisa.

 

O quê?


Uma barra de sabão.

 

«Meu Deus», pensou Paul. «Matou por um pedaço de sabão.»

 

O que é que você fez? perguntou Flick.

 

Recuperei-o.

 

E depois?

 

Ela foi atrás de mim. Tinha transformado a perna de uma cadeira num bastão, com um pedaço de chumbo dos canos na ponta. Bateu-me na cabeça com ele. Pensei que ela ia matar-me. Mas eu tinha uma faca. Tinha encontrado um pedaço comprido e aguçado de vidro, parecido com o estilhaço de uma vidraça, e envolvi a ponta mais larga com um bocado do pneu gasto de uma bicicleta para poder agarrar nele. Espetei-lho na garganta. Ela não teve oportunidade de me agredir uma segunda vez.

 

Flick reprimiu um estremecimento.

 

Parece-me autodefesa comentou.

 

Não. É preciso provar que não conseguimos fugir. E eu tinha premeditado o homicídio fazendo uma faca a partir de um vidro.

 

Paul levantou-se.

 

Espere aqui um momento com a guarda, por favor disse ele. Vamos só até ali fora.

 

Ruby sorriu-lhe, e pela primeira vez pareceu atraente.

 

O senhor é tão educado comentou ela.

 

Que história horrível! exclamou Paul já no corredor.

 

Lembre-se de que aqui dentro toda a gente diz que está inocente retorquiu Flick.

 

Mesmo assim, acho que ela é mais vítima do que outra coisa.

 

Duvido. Penso que ela é uma assassina.

 

Então vamos rejeitá-la.

 

Pelo contrário. Ela é precisamente aquilo que eu quero. Regressaram à sala.

 

Se pudesse sair daqui perguntou Flick estaria disposta a contribuir para o fim da guerra com um trabalho perigoso?

 

Ela respondeu com outra pergunta.

 

Iríamos para França? Flick arqueou as sobrancelhas.

 

Porque pergunta isso?

 

Falaram comigo em francês no princípio. Calculo que tenham querido verificar se eu falava a língua.

 

Bem, não posso falar-lhe muito do trabalho.

 

Aposto que envolve sabotagem atrás das linhas do inimigo. Paul ficou perplexo: Ruby era de raciocínio bastante rápido. Vendo a surpresa dele, Ruby prosseguiu:


Olhe, a princípio pensei que queriam que eu vos traduzisse qualquer coisa, mas não há nada de perigoso nisso. Por conseguinte, devemos ir para França. E o que faria o exército britânico senão destruir pontes e caminhos-de-ferro?

 

Paul não disse nada, mas ficou admirado com a capacidade de dedução dela.

 

O que não percebo é por que motivo é uma equipa só de mulheres disse Ruby de sobrolho franzido.

 

Flick arregalou os olhos.

 

Porque pensa isso?

 

Se pudessem usar homens, porque é que viriam falar comigo? Devem estar desesperados. Não deve ser muito fácil tirar uma assassina da prisão, mesmo que para esforço de guerra vital. Então o que tenho eu de especial? Sou rija, mas deve haver centenas de homens rijos que falem francês e que estejam ansiosos por fazer coisas perigosas. A única razão por que me escolheram em vez de a eles é eu ser mulher. Talvez as mulheres corram menos riscos de serem interrogadas pela Gestapo... é isso?

 

Não posso dizer respondeu Flick.

 

Bem, se me quiserem, eu faço o trabalho. Posso ficar com outro desses cigarros?

 

Com certeza respondeu Paul.

 

Espero que perceba que este trabalho é perigoso disse Flick.

 

Sim respondeu Ruby acendendo um cigarro. Mas não tão perigoso como viver nesta maldita prisão.

 

Regressaram ao gabinete da directora adjunta depois de terem deixado Ruby.

 

Preciso da sua ajuda, Miss Lindleigh disse Paul, lisonjeando-a novamente. Diga-me o que seria necessário para poder libertar a Ruby Romain.

 

Libertá-la? Mas ela é uma assassina! Por que motivo seria ela libertada.

 

Lamento, mas não posso dizer-lhe. No entanto garanto-lhe que se soubesse para onde ela vai não diria que se safou de boa... antes pelo contrário.

 

Estou a ver disse ela ainda pouco convencida.

 

Tenho de tirá-la daqui esta noite prosseguiu Paul. Mas não quero colocar a senhora numa posição difícil. É por isso que preciso de saber de que tipo de autorização a senhora precisa.


O que ele queria mesmo era certificar-se de que ela não teria desculpas para levantar obstáculos.

 

Não posso libertá-la sob quaisquer circunstâncias disse Miss Lindleigh. Ela foi enviada para aqui por um tribunal, pelo que só o tribunal poderá libertá-la.

 

Paul continuou, pacientemente:

 

E acha que isso exigiria o quê?

 

Ela teria de ser presente a um juiz sob escolta policial. O delegado do Ministério Público, ou o seu representante, teria de dizer ao juiz que todas as queixas foram retiradas. Depois o juiz teria de dizer que ela era livre de se ir embora.

 

Paul franziu o sobrolho, adivinhando mais empecilhos: Ela teria de assinar os papéis para se juntar ao exército antes de ser presente ao juiz, para estar sob disciplina militar assim que o tribunal a libertasse.... senão poderia ir-se embora.

 

Miss Lindleigh continuava incrédula:

 

Porque haveriam as queixas de ser retiradas?

 

Esse tal delegado é funcionário do Governo?

 

Sim.

 

Então não haverá problema. Paul levantou-se. Voltarei aqui ao fim da tarde, com um juiz, alguém do gabinete do delegado e um motorista do Exército para levar a Ruby ao... seu destino seguinte. Prevê mais algum obstáculo?

 

Miss Lindleigh abanou a cabeça.

 

Eu cumpro ordens, major, tal como o senhor.

 

Óptimo.

 

Saíram do gabinete. Lá fora, Paul parou e olhou para trás.

 

Nunca tinha estado antes numa prisão disse ele. Não sei o que esperava, mas não era algo retirado de um conto de fadas.

 

Estava a fazer um comentário inofensivo acerca do edifício, mas Flick não ficou muito satisfeita.

 

Foram ali enforcadas várias mulheres disse ela. Isso não é um conto de fadas.

 

Ele perguntou de si para si por que motivo estaria ela mal-humorada. Depois percebeu.

 

Diz isso porque pode ir parar a uma prisão francesa. Ela pareceu abalada.

 

Acho que tem razão disse. Não tinha percebido por que motivo detestei tanto o sítio, mas deve ser por isso.

 

Ela também podia ser enforcada, constatou ele, mas preferiu ficar calado.

 

Continuaram a andar rumo à estação de metro mais próxima. Flick ia pensativa.


Você é bastante perspicaz disse. Percebeu logo como é que haveríamos de manter Miss Lindleigh do nosso lado. Eu tê-la-ia transformado numa inimiga.

 

Não valia a pena.

 

Precisamente. E depois transformou a tigreza Ruby numa gatinha.

 

Não me agradava nada que uma mulher daquelas antipatizasse comigo.

 

Flick soltou uma gargalhada.

 

Depois disse-me uma coisa que eu ainda não tinha percebido a meu respeito.

 

Paul ficou satisfeito por tê-la impressionado, mas já estava a pensar no problema seguinte.

 

À meia-noite devemos ter metade da equipa no centro de treino de Hampshire.

 

Chamamos-lhe escola de aperfeiçoamento disse Flick. Sim: a Diana Colefield, a Maude Valentine e a Ruby Romain.

 

Paul assentiu com ar carrancudo.

 

Uma aristocrata indisciplinada, uma miúda bonita incapaz de distinguir a fantasia da realidade e uma cigana assassina com mau feitio. Quando pensou na possibilidade de Flick ser enforcada pela Gestapo, sentiu-se tão preocupado quanto Percy acerca do calibre das recrutas.

 

A cavalo dado não se olha o dente comentou Flick animada. A sua má disposição desaparecera.

 

Mas ainda nos falta uma especialista em explosivos e uma engenheira electrotécnica.

 

Flick olhou para o relógio.

 

Ainda só são quatro da tarde. E talvez a RAF tenha ensinado a Denise Bouverie a rebentar uma central telefónica.

 

Paul sorriu. O optimismo de Flick era irresistível. Chegaram à estação e apanharam o metro. Não podiam falar sobre a missão porque havia mais passageiros.

 

Esta manhã fiquei a saber um pouco mais sobre o Percy disse Paul. Passámos pelo bairro onde ele cresceu.

 

Ele adoptou os modos e até o sotaque da classe alta britânica, mas não se deixe enganar. Debaixo daquele velho casaco de tweed bate o coração de um verdadeiro rufia.

 

Ele disse-me que foi chicoteado na escola por falar com o sotaque da classe baixa.

 

Foi bolseiro. Os bolseiros costumam passar um mau bocado nas pretensiosas escolas britânicas. Eu sei isso porque também fui bolseira.


Teve de mudar o seu sotaque?

 

Não. Cresci na casa de um conde. Sempre falei assim.

 

Paul calculou que era por esse motivo que Flick e Percy se davam tão bem: pertenciam ambos à classe baixa que havia subido a escada social. Ao contrário dos Americanos, os Britânicos achavam que não havia nada de errado no preconceito social. No entanto, ficavam chocados quando os sulistas lhes diziam que os negros eram inferiores.

 

Acho que o Percy gosta muito de si.

 

Eu amo-o como a um pai.

 

O sentimento parecia genuíno, pensou Paul, mas ela estava também a esclarecer quaisquer dúvidas quanto à sua relação com Percy.

 

Flick combinara encontrar-se com Percy em Orchard Court. Quando chegaram, havia um carro estacionado em frente à casa. Paul reconheceu o motorista: pertencia ao séquito de Monty.

 

Meu major, está uma pessoa no carro à sua espera disse o homem.

 

A porta de trás abriu-se e de lá saiu a irmã mais nova de Paul, Caroline. Ele sorriu encantado.

 

Bem, raios me partam! exclamou. Ela aproximou-se e ele abraçou-a com força. O que estás a fazer em Londres?

 

Não posso dizer, mas tive umas horas de folga, por isso convenci o pessoal do Monty a emprestar-me um carro para poder vir ver-te. Queres pagar-me um copo?

 

Não tenho tempo respondeu ele. Nem sequer para ti. Mas podes levar-me de carro até Whitehall. Tenho de encontrar um homem com o cargo de promotor público.

 

Então levo-te lá e pomos a conversa em dia durante a viagem.

 

Claro. Vamos então!

 

Flick virou-se à porta do edifício e viu uma rapariga bonita com farda de tenente a sair do carro e a abraçar Paul. Reparou no sorriso encantado dele e na força do seu abraço. Devia ser a mulher dele, a namorada ou a noiva, provavelmente a fazer uma visita surpresa a Londres. Pertencia provavelmente às forças norte-americanas estacionadas na Grã-Bretanha que ajudavam a preparar a invasão. Paul entrou no carro.

 

Flick entrou em Orchard Court sentindo-se um pouco triste. Paul tinha uma rapariga, estavam loucos um pelo outro, e tinham podido encontrar-se inesperadamente. Flick desejou que Michel aparecesse assim, saído do nada. Mas o marido estava ferido, deitado num sofá em Reims, a ser tratado por uma desavergonhada de dezanove anos.

 

Percy já regressara de Hendon. Naquele momento estava a fazer chá.

 

Que tal a rapariga da RAF? perguntou ela.

 

Lady Denise Bouverie... já vai a caminho da escola de aperfeiçoamento respondeu ele.

 

Óptimo! Assim já temos quatro.

 

Mas estou preocupado. Ela é uma gabarolas. Vangloriou-se do trabalho que está a fazer na Força Aérea, contou-me vários pormenores que deviam ter ficado em segredo. Vais ter de ver o que pensas dela durante o treino.

 

Presumo que ela não perceba nada de centrais telefónicas.

 

Nada. Nem de explosivos. Chá?

 

Por favor.

 

Ele estendeu-lhe uma chávena e sentou-se atrás da velha secretária barata.


Onde está o Paul?

 

Foi à procura do promotor público. Está a contar tirar a Ruby Romain da prisão esta noite.

 

Percy lançou-lhe um olhar intrigado.

 

Gostas dele?

 

Mais do que gostava inicialmente.

 

Eu também. Flick sorriu.

 

Ele encantou a velha que dirige a prisão.

 

Que tal era a Ruby Romain?

 

Assustadora. Cortou a garganta a outra reclusa durante uma discussão por causa de uma barra de sabão.

 

Credo! Percy abanou a cabeça com ar incrédulo. Que raio de equipa é que estamos a juntar, Flick?

 

Uma equipa perigosa. E é assim que deve ser. O problema não é esse. Para além disso, com o rumo que as coisas estão a tomar, podemos dar-nos ao luxo de eliminar uma ou duas durante o treino, as que se portarem pior. Preocupa-me é o facto de não termos as especialistas de que precisamos. Não vale a pena levar uma equipa de mulheres para França e depois destruir os cabos errados.

 

Percy esvaziou a chávena de chá e começou a encher o cachimbo.

 

Conheço uma especialista em explosivos que fala francês. Flick ficou surpreendida.

 

Mas isso é óptimo! Porque não disseste antes?

 

Quando pensei nela pela primeira vez, pu-la de lado. Achei que não servia. Mas ainda não tinha percebido que estávamos desesperados.

 

Porque achaste que ela não servia?

 

Tem cerca de quarenta anos. O EOE raramente usa pessoas tão velhas, especialmente numa missão em que é preciso saltar de pára-quedas. Acendeu um fósforo.

 

A idade não iria ser um obstáculo naquela fase do campeonato, pensou Flick. Animada, perguntou.

 

Achas que ela se oferece?

 

Creio que há uma forte possibilidade de isso acontecer, especialmente se eu lhe pedir.

 

Vocês são amigos? Ele assentiu.

 

Como é que ela se tornou especialista em explosivos? Percy pareceu atrapalhado. Ainda com o fósforo aceso na mão, começou a explicar.


Ela é uma arrombadora de cofres. Conheci-a há uns anos, quando andava a fazer trabalho político no East End. O fósforo apagou-se e ele acendeu outro.

 

Percy, não fazia ideia de que o teu passado era tão ordinário. Onde está ela agora?

 

Percy olhou para o relógio.

 

São seis horas. A esta hora deve estar ao balcão privado do Mucky Duck.

 

Um pub.

 

Sim.

 

Então acende esse maldito cachimbo e vamos até lá agora. No carro, Flick perguntou: Como é que sabes que ela é uma arrombadora de cofres?

 

Percy encolheu os ombros.

 

Toda a gente sabe.

 

Toda a gente? Até a Polícia?

 

Sim. No East End a Polícia e os vilões cresceram juntos, frequentam as mesmas escolas, moram nas mesmas ruas. Todos se conhecem.

 

Mas se sabem quem são os criminosos, porque é que não os metem na prisão? Calculo que não possam provar nada.

 

As coisas funcionam da seguinte maneira: quando precisam de condenar alguém, prendem uma pessoa que esteja na mesma actividade. Se for um assalto, prendem um assaltante. Não interessa se ele foi responsável por esse crime determinado, pois podem sempre fabricar um caso: subornam testemunhas, forjam confissões falsas e provas. Claro que às vezes cometem erros e prendem pessoas inocentes e muitas vezes, também, servem-se do sistema para se vingarem de afrontas pessoais, e assim por diante; mas nada nesta vida é perfeito, pois não?

 

Então estás a dizer que todos esses tribunais e júris são uma farsa?

 

Uma farsa bem-sucedida e com bastantes anos que providencia trabalho lucrativo a cidadãos de outra forma inúteis que desempenham o papel de detectives, solicitadores, advogados e juizes.

 

A tua amiga arrombadora de cofres já esteve presa?

 

Não. Pode escapar-se de uma acusação se se estiver disposto a pagar bons subornos e se se tiver o cuidado de fomentar amizade com os detectives. Suponhamos que vives na mesma rua que a mãezinha querida do inspector-detective Callahan. Vais visitá-la uma vez por semana, perguntas se ela precisa que lhe façam as compras, olhas para as fotografias dos netos... dificultas ao inspector-detective Callahan a tarefa de te meter na prisão.


Flick pensou na história que Ruby lhe contara havia umas horas. Para algumas pessoas, viver em Londres era quase o mesmo do que viver sob a alçada da Gestapo. As coisas podiam ser tão diferentes daquilo que ela imaginara?

 

Não consigo perceber se estás a falar a sério disse ela a Percy. Não sei em que acreditar.

 

Oh, eu estou a falar a sério! respondeu ele com um sorriso. Mas não conto que acredites em mim.

 

Encontravam-se em Stepney, não muito longe das docas. Os danos provocados pelas bombas eram os mais graves que Flick já vira. Ruas inteiras haviam ficado destruídas. Percy meteu para um beco sem saída estreito e estacionou à porta de um pub.

 

Mucky Duck era uma alcunha humorística: o pub chamava-se The White Swan. O balcão privado não era privado, mas era assim designado para o distinguir do balcão público, onde havia serradura no chão e a cerveja era um penny mais barata. Flick imaginou-se a explicar aquelas idiossincrasias a Paul. Ele haveria de achá-las divertidas.

 

Geraldine Knight encontrava-se sentada num banco na extremidade do balcão, com ar de quem era dona do local. Tinha cabelo louro e usava uma maquilhagem carregada, mas aplicada nos locais estratégicos. A sua figura roliça tinha a firmeza aparente que só podia ser causada por um espartilho. O cigarro que ardia no cinzeiro tinha uma extremidade manchada de batom vermelho. Era difícil imaginar alguém que tivesse tão pouco ar de agente secreto, pensou Flick desanimada.

 

Percy Thwaite, raios me partam! exclamou a mulher. Soava como uma pessoa da classe baixa que tivera aulas de dicção. O que andas a fazer por estas bandas, meu maldito comunista? Ficara visivelmente encantada por vê-lo.

 

Olá, Jelly, apresento-te a minha amiga Flick.

 

Muito prazer disse ela, apertando-lhe a mão.

 

Jelly? perguntou Flick.

 

Ninguém sabe onde fui buscar essa alcunha.

 

Oh, fez Flick. Jelly Knight, gelignitel. Jelly ignorou o comentário.

 

Vou beber um gim e companhia, Percy, já que és tu que pagas.

 

Vive nesta zona de Londres? perguntou Flick em francês.

 

1 Também chamada nitrogelatma explosivo do grupo das dinamites, preparado com nitratos de celulose, tnmtrato de gliccrol (nitroglicerina) e diversos nitratos e cargas (N do T]


Desde os dez anos respondeu ela, falando um francês com sotaque norte-americano. Nasci no Quebec.

 

Aquilo não era tão bom, pensou Flick. Os alemães poderiam não reparar no sotaque, mas de certeza que os franceses reparariam. Jelly teria de desempenhar o papel de uma cidadã francesa nascida no Canadá. Era uma história perfeitamente plausível, mas suficientemente fora do comum para despertar curiosidade. Raios.

 

Mas considera-se britânica.

 

Inglesa, não britânica retorquiu Jelly com indignação. Voltou a falar inglês. Pertenço à Igreja de Inglaterra, voto no Partido Conservador e não gosto de estrangeiros, ateus e republicanos. Com um olhar na direcção de Percy, acrescentou: Exceptuando algumas pessoas presentes, claro.

 

Devias viver no Yorkshire, numa quinta, num daqueles sítios onde não se vê um estrangeiro desde os Viquingues. Não sei como aguentas viver em Londres, rodeada de bolcheviques russos, de judeus alemães, de católicos irlandeses e de galeses dissidentes da Igreja Anglicana que constróem pequenas capelas por toda a parte, tal como as toupeiras desfiguram os relvados.

 

Londres já não é o que era, Perce.

 

Não o que era quando eras estrangeira?

 

Aquela discussão já devia ser antiga. Flick interrompeu-os impaciente.

 

Folgo muito em ouvir que é tão patriota, Jelly.

 

E porque havia uma coisa dessas de lhe interessar?

 

Porque há uma coisa que a senhora pode fazer pelo seu país.

 

Eu falei à Flick da tua... especialidade, Jelly interveio Percy.

 

Discrição, Percy, por favor. A discrição é a melhor das virtudes, como diz a Bíblia.

 

Presumo que saiba que houve recentemente alguns desenvolvimentos fascinantes na área disse Flick. Nos explosivos plásticos, quero eu dizer.

 

Tento manter-me a par retorquiu Jelly com um ar de modéstia. A sua expressão alterou-se e ela olhou para Flick com uma expressão astuta. Isto tem qualquer coisa a ver com a guerra, não tem?

 

Sim.

 

Conte comigo. Farei qualquer coisa pela Inglaterra.

 

Vai estar ausente durante uns dias.

 

Não há problema.

 

Pode não regressar.


O que raio quer isso dizer?

 

Vai ser muito perigoso respondeu Flick calmamente. Jelly pareceu abalada.

 

Òh! fez, engolindo em seco. Bem, isso não faz diferença acrescentou, pouco convencida.

 

Tem a certeza?

 

Jelly pareceu pensativa, como se estivesse a fazer cálculos.

 

Quer que eu faça explodir qualquer coisa. Flick assentiu em silêncio

 

Não é no continente, pois não?

 

Pode ser.

 

Jelly empalideceu sob a pintura.

 

Oh, diacho! Quer que eu vá a França, não quer? Flick não respondeu.

 

Atrás das linhas inimigas! Verdade seja dita, sou demasiado velha para esse género de coisas. Tenho... hesitou trinta e sete anos.

 

Tinha com certeza mais cinco anos, pensou Flick, mas disse:

 

Bem, somos quase da mesma idade, eu tenho quase trinta. Não somos demasiado velhas para um pouco de aventura, pois não?

 

Fale por si, querida.

 

Flick começou a ficar angustiada. Jelly não iria aceitar.

 

O plano fora mal concebido, pensou ela. Não iria ser possível encontrar mulheres que desempenhassem aquelas tarefas e falassem francês na perfeição. O plano estivera condenado desde o início. Virou as costas a Jelly. Sentiu vontade de chorar.

 

Jelly, estamos a pedir-te que faças uma coisa muito importante para o esforço de guerra disse Percy.

 

Vai enganar outra, Perce respondeu ela, mas em vez de ter um ar de gozo exibia uma expressão solene.

 

Ele abanou a cabeça.

 

Não estou a exagerar. Pode contribuir para a derrota ou para a vitória dos Aliados.

 

Ela olhou para ele sem dizer nada. O conflito interior transformou a sua expressão numa careta de indecisão.

 

E tu és a única pessoa no país capaz de o fazer acrescentou Percy.

 

Pára com isso! exclamou ela com cepticismo.

 

És uma arrombadora de cofres que fala francês... quantas mais julgas que há? Eu digo-te: nenhuma.

 

Estás a falar a sério, não estás?

 

Nunca falei tão a sério na minha vida.


Bolas, Perce. Jelly ficou em silêncio. Não falou durante bastante tempo. Flick susteve a respiração. Por fim, Jelly disse: Está bem, desgraçado, eu aceito.

 

Flick ficou tão satisfeita que lhe deu dois beijos.

 

Que Deus te abençoe, Jelly disse Percy.

 

Quando começamos? perguntou ela.

 

Agora respondeu Percy. Se acabares esse gim, levo-te a casa para fazeres a mala e depois levo-te ao centro de treino.

 

O quê, esta noite?

 

Eu disse-te que era importante. Ela engoliu o que restava da bebida.

 

Muito bem, estou pronta.

 

Fez deslizar o seu traseiro amplo do banco, e Flick perguntou de si para si: «Como é que ela se desenvencilhará com um pára-quedas?»

 

Saíram do pub.

 

Não te importas de regressar de metro? perguntou Percy a Flick.

 

Claro que não.

 

Então vemo-nos amanhã na escola de aperfeiçoamento.

 

Lá estarei respondeu Flick, e separaram-se.

 

Ela dirigiu-se para a estação de metro mais próxima, sentindo-se radiante. Estava uma noite de Verão amena, e o East End fervilhava: um grupo de rapazes de rosto sujo jogava críquete com um pau e uma bola de ténis; um homem cansado com roupas sujas do trabalho dirigia-se a casa para o lanche tardio; um soldado fardado, de licença com um maço de tabaco e alguns xelins no bolso, avançava pelo passeio com um ar lampeiro, como se todos os prazeres do mundo estivessem ao seu alcance; três raparigas bonitas com vestidos sem mangas e chapéus de palha riram-se para o soldado. O destino de todas aquelas pessoas seria decidido nos dias seguintes, pensou Flick.

 

No metro para Bayswater tornou a desanimar. Ainda lhe faltava encontrar o membro mais importante da equipa. Sem uma engenheira electrotécnica, Jelly poderia colocar os explosivos no local errado. Ainda provocariam alguns estragos mas, se os danos pudessem ser reparados num dia ou dois, o enorme esforço que haviam feito e o risco que haviam corrido teriam sido em vão.

 

Quando regressou ao quarto, Flick encontrou Mark, o irmão, à sua espera. Abraçou-o e beijou-o.

 

Que surpresa agradável!

 

Tenho a noite livre, por isso lembrei-me de te convidar para beber um copo disse ele.


Onde está o Steve?

 

A desempenhar o papel de lago para os soldados em Lyme Regis. Durante a maior parte do tempo trabalhamos para a ANSE. A ANSE era a Associação Nacional de Serviços de Entretenimento, que organizava espectáculos para as forças armadas. Onde é que vamos?

 

Flick sentia-se cansada, e a sua primeira reacção foi declinar o convite. Depois lembrou-se de que iria para França na sexta-feira e que podia ser a última vez que via o irmão.

 

Que tal ao West End? sugeriu.

 

Vamos a um cabaré.

 

Perfeito!

 

Saíram de casa e avançaram de braço dado pela rua.

 

Estive com a mãe esta manhã disse Flick.

 

Como é que ela está?

 

Bem, mas lamento informar-te que ainda não mudou de ideias em relação a ti e ao Steve.

 

Não estava à espera que ela mudasse. E onde é que a viste?

 

Fui a Somersholme. Levava muito tempo a explicar porquê.

 

Deve ser qualquer coisa secreta, calculo.

 

Ela sorriu, depois suspirou ao recordar-se do seu problema.

 

Calculo que não conheças uma engenheira electrotécnica que fale francês, pois não?

 

Ele parou.

 

Bem, mais ou menos respondeu.

 

Mademoiselle Lemas agonizava. Estava sentada muito direita na cadeira junto à mesa, o seu rosto imobilizado numa máscara de autodomínio. Não ousava mexer-se. Ainda tinha o chapéu na cabeça e segurava no regaço a mala de cabedal demasiado cheia. As suas mãozinhas gordas apertavam a pega da mala ritmicamente. Os seus dedos não exibiam anéis; aliás, tinha apenas uma jóia, uma pequena cruz de prata num fio.

 

À sua volta, os funcionários e as secretárias nas suas fardas bem engomadas continuavam a escrever à máquina e a arquivar documentos. Seguindo as instruções de Dieter, sorriam educadamente quando olhavam para ela e de vez em quando uma das raparigas perguntava-lhe se ela queria água ou café.

 

Dieter observava-a sentado, com o tenente Hesse a um lado e Stéphanie do outro. Hans Hesse era o típico alemão robusto e imperturbável. Assistia com estoicismo: já vira muitas formas de tortura. Stéphanie era mais excitável, mas tentava dominar-se. Parecia descontente, mas ficou calada: o seu único objectivo na vida era agradar a Dieter.

 

A dor de Mademoiselle Lemas não era apenas física, como Dieter sabia. Pior ainda do que a dor na bexiga era o pânico de se urinar numa sala cheia de pessoas educadas e bem vestidas que tratavam dos seus assuntos. Para uma senhora de idade respeitável, esse era o pior dos pesadelos. Ele admirou-a pela sua firmeza e perguntou de si para si se ela iria ceder e contar-lhe tudo, ou dominar-se.

 

Um jovem cabo bateu os calcanhares ao lado de Dieter.

 

Peço desculpa, meu major, mas pediram-me que o levasse ao gabinete do major Weber.

 

Dieter ainda pensou em mandar uma resposta a dizer: «Se deseja falar comigo, venha ver-me», mas decidiu que nada ganharia em antagonizar o outro antes de ser estritamente necessário. Weber poderia até mostrar-se mais cooperante se ele o deixasse marcar alguns pontos.

 

Muito bem. Virou-se para Hesse Hans, sabe o que tem de perguntar-lhe se ela ceder.

 

Sim, meu major.

 

No caso de isso não acontecer... Stéphanie, importas-te de ir ao Café dês Sports buscar uma garrafa de cerveja e um copo, por favor?

 

Com certeza. Ela parecia grata por ter um motivo para sair dali.

 

Dieter seguiu o cabo até ao gabinete de Willi Weber. Era um aposento enorme na parte da frente do castelo, com três janelas altas que davam para a praça. Dieter olhou para o Sol que se punha sobre a cidade. A luz oblíqua realçava os arcos e os arcobotantes da igreja medieval. Viu Stéphanie atravessar a praça com os seus sapatos de salto alto, caminhando como um cavalo de corrida, simultaneamente delicada e poderosa.

 

Na praça encontravam-se alguns soldados a erigir três pilares de madeira. Dieter franziu o sobrolho.

 

Um pelotão de fuzilamento?

 

Para os três terroristas que sobreviveram à escaramuça de domingo respondeu Weber. Sei que já terminou o interrogatório.

 

Dieter assentiu.

 

Eles disseram-me tudo o que sabiam.

 

Irão ser mortos publicamente como aviso a outras pessoas que pensem em juntar-se à Resistência.

 

Boa ideia disse Dieter. No entanto, embora o Gaston esteja bem, tanto o Bertrand como a Geneviève têm ferimentos graves... admirar-me-ia se conseguissem andar.

 

Então serão levados para o seu destino. Mas não o chamei aqui para falarmos deles. Os meus superiores em Paris perguntam-me que progressos foram feitos.

 

E o que lhes respondeu, Willi?

 

Que depois de quarenta e oito horas de investigações você prendeu uma velha que pode ou não ter albergado agentes aliados em casa, e que até agora nada nos disse.

 

E o que deseja dizer-lhes? Weber deu um murro teatral na mesa.

 

Que desfizemos a espinha dorsal da Resistência francesa!

 

Isso pode levar mais do que quarenta e oito horas.


Porque não tortura o raio da velha?

 

Estou a torturá-la.

 

Recusando-lhe uma ida à casa de banho! Que raio de tortura é essa?

 

Neste caso, a mais eficaz, creio eu.

 

Você julga que sabe mais que os outros. Sempre foi muito arrogante. Mas agora estamos numa nova Alemanha, major. Já não se espera que seja mais esperto que os outros só porque é filho de um professor.

 

Não seja ridículo.

 

Acha mesmo que teria sido o director mais jovem dos serviços secretos de Colónia se o seu pai não fosse um homem importante na universidade?

 

Tive de passar os exames tal como toda a gente.

 

Mas que estranho as outras pessoas, tão capazes como o senhor, nunca se saírem tão bem.

 

Seria aquela a fantasia com que Weber tentava enganar-se?

 

Por amor de Deus, Willi, não pode acreditar que toda a força policial de Colónia conspirou para me atribuir melhores notas do que a si só porque o meu pai era professor de música... isso é ridículo!

 

Essas coisas eram vulgares antigamente.

 

Dieter suspirou. Weber não deixava de ter uma certa razão. O despotismo tinha existido na Alemanha. Mas não fora por isso que Willi não obtivera a promoção. A verdade era que ele era estúpido. Nunca chegaria a nenhures excepto numa organização onde o fanatismo era mais importante do que as capacidades de raciocínio.

 

Dieter já estava farto daquela conversa estúpida.

 

Não se preocupe com Mademoiselle Lemas disse ele. Não tardará a falar. Dirigiu-se para a porta. E iremos também desfazer a espinha dorsal da Resistência francesa. Espere só mais um bocadinho.

 

Regressou ao gabinete principal. Mademoiselle Lemas emitia agora alguns gemidos. Weber impacientara Dieter, e ele decidiu acelerar o processo. Quando Stéphanie regressou, ele pousou o copo na mesa, abriu a garrafa e verteu lentamente a cerveja diante da prisioneira. Lágrimas de dor surgiram nos olhos dela e rolaram pelas suas faces roliças. Dieter bebeu um longo gole e pousou o copo.

 

A sua agonia está prestes a terminar, mademoiselle disse ele. O alívio está próximo. Daqui a uns momentos irá responder às minhas perguntas, e depois ficará bem.

 

Ela fechou os olhos.


Onde é que se encontra com os agentes britânicos? Fez uma pausa. Como é que se reconhecem? Ela não respondeu. Qual é a senha?

 

Aguardou um momento, depois acrescentou:

 

Tenha as respostas prontas, na sua mente, e certifique-se de que são claras para que quando chegar a altura possa dizer-mas rapidamente, sem hesitações ou explicações; depois poderá aliviar rapidamente a sua dor.

 

Tirou do bolso a chave das algemas.

 

Hans, segure-lhe os pulsos com firmeza. Baixou-se e abriu a algema que prendia o tornozelo à perna da mesa. Vem connosco, Stéphanie disse. Vamos à casa de banho das senhoras.

 

Saíram do gabinete com Stéphanie à frente, Dieter e Hans a segurarem a prisioneira, que avançava com dificuldade, dobrada e a morder o lábio. Avançaram até ao fundo do corredor e pararam junto a uma porta que tinha escrito «Damen». Mademoiselle Lemas gemeu quando a viu.

 

Abre a porta - ordenou Dieter a Stéphanie.

 

Ela obedeceu. Viram uma casa de banho com azulejos brancos, um lavatório, um toalheiro e vários cubículos.

 

Muito bem disse Dieter. A dor está prestes a terminar.

 

Por favor murmurou ela. Deixe-me ir.

 

Onde é que se encontra com os agentes britânicos? Mademoiselle Lemas começou a chorar.

 

Onde é que se encontra com eles? perguntou Dieter suavemente.

 

Na catedral soluçou ela. Na cripta. Por favor, deixe-me ir! Dieter suspirou satisfeito. Ela cedera.

 

Quando é que se encontra com eles?

 

Sempre às três da tarde. Vou lá todos os dias.

 

Como é que se reconhecem?

 

Levo sapatos de cores diferentes, um castanho e outro preto, agora já posso ir?

 

Só mais uma pergunta. Qual é a senha?

 

Reze por mim.

 

Ela tentou avançar, mas Dieter segurou-a com firmeza, e Hans fez o mesmo.

 

Reze por mim repetiu Dieter. Isso é o que a senhora diz ou o que o agente diz?

 

O agente. Oh, peço-lhe!


E a sua resposta?

 

Rezo pela paz, é essa a minha resposta.

 

Obrigado disse Dieter, libertando-a. Ela correu lá para dentro.

 

Dieter assentiu na direcção de Stéphanie, que a seguiu e fechou a porta. Ele foi incapaz de ocultar a sua satisfação.

 

Pronto, Hans, estamos a fazer progressos. Hans também estava satisfeito.

 

Na cripta da catedral, todos os dias às três da tarde, um sapato preto e outro castanho, «Reze por mim» e a resposta «Rezo pela paz». Muito bem!

 

Quando elas saírem, leve a prisioneira para uma cela e entregue-a à Gestapo. Eles fá-la-ão desaparecer algures num campo.

 

Hans assentiu.

 

Parece cruel, major. Por ela já ser idosa, quero eu dizer.

 

Pois parece... até pensarmos nos soldados alemães e nos civis franceses mortos pelos terroristas que ela albergou. Nessa altura parece um castigo pequeno.

 

Vistas as coisas por essa perspectiva, parece.

 

Veja como uma coisa leva à outra disse Dieter pensativo. O Gaston dá-nos uma casa, a casa dá-nos Mademoiselle Lemas, ela dá-nos a cripta, e a cripta irá dar-nos... quem sabe? Começou a pensar na melhor forma de aproveitar a informação.

 

O desafio era capturar agentes sem que Londres soubesse. Se a coisa fosse bem manipulada, os Aliados enviariam mais pessoas pelo mesmo caminho, perdendo bastantes recursos. Já fora feito na Holanda: mais de cinquenta sabotadores dispendiosamente treinados tinham aterrado de pára-quedas direitinhos nos braços dos Alemães.

 

Se tudo corresse bem, o agente seguinte enviado por Londres iria à cripta da catedral e encontraria Mademoiselle Lemas à espera. Ela levaria o agente para casa, e ele enviaria uma mensagem via rádio para Londres a dizer que estava bem. Depois, quando ele saísse de casa, Dieter poderia deitar a mão aos seus livros de códigos. Em seguida, poderia prender o agente e continuar a enviar mensagens para Londres em nome dele e a ler as respostas. Na prática, estaria a dirigir um circuito da Resistência que não passava de ficção. Era uma perspectiva excitante.

 

Willi Weber apareceu.

 

Então, major, a prisioneira já falou?

 

Sim.

 

Já não era sem tempo. E disse alguma coisa útil?

 

Pode informar os seus superiores que ela revelou o local do encontro e as senhas. Podemos apanhar os agentes à medida que eles forem chegando.

 

Weber pareceu interessado, apesar da sua hostilidade.

 

E onde é o encontro?

 

Dieter hesitou. Teria preferido não contar nada a Weber. Mas seria difícil recusar sem o ofender, e ele precisava da ajuda do outro. Tinha de lhe contar.

 

Na cripta da catedral, todas as tardes pelas três horas.

 

Irei informar Paris disse Weber afastando-se.

 

Dieter continuou a pensar no passo seguinte. A casa na Rue du Bois era secreta. Ninguém no circuito Bollinger conhecera Mademoiselle Lemas. Os agentes vindos de Londres não sabiam como ela era daí a necessidade de sinais de reconhecimento e de senhas. Se arranjasse alguém que pudesse passar por ela... mas quem?

 

Stéphanie saiu da casa de banho das senhoras com Mademoiselle Lemas.

 

Poderia ser ela.

 

Era muito mais nova que Mademoiselle Lemas e muito diferente, mas os agentes não sabiam isso. Era claramente francesa. Só teria de ocupar-se do agente durante um ou dois dias.

 

Dieter pegou no braço de Stéphanie.

 

O Hans irá ocupar-se agora da prisioneira. Anda, deixa-me oferecer-te um copo de champanhe.

 

Saiu com ela do castelo. Na praça, os soldados tinham feito o seu trabalho e os três postes projectavam sombras longas à luz da tarde. À porta da igreja havia algumas pessoas da terra a observar a cena em silêncio.

 

Dieter e Stéphanie entraram no café. Dieter pediu uma garrafa de champanhe.

 

Obrigado por me teres ajudado hoje disse. Estou muito grato.

 

Amo-te disse ela. E sei que também me amas, embora nunca o digas.

 

Mas o que achas daquilo que fizemos hoje? És francesa, e tens aquela avó de cuja raça não podemos falar, e tanto quanto sei não és fascista.

 

Ela abanou a cabeça com força.

 

Já deixei de acreditar na nacionalidade, na raça e na política respondeu ela apaixonadamente. Quando fui presa pela Gestapo nenhum francês me ajudou. Nenhum judeu me ajudou. Nem os socialistas, ou os liberais ou os comunistas. E tive tanto frio naquela prisão. A expressão dela alterou-se. Os seus lábios perderam o meio sorriso sensual que costumavam exibir, e o brilho sedutor desapareceu do seu olhar. Fitava outra cena noutra época. Cruzou os braços e estremeceu, embora a noite estivesse amena. Não apenas frio por fora, não apenas na pele. Senti frio no coração, nas entranhas e nos ossos. Achei que nunca mais voltaria a estar quente, que iria fria para o túmulo. Ficou em silêncio durante bastante tempo, o rosto apático e pálido, e Dieter sentiu nesse instante que a guerra era uma coisa terrível. Nunca me hei-de esquecer do lume no teu apartamento. Das brasas. Tinha-me esquecido do que era sentir aquele calor agradável. Fez-me sentir de novo humana. Saiu do transe. Salvaste-me. Deste-me comida e vinho. Compraste-me roupa. Esboçou o seu velho sorriso, aquele que dizia: «consegues, se tiveres coragem». E amaste-me diante daquele lume.

 

Ele pegou-lhe na mão.

 

Não foi difícil.

 

Manténs-me em segurança num mundo onde já nada é seguro. Por isso agora só acredito em ti.

 

Se estás mesmo a falar a sério...

 

Claro.

 

Podias fazer outra coisa por mim.

 

Tudo.

 

Quero que desempenhes o papel da Mademoiselle Lemas. Ela arqueou as sobrancelhas bem delineadas.

 

Que finjas ser ela. Vai à cripta da catedral todas as tardes às três, e leva calçado um sapato castanho e outro preto. Quando alguém se aproximar e disser «Reze por mim», responde «Rezo pela paz». Leva a pessoa para a casa da Rue du Bois. Depois liga-me.

 

Parece simples.

 

O champanhe chegou e ele encheu dois copos. Decidiu ser franco com ela.

 

Deve ser simples, mas há um ligeiro risco. Se o agente já viu a Mademoiselle Lemas antes, saberá que és uma impostora. Pode pôr-te em perigo. Estás disposta a correr esse risco?

 

É importante para ti?

 

É importante para a guerra.

 

Estou-me nas tintas para a guerra.

 

Também é importante para mim.

 

Então aceito.

 

Ele levantou o copo.

 

Obrigado.


Brindaram e beberam

 

Lá fora, na praça, ouviu-se uma rajada de tiros. Dieter olhou pela janela. Viu três corpos amarrados aos pilares de madeira, curvados, um pelotão de soldados a baixar as armas, e um grupo de cidadãos a observar, silencioso e imóvel.

 

A austeridade da guerra não se fizera sentir muito no Soho, o bairro da prostituição no coração do West End londrino. Os mesmos grupos de homens jovens cambaleavam pelas ruas, embriagados de cerveja, embora a maior parte envergasse fardas. As mesmas raparigas pintadas e com vestidos justos passeavam pelas ruas, em busca de potenciais clientes. Os néons à porta dos clubes e dos bares estavam desligados, por causa do blackout, mas todos os estabelecimentos se encontravam abertos.

 

Mark e Flick chegaram ao Clube Criss-Cross às dez da noite. O gerente, um homem novo com blazer preto e laço vermelho, cumprimentou Mark como se este se tratasse dum amigo. Flick sentia-se animada. Mark conhecia uma engenheira electrotécnica. Flick estava prestes a conhecê-la e estava optimista. Mark não dissera muito a respeito dela, a não ser que se chamava Greta, como a actriz. Quando Flick tentara fazer-lhe perguntas, ele limitara-se a responder:

 

Tens de ver por ti.

 

Enquanto Mark pagava a entrada e trocava algumas palavras de circunstância com o gerente, Flick reparou que ele parecia diferente. Tornara-se mais extrovertido, a sua voz adquirira uma cadência, e os seus gestos eram teatrais. Flick perguntou de si para si se o irmão assumiria outra personalidade depois do anoitecer.

 

Desceram um lanço de escadas até à cave. O local estava mal iluminado e cheio de fumo. Flick viu uma banda de cinco elementos num palco baixo, uma pequena pista de dança, meia dúzia de mesas e alguns compartimentos reservados em volta da sala, na zona mais escura. Interrogou-se se seria um clube só para homens, o tipo de local dirigido a tipos como Mark, que não eram «do tipo casadoiro». Embora os clientes fossem maioritariamente homens, havia algumas raparigas, algumas delas muito bem vestidas.

 

Olá, Markie cumprimentou um dos empregados, pousando a mão no ombro de Mark, mas lançando a Flick um olhar hostil.

 

Robbie, apresento-te a minha irmã disse Mark. O nome dela é Felicity, mas sempre a tratámos por Flick.

 

A atitude do empregado alterou-se, e ele esboçou um sorriso simpático na direcção de Flick.

 

Muito prazer em conhecê-la. Levou-os até uma mesa. Flick calculou que Robbie pensara que ela era namorada de Mark e ficara aborrecido por ela o ter persuadido a passar-se para o outro lado. Depois mudara de atitude quando soubera que ela era irmã de Mark.

 

Este sorriu a Robbie e perguntou:

 

Como está o Kit?

 

Oh, acho que está bem disse Robbie com um gesto de desdém.

 

Discutiram, não foi?

 

Mark estava a ser galante. Flick nunca vira aquele lado do irmão. Aliás, aquele é que devia ser o verdadeiro Mark. A outra personagem discreta que ele personificava durante o dia não devia passar de ficção.

 

Quando é que nós não discutimos? retorquiu Robbie.

 

Ele não sabe dar-te valor disse Mark com uma melancolia exagerada, tocando na mão de Robbie.

 

Tens razão, Deus te abençoe. Bebem alguma coisa? Flick pediu um uísque e Mark um martini.

 

Flick sabia pouca coisa sobre homens como aqueles. Fora apresentada ao amigo de Mark, Steve, e visitara o andar que partilhavam, mas nunca conhecera qualquer um dos seus amigos. Embora tivesse imensa curiosidade sobre o mundo deles, não parecia bem fazer perguntas.

 

Nem sequer sabia que nomes é que eles se davam. Todas as palavras que conhecia eram mais ou menos desagradáveis: paneleiro, bicha, maricas.

 

Mark, que nome dás tu aos homens que, sabes, preferem homens? perguntou.

 

Ele sorriu.

 

Musicais, querida respondeu ele, fazendo um gesto efeminado com a mão.

 

«Tenho de lembrar-me disso», pensou Flick. «Agora posso perguntar ao Mark: «Ele é musical?» Aprendera a primeira palavra do código secreto de ambos.


Uma loura alta com um vestido comprido vermelho subiu ao palco com uma chuva de aplausos.

 

Aquela é a Greta disse Mark. De dia é engenheira electrotécnica.

 

Greta começou a cantar Nobody Knows You When You ’ré Down and Out. Tinha uma voz poderosa, como as dos cantores de blues, mas Flick reparou logo que ela tinha um sotaque alemão.

 

Pensei que tinhas dito que ela era francesa gritou ao ouvido de Mark para se fazer ouvir acima da música.

 

Ela fala francês corrigiu ele, mas é alemã.

 

Flick ficou muito desiludida. Aquilo não servia. Greta devia ter o mesmo sotaque alemão quando falasse francês.

 

O público adorava Greta, aplaudindo cada canção de forma entusiástica, gritando e assobiando quando ela acompanhava a música com movimentos de dança. Mas Flick não era capaz de se descontrair e apreciar o espectáculo. Estava demasiado preocupada. Ainda não arranjara a engenheira electrotécnica e perdera metade da noite a ir ali em vão.

 

Mas o que iria fazer? Perguntou de si para si quanto tempo levaria a aprender os rudimentos da engenharia electrotécnica. Tinha jeito para as coisas técnicas. Construíra um rádio na escola. E precisava apenas de aprender o suficiente para destruir o equipamento de forma eficaz. Poderia tirar um curso de dois dias, talvez com algumas pessoas dos Correios?

 

O problema era que ninguém sabia ao certo que tipo de equipamento as sabotadoras iriam encontrar quando entrassem no castelo. Podia ser francês ou alemão ou uma mistura de ambos, possivelmente incluindo até maquinaria americana importada. Os Estados Unidos estavam muito à frente da França em tecnologia. Havia muitos tipos de equipamento, e o castelo tinha várias funções. Possuía uma central manual, uma central automática, servia de ligação entre várias centrais e era também uma estação de amplificação para a importante e nova linha telefónica principal para a Alemanha. Mas só uma engenheira experiente podia ter a certeza de saber reconhecer o que visse quando lá chegasse.

 

Havia engenheiras em França, claro, e ela poderia encontrar uma delas se tivesse tempo. Não era uma ideia prometedora, mas valia a pena considerá-la. O EOE poderia enviar uma mensagem a todos os circuitos da Resistência. Se houvesse uma mulher que se encaixasse no perfil pretendido, levaria um ou dois dias a chegar a Reims, o que seria óptimo. Mas o plano era falível. Haveria alguma engenheira electrotécnica na Resistência francesa? Senão, Flick perderia dois dias para saber que a missão estava condenada.


Não, precisava de uma coisa mais segura. Voltou a pensar em Greta. Não podia passar por francesa. A Gestapo poderia não reparar no sotaque dela, uma vez que os alemães falavam francês da mesma maneira, mas a Polícia francesa repararia. Teria ela de fingir ser francesa? Havia muitas alemãs em França: mulheres de oficiais, raparigas nas forças armadas, motoristas, dactilógrafas e operadoras de rádio. Flick começou de novo a ficar animada. Porque não? Greta poderia desempenhar o papel de secretária do Exército. Não, isso talvez causasse problemas. Um oficial poderia começar a dar-lhe ordens. Seria mais seguro fazê-la passar por civil. Podia ser a esposa jovem de um oficial, a viver com o marido em Paris não, em Vichy, que era mais longe. Teriam de inventar uma história para justificar o facto de Greta estar a viajar com um grupo de francesas. Talvez uma da equipa pudesse fingir ser a sua criada.

 

E quando entrassem no castelo? Flick tinha a certeza de que não havia alemãs a trabalhar como empregadas da limpeza em França. Como poderia Greta não levantar suspeitas? Mais uma vez, os alemães poderiam não reparar no seu sotaque, mas os franceses reparariam. Poderia evitar falar com franceses? Fingir que tinha uma laringite?

 

Podia safar-se durante alguns minutos, pensou Flick.

 

Não era exactamente infalível, mas era melhor do que qualquer outra opção.

 

Greta acabou o número com um blues divertido e sugestivo chamado Kitchen Man, cheio de subentendidos. O público adorou a frase: «Quando como donuts, só deixo o buraco.» Desceu do palco no meio de fortes aplausos. Mark levantou-se:

 

Podemos falar com ela no camarim disse.

 

Flick seguiu-o por uma porta ao lado do palco, passando por um corredor de cimento malcheiroso e chegando a uma área suja cheia de caixas de cartão com garrafas de cerveja e gim. Parecia a cave de um pub reles. Chegaram a uma porta com uma estrela cor-de-rosa colada com tachas. Mark bateu e abriu-a sem aguardar resposta.

 

O pequeno aposento tinha uma cómoda, um espelho rodeado de lâmpadas, um banco e um cartaz de Greta Garbo no filme A Mulher de Duas Caras. Uma cabeleira loura elegante repousava sobre uma cabeça de madeira. O vestido que Greta envergava em palco encontrava-se pendurado num cabide. Sentado no banco em frente ao espelho, reparou Flick espantada, encontrava-se um jovem com peito peludo.

 

Ela ficou boquiaberta.


Era Greta, não havia dúvida. Tinha o rosto muito maquilhado, com batom vermelho e pestanas postiças, sobrancelhas arranjadas e uma camada de pó-de-arroz a esconder a sombra da barba. O cabelo estava muito curto, sem dúvida para acomodar a peruca. Os seios falsos deviam estar dentro do vestido, mas Greta ainda tinha vestidas as cuecas, os collants e sapatos vermelhos de salto alto.

 

Flick virou-se para Mark:

 

Não me tinhas dito! acusou ela. Ele riu-se deliciado.

 

Flick, apresento-te o Gerhard disse. Ele adora que as pessoas não dêem por nada.

 

Flick reparou que Gerhard parecia satisfeito. Claro que devia estar contente por ela o ter confundido com uma mulher. Era um elogio à sua arte. Flick escusava de achar que o insultara.

 

Mas era um homem. E ela precisava de uma engenheira electrotécnica.

 

Flick estava muito desiludida. Greta teria sido a última peça do quebra-cabeças, a mulher que completaria a equipa. Agora a missão era de novo posta em causa.

 

Ficou zangada com Mark.

 

Isto é tão mauzinho da tua parte! exclamou. Pensei que irias resolver o meu problema, mas afinal quiseste pregar-me uma partida!

 

Não foi uma partida respondeu Mark indignado. Se precisas de uma mulher, leva a Greta.

 

Não é possível respondeu Flick. Era uma ideia ridícula. Ou não? Greta convencera-a. Provavelmente poderia convencer

 

a Gestapo. Se a prendessem e despissem ficariam a saber a verdade, mas se chegassem a esse ponto era porque as coisas já tinham corrido mal.

 

Pensou na hierarquia do EOE e em Simon Fortescue no MI6.

 

Os grandes chefes nunca concordariam.

 

Não lhes digas.

 

Não lhes digo!? Flick ficou a princípio chocada com a ideia, e depois intrigada. Se Greta ia enganar a Gestapo, poderia também enganar toda a gente no EOE.

 

Porque não? perguntou Mark.

 

Porque não? repetiu Flick.

 

Mark, queridinho, o que vem a ser isto? perguntou Gerhard. O seu sotaque era ainda mais forte quando ele falava.

 

Não sei respondeu Mark. A minha irmã está envolvida numa coisa muito secreta.


Eu explico interveio Flick. Mas primeiro fale-me de si: como é que veio parar a Londres?

 

Bem, querida, por onde é que começo? Gerhard acendeu um cigarro. Sou de Hamburgo. Há doze anos, quando eu era um rapaz de dezasseis e começava a aprender engenharia electrotécnica, Hamburgo era uma cidade maravilhosa, com bares e clubes cheios de marinheiros a aproveitarem ao máximo a licença para ir a terra. Diverti-me bastante. E quando fiz dezoito anos conheci o amor da minha vida. Chamava-se Manfred.

 

As lágrimas surgiram nos olhos de Gerhard, e Mark segurou-lhe na mão.

 

Gerhard fungou, um hábito muito pouco feminino, e prosseguiu.

 

Sempre adorei roupa de mulher, lingerie de renda e sapatos de salto, chapéus e malas. Adoro o som de uma saia rodada. Mas arranjava-me muito mal na altura. Nem sabia onde pôr o risco nos olhos. O Manfred ensinou-me tudo, embora nunca se vestisse de mulher. Uma expressão terna surgiu no seu rosto. Aliás, ele era bastante masculino. Trabalhava nas docas, como estivador. Mas adorava ver-me vestido de mulher e ensinou-me a fazê-lo bem.

 

Porque é que saiu de lá?

 

Eles levaram o Manfred. Os filhos da mãe dos nazis, querida. Vivemos juntos cinco anos, mas uma noite eles foram buscá-lo e não tornei a vê-lo. Deve estar morto, acho que a prisão o mataria, mas não sei ao certo. As lágrimas fizeram escorrer o rímel para o seu rosto cheio de pó-de-arroz. Ele ainda pode estar vivo num dos malditos campos, sabe?

 

A dor dele era contagiante, e Flick deu consigo a reprimir as lágrimas. O que levaria as pessoas a perseguir as outras?, perguntou de si para si. O que levava os nazis a atormentar excêntricos inofensivos como Gerhard?

 

Por isso vim para Londres disse Gerhard. O meu pai era inglês, um marinheiro de Liverpool que saiu do barco em Hamburgo, se apaixonou por uma rapariga alemã bonita e casou com ela. Morreu quando eu tinha dois anos, por isso nunca cheguei a conhecê-lo, mas deu-me o seu nome, que é O’Reilly, e tive sempre dupla nacionalidade. Mesmo assim gastei as minhas poupanças todas para obter um passaporte, em mil novecentos e trinta e nove. E parece que saí de lá a tempo. Felizmente, em todas as cidades há sempre trabalho para um engenheiro electrotécnico. Por isso aqui estou, a alegria de Londres, a diva desviada.

 

É uma história triste disse Flick. Lamento imenso.

 

Obrigado, querida. Mas hoje em dia o mundo está cheio de histórias tristes, não está? Porque se interessa pela minha?


Preciso de uma engenheira electrotécnica.

 

Para quê?

 

Não posso explicar. Como disse o Mark, é uma coisa secreta. Só posso dizer que é um trabalho muito perigoso. Você pode ser morto.

 

Que arrepiante! Mas deve calcular que não aguento muito coisas cruéis. Consideraram-me psicologicamente inapto para o serviço militar, e acertaram. Metade dos soldados haveria de querer espancar-me e a outra metade haveria de querer meter-se na cama comigo.

 

Já tenho todos os soldados duros de que preciso. O que quero de si são os seus conhecimentos.

 

Isso permitir-me-ia fazer mal aos cabrões dos nazis?

 

Com certeza. Se tivermos êxito, causaremos bastantes estragos ao regime do Hitler.

 

Então, querida, encontrou a sua rapariga. Flick sorriu.

 

«Meu Deus», pensou. «Consegui.»

 

O QUARTO DIA

 

Quarta-feira, 31 de Maio de 1944

 

A meio da noite, as estradas do Sul de Inglaterra estavam cheias de trânsito. Grandes comboios de camiões do Exército enchiam todas as estradas, rugindo ao atravessar as cidades escurecidas, rumo à costa. Os aldeões perplexos observavam-nos das janelas dos quartos, olhando incrédulos para o interminável fluxo de tráfego que não os deixava dormir.

 

Meu Deus murmurou Greta. Isto é que vai ser uma invasão.

 

Ela e Flick tinham saído de Londres pouco depois da meia-noite num carro emprestado, um grande Lincoln Continental branco que Flick adorava conduzir. Greta tinha vestida uma das suas indumentárias menos vistosas, um vestido preto simples acompanhado de uma cabeleira castanha. Só voltaria a ser Gerhard depois de a missão ter chegado ao fim.

 

Flick esperou que Greta fosse tão boa engenheira como Mark dissera. Trabalhava nos Correios, por isso devia saber do que falava. Mas Flick ainda não pudera testá-la. Enquanto avançavam lentamente atrás de um camião-cisterna, Flick explicou-lhe a missão, esperando ansiosamente que a conversa não pusesse a descoberto alguma falha nos conhecimentos de Greta.

 

O castelo alberga uma central automática nova instalada pelos alemães para gerir o tráfego telefónico e telegráfico entre Berlim e as forças de ocupação.

 

A princípio Greta parecia céptica em relação ao plano.

 

Mas, querida, mesmo que sejamos bem-sucedidas, o que impede os alemães de utilizar outra central?

 

O volume de tráfego. O sistema está sobrecarregado. O centro de comando do exército com o nome Zeppelin, às portas de Berlim, faz cento e vinte mil chamadas interurbanas e envia vinte mil telexes por dia. Serão ainda mais quando invadirmos a França. Mas a maior parte do sistema francês é constituído por centrais manuais. Agora imagine que a principal central automática está fora de serviço e todas aquelas chamadas têm de ser feitas da forma antiga, por telefonistas, demorando dez vezes mais. Noventa por cento delas nunca chegará ao destino.

 

Os militares podem proibir chamadas civis.

 

Isso fará pouca diferença. O tráfego civil já é bastante pequeno.

 

Muito bem. Greta ficou pensativa. Bem, podíamos destruir as estantes de equipamento.

 

O que fazem elas?

 

Fornecem os tons e as voltagens de toque e assim por diante às chamadas automáticas. E os registadores-tradutores transformam o indicativo marcado num código de destino.

 

Isso deixaria a central inoperacional?

 

Não. E os danos poderiam ser reparados. Precisamos de destruir a central manual, a central automática, os amplificadores de longa distância, a central de telex e os amplificadores de telex... que devem estar em salas diferentes.

 

Não se esqueça de que não podemos transportar uma grande quantidade de explosivos connosco... apenas o que seis mulheres conseguirem levar nas malas.

 

Isso é um problema.

 

Michel falara de tudo aquilo com Arnaud, um membro do circuito Bollinger que trabalhava para a PTT francesa Postes, Télégraphes, Téléphones mas Flick não perguntara pormenores e Arnaud morrera no assalto ao castelo.

 

Deve haver algum equipamento comum a todos os sistemas.

 

Sim, há... o QDP.

 

O que é isso?

 

O quadro de distribuição principal. Dois conjuntos de terminais em estantes grandes. Todos os cabos do exterior entram de um lado do quadro; todos os cabos da central entram do outro; e estão ligados uns aos outros.

 

E onde ficará isso?

 

Numa sala perto da sala dos cabos. O ideal seria provocarmos um incêndio suficientemente grande para derreter o cobre dos cabos.

 

Quanto tempo levaria a tornar a ligá-los?

 

Dois dias.


Tem a certeza? Quando os cabos da minha rua foram cortados por uma bomba, um engenheiro dos correios voltou a ligá-los ao fim de umas horas.

 

As reparações de rua são simples, apenas uma questão de unir as pontas partidas, vermelho com vermelho e azul com azul. Mas um QDP tem centenas de ligações. Dois dias é uma previsão optimista, e é preciso que quem fizer as reparações tenha os cartões de representação.

 

Cartões de representação?

 

Indicam como é que os cabos se ligam. Normalmente encontram-se num armário na sala do QDP. Se os queimarmos também, seriam precisas várias semanas para descobrir como são feitas as ligações.

 

Flick recordou-se de Michel ter dito que a Resistência tinha alguém na PTT disposto a destruir os registos duplicados guardados na sede.

 

Isto parece prometer. Agora ouça. De manhã, quando eu explicar a nossa missão às outras, vou dizer-lhes uma coisa completamente diferente.

 

Porquê?

 

Para que a nossa missão não seja posta em perigo se uma de nós for capturada e interrogada.

 

Oh! Greta recordou-se da gravidade da missão. Que terrível.

 

Você é a única que sabe a verdadeira história, por isso não a conte a ninguém.

 

Não se preocupe. Nós, bichas, estamos habituados a guardar segredos.

 

Flick ficou espantada com a escolha de palavras de Greta, mas não fez comentários.

 

A escola de aperfeiçoamento ficava situada nos terrenos de uma das maiores mansões inglesas. Beaulieu, que se pronunciava «Bewly», era uma propriedade enorme na Floresta Nova perto da costa sul. A residência principal, Palace House, era a casa de lorde Montagu. Ocultas nos bosques circundantes havia várias outras casas com grandes terrenos à volta. A maior parte delas ficara vaga no início da guerra: os proprietários mais jovens tinham ido para o exército e os mais velhos dispunham geralmente de meios para fugir para locais mais seguros. Doze das casas tinham sido requisitadas pelo EOE e eram utilizadas para treinar agentes em segurança, manuseamento de rádios, leitura de mapas e actividades menos dignas como furto, sabotagens, falsificações e como matar alguém de forma silenciosa.


Chegaram ao local às três da manhã. Flick avançou por uma estrada em mau estado e atravessou um intervalo na vedação antes de parar em frente a uma casa grande. De cada vez que ali ia tinha a sensação de entrar num mundo de fantasia onde a ilusão e a violência eram consideradas comuns. A casa tinha um adequado ar irreal. Embora possuísse cerca de vinte quartos, fora construída ao estilo de uma casa de campo uma afectação cultural que fora popular nos anos que haviam antecedido a Primeira Guerra Mundial. Parecia graciosamente antiquada ao luar, com as suas chaminés e águas-furtadas, telhados esconsos e janelas de sacada. Era como uma ilustração de um livro infantil, uma grande casa onde podia brincar-se às escondidas todo o dia.

 

O local estava em silêncio. O resto da equipa encontrava-se ali, mas devia estar a dormir. Flick conhecia bem a casa e descobriu dois quartos vagos no sótão. Ela e Greta deitaram-se com bastante vontade. Flick ficou algum tempo acordada, perguntando de si para si como iria transformar aquela mão-cheia de inadaptados numa unidade de combate, mas pouco depois adormeceu.

 

Tornou a levantar-se às seis. Da janela via o estuário do Solent. A água parecia mercúrio à luz matinal. Pôs ao lume uma chaleira com água para Greta fazer a barba e levou-a ao quarto dela. Depois foi acordar os outros.

 

Percy e Paul foram os primeiros a chegar à grande cozinha na parte de trás da casa, Percy pedindo chá e Paul café. Flick disse-lhes que os fizessem eles mesmos. Não se alistara no EOE para servir homens.

 

Às vezes faço chá para ti! exclamou Percy indignado.

 

Fá-lo com um ar de noblesse oblige retorquiu ela. Como um duque que abre a porta para a criada passar.

 

Paul soltou uma gargalhada.

 

Mas que dois! exclamou.

 

Por volta das seis e meia apareceu um cozinheiro do Exército, e pouco depois estavam à mesa a comer ovos estrelados e fatias grossas de bacon. A comida não estava racionada para os agentes secretos: estes precisavam de fortalecer as suas reservas. Assim que entrassem em acção poderiam ter de estar vários dias sem se alimentarem em condições.

 

As raparigas desceram uma a uma. Flick ficou surpreendida quando viu Maude Valentine: nem Percy nem Paul lhe haviam dito que ela era tão bonita. Apareceu imaculadamente vestida e perfumada, a sua boca em forma de botão de rosa acentuada por um batom de cor viva, e parecia que ia almoçar ao Savoy. Sentou-se ao lado de Paul e perguntou com um ar sugestivo:


Dormiu bem, major?

 

Flick ficou aliviada por ver o rosto escuro de pirata de Ruby Romain. Não teria ficado admirada se lhe tivessem dito que Ruby fugira durante a noite. Claro que nessa altura Ruby voltaria a ser presa por homicídio. Não fora perdoada: as queixas haviam sido retiradas. Mas podiam voltar a ser apresentadas. Isso devia impedir Ruby de desaparecer, mas ela era rija e podia ter decidido arriscar a sua sorte.

 

Jelly Knight aparentava os anos que tinha àquela hora da manhã. Sentou-se ao lado de Percy e dirigiu-lhe um sorriso carinhoso.

 

Calculo que tenhas dormido como uma pedra disse ela.

 

Tenho a consciência tranquila retorquiu ele. Ela soltou uma gargalhada.

 

Não tens é consciência!

 

O cozinheiro ofereceu-lhe um prato de bacon e ovos, mas ela fez uma careta.

 

Não, muito obrigada. Tenho de cuidar da silhueta. O pequeno-almoço dela foi uma chávena de chá e vários cigarros.

 

Quando Greta apareceu à porta, Flick susteve a respiração.

 

Ela trazia um vestido de algodão bonito e uns seios pequenos. Um casaco de malha cor-de-rosa disfarçava os ombros e um lenço de chiffon ocultava o pescoço masculino. Trazia a peruca escura e curta. Tinha muito pó-de-arroz na cara, mas pusera pouco batom e maquilhara discretamente os olhos. Contrastando com a sua personagem esfuziante em palco, naquela manhã ela desempenhava o papel de uma jovem simples que se sentia envergonhada de ser tão alta. Flick apresentou-a e observou as reacções das outras mulheres. Aquele era o primeiro teste de Greta.

 

Todas elas sorriam de forma simpática, não dando a entender que tivessem visto algo de errado, e Flick suspirou de alívio.

 

Para além de Maude, a outra mulher que Flick não conhecia era Lady Denise Bouverie. Percy entrevistara-a em Hendon e recrutara-a apesar de ela ter dado a entender ser pouco discreta. Era uma rapariga de ar vulgar com muito cabelo escuro e uma expressão de desafio. Embora fosse filha de um marquês, faltava-lhe a autoconfiança típica das raparigas da classe alta. Flick sentiu uma certa pena dela, mas Denise era demasiado insípida para ser agradável.

 

«Esta é a minha equipa», pensou Flick. «Uma engatatona, uma assassina, uma arrombadora de cofres, um travesti e uma aristocrata desajeitada.» Faltava alguém, reparou ela: a outra aristocrata. Diana não aparecera. E já eram sete e meia.

 

Disseste à Diana que o despertar era às seis? perguntou Flick a Percy.


Disse a toda a gente.

 

E eu bati à porta dela às seis e um quarto. Flick levantou-se. É melhor ir ver o que se passa. Quarto dez, não é?

 

Subiu as escadas e bateu à porta de Diana. Não obteve resposta, por isso entrou. O quarto parecia ter sido atingido por uma bomba. Uma mala aberta na cama desfeita, almofadas no chão, cuecas na cómoda mas Flick sabia que aquilo era normal. Diana estivera sempre rodeada de pessoas cuja função era arrumar o que ela desarrumava. A mãe de Flick fora uma dessas pessoas. Não, Diana fora simplesmente algures. Iria ter de perceber que o seu tempo deixara de lhe pertencer, pensou Flick com irritação.

 

A Diana desapareceu disse aos outros. Começamos sem ela. Encontrava-se à cabeceira da mesa. Temos dois dias de treino à nossa frente. Depois, na sexta-feira à noite, aterramos de pára-quedas em França. Somos uma equipa só de mulheres porque é mais fácil as mulheres deslocarem-se na França ocupada; os tipos da Gestapo desconfiam menos. A nossa missão é fazer explodir um túnel de caminho-de-ferro perto da aldeia de Marles, não muito longe de Reims, na principal linha férrea entre Francoforte e Paris.

 

Flick olhou para Greta, que sabia que a história era falsa. Ela estava calmamente a barrar manteiga numa torrada e não olhou para Flick.

 

O curso de um agente dura normalmente três meses prosseguiu ela. Mas este túnel tem de ser destruído na segunda-feira à noite. Em dois dias esperamos ensinar-vos algumas regras de segurança básicas, ensinar-vos a fazer pára-quedismo, a manejar uma arma e a matar pessoas sem fazer barulho.

 

Maude empalideceu apesar da maquilhagem.

 

Matar pessoas? perguntou ela. Não está à espera que as mulheres matem, pois não?

 

Jelly emitiu um grunhido de desprezo.

 

Estamos em guerra, não sei se sabe.

 

Diana apareceu vinda do jardim com erva nas calças de bombazina.

 

Fui dar um passeio disse ela entusiasmada. Que maravilha. E olhem o que o homem da estufa me deu. Tirou do bolso uma mão-cheia de tomates maduros e pousou-os na mesa da cozinha.

 

Senta-te, Diana, já estás atrasada para a reunião disse Flick.

 

Desculpa, querida, será que perdi o teu discurso?

 

Agora estás no exército retorquiu Flick exasperada. Quando te dizem para estar na cozinha às sete, é para cumprires.


Não vais armar-te em preceptora comigo, pois não?

 

Senta-te e cala-te.

 

Lamento muito, querida. Flick elevou a voz.

 

Diana, quando eu te mandar calar, não me respondas «Lamento muito» e não me trates por «querida». Nunca. Cala-te.

 

Diana sentou-se em silêncio, mas tinha uma expressão rebelde. «Oh, bolas!», pensou Flick, «acho que não lidei com a situação da melhor forma.»

 

A porta da cozinha abriu-se com estrondo e um homem baixo e musculado com cerca de quarenta anos entrou. Tinha as divisas de sargento na camisa da farda.

 

Bom dia, meninas! exclamou.

 

Este é o sargento Bill Griffíths, um dos instrutores disse Flick. Não gostava de Bill. Era instrutor de Educação Física, gostava demasiadamente de confrontos físicos e nunca parecia arrependido quando magoava alguém. Ela reparara que ele era ainda pior com mulheres. Estamos prontas para o ouvir, sargento, por isso, porque não começa? Afastou-se e encostou-se à parede.

 

Os seus desejos são ordens disse ele, desnecessariamente. Ocupou o lugar que ela deixara vago na cabeceira da mesa. Aterrar com um pára-quedas começou é como saltar de um muro de quatro metros. O tecto desta cozinha é um pouco mais baixo, por isso é como saltar do primeiro andar para o jardim.

 

Oh, diacho! exclamou Jelly baixinho.

 

Não podem aterrar de pé e ficar direitas prosseguiu Bill. Se tentarem aterrar de pé, partem as pernas. A única forma segura é cair. Se alguém desejar não sujar a roupa, vá até àquela sala ali e vista um fato-macaco. Se nos reunirmos lá fora dentro de três minutos, começamos.

 

Enquanto as mulheres mudavam de roupa, Paul levantou-se.

 

Amanhã à noite precisamos de um avião para ensaiar isto e eles vão dizer-me que não há aviões disponíveis disse ele a Flick. Vou a Londres bater em alguém. Volto logo à noite.

 

Flick perguntou de si para si se ele iria ver também a namorada.

 

No jardim encontrava-se uma velha mesa de pinho, um roupeiro de mogno vitoriano muito feio e uma escada de mão com quatro metros. Jelly parecia desanimada.

 

Não nos vai obrigar a saltar do maldito roupeiro, pois não? perguntou a Flick.

 

Só depois de vos terem explicado como é que se faz respondeu ela. Vai ver como é fácil.


Jelly olhou para Percy.

 

Seu patife! exclamou. Onde é que me meteste? Quando estavam todas prontas, Bill continuou.

 

Primeiro vamos aprender a cair. Há três maneiras: para a frente, para trás e para o lado.

 

Exemplificou cada uma das maneiras, atirando-se para o chão sem esforço e levantando-se com a agilidade de um ginasta.

 

Têm de manter as pernas fechadas. Fez uma expressão maliciosa e acrescentou: Como todas as senhoras deviam. Ninguém se riu. Não estiquem os braços para amparar a queda, mas mantenham-nos junto ao corpo. Não se preocupem com a possibilidade de se magoarem. Se partirem um braço vai doer muito mais.

 

Tal como Flick esperara, as mulheres mais novas não tiveram qualquer dificuldade: Diana, Maude, Ruby e Denise conseguiram cair como atletas depois de lhes terem explicado como é que isso se fazia. Ruby, como conseguira cair bem logo à primeira, perdeu a paciência com o exercício. Subiu as escadas.

 

Ainda não! gritou Bill, mas foi tarde de mais. Ela saltou e aterrou na perfeição. Depois afastou-se, sentou-se à sombra de uma árvore e acendeu um cigarro. «Acho que ela me vai dar problemas», pensou Flick.

 

Flick estava mais preocupada com Jelly. Era um elemento muito importante da equipa, o único que percebia de explosivos. Mas havia anos que perdera a agilidade da juventude. Ia ser difícil para ela saltar de pára-quedas. No entanto, revelou-se corajosa. Atirou-se para o chão, caiu com um gemido e praguejou quando se levantou, mas mostrou-se disposta a tentar de novo.

 

Para surpresa de Flick, a pior aluna era Greta.

 

Não consigo fazer isto disse ela a Flick. Eu disse-lhe que não era boa em coisas destas.

 

Era a primeira vez que Greta dizia mais do que duas ou três palavras e Jelly franziu o sobrolho.

 

Que sotaque esquisito murmurou.

 

Deixe-me ajudá-la disse Bill a Greta. Mantenha-se direita. Descontraia-se. Agarrou-lhe nos ombros. Depois, com um movimento súbito, atirou-a para o chão. Ela aterrou pesadamente e gemeu de dor. Levantou-se a custo e, para surpresa de Flick, começou a chorar.

 

Por amor de Deus! exclamou Bill enojado. Que raio de pessoas é que nos mandaram?

 

Flick lançou-lhe um olhar furioso. Não queria perder a engenheira electrotécnica por causa da brutalidade de Bill.


Vá com calma! ordenou ela. Ele não se mostrou arrependido.

 

Os tipos da Gestapo são muito piores que eu!

 

Flick tinha de reparar os estragos sozinha. Pegou na mão de Greta.

 

Vamos fazer um treino as duas. Contornaram a casa e chegaram a outra parte do jardim.

 

Peço desculpa disse Greta. Odeio aquele homenzinho!

 

Eu sei. Agora vamos fazer isto as duas. Ajoelhe-se. Ajoelharam-se de frente uma para a outra e deram as mãos. Faça o que eu fizer. Flick inclinou-se lentamente para o lado. Greta imitou-a. Juntas, caíram no chão ainda de mãos dadas. Pronto disse Flick. Foi fácil, não foi?

 

Greta sorriu.

 

Porque é que ele não é como você? Flick encolheu os ombros.

 

Homens! exclamou com um sorriso. Agora está pronta a pôr-se de pé e a tentar cair? Fazemos da mesma maneira, de mãos dadas.

 

Fez com Greta todos os exercícios que Bill estava a fazer com as outras. Greta ganhou confiança rapidamente. Regressaram para junto do grupo. As outras estavam a saltar da mesa. Greta juntou-se-lhes, aterrou na perfeição e recebeu uma salva de palmas.

 

Em seguida saltaram do cimo do roupeiro e finalmente das escadas. Quando Jelly saltou das escadas, rolou na perfeição e quando se levantou, Flick abraçou-a.

 

Estou muito orgulhosa de si disse ela. Muito bem. Bill fez uma careta de desagrado. Virou-se para Percy.

 

Que raio de exército é este em que se é abraçado por ter obedecido a ordens?

 

É bom que se habitue, Bill respondeu Percy.

 

Na casa da Rue du Bois, Dieter levou a mala de Stéphanie para o primeiro andar, até ao quarto de Mademoiselle Lemas. Olhou para a cama de solteira muito bem feita, para a antiquada cómoda de nogueira e para o genuflexório com o terço na estante.

 

Não vai ser fácil para ti fingir que a casa é tua comentou ele ansioso, pousando a mala na cama.

 

Vou dizer que a herdei de uma tia solteirona e que tenho demasiada preguiça para a decorar a meu gosto respondeu ela.

 

Espertinha! Mesmo assim, vais ter de desarrumar isto um pouco.

 

Ela abriu a mala, tirou um roupão preto e atirou-o para cima do genuflexório.

 

Já está melhor disse Dieter. O que é que fazes se o telefone tocar?

 

Stéphanie pensou um pouco. Quando falou, fê-lo em voz mais baixa e o seu sotaque elegante de Paris fora substituído pelo sotaque da província.

 

Está lá? Sim, daqui fala Mademoiselle Lemas. Quem fala, por favor?

 

Muito bem elogiou Dieter. Aquela imitação poderia não enganar um amigo chegado ou um familiar, mas um interlocutor casual não notaria nada de errado, especialmente com a distorção da linha telefónica.

 

Exploraram a casa. Havia mais quatro quartos, cada um pronto a acomodar um hóspede, as camas feitas, uma tolha lavada junto a cada bacia. Na cozinha, onde deveriam ter encontrado vários tachos pequenos e uma cafeteira para uma única chávena, encontraram várias caçarolas grandes e um saco de arroz que teria alimentado mademoiselle Lemas durante um ano. O vinho na cave era vin ordinaire barato, mas havia meia caixa de bom uísque. A garagem ao lado da casa acomodava um pequeno Simca Cinq anterior à guerra, a versão francesa do Fiat a que os italianos chamavam Topolino. Encontrava-se em bom estado e tinha o depósito cheio. Ele fez girar a manivela de ignição e o motor pegou de imediato. Não havia possibilidade de as autoridades terem permitido a Mademoiselle Lemas comprar gasolina e peças para um carro que a levasse às compras. O veículo devia ter sido mantido pela Resistência. Ele perguntou de si para si que história teria ela inventado para justificar as suas deslocações num carro. Talvez tivesse fingido ser parteira.

 

A velha estava bem organizada comentou Dieter.

 

Stéphanie preparou o almoço. Tinham feito compras no caminho. Não havia carne nem peixe nas lojas, mas tinham comprado cogumelos, uma alface e um pain noir, o pão que os padeiros franceses faziam com a farinha e o farelo que conseguiam arranjar. Stéphanie fez uma salada e aproveitou os cogumelos para fazer arroz, e encontraram um pouco de queijo na despensa para completar a refeição. Com migalhas na mesa da sala de jantar e tachos sujos no lava-louça, a casa começou a parecer mais habitada.

 

A guerra deve ter sido a melhor coisa que lhe aconteceu disse Dieter enquanto bebiam café.

 

Como é que podes dizer uma coisa dessas? Ela vai a caminho de um campo de prisioneiros!

 

Pensa na vida que ela levava antes. Uma mulher sozinha, sem marido, sem família, sem pais. Depois entraram na sua vida todos aqueles jovens, rapazes e raparigas corajosos em missões arriscadas. Provavelmente contavam-lhe tudo sobre os seus amores e os seus medos. Ela escondia-os em casa, dava-lhes uísque e cigarros, e encaminhava-os para as suas missões, desejando-lhes sorte. Foi provavelmente o período mais excitante da vida dela, e aposto que nunca foi tão feliz.

 

Talvez tivesse preferido uma vida calma, a comprar chapéus com uma amiga, a arranjar as flores na catedral, a ir a Paris uma vez por ano assistir a um concerto.

 

Ninguém prefere realmente uma vida pacífica. Dieter olhou pela janela da sala de jantar. Raios! Uma rapariga aproximava-se da porta, empurrando uma bicicleta com um cesto sobre a roda da frente. Quem diabo é esta?

 

Stéphanie olhou para a visita.

 

O que é que eu faço?

 

Dieter não respondeu durante uns momentos. A intrusa era uma rapariga de aspecto simples e em forma, com calças enlameadas e uma camisa com manchas de suor nos sovacos. Não tocou à campainha, mas levou a bicicleta até ao pátio. Ele ficou abalado. Iria a sua charada ser desmascarada tão depressa?

 

Ela vai para a porta das traseiras. Deve ser uma amiga, ou uma conhecida. Vais ter de improvisar. Vai lá ter com ela que eu fico aqui à escuta.

 

Ouviram a porta da cozinha abrir e fechar.

 

Bom dia, sou eu! anunciou a rapariga em francês. Stéphanie foi à cozinha. Dieter ficou junto à porta da sala. Dali

 

ouvia tudo.

 

Quem é você? perguntou a rapariga admirada.

 

Sou a Stéphanie, a sobrinha de Mademoiselle Lemas.

 

A rapariga não se deu ao trabalho de ocultar as suas suspeitas.

 

Não sabia que ela tinha uma sobrinha.

 

Ela também não me falou de si. Dieter notou o tom divertido de Stéphanie, e percebeu que ela tentava ser simpática. Quer sentar-se? O que traz nesse cesto?

 

Mantimentos. Sou a Marie. Vivo no campo. Consigo arranjar mantimentos extra e trago alguns para... para a mademoiselle.

 

Ah fez Stéphanie. Para as... visitas dela. Ouviu-se o som de papéis e Dieter calculou que ela estava a inspeccionar a comida embrulhada que vinha no cesto. Isto é uma maravilha! Ovos... porco... morangos...

 

«Isto explica como é que a Mademoiselle Lemas conseguiu manter-se roliça», pensou Dieter.

 

Então sabe disse Marie.

 

Sei tudo sobre a vida secreta da tia, sim. Ao ouvi-la dizer «tia», Dieter apercebeu-se de que nem ele nem Stéphanie tinham perguntado a Mademoiselle Lemas qual era o seu nome próprio. A brincadeira chegaria ao fim se Marie descobrisse que Stéphanie não sabia o nome próprio da «tia».

 

Onde é que ela está?

 

Foi a Aix. Lembra-se do Charles Menton, que era o deão da catedral?

 

Não, não me lembro.

 

Talvez seja demasiado nova. Ele era o melhor amigo do pai da tia, até se ter aposentado e mudado para a Provença. Stéphanie estava a improvisar de forma brilhante, pensou Dieter com admiração. Mantinha a calma e possuía uma grande imaginação. Teve um ataque cardíaco e ela foi tratar dele. Pediu-me para tratar das visitas enquanto está ausente.


Quando é que ela volta?

 

O Charles já não deve viver muito. Por outro lado, a guerra pode acabar depressa.

 

Ela não falou a ninguém desse Charles.

 

Mas falou-me a mim.

 

Parecia que Stéphanie ia sair-se bem daquela embrulhada, pensou Dieter. Se conseguisse aguentar-se mais um pouco, Marie ir-se-ia embora convencida. Contaria o que tinha acontecido, mas a história de Stéphanie era plausível e era o tipo de coisa que acontecia nos movimentos da Resistência. Não era como no exército: uma pessoa como Mademoiselle Lemas podia facilmente tomar a decisão unilateral de abandonar o seu posto e de colocar outra pessoa no comando. Isso dava com os líderes da Resistência em loucos, mas eles nada podiam fazer: todos os seus membros eram voluntários.

 

Começou a sentir-se esperançado.

 

De onde é? perguntou Marie.

 

Sou de Paris.

 

A sua tia Valérie tem mais alguma sobrinha escondida? «Então o nome próprio de Mademoiselle Lemas é Valérie», pensou Dieter.

 

Que eu saiba, não.

 

Você é uma mentirosa.

 

O tom de Marie alterara-se. Alguma coisa correra mal. Dieter suspirou e tirou a pistola automática do coldre.

 

O que é que está para aí a dizer? perguntou Stéphanie.

 

Que você está a mentir. Nem sequer sabe o nome dela. Não é Valérie, é Jeanne.

 

Dieter destravou a arma.

 

Sempre a tratei por tia desculpou-se Stéphanie com pouca convicção. Você está a ser bastante mal-educada.

 

Percebi logo continuou Marie num tom desdenhoso. A Jeanne nunca confiaria em ninguém como você, com esses sapatos altos e esse cheiro a perfume.

 

Dieter apareceu na cozinha.

 

Que pena, Marie disse ele. Se tivesse confiado mais, ou sido menos esperta, poderia ter escapado. Assim está presa.

 

Marie olhou para Stéphanie.

 

Você é uma puta da Gestapo.

 

Foi um comentário cruel, e Stéphanie corou. Dieter ficou tão furioso que quase bateu com a coronha da pistola em Marie.

 

Vai arrepender-se desse comentário quando estiver nas mãos da Gestapo disse ele com frieza. Vai ser interrogada pelo sargento Becker. Quando estiver aos gritos, a sangrar e a implorar por misericórdia, lembre-se desse insulto cruel.

 

Marie parecia prestes a fugir. Dieter esperava que ela tentasse fazê-lo. Assim podia dar-lhe um tiro e o problema ficaria resolvido. Mas ela não fugiu. Passado um longo momento, os seus ombros curvaram-se e começou a chorar.

 

As lágrimas dela não o comoveram.

 

Deite-se de barriga para baixo com as mãos atrás das costas. Ela obedeceu.

 

Dieter guardou a arma.

 

Acho que vi uma corda na cave disse para Stéphanie.

 

Vou buscá-la.

 

Regressou com um bocado de corda da roupa. Dieter amarrou as mãos e os pés de Marie.

 

Vou ter de levá-la para Sainte-Cécile disse ele. Não podemos mantê-la aqui, não vá um agente britânico chegar hoje. Olhou para o relógio. Eram duas horas. Tinha tempo de levar a prisioneira para o castelo e de estar de volta às três. Vais ter de ir sozinha à cripta disse a Stéphanie. Leva o carro que está na garagem. Eu vou estar na catedral, embora talvez não me vejas. Beijou-a. Parecia um marido a ir para o escritório, pensou ele. Levantou Marie e pô-la em cima do ombro. Vou ter de me despachar disse, dirigindo-se para a porta.

 

Saiu, e depois voltou-se para trás.

 

Esconde a bicicleta.

 

Não te preocupes respondeu Stéphanie.

 

Carregou a rapariga amarrada até à rua. Abriu o porta-bagagens do carro e meteu-a lá dentro. Se ela não tivesse feito o comentário da «puta», tê-la-ia sentado no banco de trás.

 

Fechou o porta-bagagens e olhou em volta. Não viu ninguém, mas havia sempre alguém à espreita pelas frinchas das gelosias numa rua como aquela. Deviam ter visto Mademoiselle Lemas ser levada na véspera e reparado no grande carro azul-celeste. Assim que ele se fosse embora, começariam a falar do homem que meteu uma rapariga no porta-bagagens do carro. Numa altura normal teriam ligado à Polícia, mas ninguém num território ocupado falaria com a Polícia a menos que a isso fosse obrigado, especialmente se a Gestapo pudesse estar envolvida.

 

A pergunta-chave para Dieter era a seguinte: iria a Resistência ter conhecimento da prisão de Mademoiselle Lemas? Reims era uma cidade, não uma aldeia. Todos os dias eram presas pessoas: ladrões, assassinos, contrabandistas, comunistas, judeus. Havia boas possibilidades de os acontecimentos da Rue du Bois não chegarem aos ouvidos de Michel Clairet.

 

Mas não havia certezas.

 

Dieter meteu-se no carro e dirigiu-se a Sainte-Cécile.

 

A equipa efectuara com relativa facilidade os treinos da manhã, para alívio de Flick. Todas tinham aprendido a cair, o mais difícil do pára-quedismo. A sessão de leitura dos mapas fora menos bem-sucedida. Ruby nunca fora à escola e mal sabia ler: um mapa era chinês para ela. Maude ficara perplexa com direcções como nor-noroeste, e pestanejou sedutoramente na direcção do instrutor. Denise, apesar da sua educação cara, mostrou ser incapaz de perceber coordenadas. Se o grupo se separasse em França, pensou Flick preocupada, ela não podia contar que elas encontrassem o caminho.

 

Da parte da tarde passaram para coisas mais brutas. O instrutor de tiro era o capitão Jim Cardwell, um homem bastante diferente de Bill Griffiths. Jim era um homem afável com um rosto de feições marcadas e um espesso bigode preto. Sorriu de forma agradável quando as raparigas descobriram como era difícil acertar numa árvore a seis metros com uma pistola Colt de calibre 45.

 

Ruby manejava bem a arma e tinha boa pontaria: Flick calculou que ela já devia ter usado uma arma antes. Ruby mostrou-se especialmente satisfeita quando Jim pôs os braços à volta dela para lhe mostrar como se pegava na espingarda Lee-Enfield. Ele murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido e ela sorriu-lhe com um brilho travesso nos olhos negros. Estivera presa três meses, reflectiu Flick: sem dúvida, gostava de ser tocada por um homem.

 

Também Jelly manejava as armas com familiaridade. Mas Diana foi a estrela da sessão. Com a espingarda, acertou sempre no meio do alvo, despejando o depósito de cinco balas numa rajada mortífera.

 

Muito bem! exclamou Jim surpreendido. Pode ficar com o meu trabalho.


Diana olhou para Flick com ar triunfante.

 

Há algumas coisas em que não és a melhor disse ela. «O que raio fiz eu para merecer isto?», perguntou Flick de si

 

para si. Estaria Diana a pensar nos tempos da escola, em que Flick se saíra sempre melhor? A rivalidade infantil ainda perduraria?

 

Greta foi o único fracasso. De novo, mostrou-se mais feminina do que as verdadeiras mulheres. Tapou os ouvidos com as mãos, saltou nervosa a cada disparo e fechou os olhos aterrorizada quando puxou o gatilho. Jim ensinou-a cheio de paciência, dando-lhe tampões para os ouvidos a fim de abafar o barulho, segurando-lhe a mão para lhe ensinar a puxar o gatilho devagar, mas de nada serviu: ela era demasiado retraída para conseguir ter boa pontaria.

 

Não fui feita para isto! exclamou ela desesperada.

 

Então que raio estás aqui a fazer? perguntou Jelly.

 

A Greta é engenheira interpôs Flick rapidamente. Vai dizer-lhe onde pôr os explosivos.

 

Porque é que precisamos de uma engenheira alemã?

 

Sou inglesa disse Greta. O meu pai nasceu em Liverpool.

 

Jelly fez uma expressão céptica.

 

Se isso é o sotaque de Liverpool, eu sou a duquesa de Devonshire.

 

Guarde a agressividade para a próxima sessão disse Flick. Vamos treinar o combate corpo a corpo. Aquelas picardias incomodavam-na. Precisava que as mulheres confiassem umas nas outras.

 

Regressaram ao jardim da casa, onde Bill Griffiths as aguardava. Vestira calções e calçara uns ténis, e estava a fazer flexões no chão sem a T-shirt. Quando se levantou, Flick teve a sensação de que ele queria que elas admirassem o seu físico.

 

Bill gostava de ensinar autodefesa entregando à aluna uma arma e dizendo «Ataque-me». Depois demonstrava como um homem desarmado podia repelir um atacante. Foi uma lição dramática e memorável. Às vezes, Bill era desnecessariamente violento, pensou Flick, mas era melhor que as agentes se habituassem a isso.

 

Naquele dia ele colocara várias armas na velha mesa de pinho: uma faca de aspecto temível que ele afirmava ter pertencido às SS, uma pistola Walther P38 semelhante às que Flick vira nos oficiais alemães, um cassetete da Polícia francesa, um pedaço de fio eléctrico preto e amarelo a que ele chamou «garrote», e uma garrafa de cerveja com o gargalo partido.

 

Vestiu a T-shirt para a sessão de treino.


Como fugir a um homem que vos aponta uma arma começou ele. Pegou na Walther, destravou-a e entregou-a a Maude. Ela apontou-lha. Mais tarde ou mais cedo, o vosso captor vai querer que vocês vão a qualquer lado. Virou-se e pôs as mãos no ar. É provável que ele vá atrás de vocês, e vos encoste a arma às costas. Descreveu um círculo grande, com Maude atrás. Agora, Maude, quero que puxe o gatilho no momento em que julgar que eu vou fugir. Estugou ligeiramente o passo, obrigando Maude a andar mais depressa para o acompanhar, e quando ela o fez ele deslocou-se para o lado e para trás. Agarrou-lhe o pulso direito e bateu-lhe na mão com um movimento seco. Ela gritou e largou a arma. É aqui que vocês podem cometer um erro grave disse ele enquanto ela esfregava o pulso. Não fujam nesta altura. Senão o boche pega na arma e dispara-vos para as costas. Têm de fazer o seguinte... Pegou na pistola, apontou-a a Maude e puxou o gatilho. Ouviu-se um estrondo. Maude gritou e Greta também. A arma está carregada com balas de salva, claro disse Bill.

 

Às vezes Flick desejava que Bill não fosse tão dramático nas suas demonstrações.

 

Dentro de minutos treinaremos estas técnicas uns nos outros prosseguiu ele. Pegou no fio eléctrico e virou-se para Greta. Ponha isto à volta do meu pescoço. Quando eu disser, aperte-o o mais possível. Deu-lhe o fio. O seu captor da Gestapo, ou o gendarme colaboracionista, pode matá-la com o fio, mas não consegue suster o seu peso com ele. Muito bem, Greta, estrangule-me. Greta hesitou, depois apertou o fio com força. Este enterrou-se no pescoço musculado de Bill. Ele lançou os dois pés para a frente e caiu no chão, aterrando de costas. O fio soltou-se das mãos de Greta.

 

Infelizmente, isto deixa-vos no chão com o inimigo em cima de vocês disse Bill, o que é uma situação desfavorável. Levantou-se. Vamos repetir. Mas desta vez, antes de eu cair, vou agarrar no meu captor por um pulso. Retomaram as posições e Greta esticou o fio com força em torno do pescoço de Bill. Este agarrou-lhe no pulso e atirou-se para o chão, puxando-a consigo. Quando ela caiu em cima dele, ele dobrou uma perna e atingiu-a com força no estômago.

 

Ela rolou para o chão e curvou-se, gemendo de dor e inspirando a custo.

 

Por amor de Deus, Bill, isso foi um pouco cruel! exclamou Flick.

 

Ele pareceu satisfeito.


A Gestapo é muito pior do que eu respondeu. Flick aproximou-se de Greta e ajudou-a a levantar-se.

 

Desculpe disse ela.

 

Ele é um maldito nazi! exclamou Greta.

 

Flick acompanhou Greta até à casa e sentou-a na cozinha. O cozinheiro, que estava a descascar batatas para o jantar, ofereceu-lhe uma chávena de chá que ela aceitou com gratidão.

 

Quando Flick regressou ao jardim, Bill escolhera a próxima vítima, Ruby, e dera-lhe o cassetete. Ruby tinha uma expressão astuta e Flick pensou: «Se eu fosse o Bill tinha cuidado com ela.»

 

Flick já vira Bill exemplificar aquela técnica. Quando Ruby levantasse a mão direita para lhe bater com o cassetete, Bill iria agarrar-lhe no braço, virar-se e atirá-la ao chão por cima do ombro. Ela aterraria de costas.

 

Muito bem, caganita disse Bill. Acerte-me com o cassetete, com toda a força.

 

Ruby levantou o braço e Bill avançou para ela, mas a acção não seguiu o padrão habitual. Quando Bill tentou agarrar o braço dela, aquele não estava no sítio esperado. O cassetete caiu no chão. Ruby aproximou-se de Bill e bateu-lhe com o joelho nas virilhas. Ele gritou de dor. Ela agarrou-lhe na T-shirt, puxou-o para si e bateu-lhe com a cabeça no nariz. Depois, bateu-lhe na canela com o sapato de atacadores e ele caiu no chão a sangrar do nariz.

 

Não precisava de fazer isso, sua cabra! gritou ele.

 

A Gestapo é muito pior do que eu respondeu Ruby.

 

Faltava um minuto para as três quando Dieter estacionou em frente ao Hotel Frankfort. Atravessou rapidamente a praça empedrada rumo à catedral sob o olhar petrificado dos anjos esculpidos nos arcobotantes. Parecia quase de mais esperar que um agente aliado aparecesse no ponto de encontro logo no primeiro dia. Por outro lado, se a invasão estivesse realmente iminente, os Aliados estariam a tentar tudo por tudo.

 

Viu o Simca Cinq de Mademoiselle Lemas estacionado num dos lados da praça, o que significava que Stéphanie já lá se encontrava. Ficou aliviado por ter chegado a tempo. Se alguma coisa corresse mal, não queria que ela estivesse sozinha.

 

Entrou na penumbra fresca do interior pela grande porta virada para ocidente. Procurou Hans Hesse e viu-o sentado na última fila de bancos. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça, mas não falaram.

 

Dieter sentiu-se imediatamente um violador. A missão em que estava empenhado não devia ter lugar naquela atmosfera. Não era muito devoto ainda menos que o alemão comum, pensou mas não era descrente. Sentia-se pouco à vontade a apanhar espiões num local que fora um refúgio sagrado durante centenas de anos.

 

Rejeitou a sensação como superstição.

 

Dirigiu-se ao lado sul da catedral e subiu a longa nave, os seus passos ecoando no chão de pedra. Quando chegou ao transepto viu o portão, o gradeamento e os degraus que conduziam à cripta, que ficava sob o altar. Stéphanie encontrava-se lá em baixo, calculou ele, tendo calçados um sapato castanho e outro preto. De onde estava podia ver em ambas as direcções: para trás, toda a nave sul, e para a frente, para lá do ambulatório, até à outra extremidade da catedral. Ajoelhou-se e uniu as mãos para rezar.


Meu Deus, perdoa-me o sofrimento que inflijo aos meus prisioneiros orou. Sabes que tento cumprir o meu dever da melhor forma. E perdoa-me o meu pecado com a Stéphanie. Sei que é errado, mas fizeste-a tão bela que não consigo resistir à tentação. Olha pela minha querida Waltraud e ajuda-a a tomar conta do Rudi e da pequena Mausi, e protege-os das bombas da RAF. E acompanha o marechal-de-campo Rommel quando a invasão acontecer e dá-lhe poder para empurrar os Aliados para o mar. É uma oração muito pequena para tantos pedidos, mas sabes que tenho muito a fazer neste momento. Ámen.

 

Olhou em volta. Não estava a decorrer qualquer missa, mas havia várias pessoas sentadas nos bancos das capelas laterais, orando ou apenas a saborear a calma sagrada. Alguns turistas passeavam pelas naves, comentando em voz baixa a arquitectura medieval, inclinando a cabeça para trás para contemplar a vastidão das abóbadas.

 

Se um agente aliado aparecesse naquele dia, Dieter tencionava apenas observar e certificar-se de que nada corria mal. O ideal seria ele não ter de fazer nada. Stéphanie falaria com o agente, trocariam as senhas, e levá-lo-ia para a casa da Rue du Bois.

 

Depois disso, os seus planos eram pouco claros. De alguma forma, o agente iria conduzi-lo a outros agentes. A certa altura, surgiria uma oportunidade: encontraria uma pessoa incauta com uma lista de nomes e moradas; um rádio e um livro de códigos cairiam nas mãos de Dieter; ou ele capturaria alguém como Flick Clairet, que, sob tortura, trairia metade da Resistência francesa.

 

Olhou para o relógio. Passavam cinco minutos das três. Provavelmente ninguém viria naquele dia. Levantou a cabeça. Para seu horror, viu Willi Weber.

 

O que raio estaria ele a fazer ali?

 

Weber vinha à civil com o seu fato de tweed verde. Com ele encontrava-se um agente da Gestapo mais novo com um casaco aos quadrados. Vinham da extremidade oriental da igreja, avançando pelo ambulatório na direcção de Dieter, embora ainda não o tivessem visto. Chegaram junto à entrada para a cripta e pararam.

 

Dieter praguejou baixinho. Aquilo podia estragar tudo. Quase rezou para que nenhum agente britânico aparecesse.

 

Olhou para a nave sul e viu um jovem com uma pequena mala. Dieter semicerrou os olhos: a maior parte das pessoas na igreja era mais velha. O rapaz trazia um fato barato de corte francês, mas parecia um viquingue, com cabelo ruivo, olhos azuis e pele rosada. Era uma combinação muito inglesa, mas podia também ser alemã.


À primeira vista, o rapaz podia ser um oficial à paisana, a ver as vistas ou até com intenção de rezar.

 

No entanto, o seu comportamento traiu-o. Avançava decidido pela nave, sem olhar para os pilares como um turista nem sentando-se como um dos fiéis. O coração de Dieter bateu mais depressa. Um agente no primeiro dia! E a mala que ele transportava continha quase de certeza um rádio. Isso significava que tinha também um livro de códigos. Aquilo era mais do que Dieter estava à espera.

 

Mas Weber tinha de aparecer ali para estragar tudo.

 

O agente passou por Dieter e abrandou o passo, visivelmente à procura da cripta.

 

Weber viu o rapaz, dirigiu-lhe um olhar duro, depois virou-se e fingiu estar a estudar a canelura de uma das colunas.

 

«Pode ser que corra tudo bem», pensou Dieter. Weber fizera uma estupidez ao ir ali, mas talvez tencionasse apenas observar. Com certeza não era imbecil ao ponto de intervir. Poderia dar cabo de uma oportunidade única.

 

O agente encontrou a entrada para a cripta e desapareceu nos degraus de pedra.

 

Weber olhou para o transepto sul e fez um gesto de assentimento. Seguindo o seu olhar, Dieter viu mais dois homens da Gestapo sob o órgão. Aquilo era mau sinal. Weber não precisava de quatro homens apenas para observar. Dieter perguntou-se se teria tempo de falar com Weber, de o mandar retirar os homens. Mas Weber haveria de argumentar, e haveria uma discussão, e...

 

Como se veio a ver, não houve tempo. Quase de imediato Stéphanie apareceu vinda da cripta com o agente atrás dela.

 

Quando chegou ao primeiro degrau viu Weber. No seu rosto surgiu uma expressão chocada. Ficou desorientada com aquela presença inesperada, como se tivesse entrado num palco e se tivesse descoberto na peça errada. Cambaleou e o jovem agente agarrou-a pelo ombro, amparando-a. Ela recuperou a compostura com a sua rapidez característica e dirigiu-lhe um sorriso de gratidão. «Muito bem, miúda», pensou Dieter.

 

Então Weber avançou.

 

Não! exclamou Dieter sem querer. Ninguém o ouviu.

 

Weber agarrou no braço do agente e disse qualquer coisa. Dieter ficou estarrecido ao aperceber-se de que Weber ia dar-lhe voz de prisão. Stéphanie recuou da cena, perplexa.

 

Dieter levantou-se e avançou rapidamente para o grupo. Só lhe ocorria que Weber decidira ficar com os louros pela captura do agente. Era de loucos, mas era possível.


Antes de Dieter chegar junto deles, o agente libertou-se da mão de Weber e desatou a correr.

 

O jovem companheiro de Weber, com o casaco aos quadrados, reagiu depressa. Deu duas passadas largas na direcção do agente, lançou-se para ele e agarrou-o pelos joelhos. O agente cambaleou, mas trazia bastante ímpeto, e o homem da Gestapo não conseguiu detê-lo. O agente recuperou o equilíbrio, endireitou-se e continuou a correr, ainda agarrando a mala.

 

Os súbitos passos apressados e os grunhidos emitidos pelos dois homens ecoaram pela catedral em silêncio, e toda a gente olhou para eles. O agente correu na direcção de Dieter. Este apercebeu-se do que ia acontecer e soltou um gemido. O segundo par de homens da Gestapo surgiu vindo do transepto sul. O agente viu-os e pareceu adivinhar quem eram, pois guinou para a esquerda, mas tarde de mais. Um dos homens pregou-lhe uma rasteira. Ele caiu, o seu corpo atarracado batendo no chão com um baque. A mala voou. Os dois agentes da Gestapo caíram-lhe em cima. Weber apareceu a correr com ar satisfeito.

 

Merda! exclamou Dieter, esquecendo-se de onde estava. Aqueles tresloucados iam dar cabo de tudo.

 

Mas talvez ele ainda conseguisse salvar a situação.

 

Enfiou a mão dentro do casaco, sacou da Walther P38, destravou-a e apontou-a para os agentes da Gestapo que seguravam o agente. Falando francês, gritou a plenos pulmões:

 

Saiam já de cima dele senão disparo!

 

Meu major, eu... começou Weber.

 

Dieter disparou para o ar. O som do tiro ecoou pelas abóbadas da catedral, abafando as palavras de Weber.

 

Silêncio! gritou Dieter em alemão. Weber pareceu assustado e calou-se.

 

Dieter encostou o cano da pistola à cara de um dos agentes da Gestapo.

 

Vá lá! Saiam de cima dele! ordenou ele de novo em francês.

 

Os dois homens levantaram-se com expressões aterrorizadas e recuaram.

 

Dieter olhou para Stéphanie.

 

Jeanne! Vá! Fuja! ordenou ele, tratando-a pelo nome de Mademoiselle Lemas.

 

Stéphanie começou a correr. Contornou os agentes da Gestapo e correu para a porta ocidental.

 

O agente começava a levantar-se.


Vá com ela! Vá com ela! gritou Dieter, apontando. O rapaz agarrou na mala e desatou a correr, passando por trás dos bancos de madeira do coro.

 

Weber e os seus três assistentes pareciam intrigados.

 

Deitem-se de barriga para baixo! ordenou Dieter. Depois de eles obedecerem, Dieter começou a recuar sem deixar de os ameaçar com a arma. Depois virou-se e correu atrás de Stéphanie e do agente.

 

Quando estes saíram pela porta da igreja, Dieter parou e falou com Hans, que se encontrava ao fundo da catedral.

 

Fale com aqueles malditos idiotas pediu Dieter ofegante. Explique-lhes o que estamos a fazer e certifique-se de que eles não nos seguem. Enfiou a pistola no coldre e correu lá para fora.

 

O motor do Simca acabara de ser ligado. Dieter empurrou o agente para o banco de trás e sentou-se à frente ao lado da condutora. Stéphanie carregou no acelerador e o pequeno carro avançou disparado pela praça como uma rolha de champanhe.

 

Enquanto avançavam pela rua, Dieter virou-se e olhou pela janela de trás.

 

Ninguém nos segue disse. Abranda. Não queremos ser detidos por um gendarme.

 

Eu sou o Helicóptero disse o agente em francês. O que raio aconteceu ali?

 

Dieter calculou que «Helicóptero» devia ser um nome de código. Recordou-se de que Gaston lhe dissera o nome de código de Mademoiselle Lemas.

 

Esta é a Burguesa disse, indicando Stéphanie. E eu sou o Charenton improvisou, lembrando-se por qualquer motivo da prisão onde o marquês de Sade estivera preso. A Burguesa começou a desconfiar nos últimos dias de que o encontro na catedral podia ser vigiado, por isso pediu-me que viesse com ela. Não faço parte do circuito Bollinger... a Burguesa trabalha sozinha.

 

Sim, eu sei.

 

Bem, agora sabemos que a Gestapo preparara uma armadilha e ainda bem que ela me pediu que a apoiasse.

 

Você foi brilhante! exclamou Helicóptero cheio de entusiasmo. Meu Deus, tive tanto medo, pensei que tinha estragado tudo logo no primeiro dia.

 

«E estragaste», pensou Dieter.

 

Começou a achar que podia salvar a situação. Helicóptero acreditava agora piamente que Dieter era membro da Resistência. O francês do agente era perfeito, mas pelos vistos ele fora incapaz de reconhecer o ligeiro sotaque alemão de Dieter. Haveria mais alguma coisa que pudesse levantar suspeitas, talvez mais tarde quando ele recapitulasse os acontecimentos? Dieter levantara-se e exclamara «Não!» logo no início do confronto, mas um simples «Não» pouco significavam, e fosse como fosse Dieter achava que ninguém o ouvira. Willi Weber gritara «Major» em alemão para Dieter, e este disparara a arma para impedir mais indiscrições. Teria Helicóptero ouvido aquela palavra, saberia o que significava, lembrar-se-ia dela mais tarde e meditaria sobre ela? Não, decidiu Dieter. Se Helicóptero percebera a palavra, partiria do princípio de que Weber estava a dirigir-se a outro homem da Gestapo: estavam todos vestidos à civil, por isso podiam ter qualquer posto.

 

Helicóptero iria agora confiar totalmente em Dieter, pois estaria convencido de que ele o arrancara das garras da Gestapo.

 

Outros agentes poderiam não ser tão fáceis de enganar. A existência de um novo membro da Resistência com o nome de código Charenton e recrutado por Mademoiselle Lemas necessitaria de ser explicada de forma plausível tanto a Londres como ao líder do circuito Bollinger, Michel Clairet. Ambos poderiam fazer perguntas e querer certificar-se de que não havia problemas. Dieter teria de lidar com eles quando chegasse a altura. Não era possível antecipar tudo.

 

Permitiu-se saborear um momento de triunfo. Estava um passo mais próximo do seu objectivo: atingir a Resistência no Norte da França. Safara-se bem apesar da estupidez da Gestapo. E fora extasiante.

 

O desafio agora era aproveitar ao máximo a confiança de Helicóptero. O agente deveria continuar a operar, livre de qualquer suspeita. Assim poderia conduzir Dieter a mais agentes, talvez até a dezenas deles. Mas não seria fácil.

 

Chegaram à Rue du Bois e Stéphanie meteu o carro na garagem de Mademoiselle Lemas. Entraram em casa pela porta das traseiras e sentaram-se na cozinha. Stéphanie foi buscar uma garrafa de uísque à cave e serviu uma rodada.

 

Dieter estava ansioso por confirmar que Helicóptero tinha um rádio.

 

É melhor enviar uma mensagem para Londres imediatamente.

 

O combinado é enviar às oito e receber às onze. Dieter tomou mentalmente nota daquela informação.

 

Mas tem de lhes dizer o mais depressa possível que o ponto de encontro da catedral está comprometido. Não queremos que mandem para cá mais homens. E pode vir mais alguém a caminho esta noite.


Oh, meu Deus, sim! exclamou o rapaz. Vou utilizar a frequência de emergência.

 

Pode instalar o rádio aqui na cozinha.

 

Helicóptero içou a pesada mala para cima da mesa e abriu-a.

 

Dieter ocultou um suspiro de satisfação. Ali estava o rádio.

 

O interior da mala estava dividido em quatro: dois compartimentos laterais e, no meio, um à frente e outro atrás. Dieter reparou que o compartimento do meio atrás continha o transmissor, com a tecla de morse no canto inferior direito, e o da frente o rádio, com uma entrada para os auscultadores. O compartimento da direita era a fonte de energia. A função do compartimento da esquerda tornou-se clara quando o agente levantou a tampa para revelar uma selecção de acessórios e peças sobressalentes: um fio eléctrico, adaptadores, fio de antena, cabos de ligação, auscultadores, tubos sobressalentes, fusíveis e uma chave de fendas.

 

Era um estojo funcional e compacto, pensou Dieter com admiração; o tipo de coisas que os Alemães fariam, bem diferente do que seria de esperar nos desorganizados Ingleses.

 

Já sabia as horas de transmissão e de recepção de Helicóptero. Agora tinha de descobrir as frequências utilizadas e mais importante ainda o código.

 

Helicóptero enfiou uma ficha na tomada.

 

Pensei que funcionava a pilhas comentou Dieter.

 

A pilhas ou a electricidade. Creio que o truque favorito da Gestapo, quando tenta localizar a fonte de uma transmissão de rádio ilícita, é desligar a electricidade da cidade quarteirão a quarteirão até a emissão ser interrompida.

 

Dieter assentiu.

 

Bem, com este rádio, se ficarmos sem corrente em casa, só temos de reverter esta ficha e o rádio passa a funcionar a pilhas.

 

Muito bem. Dieter passaria aquela informação à Gestapo, não fossem os seus homens desconhecerem-na.

 

Helicóptero ligou a ficha a uma tomada, depois pegou no fio da antena e pediu a Stéphanie que o colocasse em cima de um armário alto. Dieter procurou nas gavetas da cozinha e encontrou um lápis e um bloco que Mademoiselle Lemas provavelmente utilizara para anotar a lista das compras.

 

Pode usar isto para codificar a sua mensagem sugeriu esperançado.

 

Primeiro é melhor pensar no que vou dizer. Helicóptero coçou a cabeça e começou a escrever em inglês:

 

CHEGUEI BEM STOP ENCONTRO CRIPTA POUCO SEGURO STOP DETECTADO PELA GESTAPO MAS FUGI TERMINADO


Acho que chega por agora disse.

 

Devíamos indicar-lhes um novo local de encontro para os próximos agentes. Sugira o Café de la Gare, perto da estação de comboios.

 

Helicóptero tomou nota.

 

Tirou da mala um lenço de seda com um quadro complexo estampado com letras agrupadas por pares. Também tirou um bloco com cerca de uma dezena de folhas com palavras disparatadas de cinco letras impressas. Dieter reconheceu aquele sistema de encriptação. Era impossível de decifrar a menos que se tivesse o bloco.

 

Por cima das palavras da sua mensagem, Helicóptero escreveu os grupos de cinco letras que se encontravam no bloco; depois utilizou as letras que escrevera para seleccionar transposições do lenço de seda. Sobre as primeiras cinco letras de CHEGUEI escrevera o primeiro grupo do bloco, que era BGKRU. A primeira letra, B, indicou-lhe que coluna utilizar do quadro no lenço de seda. Quase no cimo da coluna B estavam as letras «Ce». Isso dizia-lhe para substituir o C de CHEGUEI pela letra «e».

 

O código não podia ser descoberto da forma habitual, porque o C seguinte seria representado não por um «e» mas sim por outra letra. Aliás, qualquer letra podia substituir uma outra, e a única maneira de descodificar a mensagem era utilizar o bloco com os grupos de cinco letras. Mesmo que alguém deitasse as mãos a uma mensagem codificada e à original, não podia utilizá-las para ler outra mensagem, porque a mensagem seguinte seria codificada com uma folha diferente do bloco. Cada folha era utilizada uma vez e depois queimada.

 

Depois de ter codificado a mensagem, Helicóptero ligou o interruptor do rádio e rodou um botão que tinha escrito em inglês «comutador de cristais». Olhando com mais atenção, Dieter reparou que o mostrador tinha três riscos ténues a lápis de cera amarelo. Helicóptero não confiara na sua memória e marcara as posições de emissão. O cristal que estava a utilizar devia ser reservado para emergências. Dos outros dois, um seria para a transmissão e outro para a recepção.

 

Por fim, sintonizou o rádio, e Dieter viu que o mostrador da frequência também tinha riscos feitos com lápis de cera amarelo.

 

Antes de enviar a mensagem, testou o posto receptor enviando:

 

HLCP DXDX QTCl QRK? K

 

Dieter franziu o sobrolho, pensativo. O primeiro grupo tinha de indicar «Helicóptero». O seguinte, «DXDX», era um mistério. O número 1 no fim de «QTC1» sugeria que aquele grupo significava algo como «tenho uma mensagem para enviar». O ponto de interrogação no fim de «QRK?» fê-lo pensar que ele perguntava se estava a ser recebido em boas condições. «K» significava «terminado», ele sabia. Isso deixava de fora o misterioso «DXDX». Aventou uma hipótese.

 

Não se esqueça do código de segurança disse.

 

Não esqueci respondeu Helicóptero. «Deve ser o DXDX», concluiu Dieter.

 

Helicóptero mudou para «Recepção» e ouviram a resposta em morse:

 

HLCP QRK QRV K

 

De novo, o primeiro grupo indicava «HLCP». O segundo grupo, «QRK», aparecera na mensagem original. Sem o ponto de interrogação significava provavelmente «estou a recebê-lo em boas condições». Não tinha a certeza quanto a «QRV», mas calculou que queria dizer «prossiga».

 

Dieter observou radiante Helicóptero enviar a mensagem em morse. Aquele era o sonho do captor de espiões: tinha um agente nas mãos e o agente não sabia que fora capturado.

 

Quando a mensagem foi enviada, Helicóptero desligou rapidamente o rádio. Como a Gestapo utilizava equipamento que permitia descobrir mensagens de rádio para localizar espiões, era perigoso operar um rádio durante mais que alguns minutos.

 

Em Inglaterra, a mensagem tinha de ser transcrita, descodificada e passada ao controlador de Helicóptero, que poderia ter de consultar outras pessoas antes de responder; tudo aquilo levaria várias horas, por isso Helicóptero esperaria até à hora combinada pela resposta.

 

Agora Dieter tinha de o separar do rádio e, mais importante ainda, dos códigos.

 

Calculo que agora queira contactar o circuito Bollinger disse.

 

Sim. Londres precisa de saber o que resta dele.

 

Vamos pô-lo em contacto com Monet, que é o nome de código do líder. Olhou para o relógio e entrou em pânico: era um dos relógios especialmente feitos para os oficiais do Exército Alemão, e se Helicóptero o reconhecesse a brincadeira chegaria ao fim. Tentando ocultar o tremor da voz, Dieter continuou: Ainda temos tempo, eu levo-o de carro a casa dele.


É longe? perguntou Helicóptero com ansiedade.

 

No centro da cidade.

 

Monet, cujo verdadeiro nome era Michel Clairet, não deveria estar em casa. Já não a utilizava; Dieter verificara isso. Os vizinhos diziam não ter ideia de onde ele se encontrava. Dieter não ficara surpreendido. Monet calculara que o seu nome e morada passariam a ser do conhecimento dos alemães depois de um dos seus camaradas ser interrogado, e fora para um esconderijo.

 

Helicóptero começou a fechar o rádio.

 

Essa pilha tem de ser recarregada de vez em quando? perguntou Dieter.

 

Sim... aliás, disseram-me para a ligar à tomada sempre que possível, para ter sempre a carga toda.

 

Porque não o deixa aqui? Podemos vir buscá-lo mais tarde, quando já estiver carregado. Se alguém entrar aqui entretanto, a Burguesa consegue escondê-lo em poucos segundos.

 

Boa ideia.

 

Então vamos. Dieter foi à frente até à garagem e saiu de marcha atrás com o Simca Cinq. Espere aqui um pouco, tenho de dizer uma coisa à Burguesa.

 

Regressou a casa. Stéphanie estava na cozinha, a olhar para a mala do rádio em cima da mesa da cozinha. Dieter tirou do compartimento dos acessórios o bloco e o lenço de seda.

 

Quanto tempo é que levas a copiar isto? perguntou. Ela fez uma careta?

 

Essas letrinhas todas? No mínimo uma hora.

 

Fá-lo o mais depressa possível, mas não te enganes. Vou mantê-lo fora daqui durante hora e meia.

 

Regressou ao carro e levou Helicóptero ao centro da cidade.

 

A casa de Michel Clairet era uma vivenda pequena e elegante perto da catedral. Dieter esperou no carro enquanto Helicóptero foi bater à porta. Passados poucos minutos, o agente regressou.

 

Não está ninguém.

 

Pode tentar outra vez de manhã disse Dieter. Entretanto, conheço um café utilizado pela Resistência. Era mentira. Vamos até lá ver se eu reconheço alguém.

 

Estacionou perto da estação e escolheu um café ao acaso. Estiveram sentados durante quase uma hora a beber cerveja, depois regressaram à Rue du Bois.

 

Quando entraram na cozinha, Stéphanie assentiu discretamente na direcção de Dieter. Ele deduziu que isso significava que ela conseguira copiar tudo.


Agora calculo que gostaria de tomar um banho, uma vez que passou a noite ao relento disse ele para Helicóptero. E devia também fazer a barba. Vou mostrar-lhe o seu quarto enquanto a Burguesa lhe põe o banho a correr.

 

É muito simpático da vossa parte.

 

Dieter colocou-o no quarto do sótão, o mais longe possível da casa de banho. Assim que ouviu o rapaz na banheira, foi ao quarto dele e revistou-lhe as roupas. Helicóptero trazia uma muda de roupa interior e meias, tudo com etiquetas francesas. Nos bolsos do seu casaco havia cigarros e fósforos franceses, um lenço com etiqueta francesa e uma carteira. Na carteira havia bastante dinheiro meio milhão de francos, o suficiente para comprar um carro de luxo, isto se houvesse carros à venda. Os documentos de identificação pareciam verdadeiros, embora devessem ser forjados.

 

Também havia uma fotografia.

 

Dieter olhou para ela surpreendido. Era de Flick Clairet. Não havia dúvidas. Era a mulher que ele vira na praça em Sainte-Cécile. Tê-la encontrado era um grande golpe de sorte para Dieter e um desastre para ela.

 

Flick envergava um fato de banho que revelava pernas musculadas e braços bronzeados. Sob o fato de banho tinha seios bonitos, uma cintura fina e ancas agradavelmente arredondadas. Havia um brilho de humidade, quer de água ou de transpiração, na sua garganta, e ela olhava para a máquina fotográfica com um ligeiro sorriso. Atrás dela e ligeiramente desfocados, dois jovens em calções de banho pareciam prestes a mergulhar para um rio. A fotografia parecia ter sido tirada numa reunião inocente. Mas a seminudez dela, a humidade na sua garganta e o ligeiro sorriso combinavam-se para conferir à fotografia uma carga sexual. Se não fossem os rapazes em pano de fundo, ela poderia parecer prestes a despir o fato de banho e a revelar o seu corpo à pessoa atrás da máquina fotográfica. Era assim que uma mulher sorria ao seu homem quando queria que ele fizesse amor com ela, pensou Dieter. Percebeu perfeitamente por que motivo o rapaz guardava a fotografia.

 

Supostamente, os agentes não deviam levar fotografias para território inimigo por diversas razões. A paixão de Helicóptero por Flick Clairet poderia destruí-la, bem como a grande parte da Resistência francesa.

 

Dieter enfiou a fotografia no bolso e saiu do quarto. Afinal de contas, tivera um dia bastante produtivo.

 

Paul Chancellor passou o dia a combater a burocracia militar a persuadir, a ameaçar, a implorar, a lisonjear e, como último recurso, a utilizar o nome de Monty até por fim conseguir um avião para os treinos de pára-quedismo da equipa no dia seguinte.

 

Quando apanhou o avião de regresso a Hampshire, constatou que estava ansioso por tornar a ver Flick. Gostava bastante dela. Era inteligente, corajosa e agradável à vista. Quem lhe dera que fosse solteira.

 

No comboio leu no jornal as notícias sobre a guerra. A longa calmaria na frente oriental fora quebrada, na véspera, por um ataque surpreendentemente forte dos Alemães na Roménia. A capacidade de recuperação dos Alemães era formidável. Estavam a recuar em toda a parte, mas continuavam a ripostar.

 

O comboio atrasou-se e ele perdeu o jantar na escola de aperfeiçoamento às seis da tarde. Depois do jantar havia sempre outra palestra e às nove os alunos podiam finalmente descontrair durante cerca de uma hora antes de irem para a cama. Paul encontrou a maior parte da equipa reunida na sala de estar da casa, que tinha uma estante com livros, um armário cheio de jogos, um rádio e uma mesa de bilhar pequena. Paul sentou-se no sofá ao lado de Flick.

 

Que tal correu hoje o dia?

 

Melhor do que esperávamos respondeu ela. Mas foi tudo tão resumido. Não sei se elas irão lembrar-se de muito quando estiverem em acção.

 

Acho que qualquer coisa é melhor que nada.

 

Percy Thwaite e Jelly jogavam póquer a moedas. Jelly era uma figura castiça, pensou Paul. Como é que uma arrombadora de cofres profissional podia considerar-se uma mulher respeitável?


Que tal se saiu a Jelly? perguntou ele a Flick.

 

Bem. Teve mais dificuldades que as outras no treino físico, mas encheu-se de coragem e não desistiu, e no fim acabou por fazer tudo o que as mais novas fizeram. Flick hesitou e franziu o sobrolho.

 

O que foi? perguntou Paul.

 

A hostilidade dela em relação à Greta é um problema.

 

Não é de admirar que uma inglesa odeie os Alemães.

 

Mas é ilógico... a Greta sofreu mais às mãos dos nazis do que a Jelly.

 

A Jelly não sabe isso.

 

Sabe que a Greta está disposta a combater os nazis.

 

As pessoas não são lógicas em relação a essas coisas.

 

Pode crer.

 

Greta conversava com Denise. Ou melhor, pensou Paul, Denise falava e Greta escutava.

 

O meu meio-irmão, lorde Foules, pilota bombardeiros ouviu-a ele dizer com o seu sotaque aristocrata. Tem-se treinado para levar apoio às tropas aquando da invasão.

 

Paul franziu o sobrolho.

 

Ouviu aquilo? perguntou ele a Flick.

 

Sim. Ou ela está a inventar, ou está a ser bastante indiscreta. Paul observou Denise. Era uma rapariga esquelética que tinha sempre o ar de quem acabara de ser insultada. Não lhe pareceu que ela estivesse a inventar.

 

Não creio que ela tenha uma grande imaginação comentou.

 

Concordo. Acho que ela está a revelar segredos verdadeiros.

 

É melhor eu providenciar um pequeno teste para amanhã.

 

Certo.

 

Paul queria estar sozinho com Flick para poderem falar mais à vontade.

 

Vamos dar um passeio pelo jardim sugeriu ele. Saíram da sala. O ar da noite era ameno e ainda lhes restava uma hora de claridade. A casa tinha um jardim grande com vários hectares de relva e algumas árvores. Maude e Diana estavam sentadas num banco sob uma faia. Maude tentara namoriscar com Paul, mas como ele não a encorajara, ela parecia ter desistido. Naquele momento escutava avidamente algo que Diana dizia, e olhava para o seu rosto com uma expressão quase de adoração.

 

O que será que a Diana está a dizer? perguntou Paul. Conseguiu fascinar a Maude.


A Maude gosta de a ouvir falar dos sítios onde esteve respondeu Flick. Dos desfiles de moda, dos bailes, dos transatlânticos.

 

Paul recordou-se de que Maude os surpreendera ao perguntar se a missão os levaria a Paris.

 

Talvez ela quisesse ir para a América comigo disse ele.

 

Reparei que ela se atirou a si comentou Flick. É bonita.

 

Mas não é o meu género.

 

Porque não?

 

Quer mesmo saber? Não é suficientemente inteligente.

 

Óptimo disse Flick. Fico contente. Ele arqueou uma sobrancelha.

 

Porquê?

 

Se assim não fosse ficaria com má opinião a seu respeito. Ele achou que ela estava a ser um pouco condescendente.

 

Ainda bem que tenho a sua aprovação.

 

Não seja irónico admoestou ela. Estava a fazer-lhe um elogio.

 

Ele sorriu. Não conseguia impedir-se de gostar dela, mesmo quando ela se mostrava arrogante.

 

Então é melhor eu desistir enquanto estou em vantagem. Passaram perto das duas mulheres e ouviram Diana dizer:

 

Então a condessa disse «Mantenha essas garras pintadas longe do meu marido» e despejou o copo de champanhe na cabeça da Jennifer, e a seguir esta puxou o cabelo da condessa... e ficou com ele na mão, porque era uma peruca!

 

Maude riu-se.

 

Quem me dera ter lá estado!

 

Parece que estão todas a fazer amigas comentou Paul.

 

Isso agrada-me. Preciso que elas trabalhem em equipa.

 

O jardim foi-se fundindo com a floresta e passado pouco tempo estavam embrenhados nela. Sob a copa das árvores a luz já era muito ténue.

 

Porque é que chamam a isto Floresta Nova? perguntou Paul. A mim parece-me velha.

 

Ainda está à espera que os nomes ingleses sejam lógicos? Ele soltou uma gargalhada.

 

Acho que não.

 

Caminharam em silêncio durante algum tempo. Paul sentia-se bastante romântico. Apetecia-lhe beijá-la, mas ela tinha uma aliança na mão.


Quando tinha quatro anos conheci o rei disse Flick.

 

O actual rei?

 

Não, o pai dele, Jorge V. Foi a Somersholme. Puseram-me bem longe dele, claro, mas ele foi até ao jardim da cozinha no domingo de manhã e viu-me. Disse-me: «Bom dia, menina, está pronta para ir à igreja?» Era um homem pequeno, mas tinha uma voz possante.

 

E o que é que você disse?

 

Eu perguntei: «Quem é o senhor?» Ele respondeu «Sou o rei». E depois, segundo reza a lenda da família, eu retorqui: «Não pode ser, o senhor é demasiado pequeno.» Felizmente, ele desatou a rir.

 

Já em pequena você não tinha respeito pela autoridade.

 

Parece que não.

 

Paul ouviu um gemido. Franzindo o sobrolho, olhou na direcção do som e viu Ruby Romain com Jim Cardwell, o instrutor de tiro. Ruby estava encostada a uma árvore e Jim abraçava-a. Beijavam-se apaixonadamente. Ruby tornou a gemer.

 

Não estavam só abraçados, percebeu Paul, sentindo-se simultaneamente atrapalhado e excitado. As mãos de Jim encontravam-se dentro da blusa de Ruby. Ela tinha a saia subida até à cintura. Paul viu uma perna bronzeada e uma mancha de cabelo negro nas virilhas dela. A outra perna estava levantada e dobrada pelo joelho, e o pé de Ruby repousava nas ancas de Jim. O movimento que faziam juntos era inconfundível.

 

Paul olhou para Flick. Ela vira o mesmo. Fitou-os durante um momento, a sua expressão mostrando surpresa e outra coisa. Depois virou-lhes rapidamente as costas. Paul seguiu-a e voltaram por onde tinham vindo, caminhando o mais silenciosamente possível.

 

Quando já se encontravam a alguma distância, ele falou.

 

Lamento imenso aquilo.

 

A culpa não é sua respondeu ela.