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NOS DESFILADEIROS DOS BALCÃS / Karl May
NOS DESFILADEIROS DOS BALCÃS / Karl May

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NOS DESFILADEIROS DOS BALCÃS

 

    Chimin, o Ferreiro

     Depois de ter partido de Adrianópolis, com Halef, Omar e Osco, acompanhados pelos três khawass, não tínhamos ainda andado muito, quando ouvimos o tropel de um cavalo no nosso encalço. Voltamo-nos e vimos um cavaleiro, que a galope, procurava alcançar-nos. Refreamos os animais, para deixar que se aproximasse, e não tardou reconhecermos Malhen, o guarda-portão de Hulam. Trazia um cavalo muito carregado, e apeou-se de um salto, logo que nos alcançou.

     — Salam — foi a lacônica saudação que nos fêz.

     Retribuímos esse cumprimento e esperamos que o recém-chegado respondesse à interrogação muda dos nossos olhares.

     — Perdoai, efêndi (1), se interrompo a vossa viagem apressada. Meu amo ordenou-me que vos seguisse.

     — Por quê? — perguntei.

     — Para voz trazer este cavalo.

     — De que é o carregamento?

     — De víveres e outras utilidades, de que talvez ireis precisar.

     — Temos já provisões para muitos dias.

     — Meu senhor crê na possibilidade de que aqueles que perseguis se desviem da estrada. E se se embrenharem nas montanhas, podereis achar ali somente pasto para os cavalos, mas nada para vós mesmos.

     — Teu amo é muito bondoso. Mas um cavalo, tão carregado como esse, só serve para demorar a nossa viagem.

     — Trouxe-o para vós. Tenho de obedecer, e nada mais. Warin saghlik il Allah jol atjliklighi. — Desejo-vos saúde. Que Alá vos conceda uma boa viagem.

     Com essas palavras, puxou as rédeas, rumou de volta para a cidade e partiu a toda a brida.

     Num instante, Halef virou o cavalo, na mesma direção, e me perguntou:

     — Devo ir atrás dele, efêndi?

     — Para quê?

     — Para prendê-lo e obrigá-lo a voltar, a fim de que conheça a tua vontade.

     — Deixa-o. Não temos tempo a perder.

     — Que carga estará entrouxada nesses cobertores e esteiras?

     — Não precisamos sabê-lo, por enquanto. Quando anoitecer e não pudermos continuar, haveremos de verificar isso. Leva o cavalo a cabresto. Avante!

     _________________

     (1) Literalmente, esta palavra significa — mestre e senhor; título que se dá, na Turquia, aos paisanos, por oposição ao de agha e bei, que se aplica de preferência aos militares; designa especialmente os homens de letras, os magistrados, os funcionários civis, os ministros religiosos e os sábios. Coloca-se depois dos nomes próprios; exemplo: Rechif efêndi. Dá-se também este título às senhoras. (N. do T.).

    

     Prosseguimos a cavalgada interrompida. Eu ia na frente, seguido pelos outros, para que se me tornasse fácil procurar rastros, muito embora não se pudesse pensar seriamente na possibilidade de os encontrar.

     Conquanto não se pudesse dar ao caminho que percorríamos a denominação de estrada real, o trânsito era sofrível. O pequeno hadji (2) tinha razão quando afirmara que, nesta região, não era tão fácil achar as pegadas de um fugitivo, como no Saara. Por isso mesmo, a minha atenção não estava presa ao caminho propriamente, mas sim à beira dele, do lado que marginava com o rio. Enquanto não tivesse descoberto rastros de três cavalos, desviando da rota que seguíamos, podia contar com relativa certeza de que os perseguidos ainda estavam na nossa frente.

     Cruzamo-nos com cavaleiros, carroças e pedestres ronceiros, mas não interroguei quem quer que fosse. Dentre os que nos encontravam, ninguém podia ter avistado os fugitivos, pois estes tinham passado pelo mesmo caminho já uma noite antes.

     Não me detive, também, nos pequenos grupos de casas, por onde passávamos, porque não havia encruzilhadas que Barud el Amasat pudesse ter tomado. Quando, porém, alcançamos uma dessas localidades chamada Bu-kiõj, de onde partiam diversos caminhos, parei e me dirigi à primeira pessoa que encontrei:

     — Salam! Que Alá cubra de bênçãos esta povoação. Haverá aqui um bekdji? (3)

     O interrogado trazia uma gigantesca cimitarra à cintura, na destra um cacete enorme, sobre o fêz tinha atado um pano, que certamente em eras remotas tivera alguma côr, mas atualmente só se via que estava duro de sujeira — e andava descalço. Olhou-me contemplativamente por algum tempo e dispunha-se, em seguida, a submeter os demais igualmente à sua meticulosa observação.

     — E então? — observei, com impaciência.

     — Sabr, sabr! — Paciência, paciência! — foi a resposta.

     O homem apoiou-se no seu porrete e começou a examinar detidamente a figura do pequeno hadji. Halef Omar retirou o relho, que trazia escondido sob o serigote, mostrando-o, ao mesmo tempo que perguntava:

     — Conheces, porventura, isto aqui?

     O homem, a quem a pergunta fora dirigida, empertigou-se, empunhou o alfange e retrucou:

     — E tu conheces isto, menino?

     Menino! Nenhum outro tratamento podia insultar tanto a Halef Omar como esse. Ia chicotear o ofensor e tomou impulso para um golpe violento. Rapidamente, esporeando o cavalo, interpus-me e contemporizei:

     — Nada de precipitações, Halef. Esse homem vai responder às minhas perguntas.

     Tirei uma moedinha do bolso, mostrei-a ao homem do alfange e repeti:

     — Então, há aqui um bekdji?

     — Tu me dás esse dinheiro? — perguntou.

     ___________________

     (2) Muçulmano que fêz o hadj, isto é, a peregrinação de Meca a Medicina. (N. do T.).

     (3) Guarda-noturno.

 

     — Dou.

     — Passa-o para cá.

     E estendeu a mão.

     — Primeiro, a resposta.

     — Pois, sim. Há um bekdji. Mas, agora, me dá o dinheiro.

     Eram apenas alguns paras de cobre.

     — Toma-o — disse-lhe. — Onde mora o bekdji?

     — Pagas também essa pergunta?

     — Já estás pago.

     — Pela primeira, já; mas pela segunda, não.

     — Bem. Aqui tens mais duas moedas de cinco paras. Então, onde mora o bekdji?

     — Lá, na última casa — respondeu o homem, mostrando uma construção, a que chamava de casa, mas que não merecia sequer o apelido de casebre e sim o de chiqueiro.

     Tomamos a direção indicada. Ao chegarmos àquela habitação desmantelada, apeei-me para chegar ao buraco que representava a única entrada e saída. Nesse momento, ia saindo uma mulher, que fora sem dúvida atraída pelo ruído de nossa chegada.

     — O jazik! Atch gozuenue. — Ai de ti! Toma cuidado! — exclamou e retrocedeu precipitadamente.

     É que ela não estava com o rosto velado, do que, aliás, não podíamos ser culpados. Também estava descalça. Tinha o corpo envolto num pedaço de pano velho e roto, e o cabelo dava a impressão perfeita de que na sua cabeça se estabelecera uma fábrica de maçarocas, em pequena escala. Era certo, também, que há meses o rosto não entrava em contato com a água.

     Cheguei a acreditar que não voltaria. Contudo, surgiu outra vez, depois de algumas exclamações impacientes que proferi. Trazia diante da cara o fundo de um cesto despedaçado. Por entre as frestas do trançado de vime, podia enxergar-nos, sendo de nossa parte impossível cevar os olhos na contemplação da sua beleza.

     — Que desejais? — perguntou.

     — O bekdji mora aqui? — tive de interrogar novamente.

     — Mora.

     — És mulher dele?

     — Sou a única mulher dele — respondeu com orgulho, para significar que o coração do paxá da meia noite era da sua exclusiva propriedade.

— Ele está em casa?

— Não.

     — Onde se encontra?

     — Saiu.

     — Para onde?

     — Anda a serviço do seu cargo.

     — Mas não é noite, ainda.

— Não só de noite, como também de dia, ele é o guarda dos súditos do padixá (4).

__________________________

     (4) Sultão, imperador dos turcos.

 

Não é somente bekdji, mas também servo do kiaja, cujas ordens executa.

     Kiaja é o chefe da povoação. Acudiu-me à lembrança o homem com quem há pouco faláramos. Virei-me e, de fato, ele se aproximava lentamente, caminhando com arrogância.

     Isso também era demais. Assumi atitude ameaçadora e dei alguns passos ao seu encontro.

     — És tu mesmo o bekdji? — perguntei-lhe.

     — Sou — respondeu todo cheio de si.

     Hadji Halef Omar notou que eu já não estava de bom humor. Bruscamente aproximou o seu cavalo do guarda noturno e diurno. Sabia quais eram as intenções dele e concordei, fazendo-lhe um sinal afirmativo.

     — Por que me não disseste isso logo, quando falei contigo há pouco? — perguntei.

     — Não tinha obrigação de fazê-lo. Ainda tens dinheiro?

     — Bastante para ti. Quero pagar-te adiantadamente por todas as perguntas ulteriores. Toma!

     A um aceno meu, o rêlho do pequeno hadji estalava nas costas do guarda dos súditos do padixá. Ele tentou subtrair-se, de um salto, mas o pequeno hadji dominava o cavalo com tanta segurança que apertava o homem, cada vez mais, contra a parede, enquanto lhe desferia chicotaços, sem cessar.

     A vítima nem sequer pensava em fazer uso do alfange ou do cacete.

     Gritava em todos os tons da escala cromática, enquanto a sua “única” mulher começava a fazer-lhe coro. Assim, esta esqueceu de conservar o fundo do cesto diante da cara. Antes, pelo contrário, jogou longe de si esse anteparo da sua dignidade feminina, saltou para perto do cavalo do hadji e, segurando o rabo do animal, dava tirões desesperados, berrando:

     — Vai bachina, vai bachina! — Ai de ti, ai de ti! Como podes ofender o servo e favorito do padixá? Para trás! Para trás! Bre, bre, bre, he, he, — Socorro, socorro!

     Esses brados esganiçados trouxeram vida às portas das casas e dos ranchos. Homens, mulheres e crianças saíram e chegaram a correr, para informar-se do motivo da gritaria.

     Fiz sinal a Halef para que parasse, sendo obedecido. O guarda noturno devia ter apanhado de dez a doze violentas chibatadas. Deixou cair o porrete, desembainhou a cimitarra, e, enquanto esfregava as costas com a mão esquerda, exclamou:

     — Homem! A quanto te atreveste. Queres que eu te encurte de uma cabeça? Hei de atiçar toda a povoação contra ti e deixar que te estraçalhem.

     Halef sacudia a cabeça, rindo. Ia responder alguma cousa, mas não chegou a falar, porque um homem forçou passagem por entre o povo e se dirigiu a mim, perguntando asperamente:

     — Que é isso? Quem são?

     Com toda a certeza, tinha diante de mim a alta personalidade do administrador da aldeia. Não obstante, perguntei.

     — Quem és tu?

     — Sou o kiaja desta aldeia. Quem lhes dá o direito de pôr a mão no meu khawass?

     — O comportamento dele nos dá esse direito.

     — Como assim?

     — Pedi-lhe informações e ele as negou. Quer que eu lhe pague as respostas, uma a uma.

     — Ele pode vender as respostas, pelo preço que entender.

     — E eu as posso pagar pelo preço que me agradar. Agora ele está pago por antecipação e, pois, será obrigado a me responder.

     — Nenhuma palavra! — bradou o guarda.

     — Ele não responderá nenhuma palavra — confirmou o kiaja. — Atentaram contra o meu servo. Sigam-me imediatamente. Examinarei o caso e receberão o seu castigo.

     A essas palavras, o pequeno hadji mostrou o chicote e perguntou:

     — Efêndi, devo dar esta linda pele de hipopótamo ao kiaja de Bukiõj, para que ele também a experimente?

     — Agora, não. Mais tarde, talvez — respondi.

     — Hein, cão, a mim tu queres mandar surrar? — berrou o chefe da aldeia.

     — Pode ser que sim — respondi calmamente. — Tu és o kiaja desta povoação. Mas, sabes tu quem sou eu?

     Não respondeu. A minha pergunta parecia tornar-se-lhe importuna. Continuei:

     — Chamaste esse homem de teu khawass?

     — Sim, ele o é.

     — Não, não é. Onde é que ele nasceu?

     — Aqui.

     — Ah! Quem o destacou, então, para o teu serviço? Ele é morador desta localidade e tu fizeste dele o teu servo, mas não é um soldado da polícia. Olha, observa estes três cavalarianos, que envergam o uniforme do Grão Senhor. Tens um guarda noturno. A mim, porém, acompanham três khawass autênticos. Compreendes, agora, que sou uma personalidade bem mais distinta do que tu?

     Para acentuar melhor as minhas palavras, Halef bracejava diante do homem, a tal ponto, que ele retrocedeu, amedrontado. Também as pessoas que se encontravam por detrás dele foram recuando. Observei naquelas numerosas fisionomias, que todos começavam a tomar-me por um grande homem.

     — Agora, responde! — ordenei.

— Senhor, dize antes quem és tu?

Nisso, Halef apostrofou-o:

     — Homem! Verme! Como podes pedir que um senhor de tal posição te diga quem é? Como obra de graça, vou levar ao teu conhecimento que estás diante do grande e nobre hadji efêndi Kara Ben Nemsi Bei (5), a quem Alá queira conceder ainda muitos milhares de verões, sem contar os invernos. Espero que tenhas ouvido falar nele?

     — Não, nunca — protestou o homem, acovardado, muito fiel à verdade.

     _______________________

     (5) Título turco dado aos oficiais superiores do exército otomano, bem como aos altos funcionários. Era usado antigamente pelos governadores de província e pelos soberanos vassalos do sultão, como o bei da Tunísia.

    

     — Como? Nunca? — trovejou o pequeno Halef. — Devo apertar-te o crânio até que a memória te saia daí de dentro? Pensa bem.

     — Sim, ouvi falar nele — confessou o kiaja, com muito medo.

     — Quem sabe se só uma vez?

     — Não. Muitas, muitas vezes.

     — Isso é a tua sorte, kiaja. Eu te prenderia e mandaria para Istambul, a fim de ter afogar no Bósforo. Agora, porém, ouve o que esse eminente efêndi e emir (6) tem para te dizer.

     Com essas palavras, afastou o cavalo. Os seus olhos chispavam ainda numa ira aparente, mas uma leve contração dos músculos faciais tornava-se denunciadora. O bom Halef precisava fazer todo o esforço para não explodir numa gargalhada.

     Todos os olhares, agora, estavam presos aos meus lábios. Dirigi-me ao kiaja em tom tranquilizador:

     — Não vim para lhes fazer mal. Mas estou acostumado a ver respondidas as minhas perguntas, com prontidão e obediência. Esse homem negou-se a me dar voluntariamente esclarecimentos; queria extorquir dinheiro; por isso mandei castigá-lo. Depende dele mesmo livrar-se de apanhar ainda mais bastonadas.

     Enquanto me voltava para o guarda noturno, o administrador da aldeia fêz-lhe precipitadamente um sinal e cochichou:

     — Pelo amor de Alá, responde depressa.

     O protetor noturno dos vassalos do padixá perfilou-se com tanto garbos como se estivesse vendo em mim o soberano dos crentes.

     — Efêndi, interrogue-me — disse.

     — Deste guarda durante a última noite? — perguntei.

     — Dei.

     — Quanto tempo?

     — Desde o anoitecer até de manhã.

     — Chegaram à aldeia pessoas estranhas?

     — Não.

     — Nenhum estranho atravessou o povoado a cavalo?

     — Não.

     Antes de dar essa resposta, lançou furtivamente um olhar interrogativo para o kiaja, cuja fisionomia não me era possível observar. Mas eu tinha visto o bastante pura não dar crédito a essa resposta. Por isso, declarei em tom enérgico:

     — Mentes!

     — Senhor, falo verdade.

     Nesse momento, virei-me rapidamente para o kiaja e vi que este tinha o indicador sobre os lábios, num gesto premonitório. Antes, ele cochichara ao guarda, mandando que respondesse depressa e, agora, determinava-lhe que calasse. Isso naturalmente causava suspeitas. Perguntei ao guarda:

     _______________________

(6) Título dos descendentes de Maomé, dos grandes oficiais, governadores de província,etc.(N.do T.).

    

     — Também não falaste com algum estranho?

     — Não.

     — Bem, kiaja, onde é a tua casa?

     — Aquela, lá em cima, — respondeu o interrogado.

     — Tu e o bekdji irão comigo até lá; somente os dois. Tenho de falar-lhes.

     Sem olhar para eles, dirigi-me ao ponto indicado e entrei pela porta da casa.

     Era construída inteiramente à moda búlgara, consistindo num único compartimento, subdividido por entrançados de vime. No primeiro cômodo encontrei uma espécie de cadeira, na qual me sentei.

     Nenhum dos dois tinha ousado opor-se a mim. Por isso, entraram imediatamente depois. Por uma brecha, que servia de janela, observei que a população ainda se conservava reunida, mas guardando uma distância respeitosa dos meus companheiros.

     O kiaja e o seu subordinado encontravam-se visivelmente numa situação nada invejável. Ambos tinham medo e isso eu precisava aproveitar.

     — Bekdji, ainda persistes irredutível nas declarações que me fizeste, há pouco? — perguntei.

     — Sim — respondeu.

     — Apesar de me teres mentido?

     — Não menti.

     — Mentiste, aliás, somente por que o kiaja assim o queria.

     A maior autoridade da aldeia teve um sobressalto:

     — Efêndi!

     — Como? Que queres dizer?

     — Eu não disse palavra alguma a esse homem.

     — Não, mas lhe fizeste sinal.

     — Não fiz.

     — Eu lhes digo: ambos mentem. Conhecem o provérbio do judeu, que se afogou, por ter ido dormir num poço?

     — Sim.

     — O mesmo que sucedeu ao judeu, lhes sucederá. Estão envolvidos por um perigo, que, como a água do poço, jorrará sobre vocês e os afogará. No entanto, não quero a sua desgraça e desejo preveni-los. Falo aqui, para que os seus jurisdicionados não saibam que me mentiram. Estão vendo quanto sou condescendente e bondoso? Agora, porém, quero saber a verdade.

     — Já a dissemos — protestou o kiaja.

     — Com que então, durante a última noite, pessoas estranhas não passaram pela localidade?

     — Não.

     — Três cavaleiros?

     — Não.

     — Montando dois tordilhos e um zaino?

     — Não.

     — Eles não falaram com vocês?

     — Como poderiam eles falar conosco, se nem sequer estiveram aqui Não vimos nenhum desconhecido.

     — Bem. Tive boa vontade com vocês. Desejam, porém, o seu próprio mal. Já que me querem mentir, mandarei levá-los para Edreneh e aí à presença do próprio veli (7). Por isso mesmo, trouxe os três khawass. Lá o processo será sumário. Façam as despedidas.

     Notei que ambos se assustaram vivamente.

     — Efêndi, estás caçoando — disse o chefe da aldeia.

     — Que pensas? — respondi, levantando-me. — Não tenho nada mais a dizer-lhes. Agora, vou chamar os khawass.

     — Mas, nós somos inocentes.

     — Provar-se-á que são culpados. Então, estarão perdidos. Quis salvar-los. Mas não o quiseram. Irão agora, sofrer as conseqüências da sua obstinação.

     Encaminhei-me para a porta, como se fosse chamar os policiais. Nesse momento, o kiaja embargou-me os passos e perguntou:

     — Efêndi, é verdade que nos querias salvar?

     — É.

     — Queres ainda?

     — Hum! Não sei. Faltaram à verdade.

     — Entretanto, se confessarmos agora?

     — Talvez seja em tempo.

     — Serás indulgente e não nos prenderás?

     — Nada têm que perguntar, e sim que responder. Compreendem? O que eu resolver, saberão a seu turno. Não sou, porém, desumano.

     Entreolharam-se, e o guarda noturno, numa solicitação muda, levantou-um pouco a mão.

     — Ninguém terá, aqui, conhecimento do que te dissermos, efêndi? — perguntou o kiaja.

     — Dificilmente.

     — Pois bem, então ouvirás a verdade. Não saias; fica e pergunta-nos o que queres saber. Responderemos em seguida.

     Retomei o lugar ocupado anteriormente, e me dirigi ao guarda noturno.

     — Com que então, durante a noite, passaram forasteiros pela aldeia?

     — Passaram.

     — Quem?

     — Depois da meia noite, uma carreta de bois. Mais tarde, todavia, aqueles que são alvo das tuas investigações, ao que parece.

     — Três cavaleiros?

     — De fato.

     — Qual era o pêlo dos cavalos?

     — Dois toidilhos e um zaino.

     _________________

     (7) Vice rei.

    

     — Falaram contigo?

     — Falaram. Estava no meio da estrada, quando se dirigiram a mim.

     — Todos os três falaram contigo?

     — Não. Somente um deles.

     — Que te disse?

     — Pediu-me que guardasse sigilo, se alguém me perguntasse por eles. E me deu um bakchich.

     — Quanto?

     — Duas piastras.

     — Ah! Isso é muito, realmente muito — declarei, rindo. — E por causa dessas duas piastras transgrediste os mandamentos do Profeta e me pregaste petas?

     — Efêndi, a culpa não é só das duas piastras.

     — Que mais?

     — Perguntaram-me pelo nome do kiaja e, quando o enunciei, suplicaram-me que os levasse à sua presença.

     — Conhecias a todos ou algum deles?

     — Não.

     — Por conseguinte, levaste-os para que conhecessem o kiaja, pois desejavam falar com ele. Atendeste ao pedido?

     — Atendi.

     Diante disso, interpelei o chefe da povoação, que estava visivelmente muito mais preocupado do que o seu subordinado. O olhar vacilante, que lhe surpreendi, revelava claramente que não tinha a consciência limpa.

     — Reafirmas, agora, que ninguém passou pela aldeia? — perguntei-lhe.

     — Efêndi, eu estava com medo — respondeu.

     — Quem medo tem, mal procedeu. Passas um mau atestado da tua conduta.

     — Senhor, ignoro se procedi mal.

     — Por que, então, ter medo? Minha aparência inspirará receio aos inocentes?

     — Oh! Não é a ti que temo.

     — A quem é?

     — A Manach el Barcha.

     — Ah! Então o conheces?

     — Conheço.

     — Onde o conheceste?

     — Em Mastanly e Ismilan.

     — Como e onde o encontraste?

     — Ele é arrecadador do imposto “per capita” em Uskub e fora a Seres, a fim de entender-se com a população da localidade. Dali foi em visita à feira anual de Menlik.

     — Quando foi isso?

     — Há dois anos. Naquele tempo, ele tinha serviço em Ismilan e Mastanly e em ambas as localidades o encontrei.

     — Falaste-lhe também?

     — Não. Recentemente, porém, ouvi dizer que ele levantara tributações maiores do que as devidas e que por isso fugira. Foi para as montanhas.

     Como já esclareci, “ir para as montanhas” significa tornar-se bandido, salteador, confundindo-se com estes. Por isso, declarei energicamente:

     — Era, portanto, teu dever prendê-lo, logo que o encontraste!

     — Oh, efêndi, isso eu não podia arriscar!

     — Por que não?

     — Seria a minha morte. Tantos homens já se foram para as montanhas! Eles estão em todos os desfiladeiros, e os seus aliados contam-se às centenas. Conhecem-se mutuamente e vingam os companheiros. Se o prendesse, os seus amigos viriam matar-me.

     — És um covarde e temes cumprir com o teu dever. Não devias permanecer, nem por um instante, na chefia da aldeia.

     — Ó, senhor, enganas-te! Não foi só por mim! Eles teriam arrasado a nossa alderazinha.

     Nesse momento, abriu-se a porta e apareceu a cabeça do pequeno hadji.

     — Sídi, (8) — falou — quero dizer-te duas palavras.

     Isso foi dito em árabe, no dialeto do Saara oriental, falado na pátria de Halef. Este com certeza empregou tal idioma, para não ser entendido pelo kiaja e pelo guarda noturno.

     — Que é? — perguntei.

     — Vem cá, depressa — respondeu, sem dar maiores esclarecimentos. Fui ter com ele. Em qualquer hipótese, não seria sem importância o que ia comunicar-me.

     — Vamos, fala — murmurei-lhe.

     — Sídi. — disse-me baixinho, de modo que não pudesse ser ouvido pelos outros — um dos moradores fêz-me sorrateiramente um sinal e desapareceu por detrás da casa. Segui-o tão disfarçadamente quanto possível e ele me disse que nos comunicaria algo, se lhe déssemos dez piastras.

     — Onde o encontrarei agora?

     — Ainda detrás da casa. — Não te disse nada?

     — Não, nenhuma palavra.

     — Irei ter com ele. Permanece, entretanto, aqui, para que estes dois indivíduos não tramem contra nós.

     Dez piastras, cerca de dois marcos, não era muito para saber alguma coisa de interesse. Não saí pela estrada fronteira e sim diretamente pelo corredor, que dava para os fundos. Vi ali uma área quadrangular, aramada, onde pastavam diversos cavalos. Nas proximidades, encontrava-se um homem, que, pelo visto, esperava por mim. Quando me viu, aproximou-se rapidamente e disse em voz baixa:

     — Queres pagar, efêndi?

     — Quero.

     — Então, dá cá.

     — Toma.

     Desembolsei a pequena importância, que passou para o bolso dele.

     Depois, murmurou apressadamente:

     — Eles estiveram aqui.

     — Eu sei.

     — Trocaram um cavalo.

     — Qual?

     — Um zaino. Queriam três tordilhos e por isso trocaram o zaino por um tordilho. Vê, o animal está lá no canto.

     Olhei na direção indicada. O pêlo do cavalo combinava com a descrição que me fora feita.

     — É tudo quanto me querias dizer? — perguntei.

     — Não. Pouco depois do meio dia, chegou mais um, que perguntou pelos três cavaleiros, dos quais dois montados em tordilhos. De nada sabia e por isso conduzi-o ao guarda, que, por sua vez, o levou ao kiaja.

     — Demorou-se?

     — Não. Parecia que tinha muita pressa.

     — Podes descrevê-lo?

     — Posso. Montava um velho zebruno, lavado de suor. Tinha na cabeça um fez escarlate e como estivesse envolvido numa comprida binich (9) parda, só lhe pude distinguir os kundura (10) vermelhos.

     — Usava barba?

     — Afora um minúsculo byjik (11) claro, era totalmente imberbe, segundo o que consegui observar.

     — Para onde se dirigiu?

     — A Mastanly. Mas o principal não ouviste ainda, isto é, que o kiaja tem uma irmã em Ismilan, cujo marido é irmão da Chut-a.

     Isso era tão grave que, surpreendido, recuei um passo.

     Na península dos Bálcãs, jamais se pôde reprimir o banditismo. Ainda atualmente, os jornais informam com freqüência sobre levantes, assaltos, morticínios e outros acontecimentos criminosos, que podem ser levados à conta da situação de insegurança e desorganização que prevalece naquela região. Pois lá nas alturas das montanhas do Char-Dagh, entre Prisrendi e Kadandalas tornou-se famoso um skipetar, que fazia as suas correrias desde as culminâncias das cordilheiras Kurbescka-Planina até o vale do Babuna, acompanhado pelos revoltados e descontentes, que se lhe reuniram. Dizia-se que até nas gargantas do Perin-Dagh ele fora visto, e possuía adeptos até na solidão da Despoto-Planina.

     O seu verdadeiro nome ninguém sabia. El Assfar, Sayrik Chut — assim era chamado, conforme o idioma de que a gente se servisse. Essas três palavras significam “o amarelo”. Tal coloração talvez lhe tivesse advindo de iterícia. Chut-a, na língua servia, é o

 

___________________

     8) Meu senhor, no árabe da Ãfrica. Palavra que se emprega antes dos nomes próprios das pessoas a quem se quer testemunhar consideração. Na linguagem corrente, emprega-se no sentido de senhor, quando se aplica a um estrangeiro. (N. do T.).

     (9) Capa.

     (10) Sapatos turcos.

     (11) Bigode.

 

feminino de Chut e quer dizer naturalmente “a amarela”.

     Logo, Chut-a, a mulher desse skipetar, era uma parenta do kiaja. Isso me dava muito que pensar. Contudo, não me passou pela mente, deixar perceber o que é que eu resolvera e concluíra.

     — Ainda tens alguma coisa para dizer? — perguntei ao homem.

     — Não. Estás satisfeito?

     — Estou. Mas, dize lá, por que trais o teu chefe, revelando-me esses fatos?

     — Efêndi, ele não é bom homem. Ninguém gosta dele e todos sofrem debaixo da sua prepotência.

     — Há mais alguém que saiba desta palestra?

     — Não, e te peço que não o digas a ninguém.

     — Calarei.

     Depois dessa afirmação, ia me afastar, quando me ocorreu que, por pouco, esquecia algo muito importante.

     — És conhecido em Ismilan? — perguntei, reatando a conversa.

     — Sou.

     — Então conheces também, decerto, o cunhado do kiaja, aquele que afirmas ser o irmão da mulher do skipetar?

     — Sim, conheço-o.

     — Que é ele?

     — É silahdji (12) e possui ao mesmo tempo um khavehane (13) onde expõe à venda as armas.

     — Onde mora?

     — Na rua que vai à aldeia de Tjatak.

     — Agradeço-te. Guarda segredo, como também eu o saberei guardar.

     Voltei ao interior da casa. Nas fisionomias do kiaja e do guarda noturno não se podia perceber se suspeitavam que o meu afastamento tivera uma finalidade inamistosa em relação a eles. Halef retirou-se em seguida.

     — Agora, — prossegui na palestra interrompida — quero saber que desejava de ti esse antigo cobrador de impostos?

     — Informou-se sobre a estrada — respondeu o kiaja.

     — De que estrada?

     — De Sofala.

     Sofala ficava justamente rumo sul, enquanto que eu estava convencido de que os fugitivos tinham tomado a direção leste. O bom kiaja queria, portanto, desviar-me da verdadeira rota. Não dei a perceber que as suas palavras não me mereciam crédito e continuei.

     — É verdade que Manach el Barcha vinha de Edreneh?

     — E.

     — Nesse caso, passou por Samanka, Tjingerli e Ortakiõj, em direção a oeste,

     _____________

     (12) Armeiro.

     (13) Café.

 

mudando aqui bruscamente de rumo para o sul. Querendo ir a Sofala, podia ter seguido logo para o sul, atravessando Tatar, Ada, Chahandja, Demotika e Mandra. Por que se teria desviado para aqui, fazendo um percurso, em excesso, de mais de 16 horas a cavalo.

     — Não lhe perguntei.

     — E eu não posso compreender!

     — Ele não pode deixar-se avistar. Querem prendê-lo. Com certeza, quis despistar a zabtie (14).

     — Isso é impossível.

     — Também o procuras? Queres prendê-lo?

     — Quero.

     — Deves, portanto, seguir a direção que te indiquei.

     — Na região meridional, mora algum parente ou conhecido teu, a quem pudesse me dirigir, em caso de necessidade?

     — Não.

     — Mas, tens parentes?

     — Não.

     — Pais?

     — Não.

     — Um irmão ou irmã?

     — Também não.

     Isso era mentira. E o guarda que, por certo, conhecia as relações de parentesco do seu chefe, não fazia a menor menção de me denunciar à verdade. Ambos me tomavam por uma grande personalidade. Contudo, me ludibriavam. Eu, que nada mais era do que forasteiro, não possuía a menor soma de autoridade sobre eles. A única coisa que podia empregar era a astúcia, e, em tais circunstâncias, aparentei acreditar no que me dizia o kiaja. Tomei o meu caderninho e folheei como se procurasse alguma anotação, e, depois, como se a tivesse encontrado, disse:

     — É isso mesmo: o starechin de Bu-kiõj, um funcionário violento, injusto e prepotente. Além disso, deixa escapar os foragidos, ao invés de os prender. Serás...

     — Violento? Injusto? Prepotente? — interrompeu-me — Efêndi, é impossível que isso se refira a mim.

     — A quem, então? Presentemente não sobra tempo para ocupar-me contigo. Podes, porém, estar certo de que cada injustiça terá o seu castigo merecido. Sabes quais foram as palavras do Profeta sobre os Ujuhn Allah? (15)

     — Sim, emir — respondeu timidamente.

     — São mais agudos do que o fio de uma faca, que entra no coração e mata. Rasgam mais fundo, penetram na alma, e a mentira sucumbe diante da verdade. Não te olvides jamais dos olhos do Onisciente, porque senão sofrerás mais do que um abid elassnam (16), apesar das ssalavat (17), que fazes religiosamente. Partirei. Que Alá guie os impulsos

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      (14) Polícia.

     (15) Olhos de Deus.

     (16) Pagão.

     (17) Orações.

 

do teu coração e os pensamentos do teu cérebro. Allah jusellimak — Deus te guarde.

     Curvou-se até o chão e respondeu:

     — Nesinin sa'id — benditos sejam os dias da tua vida.

     O guarda noturno curvou-se tanto, que a cara quase batia no chão e disse, em turco:

     — Akibetiniz chajir ola sultanum — Sede feliz até o fim da vida, senhor.

     Tratou-me por vós, o que constitui uma grande distinção. Todavia, quando ia saindo, ouvi o kiaja, que há momentos me desejara tantas bênçãos, murmurar com mal contida raiva:

     — Ingali 'min hon!

     Isso quer dizer, mais ou menos, a mesma coisa que a expressão usual dos árabes — ruh lildchehennum — Diabo que te carregue! Era de supor, em conseqüência, que as minhas piedosas advertências não lhe seriam de grande proveito.

     Montei novamente e retiramo-nos do povoado, mas não em direção ao poente e sim para o sul. Somente quando não podíamos mais ser avistados, tomamos o caminho que nos levaria a Geren, um povoado distante cerca de uma hora e meia dali.

     Só então observei que éramos acompanhados apenas por dois khawass.

     — Onde está o teu subalterno? — perguntei ao bachi dos khawass.

     — Voltou para Edreneh.

     Respondeu isso com tanta indiferença, como se se tratasse da coisa mais natural deste mundo.

     — Por quê?

     — Não podia mais acompanhar.

     — Por que motivo?

     — Ele estava bach dõmnesi gõlin. (18) Não suportava mais.

     — Como pôde ficar enjoado?

     — Porque o cavalo galopou — respondeu seriamente.

     — Mas me disseste que sabia cavalgar tão bem!

     — Sim. Entretanto, é preciso que o cavalo esteja parado. Quando galopa, sacode, vascoleja e bamboleia, que apavora. Só o estômago de um kassak russialy (19) suporta uma coisa dessas. Os meus badchirsak (20) desapareceram, desfizeram-se, escorregaram para baixo até se misturar com os do cavalo. Não os sinto mais. Só sinto as chalvar (21), que grudam no corpo, em lugar do couro arrancado pelos arreios. Fosse eu encarregado de sentenciar o diabo, certamente o condenaria a acompanhar-te, cavalgando até Menlik. O demônio preferiria ficar no mais ardente fogo do inferno, do que no lombo deste cavalo e, se te acompanhasse, chegaria ao fim da jornada sem couro e sem ossos.

     Era uma lamúria, que, na verdade, nos fazia rir. Contudo, o homem nos causava dó. Fazia uma cara lamentável. De fato, em certas partes do corpo, apesar de montar há pouco tempo, o couro estava em ferida. Não era mais feliz o seu companheiro, o qual murmurava quase num monólogo:

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     (18) Enjôo do mar. Mareado.

     (19) Cossaco.

     (20) Intestinos.

     (21) Calças.

 

     — Vallahi, õjle a ti — Por Alá, isso é verdade.

     Foi esse o seu único lamento. Mas, via-se que passava pelas mesmas torturas físicas de seu superior hierárquico. Perguntei ao último:

     — Quem deu licença ao outro khawass para retroceder?

     — Eu — contestou, surpreendido pela pergunta.

     — Creio, entretanto, que era a mim que devia pedir licença,

     — A ti, efêndi? É tu o bachi de khawass ou sou eu?

     — Naturalmente és tu. Sabes, no entanto, quais as ordens que tens de executar.

     — As ordens do kadi. Mas ele não mandou que eu andasse até me encravar no lombo do cavalo, a ponto de ficar só com a cabeça de fora. Entoarei hosanas e me gloriarei como um anjo, quando estiver de regresso à caserna de Edreneh.

     Nisso, o pequeno hadji obtemperou:

     — Pedaço de gente, como te atreves a faltar com o respeito ao meu efêndi? Ele é teu senhor, enquanto lhe aprouver. Quando te ordenar que cavalgues, terás de cavalgar, ainda que todo o teu fardamento fique pregado ao couro. Por que garganteaste que sabias montar perfeitamente?

     — Que diz esse homenzinho? — retrucou o sub-oficial, irado. — Como me trata? Trata-me de pedaço de gente? E, sem embargo, sou cabo do soberano de todos os crentes. Direi isso ao kadi, no meu regresso.

     O pequeno hadji queria responder, mas Osco se antecipou, pegando a rédea do cavalo montado pelo khawass, ao mesmo tempo que lhe dizia, rindo, na sua língua materna (servia):

     — Vamos, wacsche prewaszchodsztwo (22). Segure-se bem nos arreios, wiszoko blagorodni gospodine (23). Daremos início ao campeonato de corrida.

     Em seguida, desandou a galopar velozmente, levando o bachi dos khawass. Omar Ben Sadok segurou, no mesmo instante, as rédeas do cavalo que era montado pelo outro khavass, e voou atrás dos dois.

     — Coriscos e trovões! Patife! Infame! Filho do demônio! Anjo do inferno! Raios e trovoadas! Cunhado da maldade!

     Essas e outras imprecações eram proferidas pelos dois agentes de segurança, enquanto se agarravam desesperadamente aos arreios e as crinar dos cavalos. Seguimo-los depressa. Tive pena dos dois pobres diabos, pois estavam já sem fôlego quando os alcancei.

     Nesse momento, eles esgotavam o repertório de pragas e impropérios de todos os vocabulários, turco, árabe, persa, romeno e sérvio. Desse gênero é o homem oriental, principalmente o soldado levantino, hábil no manejo de várias línguas. Tive muito trabalho para acalmá-los e, assim, decorreu um bom lapso de tempo, até que pudéssemos continuar a jornada em boa paz.

     Tínhamos ocasião, portanto, para trocar idéias sobre os acontecimentos de Bu-kiõj.

     Tanto ao perspicaz Halef, como a mim, causou estranheza a circunstância de terem

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     (22) Ilustríssimo e excelentíssimo senhor.

     (23) Ilustríssimo e augusto senhor.

 

sido os fugitivos procurados, naquela povoação, hoje depois do meio dia.

     — O homem que os procurou — disse Halef — deve conhecê-los e saber da fuga. Sendo assim, por que não saiu junto com eles?

     — Forçosamente porque não era intenção dele acompanhá-los.

     — Nesse caso por que os segue?

     — Suponho que vai informá-los dos últimos acontecimentos.

     — A tua libertação?

     — Com certeza.

     — A prisão de Ali Manach, o dançarino, feita por ti?

     — Sim e provavelmente da morte deste último.

     — Que dirá a isso Barud el Amasat?

     — Ficará cheio de pavor e ódio, supondo que o cavaleiro consiga alcançá-lo para lhe dar essas notícias.

     — Por que não o conseguirá? Ia com tanta pressa, que o cavalo suava.

     — É um animal velho. E justamente porque suava, não agüentará muito. Além disso, tenho a intenção de impedir que esse homem atinja o objetivo visado.

     — Por quê?

     — Os fugitivos viriam a saber, por ele, que estou em liberdade e que os persigo. Isso, porém, não me agrada. Quanto mais seguros eles se sentirem, tanto mais devagar andarão e, por isso, mais depressa os alcançaremos. Eis por que resolvi pôr-me no encalço do cavaleiro de quem falamos e frustrar os seus planos.

     — Leva uma grande dianteira.

     — Pensas, acaso, que Rih não corre mais?

     — O morzelo, sídi? Oh, Rih significa vento e como o vento o cavalo voa. Há muito que não tem oportunidade de mostrar que os seus garrões são de aço. Qual não seria a sua alegria em correr à vontade, estrada afora! Mas nós não podemos te acompanhar.

     — Isso nem é preciso. Irei só.

     — Só, sídi? E que faremos nós?

     — Seguir-me-ão tão depressa quanto possível.

     — Para onde?

     — Continuarão no caminho de Mastanly. Também irei lá, mas procurarei um atalho que encurte a distância. Como não sei ainda onde encontrarei o perseguido, não posso dizer em que ponto poderei esperá-los.

     — Sabes, porventura, se ele também tomou um atalho?

     — Com certeza, não. Seria penoso para o seu velho zebruno.

     — E, que farás, se tomares a dianteira?

     — Esperarei por ele.

     — Como poderás saber se estás atrás ou adiante dele?

     — Penso que saberei.

     — Não conheces esta região. Facilmente poderás perder-te. Pode ocorrer um desastre. Leva-me contigo, sídi.

     — Não tenhas cuidados, meu caro Halef. Estou bem montado e bem armado. É impossível levar-te comigo, pois serás o guia dos outros.

     Isso o lisonjeou. Consentiu, por isso, no meu plano. Dei-lhe, e a Osco e Omar, diversas instruções. Durante esse tempo, como tivéssemos de cuidar de todos os detalhes, prevendo os fatos e combinando as medidas a tomar, nos esquecêramos dos dois khawass. Assim, quando os procurei, vi somente o cabo, que tão exímio se revelara na arte de equitação. O outro desaparecera.

     — Onde está o teu companheiro? — perguntei admirado. O interrogado virou-se e, em seguida, exclamou perplexo:

     — Efêndi, ele cavalgava atrás de mim!

     A sua consternação não era fingida. Vi que, de fato, estava crente de ter sido seguido pelo companheiro.

     — Mas, onde está ele? — prossegui.

     — Desapareceu, evaporou-se, perdeu-se, aniquilou-se, apagou-se, digeriu-se! — respondeu o policial, na sua indescritível estupefação.

     — É impossível não teres observado que ele se atrasara.

     — Como podia observá-lo? Observaste-o por acaso? Voltarei imediatamente, para buscá-lo.

     Fêz um gesto tendente a executar o que dissera. Desse modo, também ele conseguiria vantajosamente colocar-se na retaguarda.

     — Alto! — exclamei, interceptando-lhe a marcha. — Fica. Não temos tempo para procurar esse fujão ou esperar que o encontres.

     — Mas ele tem de ir junto.

     — Quanto a isso, entender-te-ás mais tarde com o colega em Edreneh. Agora, nos seguirás. Hadji Halef Omar, toma cuidado para que esse Onbachi cumpra com o seu dever, durante a minha ausência.

     Depois disso, dei de rédea e esporeei o garanhão. Em pouco tempo, afastara-me, a perder de vista.

     Naquela região, as povoações são erigidas à maneira búlgara. Uma aldeia búlgara ou celo, quase sempre fica distante da estrada ou daquilo a que se dá essa denominação e consequentemente invisível para a maioria dos viajantes. Comumente um celo estende-se sobre pradarias, às margens dos rios, que servem de defesa natural.

     Cada uma dessas aldeias, aliás bem numerosas, conta poucas quintas, separadas por prados. Uma quinta é constituída de seis a dez casebres. Estes ou são cavados no solo, com cobertura cônica de galhos e palha, ou são feitos de vime trançado. Nesse caso a sua aparência é a de grandes cestos. Cada qual tem sua habitação. Existem, assim, choupanas para gente, para cavalos, vacas, porcos, ovelhas e galinhas. Os animais deixam as habitações a seu bel prazer e passeiam entre as quintas.

     Não existem chaussées, como na Europa ocidental. A própria designação de estrada é exagerada. Se se quiser ir de um celo a outro, procurar-se-á baldadamente uma picada ou caminho, que estabeleça a comunicação. O forasteiro, que se destine a um ponto relativamente afastado, terá de possuir o instinto e o faro das aves de arribação. Se quiser afastar-se dos trilhos feitos pelas carretas de bois e que constituem o indício da problemática existência de uma estrada, mesmo assim, a sua situação não será de todo favorável, porque, se as aves dispõem do espaço ilimitado e podem cortá-lo em todas as direções, ao homem se lhe deparam mil obstáculos de toda a sorte.

     Cometi realmente uma temeridade, quando me afastei do caminho de Adatchaly. Sabia somente que Mastanly estava situada ao sudoeste, e podia contar que iria encontrar rios desprovidos de pontes, vales áridos e extensos matagais.

     Passei por diversas aldeias, atravessando alguns campos e roseirais, e cavalgando sobre pastagens crestadas pelo sol, até que, finalmente, tive necessidade de me orientar.

     Nisso, avistei, por detrás de uma original cerca de varas de vime, um ancião, que se ocupava em recolher folhas de rosas. Aproximei-me da sebe e o cumprimentei. O velho não se apercebera da minha chegada e por isso assustou-se no ouvir a minha voz. Verifiquei que consultava-se a si mesmo se devia aproximar-se ou ocultar-se por detrás das roseiras e, por isso, apressei-me a lhe inspirar confiança, dizendo algumas palavras amáveis. Assim, consegui, pelo menos, que ele começasse a andar vagarosamente ao meu encontro.

     — Que queres? — perguntou.

     Enquanto assim dizia, observava-me desconfiado.

     — Sou dilentji (24) — respondi. — Não me darás uma gul es semawat? (25) O teu jardim está cheio dessas rosas incomparáveis.

     O ancião sorriu bondosamente e disse:

     — Pode um mendigo montar um cavalo desses? Nunca te vi. Ês forasteiro?

     — Sou.

     — E aprecias as rosas?

     — Muito.

     — Um homem de mau caráter não é amigo das flores. Terás a mais linda das minhas rosas celestes, recém a desabrochar. É quando o seu aroma, dulcíssimo e encantador, parece provir diretamente do trono de Alá.

     Depois de uma escolha demorada, colheu duas flores que me entregou por cima da cerca.

     — Toma, forasteiro, — disse, e acrescentou: só há um perfume que supera em maravilha ao destas rosas.

     — Qual é?

     — O do tuetuen djebeli. (26)

     — Conheces esse aroma?

     — Não, mas ouvi falar. É o mais sublime dos perfumes. Alá não nos permitiu que o conhecêssemos. Fumamos somente tuetuen myrs bughdajy, (27).

     — Hacha! Cheni! — Pelo amor de Deus! É horrível!

     O velho confirmou, meneando a cabeça, e explicou:

     — Sim. Somos pobres, mui pobres. Sou um velho guarda do roseiral e tenho o

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     (24) Mendigo.

     (25) Rosa do céu.

     (26) Fumo de djebeli.

     (27) Fumo de milho.

 

trabalho de cortar folhas de milho para misturá-las com o fumo.

     — Não obstante, o vosso óleo de rosas é tão caro.

     — Sus ol — cala-te. Não seríamos tão pobres, se não fosse a Babi Humajun (28). Ela está sempre escancarada para receber os tributos. Os paxás e os ministros podem fumar djebeli. Ah, se eu o pudesse cheirar uma vez só! Somente cheirar!

     — Tens um cachimbo?

     — O' Alá! Um tjibuk eu possuo.

     — Então, vem cá.

     Tirei o meu estojo de cortiça do alforge e o abri. O ancião se mostrara tão comunicativo que resolvi dar-lhe motivo para uma grande alegria.

     Com viva curiosidade, cravou os olhos no estojo.

     — Uma djeb tuetuonuen! (29) — disse. — Isso contém fumo, não é verdade?

     — Realmente. Deste-me duas rosas das mais preciosas e eu quero retribuir, oferecendo-te, em troca, um pouco do meu fumo.

     — O', efêndi, como és bondoso!

     Levava comigo, ainda dois ou três envelopes. Enchi um de fumo e lhe entreguei. O ancião cheirou, arregalou os olhos e sentenciou:

     — Isso não é fumo de milho.

     — Não. Isso é djebeli.

     — Djebeli! — exclamou. — Efêndi, estás me dizendo a verdade?

     — Estou. Não te engano.

     — Então, não és um efêndi, mas, sim, um paxá, ou talvez um ministro. Não é verdade?

     — Não, meu amigo. Não é só na Sublime Porta que se fuma djebeli. Estive na terra que o produz.

     — Oh! venturoso. Em todo o caso, és um cavalheiro nobre.

     — Não. Sou um pobre escritor. Todavia, a Sublime Porta deixou-me com um pouco de djebeli.

     — E desse pouco queres repartir comigo! Que Alá te abençoe. De que terra és?

     — De Nemtche memleketi...................

     — É a mesma a que também chamamos Alemanja?

     — É.

     — Nunca tinha visto um nemtche. São todos eles bons como tu?

     — Creio que são iguais a ti e a mim.

     — Que fazes aqui em Osmanly nemleketi? Para onde vais?

     — Sigo para Mastanly.

     — Mas, então, te desviaste do caminho. Deves ir a Geren, e de lá primeiramente a Derekiõj.

     — Intencionalmente tomei este atalho. Quero ir a Mastanly pelo caminho mais curto.

     _______________

      (28) Sublime Porta.

      (29) Fumeira.

 

     — Isso é difícil para um estranho. Muito difícil.

     — Podes, por acaso, indicar-me o caminho?

     — Farei o possível. Bem. Olha em direção sudoeste. Onde o sol toca os picos mais elevados, encontrarás as montanhas de Mastanly. Ficas, assim, pelo menos, conhecendo o rumo a tomar. Passarás por muitas aldeias e também por Kochikawak. Atravessarás ali o rio Burgas e então terás Mastanly, justamente, em direção leste. Mais esclarecimentos não posso dar. Amanhã, à noite, chegarás ao destino.

     Essa afirmativa era engraçada. Por isso perguntei, sorrindo:

     — Com certeza, não és cavaleiro?

     — Não.

     — Então te direi que, em qualquer hipótese, estarei hoje ainda, com certeza, em Kochikawak.

     — Impossível! És um mágico?

     — Não. Entretanto, o meu cavalo corre como o vento.

     — De fato, ouvi dizer que existem cavalos assim. Então, queres chegar hoje de noite a Kochikawak?

     — Provavelmente.

     — Muito me alegro. Não irás a nenhuma hospedaria, porque na entrada da aldeia mora o meu irmão Chimin, o ferreiro, que te receberá com satisfação.

     Esse oferecimento poderia tornar-se de utilidade para mim. Por isso, respondi:

     — Agradeço-te. Pelo menos, ao passar, levarei ao teu irmão as saudações que lhe mandas.

     — Não, não é assim. Quero que fiques na casa dele. Deste-me do teu... w'Allah — que perfume! Como se fora da Caaba da sagrada cidade de Meca!

     Com efeito, durante a palestra, ele enchera um cachimbo e, no momento, dava a primeira tragada, proferindo, então, tais exclamações de entusiasmo.

     — O fumo te sabe bem? — perguntei.

     — Se me sabe? Se me sabe? Ele passa pelas ventas, como os raios da alvorada no céu do dia nascente. É assim que a alma dos justos deslisa suavemente no Sétimo Céu. Efêndi, espera, irei buscar algo para ti.

     O ancião parecia estar não só estasiado, como até desvairado. Correu, com a rapidez que lhe permitiam as pernas senis, afastando-se, para voltar em breve.

     — Efêndi, adivinha que é que trago na mão? — disse antes mesmo de chegar à sebe.

     — Nada vejo.

     — Oh! É minúsculo, mas vale quase tanto com o teu djebeli. Queres ver?

     — Mostra-me.

     — Olha. Que é?

     Apresentava uma garrafinha, hermeticamente fechada. Tornou a perguntar:

     — Que é que contém esta garrafinha? Dize-o, efêndi.

     — Será água de rosas?

     Ao velho guarda, não me parecia possível atribuir a propriedade de coisa mais valiosa. No entanto, ele respondeu, maguado:

     — Água de rosas? Oh! efêndi, queres insultar-me? Isto é óleo de rosas, legítimo óleo de rosas, como igual jamais encontraste em toda a tua vida.

     — De quem é?

     — De quem? Meu!

     — Mas és somente o guarda deste jardim.

     — Sim, efetivamente. Sou o guarda. Tens razão. Mas o meu patrão permitiu-me plantar um canto do jardim. Escolhi a melhor qualidade de rosas e venho economizando avaramente há muito, muito tempo. Cheguei a encher duas dessas garrafinhas. Uma quis vender hoje e fui logrado. A outra é tua. Dou-a de presente.

     — Homem, que dizes!

     — É tua.

     — Escuta: como te chamas?

     — Jafiz, é o meu nome.

     — Pois bem, Jafiz, estás doido.

     — Por que?

     — Porque queres esse óleo de rosas.

     — Óleo? Óleo? Oh! Não me digas essas palavras! Isso é essência, mas nunca óleo comum. Nessa garrafinha moram as almas de dez mil rosas. Queres menosprezar este presente, efêndi?

     — Não posso aceitá-lo.

     — Por que não?

     — És pobre. Não devo roubar-te.

     — Como podes roubar-me, se te ofereço? O teu djebeli é tão precioso quanto a essência.

     Para se fazer uma onça de óleo, precisam-se seiscentas libras das melhores pétalas de rosas. Eu sabia disso. Portanto, insisti:

     — Ainda assim, não devo aceitar essa dádiva.

     — Queres enganar-me, efêndi?

     — Não.

     — Ou insultar-me?

     — Também não.

     — Bem. Digo eu, agora: se não aceitares esta oferta, derramarei o óleo aqui na terra.

     Vi que a ameaça seria efetivada.

     — Pára! — pedi. — Destilaste o óleo para vendê-lo, não?

     — De fato.

     — Ainda bem. Eu o compro.

     O ancião sorriu meio acanhado e depois consultou:

     — Quanto oferecerias?

     Puxei tanto dinheiro quanto era possível relativamente às minhas posses e lho estendi:

     — Dar-te-ei isto.

     Tomando o dinheiro, Jafiz contou-o e disse, fazendo um gesto significativo com a cabeça:

     — Efêndi, a tua bondade é maior do que a tua carteira.

     — Peço-te, por isso, que guardes o óleo. És muito pobre para me oferecer e eu não sou bastante rico para poder comprá-lo.

     Riu-se e retrucou:

     — Sou bastante rico para poder dá-lo, porque tenho o teu fumo, e tu és tão pobre que o podes aceitar. Toma o teu dinheiro.

     Essa generosidade era demasiada, para que eu a pudesse aproveitar. Considerei que a pequena quantia, que lhe oferecera, não seria de todo inútil para ele. Por outro lado, estava convicto de que o ancião não aceitaria mais a devolução da garrafinha. Por conseguinte, recusei o dinheiro, dizendo-lhe firmemente:

     — Queremos presentear-nos, sem sermos ricos. É melhor, portanto, que cada um fique com aquilo que recebeu do outro. Quando regressar à minha pátria, direi às lindas mulheres, que se extasiarem com o perfume deste óleo, quem era Jafiz, o jardineiro das rosas, o homem magnânimo e bondoso que me acolheu.

     Isso pareceu agradar-lhe. Os olhos brilharam e ele meneou a cabeça, satisfeito, perguntando:

     — As mulheres da tua pátria são amigas dos perfumes, efêndi?

     — Sim; amam as flores, que são suas irmãs.

     — Tens de cavalgar muito até que chegues lá?

     — Talvez muitas semanas. E, depois de apear-me do cavalo, terei de andar muitos dias em navios e trens de ferro.

     — Isso é longe, muito longe. Passarás, por acaso, em zonas perigosas, por entre povos maus?

     — É bem possível. Terei de atravessar a terra dos que foram para as montanhas.

     O ancião abismou-se em pensamentos, depois me encarou atentamente, para, enfim, dizer:

     — Efêndi. A fisionomia do homem é como a superfície das águas. Umas são claras, límpidas, transparentes e cristalinas e nelas a gente se espelha com prazer; outras, porém, são turvas, espessas e sujas: quem delas se aproxima, vislumbra perigo e se afasta depressa. As primeiras são iguais aos rostos dos homens bons; as segundas assemelham-se aos maus, dos bandidos e malfeitores. Tua alma é límpida e transparente; teus olhos são claros e o teu coração não abriga ódios e rancores, nem perigos e traições. Vou te confiar um segredo, que mui poucas vezes confiei a outrem. Todavia, és um desconhecido.

     Alegrei-me com essas palavras, não obstante não poder imaginar sequer a natureza daquilo que me ia ser revelado. Respondi:

     — Tuas palavras têm tanto carinho e são tão calorosas como os raios do sol, que aquecem os regatos. Prossegue.

     — Em que direção seguirás, depois de Mastanly?

     — Primeiramente, para Menlik. Aí decidirei qual o rumo a tomar. Talvez precise ir a Uskub e de lá às montanhas de Kostendil.

     — Wullak — Ai de ti! — bradou o ancião.

     — Consideras ruim esse caminho?

     — Considero-o muito ruim. Estando em Kostendil e querendo seguir para o mar, terás de cruzar por Char-Dach até Perserin, e é aí que os skipetars e foragidos tem o seu esconderijo. Eles são pobres; têm só as armas e vivem do roubo e do assalto.

     E acrescentou, num desalento:

     — Eles te roubarão tudo, tudo, e até — quem sabe? — a própria vida.

     — Saberei defender-me.

     O ancião meneou a cabeça e murmurou:

     — Bir gendch kan war on bin kuestachlueck — Sangue juvenil vale por dez mil. E tu és moço. Tens, na verdade, muitas armas. Mas, de que te valem contra dez ou vinte ou cinqüenta inimigos?

     — O meu cavalo é veloz.

     — Não sou conhecedor de animais, mas vejo que tens um belo morzelo. Entretanto, os que vão para as montanhas também têm somente cavalos velozes. Pegar-te-ão facilmente.

     — O meu cavalo é puro sangue. Chama-se Vento e é veloz como o vento.

     — Então, eles te apanharão à bala, porque uma bala voa mais depressa do que o mais veloz dos cavalos. Os skipetars são conhecedores de cavalos. Reconhecerão logo que possuis um animal melhor do que os deles, e, por isso, não te atacarão de frente e sim de emboscada. Como poderás te defender, então?

     — Tomando precauções.

     — Nem assim te salvarás. O provérbio diz: Sakinma dir kawl kabahatun (30). És um homem de bem; eles serão dez vezes mais cautelosos do que tu. Permite-me que te previna e aconselhe.

     — Essa advertência tem relação com o que me ias dizer, há pouco?

     — Tem.

     — Nesse caso, estou curioso para saber o que me vais dizer.

     — Pois bem. Conhecerás o segredo. Existe um salvo-conduto, que todos os amigos, conhecidos e aliados dos renegados possuem.

     — Como sabes disso?

     — Aqui todos sabem. Mas muitos poucos conhecem os meios e modos de obtê-lo.

     — No entanto, tu os conheces?

     — Não. Permaneço sempre no meu jardim e nunca viajo. Entretanto, o meu irmão Chimin é um dos que sabem. Posso dizer-te isso, porque tenho confiança em ti e porque, breve, deixarás este país.

     — Nessas circunstâncias, gostaria que teu irmão me honrasse com a mesma confiança.

     — Ele terá confiança, se eu te recomendar.

     — Não poderias escrever-lhe duas ou três palavras?

     — Não sei escrever. Mostra-lhe, porém, o óleo de rosas. Chimin conhece muito bem essa garrafinha; sabe que eu não a daria nem venderia a quem fosse indigno dela. E quando a tiveres mostrado, dize-lhe que vais recomendado pelos õje-kardach (31) ou pelo jary-kardach (32). Ninguém sabe que somos filhos de duas mães. Quando lhe envio uma mensagem confidencial, as palavras õje e jary provam a sua autenticidade.

     — Agradeço-te. Estás certo de que ele me poderá dar esclarecimentos sobre o salvo-conduto?

     — Espero que sim. Nesta região...

     Interrompeu-se e escutou. Ouvia-se um assobio, partido dos fundos do jardim.

     — Meu patrão chama — disse o ancião. — Vou atendê-lo. Tomaste nota de tudo quanto te disse?

     — Sim, de tudo.

     — Então não esqueças. Que Alá esteja contigo e que te permita levar os perfumes do meu jardim às belas mulheres da tua pátria.

     Antes mesmo que eu pudesse responder, o bom velho desaparecera por detrás da sebe e, em pouco, não mais se lhe ouviam os passos.

     ________________________

     (30) Precaução é a alma do crime.

     (31) Irmãos de matrimônios diferentes.

     (32) Meio-irmão.

 

     Teria sido auspicioso esse encontro? Certo é que não podia ser prenuncio de desgraça. Seria verdadeira a história do salvo-conduto? O velho, entretanto, não parecia mentir. Em qualquer hipótese, porém, convinha procurar o seu irmão, pois a ferraria certamente ficava à margem da estrada, que, tanto os meus companheiros como o cavaleiro, cuja viagem pretendia embargar, deviam trilhar.

     Continuei a jornada. Durante a parada, o cavalo descansara e podia, portanto, desenvolver maior velocidade. Querendo conservar uma reta, era preciso subir a grandes altitudes, o que oferecia enormes dificuldades. Por isso, resolvi permanecer no sopé das montanhas, sempre que isso era possível, sem perder a orientação.

     Vindo do planalto Tokatjik, o rio Burgas corre em direção ao norte até alcançar Ada, onde se lança no rio Arda. À margem desse rio, encontra-se Kochikawak. O ângulo agudo, formado pela confluência dos dois rios, encerra uma planície, que se vai elevando para o sul, até converter-se no planalto de Tachlyk. Era meu intuito evitar essa elevação.

     Consegui-o, embora não conhecesse a região, nem encontrasse estradas delineadas. Passei a vau, ou melhor a nado, diversos riachos, afluentes da margem esquerda do Arda.

     O sol aproximava-se cada vez mais do poente, e, finalmente, desapareceu por detrás das montanhas. Sabia que o crepúsculo não seria longo, e, por isso, galopei até chegar novamente à beira de uma volumosa corrente de águas. Observei aí que, um pouco abaixo do ponto em que me encontrava, havia uma ponte.

     Dirigi-me a essa ponte e, assim, encontrei a estrada. Depois de passar para o outro lado, vi — pela primeira vez na Turquia — um marco itinerário ou indicador de caminhos. Tratava-se de um pedaço de rocha, saliente da terra, no qual se havia escrito, a cal, duas palavras.

     Não tivesse eu adivinhado a significação dessa pedra ou, melhor, a sua finalidade, a primeira das palavras ali escritas me teria dado o esclarecimento preciso, pois era kylawnz, e quer dizer exatamente indicador de caminhos.

     A outra palavra era Kerekiõj. Sabia que esse era o nome de uma aldeia. Mas, onde ficava? O indicador de caminhos estava ali; nele estava escrito o nome da aldeia. Infelizmente, porém, a parte superior da pedra era chata c nessa face horizontal estavam escritas as duas palavras.

     A “coisa” a que, acima, dei a denominação de estrada, partia dali em linha reta; ao longo do rio havia outra “coisa” semelhante. Qual dessas duas coisas, porém, levava a Kerekiõj? De que me servia, portanto, esse primeiro indicador de caminhos?

     Calculei que a corrente d'água, junto da qual me achava, não podia ser o rio Burgas e que, se a acompanhasse, iria muito para o norte. Por isso, resolvi continuar pela estrada que estava na minha frente.

     Entretanto, escureceu de todo. Nem sequer via se a “coisa” ainda estava sob as patas do cavalo. Sabia, porém, que podia confiar no cavalo.

     Assim, andei, a trote, cerca de meia hora. Subitamente, o cavalo começou a bufar, sacudindo a cabeça.

     Procurei ver do que se tratava e notei que à minha direita havia uma sombra negra e larga, da qual partia para o alto um prolongamento comprido. Tratava-se de uma casa e de uma chaminé.

     Seria isso a ferraria? Se fosse realmente, eu estaria nas proximidades ile Kochikawak, fim da minha jornada.

     Aproximei-me da casa e bradei:

     — Bana bak — Ó de casa!

     Ninguém respondeu.

     — Sawul, alargha — alô, abra a porta!

     Continuou o silêncio. Não vi luz. A casa estaria desabitada, ou seriam ruínas de um prédio?

     Apeei e levei o cavalo até o muro. Rih começou novamente a bufar. Isso me pareceu suspeito. Muito embora se tratasse de um cavalo árabe, fora ensinado pelo sistema indiano. Assim, quando bufava, aspirando fortemente pelas ventas dilatadas, para expelir o ar aos poucos, levemente e com pequenos intervalos, era certo que “alguma coisa estava fora dos eixos no reino da Dinamarca”.

     Puxei, por isso, os dois revólveres e comecei a examinar a casa. Tinha só um pavimento e ocupava uma grande área. A porta estava fechada. Bati por diversas vezes, baldadamente. À esquerda, encontrei três janelas, igualmente fechadas. À direita, achei outra porta, maior do que a primeira. Estava, porém, fechada com um cadeado. Junto dela pude distinguir diversos instrumentos agrícolas e outras ferramentas, que me deram a convicção de que a casa era realmente uma ferraria.

     Continuei, contornando-a. Encontrei montões de lenha, destinados evidentemente à queima. Atrás da casa havia um quadrado, cercado por moirões enterrados, fazendo um curral como os que existem em certas aldeias alemãs para criações de porcos. O cercado parecia estar vazio, porque não se observava ali o mínimo movimento.

     Não obstante, era justamente nesse lugar que o cavalo soltava os bufidos mais assustados. Parecia ter medo de aproximar-se do cercado.

     Não quero dizer que isso fosse muito suspeito. Contudo, resolvi redobrar as precauções. A casa estava fechada e, consequentemente, era habitada. Seria, entretanto, possível que os proprietários tivessem deixado abandonada a sua habitação, durante a noite, numa região como aquela? Era plausível que ali tivesse acontecido alguma coisa de extraordinário e por isso resolvi continuar a inspeção.

     O cavalo, no entanto, tornava-se um estorvo nas investigações e podia ser arrastado a um perigo imprevisto. Coloquei-o, por isso, em lugar seguro. Para o amarrar, não era necessário estaca nem laço, muito menos cordas ou cabrestos. Fazia simplesmente pisar nos freios com as patas dianteiras. Assim estava maneado de tal modo que não andaria longe, mesmo que, contra todo o costume, quisesse disparar. E se por acaso, durante a minha ausência, o animal se visse em perigo estava certo de que se defenderia heroicamente com as patas trazeiras.

     Só então aproximei-me do curral e acendi um fósforo, dos que havia comprado em Edreneh. Iluminei o quadrado por sobre os moirões.

     Dentro estava estendido um animal gigantesco, comprido e cabeludo como um urso. O fósforo apagou-se, reinando novamente escuridão completa. Que animal seria esse? Estava vivo ou morto? Empunhei a carabina e toquei o bicho. Não se mexeu. Bati com mais força e, ainda assim, não se moveu. Aquilo não era sono, era morte.

     Como a coisa me parecesse, de fato, suspeita, entrei no curral, passando sobre os moirões de quatro pés de altura, mais ou menos. Inclinei-me e examinei o animal. Estava frio e rijo: morto. Em muitas partes, o pêlo era pegajoso. Seria sangue?

     Apalpei o corpo. Não era urso, porque tinha rabo comprido e peludo. É verdade que se diz existirem alguns ursos isolados e raros nas montanhas do Despodo-Dagh, do Char-Dagh, Kara-Dagh e Perin-Dagh. Não quero contestar essas afirmativas. Mas como poderia um desses animais surgir justamente nesta região, para morrer naquele curral? Tivesse sido morto nas imediações, certamente não teria sido jogado dentro daquele quadrado, sem primeiro tirar-lhe o couro — para não falar na carne, que é boa.

     Para saber que espécie de animal era aquele, tateei em procura das orelhas. Caramba! A cabeça do animal estava espatifada de tal modo, que só o podia ter sido com um instrumento de grande peso.

     Acendi mais um fósforo e verifiquei que se tratava de um cachorro, e de fato gigantesco, tão grande como jamais tinha visto.

     Quem o matara e por quê? O dono, naturalmente, não foi e um estranho, decerto, não o fez senão por maldade. Comecei a suspeitar de um crime. Na verdade, eu considerava se isso me podia interessar e por que devia arrostar um perigo desconhecido. Entretanto, havia motivos para supor que a ferraria pertencesse ao irmão do jardineiro das rosas e daí me advinha como que a obrigação de investigar o caso.

     O sentimento do perigo decorria de uma razão inteiramente justificada. Os malfeitores podiam encontrar-se, ainda, dentro da casa. Talvez estivessem quietos, por terem ouvido o tropel do cavalo, sabendo, portanto, da minha chegada.

     Como, porém, ir ao encontro deles? Devia esperar pelos meus companheiros? Que aconteceria até então no interior da casa? Não. Era preciso agir.

     Não tinha examinado ainda a outra face da casa, onde ficava o espião do telhado.

     Rastejei até lá e encontrei uma janela, com um dos batentes fechados por dentro. O outro, porém, abria-se.

     Refleti.

     Se entrasse, podia ser alvejado instantaneamente. A circunstância, porém, de se achar aberto o referido batente, enquanto as outras janelas estavam fechadas, fêz-me supor que não devia haver ninguém no interior. Para retardar a constatação do crime, os seus autores, decerto, teriam fechado todas as janelas e aberturas, principalmente na parte fronteira, saindo pelos fundos, sem que aí pudessem fechar a janela, pela qual saltaram.

     Contudo, a minha situação era melindrosa.

     Abri tanto a janela que me foi possível introduzir o braço. São muito raras as janelas nesta região e por isso o que encontrei era uma abertura somente parecida com janela. Não tinha vidraças ou outro qualquer característico.

     Espreitei atentamente. Parecia-me ouvir, no interior, um ruído surdo, abafado. Haveria alguém dentro de casa? Devia chamar? Não!

     Fui novamente ao outro lado da casa e de lá trouxe uma braçada de galhos. Fiz um monte e incendiei. Depois joguei o fardo em chamas para dentro da casa. Conservando-me cautelosamente de lado, perscrutei o interior.

     A casa era baixa e a janela ficava a pouca altura do solo. O fogo produzido pelos cavacos e galhos era vivo. Pude distinguir um pavimento quadrado, com chão batido, havendo ali dentro os objetos que existem comumente nas habitações pobres dos romenos. Não havia o mínimo sinal de ente humano.

     Joguei mais gravetos sobre o fogo e, tomando o meu fêz, coloquei-o no cano da carabina, introduzindo esta pela abertura da janela. De dentro, deveria ter-se a impressão de que eu ia entrar.

     Quis induzir aqueles, que porventura se encontrassem dentro da casa, a tomarem uma atitude defensiva. Mas ninguém se moveu.

     Retirei a carabina, encostando-a à parede — pois ela se me tornava um estorvo — e de um salto galguei a janela. Estava pronto para retroceder no mesmo instante. Mas, ao primeiro olhar, convenci-me de que, dentro daquele compartimento, não havia ninguém.

     Entrei, então, e depois tomei das minhas armas, olhando em derredor. Nesse momento, ouvi distintamente outra vez o ruído a que há pouco me referi. Isso era tanto mais inquietador, agora, que o fogo começava a apagar-se, sem contudo deixar de espalhar um calor sufocante. Alegrei-me por isso ao encontrar um monte de aparas de madeira, material de iluminação certamente aproveitável.

     Peguei uma dessas fitas de madeira e prendi-lhe fogo, colocando-a num buraco da parede, certamente destinado a esse mesmo fim, como me foi possível verificar pelas suas bordas enfumaçadas. Depois puxei o batente da janela, amarrando-o por dentro com um cordel que nele havia, a fim de estar garantido contra o que pudesse vir de fora. Com uma segunda apara de madeira comecei a examinar o aposento. Três das paredes eram de barro socado, enquanto a quarta era um trançado de palha, que continha uma abertura para pasagem. Aproximando-me desta última, passei pela abertura, achando-me, então, num compartimento menor, cujo chão era formado em parte por um alçapão entrançado de vime. Haveria aí um porão? Seria uma coisa singular numa casa semelhante.

     Ouvi novamente o barulho anterior. Amordaçado e surdo, parecia proceder do interior do alçapão.

     Trouxe mais fitas de madeira e depois levantei o alçapão. O trançado de vime podia suportar o peso de um homem, porque fora feito sobre caibros grossos. Iluminei o porão. A claridade era tão pouca que só consegui observar que o porão era de profundidade tal que um homem podia permanecer de pé, ali dentro. Não havia escada. Mas logo que o clarão do fogo inundou o porão, fêz-se ouvir um gemido.

     — Kuen achaghda — Quem está lá? — perguntei alto.

     Um gemido mais forte foi a resposta. Isso prenunciava perigo. Quisesse eu procurar uma escada, perderia um tempo enorme. Segurei, portanto, a apara que queimava numa mão, as restantes na outra e saltei para dentro do porão.

     Caí sobre um objeto qualquer. A luz apagou-se. Num segundo, porém, tinha acendido outra vez a luz.

     Encontrava-me num poço semelhante a um porão e reconheci o objeto sobre o qual cairá. Era uma escada. Havia no chão carvão e cavacos de macieira. Tanto o carvão como os cavacos moviam-se. Encontrei um buraco destinado às aparas de madeira, que serviam de material iluminante, e comecei a afastar o carvão. Não tardou encontrar um corpo humano, Era um homem, amarrado de pés e mãos. A cabeça envolvida num pano.

     Rapidamente, desamarrei o pano e apareceu uma cara azulada, quase negra — coloração que, dada à deficiência de luz, eu não sabia se atribuir ao carvão ou a morte próxima. O homem tomou fôlego com sofreguidão, cravou-me um olhar espantado, arregalando os olhos vermelhos, e depois gemeu:

     — Ai, socorro! Tende piedade, piedade!

     — Cala-te. Sou teu amigo — respondi. — Venho salvar-te.

     — Salva, primeiro, a minha mulher.

     O bom homem pensava mais na mulher do que em si mesmo.

     — Onde está ela?

     — Lá.

     Não podia fazer movimentos, porque as mãos estavam amarradas. Mas o olhar angustiado estava cravado num segundo monte de carvão, sobrecarregado de cavacos e gravetos.

     Afastei todo o cisco e tirei dali a mulher, igualmente amordaçada. Ao tirar o pano, que estava amarrado à cabeça, a boca da infeliz espumava, listava sufocada.

     — Socorro, socorro! — pôde ela, entretanto, articular num estertor. O corpo tremia nervosamente. Cortei as cordas. Ela sacudiu os braços, como se estivesse a afogar-se; batia com os pés e aspirava desesperadamente.

     Esses movimentos eram necessários para a respiração. Finalmente, escapou-se-lhe um gemido rouco, aspirou fundamente, enchendo de ar os pulmões ressequidos.

     Cortei, então, as cordas que amarravam o marido. Não tinha sofrido tanto como a mulher. Por isso, levantou-se imediatamente. Enquanto eu acendia mais uma apara de madeira, o homem exclamou:

     — O' Deus! Andamos, perto da morte! Eu te agradeço. Eu te agradeço.

     Curvou-se, então, sobre a mulher, que soluçava a dar pena.

     — Fica quieta. Não chores — pediu. — Estamos salvos.

     Tomou-a nos braços e a beijou, enxugando as lágrimas. Ela abraçou-o e continuou soluçando. Sem me dar atenção, o homem consolou a esposa, até que os soluços foram diminuindo, diminuindo cada vez mais, e, finalmente, cessaram de todo. Levantou-se, então, e veio ter comigo, próximo da luz, que eu ia mantendo por meio de novas aparas de madeira, acendidas umas após outras.

     — Senhor, — disse — tu és o nosso libertador. Como poderemos agradecer-te? Quem és e como conseguiste encontrar-nos?

     — São muitas perguntas — respondi — que responderei depois. A tua mulher já pode andar?

     — Com certeza, poderá.

     — Vamos, então, para cima. Não posso ficar aqui muito tempo.

     — Tens companheiros?

     — Não. Mas espero um cavaleiro, que não devo deixar passar.

     — Vamos subir, nesse caso. Poderemos conversar depois. Encostei a escada na borda do porão e subimos. Contudo, a mulher precisava fazer um grande esforço. Eu observara que, no compartimento maior, havia uma cama. Aconselhei-a, portanto, a deitar-se e descansar.

     Ela estava tão abatida, que se deitou, sem me responder.

     O marido disse-lhe algumas palavras de encorajamento e depois estendeu-me a mão:

     — Sê bem-vindo — disse. — Fôste enviado por Alá. Posso saber quem tu és?

     — Não tenho tempo para muitas palavras. Dize-me, porém, como te chamas?

     — Chamo-me Chimin.

     — Então és irmão de Jafiz, o jardineiro?

     — Sou.

     — Muito bem. Eu te procurava. Faze fogo depressa, na ferraria.

     Olhou-me surpreendido e perguntou-me:

     — Tens algum serviço urgente para mim?

     — Não. Mas é preciso que o fogo ilumine a estrada.

     — Por quê?

     — Para que o cavaleiro de quem te falei não possa passar sem que o vejamos.

     — Quem é ele?

     — Depois, depois. Apressa-te.

     Do aposento, onde se encontrava o alçapão, saía-se para fora. A porta estava fechada somente com um trinco. Abrimo-la e saímos.

     Chimin tirou uma chave do bolso e abriu o cadeado que estava à porta da ferraria. Em pouco tempo, havia um fogo tão vivo, que iluminava um grande trecho da estrada. Era o que eu queria.

     Enquanto o ferreiro acendia o fogo, fui aos fundos da casa, procurar o cavalo. Este estava no mesmo lugar e por isso voltei tranqüilizado.

     — Aí está o fogo — disse Chimin. — Que mais ordenas?

     — Saiamos da claridade e sentemo-nos aqui ao lado da porta, no escuro.

     Ao fazer o reconhecimento da casa, tinha observado um cepo, que, por certo, servia de banco. Encaminhamo-nos para esse banco. Sentamo-nos e depois falei:

     — Tratemos, antes de tudo, do principal. Deverá passar — talvez muito em breve — um cavaleiro, com quem preciso falar, sem que ele suspeite, antecipadamente, da minha presença. Estou certo de que chegará aqui, a fim de interrogar-te. Quero que consigas fazê-lo apear e entrar na casa.

     — És o meu salvador. Farei o que mandares, sem mesmo saber por que. Sabes, por acaso, quais as perguntas que ele fará?

     — Sim. Perguntará se não passaram por aqui três cavaleiros.

     — Três cavaleiros? — perguntou surpreso o ferreiro — Quando?

     — Provavelmente hoje pela manhã.

     — Quem são?

     — Perguntará por pessoas que montam dois tordilhos e um zaino. Mas, como eles trocaram  um dos cavalos, os três animais são tordilhos.

     — Três  tordilhos?

     — Sim.

     — Hacha — Por Deus! Tu te referes, por acaso, ao Manach el Barcha de Uskub?

     Com essas palavras, ele saltou do banco, agitado. Também eu levantei-me, vivamente tocado pela curiosidade, depois das últimas palavras que ele proferira.

     — Tu o conheces?

     — Tchokden, tchokden! — Há muito, muito tempo! E ainda hoje ele esteve aqui.

     — Ah! Esteve aqui?

     — Sim. Foi ele e os companheiros que me agrediram, amarraram e jogaram naquele porão, de onde me salvaste, juntamente com a minha mulher. Teríamos morrido ali, se não chegasses a tempo.

     — Com que então foram eles! Eles mesmo? Bem, nesse caso, vou dizer-te que aquele a quem eu procuro é aliado deles.

     — Mato-o! Estrangulo! — murmurou entre os dentes.

     — Quero prendê-lo.

     — Senhor, efêndi... como devo chamar-te? Não me disseste ainda quem és?

     — Chama-me efêndi.

     — Pois bem, efêndi. Auxiliar-te-ei, se quiseres dominá-lo ou prendê-lo.

     — Bem. Todavia, não sei se ainda o veremos passar. É possível que já tenha passado. Com certeza não pudeste observar... — Ah! desde quando estiveram no porão?

     — Desde pouco antes do meio dia.

     — Então não poderias ter visto, mesmo que ele tivesse passado e...

     — Queres que me informe a respeito? — interrompeu-me bruscamente.

     — Onde? Com quem?

     — Corro à aldeia e falo com o velho Jemichdji, que está sentado, sempre, até o pôr do sol, na frente da casa, fazendo balaios e cestos.

     — Quanto tempo precisas para isso?

     — Dez minutos apenas. A aldeia é ali pertinho.

     — Então, apressa-te. Peço-te, porém, que silencies sobre o que te aconteceu hoje.

     — Se o desejas, não falarei a respeito.

     — Pois vai.

     Em poucas palavras, descrevi o cavaleiro tal como me fora descrito antes. O ferreiro saiu depressa. Antes dos dez minutos, estava de volta.

     — Não passou ainda — informou Chimin.

     Entrou na ferraria, a fim de alimentar o fogo e, depois, sentou-se, novamente, ao meu lado.

     — Dize-me, agora, o que te aconteceu hoje? — exigi.

     — É triste, muito triste — começou o ferreiro. — Estava trabalhando na ferraria, quando pararam três cavaleiros e se dirigiram a mim. Um dos que eu não conhecia, disse-me que o cavalo tinha perdido uma nal (33). Saibas que não sou somente demirdj (34), mas também nalband (35). Efêndi, afirmo-te que me prontifiquei logo a fazer uma nova nal. Tinha observado somente esse homem. Enquanto trabalhava, porém, olhei para os outros ___________________

     (33) Ferradura.

     (34) Ferreiro.

     (35) Ferrador.

 

e reconheci, num deles, o cobrador de impostos Manach el Barscha, de Uskub.

     — Ele também te conhecia?

     — Conhecia.

     — Onde se conheceram?

     — Há quatro anos, em Raslug. É preciso que saibas que conheço toda e qualquer doença dos animais, bem como todos os medicamentos necessários. Em Raslug, grassava uma peste, que exterminava as cavalhadas, e, como ninguém pudesse encontrar remédio, mandaram chamar-me. Hospedei-me na casa de um rico mercador de cavalos, o qual possuía para mais de cem animais. Nessa casa, esteve Manach el Barcha, procurando comprar um cavalo. Mostraram-lhe diversos animais, um dos quais apanhara um resfriado, apresentando forte e abundante esputação. O arrecadador de impostos disse que aquilo não era constipação e sim a peste do môrmo e que, por isso, iria dar parte à polícia sanitária. Era evidente que ele queria extorquir um cavalo, em paga do silêncio. Fui chamado e disse o meu diagnóstico. Brigamos e ele chegou a me bater com o chicote. Esmurrei-o e dei-lhe taponas como nunca levara, porque a mão de um ferreiro é como um casco, dura como osso. Manach ficou furioso, retirando-se para dar queixa contra mim. Ele era arrecadador de impostos; eu um simples e pobre ferreiro. Fui condenado a vinte chibatadas na sola dos pés, além de cinqüenta piastras de multa. Antes de poder voltar para casa, tive de guardar o leito, durante muitas semanas, até ficar restabelecido. Hás de acreditar que eu não posso estimá-lo.

     — Sim, isso é de se acreditar.

     — Hoje, ferrei o cavalo silenciosamente. Manach observava com olhar sinistro. Depois perguntou-me se ainda o conhecia. Disse que sim, porque não pensei que isso me pudesse sair tão caro. Conversaram, então, em voz baixa, entre si, entrando, em seguida, na minha casa. Encontrava-me sozinho, porque a minha mulher tinha saído para a horta, a fim de trazer espinafre para o almoço. Que procurariam eles na minha casa? Fechei a ferraria, não obstante estar ainda aceso o fogo no foles, e os segui. Mal tinha pisado sobre a soleira da porta, fui agarrado violentamente. A luta foi tremenda, efêndi. Um ferreiro tem músculos de ferro e nervos fortes. Contudo, conseguiram me derrubar e me ataram solidamente com as cordas, que havia dentro de casa. Berrei de raiva, como um touro. Amarraram-me, depois, um pano na cabeça, e me jogaram no porão. Quando eu era atirado pelo alçapão, chegou a minha mulher. Aconteceu-lhe o mesmo que a mim. Fomos cobertos com carvão, para que naturalmente, de fora nada se pudesse ouvir. Nem tive tempo de pensar no Ajy, senão o teria soltado antes de entrar na casa, seguindo-os.

     — Quem é Ajy?

     — O meu cachorro. É esse o nome dele, porque é tão grande como urso. Ouvi-o latir, enquanto lutava. Mas o cão estava amarrado. Estivesse ele comigo, os três ficariam despedaçados.

     — Não procuraste ainda o cachorro?

     — Não. Sabes que não fui ainda aos fundos da casa.

     — Lastimo ter de te dar uma notícia desagradável.

     — Desagradável? Aconteceu alguma coisa ao cão?

     — Aconteceu.

     — Que? Dize-o, depressa.

     — Está morto.

     O ferreiro ergueu-se de um salto.

     — Morto?

     — Realmente.

     — Entretanto, estava bom e disposto. Aqueles três tê-lo-iam maltratado?

     — Despedaçaram-lhe a cabeça.

     Chimin ficou estarrecido, dizendo, finalmente, num murmúrio sibilante:

     — É verdade?

     — Sim, infelizmente.

     — Mil mortes a esses cães excomungados!

     Com essas exclamações, afastou-se desvairado, entrando na ferraria. Trouxe um archote e correu para os fundos da casa, para certificar-se do que eu afirmara. De onde me encontrava podia ouvir as exclamações de raiva que proferia. As suas esperadas imprecações não eram do meu agrado e preferi evitar de ouvi-las. Fiquei onde estava. Chimin se achava tão furioso, que ainda na volta ouvi umas expressões violentas, daquelas que as línguas orientais possuem em superabundância.

     Enquanto o ferreiro esgotava as interjeições conhecidas e desconhecidas, eu só tinha olhos e ouvidos para a direção de onde esperava o cavaleiro desconhecido. Nada se via, contudo, nem ouvia. Ou eu ficara muito adiante dele, pelo atalho, ou ele se retardara por qualquer circunstância.

     A pouco e pouco, Chimin foi-se acalmando. Agora, queria saber algo também a meu respeito.

     — Terás tempo, efêndi, de me dizer o teu nome?

     — Chamam-me Kara Ben (36) Nemsi.

     — Então és nemtche germanly?

     — Sou.

     — Talvez austrialy ou frussialy?

     — Não.

     — Ou bawarialy?

     — Também não. Sou saxaly.

     — Nunca vi um saxaly. Mas, ontem, esteve aqui um homem de Trieste, na Áustria, com o qual conversei muito.

     — Austríaco? Isso me causa surpresa. Quem era?

     — Um negociante. Procura fumo, sedas e outros artigos. Quebrara-lhe uma espora, que consertei.

     — Falava turco?

     — Somente o bastante para que me pudesse dizer o que queria.

     — Disseste, entretanto, que conversaste muito.

     — Entendemo-nos por mímicas.

     ________________

      (36) Palavra árabe, que significa filho, habitante. Entra na composição dos nomes das tribos da África setentrional. Plural: Beni. (N. do T.)

 

     — Disse-te como se chamava?

     — Chamava-se Madi Arnaud. Era um grande cantor, porque cantou uma porção de canções e modinhas, que encheram de alegria o coração e a alma da minha mulher.

     — De onde vinha?

     — De Tchirmen, onde fêz grandes compras.

     — Para onde vai?

     — À grande feira anual de Menlik. Lá existem famosos armeiros, e ele lhes quer comprar.

     — É possível, assim, que eu o encontre no caminho.

     — Também vais a Menlik, efêndi?

     — Sim.

     — Também és negociante?

     — Não. Vou a Menlik, porque suponho encontrar lá os três patifes que persigo.

     — Que farás, se os encontrares?

     — Prendê-los-ei para entregar à polícia. Assim serão castigados.

     — Graças a Alá! Eu ia dar queixa, amanhã, cedo.

     — Podes dar. Mas, antes de conseguires qualquer resultado, os três bandidos estarão nas minhas mãos. Nas barras dos tribunais, darei meu testemunho também sobre o crime de hoje.

     — Fazes muito bem, efêndi. Eles não devem fugir ao castigo merecido. Quem eram os dois companheiros do arrecadador de impostos?

     — Isso é uma história longa, que te vou narrar em poucas palavras.

     Dei-lhe ciência de todos os acontecimentos, tanto quanto podia interessá-lo. Ouviu-me com atenção e depois disse:

     — Soubesse eu disso! Tê-los-ia atraído para o porão, e deixaria o cachorro de sentinela até que chegasses.

     — Porventura, trocaram eles algumas palavras, pelas quais pudesses deduzir qual o caminho que seguiram?

     — Nenhuma palavra. Somente ouvi dizer, por aquele que chamas de Darud el Amasat, que era preciso reduzir-me ao silêncio, para não denunciá-los, caso fossem perseguidos.

     — Pensei nisso. Manach el Barcha agrediu-te não só por espírito de vingança, como também por precaução. Não tencionaram matar-te, mas sim dar sumiço de ti, porque reconheceste o arrecadador de impostos.

     — Contudo, íamos sufocando.

     — Isso não aconteceu, graças a Deus. O cavaleiro, que espero aqui, foi mandado em busca deles, a fim de informá-los de que estou em liberdade e que estão sendo perseguidos. Ficariam assim prevenidos e isso quero evitar.

     — Ajudar-te-ei, efêndi. Que faremos com esse cavaleiro?

     — Metê-lo-emos no teu porão e o entregaremos, depois, à polícia.

     — Como o meterás no porão?

     — Nós somos dois, e Ele um só.

     — Não penses que o temo. Queria só saber se devíamos empregar astúcia ou violência.

     — Creio que não poderemos dispensar a violência.

     — Isso me alegra. Não dispensarei carinhos. Mas, efêndi... ocorre-me, neste instante, que me perguntaste se eu era o irmão de Jafiz.

     — É verdade.

     — Conheces meu irmão?

     — Passei, hoje, pelo seu jardim, falei-lhe e troquei uma garrafinha de Guel jaghy por djebeli.

     — Allah ia Allah! Com que, então, meu irmão possui o melhor de todos os fumos?

     — Oh! Não é muito.

     — Fôste tu quem lhe deste?

     — Fui.

     — Tinhas desse fumo?

     — Naturalmente, pois se lhe dei.

     Calou-se um pouco. Eu sabia qual era a pergunta que bailava nos icus lábios. Finalmente, deixou-a explodir:

     — Acabou-se?

     — Ainda não.

     E para facilitar-lhe, prosseguiu:

     — Fumas?

     — Oh! sim. Gosto muito!

     — Djebeli?

     — Nunca cheirei esse fumo, quanto menos fumá-lo!

     — Então, vai buscar o teu cachimbo.

     Ainda não tinha acabado de fazer esse convite e já ele desaparecera, para voltar, com a rapidez do relâmpago, trazendo o cachimbo.

     — Como vai tua mulher? — perguntei-lhe.

     Falando com esses operários rústicos, pode-se fazer exceção, perguntando pela mulher, o que em geral é rigorosamente vedado em todo o Oriente. Com efeito, nos campos, por vezes, encontram-se mulheres que nem sequer usam véu.

     — Não sei — contestou. — Decerto, está dormindo.

     O fumo apossara-se, pelo visto, de todos os seus sentidos, apagando-lhe a lembrança da mulher, que ele demonstrara amar, pouco antes.

     — Dá-me o teu cachimbo. Quero preparar-te uma pitada.

     Nas primeiras tragadas, tomadas com indizível prazer, Chimin comentou arrebatado:

     — Efêndi, esse é o perfume do paraíso! Nem o próprio Profeta, decerto, tragou tão bom fumo!

     — Não. Ao tempo dele, realmente, não havia djebeli.

     — E se houvesse, ele teria levado as sementes para o Além, para plantá-las nos campos do sétimo céu. Que farei, se o cavaleiro chegar? Continuarei fumando ou devo me levantar?

     — Creio que te levantarás...

     — Devo renunciar ao prazer infinito desta pitada?

     — Poderás acender o cachimbo novamente e também te darei mais um pouco de fumo.

     — Efêndi, tua alma é cheia de bondade, como cheio está o mar de gotas d'água. Confiou-te o meu irmão algum recado?

     — Com efeito, é para eu dizer-te que ele vai bem e deseja que o mesmo aconteça contigo. E devo saudar-te, por parte daquele que é o teu õje-kardach e jary-kardach.

     Chimin aguçou os ouvidos e disse:

     — Que ouço? Foram essas as suas palavras?

     — Foram.

     — Falaste, então, sobre coisas muitos importantes?

     — Falamos a respeito dos skipetars e daqueles que foram para as montanhas.

     — E nessa ocasião meu irmão prometeu-te alguma coisa?

     — Sim. Prometeu-me uma coisa que, segundo pensa, poderás fazer.

     — Quanto tempo falaste com ele?

     — A quarta parte de uma hora.

     — Isso foi um milagre, efêndi. Jafiz é um andrófobo. Não fala e, quando é levado a tanto, fala pouco. É retraído e arisco. Conquistaste-lhe a amizade e a confiança, com muita rapidez.

     — Eu lhe disse que talvez tivesse de viajar até as montanhas do Char-Dagh.

     — Falou-te, então, do perigo que enfrentarás?

     — Preveniu-me e aconselhou-me prudência.

     — E na certa falou do salvo-conduto?

     — Sim. Falou disso.

     — E disse que eu poderia conseguir um desses kiaghad eminliquen?

     — É verdade.

     — Enganou-se.

     — Realmente?

     — De fato.

     — Não te é possível obter-me desses documentos protetores?

     — Não.

     — Mas ele assegurou que o conseguirias.

     — Pensava decerto que o costume fosse o mesmo dos tempos passados.

     — Não estás mais informado a respeito?

     — Eis uma pergunta que só respondo a um amigo dedicado e fiel. Entretanto, nos salvaste e conquistaste a amizade do meu irmão e tens a essência que ele te deu. Por isso, vou te dizer a verdade. Com efeito, eu sabia e ainda sei tudo.

     — Sabes, portanto, se ainda existem salvo-condutos?

     — Não existem mais. Nenhum skipetar ou foragido expede esses documentos.

     — Por que motivo?

     — Porque não preenchem mais a finalidade. Não oferecem mais a garantia e a segurança que deviam representar.

     — Então, não são respeitados?

     — Não é isso. Nenhum transviado desrespeitará um salvo-conduto expedido por outro transviado. Mas quem é que vê o papel? Quem leva letreiro na testa?

     — Pode-se mostrar o documento, não é?

     — Em muitos casos, é possível. Mas noutros, não. Viajas pelo mato; dois ou três foragidos te vêem; estás melhor armado do que eles; deliberam, portanto, não se entregar a um combate frente a frente; assaltam-te de emboscada; escoram-te e atiram por “detrás do pau”; não sabem que levas um salvo-conduto; este está no teu bolso; confias na proteção que ele te dará e mesmo assim serás atingido pelas balas homicidas daqueles que dariam a vida por ti, se soubessem que és um seu protegido.

     — Isso é fácil de compreender. Mas os transviados não podem deixar de ter amigos, e, quando os tiverem, é necessário que os protejam. Suponho, por isso, que o kiaghad eminlikuen foi substituído por outro documento de melhor efeito.

     — Tua suposição é acertada. Reconheces que não te posso conseguir um salvo-conduto?

     — Claro que não me podes dar o que não existe. Podes, talvez, me dizer qual a senha que se usa atualmente?

     — Vou arriscar. Sabes guardar segredo?

     — Tanto, como qualquer outro.

     — Sabes, então, que todos os protetores e protegidos se identificam pela koptcha. (37)

     Ocorreu-me uma idéia.

     — A koptcha é de prata? — inquiri.

     — É, sim.

     — Tem a forma de um anel, no qual se vê o desenho de czakan. (38)

     — Sim. Mas de onde sabes isso?

     — Não sei, apenas suponho, porque já vi o tal koptcha, usado por pessoas que sei ou suspeito serem transviados ou, pelo menos, aliados deles.

     — Posso saber o nome dessas pessoas?

     — Podes. Manach el Barcha tem um koptcha no fêz. Alguns homens que assistiram ao julgamento de Barud el Amasat, em Edreneh, também o levaram. E finalmente, hoje, quando atravessei a cidade a cavalo juntamente com o ex-dervixe, (39) encontrei um homem que me olhou de um modo singular, informando, depois, ao que suponho, os aliados dos foragidos, para que tivessem origem aqueles dois tiros disparados contra mim e Ali Manach Ben Barud el Amasat. Também esse homem usava um koptcha.

     — Também observei hoje que o antigo arrecadador de impostos de Uskub levava desses distintivos.

     — Talvez não tivessem maltratado tanto a ti, se te ocorresse dizer-lhes que possuis uma presilha daquelas.

     ________________

      (37) Fivela, presilha.

      (38) “Czakan” — machado, com cabo de madeira, revestido de couro de peixe. Era usado pelos heiduques, que o levavam à cintura, do lado direito. Podia-se arrojá-los e também golpear. A mira era sempre feita contra a cabeça.

      (39) Dervixe — Monge muçulmano. Diz-se também derviz ou daruês. Do persa darvish — pobre. (N. do T.).

    

     — É possível. Desgraçadamente, não me lembrei disso.

     — Com certeza, nem todos podem receber uma igual?

     — Não.

     — Quais são as exigências para merecê-la?

     — Aquele que a desejar terá de ser um homem, de quem eles possam esperar favores. E ainda assim, essa pessoa terá de provar que não condenará aqueles que foram para as montanhas.

     — Não te parece que todos têm de condená-los? Eles se colocaram fora da sociedade, que a lei ampara e defende.

     — Tens razão. Mas é preciso que compares a lei com a sociedade. A lei é boa e de fato quer o bem de todos os que estão debaixo dela; mas a sociedade, de que falas, não presta. Alá nos deu boas leis e sanções piedosas, mas os seus representantes as aplicam mal. Já não ouviste a queixa de que o islamismo impede que os seus adeptos façam progressos culturais?

     — Muitas vezes.

     — Essa censura não é feita, na maioria dos casos, pelos adeptos de outras crenças?

     — Realmente, assim é.

     — Pois eles não conhecem o islã, o verdadeiro turco. O islã não tolhe o progresso e o desenvolvimento da cultura. Mas o poder que dá, de uns sobre os outros, está em mãos injustas, infiéis. Também o turco é bom. Era e é probo, sincero, honrado, fiel, amigo da verdade e leal. E fosse ele diferente, quem lhe teria modificado os sentimentos?

     Fiquei surpreendido ao ouvir desse homem simples, desse ferreiro de aldeia, palavras assim. De onde colhera essas impressões ou como teria chegado a tais apreciações? Seriam estas fruto da sua meditação ou teria ele estado em contacto com homens que o tivessem elevado até o seu nível?

     Preferi não responder e, assim, ele continuou:

     — O turco conquistou esta terra. É isso motivo para expulsá-lo-daqui? Responde-me, efêndi?

     — Continua.

     — O inglês, o alemão, o russo, o francês, não conquistaram todos as suas terras? Há pouco tempo, a Prússia não era tão pequena como um areeiro e agora se tornou tão grande, que abriga milhões de pessoas? Como se tornou tão grande? Pela pólvora, pela baioneta, pela espada, bem como pela pena dos diplomatas. Todos eles não possuíam antigamente as terras que hoje dominam. Que diria o amerikaly se, hoje, o turco fosse ter com ele e lhe dissesse: — Tens de sair daqui, porque esta terra pertence aos peles-vermelhas. Ele se riria do turco. Por que é, então, que este terá de ser expulso?

     — O nemtche não o quer expulsar.

     — Sim, ouvi dizer isso. Mas o nemtche é o único justiceiro. Havia, na nossa terra um povo pertencente ao catolicismo de Moscou. Era um grande povo no saber, mas maior ainda no pecar. Veio o turco e o castigou, como Josué castigou os povos da terra de Canaan. Era essa a vontade de Deus. Com o turco, vieram os vencidos: ele era e continuou sendo, em número, o mais fraco nesta terra. Vencera por bravura e, agora era vencido, a pouco e pouco, pela esperteza e pela perfídia. Olha em torno de ti! Conta os crimes, que se cometem; reúne os traidores, embusteiros e todos os que vivem fora da lei, mas que são muito astutos para se deixarem pilhar; entra nas casas sinistras, onde cheira a maldição, — que são e de onde vêm os que ali contarás? Quantos turcos de verdade encontrarás entre eles? Não é toda a Ásia um vasto campo de roubos e saques, praticados pelos inguiliz e pelos moskow? Não encontras, continuamente, a derrubada tremenda, a opressão, o aniquilamento e a chacina de todas as raças que caem entre esses dois gigantes? Isso fazem os cristãos. O turco, porém, é feliz se o deixam em paz.

     Chimin estava tão empolgado pelo assunto, que até deixara apagar-se o cachimbo. Acendi um fósforo e lhe estendi.

     — Fuma — disse eu.

     Acendeu o cachimbo e depois comentou:

     — Vês que chego a me esquecer do djebeli. Tenho razão ou não?

     — Poderia contraditar muitas coisas.

     — Faze-o.

     — Não temos tempo para isso.

     — Assim são os cristãos. Condenam-nos e não nos querem ensinar. Do mesmo modo apoderam-se das coisas, sem perguntar. Quem possui os melhores pedaços da terra? Quem possui a influência? Quem é que enriquece, sempre e sempre mais? O armênio, o judeu, o grego esperto, o inglês sem coração e o russo arrogante! Quem é que devora as nossas carnes? Quem é que suga o alento e o suco das nossas vidas, quem rói os nossos ossos? Quem é que incentiva e aguilhoa, sempre e sempre, o desânimo, o desgosto, a desconfiança, a insatisfação e a insubordinação dos súditos? Quem é que atiça, sem tréguas, uns contra os outros? Quem foi que nos contaminou? Quem foi que nos fêz enfermos?

     — Chimin, tens razão em muitas coisas. Mas é o mesmo que colocar tranca de ferro, depois da porta arrombada. Onde colheste essas apreciações?

     — Colhi com os próprios olhos e com os próprios ouvidos. Fiz como se faz nas vossas terras, onde os aprendizes de ofícios saem para correr o mundo e aprender aquilo que, em casa, não puderam, com os mestres. Trabalhei em Viena, Budapest e Belgrado. Nessas cidades eu vi e ouvi o suficiente para aprender e pensar. Podes contestar-me?

     — Sim, posso. Confundes religião com política. Procuras as causas da enfermidade fora da organização do Estado, dentro da qual, efetivamente, se encontra, desde o começo, o germe gerador da doença.

     — Podes provar isso?

     — Posso.

     — Pois então, faze-o.

     Nisso, ouviu-se, ao longe, o tropel de um cavalo.

     — Ouves? — perguntou-me Chimin.

     — Ouço.

     — Decerto é ele.

     — Muito possível.

     — É pena. Queria ouvir-te falar.

     — Provarei o que pedes, quando tivermos liquidado o assunto do homem que aí vem.

     — Que faremos agora?

     — Antes de tudo, é necessário que ele não me veja, porque suponho que me conheça. Deves procurar atraí-lo para dentro de casa.

     — Isso será fácil, desde que não passe sem chegar.

     — Em nenhuma hipótese isso poderá acontecer. Já está muito escuro. Irei ao meio da estrada. Se quiser passar, segurarei o cavalo. Se apear, entrarei imediatamente depois em casa.

     — E se não fôr o homem que esperamos?

     — Nesse caso, nada lhe faremos.

     O ruído dos cascos do cavalo estava cada vez mais próximo. Ouvia-se perfeitamente que se tratava de um só animal. Passei rapidamente para o meio da estrada, onde me abaixei.

     Chegava o cavaleiro. Parou justamente na réstea de luz que vinha da ferraria. Não podia, contudo, ver-lhe muito bem a cara.

     — Bak sawul! — Alô, atenção! — bradou o recém-chegado.

     E como ninguém aparecesse imediatamente, repetiu o chamado. Agora, surgiu o ferreiro na porta, perguntando:

     — Quem é?

     — Sou desconhecido. Quem é que mora aqui?

     — Eu — respondeu Chimin, sem muito espírito.

     — Quem és?

     — Sou o dono desta casa.

     — Posso supor isso, imbecil. Quero saber teu nome.

     — Chamo-me Chimin.

     — Que és?

     — Ferreiro. Não tens olhos para reconhecer isso pelo fogo, cujas labaredas te iluminam?

     — Não vejo nada, a não ser que és imbecil e grosseiro. Aproxima-te. Quero te fazer uma pergunta.

     — Sou, quem sabe, teu escravo ou teu criado, para que tenha de ir no teu encontro? Quem quiser falar comigo, que me procure.

     — Estou a cavalo.

     — Apeia, portanto, e entra.

     — Não é preciso.

     — Estou resfriado e tenho tosse. Pensas que por tua causa apanharei frio para ficar doente e não poder trabalhar? — disse Chimin e entrou porta a dentro. O recém-chegado soltou algumas exclamações pouco delicadas, mas se aproximou, esporeando o cavalo.

     Até aí eu não sabia se era a pessoa que esperava. No momento, porém, em que ele se aproximava da ferraria, para apear, pude verificar que o cavalo era zebruno. O homem usava um fêz escarlate, uma capa cinzenta e tinha um bigodinho claro. Quando apeou, vi os sapatos turcos vermelhos. Era ele, portanto.

     Apeado, amarrou o cavalo à porta da ferraria e desapareceu pela porta da casa.

     Rastejei, seguindo-o. O ferreiro se tinha dirigido ao compartimento maior da casa, onde a mulher estava deitada. Como o desconhecido o tivesse seguido para ali, pude ocultar-me por trás da parede divisória de vime, ouvindo tudo quanto se falava. O desconhecido estava de costas para mim, o ferreiro diante dele, com o archote na mão. A mulher parecia ter-se restabelecido um pouco: estava de olhos abertos, apoiando a cabeça na mão e ouvia a palestra dos dois.

     O ferreiro estava sendo repreendido por ter feito uma recepção tão pouco amável ao forasteiro. Isso o desgostou. E de raiva, esqueceu-se da prudência, deixando-se arrastar a afirmações perigosas.

     — Somente sou amável para com gente honesta.

     — Pensas talvez que não sou honesto?

     — Sim, penso isso.

     — És um grosseirão estúpido, como não existirá segundo. Como poderás saber se sou um homem honesto ou não? Acaso me conheces?

     — Conheço-te, sim.

     — Onde me viste?

     — Nunca te vi, mas ouvi falar a teu respeito.

     — Onde e quem falou?

     — Aqui, um efêndi estranho, que sabe perfeitamente seres um gatuno.

     — Quando foi isso?

     — Hoje, há bem pouco tempo.

     — Mentes.

     — Não minto; falo a verdade. Posso prová-lo. Aliás, sei perfeitamente que queres saber de mim.

     — É impossível que o saibas.

     — Sei muito bem.

     — Então, dize-o.

     — Queres informar-te a respeito de Manach el Barcha e Barud el Amasat.

     O outro fêz um gesto de susto e perguntou:

     — De onde sabes isso?

     — Exatamente daquele efêndi.

     — Quem é ele?

     — Não precisas saber disso. Se quiseres, entretanto, saberás.

     — Onde está ele?

     — Não preciso dizer.

     — É o que pensas. E se eu te obrigar a isso?

     — Não tenho medo.

     — Também deste aqui não tens medo? Puxou um punhal e mostrou-o ao ferreiro.

     — Também não temo essa faca. Na verdade, não estou sozinho.

     Eu havia chegado à abertura feita no trançado de vime, a qual servia de porta. Dizendo as últimas palavras, o ferreiro apontou para mim. O desconhecido virou-se, viu-me e bradou:

     — Isso é do demônio!

     Estava enormemente surpreendido. Também eu estava, pois reconheci nele o homem que me observara de um modo tão estranho, em Edreneh, quando eu passara pelas ruas acompanhado do “dançarino”. A sua expressão fora feita em língua valáquia. Seria ele um valáquio? Nos momentos inesperados, o homem perplexo usa comumente a língua materna.

     Era preciso que eu procurasse corrigir aquilo que o ferreiro havia estragado. Ele não deveria ter revelado o que sabia a respeito do desconhecido. Devia ter esperado as perguntas, para depois, sim, pronunciar-se.

     — Isso é bem verdade — respondi, também em romaico. — És do diabo.

     O homem dominou-se, guardou a faca, com a qual ameaçara o ferreiro, e depois disse:

     — Que queres? Não te conheço.

     — Também não é preciso. O mais importante, porém, é que eu te conheço, meu lambote.

     Fêz uma cara de grande pasmo, sacudiu a cabeça e depois afirmou em tom de absoluta convicção:

     — Não te conheço. Deus é testemunha!

     — Não blasfemes. Deus é testemunha de que me viste.

     — Onde?

     — Em Edreneh.

     — Quando?

     — Ah! Falas turco?

     — Falo.

     — Então deixa o romaico. Este bom ferreiro também deve ouvir e entender o que falamos. Confessas que estiveste presente, quando Barud el Amasat foi condenado em Edreneh, por ter transgredido as leis?

     — Não estive presente e de nada sei.

     Realmente, não o vira entre os assistentes. Por isso, tive de aceitar essa afirmativa, sem contrariar. Entretanto, continuei a interrogação:

     — Conheces, porém, Barud el Amasat?

     — Não.

     — Também não conheces o filho dele, Ali Manach?

     — Não.

     — Por que te assustaste tanto quando o viste como meu prisioneiro?

     — Não vi nem a ti, nem a ele.

     — Ah, sim! Com certeza também não conheces o Handchia Doxati, em Edreneh?

     — Não.

     — E decerto, também, não te apressaste a ir avisar os teus aliados e os do Ali Manach, quando me viste com ele?

     — Não compreendo como me podes fazer essas perguntas. Digo-te que de nada sei a respeito de tudo isso.

     — Responde que sabes da fuga do prisioneiro, que és culpado da morte do Ali Manach, mas que não és culpado de que a outra bala tenha acertado no khawass e não em mim, que estás a caminho para prevenir Manach el Barcha e Barud el Amasat. Tudo isso sei com absoluta segurança.

     — Contudo enganas-te. Confundes-me. Onde aconteceu isso de que falas? Em Edreneh, ao que deduzo das tuas palavras, não?

     — É exato.

     — E isso há pouco tempo? Saibas, então, que há mais de um ano não vou a Edreneh.

     — És um grande mentiroso. Onde estiveste nos últimos dias?

     — Em Mandra.

     — De onde vens hoje?

     — De Boldchibak.

     — Estiveste em Mandra, sobre o Maritza? Hein? De fato, estiveste sobre o Maritza, mas a um bom pedaço acima de Mandra, isto é, em Edreneh.

     — Queres que eu jure que te enganas?

     — O teu juramento seria falso. Quem sabe Bu-kiõj fica no caminho de Mandra e Boldchibak para aqui?

     — Bu-kiõj? Não conheço essa localidade.

     — Não estiveste lá?

     — Não.

     — Não perguntaste a nenhum dos moradores de lá sobre três homens, dos quais dois montavam tordilhos e um, um zaino?

     — Não.

     — O homem que interrogaste levou-te ao guarda e este te conduziu à presença do kiaja, não é verdade?

     — Não.

     — Admirável! Todos nos enganamos. Só tu não te equívocas. Com certeza, és muito mais inteligente do que nós. Queres dizer, porventura, quem és?

     — Sou agente.

     — De que?

     — Agente geral.

     — E como te chamas?

     — Meu nome é Pimosa.

     — Nome singular! Não o conheço em nenhuma língua. Quem sabe tu mesmo o inventaste?

     Franziu o sobrolho ameaçadoramente e inquiriu:

     — Quem te dá o direito de me falar dessa maneira?

     — Eu mesmo.

     O ferreiro ajuntou:

     — Esse é o efêndi de quem te falei ainda há pouco.

     — Já percebi — respondeu o homem. — Mas por mim ele pode ser o efêndi de todos os efêndis e nem assim lhe darei o direito de me tratar indelicadamente. Conheço meios e modos de fazer com que gente desse estofo se torne delicada.

     — Então, como é que se faz isso? — perguntei.

     — Assim!

     Levou a mão à cintura, onde estavam as suas armas, e puxou o cabo do revólver.

     — Bem, isso é uma linguagem tão convincente, que lhe tenho todo o respeito. Serei, portanto, mais delicado. Queres ter a bondade de me dizer onde nasceste?

     — Sou sérvio, nascido em Lopaticza, sobre o Ibar.

     — Serei tão delicado que finjo acreditar. Entretanto, cá para mim, considerar-te-ei um romeno ou valáquio, o que é a mesma coisa. Para onde vais?

     — Para Ismilan.

     — Maravilhoso! És um homem tão inteligente e fazes uma volta tão grande! Por que vens a Kochikawak, se era tua intenção ir de Mandra a Ismilan? Teu caminho ficaria muito mais para o sul.

     — Fiz isso, porque tinha negócios a tratar, nas localidades onde escalei. Mas, de agora em diante, proíbo que continues. És, porventura, funcionário da polícia, para que me interrogues como a um criminoso?

     — Far-te-ei também essa vontade. Dize-me, porém, somente ainda por que apeaste aqui?

     — Queria eu, por acaso, apear? Esse ferreiro foi quem me obrigou, pois não quis responder lá fora.

     — Já lhe fizeste as perguntas que querias?

     — Não.

     — Pois, faze-o, a fim de que saibas o que desejavas.

     Embaraçou-se um pouco o homem, recobrando, em seguida, a presença de espírito, para responder:

     — Perdi a vontade de perguntar. Quando se é tratado dessa maneira, a gente “desinfeta”!

     Com isso, fêz um gesto expressivo e ia se afastar.

     — Chama-se a isso delicadeza? — disse eu, rindo.

     — Amor com amor se paga! — foi a resposta irônica.

     Isso foi dito novamente em valáquio. Era já bastante para me convencer de que ele não era sérvio.

     — Gostas dos provérbios, a qualquer momento — observei-lhe, enquanto por uma manobra rápida embargava os seus passos. Esse provérbio, porém, não encerra muita filosofia. Melhor dirias: Quem tem boca vai a Roma. Resolvi ser delicado contigo e peço-te, por isso, que fiques mais um pouco comigo.

     — Contigo? Onde é que moras?

     — Aqui.

     — Esta casa pertence ao ferreiro. Ele mesmo disse que eras um efêndi desconhecido.

     — Ele não se opõe, se te convido para ficar.

     — Que farei aqui? Não tenho tempo. Preciso ir-me.

     — Deves esperar os outros hóspedes, que chegarão prontamente. Querem encontrar-te aqui.

     — Quem são eles?       

     — Khawass de Edreneh.

     — O diabo que te carregue!

     — Não lhe darei licença para isso! Ficarei aqui contigo. Olha, ali há lugar. Senta-te, por favor.

     — Estás doido? Sai da frente!

     E com isso queria passar por mim. Segurei-o pelo braço, sem contudo o machucar.

     — Realmente, eu te convido para que fiques — disse-lhe. — Os khawass, de que falei, de fato querem conversar contigo.

     — Que é que tenho com eles?

     — Nada tens com eles. Eles é que têm contigo.

     Os seus olhos chisparam furiosamente.

     — Larga-me! — ordenou.

     — Ora essa! Teremos o cuidado de não deixar que alcances Manach el Barcha.

     Nesse momento, eu estava em frente dele e o ferreiro, que havia metido a apara de madeira iluminante no buraco a isso destinado, conservava-se por trás. Esta última circunstância, ele não observara. Reconheceu, todavia, que estava descoberto e, melhor ainda, que era preciso escapulir-se. De minha parte estava convencido de que ele faria o possível para atingir esse objetivo, embora tivesse de empregar a força. Mostrando muito embora uma fisionomia despreocupada, observava atentamente as duas mãos do homem. Este gritou com raiva:

     — Não conheço a pessoa de que falas. Mas preciso ir-me. Sai, portanto, da frente.

     Fêz um gesto para passar por mim. Fui, porém, mais ligeiro, colocando-me entre ele e a saída.

     — Excomungados!

     Dizendo isso, retrocedeu um passo. A faca reluziu nas suas mãos; ia desferir-me uma punhalada, mas o ferreiro segurara rapidamente a mão dele, por detrás.

     — Cão! — gritou o homem, virando-se para Chimin.

     Com isso, voltou-me as costas. Segurei-lhe ambos os braços fortemente contra o corpo, impedindo-lhe de fazer qualquer movimento.

     — Uma corda, correias ou barbantes! — gritei ao ferreiro.

     — Não conseguirás! — grunhiu o pseudo agente.

     Fêz todo o esforço possível, para libertar-se. Debalde. Batia com os pés violentamente. Isso, entretanto, não durou muito, pois o ferreiro apressava-se para executar a minha ordem, trazendo o que lhe pedira. Poucos minutos depois, o homem estava amarrado, atirado ao solo.

     — Isso! — disse Chimin, com um tom da mais absoluta satisfação. — O mesmo acontecerá com os teus aliados, que amarraram deste jeito a mim e à minha mulher.

     — Não tenho aliados! — bufou o prisioneiro.

     — Sabemos disso melhor do que tu.

     — Exijo a minha liberdade imediata.

 

     — Não há pressa.

     — Estão fazendo confusão. Sou um homem honesto.

     — Prova-o.

     — Peçam informações a meu respeito.

     — Onde as obteríamos?

     — Em Dchnibachlue.

     — Ah, isso realmente não é muito longe! Quem dará informações?

     — O tintureiro Bochak.

     — Conheço-o, efetivamente.

     — E ele me conhece. O tintureiro dirá que não sou aquele que pensam.

     O ferreiro olhou-me interrogativamente. Respondi:

     — Não temos muita pressa. Antes de tudo, veremos o que levas nos bolsos.

     Revistamo-lo, não sem ouvir umas tantas imprecações do prisioneiro. Achamos uma importância nada desprezível em dinheiro, e muitas miudezas, das que sempre se costumam conduzir. Metemos-lhe tudo de novo nos bolsos. O ferreiro, que era dado a sentimentalismo, perguntou-me:

     — Não terias te enganado, efêndi?

     — Não. Estou certo do que faço. Mesmo que nada encontremos, seguramos o homem. Agora, iremos revistar também o cavalo.

     A mulher estava quieta até esse momento. Quando viu que íamos sair, perguntou:

     — Devo ficar de guarda?

     — Sim — respondeu-lhe o marido.

     Ela levantou-se, acendeu umas hastilhas de madeira e disse:

     — Podem ir descançados. Basta que ele se mexa, para que eu o incendeie. Não fiquei, pelo menos, impunemente, metida naquele porão.

     — Mulherzinha valente! — disse, faceiro, Chimin. — Não é verdade, efêndi?

     O cavalo ainda estava amarrado à porta da ferraria. O alforge continha provisões de boca e foi só o que encontramos.

     — Que ordenas, agora? — indagou Chimin.

     — Primeiro, levaremos o cavalo para o lugar onde se encontra o meu.

     — E depois?

     — E depois, meteremos o prisioneiro no mesmo buraco em que estiveste com tua mulher.

     — E depois?

     — E depois, esperaremos que os meus companheiros cheguem.

     — Que acontecerá, então, com o prisioneiro?

     — Mandarei levá-lo para Edreneh.

     Depois de termos guardado o cavalo, entramos novamente. Quando a mulher do ferreiro soube o que deveria acontecer ao preso, mostrou-se muito satisfeita. Chegou a ajudar, e assim o prisioneiro, não obstante a resistência oposta e que consistia principalmente em exclamações de raiva e ameaças, foi metido no porão, onde estava em segurança. A boa mulher não se deixou demover de preparar uma refeição frugal.

     Sentamo-nos, enquanto isso, novamente defronte à porta, onde o ferreiro fumou mais uma cachimbada.

     — Uma aventura rara! — comentou. — Nunca estive preso no porão e também nunca prendi ninguém ali. Era desígnio de Alá.

     Enquanto nos entretinhamos, o tempo corria. Comemos e eu continuava esperando por Halef e os outros. A mulher deitou-se novamente. Ficamos na porta. Bateu meia-noite, passou-se mais uma hora e continuávamos esperando baldamente.

     Chimin procurou justificar a demora dos meus companheiros, dizendo:

     — Decerto, eles acharam um abrigo para a noite.

     — Não. Têm ordem de passar aqui. Foram com certeza retidos por qualquer acontecimento imprevisto. Mas eles não fararão pouso, enquanto não chegarem aqui.

     — Quem sabe se perderam o caminho?

     — Não creio que eles falhem dessa maneira, principalmentenão acredito por causa do fiel Hadji Halef Omar.

     — Então, teremos de esperar. Em todo o caso, não nos será tão difícil quanto ao prisioneiro do porão. Como será que ele mata o tempo?

     — Do mesmo modo que tu o fizeste, quando há pouco estiveste metido lá dentro.

     — Não acreditas, realmente que ele seja sérvio?

     — Não. Ele mente.

     — Também não crês que se chama Pimosa?

     — Também duvido disso.

     — Contudo, podes enganar-te.

     — Ora! Ele puxou da faca. Teria dado o golpe. Por que não me pediu para ser levado à presença do kiaja. Qualquer um, que tivesse a consciência tranqüila, pediria. E tu conheces o tintureiro de que falou?

     — Sim, conheço-o.

     — Que tipo de homem é ele?

     — É um mandrião gordo, redondo.

     Era uma resposta curiosa. O tintureiro fora chamado Bochak, o que quer dizer preguiçoso, indolente, mole. Indaguei mais:

     — É abastado?

     — Não, justamente por ser preguiçoso. De resto, ele não é só tintureiro, mas também é padeiro.

     — Como padeiro é mais trabalhador?

     — Não. A sua casa ameaça ruir, porque ele é muito preguiçoso para fazer alguns melhoramentos. A mulher foi quem construiu o forno, fez a amassadeira e também é ela quem leva os pastéis e pães à freguesia.

     Com certeza é ela quem faz o pão?

     — Com efeito.

     — E decerto também tinge?

     — Naturalmente.

     — Que faz, então, o homem?

     — Ele come, bebe, fuma e faz o kief (40).

     — Não é de admirar, portanto, que esteja pobre. Mora em Dchnibachlue?

     — Sim, efêndi.

     — Uma aldeia?

     — Sim, uma aldeia bem desenvolvida.

     — A que distância daqui?

     — A duas horas a pé. Depois de ter atravessado Kochikawak, passa-se a ponte. Dali o caminho vai diretamente para Dchnibachlue, ao sul.

     — Tem esse padeiro e tintureiro má fama por qualquer outra razão?

     — Hum! Não sei.

     — Fala com clareza.

     — Há algum tempo, rasgaram-lhe as orelhas.

     — Por quê?

     — Não sabes a quem atinge esse castigo?

     — Decerto, ele fêz os pães demasiadamente pequenos?

     ________________

      (40) Kief ou kjef — Repouso absoluto, entre os povos do Oriente; uma espécie de sesta, usada especialmente na Turquia. (N. do T.).

 

     — Não, pelo contrário, muito grandes. O padeiro que faz os pães muito pequenos é pregado pelas orelhas à porta ou à janela de sua casa. Mas a orelha não lhe é rasgada.

     — Mas sendo tão pobre, admira-me que tenha feito pães demasiadamente grandes.

     — Contudo, ele não gastou farinha demais. Os pães atravessaram as fronteiras. Achou-se, então, que eram muito pesados. Abriram-se os pãezinhos e se verificou, assim, que continham uma porção de coisas que eram tributadas na fronteira.

     — Ah! Sim. Nesse caso, ele é contrabandista?

     — Ao que parece. Pelo menos, foi isso que aconteceu.

     — Hum! Desejaria falar-lhe.

     — Por quê? Pensei que quisesses continuar, logo que teus companheiros chegassem.

     — Realmente era esse o meu intento. Entretanto, o nosso prisioneiro referiu-se ao padeiro e, daí, entrevejo a possibilidade de ouvir desse homem alguma coisa de interesse para mim.

     — Terias de esperar, então, até amanhã de manhã.

     — Certamente. Os meus companheiros poderiam, entretanto, ir na frente, porque os alcançaria logo.

     — Por que os esperas aqui? Poderias dormir descansadamente aqui dentro de casa.

     — Nesse caso, eles passariam sem chegar, pois não sabem que me encontro aqui.

     — Ficarei acordado, efêndi.

     — Não posso pedir isso.

     — Por que não? Não nos tiraste, a mim e à minha mulher, do porão? Sem ti, teríamos morrido à míngua ou sufocados. Poderia recusar-me a fazer guarda por ti algumas horas? Precisas viajar amanhã e, portanto, não poderás dormir. Porém, eu posso recuperar o descanso perdido.

     Não podia dizer que ele estava enganado e, como insistisse, correspondi ao seu desejo. A mulher preparou um leito e, depois de ele me ter prometido que não deixaria apagar-se o fogo, deitei-me para descansar.

    

Entre Contrabandistas

     Ainda estava escuro quando acordei. Não obstante, achava-me bem dormido. Esta charada, entretanto, ficou decifrada, logo que percebi estarem todas as janelas fechadas

     Abri uma delas e vi que já era alto dia. Pela hora do ocidente, deveriam ser oito ou nove da manhã.

     Lá fora, ouvia-se o ruído de um operário diligente. O martelo e a lima trabalhavam estridentemente. Saí. O ferreiro trabalhava, enquanto a mulher puxava o foles.

     — Bom dia — cumprimentou-me sorridente. — Dormiste muito bem, efêndi.

     — Infelizmente. Como tu também.

     — Eu? Como assim?

     — Não vejo os meus companheiros.

     — Também não os vi.

     — Eles passaram.

     — Quando?

     — Durante a noite.

     — Oh! Pensas que dormi?

     — Acho que sim.

     — Não preguei um olho. Pergunta à minha mulher. Quando dormias, ela veio ter comigo. Estivemos sentados juntos, esperando baldadamente.

     — O fogo esteve permanentemente aceso?

     — Até agora. Efêndi, eu digo a verdade.

     — Isso me deixa preocupado pela sorte dos meus companheiros. Irei ao encontro deles.

     — Não querias ir a Dchnibachlue?

     — Queria, sim. Mas...

     — Não tenhas cuidado, efêndi. Eles virão. Naturalmente, tiveram a inteligência de não viajar de noite através de uma região desconhecida.

     — Não, não foi isso que retardou a sua marcha. Ou eles toparam com um obstáculo imprevisto ou erraram o caminho.

     — Em qualquer caso, é preferível que vás a Dchnibachlue. Eles removerão o obstáculo e virão em seguida. Se estão no caminho errado, acharão o certo e virão também. Quais as localidades por onde deveriam passar

     — Ordenei-lhe que viajassem de Dere-kiõj para Mastanly.

     — Então, na certa, passarão por aqui. Se alguém deve ir ao encontro deles, eu irei. Montarei o cavalo do prisioneiro.

     — Muito bem. Mas, a propósito, falaste com o prisioneiro?

     — Fui vê-lo.

     — Que disse?

     — Chinga que dá pena. Quer ser posto imediatamente em liberdade e, quando lhe disse que não me era possível libertá-lo, pediu-me para falar contigo.

     — Far-lhe-ei essa vontade, com muito gosto.

     — Não o faças, efêndi.

     — Por que não?

     — Ele é traiçoeiro. Quer se libertar, pela força ou pela astúcia, se aquela não surtir efeito.

     — Não receio nem a sua força física, nem a sua esperteza. Está dentro do buraco e amarrado. Que me poderá fazer? Nem sequer pode me pôr a mão.

     — Mas, com boa lábia, é possível que te convença de soltá-lo.

     — Não conseguirá. Não pertenço aos fracos, que se deixam convencer facilmente. Também não sou homem para pensar agora assim e daqui a cinco minutos assado. De resto, poderás estar presente. Vamos.

     Íamos abrir a porta, que dava para o compartimento onde ficava o porão, quando a mulher do ferreiro se aproximou, dizendo em tom de mistério, ao marido:

     — Achei, achei.

     — Quê? — perguntei, largando a porta.

     — A cara dele, a cicatriz.

     — Referes-te à cara e à cicatriz do prisoneiro?

     — Sim, efêndi. Eu me tinha esquecido de ambas.

     — Viste-o, então, alguma vez?

     — Sim. Mas me tinha esquecido. Pensei toda a noite sobre isso. Maltratei o miolo, sem conseguir recordar-me. Mas, repentinamente, lembrei-me outra vez.

     — Vamos à outra peça da casa. Poderá ouvir-nos — disse.

     Ambos me acompanharem à parte principal da casa e ali o ferreiro disse, admirado, à sua mulher:

     — Viste-o? Esqueceste e estiveste toda a noite ao meu lado pensando nisso? Por que não me falaste a respeito?

     — Não quis embaralhar os meus pensamentos. Tivesse falado, com certeza, não me ocorreria o que procurava recordar. Foi assim que pensei.

     — Talvez tenhas razão — disse eu. — Ainda bem que lembraste. Onde foi que o viste?

     — Em Topoklu.

     — Quando?

     — Na última primavera. Em casa da minha amiga.

     — Quando estiveste em visita em Topoklu? — perguntou o marido, pasmo.

     — Sim, naquela ocasião.

     — Que é que ele fêz em casa da tua amiga?

     — Comprou pólvora e espoletas.

     Ela continuou, voltando-se para mim:

     — Na verdade, é preciso que saibas que o marido da minha amiga tem uma mercearia, onde vende de tudo quanto se precisa na ocasião. Eu fora convidada, porque ela estava doente e não tinha quem a cuidasse. Estava sentada com ela, quando chegou alguém na mercearia, pedindo munição. Quis experimentá-la no mesmo instante. O merceeiro pediu-lhe que não fizesse isso, porque a mulher estava doente e não podia ouvir tiros. Não obstante, o homem carregou a arma e atirou na direção da cabeça do cavalo da casa fronteira.

     Os búlgaros gostam — devo esclarecer — de afixar cabeças de cavalos ou de outros animais, como vacas, bois e burros, na cumieira das casas.

     A mulher prosseguiu:

     — A minha amiga deu um grito, no momento da detonação. Ele riu e deu mais tiros. E quando o merceeiro proibiu energicamente que continuasse, o homem ameaçou atirar contra o próprio dono da casa. Afinal, pagou e saiu. Antes, porém, disse que realmente precisava pagar, pois pertencia aos conjurados.

     — Que gente é essa? — indaguei.

     — Não sabes? — estranhou o ferreiro.

     — Nunca ouvi falar neles.

     — Conjurado é um homem que não obedece ao Grão Senhor, mas quer um reino búlgaro, com um rei próprio e independente.

     — Pode alguém aventurar-se a confessar publicamente ser conjurado?

     — Por que não? O Grão Senhor mora em Istambul e quanto mais te afastas dessa cidade, menor é o poder dele. E se um homem desses se sente em perigo, vai para as montanhas. Continua, mulher.

     — Eu espiara pelas frestas da parede de vime e vira o homem. Levava uma grande atadura na bochecha direita e quando, depois, perguntamos ao merceeiro quem era aquele homem, ele nos disse que pertencia à liga dos descontentes e morava em Palatza. Chamava-se Mosklan e era negociante de cavalos, mas abandonara esse negócio para se dedicar exclusivamente ao serviço da união secreta. Entretanto, o merceeiro nos pediu que nada disséssemos, a quem quer que fosse, sobre o assunto. Soubemos também que esse corretor de cavalos raramente estava em casa, porém, sempre em viagem.

      — Acreditas tê-lo reconhecido no prisioneiro?

     — Sim. Ele não tem mais a atadura, o que me confundiu. Senti que o vira em qualquer parte, mas não me podia recordar. A cicatriz, porém, justamente na bochecha direita, fêz me lembrar e eu tenho certeza de que é ele.

     — Não te enganas?

     — Oh, não. Juro que é ele.

     — Ele disse, entretanto, que era sérvio, chamava-se Pimosa e era agente de Lopaticza, sobre o Ibar.

     — Isso é mentira.

     — Também não acreditei. Falava valáquio e, na verdade, parece-me que falava essa língua como eu a ouvi na região de Slatina.

     — Slatina? Sim, sim! O merceeiro parecia conhecê-lo melhor do que nos queria deixar perceber. Estava furioso e chamava-o de valáquio, djaur, um russialy katolik, um hereje de Slatina.

     — Daí se conclui que ele conhece muito bem o homem e sabe que é de Slatina.

     — Agora me lembro também de que o merceeiro, furioso, o chingava de mensageiro dos amotinados e estafeta dos revolucionários.

     — Isso tudo é muitíssimo interessante. Quem sabe se o gordo padeiro de Dchnibachlue não poderá dar outros esclarecimentos.

     — De fato, queres ir lá, efêndi?

     — Sim. Agora, quero realmente.

     — E o prisioneiro poderá saber?

     — Naturalmente. Ele mesmo me incitou a isso.

     — Dir-lhe-ás também, que soubeste quem ele é?

     — Não. Isso seria uma imprudência, de que não quero me tornar responsável. Tens ainda alguma coisa a observar?

     — Não —- disse a mulher. — Disse tudo quanto sabia. Mas, gostaria de perguntar sobre uma coisa que me está preocupando.

     — Pergunta à vontade. Talvez a tua preocupação não tenha razão de ser.

     — Oh, não. Se esse homem pertence aos descontentes, estamos em perigo. Prendemo-lo e ele se vingará ou os seus aliados virão vingá-lo.

     — Essa é uma preocupação de que não se poderão libertar. É possível, entretanto, que possamos achar um meio de sair muito bem desta questão. Os seus aliados os maltrataram e tiveram, portanto, todo o direito de agir da mesma forma. Antes de tudo, porém, quero falar-lhe novamente, visto que assim o pediu.

     Acendemos uma apara de madeira, abrimos o porão, colocamos a escada e desci. O prisioneiro estava deitado sobre o monte de carvão e me recebeu com invectivas.

     — Esperas melhorar, dessa maneira, a tua situação? — perguntei-lhe.

     — Solta-me — respondeu. — Dá-me a liberdade. Não tens o direito de prender-me aqui.

     — Até agora, porém, estou convencido de ter esse direito.

     — O tintureiro Bochak já não te convenceu do contrário?

     — Ainda não falei com ele.

     — Por que não? Por que vacilas? Já deve ser muito mais de meio-dia. Tiveste tempo de sobra para ir a Dchnibachlue.

     — Enganas-te. Ainda não é tão tarde como pensas. Irei, porém, em seguida. Afirmas que ele te conhece?

     — Sim. Pergunta só pelo agente Pimosa.

     — Saberá ele que não estiveste, há pouco, em Edreneh?

     — Sabe. Se lhe perguntares, dará testemunho de que estive, nos últimos dias, em Mandia e Boldchibak.

     — Como é que sabe disso?

     O prisioneiro hesitou, antes de responder. Depois de uma pausa, disse:

     — Saberás por ele mesmo.

     — Gostaria de saber já.

     — Para quê?

     — Porque é essa a melhor maneira que tens para combater a minha desconfiança.

     — Não sei por que.

     — Devo, quem sabe, apresentar-te, antes, uma justificação da minha atitude? Tu te conservas calado, porque tens receio de que as tuas declarações contradigam as que ele me fizer. Portanto, dize-me se, por acaso, ele esteve contigo naquelas duas localidades?

     — Não preciso dizer. Vai a ele e indaga pessoalmente.

     — Parece-me que realmente não queres melhorar a tua situação. Por que razão irei eu a esse Bochak? Não há motivo para isso.

     — Exijo, para que te convenças da minha inocência.

     — Fosses inocente e tu mesmo me darias os esclarecimentos pedidos.

     — Deves dizer-lhe que estou aqui.

     — Para que te tire deste porão? Pensas que a minha estupidez é maior do que a tua inteligência? Para evitar, porém, quaisquer dúvidas futuras, irei ao tintureiro. Talvez venha a saber dele justamente o contrário do que desejarias que me dissesse. Tens fome?

     — Não.

     — Ou talvez queres beber?

     — Não. Prefiro morrer miseravelmente a aceitar de gente como vocês uma gota d'água sequer.

     — Faça-se a tua vontade.

     Fiz menção de subir. Nisso, o prisioneiro disse bruscamente:

     — Exijo que me desamarrem.

     — Não podes pedir isso a gente que não merece sequer oferecer-te um copo d'água.

     — As cordas me pisam.

     — Isso não faz mal. A sede também doi e, todavia, queres suportá-la, só para nada aceitar do que te oferecemos. De resto, sei positivamente que as cordas com que estás amarrado não te causam dores. O Profeta disse: Quando tiveres sofrimentos, lembra-te de que não é por vontade de Alá e, sim, por tua própria. Pensa nessas palavras até que eu volte.

     O preso preferiu conservar-se calado.

     O ferreiro aproveitara o tempo para trazer o meu cavalo. Trouxe também o do prisioneiro.

     — Queres realmente ir ao encontro dos meus companheiros? — perguntei-lhe.

     — Se permites, efêndi, quero.

     — Pensas que a tua presença aqui não terá utilidade?

     — Minha mulher está aqui. Ela cuidará do preso.

     — Não se sabe o que poderá acontecer, durante a nossa ausência.

     — Que poderá acontecer? Julgo necessário que os teus amigos saibam onde estás e que os esperas. Irei só até Dere-kiõj. Se não os encontrar aí, voltarei.

     — É possível que se verifique um desencontro.

     — Minha mulher cuidará para que eles não passem, sem chegar.

     — Bem, como quiseres. Entretanto, ela terá de cuidar também para que ninguém venha a saber que temos um homem preso no porão.

     A mulher estava junto de nós e ouvira a conversa.

     — Efêndi, podes ir sem cuidado — disse. — Aqui tudo ficará, como se estivesses presente.

     Diante dessa afirmativa, montei. Veio-me à idéia deixar as armas, para ter menos peso a carregar. Contudo, elas eram muito preciosas para que as deixasse em perigo. Nessa casa, não havia um único lugar que oferecesse segurança bastante. Preferi, por isso, levá-las comigo.

     A povoação não era muito distante da ferraria. Não era grande e, por isso, atravessei-a depressa. Depois, passava-se a ponte e seguia-se, à esquerda, em direção ao sudoeste e não ao sul, como dissera o ferreiro.

     Passei por algumas plantações de milho, depois terras de salgueiros e finalmente cheguei a um trecho de terras sem cultura. Um caminho propriamente dito não havia. Cada qual tomava a direção que lhe aprouvesse. Por isso, não me admirei ao avistar, à minha direita, à regular distância, um homem a cavalo, seguindo a mesma direção. Também ele me viu e rumou para o meu lado.

     Quando se aproximava observou-me e parecia não se sentir bem seguro da situação. Depois, tomando uma resolução rápida, aproximou-se a troce.

     — Ssabahhak bilcheer — bom dia! — saudou-me, em árabe correto, surpreendendo-me vivamente.

     — Allah juszabbkhbak bilcheer — Que Deus te dê um bom dia — respondi delicadamente.

     O cavaleiro, na verdade, agradava-me. Não pertencia, seguramente, à classe da gente rica. Estava vestido pobremente e o cavalo que montava não valia duzentos e cinqüenta marcos. Esse vestuário, contudo, dava um atestado de limpeza pouco comum nessa região e o cavalo, conquanto não se pudesse dizer que era exuberantemente alimentado, estava bem tratado. A almofaça e o cardador substituíam a fartura da aveia. Isso sempre causa boa impressão aos amigos de cavalos. De resto, o jovem era bem posto, belamente desenvolvido e o rosto, emoldurado por um bigode bem cuidado, tinha uma expressão de sinceridade e honradez, que de modo algum me incomodei por ver interrompido o curso dos meus pensamentos, pela sua chegada.

     — O senhor fala árabe? — acrescentou o jovem, demonstrando por um aceno de cabeça que se alegrava por não ter se enganado a meu respeito.

     — Certamente, e com muito prazer.

     — Quer ter a bondade de me dizer de onde vem?

     — De Kochikawak.

     — Muito agredecido.

     — Quer vir comigo, porventura?

     — Ficar-lhe-ei muito obrigado.

     Isso era uma delicadeza insinuante. Perguntei-lhe como lhe tinha ocorrido dirigir-se a mim em árabe. Indicou o meu cavalo e respondeu, com os olhos brilhantes.

     — Um nedji assim só pode ser montado por um árabe. Esse é um legítimo filho do deserto. Por Alá! Ventas vermelhas! A mãe de certo é uma égua koheli?

     — Tens bons olhos. O cavalo realmente indica que tens razão.

     — O senhor é um homem feliz, um homem rico. Os cascos e os garrões mostram que esse animal não nasceu no deserto de areia e sim no de pedra.

     — Também isso é exato. Esta região é a tua pátria?

     — É, sim.

     — Nesse caso, como conheces tão bem os cavalos árabes?

     — Sou hadji. Depois de ter concluído o meu curso de orações em Meca, fui para Taif, onde entrei para a cavalaria do Grão Senhor.

     Eu conhecia essa cavalaria de elite e sabia quão bem montada era. O Grão Senhor possui realmente uma magnífica cavalariça. Não era de admirar, portanto, que esse moço tivesse um olho tão experimentado.

     Era interessante, ter junto de mim um antigo cavalariano do Grão Xerife de Meca.

     — Por que não ficaste na cavalariça? — indaguei.

     O rapaz corou, olhando para o chão, levantou depois os olhos grandes e leais, pregando-os em mim e respondeu com uma palavra:

     — Mahabbe — o amor!

     — Welak — Que desgraça!

     — Na'am, haksassa — Sim, senhor; é assim!

     A minha exclamação fora proferida em tom jocoso. Ele, porém, fazia uma cara séria e olhava tão pensativamente diante de si, que facilmente eu podia adivinhar o estado em que ele estava. Naturalmente, não me ocorreu crivá-lo de perguntas, sobre um assunto tão delicado. Pelo contrário, desviei a palestra, dizendo:

     — Em relação ao cavalo, acertaste muito bem. Quanto ao cavaleiro, no entanto, te enganaste.

     — Como? Todavia, és um beduíno?

     — Monto, por acaso, como um bedawi?

     — Naturalmente, não. Isso me chamou a atenção logo que o vi.

     — E te admiraste?

     — Sim.

     — És sincero.

     — Não devo ser?

     — Em nome de Alá! Fala sempre livre e sinceramente.

     — Não podia compreender como é que o dono de um cavalo desses monta tão mal.

     — A vida é assim.

     Olhou-me preocupado e indagou:

     — Levas-me a mal?

     — Oh, não!

     — Oh, sim!

     — Não tenhas cuidado. O que disseste muitos outros já disseram também, sem que eu tenha levado a mal.

     — Por que não te esforças por aprender a andar a cavalo?

     — Oh! Dei-me muito trabalho para isso, muito.

     — Jumkin — Pode ser — disse o rapaz num sorriso incrédulo.

     — Não acreditas?

     — Não.

     — Pois, então, te direi que, durante muitos anos, só apeei para dormir.

     — Allah akbar — Deus é grande! Ele fêz os homens e deu a cada um dotes especiais, mas também defeitos especiais. Conheci um que não podia assobiar. Fazia o maior esforço possível, mas não conseguia. Outros assobiam, ainda no berço. A ti acontece, em relação ao montar, o mesmo que se dava com aquele para assobiar. Por isso, naturalmente, Alá lhe deu outra habilidade ou talento?

     — Isso é verdade.

     — Posso saber que talento é esse?

     — Pois não: o de beber.

     — Beber? — inquiriu o rapaz perplexo.

     — Sim. Desde o berço, eu bebo.

     — Trocista!

     — Também não queres acreditar nisso?

     — Oh! Como não. Essa habilidade todos nós tivemos bem cedo. Só não vejo por que orgulhar-se disso. Cavalgar é mais difícil.

     — Já notei.

     A expressão com que o rapaz me olhava era de compaixão. Depois disse:

     — A tua espinha dorsal vai bem?

     — Sim.

     — O teu peito também?

     — Muito bem.

     — Por que, então, curva tanto a primeira e comprime o segundo?

     — Vi muitos milhares de cavaleiros fazerem assim.

     — Eram maus cavalheiros.

     — Pelo contrário, muito bons. Um cavaleiro que estima o seu cavalo, poupa-o. Por isso, naturalmente, diminui o peso, tanto quanto possível. Como se deve fazer isso, nem o turco, nem o árabe podem imaginar.

     — Não compreendo.

     — Acredito.

     — Mas não és árabe?

     — Não.

     — Que és, então?

     — Um nemtche.

     O rapaz quedou-se pensativo, e depois disse:

     — Em Istambul vi muito gente de Alemanja. Vendia roupa de linho, panos, sacarias e facas. Aquela gente bebia cerveja e cantava lieder.

     — Mas não vi nenhum cavalo. Existem muitos soldados na Alemanja?

     — Mais do que em Oszmanly nemleketi.

     — Mas, quanto à cavalaria, decerto vai mal.

     — Os soldados montam todos como eu.

     — Não me digas!

     — É verdade.

     — Triste, realmente triste!

     Falava honestamente. Não me ocorreu desgostar-me por isso. Em todo o caso, ele supunha ter avançado demais. Por isso, indagou:

     — És um desconhecido. Posso perguntar aonde vais? Talvez te possa ser útil.

     Talvez não fosse aconselhável responder com toda a sinceridade. Por isso, declarei:

     — Agora, vou a Dchnibachlue.

     — Andaremos juntos mais um quarto de hora. Depois, o meu caminho me levará, à direita, para Kabatch.

     — Moras lá?

     — Moro. Advinhas o que sou?

     — Não. Admiro-me, porém, de ter entrado tão moço para o serviço do Grão Xerife e já ter deixado.

     — Porque aconteceu isso, já sabes. Antigamente, eu era relojoeiro e hoje sou negociante de livros.

     — Tens uma loja?

     — Não. Meu sortimento vai comigo na bolsa. Vendo estas coisas. Metendo a mão no bolso, tirou um folheto. Este continha a fathha, primeira sure do Alcorão, escrita com junco partido, em letra neskhi, mediante borracha derretida e, finalmente, dourada. Por conseguinte, o rapaz era vendedor ambulante de livros e levava um grande sortimento desses folhetos.

     — Isso foi escrito em Meca?

     — Foi.

     — Pelos guardiões da Caaba?

     O jovem fêz uma cara de finório e sacudiu os ombros.

     — Compreendo. Os compradores acreditam isso.

     — De fato. És um nemtche, portanto, cristão. A ti direi que fui eu mesmo quem escreveu estes folhetos, realmente em Meca. Trouxe um grande, muito grande sortimento e faço bons negócios.

     — Quanto custa um exemplar?

     — Conforme as posses do comprador. O pobre dá uma piastra, talvez o receba até de graça, enquanto que o rico paga dez e mais piastras. Meu velho pai, que é paralítico, e eu vivemos do lucro, que dá também para comprar o material para o meu relógio.

     — Então, trabalhas ainda pelo ofício antigo?

     — Sim. Trabalho num relógio, que quero vender ao Grão Senhor. Não haverá em toda a nação relógio igual. Se ele o comprar, serei um homem feito.

     — Trata-se, portanto, de uma obra de arte?

     — Com efeito.

     — Conseguirás aprontá-lo?

     — Certamente. Antes, eu mesmo tinha dúvidas. Mas, agora, estou convencido de que conseguirei. E então... então... então... irei conversar com esse Bochak.

     As últimas palavras foram proferidas quase numa ameaça. O nome pronunciado impressionou-me. Era assim que se chamava o padeiro, aonde eu ia.

     — Bochak? Quem é? — perguntei.

     — O pai dela.

     — Por que não fala, antes, com ele?

     — Se eu fôr, agora, põe-me na rua. Sou muito pobre, demasiadamente pobre.

     — E ele é rico?

     — Não. Porém ela é a moça mais bonita de Rumili.

     — Está quente hoje — disse eu, fazendo um movimento com o braço, em direção ao sol.

     — Aqui está quente — respondeu o rapaz. Fechava a mão, ameaçadoramente, levantando-a na direção onde supunha ficar a aldeia de Dchnibachlue. — Falei com o pai dela e ele me mostrou a porta.

     — Mas a mais linda de Rumili também te indicaria a porta?

     — Não. Nós nos vemos à noite e falamos.

     — Secretamente?

     — Sim, porque de outro modo não é possível.

     — Que é o pai dela?

     — Padeiro e tintureiro. Ela se chama Ikbala (1).

     — Que bonito nome! Desejo que ele se converta em realidade para ti.

     — Isso acontecerá, porque é vontade de Alá e minha também. A sua mãe é nossa aliada.

     — Graças a Deus.

     — Sim. Ela vigia, quando nos encontramos, e o padeiro dorme. Que Alá lhe dê, por isso, uma longa vida e netos em quantidade. O velho, porém, que mastigue alho e engula tinta, até que se resolva a ser meu sogro.

     — Então, poderás utilizar-te dele como tintureiro, quando o sortimento atual estiver esgotado e tiveres de escrever novos amuletos. Onde mora esse pai furioso de uma filha tão louvada?

     — Em Dchnibachlue.

     — Isso eu sei. Mas em que casa?

     — Entrando poi esse lado na aldeia, é a quinta casa, à mão direita. Defronte à porta, estão dependuradas uma cuca de maçãs, uma luva amarela e uma meia vermelha, para assinalar que Bochak é padeiro e tintuteiro. Mas por que perguntas?

     — Desejaria conhecer esse tirano.

     — Isso é muito fácil.

     — Como assim?

     — Manda tingir alguma coisa.

     — Não sei o que. Só se mandasse tingir o garanhão de azul. Mesmo assim, não teria tempo para esperar que a tinta secasse.

     — Então, compra doces.

     — Ele também é confeiteiro?

     — Sim. Ele faz tudo que é de forno.

     — Naturalmente, não as meias e as luvas. Uma troca das duas indústrias poderia ocorrer... Alto! Ouviu alguma coisa?

     ________________

         (1) A que dá felicidade.

 

     Refreei o cavalo e escutei.

     — Não — respondeu o rapaz.

     — Pareceu-me ouvir um brado longínquo.

     Também ele parou e escutou. O ruído singular, que ouvira, repetiu-se.

     — Isso parece a voz de um homem soterrado.

     — Não — respondeu o moço. — Isso é um sapo, que coaxa.

     — Nunca ouvi um sapo com essa voz.

     — Então é uma rã. Muitas vezes, ouvi batráquios darem esse grito. O ruído vem daquele espinheiral, que é tão baixo, que teríamos de ver se alguém estivesse metido ali. É um bicho, nada mais. E agora, aqui o meu caminho quebra para a direita. Preciso despedir-me.

     — Posso saber, antes, o teu nome?

     — Chamam-me, em toda a parte, de Ali, o negociante de livros.

     — Obrigado. Que distância separa Dchnibachlue de Kabatch?

     — Faço o caminho, a cavalo, em três quartos de hora. Queres ir a Kabatch?

     — É possível.

     — Então, peço-te que me visites e aprecies o relógio. Talvez eu possa, também, fazer, nessa ocasião, as perguntas que ora deixo de formular.

     — Por que não perguntaste?

     — Pode-se ser indelicado?

     — Mas também eu informei-me sobre a tua situação.

     — Tu podes fazer isso, porque és outro homem. És um incógnito.v Isso é certo.

     Com essas palavras, o moço olhou-me tão confiadamente, que tive de rir-me alto.

     — Enganas-te.

     — Oh, não! É verdade que não sabes montar, mas isso não quer dizer nada. Talvez sejas um grande sábio ou outro efêndi da corte imperial, não obstante seres cristão. Se fosses moslemita, terias honrado o meu folheto, contendo a fathha, com a saudação usual. Eu sei que o Grão Senhor também tem cristãos a seu lado e, como não és cavaleiro, o cavalo deve ser emprestado da cavalariça do padixá. Tenho razão?

     — Não.

     — Bem. Calar-me-ei.

     — Esse procedimento é inteligente. Podes descrever-me a sua residência?

     — É fácil. Casualmente, é bem como aqui. Vindo de Dchnibachlue para Kabatch, é a quinta casa à mão direita, na qual eu moro. É um casebre. Meu pai era um pastor muito pobre. Minha mãe ainda vivia, quando peregrinei para Meca. Ela morreu e pouco depois meu pai sofreu o ataque. Agora, ele não pode mover um músculo e também não fala. Só gagueja. Contudo, reza constantemente para que Alá o liberte e ele não mais seja um encargo para mim. Mas eu rezo secretamente ao grande Amor Divino, para que o conserve por muito, muito tempo. Pai e mãe a gente só tem uma vez. Quando eles morrem, o cemitério recebe o que de melhor a gente tem e nenhuma alma na terra será jamais tão bondosa e tão fiel como aqueles que a morte levou. Certa vez, quando eu era ainda pequeno, chegou um homem velho e pediu pousada na minha casa. Ele teve cama, leite e pão. Nós mesmos não tínhamos mais. Fiz alguma coisa que desgostou minha mãe. O velho hóspede tomou, então, de um pedaço de papel e lápis. Era um católico romano e, embora não entendesse a língua turca, escreveu um versículo da Bíblia, que é a escritura sagrada do cristão, e me disse que eu devia decorar aquelas palavras, sempre observá-las e jamais esquecê-las. Trouxe esse bilhete comigo, a título de amuleto, até que ficou completamente despedaçado. Rasgou-se e desapareceu; mas as palavras ficaram gravadas na minha memória e no meu coração até o dia de hoje e aí elas ficarão, até que o anjo da morte me chame para a suprema despedida.

     Eu estava profundamente sensibilizado e perguntei ao sahaf, cujos olhos ficaram marejados:

     — Quais eram as palavras?

     — São estas: Bir goez zewklen-ar babaji, bir goez itaatetmez, kargalar onu kazar-lar yrmak jakinda, gendsch kartalar onu jutar-lar.

     Eram as palavras bíblicas: “Os olhos que zombam do pai, ou desprezam a obediência da mãe, corvos do ribeiro os arrancarão e os pintãos da águia os comerão”(2).

     Era mais uma prova do poder irresistível da palavra divina, cujos efeitos são como o “malho que despedaça a rocha”. Onde é que o Alcorão, onde é que os Vedas e onde é que a revelação dos “últimos santos” (perdoem-me a referência!) isto é, a obra de fancaria desse Joe Smith, que ele mesmo denominou de “book of the Mormons”, onde é que apresentam uma passagem de tão imediata e poderosa significação? Leia-se o livro de ouro, que encerra os ensinamentos de Buda sobre si mesmo, sobre penitência, sobre o dever e sobre o fim de todas as coisas; aprofunde-se, por meio de um estudo espantoso, nos livros sagrados da Índia, nos Papiros do Egito, com as suas reminiscências de Ptah, Ré e Amon — contudo existe só uma palavra de Deus, que nos fala com tanto amor: “Tocha resplandescente para os meus pés é tua palavra e luz para os meus caminhos” (3), e cujo poder de punição e destruição não pode ser descrito de modo mais impressionante do que na terrível sentença: “Tornem-se imóveis como uma pedra!” (4).

     Estendi a mão ao relojoeiro vendedor de livros e lhe perguntei:

     — Amas a teus pais?

     — Por que perguntas? Poderá existir um filho que não ame a seu pai? Pode uma criança esquecer seus pais, a quem deve agradecer tudo, tudo?

     — Tem razão. A minha pergunta era de todo supérflua. Talvez eu venha a conhecer teu pai e, então, escreverei também um versículo, como o velho católico romano o fêz. E se o desejo, que alimento em segredo, fôr convertido em realidade, então certamente me será possível dar-te, além disso, uma grande alegria. Permanece em tua casa, para que eu te encontre, quando fôr lá. Allah jusellimak — Deus te guarde.

     — Fi aman Allah — Vai com Deus — respondeu o rapaz, apertando a minha mão de encontro à sua testa.

     Puxou o cavalo al el meimene — paia a direita e partiu a trote.

     _______________________

     (2) Provérbios de Salomão, cap. 30, versículo 17, “Bíblia Sagrada”, tradução de João Ferreira d'Almeida. — N. do T.

     (3) Salmos, capítulo 118, versículo 105 — “Bíblia Sagrada” — Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo.

     (4) Êxodo, capítulo 15, versículo 16 — id. id. — N. do T.

 

     Segui-o com o olhar até que ele desapareceu por detrás de umas moitas, e depois continuei o meu caminho. Não andei muito. Vi, então, sobre o solo, algo que nunca me ocorreria encontrar nesse lugar. Com efeito, tratava-se de pão de trigo, realmente pão de verdade, disposto numa fileira de oito pãezinhos torrados e bem tostados — digo oito pãezinhos!

     Essa espécie de pão foi introduzida por nós na Turquia, razão por que é preferentemente denominada de frandchela, “francônio”.

     Apeei-me e recolhi o pão. Era uma reminiscência fresquinha da pátria. Que fazer com a fila toda? Sem me ter esclarecido ainda a respeito, quebrei um pedaço e dei-o ao garanhão. Este nunca tinha visto coisa semelhante. Contudo, isso não lhe era motivo para escrúpulo. Se isso se chamava chass etmek ou frandchela, ou semmel em alemão, ou roll em inglês, ou em francês pain blanc, ou piccoli pani em italiano, ou em polaco bulka e pszema, ou em sérvio pletenitza, ou em valáquio pune albeh, ou em russo bulka, igual como na Polônia ocidental — o garanhão poucas considerações fêz de ordem lingüística ou qualquer outra. Cheirou, abocanhou o pedaço que lhe estendi e, em seguida, toda a fileira de pãezinhos.

     — Ma li hadche fih, sufra daime, tajib heiwan — Não preciso. Abençoada seja a tua refeição, bom amigo.

     Após ter ingerido a rara gulodice, o cavalo esfregou a cabeça inteligente no meu ombro. Depois, montei e... nem vinte passos adiante, estava outra fileira de pães.

     — Que é isso? Qual seria a significação disso? Essa espécie de maná não cai do céu e também não nasce nos freixos de maná (fraxinus ornus) nem se estende pelo chão como erva de maná (spaerothallia esculenta).

     Apeei-me pela segunda vez, juntei o achado e meti-o no alforge.

     Mal montado outra vez, avistei ao longe mais uma fila de pães. Apear de novo? Não. Esporeei o cavalo. Este espichou-se, “ventre à terre”, apanhei, na corrida, os pães e avistei outras qualidades de massas e pães, que deixávamos à margem do caminho.

     Teria passado por aí um roll-boy americano, com a carroça de padeiro quebrada? Esses gentlemen gostam de fazer negócios, mas tão longe do baker's oven com certeza eles não se iriam perder.

     Fiz o cavalo andar a passo e verifiquei, então, que o caminho mais adiante também estava interpontuado, a intervalos diversos, de pães de diversas qualidades. Que terra abençoada, esta da Rumelia!

     Deixei o que estava no chão e procurei encontrar o dadivoso anfitrião dessa substanciosa semeadura. Uma pequena ilha de arbustos no meio da planície descampada — dobrei-a e ali estava o munificente, na verdade, representado por uma figura bem terreno. Era um desses seres que os árabes chamam de baghl, os turcos de katyr, a que os sábios ocidentais denominam de equus hinnus e que os brasileiros, desrespeitosamente, chamam de burro.

     Sim, ali estava ele e... comia. Mas que comia o jumento? Não eram pães, que, aliás, tanto tinham satisfeito o paladar do meu excelente cavalo, mas sim doces, doces caros e finos, como os que são comidos pelas damas do ocidente à sobremesa e pelas damas do oriente durante todo o dia, para distração dos lábios rosados e dos dentes pretos. Maliciosamente se diz também que esses confeitos são vivamente apreciados no ocidente fora das horas de sobremesa.

     Apeei-me pela terceira vez. O burrico olhou-me, depois ao garanhão e, em seguida, virou-se para o lado, sem acanhamento algum, de modo tão inocente como se não tivesse nenhum entendimento para o fato de que uma subtração e conseqüente uso em proveito próprio está sujeita à punição imperdoável do juiz criminal. Ou quem sabe confiava, desde já, nas famigeradas circunstâncias atenuantes? Era-me, porém, indiferente tudo isso, porque mesmo o mais absoluto desconhecimento das leis, não excusa de pena. Comecei — para empregar uma expressão diplomática — a estudar o problema dos confeitos.

     O burro estava selado com uma coisa singular, meio alforge, meio selim para senhoras. De cada lado, estava preso um cesto, cujo conteúdo tinha sido os pães e confeitos. Por qualquer circunstância, o animal se tinha assustado, tomando os freios. Os cestos tinham ficado soltos e uma parte do conteúdo se perdera. O burro de certo tivera a idéia nada admirável de disparar por entre as vassouras, ficando com as rédeas dependuradas e, em conseqüência, presas aos arbustos.

     E ainda estavam presas, o que constituía uma figura reveladora do delito. Eu representava a furiosa Erinia, a vingadora Eumenida. O malfeitor, porém, mastigava confeitos. Será que ele estava convencido da ausência do dolo específico do crime? Eu estava esperançado firmemente de meter-lhe na cachola uma melhor compreensão do fato.

     Os cestos tinham caído do lombo do animal e estavam nas proximidades do conteúdo esparramado. Dei uma chicotada sobre a consciência adormecida do digno sir asno, de modo que saltou perplexo para o lado, dirigindo-me um olhar repreensivo e interrogador, ao mesmo tempo que me saudava com um voltear de orelhas parecido com o do catavento.

     Desprendi-o, então, dos arbustos e o levei para outra parte, a fim de amarrá-lo melhor.

     Desse modo, pelo menos, as massas restantes estavam salvas. Naturalmente ocorreu-me a interrogação sobre se o jumento estava só ou se tinha saído de casa acompanhado por alguém. Tive uma propensão íntima para aceitar a última hipótese como verdadeira. Depois, outra pergunta: teria essa pessoa montado ou iria a pé? Pedestre ou cavaleiro, feminino ou masculino?

     Nem no selim e nem em outra parte do animal se podia encontrar algo que servisse de base para responder a tal pergunta. Uma coisa, porém, era certa: se o burro fora montado, naturalmente tinha atirado o cavaleiro da sela. Onde estaria este?

     Tive de retroceder para procurar um rastro. Fi-lo sem vacilar. Antes, não havia prestado atenção. Agora, porém, via distintamente os rastros do meu cavalo e os do burro. Este último, depois de um certo trecho afastava-se para a direita, em direção ao espinheiral, onde eu ouvira, quando ainda acompanhado pelo sahaf, o abafado ruído sobre o qual se manifestara.

     Comecei a ouvir novamente esse ruído. Parecia, como já disse, o brado de uma pessoa soterrada. Apressei-me para chegar perto e apeei junto ao espinheiral. Era uma ramagem de amoras silvestres e parecia impenetrável.

     — Jardym, jardym, imdad! — Socorro, socorro, socorro! — ouvi com muita clareza.

     — Quem está aí? — indaguei.

     — Tjileka — foi a resposta.

     Era uma voz de mulher. Também o nome, que significa “moranguinho” (5) me dizia que se tratava de mulher.

     — Já vou — respondi.

     Corri até a beira da macega e encontrei o lugar onde se verificara o “arrombamento”. Ali havia por assim dizer uma picada. Atravessei esse caminho, utilizando-me da minha faca e achei-me, então, junto de uma depressão do solo, de forma funicular, semelhante a um vale cercado de rochas. Esse vale, contudo, não estava cheio de ramos de espinhos, como supunha, mas sim atapetado, com tapetes de verdade, e outras coitas semelhantes.

     Deste lado o burro entrara, saindo pelo outro. No fundo, estava deitada uma mulher, sobre o leito macio. Tão gorda como nunca vi em toda a minha vida.

     — Socorro, socorro! — bradava continuamente.

     Mal, porém, me vira, escondeu a cara num canto de tapete, gritando esganiçadamente.

     — Que te aconteceu? — perguntei.

     — Hacha! Geri tjek! Jachmak-uem, jachmak-uem — Deus nos guarde! Vai-te embora! Meu véu! Meu véu!

     Ela clamava por socorro e contudo me mandava embora, porque não tinha véu, para cobrir o rosto. Olhando melhor em torno de mim, vi o mesmo, despedaçado, espalhado pelas macegas.

     — Burada; al mendil-im — aqui, toma o meu lenço — disse-lhe.

     Tomei o lenço, amarrei-o numa pedrinha, para fazer um pouco de peso, e joguei-o à mulher.

     — Tchewir, bues, bueetuen, tamam buetuen — vira-te, de todo, completamente.

     Obedeci a essa ordem.

     — Tekrar etrafynda — Vira-te outra vez — comandou ela pouco depois.

     Quando me virei para ela, já cobrira a cara com o lenço, desnecessaroamente, porquanto eu já vira as feições vermelho-escuras, com as bochechas enormes, como alforges.

     Fosse ela um homem e tivesse aparecido na última competição ginástica  de Leipzig, já pela sua simples presença bateria todos os concorrentes e rivais na chamada “secção gorda”. Como se tratasse de uma dama e gosto de me fazer passar por genteel, deixemos passar este trecho sem uma descrição individual.

     Os orientais medem a beleza das mulheres pela seguinte fórmula: raio vezes raio vezes π multiplicado pelo quadrado do diâmetro, dá, em milímetros, a raiz cúbica do grau

     __________________

     (5) O autor emprega a palavra alemã “Erdbeere”, que é do gênero feminino. N. do T.

 

de formosura. Por esse teorema, a que estava metida no buraco, cercada de espinhos, encerrava um valor formidável.

     Tjileka vestia uma manta azul de mangas curtas, rasgada pelos espinhos. As mangas permitiam ver umas luvas compridas, escarlates, perfeitas, pois estavam ligadas ao braço e à mão, sem uma ruga sequer.

     Ela conseguira, não sei como, abrir um orifício no lenço, olhando-me, durante algum tempo, por esse monóculo improvisado.

     Depois, disse, com uma voz forte, que muito se assemelhava ao ruído do trovão:

     — Desconhecido, queres salvar-me?

     — Quero — redargui galantemente.

     — Podes carregar-me?

     Assustei-me profundamente. Todavia, procurei encorajar-me e me orientei:

     — Será preciso carregar-te?

     — É, sim.

     — Não podes caminhar?

     — Não.

     — Estás ferida?

     — Estou.

     — Onde?

     — Não sei.

     — Mas deves senti-lo.

     — Sinto em toda a parte.

     — Experimentaste levantar?

     — Não.

     — Por que não?

     — Não posso.

     — Experimenta-o confiadamente. Ajudar-te-ei.

     Até os tapetes, a profundidade era de apenas três pés. Desci e quis estender-lhe a mão. Nisso, porém, ela gritou alto:

     — Muessibet, muessibet — Desgraça, desgraça. Não me toques. Não estou velada.

     — Onde?

     — Nos braços.

     — Mas, estás de luvas.

     — Luvas? Desconhecido, estás cego? Isso é só el pane, a tinta vermelha da granza.

     De fato! Essa Tjileka — em português moranguinho — que estava sob as amoras silvestres, não estava enluvada. Os braços achavam-se pintados de vermelho pela granza. Bem, agora eu também compreendia por que as luvas assentavam com tanta perfeição, sem rugas.

     Mas também verifiquei outra coisa: a senhora Moranguinho era padeira. Tinha braços tintos de granza. Era, portanto, igualmente tintureira. Tinha, portanto, diante de mim, a mulher de Bojadji Bochak, a quem tn ia visitar, a boa mulher que vigiava pela filha, enquanto esta conversava com o namorado.

     Oh! boa senhora Moranguinho. Aquele que tu escondes debaixo de tuas asas tutelares, para ajudar-lhe no amor, considerou-te, há um quarto de hora, quando muito, como um sapo ou como uma rã, suja e pegajosa de limo. Não terá o amor melhor instinto? Não poderá o amor sentir a presença do seu protetor?

     — Como posso erguer-te, se não me permites que te toques? — informei-me.

     — Segura-me por detrás.

     Fiz uns passos em meia lua e, desse modo, cheguei às costas dela e meti-lhe as mãos por debaixo dos braços.

     — Chajyr, chajyr! Sen tjapuk hydchylelanyr — Não, não. Sinto cócegas — berrou a mulher tão alto, que, de susto, saltei alguns centímetros para trás.

     — Onde devo segurar-te?! — indaguei.

     — Não sei.

     — Então temos de experimentar de outro modo.

     — Mas, como?

     — Ali está uma corda. Aqueles que trouxeram estas mercadorias, deixaram-na aqui. Levantar-te-ei com ela.

     — Naturalmente, não pelo pescoço?

     — Não. Mas, sim, pelas cadeiras.

     — Experimenta-o.

     Trouxe a corda, amarrei-a ao redor da cintura da Moranguinho e virei-me de modo a ficarmos de costas um para o outro. Abaixando-me, puxei a corda sobre o meu ombro e comandei:

     — Goezet! Bir-iki-aetch! Atenção. Um... dois... três!

     Ao contar três, levantei-me vagarosamente. A corda esticou e puxei com força. Não ia.

     — Suer, suer, suer — Empurra, empurra, empurra — bradei resfolegando.

     — Muemkinsiz, muemkinsiz; kejar-im — Impossível, impossível; escorrego! — respondeu, resfolegando ainda mais do que eu.

     Tirei a corda e tomei fôlego. — Que mulher desajeitada! Realmente o leito de tapetes, sobre o qual cairá esse “morango” mamutiano, era escorregadio. Além disso, tratava-se de uma superfície inclinada. Um fardo desses, sem mobilidade alguma, não é fácil de se levantar num lugar semelhante, e confesso que, ao olhar os galhos cheios de espinhos, tive uma idéia criminosa, que, no entanto, abandonei imediatamente.

     — Não notaste, pelo menos agora, se estás ferida? — perguntei.

     — Estou ferida — respondeu.

     — Onde?

     — Não sei, em toda a parte. Oh! Alá! Que dirão os que souberem que estive aqui sozinha contigo?

     — Não tenhas cuidados. Nada se saberá.

     — Não dirás nada?

     — Não. Além disso sou um forasteiro.

     — Forasteiro? Então não és desta região?

     — Não.

     — De onde, pois?

     — De longe, das teiras do ocidente.

     — Neste caso, não és molesmita?

     — Não. Sou cristão.

     — É verdade que as mulheres dos cristãos não usam véus? — perguntou.

     — Não.

     — Portanto, eu também não preciso de véu. Não serei insultada pelos olhos de um cristão, que vê milhares de mulheres. Dá-me a mão.

     Estendi-lhe a mão à qual ela se segurou. Puxei e... já ela estava de pé, diante de mim. É verdade que bufando, mas, sempre e felizmente, de pé!

     O fato de ela pensar que não precisava constranger-se diante de mim, seria uma honra ou uma vergonha?

     — Há quanto tempo já estás aqui? — interroguei.

     — Oh! Há muito, muito tempo.

     — Como caiste aí dentro?

     O burro assustou-se. Os espinhos picavam-lhe as pernas.

     — Tu o montavas?

     — Sim.

     Coitado, coitado do burro! Agora, eu tinha pena de ter interrompido o banquete. Fizera jus, sobejamente, aos doces.

     — Mas por que entraste, montada, neste espinheiral? — informei-me.

     — Queria... queria...

     Ficou mais vermelha do que já era e... calou-se. Olhei em redoi. Com efeito, eu estava diante de um magazin em pequena escala.

     — A quem pertence isso? — perguntei.

     — Eu... eu... não sei.

     — Entretanto, sabias que isso estava aqui?

     — Não.

     — Sou discreto e, além disso, desconhecido. Não precisas temer-me. Mas, que sorte não te ter observado, quando ainda estava acompanhado!

     — Não estavas só?

     — Não. Um jovem de Kabatch estava comigo.

     — Onde está agora?

     — Foi para casa.

     — Sabes o nome dele?

     — Sei. É o sabaf Ali.

     — Ali? Ah! ele! Não, ele não deve saber o que viste aqui. Tu o-conheces bem?

     — Vi-o, hoje, pela primeira vez, mas me simpatizei com ele.

     — Como me achaste?

     — Encontrei os pães e confeitos espalhados pelo campo e depois vi o burro, que ficara preso às macegas. Amarrei-o e segui o teu rasto. Assim cheguei aqui.

     — Esse burro é uma criatura muito estúpida. Agora, tenho de juntar os pães por todo o campo. Entretanto, quase não posso abaixar-me. Me ajudarás?

     — Com muito gosto.

     — Então, vamos.

     — Será possível? Podes subir o barranco?

     — Não. Mas tu me puxarás ou empurrarás.

     — Mas sentes muita cócega!

     — Agora não sinto mais, pois és um cristão.

     Hum! Essa dama possuía realmente nervos muito singulares e curiosos.

     Caminhei sobre o depósito de tapetes, examinando-o detidamente Depois indaguei:

     — Este território ainda pertence à jurisdição de Kochikawak ou já faz parte da circunscrição de Dchnibachlue?

     — Pertence a Dchnibachlue.

     — Que qualidade de homem é o kiaja dessa aldeia?

     — Não sou amiga dele — respondeu ela francamente.

     Era o bastante. O acaso me tinha distribuído um triunfo, que resolvi jogar em benefício do vendedor ambulante de livros.

     — Vais junto? — perguntou a mulher.

     — Vou.

     — Então vem. Guia-me.

     Conduzi-a, descendo do atapetado até chegar ao ponto em que começavam as ramagens espinhentas.

     — Mas os meus vestidos ficarão presos aos espinhos — disse ela.

     — Farei uma passagem. Cortarei os espinhos com a minha faca.

     — Não, não — contestou assustada. — Não podes fazer isso.

     — Por que não?

     — É proibido.

     — Quem proibiu?

     — Justamente o tal kiaja detestável.

     Compreendi muito bem os seus intentos. Esse lugar era muito apropriado para esconderijo das mercadorias do comércio ilícito do marido dela. Supunha-se que a macega fosse impenetrável; contudo devia haver um determinado lugar, por onde se pudesse passar facilmente. Abrisse eu porém, um caminho e a toca estaria sujeita a ser descoberta.

     Isso, evidentemente, ela queria evitar.

     — Para onde levavas os pães e confeitos? — perguntei.

     — Para Goeldchik. Foi no caminho que o burro disparou.

     Ah! Ela sabia que, talvez, durante a última noite tais mercadorias tinham sido escondidas ali é, levada pela curiosidade, desviara-se do caminho. Aproximara demasiadamente o burro dos espinhos, fazendo-o tomar os freios, infelizmente, porém, disparando por dentro da macega e por sobre a baixada.

     — De onde vens? — perguntou-me.

     — De Kochikawak.

     — E para onde vais?

     — Vou a Duchnibachlue e Kabatch.

     — Que vais fazer em Kabatch?

     — Vou visitar Ali, o sahaf.

     — De fato? Dize, forasteiro, queres fazer-me um favor?

     — Com muito prazer.

     — Dar-te-ei uma encomenda para ele.

     — Muito bem.

     — Mas não tenho aqui. Terias de ir comigo até em casa.

     Era isso o que eu queria. Não obstante, observei:

     — Ao que me parece, entretanto, pretendias ir a Goeldchik?

     — Agora, não. Hoje, não se pode mais confiar no burro. Mas é preciso que eu te diga que o meu marido não deve saber que mando um recado a Ali.

     — Guardarei segredo. Quem é o teu marido?

     — Chama-se Bochak e é bojadji e etmektji. Não lhe participarei, absolutamente, que estivemos juntos aqui e tu não falarás mais sobre isso.

     Essa mulher contava com a minha discrição, como se fosse a coisa mais natural e lógica. Ela continuou:

     — Direi ao meu marido que o burro disparou e me jogou ao chão. Tu o pegaste e me achaste na estrada. Depois me acompanhaste até em casa.

     — Que é que devo levar ao sahaf?

     — Dir-te-ei mais tarde. Agora, vamos embora daqui.

     Não era coisa fácil subir a rampa e atravessar a macega com essa singularíssima “moranguinho”. Todavia, passamos.

     — Agora, fecha a passagem que fizemos entre as amoras — ordenou ela perentoriamente. — Ninguém deve saber que se pode passar através dos espinhos.

     — És previdente. Tens razão.

     Depois de proferir essas palavras, comecei a fazer o que mandou, espetando-me muitos espinhos na pele.

     — Assim está bem — disse me ela, depois de eu ter resolvido satisfatoriamente o tema. És muito jeitoso para essas coisas. Agradeço-te. Agora, darás licença de montar o teu cavalo.

     — Não preferes ir a pé?

     — Por quê?

     — Meu cavalo nunca foi montado por uma mulher.

     — Oh! não lhe farei nada.

     — Acredito. Mas, olha para a sela. Não foi feita para o corpo macio de um ente feminino. É tão pequena que nem acharias jeito de te acomodar nela.

     — Então, tira-a. Montarei em pêlo. Assim se dará jeito.

     — Isso demandaria muito tempo. Teria de levar o cavalo a cabresto e além disso não poderíamos juntar os pães, que o teu burro espalhou pelo chão. Amarrei-o bem perto daqui.

     — Amarraste-o? Foi muito bom. Nesse caso, já que achas melhor, irei a pé, não obstante a caminhada poder fazer-me mal. Quando caminho, costumo perder o fôlego e preciso esperar muito até que ele volte. O caminhar sempre me origina fortes pulsações e ameaça apoplexia, e, além, disso, tusso e espirro, até ficar quase morta.

     Puxei garanhão pela rédea. Ela apoiou-se no meu braço e nos pusemos em movimento. Mal tínhamos dado trinta passos, ela começou a bufar e a soprar. Parou, tomou fôlego profundamente e disse:

     — Vês? Agora começa. Tenho que me apoiar melhor em ti. Iremos mais devagar.

     Marchamos daí por diante com a metade da velocidade de um enterro. Quando chegamos ao lugar onde se encontrava o primeiro pãozinho, disse a mulher:

     — Aqui está uma frandchela. Junta-a.

     Apanhei-a. Pouco adiante, repetiu:

     — Aqui está outra frandcbela. Junta-a.

     Obedeci novamente.

     Depois de pouco tempo, estava com o braço cheio de produtos de padaria, pães, doces, biscoitos e confeitos. Puxava o cavalo e amparava a boa dama. Mais um trecho, e aí ela se desprendeu de mim, levantou os braços, bateu as palmas das mãos e bradou:

     — Oh! Alá! Cá está um montão de pães feitos com manteiga. Esse burro deve ter uma quantidade enorme de ratos na cabeça para disperdiçar assim esse precioso manjar! Junta-os todos.

     — Com prazer, com muito prazer! Mas, dize-me primeiro, onde devo meter estes saj jaghyla? Não tenho mais onde guardá-los.

     — Mete-os na tua capa.

     — Allah 1'Allah! Não vês a côr da minha capa?

     — É branca. É tão branca como a neve das montanhas. Suponho que é nova.

     — Naturalmente. É nova e custou-me nada menos de duzentas piastrás bem contadas.

     — Muito bom, assim. Nem eu permitiria que essas cucas de manteiga fossem colocadas numa capa suja.

     — Alá concedeu-te o maravilhoso instinto do asseio. Deves render-lhe graças toda a vida por isso, porque a limpeza é o mais belo ornamento e virtude da mulher. Mas, digo-te que também eu tive a ventura de receber o mesmo favor divino. A minha alma ficaria dolorida e o meu coração encher-se-ia de tristeza, se eu tivesse de manchar de manteiga a minha capa nova.

     — Oh! A manteiga é boa. Uma mancha dela não é vergonha. Manteiga não é azeite de peixe, nem sebo de cavalo.

     — Mas ninguém reconhecerá que as manchas foram feitas pela tua manteiga.

     — Meu caro, és um homem distinto e nobre. Para ti é indiferente o que se possa pensar; tanto dá serem manchas de manteiga, como azeite de peixe. Despe a capa, vira-a do avesso e talvez nem se notem as manchas gordurosas.

     — Não sabes que é proibido tirar-se uma peça do vestuário, na presença de uma mulher?

     — Oh! tu és meu amigo, meu salvador, e usas, também, casaco e colete, sob a capa.

     — Contudo, eu não queria transgredir os postulados da delicadeza e da civilidade. Permite que eu ponha estes gêneros alimentícios na minha gualdrapa.

     — Está limpa?

     — Sim. Bato-a todos os dias.

     — Preciso certificar-me disso. Bate-a.

     Esse incidente proporcionou-me grande divertimento. Não me ocorrera limpar o xairel. Este estava afivelado por detrás da sela e mostrava evidentes sinais de pó, apanhado durante a cavalgada de ontem. Desafivelei-o e o abri.

     — Sacode essa gualdrapa — ordenou “Moranguinho”, amável. Obedeci, levantando uma nuvem de pó, perfeitamente visível. Mesmo assim, a mulher sentenciou:

     — De fato, está limpa. Apanha as massas de manteiga e põe-nas ai dentro.

     Fiz um saco, dobrando o teliz, e guardando nele todos os produtos panificados, que, a pouco e pouco, íamos juntando.

     Assim, atingimos a touceira, onde havia amarrado o burro. Ao avistar os balaios atirados ao solo, ela levantou os braços, num gesto de desespero, e bradou:

     — Oh! Alá! Oh! Ayecha! Oh! Fathme! Que desgraça fêz este animal!

     — Aí estão os cestos no chão e todas as gulodices. Mas não, nem tudo está aí. Falta muito. Onde está?

     Lançou-me um olhar inquiridor e continuou:

     — Essas coisas são muito gostosas e muito doces.

     — Acredito.

     — Gostas de doces e guloseimas?

     — De vez em quando.

     — Talvez comeste aquilo que falta?

     — Não.

     — Dize a verdade. Não me zangarei contigo, desde que me pagues os confeitos que faltam.

     — Não os comi, graciosa Tjileka.

     — Mas onde estão, nesse caso? Onde foram parar? Preciso prestar contas ao meu marido de um por um.

     — Digo-te que não serviram de comida e sim de forragem.

     — Quê?

     — Forragem.

     — Forragem? Como assim?

     — Este teu burro se serviu regaladamente.

     — Oh! desgraça! Oh! atrevimento! Acreditas realmente que um burro possa comer confeitos?

     — Apanhei-o justamente quando se banqueteava.

     — Viste-o com os teus próprios olhos?

     — Com estes dois olhos.

     — E a mim nunca deixou perceber que gostava de gulodices. Esse hipócrita! Esse santarrão! Efêndi, queres fazer-me um favor?

     — Só um? Por acaso já não te demonstrei que gosto de ser amável para contigo?

     — Sim, fizeste tudo quanto te pedi. Agora, toma o teu relho e dá uma sova nesse animal, até que as orelhas saltem da cabeça.

     — Não farei isso.

     — Não? Por quê?

     — Seria maltratar o animal.

     — Que tens com isso? O burro é teu?

     — Não.

     — É meu, não é?

     — Claro que é teu.

     — Pois bem. É meu e, portanto, eu posso maltratar quanto quiser.

     — Perdoa-me, mas não o farei. Disseste ao burro que ele não devia comer essas coisas?

     — Não.

     — Então cometeste um grande erro. Naturalmente, ele pensou que podia comer os confeitos, pois eram da sua dona. Quando fizeres outra excursão dessas, não te esqueças de explicar bem claro ao burro quais os limites das suas atribuições.

     — Oh! isso eu farei agora já e estou certa de que ele me entenderá perfeitamente.

     A mulher tomou o meu relho, que estava preso ao serigote e aproximou-se do burro. Este olhou-a desconfiadamente, sacudindo as orelhas em sinal de grave preocupação defensiva.

     — Que fizeste? — gritou ela ao animal. — Não te enxergas? És um gatuno, um grande ladrão. Toma o teu castigo!

     Um chicotaço valente estalou na cabeça do burro.

     — Guloso! Novo chicotaço.

     — Pérfido, tratante!

     Um terceiro relhaço zuniu pelos ares. O burro, porém, não era lá muito educado e respeitava a dona num grau muito diminuto. Fêz um movimento brusco, rápido como um relâmpago, e soltou um coice com ambas as patas traseiras. Isso foi tão rápido, que mal tive tempo de puxar violentamente a mulher para o lado.

     Toda a raiva se apagara, instantaneamente. Ela tremia de medo.

     — Efêndi, — disse, trêmula — que é que ele fêz? Deu-me um coice?

     — Deu, sim.

     — Este miserável! Animal ingrato! Sabes se me acertou, com as patas?

     — Penso que não fôste atingida. Sentes alguma dor?

     — Naturalmente que sinto. Todo o meu corpo parece uma só massa.

     — Ai de ti! Um “galo” desses será difícil de se curar.

     — É mesmo. Mas, contudo, acredito que as patas apenas passaram rente de mim. Não é?

     — Creio ter notado a mesma coisa.

     — Graças a Alá! Se ele me coiceasse no peito, agora eu seria um cadáver, e se fosse na cara!.. Quebrar-me-ia um dente e quem sabe até todos. Nunca mais baterei nesse monstro.

     — Fazes muito bem. Disse-te que eu não daria nele. Entretanto, não quiseste seguir o meu conselho.

     — Mas o burro é de minha propriedade. Como é que ele se pode atrever a dar coices contra mim. Assustei-me tanto que todo o meu corpo treme. Vês como estou tremendo?

     — Sim, vejo.

     — Segura-me.

     — Será isso realmente necessário? Estás tão mal assim?

     — Realmente estou muito mal. Estou tão mal que preciso me sentar para recuperar as forças.

     Uma dama corporeamente mais etérea sentar-se-ia, inclinando-se de um modo poeticamente estético. Tjileka experimentou fazê-lo também, mas o peso do corpo era demasiado. Perdeu o equilíbrio e aterrissou com uma rapidez tão vertiginosa que mal tive tempo de afastar um cesto, no qual ela iria cair, esmagando-o.

     — Ah! muito obrigado — disse. — Agora, preciso tomar fôlego. Estou pescando ar.

     Realmente, era isso que ela fazia, abrindo a boca e fechando-a rapidamente, ao mesmo tempo que avançava com a cabeça alguns centímetros para a frente. Se quiser caçar moscas com a boca, ninguém precisa proceder com maior perfeição, para alcançar o maior êxito cinegético.

     Quando ela começou a respirar regularmente, disse-me:

     — Agora, colocarás tudo quanto sobra nos balaios, ensilharás o burro, e porás tudo em ordem. Depois, vamos embora.

     Cumpri essa ordem, intimamente curioso para ver como ela conseguiria montar. Já era muito trabalho, levantá-la do chão. Quando conseguimos, com grande esforço, ela olhou desconsoladamente em torno de si.

     — Que procuras? — perguntei.

     — Uma escada Uma escadinha.

     — Uma escada? Como poderia encontrar-se uma escada aqui no campo?

     — Mas eu preciso de uma, para poder montar.

     Também olhei em redor, desconsoladamente.

     — Lá, — disse ela — lá está um toco de pau. Leva-me lá.

     Com algum esforço, pôde, auxiliada por mim, subir ao toco e dali ao lombo do burro. O pobre do animal quase desmoronava ao peso dela. Parecia, porém, redobrar de forças, desde o momento em que percebeu que o rumo era o da casa. Depois de pouco tempo, vi casas espalhadas à distância.

     — É ali Dchníbachlue?

     — Não. Isso é Dchnibachlue-Menor. Mas nós moramos aí mesmo — respondeu a mulher.

     Chegamos àquele ponto e passamos por algumas casas miseráveis, até chegarmos a uma habitação maior, onde a minha companheira dirigiu-se para a parte dos fundos.

     Havia ali diversos tanques, onde tinham colocado barricas. Estas estavam cheias de líquidos corantes. Estávamos, portanto, na residência do tintureiro e padeiro Bochak.

     A amazona proferiu um grito estridente, repetindo-o mais algumas vezes. Nisso, abriu-se a porta de uma casinha de madeira, existente ali perto, e dela saiu uma figura masculina, com cara de ave, a qual se aproximou de nós.

     A roupa desse homem consistia numa espécie de calção de banho, Mas não foi essa a circunstância que me chamou a atenção e sim a coloração da pele. O corpo brilhava de todas as nuances, desde o castanho mais escuro até o vermelho berrante. E, com tudo isso, o homem fazia uma cara tão séria, sem constrangimento, como se essa borralhada toda fosse uma coisa perfeitamente natural.

     Tinha apeado e esperava os acontecimentos, com vivo interesse e curiosidade.

     — Sydjyrda, minha escada — ordenou ela.

     Portanto, era Sydjyrda, isto é, “estorninho”, o nome desse homem. Hum! De fato existem exemplares magníficos de estorninhos, como qualquer ornitólogo sabe. A pessoa chamada caminhou gravemente, entrando pela porta dos fundos da casa, para trazer, efetivamente, uma escada de vários degraus. Esta foi colocada ao lado do burro. A dama apeou-se.

     — Que faz meu marido? — perguntou.

     — Não sei — foi a resposta.

     — Uê! alguma coisa ele deve estar fazendo.

     — Não.

     — Imbecil! Onde está ele?

     — Não sei.

     — Naturalmente, no quarto?

     — Não.

     — Na sala?

     — Não.

     — Onde, então?

     — Não sei.

     — Mas, ele está em casa?

     — Não.

     — Portanto, saiu?

     — Saiu.

     — Por que não disseste logo? Leva o burro daí.

     O homem soberbamente colorido dera as respostas solenemente, com uma seriedade tal, que parecia tratar-se da coisa mais importante. Diante da voz de comando recebida, pegou as rédeas do burro e fêz menção de afastar-se.

     — Descarrega, primeiro, naturalmente! — berrou ela.

     Abaixou a cabeça, em sinal de entendimento, e começou a tirar os cestos da garupa do burro.

     — Entra, efêndi — convidou-me Tjileka.

     Amarrei o cavalo num toco enterrado a um canto e segui-a. Veio ao meu encontro um forte cheiro de barrela de soda e manteiga. À esquerda, vi uma instalação, que estive inclinado a supor que fosse o forno, pois não se justificava uma construção com telhado dentro da casa. À direita, encontrava-se a entrada para a habitação.

     Quando entramos, vi-me defronte a uma segunda edição renovada da minha companheira “Moranguinho”. Não podia duvidar que fosse a sua filha.

     Não tinha traços muito desinteressantes e era possuidora da maior beleza das mulheres levantinas: a gordura. Era quase tão corpulenta quanto sua mãe.

     Estava diante de umas bacias e se preparava para levar à boca, largamente aberta, a nata do leite, segura com dois dedos.

     — Ikbala, que fazes aí? — perguntou-lhe a mãe.

     — Deresini thykar-im — Desnato — respondeu a interrogada.

     — Nereje — Para onde?

     — Aghyz itjini — Para dentro da boca.

     — Mas, tens de pôr essa nata num prato ou num boião, não na boca.

     — É gostosa.

     O motivo que apresentava como excusa era realmente muito convincente. E a mãe naturalmente deixou-o prevalecer, porque, aproximando-se da filha, bateu-lhe meigamente nas faces redondas e disse numa carícia:

     — Benim tjuestlueka — Minha gulozinha!

     A tal gulozinha dirigiu-me um olhar espantado. A mãe explicou:

     — Esse efêmedi quer descançar um pouco aqui conosco.

     — Por quê?

     — Está cançado.

     — Que se deite lá fora no capim. Como podes conversar com um desconhecido, estando sem véu e ainda mais trazê-lo para aqui, quando sabes que não estou com o rosto velado.

     — Oh! ele é meu amigo, meu salvador.

     — Estiveste em perigo?

     — Em grande perigo de vida.

     Com isso, a filha dirigiu-me novo olhar mais abrandado. Depois disse:

     — Não podias estar de volta ainda. Com certeza te aconteceu alguma coisa em caminho?

     — Naturalmente, aconteceu-me alguma coisa.

     — Que foi?

     — Um desastre.

     — Já o supunha evidentemente. Mas que desastre foi esse?

     — Não me tinha ocorrido que hoje era um dos cinqüenta dias infelizes do ano. Senão, não teria saído. Apenas tinha andado uma meia hora quando vi abrir-se a terra diante de mim...

     — Oh! Alá! — disse a filha, assustada.

     — Elevou-se do solo uma fumaça azul — prosseguiu a mãe.

     — Wai sana — ai de ti!

     — E da fumaça emergiu um espírito, um fantasma, que estendeu cento e quarenta e quatro braços para me pegar...

     — Alá te ajude! Existem muitos e perigosos fantasmas na terra.

     — Naturalmente, minha filha. O meu burro assustou-se, é claro, tanto como eu e fugiu tão depressa quanto pôde. Sou boa cavaleira, como sabes; mas, mesmo assim, levei uma queda, enquanto o burro disparava.

     — Que desgraça! Não o pegaste mais?

     — Não. Este efêndi vinha a cavalo, pegou o burro e levantou-me do chão, acompanhando-me até aqui. Onde está teu pai?

     — Foi à aldeia.

     — Que foi fazer?

     — Quer comprar passas e avelãs.

     — Disse-te quando voltava?

     — Só me disse que não se demoraria.

     — Então, serve esse afêndi, até que eu volte. Tenho de mudar o vestido.

     Ia afastar-se por uma segunda porta, mas a filha segurou-a pelo braço e interrogou:

     — Dize-me, antes, que foi que aconteceu com o fantasma?

     — Não tenho tempo. Pergunta ao efêndi, que te contará a história.

     Com isso, a velha esperta desapareceu, transferindo-me a incumbência de levar a termo a sua patranha descabelada sobre os fantasmas.

     Quanto ao que me diz respeito, desde as primeiras palavras trocadas entre mãe e filha, tinha-me sentado numa rede junto à parede.

     A jovem “moranguinho” viu-se sozinha comigo e ficou visivelmente embaraçada. Depois de um pequeno silêncio, perguntou-me:

     — Estás cançado, efêndi?

     — Não.

     — Ou tens fome?

     — Também não, minha filha.

     — Mas tens sede?

     — Faz calor. Poderias dar-me um gole d'água, ó filha da graciosidade!

     Tomou de uma das bacias, de cujo conteúdo, há pouco, tinha tirado o “couro grosso”, com o delicado dedo indicadar. Apresentou-ma e disse:

     — Aqui tens leite de vaca. Está fresco e irás gostar. Ou preferes, talvez, leite de cabra?

     — Deste último, também já tiraste a nata?

     — Sim, eu mesma tirei.

     — Então, dá-me água. Somente tomo leite, quando ainda tem a nata. Saiu e me trouxe um púcaro de barro cheio de água, o qual, pelo cheiro e pelo aspecto, parecia ter servido para lavar a uma tabaqueira velha ou um cachorrinho sujo.

     — De onde recolheste esta água? — perguntei.

     — Tirei-a da artesã — respondeu-me.

     — Não tens outra?

     — Sim, temos água corrente, não muito longe da casa.

     — Não me podes dar dela?

     — Podia, sim; mas, não a beberás.

     — Por que não?

     — Tem sapos e tartarugas, tão grandes como um mastim ou um ouriço-cacheiro, quando está bem gordo.

     — Não há uma fonte, aqui por perto?

     — Temos. Lá existem, porém, lagartixas tão grandes e fortes como um muçum.

     — Ai de mim! Nesse caso, prefiro não beber.

     — Senhor, poderia dar-te bom mosto.

     — É realmente bom?

     — É tão doce como açúcar e mel.

     — Peço-te, então, que me dês.

     Ela se afastou novamente. Ao voltar, trouxe a casca de meia abóbora cheia de um líquido, que, pelo aspecto, era de pôr a gente em risco de vida. Cheirei-o e, com isso, mais me aferrei à deliberação de permanecer extremamente reservado.

     — De que frutas é tirado esse mosto? — procurei informar-me.

     — Das amoras, sorva brava e limões. É temperado com fungos amarelos e adocicado com melaço. Será, para ti, um refresco e um tônico, brotando em torrentes do paraíso.

     Que mistura! Amoras, que têm um gosto nojento; sorva brava, que constitui a seva habitual dos fradinhos e outros pássaros, e limões! Tudo temperado com cogumelos de cor amarela e adoçado com açúcar! Era de se supor o gosto disso e imaginar os seus efeitos. O resultado teria de vir com cólicas ou coisa parecida. Mas, eu tinha muita sede e, por isso, levei a meia abóbora à boca, fechei os olhos e tomei alguns goles. Nisso, a moça segurou-me precipitadamente, pelo braço.

     — Dur, dur — pára, pára! — gritou. — Salt bir itchimi, salt bir itchimi — só um gole, só um gole.

     — Por quê? — perguntei.

     E, ao largar a tal vasilha, é que senti o gosto repugnante daquela bebida traiçoeira.

     — Sandchy, korkulu sandchy — dor de barriga, terrível dor de barriga! — respondeu-me.

     — Por que, então, me dás essa coisa?

     — Oh! o mosto é muito bom; mas, só se pode tomar um único gole. Presta atenção. Assim!

     Pegou a casca de abóbora para tomar um trago, longo, vagaroso, chuchurreante. Ao beber, fazia, uma cara, como se estivesse tomando o extrato do néctar celestial.

     Lembrei-me, nesse momento, do pavoroso kumis, que me foi dado beber, nas estepes de Quirguise. Às primeiras tentativas, vi-me a pique de desmaiar. Aconselharam-me a fechar o nariz, ao beber, e, seguindo esse bom conselho, consegui realmente provar, mais tarde, sem medo, essa bebida mefítica.

     O mosto, em Dchnibachlue, positivamente era um produto muito pior. Como, porém, sempre me orgulhei de possuir um estômago excelente, a tentativa de homicídio feita pela linda filha do padeiro e tintureiro resultou completamente frustrada.

     Quando ela depôs a abóbora no chão, aproximou-se um gato velho, oveiro, que, até então, estava deitado a um canto, e meteu os bigodes no mosto como patrulhas avançadas de reconhecimento, sacudiu pensativamente a cabeça, mas, não obstante, começou a lamber, primeiro devagar e desconfiadamente, e, depois, com visível deleite.

     — Kaetchuek, kedi-im itch; achyk-uem, tatlylyk-uem, benim, djanym-lyk, itch, itch, itch — bebe, meu gatinho; bebe, bebe, bebe, meu doce, meu querido! — disse a turca, acariciando o bichano.

     — Pára, pára! — exclamei, tão alto, que ela se ergueu, de um salto, assustada.

     — Que é? Por que gritaste assim? — perguntou-me.

     — Não deixes o teu gatinho querido beber desse mosto.

     — Por que não?

     — Apanhará a dor de barriga, de que me falaste.

     — Oh, não! Ele está acostumado.

     — Ah, bebe isso freqüentemente?

     — Como não?

     — Dessa casca de abóbora?

     — Naturalmente. Até gosta muito. Há pouco, ainda bebeu, coitadinho, meu amor.

     Ainda mais essa! Primeiro bebera o “queridinho”, depois eu, depois ela. E, além de tudo, a incomparável naturalidade com que ela me dizia isso. Ó, Ikbala, quão poucas foram as tinturas que recebeste da civilização da Europa ocidental!

     Estive a ponto de enfurecer-me, mas, dando quitação ao meu desejo de vingança, desviei a conversa para um assunto, que certamente era o mais caro para a turca.

     — Ali, o sahaf, também bebe, às vezes, desse mosto?

     Quando fiz essa pergunta, em tom absolutamente despreocupado, ela olhou-me surpreendida.

     — Senhor, conheces o sahaf? — perguntou.

     — De fato, eu o conheço.

     — Onde fôste conhecê-lo?

     — No caminho de Kochikawak para cá e isto hoje, há, mais ou menos, duas horas.

     — Falou-te ele a meu respeito?

     — Sim. É para eu dar-te lembranças dele.

     — Então também te disse que me ama?

     — Isso ele me disse e mais alguma coisa.

     — Que foi?

     — Que tu também o amas.

     — Sim, isso é verdade. Nós nos amamos de todo o coração. Ele voltou da Arábia, por minha causa.

     — E, contudo, não pode falar contigo.

     — Infelizmente! Papai não quer.

     — Mas, a tua mãe é o anjo da guarda, que vela por vocês.

     — Ah, sim! Se não a tivéssemos, a nossa dor seria tão grande como o mais alto dos minaretes em todo o reino do Senhor de todos os Crentes. Nós nos mataríamos, ou com veneno para ratos ou por afogamento, onde a água é mais funda.

     — Tu te referes à água corrente que há aí fora?

     — Sim, é isso mesmo.

     — Mas, disseste que ali existiam sapos e tartarugas, tão grandes como um ouriço-cacheiro gordo. Não é verdade?

     — É verdade. Nós, porém, escolheríamos um lugar, onde não houvesse sapo algum.

     — E onde iriam buscar o veneno?

     — Ali iria a Mastanly. Lá existem dois farmacêuticos que têm todas as qualidades de venenos.

     — Talvez não seja preciso procurarem a água ou os farmacêuticos. Teu pai, certamente, se tornará mais amável para com Ali.

     — Oh, não. Mosklan não permitirá.

     — Quem é Mosklan?

     — Ele negocia com cavalos e faz uma porção de outras coisas. Tu, de certo, não o conheces. Serei obrigada a casar-me com ele.

     — Sei disso.

     — Ali contou-te tudo?

     — Contou. Maklan não se apresenta, também, com outros nomes? Ela vacilou em dar resposta.

     — Podes usar de franqueza comigo. Sou teu amigo — expliquei.

     — Não, ele não usa outro nome — disse finalmente.

     — Dizes isso de medo dele e do teu pai.

     — Oh, não. Nada sei a respeito de outro nome.

     — Então, nunca viste um homem chamado Pimosa, de Lopaticza? A moça ficou embaraçada e perguntou, irresoluta:

     — Onde é que eu podia tê-lo visto?

     — Aqui, na tua própria casa.

     — Não. Tu te enganas.

     — Pois bem, enganei-me e isso absolutamente não é vantajoso para ti.

     — Não é vantajoso? Por quê?

     — Se soubesses quem é esse Pimosa e o que faz, eu poderia induzir teu pai a dar-te, por esposa, a Ali.

     — Como seria isso possível?

     — Bem. Dir-te-ei que vim aqui somente para te ver. Tinha resolvido, caso fosses condescendente para comigo, ir em busca de Ali para apresentá-lo a teu pai, como seu genro.

     — Isso é impossível.

     — Oh, não. Pelo contrário, até é muito possível.

     — Como procederias, nesse caso?

     — Não te posso dizer, porque também não és sincera. Queria forçar teu pai a dar, hoje, o seu consentimento; hoje, entendes?

     — E acreditas que ele consentiria?

     — Sim, com toda a certeza. Mas, não tens confiança em mim e, portanto, a minha presença aqui é supérflua. Nessas condições, vou-me embora, em seguida.

     Fiz um movimento para me levantar, mas a turca já estava a meu lado, segurando-me, ao mesmo tempo que dizia:

     — Senhor, fica sentado. Quem és tu, que pretendes ter uma tal autoridade sobre meu pai?

     — Sou um efêndi das terras do pôr do sol; estou à sombra do padixá e posso, se quiser, obrigar teu pai a permitir o casamento com Ali. Mas não tenho tempo; preciso ir-me.

     — Fica mais um pouco. Quero ser franca para contigo.

     — Assim procedes com inteligência. É para o teu bem. Então, dize-me se conheces o tal Pimosa.

     — Sim, conheço-o. Perdoa-me por ter afirmado o contrário, há pouco.

     — Perdôo-te. Sei, com efeito, que tinhas de falar daquele modo, em atenção a teu pai.

     — Podes prometer-me que não trarás prejuízos a meu pai?

     — Sim, prometo.

     — Aperta-me a mão.

     — Aqui a tens. Quando prometo alguma coisa, cumpro a palavra. Mas, agora, dize-me quem é Pimosa.

     — Ele não se chama Pimosa. É o tal Mosklan, de quem deverei ser mulher.

     — Já sabia. Que é que ele faz, além do negócio de cavalos?

     — É contrabandista e também mensageiro do Chut.

     — O Chut já o enviou alguma vez a teu pai?

     — Já.

     — Para tratar de quê?

     — Não sei.

     — Teu pai é contrabandista?

     — Não.

     — Dize a verdade.

     — Não é contrabandista; mas os contrabandistas vêm ter com ele e...

     Engasgou.

     — E então? E?...

     — E então ele sempre recebe muitas mercadorias.

     — Onde? Aqui em casa?

     — Não. Lá fora, no campo.

     — Em que lugar?

     — Não devo dizer. Eu e mamãe tivemos de jurar que nada diríamos.

     — Não tens necessidade de dizer, porque conheço o lugar tão bem como tu e tua mãe.

     — É absolutamente impossível. Nada conheces aqui.

     — Contudo, sei onde é o esconderijo. É lá no buraco, dentro do espinheiral.

     Perplexa, ela bateu com as mãos, bradando:

     — Oh, Alá! Tu sabes realmente.

     — Estás vendo? Justamente hoje, encontram-se lá muitas mercadorias.

     — Viste-as?

     — Vi. São só tapetes.

     — Realmente, realmente, tu sabes. Quem foi que te denunciou esse lugar?

     — Ninguém. De onde vêm os tapetes?

     — Vieram, pelo mar, com um navio. Depois de desembarcados em Makri, são levados pelos nossos carregadores para Guemuerdjina e depois trazidos para aqui.

     — Para onde são destinados?

     — Devem ir para Sofia e dali para mais adiante. Não sei para onde.

     — Participa o Chut desse contrabando?

     — Não. O chefe principal é um silahdji de Ismilan.

     — Ah, sim. Esse homem também possui um kabvehane?

     — Possui.

     — Mora na rua que conduz para Tjatak?

     — Efêndi tu o conheces?

     — Ouvi falar nele. Sabes o seu nome?

     — Chama-se Deselim.

     — Esteve alguna vez aqui?

     — Seguidamente. Deverá vir, também, hoje ou amanhã.

     — Com certeza, por causa dos tapetes, que se encontram lá no campo, não?

     — Realmente. Precisam ser levados daqui.

     — Ele também traz os carregadores?

     — Alguns. Os outros moram aqui pelas proximidades.

     — Em Dchnibachlue?

     — Aqui e nas localidades próximas.

     — Quem é que os reúne?

     — Meu pai.

     — Mas ele, de certo, não os chama pessoalmente?

     — Não. Manda o nosso empregado, que conhece todos.

     — É aquele que ajuda tua mãe a apear do burro?

     — É. Tem todas as cores na cara. É um homem muito esperto e muito corajoso. Calado! Vem gente!

     Lá fora, na entrada, fazia-se ouvir um bufar e gemer:

     — A buh! A buh!

     — É o meu pai — disse a moça. — Não o deixes perceber que estivemos conversando.

     Em seguida, ela desaparecia pelo mesmo lugar por onde saíra sua mãe.

     Encontrava-me, portanto, completamente só naquele compartimento, execeção feita do gato, que novamente se recolhera para o canto. Era-me isso desagradável, mas não se podia corrigir. Ouvi umas passadas chuchurreantes, pesadas, alguns “a buh” repetidos e o homem entrou.

     Quase me assustei, quando o vi. Era de uma grossura quase igual à altura e tinha de forçar a passagem pela porta. Vestia inteiramente à búlgara. As suas calças, a túnica e a capa de mangas eram de lã, enquanto que o otomano usa, para as épocas estivais, tecido de algodão leve ou linho, com muitas pregas. As pernas do padeiro também estavam, segundo o costume búlgaro, envoltas em tiras de pano, que cobriam igualmente os pés. O velho búlgaro, tártaro já incorporado à raça eslava, não gosta de outros sapatos para os pés.

     Compreende-se que esse traje ainda mais deformava o padeiro. A capa curta, as pernas enroladas em pano, o cinto de um e meio pés de largura, tornavam-no bem mais gordo e disforme, do que ele era realmente. Acrescia a circunstância de ter a cabeça raspada à navalha. Somente em cima, no meio da cabeça, havia um monte de cabelos, que estavam trançados e caíam para trás. Não levava fez ou qualquer coisa semelhante. Trazia na mão um lenço, amarrado a nós, no qual se encontravam alguns cartuchos.

     Se me perguntassem qual era a côr da sua roupa, não poderia dizer. Originalmente, com toda a certeza, havia alguma côr. Mas, sobre ela, havia riscos de todas as cores, de modo que não se podia ver o fundo. Via-se somente que o homem costumava limpar os dedos na roupa, estivessem eles sujos de massa, ao fazer pão, ou de tinta, ao tingir.

     As mãos davam a aparência de que tivessem sido pintadas com a mistura proveniente de diversos pós de tinta, moídos e misturados a óleo. Não podia ver-lhe os braços. Deviam, porém, assemelhar-se aos da graciosa “Moranguinho”, cuja pintura eu tomara por luvas.

     E agora, além de tudo, a cara! Podia-se qualificá-la de grandiosa. Era certo que ele tinha dois costumes ou até três, que não condiziam com o seu negócio: tomava rape; gostava de esfregar os olhos e, com certeza, também tinha prazer em coçar-se atrás da orelha, porque, tanto o nariz como as circunvizinhanças dos olhos e as orelhas pareciam ter sido submetidos a massagens com tinta preta, papa de ameixas, gema de ôvo, suco de amora e giz.

     Quando uma mulher do oriente pinta as pestanas com khol (6), o olhar toma uma

     ______________

     (6) “Khol”, “kohol” ou “koheul” é uma substância de cor, que poderemos dizer morena ou trigueira, com a qual, no Oriente, se untam as sobrancelhas e as pestanas. (N. do T.)

 

expressão original, melancólica e de uma dureza interessante. O padeiro parecia ser de opinião que a sua fisionomia ganhava, em beleza, com aquela camada de tintas. Por essa razão ou em razão do seu comodismo, ele deixava há muito tempo, de insultar a sua cara com uma gota d'água. Uma coisa dessas, dificilmente pode acontecer no Oriente. A polícia seria obrigada a intervir, porque um homem assim provocaria protestos públicos.

     Tornou-se grotesco o pasmo com que ele me olhou, sentado ainda junto da porta. A testa levantou-se-lhe, a boca abriu-se largamente e as orelhas parecia que se retiravam precavidamente para trás.

     — Oelum jyidyrym — Morte e raio!

     Ele não conseguiu articular mais nada. Bufava, não sei se por falta de ar ou de surpresa.

     — Sabahiniz chajir ola — Bom dia! cumprimentei-o, enquanto me levantava vagarosamente.

     — Ne is ter sen bunda? Ne ararsen bunda? — Quem queres aqui? Que procuras aqui?

     — Seni — A ti — respondi simplesmente.

     — Beni — A mim?! — interrogou, meneando a cabeça.

     — Evvet, seni — Sim, a ti.

     — Tu não me conheces.

     — Dificilmente. A ti a gente reconhece facilmente.

     Parecia não perceber o insulto que se continha nas minhas últimas palavras. Disse, sempre cabeceando:

     — Estás enganado e confundiste a casa.

     — Não. Estou na casa certa.

     — Mas, não te conheço.

     — Aprenderás a me conhecer.

     — A quem procuras?

     — Um bojadji, que é, ao mesmo tempo, etmektji e se chama Bochak.

     — De fato, sou ei.

     — Vês que não me engano?

     — Disseste, porém, que me tinhas reconhecido imediatamente. Já me viste alguma vez?

     — Não, nunca e em nenhuma parte.

     — Como então pudeste reconhecer-me?

     — Pelos brilhantes distintivos de tua profissão os quais são visíveis no teu rosto.

     O sentido verdadeiro dessas palavras, ele também não compreendeu, porque repuxou a cara num sorriso condescendente e disse:

     — És um homem muito delicado e tens razão. Minha profissão é muito importante. Sem nós, o povo morreria de fome e somos nós também que damos a beleza a todos os vestidos. Qual é o teu desejo?

     — Queria falar contigo sobre um negócio.

     — És um negociante de farinha?

     — Não.

     — Ou vendedor de tintas?

     — Também não. É outro negócio, ao qual me refiro.

     — Fala, então.

     — Somente quando tiveres ficado à vontade. Tira a capa e senta-te junto de mim.

     — Sim, farei isso. Espera-me aqui.

     Dirigiu-se para a mesma porta, por onde haviam saído a mulher e a filha. Seguramente, havia ali dois compartimentos a seguir e, pelo ruído abafado das vozes de três pessoas, depreendi que todos se encontravam no “gabinete” bem dos fundos.

     Quando voltou, o padeiro colocou-se na minha frente e disse:

     — Im bunda. Ichtahnyz warmy? — Cá estou. Tens apetite?

     — Para que?

     — Para comer alguma coisa?

     — Não — respondi, pensando no rasto que o dedo cheio de massa deixava nas suas calças, onde fora limpado.

     — Ou para bebei?

     — Agradeço muito.

     Tinha perdido todo o apetite, com a água da amassadeira e o prodigioso mosto.

     — Então, vamos tratar do nosso negócio.

     É verdadeiramente indescritível a cena que constituiu o esforço por ele desenvolvido, abaixo de gemidos, para sentar-se defronte a mim. Quando essa prova de ginástica estava terminada, apesar de todos os pesares, o homem tomou ares enérgicos e autoritários, batendo palmas fortemente.

     Por pouco ria-me na cara dele, ao vê-lo tomar atitudes de um grande homem, acostumado a mandar. As batidas de palmas, contudo, foram ouvidas, porque o ajudante de tintureiro — há pouco qualificado pela filha de homem esperto e valente — compareceu solícito.

     Como se achava nos fundos da casa, naturalmente tinha sido instruído, por uma das janelas, sobre como devia portar-se. Inclinou-se, com os braços cruzados sobre o peito e olhou para o seu Senhor e Mestre, numa atitude humilde de expectatitva.

     — Getir benim luelejue — traz-me o meu cachimbo! — ordenou o padeiro, como se fora um paxá, com três estandartes turcos.

     O escravo daquele momento obedeceu a ordem. Trouxe um cachimbo, que parecia ter estado no lodo de um viveiro de carpas. O criado afastou-se e o Senhor meteu a mão no bolso das calças e dali tirou um punhado de fumo, que botou no cachimbo. Depois perguntou:

     — Sen mi tuttuen itchen? — Fumas?

     — Evvet — Sim — respondi.

     Tive medo de que ele me oferecesse um cachimbo igual ao seu e o enchesse do mesmo fumo. Fiquei satisfeito ao constatar que me enganava, pois o padeiro perguntou novamente:

     — Kibritler onun itchuen melik o-sen? — Consequentemente, tens fósforos?

     — Bre kaw zabt etmez-sen — Não tens isca? — informei-me.

     O homem, ao fazer a pergunta, tomara ares de espertalhão, ou melhor, de um estúpido, que se quer fazer inteligente. Fósforos não são usados geralmente, naquela região. Pode-se procurar por toda uma aldeia, para não encontrar um único pauzinho. Quem possui fósforos, é homem de posses. O padeiro, naturalmente, queria saber se eu pertencia a essa gente privilegiada. Por isso, a minha resposta fora evasiva.

     — Teria de me levantar — disse ele. — Deduzo, porém, que tens kibritler.

     — De que deduzes isso?

     — Vejo pela tua roupa. És rico.

     Se ele dissesse: “És mais asseado do que eu”, dar-lhe-ia razão. Meti a mão do bolso e tirei uma caixinha de fósforos de cera e lhe dei um. Examinou-o atentamente e depois disse, surpreendido:

     — Isto não é de pau?

     — Não. Não gosto dos fósforos feitos de odun.

     — Será isso cera?        

     — É. Adivinhaste.

     — E, aí dentro, há um pavio?

     — Naturalmente.

     — Muechuepatly, tchok adchaib! — Maravilhoso, maravilhoso! Uma vela para acender o fumo! Isso eu ainda não tinha visto. Não me queres dar toda a caixinha?

     Não se pode imaginar, por vezes, a impressão que uma miudeza dessas pode causar. Nesses casos, é aconselhável aproveitar a oportunidade. Por isso, respondi:

     — Estas velinhas de acender são de muito valor para mim. Talvez te dê a caixinha, se ficar satisfeito com a nossa conversação.

     — Então, vamos começar. Antes, porém, quero acender o meu cachimbo.

     Quando tinha feito isso, notei que ele não fumava uma má qualidade de tabaco. Era possível que o tivesse conseguido, por alguma maneira não muito legal.

     — Bem, agora podemos conversar — disse. — Dir-me-ás inicialmente quem és.

     — Naturalmente. Tens de saber com quem estás falando. Mas, talvez seja melhor dizer o meu nome mais tarde.

     — Por quê?

     — O negócio, de que te quero falar, não é comum. Precisa-se, para isso, de esperteza e discrição, e não sei ainda se possuis essas duas qualidades.

     — Ah, agora sei o que és.

     — Bem, que sou, então?

     — Fazes negócios secretos.

     — Hum! Talvez não estejas enganado de todo. Tenho uma mercadoria para vender, na verdade de muito valor, mas que entregarei por preço bem barato.

     — Que é?

     — Tapetes.

     — Ah, tapetes! É uma boa mercadoria. Que espécie de tapetes são os que tens?

     — Legítimo produto de Esmirna.

     — Alá! Quantos?

     — Cerca de cem.

     — Qual é o preço?

     — Tudo por tudo. Peço trinta piastras, vendendo peça por peça. Tirou o cachimbo da boca, colocou-o no chão, a seu lado, bateu as mãos e perguntou:

     — Trinta piastras? Realmente trinta?

     — Nada mais!

     — Legítimos tapetes de Esmirna?

     — Naturalmente.

     — Pode-se vê-los?

     — Naturalmente, o comprador tem de vê-los.

     — Onde os tens?

     — Ah! Pensas que vou dizer, antes que saiba ser o comprador um homem de confiança?

     — És muito precavido. Dize-me, pelo menos, se o lugar, onde estão os tapetes, é perto daqui.

     — Nada distante.

     — Dize-me mais, por que é que te dirigiste justamente a mim?

     — És um tintureiro famoso. És, portanto, um conhecedor do negócio e podes julgar seguramente se a mercadoria é de cor firme.

     — Isto é verdade — concordou o homem, lisonjeado.

     — Por isso, venho ter contigo. Não alimento, na verdade, a esperança de que tu mesmo vás comprar os tapetes, mas acreditei que me pudesses indicar alguma pessoa, disposta a fazer um negócio tão vantajoso.

     — Realmente, fizeste uma suposição bem acertada.

     — Conheces, portanto, um comprador?

     — Sim, conheço um.

     — Poderá pagar à vista?

     — Esses negócios são feitos a crédito, na maior parte dos casos.

     — Não concordo. Mercadoria boa, barata; mas, a dinheiro. Assim os dois ficam satisfeitos, o comprador e o vendedor.

     — Bem. O homem pode pagar.

     — Isso me agrada. Quem é ele?

     — É um armeiro.

     — Ai de mim!

     — Como assim?

     — Um armeiro não pode comprar tão grande quantidade de tapetes.

     — Mas, esse compra. É também proprietário de um café e sabe colocar a mercadoria.

     — Onde é que mora?

     — Em Ismilan.

     — Isso é desagradável, porque se trata de uma localidade muito distante daqui.

     — Não quer dizer nada. Hoje ou amanhã, ele estará aqui.

     — Não posso esperar até amanhã.

     — Por que não?

     — Podes supô-lo.

     — Não, absolutamente.

     — Se vendo uma mercadoria tão cara por tão pouco preço, é que alguma coisa existe em torno dela.

     — Hum! Claro que sim.

     — Tenho de vendê-la urgentemente, do contrário corro o risco de perdê-la.

     — Há alguém no teu rasto?

     Ao dizer isso, apertou as pálpebras, piscando os olhos, e fêz com as mãos um movimento de segurar, agarrar, isto é, de prender.

     — Não, isso não se dá. Ninguém sonha com os meus projetos. Mas a mercadoria está num lugar absolutamente inseguro.

     — Tira-a desse lugar.

     — O comprador que o faça.

     — Então a pessoa, a quem a entregaste, não merece confiança?

     — Não a entreguei a ninguém.

     — Não? Então, onde está?

     — No campo aberto.

     — Alá é grande! Que idéia foi essa?

     — Não é minha, mas, de outros.

     — Deste, naturalmente, o teu consentimento.

     — Também não. Nunca me ocorreria guardar uma coisa tão valiosa, com tamanha leviandade.

     — Não entendo isso e nem te compreendo.

     — Dar-te-ei esclarecimentos, em caráter confidencial. Causas-me a impressão de ser um homem, que nada denunciará a outro.

     — Nunca, jamais eu faço isso.

     — Bem, bem! Acredito. Concordas que trinta piastras é pouco, muito pouco?

     — Hum! Ainda nada posso afirmar, pois não vi os tapetes.

     — Digo-te, porém, que é pouco, muito pouco. Ninguém venderá tão barato.

     — Conseguiste-os, naturalmente, por preço ainda mais baixo.

     — Claro! É intuitivo.

     — Quanto pagaste?

     — Escuta, essa pergunta não é muito inteligente. Nenhum vendedor dirá qual é o seu verdadeiro lucro. Contudo, como já disse, serei franco para contigo.

     — Bem, então quanto ganhas?

     — Trinta piastras, só trinta piastras.

     Olhou-me espantado e, depois, perguntou:

     — Em todo o sortimento?

     — Que estás pensando? Não serei tão tolo que me vá contentar com uma quantiazinha assim. Não, ganho isso em cada tapete.

     — Mas, isso nem é possível!

     — Por que não?

     — Vendes a peça por trinta piastras e ganhas em cada uma a mesma importância?

     — Assim é.

     — Só se alguém te deu a mercadoria.

     — Ninguém faria isso.

     — A minha inteligência não chega para compreender isso.

     — Não deixes que te contradigam! A minha inteligência, porém, suprirá a falta da tua. Não comprei os tapetes e nem os recebi de presente: achei-os.

     — Achaste? — articulou.

     — De fato.

     — Quando?

     — Isso não tem importância.

     — Mas, onde?

     — Aqui, nas proximidades.

     O homem assustou-se fortemente. Engulia e engulia. Custou-lhe grande esforço perguntar:

     — Aqui perto? Senhor, é possível?

     — Naturalmente! Estou dizendo!

     — Posso saber qual o lugar?

     — Conheces o caminho daqui para Kochikawak?

     — Naturalmente, que conheço.

     — Passa por umas macegas. Logo que se atravessam estas, encontra-se uma depressão no solo, que parece inatingível, por estar circundada por um expêsso espinheiral. É aí o lugar. Lá estão os tapetes.

     Ficou estarrecido, sem fazer um movimento. Só o seu peito arfava fortemente. Parecia faltar-lhe ar. Finalmente, ouviu-se um gemido, quase agônico:

     — Senhor, isso seria milagroso.

     — De fato, é inacreditável encontrar-se, lá no campo aberto, um tão precioso sortimento de tapetes. Mas, aqui chove tão raramente! Justamente, agora estamos no período de secas, e a mercadoria nada sofreu com o tempo.

     — Mas, pode ser prejudicado pelos homens.

     — Como assim?

     — É tão fácil descobri-la.

     — Oh, não. Vocês todos, aqui, são verdadeiras crianças. Fazem hoje, somente aquilo que já faziam ontem e sempre. Não desejam saber hoje, senão o mesmo que já conheciam antes. A baixada sempre foi tida como inatingível e por isso dificilmente alguém terá a idéia de ir averiguar se isso é bem exato. Os espinhos doem.

     — Como, porém, chegaste até lá?

     — A cavalo. Sabes que nem sempre se domina o animal. Uma criatura dessas dispara e a gente é arrastado para dentro dos espinhos.

     — Latetli! Latetli wakaa — Maldita! Maldita coincidência! — bradou o homem.

     — Como? — perguntei, em tom admirado. — Enraiveces por ter eu feito essa descoberta?

     — Não! Oh, não! Pensei somente quão desagradável seria isso, para aquele que escondeu tais coisas.

     — Deveria ter escondido melhor.

     — Mas, senhor, como podes ter a idéia de vender os tapetes?

     — Não é isso a coisa mais vantajosa que poderei fazer?

     — Para ti, sim; mas... são teus?

     — Naturalmente! Eu os achei.

     — Não é motivo para considerá-los de tua propriedade. Tens de os entregar ao dono.

     — Ele que se acuse! Evitará, certamente, de fazê-lo.

     — Irá buscar a mercadoria.

     — Ele ou outro. Quão fácil é apresentar-se um terceiro, que será mais inteligente do que eu! Não, eu os venderei!

     O padeiro recuperara o sangue frio e, aos poucos, tornava-se agitado.

     — Aconselho-te que não o faças! — disse. — O legítimo dono terá cuidado para não perder o que lhe pertence. Serias um gatuno e não me parece que tenhas inclinação para isso.

     — Não? Hum! Podes ter razão. Pronunciaste essa palavra justamente no momento oportuno. Evidentemente não quero tornar-me ladrão.

     — Deixarás, portanto, os tapetes onde estão?

     — Sim.

     — Prometes?

     — Prometer? Quem sabe se os tapetes são teus?

     — Não. Mas, não queria que maculasses a tua alma com um crime semelhante.

     — És um bom homem. És muito amável para comigo.

     — De fato. Portanto, prometes; aperta-me a mão, para garantir que não mexerás nos tapetes.

     — Bem! Farei a tua vontade. Cá está a minha mão. Apertou-me a mão, suspirou aliviado e depois disse, agarrando novamente o cachimbo:

     — Alá seja louvado! Alegra-me ter-te arrancado do caminho do pecado. Com isso, apagou-se o seu cachimbo. Dá-me mais um dos teus fósforos de cera.

     — Aqui tens. Fico satisfeito por me teres conservado na senda da virtude. A tentação era muito grande. Façamos, portanto, tudo por evitar que outro a ela venha sucumbir.

     — Como farás isso?

     — Comunicarei o achado.

     — Allah 1'Allah! Para quem?

     — Para as autoridades.

     Largou imediatamente o cachimbo já aceso, sacudiu as mãos, num gesto de desaprovação e disse:

     — Isso não é preciso, absolutamente não.

     — Oh, se é! Irei ao kiaja, que poderá apreender os tapetes.

     — Que é que pensas! O dono já irá buscá-los!

     — Não modificará a minha resolução. É meu dever fazer a comunicação.

     — De modo nenhum! Trata-se de um assunto que não te interessa.

     — Até interessa muito. Quem descobre um crime, tem de levá-lo ao conhecimento da autoridade.

     — Mas, no caso, não se verifica nenhum crime.

     — Um homem honesto não esconde o que é seu, lá no campo. Podes estar certo disso. De resto, tenho a convicção de que sei para quem são destinados os tapetes.

     — Enganas-te.

     — Oh, não! Estou certo do que digo.

     — Quem será essa pessoa?

     — A mesma a que te referiste, há pouco, como sendo um comprador provável.

     —Referes-te ao armeiro?

     — Naturalmente.

     — Oh, ele nada tem que ver com isso. Tu o conheces, por acaso?

     — Não, ainda não o vi.

     — Como podes fazer recair uma tal suspeita sobre ele? Nem sequer disse-te o seu nome.

     — Mas eu sei. Chama-se Deselim.

     — Deselim? Não falei nessa pessoa. Não conheço ninguém que use semelhante nome.

     — Então, de certo, também não conheces uma pessoa, que se chama Pimosa?

     — Pimosa? Oh, este eu conheço!

     — De onde é?

     — É um sérvio de Lopaticza, sobre o Ibar. Onde o conheceste?

     — Dir-te-ei mais tarde. Ele te visita freqüentemente?

     — Como não?

     — Nos últimos tempos, esteve aqui?

     — Não.

     — Sabes onde esteve?

     — Não.

     — Hum! Não estiveste, há bem pouco tempo, em Mandra e Boldchiabak?

     A sua expressão fisionômica mudou por completo. Era a cara da raposa, sem tirar nem pôr. Esse gorducho era um homem perigoso. Um relâmpago de inteligência brilhava nos seus olhos. Disse:

     — Dir-te-ei a verdade. Estive nessas localidades e Pimosa também.

     O olhar, que me dirigiu, podia ser considerado de um triunfador. Coloquei-lhe, entretanto, a mão sobre o ombro, com toda a indiferença, e disse, rindo:

     — Bochak, não representaste nada mal o teu papel, velho espertalhão!

     — Nada mal? Que queres dizer?

     — Bem. Adivinhaste que falei com Pimosa e isso há bem pouco tempo.

     — Foi o que imaginei.

     — Isto agora, porém, não foi dito com esperteza. Não devias confessar.

     — Posso dizer a verdade.

     — Por mim! Adivinhaste, ademais, que Pimosa disse ter estado em Mandra e Boldchiback, e imediatamente te apresentas como testemunha. E como farias, se te provasse que nem sequer saíste daqui?

     — Não poderás provar.

     — Basta-me fazer algumas indagações por aqui. Certamente que todos te viram. Mas, não o farei; não terei esse trabalho. Irei à aldeia de Palatza. Lá saberei quem é, verdadeiramente, esse Pimosa.

     O gordo parecia empalidecer, debaixo da côr que lhe cobria a cara. Disse, contudo, no tom mais convencido que pôde:

     — Nada saberás a mais do que aquilo, que ouviste de mim.

     — Oh, o negociante de cavalos Mosklan certamente me dará melhores esclarecimentos. Acho que a minha visita está finda. Irei, portanto, ao kiaja.

     Levantei-me. O padeiro fêz o mesmo, e, na verdade, com tamanha rapidez que, desde logo, me convenci de que o medo era a mola que lhe dava tal agilidade.

     — Senhor, — disse — não irás antes de nos termos entendido.

     — Entendido? Sobre o quê?

     — Sobre os tapetes.

     — É a respeito do Chut, não é verdade?

     — Allahy sewersin — Pelo amor de Deus! Por que falas do Chut?

     — Por que te assustas, ouvindo-me falar nele? Por que dizes que nos devemos entender, no tocante aos tapetes? São teus, por ventura?

     — Não, não!

     — Ou sabes, por acaso, quem os escondeu?

     — Também não.

     — Então, podes estar perfeitamente tranqüilo. Mas, eu tenho de ir ao kiaja, para comunicar-lhe o meu achado.

     — Não terás vantagem nenhuma com isso.

     — Deve-se cumprir com o seu dever, sem tirar proveito.

     Estava na maior entaladela. Chegara a colocar-se, diante da porta, para evitar que eu saísse.

     — Quem és, afinal de contas, — perguntou ele — que te arrogas, apesar de estranho, o direito de te meter em nossas questões?

     — Sabes ler?

     — Sei.

     — Então, vou mostrar-te uma coisa.

     Peguei o meu passaporte, apresentei-lhe, de modo, porém, a que pudesse ver somente o selo, em evidência.

     — Conheces isto?

     — Conheço; é o mõhuer do Grão Senhor.

     — Pois bem, digo-te que possuo o mõhuer e prendi o agente Pimosa.

     — Senhor! Efêndi! És um polícia? — Balbuciou, assustado.

     — Não te devo resposta. Mas, vou prender igualmente a ti e a Deselim, de Ismilan, logo que chegue aqui.

     — Prender-me?!

     — Sim.

     — Por que razão, afinal?

     — Por causa dos tapetes e de diversas outras coisas.

     — Efêndi, sou um homem honesto.

     — E, não obstante, estás me mentindo.

     — Disse a verdade.

     — Ousas, realmente, afirmar isso? Procuras, apressadamente, a tua própria ruína. Será satisfeita a tua vontade. Far-se-á uma grande investigação a teu respeito; estarás perdido. Não obstante, quis te salvar. Vim à tua procura, para te indicar, confidencialmente, o caminho que conduziria à salvação.

     Tinha-se encostado à parede divisória e não sabia o que dizer.

     — Queria que tu te visses, agora — disse eu. — A culpa e o medo estão estampados na tua face. Agarra a tua capa e vem comigo ao kiaja.

     Nisso apareceram a sua mulher e a sua filha. Ambas estavam escutando tudo; do quarto vizinho. Desfizeram-se em queixumes e recriminações de toda a sorte contra mim. O padeiro mantinha-se bem tranqüilo e parecia refletir sobre como melhor proceder. Ouvi em silêncio as queixas das duas mulheres e depois procurei tranqüilizá-las:

     — Fiquem quietas! Quis salvá-lo; mas ele não aceitou. Ainda agora, estaria disposto a desistir da comunicação e da queixa. Vejam, porém, que não diz uma palavra.

     Isso restituiu-lhe a fala.

     — Efêndi, — disse — que sabes a meu respeito?

     — Tudo! Não preciso dar-te os pormenores; isso é com o juiz.

     — Afirmas que desistirias da queixa?

     — Sim. Não te considero um malfeitor. Penso que fôste enganado. Por isso, desejava ser clemente para contigo.

     — Que deveria eu fazer?

     — Desligar-te daqueles que te corromperam.

     — Farei isso com prazer!

     — Dizes isso, apenas; mas, quando eu tiver partido, não cumprirás o que prometeste.

     — Cumprirei. Posso jurar.

     — Peço, então, que cortes as relações de amizade com o negociante de cavalos Mosklan.

     — Vou dizer-lhe isso.

     — Bem! Querias dar-lhe tua filha por esposa?

     — É verdade.

     — Ela perderá, portanto, o seu noivo. Escolhe outro para ela.

     Aguçou os ouvidos. Olhou para as duas mulheres e depois para mim, perscrutadoramente, e depois interrogou:

     — Conversaste, antes de eu chegar?

     — Conversamos — respondi, conservando-me fiel à verdade.

     — Achas que devo dar-lhe, para marido, o sahaf Ali?

     — Seguramente, aconselhar-te-ia isso.

     — Wallahi! Então, falaste a respeito dele?

     — Sim e também já falei com ele mesmo. É um bom homem; não é criminoso, como o tal Mosklan. Fará ma filha feliz. Não tenho tempo, para perder com muitas palavras. Quero dizer-te ainda o seguinte: irei lá fora, por alguns minutos e, durante esse tempo, poderás falar com tua mulher e tua filha. Voltando e ouvindo de ti a declaração de que o sahaf será bem-vindo, partirei para buscá-lo. Poderás, então, dar-lhe a tua assinatura e tudo estará resolvido. Se te recusares, porém, irei ao kiaja e te levarei logo comigo.

     O suor inundava-lhe a testa, e, mesmo assim, me parecia que estava mais tranqüilo do que antes. Mulher e filha queriam cair sobre ele, com pedidos. Fêz, porém, um gesto evasivo e me perguntou:

     — Então, queres ir buscar o sahaf?

     — De fato.

     — Irás até Kabatch?

     — Naturalmente, pois quero ir buscá-lo.

     — E se eu, então, der a minha assinatura, guardarás sigilo sobre tudo quanto se passou?

     — Como se fora um túmulo!

     — Sobre o Chut e sobre o negociante de cavalos?

     — Também.

     — Igualmente, nada dirás sobre os tapetes?

     — Direi, apenas, o que sei a esse respeito, a uma pessoa.

     — A quem?

     — Ao sahaf. Fará o que lhe aprouver.

     — Guardará segredo, se eu lhe der a minha filha. Dize-me, quando queres ir a Kabatch?

     — Logo que te tiveres decidido. Não tenho tempo a perder. Dou-te, portanto, alguns minutos de prazo. Resolve o caso.

     Saí para ir até onde estava o meu cavalo. Ao retirar-me, ouvi que mãe e filha começaram a insistir com pedidos; sentia-me, portanto, com confiança na solução do assunto. Na minha opinião, nada mais lhe restava, senão ceder e alegrava-me regiamente por poder levar ao sahaf, com tanta brevidade, uma tão boa notícia.

     É verdade que, a mim mesmo, eu perguntava se não era dever meu, fazer a queixa; contudo, havia boas razões para deixar de fazê-lo. De fato, não sabia ao certo se os tapetes já eram mercadoria de contrabando. Talvez fossem contrabandeados somente na fronteira sérvia. De resto, considerava o sahaf pessoa honesta e acreditei que agiria, de acordo com a sua consciência logo que lhe tivesse participado tudo.

     Afastei-me um pouco da casa. Pareceu-me ouvir um chamado. Ao me virar, vi que o ajudante dirigia-se a uma das janelas e falava com o padeiro.

     Que tinha eu com isso? Com certeza estava dando ao empregado algumas instruções sobre negócios. Minutos depois, ouvi o tropel de um cavalo. Não vi, porém, o cavaleiro. Não me ocorreu suspeitar disso. Infelizmente, estava-me reservado uma lição, em conseqüência do meu descuido. O padeiro tinha mandado o seu ajudante preparar-me uma

cilada. A moça dissera que aquele abibe era esperto. Realmente o era. Tinha-se afastado de modo tal, que a casa ficou entre ele e eu e, assim, não pude vê-lo.

     Esperei, mais ou menos, meia hora, depois entrei novamente na casa. A mulher me pediu então que desse mais um pequeno prazo ao marido. Era-lhe difícil tomar uma resolução, pois não sabia como livrar-se de Mosklan, sem perigo.

     Satisfiz o seu pedido e me retirei outra vez. Esperei até que me chamaram. O padeiro veio ao meu encontro e declarou:

     — Efêndi, tens razão. Farei o que me aconselhaste. Queres ir buscar o sahaf?

     — Sim, irei já.

     — E, depois, queres ser nosso hóspede, hoje e nos próximos dias?

     — Agradeço. É impossível. Tenho de ir-me.

     — Para onde vais?

     — Para muito longe, para as terras do poente, onde está a minha pátria.

     Dizendo isso, cometi um grande erro, conforme verifiquei mais tarde.

     — Pelo menos, vem comigo ao meharrem. Isso aqui é só o selamluek. Quero mostrar-te uma coisa.

     Estava muito condescendente e as mulheres sorriam de alegria. Não pude recusar o pedido e entrei no segundo compartimento, que, aliás, no mobiliário, não se distinguia do anterior. A filha afastou-se por alguns momentos para trazer um objeto, que estava metido em estôpa e amarrado com cordões.

     — Adivinha o que é isto, efêndi — disse o padeiro.

     — Quem é que poderá adivinhar? Dize o que é.

     Tirou a estôpa. Apareceu, então, uma garrafa.

     — É o suco da uva — disse. — Podes bebê-lo?

     — Posso; mas, deixa-o na garrafa. Bebam vocês mesmos.

     — É-nos proibido. Este vinho é da Grécia. Recebi-o de um negociante e guardei até que aparecesse alguém, a quem não fosse vedado bebê-lo.

     Obstinei-me na recusa. Isso parecia maguá-lo. Pensou um pouco e depois disse.

     — Se o desprezas, não quero guardá-lo por mais tempo. Tjileka vamos dá-lo ao pobre Saban?

     A mulher concordou imediatamente e indagou se podia juntar alguns pães. O marido deu licença para isso e depois me disse:

     — Mas, efêndi, se vamos dar este presente ao pobre, é preciso que nos faças um favor.

     — Com gosto, se puder. Quem é esse tal Saban?

     — Foi outrora vassoureiro, mas agora chegou a ser mendigo, pois está doente e não pode mais trabalhar. Vive da caridade daqueles que Alá abençoou com a alimentação.

     — Sim, é um mendigo e, de vez em quando, nós lhe damos um presente — repetiu a filha. — Mora numa choupana, no meio do caminho daqui para Kabatch.

     Só a repetição bastava para me causar estranheza, mas, mais ainda, o tom em que foram ditas essas palavras. Interrompera bruscamente o pai, para repetir o que ele dissera. Notei que ela queria chamar-me a atenção para qualquer coisa. Estava atrás do padeiro, um pouco para o lado e, quando olhei para ela, levantou o indicador da mão direita, num gesto premonitório, sem que o pai o visse.

     — Que mato é esse? — perguntei, sem mostrar suspeita.

     — É só de carvalhos e faias — respondeu o padeiro. — São raros os pinheiros ou os ciprestes. Devo descrever exatamente o caminho?

     — Peço-te que o faças.

     — Ao partir daqui, rumarás para sudoeste, seguindo sempre pelos trilhos das carroças, em direção à planície mais elevada. Ali, os trilhos se desviam para o sul, em direção a Terzi Oren e Ireck. Acharás, porém, rastos que te levarão à direita até um arroio, que se lança, abaixo de Kabatch, no rio Sõuedlue. Não longe desse arroio, encontra-se um descampado, à margem do qual está a choupana do Saban.

     — Ele mora ali, sozinho?

     — Mora.

     Um mendigo, assim sozinho, no mato, era curioso. Ainda mais, o procedimento da filha. Em todo o caso, eu tinha motivos para me precaver.

     — E acreditas que vou encontrá-lo? — informei-me.

     — Acredito. Ele não pode sair, segundo me disseram. Está doente. Por isso, mando-lhe estes presentes.

     — E qual seria o favor que, pensas, poderia eu fazer?

     — Levarias estas coisas para entregar-lhe?

     — Com prazer; embrulha-as.

     O padeiro fêz o pacote. Entrementes, a filha saiu e me fêz furtivamente um sinal. Segui e a encontrei atrás da casa.

     — Queres dizer-me alguma coisa? — perguntei.

     — Sim, efêndi. Toma precaução.

     — Contra quem e por quê?

     — Esse mendigo não é boa pessoa. Cuida-te com ele.

     — Acreditas que teu pai tem maus propósitos, a meu respeito?

     — Não sei da nada. Digo-te, porém, que não gosto do esmoleiro, porque ele é inimigo do sahaf.

     — Hum! A tua mãe queria dar-me um recado para Ali. A esse respeito, teu pai nada devia saber.

     — Isso ficou liquidado, efêndi. Ela não quis te dizer logo que se tratava de uma mensagem. Era para ele...

     Interrompeu-se, corando, e olhou para o chão.

     — Então, que é que ele devia fazer, graciosa Ikbala?

     — Era para ele vir hoje de noite, falar... com... com mamãe.

     — Com tua mãe? Mas não na tua casa?

     — Não, efêndi.

     — Onde, então? — perguntei realmente com insistência, falando seriamente.

     — Devia esperar lá fora, junto à água.

     — Bem, bem. Então a tua querida mãe costuma dar entrevistas ao sahaf?

     — De fato — respondeu com tanta seriedade ingênua, que tive de me rir.

     — E tu, com certeza, és a protetora desses encontros românticos? — perguntei.

     — Oh, efêndi, sabes muito bem que ele não vem falar com mamãe; mas, sim, comigo.

     — Sim, sei. Mas, como pretendo trazê-lo, hoje, para aqui, tua mãe não precisa mandar o recado, que a ele se destinava, não é?

     — Assim é, efêndi. As tuas intenções são tão boas, que o meu coração se enche de alegria. Alá permita que tudo consigas!

     — Também o sahaf ficará contente. Quando falei com ele, disse-me que eras a mais bela de Rumili, e assim...

     — É isso verdade? — interrompeu-me precipitadamente.

     — Foi assim que ele disse.

     — É um grande adulador e exagerado.

     — Não, ele não exagerou. És mais doce do que o mosto, que preparas. Disseste que Alá permita o êxito da minha iniciativa. Ainda podes duvidar? O teu pai não deu o seu consentimento?

     — Prometeu-o a ti. Mas acho que não estava falando sério. Oh, efêndi, pressinto perigo! Protege o meu sahaf!

     — Que poderia ameaçá-lo?

     — Não sei; mas, tu e ele, precisam tomar todas as cautelas e eu derramaria muitas, muitas lágrimas, se lhe acontecesse qualquer coisa.

     — A ele! Por minha causa nada derramarias?

     — És desconhecido!

     Disse-o com tanta sinceridade e isso era tão engraçado, que tive de rir.

     — Bem, — respondi — se tu choras somente por ele, dize à tua anajab que, se nos acontecer qualquer acidente, chore duas ou três gotas de lágrimas por mim. Agora, porém, volta para dentro, para que teu pai não note que estivemos conversando em segredo. Também não tenho confiança nele.

     — Efêndi, te protegerei de longe!

     Saiu. As suas palavras pareceram-me sem sentido. Soube, contudo, mais tarde, que lhe fora possível cumprir o prometido.

     Desatei o cavalo e esperei. Pouco depois, chegou o padeiro e trouxe os presentes destinados ao mendigo.

     — Onde está tua mulher e tua filha? — interroguei-o indiferente, observando-o, porém, furtivamente. — Não devo despedir-me delas?

     — Mas vais voltar, senhor — respondeu-me.

     A cara gorda se aclarou de um ar velhaco e malicioso, levando-me a botar a mão sobre o seu ombro, para dizer, seriamente:

     — Penso que tuas palavras não contém uma ironia?

     Imediatamente a sua fisionomia tomou a expressão de sincera surpresa. Olhou-me, cabeceando, e disse:

     — Não te compreendo. Não acredito que me tomes por mentiroso.

     — Hum! Na minha terra existe um provérbio, segundo o qual não se deve confiar nas pessoas que tem as orelhas rasgadas.

     — Fazes referência a mim? — perguntou em tom amuado.

     — Vejo que tens um rasgo em cada orelha.

     — Isso não mostra que te engano. Antigamente as minhas orelhas estavam íntegras. Professo a religião do Profeta e juro, pelas barbas de Maomé que nós nos veremos, se tu mesmo não desistires disso.

     — Não desisto e espero que esse encontro seja amistoso. Acontecesse o contrário, seria possível que viesse a ocorrer alguma coisa nada do teu agrado.

     Durante essa palestra amistosa, amarrei o pacote aos arreios, montei e puxei então as rédeas e parti.

    

    Em Perigo

     Depois de poucos minutos, alcancei a aldeia de Dchnibachlue, propriamente dita, atravessei-a e novamente me encontrei no meio de campos e plantações de milho, seguidos de uma várzea coberta de pastagens, que delimitava com o mato, sobre o qual falara, há pouco.

     Os trilhos, feitos pelas desajeitadas carretas de bois, eram perfeitamente visíveis. Acompanhei-os, na direção de sudoeste, como me fora indicado, e já me achava quase junto ao mato, quando notei um cavaleiro, que se aproximava a trote, através da várzea, à minha esquerda. Como eu andasse mais devagar, em seguida me alcançou.

     — Allah bilindche — Deus seja contigo! — saudou.

     — Muetechekkueruem — Agradeço-te! — saudei.

     Examinou-me com o olhar, e eu fiz o mesmo com ele, isso, porém, de modo menos ostensivo do que o recém-chegado. Nada se lhe observava de extraordinário. O seu cavalo era ruim, as suas roupas eram ruins e a sua cara não dava impressão melhor. Somente as pistolas e a faca, que levava à cintura, pareciam ser boas.

     — De onde vens? — perguntou-me.

     — De Dchnibachlue — respondi atenciosamente.

     — E para onde vais?

     — A Kabatch.

     — Eu também. Conheces o caminho?

     — Espero encontrá-lo.

     — Esperas encontrar? Então, és estranho?

     — Sou.

     — Permites que te acompanhe? Se me dás licença, não poderás per--der-te.

     O homem não causava boa impressão; mas, isso não era motivo para ofendê-lo. Não obstante, podia ser boa pessoa. E mesmo que se verificasse o contrário, nada me adiantaria, porquanto não me era possível mandá-lo embora. No máximo, conseguiria provocar a sua cólera ou vingança. E ele me parecia bem capaz de, em tais circunstâncias, procurar convencer-me da boa qualidade das suas armas. Por isso, respondi:

     — És muito amável. Sigamos juntos.

     Fez um gesto de satisfação e guiou o seu cavalo para o lado do meu.

     Cavalgamos silenciosamente, durante algum tempo. Com interesse visível, observava as minhas armas e o meu garanhão. Parecia-me também, que, de quando em quando, examinava preocupadamente as redondezas. Haveria alguma coisa para recear? Achei prudente não fazer perguntas. Somente mais tarde, vim a saber a razão daqueles olhares preocupados.

     — De Kabatch, seguirás para diante? —- perguntou-me, agora, com amabilidade.

     — Não.

     — Vais visitar alguém?

     — Vou.

     — Posso saber a quem? És forasteiro e, talvez, possa mostrar-te a casa dessa pessoa.

     — Vou em procura de Ali, o sahaf.

     — Oh, conheço-o! Passaremos pela sua casa. Chamar-te-ei a atenção.

     A conversa ficou novamente interrompida. Não tive vontade de me entregar a uma palestra e ele parecia estar na mesma disposição. Assim, percorremos um trecho longo, sem que fosse pronunciada mais uma palavra.

     Por entre as árvores do mato, o caminho se estendia, cada vez mais, para o alto. Alcançamos a planície mais elevada, a que se referira o padeiro, e também o lugar, onde os trilhos se afastavam para o sul. Podia-se observar, contudo, que muitos viajantes seguiam para o oeste. Seguimos nesta última direção e, em breve, alcançávamos o arroio, referido na conversa com o padeiro.

     Pouco depois, chegamos a uma clareira e à sua margem notei uma choupana baixa, alongada.

     Fora feita de pedras e estava coberta de pedaços de madeira, parecidos com ripas. Observei uma porta baixa e a abertura de uma janela. No telhado havia uma abertura, que seguramente servia para deixar sair a fumaça. Gigantescos carvalhos estendiam os seus galhos nodosos sobre essa construção original, que dava uma impressão de abandono desolador.

     Assim como que por um demais, o meu companheiro indicou a choupana e disse:

     — Ali mora um mendigo.

     Não fêz, porém, menção alguma de sofrear o cavalo. Essa circunstância fêz apagar-se a desconfiança, que já nascia em mim. Parei o garanhão e indaguei:

     — Como se chama esse mendigo?

     — Saban.

     — Já foi vassoureiro?

     — De fato.

     — Então, tenho de ir ter com ele, por um instante. Preciso entregar-lhe um presente.

     — Vai. Ele, decerto, precisa. Enquanto isso, vou andando para lá, sempre junto ao arroio. Se me seguires, não poderás deixar de me alcançar.

     E, realmente, se afastou. Tivesse se apeado, haveria motivo para eu redobrar de precauções. Agora, sentia-me tranqüilizado. Dirigi-me à choupana e cavalguei em torno dela, para verificar se alguém, porventura, se encontrava nas proximidades.

     Os carvalhos e as faias estavam tão afastados uns dos outros, não obstante se unirem as seus galhos, que se podia ver, através dos troncos, até o fundo do mato. Não encontrei nem o rasto de um ser humano.

     Quase me envergonhava de ter tido desconfianças. Um pobre mendigo doente, que poderia fazer contra mim?

     Não havia esconderijo, pelo menos nas proximidades da choupana. Disso eu pensava poder estar convencido. Tivesse eu motivos para receios, eles somente podiam existir no interior daquela miserável construção e ali não seria difícil fugir ao perigo.

     Apeei-me, defronte à abertura maior, na qual não havia sequer uma porta, mas não amairei o cavalo, para, em caso de necessidade, montar e sair dali.

     Entrei, vagarosamente, com o revólver engatilhado na mão.

     Parecia não ser possível tomar maior cautela e, de fato, não era preciso, como me convenci, ao primeiro golpe de vista.

     O interior da choupana era constituído de um único compartimento, tão baixo que quase batia com a cabeça no teto. Vi uma pedra preteada, que certamente servia de fogão, diversas cabeças de cavalos e bois, destinados, por certo, a servir de cadeiras, e no canto esquerdo, ao fundo, um leito de capim, sobre o qual se encontrava um corpo humano, imóvel. Ao lado, no chão, havia um vaso, uma garrafa quebrada, uma faca e algumas outras miudezas insignificantes. Era tudo quanto continha a choupana. Que poderia eu temer?

     Trouxe o pacote e aproximei-me do leito. O homem ainda não se mexia.

     — Gueniz chajir ola — Bom dia! — saudei, em voz alta.

     O homem virou-se lentamente, cravou os olhos em mim, como se tivesse acordado naquele instante, e indagou:

     — Ne istersiz sultanum — Que ordena, meu senhor?

     — Ad-in Saban — O teu nome é Saban?

     — Bach uestuene sultanum — A's suas ordens, meu senhor.

     — Bojadji Bochk tanimar-sen — Conhece o tintureiro Bochak? Ergueu-se até ficar sentado na cama e disse, com alegria.

     — Pek ei sultanum — Muito bem, meu senhor.

     Esse homem parecia realmente estar muito doente. Vestia somente trapos e se assemelhava a um esqueleto, sem carnes. Os seus olhos cravaram-se, cobiçosos, no pacote, que estava na minha mão.

     — Ele te manda vinho e pão.

     Ao dizer isso, ajoelhei-me compadecido ao lado da cama, para abrir o pacote, enrolado em estôpa.

     — Oh, senhor. Oh, senhor, como és bondoso! Tenho fome!

     O seu olhar chamejante estava cravado em mim. Seria isso realmente fome, ou qualquer outra coisa, perigosa para mim. Não tive tempo de pensar muito sobre isso. Atrás de mim, verificou-se um ruído. Voltei a cabeça. Dois, quatro, cinco homens entravam violentamente pela porta. O da frente segurava a espingarda ao contrário, como para dar um coronhaço. Saltou sobre mim.

     Puxei rapidamente o revólver e — levantei-me? — Não, quis levantar-me; mas os longos braços esqueléticos do mendigo me envolveram, como os tentáculos de um polvo, e me puxaram para baixo. Sei, apenas, que apontei o cano do revólver para a cabeça do velho traidor e apertei o gatilho; mas, eu não podia mirar. Nesse momento, uma terrível pancada na cabeça prostrou-me por terra.

     Eu morrera; não possuía mais corpo; era somente alma, espírito. Voei através do fogo, cujo calor me devorava, e depois por entre ondas, que me enregelavam de frio, e por dentro de um mar de nuvens e cerração, muito alto sobre a terra, desenvolvendo uma velocidade vertiginosa, aterradora. “A seguir, experimentei a sensação de estar voando, num rodopio igual ao da luz em redor da terra, sem ter um pensamento, sem ter uma vontade. Em torno e dentro de mim, havia um vácuo indescritível. A pouco e pouco, a velocidade diminuía. Comecei não só a sentir, como também a pensar. Mas, que pensava eu? Coisas infinitamente tolas, de todo em todo impossíveis. Não podia, porém, falar, por mais que me esforçasse para articular um som.

     Pouco a pouco, o meu pensamento começou a se organizar. Ocorreu-me o meu nome, o meu estado, a minha idade, com a qual falecera. Entretanto, não tinha conhecimento do lugar e do modo por que encontrara a morte.

     Afundava-me mais e mais. Já não redemoinhava em torno da terra, mas dela me aproximava como uma pena leve, que cai de uma torre e balenceia para lá e para cá. E quanto mais fundo caía, tanto mais aumentava a lembrança da minha vida, então terminada. Lembrei-me de pessoas e aventuras, sempre mais e mais. Começava a fazer-se claridade dentro do meu ser, cada vez mais claridade. Recordei-me de ter empreendido ultimamente uma longa viagem; lentamente, ocorreu-me o nome das terras por onde viajei; por último, estivera em Istambul, em Edreneh, e estava no propósito de voltar para casa, quando fui abatido, no caminho, dentro de um casebre de pedra, no sopé das montanhas do Plania. Os assassinos, apesar de eu já ser um cadáver, amordaçaram-me e me jogaram sobre o leito, onde estivera deitado o mendigo, sentando-se, a seguir, em torno do fogo, que foi acendido, para assar alguma coisa.

     Eu tinha morrido e contudo sabia disso. Ouvira até as vozes dos assassinos; sim, ainda as ouvia, ao descer para a terra, que se divisava cada vez melhor, quanto mais dela me aproximava.

     E que maravilha! Caí, através do telhado da choupana, sobre os capins do fétido leito, e ali ainda estavam os assassinos. Ouvi-os falar; senti o cheiro da carne, que assavam sobre o fogo. Quis vê-los, mas não podia abrir os olhos e nem me podia mover.

     Seria eu realmente só uma alma, um espírito? No alto, onde outrora estava a minha cabeça, eu sentia, no lugar que devera ter sido a nuca, uma dor terrível, um fogo que me dava a impressão de ser aquilo o próprio inferno. Agora, já me parecia possuir, ainda, a cabeça; mas ela era dez vezes, cem vezes, mil vezes maior do que antigamente e abrangia o oceano de fogo, que se encontra no fundo da terra, e em cujas ilhas trabalham, martelam poderosamente Vulcano e milhões de ciclopes.

     A princípio senti só essa desmedida cabeça; depois notei que ainda tinha o tórax, as pernas, os braços. Mas não podia mexer uma articulação Em compensação ouvia, distintamente, cada palavra pronunciada, ali, junto ao fogo. Ouvi até as batidas de cascos de cavalos. Dois cavaleiros apearam, lá fora.

     — Kalyndji gelir — Vem chegando o gordo! — disse alguém.

     Não era essa a voz do homem, com quem eu fora até a choupana? Como teria ele vindo aqui? Pois, tinha continuado, andando!

     — We bir ikindji — E mais alguém! — acrescentou outra voz.

     — Kim-dir — Quem é?

     — Jahu, bre silahdji Deselim Ismilandan — Olá, o armeiro Deselim, de Ismilan.

     Ouvi saírem os dois homens que estavam dentro da choupana, para receber os recém-chegados com grandes demonstrações de alegria.

     — Achmaki tut-diniz — Pegaste o idiota? — perguntou uma voz gorda.

     Reconheci-a; era a do gordo padeiro de Dchnibachlue. Como assim? Referir-se-ia essa palavra idiota a mim? Pudesse agarrar um pouquinho esse homem, eu o... ah, repentinamente pude fechar a mão! Quanto pode a raiva!

     — Ewwet, aldat-dik onu — Sim, nós o enganamos.

     Essas palavras foram ditas pelo mendigo. Portanto, a minha bala não o acertara.

     — Gene nerde dir — Que é desse piolho de burro?

     Era forte! Se quisermos nos referir, no correr da palestra, a uma pessoa realmente estúpida, diremos que é um burro. O turco utiliza-se de uma expressão parecida, empregando a palavra kojundji. O homem que estava com a palavra, porém, considerava-me tão infinitamente néscio, que essa palavra teria constituído uma distinção imerecida. Por isso me chamou gene, o que quer dizer, mais ou menos, piolho de burro.

     As mãos formigavam-me e era de se ver: consegui fechar, em forma de dar soco, as duas mãos e não apenas uma, como há pouco. Parecia-me de fato que eu ainda vivia, não tendo estado morto. Pelo menos, o desejo que eu tinha era bem terreno; referia-se à atividade, nada sobre-humana, que o turco costumava designar com as palavras doejmek, wurmak e dajak jedirmek e que se traduz para o alemão com a palavra amável “prue-geln”. (1)

     Como seria que a minha cabeça já não queimava e doía tanto? Também o desenvolvimento que ela tomara, conforme descrevi, parecia ter se reduzido extraordinariamente.

     — Kulibede dir — Está na choupana — respondeu o mendigo.

     — Zindjirde-a — Naturalmente, amarrado? — perguntou o homem que me chamara de piolho de burro e cuja voz eu não conhecia.

     — Ewwet, andjak dejil la ildch — Sim, mas, sem necessidade.

     — Nitchuen — Por quê?

     — Tjuenki dir mueteweffa — Porque está morto.

     As vozes tornararn-se um murmúrio confuso. Somente, depois de algum tempo, ouvi novamente a ordem:

     — Onu bana giõsteryn — Mostra-me ele. Entraram no casebre e o mendigo disse:

     — Bunda jatar — Aqui está ele.

     Uma mão foi colocada sobre o meu rosto e aí ficou, em inspeção, por algum tempo; cheirava a pez de sapateiro e leite azedo.

     Portanto, eu não perdera o olfato. Afinal, não estava morto! O dono da mão disse:

     — Sowuk óluemin gibi — Frio como a morte!

     — Ona namzuna bak — Examina o pulso! — ouvi o gordo padeiro dizer.

     A mão de pez e leite escorregou do meu rosto para o pulso. O polegar apertou-se à parte anterior da articulação, onde dificilmente se pode sentir alguma coisa da artéria. Depois de alguns momentos de grande expectativa, o homem disse:

     — Onun jok damar woruchu — Não tem pulso.

     — El ile dokan juereksijy — Examina o coração.

     Um instante depois, senti a mão sobre o meu peito. Parecia não ter sido preciso abrir nenhum botão. Já estariam abertos o casaco e o colete? Ou teriam essas belas pessoas me livrado de tais peças do vestuário?

     Com satisfação, ter-me-ia certificado disso; mas, não podia abrir os olhos e, mesmo que o pudesse, certamente não me ocorria fazê-lo, agora.

     Durante um momento, a mão esteve sobre o meu coração; depois escorregou para a região abdominal, onde ficou descançando. A seguir, o oráculo declarou:

     — Gõnnuelue sessini tchikarmar — O coração está calado, em silêncio.

     — Dir õlmuech onun itchuen — Consequentemente, está morto! — soou, em coro.

     — Kim onu õlduermich — Quem o matou? — perguntou o homem, cuja voz eu não conhecia.

     — Ben — Eu! — foi a resposta lacônica.

     — Nassyl — Como?

     — Tepelemich onu — Abati-o, com um pranchaço.

     ____________________

     (1) Em português: espancar, sovar, surrar.

    

     O homem disse essas palavras com um acento de satisfação, que me trouxe a convicção tranquilizadora de que o meu sangue estava em movimento. Senti-o subir para a cabeça. Quem ainda tem sangue, a correr nas veias, não pode estar morto. Portanto, eu ainda estava vivo; em realidade, estava deitado sobre o monte de capim e perdera, somente, os sentidos.

     O gorducho do padeiro, contudo, parecia ter ainda alguns receios. Não queria deixar sem experiência, todos os meios que o pudessem convencer da minha morte. Por isso, perguntou:

     — Soluk malik olmar — Ele tem respiração?

     — Kulak asar-im — Vou experimentar.

     Senti que alguém se inclinava sobre mim. Depois, um nariz esfregou-se no meu. Percebi um cheiro de alho, fumo e ovos podres. O indivíduo declarou, então:

     — Onun jok nefes — Não tem ar.

     — Sabucha-lum — Vamos embora!

     Esta ordem livrou-me de uma grande preocupação, a de que ainda viessem a descobrir vida em mim. Não teria sido, porém, melhor se descobrissem que ainda estava vivo? Não dispunha do uso dos meus membros; por isso, encontrava-me diante do pavoroso risco de ser enterrado vivo.

     Assaltou-me o medo. Senti enregelar-me o corpo todo e, depois, experimentei um calor abrazador. Comecei a suar. Os homens tinham se sentado junto ao fogo. Conservavam-se calados. Talvez estivessem ocupados, presentemente, com a carne, cujo cheiro eu sentia.

     A minha situação era desesperadora. A pancada com a coronha da espingarda atingira-me a cabeça, pela parte de trás. Não sou anatomista, nem patologista; não posso enumerar as conseqüências possíveis de uma tal pancada. Tinha audição e olfato; talvez também fala e paladar; mas a ausência de movimento nos músculos, eu atribuía àquela batida. Retornariam esses músculos à atividade, com tanta rapidez, como eu precisava?

     E mesmo que isso acontecesse, para o que, aliás, contava com a minha robusta constituição física, restavam poucas perspetivas de subtrair-me ao destino que me aguardava. Sim, se os meus companheiro estivessem pelas proximidades! Se, pelo menos, o meu bom Halef pudesse ter uma idéia do grave perigo que me ameaçava! Mas, isso não acontecia.

     Sobreveio-me um sentimento, a que não sei se deva chamar de ódio ou desespero. Talvez fosse o primeiro, porquanto eu sei que Deus pode ajudar, ainda mesmo que a mola do relógio tenha se desprendido para bater a hora suprema. Cerrei os punhos; comprimi o ar nos pulmões, como se quisesse asfixiar a mim mesmo; retesei todos os músculos, que ainda estavam sob o meu domínio e então — nesse momento, o meu corpo sofreu um tirão e eu pude mover os braços, as pernas, a cabeça e — graças a Deus — também as pálpebras.

     É verdade que tomava todo o cuidado, para não deixar perceber isso. Pouco a pouco, examinei um a um todos os músculos e articulações. Não era fácil; a cabeça parecia quebrada. Tinha de esforçar-me bastante, para pensar com lógica e nas extremidades dos membros sentia um peso, como se estivessem cheios de chumbo; contudo, tinha a esperança de poder levantar-me e me defender, se necessário. E demais, confiava na sugestão do momento e nos efeitos de uma vontade firme sobre um corpo desobediente. Era certo, até aí, que eu não me deixaria enterrar vivo.

     Conservei-me deitado ao comprido, olhando, com o rabo dos olhos, para o fogo, que queimava sobre a pedra. Estavam sentados lá oito homens, que cortavam a carne dos ossos de uma ovelha, para levar grandes pedaços à boca. Entre eles, encontrava-se o gordo padeiro, o mendigo amável e aquele demônio honrado, que se oferecera para me servir de guia até Kabatch.

     Era isso que o padeiro pensara, ao jurar que nos havíamos de ver novamente! É certo que ele não contara que me matassem. Espera, montanha de carne, eu te provarei à evidência palpável, que ainda estou vivo.

     E o meu notável guia soubera fingir maravilhosamente! Por que olhara, tão preocupado, através do mato? Ah, agora começava a clarear! Quando estive esperando, atrás da casa do tintureiro, o empregado se afastara. Fora enviado pelo seu senhor, para reunir, a toque de caixa, os gentlemen aqui presentes. O meu guia me encontrara no campo e depois receara viéssemos a dar com outros daqueles distintos cavalheiros, caso em que eu poderia, facilmente, suspeitar. O tintureiro-padeiro tinha-me confiado a missão junto ao mendigo, somente por esperteza. Era isso e não outra coisa.

     E, agora, ele estava aqui com o armeiro e dono de café Deselim, de Ismilan. Esperara este para hoje ou amanhã, e esse bom homem, cunhado do Chut, chegava justamente no minuto exato para se livrar, pela minha prisão, do perigo que o ameaçava.

     Como poderia eu fugir? Oito contra um! E este um estava amordaçado e ferido! O buraco da janela era muito pequeno; e ninguém podia sair por ele.

     Na frente, a um canto, estavam as minhas armas. Tinham-mas tirado, como tudo o mais que trazia comigo, naturalmente. Estava deitado sobre o monte de capim, em camisa e calça.

     Examinei então cuidadosamente as cordas que me amarravam. Eram de couro e estavam bem apertadas. Nada havia a fazer. Se fizesse força, elas me cortariam a pele. Pensei e meditei, para achar uma idéia salvadora, mas debalde. Havia somente uma esperança, e esta não valia muito: devia fingir-me de morto. Certamente, levar-me-iam para o mato, para me enterrar. Talvez tivessem, então, a idéia de tirar-me as cordas, para guardá-las, pois deviam valer qualquer coisa, embora, pouco. Assim, retornaria à posse livre dos meus músculos.

     Talvez não quisessem dar à sepultura as duas peças de roupa que ainda vestia. Quisessem tirá-las, teriam de tirar primeiro as cordas. Também nesse caso, tinha a esperança de, embora não pudesse livrar-me, não ser enterrado vivo sem resistência, terminando a peregrinação terrestre neste lugar. Restava-me esperar pacientemente o que viesse. Certamente, esses homens não ficariam eternamente calados. Uma conversa deles, poderia dar-me a indicação do caminho a seguir.

     E justamente nesse momento, aquele homem, cuja voz eu não conhecia e de quem suspeitava fosse o armeiro de Ismilan, largou o último osso. Limpou a faca nas calças, meteu-a na cintura e disse:

     — Bem! Já comemos e agora podemos conversar. Pagarei o carneiro. Quanto custou?

     — Nada — respondeu o mendigo. — Eu o roubei.

     — Tanto melhor. O dia começa, portanto, bem barato. Venho, para dar a vocês trabalho lucrativo, e, entrementes, fizeram outro serviço que, talvez, ainda seja mais rendoso. Não sei, até agora, como se deu isso exatamente. Cheguei à casa do Bochak, no momento em que ia sair e, depois, andamos com tanta rapidez que ele não pôde falar, durante o trajeto.

     — Allah 'l Allah! Nunca cavalguei dessa maneira! — queixou-se o gordo. — Chego a não sentir se ainda estou vivo.

     — Vives, amigo! Mas, não pudeste sair mais cedo?

     — Não. Tenho só uma montaria e o mensageiro, que a levara, demorou-se muito.

     — E agora quem é esse estrangeiro?

     — Um cristão da terra dos francônios.

     — Que Alá destrua a sua alma, como vocês mataram o seu corpo. Como foi que ele te procurou?

     — Encontrou a minha mulher no caminho e perguntou por mim. Sabia todos os nossos segredos e queria mandar-me castigar, se eu não desse a minha filha, por esposa, ao sahaf.

     — Ela pertence a Mosklan, nosso aliado. Quem foi, porém, que revelou tudo a esse forasteiro?

     — Não sei; calou-se a respeito disso. Falou de Mosklan, do Chut, de todos; conhecia o nosso espinheiral no campo e obrigou-me, sob ameaça, a dar o meu consentimento.

     — Mas tu não darás!

     — Sustento a palavra dada a um crente; ele, porém, é cristão. Vai a Istambul e fala com os descrentes. Existem lá muitos cristãos russos, que dizem não ser preciso cumprir a palavra, quando se fêz a promessa, dizendo para consigo mesmo que a ia quebrar. Por que não farei isso para com ele, quando é o que ensinam e praticam entre si?

     — Tens razão.

     — Mandei, então, secretamente o meu peão, entender-se com Saban e com os amigos aqui, para dizer-lhes o que deveriam fazer. Saban devia fingir de doente: Murad esperaria o forasteiro, para trazê-lo com segurança para aqui e os outros esconderam-se por trás dos troncos grossos das árvores do mato, para entrar no rancho, depois dele. É o que sei; o resto os outros poderão contar.

     — Então, Saban, que foi que aconteceu depois? — perguntou o armeiro.

     — Foi tudo muito bem e muito mal — respondeu o mendigo. O estrangeiro chegou acompanhado de Murad, que aparentou prosseguir, sozinho, a viagem, e se apeou. Observei-o pela janela e, em seguida, me deitei rapidamente. O desconhecido entrou e me deu aquilo que o padeiro me mandara.

     — Tu me restituirás o vinho! — interveio este. — Mandei-o, apenas, por pretexto, e possuo só essa garrafa. Podes ficar com os pães.

     — O que! Tu lhe mandaste vinho? — perguntou o ismilanense.

     — De fato.

     — Não o receberás mais.

     — Por quê?

     — Porque vamos bebê-lo.

     — Como podem beber? São filhos crentes do Islam, e o Profeta proibiu o vinho.

     — Não, ele não o proibiu. Disse somente. “Seja maldito tudo quanto embebeda”. Essa garrafa de vinho não nos embriagará.

     — É propriedade minha!

     A sua inflexão de voz demonstrava a intenção firme de salvar o vinho. Agora, porém, interveio o mendigo, rindo:

     — Não briguem em torno dos mandamentos do Profeta. O vinho não poderá ser bebido.

     — Por quê? — perguntou o antigo proprietário do objeto em discussão.

     — Porque já foi bebido.

     — Homem, que é que tens!? Quem te deu o direito para isso? — bradou o padeiro.

     — Tu mesmo. Mandaste-o a mim, de modo bem claro. Tomei-o com os companheiros. Se chegasses antes, poderias ter bebido conosco. Lá está a garrafa; agarra-a e cheira, caso a tua alma tenha saudades dela.

     — Quero que sejas herdeiro do inferno, ladrão! Nunca mais, na vida, receberás um presente meu.

     — Não preciso, também, embora seja tido como esmoleiro. Sabes disso, tão bem como eu.

     — Agora, acabem com a briga! — ordenou o armeiro. — Continua a narrativa, Saban.

     Este obedeceu a ordem. Disse:

     — O desconhecido pensou, talvez, que eu dormia. Aproximou-se de mim e cumprimentou em voz tão alta, que fingi ter acordado. Perguntou-me se o meu nome era Saban e se conhecia o tintureiro Bochak, que me mandava um presente. Ajoelhou-se a meu lado para abrir o pacote, que continha o presente mandado. Vi, então, os companheiros, que vinham entrando sorrateiramente. Segurei-o rapidamente e puxei para o chão e ele levou a pancada, que o matou imediatamente. Tiramo-lhe as roupas, e agora podemos repartir tudo quanto levava consigo.

     — Se vamos repartir o que era dele, é coisa para ser resolvida. Que objetos trazia?

     Tudo foi relacionado. Não se esqueceram da mais insignificante miudeza. Até os alfinetes, de que possuía um pacotinho, foram contados. Nesta região, os alfinetes eram uma raridade e representavam, por conseguinte, uma aquisição valiosa.

     Pelas pálpebras semiabertas vi que o armeiro de Ismilan examinava a minha espingarda.

     — Esta arma não vale dez paras — disse. — Quem poderá usá-la? É mais pesada do que cinco armas turcas compridas e aqui não existem cartuchos tão grandes para carregá-la. É um lança-chamas de duzentos anos.

     O bom homem decerto nunca tivera nas mãos uma dessas armas, que se usam na caça de ursos. Mas, ao lhe ser mostrada a minha espingarda curta, tipo Henri, mais ainda ele sacudiu a cabeça. Revirou e examinou a arma por todos os lados, mexeu e experimentou em diversos lugares e depois deu a sua opinião, com um sorriso de desprezo.

     — Esse estrangeiro deve ter tido ratos na cabeça. Essa arma é um brinquedo para crianças, que vão receber instrução militar. Não se pode carregá-la; não se pode sequer dar tiro. Aqui está o cano e aqui a coronha e, no meio, uma bala de ferro, com uma porção de buracos. Para que serve a bala? Será para receber os cartuchos? Não se pode movê-la. Onde está o gatilho? Não se pode mover com a mola que devia disparar o tiro. Se esse homem ainda vivesse, iria desafiá-lo a dar um tiro. Não poderia e teria de se envergonhar.

     Assim foi examinado cada um dos objetos e surgiram opiniões, que me teriam feito rir, se isso fosse compatível com a minha situação. Justamente, quando o ismilanense pretendia levantar-se para ir examinar o meu cavalo, ouvi o ruído das ferraduras de um cavalo, que se aproximava. Também os homens o ouviram, e o mendigo postou-se na porta:

     — Quem vem lá? — perguntou o ismilanense.

     — Um desconhecido — respondeu o interrogado. — Um sujeito pequeno, que nunca vi.

     E já eu ouvira a saudação:

     — Nebarak mu barak — Bendito seja este dia.

     — Neharak sai'd — Seja bendito o teu dia! Quem és?

     — Um viajante de longínquas terras.

     — De onde vens?

     — De Assemnat.

     — E para onde vais?

     — Vou a Guemuerdjina, se me dás licença.

     — És muito delicado, porque nem precisas da minha licença.

     — Sou delicado, porque desejo que tu também o sejas. Queria fazer-te um pedido.

     — Faze-o, então.

     — Estou cançado e com muita fome. Dás-me licença de tomar a minha refeição aqui e descansar um pouco nesta choupana?

     — Não tenho comida para ti; sou pobre.

     — Tenho pão e carne, de que também te darei. Dá para nós dois.

     Impacientemente, esperei a resposta que, agora, devia dar o mendigo. Pode-se avaliar a minha excitação: reconhecera imediatamente a voz do desconhecido; era a do meu pequeno e bom hadji Halef Omar.

     Onde estivera ele, durante a noite? Como teria vindo aqui? De que modo soubera que eu devia ser encontrado nesta direção? Essas e outras perguntas cruzavam o meu cérebro. Em todo o caso, tinha de supor que eu apeara aqui, porquanto via o meu cavalo, amarrado lá fora. E da mesma forma, tinha de verificar que eu fora recebido mal, porquanto o mendigo estava com a minha faca bowie na mão. Era fácil de supor que ela me tivesse sido tirada.

     Tive cuidados pelo amigo, mas, ao mesmo tempo, senti uma impressão de segurança. Halef arriscaria, certamente, a sua vida, sem hesitar, para me libertar.

     O ismilanense se levantara; afastou o mendigo com um empurrão e chegou à porta; olhou para o hadji e disse, muito admirado:

     — Que vejo, forasteiro! Tens a koptcha.

     — Ah! Conheces este distintivo? — perguntou Halef.

     — Não vês que também o uso?

     — Vejo-o. Somos, portanto, amigos.

     — Quem te deu essa presilha?

     — Pensas que se revela um segredo com tanta facilidade?

     — Tens razão. Apeia e sejas bem-vindo não obstante chegares a uma casa enlutada.

     — Por quem é o luto?

     — Por um parente do dono desta casa. Morreu na noite passada, de um ataque do coração. O cadáver está ali no canto e nós estamos reunidos para fazer as orações.

     — Que Alá lhe conceda as alegrias do paraíso.

     Com essas palavras, parecia que Halef apeiava. Depois, ouvi-o interrogar:

     — Que lindo cavalo! De quem é esse garanhão?

     — Meu — respondeu o armeiro.

     — És digno de inveja. Este cavalo, decerto, é filho da égua do Profeta, a qual foi testemunha, todas as vezes quando, à noite, chegavam os mensageiros de Alá.

     Entrou e dirigiu o olhar para os outros e depois para o meu canto. Vi que a sua mão foi levada à cintura; mas, felizmente, teve tanto poder sobre si mesmo, que não se deixou trair.

     — Este é o morto? — perguntou, apontando para mim.

     — É.

     — Deixem que lhe preste as minhas homenagens.

     Quis aproximar-se. Nisso, o mendigo disse:

     — Deixa-o descansar! Já fizemos as orações fúnebres para ele.

     — Mas, eu ainda não. Sou ortodoxo e costumo obedecer aos mandamentos do Alcorão.

     Aproximou-se, sem ser impedido e ajoelhou a meu lado, como para rezar, voltando as costas para os outros. Ouvi o ranger dos seus dentes. Era de imaginar, que os olhos de todos estavam, nesse momento, voltados para ele e para mim, e, por isso, conservei os meus rigorosamente fechados, mas balbuciei, de modo a ser ouvido somente pelo meu companheiro:

     — Halef, estou vvo.

     Tomou fôlego, respirando fundamente, como se o tivessem livrado de um grande peso, ficou ajoelhado durante mais algum tempo e depois se levantou, ficando, entretanto, perto de mim. E, então, disse:

     — Este morto está amarrado!

     — Admiras-te disso? — perguntou o armeiro.

     — Naturalmente! Não se amarra nem mesmo o cadáver de um inimigo. Um homem morto não pode fazer mal a ninguém.

     — É verdade. Mas, tivemos de amarrar este homem, porque, durante o ataque, esbravejou como um doido. Corria furioso, de um lado para outro; batia e dava pontadas para todos os lados, pondo a nossa vida em perigo.

     — Agora, porém, está morto. Por que não lhe tiram as cordas?

     — Ainda não pensamos nisso.

     — Isso é a profanação de um cadáver. A sua alma não pode sair daqui. São parentes do desencarnado?

     — Não.

     — Então devem cruzar as suas mãos e voltar-lhe a cara na direção de Meca.

     — Não sabes que a gente se torna impuro, quando pega num cadáver?

     — Já estão impuros, porquanto estiveram aqui, no mesmo quarto, com o defunto. Não precisam tocar no cadáver. Cortem as cordas com uma faca e agarrem-no com um lenço. Aqui está o meu lenço de bolso. Devo eu mesmo fazer isso?

     — Estás muito preocupado pela alma dele.

     — Somente pela minha. Sou discípulo dos ensinamentos e da Ordem de Merdifah e faço aquilo que o dever manda a todo o verdadeiro crente.

     — Faze o que quiseres.

     Puxou da faca. Dois talhos — as minhas mãos e os meus pés estavam livres. Depois, amarrou a sua mão direita com o lenço, para não tocar no cadáver, junto as minhas mãos e me virou para o lado, de modo que fiquei com o rosto voltado para o leste.

     Como essa era a direção, onde se encontravam os presentes, tornava-se mais fácil observá-los.

     — Assim! — disse, jogando longe de si o lenço, agora impuro. — minha alma está tranqüila e posso fazer a minha refeição.

     Saiu para ir até onde estava o seu cavalo. Os homens cochicharam até ele voltar, para sentar-se junto deles, com a carne e pão.

     — Não tenho muito — disse, — mas vamos repartir.

     — Come sozinho. Estamos satisfeitos — disse o ismilanense. — Ao mesmo tempo, podes nos ir dizendo quem és e o que te leva a Guermuesdjina.

     — Saberão. Mas, eu sou o hóspede e estavam antes de mim aqui. Deverei saber primeiro, em casa de quem estou.

     — Em casa de bons amigos; acreditas isso, certamente, pois o vês pela fivela.

     — Não quero duvidar; não seria bom para vocês.

     — Por quê?

     — Porque é perigoso ter-me por inimigo.

     — Realmente? — disse, rindo, o armeiro. — És um homem tão perigoso e terrível?

     — Sou — respondeu Halef seriamente.

     — Pensas que és um gigante?

     — Não; mas, nunca tive medo de um inimigo. Como, porém, são amigos, não precisam ter medo de mim.

     A resposta foi uma gargalhada sonora, e alguém disse:

     — Oh, nós não teríamos medo de ti, em nenhuma circunstância.

     — Então, digam-me quem são.

     — Sou um sertanejo de Kabatch e os outros aqui também o são. E tu?

     — A minha pátria é o Curdistão; sou caçador de ursos.

     Houve um pequeno silêncio; depois todos romperam numa gargalhada enorme.

     — Por que riem? — perguntou no tom mais sério. — Já é a segunda vez que riem dessa maneira. Não se ajusta a um verdadeiro crente, senão uma atitude de seriedade e respeito, diante de um cadáver.

     — Será isso possível, agora? Tu, um caçador de ursos?!

     — Por que não? — perguntou.

     — És um anão. O urso te enguliria logo que te visse. Mas não ficaria satisfeito. Seriam precisos dez homens do teu tamanho, para matar-lhe a fome.

     — A minha bala o comeria, antes que ele me comesse.

     — A caça de ursos, então, é a tua profissão?

     — De fato. Tive duas tias, a quem muito amei. Uma era irmã do meu pai e outra da minha mãe. Um urso comeu as duas. Então, jurei vingar-me dos ursos e saí, para matá-los, sempre e onde os encontrar.

     — Já mataste algum?

     — Sim, muitos!

     — À bala?

     — Sim. A minha bala não erra nunca!

     — Então, és tão bom atirador?

     — Dizem que sim. Conheço todas as espécies de armas e, com todas, acerto o alvo.

     Ah, agora comecei a perceber por que o astuto Halef queria fazer-se passar por caçador. Procurava um motivo, para apanhar as minhas armas. Talvez fosse sua intenção também, provocá-los a exigir dele um tiro de prova. Neste caso, teriam de segui-lo para fora e eu achava oportunidade de me levantar.

     — Que dizes? — perguntou o armeiro. — Pretendes conhecer todas as espécies de armas?

     — Conheço.

     — Então, conheces esta aqui?

     Apontou, ao mesmo tempo, para a minha espingarda Henri. Halef pegou a arma, examinou-a e depois disse:

     — Muito bem. É uma arma americana de repetição.

     — Nunca vimos uma arma dessas. Pensamos que fosse um brinquedo. Acreditas, porém, que se possa atirar muitas vezes, sem carregar?

     — Vinte e cinco vezes.

     — Oejuen-sen — Estás te excedendo! — bradou o armeiro.

     — Digo a verdade. Na terra, que citei, havia um grande artista de armas. Inventou esta espingarda. Era um homem esquisito. Pensou que, em pouco tempo, todos os bichos de caça estariam exterminados, se houvesse muitas dessas armas. Por isso não tirou patente da sua invenção. Conservou o segredo para si mesmo e fabricou, somente, algumas destas armas. Pouco depois, morreu. Outros quiseram descobrir esta arma; mas, quem desmontava, não mais conseguia reunir as suas peças. A arma tornara-se inútil. Os poucos, que possuíam uma delas, morreram nas florestas, e as espingardas ficaram perdidas. Esta aqui, talvez seja a única que ainda existe. Chama-se espingarda de repetição sistema Henri e eu gostaria de saber, como veio parar nas tuas mãos.

     — Comprei de um amerikaly em Istambul — esclareceu o armeiro.

     — Não foi procedimento inteligente desse homem vendê-la. Esta bala, atrás do cano, recebe os cartuchos. Move-se por si mesma, quando dispara o tiro, de modo que o buraco seguinte, com outro cartucho, vai para o cano. Devo mostrar-lhes como funciona isso?

     — Sim, mostra-nos.

     — Como foi que o amerikaly te vendeu esta arma sem explicar o seu funcionamento?

     — Esqueci-me de perguntar-lhe.

     — Então, és um homem que não posso entender. Nasceste, quem sabe, em Arkilik, onde as botas não têm sola, as carroças não têm rodas e os vasos não têm fundo? Vamos para fora! Quero mostrar-lhes como se atira com esta arma.

     — Está carregada?

     — Está. Devem indicar-me um alvo e o acertarei dez vezes seguidas. Saiu da choupana e os outros o seguiram. Estavam tão preocupados com a experiência, que nem sequer pensaram em mim. De resto, estavam convencidos da minha morte; não precisavam, portanto, preocupar-se comigo.

     — E agora, em que é que devo atirar? — ouvi Halef perguntar, lá fora.

     — Atira na gralha, que está naquele galho.

     — Não; ela cairia morta e eu quero dar diversos tiros no mesmo alvo. Vou atirar sobre a choupana. Vêem aquela ripa, que o vento quase desprendeu? Sobressai do telhado e constitui um bom alvo. Acertarei dez vezes nela.

     Ouvi que os seus passos se afastavam. Halef os atraía para tão distante quanto possível, para facilitar que eu acordasse do sono da morte.

     Lá estavam as minhas roupas, a faca, que o mendigo tinha deixado, os cartuchos, o relógio, a carteira, tudo, tudo junto e, ao lado, tinha sido; encostada à parede a minha espingarda.

     Saltei de pé e me espichei. Parecia que as minhas articulações estavam cheias de chumbo; estavam pesadas e não me obedeciam; mas, podia mover-me. A cabeça doía-me terrivelmente quando toquei no lugar, onde maior era a dor; senti uma inchação enorme.

     Não tinha tempo para dar atenção a isso. Vesti-me o mais depressa que pude, agarrei tudo que era meu e peguei a espingarda.

     Para isso, precisei mais tempo do que habitualmente; mas Halef dava os tiros com tanto intervalo, que, já ao quinto disparo, eu estava pronto.

     Todas as vezes que disparava, ouvia os gritos de aplausos dos assistentes admirados. Coloquei-me no meio da casa e daí podia observar Halef. Justamente, dava o sexto tiro. Vi, claramente, que ele não olhava para a ripa do telhado e sim para a janela. Esperaria ele que lhe desse um sinal? Rapidamente, cheguei à janela e levantei a mão, somente por dois segundos; mas isso fora o bastante. Halef fêz um sinal afirmativo com a cabeça e se virou para os assistentes.

     Não podia ouvir o que disse, mas vi que colocou a arma sobre o ombro e se aproximou do rancho.

     — Dez tiros, dez! — ouvi o armeiro bradar. — Deste apenas seis.

     — É o bastante — respondeu Halef, que já se tinha aproximado tanto que pude ouvir as suas palavras. — Viram que acerto o alvo, a cada tiro. Não quero desperdiçar as balas, porque, talvez, venha a precisar mais delas.

     — Para quê?

     — Para varar, com elas, a cabeça de todos vocês, patifes!

     Com essas palavras, estacou e voltou-se contra os outros. O momento de agir tinha chegado. Nós dois contra tantos? Mas o valente homenzinho não denunciou um sinal de preocupação ou medo. Eles tinham deixado as suas armas na choupana e só podiam resistir com as suas facas.

     Estavam perplexos, tanto pelas palavras do hadji, como pela atitude por ele assumida contra o grupo. Acreditaram, na verdade, que se tratasse de uma brincadeira, porquanto o ismilanense perguntou, rindo:

     — Como? Queres matar-nos, pequeno? Se queres fazer uma caçoada, escolhe coisa melhor. És um bom atirador; mas, não nos acertarias, não obstante ser pequena a distância que nos separa.

     Halef meteu um dedo na boca e assobiou forte e estridentemente. Depois respondeu:

     — Caçoada? Quem disse que estou caçoando? Olhem para lá! São dois que estão dispostos a mostrar-lhes que estou falando sério.

     Mostrou para um ponto oposto àquele em que se achava o rancho, junto à margem da clareira. Segui a direção indicada com o olhar. Lá estavam, à pequena distância um do outro, Osko, o montenegrino, e Omar Ben Sadek, o filho do guia, ambos com as armas apontadas. Tinham estado, portanto, escondidos e o assobio de Halef fora feito para que se apresentassem.

     — Dchuemle buetaen chejtanlar — Com todos os diabos! — berrou o armeiro. — Quem são esses homens? Que querem de nós?

     — Querem o cadáver, que está lá dentro do rancho.

     — Que é que eles têm com o defunto?

     — Muita coisa. O morto não é parente deste mendigo, mas, sim, o nosso chefe e amigo. Vocês o mataram e nós viemos para lhes dar a recompensa merecida.

     Todos pegaram as suas facas. Halef, porém, disse:

     — Deixem as facas na bainha; não lhes adiantarão nada. Tenho ainda dezoito tiros nesta arma e, ao primeiro disparo, os dois outros também atirarão. Serão cadáveres, antes de se aproximarem de mim.

     Disse isso em tom de tal modo resoluto, que eles tinham de se convencer da sua seriedade. Estavam, apenas, a dez ou quinze passos dele. Halef mantinha o cano da arma apontado contra eles. Se se jogassem, rapidamente, sobre ele, poderia acertar só num. Mas, ninguém queria ser este um.

     Entreolharam-se com raiva e embaraçados. Depois, o ismilanense perguntou:

     — Quem é o homem a quem chamas teu chefe e amigo?

     — É um atirador e caçador muito melhor do que eu. É invulnerável e, mesmo que o matassem, a sua alma voltaria para o cadáver. Se não acreditarem nisso, olhem para a choupana.

     Voltaram-se para a direção indicada. Lá estava eu, debaixo da entrada, com a arma na mão. Assustaram-se. Osko e Omar, porém, deixaram escapar um brado de alegria.

     — Vêem agora, que estariam perdidos, se quisessem oferecer resistência? — prosseguiu Halef.

     — Vaj! Bizim tuefenkler war isa idik — Ah! Tivéssemos as nossas armas! — gritou o armeiro.

     — Não as têm, porém. E se as tivessem, de nada lhes serviriam. Estão em nosso poder. Se se entregarem voluntariamente, seremos bondosos com vocês.

     — Como podes tomar atitude de inimigo, se possuis a presilha?

     — Procuraram matar o meu companheiro. Mas, o fato de eu possuir a koptcha deve convencer-lhes de que poderão contar com a minha condescendência se se entregarem. Entrem na choupana. Lá conversaremos mais.

     O ismilanense deixou escorregar o olhar para o rancho. Pareceu-me ver o seu rosto aclarar-se, por um instante, como um relâmpago.

     — Sim, disse ele. Entremos no casebre. Lá haveremos de esclarecer tudo. Quando cheguei, o estrangeiro já estava morto, segundo pensávamos. Entrem! Vamos, vamos!

     Empurrou os outros diante de si. Halef depôs a arma e eu me retirei, imediatamente, para tomar conta das armas daquela gente. Ajuntei-as e levei-as para um canto. Pretendia não deixar ninguém aproximar-se dali.

     Ainda estava ocupado com as armas, quando vi os homens entrarem, vindo na frente o tintureiro-padeiro, com uma verdadeira cara de pobre pecador. Ia justamente tirar a espoleta da última arma, quando ouvi um grito. Lá fora, foram disparados dois tiros; as balas bateram na parede, e, ao mesmo tempo, ouvi Halef chamar:

     — Sídi, sídi, para fora, para fora!

     Naturalmente, obedeci a esse chamado; nesse momento, porém, o homem que fora o meu guia, bradou:

     — Alto! Não o deixem sair!

     Puseram-se todos na minha frente. Meti o cano da espingarda na barriga de um deles, de modo que caiu para trás, com um grito de dor; dei um murro no seguinte e já estava fora. Isso fora obra de três segundos; mas, já o armeiro disparava pela clareira — montando o meu garanhão e levando na mão a espingarda Henri.

     Inesperadamente, arrancara a arma das mãos do meu Halef, batera-lhe com a coronha na cabeça e, depois, montara, rápido como o relâmpago, sobre o meu Rih. Osko e Omar viram isso e atiraram contra ele, sem acertar.

     — Fiquem aqui — disse-lhes. — Não deixem ninguém sair pela porta. Atirem naquele que quiser fugir.

     O burro do padeiro e os cavalos de Halef e do ismilanense estavam ali. O cavalo do último parecia ser o que estava mais descançado. Montei-o, meti-lhe as esporas, a ponto de obrigá-lo a saltar, com as quatro patas, para o ar, virei-o e parti à toda brida, atrás do gatuno.

     O que acontecia atrás de mim, era-me indiferente. Tinha de reaver o meu cavalo. Levava a espingarda na mão e estava disposto a raquele indivíduo do cavalo, a tiros, se outra coisa não me fosse possível.

     Tomara a direção de Kabatch. Não o podia ver. O rasto conduzia pelo mato. Se lhe desse uma luz, logo no começo, Rih estaria perdido para mim. Obriguei o matungo que montava, a correr o mais que podia.

     Parecia-me ouvir batidas de casco, diante de mim; não podia, porém, ver nada, devido às árvores. Assim decorreram uns bons cinco minutos, sempre por entre as árvores. Tinha a impressão de ter percorrido, nesse tempo, nada menos de três milhas inglesas. E agora — não era engano — ouvi realmente batidas de casco de cavalo. Diante de mim? Não, só podia ser atrás de mim. Voltei-me e avistei Halef, que me seguia, à toda velocidade. Estava curvado muito para a frente e maltratava o cavalo, com o relho de couro de hipopótamo, de modo que eu chegava a ouvir as pancadas.

     — Kudam! Khawam, bil' aghel! ' sa Rih chatirak — Avante! Depressa, veloz! Senão Rih, adeus — bradou.

     Falava árabe e isso era sinal de que se achava em grande agitação.

     — Por que abandonaste o rancho? — perguntei, voltando-me para trás. — Agora, eles fugirão.

     — Osko wa Omar hunak — Osko e Omar estão lá! — respondeu, desculpando-se.

     Não podíamos conversar mais do que isso.

     Agora, o mato se tornava menos cerrado. As árvores eram cada vez mais raras e, finalmente, corríamos pelo campo raso, que nos permitia ampla visão.

     Achavamo-nos sobre a elevação. Lá abaixo, havia uma aldeia, certamente Kabatch, cerca de meia hora distante. Da esquerda, vinha um arroio grande, que se unia, atrás da aldeia, ao riozinho Sõuedlue. Acima dessa confluência, havia uma ponte de madeira.

     Naturalmente, vimos também o ismilanense. Estava muito adiante de nós. Era impossível alcançá-lo à bala. Rih era um corredor excelente. Estava, porém, só brincando. Se o armeiro fosse melhor cavaleiro, teria atingido uma distância três, cinco vezes maior.

     Não tomara a direção da aldeia. Receava, decerto, deixar-se ver ali. Incompreensivelmente, dirigia-se para o arroio. Confiaria em poder atravessá-lo? Não acreditei nisso. O arroio era largo e tinha barrancas muito altas.

     — Atrás dele! — gritei a Halef. — Enxota-o para a ponte.

     Eu mesmo me dirigi para a aldeia. Era o caminho reto para a ponte. Talvez fosse possível, apesar do mau cavalo, chegar lá, antes do larápio.

     O meu cavalo era muito ronceiro. Procurei tornar-me o mais leve que pude — debalde. Tive de recorrer a uma crueldade: puxei a faca e enterrei a ponta, cerca de uma polegada, no pescoço do animal.

     Este gemeu alto e fêz tudo quanto era possível. Voava em direção à aldeia; também o animal parecia estar completamente fora de si. Não obedecia mais. Corria cegamente para a frente, sempre direto para diante e como ali nem sequer se pudesse pensar na existência de uma estrada, tive necessidade de evitar uma queda, que poderia tornar-se perigosa.

     Bem longe, à esquerda, corria o ismilanense. Olhara para trás e vira Halef, mas não a mim. Levantou-se nos arreios e ergueu a mão com a arma roubada. Imaginei o riso irônico que, naturalmente, deixou escapar nesse momento. A luz que levava diante de Halef aumentava. Para felicidade minha, o cavalo, quase enlouquecido, que montava, corria vertiginosamente em direção à aldeia. Corria mais, agora, do que o meu garanhão.

     Da aldeia, já nos haviam avistado. Diversas pessoas, estavam nas portas das casas. Na proximidade das primeiras casas, havia um monte de pedra, comprido e alto: não tive tempo de contorná-lo e, assim, saltei sobre ele. O cavalo deixou escapar um grito, num tom de baixo profundo. Parecia não enxergar mais; correria com a cabeça contra a primeira parede que aparecesse na frente. É verdade que eu não perdera o domínio sobre o animal; mas, contudo, não podia guiá-lo com segurança; tinha de me limitar a evitar desastres.

     Voei pela frente da primeira casa. Ali se achava uma carroça de duas rodas, carregada de frutas, não sei de que espécie. Desviar, não era possível. Um aperto, um salto, tínhamos passado por cima. Os assistentes gritaram de susto.

     Seguiu-se uma curva, que eu precisava fazer. Dobrando, com dificuldade, a esquina, avistei um homem, que trazia uma vaca. Ao me ver, deu um grito de medo, soltou a vaca e disparou. O animal virou-se para o dono, de modo que ficou atravessado na minha frente. Um instante depois, tínhamos saltado sobre a vaca.

     — Tjelebi, efêndi, efêndi! — ouvi alguém chamar.

     Olhei, na corrida, para o homem que me dizia isso. Era Ali, o sahaf, que estava diante da sua casa. Mantinha a boca aberta e batia com as mãos. Ele me tomara por um mau cavaleiro e, decerto, acreditava que o cavalo tivesse disparado comigo.

     Assim continuei, sempre, saindo pelo outro lado da povoação. Encontrei a ponte; o ismilanense ainda não tinha chegado. Voltei e o vi aproximar-se, ao longo do arroio, e Halef, a uma regular distância, atrás dele.

     Consegui sofrear o cavalo e tomei a espingarda. O meu cavalo valia mais para mim do que a vida do cavaleiro. Não devolvesse ele o animal, voluntariamente, era certo que levava uma bala. Era preciso somente que se aproximasse.

     Mas, já ele me avistara também. Estacou. Não podia compreender, como eu viesse a me encontrar diante dele. Depois, puxou a rédea levando o cavalo, rapidamente, para a direita. Tendo eu pela frente, Halef atrás e o arroio à esquerda, não lhe restava outra coisa senão fugir, através da povoação.

     Voltei imediatamente, apliquei mais uma pontada com a faca no meu cavalo e corri de volta. O homem tinha a intenção de passar pela casa que ficava fronteira. Quatro ou cinco saltos do meu “Rih” e já teriam desaparecido cavalo e cavaleiro. Ergui-me nos estribos, levantei a espingarda e fiz pontaria, em meio da corrida. Larguei, porém, logo a arma. Efetivamente, vira que se antepunha um obstáculo ao fugitivo, que não o avistara antes ou lhe dera pouca importância.

     Junto à casa, por onde devia passar, havia um cerca alta, tecida de vime. Estivesse eu no seu lugar, o obstáculo não me teria impedido a corrida; não pudesse passar por cima, passaria por dentro. Mas o homem teve medo e guiou o cavalo em direção à entrada da aldeia, por onde eu passara.

     Não o segui. Precisava evitar que ele tomasse o caminho para a planície e enxotá-lo para a água. Estava tão perto, que poderia atingi-lo com um tiro. Tratava-se, porém, de um homem e eu precisava, pelo menos, fazer a tentativa de obter a devolução do que era meu, sem derramamento de sangue humano.

     Em virtude disso, conduzi o meu cavalo contra a mesma cerca, que assustara o perseguido. Para Rih o salto não seria difícil; para o sendeiro, porém, era impraticável. Fi-lo saltar tão alto quanto pôde e atravessei a cerca, quebrando-a. Naquele lugar, havia um poço. Passei sobre este e continuei, além da cerca.

     O meu cavalo corria furiosamente, como se estivesse possuído pelo demônio. Andei pelos fundos da aldeia e quando me encontrei paralelamente à primeira casa, avistei o ismilanense. Este viu que o caminho estava impedido e puxou o cavalo para a direita, em direção ao arroio, que antes quisera evitar. Mais abaixo, surgia Halef, que não tivera outra coisa a fazer, senão voltar também.

     Agora, seguia o fugitivo, bem de perto. Este estava talvez a uma distância igual ao comprimento de uma fila de cinqüenta cavalos e esporeava o cavalo, o que Rih não suportava. Rih empinou-se e não quis obedecer.

     — Rih, waggif, twaggif, ugaf — Rih, pára, pára, pára. — bradei, na esperança de que a minha voz levasse o bom cavalo a continuar a resistência.

     Mas, o ismilanense bateu-lhe com a coronha da arma na cabeça, de tal modo que o animal, relichando, partiu novamente como uma bala. E eu atrás.

     O garanhão corria poderosamente. A distância entre nós começava a crescer. Parecia que o cavaleiro assustado pretendia atravessar o arroio, como medida extrema de salvação. Conseguisse o salto, o meu cavalo estaria perdido, se eu não me utilizasse ainda da espingarda. Tomei-a, portanto, outra vez e preparei-me para fazer fogo.

     Assim, zuníamos para a frente. No momento em que o ismilanense chegasse ao outro lado, sem acidente, eu atiraria. Estávamos a uma distância da margem, igual a três, quatro, dois cavalos. Rih meteu as patas trazeiras diante das mãos e se projetou para o outro lado, num salto de grande elegância; o cavaleiro perdeu os estribos e os arreios, batendo com uma violência medonha no solo, onde ficou estirado, imóvel.

     Não tive mais tempo de refrear o meu cavalo; estava numa corrida louco. Tinha má escola, estava agitado e certamente dispararia para dentro do arroio, quebrando-me pescoço e pernas. Um vibrante grito de estímulo da minha parte — e o cavalo saltou, atingindo, na verdade, a outra margem, porém ali tropicou e rodou.

     O selim, sobre o qual eu montava, era um sedj árabe, com encosto alto na frente e outro, mais alto ainda, atrás. O assento, realmente, é mais cômodo, do que o dos selins ingleses, mas, também, mais perigoso, se o cavalo chega a cair. Ao saltar sobre o arroio, arrisquei a vida; disso eu sabia. Por isso, ao gritar para o animal saltar, tirei os pés dos estribos, que eram em forma de sapato, apoiei-me com as duas mãos no encosto dianteiro, sempre segurando as rédeas, e me ergui sobre o encosto detrás, de modo que fiquei com o joelho direito sobre o lombo do animal e, quando este tropicou, me joguei para o chão.

     Esta manobra era dificultada pela espingarda; não foi tão simples, como teria sido se o selim fosse outro, e cheguei a cair, de modo a ficar imóvel, por alguns instantes.

     — Allah il Allah! — bradou o pequeno Halef, atrás de mim. — Sídi, ainda estás vivo ou estás morto?

     Estava deitado, de modo que pude vê-lo. O hadji estava já a pouca distância do arroio e pretendia levar o seu cavalo a dar o salto. Poderia quebrar o pescoço. Isso restitui-me, momentaneamente, a faculdade de me movimentar. Levantei o braço, prevenindo-o, e exclamei:

     — Fica lá, Halef! Não sejas tolo!!

     — Graças ao Profeta! — respondeu. — Ele acha que sou tolo; logo, ainda não está morto.

     — Não; somente bati, fortemente, aqui no chão.

     — Quebraste alguma coisa?

     — Creio que não. Vamos ver!

     Ergui-me como pude e me espichei. As articulações estavam íntegras, mas a cabeça roncava como um rabecão. Halef apeou, desceu pela barranca do arroio e pulou por cima da água. O curso desta não era largo; era somente porque se encontrava muito abaixo das barrancas que o salto, a cavalo, se tornava tão perigoso.

     — Alá é grande! — disse Halef. — Isso foi uma correria! Nunca pensei que pudéssemos alcançar o teu Rih, com os nossos cavalos.

     — O cavaleiro era mau.

     — De fato, esse homem estava sentado sobre o cavalo, como um macaco sobre o camelo, segundo me foi dado ver em Istambul, pela homem que exibia um urso. Lá está Rih. Irei buscá-lo.

     O garanhão estava quieto e saboreava os capins apetitosos. Não se lhe via cansaço, enquanto que o cavalo do ismilanense, no qual eu montara, estava ao nosso lado, bufando e batendo com os flancos. Tinha se levantado outra vez e não sofrerá nada. Somente os encostos do selim tinham-se quebrado, durante a queda.

     — Deixa-o! — atalhei. — Antes de tudo, devemos olhar pelo cavaleiro.

     — Queria que tivesse quebrado o espinhaço!

     — Não vamos desejar isso.

     — Por que não? Era um salteador e ladrão de cavalos.

     — Mas, não obstante, um ser humano. Não se mexe. Certamente perdeu os sentidos.

     — Talvez não tivesse perdido só os sentidos, mas também toda a alma. Que esta vá para a Djehenna, para beber um brinde de fraternidade com o diabo.

     Ajoelhei-me ao lado de Deselim e o examinei.

     — Então? Vês onde está metida a sua alma? — perguntou Halef.

     — Não está mais com ele. Realmente, quebrou o espinhaço.

     — Ele mesmo é o culpado e nunca mais roubará cavalo algum, muito menos o teu garanhão. Que Alá deixe a sua alma entrar num velho rocim, que seja roubado dez vezes por dia, para que experimente o que sente um cavalo, quando tem de carregar um ladrão.

     Com isso, aproximou-se, mostrando a cabeça do armeiro.

     — Tira-a dali! — disse.

     — Quê?

     — A koptcha.

     — Ah! Tens razão. Não teria pensado nisso.

     — E contudo é tão preciosa. Quem sabe se te poderia salvar, se não possuísses a fivela.

     — De quem a obtiveste?

     — Do prisioneiro do ferreiro.

     — Então, estiveste em casa de Chimin?

     — Estive. Mas isso contarei mais tarde. Agora, temos outra coisa que fazer. Olha, vê essa gente!

     Toda a população da aldeia, parecia ter chegado ao arroio. Homens, mulheres, crianças, em grande número, estavam parados à margem e mantinham uma conversação, em voz alta, berrando.

     Dois deles desceram a barranca e saltaram para o nosso lado. O primeiro era Ali, o sahaf.

     — Senhor, que aconteceu? — perguntou. — Por que perseguiste esse cavaleiro?

     — Não adivinhaste?

     — Não. Como posso saber?

     — Não viste de quem era o cavalo que montava?

     — Era o teu. Fizeste uma aposta com ele ou estavas experimentando o animal, na velocidade, para o comprar depois?

     — Nem uma, nem outra coisa. Ele roubou o cavalo.

     — E tu o perseguiste?

     — Sim, como viste.

     — Mas, senhor, não sei o que deva pensar! Não sabias montar!

     — Ainda agora, não sei fazê-lo de modo diferente do que antes.

     — Oh, sim! Montas como o estribeiro do Grão Senhor, e até melhor. Ninguém arriscaria esse salto, com tal cavalo.

     — Bem, talvez tivesse aprendido desde então.

     — Não. Tu me enganaste; caçoaste comigo. Antes, montavas como uma criança de escola e, quando te vi quebrar a cerca e saltar o arroio, pensei que fosses quebrar o pescoço.

     — Isto é coisa que cedo aos outros, como, por exemplo, a este homem. Ao mesmo tempo, indiquei o ismilanense.

     — Alá! Quebrou o pescoço?

     — É verdade.

     — Então, está morto?

     — Naturalmente

     — Por conseguinte, pagou caro o roubo feito. Quem é? Aproximou-se do cadáver, virou a cara para vê-lo, e exclamou, pasmado:

     — Deus faz milagres! Este é o armeiro Deselim, de Ismilan.

     — Conheces?

     — Conheço. É também dono de uma casa de café, onde tomei muitas taças de café e fumei muitos cachimbos.

     — Nesse caso, era teu amigo?

     — Não, somente era meu conhecido.

     Nisso, aproximou-se o outro homem, que também saltara o arroio. Também ele examinou a fisionomia do defunto.

     — Perseguiste este homem? — perguntou-me o desconhecido.

     — Sim.

     — E, assim, ele perdeu a vida?

     — Infelizmente.

     — Então, és o assassino. Tenho que te prender.

     — Não farás tal coisa! — interveio imediatamente o sahaf. — Este homem não está debaixo da tua jurisdição.

     O outro tomou uma atitude de grande dignidade e respondeu, em tom sério:

     — És Ali, o sahaf, e tens que calar. Eu, porém, sou o kiaja desta aldeia e tenho que falar. Portanto, quem és?

     Esta pergunta era dirigida a mim.

     — Um forasteiro — respondi.

     — De onde?

     — De Nemtche memleketi.

     — Isso é longe daqui?

     — Muito longe.

     — Estás, também, debaixo das ordens de um kiaja?

     — Obedeço a um rei poderoso.

     — É a mesma coisa. Sou o rei de Kabatch; sou, portanto, igual a ele. Anda, segue-me!

     — Como prisioneiro?

     — Naturalmente! És um homicida.

     — Não queres indagar, primeiro por que foi que persegui este homem?

     — Será feito amanhã, logo que tenha tempo e vontade.

     — Hoje, eu tenho tempo e vontade; mas, amanhã, não.

     — Não tenho nada com isso. Para diante!!

     Com um gesto autoritário, mostrou a direção do arroio. Mas, nesse momento, o pequeno Halef chegou para perto dele, mostrou-lhe, como era de seu hábito, o relho de couro de hipopótamo, dependurado à cintura, e perguntou:

     — Com que então, és o kiaja desta aldeia?

     — Sou.

     — Já viste, alguma vez, um chicote igual a este?

     — Muitas vezes.

     — Também, já provaste algum?

     — Que queres dizer?

     — Oh, quero dizer o seguinte: se disseres mais uma única palavra indelicada a este sídi, efêndi e emir, que é meu amigo e companheiro, castigar-te-ei a cara com este chicote, de tal modo que ficarás pensando que teu nariz intrometido é a mesquita do sultão Murad, que Deus guarde. Acreditas que viemos a Kabatch para nos deleitar na contemplação da tua grandeza? Acreditas que nós pensamos ser um kiaja o homem soberbo do globo? Já vimos moços de cocheira bexigosos e vigaristas, com o nariz cortado, os quais eram mais bonitos e mais dignos do que tu. Por que foi que Alá te deu pernas tortas e uma verruga vermelha no nariz? Teria sido para te distinguir dos outros crentes? Evita o meu rancor e toma cuidado com a minha ira. Com este chicote, já fiz muita gente, melhor do que tu, tornar-se delicada.

     O kiaja estava mais admirado, do que assustado. Mirou o pequeno, de alto a baixo, e depois indagou:

     — Homem, porventura, ficaste doido?

     — Não; mas, se queres ver um maluco, olha aqui para esta água; verás a tua própria cara. Só um louco pode arriscar-se a tratar com brutalidade ao meu efêndi, o poderoso emir hadji Kara Ben Nemsi.

     — E quem és tu?

     — Sou hadji Halef Omar Bei, o protetor dos inocentes, e vingador de todas as injustiças e o senhor e mestre de todos os kiajas, até onde se conhece a luz do sol.

     Agora, o bom funcionário não sabia de fato, como proceder. A fanfarronada do pequeno hadji causara, realmente, forte impressão. Dirigiu-se, então, a mim.

     — Senhor, és realmente um homem tão nobre?

     — Porventura, não me pareço assim? — perguntei, em tom enérgico.

     — Oh, tens a aparência de um emir; mas, perseguiste este homem até a morte.

     — Ele mesmo é o culpado.

     — Por quê?

     — Roubou-me o cavalo e o persegui, para retomá-lo.

     — Deselim, de Ismilan, teria roubado um cavalo?

     — Não acreditas, quem sabe, no que diz o meu efêndi? — perguntou Halef, aproximando-se do homem e fazendo um gesto muito expressivo com a mão na cintura.

     — Oh, eu não duvido — afirmou apressadamente o kiaja. — Mas, pode o efêndi provar que o garanhão, de fato, era seu?

     — Aqui está a prova.

     Com estas palavras, Halef pegou no chicote. Entretanto, indiquei o sahaj e disse:

     — Pergunta a ele. Sabe que o cavalo é de minha propriedade.

     — De onde poderá saber? Não te conhece, pois és um forasteiro.

     — Conhece-me e me viu montando o garanhão.

     — É verdade?

     — É — respondeu o sahaf, a quem a pergunta fora dirigida. O kiaja, então, inclinou-se diante de mim e declarou:

     — Acredito. Contudo, efêndi, acompanhar-me-ás até a minha casa.

     — Preso?

     — Não, de todo; mas, sim, meio preso.

     — Bem. Qual a metade que queres prender? A outra não tem tempo e vai embora.

     Olhou-me boquiaberto. Os moradores de Kabatch, reunidos à beira do arroio, no entanto, soltaram enorme gargalhada. Em face disso, o kiaja bradou encolerizado, dirigindo-se aos que estavam do outro lado.

     — De que riem? Homens, súditos, escravos que são! Não sabem que sou o procurador e o representante do sultão? Mandarei encarcerai todos e submeter à pena de bastonadas!

     E, voltando-se para mim, prosseguiu:

     — Por que me tornas ridículo, diante do meu povo?

     — Porque te fazes ridículo perante mim? Não é ridículo dizer que sou meio prisioneiro?

     — A tua inocência está provada só pela metade.

     — Então, prová-la-ei inteiramente.

     — Faze-o.

     — Com prazer e já. Vês esta arma e esta faca? Todo aquele que tentar se opor a que eu parta, será derrubado a tiros ou a facadas. E aqui está a outra prova. Sabes ler?

     — Sei.

     — Então, lê o meu passaporte, que leva o selo do Grão Senhor. Apresentei-lhe o documento. Quando viu o selo, apertou-o contra a testa, a boca e o peito e disse:

     — Efêndi, tens razão; és inocente e podes continuar a tua viagem.

     — Bem. Que será feito com o cadáver?

     — Jogá-lo-emos dentro d'água. Que os carangueijos o devorem, porque te insultou.

     — Não faças isso. Comunica a sua morte aos parentes, para que eles venham, a fim de enterrá-lo. Deverá ser reunido aos seus antepassados, de uma maneira honrosa. Se ouvir dizer que fizeste o contrário, darei conhecimento do caso ao supremo magistrado de Rumili.

     — És amigo dele?

     — Que perguntas? — respondeu Halef, por mim. — O kaseri askeri de Rumili é nosso amigo e parente. A minha mulher favorita é filha da favorita dele. Ai de vocês, se não obedecerem!

     Afastou-se, para trazer Rih. O kiaja, no entanto, curvou-se diante de mim e exclamou:

     — Que Alá conceda à favorita do teu companheiro cem anos de vida e milhares de filhos, netos e bisnetos. Farei o que me ordenaste.

     — Conto com isso. Também entregarás aos parentes, o cavalo e tudo quanto o morto tiver.

     — Entregarei tudo, oh, efêndi!

     Estava convencido do contrário. O que viesse a suceder, porém, não me interessava. Podia estar contente por poder continuar o meu caminho, sem estorvos e, assim, montei novamente o meu cavalo, que, por pouco, tinha perdido de uma maneira tão ignominiosa.

     Um assobio — o cavalo se precipitou, num salto, para a outra margem do arroio. O povo se esparramou, gritando de medo. Halef seguiu-me a pé e montou o seu cavalo, ao chegar do outro lado.

     — Senhor, não querias visitar-me? — perguntou o sahaf,

     — Quero. Guia-nos. Desejo ver teu pai.

     Cavalgávamos na frente e o povo nos seguia, depois de o kiaja ter deixado um guarda, junto ao cadáver. Diante da pequena casa do sahaf, apeamo-nos. O interior era dividido em duas partes desiguais. Na parte maior, notei, sobre o leito, um homem velho, que nos dava as boas-vindas com os olhos, sem poder falar, nem se mexer.

     — Pai, este é o senhor, de quem te falei, — disse o sahaf.

     Aproximei-me do velho, agarrei a sua mão e pronunciei uma saudação amistosa. Agradeceu-me, por meio de um olhar, igualmente amistoso. O leito estava limpo e o velho mostrava um asseio pouco comum, nesta região. Isso alegrou-me. Perguntei-lhe:

     — Podes entender as minhas palavras?

     Fêz um sinal afirmativo, com os olhos.

     — Vim para ver o honrado pai de um bom filho e para fazer a felicidade de Ali.

     O seu olhar tornou-se inquiridor e, por isso, continuei, esclarecendo:

     — Ele ama Ikbala, a mais linda das filhas de Rumili. O pai dela não a quer dar; mas, obrigá-lo-ei a consentir. Ali irá comigo, para junto da sua amada.

     — Senhor, é verdade, é verdade? — interrogou, afobado, Ali.

     — É.

     — Falaste com ela?

     — Também com a sua mãe e o seu pai.

     — Que disseram ela e ele?

     — Ambos disseram “sim”, mas o padeiro pensava no engano e na traição. Contar-te-ei isso mais tarde. Agora, mostra-me o teu relógio.

     — Não queres, antes, comer alguma coisa?

     — Agradeço. Não temos tempo. Tenho de voltar imediatamente.

     — Então, vamos lá fora.

     Conduziu-me para uma subdivisão menor da casa, onde se encontrava uma mesa, coisa rara lá. Sobre esta, notei a obra de arte.

     — É isto aqui — disse Ali. — Observa bem.

     Faltava ainda o mostrador do relógio. As rodas eram recortadas de madeira, serviço feio a mão, certamente muito trabalhoso.

     — Sabes onde está a arte?

     — Sei — respondi, indicando a colocação dos ponteiros. — É aqui.

     — Adivinhaste. Este relógio não mostrará somente as horas, mas também os minutos. Já viste um relógio igual?

     Ai de ti meu bom sahaf! Não vais muito longe com a tua arte! — pensei.

     Em voz alta, porém, respondi:

     — Já. Olha aqui o meu relógio. Mostra os anos, meses, dias, horas, minutos e segundos.

     Tomou-me o relógio da mão e observou, atentamente, o mostrador.

     — Senhor, — disse — caminha direito?

     — Como não? Bem certo.

     — Mas, eu não posso ler o mostrador.

     — Porque as palavras e os números estão escritos com uma letra que não conheces. Mas, podes ouvir.

     Fiz o relógio tocar a campainha. Ali assustou-se com o ruído claro e estridente.

     — Allah akbar! — exclamou. — Este relógio foi feito, ou por Alá, ou pelo diabo.

     — Oh, não! Aquele que o fêz, era um relojoeiro muito devoto, em Germany. Este relógio foi a sua obra prima, mas nunca o vendeu. Quando morreu, o seu herdeiro recebeu-o e, depois da morte deste, veio para as minhas mãos.

     — Pode-se abri-lo?

     — Sim.

     — Abre-o, abre-o, para que eu veja como foi construído.

     — Agora, não; em Dchnibachlue poderás examiná-lo. Lá teremos tempo, mas aqui não.

     — Então, queres partir já?

     — Sim. Antes, porém, quero cumprir a minha palavra e escrever um versículo, que seja um consolo para teu pai, no seu sofrimento.

     — Um versículo da Bíblia cristã?

     — Sim.

     — Então vem! Lerei para ele ouvir e lhe causarei uma grande alegria.

     Voltei, com o rapaz, para o compartimento da frente e, então, Ali disse:

     — Meu pai, lembra-se daquele velho católico romano, que me deu aquele bonito versículo?

     O interrogado confirmou, com os olhos.

     — Este efêndi também é um cristão e escreverá um versículo para ti. Eu o lerei.

     Arranquei uma folha do meu caderno de apontamentos, escrevi e a entreguei ao sahaf. Este leu:

     — Jachar-sam jachar-im Allaha, õlar-sam õlar-im Allaha, jachar-im jagod õlar-im alyr-im Allaha!

     Isto quer dizer:

     “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (2).

     Os olhos do velho ficaram marejados. Olhou para as mãos, que não podia mover.

     — Efêndi, ele te pede que lhe dês a mão — esclareceu o filho.

     Atendi a esse pedido e enxuguei as lágrimas dos olhos do paralítico.

     — Alá é bondoso, sábio e justo — disse. — Amarrou os teus membros, para que tua alma se comunique com Ele, na maior assiduidade. Quando chegar o momento, em que o teu espírito se desprender da carne e chegar à ponte que leva à eternidade, onde encontrarás os dois anjos, que vão examinar a vida do que morreu, então o peso dos teus sofrimentos será maior, nas suas mãos, do que tudo quanto pecaste. Que as maravilhas do céu iluminem o teu caminho!

     O ancião fechou os olhos e, sobre as rugas da sua face, estendeu-se a tranqüilidade, que revela o termo feliz das dúvidas do espírito. Não abriu também os olhos, quando saímos.

     — Senhor, — disse, lá fora, o sahaf, — por que não escreveste o versículo, na língua que falamos hoje.

     — O Alcorão, também, não foi escrito no árabe moderno. Um versículo deve ser

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     (2) Epístola aos Romanos, cap. 14, vers. 8 — Trad. de João Ferreira d'Almeida. (N. do T.).

 

escrito, com palavras dignas da sua grandiloqüência. Mas, por que me falas, agora, de modo diferente do que antes?

     — Eu? — indagou, um tanto ou quanto embaraçado.

     Depois de um breve silêncio, declarou:

     — Porque te quero bem. Estás zangado comigo?

     — Não. Traze o teu cavalo. Iremos a Dchnibachlue.

     Enquanto Ali foi aos fundos da casa e nós o esperávamos, tive vontade de interrogar o pequeno hadji sobre as suas aventuras; mas, cercava-nos um monte de gente, que comentava, em altos gritos, os acontecimentos recentes, dedicando-nos um interesse tão insistente, que não se podia pensar sequer numa palestra ali.

     Chegou, afinal, o sahaf, com o seu cavalo e começamos o regresso, a trote largo, pois estávamos na dúvida sobre o que podia ter acontecido a Omar e Osko.

     Durante a cavalgada, dirigi-me a Halef, pedindo-lhe informações.

     — Esperei tanto tempo e, não obstante, não pude ficar até que chegassem. Enganaram-se de caminho?

     — Não, efêndi. Permanecemos no caminho que nos indicaste; mas...

     Estacou, olhando-me de lado, para se certificar se eu estava de veia, de modo a que pudesse arriscar-se a fazer uma comunicação desagradável.

     Entretanto, eu não estava mal disposto. Aliás, sempre me esforcei por não deixar apoderar-se de mim um caprichoso estado de ânimo qualquer; tenho pavor de um homem que se deixe escravizar por um capricho ou uma fantasia, moldando a sua disposição de vontade por aquele ou por esta. Cada um tem o dever de dominar os seus momentâneos sentimentos íntimo, diante dos seus semelhantes. Só por esse meio, consegue impôr-se aos outros. De resto, eu fora salvo de uma situação difícil, pelo aparecimento do meu denodado Halef. Devia-lhe realmente grande gratidão. Ademais, reconquistara o meu cavalo; não havia, portanto, nenhuma razão para me indispor. Ainda assim, fiz uma cara bem carrancuda, para depois poder causar ao pequeno hadji uma alegria ainda maior, com uma resposta atenciosa.

     Como não respondesse e, sim, procurasse conservar ares bem sombrios, Halef ajeitou-se no selim e indagou:

     — Kejfi jerinde sen — Estás de bom humor?

     — Chajyr, hadji — Não, hadji.

     Isso era tão estranho, que ele se assustou.

     — Aj hai — Ai de mim!

     — Por que te queixas?

     — Porque sou obrigado a te encolerizar.

     — Com quê?

     — Aconteceu um desastre.

     — Que foi?

     — Ele foi embora.

     — Quem?

     — O último.

     — Que último? Então, fala!

     — O último khawass.

     Essas palavras foram pronunciadas num suspiro, que, apesar da batida dos cascos dos cavalos, podia ser ouvido à distância.

     — Lilla elhamd — Graças a Deus!

     Disse isso com tanta alegria, que Halef ficou perplexo e me encarou:

     — S'lon — Como? — perguntou visivelmente aliviado.

     — Hada jisslah li; haja ja'dchizni — Agrada-me isso; estou satisfeito.

     — Efêndi, estou te entendendo direito?

     — Penso que sim.

     — Não estás zangado, com a fuga dele?

     — Não. Pelo contrário, sou muito grato a ti e a ele, por isso.

     — Mas, por quê?

     — Porque esse homem somente nos aborrecia e atrazava injustificadamente a nossa jornada.

     — Por que, então, trouxeste os khawass contigo?

     — Alguns khawass certamente nos seriam de utilidade; mas, como esses indivíduos não sabiam andar a cavalo e o seu chefe preferisse dar ordens a obedecer, é melhor que não tenhamos mais que nos incomodar com eles.

     — Sarif, tajib — Lindo! Bem! Tiras-me um grande peso do coração. Realmente, tive medo.

     — De mim, Halef?

     — Sim, sídi, de ti.

     — Conheces-me tão pouco assim? Durante tanto tempo, prestaste-me tão bons serviços e ainda hoje me salvaste de uma morte quase certa. És o meu amigo e protetor, e tens medo de mim? Ora, meu caro Halef! Isso não é inteligente.

     — Oh! muito menos inteligente foi ter deixado aquele indivíduo escapar.

     — Então, ele fugiu?

     — Exatamente, fugiu.

     — Ah, já o suponho; levou o cavalo de carga, naturalmente?

     — De fato, levou o cavalo que carregava os presentes que recebemos por intermédio de Malhelm, o bom guarda-portão.

     — Deixa-o ir-se.

     Agora, fêz uma cara admirada, quase zangada.

     — Que? Deixá-lo ir? — perguntou. — Não fiz isso. Perseguimo-lo, num grande trecho do caminho percorrido. Queríamos pegá-lo. Mas, era noite e não pudemos encontrar os seus rastos.

     — Andaram, portanto, às cegas. Ai de vocês! Com isso, perderam um tempo precioso.

     — Infelizmente! Fomos de volta até perto de Geren. Podes imaginar quanto tempo perdemos. Chinguei e blasfemei tanto, que Alá sacudiu a cabeça, porque, ordinariamente, sou um homem devoto. Esta noite, porém, estava tão furioso e cheio de raiva, que teria matado mil gigantes, se algum deles se tivesse metido no meu caminho.

     — Consolemo-nos! Temos de pensar noutra coisa.

     — Consolar-nos? Efêndi, não te conheço, não te compreendo mais. Sabes, porventura, quais eram os presentes que nos mandou o nosso hospedeiro?

     — Não deixei abrir. Naturalmente, eram vitualhas.

     — Mas eu abri.

     — Ah, tiveste curiosidade?

     — Curiosidade? É sempre de vantagem saber-se o que se recebe de presente e o que se leva consigo. Havia uma excelente cuca, tão grossa como uma mó, com milhares de amêndoas e passas. Infelizmente, porém, estava amassada. Ademais, havia dois xabraques, de grande valor, certamente um para ti e outro para mim. E, finalmente, achei uma quantidade de lenços de seda, excelentes para ornamento de cabeça. Quanta vontade, tinha eu de levar um deles à minha Hanneh. Agora, ela perdeu isso. Ja chema’ dan el mahabe, ia chems el amel, ia warde el benat. — Ó luz do amor; ó sol da esperança; ó rosa das filhas!

     De repente, surgia assim o seu amor pela boa Hanneh. Procurei consolá-lo.

     — Não te queixes, hadji. Estava escrito no livro da vida, que deveríamos perder a cuca, os xabraques e os lenços. Também, em outras partes, existem lenços de seda e tomarei cuidado para que não voltes, para junto da mais linda de todas as filhas, com as mãos vazias

     — Queira Alá! Alegro-me somente por ter podido salvar a bolsa.

     — Que bolsa?

     — Quando abri, achei uma bolsa de pele de gato. O cordão estava amarrado e selado; mas, era tão pesada e o som era tão metálico, que me convenci haver dinheiro ali dentro.

     — Esta tu guardaste?

     — Sim, tenho-a aqui no bolso. Nela está presa uma fita de pergaminho; nesta está escrito: Dostima hadji Kara Ben Nemsi efendi. A bolsa, portanto, é para ti; aqui está, toma-a.

     Tirou-a do bolso e me entregou. Pesei-a com a mão. Sim, havia dinheiro dentro dela. Dostima quer dizer: ao meu amigo. Tratar-se-ia de um presente de amizade? Para mim? Dinheiro? Talvez, dinheiro para a viagem? Hum! Guardei a bolsa e disse:

     — Abriremos mais tarde. Em todo o caso, procedeste com inteligência, ao guardá-la. Agora, precisamos conversar sobre outra coisa, porquanto já percorremos quase a metade do caminho. Vejamos: como pôde o khawass fugir?

     — Estava escuro. Apeamos ao chegar a uma casa, perto da qual havia um poço. Queríamos dar de beber aos animais. O khawass puxou a água. Entrei na casa, para me informar, com o dono dela, sobre o caminho. Osko e Omar não ficaram lá fora; entraram também e quando voltamos ao poço, o khawass tinha desaparecido, com o seu cavalo e o nosso de carga.

     — Ouviram o tropel dos dois animais?

     — Não; mas, mesmo assim, corremos atrás dele.

     — Oh, não! Isso não fizeram — respondi, rindo.

     — Não? Tocamos a galope, para trás, mas não o alcançamos.

     — Sabes se ele voltou? Naturalmente, foi tão inteligente que escolheu outro caminho.

     — Ah! Esse embusteiro! Esse hipócrita!

     — Talvez tivesse somente conduzido os cavalos para um local mais escondido, para esperar os acontecimentos.

     — Oh! Não pensei nisso. Teria sido tão inteligente assim? Mas, tinha uma cara tão idiota! Queria que o tivesse aqui na minha frente. E, mesmo que ele tivesse numerado todos os seus ossos, não conseguiria reuni-los mais. Enganar-me a mim, a mim, hadji Halef Omar Ben hadji Abdul Abbas Ibn hadji Dawud ai Gossarah!

     Tirou o relho da cintura e começou a bater no ar, como se tivesse o malfeitor diante de si.

     — Consola-te! — declarei. — Quando chegaram finalmente, a Kochikawk?

     — Uma hora depois de teres partido. Tu nos descreveste para o ferreiro e, assim, ele nos reconheceu, em seguida, detendo-nos. Soubemos, então, o que tinha acontecido. Mostrou-nos o prisioneiro. Esperamos. Como não viesses, fiquei preocupado. Resolvi, então, seguir-te para Dchnibachlue. Tive uma idéia, que certamente te alegrará também.

     — Qual?

     — O ferreiro falou-me sobre a koptcha. O preso tinha uma. A fivela é um sinal de reconhecimento; podia prestar-me bons serviços. Tirei-a daquele homem, que se dizia agente Pimosa, e a prendi no meu fêz.

     — Esplêndido! Vi o resultado que teve a tua apresentação com a presilha.

     — Dirás ainda que não sou inteligente?

     — Não, és um portento de sabedoria.

     — Sim; contudo, de quando em vez, deixo escapar alguns khawas. Chegando a Dchnibachlue, fomos direito à casa do padeiro. Encontramos só a sua mulher e a filha. Efêndi, quando vi a velha, quase caí em todos os desmaios. Já observaste atentamente uma colmeia?

     — Já.

     — Há uma rainha, com o corpo inchado, como um balão. Dizem que a rainha põe, num dia, alguns milhares de ovos. Sídi, a velha me pareceu igual a uma dessas rainhas.

     — Mas, tem um bom caráter!

     — De fato; ela e sua filha preveniram-me. O ajudante fora mandado a um serviço. Depois, chegara o dono de um café de Ismilan e falara com o padeiro a teu respeito, em conseqüência do que ambos saíram apressadamente. Isso nos foi dito por Ikbala, a filha. Ela tinha cuidados por Ali, que agora vem atrás de nós. Pediu-me que te seguisse. Faria isso mesmo que não me pedisse.

     — Chegaste a tempo, caro Halef!

     — Realmente. Tinha pressa; mas, não obstante, fui cauteloso. Ouvi o relinchar de um cavalo. Por isso, andei devagar e sozinho. Vi a clareira com a choupana; enxerguei o teu Rih e alguns outros cavalos; estavas, portanto, dentro do casebre, no meio dos inimigos; talvez tivessem até te prendido. Três cavaleiros teriam dado motivo a que os teus adversários tomassem precauções, enquanto um só não lhes poderia parecer perigoso. Por isso, escondi Osko e Omar, por entre as árvores, e lhes disse o que deviam fazer; depois, fui sozinho à choupana.

     — Procedeste com muita cautela e com muita coragem. Demonstraste que posso confiar em ti.

     — Oh, efêndi, és o meu mestre e o meu amigo! O que aconteceu, então, já sabes.

     — De fato. Mas, por que não permaneceste na choupana, Halef, ao invés de me seguir?

     — Deveria deixar que roubassem o teu Rih?

     — Nada poderias fazer contra isso; o teu cavalo não servia para alcançar o meu, que é muito mais veloz.

     — O teu também não. Poderias ter enganado o larápio, sem mim? Poderias tê-lo atacado por todos os lados, como fizemos? Viu a mim, somente, e pensou que era o seu único perseguidor. Por isso, assustou-se quando verificou que lhe interceptavas a fuga. Teve de voltar e, assim, Rih caiu outra vez nas nossas mãos. Conseguirias isso, sem mim?

     — Não. Tens toda a razão. Preocupa-me, porém, a sorte dos nossos dois companheiros.

     — Não há motivo. Eles são valentes.

     — Mas, estão contra um grupo numericamente muito superior; os seus inimigos estão protegidos pelo casebre.

     — A choupana não só os protege, como também os retém prisioneiros.

     — Por quanto tempo? Através da janela ou da porta podem atirar contra Omar e Osko e as balas poderão acertar.

     — Não. Deste instruções a ambos. E também eu lhes gritei, antes de te acompanhar, que se escondessem por trás das árvores e atirassem em todo aquele que tivesse a idéia de sair do rancho. Que farás com essa gente?

     — Isso depende do modo por que se portarem. Esporeia o teu cavalo!

     O sahaf conservara-se respeitosamente atrás de nós. Ao observar que a minha palestra com Halef estava terminada, veio para o meu lado e perguntou:

     — Senhor, posso saber o que aconteceu e por que devo acompanhar-te?

     — Depois. Espero que, ainda hoje, poderás cumprimentar Ikbala, a mais linda virgem de Rumili, na presença do seu pai. Agora, apressemo-nos, mas não conversemos.

     Entrementes, chegáramos ao mato e, em pouco tempo, estávamos diante da clareira. Refreamos os cavalos, para que a nossa chegada não fosse notada, com facilidade. Ao chegar quase à margem da clareira, apeei e dei o cavalo para Halef segurar.

     — Permaneçam aqui — disse. — Irei, primeiro, fazer um reconhecimento. Dá-me a espingarda curta, Halef.

     — W’ Allah! Muito bem! Ainda bem que a temos. Aqui, sídi. Devemos esperar até que voltes?

     — Sim; a menos que eu chame.

     Rastejei de um tronco a outro, sempre para diante, até poder divisar inteiramente o prado. Os cavalos ainda estavam diante da choupana. Da janela, saíam dois canos de carabins. Os ocupantes do casebre se tinham colocado em atitude de defesa. De fato, não me tinha sido possível, infelizmente, tirar as suas armas.

     As forças sitiantes, compostas de Osko e Omar, não se deixavam avistar. Ambos, com certeza, estavam escondidos atrás de grossos troncos. Fiz, portanto, uma curva, até chegar à parte do mato, fronteira ao rancho, e ali encontrei os dois homens, que procurava. Aproximei-me tanto quanto era possível, sem ser pressentido, pelos de lá da choupana. Viram-me e demonstraram a sua alegria, com exclamações abafadas.

     — Algum deles fugiu? — interroguei-os.

     — Não — respondeu Osko.

     — Deste algum tiro?

     — Cinco.

     — E os homens de lá?

     — Também, três; mas, não acertaram. Não podem sair e nós não podemos entrar. Que é que se pode fazer?

     — Fiquem aqui, até eu chegar perto da choupana...

     — Quê?! Queres ir lá?

     — Quero.

     — Eles te matam!

     — Não. Aproximar-me-ei, rastejando, pelos fundos. Ali não existe janela; portanto, não me poderão ver. Halef está comigo. Quando estivermos lá, venham também, naturalmente rastejando pelos fundos. O que faremos então, resolverei depois. Onde estão os cavalos de vocês?

     — Amarrados, um pouco mais no fundo do mato.

     — Deixem onde estão, até terminar o sítio.

     Voltei para junto de Halef e lhe comuniquei a minha resolução. Estava de acordo. Fêz um gesto ladino e indagou:

     — Vês os canos das carabinas, saindo da janela, sídi?

     — É claro que sim.

     — Essas armas não serão tão curiosas, por muito tempo.

     — Ah! Acreditas? É certo; também já pensei nisso.

     — Rastejemos até ali, agarremos rapidamente os canos e puxemos as carabinas para fora.

     — Vamos experimentar.

     — Que devo fazer? — perguntou o sahaf.

     — Quando estivermos perto do rancho, trarás os nossos cavalos; mas, também, pelos fundos. Atrás da choupana, deves amarrá-los nas árvores e, depois, podes ir ter conosco.

     Demo-lhes as rédeas dos animais e dirigimo-nos, fazendo uma curva, para os fundos da choupana. Alcançamo-la sem qualquer transtorno e ficamos, primeiramente, escutando um pouco. Tudo estava quieto.

     — Agora, sídi! — murmurou Halef.

     — Mas, tem cautela. As duas armas podem disparar com facilidade. Devemos nos precaver, para não sermos atingidos. Quando tivermos as armas, correremos para os dois cantos da frente do casebre. Estaremos escondidos e poderemos mandar uma bala ao primeiro que ousar sair. Vamos!

     Espiei do canto onde estava. Os dois canos de carabina encontravam-se cerca de oito ou nove polegadas para fora da janela. Abaixei-me — passos abafados, Halef ao meu lado — um salto, um puxão e um pulo para trás: estávamos outra vez atrás do canto da choupana e tínhamos as duas carabinas turcas, compridas.

     Lá dentro, o silêncio ainda durou alguns instantes, certamente em virtude da surpresa. Entretanto, Osko e Omar gritaram, em voz alta, para nós:

     — Aserim, aserim — Bravo, bravo!

    

     E agora, também, fizeram-se ouvir os que estavam no interior do rancho. Ouvimos as mais diversas imprecações, exclamações de susto, de admiração, interrogações desesperadas; não respondemos, porém.

     — Vai, pelos fundos, para o outro canto — murmurei ao ouvido de Halef. — Teremos, assim, a porta entre nós dois.

     Fazendo um gesto de assentimento, Halef afastou-se.

     Ouvi então um leve murmúrio no interior do rancho. Esforcei-me para escutar e acreditei ter ouvido qualquer coisa como “escondido debaixo da janela”. Pressupus o que se iria dar, então, e observei a janela, adiantando só a metade da face.

     Exatamente! Apareceram os dois canos de uma pistola. Certamente, queriam atirar da janela para baixo e isso era impossível com uma carabina; era a razão de usarem uma pistola. Segurei o cano da minha espingarda e levantei a coronha.

     Primeiro, vi os canos da pistola; depois o ferrolho e, finalmente, também a mão que segurava a arma. O dono dessa mão ou era muito corajoso ou muito irrefletido; poderia arrebentar-lhe a mão com uma bala. Ao invés disso, porém, preparei-me para aplicar-lhe um golpe; quando atingi a mão, ressoou, lá dentro, um grito horrível! A mão tinha desaparecido; a arma caíra no chão, debaixo da janela.

     Halef observara o sucedido, do canto onde estava. Exclamou, em voz alta:

     — Eji, pek eji. — Bem, muito bem, efêndi! Esse sujeito idiota, no futuro, certamente, preferirá guardar a sua mão no bolso. Já conquistamos três armas!

     — Ibhu, ajy awdchy — Alô, o caçador de ursos! — ouvi alguém dizer, lá dentro.

     Halef fora, por conseguinte, reconhecido pela voz.

     — Sim, sou eu — respondeu. — Venham para fora. Como aqui não existem ursos, quero caçar uma vez ouriços-cacheiros fedorentos.

     Fêz-se silêncio. Dentro da choupana, conferenciava-se. Depois, ouvimos a perguntar:

     — Estás sozinho?

     — Não.

     — Quem está contigo?

     — O efêndi, que estava preso, e, além dele, mais três outros. Víamos, agora, com efeito, Osko e Omar, que se aproximavam e o sahaf, que estava amarrando os três cavalos. Depois de alguns momentos informaram-se:

     — Onde está o ismilanense?

     — Morto.

     — Mentes!

     — Dize essa palavra outra vez, jogarei fogo sobre o telhado e morrerão queimados. Com gente da laia de vocês, não costumo brincar!

     — Como, então, teria morrido?

     — Quebrou o pescoço.

     — Onde?

     — Quis saltar o arroio perto de Kabatch, com o cavalo roubado; mas, caiu e partiu o espinhaço em dois pedaços.

     — Onde está o cavalo?

     — Está conosco.

     — Se isso é verdade, que o efêndi deixe ouvir a sua voz.

     — Isso é possível — respondi, agora.

     — Por Alá, é ele!

     Aquele que pronunciou essas palavras, em tom assustado, era o padeiro gordo. Reconheci-lhe a voz gorda.

     — Sim, sou eu — continuei. — Pergunto-lhes se querem se entregar a nós?

     — Vai para o diabo!

     — Não farei isso, mas, sim, outra coisa, de que não gostarão.

     — Que?

     — Quiseram assassinar-me e, agora estão nas minhas mãos. Não sou moslemita: sou cristão e não quero me vingar. Mandem para fora o bojadji Bochak. Será o intermediário. Dir-lhe-ei quais as condições que faço para desistir de vingança. Se não me obedecerem, mandarei um dos meus homens ao starechim de Dchnibachlue. Este os prenderá e podem supor o que acontecerá depois.

     Lá dentro, fêz-se ouvir um cochicho.

     — Vai para fora — ouvi, então, alguém dizer.

     — Oh, Alá! Ele me matará!! — defendia-se o gorducho.

     — Pensem também nos tapetes, que esconderam! — adverti-lhes. — Também esses estarão perdidos, se não fizerem o que peço.

     — Que farás com o bojadji? — perguntou um deles.

     — Dir-lhe-ei, apenas, em que condições lhes darei liberdade.

     — Não lhe farás mal?

     — Não.

     — Poderá voltar para aqui, depois do entendimento contigo?

     — Sim.

     — Queres assegurar-nos isso, por Alá e pelo Profeta?

     — Já disse que sou cristão. Não juro por nenhum Profeta.

     — Como se chama o teu Alá?

     — Taary — Deus!

     — Então jura, pelo teu Taary!

     — Também não faço isso. O nosso Redentor Jesus Cristo proibiu os juramentos. Nós, cristãos, dizemos sim ou não e sustentamos a palavra.

     — Não nos enganar ás?

     — Não.

     — Então, dá-nos a tua palavra.

     — Está bem. Prometo-lhes o seguinte: se me mandarem o bojadji cá para fora e se conservarem quietos, enquanto conversar com ele, não lhe tocarei num fio de cabelo e poderá voltar para junto de vocês, sem males e sem avarias.

     — E se não chegares a acordo com ele?

     — Nesse caso, comunicar-lhes-á o que pretendo fazer. De resto, se ficarem silenciosos e quietos, poderão ouvir, palavra por palavra, a nossa palestra. Verão, assim, quanto sou condescendente e até farão com alegria aquilo que vou pedir.

     — Deste a tua palavra; mas, os teus companheiros não lhe farão mal?

     — Não; prometo.

     — Então, ele poderá ir para fora.

     Parecia que o gordo não queria; travou-se uma discussão longa, a meia voz. Entrementes, coloquei Osko e Omar nos dois cantos, antes ocupados por mim e Halef. Dei-lhes instruções para utilizar as suas armas, ao primeiro sinal de hostilidade.

     — Que Alá os perdoe! — ouvi o padeiro dizer. — Tenho que me sacrificar por vocês. Se ele me matar, cuidem da minha esposa e da minha filha.

     Isso era tão tragicômico, que tive de me esforçar para não rir alto.

     O padeiro então saiu da choupana. Por mais de uma vez, vi pessoas, que personificavam a vergonha, a confusão e o medo, mas uma fisionomia, como a do gorducho, nunca estivera diante dos meus olhos. Não tinha ânimo de levantar o olhar e ficou parado, trêmulo, na porta.

     — Aproxima-te, chega-te cá para o lado da casa — ordenei-lhe. — Estes dois homens valentes vigiarão, por enquanto, para que os teus companheiros não procedam hostilmente contra nós.

     — Ficarão quietos, dentro da choupana — garantiu.

     — Espero que isso aconteça, para teu próprio bem! Nada te acontecerá, mas, ao menor gesto deles, meto-te esta faca entre as costelas.

     Disse-o em tom ameaçador e, ao mesmo tempo, mostrei a faca.

     Incontinenti, o tintureiro segurou a barriga, com ambas as mãos, e bradou:

     — Senhor, considera que sou pai de família!

     — Quando me entregaste aos assassinos, perguntaste, acaso, pela minha família? Vem!

     Segurei-o pela mão e puxei-o para trás do canto. Estávamos junto de Halef e Ali, o sahaf.

     — Oh, milagre de Alá! — exclamou o hadji. — Que montão de carne é esse homem! Ele também bota alguns milhares de ovos, por hora?

     O tintureiro não achou tempo para atender a essa pergunta, que, decerto, lhe era incompreensível. Avistou o outro e bradou, assustado:

     — Ali, o sahaf!

     — Sim, o teu genro, a quem certamente esperas com alegria — respondi. — Dá-lhe a mão, como convém a parentes tão chegados.

     Acreditei que se recusasse, mas ele estendeu a mão ao sahaf, sem hesitação. O cumprimento foi feito sem palavras; depois, determinei, mostrando para o chão:

     — Senta-te Bochak! As nossas negociações podem começar.

     Olhou, enleado, para o chão, diante de si, e disse:

     — Como me levantarei depois?

     Ouvindo isso, Halef pôs a mão no seu chicote de couro de hipopótamo e declarou:

     — Aqui, ó rei de todos os gordos, encontra-se o remédio eficaz para fazer sentar e levantar rapidamente. Não trouxemos nenhum divã para ti.

     No mesmo instante, o padeiro estourou no chão, como um saco, e pediu, com voz chorosa:

     — Deixa o teu chicote na cintura; já estou sentado.

     — Bem. Viste como foi rápido! Espero que levantes com a mesma rapidez. Efêndi, dize-lhe o que lhe pedes.

     — Sim, dize-me! — repetiu o padeiro, gemendo de medo.

     — Peço, antes de tudo, uma confissão sincera! — declarei-lhe. A primeira mentira, que me pregares, far-te-ei voltar para a choupana e mandarei vir o starechin. Sou um emir de Germanistan; não é brincadeira tentar contra a vida de um homem desses. Sabes o que te aconteceria, se eu desse queixa?

     — Não.

     — Serias arrastado para frente do juiz e condenado à morte.

     — Sim — interveio ameaçadoramente Halef. — Serias dependurado no cadafalso, ao contrário, de cabeça para baixo; depois, terias de engulir três garrafas grandes cheias de veneno e, afinal, te cortariam a cabeça, também ao contrário, isto é, dos pés para cima.

     Nem sequer ocorreu ao homem amedrontado observar a tolice inventada pelo hadji; levantou as mãos e gemeu:

     — W’Allah! Não façam isso!

     — Com certeza farei, se me negares o teu acordo — contestei. — Pois bem, responde-me agora. Deste o teu consentimento para a união do sahaf e Ikbala, apenas aparentemente?

     — Não... sim, sim — acrescentou rapidamente, notando o meu gesto ameaçador.

     — Depois, mandaste o teu ajudante reunir os homens, que agora estão dentro da choupana?

     — É verdade.

     — Era para eles me matarem?

     — Não mandei dizer isso!

     — Mas, eu devia ser reduzido ao silêncio, não?

     — É... é!

     — Bem. Isso é a mesma coisa que matar! Adiante: os tapetes, que estão no espinheiral, encontram-se ali contra a vontade das autoridades?

     — Não... é, é, senhor!

     — Bem, então ouve. Eu devia denunciar a tentativa de morte; devia também comunicar ao kiaja o lugar onde estão os tapetes. A primeira dessas coisas vou perdoar; a segunda não preciso fazer, porquanto sou forasteiro. Mas, direi ao sahaf o que sei sobre os tapetes; fará o que fôr do seu dever, como súdito do padixá.

     — Oh, senhor, não lhe contes nada!

     — Saberá de tudo, seguramente! Agora, depende de ti, o procedimento que adotará, como inimigo ou amigo teu. Destinaste tua filha a Mosklan, de Palatza?

     — É verdade.

     — Bem, Mosklan está preso. Eu mesmo o prendi. Ikbala ama o sahaf e este também a ama. Espero que sustentes, neste momento, a promessa que me fizeste.

     Coçou-se atrás das orelhas, refletindo.

     — E então? — perguntei.

     — Sim, sustentarei.

     — Juras pelas barbas do Profeta?

     — Não é permitido.

     — Por quê?

     — Pois és um cristão.

     — Mas ele é moslemita. Deves jurar para o sahaf, e não para mim. Decide-te!

     — Senhor, se Mosklan fôr posto em liberdade, então...

     — Cala-te! — berrou-lhe o pequeno hadji. — Não queremos saber desse patife! Não faças discursos compridos, mas, pelo contrário, decide-te logo, senão vou espichar-te, a relho, de modo que ficarás mais longo do que dois meios séculos. Queres dar a tua filha ao sahaf ou não? Sim ou não?

     — Sim... sim!

     — Juras?

     — Juro.

     — Pelas barbas do Profeta e pelas de todos os santos califas e crentes?

     — Juro.

     — É a tua sorte. Não esperaria nenhum momento mais.

     — Senhor, está tudo bem, agora? — interrogou-me o homem, assustado. — Restituir-nos-ás à liberdade?

     — Não. Ainda não chegamos ao fim.

     — Que pedes ainda?

     — Já me deste a tua palavra, uma vez, e não a quiseste cumprir. Agora, quero garantias. Darás o teu consentimento ao sahaf, não só verbalmente, como também por escrito.

     — Como assim?

     — Faremos um isbat, que assinarás.

     — Sim, vamos prepará-lo, na minha casa. Mas, agora, dá-nos a liberdade.

     — Não, não o soltes! — disse, então, o sahaf, que se mantivera calado, até aquele momento. — Eu o conheço. Sabes que vendo livros sagrados. Sempre carrego papel, pena e tinta, no alforge. Que se faça o isbat agora já.

     — Também penso assim.

     — Mas não posso! — esquivou-se o tintureiro. — Não posso escrever; estou muito nervoso; tenho tremuras. O meu corpo está como uma montanha cheia de fogo e terremotos.

     — Queres que acalme esses terremotos? — perguntou o hadji, fazendo um gesto significativo, com a mão no chicote.

     — Oh, Alá! Oh, Alá! — gemeu o gordo. — Sou como um arbusto, que se esmaga entre duas rochas.

     — Ou como uma ovelha, que dois leões estraçalham! — acrescentou, rindo, Halef. — O meu efêndi vai dar-te um único minuto de prazo para pensar.

     — É verdade, senhor? — perguntou ele.

     — É. Quando esse minuto tiver passado, poderás voltar para a choupana. Mandarei chamar, então, o kiaja.

     — Pois seja! Mosklan que se zangue comigo; não posso fazer outra coisa! Assinarei.

     — Mas isso ainda não chega.

     — Não? Que queres, então, a mais?

     — Os teus companheiros pecaram juntamente contigo. Devem, portanto, comprometer-se a fazer cumprir a tua palavra. Quero que assinem e jurem, como tu. Irão conosco à tua casa e, quando chegarmos lá, darás a mão da tua filha ao sahaf, diante dos olhos de todos.

     — Não farão isso.

     — Por que não?

     — Não sabem escrever.

     — Talvez tanto como tu. E se, realmente, não souberem escrever, que ponham o seu sinal, debaixo do documento. Peço somente isso; depois estarão livres.

     — E, contudo, não farão isso, pois...

     — Alto, Bochak! — interrompeu-o uma voz, vinda de dentro da choupana. — Será que devemos arrostar um perigo por tua causa? Efêndi, é isso tudo quanto pedes?

     — É.

     — Nesse caso, não falarás sobre o que aconteceu aqui?

     — Não.

     Reconheci a voz do mendigo; era o principal malfeitor e, por isso, procurava, com maior ansiedade, fugir ao perigo. Mal tinha ouvido o meu não e já declarava:

     — Então, que o bojadji assine o isbat. Também assinaremos.

     — Que dirá Mosklan? — interveio o gordo.

     — Não pode dizer nada. Sabes que ele tem motivo para me recear. Não poderá opor-se!

     — Bem — declarei. — Estamos entendidos. Podes entrar no rancho, bojadji.

     — Sem assinar? — perguntou, alegre.

     — Faremos o isbat lá dentro. Vou junto.

     — Pelo amor de Alá, fica! — pediu Halef, segurando-me pela mão.

     — Ora essa! Aquela gente não me fará mais nada. Entrarei junto. Se ouvirem acontecer alguma coisa comigo, prendam fogo no telhado e guardem as portas, com as armas. Assim, não fugirá ninguém.

     — Sim, entra, efêndi, estás garantido! — chamou o mendigo, lá de dentro.

     — Sídi, vou contigo! — disse Halef.

     — Bem, convence-te de que não precisamos ter preocupações. Levanta-te Bochak.

     O gordo levactou-se gemendo e entrou, cambaleando, na choupana. Nós o seguimos. Halef tinha puxado o revólver; meteu-o, porém, logo no coldre, ao verificar que os homens estavam todos no canto oposto ao em que tinha encostado e deposto as suas armas. Fiz, então, um sinal a Omar, Osko e ao sahaf e também eles entraram.

     O tintureiro ainda não queria submeter-se; tinha medo de Mosklan; mas os outros insistiram de tal modo que acabou cedendo.

     O sahaf retirou-se, então, cheio de alegria, para trazer os requisitos necessários para a feitura do documento.

     — Queres escrever, senhor? — perguntou-me.

     — Não. És o noivo; zela para que a noiva não te possa escapar.

     Começou, depois disso, a sua obra prima de literatura. Demorou muito até terminar; depois, entregou-me o seu trabalho. Li as linhas escritas e verifiquei que tinha posto tantas cláusulas, que não restava nenhuma brecha, por onde se pudesse escapar ao compromisso assumido. Mas, quando se devia seguir a assinatura do padeiro, este começou novamente as suas lamentações.

     — Sídi, vamos enforcá-lo agora já? — perguntou-me Halef. — Enforcado ele será em todo o caso. Pois, se não assinar neste instante, sairei para trazer o kiaja. Segurarão este sujeito, até que eu volte.

     — Assino... assino! — assegurou o padeiro.

     Escreveu então o seu nome, debaixo do documento. O sahaf dirigiu-se aos outros, dos quais obteve não só o sinal, que substituía a assinatura, como também o seu compromisso verbal. Logo que tudo estava em ordem, o sahaf disse:

     — Iremos, em seguida, a Dchnibachlue. Serão testemunhas de que ele porá a mão da Ikbala na minha.

     — Deixem-me descansar! — gemeu o padeiro. — Estou extenuado de...

     — Escuta! — interrompeu-o Halef, mostrando para a porta de entrada.

     Também eu ouvira o galope de um cavalo. Era claro que o cavaleiro devia estar muito perto, pois, dada à constituição do solo naquele lugar, só se podia ouvir o tropel de um animal, quando este estivesse muito próximo.

     Ainda não tínhamos tido tempo de nos levantar do chão, onde estávamos sentados, quando vimos o cavaleiro entrar. Imagine-se o meu pasmo, quando reconheci... Mosklan; Mosklan, aquele que se apresentara como agente Pimosa.

     Como teria escapado ao ferreiro? Teria ele... mas, para esses pensamentos, não me sobrava tempo, visto que imediatamente fora notado.

     — Lanetli chowarda, burada — Maldito patife, aqui!

     Berrou essas palavras ao meu encontro; vi uma pistola na sua mão. O tiro relampejou; atirei-me para o lado; não sei como isso podia acontecer com tamanha rapidez. Um instante depois, bati-lhe com a coronha da espingarda na cabeça, com tanta violência, que deixou cair a pistola, e com as duas mãos segurou a cara, num grito de dor; pois, não atingira  cabeça e sim a cara, por ele a ter virado no instante.

     Quase no mesmo momento, Halef segurava-o, jogando-o ao chão, e se ajoelhava sobre ele. Tudo isso fora tão rápido, que nenhum dos outros teve tempo de se levantar.

     É claro que, depois disso, todos se ergueram num salto. Halef segurava o homem e Osko amarrava-lhe os braços. Mosklan não oferecia resistência; mantinha as mãos na cara e soltava gritos lancinantes — o golpe com a coronha da arma tinha-lhe quebrado a dentadura e, possivelmente, também o maxilar.

     Mas, ainda outro soltava gritos de dor — ou melhor — berrava, como se estivesse amarrado em um palanque: era o gordo padeiro.

     Quando Mosklan deu o tiro e eu me afastei, rapidamente, para um lado, ele fora levado, pelo susto, a fazer um movimento involuntário com o braço; assim, a sua mão se colocara na linha do tiro e a bala acertara o dedo mínimo.

     — Parmak-im, el-im, fakir-im, wuejud-in-ten-im. — Meu dedo, minha mão, meu braço, minha barriga, meu corpo! — berrava. — Bul-mich-um, beni wur-di, beni, beni. — Estou baleado, ele me matou, a mim, a mim!

     Dizendo isso, saltava de um lado para outro, como um doido, apesar do seu corpo pesado.

     — Mostra! — ordenei-lhe.

     — Aqui, aqui! Está correndo sangue; por aí está saindo a vida, aos borbotões! Estou morto; sou um cadáver!

     Vi que a bala só acertara levemente de raspão, no dedo; faltava só um pouco de pele e carne.

     — Cala-te, homem! — disse. — Isso nem é ferimento! Não dói; mal podes sentir isso.

     — Isto? Não sentir? — perguntou, admirado.

     Examinou melhor o dedo, escutou para saber se, realmente, doía e respondeu, depois:

     — Alá é misericordioso! Desta vez, escapei-me felizmente da morte. Mas, um pouco mais para a direita, e eu tinha chegado ao fim!

     — Sim, dois pés mais para a direita.

     — Só dois pés! Efêndi, a bala era destinada a ti! Por que tiraste a tua cabeça tão depressa da frente?

     — Para não ser atingido, naturalmente!

     — Em compensação, fui eu o atingido. Esse desgraçado podia me ter tirado a vida! Tinha-lhe prometido a minha filha e ele atira contra mim! Não podia mirar melhor? Não se podia cuidar mais para não ser, depois, abatido? Acabou-se tudo entre nós dois. Saban, vem cá e amarra e. minha ferida.

     Mas, Saban, o mendigo, estava abaixo junto de Mosklan, para examinar-lhe o ferimento. O ferido queria falar, mas não podia. Conseguia, apenas, fazer ouvir uns sons confusos, pela garganta. Tanto mais expressivos eram os seus olhares, que nos teriam apunhalado, se possível fosse. Via que não estávamos reunidos inamistosamente.

     — Como vai? — perguntei.

     — Ainda não sei — foi a resposta. — O maxilar também está ferido. Teremos de mandar chamar um médico de verdade. O ferido terá de ficar deitado aqui.

     Compreendi perfeitamente a intenção do meu interlocutor; contudo, respondi:

     — Assim, não poderás ir a Dchnibachlue, pois terás de ficar aqui. Nós, porém, teremos de partir imediatamente.

     — Como?! — disse Halef. — Queres deixar este homem aqui?

     — Realmente.

     — Considera que ele fugiu! Como teria conseguido isso? Quem sabe se matou o ferreiro!

     — Saberemos. Não nos poderá fugir. Saban que cuide dele, até mandarmos notícia.

     — E eu irei buscar um médico — acrescentou Murad, que, na vinda para cá, fora o meu guia.

     — Faze-o! — respondi. — Os outros virão conosco, já. Nenhum se opôs. Adivinhei o que pensavam. Não queriam faltar à palavra, mas, também, não queriam abandonar o seu aliado. Osko e Omar trouxeram os cavalos. Montamos. Para admirar era o fato de ser o padeiro o mais apressado de todos.

     Os outros vinham pouco atrás de nós, devagar, cada vez mais devagar. Quando tínhamos atravessado o mato, não os víamos mais.

     — Sídi, esperemos por eles! — pediu Halef.

     — Não. Estou contente por estar livre deles!

     — Mas, terão de ir conosco à casa do Bochak.

     — Não preciso deles! — disse este. — Aliás, não preciso de amigos, que atiram contra mim. Lá vem mais um cavaleiro.

     Já vira o homem, que montava um cavalo desensilhado. Vi que reduzira a marcha, ao nos avistar.

     — Ah, então nada lhe aconteceu! — suspirei, aliviado.

     — Quem é? — perguntou Osko.

     — O ferreiro. Durante o dia de hoje, sempre um anda atrás do outro, numa verdadeira correria.

     Esporeamos os cavalos. Quando Chimin me reconheceu, bradou, de longe:

     — Hamdulillah! — Louvado seja Deus, estás vivo! Tive grandes preocupações pela tua sorte.

     — E eu pela tua. Aconteceu-te alguma coisa?

     — Não.

     — E à tua mulher?

     — Ele lhe deu um soco, na cabeça; mas, isso tem menos importância, do que pensei, a princípio.

     Estávamos agora reunidos. O ferreiro estava sem fôlego.

     — Vocês o viram? — perguntou.

     — Vimos. Atirou contra mim, mas não acertou.

     — Onde teria conseguido a arma?

     — Como foi, então, que fugiu?

     — Primeiro, vieram os teus amigos, — contou o ferreiro — e eu os mandei à casa do Bochak, que se encontra a teu lado. Depois, fiquei na ferraria para trabalhar. De repente, vi o prisioneiro fugir velozmente. Corri para junto de minha mulher. Estava deitada na casa, segurando a cabeça com as mãos. Não tinha recuperado inteiramente os sentidos. Ele a tinha assaltado e agredido.

     — Como foi possível? Como pôde ele sair do porão?

     — Cometi um grande erro. Este hadji Halef Omar queria ver o prisioneiro. Quando isso tinha acontecido, deixei a escada no lugar. Livrou-se das cordas e saiu do porão por essa escada.

     — Então, podia abrir a porta?

     — É só um trançado de vime. Arrombou-a. O ruído originado por isso não pôde ser ouvido, porquanto eu estava trabalhando. Atrás da casa, estava o seu cavalo. Viu naturalmente o animal e com ele fugiu.

     — Como é que ele pôde seguir-nos? Podia saber onde estávamos?

     — Naturalmente, ouviu o que falei com os teus companheiros.

     — Então, procedeste com muito descuido.

     — Tens razão. Quis corrigir o mal. Por isso, dei água à minha mulher, para refrescar a cabeça e corri à aldeia, tomei o primeiro cavalo encontrado e me dirigi, rapidamente, a Dchnibachlue. Ali chegado, ouvi da  mulher do padeiro que tinhas ido a Kabatch, seguido pelo seu marido e Deselim e, depois, pelos teus amigos. Após, chegara o fugitivo, soubera do ocorrido e os seguira. Prossegui imediatamente e estou satisfeito, de todo o coração, por ver que estão de regresso. Agora, também poderei saber o que aconteceu.

     Narrei-lhe em poucas palavras o que tinha acontecido. Ao terminar, disse o ferreiro pensativo:

     — Isso foi obra de Alá. Mosklan foi castigado e estou livre dele. Como o terias tirado de meu poder, efêndi?

     — Teria sido difícil, mas agora já não é mais preciso — respondi.

     Confesso honestamente que me teria encontrado em embaraço. Mosklan não podia ficar metido, eternamente, no porão da casa do ferreiro.

     Como, portanto, deixá-lo em liberdade, sem que lhe fosse possível vingar-se?

     Dessa vingança, que era de temer, fiz uma pequena referência; mas, o ferreiro tranquilizou-me:

     — Não te preocupes com isso! Aprendi tanto contigo, que não preciso ter medo desse  negociante de cavalos. Por enquanto, ele não pode falar e, consequentemente, não te causará embaraços. Eu já me entenderei com ele.

     — Eu também! — rosnou o padeiro. — Atirou contra mim. Isso ele me pagará! A minha vida esteve por um único fio de cabelo!

     — Não, esteve, pelo contrário, dependendo de uma cabeça toda!

     — Quem sabe se quis matar nós dois com uma bala só?! Mas, efêndi, estamos na aldeia. Vamos mais devagar. Quero fazer ainda algumas perguntas.

     Retardamos a marcha e ficamos para trás. Depois, o padeiro perguntou:

     — Contarás a história dos tapetes ao sahaf?

     — Realmente.

     — Ele ficará sabendo, também, o lugar onde estão?

     — Até irei mostrar-lhe os tapetes.

     — Não queres abandonar essa idéia?

     — Não. Quero que ele dê queixa contra ti.

     — És cruel. Queres que o rapaz faça isso de fato?

     — Quero.

     — Irás obrigá-lo, se desistir da queixa?

     — Tenho de ir-me; portanto, não posso obrigá-lo. Mas, ele o fará seguramente, se não cumprires a tua palavra. Procede, portanto, tendo em vista esse fato.

     — Sustentarei a minha palavra.

     — Então, manda chamar, agora já, o kiaja e três vizinhos, para testemunhas. Aconselho-te que faças isso.

     — Achas que devo fazê-lo?

     — Acho. Tens de mostrar ao sahaf que estás procedendo com seriedade.

     — Obedecer-te-ei e — ó Alá! — quão alegres ficarão a minha mulher e a minha filha.

     Finalmente, a bondade inata naquela gente rompia todas as fronteiras. A sua cara tomava visivelmente uma expressão alegre e quando chegamos à frente da sua casa e apeamos, o padeiro, naturalmente, rolando como um saco enorme, vimo-lo correr para a porta, abri-la precipitadamente e gritar:

     — Tjileka, Ikbala, gelyn, gelyn, ewetlemyn, burda iz. — Venham, venham depressa, estamos aqui!

     E ambas acorreram. O dono da casa foi o primeiro que avistaram e depois eu.

     — Senhor, estás aí! — exclamou a mais querida de RumilL — Nada te aconteceu? Graças a Alá! Mandei prevenir-te. Cumpriste a tua palavra?

     — Sim, trago-te o eleito do teu coração.

     — Onde? Onde?

     — Aqui!

     Dizendo isso, indiquei o pequeno hadji, que entrara depois de mim. Não se podia ver, ainda, os demais.

     — Inkali' min hon. — Vai para o diabo! — interrompeu-me Halef, felizmente, no seu dialeto árabe, que a moça não entendia.

     Ela, porém, interrogou, perplexa:

     — Este aqui?

     — Sim, ó linda filha das cores escarlates.

     — Mas, este eu nem conheço.

     — Ele, entretanto, quer dedicar-te toda a sua vida. Mas... aí vem mais um. Escolhe entre os dois!

     O sahaf entrara depois de Halef. A rapariga olhou para o pai, embaraçada e indecisa.

     — Hangy bil-ir-sen — Qual dos dois conheces? — perguntou o padeiro, rindo.

     — Bonu. — Este! — respondeu ela, mostrando o sahaf.

     — Sana elwerh dir. — Ele te agrada?

     — Ewwet, tamam buetuen — Sim, inteiramente!

     — Onu al. — É teu.

     Ouvindo essas palavras, Ikbala pôs as mãos diante dos olhos, prorrompeu num soluço, impossível dizer se de vergonha ou de emoção, e depois fugiu, pela mesma porta por onde entrara.

     — Senhor, vês que desastre vieste provocar! — disse o padeiro, meio preocupado, meio rindo.

     — Manda-lhe a felicidade!

     — Onde está?

     — Aqui. Mostrei o sahaf.

     — Não pode ser — respondeu-me, sacudindo a cabeça. — Nenhum jovem pode estar só com uma virgem, antes do dia do casamento.

     O bom padeiro não imaginava que Ikbala já se encontrara muitas vezes, a sós, com o seu fiel Ali, lá nos fundos da casa, sob a proteção da discreta Tjileka e à luz do luar, mais discreto ainda.

     — Então, vai com ele — aconselhei.

     — Não tenho tempo.

     — Tjileka não pode acompanhá-lo?

     — Também não. Vocês são nossos hóspedes e terão de ser tratados. Temos muito que fazer.

     Tratados? Quereria dar-nos algo para comer ou beber? Que? As preciosidades do seu forno, que já conhecia de sobra? Ai de mim! Apressei-me, portanto, a fazer uma observação rápida:

     — Permite que nos contentemos com a tua amizade. O meu tempo está medido para tudo e já me atrazei. Tenho de partir.

     — Senhor, não farás isso para mim! Olha, o dia já chega ao fim. Para onde queres ir, ainda hoje?

     — Tinha razão, Já era tarde. Também Halef perguntou-me em voz baixa:

     — Queres ir embora, de fato, ainda hoje, sídi?

     — É quase imprescindível.

     — Sozinho? Sem nós?

     — Não queria arriscar isto outra vez.

     — Considera, então, que estivemos constantemente montados e que os cavalos precisam descansar.

     — Pois bem, fiquemos mais algum tempo aqui e, à noite, dormiremos em casa de Chimin, o meu amigo.

     O bravo ferreiro soltou um grito de alegria e disse, estendendo-me a mão:

     — Oh, efêndi, não imaginas quanta alegria vais causar-me.

     — Sei disso.

     — Disseste que eu era teu amigo!

     — Tu o és realmente. Provaste-o. Quando regressar à minha terra, serás um daqueles a quem sempre dedicarei um pensamento de gratidão e estima.

     — Tenho que dizer isso à minha mulher! Ah, se soubesses como ela está!

     — Tomaste um cavalo emprestado e tens de devolvê-lo. Monta o meu e vai ver como está tua companheira; depois, volta.

     — Longe de mim fazer tal coisa! Um cavalo como esse só pode ser montado por quem é digno dele. Conseguirei facilmente outro e voltarei em seguida.

     Saiu.

     Concordei, pois precisava muito do meu garanhão. Para nossa segurança, necessitava saber o que tinha acontecido, durante esse tempo, na choupana do mendigo. Quando todos estavam sentados e o tintureiro, juntamente com os da sua família, estava iniciando o trabalho de hospedeiro, disse eu a Halef:

     — Não tenhas cuidado, se me retirar agora. Quero ver o que aconteceu a Mosklan.

     — Estás doido, sídi? Queres voltar à choupana?

     — Quero.

     — Matar-te-ão.

     — Ora! Agora, não me poderão surpreender novamente. De resto, estou convencido de que a choupana está vazia. Terão levado Mosklan dali, para que, eventualmente, não o possamos encontrar.

     — Ele não precisa ter medo de ti. Não tinhas direito de prendê-lo.

     — É verdade. Contudo, tem receio de mim. Atirou contra mim e também não está com a consciência tranqüila, noutros sentidos. Não deixes o tintureiro saber para onde fui.

     — Mas, se não voltares em seguida, irei procurar-te.

     — Bem, está combinado.

     Saí e me afastei, silenciosamente. Evitei de percorrer o caminho andado antes. Poderia ter um encontro desagradável. Por isso, ao invés de ir para o sul, segui para o oeste, para aproximar-me da choupana, pelo caminho que vem de Kabatch.

     Tendo a beira norte do mato à esquerda, galopei pelos campos de pastagens e, dada à velocidade do meu Rih, alcancei, em pouco tempo, o lugar onde o mato se estende, para o sul, em direção a Kabatch. Avistei, então, bem ao longe, um grupo de cavaleiros, que se afastavam vagarosamente, ao lado daquela aldeia. Essa gente tinha estado junto de uma casa isolada e, agora, prosseguia a cavalgada.

     Supus que fossem as pessoas que procurava. A distância seria, aproximadamente, de uma milha inglesa.

     — Kawam, kawam. — Depressa, depressa! — gritei para o cavalo.

     Rih compreendia perfeitamente essa palavra; não precisava de outra coisa, para fazê-lo andar mais depressa. Era um prazer, voar, assim, através do campo. Apesar da grande velocidade, poderia encher uma taça de champanha e beber, sem perder um pingo que fosse.

     Em poucos minutos tinha alcançado a casa. Conservara-me de tal modo que ela ficara entre eu e o grupo de cavaleiros e, assim, não fora visto.

     Uma mulher de meia idade estava sentada à porta, cortando melancias.

     — Mesalcheer — Boa noite! — cumprimentei em árabe.

     Olhou-me interrogativamente. Repeti a saudação em turco e, então, ela compreendeu. Agradeceu com amabilidade.

     — Queres deixar-me provar um pedaço das tuas melancias? — Tenho sede — pedi.

     — Com muito gosto, senhor.

     Cortou um bom pedaço que me deu. Ao observar a satisfação com que mordi naquela fruta, observou, satisfeita:

     — Fui eu mesma quem as plantou. Há poucos minutos, tive de cortar uma inteira para outros. Eles não pediram com tanta delicadeza com tu.

     — Mas, deram-te uma gratificação?

     — Não cobro, apesar de ser muito pobre e ter colhido poucas melancias. Mas, além de tudo, eles me roubaram.

     — Ingratos! Que foi que te tiraram?

     — O meu lenço de cabeça. Um deles estava ferido. Amarraram-no com o lenço.

     — Então, não os conhecias?

     — Saban, o mendigo, que mora no mato, estava junto e também Murad, seu companheiro.

     — Não sabes para onde foram?

     — Queriam ir a Usu-Dere. Mora lá um parente de Saban, o qual é cirurgião e benzedeio. Na sua casa deverá ficar o ferido.

     — Não falaran sobre a maneira por que foi ferido o homem?

     — Caiu de urra árvore, batendo com a cara numa pedra. Quebrou todos os dentes.

     — Coitado dele!

     — Oh, não é digno de compaixão! Conheço-o, mas não sei o seu nome. É ele que põe a perder os nossos homens.

     — Também o teu?

     — Não. Sou viúva; o meu marido morreu.

     — Tens filhos?

     — Três. O menor está de cama, com escarlatina. Os dois maiores foram aos banhados, para pegar sanguessugas, que vendo ao curandeiro. Este paga um pára por dez sanguessugas.

     Pobre mulher! Que remuneração miserável! Tomei cinco piastras e lhas dei.

     — Toma, compra uma bebida refrigerante para o teu filhinho.

     Era uma insignificância, mas, para ela, uma soma apreciável. Olhou-me, incrédula, e perguntou:

     — Queres dar-me isso?

     — Quero.

     — Senhor, és tão rico assim?

     — Sou.

     — Então a bondade do teu coração é tão grande como a tua fortuna. Queira Alá que te...

     Não ouvi mais nada, pois já montara e me afastava rapidamente, de volta. Quanta miséria podia ser aplacada, quanta necessidade satisfeita ou só aliviada, se... ah, quem dera que eu pudesse dar, dar à vontade.

     Sabia o bastante para estar certo de que nada tinha a recear.

     Quando, ao chegar a Dchnibachlue, apeei-me nos fundos da casa do nosso hospedeiro e pai da noiva, vi um couro, sangrando, dependurado num moirão, e, ao mesmo tempo, um cheiro de assado invadiu o meu nariz. Até há poucos minutos, o couro fora o traje de gala de um bode. Brrr!

     A um lado da casa, onde menos perceptível era a correnteza de ar, encontrei o tintureiro e a sua cara metade, ocupados — em que?

     No chão, havia uma vasilha, a que poderíamos chamar de gamela, bacia ou panela de madeira. Sobre as bordas, tinham sido estendidos três fios de arame. No do meio, estava preso o bode mandado para um repouso eterno, mas não igual ao dos seus antepassados. Ainda tinha os chifres. Sobre o corpo do animal e sobre os dois outros fios, tinham sido colocadas achas de lenha e sobre estas esterco, a que os mongóis chamam de “arcol”, depois novamente lenha e estrume e, em seguida, havia sido incendiada a fogueira. O cabrito queimava, na parte superior, até ficar preto como carvão; pouco abaixo, assava e, finalmente, na parte inferior, o calor não tocava nem a sua carne, nem os seus sentimentos. Da camada que estava fritando, gotejava graxa, em intervalos espaçados, pavorosamente devagar, a cansar os nervos mais resistentes, caindo sobre o fundo da vasilha, onde havia uma camada de arroz. As paredes dessa maravilhosa fritadeira estavam pintadas de vermelho, como as calças dos soldados franceses, e, apesar da minha melhor boa vontade, não pude deixar de pensar nas mãos vermelhas da gorda Tjileka, na capa de seu marido, reclame de porta de tinturaria e, então, tive a suspeita de que a panela ali presente, em outras horas, servia de cuba para tintas.

     — Onde estiveste, senhor? — perguntou o gordo. — Ainda bem que voltaste. Para tua honra, matei uma cabrita nova e apetitosa. O vizinho me vendeu.

     — Não te parece que essa cabrita está muito masculinizada? — observei.

     — Oh, não! Que estás pensando, senhor?!

     — Experimenta cheirar. O teu vizinho se enganou e te deu um bode.

     — O meu vizinho não seria capaz disso.

     — A carne vai queimar. Não queres virar o assado?

     — Ah, senhor, logo se vê que és um estrangeiro! Tiraria o melhor gosto da carne.

     — O arroz amolece com as gotas de graxa?

     — Mas nem deve amolecer. Não conheces o ditado: “O pilaw (3) tem de estalar, crepitar”. Não ficará amolecido.

     — Não te parece que alguma coisa do combustível vai cair no arroz?

     — Não faz mal. Vê, tiro tudo novamente.

     Meteu os dedos no arroz e se esforçou para tirar os sinais de estéreo. Lembrei-me involuntariamente da minha graciosa Mersiná de Amadija, que limpava os olhos remelosos com cebolas. De quem seria a melhor comida, dela ou deste casal de baleias vermelho-ruivas de Dchnibachlue?

     Desisti de penetrar ainda mais nos segredos culinários desses tintureiros e me recolhi, apavorado, para dentro da casa.

     Sob a porta de entrada, encontrei-me com Halef, que vinha saindo.

     — Cá estás, sídi! — disse, contente. — Pareceu-me que estavas demorando. Agora mesmo, ia montar.

     — Vês que nada me aconteceu. Com que se distraíram até agora?

     — Oh, não nos enfadamos. Fui comprar cabra, com o tintureiro, e houve muita coisa engraçada. Queria que a cabrita fosse de presente, por se destinar a uma pessoa de tanta distinção, que toda a localidade devia considerar como hóspede. A propósito disso, houve uma tal encrenca, que até se precisou chamar o kiaja.

     — Quem é essa pessoa distinta?

     — Naturalmente, és tu; quem poderia ser, então? Porventura, eu?

     — Ah, sim! Nesse caso, a cabra é destinada a mim?

     — Certamente.

     — Com certeza não te referes à cabra, que é um bode?

     — Cabrita ou bode, é indiferente, sídi. O assado, em qualquer hipótese, vai ser um gosto.

     — Desejo-te bom apetite! Entremos na sala!

     Ia sentar-me, quando ouvi um ruído estranho, procedente do compartimento vizinho, destinado, ao que parecia, às mulheres. Parecia que alguém apanhava violentas taponas e, ao mesmo tempo, se ouvia um gemido e suspiros, que me deixaram preocupado pela sorte da pessoa ou das pessoas, que se encontravam lá.

     — Quem está aí dentro? — perguntei ao sahaf.

     ____________________

     (3) Pilaw, pilaf ou pilau. — Palavra turca, que significa arroz engordurado ou encebado, com pimenta vermelha e, freqüentemente, carne assada, comida muito apreciada no Oriente. (N. do T.).

 

     — Ikbala, a estréia dos meus olhos — respondeu.

     — E quem mais?

     — Não sei.

     — Que é que fazem?

     — Como posso saber? Ouço gemidos. Tenho medo de que lhe aconteça alguma desgraça. Queria socorrê-la; mas sou o noivo e não posso ir ter com ela.

     — Achas que eu possa entrar?

     — Sim. És um cristão. Não podes casar com uma filha desta terra. Também já lhe viste o rosto. Não a envergonharás, se fores ter com aquele tesouro.

     — Então, irei ver o que ocorre.

     — Vai! Mas não lhe toques, efêndi. Será minha esposa e aquela que deverá morar no meu coração não poderá ter o menor contato com um outro.

     — Não tenhas cuidados! A mais bela de Rumili nada tem a recear de mim.

     Dirigi-me ao compartimento ao lado. Ali estava sentada Ikbala, “a que dá felicidade”, diretamente sobre o chão. À sua direita havia uma vasilha semelhante a um alguidar, no qual havia uma massa original. Os seus dois braços estavam cobertos até o cotovelo com aquele pirão. Naquele momento, tirara um pedaço dessa massa do alguidar e procurava dar-lhe uma forma arredondada. Fazia isso, girando com a massa numa mão, enquanto batia em cima, com a outra, espalmada. Eram essas as taponas, que ouvira.

     Dedicava-se a esse serviço com tamanha devoção, que o suor lhe escorria por todos os poros. Toda a sua cara estava bem vermelha e banhada de suor.

     — Que fazes aqui? — perguntei-lhe.

     — Faço uma massa — respondeu, com gravidade.

     — De quê?

     — Balas de canhão.

     — Para quem?

     — Para vocês, naturalmente, pois são nossos hóspedes.

     — Qual e o gosto dessas balas?

     — De um manjar do paraíso.

     — Quais as substâncias empregadas nisso?

     — Diversas: farinha, água, passas, amêndoas, azeite de oliva, sal, pimentas turcas e toda a sorte de ervas aromáticas.

     — Quanto tempo levará até que isso esteja pronto?

     — Quando a cabrita estiver assada, estas balas serão cozidas na graxa e no arroz, que sobrar.

     — O gosto será como que um prenúncio do sétimo céu.

     — É verdade. Prova esta massa. Nunca terás comido coisa igual.

     Meteu os dedos na bacia, trouxe-os cheios de massa e estendeu os com um sorriso gracioso.

     — Agradeço-te, ó flor da hospitalidade. Se provasse agora, estragaria, o prazer com que, depois, comerei essas balas de canhão.

     — Não faças cerimônia! És o criador da minha felicidade. Só a ti devo gratidão por ter meu pai mudado de idéia com tanta rapidez.

     Fêz um gesto insistente. Obstinei-me tão decididamente na recusa, que, finalmente, ela desistiu, levando, então, os dedos à própria boca, para tirar-lhes a massa, dando estalos com a língua.

     Passas, amêndoas, azeite de mesa, pimentas turcas! Certamente o gosto disso era horrível. Ainda mais a água, diante da qual eu me apavorara. E toda a sorte de ervas! Ai de ti, sahaf, nobre sahaf! Como estará arranjado o teu estômago daqui a alguns meses!

     Ele ficou muito contente, ao ouvir que a eleita do seu coração não estava em perigo. Ademais, o ferreiro acabara de chegar e, no mesmo instante, apeara-se, lá fora, um homem, no qual reconheci um daqueles que prendêramos na choupana do mendigo. Ouvi-o perguntar por mim e saí. Conduziu-me à parte e disse:

     — Senhor, fôste generoso para conosco e também és rico. Tenho algo para te comunicar.

     — Então, fala!

     — Quanto pagas?

     — Não sei se o que me vais dizer tem algum valor para mim.

     — Oh, muito valor.

     — Em que sentido?

     — Estás em perigo de vida.

     — Não acredito.

     — Se te digo, é verdade.

     — Juntamente porque dizes, é mentira.

     Olhou-me espantado e perguntou:

     — Acreditas realmente que estou te mentindo?

     — Acredito. Quiseram matar-me e me roubar. Assassinos e ladrões certamente também são capazes de mentir.

     — Mas, agora, procedo como teu amigo e te digo a verdade.

     — Não. Se eu, realmente, estivesse em perigo de vida, não me dirias.

     — Por quê?

     — Porque, com isso, tu mesmo te arriscas grandemente. Mandar-te-ia prender imediatamente e terias de confessar, sem receber um pára.

     Assustou-se e buscou o seu cavalo, com os olhos. Puxei o revólver e disse:

     — Antes de mais nada, advirto-te que te mandarei uma bala, se fizeres a menor menção de fugir.

     — Senhor, quero salvar-te e, por isso, pretendes matar-me!

     — Não te devo nenhuma gratidão. Se tens, de fato, a intenção de me prestar um favor, relembra o que, há pouco, planejavas contra mim. Se eu quiser proceder com muita generosidade, dir-te-ei que estaremos quites, depois de me teres dito qual o perigo que me ameaça.

     — Então, não queres pagar nada?

     — Estou pronto a gratificar-te. Mas, primeiro, preciso saber qual o valor da tua comunicação.

     — Muito grande. Dás mil piastras?

     — Não.

     — A minha informação vale muito mais do que isso.

     — Não acredito.

     — Dá, ao menos, novecentas piastras.

     — Não.

     — Oitocentas.

     — Também não.

     — Reflete bem, porque se trata da tua vida.

     — Não dou nenhuma única piastra pela minha vida.

     — Como? A vida não tem valor para ti?

     — Tem e muito; mas está nas mãos de Deus. O Alcorão não diz que Alá determinou, desde o princípio, a duração da vida de cada pessoa?

     Isso deixou-o visivelmente embaraçado. Não sabia o que responder. Por isso, prossegui:

     — Vês, portanto, que seria quase um pecado, pagar dinheiro pela minha vida. A hora extrema que me estiver designada será alcançada, embora eu pague ou não.

     Vislumbrei um sinal de contentamento no seu rosto. Ocorrera-lhe certamente uma idéia salvadora:

     — Senhor, és um cristão?

     — Sou.

     — Então, podes prolongar a tua vida.

     — Como assim?

     — Alá somente marcou a duração da vida dos seus verdadeiros e fiéis adeptos.

     — É verdade?

     — É.

     — Nós, os cristãos, podemos, portanto, prolongar a nossa vida?

     — Sim, com toda a certeza.

     — Nesse caso, Alá foi muito mais bondoso para conosco, cristãos, do que para com vocês. Conseqüentemente, quer-nos mais do que a vocês; somos os seus filhos favoritos. A vida é a maior e a mais preciosa dádiva que recebemos da mão de Deus. Quem recebeu, ao mesmo tempo, do poder divino a faculdade de aumentar essa dádiva, pode alegrar-se de merecer maior graça do Criador do que aqueles que, sem piedade, estão condenados a morrer a uma determinada hora. Não reconheces isto?

     O homem coçou, embaraçado, a barba. Nesta parecia que se concentravam os seus pensamentos, pois dali tirou uma idéia não de todo ruim.

     — Concordas, entretanto, em que a bem-aventurança vale mais do que a vida?

     — Concordo.

     — Pois bem. Se o verdadeiro crente tem de morrer a uma hora determinada, sem poder prolongar a sua vida, isto acontece em seu próprio benefício. Alcança muito mais cedo a bem-aventurança.

     — Achas?

     — Sim.

     — Mas, quando a sua alma vacila e cambaleia sobre a ponte de Es Esireth? Esta é mais estreita que o fio de uma navalha. A alma, que tiver cometido mais pecados do que atos bons, perde o equilíbrio, ao chegar ali, e cai lá no fundo do inferno. Estará perdida, na eternidade, muito mais cedo. E, certamente, reconheces que a vida terrena é muito melhor do que o inferno?

     — Senhor, as tuas respostas são tão agudas como um punhal.

     — Enganas-te, também, se pensas que o Profeta falou somente sobre o moslemita. Reza a quinta sure do Alcorão, a que é chamada “sure da mesa”, que as horas de todas as pessoas, crentes e descrentes, são contadas de antemão. Conheces essa sure?

     — Conheço todas as sures.

     — Dar-me-ás, portanto, razão. Não posso e não devo prolongar a minha vida. Que dirias, se eu pretendesse pagar um cavalo, que não devo comprar. Seria, naturalmente, uma tolice!

     Remexeu novamente nas barbas. Mas, desta vez, dali não saía nenhuma idéia boa.

     — Senhor, preciso, porém, de dinheiro — disse, finalmente, num tom, que não era muito convicto.

     — Eu também.

     — Tens dinheiro, mas eu não.

     — Bem, verás que não tenho o coração empedernido. Não me deixo extorquir coisa alguma, mas, aos necessitados, dou de boa vontade um presente, quando vejo que não é imerecido. Não podes salvar a minha vida; é impossível, portanto, pedir pagamento pela salvação. Se, entretanto, quiseres dizer qual o perigo que me ameaça, estou pronto a te dar um bakchich.

     — Bakchich? Esmola? Senhor, não sou mendigo.

     — Então, não será um bakchich, mas sim um presente.

     — Quanto ofereces, assim?

     — Oferecer? A gente só oferece, quando se trata de um preço e já te disse que não podemos falar em pagamento. Prometo-te um presente; o montante desse presente, porém, será fixado pelo doador, não por aquele que o recebe.

     — Mas contudo queria saber quanto pretendes dar-me.

     — Não te darei coisa alguma ou tanto quanto me aprouver. Digo-te, também, que não tenho tempo para perder muitas palavras. Portanto, que tens para me dizer?

     — Nada.

     Queria afastar-se; segurei-o, porém, pelo braço e lhe disse, em tom sério:

     — Disseste que eu estava em perigo de vida; existe, conseqüentemente, quem pretenda atentar contra mim; sabes disso, e, portanto, és cúmplice; mandar-te-ei prender incontinenti, se não falares.

     — Apenas caçoei contigo.

     — É mentira!

     — Senhor! — replicou, ameaçadoramente.

     — Ora! Quiseste dinheiro, em qualquer hipótese, contivesse a informação que me pretendias dar uma mentira ou a verdade. Sabes como é castigada uma extorsão?

     — Não se pode falar em extorsão.

     — Bem! Não quero incomodar-me contigo; não tenho vontade, nem tempo, para isso. Podes ir.

     Deixei-o parado e me dirigi para a porta da casa. Não alcançara essa ainda, quando ele chamou:

     — Efêndi, espera!

     — Que mais?

     Aproximou-se de mim e interrogou:

     — Dás quinhentas?

     — Não.

     — Trezentas?

     — Não.

     — Cem.

     — Nem uma única.

     — Arrepender-te-ás disso.

     — É o que pensas. Ademais, consideras-me mais tolo do que sou. Já sei, há muito, o que me queres dizer.

     — É impossível.

     — Ora essa! Um mensageiro está em viagem. Vi que tinha adivinhado o certo.

     — De onde sabes? — perguntou-me.

     — Isso é segredo meu.

     — Então, o mendigo contou adiante.

     Sacudi os ombros e mostrei um sorriso de superioridade. Não me podia passar pela idéia pagar um segredo, que já conhecia pela metade e, com astúcia, pretendia conhecer todo.

     — E não tens preocupações? — indagou.

     Precisava saber, agora, quem era o mensageiro; por isso, contestei, rindo:

     — Pensas que tenho medo desse indivíduo?

     — Não conheces Saban! Uma vez, conseguiste ludibriá-lo, mas não o conseguirás novamente.

     Portanto, era Saban, o mendigo. Levara o ferido a Usu-Dere; era de supor facilmente que dele mesmo recebera a incumbência de ir, primeiro, a Palatza, onde o ferido morava e talvez tinha parentes, e, depois, a Ismilan, em busca dos parentes do armeiro e dono de café, que quebrara o pescoço.

     Aqueles que domináramos, pela astúcia, tinham firmado paz conosco; sustentariam a palavra, quanto ao que lhes dizia respeito pessoalmente — sabia disso positiva e exatamente. Mas, podiam vingar-se por intermédio de outros. A precaução mandava que não me deixassem escapar. E como tinham sabido, pelo gordo padeiro, qual a direção que pretendíamos tomar, fácil era adivinhar o resto.

     Respondi ao homem, em tom seco:

     — Não quero, em caso algum, iludi-lo.

     — Que farás?

     — Nada quero ter com ele. Deu-me a palavra de que não mais me importunaria.

     — Cumprirá a palavra. Ele mesmo não te incomodará mais; mas, atiçará outros contra ti. A união é grande.

     — Não tenho medo. Quem quer que seja, que demonstrar animosidade contra mim, entregarei ao juiz.

     — Podes dar queixa contra uma bala?

     — Não te faças ridículo! Dize-me, de preferência, como é que estás traindo Saban, que era teu amigo.

     — Meu amigo? Não te darei resposta. Queres fechar o teu coração e a tua bolsa. Foi baldada a minha vinda aqui.

     Dirigiu-se para o seu cavalo, mas, com tanta indecisão, que vi que estava esperando uma oferta minha. Mas somente acrescentei:

     — Queres ir? Não desejas entrar? Sabes que se vai realizar uma festa aqui.

     — Não tenho tempo para essas festas. Então, não dás nada? Os seus olhos estavam fixos em mim, quase ameaçadoramente.

     — Não.

     — Partirás ainda hoje daqui?

     A enunciação dessa pergunta foi uma grande parvoice. Revelou-me, com isso, somente as suas intenções criminosas. Queria ganhar dinheiro; nada recebera e, agora, seria capaz de praticar qualquer vingança.

     — Acreditas que renuncie à preciosidade culinária que nos espera? — respondi. — Também os nossos cavalos precisam descansar, antes de continuar.

     — Que Alá te abençoe, então, do mesmo modo por que tu me abençoaste.

     Por detrás da porta de entrada, topei-me com Halef, verificando logo que ele ali se havia escondido. A chama que provinha de uma hastilha de madeira, metida na parede e pintada com pixe, deixava-me ver que estava irado.

     — Sídi, por que o deixas ir embora? — perguntou.

     — Não me serve de nada.

     — Mas depois pode te fazer mal.

     — Ouviste as suas últimas palavras?

     — Infelizmente, só as últimas. Parei-me aqui, para fazer guarda à tua pessoa. Podia ver os dois, mas não ouvir. Mas, afinal, vim a saber, contudo, que ele queria dinheiro. Para quê?

     — Vem para fora. Ninguém mais precisa ouvir o que falamos. Contei-lhe o que tinha ouvido e o que supunha.

     — Querem assaltar-nos — disse.

     — Talvez não, caro Halef.

     — Que então? Por que vai esse mendigo, que n&atild