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NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO / Gabriel García Marquez
NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO / Gabriel García Marquez

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Antes de entrar no automóvel olhou por cima do ombro para ter a certeza de que ninguém a espiava. Eram sete e cinco da noite em Bogotá. Escurecera uma hora antes, o Parque Nacional estava mal iluminado e as árvores sem folhas tinham um perfil fantasmagórico num céu turvo e triste, mas não havia à vista nada a temer. Maruja sentou-se por detrás do motorista, apesar do seu nível social, pois sempre lhe parecera o lugar mais confortável. Beatriz entrou pela outra porta e sentou-se à sua direita. Tinham quase uma hora de atraso na rotina diária, e ambas estavam com um ar cansado depois de uma tarde soporífera com três reuniões de executivos. Sobretudo Maruja, que na noite anterior tivera uma festa em sua casa e não conseguira dormir mais de três horas. Esticou as pernas entumecidas, fechou os olhos com a cabeça apoiada no encosto, e deu a ordem de rotina:

- Para casa, por favor.

Regressavam como todos os dias, às vezes por um percurso, às vezes por outro, tanto por razões de segurança como pelos engarrafamentos. O Renault 21 era novo e confortável, e o motorista conduzia-o com um rigor cauteloso. A melhor alternativa daquela noite foi a Avenida Circunvalar na direcção norte. Encontraram os três semáforos no verde e o trânsito do anoitecer estava menos embrulhado que de costume. Mesmo nos dias piores demoravam meia hora desde os escritórios até à casa de Maruja, na Transversal Tercera, número 84A-42 e o motorista levava depois Beatriz à sua, a uns sete quarteirões de distância.

Maruja pertencia a uma família de intelectuais notáveis com várias gerações de jornalistas. Ela mesma o era, e várias vezes premiada. Há dois meses que era directora da Focine, a companhia estatal de fomento cinematográfico. Beatriz, sua cunhada e assistente pessoal, era uma fisioterapeuta muito experiente que tinha feito uma pausa para mudar de ocupação por uns tempos. A sua maior responsabilidade na Focine era ocupar-se com tudo o que dizia respeito à imprensa. Nenhuma das duas tinha nada a temer, mas Maruja adquirira o costume quase inconsciente de olhar para trás, por cima do ombro, desde Agosto passado, quando o tráfico de droga começou a sequestrar jornalistas numa avalancha imprevisível.

 

 

 

 

Foi um receio certeiro. Apesar de o Parque Nacional ter parecido deserto quando olhou por cima do ombro antes de entrar no automóvel, oito homens espreitavam-na. Um estava ao volante de um Mercedes 190 azul–escuro, com matrículas falsas de Bogotá, estacionado no passeio em frente. Outro estava ao volante de um táxi amarelo, roubado. Quatro, com calças de ganga, sapatos de ténis e casacos de couro, passeavam pelas sombras do parque. O sétimo era alto e bem-parecido, com um fato primaveril e uma pasta de negócios que completava o seu aspecto de jovem executivo. De um cafezinho da esquina, a meio quarteirão dali, o responsável pela operação vigiou aquele primeiro episódio real, cujos ensaios, meticulosos e intensos, tinham começado vinte e um dias antes.

 

O táxi e o Mercedes seguiram o automóvel de Maruja, sempre a uma distância mínima, tal como haviam feito desde a segunda-feira anterior para estabelecerem os percursos usuais. Ao fim de uns vinte minutos todos viraram para a direita na Rua 82, a menos de duzentos metros do edifício de tijolos à mostra onde Maruja vivia com o marido e um dos seus filhos. Mal tinham começado a subir a rua íngreme, quando o táxi amarelo ultrapassou o carro de Maruja, tapou-lhe a passagem contra o passeio esquerdo, e o motorista teve de travar a fundo para não bater. Quase ao mesmo tempo, o Mercedes estacionou por detrás e deixou-o sem possibilidades de fazer marcha atrás.

 

Três homens saíram do táxi e dirigiram-se com passo decidido ao automóvel de Maruja. O alto e bem vestido levava uma arma estranha que pareceu a Maruja uma espingarda de culatra recortada com um cano tão comprido e grosso como um óculo. Na realidade, era uma Mini Uzis de nove milímetros com um silenciador capaz de disparar tiro a tiro ou rajadas de trinta balas em dois segundos. Os outros dois assaltantes estavam também armados com metralhadora e pistolas. O que Maruja e Beatriz não conseguiram ver foi que do Mercedes estacionado atrás saíram outros três homens.

 

Actuaram com tanta sintonia e rapidez, que Maruja e Beatriz não conseguiram recordar senão retalhos dispersos dos dois escassos minutos que durou o assalto. Cinco homens rodearam o automóvel e ocuparam-se dos três ao mesmo tempo com um rigor profissional. O sexto permaneceu a vigiar a rua com a metralhadora em riste. Maruja reconheceu o seu presságio.

 

- Arranque, Ángel - gritou ela ao motorista. - Suba pelo passeio, como quiser, mas arranque.

 

Ángel estava petrificado, embora de qualquer maneira, com o táxi à frente e o Mercedes atrás, lhe faltasse espaço para sair. Temendo que os homens começassem a disparar, Maruja abraçou-se à mala como a um salva-vidas, escondeu-se atrás do assento do motorista e gritou a Beatriz:

 

- Atire-se para o chão.

 

- Nem pensar - murmurou Beatriz. – No chão matam-nos. Estava trémula, mas firme. Convencida de que não passava de um assalto, tirou com dificuldade os dois anéis da mão direita e atirou-os pela janela, pensando: «Que se danem.» Mas não teve tempo de tirar os da mão esquerda. Maruja, feita num ovo detrás do banco, não se lembrou sequer de que levava um anel de diamantes e esmeraldas que fazia conjunto com os brincos.

 

Dois homens abriram a porta de Maruja e outros dois a de Beatriz. O quinto disparou à cabeça do motorista através do vidro com um balázio que soou apenas como um suspiro devido ao silenciador. Depois abriu a porta, puxou-o com um esticão, e disparou-lhe no solo mais três tiros. Foi um destino mudado: Ángel María Roa era motorista de Maruja apenas há três dias, e estava a estrear a sua nova dignidade com o fato escuro, a camisa engomada e a gravata preta dos motoristas ministeriais. O seu antecessor, reformado por vontade própria na semana anterior, tinha sido o motorista titular da Focine durante dez anos.

 

Maruja só se apercebeu do atentado contra o motorista muito mais tarde. Do seu esconderijo apenas ouviu o barulho instantâneo dos vidros partidos e, a seguir, um grito peremptório quase em cima dela: «É a si que queremos, minha senhora. Saia!» Uma garra de ferro agarrou-a pelo braço e arrancou-a de rastos do automóvel. Resistiu até onde pôde, caiu, fez um arranhão numa perna, mas os dois homens pegaram nela em peso e levaram-na até ao automóvel estacionado atrás do seu. Nenhum se apercebeu de que Maruja agarrava a sua carteira com unhas e dentes.

 

Beatriz, que tem as unhas compridas e duras e um bom treino militar, enfrentou o rapaz que tentou tirá-la do automóvel. «A mim não me toque!», gritou-lhe. Ele crispou-se e Beatriz apercebeu-se de que estava tão nervoso como ela, e podia ser capaz de tudo. Mudou de tom.

 

- Eu saio sozinha - disse-lhe. - Diga-me o que tenho de fazer.

 

O rapaz apontou para o táxi.

 

- Suba para aquele carro e deite-se no chão - disse-lhe ele. – Depressa!

 

As portas estavam abertas, o motor a trabalhar e o motorista imóvel no seu lugar. Beatriz deitou-se como pôde na parte de trás.

 

O sequestrador cobriu-a com o seu casaco e acomodou-se no banco com os pés apoiados em cima dela. Entraram outros dois homens: um para junto do motorista e o outro atrás. O motorista esperou até à pancada simultânea das duas portas, e arrancou aos saltos para norte pela Avenida Circunvalar. Só então é que Beatriz se deu conta que tinha esquecido a carteira no banco do seu carro, mas era demasiado tarde. Mais que o medo e o desconforto, o que não conseguia suportar era o fedor amoniacal do casaco.

 

O Mercedes em que enfiaram Maruja havia arrancado um minuto antes, e por um caminho diferente. Tinham-na sentado no meio do banco de trás com um homem de cada lado. O da esquerda forçou-a a apoiar a cabeça entre os joelhos numa posição tão incómoda que quase não conseguia respirar. Ao lado do motorista havia um homem que comunicava com o outro automóvel através de um radiotelefone primitivo. O desconcerto de Maruja era maior porque não sabia em que automóvel é que a levavam - pois nunca soube que estacionara atrás do dela - mas sentia que era novo e cómodo, e talvez blindado, porque os barulhos da avenida chegavam em surdina como um murmúrio de chuva. Não conseguia respirar, o coração saía-lhe pela boca e começava a sentir que sufocava. O homem ao lado do motorista, que agia como chefe, apercebeu-se da sua ansiedade e tentou acalmá-la.

 

- Esteja calma - disse ele, por cima do ombro. - Estamos a levá-la para que entregue um comunicado. Dentro de umas horas voltará a sua casa. Mas se se mexer, será pior, por isso esteja calma.

 

Também aquele que a levava nos joelhos tentava acalmá-la. Maruja aspirou com força e expirou pela boca, muito devagar, e começou a recuperar. A situação mudou dali a poucos quarteirões, porque o automóvel se deparou com um engarrafamento numa inclinação forçada. O homem do radiotelefone começou a gritar ordens impossíveis que o motorista do outro carro não conseguia cumprir. Havia várias ambulâncias engarrafadas em qualquer lado da auto-estrada, e a agitação das suas sirenas e os apitos ensurdecedores eram para enlouquecer quem não tivesse os nervos no sítio. E os sequestradores, pelo menos naquele momento, não os tinham.

 

O motorista estava tão nervoso a tentar abrir passagem que bateu num táxi. Não foi mais que um toque, mas o taxista gritou qualquer coisa que aumentou o nervosismo de todos. O homem do radiotelefone deu a ordem de avançar fosse como fosse, e o automóvel escapou por cima de passeios e terrenos baldios.

 

Já livre da confusão continuou a subir. Maruja teve a impressão de que iam para La Calera, uma encosta do monte muito movimentada àquela hora. Maruja lembrou-se de repente que tinha no bolso do casaco umas sementes de cardamomo, que são um tranquilizante natural, e pediu aos seus sequestradores que lhe permitissem mastigá-las. O homem da sua direita ajudou-a a procurá-las no bolso, e apercebeu-se de que Maruja levava a carteira abraçada. Tiraram-lha, mas deram-lhe o cardamomo. Maruja tentou ver bem os sequestradores, mas a luz era muito fraca. Atreveu-se a perguntar-lhes: «Quem são vocês?» O do radiotelefone respondeu-lhe com voz repousada:

 

- Somos do M-19.

 

Uma parvoíce, porque o M-19 estava já na legalidade e em campanha para fazer parte da Assembleia Constituinte.

 

- A sério - disse Maruja. - São do tráfico de droga ou da guerrilha?

 

- Da guerrilha – respondeu o homem da frente. – Mas esteja descansada, só queremos para que leve uma mensagem. A sério.

 

Interrompeu-se para dar a ordem de atirarem Maruja para chão porque iam passar por um controlo da polícia. «Agora não se mexa nem diga nada, senão matamo-la», disse. Ela sentiu o cano de um revólver nas costas e aquele que ia a seu lado acabou a frase.

 

- Estamos a apontar para si.

 

Foram uns dez minutos eternos. Maruja concentrou as suas forças, mastigando as pevides de cardamomo que a reanimavam cada vez mais, mas a má posição não lhe permitia ver nem ouvir o que falaram com o controlo, se é que falaram alguma coisa. A impressão de Maruja foi que passaram sem perguntas. A suspeita inicial de que iam para La Calera tornou-se uma certeza, e isso causou-lhe um certo alívio. Não tentou endireitar-se porque se sentia mais confortável do que com a cabeça apoiada nos joelhos do homem.

O carro percorreu um caminho de greda, e uns cinco minutos depois parou. O homem do radiotelefone disse:

 

- Já chegamos.

 

Não se via luz nenhuma. Cobriram a cabeça de Maruja com um casaco e obrigaram-na a sair agachada, de forma que a única coisa que via eram os seus próprios pés a avançar, primeiro através de um pátio, e depois talvez por uma cozinha com mosaicos. Quando a descobriram apercebeu-se de que estavam num quartinho com cerca de dois metros por três, com um colchão no chão e uma lâmpada vermelha no tecto liso. Um instante depois entraram dois homens mascarados com uma espécie de passa-montanhas que era na realidade uma perna de fato de treino, com os três buracos dos olhos e da boca. A partir de então, durante todo o tempo do cativeiro, não voltou a ver a cara de ninguém.

 

Apercebeu-se de que os dois que se ocupavam dela não eram os mesmos que a tinham sequestrado. As suas roupas estavam usadas e sujas, eram mais baixos que Maruja, que mede um metro e sessenta e sete, e com corpos e vozes jovens. Um deles ordenou a Maruja que lhe entregasse as jóias que usava. «É por razões de segurança», disse-lhe. «Aqui não lhes vai acontecer nada.» Maruja entregou-lhe o anel de esmeraldas e diamantes minúsculos, mas os brincos não.

 

Beatriz, no outro automóvel, não conseguiu chegar a qualquer conclusão acerca do percurso. Esteve sempre deitada no chão e não se lembrava de ter ido por uma subida tão íngreme como a de La Calera, nem passaram por nenhum controlo, embora fosse possível que o táxi tivesse algum privilégio para não ser demorado. O ambiente durante o percurso foi de um grande nervosismo devido à confusão do trânsito. O motorista gritava, através do radiotelefone, que não podia passar por cima dos carros, perguntava o que havia de fazer, e isso ainda punha mais nervosos os do automóvel da frente, que lhe davam indicações diferentes e contraditórias.

 

Beatriz tinha ficado numa posição muito incómoda, com a perna dobrada e meio aturdida pelo fedor do casaco. Tentava acomodar-se. O seu guarda pensava que estava a rebelar-se e procurou acalmá-la : «Calma, meu amor, não te vai acontecer nada», dizia-lhe. «Só vais levar um recado.» Quando finalmente percebeu que ela tinha a perna mal posta, ajudou-a a esticá-la e foi menos brusco. Mais do que outra coisa qualquer, Beatriz não conseguia suportar que ele lhe dissesse «meu amor», e essa liberdade ofendia-a quase mais que o fedor do casaco. Mas quanto mais ele tentava acalmá-la mais ela se convencia de que a iam matar. Calculou que a viagem não durara mais de quarenta minutos, e que quando chegaram à casa deviam ser por isso cerca de um quarto para as oito.

 

A chegada foi idêntica à de Maruja. Taparam-lhe a cabeça com o casaco pestilento e levaram-na pela mão com a advertência de só olhar para baixo. Viu o mesmo que Maruja: o pátio, o chão de mosaicos, dois degraus finais. Indicaram-lhe que fosse para a esquerda e tiraram-lhe o casaco. Ali estava Maruja sentada num tamborete, pálida sob a luz vermelha da lâmpada única.

 

- Beatriz! - disse Maruja. - Você aqui!

 

Não sabia o que lhe havia acontecido, mas pensou que a tinham libertado por não ter nada a ver com nada. No entanto, ao vê-la ali, sentiu ao mesmo tempo uma grande alegria por não estar sozinha e uma imensa tristeza por também a terem sequestrado a ela. Abraçaram-se como se não se vissem há muito tempo.

 

Era inconcebível que as duas conseguissem sobreviver naquele quarto maldito, dormindo sobre um único colchão estendido no chão e com dois vigilantes mascarados que não as perderiam de vista nem um instante. Um novo mascarado, elegante, robusto, com pelo menos um metro e oitenta de altura, a quem os outros chamavam o Doutor, assumiu então o comando com ares de grande chefe. A Beatriz tiraram-lhe os anéis da mão esquerda e não se aperceberam de que trazia um fio de ouro com uma medalha de Nossa Senhora.

 

- Isto é uma operação militar e não vos vai acontecer nada disse, e repetiu: - Só as trouxemos para levarem um comunicado ao Governo.

 

Estamos em poder de quem? - perguntou-lhe Maruja.

 

Ele encolheu os ombros. «Isso agora não interessa», disse ele. Ergueu a metralhadora para que a vissem bem e continuou: «Mas quero dizer-vos uma coisa. Isto é uma metralhadora com silenciador, ninguém sabe onde vocês estão nem com quem. Se gritarem ou fizerem alguma coisa fazemo-las desaparecer num minuto e ninguém volta a saber de vocês.» As duas sustiveram a respiração à espera do pior. Mas, no fim das ameaças, o chefe dirigiu-se a Beatriz.

 

- Agora vamos separá-las, mas a si vamos deixá-la livre – disse-lhe. – Trouxemo-la por engano.

 

Beatriz reagiu imediatamente.

 

- Ah, não - disse sem a menor dúvida. - Eu fico a acompanhar Maruja.

 

Foi uma decisão tão corajosa e generosa que o próprio sequestrador exclamou espantado sem uma ponta de ironia: «Mas que amiga tão leal que a senhora tem, Dona Maruja.» Esta, agradecida no meio da sua consternação, confirmou-lhe que assim era, e agradeceu a Beatriz. O Doutor perguntou-lhes então se queriam comer alguma coisa. As duas disseram que não. Pediram água, pois tinham a boca ressequida. Levaram-lhes refrescos. Maruja, que tem sempre um cigarro aceso e o maço de tabaco e o isqueiro ao alcance da mão, não fumara no trajecto. Pediu que lhe devolvessem a mala onde tinha os cigarros, e o homem deu-lhe um dos seus.

 

As duas pediram para ir à casa de banho. Beatriz foi primeiro, tapada com um trapo roto e sujo. «Olhe para o chão», ordenou-lhe alguém. Levaram-na pela mão por um corredor estreito até uma retrete ínfima, em muito mau estado e com uma janelinha triste a dar para a noite. A porta não tinha tranca por dentro, mas fechava bem, de modo que Beatriz se empoleirou na sanita e olhou pela janela. A única coisa que conseguiu ver à luz de um poste foi uma casinha de adobe com telhados vermelhos e um prado em frente, como se vêem tantas nos caminhos da savana.

 

Quando regressou ao quarto verificou que a situação tinha mudado por completo. «Acabámos de saber quem a senhora é e também nos serve», disse o Doutor. «Fica connosco.» Tinham sabido pela rádio, que acabava de dar a notícia do sequestro.

 

O jornalista Eduardo Carrillo, que era o responsável pela informação da ordem pública na Rádio Cadena Nacional (RCN), estava a consultar uma fonte militar sobre qualquer coisa quando esta recebeu por radiotelefone a notícia do sequestro. Naquele mesmo instante estavam a transmiti-la já sem pormenores. Foi assim que os sequestradores ficaram a saber a identidade de Beatriz.

 

A rádio disse ainda que o motorista do táxi com quem chocaram anotou dois números da matrícula e os dados gerais do automóvel que o tinha amolgado. A polícia estabeleceu o percurso da fuga. De forma que aquela casa se tornara perigosa para todos e tinham de sair já dali. Pior ainda: as sequestradas iriam em carros diferentes e fechadas no porta-bagagens.

 

Os pedidos de ambas foram inúteis, porque os sequestradores pareciam tão assustados como elas e não o ocultavam. Maruja pediu um pouco de álcool medicinal, aturdida pela ideia de asfixiarem no porta-bagagens.

 

- Aqui não temos álcool - disse, áspero, o Doutor. - Vão na mala e não há mais nada a fazer. Despachem-se.

 

Obrigaram-nas a tirar os sapatos e levá-los na mão, enquanto as conduziam através da casa até à garagem. Ali destaparam-nas e acomodaram-nas no porta-bagagens do carro em posição fetal, sem as forçar. O espaço era suficiente e bem ventilado porque tinham tirado as borrachas de vedar. Antes de fechar, o Doutor atirou-lhes com uma rajada de terror.

 

- Levamos aqui dez quilos de dinamite - disse-lhes. - Ao primeiro grito, ou tosse ou choro, ou seja lá o que for, saímos do carro e fazemo-lo explodir.

 

Para alívio e surpresa de ambas, pelas costuras da mala passava uma corrente fria e pura como que de ar condicionado. A sensação de sufoco desapareceu e só ficou a incerteza. Maruja assumiu uma atitude absorta que podia confundir-se com um abandono completo, mas que na realidade era a sua fórmula magica para aguentar a ansiedade, Beatriz, em compensação, intrigada e com uma curiosidade insaciável, espreitou pela ranhura luminosa da mala mal ajustada. Através do vidro de trás viu os passageiros do carro: dois homens no banco traseiro e uma mulher de cabelos compridos ao lado do motorista, com um bebé com cerca de dois anos. À sua direita viu o grande anúncio de luz amarela de um centro comercial conhecido. Não havia dúvida: era a auto-estrada para norte, iluminada durante um grande troço, e depois a escuridão total num caminho descoberto, onde o carro reduziu a marcha. Ao fim de uns quinze minutos parou.

 

Devia ser outro posto de controlo. Ouviam-se vozes confusas, barulhos de outros carros, músicas; mas estava tão escuro que Beatriz não conseguia distinguir nada. Maruja espertou, deu atenção, com a esperança de que fosse uma casinha de controlo onde os obrigassem a mostrar o que levavam dentro da mala do carro.

O automóvel arrancou ao fim de uns cinco minutos e subiu por uma encosta empinada, mas desta vez não conseguiram estabelecer o percurso. Uns dez minutos depois parou e abriram o porta-bagagens. Taparam-lhes outra vez as cabeças e ajudaram-nas a sair nas trevas.

 

Fizeram juntas um percurso semelhante ao que tinham feito na outra casa, olhando para o chão e guiadas pelos sequestradores através de um corredor, uma salinha onde outras pessoas falavam em sussurro, e por fim um quarto. Antes de as fazer entrar, o Doutor preparou-as.

 

- Agora vão encontrar uma pessoa amiga - disse-lhes.

 

A luz dentro do quarto era tão pouca que precisaram de uns momentos para acostumarem a vista. Era um espaço vazio de não mais de dois metros por três, com uma só janela fechada. Sentados num colchão individual posto no chão, dois encapuçados como os que tinham deixado na casa anterior olhavam absortos para a televisão. Tudo era lúgubre e opressivo. No canto à esquerda da porta, sentada numa cama estreita com umas barras de ferro, havia uma mulher fantasmagórica com o cabelo branco e baço, os olhos atónitos e a pele colada aos ossos. Não deu sinal de ter sentido que entraram; não olhou, não respirou. Nada: um cadáver não teria parecido tão morto. Maruja recuperou do impacte.

 

- Marina! - murmurou.

 

Era Marina Montoya, sequestrada há quase dois meses, e que era dada como morta. Germán Montoya, seu irmão, tinha sido o secretário-geral da Presidência da República com um grande poder no Governo de Virgilio Barco. Um filho seu, Álvaro Diego, gerente de uma importante companhia de seguros, tinha sido sequestrado pelos traficantes de droga para pressionarem uma negociação com o Governo. A versão mais corrente - nunca confirmada - foi que o libertaram pouco tempo depois devido a um compromisso secreto que o Governo não cumpriu. O sequestro da tia Marina nove meses depois só podia interpretar-se como uma infame represália, pois naquele momento já não tinha valor de troca. O Governo de Barco tinha acabado, e Germán Montoya era embaixador da Colômbia no Canadá. De forma que estava na consciência de todos que Marina só tinha sido sequestrada para a matarem.

 

Depois da agitação inicial do sequestro, que mobilizou a opinião pública nacional e internacional, o nome de Marina tinha desaparecido dos jornais. Maruja e Beatriz conheciam-na bem, mas não lhes foi fácil reconhecê-la. O facto de as terem levado para o mesmo quarto significou para elas desde o primeiro momento que estavam na cela dos condenados à morte. Marina não se alterou. Maruja apertou-lhe a mão, e foi percorrida por um arrepio. A mão de Marina não era fria nem quente, nem transmitia nada.

 

O tema musical do noticiário da televisão arrancou-as da estupefacção. Eram nove e meia da noite do dia 7 de Novembro de 1990. Meia hora antes, o jornalista Hernán Estupiñán, do Noticiário Nacional, tinha ficado a saber do sequestro por um amigo da Focine, e comparecera no local. Ainda não tinha regressado ao seu gabinete com os pormenores completos quando o realizador e apresentador Javier Ayala abriu a emissão com a novidade urgente antes dos títulos principais: «A directora-geral da Focine, Maruja Pachón de Villamizar, mulher do conhecido político Alberto Villamizar, e a irmã deste, Beatriz Villamizar de Guerrero, foram sequestradas às sete e meia desta noite.» O objectivo parecia claro: Maruja era irmã de Gloria Pachón, a viúva de Luis Carlos Galán, o jovem jornalista que tinha fundado o Novo Liberalismo em 1979 para renovar e modernizar os deteriorados costumes políticos do Partido Liberal, e era a força mais séria e enérgica contra o tráfico de droga e a favor da extradição de nacionais.

 

O primeiro membro da família que soube do sequestro foi o doutor Pedro Guerrero, o marido de Beatriz. Estava numa Unidade de Psicoterapia e Sexualidade Humana - a uns dez quarteirões - a dar uma conferência sobre a evolução das espécies animais desde as funções primárias dos organismos unicelulares até às emoções e afectos dos humanos. Foi interrompido por uma chamada telefónica de um oficial da polícia que lhe perguntou com um estilo profissional se conhecia Beatriz Villamizar «Claro», respondeu o doutor Guerrero. «É a minha mulher.» O oficial fez um breve silêncio e disse num tom mais humano: «Bom, não se enerve.» O doutor Guerrero não precisava de ser um psiquiatra laureado para compreender que aquela frase era o preâmbulo de algo muito grave.

 

- Mas o que é que aconteceu? - perguntou ele.

 

- Assassinaram um motorista na esquina da Estrada Quinta com a Rua 85 - disse o oficial. - É um Renault 21, cinzento-claro, com matrícula de Bogotá PS-2034. Reconhece o número?

 

- Não faço a menor ideia - disse o doutor Guerrero, impaciente. - Mas diga-me o que é que aconteceu a Beatriz.

 

- A única coisa que podemos dizer-lhe por agora é que se encontra desaparecida - respondeu o oficial. - Encontrámos a sua mala no banco do carro, e uma agenda onde diz para lhe telefonarem a si em caso de urgência.

 

Não havia dúvida. O próprio doutor Guerrero tinha aconselhado à sua mulher que escrevesse aquela nota no seu livro de apontamentos. Embora ignorasse o número da matrícula, a descrição correspondia ao automóvel de Maruja. A esquina do crime era a poucos passos da casa dela, onde Beatriz tinha de fazer uma escala antes de chegar à sua. O doutor Guerrero interrompeu a conferência com uma explicação apressada. O seu amigo, o urologista Alonso Acuña, levou-o em quinze minutos ao lugar do assalto através do trânsito confuso das sete.

 

Alberto Villamizar, o marido de Maruja Pachón e irmão de Beatriz, a duzentos metros apenas do local do sequestro, ficou a saber por uma chamada interna do seu porteiro. Tinha voltado a casa às quatro, depois de passar a tarde no jornal El Tiempo trabalhando na campanha para a Assembleia Constituinte, cujos membros seriam eleitos em Dezembro, e adormecera com a roupa vestida devido ao cansaço da véspera. Pouco antes das sete chegou o seu filho Andrés, acompanhado por Gabriel, o filho de Beatriz, o seu melhor amigo desde que eram crianças. Andrés espreitou para o quarto à procura da mãe e acordou Alberto. Este surpreendeu-se com a escuridão, acendeu a luz e verificou meio sonolento que eram quase sete horas. Maruja não tinha chegado.

 

Era um atraso estranho. Ela e Beatriz voltavam sempre mais cedo por muito difícil que estivesse o trânsito, ou avisavam por telefone qualquer atraso imprevisto. Além disso, Maruja combinara com ele encontrar-se em casa às cinco. Preocupado, Alberto pediu a Andrés que telefonasse para a Focine, e o guarda disse-lhe que Maruja e Beatriz haviam saído com um pouco de atraso. Que chegariam de um momento para o outro. Villamizar tinha ido à cozinha beber água quando tocou o telefone. Andrés atendeu. Apenas pelo tom da voz Alberto compreendeu que era uma chamada alarmante. Assim era: algo acontecera na esquina com um automóvel que parecia ser o de Maruja. O porteiro tinha versões confusas.

 

Alberto pediu a Andrés que ficasse em casa para o caso de alguém telefonar, e saiu a toda a pressa. Gabriel seguiu-o. Os nervos não os deixaram esperar pelo elevador, que estava ocupado, e correram pelas escadas. O porteiro conseguiu ainda gritar:

 

- Dizem que houve um morto.

 

A rua parecia em festa. A vizinhança estava a espreitar às janelas dos edifícios residenciais, e havia uma barulheira de automóveis engarrafados na Circunvalar. Na esquina, um carro-patrulha da polícia tentava impedir que os curiosos se aproximassem do carro abandonado. Villamizar admirou-se por o doutor Guerrero ter chegado antes dele.

 

Era, efectivamente, o automóvel de Maruja. Tinha decorrido pelo menos meia hora desde o sequestro, e só ficaram os rastos: o vidro do lado do motorista destruído por uma bala, a mancha de sangue e o granizo de vidro no banco, e a sombra húmida no asfalto, donde acabavam de levar o motorista ainda com vida. O resto estava limpo e em ordem.

 

O oficial da polícia, eficiente e formal, forneceu a Villamizar os pormenores dados pelas poucas testemunhas. Eram fraccionados e imprecisos, e alguns contraditórios, mas não deixavam dúvida de que tinha sido um sequestro, e que o único ferido fora o motorista. Alberto quis saber se este tinha chegado a fazer declarações que dessem alguma pista. Não fora possível: estava em estado de coma, e ninguém conseguia dizer para onde é que o haviam levado.

 

O doutor Guerrero, em compensação, como que anestesiado pelo impacte, não parecia medir a gravidade do drama. Ao chegar tinha reconhecido a mala de Beatriz, o seu estojo de cosméticos, a agenda, uma carteira de couro com o bilhete de identidade, o porta-notas com doze mil pesos e o cartão de crédito, e chegara à conclusão de que a única sequestrada era a sua mulher.

 

- Repara que a mala de Maruja não está aqui - dizia ele ao cunhado. - Se calhar não vinha no carro.

 

Talvez fosse uma delicadeza profissional para o distrair enquanto ambos recuperavam o fôlego. Mas a Alberto o que lhe interessava então era verificar se no automóvel e nos arredores não havia mais sangue tirando o do motorista, para ter a certeza de que nenhuma das duas mulheres estava ferida. O resto parecia-lhe claro, e era o mais parecido com um sentimento de culpa por não ter previsto nunca que aquele sequestro podia acontecer. Agora tinha a convicção absoluta de que era um acto pessoal contra ele, e sabia quem o fizera e porquê.

 

Acabava de se ir embora quando interromperam os programas de rádio com a notícia de que o motorista de Maruja tinha morrido no carro particular que o levava à Clínica do Country. Pouco depois chegou o Jornalista Guillermo Franco, redactor judicial da Caracol Rádio, alertado pela notícia simples de um tiroteio, mas só encontrou o carro abandonado. Apanhou no banco do motorista uns fragmentos de vidros e um papel de cigarro manchado de sangue e guardou-os numa caixinha transparente, numerada e datada. A caixinha passou nessa mesma noite a fazer parte da rica colecção de relíquias que Franco juntou durante os largos anos que durou a sua crónica judicial.

 

O oficial da polícia acompanhou Villamizar de regresso a casa enquanto lhe fazia um interrogatório informal que pudesse servir-lhe para a investigação, mas ele respondia-lhe sem pensar noutra coisa a não ser nos longos e duros dias que o esperavam. A primeira coisa foi pôr Andrés ao corrente da sua determinação. Pediu-lhe que atendesse as pessoas que começavam a chegar a casa, enquanto ele fazia as chamadas telefónicas urgentes e punha em ordem as suas ideias. Fechou-se no quarto e ligou para o palácio presidencial.

 

Tinha muito boas relações políticas e pessoais com o presidente César Gaviria, e este conhecia-o como um homem impulsivo mas cordial, capaz de manter o sangue-frio nas circunstâncias mais graves. Por isso ficou impressionado com o estado de emoção e a secura com que lhe comunicou que a sua mulher e a sua irmã tinham sido sequestradas, e concluiu sem formalismos:

 

- O senhor responde-me pelas suas vidas.

 

César Gaviria pode ser o homem mais áspero quando pensa que o deve ser, e então foi-o.

 

- Oiça uma coisa, Alberto - disse-lhe secamente. - Tudo o que for preciso fazer vai-se fazer.

 

A seguir, com a mesma frieza, comunicou-lhe que instruiria imediatamente o seu conselheiro de Segurança, Rafael Pardo Rueda, para que se ocupasse do assunto e o mantivesse informado da situação a cada instante. O decurso dos factos iria demonstrar que foi uma decisão acertada.

 

Os jornalistas chegaram em massa. Villamizar conhecia antecedentes de sequestrados aos quais era permitido ouvir rádio e televisão, e improvisou uma mensagem na qual exigiu respeito por Maruja e Beatriz por serem duas mulheres dignas que não tinham nada a ver com a guerra, e anunciou que a partir daquele instante dedicaria todo o seu tempo e as suas energias a resgatá-las.

 

Um dos primeiros que acorreram a sua casa foi o general Miguel Maza Márquez, director do Departamento Administrativo de Segurança (DAS), a quem cabia como ofício a investigação do sequestro. O general ocupava o cargo desde o Governo de Belisario Betancur, sete anos antes; tinha continuado com o presidente Virgilio Barco e acabava de ser confirmado por César Gaviria. Uma sobrevivência sem precedentes num cargo em que é quase impossível sair-se bem, e menos ainda nos tempos mais difíceis da guerra contra o tráfico de droga. De estatura média e duro, como que fundido em aço, com o pescoço de touro da sua raça guerreira, o general é um homem de silêncios longos e taciturnos, e capaz ao mesmo tempo de desabafos íntimos em círculos de amigos: um homem rústico autêntico. Mas no seu ofício não tinha matizes. Para ele a guerra contra o tráfico de droga era um assunto pessoal e de morte com Pablo Escobar. E era bastante correspondido. Escobar gastou dois mil e seiscentos quilos de dinamite em dois atentados sucessivos contra ele: a mais alta distinção que Escobar prestou alguma vez a um inimigo. Maza Márquez saiu ileso de ambos, o que foi atribuído à protecção do Menino Jesus. O mesmo santo, certamente, a que Escobar atribuía o milagre de Maza Márquez não o ter conseguido matar.

 

O presidente Gaviria tinha como política pessoal que as forças da ordem não tentassem nenhum resgate sem um acordo prévio com a família do sequestrado. Mas na bisbilhotice política falava-se muito das discrepâncias de procedimentos entre o presidente e o general Maza. Villamizar antecipou-se logo.

 

- Quero adverti-lo que me oponho a que se tente um resgate pela força - disse ele ao general Maza. - Quero ter a certeza de que não se fará, e de que, a haver qualquer determinação nesse sentido, eu seja consultado primeiro.

 

Maza Márquez concordou. No fim de uma longa conversa, deu ordem para estarem atentos ao telefone de Villamizar, para o caso de os sequestradores tentarem comunicar com ele durante a noite.

 

Na primeira conversa com Rafael Pardo, naquela mesma noite, este informou Villamizar de que o presidente o tinha designado mediador entre o Governo e a família, e era o único autorizado a fazer declarações oficiais sobre o caso. Para ambos era claro que o sequestro de Maruja era uma carambola do tráfico de droga para pressionar o Governo através da irmã, Gloria Pachón, e decidiram actuar em concordância sem mais pressupostos.

 

A Colômbia não tivera consciência da sua importância no tráfico mundial de droga enquanto os traficantes não irromperam na alta política do país pela porta do fundo, primeiro com o seu crescente poder de corrupção e suborno, e depois com aspirações próprias. Pablo Escobar tinha tentado instalar-se no movimento de Luis Carlos Galán, em 1982, mas este apagou-o das suas listas e desmascarou-o em Medellín perante uma manifestação de cinco mil pessoas. Pouco depois chegou como suplente à Câmara de Representantes por uma ala marginal do liberalismo oficial, mas não esqueceu a afronta, e iniciou uma guerra de morte contra o Estado, e em especial contra o Novo Liberalismo. Rodrigo Lara Bonilla, seu representante como ministro da Justiça no Governo de Belisario Betancur, foi assassinado por um sicário motorizado nas ruas de Bogotá. O seu, sucessor, Enrique Parejo, foi perseguido até Budapeste por um assassino contratado que lhe deu um tiro de pistola na cara e não conseguiu matá-lo. A 18 de Agosto de 1989, Luis Carlos Galán foi metralhado na praça pública do município de Soacha a dez quilómetros do palácio presidencial e entre dezoito guarda-costas bem armados.

 

O motivo principal dessa guerra era o terror dos traficantes de droga perante a possibilidade de serem extraditados para os Estados Unidos, onde podiam julgá-los por delitos ali cometidos, e submetê-los a condenações descomunais. Entre elas, uma de peso: Carlos Lehder, um traficante colombiano extraditado em 1987, tinha sido condenado por um tribunal dos Estados Unidos a prisão perpétua mais cento e trinta anos. Isto era possível graças a um tratado assinado durante o Governo do presidente Julio César Turbay, no qual se acordou pela primeira vez a extradição de nacionais.

 

O presidente Belisario Betancur aplicou-o pela primeira vez aquando do assassínio de Lara Bonilla com uma série de extradições sumarias. Os traficantes de droga - aterrorizados pelo longo braço dos Estados Unidos no mundo inteiro - aperceberam-se de que não tinham outro lugar mais seguro que a Colômbia e acabaram por ser fugitivos clandestinos dentro do seu próprio país. A grande ironia era que não tinham outra alternativa senão porem-se sob a protecção do Estado para salvar a pele. De forma que tentaram consegui-la - pela razão e pela força - com um terrorismo indiscriminado e inclemente, e ao mesmo tempo com a proposta de se entregarem à justiça e repatriarem e investirem os seus capitais na Colômbia com a única condição de não serem extraditados. Foi um verdadeiro contrapoder nas sombras com uma marca empresarial os extraditados - e uma divisa típica de Escobar: «Preferimos um túmulo na Colômbia a uma cela nos Estados Unidos.»

 

Betancur manteve a guerra. O seu sucessor, Virgilio Barco, recrudesceu-a. Essa era a situação em 1989, quando César Gaviria surgiu como candidato presidencial depois do assassínio de Luis Carlos Galán, de quem foi chefe de campanha. Defendeu a extradição como um instrumento indispensável para o fortalecimento da justiça, e anunciou uma estratégia nova contra o tráfico de droga. Era uma ideia simples: aqueles que se entregassem aos juízes e confessassem alguns ou todos os seus delitos podiam obter como benefício principal a não extradição. No entanto, tal como foi formulada no decreto original, não era suficiente para os extraditáveis. Escobar exigiu através dos seus advogados que a não extradição fosse incondicional, que os requisitos da confissão e a delação não fossem obrigatórias, que a prisão fosse invulnerável e lhes dessem garantias de protecção às suas famílias e aos seus sequazes. Para o conseguirem - com o terrorismo numa mão e a negociação na outra - empreendeu uma escalada de sequestros de jornalistas para forçar Governo. Em dois meses tinham sequestrado oito. De modo que o sequestro de Maruja e Beatriz parecia compreender-se como mais um apertão naquela escalada fatídica.

 

Villamizar sentiu aquilo assim desde que viu o automóvel baleado. Mais tarde, no meio da multidão que invadiu a casa, foi assaltado pela convicção absoluta de que as vidas da sua esposa e da sua irmã dependiam do que ele fosse capaz de fazer para as salvar. Pois desta vez, como nunca antes, a guerra apresentava-se como um duelo pessoal ao qual era impossível esquivar-se.

 

Villamizar, com efeito, era já um sobrevivente. Como representante da Câmara tinha conseguido que fosse aprovado o Estatuto Nacional de Estupefacientes em 1985, quando não existia legislação ordinária contra o tráfico de droga, mas sim decretos dispersos de estado de sítio. Mais tarde, Luis Carlos Galán instruiu-o para que impedisse a aprovação de um projecto de lei que parlamentares amigos de Escobar apresentaram na Câmara com o propósito de tirarem o apoio legislativo ao tratado de extradição vigente. Foi a sua sentença de morte. A 22 de Outubro dois assassinos contratados e em fato de treino, que fingiam fazer ginástica em frente da sua casa, dispararam contra ele duas rajadas de metralhadora quando entrava no seu automóvel. Escapou por milagre. Um dos atacantes foi morto pela polícia e os seus cúmplices detidos, e poucos anos depois saíram em liberdade. Ninguém pagou pelo atentado, mas também ninguém pôs em dúvida quem é que o tinha ordenado.

 

Convencido pelo próprio Galán a afastar-se da Colômbia por uns tempos, Villamizar foi nomeado embaixador na Indonésia. Um ano depois de ali estar, os serviços de segurança dos Estados Unidos em Singapura capturaram um sicário colombiano que ia rumo a Jacarta. Não ficou muito claro se tinha sido enviado para matar Villamizar, mas apurou-se que figurava como morto nos Estados Unidos através de uma certidão de óbito que se descobriu ser falsa.

 

Na noite do sequestro de Maruja e Beatriz a casa de Villamizar estava a rebentar. Chegava gente da política e do Governo, e as famílias das duas sequestradas. Aseneth Velásquez, comerciante de arte e grande amiga dos Villamizar, que vivia no andar de cima, tinha assumido o cargo de anfitriã, e só faltava a música para que fosse igual a qualquer noite de sexta-feira. É inevitável: na Colômbia, toda a reunião de mais de seis, de qualquer tipo e a qualquer hora, está condenada a converter-se em baile.

 

A essa hora toda a família dispersa pelo Mundo estava já informada. Alexandra, a filha de Maruja do seu primeiro casamento, acabava de jantar num restaurante de Maicao - na distante península de La Guajira - quando Javier Ayala deu a notícia. Era a realizadora de Enfoque, um popular programa das quartas-feiras na televisão, e tinha chegado no dia anterior a La Guajira para fazer uma série de entrevistas. Correu para o hotel para comunicar com a família, mas os telefones da casa estavam ocupados. Na quarta-feira anterior, por uma coincidência feliz, tinha entrevistado um psiquiatra especialista em casos clínicos provocados pelas prisões de alta segurança. Desde que ouviu a notícia em Maicao apercebeu-se de que a mesma terapia podia ser útil para os sequestrados e regressou a Bogotá para a pôr em prática a partir do programa seguinte.

 

Gloria Pachón - a irmã de Maruja, que era então embaixadora da Colômbia junto da UNESCO - foi acordada às duas da manhã por uma frase de Villamizar: «Tenho uma notícia péssima.» Juana, filha de Maruja, que estava de férias em Paris, soube um momento depois no quarto ao lado. Nicolás, músico e compositor de vinte e sete anos, foi acordado em Nova Iorque.

 

Às duas da madrugada o doutor Guerrero foi com o seu filho Gabriel conversar com o parlamentar Diego Montaña Cuéllar, presidente da Unión Patriótica - um movimento filial do Partido Comunista - e membro do Grupo dos Notáveis, constituído em Dezembro de 1989 para mediar entre o Governo e os sequestradores de Álvaro Diego Montoya. Encontraram-no não só acordado como deprimido. Tinha ouvido a notícia do sequestro nos noticiários da noite, e pareceu-lhe um sintoma desmoralizador. A única coisa que Guerrero queria pedir-lhe era que lhe servisse de mediador para que Pablo Escobar o aceitasse a ele como sequestrado em troca de Beatriz. Montaña Cuéllar deu-lhe uma resposta típica da sua maneira de ser.

 

- Não sejas parvo, Pedro - disse-lhe -, neste país já não há nada a fazer.

 

O doutor Guerrero voltou para casa ao amanhecer, mas nem sequer tentou dormir. A ansiedade mantinha-o desperto. Pouco antes das sete telefonou-lhe o director do noticiário da Caracol Rádio em pessoa, Yamid Amat, e ele respondeu no seu pior estado de espírito com um desafio temerário aos sequestradores.

 

Sem dormir um minuto, Villamizar tomou um duche e vestiu-se às seis e meia da manhã, e foi para um encontro com o ministro da Justiça, Jaime Giraldo Ángel, que o pôs a par da guerra contra o terrorismo dos traficantes. Villamizar saiu desse encontro convencido de que a sua luta seria difícil e longa, mas agradeceu as duas horas durante as quais debateram o tema, pois estava totalmente desactualizado em relação ao tráfico de droga desde há algum tempo.

 

Não tomou o pequeno-almoço nem almoçou. Já da parte da tarde, depois de várias diligências frustradas, também ele visitou Diego Montaña Cuéllar, o qual foi surpreendido uma vez mais com a sua franqueza. «Não te esqueças que isto vai ser para durar», disse-lhe. «Pelo menos até Junho do ano que vem, depois da Assembleia Constituinte, porque Maruja e Beatriz serão o escudo de Escobar para que não o extraditem.» Muitos amigos estavam incomodados com Montaña Cuéllar porque não dissimulava o seu pessimismo na imprensa, apesar de ser membro do Grupo dos Notáveis.

 

- De qualquer modo vou renunciar a esta merda - disse a Villamizar com a sua língua afiada. - Estamos aqui feitos parvos.

 

Villamizar sentia-se esgotado e solitário quando voltou a casa, ao fim de um dia sem futuro. Os dois goles de uísque que bebeu de uma assentada deixaram-no prostrado. O seu filho Andrés, que seria a partir de então o seu único companheiro, conseguiu que ele tomasse o pequeno-almoço às seis da tarde. Estava naquilo quando o presidente lhe telefonou.

 

- Agora sim, Alberto - disse-lhe com a melhor das boas vontades. - Venha cá para conversarmos.

 

O presidente Gaviria recebeu-o às sete da noite na biblioteca da casa privada do palácio presidencial, onde vivia há três meses com Ana Milena Muñoz, sua mulher, e os seus dois filhos, Simón, de onze anos, e María Paz, de oito. Era um refúgio pequeno, mas acolhedor, junto de uma estufa de flores, com estantes de madeira a abarrotar de publicações oficiais e fotografias de família e uma aparelhagem com os discos favoritos: os Beatles, Jethro Tull, Juan Luis Guerra, Beethoven, Bach. Depois das esgotantes jornadas oficiais, era ali que o presidente acabava as audiências informais ou se relaxava com os amigos do entardecer com um copo de uísque.

 

Gaviria recebeu Villamizar com uma saudação afectuosa e falou com ele num tom solidário e compreensivo, mas com a sua franqueza um pouco ríspida. No entanto, Villamizar ficou então mais calmo uma vez superado o impacte inicial, e já com informação suficiente para saber que era muito pouco o que o presidente podia fazer por ele. Estavam os dois seguros de que o sequestro de Maruja e Beatriz tinha intenções políticas, e não precisavam de ser adivinhos para saber que o autor era Pablo Escobar. Mas o essencial não era sabê-lo - disse Gaviria - mas sim conseguir que Escobar o reconhecesse, como primeiro passo importante para a segurança das sequestradas.

 

Villamizar percebia perfeitamente desde o primeiro momento que o presidente não sairia da Constituição nem da lei para o ajudar, nem suspenderia as operações militares à procura dos sequestradores, mas também não tentaria operações de resgate sem a autorização das famílias.

 

- Esta - disse o presidente - é a nossa política.

 

Não havia mais nada a dizer. Quando Villamizar saiu do palácio presidencial tinham decorrido vinte e quatro horas desde o sequestro e estava cego face ao seu destino, mas sabia que contava com a solidariedade do Governo para empreender diligências privadas em prol das suas sequestradas, e tinha Rafael Pardo à sua disposição. Mas o que lhe merecia maior credibilidade era o realismo cru de Diego Montaña Cuéllar.

 

O primeiro sequestro daquela leva sem precedentes - a 30 de Agosto do ano anterior e apenas três semanas depois da tomada de posse do presidente César Gaviria - tinha sido o de Diana Turbay, directora do noticiário de televisão Criptón e da revista Hoy x Hoy, de Bogotá, e filha do ex-presidente da República e chefe máximo do Partido Liberal Júlio César Turbay. Juntamente com ela foram sequestrados quatro membros da sua equipa: a editora do noticiário, Azucena Liévano; o redactor Juan Vitta, os operadores de câmara Richard Becerra e Orlando Acevedo e o jornalista alemão radicado na Colômbia Hero Buss. Seis ao todo.

 

O truque de que os sequestradores se valeram foi uma suposta entrevista ao padre Manuel Pérez, comandante supremo do Exército de Libertação Nacional (ELN). Nenhum dos poucos que tiveram conhecimento do convite concordara que Diana o aceitasse. Entre eles, o ministro da Defesa, general Óscar Botero, e Rafael Pardo, a quem o presidente da República fizera ver os riscos da expedição para que os transmitisse à família Turbay. No entanto, pensar que Diana desistiria dessa viagem era não a conhecer. Na realidade, a entrevista de imprensa com o padre Manuel Pérez não lhe devia interessar tanto como a possibilidade de um diálogo de paz. Anos antes empreendera em absoluto segredo uma expedição em cima de uma mula para falar com os grupos armados de autodefesa nos seus próprios territórios, numa tentativa solitária de entender aquele movimento do ponto de vista político e jornalístico. A notícia não teve relevância no seu tempo nem os seus resultados se tornaram públicos. Mais tarde, apesar da sua velha guerra com o M-19, tornou-se amiga do comandante Carlos Pizarro, a quem visitou no seu acampamento para procurar soluções de paz. E claro que quem planeou o ardil do seu sequestro tinha de conhecer aqueles antecedentes. Por isso naquele momento, por qualquer motivo, perante qualquer obstáculo, nada neste mundo teria impedido que Diana fosse falar com o padre Pérez, que tinha outra das chaves da paz.

 

Por diversos inconvenientes de última hora o encontro fora adiado um ano antes, mas a 30 de Agosto, às cinco da tarde, e sem avisar ninguém, Diana e a sua equipa puseram-se a caminho numa camioneta a cair aos bocados, com dois homens novos e uma rapariga que se fizeram passar por enviados da direcção do ELN. A viagem em si desde Bogotá foi uma paródia fiel de como teria sido na realidade se fossem as guerrilhas a tê-la feito. Os acompanhantes deviam ser membros de um movimento armado, ou tinham-no sido, ou haviam aprendido muito bem a lição, porque não cometeram uma falha que delatasse um engano nem nas conversas, nem no comportamento.

 

No primeiro dia tinham chegado a Honda, a cento e quarenta e seis quilómetros a ocidente de Bogotá. Ali os esperaram outros homens com mais dois veículos confortáveis. Depois de jantarem numa tasca prosseguiram por um caminho invisível e perigoso debaixo de um forte aguaceiro, e amanheceu enquanto eles esperavam que desimpedissem a via devido a uma grande derrocada. Por fim, cansados e mal dormidos, chegaram às onze da manhã a um local onde os esperava uma patrulha com cinco cavalos. Diana e Azucena prosseguiram montadas durante quatro horas, e os seus companheiros a pé, primeiro por uma montanha densa, e mais tarde por um vale idílico com casas coloniais entre os cafezais. As pessoas assomavam para os verem passar, alguns reconheciam Diana e cumprimentavam-na das varandas. Juan Vitta calculou que pelo menos quinhentas pessoas os tinham visto ao longo do percurso. À tarde desmontaram numa quinta deserta onde um jovem de aspecto estudantil se identificou como sendo do ELN, mas não lhes deu qualquer dado sobre o seu destino. Todos se mostraram confusos. A não mais de meio quilómetro via-se um troço de auto-estrada, e ao fundo uma cidade que seguramente era Medellín. Ou seja: um território que não era do ELN. A não ser – tinha pensado Hero Buss – que fosse uma jogada mestra do padre Pérez para se reunir com eles numa zona onde ninguém suspeitasse que pudesse estar.

 

Efectivamente, dali a mais ou menos duas horas, chegaram a Copacabana, um município devorado pelo ímpeto demográfico de Medellín. Apearam-se numa casinha de paredes brancas e telhas musgosas, quase incrustada num declive pronunciado e agreste. Lá dentro havia uma sala, e de cada lado um pequeno quarto. Num havia três camas duplas onde se instalaram os guias. No outro – com uma cama dupla e um beliche – alojaram os homens da equipa. A Diana e a Azucena destinaram-lhes o melhor quarto do fundo onde havia indícios de ter sido usado por mulheres. A luz estava acesa em pleno dia, porque todas as janelas estavam tapadas com madeira.

 

Ao fim de umas três horas de espera chegou um mascarado que lhes deu as boas-vindas em nome do comando, e anunciou-lhes que o padre Pérez já estava à espera deles, mas por questões de segurança deviam transferir primeiro as mulheres. Foi essa a primeira vez que Diana deu mostras de inquietação. Hero Buss aconselhou-a a sós que por motivo nenhum aceitasse a divisão do grupo. Dado que não o conseguiu impedir, Diana deu-lhe às escondidas o seu bilhete de identidade, sem tempo para lhe explicar porquê, mas ele entendeu isso como uma prova para o caso de a fazerem desaparecer.

Antes do amanhecer levaram as mulheres e Juan Vitta. Hero Buss, Richard Becerra e Orlando Acevedo ficaram no quarto da cama dupla e do beliche com cinco guardas. A suspeita de que tinham caído numa armadilha aumentava com as horas. À noite, enquanto jogavam às cartas, a Hero Buss chamou-lhe a atenção o facto de um dos guardas ter um relógio de luxo. «Com que então o ELN já está a nível do Rolex», troçou ele. Mas o seu adversário não se deu por achado. Outra coisa que confundiu Hero Buss foi que o armamento que levavam não era para guerrilhas, mas sim para operações urbanas. Orlando, que falava pouco e se considerava a si mesmo como o mais insignificante de todos, não precisou de tantas pistas para vislumbrar a verdade, pela sensação insuportável de que algo grave estava a acontecer.

 

A primeira mudança de casa foi à meia-noite de 10 de Setembro, quando os guardas irromperam a gritar: «Chegou a lei.» Ao fim de duas horas de marcha forçada por entre a floresta, debaixo de uma tempestade terrível, chegaram à casa onde estavam Diana, Azucena e Juan Vitta. Era ampla e bem arranjada, com uma televisão de ecrã grande, e sem nada que pudesse despertar suspeitas. O que nenhum deles nunca imaginou foi até que ponto estiveram perto de serem todos resgatados nessa noite por mero acaso. Foi uma escala de poucas horas que aproveitaram para trocar ideias, experiências e planos para o futuro. Diana desabafou com Hero Buss. Falou-lhe da sua depressão por os ter levado à cilada sem saída em que se encontravam, confessou-lhe que estava a tentar apaziguar na sua memória as recordações da família - o marido, os filhos, os pais -, que não lhe davam um instante de tréguas. Mas o resultado era sempre o contrário.

 

Na noite seguinte, enquanto a levavam a pé a uma terceira casa, com Azucena e Juan Vitta, por um caminho impossível e debaixo de uma chuva persistente, Diana apercebeu-se de que não era verdade nada do que eles lhes diziam. Nessa mesma noite um guarda desconhecido até então tirou-lhe as dúvidas.

 

- Vocês não estão com o ELN, mas sim nas mãos dos extraditáveis - disse-lhes. - Mas estejam descansados, porque vão ser testemunhas de algo histórico.

 

O desaparecimento da equipa de Diana Turbay continuava a ser um mistério, dezanove dias depois, quando sequestraram Marina Montoya. Tinha sido levada de rastos por três homens bem vestidos, armados de pistolas de nove milímetros e metralhadoras Mini Uzis com silenciador, quando acabava de fechar o seu Restaurante Donde las Tías, na parte norte de Bogotá. A sua irmã Lucrecia, que a ajudava a atender a clientela, teve a boa sorte de estar com um pé engessado devido a uma distensão do tornozelo que a impediu de ir ao restaurante. Marina já havia fechado, mas voltou a abrir porque reconheceu dois dos três homens que tocaram. Tinham almoçado ali várias vezes desde a semana anterior e impressionavam o pessoal pela sua amabilidade e pelo seu humor, e até pelas gorjetas de trinta por cento que deixavam aos empregados. Naquela noite, porém, foram diferentes. Assim que Marina abriu a porta imobilizaram-na com uma chave-mestra e arrastaram-na do local. Ela conseguiu agarrar-se com um braço a um poste de luz e começou a gritar. Um dos assaltantes deu-lhe uma joelhada na coluna vertebral que lhe cortou a respiração. Levaram-na sem sentidos num Mercedes 190 azul dentro do porta-bagagens preparado para respirar.

Luis Guillermo Pérez Montoya, um dos sete filhos de Marina, de quarenta e oito anos, alto executivo da Kodak na Colômbia, fez a mesma interpretação de toda a gente: a mãe tinha sido sequestrada como represália pelo não cumprimento por parte do Governo dos acordos entre Germán Montoya e os extraditáveis. Desconfiado por natureza de tudo o que tivesse a ver com o mundo oficial, impôs-se a si próprio a tarefa de libertar a mãe tratando directamente com Pablo Escobar.

 

Sem qualquer orientação, sem contacto prévio com ninguém, sem saber sequer o que fazer quando chegasse, viajou dois dias depois até Medellín. No aeroporto apanhou um táxi no qual disse ao motorista sem quaisquer outras indicações que o levasse para a cidade. A realidade saiu-lhe ao encontro quando viu abandonado à beira da estrada o cadáver de uma adolescente de uns quinze anos, com boa roupa de cores festivas e uma maquilhagem escabrosa. Tinha um buraco, de onde saía um fio de sangue seco, na testa. Luis Guillermo, sem acreditar no que os seus olhos viam, apontou com o dedo.

 

- Está ali uma rapariga morta.

 

- Sim - disse o motorista sem olhar. - São as bonecas que andam nas festas com os amigos de Dom Pablo.

 

O incidente fez quebrar o gelo. Luis Guillermo revelou ao motorista o propósito da sua visita, e ele deu-lhe as chaves para se encontrar com a suposta filha de uma prima direita de Pablo Escobar. detrás do mercado disse-lhe ele.

 

- Vai hoje às oito à igreja que fica por detrás do mercado – disse-lhe. – Vai lá chegar uma rapariga que se chama Rosalía.

 

Lá estava ela, efectivamente, à sua espera, sentada num banco da praça. Era quase uma menina, mas o seu comportamento e a segurança das suas palavras eram de uma mulher madura e bem instruída. Para começar, disse-lhe, deveria levar meio milhão de pesos em dinheiro. Indicou-lhe o hotel onde deveria alojar-se na quinta-feira seguinte, e esperar uma chamada telefónica às sete da manhã ou às sete da noite de sexta-feira.

 

- A pessoa que te vai telefonar chama-se Pita – precisou.

 

Esperou em vão dois dias e parte do terceiro. Por fim apercebeu-se do logro e agradeceu o facto de Pita não ter telefonado para lhe pedir o dinheiro. Foi tanta a sua discrição, que a sua mulher não soube daquelas viagens nem dos seus resultados deploráveis senão quatro anos depois, quando ele lho contou pela primeira vez para esta reportagem.

 

Quatro horas depois do sequestre de Marina Montoya, um jipe e um Renault 18 bloquearam pela frente e por detrás o automóvel do chefe de redacção de El Tiempo, Francisco Santos, numa rua secundária do bairro de Las Ferias, a ocidente de Bogotá. O dele era um jipe vermelho de aparência banal, mas era blindado de origem, e os quatro assaltantes que o rodearam não só levavam pistolas de nove milímetros e metralhadoras Mini Uzis com silenciador, como um deles tinha um maço especial para partir vidros. Nada disso foi necessário. Pacho, discutidor incorrigível, antecipou-se a abrir a porta para falar com os assaltantes. «Preferia morrer a não saber o que se passava», disse ele. Um dos sequestradores imobilizou-o com uma pistola na testa e obrigou-o a sair do carro com a cabeça baixa. Outro abriu a porta da frente e disparou três tiros: um desviou-se contra os vidros, e dois perfuraram o crânio ao motorista, Oromansio Ibáñez, de trinta e oito anos. Pacho não se apercebeu. Dias depois, recapitulando o assalto, recordou ter ouvido o zumbido das três balas amortecidas pelo silenciador.

 

Foi uma operação tão rápida, que não chamou a atenção no meio do trânsito agitado da terça-feira. Um agente da polícia encontrou o cadáver a perder sangue no banco da frente do carro abandonado; pegou no radiotelefone, e no mesmo instante ouviu no outro lado uma voz meio perdida nas galáxias.

 

- Está lá?

 

- Quem fala? - perguntou o agente.

 

- Aqui, El Tiempo.

 

A notícia saiu para o ar dez minutos depois. Na realidade, o sequestro estava preparado há quatro meses, mas esteve quase a fracassar pela irregularidade das deslocações imprevisíveis de Pacho Santos. Pelos mesmos motivos, quinze anos antes, o M-19 havia desistido de sequestrar o seu pai, Hernando Santos.

 

Desta vez tinham sido previstos até os mínimos pormenores. Os carros dos sequestradores, surpreendidos por um engarrafamento de automóveis na Avenida Boyacá, perto da Rua 80, fugiram por cima dos passeios e perderam-se nos recantos de um bairro popular. Pacho Santos ia sentado entre dois sequestradores, com os olhos tapados por uns óculos escurecidos com verniz das unhas, mas seguiu de memória as voltas e reviravoltas do carro, até que entrou aos solavancos numa garagem. Pelo percurso e pela duração, formou um cálculo do bairro em que estavam.

 

Um dos sequestradores levou-o pelo braço até ao fim de um corredor. Subiram até um segundo andar, viraram à esquerda, caminharam uns cinco passos, e entraram num sítio gelado. Ali tiraram-lhe os óculos. Então viu-se num quarto sombrio, com as janelas entaipadas e um foco solitário no tecto. Os únicos móveis eram uma cama de casal cujos lençóis pareciam demasiado usados, uma mesa com um rádio portátil e um televisor.

 

Pacho deu-se conta de que a pressa dos seus raptores não tinha sido só por razões de segurança, mas sim para chegarem a tempo para o jogo de futebol entre Santafé e Caldas. Para tranquilidade de todos deram-lhe uma garrafa de aguardente, deixaram-no sozinho com o seu rádio, e foram ouvir o jogo no andar de baixo. Ele bebeu-a até metade em dez minutos, e não sentiu que lhe fizesse efeito, mas deu-lhe ânimo para ouvir o jogo pela rádio. Fanático do Santafé desde menino, não conseguiu saborear a aguardente devido à raiva por causa do empate: dois a dois. No fim, viu-se no telejornal das nove e meia numa gravação de arquivo, vestido com um smoking e rodeado de rainhas de beleza. Só então ficou a saber da morte do seu motorista.

 

Depois dos noticiários, entrou um guarda com um capuz de lã, que o obrigou a tirar a roupa e a vestir um fato de treino cinzento que parecia ser a farda nas prisões dos extraditáveis. Tentou também tirar-lhe a bomba para a asma que levava no bolso do casaco, mas Pacho convenceu-o de que para ele era uma coisa de vida ou de morte. O encapuçado explicou-lhe as regras do cativeiro: podia ir à casa de banho do corredor, ouvir rádio e ver televisão sem restrições, mas com o volume normal. Depois obrigou-o a deitar-se, e amarrou-o à cama pelo tornozelo com uma corda.

 

O guarda estendeu um colchão no chão, paralelo à cama, e um momento depois começou a ressonar com um assobio intermitente. A noite tornou-se densa. Na escuridão, Pacho tomou consciência de que aquela era apenas a primeira noite de um futuro incerto no qual tudo podia acontecer. Pensou em María Victoria - conhecida Pelos seus amigos como Mariavé -, a sua mulher, bonita, inteligente e de grande carácter, com quem então tinha dois filhos, Benjamim de vinte meses e Gabriel de sete. Um galo cantou na vizinhança, e Pacho ficou surpreendido com o seu relógio disparatado. «Um galo que canta às dez da noite tem de estar louco», pensou. É um homem emocional, impulsivo e de lágrima fácil: cópia fiel de seu pai Andrés Escabi, o marido da sua irmã Juanita, tinha morrido num avião que rebentou no ar devido a uma bomba dos extraditáveis. No meio da emoção familiar, Pacho disse uma frase que fez estremecer todos: «Um de nós não vai estar vivo em Dezembro.» Na noite do sequestro, porém, não sentiu que fosse a última, Pela primeira vez os seus nervos eram uma quietação, e sentia-se seguro de sobreviver. Pelo ritmo da respiração, apercebeu-se de que o guarda estendido a seu lado estava acordado. Perguntou-lhe:

 

- Estou nas mãos de quem?

 

- Em que mãos prefere - perguntou o guarda: - da guerrilha ou do tráfico de droga?

 

- Penso que estou nas mãos de Pablo Escobar - respondeu Pacho, - Exactamente - disse o guarda, e corrigiu a seguir: - nas mãos dos extraditáveis.

 

A notícia estava no ar. Os operadores da central telefónica de El Tiempo tinham ligado aos familiares mais próximos, e estes a outros e a outros, até ao fim do mundo. Por uma série de casualidades estranhas, uma das últimas a saber na família foi a mulher de Pacho. Minutos depois do sequestro telefonara-lhe o seu amigo Juan Gabriel Uribe, que ainda não tinha bem a certeza do que acontecera, e só teve coragem para lhe perguntar se Pacho tinha chegado a casa. Ela disse-lhe que não, e Juan Gabriel não conseguiu dar-lhe a notícia ainda por confirmar. Minutos depois telefonou Enrique Santos Calderón, primo direito do seu marido e subdirector de El Tiempo.

 

- Já sabes aquilo de Pacho? - perguntou-lhe.

 

María Victoria julgou que ele falava de outra notícia que ela conhecia já, e que tinha algo a ver com o seu marido.

 

- Claro - disse ela.

 

Enrique despediu-se a toda a pressa para continuar a telefonar a outros familiares. Anos depois, comentando o equívoco, María Victoría disse: «Isso aconteceu-me por ter a mania que sei tudo.» Dali a instantes voltou a telefonar Juan Gabriel e contou-lhe tudo: tinham matado o motorista e levado Pacho.

 

O presidente Gaviria e os seus conselheiros mais próximos estavam a rever uns anúncios de televisão para promover a campanha eleitoral da Assembleia Constituinte quando o seu conselheiro de Imprensa, Mauricio Vargas, lhe disse ao ouvido: «Sequestraram Pachito Santos.» A projecção não foi interrompida. O presidente, que precisa de óculos para ver televisão, tirou-os para olhar para Vargas.

 

- Mantenham-me informado - disse-lhe.

 

Pôs os óculos e continuou a ver a projecção. O seu amigo íntimo, Alberto Casas Santamaría, ministro das Comunicações, que estava ao seu lado, conseguiu ouvir a notícia e transmitiu-a de orelha a orelha aos conselheiros presidenciais. Um estremecimento sacudiu a sala. Mas o presidente não pestanejou, de acordo com uma norma da sua maneira de ser que ele expressa com uma regra escolar: «É preciso terminar esta tarefa.» No fim da projecção voltou a tirar os óculos, guardou-os no bolso do peito, e ordenou a Mauricio Vargas:

 

- Ligue a Rafael Pardo e diga-lhe que convoque para agora mesmo o Conselho de Segurança.

 

Entretanto, promoveu um intercâmbio de opiniões sobre os anúncios, como estava previsto. Só quando houve uma decisão deixou ver o impacte que lhe tinha causado a notícia do sequestro. Meia hora depois entrou no salão onde já o esperava a maioria dos membros do Conselho de Segurança. Mal tinham começado, quando Mauricio Vargas entrou em bicos de pés e lhe disse ao ouvido:

 

- Sequestraram Marina Montoya.

 

Na realidade, havia ocorrido às quatro da tarde – antes do sequestro de Pacho - mas a notícia tinha precisado de outras quatro horas para chegar ao presidente.

 

Hernando Santos Castillo, o pai de Pacho, dormia há três horas a dez mil quilómetros de distância, num hotel de Florença, Itália. Num quarto contíguo estava a sua filha Juanita, e noutro a sua filha Adriana com o seu marido. Todos tinham recebido a notícia por telefone, e decidiram não acordar o pai, Mas o seu sobrinho Luis Fernando telefonou-lhe directamente de Bogotá, com o preâmbulo mais cauteloso que lhe ocorreu para acordar um tio de sessenta e oito anos com cinco bypasses no coração.

 

- Tenho uma notícia muito má - disse-lhe.

 

Hernando, é claro, imaginou o pior, mas manteve-se impassível.

 

- O que é que aconteceu?

 

- Pacho foi sequestrado.

 

A notícia de um sequestro, por mais dura que seja, não é tão irremediável como a de um assassínio, e Hernando respirou aliviado. «Bendito seja Deus», disse, e a seguir mudou de tom:

 

- Calma. Vamos ver o que podemos fazer.

 

Uma hora depois, na madrugada fragrante do Outono toscano, todos empreenderam a longa viagem de regresso à Colômbia.

 

A família Turbay, angustiada pela falta de notícias de Diana uma semana depois da sua viagem, solicitou uma diligência oficiosa do Governo através das principais organizações guerrilheiras. Uma semana depois da data em que Diana devia ter regressado, o seu marido, Miguel Uribe, e o parlamentar Alvaro Leyva, fizeram uma viagem confidencial à Casa Verde, o quartel-general das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na cordilheira oriental. Dali puseram-se em contacto com a totalidade das organizações armadas para tentar estabelecer se Diana estava com alguma delas. Sete negaram-no num comunicado conjunto.

 

Sem saber a que ater-se, a Presidência da República alertou a opinião pública contra a proliferação de comunicados falsos, e pediu que não acreditassem mais neles do que nas informações do Governo. Mas a verdade grave e amarga era que a opinião pública acreditava sem reservas nos comunicados dos extraditáveis, e por isso toda a gente deu um suspiro de alívio a 30 de Outubro - sessenta e um dias depois do sequestro de Diana Turbay e quarenta e dois do de Francisco Santos - quando aqueles dissiparam as últimas dúvidas com uma só frase: «Aceitamos publicamente ter em nosso poder os jornalistas desaparecidos.» Oito dias depois foram sequestradas Maruja Pachón e Beatriz Villamizar. Havia razões de sobra para pensar que a escalada tinha uma perspectiva ainda muito mais ampla.

 

No dia a seguir ao desaparecimento de Diana e da sua equipa, e quando ainda não existia nem a mínima suspeita de que tinham sido sequestradas, o célebre director do noticiário da Caracol Radio, Yamid Amat, foi interceptado por um comando de sicários numa rua do centro de Bogotá, depois de vários dias a seguirem-no. Amat escapou-se-lhes das mãos graças a uma manobra atlética que os apanhou de surpresa, e salvou-se, ninguém sabe como, de um tiro que lhe deram nas costas. Com uma diferença de horas, a filha do ex-presidente Belisario Betancur, María Clara - na companhia da sua filha Natalia, de doze anos - conseguiu escapar no seu automóvel quando outro comando de sequestros lhe bloqueou a passagem num bairro residencial de Bogotá. A única explicação destes dois fracassos é que os sequestradores tiveram instruções determinantes para não matarem as suas vítimas.

 

Os primeiros que haviam sabido de fonte segura quem é que tinha Maruja Pachón e Beatriz Villamizar foram Hernando Santos e o ex-presidente Turbay, porque o próprio Escobar o mandou dizer por escrito através de um dos seus advogados quarenta e oito horas depois do sequestro: «Podes dizer-lhes que o grupo tem consigo Pachón.» A 12 de Novembro houve outra confirmação por uma carta com uma nota dos extraditáveis a Juan Gómez Martínez director do diário El Colombiano de Medellín, que várias vezes tinha mediado com Escobar em nome do Grupo dos Notáveis. «A detenção da jornalista Maruja Pachón», dizia a carta dos extraditáveis, «é uma resposta nossa às torturas e sequestros perpetrados na cidade de Medellín nos últimos dias por parte do próprio organismo de segurança do Estado muitas vezes mencionado em anteriores comunicados nossos.» E expressavam uma vez mais a sua determinação de não libertarem nenhum refém enquanto aquela situação continuasse.

 

O doutor Pedro Guerrero, o marido de Beatriz, esmagado desde o princípio por uma impotência absoluta face a factos que o ultrapassavam, decidiu fechar o seu gabinete de psiquiatra. «Como é que eu ia receber pacientes se estava pior do que eles», disse. Sofria crises de angústia que não quis transmitir aos filhos. Não tinha um instante de sossego, consolava-se com os uísques do entardecer, e passeava as insónias ouvindo em Radio Recuerdo os boleros de lágrimas dos enamorados. «Meu amor», cantava alguém. «Se me ouves, responde-me.»

 

Alberto Villamizar, consciente desde o princípio de que o sequestro da sua mulher e da sua irmã era um elo de uma cadeia sinistra, cerrou fileiras com as famílias dos outros sequestrados. Mas a primeira visita a Hernando Santos foi desanimadora. Acompanhado de Gloria Pachón de Galán, sua cunhada, encontraram Hernando caído num sofá e num estado de desmoralização total. «Para o que estou a preparar-me é para sofrer o menos possível quando matarem Francisco», disse-lhes de entrada. Villamizar tentou esboçar um projecto de negociação com os sequestradores, mas Hernando desencorajou-o com uma displicência irreparável.

 

- Não seja ingénuo, meu filho - disse-lhe -, você não faz a menor ideia de como são estes tipos. Não há nada a fazer.

 

O ex-presidente Turbay não foi mais animador. Sabia por fontes diversas que a sua filha estava em poder dos extraditáveis, mas tinha resolvido não o reconhecer em público enquanto não soubesse exactamente o que é que pretendiam. A um grupo de jornalistas que lhe tinham feito a pergunta na semana anterior evitou-os com uma verónica audaciosa.

 

- O meu coração diz-me - afirmou-lhes - que Diana e os seus colaboradores estão demorados devido ao seu trabalho jornalístico, mas que não se trata de uma retenção.

 

Era um estado de desilusão explicável ao fim de três meses de diligências estéreis. Villamizar assim o entendeu, e em vez de se contagiar pelo pessimismo dos outros imprimiu um espírito novo à diligência comum.

 

Um amigo a quem tinham perguntado naquela altura como era Villamizar, definira-o de uma assentada: «É um grande companheiro de copos.» Villamizar aceitara aquilo de bom grado, como um mérito invejável e pouco comum. No entanto, no próprio dia do sequestro da sua mulher tinha tomado consciência de que era também um mérito perigoso na sua situação, e decidiu não voltar a beber um gole que fosse em público enquanto as suas sequestradas não estivessem livres. Como bom bebedor social sabia que o álcool baixa as defesas, solta a língua e altera de algum modo o sentido da realidade. É um risco para alguém que deve medir em milímetros cada um dos seus actos e das suas palavras. De forma que o rigor que impôs a si próprio não foi uma penitência, mas sim uma medida de segurança. Não voltou a nenhuma festa, e disse adeus às suas horas de boémia e às suas borgas políticas. Nas noites de mais altas tensões emocionais o seu filho Andrés ouvia-lhe os desabafos com um copo de água mineral enquanto ele se consolava com um gole solitário.

 

Nas reuniões com Rafael Pardo estudaram-se procedimentos alternativos, mas tropeçavam sempre com a política do Governo, que de qualquer modo deixava aberta a ameaça da extradição. Ambos sabiam além disso que esta era o instrumento de pressão mais forte para que os extraditáveis se entregassem, e o presidente utilizava-a com tanta convicção como a utilizavam os extraditáveis para não se entregarem.

 

Villamizar não possuía uma formação militar, mas tinha sido criado perto dos quartéis. O doutor Alberto Villamizar Flórez, seu pai, fora durante anos o médico da Guarda Presidencial, e estava muito vinculado à vida dos seus oficiais. O seu avô, o general Joaquín Villamizar, tinha sido ministro da Guerra. Um tio seu, o general Jorge Villamizar Flórez, havia sido comandante-geral das Forças Armadas. Alberto herdou deles o duplo carácter de militar e santanderiano, ao mesmo tempo cordial e autoritário, sério e folião, que põe os pontos nos is, que diz o que tem a dizer sempre a direito e nunca na vida tratou ninguém por tu. Porém, prevaleceu nele a imagem do pai e fez o curso completo de medicina na Universidade Javeriana, mas nunca se doutorou, arrastado pelos ventos irremediáveis da política. Não é por ser militar, mas sim santanderiano puro e simples que traz sempre consigo uma Smith & Wesson 38 curta, que gostaria de nunca usar. De qualquer modo, armado ou desarmado, as suas duas maiores virtudes são a determinação e a paciência. Que à simples vista parecem contraditórias, mas a vida demonstrou-lhe que não o são. Com semelhante património, Villamizar tinha arrojo de sobra para tentar uma solução armada dos sequestros, mas rejeitou-a enquanto não se chegasse a um extremo de vida ou de morte.

 

De modo que a única coisa que vislumbrava no fim de Novembro era enfrentar Escobar e negociar como santanderiano e antioquense, duro e de igual para igual. Uma noite, cansado de tantas idas e vindas, disse tudo a Rafael Pardo. Este entendeu a angústia, mas a sua resposta foi pontual.

 

- Oiça uma coisa, Alberto - disse-lhe com o seu estilo sóbrio e directo: - use os processos que quiser, tente o que puder, mas se o que quer é continuar com a nossa colaboração deve saber que não pode ir para além da política de submissão. Nem um passo, Alberto. As coisas são assim muito claras.

 

Nenhuma outra virtude teria servido tanto a Villamizar como a sua determinação e a sua paciência para se esquivar às contradições internas que aquelas condições lhe colocavam. Isto é: actuar como quisesse, com imaginação e à sua vontade, mas sempre com as mãos atadas.

 

Maruja abriu os olhos e recordou um velho adágio espanhol: «Que não nos dê Deus o que somos capazes de suportar.» Tinham, decorrido dez dias desde o sequestro, e tanto Beatriz como ela começavam a acostumar-se a uma rotina que na primeira noite lhes pareceu inconcebível. Os sequestradores tinham-lhes reiterado frequentemente que aquela operação era militar, mas o regime de cativeiro era pior do que prisional. Só podiam falar de assuntos urgentes e sempre em sussurros. Não podiam levantar-se do colchão, que lhes servia de cama comum, e tudo o que precisavam tinham de pedir aos dois guardas que não as perdiam de vista nem quando estavam a dormir: autorização para se sentarem, para esticar as pernas, para falar com Marina, para fumar. Maruja tinha de tapar a boca com uma almofada para amortecer os ruídos da tosse.

 

A cama única era a de Marina, iluminada de dia e de noite por um castiçal eterno. Paralelo à cama estava o colchão estendido no chão, onde dormiam Maruja e Beatriz, uma para os pés outra para a cabeceira, como os peixinhos do zodíaco, e com um só cobertor para as duas. Os guardas velavam sentados no chão e recostados na parede. O seu espaço era tão estreito que se esticassem as pernas os pés ficavam-lhes sobre o colchão das cativas. Viviam na penumbra porque a única janela estava entaipada. Antes de dormir, tapavam com trapos a fenda da única porta para que no resto da casa não se visse a luz do castiçal de Marina. Não havia outra luz nem de dia, nem de noite, excepto o brilho do televisor, porque Maruja quis tirar o foco azul que lhes dava a todos uma palidez terrível. O quarto fechado e sem ventilação ficava saturado de um calor pestilento. As piores horas eram desde as seis até às nove da manhã, em que as, cativas permaneciam acordadas, sem ar, sem nada para beber nem comer, esperando que destapassem a fenda da porta para começarem a respirar. O único consolo para Maruja e Marina era o fornecimento pontual de uma cafeteira de café e um maço de cigarros de cada vez que o pediam. Para Beatriz, especialista em terapia respiratória, o fumo acumulado no quartinho era uma desgraça. No entanto, suportava-o em silêncio por as outras ficarem tão felizes. Marina, com o seu cigarro e a sua chávena de café, exclamou uma vez: «como vai ser bom quando estivermos as três juntas em minha casa, fumando e bebendo o nosso cafezinho, e a rirmo-nos destes dias horríveis.» Nesse dia, em vez de sofrer, Beatriz lamentou não fumar.

 

O facto de estarem as três na mesma prisão pode ter sido uma solução de emergência, porque a casa para onde as levaram primeiro deve ter ficado imprestável quando o táxi com que chocaram revelou o rumo dos sequestradores. Só assim se percebia a mudança de última hora, e a miséria de haver só uma cama estreita, um colchão simples para duas, e menos de seis metros quadrados para as três reféns e os dois guardas de serviço. Marina também tinha sido levada de outra casa - ou de outra quinta, como ela dizia - porque as bebedeiras e a desordem dos guardas da primeira onde a tiveram tinham posto em perigo toda a organização. Em todo o caso, era inconcebível que uma organização tão poderosa não tivesse um mínimo de coração para manter os seus sequazes e as suas vítimas em condições humanas.

 

Não faziam a menor ideia donde estavam. Pelos barulhos sabiam que havia muito perto uma estrada para camiões pesados. Também parecia haver um estabelecimento, com álcool e música, que permanecia aberto até tarde. Às vezes ouvia-se um altifalante que tanto convocava para actos políticos ou religiosos como transmitia concertos comoventes. Em várias ocasiões ouviram as palavras de ordem das campanhas eleitorais para a próxima Assembleia Constituinte. Com mais frequência ouviam-se zumbidos de aviões pequenos que descolavam e aterravam a pouca distância, o que fazia pensar que estavam para os lados de Guaymaral, um aeroporto para aviões de pista curta a vinte quilómetros a norte de Bogotá. Maruja, familiarizada desde menina com o clima da savana, sentia que o frio do seu quarto não era de campo aberto, mas sim de cidade. Além disso, as precauções excessivas dos guardas só eram compreensíveis estando num núcleo urbano.

 

O mais surpreendente era o estrondo ocasional de um helicóptero tão próximo que parecia em cima da casa. Marina Montoya dizia que nele vinha um oficial do exército responsável pelos sequestros. Com o passar dos dias acabariam por se acostumar àquele ruído, pois nos meses que durou o cativeiro o helicóptero aterrou pelo menos uma vez por mês, e as reféns não duvidaram que tinha a ver com elas.

 

Era impossível distinguir os limites entre a verdade e a contagiosa fantasia de Marina. Dizia que Pacho Santos e Diana Turbay estavam noutros quartos da mesma casa, e que o militar do helicóptero se ocupava dos três casos ao mesmo tempo durante cada visita. Numa dada altura ouviram uns ruídos alarmantes no pátio. O criado insultava a sua mulher entre ordens atropeladas de que o tirassem daqui, que o trouxessem para cá, que o voltassem para cima, como se tentassem meter um cadáver onde não cabia. Marina, nos seus delírios tenebrosos, pensou que talvez tivessem esquartejado Francisco Santos e estivessem a enterrá-lo aos bocados debaixo das lajes da cozinha. «Quando começam as matanças não param», dizia. «As próximas seremos nós.» Foi uma noite de espantos, até que souberam por acaso que tinham mudado de sítio uma máquina de lavar antiga que os quatro não conseguiam carregar.

 

De noite o silêncio era total. Só interrompido por um galo louco sem sentido das horas que cantava quando queria. Ouviam-se os latidos no horizonte, e um muito perto que lhes pareceu de um cão de guarda amestrado. Maruja começou mal. Enroscou-se no colchão, fechou os olhos, e durante vários dias não voltou a abri-los senão o indispensável tentando pensar com clareza. Não é que conseguisse dormir oito horas seguidas, dormia até só meia hora, e ao acordar dava outra vez de caras com a angústia que na realidade a oprimia. Era um medo permanente: a sensação física de um cordão esticado no estômago, sempre prestes a rebentar para se tornar pânico. Maruja passava o filme completo da sua vida para se agarrar às boas recordações, mas as ingratas impunham-se sempre. Numa das três viagens que tinha feito à Colômbia a partir de Jacarta, Luis Carlos Galán pedira-lhe durante um almoço privado que o ajudasse na direcção da sua próxima campanha presidencial. Ela fora a sua assessora de imagem numa campanha anterior, tinha viajado com a sua irmã Gloria por todo o país, haviam celebrado triunfos, ultrapassado derrotas e contornado riscos, de forma que a oferta era lógica. Maruja sentiu-se justificada e satisfeita. Mas no fim do almoço notou em Galán um gesto indefinido, uma luz sobrenatural: a clarividência instantânea e certeira de que iam matá-lo. Foi algo tão revelador que convenceu o marido a regressar à Colômbia, apesar de o general Maza Márquez o ter prevenido sem qualquer explicação dos riscos de morte que o esperavam. Oito dias antes do regresso foram despertados em Jacarta pela notícia de que Galán tinha sido assassinado.

 

Aquela experiência deixou-lhe uma tendência depressiva que se agudizou com o sequestro. Não encontrava algo a que se agarrar para escapar à ideia de que também a ela a espreitava um perigo mortal. Recusava-se a falar ou a comer. Incomodava-a a Indolência de Beatriz e a brutalidade dos encapuçados, e não suportava a submissão de Marina e a sua identificação com o regime dos sequestradores. Parecia mais um carcereiro que a chamava à ordem se ressonava, se tossia a dormir, se se mexia mais que o indispensável. Maruja punha um copo aqui e Marina apressava-se a tirá-lo, assustada: «Cuidado!» E punha-o noutro lado. Maruja enfrentava-a com um grande desdém. «Não se preocupe», dizia-lhe. «Você não é quem manda aqui.» Para cúmulo dos males, os guardas viviam preocupados porque Beatriz passava o dia a escrever pormenores do cativeiro para os contar ao marido e aos filhos quando saísse em liberdade. Também tinha feito uma longa lista de tudo o que lhe parecia abominável no quarto, e teve de desistir quando não encontrou nada que não o fosse. Os guardas tinham ouvido dizer pela rádio que Beatriz era fisioterapeuta, e confundiram com psicoterapeuta, de forma que a proibiram de escrever com medo que estivesse a elaborar um método científico para os enlouquecer.

 

A degradação de Marina era compreensível. A chegada das outras duas reféns deve ter sido para ela como uma intromissão insuportável num mundo que já tinha feito seu, e só seu, depois de quase dois meses na antecâmara da morte. A sua relação com os guardas, que chegara a ser muito profunda, alterou-se devido a elas, e em menos de duas semanas recaiu nas dores e nas solidões intensas de outras épocas que tinha conseguido superar.

 

Contudo, nenhuma noite pareceu a Maruja tão atroz como a primeira. Foi interminável e gelada. À uma da madrugada a temperatura em Bogotá - segundo o Instituto de Meteorologia - tinha sido de entre treze e quinze graus, e chuviscara no Centro e para os lados do aeroporto. Maruja tinha sido vencida pelo cansaço. Começou a ressonar assim que adormeceu, mas era acordada a cada instante pela sua tosse de fumadora, persistente e indómita, e agravada pela humidade das paredes que desprendiam uma humidade de gelo ao amanhecer. Cada vez que tossia ou ressonava, os guardas batiam-lhe com o calcanhar na cabeça. Marina apoiava-os com um medo incontrolável, e ameaçava Maruja dizendo que a iam amarrar ao colchão para que não se mexesse tanto, ou amordaçá-la para que não ressonasse.

 

Marina deu a ouvir a Beatriz os noticiários da rádio do amanhecer. Foi um erro. Na primeira entrevista com Yamid Amat, da Caracol Radio, o doutor Pedro Guerrero proferiu um chorrilho de insultos e desafios contra os sequestradores. Intimou-os a que se portassem como homens e dessem a cara. Beatriz sofreu uma crise de pavor, convencida de que aqueles insultos recairiam sobre elas.

 

Dois dias depois, um chefe bem vestido, com um corpanzil encaixado num metro e noventa abriu a porta com um pontapé e entrou no quarto como um vendaval. O seu fato impecável de lã tropical, os seus sapatos italianos e a sua gravata de seda amarela não condiziam com os seus modos rupestres. Atirou dois ou três impropérios aos guardas e irritou-se com o mais tímido a quem os companheiros chamavam Lamparón. «Dizem-me que você é muito nervoso», disse-lhe, «pois aviso-o que aqui os nervosos morrem.» E a seguir dirigiu-se a Maruja sem a menor consideração:

 

- Soube que ontem à noite incomodou muito, que faz barulho, que tosse.

 

Maruja respondeu-lhe com uma calma exemplar que podia muito bem confundir-se com desprezo.

 

- Ressono a dormir e não me apercebo - disse-lhe. - Não posso impedir a tosse porque o quarto é gelado e as paredes escorrem água de madrugada.

 

O homem não estava para queixas.

 

- E você julga que pode fazer o que lhe dá na real gana? –gritou. -

Pois se volta a ressonar ou a tossir de noite podemos fazer-lhe voar a cabeça com um balázio. - Depois dirigiu-se também a Beatriz. - E também aos vossos filhos ou aos vossos maridos. Conhecemo-los a todos e temo-los bem localizados.

 

- Faça o que quiser - disse Maruja. - Não posso fazer nada para não ressonar. Se quiserem matem-me.

 

Era sincera, e com o tempo haveria de se aperceber de que fazia bem. O trato duro desde o primeiro dia estava nos métodos dos sequestradores para desmoralizar os reféns. Beatriz, em compensação, ainda impressionada pela raiva do marido na rádio, foi menos altiva.

 

- Porque é que mete aqui os nossos filhos, que nada têm a ver com isto? - disse, à beira das lágrimas. - O senhor não tem filhos?

 

Ele respondeu que sim, talvez enternecido, mas Beatriz tinha perdido a batalha: as lágrimas não a deixaram prosseguir. Maruja, já calma, disse ao chefe que se realmente queriam chegar a um acordo falassem com o seu marido.

 

Pensou que o encapuçado tinha seguido o conselho porque no domingo reapareceu diferente. Levou os jornais do dia com declarações de Alberto Villamizar para conseguir um bom acordo com os sequestradores. Estes, segundo parece, começavam a actuar em conformidade. O chefe, pelo menos, estava tão satisfeito que pediu às reféns para fazerem uma lista das coisas indispensáveis: sabonetes, escovas e pasta de dentes, cigarros, creme para a pele e alguns livros. Parte do pedido chegou no próprio dia, mas alguns dos livros receberam-nos quatro meses depois. Com o tempo foram acumulando todo o tipo de estampas e recordações do Menino Jesus e de Nossa Senhora Auxiliadora, que os diferentes guardas lhes levavam ou lhes deixavam de recordação quando se despediam ou quando voltavam dos seus descansos. Dez dias depois tinham já uma rotina doméstica. Os sapatos eram guardados debaixo da cama, e era tanta a humidade do quarto que tinham de os tirar para o pátio de vez em quando para que secassem. Só conseguiam caminhar com umas meias de homem que lhes haviam dado no primeiro dia, de lã grossa e de cores diferentes, e usavam dois pares ao mesmo tempo para que não se ouvissem os passos. A roupa que levavam na noite do sequestro tinha sido confiscada, e distribuíram-lhes fatos de treino- um cinzento e outro cor-de-rosa a cada uma -, com os quais viviam e dormiam, e dois jogos de roupa interior que lavavam no duche. A princípio dormiam vestidas. Mais tarde, quando tiveram uma camisa de dormir, punham-na por cima do fato de treino nas noites muito frias. Também lhes deram um saco para guardar os seus escassos bens pessoais: o fato de treino de reserva e as meias limpas, as mudas de roupa interior, os pensos higiénicos, os remédios, os utensílios de toucador.

 

Havia uma única casa de banho para as três e os quatro guardas. Elas tinham de a usar com a porta encostada, mas sem trinco, e não podiam demorar mais de dez minutos no duche, mesmo quando tinham de lavar a roupa. Permitiam-lhes fumar todos os cigarros que lhes davam, que para Maruja era mais de um maço por dia, e mais ainda para Marina. No quarto havia um televisor e um rádio portátil da casa para que as reféns ouvissem notícias ou os guardas música. Escutavam as informações da manhã com o volume baixo, como que às escondidas, e em compensação os guardas ouviam a sua música de festa com um volume tão alto como lho ditava o seu estado de humor.

 

Acendiam a televisão às nove da manhã para verem os programas educativos, depois as telenovelas, e mais dois ou três programas até aos noticiários do meio-dia. A miscelânea maior era desde as quatro da tarde até às onze da noite. O televisor permanecia aceso, como nos quartos das crianças, embora ninguém o visse. Em compensação as reféns perscrutavam os noticiários com uma atenção milimétrica para tentarem descobrir mensagens cifradas das suas famílias. Nunca souberam, é claro, quantas lhes escaparam, ou quantas frases inocentes confundiram com recados de esperança.

 

Alberto Villamizar apareceu nos diferentes noticiários de televisão oito vezes nos primeiros dois dias, com a certeza de que através de algum chegaria a sua voz às sequestradas. Além disso, quase todos os filhos de Maruja eram gente dos meios de comunicação. Alguns tinham programas de televisão com horários fixos, e utilizaram-nos para manter uma comunicação que eles supunham unilateral, e talvez inútil, mas mantiveram-na.

 

A primeira coisa que viram na quarta-feira seguinte foi o que Alexandra fez ao regressar de Guajira. O psiquiatra Jaime Gaviria, colega do marido de Beatriz e velho amigo da família, deu uma série de sábias instruções para manter o ânimo em espaços fechados. Maruja e Beatriz, que conheciam o doutor Gaviria, compreenderam o sentido do programa e tomaram nota dos seus ensinamentos.

 

Este foi o primeiro de uma série de oito programas que Alexandra tinha preparado com base numa longa conversa com o doutor Gaviria sobre a psicologia dos sequestrados. A primeira coisa era escolher os temas que agradassem a Maruja e a Beatriz e envolver neles mensagens pessoais que só elas pudessem decifrar. Alexandra decidiu então levar todas as semanas um personagem preparado para responder a perguntas intencionais que certamente suscitariam nas reféns associações imediatas. A surpresa foi que muitos telespectadores desprevenidos se aperceberam pelo menos de que algo ia envolvido na inocência das perguntas.

 

Não longe dali - dentro da mesma cidade - as condições de Francisco Santos no seu quarto de cativo eram tão abomináveis como as de Maruja e de Beatriz, mas não tão severas. Uma explicação é ter havido contra elas, além do utilitarismo político do sequestro, um propósito de vingança. É quase certo, além disso, que os guardas de Maruja e os de Pacho eram duas equipas diferentes. Mesmo que fosse apenas por motivos de segurança, actuavam separadamente e sem qualquer comunicação entre eles. Mas mesmo assim havia diferenças incompreensíveis. Os de Pacho eram mais familiares, autónomos e complacentes, e menos cuidadosos com a sua identidade. A pior condição de Pacho era que dormia acorrentado aos barrotes da cama com uma corrente metálica forrada com fita isoladora para evitar ulcerações. O pior de Maruja e Beatriz era que nem sequer tinham uma cama onde ser amarradas.

 

Pacho recebeu os jornais pontualmente desde o primeiro dia. Em geral, os relatos sobre o seu sequestro na imprensa escrita eram tão desinformados e caprichosos que fizeram os sequestradores contorcerem-se de riso. O seu horário estava já bem estabelecido quando sequestraram Maruja e Beatriz. Passava a noite em claro e adormecia por volta das onze da manhã. Via televisão, sozinho ou com os guardas, ou conversava com eles sobre as notícias do dia e, em especial, sobre os jogos de futebol. Lia até ao cansaço e ainda lhe sobrava nervos para jogar às cartas ou xadrez. A sua cama era confortável, e dormiu bem desde a primeira noite até que contraiu uma sarna urticante e um ardor nos olhos, que desapareceram apenas com a lavagem dos cobertores de algodão e com uma limpeza profunda no quarto. Nunca se preocuparam que alguém visse a luz acesa de fora, porque as janelas estavam entaipadas.

 

Em Outubro surgiu uma esperança imprevista: a ordem para se preparar para mandar à família uma prova de sobrevivência. Teve de fazer um esforço supremo para manter o domínio. Pediu uma cafeteira de café preto e dois maços de cigarros, e começou a redigir a mensagem tal como lhe saía da alma, sem corrigir uma vírgula. Gravou-a numa minicassete, que os estafetas preferiam às normais, porque eram mais fáceis de esconder. Falou tão devagar quanto foi capaz e tentou afinar a dicção e assumir uma atitude que não delatasse as sombras do seu estado de espírito. Por fim gravou os títulos maiores de El Tiempo do dia como prova da data em que emitiu a mensagem. Ficou satisfeito, sobretudo com a primeira frase: «Todas as pessoas que me conhecem sabem como esta mensagem é difícil para mim.» No entanto, quando a leu publicada, já a frio, teve a impressão que tinha posto a corda ao pescoço, devido à frase final, em que pedia ao presidente para fazer o que pudesse pela libertação dos jornalistas. «Mas claro», advertia-o, «sem passar por cima das leis e dos preceitos constitucionais, o que é benéfico não só para o país como para a liberdade de imprensa que hoje está sequestrada.» A depressão agravou-se uns dias depois quando sequestraram Maruja e Beatriz, porque entendeu isso como um sinal de que as coisas iam ser longas e complicadas. Foi esse o primeiro embrião de um plano de fuga que se ia converter nele numa obsessão irresistível.

 

As condições de Diana e da sua equipa - quinhentos quilómetros a norte de Bogotá e três meses depois do sequestro - eram diferentes das dos outros reféns, pois duas mulheres e quatro homens cativos ao mesmo tempo colocavam problemas de logística e segurança muito complexos. Na prisão de Maruja e Beatriz surpreendia a falta absoluta de indulgência. Na de Pacho Santos surpreendiam a familiaridade e a abertura dos guardas da sua própria geração. No grupo de Diana reinava um ambiente de improvisação que mantinha sequestrados e sequestradores num estado de alarme e incerteza, com uma instabilidade que tudo contaminava e aumentava o nervosismo de todos.

 

O sequestro de Diana distinguiu-se também pelo seu carácter errático. Durante o longo cativeiro os reféns foram mudados sem explicações pelo menos vinte vezes, próximo e dentro de Medellín, para casas de estilos e categorias diferentes e condições desiguais. Esta mobilidade era possível talvez porque os seus sequestradores, ao contrário dos de Bogotá, se moviam no seu meio natural, controlavam tudo e mantinham contacto directo com os seus superiores.

 

Os reféns só estiveram juntos numa mesma casa em duas ocasiões e por poucas horas. A princípio foram dois grupos: Richard, Orlando e Hero Buss numa casa, e Diana, Azucena e Juan Vitta noutra próxima. Algumas mudanças tinham sido precipitadas e imprevistas, a qualquer hora e sem tempo para recolherem as suas coisas devido ao assalto iminente da polícia, e quase sempre a pé por vertentes escarpadas e chapinhando no lodo debaixo de aguaceiros intermináveis. Diana era uma mulher forte e decidida, mas aquelas caminhadas impiedosas e humilhantes, nas condições físicas e morais do cativeiro, ultrapassavam em muito a sua resistência. Outras mudanças foram de uma naturalidade espantosa pelas ruas de Medellín, em táxis ordinários e evitando postos e patrulhas de rua. O mais duro para todos nas primeiras semanas era estarem sequestrados sem que ninguém o soubesse. Viam televisão, ouviam rádio e liam os jornais, mas não houve uma única notícia sobre o seu desaparecimento senão no dia 14 de Setembro, quando o noticiário Criptón informou sem citar a fonte que não estavam em missão jornalística com as guerrilhas, mas sim sequestrados pelos extraditáveis. Seria preciso passarem ainda várias semanas até que estes emitissem um reconhecimento formal do sequestro.

 

O responsável da equipa de Diana era um campesino inteligente e afável a quem todos chamavam Dom Pacho, sem apelidos nem quaisquer outros sinais. Tinha uns trinta anos, mas com um aspecto descansado de homem mais velho. A sua presença bastava para ter a virtude imediata de resolver os problemas pendentes da vida quotidiana e de semear esperanças no futuro. Levava presentes aos reféns, livros, caramelos, cassetes de música e punha-os ao corrente da guerra e da actualidade nacional.

 

No entanto, as suas aparições eram ocasionais e delegava mal a sua autoridade. Os guardas e estafetas eram mais caóticos, nunca estiveram encapuçados, usavam apelidos de banda desenhada cómica e levavam aos reféns - de uma casa para a outra - mensagens orais ou escritas que pelo menos lhes serviam de consolo. Logo na primeira semana compraram-lhes os fatos de treino do costume, os produtos de higiene e toucador e os jornais locais. Diana e Azucena jogavam as damas com eles, e muitas vezes ajudaram a fazer as listas do supermercado. Um disse uma frase que Azucena registou, assombrada, nas suas notas: «Com o dinheiro não se preocupem, que isso é o que mais sobra.» A princípio os guardas viviam na desordem, ouviam música no máximo volume, comiam sem horários e andavam pela casa em cuecas. Mas Diana assumiu uma liderança que pôs as coisas no seu lugar. Obrigou-os a vestirem uma roupa decente, a baixar o volume da música que lhes incomodava o sono e obrigou a sair do quarto um que pretendia dormir num colchão estendido junto à sua cama.

 

Azucena, com os seus vinte e oito anos, era calma e romântica, e não conseguia viver sem o marido depois de quatro anos a aprender a viver com ele. Sofria ondas de ciúmes imaginários e escrevia-lhe cartas de amor sabendo que ele nunca as receberia. Desde a primeira semana do sequestro manteve notas diárias de uma grande frescura e utilidade para escrever o seu livro. Trabalhava no noticiário de Diana há anos e a sua relação com ela nunca tinha sido mais que laboral, mas identificaram-se no infortúnio. Liam juntas os jornais, conversavam até ao amanhecer e tentavam dormir até à hora do almoço. Diana era uma conversadora compulsiva e Azucena aprendia com ela as lições de vida que nunca lhe teriam dado na escola.

 

Os membros da sua equipa recordam Diana como uma companheira inteligente, alegre e cheia de vida, e uma analista sagaz da política. Nas suas horas de desalento tornou-os participantes do seu sentimento de culpa por os ter comprometido naquela aventura imprevisível. «Não me importa o que me aconteça a mim», disse-lhes, «mas se vos acontecer alguma coisa nunca mais poderei viver em paz comigo mesma.» Juan Vitta, com quem tinha uma amizade antiga, inquietava-a pela sua má saúde. Era um dos que se haviam oposto à viagem com mais energia e maiores razões e, no entanto, tinha-a acompanhado recém-saído do hospital por um pré-enfarte sério. Diana não o esqueceu. No primeiro domingo do sequestro entrou a chorar no seu quarto e perguntou-lhe se não a odiava por não lhe ter dado importância. Juan Vitta respondeu-lhe com toda a franqueza. Sim: odiara-a com todo o coração quando lhes comunicaram que estavam nas mãos dos extraditáveis, mas tinha acabado por aceitar o sequestro como um destino inevitável. O rancor dos primeiros dias tinha-se convertido também com ele num sentimento de culpa por não ter sido capaz de a dissuadir.

 

Hero Buss, Richard Becerra e Orlando Acevedo tinham para já menos motivos de sobressaltos numa casa próxima. Haviam encontrado nos armários uma quantidade insólita de roupas de homem, ainda nos seus invólucros originais e com as etiquetas das grandes marcas europeias. Os guardas contaram-lhes que Pablo Escobar tinha aquelas mudas de emergência em várias casas de segurança. «Aproveitem, rapazes, e peçam o que quiserem», brincavam. «Demora um bocadinho por causa do transporte, mas em doze horas podemos satisfazer qualquer pedido.» As quantidades de comida e bebida que lhes levavam a princípio em cima duma mula parecia coisa de loucos. Hero Buss disse-lhes que nenhum alemão podia viver sem cerveja, e na viagem seguinte levaram-lhe três caixas. «Era um ambiente simples», disse Hero Buss no seu espanhol perfeito. Naquela altura convenceu um guarda a tirar uma fotografia dos três sequestrados a descascarem batatas para o almoço. Mais tarde, quando as fotografias foram proibidas noutra casa, conseguiu esconder uma câmara automática em cima do roupeiro, com a qual fez uma boa série de diapositivos a cores de Juan Vitta e de si mesmo.

 

Jogavam às cartas, ao dominó, xadrez, mas os reféns não conseguiam competir com as suas apostas irracionais e com os seus ardis de prestidigitação. Eram todos jovens. O mais novo deles podia ter uns quinze anos e sentia-se orgulhoso por já ter ganho um prémio num concurso de assassínios de polícias de dois milhões cada um. Tinham um tal desprezo pelo dinheiro, que Richard Becerra lhes vendeu uns óculos de sol e um casaco de operador de câmara por um preço com que podiam comprar cinco novos.

 

De vez em quando, em noites de frio, os guardas fumavam marijuana e brincavam com as suas armas. Duas vezes escaparam-se-lhes tiros. Um deles atravessou a porta da casa de banho e feriu um guarda no joelho. Quando ouviram pela rádio um apelo do papa João Paulo II para a libertação dos sequestrados, um dos guardas gritou:

 

E esse filho da puta porque é que tem de se meter nisto?

 

Um seu companheiro saltou indignado com o insulto e os reféns tiveram de intervir para que não se abatessem aos tiros. Salvo dessa vez, Hero Buss e Richard levavam as coisas de forma ligeira para não haver sangue. Orlando, por seu lado, pensava que estava a mais no grupo e punha-se à cabeça por direito próprio da lista de execuções.

 

Nessa altura os reféns tinham sido separados em três grupos e em três casas diferentes: Richard e Orlando numa, Hero Buss e Juan Vitta noutra, e Diana e Azucena noutra. Os dois primeiros foram levados de táxi à vista de toda a gente pelo tráfico endiabrado do centro comercial enquanto todos os serviços de segurança de Medellín os procuravam. Instalaram-nos numa casa ainda em construção e num mesmo quarto que mais parecia um calabouço de dois metros por dois, com uma casa de banho suja e sem luz e vigiado por quatro guardas. Para dormir não havia mais que dois colchões estendidos no chão. Num quarto contíguo, sempre fechado, havia outro refém pelo qual pediam - segundo contaram os guardas um resgate multimilionário. Era um mulato corpulento com uma corrente de ouro maciço ao pescoço, que estava manietado e num isolamento absoluto.

 

A casa ampla e confortável para onde levaram Diana e Azucena durante a maior parte do cativeiro parecia ser a residência privada de um grande chefe. Comiam na mesa familiar, participavam em conversas privadas, ouviam discos na moda. Entre eles, os de Rocío Durcal e Juan Manuel Serrat, de acordo com as notas de Azucena. Foi nessa casa que Diana viu um programa de televisão filmado no seu apartamento de Bogotá, pelo qual se lembrou que tinha deixado as chaves do roupeiro escondidas nalgum lado, mas não conseguiu precisar se foi detrás das cassetes de música ou detrás do televisor do quarto. Também se apercebeu então de que se tinha esquecido de fechar a caixa forte com a pressa com que saiu da última vez rumo à viagem da desgraça. «Deus queira que ninguém tenha andado lá a meter o nariz», escreveu numa carta à sua mãe. Poucos dias depois, num programa de televisão de aparência vulgar, recebeu uma resposta tranquilizadora.

 

A vida familiar não parecia mudada pelos sequestrados. Chegavam senhoras desconhecidas que as tratavam como familiares e lhes ofereciam medalhas e pagelas de santos milagrosos para que os ajudassem a sair em liberdade. Chegavam famílias inteiras com crianças e cães que esquadrinhavam pelos quartos. O pior era a impiedade do clima. As poucas vezes em que o sol aquecia não podiam sair para o apanhar porque havia sempre homens a trabalhar. Ou, talvez, guardas disfarçados de pedreiros. Diana e Azucena tiraram fotografias recíprocas, cada uma na sua cama, e não se lhes notava ainda qualquer mudança física. Noutra que tiraram a Diana três meses mais tarde estava enfraquecida e envelhecida.

 

A 19 de Setembro, quando soube dos sequestros de Marina Montoya e Francisco Santos, Diana compreendeu - sem os elementos de julgamento que se tinham fora - que o seu acto não era isolado, como pensou a princípio, mas sim uma operação política de enormes projecções em relação ao futuro para pressionar os termos da entrega. Dom Pacho confirmou-lho: tinha uma lista seleccionada de jornalistas e personalidades que seriam sequestrados à medida que fosse necessário para os interesses dos sequestradores. Foi então que decidiu escrever um diário, não tanto para narrar os seus dias, mas sim para pôr em ordem os seus estados de espírito e as suas apreciações dos factos. De tudo: episódios do cativeiro, análises políticas, observações humanas, diálogos sem resposta com a sua família ou com Deus, a Virgem e o Menino Jesus. Várias vezes fez transcrições completas de orações - entre elas o pai-nosso e a ave-maria - como uma forma original e talvez mais profunda de rezar por escrito.

 

É evidente que Diana não pensava num texto para publicar, mas sim num memorando político e humano que a própria dinâmica dos factos converteu numa dilacerante conversa consigo mesma. Escreveu-o com a sua caligrafia redonda e grande, de presença nítida, mas difícil de decifrar, que enchia por completo as entrelinhas do caderno escolar. A princípio escrevia às escondidas nas horas da madrugada, mas quando os guardas a descobriram, forneciam-lhe papel e lápis suficiente para a manterem ocupada enquanto eles dormiam.

 

A primeira anotação fê-la a 27 de Setembro, uma semana depois do sequestro de Marina e Pacho, e dizia: «Desde quarta-feira 19, dia em que veio o responsável desta operação, passaram-se tantas coisas que não tenho alento.» Interrogava-se porque é que o seu sequestro não tinha sido reivindicado pelos seus autores, e respondeu-se que talvez o fizessem para poderem assassiná-los sem escândalo público no caso de não servirem os seus propósitos. «É assim que eu o entendo e fico cheia de horror», escreveu. Preocupava-se mais com o estado dos seus companheiros do que com o seu e com as notícias de qualquer fonte que lhe permitissem tirar conclusões da sua situação. Sempre foi uma católica praticante, como toda a sua família, e em especial a mãe, e a sua devoção tornar-se-ia mais intensa e profunda com o passar do tempo, até alcançar estados de misticismo. Rogava a Deus e à Virgem por tudo o que tivesse algo a ver com a sua vida, inclusivamente por Pablo Escobar. «Talvez ele necessite mais da tua ajuda», escreveu a Deus no seu diário. «Sei do teu impulso de lhe fazeres ver o bem para que evite mais dor, e peço-te por ele para que entenda a nossa situação.»

 

O mais difícil para todos, sem dúvida, foi aprender a conviver com os guardas. Os de Maruja e Beatriz eram quatro jovens sem qualquer formação, brutos e instáveis, que se revezavam de dois em dois cada doze horas, sentados no chão e com as metralhadoras preparadas. Todos com T-shirts de propaganda comercial, sapatos de ténis e calças curtas que às vezes eram cortadas por eles mesmos com tesouras de podar. Um dos dois que entravam às seis da manhã continuava a dormir até às nove enquanto o outro vigiava, mas quase sempre ficavam a dormir os dois ao mesmo tempo. Maruja e Beatriz tinham pensado que, se um comando da polícia assaltasse a casa àquela hora, os guardas não teriam tempo de acordar.

 

A condição comum era o fatalismo absoluto. Sabiam que iam morrer novos, aceitavam isso, e só lhes interessava viver o momento. As desculpas que davam a si mesmos pelo seu ofício abominável era ajudar a sua família, comprar boa roupa, ter motocicletas, e velar pela felicidade da mãe, a quem adoravam acima de tudo e pela qual estavam dispostos a morrer. Viviam aferrados ao mesmo Menino Jesus e à mesma Nossa Senhora Auxiliadora dos seus sequestrados. Rezavam-lhes diariamente para implorar a sua protecção e a sua misericórdia, com uma devoção pervertida, pois ofereciam-lhes promessas e sacrifícios para que os ajudassem no êxito dos seus crimes. Depois da sua devoção pelos santos, tinham a do Rohypnol, um calmante que lhes permitia cometer na vida real as proezas do cinema. «Misturado com uma cerveja um tipo entra logo na onda», explicava um guarda. «Então mostra-se uma boa naifa e rouba-se um carro para passear. O que dá gosto é a cara de terror com que entregam as chaves a um tipo.» Tudo o mais odiavam: os políticos, o Governo, o Estado, a justiça, a polícia, a sociedade inteira. A vida, diziam, era uma merda.

 

A princípio foi impossível distingui-los, porque a única coisa que viam deles era o capuz, e todos lhe pareciam iguais. Isto é: um único. O tempo ensinou-lhes que o capuz esconde o rosto, mas não o carácter. Assim, conseguiram individualizá-los. Cada capuz tinha uma identidade diferente, um modo de ser próprio, uma voz irrenunciável. E mais ainda: tinha um coração. Mesmo sem o desejarem acabaram por partilhar com eles a solidão do encerramento. Jogavam às cartas e ao dominó, e ajudavam-se na solução das palavras cruzadas e enigmas das revistas antigas.

 

Marina era submissa às leis dos seus carcereiros, mas não era imparcial. Gostava de uns e detestava outros, levava e trazia entre eles comentários maliciosos de pura estirpe maternal, e acabava por armar uns enredos internos que punham em perigo a harmonia do quarto. Mas obrigava-os a todos a rezar o terço, e todos o rezavam.

 

Entre os guardas do primeiro mês havia um que sofria de uma demência súbita e recorrente. Chamavam-lhe Barrabás. Adorava Marina e fazia-lhe festas e birras. Em contrapartida, desde o primeiro dia foi um inimigo encarniçado de Maruja. De repente enlouquecia, dava um pontapé ao televisor e arremetia às cabeçadas contra as paredes.

 

O guarda mais estranho, sombrio e calado, era muito magro e de quase dois metros de altura, e punha por cima do capuz outro capuz de fato de treino azul-escuro como que de um frade louco. E assim lhe chamavam: o Monge. Permanecia um grande bocado agachado e em transe. Devia ser dos mais antigos, pois Marina conhecia-o muito bem e distinguia-o com os seus cuidados. Ele levava-lhe prendas no regresso dos seus descansos, e entre eles um crucifixo de plástico que Marina trazia pendurado ao pescoço com a mesma fita ordinária com que o recebeu. Só ela lhe vira a cara, pois antes de Maruja e Beatriz chegarem todos os guardas andavam descobertos e não faziam nada para ocultar a sua identidade. Marina interpretava isso como um indício de que não sairia viva daquela clausura. Dizia que era um adolescente bonito, com os olhos mais lindos que já vira, e Beatriz acreditava, porque as suas pestanas eram tão compridas e reviradas que lhe saíam pelos buracos do capuz. Era capaz do melhor e do pior. Foi ele quem descobriu que Beatriz usava um fio com a medalha da Virgem Milagrosa.

 

- Aqui é proibido usar fios - disse-lhe. - Tem que me dar esse.

 

Beatriz defendeu-se angustiada.

 

- O senhor não pode tirar-mo – disse-lhe. –Isso será de mau agouro, acontecer-me-à algo mau.

 

Ele ficou contagiado com a sua angústia. Explicou-lhe que as medalhas eram proibidas porque podiam ter lá dentro mecanismos electrónicos para os localizar à distância. Mas encontrou a solução:

 

- Fazemos uma coisa - propôs: - fique com o fio, mas dê-me a medalha. Desculpe, mas são as ordens que me deram.

 

Lamparón, por sua vez, tinha a obsessão de que iam matá-lo, e sofria espasmos de terror. Ouvia ruídos fantásticos, inventou que tinha na cara uma cicatriz terrível, talvez para confundir aqueles que tentassem identificá-lo. Limpava com álcool as coisas em que tocava para não deixar impressões digitais. Marina troçava dele, mas não conseguia moderar os seus delírios. De repente acordava a meio da noite. «Oiçam!», sussurrava aterrado. «Vem aí a polícia!» Uma noite apagou o castiçal e Maruja deu uma pancada brutal na porta da casa de banho. Esteve quase a perder os sentidos. Ainda por cima, Lamparón ralhou-lhe por não saber mover-se na escuridão.

 

- Não me lixe mais - atirou-lhe ela. - Isto não é um filme de detectives.

 

Os guardas também pareciam sequestrados. Não podiam andar pelo resto da casa, e as horas de descanso dormiam-nas noutro quarto fechado com um cadeado para que não fugissem. Eram todos antioquenses, conheciam mal Bogotá, e um deles contou que quando saíam de serviço, de vinte em vinte ou de trinta em trinta dias, levavam-nos vendados ou na mala do carro para que não soubessem onde estavam. Um outro temia que o matassem quando já não fosse necessário, para que levasse os seus segredos para o túmulo. Sem qualquer regularidade apareciam chefes encapuçados e mais bem vestidos, que recebiam informações e distribuíam instruções. As suas decisões eram imprevisíveis, e as sequestradas e os guardas estavam de igual modo à sua mercê.

 

O pequeno-almoço das reféns chegava à hora menos pensada: café com leite e uma empada com uma salsicha em cima. Almoçavam feijões ou lentilhas numa água cinzenta; pedacinhos de carne a nadar em gordura, uma colher de arroz e uma gasosa. Tinham de comer sentadas no colchão, pois não havia cadeiras no quarto, e só com colher, pois facas e garfos eram proibidos por normas de segurança. O jantar improvisava-se com os feijões requentados e outras sobras do almoço.

 

Os guardas diziam que o dono da casa, a quem chamavam o caseiro, ficava com a maior parte do orçamento. Era um quarentão robusto, de estatura média, cuja cara de fauno se podia adivinhar pela sua dicção fanhosa e pelos olhos injectados e mal dormidos que espreitavam pelos buracos do capuz. Vivia com uma mulher pequenina, guinchona, esfarrapada e com os dentes carcomidos. Chamava-se Damaris e cantava salsa, vallenatos e bambucos durante todo o dia muito alto e com um ouvido de artilheiro, mas com tanto entusiasmo, que era impossível não imaginar que andava a dançar sozinha com a sua própria música por toda a casa.

 

Os pratos, os copos e os lençóis continuavam a ser usados sem lavar até que as reféns protestavam. A casa de banho só podia ser usada quatro vezes por dia e permanecia fechada aos domingos em que a família saía para evitar que o descarregar da água alertasse os vizinhos. Os guardas urinavam no lavatório ou no ralo do duche. Damaris tentava encobrir a sua negligência só quando se anunciava o helicóptero dos chefes, e fazia-o à pressa, com técnicas de bombeiros, e lavando chãos e paredes com o jacto da mangueira. Via as telenovelas todos os dias até à uma da tarde, e a essa hora deitava na panela de pressão o que tivesse que cozinhar para o almoço - a carne, os legumes, as batatas, os feijões, tudo junto e remexido - e punha-a ao lume até se ouvir o assobio.

 

As suas brigas frequentes com o marido demonstravam um poder de raiva e uma imaginação para os impropérios que às vezes atingia cumes de inspiração. Tinham duas meninas, de nove e sete anos, que iam a uma escola perto, e às vezes convidavam as outras crianças a ver televisão ou para brincarem no pátio. A professora visitava-os alguns sábados, e outros amigos mais ruidosos vinham quando lhes apetecia e improvisavam festas com música. Nessa altura fechavam a porta do quarto a cadeado e obrigavam a apagar o rádio, a ver a televisão sem som e a não irem à casa de banho mesmo em casos de urgência.

 

Em finais de Outubro, Diana Turbay observou que Azucena andava preocupada e triste. Tinha passado o dia sem falar e sem vontade de partilhar fosse o que fosse. Não era estranho: a sua força de abstracção não era nada comum, sobretudo quando lia, e mais ainda se o livro fosse a Bíblia. Mas o seu mutismo de então coincidia com um humor assustadiço e uma palidez invulgar. Posta em confissão, revelou a Diana que há duas semanas que tinha receio de estar grávida. Os seus cálculos eram claros. Contava com mais de cinquenta dias em cativeiro e duas faltas consecutivas. Diana deu um salto de alegria pela boa nova - numa reacção típica dela - mas percebeu o pesadelo de Azucena.

 

Numa das suas primeiras visitas, Dom Pacho tinha-lhes feito a promessa de que sairiam na primeira quinta-feira de Outubro. Pareceu-lhes verdade, porque houve mudanças de movimentos. No entanto, aparecia sempre um pretexto para mudar de data. Depois da quinta-feira anunciada disseram-lhes que estariam livres a 9 de Dezembro para celebrarem a eleição da Assembleia Nacional Constituinte. Continuaram assim com o Natal, o Ano Novo, o dia de Reis, ou o aniversário de alguém, num colar de adiamentos que pareciam mais colherezinhas de consolo.

 

Dom Pacho continuou a visitá-las em Novembro. Levou-lhes novos livros, jornais do dia, revistas atrasadas e caixas de chocolate. Falava-lhes dos outros sequestrados. Quando Diana soube que não era prisioneira do padre Pérez, encarniçou-se para obter uma entrevista com Pablo Escobar, não tanto para a publicar - se fosse esse o caso - mas para discutir com ele as condições da sua rendição. Dom Pacho respondeu-lhe em finais de Outubro que o pedido fora aprovado. Mas os noticiários de 7 de Novembro deram-lhe o primeiro golpe mortal na esperança: a transmissão do jogo de futebol entre a equipa de Medellín e o Nacional foi interrompida para dar a notícia do sequestro de Maruja Pachón e Beatriz Villamizar.

 

Juan Vitta e Hero Buss ouviram-na na sua prisão e pareceu-lhes a pior notícia. Também eles tinham chegado à conclusão de que não eram mais que os duplos de um filme de terror. «Material de recheio», como dizia Juan Vitta. «Descartáveis», como lhes diziam os guardas. Um destes, numa discussão acalorada, tinha gritado a Hero Buss:

 

- Você cale-se, que aqui não é nem convidado.

 

Juan Vitta sucumbiu à depressão, renunciou a comer, dormiu mal, perdeu o norte, e optou pela solução compassiva de morrer uma vez e não morrer milhões de vezes cada dia. Estava pálido, ficava com um braço dormente, tinha a respiração difícil e o sono sobressaltado. Os seus únicos diálogos foram então com os seus familiares mortos que via em carne e osso à volta da cama. Alarmado, Hero Buss armou um escândalo alemão. «Se o Juan morrer aqui os responsáveis são vocês», disse aos guardas. O aviso foi atendido.

 

O médico que lhe levaram foi o doutor Conrado Prisco Lopera, irmão de David Ricardo e Armando Alberto Prisco Lopera - do famoso bando dos Priscos - que trabalhavam com Pablo Escobar desde os seus inícios de traficante, e que eram apontados como os criadores do sicariato entre os adolescentes da comuna nordeste de Medellín. Dizia-se que dirigiam um bando de meninos assassinos encarregado dos trabalhos mais sujos, e entre estes a custódia dos sequestrados. Em compensação, o corpo médico tinha o doutor Conrado como um profissional honrado, e a sua única sombra era ser ou ter sido o médico de família de Pablo Escobar. Chegou com a cara descoberta, e surpreendeu Hero Buss com uma saudação em bom alemão:

 

- Hallo Hero, wie geht’s uns. (1)

 

Foi uma visita providencial para Juan Vitta, não pelo diagnóstico - stress avançado - mas sim pela sua paixão de leitor. A única coisa que lhe receitou foi um xarope de boas leituras. Totalmente ao contrário das notícias políticas do doutor Prisco Lopera que assentaram aos cativos como uma poção para matar o mais saudável.

O mal-estar de Diana agravou-se em Novembro: dor de cabeça intensa, cólicas espasmódicas, depressão grave, mas não há indícios no seu diário de que o médico a tenha visitado. Pensou que talvez fosse uma depressão pela paralisia da sua situação, que se ia tornando mais incerta à medida que o ano se esgotava. «Aqui os tempos correm de forma diferente daquela com que estamos acostumados a lidar», escreveu. «Não há pressas para nada.» Uma nota dessa época deu conta do pessimismo que a atormentava: «Consegui fazer uma revisão do que foi a minha vida até hoje: quantos amores, quanta imaturidade para tomar decisões importantes, quanto tempo gasto em coisas que não valeram a pena!» A sua profissão teve um lugar especial nesse drástico exame de consciência: «Embora tenha as minhas convicções sobre o exercício do jornalismo cada vez mais firmes, não vejo com clareza nem espaço.» As dúvidas não salvavam nem a sua própria revista, «que vi tão pobre, não só comercial como editorialmente». E sentenciou com pulso firme: «Falta-lhe profundidade e análise.»

 

Separadamente, os dias de todos os reféns passavam-se então a esperar Dom Pacho, cujas visitas sempre anunciadas e poucas vezes cumpridas eram a medida do tempo. Ouviam as avionetas e os helicópteros que sobrevoavam a casa e lhes deixavam a impressão de ser explorações de rotina. Em compensação, cada sobrevoo provocava a mobilização dos guardas, que se preparavam com as suas armas de guerra em posição de combate. Os reféns sabiam, por anúncios reiterados, que no caso de um ataque armado os guardas começariam por matá-los a eles.

 

Apesar de tudo, Novembro acabou com alguma esperança. Dissiparam-se as dúvidas que inquietavam Azucena Liévano: os seus sintomas eram uma falsa gravidez provocada talvez pela tensão nervosa. Mas não festejou isso, Pelo contrário: depois do susto inicial, a ideia de ter um filho tinha-se convertido numa ilusão que prometeu a si própria reviver assim que saísse em liberdade. Diana, por sua vez, viu sinais de esperança em declarações do Grupo dos Notáveis sobre as possibilidades de um acordo.

 

(1) – Olá Hero, como estamos? ( N. dos T. )

 

O resto de Novembro tinha sido de acomodação para Maruja e Beatriz. Cada uma a seu modo forjou uma estratégia de sobrevivência. Beatriz, que é corajosa e com carácter, refugiou-se no consolo de minimizar a realidade. Suportou muito bem os primeiros dez dias, mas rapidamente tomou consciência de que a situação era mais complexa e fortuita, e encarou de viés a adversidade. Maruja, que é uma analista fria mesmo contra o seu optimismo quase irracional, tinha-se apercebido desde o primeiro momento que estava frente a uma realidade alheia aos seus recursos, e que o sequestro seria longo e difícil. Escondeu-se dentro de si mesma como um caracol na sua concha, poupou energias, reflectiu a fundo, até que se acostumou à ideia iniludível de que podia morrer. «Daqui não saímos vivas», disse a si própria, e surpreendeu-se por aquela revelação fatalista ter tido um efeito contrário. Desde então sentiu-se dona de si mesma, e capaz de estar pendente de tudo e de todos, e de conseguir por persuasão que a disciplina fosse menos rígida. Até a própria televisão se tornou insuportável a partir da terceira semana do cativeiro, acabaram-se as palavras cruzadas e os poucos artigos legíveis das revistas mundanas que tinham encontrado no quarto e que talvez fossem restos de algum sequestro anterior. Mas mesmo nos seus dias piores, como sempre fez na vida real, Maruja reservou para si umas duas horas diárias de solidão absoluta.

 

Apesar de tudo, as primeiras notícias de Dezembro indicavam que havia motivos para estarem esperançadas. Assim como Marina fazia os seus vaticínios terríveis, Maruja começou a inventar jogos de optimismo. Marina agarrou-se muito rapidamente: um dos guardas tinha levantado o polegar em sinal de aprovação, e isso queria dizer que as coisas iam bem. Uma vez Damaris não fez as compras do mercado, e interpretaram isso como um sinal de que já não precisavam porque iam ser libertadas. Jogavam a imaginar a maneira como as iam libertar e fixavam a data e a forma. Como viviam nas trevas imaginavam que seriam libertas num dia de sol, e que fariam a festa no terraço do apartamento de Maruja. «O que é que querem comer?», perguntava Beatriz. Marina, com boa mão para a cozinha, ditava a ementa de rainhas. Começavam a brincar e acabavam de verdade, arranjavam-se para sair, pintavam-se umas às outras. A 9 de Dezembro, que era uma das datas anunciadas para a libertação devido à eleição da Assembleia Constituinte, ficaram prontas, inclusivamente para a conferência de imprensa para a qual tinham preparadas cada uma das respostas. O dia passou com ansiedade, mas acabou sem amargura, pela segurança absoluta que Maruja tinha de que mais cedo ou mais tarde, sem a mínima sombra de dúvida, seriam libertadas pelo seu marido.

 

De forma que o sequestro dos jornalistas foi uma reacção à ideia que atormentava o presidente César Gaviria desde que era ministro do Governo de Virgilio Barco: como criar uma alternativa jurídica à guerra contra o terrorismo. Tinha sido um tema central da sua campanha para a presidência. Recalcara-o no seu discurso de posse, com a distinção importante de que o terrorismo dos traficantes era um problema nacional, e podia ter uma solução nacional, enquanto que o tráfico de droga era internacional e só podia ter soluções internacionais. A prioridade era contra o narcoterrorismo, pois com as primeiras bombas a opinião pública pedia a prisão para os narcoterroristas, com as seguintes pedia a extradição, mas a partir da quarta bomba começava a pedir que os indultassem. Também nesse sentido a extradição devia ser um instrumento de emergência para pressionar a entrega dos delinquentes, e Gaviria estava disposto a aplicá-la sem contemplações.

 

Nos primeiros dias depois da sua posse quase não teve tempo de conversar sobre ele com ninguém, assoberbado pela organização do Governo e pela convocatória de uma Assembleia Nacional Constituinte que fizesse a primeira reforma de fundo do Estado nos últimos cem anos. Rafael Pardo partilhava a inquietação sobre o terrorismo desde o assassínio de Luis Carlos Galán. Mas também ele se encontrava arrastado pelas pressões inaugurais. A sua situação era peculiar. A nomeação como conselheiro de Segurança e Ordem Pública tinha sido uma das primeiras, num palácio de governo sacudido pelos ímpetos renovadores de um dos presidentes mais jovens deste século, devorador de poesia e admirador dos Beatles, e com ideias de mudanças de fundo que ele próprio tinha baptizado com um nome modesto: «A Reviravolta.» Pardo andava no meio daquele vendaval com uma mala de papéis que levava para todo o lado, e instalava-se para trabalhar onde podia. A sua filha Laura julgava que ele havia ficado sem emprego porque não tinham horas de saída nem de chegada a casa. A verdade é que aquela informalidade forçada pelas circunstâncias estava muito de acordo com o modo de ser de Rafael Pardo, que parecia mais poeta lírico que funcionário do Estado. Tinha trinta e oito anos. A sua formação académica era evidente e bem apoiada: ensino secundário no Gimnasio Moderno de Bogotá, economista na Universidade de los Andes, onde além disso foi mestre de economia e investigador durante nove anos, e pós-graduado em Planeamento no Instituto de Estudos Sociais de Haia, Holanda. Além disso era um leitor algo delirante de todos os livros que encontrava à sua passagem, e em especial de duas especialidades distantes: poesia e segurança. Naquela altura só tinha quatro gravatas que lhe haviam oferecido nos quatro Natais anteriores, e não gostava de as usar, mas levava uma no bolso só para casos de emergência. Combinava calças com casacos sem ligar às pintas nem aos estilos, calçava por distracção uma meia de uma cor e outra de outra, e sempre que podia andava em mangas de camisa porque não fazia diferença entre o frio e o calor. As suas maiores orgias eram partidas de póquer com a sua filha Laura até às duas da madrugada, em silêncio absoluto e com feijões em vez de dinheiro. Claudia, a sua bela e paciente esposa, exasperava-se porque ele andava como que sonâmbulo pela casa, sem saber onde estavam os copos ou como é que se fechava uma porta ou se tirava o gelo do frigorífico, e tinha a faculdade quase mágica de não se aperceber das coisas que não suportava. Contudo, a sua condição mais estranha era uma impavidez de estátua que não deixava nem o mínimo resquício para imaginar o que ele estava a pensar, e um talento inclemente para resolver uma conversa com não mais de quatro palavras ou pôr termo a uma discussão frenética com um monossílabo lapidar.

 

No entanto, os seus colegas de estudo e de trabalho não entendiam o seu desprestígio doméstico, pois conheciam-no como um trabalhador inteligente, ordenado e de uma serenidade arrepiante, cujo ar despistado lhes parecia mais para despistar. Era irritável com os problemas fáceis e de uma grande paciência com as causas perdidas, e tinha um carácter firme só moderado por um sentido de humor imperturbável e dissimulado. O presidente Virgilio Barco deve ter reconhecido o lado útil do seu hermetismo e o seu gosto pelos mistérios, pois encarregou-o das negociações com a guerrilha e dos programas de reabilitação em zonas de conflito, e com esse título conseguiu os acordos de paz com o M-19. O presidente Gaviria, que rivalizava com ele em segredos de Estado e silêncios insondáveis, atirou ainda para cima dele os problemas da segurança e da ordem pública num dos países mais inseguros e subversivos do Mundo. Pardo tomou posse com toda a sua sala de trabalho na mala, e durante mais duas semanas tinha de pedir autorização para usar a casa de banho ou o telefone em gabinetes alheios. Mas o presidente consultava-o muitas vezes sobre qualquer tema e ouvia-o com uma atenção premonitória nas reuniões difíceis. Uma tarde ficou sozinho com o presidente no seu gabinete, e este perguntou-lhe:

 

- Diga-me uma coisa, Rafael, a si não o preocupa que um desses tipos se entregue de repente à justiça e não tenhamos nenhuma acusação contra ele para o prendermos?

 

Era a essência do problema: os terroristas acossados pela polícia não se decidiam a entregar-se porque não tinham garantias para a sua segurança pessoal nem a das suas famílias. O estado, por seu lado, não possuía provas para os condenar se os capturassem. A ideia era encontrar uma fórmula jurídica para que se decidissem confessar os seus delitos em troca de o Estado lhes dar a segurança para eles e para as suas famílias. Rafael Pardo tinha pensado o problema para o Governo anterior, e ainda levava umas notas desalinhadas nuns papéis da mala quando Gaviria lhe fez a pergunta. Eram, com efeito, um princípio de solução: quem se entregasse à justiça teria uma diminuição da pena se confessasse um delito que permitisse processá-lo, e outra diminuição suplementar pela entrega de bens e dinheiros ao Estado. Era tudo o que tinha, mas o presidente já a vislumbrou completa, pois coincidia com a sua ideia de uma estratégia que não fosse de guerra nem de paz, mas sim de justiça, e que tirasse argumentos ao terrorismo sem renunciar à ameaça indispensável da extradição.

 

O presidente Gaviria propô-la ao seu ministro da Justiça, Jaime Giraldo Ángel. Este captou de imediato a ideia, pois também ele andava a pensar há tempos numa maneira de resolver judicialmente o problema do tráfico de droga. Além disso, eram ambos partidários da extradição de nacionais como um instrumento para forçar a rendição.

 

Giraldo Ángel com o seu ar de sábio distraído, a sua precisão verbal e a sua habilidade de informático prematuro, acabou por retocar a fórmula com ideias próprias e outras já estabelecidas no Código Penal. No sábado e domingo redigiu um primeiro esboço no seu computador portátil de repórter, e na segunda-feira às primeiras horas mostrou-o ao presidente ainda com traços e emendas à mão. O título escrito a tinta no cabeçalho era um embrião histórico: Submissão à Justiça.

 

Gaviria é muito meticuloso com os seus projectos, e só os levava ao Conselho de Ministros depois de ter a certeza de que seriam aprovados. Por isso examinou a fundo o esboço com Giraldo Ángel e com Rafael Pardo, que não é advogado, mas cujas poucas palavras costumam ser certeiras. Depois mandou a versão mais avançada ao Conselho de Segurança, onde Giraldo Ángel encontrou os apoios do general Óscar Botero, ministro da Defesa, e o director de Instrução Criminal, Carlos Mejía Escobar, um jurista jovem que seria o encarregado de manejar o decreto na vida real. O general Maza Márquez não se opôs ao projecto, embora considerasse que na luta contra o cartel de Medellín era inútil qualquer fórmula diferente da guerra. «Este país não se compõe», costumava ele dizer, «enquanto Escobar não estiver morto.» Pois estava convencido de que Escobar só se entregaria para continuar a traficar a partir da prisão sob a protecção do Governo.

 

O projecto foi apresentado no Conselho de Ministros com a precisão de que não se tratava de ordenar uma negociação com o terrorismo para conjurar uma desgraça da humanidade cujos primeiros responsáveis eram os países consumidores. Pelo contrário: tratava-se de dar uma maior utilidade jurídica à extradição na luta contra o tráfico de droga, ao incluir a não extradição como prémio maior num pacote de incentivos e garantias para aqueles que se entregassem à justiça.

 

Uma das discussões cruciais foi a da data limite para os delitos que os juízes deveriam tomar em consideração. Isto queria dizer que não seria considerado qualquer delito cometido depois da data do decreto. O secretário-geral da Presidência, Fabio Villegas, que foi o opositor mais lúcido da data limite, fundamentava-se num argumento forte: ao ser cumprido o prazo para os delitos passíveis de perdão o Governo ficaria sem política. No entanto, a maioria concordou com o presidente que de momento não deviam ir mais longe com o prazo fixo, porque isso iria permitir que os delinquentes continuassem a delinquir até que decidissem entregar-se.

 

Para preservar o Governo de qualquer suspeita de negociação ilegal ou indigna, Gaviria e Giraldo concordaram em não receber nenhum emissário directo dos extraditáveis durante os processos, nem negociar com eles nem com ninguém nenhum caso de lei. Isto é, não discutir nada de princípios, mas sim só assuntos operacionais. O director nacional de Instrução Criminal - que não depende do poder executivo nem é nomeado por ele - seria o encarregado oficial de qualquer contacto com os extraditáveis ou os seus representantes legais. Todos os seus intercâmbios seriam por escrito, e assim ficariam consignados.

 

O projecto do decreto discutiu-se com uma diligência febril e um sigilo nada comum na Colômbia, e foi aprovado a 5 de Setembro de 1990. Foi esse o decreto de Estado de Sítio 2047: aqueles que se entregassem e confessassem delitos podiam obter como benefício principal a não extradição; aqueles que além da confissão colaborassem com a justiça teriam uma diminuição da pena até uma terça parte pela entrega e confissão, e até uma sexta parte por colaboração com a justiça mediante delação. No total: até metade da pena imposta por um ou todos os delitos pelos quais fora solicitada a extradição. Era a justiça na sua expressão mais simples e pura: a forca e o garrote. O próprio Conselho de Ministros que assinou o decreto rejeitou três extradições e aprovou outras três, como uma notificação pública de que o novo Governo só renunciava à extradição como um benefício principal do decreto.

 

Na realidade, mais que um decreto solto, era uma política presidencial bem definida para a luta contra o terrorismo em geral, e não só contra o dos traficantes de droga, mas também contra outros casos de delinquência comum. O general Maza Márquez não expressou no Conselho de Segurança o que na realidade pensava do decreto, mas anos mais tarde - na sua campanha eleitoral para a Presidência da República - fustigou-o sem misericórdia como «uma falácia deste tempo». «Com ele se maltrata a majestade da justiça », escreveu então, «e se deita a perder a respeitabilidade histórica do direito penal.»

 

O caminho foi longo e complexo. Os extraditáveis - já conhecidos em todo o mundo como uma razão social de Pablo Escobar repudiaram imediatamente o decreto, embora tivessem deixado portas entreabertas para continuarem a lutar por muito mais. A razão principal era que não dizia de uma maneira incontroversa que não seriam extraditados. Pretendiam também que os considerassem delinquentes políticos e, de acordo com isso, lhes dessem o mesmo tratamento que aos guerrilheiros do M-19, que tinham sido indultados e reconhecidos como partido político. Um dos seus membros era ministro da Saúde, e todos participavam na campanha da Assembleia Nacional Constituinte. Outra das preocupações dos extraditáveis era uma prisão segura, onde estar a salvo dos seus inimigos e garantias para a vida das suas famílias e seus sequazes.

 

Disse-se que o Governo tinha feito o decreto como uma concessão aos traficantes pela pressão dos sequestros. Na realidade, o projecto estava em elaboração desde antes do sequestro de Diana, e já tinha sido proclamado quando os extraditáveis deram mais um apertão com os sequestros quase simultâneos de Francisco Santos e Marina Montoya. Mais tarde, quando oito reféns não lhes bastaram para conseguir o que queriam, sequestraram Maruja Pachón e Beatriz Villamizar. Aí tinham o número mágico: nove jornalistas. E além disso - condenada de antemão -, a irmã de um político fugitivo da Justiça privada de Escobar. De certo modo, antes que o decreto mostrasse a sua eficácia, o presidente Gaviria começava a ser vítima do seu próprio invento.

 

Diana Turbay Quintero tinha, como seu pai, um sentido intenso e apaixonado do poder e uma vocação de liderança que determinaram a sua vida. Cresceu entre os grandes nomes da política, e era difícil que desde então não fosse essa a sua perspectiva do mundo. «Diana era um homem de Estado», disse uma amiga que a compreendeu e que gostou dela. «E a maior preocupação da sua vida era uma obstinada vontade de servir o país.» Mas o poder - como o amor - tem dois gumes: exerce-se e sofre-se. Ao mesmo tempo que gera um estado de levitação pura, gera também o seu contrário: a procura de uma felicidade irresistível e fugidia, só comparável à procura de um amor idealizado, que se anseia, mas se teme, persegue-se, mas nunca se alcança. Diana sofria-o com uma voracidade insaciável de saber tudo, de estar em tudo, de descobrir o porquê e o como das coisas, e a razão da sua vida. Alguns que trataram e gostaram dela de perto perceberam isso nas incertezas do seu coração, e pensam que muito poucas vezes foi feliz.

 

Não é possível saber - sem lho ter perguntado a ela - qual dos dois gumes do poder lhe causou as suas piores feridas. Ela deve tê-lo sentido em carne viva quando foi secretária particular e braço direito de seu pai, aos vinte e oito anos, e ficou apanhada entre os ventos cruzados do poder. Os seus amigos - inúmeros - disseram que era uma das pessoas mais inteligentes que conheceram, que tinha um grau de informação insuspeitável, uma capacidade analítica assombrosa e a faculdade divina de perceber até as terceiras intenções das pessoas. Os seus inimigos dizem sem mais delongas que foi um germe de perturbação detrás do trono. Outros pensam, em compensação, que descuidou a sua própria sorte pelo desejo de preservar a do seu pai acima de tudo e contra todos, e pode ter sido um instrumento de cortesãos e aduladores.

 

Tinha nascido a 8 de Março de 1950, sob o inclemente signo de Peixes, quando o seu pai estava já na linha de espera para a Presidência da República. Foi um líder nato onde quer que esteve: no Colégio Andino de Bogotá, no Sacred Heart de Nova Iorque e na Universidade de São Tomás de Aquino, também em Bogotá, onde acabou o curso de Direito sem esperar o diploma.

 

A chegada tardia ao jornalismo - que felizmente é o poder sem trono - deve ter sido para ela um reencontro com o melhor de si mesma. Fundou a revista Hoy x Hoy e o telejornal Criptón como um caminho mais directo para trabalhar pela paz. «Já não estou com vontade de brigar com ninguém nem tenho espírito para armar broncas a ninguém», disse então. «Agora sou totalmente conciliadora.» Tanto, que se sentou a conversar para a paz com Carlos Pizarro, comandante do M-19, que tinha disparado um foguete de guerra quase dentro do próprio quarto onde se encontrava o presidente Turbay. A amiga que contou isso disse a morrer de riso: «Diana entendeu que a questão era como um jogador de xadrez e não como um pugilista a dar pancadas contra o mundo.»

 

De forma que era muito natural que o seu sequestro - além da sua carga humana - tivesse um peso político com que era difícil lidar. O ex-presidente Turbay havia dito em público e em privado que não tinha qualquer notícia dos extraditáveis, porque lhe pareceu o mais prudente enquanto não se soubesse o que pretendiam, mas na verdade tinha recebido uma mensagem pouco depois do sequestro de Francisco Santos. Comunicara-o a Hernando Santos assim que este regressou de Itália, e convidou-o para sua casa a fim de delinearem uma acção conjunta. Santos encontrou-o na penumbra da sua biblioteca imensa, esmagado pela certeza de que Diana e Francisco seriam executados. O que mais o impressionou - como a todos os que viram Turbay nessa época - foi a dignidade com que vivia a sua desgraça.

 

A carta dirigida a ambos eram três folhas escritas à mão em letra de imprensa, sem assinatura, e com uma introdução surpreendente: «Recebam de nós, os extraditáveis, uma respeitosa saudação.» A única coisa que não permitia duvidar da sua autenticidade era o estilo conciso, directo e sem equívocos, próprio de Pablo Escobar. Começava por reconhecer o sequestro dos dois jornalistas, os quais, segundo a carta, se encontravam «em bom estado de saúde e em boas condições de cativeiro que podem considerar-se normais nestes casos». O resto era um memorial de agravos pelos atropelos da polícia. No fim colocavam os três pontos irrenunciáveis para a libertação dos reféns: suspensão total das operações militares contra eles em Medellín e Bogotá; retirada do Corpo de Elite, que era a unidade especial da polícia contra o tráfico de droga; destituição do seu comandante e mais vinte oficiais, que indicavam como autores das torturas e do assassínio de uns quatrocentos jovens da comuna nordeste de Medellín. Caso não se cumprissem estas condições, Os extraditáveis empreenderiam uma guerra de extermínio, com atentados de dinamite nas grandes cidades, e assassínios de juízes, políticos e jornalistas. A conclusão era simples: «Se vier um golpe de Estado, seja bem-vindo. Já não temos muito a perder.»

 

A resposta escrita e sem diálogos prévios devia ser entregue ao fim de três dias no Hotel Intercontinental de Medellín, onde haveria um quarto reservado em nome de Hernando Santos. Os intermediários para os contactos seguintes seriam indicados pelos próprios extraditáveis. Santos adoptou a decisão de Turbay de não divulgar aquela mensagem nem qualquer outra, enquanto não tivessem uma notícia consistente. «Não podemos prestar-nos para levar recados de ninguém ao presidente», concluiu Turbay, «nem ir para lá do que o decoro nos permita.»

 

Turbay propôs a Santos que cada um separadamente redigisse uma resposta, e que depois as fundissem numa carta comum. Assim se fez. O resultado, na essência, foi uma declaração formal de que não tinham qualquer poder para interferir nos assuntos do Governo, mas estavam dispostos a divulgar toda a violação das leis ou dos direitos humanos que os extraditáveis denunciassem com provas cabais. Quanto às operações da polícia, recordavam-lhes que não tinham qualquer faculdade para os impedir, nem podiam pretender que fossem destituídos sem provas vinte oficiais acusados, nem escrever editoriais contra uma situação que ignoravam.

 

Aldo Buenaventura, notário público, taurófilo febril desde os seus distantes anos do Liceu Nacional de Zipaquirá, velho amigo de Hernando Santos e de absoluta confiança, levou a carta de resposta. Mal tinha acabado de ocupar o quarto 308, reservado no Hotel Intercontinental, quando tocou o telefone.

 

- E o senhor Santos?

 

- Não - respondeu Aldo -, mas venho da parte dele.

 

- Trouxe-me a encomenda?

 

A voz soava com tanta propriedade, que Aldo se interrogou se não seria Pablo Escobar ao vivo e em directo, e disse-lhe que sim. Dois jovens com roupas e modos de executivos subiram ao quarto. Aldo entregou-lhes a carta. Eles apertaram-lhe a mão com uma vénia de cortesia e foram-se embora.

 

Ainda não tinha passado uma semana e Turbay e Santos receberam a visita do advogado antioquense Guido Parra Montoya, com uma nova carta dos extraditáveis. Parra não era um desconhecido nos meios políticos de Bogotá, mas sempre parecia vir das sombras. Com quarenta e oito anos, tinha estado duas vezes na Câmara de Representantes como suplente de dois liberais, e uma vez como efectivo pela Aliança Nacional Popular (Anapo), que deu origem ao M-19. Foi assessor do gabinete jurídico da Presidência da República no Governo de Carlos Lleras Restrepo. Em Medellín, onde exerceu Direito desde a sua juventude, foi preso a 10 de Maio de 1990 por suspeita de cumplicidade com o terrorismo, e libertado duas semanas depois por falta de provas. Apesar desses e doutros escolhos, era considerado um jurista experiente e bom negociador.

 

No entanto, como enviado confidencial dos extraditáveis parecia difícil conceber alguém menos indicado para passar inadvertido. Era um homem dos que levam as condecorações a sério. Vestia de cinzento-platinado, que era o uniforme dos executivos de então, com camisas de cores vivas e gravatas juvenis com nós grandes à italiana. Tinha modos cerimoniosos e uma retórica altissonante, e era, mais que afável, obsequioso. Condição suicida se se quiser servir ao mesmo tempo dois senhores, Na presença de um ex-presidente liberal e do director do jornal mais importante do país, transbordou de eloquência. «Ilustre doutor Turbay, meu distinto doutor Santos, disponham de mim para o que quiserem», disse, e incorreu num descuido daqueles que lhe podiam custar a vida:

 

Sou o advogado de Pablo Escobar.

 

Hernando agarrou o erro no ar.

 

- Então a carta que nos traz é dele?

 

- Não - remendou Guido Parra sem pestanejar: - é dos extraditáveis, mas a vossa resposta deve ser para Escobar, porque ele poderá influenciar na negociação.

 

A distinção era importante, porque Escobar não deixava rastos para a justiça. Nas cartas que podiam comprometê-lo, como as de negociações de sequestros, a escrita ia disfarçada com letras de imprensa, e assinadas pelos extraditáveis ou qualquer nome próprio: Manuel, Gabriel, Antonio. Naquelas em que se alcandorava em acusador, em compensação, usava a sua caligrafia natural, um tanto pueril, e não só assinava com o seu nome e a sua rubrica, como os rematava com a impressão do polegar. No tempo dos sequestros de jornalistas teria sido razoável pôr em dúvida a sua própria existência. Era possível que os extraditáveis não fossem mais que um pseudónimo seu, mas também era possível o contrário: talvez o nome e a identidade de Pablo Escobar não fossem senão uma invocação dos extraditáveis.

 

Guido Parra parecia sempre preparado para ir mais além do que os extraditáveis propunham por escrito. Mas era preciso ler com lupa. O que ele na realidade procurava para a sua clientela era um tratamento político semelhante ao das guerrilhas. Além disso enfrentava a internacionalização do problema dos narcóticos com a proposta de apelar à participação das Nações Unidas. No entanto, perante a recusa categórica de Santos e Turbay, propôs-lhes diversas fórmulas alternativas. Assim se iniciou um processo tão longo como estéril, que acabaria por se enredar num beco sem saída.

 

Santos e Turbay tiveram contactos pessoais com o presidente da República desde a segunda comunicação. Gaviria recebeu-os às oito e meia da noite na salinha da biblioteca privada. Estava mais sereno do que de costume, e com desejo de conhecer notícias novas dos reféns. Turbay e Santos puseram-no ao corrente das duas cartas de ida e volta e da mediação de Guido Parra.

 

- Mal enviado - disse o presidente. - Muito inteligente, bom advogado, mas extremamente perigoso. Isso sim, tem todo o apoio de Escobar.

 

Leu as cartas com a força de concentração que impressionava todos: como se se tornasse invisível. Os seus comentários estavam preparados e completos ao acabar, e com as conjecturas pertinentes às quais não sobrava uma palavra. Contou-lhes que nenhum serviço de informação tinha a menor ideia do sítio onde podiam tê-los. E por isso a novidade para o presidente foi a confirmação de que estavam em poder de Pablo Escobar.

 

Gaviria deu naquela noite uma prova da sua mestria para pôr tudo em dúvida antes de adoptar uma determinação final. Acreditava na possibilidade de as cartas serem falsas, de que Guido Parra estivesse a fazer um jogo alheio, e até de que tudo fosse uma jogada de alguém que não tinha nada a ver com Escobar. Os seus interlocutores saíram menos animados do que quando entraram, pois, aparentemente, o presidente considerava o caso como um grave problema de Estado com muito pouca margem para os seus sentimentos pessoais.

 

Uma dificuldade principal para um acordo era que Escobar ia mudando as condições segundo a evolução dos seus problemas, para demorar os sequestros e obter vantagens adicionais e imprevistas, enquanto a Assembleia Constituinte se pronunciava sobre a extradição, e talvez sobre o indulto. Isto nunca ficou claro na correspondência astuta que Escobar mantinha com as famílias dos sequestrados. Mas ficou-o na muito secreta que mantinha com Guido Parra para o instruir sobre o movimento estratégico e as perspectivas a longo prazo da negociação. «É bom que tu transmitas todas as inquietações a Santos para que isto não se enrede mais», dizia-lhe numa carta. «Isto porque tem de ficar escrito e decretado que não seremos extraditados em nenhum caso e por nenhum delito e para nenhum país.» Também exigia precisões no requisito da confissão para a entrega. Outros dois pontos primordiais eram a vigilância na prisão especial, e a segurança das suas famílias e seus sequazes.

 

A amizade de Hernando Santos com o ex-presidente Turbay, que se tinha fundado sempre numa base política, tornou-se então pessoal e profunda. Podiam permanecer muitas horas sentados um em frente do outro em silêncio absoluto. Não passava um dia sem que trocassem por telefone impressões íntimas, suposições secretas, dados novos. Chegaram a elaborar todo um código cifrado para tratarem notícias confidenciais.

 

Não deve ter sido fácil. Hernando Santos é um homem de responsabilidades descomunais, que com uma só palavra poderia salvar ou destruir uma vida. É emotivo, de nervos crispados, e com uma consciência tribal que pesa muito nas suas determinações. Aqueles que conviveram com ele durante o sequestro do seu filho temeram que não sobrevivesse à aflição. Não comeu nem dormiu uma noite inteira, manteve-se sempre com o telefone ao alcance da mão e saltava-lhe em cima ao primeiro toque. Durante aqueles meses de dor teve muito poucos momentos sociais, submeteu-se a um programa de ajuda psiquiátrica para resistir à morte do filho, que julgava inevitável, e viveu encerrado no seu gabinete ou nas suas dependências, entregue à revisão da sua magnífica colecção de selos e de cartas chamuscadas em acidentes aéreos. A sua mulher, Elena Calderón, mãe dos seus sete filhos, tinha morrido sete anos antes, e estava realmente sozinho. Agravaram-se-lhe os, problemas de coração e da vista, e não fazia qualquer esforço para reprimir o choro. O seu mérito exemplar em circunstâncias tão dramáticas foi manter o jornal à margem da sua tragédia pessoal.

 

Um dos seus suportes essenciais naquela época amarga foi a fortaleza da sua nora María Victoria. A recordação que a ela lhe ficava dos dias a seguir ao sequestro era a da sua casa invadida por familiares e amigos do seu marido que bebiam uísque e café deitados pelas alcatifas até muito tarde. Falavam sempre da mesma coisa, enquanto o impacte do sequestro e a própria imagem do sequestrado se iam tornando cada vez mais ténues. Quando Hernando regressou de Itália foi directamente para a casa de María Victoria e cumprimentou-a com uma emoção que a dilacerou totalmente, mas quando foi preciso tratar de uma coisa confidencial sobre o sequestro pediu que o deixasse sozinho com os homens. María Victoria, que é de carácter forte e reflexões maduras, tomou consciência de ter sido sempre um número marginal numa família de homens. Chorou um dia inteiro, mas saiu fortalecida pela determinação de ter a sua identidade e o seu lugar na sua casa. Hernando não só entendeu as suas razões, como se recriminou pelos seus próprios descuidos, e encontrou nela o melhor apoio para as suas penas. A partir de então mantiveram um vínculo de confiança irresistível, quer fosse no tratamento directo, por telefone, por escrito, por interposta pessoa, e até por telepatia, pois mesmo nos conselhos de família mais intricados bastava olharem um para o outro para saberem o que pensavam e o que deviam dizer. A ela ocorreram-lhe muito boas ideias, entre outras a de publicar no jornal notas editoriais sem códigos para partilhar com Pacho notícias divertidas da vida familiar.

 

As vítimas menos recordadas foram Liliana Rojas Arias - a mulher do operador de câmara Orlando Acevedo - e Martha Lupe Rojas - a mãe de Richard Becerra. Embora não fossem amigas próximas, nem parentes - apesar do apelido -, o sequestro tornou-as inseparáveis. «Não tanto pela dor», disse Liliana «mas por fazermos companhia uma à outra.»

 

Liliana estava a amamentar Erick Yesid, o seu filho de ano e meio, quando a avisaram do noticiário Criptón que toda a equipa de Diana Turbay estava sequestrada. Tinha vinte e quatro anos, casara-se há três, e vivia no segundo andar da casa dos sogros, no bairro San Andrés, na parte sul de Bogotá. «É uma rapariga tão alegre», disse uma amiga, «que não merecia uma notícia tão feia.» Além de alegre e original, quando se restabeleceu do primeiro impacte pôs o menino em frente da televisão à hora dos noticiários para que ele visse o seu papá, e continuou a fazê-lo sem falhar até ao fim do sequestro.

 

Tanto a ela como a Martha Lupe avisaram-nas do serviço de notícias que continuariam a ajudá-las, e quando o menino de Liliana ficou doente encarregaram-se das despesas. Nydia Quintero também lhes telefonou para tentar infundir-lhes uma tranquilidade que ela própria nunca teve. Prometeu-lhes que qualquer diligência que fizesse junto do Governo não seria só pela sua filha, mas também por toda a equipa, e lhes transmitiria qualquer informação que tivesse dos sequestrados. Assim foi.

 

Martha Lupe vivia com as suas duas filhas, que nessa altura tinham catorze e onze anos, e dependia de Richard. Quando ele saiu com o grupo de Diana disse-lhe que era uma viagem de três dias, de forma que depois da primeira semana começou a inquietar-se. Não julga ter sido uma premonição, disse, mas a verdade é que telefonava para o serviço de notícias a qualquer hora até que lhe disseram que tinha acontecido algo estranho. Pouco depois tornou-se público que haviam sido sequestrados. Desde então deixou o rádio aceso todo o dia, à espera do regresso, e telefonou para o noticiário de cada vez que o coração lho indicou. Inquietava-a a ideia de o seu filho ser o mais desvalido dos sequestrados. «Mas a única coisa que eu podia fazer era chorar e rezar», diz. Nydia Quintero convenceu-a de que havia muitas outras coisas a fazer pela libertação. Convidava-a para os seus actos cívicos e religiosos, e inculcou-lhe o seu espírito de luta. Liliana pensava o mesmo de Orlando, e isso encerrou-a num dilema: ou podia ser o último executado por ser o menos valioso, ou podia ser o primeiro porque poderia provocar a mesma agitação pública, mas com menos consequências para os sequestradores. Este pensamento mergulhou-a num pranto irresistível que se prolongou durante todo o sequestro. «Todas as noites, depois de deitar o menino, sentava-me a chorar no terraço a olhar para a porta para o ver chegar», disse ela. «E assim continuei durante noites e noites até que voltei a vê-lo.»

       

Em meados de Outubro, o doutor Turbay passou pelo telefone a Hernando Santos uma das suas mensagens cifradas no seu código pessoal. «Tenho uns jornais muito bons se te interessarem coisas de touros. Se quiseres mando-tos.» Hernando entendeu que era uma novidade importante sobre os sequestrados. Tratava-se, efectivamente, de uma cassete que chegou a casa do doutor Turbay, carimbada em Montería, com uma prova de sobrevivência de Diana e dos seus companheiros, que a família tinha pedido com insistência há várias semanas. A voz era inconfundível: «Paizinho, é difícil enviar-lhe uma mensagem nestas condições, mas depois de muito pedirmos permitiram-nos fazê-lo.» Apenas uma frase dava pistas para acções futuras: «Vemos e ouvimos notícias permanentemente.»

 

O doutor Turbay decidiu mostrar a mensagem ao presidente e tentar obter algum indício novo. Gaviria recebeu-os precisamente no fim dos seus afazeres do dia, sempre na salinha da biblioteca privada, e estava descontraído e com uma loquacidade pouco frequente. Fechou a porta, serviu uísque, e permitiu-se algumas confidências políticas. O processo da entrega parecia estagnado pela teimosia dos extraditáveis, e o presidente estava disposto a desencalhá-lo com alguns esclarecimentos jurídicos no decreto original. Tinha trabalhado nisso toda a tarde, e confiava que se resolveria nessa mesma noite. No dia seguinte, prometeu, dar-lhes-ia a boa notícia.

 

No outro dia voltaram, conforme o combinado, e encontraram um homem diferente, desconfiado e sombrio, com quem entabularam desde a primeira frase uma conversa sem futuro. «É um momento muito difícil», disse-lhes Gaviria. «Quis ajudar-vos, e estive a fazê-lo dentro do possível, mas está a chegar o momento em que não vou poder fazer nada.» Era claro que algo de essencial tinha mudado o seu estado de espírito. Turbay percebeu isso imediatamente, e não teriam decorrido dez minutos quando se levantou do cadeirão com uma calma solene. «Presidente», disse-lhe sem uma sombra de ressentimento. «O senhor está a proceder como lhe compete, e nós como pais de família. Entendo-o e suplico-lhe que não faça nada que lhe possa criar um problema como chefe de Estado.» E concluiu apontando com o dedo para o cadeirão presidencial:

 

- Se eu estivesse ali sentado faria o mesmo.

 

Gaviria levantou-se com uma palidez impressionante e despediu-se deles no elevador. Um ajudante-de-campo desceu com eles e abriu-lhes a porta do automóvel no patamar da casa particular. Nenhum falou, até que saíram para a primeira noite de um Outubro chuvoso e triste. O barulho do trânsito na avenida chegava-lhes em surdina através dos vidros blindados.

 

- Por este lado não há nada a fazer - suspirou Turbay depois de uma longa meditação. - Entre ontem à noite e hoje passou-se qualquer coisa que não nos pode dizer.

 

Aquela dramática entrevista com o presidente determinou que Dona Nydia Quintero aparecesse em primeiro plano. Tinha sido mulher do ex-presidente Turbay Ayala, seu tio, com quem teve quatro filhos, e entre eles Diana, a mais velha. Sete anos antes do sequestro, o seu casamento com o ex-presidente tinha sido anulado pela Santa Sé, e casou-se em segundas núpcias com o parlamentar liberal Gustavo Balcázar Monzón. Pela sua experiência de primeira-dama conhecia os limites formais de um ex-presidente, sobretudo no seu trato com um antecessor. «A única coisa que se devia fazer», dissera Nydia, «era fazer ver ao presidente Gaviria a sua obrigação e as suas responsabilidades. » De forma que foi isso o que ela mesma tentou, embora sem muitas ilusões.

 

A sua actividade pública, mesmo desde antes de se oficializar o sequestro, alcançou proporções incríveis. Tinha organizado a conquista dos noticiários de rádios e televisão em todo o país por grupos de crianças que liam um pedido de oração para que libertassem os reféns. A 19 de Outubro, «Dia da Reconciliação Nacional», tinha conseguido que se dissessem missas ao meio-dia em cidades e municípios para pedir pela concórdia dos Colombianos. Em Bogotá o acto teve lugar na Praça de Bolívar, e à mesma hora houve manifestações de paz com lenços brancos em numerosos bairros, e acendeu-se um archote que se manteria aceso até ao regresso dos reféns sãos e salvos. Por diligência sua os noticiários de televisão começavam as suas emissões com as fotografias de todos os sequestrados, faziam as contas dos dias de cativeiro, e fechavam tirando os retratos correspondentes à medida que eram libertados. Também por iniciativa sua fazia-se um apelo pela libertação dos reféns quando começavam os jogos de futebol em todo o país. A rainha nacional de beleza em 1990, Maribel Gutiérrez, iniciou o seu discurso de agradecimento com um apelo à libertação dos sequestrados.

 

Nydia assistia às reuniões familiares dos outros sequestrados, ouvia os advogados, fazia diligências secretas através da Fundação Solidariedade pela Colômbia de que é presidente há vinte anos, e quase sempre se sentiu a dar voltas em torno de nada. Era demasiado para o seu carácter decidido e apaixonado, e de uma sensibilidade quase clarividente. Esteve suspensa das diligências de todos até que se apercebeu de que estavam num beco sem saída. Nem Turbay, nem Hernando Santos, nem ninguém de tanto peso poderia pressionar o presidente para que negociasse com os sequestradores. Esta certeza pareceu-lhe definitiva quando o doutor Turbay lhe contou o fracasso da sua última visita ao presidente. Então tomou a determinação de actuar por sua conta, e abriu uma segunda frente de roda-livre para procurar a liberdade da sua filha pelo caminho recto.

 

Naqueles dias a Fundação Solidariedade pela Colômbia recebeu nos seus escritórios de Medellín uma chamada anónima de alguém que dizia ter notícias directas de Diana. Disse que um antigo colega seu numa quinta próximo de Medellín lhe tinha posto um papelinho no cesto dos legumes, no qual lhe dizia que Diana estava lá. Que enquanto viam o futebol os guardas dos sequestrados se afogavam em cerveja até rebolarem pelo chão, sem qualquer possibilidade de reacção perante uma operação de resgate. Para maior segurança oferecia um croquis da quinta. Era uma mensagem tão convincente que Nydia foi até Medellín para lhe responder. «Pedi ao informador», disse, «que não comentasse com ninguém a sua informação e fiz-lhe ver o perigo para a minha filha e mesmo para os seus guardas se alguém tentasse o resgate.»

 

A notícia de que Diana estava em Medellín sugeriu-lhe a ideia de fazer uma visita a Martha Nieves e Angelita Ochoa, irmãs de Jorge Luis, Fabio e Juan David Ochoa, acusados estes de tráfico de droga e enriquecimento ilícito, e conhecidos como amigos pessoais de Pablo Escobar. «Eu ia com o desejo veemente de que me ajudassem no contacto com Escobar», disse Nydia, anos depois, evocando aqueles dias amargos. As Ochoa falaram-lhe dos atropelos que as suas famílias tinham sofrido por parte da polícia, ouviram-na com interesse e mostraram compaixão pelo seu caso, mas também lhe disseram que não podiam fazer nada junto de Pablo Escobar.

 

Martha Nieves sabia o que era o sequestro. Ela própria tinha sido sequestrada pelo M-19 em 1981 para pedirem à sua família um resgate de muitos zeros. Escobar reagiu com a criação de um grupo brutal - Morte a Sequestradores (MAS) - que conseguiu a sua libertação ao fim de três meses em guerra sangrenta contra o M-19. A sua irmã Angelita também se considerava vítima da violência policial, e as duas fizeram um relato exaustivo dos atropelos da polícia, das violações de domicílio, de inúmeros atentados aos direitos humanos.

 

Nydia não perdeu o ímpeto de continuar a lutar. Em última instância, quis que pelo menos lhe levassem uma carta sua a Escobar. Tinha mandado uma primeira através de Guido Parra, mas não obteve resposta. As irmãs Ochoa recusaram-se a enviar outra, devido ao risco de que Escobar pudesse acusá-las mais tarde de lhe terem causado algum prejuízo. No entanto, no fim da visita tinham ficado sensíveis à veemência de Nydia, que regressou a Bogotá com a certeza de ter deixado uma porta entreaberta nos dois sentidos: uma para a libertação da sua filha e outra para a entrega pacífica dos três irmãos Ochoa. Por isso pareceu-lhe oportuno informar da sua diligência o presidente em pessoa.

 

Recebeu-a imediatamente. Nydia foi directa ao assunto com as queixas das irmãs Ochoa sobre o comportamento da polícia. O presidente deixou-a falar, e só lhe fazia perguntas soltas, mas muito pertinentes. O seu propósito evidente era não dar às acusações a transcendência que Nydia lhes dava. Quanto ao seu próprio caso, Nydia queria três coisas: que libertassem os sequestrados, que o presidente tomasse as rédeas para impedir um resgate que poderia resultar funesto, e que ampliasse o prazo para a entrega dos extraditáveis. A única segurança que o presidente lhe deu foi que nem no caso de Diana nem no de nenhum outro sequestrado se tentaria um resgate sem a autorização das famílias.

 

- Essa é a nossa política - disse-lhe.

 

Mesmo assim, Nydia perguntava-se se o presidente teria tomado as precauções suficientes para que ninguém o tentasse sem a sua autorização.

 

Em menos de um mês Nydia voltou a conversar com as irmãs Ochoa em casa de uma amiga comum. Visitou também uma cunhada de Pablo Escobar, que lhe falou extensamente dos atropelos de que eram vítimas elas e os seus irmãos. Nydia levava-lhe uma carta para Escobar, em duas folhas e meia de formato A4, quase sem margens, com uma caligrafia floreada e um estilo preciso e expressivo conseguido ao fim de muitos rascunhos. O seu objectivo atinado era chegar ao coração de Escobar. Começava por dizer que não se dirigia ao combatente capaz de qualquer coisa para conseguir os seus fins, mas sim a Pablo, o homem, «esse ser sensível, que adora a sua mãe e daria por ela a sua própria vida, aquele que tem mulher e filhos pequenos, inocentes e indefesos, a quem deseja proteger». Apercebia-se de que Escobar tinha apelado ao sequestro dos jornalistas para chamar a atenção da opinião pública em favor da sua causa, mas considerava que já o havia conseguido de sobra. Por conseguinte - concluía a carta - «mostre-se como o ser humano que é, e num acto grande e humanitário que o mundo entenderá, devolva-nos os sequestrados».

 

A cunhada de Escobar parecia verdadeiramente emocionada enquanto lia. «Pode ter a certeza absoluta de que esta carta o vai comover muitíssimo», disse como que para si mesma numa pausa. «Tudo o que está a fazer o comove e isso redundará em favor da sua filha.» No fim dobrou outra vez a carta, pô-la no sobrescrito e ela própria a fechou.

 

- Vá tranquila - disse a Nydia com uma sinceridade que não deixava dúvidas. - Pablo receberá a carta hoje mesmo.

 

Nydia regressou essa noite a Bogotá, esperançada com os resultados da carta, e decidida a pedir ao presidente o que o doutor Turbay não se tinha atrevido: uma pausa nas operações da polícia enquanto se negociava a libertação dos reféns. Fê-lo, e Gaviria disse-lhe sem preâmbulos que não podia dar essa ordem. «Uma coisa era que nós oferecêssemos uma política de justiça como alternativa», disse depois. «Mas a suspensão das operações não serviria para libertar os sequestrados, mas sim para que não perseguíssemos Escobar. »

 

Nydia sentiu que estava na presença de um homem de pedra que não se importava com a vida da sua filha. Teve de reprimir uma onda de raiva enquanto o presidente lhe explicava que o tema da força pública não era negociável, que esta não tinha que pedir autorização para actuar nem podia dar-lhe ordens para que não actuasse dentro dos limites da lei. A visita foi um desastre.

 

Perante a inutilidade das sua diligências com o presidente da República, Turbay e Santos tinham decidido bater a outras portas, e não se lembraram de outra melhor que a do Grupo dos Notáveis. Este grupo era formado pelos ex-presidentes Alfonso López Michelsen e Misael Pastrana, o parlamentar Diego Montanã Cuéllar e o cardeal Mario Revollo Bravo, arcebispo de Bogotá. Em Outubro, os familiares dos sequestrados reuniram-se com eles em casa de Hernando Santos. Começaram por contar as entrevistas com o presidente Gaviria. A única coisa delas que interessou a López Michelsen foi a possibilidade de reformar o decreto com precisões jurídicas para abrir novas portas à política de submissão. «Temos de ser fortes», disse. Pastrana mostrou-se partidário de procurar fórmulas para pressionar a entrega. Mas com que armas? Hernando Santos recordou a Montaña Cuéllar que ele podia mobilizar a favor a força da guerrilha.

 

Ao fim de um intercâmbio longo e bem informado, López Michelsen chegou à primeira conclusão. «Vamos seguir o jogo dos extraditáveis», disse. E propôs, por isso, fazer uma carta pública para que se soubesse que o Grupo dos Notáveis se tornava porta-voz das famílias dos sequestrados. O acordo unânime foi que López Michelsen a redigisse.

 

Dois dias depois estava pronto o primeiro rascunho que foi lido numa nova reunião a que assistiu Guido Parra com outro advogado de Escobar. Nesse documento estava exposta pela primeira vez a tese de que o tráfico de droga podia considerar-se um delito colectivo, de carácter sui generis, que apontava um caminho inédito para a negociação. Guido Parra deu um salto.

 

- Um delito sui generis - exclamou maravilhado. - Isso é genial!

 

A partir dali elaborou o conceito à sua maneira com um privilégio celestial na fronteira nebulosa do delito comum e do delito político, que tornava possível o sonho de que os extraditáveis tivessem o mesmo tratamento político que as guerrilhas. Na primeira leitura cada um pôs algo de seu. No fim, um dos advogados de Escobar solicitou que o Grupo dos Notáveis conseguisse uma carta de Gaviria que garantisse a vida de Escobar de uma forma expressa e inequívoca.

 

- Lamento - disse Hernando Santos, escandalizado com a petição -, mas eu não me meto nisso.

 

- Eu ainda muito menos - acrescentou Turbay.

 

López Michelsen recusou-se de uma forma enérgica. O advogado pediu então que lhe conseguissem uma entrevista com o presidente para que este lhe garantisse a vida de Escobar.

 

- Essa questão não é tratada aqui - concluiu López.

 

Antes de o Grupo dos Notáveis se reunir para redigir o esboço da sua declaração, Pablo Escobar estava já informado das suas intenções mais recônditas. Só assim se compreende o facto de ter dado orientações extremas a Guido Parra numa carta urgente. «Dou-te autonomia para que procures a forma de o Grupo dos Notáveis te convidar para um intercâmbio de ideias», escrevera-lhe. E a seguir enumerou uma série de decisões já tomadas pelos extraditáveis para se antecipar a qualquer iniciativa diferente.

 

A carta do Grupo dos Notáveis estava pronta em vinte e quatro horas, com uma novidade importante relativamente às diligências anteriores: «Os nossos bons ofícios adquiriram uma nova dimensão que não se circunscreve a um resgate ocasional, mas sim à maneira de alcançar para todos os Colombianos a paz global.» Era uma definição nova que só podia aumentar as esperanças. Ao presidente Gaviria pareceu-lhe bem, mas julgou pertinente estabelecer uma separação de águas para evitar qualquer equívoco sobre a posição oficial, e instruiu o ministro da Justiça para que emitisse uma advertência de que a política de submissão era a única do Governo para a entrega dos terroristas.

 

Escobar não gostou nem de uma linha. Assim que a leu na imprensa a 11 de Outubro, mandou uma resposta furibunda a Guido Parra para que a fizesse circular nos salões de Bogotá. «A carta do Grupo dos Notáveis é quase cínica», dizia. «Que soltemos rapidamente os reféns porque o Governo demora a estudar o nosso caso. Será que julgam que nos vamos deixar enganar outra vez?» A posição dos extraditáveis, dizia, era a mesma da primeira carta. «Não tinha por que mudar, dado que não obtivemos respostas positivas às solicitações da primeira missiva. Isto é um negócio e não um jogo para saber quem é mais esperto e quem é mais parvo.»

 

A verdade era que já nessa altura Escobar estava a vários anos-luz à frente do Grupo dos Notáveis. A sua pretensão de então era que o Governo lhe concedesse um território próprio e seguro - um acampamento-prisão, como ele dizia - igual ao que teve o M-19 enquanto se concluíam os trâmites da entrega. Havia mais de uma semana que tinha mandado a Guido Parra uma carta pormenorizada sobre a prisão especial que queria para si. Dizia que o local perfeito, a doze quilómetros de Medellín, era uma quinta de sua propriedade que estava em nome de um testa-de-ferro e que o município de Envigado podia tomar em arrendamento para a preparar como prisão. «Como isto requer gastos, os extraditáveis pagariam uma pensão de acordo com os custos», dizia mais à frente. E acabava com uma tirada espampanante: «Estou a dizer-te tudo isto porque desejo que fales com o alcaide de Envigado e lhe digas que vais da minha parte e explicas-lhe a ideia. Mas eu quero que fales com ele para que envie uma carta pública ao ministro da Justiça dizendo-lhe que ele pensa que os extraditáveis não se submeteram ao 2047 porque temem pela sua segurança, e que o município de Envigado, como contribuição para a paz do povo da Colômbia, está preparado para organizar uma prisão especial que ofereça protecção e segurança à vida daqueles que se entregarem. Fala-lhes de frente e com clareza para que dialoguem com Gaviria e lhe proponham o acampamento.» O propósito declarado na carta era obrigar o ministro da Justiça a responder em público. «Eu sei que isso será uma bomba», dizia a carta de Escobar. E acabava com a maior frescura: «Com isto vamo-los levando ao que queremos.»

 

No entanto, o ministro rejeitou a oferta nos termos em que estava colocada, e Escobar viu-se obrigado a baixar o tom com outra carta na qual, pela primeira vez, oferecia mais do que exigia. Em troca do acampamento-prisão prometia resolver os conflitos entre os diferentes cartéis, bandos e grupos, assegurar a entrega de mais de uma centena de traficantes convertidos, e abrir por fim um atalho definitivo para a paz. «Não estamos a pedir nem indulto, nem diálogo, nem nada do que eles dizem que não podem dar», dizia. Era uma oferta simples de rendição, «enquanto toda a gente neste país está a pedir diálogo e trato político». Inclusivamente, menosprezou até o que lhe era mais caro: «Eu não tenho problemas de extradição, pois sei que me matam se me agarrarem vivo, como fizeram com todos.»

 

A sua táctica de então era cobrar com favores enormes o correio dos sequestrados. «Diz ao senhor Santos», afirmou noutra carta, «que se quer provas da sobrevivência de Francisco, que publique primeiro o relatório da America’s Watch, uma entrevista com Juan Méndez, seu director, e um relatório sobre os massacres, as torturas e os desaparecimentos em Medellín.» Mas nessa altura já Hernando Santos tinha aprendido a lidar com a situação. Apercebia-se de que aquele ir e vir de propostas e contrapropostas estavam a causar-lhe a ele um grande desgaste, mas também aos seus adversários. Entre eles, Guido Parra, que em finais de Outubro estava num estado de nervos difícil de resistir. A sua resposta a Escobar foi que não publicaria nem uma linha nem voltaria a receber o seu emissário enquanto não tivesse uma prova determinante de que o seu filho estava vivo. Alfonso López Michelsen apoiou-o com a ameaça de renunciar ao Grupo dos Notáveis.

 

Foi eficaz. Ao fim de duas semanas Guido Parra falou a Hernando Santos de uma tasca de estrada. «Chego por estrada com a minha mulher, e estarei em sua casa às onze», disse-lhe. «Levo-lhe uma sobremesa muito deliciosa, e o senhor não faz ideia do que eu gostei e de como vai gostar dela.» Hernando saltou pensando que lhe levava Francisco. Mas era só a sua voz gravada numa minicassete. Esperaram mais de duas horas para a ouvir, porque não tinham o gravador apropriado, até que alguém descobriu que podiam ouvi-lo no atendedor automático do telefone.

 

Pacho Santos podia ser bom para muitos ofícios, menos para professor de dicção. Quer falar à mesma velocidade do seu pensamento, e as suas ideias são atropeladas e simultâneas. A surpresa daquela noite foi o contrário. Falou devagar, com voz colocada e uma construção perfeita. Na realidade eram as duas mensagens uma para a família e outra para o presidente - que tinha gravado na semana anterior.

 

A astúcia dos sequestradores de que Pacho gravasse os títulos do jornal como prova da data de gravação foi um erro que Escobar não lhes deve ter perdoado. Ao redactor judicial de El Tiempo, Luis Cañon, em compensação deu-lhe a oportunidade de brilhar com um golpe de grande jornalismo.

 

- Têm-no em Bogotá - disse.

 

Com efeito, a edição que Pacho lera tinha um título de última hora que só entrara na edição local, cuja circulação se limitava à parte norte da cidade. O dado era de ouro fino, e teria sido decisivo se Hernando Santos não tivesse sido contrário a um resgate armado.

 

Foi um instante de ressurreição para ele, sobretudo porque o conteúdo da mensagem lhe deu a certeza de que o filho cativo aprovava o seu comportamento no manejar do sequestro. Além disso, na família sempre se tivera a impressão de que Pacho era o mais vulnerável dos irmãos pelo seu temperamento fogoso e o seu espírito instável, e ninguém podia imaginar que estivesse no seu juízo perfeito e com tanto domínio de si mesmo ao fim de sessenta dias de cativeiro.

 

Hernando convocou toda a família para sua casa e deu-lhes a ouvir a mensagem até às luzes do amanhecer. Só Guido sucumbiu nos seus tormentos. Chorou. Hernando aproximou-se a animá-lo, e no suor da sua camisa encharcada reconheceu o cheiro do pânico.

 

- Lembra-te que a mim não é a polícia que me vai matar – disse-lhe Guido Parra por entre as lágrimas. - Matar-me-á Pablo Escobar, porque já sei demasiado.

 

María Victoria não se comoveu. Parecia-lhe que Parra jogava com os sentimentos de Hernando, que explorava a sua fraqueza e lhe concedia e lhe dava algo por um lado para lhe tirar mais por outro. Guido Parra deve ter percebido isso a um dado momento da noite, porque disse a Hernando: «Esta mulher é como um bloco de gelo.»

 

Estavam as coisas neste ponto a 7 de Novembro, quando sequestraram Maruja e Beatriz. O Grupo dos Notáveis ficou sem chão. A 22 de Novembro - tal como o tinha anunciado - Diego Montaña Cuéllar colocou aos companheiros a liquidação do grupo, e estes entregaram ao presidente, em sessão solene, as suas conclusões sobre as petições de fundo dos extraditáveis.

 

Se o presidente Gaviria esperava que o decreto de submissão provocasse uma rendição massiva e imediata dos traficantes de droga, deve ter sofrido um desencanto. Não foi assim. As reacções da imprensa, dos meios políticos, de juristas distintos, e até algumas apresentações válidas dos advogados dos extraditáveis tornaram patente que o decreto 2047 precisava de ser alterado. Para começar, deixava demasiado aberta a possibilidade de que qualquer juiz interpretasse a seu modo a forma como lidar com a situação. Outra falha era que as provas decisivas contra os traficantes estavam no exterior, mas todo o elemento de cooperação com os Estados Unidos tinha-se tornado crítico, e os prazos para as obter eram demasiado estreitos. A solução - que não estava no decreto - era dilatar os prazos e transferir para a Presidência da República a responsabilidade de ser o interlocutor para trazer as provas ao país.

 

Alberto Villamizar também não tinha encontrado no decreto o apoio decisivo que esperava. Até àquele momento, os seus intercâmbios com Santos e Turbay e as suas primeiras reuniões com os advogados de Pablo Escobar tinham-lhe permitido formar uma ideia global da situação. A sua impressão à primeira vista foi que o decreto de submissão, acertado mas deficiente, lhe deixava muito pouca margem de acção para libertar as suas sequestradas. Entretanto, o tempo passava sem qualquer notícia delas nem uma ínfima prova de sobrevivência. A sua única oportunidade para comunicarem tinha sido uma carta enviada através de Guido Parra, na qual lhes dava a ambas o optimismo e a segurança de que ele não voltaria a fazer nada que não fosse trabalhar para as libertar. «Eu sei que a sua situação é terrível, mas esteja tranquila», escreveu a Maruja.

 

A verdade era que Villamizar estava nas trevas. Tinha esgotado todas as portas, e a sua única esperança no longo Novembro era a promessa de Rafael Pardo de que o presidente estava a pensar num decreto complementar e esclarecedor do 2047. «Isso já está pronto», dizia-lhe. Rafael Pardo passava pela sua casa quase todas as tardes e mantinha-o a par das suas diligências, mas ele próprio não estava muito seguro por onde continuar. A sua conclusão das lentas conversas com Santos e Turbay era que as negociações estavam estagnadas. Não acreditava em Guido Parra. Conhecia-o desde as suas andanças pelo congresso e parecia-lhe oportunista e turvo. No entanto, boa ou má, era a única carta, e decidiu jogá-la a fundo. Não havia outra e o tempo urgia.

 

A pedido seu, o ex-presidente Turbay e Hernando Santos convocaram Guido Parra, com a condição de assistir também o doutor Santiago Uribe, outro advogado de Escobar com uma boa reputação de seriedade. Guido Parra iniciou a conversa com as suas frases habituais de alto voo, mas Villamizar pô-lo com os pés na terra desde a primeira com um golpe de capote à santanderiana.

 

- A mim não me venha com conversas de treta - disse-lhe ele.

- Vamos ao que interessa. O senhor tem tudo empatado por andar a pedir merdas e aqui não há senão uma coisa: simplesmente, os tipos têm de se entregar e confessar um delito pelo qual se lhes possam dar doze anos. É o que diz a lei e ponto final. Em troca disso dão-lhes uma diminuição de penas e garante-se-lhe a vida. O resto são puras chinesices suas.

 

Guido Parra não teve qualquer reparo em pôr-se no mesmo tom.

 

- Olhe, meu caro doutor - disse-lhe -, aqui o que acontece é que o Governo diz que não os vão extraditar, toda a gente diz isso, mas onde é que isso está taxativamente no decreto?

 

Villamizar concordou. Se o Governo estava a dizer que não ia extraditar, dado que esse era o sentido da lei, a tarefa era convencer o Governo a corrigir as ambiguidades. O resto - as interpretações amanhadas do delito sui generis, ou a recusa de confessar, ou a imoralidade da delação - não eram mais que distracções retóricas de Guido Parra. Pois era claro que para os extraditáveis - como o seu próprio nome o indicava - a única exigência real e peremptória naquele momento era a de não serem extraditados. De forma que não lhe pareceu impossível obter essa precisão para o decreto. Mas antes exigiu a Guido Parra a mesma franqueza e determinação que os extraditáveis exigiam. Quis saber, primeiro, até onde é que Parra estava autorizado a negociar e, segundo, quanto tempo depois de alterado o decreto libertariam os reféns. Guido Parra foi formal.

 

- Vinte e quatro horas depois estão cá fora - afirmou.

 

- Todos, é claro - disse Villamizar.

 

- Todos.

 

Um mês depois do sequestro de Maruja e Beatriz o regime absurdo do cativeiro tinha sido abrandado. Já não pediam autorização para se levantarem, e cada um servia-se do seu café ou mudava os canais de televisão. O que se falava dentro do quarto continuava a ser em sussurros, mas os movimentos haviam-se tornado mais espontâneos. Maruja não tinha de se sufocar com a almofada para tossir, embora tomasse as precauções mínima, para que não a ouvissem do lado de fora. O almoço e o jantar continuavam iguais, com os mesmos feijões, as mesmas lentilhas, as mesmas pelangas de carne ressequida e uma sopa ordinária de pacote.

 

Os guardas falavam muito entre si sem mais precauções que os sussurros. Intercambiavam notícias sangrentas, de quanto tinham ganho por caçar polícias nas noites de Medellín, das suas proezas de machos e os seus dramas de amor. Maruja tinha conseguido convencê-los de que no caso de um resgate armado era mais realista que as protegessem para assegurarem pelo menos um tratamento digno e um julgamento compassivo. A princípio pareciam indiferentes, pois eram fatalistas irredimíveis, mas a táctica de amolecimento conseguiu que não mantivessem as suas cativas vigiadas enquanto dormiam, e que escondessem as armas embrulhadas num pano de lã por detrás da televisão. Essa dependência recíproca, e o sofrimento comum, acabaram por impor às relações alguns vislumbres de humanidade. Maruja, pelo seu temperamento, não guardava nada que pudesse amargá-la. Desabafava com os guardas, que estavam preparados para lutar, e encarava-os com uma determinação arrepiante: «Mate-me.» Houve vezes em que desabafou com Marina, cujas complacências com os guardas a indignavam e cujas fantasias apocalípticas lhe faziam perder a calma. Às vezes levantava o olhar, sem qualquer motivo, e fazia um comentário desmoralizador ou um vaticínio sinistro.

 

- Por detrás desse pátio há uma oficina para os automóveis dos sicários - disse ela uma vez. - Estão lá todos, de dia e de noite, armados com espingardas, preparados para nos virem matar.

 

A falta mais grave, porém, aconteceu numa tarde em que Marina largou os seus impropérios habituais contra os jornalistas, porque não a mencionaram num programa de televisão sobre os sequestrados.

 

São todos uns filhos da puta - disse ela.

 

Maruja encarou-a.

 

Isso aí é que não - replicou ela, enfurecida. - Tenha respeito.

 

Marina não respondeu e mais tarde, num instante de sossego, pediu-lhe desculpa. Na realidade, estava num mundo à parte. Tinha uns sessenta e quatro anos, e fora de uma beleza notável, com uns lindos olhos negros e grandes, e uma cabeleira prateada que mantinha o seu brilho mesmo na desgraça. Estava pele e osso. Quando Beatriz e Maruja chegaram estava quase há dois meses sem falar com ninguém para além dos guardas, e precisou de tempo e trabalho para as assimilar. O medo tinha feito estragos nela: perdera vinte quilos e a sua moral estava de rastos. Era um fantasma.

 

Casara-se nova com um cirurgião muito bem qualificado no mundo desportivo, corpulento e de grande coração, que a amou sem reservas e com o qual teve quatro filhas e três filhos. Era ela quem tinha as rédeas de tudo, na sua casa e em algumas alheias, pois sentia-se obrigada a ocupar-se dos problemas de uma numerosa família antioquense. Era como uma segunda mãe de todos, tanto pela sua autoridade como pelos seus desvelos, mas além disso ocupava-se de qualquer estranho que lhe tocasse o coração.

 

Mais pela sua independência indomável do que por necessidade, vendia automóveis e seguros de vida, e parecia capaz de vender tudo o que quisesse, só porque queria ter o seu dinheiro para gastar. No entanto, aqueles que a conheceram de perto tinham pena que uma mulher com tantas virtudes naturais estivesse ao mesmo tempo sob o signo da desgraça. O seu marido viu-se incapacitado durante quase vinte anos por tratamentos psiquiátricos, dois irmãos tinham morrido num terrível acidente de trânsito, outro fora fulminado por um enfarte, outro esmagado pelo poste de um semáforo num confuso acidente de rua, e outro com vocação de andarilho desaparecera para sempre.

 

A sua situação de sequestrada era insolúvel. Ela própria partilhava da ideia generalizada de que só a tinham sequestrado para terem um refém de peso a quem pudessem assassinar sem frustrar as negociações da entrega. Mas o facto de estar há sessenta dias com o pé no patíbulo talvez lhe permitisse pensar que os seus verdugos vislumbravam a possibilidade de obter algum benefício em troca da sua vida.

 

Chamava a atenção, no entanto, que mesmo nos seus piores momentos passasse longas horas enfronhada no cuidado meticuloso das unhas das mãos e dos pés. Limava-as, polia-as, pintava-as com verniz de cor natural, pelo que pareciam ser de uma mulher mais nova. Punha igual atenção na depilação das sobrancelhas e das pernas. Uma vez superados os escolhos iniciais, Maruja e Beatriz ajudavam-na. Aprenderam a lidar com ela. Com Beatriz mantinha conversas intermináveis sobre gente bem e mal querida, nuns segredinhos intermináveis que exasperavam até os guardas. Maruja tentava consolá-la. Ambas sofriam por serem as únicas a saberem que ela estava viva, além dos seus carcereiros, e não poderem contá-lo a ninguém.

 

Um dos poucos alívios dessa época foi o regresso de surpresa do chefe encapuçado que as tinha visitado no primeiro dia. Voltou alegre e optimista, com a notícia de que podiam ser libertadas antes de 9 de Dezembro, data prevista para a eleição da Assembleia Constituinte. A notícia teve um significado muito especial para Maruja, pois nessa data era o seu aniversário, e a ideia de o passar em família infundiu-lhe um júbilo prematuro. Mas foi uma ilusão efémera: uma semana depois, o mesmo chefe disse-lhes que não só não seriam libertadas a 9 de Dezembro, como o sequestro ainda iria durar: nem no Natal nem no Ano Novo. Foi um golpe rude para as duas. Maruja sofreu um princípio de flebite que lhe causava fortes dores nas pernas. Beatriz teve uma crise de asfixia e a sua úlcera gástrica sangrou. Uma noite, enlouquecida pela dor, suplicou a Lamparón que fizesse uma excepção nas regras do cativeiro e lhe permitisse ir à casa de banho àquela hora. Ele autorizou-a depois de muito pensar, com a advertência de que corria um risco grave. Mas foi inútil. Beatriz prosseguiu com um chorozinho de cão ferido, sentindo-se a morrer, até que Lamparón teve pena dela e conseguiu junto do caseiro uma dose de Buscopan.

 

Apesar dos esforços que haviam feito até então, as reféns não tinham indícios fiáveis do sítio onde se encontravam. Pelo medo dos guardas que os vizinhos as ouvissem, e pelos barulhos e vozes que chegavam do exterior, pensavam que era uma zona urbana. O galo louco que cantava a qualquer hora do dia ou da noite podia ser uma confirmação, porque os galos fechados em andares altos costumam perder o sentido do tempo. Frequentemente ouviam vozes diferentes que gritavam muito perto um mesmo nome: «Rafael.» Os aviões de voo curto passavam rasantes e o helicóptero continuava a chegar tão perto que o sentiam por cima da casa. Marina insistia na versão nunca provada do alto oficial do exército que vigiava a marcha do sequestro. Para Maruja e Beatriz era mais uma fantasia, mas cada vez que chegava o helicóptero as normas militares do cativeiro recuperavam o seu rigor: a casa em ordem como um quartel, a porta fechada por dentro com tranqueta e por fora com cadeado; os sussurros, as armas sempre prontas, e a comida um pouco menos infame.

 

Os quatro guardas que tinham estado com elas desde o primeiro dia foram substituídos por outros quatro em princípios de Dezembro. Entre eles, um distinto e estranho, que parecia tirado de um filme truculento. Chamavam-lhe Gorila, e na verdade era o que parecia: enorme, de uma fortaleza de gladiador e com a pele negra retinta, coberto de pêlos eriçados. A sua voz era tão estentórea que não conseguia dominá-la para sussurrar, e ninguém se atreveu a exigir-lho. Era patente o sentimento de inferioridade dos outros face a ele. Em vez das calças curtas de todos usava calções de ginástica atados no meio das pernas. Tinha o passa-montanhas e uma T-shirt apertada que mostrava o dorso perfeito com a medalha do Menino Jesus ao pescoço, uns braços lindos com uma fita brasileira no pulso para dar sorte e as mãos enormes com as linhas do destino como que gravadas a fogo nas palmas descoloridas. Mal cabia no quarto, e cada vez que se mexia deixava à sua passagem um rasto de desordem. Para as reféns, que tinham aprendido a lidar com os anteriores, foi uma má visita. Sobretudo para Beatriz, que granjeou imediatamente o seu ódio.

 

O sinal comum dos guardas, como o das reféns, naquela altura, era o aborrecimento. Como prelúdio dos folguedos de Natal, os donos da casa fizeram uma novena com um pároco amigo, inocente ou cúmplice. Rezaram, entoavam cânticos, distribuíram doces às crianças e brindaram com o vinho de maça que era a bebida oficial da família. No fim exorcizaram a casa com aspersões de água benta. Precisaram de tanta, que a levaram em garrafões de petróleo. Quando o sacerdote se foi embora, a mulher entrou no quarto e orvalhou o televisor, os colchões, as paredes. As três reféns, apanhadas de surpresa, não souberam o que fazer. «É água benta», dizia a mulher enquanto orvalhava com a mão. «Ajuda a que não nos aconteça nada.» Os guardas benzeram-se, caíram de joelhos e receberam o aguaceiro purificador como uma unção angelical.

 

Esse espírito de reza e festa, tão próprio dos Antioquenses, não se alquebrou em nenhum momento de Dezembro. Tanto que Maruja tinha tomado precauções para que os sequestradores não soubessem que dia 9 era o do seu aniversário: cinquenta e três da alma. Beatriz tinha-se comprometido a guardar segredo, mas os carcereiros ficaram a saber por um programa especial de televisão que os filhos de Maruja lhe dedicaram na véspera.

 

Os guardas não ocultavam a emoção de se sentirem de algum modo dentro da intimidade do programa. «Dona Maruja», dizia um, «como o doutor Villamizar está jovem, como está tão bem, como gosta de si!» Esperavam que Maruja lhes apresentasse alguma das filhas para saírem com elas. De qualquer forma, ver aquele programa no cativeiro era como estar morto e ver a vida do outro mundo sem participar nela e sem que os vivos o soubessem. No dia seguinte, às onze da manhã e sem qualquer anúncio, o caseiro e a sua mulher entraram no quarto com uma garrafa de champanhe crioulo, copos para todos, e um bolo que parecia coberto de pasta dentífrica. Felicitaram Maruja com grandes manifestações de afecto e cantaram-lhe o Happy birthday, em coro com os guardas. Todos comeram e beberam, e deixaram Maruja com um conflito de sentimentos cruzados.

 

Juan Vitta despertou a 26 de Novembro com a notícia de que ia sair em liberdade pelo seu mau estado de saúde. Ficou paralisado pelo terror, pois precisamente nesses dias sentia-se melhor que nunca, e pensou que o anúncio era um subterfúgio para entregarem o primeiro cadáver à opinião pública. De forma que quando o guarda lhe anunciou, horas depois, que se preparasse para ser livre, sofreu um ataque de pânico. «Eu gostaria de morrer por minha conta», disse ele, «mas se o meu destino era aquele tinha de o assumir.» Ordenaram que fizesse a barba e vestisse roupa limpa, e ele fê-lo com a certeza de que estava a vestir-se para o seu funeral. Deram-lhe as instruções do que tinha de fazer uma vez livre, e sobretudo da forma como devia baralhar as entrevistas de imprensa de forma a que a polícia não deduzisse pistas para tentar operações de resgate. Pouco depois do meio-dia deram com ele umas voltas de automóvel por sectores intrincados de Medellín, e largaram-no sem cerimónias numa esquina.

 

Depois desta libertação, voltaram a mudar Hero Buss sozinho para um bom bairro, em frente de um ginásio de aeróbica para senhoras. O dono da casa era um mulato folião e gastador. A sua mulher, de uns trinta e cinco anos e grávida de sete meses, adornava-se desde o pequeno almoço com jóias caras e demasiado visíveis. Tinham um filho de poucos anos que vivia com a avó noutra casa, e o seu quarto cheio com toda a espécie de brinquedos mecânicos foi ocupado por Hero Buss. Este, pela forma como o adoptaram em família, preparou-se para um longo cativeiro.

 

Os donos da casa devem ter passado um tempo bom com aquele alemão como os dos filmes de Marlene Dietrich, com dois metros de altura e um de largura, adolescente aos cinquenta anos, com um sentido de humor à prova de credores e um espanhol recozido no calão caribenho de Carmen Santiago, sua mulher. Tinha corrido riscos graves como correspondente de imprensa e rádio alemãs na América Latina, inclusivamente sob o regime militar do Chile, onde viveu uma noite sem dormir com a ameaça de ser fuzilado ao amanhecer. De modo que já estava bem curtido para poder desfrutar do lado folclórico do seu sequestro.

 

Não era para menos, numa casa onde de tempos a tempos chegava um emissário com os alforges cheios de notas para os gastos, e no entanto estavam sempre em apuros, pois os donos apressavam-se a gastar tudo em festas e petiscos, e poucos dias depois não tinham sequer nada para comer. Nos fins-de-semana faziam festas e patuscadas com irmãos, primos e amigos íntimos. As crianças enchiam a casa. No primeiro dia emocionaram-se ao reconhecer o gigante alemão a quem tratavam como um artista de telenovela, de tanto o terem visto na televisão. Não menos de trinta pessoas alheias ao sequestro pediram-lhe fotografias e autógrafos, comeram e até dançaram com ele de cara descoberta naquela casa de loucos onde viveu até ao fim do cativeiro.

 

As dívidas acumuladas acabavam por enlouquecer os donos, e tinham de empenhar o televisor, o projector, o gira-discos, o que quer que fosse, para alimentar o sequestrado. As jóias da mulher iam desaparecendo do pescoço, dos braços e das orelhas, até que não lhe restou uma única. Uma madrugada, o homem acordou Hero Buss para que lhe emprestasse dinheiro, porque as dores de parto da mulher o tinham surpreendido sem um cêntimo para pagar o hospital. Hero Buss emprestou-lhe os seus últimos cinquenta mil pesos.

 

Libertaram-no a 11 de Dezembro, quinze dias depois de Juan Vitta. Tinham-lhe comprado para a ocasião um par de sapatos que não lhe serviram porque ele calçava o número quarenta e seis e o maior que encontraram depois de muito procurar era o número quarenta e quatro. Compraram-lhe umas calças e uma T-shirt dois números abaixo porque tinha perdido dezasseis quilos. Devolveram-lhe o equipamento de fotografia e a malinha com os seus livrinhos de apontamentos escondidos no forro, e pagaram-lhe os cinquenta mil pesos e outros quinze mil que lhes tinha emprestado antes para reporem o dinheiro que roubavam do mercado. Ofereceram-lhe muito mais, mas a única coisa que ele lhes pediu foi que conseguissem uma entrevista com Pablo Escobar. Nunca lhe responderam.

 

O grupo que o acompanhou nos últimos dias levou-o da casa num automóvel particular, e ao fim de muitas voltas para despistar pelos melhores bairros de Medellín deixaram-no com o seu equipamento às costas no meio do quarteirão do jornal El Colombiano, com um comunicado no qual os extraditáveis reconheciam a sua luta pela defesa dos direitos humanos na Colômbia e em vários países da América Latina e reiteravam a determinação de se acolherem à política de submissão sem outras condições além das garantias judiciais de segurança para eles e para as suas famílias. Jornalista até ao fim, Hero Buss deu a sua máquina fotográfica ao primeiro transeunte que passou e pediu-lhe que lhe tirasse a fotografia da libertação.

 

Diana e Azucena ficaram a par pela rádio, e os seus guardas disseram-lhes que seriam as próximas. Mas já lhes tinham dito tantas coisas que não acreditavam. Prevendo que apenas uma fosse libertada, cada uma escreveu uma carta para as suas famílias para a mandar por aquela que saísse. Nada lhes aconteceu desde então, nada voltaram a saber senão dois dias depois - no amanhecer de 13 de Dezembro - quando Diana foi acordada por sussurros e movimentos estranhos na casa. O palpite de que iam libertá-las fê-la saltar da cama. Alertou Azucena, e antes que alguém lhes anunciasse alguma coisa começaram a preparar a bagagem.

 

Tanto Diana como Azucena contaram nos seus diários aquele instante dramático. Diana estava no duche quando um dos guardas anunciou a Azucena sem qualquer cerimónia que se arranjasse para se ir embora. Só ela. No livro que publicaria pouco depois, Azucena relatou-o com uma simplicidade admirável.

 

«Fui ao quarto e vesti a muda de regresso que tinha pronta na cadeira enquanto Dona Diana continuava na casa de banho. Quando saiu e me viu, parou, olhou para mim, e disse-me:

 

- Vamo-nos embora, Azu?

 

Os olhos brilhavam-lhe e esperavam uma resposta ansiosa. Eu não podia dizer-lhe nada. Baixei a cabeça, respirei fundo e disse:

 

- Não. Vou eu sozinha.

 

- Fico muito contente - disse Diana. - Eu sabia que ia ser assim.

 

Diana anotou no seu diário: «Senti uma picada no coração, mas disse-lhe que me alegrava por ela, que se fosse embora descansada.» Entregou a Azucena a carta para Nydia que tinha escrito para o caso de não a libertarem a ela. Nessa carta pedia-lhe que celebrasse o Natal com os seus filhos. Como Azucena chorava, abraçou-a para a sossegar. Depois acompanhou-a até ao automóvel e ali abraçaram-se outra vez. Azucena voltou-se a olhar para ela através do vidro, e Diana disse-lhe adeus com a mão.

 

Uma hora depois, no automóvel que a levava ao aeroporto de Medellín para voar até Bogotá, Azucena ouviu um jornalista da rádio a perguntar ao seu marido o que estava ele a fazer quando soube da notícia da libertação. Ele respondeu a verdade:

 

- Estava a escrever um poema para Azucena.

 

Assim foi cumprido para ambos o sonho de estarem juntos em 16 de Dezembro para celebrarem os seus quatro anos de casados.

 

Richard e Orlando, por seu lado, cansados de dormir pelo chão no calabouço pestilento, convenceram os seus guardas a mudarem-nos de quarto. Passaram-nos para a divisão onde tiveram o mulato algemado, do qual não haviam voltado a ter notícias. Descobriram com espanto que o colchão da cama tinha grandes manchas de sangue recente que bem podiam ser de torturas lentas ou de punhaladas súbitas.

 

Pela televisão e pela rádio haviam ficado a saber das libertações. Os seus guardas tinham-lhes dito que os próximos seriam eles. A 17 de Dezembro, muito cedo, um chefe que conheciam como o Velho - e que acabou por ser o mesmo Pacho encarregado de Diana - entrou sem bater no quarto de Orlando.

 

– Ponha-se decente porque já se vai embora - disse-lhe ele.

 

Mal se pôde barbear e vestir, e não teve tempo de avisar Richard na mesma casa. Deram-lhe um comunicado para a imprensa, puseram-lhe uns óculos de alta graduação, e o Velho, sozinho, deu-lhe as voltas rituais por diferentes bairros de Medellín e deixou-o com cinco mil pesos para o táxi numa praceta que não identificou, porque conhecia muito mal a cidade. Eram nove da manhã de uma segunda-feira fresca e diáfana. Orlando não podia acreditar: até esse momento - enquanto fazia sinais inúteis aos táxis ocupados estivera convencido de que ficava mais barato aos seus sequestradores matá-lo que correr o risco de o soltarem vivo. No primeiro telefone que encontrou ligou para a mulher.

 

Liliana estava a dar banho ao menino e foi a correr atender com as mãos ensaboadas. Ouviu uma voz estranha e calma:

 

- Querida, sou eu.

 

Ela pensou que era alguém a gozar com ela e estava quase a desligar quando reconheceu a voz. «Ai, meu Deus!», gritou. Orlando tinha tanta pressa que só conseguiu dizer-lhe que ainda estava em Medellín e que chegaria nessa tarde a Bogotá. Liliana não teve um instante de sossego no resto do dia pela preocupação de não ter reconhecido a voz do marido. Juan Vitta dissera-lhe quando o libertaram que Orlando estava tão mudado pelo cativeiro que era difícil reconhecê-lo, mas nunca pensou que a mudança fosse até na voz. A sua impressão foi maior ainda nessa tarde no aeroporto, quando abriu caminho através da multidão de jornalistas e não reconheceu o homem que a beijou. Mas era Orlando ao fim de quatro meses de cativeiro, gordo, pálido e com um bigode retinto e áspero. Ambos separadamente tinham decidido ter o segundo filho assim que se encontrassem. «Mas havia tanta gente em volta que não conseguimos nessa noite», disse Liliana morta de riso. «E no outro dia também não, por causa do susto.» Mas recuperaram bem as horas perdidas: nove meses depois do terceiro dia tiveram outro menino, e no ano seguinte um par de gémeos.

 

A onda de libertações - que foi um sopro de optimismo para os outros reféns e suas famílias - acabou por convencer Pacho Santos de que não havia qualquer indício razoável de que algo avançasse em seu favor. Pensava que Pablo Escobar não tinha feito mais que aliviar-se do estorvo dos naipes menores para pressionar o indulto e a não extradição na Constituinte, e ficou com três ases: a filha de um ex-presidente, o filho do director do jornal mais importante do país, e a cunhada de Luis Carlos Galán. Beatriz e Marina, em compensação, sentiram renascer a esperança, embora Maruja preferisse não se enganar com interpretações ligeiras. O seu estado de espírito andava em baixo, e a proximidade do Natal abateu-a completamente. Detestava as festas obrigatórias. Nunca fez presépios nem árvores de Natal, nem distribuiu presentes nem cartões, e nada a deprimia tanto como as festas fúnebres da véspera de Natal nas quais toda a gente canta porque está triste ou chora porque está feliz. O caseiro e a sua mulher prepararam um jantar abominável. Beatriz e Marina fizeram um esforço por participar, mas Maruja tomou dois barbitúricos arrasadores e acordou sem remorsos.

 

Na quarta-feira seguinte o programa semanal de Alexandra foi consagrado à noite de Natal na casa de Nydia, com a família Turbay completa em volta do ex-presidente; com familiares de Beatriz e de Maruja e AlbertoVillamizar. As crianças estavam em primeiro plano: os dois filhos de Diana e o neto de Maruja - filho de Alexandra. Maruja chorou de emoção, pois a última vez que o vira mal balbuciava algumas palavras e já era capaz de se exprimir. Villamizar explicou no fim, com voz pausada e muitos pormenores, o decurso e o estado das suas diligências. Maruja resumiu o programa com uma frase justa: «Foi muito lindo e tremendo.»

 

A mensagem de Villamizar levantou a moral a Marina Montoya. Humanizou-se de repente e revelou a grandeza do seu coração. Com um sentido político que não lhe conheciam começou a ouvir e a interpretar as notícias com grande interesse. Uma análise dos decretos levou-a à conclusão de que as possibilidades de serem libertadas eram maiores do que nunca. A sua saúde começou a melhorar ao ponto de menosprezar as leis da clausura e falar com a sua voz natural, bela e bem timbrada.

 

A 31 de Dezembro foi a sua noite grande. Damaris levou o pequeno-almoço com a notícia de que celebrariam o Ano Novo com uma festa como manda a lei, com champanhe crioulo e uma perna de porco. Maruja pensou que aquela seria a noite mais triste da sua vida, pela primeira vez longe da sua família, e mergulhou na depressão. Beatriz acabou por se deixar abater. O estado de espírito de ambas estava para tudo menos para festas. Marina, em compensação, recebeu a notícia com alvoroço, e não poupou argumentos para lhes dar ânimo. Inclusivamente aos guardas.

 

- Temos de ser justas - disse ela a Maruja a e a Beatriz. - Eles também estão longe das suas famílias, e a nós o que nos compete é tornar o seu Ano Novo o mais grato possível.

 

Haviam-lhe dado três camisas de dormir na noite em que a sequestraram, mas só tinha usado uma, e guardava as outras no seu saco pessoal. Mais tarde, quando levaram Maruja e Beatriz, as três usavam fatos de treino como um uniforme de prisão, que lavavam de quinze em quinze dias.

 

Ninguém voltou a lembrar-se das camisas até à tarde de 31 de Dezembro, quando Marina deu mais um passo no seu entusiasmo. «Proponho-vos uma coisa», disse-lhes: «Tenho aqui três camisas de dormir que vamos vestir para que nos corra bem o resto do ano que começa.» E perguntou a Maruja:

 

- Vamos lá ver, filha, que cor quer?

 

Maruja disse que tanto lhe fazia. Marina decidiu que lhe ficava melhor o verde. A Beatriz deu-lhe a camisa cor-de-rosa e reservou a branca para si. Depois tirou do saco uma caixinha de cosméticos e propôs que se maquilhassem umas às outras. «Para estarmos belas esta noite», disse. Maruja, que já lhe chegava o disfarce das camisas, rejeitou-a com um humor azedo.

 

- Vestir a camisa de dormir eu ainda visto - disse - mas estar aqui pintada como uma louca, neste estado? Não, Marina, isso é que não.

 

Marina encolheu os ombros.

 

- Pois eu sim.

 

Como não tinham espelho, deu a Beatriz os utensílios de beleza e sentou-se na cama para que a maquilhasse. Beatriz fê-lo a preceito e com bom gosto, à luz do castiçal: um toque de blush para dissimular a palidez mortal da pele, os lábios intensos, a sombra das pálpebras. Ambas se surpreenderam de como ainda podia ser bela aquela mulher que tinha sido célebre pelo seu encanto pessoal e pela sua beleza. Beatriz conformou-se com o rabo-de-cavalo e o seu ar de colegial.

 

Naquela noite Marina mostrou a sua graça irresistível de antioquense. Os guardas imitaram-na, e cada um disse o que quis com a voz que Deus lhe deu. Tirando o caseiro, que mesmo no alto mar da bebedeira continuava a falar em sussurros. O Lamparón, mais corajoso pelos golos, atreveu-se a oferecer a Beatriz uma loção de homem. «Para que estejam bem perfumadas com os milhões de abraços que vos vão dar no dia em que as libertarem», disse-lhes. Ao bruto do caseiro isto não passou despercebido e disse que era um presente de amor reprimido. Foi um novo terror entre os muitos de Beatriz.

 

Além das sequestradas, encontravam-se o caseiro, a mulher e os quatro guardas de turno. Beatriz não conseguia suportar o nó na garganta. Maruja passou a noite nostálgica e envergonhada, mas mesmo assim não conseguia dissimular a admiração que Marina lhe causara, esplêndida, rejuvenescida pela maquilhagem, com a camisa branca, a cabeleira grisalha, a voz deliciosa. Era inconcebível que estivesse feliz, mas conseguira que acreditassem que sim.

 

Brincava com os guardas que levantavam a máscara para beber. Às vezes, desesperados pelo calor, pediam às reféns que se voltassem de costas para eles respirarem. À meia-noite em ponto, quando saltaram as sirenes dos bombeiros e os sinos das igrejas, estavam todos apertados no quarto, sentados na cama, no colchão, suando num calor de forja. Na televisão disparou o hino nacional. Então Maruja levantou-se e ordenou que se pusessem todos de pé para o cantarem com ela. No fim ergueu o copo de vinho de maçã e brindou pela paz na Colômbia. A festa terminou meia hora depois, quando acabaram as garrafas, e na travessa só restava o osso descarnado da perna e as sobras da salada de batata.

 

O turno de rendição foi saudado pelas reféns com um suspiro de alívio, pois eram os mesmos que as tinham recebido na noite do sequestro, e já sabiam como tratá-los. Sobretudo Maruja, cuja saúde a mantinha com o espírito em baixo. A princípio o terror convertia-se em dores errantes por todo o corpo que a obrigavam a assumir posturas involuntárias. Mas mais tarde tornaram-se concretas pelo regime desumano imposto pelos guardas. Em princípios de Dezembro impediram-na de ir à casa de banho um dia inteiro como castigo pela sua rebeldia, e quando lho permitiram não conseguiu fazer nada. Foi esse o princípio de uma cistite persistente e, mais tarde, de uma hemorragia que lhe durou até ao fim do cativeiro.

 

Marina, que tinha aprendido com o seu marido a fazer massagens, empenhou-se em tratá-la com as suas forças exíguas. Ainda lhe sobrava o bom estado de espírito do Ano Novo. Continuava optimista, contava anedotas: vivia. O aparecimento do seu nome e da sua fotografia numa campanha de televisão em favor dos sequestrados devolveu-lhe as esperanças e a alegria. Sentiu-se outra vez a que era, que já existia, que ali estava. Apareceu sempre na primeira etapa da campanha, até um dia em que, sem explicações, não apareceu mais. Nem Maruja nem Beatriz tiveram coragem para lhe dizer que talvez a tivessem apagado da lista porque ninguém acreditava que estivesse viva.

 

Para Beatriz era importante o dia 31 de Dezembro porque o tinha fixado como prazo máximo para ser livre. A desilusão deitou-a abaixo ao ponto de as suas companheiras de prisão não saberem o que fazer com ela. Chegou um momento em que Maruja não podia olhar para ela que perdia o controlo, desatava a chorar, e chegaram a ignorar-se uma à outra dentro de um espaço não muito maior que uma casa de banho. A situação tornou-se insustentável.

 

A distracção mais duradoura para as três reféns, durante as horas intermináveis depois do banho, era darem massagens lentas nas pernas com o creme hidratante que os carcereiros lhes forneciam em quantidades suficientes para que não enlouquecessem. Um dia Beatriz apercebeu-se que estava a acabar.

 

- E quando o creme se acabar - perguntou a Maruja -, o que é que vamos fazer?

 

- Pedir-lhes mais, ora essa - respondeu Maruja com uma ênfase ácida. E sublinhou com mais acidez ainda: - Ou se não, então veremos. Certo?

 

- Não me responda assim! - gritou-lhe Beatriz numa súbita explosão de raiva. - A mim, que estou aqui por sua culpa!

 

Foi a explosão inevitável. Num instante disse tudo o que tinha guardado em tantos dias de tensões reprimidas e noites de horror. O surpreendente era não ter ocorrido antes e com maior aversão. Beatriz mantinha-se à margem de tudo, vivia refreada, e engolia os rancores sem os saborear. O menos grave que podia acontecer, é claro, era que uma simples frase dita por descuido lhe revolvesse mais cedo ou mais tarde a agressividade reprimida pelo terror. No entanto, o guarda de turno não pensava o mesmo, e perante o medo de uma rixa ameaçou fechar Beatriz e Maruja em quartos separados.

 

Ambas ficaram alarmadas, pois o receio das agressões sexuais mantinha-se vivo. Estavam convencidas de que enquanto estivessem juntas era difícil que os guardas tentassem uma violação, e por isso a ideia de que as separassem foi sempre a mais temível. Por outro lado, os guardas estavam sempre aos pares, não eram afins, e pareciam vigiar-se uns aos outros como uma precaução de ordem interna para evitar incidentes graves com as reféns.

 

Mas a repressão dos guardas criava um ambiente doentio no quarto. Os que estavam de turno em Dezembro tinham levado um projector no qual passavam filmes de violência com uma forte carga erótica, e de vez em quando algumas fitas pornográficas. O quarto saturava-se momentaneamente com uma tensão insuportável. Além disso, quando as reféns iam à casa de banho deviam deixar a porta entreaberta, e em mais de uma ocasião surpreenderam o guarda a espreitar. Um deles, obstinado em segurar a porta com a mão para que não se fechasse enquanto elas usavam a casa de banho, esteve quase a perder os dedos quando Beatriz - de propósito - lha fechou de um golpe. Outro espectáculo incómodo foi um par de guardas homossexuais que chegou no segundo turno, e se mantinham num estado perpétuo de excitação com todo o tipo de carinhos perversos. A vigilância excessiva de Lamparón ao mínimo gesto de Beatriz, a oferta do perfume, a impertinência do caseiro eram factores de perturbação. As histórias que trocavam entre eles sobre violações a desconhecidas, as suas perversões eróticas, os seus prazeres sádicos acabavam por dar um ar estranho ao ambiente.

 

A pedido de Maruja e Marina o caseiro mandou vir um médico para Beatriz, a 12 de Janeiro, antes da meia-noite. Era um homem novo, bem vestido e educado, e com um capuz de seda amarela que combinava com o fato. É difícil acreditar na seriedade de um médico encapuçado, mas aquele demonstrou de entrada que conhecia bem o seu ofício. Tinha uma segurança tranquilizadora. Levava um estojo de couro fino, grande como uma mala de viagem, com o estetoscópio, o medidor de tensão, um electrocardiógrafo a pilhas, um laboratório portátil para análises ao domicílio, e outros recursos para emergências. Examinou a fundo as três reféns, e fez-lhes análises à urina e ao sangue no laboratório portátil.

 

Enquanto a examinava, o médico disse em segredo a Maruja: «Sinto-me a pessoa mais envergonhada do mundo por ter de a ver nesta situação. Quero dizer-lhe que estou aqui à força. Fui muito amigo e partidário do doutor Luis Carlos Galán e votei nele. A senhora não merece este sofrimento, mas tente aguentar. A serenidade é boa para a sua saúde.» Maruja apreciou as suas explicações, mas não conseguiu superar o assombro pela sua elasticidade moral. A Beatriz repetiu-lhe exactamente o mesmo discurso. O diagnóstico para ambas foi um stress grave e um princípio de desnutrição, para o qual ordenou enriquecer e equilibrar a dieta. Em Maruja encontrou problemas circulatórios e uma infecção vesical, e receitou-lhe um tratamento à base de Vasoton, diuréticos e calmantes. A Beatriz receitou-lhe um sedativo para entreter a úlcera gástrica. A Marina - a quem já tinha visto antes -, limitou-se a dar-lhe conselhos para que se preocupasse mais com a sua própria saúde, mas não a encontrou muito receptiva. Ordenou às três que caminhassem num passo estugado pelo menos uma hora por dia.

 

A partir de então a cada uma deram uma caixa de vinte comprimidos de um tranquilizante para tomar um de manhã, outro ao meio-dia e outro antes de dormir. Em caso extremo podiam trocá-lo por um barbitúrico fulminante que lhes permitisse escapar a muitos horrores daquela clausura. Bastava um quarto de comprimido para se ficar sem sentidos antes de se contar até quatro.

 

A partir da uma hora daquela madrugada começaram a caminhar no pátio escuro com os assustados guardas que as mantinham sob a mira das suas metralhadoras. Ficaram tontas à primeira volta, sobretudo Maruja, que teve de se agarrar às paredes para não cair. Com a ajuda dos guardas, e às vezes com Damaris, acabaram por se habituar. Ao fim de duas semanas Maruja chegou a dar em passos rápidos mil voltas: dois quilómetros. O estado de espírito de todas melhorou, e com ele a concórdia doméstica.

 

O pátio foi o único sítio da casa que conheceram além do quarto. Ficava às escuras enquanto duravam os passeios, mas nas noites claras conseguia-se ver um tanque grande meio em ruínas com roupa posta a secar em arames e uma grande desordem de caixas partidas e trastes em desuso. Por cima do alpendre do tanque havia um segundo andar com uma janela fechada e os vidros poeirentos tapados com cortinas de jornais. As sequestradas pensavam que era ali que dormiam os guardas que não estavam de turno. Havia uma porta para a cozinha, outra para o quarto das sequestradas, e um portão de tábuas velhas que não chegava ao chão. Era o portão do mundo. Mais tarde dar-se-iam conta de que dava para um prado tranquilo onde pastavam cordeiros pascais e galinhas dispersas. Parecia muito fácil abri-lo para se evadirem, mas estava guardado por um pastor alemão de aspecto insubornável. No entanto, Maruja tornou-se amiga dele, ao ponto de não ladrar quando se aproximava a acariciá-lo.

 

Diana ficou sozinha consigo mesma quando libertaram Azucena. Via televisão, ouvia rádio, às vezes lia a imprensa, e com mais interesse que nunca, mas conhecer as notícias sem ter com quem comentá-las era pior que não as saber. O tratamento dos seus guardas parecia-lhe bom, e reconhecia o esforço que faziam para lhe agradar. «Não quero nem é fácil descrever o que sinto cada minuto: a dor, a angústia e os dias de terror que passei», escreveu no seu diário. Temia pela sua vida, efectivamente, sobretudo devido ao medo inesgotável de um resgate armado. A notícia da sua libertação reduziu-se a uma frase insidiosa: «Está quase.» Aterrorizava-a a ideia de que fosse uma táctica infinita à espera de que a Assembleia Constituinte se instalasse e tomasse determinações concretas sobre a extradição e o indulto. Dom Pacho, que antes demorava longas horas com ela, que discutia, que a informava bem, tornou-se cada vez mais distante. Sem qualquer explicação, não voltaram a levar-lhe os jornais. As notícias, e até as telenovelas, adquiriram o ritmo do país paralisado pelo êxodo do Ano Novo.

 

Durante mais de um mês tinham-na distraído com a promessa de que veria Pablo Escobar em pessoa. Ensaiou a sua atitude, os seus argumentos, o seu tom, segura de que seria capaz de entabular com ele uma negociação. Mas a eterna demora levara-a a extremos inconcebíveis de pessimismo.

 

Dentro daquele horror a sua imagem tutelar foi a de sua mãe, de quem herdou talvez o temperamento apaixonado, a fé inquebrantável e o sonho escorregadio da felicidade. Tinham uma virtude de comunicação recíproca que se revelou nos meses obscuros do sequestro como um milagre de clarividência. Cada palavra de Nydia na rádio ou na televisão, cada gesto seu, ênfase menos pensada transmitiam a Diana recados imaginários nas trevas do cativeiro. «Sempre a senti como se fosse o meu anjo da guarda», escreveu. Tinha a certeza de que no meio de tantas frustrações, o êxito final seria o da devoção e o da força de sua mãe. Alentada por essa certeza, concebeu a ilusão de que seria libertada na noite de Natal.

 

Essa ilusão manteve-a acordada durante a festa que os donos da casa lhe fizeram na véspera, com assados na grelha, discos de salsa, aguardente, pólvora e balões coloridos, Diana interpretou aquilo como uma despedida. Mais ainda: tinha deixado pronta em cima da cama a mala que estava preparada desde Novembro para não perder tempo quando chegassem para a vir buscar. A noite estava gelada e o vento uivava entre as árvores como uma alcateia de lobos, mas ela interpretava aquilo como o augúrio de tempos melhores. Enquanto distribuíam os presentes às crianças pensava nos seus, e consolou-se com a esperança de estar com eles na noite do dia seguinte. O sonho tornou-se menos improvável porque os seus carcereiros lhe ofereceram um casaco de couro forrado por dentro, talvez escolhido de propósito para que suportasse bem o mau tempo. Tinha a certeza de que a sua mãe havia esperado por ela para jantar, como todos os anos, e que pusera a coroa de azevinho na porta com um letreiro para ela: «Bem-vinda». Assim tinha sido, com efeito. Diana continuou tão segura da sua libertação, que esperou até depois de se apagarem no horizonte as últimas migalhas da festa e amanheceu uma nova manhã de incertezas.

 

Na quarta-feira seguinte estava sozinha em frente da televisão, procurando canais e de repente reconheceu no ecrã o pequeno filho de Alexandra Uribe. Era o programa Enfoque dedicado ao Natal. A sua surpresa foi maior quando descobriu que era a véspera de Natal que ela tinha pedido à mãe na carta que Azucena levou. Estava a família de Maruja e Beatriz, e a família Turbay na totalidade: os dois filhos de Diana, os seus irmãos, e o seu pai no centro, grande e abatido. «Nós não estávamos para festas», disse Nydia. «No entanto, decidi cumprir os desejos de Diana e armei numa hora a árvore de Natal e o presépio dentro da lareira.» Apesar da boa vontade de todos de não deixarem aos sequestrados uma recordação triste, foi mais uma cerimónia de dor do que uma celebração. Mas Nydia estava tão segura de que Diana seria libertada nessa noite, que pôs na porta o enfeite natalício com o letreiro dourado: «Bem-vinda». «Confesso a minha dor por naquele dia não ter chegado a partilhar com todos», escreveu Diana no seu diário. «Mas deu-me muito alento, senti-me muito perto de todos, alegrou-me vê-los reunidos.» Adorou a maturidade de María Carolina, preocupou-a o retraimento de Miguelito, e recordou alarmada que ainda não estava baptizado; entristeceu-a a dor do pai e comoveu-a a mãe, que pôs um presente para ela no presépio e a saudação de bem-vinda na porta.

 

Em vez de ficar desmoralizada pela desilusão do Natal, Diana teve uma reacção de rebeldia contra o Governo. Na época tinha-se manifestado quase entusiasta pelo decreto 2047, no qual se basearam as ilusões de Novembro. Animavam-na as manobras de Guido Parra, a diligência do Grupo dos Notáveis, as expectativas da Assembleia Constituinte, as possibilidades de ajustes na política de submissão. Interrogou-se escandalizada porque é que ao Governo não ocorria uma possibilidade de diálogo que não fosse determinada pela pressão absurda dos sequestros. Deixou bem claro que sempre esteve consciente da dificuldade de actuar sob chantagem. «Sou da linha Turbay nisso», escreveu, «mas penso que com o passar do tempo as coisas aconteceram ao contrário.» Não entendia a passividade do Governo perante o que a ela pareceram zombarias dos sequestradores. Não entendia porque é que não os obrigava à entrega com maior energia, se havia fixado uma política para eles e tinha satisfeito algumas petições razoáveis. «como não lhes é exigido», escreveu no seu diário, «eles sentem-se mais à vontade com o tempo que quiserem e sabendo que têm em seu poder a arma de pressão mais importante.» Parecia-lhe que as mediações de bom ofício se tinham convertido numa partida de xadrez em que cada um movia as suas peças até ver quem dava o xeque-mate. «Mas que pedra serei eu?», interrogou-se. E respondeu a si própria sem evasivas: «Não deixo de pensar que somos descartáveis.» Ao Grupo dos Notáveis - já extinto - deu o tiro de misericórdia: «Começaram com um labor eminentemente humanitário e acabaram por prestar um serviço aos extraditáveis.»

 

Um dos guardas que acabavam o turno de Janeiro irrompeu no quarto de Pacho Santos.

 

Esta merda está fodida - disse-lhe. - Vão matar reféns.

 

Segundo ele, seria uma represália pela morte dos Priscos. O comunicado estava pronto e sairia nas próximas horas. Matariam primeiro Marina Montoya e depois um de três em três dias pela seguinte ordem: Richard Becerra, Beatriz, Maruja e Diana.

 

- O último será você - concluiu o guarda em jeito de consolo. – Mas não se preocupe, que este Governo não aguenta já mais de dois mortos.

 

Pacho, aterrorizado, fez as suas contas segundo os dados do guarda: restavam-lhe dezoito dias de vida. Então, decidiu escrever à sua mulher e aos seus filhos, sem rascunho, uma carta de seis folhas completas de caderno escolar, com a sua caligrafia de minúsculas separadas, como letras de imprensa, mas mais legíveis do que de costume, e com o pulso firme e a consciência de que não só era uma carta de adeus, mas também o seu testamento.

 

«Só desejo que este drama, não importa qual seja o seu final, acabe o mais depressa possível para que todos possamos ter finalmente paz», começava. A sua gratidão maior era para María Victoria - dizia -, com quem tinha crescido como homem, como cidadão e como pai, e a única coisa que lamentava era ter dado maior importância ao seu ofício de jornalista do que à vida doméstica. «Vou para a cova com este remorso», escreveu. Quanto aos seus filhos quase recém-nascidos tranquilizava-o a segurança de ficarem nas melhores mãos. «Fala-lhes de mim quando puderem entender cabalmente o que aconteceu e assim assimilarem sem dramatismo as dores desnecessárias da minha morte.» A seu pai agradecia-lhe o muito que tinha feito por ele na vida, e só lhe pedia «que arranjes tudo antes de vires unir-te comigo para evitares aos meus filhos as grandes dores de cabeça nessa rapina que se avizinha». Deste modo entrou num ponto que considerava «aborrecido mas fundamental» para o futuro: a solvência dos seus filhos e a unidade familiar dentro de El Tiempo. O primeiro dependia em grande parte dos seguros de vida que o diário tinha comprado para a sua mulher e seus filhos. «Peço-te que exijas que te dêem o que nos ofereceram», dizia ele, «pois é pelo menos justo que os meus sacrifícios pelo jornal não sejam de todo em vão.» Quanto ao futuro profissional, comercial ou político do diário, a sua única preocupação eram as rivalidades e discrepâncias internas, consciente de que as grandes famílias não têm pleitos pequenos. «Seria muito triste que depois deste sacrifício El Tiempo acabe dividido ou noutras mãos.» A carta acabava com um último reconhecimento a Mariavé pela recordação dos bons tempos que viveram juntos.

 

O guarda recebeu-a comovido.

 

- Calma, paizinho - disse-lhe -, eu encarrego-me de a fazer chegar.

 

A verdade era que a Pacho Santos não lhe restavam então os dezoito dias calculados, mas sim umas poucas horas. Era o primeiro da lista, e a ordem de assassínio tinha sido dada no dia anterior. Martha Nieves Ochoa soube à última hora por uma feliz casualidade - através de terceiras pessoas - e enviou a Escobar uma súplica de perdão, convencida de que aquela morte acabaria por incendiar o país. Nunca soube se a recebeu, mas o facto foi que a ordem contra Pacho Santos nunca se conheceu, e em seu lugar foi dada outra irrevogável contra Marina Montoya.

 

Marina parecia tê-lo pressentido desde princípio de Janeiro. Por razões que nunca explicou, tinha decidido fazer as caminhadas acompanhada pelo Monge, seu velho amigo, que tinha voltado na primeira rendição do ano. Caminhavam uma hora a partir da altura em que acabava a televisão, e depois Maruja e Beatriz saíam com os seus guardas. Numa dessas noites Marina regressou muito assustada, porque tinha visto um homem vestido de preto e com um capuz preto, que olhava para ela na escuridão do tanque de lavar. Maruja e Beatriz pensaram que devia ser mais uma das suas alucinações, e não fizeram caso. Confirmaram essa impressão no mesmo dia, pois não havia nenhuma luz para ver um homem de preto nas trevas do tanque. Caso fosse verdade, além disso, devia tratar-se de alguém muito conhecido na casa para não alarmar o pastor-alemão que se espantava com a sua própria sombra. O Monge disse que devia ser um fantasma que só ela via.

 

No entanto, duas ou três noites depois regressou do passeio num verdadeiro estado de pânico. O homem tinha voltado, sempre de preto, e observara-a um longo bocado com uma atenção pavorosa sem se ralar que ela também olhasse para ele. Ao contrário das noites anteriores, era lua cheia e o pátio estava iluminado por um verde fantástico. Marina contou tudo à frente do Monge, e este desmentiu-a, mas com razões tão arrevesadas que Maruja e Beatriz não souberam o que pensar. Desde então Marina não voltou a caminhar. As dúvidas entre as suas fantasias e a realidade eram tão impressionantes que Maruja sofreu uma alucinação real, uma noite em que abriu os olhos e viu o Monge à luz do candelabro, acocorado como sempre, e viu o seu capuz convertido numa caveira. A impressão de Maruja foi maior, porque relacionou a visão com o aniversário da morte de sua mãe no próximo dia 23 de Janeiro.

 

Marina passou o fim-de-semana na cama, prostrada por uma velha dor da coluna vertebral que parecia esquecida. Voltou-lhe o humor turvo dos primeiros dias. Como não podia valer-se a si mesma, Maruja e Beatriz puseram-se ao seu serviço. Levavam-na à casa de banho quase no ar. Davam-lhe a comida e a água na boca, ajeitavam-lhe uma almofada nas costas para que visse a televisão da cama. Mimavam-na, gostavam verdadeiramente dela, mas nunca se sentiram tão menosprezadas.

 

- Vejam só como eu estou doente e vocês nem me ajudam – dizia-lhes Marina. – Eu, que as ajudei tanto.

 

Às vezes só conseguia aumentar o justo sentimento de abandono que a atormentava. Na realidade, o único alívio de Marina naquela crise derradeira foram as orações encarniçadas que murmurava sem tréguas durante horas e o cuidado das suas unhas. Ao fim de vários dias, cansada de tudo, deitou-se exausta na cama e suspirou:

 

- Bom, que seja o que Deus quiser.

 

Na tarde de 22 visitou-as também o Doutor dos primeiros dias. Conversou em segredo com os seus guardas e ouviu com atenção os comentários de Maruja e Beatriz sobre a saúde de Marina. No fim sentou-se a conversar com ela à beira da cama. Deve ter sido algo sério e confidencial, pois os sussurros de ambos foram tão ténues que ninguém decifrou uma palavra. O Doutor saiu do quarto com melhor humor do que quando chegou, e prometeu voltar em breve.

 

Marina ficou deprimida na cama. Aos bocados chorava. Maruja tentou animá-la, e ela agradecia-lho com gestos para não interromper as suas orações, e quase sempre lhe correspondia com afecto, apertava-lhe a mão com a sua mão hirta. A Beatriz, com quem tinha uma relação mais ardente, tratava-a com o mesmo carinho. O único hábito que a manteve viva foi o de limar as unhas.

 

Às dez e meia da noite de 23, quarta-feira, começavam a ver na televisão o programa Enfoque, suspensas de qualquer palavra diferente, de qualquer piada familiar, do gesto menos pensado, de mudanças subtis na letra de uma canção que pudessem esconder mensagens cifradas. Mas não houve tempo. Assim que começou o tema musical, a porta abriu-se a uma hora insólita e entrou o Monge, embora não estivesse de turno naquela noite.

 

- Vimos buscar a avó para a levar para outra quinta - disse ele.

 

Disse-o como se fosse um convite dominical. Marina, na cama, ficou como que talhada em mármore, com uma palidez intensa, até nos lábios, e com o cabelo eriçado. O Monge dirigiu-se então a ela com o seu afecto de neto.

 

- Pegue nas suas coisas, avó - disse-lhe. - Tem cinco minutos.

 

Quis ajudá-la a levantar-se. Marina abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas não conseguiu. Levantou-se sem ajuda, pegou no saco das suas coisas pessoais e saiu para a casa de banho com uma leveza de sonâmbula que não parecia pisar o chão. Maruja enfrentou o Monge com a voz impávida.

 

- Vão matá-la?

 

O Monge crispou-se.

 

Essas merdas não se perguntam - disse. Mas recuperou logo: Já lhe disse que vai para uma quinta melhor. Palavra.

 

Maruja tentou impedir a todo o custo que a levassem. Como não havia ali nenhum chefe, coisa insólita numa decisão tão importante, pediu que chamassem um da parte dela para discutirem. Mas a disputa foi interrompida por outro guarda que entrou para levar o rádio e o televisor. Desligou-os sem mais explicações, e a última cintilação da festa desvaneceu-se no quarto. Maruja pediu-lhes que as deixassem pelo menos acabar o programa. Beatriz mostrou-se ainda mais agressiva, mas foi inútil. Foram-se embora com o rádio e o televisor, e disseram a Marina que voltariam para a vir buscar dentro de cinco minutos. Maruja e Beatriz, sozinhas no quarto, não sabiam em que acreditar, nem em quem acreditar, nem até que ponto aquela decisão inescrutável fazia parte dos seus destinos.

 

Marina demorou-se na casa de banho muito mais de cinco minutos. Voltou ao quarto com o fato de treino cor-de-rosa, as meias castanhas de homem e os sapatos que calçava no dia do sequestro. O fato de treino estava limpo e recém-engomado. Os sapatos tinham bolor da humidade e pareciam demasiado grandes, porque os pés haviam diminuído dois números em quatro meses de sofrimentos. Marina continuava sem cor e encharcada por um suor glacial, mas ainda lhe ficava uma réstia de ilusão.

 

- Quem sabe se não me irão libertar! - disse.

 

Sem combinarem, Maruja e Beatriz decidiram que qualquer que fosse a sorte de Marina, o mais cristão era enganá-la.

 

- De certeza que sim - disse-lhe Beatriz.

 

- Pois claro - concordou Maruja com o seu primeiro sorriso radiante. - Que maravilha!

 

A reacção de Marina foi surpreendente. Perguntou-lhes entre brincadeira e a sério que recados queriam mandar para as suas famílias. Elas improvisaram-nos o melhor que puderam. Marina, rindo-se um pouco de si mesma, pediu a Beatriz que lhe emprestasse a loção de homem que Lamparón lhe tinha oferecido no Ano Novo. Beatriz emprestou-lha, e Marina perfumou-se atrás das orelhas com um toque de elegância legítima, arranjou-se sem espelho com leves toques dos dedos a belíssima cabeleira nevada sem vigor, e no fim pareceu pronta para ser livre e feliz.

 

Na realidade, estava à beira do desmaio. Pediu um cigarro a Maruja e sentou-se a fumá-lo na cama enquanto não a vinham buscar. Fumou-o devagar, com grandes lufadas de angústia, enquanto revia milímetro a milímetro a miséria daquele antro em que não encontrou um instante de piedade e no qual não lhe concederam no fim nem sequer a dignidade de morrer na sua cama.

 

Beatriz, para não chorar, repetiu-lhe a sério a mensagem para a sua família: «Se tiver oportunidade de ver o meu marido e os meus filhos, diga-lhes que estou bem e que os amo muito.» Mas Marina já não era deste mundo.

 

- Não me peça isso - respondeu-lhe sem sequer olhar para ela. - Eu sei que nunca terei essa oportunidade.

 

Maruja levou-lhe um copo de água com dois barbitúricos que teriam bastado para dormir três dias. Teve de lhe dar a água, porque Marina não conseguia acertar na boca com o copo pela tremura das mãos. Então viu-lhe o fundo dos olhos radiantes, e isso bastou para se aperceber de que Marina não se enganava nem a si mesma. Sabia muito bem quem era, quanto deviam por ela e para onde a levavam, e se tinha ido atrás da conversa das últimas amigas que lhe restaram na vida havia sido também por compaixão.

 

Levaram-lhe um capuz novo, de lã cor-de-rosa que combinava com o fato de treino. Antes de lho porem despediu-se de Maruja com um abraço e um beijo. Maruja deu-lhe a bênção e disse-lhe: «Tenha calma.» Despediu-se de Beatriz com outro abraço e outro beijo, e disse-lhe: «Que Deus a abençoe.» Beatriz, fiel a si mesma até ao último instante, manteve-se na ilusão.

 

- Que bom, ir ver a sua família - disse-lhe.

 

Marina entregou-se aos guardas sem uma lágrima. Puseram-lhe o capuz ao contrário, com os buracos dos olhos e a boca na nuca, para que não pudesse ver. O Monge pegou-lhe nas duas mãos e tirou-a da casa caminhando para trás. Marina deixou-se levar com passos seguros. O outro guarda fechou a porta do lado de fora.

 

Maruja e Beatriz ficaram imóveis em frente da porta fechada, sem saberem por onde retomar a vida, até que ouviram os motores na garagem, e se desvaneceu o seu ruído no horizonte. Só então entenderam que lhes tinham tirado o televisor e o rádio para que não conhecessem o fim da noite.

 

Ao amanhecer do dia seguinte, quinta-feira 24, o cadáver de Marina Montoya foi encontrado num terreno baldio a norte de Bogotá. Estava quase sentada na erva ainda húmida de umas primeiras chuvinhas, recostada contra a cerca de arame de puas e com os braços em cruz. O juiz 78 de instrução criminal que fez o levantamento descreveu-a como uma mulher de uns sessenta anos, com abundante cabelo prateado, vestida com um fato de treino cor-de-rosa e meias castanhas de homem. Por baixo do fato de treino tinha um escapulário com uma cruz de plástico. Alguém que havia chegado antes da justiça roubara-lhe os sapatos.

 

O cadáver tinha a cabeça coberta por um capuz já duro pelo sangue seco, posto ao contrário, com os buracos da boca e dos olhos na nuca, e quase desfeito pelos orifícios de entrada e saída de seis tiros disparados a mais de cinquenta centímetros, pois não tinham deixado chamuscadelas no tecido e na pele. As feridas estavam distribuídas pelo crânio e pelo lado esquerdo da cara, e uma muito nítida como um tiro de misericórdia na testa. No entanto, junto ao corpo encharcado devido à erva daninha só se encontraram cinco cápsulas de nove milímetros. O corpo técnico da polícia judicial já tinha tirado cinco jogos de impressões digitais.

 

Alguns estudantes do Colégio San Carlos, no passeio em frente, tinham vagueado por ali com outros curiosos. Entre os que presenciaram o levantamento do corpo encontrava-se uma vendedeira de flores do Cemitério do Norte, que tinha madrugado para matricular um filho numa escola próxima. O cadáver impressinou-a pela boa qualidade da roupa interior, pela forma e pelo cuidado das suas mãos e pela distinção que se lhe notava apesar do rosto crivado. Nessa tarde, a grossista de flores que a fornecia no seu posto do Cemitério do Norte - a cinco quilómetros de distância - encontrou-a com uma forte dor de cabeça e num estado de depressão alarmante.

 

- A senhora nem imagina como foi triste ver aquela pobre mulher atirada no prado - disse-lhe a florista. - Havia de ver a sua roupa interior, a sua figura de grande dama, o seu cabelo branco, as mãos tão finas com as unhas tão bem arranjadas.

 

A grossista, alarmada pela sua prostração, deu-lhe um analgésico para a dor de cabeça, aconselhou-a a não pensar em coisas tristes e, sobretudo, a não sofrer com os problemas alheios. Nem uma nem outra se aperceberam senão uma semana depois que tinham vivido um episódio inverosímil. Pois a grossista era Marta de Pérez, esposa de Luis Guillermo Pérez, o filho de Marina.

 

O Instituto de Medicina Legal recebeu o corpo às cinco e meia da tarde de quinta-feira, e deixaram-no no depósito até ao dia seguinte, pois aos mortos com mais de um tiro não é realizada a autópsia durante a noite. Ali esperavam para identificação e necropsia outros dois cadáveres de homens recolhidos na rua durante a manhã. Durante a noite chegaram outros dois de homens adultos, também encontrados à intempérie, e o de uma criança de cinco anos.

 

A doutora Patricia Álvarez, que fez a autópsia de Marina Montoya desde as sete e meia da manhã de sexta-feira, encontrou-lhe no estômago restos de alimentos reconhecíveis, e deduziu que a morte tinha ocorrido na madrugada de quinta-feira. Também ela ficou impressionada com a qualidade da roupa interior e as unhas limadas e pintadas. Chamou o doutor Pedro Morales, seu chefe, que fazia outra autópsia a duas mesas de distância, e este ajudou-a a descobrir outros sinais inequívocos da condição social do cadáver. Fizeram-lhe o mapa dental e tiraram-lhe fotografias e radiografias, e mais três pares de impressões digitais. Por fim fizeram-lhe uma prova de absorção atómica e não encontraram restos de psicofármacos, apesar dos dois barbitúricos que Maruja Pachón lhe dera umas horas antes da morte.

 

Cumpridos os trâmites primários mandaram o corpo para o Cemitério do Sul, onde três semanas antes tinha sido escavada uma fossa comum para sepultar uns duzentos cadáveres. Ali a enterraram juntamente com os outros quatro desconhecidos e o menino.

 

Era evidente que naquele Janeiro atroz o país tinha chegado à pior situação concebível. Desde 1984, aquando do assassínio do ministro Rodrigo Lara Bonilla, tínhamos sofrido todo o tipo de feitos abomináveis, mas nem a situação havia chegado ao fim, nem o pior tinha ficado para trás. Todos os factores de violência estavam desencadeados e agudizados.

 

Entre os muito graves que tinham convulsionado o país, o narcoterrorismo definiu-se como o mais virulento e desapiedado. Quatro candidatos presidenciais tinham sido assassinados antes da campanha de 1990. Carlos Pizarro, candidato do M-19, foi morto por um assassino solitário a bordo de um avião comercial, apesar de terem mudado quatro vezes as suas reservas de voo, em absoluto segredo e com todo o tipo de argúcias para despistar. O pré-candidato Ernesto Samper sobreviveu a uma rajada de onze tiros e chegou à Presidência da República cinco anos depois, ainda com quatro projécteis dentro do corpo que soavam nas portas magnéticas dos aeroportos. Ao general Maza Márquez tinham-lhe rebentado à sua passagem um carro-bomba de trezentos e cinquenta quilos de dinamite, e havia escapado do seu automóvel de baixa blindagem arrastando um dos seus guarda-costas ferido. «De repente senti-me como que suspenso no ar pela crista de uma onda», contou o general. Foi tal a comoção, que teve de recorrer à ajuda psiquiátrica para recuperar o equilíbrio emocional. Ainda não tinha acabado o tratamento, ao fim de sete meses, quando um camião com duas toneladas de dinamite desmantelou com uma explosão apocalíptica o enorme edifício do DAS, com um saldo de setenta mortos, setecentos e vinte feridos e estragos materiais incalculáveis. Os terroristas tinham esperado o momento exacto em que o general entrasse no seu gabinete, mas não sofreu nem uma beliscadura no meio do cataclismo. Nesse mesmo ano, uma bomba rebentou num avião de passageiros cinco minutos depois da descolagem e causou cento e sete mortos, entre eles Andrés Escabí - o cunhado de Pacho Santos - e o tenor colombiano Gerardo Arellano. A versão geral foi que era dirigida ao candidato César Gaviria. Erro sinistro, pois Gaviria não teve nunca o propósito de viajar naquele avião. Mais ainda: a segurança da sua campanha proibira-o de voar em aviões de carreira, e numa ocasião em que o quis fazer teve de desistir, perante o espanto de outros passageiros que trataram de desembarcar para não correr o risco de irem no avião com ele.

 

A verdade era que o país estava condenado dentro de um círculo infernal. Os extraditáveis negavam-se a entregar-se ou a moderar a violência, porque a polícia não lhes dava tréguas. Escobar tinha denunciado por todos os meios que a polícia entrava a qualquer hora nas comunas de Medellín, agarrava dez menores ao acaso, fuzilava-os sem mais averiguações em cantinas e currais. Pressupunham com o simples olhar que a maioria estava ao serviço de Pablo Escobar, ou eram seus partidários, ou iam sê-lo em qualquer momento pela razão ou pela força. Os terroristas não davam tréguas nas matanças impunes de polícias, nem nos atentados e nos sequestros. Por seu lado, os dois movimentos guerrilheiros mais antigos e fortes, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e as Forças Armadas Revolucionárias (FARC), acabavam de responder com todo o tipo de actos terroristas a primeira proposta de paz do Governo de César Gaviria.

 

Um dos grémios mais afectados por aquela guerra cega foi o dos jornalistas, vítimas de assassínios e sequestros, embora também de deserção por ameaças e corrupção. Entre Setembro de 1983 e Janeiro de 1991 foram assassinados pelos cartéis da droga vinte e seis jornalistas de diferentes meios de comunicação do país. Guillermo Cano, director de El Espectador, o mais inerme dos homens, foi perseguido e assassinado por dois pistoleiros à porta do seu jornal a 17 de Dezembro de 1986. Conduzia a sua própria camioneta, e apesar de ser um dos homens mais ameaçados do país pelos seus editoriais suicidas contra o comércio de droga, negava-se a usar um automóvel blindado ou a levar escolta. Contudo, os seus inimigos tentaram continuar a matá-lo depois de morto, Um busto erguido em sua memória foi dinamitado em Medellín. Meses depois, fizeram explodir um camião com trezentos quilos de dinamite que reduziam as máquinas do jornal a escombros.

 

Uma droga mais daninha do que as chamadas «duras» introduziu-se na cultura nacional: o dinheiro fácil. Prosperou a ideia de que a lei é o maior obstáculo para a felicidade, que de nada serve aprender a ler e a escrever, que se vive melhor e mais seguro como delinquente do que como gente de bem. Em síntese: o estado de perversão social próprio de toda a guerra larvar.

 

O sequestro não era uma novidade na história recente da Colômbia. Nenhum dos quatro presidentes dos anos anteriores tinha escapado à prova de um sequestro desestabilizador. E certamente, até onde se sabe, nenhum dos quatro havia cedido às exigências dos sequestradores. Em Fevereiro de 1976, sob o Governo de Alfonso López Michelsen, o M-19 tinha sequestrado o presidente da Confederação de Trabalhadores da Colômbia, José Raquel Mercado. Foi julgado e condenado à morte pelos seus captores por traição à classe operária, e executado com dois tiros na nuca perante a recusa do Governo em cumprir uma série de condições políticas.

 

Dezasseis membros de elite do mesmo movimento armado tomaram a Embaixada da República Dominicana em Bogotá quando celebravam a sua festa nacional, a 27 de Fevereiro de 1980, sob o Governo de Julio César Turbay. Durante sessenta e um dias mantiveram como reféns quase todo o corpo diplomático acreditado na Colômbia, incluindo os embaixadores dos Estados Unidos, Israel e Vaticano. Exigiam um resgate de cinquenta milhões de dólares e a libertação de trezentos e onze dos seus militantes detidos. O presidente Turbay recusou-se a negociar, mas os reféns foram libertados a 28 de Abril sem qualquer condição expressa, e os sequestradores saíram do país sob a protecção do Governo de Cuba, solicitada pelo Governo da Colômbia. Os sequestradores garantiram em privado que tinham recebido pelo resgate cinco milhões de dólares em dinheiro, recolhidos pela colónia judaica da Colômbia entre os seus congéneres do mundo inteiro.

 

A 6 de Novembro de 1985, um comando do M-19 tomou o multitudinário edifício da Corte Suprema da Justiça na sua hora de maior actividade, com a exigência de que o mais alto tribunal da república julgasse o presidente Belisario Betancur por não cumprir a sua promessa de paz. O presidente não negociou, e o exército resgatou o edifício a sangue e fogo ao fim de dez horas, com um saldo indeterminado de desaparecidos e noventa e cinco mortos civis, entre eles nove magistrados da Corte Suprema de Justiça e o seu presidente, Alfonso Reyes Echandía.

 

Por seu lado, o presidente Virgilio Barco, quase no fim do seu mandato, deixou mal resolvido o sequestro de Álvaro Diego Montoya, o filho do seu secretário-geral. A fúria de Pablo Escobar rebentou nas mãos, sete meses depois, do seu sucessor, César Gaviria, que iniciava o seu Governo com o problema maior de dez notáveis sequestrados.

 

No entanto, nos seus primeiros cinco meses, Gaviria tinha conseguido um ambiente menos turbulento para enfrentar a tempestade. Conseguira um acordo político para convocar uma Assembleia Constituinte, investida pela Corte Suprema de Justiça de poder suficiente para decidir sobre qualquer tema sem qualquer limite. Incluindo, é claro, os mais candentes: a extradição de nacionais e o indulto. Mas o problema de fundo, tanto para o Governo como para o tráfico de droga e para as guerrilhas, era que enquanto a Colômbia não tivesse um sistema de justiça eficiente era quase impossível articular uma política de paz que colocasse o Estado do lado dos bons e deixasse do lado dos maus os delinquentes de qualquer cor. Mas nada era simples nesses dias, e muito menos informar sobre nada com objectividade desde nenhum lado, nem era fácil educar filhos e ensinar-lhes a diferença entre o bem e o mal.

 

A credibilidade do Governo não estava à altura dos seus notáveis êxitos políticos. Os organismos de segurança, fustigados pela imprensa mundial e pelos organismos internacionais de direitos humanos, deixavam muito a desejar. Em compensação, Pablo Escobar tinha conseguido uma credibilidade que as guerrilhas nunca tiveram nos seus melhores dias. As pessoas chegaram a acreditar mais nas mentiras dos extraditáveis do que nas verdades do Governo.

 

A 14 de Dezembro foi proclamado o decreto 3030, que modificou o 2047 e anulou todos os anteriores. Introduziu-se, entre outras novidades, a acumulação jurídica de penas. Isto é: a uma pessoa julgada por vários delitos, quer fosse num mesmo julgamento ou em julgamentos posteriores, não se lhe somariam os anos por diferentes condenações, mas sim que só expiaria a pena mais longa. Também se fixou uma série de procedimentos e prazos relacionados com a transferência de provas do exterior para processos na Colômbia. Mas mantiveram-se firmes os dois grandes escolhos para a entrega: as condições um tanto incertas para a não extradição e o prazo fixo para os delitos perdoáveis. Melhor dizendo: mantinham-se a entrega e a confissão como requisitos indispensáveis para a não extradição e para as diminuições de penas, mas sempre sujeitas a que os delitos se tivessem cometido antes de 5 de Setembro de 1990. Pablo Escobar expressou o seu desacordo com uma mensagem enfurecida. A sua reacção tinha desta vez um motivo a mais, que se teve o cuidado de não denunciar em público: a aceleração do intercâmbio de provas com os Estados Unidos, que facilitava os processos de extradição.

 

Alberto Villamizar foi o mais surpreendido. Pelos seus contactos diários com Rafael Pardo tinha motivos para esperar um decreto de utilização mais fácil. Pelo contrário, pareceu-lhe mais duro que o primeiro. E não estava sozinho nessa ideia. O inconformismo era tão generalizado que, desde o próprio dia da proclamação do segundo decreto, se começou a pensar num terceiro.

 

Uma conjectura fácil sobre as razões que endureceram o 3030 era que o sector mais radical do Governo - perante a ofensiva dos comunicados conciliadores e as libertações gratuitas de quatro jornalistas - tinha convencido o presidente de que Escobar estava encurralado. Quando, na realidade, nunca esteve tão forte como então com a pressão tremenda dos sequestros e a possibilidade de que a Assembleia Constituinte eliminasse a extradição e proclamasse o indulto.

 

Em compensação, os três irmãos Ochoa acolheram-se de imediato à opção de submissão. Isto foi interpretado como uma fissura na cúspide do cartel. Se bem que, na realidade, o processo da sua entrega tivesse começado desde o primeiro decreto, em Setembro, quando um conhecido senador antiquence pediu a Rafael Pardo que recebesse uma pessoa que não identificou de antemão. Era Martha Nieves Ochoa, que iniciou com aquele passo audacioso os trâmites para a entrega dos seus três irmãos com intervalos de um mês. Assim seria. Fabio, o mais novo, entregou-se a 18 de Dezembro; a 15 de Janeiro, quando menos parecia possível, entregou-se Jorge Luis, e a 16 de Fevereiro entregar-se-ia Juan David. Cinco anos depois, um grupo de jornalistas norte-americanos fez a pergunta a Jorge Luis na prisão e a sua resposta foi terminante: «Entregámo-nos para salvar a pele.» Reconheceu que por detrás estava a pressão irresistível das mulheres da sua família, que não tiveram paz senão quando os puseram a salvo na prisão blindada de Itagüi, um subúrbio industrial de Medellín. Foi um acto familiar de confiança no Governo, que naquele momento ainda teria podido extraditá-los para toda a vida para os Estados Unidos.

 

Dona Nydia Quintero, sempre atenta aos seus presságios, não menosprezou a importância da submissão dos Ochoa. Apenas três dias depois da entrega de Fabio foi vê-lo à prisão com a sua filha María Victoria e a sua neta María Carolina, a filha de Diana. Na casa onde se alojava tinha sido recebida por cinco membros da família Ochoa, fiéis ao protocolo tribal dos campesinos: a mãe, Martha Nieves e outra irmã, e dois rapazes novos. Levaram-na para a prisão de Itagüi, um edifício couraçado, ao fundo de uma ruazinha pela encosta acima, adornada já com as grinaldas de papel colorido do Natal.

 

Na cela da prisão, além do jovem Fabio, esperava-as o pai, Fabio Ochoa, um patriarca de cento e cinquenta quilos com feições de menino aos setenta anos, criador de cavalos colombianos de passo elegante e guia espiritual de uma vasta família de homens intrépidos e mulheres de rédeas firmes. Gostava de presidir às visitas da família sentado num cadeirão tipo trono, o eterno chapéu de cavaleiro, e um aspecto cerimonioso que combinava com a sua fala lenta e arrastada, e com a sua sabedoria popular. A seu lado estava o filho, que é vivo e chocarreiro, mas que quase não interpôs uma palavra naquele dia enquanto o seu pai falava.

 

Dom Fabio fez em primeiro lugar um elogio da valentia com que Nydia removia céus e terra para salvar Diana. Formulou a possibilidade de ajudarem através de Pablo Escobar com uma retórica magistral: faria com o maior gosto o que pudesse fazer, mas não acreditava que pudesse fazer alguma coisa. No fim da visita, o jovem Fabio pediu a Nydia o favor de explicar ao presidente a importância de aumentar o prazo da entrega no decreto de submissão. Nydia explicou-lhe que ela não o podia fazer, mas eles sim, com uma carta às autoridades competentes. Era a sua maneira de não permitir que a usassem como mensageira de recados perante o presidente. O jovem Fabio compreendeu, e despediu-se dela com uma frase reconfortante: «Enquanto houver vida há esperança.»

 

Quando Nydia regressou a Bogotá, Azucena entregou-lhe a carta de Diana na qual lhe pedia que celebrasse o Natal com os seus filhos, e Hero Buss telefonou-lhe urgindo que fosse a Cartagena para uma conversa pessoal. O bom estado físico e moral em que encontrou o alemão depois de três meses de cativeiro tranquilizou um pouco Nydia sobre a saúde da sua filha. Hero Buss não via Diana desde a primeira semana do sequestro, mas entre os guardas e as pessoas de serviço havia um intercâmbio constante de notícias que era filtrado até aos reféns, e sabia que Diana estava bem. O seu único risco grave e sempre iminente era o de um resgate armado. «A senhora não imagina o que é o perigo constante de matarem uma pessoa», disse Hero Buss. «Não só por chegar a lei, como eles dizem, mas sim porque estão sempre tão assustados que até confundem o menor ruído com uma operação.» Os seus únicos conselhos eram impedir a todo o custo um resgate armado e conseguir que mudassem no decreto o prazo para a entrega.

 

No mesmo dia do seu regresso a Bogotá, Nydia expressou as suas inquietações ao ministro da Justiça. Visitou o ministro da Defesa, general Óscar Botero, acompanhada pelo seu filho, o parlamentar Julio César Turbay Quintero, e pediu-lhe, angustiada, em nome de todos os sequestrados, que usassem a inteligência e não as operações de resgate. O seu desgaste era vertiginoso e a sua intuição da tragédia cada vez mais lúcida. Doía-lhe o coração. Chorava a toda a hora. Fez um esforço supremo por se dominar, mas as más notícias não lhe deram tréguas. Ouviu pela rádio uma mensagem dos extraditáveis com a ameaça de atirarem para a frente do palácio presidencial os cadáveres dos sequestrados embrulhados em sacos, se não se modificassem os termos do segundo decreto. Nydia telefonou ao presidente da República num estado de desespero mortal. Como estava no Conselho de Segurança atendeu-a Rafael Pardo.

 

- Peço-lhe que pergunte ao presidente e aos do Conselho de Segurança se o que precisam para mudar o decreto é que lhe atirem para a porta os sequestrados mortos e ensacados.

 

Nesse mesmo estado de exaltação estava horas depois quando pediu ao presidente em pessoa que mudasse o prazo do decreto. A ele já tinham chegado notícias de que Nydia se queixava da sua insensibilidade perante a dor alheia, e fez um esforço para ser mais paciente e explícito. Explicou-lhe que o decreto 3030 acabava de ser expedido e que o mínimo que se podia fazer era dar-lhe o tempo de ver como se comportava. Mas Nydia achava que os argumentos do presidente não eram mais que justificações para não fazer o que devia ter feito no momento oportuno.

 

- A mudança da data limite não só é necessária para salvar a vida dos reféns - replicou Nydia cansada de raciocínios - como é a única coisa que falta para conseguir a entrega dos terroristas. Mude-a e eles devolvem Diana.

 

Gaviria não cedeu. Estava já convencido de que o prazo fixo era o escolho principal da sua política de entregas, mas resistia a mudá-lo para que os extraditáveis não conseguissem o que pretendiam com os sequestros. A Assembleia Constituinte ia reunir-se nos próximos dias no meio de uma expectativa incerta, e não podia permitir-se que por uma fraqueza do Governo concedesse o indulto ao tráfico de droga. «A democracia nunca esteve em perigo pelo assassínio de quatro candidatos presidenciais nem por nenhum sequestro», diria Gaviria mais tarde. «Quando o esteve verdadeiramente foi nos momentos em que existiu a tentação ou o risco, ou o rumor de que se estava a incubar a possibilidade do indulto.» Isto é: o risco inconcebível de sequestrarem também a consciência da Assembleia Constituinte. Gaviria já tinha decidido: se isso acontecesse, a sua determinação serena e irrevogável seria acabar com a Constituinte.

 

Nydia andava desde há algum tempo com a ideia de que o doutor Turbay fizesse algo que estremecesse o país em favor dos sequestrados: uma manifestação multitudinária em frente do palácio presidencial, uma greve civil, um protesto formal junto das Nações Unidas. Mas o doutor Turbay acalmava-a. «Ele sempre foi assim, pela sua responsabilidade e pela sua moderação», disse Nydia. «Mas uma pessoa sabia que por dentro estava a morrer de dor.» Essa certeza, em vez de a aliviar, aumentava-lhe a angústia. Foi então que tomou a determinação de escrever ao presidente da República uma carta privada «que o motivasse a mover-se no que ele sabia que era necessário».

 

O doutor Gustavo Balcázar, preocupado com a prostração da sua esposa Nydia, convenceu-a a 24 de Janeiro a irem uns dias para a sua casa de Tabio - a uma hora de estrada na savana de Bogotá - para procurar um alívio para a sua angústia. Não tinha lá voltado desde o sequestro da filha, e por isso levou a sua Nossa Senhora e duas grandes velas para quinze dias cada uma, e tudo o que lhe pudesse fazer falta para não se desligar da realidade. Passou uma noite interminável na solidão gelada da savana, pedindo de joelhos a Nossa Senhora que protegesse Diana com uma campânula de vidro invulnerável para que ninguém lhe faltasse ao respeito, para que não sentisse medo, para que as balas resvalassem. Às cinco da manhã, depois de um sono breve e sobressaltado, começou a escrever na mesa da casa de jantar a carta da sua alma para o presidente da República. O amanhecer surpreendeu-a a garatujar ideias fugidias, chorando, rasgando rascunhos sem deixar de chorar, passando-os a limpo num mar de lágrimas.

 

Ao contrário do que ela própria tinha previsto, estava a escrever a sua carta mais judiciosa e drástica. «Não pretendo fazer um documento público», começou. «Quero chegar ao presidente do meu país e, com o respeito que me merece, fazer-lhe umas reflexões comedidas e uma angustiada e razoável súplica.» Apesar da reiterada promessa presidencial de que nunca se tentaria uma operação armada para libertar Diana, Nydia fez que constasse por escrito uma súplica premonitória: «Sabe-o o país e sabem-no os senhores que, se numa dessas rusgas derem com os sequestrados, poderá ocorrer uma horrível tragédia.» Convencida de que os escolhos do segundo decreto tinham interrompido o processo de libertações iniciado pelos extraditáveís antes do Natal, Nydia alertou o presidente com um receio novo e lúcido: se o Governo não tomasse uma determinação imediata para remover esses escolhos, os reféns corriam o risco de o assunto ficar nas mãos da Assembleia Constituinte. «Isto faria com que a aflição e a angústia, que não somos só nós os familiares a padecer, mas também o país inteiro, se prolongasse por mais meses intermináveis», escreveu. E concluiu com uma reverência elegante: «Pelas minhas convicções, pelo respeito que lhe professo como primeiro magistrado da Nação, seria incapaz de lhe sugerir alguma iniciativa da minha própria lavra, mas sinto-me, sim, inclinada a suplicar-lhe que em defesa de umas vidas inocentes não minimize o perigo que o factor tempo representa.» Uma vez terminada e passada a limpo, foram duas folhas e um quarto do tamanho de um ofício. Nydia deixou uma mensagem na secretaria privada da Presidência para que lhe indicassem para onde deveria mandá-las.

 

Nessa mesma manhã precipitou-se a tempestade com a notícia de que tinham sido mortos os cabecilhas do bando dos Priscos: os irmãos David Ricardo e Armando Alberto Prisco Lopera, acusados dos sete grandes homicídios daqueles anos, e de serem os cérebros dos sequestros, entre eles o de Diana Turbay e da sua equipa. Um tinha morrido com a falsa identidade de Francisco Muñoz Serna, mas quando Azucena Liévano viu a fotografia nos jornais reconheceu nele Dom Pacho, o homem que se ocupava de Diana e dela durante o cativeiro. A sua morte, e a de seu irmão, precisamente naqueles momentos de confusão, foram uma perda irreparável para Escobar, e não tardaria em dá-lo a saber com factos.

 

Os extraditáveis disseram num comunicado ameaçador que David Ricardo não tinha sido morto em combate, mas sim crivado pela polícia diante dos seus filhos pequenos e da sua mulher grávida. Sobre o seu irmão Armando, o comunicado assegurou que também não tinha morrido em combate, como disse a polícia, mas sim assassinado numa quinta de Rionegro, apesar de se encontrar paralítico em consequência de um atentado anterior. A cadeira de rodas, dizia o comunicado, via-se claramente no noticiário da televisão regional.

 

Este era o comunicado de que tinham falado a Pacho Santos. A 25 de Janeiro foi anunciado que seriam executados dois reféns num intervalo de oito dias, e a primeira ordem tinha já sido dada contra Marina Montoya. Notícia surpreendente, pois supunha-se que Marina havia sido assassinada assim que a sequestraram em Setembro.

 

«Era a isso que eu me referia quando mandei ao presidente a mensagem dos ensacados», disse Nydia recordando aquela jornada atroz. «Não era por ser impulsiva, nem temperamental, nem por precisar de tratamento psiquiátrico. É que quem iam matar era a minha filha, porque talvez não tenha sido capaz de mover aqueles que poderiam impedi-lo.»

 

O desespero de Alberto Villamizar não podia ser maior. «Aquele dia foi o mais horrível que passei na minha vida», disse então, convencido de que as execuções não se fariam esperar. Quem seria: Diana, Pacho, Maruja, Beatriz, Richard? Era uma rifa de morte que não queria sequer imaginar. Enfurecido, telefonou ao presidente Gaviria.

 

- O senhor tem de parar com estas operações - disse-lhe.

 

- Não, Alberto - respondeu-lhe Gaviria com a sua tranquilidade arrepiante. - A mim não me elegeram para isso.

 

Villamizar desligou o telefone, ofuscado pelo seu próprio ímpeto. «E agora que faço?», interrogou-se. Para começar pediu ajuda aos ex-presidentes Alfonso López Michelsen e Misael Pastrana e ao Monsenhor Darío Castrillón, bispo de Pereira. Todos fizeram declarações públicas de repúdio aos métodos dos extraditáveis e pediram a preservação da vida dos reféns. López Michelsen fez pela RCN um apelo ao Governo e a Escobar para que detivessem a guerra e se procurasse uma solução política.

 

Naquele momento já a tragédia estava consumada. Minutos antes da madrugada de 21 de Janeiro, Diana tinha escrito a última folha do seu diário. «Estamos a chegar aos cinco meses e só nós sabemos o que é isto», escreveu. «Não quero perder a fé e a esperança de regressar a casa sã e salva.»

 

Já não estava sozinha. Depois da libertação de Azucena e Orlando tinha pedido que a juntassem com Richard, e foi satisfeita essa pretensão depois do Natal. Foi uma fortuna para ambos. Conversavam até ao esgotamento, ouviam rádio até amanhecer, e assim adquiriram o costume de dormir de dia e viver de noite. Tinham sabido da morte dos Priscos por uma conversa dos guardas. Um chorava. Outro, convencido de que aquele era o fim e, referindo-se sem dúvida aos sequestrados, perguntou: «E agora o que fazemos com a mercadoria?» Aquele que estava a chorar nem sequer pensou.

 

- Acabemos com eles - disse.

 

Diana e Richard não conciliaram o sono depois do pequeno-almoço. Dias antes haviam-lhes anunciado que os mudariam de casa. Não acharam estranho, pois nos poucos dias do mês que estavam juntos tinham-nos mudado duas vezes para refúgios próximos, prevendo ataques reais ou imaginários da polícia. Pouco antes das onze da manhã de 25 estavam no quarto de Diana a comentar em sussurros o diálogo dos guardas, quando ouviram barulhos de helicópteros na direcção de Medellín.

 

Os serviços de informação da polícia tinham recebido nos últimos dias numerosas chamadas anónimas sobre movimento de gente armada na vereda de Sabaneta - município de Copacabana -, e em especial nas quintas do Alto de La Cruz, Villa del Rosario e La Bola. Talvez os carcereiros de Diana e Richard planeassem transferi-los para o Alto de la Cruz, que era a quinta mais segura, porque ficava num cume íngreme e abundante em bosques donde se dominava todo o vale até Medellín. Em consequência dessas denúncias telefónicas e outros indícios próprios, a polícia estava prestes a encontrar a casa. Era uma operação de guerra grande: dois capitães, nove oficiais, sete suboficiais e noventa e nove agentes, parte por terra e parte em quatro helicópteros artilhados. No entanto, os guardas já não faziam caso dos helicópteros porque passavam muitas vezes sem que nada acontecesse. De repente um deles assomou-se à porta e lançou o grito temível:

 

- Vem aí a polícia!

 

Diana e Richard demoraram-se de propósito o mais que puderam porque o momento era propício para que chegasse a polícia: os quatro guardas eram dos menos duros, e pareciam demasiado assustados para se defenderem. Diana escovou os dentes e vestiu uma camisa branca que tinha lavado no dia anterior, calçou os seus sapatos de ténis e os jeans que trazia vestidos no dia do sequestro e que lhe estavam muito grandes por causa da perda de peso. Richard mudou de camisa e pegou no equipamento de operador de câmara que lhe tinham devolvido por aqueles dias. Os guardas pareciam enlouquecidos pelo ruído crescente dos helicópteros, que sobrevoaram a casa, afastaram-se para o vale e voltaram quase a rasar as árvores. Os guardas apressavam-se aos gritos e empurravam os sequestrados para a porta de saída. Deram-lhes chapéus brancos para que os confundissem do ar com camponeses da região. A Diana atiraram-lhe um grande lenço preto por cima e Richard vestiu o seu casaco de couro. Os guardas ordenaram-lhes que corressem para a montanha e eles próprios o fizeram também separadamente com as armas montadas para disparar quando os helicópteros estivessem ao seu alcance. Diana e Richard começaram a trepar por um atalho de pedras. O declive era muito pronunciado, e o sol ardente caía a pique desde o centro do céu. Diana sentiu-se exausta ao fim de poucos metros quando já os helicópteros estavam à vista. À primeira rajada, Richard atirou-se para o chão. «Não se mexa», gritou-lhe Diana. «Finja-se morto.» Nesse instante caiu a seu lado, de barriga para baixo.

 

Mataram-me - gritou ela. - Não posso mexer as pernas.

 

Não podia mesmo, mas também não sentia qualquer dor, e pediu a Richard que lhe examinasse as costas porque antes de cair tinha sentido na cintura uma espécie de descarga eléctrica. Richard levantou-lhe a camisa e viu à altura da crista ilíaca esquerda um buraco minúsculo, nítido e sem sangue.

 

Como o tiroteio continuasse, cada vez mais perto, Diana insistia desesperada para que Richard a deixasse ficar ali e fugisse, mas ele manteve-se a seu lado esperando ajuda para a pôr a salvo. Entretanto, pôs-lhe na mão uma Nossa Senhora que trazia sempre no bolso, e rezou com ela. O tiroteio acabou logo e apareceram no atalho dois agentes do Corpo de Elite com as suas armas em riste.

 

Richard, ajoelhado junto a Diana, levantou os braços e disse: «Não disparem!» Um dos agentes olhou para ele com uma cara de grande surpresa e perguntou-lhe:

 

- Onde é que está Pablo?

 

- Não sei - respondeu Richard. - Sou Richard Becerra, o jornalista. Aqui está Diana Turbay e está ferida.

 

- Comprove isso - disse um agente.

 

Richard mostrou-lhe o bilhete de identidade. Eles e alguns camponeses que surgiram das matas ajudaram a transportar Diana numa maca improvisada com um lençol e deitaram-na dentro do helicóptero. A dor tinha-se tornado insuportável, mas estava calma e lúcida, e sabia que ia morrer.

 

Meia hora depois, o ex-presidente Turbay recebeu uma chamada de uma fonte militar, para lhe dizerem que a sua filha Diana e Francisco Santos tinham sido resgatados em Medellín graças a uma operação do Corpo de Elite. Imediatamente telefonou a Hernando Santos, que lançou um grito de vitória, e ordenou aos telefonistas do seu jornal para que dessem a notícia a toda a família dispersa. Depois telefonou para o apartamento de Alberto Villamizar, e retransmitiu-lhe a notícia tal como lha tinham dado. «Que maravilha!», gritou Villamizar. O seu júbilo era sincero, mas logo a seguir apercebeu-se de que uma vez Pacho e Diana libertados os únicos executáveis que restavam nas mãos de Escobar eram Maruja e Beatriz.

 

Enquanto fazia chamadas de urgência ligou o rádio e verificou que a notícia não estava ainda no ar. Ia a marcar o número de Rafael Pardo, quando o telefone voltou a tocar. Era outra vez Hernando Santos para lhe dizer descoroçoado que Turbay tinha corrigido a primeira notícia. O libertado não era Francisco Santos, mas sim o operador de câmara Richard Becerra, e Diana estava ferida. No entanto, a Hernando Santos não o perturbava tanto o erro como a consternação de Turbay por lhe ter causado uma falsa alegria.

 

Martha Lupe Rojas não estava em casa quando lhe telefonaram do serviço de notícias para lhe dizerem que o seu filho Richard tinha sido libertado. Ela fora a casa dos seus irmãos, e estava tão suspensa das notícias que levou o seu inseparável transístor. Mas naquele dia, pela primeira vez desde o sequestro, não funcionou.

 

No táxi que a levava ao noticiário quando alguém lhe disse que o seu filho estava a salvo, a voz familiar do jornalista Juan Gossaín trouxe-a à realidade: as informações de Medellín eram ainda muito confusas. Tinha-se comprovado que Diana Turbay estava morta, mas não havia nada claro sobre Richard Becerra. Martha Lupe começou a rezar em voz baixa: «Meu Deus, faz com que as balas lhe passem ao lado e não lhe toquem.» Nesse momento, Richard telefonou de Medellín para sua casa para lhe contar que estava a salvo, e não a encontrou. Mas o grito emocionado de Gossaín devolveu a alma a Martha Lupe:

 

- O operador de câmara Richard Becerra está vivo!

 

Martha Lupe desatou a chorar e não conseguiu controlar-se senão já noite alta, quando recebeu o seu filho na redacção do noticiário Criptón. Hoje recorda-o: «Estava pele e osso, pálido e barbudo, mas vivo.»

 

Rafael Pardo tinha recebido a notícia minutos antes no seu escritório através de uma chamada de um jornalista amigo que queria confirmar uma versão do resgate. Telefonou ao general Maza Márquez e depois ao director da polícia, general Gómez Padilla, e nenhum deles sabia das operações de resgate. Dali a pouco telefonou-lhe Gómez Padilla e informou de que tinha sido um encontro fortuito com o Corpo de Elite no decurso de uma operação de busca de Escobar. As unidades que operavam, disse Gómez Padilla, não tinham qualquer informação prévia de que houvesse sequestradores no local.

 

Desde que recebeu a notícia de Medellín, o doutor Turbay tentara comunicar com Nydia na casa de Tabio, mas o telefone estava avariado. Mandou numa camioneta o seu chefe de escolta com a notícia de que Diana estava a salvo e a tinham no hospital de Medellín para os exames de rotina. Nydia recebeu-a às duas da tarde, e em vez do grito de júbilo que a família tinha dado, adoptou uma atitude de dor e assombro e exclamou:

 

- Mataram Diana!

 

No caminho de regresso a Bogotá, enquanto ouvia as notícias da rádio, acentuou-se-lhe a incerteza. «Continuei a chorar», diria mais tarde. «Mas naquela altura o meu pranto não era aos gritos, como antes, mas apenas de lágrimas.» Fez uma escala em sua casa para mudar de roupa antes de ir para o aeroporto, onde estava à espera da família o decrépito Fokker presidencial que voava pela graça divina depois de quase trinta anos de trabalhos forçados. A notícia naquele momento era que Diana estava sob cuidados intensivos, mas Nydia não acreditava em nada nem em ninguém, só no seu instinto. Foi direita ao telefone, e pediu para falar com o presidente da República.

 

- Mataram Diana, senhor presidente - disse-lhe ela. - E isso é obra sua, é culpa sua, é a consequência da sua alma de pedra.

 

O presidente alegrou-se por poder contradizê-la com uma boa notícia.

 

- Não, minha senhora - disse com a sua voz mais tranquila.

- Parece que houve uma operação e ainda não está nada muito claro. Mas Diana está viva.

- Não - replicou Nydia. - Mataram-na.

 

 

O presidente, que estava em comunicação directa com Medellín, não tinha dúvidas.

 

- E porque é que diz isso?

 

Nydia respondeu com uma convicção absoluta:

 

- Porque mo diz o meu coração de mãe.

 

O seu coração foi certeiro. Uma hora depois, María Emma Mejía, a conselheira presidencial para Medellín, subiu ao avião que levou a família Turbay e deu-lhes a má notícia. Diana tinha morrido exangue, depois de várias horas de esforços médicos que de todo o modo teriam sido inúteis. Tinha perdido o conhecimento no helicóptero que a transportou a Medellín do lugar do recontro com a polícia, e não o recuperara. Tinha a coluna vertebral fracturada ao nível da cintura por uma bala explosiva de alta velocidade e médio calibre que rebentou em lascas dentro do seu corpo e lhe causou uma paralisia geral da qual já não se recomporia.

 

Nydia sofreu um impacte maior quando a viu no hospital, despida na mesa de cirurgia, mas coberta com um lençol ensanguentado, com o rosto sem expressão e a pele sem cor devido à perda total de sangue. Tinha uma enorme incisão cirúrgica no peito por onde os médicos haviam introduzido o punho para lhe darem massagens cardíacas.

 

Assim que saiu do bloco cirúrgico, já para lá da dor e da esperança, Nydia convocou no próprio hospital uma conferência de imprensa feroz. «Esta é a história de uma morte anunciada», começou. Convencida de que Diana tinha sido vítima de uma operação ordenada a partir de Bogotá - segundo as informações que lhe deram desde a sua chegada a Medellín - fez um relato minucioso das súplicas que a família e ela própria tinham feito ao presidente da República para que a polícia não o tentasse. Disse que a insensatez e a criminalidade dos extraditáveis eram as culpadas da morte da sua filha, mas que em igual proporção também o eram o Governo e o presidente da República em pessoa. Mas sobretudo o presidente, «que com indolência e quase com frieza e indiferença desatendeu as súplicas que se lhe faziam para que não fossem resgatados e não fossem postas em perigo as vidas dos sequestrados».

 

Esta declaração terminante, divulgada em directo por todos os meios, provocou uma reacção de solidariedade na opinião pública e indignação no Governo. O presidente convocou Fabio Villegas, seu secretário-geral; Miguel Silva, seu secretário privado; Rafael Pardo, seu conselheiro de Segurança, e Mauricio Vargas, seu conselheiro de Imprensa. O propósito era elaborar uma rejeição enérgica à declaração de Nydia. Mas uma reflexão mais a fundo levou-os à conclusão de que a dor de uma mãe não se rebate. Gaviria entendeu-o assim e cancelou o objectivo da reunião e deu a ordem:

 

- Vamos ao enterro.

 

Não só ele como o Governo em pleno.

 

O ressentimento de Nydia não lhe deu uma trégua sequer. Por alguém cujo nome não recordava tinha mandado a carta tardia ao presidente - quando já sabia que Diana tinha morrido -, talvez para que levasse sempre na consciência a sua carga premonitória. «Obviamente, não esperei que me respondesse», disse.

 

No fim da missa de corpo presente na catedral - concorrida como poucas -, o presidente levantou-se da sua cadeira e percorreu sozinho a deserta nave central, seguido por todos os olhares, pelos relâmpagos dos fotógrafos, pelas câmaras de televisão, e estendeu a mão a Nydia com a segurança de que ela a deixaria ali estendida. Nydia apertou-lha com um desdém glacial. Na realidade, para ela foi um alívio, pois o que temia era que o presidente a abraçasse. Em compensação, apreciou o beijo de condolências de Ana Milena, sua esposa.

 

Mas isso não foi o fim. Mal ficou aliviada dos compromissos do luto, Nydia solicitou uma nova audiência ao presidente para o informar de algo importante que deveria saber antes do seu discurso daquele dia sobre a morte de Diana. Silva transmitiu a mensagem literalmente, e o presidente fez então o sorriso que Nydia nunca lhe veria.

 

- O que ela vem é deixar-me vazio - disse ele. - Mas que venha, claro.

 

Recebeu-a como sempre. Nydia, com efeito, entrou no gabinete, vestida de preto e com um aspecto diferente: simples e dolorida. Foi directa ao que ia, e deixou que o presidente o percebesse desde a primeira frase:

 

- Venho prestar-lhe um serviço.

 

A surpresa foi que, efectivamente, começou com as suas desculpas por ter julgado que o presidente tinha ordenado a operação em que Diana morrera. Agora sabia que nem sequer tinha sido informado. E queria dizer-lhe além disso que também naquele momento o estavam a enganar, pois também não era verdade que a operação fosse para procurar Pablo Escobar, mas sim para resgatar os reféns, cujo paradeiro tinha sido revelado sob tortura por um dos sicários capturados pela polícia. O sicário - explicou Nydia - havia aparecido depois como um dos mortos em combate.

 

O relato foi feito com energia e precisão, e com a esperança de despertar o interesse do presidente, mas não descobriu nem um sinal de compaixão. «Era como um bloco de gelo», diria mais tarde evocando aquele dia. Sem saber porquê, começou a chorar. Então revoltou-se o temperamento que tinha conseguido dominar, e mudou por completo de assunto e de modo. Reclamou perante o presidente pela sua indiferença e pela sua frieza por não cumprir com a obrigação constitucional de salvar as vidas dos sequestrados.

 

- Pense lá - concluiu -, se a sua menina tivesse estado nestas circunstâncias, o que é que o senhor teria feito?

 

Olhou-o directamente nos olhos, mas estava já tão exaltada que o presidente não conseguiu interrompê-la. Ele próprio contaria mais tarde: «Perguntava-me, mas não me dava tempo de responder.» Nydia, com efeito, fechou-lhe a passagem com outra pergunta: «Não acha, senhor presidente, que se enganou na forma como lidou com este problema?» O presidente deixou ver pela primeira vez uma sombra de dúvida. «Nunca tinha sofrido tanto», diria anos depois. Mas só pestanejou, e disse com a sua voz natural:

 

- É possível.

 

Nydia pôs-se de pé, estendeu-lhe a mão em silêncio, e saiu do gabinete antes de ele poder abrir-lhe a porta. Miguel Silva entrou então no gabinete e encontrou o presidente muito impressionado com a história do sicário morto. Sem perda de tempo, Gaviria escreveu uma carta privada ao procurador-geral para que investigasse o caso e se fizesse justiça.

 

A maior parte das pessoas concordava que a acção tinha sido para capturar Escobar ou um chefe importante, mas que mesmo dentro dessa lógica foi uma estupidez e um fracasso irreparável. Segundo a versão imediata da polícia, Diana tinha morrido na sequência de uma operação de busca com apoio de helicópteros e pessoal de terra. Sem terem essa intenção, deram com o comando que levava Diana Turbay e o operador de câmara Richard Becerra. Na fuga, um dos sequestradores disparou contra Diana pelas costas e fracturou-lhe a espinha dorsal. O operador de câmara escapou ileso. Diana foi transferida para o Hospital Geral de Medellín num helicóptero da polícia, e ali morreu às quatro e trinta e cinco da tarde.

 

A versão de Pablo Escobar era muito diferente e coincidia nos seus pontos essenciais com a que Nydia contou ao presidente. Segundo ele, a polícia tinha feito a operação sabendo que os sequestrados estavam no local. A informação tinha sido arrancada sob tortura a dois sicários seus que identificou com os seus nomes verdadeiros e números de identificação. Estes, segundo o comunicado, haviam sido presos e torturados pela polícia, e um deles tinha guiado a partir de um helicóptero os chefes da operação. Disse que Diana fora morta pela polícia quando fugia do combate, já libertada pelos seus raptores. Disse, por último, que na escaramuça tinham morrido também três camponeses inocentes que a polícia apresentou à imprensa como sicários caídos em combate. Este relatório deve ter dado a Escobar as satisfações que esperava relativamente às suas denúncias de violações de direitos humanos por parte da polícia.

 

Richard Becerra, a única testemunha disponível, foi assediado pelos jornalistas na mesma noite da tragédia num salão da Direcção-Geral da Polícia em Bogotá. Estava ainda com o casaco de couro preto com que o tinham sequestrado e com o chapéu de palha que os seus raptores lhe haviam dado para que passasse por camponês. O seu estado de espírito não era o melhor para fornecer algum dado esclarecedor.

 

A impressão que deixou nos seus colegas mais compreensivos foi que a confusão dos factos não lhe tinha permitido formar um juízo da notícia. A sua declaração de que o projéctil que matara Diana fora disparado de propósito por um dos sequestradores não encontrou apoio firme em nenhuma evidência. A crença geral, acima de todas as conjecturas, foi que Diana morreu por acidente entre os fogos cruzados. No entanto, a investigação definitiva ficava a cargo do procurador-geral em atenção à carta que o presidente Gaviria lhe enviou depois das revelações de Nydia Quintero.

 

O drama não tinha acabado. Perante a incerteza pública sobre a sorte de Marina Montoya, os extraditáveis emitiram um novo comunicado a 30 de Janeiro, no qual reconheciam ter dado a ordem de a executarem a partir do dia 23. Mas: «por motivos de clandestinidade e de comunicação, não temos informação - à data - se a executaram ou a libertaram. Se a executaram não entendemos os motivos pelos quais a polícia ainda não referiu o seu cadáver. Se a libertaram, os seus familiares têm a palavra». Só então, sete dias depois de ordenado o assassínio, se empreendeu a procura do cadáver.

 

O médico legista Pedro Morales, que tinha colaborado na autópsia, leu o comunicado na imprensa e calculou que o cadáver de Marina Montoya era o da senhora da roupa fina e das unhas impecáveis. Assim foi. No entanto, logo que se estabeleceu a sua identidade, alguém que disse ser do Ministério da Justiça pressionou por telefone o Instituto de Medicina Legal para que não se soubesse que o cadáver estava na vala comum.

 

Luis Guillermo Pérez Montoya, o filho de Marina, saía para almoçar quando a rádio transmitiu a notícia de última hora. No Instituto de Medicina Legal mostraram-lhe o retrato da mulher desfigurada pelas balas e teve muito trabalho para a reconhecer. No Cemitério do Sul tiveram de preparar um dispositivo especial de polícia, porque já a notícia estava no ar e tiveram de abrir passagem a Luis Guillermo Pérez para que chegasse até à vala por entre uma multidão de curiosos.

 

De acordo com os regulamentos do Instituto de Medicina Legal, o corpo de um não identificado deve ser enterrado com o número de série impresso no tronco, nos braços e nas pernas, para que possa ser reconhecido mesmo no caso de ser desmembrado. Deve envolver-se num tecido de plástico preto, como os que se usam para o lixo e atado pelos tornozelos e pelos pulsos com cordas resistentes. O corpo de Marina Montoya - segundo verificou o seu filho - estava nu e coberto de lama, atirado de qualquer maneira na vala comum, e sem as tatuagens de identificação ordenadas pela lei. A seu lado estava o cadáver do menino que tinham enterrado ao mesmo tempo, embrulhado no fato de treino cor-de-rosa.

 

Já no anfiteatro, depois de a lavarem com uma mangueira de pressão, o filho verificou-lhe a dentadura e teve um instante de vacilação. Parecia que se recordava de Marina não ter o premolar esquerdo, e o cadáver tinha a dentadura completa. Mas quando lhe examinou as mãos e as pôs sobre as suas não lhe restou qualquer dúvida: eram iguais. Luis Guillermo Pérez estava convencido de que o cadáver de sua mãe tinha sido identificado quando se fizera o levantamento, e de que fora enviado para a vala comum sem mais trâmites para que não ficasse qualquer rasto que pudesse inquietar a opinião pública ou perturbar o Governo.

 

A morte de Diana - mesmo antes da descoberta do cadáver de Marina - foi definitiva para o estado do país. Quando Gaviria se recusara a modificar o segundo decreto não tinha cedido perante a aspereza de Villamizar e as súplicas de Nydia. O seu argumento, em síntese, era que os decretos não podiam ser julgados em função dos sequestros, mas sim em função do interesse público, tal como Escobar não sequestrava para pressionar a entrega, mas sim para forçar a não extradição e conseguir o indulto. Essas reflexões conduziram-no a uma modificação final do decreto. Era difícil depois de ter resistido às súplicas de Nydia e a tantas outras dores alheias para mudar a data, mas resolveu enfrentar isso.

 

Villamizar recebeu esta notícia através de Rafael Pardo. O tempo da espera parecia-lhe infinito. Não tinha tido um minuto de paz. Vivia suspenso da rádio e do telefone, e o seu alívio era imenso quando não era uma má notícia. Telefonava a Pardo a qualquer hora. «Como é que estão as coisas?», perguntava-lhe. «Até onde é que vai chegar esta situação?» Pardo acalmava-o com colherinhas de racionalismo. Todas as noites voltava a casa no mesmo estado. «É preciso arrancar com esse decreto ou aqui vão matar toda a gente», dizia. Pardo acalmava-o. Finalmente, a 28 de Janeiro, foi Pardo quem lhe telefonou para lhe dizer que já estava para assinatura do presidente o decreto definitivo. A demora devia-se a que todos os ministros tinham de o assinar, e não encontravam em lado nenhum o das Comunicações, Alberto Casas Santamaría. Por fim localizou Rafael Pardo por telefone, e intimou-o com os seus bons modos de velho amigo.

 

- Senhor ministro - disse-lhe. - Ou o senhor está aqui em meia hora para assinar o decreto, ou deixa de ser ministro já.

 

A 29 de Fevereiro foi promulgado o decreto 303 no qual se diluíram todos os escolhos que haviam impedido até então a entrega dos narcotraficantes. Tal como tinham suposto no Governo, nunca conseguiriam afastar a crença generalizada de que fora um acto de má consciência pela morte de Diana. Isto, como sempre, dava origem a outras divergências: os que pensavam que era uma concessão aos traficantes pela pressão de uma opinião pública agitada, e os que o entenderam como um acto presidencial inevitável, embora l tardio para Diana Turbay. Em todo o caso, o presidente Gaviria assinou-o por convicção, sabendo que a demora podia interpretar-se como uma prova de inclemência, e a decisão tardia proclamada como um acto de fraqueza.

 

No dia seguinte, às sete da manhã, o presidente retribuiu a Villamizar uma chamada que este lhe fizera na véspera para lhe agradecer o decreto. Gaviria ouviu em absoluto silêncio as suas razões, e partilhou a sua angústia do 25 de Janeiro.

 

- Foi um dia terrível para todos - disse ele.

 

Villamizar telefonou então a Guido Parra com a consciência aliviada. «Você não vai pôr-se agora a foder tudo dizendo que este decreto não é o bom», disse-lhe. Guido Parra já o tinha lido atentamente.

 

- Perfeito - respondeu -, aqui não há qualquer problema. Veja o quanto teríamos evitado há mais tempo!

 

Villamizar quis saber qual seria o passo seguinte.

 

- Nada - disse Guido Parra. - Isto é uma questão de quarenta e oito horas.

 

Os extraditáveis fizeram saber de imediato num comunicado que desistiam das execuções anunciadas tendo em vista os pedidos de várias personalidades do país. Referiam-se talvez às mensagens radiofónicas que López Michelsen, Pastrana e Castrillón lhes tinham feito chegar. Mas no fundo podia interpretar-se como uma aceitação do decreto. «Respeitaremos a vida dos reféns que permanecem em nosso poder», dizia o comunicado. Como concessão especial, anunciavam também que nas primeiras horas desse mesmo dia iam libertar um sequestrado. Villamizar, que estava com Guido Parra, teve um sobressalto de surpresa.

 

- Porquê só um? - gritou-lhe ele. - Você tinha-me dito que saíam todos.

 

Guido Parra não se alterou.

 

- Calma, Alberto disse-lhe. Isto é uma questão de oito dias.

 

Maruja e Beatriz não tinham sabido das mortes. Sem televisor nem rádio, e sem mais informações que as do inimigo, era impossível adivinhar a verdade. As contradições dos próprios guardas desbarataram a versão de que tinham levado Marina para uma quinta, de forma que qualquer outra conjectura conduzia ao mesmo beco sem saída: ou estava livre ou estava morta. Isto é, antes eram elas as únicas que a sabiam viva, e agora eram as únicas que não sabiam que estava morta.

 

A cama solitária tinha-se convertido num fantasma perante a incerteza do que haviam feito a Marina. O Monge regressara meia hora depois de a terem levado. Entrou como uma sombra e enroscou-se num canto. Beatriz perguntou-lhe à queima-roupa:

 

- O que fizeram a Marina?

 

O Monge contou-lhe que quando saiu com ela tinha à sua espera na garagem dois chefes novos que não entraram no quarto. Que ele lhes perguntou para onde é que a levavam, e um deles respondeu-lhe enfurecido: «Meu grande filho da puta, aqui não se fazem perguntas.» Que depois lhe ordenaram que voltasse para casa e deixasse Marina nas mãos de Barrabás, o outro guarda de turno.

 

A versão parecia crível à primeira vista. Não era fácil que o Monge tivesse ensejo de ir e voltar em tão pouco tempo se tivesse participado no crime, nem que tivesse coragem para matar uma mulher destroçada de quem parecia gostar como da sua avó e que o mimava como a um neto. Em contrapartida, Barrabás tinha fama de ser um sanguinário sem coração que se vangloriava dos seus crimes. A incerteza tornou-se mais inquietante de madrugada, quando Maruja e Beatriz acordaram com um lamento de animal ferido: o Monge estava a soluçar. Não quis o pequeno-almoço, e várias vezes o ouviram suspirar: «Ai que dor que eu tenho de terem levado a avó!» No entanto, nunca deixou entender que estivesse morta. Até a tenacidade com que o caseiro se recusava a devolver o televisor e o rádio aumentava a suspeita do assassínio.

 

Damaris, depois de vários dias fora de casa, regressou num estado de espírito que juntou mais um elemento à confusão. Num dos passeios de madrugada, Maruja perguntou-lhe onde é que tinha ido, e ela respondeu-lhe com a mesma voz com que teria dito a verdade: «Estou a tratar de Dona Marina.» Sem dar a Maruja uma pausa para pensar, acrescentou: «Está sempre a lembrar-se de vocês e manda-vos muitos cumprimentos.» A seguir, num tom ainda mais casual, disse que Barrabás não tinha regressado porque era o responsável pela sua segurança. A partir de então, cada vez que Damaris saía à rua por qualquer motivo, regressava com notícias tanto menos críveis quanto mais entusiastas. Todas acabavam com uma fórmula ritual:

 

- Dona Marina está lindamente.

 

Maruja não tinha uma razão para acreditar mais em Damaris do que no Monge, ou em qualquer outro dos guardas, mas também não a tinha para não acreditar neles numas circunstâncias em que tudo parecia possível. Se na realidade Marina estava viva, não tinham razões para manter as reféns sem notícias nem distracções, se não fosse até para lhes ocultar outras verdades piores.

 

Não havia nada que parecesse descabelado para a imaginação descomedida de Maruja. Até então havia ocultado as suas inquietações a Beatriz, receosa de que não conseguisse resistir à verdade. Mas Beatriz estava a salvo de qualquer contaminação. Tinha rejeitado desde o princípio qualquer suspeita de que Marina estivesse morta. Os seus sonhos ajudavam-na. Sonhava que o seu irmão Alberto, tão real como na vida, lhe fazia relatos pontuais das suas diligências, de como iam bem, do pouco que lhes faltava a elas para serem livres. Sonhava que o seu pai a tranquilizava com a notícia de que os cartões de crédito esquecidos no bolso estavam a salvo. Eram visões tão vívidas que na recordação não conseguia distingui-las da realidade.

 

Naqueles dias estava a acabar o seu turno com Maruja e Beatriz um rapaz de dezassete anos que dava pelo nome de Jonas. Ouvia música desde as sete da manhã num gravador reles. Tinha canções favoritas que repetia até à exaustão num volume enlouquecedor. Entretanto, como parte do coro, gritava: «Vida filha da puta, malparida, não sei porque é que me meti nisto.» Em momentos de calma falava da sua família com Beatriz. Mas só chegava à beira do abismo com um suspiro insondável: «Se vocês soubessem quem é o meu pai!» Nunca lhes disse, mas esse e muitos outros enigmas dos guardas contribuíam para tornar ainda mais estranho o ambiente do quarto.

 

O caseiro, custódia do bem-estar doméstico, deve ter informado os seus chefes acerca da inquietação reinante, pois dois deles apareceram naqueles dias com espírito conciliador. Recusaram uma vez mais o rádio e o televisor, mas em compensação tentaram melhorar a vida diária. Prometeram livros, mas levaram-lhes muito poucos, e entre eles um romance de Corín Tellado. Chegaram-lhes revistas de entretenimento, mas nenhuma de actualidade. Mandaram pôr um foco grande onde antes estava o azul, e mandaram acendê-lo durante uma hora às sete da manhã e outra às sete da noite para que se pudesse ler, mas Beatriz e Maruja estavam tão habituadas à penumbra que não conseguiam aguentar uma claridade intensa. Além disso, a luz reaquecia o ar do quarto até o tornar irrespirável.

 

Maruja deixou-se levar pela inércia dos desesperados. Permanecia dia e noite a fingir-se adormecida no colchão, de cara para a parede para não ter de falar. Mal comia. Beatriz ocupou a cama vazia e refugiou-se nas palavras cruzadas e nas charadas das revistas. A realidade era crua e dolorosa, mas era a realidade: havia mais espaço no quarto para quatro do que para cinco, menos tensões, mais ar para respirar.

 

Jonas acabou o seu turno em finais de Janeiro e despediu-se das reféns com uma prova de confiança. «Quero contar-lhes uma coisa com a condição de que ninguém saiba quem é que vos disse», advertiu. E largou a notícia que o carcomia por dentro:

 

- Dona Diana Turbay foi morta.

 

O golpe despertou-as. Para Maruja foi o instante mais terrível do cativeiro. Beatriz tentava não pensar no que lhe parecia irremediável: «Se mataram Diana, a seguir sou eu.» No fim de contas, desde o dia 1 de Janeiro, quando o Ano Velho foi sem que as libertassem, dissera para si própria: «Ou me libertam ou me deixo morrer. »

 

Num dia daqueles, enquanto Maruja jogava uma partida de dominó com outro guarda, o Gorila tocou em diferentes pontos do peito com o indicador, e disse: «Sinto qualquer coisa muito feia por aqui. O que será?» Maruja interrompeu a jogada, olhou-o com todo o desprezo de que foi capaz, e disse-lhe: «Ou são gases ou é um enfarte.» Ele largou a metralhadora no chão, levantou-se aterrorizado, pôs no peito a mão aberta com todos os dedos estendidos e lançou um grito colossal:

 

- Dói-me o coração, carago!

 

Caiu sobre a louça do pequeno-almoço e ficou deitado de barriga para baixo. Beatriz, que se sabia odiada por ele, sentiu o impulso profissional de o auxiliar, mas nesse momento entraram o caseiro e a mulher, assustados pelo grito e pela barulheira da queda. O outro guarda, que era pequeno e frágil, tinha tentado fazer algo, mas foi impedido pelo estorvo da metralhadora, e entregou-a a Beatriz.

 

- A senhora responde-me por Dona Maruja - disse-lhe.

 

Ele, o caseiro e Damaris, juntos, não conseguiram carregar o homem caído. Agarraram-no como puderam e arrastaram-no até à sala. Beatriz, com a metralhadora na mão, e Maruja atónita, viram a metralhadora do outro guarda abandonada no chão e foram as duas sacudidas pela mesma tentação. Maruja sabia disparar um revólver, e uma vez tinham-lhe explicado como manejar uma metralhadora, mas uma lucidez providencial impediu-a de pegar nela. Beatriz, por sua vez, estava familiarizada com as práticas militares. Num treino de cinco anos, duas vezes por semana, passou pelos graus de subtenente e tenente, e atingiu o de capitão-adjunto no Hospital Militar. Tinha feito um curso especial de artilharia de canhão. No entanto, também ela se apercebeu de que só tinham hipóteses de perder. Ambas se consolaram com a ideia de que o Gorila nunca mais voltaria. Efectivamente, não voltou.

 

Quando Pacho Santos viu pela televisão o enterro de Diana e a exumação de Marina Montoya, apercebeu-se de que não lhe restava outra alternativa senão fugir. Já nessa altura tinha uma ideia aproximada de onde se encontrava, Pelas conversas e pelos descuidos dos guardas, e por outras artes de jornalista conseguiu estabelecer que estava numa casa de esquina num bairro vasto e populoso na zona ocidental de Bogotá. O seu quarto era o principal do segundo andar com a janela exterior entaipada com tábuas. Apercebeu-se de que era uma casa alugada, e talvez sem contrato legal, porque a proprietária ia cobrar a renda no princípio de cada mês. Era o único estranho que entrava e saía, e antes de lhe abrirem a porta da rua subiam para acorrentar Pacho na cama, obrigavam-no com ameaças a permanecer em absoluto silêncio e apagavam o rádio e o televisor.

 

Tinha percebido que a janela fechada no quarto dava para o pátio diante do jardim, e que havia uma porta de saída no fim do corredor estreito onde estavam os serviços sanitários. A casa de banho podia utilizá-la à vontade sem qualquer vigilância bastando apenas atravessar o corredor, mas antes tinha de pedir que o desacorrentassem. Ali a única ventilação era uma janela por onde podia ver-se o céu. Tão alta que não seria fácil alcançá-la, mas tinha um diâmetro suficiente para sair por lá. Até então não tinha uma ideia de aonde podia levar. No quarto vizinho, dividido em camarotes de metal encarnado, dormiam os guardas que não estavam de turno. Como eram quatro revezavam-se de dois em dois cada seis horas. As suas armas nunca estiveram à vista no dia-a-dia, embora as levassem sempre consigo. Só um dormia no chão junto à cama de casal.

 

Percebeu que estavam perto de uma fábrica, cujo apito se ouvia várias vezes por dia, e pelos coros diários e algaraviada dos recreios sabia que estava perto de um colégio. Em dada altura pediu uma pizza e levaram-lha em menos de cinco minutos, ainda quente, e assim soube que a preparavam e vendiam talvez no mesmo quarteirão. Os jornais compravam-nos sem dúvida do outro lado da rua e numa loja grande, porque vendiam também as revistas Time e Newsweek. Durante a noite acordava-o a fragrância do pão recém-cozido de uma padaria. Com perguntas ardilosas conseguiu saber pelos guardas que num raio de cem metros havia uma farmácia, uma oficina de automóveis, duas tascas, uma pensão, um sapateiro remendão e duas paragens de autocarros. Com esses e muitos outros dados recolhidos aos bocados tentou montar o quebra-cabeças das suas vias de escape.

 

Um dos guardas dissera-lhe que no caso de chegar a lei tinham ordem de entrar antes no quarto e disparar-lhe três tiros à queima-roupa: um na cabeça, outro no coração e outro no fígado. Desde que soube isso conseguiu ficar com uma garrafa de gasosa de litro, que mantinha ao alcance da mão para a brandir como um maço. Era a única arma possível.

 

O xadrez - que um guarda lhe ensinou a jogar com um talento notável - dera-lhe uma nova medida do tempo. Outro, do turno de Outubro, era um especialista em telenovelas e iniciou-o no vício de as seguir sem se preocupar se eram boas ou más. O segredo era não se preocupar muito com o episódio de hoje, mas sim aprender a imaginar as surpresas do episódio de amanhã. Viam juntos os programas de Alexandra, e partilhavam os noticiários da rádio e da televisão.

 

Outro guarda tinha-lhe tirado vinte mil pesos que ele levava no bolso no dia do sequestro, mas em compensação prometera levar-lhe tudo o que ele lhe pedisse. Sobretudo, livros: vários de Milan Kundera, Crime e Castigo, a biografia do general Santander de Pilar Moreno de Ángel. Ele foi talvez o único colombiano da sua geração que ouviu falar de José María Vargas Vila, o escritor colombiano mais popular no mundo em princípios do século, e apaixonou-se pelos seus livros até às lágrimas. Leu-os quase todos, escamoteados por um dos guardas na biblioteca do seu avô. Com a mãe de outro guarda manteve uma divertida correspondência durante vários meses até que os responsáveis da sua segurança lha proibiram. A dose de leitura completava-se com os jornais do dia que lhe levavam de tarde por desdobrar. O guarda encarregado de lhos levar tinha uma raiva visceral aos jornalistas. Em especial a um conhecido apresentador de televisão, a quem apontava a sua metralhadora quando aparecia no ecrã.

 

- Deste encarrego-me eu de graça - dizia ele.

 

Pacho nunca viu os chefes. Sabia que lá iam de vez em quando, embora nunca tivessem subido ao quarto, e que faziam reuniões de controlo e trabalho num café de Chapinero. Com os guardas, em compensação, conseguiu estabelecer uma relação de emergência. Tinham o poder sobre a vida e a morte, mas reconheceram-lhe sempre o direito de negociar algumas condições de vida. Quase diariamente ganhava umas ou perdia outras. Perdeu até ao fim a de dormir acorrentado, mas ganhou a sua confiança jogando ao remis, um jogo pueril de ardis fáceis que consiste em fazer trios e sequências com dez cartas. Um chefe invisível mandava-lhes de quinze em quinze dias cem mil pesos emprestados que distribuíam entre todos para jogar. Pacho perdeu sempre. Só ao fim de seis meses lhe confessaram que todos faziam batota, e se porventura o deixaram ganhar algumas vezes fora só para que não perdesse o entusiasmo. Eram jogos de mão com mestria de prestidigitadores.

 

Esta tinha sido a sua vida até ao Ano Novo. Desde o primeiro dia previra que o sequestro seria longo, e a sua relação com os guardas tinha-o levado a pensar que poderia aguentar bem. Mas as mortes de Diana e Marina derrotaram-lhe o optimismo. Os mesmos guardas que antes o animavam, voltavam da rua com o ânimo em baixo. Parecia que tudo estava detido à espera de que a Constituinte se pronunciasse sobre a extradição e o indulto. Então não teve dúvida de que a opção da fuga era possível. Com uma condição: só a tentaria quando visse fechada qualquer outra alternativa.

 

Para Maruja e Beatriz também se tinha fechado o horizonte depois das ilusões de Dezembro, mas voltou a entreabrir-se em finais de Janeiro pelos rumores de que seriam libertados dois reféns. Elas desconheciam nessa altura quantos restavam ou se havia alguns mais recentes. Maruja deu por certo que a libertada seria Beatriz. Na noite de 2 de Fevereiro, durante a caminhada no pátio, Damaris confirmou-o. Estava tão segura que comprou no mercado um bâton, blush, sombras para as pálpebras e outras minúcias de toucador para o dia em que saíssem. Beatriz depilou as pernas para o caso de não ter tempo à última da hora.

 

No entanto, dois chefes que as visitaram no dia seguinte não deram qualquer pormenor sobre quem seria a libertada, nem se na realidade haveria alguma. Notava-se-lhes a alta hierarquia. Eram diferentes e mais comunicativos que todos os anteriores. Confirmaram que um comunicado dos extraditáveis tinha anunciado a libertação de dois, mas podiam ter surgido alguns obstáculos imprevistos. Isto fez lembrar às cativas a promessa anterior de as libertar a 9 de Dezembro, que também não cumpriram.

 

Os novos chefes começaram por criar um ambiente de optimismo. Entravam a qualquer hora com um alvoroço sem fundamentos sérios. «Isto está a correr muito bem», diziam. Comentavam as notícias do dia com um entusiasmo infantil, mas recusavam-se a devolver o televisor e o rádio para que as sequestradas pudessem conhecê-las em directo. Um deles, por maldade ou por estupidez, despediu-se uma noite com uma frase que podia tê-las matado de terror pelo seu duplo sentido: «Calma, minhas senhoras, a coisa vai ser muito rápida.»

 

Foi uma tensão de quatro dias nos quais pouco a pouco foram dando os pedaços dispersos da notícia. No terceiro dia disseram que soltariam só um refém. Que podia ser Beatriz, porque tinham Francisco Santos e Maruja reservados para destinos mais altos. O mais angustiante para elas era não poderem confrontar essas notícias com as da rua. E sobretudo com Alberto, que talvez conhecesse melhor que os próprios chefes a causa real das incertezas.

 

Por fim, no dia 7 de Fevereiro chegaram mais cedo que de costume e revelaram o jogo: saía Beatriz. Maruja teria de esperar mais uma semana. «Faltam ainda uns pequenos pormenores», disse um dos encapuçados. Beatriz sofreu uma crise de loquacidade que deixou os chefes exaustos, bem como o caseiro e a sua mulher, e por último os guardas. Maruja não deu atenção a isso, ferida por um rancor surdo contra o seu marido, pela ideia peregrina de que tinha preferido libertar a irmã primeiro que a ela. Ficou presa daquele ódio durante toda a tarde, e os seus rescaldos mantiveram-se mornos durante vários dias.

 

Aquela noite passou-a a instruir Beatriz sobre como devia contar a Alberto Villamizar os pormenores do sequestro, e a forma como devia usá-los para maior segurança de todos. Qualquer erro, por mais inocente que parecesse, podia custar uma vida. Por isso Beatriz devia fazer ao seu irmão um relato simples e verdadeiro da situação sem atenuar nem exagerar nada que pudesse fazê-lo sofrer menos ou preocupar-se mais: a verdade nua e crua. O que não lhe devia dizer era qualquer dado que permitisse identificar o local onde elas estavam. Beatriz ficou ressentida.

 

- Será que não confia no meu irmão?

 

- Mais do que em ninguém neste mundo - disse Maruja mas este compromisso é entre si e mim, e mais ninguém. Fica responsável de que ninguém o saiba.

 

O seu medo tinha fundamento. Conhecia o carácter impulsivo do seu marido, e queria evitar pelo bem de ambos e de todos que ele tentasse um resgate com a força pública. Outra mensagem a Alberto era que verificasse se o remédio que ela tomava para a circulação não tinha efeitos secundários. O resto da noite foi passado a preparar um sistema mais eficaz para cifrar as mensagens por rádio e televisão, e para o caso de no futuro autorizarem a correspondência escrita. No entanto, no fundo da sua alma estava a ditar um testamento: o que devia ser feito com os filhos, com as suas antiguidades, com as coisas comuns que mereciam uma atenção especial. Foi tão veemente, que um dos guardas que a ouviu se apressou a dizer-lhe:

 

- Calma. A si não lhe vai acontecer nada.

 

No dia seguinte, esperaram com maior ansiedade, mas nada se passou. Continuaram a conversar durante a tarde. Por fim, às sete da noite, a porta abriu-se de repente e entraram os dois chefes conhecidos, e um novo, e dirigiram-se para a frente de Beatriz:

 

- Vimos buscá-la, prepare-se.

 

Beatriz atemorizou-se com aquela repetição terrífica da noite em que levaram Marina: a mesma porta que se abriu, a mesma frase que podia servir tanto para ser livre como para morrer, o mesmo enigma sobre o seu destino. Não entendia porque é que a Marina, como a ela, tinham dito: «Vimos buscá-la», em vez do que ela ansiava ouvir: «Vamos libertá-la». Tentando provocar a resposta com um golpe de astúcia, perguntou:

 

Vão-me libertar com Marina?

 

Os dois chefes crisparam-se.

 

- Não faça perguntas! - respondeu-lhe um deles com um grunhido áspero. - Eu sei lá alguma coisa disso!

 

Outro, mais persuasivo, rematou:

 

- Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Isto é político.

 

A palavra que Beatriz ansiava - «libertação» - ficou por dizer. Mas o ambiente era animado. Os chefes não tinham pressa. Damaris, com uma minissaia de colegial, levou-lhes gasosas e um ponqué (2) para a despedida. Falaram da notícia do dia que as cativas ignoravam: tinham sido sequestrados em Bogotá, em operações separadas, os industriais Lorenzo King Mazuera e Eduardo Puyana, aparentemente pelos extraditáveis. Mas também lhes contaram que Pablo Escobar estava ansioso por se entregar ao fim de tanto tempo de viver escondido. Inclusivamente, dizia-se, nos esgotos. Prometeram levar o televisor e o rádio nessa mesma noite para que Maruja pudesse ver Beatriz rodeada pela sua família.

 

A análise de Maruja parecia razoável. Até então suspeitava que Marina havia sido executada, mas naquela noite não lhe restou qualquer dúvida pela diferença do cerimonial dos dois casos. Para Marina não tinham ido chefes para aclimatar os ânimos com vários dias de antecipação. Também não tinham ido buscá-la, em vez disso mandaram dois assassinos rasos sem qualquer autoridade e com apenas cinco minutos para cumprirem a ordem. A despedida com

 

(2) Espécie de torta feita com farinha, manteiga, ovos e açúcar. (N. dos T.)

 

bolo e vinho que fizeram a Beatriz teria sido uma homenagem macabra se fossem matá-la. No caso de Marina tinham-lhes tirado o televisor e o rádio para que elas não soubessem da sua execução, e agora ofereciam devolvê-los para atenuar com uma boa notícia os estragos da má. Maruja concluiu então sem mais voltas que Marina havia sido executada e que Beatriz ia em liberdade.

 

Os chefes concederam-lhe dez minutos para se arranjar enquanto eles iam tomar um café. Beatriz não podia conjurar a ideia de que estava a voltar a viver a última noite de Marina. Pediu um espelho para se maquilhar. Damaris levou-lhe um grande com uma moldura de folhas douradas. Maruja e Beatriz, ao fim de três meses sem espelho, apressaram-se a ver-se. Foi uma das experiências mais espantosas do cativeiro. Maruja teve a impressão de que não se teria reconhecido se se tivesse encontrado consigo mesma na rua. «Morri de pânico», disse depois. «Vi-me magra, desconhecida, como se me tivesse maquilhado para uma caracterização.» Beatriz viu-se lívida, com menos dez quilos e cabelo comprido e baço, e exclamou espantada: «Esta não sou eu!» Muitas vezes, meio a brincar meio a sério, tinha sentido a vergonha de que um dia a libertassem em tão mau estado, mas nunca imaginou que na realidade fosse tão mau. Depois foi pior, porque um dos chefes acendeu o foco central, e a atmosfera do quarto tornou-se ainda mais sinistra.

 

Um dos guardas segurou o espelho para que Beatriz se penteasse. Ela quis maquilhar-se, mas Maruja impediu-lho. «Mas que ideia!», disse-lhe, escandalizada. «Pensa pôr isso na cara, com essa palidez? Vai ficar terrível.» Beatriz fez-lhe a vontade. Também ela se perfumou com a loção de homem que Lamparón lhe tinha oferecido. Por fim engoliu sem água um sedativo.

 

No saco, juntamente com as suas outras coisas, estava a roupa que levava vestida na noite do sequestro, mas preferiu o fato de treino cor-de-rosa com menos uso. Hesitou calçar os seus sapatos rasos que estavam bolorentos debaixo da cama, e que além disso não ligavam bem com o fato de treino. Damaris quis dar-lhe uns sapatos de ténis que usava para fazer ginástica. Eram do seu número exacto, mas com um aspecto tão indigente que Beatriz rejeitou-os com o pretexto de que lhe ficavam apertados. De modo que calçou os seus sapatos rasos e fez um rabo-de-cavalo com um elástico. No fim, por obra e graça de tantas penúrias, ficou com o aspecto de uma colegial.

 

Não lhe puseram um capuz como a Marina, mas tentaram vendar-lhe os olhos com adesivos para que não conseguisse reconhecer o caminho nem as caras. Ela opôs-se, consciente de que ao tirá-los iam arrancar-lhe as sobrancelhas e as pestanas. «Esperem», disse-lhes. «Eu ajudo-os.» Então pôs um bom bocado de algodão sobre cada pálpebra e fixaram-lhe os adesivos.

 

A despedida foi rápida e sem lágrimas. Beatriz estava quase a chorar, mas Maruja impediu-a com uma frieza calculada para lhe dar ânimo. «Diga a Alberto que esteja tranquilo, que o amo muito, e que amo muito os meus filhos», disse. Despediu-se com um beijo. Ambas sofreram. Beatriz, porque na hora da verdade a assaltou o terror de que talvez fosse mais fácil matá-la do que deixá-la livre. Maruja, pelo terror duplo de que matassem Beatriz, e por ficar sozinha com os quatro guardas. A única coisa de que não se lembrou foi que a executassem uma vez libertada Beatriz.

 

A porta fechou-se, e Maruja permaneceu imóvel, sem saber por onde seguir, até que ouviu os motores na garagem, e o rasto dos automóveis que se perdia na noite. Uma sensação de imenso abandono apoderou-se dela. Só então se lembrou que não tinham cumprido a promessa de lhe devolverem o televisor e o rádio para conhecer o final da noite.

 

O caseiro tinha ido com Beatriz, mas a sua mulher prometera fazer uma chamada para que lhos levassem antes das notícias das nove e meia. Não chegaram. Maruja suplicou aos guardas que lhe permitissem ver o televisor da casa, mas nem eles nem o caseiro se atreveram a contrariar o regime em matéria tão grave. Damaris entrou menos de duas horas depois a contar-lhe alvoroçada que Beatriz tinha chegado bem a sua casa e que havia sido muito cuidadosa nas suas declarações, pois não tinha dito nada que pudesse prejudicar ninguém. Toda a família, com Alberto, é claro, estava em volta dela. As pessoas não cabiam na casa.

 

Maruja ficou com a suspeita de não ser verdade. Insistiu que lhe levassem um rádio emprestado. Perdeu o controlo e enfrentou os guardas sem medir as consequências. Não foram graves, porque eles tinham sido testemunhas do trato que os seus chefes deram a Maruja, e preferiram acalmá-la com uma nova diligência para que lhes emprestassem um rádio. Mais tarde o caseiro espreitou e deu-lhe a sua palavra de que haviam deixado Beatriz sã e salva num lugar seguro, e que já todo o país a tinha visto e ouvido com a sua família. Mas o que Maruja queria era um rádio para ouvir com os seus próprios ouvidos a voz de Beatriz. O caseiro prometeu levar-lhos, mas não cumpriu. À meia-noite, demolida pelo cansaço e pela raiva, Maruja tomou dois barbitúricos daqueles fulminantes, e não acordou até às oito da manhã do dia seguinte.

 

As versões dos guardas eram correctas. Beatriz tinha sido levada para a garagem através do pátio. Deitaram-na no chão de um automóvel que sem dúvida era um jipe, porque tiveram que a ajudar para que chegasse ao degrau. A princípio foram aos solavancos pelos troços pedregosos. Assim que começaram a deslizar por uma estrada asfaltada, um homem que viajava ao pé de Beatriz fez-lhe ameaças sem sentido. Ela apercebeu-se pela voz que o homem estava num estado de nervos que a sua dureza não conseguia dissimular, e que não era nenhum dos chefes que tinham estado na casa.

 

- Vai ter à sua espera uma quantidade de jornalistas - disse o homem. - Pois tenha muito cuidado. Qualquer palavra a mais pode custar a vida à sua cunhada. Lembre-se que nunca falámos consigo, que nunca nos viu, e que esta viagem durou mais de duas horas.

 

Beatriz ouviu as ameaças em silêncio, e muitas outras que o homem parecia repetir sem necessidade, só para se acalmar a si mesmo. Numa conversa que mantiveram a três vozes descobriu que nenhum deles era conhecido, excepto o caseiro, que mal falou. Foi sacudida por uma onda arrepiante: ainda era possível o mais sinistro dos presságios.

 

- Quero pedir-vos um favor - disse às cegas e com pleno domínio da sua voz. - Maruja tem problemas circulatórios, e gostaríamos de lhe enviar um medicamento. Vocês fariam com que chegasse até ela?

 

- Afirmativo - disse o homem. Não se preocupe.

 

- Fico-lhe mil vezes agradecida respondeu Beatriz. - Eu seguirei as vossas instruções. Não vou prejudicá-los.

 

Houve uma pausa longa com um fundo de automóveis velozes, camiões pesados, retalhos de música e gritos. Os homens falaram entre si em sussurros. Um dirigiu-se a Beatriz.

 

- Por aqui há muitos controlos da polícia- disse-lhe. - Se nos detiverem em alguns vamos dizer-lhes que a senhora é minha esposa e da forma como está pálida podemos dizer que a levamos a uma clínica.

 

Beatriz, já mais tranquila, não resistiu à tentação de brincar:

 

- Com estas vendas nos olhos?

 

- Operaram-na à vista - disse o homem. - Sento-a ao meu lado e ponho-lhe um braço por cima.

 

A inquietação dos sequestradores não era infundada. Naquele mesmo momento ardiam sete autocarros de serviço público em bairros diferentes de Bogotá por bombas incendiárias colocadas por comandos de guerrilhas urbanas. Ao mesmo tempo, as FARC dinamitaram a torre de energia do município de Cáqueza, nos arredores da capital, e tentaram tomar a povoação. Por esse motivo houve algumas operações de ordem pública em Bogotá, mas quase imperceptíveis. Assim, o tráfico urbano das sete foi o de uma quinta-feira qualquer: denso e ruidoso, com semáforos lentos, golpes de rins para não chocarem, e palavrões. Até no silêncio dos sequestradores se notava a tensão.

 

- Vamos deixá-la num sítio - disse um deles. - A senhora sai rapidamente e conta devagarinho até trinta. Depois tira a máscara, caminha sem olhar para trás, e apanha o primeiro táxi que passar.

 

Sentiu que lhe puseram na mão uma nota enrolada. «Para o seu táxi», disse o homem. «É de cinco mil.» Beatriz meteu-a no bolso das calças, onde encontrou sem procurar outro sedativo e engoliu-o. Ao fim de uma meia hora de viagem o carro parou. A mesma voz disse então a frase final:

 

- Se a senhora chegar a dizer à imprensa que esteve com Dona Marina Montoya, matamos Dona Maruja.

 

Tinham chegado. Os homens baralharam-se a tentar fazer Beatriz sair sem lhe tirarem a venda. Estavam tão nervosos que se adiantavam uns aos outros, enredavam-se em ordens e maldições. Beatriz sentiu a terra firme.

 

- Pronto - disse. - Assim estou bem.

 

Permaneceu imóvel no passeio até que os homens voltaram ao carro e arrancaram de imediato. Só então ouviu que atrás deles havia outro carro que arrancou ao mesmo tempo. Não cumpriu a ordem de contar. Deu dois passos com os braços estendidos, e então tomou consciência de que devia estar no meio da rua. Tirou a venda com um esticão, e reconheceu logo o bairro Normandía, porque noutros tempos costumava ir lá a casa de uma amiga que vendia jóias. Olhou para as janelas acesas tentando escolher uma que lhe oferecesse confiança, pois não queria apanhar um táxi tão mal vestida como se sentia, mas sim telefonar para sua casa para que a fossem buscar. Ainda não se tinha decidido quando um táxi amarelo muito bem conservado parou em frente dela. O motorista, jovem e com bom ar, perguntou-lhe.

 

- Táxi?

 

Beatriz apanhou-o, e só quando estava lá dentro é que se deu conta que um táxi tão oportuno não podia ser uma casualidade. No entanto, a mesma certeza de que aquela era uma última grilheta dos seus sequestradores infundiu-lhe um estranho sentimento de segurança. O motorista perguntou-lhe a direcção, e ela disse-lha em sussurros. Não percebeu porque é que ele não a ouvia até que o motorista lhe perguntou a direcção pela terceira vez. Então repetiu-a com a sua voz natural.

 

A noite estava fria e limpa, com algumas estrelas. O motorista e Beatriz só trocaram as palavras indispensáveis, mas ele não a perdeu de vista no espelho retrovisor. À medida que se aproximavam de casa, Beatriz sentia os semáforos mais frequentes e lentos. Dois quarteirões antes pediu ao motorista que fosse devagar para o caso de terem de despistar os jornalistas anunciados pelos sequestrados. Não estavam. Reconheceu o seu edifício, e ficou surpreendida por não lhe causar a emoção que esperava.

 

O taxímetro marcava setecentos pesos. Como o motorista não tinha troco para a nota de cinco mil, Beatriz entrou no edifício à procura, e o velho porteiro deu um grito e abraçou-a enlouquecido. Nos dias intermináveis e nas noites pavorosas do cativeiro Beatriz tinha prefigurado aquele instante como uma comoção sísmica que lhe dispararia todas as forças do corpo e da alma. Foi completamente ao contrário: uma espécie de calmaria em que mal sentia, lento e profundo, o seu coração amordaçado pelos tranquilizantes. Então deixou que o porteiro se encarregasse do táxi, e tocou a campainha do seu apartamento.

 

Abriu Gabriel, o filho mais novo. O seu grito ouviu-se em toda a casa: «Mamãããããã!» Catalina, a filha de quinze anos, apareceu a gritar, e pendurou-se-lhe do pescoço. Mas largou-a logo, assustada.

 

- Mas, mãezinha, porque é que estás a falar assim?

 

Foi o pormenor feliz que fez quebrar o tempo do medo. Beatriz ia precisar de vários dias, no meio das multidões que a visitaram, para perder o costume de falar em sussurro.

 

Estavam à espera dela desde manhã. Três chamadas anónimas - certamente dos sequestradores - haviam anunciado que seria libertada. Tinham ligado inúmeros jornalistas a perguntar se sabiam a que horas. Pouco depois do meio-dia Alberto Villamizar confirmou-lho, pois Guido Parra anunciara-lho pelo telefone. A imprensa estava suspensa. Uma jornalista que ligara três minutos antes de Beatriz chegar, disse a Gabriel com uma voz convencida e calma: «Estejam tranquilos, hoje soltam-na.» Gabriel acabava de desligar quando ouviu a campainha da porta.

 

O doutor Guerreiro esperara por ela no apartamento dos Villamizar, pensando que também Maruja seria libertada e que as duas iriam para lá. Esperou com três copos de uísque até ao noticiário das sete. Como não chegaram julgou que se tratava de outra notícia falsa como tantas daqueles dias, e voltou para sua casa. Vestiu o pijama, serviu-se de outro copo de uísque, meteu-se na cama e sintonizou a Radio Recuerdos para adormecer com o arrulho dos boleros. Desde que começara o seu calvário não voltara a ler. Já meio em sonhos ouviu o grito de Gabriel.

 

Saiu do quarto com um domínio exemplar. Beatriz e ele - com vinte e cinco anos de casados - abraçaram-se sem pressa, como que de regresso de uma curta viagem, e sem uma lágrima. Ambos tinham pensado tanto naquele momento, que na hora de o viverem foi como uma cena de teatro mil vezes ensaiada, capaz de convulsionar todos, menos os seus protagonistas.

 

Assim que Beatriz entrou em casa lembrou-se de Maruja, sozinha e sem notícias no quarto miserável. Telefonou para Alberto Villamizar, e ele próprio respondeu ao primeiro toque com uma voz preparada para tudo. Beatriz reconheceu-o.

 

- Olá - disse-lhe. - Sou a Beatriz.

 

Apercebeu-se de que o irmão a tinha reconhecido mesmo antes de ela se identificar. Ouviu um suspiro fundo e áspero, como o de um gato, e a seguir a pergunta sem uma mínima alteração da voz:

 

- Onde está?

 

- Em minha casa - respondeu Beatriz.

 

- Perfeito - disse Villamizar. - Estou aí em dez minutos. Entretanto, não fale com ninguém.

 

Chegou pontual. A chamada de Beatriz surpreendeu-o quando estava prestes a desistir. Além da alegria de ver a irmã e de ter a primeira e única notícia directa da esposa cativa, movia-o a urgência de preparar Beatriz antes de chegarem os jornalistas e a polícia O seu filho Andrés, que tem uma vocação irresistível de corredor de automóveis, levou-o no tempo exacto.

 

Os ânimos tinham serenado. Beatriz estava na sala, com o seu marido e os seus filhos, e com a mãe e as suas duas irmãs, que escutavam ávidos o seu relato. Alberto achou-a pálida devido à longa clausura e mais nova do que antes, com um ar de colegial por causa do fato de treino, o rabo-de-cavalo e os sapatos rasos. Ia chorar, mas ele impediu-a, ansioso por saber de Maruja. «Pode ter a certeza que está bem», disse-lhe Beatriz. «A coisa lá é difícil, mas aguenta-se, e Maruja é muito corajosa.» E a seguir procurou resolver a preocupação que a atormentava há quinze dias.

 

- Sabes o telefone de Marina? - perguntou.

 

Villamizar pensou que talvez o menos brutal fosse a verdade.

 

- Mataram-na - disse ele.

 

A dor da má notícia confundiu Beatriz com um pavor retroactivo. Se tivesse sabido duas horas antes talvez não resistisse à viagem de libertação. Chorou até à saciedade. Entretanto, Villamizar tomou precauções para que não entrasse ninguém enquanto não combinassem uma versão pública do sequestro que não pusesse em risco os outros sequestrados.

 

Os pormenores do cativeiro permitiam formar uma ideia da casa onde ficava a prisão. Para proteger Maruja, Beatriz devia dizer à imprensa que a viagem de regresso tinha durado mais de três horas de um local de clima temperado. Embora a verdade fosse outra: a distância real, as encostas do caminho, a música dos altifalantes que nos fins-de-semana ecoava quase até ao amanhecer, o barulho dos aviões, o clima, tudo indicava que fosse um bairro urbano. Por outro lado, teria bastado interrogar quatro ou cinco padres do sector para descobrir qual foi o que exorcizou a casa.

 

Outros erros ainda mais torpes revelavam pistas para tentar um resgate armado com o mínimo de riscos. A hora devia ser as seis da manhã, depois da mudança de turno, pois os guardas de mudança de turno não dormiam bem durante a noite e caíam rendidos pelo chão sem se preocuparem com as suas armas. Outro dado importante era a geografia da casa, e em especial a porta do pátio, onde uma vez viram um guarda armado, e o cão era mais subornável do que faziam crer os seus latidos. Era impossível prever se em volta do lugar não havia mais um cinturão de segurança, embora a desordem do regime interno não levasse a pensar isso, e em todo o caso teria sido fácil averiguá-lo uma vez localizada a casa. Depois da desgraça de Diana Turbay confiava-se menos que nunca no êxito dos resgates armados, mas Villamizar teve isso sempre em conta para o caso de se chegar a um ponto em que não houvesse alternativa. Em todo o caso, foi talvez o único segredo que não partilhou com Rafael Pardo.

 

Estes dados criaram a Beatriz um problema de consciência. Tinha-se comprometido com Maruja a não dar pistas que permitissem tentar um assalto à casa, mas tomou a grave decisão de as dar ao irmão, ao verificar que este estava tão consciente como Maruja, e como ela própria, da inconveniência de uma solução armada. E menos ainda quando a libertação de Beatriz demonstrava que, com todos os seus sobressaltos, estava aberto o caminho da negociação. Foi assim que no dia seguinte, já fresca, repousada e com uma noite de bom sono, concedeu uma conferência de imprensa na casa do irmão, onde mal se conseguia caminhar por entre um bosque de flores. Deu aos jornalistas e à opinião pública uma ideia real do que foi o horror do seu cativeiro, sem qualquer dado que pudesse dar alento a quem quisesse actuar por sua conta arriscando a vida de Maruja.

 

Na quarta-feira seguinte, com a certeza de que Maruja conhecia já o novo decreto, Alexandra decidiu improvisar um programa comemorativo. Nas últimas semanas, à medida que avançavam as negociações, Villamizar tinha feito mudanças notáveis no seu apartamento para que a esposa libertada o encontrasse a seu gosto. Pusera uma biblioteca onde ela a queria, mudara alguns móveis, alguns quadros. Tinham posto num lugar visível o cavalo da dinastia Tang que Maruja trouxera de Jacarta como se fosse o troféu da sua vida. À última hora lembraram-se que ela se queixava de não ter um bom tapete na casa de banho, e apressaram-se a comprá-lo. A casa transformada, luminosa, foi o cenário de um programa de televisão excepcional que permitiu a Maruja conhecer a nova decoração ainda antes do regresso. Ficou muito bem, embora não soubessem sequer se Maruja o vira.

 

Beatriz restabeleceu-se muito rapidamente. Guardou no seu saco de cativa a roupa que trazia vestida ao sair, e ali ficou encerrado o cheiro deprimente do quarto que ainda a acordava de repente a meio da noite. Recuperou o equilíbrio do espírito com a ajuda do marido. O único fantasma que uma vez lhe chegou do passado foi a voz do caseiro, que lhe telefonou duas vezes. A primeira vez foi o grito de um desesperado:

 

- O remédio! O remédio!

 

Beatriz reconheceu a voz e o sangue gelou-se-lhe nas veias, mas o fôlego chegou-lhe para perguntar no mesmo tom.

 

- Qual remédio?! Qual remédio?!

 

- O da senhora - gritou o caseiro.

 

Então percebeu que queria o nome do remédio que Maruja tomava para a circulação.

 

- Vasotón - disse Beatriz. E a seguir, já recomposta, perguntou: - E como é que está?

 

- Eu bem - respondeu o caseiro. - Muito obrigado.

 

- Você não - corrigiu Beatriz. - Ela.

 

- Ah, fique descansada - disse o caseiro. - A senhora está bem.

 

Beatriz desligou e desatou a chorar com a náusea das recordações atrozes: a comida infame, o esterco da casa de banho, os dias sempre iguais, a solidão espantosa de Maruja no quarto pestilento. De qualquer forma, na secção desportiva de um noticiário de televisão inseriram um anúncio misterioso: «Tome Basotón.» Pois tinham-lhe mudado a ortografia para evitar que algum laboratório despistado protestasse pelo uso do seu produto com propósitos inexplicáveis.

 

A segunda chamada do caseiro, várias semanas depois, foi muito diferente. Beatriz tardou a identificar a voz tornada estranha por algum artifício. Mas o estilo era mais para o paternal.

 

- Lembre-se do que falámos - disse. - A senhora não esteve com Dona Marina. Com ninguém.

 

- Calma - respondeu Beatriz, e desligou.

 

Guido Parra, embriagado pelo primeiro êxito da sua diligência, anunciou a Villamizar que a libertação de Maruja era uma questão de uns três dias. Villamizar transmitiu-o a Maruja numa conferência de imprensa pela rádio e televisão. Por outro lado, os relatos de Beatriz sobre as condições do cativeiro deram a Alexandra a certeza de que as suas mensagens chegavam ao seu destino. Por isso fez-lhe uma entrevista de meia hora na qual Beatriz contou tudo o que Maruja queria saber: como é que a tinham libertado, como estavam os filhos, a casa, os amigos, e que esperanças de ser livre podia sustentar.

 

A partir de então fariam o programa com todo o tipo de pormenores, com a roupa que vestiam, as coisas que compravam, as visitas que recebiam. Alguém dizia: «Manuel já preparou o presunto.»

 

Só para que Maruja se apercebesse de que ainda continuava intacta a ordem que ela havia deixado em sua casa. Tudo isto, por mais frívolo que pudesse parecer, tinha um sentido animador para Maruja: a vida continuava.

 

No entanto, os dias passavam e não se viam indícios de libertação. Guido Parra enredava-se em explicações vagas e pretextos pueris; negava-se ao telefone; desapareceu. Villamizar chamou-o à ordem. Parra alargou-se em preâmbulos. Disse que as coisas se tinham complicado pelo incremento do massacre que a polícia estava a fazer nas comunas de Medellín. Alegava que enquanto o Governo não pusesse termo àqueles métodos selvagens era muito difícil a libertação de alguém. Villamizar não o deixou chegar ao fim.

 

- Isto não fazia parte do acordo - disse-lhe. - Tudo se baseava em que o decreto fosse explícito, e era. É uma dívida de honra, e comigo não se brinca.

 

- Você não sabe como é lixado ser advogado destes tipos - afirmou Parra. - O meu problema não é uma questão de cobrar ou não cobrar, mas sim que ou a coisa me sai bem ou me matam. O que quer que eu faça?

 

- Vamos lá esclarecer isto sem mais palha - disse Villamizar.

O que é que se está a passar?

 

- Que enquanto a polícia não parar a mortandade e castigarem os culpados não há qualquer possibilidade de soltarem Dona Maruja. A merda é essa.

 

Cego de fúria, Villamizar desatou a dizer impropérios contra Escobar, e concluiu:

 

E você desapareça, porque quem o vai matar a si sou eu.

 

Guido Parra desapareceu. Não só devido à reacção violenta de Villamizar, mas também pela de Pablo Escobar, que segundo parece não lhe perdoou o facto de se ter excedido nos seus poderes de negociador. Hernando Santos pôde apreciar isto pelo pavor com que Guido Parra lhe telefonou para lhe dizer que tinha uma carta tão terrível de Escobar para ele que nem sequer se atrevia a lê-la.

 

- Este homem está louco - disse-lhe. - Ninguém o acalma, e eu não tenho outro remédio senão apagar-me do mundo.

 

Hernando Santos, consciente de que aquela determinação interrompia o seu único canal com Pablo Escobar, tentou convencê-lo a ficar. Foi inútil. O último favor que Guido Parra lhe pediu foi que conseguisse um visto para a Venezuela e uma diligência para que o seu filho acabasse o liceu no Gimnasio Moderno de Bogotá. Por rumores nunca confirmados julga-se que se refugiou num convento da Venezuela onde uma sua irmã era freira. Não voltou a saber-se nada dele, até que foi encontrado morto em Medellín, a 16 de Abril de 1993, juntamente com o seu filho, que tinha acabado o liceu, no porta-bagagens de um automóvel sem matrícula.

 

Villamizar precisou de tempo para se recompor de um terrível sentimento de derrota. Esmagava-o o arrependimento de ter acreditado na palavra de Escobar. Tudo lhe pareceu perdido. Durante a negociação tinha mantido o doutor Turbay e Hernando Santos ao corrente, que também haviam ficado sem canais com Escobar. Viam-se quase diariamente, e ele tinha acabado por não lhes contar os seus contratempos, mas sim as notícias que os animaram. Acompanhou durante largas horas o ex-presidente, que tinha suportado a morte da sua filha com um estoicismo dilacerante; encerrou-se em si mesmo e recusou-se a qualquer tipo de declaração: tornou-se invisível. Hernando Santos, cuja única esperança de libertar o filho se baseava na mediação de Parra, caiu num profundo estado de derrota.

 

O assassínio de Marina, e sobretudo a forma brutal de o reivindicar e anunciar, provocou uma reflexão iniludível sobre o que fazer dali para a frente. Qualquer possibilidade de intermediação ao estilo do Grupo dos Notáveis estava agora esgotada, e no entanto nenhum outro intermediário parecia eficaz. A boa vontade e os métodos indirectos careciam de sentido.

 

Consciente da sua situação, Villamizar desabafou com Rafael Pardo. «Imagine como eu me sinto», disse-lhe. «Escobar tem sido o meu martírio e o da minha família todos estes anos. Primeiro ameaça-me. Depois faz-me um atentado do qual me salvei por milagre. Continua a ameaçar-me. Assassina Galán. Sequestra a minha mulher e a minha irmã e agora pretende que defenda os seus direitos.» No entanto, era um desabafo inútil, porque a sua sorte estava lançada: o único caminho certo para a libertação dos sequestrados era ir procurar o leão no seu covil. Dizendo sem mais rodeios: a única coisa que ficava por fazer - e tinha irremediavelmente de o fazer - era voar até Medellín e procurar Pablo Escobar onde ele estivesse para discutir o assunto frente a frente.

 

O problema era como encontrar Pablo Escobar numa cidade martirizada pela violência. Nos primeiros dois meses do ano de 1991 tinham-se cometido mil e duzentos assassínios - vinte diários - e um massacre de quatro em quatro dias. Um acordo de quase todos os grupos armados tinha decidido a escalada mais feroz de terrorismo guerrilheiro na história do país, e Medellín foi o centro da acção urbana. Quatrocentos e cinquenta e sete polícias haviam sido assassinados em poucos meses. O DAS tinha dito que duas mil pessoas das comunas estavam ao serviço de Escobar, e que muitos deles eram adolescentes que viviam de caçar polícias. Por cada oficial morto recebiam cinco milhões de pesos, por cada agente um milhão e meio, e oitocentos mil por cada ferido. A 16 de Fevereiro de 1991 morreram três suboficiais e oito agentes da polícia pela explosão de um automóvel com cento e cinquenta quilos de dinamite em frente da praça de touros de Medellín. De passagem morreram nove civis e foram feridos outros cento e quarenta e três que não tinham nada a ver com a guerra.

 

O Corpo de Elite, encarregado da luta frontal contra o tráfico de droga, era indicado por Pablo Escobar como a encarnação de todos os males. Tinha sido criado pelo presidente Virgilio Barco em 1980, desesperado pela impossibilidade de estabelecer responsabilidades exactas em corpos tão grandes como o exército e a polícia. A missão de o formar foi encomendada à Polícia Nacional para manter o exército o mais longe possível dos eflúvios perniciosos do narcotráfico e do paramilitarismo. Na sua origem não foram mais de trezentos, com uma esquadrilha especial de helicópteros à sua disposição, e treinados pelo Special Air Service (SAS) do Governo britânico.

 

O novo corpo tinha começado a actuar no sector médio do rio Magdalena, no Centro do país, durante o apogeu dos grupos paramilitares criados pelos latifundiários para lutar contra a guerrilha. Dali desprendeu-se mais tarde um grupo especializado em operações urbanas, e estabeleceu-se em Medellín como um corpo legionário com liberdade de acção que só dependia da Direcção Nacional da Polícia de Bogotá, sem instâncias intermédias, e que pela sua própria natureza não era muito meticuloso nos limites do seu mandato. Isto semeou o desconcerto entre os delinquentes, e também entre as autoridades locais que assimilaram de má vontade uma força autónoma que escapava ao seu poder. Os extraditáveis encarniçaram-se contra eles, e apontaram-nos como os autores de todo o tipo de atropelos contra os direitos humanos.

 

As pessoas de Medellín sabiam que não eram infundadas todas as denúncias dos extraditáveis sobre assassínios e atropelos da força pública, porque os viam acontecer nas ruas, se bem que na maioria dos casos não houvesse reconhecimento oficial. As organizações de direitos humanos nacionais e internacionais protestavam e o Governo não tinha respostas convincentes. Meses depois foi decidido não se fazer buscas sem a presença de um agente da Procuradoria-Geral com a inevitável burocratização das operações.

 

Era pouco o que a justiça podia fazer. Aos juízes e magistrados, cujos salários esquálidos mal lhes chegavam para viver, mas não para educar os seus filhos, deparou-se-lhes um dilema sem saída: ou os matavam, ou se vendiam ao narcotráfico. O admirável e lancinante é que muitos preferiram a morte.

 

Talvez o mais colombiano da situação fosse a assombrosa capacidade das pessoas de Medellín para se acostumarem a tudo, o bom e o mau, com um poder de recuperação que talvez seja a fórmula mais cruel da temeridade. A maior parte não parecia consciente de viver numa cidade que fora sempre a mais bonita, a mais activa, a mais hospitaleira do país, e que naqueles anos se tinha convertido numa das mais perigosas do Mundo. O terrorismo urbano tinha sido até então um ingrediente estranho na cultura centenária da violência colombiana. As próprias guerrilhas históricas - que já o praticavam - tinham-no condenado com razão como uma forma ilegítima da luta revolucionária. Tinha-se aprendido a viver com o medo do que acontecia, mas não a viver com a incerteza do que podia acontecer: uma explosão que despedaçasse os filhos na escola, ou se desintegrasse o avião em pleno voo, ou explodissem os legumes no mercado. As bombas a esmo que matavam inocentes e as ameaças anónimas por telefone tinham chegado a ultrapassar qualquer outro factor de perturbação da vida quotidiana. No entanto, a situação económica de Medellín não foi afectada em termos estatísticos.

 

Anos antes, os traficantes de droga estavam na moda com uma auréola fantástica. Gozavam de uma completa impunidade, e até de um certo prestígio popular, pelas obras de caridade que praticavam nos bairros onde passaram as suas infâncias de marginais. Se alguém tivesse querido prendê-los podia mandá-los buscar pelo polícia da esquina. Mas uma boa parte da sociedade colombiana via-os com uma curiosidade e um interesse que eram demasiado parecidos com a complacência. Políticos, industriais, comerciantes e jornalistas, e até simples lagartos assistiam à borga perpétua da Fazenda Nápoles, perto de Medellín, onde Pablo Escobar mantinha um jardim zoológico com girafas e hipopótamos de carne e osso trazidos de África, e em cujo portão se exibia como um monumento nacional a avioneta em que fora exportado o primeiro carregamento de cocaína.

 

Com a fortuna e a clandestinidade, Escobar ficou dono da situação e converteu-se numa lenda que dominava tudo a partir da sombra. Os seus comunicados de estilo exemplar e cautelas perfeitas chegaram a parecer-se tanto com a verdade que se confundiam com ela. No alto do seu esplendor ergueram-se altares com o seu retrato e puseram candelabros nas comunas de Medellín. Chegou a julgar-se que fazia milagres. Nenhum colombiano em toda a história tinha tido e exercido um talento como o dele para condicionar a opinião pública. Nenhum outro teve maior poder de corrupção. A condição mais inquietante e devastadora da sua personalidade era que carecia completamente da indulgência para distinguir entre o bem e o mal.

 

Era este o homem invisível e improvável que Alberto Villamizar se propôs encontrar em meados de Fevereiro para que lhe devolvesse a mulher. Começou por procurar contacto com os três irmãos Ochoa na prisão de alta segurança de Itagüi. Rafael Pardo - de acordo com o presidente - deu-lhe luz verde, mas lembrou-lhe os seus limites: a sua manobra não era uma negociação em nome do Governo, mas sim uma tarefa de exploração. Disse-lhe que não se podia fazer qualquer acordo em troca de contraprestações por parte do Governo, mas que este estava interessado na entrega dos extraditáveis no âmbito da política de submissão. Foi a partir dessa nova concepção que se lembrou de mudar também a perspectiva da manobra, de forma a não se centrar na libertação dos reféns - como tinha sido até então - mas sim na entrega de Pablo Escobar. A libertação seria uma simples consequência.

 

Assim começou um segundo sequestro de Maruja e uma guerra diferente para Villamizar. É provável que Escobar tivesse tido a intenção de a libertar com Beatriz, mas a tragédia de Diana Turbay deve ter-lhe transtornado os planos. Além de carregar com a culpa de uma morte que não ordenou, o assassínio de Diana deve ter sido um desastre para ele, porque lhe tirou uma peça de um valor inestimável e acabou por lhe complicar a vida. Além disso, a acção da polícia recrudesceu então com tal intensidade que o obrigou a mergulhar até ao fundo.

 

Morta Marina, ficara com Diana, Pacho, Maruja e Beatriz. Se então tivesse resolvido assassinar um deles talvez tivesse sido Beatriz. Uma vez livre Beatriz e morta Diana, restavam-lhe dois: Pacho e Maruja. Talvez ele tivesse preferido preservar Pacho pelo seu valor de troca, mas Maruja tinha adquirido um preço imprevisto e incalculável pela persistência de Villamizar para manter vivos os contactos até que o Governo se decidiu fazer um decreto mais explícito. Também para Escobar a única tábua de salvação a partir de então foi a mediação de Villamizar, e a única coisa que podia garanti-la era a retenção de Maruja. Estavam condenados um ao outro.

 

Villamizar começou por visitar Dona Nydia Quintero para conhecer pormenores da sua experiência. Encontrou-a generosa, decidida, com um luto sereno. Ela contou-lhe as suas conversas com as irmãs Ochoa, com o velho patriarca, com Fabio na prisão. Dava a impressão de ter assimilado a morte atroz da filha e não a recordava por dor nem por vingança, mas sim para que fosse útil na prossecução da paz. Com esse espírito deu a Villamizar uma carta para Pablo Escobar na qual expressava o seu desejo de que a morte de Diana pudesse servir para que nenhum outro colombiano voltasse a sentir a dor que ela sentia. Começava por admitir que o Governo não podia parar as buscas contra a delinquência, mas podia, sim, evitar que se tentasse o resgate dos reféns, pois os familiares sabiam, o Governo sabia e toda a gente sabia que se numa busca davam com os sequestrados podia acontecer uma tragédia irreparável, como já tinha acontecido com a sua filha. «Por isso venho perante si», dizia a carta, «suplicar-lhe com o coração inundado de dor, de perdão e de bondade, que liberte Maruja e Francisco.» E acabou com um pedido surpreendente: «Dê-me a mim a razão de que o senhor não queria que Diana morresse.» Meses depois, da prisão, Escobar tornou público o seu assombro por Nydia lhe ter escrito aquela carta sem recriminações nem rancores. «Quanto me dói», escreveu Escobar «não ter tido a coragem de lhe responder.»

 

Villamizar foi a Itagüi para visitar os três irmãos Ochoa, com a carta de Nydia e os poderes não escritos do Governo. Foi acompanhado por dois guarda-costas da DAS, e a polícia de Medellín reforçou-os com outros seis. Encontrou os Ochoa acabados de instalar na prisão de alta segurança com três controlos escalonados, lentos e repetitivos, cujas paredes de reboco nu davam a impressão de uma igreja por acabar. Os corredores desertos, as escadas apertadas com varandas de tubos amarelos, os alarmes à vista, acabavam num pavilhão do terceiro andar onde os três irmãos Ochoa descontavam os anos das suas condenações fabricando primores de correeiros: selas de montar e todo o tipo de arneses de cavalaria. Ali estava a família em pleno: os filhos, os cunhados, as irmãs. Martha Nieves, a mais activa, e Maria Lia, a mulher de Jorge Luís, faziam as honras com a hospitalidade exemplar dos campesinos.

 

A chegada coincidiu com a hora de almoço, que foi servido num telheiro aberto no fundo do pátio, com cartazes de artistas de cinema nas paredes, uma equipa profissional de ginastas e uma grande mesa posta para doze pessoas. Por um acordo de segurança a refeição era preparada na fazenda próxima de La Loma, residência oficial da família, e naquele dia foi uma mostra suculenta da cozinha crioula. Enquanto comiam, como é de rigor em Antioquia, não se falou de outra coisa a não ser da comida.

 

À sobremesa, com todos os formalismos de um conselho de família, iniciou-se o diálogo. Não foi tão fácil como se podia supor pela harmonia do almoço. Villamizar iniciou-o com o seu modo lento, calculado, explicativo, que deixa pouca margem para as perguntas porque tudo parece respondido de antemão. Fez o relato minucioso das suas negociações com Guido Parra e da sua ruptura violenta, e terminou com a sua convicção de que só o contacto directo com Pablo Escobar podia salvar Maruja.

 

- Procuremos parar esta barbárie - disse ele. - Falemos em vez de cometer mais erros. Para começar, quero que saibam que não há a mais pequena possibilidade de tentarmos um resgate pela força. Prefiro conversar, saber o que se passa, o que pretendem.

 

Jorge Luis, o mais velho, falou por todos. Contou as penúrias da família na confusão da guerra suja, as razões e as dificuldades da sua entrega, e a preocupação insuportável de que a Constituinte não proibisse a extradição.

 

- Foi uma guerra muito dura para nós - disse ele. –O senhor não imagina o que sofremos, o que sofreu a família, os amigos. Tudo nos aconteceu.

 

Os seus dados eram precisos: Martha Nieves, sua irmã, sequestrada; Alonso Cárdenas, seu cunhado, sequestrado e assassinado em 1986; Jorge lván Ochoa, seu tio, sequestrado em 1983 e os seus primos Mario Ochoa e Guillermo León Ochoa, sequestrados e assassinados.

 

Villamizar, por sua vez, tentou mostrar-se tão vítima da guerra como eles, e fazer-lhes ver que o que acontecesse dali para a frente iria ser pago por todos por igual. «Comigo foi tão duro como com vocês», disse ele. «Os extraditáveis tentaram assassinar-me em oitenta e seis, tive de ir para o outro lado do mundo e até lá me perseguiram, e agora sequestram-me a minha mulher e a minha irmã.»

 

No entanto, não se queixava, punha-se, sim, ao nível dos seus interlocutores.

 

- É um abuso - concluiu -, e já é tempo de começarmos a entender-nos.

 

Só eles falavam. O resto da família ouvia num silêncio triste de funeral, enquanto as mulheres assediavam o visitante com as suas atenções sem intervir na conversa.

 

- Nós não podemos fazer nada - disse Jorge Luis. - Esteve cá Dona Nydia. Entendemos a sua situação, mas dissemos-lhe o mesmo. Não queremos problemas.

 

- Enquanto a guerra continuar todos vocês estão em perigo, mesmo dentro destas quatro paredes blindadas - insistiu. Villamizar. - Em contrapartida, se acabar agora terão o vosso pai e a vossa mãe, e toda a vossa família intacta. Isto não acontecerá enquanto Escobar não se entregar à justiça e Maruja e Francisco não voltarem sãos e salvos a suas casas. Mas podem ter a certeza que se os matarem vocês também pagarão, pagarão as vossas famílias, toda a gente.

 

Nas três longas horas do encontro na prisão cada qual demonstrou o seu domínio para chegar à beira do precipício. Villamizar apreciou nos Ochoa o seu realismo campesino. Os Ochoa ficaram impressionados com a maneira directa e franca com que o visitante esmiuçava as questões. Tinham vivido em Cúcuta - a terra de Villamizar -, conheciam muita gente de lá e entendiam-se bem com ela. No fim, os outros dois Ochoa intervieram, e Martha Nieves descarregava o ambiente com os seus gracejos crioulos. Os homens pareciam firmes na sua recusa em intervir numa guerra da qual já se sentiam a salvo, mas pouco a pouco tornaram-se mais reflexivos.

 

- Bom, está bem - concluiu Jorge Luis. - Nós mandamos-lhe a mensagem a Pablo e dizemos-lhe que o senhor esteve aqui. Mas o que eu lhe aconselhava era falar com o meu pai. Está na fazenda de La Loma e terá muito gosto em falar consigo.

 

De forma que Villamizar foi à fazenda com toda a família, e só com os dois guarda-costas que tinha levado de Bogotá, pois os Ochoa acharam o aparato de segurança demasiado visível. Chegaram até ao portão, e seguiram a pé cerca de um quilómetro até à casa por um caminho de árvores frondosas e bem cuidadas. Vários homens sem armas à vista barraram a passagem aos guarda-costas e convidaram-nos a mudar de rumo. Houve um instante de agitação, mas os da casa acalmaram os forasteiros com boas maneiras e melhores razões.

 

- Caminhem e comam qualquer coisa por aqui - disseram-lhes -, que o doutor tem de falar com Dom Fabio.

 

No final do arvoredo estava a pequena praceta e ao fundo a casa grande e em ordem. No terraço, que dominava as pradarias até ao horizonte, o velho patriarca esperava a visita. Com ele estava o resto da família, todas as mulheres e quase todas de luto pelos seus mortos na guerra. Embora fosse a hora da sesta, tinham preparado todo o género de coisas de comer e de beber.

 

Villamizar apercebeu-se desde os cumprimentos que Dom Fabio tinha um relatório completo da conversa na prisão. Isso abreviou os preâmbulos. Villamizar limitou-se a repetir que o recrudescimento da guerra poderia prejudicar muito mais a sua família, numerosa e próspera, que não estava acusada de homicídio nem de terrorismo. Para já três dos seus filhos estavam a salvo, mas o futuro era imprevisível. Por isso ninguém deveria estar mais interessado que eles na prossecução da paz, e isso não seria possível enquanto Escobar não seguisse o exemplo dos seus filhos.

 

Dom Fabio ouviu-o com uma atenção plácida, aprovando com leves movimentos de cabeça o que lhe parecia acertado. Depois, com frases breves e contundentes como epitáfios, disse em cinco minutos o que pensava. Qualquer coisa que se fizesse - afirmou depararia no fim com o que faltava de mais importante: falar com Escobar em pessoa. «De forma que o melhor é começar por aí», disse ele. Pensava que Villamizar era o adequado para o tentar, porque Escobar só acreditava em homens cuja palavra fosse de ouro.

 

- E o senhor é-o - concluiu Dom Fabio. - O problema é demonstrar-lhe isso.

 

A visita tinha começado na prisão às dez da manhã e acabara às seis da tarde em La Loma. A sua maior vitória fora quebrar o gelo entre Villamizar e os Ochoa para o objectivo comum - já acordado com o Governo - de que Escobar se entregasse à justiça. Essa certeza deu ânimo a Villamizar para transmitir as suas impressões ao presidente. Mas ao chegar a Bogotá deu de caras com a má notícia de que também o presidente estava a sofrer na carne a dor de um sequestro.

 

Assim era: Fortunato Gaviria Botero, seu primo direito e amigo mais querido desde a infância, tinha sido raptado na sua quinta de Pereira por quatro encapuçados com espingardas. O presidente não cancelou o compromisso de um conselho regional de governadores na ilha de San Andrés, e para lá foi na tarde de sexta-feira ainda sem confirmar se os sequestradores do seu primo eram os extraditáveis. No sábado de manhã madrugou para mergulhar, e quando veio à superfície contaram-lhe que Fortunato tinha sido assassinado pelos seus raptores - que não eram traficantes de droga - e sepultado às escondidas e sem caixão em campo aberto. A autópsia revelou que tinha terra nos pulmões, o que foi interpretado como indício de que fora enterrado vivo pelos seus sequestradores.

 

A primeira reacção do presidente foi cancelar o conselho regional e regressar imediatamente a Bogotá, mas os médicos impediram-lho. Não era recomendável andar de avião menos de vinte e quatro horas depois de permanecer uma hora a sessenta pés de profundidade. Gaviria obedeceu, e o país viu-o na televisão a presidir o conselho com a sua cara mais lúgubre. Mas às quatro da tarde passou por cima dos critérios médicos e regressou a Bogotá para organizar o funeral. Tempo depois, evocando aquele dia como um dos mais duros da sua vida, disse com um humor ácido:

 

- Eu era o único colombiano que não tinha um presidente a quem me queixar.

 

Assim que acabara o almoço com Villamizar na prisão, Jorge Luis Ochoa tinha mandado uma carta a Escobar para influenciar o seu espírito em favor da entrega. Descreveu Villamizar como um santanderiano sério no qual se podia acreditar e ter confiança. A resposta de Escobar foi imediata: «Diga a esse filho da puta que nem fale comigo.» Villamizar foi informado por uma chamada telefónica de Martha Nieves e María Lía, as quais lhe pediram, porém, que voltasse a Medellín para continuar a procurar caminhos. Desta vez foi sem escolta. Apanhou um táxi no aeroporto até ao Hotel Intercontinental, e uns quinze minutos depois um motorista dos Ochoa foi buscá-lo. Era um campesino de uns vinte anos, simpático e brincalhão, que o observou durante um bocado pelo espelho retrovisor. Por fim perguntou-lhe:

 

Está muito assustado?

 

Villamizar sorriu-lhe pelo espelho.

 

- Calma, doutor - prosseguiu o rapaz. E acrescentou com uma boa pitada de ironia: - Connosco não lhe vai acontecer nada. Que ideia a sua!

 

A piada deu a Villamizar a segurança e a confiança que não perdeu em nenhum momento durante as viagens que faria depois. Nunca soube se o seguiram, inclusivamente numa etapa mais avançada, mas sempre se sentiu à sombra de um poder sobrenatural.

 

Segundo parece, Escobar não sentia que devesse nada a Villamizar pelo decreto que lhe abriu uma porta segura contra a extradição. Sem dúvida, com as suas contas milimétricas de taful duro, considerava que o favor estava pago com a libertação de Beatriz, mas que a dívida histórica continuava intacta. No entanto, os Ochoa pensavam que Villamizar devia insistir.

 

Assim, não ligou aos insultos e propôs-se seguir em frente. Os Ochoa apoiaram-no. Voltou duas ou três vezes e estabeleceram juntos uma estratégia de acção. Jorge Luis escreveu outra carta a Escobar, na qual lhe dizia que as garantias para a sua entrega estavam dadas e que a sua vida iria ser respeitada e não seria extraditado por nenhuma causa. Mas Escobar não respondeu. Então decidiram que o próprio Villamizar explicaria por escrito a Escobar a sua situação e a sua proposta.

 

A carta foi escrita a 4 de Março na cela dos Ochoa, com a assessoria de Jorge Luis, que lhe dizia o que convinha e o que podia ser inoportuno. Villamizar começou por reconhecer que o respeito dos direitos humanos era fundamental para conseguir a paz. «Há um facto, porém, que não pode desconhecer-se: as pessoas que violam os direitos humanos não têm melhor desculpa para continuar a fazê-lo que apontar essas mesmas violações por parte de outros.» O que impedia as acções de ambos os lados, e o que ele mesmo tinha conseguido nesse sentido nos seus meses de luta pela libertação da sua mulher. A família Villamizar era vítima de uma violência obstinada, na qual não tinha qualquer responsabilidade: o atentado contra ele, o assassínio do seu cunhado Luís Carlos Galán, e o sequestro da sua mulher e da sua irmã. «A minha cunhada Gloria Pachón de Galán e eu», acrescentava «não compreendemos nem podemos aceitar tantas agressões injustificadas e inexplicáveis.» pelo contrário: a libertação de Maruja e dos outros jornalistas era indispensável para percorrer o caminho para a verdadeira paz na Colômbia.

 

A resposta de Escobar, duas semanas depois, começava com uma chicotada: «Distinto doutor, tenho muita pena, mas não posso satisfazê-lo.» A seguir chamava a atenção para a notícia de que alguns constituintes do sector oficial, com a anuência das famílias dos sequestrados, proporiam não abordar o tema da extradição se estes não saíssem em liberdade. Escobar considerava isso impróprio pois os sequestros não podiam considerar-se como uma pressão aos constituintes porque eram anteriores à sua eleição. Em todo o caso, permitiu-se fazer sobre a questão uma advertência terrível: «Lembre-se, doutor Villamizar, que a extradição já custou muitas vítimas, e juntar-lhe mais duas não alterará muito o processo nem a luta que se tem vindo a desenvolver.»

 

Foi uma advertência lateral, pois Escobar não tinha voltado a mencionar a extradição como argumento de guerra depois do decreto que a deixou sem apoio para quem se entregasse e tinha-se centrado na questão da violação dos direitos humanos pelas forças especiais que o combatiam. Eram a sua táctica mestra: ganhar terreno com vitórias parciais, e continuar a guerra com outros motivos que podia multiplicar até ao infinito sem necessidade de se entregar.

 

Na sua carta, efectivamente, mostrava-se compreensivo no sentido de que a guerra de Villamizar era a mesma que ele fazia para proteger a sua família, mas insistia e persistia uma vez mais em que o Corpo de Elite havia matado uns quatrocentos rapazes das comunas de Medellín e ninguém o tinha castigado. Essas acções, dizia ele, justificavam os sequestros dos jornalistas como instrumentos de pressão para que fossem sancionados os polícias responsáveis. Mostrava-se também surpreendido por nenhum funcionário público ter tentado um contacto directo com ele relativamente aos sequestros. Em todo o caso, concluía, as chamadas e súplicas para que se libertasse os reféns seriam inúteis, porque o que estava em jogo era a vida das famílias e os sócios dos extraditáveis. E concluía: «Se o Governo não intervém e não ouve os nossos pedidos, passaremos a executar Maruja e Francisco, disso não haja qualquer dúvida.»

 

A carta demonstrava que Escobar procurava contactos com funcionários públicos. A sua entrega não estava descartada, mas ia custar mais caro do que podia pensar-se e estava disposto a cobrá-la sem descontos sentimentais. Villamizar compreendeu isso e nessa mesma semana visitou o presidente da República e pô-lo ao corrente da situação. O presidente limitou-se a tomar nota atenta.

 

Villamizar visitou também nessa altura o procurador-geral tentando encontrar uma maneira diferente de actuar dentro da nova situação. Foi uma visita muito frutífera. O procurador-geral anunciou-lhe que em finais dessa semana publicaria um relatório sobre a morte de Diana Turbay, no qual responsabilizava a polícia por actuar sem ordens e sem prudência, e abria um processo contra três oficiais do Corpo de Elite. Revelou-lhe também que havia investigado onze agentes acusados por Escobar pelo seu nome, e tinha aberto um processo contra eles.

 

Cumpriu. O presidente da República recebeu a 3 de Abril um estudo de avaliação da Procuradoria-Geral da Nação sobre as condições em que tinha morrido Diana Turbay. A operação - diz o estudo - havia começado a ser preparada a 23 de Janeiro quando os serviços de informação da polícia de Medellín receberam chamadas anónimas de carácter genérico sobre a presença de homens armados na parte alta do município de Copacabana. A actividade centrava-se - segundo as chamadas - na região de Sabaneta, e sobretudo nas quintas Villa del Rosario, La Bola e Alto de la Cruz. Pelo menos numa das chamadas deu-se a entender que tinham lá os jornalistas sequestrados, e que até podia estar o doutor. Isto é: Pablo Escobar. Este dado foi mencionado na análise que serviu de base às operações do dia seguinte, mas não foi mencionada a probabilidade de estarem os jornalistas sequestrados. O general Miguel Gómez Padilla, director da Polícia Nacional, declarou ter sido informado a 24 de Janeiro à tarde de que no dia seguinte ia realizar-se uma operação de reconhecimento, busca e revista, «e a possível captura de Pablo Escobar e de um grupo de traficantes de droga». Mas, segundo parece, também não se mencionou então a possibilidade de encontrar os dois últimos reféns, Diana Turbay e Richard Becerra.

 

A operação teve início às onze da manhã de 25 de Janeiro, quando saiu da Escola Carlos Holguín de Medellín o capitão Jairo Salcedo García com sete oficiais, cinco sargentos e quarenta agentes. Uma hora depois saiu o capitão Eduardo Martínez Solanilla com dois oficiais, dois sargentos e sessenta e um agentes. O estudo apontava que no ofício correspondente tinha sido registada a saída do capitão Helmer Ezequiel Torres Vela, que foi o encarregado da operação na quinta de La Bola, onde na realidade estavam Diana e Richard. Mas na sua exposição posterior perante a Procuradoria Nacional, o próprio capitão confirmou que tinha saído às onze da manhã com seis oficiais, cinco sargentos e quarenta agentes. Para toda a operação foram destinados quatro helicópteros artilhados.

 

As buscas de Villa del Rosario e Alto de la Cruz tinham sido feitas sem contratempos. Por volta da uma da tarde iniciou-se a operação em La Bola. O sargento Iván Díaz Álvarez contou que estava a descer da planície onde o helicóptero o tinha deixado quando ouviu detonações na vertente da montanha. Correndo nessa direcção, chegou a ver uns nove ou dez homens com espingardas e metralhadoras que fugiam precipitadamente. «Ficámos ali uns minutos para ver donde saía o ataque», declarou o subtenente «e ouvimos lá muito em baixo uma pessoa que pedia auxílio.» O subtenente disse que se dirigira apressadamente para baixo e tinha encontrado um homem que lhe gritou: «Por favor, ajude-me.» O subtenente gritou-lhe por sua vez: «Alto, quem é você?» O homem respondeu-lhe que era Richard, o jornalista, e que precisava de auxílio porque estava ali ferida Diana Turbay. O subtenente contou que nesse momento, sem explicar porquê, saiu-lhe a frase. «Onde é que está Pablo?» Richard respondeu-lhe: «Eu não sei. Mas, por favor, ajude-me.» Então, o militar aproximou-se dele com todas as seguranças, e apareceram no lugar outros homens do seu grupo. O subtenente concluiu: «Para nós foi uma surpresa encontrar ali os jornalistas dado que o nosso objectivo não era esse.»

 

O relato deste encontro coincide quase ponto por ponto com o que Richard Becerra fez à Procuradoria. Mais tarde, este ampliou a sua declaração no sentido de que tinha visto o homem que disparava contra ele e Diana, e que estava de pé, com as duas mãos para a frente e para o lado esquerdo, e a uma distância média de uns quinze metros. «Quando acabaram de se ouvir os disparos», concluiu Richard, «já eu me tinha deitado no chão.»

 

Em relação ao único projéctil que causou a morte a Diana, a prova técnica demonstrou que tinha entrado pela região ilíaca esquerda e seguido para cima e para a direita. As características dos danos micrológicos demonstraram que foi um projéctil de alta velocidade, entre dois mil e três mil pés por segundo, ou seja, umas três vezes mais que a velocidade do som. Não pôde ser recuperado, pois fragmentou-se em três partes, o que diminuiu o seu peso e alterou a sua forma, e ficou reduzido a uma fracção irregular que continuou a sua trajectória com destroços de natureza essencialmente mortal. Foi quase certamente um projéctil de calibre 5.56, talvez disparado por uma espingarda de condições técnicas semelhantes, se não iguais, a uma AUG austríaca encontrada no local dos factos, que não era de uso regulamentar da polícia. Como uma anotação à margem, o relatório da necropsia indicou: «A esperança de vida de Diana calculava-se em mais quinze anos.»

 

O facto mais intrigante da operação foi a presença de um civil algemado que viajou no mesmo helicóptero em que Diana ferida foi transportada até Medellín. Dois agentes da polícia coincidiram na versão em que era um homem de aparência camponesa, de uns trinta e cinco a quarenta anos, tez morena, cabelo curto, algo robusto, de um metro e setenta mais ou menos, que naquele dia usava um gorro de tecido. Disseram que o tinham detido durante a operação, e estavam a tentar que se identificasse quando começaram os tiros, de modo que tiveram de o algemar e levar consigo até aos helicópteros. Um dos agentes acrescentou que o tinham deixado nas mãos do seu subtenente, que este o interrogou na presença deles e o deixou em liberdade perto do sítio onde o haviam encontrado. «O homem não tinha nada que ver com aquilo», disseram, «dado que os disparos se ouviram em baixo e ele estava em cima connosco.» Estas versões descartavam a hipótese de o civil ter estado a bordo do helicóptero, mas a tripulação da nave confirmou o contrário. Outras declarações foram mais específicas. O primeiro cabo Luis Carlos Ríos Ramírez, técnico artilheiro do helicóptero, não duvidava de que o homem ia a bordo, e tinha sido devolvido nesse mesmo dia à zona de operações.

 

O mistério continuava a 26 de Janeiro, quando apareceu o cadáver de um indivíduo chamado José Humberto Vázquez Muñoz no município de Girardota, perto de Medellín. Tinha sido morto por três tiros de nove milímetros no tórax e dois na cabeça. Nos arquivos dos serviços de informação estava registado com graves antecedentes como membro do cartel de Medellín. Os investigadores marcaram a sua fotografia com o número cinco, misturaram-na com outras de delinquentes reconhecidos e mostraram-nas juntas aos que estiveram cativos com Diana Turbay. Hero Buss disse: «Não reconheço nenhum, mas acho que a pessoa que aparece na foto número cinco tem uma certa parecença com um sicário que vi dias depois do sequestro.» Azucena Liévano declarou também que o homem da foto número cinco, mas sem bigode, se parecia com um que fazia turnos de noite na casa em que estavam Diana e ela nos primeiros dias do sequestro. Richard Becerra também reconheceu o número cinco como um que ia algemado no helicóptero, mas esclareceu: «Parece-me pela forma da cara, mas não tenho a certeza.» Orlando Acevedo também o reconheceu.

 

Por último, a mulher de Vázquez Muñoz reconheceu o cadáver, e disse em declaração sob juramento que no dia 25 de Janeiro de 1991 às oito da manhã o seu marido tinha saído de casa para procurar um táxi, quando o agarraram na rua dois motoristas vestidos de polícia e dois à civil e meteram-no num carro. Ele conseguiu chamá-la com um grito: «Ana Lucía.» Mas já o tinham levado. Esta declaração, no entanto, não pôde ser tomada em conta, porque não houve mais testemunhas do sequestro.

 

«Em conclusão», dizia o relatório, «e tendo em conta as provas reunidas, é lícito afirmar que antes de realizar a operação da quinta de La Bola alguns membros da polícia nacional encarregados da operação tinham conhecimento pelo senhor Vázquez Muñoz, civil que conservavam em seu poder, que se encontravam jornalistas cativos naquele local, e quase de certeza, depois dos acontecimentos, mataram-no.» Outras duas mortes inexplicáveis no lugar onde se deram estes factos foram também comprovadas.

 

O gabinete de Investigações Especiais concluiu que não existiam motivos para afirmar que o general Gómez Padilla, nem outros dos altos dirigentes da Polícia Nacional estavam a par dos acontecimentos. Que a arma que causou as lesões de Diana não foi disparada por nenhum dos membros do corpo especial da Polícia Nacional de Medellín. Que membros do grupo das operações de La Bola deviam responder pelas mortes de três pessoas cujos corpos foram ali encontrados. Que contra o juiz 93 da Instrução Penal Militar, doutor Diego Rafael de Jesús Coley Nieto, e sua secretária, se abrisse uma formal investigação disciplinar por irregularidades de tipo substancial e processual, bem como contra os peritos do DAS em Bogotá.

 

Publicado este relatório, Villamizar sentiu-se num chão mais seguro para escrever a Escobar uma segunda carta. Enviou-lha, como sempre, através dos Ochoa, e com outra carta para Maruja, que pedia lhe fizesse chegar. Aproveitou a ocasião para dar a Escobar uma explicação escolar dos três poderes do Estado: executivo, legislativo e jurisdicional, e fazê-lo perceber como era difícil para o presidente, dentro destes mecanismos constitucionais e legais, manejar corpos tão numerosos e complexos como as Forças Armadas. No entanto, deu razão a Escobar nas suas denúncias sobre as violações dos direitos humanos pelas forças da ordem, e sobre a sua insistência de pedir garantias para ele, para a sua família e para a sua gente quando se entregasse. «Eu partilho do seu critério», disse-lhe, «de que a luta que você e eu travamos tem a mesma essência: salvar as vidas dos nossos familiares e as nossas, e conseguir a paz.» Com base nesses dois objectivos, propôs-lhe adoptar uma estratégia conjunta.

 

Escobar respondeu-lhe dias depois com o orgulho ferido pela lição de direito público. «Eu sei que o país está dividido em presidente, Congresso, polícias, Exército», escreveu. «Mas também sei que o presidente é quem manda.» O resto da carta eram quatro folhas reiterativas sobre as actuações da polícia, que só acrescentavam dados, mas não argumentos às anteriores. Negou que os extraditáveis tivessem executado Diana Turbay, ou que tivessem tentado fazê-lo, porque nesse caso não teriam necessidade de a ter tirado da casa onde estava sequestrada nem a teriam vestido de preto para que os helicópteros a confundissem com uma camponesa. «Morta não vale como refém», escreveu. No fim, sem passagens intermédias nem fórmulas de cortesia despediu-se com uma frase inusitada: «Não se preocupe por (ter feito) as suas declarações à imprensa pedindo para me extraditarem. Sei que tudo acabará bem e que não me guardará rancores porque a luta em defesa da sua família não tem objectivos diferentes da que eu travo em defesa da minha.» Villamizar relacionou aquela frase com uma anterior de Escobar, na qual disse sentir-se envergonhado por ter Maruja como refém se a luta não era com ela, mas sim com o marido. Villamizar já o dissera de outra forma: «Então se estamos a lutar os dois como é que têm a minha mulher?», e consequentemente propôs-lhe que o trocasse a ele por Maruja para negociar em pessoa. Escobar não aceitou.

 

Nessa altura Villamizar tinha estado mais de vinte vezes na cela dos Ochoa. Desfrutava das jóias da cozinha local que as mulheres de La Loma lhes levavam com todas as precauções contra qualquer atentado. Foi um processo de conhecimento recíproco, de confiança mútua, no qual dedicavam as melhores horas a desentranhar em cada frase e em cada gesto as segundas intenções de Escobar. Villamizar regressava a Bogotá quase sempre no último avião da ponte aérea. O seu filho Andrés esperava-o no aeroporto, e muitas vezes teve de o acompanhar com água mineral enquanto ele se libertava das suas tensões com lentos golos solitários. Tinha cumprido a sua promessa de não assistir a nenhum acto da vida pública, nem ver amigos: nada. Quando a pressão aumentava, saía para a varanda e passava horas a olhar na direcção em que supunha que Maruja estava, e durante horas mandava-lhe mensagens mentais, até que o sono o vencia. Às seis da manhã estava outra vez de pé e pronto para começar. Quando recebiam uma resposta a uma carta, ou algo mais de interesse, Martha Nieves ou María Lía telefonavam- lhe, e bastava-lhes uma frase:

 

- Doutor: amanhã às dez.

 

Enquanto não houvesse chamadas dedicava tempo e trabalho a Colombia los Reclama, a campanha de televisão com base nos dados que Beatriz lhes tinha dado sobre as condições do cativeiro. Era uma ideia de Nora Sanín directora da Associação Nacional dos órgãos de Comunicação Social e posta a funcionar por María del Rosario Ortiz - grande amiga de Maruja e sobrinha de Hernando Santos -, em equipa com o seu marido publicista, com Gloria de Galán e com o resto da família: Mónica, Alexandra, Juana, e os seus irmãos.

 

Tratava-se de um desfile diário de estrelas de cinema., do teatro, da televisão, do futebol, da ciência, da política, que pediam numa mesma mensagem a libertação dos sequestrados e o respeito pelos direitos humanos. Desde a sua primeira emissão suscitara um movimento arrasador da opinião pública. Alexandra andava com um operador de câmara a caçar luminárias de um extremo ao outro do país. Nos três meses que durou a campanha desfilaram umas cinquenta personalidades. Mas Escobar não se comoveu. Quando o clavecinista Rafael Puyana disse que era capaz de lhe pedir de joelhos a libertação dos sequestrados, Escobar respondeu-lhe: «Podem vir de joelhos trinta milhões de colombianos, mas eu não os liberto.» No entanto, numa carta a Villamizar fez um elogio do programa porque não só lutava pela liberdade dos reféns como também pelo respeito pelos direitos humanos.

 

A facilidade com que as filhas de Maruja e os seus convidados desfilavam pelos ecrãs de televisão inquietava María Victoria, a mulher de Pacho Santos, pela sua inultrapassável timidez cénica. Os microfones imprevistos que saíam à sua passagem, a luz impudica dos reflectores, o olho inquisitorial das câmaras e as próprias perguntas de sempre à espera das mesmas respostas, causavam-lhe umas náuseas de pânico que dificilmente conseguia reprimir. No dia do seu aniversário fizeram uma notícia para a televisão na qual Hernando Santos falou com uma fluidez profissional, e depois lhe pegou a ela no braço: «Agora a senhora.» Quase sempre conseguiu escapar, mas às vezes teve de o enfrentar, e não só julgava morrer a tentar como ao ver-se e ao ouvir-se no ecrã se sentia ridícula e parva.

 

A sua reacção contra aquela servidão social foi então a contrária. Fez um curso de microempresas e outro de jornalismo. Tornou-se livre e festeira por decisão própria. Aceitou convites que antes detestava, assistia a conferências e concertos, vestiu-se com roupas alegres, saía à noite até muito tarde, e assim acabou por derrotar a sua imagem de viúva sofrida. Hernando e os seus melhores amigos entenderam-na, apoiaram-na, ajudaram-na a fazer a sua vontade.

 

Mas não tardou a sofrer as sanções sociais. Soube que muitos daqueles que a aplaudiam pela frente a criticavam pelas costas. Chegavam-lhe ramos de rosas sem cartões, caixas de chocolates sem nomes, declarações de amor sem remetentes. Ela satisfez-se na ilusão de que fossem do marido, que talvez tivesse conseguido abrir um caminho secreto até ela desde a sua solidão. Mas o remetente não tardou em identificar-se pelo telefone: era um maníaco. Uma mulher, também por telefone, declarou-se-lhe sem rodeios: «Estou apaixonada por si.»

 

Naqueles meses de liberdade criativa Mariavé encontrou por acaso uma vidente amiga que tinha prefigurado o destino trágico de Diana Turbay. Assustou-se só com a ideia de que lhe fizesse algum prognóstico sinistro, mas a vidente tranquilizou-a. Em princípios de Fevereiro voltou a encontrá-la, e disse-lhe ao ouvido de passagem, sem que lhe tivessem perguntado nada e sem esperar qualquer comentário: «Pacho está vivo.» Disse-o com uma tal segurança que Mariavé acreditou como se o tivesse visto com os seus próprios olhos.

 

A verdade em Fevereiro parecia ser que Escobar não tinha confiança nos decretos, mesmo quando dizia que sim. A desconfiança era nele uma condição vital, e costumava repetir que graças a isso estava vivo. Não delegava nada essencial. Era o seu próprio chefe militar, o seu próprio chefe de segurança, de informação e de contra-informação, um estratego imprevisível e um desinformador sem igual. Em circunstâncias extremas mudava todos os dias a sua guarda pessoal de oito homens. Conhecia todo o tipo de tecnologias de comunicações, de intervenção de linhas, de rastreio de sinais. Tinha empregados que passavam o dia a trocar diálogos de loucos pelos seus telefones para que os escutas se emaranhassem em selvas de disparates e não pudessem distingui-los das mensagens reais. Quando a polícia divulgou dois números de telefone para que se dessem informações sobre o seu paradeiro, contratou colégios de crianças para que se antecipassem aos delatores e mantivessem as linhas ocupadas as vinte e quatro horas. A sua astúcia para não deixar provas dos seus actos era inesgotável. Não consultava ninguém e dava estratégias legais aos seus advogados, que não faziam mais que dar-lhes visto jurídico.

 

A sua recusa de receber Villamizar obedecia ao receio de que tivesse escondido debaixo da pele um dispositivo electrónico que permitisse segui-lo. Tratava-se na realidade de um minúsculo transmissor de rádio com uma pilha microscópica cujo sinal pode ser captado a longa distância por um receptor especial – um radiogoniómetro - que permite estabelecer por computador o lugar aproximado do sinal. Escobar confiava tanto no grau de sofisticação deste engenho que não lhe parecia fantástico que alguém levasse o receptor instalado debaixo da pele. O goniómetro serve também para determinar as coordenadas de uma emissão de rádio, de um telemóvel ou de um telefone. Por isso Escobar usava-os o menos possível, e se o fazia preferia que fosse de veículos em marcha. Usava estafetas com notas escritas. Se tinha que ver alguém não combinava o encontro para onde ele estava, ia sim ter ele com o outro. Quando acabava a reunião movia-se por rumos imprevistos. Ou então ia para o outro extremo da tecnologia: num pequeno autocarro com matrículas e insígnias falsas de serviço público que se submetia aos percursos regulamentares, mas não ligava às paragens porque iam sempre com a lotação esgotada com os guarda-costas do dono. Uma das diversões de Escobar, é claro, era ir de vez em quando como condutor.

 

A possibilidade de a Assembleia Constituinte acabar por se pronunciar a favor da não extradição e do indulto tornou-se mais provável em Fevereiro. Escobar sabia-o e concentrou mais forças nessa direcção que no Governo. Gaviria, na realidade, deve ter resultado mais duro do que ele supunha. Tudo o que se relacionava com os decretos de submissão à justiça estava actualizado na Direcção de Instrução Criminal, e o ministro da Justiça permanecia alerta para atender qualquer emergência jurídica. Villamizar, por sua vez, actuava não só por sua conta, mas também por seu risco, mas a sua estreita colaboração com Rafael Pardo mantinha-lhe um canal directo com o Governo que não o comprometia, e em compensação servia-lhe para avançar sem negociar. Escobar deve ter entendido então que Gaviria nunca designaria um delegado oficial para conversar com ele - que era o seu sonho dourado - e agarrou-se à esperança de que a Constituinte o indultasse, quer fosse como traficante arrependido, quer à sombra de um grupo armado. Não era um cálculo louco. Antes da instalação da Constituinte, os partidos políticos tinham acordado uma agenda de temas fechados, e o Governo conseguiu com razões jurídicas que a extradição não fosse incluída na lista, porque precisava dela como instrumento de pressão na política de submissão. Mas quando o Supremo Tribunal de Justiça tomou a decisão espectacular de que a Constituinte podia tratar qualquer tema sem limitação alguma, o da extradição ressurgiu dos escombros. O indulto não foi mencionado, mas também era possível: tudo cabia no infinito.

 

O presidente Gaviria não era dos que abandonavam uma questão por outra. Em seis meses tinha imposto aos seus colaboradores um sistema de comunicação pessoal com notas escritas em papelinhos vulgares com frases breves que resumiam tudo. Às vezes mandava só o nome da pessoa a quem era dirigido, entregava-o a quem estivesse mais perto, e o destinatário sabia o que devia fazer. Este método, além disso, tinha para os seus assessores a virtude terrível de que não fazia distinção entre as horas de trabalho e as de descanso. Gaviria não a concebia, pois descansava com a mesma disciplina com que trabalhava, e continuava a mandar papelinhos enquanto estava num cocktail ou assim que emergia da pesca submarina. «Jogar ténis com ele era como um conselho de ministros», disse um dos seus conselheiros. Podia fazer sestas profundas de cinco a dez minutos mesmo sentado à secretária, e acordava como novo enquanto os seus colaboradores caíam de sono. O método, por mais fortuito que parecesse, tinha a virtude de disparar a acção com mais velocidade e energia do que os memorandos formais.

 

O sistema foi de grande utilidade quando o presidente tentou deter o golpe do Supremo Tribunal contra a extradição com o argumento de que era uma questão de lei e não de Constituição. O ministro do Governo, Humberto de la Calle, conseguiu convencer logo de entrada a maioria. Mas as coisas que interessam às pessoas acabam por se impor às que interessam aos governos, e as pessoas tinham a extradição bem identificada como um dos factores de perturbação social e, sobretudo, do terrorismo selvagem. Assim, ao fim de muitas voltas e reviravoltas acabou por ficar incluída no conjunto de temas da Comissão de Direitos.

 

No meio de tudo, os Ochoa persistiam no receio de que Escobar, encurralado pelos seus próprios demónios, decidisse imolar-se numa catástrofe de dimensão apocalíptica. Foi um receio profético. Em princípios de Março, Villamizar recebeu deles uma mensagem urgente: «Venha imediatamente porque vão acontecer coisas muito graves.» Tinham recebido uma carta de Pablo Escobar com a ameaça de rebentar cinquenta toneladas de dinamite no recinto histórico de Cartagena de Índias se não fossem sancionados os polícias que assolavam as comunas de Medellín: cem quilos por cada rapaz morto fora de combate.

 

Os extraditáveis tinham considerado Cartagena como um santuário intocável até 28 de Setembro de 1989, quando uma carga de dinamite sacudiu os alicerces e pulverizou os vidros do Hotel Hilton e matou dois médicos de um congresso que estava em sessão noutro andar. A partir de então ficou claro que aquele património da humanidade também não estava a salvo da guerra. A nova ameaça não permitia um instante de hesitação.

 

O presidente Gaviria conheceu-a por Villamizar poucos dias antes de se cumprir o prazo. «Agora não estamos a lutar por Maruja, mas sim para salvar Cartagena», disse-lhe Villamizar, para lhe facilitar um argumento. A resposta do presidente foi que lhe agradecia a informação e que o Governo tomaria as medidas para impedir o desastre, mas que de modo nenhum cederia à chantagem. E foi assim que Villamizar viajou até Medellín uma vez mais, e com a ajuda dos Ochoa conseguiu dissuadir Escobar. Não foi fácil. Dias antes do prazo, Escobar garantiu num papel escrito à pressa que de momento não aconteceria nada aos jornalistas cativos e adiou a detonação de bombas em cidades grandes. Mas também foi taxativo: se depois de Abril continuassem as operações da polícia em Medellín, não ficaria pedra sobre pedra da mui antiga e nobre cidade de Cartagena de Índias.

 

Sozinha no quarto, Maruja tomou consciência de que estava nas mãos dos homens que talvez tivessem matado Marina e Beatriz, e se recusavam devolver-lhe o rádio e o televisor para que ela não o soubesse. Passou da solicitude encarecida à exigência colérica, enfrentou os guardas aos gritos para que até os vizinhos a ouvissem, não voltou a caminhar e ameaçou não voltar a comer. O caseiro e os guardas, surpreendidos por uma situação impensável, não souberam o que fazer. Sussurravam em conciliábulos inúteis, saíam para telefonar e regressavam ainda mais indecisos. Tentavam tranquilizar Maruja com promessas ilusórias ou intimidá-la com ameaças, mas não conseguiram quebrar a sua vontade de não comer.

 

Nunca se tinha sentido mais dona de si. Era claro que os seus guardas tinham instruções de não a maltratar, e jogou a carta de precisarem dela viva a todo o custo. Foi um cálculo certeiro: três dias depois da libertação de Beatriz, muito cedo, a porta abriu-se sem qualquer aviso, e entrou o caseiro com o rádio e o televisor. «A senhora agora vai ficar a saber uma coisa», disse a Maruja. E a seguir, sem dramatismo, largou a notícia:

 

- Dona Marina Montoya está morta.

 

Ao contrário do que ela própria esperava, Maruja ouviu-o como se tivesse sabido isso desde sempre. O espantoso para ela teria sido que Marina estivesse viva. No entanto, quando a verdade lhe chegou ao coração apercebeu-se de quanto gostava dela e quanto teria dado para que não fosse verdadeira.

 

- Assassinos! - disse ao caseiro. - Isso é o que vocês são: assassinos!

 

Nesse instante apareceu o Doutor na porta, e quis acalmar Maruja com a notícia de que Beatriz estava feliz na sua casa, mas ela não acreditaria nele enquanto não a visse com os seus olhos na televisão ou a ouvisse pela rádio. Em compensação, o recém-chegado pareceu-lhe como que encarregado de um desabafo.

 

- Você nunca mais voltou por aqui - disse-lhe ela. - E eu compreendo-o: deve andar muito envergonhado do que fez com Marina.

 

Ele precisou de um instante para se recompor da surpresa.

 

- O que é que aconteceu? - instigou-o Maruja. - Estava condenada à morte?

 

Ele explicou então que se tratava de vingar uma dupla traição. «O seu caso é diferente», disse ele. E repetiu o que já tinha dito antes: «É político.» Maruja ouviu-o com o fascínio estranho que infunde a ideia da morte aos que sentem que vão morrer.

 

- Pelo menos diga-me como foi - disse ela. - Marina apercebeu-se?

 

- Juro-lhe que não - disse ele.

 

- Mas como é que não? - persistiu Maruja. - Como é que ela não se ia aperceber?!

 

- Disseram-lhe que a iam levar para outra quinta - afirmou ele com a ansiedade de que ela acreditasse. - Disseram-lhe para sair do carro, e ela continuou a caminhar em frente e dispararam-lhe por detrás da cabeça. Não pode ter-se apercebido de nada.

 

A imagem de Marina a caminhar às cegas com o capuz ao contrário em direcção a uma quinta imaginária ia perseguir Maruja durante muitas noites de insónia. Mais do que a própria morte, temia a lucidez do momento final. A única coisa que lhe infundiu algum consolo foi a caixa de sedativos que tinha poupado como pérolas preciosas, para tragar um bocado antes de se deixar arrastar às boas para o matadouro.

 

Nas notícias do meio-dia viu finalmente Beatriz, rodeada da sua gente e num apartamento cheio de flores que reconheceu imediatamente apesar das mudanças: era o seu. No entanto, a alegria de a ver estragou-se com o desgosto da nova decoração. A biblioteca nova pareceu-lhe bem-feita e no sítio onde ela a queria, mas as cores das paredes e as alcatifas eram insuportáveis, e o cavalo da dinastia Tang estava atravessado onde mais estorvava. Indiferente à sua situação começou a ralhar com o marido e os filhos como se pudessem ouvi-la no ecrã. «Mas que brutos!», gritou ela. «Está tudo ao contrário do que eu tinha dito!» O desejo de sair livre reduziu-se por instantes às ânsias de os chamar à pedra por terem feito as coisas tão mal.

 

Nessa tempestade de sensações e sentimentos desencontrados, os dias tinham-se tornado invisíveis e as noites, intermináveis. Impressionava-a dormir na cama de Marina, tapada com o seu cobertor, atormentada pelo seu cheiro, e quando começava a adormecer ouvia nas trevas, junto a ela na própria cama, os seus sussurros de abelha. Uma noite não foi uma alucinação, mas sim um prodígio da vida real. Marina agarrou-a pelo braço com a sua mão de viva, morna e meiga, e soprou-lhe ao ouvido com a sua voz natural: «Maruja.»

 

Não considerou aquilo uma alucinação porque em Jacarta tinha vivido outra experiência fantástica. Numa feira de antiguidades comprara uma escultura de um belo mancebo de tamanho natural, com um pé apoiado sobre a cabeça de um menino vencido. Tinha uma auréola como os santos católicos, mas este era de latão, e o estilo e os materiais levavam a pensar num acrescento de papoila. Só tempos depois de a ter no melhor lugar da casa é que soube que era o Deus da Morte.

 

Maruja sonhou uma noite que tentava arrancar a auréola à estátua porque lhe parecia muito feia, mas não conseguiu. Estava soldada ao bronze. Acordou muito incomodada pela má recordação, correu a ver a estátua no salão da casa, e encontrou o deus sem coroa e a auréola no chão como se fosse o fim do seu sonho. Maruja que é racionalista e agnóstica -, conformou-se com a ideia de que tinha sido ela própria, num episódio irrecordável de sonambulismo, quem tinha tirado a auréola ao Deus da Morte.

 

A princípio do cativeiro aguentara-se pela raiva que lhe causava a submissão de Marina. Mais tarde foi a compaixão pelo seu amargo destino e o desejo de lhe dar ânimo para viver. Manteve-a o dever de fingir uma força que não tinha quando Beatriz começava a perder o controlo e a necessidade de manter o seu próprio equilíbrio quando a adversidade lhes pesava. Alguém tinha de assumir o comando para não se afundarem, e havia sido ela, num espaço lúgubre e pestilento de três metros por dois e meio, dormindo no chão, comendo sobras da cozinha e sem a certeza de estar viva no minuto seguinte. Mas quando não restou mais ninguém no quarto já não tinha por que fingir: estava sozinha perante si mesma.

 

A certeza de que Beatriz tinha informado a sua família sobre o modo como podiam dirigir-se a ela pela rádio e televisão manteve-a alerta. Com efeito, Villamizar apareceu várias vezes com as suas palavras de alento, e os seus filhos consolaram-na com a sua imaginação e a sua graça. De repente, sem qualquer aviso prévio, rompeu-se o contacto durante duas semanas. Então, embargou-a uma sensação de esquecimento. Foi-se abaixo. Não voltou a caminhar. Permaneceu deitada com a cara contra a parede, alheia a tudo, comendo e bebendo apenas para não morrer. Voltou a sentir as mesmas dores de Dezembro, as mesmas cãibras e pontadas nas pernas que tinham tornado necessária a visita do médico. Mas desta vez nem sequer se queixou.

 

Os guardas, enredados nos seus conflitos pessoais e discrepâncias internas, deixaram de lhe ligar. A comida arrefecia no prato e tanto o caseiro como a sua mulher pareciam não se aperceber de nada. Os dias tornaram-se mais longos e áridos. Tanto, que às vezes até tinha saudades dos momentos piores dos primeiros dias. Perdeu o interesse pela vida. Chorou. Uma manhã ao acordar apercebeu-se horrorizada que o seu braço direito se erguia por si só.

 

A rendição da guarda de Fevereiro foi providencial. Em vez do grupo de Barrabás mandaram quatro rapazes novos, sérios, disciplinados e conversadores. Tinham bons modos e uma facilidade de expressão que foram um alívio para Maruja. De entrada convidaram-na a jogar Nintendo e outros divertimentos de televisão. O jogo aproximou-os. Ela notou desde o princípio que possuíam uma linguagem comum, e isso facilitou-lhes a comunicação. Sem dúvida tinham sido instruídos para vencer a sua resistência e levantar-lhe o moral com um tratamento diferente, pois começaram a convencê-la a continuar com a ordem médica de caminhar no pátio, a pensar no seu marido, nos seus filhos, e em não defraudar a esperança que estes tinham de a ver em breve e em bom estado.

 

O ambiente foi propício para os desabafos. Consciente de que também eles eram prisioneiros e talvez precisassem dela, Maruja contava-lhes as suas experiências com três filhos varões que já tinham passado pela adolescência. Contou-lhes episódios significativos da sua criação e educação, dos seus costumes e dos seus gostos. Também os guardas, já mais confiantes, lhe falaram das suas vidas.

 

Todos tinham o liceu e um deles havia feito pelo menos um semestre na universidade. Ao contrário dos anteriores, diziam pertencer a famílias de classe média, mas de uma ou de outra maneira estavam marcados pela cultura das comunas de Medellín. O mais velho deles, com vinte e quatro anos, a quem chamavam Formiga, era alto e com bom aspecto, e de índole reservada. Havia interrompido os seus estudos universitários quando os pais morreram num acidente de viação e não tinha encontrado outra saída a não ser a de sicário. Outro, a quem chamavam Tubarão, contava divertido que havia passado metade do liceu a ameaçar os seus professores com um revólver de brincar. Ao mais alegre da equipa, e de todos os que passaram por ali, chamavam-lhe Pião e realmente era parecido. Era muito gordo, de pernas curtas e frágeis, e a sua paixão pela dança chegava a extremos de loucura. Uma vez pôs no gravador uma cassete de salsa depois do pequeno-almoço e dançou-a sem interrupção e com ímpeto frenético até ao fim do seu turno. O mais educado, filho de uma professora primária, era leitor de literatura e de jornais e estava bem informado sobre a actualidade do país. Só tinha uma explicação para estar naquela vida: «Porque é muito porreiro. »

 

No entanto, tal como Maruja vislumbrou desde o princípio, não foram insensíveis ao trato humano. O que, por sua vez, não só lhe deu a ela novas forças para viver, como a astúcia para ganhar vantagens que talvez os próprios guardas não tinham previsto.

 

- Não pensem que vos vou provocar - disse-lhes. - Estejam calmos que não farei nada do que está proibido, porque sei que isto vai acabar depressa e bem. Então não tem sentido que me constranjam tanto.

 

Com uma autonomia que não teve nenhum dos guardas anteriores - nem sequer os seus chefes -, os novos atreveram-se a relaxar o regime prisional muito mais do que a própria Maruja esperava. Deixaram-na mover-se pelo quarto, falar com a voz menos forçada, ir à casa de banho sem um horário fixo. O novo tratamento devolveu-lhe as forças para se dedicar ao cuidado de si mesma, graças à experiência de Jacarta. Tirou bom proveito de umas lições de ginástica que uma professora fez para ela no programa de Alexandra e cujo título parecia ter nome próprio: exercícios em espaços reduzidos. Era tal o seu entusiasmo que um dos guardas lhe perguntou com um gesto de suspeita: «Não será que esse programa tem alguma mensagem para si?», Maruja teve algum trabalho a convencê-lo que não.

 

Naqueles dias emocionou-a também a aparição surpreendente de Colombia los Reclama, que não só lhe pareceu bem concebido e bem-feito, como também o mais adequado para manter elevada a moral dos dois últimos reféns.

Sentiu-se mais em comunicação e identificada com os seus. Pensava que teria feito o mesmo como campanha, como remédio, como golpe de opinião, ao ponto de chegar a acertar nas apostas que fazia com os guardas sobre quem ia aparecer no ecrã no dia seguinte. Uma vez apostou que apareceria Vicky Hernández, a grande actriz, sua grande amiga, e ganhou. Um prémio melhor, em todo o caso, foi que o simples facto de ver Vicky e ouvir a sua mensagem lhe provocou um dos poucos instantes felizes do cativeiro.

 

Também as caminhadas do pátio começaram a dar frutos. O pastor-alemão, alegre por vê-la outra vez, tentou meter-se por debaixo do portão para brincar com Maruja, mas ela acalmou-o com os seus mimos com medo de despertar os receios dos guardas. Marina dissera-lhe que o portão dava para uma cerca aprazível de cordeiros e galinhas. Maruja comprovou isso com um rápido olhar sob o luar. No entanto, também se apercebeu então de que um homem armado com uma espingarda montava guarda do lado de fora da cerca. A ilusão de escapar com a cumplicidade do cão ficou cancelada.

 

A 20 de Fevereiro - quando a vida parecia ter recuperado o seu ritmo - ficaram a saber pela rádio de que tinham encontrado numa cerca de gado de Medellín o cadáver do doutor Conrado Prisco Lopera, primo dos chefes do bando, que havia desaparecido dois dias antes. O seu primo Edgar de Jesús Botero Prisco foi assassinado quatro dias depois. Nenhum dos dois tinha antecedentes criminais. O doutor Prisco Lopera era aquele que tinha cuidado de Juan Vitta com o seu nome e a cara descoberta, e Maruja perguntava-se se não seria o mesmo encapuçado que a tinha examinado dias antes.

 

Tal como a morte dos irmãos Priscos em Janeiro, estas causaram uma grande impressão entre os guardas e aumentaram o nervosismo do caseiro e da sua família. A ideia de que o cartel cobraria as suas mortes com a vida de um sequestrado, como aconteceu com Marina Montoya, passou pelo quarto como uma sombra fatídica. O caseiro entrou no dia seguinte sem nenhum motivo e a uma hora inusitada.

 

- Não é para a preocupar - disse a Maruja -, mas há uma coisa muito grave: uma borboleta está parada desde ontem à noite na porta do pátio.

 

Maruja, incrédula do invisível, não entendeu o que ele queria dizer-lhe. O caseiro explicou-lho com um dramatismo calculado.

 

- É que quando mataram os outros Priscos aconteceu o mesmo - disse ele: - uma borboleta preta esteve colada três dias na porta da casa de banho.

 

Maruja recordou os obscuros pressentimentos de Marina, mas fez-se desentendida.

 

- E o que é que isso quer dizer? - perguntou.

 

- Não sei - respondeu o caseiro -, mas deve ser de muito mau agoiro, porque foi nessa altura que mataram Dona Marina.

 

- A de agora é preta ou parda? - perguntou-lhe Maruja.

 

- Castanha - respondeu o caseiro.

 

- Então é boa - disse Maruja. - As de mau agoiro são as pretas.

       

O propósito de a assustar não se cumpriu. Maruja conhecia o seu marido, o seu modo de pensar e proceder, e não acreditava que andasse tão extraviado ao ponto de tirar o sono a uma borboleta. Sabia, sobretudo, que nem ele nem Beatriz deixariam escapar nenhum dado útil para uma tentativa de resgate armado. No entanto, habituada a interpretar os seus altos e baixos íntimos como um reflexo do mundo exterior, não afastou a hipótese de que cinco mortes de uma mesma família num mês tivessem terríveis consequências para os dois últimos sequestrados.

 

O rumor de que a Assembleia Constituinte tinha dúvidas sobre a extradição, pelo contrário, deve ter aliviado os extraditáveis. A 28 de Fevereiro, numa visita oficial aos Estados Unidos, o presidente Gaviria declarou-se partidário decidido de a manter a todo o custo, mas não causou alarme: a não extradição era já um sentimento nacional muito arreigado que não precisava de subornos nem de intimidações para se impor.

 

Maruja seguia aqueles acontecimentos com atenção, dentro de uma rotina que parecia ser um mesmo dia repetido. De repente, enquanto jogava dominó com os guardas, o Pião acabou o jogo e recolheu as fichas pela última vez.

 

- Amanhã vamo-nos embora - disse ele.

 

Maruja não quis acreditar, mas o filho da professora confirmou-lho.

 

- A sério - disse ele. - Amanhã vem o grupo de Barrabás.

 

Este foi o princípio do que Maruja havia de recordar como o seu Março negro. Tal como os guardas que se iam embora pareciam instruídos para lhe aliviar a pena, os que chegaram estavam sem dúvida treinados para a tornar insuportável. Irromperam como um tremor de terra. O Monge, longo, esquálido, e mais sombrio e absorto do que da última vez. Os outros, os de sempre, como se nunca tivessem saído dali. Barrabás dirigia-os com pretensões de assassino de cinema, dando ordens militares para encontrar o esconderijo de qualquer coisa que não existia, ou fingindo procurá-la para amedrontar a sua vítima. Viraram o quarto do avesso com técnicas brutais. Desmancharam a cama, estriparam o colchão e voltaram a enchê-lo tão mal que era difícil continuar a dormir num leito de nós.

 

A vida quotidiana regressou ao velho estilo de manter as armas prontas para disparar se as ordens não se cumprissem imediatamente. Barrabás não falava com Maruja sem lhe apontar a metralhadora à cabeça. Ela, como sempre, ameaçou acusá-lo aos seus chefes.

 

- Não é verdade que eu vá morrer só porque você teve uma bala perdida – disse-lhe ela. - Esteja quieto ou queixo-me.

 

Daquela vez não lhe serviu o recurso. Parecia claro, porém, que a desordem não era intimidatória nem calculada, mas sim que o próprio sistema estava carcomido por dentro por uma desmoralização de fundo. Até as brigas entre o caseiro e Damaris, frequentes e de cores folclóricas, se tornaram temíveis. Ele chegava da rua a qualquer hora - se chegava - quase sempre embrutecido pela bebedeira, e tinha de enfrentar as invectivas obscenas da mulher. Os alaridos dos dois e o choro das meninas acordadas a qualquer hora agitavam a casa. Os guardas troçavam deles com imitações teatrais que ampliavam o barulho. Parecia inconcebível que no meio da barafunda não tivesse aparecido ninguém nem que fosse por curiosidade.

 

O caseiro e a sua mulher desabafavam separadamente com Maruja. Damaris, por causa de uns ciúmes justificados que não lhe davam um instante de paz. Ele, procurando engendrar uma maneira de acalmar a mulher sem renunciar aos seus devaneios. Mas os bons ofícios de Maruja não perduravam para além da escapadela seguinte do caseiro.

 

Numa das tantas brigas, Damaris arranhou a cara ao marido com umas unhas de gata, cujas cicatrizes demoraram a desaparecer. Ele deu-lhe um murro que a atirou pela janela. Não a matou por milagre, porque ela conseguiu agarrar-se à última hora e ficou pendurada da varanda do pátio. Foi o fim. Damaris fez as malas e foi-se embora com as meninas para Medellín.

 

A casa ficou nas mãos do caseiro sozinho, que às vezes só aparecia ao anoitecer carregado de iogurtes e sacos de batatas fritas. Muito de vez em quando levava um frango. Cansados de esperar, os guardas saqueavam a cozinha. De regresso ao quarto levavam a Maruja uma bolacha que sobrara com salsichas cruas. O aborrecimento tornou-os mais susceptíveis e perigosos. Disparatavam contra os seus pais, contra a polícia, contra a sociedade inteira. Contavam os seus crimes inúteis e os seus sacrilégios deliberados para provarem a inexistência de Deus, e chegaram a extremos dementes nos relatos das suas proezas sexuais. Um deles fazia descrições das aberrações a que submeteu uma das suas amantes como vingança dos seus enganos e humilhações. Ressentidos e sem controlo, acabaram por se drogar com marijuana e coca, a um ponto tal que não era possível respirar na fumarada do quarto. Ouviam rádio com o som no máximo, entravam e saíam com portas a bater, saltavam, cantavam, dançavam, faziam cabriolas no pátio. Um deles parecia um saltimbanco profissional num circo pobre. Maruja ameaçava-os dizendo que com o barulho eles ainda iam chamar a atenção da polícia.

 

- Que venha e que nos mate! - gritaram em coro.

 

Maruja sentiu-se nos seus limites, sobretudo por causa do enlouquecido Barrabás, que gozava a acordá-la com o cano da metralhadora na têmpora. O cabelo começou a cair-lhe. A almofada cheia de madeixas soltas deprimia-a desde que abria os olhos ao amanhecer.

 

Sabia que cada um dos guardas era diferente, mas tinham a fraqueza comum da insegurança e a desconfiança recíproca. Maruja exacerbava-as com o seu próprio receio. «Como é que podem viver assim?», perguntava-lhes de repente. «Em que é que vocês acreditam?», «Têm algum sentido da amizade?» Antes de eles poderem reagir já os tinha encurralados: «A palavra empenhada significa alguma coisa para vocês?» Não respondiam, mas as respostas que davam a si mesmos deviam ser inquietantes, porque em vez de se rebelarem humilhavam-se perante Maruja. Só Barrabás a enfrentou. «Oligarcas de merda!», gritou uma vez. «Julgavam que iam mandar sempre? Já não, carago: acabou-se a mama!» Maruja, que tanto o tinha temido, virou-se para ele com a mesma fúria.

 

- Vocês matam os vossos amigos, os vossos amigos matam-vos a vocês, todos acabarão por se matar uns aos outros - gritou-lhe.

- Quem é que os entende? Traga-me alguém que me explique que tipo de animais é que vocês são.

 

Desesperado talvez por não a poder matar, Barrabás deu um murro na parede que lhe aleijou os ossos do pulso. Deu um grito selvagem e desatou a chorar de fúria. Maruja não se deixou amolecer pela compaixão. O caseiro passou a tarde tentando apaziguá-la e fez um esforço inútil por melhorar o jantar.

 

Maruja interrogava-se como era possível que com semelhante balbúrdia continuassem a julgar que tinham algum sentido os diálogos em sussurro, a reclusão no quarto, o racionamento do rádio e da televisão por motivos de segurança. Aborrecida com tanta demência sublevou-se contra as leis inúteis do cativeiro, falou com voz natural, ia à casa de banho quando lhe apetecia. Em contrapartida, o medo de uma agressão tornou-se mais intenso, sobretudo quando o caseiro a deixava sozinha com o par de turno. O drama culminou uma manhã em que um guarda encapuçado irrompeu na casa de banho quando ela estava a ensaboar-se debaixo do duche. Maruja conseguiu cobrir-se com a toalha e deu um grito de terror que se deve ter ouvido em todo o bairro. O homem permaneceu petrificado como um espantalho e com a alma presa por um fio com medo das reacções da vizinhança. Mas ninguém compareceu, não se ouviu um suspiro. O guarda saiu a caminhar para trás, em bicos de pés, como se se tivesse enganado na porta.

 

O caseiro reapareceu quando menos o esperavam com uma mulher diferente que tomou as rédeas da casa. Mas em vez de controlar a desordem ambos contribuíram para a aumentar. A mulher secundava-o nas suas bebedeiras de arrabalde que costumavam acabar com murros e pancadas de garrafa. As horas das refeições tornaram-se improváveis. Aos domingos iam para a paródia e deixavam Maruja e os guardas sem nada que comer até ao dia seguinte. Uma madrugada, enquanto Maruja caminhava sozinha no pátio, os quatro guardas foram saquear a cozinha, e deixaram as metralhadoras no quarto. Foi sacudida por um pensamento. Saboreou-o enquanto conversava com o cão, o acariciava, lhe falava em sussurros, e o animal regozijado lhe lambia as mãos com grunhidos de cumplicidade.

 

O grito de Barrabás arrancou-a dos seus sonhos. Foi o fim de uma ilusão. Trocaram o cão por outro com aspecto de carniceiro. Proibiram as caminhadas, e Maruja foi submetida a um regime de vigilância perpétua. O que mais temeu então foi que a amarrassem na cama com uma corrente forrada em plástico que Barrabás enrolava e desenrolava como umas camândulas de ferro. Maruja antecipou-se a qualquer propósito.

 

- Se eu tivesse querido ir-me embora daqui já teria ido há tempos - disse ela. - Fiquei sozinha várias vezes, e se não fugi foi porque não quis.

 

Alguém deve ter levado as queixas, porque o caseiro entrou uma manhã com uma humildade suspeita e deu todo o tipo de desculpas. Que morria de vergonha, que os rapazes iam portar-se bem doravante, que já tinha mandado buscar a sua mulher, que estava quase a voltar. Assim foi: voltou a mesma Damaris de sempre, com as duas meninas, com as minissaias de gaiteiro escocês e as lentilhas aborrecidas. Com a mesma atitude chegaram no dia seguinte dois chefes encapuçados que tiraram aos empurrões os quatro guardas e impuseram a ordem. «Nunca mais voltarão», disse um dos chefes com uma determinação arrepiante. Dito e feito.

 

Nessa mesma tarde mandaram a equipa dos rapazes de liceu, e foi como que um regresso mágico à paz de Fevereiro: o tempo pausado, as revistas de variedades, a música dos Guns n’Roses, e os filmes de Mel Gibson com pistoleiros a soldo curtidos nos desenfreios do coração. A Maruja comovia-a que os assassinos adolescentes os ouvissem e os vissem com a mesma devoção que os seus filhos.

 

Em finais de Março, sem qualquer anúncio, apareceram dois desconhecidos que tinham posto os capuzes emprestados pelos guardas para não falarem de cara descoberta. Um deles, quase sem cumprimentar, começou a medir o chão com uma fita métrica de alfaiate, enquanto o outro tentava entrar em diálogo com Maruja.

 

- Estou encantado por conhecê-la, minha senhora - disse-lhe. Vimos alcatifar o quarto.

 

- Alcatifar o quarto! - gritou Maruja, cega de raiva. - Vão à merda! O que eu quero é desaparecer daqui. Agora mesmo!

 

Em todo o caso, o mais escandaloso não era a alcatifa, mas sim o que ela podia significar: um adiamento indefinido da sua libertação. Um dos guardas diria depois que a interpretação que Maruja fizera tinha sido errada, pois talvez significasse que ela se ia embora rapidamente e renovavam o quarto para outros reféns mais considerados. Mas Maruja tinha a certeza de que uma alcatifa naquele momento só podia entender-se como mais um ano da sua vida.

 

Também Pacho Santos tinha de ser engenhoso para manter os seus guardas ocupados, pois quando se aborreciam de jogar às cartas, de ver dez vezes seguidas o mesmo filme, de contar as suas façanhas de machos, punham-se a dar voltas no quarto como leões enjaulados. Pelos buracos do capuz viam-se-lhe os olhos avermelhados. A única coisa que podia fazer então era tirar uns dias de descanso. Isto é: embrutecerem-se de álcool e de droga numa semana de farras seguidas, e regressarem pior. A droga era proibida e castigada com severidade, e não só durante o serviço, mas os toxicodependentes encontravam sempre maneira de burlar a vigilância dos seus superiores. A normal era a marijuana, mas em tempos difíceis receitavam-se umas olimpíadas de coca que faziam temer qualquer descalabro. Um dos guardas, depois de uma noite de bruxas na rua, irrompeu no quarto e acordou Pacho com um grito. Ele viu a máscara de diabo quase colada à sua cara, viu uns olhos sanguinolentos, umas sobrancelhas eriçadas que lhe saíam pelas orelhas, e sentiu o fedor de enxofre dos infernos. Era um dos seus guardas que queria acabar a festa com ele. «Você não sabe o bandido que eu sou», disse-lhe enquanto bebiam uma aguardente dupla às seis da manhã. Nas duas horas seguintes contou-lhe a sua vida sem que lho tivesse pedido, só por um ímpeto irreprimível da consciência. No fim ficou mergulhado na bebedeira, e se Pacho não fugiu naquela altura foi porque à última hora lhe faltou a coragem.

 

A leitura mais animadora que teve na sua clausura foram as notas privadas que El Tiempo publicava só para ele sem dissimulações nem reservas nos seus editoriais, por iniciativa de María Victoria. Uma delas foi acompanhada de um retrato recente dos seus filhos, e ele escreveu-lhes a quente uma carta cheia daquelas verdades tremendas que parecem ridículas a quem não as sofre: «Estou aqui sentado neste quarto, acorrentado a uma cama, com os olhos cheios de lágrimas.» A partir de então escreveu à sua mulher e aos seus filhos uma série de cartas do coração que nunca pôde enviar.

 

Pacho tinha perdido toda a esperança depois da morte de Marina e Diana, quando a possibilidade da fuga lhe passou à frente sem que a tivesse procurado. Já não havia dúvida de que estava num dos bairros próximos da Avenida Boyacá, na zona ocidental da cidade. Conhecia-o bem, pois costumava desviar por ali para ir do jornal a sua casa nas horas de muito trânsito, e aquele era o rumo que levava na noite do sequestro. A maioria dos seus edifícios devia ser conjuntos residenciais em série, com a mesma casa muitas vezes repetida: um portão na garagem, um jardim minúsculo, um segundo andar com vista para a rua, e todas as janelas protegidas por grades de ferro pintadas de branco. Mais ainda: numa semana conseguiu precisar a distância da pizzaria, e que a fábrica não era outra senão a Cervejaria de Bavaria. Um pormenor desorientador era o galo louco que a princípio cantava a qualquer hora, e com o passar dos meses cantava ao mesmo tempo em diferentes sítios: às vezes distante às três da tarde, às vezes junto à sua janela às duas da madrugada. Mais desorientador teria sido se lhe tivessem dito que também Maruja e Beatriz o ouviam num bairro muito distante.

 

No fim do corredor, à direita do seu quarto, podia saltar por uma janela que dava para um patiozinho fechado, e depois escalar o muro coberto de trepadeiras junto a uma árvore de bons ramos. Desconhecia o que havia por detrás do muro, mas sendo uma casa de esquina tinha de ser uma rua. E quase com segurança, a rua onde estavam a mercearia, a farmácia e uma oficina de automóveis. Esta, no entanto, era talvez um factor negativo, porque podia ser um disfarce dos sequestradores. Com efeito, Pacho ouviu uma vez para esses lados uma discussão sobre futebol com duas vozes que eram sem dúvida de guardas seus. Em todo o caso, a saída pelo muro seria fácil, mas o resto era imprevisível. De modo que a melhor alternativa era a casa de banho, com a vantagem indispensável de ser o único sítio onde lhe permitiam ir sem as correntes.

 

Via claramente que a evasão devia ser em pleno dia, pois nunca ia à casa de banho depois de se deitar - mesmo quando permanecia acordado em frente da televisão ou a escrever na cama - e a excepção podia denunciá-lo. Além disso, as lojas fechavam cedo, os vizinhos recolhiam-se depois dos noticiários das sete e às dez não havia vivalma em redor. Mesmo nas noites de sexta-feira, que em Bogotá são estrepitantes, só se sentia o resfolegar lento da fábrica de cerveja ou o alarido instantâneo de uma ambulância desenfreada na Avenida Boyacá. Além disso, de noite não seria fácil encontrar um refúgio imediato nas ruas desertas, e as portas das lojas e lares estariam fechadas com aldrabas e ferrolhos sobrepostos contra os perigos da noite.

 

No entanto, a única oportunidade apresentou-se a 6 de Março – mais aberta que nunca - e foi de noite. Um dos guardas tinha levado uma garrafa de aguardente e convidou-o a beber um pouco, enquanto viam um programa sobre Julio Iglesias na televisão. Pacho bebeu pouco e só para lhe agradar. O guarda tinha entrado de turno nessa tarde, vinha com uns copos a mais e caiu redondo antes de acabar a garrafa, e sem acorrentar Pacho. Este, morto de sono, não viu a oportunidade que lhe caía do céu. Sempre que quisesse ir de noite à casa de banho devia ser acompanhado pelo seu guarda de turno, mas preferiu não perturbar a sua bebedeira feliz. Saiu para o corredor escuro com toda a inocência - tal como estava, descalço e em cuecas - e passou sem respirar à frente do quarto onde dormiam os outros guardas. Um ressonava a bom ressonar. Pacho não tinha tomado consciência até então de que estava a fugir sem saber, e de que o mais difícil já tinha passado. Subiu-lhe do estômago uma onda de náusea, gelou-lhe a língua e fez-lhe saltar o coração. «Não era medo de fugir, mas sim o de não me atrever», diria mais tarde. Entrou na casa de banho às escuras e fechou a porta com uma determinação sem regresso. Outro guarda, ainda meio a dormir, empurrou a porta e iluminou-lhe a cara com uma lanterna. Ficaram ambos atónitos.

 

O que estás a fazer? - perguntou o guarda.

 

Pacho respondeu-lhe com voz firme:

 

- A cagar.

 

Não se lembrou de mais nada. O guarda abanou a cabeça sem saber o que pensar.

 

- Está bem - disse por fim. - Bom proveito.

 

Permaneceu na porta a iluminá-lo com o feixe da sua lanterna, sem pestanejar, até que Pacho acabou o que tinha a fazer como se fosse verdade.

 

No decurso da semana, vencido pela depressão do fracasso, resolveu fugir de uma maneira radical e irremediável. «Tiro a lâmina da máquina de barbear, corto as veias, e de manhã estou morto», disse a si próprio. No dia seguinte, o padre Alfonso Llanos Escobar publicou em El Tiempo a sua coluna semanal, dirigida a Pacho Santos, na qual lhe ordenava em nome de Deus que não lhe passasse pela cabeça suicidar-se. O artigo estava há três semanas na secretária de Hernando Santos, que hesitava entre publicá-lo ou não sem perceber bem porquê - e no dia anterior decidiu à última hora publicá-lo e também sem saber porquê. Ainda agora, cada vez que conta isso, Pacho volta a viver o espanto daquele dia.

 

Um chefe de segunda linha que visitou Maruja em princípios de Abril prometeu-lhe mediar para que o seu marido lhe mandasse uma carta que ela precisava como de um remédio da alma e do corpo. A resposta foi incrível: «Não há problema.» O homem foi-se embora por volta das sete da noite. Cerca da meia-noite e meia hora, depois da caminhada pelo pátio, o caseiro deu umas pancadas urgentes na porta trancada por dentro e entregou-lhe a carta. Não era nenhuma das várias que Villamizar lhe tinha mandado por Guido Parra, mas sim a que lhe mandou por Jorge Luis Ochoa, e na qual Gloria Pachón de Galán tinha posto uma data posterior consoladora. No verso do mesmo papel, Pablo Escobar tinha escrito uma nota pelo seu próprio punho: «Eu sei que isto foi terrível para si e para a sua família, mas a minha família e eu também sofremos muitíssimo. Mas não se preocupe, eu prometo-lhe que a si não lhe vai acontecer nada, aconteça o que acontecer.» E acabava com uma confidência marginal que pareceu inverosímil a Maruja: «Não faça caso dos meus comunicados de imprensa que são só para impressionar. »

 

A carta do marido, em contrapartida, desalentou-a pelo seu pessimismo. Dizia-lhe que as coisas iam bem, mas que tivesse paciência, porque a espera podia ser ainda mais longa. De certeza que seria lida antes de a entregar, Villamizar tinha acabado com uma frase que naquele caso era mais para Escobar do que para Maruja. «Oferece o teu sacrifício pela paz da Colômbia.» Ela enfureceu-se. Tinha captado muitas vezes os recados mentais que Villamizar lhe mandava da sua varanda, e respondia-lhe com toda a sua alma: «Tire-me daqui, que já nem sei quem sou depois de tantos meses de não me ver num espelho.»

 

Com aquela carta teve mais um motivo para lhe responder pelo seu próprio punho que qual paciência nem meia paciência, carago, com tanta que tinha tido e sofrido nas noites de horror em que a acordava de repente o pasmo da morte. Ignorava que era uma carta antiga, escrita entre o fracasso com Guido Parra e os primeiros encontros com os Ochoa, quando ainda não se vislumbrava nem uma luz de esperança. Não podia esperar-se que fosse uma carta optimista, como o teria sido nos dias em que já parecia definido o caminho da sua libertação.

 

Felizmente o mal-entendido serviu para que Maruja tomasse consciência de que a sua raiva podia não ser tanto pela carta como por um rancor mais antigo e inconsciente contra o marido: porque é que Alberto havia permitido que libertassem só Beatriz se era ele quem manipulava o processo? Em dezanove anos de vida comum não tinha tido tempo, nem motivo nem coragem para fazer a si própria uma pergunta como esta, e a resposta que deu a si mesma tornou-a consciente da verdade: tinha resistido ao sequestro porque sabia com certeza absoluta que o seu marido dedicava cada instante da sua vida a tentar libertá-la, e que o fazia sem descanso e mesmo sem esperanças pela certeza absoluta de que ela o sabia. Era - mesmo que nem ele nem ela o soubessem - um pacto. de amor.

 

Tinham-se conhecido dezanove anos antes numa reunião de trabalho quando ambos eram publicistas juvenis. «Alberto agradou-me à primeira», disse Maruja. Porquê? Ela não pensa duas vezes: «Pelo seu ar de desamparo.» Era a resposta menos pensada. A primeira vista, Villamizar parecia um exemplar típico do universitário inconformado da época, com o cabelo até aos ombros, a barba de anteontem e uma só camisa que lavava quando chovia. «Às vezes tomava banho», diz hoje morto de riso. À segunda vista era amigo da paródia, contagioso e de génio atravessado. Mas Maruja viu-o totalmente à terceira vista como um homem que podia perder a cabeça por uma mulher bela, e mais se fosse inteligente e sensível, e mais ainda se tivesse de sobra a única coisa que fazia falta para acabar de o criar: uma mão de ferro e um coração de alcachofra.

 

Interrogado sobre o que é que tinha gostado nela, Villamizar responde com um grunhido. Talvez porque Maruja, além das suas graças visíveis, não tivesse as melhores credenciais para se apaixonar por ela. Estava na flor dos seus trinta anos, casara-se pela Igreja Católica aos dezanove e tinha cinco filhos do seu marido - três mulheres e dois homens -, que haviam nascido com intervalos de quinze meses. «Contei-lhe tudo de uma vez», disse Maruja, «para que ele soubesse que estava a meter-se em terreno minado.» Ele ouviu-a com outro grunhido, e em vez de a convidar para almoçar pediu a um amigo comum que os convidasse aos dois. No dia seguinte convidou-a ele com o mesmo amigo, ao terceiro dia convidou-a a ela sozinha, e ao quarto dia viram-se os dois sem almoçar. Assim continuaram a encontrar-se todos os dias com as melhores intenções. Quando perguntam a Villamizar se estava apaixonado ou só queria dormir com ela, diz em santanderiano puro: «Não me lixe, era mesmo a sério.» Talvez ele próprio nem imaginasse até que ponto o era.

 

Maruja tinha um casamento sem sobressaltos, sem um sim nem um não, perfeito, mas talvez lhe fizesse falta a pitada de inspiração e de risco de que ela precisava para se sentir viva. Tirava tempo para Villamizar com o pretexto do escritório. Inventava mais trabalho do que tinha, inclusivamente aos sábados desde o meio-dia até às dez da noite. Aos domingos e feriados improvisavam festas juvenis, conferências de arte, sessões da meia-noite, qualquer coisa, só para estarem juntos. Ele não tinha problemas: era solteiro e disponível, vivia à sua vontade e comia à lista, e com tantas namoradas de sábado que era como não ter nenhuma. Só lhe faltava a tese final para ser médico-cirurgião como o pai, mas os tempos eram mais propícios para viver a vida do que para curar doentes. O amor começava a sair dos boleros, tinham-se acabado os bilhetes perfumados que haviam durado quatro séculos, as serenatas choradas, os monogramas nos lenços, a linguagem das flores, os cinemas desertos às três da tarde, e o mundo inteiro andava como que armado em valente contra a morte pela demência feliz dos Beatles.

 

No ano em que se conheceram foram viver juntos com os filhos de Maruja num apartamento de cem metros quadrados. «Era um desastre», diz Maruja. Com razão: viviam no meio de rixas de todos contra todos, de destroços de pratos partidos, de ciúmes e suspeitas para crianças e adultos. «Às vezes tinha-lhe um ódio de morte», diz Maruja. «E eu a ela», diz Villamizar. «Mas só por cinco minutos», ri Maruja. Em Outubro de 1971, casaram-se em Ureña, Venezuela, e foi como acrescentar mais um pecado à sua vida, porque o divórcio não existia e muito poucos acreditavam na legalidade do casamento civil. Quatro anos depois nasceu Andrés, filho único dos dois. Os sobressaltos continuavam, mas doíam-lhes menos: a vida tinha-se encarregado de lhes ensinar que a felicidade do amor não se fez para adormecer nela, mas sim para se foderem juntos.

 

Maruja era filha de Álvaro Pachón de la Torre, um jornalista estrela dos anos 40, que tinha morrido com dois colegas notáveis num acidente de viação histórico no grémio. órfã também de mãe, ela e a sua irmã Gloria haviam aprendido a defender-se sozinhas desde muito novas. Maruja tinha sido desenhadora e pintora aos vinte anos, publicista precoce, directora e guionista de rádio e televisão, chefe de relações públicas ou publicidade de empresas de grande nome, e sempre jornalista. O seu talento artístico e o seu carácter impulsivo impunham-se de entrada, com a ajuda de um dom de comando bem escondido por detrás do remanso dos seus olhos ciganos. Villamizar, por seu lado, esqueceu-se da medicina, cortou o cabelo, atirou para o lixo a camisa única, pôs gravata, e tornou-se especialista em vendas exorbitantes de tudo o que lhe dessem para vender. Mas não mudou a sua forma de ser. Maruja reconhece que foi ele, mais do que os golpes da vida, quem a curou do formalismo e das inibições do seu meio social.

 

Trabalhavam cada um por seu lado e com êxito enquanto os filhos cresciam na escola. Maruja voltava a casa às seis da tarde para se ocupar deles. Escaldada pela sua própria educação estrita e convencional, quis ser uma mãe diferente que não assistia às reuniões de pais na escola nem ajudava a fazer as tarefas. As filhas queixavam-se: «Queremos uma mãe como as outras.» Mas Maruja puxou-os a pulso pelo lado contrário, com a independência e a formação para fazerem o que lhes desse na vontade. O curioso é que a todos lhes deu a vontade de ser o que ela teria gostado que fossem. Mónica é hoje pintora formada na Academia de Belas-Artes de Roma e desenhadora gráfica. Alexandra é jornalista, programadora e realizadora de televisão. Juana é guionista e realizadora de televisão e cinema. Nicolás é compositor de música para cinema e televisão. Patricio é psicólogo. Andrés, estudante de economia, picado pelo bichinho da política graças ao mau exemplo de seu pai, foi eleito por votação popular, aos vinte e um anos, vereador da Câmara de Chapinero, a norte de Bogotá.

 

A cumplicidade de Luis Carlos Galán e Gloria Pachón desde que eram namorados foi decisiva para uma carreira política que nem Alberto nem Maruja tinham vislumbrado. Galán, nos seus trinta e sete anos, entrou na recta final para a Presidência da República pelo Novo Liberalismo. A sua mulher Gloria, também jornalista, e Maruja, já veterana em promoção e publicidade, conceberam e dirigiram estratégias de imagem para seis campanhas eleitorais. A experiência de Villamizar em vendas exorbitantes tinha-lhe dado um conhecimento logístico de Bogotá que muito poucos políticos tinham. Os três em equipa fizeram num mês frenético a primeira campanha eleitoral do Novo Liberalismo na capital, e varreram do mapa «eleiçoeiros» já conhecidos. Nas eleições de 1982 Villamizar inscreveu-se no sexto lugar de uma lista que não esperava eleger mais de cinco representantes para a Câmara, e elegeu nove. Infelizmente, aquela vitória foi o prelúdio de uma nova vida que havia de conduzir Alberto e Maruja - oito anos depois - à tremenda prova de amor do sequestro.

 

Uns dez dias depois da carta, o chefe grande a que chamavam o Doutor - já conhecido como o grande gerente do sequestro -, visitou Maruja sem se anunciar. Depois de o ver na primeira casa para onde a levaram na noite da captura, tinha voltado umas treze vezes antes da morte de Marina. Mantinha com estas longas conversas em sussurros, só explicáveis por uma confiança muito antiga. A sua relação com Maruja fora sempre a pior. Para qualquer intervenção dela, por mais simples que fosse, tinha uma réplica altaneira e um tom brutal: «A senhora aqui não tem nada a dizer.» Quando estavam ainda as três reféns ela quis reclamar as condições miseráveis do quarto às quais atribuía a sua tosse persistente e as suas dores errantes.

 

- Eu passei noites piores em sítios mil vezes piores que este respondeu-lhe ele com raiva. - O que é que vocês se julgam?

 

As suas visitas eram anúncios de grandes acontecimentos, bons ou maus, mas sempre decisivos. Desta vez, porém, alentada pela carta de Escobar, Maruja teve coragem de o enfrentar.

 

A comunicação foi imediata e de uma fluidez surpreendente. Ela começou por lhe perguntar sem ressentimentos o que é que Escobar queria, como ia a negociação, quais as possibilidades que havia de ele se entregar em breve. Ele explicou-lhe sem reticências que nada seria fácil sem as garantias suficientes para a segurança de Pablo Escobar e da sua família e da sua gente. Maruja perguntou-lhe por Guido Parra, cujas diligências a tinham entusiasmado e cujo desaparecimento súbito a intrigava.

 

- Não se portou lá muito bem - disse-lhe ele sem dramatismos. - Já está fora.

 

Aquilo podia interpretar-se de três formas: ou tinha perdido o seu poder, ou na realidade saíra do país - como foi publicado ou tinham-no matado. Ele fugiu à questão com a resposta de que na realidade não sabia.

 

Em parte por uma curiosidade irresistível, e em parte para ganhar a sua confiança, Maruja perguntou também quem havia escrito uma carta que os extraditáveis tinham dirigido nesses dias ao embaixador dos Estados Unidos sobre a extradição e o tráfico de drogas. Não só lhe tinha chamado a atenção pela força dos seus argumentos, como pela boa redacção. O Doutor não sabia bem ao certo, mas constava-lhe que era Escobar quem escrevia as suas cartas, repensando e repetindo rascunhos até que conseguia dizer o que queria sem enganos nem contradições. No fim da conversa de quase duas horas, o Doutor voltou a abordar o tema da entrega. Maruja apercebeu-se de que estava mais interessado do que pareceu a princípio e que não só pensava na sorte de Escobar como também na própria. Ela, por seu lado, tinha um critério bem formado das controvérsias e da evolução dos decretos, conhecia os meandros da política de submissão e as tendências da Assembleia Constituinte sobre a extradição e o indulto.

 

- Se Escobar não pensar ficar pelo menos catorze anos na prisão - disse - não penso que o Governo vá aceitar a sua entrega.

 

Ele apreciou tanto a opinião, que teve uma ideia insólita: «Porque é que não escreve uma carta ao patrão?» E a seguir, perante o desconcerto de Maruja, insistiu.

 

A sério, escreva-lhe isso - disse ele. - Pode servir de muito.

 

Dito e feito. Levou-lhe papel e lápis, e esperou sem pressa, passeando de uma ponta à outra do quarto. Maruja fumou meio pacote de cigarros desde a primeira letra até à última enquanto escrevia, sentada na cama e com o papel apoiado numa tábua. Em termos simples agradeceu a Escobar pela segurança que lhe haviam infundido as suas palavras. Disse-lhe que não tinha sentimentos de vingança contra ele nem contra os que estavam encarregados do seu sequestro, e a todos agradeceu a forma digna com que a tinham tratado. Esperava que Escobar pudesse acolher-se aos decretos do Governo para que conseguisse um bom futuro para ele e para os seus filhos no seu país. Por último, com a mesma fórmula que Villamizar lhe tinha sugerido na sua carta, ofereceu o seu sacrifício pela paz da Colômbia.

 

O Doutor esperava algo mais concreto sobre as condições da entrega, mas Maruja convenceu-o de que o efeito seria o mesmo sem incorrer em pormenores que pudessem parecer impertinentes ou que fossem mal interpretados. Teve razão: a carta foi distribuída à imprensa por Pablo Escobar, que nesse momento a tinha ao seu alcance devido ao interesse da rendição.

 

Maruja escreveu a Villamizar no mesmo correio uma carta muito diferente da que tinha concebido sob os efeitos da raiva, e assim conseguiu que ele reaparecesse na televisão depois de muitas semanas de silêncio. Nessa noite, sob os efeitos do sedativo arrasador, sonhou que Escobar descia de um helicóptero protegendo-se com ela de uma rajada de balas como numa versão futurista dos filmes de cowboys.

 

No fim da visita, o Doutor tinha dado instruções às pessoas da casa para que se esmerassem no tratamento a Maruja. O caseiro e Damaris estavam tão contentes com as novas ordens, que às vezes se excederam nos seus agrados. Antes de se despedir, o Doutor tinha decidido mudar a guarda. Maruja pediu-lhe que não. Os jovens do liceu, que faziam o turno de Abril, haviam sido um alívio depois dos desmandos de Março, e continuavam a manter com ela uma relação pacífica. Maruja ganhara a sua confiança. Comentavam-lhe o que ouviam ao caseiro e à mulher e punham-na a par de contrariedades internas que antes eram segredos de Estado. Chegaram a prometer-lhe - e Maruja acreditou - que se alguém tentasse algo contra ela seriam os primeiros a impedi-lo. Demonstravam os seus afectos com guloseimas que roubavam na cozinha, e ofereceram-lhe uma lata de azeite para dissimular o sabor abominável das lentilhas.

 

A única coisa difícil era a inquietação religiosa que os atormentava e que ela não podia satisfazer pela sua incredulidade congénita e pela sua ignorância em matérias de fé. Muitas vezes correu o risco de estragar a harmonia do quarto. «Vamos lá a ver como é isso», perguntava-lhes: «se é pecado matar porque é que vocês matam?» Desafiava-os: «Tantos terços às seis da tarde, tantas velas, tanta coisa com o Menino Jesus, e se eu tentasse fugir não pensariam nele para me matarem aos tiros.» Os debates chegaram a ser tão virulentos que um deles gritou espantado:

 

- A senhora é ateia!

 

Ela gritou que sim. Nunca pensou causar semelhante admiração. Consciente de que o seu radicalismo ocioso podia custar-lhe caro, inventou uma teoria cósmica do mundo e da vida que lhes permitia discutir sem altercações. De modo que a ideia de os substituir por outros desconhecidos não era recomendável. Mas o Doutor explicou-lhe:

 

- É para lhe resolver esta treta das metralhadoras.

 

Maruja entendeu o que ele queria dizer quando chegaram os do novo turno. Eram uns lavadores de chãos desarmados que limpavam e esfregavam todo o dia, até ao extremo de estorvarem mais do que a porcaria e o mau estado de antes. Mas a tosse de Maruja desapareceu pouco a pouco, e a nova ordem permitiu-lhe espreitar para a televisão com uma tranquilidade e uma concentração que eram convenientes para a sua saúde e para o seu equilíbrio.

 

A incrédula Maruja não prestava a menor atenção a El Minuto de Dios, um estranho programa de sessenta segundos no qual o sacerdote eudista de oitenta e dois anos, Rafael García Herreros,

fazia uma reflexão mais social que religiosa, e muitas vezes críptica. Em contrapartida, Pacho Santos, que é um católico fervoroso e praticante, interessava-se pela mensagem que tinha muito pouco em comum com a dos políticos profissionais. O padre era uma das caras mais conhecidas do país desde Janeiro de 1955, quando se iniciou o programa no canal 7 da Televisão Nacional. Antes tinha sido uma voz conhecida numa emissora de Cartagena desde 1950, numa de Cali desde Janeiro de 52, em Medellín desde Setembro de 54 e em Bogotá desde Dezembro desse mesmo ano. Na televisão começou quase ao mesmo tempo da inauguração do sistema. Distinguia-se pelo seu estilo directo e às vezes brutal e falava com os seus olhos de águia fixos no espectador. Todos os anos, desde 1961, tinha organizado o Banquete do Milhão, ao qual assistiam pessoas muito conhecidas - ou que queriam sê-lo - e pagavam um milhão de pesos por uma taça de consommé e um pão servidos por uma rainha de beleza, para recolherem fundos destinados à obra social que tinha o mesmo nome do programa. O convite mais estrondoso foi o que fez em 1968 com uma carta pessoal a Brigitte Bardot. A aceitação imediata da actriz provocou o escândalo da hipocrisia local, que ameaçou sabotar o banquete. O padre manteve-se na sua decisão. Um incêndio mais que oportuno nos estúdios de Boulogne, em Paris, e a explicação fantástica de que não havia lugar nos aviões foram os dois pretextos com que se saiu do grande ridículo nacional.

 

Os guardas de Pacho Santos eram espectadores assíduos de El Minuto de Dios, mas eles sim, interessavam-se mais pelo seu conteúdo religioso do que pelo social. Acreditavam às cegas, como a maioria das famílias dos tugúrios de Antioquia, que o padre era um santo. O tom era sempre crispado e o conteúdo - às vezes - incompreensível. Mas o programa de 18 de Abril - dirigido, sem dúvida, mas sem nome próprio, a Pablo Escobar - foi indecifrável.

 

«Disseram-me que quer entregar-se. Disseram-me que queria falar comigo», - disse o padre García Herreros olhando directamente para a câmara. «Oh, mar! Oh, mar de Coveñas às cinco da tarde quando o Sol está a decair! O que devo fazer? Dizem-me que ele está cansado da sua vida e do seu mourejar, e não posso contar a ninguém o meu segredo. No entanto, está a sufocar-me interiormente. Diz-me, Oh, mar: poderei fazê-lo? Deverei fazê-lo? Tu que sabes toda a história da Colômbia, tu que viste os índios que adoravam nesta praia, tu que ouviste o rumor da história: deverei fazê-lo? Rejeitar-me-ão se o fizer? Rejeitar-me-ão na Colômbia? Se o fizer: gerar-se-á um tiroteio quando eu for com eles? Cairei com eles nesta aventura?»

 

Maruja também o ouviu, mas pareceu-lhe menos estranho do que a muitos colombianos, porque sempre pensara que o padre gostava de divagar até se extraviar nas galáxias. Via-o mais como um aperitivo iniludível do noticiário das sete. Naquela noite chamou-lhe a atenção porque tudo o que tivesse a ver com Pablo Escobar tinha a ver também com ela. Ficou perplexa e intrigada, e muito inquieta com a incerteza do que pudesse haver no fundo daquele arrazoado providencial. Pacho, em compensação, seguro de que o padre o tiraria daquele purgatório, abraçou-se de alegria ao seu guarda.

 

A mensagem do padre García Herreros abriu uma brecha no beco sem saída. A Alberto Villamizar pareceu-lhe um milagre, pois naqueles dias tinha estado a rever nomes de possíveis mediadores que fossem mais fiáveis para Escobar pela sua imagem e pelos seus antecedentes. Também Rafael Pardo soube do programa e ficou inquieto com a ideia de haver alguma infiltração no seu gabinete. De qualquer modo, tanto ele como Villamizar acharam que o padre García Herreros podia ser o mediador apropriado para a entrega de Escobar.

 

Em finais de Março, com efeito, as cartas de ida e volta não tinham nada mais a dizer. Pior: era evidente que Escobar estava a usar Villamizar como instrumento para mandar recados ao Governo sem dar nada em troca. A sua última carta era já uma lista de queixas intermináveis. Que as tréguas não estavam quebradas, mas tinha dado liberdade às suas gentes para que se defendessem das forças de segurança, que estes estavam incluídos na lista dos grandes atentados, que se não houvesse soluções rápidas iriam incrementar os ataques indiscriminados contra a polícia e a população civil. Queixava-se de o procurador só ter destituído dois oficiais, quando os acusados pelos extraditáveis eram vinte.

 

Quando Villamizar se encontrava sem saída discutia as coisas com Jorge Luis Ochoa, mas quando havia algo mais delicado este mesmo o mandava à quinta de seu pai à procura de bons conselhos.

O velho servia a Villamizar meio copo do uísque sagrado. «Beba-o todo», dizia-lhe ele, «que eu nem sei como é que você aguenta esta tragédia tão dura.» Estavam assim as coisas no início de Abril, quando Villamizar voltou a La Loma e fez a Dom Fabio um relato pormenorizado dos seus desencontros com Escobar. Dom Fabio partilhou o seu desencanto.

 

- Já não vamos andar mais com esta porcaria das cartas - decidiu ele. - Se continuarmos com isto vai-se passar um século. O melhor é que você mesmo se encontre com Escobar e acordem as condições que quiserem.

 

O próprio Dom Fabio mandou a proposta. Fez saber a Escobar que Villamizar estava disposto a deixar-se levar com todos os riscos dentro da mala de um carro. Mas Escobar não aceitou. «Eu talvez fale com Villamizar, mas não agora», respondeu. Talvez receoso ainda do dispositivo electrónico que podia levar escondido em qualquer lado, inclusivamente sob a coroa de ouro de um queixal.

 

Entretanto continuava a insistir que os polícias fossem castigados, e nas acusações a Maza Márquez de estar aliado com os paramilitares e o cartel de Cali para matar a sua gente. Esta acusação, e a de ter matado Luis Carlos Galán, eram duas obsessões encarniçadas de Escobar contra o general Maza Márquez. Este respondia sempre em público ou em privado que de momento não fazia a guerra contra o cartel de Cali porque a sua prioridade era o tráfico de droga. Escobar, por sua vez, tinha escrito numa carta a Villamizar sem que viesse a propósito: «Diga a Dona Gloria que o marido dela foi morto por Maza, quanto a isso não há qualquer dúvida.» Perante esta reiteração constante dessa acusação, a resposta de Maza foi sempre a mesma: «Aquele que sabe melhor que isso não é verdade é o próprio Escobar.»

 

Desesperado com aquela guerra sangrenta e estéril que derrotava qualquer iniciativa da inteligência, Villamizar tentou um último esforço para conseguir que o Governo fizesse umas tréguas para negociar. Não foi possível. Rafael Pardo tinha-lhe feito ver desde o princípio que enquanto as famílias dos sequestrados chocavam com a determinação do Governo de não fazer a mínima concessão, os inimigos da política de submissão acusavam o Governo de estar a entregar o país aos traficantes.

 

Villamizar - acompanhado nessa altura pela sua cunhada, Dona Gloria de Galán - visitou também o general Gómez Padilla, director-geral da polícia. Ela pediu ao general umas tréguas de um mês para tentar um contacto pessoal com Escobar.

 

- Temos uma pena de morrer, minha senhora - disse-lhe o general -, mas não podemos parar as operações contra este criminoso. O senhor está a actuar por sua conta e risco, e a única coisa que podemos fazer é desejar-lhe boa sorte.

 

Foi tudo o que conseguiram perante o hermetismo da polícia para impedir as fugas de informação inexplicáveis que tinham permitido a Escobar burlar os cercos mais bem armados. Mas Dona Gloria não se foi embora com as mãos vazias, pois um oficial disse-lhe ao despedir-se que tinham Maruja num lugar qualquer do departamento de Nariño, na fronteira com o Equador. Ela sabia por Beatriz que estava em Bogotá, de modo que o despiste da polícia lhe dissipou o receio de uma operação de resgate.

 

As especulações da imprensa sobre as condições da entrega de Escobar tinham alcançado naqueles dias proporções de escândalo internacional. As negativas da polícia, as explicações de todos os órgãos do Governo, e mesmo do presidente em pessoa, não conseguiram convencer muitas pessoas de que não havia negociações e acordos secretos para a entrega.

 

O general Maza Márquez julgava que era verdade. Mais ainda: esteve sempre convencido - e disse-o a quem o quis ouvir - que a sua destituição seria uma das condições capitais de Escobar para a sua entrega. O presidente Gaviria parecia desgostoso desde antes com algumas declarações informais que Maza Márquez fazia à imprensa e por rumores nunca confirmados de que algumas fugas de informação delicadas eram obra sua. Mas naquele momento - depois de tantos anos no seu cargo, com uma popularidade imensa pela sua mão dura contra a delinquência e a sua inefável devoção pelo Menino Jesus - não era provável que tomasse a determinação de o destituir a frio. Maza tinha de ser consciente do seu poder, mas também devia saber que o presidente acabaria por exercer o seu, e a única coisa que havia pedido - através de mensagens de amigos comuns - era que o avisassem com bastante tempo para pôr a salvo a sua família.

 

O único funcionário autorizado a manter contactos com os advogados de Pablo Escobar - e sempre com registo escrito - era o director de Instrução Criminal, Carlos Eduardo Mejía. Coube-lhe a ele por lei negociar os pormenores operativos da entrega e as condições de segurança e de vida dentro da prisão.

 

O ministro Giraldo Ángel em pessoa reviu as opções possíveis. Tinha-lhe interessado o pavilhão de alta segurança de Itagüi desde que Fabio Ochoa se entregara, em Novembro do ano anterior, mas os advogados de Escobar objectaram contra ele por ser um alvo fácil para carros armadilhados. Também lhe pareceu aceitável a ideia de converter em prisão blindada um convento de Poblado - perto do edifício residencial onde Escobar tinha escapado à explosão de duzentos quilos de dinamite que atribuiu ao cartel de Cali - mas as freiras proprietárias não quiseram vendê-lo. Tinha proposto reforçar a prisão de Medellín, mas todo o Concelho Municipal se opôs. Alberto Villamizar, receoso que a entrega se frustrasse por falta de prisão, intercedeu com razões de peso em favor da proposta que Escobar tinha feito em Outubro do ano anterior: o Centro Municipal para Toxicodependentes El Claret, a doze quilómetros do parque principal de Envigado, numa quinta conhecida como La Catedral del Valle, que estava inscrita em nome de um testa-de-ferro de Escobar. O Governo estudava a possibilidade de arrendar o centro e transformá-lo em prisão, consciente como estava de que Escobar não se entregaria se não solucionasse o problema da sua própria segurança. Os seus advogados exigiam que os guardas fossem de Antioquia e que a segurança externa estivesse a cargo de qualquer corpo armado menos da polícia, com receio de represálias pelos agentes assassinados em Medellín.

 

O presidente da Câmara de Envigado, responsável pela obra definitiva, tomou nota do relatório do Governo e empreendeu a transformação da prisão, que deveria entregar ao Ministério da Justiça conforme o contrato de arrendamento assinado entre os dois. A construção básica era de uma simplicidade escolar, com chãos de cimento, telhados de telha e portas metálicas pintadas de verde. A área administrativa no que foi a antiga casa da quinta era composta por três pequenos salões, pela cozinha, um pátio empedrado e a cela de castigo. Tinha um dormitório de quatrocentos metros quadrados e outro salão amplo para biblioteca e sala de leitura, e seis celas individuais com casa de banho privativa. No centro havia um espaço comum de uns seiscentos metros quadrados, com quatro chuveiros, um vestiário e seis sanitários. A adaptação tinha começado em Fevereiro, com setenta operários a tempo inteiro que dormiam por turnos poucas horas por dia. A topografia difícil, o péssimo estado da via de acesso e o forte Inverno obrigaram a prescindir de camiões e tiveram que transportar grande parte do mobiliário em mulas. Os primeiros foram dois esquentadores de cinquenta litros cada um, as camas de quartel e duas dúzias de pequenos cadeirões de tubos pintados de amarelo. Vinte canteiros com plantas ornamentais - araucárias, loureiros e palmeiras-arecas - completaram a decoração interior. Como a antiga instituição não contava com redes para telefone, a comunicação da prisão a princípio seria feita pelo sistema de rádio. O custo final da obra foi de cento e vinte milhões de pesos pagos pelo município de Envigado. Nos cálculos iniciais tinha-se previsto para oito meses, mas quando entrou em cena o padre García Herreros apressaram-se os trabalhos com marcha forçada.

 

Outro obstáculo para a rendição tinha sido o desmembramento do exército privado de Escobar. Este, segundo parece, não considerava a prisão como um instrumento da lei, mas sim como um santuário contra os seus inimigos e até contra a própria justiça ordinária, mas não conseguia a unanimidade para que a sua tropa se entregasse com ele. O seu argumento era que não podia pôr-se a bom recato com a sua família e deixar os seus cúmplices à mercê do Corpo de Elite. «Eu não me vou embora sozinho», disse numa carta. Mas esta era para muitos uma verdade a meias, pois também é provável que quisesse ter consigo a sua equipa de trabalho completa para continuar a dirigir os seus negócios da prisão. De qualquer modo, o Governo preferia encerrá-los juntamente com Escobar.

 

Eram cerca de cem bandos que não estavam em pé de guerra permanente, mas serviam como reservas de primeira linha, fáceis de reunir e armar em poucas horas. Tratava-se de conseguir que Escobar desarmasse e levasse consigo para a prisão os seus quinze ou vinte capitães intrépidos.

       

Nos poucos encontros pessoais que Villamizar teve com o presidente Gaviria, a posição deste foi sempre facilitar-lhe as suas diligências privadas para libertar os sequestrados. Villamizar não acredita que o Governo faça negociações diferentes das que lhe autorizou a ele, e estas estavam previstas na política de submissão. O ex-presidente Turbay e Hernando Santos - embora nunca o manifestassem e sem desconhecerem as dificuldades institucionais do Governo - esperavam certamente um mínimo de flexibilidade do presidente. As mesmas negativas deste em mudar os prazos estabelecidos nos decretos face à insistência, à súplica e às reclamações de Nydia continuarão a ser uma espinha no coração das famílias que o reclamavam. E o facto de os ter mudado três dias depois da morte de Diana é algo que a família desta nunca entenderá. Infelizmente - tinha dito o presidente em privado - a mudança de data nesta altura não teria impedido a morte de Diana tal como ocorreu.

 

Escobar nunca se conformou com um só canal, nem deixou um minuto de tentar negociar com Deus e com o Diabo, com todo o tipo de armas, legais ou ilegais. Não porque confiasse mais nuns que noutros, mas porque nunca confiou em nenhum. Mesmo quando já tinha assegurado o que esperava de Villamizar, continuava a acariciar o sonho do indulto político, surgido em 1989, quando os traficantes maiores e muitos dos seus sequazes conseguiram cartões de militantes do M-19 para se instalarem nas listas de guerrilheiros amnistiados. O comandante Carlos Pizarro cerrou-lhes o passo com requisitos impossíveis. Dois anos depois, Escobar procurava uma segunda saída através da Assembleia Constituinte, tendo vários dos seus membros sido pressionados por diferentes meios, desde ofertas de dinheiro até intimidações graves.

 

Mas também os inimigos de Escobar se atravessaram nos seus propósitos. Foi essa a origem de um chamado «narcovídeo», que causou um escândalo tão ruidoso como estéril. Supunha-se filmado com uma câmara oculta no quarto de um hotel, no momento em que um membro da Assembleia Constituinte recebia dinheiro de um suposto advogado de Escobar. O constituinte tinha sido eleito nas listas do M-19, pertencia na realidade ao grupo de paramilitares ao serviço do cartel de Cali na sua guerra contra o cartel de Medellín, e o seu crédito não chegou para convencer ninguém. Meses depois, um chefe de milícias privadas que se desmobilizou perante a justiça contou que a sua gente tinha feito aquela telenovela falsa para a usar como prova de que Escobar estava a subornar constituintes e que, por conseguinte, o indulto ou a não extradição estariam viciados.

 

Entre as muitas frentes que procurava abrir, Escobar tentou negociar a libertação de Pacho Santos nas costas de Villamizar, quando as diligências deste estavam prestes a culminar. Através de um sacerdote amigo mandou uma mensagem a Hernando Santos em finais de Abril, para que se encontrasse com um dos seus advogados na igreja de Usaquén. Tratava-se - dizia a mensagem - de uma diligência de suma importância para a libertação de Pacho. Hernando não só conhecia o sacerdote como o considerava um santo vivo, de modo que compareceu ao encontro sozinho e pontual às oito da noite do dia marcado. Na penumbra da igreja, o advogado que mal se via advertiu-o que não tinha nada a ver com os cartéis, mas que Pablo Escobar havia sido o padrinho da sua carreira e não podia negar-lhe aquele favor. A sua missão limitava-se a entregar-lhe dois textos: um relatório da Amnistia Internacional contra a polícia de Medellín e o original de uma nota com pretensões de editorial sobre os atropelos do Corpo de Elite.

 

- Eu vim aqui a pensar só na vida do seu filho - disse o advogado. - Se estes artigos se publicarem amanhã, no dia seguinte Francisco estará livre.

 

Hernando leu o editorial inédito com sentido político. Eram os factos tantas vezes denunciados por Escobar, mas com pormenores arrepiantes impossíveis de demonstrar. Estava escrito com seriedade e malícia subtil. O autor, segundo o advogado, era o próprio Escobar. Em todo o caso, parecia o seu estilo.

 

O documento da Amnistia Internacional estava já publicado noutros jornais e Hernando Santos não tinha inconveniente em repeti-lo. Em compensação, o editorial era demasiado grave para o publicar sem provas. «Ele que mas mande e publicamo-lo logo mesmo que não soltem Pacho», disse Hernando. Não sabia já o que dizer. O advogado, consciente de que a sua missão tinha acabado, quis aproveitar a ocasião para perguntar a Hernando quanto é que Guido Parra lhe havia levado pela sua mediação.

 

- Nem um centavo - respondeu Hernando. - Nunca se falou de dinheiro.

 

Diga-me a verdade - disse o advogado -, porque Escobar controla as contas, controla tudo, e faz-lhe falta esse dado.

 

Hernando repetiu a recusa, e o encontro terminou com uma despedida formal.

 

Talvez a única pessoa convencida naqueles dias de que as coisas estavam prestes a chegar ao seu termo fosse o astrólogo colombiano Mauricio Puerta - observador atento da vida nacional através das estrelas -, o qual tinha chegado a conclusões surpreendentes sobre a carta astral de Pablo Escobar.

 

Tinha nascido em Medellín a 1 de Dezembro de 1949 às onze e cinquenta da manhã. Por conseguinte, era um Sagitário com ascendente Peixes, e com a pior das conjunções: Marte juntamente com Saturno em Virgem. As suas tendências eram: autoritarismo cruel, despotismo, ambição insaciável, rebeldia, turbulência, insubordinação, anarquia, indisciplina, ataques à autoridade. E um desenlace terminante: morte súbita.

 

Desde 30 de Março de 1991 tinha Saturno a cinco graus para os três anos seguintes, e só lhe restavam três alternativas para definir o seu destino: o hospital, o cemitério ou a prisão. Uma quarta opção - o convento - não parecia verosímil no seu caso. De qualquer modo, a época era mais favorável para acordar os termos de uma negociação do que para encerrar um acordo definitivo. Isto é: a sua melhor opção era a entrega condicionada que o Governo lhe propunha.

 

«Muito inquieto deve andar Escobar para se interessar tanto pela sua carta astral», disse um jornalista. Pois assim que soube de Mauricio Puerta quis conhecer a sua análise até nos mínimos pormenores. No entanto, dois enviados de Escobar não chegaram ao seu destino, e um desapareceu para sempre. Puerta organizou então em Medellín um seminário muito publicitado para se pôr ao alcance de Escobar, mas uma série de inconvenientes estranhos impediu o encontro. Puerta interpretou-os como um recurso de protecção dos astros para que nada interferisse num destino que era já inexorável.

 

Também a mulher de Pacho Santos teve a revelação sobrenatural de uma vidente que tinha previsto a morte de Diana com uma claridade assombrosa, e lhe dissera a ela com a mesma certeza que Pacho estava vivo. Em Abril voltou a encontrá-la num sítio público e disse-lhe de passagem ao ouvido:

 

Dou-te os meus parabéns. Já estou a ver o fim.

 

Estes eram os únicos indícios animadores quando o padre García Herreros transmitiu a sua mensagem críptica a Pablo Escobar. Como chegou a essa determinação providencial, e o que é que tinha o mar de Coveñas a ver com ela, é algo que ainda continua a intrigar o país. No entanto, a maneira como lhe ocorreu é ainda mais intrigante. Na sexta-feira, 12 de Abril de 1991, tinha visitado o doutor Manuel Elkin Patarroyo - feliz inventor da vacina contra a malária - para lhe pedir que instalasse em El Minuto de Dios um posto médico para a detecção precoce da sida. Acompanhou-o - além de um jovem sacerdote da sua comunidade - um antioquense de gema, seu grande amigo, que o assessorava em assuntos terrenos. Por decisão própria, este benfeitor que pediu para não ser mencionado com o seu nome não só tinha construído e doado a capela pessoal do padre García Herreros como entregava dízimos voluntários para a sua obra social. No automóvel que os levava ao Instituto de Imunologia do doutor Patarroyo, sentiu uma espécie de inspiração urgente.

 

- Oiça uma coisa, padre - disse-lhe ele. - Porque é que o senhor não se mete nesta coisa para ajudar a que Pablo Escobar se entregue?

 

Disse-o sem preâmbulos e sem qualquer motivo consciente. «Foi uma mensagem lá de cima», contaria depois, como se refere sempre a Deus, com um respeito de servo e uma confiança de compadre.

O sacerdote recebeu isto como uma seta no coração. Ficou lívido. O doutor Patarroyo, que o conhecia, sentiu-se impressionado pela energia que os seus olhos e o seu sentido do negócio irradiavam, mas o seu acompanhante viu aquilo de forma diferente. «O padre estava como que a flutuar», disse ele. «Durante a visita não pensou em mais nada a não ser no que eu lhe dissera, e à saída vi-o tão acelerado que me assustei.» Por isso levou-o a descansar durante o fim-de-semana numa casa de férias em Coveñas, uma estância balnear popular das Caraíbas onde aportam milhares de turistas e acaba um oleoduto com duzentos e cinquenta mil barris diários de petróleo em rama.

 

O padre não teve um instante de sossego. Mal conseguia dormir, levantava-se a meio das refeições, fazia longas caminhadas pela praia a qualquer hora do dia ou da noite. «Oh, mar de Coveñas», gritava contra o fragor das ondas. «Poderei fazê-lo? Deverei fazê-lo? Tu que sabes tudo: não morreremos na tentativa?» Ao fim das caminhadas atormentadas entrava em casa com um domínio total do seu estado de espírito, como se tivesse recebido de verdade as respostas do mar, e discutia com o seu anfitrião até os mínimos pormenores do projecto.

 

Na terça-feira, quando regressaram a Bogotá, tinha uma visão de conjunto que lhe devolveu a serenidade. Na quarta-feira reiniciou a rotina: levantou-se às seis, tomou um duche, vestiu o fato preto com o colar clerical e por cima a ruana (3) branca inevitável, e pôs em dia os assuntos atrasados com a ajuda de Paulina Garzón, a sua secretária indispensável durante meia vida. Nessa noite fez o programa sobre um tema diferente que não tinha nada a ver com a

 

(3) Espécie de capote de lã. (N. dos T).

 

obsessão que o embargava. Na quinta-feira de manhã, tal como lhe tinha prometido, fez chegar ao doutor Patarroyo uma resposta optimista ao seu pedido. O padre não almoçou. Às sete horas menos dez minutos chegou aos Estúdios de Inravisión, donde se transmitia o seu programa, e improvisou frente às câmaras a mensagem directa a Escobar. Foram sessenta segundos que mudaram a pouca vida que lhe restava. De regresso a casa receberam-no com uma cesta de mensagens telefónicas de todo o país e uma avalancha de jornalistas que a partir daquela noite não iriam perdê-lo de vista até que se cumprisse o seu propósito de levar Pablo Escobar pela mão até à prisão.

 

O processo final estava a começar, mas os prognósticos eram incertos, porque a opinião pública estava dividida entre as multidões que acreditavam que o bom sacerdote era um santo e os incrédulos convencidos de que era meio louco. A verdade é que a sua vida demonstrava muitas coisas menos que o fosse. Tinha feito oitenta e dois anos em Janeiro, ia fazer em Agosto cinquenta e dois de sacerdote, e era de longe o único colombiano influente que nunca sonhara ser presidente da República. A sua cabeça branca e a sua ruana de lã branca sobre a sotaina complementavam uma das imagens mais respeitáveis do país. Escreveu versos que publicou num livro aos dezanove anos, e outros ainda, também de juventude, com o pseudónimo de Senescens. Obteve um prémio esquecido com um livro de contos, e quarenta e seis condecorações pela sua obra social. Nas boas e nas más horas teve sempre os pés bem assentes na terra, fazia vida social de laico, contava e deixava que lhe contassem anedotas de qualquer cor, e na hora da verdade sobressaia o que sempre foi debaixo da sua ruana alva: um santanderiano de osso pintado.

 

Vivia com uma austeridade monástica na casa paroquial da freguesia de San Juan Eudes, num quarto crivado de goteiras que se recusava a reparar. Dormia numa cama de tábuas sem colchão e sem almofada e com a colcha feita de retalhos de cores em figura de casinhas, que lhe tinham bordado umas freiras da caridade. Não aceitou uma almofada de penas que uma vez lhe ofereceram porque lhe parecia contrário à lei de Deus. Não mudava de sapatos enquanto não lhe oferecessem um par novo, nem substituía a sua roupa e a sua eterna, ruana branca enquanto não lhe oferecessem outras. Comia pouco, mas tinha bom gosto à mesa e sabia apreciar a boa comida e os vinhos de classe, mas não se deixava convidar para restaurantes de luxo com medo de que julgassem que era ele quem pagava. Num deles viu uma dama de sociedade com um diamante do tamanho de uma amêndoa no anel.

 

- Com uma jóia como essa - disse-lhe de frente - eu fazia umas cento e vinte casinhas para os pobres.

 

A dama, aturdida pela frase, não soube o que responder, mas no dia seguinte mandou-lhe o anel com uma nota cordial. Não chegou para as cento e vinte casas, é claro, mas o padre construiu-as de igual modo.

 

Paulina Garzón de Bermúdez era natural de Chipatá, Santander del Sur, e tinha chegado a Bogotá com a sua mãe em 1961 com a idade de quinze anos, e com uma recomendação de boa dactilógrafa. Era-o, realmente, mas em compensação não sabia falar ao telefone e as suas listas de compras eram indecifráveis pelos seus horrores de ortografia, mas aprendeu a fazer bem as duas coisas para que o padre a empregasse. Aos vinte e cinco anos casou e teve um filho - Alfonso -, e uma filha - María Constanza -, que hoje são engenheiros de sistemas. Paulina lá se arranjou para continuar a trabalhar com o padre, que lhe ia dando pouco a pouco direitos e deveres até que se lhe tornou tão indispensável que viajavam juntos dentro e fora do país, mas sempre na companhia de outro sacerdote. «Para evitar boatos», explica Paulina. Acabou por acompanhá-lo a todo o lado, mesmo que fosse só para lhe pôr e tirar as lentes de contacto, coisa que ele próprio nunca conseguiu fazer.

 

Nos seus últimos anos o padre perdia a audição do ouvido direito, tornou-se irritável, e exasperava-se com os buracos da sua memória. Pouco a pouco tinha vindo a deixar as orações clássicas e improvisava as suas em voz alta com uma inspiração de iluminado. A sua fama de lunático crescia ao mesmo tempo que a crença popular de que tinha o poder sobrenatural de falar com as águas e de governar o seu curso e a sua conduta. A sua atitude compreensiva no caso de Pablo Escobar fez lembrar uma frase sua sobre o regresso do general Gustavo Rojas Pinilla, em Agosto de 1957, para ser julgado pelo Congresso: «Quando um homem se entrega à lei, mesmo sendo culpado, merece um profundo respeito.» Quase no fim da vida, num Banquete del Millón cuja organização tinha sido muito problemática, um amigo perguntou-lhe o que ia fazer depois, e ele deu-lhe uma resposta de dezanove anos: «Quero deitar-me num prado a olhar as estrelas.»

 

No dia a seguir à mensagem televisiva - sem anúncio nem trâmites prévios -, o padre García Herreros apresentou-se na prisão de Itagüi, para perguntar aos irmãos Ochoa como é que podia ser útil na entrega de Escobar. Os Ochoa ficaram com a impressão de que era um santo, com um único inconveniente para tomar em conta: durante mais de quarenta anos tinha estado em comunicação com a audiência através da sua prédica diária, e não concebia uma diligência que não começasse por contar à opinião pública.

 

Mas o mais definitivo para eles foi que Dom Fabio achou que era um mediador providencial. Primeiro, porque Escobar não teria com ele as reticências que lhe impediam receber Villamizar. E segundo, porque a sua imagem divinizada podia convencer a tripulação de Escobar para a entrega de todos.

 

Dois dias depois, o padre García Herreros revelou em conferência de imprensa que estava em contacto com os responsáveis do cativeiro dos jornalistas e expressou o seu optimismo pela sua rápida libertação.

 

Villamizar não vacilou um segundo para ir procurá-lo em El Minuto de Dios. Acompanhou-o na sua segunda visita à prisão de Itagüi, e no mesmo dia iniciou-se o processo, dispendioso e confidencial, que haveria de culminar com a entrega. Começou com uma carta que o padre ditou na cela dos Ochoa, e que María Lía copiou na máquina de escrever. Improvisou-a de pé em frente dela, com o mesmo ar, o mesmo tom apostólico e a mesma pronúncia santanderiana das suas homilias de um minuto. Convidou-o a procurarem juntos o caminho para pacificar a Colômbia. Anunciou-lhe a sua esperança de que o Governo o nomeasse como garante «para que se respeitem os teus direitos e os da tua família e amigos». Mas advertiu-o que não pedisse coisas que o Governo não pudesse conceder-lhe. Antes de acabar com «as minhas carinhosas saudações», disse-lhe o que na realidade era o objectivo prático da carta: «Se achas que podemos encontrar-nos em algum lugar seguro para os dois, diz-me.»

 

Escobar respondeu três dias depois, pelo seu próprio punho. Aceitava entregar-se como um sacrifício para a paz. Deixava claro que não aspirava ao indulto nem pedia sanção penal, mas sim disciplinar, contra os polícias que assolavam as comunas, mas não renunciava à sua determinação de responder com represálias drásticas. Estava disposto a confessar algum delito, embora soubesse de certeza que nenhum juiz colombiano ou estrangeiro tinha provas suficientes para o condenar, e confiava que os seus adversários fossem submetidos ao mesmo regime. No entanto, contrariamente ao que o padre esperava com ansiedade, não fazia qualquer referência à sua proposta de se reunir com ele.

 

O padre tinha prometido a Villamizar que controlaria os seus ímpetos informativos, e a princípio cumpriu isso em parte, mas o seu espírito de aventura quase infantil era superior às suas forças. A expectativa que se criou foi tal, e tão grande a mobilização da imprensa, que desde então não deu um passo sem uma cauda de repórteres e equipas móveis de televisão e rádio que o perseguiam até à porta de casa.

 

Depois de cinco meses a trabalhar em absoluto segredo sob o hermetismo quase sacramental de Rafael Pardo, Villamizar pensava que a facilidade verbal do padre García Herreros mantinha num risco permanente o conjunto da operação. Então solicitou e obteve a ajuda da gente mais próxima do padre - com Paulina na primeira linha - e pôde adiantar os preparativos de algumas acções sem ter de o informar a ele antecipadamente.

 

A 13 de Maio recebeu uma mensagem de Escobar na qual lhe pedia que levasse o padre a La Loma e o tivesse ali pelo tempo que fosse necessário. Avisou que tanto podiam ser três dias como três meses, Pois tinha de fazer uma revisão pessoal e minuciosa de cada passo da operação. O padre, felizmente, estava sempre em disponibilidade total para um assunto que lhe tirava o sono. A 14 de Maio, às cinco da manhã, Villamizar bateu à porta da sua casa e encontrou-o a trabalhar no seu estúdio como se fosse pleno dia.

 

- Ande, padre - disse-lhe ele -, vamos para Medellín.

 

As Ochoa tinham tudo preparado em La Loma para entreterem o padre pelo tempo que fosse necessário. Dom Fabio não estava, mas as mulheres da casa encarregar-se-iam de tudo. Não foi fácil distrair o padre, porque ele apercebia-se de que uma viagem tão imprevista e rápida não podia ser senão por algo muito sério.

 

O pequeno-almoço foi farto e longo e o padre comeu bem. Por volta das dez da manhã, tentando não dramatizar muito, Martha Nieves revelou-lhe que Escobar ia recebê-lo de um momento para o outro. Ele sobressaltou-se, ficou feliz, mas não soube o que fazer, até que Villamizar o fez regressar à realidade.

 

- É melhor que o saiba a partir de agora, padre - avisou-o. Talvez tenha de ir sozinho com o motorista, e não se sabe para onde nem por quanto tempo.

 

O padre empalideceu. Mal conseguia segurar o terço entre os dedos, enquanto passeava de um lado para o outro, rezando em voz alta as suas orações inventadas. Cada vez que passava pelas janelas olhava para o caminho, dividido entre o terror de que aparecesse o carro que o vinha buscar e a ânsia de que não chegasse. Quis falar pelo telefone, mas ele próprio tomou consciência do perigo. «Felizmente não são precisos telefones para falar com Deus», disse. Não quis sentar-se à mesa durante o almoço, que foi tardio e mais apetitoso ainda que o pequeno-almoço. No quarto preparado para ele havia uma cama com dossel de passamanaria como a de um bispo. As mulheres tentaram convencê-lo a descansar um pouco, e ele pareceu aceitar. Mas não dormiu. Lia com inquietação Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking, um livro em moda no qual se tentava demonstrar por cálculo matemático que Deus não existe. Por volta das quatro da tarde apareceu na sala onde Villamizar dormitava.

 

- Alberto - disse-lhe -, o melhor é regressarmos a Bogotá. Foi difícil dissuadi-lo, mas as mulheres conseguiram-no com o seu encanto e tacto. Ao entardecer teve outra recaída, mas já não havia escapatória. Ele próprio teve consciência dos riscos graves de viajar de noite. À hora de se deitar pediu ajuda para tirar as lentes de contacto, pois quem lhas tirava e punha era Paulina, e não sabia fazê-lo sozinho. Villamizar não dormiu, porque não descartava a possibilidade de Escobar considerar que as sombras da noite eram mais seguras para o encontro.

 

O padre não conseguiu dormir nem um minuto. O pequeno-almoço, às oito da manhã, foi ainda mais tentador que o da véspera, mas o padre nem sequer se sentou à mesa. Continuava desesperado com as lentes de contacto e ninguém tinha conseguido ajudá-lo, até que a administradora da fazenda conseguiu pôr-lhas com grandes esforços. Ao contrário do primeiro dia não parecia nervoso nem andava ofegante de um lado para o outro, mas sentou-se com o olhar fixo no caminho por onde devia chegar o automóvel. Assim permaneceu até que a impaciência o derrotou e se levantou de um salto.

 

- Eu vou-me embora - disse ele -, esta treta é como criar galos a biberão.

 

Conseguiram convencê-lo a esperar até depois do almoço. A promessa devolveu-lhe o ânimo. Comeu bem, conversou, foi tão divertido como nos seus melhores tempos, e no fim anunciou que ia dormir a sesta.

 

- Mas ficam avisados - disse com um indicador ameaçador. Assim que acordar da sesta vou-me embora.

 

Martha Nieves fez umas chamadas telefónicas com a esperança de obter alguma informação lateral que lhes servisse para reter o padre quando ele acordasse. Não foi possível. Um pouco antes das três estavam todos a dormitar na sala, quando os espertou o ruído de um motor. Ali estava o automóvel. Villamizar levantou-se de um salto, deu uma pancadinha convencional no quarto do padre e empurrou a porta.

 

- Padre - disse ele. - Vieram buscá-lo.

 

O padre ficou mais ou menos acordado e levantou-se como pode. Villamizar sentiu-se comovido até à alma, pois pareceu-lhe um passarinho perdido, com a pouca carne pendurada nos ossos e sacudido por arrepios de terror. Mas recuperou no mesmo instante, benzeu-se, adquiriu autoridade e virou-se decidido e enorme. «Ajoelhe-se, meu filho», ordenou ele a Villamizar. «Rezemos juntos.» Quando se endireitou era outro,

 

Vamos lá a ver o que se passa com Pablo - disse ele.

 

Embora Villamizar quisesse acompanhá-lo nem sequer o tentou porque já estava combinado que não, mas permitiu-se falar à parte com o motorista.

 

- O senhor tem de responder pelo padre - disse-lhe. - É uma pessoa demasiado importante. Cuidado com o que vão fazer com ele. Vejam bem a responsabilidade que têm nas mãos.

 

O motorista olhou para ele como se Villamizar fosse um imbecil e disse-lhe:

 

- O senhor acha que ao ir com um santo nos pode acontecer alguma coisa?

 

Tirou um boné de basebol e disse ao padre que o pusesse para que não o reconhecessem pelo cabelo branco. O padre pôs o boné. Villamizar não deixava de pensar que Medellín estava militarizada. Preocupava-o que mandassem parar o padre e se estragasse o encontro. Ou que fosse apanhado entre os fogos cruzados dos sicários e da polícia.

 

Sentaram-no à frente com o motorista. Enquanto todos viam o carro afastar-se, o padre tirou o boné e atirou-o pela janela. «Não se preocupe, meu filho», gritou ele a Villamizar, «que eu domino as águas.» Um trovão ecoou na vasta campina e do céu abateu-se um aguaceiro bíblico.

 

A única versão conhecida da visita do padre García Herreros a Pablo Escobar foi a que ele próprio deu de regresso a La Loma. Contou que a casa onde o recebera era grande e luxuosa, com uma piscina olímpica e diversas instalações desportivas. No caminho tiveram de mudar de automóvel três vezes por motivos de segurança, mas não os detiveram nos muitos controlos da polícia devido ao forte aguaceiro que não abrandou um instante. Outros controlos, segundo lhe contou o motorista, eram do serviço de segurança dos extraditáveis. Viajaram mais de três horas, embora o mais provável fosse terem-no levado a uma das residências urbanas de Pablo Escobar em Medellín, e o motorista ter dado muitas voltas para que o padre acreditasse que iam para muito longe de La Loma.

 

Contou que foi recebido no jardim por uns vinte homens com as armas à vista, aos quais ralhou pela sua má vida e pelas suas reticências em entregar-se. Pablo Escobar em pessoa esperava por ele na varanda, vestido com um conjunto de algodão branco de andar por casa, e com uma barba muito preta e comprida. O medo confessado pelo padre desde que chegara a La Loma, e depois na incerteza da viagem, dissipou-se ao vê-lo.

 

- Pablo - disse-lhe -, venho para compormos as coisas. Escobar correspondeu-lhe com igual cordialidade e com um grande respeito. Sentaram-se em dois dos cadeirões de cretone florido da sala, frente a frente, e com o espírito disposto para uma longa conversa de velhos amigos. O padre tomou um uísque que acabou de o acalmar, enquanto Escobar bebeu um sumo de frutas, sorvo a sorvo e com toda a calma. Mas a duração prevista da visita reduziu-se a três quartos de hora devido à impaciência natural do padre e ao estilo oral de Escobar, tão conciso e cortante como o das suas cartas.

 

Preocupado com as lacunas mentais do padre, Villamizar tinha-o instruído para que tomasse nota da conversa. Assim o fez, mas ao que parece foi mais longe. Sob o pretexto da sua má memória, pedia a Escobar que escrevesse pelo seu punho as suas propostas essenciais, e uma vez escritas fazia-o mudar ou riscar com o argumento de que eram impossíveis de cumprir. Foi assim que Escobar minimizou o tema obsessivo da destituição dos polícias acusados por ele de todo o tipo de desmandos, e se concentrou na segurança do lugar de reclusão.

 

O padre contou que tinha perguntado a Escobar se era ele o autor dos atentados contra quatro candidatos presidenciais. Ele respondeu-lhe em diagonal, dizendo que lhe atribuíam crimes que não havia cometido. Garantiu-lhe que não tinha conseguido impedir o do professor Low Mutra, cometido a 30 de Abril passado numa rua de Bogotá, porque fora uma ordem dada desde muito antes e não houve forma de a mudar. Quanto à libertação de Maruja e Pacho evitou dizer algo que pudesse comprometê-lo como autor, mas disse que os extraditáveis os mantinham em condições normais e com boa saúde, e que seriam libertados assim que se acordassem os termos da entrega. Em particular sobre Pacho, disse com seriedade: «Esse está feliz com o seu sequestro.» Por último reconheceu a boa-fé do presidente Gaviria e expressou o seu agrado em chegar a um acordo. Aquele papel, escrito às vezes pelo padre, e a maior parte corrigido e melhor explicado por Escobar com a sua letra, foi a primeira proposta formal da entrega.

 

O padre tinha-se levantado para se despedir quando lhe caiu uma das lentes de contacto. Tentou pô-la, Escobar ajudou-o, solicitaram auxílios dos empregados, mas foi inútil. O padre estava desesperado. «Não há nada a fazer», disse ele. «A única que consegue é Paulina.» Para sua surpresa, Escobar sabia muito bem quem era ela, e sabia onde estava naquele momento.

 

- Não se preocupe, padre - disse. - Se quiser mandamos trazê-la.

 

Mas o padre não suportava mais a ansiedade de regressar e preferiu ir sem as lentes. Antes das despedidas, Escobar pediu-lhe a bênção para uma medalhinha de ouro que trazia ao pescoço. O padre assim o fez no jardim assediado pelos guarda-costas.

 

- Padre - disseram-lhe eles -, o senhor não se pode ir embora sem nos dar a bênção.

 

Ajoelharam-se. Dom Fabio Ochoa tinha dito que a mediação do padre García Herrero seria decisiva para a rendição da gente de Escobar. Este devia pensar o mesmo, e talvez por isso ajoelhou-se com eles para dar o bom exemplo. O padre abençoou-os a todos e fez-lhes uma admoestação para que voltassem à vida legal e ajudassem ao império da paz.

 

Não demorou mais de seis horas. Apareceu em La Loma por volta das oito e meia da noite, já sob as estrelas radiantes, e desceu do carro com um salto de estudante de quinze anos.

 

- Calma, meu filho - disse ele a Villamizar -, aqui não há problema, acabo de os ajoelhar a todos.

 

Não foi fácil pô-lo em ordem. Caiu num estado de excitação alarmante, e não valeram paliativos nem os calmantes das Ochoa. Continuava a chover, mas ele queria apanhar logo o avião para Bogotá, divulgar a notícia, falar com o presidente da República para encerrar ali mesmo o acordo e proclamar a paz. Conseguiram que dormisse umas horas, mas desde a madrugada andou às voltas pela casa às escuras, falando sozinho, rezando em voz alta as suas orações inspiradas, até que o sono o derrubou ao amanhecer.

 

Quando chegaram a Bogotá, às onze da manhã de 16 de Maio, a notícia ecoava na rádio. Villamizar encontrou o seu filho Andrés no aeroporto e abraçou-o emocionado. «Calma, filho», disse-lhe ele. «A mãe vai estar cá fora dentro de três dias.» Rafael Pardo foi menos fácil de convencer quando Villamizar lho anunciou pelo telefone.

 

- Fico mesmo muito contente, Alberto - disse-lhe ele. - Mas não se iluda demasiado.

 

Pela primeira vez desde o sequestro, Villamizar participou numa festa de amigos e ninguém percebeu porque estava tão contente com algo que ao fim e ao cabo não era senão uma promessa vaga como tantas outras de Pablo Escobar. Àquela hora o padre García Herreros tinha dado a volta completa a todos os noticiários do país - vistos, ouvidos e escritos. Pediu que fossem tolerantes com Escobar. «Se não o defraudarmos, ele tornar-se-á o grande construtor da paz», dizia. E acrescentava sem citar Rousseau: «Os homens na sua intimidade são todos bons, embora algumas circunstâncias os tornem maus.» E no meio de um emaranhado de microfones engarrafados, disse sem mais reservas:

 

- Escobar é um homem bom.

 

O diário El Tiempo informou na sexta-feira 17 que o padre era portador de uma carta pessoal que seria entregue na segunda-feira seguinte ao presidente Gaviria. Na realidade, referia-se às notas que Escobar e ele tinham tomado a quatro mãos durante o encontro. No domingo, os extradítáveis lançaram um comunicado que correu o risco de passar despercebido na turbulência das notícias: «Ordenámos a libertação de Francisco Santos e de Maruja Pachón.» Não diziam quando. No entanto, a rádio deu-o como facto assente e os jornalistas, agitados, começaram a fazer guarda em frente às casas dos reféns.

 

Era o fim: Villamizar recebeu uma mensagem de Escobar na qual lhe dizia que não soltaria Maruja Pachón e Francisco Santos nesse dia, mas sim no seguinte - segunda-feira, 20 de Maio -, às sete da noite. Mas na terça-feira, às nove da manhã, Villamizar devia estar outra vez em Medellín para a entrega de Escobar.

 

Maruja ouviu o comunicado dos extraditáveis no domingo, 19 de Maio, às sete da noite. Não dizia nem a hora nem a data da libertação, e pela forma de proceder dos extraditáveis tanto podia ser cinco minutos depois como dentro de dois meses. O caseiro e a sua mulher irromperam no quarto preparados, para a festa.

 

- Isto já se acabou - gritaram. – É preciso festejar.

 

Maruja teve dificuldade em convencê-los a esperarem a ordem oficial pela boca de algum emissário directo de Pablo Escobar. A notícia não a surpreendeu, pois nas últimas semanas tinha recebido sinais inconfundíveis de que as coisas iam melhor do que supusera quando lhe chegaram com a promessa desanimadora de alcatifar o quarto. Nas emissões recentes de Colombia los Reclama apareciam cada vez mais amigos e actores populares. Com o optimismo renovado, Maruja seguia as telenovelas com tanta atenção, que julgou descobrir mensagens cifradas até nas lágrimas de glicerina dos amores impossíveis. As notícias do padre García Herreros, cada dia mais espectaculares, tornaram evidente que o incrível ia acontecer.

 

Maruja quis vestir a roupa com que tinha chegado, prevendo uma libertação intempestiva que a fizesse aparecer frente às câmaras com o triste fato de treino de sequestrada. Mas a falta de novas notícias na rádio, e a desilusão do caseiro, que esperavam a ordem oficial antes de irem dormir, puseram-na em guarda contra o ridículo, nem que fosse só perante si mesma. Tomou uma dose forte de suporíferos e só acordou no dia seguinte, segunda-feira, com a impressão pavorosa de não saber quem era nem onde estava.

 

Villamizar não ficara inquieto com qualquer dúvida, pois o comunicado de Escobar era inequívoco. Transmitiu-o aos jornalistas, mas não lhe fizeram caso. Por volta das nove, uma emissora de rádio anunciou com grandes espaventos que a senhora Maruja Pachón de Villamizar acabava de ser libertada no bairro do Salitre. Os jornalistas saíram disparados, mas Villamizar não se alterou.

 

- Nunca a libertarão num sítio assim afastado de forma a acontecer-lhe qualquer coisa - disse ele. - Será amanhã, de certeza, e num lugar seguro.

 

Um repórter barrou-lhe a passagem com o microfone.

 

- O que surpreende - disse-lhe - é a confiança que o senhor tem nessa gente.

 

- E palavra de guerra - afirmou Villamizar.

 

Os jornalistas de mais confiança ficaram nos corredores do apartamento - e alguns no bar - até que Villamizar os convidou a sair para fechar a casa. Outros fizeram acampamentos em camionetas e automóveis em frente do edifício e ali passaram a noite.

 

Villamizar acordou na segunda-feira com os noticiários das seis da manhã, como de costume, e ficou na cama até às onze. Tentou ocupar o telefone o menos possível, mas as chamadas de jornalistas e amigos não lhe deram tréguas. A notícia do dia continuava a ser a espera dos sequestrados.

 

O padre García Herreros tinha visitado Mariavé na quinta-feira para lhe dar a notícia confidencial de que o seu marido seria libertado no domingo seguinte. Não foi possível saber como é que a obteve setenta e duas horas antes do primeiro comunicado dos extraditáveis sobre as libertações, mas a família Santos considerou-o como um facto. Para o celebrar fizeram fotografias do padre com Mariavé e as crianças, e publicaram-na no sábado em El Tiempo com a esperança de que Pacho a entendesse como uma mensagem pessoal. Assim foi: mal abriu o jornal na sua cela de cativo, Pacho teve a revelação nítida de que as diligências do padre tinham culminado. Passou o dia inquieto à espera do milagre, introduzindo deixas inocentes na conversa com os guardas para ver se lhes escapava alguma indiscrição, mas não conseguiu nada. A rádio e a televisão, que não lhe davam tréguas há várias semanas, naquele sábado passaram ao largo.

 

O domingo começou igual. A Pacho pareceu-lhe que os guardas estavam estranhos e ansiosos de manhã, mas no decurso do dia voltaram pouco a pouco à rotina dominical: almoço especial com pizza, filmes e programas enlatados de televisão, um pouco de cartas, um pouco de futebol. De repente, quando já ninguém o esperava, o noticiário Criptón abriu com a primeira página de que os extraditáveis anunciavam a libertação dos dois últimos sequestrados. Pacho deu um salto com um grito de triunfo, e abraçou-se ao guarda de turno. «Pensei que me ia dar um enfarte», disse. Mas o guarda recebeu-o com um estoicismo suspeito.

 

- Esperemos que chegue a confirmação - disse ele. Fizeram uma passagem rápida pelos outros noticiários de rádio e de televisão, e o comunicado estava em todos. Um deles transmitia da sala de redacção de El Tiempo, e Pacho voltou a sentir depois de oito meses o chão firme da vida livre: o ambiente mais desolado do turno dominical, as caras de sempre nos seus cubículos de vidro, o seu próprio sítio de trabalho. Depois de repetir uma vez mais o anúncio da libertação iminente, o enviado especial do noticiário brandiu o microfone - como um cone de gelado -, encostou-o à boca de um redactor desportivo e perguntou-lhe:

 

- O que é que acha da notícia?

 

Pacho não pôde reprimir um reflexo de redactor-chefe.

 

- Que pergunta tão idiota! - exclamou ele. - Ou esperava que dissessem que me deixassem mais um mês?

 

A rádio, como sempre, era menos rigorosa, mas também mais emotiva. Uns e outros estavam a concentrar-se na casa de Hernando Santos, donde transmitiam declarações de tudo o que encontravam à sua passagem. Isto aumentou o nervosismo de Pacho, pois não lhe pareceu despropositado pensar que o soltassem naquela mesma noite. «Assim começaram as vinte e seis horas mais longas da minha vida», disse. «Cada segundo era como uma hora.»

 

A imprensa estava em todo o lado. As câmaras de televisão iam da casa de Pacho para a do seu pai, ambas a transbordar desde a noite de domingo de familiares, amigos, simples curiosos e jornalistas de todo o Mundo. Mariavé e Hernando Santos não se lembram quantas vezes foram de uma casa para a outra conforme os rumos imprevistos que tomavam as notícias, ao ponto de Pacho acabar por não saber ao certo qual era a casa de quem na televisão. O pior era que em cada casa voltavam a fazer-lhes aos dois as mesmas perguntas, e a jornada tornou-se insuportável. Era tal a desordem que Hernando Santos não conseguiu abrir passagem entre a multidão apinhada na sua própria casa, e teve de se esgueirar pela garagem.

 

Os guardas que não estavam de turno apareceram a felicitá-lo. Estavam tão alegres com a notícia que Pacho se esqueceu de que eram seus carcereiros, e a reunião converteu-se numa festa de compadres de uma mesma geração. Naquele momento apercebeu-se de que a sua intenção de reabilitar os seus guardas ficava frustrada pela sua liberdade. Eram rapazes da província antioquense que emigravam para Medellín, encontravam-se perdidos nas comunas e matavam e faziam-se matar sem escrúpulos. Em geral provinham de famílias separadas onde a figura do pai era muito negativa, e muito forte a da mãe. Estavam acostumados a trabalhar por soldos muito altos e não tinham o sentido do dinheiro.

 

Quando por fim conseguiu dormir, Pacho teve o sonho terrível de que era livre e feliz, mas de repente abriu os olhos e viu o mesmo tecto de sempre. Passou o resto da noite atormentado pelo galo louco - mais louco e próximo que nunca - e sem saber ao certo onde estava a realidade.

 

Às seis da manhã - segunda-feira - a rádio confirmou a notícia sem qualquer pista sobre a hora da possível libertação. Ao fim de inúmeras repetições do boletim original, foi anunciado que o padre García Herreros daria uma conferência de imprensa ao meio-dia, depois de um encontro com o presidente Gaviria: «Ai, meu Deus», disse Pacho para si próprio. «Oxalá este homem que tanto fez por nós não vá à última hora meter o pé na argola.» A uma da tarde avisaram-no que seria libertado, mas não soube mais nada senão depois das cinco, quando um dos chefes encapuçados o avisou sem emoção que - de acordo com o sentido publicitário de Escobar - Maruja sairia a tempo para o noticiário das sete e ele para o noticiário das nove e meia.

 

A manhã de Maruja tinha sido mais animada. Um chefe de segunda entrou no quarto por volta das nove e precisou que a libertação ia ser à tarde. Contou-lhe, além disso, alguns pormenores das diligências do padre García Herreros, talvez com o objectivo de ela lhe perdoar uma injustiça que havia cometido numa visita recente quando Maruja lhe perguntou se a sua sorte estava nas mãos do padre García Herreros. O homem tinha-lhe respondido com uma ponta de troça.

 

Não se preocupe, a senhora está muito mais segura.

 

Maruja apercebeu-se de que ele tinha interpretado mal a pergunta, e apressou-se a esclarecer-lhe que sempre tivera um grande respeito pelo padre. É verdade que a princípio não dava atenção às suas prédicas na televisão, às vezes confusas e imperscrutáveis, mas desde a primeira mensagem a Escobar compreendera que ele tinha que ver com a sua vida, e viu-o com muita atenção noite após noite. Havia seguido o fio das suas diligências, das suas visitas a Medellín, o progresso das suas conversas com Escobar, e não duvidava de que estava no caminho recto. O sarcasmo do chefe, porém, fizera-a recear que talvez o padre não tivesse tanto crédito com os extraditáveis como se poderia supor pelas suas conversas públicas com os jornalistas. A confirmação de que rapidamente seria libertada graças às suas diligências aumentou-lhe a alegria.

 

Ao fim de uma conversa breve sobre a repercussão das libertações no país, ela perguntou-lhe pelo anel que lhe tinham tirado na primeira casa na noite do sequestro.

 

- A senhora esteja tranquila - disse ele. - Todas as suas coisas estão seguras.

 

- É que estou preocupada - respondeu ela - porque não me tiraram aqui o anel, mas sim na primeira casa em que estivemos, e não voltámos a ver o tipo que ficou com ele. Não foi você?

 

- Eu não - respondeu o homem. - Mas já lhe disse que esteja tranquila, porque os seus objectos estão ali. Eu vi-os.

 

A mulher do caseiro ofereceu-se para comprar a Maruja qualquer coisa que lhe fizesse falta. Maruja encomendou-lhe rímel, bâton, lápis das sobrancelhas e um par de meias para substituir as que se tinham rompido na noite do sequestro. Mais tarde entrou o marido preocupado pela falta de novas notícias da libertação, e temia que tivessem mudado de planos à última hora como acontecia frequentemente. Maruja, em compensação, estava calma. Tomou banho e vestiu a mesma roupa que trazia na noite do sequestro, salvo o casaco creme que vestiria ao sair.

 

Durante todo o dia as emissoras de rádio mantiveram o interesse com especulações sobre a espera dos sequestrados, entrevistas com as suas famílias, boatos por confirmar que no minuto seguinte eram superados por outros mais estrondosos. Mas nada consistente. Maruja ouviu as vozes de filhos e amigos com um júbilo prematuro ameaçado pela incerteza. Voltou a ver a sua casa redecorada, e o marido falando com gosto entre esquadrões de jornalistas aborrecidos de esperar por ela. Teve tempo para observar melhor os pormenores de decoração que a tinham chocado pela primeira vez, e o seu humor melhorou. Os guardas faziam pausas na limpeza frenética para ouvir e ver os noticiários e tentavam dar-lhe ânimo, mas cada vez o conseguiam menos à medida que a tarde avançava.

 

O presidente Gaviria tinha acordado sem despertador às cinco da manhã da sua segunda-feira número quarenta e um na Presidência. Levantava-se sem acender a luz para não acordar Ana Milena - que às vezes se deitava mais tarde que ele - e já barbeado, banhado e vestido para o gabinete sentava-se numa cadeirinha de levar e trazer que mantinha fora do quarto, num corredor gelado e sombrio, para ouvir as notícias sem acordar ninguém. As da rádio ouvia-as num transístor que punha no ouvido com o volume muito baixo. Aos jornais dava-lhes uma vista de olhos rápida desde os títulos até aos anúncios, e ia recortando sem tesoura as coisas de interesse para as tratar depois, conforme o caso, com os seus secretários, conselheiros e ministros. Em dada altura foi uma notícia sobre algo que se devia fazer e não se tinha feito e mandou o recorte ao ministro respectivo com uma única linha escrita à pressa na margem: «Quando é que o ministério vai resolver esta embrulhada?» A solução foi instantânea.

 

A única notícia do dia era a iminência das libertações e, dentro dela, uma audiência com o padre García Herreros para ouvir o seu relatório do encontro com Escobar. O presidente reorganizou a sua jornada para estar disponível em qualquer momento. Cancelou algumas audiências adiáveis e acomodou outras. A primeira foi uma reunião com os conselheiros presidenciais que ele iniciou com a sua frase escolar:

 

- Bom, vamos acabar esta tarefa.

 

Vários dos conselheiros acabavam de regressar de Caracas, onde na sexta-feira anterior tinham mantido uma conversa com o reticente general Maza Márquez, na qual o conselheiro de Imprensa, Mauricío Vargas, havia expressado a sua preocupação de que ninguém, nem dentro nem fora do Governo, tivesse uma ideia clara de para onde ia na realidade Pablo Escobar. Maza tinha a certeza de que não se entregaria, pois só confiava no indulto da Constituinte. Vargas replicou-lhe com uma pergunta: de que é que servia um indulto a um homem sentenciado de morte pelos seus próprios inimigos e pelo cartel de Cali? «Pode ser que o ajude, mas não é propriamente a solução completa», concluiu. Do que Escobar precisava com urgência era de um prisão segura para ele e para a sua gente sob a protecção do Estado.

 

A questão foi colocada pelos conselheiros perante o receio de que o padre García Herreros chegasse à audiência do meio-dia com uma exigência inaceitável de última hora, sem a qual Escobar não se entregaria nem libertaria os jornalistas. Para o Governo seria um fiasco difícil de reparar. Gabriel Silva, o conselheiro de Assuntos Internacionais, fez duas recomendações de protecção: a primeira, que o presidente não estivesse sozinho na audiência, e a segunda, que saísse um comunicado o mais completo possível assim que acabasse a reunião para evitar especulações. Rafael Pardo, que fora de avião para Nova Iorque no dia anterior, concordou pelo telefone.

 

O presidente recebeu o padre García Herreros em audiência especial ao meio-dia. De um lado estava o padre com dois sacerdotes da sua comunidade, e Alberto Villamizar com o seu filho Andrés. Do outro, o presidente com o secretário particular, Miguel Silva, e com Mauricio Vargas. Os serviços informativos do palácio fizeram fotografias e vídeos para os darem à imprensa se as coisas corressem bem. Se não corressem bem, pelo menos a imprensa não ficaria com testemunhos do fracasso.

 

O padre, muito consciente da importância do momento, contou ao presidente os pormenores da reunião com Escobar. Não tinha a menor dúvida de que ia entregar-se e libertar os reféns, e apoiou as suas palavras com as notas escritas a quatro mãos. O único elemento condicionante era que a prisão fosse a de Envigado e não a de Itagüi, por razões de segurança argumentadas pelo próprio Escobar.

 

O presidente leu os apontamentos e devolveu-os ao padre. Chamou-lhe a atenção que Escobar não prometesse libertar os sequestrados, mas sim que se comprometesse a fazer as suas diligências junto dos extraditáveis. Villamizar explicou-lhe que era uma das muitas precauções de Escobar: nunca admitiu que tivesse os sequestrados para que não servisse de prova contra si próprio.

 

O padre perguntou o que devia fazer se Escobar lhe pedisse que o acompanhasse para se entregar. O presidente concordou que fosse. Perante dúvidas sobre a segurança da operação, colocadas pelo padre, o presidente respondeu-lhe que ninguém podia garantir melhor que Escobar a segurança da sua própria operação. Por último, o presidente fez notar ao padre - e os acompanhantes deste apoiaram-no - que era importante reduzir ao mínimo as declarações públicas, não fosse acontecer estragar-se tudo por uma palavra inoportuna. O padre concordou e chegou a fazer uma velada oferta final: «Eu quis com isto prestar um serviço e fico às vossas ordens se precisarem de mim para mais alguma coisa, como procurar a paz com esse outro senhor padre.» Ficou claro para todos que se referia ao padre espanhol Manuel Pérez, comandante do Exército Nacional de Libertação. A reunião acabou ao fim de vinte minutos, e não houve comunicado oficial. Fiel à sua promessa, o padre García Herreros deu um exemplo de sobriedade nas suas declarações à imprensa.

 

Maruja viu a conferência de imprensa do padre e não encontrou nada de novo. Os noticiários da televisão voltaram a mostrar os jornalistas de plantão nas casas dos sequestrados, que podiam muito bem ter sido as mesmas imagens do dia anterior. Também Maruja repetiu a jornada do dia anterior minuto a minuto, e sobrou-lhe tempo para ver as telenovelas da tarde. Damaris, reanimada pelo anúncio oficial, tinha-lhe concedido a graça de encomendar a ementa do almoço, como os condenados à morte na véspera da execução. Maruja disse sem intenção irónica que queria qualquer coisa que não fossem lentilhas. No fim enredaram-se no tempo, Damaris não pôde ir fazer compras, e só houve lentilhas com lentilhas para o almoço de despedida.

 

Pacho, por seu lado, vestiu a roupa que levava no dia do sequestro - que lhe ficava apertada pelo aumento de peso do sedentarismo e da má comida -, e sentou-se a ouvir as notícias e a fumar, acendendo um cigarro com a beata do outro. Ouviu todo o tipo de versões sobre a sua libertação. Ouviu as rectificações, as mentiras puras e simples dos seus colegas atordoados pela tensão da espera. Ouviu que o tinham descoberto a comer incógnito num restaurante, e era um irmão seu.

 

Releu os editoriais, os comentários, as informações que tinha escrito sobre a actualidade para não esquecer o ofício, pensando que as publicaria ao sair como um testemunho do cativeiro. Eram mais de cem. Leu uma aos seus guardas, escrita em Dezembro, quando a classe política tradicional começara a disparatar contra a legitimidade da Assembleia Constituinte. Pacho fustigou-a com uma energia e um sentido de independência que certamente eram produto das reflexões do cativeiro. «Todos sabemos como se obtêm votos na Colômbia e como muitos dos parlamentares foram eleitos», dizia numa nota. Dizia que a compra de votos estava a aumentar em todo o país, e especialmente na costa; que as rifas de electrodomésticos em troca de favores eleitorais estavam na ordem do dia, e que muitos dos eleitos o conseguiam por outros favores políticos, como a cobrança de comissões sobre os salários públicos e os auxílios parlamentares. Por isso - dizia - os eleitos eram sempre os mesmos com as mesmas que «perante a possibilidade de perder os seus privilégios, agora choram aos gritos». E concluía quase contra si mesmo: «A imparcialidade dos meios de comunicação - e incluo El Tiempo -, pela qual tanto se lutou e que estava a abrir uma passagem, esfumou-se.»

 

No entanto, a mais surpreendente das suas notas foi a que escreveu sobre as reacções da classe política contra o M-19 quando este obteve uma votação de mais de dez por cento para a Assembleia Constituinte. «A agressividade política contra o M-19», escreveu, «a sua restrição (para não dizer discriminação) nos meios de comunicação mostra como estamos longe da tolerância e quanto nos falta para modernizar o mais importante: a mente.» Dizia que a classe política tinha festejado a participação eleitoral dos antigos guerrilheiros só para parecer democrática, mas quando a votação superou os dez por cento desatou a injuriá-la. E concluiu ao estilo do seu avô, Enrique Santos Montejo (Calibán), o colunista mais lido na história do jornalismo nacional: «Um sector muito específico e tradicional dos Colombianos matou o tigre e assustou-se com a pele.» Nada podia ser mais surpreendente em alguém que se tinha destacado desde a escola primária como um espécime precoce da direita romântica.

 

Rasgou todas as notas menos três que decidiu conservar por razões que ele próprio não conseguiu explicar. Também conservou o rascunho das mensagens à sua família e ao presidente da República, e o do seu testamento. Quis levar a corrente com que o amarravam à cama com a ideia de que o escultor Bernardo Salcedo fizesse com ela uma escultura, mas não lho permitiram com receio de que tivesse marcas delatoras.

 

Maruja, em compensação, não quis conservar nenhuma recordação daquele passado atroz que se propunha apagar da sua vida.

 

Mas por volta das seis da tarde, quando a porta começou a abrir-se por fora, apercebeu-se até que ponto aqueles seis meses de amargura iam condicionar a sua vida. Desde a morte de Marina e da saída de Beatriz que aquela era a hora das libertações ou das execuções: igual nos dois casos. Esperou com a alma por um fio a fórmula sinistra do ritual: «Vamos embora, prepare-se.» Era o Doutor, acompanhado do chefe de segunda linha que já estivera na véspera. Ambos pareciam apressados com a hora.

 

- Vá, vá! - instou o Doutor a Maruja. - Depressa!

 

Tinha imaginado tantas vezes aquele instante, que se sentiu dominada por uma estranha necessidade de ganhar tempo, e perguntou pelo seu anel.

 

- Mandei-o pela sua cunhada - respondeu o chefe.

 

- Não é verdade - disse Maruja com toda a calma. - O senhor disse-me que o tinha visto depois.

 

Mais do que o anel, o que lhe interessava então era pôr o outro em xeque frente ao seu superior. Mas este fez-se desentendido, sob a pressão do tempo. O caseiro e a sua mulher levaram a Maruja o saco com os objectos pessoais e as prendas que lhe tinham dado os diferentes guardas ao longo do cativeiro: cartões de Natal, o fato de treino, a toalha, revistas e um livro. Os rapazes mansos que haviam cuidado dela nos últimos dias não tinham outra coisa para lhe dar a não ser medalhas e pagelas de santos, e suplicavam-lhe que rezasse por eles, que se lembrasse deles, que fizesse alguma coisa para os tirar da má vida.

 

- Tudo o que quiserem - disse-lhes Maruja. - Se alguma vez precisarem de mim, procurem-me e eu ajudo-os.

 

O Doutor não quis ficar atrás : «O que poderei eu dar-lhe de recordação?», disse a si mesmo, procurando nos bolsos. Tirou uma cápsula de nove milímetros, e deu-a a Maruja.

 

- Tome - disse-lhe, mais a sério do que a brincar. - A bala que não lhe atirámos.

 

Não foi fácil arrancar Maruja dos abraços do caseiro e de Damaris, que levantou a máscara até ao nariz para a beijar e pedir-lhe que não a esquecesse. Maruja sentiu uma emoção sincera. Era, no fim de contas, o final dos dias mais longos e atrozes da sua vida, e o minuto mais feliz.

 

Puseram-lhe um capuz que devia ser o mais sujo e pestilento que encontraram. Puseram-lho ao contrário, com os buracos dos olhos na nuca, e não pôde evitar a recordação de que assim o tinham posto a Marina para a matarem. Levaram-na arrastando os pés nas trevas até um automóvel tão confortável como o que usaram para o sequestro e sentaram-na no mesmo lugar, na mesma posição e com as mesmas precauções: a cabeça apoiada nos joelhos de um homem para que não a vissem do lado de fora. Avisaram-na que havia vários controlos da polícia, e que se os mandassem parar em algum Maruja devia tirar o capuz e portar-se bem.

 

À uma da tarde Villamizar tinha almoçado com o seu filho Andrés. Às duas e meia deitou-se para a sesta e completou o sono atrasado até às cinco e meia. Às seis acabava de sair do duche e começava a vestir-se para esperar a mulher quando tocou o telefone. Pegou na extensão da mesa-de-cabeceira e só conseguiu dizer: «Sim?» Uma voz anónima interrompeu-o: «Chegará uns minutos depois das sete. Já estão a sair.» Desligou. Foi um anúncio imprevisto que Villamizar agradeceu. Ligou ao porteiro para se assegurar de que o seu carro estava no jardim e o motorista preparado.

 

Vestiu-se de escuro com gravata de losangos claros para receber a mulher. Ficou mais esbelto que nunca pois tinha perdido quatro quilos em seis meses. Às sete da noite apareceu na sala para conversar com os jornalistas enquanto Maruja chegava. Ali estavam os quatro filhos dela, e Andrés, o de ambos. Só faltava Nicolás, o músico da família que chegaria de Nova Iorque dentro de umas horas. Villamizar sentou-se no cadeirão mais perto do telefone.

 

Maruja estava então a uns cinco minutos de ser livre. Ao contrário da noite do sequestro, a viagem para a liberdade foi rápida e sem atropelos. A princípio tinham ido por um caminho aberto com voltas e reviravoltas nada recomendáveis para um automóvel de luxo. Maruja vislumbrou pelas conversas que além do homem a seu lado ia outro junto do motorista. Não lhe pareceu que um deles fosse o Doutor. Ao fim de um quarto de hora obrigaram-na a deitar-se no chão e pararam uns cinco minutos, mas ela não soube porquê. Depois saíram para uma avenida grande e ruidosa com o tráfico denso das sete e tomaram sem contratempos uma segunda avenida. De repente, quando não tinham decorrido mais de três quartos de hora no total, o automóvel travou em seco. O homem ao lado do motorista deu uma ordem desesperada a Maruja:

 

- Vá, desça, depressa.

 

O que ia ao pé dela procurou tirá-la do carro. Maruja resistiu.

 

- Não vejo nada - gritou.

 

Quis tirar a venda, mas uma mão brutal impediu-a. «Espere cinco minutos antes de a tirar», gritou-lhe. Fê-la sair do carro com um empurrão. Maruja sentiu a vertigem do vazio, o horror, e julgou que a tinham atirado para um abismo. O chão firme devolveu-lhe a respiração. Enquanto esperava que o carro se afastasse, sentiu que estava numa rua de pouco trânsito. Com todas as precauções tirou a venda, viu as casas entre as árvores com as primeiras janelas iluminadas, e então conheceu a verdade de ser livre. Eram sete e vinte e nove e tinham passado cento e noventa e três dias desde a noite em que a sequestraram.

 

Um automóvel solitário aproximou-se pela avenida, deu uma volta completa e estacionou no passeio contrário, precisamente em frente de Maruja. Ela pensou, tal como Beatriz, que uma casualidade assim não era possível. Aquele carro tinha de ser enviado pelos sequestradores para garantir o fim do resgate. Maruja aproximou-se da janela do condutor.

 

- Por favor - disse-lhe -, eu sou Maruja Pachón. Acabam de me libertar.

 

Só desejava que a ajudassem a conseguir um táxi. Mas o homem deu um grito. Minutos antes, ouvindo na rádio as notícias das libertações iminentes, dissera a si próprio: «E se eu desse de caras com Francisco Santos de um carro?» Maruja estava ansiosa por ver os seus, mas deixou-se levar até à casa em frente para falar pelo telefone.

 

A dona da casa, as crianças, todas a abraçavam aos gritos quando a reconheceram. Maruja sentia-se anestesiada, e tudo o que acontecia à sua volta parecia-lhe mais um engano dos sequestradores. O homem que a tinha apanhado chamava-se Manuel Caro, e era genro do dono da casa, Augusto Borrero, cuja esposa era uma antiga activista do Novo Liberalismo que tinha trabalhado com Maruja na campanha eleitoral de Luis Carlos Galán. Mas Maruja via a vida de fora, como num ecrã de cinema. Pediu uma aguardente nunca soube porquê - e bebeu-a de um trago. Então ligou para sua casa, mas não se lembrava bem do número e enganou-se em duas tentativas. Uma voz de mulher respondeu imediatamente: «Quem é?» Maruja reconheceu-a e disse sem dramatismo:

 

- Alexandra, filha.

 

- Mamã! Onde é que estás? - gritou Alexandra.

 

Alberto Villamizar tinha saltado do cadeirão quando tocou a campainha, mas não conseguiu antecipar-se a Alexandra, que por acaso passava perto do telefone. Maruja havia começado a ditar-lhe a direcção, mas ela não tinha lápis nem papel à mão. Villamizar tirou-lhe o auscultador, e cumprimentou Maruja com uma naturalidade espantosa:

 

- Está tudo bem, miúda?

 

Maruja respondeu-lhe com um tom igual.

 

- Muito bem, meu amor, não há problema.

 

Ele, sim, tinha papel e lápis preparados para aquele momento. Anotou a direcção enquanto Maruja lha ditava, mas sentiu que algo não estava claro e pediu que passassem a alguém da família. A mulher de Borrero deu-lhe as precisões que faltavam.

 

Muito agradecido - disse Villamizar. - É perto. Vou já.

 

Esqueceu-se de desligar, pois o férreo domínio de si mesmo que tinha mantido nos longos meses de tensão disparou-se-lhe imediatamente. Desceu as escadas do edifício com saltos de dois em dois degraus e atravessou a correr o vestíbulo, perseguido pela avalancha de jornalistas carregados com a sua parafernália de guerra. Outros em sentido contrário estiveram quase a atropelá-lo na porta.

 

- Libertaram Maruja - gritou a todos. - Vamos.

 

Entrou no carro com um bater da porta tão violento que o motorista, a dormitar, se assustou. «Vamos buscar a senhora», disse Villamizar. Deu-lhe a direcção: Diagonal 107 número 27-73. «É uma casa branca na paralela a oeste da auto-estrada», precisou. Mas disse-lho com uma pressa embrulhada, e o motorista arrancou mal. Villamizar corrigiu-lhe o rumo com um descontrolo estranho ao seu carácter.

 

- Veja bem o que faz - gritou -, que temos que chegar em cinco minutos. E se se perder, capo-o!

 

O motorista, que tinha sofrido com ele os tremendos dramas do sequestro, não se alterou. Villamizar recuperou o fôlego e dirigiu-o pelos caminhos mais curtos e fáceis, pois tinha visualizado o percurso à medida que lhe explicavam a direcção pelo telefone, para ter a certeza de não se perder. Era a pior hora do trânsito, mas não o pior dia.

 

Andrés tinha arrancado atrás do pai, juntamente com o primo Gabriel, logo seguido da caravana dos jornalistas que abria passagem por entre o trânsito com alarmes falsos e truques de ambulâncias. Apesar de ser um condutor experiente, enredou-se no trânsito. Parou por ali. Em compensação Villamizar chegou num tempo olímpico de quinze minutos. Não precisou de identificar a casa, pois alguns dos jornalistas que estavam no seu apartamento discutiam já com o dono para que os deixasse entrar. Villamizar abriu passagem por entre o tumulto. Não teve tempo de cumprimentar ninguém, pois a dona da casa reconheceu-o e indicou-lhe as escadas.

 

- Por ali - disse-lhe.

 

Maruja estava no quarto principal, aonde a tinha levado para que se arranjasse enquanto não chegava o marido. Ao entrar dera de caras com um ser desconhecido e grotesco: ela própria no espelho. Viu-se inchada e flácida, com as pálpebras deformadas pela nefrite, e a pele esverdeada e baça por seis meses de penumbra.

 

Villamizar subiu em dois impulsos, abriu a primeira porta que encontrou, e era a das crianças, com bonecas e bicicletas. Então abriu a porta em frente, e viu Maruja sentada na cama com o casaco aos quadrados que vestia quando saíra da sua casa no dia do sequestro, e recém-maquilhada para ele. «Entrou como um trovão» disse Maruja. Ela saltou-lhe para o pescoço, e deram um abraço intenso, longo e mudo. Foram arrancados do êxtase pelo estrondo dos jornalistas que conseguiram romper a resistência do dono e entraram em tropel pela casa. Maruja assustou-se. Villamizar sorriu divertido.

 

- São os teus colegas – disse-lhe.

 

Maruja ficou consternada. «Há seis meses que não me via ao espelho», disse. Sorriu para a sua imagem e não era ela. Ergueu-se, apanhou o cabelo na nuca com a fita, recompôs-se como pôde tentando que a mulher do espelho se parecesse com a imagem que ela tinha de si mesma seis meses antes. Não conseguiu.

 

- Estou horrenda - disse, e mostrou ao marido os dedos deformados pelo inchaço. - Não me tinha apercebido porque me tiraram o anel.

 

Estás perfeita - disse-lhe Villamizar.

 

Abraçou-a pelo ombro e levou-a para a sala.

 

Os jornalistas assaltaram-nos com câmaras, luzes e microfones. Maruja ficou encandeada. «Calma, rapazes», disse-lhes. «No apartamento falaremos melhor.» Foram as suas primeiras palavras.

 

Os noticiários das sete da noite não disseram nada, mas o presidente Gaviria ficou a saber da notícia minutos depois pela rádio que Maruja Pachón tinha sido libertada. Arrancou para casa com Mauricio Vargas, mas deixaram preparado o comunicado oficial da libertação de Francisco Santos que devia ocorrer de um momento para o outro. Mauricio Vargas lera-lho em voz alta em frente dos gravadores dos jornalistas, com a condição de que não o transmitissem, enquanto não se desse a notícia oficial.

 

Àquela hora Maruja estava a viajar para sua casa. Pouco antes de chegar surgiu um boato de que Pacho Santos tinha sido libertado, e os jornalistas divulgaram o comunicado oficial que foi lido em todas as emissoras.

 

O presidente e Mauricio Vargas ouviram-no no carro e festejaram a ideia de o terem gravado. Mas cinco minutos depois a notícia foi rectificada.

 

- Mauricio - exclamou Gaviria -, que desastre!

 

No entanto, a única coisa que podiam fazer então era confiar que a notícia acontecesse como já estava dada. Entretanto, perante a impossibilidade de ficarem no apartamento de Villamizar devido à multidão que estava lá dentro, permaneceram no de Aseneth Velásquez, um andar mais acima, para esperarem a verdadeira libertação de Pacho depois de três falsas libertações.

 

Pacho Santos tinha ouvido a notícia da libertação de Maruja, a prematura da sua e o lapso do Governo. Naquele instante entrou no quarto o homem que havia falado com ele de manhã, e levou-o pelo braço e sem venda até ao rés-do-chão. Ali apercebeu-se de que a casa estava vazia, e uma das suas escoltas informou-o morto de riso que tinham levado os móveis num camião de mudanças para não pagarem o último mês de aluguer, Despediram-se todos com grandes abraços e agradeceram a Pacho o muito que tinham aprendido com ele. A réplica de Pacho foi sincera:

 

- Eu também aprendi muito convosco.

 

Na garagem entregaram-lhe um livro para que tapasse a cara fingindo que lia e fizeram-lhe as advertências. Se encontrassem a polícia devia atirar-se do carro para que eles pudessem fugir. E a mais importante: não devia dizer que estivera em Bogotá, mas sim a três horas de distância por uma estrada escabrosa. Por uma razão tremenda: eles sabiam que Pacho era bastante perspicaz para ter formado uma ideia da direcção da casa, e não devia revelá-la porque os guardas tinham convivido com a vizinhança sem qualquer precaução durante os longos dias do sequestro.

 

- Se o senhor contar alguma coisa - concluiu o responsável da libertação - teremos de matar todos os vizinhos para que não nos reconheçam depois.

 

Em frente da casinha da polícia da Avenida Boyacá com a Rua 80 o carro foi-se abaixo. Teimou duas vezes, três, quatro, e à quinta pegou. Todos suaram frio. Dois quarteirões mais à frente tiraram o livro ao sequestrado e soltaram-no na esquina com três notas de dois mil pesos para o táxi. Apanhou o primeiro que passou, com o motorista novo e simpático que não quis receber, e abriu caminho com buzinadelas e gritos de júbilo por entre a multidão que esperava à porta de sua casa. Para os jornalistas sensacionalistas foi uma desilusão: esperavam um homem macilento e derrotado depois de duzentos e quarenta e quatro dias de encerramento e deram com um Pacho Santos rejuvenescido por dentro e por fora, e mais gordo, mais estonteado e com mais ânsia de viver que nunca. «Devolveram-no igualzinho», declarou o seu primo Enrique Santos Calderón. Outro, contagiado pelo humor de júbilo da família, disse: «Ainda lhe faltaram mais uns seis meses.»

 

Maruja estava já na sua casa. Tinha chegado com Alberto, perseguida pelas unidades móveis que os ultrapassavam, iam atrás deles, transmitindo em directo através dos congestionamentos de trânsito. Os condutores, que seguiam pela rádio a peripécia reconheciam-nos ao passar e cumprimentavam-nos com toques de buzina, até que a ovação se generalizou ao longo do percurso.

 

Andrés Villamizar tinha querido regressar a casa quando se perdeu do pai, mas conduzira com tanta rudeza que o motor do carro desprendeu-se e partiu-se a barra da direcção. Deixou-o aos cuidados dos agentes da guarda na casinha mais próxima, e mandou parar o primeiro automóvel que passou: um BMW cinzento-escuro, conduzido por um executivo simpático que ia a ouvir as notícias. Andrés disse-lhe quem era, porque é que estava em apuros e pediu-lhe que o levasse o mais perto possível.

 

- Entre - disse-lhe ele -, mas aviso-o que se for mentira o que diz isso vai-lhe sair muito caro.

 

Na esquina da Estrada Sétima com a Rua 80 apanhou-o uma amiga num velho Renault. Andrés continuou com ela, mas o carro ficou sem forças na encosta da Circunvalar. Andrés subiu como pôde no último jipe branco da Radio Cadena Nacional.

 

A encosta que levava à casa estava bloqueada pelos automóveis e pela multidão de vizinhos que vieram para a rua. Maruja e Villamizar decidiram então abandonar o automóvel para caminhar os cem metros que lhes faltavam, e saíram sem dar por isso no mesmo sítio onde a tinham sequestrado. A primeira cara que Maruja reconheceu entre a multidão efervescente foi a de María del Rosario Ortiz, criadora e realizadora de Colombia los Reclama, que pela primeira vez desde a sua fundação não transmitiu naquela noite por falta de assunto. A seguir viu Andrés, que tinha saltado como pôde do jipe e tentava chegar a sua casa no momento em que um oficial da polícia, alto e com boa aparência, ordenou fechar a rua. Andrés, por pura inspiração, olhou para ele nos olhos e disse com voz firme:

 

- Sou Andrés.

 

O oficial não sabia nada acerca dele, mas deixou-o passar. Maruja reconheceu-o quando corria para ela e abraçaram-se no meio dos aplausos. Foi necessária a ajuda dos homens da patrulha para lhes abrir passagem. Maruja, Alberto e Andrés empreenderam a subida da encosta com o coração oprimido e a emoção derrotou-os. Pela primeira vez saltaram-lhes as lágrimas que os três se tinham proposto reprimir. Não era para menos: até onde a vista alcançava, a outra multidão dos bons vizinhos tinha desfraldado bandeiras nas janelas dos edifícios mais altos e saudavam com uma primavera de lenços brancos e uma ovação imensa a aventura jubilosa do regresso a casa.

 

Às nove da manhã do dia seguinte, como estava combinado, Villamizar desembarcou em Medellín sem ter dormido uma hora completa. Tinha sido uma festa de ressurreição. Às quatro da manhã, quando conseguiram ficar sozinhos no apartamento, Maruja e ele estavam tão excitados pela jornada que permaneceram na sala trocando recordações atrasadas até ao amanhecer. Na fazenda de La Loma receberam-no com o banquete de sempre, mas agora baptizado com o champanhe da libertação. Contudo, foi um recreio breve, porque agora era Pablo Escobar quem tinha mais pressa, escondido algures no mundo sem o escudo dos reféns. O seu novo emissário era um homem muito alto, loquaz, louro puro e de longos bigodes dourados, a quem chamavam o Mono, e contava com plenos poderes para as negociações da entrega.

 

Por disposição do presidente César Gaviria, todo o processo de debate jurídico com os advogados de Escobar tinha sido levado a cabo através do doutor Carlos Eduardo Mejía, e com o conhecimento do ministro da Justiça. Para a entrega física, Mejía actuaria de acordo com Rafael Pardo, por parte do Governo, e pela outra parte actuariam Jorge Luis Ochoa, o Mono, e o próprio Escobar, na sombra. Villamizar continuava a ser um intermediário activo com o Governo, e o padre García Herreros, que era um garante moral para Escobar, manter-se-ia disponível para os escolhos de maior urgência.

 

A pressa de Escobar para que Villamizar estivesse em Medellín no dia a seguir à libertação de Maruja tinha feito pensar que a entrega seria imediata, mas rapidamente se viu que não, pois para ele faltavam ainda alguns trâmites. A maior preocupação de todos, e de Villamizar mais que de ninguém, era que não acontecesse nada a Escobar antes da entrega. Não era para menos: Villamizar sabia que Escobar, ou os seus sobreviventes, o fariam pagar na pele a mínima suspeita de ter faltado à sua palavra. O gelo foi quebrado pelo próprio Escobar quando lhe telefonou para La Loma e o cumprimentou sem prelúdios:

 

- Doutor Villa, está satisfeito?

 

Villamizar nunca o tinha visto nem ouvido, e ficou impressionado pela calma absoluta da voz sem o mínimo rasto da sua auréola mítica. «Agradeço-lhe ter vindo», prosseguiu Escobar sem esperar a resposta, com a sua condição terrestre bem apoiada pela sua áspera dicção dos tugúrios. «O senhor é um homem de palavra e não me ia falhar.» E a seguir entrou no assunto:

 

Comecemos a preparar a maneira como me vou entregar.

 

Na realidade, Escobar sabia já como é que se ia entregar, mas talvez quisesse fazer uma revisão completa com um homem no qual depositava então toda a sua confiança. Os seus advogados e o director de Instrução Criminal, às vezes de maneira directa e às vezes por intermédio da directora regional, mas sempre em coordenação com o ministro da Justiça, tinham discutido todos e cada um dos pormenores da entrega. Esclarecidos os temas jurídicos derivados das diferentes interpretações que cada um fazia dos decretos presidenciais, os temas tinham ficado reduzidos a três: a prisão, o pessoal da prisão e o papel da polícia e do exército.

 

A prisão - no antigo Centro de Reabilitação de Toxicodependentes de Envigado - estava quase acabada. Villamizar e o Mono visitaram-na a pedido de Escobar no dia a seguir à libertação de Maruja e Pacho Santos. O aspecto era mais para o deprimente, pelos escombros amontoados e os estragos das chuvas intensas daquele ano. As instalações técnicas de segurança estavam resolvidas. Havia uma cerca dupla de dois metros por oitenta de altura, com quinze fios de arame electrificado a cinco mil vóltios e sete guaritas de vigilância, além de outras duas na guarda de entrada. Estes dois dispositivos seriam ainda mais reforçados tanto para impedir que Escobar fugisse como para impedir que o matassem.

 

O único ponto crítico que Villamizar encontrou foi uma casa de banho forrada a azulejos italianos no quarto previsto para Escobar, e recomendou que o mudassem - e foi mudado - para uma decoração mais sóbria. A conclusão do seu relatório foi mais sóbria ainda: «Pareceu-me uma prisão muito prisão.» Com efeito, o esplendor folclórico que acabaria por escandalizar o país e meio mundo, e por comprometer o prestígio do Governo, foi imposto depois de dentro com uma operação de suborno e intimidação.

 

Escobar pediu a Villamizar o número de um telefone limpo em Bogotá para combinarem entre eles os pormenores da entrega física, e ele deu-lhe o da sua vizinha de cima, Aseneth Velásquez. Pareceu-lhe que não haveria nenhum mais seguro que esse, para o qual telefonavam a qualquer hora escritores e artistas suficientemente lunáticos para fazerem perder as estribeiras ao mais sossegado. A fórmula era simples e inócua: uma voz anónima telefonava para casa de Villamizar e dizia-lhe: «Dentro de quinze minutos, doutor.» Villamizar subia sem pressa até ao apartamento de Aseneth, e quinze minutos depois Pablo Escobar em pessoa telefonava. Numa altura, Villamizar atrasou-se no elevador e Aseneth atendeu o telefone. A voz de um campesino perguntou-lhe pelo doutor Villamizar.

 

- Não mora aqui - respondeu Aseneth.

 

- Não se preocupe - disse-lhe o campesino com a voz sorridente. - Já vai a subir.

 

Quem falava era Pablo Escobar ao vivo e em directo, mas Aseneth só o saberá se se lembrar de ler este livro. Pois Villamizar quis dizer-lho naquele dia por uma lealdade elementar, e ela - que não é tola - tapou os ouvidos.

 

- Eu não quero saber de nada - disse-lhe. - Faça o que lhe apetecer na minha casa, mas a mim não me conte.

 

Naquela altura Villamizar tinha feito mais de uma viagem semanal a Medellín. Do Hotel Intercontinental telefonava a María Lía, e ela mandava-lhe um automóvel para o levar a La Loma. Numa das primeiras viagens tinha ido com Maruja para agradecer aos Ochoa a sua ajuda. Ao almoço veio à conversa o anel de esmeraldas e diamantes que não lhe tinham devolvido na noite da libertação. Villamizar também falara disso aos Ochoa, e estes mandaram uma mensagem a Escobar, mas ele não respondera. O Mono, que estava presente, sugeriu a possibilidade de lhe oferecerem um novo, mas Villamizar esclareceu-lhe que Maruja não sentia falta do anel pelo seu preço, mas sim pelo seu valor afectivo. O Mono prometeu levar o problema a Escobar.

 

A primeira chamada deste para casa de Aseneth foi a propósito de um El Minuto de Dios em que o padre García Herreros o acusara de pornógrafo impenitente e o intimara a voltar ao caminho de Deus. Ninguém entendeu tamanha reviravolta. Escobar pensava que se o padre se tinha voltado contra ele devia ter sido por um motivo de muita monta, e condicionou a entrega a uma explicação imediata e pública. O pior para ele era que a sua tropa havia aceitado entregar-se pela fé que tinham na palavra do padre. Villamizar levou-o a La Loma, e dali o padre deu a Escobar todo o tipo de esclarecimentos por telefone. De acordo com eles, na gravação do programa tinha-se cometido um erro de edição que o fizera dizer o que não havia dito. Escobar gravou a conversa, deu-a a ouvir à sua tropa e conjurou a crise.

 

Mas ainda faltava mais. O Governo insistiu nas patrulhas mistas entre o exército e a guarda nacional no exterior da prisão, em cortar o bosque contíguo para que servisse como campo de tiro, e na sua prerrogativa para nomear os guardas dentro de um comité tripartido do Governo Central, do município de Envigado e da Procuradoria, por se tratar de uma prisão municipal e nacional. Escobar opôs-se à proximidade dos guardas porque os seus inimigos podiam assassiná-lo na prisão. Opôs-se à patrulha mista, porque - segundo os seus advogados - no interior das prisões não podia haver força pública, de acordo com o Direito de Prisões. Opôs-se ao corte do bosque vizinho, primeiro porque tornava possível a descida de helicópteros, e segundo porque pressupunha que um campo de tiro era um polígono que utilizaria os presos como alvo, até que o convenceram de que, em termos militares, um campo de tiro não é mais do que um terreno com uma boa visão do espaço à volta. E essa era certamente a vantagem do Centro de Toxicodependentes - tanto para o Governo como para os presos -, pois de qualquer ponto da casa se tinha uma visão completa do vale e da montanha para evitar a tempo o perigo. Por último, o director nacional de Instrução Criminal quis levantar à última hora um muro blindado em volta da prisão, além da cerca de arame farpado. Escobar enfureceu-se.

 

Na quinta-feira, 30 de Maio, El Espectador publicou uma notícia atribuída a fontes oficiais que lhe mereciam inteiro crédito - sobre as supostas condições que Escobar tinha posto para a sua entrega numa reunião feita pelos seus advogados com representantes do Governo. Entre essas condições - segundo a notícia - a mais espectacular era o exílio do general Maza Márquez e a destituição dos generais Miguel Gómez Padilla, comandante da Polícia Nacional, e Octavio Vargas Silva, comandante da Direcção de Investigação Judicial da Polícia (Dijín).

 

O presidente Gaviria intimou no seu despacho o general Maza Márquez para esclarecer a origem da notícia, que pessoas chegadas ao Governo lhe atribuíam a ele. O encontro durou meia hora, e conhecendo-os a ambos é impossível imaginar qual dos dois foi o mais imperturbável. O general, com a sua suave e lenta voz baritonante, fez uma relação detalhada das suas investigações sobre o caso. O presidente ouviu-o em silêncio absoluto. Vinte minutos depois despediram-se. No dia seguinte, o general enviou ao presidente uma carta oficial de seis páginas com a repetição minuciosa do que tinha dito para que ficasse como registo histórico.

 

De acordo com as investigações - dizia a carta -, a origem da notícia era Martha Nieves Ochoa, que lha havia contado dias antes e com carácter exclusivo a redactores judiciais de El Tiempo - seus depositários exclusivos -, que não entendiam como é que tinha sido publicada primeiro por El Espectador. Expressou que era um fervoroso partidário da entrega de Pablo Escobar. Reiterou a sua lealdade aos seus princípios, obrigações e deveres, e concluiu: «Por razões que o senhor presidente conhece, muitas pessoas e entidades insistem em procurar a minha desestabilização profissional, talvez com vontade de me colocarem numa situação de risco que lhes permita com facilidade consumar os seus objectivos contra mim.»

 

Martha Nieves Ochoa negou ser a fonte da notícia, e não voltou a falar-se do assunto. No entanto, três meses depois - quando já Escobar estava na prisão -, o secretário-geral da Presidência, Fabio Villegas, chamou o general Maza ao seu gabinete por ordem do presidente, convidou-o para o Salão Azul, e caminhando de uma ponta à outra como num passeio dominical comunicou-lhe a decisão presidencial da sua demissão. Maza saiu convencido de que aquela tinha sido a prova do compromisso com Escobar que o Governo havia desmentido, e assim disse: «Fui negociado.»

 

Desde antes disso, em todo o caso, Escobar tinha dado a saber ao general Maza que a guerra entre eles havia acabado, que se esquecia de tudo e se entregava a sério: acabava com os atentados, desmantelava o bando e entregava a dinamite. Como prova mandou-lhe uma lista de esconderijos onde encontraram setecentos quilos. Mais tarde, da prisão, continuaria a revelar à brigada de Medellín uma série de esconderijos com um total de duas toneladas. Mas Maza nunca acreditou nele.

 

Impaciente pela demora da entrega, o Governo nomeou como director da prisão um boyacense - Luis Jorge Pataquiva Silva - e não um antioquense, bem como vinte guardas nacionais de diferentes departamentos, e não antioquenses. «De qualquer forma», disse Villamizar, «se o que quiserem for subornar, tanto faz um antioquense como outro de qualquer lado.» Escobar, ele próprio cansado de tantas voltas, quase não discutiu isto. Finalmente concordou-se que fosse o exército e não a polícia a cobrir a entrada, e que se tomassem medidas de excepção para retirar a Escobar o medo de que o envenenassem com a comida da prisão.

 

A Direcção Nacional de Prisões, por outro lado, adoptou o mesmo regime de visitas dos irmãos Ochoa Vázquez no pavilhão de máxima segurança de Itagüi. A hora limite para se levantar era às sete da manhã e a hora limite para ser encerrado e fechado à chave com cadeado na cela era às oito da noite. Escobar e os seus companheiros podiam receber visitas de mulheres todos os domingos, das oito da manhã às duas da tarde; de homens, aos sábados, e de menores, no primeiro e terceiro domingo de cada mês.

 

Na madrugada de 9 de Junho, efectivos do batalhão de polícia militar de Medellín substituíram o grupo de cavalaria que vigiava as imediações, iniciaram a montagem de um impressionante dispositivo de segurança, desalojaram das montanhas vizinhas pessoas alheias ao sector e assumiram o controlo total da terra e do céu. Não havia mais pretextos. Villamizar mandou informar Escobar com toda a sinceridade - que lhe agradecia a libertação de Maruja, mas não estava disposto a correr mais riscos só porque ele nunca mais se entregava. E mandou-lhe dizer a sério: «Daqui em diante eu não respondo por mim.» Escobar decidiu em dois dias, com a última condição de que também o procurador-geral o acompanhasse na entrega.

       

Um imprevisto insólito de última hora podia ter provocado um novo adiamento: Escobar não tinha um documento oficial de identidade para provar que era ele e não outro quem se entregava. Um dos seus advogados colocou o problema ao Governo e solicitou em consequência um bilhete de cidadania para Escobar, sem tomar em conta que este, procurado por toda a força pública, deveria ir em pessoa à correspondente repartição do Registo Civil. A solução de emergência foi ser identificado com a impressão digital e o número de uma cédula que tinha usado num velho escritório notarial e declarar ao mesmo tempo que não a podia mostrar porque se tinha extraviado.

 

O Mono acordou Villamizar à meia-noite de 18 de Junho para que subisse a fim de atender uma chamada de emergência. Era muito tarde, mas o apartamento de Aseneth parecia um inferno feliz com o acordeão de Egidio Cuadrado e a sua quadrilha de valentões. Villamizar teve de abrir caminho ao encontrão por entre a multidão frenética da mais alta mexeriquice cultural. Aseneth, no seu estilo típico, barrou-lhe a passagem.

 

- Já sei quem é que lhe telefona - disse-lhe. - E tome cuidado, porque se se descuida acabam por capá-lo.

 

Deixou-o no quarto no momento em que tocou o telefone. No meio do estrondo que fazia estremecer a casa, Villamizar conseguiu ouvir apenas o essencial:

 

- Pronto venha para Medellín amanhã de manhã cedo.

 

Às sete da manhã, Rafael Pardo colocou um avião da Aeronáutica Civil à disposição da comitiva oficial que assistiria à entrega. Villamizar, receoso de uma fuga de segredo prematura, apresentou-se na casa do padre García Herreros às cinco da manhã. Encontrou-o no oratório, com a ruana inconsútil sobre a sotaina, quando acabava de dizer a missa.

 

- Bom, padre, venha lá - disse-lhe. - Vamos para Medellín porque Escobar se vai entregar.

 

No avião - além deles - viajaram Fernando García Herreros, um sobrinho do padre que actuava como seu assistente ocasional; Jaime Vázquez, da Secretaria de Estado da Informação; o doutor Carlos Gustavo Arrieta, procurador-geral da República e o doutor Jaime Córdoba Triviño, procurador- delegado para os Direitos Humanos. No Aeroporto Olaya Herrera, em pleno centro de Medellín, esperavam-nos María Lía e Martha Nieves Ochoa.

 

A comitiva oficial foi levada ao palácio do governador. Villamizar e o padre foram ao apartamento de María Lía para tomarem o pequeno-almoço enquanto se cumpriam os últimos trâmites da entrega. Ali soube que Escobar já ia a caminho, às vezes de carro e às vezes dando voltas a pé, para iludir os frequentes controlos da polícia. Era especialista nesses acasos.

 

O padre tinha outra vez os nervos em franja. Caiu-lhe uma lente de contacto, pisou-a, e exasperou-se a um tal ponto que Martha Nieves teve de o levar à óptica San Ignacio, onde lhe resolveram o problema com uns óculos normais. A cidade estava recheada de postos de controlo rigorosos, e detiveram-nos em quase todos, não para os revistarem, mas sim para agradecerem ao padre o que fazia pela felicidade de Medellín. Porque naquela cidade onde tudo era possível, a notícia mais secreta do mundo era já do domínio público.

 

O Mono chegou ao apartamento de María Lía às duas e meia da tarde, vestido como para um passeio campestre, com um casaquinho quente e sapatos tipo luva.

 

- Pronto - disse ele a Villamizar. - Vamos para o palácio do governador. O senhor vá pelo seu lado que eu chego lá por outro.

 

Foi sozinho no seu carro. Villamizar, o padre García Herreros e Martha Nieves foram no de María Lía. Em frente do palácio do governador saíram os dois homens. As mulheres esperaram do lado de fora. O Mono não era já o técnico frio e eficaz, tentava era esconder-se dentro de si mesmo. Pôs uns óculos escuros e um boné de golfista e manteve-se sempre em segundo plano atrás de Villamizar. Alguém que o viu entrar com o padre apressou-se a telefonar a Rafael Pardo para lhe dizer que Escobar - muito louro, muito alto e elegante - acabava de se entregar no palácio do governador.

 

Quando se preparavam para sair, avisaram o Mono por telemóvel que um avião se dirigia ao espaço aéreo da cidade. Era uma ambulância militar com vários soldados feridos num encontro com as guerrilhas de Urabá. O receio de que se fizesse demasiado tarde inquietava as autoridades, porque os helicópteros não poderiam voar perto do entardecer, e adiar a entrega para o dia seguinte podia ser funesto. Villamizar ligou então para Rafael Pardo e este fez desviar o voo dos feridos e reiterou a ordem terminante de manter o céu limpo. Enquanto esperava o desenlace, escreveu no seu diário pessoal: «Nem um pássaro voa hoje sobre Medellín.»

 

O primeiro helicóptero - um Bell 206 para seis passageiros descolou do terraço do palácio do governador pouco depois das três com o procurador-geral e Jaime Vázquez; Fernando García Herreros e o radialista Luis Alirio Calle, cuja enorme popularidade era mais uma garantia para a tranquilidade de Pablo Escobar. Um oficial de segurança indicaria ao piloto o rumo directo da prisão.

 

O segundo helicóptero - um Bell 412 para doze passageiros – descolou dez minutos depois quando o Mono recebeu a ordem por radiotelefone. Villamizar embarcou com ele e com o padre. Mal tinham descolado quando ouviram pela rádio a notícia de que a posição do Governo tinha sido derrotada na Assembleia Nacional Constituinte, onde acabava de se aprovar a não extradição de nacionais por cinquenta e um votos a favor, treze contra e cinco abstenções, numa primeira instância que seria ratificada mais tarde. Embora não houvesse indícios de que fosse um acto concertado, era quase infantil não pensar que Escobar o conhecia de antemão e tinha esperado até àquele último minuto para se entregar.

 

Os pilotos seguiram as indicações do Mono para recolher Pablo Escobar e levá-lo para a prisão. Foi um voo muito breve, e a uma altura tão baixa que as instruções pareciam para um automóvel: sigam pela Estrada Oitava, vão por ali, agora à direita, mais, mais, até ao parque, isso mesmo. Por detrás de um arvoredo surgiu de repente uma mansão esplêndida por entre flores tropicais de cores intensas, com um campo de futebol perfeito como uma enorme mesa de bilhar no meio do tráfico fluido de El Poblado.

 

Aterre ali - indicou o Mono. - Não desligue os motores.

 

Só quando ficaram à altura da casa é que Villamizar descobriu que em volta do campo esperavam pelo menos trinta homens com as armas em riste. Quando o helicóptero poisou na relva intacta, desprenderam-se do grupo uns quinze guarda-costas que caminharam ansiosos para o helicóptero em torno de um homem que não podia passar despercebido. Tinha o cabelo comprido até aos ombros, uma barba muito preta, espessa e áspera, que lhe chegava ao peito, e a pele parda e curtida por um sol de deserto. Era rechonchudo, com uns ténis e uma casaquinha azul-clara de algodão ordinário, e movia-se com um andar fácil e uma tranquilidade arrepiante. Villamizar reconheceu-o à primeira vista só porque era diferente de todos os homens que vira na sua vida.

 

Depois de se despedir dos seus guarda-costas mais próximos com abraços fortes e rápidos, Escobar indicou a dois deles que embarcassem pelo outro lado do helicóptero. Eram o Mugre e Otto, dois dos mais próximos. Depois entrou ele sem ter em conta as pás em meia rotação. O primeiro a quem cumprimentou antes de se sentar foi Villamizar. Estendeu-lhe a mão morna e bem cuidada e perguntou-lhe sem a mínima alteração na voz:

 

- Como está, doutor Villamizar?

 

- Como vai, Pablo - respondeu ele.

 

Escobar voltou-se depois para o padre García Herreros com um sorriso amável e agradeceu-lhe por tudo. Sentou-se junto dos seus dois guarda-costas, e só então pareceu aperceber-se de que o Mono estava ali. Talvez tivesse previsto limitar-se a dar as instruções a Villamizar sem entrar para o helicóptero.

 

Você sim - disse-lhe Escobar -, metido nisto até ao fim.     

 

Ninguém soube se foi um reconhecimento ou um ralhete, mas o tom foi mais para cordial. O Mono, tão perdido como todos, moveu a cabeça e sorriu.

 

- Ai, patrão!

 

Villamizar pensou então, como numa revelação, que Escobar era um homem muito mais perigoso do que se julgava, porque a sua tranquilidade e o seu domínio tinham algo de sobrenatural. O Mono tentou fechar a porta do seu lado, mas não soube como, e teve de ser o co-piloto a fechá-la. Na emoção do instante ninguém se tinha lembrado de dar ordens. O piloto, tenso nos comandos, perguntou:

 

- Arrancamos?

 

Escobar deixou então escapar o único indício da ansiedade reprimida.

 

- Claro - apressou-se a ordenar. - Rápido! Rápido!

 

Quando o helicóptero se desprendeu da relva perguntou a Villamizar: «Tudo bem, não, doutor?» Villamizar, sem se virar para olhar para ele, respondeu-lhe com a sua verdade: «Tudo perfeito.» Nada mais, porque o voo tinha acabado. O helicóptero voou um troço final a rasar as árvores e poisou no campo de futebol da prisão - pedregoso e com as redes das balizas rotas - junto ao primeiro helicóptero que tinha chegado um quarto de hora antes. Toda a viagem desde o palácio do governador não durou quinze minutos.

 

Os dois seguintes, no entanto, foram os mais intensos. Escobar tentou descer primeiro assim que a porta se abriu, e viu que estava rodeado pela guarda do edifício penal: uma meia centena de homens com uniformes azuis, tensos e um pouco atordoados, que lhe apontaram armas compridas. Escobar ficou surpreendido, perdeu o controlo por instantes e lançou um grito carregado de uma autoridade temível:

 

- Baixem as armas, carago!

 

Quando o chefe da guarda deu a mesma ordem, já a de Escobar estava cumprida. Escobar e os seus acompanhantes caminharam os duzentos metros até à casa, onde os esperavam as autoridades da prisão, os membros da delegação oficial e o primeiro grupo de sequazes de Escobar que tinham chegado por terra para se entregarem com ele. Ali estavam também a mulher de Escobar e a sua mãe, muito pálida e prestes a chorar. Ele deu-lhe ao passar um toquezinho carinhoso no ombro e disse-lhe: «Calma, velhota.» O director da prisão saiu ao seu encontro com a mão estendida.

 

- Senhor Escobar - apresentou-se. - Sou Luis Jorge Pataquiva.

 

Escobar apertou-lhe a mão. Depois levantou a perna esquerda das calças e retirou a pistola que levava nuns arreios amarrados no tornozelo. Uma jóia magnífica: Sig Sauer 9, com o monograma de ouro incrustado na culatra de nácar. Escobar não tirou o carregador, mas sim as balas uma por uma e atirou-as para o chão.

 

Foi um gesto algo teatral que parecia ensaiado, e surtiu o seu efeito como uma demonstração de confiança no carcereiro principal cuja nomeação lhe tinha tirado o sono. No dia seguinte publicou-se que ao entregar a pistola Escobar dissera a Pataquiva: «Pela paz da Colômbia.» Nenhuma testemunha se lembra disso, e Villamizar muito menos, deslumbrado como estava pela beleza da arma.

 

Escobar cumprimentou-os a todos. O procurador-delegado reteve-lhe a mão enquanto lhe dizia: «Estou aqui, senhor Escobar, para ver se os seus direitos são respeitados.» Escobar agradeceu-lhe com uma deferência especial. Por último agarrou Villamizar pelo braço.

 

- Venha, doutor - disse-lhe. - O senhor e eu temos muito que conversar.

 

Levou-o até à ponta da galeria exterior, e ali conversaram durante uns dez minutos encostados à varanda e de costas para todos. Escobar começou por lhe agradecer formalmente. Depois, com a sua calma espantosa, lamentou os sofrimentos que tinha causado a Villamizar e à sua família, mas pediu-lhe que entendesse que aquela guerra tinha sido muito dura para ambas as partes. Villamizar não desperdiçou a ocasião de resolver três grandes incógnitas da sua vida: porque é que haviam matado Luis Carlos Galán, porque é que Escobar tinha tentado matá-lo a ele, e porque é que sequestrara Maruja e Beatriz.

 

Escobar rejeitou toda a culpa sobre o primeiro crime. «O que acontece é que toda a gente queria matar o doutor Galán», disse. Admitiu que tinha estado presente nas discussões em que se decidiu o atentado, mas negou que tivesse intervindo ou tivesse alguma coisa a ver com os factos. «Nesse interveio muita gente», disse ele. «Eu até me opus porque sabia o que aconteceria se o matassem, mas se essa era a decisão eu não podia opor-me. Peço-lhe que o diga assim a Dona Gloria.»

 

Quanto à segunda inquietação, foi explícito que um grupo de congressistas amigos o tinham convencido de que Villamizar era um colega incontrolável e obstinado que era preciso travar de qualquer modo antes que ele fizesse com que a extradição fosse aprovada. «Além disso», disse ele, «nessa guerra em que estávamos matava-se uma pessoa até por rumores. Mas agora que o conheço, doutor Villamizar, bendita a hora em que não lhe aconteceu nada.»

 

Sobre o sequestro de Maruja deu uma explicação simplista. «Eu estava a sequestrar gente para conseguir algo e não o conseguia, ninguém conversava, ninguém fazia caso, e por isso fui procurar Dona Maruja para ver se conseguia alguma coisa.» Não teve outros argumentos e derivou para um longo comentário sobre a forma como foi conhecendo Villamizar no decurso das negociações até se convencer de que era um homem sério e corajoso, cuja palavra de ouro comprometia a sua gratidão eterna. «Eu sei que você e eu não podemos ser amigos», disse-lhe. Mas Villamizar podia ter a certeza de que nem a ele nem a ninguém da sua família voltaria a acontecer nada dali em diante.

 

- Eu estarei aqui sabe-se lá até quando - disse ele -, mas ainda tenho muitos amigos, de modo que se alguns dos seus se sentir inseguro, se alguém se for meter convosco, mande-me dizer e pronto. O senhor cumpriu comigo e eu cumpro consigo, muito obrigado. É palavra de honra.

 

Antes de se despedir, Escobar pediu a Villamizar o último favor de tranquilizar a sua mãe e a sua mulher, que estavam à beira da comoção. Villamizar fê-lo sem grande entusiasmo, pois ambas estavam convencidas de que aquele cerimonial era uma armadilha sinistra do Governo para assassinar Escobar dentro da prisão. Por último entrou no gabinete do director e marcou de cor o número 284 33 00 do palácio presidencial, para que localizassem Rafael Pardo onde quer que ele se encontrasse.

 

Estava no gabinete do conselheiro de Imprensa, Mauricio Vargas, que atendeu o telefone e lhe passou o auscultador sem comentários. Pardo reconheceu a voz grave e calma, mas desta vez com um halo radiante.

 

- Doutor Pardo - disse Villamizar -, tenho aqui Escobar na prisão.

 

Pardo - talvez pela primeira vez na sua vida - recebeu a notícia sem a passar pelo filtro da dúvida.

 

- Que maravilha! - disse ele.

 

Fez um comentário rápido que Mauricio Vargas não tentou sequer interpretar, desligou o telefone e entrou sem tocar no gabinete do presidente. Vargas, que é um jornalista de nascimento vinte e quatro horas por dia, suspeitou pela pressa e pela demora de Pardo que devia tratar-se de algo grande. Não teve nervos para esperar mais de cinco minutos. Entrou no gabinete do presidente sem se anunciar e encontrou-o a rir às gargalhadas com algo que Pardo acabava de lhe dizer. Então soube. Mauricio pensou com alegria no tropel de jornalistas que de um momento para o outro irromperiam no seu gabinete e olhou para o relógio. Eram quatro e meia da tarde. Dois meses depois, Rafael Pardo seria o primeiro civil nomeado ministro da Defesa, depois de cinquenta anos de ministros militares.

 

Pablo Emilio Escobar Gaviria tinha feito quarenta e um anos em Dezembro. De acordo com o exame médico respectivo ao dar entrada na prisão, o seu estado de saúde era o de «um homem novo em condições normais físicas e mentais». A única observação estranha foi uma congestão na mucosa nasal e algo como que a cicatriz de uma cirurgia plástica no nariz, mas ele explicou-a como uma lesão juvenil durante uma partida de futebol.

 

A acta de entrega voluntária foi assinada pelo director nacional e pela directora regional de Instrução Criminal pelo procurador-delegado para os Direitos Humanos. Escobar confirmou a sua assinatura com a impressão digital do polegar e o número da sua cédula extraviada: 8 345 766 de Envigado. O secretário, Carlos Alberto Bravo, deixou uma nota no fim do documento: «Uma vez tendo assinado a acta, o senhor Pablo Emilio Escobar solicitou que assinasse a presente o doutor Alberto Villamizar Cárdenas, que a seguir assina.» Villamizar assinou, embora nunca lhe tivessem dito a título de quê.

 

Acabada a diligência, Pablo Escobar despediu-se de todos e entrou na cela onde ia viver tão ocupado como sempre nos seus assuntos e negócios, e além disso com o poder do Estado ao serviço do seu sossego doméstico e da sua segurança. A partir do dia seguinte, porém, a prisão muito prisão de que Villamizar tinha falado começou a transformar-se numa fazenda de cinco estrelas com todo o tipo de luxos, instalações de recreio e facilidades para a paródia e o delito, construídos com materiais de primeira classe que eram levados pouco a pouco num fundo duplo adaptado na mala de uma camioneta de abastecimento. Duzentos e noventa e nove dias depois, com o Governo a par do escândalo, decidiu mudar Escobar de prisão sem anúncio prévio. Tão inverosímil como o facto de o Governo ter levado um ano para ficar a saber, foi o de Escobar ter subornado com um prato de comida um sargento e dois soldados mortos de susto, e fugiu caminhando com os seus guarda-costas através dos bosques vizinhos, nas barbas dos funcionários e da tropa responsável pela mudança.