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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O advogado de Deus / Zibia Gasparetto
O advogado de Deus / Zibia Gasparetto

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O advogado de Deus

(ditado por Lucius)

 

Capítulo 1

       O salão estava cheio e a festa, animada. Os pares dançavam alegremente ao som da música agradável. Tudo estava impecável. Maria Alice olhava satisfeita, atenta aos convidados, observando todos os detalhes para que nada faltasse. Com classe e finura, deslizava entre eles, dando uma palavra aqui, um sorriso ali, segura de seu charme, certa de sua beleza. Mulher habituada ao brilho dos salões, sabia como receber com luxo e distinção.

       Seu marido, Antônio de Almeida Resende, rico e de importante família do Rio de Janeiro, militava ativamente na política, tendo sido eleito deputado federal. Costumava reunir em sua casa pessoas famosas, artistas no ápice da fama, políticos, empresários, a classe A. Os convites de suas recepções eram muito disputados e todos consideravam uma honra comparecer a uma de suas festas.

       Tanto Maria Alice quanto o marido e seus dois filhos, Lanira e Daniel, apareciam constantemente nas colunas sociais das revistas da moda. Lanira, dezenove anos, corpo bem-feito, tez morena, cabelos castanhos, olhos negros grandes e brilhantes, sempre elegante e vestida na última moda, chamava atenção por onde passava. Voluntariosa, habituada a ser servida e valorizada, não se relacionava com facilidade. Educada, tinha muitos conhecidos, mas seria difícil encontrar alguém que privasse de sua intimidade.

       Daniel, vinte e dois anos, alto, mais claro do que a irmã, cabelos castanhos e ondulados que o sol descoloria ainda mais colocando neles reflexos dourados. Elegante, afável e cordato, tinha muitos amigos, acabara de se doutorar em Direito.

       O pai sonhava introduzi-lo na política. Daniel tinha todas as qualidades para isso. Simpático, amável, aparência bondosa e principalmente uma perspicácia que muitas vezes o surpreendia. Mas, apesar de sua insistência, Daniel não se decidira.

       - Tenho outros planos - dizia quando o pai tocava no assunto.

       - Nada pode ser melhor do que servir ao país! - argumentava ele convicto. - Você terá o apoio de nosso partido e obterá vitória fácil. Ê uma profissão honrosa e rendosa. Não pode haver caminho melhor!

       - Não penso assim. Você vive preso a compromissos com os homens do partido, com o povo, com o governo, com as organizações. Não pretendo escravizar-me dessa forma. Sou livre e quero fazer o que gosto.

       - Neste mundo não se pode fazer só o que se gosta! Cedo descobrirá que está errado. Para progredir terá que transigir. Não há outra maneira de vencer.

       Daniel olhou-o pensativo e em seus olhos havia uma expressão indefinível ao dizer:

       - A vida não é só o que parece estabelecido. Há diferentes caminhos para se chegar ao que se quer. Pretendo encontrar o mais curto.

       Antônio meneou a cabeça negativamente:

       - Arroubos da mocidade, meu filho! Escute o que eu digo. Tenho experiência. Se quer o caminho mais curto, entre para a política. Terá fama, respeito, dinheiro, tudo.

       Ele riu e não respondeu. Seu pai era um vencedor, respeitado, rico, bem-visto na sociedade, mas ele não concordava com suas idéias. Desde muito jovem observava a vida familiar e embora se relacionasse bem com o resto da família, respeitando seus pontos de vista, sentia que seus valores eram diferentes.

       Quando os comentários em casa corriam soltos sobre as últimas fofocas sociais, quem aparecera mais em sociedade, quem estava decadente ou quem liderava neste ou naquele setor, Daniel entediava-se. Não sentia nenhum interesse por essas futilidades. Não dava nenhuma importância aos sobrenomes, às posições ou aos poderes das pessoas.

       Gostava da espontaneidade, olhava as pessoas apreciando seus aspectos de personalidade, valorizando-as pelas qualidades que descobria ou pelo brilho de sua inteligência.

       Quando seus pais reclamavam porque ele não participava das conversas familiares, ele explicava:

       - Vocês criticam todo mundo! Enxergam somente os defeitos. E as qualidades?

       - Que qualidades? - dizia Maria Alice irônica.

       - Todas as pessoas têm qualidades, mamãe. Nem sempre estão à vista. É preciso descobri-las.

       Antônio não concordava:

       - Isso é loucura. Você é ingênuo. Se continuar pensando assim, vai se dar mal. As pessoas são cheias de defeitos e fraquezas. Pobre de quem confiar no ser humano! Ninguém é perfeito, você sabe disso. E preciso estar prevenido para se precaver contra a maldade dos outros.

       - Pensando assim você nunca vai encontrar pessoas que poderiam ser seus verdadeiros amigos.

       - Tenho muitos amigos.

       - Você vive rodeado de pessoas conhecidas nas quais não confia e critica pelas costas. Amigo, para mim, é outra coisa.

       - Agora você está sendo radical. Claro que tenho amigos! Mas sei até onde posso ir com cada um deles.

       - São seres humanos, não é, papai?

       - Isso mesmo. Um dia verá que tenho razão.

       Daniel sorria e não argumentava. De que adiantaria? Ele não era ingênuo como seu pai dizia. Tinha perspicácia para perceber as fraquezas e os limites de cada um, mas por causa disso não era insensível a ponto de ignorar suas qualidades. Pensava que era mais produtivo incentivar essas qualidades do que ficar criticando e mostrando as falhas.

       Na adolescência, sempre que alguém criticava uma falha sua, sentia revolta e rancor. Não errava de propósito, mas por não saber fazer melhor. Sentia que as críticas não o ajudavam em nada, davam-lhe apenas uma visão de incapacidade que se ele aceitasse acabaria por incapacitá-lo ainda mais.

       Maria Alice preocupava-se com as idéias do filho, ao que Antônio respondia:

       - Ele é jovem. Isso passa. Vai amadurecer com o tempo.

       - Não sei, não. Às vezes ele me parece tão ingênuo... Não enxerga a maldade. Relaciona-se com qualquer um. Não valoriza nossa classe social.

       - Tem a boa-fé dos moços. O que acha que ele vai encontrar rela-cionando-se com gente sem cultura ou boa educação? É inteligente. Vai descobrir que o nível de cada um é muito importante. Então, mudará, chegará onde nós estamos. Não deve se preocupar.

       Maria Alice dirigiu-se à porta principal. Um importante empresário acabava de chegar com a esposa. Ostentando seu melhor sorriso, foi recebê-los.

       Eram amigos há vários anos. Ele era um engenheiro especializado em construção naval. Sua empresa construía navios não só para companhias mercantes como para a marinha brasileira. Muito rico, casara-se com a filha de um ilustre fazendeiro de Minas Gerais, juntando os nomes importantes e as fortunas. Dos três filhos, o mais velho formara-se engenheiro e trabalhava com o pai. O segundo preferira advocacia e o mais novo não se decidira quanto à carreira. Mimado pela mãe, que lhe fazia todas as vontades, gastava seu tempo desfilando com seu carro último tipo pelas praias da cidade, empenhando-se em gastar o dinheiro da família.

       Várias vezes o pai o advertira a que se moderasse, mas ele sorria e continuava. Ernesto, inconformado, pressionava a esposa:

       - Angelina, você precisa parar de dar tanto dinheiro a Betinho. Esse menino está abusando! Não estuda, não faz nada! Está errado!

       Ao que ela respondia sorrindo:

       - Não seja dramático! Ele é muito jovem. Tem tempo para arcar com as responsabilidades da vida!

       Maria Alice abraçou Angelina:

       - Como vai, querida?

       - Bem. Que festa linda!

       - Obrigada. E você, Ernesto, tudo bem?

       - Tudo.

       Maria Alice passou o braço pelo de Angelina dizendo:

       - Passemos para o salão. Antônio espera-o com ansiedade. Deixando Ernesto em companhia do marido, Maria Alice conduziu a amiga para um recanto agradável, convidando-a a sentar-se. Vendo-a acomodada com um copo de vinho entre os dedos e um pratinho de canapés sobre a mesinha lateral, perguntou:

       - Seus filhos virão, Angelina? Uma festa sem a alegria dos moços não tem brilho. Depois, sei de algumas meninas que os estão esperando com ansiedade.

       Angelina sorriu com satisfação. Ver os filhos serem admirados era sua melhor recompensa onde quer que fosse.

       - Andrezinho tinha um compromisso, mas ficou de vir mais tarde. Rubinho estava se preparando quando saímos, logo estará aqui. Quanto a Betinho, tem a agenda lotada. Não sei como arranja tantos compromissos. Há sempre alguém esperando por ele em algum lugar. Ficou de vir, mas sabe Deus a que horas.

       Maria Alice via com prazer a presença dos dois filhos mais velhos de Angelina. Acariciava a idéia de um dia poder casar a filha com um deles. Quando falava nisso com Lanira, esta invariavelmente respondia:

       - Não penso em casar-me, mamãe. Mas, se um dia resolver, será com um homem de verdade.

       - André é engenheiro e já trabalha. Além do nome ilustre e de sua grande fortuna, é um moço bonito, fino, elegante. Qualquer moça desta cidade ficaria feliz com um partido desses!

       - Pois que aproveitem! Ele não é meu tipo.

       - E Rubens? Também é formado. Embora esteja no início da carreira, sua fortuna e seu nome bastam para que todas as portas lhe sejam abertas. Não tenho dúvida quanto a seu sucesso! É um moreno atraente, elegante!

       - Não me interessa, mamãe. Quando eu quiser namorar, posso arranjar eu mesma um pretendente. Não precisa dar-se a esse trabalho.

       Apesar das evasivas da filha, Maria Alice não desanimava. Os moços eram atraentes e ela acreditava que um dia, quando Lanira estivesse mais amadurecida, perceberia isso.

       - A qualquer hora serão bem-vindos - respondeu Maria Alice educadamente.

       - E Daniel? Não o estou vendo.

       - Deve estar com os amigos no jardim. Adora conversar.

       - Já os meus preferem dançar.

       - Já notei. Aliás eles dançam divinamente.

       Na outra sala, distanciados do ruído da festa, Antônio e Ernesto conversavam animadamente.

       - Precisamos unir nossos esforços - dizia Antônio com entusiasmo. - As eleições se aproximam. Você pode fazer muito por nosso partido.

       - Confesso que simpatizo com suas idéias, gosto de seu partido. Mas por enquanto prefiro cooperar sem aparecer. Não me convém tomar posição agora.

       - Esse tempo passou! Estamos na hora da definição, você não pode mais omitir-se.

       - Tenho clientes importantes que pensam diferente. Se eu me posicionar apoiando vocês, eles vão se aborrecer. Não posso prejudicar os negócios. Prefiro continuar me mantendo neutro.

       - Vamos precisar de muito dinheiro para a campanha.

       - Pode contar comigo, como sempre. Nunca deixei de cooperar. Agora, meu nome não pode aparecer.

       - Se prefere assim, que seja. Mas ainda acho que se nos apoiasse abertamente seria melhor. Daria prestígio a nossos candidatos. Você é muito respeitado!

       - Sou porque não assumo nenhuma posição. Dessa forma continuo sendo prestigiado por todos os políticos que como você desejam engajar-me. Enquanto eu me mantiver assim, terei a simpatia de todos.

       - É uma posição cômoda porém duvidosa. O Brasil está precisando de homens que assumam a coisa pública e trabalhem em favor de todos.

       Ernesto sorriu, acendeu um cigarro calmamente, deu algumas tragadas olhando os arabescos que a fumaça desenhava no ar e considerou:

       - Vamos ver o que seu partido vai fazer para melhorar o Brasil. Estou esperando para apoiar. Acredite: o que vocês fizerem de bom, eu apoio!

       Antônio olhou-o, perguntando-se até que ponto ele estava sendo sincero. Havia em seu tom uma pitada de ironia que o fez pigarrear e dizer:

       - Soube que fechou um vultoso contrato com a marinha.

       - Nem tanto. Alguns navios de carga, apenas.

       - Entendo que não queira perder seu prestígio com o almirante. Ele não apóia nosso partido.

       - E, não mesmo. Mas apesar disso nunca me pediu para assumir uma postura política. Nunca tocou nesse assunto.

       - Apesar de tudo, sua ajuda nos tem sido muito valiosa.

       - Mas aquela isenção de imposto ainda não saiu. Em que pé ela está?

       - Já dei entrada do projeto na Câmara. Estamos esperando sua tramitação. Logo deverá ser colocado na pauta.

       - Espero que saia antes das eleições. Sabe como é, se a isenção sair, terei mais dinheiro para ajudar na campanha.

       Antônio dissimulou a contrariedade. Ele estava deixando claro que só lhe daria o dinheiro se pudesse contar com a isenção dos impostos. Isso não dependia dele. Fizera sua parte, cumprira o prometido no trato que haviam feito. Mas as coisas precisavam de tempo para concretizar-se.

       - Se dependesse de mim, essa lei já teria sido aprovada. Mas a oposição obstruiu e engavetou o projeto. Só agora consegui encontrá-lo e colocá-lo novamente em tramitação.

       - Faça um esforço. Neste ano, se eu tiver que pagar todos os impostos, creio que não sobrará dinheiro para o partido. Sabe como é, não posso prejudicar os negócios. O dinheiro de que eu posso dispor sai dos lucros. Se não houver lucros, nada feito.

        - Pode ficar tranqüilo. Amanhã mesmo vou me empenhar para que o projeto seja votado.

       - Tenho certeza de que vai conseguir.

      

       Lanira olhou aborrecida para os pares que dançavam no salão. Que festa sem graça! Estava cansada daqueles almofadinhas, cabelo emplastado colado na cabeça, bigodinho refinado, sapatos brilhando, camisa de seda.

       Ela apreciava gente elegante, bem vestida, mas era difícil encontrar alguém interessante e com idéias próprias. Conhecia cada um dos rapazes que freqüentavam sua casa, julgava-os melosos e sem graça.

       Eram sem expressão. Tinham as mesmas brincadeiras, os mesmos suspiros, a mesma forma de ser galantes. Lanira pensava que eles não possuíam nenhuma imaginação. Certamente haviam aprendido na mesma escola.

       Tratava-os com desdém, e quanto mais o fazia, mais eles a procuravam tentando conquistar-lhe as graças. Embaixo de sua janela havia serenata quase todas as noites. Ela nunca aparecia para agradecer, como era costume. Colocava algodão nos ouvidos e dormia tranqüila.

       - Vamos dançar?

       Lanira levantou os olhos. André estava à sua frente. Levantou-se.

       - Vamos. Não o vi chegar. Ele a enlaçou delicadamente.

       - Cheguei agora. Vi-a tão pensativa e logo imaginei que estivesse sentindo minha falta! Acertei?

       Ela sorriu:

       - Você cresceu mas continua o mesmo.

       - O que fazer se as garotas não me deixam em paz? E difícil agradar a todas!

       Lanira estava habituada aos gracejos de André. Ás vezes se perguntava até que ponto ele estava brincando. Sabia que era bonito, rico e muito cobiçado pelas mulheres. Ela sabia até de algumas histórias dele com certa dama casada.

       - Não foi prudente eu dançar com você. Elas podem querer me matar! É melhor pararmos - disse ela querendo esquivar-se dele.

       - Qual nada! Eu gosto de provocá-las. Você é linda! Elas devem estar morrendo de ciúme.

       Lanira não respondeu. Fechou os olhos e deixou-se conduzir ao ritmo do bolero. Ele dançava divinamente. Ela adorava dançar. Se ficasse calada, não ouviria as futilidades que ele dizia.

       Maria Alice olhou-os com satisfação. André chegara e logo fora à procura de Lanira. Era um bom sinal. Embevecida, olhava-os. Formavam um lindo par.

       - André dança divinamente - disse.

       - E verdade - concordou Angelina com satisfação.

       Para ela a vida se resumia no sucesso dos filhos e do marido. Vê-los brilhar na melhor sociedade do Rio de Janeiro era sua glória.

       - Veja: Rubens está chegando - disse Maria Alice.

       De fato um rapaz alto, moreno e elegante acabava de entrar e, vendo-as, dirigiu-se a elas cumprimentando-as educadamente. Maria Alice aspirou com prazer o delicado perfume que vinha dele.

       - Ainda bem que chegou - disse sorrindo. - Várias meninas me perguntaram por você.

       - Desculpe o atraso, D. Maria Alice. Tive que atender um cliente.

       - Você já está trabalhando, Rubens! Naturalmente nos escritórios do Dr. Ernesto...

       - Não. Tenho meu próprio escritório.

       - Não sabia. Parabéns!

       O garçom passou a bandeja, mas Rubens não quis nada.

       - Não vai tomar um vinho? - indagou Maria Alice atenciosa. - Prefere outra coisa?

       Ele se curvou levemente:

       - Não se preocupe, D. Maria Alice. Acabei de chegar.

       - Como queira. Fique à vontade.

       Ele agradeceu e afastou-se. Acabava de encontrar um amigo. Quando o viu distante, Angelina suspirou dizendo baixinho:

       - Viu, Maria Alice?

       - O quê ?

       - O que ele fez. Não dá para entender. Ernesto é um pai maravilhoso. Faz tudo para encaminhar os filhos na vida. Entretanto Rubens não quis fazer nada do que o pai programou. Em vez de dirigir o departamento jurídico de nossa empresa, ele preferiu alugar uma sala em um prédio qualquer e fazer seu escritório. Você acredita nisso?

       - É mesmo? Que loucura!

       - Disse que se bacharelou porque gosta da profissão e não quer ser apenas o filho do Dr. Ernesto. Quer fazer carreira por si mesmo.

       - Não deixa de ser uma idéia digna.

       - Digna mas pobre. Ele é recém-formado. Não tem nome profissional. Se você visse o escritório que ele montou, ficaria preocupada como eu fiquei. Fiz tudo para que ele mudasse de idéia, mas qual! Rubinho sempre foi assim. Quando põe uma coisa na cabeça, não há quem tire.

       - O que diz Ernesto?

       - Acha que ele vai quebrar a cara e voltar mansinho. Mas eu sei como ele é orgulhoso. Não vai fazer isso.

       - Se ele tem vontade de trabalhar, pode ser que obtenha sucesso. Por que não?

       - Não creio. Sabe como é, hoje em dia é importante ter nome. Quem confiaria uma causa a um iniciante? Só os pobres mesmo, que não têm como pagar. E isso já está acontecendo.

       - Tem certeza?

       - Tenho. Outro dia fui conhecer o lugar. O prédio até que não é tão ruim, mas ele tem apenas quatro salas e só uma secretária. Como ele estava com um cliente, fiquei na sala de espera. Vi quando o homem saiu. Vestia-se mal e não tinha boa aparência. Fiquei chocada! Meu filho atendendo essa gentinha!

       - Não falou com ele?

       - Falei. Mas ele riu e não me levou a sério. Esse é o problema. Eu falo, o pai fala, mas ele não nos atende. Veja você como os filhos são ingratos.

       - Quanto a isso você tem razão. Antônio queria que Daniel entrasse para a política, fosse ajudá-lo em seus projetos sociais. Mas ele se recusa. Não quer nem ouvir falar nisso. Faz como Rubinho. Mas vocês têm André. Esse trabalha com o pai. Acho que está aproveitando a oportunidade de subir na vida.

       - É verdade. André é maravilhoso. E o braço direito de Ernesto.

       - E Betinho, pensa em fazer o quê?

       - Esse ainda não decidiu. E tão jovem! E melhor que pense bem para não se enganar.

       - Já fez vinte anos!

       - Já. Mas não tem maturidade ainda. E inteligente, acho até que é o mais inteligente dos três, mas pensa como criança. Ernesto vive pressionando para que ele decida o que quer estudar. Mas eu acho que ele deve esperar. De que adianta seguir uma carreira sem vontade?

       Maria Alice não disse nada. Ela achava a amiga tolerante demais com a irresponsabilidade de Betinho. Havia muitos comentários sobre as loucuras que ele aprontava. Era o terror das mães, que não queriam as filhas envolvidas com ele. Leviano, namorador, exagerava na bebida, diziam até que havia engravidado uma das empregadas da casa e que Angelina fora forçada a tomar as devidas providências, financiando um aborto. Como ela nunca tocara nesse assunto, Maria Alice fazia de conta que ignorava. Esse, se não aparecesse na festa, ela agradeceria.

       Mas isso não lhe tirava o entusiasmo de casar Lanira com um dos dois irmãos mais velhos. Afinal, justificava ela, um estróina na família era comum na alta sociedade. Sabia de várias famílias ilustres em que havia um elemento dissonante. Enquanto todos se ocupavam ém construir, esse elemento gastava seu tempo em botar fora o dinheiro e comprometer o nome ilustre que usava. Não tinha dúvida de que Betinho era um desses. Tinha todas as características.

       Limitou-se a dizer delicadamente:

       - Um dia ele vai amadurecer.

       - Tenho certeza!

      

       Rubens conversava com Daniel, que o ouvia com interesse.

       - Não sei se aceito o caso - dizia. - Não vai ser fácil.

       - Tem certeza de que o que ele lhe contou é verdade? Não é apenas uma suposição?

       - Não. Ele possui fotos, cartas que comprovam o que ele afirma.

       - Se ele for mesmo o herdeiro de tudo e provar que foi usurpado, vai ser um escândalo. Contra quem ele deseja mover a ação?

       - Por enquanto não estou autorizado a dizer. Ele pediu sigilo. Quer arranjar mais provas.

       - Depois de tantos anos decorridos, será difícil.

       - Ele tem fatos novos.

       - Esse caso parece-me interessante mesmo. Se eu fosse você, não recusaria.

       - Você se formou agora. Já decidiu o que vai fazer?

       - Estou pensando. Gostei do que você fez. Pode ser que eu faça a mesma coisa. E bom começar de baixo e aprender tudo que for possível. Penso que nada substitui a experiência.

       - Meus pais não concordaram, mas eu sinto que é isso que eu quero. Não estou disposto a ficar limitado pelos interesses de nossa empresa. Quero mais. Gosto de observar a vida, encontrar saídas para os problemas. Experimentar do meu jeito.

       Daniel entusiasmou-se:

       - Até que enfim encontrei alguém que pensa como eu! Também não quero entrar na política e ficar limitado às idéias partidárias. Desejo ser livre e exercer o Direito como eu penso que deve ser exercido.

       - Bravos! Não sabia que você pensava dessa forma! Por que não trabalha comigo? Dividiremos as despesas. Poderemos nos ajudar mutuamente. É bom ter com quem trocar idéias e estudar os casos.

       - Gostaria muito.

       Rubens tirou um cartão do bolso e entregou-lhe, dizendo:

       - Procure-me na próxima semana. Vá conhecer o lugar. Então conversaremos melhor.

       - Irei, pode esperar.

       Passava das três quando o último convidado se despediu e Maria Alice subiu com o marido para seus aposentos depois de haver ordenado aos criados que fechassem tudo.

       Enquanto se preparava para dormir, Maria Alice comentava:

       - A festa foi ótima! Antônio concordou:

       - Graças a você, como sempre. Foi impecável. Até Honório, que costuma se exceder na bebida e provocar discussões, você controlou. Como conseguiu isso?

       - Foi fácil. Coloquei uma linda mulher a seu lado para distraí-lo. Viu como ele estava gentil?

       - Qualquer um seria gentil ao lado de uma viúva rica como aquela. Ele sempre se interessou por ela. Estava cheio de dedos.

       - Eu sabia disso. Foi só dar um jeitinho e pronto.

       - Em compensação, Ernesto me pressionou. Deu-me vontade de mandá-lo às favas. O que ele quer mais? Fiz o que podia.

       - Claro que se controlou. Afinal ele é quem sempre dá mais dinheiro para sua campanha.

       - Por isso me fiz de tolo. Amanhã eles podem aprovar a isenção dos impostos e pronto. Tudo fica no lugar.

       - Ele está desgostoso com o filho. Sabe que Rubinho não quer trabalhar com o pai e preferiu alugar um escritoriozinho? Angelina estava inconformada.

       - Não é para menos. Estou pensando em Daniel... Ele precisa decidir o que vai fazer.

       - Tem razão.

       - Amanhã mesmo falo com ele.

       - Faça isso.

       Acomodaram-se para dormir, o que não tardou a acontecer.

      

Capítulo 2     

       Daniel parou em frente o prédio e conferiu o número. Era esse mesmo. Quinto andar. Entrou, olhou em volta, gostou. Apesar de não ser novo, estava muito limpo e arrumado.

       Ao sair do elevador, caminhou pelo corredor e logo viu uma placa na parede: Dr. Rubens de Oliveira e Castro. Advogado. Parou e tocou a campainha.

       A porta abriu e uma moça apareceu.

       - O senhor deseja... - perguntou ela educadamente.

       - Falar com o Dr. Rubens. Ele está?

       - Sim. Faça o favor de entrar. Marcou entrevista?

       - Não.

       - Vou ver se ele pode atender. Como é seu nome? Daniel tirou um cartão do bolso e deu-o a ela, dizendo:

       - Ele me convidou a vir aqui.

       - Queira sentar-se e esperar.

       Ela saiu e Daniel examinou a sala com satisfação. Havia flores no vaso, quadros nas paredes. A decoração moderna, elegante, de muito bom gosto.

       A porta abriu-se e Rubens apareceu com um sorriso nos lábios.

       - Que bom vê-lo! Como vai?

       Depois dos cumprimentos, conduziu-o à sua sala.

       - Você toma alguma coisa? Um refresco, uma água, um café?

       - Um café.

       Rubens apanhou o telefone discando, depois disse:

       - Dona Elza, providencie um café para nós. Desligou o telefone e voltando-se para Daniel continuou:

       - E então, gostou do lugar?

       - É muito agradável. Não se parece nada com os escritórios que conheço. Móveis pesados, escuros, sóbrios.

       - Meu estilo é outro. Passo aqui muitas horas e gosto de me sentir bem. Ambiente leve, bonito, acolhedor e principalmente confortável. Adoro conforto, mas não dispenso a beleza, juntei os dois.

       - Faltam também os papéis espalhados sobre a mesa e as incontáveis pastas empilhadas.

       Rubens riu gostosamente.

       - Sou perfeccionista. Gosto de ordem. Não consigo trabalhar em um lugar desarrumado.

       A copeira trouxe a bandeja com o café e serviu-os. Depois de tomarem o café conversando amigavelmente, Rubens convidou:

       - Venha conhecer as outras salas.

       A sala contígua tinha poucos móveis. Apenas alguns arquivos, uma mesa com máquina de escrever.

       - Estou organizando aqui os arquivos dos casos. Tenho também as informações importantes, algumas pesquisas.

       - Boa idéia! Facilitará o trabalho.

       - Tem pouca coisa. Estou no começo.

       - Há quanto tempo está aqui?

       - Seis meses. Trabalhei um ano e meio com o Dr. Del Vecchio. Apesar do pouco tempo, aprendi muito com ele. Meu pai queria que eu ficasse mais lá para depois ir trabalhar na empresa dele. Quando soube que eu saí, achou ruim, mas terá que se conformar.

       Passaram para outra sala. Estava vazia.

       - Não tive dinheiro nem tempo para mobiliá-la. Sabe como é... Também tenho meu orgulho. Se quero ser independente, não posso ficar pedindo dinheiro à minha família. Aliás, meu pai já disse que não vai dar nada, que eu vou botar tudo fora. Não acredita que eu consiga.

       - Não acredita ou não deseja que dê certo? Rubens parou um pouco, depois disse:

       - Ê. Acho que ele não quer.

       - Só para depois poder dizer: "Eu não falei?" Os dois riram gostosamente.

       - Quando falei com você, não estava brincando. Pode ocupar esta sala. Dividiremos as despesas, os empregados, nos ajudaremos com os casos. Será perfeito.

       - Não sei se estou preparado para assumir isso. Acabo de me formar. Não sou conhecido no meio. Além disso, meu pai também não me ajudará. Tem outros projetos para mim.

       - Isso o incomoda?

       - Não. Gostaria que fosse diferente, mas cada um é o que é.

       - Vai precisar mobiliar sua sala e ter algum dinheiro para os primeiros tempos. Eu também ainda não tenho muitos clientes. Algumas pequenas causas, com muito trabalho e pouco dinheiro. Mas estou disposto a vencer e sei que posso conseguir.

       - Tenho dinheiro guardado. Minha mãe sempre foi muito generosa nas mesadas. Meu pai também. Gostam que eu me apresente sempre bem e tenha dinheiro no bolso. Posso mobiliar a sala e agüentar os primeiros tempos, se eles resolverem suspender a mesada.

       - Nesse caso, nada o impede de aceitar. Para mim seria conveniente não só porque ficará mais barato manter isto aqui, mas também porque gosto de você, de sua forma de pensar. Creio que é o companheiro ideal. Tenho intuição de que juntos faremos grandes coisas!

       Daniel sorriu:

       - Seu otimismo é contagiante.

       - Nesse caso, aceite. Um dia terá que começar, e esta oportunidade é boa mesmo.

       - Está bem. Acho que podemos tentar.

       - Assim é que se fala! Amanhã mesmo poderemos comprar seus móveis. Teremos também que fazer uma placa com seu nome para colocar ao lado da minha. Seus documentos estão em ordem? Já pode começar a trabalhar?

       - Estão. Gostei muito da decoração que você fez. Acho melhor seguir o mesmo estilo.

       - Ótimo.

       Entusiasmados, os dois continuaram conversando, combinando detalhes e programando a instalação de Daniel. Quando este deixou Rubens, no fim da tarde, estava entusiasmado e alegre. Imaginava como decorar a sala, o que comprar, tentando visualizar como ficaria desta ou daquela forma.

       Na hora do jantar, Maria Alice comentou:

       - Daniel está bem-disposto! Alguma namorada nova?

       Ele desviou o assunto. Achava melhor não entrar em detalhes do que pretendia fazer.

       - Nada disso. Você acha que só ficamos bem quando há mulheres por perto?

       - Acho. Basta observar quando passa uma moça bonita. Vocês ficam babando!

       Antônio olhou para ambos e resolveu:

       - Daniel tem razão. Mulher é bom, mas o que ele precisa agora é decidir o rumo que sua vida vai tomar. Tratar de sua carreira. Agora é o momento exato para iniciá-la. Tudo nos favorece.

       - Vou pensar no assunto, papai - prometeu ele querendo escapar à pressão.

       - Já pensou demais. Está pensando há muito tempo. É hora de decidir. Está perdendo um tempo precioso. O que espera mais? Formou-se, é um advogado. Tem o título e um nome ilustre. O caminho está aberto.

       Daniel franziu o cenho. Seu pai obrigava-o a uma atitude que não queria tomar. Não gostava de ser pressionado. Enquanto ele apenas sugeria, não tinha importância, mas agora estava querendo intervir em suas decisões. Isso feria seu senso de justiça. Tinha o direito de escolher o próprio caminho. Olhou-o sério e respondeu:

       - Obrigado por seu interesse, mas eu posso resolver qual a carreira que devo seguir. Estudei não para ter um título, mas para exercer a profissão. Gosto do Direito. Pretendo advogar.

       Antônio olhou-o surpreendido. Não esperava uma atitude tão firme. Habituado a contemporizar, disse em tom conciliador:

       - Claro que você se formou para advogar. Eu mesmo tenho tido minhas causas.

       - Onde você dá o nome e os outros advogados fazem tudo. Não é isso que eu quero para mim.

       Antônio irritou-se:

       - O que quer? Ir ao fórum de pasta na mão, correr atrás dos juizes, ir nos cartórios e nas juntas para tirar algum malandro da cadeia? E isso que quer?

       Maria Alice interveio, preocupada:

       - Vamos deixar esse assunto para depois. Não é bom discutir durante as refeições. - Baixou o tom de voz ao dizer: - E na frente dos criados.

       - Desculpe, Maria Alice, mas a indecisão de Daniel me irrita. Concordo. Deixemos esse assunto para depois. Mas pode ter certeza de que não esquecerei.

       Lanira olhou-os entediada. Eles eram teimosos e com certeza iriam discutir no escritório, tomar decisões para depois sair como se nada houvesse acontecido, fingindo diante dos criados.

       Estava cansada dessa hipocrisia. Onde quer que fosse, as pessoas eram falsas e sem graça. Diziam frases convencionais, sorriam educadamente, nunca mostravam o que estavam sentindo. Anos atrás pensara em fugir de casa, mas nunca tivera coragem. Detestava a pobreza, a falta de conforto. Por vezes sentia-se culpada por essa fraqueza. Ela também dizia frases convencionas, fingia, sorria sem vontade. Por isso a vida parecia-lhe sem graça. As pessoas eram autômatos, vivendo uma vida vazia, sem objetivos, sepultando sentimentos, cuidando das aparências. Ela, também, tornara-se uma pessoa como as demais, obedecendo às regras da sociedade. Um dia se casaria com um nome ilustre, teria filhos, ensiná-los-ia a entrar nas regras.

       As gerações se sucediam, sempre iguais, e essa rotina a deprimia. Embora desejasse quebrá-la, sabia que não teria coragem. Continuaria fazendo tudo igual, como sua avó, sua mãe e as outras famílias que conhecia. Acreditava que fora das convenções sociais não havia nada. Era só perdição, sofrimento, dor.

       Maria Alice procurou conduzir a conversação de forma mais amena, falando dos filmes do momento e dos novos cinemas da cidade. Apesar do tom, Lanira podia sentir que ela estava tensa. Antônio trocou idéias com ela, fingindo que não percebia o silêncio de Daniel. Lanira olhou-o com certa curiosidade. Ele teria coragem para escapar à rotina familiar? Desde pequena ouvia o pai programar a carreira política do irmão. Para ela era fato consumado. Ele acabaria por ceder.

       Depois do café, Daniel ia retirar-se quando Antônio convidou:

       - Vamos conversar no escritório. Precisamos esclarecer algumas coisas. Não dá mais para adiar.

       Daniel suspirou mas resolveu:

       - Está bem, papai. Vamos.

       Maria Alice olhou com certa preocupação, porém não disse nada. Nunca se intrometia nas conversas do marido com os filhos.

       Foram para o escritório. Lanira apanhou um livro e acomodou-se em uma poltrona. Maria Alice foi dar ordens na cozinha.

       Antônio sentou-se atrás da pesada escrivaninha de carvalho e Daniel acomodou-se em uma poltrona à sua frente. Olharam-se.

       - Se estou tocando nesse assunto, é porque você já tem idade para assumir uma carreira. Eu ingressei no partido muito antes.

       - Já lhe disse, pai. Não pretendo ingressar no partido. Não gosto de política.

       - Não sabe o que está dizendo. Muitos jovens adorariam ter uma oportunidade como a sua. Quer jogar tudo fora?

       - Agradeço seu interesse. Mas quero seguir outro caminho.

       - Quer advogar. Logo ser político é ideal para isso. Vai dar-lhe fama, nome. Credibilidade. Se é isso que quer, vou arranjar-lhe um lugar em um escritório de um grande advogado que me deve muitos favores. Ao lado dele, logo estará conhecido. Agora ele é do partido e você precisa inscrever-se também. Amanhã mesmo providenciaremos tudo.

       - Eu não quero, pai. Não vou.

       - Não quer?

       - Não quero. Deixe-me escolher o que fazer. Já decidi. Amanhã começo a trabalhar com Rubinho. Estive com ele hoje e acertamos tudo.

       - O quê? Com Rubinho? Você enlouqueceu? Sua mãe me disse que Angelina e Ernesto estão desesperados porque Rubinho montou um escritório por conta própria, de quinta categoria, sem nenhuma chance de ir para a frente. E lá que você quer ir enterrar seu talento?

       O rosto de Antônio cobriu-se de rubor e ele se levantou indignado. Sem dar tempo para que Daniel dissesse alguma coisa, prosseguiu:

       - Não posso consentir em uma coisa dessas! Meu filho me envergonhando dessa forma. Você não vai fazer isso.

       Daniel olhou-o sério e respondeu:

       - Vou, pai. Já decidi. O escritório é em um lugar bom no centro da cidade, bem montado, e tenho certeza de que obteremos êxito.

       - Você não sabe o que está dizendo. E jovem demais. Vai perder um tempo enorme, gastar dinheiro, envergonhar a família e depois voltar para tentar recomeçar. Não. Não posso permitir que faça isso.

       - Não vou envergonhar ninguém. Vou começar do princípio, aprender, crescer. Rubinho é inteligente, sabe o que diz, juntos vamos conseguir subir na vida.

       Antônio sacudia a cabeça incrédulo. Foi até a porta e chamou Maria Alice. Quando a viu entrar, não se conteve:

       - Veja se consegue convencer seu filho a desistir dessa loucura. Recusou todas as oportunidades que eu lhe ofereci. Sabe por quê? Para ir juntar-se àquele visionário do Rubinho, no escritoriozinho que você falou. É lá, com ele, que Daniel deseja fazer carreira!

       Maria Alice levou a mão aos lábios para abafar a exclamação de susto que emitiu a contragosto.

       - Não pode ser! Diga, meu filho, que não ouvi bem.

       Daniel levantou-se, respirou fundo tentando controlar-se e respondeu:

       - Vocês estão fazendo um drama de uma coisa tão simples! Vou fazer uma experiência trabalhando com ele e dividindo as despesas. Combinamos tudo. Não é uma calamidade. Não façam disso uma tragédia familiar.

       Maria Alice abriu a boca, tornou a fechá-la e não encontrou palavras para responder. Estava assustada. O tom da voz de Daniel fazia-a sentir que ele falava sério. Quando conseguiu falar, considerou:

       - Isso não vai dar certo, meu filho!

       - Se não der, farei outra coisa. Afinal sou jovem e tenho uma vida

       inteira pela frente. Agora, se me dão licença, vou dormir. Amanhã terei que levantar cedo.

       Daniel deixou a sala, e Maria Alice e o marido continuaram conversando, inconformados.

       - Esse menino está me enlouquecendo! - desabafou Antônio. - Não sei a quem ele puxou. Talvez àquele seu tio maluco que foi morar na Europa e jogou tudo fora.

       - Ele não tem nada a ver com tio Eurides. Pare de fazer comparações. Daniel impressionou-se com Rubinho. Sabe como é, os jovens gostam de fazer coisas heróicas, diferentes.

       - Vai quebrar a cara! Como nunca trabalhou, pensa que é fácil ganhar a vida.

       - Ele é muito moço. Acho que devemos ser pacientes com ele. Deixe-o experimentar, logo vai descobrir seu engano. Não há nada como a verdade. Vai trabalhar muito, ganhar pouco, e quando perceber seu engano, aceitará fazer tudo como você deseja.

       - E o que vai acontecer. Mas para isso vou cortar a mesada. Se ele deseja ser independente, fazer as coisas por conta própria, que se sustente.

       Maria Alice sacudiu a cabeça:

       - Não concordo. Seria humilhante ver Daniel passando necessidades. O que nossos amigos vão dizer? Não, isso não.

       - Se eu continuar a dar-lhe dinheiro, ele não vai voltar atrás. E meu dever ensiná-lo.

       - Não dessa forma. Ele não vai ganhar o suficiente para manter nosso padrão de vida. Vai ser uma desmoralização. Nosso filho, mendigando, sem dinheiro para ir ao clube, sustentar o automóvel. Você não fará isso! Vai ficar mal para nós!

       - Isso é.

       - Lembra quando o filho do Dr. Emílio brigou com o pai e saiu de casa?

       - Para casar-se com aquela balconistazinha!

       - Foi. Ele cortou a mesada e foi um vexame. O rapaz deu para beber, pedia dinheiro emprestado aos amigos do pai, uma vergonha. Você mesmo ficava constrangido quando ele o abordava. Não, nosso Daniel não pode nos fazer passar essa vergonha!

       - Você acha que ele poderia ficar como Netinho?

       - E um risco. Daniel é um bom moço. Mas sempre teve tudo. Se ficar sem dinheiro, pode descambar e será difícil trazê-lo de volta ao bom caminho.

       Antônio suspirou e passou a mão pelos cabelos num gesto nervoso.

       - Esse menino merecia uma boa surra.

       - Ele já é um homem.

       - Mas tem cabeça de criança.

       - Precisamos ter paciência. Tenho certeza de que essa postura vai durar pouco. Se você fizer pressão, ele vai teimar. Sei como ele é.

       - Um cabeça-dura.

       - Isso. Agora, se você não pressionar, ele vai, percebe a bobagem que está fazendo e desiste.

       - Talvez você tenha razão. A pressão de Ernesto me irritou. Deu-me vontade de fazer justamente o contrário.

       - Está vendo? É isso. Não vamos pressioná-lo. Por si só ele voltará ao bom senso.

       - Espero que tenha razão.

       Na manhã seguinte Daniel levantou-se disposto a enfrentar qualquer oposição familiar. Pensara em vários argumentos para convencer os pais que sua resolução era irrevogável. Mas, para sua surpresa, na mesa do café ninguém tocou no assunto. Parecia que nada havia acontecido.

       Lanira olhou-o curiosa. Se seus pais estavam calmos, Daniel já teria desistido? Depois do café, quando saía para escola, cruzou com Daniel e perguntou:

       - Você mudou de idéia?

       - Não. Ao contrário. Estou indo encontrar-me com Rubinho para comprarmos os móveis.

       - Está tudo tão calmo... pensei que houvesse desistido.

       - Não. Estou estranhando. Ontem só faltaram me bater, hoje estão como se nada houvesse acontecido.

       - Hum... Se eu fosse você, tomava cuidado. Eles devem estar planejando algo. Papai estava particularmente amável. Quando ele fica assim, sempre há alguma coisa por trás.

       - Eu sei. É assim que ele fica quando quer alguma coisa de seus eleitores, ou dos homens do partido.

       Lanira riu bem-humorada.

       - Eles pensam que nos enganam!

       - Seja como for, estou determinado. Tenho o direito de cuidar de minha vida e fazer as coisas do jeito que eu gosto. Se eu errar, será por minha cabeça.

       - Gostaria de fazer o mesmo.

       - Você?

       - Nossa vida é sempre igual. Gostaria de fazer alguma coisa diferente, antes que acabe me casando com algum almofadinha e vire uma dona de casa.

       Daniel riu.

       - Você, uma dona de casa?

       - Do que se admira? O que pode fazer uma moça de sociedade neste Rio de Janeiro?

       - Nunca pensei nisso. Sempre achei que você gostava de freqüentar a sociedade.

       - Antigamente gostava mais. Agora, estou ficando cansada. Isso não pode, aquilo não fica bem, desse jeito não, só desse. Acho que estamos virando marionetes. Outro dia na festa aqui em casa pensei que todos nós éramos bonecos manipulados.

       - E quem puxaria os cordões para movimentar-nos?

       - As regras. Já reparou que todos lhes obedecem? Que é um crime sair fora delas?

       Daniel olhou a irmã como se a estivesse vendo pela primeira vez. Seus olhos brilharam quando respondeu:

       - Não sabia que pensava assim. Entendeu por que quero cuidar de minha vida e fazer alguma coisa do meu jeito? Não quero ser uma marionete nas mãos de papai ou de mamãe, nem da tirania social. Pretendo achar outro caminho. Acredito que exista. Nunca pudemos procurá-lo. Agora estou decidido. Quer saber? A hora que resolver fazer o mesmo, tomar uma decisão diferente de ser a esposa de um almofadinha, conte comigo. Temos o direito de escolher o que fazer de nossas vidas.

       Lanira olhou-o séria ao responder:

       - Sua atitude sacudiu-me de alguma forma. Vou pensar no assunto. Às vezes penso que a vida não é só essa rotina que conhecemos. Deve existir algo mais.

       - Não sabia que estava tão amarga! Em sua idade!

       - O que quer? Olho as pessoas e só encontro jogo de interesses, papéis, aparência, nada mais.

       Daniel cocou a cabeça pensativo:

       - Isso é o diabo. Sei como se sente. Não pensei que estivesse tão entediada. Embora queira mudar, assumir minha vida, não estou deprimido como você. Acredito na vida. Sei que existem outras coisas, outras formas de viver. Existe amor, alegria, bondade.

        - Onde?

       - Em algum lugar. O importante é não se conformar com o que estão nos impondo. É sair em busca do que queremos, é tentar ser feliz seja como for.

       - Você acredita que vai encontrar o que procura?

       - Acredito. Somos jovens, cheios de vontade de viver.

       - Está entusiasmado!

       - O que faremos sem entusiasmo? Ele é o grande motivador na busca da felicidade.

       - O pior é que eu perdi o entusiasmo. Nada me motiva. Tudo me parece sem importância.

       - Isso passa. Logo mais vai aparecer um moço inteligente, bem apanhado, e pronto. Seu entusiasmo volta rapidinho!

       - É... pode ser. Não digo que não. Mas onde encontrá-lo? Por enquanto, nenhum dos que conheço conseguiu interessar-me. Aliás, acho melhor assim. Sabe de uma coisa? Às vezes penso que sou diferente, que não tenho nenhuma vocação para o casamento.

       Ele riu bem-humorado:

       - Duvido. E só no que as mulheres pensam!

       - Não nego que eu penso, mas quanto mais penso, menos eu gosto da idéia de me casar. Já olhou em volta e viu como é a vida dos casais? Eu não teria paciência para obedecer ao marido, pôr panos quentes aqui e ali, engolir a raiva, dissimular.

       - Como mamãe faz?

       - E. Como ela. Reparou como ela se controla para não sair das regras? Nunca perde o controle, em nenhuma situação.

       - Talvez seja uma qualidade.

       - Até certo ponto sim, mas ela não é calma, cordata, equilibrada como quer parecer. Com seu jeito educado, controla papai, nós, os criados. Todo mundo só faz do jeito que ela quer.

       - Ela não gosta de discutir.

       - Experimente contrariá-la. Seus olhos soltam chispas. E embora não discuta, sempre arranja um jeito de torcer as coisas do jeitinho que ela quer. Quer apostar como vai fazer você mudar de idéia?

       - Quanto a isso, está enganada. Ela pode fazer o que quiser. Não vai conseguir.

       - Veremos.

       - Você tem aula agora?

       - Tenho. Por quê?

       - Ia convidá-la para ir comigo ver o escritório. Poderia me ajudar a arrumá-lo.

       - Não tenho nenhuma aula importante. Posso cabular.

       - Se mamãe souber, me mata!

       - Nós não vamos contar. Estou curiosa para ver como é. Outro dia assisti a um filme em que havia um escritório moderno, muito chique.

       - Combinei com Rubinho que faria a decoração no mesmo estilo das salas dele. É moderno e eu gostei. Depois, acho que não ficará muito caro. Sabe como é, ainda não sei se poderei contar com a mesada. Eles bem que podem fazer pressão e cortá-la.

       - Não a mamãe. Isso eles não farão. Já pensou se alguém comentar que o filhinho dela está sem dinheiro para as despesas? Ela vai morrer de vergonha!

       - E, acho que tem razão. Então vamos embora.

       Lanira entrou no carro com satisfação. Até que enfim iria sair da rotina. Havia uma coisa diferente para fazer. Conversaram animadamente durante o trajeto. Rubinho já os esperava. Levaram Lanira para ver tudo e ajudá-los a escolher o que comprar. Um leve toque feminino seria agradável, uma vez que eles desejavam quebrar a sobriedade comum a todos os escritórios de advocacia.

       Os três foram às compras alegremente e Lanira não continha o entusiasmo, principalmente porque eles estavam saindo do tradicional, criando alguma coisa nova, mais ousada. Às duas da tarde eles já haviam comprado o mais importante e foram almoçar em um pequeno restaurante.

       - Quando sairmos daqui, o que vamos comprar? - indagou Lanira com entusiasmo.

       - Bom, eu preciso ir para o escritório. Fiquei fora a manhã inteira. Tenho um cliente que ficou de ir às três horas - respondeu Rubinho.

       - Eu acho que por hoje não podemos comprar mais nada. Amanhã eles vão entregar os móveis, vamos arrumar tudo e ver como fica. Não quero me precipitar e comprar coisas que não combinam.

       - Tem razão - concordou Lanira. - Só vendo os móveis no lugar é que vamos saber o que fazer mais. Não compramos ainda os objetos de uso, cinzeiros, quadros. Acho elegante ter uma caixa de cigarros sobre a mesa. Vi uma na rua do Ouvidor linda, ficará muito bem com seus móveis.

       - Estou começando a ficar com inveja - disse Rubinho. - Eu tive que fazer tudo sozinho. Não notei esses detalhes.

       - Se você quiser, podemos escolher algumas coisas para sua sala também - sugeriu Lanira com satisfação.

       Ela nunca tivera chance de escolher nada. Seu quarto, seus móveis, seus objetos de uso e até suas roupas haviam sido escolhidas pela mãe. Quando ela era criança, várias vezes tentara comprar o que achava bonito. Mas a mãe dizia que não ficava bem, que estava fora de moda, sugeria outra coisa. Ela obedecia. Ultimamente, quando gostava de algo, só comprava se sua mãe aprovasse, se dissesse que ficava bom.

       Ela sempre gostara de decoração. Apreciava objetos de arte, tinha certo jeito para arrumá-los de maneira agradável. Percebendo que os dois rapazes tinham acatado sua opinião na compra dos móveis, sentiu-se animada.

       - Só que amanhã você não vai "matar" a aula - resolveu Daniel.

       - Está certo. Mas eu saio às onze e meia e vou direto para o escritório. Estou louca para arrumar tudo e ver como fica!

       - Está certo. Irei buscá-la na escola.

       Quando voltaram para casa, passava das quatro, e Maria Alice olhou-os admirada. Nunca os vira sair juntos. Foi logo dizendo:

       - Estava preocupada. Você não voltou da escola no horário de costume e não veio para o almoço. O que aconteceu?

       - Nada. É que Daniel passou pelo colégio e aproveitei para voltar com ele. Estávamos com fome e fomos almoçar juntos.

       Ela o olhou desconfiada. A história não estava bem contada. Havia alguma coisa errada por detrás disso. Iria descobrir.

       - Poderia pelo menos ter telefonado. Já estava quase ligando para o escritório de seu pai e mandando José à sua procura na escola.

       - A culpa é minha, mãe - justificou-se Daniel. - Deveria ter avisado que ela estava comigo. Desculpe.

       - Só foram almoçar? Já passa das quatro. Lanira saiu às onze e meia!

       - Verdade? - disse Lanira. - Nem percebemos o tempo passar! Vou subir para tomar um banho e descansar um pouco.

       - É uma boa idéia. Vou fazer o mesmo - resolveu Daniel.

       Eles subiram e Maria Alice permaneceu em pé observando-os até que eles sumissem no fim da escada. Lá em cima, no corredor, Lanira trocou um sorriso alegre com o irmão, dizendo baixinho:

       - Ela desconfiou, mas desta vez não descobrirá nada.

       - E. Espero que não, senão vai sobrar para mim.

       - Qual nada! Estou adorando esta história. Não perderia isso por nada! Não se esqueça: amanhã estarei esperando para continuarmos.

       - Acho melhor arranjar uma desculpa para a mamãe. Ela vai estranhar você não vir para casa outra vez.

       - Deixe comigo. Eu telefono da escola.

       - O que vai dizer?

       - Não sei ainda. Mas, pode ter certeza de que ela vai acreditar. Com os olhos brilhantes, Lanira entrou no quarto enquanto Daniel, abanando a cabeça e rindo, foi para seus aposentos.

      

Capítulo 3

       Daniel olhou em volta com satisfação. A sala estava pronta e o ambiente, muito agradável. Rubinho entrou e vendo a alegria de Daniel disse:

       - Ficou bom mesmo. Vocês fizeram milagre em uma semana.

       - A ajuda de Lanira foi preciosa!

       - Tem razão. Ela tem muito bom gosto. Agora, é começar a trabalhar. Você fez os cartões?

       - Sim. Ficarão prontos amanhã cedo.

       - Você pode também anunciar no jornal.

       - Não sei. Meus pais ficariam furiosos. Até agora não tocaram mais no assunto e eu não gostaria de provocá-los.

       - Os meus ficaram, mas eu não liguei. Meus primeiros clientes vieram por causa do anúncio. Sabe, Daniel, quando eu resolvi assumir minha profissão e cuidar de minha vida, sabia que minha família não iria gostar. Mas entre eles ficarem contrariados e eu viver infeliz, optei por minha felicidade. Não compreendo em que os estou prejudicando fazendo as coisas do meu jeito. Não cometi nenhum crime, nem nada que possa envergonhá-los. Estou trabalhando honestamente e dando o melhor de mim. Acho que tenho todo o direito de escolher o rumo que deverei dar à minha vida.

       - Eu penso como você. Por que será que os pais não confiam em nossa capacidade? Para eles nós ainda não crescemos.

       - Não é só isso. Eles dão muita importância às aparências, às regras da sociedade. Todos estamos cansados de saber a corrupção que existe por trás. Tudo é permitido desde que ninguém descubra. Há muita gente sórdida fantasiada de gente bem ditando normas e criticando todo mundo.

       - Concordo. E engraçado como os comentários maldosos insinuam, a podridão é comentada, mas ninguém faz nada.

       - Eu me recuso a ser um deles.

       - Eu também. Tem razão. Vou pôr o anúncio. Não tenho nada a esconder. As pessoas precisam saber que estou à disposição.

       Rubinho colocou a mão no ombro do amigo, dizendo contente:

       - Assim é que se fala! Gostaria de trocar idéias com você sobre os casos que estou atendendo. Ouvir sua opinião.

       - Com prazer. Aprender mais vai ser bom para mim.

       Dois dias depois Antônio chegou em casa indignado. Encontrou Maria Alice na sala e foi logo dizendo:

       - Você já leu no jornal? Ela se levantou:

       - O quê?

       - Precisamos fazer alguma coisa! Daniel perdeu o juízo.

       - O que aconteceu?

       - Veja aqui, este anúncio!

       Ela leu o jornal que ele lhe estendia e enrubesceu:

       - Que mau gosto! Não foi assim que o educamos!

       - Para você ver. Ele poderia ter tudo que quisesse, começar de cima, e não quis. Preferiu ficar como um pedinte, implorando que lhe dêem serviço. Colocar anúncio no jornal é ridículo. Como se ele fosse uma mercadoria, um sabonete, um par de meias que precisa ser vendido. Um horror! Vamos chamá-lo aqui e exigir que ele acabe com isso de uma vez por todas.

       - Foi uma idéia infeliz, reconheço. Mas, por outro lado, para ele chegar a esse extremo é porque está determinado. Se o pressionarmos, pode ser pior.

       - Não posso ser desafiado por meu próprio filho. Eu, um homem de posição! Ele terá que me ouvir!

       - Daniel não é mais criança. Contrariá-lo só fará com que ele continue. Como nós fomos contra o que ele queria, fará tudo para mostrar que ele estava certo.

       - Teimoso ele é. Mas por causa disso não podemos deixá-lo fazer as bobagens que quer. Ele terá que entender.

       - E se ele se recusar? Se suspendermos a mesada será pior. Nosso filho não pode sair por aí na miséria. O que os outros iriam dizer? Não, Antônio. O melhor mesmo ainda é fazer de conta que não vimos nada. Ignorar.

       - Estamos fazendo isso desde que essa história começou. Não deu resultado.

       - Dará, com certeza. Você acha que ele será bem-sucedido? Que ganhará fama e dinheiro naquele escritoriozinho?

       - Não. Claro que não. Grandes advogados, verdadeiras sumidades precisaram trabalhar com gente famosa durante anos para conseguirem notoriedade. Não daria certo ainda que ele fosse um gênio, o que infelizmente ele não é.

       - Então será uma questão de tempo. Ele vai experimentar, não vai dar certo e voltará arrependido, disposto a fazer o que você quiser. - É... Pode ser que tenha razão. Só pode dar nisso.

       - Então por que se preocupar? Vamos fazer de conta que não sabemos de nada.

       - E quando os amigos perguntarem? O que diremos?

       - Ora, Antônio, vamos sorrir e dizer que são arroubos da juventude. Que ele está querendo ganhar experiência, conhecer a vida, estar no meio do povo para só depois ingressar na política.

       - Bem pensado. Um homem de classe que desce de seu nível social para misturar-se ao povo para mais tarde trabalhar pelo bem-estar da sociedade! Que idéia! Nem eu pensei nisso!

       - Pois pense. Tudo passa, e essa loucura do Daniel também passará. Então tudo entrará nos eixos.

       Antônio suspirou mais conformado. Maria Alice tinha razão. Não iria dizer nada a Daniel.

      

       Naquela noite, depois do jantar, Lanira procurou Daniel no quarto:

       - Vi seu anúncio no jornal.

       - Então, o que achou?

       - Bom. Simples e claro. Gostei. Quem não gostou foi papai, e como sempre mamãe o apoiou.

       - E? Não falaram nada durante o jantar.

       - Nem falarão. Eles encontraram uma saída para suas "loucuras da mocidade".

       - Como assim?

       - Pretendem transformar você em um sociólogo que está pesquisando os problemas sociais para mais tarde dedicar-se à política.

       - De onde eles tiraram isso? Fui categórico. Jamais entrarei para a política.

       - Eles não pensam assim. O que fará quando tudo der errado? Irá procurá-los e fará o que eles quiserem.

       - Isso é absurdo.

       - E o que eles pensam.

       - Verão o quanto estão enganados.

       Lanira ficou alguns segundos pensativa, depois disse:

       - É o que eu desejo de coração. Você é minha esperança. Sua atitude me mostrou que eu não preciso seguir a programação que eles fizeram para mim.

       - Não precisa mesmo. Agora, para ser livre é preciso assumir a responsabilidade por sua vida. A independência intelectual é só ilusão. Você só se torna independente quando tem dinheiro suficiente para sustentar-se. Apesar de minha atitude, ainda não me sinto à vontade. Enquanto estiver vivendo às expensas da família, não posso dizer que sou dono de mim. Mas pode ter certeza de que estou caminhando para isso. Quando puder, não vou mais aceitar a mesada deles.

       - Você fala como se fosse errado aceitar o que eles nos dão. São nossos pais, criaram-nos e é função deles nos sustentar.

       - Gostaria que soubesse que não pretendo ser ingrato. Gosto deles, respeito-os, eles me deram mais do que o dinheiro, eles me deram a vida. Mas isso não lhes dá o direito de decidir sobre meu destino. Tenho minhas idéias, meus projetos, quero fazer o que gosto. Depois, sou adulto, tenho uma profissão, penso que seria vergonhoso continuar a viver às custas deles. O que se justificava quando éramos crianças, hoje não se justifica mais.

       - É. Tem razão. Eu também vou estudar, ter uma carreira e fazer o que quero.

       Daniel sorriu ao responder:

       - Você é mulher. Não precisa fazer o que eu faço. Logo vai aparecer alguém que fará seu coração bater mais forte e você não vai resistir.

       - Isso não vai me acontecer.

       - Acontece com todas as meninas.

       - Não comigo. Não quero me transformar em dona de casa nem em esposa. Não gosto desse papel. Quando penso nisso me dá arrepios!

       Daniel soltou uma gargalhada.

       - Vamos ver se você vai falar isso daqui a dois ou três anos.

       - Você vai ver.

       Quando Lanira deixou o quarto, Daniel deitou-se pensativo. Apesar de se sentir atraído por muitas garotas, de haver namorado algumas, nunca amara ninguém. Seus romances não duravam mais do que um mês ou dois e logo a atração inicial desaparecia. Como todos os rapazes de sua época, ele tivera algumas aventuras sem conseqüências com mulheres casadas. Não era romântico. Tirava da vida o que podia lhe oferecer, não acreditava no amor dos poetas.

       Pretendia dedicar-se à carreira e, quando conquistasse uma boa situação financeira, escolher uma mulher inteligente, culta, que lhe agradasse, e se casar. Pensava em ter uma família. Tudo aconteceria a seu tempo.

       Embalado por seus projetos para o futuro, Daniel adormeceu e sonhou. Viu-se sentado em uma mesa em um grande salão, cercado de pessoas. Um homem andava de um lado a outro, falava apontando para ele, acusando-o. Reconheceu que estava em um tribunal. Mas ele não era o advogado, ele era o réu. Angustiado, ouviu o que o acusador dizia:

       - Ele matou para encobrir a traição! Atraiu a vítima com falsas palavras e covardemente matou-a. Esse assassino cruel não pode ficar impune. Precisa ser responsabilizado pelo que fez. A justiça pede e vocês precisam condená-lo!

       Daniel suava frio e queria fugir dali sem conseguir. O acusador parou à sua frente e continuou:

       - Olhem para ele! Diz ser inocente e finge estar sofrendo, mas não se iludam, não se deixem enganar pelas aparências. Trata-se de um assassino perverso, calculista. As provas são todas contra ele. Não tenho nenhuma dúvida do que estou afirmando.

       Daniel fez tremendo esforço para sair daquela situação e acordou com o corpo molhado de suor. Passou a mão pelos cabelos, levantou-se e foi à cozinha tomar água. Depois respirou aliviado.

       "Foi só um pesadelo", pensou. Ele havia pensado tanto em sua carreira que acabara sonhando com ela.

       Apesar de não levar a sério o sonho, teve medo de dormir e ter novamente aquele pesadelo. Apanhou um livro e começou a ler. Só quando o dia começou a clarear foi que conseguiu adormecer.

       Acordou assustado olhando o relógio sobre a mesa de cabeceira. Dez horas! Levantou-se apressado. Pretendia ir cedo para o escritório. Lavou-se, vestiu-se e saiu.

       Maria Alice estava no hall e, vendo-o, disse:

       - Se quiser café, tem na copa.

       - Obrigado. Estou atrasado.

       Saiu rápido e ela suspirou resignada, pensando: se ao menos ele ouvisse seus conselhos! Filhos são assim mesmo. Não ouvem os pais, mas quando as coisas dão errado, quando se metem em alguma enrascada, pedem ajuda. Daniel, sempre tão inteligente, por que não entendia isso? Tinha que ir pelo lado mais difícil?

       Daniel chegou ao escritório e Rubinho quando o viu foi logo dizendo:

       - Ainda bem que chegou. Há um recado para você.

       - Perdi a hora! Tive um pesadelo terrível e quase não dormi esta noite.

       - Deve ser a tensão. No começo é assim mesmo.

       Uma pessoa havia ligado por causa do anúncio, querendo marcar hora. Daniel dirigiu-se à secretária:

       - Ligue para ele e diga que estarei livre a partir das três da tarde. Rubinho sorriu malicioso e Daniel esclareceu:

       - É meu primeiro cliente. Ele não pode saber disso.

       - Se tem algum tempo, gostaria que visse comigo um processo. Daniel concordou e juntos mergulharam no estudo do caso que Rubinho estava cuidando, trocando idéias, procurando soluções.

       Passava das quatro quando o candidato a cliente de Daniel chegou. A secretária introduziu-o e Daniel, que o esperava, levantou-se para cumprimentá-lo.

       Depois de fazê-lo sentar-se em frente à escrivaninha, Daniel sentou-se também, fixando-o atencioso. Era um homem alto, magro, rosto fino e pálido, olhos inquietos, cabelos lisos e castanhos, aparentava uns cinqüenta anos. Provavelmente de classe média.

       - Meu nome é Aparício Moreira Filho. Trabalho no comércio. Tenho uma loja de armarinhos há algum tempo. Aqui tem meu cartão.

       Daniel apanhou-o, colocando-o sobre a mesa. Ele continuou:

       - Vim procurá-lo porque estou tendo problemas com meu sócio e gostaria de desfazer a sociedade.

       - Já conversou com ele sobre o assunto?

       - Não. Estou desconfiado de que ele está me roubando.

       - E uma acusação grave. Tem provas?

       - Tenho. Vi quando ele entrou no estabelecimento durante a noite e retirou algumas mercadorias. Nunca me falou sobre isso.

       - Por que não o surpreendeu no ato?

       - Não podia. Estava lá em condições precárias. Não podia aparecer. Daniel olhou-o admirado, mas nada disse. Esperou que Aparício continuasse.

       - Acontece que eu estava lá com uma mulher, sabe como é. Se minha mulher descobre, estou frito. Tive que ficar escondido e fazer tudo para que ele não me visse. Ele é meu compadre. Se eu falasse do roubo, ele poderia vingar-se de mim contando tudo para Maria. Tive que ficar escondido, sem falar nada, vendo-o levar minhas mercadorias embora.

       - O que pretende fazer?

       - Desfazer a sociedade. Saber como fazer isso legalmente.

       - Tem uma cópia do contrato social?

       - Não.

       - A sociedade não foi legalmente constituída? Não foram ao cartório assinar o contrato?

       - Fomos. Otaviano fez tudo. Eu não entendo disso. - Sabe pelo menos o que estava escrito nele?

       - Dei uma olhada, mas não me lembro bem do que dizia.

       - Não consultou nenhum advogado, assinou sem ler?

       - Sabe como é, ele é meu compadre, tinha confiança nele.

       - Nesse caso, precisamos ir ao cartório, procurar o documento e ler. Só depois poderei dizer o que precisará fazer para acabar com a sociedade.

       - Pensei que não precisasse disso!

       - Entenda. Há muitas formas de se fazer uma sociedade. Sem saber o que vocês combinaram, como esse contrato foi feito, não posso saber como resolver.

       Combinaram que iriam na manhã seguinte ao cartório. Aparício pagou a consulta e saiu. Quando a secretária entregou-lhe o dinheiro, Daniel emocionou-se. Era a primeira vez que ganhava um dinheiro com seu trabalho. A quantia era insignificante, cobrara barato, mas mesmo assim foi prazeroso. Deu-lhe gostosa sensação de auto-suficiência.

       Quando contou a Rubinho o caso de Aparício, ele comentou:

       - Esse é um caso comum. As pessoas confiam demais e sempre há os que abusam. Tenho visto muitos assim. Agora, que foi engraçado ele estar lá com uma mulher e não poder falar nada, isso foi. Vai ver que ele quis economizar o dinheiro de um hotel. Deve ser meio pão-duro.

       - Ou ficou com medo de ser visto. Em todo caso, foi até providencial. Acabou descobrindo a safadeza do outro.

       Os dois riram bem-humorados.

       - Hoje à noite vou a uma reunião em casa de Julinho. Você quer ir comigo?

       - Alguma coisa especial?

       - Nada. Ele trouxe alguns discos novos da Europa e vamos ouvi-los. Sabe como é, as garotas também estarão lá. Será divertido. Lanira gostaria de ir? O ambiente é familiar.

       - Eu vou. Ela, não sei. Posso perguntar.

       - Faça isso. Posso passar em sua casa às oito. Está bem?

       - Está.

       Depois do jantar, Daniel falou com Lanira:

       - Quer ir conosco a casa de Julinho ouvir música?

       - Quem vai?

       - Não sei ao certo. Alguns amigos. Rubinho garantiu que o ambiente é agradável. Não vou ficar até muito tarde. Estou cansado e amanhã quero levantar cedo.

       - Nesse caso eu vou. Será melhor do que ficar no quarto pensando na vida.

       Maria Alice, vendo-os juntos para sair, admirou-se:

       - Vão sair?

       Foi Daniel quem respondeu:

       - Vou a casa de Julinho ouvir música. Lanira vai comigo. Não vamos voltar tarde.

       Era a primeira vez que Daniel convidava Lanira para sair com ele à noite. Ele resmungava quando a mãe pedia-lhe para buscar a irmã em casa de alguém. Vendo-os sair, Maria Alice procurou o marido, que sentado confortavelmente na sala lia uma revista.

       - Antônio, aí tem coisa!

       - Como assim?

       - Daniel convidou Lanira para sair. Reparou que ultimamente eles têm saído muito juntos?

       - Isso é bom. Não gosto de ver Lanira saindo por aí sozinha.

       - Não é disso que estou falando. Acho estranho essa súbita amizade deles. Para mim, estão tramando alguma coisa.

       - Que idéia! É natural que Daniel acompanhe a irmã. São jovens, gostam das mesmas coisas.

       - É, pode ser. Mas as coisas começaram a mudar depois que ele se juntou a Rubinho.

       Ouvindo o ruído de um carro, Maria Alice correu à janela e arregaçou a cortina.

       - Eu não disse, Antônio? Eles saíram com Rubinho. Daniel nem tirou o carro.

       Antônio colocou a revista sobre a mesa, olhando-a sério.

       - Não vejo motivo para preocupação. Apesar de tudo, Rubinho é um rapaz de bons costumes e de boa família.

       Maria Alice preferiu não responder. Podia ser que estivesse exagerando mesmo.

       - Machado me procurou para dar sua adesão. As eleições estão chegando. Vou concorrer para o Senado.

       - Não ia postular outro cargo?

       - Pensei bem e resolvi que o Senado é o melhor lugar. Não quero um cargo no Executivo. E perigoso. Posso queimar minha reputação e ter que deixar a vida pública. Já no Senado, não. Dá mais poder e prestígio com menos controle. Para mim é o ideal.

       - Você sempre sabe o que faz.

       - Vamos dar uma recepção no sábado e eu reúno os que me interessam e que podem contribuir para a campanha.

       - Por que não faz um jantar com eles no clube? Poderiam falar de negócios mais à vontade.

       - Não. Precisamos cativar as esposas. Elas não gostam que os maridos fiquem sozinhos no clube. Já aqui elas terão prazer em vir.

       - Pensando bem, será melhor.

       - Sabe como é, todos eles gostam de parecer donos da bola, mas na hora H eles só fazem o que as mulheres querem. Para ganhar a eleição, preciso que elas me apóiem.

       Maria Alice sorriu maliciosa. Antônio era um político nato. Sabia o que estava fazendo.

       - Daremos a recepção na semana que vem, Antônio. Preciso de tempo para os convites. Vou providenciar tudo.

       Ele sorriu com satisfação.

       Tudo em sua vida corria bem. Sua mulher era perfeita, seus filhos faziam bela figura, sua carreira ia cada dia melhor, sua vida afetiva ficara maravilhosa desde que conhecera a secretária de um desembargador, seu amigo pessoal. Sentira-se atraído por ela desde o primeiro dia. Jovem, bonita, cheia de graça, dona de duas covinhas graciosas quando sorria mostrando os dentes alvos e bem distribuídos. Bem-feita de corpo, elegante e charmosa, Alicia a princípio mostrara-se arredia, o que atiçou ainda mais o entusiasmo de Antônio.

       Fez-lhe a corte, enviando-lhe flores, oferecendo-lhe pequenos presentes que ela aceitava mas continuava recusando um encontro a sós com ele. Até que uma tarde, quando ele foi procurar o amigo em seu escritório, sabendo que ele havia saído, encontrou-a triste, preocupada.

       - O Dr. Alberto saiu e vai demorar - disse ela quando ele entrou.

       - Tenho tempo, vou esperar.

       - Talvez ele não volte mais hoje.

       - Está muito calor lá fora. Aqui está muito agradável. Vou ficar um pouco. Se ele demorar mesmo, irei embora.

       - Como queira, deputado. Deseja um refresco? Um café?

       - Um copo com água, por favor.

       Ela apanhou o telefone e pediu à copeira para trazer a água.

       Sentado no sofá confortável, Antônio observava-a com atenção. Ela se sentara atrás da escrivaninha e examinava alguns papéis.

       Ele tomou a água lentamente, depois colocou o copo sobre a mesinha e tornou:

       - Espero não estar atrapalhando.

       Ela ergueu os olhos escuros e brilhantes, sacudindo a cabeça negativamente, balançando os cabelos louros e cortados à última moda.

       - Absolutamente. Esteja à vontade, deputado. Ele se remexeu no sofá,um tanto inquieto.

       - Gostaria que não me tratasse de forma tão cerimoniosa.

       - Não estou entendendo.

       - Faz-me sentir velho.

       - Não houve intenção.

       Ela fez silêncio, voltando a examinar os papéis que tinha nas mãos. Ele continuou:

       - Desde que a vi, senti muita simpatia por você. Tenho observado e hoje percebo que está triste.

       - Nem sempre as coisas são como desejamos.

       - Posso fazer alguma coisa?

       Ela hesitou, deixou os papéis em cima da mesa e olhou-o como querendo descobrir o que ele estava pensando. Depois suspirou e respondeu:

       - Não sei. Trata-se de meu irmão. Ele se encontra em uma situação difícil.

       Ele não quis perder a oportunidade:

       - Do que se trata? Talvez possa ajudar. Os olhos dela brilharam.

       - Ele é um ano mais novo do que eu, está com vinte e quatro anos. Formou-se em Direito. Desde os tempos de estudante trabalha no escritório de um advogado importante cujo nome prefiro não declinar. A esposa do chefe apaixonou-se violentamente por ele e persegue-o de todas as formas. Agora está fazendo chantagem. Criou uma porção de situações em que parece que ele a está cortejando. Ou ele cede ao que ela quer ou ela o delata ao marido.

       - Por que seu irmão não deixa o emprego? Eu poderia arranjar-lhe algo melhor.

       - Ela o ameaça. Se ele sair, ela o delata. O marido é conhecido por seu ciúme e por sua intransigência. Se ela fizer isso, ele vai matar Nelsinho. Ele é um moço de princípios. Não quer se envolver com ela. Está desesperado. Pensando em ir embora do Brasil. Minha mãe é doente e muito apegada a ele. Desde que meu pai morreu ele é a paixão dela. Se ele for embora, ela não vai se conformar.

       Lágrimas rolavam de seus olhos e Antônio levantou-se e apanhou o lenço, dando-o a ela.

       - Por favor, Alicia! Não suporto vê-la chorar! Eu, que tudo faria para vê-la feliz! Não fique assim, vamos dar um jeito nisso. Confie em mim!

       Ela o olhou tentando sorrir por entre as lágrimas. O interesse de um homem tão importante a sensibilizava.

       - Desculpe, Dr. Resende.

       - Chame-me de Antônio. E assim que os amigos me tratam. Ela hesitou um pouco, depois decidiu:

       - Desculpe, Antônio. Não deveria estar aqui falando de assuntos pessoais.

       - Por que não? Olhe, diga a seu irmão para ter um pouco de paciência. Vou resolver esse caso.

       - De que forma?

       - Tenho amigos que sabem como dar um jeito nessa mulher. Podemos armar uma cilada tal que ela nunca mais queira atrapalhar a vida de seu irmão.

       - Se o senhor conseguir isso, eu lhe serei grata pelo resto da vida! Antônio tomou as mãos dela, segurando-as com força.

       - Sua gratidão seria o maior prêmio. - Passou a mão delicadamente pelas faces dela, dizendo baixinho: - Farei tudo para vê-la feliz!

       Ela retirou a mão dele, tentando recompor-se.

       - Não se preocupe. Você está linda como sempre - tornou ele. Ela esboçou leve sorriso.

       - Assim está melhor. Seus lábios foram feitos para sorrir.

       - Tem certeza de que vai conseguir que D. Ângela deixe Nelsinho em paz?

       - Tenho.

       - Não sei como lhe agradecer.

       - Aceite jantar comigo.

       Ela se sobressaltou, e antes que respondesse ele continuou:

       - Se eu conseguir, não mereço nem sua companhia para um jantar de comemoração?

       O rosto dela desanuviou-se:

       - Está bem. Se resolver esse caso, irei jantar com o senhor.

       Antônio saiu de lá entusiasmado. Sabia como resolver o problema dela. Falaria com Antunes. Ele era um ex-policial que trabalhava como detetive particular fazendo pequenos serviços. Servia aos políticos trabalhando conforme a necessidade deles, incriminando pessoas, arranjando testemunhas falsas, desmoralizando ou elevando conforme o caso. Recebia bom dinheiro e tinha um escritório de representações, cujos produtos nunca vendeu, já que eram só para manter as aparências.

       No dia seguinte, Antônio marcou um encontro com Antunes em um café afastado. Não queria ser visto com ele. Alicia dera-lhe todas as informações sobre as pessoas, e Antônio contratou o serviço.

       Achou divertido fazer com Ângela exatamente o que ela estava fazendo com Nelson, só que com um tipo desclassificado. Antunes armou um plano: usando o nome de Nelson, atraiu Ângela para um encontro de amor em um apartamento afastado e lá tudo estava preparado. Ela chegou, feliz, obedeceu às instruções, preparou-se e deitou-se no quarto em penumbra. Quando ela pensou que Nelsinho iria entrar, quem entrou foi outro homem, que a abraçou e beijou. As luzes se acenderam e eles tiraram várias fotos. Ela sem roupa, na cama, abraçada a ele. Ela quis gritar, mas Antunes foi categórico:

       - Se quer gritar, grite. Quem vai sair perdendo é você. Seu marido vai saber de tudo.

       Apavorada, ela começou a chorar e trêmula prometeu fazer tudo quanto eles queriam e entregar todo o "material" que forjara contra Nelson, o que ela fez no dia imediato.

       Antônio ligou para Alicia e deu-lhe a boa notícia. Ela ficou feliz e finalmente concordou em ir jantar com ele. Excitado, Antônio programou aquela noite cuidadosamente. Comprou um belíssimo vestido e mandou de presente para Alicia. Levou-a a seu apartamento. Tendo organizado tudo, dispensou os criados. O apartamento era belíssimo, luxuoso, ricamente decorado. Ele o comprara para seu uso particular. Quando se interessava por alguma mulher, era lá que a levava.

       Alicia era arredia, mas ele sabia como conseguir o que queria. Ela o admirava, e isso era meio caminho andado. Foi buscá-la, tendo parado um pouco distante de sua casa, conforme ela pedira. Quando ela entrou no carro, estava linda. Seu jeito discreto encantava-o. Tentou colocá-la à vontade. Sabia que precisava ser delicado.

       - Você está linda! O vestido assentou-lhe maravilhosamente!

       - Não sei se devo aceitar! Fiquei tentada a usá-lo pelo menos esta noite. Amanhã poderá devolvê-lo. Não posso ficar com ele!

       - Por quê? Tenho tanto gosto em que fique com ele! Você foi feita para usar vestidos como esse. Tem um porte de rainha. O vestido ganhou vida e classe em você.

       Ela corou de satisfação. Seu maior desejo era ter classe. Vivia lendo livros a respeito. Adorava a arte, a beleza e os lugares requintados.

       - Obrigada por tudo quanto tem feito por mim. Meu irmão pediu demissão do emprego e já tem outro muito melhor. Estou muito feliz. Não imagina o favor que nos fez! Nelsinho pretende procurá-lo para agradecer.

       - Não precisa. Prefiro que ninguém saiba. Quando um político presta algum serviço, as pessoas julgam que está fazendo isso para arranjar votos. Não gosto dessa postura. Faço isso porque gosto.

       - Essa é a verdadeira caridade.

       Uma vez no apartamento, ele a rodeou de carinho, fazendo-a entrever um mundo onde ela sempre desejara mas nunca conseguira entrar. Ela estava fascinada. Na penumbra, dançaram, jantaram e quando depois ele a beijou delicadamente, ela não se pode furtar ao prazer de sentir-se querida por um homem fino, bonito, agradável e apaixonado. Esqueceu quem ele era, seus compromissos familiares e sociais, para lembrar-se apenas de que era um homem inteligente, maduro, famoso, rico, bonito, cheio de classe, que a amava e desejava estar com ela.

       Antônio, inebriado, deixou-se envolver na aventura. Apaixonou-se perdidamente. Passaram a encontrar-se pelo menos uma vez por semana. Mas isso não era suficiente para ele. Conversou com o chefe dela e pediu-lhe para ceder a secretária. Assim, levou Alicia para trabalhar com ele diretamente. Como sua secretária, ela cuidava de tudo, acompanhando-o onde quer que fosse. Quando estavam sós, davam vazão a seus sentimentos.

       Antônio remoçara, melhorara o humor, sentia-se revigorado, feliz. Alicia deixara-se envolver por esse amor, sentindo-se valorizada e amada. Não se detinha para pensar aonde a levaria aquela aventura. Ao contrário, procurava deliberadamente esquecer o futuro.

       Ele nunca lhe prometera deixar a família para assumir seu relacionamento com ela. Ao contrário, fazia-a perceber o quanto a família era importante para ele, para sua carreira. Por outro lado, cercava-a de amor, garantindo que a amava como nunca amara outra mulher, e ela se conformava com a situação, compreendendo sua maneira de ser. Consolava-a a certeza de que ele passava mais tempo com ela do que com a família.

       Apesar do relacionamento íntimo, Alicia sabia ser uma secretária eficiente e não misturava as coisas. Antônio aprendeu a admirar sua postura profissional, discreta, e a cada dia mais e mais a amava.

       Ele estava feliz e realizado. Só lhe faltava agora conseguir seu mandato de senador para aumentar ainda mais seu poder. Ele adorava poder opinar nos problemas da nação, ser procurado pelos jornalistas para falar sobre este ou aquele assunto, as reuniões do partido, em que era tido em alto conceito.

       Despreocupado e satisfeito, Antônio acomodou-se melhor na poltrona e, encontrando um artigo interessante na revista, concentrou a atenção na leitura.

      

Capítulo 4

       Sentado em frente à sua escrivaninha, Daniel examinava atentamente alguns documentos quando Rubinho entreabriu a porta do escritório dizendo:

       - Está muito ocupado?

       - Não. Entre.

       Rubinho aproximou-se dizendo com entusiasmo:

       - Lembra-se daquele caso que lhe contei antes ainda de você vir trabalhar comigo?

       - Vagamente.

       - Do herdeiro que foi usurpado.

       - Lembro. Ele se resolveu?

       - Resolveu. Está sentado em minha sala.

       - E aí?

       - Bom, trata-se de um caso difícil e ele quer que eu aceite. Estou pensando.

       - Por quê? Não é isso o que você queria? Pode ficar famoso!

       - Vai ser trabalhoso. Você quer pegar esse caso comigo?

       - Eu? Você vai precisar de pessoa mais experiente. Não sei se estou preparado.

       - Acho que está. Faz mais de um ano que está trabalhando, e tem se saído bem. Ganhou várias causas e tem aumentado o número de seus clientes.

       - Sei, mas, ainda assim, um caso como esse! Já imaginou os grandes advogados que estarão do outro lado? Você acha que teremos chance de vencê-los?

       - Foi isso mesmo que falei para o cliente. Mas ele argumentou que não confia em nenhum desses figurões. Garante que eles se unem para "depenar" os clientes e dividem tudo!

       Daniel riu gostosamente:

       - A classe está ficando desmoralizada!

       - Ele disse que prefere advogados moços e bem intencionados. Tem observado nosso trabalho e quer colocar sua causa em nossas mãos.

       Daniel cocou a cabeça pensativo, depois respondeu:

       - Se ele pensa assim, podemos tentar. Se conseguirmos vencer, teremos credibilidade.

       - Se perdermos, seremos execrados! Daniel suspirou e Rubens continuou:

       - Só vou aceitar se você concordar em dividir comigo essa responsabilidade. Juntos teremos mais chance de ganhar.

       - Antes de decidir, quero ouvir o que ele tem a dizer. Se foi realmente logrado e como. Estudar se ele tem mesmo as provas que diz ter.

       - Foi o que eu quis fazer. Ele, porém, alega que só vai trazer as provas depois que nós aceitarmos o caso. Não quer dar mais detalhes antes de saber se vamos trabalhar para ele.

       - Estranho. Por que tanto segredo? Se não confia em nós, por que não procura outros?

       - É que há nomes conhecidos envolvidos e ele só vai mencioná-los depois de saber nossa resposta. Venha, desejo apresentá-lo a você.

       Curioso, Daniel acompanhou o amigo. Sentado em uma poltrona em frente à escrivaninha de Rubens estava um rapaz alto, moreno, de uns vinte e poucos anos, cabelos escuros, rosto coberto por uma barba. Ele se levantou assim que se aproximaram, fixando neles seus olhos castanhos e brilhantes.

       - Este é meu sócio Dr. Daniel.

       Daniel apertou a mão que ele lhe estendia. Notou que, apesar de limpo, suas roupas eram gastas e de má qualidade.

       - Muito prazer - disse Daniel. - Sente-se, por favor. Enquanto Rubens sentava-se do outro lado da mesa, Daniel acomodou-se ao lado do visitante.

       - Daniel deseja conhecê-lo antes de decidir se aceita o caso. Ele olhou firme nos olhos de Daniel dizendo:

       - O que quer saber?

       - Do caso. Gostaria que me contasse tudo.

       - Já disse ao Dr. Rubens o que podia dizer. O resto só vou contar se aceitarem.

       - Gostaria que repetisse o que já relatou a meu sócio. O rapaz começou então sua narrativa:

       - Não conheci meus pais. Fui criado em um colégio interno na Inglaterra. Quando perguntava sobre minha família, diziam-me que meus pais haviam morrido e que uma senhora generosa pagava minhas despesas mandando o necessário duas vezes por ano. Aos dezoito anos, fui chamado pela diretora. Ela me perguntou que carreira eu queria seguir, se pretendia ir para a universidade. Eu pretendia estudar leis, fazer Direito, mas não sabia se iria ter condições financeiras. Ela me garantiu que a pessoa que estava me sustentando escrevera-lhe prometendo aumentar minha mesada para que eu pudesse deixar o colégio e ir para a universidade.

       - Quem é essa senhora? Você sabe o nome? - perguntou Daniel.

       - Agora sei, mas naquele tempo, não. Uma das condições para que ela continuasse me mandando o dinheiro era que eu não soubesse sua identidade.

       - O que mais ela queria? - tornou Daniel com interesse.

       - Que eu não voltasse ao Brasil.

       - Que estranho! - considerou Daniel.

       - Bem, eu gostava de estudar. Queria ser alguém na vida, não poderia perder aquela oportunidade. Cursar uma universidade exigia tempo integral e eu precisava daquele dinheiro. Aceitei e fui para a universidade. Duas vezes por ano eu ia ao antigo colégio e a diretora me dava o dinheiro. Durante quase três anos tudo correu bem, até que um dia, quando fui receber o dinheiro, a diretora me disse que não havia chegado nada. Nos dias que se seguiram voltei lá diversas vezes, mas o dinheiro não veio. Minha situação financeira começou a se complicar. Nas horas vagas eu costumava dar aulas para ganhar algum dinheiro. Ensinava inglês para estudantes brasileiros e português para alguns ingleses.

       - Quantos anos tinha quando foi para a Inglaterra? - perguntou Rubens.

       - Quatro anos.

       - Não se recorda de nada daquele tempo? - interveio Daniel.

       - Vagamente. Apenas um rosto jovem e bonito sorrindo para mim e beijando-me, um quarto claro e grande, um cachorro de pelúcia. E só. Eu era muito pequeno. - Fez ligeira pausa e continuou: - Então, fui forçado a deixar a universidade. Não pude concluir os estudos. Arranjei um emprego e de vez em quando voltava ao colégio em busca de notícias. Mas não havia nada. Trabalhei, juntei algum dinheiro e por algumas coisas que me aconteceram e que agora não vêm ao caso, resolvi voltar ao Brasil e tentar descobrir o mistério de minha origem. Mrs. Morgan, a diretora do colégio, afirmava que não havia nada de misterioso. Que eu devia dar graças a Deus por haver encontrado uma senhora caridosa que me dera condições de receber uma boa educação. Que eu já era um homem e que ela não tinha nenhuma obrigação de continuar me sustentando.

       Mas eu fiquei intrigado. Por que ela interrompera as remessas de dinheiro sem avisar ou dizer nada? Desembarquei no Brasil em 1948, portanto há três anos. Desde então tenho investigado e o que descobri mostrou-me que eu estava certo. Nasci em uma importante família do Rio de Janeiro e tive meus direitos usurpados. Nesses três anos reuni as provas e agora pretendo entrar na justiça e reclamar o que me pertence.

       - Seu nome é Alberto Martins, não? - perguntou Daniel.

       - Esse é o nome que consta na certidão de nascimento que está comigo, mas esse não é meu verdadeiro nome.

       - Tem certeza? O que está dizendo é muito sério. Se você foi registrado com esse nome, será difícil provar o contrário.

       - Não se preocupe com isso. Mudarão de idéia quando souberem o resto.

       - Sua história é muito interessante. Se o Dr. Rubens aceitar, eu concordo. Com uma condição...

       - Qual?

       - Você terá que trazer todas as provas que tem. Trata-se de um caso difícil e precisamos estudá-lo melhor antes de resolver se é legalmente viável. Só então poderemos dizer se aceitamos ou não. Seja qual for nossa decisão, seremos discretos.

       - Trarei todas as provas que possuo.

       - Se elas forem convincentes, de minha parte aceitarei.

       - Eu também - disse Rubens satisfeito.

       - Nesse caso vamos discutir as condições. Minha situação financeira não é muito boa. Tenho dado aulas em alguns colégios, mas tenho me ocupado com minhas pesquisas e por isso não ganho muito. Agora pretendo procurar um emprego fixo em alguma empresa americana e tenho certeza de que vou ganhar melhor. Entretanto, mesmo assim não poderei de pronto pagar muito pelos honorários.

       - Vamos ter despesas. Acha que conseguirá pagá-las? - inquiriu Rubens.

       - Acredito que sim.

       - Nós trabalhamos para nosso sustento. Não contamos com o dinheiro da família - esclareceu Daniel. - Não pode contar muito com nosso dinheiro.

       - Sei tudo a respeito de vocês dois. Tenho certeza de que não lhes darei prejuízo. Serei generoso no final, quando vencermos. Aí então poderei recompensá-los pela dedicação e pelo trabalho.

       - Precisamos de seus dados pessoais. Amanhã à tarde gostaria que nos trouxesse todos os documentos relativos ao caso. Então nos contará o resto da história em todos os detalhes - Disse Rubens.

       - Amanhã preciso me ausentar do Rio, mas dentro de dois dias voltarei e esclareceremos tudo.

       Ele se levantou, despediu-se e saiu.

       - E então? - indagou Rubens. - O que achou dele?

       - Uma pessoa interessante. Fala com tanta certeza! Espero que tenha mesmo as provas que diz ter.

       - Acho que tem. Mas se acharmos que essas provas são insuficientes, recusaremos.

       - Combinado.

       Daniel foi para sua sala, voltou aos papéis que examinava, mas de vez em quando a figura de Alberto voltava à sua mente. Que história curiosa! Quem seria a mulher misteriosa que lhe mandara o dinheiro? Por que não queria que ele voltasse ao Brasil? Teria sido ela quem lhe roubara a identidade e a fortuna? Por que ela teria suspendido a mesada?

       Daniel meneou a cabeça. Dali a dois dias teria a resposta a todas essas indagações. Era inútil fantasiar sobre o assunto. Mas, apesar de pensar assim, a figura de Alberto e sua curiosa história não o deixavam.

       À noite, tentou esquecer o caso. Estava com vontade de alugar um apartamento e se mudar. Tinha certeza de que quando fizesse isso seus pais suspenderiam a mesada. Apesar de tudo, eles continuavam dando-lhe dinheiro e tentando interessá-lo em política. O pai oferecera-lhe diversos cargos públicos, que ele recusara. Gostava de seu pequeno escritório e as vitórias que conseguira em sua carreira, mesmo pequenas, deram-lhe imensa satisfação. Fizera um trabalho limpo e dentro das normas da justiça. Era a primeira vez que tinha oportunidade de fazer alguma coisa sem a ajuda da família. Sentia-se digno e capaz. Gostava dessa sensação.

       Deitou-se fazendo mentalmente as contas para saber se já tinha condições de viver sem a mesada e morar só. Suspirou resignado. Talvez ainda tivesse que esperar mais um pouco. Tinha a certeza de que haveria de conseguir.

       Adormeceu. Sonhou. Viu-se novamente naquela sala que lhe parecia um tribunal. Sentiu uma sensação desagradável e quis fugir. Mas não conseguiu sair do lugar. A voz acusadora vibrava na sala:

       - Você foi o culpado de tudo. Assassino! Ladrão! Tirou tudo quanto eu possuía.

       Daniel assustou-se. Onde tinha ouvido aquela voz? Olhou tentando descobrir quem o acusava e reconheceu Alberto. Um pouco modificado, mais magro, mais baixo, mas os olhos eram os mesmos. A voz era a mesma. Apavorado, ele procurou fugir. Fez tremendo esforço e acordou, corpo coberto de suor.

       Levantou-se de um salto e foi à cozinha tomar um copo de água. Tentou se acalmar. Que loucura! Certamente ficara impressionado com a história de Alberto e acabara provocando aquele pesadelo. Assustado, lembrou-se do outro pesadelo e reconheceu que seu acusador era a mesma pessoa. Como pudera sonhar com Alberto antes de conhecê-lo?

       Acendeu o abajur, deitou-se e respirou fundo. Ele não era impressionável. Por que a história de Alberto mexera tanto com ele? Arrependeu-se de haver concordado em aceitar aquela causa. E se seu sonho fosse um aviso para não aceitar?

       Sorriu tentando ignorar a preocupação. Que bobagem! Ele estava fantasiando. Um sonho não significava nada. Não iria dar força a essa ilusão. Iria dormir e esquecer tudo. Mas apesar da boa resolução ele não apagou a luz do abajur e custou muito a adormecer.

       Dois dias depois, sentado diante de Alberto, olhando sua fisionomia, lembrou-se do sonho. Sorriu pensando o quanto havia fantasiado. Sua figura agora parecia-lhe inofensiva.

       - Conte o resto da história e vamos examinar as provas que possui - propôs Rubens.

       Alberto colocou a pasta sobre a mesa e abriu-a. Os dois aguardavam com interesse que ele falasse. Pegando alguns recortes de jornal, ele comentou:

       - Vejam essa notícia. "Faleceu esta manhã em um acidente de carro o menino Marcelo, neto do Dr. Antônio Camargo de Melo. O enterro será amanhã às 16 horas."

       - O que isso significa? - indagou Daniel interessado.

       - Há vários jornais da época contando o drama do Dr. Camargo de Melo. Seu único filho, pai de Marcelo, depois que o menino nasceu sofreu uma infecção que o deixou estéril. Ele não podia ter mais filhos. Com a morte do neto, o Dr. Camargo perdeu o único herdeiro, para o qual sonhava deixar toda a sua fortuna. Seu filho Cláudio não se interessara pelos negócios e ele sonhava ensinar o neto a cuidar de tudo e manter seu patrimônio. Ficou muito abatido com a perda do menino e desmotivado para o trabalho. Sua saúde começou a declinar e ele morreu algum tempo depois. Cláudio foi obrigado a assumir o controle de tudo. Tanto ele quanto sua mulher Carolina deixaram o dinheiro nas mãos de um procurador até que em uma viagem pela Europa eles morreram em um acidente de barco. Foi então que o Dr. José Luís Camargo de Melo herdou toda a fortuna do tio e assumiu a direção de tudo. Médico, sem muito sucesso na profissão, desfrutava de conforto mas não era rico. Ambicioso, vaidoso, freqüentava a mais fina sociedade, pertencia aos clubes da moda. Sua mulher, Maria Júlia, estava sempre em evidência, pela classe com que se apresentava e pelas obras de caridade de que fazia questão de participar. Eles tiveram dois filhos, Laura e Gabriel.

       - Eu os conheço - disse Daniel, admirado. Alberto olhou-o firme:

       - São pessoas de sua amizade?

       - O Dr. José Luís freqüenta a minha casa. Ê amigo de meu pai. Tem apoiado na política.

       - Antes de continuar, preciso saber se você teria coragem de confrontá-los na justiça.

       Daniel sustentou seu olhar e respondeu:

       - Se você tiver razão e a justiça estiver do seu lado, enfrento qualquer um.

       - Muito bem. Vocês são da sociedade. Esse ponto é fundamental. Nenhum advogado famoso ficaria do meu lado numa causa como esta. Eles não teriam coragem para brigar com gente que está no alto.

       - E o que o fez pensar que nós o faremos? Nossas famílias são desse meio - interveio Rubens.

       - Foi o fato de vocês desafiarem tudo e abrirem este escritório.

       - Pelo jeito, está bem informado a nosso respeito - disse Daniel.

       - Estou. Durante algum tempo segui todos os seus passos. Sei tudo sobre vocês e suas famílias.

       Daniel remexeu-se na cadeira. Não lhe agradava ver invadida sua privacidade.

       - Você exagerou! - disse.

       - Eu precisava saber em quem confiar. Por isso estou aqui.

       - Continue - pediu Rubens. - O que essas pessoas têm a ver com você?

       - Quando voltei ao Brasil, a única coisa que eu sabia era que o dinheiro era enviado do Rio de Janeiro. Logo a mulher que me protegia deveria morar aqui. Veja, esta é minha certidão de nascimento. Foi tirada em Petrópolis no ano de 1927. Aí diz que sou filho de Maria Martins e pai ignorado. Fui a Petrópolis na tentativa de encontrar alguma pista. No cartório, a certidão original era igual à minha. Eu tinha os nomes das duas testemunhas que assinaram o documento na ocasião. Mas depois de tantos anos eu teria chance de encontrá-los? Saí de lá desanimado, sem saber o que fazer. Voltei ao Rio e tratei de arranjar um emprego, porque eu precisava me manter. Assim que me instalei em uma pensão, escrevi para a diretora do colégio em Londres, mandando meu endereço. Algum tempo depois recebi um pacote contendo uma carta dela. Está aqui, podem ler, sei que sabem inglês.

       Daniel pegou o papel dizendo:

       - Eu leio. "Querido Alberto. Estou muito doente, sei que vou morrer em breve. Não desejo levar este segredo comigo. Ultimamente tenho sonhado muito com você e com uma mulher que me pede insistentemente que lhe escreva e fale tudo que sei. Resolvi contar. Uma tarde fui procurada no colégio por uma mulher jovem e bonita, vestida elegantemente, que me contou uma triste história. Um menino de quatro anos, filho de uma grande amiga sua, corria sério perigo de vida no Brasil, e sua mãe, desejosa de salvá-lo, havia pedido a ela que o levasse a um colégio na Inglaterra. O sigilo deveria ser absoluto e nem o menino deveria saber sua origem. Condoída, ela o trouxera e pedira minha ajuda. Preocupada com o problema, aceitei tomar conta de você e prometi guardar segredo. Quando ela abriu a bolsa para pegar o dinheiro, vi o nome de Maria Júlia escrito em um envelope. E só o que sei. Cumpri minha parte no acordo, da melhor forma. Mas agora quero me libertar desse peso Estou lhe enviando as lembranças que vieram com você e que guardei com carinho. Espero que compreenda minha posição e reze por mim. De sua sempre amiga Gabrielle Morgan."

       - O que mais havia no pacote? - indagou Rubens.

       - Algumas roupas de criança que eu imagino que sejam as minhas quando cheguei lá, uma corrente de ouro com uma medalha, esta aqui.

       Rubens apanhou-a:

       - Veja: tem iniciais atrás. M.C.M.

       - Marcelo Camargo de Melo - disse Alberto com certa emoção.

       - O neto do Dr. Camargo! Mas ele morreu! - disse Daniel.

       - É o que todos pensam. Seu corpo ficou mutilado no acidente e foi velado com caixão fechado. A ama que estava com ele no carro não se machucou.

       - A família certamente deve ter feito o reconhecimento do corpo - disse Daniel.

       - Eles ficaram chocados. Foi a ama quem fez o reconhecimento. Tenho certeza de que aquele menino que sofreu o acidente não era Marcelo.

       - Continue - pediu Rubens

       - As iniciais no verso da medalha me intrigaram. Ficou claro para mim que meu nome verdadeiro não era o que eu estava usando. Depois, as roupas eram muito finas, a jovem senhora que me levara era de muita classe, o colégio era um dos melhores e seu preço só acessível a pessoas de posse. Eu não podia ser filho de uma Maria Martins, de pai ignorado.

       Alberto fez ligeira pausa e continuou:

       - Comecei a investigar famílias da alta sociedade em busca de Maria Júlia. Me detive na família do Dr. José Luís Camargo porque tudo coincidia. Sua esposa se chama Maria Júlia, eles haviam herdado a fortuna por causa da morte de Marcelo, cujas iniciais eram as da medalha, e havia ainda a idade. Ele havia nascido no mesmo ano que eu. Era a única pista que eu tinha cujos dados se ajustavam aos detalhes do caso. Mas a morte do menino me intrigava. Se ele havia morrido, eu não poderia ser ele. Investiguei, procurei encontrar outras pistas, mas foi inútil. Tudo me levava sempre de volta aos Camargo. Dediquei-me a investigar o acidente que vitimara o menino e descobri certos detalhes que aumentaram minha suspeita. Além de o caixão haver sido lacrado no velório, a ama estava só em casa com o menino quando saiu naquele dia. Eles estavam passando alguns dias em Petrópolis e os pais dele haviam vindo ao Rio para uma recepção e deveriam voltar no dia seguinte. O carro perdeu a direção e bateu no barranco, tombando. O menino foi jogado fora do carro, sofreu pancada violenta e morreu.

       - E o motorista?

       - Não sofreu nada, nem a ama. O rosto do menino bateu em uma rocha e ficou irreconhecível.

       - Uma tragédia! - disse Daniel.

       - É verdade. Só que o menino que estava naquele carro não era o neto do Dr. Camargo.

       - Não?

       - Não. Depois do acidente a ama e o motorista se despediram do emprego dizendo não suportar a tragédia. Tentei localizá-los. Eles eram agora minha única pista para chegar à verdade. Depois de tantos anos fica difícil procurar pessoas, principalmente sem saber o nome completo. Levei tempo para encontrar uma pista da ama. Ela se chama Eleutéria da Silva e descobri que havia se mudado para São Paulo, pouco depois da morte do menino. Disposto a saber a verdade, fui a São Paulo e consegui localizá-la. Havia se casado e morava em um palacete no Jardim América. Onde teria conseguido tanto dinheiro? Ela era uma moça pobre.

       - Vai ver, casou com homem rico - disse Rubens.

       - Não. Quem comprou o palacete foi ela pouco depois de haver chegado a São Paulo. Só se casou anos depois. Ficou claro para mim que ela deveria ter recebido dinheiro e eu suspeitava que fora por sua participação no caso do menino.

       - De fato - disse Rubens -, qualquer um suspeitaria.

       - Eu suspeitava, mas precisava de provas. Tentei conversar com ela, mas recusou-se a receber-me. Disse que não falava com estranhos. Eu tinha que trabalhar no Rio, mas sempre que podia voltava a São Paulo para investigar a vida dela. Descobri que tinha dinheiro. O marido era comerciante, dono de uma loja de tecidos na Vila Mariana. Ele era balconista de uma loja ao casar-se. Fora ela quem comprara a casa de comércio para ele.

       - O dinheiro deve ter corrido solto! - tornou Rubens.

       - Ninguém dá dinheiro por nada! Tentei saber do motorista. Foi difícil mas acabei por descobrir o nome dele. Um conhecido dele me contou que depois do acidente ele também se mudara para São Paulo por causa do desgosto. Decidido a investigar, arranjei um emprego em São Paulo para poder ter mais tempo. Custou, mas acabei encontrando o homem. Estava recolhido em uma casa de velhos vivendo da caridade, doente, amargurado. Seu único filho não ia visitá-lo nem se interessava por sua saúde. Pensei que era minha chance de descobrir tudo. Passei a freqüentar o asilo todos os fins de semana, levando guloseimas para ele e fazendo amizade com os outros. Eles me contaram que Alberico fora rico e perdera todo o dinheiro por causa da bebida. Fora recolhido doente e em estado miserável. Os médicos afirmavam que sua vida estava por um fio.

       - Ele abriu o jogo? - perguntou Daniel.

       - Abriu. Estava solitário e ficou meu amigo. Uma noite de sábado ele estava mal, sofrendo dores e com medo de morrer. Amargurado e choroso, queixava-se da ingratidão do filho. Eu lhe disse:

       - "Eu também fui abandonado. Não conheci meus pais. Vivo sem ninguém."

       - "Que mundo ingrato! Eu estou sendo castigado por meu crime, mas você era criança. Por que o abandonaram?"

       - "Não sei" - respondi.

       - "É triste viver com remorso. E ele que está me matando. Mergulhei na bebida para esquecer, mas nem me destruindo consegui acabar com o peso da culpa!"

       - "Sou seu amigo! Por que não desabafa? Sentir-se-á aliviado."

       - Ele suspirou fundo e decidiu:

       - "Talvez tenha razão. É isso que eu deveria ter feito há mais tempo, enquanto ainda podia remediar as coisas."

       - "Talvez ainda haja tempo."

       - Ele abanou a cabeça desalentado enquanto lágrimas corriam por suas faces.

       - "Estou velho e cansado. Eles morreram, o que posso fazer agora?"

       - "Conte-me tudo. Talvez eu possa ajudá-lo."

       - "Vou desabafar. Há muitos anos eu era motorista de uma família rica e importante. Dr. Camargo. Homem bom e sério, não merecia o que fizeram com ele! Seu sobrinho José Luís foi quem tramou tudo. Um plano que ajudei a executar e que acabou com minha paz. Ele sempre invejara a fortuna do tio e como não conseguia ganhar dinheiro tramou para ficar com ela e conseguiu. Tudo aconteceu em Petrópolis. O Dr. Camargo tinha um neto que era seu herdeiro e seu enlevo. Os pais do menino estavam no Rio e eu ficara para tomar conta da casa, da ama e do pequeno Marcelo naquele fim de semana. Na noite do sábado o Dr. José Luís apareceu na casa com sua mulher, D. Maria Júlia. Disseram que haviam ido visitar uma antiga empregada cujo menino de quatro anos acabava de morrer vítima de uma queda. Ele subira numa janela do sobrado e acabara caindo, havendo tido morte instantânea e tendo ficado irreconhecível."

       - Eu sustinha a respiração e bebia suas palavras com sofreguidão. Finalmente eu iria conhecer a verdade! Ele continuou:

       - "Ele conversou com a ama e comigo e ofereceu-nos uma pequena fortuna, disse que era o dinheiro que sua mulher herdara dos pais. Eleutéria concordou logo; eu hesitei. O que ele queria podia não dar certo. Mas deu."

       - "O que vocês fizeram?" - indaguei sem poder me conter.

       - "Simulamos um acidente de carro e colocamos o corpo do menino morto vestido com as roupas de Marcelo. Ninguém desconfiou. Nem o médico ou o delegado que fez a ocorrência. Deu tudo certo."

       - "E Marcelo, o que foi feito dele?" - indaguei.

       - "D. Maria Júlia me procurou nervosa. Disse que eles pretendiam matá-lo. Pediu-me que ajudasse a salvá-lo. Fizemos um plano. Fingi que concordava com o Dr. José Luís e garanti que faria o serviço. Levei o menino, que ficou escondido em casa de uma conhecida minha, e disse que havia acabado com ele conforme o combinado. D. Maria Júlia levou-o embora e desapareceu. Nunca mais se soube dele. Isso tem me incomodado. Ás vezes penso que podem ter descoberto tudo e tê-lo matado. Não suporto lembrar o rosto do Dr. Camargo e de D. Carolina. Sofreram muito e eu fiquei arrependido. Mas tive medo de dizer a verdade. Eu seria preso e condenado. Antes tivesse feito isso. De que me adiantou a liberdade se não tinha paz? Fiquei preso no remorso e foi muito pior."

       - Nesse momento tirei do bolso a corrente de ouro com a medalha e mostrei:

       - "Conhece isto?"

       - Alberico apanhou a corrente com dedos trêmulos e depois disse assustado:

       - "Onde conseguiu isso? Como está em suas mãos?"

       - Nesse momento não pude mais esconder. Contei-lhe toda a verdade. Ele me abraçou soluçando e pedindo perdão. Naquele instante eu estava mais interessado em conseguir provas do que em culpá-lo. Depois, ele havia salvado minha vida. E finalizei:

       - "Voltei para reclamar o que é meu de direito. Eles enganaram meu avô, roubaram-me o carinho da família. Não descansarei enquanto não desmascará-los."

       - "Quisera poder ajudar! Mas não sei como."

       - "Você não tem nenhum documento, nenhuma prova que eu possa usar na justiça?"

       - "Não. A única coisa é o dinheiro que recebi. Mas eles podem alegar que estou mentindo. Documento eu não tenho. Meu Deus! Se eu pudesse fazer alguma coisa..."

       - "Você pode ir comigo à delegacia, confessar."

       - "Não posso me levantar. Estou muito mal."

       - "Nesse caso vou trazer o delegado aqui."

       - Ele concordou. No dia seguinte procurei a delegacia, mas o delegado não quis ir até o asilo. Não acreditou em nada do que eu disse. Como eu insistisse, aconselhou-me a procurar um escrivão e tomar uma declaração. Foi o que eu fiz. Levei o escrivão do cartório até lá, Alberico contou tudo e ele escreveu. No mesmo dia lavrou a declaração e Alberico assinou. Reconhecemos a firma.

       - Você tem esse documento? - indagou Rubens.

       - Tenho. Tive sorte porque Alberico morreu dois dias depois. Antes consegui que ele me desse mais alguns detalhes. A certidão de nascimento que eu usava pertencia ao menino que fora enterrado como se fosse eu. O nome da mãe que constava lá era verdadeiro. Tentei encontrá-la. Além da ama, que fugia de mim e se negava a me receber, ela com certeza sabia a verdade. Ninguém teria lhe tirado o corpo do filho morto sem que ela concordasse. Voltei a morar no Rio com o propósito de encontrá-la. Procurei-a por toda parte e não a encontrei. Ela desapareceu sem deixar vestígios.

       Ele se calou e Rubens indagou:

       - As provas que você tem são as roupas, a corrente com a medalha e a declaração do motorista?

       - Sim.

       Daniel abanou a cabeça interdito:

       - É pouco para abrirmos um caso como esse.

       - Não acreditam em mim?

       - Não se trata disso - argumentou Daniel. - Sua narrativa foi convincente. Acredito que você seja mesmo o neto do Dr. Camargo. Mas em juízo vamos precisar de mais. Os Camargo são poderosos e respeitados na sociedade. Depois, vão se valer dos melhores advogados para se defender.

       - Está com medo de enfrentá-los? - perguntou Alberto.

       - Não se trata disso - ajuntou Rubens. - Daniel está certo. Se vamos começar essa briga, precisamos encontrar mais provas. Algo que não deixe nenhuma dúvida na justiça. Seria bom se pudéssemos encontrar a mãe do menino. Talvez concordasse em testemunhar.

       - Nem ela ou a ama vão querer fazer isso. Serão arroladas como cúmplices - tornou Daniel.

       - Pensei que, se eu reivindicasse meus direitos na justiça, o próprio juiz convocaria as duas para depor e então vocês poderiam pressioná-las a contar tudo - disse Alberto.

       - Se ao menos o motorista estivesse vivo e pudesse testemunhar! Isso impressionaria o juiz - disse Rubens.

       - Ou a diretora do colégio na Inglaterra. Ela ainda vive? - perguntou Daniel.

       - Não sei. Depois que ela me mandou aquela carta contando o que sabia, eu escrevi várias vezes mas não obtive resposta.

       - Ela também seria uma testemunha importante. Poderia reconhecer D. Maria Júlia como a pessoa que o levou até lá e que mandava dinheiro todos os meses.

       - Vocês não vão desistir agora, vão? Foi Rubens quem respondeu:

       - Não disse isso. Vamos estudar o caso. Talvez possamos investigar um pouco mais, procurar outras provas antes de iniciarmos a ação. Temos que pensar em todas as possibilidades.

       - Está bem. Tenho esperado tanto que mais alguns dias não farão diferença.

       - Nesse meio tempo você nunca procurou falar com D. Maria Júlia?

       - Não. Ela foi cúmplice, não queria que eu voltasse ao Brasil. Se

       soubesse que eu voltei e que estou investigando, ficaria contra mim, poderia prevenir o marido, tornar as coisas mais difíceis.

       - Se você não me contasse tudo, seria difícil acreditar que D. Maria Júlia houvesse ajudado o marido nessa história. Ela é uma mulher muito respeitada na sociedade. Faz muita caridade, promove obras de benemerência, é tida como uma verdadeira dama.

       Alberto riu com ironia:

       - Para vocês verem como as aparências enganam. Quando o dinheiro está em jogo, as pessoas fazem qualquer negócio. Passam por cima de qualquer sentimento.

       - Não vamos generalizar - disse Daniel. Alberto levantou-se.

       - Bom, já vou indo. Têm meu telefone. Qualquer coisa, avisem-me. Senão, dentro de uma semana virei saber o que resolveram.

       Ele se despediu e saiu. Rubens voltou-se para Daniel:

       - E então? - indagou.

       - É um caso difícil. Talvez até perdido. Não sei se vale a pena.

       - Será arriscado. E também já percebi que você não simpatiza muito com Alberto.

       - Não sei o que é, mas alguma coisa nele me incomoda.

       - Acha que está mentindo?

       - Não. Isso, não. Sua história me parece verdadeira. Mas quando ele me olha, parece que seus olhos me examinam e me sinto inquieto. É uma sensação desagradável que não posso explicar.

       - Se acha que não devemos aceitar o caso, encerramos por aqui. Para obtermos êxito precisamos acreditar no que estamos fazendo, sentir que estamos defendendo uma causa justa. Sem isso, será inútil.

       - Tem razão. Vou pensar e amanhã darei uma resposta. E você, o que acha. Gostaria de tentar?

       - O desafio me estimula. Depois, eu acredito que esta seja uma causa justa. Ele foi espoliado não só da fortuna como do convívio da família. Cresceu entre pessoas estranhas, longe de seu país. Reparou como seus olhos brilhavam quando se referiu à ausência da família? Ele se sentiu muito só e abandonado o tempo todo. É isso que o incomoda.

       - É. Pode ser. Talvez você esteja certo. Amanhã voltaremos ao assunto.

       Daniel voltou para sua sala, arrumou alguns papéis e foi para casa. Por mais que tentasse desviar a atenção do caso de Alberto, não conseguia. Seu rosto forte, seus olhos brilhantes e argutos, sua dramática história não lhe saíam do pensamento.

       Por que se impressionara tanto com ele? Não era uma pessoa impressionável. Estaria com medo de enfrentar uma briga com pessoas de sua classe e que se relacionavam bem com seus pais? Sabia que a hora em que desse entrada na justiça daquela ação eles o pressionariam de todas as formas. Estaria agindo certo perturbando o sossego deles?

       Ser independente era uma coisa, mas irritá-los era outra. Ele respeitava os seus e não desejava levar-lhes problemas. Por outro lado, se pretendia exercer a justiça, teria que deixar de lado os interesses pessoais e defender seu cliente a qualquer custo.

       Era uma decisão difícil. Ao mesmo tempo que se preocupava com os problemas que criaria dentro da própria família, sentia que era uma oportunidade de trabalhar em favor dos princípios de decência que sempre defendera. A hipocrisia, os jogos excusos, o abuso do poder incomodavam-no. Gostava das coisas verdadeiras, da dignidade e da justiça.

       Sob esse aspecto, o caso de Alberto era precioso. Mas a justiça aceitaria as provas de que dispunham? Iriam mexer com pessoas de alto nível, muito bem escoradas financeiramente e com muito poder. Mexer com elas era desafiar uma estrutura que não sabiam aonde os levaria.

       Todos esses pensamentos passavam pela cabeça de Daniel, e ele não se decidia. Talvez fosse melhor recusar o caso. Eles estavam no começo de carreira. Não dispunham ainda de credibilidade para tentar logo um caso desses. Não seria muita pretensão? É, o melhor seria recusar o caso.

       Finalmente decidiu. No dia seguinte diria que não. Se Rubinho quisesse procurar outro advogado e tentar, tudo bem. Ele não se achava capacitado para assumir esse trabalho.

       A decisão diminuiu a tensão e finalmente Daniel deitou-se e conseguiu adormecer.

      

      Capítulo 5

       Daniel dormiu e sonhou. Estava em uma casa solarenga, sentado atrás de uma escrivaninha escura, toda lavrada e com enfeites de metal dourado. A sala ricamente adornada, decorada de maneira sóbria, demonstrava o bom gosto de seu dono; as peças de arte caprichosamente colocadas.

       Ele se via um pouco diferente do que era, mais velho, roupas do século passado, porém sentia-se muito à vontade nessa sala, que era sua casa. Uma jovem senhora entrou e ele se levantou educadamente.

       - Eurico, precisamos conversar - disse ela aflita.

       Era uma mulher de pouco mais de trinta anos, usando um lindo vestido cor de pérola, cabelos castanho-dourados presos em um coque delicado sobre a nuca. Seus olhos cor de mel refletiam preocupação e sua boca bem-feita e carnuda estava trêmula.

       - Tudo que podia dizer eu já disse! Você sabe que nunca volto atrás. Está decidido e pronto!

       O rosto dela se contraiu ainda mais. Aproximou-se dizendo:

       - Você não pode ser tão duro. Precisa compreender. Não pode mandá-lo embora dessa forma!

       - Sei o que estou fazendo! Não posso tolerar o que ele fez! Você está proibida de voltar ao assunto!

       Ela não conteve o pranto. Ele prosseguiu:

       - Você está se excedendo. Não posso tolerar que me desobedeça. Não me obrigue a tomar uma atitude mais drástica.

       Ela levantou a cabeça e seus olhos estavam cheios de rancor quando disse com uma voz que a raiva modificava:

       - Você ainda vai se arrepender do que está fazendo agora. Então será muito tarde! Quererá voltar atrás e não poderá! Esse será seu castigo! Eu o odeio!

       Daniel sentiu-se angustiado. A cena desapareceu, mas as palavras dela continuaram vibrando dentro de sua cabeça enquanto ele vagava por um lugar escuro em meio a denso nevoeiro. Sentia-se perdido, desesperado, sem saber como se libertar da tristeza que estava sentindo.

       De repente o rosto de Alberto surgiu à sua frente, aflito e rancoroso. Ele recuou assustado.

       - Assassino! Assassino! - disse ele.

       Daniel passou a mão diante dos olhos como para apagar aquela visão terrível. Queria gritar que era inocente, mas não conseguiu emitir som algum. Desesperado, pensou em Deus. Era um pesadelo e ele precisava de ajuda para sair dele. Rezou e no mesmo instante a cena se modificou. Viu-se em um jardim florido e uma brisa suave o envolveu causando-lhe grande bem-estar.

       Respirou gostosamente aquela brisa leve e perfumada, sentindo-se aliviado. Foi quando ouviu uma voz de mulher dizer com carinho:

       - Por que quer recusar a oportunidade que lutou tanto para conseguir? Aceite o caso de Alberto. Aceite o caso de Alberto.

       Daniel estremeceu e acordou. As palavras dela ainda estavam soando em seus ouvidos! Respirou fundo e sentou-se na cama. O relógio marcava cinco horas. Estava escuro ainda. Passou a mão pelos cabelos, pensativo.

       Aquele sonho parecia verdade! Que coisa estranha! Embora não fosse dado a superstições, ficou impressionado. Considerou que era apenas um sonho, tentou ignorá-lo, porém quanto mais tentava mais se sentia envolvido nele. O que estaria acontecendo? Por que tanta preocupação com Alberto? Ele era um desconhecido. Seria um predestinado? Aquele sonho teria sido uma forma de fazê-lo aceitar aquele caso? Não estaria sendo ridículo, impressionando-se demais por um simples pesadelo?

       Levantou-se, foi até a cozinha, tomou um copo de água e voltou para a cama. Estirou-se no leito, tentou dormir, mas foi inútil. Quando se lembrava do sonho, sentia um aperto no peito que não sabia explicar. As palavras que ouvira antes de acordar voltavam vivas em sua memória.

       - Por que quer recusar a oportunidade que lutou tanto para conseguir? Aceite o caso de Alberto.

       Durante a vida inteira ele se posicionara como uma pessoa contrária aos abusos e artimanhas dos desonestos. Estudara leis por causa disso. Seria a isso que aquela mulher se referia? Teria esse sonho o objetivo de lhe cobrar coerência e dignidade? Reconhecia que ficara com medo de enfrentar a sociedade e os poderosos que alardeava desejar vencer. Teria sido por medo que decidira recusar o caso? Sempre criticara os meios que seu pai usava para subir na carreira política, os conchavos e as barganhas. Estava com medo de enfrentar tudo isso?

       Se se acovardasse na hora de assumir uma atitude de acordo com seus ideais, estaria se nivelando com tudo aquilo que desprezava. Teria coragem de levar sua carreira para a frente depois disso?

       O caso de Alberto seria o preço que teria que pagar para conquistar sua dignidade diante dos casos que tomara conhecimento sem poder fazer nada durante a vida inteira?

       Foi naquele instante que Daniel percebeu que não podia evitar. Teria que aceitar aquele caso e enfrentar todas as conseqüências. Só assim poderia provar para si mesmo que não compartilhava com as coisas erradas, que havia outros caminhos além daqueles. Em sua casa era comum seus pais se referirem à corrupção como um mal do qual não se podia fazer nada sem ele. Diziam-se vítimas do sistema sem o qual não poderiam participar da vida pública.

       Daniel pensava diferente. Estava na hora de provar que sua teoria tinha fundamento.

       Por isso, quando chegou ao escritório procurou Rubens, concordando em aceitar o caso.

       - Ainda bem que você resolveu. Não sei explicar por quê, mas desde o começo senti que não podíamos recusar. Você pode rir de mim, mas há qualquer coisa no ar, não sei o que é, que me diz que precisamos cuidar desse caso.

       Daniel olhou-o admirado.

       - Você também? Pensei que estivesse acontecendo isso só comigo.

       - Por quê?

       - Acho que o caso dele me impressionou além da conta. Talvez porque seja meu primeiro caso importante, ou que vai mexer com gente de nossa classe social, amigos de nossas famílias.

       - Será só por isso? Você me pareceu determinado a sair do convencional e fazer um trabalho honesto.

       - E estou. Entretanto, tenho tido alguns pesadelos, sempre com o rosto de Alberto, como se eu fosse o réu. Ele me acusando. Isso não tem razão de ser, por isso acredito que me deixei impressionar por ele mais do que deveria.

       Rubens olhou-o sério por alguns instantes. Depois considerou:

       - É estranho mesmo. Eu acredito que os sonhos tenham uma razão de ser, uma explicação lógica.

       - Lógica como? Sabe que antes de conhecer Alberto eu sonhei com ele? Não parece uma coisa impossível? Pois foi o que aconteceu.

       Rubens interessou-se.

       - Tem certeza de que era ele mesmo? Não seria alguém parecido?

       Daniel sacudiu a cabeça negativamente:

       - Tenho. Era ele. Acusando-me. Eu estava em um tribunal e ele me acusando. Não é uma loucura? Acho que é por causa disso que não sinto muita simpatia por ele nem queria aceitar o caso.

       - E estranho mesmo. Teria conhecido Alberto em outras vidas?

       - Outras vidas? Como assim?

       - Nunca ouviu falar era reencarnação? Que nós já vivemos outras vidas aqui na Terra?

       - Já. Mas daí a acreditar vai muita distância.

       - Bom, essa é a única forma de explicar com lógica que você houvesse sonhado com ele antes de conhecê-lo.

       - Você acredita mesmo nessa possibilidade?

       - Bem, eu não sou estudioso do assunto. Mas sei de pessoas sérias e de responsabilidade que se dedicam a essas experiências. Elas afirmam que é verdade. Agora, em seu caso pode haver outra explicação?

       - Não sei. Agora não me ocorre nada. Acho que fiquei impressionado, só isso.

       - E mesmo não o conhecendo sonhou com ele, do jeito que ele é? Não acha que é demais?

       - Acho. Tem razão. Mas a reencarnação me parece alguma coisa ainda mais fantasiosa.

       - Por quê? Eu acho até muito natural. Para mim é a forma de conciliar a bondade de Deus com os problemas do dia-a-dia. Você sabe, crianças que nascem doentes, com defeitos físicos, a desigualdade social, etc. Os reencarnacionistas explicam que elas tiveram atitudes negativas em outras vidas, lesaram seu equilíbrio espiritual, por isso não conseguiram nascer com um corpo saudável. Que nós não nos lembramos do passado para ter maior liberdade nesta vida, mas que os relacionamentos mal resolvidos voltam a nós para nos dar oportunidade de solucionar nossos problemas.

       - Você está querendo dizer que eu teria conhecido Alberto em outra vida?

       - É o que parece.

       - Por que ele me acusa?

       - Não sei. Vocês podem ter tido um relacionamento problemático. Por isso você não se sente muito à vontade com ele.

       Daniel passou a mão pelos cabelos pensativo. O que Rubens dizia parecia-lhe fantástico. Entretanto, apesar disso, algo dentro dele sentia que era plausível.

       - Supondo que essa fantástica hipótese seja verdade, seria aconselhável eu me envolver com ele?

       - Como é que foi o sonho?

       Daniel contou tudo, com todos os detalhes, e terminou: , - Acordei com uma voz de mulher repetindo: "Por que quer recusar a oportunidade que custou tanto a.conseguir? Aceite o caso de Alberto". Sua voz era tão forte que mesmo depois de haver acordado ainda soava em meus ouvidos. Foi depois disso que resolvi aceitar o caso.

       - Fez muito bem. Como dizia Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia". O que aconteceu com você foi muito interessante. Se quiser, poderemos conversar com Julinho. Ele é um estudioso do assunte. Costuma freqüentar algumas sessões espíritas na casa do Dr. Bittencourt Sampaio.

       - Não quero nada com essas coisas. Já estou desafiando a família na profissão. Já pensou se meus pais sabem que estou indo a sessões de espiritismo?

       Rubens deu uma gargalhada.

       - Iriam dizer que estou levando você para o mau caminho. Eu sou a "ovelha negra", lembra-se? Mas eu não me importo. Eles podem dizer o que quiser. Você é quem sabe. Poderemos pelo menos conversar com Julinho. Tenho certeza de que ele vai poder explicar isso muito melhor do que eu.

       - Seja como for, por enquanto não quero mexer nisso. Quanto ao caso de Alberto, por onde devemos começar?

       - Vou fazer a procuração para ele assinar. Depois, vamos estudar melhor as provas que ele tem. Ao mesmo tempo seria bom fazermos algumas pesquisas, tentar conversar com as pessoas envolvidas.

       - Não acho viável procurarmos D. Maria Júlia, pelo menos por enquanto.

       - Não me referi à parte contrária. Antes vou chamar Alberto e dar

       os primeiros passos.

       - Está certo. Vou para minha sala. Qualquer coisa, avise-me.

       Rubens telefonou para Alberto e marcaram uma reunião para a tarde do mesmo dia. Ele foi pontual. O relógio estava marcando catorze horas quando ele entrou no escritório, sobraçando volumoso pacote.

       Reunidos na sala de Rubens, depois de Alberto haver assinado a procuração para que eles cuidassem de seu caso, os três começaram a trabalhar.

       Alberto abriu o pacote com todas as provas que possuía. Os dois advogados examinaram tudo detalhadamente. As peças de roupas com as quais ele fora internado no colégio, seus documentos de identidade, a carta da diretora da escola, a corrente com a medalha na qual havia as iniciais. Depois Rubens aconselhou:

       - Vamos personalizar isso, catalogar tudo e guardar no cofre. São as únicas provas que temos.

       - Tive uma idéia - disse Daniel. - Ocorreu-me que essas roupas são muito finas e de boa qualidade. Se descobríssemos onde foram compradas, talvez conseguíssemos uma boa pista. Um registro qualquer, uma nota sobre quem as comprou.

       - A idéia é boa, eu já havia pensado - interveio Alberto. - Entretanto isso foi há muito tempo. Não consegui descobrir nada.

       - Não custa tentar de novo - disse Daniel. - Não sei por quê, mas algo me diz que devemos tentar.

       Rubens olhou-o surpreendido, mas limitou-se a dizer:

       - Tudo bem. Faremos isso.

       Chamaram a secretária e Rubens disse taxativo:

       - Elza, você vai anotar tudo que ouvir aqui. Mas desde já quero que nos prometa solenemente que não dirá nada a ninguém do que escutar. Esse caso é muito importante e o sigilo tem que ser absoluto.

       - Sim, senhor.

       - Se eu souber que uma palavra deste assunto saiu daqui, você será imediatamente despedida. Estou sendo claro?

       - Sim, senhor.

       - Ainda assim quer ficar? Precisamos muito de sua colaboração, mas, se não quiser, faremos nós mesmos as anotações. Se concordar em ficar, terá que guardar segredo.

       - Dr. Rubens, sou discreta por natureza. Se me permitir colaborar, garanto que não terá nenhum motivo para se arrepender. Sinto-me honrada com sua confiança. Pode contar comigo.

       - Muito bem. Não vai se arrepender de cooperar. Apanhe seu caderno de anotações e volte aqui.

       Quando a viu instalada na sala, pronta para começar, Rubens pediu:

       - Agora, Alberto, você vai contar toda a história novamente, nos mínimos detalhes. Faça devagar, não importa o tempo que vai demorar. Se precisar, continuaremos amanhã. E preciso registrar tudo que se lembrar.

       Ele concordou e começou a contar. Elza era boa estenógrafa e rapidamente ia anotando tudo quanto ele dizia. Fizeram pequeno intervalo de quinze minutos para um café e depois recomeçaram. Eram cinco e meia quando Rubens interveio.

       - Hoje paramos por aqui. Você volta amanhã à tarde, no mesmo

       horário. De manhã Elza vai datilografar tudo e vamos rever o que foi feito e continuar o que falta. Pode ir, Elza.

       Ela se levantou e saiu. Estavam tomando café quando Lanira enfiou a cabeça pela porta. Vendo Alberto, não entrou. Rubens viu-a e foi buscá-la.

       - Entre, Lanira. Nós terminamos por hoje.

       Ela entrou e ele a apresentou a Alberto. Cumprimentaram-se formalmente. Daniel abraçou-a com carinho:

       - Que bom que você veio, Lanira - disse. - Pensei que houvesse esquecido.

       - De forma alguma. Não havíamos combinado?

       - É verdade. Alberto levantou-se:

       - Se não precisam mais de mim, vou embora.

       - Está bem. Amanhã às duas. Ele concordou com a cabeça.

       - Combinado. Tenham uma boa tarde. Muito prazer, senhorita. Curvou-se ligeiramente diante dela e saiu. Lanira acompanhou-o

       com os olhos até que desaparecesse. Daniel inquietou-se:

       - Ainda bem que ele já se foi.

       - Você vai ter que se acostumar com a presença dele. Principalmente no começo, vamos ter que arrancar dele tudo que puder se lembrar.

       Lanira estava absorta e Rubens considerou:

       - Você parece pensativa. Aconteceu alguma coisa? Ela sorriu alegre, depois respondeu:

       - Nada. Por alguns instantes tive a sensação de conhecer aquele homem que estava aqui. Como se chama mesmo?

       - Alberto. É nosso novo cliente-disse Rubens interessado. - Você o conhece de algum lugar?

       Ela hesitou por alguns segundos:

       - Não. Acho que não.

       - Mas você teve a sensação de conhecê-lo - tornou Rubens.

       - Tive. Seu rosto me é muito familiar. Mas não me recordo de havê-lo conhecido. Deve ser parecido com alguém de nossas relações. Essas coisas acontecem.

       Rubens olhou para Daniel e não disse nada. Daniel também não comentou o assunto. Tornou simplesmente:

       - Nós combinamos de tomar um lanche e de ir ao cinema. Há um musical que estamos querendo ver. Você quer vir conosco?

       - Quero, sim. Hoje tomamos uma decisão importante, trabalhamos o dia inteiro. Precisamos mesmo de distração.

       - A sessão começa às oito. Temos bastante tempo. Que tal um lanche na Colombo? - propôs Lanira.

       Os dois concordaram com prazer. Lanira apanhou uma revista enquanto eles ultimavam o trabalho do dia e se arrumavam para o passeio.

       Nos dias que se seguiram eles continuaram tomando as declarações de Alberto, confrontando os dados. Antes de tomar alguma deliberação prática, eles queriam conhecer tudo nos mínimos detalhes, examinar todas as possibilidades, procurar novas pistas que pudessem servir de ponto de partida para as reivindicações que desejavam fazer.

       Todo cuidado era pouco, uma vez que o Dr. Camargo era pessoa influente e certamente se cercaria dos melhores e mais astutos advogados do Rio de Janeiro para questionar a ação.

       Depois que conseguiram de Alberto tudo quanto ele podia se lembrar, os dois passaram a esquematizar um plano de ação.

       - Temos a faca e o queijo na mão para investigar - disse Rubinho a certa altura.

       - Você acha? Não está sendo otimista demais?

       - Não. Estive pensando. Nós somos membros da sociedade. Nossas famílias freqüentam a casa do Dr. Camargo. Até que ponto eles se lembram de fatos que poderiam nos ajudar?

       - Isso até pode ser verdade. Mas como descobrir sem despertar suspeitas? Se eles souberem o que pretendemos, seremos expulsos de casa.

       - Eles não precisam saber. Se passarmos a freqüentar mais as reuniões e a festas, poderemos investigar o passado sem despertar suspeitas. Daniel considerou:

       - Repugna-me esse tipo de coisa. Fico com a impressão de que estou sendo falso, traindo todo mundo...

       - Que nada. As pessoas adoram comentar a vida alheia. Não precisa muito para elas contarem todas as fofocas antigas e modernas. Depois, e para uma boa causa. Não se esqueça de que uma criança indefesa foi espoliada, roubada, impedida de viver com a família. Não importa o que você sente diante de Alberto. Importa que ele foi lesado e tem todo o direito de evocar a justiça. Nós somos instrumentos da lei!

       - Não precisa fazer discurso. Não está ainda diante do juiz.

       Rubinho riu bem-humorado.

       - Sabe de uma coisa? O único juiz que considero impoluto é a nossa consciência.

       - Pensando bem, acho que tem razão.

       - Então concorda?

       - Concordo.

       - Por que não conta tudo a Lanira e pede para nos ajudar nisso? As mulheres têm jeito para essas coisas. Talvez seja mais fácil para ela conseguir as informações.

       - Está bem. Ela anda mesmo louquinha para se envolver com nosso trabalho. Vive me perguntando sobre os casos, as providências que estamos tomando, etc. Vai ficar feliz.

       Colocada a par de tudo, Lanira adorou. Finalmente tinha alguma coisa interessante para fazer nas intermináveis e monótonas festas familiares.

       A partir daquele dia os três passaram a freqüentar todas as reuniões sociais. Tanto Maria Alice quanto Angelina ficaram radiantes com a mudança dos filhos.

       - Parece que eles estão voltando ao bom senso - comentou Angelina em uma reunião em casa de Maria Alice, vendo Rubinho e Daniel conversando animadamente com os convidados.

       - Ainda bem - respondeu Maria Alice satisfeita. - Eu disse que tudo era uma questão de tempo. Logo se cansarão daquele escritoriozinho e estarão atendendo nossos conselhos.

       - E verdade. Eles estão mudados. Rubinho está tão atencioso! Reparou como ele conversa com os mais velhos? Finalmente! Tal como sempre ensinei. É de bom tom dar atenção primeiro aos mais velhos.

       - Interessante - observou Maria Alice. - Está acontecendo o mesmo com Daniel. É um bom começo. Antônio sempre diz que o verdadeiro prestígio está com os velhos. Em nossa sociedade, são eles que controlam o poder e o dinheiro.

       - É verdade. Dar-se-á o caso de nossos filhos estarem tentando entrar nas altas finanças? Rubinho sempre disse que queria subir por conta própria, sem usar o prestígio do pai.

       - Daniel também. Seja como for, acho muito bom que eles tenham voltado às boas.

       Mais tarde, Maria Alice comentou com o marido.

       - Estou contente em ver Daniel novamente participando de nossas reuniões. Ele me pareceu interessado em pessoas de prestígio.

       - Deve ter percebido que suas idéias não tinham fundamento e está com vergonha de confessar.

       - Você não vai agora estragar tudo comentando o assunto. Para nós basta vê-lo freqüentar a sociedade e esquecer aquelas idéias disparatadas que sempre teve. Eu não disse que um dia ele ainda voltaria atrás?

       - Ainda bem. Aconteceu mais depressa do que esperávamos. Daniel aproximou-se de Rubinho, dizendo baixinho:

       - Conseguiu conversar com D. Maria Júlia?

       - Não diretamente. Lanira estava conversando com Laura.

       - Não diga! Terá descoberto alguma coisa?

       - Estou ansioso para saber, mas teremos que esperar.

       - Laura é mais velha do que Lanira. Terá conhecimento do drama de seu tio-avô?

       - Essas histórias costumam ser romanceadas pelos adultos e contadas aos descendentes de acordo com as conveniências. Veremos o que ela sabe.

       Viram Lanira sozinha saindo para o jardim e foram atrás. Vendo-os, ela parou e sentaram-se em um banco.

       - E então? - indagou Rubinho em voz baixa.

       - Falei com Laura. Inventei uma história dramática, da morte trágica de um menino em um acidente. Disse que era um filme. Ela acreditou e contou o drama da família. Não só o único neto do Dr. Camargo morreu em um desastre de carro aos quatro anos de idade, como os pais dele também morreram em um acidente de barco na Europa. Do jeito que ela colocou as coisas, seus pais não tiveram outra alternativa senão assumir os negócios deles. Falou como se ao fazer isso eles houvessem se sacrificado.

       - Herdar uma fortuna é sacrifício? - comentou Daniel com ironia.

       - Ela disse que seu pai é um idealista. Pretendia se dedicar a aliviar o sofrimento humano, mas que teve que sacrificar seus ideais por causa da herança.

       - Eu não disse? - tornou Rubinho. - Essas histórias de família tornam qualquer um herói.

       - O que mais ela contou? - indagou Daniel.

       - Quando eu ia entrar mais fundo, D. Maria Júlia se aproximou e eu não quis facilitar.

       - Fez bem. Temos que ser discretos. Eles não devem perceber nada. Assim poderemos trabalhar mais à vontade - concordou Rubinho.

       - O que você ia perguntar? - disse Daniel.

       - Se ela conheceu os pais do menino.

       - Acho que estamos no caminho certo. Seria bom se você se aproximasse mais de Laura. Ninguém vai desconfiar. Vocês têm quase a mesma idade.

       Lanira sorriu maliciosa e respondeu:

       - Seria melhor Daniel. Laura fica emocionada só em falar o nome dele!

       - Não vou usar os sentimentos dessa menina. Seria muita baixeza. Não contem comigo para isso!

       - Foi só uma sugestão. Mas se você não quer... - tornou Lanira sorrindo.

       - Isso está fora de cogitação. Você não gostaria que fizessem isso com você!

       - Não sei. De repente seria um desafio. Colocar um homem "Entre a Cruz e a Espada". Já pensou o drama? Ele tentando me usar e acabar se apaixonando por mim?

       - Já vi esse filme e está fora de moda. Vamos falar sério. Alguém conseguiu mais alguma coisa? - perguntou Daniel.

       - Há uma outra coisa! - lembrou Lanira. - Descobri que o mordomo de D. Maria Júlia trabalha lá há mais de trinta anos. Esse deve saber de muitas coisas.

       - Eu não disse que as mulheres são boas para investigar? - disse Rubinho com satisfação. - Essa é uma boa pista.

       - Isso se ele souber de algo e se houver como fazê-lo falar - objetou Daniel.

       - Não podemos perder o aniversário de Gabriel. Haverá uma grande festa. Fomos todos convidados.

       - Para quando? - indagou Daniel.

       - No próximo sábado.

       - Estaremos lá - concordou Lanira.

       - Veremos esse mordomo! - tornou Rubinho.

       - Sinto-me como Dick Tracy - brincou Daniel.

       - Todos em busca da justiça! - sentenciou Lanira sorrindo.

       

Capítulo 6

       No sábado à noite, enquanto se preparava para a festa de aniversário de Gabriel, filho mais velho do Dr. José Luís Camargo de Melo, Maria Alice comentou com o marido:

       - Não precisamos esperar por Lanira. Ela irá com Daniel.

       - Ele também vai?

       - Vai. Nem precisei pressionar. Penso que daqui para a frente não teremos mais problemas com eles.

       - Hum!... - fez Antônio olhando significativamente para a esposa. - Aí tem coisa!

       - Como assim?

       - Algum rabo de saia, com certeza. Daniel nunca gostou dessas festas familiares.

       - Você acha mesmo? - disse Maria Alice. Em sua voz havia um leve tom de preocupação. - Espero que ele não esteja pensando em casamento. E ainda muito cedo!

       - E verdade. Mas não há motivo para se preocupar. Se ele está interessado em alguma moça, ela pertence ao nosso meio. Isso nos deixa tranqüilos.

       Maria Alice suspirou:

       - Tem razão. Pode ser só um namoro. O que importa é que Lanira também me parece mudada. Será que ela também anda interessada em alguém?

       - Talvez seja por Rubinho. Ultimamente eles não se largam. Maria Alice estremeceu:

       - Isso nos colocaria em uma situação desagradável. Sendo filho de amigos tão chegados, não teríamos como recusar o consentimento.

       - Eu já não vejo nenhum inconveniente. Rubinho é filho de excelente família, é formado, rico, conhecemo-lo desde criança. O que mais poderíamos desejar?

       - Ele não tem juízo.

       - Bobagem. São loucuras da mocidade. Quem não as cometeu um dia. Depois, eles agora parece que estão se assentando. - Fez ligeira pausa e perguntou: - O que a faz pensar que Lanira esteja se interessando por ele?

       - Não sei se é por ele. Eu notei que para ir a essa festa ela se preparou mais do que o habitual. Quis comprar vestido novo, passou horas no cabeleireiro, pediu-me até para tirar do cofre seu anel de rubi porque combina com o vestido.

       Antônio considerou:

       - Ela sempre gostou de andar na moda.

       - Eu sei, porém hoje foi além do trivial. Seja o que for, acho que está muito bem. Passei pelo quarto dela antes de vir para cá e vi tudo que ela comprou. Fiquei orgulhosa. Ela vai estar linda, você vai ver.

       Antônio sorriu satisfeito. Ele precisava dessa moldura familiar onde quer que fosse. Uma família unida, bonita e feliz era como um cartão de visitas para um político. Os eleitores se impressionam muito com esse cenário, por isso ele fazia questão de mostrar-se em todos os lugares junto com seus familiares.

       A festa estava animada quando Rubinho, Daniel e Lanira chegaram ao elegante palacete do Leblon. Entraram no belíssimo jardim, dirigindo-se à porta principal, onde um criado esperava-os convidando-os a entrar. No elegante hall de mármore iluminado por enorme lustre de cristal onde as flores do vaso sobre o console refletindo no espelho dourado tornavam seus pingentes multicoloridos, os três foram recebidos pelo aniversariante, a quem entregaram os presentes.

       Gabriel era alto, estava muito elegante em seu smoking preto, cabelos louro-escuros e ondulados, um pouco descorados pelo sol, olhos cor de mel quando ele estava alegre que se tornavam ligeiramente verdes de vez em quando. Seu tipo era claro, apesar da pele queimada de sol. Quando sorria, o que fazia constantemente, mostrava dentes alvos e bem distribuídos. Estudava Letras e Filosofia, possuía um barco onde estava sempre que podia, passando horas no mar, sozinho ou com os amigos.

       A música agradável vinha do salão, e Gabriel, depois de entregar os pacotes ao criado e dar-lhes as boas-vindas, convidou-os a entrar.

       Tomando o braço de Lanira, disse com satisfação:

       - Quero ter o prazer de conduzir a mais linda mulher da noite. Lanira sorriu alegre:

       - Como você mudou! Quando era criança, não costumava me dirigir galanteios. Sentia prazer em me provocar. Nossos encontros sempre acabavam em briga.

       - Para você ver como eu era burro. Também eu não podia imaginar que você se tornaria tão linda. Quero me penitenciar esta noite. Depois de receber os convidados, quero dançar com você!

       - Vamos ver - disse ela com ar misterioso.

       No salão foram recebidos por Maria Júlia, que abraçou Lanira e cumprimentou os rapazes perguntando pelos pais. Era uma linda mulher, muito elegante e educada. Depois de conversar alguns minutos colocando-os à vontade, afastou-se, ocupada com os convidados.

       Gabriel voltara ao hall para receber outros convidados. Vendo-se a sós, Rubinho disse baixinho:

       - Gabriel ficou deslumbrado com você, Lanira. Acho que pode atacar desse lado, enquanto eu vou procurar me aproximar do mordomo. Quanto a Daniel, bem... sobrou Laura...

       - Não me venham com essa! Eu vou procurar o mordomo e você vai dançar com Laura.

       - Eu posso tentar manejar Gabriel, e você não quer ficar com Laura! Isso não é justo! Se eu for, você também vai. Foi só eu falar que os olhos dela brilhavam quando falava em você para ficar logo convencido de que ela está apaixonada! Se quer saber, os olhos de uma moça sempre brilham quando ela fala em um rapaz bonito. Isso não quer dizer que esteja caidi-nha por ele!

       - Depois, você não precisa namorá-la. Basta ser gentil, amigo, e isso não tem nada de mais - reforçou Rubinho.

       - Está bem. Que seja. Mas se eu notar qualquer interesse maior nela, me afasto.

       - Ela vem vindo aí - disse Lanira.

       De fato Laura aproximava-se com um sorriso nos lábios finos e bem delineados. Seu rosto claro e ligeiramente corado, seus olhos iguais do irmão e seus cabelos dourados e ondulados que ela fazia tudo para alisar, seu corpo bem-feito e delicado faziam-na parecer mais jovem apesar de medir quase um metro e setenta de altura. Vestia-se discretamente, contrastando com Lanira, que gostava de cores vivas. Laura só usava tons pastéis, pérolas, jóias sóbrias e muito finas.

       - Que bom vê-los! - foi dizendo ao chegar, cumprimentando-os educadamente.

       - A festa está animada! - disse Lanira passando os olhos pelo salão. - De onde vem a música, que não estou vendo?

       - A orquestra está na outra sala, mas abrimos as portas e ouve-se muito bem daqui. Depois do jantar, poderemos dançar - observou Laura com satisfação.

       - Por seu tom, vejo que gosta de dançar! - tornou Rubinho.

       - Adoro! Enquanto Gabi gosta do barco e do mar, eu gosto de dançar. Por mim, passaria todas as noites no baile.

       - Quem gosta de dançar é Daniel - esclareceu Lanira. - Ele é um verdadeiro dançarino.

       Daniel ia protestar, mas Laura olhou para ele dizendo:

       - Não diga! Nas festas que temos ido nunca o vi dançar.

       - É que ele é tímido, Laura - disse Lanira com um brilho malicioso no olhar.

       - Mais tarde, se você não me convidar, eu o convido para dançar. Não vou perder essa oportunidade.

       - Lanira está exagerando. Não é nada disso - disse Daniel fulminando a irmã com os olhos. - Mas terei prazer em dançar com você.

       Rubinho passeava os olhos pelas pessoas presentes e observou um criado, elegantemente vestido, andando de um lado a outro, comandando os garçons que iam e vinham atendendo os convidados. Devia ser o mordomo. Arriscou:

       - Interessante! Oliveira, mordomo dos Sousa Campos, agora está trabalhando com vocês?

       Laura acompanhou o olhar de Rubinho e respondeu:

       - Você está enganado. Aquele é Bóris, nosso mordomo. Está com meus pais desde antes de eu nascer. Ele era nobre na Rússia, mas fugiu para a França depois da revolução. Meus pais conheceram-no em um navio quando estiveram na Europa. Ele desejava vir para o Brasil e eles o trouxeram como empregado. Gostou tanto deles que nunca mais foi embora.

       - Puxa! Ele é tão parecido com Oliveira! - disfarçou Rubinho satisfeito.

       Quando todos os convidados chegaram, o jantar foi servido à francesa e depois passaram para o outro salão, onde a orquestra tocava músicas dos filmes americanos de sucesso, muito em voga. Os pares dançavam animados.

       Gabriel aproximou-se de Lanira dizendo:

       - Quero dançar com você.

       Ela se levantou e logo os dois rodopiavam pelo salão ao som de um blues chorado por um sax bem tocado. A sala romanticamente iluminada com luzes coloridas ressaltava de quando em vez o brilho das jóias e dos vestidos de seda das senhoras, com aplicações de vidrilhos, renda ou lantejoulas, modificando a cor dos vestidos claros das moças, fazendo-os parecer diferentes em cada canto do salão.

       O perfume das mulheres misturava-se ao perfume das flores dos enfeites arrumados com gosto e em profusão.

       O ambiente era agradável e Lanira deixou-se envolver pela magia do lugar. Fosse pela situação singular que ela estava vivendo, pelo mistério que cercava o caso que estavam tentando resolver, pelo perfume gostoso que vinha de Gabriel, em cujos braços ela se sentia leve, ou pela música romântica e bem tocada, ela se sentiu viva. Nunca o prazer de dançar fora tão intenso, nem a proximidade de alguém tão agradável.

       O rosto de Lanira ganhara vivacidade. Seus olhos brilhavam e seus lábios entreabertos pareciam querer beber toda a alegria de viver. Gabriel, fitando seu rosto expressivo, não se conteve:

       - Como você é linda! Eu queria que essa música nunca acabasse!

       Aconchegou-a mais de encontro ao peito e ela se deixou ficar, sentindo a respiração dele perto de seu rosto, o calor que vinha de seu corpo forte, a sensação de euforia que ela não tentou explicar.

       Quando a música acabou, ele a largou e conduziu-a de volta à mesa onde Laura e Daniel conversavam.

       - Preciso deixá-la. Tenho que dar atenção a algumas pessoas, mas quero dançar novamente com você.

       Ela sorriu e concordou com a cabeça. Ele se afastou. O olhar de Lanira seguiu-o enquanto ele parava aqui e ali, sorrindo para uns, conversando ligeiramente com outros. Ela. teve que reconhecer que ele era um anfitrião impecável. Percebeu que ele cumpria todas as regras que a sociedade considerava de bom tom. Notava-se que recebera excelente educação.

       Seu olhar deteve-se em Maria Júlia. Vendo-a, podia entender por que Gabriel era tão bem-educado. Seu porte de rainha, sua roupa de classe, seu charme, sua simpatia faziam de sua casa um ponto alto de relacionamento que a mais alta sociedade se orgulhava de freqüentar. Seu marido, homem bonito, elegante e discreto, possuía a arte de manter uma boa conversa. Todos, sem exceção, achavam-no encantador.

       Observando tudo isso, Lanira sentiu um pouco de preocupação. O que eles pretendiam fazer não seria uma injustiça? E se Alberto estivesse enganado? E se eles não tivessem nada a ver com aquele caso?

       A uma música lenta, Daniel convidou Laura para dançar e Rubinho, que estivera circulando pelos salões, sentou-se a seu lado.

       - Estive conversando com Bóris - disse ele baixinho.

       Lenira meneou a cabeça pensativa, depois perguntou:

       - Descobriu alguma coisa?

       - Não. Foi uma conversa informal. Só de aproximação. Sabe como é. Preciso de algum tempo para ganhar sua confiança.

       - Não sei, não. Observando o Dr. José Luís, D. Maria Júlia, o respeito e a consideração que desfrutam na sociedade, não sei se faremos bem levantando esse caso.

       - Por quê? Está com medo?

       - Estou. Não de enfrentar as conseqüências, mas de mexer com isso e descobrir que Alberto estava enganado. Já pensou que pode ter havido uma coincidência de nomes e eles não serem os responsáveis?

       - As provas que Alberto tem me parecem bastante conclusivas.

       - Trata-se de mexer com pessoas altamente respeitáveis. E se estivermos enganados?

       - Por isso ainda não abrimos a ação. Estamos investigando. Só quando confirmarmos todas as provas entraremos na justiça.

       - Concordo. Em sociedade é fácil destruir a reputação de uma pessoa, o difícil é reverter a situação se ela for inocente.

       - Quanto a isso, pode ficar tranqüila. Tanto eu quanto Daniel estamos interessados em fazer justiça, não em difamar pessoas inocentes. Gabriel não tira os olhos de você. Vou dar uma volta para que ele se aproxime.

       Rubinho levantou-se e foi para a outra sala. Lanira fingiu-se interessada em observar os pares que rodopiavam pelo salão. Logo Gabriel se aproximou:

       - Posso me sentar?

       - Por favor.

       - Em que estava pensando?

       - Nada de mais. Observava o baile. Sua festa está maravilhosa.

       - De fato. Foi idéia de minha mãe. A princípio eu não queria, mas agora penso que fiz bem em concordar.

       - Sua mãe tem muito bom gosto. Sabe receber.

       Pelos olhos dele passou um brilho de emoção quando disse:

       - Ela sabe o que fazer em qualquer circunstância.

       - Tem muita classe. Seu pai é um homem feliz.

       Ele ficou sério e mudou de assunto. Lanira teve impressão de que ele não gostava de falar no pai. Para amenizar a situação, Lanira perguntou a respeito de seu barco. Então seu rosto se distendeu e ele passou a discorrer sobre ele com entusiasmo.

       Daniel, dançando com Laura, tentava conduzir o assunto para onde lhe interessava.

       - Nós não conversávamos desde uma festa de aniversário em sua casa, anos atrás. Acho que foi quando Lanira fez quinze anos.

       - Tanto tempo assim?

       - Faz. Nós fomos a várias festas e reuniões em sua casa, mas você nunca estava. Não gosta de festas?

       - Não gosto muito de formalidades. Nessas ocasiões algumas pessoas me parecem muito cheias de regras, a maledicência anda solta e eu prefiro ignorar essas coisas.

       - Sei o que quer dizer. Também não gosto de bajulação nem de malícia, mas gosto de festas. Adoro música, adoro dançar, adoro belas roupas, lugares requintados, classe, arte, beleza. Prefiro não me privar desses prazeres só porque há pessoas maldosas e fúteis que freqüentam esses lugares. Para dizer a verdade, eu as ignoro, não lhes dou ouvidos, mas não me isolo como você. Estou viva e participando, desfrutando de todas as alegrias da vida. Não permito que elas me afetem.

       Daniel olhou-a admirado.

       - E tem conseguido?

       - Tenho. Nossa família freqüenta muito a sociedade e eu penso que isso seja uma forma de valorizar nossa posição. Além do que temos obrigações sociais a cumprir.

       - De que forma?

       - Somos uma classe privilegiada. Uma minoria que teve a felicidade de estudar, de viajar, de possuir bens. Temos que devolver isso trabalhando em favor das classes mais pobres. Você sabe como é. Seus pais também participam.

       - Sei. Festas beneficentes em favor de entidades filantrópicas.

       - Isso mesmo. Minha mãe dedica boa parte de seu tempo à caridade. Sempre a acompanho.

       - Por prazer ou por obrigação?

       - Vou porque quero. Minha mãe não me obriga.

       - Ah!...

       - Soube que você e Rubinho abriram um escritório de advocacia.

       - Ê verdade.

       Ela sorriu, hesitou um pouco e depois disse:

       - Contra a vontade de seus pais. Como estão indo?

       - Estamos no começo. Por enquanto pequenas causas sem grande repercussão. O que é bom para praticar.

       - Se vocês quisessem, poderiam subir depressa. Tanto seu pai como o de Rubinho têm boas amizades. Estou sendo indiscreta tocando nesse assunto?

       - De forma alguma. O que está dizendo não é segredo para ninguém. Talvez você não tenha condições de entender. Sempre fez tudo que seus pais queriam.

       - Eles só desejam meu bem.

       - Mas você não é eles, é outra pessoa. O que parece bom para eles talvez não o seja para você. Cada pessoa é diferente.

       - Não gosto de correr riscos desnecessários. Eles têm experiência. A música acabou e Daniel conduziu Laura para a mesa onde Lanira

       e Gabriel conversavam. Daniel afastou-se a pretexto de procurar Rubinho. A conversa com Laura o entediara. Ela era bem a filha do distinto casal. Educada no mais moderno figurino da alta sociedade do Rio de Janeiro. Quando fosse oportuno, faria um casamento de conveniência e passaria o resto da vida tentando esconder a infelicidade, cuidando das aparências e desempenhando seu papel.

       Ela representava tudo quanto ele não aceitava e estava lutando para sair. Vendo Rubinho conversando animadamente com Bóris, ficou observando a certa distância. Quando viu que o mordomo se afastou, aproximou-se.

       - Então, conseguiu alguma coisa interessante? Rubinho pegou Daniel pelo braço, dizendo:

       - Ele me contou suas aventuras antes de vir para o Brasil. Está aqui desde 1927. Trata-se de um homem esperto e culto. Tenho impressão de que ele é mais do que um simples mordomo para o Dr. José Luís.

       - É?

       - Não vai ser fácil arrancar alguma coisa dele. Me pareceu ser o homem de confiança de seu patrão.

       - Deve conhecer tudo quanto aconteceu naquele tempo.

       - Com certeza. Mas como fazê-lo falar?

       - Ele não vai dizer nada.

       - Eu mencionei a morte de Marcelo. Disse que minha mãe havia nos contado que fora uma tragédia horrível. Depois perguntei:

       - "Você trabalhava para o Dr. Camargo naquela época?"

       - "Sim. Fazia quase um ano que eu estava aqui."

       - "Minha mãe era amiga de D. Carolina. Ela sofreu muito com o acidente. O Dr. Antônio adoeceu por causa disso."

       - "É verdade. O Dr. José Luís cuidou do tio com dedicação, mas ele não conseguiu mais recuperar a saúde. Perdeu o gosto de viver."

       - "Minha mãe não esquece a tragédia desta família. Por fim o Dr. Cláudio e D. Carolina também morreram de forma inesperada."

       - "Toda família tem sua tragédia. Eu também perdi toda a minha família na revolução. O que fazer? É preciso se conformar, levar a vida para a frente."

       Rubinho calou-se. Daniel ficou pensativo por alguns instantes, depois perguntou:

       - Você notou alguma coisa nele durante a conversa?

       - Só quando falei do desastre que vitimou os pais de Marcelo. Por um segundo seus olhos brilharam emotivos. Foi uma fração de segundo, logo ele voltou a ser como antes.

       - Isso não significa muito. Ele mencionou a guerra, onde perdeu a família. Isso pode tê-lo emocionado.

       - E verdade. Ou ele sabe mais sobre o desastre que vitimou os pais do Marcelo. Nunca pensou como esse acontecimento foi conveniente para o Dr. José Luís?

       - Você quer dizer que a morte deles pode ter sido provocada? - sussurrou Daniel olhando para os lados com medo que alguém o ouvisse.

       - Vamos para o jardim. Lá estaremos mais à vontade. Uma vez sentados em um banco, Rubinho respondeu:

       - Se eles raptaram o menino e simularam sua morte por causa da herança, precisavam afastar os outros dois. Eles haviam herdado toda a fortuna do pai.

       Daniel passou a mão pelos cabelos pensativo:

       - Você acha que não foi acidente? Que eles foram assassinados?

       - É uma suposição lógica. Era a única forma de se apossarem da herança.

       - Tem razão. Isso ainda me parece impossível. Olhando para eles, é difícil acreditar que tudo isso seja verdade.

       - As aparências enganam.

       - Aproveitar-se de uma situação, criar uma farsa por ambição pode ser tentador para algumas pessoas, mas chegar ao crime, eliminar os primos!

       Estou quase certo de que eles fizeram isso. De que adiantaria toda a farsa se os pais do menino estavam vivos, gozando de boa saúde? Daniel respirou fundo.

       - Você acha que seria possível descobrir alguma pista sobre isso?

       - Não sei. Mas podemos tentar. Amanhã mesmo vamos visitar a sepultura deles, ver a data da morte, procurar os jornais da época. Fazer as investigações preliminares.

       - Vamos falar com Jonas, ele é investigador. Além disso, é muito

       meu amigo e nos ajudará.

       - Boa idéia. Voltaram ao salão.

       - Lanira está indo muito bem - comentou Rubinho. - Veja, está dançando com Gabriel. Ele está fascinado e ela está sabendo tirar partido disso.

       - Para você ver como as mulheres são. Para elas, fingir é fácil. Eu

       não consegui nada com Laura.

       - E que você não se empenhou. Antes de ir, já estava contra.

       - Veja: meu pai conversando animadamente com o Dr. José Luís. Quando ele descobrir o que estamos fazendo, vai querer me matar.

       - Está com medo?

       - Não. Mas sei que não vai ser agradável. Antônio conversava animadamente com José Luís:

       - Você não pode querer que ele volte - dizia ele com ênfase.

       - Não se trata de minha vontade. Você sabe que nunca gostei de

       Getúlio.

       - Você diz isso, mas freqüentava o Catete com assiduidade.

       - Claro. Você também andou lá. Era uma ditadura. O que podíamos fazer? Porém nunca fui getulista. Mas em eleição é o voto que conta. Dutra só ganhou porque foi indicado por ele. Agora que o deixaram candidatar-se, você vai ver. Ele vai ganhar mesmo.

       - Não acredito que nosso povo possa ser tão ignorante. José Luís riu ao responder:

       - Não? Você vai ver. Seria melhor você ter se candidatado pelo

       Partido Trabalhista.

       - Isso nunca. Sempre fui da UDN.

       - Não sei, não. Está se arriscando.

       - Você pelo menos vai votar em mim.

       - Claro. Como sempre fiz. Você terá os votos dos nossos, como sempre. Acho até que vai conseguir ir para o Senado.

       Maria Alice, segurando delicadamente uma taça de vinho branco, conversava animadamente com Angelina:

       - Veja Lanira dançando com Gabriel.

       - Muito interessados por sinal - comentou Angelina.

       Maria Alice olhou os dois e pensou: Lanira estaria interessada em Gabriel? Desde que chegaram que ele só dançava com ela. Sorriu satisfeita. Ele seria o genro ideal para ela! Bonito, elegante, educado, rico. Era muito cedo para pensar nisso, mas a idéia era-lhe muito agradável.

       Vendo que Bóris, parado em um canto da sala, observava como ia o serviço, Rubinho aproximou-se dizendo:

       - Poderia mandar servir um copo com água gelada? Imediatamente o mordomo pediu ao garçom. Enquanto esperava,

       Rubinho continuou:

       - Gostaria de conversar com você em um lugar mais calmo. Bóris admirou-se:

       - Comigo? Sobre o quê?

       - Estudo sociologia. Gostaria de entender o que aconteceu na Rússia com a revolução. Você deve ter coisas muito importantes para contar.

       - Coisas muito tristes, se quer saber. Quando falo nisso, sinto enorme tristeza. Minha terra, tão linda, com um povo bom, religioso, inteligente, dominada por aqueles bárbaros!

       - Gostaria de conversar mais com você. Quando é sua folga?

       - Às segundas-feiras.

       - Quer ir almoçar comigo na próxima segunda-feira? Bóris olhou-o um pouco assustado.

       - Não posso. Tenho muitos compromissos nesse dia. Obrigado pelo convite.

       Dizendo isso, afastou-se e Rubinho seguiu-o com os olhos. Daniel aproximou-se perguntando:

       - E então?

       - Convidei-o para almoçar no dia de sua folga e ele não gostou. Cortou a conversa e foi embora.

       - Teria desconfiado?

       - Não. Nem sequer toquei naquele assunto. Disse que estudava sociologia e gostaria de obter informações sobre a revolução. Aí, ele mudou. Percebi que se retraiu.

       - Não vamos conseguir nada dele. E se tiver sido cúmplice?

       - Vamos pedir a Jonas para investigar a vida dele. Laura aproximou-se com um sorriso:

       - Lanira disse que você gosta de dançar, e está aí, parado. Não está gostando da festa?

       - A festa está ótima. É que está muito calor e isso tira a disposição de dançar

       - Não é o meu caso.

       - Dá para notar - tornou Rubinho. - Você está acalorada!

       - Ia convidá-la para dançar - disse Daniel -, mas diante disso acho mais agradável darmos uma volta no jardim. Que tal?

       - É uma boa idéia.

       - Você vem, Rubinho? - perguntou Daniel.

       - Não. Acabei de ver Julinho. Vou cumprimentá-lo.

       Os dois saíram para o jardim conversando animadamente. A noite estava bonita e o perfume das flores tornava-a mais agradável.

       - Vocês têm um jardim maravilhoso - comentou Daniel.

       - É a paixão de minha mãe. Ela adora plantas. Diz que elas precisam de amor, como as pessoas.

       - Este jardim sempre foi muito bem cuidado. Inclusive no tempo de D. Carolina.

       - Segundo sei, ela também gostava de plantas.

       - Minha mãe era muito amiga dela e freqüentava esta casa quando ela ainda era viva. Em casa temos um retrato dela. Era uma mulher muito bonita. Vocês devem ter fotos no álbum de família.

       - Não temos. Meu pai ficou muito sentido com a tragédia e se desfez de todas as fotos.

       - Do pequeno Marcelo também?

       - Também. Não queria nada que lembrasse os dolorosos acontecimentos daqueles tempos.

       - Segundo minha mãe, a morte de Marcelo abalou toda a sociedade. Ela foi ao enterro e se comoveu muito com a dor dos pais dele e do Dr. Antônio. Foi acidente, não é?

       - Parece que foi. Meus pais ficaram muito chocados na ocasião. Por causa disso esse assunto virou tabu em casa. Nunca o mencionamos. Afinal, já faz muito tempo, e eles conseguiram esquecer.

       - Ainda bem.

       Ela mudou de assunto e Daniel não insistiu. Laura não sabia de nada e ele estava perdendo tempo conversando com ela.

       Assim que se encontrou com Rubinho e Lanira, foi taxativo:

       - Inútil querer descobrir alguma coisa aqui. Laura não sabe nada daqueles tempos. E Bóris não vai falar. Temos que pensar em outra coisa.

       - Também acho - concordou Rubinho. - Os moços ignoram o assunto e quem sabe não vai dizer nada.

       - Acha que Bóris sabe de tudo? - inquiriu Lanira.

       - Tenho a impressão de que sim. Mas não vamos conseguir nada dele.

       - Segunda-feira vamos pesquisar os jornais e contratar Jonas - disse Daniel.

       - Alberto está ansioso e não quer esperar muito para iniciar a ação. Se quisermos levar esse caso adiante, temos que nos preparar bem - tornou Rubinho.

       - Vai ser uma bomba! - exclamou Lanira.

       - Vai. Mas vamos detoná-la - considerou Daniel.

       - Hum! Sinto um friozinho na barriga só em pensar no escândalo. Será um prato cheio para os jornais. Vocês não têm medo? - perguntou Lanira.

       - Quando aceitamos o caso, sabíamos disso - respondeu Daniel.

       - É. Conversamos a respeito e assumimos a responsabilidade. Nós acreditamos na história dele.

       - E se ele estiver enganado? Olhando D. Maria Júlia e o Dr. José Luís, é difícil acreditar que eles tenham feito tudo isso com a própria família - tornou Lanira.

       - As aparências enganam - contrapôs Rubinho. - As provas que Alberto possui são convincentes para mim. Eles simularam a morte do menino e suspeito até que tenham a ver com o "acidente" que vitimou os pais dele.

       Lanira abriu a boca para responder e fechou-a de novo. Seus pais se aproximavam:

       - Já nos despedimos e vamos embora - disse Maria Alice. - Vocês vão ficar?

       Foi Daniel quem respondeu:

       - Iremos em seguida.

       Eles se foram e os três, percebendo que nada mais havia para fazer ali, despediram-se e saíram.

       Uma vez na rua, continuaram conversando, fazendo planos para começar as investigações no início da semana.

       

Capítulo 7

       Na segunda-feira seguinte eles chamaram Jonas ao escritório e encarregaram-no de investigar a vida da família Camargo. Resolveram que enquanto esperavam não tomariam nenhuma providência legal, tentando encontrar as provas de que precisavam.

       A custo conseguiram convencer Alberto a esperar. Ele estava impaciente, dizendo ter a certeza de que não havia mais nada a fazer senão abrir o processo. Entretanto, Daniel e Rubens não queriam arriscar-se a perder. A derrota em um caso desses iria levá-los ao descrédito. Por outro lado, a vitória iria dar-lhes fama e credibilidade. Era uma cartada ousada e eles queriam jogar da maneira certa.

       Duas semanas depois, Jonas procurou-os levando uma pasta na qual além dos jornais da época havia as informações que ele conseguira obter.

       A notícia do acidente que havia vitimado Marcelo. Várias notas sobre a saúde do Dr. Antônio Camargo depois da morte do neto e por fim seu passamento, vitimado pela dor que o abateu. Havia ainda notícias do acidente de barco, um ano depois, ocorrido em uma pequena cidade da Itália.

       - Interessante observar - disse Rubinho - que, um ano e meio depois da morte de Marcelo, todos haviam morrido. Tudo aconteceu muito depressa!

       - O que vocês não sabem é que, na data em que aconteceu o acidente com os pais de Marcelo, o Dr. José Luís e a esposa também estavam na Europa. Inclusive levaram o mordomo! Aliás, eles sempre viajam com ele!

       Daniel e Rubinho entreolharam-se admirados.

       - Bem que eu desconfiava desse acidente! - observou Rubinho.

       - Talvez você esteja exagerando - tornou Daniel.

       - É, pode ser. Mas não deixa de ser uma hipótese plausível.

       - Concordo - disse Jonas. - Nada mais conveniente para eles do que esse acidente. Mas eles estavam na França nessa data.

       - Nesse caso, não tiveram nada com o acidente - aventou Daniel.

       - Eu não acho. Quem nos garante que Bóris não tenha feito esse "serviço"? - sugeriu Rubinho.

       - Ou contratado alguém - tornou Jonas.

       - Não podemos fantasiar. Temos que nos ater às provas. O que estão fazendo são meras suposições - disse Daniel.

       - Temos que aventar todas as hipóteses. Não se esqueça de que

       quem teve coragem para fazer o que fizeram com Marcelo e a própria família é capaz de tudo.

       - Investiguei a vida de Bóris. Ele pertencia à nobreza russa. Perdeu

       a família e tudo que possuía na revolução. Nada pude descobrir sobre ele durante o tempo em que perambulou pelo mundo depois disso. Sei que chegou ao Brasil trazido pelo Dr. José Luís, e desde então eles não fazem nada sem ele. Nunca se casou. Relaciona-se com uma alemã, que mora em uma bela casa, aonde ele vai em seus dias de folga. Tem dinheiro no banco, um belo automóvel e gosta de luxo.

       - O Dr. José Luís deve ser muito generoso - comentou Rubinho.

       - É de admirar, pois não é o que se comenta em sociedade, em que ele é tido como mão-fechada. É difícil arrancar dinheiro dele - esclareceu Jonas.

       - Por que está sendo tão generoso com Bóris? - perguntou Rubinho. Daniel abanou a cabeça pensativo, depois respondeu:

       - Isso é suspeito, na verdade. Precisamos ir mais fundo. A chave do problema pode estar aí.

       - Estive pensando em ir a São Paulo ver o que descubro sobre a ama. Mas se preferem seguir essa pista primeiro, verei o que posso fazer.

       - Vigiar Bóris, saber o que faz além de ser mordomo. Ele deve desempenhar outras atividades para o patrão.

       - O Dr. José Luís tem se ocupado mais em desfrutar da vida social do que em trabalhar. A clínica que montou, com dinheiro da herança, é uma das primeiras da cidade, mantém em seus quadros profissionais de alto nível. Ele comparece apenas para cuidar da parte gerencial, não trabalha mais com os pacientes. A clínica é procurada por pessoas importantes. Os preços são caros e o atendimento, diferenciado. Suas finanças vão muito bem - informou Jonas. - Tanto ele quanto a esposa são muito estimados. Vai ser difícil conseguir saber o que vocês querem.

       - Você quer dizer que podemos estar sendo enganados? - perguntou Daniel.

       - Não. De forma alguma. Os fatos que sabemos indicam que eles não são o que parecem ser. Estou habituado com isso. As pessoas não querem mostrar sua maldade e se cobrem com atos de aparência. Pura fachada. O que eu quis dizer é que eles fizeram isso tão bem que está sendo difícil apanhar o fio da meada. Mas isso para mim é um desafio, e eu gosto de vencer os desafios - respondeu Jonas.

       - Então continue mais um pouco nessa pista. Deixe sua pasta comigo. Quero estudar um pouco mais - pediu Rubinho.

       - Está bem. Já vou indo. Darei notícias!

       Ele saiu e os dois apanharam a pasta. Sentados lado a lado, começaram a examinar minuciosamente os recortes, anotando datas, informações. Eles queriam conhecer todos os detalhes, imaginar todas as hipóteses para cercar os vários lados do caso, preparando-se para qualquer eventualidade, no decorrer do processo.

       Lanira olhou-se no espelho com satisfação. O tom verde-escuro ficava-lhe muito bem. Ia encontrar-se com Gabriel. Desde a festa que ele a procurava, ora convidando-a para um cinema, ora para um sorvete na confeitaria ou mesmo uma conversa no clube.

       Iria passar em sua casa às sete. Quinze minutos antes ela já estava pronta e desceu para esperar. Vendo-a, Maria Alice olhou-a com satisfação.

       - Vai sair?

       - Vou. Gabriel vai passar aqui às sete.

       - Vocês estão namorando?

       Ela abanou a cabeça negativamente.

       - Não é nada disso. Somos apenas amigos.

       - Quer dizer que ele ainda não se declarou?

       - Não. Espero que ele não o faça.

       - Por quê? É um belo rapaz e parece muito interessado em você.

       - Isso não basta, mamãe, para namorarmos.

       - Se ele se declarasse, você o rejeitaria?

       - Claro. Gosto de sua companhia, mas amor é outra coisa. Por enquanto estamos apenas saindo juntos, conversando. Nada mais. É bom não ficar imaginando coisas.

       - Não estou imaginando nada. Vocês são jovens, saem juntos com freqüência. O que posso pensar?

       A campainha tocou, Lanira espiou pela janela e disse:

       - É ele. Vamos só tomar um sorvete. Voltarei cedo.

       Ela saiu deixando uma onda de perfume no ar e Maria Alice aproximou-se da janela, seguindo com o olhar brilhante a figura da filha cumprimentando Gabriel, a gentileza do rapaz abrindo a porta para ela entrar. Acompanhou-os com o olhar até que o carro desapareceu no fim da rua.

       Sua filha era linda, inteligente. Casando-se com Gabriel, faria uma aliança brilhante. O que poderia desejar mais? Nesse mundo de aparências, a posição social, o dinheiro eram muito importantes. O amor não passava de um jogo de interesses, sempre colocado no convencional. Acabava na primeira decepção e só se sustentava quando havia interesse em manter as aparências e as vantagens da família.

       Maria Alice havia se casado por amor. Entretanto, depois de tantos anos de vida em comum, percebia que nada havia sido como ela imaginara. As primeiras decepções ao notar que as prioridades do marido eram muito diferentes das suas. Enquanto ela dava mais importância a ficarem juntos, ele valorizava a vida social, a companhia de gente importante, as amizades de conveniência.

       Quando ela reclamava sua ausência, sua falta de carinho, ele a chamava de imatura, salientando que apreciava a mulher equilibrada, de classe, capaz de governar a família com dignidade e firmeza. Decepcionada, Maria Alice esforçou-se para não desapontá-lo. Trancou os sentimentos e transformou-se na mulher que era. Agora, vendo a filha falando em amor, pensava como ela estava enganada.

       O casamento, a família eram a riqueza de uma mulher. E essa riqueza tinha que ser preservada a todo custo, mesmo que para isso fosse preciso engolir a dor, a insatisfação, a raiva, fechar os olhos para tudo quanto pudesse ameaçar a estrutura familiar.

       Ela sabia da ligação do marido com Alicia. Ninguém lhe contara, descobrira por acaso. Pensou em falar ao marido. Desabafou com sua amiga Angelina, que a ouviu em silêncio e depois considerou:

       - Eu já sabia. Você até que demorou para descobrir.

       - Sabia? Diz isso com essa calma!

       - Digo porque já passei pela mesma coisa. Nesse Rio de Janeiro, que homem de nossa sociedade não tem uma amante?

       Maria Alice olhou-a admirada:

       - Aconteceu com você também?

       - Faz tempo. A princípio fiquei revoltada. Depois pensei: se eu fizer barulho, escândalo, vai aumentar minha vergonha, todos vão saber. Separar eu não quero. Ficar por aí desquitada eu não suportaria. Depois, o que seria de meus filhos? Pensei, pensei e resolvi fazer de conta que não sabia de nada. Assim, não teria que tomar nenhuma decisão.

       - Como agüentou?

       - A princípio foi difícil. Depois achei que de alguma forma eu também estava enganando-o. Ele pensando que estava me fazendo de boba, mas era eu quem o estava tapeando. Ficamos elas por elas.

       - Você não o amava? Não sentiu ciúme?

       - Amei, agora não amo mais. Que amor resiste a tantos anos de casamento? Hoje sei que nossa união é uma sociedade conveniente para ambos. Apenas isso.

       - Você tem razão. O amor é ilusão.

       - Depois, os homens precisam de uma mulher que lhes faça todas as fantasias sexuais. Com as esposas eles não se permitem nada disso. É até sinal de respeito.

       - Pensando desse lado...

       - Você se sujeitaria a qualquer coisa menos digna?

       - Claro que não.

       - Então! Uma amante é como uma válvula de escape para os vícios. A esposa é sempre a esposa. Por isso, continuei firme em meu lugar e não me arrependo. Ele me respeita, me trata bem e temos uma vida em comum equilibrada. Para que mais?

       Maria Alice hesitou um pouco, depois disse:

       - Ele ainda a procura?

       - Claro. De vez em quando.

       Depois dessa conversa, Maria Alice fez sua opção. Faria a mesma coisa que Angelina. Antônio nunca saberia que ela conhecia a verdade. Pensou na filha com tristeza. Ela esperava o amor, como todas as moças. Quantas decepções teria que passar para descobrir que estava enganada?

       Esforçou-se para afastar aqueles sentimentos tristes. Ela não se permitia pensar nem se entristecer. Era uma dama e uma dama tinha completo controle sobre as emoções.

       Depois dos cumprimentos, Lanira sentou-se no carro e assim que Gabriel deu partida disse:

       - Não esperava que me ligasse hoje.

       - Porquê?

       - Como não tem aula, pensei que tivesse ido andar de barco.

       - Fiquei tentado. Mas entre ficar só no barco e passear aqui com você, preferi ficar.

       Lanira olhou-o um pouco tensa. Sua mãe teria razão? Gabriel estaria mesmo querendo namorá-la? Claro que ela havia percebido que ele se sentia atraído, e ela também gostava de estar com ele. Contudo, sabia que um namoro entre eles envolveria as duas famílias, poderia transformar-se em um compromisso formal e sério. Isso ela não desejava. Reconhecia que ele era encantador, mas ao mesmo tempo ela não queria transformar-se em uma dona de casa, como as que conhecia e abominava. Talvez fosse mais prudente espaçar os encontros com ele.

       - Você tem muitos amigos que gostariam imensamente de fazer-lhe companhia. Acho que está se tornando mais metropolitano.

       - Teria imenso prazer se você pudesse ir comigo. Mas sei que não aceitaria.

       - Porque não?

       - Só nós dois? Ela sorriu:

       - Não ficaria bem. Mas se meu irmão também fosse, talvez Laura, ou Rubinho, não teria nada de mais.

       Ele parou o carro no meio-fio e voltou-se para ela, olhando-a nos olhos:

       - Você está apaixonada por Rubinho?

       - Eu? Não! Que idéia!

       - Desde a minha festa desejo perguntar-lhe isso. Vocês não se largam.

       - Ele é sócio de Daniel e muito amigo. Apenas isso.

       - Tem certeza?

       - Tenho. E já que tocou nesse assunto, gostaria de dizer-lhe que por enquanto não penso em namorar. É muito cedo.

       - Muitas meninas se casam com sua idade.

       - E justamente isso que desejo evitar.

       - E contra o casamento?

       - Não me agrada a idéia de transformar-me em matrona, nem de arranjar alguém que mande em mim.

       - É essa a idéia que faz da vida em família? Não pensa em casar-se?

       - Não, enquanto puder evitar. Ele abanou a cabeça:

       - E difícil acreditar. Você não existe.

       - Porquê?

       - Você é diferente. As outras só pensam em se casar. Não posso compreender. Você vem de uma família bem formada, seus pais levam vida exemplar. De onde tirou essas idéias?

       - Observando, amigos, conhecidos. Enquanto as mulheres cuidam de manter as aparências com classe, os homens se dividem entre o interesse, o jogo de poder. Vale tudo, desde que nada venha à tona.

       Pelos olhos dele passou um lampejo emotivo quando disse:

       - Você está sendo dura. Não acredita no amor e na felicidade?

       - Às vezes penso que sim, outras que não.

       - Pois eu também odeio esse mundo de aparências, onde quem tem mais dinheiro vale mais, onde se passa por cima de todos os sentimentos para alimentar a ambição. Quando tudo isso me enoja, refugio-me no barco em busca de paz.

       Lanira surpreendeu-se:

       - Não sabia que sentia isso.

       - Tem razão. As pessoas fazem qualquer sacrifício para acobertar suas mazelas. Em sociedade é preciso dissimular, sorrir mesmo quando o coração está amargurado e infeliz.

       Lanira olhou-o sem saber o que dizer. O rosto de Gabriel estava sombrio, e havia tanta amargura em seu tom que ela se arrependeu de haver tocado no assunto. Tentou confortá-lo:

       - Nós não precisamos ser iguais a eles. Podemos ser diferentes. Não desejo me casar por conveniência, nem me transformar em uma mulher como tantas que conheço. Quero ser eu mesma. Quando eu amar, terá que ser de coração, e farei tudo do meu jeito, sem ligar para as conveniências.

       O rosto de Gabriel desanuviou-se, ele sorriu. Lanira considerou que ele ficava lindo quando sorria.

       - Se você se apaixonasse por um joão-ninguém, teria coragem de casar-se com ele?

       - Se ele me amasse, sim.

       - Seus pais não aprovariam.

       - Eu enfrentaria todo mundo para ser feliz. E isso que eu quero. Tenho pensado muito nesse assunto, Gabriel. A vida só vale a pena se houver felicidade.

       - Tomara que continue pensando assim quando chegar o momento. Lanira riu contente. Sentia-se aliviada. Conseguira posicionar-se sem ferir os sentimentos dele. Depois dessa conversa, tinha certeza de que ele não lhe faria nenhuma declaração. Poderiam continuar a ser amigos. No dia seguinte, conversando com Daniel, ela considerou:

       - Gabriel parece-me infeliz. Não sei por quê, mas há momentos em que ele se revela magoado, amargurado.

       - Será? Ele é muito elogiado em todos os lugares. Bonito, rico, respeitado. As mulheres suspiram por causa dele. Por que estaria infeliz?

       Lanira contou-lhe a conversa que haviam tido e finalizou:

       - Suas palavras fizeram-me pensar. Há alguma coisa que o está incomodando.

       - Será que ele sabe de alguma coisa sobre o passado dos pais?

       - Não sei. O que sinto é que, quando fala de família, ele se emociona, fica amargo, parece infeliz.

       - Talvez seja bom você continuar saindo com ele. Quem sabe um dia acaba contando o que queremos saber.

       - Vou ser bem sincera com você. Na festa aproximei-me dele com essa intenção. Porém, agora, reconheço que ele se transformou em um amigo. É inteligente, sincero, generoso. Não estou saindo com ele para descobrir nada. Estou saindo porque gosto de sua companhia. Eu o aprecio.

       Daniel sorriu malicioso:

       - Você está se apaixonando por ele!

       - Não é nada disso. Ele é apenas um amigo. Nada mais do que isso. E vai continuar assim.

       - Alegra-me saber. Logo entraremos com a ação e se estivesse apaixonada seria um problema.

       Lanira ficou pensativa por alguns segundos, depois disse:

       - Às vezes penso nisso e sinto um aperto no coração. Vocês vão mesmo mover essa ação?

       - Tudo indica que sim. Ela suspirou:

       - Vai ser um deus-nos-acuda. Aqui em casa e em casa dele. Nossa amizade vai acabar com certeza.

       - Isso a entristece?

       - Preferiria que nada disso fosse com ele.

       - Se ele gostar mesmo de você, se fizer questão de sua amizade, saberá separar as coisas. Você pode jogar toda a culpa em mim.

       - Nem quero pensar. Mamãe então vai ter um ataque. Em que pé estão as investigações?

       - Jonas foi a São Paulo tentar obter informações sobre a ama. Deve estar de volta amanhã.

       - Quando pensam entrar com a ação?

       - Alberto está impaciente. Está difícil segurá-lo. Se tudo der certo, entraremos com a petição na próxima semana.

       -Já?

       - Parece que ele descobriu algumas coisas importantes com relação a ama. Amanhã decidiremos a data. Pensando bem, é melhor enfrentar as feras logo. A espera deixa-me tenso.

       - A mim também.

       - Você? Não desejo envolvê-la de forma alguma.

       - Já estou envolvida.

       - Ninguém precisa saber disso.

       Daniel deixou Lanira e foi para o quarto. Deitou-se e custou a dormir. Sentia-se inquieto. A petição formalizando a denúncia' e solicitando a abertura de um inquérito estava redigida, faltando apenas alguns detalhes que deveriam incluir com as novas informações de Jonas.

       Sabia que sofreria pressão da família. Estava preparado. Ele e Rubi-nho haviam combinado que se a situação fosse insustentável, eles sairiam de casa, alugariam um apartamento modesto, dividiriam as despesas.

       Mais calmo, adormeceu. Sonhou. Viu-se, um pouco diferente, mais velho, em um quarto lindamente decorado, sentia-se inquieto, desesperado. Aproximou-se do leito em que a mesma mulher que o acusara estava deitada, abatida, sem forças.

       Ele se ajoelhou ao lado da cama, sentindo aumentar sua angústia. Tomou as mãos dela dizendo com voz suplicante:

       - Lídia, não me deixe! Eu peço! Não me abandone! Farei tudo que quiser!

       Ela abriu os olhos e fixou-o murmurando:

       - Agora é tarde! O que está feito está feito. Acabou.

       Seus olhos se fecharam, sua cabeça caiu para o lado e ele percebeu que ela estava morta. Sentiu seu peito rasgar de dor e gritou:

       - Não! Não!!!

       Daniel acordou agoniado, soluçando. Levantou-se de um salto. Um sonho! Fora apenas um pesadelo. Um horrível pesadelo que havia dilacerado seu coração. O que estaria acontecendo com ele? Seria um aviso para não fazer o que eles pretendiam? Por que sonhara com aquela mulher duas vezes? Não a conhecia, entretanto sentia que a amava com loucura. Estaria perdendo o juízo?

       Olhou o relógio: quatro horas. O dia estava amanhecendo. Deitou-se novamente, porém não conseguiu mais dormir. Sentia o peito oprimido por grande tristeza. Tentou reagir. Era loucura ficar tão impressionado por um simples sonho. Nada disso havia acontecido. Mas a emoção forte continuava presente como se tudo estivesse acontecendo naquela hora.

       Ficou se remexendo na cama, esforçando-se para convencer-se de que a verdade era muito diferente de seu sonho, mas aquela sensação desagradável e forte reaparecia, deixando-o inquieto.

       Levantou-se muito cedo e chegou ao escritório antes das oito. Rubi-nho chegou meia hora depois e olhando para ele perguntou:

       - Aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara!

       - Não aconteceu nada.

       - Está doente?

       - Não. Mas alguma coisa esquisita está se passando comigo. Ando

       impressionável, inquieto, tendo pesadelos. - Aquela mesma história com Alberto?

       - Não. Agora é com uma linda mulher. Não a conheço e tive dois pesadelos com ela. Em um acusava-me. Ontem sonhei que ela estava morrendo e que eu a amava muito. Acordei angustiado, não pude mais dormir, e até agora ainda não me livrei daquela sensação dolorosa. Não consigo entender.

       Rubinho balançou a cabeça, dizendo:

       - Isso me parece coisa do passado. Você está revivendo cenas de outra vida.

       - Você já disse isso mas eu não acredito. É muito fantasioso para ser verdade.

       - Eu mesmo também não tenho certeza de nada. Mas me ocorre que é a única forma de explicar o que está lhe acontecendo. Você sonha com uma pessoa que não conhece, sente que a ama, sofre por ela. De onde tirou esses sentimentos? Como apareceram com tanta força dentro de você? Para mim, isso é mais fantástico do que a crença em vidas passadas.

       Daniel balançou a cabeça interdito. Por fim disse:

       - Só sei que essas emoções são muito fortes. Não consigo esquecê-las. Sinto remorso não sei de quê, tristeza, dor. Estarei ficando louco?

       - Você não tem nada de desequilibrado. E lúcido, tem bom senso.

       - Às vezes penso que tem alguma coisa a ver com Alberto. Os pesadelos começaram um pouco antes de ele aparecer em minha vida. Até então eu nunca havia tido nada disso. Será que é para eu não me envolver com o caso dele?

       - Não foi isso que você falou, lembra-se? Foi até aconselhado a aceitar o caso.

       - Não consigo entender.

       - Se você estiver tendo reminiscências de suas vidas passadas, ele pode ter se relacionado com você naqueles tempos.

       Daniel passou a mão pelos cabelos inquieto.

       - Não sei. Parece-me loucura acreditar em uma coisa dessas.

       - Não é, não. Tenho visto pessoas de cultura envolvidas com o estudo desses assuntos. Garantem que têm provas concludentes de que isso é verdade. Já pensou que coisa extraordinária? Como nossa vida mudaria se pudéssemos ter essa certeza?

       - Se isso fosse verdade, revolucionaria a sociedade. Ninguém fala nada. Acho que não existem essas provas.

       - Em todo caso, vou telefonar para Júlio. Ele estuda isso e poderá nos esclarecer melhor. Passaremos em seu consultório quando sairmos daqui.

       - Está certo. Preciso resolver esse problema, acabar com isso. Talvez como médico ele tenha alguma explicação melhor.

       - Nenhuma outra conseguiria explicar o que lhe aconteceu.

       - Jonas já chegou?

       - Já. Está nos esperando.

       Jonas entrou e depois dos cumprimentos foi direto ao assunto.

       - Trago novidades.

       - Vá falando - disse Rubinho.

       - Conforme combinado, tenho seguido Bóris e descobri que ele mantém contato com a ama em São Paulo. De quando em quando manda-lhe dinheiro. Quem faz a remessa é Pola, a amante dele. Mas ela não tem posses, vive do que ele lhe dá. Logo, é ele quem manda o dinheiro, certamente a mando do Dr. José Luís.

       - Isso significa que essa mulher continua a chantageá-los - tornou Daniel.

       - E o que parece. Por que ele haveria de dar-lhe tanto dinheiro? Bom, eu fui a São Paulo e fiz amizade com a criada de Eleutéria, por sinal um pedaço de morena.

       - Acha que pode confiar no que ela lhe diz? - indagou Rubinho.

       - Acho. Demo-nos muito bem. Está apaixonada por mim. Depois, ela não gosta da patroa. Diz que é grossa e muito mandona. Pretendia deixar o emprego, mas eu lhe pedi que não o fizesse.

       - Não lhe contou por quê - disse Rubinho.

       - Não. Só lhe disse que um cliente havia me incumbido de investigar a vida dela, que se ela me ajudasse não iria arrepender-se.

       - Ela pode dar com a língua nos dentes - sugeriu Daniel. Jonas retrucou:

       - Respondo por ela. Garanto que está do meu lado. Está interessada em nosso futuro. Se ela trabalhar direitinho, posso até pensar nisso.

       - É sério, então? Está caído pela morena? - indagou Rubinho.

       - Reconheço que ela é uma tentação. Mas é cedo para dizer. O que sei é que está totalmente do meu lado. Foi ela quem me contou que todos os meses é depositado dinheiro na conta de Eleutéria e que ela fala nisso abertamente com o marido, mencionando que deveria aumentar a remessa, dizendo que afinal eles são ricos e podem pagar. Chega a dizer que enquanto eles estão brilhando na alta sociedade, ela está lá, tendo que arrancar o sustento da loja.

       - Ela disse isso? - perguntou Daniel.

       - Disse. O que comprova completamente a história de Alberto. Ela está chantageando o Dr. José Luís e a cada dia fica mais exigente. Como todos os chantagistas, sempre acha que pode obter mais.

       - Essa criada concordaria em depor se fosse preciso?

       - Não sei. Talvez. Marilena é corajosa e não gosta deles. Posso ver o que consigo com ela.

       - Tenho certeza de que, se conseguisse isso, Alberto seria reconhecido quando recebesse o dinheiro.

       - Ela me conseguiu alguns extratos bancários de Eleutéria contendo os depósitos efetuados e percebi que eram realizados uma vez por mês, sempre na mesma data. Aqui estão eles.

       - Eleutéria não vai dar pela falta?

       - Não. Ao que parece ela não é organizada com seus papéis. Tem pequeno escritório em casa, onde deixa tudo espalhado pelas gavetas. Marilena garante que ela nem vai perceber. Deixei-a encarregada de telefonar-me se acontecesse alguma coisa diferente e voltei para cá. Queria ver quem fazia o depósito do dinheiro. Ontem foi o dia previsto. Algo me dizia que Bóris tinha algo a ver com isso. Fiquei de tocaia em casa do Dr. José Luís. Eram mais de meio-dia quando ele saiu e fui atrás. Foi diretamente à casa de Pola, ficou lá meia hora. Saiu e eu resolvi esperar. Se ele fosse fazer o depósito, teria ido direto ao banco. Meu palpite estava certo. Cinco minutos depois, ela saiu e segui-a. Foi direto à agência bancária. Entrei junto com ela, como se fosse também fazer um depósito. Vi quando ela preencheu a papeleta com o nome de Eleutéria, pegou um maço de notas e fez o depósito.

       - Em dinheiro - disse Rubinho.

       - Sim. Foram duzentos mil cruzeiros.

       - Tudo isso?

       - Em dinheiro, para não deixar nenhuma prova - comentou Daniel. - Eles nem imaginam que estamos investigando. Essa Eleutéria nunca vai querer depor a favor de Alberto. Primeiro porque seria enquadrada como cúmplice, segundo porque mataria a galinha dos ovos de ouro.

       - Já esperava por isso - ajuntou Rubinho. - Em todo caso, parece que agora não temos mais dúvidas. Podemos dar entrada na petição.

       - Vamos chamar Alberto para conversar a respeito - disse Daniel. - Jonas vai continuar com as investigações. Falta-nos descobrir o paradeiro da verdadeira mãe do menino que foi enterrado no lugar de Marcelo. Alberto nunca conseguiu localizá-la.

       - Talvez tenha morrido. Mas se conseguirmos encontrá-la viva, será difícil convencê-la a depor. Foi cúmplice e certamente será também responsabilizada - argumentou Rubinho.

       Jonas interveio:

       - Se conseguirmos- encontrá-la, não poderá furtar-se a prestar declarações à justiça. Poderemos conseguir a exumação do corpo.

       - É muito tempo, e a exumação não trará muitos esclarecimentos ao caso - opinou Daniel.

       - Poderemos tentar. Hoje em dia a perícia está muito adiantada - disse Rubinho.

       Jonas saiu e os dois se dedicaram inteiramente em trabalhar na petição de abertura da ação contra a família Camargo. Nela estavam relatados todos os fatos que conseguiram descobrir, com nomes e endereços, inclusive com os comprovantes de depósitos bancários feitos à ex-ama de Marcelo. Era um trabalho de fôlego, que exigia deles o melhor que pudessem obter. Chamaram Alberto para que ele tomasse conhecimento dos documentos que eles haviam redigido e verificar se estava tudo de acordo com os fatos que ele vivenciara.

       Faziam questão absoluta de manter-se dentro da verdade, narrando os fatos que por si só constituíam-se em um libelo terrível contra os Camargo.

       Eles queriam cuidar bem de todos os detalhes. Dentro de dois ou três dias as cartas seriam lançadas e não haveria mais como recuar.

 

      Capítulo 8

       Daniel chegou ao escritório de volta do almoço e logo notou que algo inusitado estava acontecendo. Na sala de espera havia um burburinho, e alguns fotógrafos logo se aproximaram dele enquanto outros faziam perguntas. Ele entrou o mais rápido que pôde, sem dizer nada. Rubinho esperava-o um pouco agitado.

       - Estourou a bomba! - disse Daniel excitado.

       - E. Há vários jornais querendo detalhes do caso.

       - Você falou alguma coisa?

       - Não. Prometi-lhes uma entrevista. Estava esperando você chegar.

       - O que vamos dizer?

       - Bom, nós não podemos entrar em detalhes. Vamos sugerir que Alberto fale com eles. O que lhes interessa é a história.

       - É. Só vamos confirmar a veracidade do fato e pronto. O resto fica com ele. Como souberam?

       - Um advogado do fórum contou-lhes. Eles sabem até a data em que o Dr. Camargo foi intimado a comparecer para prestar declarações.

       A secretária entrou dizendo com ar preocupado:

       - Eles estão me crivando de perguntas. Está difícil impedir que eles entrem aqui.

       - Está certo - decidiu Rubinho. - Diga-lhes que podem entrar. Segundos depois eles entraram e Rubinho foi logo dizendo:

       - Estamos prontos a prestar esclarecimentos. O que desejam saber?

       - E verdade que o neto do Dr. Camargo está vivo e deseja reaver seus bens?

       - É - respondeu Rubinho calmo.

       - Por que só agora, depois de tantos anos, ele apareceu?

       - Por que não o pôde fazer antes.

       - Quero crer que vocês, cujas famílias pertencem à melhor sociedade, devem ter provas convincentes do que estão afirmando. Que provas são essas?

       - Estão sendo apresentadas em juízo - disse Rubinho. - Não desejo falar sobre elas antes da decisão da justiça. Em todo caso, como vocês estão muito interessados, vou falar com nosso cliente. Se ele concordar, marcaremos uma entrevista com vocês em que ele contará toda a verdade.

       - Isso seria ótimo. Precisa ser logo. No fórum não se falava em outra coisa hoje. É o escândalo do momento - disse outro repórter.

       - Não estamos interessados em alimentar escândalos - disse Daniel. - Infelizmente trata-se de pessoas muito conhecidas. Não podemos evitar os comentários. Mas o que queremos é devolver, pelo menos em parte, a nosso cliente, o que lhe pertence por direito e que lhe foi tirado.

       - Isso mesmo - reforçou Rubinho. - Mesmo que ele agora veja reconhecidos seus direitos e receba sua fortuna de volta, quem poderá devolver-lhe o carinho da família, o amor do avô que morreu de desgosto, a companhia dos pais que nunca teve?

       - Por que vocês não contam logo toda essa história? - disse outro repórter.

       - Não podemos fazer isso. É um direito de nosso cliente. Ele só o fará se quiser. Portanto vocês precisam aguardar uma resposta dele - respondeu Rubinho.

       - Não pode ligar para ele e conseguir que venha aqui agora?

       - Terão que esperar até amanhã cedo - disse Daniel.

       - Amanhã o jornal já estará na rua.

       - É amanhã ou nada - garantiu Rubinho.

       - Está bem - disse o repórter que perguntara mais. - Voltaremos amanhã cedo.

       Depois de algumas tentativas de descobrirem mais alguma coisa, vendo a determinação dos dois em não ir além do que haviam dito, finalmente foram embora. Depois que eles saíram, Rubinho ligou para Alberto contando-lhe tudo. Ele ficou de ir para lá imediatamente a fim de combinarem o que ele deveria dizer na entrevista do dia seguinte.

       Tanto Rubinho quanto Daniel achavam importante criar uma atmosfera favorável na imprensa. Se a opinião pública ficasse do lado deles, seria uma pressão a mais para ganhar a causa. Não seria difícil conseguir isso.

       A história de Alberto casava-se bem ao sentimentalismo das pessoas. Quem ousaria ficar contra o pobre menino que fora impedido de viver com a família, segregado em um colégio distante e lesado em sua fortuna? Eles contavam com isso para ganhar a causa. Depois, um escândalo desses era um prato cheio para a maldade dos que nunca haviam conseguido sair da mediocridade e se alegravam com a queda de alguém que brilhava na sociedade.

       O telefone tocou e Rubinho atendeu:

       - É para você. Seu pai. Daniel atendeu:

       - Alô.

       - Que história é essa que estão comentando? Que loucura você e Rubinho estão fazendo? Perderam o juízo?

       - Não, pai. Estamos cuidando dos direitos de nosso cliente.

       - Onde você pensa que vai, atacando dessa forma nossos amigos, pessoas de nossa melhor sociedade? José Luís me ligou e eu fiquei de cara no chão. Onde já se viu? Ele sempre foi nosso amigo, apoiou minhas campanhas políticas, é pessoa de bem. Como pôde fazer uma coisa dessas?

       - Não tenho nada contra o Dr. Camargo como pessoa de nossa amizade, mas nosso cliente foi espoliado e estamos apenas defendendo seus direitos.

       - Pois você vai agora mesmo retirar essa queixa da justiça, alegar que estava enganado e que nada há contra José Luís.

       - Não vou fazer isso, pai. Sinto muito se ele é seu amigo, mas temos provas suficientes para ganhar essa causa e não vamos desistir.

       - Você está sendo ingênuo. Provavelmente foi iludido. Eu e sua mãe fomos ao enterro de Marcelo e não acredito que ele possa estar vivo. Vocês estão envolvidos em uma fraude. Saia disso enquanto é tempo. Você vai ser riscado da profissão, terá seu diploma de bacharel cassado compactuando com uma leviandade dessas.

       - Não vou desistir, pai. A justiça será feita. O Dr. Camargo terá que devolver a Marcelo tudo que lhe tirou. Ainda assim, estará fazendo pouco, uma vez que nunca poderá dar-lhe o carinho da família e tudo quanto ele perdeu quando o levaram embora do Brasil e esconderam-no na Inglaterra.

       Apanhado de surpresa, Antônio hesitou um pouco ao responder:

       - De onde tirou essa idéia? De algum romance de folhetim?

       - Não, pai. Foi o próprio Marcelo quem nos contou tudo quanto fizeram com ele.

       - E você acreditou! Que ingenuidade! Pois eu o proíbo de continuar com esse caso que está colocando nosso nome no ridículo. Você vai já retirar essa queixa e dizer aos jornais que estava enganado.

       - Não vou fazer isso de forma alguma. Estamos convencidos da veracidade dos fatos e nada nos fará recuar agora. Pensamos muito antes de aceitar essa causa. Tanto eu quanto Rubinho questionamos exaustivamente. De um lado uma família da sociedade, com a qual nossas famílias mantêm as melhores relações; de outro a pessoa injustiçada, espoliada, de quem tudo foi roubado. Optamos por defender o fraco, o oprimido, e fazer justiça. Não foi para isso que nos bacharelamos e prestamos nosso juramento?

       - O que você diz me assusta. Como pode ser tão inocente? Não vê que José Luís vai contratar o melhor advogado e que vocês serão massacrados por ele? Acha que dois principiantes como vocês vão poder desafiar os mestres do Direito e ganhar?

       - Estamos com os fatos. Vamos ganhar porque estamos do lado da verdade!

       - Vocês estão enganados. Precisamos conversar. Venha para casa com Rubinho e vamos resolver essa questão de uma vez antes que aconteça coisa pior.

       - Podemos conversar quando quiser. Mas nada nos fará mudar de idéia agora. Estamos determinados. Iremos até o fim.

       - Se fizer isso, não vai contar comigo! Corto sua mesada e as nossas relações. Não quero compactuar com sua decadência. Quero que fique bem claro para todos que não estou de acordo com suas atitudes. Vou ficar do lado de José Luís, doa a quem doer.

       - É um direito seu. Posso compreender sua atitude, entretanto eu esperava que você, sempre se colocando como um defensor do povo, dos pobres e dos oprimidos, ficasse do nosso lado. Entretanto você prefere o outro lado. Espero que nunca venha a se arrepender dessa atitude.

       Antônio irritou-se:

       - Pare com esse pieguismo barato! Não admito que fale dessa forma comigo e que me desobedeça. Você vai acabar com essa história o quanto antes!

       - E se eu não quiser?

       - Não mais o terei como filho.

       - Sinto muito, papai, que pense assim. Hoje à noite passarei em casa para apanhar minhas coisas.

       - Pensou bem no que está fazendo?

       - Pensei.

       - Pois continue pensando até a noite. Ainda pode mudar de idéia. Estarei esperando.

       - Está bem, papai.

       Ele desligou e Rubinho considerou:

       - A carga já começou. Pelo jeito vamos ter que nos mudar mesmo. Meu pai vai tomar a mesma atitude.

       - Já esperava que ele fosse reagir dessa forma. Ele não entende nossa postura. Sempre cuidou muito das aparências, preocupa-se em conquistar a amizade das pessoas influentes e poderosas. Se eu não desistir, vai cortar a mesada e as relações comigo.

       - O que vai fazer?

       - Se ele continuar fazendo essas exigências, hoje à noite vou apanhar todas as minhas coisas e me mudar para um hotel. Amanhã procurarei um pequeno apartamento para alugar.

       - Algo está me dizendo que terei que fazer o mesmo. Meu pai também não vai acreditar que possamos vencer essa parada.

       - Ele ainda não ligou.

       - Vai esperar eu chegar em casa para conversar pessoalmente. Sei como ele age. Vai tentar convencer-me a desistir. Como não vou fazer o que ele quer, vai pressionar da mesma forma que seu pai e terei que sair de casa também.

       - Seja como for, estamos jogando tudo e não podemos desistir de forma alguma.

       - Isso. A razão e a verdade estão de nosso lado. Vai dar tudo certo.

       Antônio desligou o telefone nervoso.

       - É verdade mesmo? - perguntou Maria Alice preocupada.

       - É. Ele está cego. Imagine você que quer enfrentar José Luís na justiça! Vão fazer picadinho deles, dois ingênuos e inexperientes moleques. O pior é que ele me enfrentou. Chegou até a questionar minha plataforma política, cobrando atitudes de campanha. Imagine você como ele está desorientado! Ah, mas eu não deixei por menos. Hoje à noite ele terá que desistir dessa loucura.

       - E se ele não quiser?

       - Acha que terá como me enfrentar? Corto a mesada, ponho-o na rua por alguns dias e logo verá que toda sua arrogância desaparece. Vai fazer tudo que eu quiser!

       Maria Alice olhou-o e não escondeu a preocupação. Sabia que Daniel era dócil e fácil de levar, mas que, quando queria uma coisa, ninguém conseguia demovê-lo.

       - Daniel é impulsivo. Sua política está sendo muito radical. Com jeito poderia conseguir mais dele.

       - Tive muita paciência. Aliás foi você quem me convenceu a esperar quando ele começou com essa idéia maluca junto com aquele descabeçado do Rubinho. Se eu tivesse tomado uma atitude drástica logo no início, as coisas não teriam chegado a este ponto. Sinto muito, Maria Alice, mas desta vez vou fazer do meu jeito. Ele terá que me obedecer.

       - Ele já é um homem. Não é mais um menino que você pode mandar e ele terá que obedecer.

       - Sou seu pai. Terá que me ouvir. Estou resolvido. Se ele não quiser desistir dessa idéia maluca de processar José Luís com essa história inventada por algum malandro, vou esquecer que ele é meu filho.

       - Você não fará isso!

       - Farei, sim. E você não vai impedir-me.

       Lanira na outra sala ouvia com interesse. Sabia que isso teria que acontecer, esperava que seu pai reagisse dessa forma e torcia para que Daniel se mantivesse firme. Apesar disso, pensava em Gabriel e sentia um aperto no coração. Como ele reagiria a essa história? Apegado à família, apaixonado pela mãe, cortaria as relações com ela?

       Durante aqueles meses Lanira aprendera a admirar Gabriel. Gostava dele. Esforçava-se para não misturar as coisas. Acreditava que Alberto estivesse falando a verdade e que Daniel e Rubinho estavam certos em defendê-lo, mas não queria magoar Gabriel. Se ficasse provada a culpa de José Luís, seu nome ficaria manchado e essa situação certamente atingiria toda a família. Lanira ficava dividida. De um lado queria que Daniel vencesse; de outro não queria que Gabriel sofresse. Teve vontade de telefonar para ele, porém conteve-se. Melhor fingir que não sabia de nada e esperar que ele ligasse.

       Passava das oito quando Daniel chegou em casa. Maria Alice, preocupada, tentou conversar:

       - Meu filho! Seu pai está arrasado. Pense bem no que está fazendo!

       - Já pensei, mamãe. Minha decisão está tomada. Não voltarei atrás. Sinto muito se vocês não compreendem minha posição. Sou um profissional. Aceitei a causa e terei que ir até o fim.

       - Logo contra nossos amigos? E se estiver enganado? E se, como seu pai pensa, estiver sendo vítima de um malandro? Vai nos expor ao ridículo e acabar com sua carreira. Por que se arriscar em uma causa tão difícil sem estar preparado suficientemente?

       - Não se preocupe, mãe. Sei o que estou fazendo. Já pensei bastante. Tenho consciência do que está em jogo. Tenho provas suficientes para ganhar essa musa. Pode ter certeza disso.

       - Mas eles são pessoas de nossa amizade! Seu pai deve favores ao Dr. José Luís. Como ficaremos diante dele?

       - Sinto muito colocá-los nessa situação, porém dentro da profissão não podemos ser pessoais. Há um cliente espoliado, que confia em nós e com o qual assumimos compromisso de defendê-lo na justiça e o faremos da melhor forma.

       Antes que Maria Alice respondesse, Antônio, que entrara na sala sem ser notado, interveio:

       - Você não vai fazer isso. Não permitirei. Daniel voltou-se para ele:

       - Gostaria que se interessasse pelo caso, esquecesse que se trata de pessoa conhecida, compreendesse minha posição. Marcelo foi roubado, privado do convívio da família, tido como morto. Nada mais justo que deseje reaver o que lhe pertence por direito.

       - Você fala como se essa história fosse verdadeira! Está cego! O que lhe disseram para acreditar nisso? Não posso permitir que continue nessa farsa. José Luís é um homem íntegro, respeitado; sua esposa, uma dama caridosa e estimada na melhor sociedade do Rio de Janeiro. Onde pensa que vai com essa calúnia? Acha que alguém lhe dará ouvidos? Não percebe a loucura que está cometendo? Não vê que vai acabar no ridículo e na repulsa de todos os nossos amigos?

       - Estou decidido, pai. Nada do que disser vai me demover de levar este caso à frente. Tenho certeza do que estou afirmando e não vou desistir até provar tudo na justiça. Eu e Rubinho consideramos minuciosamente todos os riscos. Temos consciência do poder do Dr. José Luís, de seu dinheiro e de sua fama. Resolvemos aceitar essa parada e ir em frente. Nada nos fará mudar de idéia.

       Antônio irritou-se:

       - Está me enfrentando? Eu ordeno que pare com isso. Amanhã mesmo você vai encerrar o caso.

       - E inútil, papai. Não faremos isso. Antônio indignou-se:

       - Está me forçando a tomar uma atitude que eu não queria.

       - Já sei, papai. Quer que eu saia desta casa.

       - Se não me obedecer, não o reconheço mais como filho. Não o quero mais em minha casa.

       - Lamento que pense assim. Vou lá em cima arrumar minhas coisas.

       Pálida, Maria Alice interveio:

       - Seu pai não quis dizer isso. Está nervoso. Você o desacatou. Vá para o quarto, pense melhor. Amanhã voltaremos ao assunto.

       Daniel foi para o quarto, apanhou uma mala, colocou-a sobre a cama e começou a juntar todas as suas coisas. Sentia-se emocionado, nervoso. Pensara nessa possibilidade. Porém, agora que estava realmente acontecendo, sentia-se angustiado.

       Apesar disso, reconhecia que seu pai não tinha o direito de decidir o que ele deveria ou não fazer em sua vida profissional. Era sua carreira que estava em jogo. Eram seus princípios, sua dignidade. Ele queria cuidar da própria vida; se errasse, assumiria as conseqüências. Desejava ser o dono de seu destino. Não queria ser como o pai, levar uma vida de aparência, escravo das conveniências, fechando os olhos e aferindo vantagens com a desonestidade alheia. Ele queria construir sua própria vida, do seu jeito.

       Lanira bateu na porta levemente e entrou. Vendo-o fazer as malas, abraçou-o emocionada:

       - Você vai mesmo! Já pensou bem?

       - Já, Lanira.

       - Sentirei sua falta!

       - Nós nos veremos sempre. Nada vai mudar entre nós.

       - As coisas deveriam ser diferentes. Acho que papai poderia ser mais compreensivo.

       - Ele é como é. Temos que aceitar essa verdade.

       - Sinto muito. Por que não deixa para ir amanhã? Pode ser que ele mude de idéia.

       - Não espere dele o que ainda não pode dar. Sei cuidar de mim, não se preocupe.

       - Para onde vai?

       - Um hotel. Amanhã procurarei apartamento para alugar.

       - E Rubinho?

       - Talvez faça o mesmo.

       Lanira ajudou Daniel a arrumar tudo. Quando terminaram, ele a abraçou com carinho.

       - Adeus, Lanira. Assim que tiver o endereço, telefono. Abraçaram-se e ela o ajudou com as malas. Desceram as escadas e Maria Alice deixou o marido na sala e aproximou-se aflita:

       - Meu filho! Você não pode ir embora!

       - Não se preocupe, mãe. Estarei bem.

       - Pense melhor! Não se precipite.

       Daniel abraçou-a com carinho, dizendo:

       - Adeus, mãe. Assim que estiver instalado, mando o endereço.

       - Vá falar com seu pai antes de ir. Tente demovê-lo!

       - Não vou fazer isso. Ele foi muito claro.

       - Vai sair sem lhe dizer nada?

       Daniel hesitou, depois foi até a sala onde Antônio lia um jornal e, dirigindo-se a ele, disse:

       - Adeus, pai. Embora não me reconheça mais como filho, eu ainda o reconheço como pai. Quando voltar atrás dessa decisão, estarei esperando com o carinho de sempre.

       Antônio não respondeu. Por seus olhos passou um brilho de emoção. Sentiu vontade de abraçar o filho e impedi-lo de sair. Mas dominou-se. Ele precisava impor-se como pai. Não podia fraquejar. Embora com o coração apertado e o peito oprimido, não disse nada enquanto Daniel saía da sala e apanhando as malas deixava a casa paterna.

       Vendo seu carro afastar-se, Maria Alice, esforçando-se para dominar a emoção, procurou Antônio dizendo:

       - Por que o deixou ir? Por que não o impediu de fazer essa loucura?

       - Foi ele quem escolheu. Não posso tolerar em casa um filho que me enfrenta, que não acata minhas ordens. Tenho dignidade. Não posso permitir que ele abuse de minha autoridade.

       - Não precisava ser tão radical! Poderia ter esperado um pouco. Pode ser que eles reconheçam o erro e mudem de idéia.

       - Daniel é teimoso. Vai quebrar a cara e voltar com o rabo entre as pernas. Você vai ver! E só questão de tempo!

       - Ele não vai voltar. Não depois do que você lhe disse.

       - Bobagem. A vida lá fora não é esse mar de rosas que ele tinha aqui. Em sociedade temos visto inúmeros casos como esse. Eles sempre voltam para casa quando o dinheiro acaba. Daniel não está acostumado a ficar na miséria.

       - Meu Deus! O que será dele sem dinheiro? O que dirão nossos amigos?

       - Dirão que estamos dando-lhe uma lição. Quando a ilusão acabar, ele voltará e fará tudo quanto eu disser. Você verá.

      

       Lanira, no quarto, sentia-se, triste. Gabriel não lhe telefonara como havia prometido. E se ele não a procurasse mais? Sentiu um aperto no coração. Sobressaltou-se. Estaria apaixonando-se por ele? Claro que não. tia não queria amar ninguém e acabar se transformando em uma dona de casa, com filhos, cheia de obrigações. Não. Ela gostava de Gabriel, mas não era amor. Apenas uma boa companhia.

       E se ele cortasse relações com ela? Bem, se ele agisse assim não seria digno de sua amizade. Ela não era Daniel e ele deveria saber separar as coisas. O que faria se ele tocasse no assunto? Não seria hipócrita. Diria a verdade. Contaria que Daniel acreditava mesmo que Alberto fosse Marcelo.

       Sentiu-se mais calma depois de tomar essa decisão. Não se sentia culpada de nada. Não tinha por que temer. Esperaria os acontecimentos serenamente.

       Deitado na cama do hotel, Daniel pensava na decisão que fora forçado a tomar. Não achou oportuno ligar para Rubinho. Preferiu conversar na manhã seguinte no escritório.

       Deixar a casa paterna não fora tão fácil como havia pensado. A emoção que a mãe tentava conter, a tristeza de Lanira, a dureza do pai e principalmente as lembranças da infância e da adolescência que lhe vieram à mente enquanto fazia as malas fizeram brotar em seu peito um sentimento de perda, uma sensação de insegurança. Entretanto, depois que colocou as malas no carro e saiu à procura do hotel, começou a sentir uma força interior como antes nunca havia sentido. Um calor no peito, uma agradável sensação de liberdade, de confiança no futuro, que lhe devolveram o otimismo, causando extremo bem-estar.

       - Amanhã é outro dia - pensou. - Daqui para a frente, só farei as coisas do meu jeito.

      

       No dia seguinte Daniel foi para o escritório bem cedo. Agora mais do que nunca precisava estudar o caso para que nenhum detalhe fosse negligenciado. Às dez horas Alberto daria uma entrevista a alguns repórteres, conforme o combinado.

       Antes das oito, quando Rubinho chegou, já encontrou Daniel estudando o caso.

       - E então, como foi? - indagou ansioso.

       - Como eu previa, tive que me mudar. Ontem mesmo fui para um hotel.

       Rubinho sentou-se, ficou alguns segundos pensativo, depois disse:

       - É o diabo.

       - Conhecendo meu pai, era de se prever.

       - Não tentou convencê-lo?

       - De que forma? Ele não acredita na veracidade dessa história nem em nossa capacidade para enfrentar na justiça o poder dos Camargo. Exigiu que retirássemos a queixa. Como recusei, apontou-me o caminho da rua.

       - Deve ter sido duro para você.

       - Eu sabia que poderia acontecer, mas, na hora que aconteceu, não nego que fiquei apreensivo, nervoso, triste. Mamãe, apesar de durona, estava pálida, angustiada; Lanira, triste. Apesar de nossas diferenças de pontos de vista, não nego que tive uma vida muito boa em família. Saí com o coração apertado. Entretanto, depois que me afastei, uma gostosa sensação de liberdade, de auto-suficiência tomou conta de mim. Senti-me mais forte, encorajado, disposto.

       - Vamos ver como será comigo.

       - Você também?

       - Meu pai pensa igualzinho ao seu, mas tem outros métodos de persuasão. Não impõe. Quando cheguei, chamou-me para conversar. Não criticou nossa atitude. Ele gosta do tom amigável. Aconselha. Quis ouvir toda a história.

       - Ele é mais tolerante.

       - Está enfurecido, mas finge que compreende. Fez força para controlar-se. No fim, disse que tem um amigo que lhe ofereceu sociedade em uma empresa de consultoria jurídica. Um negócio de muito dinheiro. Ele não pode aparecer como sócio, mas queria que eu aceitasse. Eu ficaria milionário, travaria relações com pessoas de alto nível. Mas teria que abandonar nossa causa para dedicar-me inteiramente ao novo negócio.

       - É uma oferta tentadora.

       - Se eu estivesse apenas visando dinheiro. Meu pai tentou me corromper. Acha que eu aceitaria? Sempre fui contra os conchavos em que ele está sempre metido e nos quais ganhou sua fortuna. Recusei e ele ficou vermelho de raiva. Mas dissimulou. Deu-me dois dias para pensar.

       - O que pensa fazer?

       - Pelo que conheço dele, vamos procurar um apartamento hoje mesmo. No começo não temos muito dinheiro e vamos dividir as despesas conforme combinamos.

       - Acha que vai precisar fazer isso?

       - Acho. Assim que ele tiver certeza de que não vai poder me comprar com essa sociedade, cortará minha mesada, minha mãe terá crises do coração, meu irmão André tentará intervir e me "colocar na linha". O único que vai me apoiar será Betinho. E o mais mimado, mas adora contrariar o resto da família. Minha vida se tornará um inferno e não terei serenidade para trabalhar. Por isso, antes que tudo piore, resolvi me mudar o quanto antes.

       - Eu comprei o jornal para procurar. Pretendia fazer isso depois da entrevista de Alberto.

       - Vamos alugar um com dois quartos. Não deve ser muito caro.

       - Podemos encontrar um mobiliado.

       - Desde que o preço nos convenha.

       Eram nove horas quando Alberto chegou. Juntos eles combinaram os detalhes da entrevista. Quinze minutos antes da hora marcada, já os repórteres esperavam. Elza os fez entrar na sala de Rubinho, onde Alberto estava ao lado dos dois advogados. Quando eles se acomodaram, Rubinho apresentou Alberto dizendo:

       - Este é Marcelo, o neto do Dr. Antônio Camargo de Melo. Eles o olharam com curiosidade.

       - O que querem saber? - perguntou Daniel.

       - A história toda desde o começo - disse um deles.

       Alberto começou a falar. Contou a mesma história que inicialmente contara a seus advogados, omitindo as investigações que estavam procedendo e as provas que estavam juntando.

       Eles fizeram várias perguntas, tiraram fotos, pediram para repetir alguns trechos e saíram impressionados com o que ouviram.

       - Será destaque de primeira página - comentou Daniel.

       - Eles estavam muito interessados! E uma matéria e tanto, bem a gosto popular. Um escândalo em sociedade é um prato cheio! Vai render comentários por um bom tempo.

       - Só espero que não atrapalhem as investigações - comentou Alberto. - O que me interessa mesmo é reaver o que me pertence por direito. Eles se aproveitaram de mim quando eu era pequeno e não tinha como me defender. Agora estou aqui para cobrar. Eles terão que devolver tudo.

       - Vamos ganhar! - disse Rubinho.

       - Temos que ganhar! - completou Daniel.

       

Capítulo 9

       Na sala de espera do consultório de Júlio, Daniel e Rubinho esperavam. Estava escurecendo e eles haviam combinado sair para jantar. Rubinho pretendia conversar com ele sobre os sonhos de Daniel.

       A porta do consultório se abriu e o último cliente saiu acompanhado de Júlio, que, vendo-os, abraçou-os com prazer.

       - Desculpe a demora - disse depois dos cumprimentos.

       - Atender bem o cliente é sempre o mais importante - considerou Rubinho.

       - Tem razão. Vamos entrar um pouco. E a primeira vez que Daniel vem aqui. Gostaria de mostrar-lhe o consultório.

       Eles entraram na sala em que Júlio atendia. O ambiente era moderno, alegre, com leve aroma de um anti-séptico que Daniel conhecia sem saber o nome. Havia rosas brancas em um vaso de cristal sobre um apara-dor elegante e confortáveis poltronas ao redor da escrivaninha.

       - Na sala ao lado procedo aos exames de rotina. Sentem-se. Ainda é cedo para jantar, não acham?

       - É - concordou Daniel.

       - Desejam ir a algum lugar antes? - indagou Júlio atencioso.

       - Preferimos conversar. Aliás, eu telefonei porque Daniel anda tendo alguns sonhos intrigantes. Como estudioso dos assuntos espirituais, talvez você possa nos ajudar a entender o que está acontecendo.

       - Foram alguns pesadelos. Impressionaram-me bastante. Minha vida mudou muito. Pode ser que eu tenha ficado preocupado.

       - Conte-me o que aconteceu - disse Júlio com naturalidade. Daniel contou todos os sonhos que tivera e a emoção que sentira. Júlio ouviu atentamente. Quando ele terminou, disse:

       - Você está tendo reminiscências de vidas passadas.

       - Eu não disse que era isso? - disse Rubinho satisfeito.

       - Sim, você disse, mas eu não sei... Parece-me uma hipótese tão inusitada!

       - Talvez porque você não conheça o assunto. Esses fenômenos são mais comuns do que você poderia supor. Muitas pessoas têm tido essas experiências.

       - Confesso que nunca me detive para pensar em reencarnação. Essa hipótese parece-me tão fantasiosa!

       - Por quê? Nunca questionou por que em um universo tão perfeito como o nosso, onde tudo se equilibra, mantendo a vida com precisão tanto no micro como no macrocosmos, há tantas diferenças físicas, sociais entre os homens como as que existem no mundo? Se Deus é perfeito e só age no bem, como entender essa aparente disparidade?

       - Longe de mim questionar a perfeição de Deus - disse Daniel. - Mas é difícil conciliar a bondade de Deus com as injustiças e os sofrimentos no mundo.

       - Se você pensar que só vive uma vida na Terra, fica impossível compreender mesmo - esclareceu Júlio. - Entretanto, se aceitar que o mesmo espírito volta várias vezes a renascer na Terra para aprender a controlar a mente e desenvolver a consciência, arcando com os resultados de suas atitudes ao longo do tempo, perceberá que tudo está certo. Que cada um nasce dentro da experiência que precisa para desenvolver seus potenciais de espírito eterno.

       - E uma filosofia interessante! - tornou Daniel interessado.

       - Não é apenas uma filosofia. E uma realidade. Muitas pessoas passaram por experiências concludentes. E possível, através da hipnose, fazer regressão e recordar fatos vivenciados em vidas passadas. Há cientistas estudando o assunto e chegando a provas inquestionáveis.

       - Gostaria de ler essas pesquisas - interessou-se Daniel.

       - Posso emprestar-lhe alguns livros. Há um em especial que me impressionou. Chama-se O Caso de Bridey Murphy. Foi escrito por um corretor de imóveis que após algumas experiências de hipnotismo conseguiu que uma amiga sua voltasse à encarnação anterior, prestasse valiosas informações que depois foram pesquisadas e confirmadas.

       - Como assim? - indagou Rubinho.

       - Ela deu o nome, o endereço de onde viveu na encarnação anterior, o nome do marido, etc. Fizeram pesquisas e encontraram nos cartórios todos os documentos. Aquela pessoa havia existido e as informações estavam certas.

       - Que coisa extraordinária! - comentou Daniel. - Gostaria de ler esse livro.

       - Posso emprestá-lo.

       - Será que esse escritor não estava tão fanatizado com a reencarnação que acabou impressionando a moça.

       - De forma alguma. Ele não acreditava em reencarnação quando começou suas experiências com hipnotismo. Quando a amiga que ele hipnotizava em suas pesquisas falou em reencarnação, ele ficou tão chocado que abandonou a hipnose por mais de um ano, voltando às pesquisas pressionado por alguns fatos de sua vida.

       - Interessante! - comentou Daniel. - Se meus sonhos têm a ver com alguma vida passada, como poderei saber?

       - Você tem tido reminiscências espontâneas. Pode ser que continuem. Por alguma razão você entrou em um processo que está mexendo com problemas de seu passado e precisa se recordar de alguns fatos. Mas podemos também tentar a hipnose e induzir a fim de que descubra alguma coisa mais.

       - Não é um processo perigoso? - indagou Daniel.

       - Não, desde que seja utilizado por pessoa capacitada. Se quiser tentar, poderemos fazer alguns testes.

       - Você sabe como?

       - Há anos estudo o hipnotismo e tenho aplicado em alguns pacientes. E uma experiência fascinante.

       - Gostaria de me informar melhor antes de tentar qualquer coisa - tornou Daniel. - Se me emprestar esse livro a que se referiu, lerei com prazer.

       - Eu também vou ler - interveio Rubinho. - Vai ser bom desviar um pouco a atenção de nossos problemas.

       - Pelo que li nos jornais e tenho ouvido dos amigos, vocês mexeram em um vespeiro. Em todos os lugares que vou não se fala em outra coisa.

       - O povo gosta do escândalo - respondeu Rubinho. - Infelizmente não pudemos evitar isso. As pessoas envolvidas são muito conhecidas.

       - Além do que muito respeitadas em sociedade. Meus pais duvidaram da história que leram nos jornais.

       - Os meus também - concordou Daniel. - Entretanto as provas que possuímos são irrefutáveis. Eles não só mentiram, substituíram o corpo de Marcelo pelo de um menino que havia morrido naquele dia e ficado com o rosto irreconhecível, como levaram-no para a Inglaterra, de onde ele nunca deveria voltar.

       - E uma história de arrepiar. Principalmente por saber que toda a ü morreu em menos de dois ou três anos depois do acontecimento -  completou Rubinho.

       Júlio sacudiu a cabeça pensativo:

       - Pode ter sido coincidência, mas esse fato dá o que pensar!

       - Por enquanto estamos investigando a fraude, mas também estamos inclinados a crer que os fatos podem ter sido piores. Afinal, a morte de toda a família favoreceu a posse da herança que o Dr. José Luís tanto queria - disse Rubinho.

       - Não nego que vocês são corajosos. Diante dos fatos, poucos teriam peito para enfrentar os Camargo de Melo na justiça, levando-se em conta que eles são muito considerados e possuem amigos até entre a alta magistratura do país.

       - Por causa disso meus pais acham que vamos ser massacrados - tornou Daniel. - Mas nós acreditamos na justiça. Diante das provas, nenhum juiz deixará de reconhecer Marcelo como o verdadeiro herdeiro de tudo.

       - Vocês devem estar bem calçados para enfrentar essa briga.

       - Além das provas que Marcelo tem, estamos investigando e já descobrimos novas evidências. Daniel esteve a ponto de recusar a causa, e só não o fez por causa daquele detalhe do sonho.

       - É verdade. Você sonhou com seu cliente antes de conhecê-lo. Depois que precisava aceitar essa causa. Não foi isso? - lembrou Júlio.

       - Foi.

       - Está claro que você, além de recordar fatos de outras vidas, recebeu ajuda espiritual.

       - Como assim?

       - Antes de nascer neste mundo nós estávamos vivendo em outra dimensão e é para lá que voltaremos quando nosso corpo de carne morrer. Embora nossas lembranças desse mundo tenham sido apagadas para facilitar nossa vida na Terra, temos muitos amigos em nossa pátria de origem e todas as noites, enquanto nosso corpo dorme, podemos ir até lá, conversar com eles.

       - Foi isso que aconteceu comigo?

       - Foi. Essa pessoa que o aconselhou a aceitar a causa deve conhecer os fatos de suas vidas passadas que se relacionam com Marcelo. Eu acredito que defendê-lo, refazer passados enganos, deve ter sido uma aspiração de seu espírito quando estava no astral, antes de reencarnar. Por isso ele procurou avivar sua memória para que não perdesse a chance de fazer o que você queria.

       - Então terei mesmo tido outra vida e conhecido Alberto, isto é, Marcelo?

       - Quanto a isso não tenho dúvida. Como poderia ter sonhado com ele antes mesmo de conhecê-lo? Juntar vocês dois, ou talvez até os três, já que Rubinho também está envolvido no caso, parece-me coisa do destino, da vida, que tudo sabe e age pelo melhor. Ela juntou vocês porque está na hora de resolver os assuntos não resolvidos no passado.

       - De que forma? - indagou Rubinho interessado.

       - Não sei. Mas, com certeza, aceitando essa causa estão no caminho certo. Algo me diz que essa história é mesmo verdadeira e que vocês precisavam fazer o que estão fazendo.

       - Eu senti isso desde o primeiro dia - concordou Rubinho.

       - Eu também, apesar de um vago receio não sei bem do quê, que me incomoda quando olho para Alberto.

       - Nesse processo vocês precisam do bom senso. Sabem como proceder com ética e principalmente você, Daniel, que eu sinto estar mais envolvido nesta história, não pode se deixar levar pelas emoções do passado que forçosamente vão emergir dentro de você. Precisa ponderar suas atitudes e não se impressionar. Seja o que for que aconteceu entre vocês, já passou. Acabou. Se agora a vida reuniu-os, foi porque existe a chance de conviverem de uma forma melhor.

       - O que me assusta são as emoções que não posso explicar - ponderou Daniel. - Nunca fui de me impressionar com pessoas. Com ele é diferente.

       - Reencontrá-lo acionou os mecanismos de suas vidas passadas e por isso o impressionou tanto. Por seu sonho dá para perceber que o encontro de vocês foi programado mesmo antes de sua reencarnação, o que faz crer que será muito bom para todos essa convivência.

       - Por quê? E se ele trouxer desgraça? Eu nunca havia me sentido assim antes.

       - Você está assustado, revivendo intimamente emoções fortes de outras vidas. Não precisa temer. Como eu disse, o passado acabou. Seja o que for que aconteceu naqueles tempos, não vai voltar mais. Vocês mudaram, o tempo passou, o mundo mudou. A vida só trabalha pelo melhor, só faz o que é bom para todos os envolvidos. Se ela juntou vocês, tudo pode dar certo. Ela não joga para perder.

       - Se perdermos essa causa, estamos liquidados profissionalmente - considerou Rubinho.

       - Seja o que for que acontecer, vocês estarão ganhando. Pelo menos vão aprender muito.

       - Não tenho medo de perder - disse Daniel. - Temos que ganhar, mas, se não der, perder uma causa não significa perder a vida. Afinal a experiência tem seu preço.

       - Assim é que se fala! - considerou Júlio. - Desejo sinceramente que vocês ganhem. Não tenho nada contra o Dr. José Luís. Mas a causa de um menino espoliado sempre mexe com nossos valores de justiça. Depois, como estudioso da reencarnação, sinto que será muito interessante poder acompanhar esse caso e descobrir o que se esconde atrás dos acontecimentos de hoje. Para mim, toda esta história teve início em vidas passadas.

       - Você fala com tanta certeza! - disse Daniel.

       - Para mim não há mais dúvida. A reencarnação, a existência de outros mundos de onde viemos e para onde vamos depois da morte do corpo é a única forma de explicar os fenômenos e os problemas que observamos à nossa volta. Quanto mais estudo, observo, penso, mais sinto que não poderia ser diferente. Além disso, há pessoas que se recordam claramente de fatos vivenciados em outras vidas. Elas aparecem em todas as culturas, entre pessoas de crenças e religiões diferentes, e as características são as mesmas.

       - Não deixa de ser intrigante - comentou Daniel.

       - Você poderia tentar descobrir o que aconteceu em outras vidas fazendo uma regressão - sugeriu Rubinho. - Seria uma forma de testar essa possibilidade.

       - Não estou ainda preparado para uma experiência dessas - respondeu Daniel

       - Do que tem medo? Se fosse comigo, faria logo e pronto. Estou curioso - disse Rubinho.

       - Por que não tenta você? Afinal, também faz parte do mesmo processo. Não foi o que Júlio disse?

       - Porque é você quem está tendo sonhos estranhos e sensações diferentes. Eu não estou sentindo nada.

       - De fato, Daniel está mais sensível e talvez fosse mais indicado começar por ele. Mas você também pode tentar. Em uma regressão, nunca se sabe o que pode acontecer - disse Júlio.

       - Vou pensar nisso - respondeu Rubinho.

       Continuaram conversando mais alguns minutos e depois, ainda comentando o assunto, saíram para jantar.

       Sentada em sua cama, Lanira olhava para o telefone pensativa. Sentia vontade de ligar para Gabriel, mas tinha receio. Fazia mais de vinte dias que ele não lhe telefonava, e ela sabia que ele se afastara desde que Daniel abrira a ação contra seus pais.

       Ela preferia que ele a houvesse procurado ainda que fosse para criticar seu irmão, ou para manifestar sua contrariedade. Mas ele simplesmente desaparecera. Ela gostaria muito de ter se posicionado com ele sobre o assunto e conhecido também seus sentimentos.

       Claro que seu desaparecimento indicava o quanto ele se magoara com o processo, incluindo-a indiretamente. E era isso que ela não queria aceitar. Não era justo que ele a incluísse sem lhe dar nenhuma chance de posicionar-se.

       Decidida, apanhou o telefone e discou. Uma voz de mulher atendeu e ela pediu:

       - Quero falar com Gabriel.

       - Ele não está. Quem está falando?

       - Uma amiga dele da faculdade - mentiu ela. - A que horas ele volta?

       - Ele está viajando. Tirou férias e viajou. Não sabemos quando ele regressará.

       - Poderia dar-me o endereço para que eu possa escrever-lhe?

       - Ele não tem lugar fixo.

       - Obrigada.

       Lanira desligou preocupada. Aquela não era época de férias. Gabriel teria deixado a faculdade? Remexeu-se na cama inquieta. Teria a situação se tornado tão insustentável que ele se ausentara?

       A noite, depois do jantar, ao invés de recolher-se como de hábito, Lanira apanhou uma revista e afundou em uma poltrona na sala de estar. Sempre que desejava saber alguma coisa, ela fingia ler e procurava ouvir o que seus pais conversavam.

       Eles tinham o hábito de se sentar na sala após o jantar e conversar. Nunca se davam conta de que ela estava por perto e falavam sem reservas. Ela fingia ler e não perdia nada do que eles diziam.

       Após falarem sobre política, Maria Alice comentou:

       - Angelina me ligou chorando. Rubinho também saiu de casa. Ernesto fez de tudo para que ele desistisse da malfadada ação. Mas ele não quis.

       - Então Ernesto mandou-o embora de casa.

       - Isso mesmo. Ela chorava, mas ele não voltou atrás.

       - Até que ele foi muito tolerante. Eu resolvi logo a questão. Soube que José Luís não vai comparecer à audiência e mandou o Dr. Loureiro. Já pensou? Um dos melhores e mais respeitados advogados do país. Aliás, quando José Luís procurou-me indignado, me posicionei bem claro. Dei-lhe todo o apoio. Inclusive disse-lhe que havia expulsado Daniel e não o considerava mais como filho.

       - Pelo menos para isso valeu sua atitude.

       - Mostrei-me ferido, triste. Infelizmente eu nada posso fazer para impedir essa barbaridade. Daniel é maior de idade. José Luís garantiu que Daniel está se deixando levar por um impostor, que naquela ocasião ele mesmo viu o corpo de Marcelo e o examinou. Não há nenhuma hipótese de o menino ter sobrevivido ao acidente. Conforme eu pensava, Daniel está sendo enganado grosseiramente e não percebe isso.

       - Não haveria um jeito de fazê-lo entender?

       - Bem que eu tentei. Mas ele está obstinado. Quero ver o que fará quando perder a ação e ficar desmoralizado.

       - Não posso entender. Como ele, sempre tão ponderado, foi entrar em uma coisa dessas?

       - Para você ver. Estamos vivendo em um tempo terrível. Os filhos hoje não ouvem mais os pais.

       - O que mais José Luís disse?

       - Bom, ele estava indignado. Era de se esperar. Qualquer um teria tido essa reação se estivesse em seu lugar.

       - Apesar disso, eles continuam freqüentando a sociedade como se nada estivesse acontecendo. Ainda ontem estavam na festa de quinze anos da filha do Dr. Hortênsio.

       - Por que deveriam agir diferente? Eles estão sendo vítimas, não têm por que se afastar. Ao contrário, as pessoas estão demonstrando-lhes sua solidariedade.

       - Na frente deles. Mas eu vi: quando eles viravam as costas, as pessoas faziam comentários em voz baixa. Sabe de uma coisa? Eu acho até que muitos gostariam que fosse verdade só para vê-los humilhados.

       - Que bobagem. Eles são estimados, ricos.

       - Por isso mesmo. Os invejosos e os medíocres gostam de ver cair os que estão por cima.

       - Infelizmente você tem razão. Sinto isso até entre os correligionários de nosso partido. Há alguns que gostariam de me derrubar. Só não o fazem porque não podem. Eu sou mais esperto e mais forte do que eles.

       Abaixando a voz, Maria Alice tornou:

       - Você não percebeu que Gabriel se afastou de Lanira? Nunca mais

       saíram juntos. Teria sido por causa de Daniel?

       .- Com certeza. A loucura dele está prejudicando até a irmã. Aliás,

       entre os jovens esses assuntos impressionam mais. Eu percebi que os filhos Je losé Luís como que desapareceram de nossas rodas. Você os tem visto?

       -Não. Gabriel não era muito assíduo, mas Laura nunca deixava de

       ir a uma festa. É verdade, eles não apareceram mais em público depois da malfadada ação.

       - para você ver a situação que a irresponsabilidade de Daniel criou.

       O pior é que ele está convencido de estar fazendo uma grande coisa. Um ato heróico de justiça!

       - Concordo. Não posso permitir isso. Vou procurar Daniel e tentar demovê-lo.

       - Você pode tentar. Mas não creio que ele atenda.

       - Amanhã à tarde irei procurá-lo.

       Mudaram de assunto. Lanira deu-se por satisfeita e foi para o quarto. Ela precisava falar com Daniel, saber como as coisas estavam caminhando.

       Daniel chegou em casa cansado. Passara a tarde toda com Rubinho estudando. Na tarde do dia seguinte teria lugar a primeira audiência do Dr. José Luís para ouvir a queixa e prestar os primeiros esclarecimentos sobre o assunto. Nesse primeiro encontro, eles não estariam presentes. Se o juiz entendesse que as provas eram irrelevantes, era possível que indeferisse o pedido e tudo terminasse aí. Ainda o Dr. José Luís poderia processá-los por difamação e calúnia e eles teriam que pagar todas as custas, inclusive os honorários do advogado dele, que deveriam ser altos.

       Apesar disso, Daniel sentia-se confiante. Quanto mais estudava o caso de Alberto, mais as provas pareciam-lhe irrecusáveis. Se o juiz não se impressionasse com o nome nem com a fortuna de José Luís e fosse imparcial, teria que pelo menos dar prosseguimento à ação a fim de que se esclarecesse melhor o assunto. Conseguido isso, eles teriam maiores chances de investigar e buscar mais provas.

       Deitou-se e repassou mais uma vez todas as providências legais concernentes ao caso e, satisfeito, adormeceu.

       Sonhou que estava em uma sala antiga examinando atentamente alguns papéis. Estava mais velho e de luto fechado. Sentia-se angustiado, triste. A porta abriu-se e surgiu um homem um pouco mais jovem do que ele. Inquieto, Daniel reconheceu Alberto. Um pouco diferente do que era agora, mas tinha certeza de que era ele.

       Levantou-se aflito. O outro aproximou-se fitando-o rancoroso.

       - Vim para lhe dizer que você vai pagar por tudo quanto fez a ela!

       - Não tem esse direito. Sabe que eu a amava mais do que tudo na mundo!

       - E mentira! Ela o odiava! Saiba disso. Não descansarei enquanto você não pagar por seu crime. Você a matou!

       - Não seja louco!

       - Você, sim. Tenho a certeza de que provocou o acidente. Estava com raiva porque era a mim que ela amava! Era a mim que ela queria! Nunca se deu conta de que ela se casou com você para obedecer aos pais e que o teria deixado se você não a tivesse obrigado a viver de seu lado. Você não a amava. Casou-se com ela por causa do dinheiro!

       Daniel levantou-se e ameaçou agredi-lo. Mas parou. Fez tremendo esforço para conter-se.

       - Vá embora daqui antes que eu acabe com sua vida! Não está contente com o que fez? Deseja mais?

       - Vou dar queixa de você na justiça. Você a matou para herdar todo o dinheiro dela. Não vou consentir que depois de tudo fique em liberdade usufruindo da fortuna que lhe roubou! Assassino! Assassino!

       Os olhos dele fitavam-no acusadores e cheios de ódio e Daniel sentiu seu coração descompassar, quis fugir.

       - É um pesadelo! - pensou fazendo força para acordar. Abriu os olhos ainda ouvindo a voz de Alberto repetindo:

       - Assassino! Assassino!

       Acendeu a luz e sentou-se na cama. Estava banhado de suor. Levantou-se e foi à cozinha tomar um copo de água. Por que esse pesadelo teria voltado? Estaria ele tão preocupado com a audiência que provocara aquele sonho desagradável?

       O pior era que tudo aquilo parecia-lhe ter acontecido realmente. Alguma coisa dentro dele sabia que aquelas cenas eram verdadeiras. Como explicar? Júlio teria razão? Teria ele vivido outras vidas em que Alberto teria participado?

       Se isso fosse verdade, eles haviam sido inimigos. Por que agora ele o escolhera para defendê-lo na justiça? Como ele se sentiria ao vê-lo? Teria alguma sensação desagradável?

       Se Alberto antipatizara com ele, não demonstrava. Aliás estava colocando seu futuro, todas as suas esperanças em suas mãos. Por quê? Eram perguntas que o faziam duvidar da veracidade de tudo quanto Júlio dissera. Apesar disso, não conseguia esquecer o sonho. Por mais que repetisse que isso não passava de um pesadelo criado pela tensão da audiência, a sensação de angústia reaparecia. A lembrança daquela mulher que morrera em seus braços o comovia e entristecia.

       Reconheceu que fatos estranhos estavam acontecendo com ele. Iria procurar Júlio para tentar esclarecê-los. Não podia continuar sentindo-se mal desse jeito. Precisava de toda a sua calma para estudar e levar a bom termo o caso. Eles estavam jogando tudo nesse trabalho. Rubinho confiava e ele queria fazer seu melhor.

       Quando Rubinho levantou-se, já o encontrou na cozinha tomando café. Haviam alugado aquele apartamento e estavam morando juntos há duas semanas.

       - Você levantou cedo! Não conseguiu dormir?

       - Dormi, mas tive o pesadelo de novo. Rubinho meneou a cabeça negativamente:

       - É o diabo! Bem que Júlio avisou que poderia acontecer. Enquanto Rubinho se sentava para o café, Daniel narrou o sonho, finalizando:

       - Não sei o que pensar. A presença de Alberto provoca em mim uma certa inquietação, algo desagradável que não sei explicar. Mas, segundo o que Júlio disse, ele teria sido um inimigo meu. Em meus sonhos está sempre me acusando. Eu noto que ele não sente o mesmo por mim. Nunca deixou transparecer nenhum sentimento desagradável. Ao contrário, me escolheu como seu advogado. Tudo isso não será apenas uma fantasia de minha parte?

       - Por que é que você quando sonha fica com a sensação de que está acontecendo de verdade?

       - É isso que me intriga. Sinto as emoções, fortes, vivas, como se tudo fosse mesmo verdade. Mas além disso, naquele momento, eu "sei" que tudo aconteceu mesmo.

       - A dúvida surge quando você acorda. Aí entra seu raciocínio e, como não acredita em vidas passadas, duvida de tudo.

       - Se fomos inimigos, por que ele confia em mim e não me odeia? Alguma coisa não bate nessa história.

       - Se eu fosse você, procuraria Júlio e tentaria descobrir o que é. Se não levar a nada, pelo menos você pode ter certeza de que foi fantasia sua mesmo.

       - É. Vou fazer isso. Vamos para o escritório? O dia hoje vai custar a passar.

       - É mesmo. O melhor será falar com Alberto. Temos que estar preparados para o caso de o juiz deferir a ação e instaurar o processo.

       - Jonas vai chegar hoje. Vamos ver se tem novidades.

       Terminaram o café e foram juntos para o escritório. Haviam marcado com Alberto uma reunião às dez horas. Enquanto esperavam, mergulharam no trabalho.

      

       Lenira decidiu faltar às duas últimas aulas e ir falar com Daniel. Estava preocupada. Quando entrou no prédio, um rapaz aguardava o elevador. Estava bem vestido e cumprimentou-a. A princípio Lanira não o reconheceu, mas quando entraram no elevador e ele apertou o mesmo número que ela, lembrou-se. Era Alberto.

       - Desculpe - disse ela. - Não o reconheci. Ele sorriu.

       - Vimo-nos muito rapidamente naquele dia, mas não esqueci seu rosto. Como vai, Lanira?

       - Bem. Vejo que guardou meu nome.

       - Eu tinha certeza de voltar a vê-la! Esperava este momento com ansiedade.

       Ele a fixava com admiração e Lanira sentiu-se aliviada quando chegaram ao destino. Alberto abriu a porta esperando gentilmente que ela saísse.

       Ela não era tímida. Por isso olhou-o nos olhos dizendo com voz firme, em que havia uma ponta de malícia:

       - Você melhorou sua aparência, veste-se melhor, na moda. Está gastando por conta da herança?

       Ele riu bem-humorado, mostrando duas fileiras de dentes alvos e bem distribuídos.

       - Não. Ainda não. Arranjei um emprego melhor.

       Vendo-os entrar juntos na sala de espera do consultório, a secretária convidou Alberto a sentar-se enquanto Lanira dirigiu-se à sala de Daniel, que, surpreendido, abraçou-a com carinho.

       - Que bom vê-la! Cabulou a aula?

       - Precisava falar com você. Mamãe vai procurá-lo logo mais à tarde para fazer uma tentativa de convencê-lo a desistir.

       - Terei prazer em recebê-la. Ela nunca veio aqui.

       - Sua visita não será de cortesia.

       - Eu sei. Mas mesmo assim será bem-vinda. Tenho esperança de que um dia ele vai me compreender.

       - Esse dia está muito distante.

       - Como vão as coisas lá em casa?

       - Como sempre. Tudo dentro das regras e dos horários.

       - Parece um pouco aborrecida.

       - Entediada, talvez.

       - Tem visto Gabriel?

       - Ele desapareceu desde que o caso veio a público. Nunca mais me ligou. Deve estar sentido.

       - Sinto muito. Você apreciava sua amizade. Mas eu avisei. A atitude dele era de se esperar.

       - Você não o conhece. Ele é diferente. Eu esperava que ele conseguisse separar as coisas.

       - Nunca mais o viu?

       - Nunca. O Dr. José Luís e D. Maria Júlia têm freqüentado todos os lugares de sempre, ido a festas, como se nada houvesse. Mas Laura desapareceu e Gabriel também. Dizem que está viajando. Penso que largou a faculdade. Não é época de férias ainda.

       Daniel passou a mão nos cabelos pensativo. Depois disse:

       - É uma pena que pessoas inocentes sejam envolvidas. Você compreende que nós precisávamos fazer o que estamos fazendo.

       - Claro. Você tem uma causa, e como advogado precisa atender os interesses de seu cliente. Depois, o que eles fizeram com Marcelo não se justifica de maneira alguma.

       - Ainda bem que você sabe separar as coisas.

       - Encontrei-me com Alberto na entrada do prédio e subimos juntos no elevador. Está mudado! Elegante, bem vestido. Nem parece o mesmo. O que faz a roupa! Parece até que aumentou de estatura.

       - Ele está trabalhando em uma companhia inglesa. Conseguiu um cargo importante junto à diretoria. Foi educado em um bom colégio na Inglaterra e isso o ajudou.

       - Como vai o caso? A audiência é hoje!

       - É. Estamos em um momento decisivo. Vamos ver o parecer do juiz. Por isso marcamos essa reunião com Alberto. Estamos esperando Jonas também.

       - Gostaria muito de acompanhar o caso.

       - Pode ficar e assistir à nossa reunião.

       - Não vou atrapalhar?

       - Não. Vai ser até bom. Você não está tão dentro do assunto como nós e poderá nos dar opinião.

       - Nesse caso, eu fico. Rubinho não vai se incomodar?

       - Tenho certeza de que não. Afinal você nos ajudou desde o começo desse caso.

       Rubinho entreabriu a porta e, vendo Lanira, abraçou-a com prazer. Ela lhe perguntou se poderia ficar para assistir à reunião e ele não só concordou como achou ótimo.

       Assim, eles se dirigiram à sala de Rubens para repassar os fatos mais uma vez, esperar Jonas e verificar o que mais ele havia conseguido descobrir.

       

Capítulo 10

       Jonas chegou pouco depois e encontrou-os reunidos à espera.

       - E então, como vão as coisas? - indagou Rubinho logo que o viu acomodado.

       - Fervendo. Marilena ouviu uma conversa de Eleutéria com João, o marido. Ela reclamou dizendo que havia conversado com Bóris. O Dr. José Luís não iria mandar o dinheiro enquanto não resolvesse o caso na justiça. Ela disse:

       - "O que ele está pensando que é? Isso é desculpa. Ninguém sabe nada sobre o que aconteceu. O idiota do Alberico já morreu. Ninguém pode provar nada."

       - "Tem certeza? E se esse moço for mesmo o neto do velho?"

       - "Não acredito. Na ocasião o Dr. José Luís afirmou que se livraria do menino para sempre. Que ninguém nunca saberia de nada. Desconfio até que ele o matou. Por isso, esse caso não vai dar em nada."

       - "Se ele apagou mesmo o menino, como esse moço poderia conhecer essa história? Será que isso foi coisa da mãe do menino morto? Ela sumiu e vocês nunca mais a viram."

       - "Não creio. Que interesse ela teria nisso?"

       - "Arranjar um impostor, receber a fortuna. Pode bem ser."

       - "Hum!... Acho que não. Se essa história vier a público, ela irá para a cadeia. Não. Não acredito que tenha sido ela. Acho que deve ter morrido."

       - "Se não foi ela, então só pode mesmo ser o verdadeiro herdeiro."

       - "Isso é que não. O Dr. José Luís não seria tão ingênuo para deixar esse menino vivo depois de tudo! Mas, seja como for, se ele pensa que vou me conformar em ser posta de lado por causa do problema dele, está muito enganado. Ao contrário, agora que ele vai precisar dobrar a bolada. Se eu abrir a boca, ele perde tudo que tem. Acha que ele vai facilitar?"

       - "Mas você pode ir presa como cúmplice."

       - "Ele não vai deixar as coisas chegarem a tanto. Vai querer salvar a pele. Agora é hora de pedir o quanto quisermos. Ele vai pagar, você vai ver."

        - Pelo jeito eles vão querer tirar partido da situação - comentou Daniel.

       - Eis a prova de que eu sempre disse a verdade! - comentou Alberto emocionado.

       - Isso nos dá coragem para continuar até que todos esses fatos sejam esclarecidos - respondeu Rubinho.

       - Estamos lidando com gente da pior espécie. Precisamos ter cuidado - disse Daniel.

       - Por que diz isso? - tornou Rubinho.

       - Eles farão tudo para salvar a pele. Alberto precisa se precaver - alertou Daniel. - Eles podem tentar alguma coisa contra ele.

       - Não tenho medo. Que venham. Assim poderemos esclarecer esse assunto de vez.

       - Nada disso. Queremos fazer tudo dentro da lei, sem violência - contrapôs Rubinho.

       - Eu também acho - tornou Daniel. - Tenho certeza de que eles nunca o atacariam pela frente. Mas nunca se sabe o que fariam pelas costas. Só falei para que Alberto fique atento. Tome cuidado. Seria bom que não facilitasse andando por ruas desertas à noite, etc.

       - Daniel tem razão - considerou Jonas. - Pelo que tenho observado, eles são perigosos. Depois, tenho experiência. Para encobrir um crime, o assassino não se importa em cometer outros. Eu estive pensando: talvez possamos armar uma cilada para Eleutéria e o marido.

       Todos o olharam com interesse. Rubinho indagou:

       - Como?

       - Com um gravador de som escondido. Seria uma boa gravar as conversas dos dois.

       - Acha que Marilena saberia fazer isso? - perguntou Daniel.

       - Posso ensiná-la. Tenho um amigo que sabe direitinho como fazer. Uma vez ele gravou uma conversa de um chantagista fazendo a extorsão. Foi sopa depois fazer ele confessar.

       - Isso seria excelente. Pode cuidar disso. Acha que Marilena vai concordar? - indagou Rubinho.

       - Vai. Ela está revoltada com o que tem ouvido. Agora está muito interessada em ajudar Alberto e a justiça.

       - Nesse caso, vamos tentar. Vai ficar muito caro para montar tudo? - perguntou Daniel.

       - Não. Acho que não. Meu amigo tem a aparelhagem. Pode deixar que sei como fazer isso.

       - Pode ter certeza de que, quando eu receber o que me pertence, não vou me esquecer de todos que estão me ajudando agora - garantiu Alberto emocionado.

       - E bom continuarmos a vigiar Bóris e Pola. Eles podem dar uma boa pista - tornou Rubinho.

       - Claro. Preparo todo o material e levo para Marilena amanhã mesmo. Enquanto ela cuida das gravações, eu volto e vou vigiar Bóris.

       - Seria bom que arranjasse alguém para ficar vigiando enquanto você estiver fora. Algo me diz que não devemos deixar Bóris sem vigilância - disse Rubinho.

       - Eu também acho. Falarei com um amigo e faremos tudo. Qualquer novidade, eu entro em contato.

       Ele se despediu e saiu. Alberto sentia-se nervoso, inquieto:

       - Gostaria que esse dia acabasse logo e pudéssemos saber o resultado da audiência. O juiz despacha na hora?

       - Nem sempre. Ele pode querer estudar melhor os fatos e demorar para dar o despacho - esclareceu Daniel, que também se sentia ansioso.

       - Nesse caso, como vamos saber?

       - Calma, Alberto - esclareceu Rubinho. - A partir de amanhã iremos todos os dias ao fórum tentar descobrir.

       Ele passou a mão pelos cabelos num gesto nervoso.

       - Vai ser difícil esperar.

       Lanira aproximou-se dele, dizendo:

       - Como não tem outro remédio, que tal tentar não se atormentar e procurar confiar na justiça?

       - Diante do que tem acontecido, eu diria que seria bom confiar em Deus.

       Lanira olhou Daniel admirada. Ela nunca o ouvira mencionar Deus. Ele era retraído com religião. Não se conteve:

       - Por que diz isso?

       - Por nada.

       - Nós temos conversado com Júlio sobre espiritismo. Ultimamente temos pensado no assunto - esclareceu Rubinho.

       - Não diga! Deixe mamãe saber disso!

       - Você não vai dizer nada. Chega já os problemas que tenho arranjado com ela.

       - Claro que não. Para dizer a verdade, sempre tive curiosidade. Tia Josefa sempre me falava que via os espíritos. Você sabia que ela faz sessões em casa com alguns amigos? Eu queria ir assistir, mas ela nunca deixou por causa da mamãe.

       - Tia Josefa? Tem certeza?

       - Tenho. Ela sempre conversa comigo a respeito. Ela conversa com vovô Augusto e com tia Norma. Eles contam a ela coisas que vão acontecer.

       - E acontecem? - indagou Rubinho interessado.

       - Ela diz que sim. Júlio nunca me disse nada sobre isso. Ele faz sessões também?

       . - Ele faz regressão. Através da hipnose a pessoa volta no tempo e se recorda de fatos de outras vidas - esclareceu Daniel.

       - Mesmo? Puxa! Que interessante. Por que é que vocês nunca me contaram nada? - considerou Alberto.

       - Não pensei que se interessasse - justificou-se Daniel.

       - Eu me interesso muito por esse assunto. Na Inglaterra há grandes pesquisadores. Desde o século passado eles vêm fazendo experimentações com médiuns, com resultados maravilhosos. Quando eu morava lá, freqüentava sessões em casa de amigos muito sérios e cultos.

       Os três olharam-no surpreendidos. Alberto continuou:

       - Para dizer a verdade, se resolvi voltar ao Brasil, procurar reaver o que me pertence, foi inspirado por alguém que já não é mais deste mundo.

       Vendo que os três o observavam com interesse, ele continuou:

       - Quando eu era ainda adolescente, costumava sonhar com um senhor muito bondoso que vinha me buscar no quarto, passava o braço por minha cintura e me levava para lugares maravilhosos. Eu sentia uma sensação incrível de leveza, bem-estar, enquanto deslizávamos por lugares, como se estivéssemos voando, sobre cidades cujas luzes acesas eu podia ver lá do alto. Eu acordava com pena, sentindo que meu corpo era pesado e muitas vezes lhe dizia que gostaria de ficar lá com ele para sempre e não acordar mais. Ele, porém, não concordava e respondia: "Não é sua hora. Você tem ainda muito o que fazer no mundo".

       - Sei o que quer dizer. E um sonho diferente dos outros - tornou Daniel.

       - Isso mesmo. É muito diferente. Às vezes eu falava sobre isso com algum colega ou com algum professor, mas eles repetiam que era só um sonho e que eu não deveria me impressionar tanto. Quando deixei o colégio e ingressei na universidade, conheci alguns colegas que conheciam esses fenômenos e me convidaram a estudá-los com eles. Compareci às sessões que se realizavam uma vez por semana e os fatos que aconteceram comigo fizeram com que eu acreditasse na continuidade da vida após a morte e na comunicação dos espíritos.

       - Você acha que quem já morreu pode vir e se comunicar conosco? - perguntou Daniel.

       - Tenho certeza. Certa vez eu compareci a uma sessão e, quando começou, uma médium me disse que estava vendo um homem de meia-idade perto de mim que desejava falar comigo. Pela descrição dela, reconheci o mesmo homem com o qual eu sonhava e, emocionado, disse que estava pronto a ouvi-lo. Ele se aproximou da médium e falou comigo por intermédio dela.

       - O que foi que ele disse? - indagou Lanira.

       - Disse que se chamava Antônio, que me amava muito e que estava sempre comigo. Que éramos ligados por laços muito fortes do passado e que iria me ajudar. Que eu tivesse confiança e continuasse indo às sessões, que ele voltaria a falar comigo. Naquela hora, senti uma emoção incontrolável. As lágrimas caíam de meus olhos sem que eu pudesse conter. Nossos encontros se repetiram e ele me falou do passado, dizendo que estava na hora de eu voltar ao Brasil, onde eu tinha coisas importantes a realizar. Eu não queria voltar antes de me graduar, mas quando parei de receber dinheiro fui forçado a interromper os estudos. Ele insistiu que eu nada mais tinha a fazer na Inglaterra e que deveria voltar ao Brasil. Eu não queria também interromper as sessões, nas quais recebia tanta ajuda espiritual, tanto conforto. Uma vez no Brasil, como poderia conversar novamente com ele? Mas ele disse que nunca me abandonaria e eu acabei aceitando e voltando. Mesmo sem ir às sessões, tenho certeza de que ele tem cumprido a promessa. Às vezes sinto sua presença a meu lado, inspirando-me. Para ser franco, sinto que sem ele eu não teria descoberto a trama de meu passado. Agora eu sei que ele é o espírito de meu avô que sempre me amou e com o qual eu tenho grande afinidade espiritual.

       Daniel ouvia calado, pensativo. Começava a pensar que seus sonhos deveriam ter algo a ver com essa situação, uma vez que eles haviam começado quando Alberto apareceu em sua vida. Não disse nada, mas pelo olhar de Rubinho percebeu que ele estava pensando a mesma coisa.

       - Tenho uma idéia! Vamos falar com tia Josefa, contar-lhe tudo. Podemos ir às sessões em casa dela, tentar conversar com esse espírito. Do jeito que as coisas estão, vamos precisar muito da ajuda dele - sugeriu Lanira.

       - Ele poderá nos orientar - disse Rubinho.

       - Não sei se faremos bem envolvendo-nos com essas coisas - respondeu Daniel.

       - Eu acho bom. Desde que voltei ao Brasil não fui procurar ajuda

       espiritual com os espíritos porque não queria que ninguém soubesse de meu caso antes da hora. Depois, aqui as pessoas praticam um espiritismo diferente do que eu estava acostumado. Em Londres, as sessões eram sempre de estudos, pesquisa, visando aprender alguma coisa. Aqui, cuidam mais de atender espíritos sofredores e ninguém faz pesquisa. Não era esse meu objetivo.

       - Júlio é um estudioso e faz trabalho de pesquisa - informou Rubinho.

       - Isso é interessante. Ajudar espíritos sofredores que incomodam pessoas, doutriná-los, é uma ajuda passageira. O bom é ensinar as pessoas a lidar com as próprias emoções, com os desafios da vida, para que se equilibrem. Desta forma se libertam para sempre das influências de espíritos sofredores. Na Inglaterra, há médiuns de cura, mas eles trabalham apenas com imposição das mãos. Não recebem nem doutrinam espíritos perturbados. Dizem que é preciso melhorar a sintonia e ligar-se com os espíritos superiores - esclareceu Alberto.

       - Estou vendo que você conhece o assunto - tornou Lanira com interesse. - Tia Josefa é pessoa muito equilibrada e isso sempre me impressionou. Mamãe vive dizendo que essa história de espíritos é perigosa e leva à loucura. Nunca acreditei nisso. Dizem que a tia é médium desde criança, e, pelo que tenho observado, é a pessoa mais tranqüila e serena que já vi. Muito mais do que mamãe, papai e até que nós todos.

       - É sinal de que ela se ligou com espíritos superiores e sabe o que está fazendo. A mediunidade é uma porta preciosa para a conquista da sabedoria e da paz. Mas é preciso aprender a usar - explicou Alberto. - Se vocês conseguissem combinar com ela, eu gostaria muito de ir assistir a uma sessão.

       - Eu prefiro tratar do assunto com Júlio - disse Daniel.

       - Vamos fazer o seguinte, hoje mesmo falarei com tia Josefa. Vocês me autorizam a contar o que se passa? - perguntou Lanira.

       - Seria melhor você dizer a ela que estamos estudando a comunicação com os espíritos e gostaríamos de ir a uma sessão em sua casa - sugeriu Alberto.

       - Não seria melhor contar-lhe tudo? - interveio Rubinho.

       - Não. O melhor é não dizer nada e esperar pelos acontecimentos. Os espíritos falam o que precisamos ouvir. Eles sabem ler nosso pensamento, e são mais espontâneos quando o médium ignora o assunto-esclareceu Alberto.

       - E verdade. Se ela ficar conhecendo toda a história com antecipação, tudo quanto os espíritos disserem a respeito vai nos parecer opinião dela - tornou Rubinho.

       - Por isso é melhor não dizer nada e deixar acontecer. Sei por experiência própria que eles, quando querem, fazem coisas incríveis que acabam com todas as nossas dúvidas - disse Alberto.

       - Então está combinado. Falarei com ela e depois darei a resposta - tornou Lanira.

       - O que você vai lhe dizer? - perguntou Rubinho.

       - Que queremos estudar o assunto. Apenas isso. Preciso contornar a situação de família. Ela sabe que mamãe não gosta e pode negar permissão.

       - Tenho certeza de que você saberá convencê-la - disse Alberto olhando-a nos olhos. - Você sempre consegue o que quer!

       Daniel olhou-o surpreendido. Como ele podia saber desse traço de Lanira? Concluiu que, como toda pessoa que fala pouco, Alberto era muito observador.

       - Tem razão. Lanira consegue mesmo.

       - Então - tornou Rubinho - contamos com você.

       - Pode deixar. Sei como fazer isso.

       Eles riram alegres. Lanira notou que Alberto mudava completamente a fisionomia quando sorria e seus olhos perdiam aquele brilho duro, sofrido que por vezes fazia-a desviar os olhos quando ele a fitava.

       - Tenho que ir trabalhar agora. - Alberto tirou um cartão do bolso e deu-o a Lanira, dizendo: - Aqui tem meu telefone. Assim que combinar tudo, pode ligar. Estarei esperando com ansiedade. É muito importante para mim ir a essa sessão.

       Lanira pegou o cartão e guardou-o na bolsa prometendo avisar assim que tivesse a data. Depois que Alberto se despediu e saiu, Rubinho não se conteve:

       - Daniel, aqui tem o dedo de Deus. Não é possível! Quem poderia imaginar que Alberto estivesse tão ligado aos espíritos? Você pensou o que eu pensei?

       - Claro. Tudo começou um dia antes de meu contato com Alberto. Começo a achar coincidência demais. É perturbador.

       - O que está acontecendo que eu não sei? - perguntou Lanira.

       Rubinho olhou para Daniel:

       - Coisas de seu irmão.

       - O que é?

       - Você agora não vai me dar paz enquanto eu não contar. Essa história começa a me incomodar.

       - Não é melhor contar logo? - sugeriu Lanira.

       Em poucas palavras Daniel contou o que estava acontecendo com ele. Quando ele finalizou, Lanira não se conteve:

       - Estou toda arrepiada! Puxa! E você ainda duvida? Eu já teria ido ao consultório de Júlio fazer uma regressão para descobrir a verdade. Essa de sonhar com Alberto antes mesmo de conhecê-lo é demais! Como pode acontecer isso?

       - Não sei... Isso pode ser apenas uma coincidência. Preocupação com o caso. Por mais que eu queira negar, minha vida mudou radicalmente nos últimos tempos. Deixei a família, estou enfrentando um caso profissional difícil, todos estão contra nós, a vitória é incerta. Tudo isso pode ter me impressionado e feito com que eu tivesse aqueles pesadelos.

       Lanira sacudiu a cabeça negativamente:

       - Não acredito. É coincidência demais. Depois, Alberto está envolvido com o espírito do avô. Ele parece estar interessado em fazer justiça. Em devolver ao neto tudo quanto lhe foi roubado. Isso sim faz sentido para mim. Estou pensando que, se vocês estão sendo ajudados por espíritos interessados em mostrar a verdade, vocês vão ganhar esta causa, por mais poder que o Dr. José Luís tenha.

       - Agora quem está arrepiado sou eu - disse Rubinho. - E verdade. Contar com uma ajuda dessas dá coragem.

       - Vamos ver o que o juiz vai determinar. Nosso caso pode acabar aqui.

       - Não seja tão pessimista, Daniel. Nunca vi ninguém ganhar nada acreditando na derrota.

       - Lanira tem razão, Daniel. Precisamos conservar o otimismo. Logo agora que Jonas vai tentar obter uma grande prova! Começo a pensar que você tem tanto medo de confrontar o passado em uma regressão que prefere perder a causa, acabar logo com essa história para poder ficar em paz.

       - Sempre ouvi dizer que ninguém pode segurar uma verdade quando é hora dela. Você vai sofrer e tudo vai continuar. Quem pode lutar contra a força das coisas?

       - Vocês dois estão exagerando. Já é tarde e estou com fome. Vamos almoçar? - propôs Daniel.

       - Está bem. Vamos. Mas depois irei embora. Mamãe vai vir ao escritório e não quero que saiba que tenho vindo aqui.

       - É melhor mesmo - concordou Daniel. - E que ela não saiba também dessa história de sessão espírita. Senão vai ter uma crise.

       - Pode deixar que eu sei como fazer as coisas.

       Eles riram e conversando animadamente saíram para o restaurante. Almoçaram e estavam na sobremesa quando Lanira sentiu um baque no coração. Gabriel veio do fundo do salão, passou por eles e saiu. Ela o viu de costas, mas reconheceu-o imediatamente.

       Ele passara por eles e não os cumprimentara. Ele os teria visto e evitado cumprimentar? O restaurante estava lotado. Era possível não tê-los visto. Mas ela não tinha certeza. Quando ele teria voltado?

       - O que aconteceu? Nem fomos à sessão e você está com cara de quem viu fantasma - disse Daniel.

       - Você não viu? Gabriel acabou de passar por aqui.

       - Não vi. Também, há tanta gente...

       - Será que ele não nos viu ou não quis cumprimentar? - indagou Lanira.

       - É difícil dizer. Assim como eu não o vi, ele pode não nos ter visto - respondeu Daniel.

       - Você está apaixonada por ele? - indagou Rubinho.

       - Por que diz isso?

       - Por sua expressão. Ficou pálida, triste, mudou de fisionomia - explicou Rubinho.

       - Não. Apaixonada, não. Gosto dele, isso sim. Como um bom amigo. Até como um companheiro. Ele é muito especial, inteligente, bom. Apesar de tudo, eu tinha esperança de que ele soubesse separar as coisas e continuássemos amigos. Mas parece que ele não quer mais a minha amizade.

       - Não seja precipitada. Por que não conversa com ele francamente? Se preza tanto sua amizade, deve brigar por ela. Tenho aprendido que com as pessoas que queremos bem não devemos deixar assuntos mal explicados, coisas não resolvidas. Se conversar com ele, mostrar que valoriza sua amizade, ele vai dizer o que pensa e você vai poder avaliar os fatos com clareza. Saber a verdade.

       - É, vou pensar. Vamos ver.

       - Ele pode estar envergonhado com o escândalo e ter se afastado por causa disso imaginando que você o esteja desprezando - sugeriu Rubinho.

       - Você acha que ele pode estar sentindo isso? - disse ela assustada.

       - Por que não? Qualquer um sentiria vergonha diante de um problema desses. Mesmo que ele não acredite que seja verdade.

       - Rubinho está certo. Se eu fosse filho deles, desapareceria do mapa até que tudo ficasse esclarecido. Já pensou os comentários que devem estar circulando à boca pequena? Infelizmente não podemos evitar isso.

       - Estou começando a pensar que vocês têm razão. Ele pode mesmo estar se escondendo. Deixou a faculdade. Certamente por causa dos falatórios.

       - Nesse caso o melhor seria ele ter ficado e enfrentado os fatos com coragem. Se fosse comigo, eu os teria enfrentado. É melhor do que fugir. Depois, ele é ele, os pais são os pais. Ele não é responsável pelos atos deles. Acho engraçado como as pessoas pensam. Elas se envergonham pelos que bebem, pelos viciados, pelos desbocados, pelos desonestos. Carregam nas costas o peso do comportamento de toda a família. Não é loucura? Quem pode ser responsável pelos atos dos outros? Só porque você tem parentes, precisa responder por tudo quanto eles fazem? - considerou Rubinho.

       - Isso é verdade. Meus pais se envergonharam de mim só porque resolvi cuidar de minha vida de outra forma e assumir o caso contra os Camargo. Para mim, fiz o melhor e o que me parece certo.

       - Aí é que está, Daniel. Quem se embriaga, joga, está fazendo o que acredita que seja bom para si. Pode estar equivocado em sua forma de perceber, mas tem todo o direito de experimentar aquele caminho. Quando saí de casa, foi pelo mesmo motivo. Meus pais também disseram-se envergonhados por nossa atitude profissional. Mas eu continuo achando que foi a melhor coisa que fiz na vida. Gostaria que eles compreendessem, mas apesar disso sinto-me melhor fazendo o que eu acho certo do que fechando os olhos só porque os Camargo são pessoas importantes. Depois, estou cuidando de minha vida do meu jeito. Nunca pensei em envergonhá-los. Eles se envergonharam porque estão iludidos com as aparências, cultivando amizades falsas, gastando tempo em futilidades, a ponto de não perceber certos valores importantes da vida. Eu desejo mais do que isso. Tenho visto pessoas da sociedade, ricas, bem-postas, que acabam vazias por dentro, sem objetivos, mergulhadas no tédio e na desilusão.

       - Tem razão. Eu não quero isso para mim - concordou Daniel. - Pode ser que eu não consiga ser mais feliz do que eles. Entretanto, estou tentando um outro caminho, já que eu tenho certeza de que não desejo acabar como eles.

       - Eu concordo. Também não quero isso. Só que ainda não sei como fazer - disse Lanira pensativa.

       - Deixe o tempo correr. Ele é sábio e traz tudo na hora mais adequada. Você é muito jovem. Pode esperar - tornou Rubinho.

       Continuaram conversando mais alguns minutos e depois de deixarem o restaurante separaram-se. Lanira foi para casa pensativa. Ela deveria tentar se aproximar de Gabriel? E se ele se recusasse a vê-la? Ele teria viajado mesmo ou estaria em casa sem querer atender o telefone? Mil perguntas cruzavam seu cérebro. Sentia vontade de ligar para ele.

       Foi para seu quarto e lá resolveu. Apanhou o telefone e ligou. Uma voz feminina atendeu.

       - Gabriel está?

       - Quem deseja falar?

       - Lanira.

       - Vou ver se ele está.

       Lanira esperou sustendo a respiração.

       - Ele saiu cedo e ainda não voltou.

       - Obrigada.

       Lanira desligou decepcionada. Ele não queria falar com ela. Precisava render-se à verdade. Ele a estava evitando. Sendo assim, não mais o procuraria. Resolveu esquecer aquele assunto.

       Quando Maria Alice chegou em casa no fim da tarde, Lanira, que lia um livro sentada na sala de estar, olhou-a curiosa. Como teria sido seu encontro com Daniel?

       A mesa do jantar ela não tocou no assunto, como de hábito. Lanira sabia que ela nunca conversava os assuntos de família diante dos criados. Por isso, foi para o quarto depois do jantar e desceu em seguida com o livro e sentou-se calmamente no lugar de sempre, de onde podia ouvir o que eles conversavam na outra sala.

       - Conforme falei, fui ver Daniel - começou Maria Alice.

       - Por sua cara já sei que não conseguiu nada - respondeu Antônio

       - É. Ele está determinado. Fala com tanta certeza sobre a culpa dos Camargo! Você acha que ele pode estar falando a verdade?

       - Qual nada! Ele está mais é sendo iludido por algum aventureiro.

       - Ele tem várias provas! Não sei, não. Fiquei na dúvida. O neto do Dr. Camargo pode estar vivo mesmo.

       - E muita imaginação. Fomos ao enterro, lembra-se?

       - Com o caixão lacrado. Quem pode afirmar que o corpo do menino que estava naquele caixão era o de Marcelo?

       - Ora, ele foi reconhecido pelas pessoas da família!

       - Daniel disse que foi apenas pela ama e pelo chofer. O Dr. Camargo estava chocado e os pais do menino também. Não quiseram olhar.

       - Claro que eles devem ter reconhecido Marcelo. E fácil dizer isso agora que todos eles estão mortos.

       - E se eles não olharam direito? E se essa história for mesmo verdadeira? Daniel pode estar certo!

       - O que é isso, Maria Alice? Você foi tentar convencê-lo e ele a convenceu? Pelo jeito, Daniel está se revelando um bom advogado. Como você é ingênua! Aliás, acho que se deixou enganar só para justificar o comportamento dele. Pensa que não observei? Desde que ele foi embora que você não tem a mesma alegria de antes. Vive pensando nele. Às vezes surpreendo-a olhando-me de maneira estranha. Tenho a impressão de que está me culpando por ele ter saído de casa.

       - Não é nada disso. Eu lamento que ele tenha tomado essa atitude, sinto sua falta. Ele sempre foi meu orgulho. E fique sabendo que não sou tão ingênua como você acredita. Por vezes posso fingir que não sei, que não vejo, porque me convém, para não ter que tomar nenhuma atitude e para levar nossa vida para a frente. Mas eu vejo tudo que acontece à minha volta.

       Antônio remexeu-se na poltrona. O que ela queria dizer com isso? Estaria se referindo a ele?

       - Por que está irritada? O que quer dizer com isso?

       - Melhor ficarmos por aqui. Não me agrada discutir com você. Somos pessoas educadas.

       Ele mudou de tom:

       - Não tive a intenção de ofendê-la. É que Daniel quase conseguiu convencê-la daquele absurdo.

       - Não falemos mais nisso.

       - Ele lhe pediu dinheiro?

       - Absolutamente. O escritório é simples mas agradável, e ele estava bem vestido, como sempre. Deve estar ganhando o suficiente para viver.

       - Você está dizendo isso só para me contrariar. Eu sei que ele deve estar lutando com dificuldades.

       - Não foi o que me pareceu. Vamos mudar de assunto. Estou cansada e vou subir.

       Maria Alice deixou a sala, passou por Lanira sem vê-la e subiu para o quarto. A moça esperou alguns minutos e depois também foi para seu quarto. A atitude da mãe surpreendeu-a. Sempre pensou que ela e seu pai vivessem muito bem. Entretanto, ela sentiu perfeitamente o ódio velado e a insinuação a alguma coisa desagradável entre os dois. O que seria? Alguma coisa referente à política? Lanira sabia que por trás de tudo quanto ele fazia havia um jogo de interesses. Mas o tom que ela usara fora muito pessoal. Haveria alguma coisa que ela não sabia?

       Sua mãe era muito fechada e nunca falava de seus sentimentos. Pela primeira vez Lanira começou a se perguntar como seria a mulher que se escondia atrás daquela postura sempre discreta, serena e de classe. O que haveria sob o verniz das aparências?

       Por outro lado, sabia que Maria Alice era perspicaz, muito mais inteligente do que seu pai, e se ela começava a acreditar em Daniel, era muito provável que outras pessoas, até o juiz, fizessem o mesmo.

       Apesar de se preocupar com Gabriel, ela se sentia feliz por pensar que o irmão estava certo, fazendo as coisas do seu jeito, sem ouvir ninguém. Se sua mãe não era feliz com seu pai e escondia sua infelicidade, sujeitando-se a fingir só para manter as aparências, estava sendo covarde, pagando um preço muito alto pela posição social que ocupava.

       Pela primeira vez pensou na mãe com tristeza. Ela não era nada daquilo que lutava para aparentar. Estava oprimida, revoltada, infeliz. Até quando conseguiria ocultar seus verdadeiros sentimentos? Lanira resolveu ficar alerta e observar.

       

Capítulo 11

       Gabriel entrou em casa aborrecido. O encontro com Lanira no restaurante transtornara-o. Ele estava apaixonado por ela. Seu rosto bonito, seu olhar inteligente, suas atitudes, diferentes das moças que conhecia, haviam-no impressionado a princípio e, depois, com a convivência, sentira-se atraído, acabando por descobrir que pela primeira vez estava enamorado.

       Habituado a ser muito paparicado pelas mulheres que circulavam à sua volta disputando sua preferência, Gabriel vivia sempre procurando maneiras de escapar delas, a fim de garantir sua privacidade. Com Lanira não acontecera isso. Ela agia com naturalidade, sem os joguinhos e circunlóquios, colocando francamente suas idéias.

       Não fora a atitude dela esclarecendo que não desejava namorar e ele já teria se declarado. Ao lado dela, quase não resistia ao desejo de tomá-la nos braços, de beijar sua boca carnuda, de perguntar se ela sentia alguma coisa por ele.

       Percebia que ela gostava de sua companhia, que a seu lado sentia-se à vontade, olhando-o com carinho e prazer. Gabriel tinha esperanças de vir a conquistá-la vencendo a barreira que ela havia colocado.

       Foi na faculdade que ouviu alguém comentar sobre o escândalo envolvendo seu pai. Imediatamente comprou o jornal e o que leu deixou-o estarrecido. Nunca se dera bem com o pai. Apesar de ele tentar se aproximar, acabavam sempre não se entendendo.

       Gabriel admirava apaixonadamente a mãe. Quando menino, ouvira uma conversa entre ela e o pai e descobrira que eles não viviam bem. José Luís tinha negócios com os quais sua mãe não concordava. Ouvira-o claramente ameaçá-la.

       - Se você abrir sua boca, nunca mais verá seu filho.

       - Você não fará isso! Não seria capaz!

       - Experimente me desafiar! Garanto que vai se arrepender.

       - O que você pode fazer?

       - Você sabe que tenho meios de separar você dele! Não me obrigue a fazer isso. Se for razoável, continuaremos nossa vida e ninguém saberá de nada.

       Escondido atrás da porta, Gabriel ouviu que o pai saiu enquanto sua mãe chorava copiosamente. Ficou com medo de ser castigado pelo pai e não teve coragem de sair de seu esconderijo. Mas a partir daquele dia começou a observar o pai e notou que ele não amava sua mãe como parecia. Diante das pessoas ele mudava completamente, tratando-a com carinho e deferência. Assim que ficavam a sós, mal se falavam. Maria Júlia assumia aquela fisionomia triste e Gabriel percebia que ela sofria. Nunca teve coragem para conversar com ela sobre o assunto, mas rodeava-a de carinho, na tentativa de compensar a frieza do marido.

       No dia em que os jornais publicaram as declarações de Daniel, Ru-binho e Alberto, seu pai fechara-se no escritório com sua mãe e Bóris, durante muito tempo. Maria Júlia havia saído de lá pálida, enquanto José Luís, com ar preocupado, saíra com Bóris.

       Gabriel aproximara-se de Maria Júlia, com o jornal nas mãos.

       - Mãe, isto é verdade? Ela o olhou assustada.

       - Você acha que seríamos capazes disso? Gabriel hesitou.

       - Não sei. Você, não. Mas... papai...

       Ela se aproximou dele colocando a mão em seu braço.

       - Seu pai não faria isso. Esqueça essa história.

       - Nesse caso, por que estão tão preocupados? Vocês ficaram no escritório mais de duas horas.

       - Sabe como é, um escândalo desses é sempre preocupante. A maldade das pessoas, os invejosos vão atirar lama em nossa família. Temos que nos defender.

       - Será fácil provar que isso é uma calúnia. Vocês devem possuir todos os documentos, testemunho de pessoas, tudo.

       - Já faz muito tempo. As pessoas que poderiam testemunhar dispersaram-se. Seu pai vai falar com o Dr. Loureiro. Ele vai imediatamente dar um basta neste assunto.

       - Por que será que Daniel e Rubinho prestaram-se a esse papel? Nossas famílias são amigas. Houve algum problema entre vocês?

       - Absolutamente nenhum. Seu pai vai imediatamente conversar com Antônio e Ernesto para exigir que os filhos retirem essa queixa.

       - Quer dizer que é uma calúnia?

       - Claro! Como pode acreditar em uma coisa dessas?

       Gabriel acalmou-se um pouco, entretanto na faculdade os comentários maldosos incomodavam-no. E Lanira, o que estaria pensando? Estaria do lado do irmão? Teria acreditado naquela história? Sentiu vontade de falar com ela, mas não teve coragem. Resolveu esperar para ver como as coisas se sucederiam.

       Dali a alguns dias, o jornal relatou minuciosamente a história de Alberto com todos os detalhes, e, lendo-a, Gabriel começou a juntar algumas lembranças de sua infância. Muitas vezes saía com a mãe a pretexto de fazer compras, e ela ia a uma agência de correio em que despachava um envelope para a Inglaterra. Ele lera o endereço e ela lhe pedira que não contasse a ninguém.

       - Esse será nosso segredo - dissera. - Ninguém pode saber que escrevi esta carta.

       - Por quê?

       - Trata-se de uma amiga muito querida que mora na Inglaterra. Brigou com nossa família, mas eu continuo a me relacionar com ela. Precisa de ajuda e eu lhe mando dinheiro. Se seu pai descobrir, vai brigar comigo. Ele a odeia. Por isso, peço-lhe que guarde segredo!

       Gabriel estremeceu ao se recordar. E se ao invés dessa amiga ela mandasse dinheiro para sustentar o neto do Dr. Camargo? Não podia acreditar que sua mãe tivesse participado de um negócio desses, mas por que ela mandaria dinheiro para a Inglaterra, escondido do marido? Seria muita coincidência.

       Sabia que Maria Júlia não gostava de Bóris. Entretanto suportava sua presença. Ele percebia o quanto o russo era intrometido e ousado. Usufruía de regalias que nenhum mordomo que ele conhecia tinha. Notara que até seu pai contemporizava com Bóris, submetendo-se a seus caprichos.

       Pensando nisso, Gabriel sentia aumentar suas suspeitas. Bóris estava na casa desde aqueles tempos. Teria alguma coisa a ver com essa história? Estaria seu pai sendo chantageado pelo criado?

       A cada dia suas suspeitas aumentavam. A firmeza dos dois advogados que enfrentavam tudo para apoiar aquele caso fazia-o desconfiar que eles possuíam dados e provas conclusivas.

       A cada dia notava que seu pai ficava mais nervoso com o assunto e muitas vezes fechava-se com Bóris no escritório por largo tempo.

       Se ele tivesse certeza de que seu pai era inocente, teria enfrentado todos os comentários sem se preocupar. Mas, pensando na culpa deles, perdia toda a coragem. Como proceder se ficasse provada a culpabilidade de seu pai?

       Não podendo suportar a situação, Gabriel trancou a matrícula e afastou-se da faculdade.

       Sua mãe chorou, mas compreendeu que ele preferia esperar tudo passar para voltar a estudar. Gabriel foi para o barco e durante mais de quinze dias circulou pelas praias das pequenas cidades vizinhas, ancorando aqui e ali, para abastecer, voltando à sua solidão. Fazia dois dias que havia regressado. Recebera os recados de Lanira, mas não se sentia com coragem de conversar com ela. O que lhe diria?

       Sua irmã, Laura, não escondia sua revolta para com os dois advogados. Chamava-os de invejosos e oportunistas, querendo fazer carreira a custo do sensacionalismo barato. Tinha certeza de que logo eles seriam desmascarados e tudo voltaria a ser como antes. Apesar disso, tinha resolvido dar um tempo, não aparecer em público, para não ter que discutir com as pessoas, nem suportar sua curiosidade.

       Maria Júlia, vendo Gabriel entrar com ar preocupado, aproximou-se:

       - O que foi, Gabriel? Você parece aborrecido. Aconteceu alguma coisa?

       - Nada de mais. Estava acabando de almoçar quando Rubinho, Daniel e Lanira entraram no restaurante.

       - Você falou com eles?

       - Não. Eu estava no fundo e eles não me viram. O restaurante estava cheio e fiz de conta que não os tinha visto. Saí logo.

       - Não foi agradável. Você gostava de sair com Lanira. Estavam namorando?

       - Não, mãe. Era apenas amizade. Ela acha que é cedo para namorar.

       - Naquele tempo cheguei a pensar que estivesse apaixonado por ela. Seus olhos brilhavam quando falava nela.

       Gabriel suspirou, ficou silencioso por alguns segundos, depois disse:

       - Eu gosto dela. É diferente das moças que tenho conhecido. Inteligente, alegre, tivemos bons momentos juntos.

       - Vocês continuam saindo? Ela tem ligado para você.

       - Não. Não há clima. Eu não saberia o que lhe dizer.

       - E uma situação constrangedora. Por isso ficou triste? Gabriel abraçou-a com carinho:

       - O que posso fazer? Enquanto essa situação não ficar devidamente esclarecida, não sei o que falar com ela. O que diz o Dr. Loureiro? Que providências tomou para acabar com isso?

       - Seu pai não foi à audiência, mandou o Dr. Loureiro. Ele levou os documentos que comprovam a morte de Marcelo, e tudo o mais. Estamos esperando a decisão do juiz. Com certeza vai indeferir a queixa e encerrar o caso.

       - Tem certeza?

       - Claro. Não há nada que prove o contrário.

       - Mãe, e se não for assim? E se o juiz der andamento ao processo? Maria Júlia estremeceu:

       - Isso não vai acontecer. Eles nunca poderão provar que esse moço é Marcelo.

       Gabriel ficou calado por alguns instantes. Por fim, não resistiu e disse à queima-roupa:

       - Mãe, por que é que você mandava sempre aquele dinheiro para a Inglaterra?

       Ela se sobressaltou:

       - Psiu! Não fale nisso, por favor. Seu pai não pode saber nunca, principalmente agora.

       - Porquê?

       - Ele não concordaria. Já lhe disse, era para uma amiga. Ela brigou com nossa família. O que está querendo insinuar?

       - Marcelo viveu na Inglaterra. Não era para sustentá-lo que você mandava aquele dinheiro?

       Maria Júlia empalideceu e teria caído se Gabriel não a tivesse abraçado assustado:

       - Mãe, o que foi? Você está pálida!

       - Por favor, meu filho! Nunca mais repita isso! Já pensou se alguém o escuta? Seu pai nunca pode saber disso. Jure que nunca vai contar!

       - Eu juro. Não vou contar nada. Acalme-se! Sente-se no sofá. Ela se sentou e, segurando as mãos dele, disse nervosa:

       - Nunca mais repita isso, peço-lhe. Jure que nunca mais voltará ao assunto!

       - Fique tranqüila, não vou falar com ninguém.

       - Jure.

       - Mãe, eu toquei neste assunto porque algumas lembranças estão me preocupando desde que começou esta história. Percebo que há alguma coisa que eu não sei e que você não quer me contar. Eu preciso saber. Seja o que for que tenha acontecido, eu estou do seu lado, farei tudo que puder para ajudá-la. Mas tenho que saber a verdade. Todos esses anos tenho observado seu sofrimento. Sei que tem sido ameaçada por papai, e sinto que até Bóris pode estar envolvido.

       - Você me assusta. Não queria que meus filhos se envolvessem nessa história. Peço-lhe, fique fora disso!

       - Não posso, mãe. Por que não me conta tudo? Do que tem medo? Esse moço pode mesmo ser Marcelo?

       Maria Júlia, torcia as mãos nervosamente quando disse:

       - Eu pensei que tudo tivesse acabado! Meu Deus! Estou sendo castigada!

       - Então é verdade? Marcelo está vivo?

       Maria Júlia levantou-se e olhando-o nos olhos tornou:

       - Prometa que nunca mais falará sobre isso aqui em casa! Por favor! Eu prometo que quando puder contarei toda a verdade. Não aqui. As paredes têm ouvidos. Vamos, prometa.

       - Está bem, prometo. Mas você tem que me dizer tudo.

       - Direi, desde que atenda meu pedido.

       - Quando?

       - Tem que esperar. Ninguém pode saber que você sabe de alguma coisa. Entendeu?

       - Entendi. Poderemos nos encontrar fora daqui e conversar. Não agüento mais esperar.

       - Às vezes é melhor não saber.

       - Tudo é melhor do que a dúvida.

       - Precisa ser em um lugar sossegado, onde ninguém possa nos ouvir.

       - Deixe comigo. Sei como arranjar tudo.

       - Sinto-me cansada...

       - Você está abatida.

       - Vou para o quarto me arrumar um pouco.

       Quando ela saiu, Gabriel sentou-se pensativo. Era evidente que havia um segredo e era muito provável que Marcelo estivesse vivo mesmo. A atitude de sua mãe não deixava margem a dúvida. Por que seu pai não podia saber que ela mandava o dinheiro para a Inglaterra? Ardia de curiosidade para conhecer a verdade.

       Não acreditava que sua mãe fosse culpada. Era uma mulher de princípios. Se ela ajudara o marido encobrindo essa farsa, foi por ter sido ameaçada de alguma forma. Talvez até para salvar os filhos. Não ouvira o pai ameaçá-la de tirar-lhe os filhos? Era difícil acreditar que um pai ameaçaria a própria família. Seria verdade o que ele ouvira quando criança?

       Resolveu que naquele dia mesmo daria um jeito para sair com a mãe sem despertar suspeitas. No jantar, comentou diante de todos que a estava achando um pouco abatida, ao que ela respondeu:

       - Estou um pouco adoentada. Não é nada.

       - Você precisa de ar puro. Ninguém consegue respirar mais nesse

       Rio de Janeiro. Amanhã cedo vamos dar uma volta de barco. Quero mostrar-lhe algumas mudanças que fiz. Garanto que o ar do mar lhe fará bem.

       - Não posso, meu filho. Temos alguns compromissos.

       - Sua saúde é mais importante. Suspenda os compromissos e vamos passear um pouco. Garanto que lhe fará bem, que voltará mais corada e disposta.

       - Gabriel tem razão. Você tem estado muito deprimida. Um pouco de ar puro fará bem a você - tornou José Luís.

       - Está bem, iremos.

       - Isso mesmo, mãe. Passaremos o dia inteiro no mar. Voltaremos ao entardecer.

       Na manhã do dia seguinte, Gabriel levantou-se cedo. Estava ansioso, mas teve que esperar a mãe despachar seus compromissos. Eram mais de dez horas quando finalmente saíram.

       O motorista deixou-os no cais, onde o barco estava ancorado. Na embarcação estava apenas o encarregado de cuidar de tudo, que muitas vezes acompanhava Gabriel em suas viagens, dividindo o leme e fazendo a manutenção.

       - Bom dia, João - disse Gabriel entrando no barco. - Está tudo em ordem? Podemos zarpar?

       - Bom dia. Podemos sim. Bom dia, D. Maria Júlia.

       - Bom dia, João.

       - Estou feliz por ter a senhora a bordo.

       - Minha mãe precisa respirar um pouco de ar puro. Vamos passear o dia inteiro. Tem comida?

       - Tem, sim. Podemos ir até Angra. Gostaria de fazer um almoço gostoso para D. Júlia.

       - Está bem, João. Por enquanto, vamos dar uma volta.

       Era um barco muito bonito, com duas cabines embaixo e uma boa sala de estar em cima, no meio do convés. Maria Júlia guardou a bolsa na cabine, trocou de roupa. Fazia tudo maquinalmente. Não queria dar a perceber o quanto estava nervosa.

       Gabriel serviu um refrigerante à mãe, colocou salgadinhos na bandeja, apanhou um copo de cerveja, sentou-se a seu lado na pequena saleta dizendo:

       - Relaxe, mãe. Veja que dia lindo.

       - É verdade. Estou tão agoniada que nem reparei.

       - Eu queria trazê-la aqui para que renove suas energias. Não gosto de vê-la triste, abatida. Seja o que for que houver acontecido, ficarei do seu lado. Farei tudo para que fique bem.

       Maria Júlia suspirou:

       - Obrigada, meu filho. Quanto mais você me dá carinho, mais eu me arrependo do que fiz. Pode ter certeza de que estou sendo muito castigada por minha fraqueza.

       Gabriel segurou as mãos frias da mãe, apertando-as com força:

       - Eu estou aqui, mãe. Do seu lado. Pronto para defendê-la de tudo, contra todos.

       - Obrigada, meu filho.

       - Agora, fale.

       - Tem certeza de que João é de confiança?

       - Absoluta. De onde ele está, não pode nos ouvir, e, mesmo que pudesse, garanto que faria tudo para nos ajudar. Não é apenas um empregado, é um amigo dedicado que tenho.

       - Está bem. O que quer saber?

       - Tudo. Desde o começo. Você se casou por amor?

       - Não. Mas seu pai era um homem bonito, galante, atencioso e eu o aceitei. Mas não é de nossa vida que eu quero falar.

       - Eu noto que vocês não se dão bem.

       - Essa é uma outra história. Vim aqui para falar sobre Marcelo.

       - O que aconteceu realmente? Esse moço pode estar dizendo a verdade ?

       Maria Júlia olhou para o filho agoniada. Era-lhe muito difícil falar nesse assunto.

       - Eu gostaria muito que você me poupasse e esquecesse o assunto. Ele meneou a cabeça negativamente.

       - Não posso, mãe. Seja o que for que tiver acontecido, eu já disse: vou ficar do seu lado, dar meu apoio, mas eu quero a verdade. Tenho o direito de saber. Do que tem medo?

       - Não é por mim que temo. Incomoda-me perceber sua animosidade com seu pai.

       - Ele não se importa, mãe. Aliás, nunca se preocupou com o que eu sinto.

       - É porque você o ignora.

       - Não viemos aqui para falar de meu relacionamento com papai. Você sabe que não concordo com a maneira que ele a trata na intimidade. Afasto-me para não brigar com ele em respeito a você, para não desgostá-la. Mas agora não se trata mais de nossa intimidade. Fatos graves estão sendo levados a público e não posso contemporizar. Tenho que saber a verdade, ainda que ela seja dura, para poder preservar nossa dignidade. Não posso fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo. Maria Júlia ficou silenciosa por alguns instantes, depois disse:

       - Pensei que tudo estivesse acabado. Nunca imaginei que depois de tantos anos a vida viesse nos pedir contas.

       - Então é verdade. Esse moço pode ser Marcelo mesmo.

       - Pode, meu filho. E seu pai nunca poderá descobrir minha participação nessa história, senão vai acabar comigo.

       Gabriel levantou-se e abraçou-a com carinho.

       - Nunca permitirei que ele toque em você, seja o que for que tenha feito. Estou aqui para defendê-la. Você pode contar comigo incondicionalmente.

       - Obrigada, meu filho - disse ela com voz que a emoção embargava. - Eu sei que posso contar com você. Vou contar-lhe tudo. Na verdade, não agüento mais manter esse segredo.

       Emocionada, Maria Júlia iniciou seu relato:

       - Como você sabe, sempre tratei nossos empregados com respeito e consideração. Logo que nos casamos tivemos uma empregada que nos serviu durante alguns anos. Veio para nossa casa com quinze anos. Era dedicada e eu gostava muito dela. Porém apaixonou-se por um dos amigos de seu pai que freqüentava nossa casa. Sem pensar em nada, entregou-se a ele e ficou grávida. Ele pertence a uma família muito importante e, claro, exigiu que ela fizesse um aborto. Mas Maria recusou-se e a família dele, quando descobriu, passou a ameaçá-la, exigindo que deixasse seu filho em paz. José Luís ficou muito irritado. Mantinha boas relações com essa família, não se conteve e exigiu que Maria fizesse o aborto. Pressionada, ela me procurou pedindo ajuda e eu condoída dei-lhe dinheiro para fugir. Ela foi para Petrópolis e eu a ajudei até que nascesse o menino e ela pudesse trabalhar. A criança nasceu alguns dias depois de Marcelo. Era um lindo menino. Ela arrumou emprego em uma fábrica e foi vivendo. José Luís descobriu que eu a ajudava e ficou muito zangado comigo. Foi ele que uma noite atendeu o telefonema de Maria desesperada. O menino havia caído de uma janela do segundo andar, onde ela morava, e havia morrido. Ela não tinha dinheiro para o enterro.

       - Era noite e eu, chocada, decidi viajar para Petrópolis para socorrê-la. José Luís não queria, mas, como eu disse que iria de qualquer forma, mandou Bóris me levar. Fiquei contrariada, sempre achei que ele me vigiava, mas, naquelas circunstâncias, o que eu queria era ver Maria e fazer o possível para ajudá-la.

       - Fomos. Chegando lá, o corpo do menino ainda não havia sido liberado do hospital. Bóris foi vê-lo e não me deixou entrar, dizendo que ele caíra com o rosto nas pedras e ficara completamente irreconhecível. Tratei de confortar a mãe e quando o dia amanheceu conseguimos liberar o corpo para o enterro.

       - Quando saímos, estranhei. Quem estava nos esperando era o carro do Dr. Camargo com Alberico, o motorista dele, na direção. Maria estava tão abalada que nem percebeu. Em vez de irmos para a casa de Maria, fomos direto para a mansão dos Camargo. José Luís nos esperava na entrada, o que muito me surpreendeu.

       - A família estava passando as férias de verão em Petrópolis, como faziam todos os anos. Marcelo estava dormindo, os pais haviam ido ao Rio para uma recepção. Na casa estavam apenas Eleutéria, a ama de Marcelo, e Alberico, o motorista.

       - Entramos e eu não me contive:

       - "O que estamos fazendo aqui? O que está acontecendo?"

       - "Tenho um plano que vou pôr em ação. Estou cansado de ficar em segundo lugar enquanto eles desfrutam do bom e do melhor. Meu pai sempre me dizia que havia sido lesado por tio Antônio na herança de família. Chegou a hora de ter de volta com juros o que me pertence."

       - Assustada perguntei:

       - "O que você vai fazer?"

       - "Vou cuidar de tudo e você vai fechar a boca. Se abrir, vai se arrepender."

       - "Onde está Maria?"

       - "Dei-lhe um calmante e está dormindo. Estava muito nervosa. Quando acordar estará melhor."

       - "E o enterro?"

       - "Deixe por minha conta. Vai ser o maior enterro que você já viu. Com tudo de primeira."

       - Eu estava cansada. Havia passado a noite, em claro e resolvi descansar um pouco. Tio Antônio nos oferecia a casa sempre que quiséssemos, por isso fui para o quarto de hóspedes e deitei um pouco tentando dormir.

       - Não consegui. Estava muito tensa. Ouvi vozes no quarto ao lado, levantei-me e apurei o ouvido.

       - Alberico e Eleutéria conversavam.

       - "É pegar ou largar. É a chance de nossas vidas. O menino já morreu mesmo. Não vamos matar ninguém" - dizia Eleutéria.

       - "Não sei, não. Vai ser uma tragédia. O Dr. Antônio é louco pelo menino. Vai sofrer muito. Não é justo fazer isso com ele" - respondeu Alberico.

       - "Qual nada. Gente rica logo esquece. Isso passa. E nós vamos ficar ricos! Sem falar que nossa fortuna nunca vai acabar. Eles vão ter que pagar sempre para nos manter com a boca fechada. Você vai poder comprar aquela casa que andava namorando. Já pensou?"

       - Fiquei assustada. O que eles estavam tramando? Custou, mas Eleutéria convenceu Alberico.

       - "Vamos levar Marcelo para a casa de D. Diva. Quando ela viajou, deixou a chave comigo para molhar as plantas e cuidar dos passarinhos."

       - "O que vão fazer com ele? Não quero que nada de mal aconteça."

       - "Não vão fazer nada. Só sumir com ele."

       - "Sumir como?"

       - "Sei lá, homem. Isso não me interessa."

       - Fiquei horrorizada. Fui procurar José Luís. Ele estava reunido com Bóris a portas fechadas. Entrei na sala ao lado e tentei ouvir o que diziam:

       - "Vai dar tudo certo, você vai ver" - dizia Bóris.

       - "Não sei, não. Estou preocupado com minha mulher. Nunca vai aceitar uma coisa dessas. Pode dar com a língua nos dentes."

       - "Ela sempre faz o que você quer. Use o mesmo argumento de sempre. Ela ficará calada. Depois, vai usufruir de tudo também. Será cúmplice e nunca abrirá a boca."

       - "É. Você está certo. Mas e o menino? O que faremos com ele?"

       - "O melhor é acabar com ele."

       - "Isso, não. E uma criança. Repugna-me fazer isso. Vamos levá-lo a um lugar de onde nunca poderá sair."

       - "Mas ele tem quatro anos. Fala e pode nos delatar. O melhor é mesmo acabar com ele. Para vencer é preciso ter coragem. Já combinei com Eleutéria e Alberico, que levarão Marcelo para uma casa cujos donos viajaram e ela tem a chave. Lá veremos quem vai cuidar de sumir com ele."

       - "Não quero mais gente metida nisso. Ninguém mais pode saber de nossos planos."

       - "E quanto a Maria?"

       - "Vai dormir por algum tempo. Quando acordar, informá-la-emos que enterramos o menino."

       - "Ela vai querer saber onde. Eu posso arranjar isso no cemitério local. Só preciso do nome todo dele."

       - "Temos no atestado de óbito."

       - Eu estava apavorada. Percebi que a vida de Marcelo corria perigo. Mas eu ainda não havia entendido o que eles iam fazer. Esperei Bóris sair da sala para que eles não desconfiassem de mim e abordei José Luís.

       - "Quero saber o que vocês estão tentando fazer."

       - "Não precisa. Só tem que ficar calada."

       - "Estou metida nisto e tenho o direito de saber."

       - "Está certo. Você vai ter que cooperar mesmo. Marcelo acaba de morrer em um acidente de carro. O corpo ficou irreconhecível. Eleutéria e Alberico vão testemunhar e eu vou dar o atestado de óbito. Por acaso nós viemos hoje a Petrópolis e ao chegar soubemos da tragédia. Tentamos socorrê-lo, mas a morte foi instantânea. Bateu o rosto nas pedras."

       - "Isso é uma loucura! Ele está vivo!"

       - "Vamos enterrar o corpo do filho de Maria como sendo ele."

       - "Isso nunca dará certo. É um horror! Já pensou na dor da família? O que espera ganhar com isso? Com a morte dele você não herda nada. Ainda há Cláudio e Carolina! Só uma cabeça doente poderia pensar uma coisa dessas!"

       - "Você vai calar e fazer tudo direitinho, senão já sabe o que vai lhe acontecer."

       Gabriel não se conteve:

       - Por que ele domina você desse jeito? Do que tem medo?

       - Trata-se de um segredo de minha família que não posso revelar. Prefiro morrer a que alguém descubra.

       - Por causa disso você concordou em fazer o que ele queria!

       - Foi. Concordei. Só Deus sabe como foi horrível. Fizeram tudo de tal forma que ninguém desconfiou de nada. Eu estava atormentada. Sabia que Bóris era perverso e eu temia pela vida de Marcelo. Depois do enterro do corpo como sendo o de Marcelo, procurei Alberico sem que ninguém soubesse. Ele gostava muito do menino.

       - "Você tem que me ajudar. Marcelo corre perigo. Nós temos que salvá-lo."

       - "D. Maria Júlia, não quero levar isso na consciência. Já chega o que eles fizeram."

       - "Você sabe onde ele está?"

       - "Sei. Mas eles podem tirá-lo de lá."

       - "Precisamos agir depressa. Se me ajudar, não se arrependerá."

       - "O que quer fazer?"

       - "Salvar Marcelo. Levá-lo para longe, onde ninguém possa fazer-lhe mal."

       - "Deixe comigo."

       - Depois ele me contou que se comprometera com Bóris a matar o menino, na intenção de protegê-lo. Recebeu dinheiro por isso e ficou satisfeito de poder enganá-los. Escondeu-o de todos alguns dias. Eu, pretextando abalo nervoso, convenci José Luís de que queria ficar algum tempo no convento das irmãs onde eu fora educada e ele concordou de bom grado. Temia que eu não suportasse e acabasse pondo tudo a perder. Combinando com elas a pretexto de ver uma amiga doente na Inglaterra, ajudaram-me a preparar a viagem sem contar para minha família.

       - Essa é a mesma história que você me contava quando mandava dinheiro.

       - Isso. Alberico me ajudou levando Marcelo ao aeroporto na hora do embarque. Fizemos tudo de tal jeito que ninguém desconfiou. Deixei-o no melhor colégio da Inglaterra, recomendando uma educação esmerada. Era o mínimo que eu podia fazer por ele depois de haver compactuado com aquela infâmia.

       - Você lhe salvou a vida!

       - Graças a Deus. Apesar de tudo, é isso que me conforta. Mandei-lhe dinheiro durante muitos anos. Ele estava já na universidade quando Bóris descobriu que eu remetia esse dinheiro e José Luís me pressionou para saber por que e para quem eu o mandava. Fiquei apavorada. Se eles soubessem o que eu havia feito, certamente me castigariam. Suspendi a remessa do dinheiro. Eu havia deixado um recado para que ele nunca voltasse ao Brasil. Agora vejo que ele não atendeu.

       Gabriel, pálido, segurava as mãos da mãe penalizado. Ela se arriscara para salvar a vida de Marcelo.

       - Mãe, ele tem o direito de reivindicar sua herança. Vocês lhe roubaram tudo, o amor da família, os bens, até o país. Tenho a impressão de que ninguém vai poder impedir agora que a verdade apareça. Vocês não vão poder fazer nada! E Maria? O que houve com ela? Tomou conhecimento do que aconteceu?

       - Não. José Luís, a pretexto de poupá-la, internou-a em um hospital psiquiátrico onde fez sonoterapia por um mês. Saiu de lá arrasada, visitou o túmulo em Petrópolis cuja lápide tem o nome de seu filho e sumiu.

       - Você sabe onde se encontra?

       - Não. Ela desapareceu. Nunca mais soube dela.

       Maria Júlia segurou as mãos do filho apertando-as com força e olhando-o emocionada:

       - Está decepcionado comigo, meu filho?

       - Não, mãe. Você foi mais vítima do que culpada. Só não entendo por que se submete a ele. Conheço seu coração nobre, sua postura ética, seus sentimentos bons. Que segredo é esse que a acovarda desse jeito, fazendo-a suportar uma situação tão contra seus princípios?

       - Sinto muito, meu filho, mas não estou ainda preparada para falar sobre isso.

       - Só quero ajudar. Estou e sempre estarei do seu lado. Eu a amo incondicionalmente. Por que não confia em mim?

       - Um dia, talvez. Agora não posso falar. Estou esgotada.

       - Estou pensando... uma desconfiança começou a me incomodar.

       - O que foi?

       - A morte de Marcelo não era suficiente para fazer papai receber a herança. Tio Antônio era vivo e havia seu filho e a nora, que eram herdeiros diretos. O que eles tinham em mente quando fizeram isso? Será...

       Maria Júlia sobressaltou-se tapando a boca de Gabriel com a mão:

       - Não diga isso. Essa suspeita tem me incomodado a vida inteira. Tenho pesadelos com ela, não quero pensar que possa ser verdade.

       - Claro, mãe. Quando eles planejaram essa fraude, pensaram também em eliminar os outros herdeiros.

       - Não, meu filho. Seria demais!

       - Seria muita coincidência pensar que todos os três morreram em menos de dois anos.

       - José Luís não seria capaz disso. É médico!

       - Um médico tem muitos recursos para acabar com quem quiser. Ele era o médico de tio Antônio.

       Maria Júlia mergulhou a cabeça nas mãos arrasada. Gabriel continuou pensando alto:

       - Claro. Teria sido fácil acabar com a saúde de alguém que já estava deprimido.

       Maria Júlia levantou a cabeça:

       - Mas e os outros dois? Eles morreram em um acidente de barco na Itália. Seu pai estava comigo em Paris e nunca se ausentou.

       - E Bóris, onde estava?

       - Ele viajou conosco para Europa.

       - Esteve o tempo todo com vocês?

       - Não. Ele tinha alguns amigos russos e foi passar algum tempo com eles.

       - Você consegue se recordar se ele estava fora quando aconteceu esse acidente?

       - Deixe-me ver... sim, estava. Você acha que ele...

       - Pode perfeitamente ter se ausentado para "providenciar". Que tipo de acidente foi?

       - O motor do barco explodiu e incendiou-se. Os policiais disseram que foi um curto-circuito na parte elétrica.

       Gabriel segurou as mãos da mãe dizendo pálido:

       - Mãe, essa situação é muito suspeita. Se eles cometeram todos esses crimes, temos que descobrir.

       - Isso, não. Se isso for verdade, o que será de nós? Podemos ser arrolados como cúmplices. Eu sabia que Marcelo estava vivo e fiquei calada. Posso ser presa por causa disso. Eu não quero ser presa. Prefiro morrer a passar essa vergonha. Seu nome e o de sua irmã estariam para sempre na lama. A sociedade não perdoa.

       - Mãe, não importa o que a sociedade pensa. Minha consciência não consegue calar diante dessa suspeita.

       - Prometa que não vai fazer nada. Vai esquecer isso e pronto.

       - Não posso, mãe.

       - É apenas uma suspeita. Não podemos levar isso adiante.

       - Uma suspeita muito justificada. Tanto que se encaixa perfeitamente aos fatos. Entretanto, concordo que antes de qualquer coisa temos que descobrir a verdade.

       - Isso é impossível. Bóris é perigoso. Se desconfiar, sua vida corre perigo.

       - O que não podemos é ficar à mercê de um assassino que a qualquer momento pode querer nos matar para salvar a pele.

       - Meu filho, nunca deveria ter contado.

       - Ao contrário, mãe. Agora estarei de olho neles para defendê-la.

       - Prometa que não fará nada sem falar comigo antes.

       - Prometo. Não pretendo fazer nada de mais. Apenas observar e investigar. Se tudo o que imagino for verdade, papai também está nas mãos desse marginal. Eu já suspeitava que Bóris estivesse fazendo alguma chantagem. Nunca vi nenhum mordomo ter tantas regalias e fazer o que ele faz. Praticamente manda em tudo e em todos. Nem você faz o que quer dentro de sua própria casa.

       - Se eu pudesse, já o teria despedido. Mas seu pai não quer nem ouvir falar nisso. ,

       - Claro. Tem medo de que ele dê com a língua nos dentes.

       - Pensando nisso sinto o coração apertado. Meu Deus, aonde nos levará essa desgraça?

       - Não será compactuando com os erros que eles fizeram que nós vamos nos livrar. Penso até que está na hora de dar um basta e ir para o lado oposto.

       - Não está pensando em fazer isso!!

       - Não, mãe. O que eu quero é ir para o lado do que é certo e justo. Oprime-me ficar conivente com a maldade deles.

       - A mim também.

       - Nesse caso, vou investigar. Se tudo que suspeitamos for verdade, tomarei providências.

       - O que pensa fazer?

       - Ir viver minha vida longe daqui. Eu, você e Laura poderíamos ir morar em outra cidade e sair da vida dos dois.

       - E nos separarmos de seu pai? Ele jamais vai concordar.

       - Não faz mal. Iremos assim mesmo. Ele não vai poder fazer nada.

       - Será um escândalo. Não podemos fazer isso. Toda a sociedade vai falar.

       - A nossa felicidade vale mais do que o falatório dos desocupados. Mãe, se eles praticaram esses crimes, como poderemos viver lá com esse peso no coração? Não me sinto capaz. Você tem sofrido ao lado dele durante todos esses anos. Não se queixa, mas eu sei. Por que quer continuar um relacionamento que só lhe causa dor?

       Maria Júlia apertou as mãos com força. Havia infinita tristeza em sua voz quando disse:

       - Se eu pudesse, há muito teria feito isso. Infelizmente, não dá para fazer.

       Gabriel ia retrucar, mas ela continuou:

       - Você nunca gostou de seu pai, não é? Desde pequeno não o suporta. Ele tem se esforçado em conquistar sua estima, mas nunca conseguiu. Porquê?

       - Não sei explicar. A proximidade dele me causa sensação desagradável. Nós não temos nenhuma afinidade. - Ele fez ligeira pausa, abraçou a mãe com carinho e prosseguiu: - Já com você é diferente. Gosto de ficar a seu lado, sentir seu perfume, beijar seu rosto, abraçá-la. Compreendemo-nos.

       Maria Júlia apertou o filho nos braços com amor:

       - Você é meu tesouro. Por mim, você nunca tomaria conhecimento dessas coisas.

       - Não sou ingênuo. Cresci, mãe. Sou um homem, quero estar a par de tudo, defendê-la como merece, cuidar de sua felicidade. Seja o que for que acontecer, nunca a deixarei.

       Os dois permaneceram silenciosos, abraçados, sentindo-se bem dentro do afeto que os unia.

       

Capítulo 12

       Daniel entrou no escritório eufórico.

       - Elza, conseguimos. O juiz deferiu nosso pedido. Rubinho apareceu na porta de sua sala:

       - Verdade? Você leu o parecer?

       - Li. Marcou prazo para apresentação das provas em juízo para serem analisadas.

       - Puxa! Finalmente. Não agüentava mais esperar. Temos que avisar Alberto. Ele vai ficar radiante.

       - Vou telefonar a Lanira.

       - Faça isso. Agora temos que seguir adiante. Se Jonas obtiver aquelas provas, estamos feitos.

       - Ele deu notícias?

       - Por enquanto, não. Vou telefonar a ele para contar a novidade e saber como vão as investigações.

       - Se ele tivesse conseguido as provas, já teria nos procurado.

       - É. Mas não custa tentar.

       Na hora do almoço, quando os dois conversavam com Alberto, Lanira apareceu:

       - Vim almoçar com vocês para comemorar.

       - Faço questão de pagar esse almoço - disse Alberto.

       - Não posso sair agora. Marquei com um cliente. Vão vocês - respondeu Rubinho.

       - De modo nenhum. Sem você, nada feito - disse Lanira.

       - Nesse caso, convido-os para um jantar, onde quiserem.

       - Pretendia sair com Marilda - respondeu Rubinho. - Ela está com uma amiga que chegou do exterior e combinamos jantar juntos.

       - Se não se importa, poderemos levá-las conosco. Fica por minha conta - sugeriu Alberto.

       - Não teremos liberdade para falar de nossos assuntos - comentou Daniel.

       - Vamos conversar agora. À noite poderemos ir a um lugar alegre, dançar, ouvir música. Estou precisando espairecer, aliviar a tensão - tornou Alberto.

       - Boa idéia - interveio Lanira. - Vocês têm trabalhado muito e terão ainda muito mais a fazer daqui para a frente. Marilda é a filha do Dr. Edmundo?

       Foi Daniel quem respondeu:

       - É. Ela anda dando voltas à cabeça de Rubinho.

       - Ela dá voltas à cabeça da maioria dos rapazes do Rio de Janeiro. É muito bonita, elegante, mas muito reservada. Nunca conversei com ela - considerou Lanira.

       - E muito agradável. Temos nos encontrado algumas vezes, como amigos - esclareceu Rubinho.

       - Fale a verdade - disse Daniel sorrindo.

       - Estou dizendo. Por enquanto somos só amigos.

       - Bem, eu gostaria muito - disse Alberto. - Acho que seria bom aparecer publicamente. Ainda ontem, na empresa onde trabalho, um amigo do diretor quis conhecer-me. Quando fui apresentado ele disse: "Fui amigo do Dr. Camargo. Você me recorda muito ele. Seu sorriso, seu jeito de olhar, seu andar. Estou impressionado". Meu avô tinha muitos amigos. Era querido, admirado. Essa semelhança é uma prova de que sou mesmo Marcelo.

       - Acho que tem razão. Aliás, muitos amigos meus têm pedido para conhecê-lo. Estão morrendo de curiosidade. Muito bem. Falarei com Marilda. Se ela concordar, iremos.

       Marilda concordou e combinaram jantar em uma boate. Às oito, Daniel foi buscar Lanira em casa. Não entrou para não encontrar o pai. Mandou a criada avisá-la e Maria Alice ficou olhando atrás da cortina quando Lanira, linda em seu vestido verde-escuro, saiu e entrou no carro. O marido não havia chegado ainda. Daniel poderia ter entrado para abraçá-la. Sentia o coração oprimido.

       Essa situação era insustentável. Sentiu raiva do marido. Ele não tinha moral para expulsar o filho de casa. Era um homem de aparência. Por fora, irrepreensível; por dentro, cheio de hipocrisia. Ela estava cansada de tolerar aquela ligação com a secretária. Todo o Rio de Janeiro sabia que eram amantes. Ela fingia ignorar na tentativa de conservar a dignidade. Mas sentia-se humilhada, deprimida, desvalorizada. Até quando suportaria?

       Tinha uma filha para casar. Precisava manter as aparências para não prejudicá-la. Depois, enquanto fingia não saber, não era obrigada a tomar nenhuma atitude. Era uma vítima e eles é que eram os culpados.

       Ela estava torcendo para Daniel ganhar aquela causa só para ver a cara de Antônio. Ele ficara contra o filho, do lado errado. Se isso acontecesse, ele com certeza procuraria Daniel para prestigiá-lo e usufruir do sucesso dele.

       Suspirou angustiada. Sentia-se só e deprimida. O que seria de sua vida quando Lanira se casasse e deixasse a casa? Onde encontrar forças para manter um casamento fracassado como o seu? As lágrimas estavam prestes a cair e Maria Alice reagiu. Não queria que nenhum dos criados a visse chorar. Respirou fundo, apanhou uma revista e acomodou-se no sofá tentando ler.

       Quando Daniel e Lanira chegaram na boate, Alberto já estava lá, muito elegante. Lanira admirou-se:

       - Como você está elegante! - comentou.

       Ele sorriu e ela notou que mesmo sorrindo seus olhos continuavam tristes.

       - Para sair com vocês eu precisava caprichar. Você está bonita como sempre.

       Daniel olhou-os surpreendido. Vira um brilho de admiração nos olhos de Alberto e inquietou-se um pouco. Ele estaria interessado em Lanira? Não gostaria que ela se envolvesse com ele. Arrependeu-se de haver concordado com esse jantar. Porém Alberto adotara uma postura discreta e Daniel acalmou-se. Ele estava apenas sendo educado.

       O lugar era fino e bonito. Iluminação discreta, música ao vivo, ambiente requintado e agradável. Alguns pares dançavam na pista.

       - Que bom estar aqui! - comentou Lanira.

       - Vamos dançar? - pediu Alberto.

       Ela concordou e saíram dançando enquanto Daniel deixava-se ficar ouvindo a beleza do blues e tomando seu aperitivo. Estava tão absorto em seus pensamentos que só percebeu a chegada de Rubinho acompanhado das duas moças quando ele tocou levemente seu ombro. Levantou-se imediatamente, cumprimentando Marilda.

       - Quero apresentar-lhe minha amiga Lídia Vasconcelos.

       Daniel fixou os olhos nela e o sangue fugiu de seu rosto. Estaria sonhando? A mulher de seu sonho estava diante dele. Mais jovem, mas os mesmos cabelos dourados, os mesmos olhos verdes. Atordoado, balbuciou:

       - Como disse?

       - Esta é Lídia, minha amiga de infância.

       Daniel respirou fundo tentando dominar-se. O mesmo nome! Estaria enlouquecendo?

       - O que foi? - estranhou Rubinho. - Você parece que viu fantasma. Aconteceu alguma coisa?

       - Não. Nada. Desculpe. Estava distraído. Muito prazer - disse ele estendendo a mão que ela apertou olhando-o nos olhos.

       - Não nos conhecemos de algum lugar? - perguntou admirada. Daniel estremeceu:

       - Não. Acho que não.

       - Você já esteve em Nova York? Eu morei lá durante muitos anos.

       - Conheço Nova York, mas não tive o prazer de encontrá-la.

       - Tenho a sensação de conhecê-lo.

       Sentaram-se. O coração de Daniel batia descompassado. O que estava acontecendo com ele? Por que o destino colocara a seu lado aquela mulher que era igual à de seu sonho? Ela dissera odiá-lo. E se fosse verdade a história de vidas passadas? E se a Lídia de seus sonhos existisse mesmo e tivesse reencarnado?

       Tentou dissimular sua inquietação e conversar normalmente, embora as perguntas continuassem em sua mente sem encontrar resposta. Haviam se sentado, e, depois de pedirem bebidas, Rubinho e Marilda foram dançar. Daniel ficou sozinho com Lídia.

       Sentia-se emocionado. Ele era um homem de sociedade, habituado ao convívio com moças bonitas e educadas. Ficava muito à vontade com elas e tinha completo domínio de si. Entretanto, diante dessa, não sabia o que dizer nem fazer.

       Ela estava linda em seu vestido cor de prata deixando ver as formas perfeitas de seu corpo, e usava um perfume delicado e tão agradável que Daniel aspirou deliciado. Tentou reagir. Ele estava exagerando. Era apenas uma coincidência. Tentou conversar:

       - Quantos anos você morou no exterior?

       - Saímos do Brasil quando eu tinha sete anos e estou voltando agora. Ficamos quinze anos fora. Meu pai é diplomata e tem servido no Itamarati. Agora conseguiu transferência para o Brasil. Minha mãe queria muito voltar. Temos família aqui.

       - Fica difícil depois de tantos anos. Você deixou amigos e talvez até algum apaixonado lá.

       - Deixei amigos, sim. Mas quando a saudade bater vou até lá. No momento preciso me ambientar aqui. Depois de tanto tempo fora, ninguém me conhece mais.

       - Marilda conservou a amizade.

       - É. Nossas famílias são muito amigas. Eles nos visitavam e Marilda passava férias em minha casa.

       Eles continuaram conversando e Daniel chegou a esquecer os dois casais que dançavam olhando-os surpreendidos quando se sentaram à mesa novamente e a conversa generalizou-se. Rubinho só tinha olhos para Marilda, enquanto Alberto e Lanira dançavam com animação.

       - Para quem foi educado na Inglaterra você dança samba muito bem - comentou ela.

       Alberto sorriu.

       - Acho que está no sangue. Apesar de viver longe, sempre me interessei por tudo que se refere ao Brasil. Adoro nossa música.

       - O que pretende fazer quando esse seu caso acabar?

       - Quando eu ganhar e tiver em mãos os bens de meu avô, pretendo cuidar de tudo como ele gostaria que eu fizesse.

       - Você fala nele como se sempre tivesse estado com ele.

       - Gosto muito dele. Depois, ele sempre esteve comigo, mesmo quando eu não sabia nada sobre o passado.

       - Você fala isso com tanta certeza!

       - É difícil explicar. Mas eu sei que ele continua me ajudando, protegendo, amando, e isso me comove.

       - Não será sua necessidade de afeto que o faz criar essa ilusão para fugir de sua solidão?

       - Não. Eu o vi várias vezes e sei que ele está comigo. Ilusão é pensar que quem morre acaba. A vida continua e eu tenho provas disso.

       - É um assunto delicado. Poucas pessoas acreditam nisso.

       - Engana-se. Muitos crêem, mas não falam por medo dos preconceitos sociais.

       - Pode ser mesmo. Nossa sociedade é muito preconceituosa. As aparências é que importam. A verdade é sonegada, encoberta, a tal ponto que chega uma hora em que ninguém mais sabe distinguir o falso do verdadeiro.

       - Quando resolvi reclamar meus direitos, pensei nisso e achei que a minha verdade seria também uma contribuição para desmascarar essa hipocrisia.

       - É, você já balançou a vida de muita gente. Até eu acabei entrando na berlinda.

       - Você? Por causa de seu irmão haver saído de casa?

       - Não. Por causa de Gabriel. O filho de D. Maria Júlia. Éramos

       muito amigos. Depois do escândalo ele cortou relações comigo.

       - Você estava namorando-o?

       - Não. Mas apreciava sua amizade. É um rapaz inteligente, culto, muito diferente dos almofadinhas que andam por aí.

       - Está apaixonada por ele?

       - Não. Mas prezo sua amizade.

       - Um escândalo desses atinge a família inteira. Os filhos não são culpados pelo que os pais fizeram. Acho mesmo que não sabiam de nada. Quando decidi mover a ação, sabia que isso seria inevitável. Ele falou com você sobre o assunto?

       - Não. Simplesmente afastou-se, sem dizer nada. Quando telefono, nunca está. Gostaria de ter conversado com ele, dizer que continuo prezando sua amizade. Esperava que ele soubesse separar as coisas.

       - Ele pode estar chocado, envergonhado.

       - É. Daniel disse a mesma coisa.

       Rubinho conversava com Marilda enquanto dançavam:

       - Muito bonita sua amiga. Daniel ficou em estado de choque. Marilda sorriu:

       - Ela não é só bonita. Tem outros atributos. Tenho certeza de que sua presença marcará época em todo o Rio de Janeiro. Estou até vendo. Dentro de pouco tempo os admiradores não vão dar-lhe sossego.

       - Daniel terá que ser rápido.

       - Ele está apenas sendo gentil. Aliás, ele tem fama de ser sempre amável, mas de escapar de todas sem se envolver.

       Quando voltaram à mesa, Rubinho não se conteve:

       - Vocês não dançam?

       Daniel estremeceu e olhou o amigo admirado. Ele havia se esquecido completamente do lugar onde estavam. Estava sendo deselegante com a moça.

       - Estávamos conversando. - Virando-se para ela: - Você gosta de dançar?

       - Gosto de conversar também - respondeu ela sorrindo. - Não se preocupe. Se eu quisesse dançar, teria dito.

       Daniel perdeu o jeito. As moças que conhecia jamais teriam dito isso. Marilda sorriu com um brilho malicioso no olhar.

       - Em Nova York os costumes são diferentes. As mulheres são mais naturais. Dizem o que querem sem rodeios.

       - Daniel desejou cumprir o protocolo social. Comigo não precisa. Meu conceito de respeito é outro, vai além do formalismo de salão. Não estávamos com vontade de dançar, por que haveríamos de fazer isso?

       - E sempre franca desse jeito? - perguntou Daniel.

       - Sou. Sempre faço as coisas do meu jeito, como eu gosto. Lanira chegou com Alberto e a conversa generalizou-se. Passava das três quando eles resolveram ir embora. No carro com Lanira, Daniel estava pensativo. Ela se admirou:

       - Você está tão calado... não gostou do jantar?

       - Ao contrário. Foi uma noite muito agradável.

       - Pois não parece. Está com uma cara esquisita...

       - A vida está brincando comigo. Ainda não voltei a mim da surpresa. Parece que não aconteceu. Lídia é a mulher que tem me aparecido em sonhos.

       - O quê? Estou toda arrepiada! Meu Deus, isso é coisa do outro mundo!

       - Só pode ser coincidência. Quando olhei para ela, não sabia o que dizer. Até o nome é o mesmo. No sonho ela se chamava Lídia.

       - Coisas estranhas estão se passando conosco. Alberto jura que vê a alma do avô perto dele. Você sonha com a moça antes de conhecê-la. Isso só pode ter uma explicação sobrenatural. Amanhã mesmo falarei com tia Josefa.

       - Não sei se devemos...

       - Claro que sim. E coincidência demais, você não acha?

       - Bom, não nego que é intrigante.

       - No outro dia conversei com ela e pedi para nos deixar assistir a uma sessão espírita. Mas ela desconversou, alegando que mamãe pode não gostar.

       - Nisso ela tem razão. Ela nunca vai concordar.

       - Ela não precisa saber. Somos adultos para decidir o que queremos ou não fazer. Depois, em casa de tia Josefa, o que pode nos acontecer?

       - Está certo. Trate de convencê-la e iremos.

       - Vamos convidar Alberto e Rubinho.

       - Para quê?

       - Eles estão interessados nesses assuntos. Depois, se o avô de Alberto está mesmo com ele, vai ter uma chance de se comunicar. Estou curiosa para ver como é isso.

       - Converse com tia Josefa. Diga-lhe que estamos muito interessados em estudar esse assunto. Tenho certeza que ela concordará.

       Despediram-se. Daniel foi para casa, deitou-se, mas o sono não vinha. Não conseguia esquecer o rosto expressivo de Lídia. E ao recordar-se dela, seu coração batia descompassado. Ela o atraía intensamente. Estaria impressionado pelo sonho? Não era possível estar apaixonado por alguém que acabara de conhecer. Mas apesar de lutar contra, sentia que desejava estar com ela, abraçá-la e tê-la junto de si. Era madrugada quando, vencido pelo cansaço, finalmente adormeceu.

       No dia seguinte no escritório, Rubinho não se conteve:

       - Confesse, você ficou sem fôlego ao conhecer Lídia. Nunca o vi tão emocionado.

       - Pudera, ela é a moça que me apareceu em sonhos! Rubinho olhou-o assustado:

       - Tem certeza? Ela acabou de chegar ao Brasil.

       - Eu sei. Isso está me intrigando muito. Tenho certeza de que era ela. Até o nome é o mesmo!

       - Vamos falar com Julinho.

       - Resolvi ir a uma sessão espírita em casa de tia Josefa.

       - Gostaria de ir.

       - Se ela concordar, tudo bem. Lanira quer convidar Alberto também, por causa do avô dele.

       O telefone tocou e Rubinho atendeu. Era Jonas, que havia chegado de viagem e queria passar no escritório logo após o almoço.

       Passava das duas quando ele entrou na sala em que Daniel e Rubinho conversavam.

       - E então? - indagou Rubinho.

       - Boas notícias. Marilena está trabalhando bem. Gravou uma conversa interessante entre Eleutéria e João.

       Animados, os dois dispuseram-se a ouvir.

       - "Ele não pode fazer isso comigo" - dizia ela.

       - "Estamos tendo paciência demais."

       - "Ele alega que não pode despertar suspeitas. Que, se alguém souber do dinheiro que ele me manda, vai desconfiar. Que no momento é também de meu interesse ficar calada. Fez questão de dizer para eu não esquecer que também estou atolada até o pescoço nessa história. Que se eu falar vou me arrepender."

       - "O cachorro pode dizer que você fez tudo e que ele não sabia de nada! Sabe como é, ele tem o dinheiro, tem poder. É a palavra dele contra a sua. Acho mie estamos de mãos amarradas mesmo."

       - "Isso não vai ficar assim. Não tenho medo dele. As coisas que eu sei sobre ele valem muito dinheiro. Pola me contou uma porção delas."

       - "O que Pola sabe?"

       - "Conversas que ela ouviu entre Bóris e algumas pessoas. Se ele quiser me azarar, vai ver só uma coisa."

       - "O que você sabe que eu não sei?"

       - "O que ele fez com o neto do Dr. Camargo foi pouco perto do que ele fez depois."

       Ruído de uma campainha. Jonas desligou a fita.

       - Acabou aí. Foi bastante revelador, não acham?

       - O que será que ela queria dizer? - indagou Daniel pensativo.

       - Eu tenho minhas suspeitas - tornou Jonas. - Tenho experiência. Um criminoso, quando tem um objetivo, afasta todos os obstáculos do caminho. Ele queria a herança. Havia pessoas entre ele e seu objetivo. Ele as eliminou.

       - Acha que ele poderia ter matado os pais de Marcelo? - indagou Rubinho.

       - É provável. Quando ele decidiu fazer aquela farsa com o menino, sabia que precisava fazer mais para conseguir o que queria. E ele fez. É a isso que Eleutéria se refere.

       - Por mais incrível que possa parecer, Jonas tem razão - concordou Daniel.

       - Nesse caso, não se trata apenas da usurpação da herança, mas de assassinato - tornou Rubinho.

       - Temos que investigar mais. Se as provas aparecerem, tomaremos providências. A situação pode ser pior do que pensávamos. Em todo caso, Marilena está trabalhando bem - disse Daniel.

       - Minha intuição não falha. Eu disse que ela era inteligente. Ela vai continuar investigando. Também conversei com um amigo meu da polícia internacional. Ele tem conhecidos e ficou de investigar o acidente que matou os pais de Marcelo.

       - Isso será ótimo. Sabe que agora não temos dinheiro para grandes pesquisas - esclareceu Rubinho. - Quando vencermos, todos serão gratificados.

       - Meu amigo está investigando outro caso e a pista que tem levou-o até Bóris. Quando lhe contei que o estávamos vigiando, prontificou-se em nos ajudar em troca das informações que temos sobre Bóris.

       - Esse caso teria alguma coisa a ver com o nosso? - perguntou Daniel.

       - Parece que não. Trata-se de algo que ele fez na Europa, antes de vir para o Brasil. Meu amigo é agente internacional.

       - Nosso homem é perigoso - tornou Rubinho.

       - Percebi isso desde que o vi. Precisamos ter cautela - disse Jonas. - Marcelo tem que ser protegido. Eles tiraram do caminho todos os obstáculos à fortuna que desejavam. Marcelo agora é o único que falta.

       - Acha que ele pode tentar alguma coisa contra Alberto? - perguntou Daniel.

       - Acho. Seria prudente ter alguém protegendo-o.

       - Não temos dinheiro para isso. E muito caro - disse Rubinho.

       - Converse com ele. Não deve sair à noite e andar por lugares ermos. Verei se posso fazer alguma coisa - disse Jonas. - Quanto à fita, guarde-a no cofre. Vamos ver se conseguimos algo mais.

       Quando Jonas saiu, Daniel comentou:

       - Jonas pode estar certo. Bóris pode ter causado o acidente que vitimou os pais de Marcelo. Ele entendia de barcos, trabalhou em um.

       Rubinho ficou pensativo durante alguns instantes, depois disse:

       - Estou pensando no que Jonas disse. Se eles causaram o acidente do barco, teriam provocado a morte do Dr. Camargo? Ele também era um obstáculo.

       - Dessa forma todas as peças do quebra-cabeças se completam. Só assim o que eles fizeram com o menino poderia ter sentido. Ao substituir o corpo, eles já tinham decidido assassinar os demais.

       - Que horror, Daniel! Mas o que você diz tem lógica. Só assim iriam obter os resultados desejados. O que de fato aconteceu.

       - Como é que vamos encontrar provas para botar esse pessoal na cadeia?

       - Essa é a parte que nos cabe.

       - Vamos investigar a morte do Dr. Camargo.

       - Jonas disse que iria fazer isso. Podemos recorrer aos jornais da época.

       Lanira bateu levemente, abriu a porta, enfiou a cabeça e indagou:

       - Posso entrar?

       - Entre. Chegou em boa hora - disse Rubinho. Ela entrou e depois de abraçá-los foi dizendo:

       - Vim para dizer que tia Josefa concordou. A sessão é amanhã às oito.

       - Posso ir também? - indagou Rubinho.

       - Você e Alberto.

       Colocada a par das novidades, ela não se conteve:

       - Puxa! A coisa pode ser pior do que pensávamos. Acham mesmo que ele poderia ter assassinado toda a família?

       - A lógica aponta essa suspeita. Precisamos de provas - respondeu Rubinho.

       - Já se passaram muitos anos. Como pensam consegui-las?

       - Vamos tentar - esclareceu Daniel. - Se nossas suspeitas se confirmarem e conseguirmos provas, iremos apresentá-las na justiça.

       Lanira ficou pensativa, depois perguntou:

       - Uma coisa me intriga nesta história. Se eles mataram todo mundo, por que não acabaram com Marcelo?

       - Já me fiz essa pergunta - respondeu Daniel. - O fato é que D. Maria Júlia levou o menino para o colégio e sustentou-o durante anos, permanecendo no anonimato.

       - Ela disse à diretora do colégio que a vida do menino corria perigo - lembrou Rubinho.

       - Teria ela feito isso para salvá-lo? Nesse caso, nem o marido nem Bóris sabiam. Ela fez isso por conta própria - disse Lanira.

       - E quando eles desconfiaram por causa do dinheiro que ela mandava todos os meses, ela parou de mandar. Faz sentido, Lanira - disse Daniel. - Por que não pensamos nisso antes?

       - Sempre tive de D. Maria Júlia uma boa impressão. Foi um choque descobrir que ela era cúmplice do marido nessa história. Pensando bem, se ela salvou a vida de Alberto, começo a me perguntar: teria ela sido cúmplice mesmo ou uma vítima? - disse Rubinho.

       - Ela estava com eles naquela noite em que tudo começou - lembrou Daniel. - Se ela fosse honesta, não teria permitido. Ficou calada, ajudou. Não, Rubinho, ela é cúmplice.

       - Seja como for, ela levou Marcelo para longe e isso impediu que eles o matassem.

       - Puxa! Não vejo a hora em que tudo se esclareça. É uma história e tanto.

       Lanira despediu-se combinando com Daniel para apanhá-la em casa na noite do dia seguinte.

      

       Na noite seguinte, quando Lanira desceu arrumada para sair, Maria Alice perguntou:

       - Onde vai, Lanira?

       - Sair com Daniel. Ele ficou de passar aqui às sete meia.

       - Aonde vão?

       - A casa de alguns amigos.

       - Antes vocês nunca saíam juntos. Depois que ele se mudou, vocês estão sempre juntos. Você está namorando Rubinho?

       Lanira riu gostosamente:

       - Rubinho? Que idéia, mamãe. Não estou namorando ninguém.

       - Pensei que estivesse namorando Gabriel.

       - Pensou errado. Éramos apenas bons amigos.

       - Ele não telefonou mais. Deve estar sentido por causa de Daniel. Por falar nisso, como está a situação do Dr. José Luís?

       - Não sei, mamãe. Não me envolvo no trabalho de Daniel. Saio com eles porque gosto da companhia. Ouvi um carro parar, acho que eles chegaram.

       Ela apanhou a bolsa que estava sobre a cadeira e foi saindo. Maria Alice tornou:

       - Não volte tarde. Amanhã você tem aula cedo. Diga a Daniel que eu ainda estou viva. Ele pode entrar quando passar por aqui.

       Lanira não respondeu. Quando entrou no carro, Daniel perguntou:

       - O que você disse a mamãe?

       - Que iríamos visitar alguns amigos. Ela está intrigada com o fato de estarmos saindo juntos. Perguntou sobre o caso de Alberto. Claro que eu despistei.

       - É melhor ser discreta - concordou Rubinho. - Por enquanto, temos que ser cautelosos para não prejudicar as investigações.

       - Não vejo a hora de poder gritar a verdade aos quatro ventos - disse Alberto.

       - Calma - aconselhou Rubinho. - Sua hora chegará, se Deus quiser.

       - É que durante tantos anos me senti um enjeitado, sem família, sem origem, e me emociona muito assumir o lugar que é meu na sociedade.

       - Infelizmente, mesmo vencendo a causa, você continuará sem família - tornou Daniel.

       - E verdade - ajuntou Lanira. - Os mais chegados morreram, e os que ficaram são seus inimigos. Mesmo vencendo, você estará só.

       - Um dia ainda terei minha própria família. Garanto que saberei valorizá-la.

       - Jonas está preocupado com você. Acha que nossos inimigos são muito perigosos e farão qualquer coisa para tirá-lo do caminho. Pediu que tenha cuidado, não ande por lugares ermos à noite.

       - Sei que se eles pudessem acabariam comigo - respondeu Alberto. - Mas tenho confiança na proteção espiritual que recebo. Meu avô me protege e nada de mal vai me acontecer.

       - Sei - objetou Rubinho -, mas apesar disso nunca é demais tomar cuidado.

       A casa de tia Josefa era um sobradão antigo, sem jardim, com altas janelas dando para a calçada, com caixilho de vidro por fora e portas de madeira abrindo para dentro. Uma entrada lateral para garagem e o portão social, alguns degraus de mármore branco e o pequeno terraço onde havia a porta principal.

       Foram recebidos carinhosamente por tia Josefa, uma mulher elegante, de cabelos castanhos cortados curtos e naturalmente ondulados, bonita, desembaraçada, cheia de classe. Beijou os sobrinhos, foi apresentada aos outros dois e conduziu-os a uma sala onde já havia algumas pessoas às quais foram apresentados.

       Conversaram durante alguns minutos, chegou mais uma pessoa e por fim Josefa levantou-se dizendo:

       - Passemos para a outra sala. Está na hora.

       Ela os conduziu a uma sala onde havia uma mesa grande, coberta por uma toalha bordada e sobre ela uma rica bandeja de prata com alguns copos, uma jarra de água e alguns livros.

       Além dos rapazes e Lanira, havia mais seis pessoas. Todos sentaram-se ao redor da mesa com Josefa na cabeceira.

       - Antes de começarmos, devo esclarecer a vocês que vêm pela primeira vez que permaneçam em silêncio e nos ajudem com suas orações. Os espíritos que virão conversar conosco são pessoas como nós, já viveram aqui e agora estão morando em outro lugar, em um mundo diferente do nosso. Por isso, vamos recebê-los com naturalidade e respeito. Eles podem ler nossos pensamentos, enxergar dentro de nossos corpos, perceber coisas que não vemos. Algumas pessoas têm sensibilidade e conseguem vê-los, perceber sua presença, conversar com eles. São os médiuns. Os bons espíritos vêm até nós para nos esclarecer e ajudar. Vamos recebê-los com alegria e serenidade.

       Ela apagou a luz e deixou acesa apenas uma pequena luz vermelha em um abajur. Josefa explicou:

       - A luz vermelha favorece a que eles se aproximem e possam manipular o ectoplasma, que é a energia que possibilita que eles obtenham efeitos físicos. A luz branca queima grande quantidade de energia e dificulta a comunicação.

       Ela proferiu uma prece, solicitando a presença dos espíritos amigos. De repente, Daniel sentiu-se dominado por uma sensação muito agradável. Apesar da sala fechada, ele se sentiu envolvido por uma brisa leve, suave. Ao mesmo tempo foi dominado pelo sono. Ele nem notou que sua cabeça pendeu e ele adormeceu.

       Lanira olhava-o preocupada, mas Josefa, imperturbável, disse:

       - Continuemos orando.

       Daniel viu-se em uma sala muito espaçosa, mobiliada com gosto, e um homem de meia-idade, sentado atrás de uma escrivaninha, lia uma carta com atenção. De onde o conhecia? Vendo-o entrar, o homem levantou-se dizendo:

       - Há muito o esperava. Ainda bem que veio. Sente-se, precisamos conversar.

       Daniel obedeceu, fixando seus olhos nos dele, perguntando-se o que estava acontecendo. Ele se sentou por sua vez e continuou:

       - Você não vai lembrar-se do passado agora. Chamei-o aqui porque preciso de sua ajuda. Há muitos anos demos ouvidos a uma intriga que nos trouxe muita infelicidade. Você expulsou de sua casa seu filho adotivo, e eu tirei-lhe todos os bens. Mais tarde arrependemo-nos e o remorso é a maior tortura que nosso espírito pode sofrer. Querendo nos libertar dele, resolvemos juntar nossas forças para tentar refazer nossas vidas e reaver todo o bem que atiramos fora. Você, a mulher amada, eu, a família e o respeito próprio. Está entendendo o que estou falando?

       Daniel queria responder mas não conseguia articular palavra. O outro continuou:

       - Quero que preste muita atenção para se lembrar de tudo quando voltar ao corpo. Muitas coisas vão acontecer. Você já reencontrou Lídia, e os outros já estão todos à sua volta. É preciso que não se deixe levar pelas emoções e que desta vez consiga bom senso para fazer o que combinamos. Foi muito penoso para mim ter suportado o que suportei tendo que acreditar que meu neto querido estava morto, e depois, quando cheguei aqui, descobrir que havia sido enganado cruelmente pela mesma pessoa que eu havia perdoado e desejado ajudar. Devo dizer que fracassei em meus propósitos de reajustar o passado. Você não pode querer fazer com que os outros mudem só porque você se dispôs a perdoar seus erros e pretendeu esquecer. Eu confiei em quem ainda não estava maduro para uma vida digna e acabei aqui, lamentando minha ingenuidade. Além disso, fui obrigado a presenciar os crimes que eles cometeram sem que eu pudesse intervir. Confesso que não esperava isso. Pensei que minha boa intenção, meus propósitos do bem, seriam suficientes para fazê-los mudar, mas não consegui. Por causa disso, hoje a situação tornou-se ainda mais complicada. Quando tudo acontecer, eu queria que você se lembrasse de que, seja o que for que houver, deve ajudar Maria Júlia e Gabriel. Eles precisam muito de nosso apoio.

       Daniel, surpreendido, queria falar, mas não conseguiu.

       - Você não está conseguindo responder, mas eu posso ler seus pensamentos. Quer saber por que estou lhe pedindo isso. Porque eles continuam vitimados por José Luís e já têm condições de se libertar. Se quer levar a bom termo esse caso de Marcelo, tem que procurar pelos dois e conversar.

       Daniel pensou que nunca faria isso. Eles não iriam confiar. O Dr. Camargo continuou:

       - Não julgue pelas aparências. Eles estão em dificuldade. Você é a porta da libertação deles. Chamei-o aqui para pedir-lhe que os ajude. Só você pode fazer isso. Não se esqueça: só você pode fazer isso. Essa é sua parte. Não se esqueça.

       Daniel sentiu como se estivesse caindo. Seu corpo ficou pesado. A luz da sala se acendeu e ele abriu os olhos. A sessão havia terminado e as pessoas olhavam-no. Ele endireitou o corpo e tentou recordar-se de onde estava. As últimas palavras do homem ainda ecoavam em seus ouvidos.

       Ele passou a mão pelos cabelos e remexeu-se na cadeira. Fundo suspiro saiu de seu peito.

       - Desde quando você percebe que sai do corpo? - indagou Josefa com interesse.

       - Eu saí do corpo? - respondeu ele assustado.

       - Saiu. Desde quando vem sentindo essas sensações? - repetiu ela.

       - Há algum tempo tenho tido sonhos esquisitos.

       - Esquisitos, como?

       - É melhor contar - interveio Lanira.

       - Se ele não quer, não precisa. O que eu desejo é que Daniel perceba que tem essa capacidade. Que pode deixar o corpo, encontrar-se com pessoas, deste mundo e do astral, e lembrar-se depois. O que aconteceu esta noite? Não precisa explicar, só contar o que foi.

       Daniel inquietou-se um pouco:

       - Explicar eu não saberia mesmo. Dormi e sonhei que estava em uma sala onde encontrei...

       - Quem? - indagou Josefa com naturalidade.

       - Bem, por mais estranho que possa parecer, com o Dr. Camargo. Alberto estremeceu. Ele bem que sentira a presença do avô. Daniel

       continuou:

       - Ele disse coisas estranhas que não entendi muito bem. Disse que eu não estava me lembrando do passado.

       - E natural. Você está reencarnado. Não se preocupe com as explicações. Descreva só as palavras que ouviu.

       - Não sei se devo. Ele tratou de um assunto muito particular que envolve outras pessoas e que eu não me sinto autorizado a falar.

       - Nesse caso - disse Josefa -, o melhor é você apanhar uma folha desse papel e escrever tudo que se lembra. Não omita nada. É provável que muitas coisas que ele lhe disse você esqueça amanhã. Faça isso apenas para fixar a memória. Enquanto isso, passemos para a outra sala, vamos tomar nosso café.

       Enquanto eles se dirigiram à sala ao lado, Daniel apanhou o papel e o lápis, procurando lembrar-se do que ele dissera. Foi fácil. Pareceu-lhe estar novamente naquela sala e ouvir tudo de novo. Escreveu tudo, dobrou o papel e guardou-o no bolso.

       Embora Marcelo, Rubinho e Lanira estivessem curiosos para saber o que o Dr. Camargo tinha dito, tiveram que esperar até que todos os presentes se despedissem. Quando se viram a sós com Josefa, Marcelo pediu:

       - Agora conte o que disse meu avô.

       - Nesse caso, vou até a cozinha - disse Josefa.

       - Prefiro que fique - tornou Marcelo. - Conto com sua ajuda para nossa causa.

       - Ele tem razão. Precisamos da opinião de quem entende desse assunto - concordou Rubinho.

       - Tia Josefa é perfeita para nos ajudar - confirmou Lanira. Daniel tirou o papel do bolso, leu tudo e finalizou:

       - O mais engraçado é que eu queria falar e não podia, mas ele sabia tudo que eu estava pensando e respondia. Chegou a falar de Lídia. Isso me emocionou muito. Ele disse que eu era a porta para a libertação de D. Maria Júlia e de Gabriel. Não acreditei, mas ele confirmou várias vezes.

       - Eu senti que D. Maria Júlia podia não ser cúmplice - lembrou Rubinho.

       - Eu gosto muito de Gabriel. Ele é uma pessoa especial - declarou Lanira.

       - Mas continuo não entendendo por que eu. Ele quer que eu me aproxime deles. Depois que abrimos o caso na justiça, eles estão contra mim. Não vão confiar, por mais boa vontade que eu tenha. Ele pediu, mas não vai dar certo.

       - Se ele pediu - interveio Josefa com voz firme -, é porque vai ajudar. Quando os espíritos querem, eles fazem acontecer. Não duvide. Fique atento. Quando chegar a hora, não perca a oportunidade.

       - Só se for um milagre - tornou Daniel.

       - Vocês aqui em uma sessão já é um milagre. Daniel com essa mediunidade! Que beleza!

       - Preferiria não ter que passar por essas emoções. Fico inseguro, não consigo controlar.

       - E natural. Você foi criado dentro de regras e de conceitos racionais. Tem medo de tudo que sua cabeça não consiga explicar. Quando estudar melhor a natureza, descobrir os potenciais do espírito, suas possibilidades, perceberá a riqueza da vida e como você é privilegiado por já estar maduro a ponto de desfrutar desses conhecimentos.

       Eles continuaram conversando um pouco mais e combinaram voltar na semana seguinte e participar de outra sessão. Nessa noite, Daniel, deitado em sua cama, rememorando tudo quanto havia acontecido, percebeu que a vida era muito mais do que ele acreditava que fosse.

       O passado, embora esquecido, ainda repercutia no presente. Atitudes antigas ainda se repetiam atraindo os problemas não resolvidos. Pessoas e fatos novos apareciam em seu caminho, desafiando suas emoções, obrigando-o a rever conceitos, modificar crenças, confrontar sentimentos. Mas apesar de tudo isso, ele sentia que era um caminho sem volta que, uma vez aberto à sua frente, ele teria que trilhar.

       

Capítulo 13

       Alberto saiu do escritório da empresa em que trabalhava e olhou o relógio. Passava das oito. Tivera uma reunião importante com os membros da diretoria e, apesar de cansado, sentia-se muito satisfeito. Fora promovido e além do salário*bom havia ainda a possibilidade de progredir muito.

       Sentiu vontade de dividir com alguém aquela alegria. Pensou em Lanira. Ela o atraía muito. Bonita, elegante, alegre, inteligente. Tinha todas as qualidades que ele desejava em uma mulher.

       Chegou em seu apartamento dez minutos depois e ligou para ela convidando-a para dar uma volta.

       - Eu vou. Só que não posso voltar tarde. Está bem?

       - Está. Passarei em sua casa dentro de dez minutos.

       Ela foi se arrumar. Seus pais haviam ido a uma recepção e só estariam de volta depois da meia-noite. Ela pretendia chegar antes deles para não ter que dar explicações. Sabia que eles não concordariam que ela saísse com Alberto. Principalmente o pai, que o tinha como falsário.

       Uma vez no carro com ele, Lanira disse:

       - Hoje estou como cinderela. Terei que voltar antes da meia-noite. Ele riu alegre. Ela continuou:

       - Você deveria rir mais. Fica muito melhor sem aquele ar de tragédia que costuma ter.

       - É que estou alegre. Fui promovido hoje. Vou poder comprar aquele carro novo que eu queria.

       - Parabéns! Por isso quis sair.

       - Foi. Queria dividir com alguém minha alegria. Sempre fui tímido, nunca tive com quem compartilhar minhas emoções. Vocês são meus únicos amigos.

       - Deve ter sido duro para você ter vivido toda a sua vida sozinho, sem família.

       - Foi. Durante muitos anos acreditei ter sido rejeitado por meus pais. Isso me tornou retraído, desconfiado. Apesar de tudo, fiquei aliviado ao descobrir a verdade.

       Ao lado de Lanira, Alberto sentia vontade de falar de sua vida, de seus sentimentos. O olhar dela como que penetrava nele de tal sorte que ele se sentia seguro o bastante para fazer confidencias como nunca fizera com ninguém antes.

       Lanira sentia que ele se posicionava com sinceridade e isso a emocionava. Sentia que podia confiar nele. Desde que começaram a ir todas as semanas às sessões em casa de tia Josefa, eles haviam se aproximado mais. A tia os convidava para o chá nas tardes de domingo ou para conversar aos sábados à noite quando reunia em casa alguns amigos.

       Como Daniel não comparecia e Rubinho preferia sair com Marilda, apenas Alberto e Lanira gostavam desses encontros em que se podia conversar de tudo, principalmente de assuntos espirituais.

       Naquela noite eles conversaram muito não só sobre o trabalho dele como também sobre sua forma de ver a vida. Percebendo o interesse dele, que várias vezes segurara sua mão e fizera menção de abraçá-la e até de beijá-la, Lanira resolveu conversar.

       - Gosto muito de você - disse de repente. - Mas não estou pronta para namorar.

       - O quê? - disse ele surpreendido.

       - O que você ouviu. Gosto de você, mas não pretendo namorar ninguém. Tenho horror ao casamento, pelo menos por enquanto. Noto que você está sentindo atração por mim. Não desejo que nossa amizade acabe.

       - Quer dizer que se eu quiser namorar você, acaba nossa amizade?

       - Se você se apaixonar, vai querer controlar minha vida, insistir, e não vai dar mais para sermos amigos. Eu quero manter nossa amizade.

       Sem que ela esperasse Alberto abraçou-a e beijou-a longamente nos lábios. Apanhada de surpresa, Lanira sentiu o coração disparar e um forte rubor subiu-lhe nas faces. Ele a largou, respirou fundo, depois abraçou-a novamente, beijando-a apaixonadamente.

       Lanira não soube o que dizer. A surpresa paralisara-a. Nunca ninguém fizera isso com ela. Ficou sem ar e não conseguiu articular palavra. Alberto apertava sua mão e iria beijá-la de novo quando ela conseguiu dizer:

       - Por que fez isso?

       - Porque não consegui me controlar. Desde que a conheci, desejava beijá-la.

       - Você não devia ter feito isso. Não ouviu o que eu disse? Não pretendo namorar.

       - Se não quer me namorar, o que posso fazer? O que eu não pude foi olhar para você sem beijá-la.

       Olhando-a nos olhos, ele fez menção de beijá-la novamente. Ela o empurrou dizendo:

       - Vamos embora. Leve-me para casa. Você não deveria ter feito isso. Ele ligou o carro e levou-a para casa. Foram em silêncio durante todo

       o trajeto.

       - Você está zangada?

       - Estou.

       - Não tem razão - apanhou a mão dela e levou-a aos lábios com carinho. - Não quis ofendê-la. Foi mais forte do que eu. Ainda agora sinto uma vontade louca de beijá-la de novo.

       - Vou entrar. Boa noite.

       Ela abriu a porta do carro e saiu apressada. Seu coração batia forte e ela correu para dentro sem olhar para trás.

       Alberto suspirou fundo. Aquele beijo deixara-o excitado e ele intimamente sentiu que faria tudo para ter aquela mulher. Acionou o carro pensando no que faria para conquistar definitivamente o amor de Lanira. Ia tão distraído que nem percebeu que seu carro estava sendo seguido.

       Ao chegar diante do prédio de apartamentos em que morava, colocou o carro na garagem e foi esperar o elevador quando, de repente, surgiram dois homens mascarados apontando um revólver e agarraram-no. Um deles disse:

       - Fique calado senão você morre! É um assalto. Alberto sentiu um arrepio de medo.

       - O que vocês querem? Podem levar o dinheiro.

       - Nós queremos você. Vamos andando.

       Empurraram-no e um deles imediatamente colocou um capuz na cabeça de Alberto, que, atordoado pela surpresa, foi jogado para dentro de um carro que arrancou em alta velocidade.

       Rodaram durante algum tempo em silêncio, sem responder as perguntas que Alberto de quando em quando fazia. Por fim pararam e ele foi puxado para fora. Entraram em uma casa e ele sentiu um cheiro forte de mofo. Tiraram seu capuz e um deles o empurrou para dentro de um pequeno aposento, fechando a porta pelo lado de fora.

       Alberto passou os olhos pelo quarto. A casa era antiga. Havia uma janela de madeira, com uma trava de ferro e um cadeado. Uma cama de solteiro, um criado-mudo com um abajur barato, o mesmo cheiro desagradável de mofo. Havia outra porta que Alberto abriu. Era um pequeno banheiro. No alto um pequeno vitrô que ele imediatamente abriu para que entrasse um pouco de ar.

       A noite estava quente. Alberto tirou o paletó e a gravata, abrindo a torneira da pia e molhando o rosto na tentativa de refrescar um pouco.

       Quem seriam aqueles homens? Se fosse um assalto, teriam levado seu carro, seu dinheiro, até subido a seu apartamento para roubar. Mas não. Angustiado, ele se lembrou do pedido de Jonas para que tivesse cuidado.

       Por que não lhe dera ouvidos? Aqueles homens só podiam ser mandados por José Luís e Bóris. Se isso fosse verdade, sua vida estava correndo sério perigo. Eles fariam tudo para livrar-se dele. Se não o mataram à queima-roupa foi porque pretendiam fazê-lo de forma a não despertar nenhuma suspeita.

       Tentou forçar a porta do quarto, mas foi inútil. Ele ouvira o ruído do carro saindo. Eles o haviam deixado só. Foi até a janela, mas não tinha como abri-la.

       Em sua angústia, lembrou-se do avô. Ajoelhou-se ao lado da cama e rezou pedindo ajuda. Só Deus poderia socorrê-lo naquela hora difícil.

       Lanira entrou em casa nervosa. Até então Alberto havia sido comedido, respeitoso. O que dera nele para beijá-la daquele jeito? Apesar de tudo, ela sentia o coração bater descompassado quando recordava aqueles beijos. Sempre se julgara imune à tentação e ria quando os rapazes lhe dirigiam galanteios.

       Deveria ter reagido com mais força. Mas ao mesmo tempo estremecia lembrando-se do brilho dos olhos dele, do beijo carinhoso em sua mão. O que estaria acontecendo com ela? Estaria ficando fraca?

       Deitou-se mas custou a dormir. A lembrança dos beijos de Alberto não a deixava e ela se inquietava, virando na cama, tentando encontrar uma explicação para o que estava sentindo.

       Na manhã do dia seguinte Rubinho procurou Daniel dizendo:

       - Estou esperando Alberto para fazermos aquela reunião sobre a audiência e ele não apareceu. Liguei para o escritório dele: não foi trabalhar.

       - Ligou para o apartamento ?

       - Ninguém atende.

       - Estranho. Ele nunca faltou a nenhuma reunião nossa. Tem certeza de que ele sabia que era hoje?

       - Tenho. Ontem falei com ele para confirmar.

       - Vou ligar para o apartamento novamente.

       Daniel tentou mas o telefone tocou, tocou e ninguém atendeu.

       - Vai ver que ele saiu. Logo deve estar chegando.

       Mas chegou a hora de almoço e ele não apareceu. Rubinho ficou preocupado:

       - Vou até a casa dele.

       - Vou com você.

       Chegaram ao prédio onde Alberto morava e falaram com o porteiro. Ele só vira Alberto sair para o trabalho no dia anterior.

       - Eu fui bater no apartamento porque achei a chave do carro dele no chão da garagem, perto do elevador. Mas ninguém atendeu. Como o carro dele está na garagem, pensei que ele deve ter saído com algum amigo e nem percebeu que derrubou a chave.

       Os dois advogados olharam-se assustados.

       - Tem certeza de que o carro dele está na garagem?

       - Tenho. Vocês podem ver.

       Os três foram ao subsolo e viram o carro.

       - O zelador tem as chaves dos apartamentos. Somos os advogados dele. Achamos que ele está correndo perigo de vida. Vamos examinar o apartamento.

       O zelador imediatamente abriu o apartamento, mas lá não havia ninguém.

       - O que faremos? - disse Daniel. - Vamos chamar a polícia?

       - Vamos avisar Jonas.

       Dali mesmo ligaram para Jonas informando-o do ocorrido. Em menos de meia hora ele estava no apartamento de Alberto com um investigador. Examinaram tudo e não encontraram nada.

       - Ao que parece ele não entrou em casa. Tudo indica que chegou aqui, colocou o carro na garagem e quando ia tomar o elevador deve ter sido agredido e levado para algum lugar - concluiu o investigador.

       - Espero que não o tenham matado - disse Jonas. - Eu preveni. Estamos lidando com assassinos da pior espécie. Nós o vigiamos, mas nem sempre pudemos estar ao lado dele.

       - O que faremos? - perguntou Daniel inquieto.

       - Marcos vai avisar no departamento dele para que dêem uma busca. Precisamos de fotos.

       Eles procuraram no apartamento e encontraram algumas em um álbum.

       - A audiência será dentro de uma semana. Foi por causa disso que eles agiram - lembrou Rubinho.

       - Se ele não comparecer, o trabalho será prejudicado - comentou Daniel.

       - Se ele estiver morto, eles serão indiciados. Isso eu prometo. Com as provas que tenho, nós os colocaremos na cadeia - disse Jonas.

       - Se ele estiver vivo em algum lugar, nós o acharemos. Estou começando a implicar com esses malvados. Depois de tudo quanto fizeram com o moço, ainda querem dar cabo dele. Vou me empenhar, vocês vão ver.

       - Vou redobrar a vigilância em Bóris. Não podemos perder um minuto. O Dr. José Luís nunca faria nada pessoalmente. Bóris é quem dá as cartas para ele. É nele que precisamos centrar nossa atenção.

       - Você está certo, Jonas - concordou Daniel. - A amante dele também tem que ser vigiada.

       - Pode deixar - garantiu Jonas. - Vamos embora. Nada mais temos que fazer aqui.

       Deu um cartão ao zelador, dizendo:

       - Qualquer coisa estranha que aconteça, ligue para nós. Qualquer pista pode ser a chave para salvar Alberto.

       Rubinho e Daniel voltaram ao escritório preocupados. Daniel ligou para Lanira e contou-lhe o que havia acontecido.

       - Estivemos juntos ontem até as onze e meia - disse ela assustada.

       - Verdade? Seria bom que viesse até aqui para nos contar tudo.

       - Irei. Pode esperar.

       Naquela tarde, Maria Júlia procurou Gabriel.

       - Queria que você me acompanhasse a uma visita a Carolina. Ele a olhou admirado, mas ela lhe fez pequeno sinal e ele respondeu:

       - Está certo. Quando quer ir?

       - Agora. Prometi estar lá antes das quatro. Quando se viram no carro, ela disse:

       - Precisamos conversar. Estou preocupada.

       - Aconteceu alguma coisa?

       - Aconteceu. Ouvi José Luís conversando com Bóris. Eles pretendem resolver definitivamente o caso com Marcelo.

       - Como assim? Ele vai dizer a verdade?

       - Nada disso. Eles querem acabar com ele. Gabriel parou o carro dizendo nervoso.

       - Um crime? Com isso nós não podemos consentir. Temos que dar parte na polícia.

       Maria Júlia agarrou o braço do filho dizendo aflita:

       - Isso não! Você não vai fazer isso.

       - Mãe, não podemos permitir que eles tirem a vida de uma pessoa. Isso é crime e não estou disposto a carregar esse peso.

       - Polícia, não. De forma alguma. Temos que arranjar outro jeito.

       - Tem certeza do que está dizendo? O que você ouviu?

       - Eles estavam falando em voz baixa. Não me viram. Eu ia ao cabeleireiro, cheguei a ir até o carro, mas mudei de idéia, voltei e sentei-me na poltrona do hall para descansar üm pouco. A porta do escritório estava aberta e eles conversavam. Bóris dizia:

       - "Ele já está preso lá. Temos que decidir como vamos fazer. Ele não pode comparecer à audiência de jeito nenhum. Estive lendo os autos. Eles têm inúmeras provas. Temos que agir depressa. Vou falar com Antunes e faremos tudo de jeito que pareça acidente."

       - "Não quero mais gente metida nisso. Você pode fazer tudo sozinho."

       - "Não dá. Antunes ajudou-me a apanhar o pato, não vai abrir o bico. Tem mais interesse em ficar calado do que nós. Depois, ele gosta muito de dinheiro."

       - "Esse é meu medo. Dinheiro. Ele pode querer chantagear, como Eleutéria."

       - "Antunes não fará isso. Já tem trabalhado para nós e fez tudo direitinho. Aceita o dinheiro e pronto. Nunca fez chantagem."

       - "Está bem. Faça isso. Mas não quero que ninguém desconfie."

       - Então, meu filho - finalizou * -íaria Júlia -, eu saí dali e fui esconder-me no quarto.

       - Mãe, é fora de dúvida que eles pretendem acabar com o moço. Temos que ir à polícia. Não podemos deixar isso acontecer. Estou chocado. Ele ameaçou você! Quer vingar-se. Temos que denunciá-lo.

       - Prometa que não fará isso. Pelo amor de Deus!

       - Por que tem tanto medo assim, mãe? Há alguma coisa que não me contou?

       - E que, quando a polícia descobrir a verdade, serei presa como cúmplice. Fiquei calada durante todos esses anos.

       - Arranjaremos bons advogados. Você foi coagida. Teve medo.

       - Ainda assim, não quero que vá à polícia.

       Ela apertava o braço dele desesperada. Vendo sua aflição, ele não insistiu.

       - Acalme-se. Vamos pensar em outra coisa. Você não pode deixar que eles saibam que escutou a conversa. Tenho medo de que se voltem mais ainda contra você. Vamos nos acalmar e pensar em outra solução.

       - Isso sim.

       - Enquanto isso procure se acalmar. Trate de controlar-se para que em casa ninguém note nada.

       Gabriel fez o que pôde para que Maria Júlia ficasse mais calma, entretanto ele se sentia preocupado, aflito.

       - Seria bom que você fosse mesmo ao cabeleireiro, porque assim ninguém desconfiaria de nada.

       - Não estou com disposição para isso.

       - Por isso mesmo. Vai fazer-lhe bem e não despertará suspeitas. Deixá-la-ei lá e mais tarde virei buscá-la.

       Depois de deixá-la no cabeleireiro, Gabriel entrou no carro preocupado. Ele precisava fazer alguma coisa. Mas o quê? Sua mãe temia a polícia. O jeito era tentar encontrar Marcelo e libertá-lo. Mas para onde o teriam levado? Precisava descobrir.

       Inquieto, não conseguia deixar de pensar, tentando encontrar uma solução satisfatória. A cabeça doía-lhe, e quanto mais pensava menos encontrava saída. A única coisa que ele sabia era que não queria que esse crime se consumasse. Precisava fazer alguma coisa, mas o quê?

       Passava das seis quando apanhou a mãe no cabeleireiro e voltaram para casa. Ele, recomendando-lhe calma, foi para o quarto. Precisava pensar, encontrar uma alternativa. Precisava vigiar Bóris. Ele estava em casa, ficaria atento, não iria dormir. Se ele saísse, iria atrás sem que ele notasse.

       Apesar disso, Gabriel não conseguia acalmar-se. De repente um temor o assaltou. E se Antunes fizesse tudo sem Bóris, para não despertar suspeitas? Levantou-se da poltrona e começou a andar de um lado a outro do quarto. Ele não podia esperar. Um minuto poderia ser tarde demais. Tinha que fazer alguma coisa.

       Decidido, apanhou o telefone e ligou para Lanira. Pouco depois ela estava ao telefone:

       - Alô.

       - Como vai, Lanira?

       - Gabriel!!

       - Sim. Desculpe incomodá-la, mas preciso conversar com você urgente. Por favor.

       - Está certo.

       - Vou passar aí dentro de dez minutos. Obrigado por me atender.

       - Estarei esperando.

       Ela desligou e Maria Alice aproximou-se interessada:

       - Era o Gabriel?

       - Era. Vamos dar uma volta. Ele quer conversar.

       - Vai ver que se arrependeu e deseja reatar a amizade.

       - Pode ser, mamãe.

       Lanira não disse que percebera o nervosismo dele. Sua voz estava trêmula. O que ele desejaria? Teria alguma coisa a ver com Alberto?

       Quando ele passou, ela já estava no portão esperando. Ele desceu do carro e, depois de cumprimentá-la, disse:

       - Vamos dar uma volta.

       Ela entrou no carro e ele tornou:

       - Estou muito angustiado e, nesse momento, a única pessoa que eu senti que poderia ajudar-me é você. Por isso, apesar de tudo resolvi procurá-la. Você ainda sente alguma amizade por mim?

       - Claro. Devo lembrar que telefonei várias vezes e foi você quem nunca quis me atender.

       - Eu sentia vergonha. Entretanto, hoje, em minha angústia, você não me saiu do pensamento. Eu preciso que me ajude. Eu queria ir à polícia, mas minha mãe não quer de forma alguma. Ela tem medo. E eu não quero que nada de mal lhe aconteça.

       - Você sabe alguma coisa sobre o desaparecimento de Alberto?

       - Sei o suficiente para ficar apavorado. Temos que fazer alguma coisa. Impedir que eles cometam esse crime.

       - Temos que pedir ajuda para Daniel e Rubinho. Sozinhos não podemos fazer nada. E bom que saiba... que estamos lidando com criminosos.. . - ela parou com medo de magoá-lo.

       Ele finalizou:

       - Perigosos. Ninguém mais do que eu sabe disso. Antes eu nada sabia, mas, agora que eu sei, não desejo de forma alguma ser cúmplice desse crime. Temos que impedir, e não sei como. É melhor não falar com Daniel e Rubinho. Eles irão à polícia e tudo estará perdido. Minha mãe não vai suportar.

       - Não há outro jeito. Infelizmente sua mãe foi cúmplice deles e por causa disso você não pode deixar que outro crime aconteça. Ela precisa reconhecer isso.

       - Ela não foi cúmplice. Foi coagida por eles. Ameaçada. Arriscou a própria vida para salvar Marcelo da morte e cuidou de seu bem-estar enquanto lhe foi possível.

       - Nesse caso, ela deveria juntar-se a nós e não defender esse homem que infelizmente é seu pai.

       - Nunca nos demos bem. Apesar das aparências, ele sempre maltratou minha mãe. Ela suportou tudo. Estou sempre me perguntando por quê. Se ela tivesse querido separar-se dele, eu a teria apoiado. Mas não sei, às vezes chego a pensar que existe algum segredo, alguma coisa que a impede de fazer isso e que a obriga a suportar tudo que ele quer.

       - Pode ser. Nunca tentou descobrir?

       - Minha mãe e eu nos damos muito bem. Ela confidencia muitas coisas, mas quando toco nesse ponto ela se retrai. Nunca consegui nada.

       - Rubinho acertou. Outro dia ele aventou essa hipótese.

       - Verdade?

       - Sim. Mas é difícil para nós saber como as coisas se passaram realmente. Ele sempre admirou sua mãe e tem dificuldade em aceitar que ela houvesse sido cúmplice desses crimes.

       - Desses crimes?

       Lanira mordeu os lábios. Não desejava que Gabriel se sentisse ainda mais por baixo, relatando as suspeitas de que eles teriam acabado com a família inteira. Por isso disse:

       - É. Afastar Marcelo da família, tirar a herança, etc.

       - Ah!

       - Nós devemos procurar Rubinho e Daniel. Depois, há Jonas, um detetive particular nosso amigo que pode nos ajudar a encontrar onde eles esconderam Alberto antes que seja tarde. Alguma coisa me diz que não podemos facilitar.

       Gabriel ficou pensativo e Lanira continuou:

       - O que poderíamos fazer nós dois? Juntos podemos nos dividir. Jonas pode seguir Bóris.

       - Há Antunes. Alguém precisa vigiá-lo.

       - Garanto que faremos tudo discretamente. A polícia não incomodará sua mãe.

       Ele resolveu:

       - Está bem. Alguma coisa tem que ser feita. Não consigo ficar com isso sem tomar providências.

       Lanira colocou a mão sobre o braço de Gabriel com carinho:

       - Gosto muito de você, Gabriel. Pode contar comigo, aconteça o que acontecer.

       Ele olhou para ela emocionado, olhos brilhantes, aproximou-se e beijou-a nos lábios demoradamente. Lanira sentiu que forte emoção tomava conta de seu coração. Apertou-o nos braços com força, retribuindo o beijo. Depois, separou-se dele dizendo:

       - Vamos até a casa de Daniel. Não podemos perder tempo. Daniel recebeu-os surpreendido. Lanira foi logo dizendo:

       - Gabriel precisa de ajuda.

       - Entrem, por favor.

       - Rubinho não está?

       - Não. Ele saiu com Marilda. Sentem-se, por favor.

       Gabriel sentou-se no sofá olhando Daniel sem coragem para falar. Estava arrasado e Lanira tentou ajudá-lo.

       - Ele e D. Maria Júlia estão desesperados. Ela ouviu uma conversa entre Bóris e o Dr. José Luís. Fale sem rodeios, Gabriel. Daniel vai fazer tudo para ajudar.

       - Isso mesmo, Gabriel. Conte o que sabe. Nós queremos a verdade.

       - A verdade - começou ele com voz trêmula - só fiquei sabendo há pouco tempo, quando o escândalo estourou e minha mãe, angustiada, me contou como as coisas haviam acontecido. Preciso dizer que ela não foi cúmplice deles e tudo fez para salvar Marcelo e foi através da ajuda de Alberico, o motorista, que ela conseguiu fazer isso. Eles armaram um plano e ela o levou para a Inglaterra, esperando que um dia pudesse desmascarar os culpados e fazê-lo voltar para sua família. Mas as mortes do Dr. Camargo e dos pais de Marcelo impediram-na de fazer isso.

       - Por que ela não foi à polícia? Se tivesse feito isso, não seria arrolada como cúmplice.

       - Eis o que ainda não posso compreender, Daniel. Minha mãe tem muito medo de meu pai. Ele a domina completamente. Nunca suportei a maneira como ele a trata na intimidade. Nunca nos demos bem. Se ainda não deixei a casa, foi para ficar perto dela e defendê-la, principalmente de Bóris, a quem não toleramos e que goza de todas as regalias, chegando a mandar em tudo, até em meu pai.

       - Temos informações de que é um aventureiro da pior espécie - esclareceu Daniel. - Ele ajudou seu pai no caso de Marcelo e deve ter feito muitas outras coisas. É um sujeito perigoso. Você sabe alguma coisa sobre o desaparecimento de Alberto?

       Daniel relatou tudo que tinha acontecido, finalizando:

       - Estamos desesperados. Não podemos permitir que esse crime ocorra. Minha mãe tem medo da polícia. Lanira não me saía da cabeça. Conhecê-la foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Por isso, procurei-a e ela me garantiu que você pode ajudar-nos. De minha parte, quero colaborar. Farei qualquer coisa para salvar Alberto, mas preciso proteger minha mãe. Eles a ameaçaram. Se descobrirem que ela ouviu tudo e me contou, poderão maltratá-la. E isso não posso permitir.

       - Compreendo, Gabriel. Você tem razão quanto ao perigo que estão correndo. Teria condições de sair de casa com ela, viajar para algum lugar sem que eles suspeitassem? Assim, estariam protegidos.

       - Gostaria de vê-la longe deles mesmo. Não sei se ela vai aceitar. Laura não sabe de nada e se deixar a faculdade vai despertar suspeitas. Não gostaríamos de deixá-la sozinha com eles, principalmente por causa de Bóris. Ele é capaz de tudo. Quanto a mim, prefiro ficar por perto e ajudar a esclarecer tudo. Seja o que for que tiver que enfrentar na justiça, é melhor do que esta sensação de vergonha, culpa, cumplicidade.

       - O mais urgente é descobrir o paradeiro de Alberto. Os minutos são preciosos levando-se em conta que eles podem agir de uma hora para outra - ponderou Daniel.

       Apanhou o telefone e ligou para Jonas, pedindo-lhe que fosse imediatamente a seu apartamento. Enquanto esperavam, Lanira preparou um café e Daniel tentou acalmar Gabriel, que estava muito nervoso.

       Jonas chegou quinze minutos depois e inteirado de tudo imediatamente telefonou para o investigador que estava acompanhando o caso e pediu-lhe que vigiasse Antunes.

       Quando desligou o telefone, tornou:

       - Esse malandro do Antunes tem ludibriado a polícia durante muitos anos. Acho que chegou a hora de o colocarmos atrás das grades. Se o apanharmos em flagrante, não terá como escapar. O danado tem as costas quentes. Políticos importantes protegem-no porque, se ele abrir o bico, muitas cabeças poderão rolar, a julgar pelo que se diz por aí, à boca pequena...

       - Nesse caso será inútil prendê-lo. Logo estará de novo em liberdade - concluiu Daniel.

       - Não se tivermos provas concludentes. Seqüestro é crime, e se o apanharmos com a boca na botija, não haverá influência de nenhum "padrinho político" que o liberte.

       Dirigindo-se a Gabriel, Jonas prosseguiu:

       - Você foi corajoso, meu rapaz. Garanto que não se arrependerá de haver-nos procurado.

       - Farei tudo para poupar minha mãe. Nisso tudo ela tem sido mais uma vítima. Quanto a mim, estou disposto a ajudar. Quero salvar Alberto e devolver-lhe o que lhe é de direito. Não quero nada desse dinheiro que foi conseguido de forma tão vil.

       Jonas olhou-o admirado. E não se conteve:

       - Não tem receio de ficar pobre? Sempre viveu no luxo.

       - Sou jovem e posso trabalhar, recomeçar minha vida de maneira digna. Tenho certeza de que conseguirei sustentar minha mãe e minha irmã.

       Lanira aproximou-se e segurou a mão de Gabriel, apertando-a com força. Tinha os olhos úmidos. Daniel sentiu-se comovido também com a atitude digna que ele conseguia assumir em um momento tão difícil como o que estava enfrentando. Aproximou-se dele, abraçando-o e dizendo:

       - Você tem todo o nosso respeito. Estamos orgulhosos de contar com sua confiança. Pode ter certeza de que tudo faremos para defender D. Maria Júlia. Além da ajuda profissional, gostaria de ser seu amigo.

       Gabriel retribuiu o abraço de Daniel, sentindo os olhos marejarem. Fez grande esforço para conter as lágrimas.

       Jonas pigarreou tentando esconder a comoção e disse com voz que se esforçou para tornar firme:

       - Sua ajuda nos será de grande valia. Quero que vigie Bóris, procure ouvir tudo quanto ele fala com seu pai, ou ao telefone, etc. Qualquer novidade, comunique-nos. Vou dar-lhe os números de telefone de contato em que pode ligar para mim ou para Marcos. Se não estivermos, deixe o recado. Tome cuidado. Eles são perigosos. Agora eu vou indo.

       Depois que Jonas se foi, Lanira tornou:

       - Precisamos telefonar para tia Josefa. Ela pode nos ajudar. - Voltando-se para Gabriel, continuou: - Ela faz sessões espíritas em sua casa. Nós temos ido assistir. E pessoa de muita fé. Alberto afirma que o espírito de seu avô o tem seguido e ajudado. Podemos tentar falar com ele. Talvez nos conte onde Alberto está.

       - Você acha isso possível? - indagou Daniel. Foi Gabriel quem respondeu:

       - E possível, sim, se ele puder responder.

       - Você acredita nos espíritos? - disse Lanira surpresa. - Nunca me disse nada.

       - Só falo nesse assunto quando as pessoas mencionam-no. E assunto delicado e controverso. Só para os que entendem.

       - Você parece que é um deles - tornou Daniel admirado.

       - Desde criança sinto a presença dos seres de outras dimensões. Quando era adolescente, minha sensibilidade aumentou e eu me senti muito perturbado. Ia da euforia à depressão, passava mal sem que os médicos conseguissem diagnosticar a doença. Por fim, conheci uma pessoa que me ajudou muito explicando o que estava acontecendo comigo, indicando-me livros sérios para que eu estudasse o assunto. Isso me ajudou e consegui me equilibrar. Eu sei que todos nós somos bombardeados por energias das pessoas que estão à nossa volta e também pelos espíritos dos que já morreram. Tive inúmeras provas. Vamos conversar com sua tia. A ajuda espiritual é fundamental em um caso como o nosso.

       Daniel sacudiu a cabeça e sorriu. Aquela era a noite das surpresas.

       - Já passa das dez. Não é tarde para falar com ela? - objetou.

       - Não - contrapôs Lanira.-Tia Josefa nunca dorme antes da meia-noite.

       - Nesse caso, faça isso - concordou Daniel.

       Lanira ligou para Josefa como o objetivo de colocá-la a par dos últimos acontecimentos.

       - Hoje mesmo vou telefonar para os médiuns e pedir orações. O momento é de fé e de confiança. Amanhã é dia de nossa reunião. Traga também Gabriel. Sinto que esse moço está realmente abalado. Vamos confiar em Deus, que tudo dará certo.

       Lanira combinou fazer o possível para comparecer à sessão na noite seguinte. Gabriel lembrou:

       - Talvez eu tenha que ficar em casa vigiando os passos de Bóris. Será que ele saiu hoje?

       - Não se preocupe com isso agora. Bóris está sendo vigiado. Se ele saiu, foi seguido. Quanto a Antunes, precisamos torcer para que ele não tenha feito nada até o momento em que você nos procurou e Marcos colocou uma pessoa para segui-lo.

       - E melhor eu ir embora. Vamos, Lanira, eu a deixarei em casa.

       Eles saíram e Daniel, pensativo, sentou-se no sofá. A vida tinha surpresas e ele se perguntava o que viria ainda. Lembrou-se da primeira sessão em casa de tia Josefa, quando o Dr. Camargo lhe pedira para proteger Maria Júlia e Gabriel. Ele não atendera seu pedido e não fora procurá-los, mas ele acabou sendo procurado. O espírito do Dr. Camargo teria alguma coisa a ver com isso? Era muito provável que sim.

       Não pôde deixar de pensar em Lídia e nas emoções que a presença dela lhe causava, nos misteriosos sonhos que tanto o impressionaram e, principalmente, no sentimento de amor que, embora Daniel fizesse muito esforço para reprimir, teimava em descompassar seu coração quando pensava nela.

       Levantou-se e procurou o papel em que anotara as palavras do Dr. Camargo. Com ele nas mãos, sentou-se no sofá e leu novamente. Conforme

       dissera Gabriel, Maria Júlia deveria ser vítima do marido para que o Dr. Camargo intercedesse em seu favor.

       Ela deveria ser inocente, e, nesse caso, ele deveria mesmo defendê-la dali para a frente. Pensou no espírito do Dr. Camargo e pediu-lhe ajuda para que encontrasse a maneira mais adequada de fazer isso.

       

Capítulo 14

       Gabriel chegou em casa preocupado. Procurou pela mãe.

       - Você está bem?

       - Preocupada com você. Aonde foi?

       - Depois eu conto. Aqui tudo está em paz?

       - Está.

       Maria Júlia fez-lhe pequeno sinal para que não dissesse nada. Ela vivia atormentada. Bóris sempre descobria tudo que ela fazia ou dizia dentro de casa. Às vezes desconfiava que ele houvesse colocado alguma escuta nos aposentos só para vigiá-la. Ele sabia que ela não concordava com o que eles faziam. Sabia que ela era sua inimiga e que gostaria de vê-lo pelas costas.

       Gabriel assentiu de leve com a cabeça, apanhou um papel na gaveta e escreveu:

       "Venha a meu quarto à noite quando todos estiverem dormindo. Temos que conversar."

       Ela leu, concordou com a cabeça e ele amassou o papel e guardou-o no bolso.

       - Já jantou?

       - Não, mas estou sem fome.

       Mas Maria Júlia insistiu e levou-o à copa, onde preparou um lanche, forçando-o a comer. Conversaram de assuntos triviais e depois cada um foi para seu quarto.

       Passava das duas da madrugada quando Maria Júlia procurou Gabriel em seu quarto. Aproximou-se do leito dizendo baixinho:

       - Gabriel.

       - Estou acordado, mãe. Não consigo dormir.

       - Afaste-se. Vou deitar a seu lado. Depois de acomodar-se, ela pediu:

       - Conte tudo.

       Em poucas palavras Gabriel contou o que havia feito e Maria Júlia assustou-se:

       - Meu filho! Não podia ter feito isso! Se eles descobrem, nem sei o que farão!

       - Foi preciso, mãe. Não podemos pactuar com um crime. Lanira é minha amiga de verdade e Daniel é um homem de bem. Compreendeu nossa situação e vai nos ajudar. Jonas é investigador particular e amigo da polícia. Farão tudo discretamente.

       Maria Júlia estava apavorada. Tremia e esfregava as mãos aflita.

       - Calma, mãe. Fiz o que tinha que ser feito. Nada nos acontecerá. Eu sei. Deus vai nos ajudar. Nós estamos do lado do bem.

       - A vergonha, o descrédito... Nosso nome na lama...

       - Infelizmente não é nossa culpa. Sempre temos sido pessoas de bem. É melhor suportar a maldade alheia do que praticá-la. Só peço a Deus que ainda haja tempo de salvar Marcelo e que não tenhamos que lamentar e carregar o peso desse crime.

       Maria Júlia rompeu em soluços e Gabriel abraçou-a fortemente, tentando confortá-la:

       - Mãe, não fique assim. Tudo vai dar certo.

       - Teremos que deixar esta casa, devolver o dinheiro, suportar a vergonha, a pobreza. Não sei se resistirei vendo vocês passarem por tudo isso.

       - Claro que resistirá. Vamos superar este momento difícil. Sou jovem, forte, posso trabalhar. Garanto que nada vai faltar a vocês.

       - Sonhei para você um brilhante futuro!

       - Eu sei, mãe. Mas com paciência e honestidade chegaremos lá. Tenho certeza de que tudo vai passar e nós três reconstruiremos nossas vidas. Podemos nos mudar para outra cidade, outro país, viveremos felizes e livres. Nossa consciência estará em paz. Vamos, não chore mais. Quer que eles desconfiem? Conto com sua ajuda. Chegou a hora de nos livrarmos de Bóris e das maldades de meu pai.

       Maria Júlia suspirou profundamente. Apertou Gabriel nos braços, dizendo:

       - Seja o que for que venha a acontecer, lembre-se de que eu amo muito você e sempre fiz tudo para vê-lo feliz.

       - Eu sei, mãe. Eu também amo você e não gosto de vê-la sofrer. Vamos, enxugue as lágrimas e trate de se acalmar. Tudo vai dar certo, você vai ver. Quero que me ajude a vigiar os dois e me conte tudo que observar. Depois que eu saí, percebeu alguma coisa diferente?

       - Não. Bóris foi para o quarto e José Luís para a clínica. Laura para o quarto. O que fará quando souber?

       - Por enquanto vamos deixá-la fora disso. E melhor poupá-la.

       - Concordo. Fui para meu quarto, apaguei a luz e esperei que José Luís se recolhesse para o quarto dele. Quando tudo estava silencioso, vim para cá.

       - Agora, vá descansar. Vou tentar dormir. Quero levantar cedo amanhã para observar. Não esqueça: qualquer coisa diferente, um telefonema, uma conversa entre eles, comunique-me imediatamente.

       Ela se levantou, beijou o rosto de Gabriel com carinho.

       - Durma bem, meu filho.

       - Está mais calma?

       - Estou. Com você do meu lado, está tudo bem.

       - Sempre estarei do seu lado, aconteça o que acontecer. Procure descansar. Amanhã é outro dia.

       Depois que ela se foi procurando não fazer barulho, Gabriel levantou-se, entreabriu a porta e ficou olhando o corredor, até a mãe entrar no quarto e fechar a porta. Quando ia deitar-se, novamente sentiu sede e no escuro foi até a cozinha para tomar água. Notou que a luz do quarto de Bóris estava acesa. O que estaria fazendo àquela hora da madrugada?

       Precisava saber. Encostou o ouvido na porta e ouviu que ele conversava ao telefone, mas por mais que se esforçasse não conseguiu entender o que dizia. Pé ante pé, abriu a porta da cozinha, deu a volta pelo jardim até a janela do quarto de Bóris e encostou o ouvido na veneziana.

       - Precisamos fazer bem-feito - dizia ele. - Ninguém pode desconfiar de nada. Por causa da audiência, vão suspeitar de José Luís. Isso não pode ocorrer. Tem que parecer acidente.

       Ele fez uma pausa, depois continuou:

       - Eu sei... eu sei... Está certo. Vou ajudar. Bem que você podia fazer tudo sozinho. Afinal, pelo dinheiro que estamos pagando... Não... não. Não quero ninguém mais na jogada. Eu sei... eu sei... Está bem. Melhor ser no fim de semana. Claro... Está certo. Estarei lá para conversar. Pode esperar. Vê se não me liga para cá. Sabe como é. Não convém. Ela anda muito nervosa. Se desconfiar, tudo pode ir por água abaixo. Eu sei... Mas só em último caso. Está bem. Irei, sim. Agora vou desligar.

       Ele ouviu o ruído de desligar o telefone e em seguida a luz se apagou. Procurando não fazer ruído, Gabriel foi para o quarto, fechou a porta, coração batendo forte. Era evidente que falavam de Alberto. Sentiu-se aliviado. Ele estava vivo! Havia tempo de salvá-lo.

       Imediatamente ligou para Jonas, que atendeu com voz de sono. Deu um salto quando entendeu que era Gabriel.

       - Tenho novidades. Ouvi uma conversa de Bóris ao telefone. Alberto ainda está vivo!

       - Boa notícia! Conte tudo.

       Gabriel contou e Jonas anotou tudo e garantiu:

       - Com certeza ele conversava com seu cúmplice, Antunes. Serão vigiados o tempo todo. Vamos pegá-los. Bom trabalho, Gabriel.

       - Minha mãe está muito nervosa.

       - Ela não pode deixar que eles notem nada. Entendeu? E fundamental para nosso sucesso e para a segurança de vocês.

       - Eu sei. Pode confiar, ela sabe controlar-se muito bem diante deles.

       - Está certo. Cuide-se. Trate de descansar. Poupe suas forças. Ele não vai fazer nada por enquanto. E quando sair, estaremos seguindo-o.

       - Está certo. Boa noite.

       - Boa noite.

       Gabriel desligou e respirou fundo. Estirou-se no leito, mas estava tenso. As emoções das últimas horas não o deixavam relaxar. Precisava serenar o espírito. Lembrou-se de Deus e, fechando os olhos, começou a rezar pedindo ajuda.

       Aos poucos foi se acalmando e já estava quase pegando no sono quando viu um homem de meia-idade ao lado de sua cama olhando-o com carinho. Tentou abrir os olhos mas não conseguiu:

       - Estou fora do corpo - pensou ele.

       O homem aproximou-se dele dizendo com voz firme:

       - Obrigado, Gabriel. Deus o abençoe.

       Emocionado, Gabriel lembrou-se do retrato do Dr. Camargo que havia visto no escritório da empresa que pertencera a ele e que seu pai vendera quando de posse da herança. Era ele!

       - Ajude-nos, por favor! - pediu Gabriel em pensamento.

       - Acalme-se. Sou muito grato a Maria Júlia por tudo quanto fez a Marcelo. Confie em Deus. Não tema.

       Gabriel tentou falar e abriu os olhos acendendo a luz do abajur. Dr. Camargo havia desaparecido. Teria sonhado? Estaria tão preocupado com o que estava acontecendo que teria fantasiado isso?

       A imagem dele voltou-lhe à lembrança e Gabriel sentiu que ele es-tivera ali para inspirar-lhe confiança e dizer que estava satisfeito com o que ele fizera. Respirou aliviado. Agradeceu a Deus pela ajuda que estava recebendo, deitou-se novamente e desta vez adormeceu.

       Na manhã seguinte acordou assustado. Olhou o relógio e levantou-se imediatamente. Passava das dez. Arrumou-se rapidamente e desceu preocupado. Maria Júlia esperava-o na copa.

       - Sente-se, meu filho, vou mandar servir o café.

       - Perdi a hora. Desejava levantar cedo. - Percebendo a presença de Bóris na outra sala, completou: - Havia combinado ir ao clube com alguns amigos.

       - Talvez ainda tenha tempo.

       - Não sei... vamos ver.

       Ele tomou o café enquanto conversavam sobre assuntos triviais. Gabriel apanhou um papel, um lápis e escreveu:

       - Notou alguma novidade?

       Maria Júlia leu e fez leve sinal negativo com a cabeça.

       - Hoje está um dia calmo, bonito. Estou pensando em dar uma volta, talvez ir às compras. Chegaram algumas novidades na Casa Cintra.

       - Pois eu acho que ficarei em casa. Está calor e estou com preguiça. Se o tempo continuar bom, talvez amanhã eu saia com o barco.

       Apesar de estar atento, Gabriel não observou nada diferente durante o dia inteiro. Passava das seis quando ligou para Lanira a fim de combinar a hora em que deveriam ir a casa de Josefa.

       Passou pela casa de Lanira para apanhá-la e Maria Alice vendo-o chegar ficou um pouco apreensiva. Pelo apuro com que Lanira se vestira, desconfiava que ela estaria interessada em Gabriel. Fosse antes, teria ficado alegre, mas agora, com o escândalo, tudo era diferente. Era verdade que o Dr. José Luís continuava bem-visto, apesar de tudo, e a maioria das pessoas preferiu fingir que ignorava a ação que corria na justiça. A princípio, ela também não acreditara naquela história, mas depois que falara com Daniel, que o juiz deferira a petição inicial, pedindo provas, ela sentira abalar sua confiança.

       E se ele fosse culpado mesmo? E se as provas que Daniel possuía fossem convincentes e o juiz as acatasse como verdadeiras? Nesse caso, o José Luís desacreditado, preso, obrigado a devolver toda a fortuna, seria execrado pela sociedade. Não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. Gabriel, além de ficar pobre, seria coberto de vergonha. Não, ela não queria que sua filha corresse o risco de namorá-lo. Essa relação podia trazer-lhe futuros aborrecimentos.

       Procurou o marido, que, sentado na sala, lia com prazer um discurso que deveria proferir na tarde seguinte. Alicia redigira-o e ela era magistral. Sabia valorizar seus dons de oratória, bem como as frases de efeito que comoviam a platéia.

       - Antônio, estou preocupada com Lanira.

       Sem levantar os olhos da leitura, Antônio respondeu:

       - Com quê?

       - Pare um pouco de ler. Temos que conversar.

       - Estou estudando meu discurso. É muito importante.

       - Eu sei. Mas a felicidade de Lanira é muito mais.

       - O quê? - desta vez ele olhou para ela admirado.

       - Ela saiu com Gabriel. Reataram a amizade.

       - Não estou entendendo. Onde quer chegar?

       - Estive pensando. Se José Luís for condenado, além de ficar pobre ele pode ser preso e ficará desonrado. Lanira não pode se envolver com o filho dele.

       Antônio olhou-a com ar de incredulidade:

       - O quê? Vai me dizer que entrou na fantasia de Daniel? José Luís está sendo vítima da ambição de um falsário. Tenho certeza disso. Todos em nossa roda dizem isso.

       - Não sei, não. Daniel me garantiu que tem provas convincentes, e depois o juiz deferiu o pedido deles, o que significa que tudo pode ser verdade.

       - Deferiu? Tem certeza?

       - Tenho. Lanira me contou que Daniel e Rubinho estavam radiantes e convidaram-na para comemorar.

       - Quem será esse juiz? Você sabe o nome dele?

       - Não. Mas que importância tem isso? Eles conseguiram, não é? Já pensou que tudo isso pode ser verdade?

       - Não. Não creio. Infelizmente ainda há juizes cretinos neste país. Algum idiota que quis aparecer nos jornais, graças ao nome de José Luís. Só pode ser isso. Amanhã vou ligar para Mendes e pedir que interceda. Ele é desembargador.

       - Eu achava bom você não se envolver. E se tudo for verdade e você for visto defendendo um criminoso? Já pensou como seria ruim para seu prestígio? O povinho com certeza vai ficar do lado do "pobre moço" órfão, espoliado, sem família... E uma história e tanto para a gentinha.

       - Você acha mesmo que ele pode ser culpado?

       - Não sei. Mas por via das dúvidas é melhor esperar as coisas ficarem mais claras. Nunca pensei que a justiça fosse deferir o pedido deles. Agora tudo pode acontecer. E prudente não aparecer tomando partido.

       - É, nisso você tem razão. Nunca se sabe o que pode acontecer. A opinião pública adora essas histórias em que o rico é o vilão. Numa dessas, José Luís pode até entrar de bode expiatório.

       - Seja como for, você deve ter cautela e aguardar os acontecimento. Enquanto isso, Lanira não deve sair mais com Gabriel. Você deveria conversar com ela.

       - Eu? Ela nunca me dá ouvidos! Essas coisas de namoro competem a você, que é a mãe. E melhor falar logo antes que eles se envolvam mais.

       - Tentarei.

       Faltavam dez para as oito quando Lanira chegou com Gabriel em casa de Josefa. Cumprimentou os conhecidos, abraçou a tia, apresentando Gabriel.

       - Seja bem-vindo, meu filho - disse ela estendendo a mão.

       - Obrigado por permitir que eu participe da reunião - disse ele depois de retribuir ao cumprimento.

       - Acomodem-se, por favor.

       Daniel e Rubinho chegaram, acompanhados de Marilda e Lídia. Naquela tarde, Rubinho pedira a Daniel que perguntasse a tia Josefa se as duas poderiam acompanhá-los.

       Daniel surpreendeu-se:

       - Vamos tratar de assuntos pessoais e sigilosos. Não acho uma boa idéia levá-las. Depois, minha tia pode não gostar.

       - Marilda convidou-me para uma reunião e eu lhe disse que estava comprometido. Nós estamos namorando, ela ficou com ciúme. Zangou-se. Então contei-lhe que era uma sessão espírita. Aí ela se conformou, mas contou a Lídia, que ficou entusiasmada. Ela costumava freqüentar sessões e desde que chegou ao Brasil não tinha aonde ir. Elas querem ir conosco hoje à noite.

       - Não acho uma boa idéia.

       - Em todo caso, telefone para sua tia e peça-lhe permissão. Marilda é curiosa, mas Lídia é uma estudiosa desses assuntos. Se sua tia disser não, nós respeitamos. Mas pelo menos consulte.

       A contragosto, Daniel telefonou à tia, que para sua surpresa concordou imediatamente.

       Além deles havia mais seis pessoas, e às oito em ponto já estavam todos sentados em volta da mesa. Josefa fez ligeira prece e pediu que se concentrassem. Logo um médium começou a falar, saudando os presentes e dizendo:

       - Finalmente conseguimos reuni-los aqui esta noite. Há muito esperávamos por esta oportunidade e queremos agradecer a Deus por nos ter permitido essa tão esperada reunião. Vamos orar porque a graça divina é abençoada e pródiga em bondade e luz.

       Ele continuou falando, mas Daniel sentiu uma sonolência incontro-lável. Esforçou-se para reagir, mas não conseguiu. Sua cabeça pendeu e ele se debruçou sobre a mesa e adormeceu.

       Josefa pediu que continuassem orando e não se preocupassem com ele. Daniel, de repente, viu-se andando por uma rua diferente. Sentia o coração oprimido, como se alguma coisa ruim estivesse para acontecer.

       Chegando em frente a uma casa, parou. Entrou. Tudo ali era-lhe familiar. Foi direto ao quarto, onde procurou ansiosamente por alguém e não encontrou. A cama de casal estava vazia.

       Angustiado, sentou-se em uma cadeira e de repente recordou-se: Lídia havia partido para sempre. Ele estava só com sua dor. O que fazer de sua vida dali em diante? Como suportar a solidão na casa vazia e triste?

       Lágrimas corriam pelo seu rosto. Ele se levantou e começou a andar de um lado a outro. Foi quando Alberto entrou no quarto olhando-o com raiva e dizendo:

       - Você foi o culpado pela morte dela. Assassino. Vai pagar por tudo que fez a ela!

       Daniel olhou-o admirado. Apesar de estar vivenciando esses fatos, ele estava perfeitamente consciente da atualidade e por isso indagou:

       - Por que me acusa? O que aconteceu entre nós no passado? Por que sonhei com você mesmo antes de conhecê-lo? Como explicar o que sinto ao lado de Lídia?

       Alberto imediatamente desapareceu e Daniel viu-se transportado para uma sala clara e agradável. Olhou em volta e não havia ninguém. Sentou-se na poltrona macia sentindo uma brisa leve e perfumada acariciando-lhe o rosto.

       Fechou os olhos e respirou deliciado. Quando os abriu, uma mulher de meia-idade, rosto sereno, estava diante de si. De onde a conhecia?

       - Você não vai se lembrar - disse ela.

       - Eu a conheço.

       - E verdade. Temos pouco tempo. Vamos aproveitá-lo.

       - Você sabe o que está acontecendo comigo? Por que esses sonhos?

       - São recordações de suas vidas passadas. No momento você não tem como se lembrar de tudo.

       - Sinto que o cerco ao meu redor está apertando. Que preciso fazer alguma coisa importante mas não sei o que seja.

       - Não se preocupe. Tudo caminha muito bem. Confie na vida, que sempre faz o melhor. O importante é procurar ligar-se com o espiritual.

       - O que é ligar-se com o espiritual? Não sou religioso.

       - Não falo de religião. Falo da essência das coisas. Falo dos valores eternos do espírito. De conhecer a força imutável que rege o universo. Estar nela é estar seguro, preservar sua serenidade, recompor seu caminho de progresso, encontrar felicidade e paz.

       - Neste instante estou sentindo uma alegria que há muito não tenho sentido. Sua presença está me fazendo muito bem.

       - Não é minha presença, mas o encontro de sua alma com a verdade espiritual. Este lugar é o paraíso, o nirvana, a felicidade eterna. E a essência divina que está dentro de você e que pode dar-lhe essa alegria sempre que você se refugiar nela. Por isso eu disse: confie na vida e ligue-se com seu eu espiritual. Esse é o segredo da serenidade e da paz.

       - Desejo saber por que a presença de Lídia me emociona e a de Alberto me oprime.

       - Reflexos de um tempo que já passou. Agora vocês estão juntos novamente para experimentarem renovação e progresso. Não se deixe dominar pelo emocional. O passado está morto. O que aconteceu naqueles tempos não vai acontecer de novo. Tudo mudou. Vocês aprenderam, renovaram-se, entenderam-se. Portanto siga em frente e não tema. Ligue-se com o espiritual. Se continuar vindo aqui, vai encontrar todas as respostas que deseja. Agora vá. Lembre-se: quando sentir uma emoção desagradável, repita essas palavras: o passado acabou. O que aconteceu naqueles tempos não vai acontecer de novo. Hoje tudo é diferente!

       Daniel estremeceu e acordou sentindo ainda o perfume gostoso e a sensação deliciosa daquela presença.

       - Não vá embora! - implorou ele ainda envolto na magia daquele encontro.

       Ouvindo o som de sua voz quebrando o silêncio da sala às escuras, Daniel respirou fundo um pouco assustado.

       - Agradeça a Deus a dádiva que você recebeu - disse Josefa. Em seguida fez ligeira oração de agradecimento e encerrou a sessão.

       As luzes foram acesas enquanto as pessoas comentavam entre si algumas passagens da reunião.

       Daniel passou a mão nos cabelos dizendo:

       - Desculpe, tia, mas eu adormeci. Não ouvi nada do que aconteceu aqui.

       - Você saiu do corpo. Ou melhor, foi conduzido em espírito a um lugar muito especial. Como se sente?

       - Muito bem.

       - Ao chegar aqui você estava angustiado, preocupado. Recebeu ajuda.

       - Foi maravilhoso. Nunca senti emoção igual. Gostaria que nunca se acabasse.

       - Hoje você se encontrou com uma pessoa que o quer muito bem e o tem ajudado muito.

       - É estranho, mas quando a vi senti que a conhecia. Como pode ser isso? Eu nunca a tinha visto antes.

       - Nesta encarnação, não. Mas vocês são velhos conhecidos de outras vidas.

       - Que mulher! Nunca conheci ninguém assim!

       - Ela era bonita? - perguntou Lanira.

       - Linda. Era um misto de suavidade e energia, de força e delicadeza, fica difícil explicar.

       - É um espírito lúcido - esclareceu Josefa.

       - Você a conhece? - perguntou Daniel.

       - E uma amiga espiritual que tem nos ajudado muito. Seu nome é Norma.

       A conversa generalizou-se. Uma senhora serviu um pouco de água da jarra para cada pessoa e Daniel ficou olhando admirado as borbulhas que havia em seu copo.

       - E água energizada - esclareceu Josefa sorrindo. - Beba, vai fazer-lhe bem.

       Lídia aproximou-se deles dizendo:

       - Desejo agradecer-lhe haver permitido minha presença. Estava sentindo muita falta desses encontros espirituais. Estou me sentindo alimentada.

       - Você está ligada ao nosso grupo. Fico feliz que esteja conosco - respondeu Josefa.

       Daniel olhou Lídia e recordou-se da emoção que sentira momentos antes, pensando nela, como se houvesse morrido. Sentiu vontade de abraçá-la, de dizer-lhe o quanto sentira sua falta e o quanto a amava. Conteve-se. Ela não sabia de nada. Iria julgá-lo louco.

       Percebendo seu olhar emocionado, Lídia colocou a mão no braço dele perguntando:

       - O que você viu quando saiu do corpo?

       - Norma disse que voltei no tempo e vi pedaços de minhas vidas passadas.

       - Não vai nos contar? - pediu ela.

       Daniel perdeu o jeito. Como falar o que se passava dentro dele desde que a conhecera?

       - Não foram lembranças agradáveis. Sofri a perda de alguém que muito amava e ao recordar senti de novo todo o sofrimento daqueles tempos. Com a ajuda de Norma passei da dor à alegria.

       - Pergunto porque durante todo o tempo em que esteve adormecido não consegui desviar meu pensamento de você. Senti que precisava ir ter com você e dizer-lhe algo, que não sei o que seja. Fiquei ansiosa e só ao pensar nisso sinto uma energia inquietante.

       Josefa olhou-os e sorriu. Depois esclareceu:

       - Daniel também pertence a nosso grupo astral, assim como você. Não tenho dúvidas em afirmar que já se conheceram em outras vidas.

       Daniel não disse nada, mas seus olhos brilharam emocionados. Lídia estremeceu ligeiramente e respondeu:

       - Quando nos encontramos pela primeira vez, senti que já o conhecia antes.

       Lanira aproximou-se, perguntando à tia:

       - Não falaram nada quanto a Alberto. Viemos para pedir ajuda.

       - Não mencionaram o nome dele, porém a mensagem da noite foi sobre confiança. Estou certa de que eles estão cuidando. Vamos manter o otimismo e a alegria.

       Gabriel, que se aproximara, interveio:

       - Apesar disso estou ansioso, preocupado. Minha mãe está passando por um problema muito difícil. Eles não disseram nada com relação a nosso caso.

       - O que significa que estão trabalhando e que ainda não havia nada para dizer. Pelo que observei, sua mãe está tendo a ajuda de uma mulher clara, de cabelos ligeiramente ondulados, magra, de pele delicada e sorriso doce. Não deu o nome. Sua mãe sabe quem ela é. Quanto a você, está acompanhado pelo Dr. Camargo. Esse eu conheci bem. Ele os estima muito e está ajudando. Pediu que lhe desse o recado: que tudo está sob controle. Pede que cooperem mantendo pensamentos positivos.

       Gabriel emocionou-se. A atitude do Dr. Camargo ajudando-os era uma indicação segura de que ele perdoara a fraqueza de sua mãe mantendo segredo sobre a morte de Marcelo, e não a culpava.

       - Ele está me dizendo - continuou Josefa - que é muito grato à sua mãe por ter salvo a vida de Marcelo. Que podem contar com ele e que fará o que puder para que sejam felizes.

       Gabriel lembrou-se da visão que tivera na qual ele lhe dissera as mesmas palavras. Sentiu um nó na garganta e não conseguiu responder. Lanira pegou a mão dele e apertou-a com força.

       As pessoas foram se despedindo e Gabriel prontificou-se a levar Lanira para casa. Depois que eles se foram, Lídia despediu-se dizendo a Rubinho:

       - Podem ir que eu vou tomar um táxi.

       - De forma alguma - objetou ele. - Viemos juntos e terei prazer em deixá-la em casa.

       Ela sorriu e ia responder quando Daniel interveio:

       - Quem deseja ter esse prazer sou eu.

       - Nesse caso, tudo bem - concordou Rubinho trocando disfarçadamente um olhar intencional com Marilda.

       Quando se viu sentado no carro ao lado de Lídia, Daniel respirou fundo. A proximidade dela, seu perfume, mexia com sua emoção como nunca, se lembrava de haver sentido diante de uma mulher.

       Ela deu o endereço e ele ligou o carro, andando devagar.

       - É adorável sua tia Josefa. Não me recordava bem de como ela era.

       - Minha mãe é muito católica e nunca aceitou a crença da tia. Assim, privou-nos de conviver mais com ela. Somente agora, por causa de alguns acontecimentos especiais, foi que recorremos a ela.

       - Eu pretendo continuar freqüentando essas reuniões. A mediunidade, quando exercida com conhecimento, torna-se uma maravilhosa ferramenta de ajuda espiritual para quem a cultiva.

       - Você tem mediunidade?

       - Intuição. Sinto quando devo ou não fazer as coisas. Ao conhecer pessoas, sei se são confiáveis ou não.

       - Como acontece?

       - Não me pergunte, porque não sei. Sinto e pronto. E. Nunca dá errado. Sempre que eu sinto o que devo fazer e não faço, me arrependo. Ê difícil explicar, mas isso é muito forte em mim.

       - Às vezes também tenho essa sensação. Mas controlo. Fui educado para racionalizar, agir de acordo com as regras. E muitas vezes o que você sente vontade de fazer é completamente contra todas elas.

       - Nunca experimentou agir de acordo com o que sente? Daniel encostou o carro e parou, olhando-a nos olhos. Sua proximidade, seu perfume embriagavam-no e ele não se conteve:

       - Você acha que eu posso?

       - Por que não?

       Daniel não esperou mais, abraçou-a com força, apertando-a de encontro ao peito, beijando-a nos lábios. A emoção de seu sonho reapareceu, num misto de sofrimento e alegria, de deslumbramento e paixão.

       Lídia retribuiu seus beijos e durante alguns minutos eles se beijaram tentando controlar um pouco a tremenda emoção que os acometeu, assustados com o volume inusitado do que sentiam.

       Entre um beijo e outro Daniel disse baixinho:

       - Eu amo você. Nunca senti isso por mulher nenhuma.

       - Eu também o amo. Sei que você é o amor de minha vida. Ficaram abraçados, sem falar, sentindo apenas a emoção que fluía

       dentro de seus corações, beijando-se de vez em quando, esquecidos de tudo e de todos, tendo apenas aquele sentimento imenso gritando dentro de si.

       

Capítulo 15

       Gabriel parou o carro em frente a casa de Lanira.

       - Você falou pouco, está pensativo. Não está bem? - indagou ela.

       - Não nego que estou preocupado. Eu esperava que os espíritos falassem mais claro sobre Alberto.

       - Você está ansioso. A situação é mesmo delicada. Eu também esperava uma resposta mais clara. Mas o Dr. Camargo está do nosso lado, ajudando. Isso me parece bom.

       - Muito bom. Contudo, só em pensar que Alberto pode ser morto e que nós não temos como fazer nada para impedir deixa-me nervoso.

       Lanira colocou a mão sobre o braço de Gabriel num gesto carinhoso:

       - Não fique assim. Você fez tudo quanto podia. Está se arriscando para salvá-lo. Precisa manter a calma.

       - Obrigado, Lanira. Se não fosse por você, eu teria cometido alguma loucura.

       Passou a mão pelo rosto dela com carinho:

       - Você é linda! Tem tudo quanto eu aprecio em uma mulher!

       - Você também. E bonito por fora e por dentro. Ele a abraçou, apertando-a de encontro ao peito.

       - Perto de você sinto paz. Queria poder levá-la comigo esta noite e ficar assim, abraçado, sentindo seu coração bater junto ao meu, o pulsar de seu corpo, seu hálito quente, o perfume delicioso de seus cabelos.

       Gabriel começou a beijar os cabelos dela, depois sua face, até encontrar seus lábios entreabertos.

       - Lanira - disse baixinho -, vem comigo. Eu preciso de você. Fica comigo nesta noite.

       Emocionada, ela retribuía os beijos apertando-o de encontro ao peito. Ela também desejava ficar com ele, fosse onde fosse, e queria que aquela noite nunca acabasse.

       De repente, ele ligou o carro saindo em alta velocidade. Chegou no ancoradouro de seu barco. Parou e pegando Lanira pela mão conduziu-a para dentro. Uma vez lá, abraçou-a, beijando-a repetidas vezes.

       Sem pensar em mais nada, levou-a até a cabine e juntos entregaram-se ao sentimento que não conseguiam conter.

       Uma hora depois, deitados um ao lado do outro, Gabriel abraçou Lanira, beijando-a levemente na face, dizendo:

       - Perdoe-me. Não consegui me conter.

       - Eu vim porque quis. Não tem do que se culpar.

       - Eu amo você. Quando tudo isso passar, podemos nos casar. Ela se sentou na cama.

       - Casamento não estava em meus planos tão cedo.

       - Eu também não havia pensado nisso. Porém, agora...

       - Sou adulta e mulher o suficiente para arcar com a responsabilidade pelo que fiz. Você não precisa casar comigo por causa do que aconteceu esta noite.

       - Você nunca tinha tido uma relação. Depois, há sua família.

       - Esqueça, Gabriel. Não desejo casar porque você me deflorou, nem porque minha família pode descobrir. Se um dia me casar, terá que ser por amor. Só por amor.

       - Eu amo você. Falei em casamento por amor.

       - Não foi o que me pareceu.

       - Você não me ama?

       - Eu gosto de você. Nesta noite você me fez sentir emoções que nunca havia sentido. Não sei se isso é amor. Só não quero que se sinta obrigado a casar comigo por causa das convenções sociais. Isso, não. Jamais me transformarei em uma matrona como há muitas por este Rio de Janeiro. Bonecas sociais, a serviço das futilidades e das intrigas.

       - Você nunca será uma delas.

       - Não serei mesmo. Nós não planejamos o que aconteceu esta noite. Vamos deixar assim. Precisamos de tempo para perceber o que realmente desejamos. Eu quero ser feliz e tenho a certeza de que serei. Se essa felicidade for ao seu lado, será bom; mas se estiver em outro lugar, quero descobrir.

       - Você é uma mulher diferente. Nunca conheci ninguém como você. Ela sorriu alegre:

       - Vamos embora. Já passa das duas. Preciso dar um jeito de entrar em casa sem que mamãe perceba.

       Eles se vestiram e saíram. Uma vez no carro, fizeram o percurso sem conversar, cada um imerso nos próprios pensamentos. Quando pararam em frente a casa de Lanira, Gabriel pegou a mão dela dizendo comovido:

       - Obrigado, Lanira. Eu estava inquieto, nervoso, indisposto. Você me devolveu a calma. Estou me sentindo muito melhor. Você fez por mim nesta noite o maior bem que poderia ter feito. Eu amo você!

       Ela sorriu e beijou-o levemente na face, saindo do carro. Na porta de casa, tirou os sapatos, enfiou a chave na fechadura, abriu a porta, acenou e entrou. Gabriel ligou o carro e saiu, sentindo-se bem como há muitos dias não se sentia.

       A casa estava às escuras e Lanira não acendeu a luz. Pé ante pé foi para seu quarto. Tirou a maquiagem, tomou um banho e se deitou. Então rememorou tudo quanto havia acontecido naquela noite.

       Ela gostava de Gabriel. Mas casar era outra coisa. Tinha receio de que com o tempo ele se transformasse como seu pai. Ela tinha horror de tornar-se igual à sua mãe, uma figura de aparência, sem emoções, representando um papel.

       Com ela não aconteceria isso. Não desejava confundir seus sentimentos. Gabriel atraía-a fisicamente. Era um belo homem. Porém ela desejava descobrir por que se entregara a ele. Fora por amor ou por desejo sexual? As emoções confundiam-se dentro dela e Lanira não conseguia perceber claramente.

       Contudo, sentia que agira certo não tomando nenhuma decisão de compromisso. O tempo diria a verdade. Era preciso deixar acontecer. Tendo decidido isso, ajeitou-se na cama e adormeceu.

       Gabriel chegou em casa, entrou sem acender nenhuma luz, tentando não fazer ruído. Uma vez em seu quarto, fechou a porta, acendeu a luz e preparou-se para dormir. Ia deitar-se quando bateram levemente na porta.

       Quando ele abriu, Maria Júlia entrou rápido, fechando a porta atrás de si.

       - Você demorou! Estava ansiosamente esperando.

       - Aconteceu alguma coisa?

       - Bóris saiu e não voltou até agora. Terá ido atrás de Marcelo?

       - Pode ser. Vou ligar para Jonas. Temos que avisá-lo. Apanhou o telefone e discou. Uma voz de mulher atendeu. Gabriel tornou:

       - Desculpe a hora. Preciso falar com Jonas. É urgente.

       - Ele saiu a trabalho. Você tem o outro telefone?

       - Tenho. Desculpe. Pensei que ele estivesse em casa.

       Gabriel desligou, procurou seu caderno de anotações, localizou o número e discou. Desta vez uma voz de homem atendeu e Gabriel perguntou por Jonas:

       - Ele não está.

       - É urgente. Tenho que encontrá-lo imediatamente.

       - Deixe o recado e verei o que posso fazer.

       - Diga-lhe que Bóris saiu.

       - Mais ou menos às nove horas - completou Maria Júlia, inquieta.

       - Eram nove horas - repetiu Gabriel. E continuou: - Ele sabe do que se trata.

       - Está bem. Darei o recado. Gabriel desligou pensativo.

       - E então?

       - Não sei, mãe. Pode ser que ele esteja justamente tratando do caso neste momento.

       - E se não estiver? E se eles fizerem alguma coisa a Marcelo?

       - Não adianta agora ficar nervosa. Nós fizemos tudo quanto nos foi possível fazer para evitar essa tragédia. O momento é de confiar em Deus e esperar.

       - Não consigo ficar calma. Estou agoniada.

       - Papai está em casa?

       - Está dormindo.

       - Sente-se aqui, mãe, vamos rezar. E o que podemos fazer agora.

       - Já nem sei como se reza, Gabriel. Deus não vai ouvir uma peca-dora como eu.

       - Não diga isso. Por que se subestima? Você deseja o bem tanto quanto eu.

       - Depois de tudo que eu fiz?

       - A culpa não vai ajudar em nada. Por que só vê o lado ruim? Você arriscou sua vida para salvar Marcelo. O espírito do Dr. Camargo disse que é muito grato a você por isso e que está nos ajudando.

       - Ele não está com raiva de mim?

       - Não, mãe. Ele está do nosso lado. E por isso que eu confio na ajuda espiritual. Nós estamos do lado do bem. Deus está conosco e os bons espíritos também.

       Maria Júlia não respondeu. A comoção não a deixava falar. Gabriel segurou sua mão e com voz comovida conversou com Deus, pedindo ajuda para eles todos e proteção para Marcelo.

       As lágrimas desciam pelos olhos de Maria Júlia, tocada pelas palavras confiantes do filho. Quando ele se calou, ela se sentiu aliviada.

       - Obrigada, meu filho. Sinto-me melhor agora. Acho que vou me deitar. Seu pai pode acordar e desconfiar.

       - Isso mesmo, mãe. Procure descansar. Vou tentar fazer o mesmo.

       Depois que ela se foi, Gabriel deitou-se e tentou dormir. A lembrança de Lanira não lhe saía do pensamento. Que mulher! Apesar do que acontecera entre eles, ela recusara compromisso. Ele sentia que estava apaixonado. Não desejava perdê-la. Decidiu que daquele dia em diante tudo faria para conquistá-la definitivamente.

      

       Daniel chegou em seu apartamento passava da uma. Lídia não lhe saía do pensamento. Ao recordar-se de seus beijos, seu coração se descompassava e ele estremecia de prazer. Deitou-se, mas não conseguia pegar no sono. As emoções daquela noite foram muito fortes. Tinha que se render à evidência. Algum dia, em algum lugar, de alguma forma, ele conhecera Lídia e a havia amado.

       A reencarnação! Seria mesmo verdade? Era a única explicação possível para os fatos que estavam acontecendo em sua vida. Ele já havia vivido antes com Lídia, amado, sofrido.

       Lembrou-se da cena em que ela morria, de seu desespero, e sentiu um aperto no coração. As palavras de Norma voltaram-lhe à memória:

       - "O que aconteceu naqueles tempos não vai acontecer de novo!"

       - Espero que agora tudo seja diferente. Se acontecesse de novo, não conseguiria suportar aquela dor. Tenho que me acalmar. Não posso me deixar envolver pelo emocional. Foi o que ela me recomendou.

       Lembrou-se da sensação gostosa que sentiu naquela sala ao lado de Norma. Era assim que gostaria de sentir-se sempre. Firmou o propósito de voltar às sessões em casa de Josefa.

       Rubinho chegou procurando entrar sem fazer ruído e foi para seu quarto. Daniel tentava pegar no sono quando o telefone soou. Atendeu:

       - Daniel? É Jonas. Prendemos o pássaro com a boca na botija. Está tudo bem.

       - E Alberto?

       - Está aqui na delegacia prestando declarações. Você precisa vir agora. Há algumas formalidades.

       - Iremos imediatamente. Ele está bem?

       - Abatido, é claro. Mas inteiro.

       Daniel pulou da cama e foi ter com Rubinho:

       - Acorde, Rubinho! Jonas prendeu o homem. Temos que ir à delegacia.

       Rubinho levantou-se de um salto:

       - Não diga! E Alberto?

       - Está bem. Vamos embora logo.

       Os dois vestiram-se apressados e dirigiram-se à delegacia, onde Jonas esperava-os: i

       - E então? - indagou Daniel assim que o viu.

       - Está tudo bem. Estamos formalizando a queixa, o flagrante. Alberto está prestando declarações para abertura do inquérito.

       - Podemos vê-lo? - perguntou Rubinho.

       - Claro. São seus advogados. Vamos entrar.

       Jonas conduziu-os a uma sala onde o delegado fazia as perguntas, Alberto respondia e o escrevente anotava. Vendo-os entrar, Alberto levantou-se emocionado.

       - São os advogados dele - esclareceu Jonas ao delegado. Depois das devidas apresentações, Alberto abraçou-os comovido.

       - Fiquei com medo de nunca mais ver vocês - disse.

       - Felizmente você está aqui - disse Rubinho abraçando-o.

       - É um alívio vê-lo, Alberto! - tornou Daniel juntando-se no mesmo abraço.

       - O que aconteceu? - perguntou Rubinho.

       - O escrivão vai ler as declarações que Alberto fez, para vocês tomarem conhecimento.

       Ele começou a ler e eles souberam como ele havia sido seqüestrado e conduzido àquela casa onde estava preso.

       - Ele vai continuar o relato. Vocês podem sentar-se. Vendo-os acomodados, o delegado perguntou:

       - Você chegou a ver o rosto de alguém enquanto ficou naquela casa?

       - Era sempre o mesmo que aparecia de vez em quando para trazer algum alimento. Mas sempre usava máscara. Apesar disso, eu o reconheci depois que me libertaram. Sua voz, a estatura, os cabelos, tudo.

       - Você acha que eram apenas dois os seqüestradores?

       - Acredito que sim. Não vi mais ninguém. Hoje à noite, ouvi quando eles chegaram. Conversavam em voz baixa, não consegui entender o que diziam. Depois ouvi fortes batidas na porta da rua e alguém gritando: "Polícia! Abra em nome da lei!" Eles arrastaram móveis, depois ouvi passos, acho que eles estavam correndo tentando escapar. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca.

       Jonas interveio:

       - Eu gritei na porta de entrada, mas tinha quase certeza de que eles iam tentar fugir pelos fundos. Foi o que eles fizeram. Saíram, mas meus homens estavam escondidos e os prenderam.

       - Fizeram um bom trabalho - disse o delegado.

       - Com licença, doutor?

       - Entre, Nestor. Então, o que descobriu?

       - Bom, um é Antunes, nosso antigo conhecido. Desta vez está enroscado. O outro é um estrangeiro. Estamos levantando a ficha dele. Trabalha para um tal de Dr. José Luís Camargo de Melo.

       - Trancafie os dois.

       - Antunes exige que procuremos pelo senador Medeiros. Bóris mostra-se indignado e diz que estamos enganados. Nega participação no seqüestro. Chama pelo Dr. José Luís, alegando que trabalha como secretário dele.

       - Deixe-os gritar e prenda-os. Quanto a chamar seus padrinhos, veremos amanhã. Desta vez Antunes está encrencado e nenhum político poderá ajudá-lo. O outro também. Foram presos em flagrante. Não há defesa.

       Nestor saiu. O delegado tornou:

       - Para vocês esse fato foi concludente. Vale como uma confissão do Dr. José Luís a respeito da herança. Vocês tiveram muita sorte. Eles mesmos se condenaram.

       - Apesar do susto, agora reconheço que foi bom ter acontecido - acrescentou Alberto.

       - Dentro de mais algum tempo, vocês vão ganhar essa. Parabéns. Vai ser uma bomba na sociedade! Poucos advogados teriam coragem de fazer o que vocês fizeram. Eu mesmo ouvi muitos comentários contra vocês. Diziam que só aceitaram essa causa porque eram inexperientes. Iriam quebrar a cara. Nunca mais fariam carreira - disse o delegado. - Estou satisfeito com esse resultado. Essas pessoas que abusam do poder, que passam por cima de tudo, que se valem até do crime para ter dinheiro, precisam responder por seus atos.

       - A lei vai resolver o assunto. Agora é com vocês - disse Jonas com satisfação.

       Depois das providências legais, Alberto finalmente foi liberado. Na saída da delegacia, perguntou a Jonas:

       - Como foi que descobriu onde eu estava?

       - Bom, depois que Gabriel nos procurou, passamos a vigiar Bóris e Antunes mais de perto. Assim, hoje à noite, quando Bóris saiu e foi encontrar-se com seu comparsa, meus homens os seguiram. Suspeitaram e me avisaram. O resto você já sabe.

       - Gabriel, filho de Maria Júlia? Ele nos ajudou? Ele sabia de alguma coisa?

       - A mãe se abriu com ele. Contou tudo quanto aconteceu no passado. Ele ficou arrasado e procurou Lanira pedindo ajuda. Ela o aconselhou a procurar-nos - explicou Rubinho.

       - Gabriel contou-nos que Maria Júlia não foi cúmplice do marido. Teve medo deles, mas ainda assim salvou sua vida. Eles pretendiam matá-lo. Ela tem muito medo deles - completou Daniel.

       - Assim tudo fica mais claro. Nunca entendi a atitude dela. Por que ela suspendeu a mesada?

       - Bóris descobriu e contou a José Luís. Ela, com medo de que eles descobrissem seu paradeiro e tentassem alguma coisa contra você, suspendeu o dinheiro.

       - Puxa! Agora estou entendendo.

       - Vamos deixá-lo em casa. Precisamos descansar. São cinco horas da manhã - resolveu Rubinho.

       - E verdade. Hoje teremos um dia cheio - concordou Daniel.

       - Nada antes do meio-dia - acrescentou Rubinho. - Precisamos dormir.

       - É o que vou fazer agora - disse Jonas despedindo-se.

       - Nunca esquecerei o que estão fazendo por mim - disse Alberto emocionado.

       - Vamos embora - propôs Rubinho.

       Os dois deixaram Alberto em casa e só se despediram depois de o deixarem dentro do apartamento. Estavam exaustos porém felizes. As coisas começavam a se esclarecer.

       No dia seguinte Lanira acordou com o som do telefone. Ainda meio sonada, atendeu:

       - Alô.

       - Alô! Lanira?

       - Gabriel? Aconteceu alguma coisa?

       - Aconteceu. Estou preocupado. Bóris não dormiu em casa e não voltou até agora. Aonde terá ido? Será que Jonas recebeu nosso recado ontem?

       Lanira pulou da cama:

       - Não convém falar neste assunto pelo telefone. O melhor será irmos até o apartamento de Daniel. Você pode passar aqui agora?

       - Dentro de dez minutos estarei aí.

       Lanira desligou e tratou de arrumar-se. Antes dos dez minutos combinados ela já estava na copa, depois de olhar pela janela da sala e ver que Gabriel ainda não havia chegado.

       Maria Alice olhou-a admirada:

       - Aonde você vai tão cedo?

       - Já passa das dez, mãe.

       - Não vi a que horas você chegou ontem à noite. Passava da uma e você ainda não estava em casa.

       - Estivemos com Daniel e alguns amigos. Esquecemos da hora.

       - Tome seu café. Ultimamente você não tem se alimentado direito. Vive distraída, no mundo da lua.

       Lanira engoliu uma xícara de café com leite e beliscou um pedaço de bolo. Acabara de ouvir a buzina de Gabriel. Levantou-se, apanhou a bolsa e foi saindo.

       Maria Alice seguiu-a inconformada:

       - Você não disse aonde vai. De novo com Gabriel? Não vai me dizer que estão namorando.

       Lanira parou, olhou-a e respondeu:

       - Não, mãe. Estamos apenas nos conhecendo melhor.

       - Tinha que se envolver logo com ele? Já pensou se Daniel estiver certo?

       - Daniel está certo, mas Gabriel não tem nada a ver com as atitudes do pai. É um moço de bem, pode ter certeza disso.

       - Não me agrada que esteja se relacionando com ele. É melhor acabar logo com isso antes que a situação se complique. Eu e seu pai não queremos vê-la envolvida com pessoas duvidosas.

       - Gabriel é pessoa digna e fora de qualquer suspeita, pode ter certeza disso.

       - Afaste-se dele. Será melhor para todos.

       - Não vou fazer isso. E digo mais: se um dia eu resolver que gosto dele o bastante, me casarei.

       Maria Alice levou as mãos à cabeça:

       - O quê? Anda pensando em casar-se com ele? Falarei com seu pai hoje mesmo.

       - Não vou me casar com ele, mãe. Só disse que, se um dia eu vier a amá-lo, me casarei com ele. Por enquanto ainda não estou pensando nisso.

       Ela saiu e fechou a porta antes que Maria Alice tivesse tempo de responder. Vendo-a entrar no carro de Gabriel e saírem, ela torceu as mãos aflita.

       Ela sofrerá a vida inteira para manter as aparências, conservar a família, pensando no futuro dos filhos. Engolira a amante do marido, seu desinteresse pessoal, trancara o coração ao amor e a seus anseios de mulher, tudo em nome dos filhos, para que eles fossem poupados da maledicência.

       Se Lanira fizesse um casamento desastroso, de que teria servido seu sacrifício? Daniel recusara-se a seguir os passos do pai e preferira o confronto, a desobediência, pondo em risco o prestígio do nome que usava. Agora Lanira ameaçava-os com um casamento desonroso.

       Aflita, telefonou para o marido. Precisava desabafar.

       Alicia atendeu:

       - D. Maria Alice? O deputado está em reunião com o secretário geral do partido. Quer deixar recado?

       Maria Alice perdeu a calma. Para falar com o marido tinha que pedir permissão à sua rival?

       - Passe a ligação a ele. Não perguntei com quem ele está agora. Alicia estranhou. Nunca a vira sair da classe costumeira.

       - Vou passar - respondeu com voz fria. Ligou para Antônio e disse:

       - D. Maria Alice ao telefone.

       - Estou em reunião, você sabe. Diga-lhe que ligo depois.

       - E melhor atender. E urgente. Ela me pareceu nervosa.

       - Está bem. Alô... Aconteceu alguma coisa?

       - Aconteceu, sim. Precisamos conversar urgente. Seria melhor você vir almoçar em casa.

       - É assim tão urgente? Não pode esperar até a noite?

       - Não. Se não pode vir até aqui, irei até aí. Temos que conversar.

       - Eu tenho compromissos urgentes. Não poderei ir almoçar em casa.

       - Nesse caso, passarei aí. Até logo.

       Ela desligou e ele, embora quisesse convencê-la a não ir, não teve outro remédio senão desligar. O que teria acontecido?

       Maria Alice chamou o motorista e preparou-se para sair. Meia hora depois estava entrando no escritório de Antônio. De repente, sentiu aumentar sua raiva contra Alicia e o marido. Estava cansada de fingir que ignorava a ligação deles e de reprimir seus sentimentos.

       A atitude dos filhos, que ela considerava ingrata, havia ressaltado a inutilidade de seu sacrifício. Sentia no peito a frustração de perceber que todos os seus sonhos de mãe corriam o risco de naufragarem. Eles representavam seu porto de salvação no caos em que sua vida havia se transformado. Havia transferido para eles todos os seus sonhos e eles haviam alimentado sua sede de felicidade durante todos aqueles anos.

       O que fazer agora se eles viessem a ruir? Onde se segurar depois que eles a abandonassem? Não. Ela não podia consentir em perder também com os filhos.

       Havia se dedicado a eles toda a vida e merecia que eles correspondessem às suas expectativas.'Se isso também desse errado, o que restaria?

       Entrou na sala de Alicia e, vendo-a elegante, bonita e bem tratada, sentiu aumentar seu rancor.

       Alicia levantou-se:

       - Bom dia, D. Maria Alice. O deputado está com o Dr. Mendes. Sente-se um pouco. Vou avisar que a senhora está aqui.<