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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ADVOGADO / John Grisham
O ADVOGADO / John Grisham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ADVOGADO

 

O homem de botas de borracha entrou no elevador atrás de mim, mas a princípio não o vi. No entanto, senti-lhe o cheiro - o odor penetrante a fumo, a vinho barato e a vida nas ruas com falta de sabão. Subimos sozinhos e foi quando olhei para o lado que vi as botas, pretas, sujas e demasiado grandes. Uma gabardina esfarrapada e gasta chegava-lhe até aos joelhos. Por baixo, camadas de roupa imunda aglomeravam-se à volta da cintura, dando-lhe um aspecto atarracado, quase gordo. Mas não era por estar bem alimentado; no Inverno, em Columbia, as pessoas da rua vestem tudo o que têm, ou pelo menos assim parece.

O homem era negro e tinha um ar envelhecido. A barba e o cabelo grisalhos não eram aparados nem lavados há anos. Olhava a direito através dos grossos óculos escuros, ignorando-me completamente e levando-me a perguntar-me por que motivo o inspecionava. Não pertencia àquele local. Aquele edifício, aquele elevador, não eram compatíveis com as suas posses. Os advogados dos oito andares trabalhavam para a minha firma a tarifas horárias que continuavam a parecer-me obscenas, mesmo passados sete anos.

Mais um vagabundo que se protegia do frio. Estava sempre a acontecer no centro do Washington. Mas nós tínhamos guardas para lidar com a ralé.

Paramos no sexto andar e reparei pela primeira vez que ele não carregara em nenhum botão, não escolhera nenhum andar. Vinha atrás de mim. Saí rapidamente e, quando ia a entrar no soberbo átrio de mármore da Drake & Sweeney, espreitei por cima do ombro e vi-o de pé no elevador, a olhar fixamente, continuando a ignorar-me.

A senhora Devier, uma das nossas recepcionistas mais resistentes,

cumprimentou-me com o seu habitual tom desdenhoso.

  • Atenção ao elevador - disse-lhe.
  • Porquê?
  • Um vagabundo. Talvez seja melhor chamar um segurança.
  • Essa gente... - retorquiu ela, com o seu sotaque francês afetado.
  • E arranje também desinfetante.A senhora Devier estava atrás da secretária, petrificada, a olhar para o cano invulgarmente longo de uma pistola que o nosso vagabundo empunhava. Como fui o primeiro a correr em seu auxílio, o homem teve a gentileza de o apontar para mim, e também eu fiquei rígido.

 

    • Afastei-me, tentando tirar o sobretudo dos ombros, e esqueci-me do homem das botas de borracha. Tinha a tarde totalmente preenchida com reuniões intermináveis, com conferências importantes com gente importante. Virei a esquina e ia a dizer qualquer coisa a Polly, a minha secretária, quando ouvi o primeiro tiro.
  • Não dispare - pedi, de mãos no ar. Já vira muitos filmes para saber exatamente o que havia de fazer.
  • Cale-se - resmungou ele, com uma grande compostura.

 

    • Ouvi vozes atrás de mim, no corredor. Alguém gritou   Ele está armado! , Depois as vozes deixaram de se ouvir lá atrás, tornando-se cada vez mais distantes à medida que os meus colegas se aproximavam da porta das traseiras. Imaginava-os a saltar pelas janelas. Mesmo à minha esquerda havia uma pesada porta de madeira que dava acesso a uma grande sala de reuniões, por acaso cheia naquele momento, com oito advogados do nosso departamento de Contencioso. Oito litigantes combativos e destemidos que passavam o seu tempo a massacrar as pessoas. O mais duro era um pequeno torpedo brigão chamado Rafter. Quando abriu a porta e perguntou que diabo...?, o cano da pistola virou-se para ele, e o homem das botas de borracha conseguiu exatamente o que pretendia.
  • Baixe essa arma - ordenou Rafter da porta.O homem das botas de borracha fechou a porta atrás de mim e agitou a arma lentamente no ar para que os oito litigantes pudessem admirá-la. Parecia trabalhar bem; o cheiro da descarga era mais intenso que o do seu proprietário.Várias janelas em fila davam para um parque de estacionamento.

 

    • Havia duas portas para o corredor.
    • A sala era dominada por uma longa mesa, cheia de documentos e de papéis que ainda há pouco tempo pareciam extremamente importantes.
    • Um segundo depois, ouviu-se outro tiro na zona da recepção, um tiro na direção do teto, mesmo por cima da cabeça de Rafter e que o reduziu a um simples mortal. Virando a arma para mim, o homem fez um aceno de cabeça e eu obedeci. Entrei na sala de reuniões, atrás de Rafter. A última coisa que vi lá fora foi a senhora Devier a tremer à secretária, aterrada, com os auscultadores ao pescoço e os sapatos de salto alto bem encostados ao cesto dos papéis.
  • Encostem-se à parede - disse o homem, servindo-se da arma com eficiência.

 

    • Em seguida, encostou-a à cabeça e acrescentou:
  • Feche as portas à chave.Nem uma palavra dos oito litigantes, que recuaram atabalhoadamente. Nem uma palavra minha, quando me apressei a fechar as portas à chave e olhei para o homem à espera da sua aprovação. Por qualquer motivo, continuei a pensar na estação dos correios e em todo aquele horrível tiroteio - um empregado descontente regressa do almoço com um arsenal e mata quinze dos seus colegas. Pensei nos massacres do parque infantil e nas carnificinas nos restaurantes de fast food.Resmungando e agitando a arma, o homem obrigou os oito litigantes a encostarem-se à parede, ao lado uns dos outros, e quando se deu por satisfeito virou-se para mim. O que queria ele? Faria perguntas? Se assim fosse, conseguiria tudo o que lhe apetecesse. Eu não lhe via os olhos devido aos óculos escuros, mas ele via os meus. A arma estava apontada para eles.Encorpado por uma razão. Por baixo dele, via-se uma fila de paus vermelhos, atados à cintura, que me pareceram dinamite. Das extremidades dos paus saíam fios coloridos que pareciam espaguete, ligados uns aos outros por fita prateada.

 

    • O meu primeiro instinto foi desatar a correr, precipitar-me para a porta e esperar pela sorte, esperar que um tiro me atingisse enquanto tentava abri-la e outro me derrubasse ao sair para o corredor. Mas sentia os joelhos a tremer e o sangue a gelar nas veias. Os oito homens encostados à parede fungavam e gemiam, o que perturbou o nosso raptor.
    • Despiu a gabardina nojenta, dobrou-a como se fosse nova e pô-la no meio da mesa. Senti de novo o cheiro que me incomodara no elevador, mas que não era importante naquele momento. O homem estava do outro lado da mesa e despiu lentamente a segunda camada de roupa, um casaco de malha cinzento, encorpado.
    • E essas vítimas tinham sido crianças inocentes e outros cidadãos decentes. Nós éramos um grupo de advogados!
    • Obedeci.
  • Estejam calados, por favor - disse ele, no tom paciente de um professor.Por precaução, agitou a arma na direção dos rostos horrorizados que se encontravam na sua frente e disse:

 

    • A sua calma enervou-me. O homem ajustou alguns dos fios à cintura e em seguida tirou de uma algibeira das calças largas um rolo de fita de nylon amarelo e um canivete.
  • Não quero magoar ninguém.Depois, a arma virou-se para mim.

 

    • Estas palavras foram agradáveis de ouvir, mas era difícil tomá-las a sério. Contei doze paus vermelhos, os suficientes, tinha a certeza, para nos provocar uma morte instantânea e indolor.
  • Você, amarre-os - ordenou-me.

 

    • Rafter perdeu a paciência. Avançou um pouco e perguntou:
  • Ouça lá, pá, o que é que você quer exatamente?

 

    • O terceiro tiro passou-lhe por cima da cabeça na direção do teto, onde se alojou sem fazer estragos. Parecia um canhão, e a senhora Devier e outras mulheres gritaram no átrio.       Rafter encolheu-se e, quando tentou endireitar-se, o cotovelo carnudo de Umstead atingiu-o em cheio no peito e obrigou-o a encostar-se à parede.
  • Cala-te - disse Umstead, entredentes.
  • Não me trate por pá - disse o homem.

 

    • O tratamento foi imediatamente abandonado.
  • Como quer que o tratemos? - perguntei eu, pressentindo que estava prestes a tornar-me o chefe dos reféns. Fiz a pergunta com delicadeza, com uma grande deferência, e ele apreciou o meu respeito.
  • Por senhor - respondeu ele. Todos os que se encontravam na sala concordaram perfeitamente com o tratamento de Senhor. O telefone tocou e, por instantes, julguei que o homem lhe fosse dar um tiro. Mas ele fez menção de atender e eu coloquei-o mesmo na sua frente, em cima da mesa. Levantou o auscultador com a mão esquerda; a direita continuava agarrada à arma, que se mantinha apontada a Rafter.Oito contra um.

 

    • Se fôssemos nove a votar, Rafter seria o primeiro cordeiro sacrificial.
  • Está? - disse o Senhor.

 

    • Ficou um pouco à escuta e depois desligou. Recuou cuidadosamente até à cadeira do outro lado da mesa e sentou-se.
  • Pegue na corda - ordenou-me.Rafter disse qualquer coisa em surdina e eu tive vontade de o esbofetear. Umstead conseguiu dobrar os pulsos de tal modo que as cordas quase caíram quando acabei de o atar. Malamud suava, ofegante. Era o mais velho, o único sócio, e sofrera o primeiro ataque cardíaco havia dois anos.Os nossos olhares cruzaram-se e ambos pensamos nos filhos dele.Ouviu-se a primeira de muitas sirenes, e o Senhor ordenou-me que corresse as persianas das cinco grandes janelas. Fi-lo metodicamente, enquanto examinava o parque de estacionamento lá em baixo, na esperança de que alguém me visse e viesse salvar-me. Avistei um único carro da polícia vazio e com as luzes acesas; os agentes já estavam no interior do edifício.Ao todo, a Drake & Sweeney tinha oitocentos advogados nas suas filiais espalhadas pelo mundo. Metade estavam no distrito de Columbia, no edifício onde o Senhor espalhava o terror. O homem ordenou-me que telefonasse ao   patrão , e o informasse de que ele estava armado e tinha consigo doze barras de dinamite. Telefonei ao Rudolph, o sócio supervisor do meu departamento, o de Direito da Concorrência, e transmiti-lhe a mensagem.

 

    • E ali estávamos nós, nove brancos e o Senhor...
    • Senti-me feliz por não ter descendentes.
    • Não pude deixar de olhar para Barry Nuzzo, o meu único amigo daquele grupo. Tínhamos a mesma idade - trinta e dois anos – e ingressáramos na empresa no mesmo ano. Ele foi para Princeton e eu para Yale. As nossas mulheres eram ambas de Providence. O casamento dele estava a resultar - três filhos em quatro anos. O meu encontrava-se na fase final de um longo processo de deterioração.
    • Quis que eu atasse os oito homens pelos punhos. Cortei a corda, dei nós e tentei não encarar os meus colegas enquanto lhes apressava a morte. Sentia a arma nas minhas costas. Ele quis que eu os atasse com força, e eu fingi que me esforçava ao máximo mas deixei a folga que me foi possível.
  • Está bem, Mike? - perguntou-me ele. Falávamos pelo novo telefone do Senhor, com o volume no máximo.
  • Estou ótimo - respondi. - Por favor, faça o que ele quiser.
  • E o que é que ele quer?
  • Ainda não sei.O homem olhou para baixo e tocou ao de leve num fio vermelho.

 

    • O Senhor fez um gesto com a arma e a conversa terminou. Afastando-me da pistola, fiquei de pé junto da mesa de reuniões, a alguns metros do Senhor, que criara o hábito irritante de brincar distraidamente com os fios enrolados que trazia ao peito.
  • Este vermelho, se eu lhe der um puxão, vai tudo pelos ares.

 

    • Os óculos escuros estavam virados para mim quando concluiu este pequeno aviso. Senti-me obrigado a dizer qualquer coisa.
  • Porque faria uma coisa dessas? - perguntei, ansioso por encetar um diálogo.
  • Eu não quero, mas porque não?

 

    • Fiquei admirado com a sua dicção - um ritmo lento e metódico, sem pressas, e em que cada sílaba era tratada de igual maneira. Naquele momento era um vagabundo, mas já conhecera melhores dias.
  • Porque havia de querer matar-nos? - perguntei.
  • Não vou discutir consigo - anunciou ele.Como sou advogado e vivo condicionado pelo tempo, olhei para o meu relógio para que o que quer que acontecesse ficasse devidamente registrado, se algum de nós conseguisse sobreviver. Era uma e vinte. O Senhor queria tranqüilidade e por isso tivemos de suportar um período de catorze minutos de silêncio que nos deixou com os nervos em franja.Ouvi vozes no átrio e sirenes lá fora; um rádio da polícia grasnou algures no corredor.

 

    • Eu não acreditava que fôssemos morrer. Aparentemente, não havia motivo, não havia razão para ele nos matar. Tinha a certeza de que nenhum de nós o conhecia. Lembrei-me da subida no elevador e do fato de me parecer que ele ia sem destino. Era apenas um louco em busca de reféns, que infelizmente teria feito com que as mortes parecessem quase normais, segundo os padrões atuais. Era precisamente o tipo de massacre sem sentido que preencheria os títulos dos jornais durante vinte e quatro horas e levaria as pessoas a abanar a cabeça. Depois, começariam as anedotas sobre os advogados mortos. Já estava a ver os títulos e a ouvir os repórteres, mas recusava-me a acreditar que tal acontecesse.
    • Não tenho mais perguntas a fazer, Meritíssimo.
  • O que comeu ao almoço? - perguntou-me o Senhor, quebrando o silêncio.

 

    • Demasiado surpreendido para pensar em mentir, hesitei por momentos e depois respondi:
  • Frango assado à César.
  • Sozinho?
  • Não, com um amigo.

 

    • Era um colega da faculdade de Direito, de Philly.
  • Quanto é que custou o almoço, para os dois?
  • Trinta dólares.

 

    • A resposta não lhe agradou.
  • Trinta dólares - repetiu. - Para duas pessoas.

 

    • Abanou a cabeça e depois olhou para os oito litigantes. Eu esperava que eles se preparassem para mentir, se ele os importunasse. Havia alguns estômagos exigentes no grupo, e trinta dólares não lhes satisfariam o apetite.
  • Sabe o que é que eu comi? - perguntou-me.
  • Não.
  • Comi sopa. Sopa e umas bolachas num abrigo. Sopa de graça, e foi uma sorte apanhá-la. Você podia dar de comer a cem dos meus amigos por trinta dólares, sabia?

 

    • Fiz um sinal afirmativo com um ar grave, como se de súbito me tivesse apercebido da gravidade do meu pecado.
  • Reúna todas as carteiras, o dinheiro, os relógios e as jóias - disse ele, fazendo de novo um gesto com a arma.
  • Posso perguntar porquê? - retorqui.
  • Não.

 

    • Pousei a carteira, o relógio e o dinheiro em cima da mesa e comecei a vasculhar nas algibeiras dos meus colegas reféns.
  • É para o meu próximo companheiro - disse o Senhor, e todos nós respiramos fundo.

 

    • Disse-me que pusesse o produto do saque numa pasta, que a fechasse à chave e que telefonasse outra vez ao patrão. Rudolph atendeu ao primeiro toque. Eu imaginava o chefe dos atiradores especiais acampado no seu gabinete.
  • Rudolph, sou eu, o Mike, outra vez. Estou no telefone mãos livres.
  • Sim, Mike. Você está bem?
  • Estou. Ouça, este senhor quer que eu abra a porta mais próxima da zona da recepção e ponha uma pasta preta no corredor. Depois fecho a porta à chave. Compreende?
  • Compreendo.Poucas coisas privam uma grande firma de advogados das alegrias da faturação à hora. O sono é uma delas, embora a maioria de nós durma pouco. Comer estimula a faturação, sobretudo ao almoço, quando é o cliente a pegar na conta. æ medida que os minutos se arrastavam, dava comigo a pensar como é que os outros quatrocentos advogados que se encontravam no edifício conseguiriam faturar enquanto esperavam que a crise dos reféns chegasse ao fim. Via-os no parque de estacionamento, quase todos sentados nos carros para se manterem quentes, a conversar pelos telefones celulares, a faturar a alguém. A firma não ficaria a perder, concluí.Por instantes, pareceu que o Senhor adormecera. O queixo descaiu-lhe e a respiração tornou-se mais pesada. Rafter disse qualquer coisa entredentes para me chamar a atenção e depois virou a cabeça para o lado, como que a sugerir que eu fizesse um movimento. O problema é que o Senhor tinha a arma na mão direita, e mesmo que estivesse de fato a dormir, agarrava firmemente o temível fio vermelho com a mão esquerda.

 

    • E Rafter queria que eu fosse o herói. Embora Rafter fosse o litigante mais perverso e mais eficiente da firma, ainda não era sócio. Não pertencia ao meu departamento, e não estávamos no Exército. Eu não aceitava ordens.
    • Alguns dos brutamontes que estavam lá em baixo não se importavam como é que isto iria acabar. O que queriam era despachar-se e ver-se livres da situação.
    • Com a arma encostada à nuca, abri a porta lentamente e atirei a pasta para o corredor. Não vi ninguém.
  • Quanto é que você fez o ano passado? - perguntou o Senhor, bem acordado e com uma voz clara. Fui de novo apanhado de surpresa.
  • Eu, hum, bem, deixe-me ver...
  • Não minta.
  • Cento e vinte mil.

 

    • O homem também não gostou deste número.
  • Quanto é que deu?
  • Quanto é que dei?
  • Sim. A obras de caridade.
  • Oh, não me lembro. A minha mulher é que trata das contas e dessas coisas. Os oito litigantes começaram a ficar inquietos.

 

    • O Senhor não gostou da minha resposta e não era pessoa que aceitasse uma negativa.
  • Quem é que preenche os impressos dos seus impostos?
  • Refere-se ao IRS?
  • Sim, isso mesmo.
  • É o nosso departamento fiscal, lá em baixo, no segundo andar.
  • Aqui neste edifício?
  • Sim.
  • Então arranjemos. Arranje-me os impressos de todos os que estão aqui.

 

    • Olhei para os meus colegas, e dois deles tiveram vontade de dizer Avança e dá-me um tiro.   Devo ter hesitado muito, porque o Senhor gritou, servindo-se da pistola:
  • Já !

 

    • Telefonei a Rudolph, que também hesitou, e por isso fui obrigado a gritar com ele.
  • Envie-os por fax para aqui - exigi. - Só os do ano passado.Recém-nomeado escriba do grupo, sentei-me onde o Senhor me ordenou, agitando a arma, e peguei nos faxes. Os meus colegas estavam de pé há quase duas horas, de costas para a parede, juntos, quase sem se conseguirem mexer, e começavam a deixar cair a cabeça e a ficar com um ar infeliz.

 

    • Mas o seu nível de desconforto iria aumentar consideravelmente.
    • Durante um quarto de hora, ficamos a olhar para o fax que estava ao canto da sala, com receio de que o Senhor nos executasse, se os impressos não chegassem depressa.
  • Você primeiro. Como se chama? - perguntou-me o homem.
  • Michael Brock - respondi, com delicadeza. - Muito prazer.
  • Quanto dinheiro é que ganhou no ano passado?
  • Já lhe disse. Cento e vinte mil. Antes de impostos.
  • Quanto é que deu?O Senhor aguardava pacientemente. De fato, a sua paciência começava a enervar-me. Imaginei os homens do Corpo de Intervenção a rastejarem pelas condutas de ar condicionado, a subir às árvores, a saltar os telhados dos prédios em volta, a estudar as plantas dos nossos gabinetes, a fazer tudo aquilo que vemos na televisão, com o objetivo de enfiar uma bala na cabeça do homem, que parecia esquecer-se de tudo isto. Aceitara o seu destino e estava pronto a morrer. O que não era verdade para nós.

 

    • Continuava a brincar com o fio vermelho, o que me acelerava demasiado o ritmo cardíaco.
    • Tinha a certeza de que podia mentir. Não era especialista em Direito Fiscal, mas esperava conseguir contornar as suas perguntas. Encontrei o meu impresso e levei um certo tempo a folheá-lo. A Claire ganhara trinta e um mil dólares como cirurgiã interna do segundo ano, portanto o nosso rendimento bruto parecia bastante confortável. Mas pagamos cinqüenta e três mil de impostos - imposto federal e uma quantidade espantosa de outros - e depois de liquidarmos os empréstimos contraídos para os estudos de Claire, dois mil e quatrocentos dólares por mês por um belo apartamento em Georgetown, dois automóveis último modelo com as hipotecas da praxe e uma profusão de outras despesas naturalmente ligadas a um estilo de vida confortável, tínhamos investido apenas vinte e dois mil em fundos de pensão.
  • Dei mil dólares a Yale - disse eu. - E dois mil à United Way local.
  • Quanto é que deu aos pobres?

 

    • Duvidava que o dinheiro enviado para Yale servisse para alimentar estudantes necessitados.
  • Bem, a United Way distribui o dinheiro pela cidade, e tenho a certeza de que uma parte foi para ajudar os pobres.
  • Quanto é que deu aos esfomeados?
  • Paguei cinqüenta e três mil dólares de impostos e um boa fatia deste dinheiro foi para a assistência, para a Medicaid e para as crianças dependentes, para coisas assim.
  • E fê-lo voluntariamente, com espírito de dádiva?
  • Não me queixei - respondi, mentindo, como a maioria dos meus compatriotas.
  • Já alguma vez teve fome?

 

    • O homem gostava de perguntas simples, e nem o meu humor nem o meu sarcasmo dariam bom resultado.
  • Não. Nunca - respondi.
  • Já alguma vez dormiu ao relento quando estava a nevar?
  • Não.
  • Você faz muito dinheiro, mas é tão ganancioso que nem me dá uns trocos quando estou no passeio. O homem acenou com a arma para os restantes.
  • Todos vocês. Passam mesmo ao pé de mim quando estou sentado a pedir. Gastam mais em cafezinhos do que eu em refeições. Porque não ajudam os pobres, os doentes e os sem abrigo? Têm tanto. Dei comigo a olhar para aqueles gananciosos ao lado do Senhor, e não gostei do que vi. A maior parte deles olhavam para os pés. Só Rafter é que olhou para debaixo da mesa, a pensar naquilo em que todos nós pensávamos quando passávamos pelos Senhores do distrito de Columbia: Se eu te der uns trocos,1) vais a correr comprar uma bebida alcoólica; 2) continuas a pedir; 3) nunca mais sais dessa vida.

 

    • Fez-se de novo silêncio. Aproximou-se um helicóptero e perguntei a mim próprio o que estariam eles a planear no parque de estacionamento. De acordo com as instruções do Senhor, os telefones estavam fora do descanso, portanto não havia comunicações. O homem não dava mostras de querer falar ou negociar com ninguém. Tinha o seu público na sala de reuniões.
  • Qual destes tipos é que faz mais dinheiro? - perguntou-me ele.

 

    • Malamud era o único sócio, e vasculhei nos papéis até encontrar o dele.
  • Devo ser eu - adiantou-se Malamud.
  • Como se chama?
  • Nate Malamud.

 

    • Examinei os proventos de Nate. Era uma ocasião rara para conhecer os pormenores íntimos do êxito de um sócio, mas não extraí qualquer prazer da situação.
  • Quanto? - perguntou-me o Senhor. Oh, as alegrias do código do IRS ! O que pretende, senhor? O bruto? O líquido? O coletável? O rendimento proveniente de salários? Ou de atividades comerciais e investimentos?Resolvi jogar pelo seguro. Havia muitos outros rendimentos disfarçados nos lucros - rendas, dividendos, uma pequena empresa - mas calculei que, se o Senhor os analisasse, conseguiria dar com os números.

 

    • O salário que Malamud recebia da firma era de cinqüenta mil dólares por mês, e o bônus anual, aquele com que todos sonhávamos, fora de quinhentos e dez mil. Fora um ano muito bom e todos o sabíamos. Ele era um dos muitos sócios que ganhara mais de um milhão de dólares.
  • Um milhão e cem mil dólares - respondi, deixando mais duzentos mil em cima da mesa. O homem ficou a olhar por instantes.
  • Você fez um milhão de dólares - disse ele a Malamud, que não se sentia nada envergonhado.
  • É verdade.
  • Quanto é que deu aos pobres e aos sem abrigo?
  • Não me lembro exatamente. A minha mulher e eu damos para muitas obras de caridade. Sei que houve um donativo, creio que foram cinco mil, para o Greater D. C. Fund que, como você deve saber, distribui dinheiro aos necessitados. Damos muito. E sentimo-nos felizes com isso.
  • Tenho a certeza que se sente muito feliz - replicou o Senhor, com a primeira nota de sarcasmo.Levei um certo tempo, e não sabia se havia de apressar-me ou de ser ponderado. Ele matar-nos-ia se os números não lhe agradassem? Talvez fosse preferível apressar-me. Era óbvio que nós, os ricos, tínhamos ganho muito dinheiro e dado pouco. Ao mesmo tempo, eu sabia que, quanto mais a situação se arrastasse, mais tresloucado seria o cenário do resgate.Levei o meu tempo. Malamud ajudou. A cobertura veio de Colburn, um advogado que pertencia à firma há três anos e que ganhara apenas oitenta e seis mil dólares brutos. Fiquei estarrecido ao saber que o meu colega Bany Nuzzo ganhara mais onze mil do que eu. Falaríamos disso mais tarde.

 

    • O homem não falara em executar um refém de hora a hora. Não queria que libertassem os seus companheiros da cadeia. Parecia não querer nada.
    • Não estava disposto a permitir que lhe explicássemos como éramos generosos na realidade. Pretendia apenas tomar conhecimento dos fatos importantes. Ordenou-me que fizesse uma lista com os nove nomes e que à frente de cada um escrevesse o rendimento do ano anterior e depois os donativos a instituições de caridade.
  • Em números redondos, isto dá três milhões de dólares - comuniquei eu ao Senhor, que parecia outra vez ter adormecido, mas sem tirar os dedos do fio vermelho.

 

    • O homem abanou a cabeça lentamente.
  • E quanto é que foi para os pobres?
  • O total das contribuições foi de cento e oitenta mil.
  • Não quero contribuições totais. Não metam a minha gente no mesmo saco da sinfonia, da sinagoga e de todos os vossos belos clubes de brancos onde se leiloam vinhos e autógrafos e se dão meia dúzia de dólares aos Escoteiros. Estou a falar de comida. Comida para gente com fome, que vive aqui, na mesma cidade em que vocês vivem. Comida para os bebês. Aqui mesmo. Aqui nesta cidade, enquanto todos vocês fazem milhões, nós temos bebês que choram toda a noite porque têm fome. Quanto é que foi para a comida?Não podia mentir.

 

    • Ele continuou:
    • Olhava para mim. E eu olhava para os papéis que tinha na frente.
  • Temos sopas dos pobres em toda a cidade, locais onde os pobres e os sem abrigo podem ir buscar qualquer coisa para comer. Quanto é que vocês deram para as sopas dos pobres? Deram algum?
  • Não diretamente - respondi. - Mas algumas dessas instituições de caridade...
  • Cale-se !

 

    • O homem voltou a agitar a maldita arma.
  • E quanto deram aos lares para os sem abrigo? Os sítios onde dormimos quando estão dez graus negativos lá fora? Quantos lares estão aqui nestes papéis?

 

    • Faltou-me o espírito inventivo.
  • Nenhum - respondi em voz baixa.

 

    • O homem levantou-se de um salto, assustando-nos, com os paus vermelhos visíveis debaixo do papel prateado. Deu um pontapé na cadeira, que caiu para trás.
  • E as clínicas? Temos aquelas pequenas clínicas onde os médicos
  • pessoas decentes que estavam habituadas a ganhar rios de dinheiro
  • vão e oferecem o seu tempo para ajudar os doentes. Não cobram nada. O governo costumava ajudar a pagar a renda e a comprar os medicamentos e outros produtos necessários. Agora é o Newt que está à frente do governo e todo esse dinheiro desapareceu. Quanto é que vocês dão para as clínicas?

 

    • Rafter olhou para mim como se eu devesse fazer algo, talvez descobrir de repente qualquer coisa nos papéis e dizer   Raios! Olhe para aqui! Demos meio milhão de dólares para as clínicas e para as sopas dos pobres. , Era exatamente o que Rafter faria. Mas não eu. Não queria levar um tiro. O Senhor era muito mais esperto do que parecia. Folheei os papéis enquanto o Senhor se encaminhou para as janelas e espreitou pelas persianas.
  • Há polícias por todo o lado - disse ele, suficientemente alto para que todos nós o ouvíssemos. - E muitas ambulâncias. Depois esqueceu o espetáculo lá em baixo e arrastou-se ao longo da mesa até se aproximar dos reféns. Estes observavam todos os seus movimentos, e estavam particularmente atentos aos explosivos. O homem levantou a arma lentamente e apontou-a ao nariz de Colburn, a menos de um metro de distância.
  • Quanto é que você deu para as clínicas?
  • Nada - respondeu Colburn, cerrando os olhos com força, quase a chorar. Fiquei gelado e sustive a respiração.
  • Quanto é que deu para as sopas dos pobres?
  • Nada.
  • Quando é que deu para os lares dos sem abrigo?
  • Nada.

 

    • Em vez de alvejar Colburn, o homem apontou para Nuzzo e repetiu as três perguntas. Nuzzo deu respostas idênticas, e o Senhor foi percorrendo a fila, apontando, fazendo as mesmas perguntas e obtendo as mesmas respostas. Não alvejou Rafter, para nosso desconsolo.
  • Três milhões de dólares e nem um cêntimo para os doentes e para os que têm fome. Vocês são uns miseráveis - disse, enojado. Sentimo-nos miseráveis. E eu percebi que ele não ia matar-nos.Ao anoitecer, o Senhor disse que estava com fome e ordenou-me que telefonasse ao patrão e mandasse vir sopa da Missão Metodista em L Street and Seventeenth, Northwest. Eles deitavam mais legumes no caldo, explicou o Senhor. E o pão não era tão seco como nas outras sopas dos pobres.

 

    • Como podia um vagabundo vulgar comprar dinamite? E quem o ensinara a fazer as ligações?
  • A sopa dos pobres faz entregas ao domicílio? - perguntou Rudolph, com uma voz incrédula, que ecoou pela sala através do telefone.
  • Faça o que lhe digo, Rudolph ! - gritei-lhe. - E peça sopa para dez pessoas.Vi os nossos amigos e um esquadrão de polícias a voar pela cidade, abrindo caminho por entre o trânsito da hora de ponta, na direção da pequena e tranqüila missão onde a gente da rua, esfarrapada, se acotovelava por uma tigela de caldo, sem perceber o que se passava. Dez rações prontas a sair, e uma dose extra de pão.Há uma hora que Umstead se remexia, o que muito incomodava Rafter e Malamud, que estavam atados a ele pelos pulsos. Por fim, não conseguiu agüentar mais.

 

    • O Senhor aproximou-se outra vez da janela quando voltamos a ouvir o helicóptero. Espreitou lá para fora, recuou, afagou a barba e ficou a pensar. Que tipo de invasão estariam eles a planear que envolvesse um helicóptero? Talvez fosse para evacuar os feridos.
    • O Senhor disse-me para desligar e eu voltei a colocar o telefone fora do descanso.
  • Senhor, desculpe, mas tenho de ir aos lavabos.

 

    • O Senhor continuou a afagar a barba.
  • Lavabos. O que são lavabos?
  • Preciso de urinar, senhor - disse Umstead, que parecia um adolescente. - Não agüento mais.

 

    • O Senhor olhou à volta da sala e reparou numa jarra de porcelana que se encontrava inocentemente em cima de uma mesa baixa. Agitando de novo a arma, ordenou-me que desatasse Umstead.
  • Os   lavabos   são ali - disse o Senhor.Em seguida, obrigou os outros sete reféns ligados uns aos outros a sentarem-se em cima da mesa, de costas para a parede. Ninguém se atreveu a perguntar porquê, mas eu percebi que ele pretendia um escudo para se defender dos atiradores especiais. Mais tarde, soube que a polícia tinha atiradores empoleirados num edifício ao lado. Talvez o Senhor os tivesse visto.

 

    • Depois de estar cinco horas de pé, Rafter e os outros sentiram-se aliviados. Umstead e eu recebemos ordens para nos sentarmos nas cadeiras e o Senhor sentou-se no extremo da mesa. Ficamos à espera. A vida nas ruas deve ensinar as pessoas a serem pacientes. O homem parecia satisfeito por se manter em silêncio durante longos períodos, com os olhos escondidos atrás dos óculos e a cabeça imóvel.
    • Umstead tirou as flores frescas da jarra e, de costas para nós, urinou durante muito tempo olhando fixamente para o chão. Quando acabou, o Senhor disse-nos que empurrássemos a mesa de reuniões para junto das janelas. A mesa tinha seis metros de comprimento e era de nogueira maciça, como quase todo o mobiliário da Drake & Sweeney. Comigo numa ponta e Umstead a resmungar na outra, conseguimos deslocá-la cerca de um metro e oitenta até que o Senhor nos ordenou que parássemos. Obrigou-me a atar Malamud a Rafter e deixou Umstead em liberdade. Nunca percebi porque o fez.
  • Quem despeja quem? - perguntou ele em surdina a ninguém em especial e, passados dois minutos, repetiu a frase.

 

    • Olhamos uns para os outros, confusos, sem perceber do que estava a falar. Parecia estar a olhar fixamente para uma mancha da mesa, junto do pé direito de Colburn.
  • Vocês não só ignoram os sem abrigo como os ajudam a pôr nas ruas.A nossa entrega ao domicílio chegou um pouco antes das sete horas. Ouviu-se uma pancada seca na porta. O Senhor disse-me que telefonasse para a polícia a avisar que mataria um de nós se visse ou ouvisse alguém lá fora. Expliquei isto a Rudolph com todo o cuidado, e sublinhei que não devia ser feita qualquer tentativa de resgate. Estávamos a negociar.Umstead encaminhou-se para a porta, abriu-a e olhou para o Senhor à espera de instruções. O homem estava atrás dele, com a arma a menos de trinta centímetros da sua cabeça.

 

    • Rudolph disse que compreendia.
    • Fizemos um sinal afirmativo, evidentemente, lendo todos pela mesma cartilha. Se ele queria ofender-nos verbalmente, estávamos dispostos a aceitar a situação.
  • Abra a porta muito devagar - disse o Senhor.Umstead deu um passo na direção do corredor, agarrou no carrinho e ia a puxá-lo para dentro da sala de reuniões quando o tiro estalou no ar. Um atirador isolado da polícia estava escondido atrás de uma credencial junto da secretária da senhora Devier, a doze metros de distância, e conseguiu o ângulo de que precisava. Quando Umstead se inclinou para pegar no carrinho, a cabeça do Senhor ficou exposta durante uma fração de segundo e o atirador rebentou-a. O Senhor caiu de costas, sem emitir um som, e o meu rosto ficou imediatamente coberto de sangue e de fluidos. Julguei que também tinha sido atingido e lembro-me de ter gritado de dor. Umstead berrava algures no corredor. Os outros sete desceram da mesa como cães acossados, aos gritos e procurando a custo aproximar-se da porta. Metade arrastava a outra metade. Eu ajoelhei-me, cerrei os olhos e esperei que a dinamite explodisse. Depois precipitei-me para a outra porta, afastando-me do perigo. Dei a volta à chave, abri-a e, pela última vez, vi o Senhor a contorcer-se em cima de um dos nossos caros tapetes orientais. Tinha as mãos soltas ao lado do corpo, longe do fio vermelho. De repente, o corredor encheu-se de elementos do Corpo de Intervenção, todos com capacetes de aspecto feroz e coletes grossos, dúzias deles agachados e com os braços estendidos. Eram uma mancha esbatida, a meus olhos. Pegaram em nós, atravessaram a zona da recepção e dirigiram-se para os elevadores.

 

    • Eu estava um pouco atrás dele quando a porta se abriu. A comida vinha num carrinho daqueles que os nossos funcionários usavam para transportar as enormes quantidades de papel que produzíamos. Vi quatro grandes contentores plásticos com sopa e um saco de papel pardo cheio de pão. Não sei se havia alguma coisa para beber. Nunca o soubemos.
  • Está ferido? - perguntaram-me.No primeiro andar, o mais longe possível do Senhor, as famílias e os amigos aguardavam. Havia dezenas de solicitadores e de colegas enfiados nos gabinetes e nos corredores à espera de que nos salvassem. Assim que nos viram, fizeram um grande alarido.No mesmo instante, vi-me rodeado de médicos, nenhum dos quais era a minha mulher. Assim que os convenci de que o sangue não era meu, descontraíram-se e fizeram-me um exame de rotina. A tensão arterial estava alta e o pulso desnorteado. Deram-me um comprimido. O que me apetecia mesmo era tomar uma ducha. Obrigaram-me a deitar em cima de uma mesa durante dez minutos, enquanto me vigiavam a tensão.

 

    • Como eu estava cheio de sangue, levaram-me para um pequeno ginásio na cave. Pertencia à nossa firma e era praticamente ignorado pelos advogados. Andávamos demasiado ocupados para fazer ginástica, e alguém que fosse apanhado sem estar a trabalhar decerto seria presenteado com mais trabalho.
    • Não sabia. Tinha sangue na cara e na camisa, e um líquido viscoso a que o médico chamou mais tarde líquido cerebrospinal.
  • Estou em estado de choque? - perguntei.
  • Talvez não.Vesti um fato de ginástica limpo que pertencia a outra pessoa muito maior do que eu. Voltei a deitar-me em cima da mesa para me medirem a tensão. Polly, a minha secretária, entrou e deu-me um grande abraço. Precisava muito dele. Polly tinha lágrimas nos olhos.

 

    • Sentia-me como tal. Onde estava Claire? Durante seis horas estivera sob a ameaça de uma arma, com a vida por um fio, e ela nem se incomodara a vir ao meu encontro como haviam feito as outras famílias. A ducha foi longo e quente. Lavei a cabeça três vezes com xampu concentrado e depois fiquei debaixo de água durante uma eternidade. O tempo parara. Nada mais interessava. Eu estava vivo, a respirar e a fumegar.
  • Onde está Claire? - perguntei.
  • Está de serviço. Já tentei falar para o hospital.

 

    • Polly sabia que não havia muito a esperar do nosso casamento.
  • Sente-se bem? - perguntou ela.
  • Acho que sim.

 

    • Agradeci aos médicos e saí do ginásio. Rudolph veio ao meu encontro no corredor e deu-me um abraço desajeitado. Pronunciou a palavra parabéns , como se eu tivesse conseguido alguma coisa.
  • Ninguém fica à espera de que você venha trabalhar amanhã - disse ele. Estaria a pensar que um dia de folga resolveria todos os meus problemas?
  • Nem pensei no dia de amanhã - respondi.
  • Você precisa de descansar - acrescentou ele, como se os médicos não tivessem pensado nisso.Com a carnificina reduzida ao mínimo e os bons da fita de pé e sorridentes, o alvoroço depressa se desvaneceu na Drake & Sweeney. A maioria dos advogados e do restante pessoal aguardara com nervosismo no primeiro andar, longe do Senhor e dos seus explosivos. Polly pegou no meu sobretudo e eu vesti-o por cima do fato de treino enorme. Os meus sapatos de pala tinham um aspecto estranho, mas não me importei.

 

    • Quis falar a Barry Nuzzo, mas os meus colegas reféns já tinham saído. Ninguém ficara ferido, apenas umas queimaduras nos pulsos provocadas pelas cordas.
  • Estão uns repórteres lá fora - avisou Polly.Mas eles não conseguiram a história, pois não? Os advogados fugiram, o mau da fita foi baleado e os explosivos não explodiram quando o dono caiu ao chão. Oh, o que poderia ter acontecido ! Um tiro, depois uma bomba, um lampejo de luz branca enquanto as janelas se estilhaçavam, braços e pernas a aterrarem na rua, tudo devidamente gravado pelo Channel Nine para a abertura do telejornal da noite.

 

    • Ah, sim, os órgãos de comunicação social. Mas que notícia! Não fora apenas um tiroteio igual a tantos outros, mas um grupo de advogados feitos reféns por um vagabundo tresloucado.
  • Vou levá-lo a casa - disse Polly. - Venha comigo.            Saímos no rés-do-chão por uma porta de serviço. A atmosfera da noite estava fria e cortante, mas inspirei a sua doçura até me doerem os pulmões. Enquanto Polly foi buscar o carro, escondi-me na esquina do edifício e observei o espetáculo que se desenrolava em frente. Havia carros da polícia, ambulâncias, carrinhas de televisão e até um carro dos bombeiros. Estavam a preparar-se para se ir embora. Uma das ambulâncias estava estacionada com a traseira virada para o edifício, sem dúvida à espera de levar o Senhor para a morte. Estou vivo! Estou vivo! Disse isto vezes sem conta, sorrindo pela primeira vez. Estou vivo!Os sons começaram a regressar. Quando nos sentamos em silêncio, com Polly ao volante, conduzindo devagar e à espera que eu dissesse qualquer coisa, ouvi o ruído dilacerante da arma do atirador. Depois, o estrondo no momento em que atingiu o alvo, e o estampido quando os outros reféns saltaram da mesa e saíram pela porta.

 

    • O que vira eu? Olhara para a mesa onde os sete observavam atenta-mente a porta, e depois para o Senhor, quando ele ergueu a arma e a apontou à cabeça de Umstead. Estava mesmo atrás dele quando foi atingido. O que impediu a bala de sair do seu corpo e de me atingir? As balas atravessam paredes, portas e pessoas.
    • Fechei os olhos com força e formulei uma prece de agradecimento, breve mas sincera.
    • Senti-me muito grato por alguém me dizer o que devia fazer. Os meus pensamentos eram lentos e confusos e sucediam-se uns aos outros, inconseqüentes e dispersos.
  • Ele não ia matar-nos - disse eu, numa voz quase inaudível.

 

    • Polly ficou aliviada ao ouvir a minha voz.
  • Então o que estava ele a fazer?
  • Não sei.
  • O que pretendia?
  • Nunca o disse. É espantoso que tenha dito tão pouco. Passamos horas sentados só a olhar uns para os outros.
  • Porque é que ele não falou com a polícia?
  • Quem sabe? Esse foi o seu maior erro. Se tivesse mantido os telefones a funcionar, eu podia ter convencido os agentes de que ele não tencionava matar-nos.
  • Não responsabiliza os polícias, pois não?
  • Não. Lembre-me para lhes escrever umas cartas.
  • Amanhã vai trabalhar?
  • O que havia eu de fazer amanhã?
  • Pensei que talvez precisasse ainda de um dia de férias.
  • Eu preciso é de um ano de férias. Um dia não serve de nada.Conheci Claire uma semana depois de me ter mudado para Columbia. Acabara de sair de Yale, com um belo emprego numa empresa próspera, e tinha um futuro brilhante à minha frente, tal como os outros cinqüenta novatos da minha turma. Ela estava a acabar o curso de Ciências Políticas na Universidade Americana. O avô fora em tempos governador de Rhode Island e a família há séculos que estava bem relacionada. A Drake & Sweeney, tal como a maior parte das grandes empresas, encara o primeiro ano como um tirocínio. Eu trabalhava quinze horas por dia e seis dias por semana, e aos domingos tinha com Claire o nosso encontro semanal. Nas noites de domingo, eu estava no escritório. Pensamos que, se nos casássemos, passaríamos mais tempo juntos. Pelo menos, podíamos partilhar a cama, mas a verdade é que nos limitávamos a dormir.Nos primeiros meses, Claire portou-se com esportivismo, mas começou a ficar cansada de ser posta de lado. Não a censurei, mas os jovens advogados não se queixam nos gabinetes sagrados da Drake & Sweeney. Menos de dez por cento de cada especialidade tornam-se sócios, portanto a competição é feroz. As recompensas são grandes, pelo menos um milhão de dólares por ano. Faturar horas é mais importante do que fazer uma mulher feliz. O divórcio é vulgar. Nem me passou pela cabeça pedir a Rudolph que me aliviasse a carga. No fim do nosso primeiro ano de vida em comum, Claire sentia-se muito infeliz e tínhamos começado a discutir.Quatro anos depois de ingressar na empresa, eles começavam a dar palpites sobre as hipóteses de virmos a ser sócios. Os palpites eram recolhidos e comparados entre muitos dos advogados mais recentes. Era consensual que eu reunia condições para vir a ser sócio. Mas tinha de trabalhar ainda mais.Quem me dera ter conduzido a minha vida de outra forma. A princípio estávamos apaixonados e deitamos tudo a perder.Depois de ter bebido dois vodkas, ouvi-a a abrir a porta. Ao entrar, chamou:

 

    • Ao entrar no apartamento às escuras, senti a falta de Claire pela primeira vez em vários anos. Quando somos confrontados com a morte, precisamos de falar nisso. Precisamos que sintam a nossa falta, que nos acariciem, que nos digam que se interessam por nós. Preparei um vodka com gelo e sentei-me no sofá da sala. Dei largas ao meu aborrecimento porque estava sozinho, mas depois os pensamentos voaram para as seis horas que passara com o Senhor.
    • Claire estava decidida a passar mais tempo fora de casa do que eu, e por isso resvalamos ambos para a estupidez do vício do trabalho. Deixamos de discutir e afastamo-nos pura e simplesmente. Ela tinha os seus amigos e interesses, e eu tinha os meus. Felizmente, não cometemos o erro de ter filhos.
    • Ela resolveu ir para Medicina. Cansada de estar sentada em casa a ver televisão, calculou que passaria a ter uma vida tão absorvente como eu. Considerei que se tratava de uma ótima idéia, que me aliviou de quase toda a minha culpa.
    • O casamento foi em grande, a lua-de-mel foi curta e, quando o fulgor esmoreceu, recomecei a trabalhar noventa horas por semana. Durante o terceiro mês da nossa união, passamos dezoito dias sem fazer amor. Ela contou-os.
    • O nosso apartamento ocupava o terceiro andar de um prédio em P Street, em Georgetown. Polly parou junto do passeio. Agradeci-lhe e saí, e ao ver as janelas às escuras percebi que Claire não estava em casa.
  • Michael!

 

    • Eu não disse nada porque ainda estava aborrecido. Ela entrou na sala e parou ao ver-me.
  • Estás bem? - perguntou, com uma preocupação sincera.
  • Estou - respondi em voz baixa.

 

    • Ela deixou cair a mala e o casaco, aproximou-se do sofá e inclinou-se para mim.
  • Onde estiveste? - perguntei.
  • No hospital.
  • Claro.

 

    • Bebi um bom trago.
  • Olha, eu tive um dia mau.
  • Eu sei tudo, Michael.
  • Sabes?
  • Claro que sei.
  • Então onde diabo estiveste?
  • No hospital.
  • Nove de nós foram feitos reféns durante seis horas por um louco.

 

    • Apareceram oito famílias, porque estavam preocupadas. Tivemos sorte e escapamos, e eu fui obrigado a aceitar uma boleia da minha secretária.
  • Não pude lá ir.
  • Claro que não pudeste. Que distração a minha.

 

    • Ela sentou-se numa cadeira ao lado do sofá. Olhamos fixamente um para o outro.
  • Eles obrigaram-nos a ficar no hospital - disse ela, num tom gélido. - Sabíamos da situação dos reféns e havia uma hipótese de se registRarem vítimas. Por norma, nestes casos, eles notificam os hospitais e todos são obrigados a manter-se no seu posto.

 

    • Bebi mais um trago, tentando lembrar-me de algo incisivo para dizer.
  • Não pude ir ter contigo ao escritório. Fiquei à espera no hospital
  • acrescentou ela.
  • Telefonaste?
  • Tentei. As linhas estavam sobrecarregadas. Por fim, consegui apanhar um polícia e ele desligou-me o telefone.
  • Isso foi há mais de duas horas. Onde estiveste?
  • Na sala de operações. Perdemos um rapazinho na operação.

 

    • Foi atropelado.
  • Lamento - disse eu.

 

    • Nunca percebi como é que os médicos eram capazes de lidar com tanta morte e tanta dor. O Senhor fora o segundo cadáver que eu vira.
  • Também eu - disse ela.

 

    • Foi à cozinha e trouxe um copo de vinho. Ficamos sentados na penumbra durante algum tempo. Mas não comunicamos, pois as palavras não saíam com facilidade.
  • Queres falar nisso? - perguntou ela.
  • Não. Agora, não.Silêncio era o que eu queria. Falaria no dia seguinte.

 

    • Os comprimidos surtiram efeito até às quatro horas da manhã, quando acordei com o cheiro intenso do fluido cerebral viscoso nas narinas. Por instantes, senti-me frenético, na escuridão. Esfreguei o nariz e os olhos e apalpei o sofá até sentir alguém mexer-se. Claire estava a dormir numa cadeira a meu lado.
    • E não. O álcool misturou-se com os comprimidos e comecei a ter dificuldade em respirar. Pensei no Senhor, na sua calma e na sua paz, apesar de agitar uma arma e trazer dinamite atada ao peito. Os longos períodos de silêncio deixavam-no imperturbável.
  • Já passou - disse ela baixinho, tocando-me no ombro. - Foi apenas um pesadelo.
  • Dás-me um copo de água? - pedi.Falamos durante uma hora. Contei-lhe tudo aquilo de que me lembrei acerca do que se passara. Ela sentou-se junto de mim, com uma mão no meu joelho e o copo de água na outra, a ouvir-me com toda a atenção. Tínhamos conversado tão pouco nos últimos anos!            Do nosso lado, não houve comentários e a história acabou. Seguiu-se o boletim meteorológico. Esperava-se um forte nevão para o fim da tarde. Era dia doze de Fevereiro e já havia registros de queda de neve.Prometi telefonar-lhe mais tarde, durante a manhã, e tentaríamos almoçar no hospital. Ela queria que eu não fosse trabalhar, pelo menos durante um dia ou dois.Cem perguntas ao mesmo tempo: Porque escolheu ele o nosso edifício? A nossa firma? Onde estivera antes de entrar no átrio? Onde estavam os guardas, que em geral se passeiam junto da fachada? Porquê eu? Centenas de advogados entravam e saíam durante todo o dia. Porquê o sexto andar?A sua pergunta,   Quem despeja quem?, , nunca teve resposta. Mas não faltaria muito tempo.Não se passara nada. A mesa de reuniões e as cadeiras estavam no seu lugar. O tapete oriental em que o Senhor morrera fora substituído por outro ainda mais belo. As paredes estavam cobertas por uma nova camada de tinta. Até o orifício que a bala fizera no teto, por cima do lugar de Rafter, desaparecera.Fora um disfarce a sangue-frio e percebi com tristeza o raciocínio que estava por trás dele. Eu era um dos brancos ricos. O que esperava? Um memorial? Um ramo de flores trazidos pelos companheiros de rua do Senhor?Todas as manhãs o The Wall Street Journal e o The Washington Post estavam em cima da minha secretária, precisamente no mesmo sítio. Dantes, sabia o nome da pessoa que os punha ali, mas há muito que o esquecera. Na primeira página da secção da Cidade do Post, por baixo do vinco, estava o mesmo retrato-robô de DeVon Hardy, e uma grande notícia sobre a pequena crise da véspera.Tal como vinha no Post, a história incidia mais em DeVon Hardy do que nas suas vítimas, mas, com toda a decência e para minha satisfação, ninguém da Drake & Sweeney pronunciara uma única palavra. Segundo um tal Mordecai Green, diretor da Legal Clinic na 14 “Street, DeVon Hardy trabalhara durante muitos anos como servente no National Arboretum. Perdera o emprego em conseqüência de um corte orçamental. Passara alguns meses na cadeia por assalto e depois aterrara nas ruas. Lutara com o álcool e as drogas e fora sistematicamente preso por assaltar estabelecimentos. A clínica de Green representara-o várias vezes. Se tinha família, o seu advogado nada sabia a esse respeito.Uma ação de despejo é um procedimento legal, levado a cabo por advogados. Entre os milhares de firmas existentes no distrito de Columbia, eu sabia muito bem qual fora a que pusera o Senhor na rua.Agora estamos reduzidos a dois; disse ele.Polly chegou um pouco antes das oito, com um grande sorriso e um prato de biscoitos caseiros. Não ficou admirada ao ver-me a trabalhar. Na realidade, os nove reféns compareceram todos, e a maioria chegou antes da hora. Teria sido um enorme sinal de fraqueza se ficassem em casa a ser paparicados pelas mulheres.

 

    • Não me admirei que o Jornal não fizesse referência à história. Se algum dos nove advogados da quinta maior firma do país tivesse sido morto ou ligeiramente ferido, a notícia viria na primeira página. Graças a Deus, a notícia não era maior. Eu estava sentado à secretária, a ler os jornais, num gabinete, com muito trabalho para fazer. Bem podia estar na morgue ao lado do Senhor.
    • A 14”’ Street Legal Clinic era subsidiada por uma instituição de caridade e trabalhava apenas com os sem abrigo, segundo Green. Dantes, quando recebíamos dinheiro federal, tínhamos sete advogados.
    • Quanto ao motivo, Green tinha pouco a propor. Disse que DeVon Hardy fora despejado há pouco tempo de um velho armazém no qual se abrigava.
    • Li-a à pressa, porque descobri que sabia mais pormenores do que qualquer repórter. Mas descobri algumas coisas. Os paus vermelhos não eram dinamite. O Senhor pegara em dois cabos de vassoura, serrara-os aos bocadinhos, envolvera-os no terrível papel prateado e assustara- nos mortalmente. A arma era uma pistola automática de calibre 44, roubada.
    • Não sabia o que esperava. Mas o cheiro a tinta fresca causou-me náuseas.
    • Quem mandava na Drake & Sweeney gastara algum dinheiro na noite anterior para garantir que o incidente não se registrara. A sala podia atrair alguns curiosos ao longo do dia, e assim não haveria nada para ver. Talvez o pessoal abandonasse o trabalho durante um ou dois minutos. Não podia haver vestígios do lixo da rua nos nossos escritórios imaculados.
    • O elevador parou e eu saí, desta vez sem ninguém atrás de mim. A senhora Devier ainda estava a dormir àquela hora, algures, e reinava o silêncio no sexto andar. Parei em frente da secretária dela e olhei para as duas portas da sala de reuniões. Abri lentamente a mais próxima, aquela em que Umstead se encontrava quando a bala lhe passou por cima da cabeça e foi atingir a do Senhor. Respirei fundo e acendi a luz.
    • E o que pretendia ele? Não acredito que o DeVon Hardy se desse ao trabalho de cobrir o corpo de explosivos e de ariscar a vida, por muito humilde que fosse, para castigar um grupo de advogados ricos pela sua falta de generosidade. Podia ter encontrado gente mais rica. E talvez mais gananciosa.
    • E o que faria eu? Deitava-me no sofá a tomar comprimidos? Concordamos que precisava de um dia de folga, após o qual eles esperavam que regressasse aos meus afazeres a todo o vapor. Dei os bons-dias aos dois guardas muito atentos que se encontravam no átrio. Três dos quatro elevadores estavam abertos, à espera, e fiz a minha escolha. Entrei no mesmo em que subira com o Senhor, e os pensamentos começaram a arrastar-se.
    • A Claire levou-me ao escritório, onde, às seis e quarenta e cinco, não me admirei de ver o meu Lexus estacionado junto de vários outros carros importados.
    • Ela tinha de fazer as rondas às sete, por isso preparamos o pequeno-almoço juntos: waffles e bacon. Comemos na bancada da cozinha, com um pequeno televisor à nossa frente. O noticiário das seis horas começou com o drama dos reféns. Viram-se imagens do edifício durante a crise, a multidão lá fora e alguns dos meus colegas cativos a saírem apressadamente quando tudo acabou. Pelo menos um dos helicópteros que ouvimos pertencia à estação que transmitia o noticiário, e a sua câmara fizera um zoom para captar uma imagem bem perto da janela. Através dela, viu-se o Senhor durante uns segundos, a espreitar. Chamava-se DeVon Hardy, tinha quarenta e cinco anos e era um veterano do Vietnam e com um pequeno cadastro. Um retrato-robô proveniente de uma detenção por assalto surgiu no ecrã, atrás do locutor do primeiro noticiário da manhã. Não se parecia nada com o Senhor - sem barba, sem óculos e muito mais novo. Foi apresentado como um sem abrigo, com uma história de consumo de drogas. Sem motivos conhecidos. Nenhum familiar se apresentou para o reclamar.
    • Ela dirigiu-se à cozinha.
  • Arthur está ao telefone - anunciou Polly.Arthur queria encontrar-se com os ex-reféns às onze horas, na sala de reuniões, para gravar as nossas declarações em vídeo.

 

    • A nossa firma tinha pelo menos dez Arthurs, mas só um andava pelos corredores sem necessidade de apelido. Arthur Jacobs era o sócio principal e o diretor-geral da firma, a força motriz, um homem que admirávamos e respeitávamos muito. Se a firma tinha um coração e uma alma, era Arthur. Em sete anos, falara com ele três vezes. Disse-lhe que me sentia bem. Ele felicitou-me pela minha coragem e elegância numa situação de pressão, e quase me senti um herói. Perguntei a mim próprio como é que ele sabia. Talvez já tivesse falado com Malamud e fosse descendo a pirâmide hierárquica. Assim é que começavam as histórias e depois as anedotas. Umstead e a jarra de porcelana decerto causariam a hilaridade.
  • Porquê? - perguntei.
  • Os tipos do Contencioso acham que é boa idéia - disse ele, com uma voz cortante, apesar dos seus oitenta anos. - É provável que a família do homem processe os polícias.
  • Evidentemente - disse eu.
  • E talvez eles nos escolham para os defendermos. As pessoas levantam processos por qualquer coisa, como sabe.Agradeci-lhe o seu cuidado e ele desligou, para telefonar ao refém seguinte.Não era a mesma coisa. O trabalho não era importante. A minha secretária não era uma questão de vida ou de morte. Eu vira a morte à minha frente, quase a sentira, e fora ingênuo ao ponto de pensar que podia simplesmente encolher os ombros e recostar-me na cadeira como se nada se tivesse passado.Arranquei. Era uma oportunidade rara de fazer algo estúpido. Estava traumatizado. Tinha de sair. Arthur e o resto da firma teriam de me desculpar.Virei e dirigi-me para nordeste, passei por Logan Circle e entrei nas zonas mais degradadas da cidade, até descobrir a 14 “ Street Legal Clinic. Parei junto do passeio, certo de que nunca mais voltaria a ver o meu Lexus.Era um escritório de advogados, sem dúvida, mas muito diferente do ambiente de mármore e mogno da Drake & Sweeney. Na grande sala que tinha à minha frente viam-se quatro secretárias metálicas, todas elas repletas de uma série sufocante de processos empilhados com trinta centímetros de altura. Havia mais processos ao acaso na carpete puída, à volta das secretárias. Os cestos dos papéis estavam cheios, e no chão viam-se bolas de papel amarrotado. Uma das paredes estava coberta de arquivadores de várias cores. Os computadores e os telefones tinham dez anos. As estantes de madeira estavam a ceder. Pendurada na parede, às três pancadas, via-se uma grande fotografia desbotada de Martin Luther King. A sala principal dava acesso a vários gabinetes mais pequenos.

 

    • O local poeirento denunciava um dinamismo que me fascinou. Uma mulher hispânica com um ar ameaçador parou de datilografar quando olhou para mim.
    • A clínica ocupava uma mansão vitoriana de três pisos, revestida de tijolos vermelhos, que já conhecera melhores dias. As janelas do último andar estavam pregadas com tábuas de contra placa do velho. Ao lado, havia uma lavanderia imunda. As lojas de crack não podiam ficar longe. A entrada estava coberta por um toldo amarelo vivo, e eu não sabia se havia de bater à porta ou de entrar. A porta não estava fechada à chave. Rodei o puxador e entrei noutro mundo.
    •             Dirigi-me para Georgetown, mas para nenhum sítio em especial. No céu viam-se nuvens sombrias; as pessoas seguiam pelos passeios, apressadas; as equipas de limpeza da neve preparavam-se. Passei por um pedinte em M Street e perguntei a mim próprio se ele conheceria DeVon Hardy. Para onde vão as pessoas da rua quando cai um nevão? Telefonei para o hospital e informaram-me que a minha mulher estaria nas urgências de cirurgia durante várias horas. Tanto pior para o nosso almoço romântico na cafetaria do hospital.
    • Pensei em DeVon Hardy e nos seus paus vermelhos com os fios multicores a sair por todo o lado. Ele passara horas a construir os seus brinquedos e a planear o seu assalto. Roubara uma arma, descobrira a nossa firma, cometera um erro crucial que lhe custara a vida, e ninguém, nem uma só pessoa com quem eu trabalhava, se importava com ele. Por fim, saí. O trânsito estava a piorar e eu estava a ser importunado por gente que não suportava. Telefonaram dois repórteres. Disse à Polly que tinha uns assuntos a tratar e ela lembrou-me a reunião com Arthur. Dirigi-me para o meu carro, liguei o motor e fiquei ali sentado durante muito tempo, a pensar se devia ou não participar na reconstituição. Se faltasse, Arthur ficaria aborrecido. Ninguém faltava a uma reunião com Arthur.
    • O cortejo começou antes das nove. Um fluxo firme de bem intencionados e de bisbilhoteiros que passavam pelo meu gabinete, muito preocupados comigo mas também desejosos de saber pormenores. Eu tinha muito trabalho para fazer, mas não conseguia pegar nele. Nos momentos tranqüilos entre as visitas, sentava-me a olhar para a pilha de processos que aguardavam a minha atenção, mas sentia-me inerte. As minhas mãos não se mexiam.
    • Ainda bem, ia eu a dizer. Onde estaríamos se não houvesse processos?
  • Procura alguém? - perguntou.Era Sofia Mendoza, de acordo com uma placa pregada ao lado da secretária, e pouco depois viria a saber que ela era mais do que uma recepcionista. Ouviu-se um grito forte vindo de um dos gabinetes laterais, que me sobressaltou, deixando Sofia imperturbável.

 

    • Era mais um desafio do que uma pergunta. Uma recepcionista da Drake & Sweeney seria despedida imediatamente se acolhesse alguém desta maneira.
  • Procuro Mordecai Green - respondi delicadamente, e no mesmo instante, na seqüência do grito, o homem saiu do seu gabinete e entrou de rompante na sala principal. O soalho estremeceu com os seus passos. Atravessou a sala a gritar por alguém chamado Abraham. Sofia fez-lhe sinal com a cabeça, depois ignorou-me e voltou ao seu trabalho. Green era um negro enorme, pelo menos com um metro e oitenta de altura, encorpado e bastante pesado. Tinha cinqüenta e tal anos, barba grisalha e usava óculos redondos com uma armação vermelha. Olhou para mim, não disse nada e gritou de novo por Abraham, enquanto se passeava de um lado para o outro, fazendo ranger o soalho. Desapareceu no interior de um gabinete e voltou pouco depois na companhia de Abraham.

 

    • Olhou de novo para mim e perguntou:
  • Em que posso ser-lhe útil?

 

    • Avancei e apresentei-me.
  • Muito prazer - disse ele, mas só porque era obrigado a isso.-O que deseja?
  • Falar de DeVon Hardy - respondi.Estendi-lhe o meu cartão gravado a ouro da Drake & Sweeney, que ele examinou com o sobrolho carregado. Em seguida, devolveu-me e perguntou:

 

    • Mirou-me durante alguns segundos e depois olhou para Sofia, que estava embrenhada no seu trabalho. Apontou para o gabinete e eu fui atrás dele. Entrei numa sala com nove metros quadrados, sem janelas, cujo soalho estava totalmente coberto de processos e de livros de Direito muito gastos.
  • Anda a visitar os pobrezinhos, não é verdade?
  • Não - respondi, pegando no cartão.
  • O que deseja?
  • Venho em paz. A bala de Mr. Hardy por pouco não me atingiu.
  • Estava na sala com ele?
  • Estava.Apontou para a única cadeira que havia do meu lado.

 

    • O homem respirou fundo e a crispação abandonou-lhe o rosto.
  • Sente-se. Mas olhe que pode sujar-se.

 

    • Sentamo-nos ambos. Os meus joelhos tocaram na secretária. Enfiei as mãos bem no fundo dos bolsos do sobretudo. Um radiador chocalhou atrás dele. Olhamos um para o outro. Era eu o visitante e tinha de dizer qualquer coisa. Mas foi ele o primeiro a falar.
  • Aposto que teve um dia difícil, hein? - perguntou com uma voz rouca, mais baixo e num tom quase de compaixão.
  • Não foi tão mau como o do Hardy. Vi o seu nome no jornal e por isso é que vim.
  • Não sei o que posso fazer.
  • Acha que a família vai mover algum processo? Se assim é, talvez seja melhor eu ir-me embora.
  • Não há família, e portanto não há processo. Eu podia fazer um certo barulho com isto. Imagino que o polícia que o alvejou seja branco, por isso podia extorquir alguns dólares à cidade e causar talvez um certo incômodo. Mas não é essa a minha concepção de divertimento. - Agitou a mão sobre a secretária. - Deus sabe que já tenho muito que fazer.
  • Nunca vi o polícia - disse eu, lembrando-me desse fato pela primeira vez.
  • Esqueça o processo. É por isso que está aqui?
  • Não sei por que estou aqui. Esta manhã, voltei para a minha secretária como se nada tivesse acontecido, mas não conseguia ordenar os pensamentos. Meti-me no carro, e aqui estou.

 

    • O homem abanou a cabeça lentamente, como se tentasse compreender a situação.
  • Quer um café?
  • Não, obrigado. O senhor conhecia muito bem Mr. Hardy.
  • Sim, o DeVon era uma presença habitual.
  • Onde está ele agora?
  • Talvez na morgue da cidade, na D. C. General.
  • Se não tem família, o que lhe vai acontecer?
  • A cidade sepulta os que não são reclamados. Nos livros chama-se um funeral dos pobres. Há um cemitério perto do Estádio RFK onde costumam reuni-los. Você ficaria admirado se soubesse a quantidade de pessoas que morrem sem que ninguém as reclame.
  • Não duvido.
  • De fato, ficaria admirado com todos os aspectos da vida dos sem abrigo.

 

    • Era uma estocada suave, mas não me apetecia discutir.
  • Sabe se ele tinha SIDA?

 

    • Atirou a cabeça para trás, olhou para o teto e ficou a pensar durante alguns segundos.
  • Porquê?
  • Eu estava atrás dele. Rebentaram-lhe a nuca e fiquei com a cara cheia de sangue. Mais nada.

 

    • Com estas palavras, deixei de ser um tipo mau para passar a ser um branco médio.
  • Não creio que tivesse SIDA.
  • Eles fazem-lhes análises quando morrem?
  • Aos sem abrigo?
  • Sim.
  • Sim, quase sempre. Mas o DeVon morreu de outra maneira.
  • Você pode averiguar?

 

    • Green encolheu os ombros e descontraiu-se um pouco mais.
  • Claro - respondeu com relutância, tirando uma caneta da algibeira. - É por isso que está aqui? Está preocupado com a SIDA?
  • Creio que esse é um dos motivos. Você não estaria?
  • Claro.Não reagiu à minha presença e Green não era pessoa para etiquetas.

 

    • Abraham entrou. Era um homem pequeno e frenético, com cerca de quarenta anos, com todo o aspecto de ser um censor oficioso. Judeu, de barba escura, óculos com armação de osso, casaco amarrotado, calças de caqui amarfanhadas, tênis sujos e a aura opressiva de quem tenta salvar o mundo.
  • Prevêem-se toneladas de neve - disse-lhe Green. - Precisamos de ter a certeza que todos os abrigos estão abertos.
  • Estou a tratar disso - ripostou Abraham, saindo abruptamente.
  • Sei que você está ocupado - disse eu.
  • Não pretende mais nada? Só uma análise ao sangue?
  • Sim, acho que sim. Sabe o que o levou a fazer aquilo?

 

    • Green tirou os óculos, limpou-os com um lenço de papel e depois esfregou os olhos.
  • Ele era um doente mental, como muita dessa gente. Passam anos na rua, ensopados em álcool, pedrados em crack, a dormir ao frio, maltratados pelos polícias e pelos punks, e dão em doidos. Além disso, ele tinha uma razão de queixa.
  • O despejo.
  • Exatamente. Há uns meses, mudou-se para um armazém abandonado na esquina da New York com a Florida. Alguém arranjou contraplacado, dividiu aquilo e fez pequenos apartamentos. Não era tão mau como os sítios que os sem abrigo costumam freqüentar - tinha um teto, umas casas de banho e água. Cem dólares por mês, pagos a um ex-chulo, que arranjou aquilo e afirmava que era o proprietário.
  • E era?
  • Creio que sim.

 

    • Green tirou um processo estreito de uma das pilhas que tinha em cima da secretária e, como por milagre, era precisamente o que ele queria. Por instantes, examinou o que estava lá dentro.
  • Aqui é que as coisas se complicam. No mês passado, a propriedade foi adquirida por uma empresa chamada RiverOaks, uma grande imobiliária.
  • E a RiverOaks despejou toda a gente?
  • Exatamente.
  • O problema, então, é que essa tal RiverOaks era representada pela minha firma.
  • Um grande problema, sim.
  • Porque é que a situação se complicou?
  • Ouvi dizer que eles não foram notificados antes do despejo. Eles argumentam que pagavam a renda ao chulo e, se assim é, eram mais do que simples ocupantes. Eram inquilinos, e portanto tinham direito ao respectivo processo.
  • Os ocupantes não são notificados?
  • Não. E isso está sempre a acontecer. As pessoas da rua mudam-
  • se para um prédio abandonado, e quase sempre não acontece nada.

 

    • Por isso, convencem-se de que ele lhes pertence. O proprietário, se lhe apetecer dar sinal de vida, pode despejá-los sem aviso prévio. Eles não têm quaisquer direitos.
  • Como é que o DeVon Hardy descobriu a nossa firma?
  • Quem sabe? Mas ele não era estúpido. Era louco, mas não era estúpido.
  • Você conhece o chulo?
  • Conheço. Não é de fiar.
  • Onde disse que fica o armazém?
  • Já não existe. Demoliram-no na semana passada.Mordecai Green era um homem afetuoso e interessado que trabalhava nas ruas, protegendo hordas de clientes sem nome. A sua concepção do Direito exigia mais energia do que alguma vez eu conseguira reunir.Vagueei pela cidade enquanto a neve caía. Já não me lembrava há quanto tempo atravessara as ruas de Columbia sem ir atrasado para uma reunião. Sentia-me quente e seco no meu pesado automóvel de luxo e deixei-me levar pelo trânsito. Não tinha para onde ir. O escritório estava fora de questão por uns tempos. Arthur estava furioso comigo e eu teria de aturar dezenas de pessoas que passavam pelo meu gabinete e começavam todas a conversa com a pergunta fingida:   Como é que está?

 

    • O meu telemóvel tocou. Era Polly, em pânico.
    • Ao sair, ignorei Sofia, talvez porque ela também me ignorara. O meu Lexus ainda estava estacionado junto do passeio, já coberto por uma pequena camada de neve.
    • Eu já lhe tinha tomado muito tempo. Green olhou para o relógio e eu olhei para o meu. Trocamos números de telefone e prometi manter-me em contacto com ele.
  • Onde está?
  • Quem quer saber?
  • Muita gente. O Arthur, para começar. Telefonou outro repórter.

 

    • Alguns clientes precisam de trocar impressões consigo. E a Claire telefonou do hospital.
  • O que é que ela quer?
  • Está preocupada, como toda a gente.
  • Eu estou bem, Polly. Diga a toda a gente que fui ao médico.
  • E foi?
  • Não, mas podia ter ido. O que disse o Arthur?
  • Ele não telefonou. Foi o Rudolph. Estão à sua espera.
  • Deixe-os esperar.

 

    • Fez-se uma pausa. Depois, Polly respondeu, devagar:
  • Está bem. Quando é que tenciona aparecer?
  • Não sei. Talvez quando o médico me deixar. Porque não vai para casa? Estamos no meio de uma tempestade. Telefono-lhe amanhã. Desliguei.Por isso continuei a guiar. Deixei-me ir com o trânsito, enquanto os utentes dos transportes públicos iniciavam uma retirada à pressa para as zonas suburbanas de Maryland e Virginia e eu me deslocava nas ruas quase desertas, de regresso à cidade. Descobri o cemitério perto do Estádio RFK, onde os cadáveres não reclamados eram sepultados, e passei pela Missão Metodista em 17’ Street, donde viera o jantar da véspera que ficara por comer. Atravessei zonas da cidade onde nunca estivera e que talvez nunca mais voltasse a ver.É claro que nem um nevão podia obrigar a Drake & Sweeney a fechar. Conhecia advogados que adoravam a madrugada e os domingos porque os telefones não tocavam. Um nevão era um intervalo delicioso no trabalho exaustivo das reuniões intermináveis e dos telefonemas. Um dos guardas que se encontrava no átrio informou-me que as secretárias e a maior parte do pessoal tinham sido mandados para casa às três horas. Entrei outra vez no elevador do Senhor.A RiverOaks era uma empresa de Delaware, constituída em 1977, com sede em Hagerstown, Maryland. Era uma empresa privada e portanto as informações financeiras disponíveis eram escassas. O advogado era N. Braden Chance, um nome que eu não conhecia.Com oitocentos advogados a ameaçar e a processar diariamente, a nossa firma tinha mais de trinta e seis mil processos ativos. Para garantir que o nosso escritório de Nova lorque não processaria um dos nossos clientes de Chicago, todos os novos processos eram imediata-Havia quarenta e dois processos só para a RiverOaks, quase todos relativos a compras de propriedades efetuadas pela empresa. Chance era o advogado cujo nome figurava em todos. Quatro diziam respeito a ações de despejo, três das quais se tinham registrado no ano anterior. A primeira fase da busca fora fácil.Tomei nota do nome e do número do processo e fui ao quarto andar. Ninguém ingressava numa grande firma com o objetivo de vir a ser advogado de Bens Imobiliários. Havia arenas muito mais fulgurantes nas quais se podiam construir reputações. O Contencioso era sempre o favorito e os litigantes continuavam a ser os advogados mais venerados, pelo menos na firma. Alguns dos sectores ligados ao Direito Empresarial atraíam os maiores talentos - as fusões e aquisições continuavam a ser uma área quente e as fianças eram preferidas de há muito. O meu sector, Direito da Concorrência, era muito respeitado. O Direito Fiscal era terrivelmente complexo, mas os seus especialistas eram muito admirados. As relações com o governo (grupos de pressão) eram repugnantes, mas tão bem pagas que todas as empresas da zona tinham batalhões de advogados a preparar o terreno.Na Drake & Sweeney, todos os advogados guardavam as pastas dos processos em curso nos seus gabinetes, muitas vezes fechadas à chave. Só aqueles que já estavam concluídos se encontravam acessíveis ao resto da firma. Nenhum advogado podia ser obrigado a mostrar o processo a outro, a menos que tal lhe fosse pedido por um sócio sênior ou por um membro da comissão executiva da firma.Avistei um solicitador a examinar documentos numa secretária próxima de um pólo de secretariado e perguntei-lhe onde ficava o gabinete de Braden Chance. Ele apontou para uma porta aberta do outro lado do corredor.Não me convidou a sentar. Mas eu sentei-me, o que não contribuiu para melhorar a sua disposição.

 

    • Fiquei admirado ao ver Chance sentado à secretária, com um ar muito atarefado. Mostrou-se perturbado com a minha intrusão, e tinha motivos para tal. Mandava a etiqueta que eu tivesse telefonado antes a marcar uma reunião, mas eu não estava preocupado com a etiqueta.
    • O dossiê do processo de despejo que eu pretendia consultar ainda estava em curso e, depois do episódio com o Senhor, tinha a certeza de que estava bem protegido.
    • Mas ninguém se preparava para ser um advogado especializado em bens imobiliários. Eu não sabia como é que tal acontecia. Eles fechavam--se em si próprios, sem dúvida a ler belos textos sobre hipotecas, e eram tratados como advogados de segunda pelo resto da firma.
    • Em 31 de Janeiro, a RiverOaks comprou uma propriedade na Florida Avenue. O vendedor foi a TAG, Inc. Em 4 de Fevereiro, o nosso cliente despejou vários intrusos de um armazém abandonado existente na propriedade, um dos quais, sabia-o agora, era o Senhor DeVon Hardy, que aceitou mal o despejo e perseguiu os advogados.
    • mente inseridos na nossa base de dados. Todos os advogados, secretárias e solicitadores da Drake & Sweeney tinham um computador pessoal, e, por conseguinte, acesso instantâneo às informações de caráter geral sobre os processos. Se um dos nossos advogados de Direito Sucessório de Palm Beach acompanhasse o caso ligado à propriedade de um cliente rico, eu poderia, se me apetecesse, premir algumas teclas e saber os fundamentos da nossa representação.
    • Procurei-o na nossa vasta base de dados. Chance era sócio no nosso departamento de Bens Imobiliários, algures no quarto andar. Tinha quarenta e quatro anos, era casado, freqüentara a faculdade de Direito de Duke e licenciara-se em Gettysburg. Era um currículo impressionante mas totalmente previsível.
    • Em cima da minha secretária havia uma dúzia de mensagens telefônicas cor-de-rosa, impecavelmente alinhadas, mas nenhuma me interessava. Aproximei-me do computador e comecei a procurar a nossa lista de clientes.
    • Por volta das quatro horas, a cidade estava deserta. O céu escurecia e nevava com muita intensidade. Uma camada de vários centímetros cobria já o chão, e previa-se muito mais.
    • Era raro ver a minha casa à luz do dia, e não suportava a idéia de ir sentar-me à lareira a ver nevar. Se fosse a um bar, talvez nunca mais de lá saísse.
  • Você foi um dos reféns - disse ele, irritado, quando estabeleceu a ligação.
  • É verdade.
  • Deve ter sido horrível.
  • Já acabou. O tipo da pistola, o defunto Mr. Hardy, foi despejado de um armazém no dia 4 de Fevereiro. O processo era seu?
  • Era - respondeu ele de chofre. Como estava na defensiva, calculei que o processo tivesse sido analisado durante o dia. Talvez o tivesse revisto cuidadosamente com Arthur e os outros grandes da firma. - O que há?
  • Ele era um intruso?
  • Claro que era. Todos eles são intrusos. O nosso cliente está a tentar limpar aquela imundície.
  • Tem a certeza de que ele era um intruso?

 

    • O homem deixou descair o queixo e os seus olhos vermelhos. Depois, ganhou fôlego e perguntou:
  • O que procura?
  • Posso consultar o dossiê?
  • Não. Não é da sua conta.
  • Talvez seja.
  • Quem é o seu chefe?

 

    • Chance puxou da caneta como que para tomar nota do nome da pessoa que me iria repreender.
  • Rudolph Mayes.

 

    • Tomou nota do nome em traços largos.
  • Estou muito ocupado - disse ele. - Não se importa de sair?
  • Porque é que não posso consultar o dossiê?
  • Porque ele é meu, e eu disse que não. E depois?
  • Talvez isso não seja suficiente.
  • É suficiente para si. Porque não se vai embora?O solicitador ouviu tudo e trocamos um olhar espantado quando passei pela sua secretária.

 

    • Chance levantou-se e apontou para a porta, com a mão a tremer Eu sorri-lhe e saí.
  • Mas que idiota - disse ele muito baixinho, quase a mastigar as palavras.O desafio consistia em descobri-lo.Eu estava cansado destes jogos. Apostava que ela ficara satisfeita pelo fato de o meu contacto com a morte ter produzido ondas de choque, por eu ter saído do escritório para vaguear pelas ruas. Não havia dúvida de que o dia dela fora mais produtivo do que o meu. O seu objetivo era vir a ser a maior neurocirurgiã do país, uma especialista para a qual até os homens se virassem quando tivessem perdido todas as esperanças. Era uma estudante brilhante, muito determinada e dotada de uma enorme energia. Havia de enterrar os homens, tal como estava a enterrar-me lentamente, a mim, um maratonista dos corredores da Drake & Sweeney. A corrida já era velha. Conduzia um carro desportivo, um Miata, e eu preocupava-me com ela quando estava mau tempo. Estaria livre daí a uma hora, o tempo que eu levaria a chegar ao Hospital de Georgetown. Iria buscá-la e depois tentaríamos encontrar um restaurante. Caso contrário, levaríamos comida chinesa para casa, como de costume.Esperavam que eu faturasse duas mil e quinhentas horas por ano. A minha taxa média de faturação era trezentos dólares por hora, portanto eu dava a ganhar à minha querida firma um total de setecentos e cinqüenta mil dólares brutos. Desta quantia, pagavam-me cento e vinte mil, mais trinta mil de regalias adicionais, e reservavam duzentos mil para encargos. Os sócios ficavam com o resto, que era dividido anualmente segundo uma fórmula terrivelmente complexa que em geral era motivo de discussão.Estava a escrevinhar estes números, como fazia constantemente e desconfiava que todos os advogados da nossa firma faziam, quando o telefone tocou. Era Mordecai Green.

 

    • Era raro um dos nossos sócios ganhar menos de um milhão por ano, e alguns recebiam mais de dois. E assim que eu me tornasse sócio, sê-lo-ia para o resto da vida. Por isso, se eu fosse sócio aos trinta e dois anos - e caminhava rapidamente para isso - poderia contar com trinta anos de ganhos fabulosos e uma enorme fortuna. Era este o sonho que nos mantinha sentados à secretária de dia e de noite.
    • Comecei a arrumar os papéis e os objetos que tinha na secretária, tendo o cuidado de ignorar a fila dos meus dez processos em curso mais importantes. Mantinha apenas dez em cima da secretária, um hábito que aprendera com Rudolph, e cada dia me dedicava a um. Faturar era essencial. Os dez mais importantes incluíam invariavelmente os clientes mais ricos, independentemente da urgência dos seus problemas legais. Outro truque de Rudolph.
    • Com todos os telefones celulares que eu e a Claire tínhamos - no bolso, na mala, no carro, já para não falar nos dois pagers - deveria ser simples comunicarmos. Mas nada era simples no nosso casamento. Conseguimos falar-nos por volta das nove horas. Ela estava exausta por mais um dos seus dias, que eram inevitavelmente mais cansativos do qualquer coisa que eu pudesse ter feito. Era um jogo vergonhoso aquele em que participávamos - o meu trabalho é mais importante porque eu sou médica, ou advogado.
    • Sorri de novo e fiz um gesto de assentimento. Um idiota e um estúpido. Se Chance se tivesse mostrado simpático e me tivesse explicado que Arthur ou outro chefe qualquer tinham mandado que o dossiê fosse selado, eu não teria desconfiado. Mas era óbvio que havia qualquer coisa lá dentro.
  • Mr. Brock - disse ele delicadamente, com uma voz bem audível que sobressaía de um ruído de fundo.
  • Sim. Por favor, trate-me por Michael.
  • Muito bem. Ouça, fiz uns telefonemas e você não tem razões para se preocupar. A análise ao sangue foi negativa.
  • Obrigado.
  • Não tem de quê.
  • Calculei que gostasse de saber o mais depressa possível.
  • Obrigado - repeti, ao mesmo tempo que o burburinho subia de tom atrás dele. - Onde está?
  • Num lar dos sem abrigo. Um nevão obriga-os a vir para aqui à pressa e temos dificuldade em alimentá-los ao mesmo tempo, por isso é necessária a ajuda de todos. Tenho de ir.Ali, no ambiente quente e confortável do meu belo gabinete, pensei em Mordecai Green, que naquele momento estava a ocupar voluntariamente o seu tempo num lar a transbordar de gente, a servir comida aos que tinham frio e fome, sem dúvida com um sorriso afetuoso e uma palavra agradável.Olhei para as garatujas que fizera no bloco - os ganhos e os anos que faltavam para ser rico - e senti-me desgostoso. Que espalhafatosa e despudorada ganância!

 

    • O telefone sobressaltou-me. Deixara finalmente de nevar. Claire e eu bebemos o café.
    • Ambos tínhamos o curso de Direito, ambos tínhamos passado no mesmo exame final, ambos éramos fluentes em leis. Até certo ponto éramos semelhantes. Eu ajudava os meus clientes a engolirem os concorrentes para acrescentarem mais zeros à última parcela, e graças a isto seria rico. Ele ajudava os clientes a comer e a descobrir uma cama quente.
    • A secretária era de mogno antigo, a carpete era persa, as cadeiras eram de um belo couro vermelho, a tecnologia era de ponta. Ao examinar o meu gabinete tão bem apetrechado, perguntei a mim próprio, pela primeira vez em muitos anos, quanto custara tudo aquilo. Não estaríamos apenas a desperdiçar dinheiro? Porque trabalhávamos tanto? Para comprar uma carpete mais cara? Uma secretária mais antiga?
  • Porque é que ainda estás no escritório? - perguntou Claire, janela da cozinha. Eu lia o jornal à luz de um glorioso sol matinal. Tinham falando lentamente, porque cada uma das suas palavras estava coberta conseguido manter aberto o Aeroporto Nacional.Incrédulo, olhei para o relógio. Ela deitou-me um olhar desmoralizador.

 

    • - Vamos para a Florida. Agora - disse eu.
  • Eu... Bem, telefonou-me um cliente da West Coast. Lá não está - Para a Florida? a nevar. - Está bem, para as Bahamas. Podemos lá chegar ao princípio da Creio que não era a primeira vez que eu recorria a esta mentira. tarde. Não tinha importância. - Não pode ser.
  • Estou à espera, Michael. Queres que eu vá a pé - Claro que pode. Não vou trabalhar durante uns dias e...
  • Não. Vou já para aí. - Porquê?- Tu estás a rebentar pelas costuras com a firma, é melhor tirarmos uns dias de férias. Saí do edifício a correr, ao encontro da tempestade, sem me   preocupar muito com o fato de me aguardar mais uma noite estragada.  

 

    • Já a fizera esperar noutras ocasiões. Fazia parte do jogo - éramos - Porque estou a rebentar pelas costuras, e quando estamos a pessoas demasiado ocupadas para estarmos prontas a horas.
  • Eu sei. Tem piada, realmente. Dão-nos espaço, tratam-nos bem. fazem-nos tudo o que podem para nos agradar. Também tiram disso o máximo partido.

 

    • A crispação voltou ao rosto de Claire, que disse:
  • Não posso.Claire andava sempre à pressa. Eram as marcações, as aulas, as rondas, enfim, a vida de uma cirurgiã interna jovem e ambiciosa. Tomou uma ducha, mudou de roupa e aprontou-se. Levei-a ao hospital.

 

    • Não conversamos enquanto atravessávamos as ruas cheias de neve.
    • E foi o fim. Fora um capricho, e eu sabia que ela tinha muitas obrigações. Fora uma crueldade, concluí, retomando a leitura do jornal, e mas não me senti mal com isso. Ela não teria ido fossem quais fossem as circunstâncias.
  • Vou passar uns dias a Memphis - disse-lhe, com um ar natural, quando chegamos à entrada do hospital em Reservoir Street.
  • Sim? - disse ela, sem reagir.
  • Preciso de ir ver os meus pais. Já se passou quase um ano.

 

    • Calculo que esta seja uma boa altura. Não me dou bem com a neve e não me apetece trabalhar. Estou a rebentar pelas costuras, sabes?
  • Bem, telefona-me - disse ela, abrindo a porta.Era o fim. E eu detestava falar disso à minha mãe.Eram pessoas sólidas, conservadoras, patriotas, sem maus hábitos e ferozmente dedicadas uma à outra. Iam à igreja aos domingos, ao cortejo do dia 4 de Julho e ao Rotary Club uma vez por semana, e viajavam sempre que podiam.Aluguei um carro no aeroporto de Memphis e dirige-me para leste, para os subúrbios em contínua expansão em que viviam os brancos. Os negros tinham a cidade; os brancos, os subúrbios. æs vezes, os negros mudavam-se para os arredores e os brancos mudavam-se para mais longe. Memphis crescia para leste e as raças afastavam-se.Mas não exprimia as minhas opiniões.

 

    • Telefonei do aeroporto e a minha mãe estava à minha espera, muito satisfeita. O meu pai estava algures nas traseiras.
    • Os meus pais viviam num campo de golfe, numa nova casa envidraçada concebida de modo que todas as janelas desse para um relvado. Eu detestava a casa porque o relvado estava sempre cheio de gente.
    • Continuavam a lamentar o divórcio do meu irmão Warner, três anos antes. Warner era advogado em Atlanta e casara com a namorada da faculdade, uma rapariga de Memphis cuja família nós conhecíamos. Depois de nascerem dois filhos, o casamento terminou. A mulher conseguiu a custódia dos filhos e mudou-se para Portland. Os meus pais conseguiam ver os netos uma vez por ano, se tudo corresse bem. Era um assunto que eu nunca abordava.
    • Os meus pais tinham sessenta e poucos anos, eram ambos saudáveis e tentavam gozar alegremente a sua reforma forçada. O meu pai fora piloto durante trinta anos, e a minha mãe fora gerente bancária. Trabalharam muito, pouparam bem e construíram para nós um lar confortável da classe média-alta. Os meus dois irmãos e eu freqüentamos os melhores colégios particulares que havia.
    • Depois fechou-a, sem um beijo, sem uma despedida, sem um sinal de preocupação. Vi-a descer o passeio à pressa e desaparecer no interior do edifício.
  • Estás com um ar cansado - disse ela depois de me dar um abraço e um beijo. Era o seu cumprimento habitual.
  • Obrigado, mãe. Está com ótimo aspecto.Ela foi buscar chá gelado, que bebemos no pátio, onde víamos os outros reformados a descer o relvado nos seus carrinhos de golfe.

 

    • E era verdade. Elegante e bronzeada graças ao tênis diário e ao regime de banhos de sol.
  • O que há? - perguntou ela, pouco depois, antes de eu beber o primeiro golo.
  • Nada. Estou bem.
  • Onde está a Claire? Vocês nunca nos telefonam. Já não ouço a tua voz há dois meses.
  • A Claire está bem, mãe. Estamos ambos vivos e sãos e trabalhamos muito.
  • E passam bastante tempo juntos?
  • Não.
  • E passam algum?
  • Não muito.

 

    • Ela franziu o sobrolho e revirou os olhos nas órbitas, com uma preocupação maternal.
  • Estão com problemas? - perguntou, passando ao ataque.
  • Estamos.
  • Eu sabia. Eu sabia. Percebi pela tua voz ao telefone que algo não estava bem. Com certeza que não estás também a pensar num divórcio. Já tentaste um conselheiro matrimonial?
  • Não. Mais devagar.
  • Então, porque não tentas? Ela é uma pessoa maravilhosa, Michael. Dêem ao casamento tudo o que tiverem.
  • Estamos a tentar, mãe. Mas é difícil.
  • São casos amorosos? Drogas? álcool? Jogo? Alguma das coisas más?
  • Não. Apenas duas pessoas que seguem caminhos diferentes. Eu trabalho oitenta horas por semana. E ela trabalha outras oitenta.
  • Então abrandem o ritmo. O dinheiro não é tudo.

 

    • A voz fraquejou-lhe um pouco, e reparei que tinha os olhos úmidos.
  • Lamento, mãe. Pelo menos não temos filhos.Eu não pretendia compaixão. Para encaminhar a conversa para temas mais interessantes, contei-lhe a história do Senhor e, para não a afligir, subestimei o perigo em que me encontrara. Se a notícia tinha vindo no jornal de Memphis, os meus pais não a tinham lido.

 

    • Ela mordeu o lábio e tentou mostrar-se forte, mas estava a morrer por dentro. E eu sabia exatamente o que ela estava a pensar: dois em baixo, um a andar. Ela encararia o meu divórcio como um fracasso pessoal, tal como acontecera com o do meu irmão. Havia de arranjar uma maneira de se acusar a si própria.
  • Sentes-te bem? - perguntou ela, horrorizada.
  • Claro que sinto. A bala não me atingiu. Estou aqui.
  • Oh, graças a Deus. O que eu queria saber é se te sentes emocionalmente bem.
  • Sinto, mãe, estou inteiro. Sem fraturas. A firma quis que eu tirasse dois dias de férias, por isso vim até cá.
  • Pobrezinho. A Claire, e agora isto.
  • Estou bem. Esta noite houve um grande nevão e foi uma boa altura para sair.
  • A Claire está em segurança?
  • Tanto como qualquer pessoa em Washington. Vive no hospital, que é talvez o melhor local para se estar naquela cidade.
  • Preocupo-me tanto contigo. Vejo as estatísticas da criminalidade, sabes? É uma cidade muito perigosa.
  • Quase tão perigosa como Memphis.A minha mãe afastou-se para ir buscar mais chá e enxugar os olhos.Nessa mesma tarde, eu e o meu pai fizemos nove buracos. Ele jogou; eu bebi cerveja e guiei o carrinho. O golfe ainda não conseguira exercer em mim a sua magia. Duas falhas e fiquei pronto a falar. Ao almoço, repeti a história do Senhor, pelo que ele percebeu que eu viera descansar só por dois dias, para me recompor antes de regressar à arena.

 

    • Não sei qual dos meus pais é que se preocupou mais com a minha visita. A minha mãe queria famílias fortes com muitos netos. O meu pai queria que os filhos subissem depressa a escada da vida e fruíssem as recompensas do sucesso alcançado a pulso.
    • Vimos uma bola a aterrar perto do pátio e esperamos que o dono aparecesse. Uma senhora gorda saiu de um carrinho de golfe, debruçou-se sobre a bola por instantes e depois deu-lhe um pontapé com toda a força.
  • Estou a ficar cansado das grandes empresas, pai - disse quando nos sentamos junto do terceiro suporte para a bola, à espera que o seguinte estivesse disponível. Estava nervoso e o meu nervosismo irritou-me. Era a minha vida, não a dele.
  • O que quer isso dizer?
  • Quer dizer que estou cansado do que estou a fazer.
  • Vê se cais na realidade. Julgas que uma pessoa que trabalha com um berbequim numa fábrica não se cansa do que faz? Pelo menos tu estás a enriquecer.

 

    • Concluiu então o primeiro round, quase por knockout. Dois buracos mais adiante, quando atravessávamos o campo à procura da bola, ele disse:
  • Tencionas mudar de emprego?
  • Estou a pensar nisso.
  • Para onde vais?
  • Não sei. Ainda é cedo. Ainda não ando à procura de outra coisa.
  • Então como é que sabes que há melhor, se não tens procurado?Levei o carrinho pelo estreito trilho pavimentado enquanto ele seguia a pé pela relva, atrás do seu lance, e perguntei a mim próprio porque é que aquele homem de cabelo grisalho me assustava tanto. Estimulara todos os seus filhos a definirem objetivos, trabalharem muito, lutarem para serem super-homens, tudo no sentido de ganharem muito dinheiro e viverem o sonho americano. E pagara-nos tudo o que era preciso. Tal como os meus irmãos, eu não nascera com uma consciência social. Fazíamos donativos à igreja porque a Bíblia nos aconselhava fortemente a fazê-lo. Pagávamos impostos porque a lei nos obrigava. Sem dúvida que algures no meio destas dádivas algum bem seria feito, e nós contribuíamos para isso. A política pertencia àqueles que estavam dispostos a participar neste jogo e, além disso, as pessoas honestas não faziam dinheiro. Fomos ensinados a ser produtivos e, quanto maior fosse o êxito que alcançássemos, mais a sociedade beneficiaria com isso, de certo modo. Definir objetivos, trabalhar arduamente, fazer jogo limpo e atingir a prosperidade.

 

    • O meu pai acertou duas vezes no quinto buraco, e estava a atribuir responsabilidades ao lançador quando subiu para o carrinho.
    • O meu pai apanhou a bola e fomo-nos embora.
  • Talvez eu não ande à procura de melhor - disse.
  • Porque não continuas a conversa e dizes o que tens a dizer? - retorquiu ele. Como de costume, senti-me fraco por não encarar a questão com coragem.
  • Estou a pensar no Direito de interesse público.
  • Que diabo é isso?
  • É quando trabalhamos para o bem da sociedade sem fazermos muito dinheiro.
  • O quê? Agora deste em democrata? Estás há demasiado tempo em Washington.
  • Há muitos republicanos em Washington. Por sinal, foram eles que venceram.Quando caminhava de novo no relvado, disse:

 

    • Dirigimo-nos para o suporte seguinte em silêncio. O meu pai era um bom jogador de golfe, mas os seus lances estavam a piorar. Eu impedira-o de se concentrar.
  • Então um bêbado qualquer ficou sem cabeça e tu queres mudar a sociedade. É isso?
  • Ele não era um bêbado. Combateu no Vietnam.

 

    • O meu pai pilotara alguns B-52 nos primeiros tempos da guerra do Vietnam, e esta frase deixou-o gelado. Mas só por instantes. Não estava disposto a ceder um milímetro.
  • Era um desses, hein?

 

    • Não respondi. A bola estava irremediavelmente perdida e ele nem sequer olhou. Atirou outra para o relvado, colocou-a mal e fomo-nos embora.
  • Detesto ver-te destruir uma boa carreira, filho - disse ele.-Tens trabalhado muito. Daqui a uns anos serás sócio.
  • Talvez.
  • Precisas de umas férias, mais nada.Levei-os para jantar a um bom restaurante. Fizemos um grande esforço para evitar temas como a Claire, a minha carreira e os netos que eles raramente viam. Falamos de velhos amigos e de antigos vizinhos. Envolvi-me na conversa, que não me interessava nada. Deixei-os ao meio-dia de sexta-feira, quatro horas antes do meu vôo, e voltei à minha vida desordenada em Columbia.Telefonei-lhe para casa dos pais e interrompi o jantar. Mantivemos a custo uma conversa de cinco minutos, na qual ficou apurado que estávamos ambos bem, que Memphis e Providence estavam bem, que as famílias estavam bem, e que ela voltaria algures no domingo à tarde. Desliguei, fiz um café e bebi-o enquanto olhava pela janela do quarto, vendo o trânsito a fluir ao longo de P Street, ainda coberta de neve. Se uma parte da neve se derretera, não se notava.Ensaiei em voz alta as palavras que lhe iria dirigir até elas me parecerem convincentes e depois fui dar um longo passeio a pé. Estavam , dez graus negativos e um vento agreste, e o frio atravessava-me a gabardina. Passei por casas elegantes e acolhedoras, onde vi verdadeiras famílias a comer, a rir e a gozar o conforto. Entrei em M Street, , onde multidões daqueles que sofriam de febre da cabina, enchiam, os passeios. Nem uma noite gélida de sexta-feira era monótona em, M Street; os bares estavam apinhados, os restaurantes tinham filas de espera e os cafés estavam cheios.Estava gelado, e recomeçara a nevar. Comprei uma sanduíche, enfiei-a na algibeira e fui para casa. Preparei uma bebida forte, acendi a lareira, e comi na semi-obscuridade, muito só.Pouco depois das nove, o telefone tocou, despertando-me de um devaneio longo e sombrio. Era Mordecai Green, a falar muito alto de um telefone celular.

 

    • No passado, a ausência de Claire no fim-de-semana ter-me-ia dado motivos para ficar no escritório, sem remorsos. Agora, ali sentado à lareira, o fato de pensar nisso dava-me vômitos. A Drake & Sweeney manter-se-ia orgulhosamente depois de eu sair, e os clientes e os seus problemas, que me tinham parecido tão cruciais, seriam tratados por outros grupos de jovens advogados. A minha saída constituiria um ligeiro percalço quase imperceptível para a firma. O meu gabinete seria ocupado poucos minutos depois de eu sair.
    • Parei à janela de um clube musical, a ouvir blues, com a neve agarrada aos tornozelos, e a ver os casais jovens a beber e a dançar. Pela primeira vez na minha vida, não me senti um jovem. Tinha trinta e dois anos, mas nos últimos sete trabalhara mais do que muita gente em vinte. Estava cansado, não velho mas a caminhar para a meia idade, e admiti que já saíra havia muito da faculdade. As belas raparigas que ali se encontravam agora nem sequer olhariam para mim duas vezes.
    • Desconfiava que Claire falara aos pais da mesma história sombria com que eu sobrecarregara os meus. Era triste e estranho, mas não surpreendente, que estivéssemos a ser honestos com as nossas famílias antes de nós próprios encararmos a realidade. Estava cansado da; situação e resolvido a sentar-me um dia com ela à mesa da cozinha, ; talvez logo no domingo seguinte, para enfrentarmos o problema. Poríamos a nu os nossos sentimentos e receios e, tinha a certeza disso, começaríamos a planear o nosso futuro separadamente. Eu sabia que , ela queria sair de casa, só não sabia até que ponto.
    • É claro que o apartamento estava vazio quando regressei na sexta-feira à noite, mas com uma nova modalidade. Havia um bilhete em cima da bancada da mesinha. Tal como calculara, Claire fora passar dois dias a casa dos pais, em Providence. Não aduzia razões. Pedia-me para lhe telefonar quando chegasse a casa.
    • Este parecia ser o remédio, na opinião de todos.
  • Está ocupado? - perguntou ele.
  • Não exatamente. O que se passa?
  • Está frio como um raio, está a nevar outra vez, e nós estamos com falta de pessoal. Tem umas horas disponíveis?
  • Para fazer o quê?
  • Para trabalhar. Precisamos de gente com bom corpo. Os abrigos e as sopas dos pobres estão apinhados e não temos voluntários que cheguem.
  • Não sei se tenho qualificações para isso.
  • Sabe barrar pão com manteiga de amendoim?
  • Acho que sim.
  • Então tem qualificações para isso.
  • Está bem. Para onde vou?
  • Estamos mais ou menos a dez quarteirões do escritório. No cruzamento da Thirteenth com a Euclid, há uma igreja amarela à sua direita. Ebenezer Christian Fellowship. Nós estamos na cave. Escrevi estas indicações à pressa, e cada palavra era mais trêmula do que a anterior porque Mordecai estava a convocar-me para uma zona de combate. Apeteceu-me perguntar se devia levar uma arma.

 

    • Não sabia se ele tinha alguma. Mas ele era negro e eu não. E o meu carro, o meu precioso Lexus?
  • Percebeu? - rosnou ele depois de uma pausa.
  • Percebi. Estarei aí dentro de vinte minutos - respondi corajosa-mente, com o coração ainda aos pulos.Queria desesperadamente um colete à prova de bala. Estava assustado, mas quando fechei a porta e me embrenhei na neve, senti também um estranho entusiasmo.Ao virar a esquina, avistei uns homens em grupo, à espera, junto de uma porta. Passei por eles como se soubesse exatamente para onde ia, e entrei no mundo dos sem abrigo.A cozinha ficava num extremo e fervilhava de atividade enquanto a comida era preparada e servida. Avistei Mordecai ao fundo, a deitar sumo de fruta em chávenas de papel, sempre a falar. Pessoas em fila aguardavam pacientemente que as servissem nas mesas.Encaminhei-me para Mordecai, que ficou radiante ao ver-me. Apertamos as mãos como velhos amigos e ele apresentou-me a dois voluntários cujos nomes nem consegui ouvir.

 

    • A sala estava quente, e a mistura dos cheiros, dos aromas e do calor do gás criava um odor espesso que não era desagradável. Um sem abrigo, ataviado à maneira do Senhor, chocou comigo e percebi que chegara a altura de avançar.
    • Por muito que quisesse avançar e fingir que já conhecia o ambiente e que tinha trabalho a fazer, não me consegui mexer. Fiquei estupefato ao ver a quantidade de pobres enfiados na cave. Uns estavam deitados no chão, a tentar dormir. Outros estavam sentados em grupos, a falar em voz baixa. Uns comiam em longas mesas e outros em cadeiras de lona. Todo o espaço ao longo das paredes estava ocupado com gente sentada de costas voltadas para os aquecedores. Crianças pequenas choravam e brincavam enquanto as mães tentavam mantê-las juntas. Os bêbados estavam deitados, rígidos, a ressonar apesar do barulho. Voluntários distribuíam cobertores e caminhavam no meio da multidão, oferecendo maçãs.
    • Os tiros disparados de automóveis e os ataques dos gangs não se materializaram. O tempo mantinha as ruas vazias e seguras naquele momento. Descobri a igreja e estacionei num parque do outro lado da rua. Parecia uma pequena catedral, pelo menos com um século e sem t dúvida abandonada pela congregação original.
    • Vesti jeans e uma swentshirt e calcei umas botas de marca boas para andar. Tirei os cartões de crédito e o dinheiro quase todo da carteira. No cimo de um armário, descobri um velho casaco de sarja forrado de lã, com manchas de café e de tinta, uma relíquia dos tempos da faculdade de Direito, e, ao vesti-lo ao espelho, tive esperança de que disfarçasse o meu ar abastado. Mas não. Se um jovem ator o usasse na capa da vanity Fair a moda pegaria imediatamente.
  • Isto é uma loucura - disse ele. - Um nevão, uma vaga de frio, e trabalhamos toda a noite. Traga esse pão para aqui.Peguei-lhe e fui atrás dele, na direção de uma mesa.

 

    • Mordecai apontou para um tabuleiro cheio de fatias de pão branco.
  • Isto está mesmo complicado. Tem aqui salame, e ali mostarda e maionese. Metade das sanduíches leva mostarda, a outra metade leva maionese, uma fatia de salame e duas fatias de pão. Faça uma dúzia com manteiga de amendoim de vez em quando. Percebeu?
  • Percebi.
  • Você aprende depressa.Fiz dez sanduíches à pressa e considerei-me eficiente. Depois, abrandei o ritmo e comecei a observar as pessoas que aguardavam na fila, de olhos baixos, mas sempre atentas à comida que tinham à frente. Davam-lhes um prato, uma tigela e uma colher de plástico e um guardanapo. æ medida que avançavam, enchiam-lhes a tigela de sopa, punham-lhes meia sanduíche no prato e depois juntavam uma maçã e uns biscoitos. No fim, aguardava-os uma chávena de sumo de fruta. Quase todos diziam um   obrigado   em surdina ao voluntário que lhes entregava o sumo, depois afastavam-se segurando no prato e na tigela com cuidado. Até as crianças estavam caladas e tinham cuidado com a comida.Ao meu lado estava um fogão a gás com quatro bicos, cada um com uma grande panela de sopa a fazer. Do outro lado, via-se uma mesa cheia de aipo, cenouras, cebolas, tomates e frangos inteiros. Um voluntário com uma grande faca cortava rodelas e cubos com uma raiva vingativa. Outros dois voluntários ocupavam-se do fogão. Vários levavam a comida para as mesas de servir. Naquele momento, eu era o único homem que estava a fazer sanduíches.

 

    • A maioria parecia comer devagar, saboreando o calor e a comida na boca e o aroma no rosto. Outros, comiam o mais depressa que podiam.
    • Deu-me uma palmada no ombro e desapareceu.
  • Precisamos de mais sanduíches com manteiga de amendoim - anunciou Mordecai quando voltou à cozinha. Tirou de baixo da mesa um frasco com sete litros. - Pode encarregar-se disso?
  • Sou um especialista - respondi.

 

    • Ele observou-me a trabalhar. A fila estava momentaneamente mais curta; queria conversar.
  • Julguei que você era advogado - disse eu, espalhando a manteiga de amendoim.
  • Primeiro sou homem, e depois advogado. É possível ser as duas coisas... Não ponha tanta manteiga aí. Temos de ser eficientes.
  • Donde vem a comida?
  • Dos bancos alimentares. É toda oferecida. Esta noite, estamos com sorte porque temos frango. É um petisco. Em geral, só temos legumes.
  • Este pão não é muito fresco.
  • Pois, mas é de graça. Vem de uma grande padaria, das sobras diárias. Pode comer uma sanduíche, se quiser.
  • Obrigado. Comi uma há pouco tempo. Você come aqui?
  • É raro.

 

    • A avaliar pelo aspecto da cintura, Mordecai não fazia dieta de sopa de legumes e de maçãs. Sentou-se na beira da mesa e examinou a multidão.
  • É a primeira vez que vem a um abrigo?
  • É.
  • Qual é a primeira palavra que lhe vem à mente?
  • Desespero.
  • Era previsível. Mas você há de lá chegar.
  • Quantas pessoas vivem aqui?
  • Nenhuma. Este é apenas um abrigo de emergência. A cozinha abre todos os dias para o almoço e para o jantar, mas tecnicamente não é um abrigo. A igreja tem a bondade de abrir as portas quando está mau tempo.

 

    • Tentei compreender.
  • Então onde vive esta gente?
  • Alguns vivem em prédios abandonados e são os que têm mais sorte. Outros vivem na rua; outros em parques; outros em terminais de autocarros; outros debaixo das pontes. Conseguem sobreviver enquanto o tempo é suportável. Esta noite, morreriam gelados.
  • Então onde ficam os abrigos?
  • Estão espalhados por aí. Há cerca de vinte. Metade subsidiados por particulares e outra metade geridos pela Câmara, que, graças ao novo orçamento, vai encerrar dois deles.
  • Quantas camas?
  • Cinco mil, mais ou menos.
  • Quantos sem abrigo?
  • Essa é sempre uma boa pergunta porque eles não são o grupo mais fácil de contar. Dez mil é um bom cálculo.
  • Dez mil?
  • Sim, e contando só com as pessoas da rua. Talvez haja mais vinte mil que vivem com a família e amigos, e que daqui a um ou dois dias ficarão sem abrigo.
  • Então há pelo menos cinco mil pessoas nas ruas? - perguntei, com uma incredulidade óbvia.
  • Pelo menos.A mãe parecia atordoada e, depois de entrar, não sabia ao certo para onde ir. Não havia um único lugar à mesa. Encaminhou a família para a comida e dois voluntários sorridentes foram ao seu encontro para a ajudar. Um deles instalou-os a um canto junto da cozinha e começou a servi-los, enquanto o outro os tapava com cobertores.

 

    • Mordecai e eu assistimos à evolução da cena. Tentei não olhar fixamente para eles, mas ninguém dava por isso.
    • Um voluntário veio pedir sanduíches. Mordecai ajudou-me e fizemos mais uma dúzia. Depois paramos e voltamos a observar a multidão. A porta abriu-se e uma jovem mãe entrou devagar, com um bebê ao colo e seguida por três crianças pequenas, uma das quais vinha de calções e calçava meias desiguais, sem sapatos. Trazia uma toalha sobre os ombros. As outras duas pelo menos vinham calçadas, mas a roupa era pouca. O bebê parecia estar a dormir.
  • O que acontece quando a tempestade passa? - perguntei.
  • Quem sabe? Porque não lhe pergunta?

 

    • Estas palavras chamaram-me à realidade. Eu não estava preparado para sujar as mãos.
  • Você tem alguma atividade na associação de advogados de Columbia? - perguntou ele.
  • De certo modo. Porquê?
  • Simples curiosidade. A associação faz muito trabalho gratuito para os sem abrigo.

 

    • Ele lançava o isco, mas eu ainda não estava pronto para o morder.
  • Trabalho em casos de pena de morte - disse eu, orgulhoso, e com alguma sinceridade.Continuamos a olhar para a mãe com os seus quatro filhos. Os dois mais velhos comeram os biscoitos enquanto a sopa arrefecia. A mãe ou estava drogada ou em estado de choque.

 

    • Há quatro anos, ajudara um dos nossos sócios a redigir um depoimento para um colega do Texas. A minha firma apregoava o trabalho gratuito a todos os seus elementos, mas era preferível que ele não interferisse na faturação.
  • Há algum sítio para onde ela possa ir viver? - perguntei.
  • Talvez não - respondeu Mordecai com um ar despreocupado, agitando os pés enormes à beira da mesa. - Ontem, a lista de espera para os abrigos de emergência tinha quinhentos nomes.
  • Para abrigos de emergência?
  • Sim. Há um abrigo para casos de hipotermia que a cidade abre amavelmente quando as temperaturas são negativas. Talvez seja essa a única hipótese que ela tem, mas creio que o abrigo está cheio esta noite. Depois, a cidade fecha o abrigo quando as coisas acalmam. O subchefe teve de se ausentar e, como eu era o único voluntário que não estava ocupado naquele momento, fui obrigado a trabalhar. Enquanto Mordecai fazia sanduíches, cortei aipo, cenouras e cebolas durante uma hora, tudo sob o olhar atento de Miss Dolly, um dos membros fundadores da igreja, que estava encarregada de alimentar os sem abrigo há onze anos. Era a sua cozinha. Eu senti-me honrado por estar ali, e a dada altura ela disse-me que estava a cortar pedaços de aipo demasiado grandes. Depressa passaram a ser mais pequenos. O avental de Miss Dolly era branco e imaculado, e ela tinha um orgulho enorme no seu trabalho.

 

    • - Alguma vez se habituou a ver esta gente? - perguntei-lhe. Estávamos diante do fogão, distraídos com uma discussão que se travava mais atrás. Mordecai e o padre intervieram e a paz prevaleceu.
  • Nunca, filho - respondeu ela, limpando as mãos a uma toalha.
  • Fico destroçada. Mas o Livro dos Provérbios diz   Abençoados aqueles que dão de comer aos pobres . Isso dá-me ânimo. Miss Dolly voltou-se e mexeu a sopa devagarzinho.
  • O frango está pronto - disse ela dirigindo-se a mim.
  • O que quer isso dizer?
  • Quer dizer que você tira o frango do lume, deita o caldo para essa panela, deixa arrefecer o frango e depois desossa-o. Desossar o frango era uma arte, em especial se usasse o método de Miss Dolly. Quando acabei, tinha os dedos a escaldar e praticamente cobertos de bolhas.

 

    • Mordecai subiu à minha frente uma escada escura que ia dar ao átrio.
  • Veja onde põe os pés - disse, quase em surdina, ao entrarmos no santuário por uma porta de batentes. Estava escuro, porque havia gente a tentar dormir em todo o lado. Estavam estendidos nos bancos, a ressonar. Aglomeravam-se debaixo dos bancos, e as mães tentavam que os filhos se acalmassem. Amontoavam-se nas naves e deixavam um corredor estreito para nós passarmos na direção do púlpito. A galeria do coro também estava cheia.
  • Não há muitas igrejas que façam isto - segredou ele, quando paramos junto do altar e examinamos as filas de bancos. Eu percebia das igrejas.
  • O que acontece aos domingos? - perguntei, também em voz baixa.
  • Depende do tempo. O padre é um dos nossos. Uma vez, cancelou a missa só para não os pôr na rua.

 

    • Não sabia ao certo o que significava   um dos nossos”, mas não me sentia incluído no grupo. Ouvi o teto ranger e percebi que havia uma varanda em U por cima de nós. Espreitei e avistei mais uma massa humana estendida nas filas de bancos, lá em cima. Mordecai também olhava.
  • Tanta gente... - disse eu entredentes, sem conseguir concluir o pensamento.
  • Nem os contamos. Damos-lhes apenas comida e abrigo.Eram quase onze horas. A cave continuava superlotada, mas a fila da sopa desaparecera.

 

    • Uma rajada de vento atingiu a parte lateral do edifício e fez estremecer as janelas. Estava muito mais frio na igreja do que na cave. Passamos por cima dos corpos em bicos de pés e saímos por uma porta junto do órgão.
  • Siga-me - disse Mordecai.

 

    • Pegou numa tigela de plástico e estendeu-a para que um voluntário a enchesse.
  • Vamos ver como é que você cozinha - disse ele, com um sorriso.

 

    • Sentamo-nos no meio da multidão, a uma mesa desmontável, com gente da rua ao nosso lado. Ele conseguiu comer e conversar como se tudo corresse bem; eu, não. Brinquei com a minha sopa que, graças a Miss Dolly, estava muito boa, mas não conseguia ultrapassar o fato de eu, Michael Brock, um branco rico de Memphis, de Yale e da Drake & Sweeney, estar sentado ao lado dos sem abrigo na cave de uma igreja, algures em NorthWest, no distrito de Columbia. Vira a cara de outro branco, um bêbado de meia idade que comera e desaparecera. Tinha a certeza que o meu Lexus já lá não estava e que não conseguiria sobreviver cinco minutos no exterior do edifício. Não tencionava largar Mordecai, saísse ele quando e como saísse.
  • É uma boa sopa - disse ele. - Varia. Depende do que há. E a ! receita é diferente de lugar para lugar.

 

    • - Um dia destes comi talharim na Martha’s Table - disse o homem que estava sentado à minha direita, um homem cujo cotovelo estava mais próximo da minha tigela do que o meu..
  • Talharim? - perguntou Mordecai, incrédulo. - Na sua sopa?
  • Sim. Mais ou menos uma vez por mês há talharim. É claro que já toda a gente sabe, por isso é difícil arranjar uma mesa. Não percebi se ele estava ou não a brincar, mas pareceu-me que piscava o olho. A idéia de um homem sem abrigo a lamentar a falta de mesas na sua cozinha econômica favorita pareceu-me divertida. Era difícil arranjar uma mesa; quantas vezes ouvira dizer o mesmo aos meus amigos de Georgetown?

 

    • Mordecai sorriu.
  • Como se chama? - perguntou ao homem.Também eu tinha uma curiosidade natural. Queria saber como é que os sem abrigo ficavam sem abrigo. O que falhava no nosso vasto sistema de assistência pública para que alguns americanos fossem tão pobres que eram obrigados a viver debaixo de pontes?

 

    • Mais tarde, soube que Mordecai queria sempre aliar um nome a um rosto. Os sem abrigo que ele estimava eram mais do que vítimas; eram a sua gente.
  • Drano - respondeu ele, mastigando um dos meus maiores bocados de aipo.
  • Drano? - perguntou Mordecai.
  • Drano - repetiu o homem.

 

    • -   Qual é o seu apelido?
  • Não tenho. Sou muito pobre.
  • Quem lhe pôs o nome de Drano?
  • A minha mãe.
  • Que idade tinha quando ela lhe pôs o nome de Drano?
  • Cerca de cinco.
  • Porquê Drano?
  • Ela tinha um bebê que nunca se calava, que estava sempre a chorar e não deixava ninguém dormir. E eu dei-lhe um pouco de Drano. O homem contou a história enquanto mexia a sopa. Estava bem ensaiada, bem contada, mas não acreditei numa palavra. Os outros, porém, escutavam-no e Drano divertia-se.
  • O que aconteceu ao bebê? - perguntou Mordecai, fazendo de conta.
  • Morreu.
  • Devia ser o seu irmão - disse Mordecai.
  • Não. Irmã.
  • Compreendo. Então você matou a sua irmã.
  • Sim, mas Passamos a dormir muito bem.

 

    • Mordecai piscou-me o olho, como se já tivesse ouvido muitas histórias semelhantes.
  • Onde vive, Drano? - perguntei.
  • Aqui em Columbia.
  • Onde fica? - perguntou Mordecai, corrigindo-me.
  • Fico por aqui e por ali. Tenho muitas mulheres ricas que me pagam para lhes fazer companhia.

 

    • Dois homens que estavam ao lado de Drano acharam graça. Um riu-se baixinho e o outro soltou uma gargalhada.
  • Onde recebe a sua correspondência? - perguntou Mordecai.
  • Na estação dos correios - respondeu ele.Miss Dolly fez café para os voluntários, depois de desligar o fogão.Mordecai e eu sentamo-nos na beira de uma mesa, na cozinha às escuras, a beber café e a espreitar a multidão através do postigo enorme.

 

    • Os sem abrigo passavam ali a noite.
    • Drano teria uma resposta pronta para tudo, por isso deixamo-lo só.
  • Até que horas é que você fica aqui? - perguntei.

 

    • Ele encolheu os ombros.
  • Depende. Quando você mete umas centenas de pessoas como estas numa sala, em geral acontece qualquer coisa. O padre prefere que eu fique.
  • Toda a noite?
  • Tenho ficado muitas vezes.

 

    • Eu não tencionava dormir com aquela gente. Nem tencionava sair do edifício sem a proteção de Mordecai.
  • Vá-se embora quando quiser - disse ele.

 

    • Sair era a pior das minhas limitadas opções. Meia-noite, uma noite de sexta-feira, nas ruas de Columbia. Um branco, com um belo carro. Com neve ou sem ela, não me agradava arriscar a minha sorte.
  • Você tem família? - perguntei.
  • Tenho. A minha mulher é secretária no Ministério do Trabalho.

 

    • Três filhos. Um anda na faculdade e outro está no Exército. Falhou-lhe a voz antes de falar no terceiro filho. Eu não tencionava perguntar.
  • E perdemos um nas ruas, há dez anos. Nas gangs.
  • Lamento.
  • E você?
  • Sou casado, e não tenho filhos.Diria com os seus botões ele está a rebentar pelas costuras ou outra coisa do gênero.-     O que faz a sua mulher? - perguntou ele, para aliviar a conversa.

 

    • Não me importava.
    • Pensei em Claire pela primeira vez desde há umas horas. Como reagiria ela se soubesse onde eu estava? Nenhum de nós arranjara tempo para dedicar a qualquer coisa que tivesse uma relação remota com as obras de caridade.
  • É cirurgiã interna em Georgetown.
  • Vocês hão de ser ricos, não é verdade? Você há de ser sócio numa grande firma e ela há de ser cirurgiã. Outro sonho americano.
  • Quem sabe?Agachei-me junto dele e ofereci-lhe um biscoito. Os seus olhos brilharam e a criança pegou nele. Observava-o enquanto comia. Depois, quis outro. Era pequeno e ossudo, e não tinha mais de quatro anos.A mulher fitou-me com uns olhos tristes e exaustos e depois percebeu que eu estava a dar biscoitos ao filho. Esboçou um sorriso tênue e endireitou a almofada.

 

    • A cabeça da mãe tombou para a frente, sacudindo-lhe o corpo.
    • O padre apareceu vindo não se sabia donde e chamou Mordecai de parte para uma conversa em voz baixa. Eu tirei quatro biscoitos de uma tigela e fui para o outro canto, onde a mãe estava sentada a dormir, com a cabeça encostada a uma almofada e o bebê enfiado debaixo do braço. Os outros estavam imóveis debaixo dos cobertores. Mas o mais velho estava acordado.
  • Como te chamas? - perguntei em surdina ao rapazinho. Depois de comer dois biscoitos, ficara meu amigo para o resto da vida.
  • Ontário - respondeu abertamente.
  • Quantos anos tens?

 

    • Esticou quatro dedos, depois dobrou um e voltou a endireitá-lo.
  • Quatro? - perguntei.

 

    • Fez um sinal afirmativo e estendeu a mão para pedir mais um biscoito, que eu lhe ofereci alegremente. Ter-lhe-ia dado tudo.
  • Onde costumas passar a noite? - perguntei, baixinho.
  • Num carro - respondeu no mesmo tom de voz.Apeteceu-me desatar a correr e ir perguntar ao Mordecai o que fazia quando descobria que havia gente a viver num carro, mas continuei a sorrir para Ontário. Ele retribuiu o sorriso. Por fim, perguntou:

 

    • Levei um segundo a assimilar a resposta. Não sabia ao certo o que havia de perguntar a seguir. Ele estava demasiado entretido a comer para se preocupar com a conversa. Tinha-lhe feito três perguntas e dera três respostas sinceras. Viviam num carro.
  • Tens mais sumo de maçã?
  • Claro que tenho - respondi, e dirigi-me à cozinha, onde enchi duas chávenas.

 

    • Sorveu o conteúdo da primeira e estendi-lhe a segunda.
  • Diz obrigado - disse eu.
  • Obrigado - disse ele, estendendo a mão para eu lhe dar mais um biscoito.Com o estômago cheio outra vez, Ontário adormeceu, com a cabecinha apoiada nos pés da mãe. Esgueirei-me para a cozinha, enchi mais uma chávena de café e voltei para a minha cadeira ao canto. Foi então que o bebê desatou a chorar. A sua voz lamentosa atingiu um volume surpreendente, e toda a sala parecia agitar-se com o barulho. A mãe estava atordoada, cansada, frustrada por a terem acordado. Disse-lhe que se calasse e depois encostou-o ao ombro e começou a embalá-lo. A criança chorou ainda mais alto e as outras pessoas começaram a resmungar.

 

    • Com uma total falta de senso ou de ponderação, estendi os braços e peguei no bebê, sorrindo à mãe para tentar ganhar a sua confiança. Ela não se importou. Ficou aliviada por se ver livre dele. A criança não pesava nada e estava ensopada. Apercebi-me disso quando lhe encostei a cabeça ao meu ombro e comecei a dar-lhe palmadinhas no rabo. Fui para a cozinha, à espera que Mordecai ou outro voluntário me salvassem. Miss Dolly saíra há uma hora. Para meu alívio e surpresa, a criança calou-se quando dei uma volta ao fogão, afagando-a, falando com ela em voz baixa e procurando uma toalha ou outra coisa qualquer. Tinha a mão ensopada. Onde estava eu? O que diabo estava a fazer? O que pensariam os meus amigos se me vissem numa cozinha às escuras, a cantarolar a um bebê da rua, rezando para que a fralda estivesse só molhada? Não me cheirava mal, embora tivesse a certeza que havia piolhos a saltar da cabeça da criança para a minha. O meu melhor amigo Mordecai apareceu e acendeu a luz.
    • Descobri uma cadeira desmontável e fui sentar-me ao pé do Ontário, de costas para a parede. æs vezes reinava o silêncio na cave, mas não a calma. Aqueles que viviam sem cama não tinham um sono tranqüilo. De vez em quando, Mordecai abria caminho entre os corpos para acalmar algum mais agitado. Era tão grande e assustador que ninguém se atrevia a desafiar a sua autoridade.
  • Mas que jeitoso - disse ele.
  • Há fraldas? - perguntei-lhe com uma voz sibilante.
  • É líquido ou sólido? - perguntou ele, bem-humorado, dirigindo-; -se para os armários.
  • Não sei. Despache-se.

 

    • Mordecai tirou um pacote de fraldas e entreguei-lhe a criança. O meu casaco de sarja tinha uma grande nódoa no ombro esquerdo. Com uma agilidade inacreditável, Mordecai pôs o bebê em cima da tábua de i cozinha, tirou a fralda molhada, que nos mostrou tratar-se de uma menina, limpou a criança com um pano qualquer, pôs-lhe uma fralda nova e depois me entregou-a.
  • Cá está ela - disse ele, orgulhoso. - Como nova.
  • As coisas que eles não nos ensinam na faculdade de Direito - disse eu, pegando na criança.Eram quase três horas da madrugada de sábado, e tinha de ir-me embora. A minha consciência recém-agredida não podia agüentar tanta coisa num só dia. Mordecai acompanhou-me até à rua, agradeceu a minha presença e mandou-me embora sem casaco. O meu carro estava onde eu o deixara, coberto com uma nova camada de neve.Desde o meu confronto com o Senhor, na terça-feira, que não faturava uma única hora para a velha Drake & Sweeney. A minha média era de duzentas horas por mês em cinco anos, o que correspondia a oito por dia durante seis dias, e ainda sobravam duas. Nenhum dia podia ser desperdiçado e poucas eram as horas preciosas que não eram debitadas. Quando ficava para trás, o que era raro acontecer, trabalhava doze horas ao sábado e fazia talvez o mesmo ao domingo. E se não estivesse atrasado, fazia apenas sete ou oito horas no sábado e algumas no domingo. Não era para admirar que Claire tivesse ido para a Escola Médica.O pequeno-almoço foi um croissant de uma padaria de M Street, com café forte, tudo engolido a custo. Perguntei a mim próprio o que estaria Ontário a comer àquela hora, mas depois obriguei-me a pôr fim à tortura. Tinha o direito de comer sem me sentir culpado, apesar de a comida estar a perder a importância para mim.Quando entrei no átrio do edifício, fui abordado por um dos meus companheiros. Bruce qualquer coisa, das comunicações, entrou no mesmo elevador e perguntou com um ar grave:

 

    • Na rádio anunciaram que estariam cinco graus negativos e que não voltaria a nevar nessa semana.
    • Quando olhei para o teto do quarto no fim da manhã de sábado, estava quase paralisado de inanição. Não me apetecia ir para o escritório. Detestava pensar nisso. Temia as pequenas filas de mensagens telefônicas em papel cor-de-rosa que a Polly me deixara na secretária, os memorandos dos chefes a marcar reuniões para saber como estava, a conversa intrometida dos bisbilhoteiros, e o inevitável dos amigos, dos que se preocupavam verdadeiramente e dos que não se preocupavam nada. Mas o que eu mais temia era o trabalho. Os casos de Direito da Concorrência são longos e difíceis. Os processos são tão volumosos que têm de ser guardados em caixas, e para quê, afinal? Uma empresa de um bilhão de dólares a lutar com outra. Uma centena de advogados envolvidos, todos a produzir papel. Admiti para mim próprio que nunca gostara muito do trabalho. Era um meio para atingir um fim. Se o executasse furiosamente, me tornasse um gênio e me aperfeiçoasse numa especialidade, dentro de pouco tempo seria muito requestado. Podia ter sido Direito Fiscal, Direito Laboral ou Contencioso. Quem podia gostar de Direito da Concorrência? Graças à minha força de vontade, consegui levantar-me da cama e ir tomar ducha.
    • Mordecai estava em frente da igreja, a observar-me, quando eu arranquei.
    • Durante uma hora, andei com ela de um lado para o outro, até que a criança adormeceu. Embrulhei-a no meu casaco e a pus com todo o cuidado entre a mãe e Ontário.
  • Como vai, colega?
  • Bem. E você? - respondi.
  • Bem. Olhe, nós estamos consigo, bem sabe. Força.Polly tinha várias maneiras de deixar para trás o lixo telefônico. Se eu me tivesse mostrado diligente a responder aos telefonemas, e se ela estivesse satisfeita com os meus esforços, deixava-me uma ou duas mensagens junto do telefone. Mas, se eu não tivesse sido diligente, e se ; por acaso isso lhe desagradasse, não havia nada de que gostasse mais do que de alinhá-las ao meio da minha secretária, um mar cor-de-rosa, todas impecavelmente dispostas por ordem cronológica. Contei trinta e nove mensagens, umas urgentes, outras dos chefes. Rudolph pareceu-me especialmente irritado, a avaliar pela fila de Polly. Estava decidido a acabar de beber o meu café em paz e sem pressões, sentado à secretária, segurando na chávena com as duas mãos, como alguém que vacila à beira de um penhasco, quando Rudolph entrou.

 

    • Os espiões deviam ter-lhe telefonado; um solicitador à espreita ou talvez Bruce, do elevador. Talvez toda a firma estivesse alerta. Não. Estavam demasiado ocupados.
    • Fiz um sinal afirmativo, como se o seu apoio fosse crucial. Felizmente, Bruce saiu no segundo andar, mas não sem antes me ter contemplado com uma forte palmada no ombro. Faça-lhes a vida negra, Bruce. Senti-me recompensado. Abrandei ao passar pela secretária da senhora Devier e pela sala de reuniões. Desci o corredor de mármore até chegar ao meu gabinete e deixei-me cair na cadeira giratória de couro, exausto.
  • Olá, Mike - disse ele num tom ríspido, traçando a perna e preparando-se para abordar um assunto sério.
  • Olá, Rudy - respondi.Só a mulher e os sócios é que o tratavam por Rudy, mais ninguém.

 

    • Nunca o tratara pessoalmente por Rudy. Era sempre por Rudolph.
  • Onde esteve? - perguntou ele, sem revelar a mínima compaixão.
  • Em Memphis.
  • Em Memphis?
  • Sim, precisava de ir ver os meus pais. Além disso o psiquiatra da família é de lá.
  • Um psiquiatra?
  • Sim, levou dois dias a observar-me.
  • A observá-lo?
  • Sim, numa daquelas pequenas unidades ostentatórias, com carpetes persas e salmão ao jantar. Cem dólares por dia.
  • Durante dois dias? Você esteve internado dois dias?
  • Estive.

 

    • A mentira não me incomodou, nem me senti mal pelo fato de não me incomodar. A firma sabia ser dura, até impiedosa, quando resolvia sê-lo, e eu não estava disposto a aturar um chato como o Rudolph. Ele tinha ordens de marcha da comissão executiva e faria um relatório pouco depois de sair do meu gabinete. Se eu conseguisse enternecê-lo, o relatório seria brando e os chefes ficariam descontraídos. A vida seria mais fácil, a curto prazo.
  • Devia ter telefonado a alguém - disse ele, ainda ríspido, mas começando a quebrar o gelo.
  • Ora, Rudolph. Eu estava incomunicável. Não tinha telefones.Depois de uma longa pausa, ele perguntou:

 

    • Havia sofrimento suficiente na minha voz para o comover.
  • Você está bem?
  • Estou bem.
  • Está bem?
  • O psiquiatra disse que estava bem.
  • Cem por cento?
  • Cento e dez por cento. Não há problema, Rudolph. Precisava de fazer um intervalo. Estou bem. Voltei a todo o gás.

 

    • Foi o que Rudolph quis ouvir. Sorriu, descontraiu-se e disse:
  • Temos muito que fazer.
  • Eu sei. Estou ansioso por recomeçar.Quando não podia suportar mais a situação, enfiei as mensagens telefônicas no bolso e saí. Fugi sem ser apanhado.E gastaria o que fosse necessário para os levar para um sítio quente. Se fosse um motel por um mês, não haveria problema. Dentro de pouco tempo, eles seriam meus clientes e eu ameaçaria e litigaria com todo o empenho para que tivessem uma habitação adequada. Não podia ficar à espera de processar fosse quem fosse.Nem me importava se os outros pensassem que eu era mais um branco rico que apaziguava a consciência.Conversei com Miss Dolly enquanto descascava batatas. Ela lembrava-se de ter visto a família na noite anterior, mas quando chegara, por volta das nove horas, eles já lá não estavam.

 

    • Miss Dolly ficou satisfeita quando me viu. Cumprimentou-me e apontou para uma pilha de legumes que precisavam de ser descascados. No entanto, fui primeiro à procura de Ontário e da família, mas não os encontrei. Não estavam no seu lugar. Percorri a cave, passando por cima de dezenas de pessoas da rua. Mas eles não estavam na igreja nem na galeria.
    • Estacionei em frente da igreja, do outro lado da rua, muito menos receoso do que na noite anterior, mas ainda bastante assustado. Tive o bom senso de deixar os sacos das compras no carro. Se entrasse com eles como se fosse o Pai Natal, provocaria um motim. Tencionava sair dali com a família, levá-la para um motel, instalá-la, garantir que tomariam banho e seriam limpos e desinfectados e dar-lhes de comer até ficarem cheios, ver se precisavam de cuidados médicos, talvez levá-los a comprar sapatos e roupa quente e depois dar-lhes de comer outra vez.
    • Parei numa grande farmácia de desconto em Massachusetts e embrenhei-me numa verdadeira orgia de compras. Guloseimas e pequenos brinquedos para os miúdos, sabonetes e artigos de toilette para todos, meias e calças para criança de todos os tamanhos. Um grande pacote de fraldas. Nunca me divertira tanto a gastar duzentos dólares.
    • Saiu praticamente a correr do meu gabinete. Ia direto ao telefone para anunciar que um dos muitos produtores da firma regressara à base. Fechei a porta à chave e apaguei as luzes. Depois, passei uma hora penosa a encher a secretária de papéis e rascunhos. Não terminei nada, mas pelo menos estava atarefado.
  • Para onde teriam ido? - perguntei.
  • Filho, esta gente anda de um lado para o outro. Vão de cozinha em cozinha, de abrigo em abrigo. Talvez ela tenha ouvido dizer que estavam a distribuir queijo em Brightwood, ou cobertores noutro lado qualquer. Talvez até tenha arranjado um emprego no McDonald’s e deixe os filhos com a irmã. Nunca se sabe. Mas eles não ficam sempre no mesmo sítio.Mordecai chegou quando se estava a formar a fila para o almoço. Vi-o antes de ele me ver, e quando os nossos olhares se cruzaram o seu rosto abriu-se num sorriso.Esperamos que as filas desaparecessem e depois enchemos uma tigela para nós. As mesas estavam apinhadas, por isso comemos na cozinha, encostados ao lava-louça.

 

    • Um novo voluntário estava encarregado das sanduíches; Mordecai e eu ficamos nas mesas de servir, a mergulhar as conchas nas panelas e a deitar a sopa nas tigelas de plástico. Este trabalho tinha a sua arte. Se deitássemos caldo a mais, o receptor podia fulminar-nos com o olhar. Se deitássemos legumes a mais, ficaria só o caldo. Há anos que Mordecai aperfeiçoara a sua técnica; eu fui contemplado com vários olhares fulminantes antes de me habituar. Mordecai tinha uma palavra agradável para todas as pessoas que servia - olá, bom-dia, como está, gostei de o voltar a ver. Alguns retribuíam o sorriso, outros nem levantavam a cabeça. Por volta do meio-dia, começou a entrar mais gente e as filas aumentaram. Apareceram mais voluntários vindos não se sabia de onde, e na cozinha reinava uma algazarra agradável, própria de pessoas satisfeitas com o seu trabalho. Continuei a procurar Ontário. O Pai Natal estava à espera, mas nem sinais do rapazinho.
    • Eu duvidava seriamente que a mãe de Ontário tivesse arranjado emprego, mas não ia discutir este assunto com Miss Dolly na sua cozinha.
  • Lembra-se daquela fralda que mudou ontem à noite? - perguntei, entre duas colheres de sopa.
  • Como se me pudesse esquecer.
  • Ainda não os vi hoje.

 

    • Mordecai mastigou e ficou a pensar.
  • Estavam cá esta manhã quando eu saí.
  • Que horas eram?
  • Seis. Estavam ali ao canto, a dormir profundamente.
  • Para onde teriam ido?
  • Nunca se sabe.
  • O miúdo disse-me que ficavam num carro.
  • Falou com ele?
  • Falei.
  • E agora quer encontrá-lo, não é?
  • Quero.
  • Não conte com isso.

 

    • Depois do almoço, o sol apareceu e começou o movimento. Um a um, aproximavam-se da mesa de servir, pegavam numa maçã ou numa laranja e saíam da cave.
  • Os sem abrigo também são irrequietos - explicou Mordecai enquanto os observávamos. - Gostam de andar por aí a vaguear. Têm rotinas e rituais, sítios favoritos, amigos nas ruas, coisas para fazer.

 

    • Voltam aos seus parques e aos seus becos e afastam a neve.
  • Estão cinco graus negativos lá fora. E esperam-se quinze negativos para esta noite - disse eu.
  • Eles voltam. Espere que anoiteça, e este local ficará outra vez a abarrotar. Vamos dar uma volta.O Ford Taurus usado de Mordecai estava estacionado junto do meu Lexus.

 

    • Fomos falar com Miss Dolly, que nos dispensou por umas horas.
  • Este não fica por aqui muito tempo - disse ele, apontando para o meu carro. - Se tenciona demorar-se nesta zona da cidade, sugiro-
  • lhe que o troque.Entramos no Taurus e saímos do parque de estacionamento. Pouco depois, percebi que Mordecai Green era um condutor horrível, e tentei pôr o cinto de segurança. Estava partido. Aparentemente Mordecai nem deu por isso.Quando nos aproximamos do seu escritório, perguntou-me se não me importava que passássemos por lá. Queria ver a correspondência. Não me importei. Andava a passear.

 

    • Era um local escuro, frio e vazio. Mordecai acendeu as luzes e começou a falar.
    • Percorremos as ruas do noroeste de Washington, bem limpas da neve, quarteirões e zonas de apartamentos com janelas pregadas com tábuas. Passamos por bairros tão violentos que nem os motoristas das ambulâncias lá queriam entrar, Passamos por escolas com vedações metálicas rematadas por arame farpado, por subúrbios permanentemente assinalados por tumultos. Mordecai era um cicerone extraordinário. Todos os territórios eram seus conhecidos, todas as esquinas tinham uma história, todas as ruas tinham uma história. Passamos por outros abrigos e cozinhas. Conhecia as cozinheiras e os padres. As igrejas ou eram boas ou más, com limites bem definidos. Ou abriam as portas aos sem abrigo ou as mantinham encerradas. Mordecai apontou para a faculdade de Direito de Howard, um local que o enchia de orgulho. Estudara Direito durante cinco anos, de noite, ao mesmo tempo que tinha um emprego a tempo inteiro e outro a tempo parcial. Mostrou-me um prédio incendiado onde os traficantes de droga operavam em tempos. Cassius, o seu terceiro filho, morrera no passeio em frente.
    • Eu nem pensara em desfazer-me do meu carro fabuloso. Fiquei quase ofendido.
  • Somos três. Eu, Sofia Mendoza e Abraham Lebow. Sofia é assistente social, mas sabe mais de Direito da rua do que eu e o Abraham juntos.

 

    • Fui atrás dele por entre as secretárias desarrumadas.
  • Já fomos sete advogados, todos aqui metidos, acredita? Isso era quando recebíamos dinheiro federal para apoio jurídico. Agora não recebemos um cêntimo, graças aos Republicanos. Há três gabinetes ali e três aqui, do meu lado. Muito espaço vazio - disse Mordecai, apontando em todas as direções.

 

    • Talvez vazio por falta de pessoal, mas era difícil andar sem tropeçar num cesto cheio de velhos processos ou numa pilha de livros de Direito cobertos de pó.
  • Quem é o proprietário do edifício? - perguntei.
  • A Fundação Cohen. Leonard Cohen foi o fundador de uma grande firma de advogados de Nova Iorque. Morreu em oitenta e seis; teria hoje cem anos. Fez muito dinheiro e no fim da vida resolveu que queria morrer sem nenhum. Então distribuiu-o, e uma das suas muitas obras foi uma fundação para ajudar os censores oficiosos a dar apoio jurídico aos sem abrigo. Foi assim que isto nasceu. A fundação tem três clínicas: esta, uma em Nova Iorque e outra em Newark. Eu fui admitido em oitenta e três e em oitenta e quatro passei a diretor.
  • Todos esses fundos vêm de uma única fonte?
  • Praticamente todos. O ano passado, a fundação deu-nos cento e dez mil dólares. No ano anterior tínhamos recebido cento e cinqüenta mil, portanto perdemos um advogado. Todos os anos o subsídio é menor. A fundação não tem sido bem gerida e agora está a consumir o capital. Duvido que estejamos aqui dentro de cinco anos. Talvez nem daqui a três.
  • Não conseguem fazer dinheiro?
  • Oh, claro que sim. O ano passado, fizemos nove mil dólares.

 

    • Mas leva o seu tempo. Ou exercemos advocacia, ou angariamos fundos. A Sofia não é agradável para as pessoas. O Abraham é um tipo agressivo, de Nova Iorque. Resto eu e o meu magnetismo pessoal.
  • Quais são os encargos? - perguntei, curioso mas não demasiado apreensivo. Quase todas as instituições sem fins lucrativos publicavam um relatório anual com todos os números.
  • Dois mil por mês. Depois das despesas e de uma pequena reserva, nós os três ficamos com oitenta e nove mil dólares. Divididos em partes iguais. A Sofia considera-se uma sócia como qualquer de nós. Sinceramente, temos receio de discutir com ela. Eu levei para casa quase trinta mil, o que, pelo que sei, é a média para um censor oficioso. Bem-vindo à rua.

 

    • Por fim, entramos no seu gabinete, e sentei-me em frente dele.
  • Esqueceu-se de pagar a conta do aquecimento? - perguntei, quase a tremer de frio.
  • Talvez. Nós não trabalhamos muito nos fins-de-semana.Ninguém se lembrara disto na Drake & Sweeney. Fechar aos fins-de-semana equivale a poupar dinheiro. E casamentos.

 

    • Poupamos dinheiro. É impossível aquecer ou refrigerar este local.
  • E se for demasiado confortável, os nossos clientes não se vão embora. Por isso está frio no Inverno, quente no Verão e reduz a afluência. Quer um café?
  • Não, obrigado.
  • Estou a brincar, sabe? Não faríamos nada para dissuadir os sem abrigo de estar aqui. O clima não nos incomoda. Pensamos que os nossos clientes têm frio e fome. Porque havemos de nos preocupar com essas coisas? Teve remorsos quando tomou o pequeno-almoço esta manhã?
  • Tive.

 

    • Presenteou-me com o sorriso de um homem sábio e experiente que já vira tudo.
  • É muito vulgar. Nós costumávamos trabalhar com uma série de advogados novos das grandes firmas, novatos oficiosos, como eu lhes chamo, e eles estavam sempre a dizer-me que, a princípio, se desinteressavam da comida.

 

    • Mordecai deu uma palmada na barriga avantajada e acrescentou:
  • Mas você há de ultrapassar essa fase.
  • O que fazem os novatos oficiosos? - perguntei.

 

    • Eu sabia que estava a aproximar-me do isco, e Mordecai sabia que eu o sabia.
  • Enviamo-los para os abrigos. Travam conhecimento com os clientes e nós supervisionamos os casos por eles. A maior parte do trabalho é fácil, basta pôr um advogado ao telefone a gritar com um burocrata que não se mexe. Senhas de alimentação, pensões dos veteranos, subsídios de habitação, assistência médica, auxílio a menores... Cerca de vinte e cinco por cento do nosso trabalho está ligado a benefícios sociais.

 

    • Eu ouvia atentamente e ele lia a minha mente. Mordecai começava a puxar a linha.
  • Sabe, Michael, os sem abrigo não têm alternativa. Ninguém os ouve, ninguém lhes liga, e eles esperam que alguém os ajude. Quando tentam usar o telefone para conseguirem os subsídios a que têm direito, não chegam a lado nenhum. Ficam à espera, eternamente. Nunca

 

    • ninguém lhes telefona. Eles não têm endereço. Os burocratas não se ralam, e portanto lixam precisamente aqueles que deviam ajudar. Um assistente social experiente pode pelo menos conseguir que os burocratas lhe dêem ouvidos, e talvez que olhem para o processo e retribuam um telefonema. Mas se você tiver um advogado ao telefone, a gritar e a armar um escândalo, as coisas acontecem. Os burocratas sentem-se motivados. Os documentos são processados. Não há endereço? Não há problema. Envie-me o cheque, que eu faço-o chegar ao cliente. A sua voz subia de tom e os braços agitavam-se no ar. Acima de tudo, Mordecai era um contador de histórias por excelência. Calculei que fosse muito eficiente na presença de um júri.
  • Uma história engraçada - disse ele. - Há cerca de um mês, um dos meus clientes dirigiu-se a uma repartição da Segurança Social para pedir um formulário que lhe daria acesso a certos benefícios. Era um assunto de rotina. Ele tem sessenta anos e está permanentemente com dores nas costas. Se você dormir em cima de pedras e em bancos de jardim durante dez anos, arranja problemas nas costas. Pôs-se na fila e esperou duas horas lá fora. Por fim, entrou, esperou mais uma hora, dirigiu-se ao primeiro balcão, tentou explicar o que pretendia e deu com uma secretária desbocada a quem o dia estava a correr mal, que até teceu comentários sobre o cheiro dele. O homem sentiu-se humilhado, evidentemente, e foi-se embora sem os formulários. Telefonou-me. Eu fiz os meus contactos e, na quarta-feira passada, tivemos uma pequena cerimônia na repartição da Segurança Social. Eu estive lá, com o meu cliente. A secretária também lá estava, com o chefe, o chefe do chefe, o diretor distrital e um grandalhão da Administração da Segurança Social. A secretária aproximou-se do meu cliente e leu um pedido de desculpas com uma página. Foi uma cena bonita, comovente. Depois, entregou-me os formulários e eu recebi garantias da parte de todos os presentes de que o assunto seria tratado imediatamente. Isto é justiça, Michael, é disto que trata o Direito da rua. Dignidade.Por fm, saímos e regressamos ao abrigo.Não sei como, Miss Dolly conseguira arranjar uma pilha de frangos e estava à minha espera. Cozeu-os e eu desossei a carne fumegante. A mulher de Mordecai, Joanne, veio ter conosco à hora de ponta. Era tão agradável como o marido, e quase da mesma altura. Os dois filhos mediam um metro e oitenta e cinco. Cassius media um metro e noventa, e era uma estrela de basquetebol muito disputada, quando foi alvejado aos dezessete anos.O domingo começou com um telefonema de Claire ao fim da manhã, outra conversa formal que ela iniciou só para me dizer a que horas estaria em casa. Propus que fôssemos jantar ao nosso restaurante favorito, mas ela não estava bem disposta. Não lhe perguntei se algo correra mal. Tínhamos ultrapassado essa fase.Tomei ducha e vesti várias camadas de roupa. O meteorologista previa que a temperatura chegasse aos três graus negativos, e eu ia a sair de casa quando o locutor noticiou a história principal da manhã.Corri para o passeio, escorregando na neve mas conseguindo equilibrar-me. Desci P Street até Wisconsin, cheguei à Thirty-fourth e dirigi-me a uma banca. Sem fôlego e horrorizado, peguei num jornal. No canto inferior da primeira página vinha a notícia, obviamente inserida à última hora. Sem nomes.

 

    • Fui direito à Secção A, e deixei cair o resto do jornal no passeio molhado. A notícia continuava na página catorze, com alguns comentários formais da polícia e os avisos da praxe sobre os perigos dos tubos de escape obstruídos. Depois, os pormenores comoventes: a mãe tinha vinte e dois anos. Chamava-se Lontae Burton. O bebê chamava-se Temeko. Os dois irmãos a seguir, Alonzo e Dante, eram gêmeos e tinham dois anos. O mais velho, Ontário, tinha quatro. Devo ter feito um som estranho, porque um homem que passou a correr deitou-me um olhar esquisito, como se eu fosse um indivíduo perigoso. Comecei a afastar-me, com o jornal aberto na mão, tropeçando nas outras vinte secções.
    • Parei gelado; ouvi as palavras, mas não as assimilei logo. Aproximei-me do televisor da bancada da cozinha, com um andar pesado, o coração paralisado e a boca aberta de choque e de incredulidade. Algures por volta das onze horas da noite, a polícia local encontrara um pequeno carro junto de Fort Totten Park, no Northeast, numa zona de guerra. Estava estacionado na rua, com os pneus carecas enfiados na lama. Lá dentro, uma jovem mãe e os seus quatro filhos, todos mortos por asfixia. A polícia suspeitava que a família vivia no carro e tentava manter-se quente. O tubo de escape do automóvel estava enterrado num monte de neve retirado da rua. Alguns pormenores, mas nada de nomes.
    • Como a nossa casa era no terceiro andar, não conseguira que me levassem a casa o Post aos domingos. Tentara vários métodos, mas era raro encontrar o jornal.
    • Saí à meia-noite. Nem sinais de Ontário e da família.
    • Daí a uma hora cairia a noite e pensei que era uma boa altura para me enfiar na pequena cave acolhedora, antes de os vagabundos começarem a vaguear pelas ruas. Dei comigo a andar lentamente e com confiança, quando Mordecai estava a meu lado. De outro modo, enfrentaria a neve dobrado pela cintura, caminhando com nervosismo, quase sem tocar no chão.
    • As histórias sucederam-se, umas atrás das outras, e no fim os advogados da rua eram os bons e os sem abrigo eram os vencedores. Eu sabia que ele tinha no seu repertório outras tantas histórias comoventes, talvez mais, mas estava a construir os alicerces. Perdi a noção do tempo. Mordecai nem falou da correspondência.
  • Desculpe! - gritou uma voz agastada atrás de mim. - Não se importa de pagar? Continuei a andar.

 

    • O homem aproximou-se por trás e gritou:
  • Ouça lá!Em P Street, perto de casa, encostei-me a um muro de tijolo, em frente de um esplêndido prédio. O passeio fora meticulosamente limpo. Li a história outra vez, devagar, na esperança de que o final fosse diferente. Os pensamentos e as perguntas surgiam em catadupa, sem que os conseguisse acompanhar. Mas havia duas perguntas que se repetiam: Porque é que eles não tinham regressado ao abrigo? E o bebê teria morrido embrulhado no meu casaco de sarja? Pensar já era um grande fardo. Andar era quase impossível. Depois do choque, o remorso atacou em força. Porque é que eu não fizera qualquer coisa na noite de sexta-feira, quando os vira pela primeira vez? Podia tê-los levado para um motel aquecido e ter-lhes dado de comer.

 

    • O telefone estava a tocar quando entrei em casa. Era Mordecai. Perguntou-me se eu vira a história. Eu perguntei-lhe se lembrava da fralda molhada. Era a mesma família, disse eu. Ele nunca soubera os seus nomes. Falei-lhe mais da minha conversa com Ontário.
    • Parei para tirar uma nota de cinco dólares do bolso e atirei-a aos pés, quase sem olhar para ele.
  • Lamento muito, Michael - disse ele, muito mais triste.
  • Também eu.Depois, fui ao carro e tirei os sacos de comida, brinquedos e roupa que comprara para eles.

 

    •             Só por curiosidade, Mordecai foi ter comigo ao escritório por volta do meio-dia. Conhecera muitas grandes empresas no seu tempo, mas queria ver o local onde o Senhor tombara. Dei uma pequena volta com ele e contei-lhe a história dos reféns em traços largos. Saímos no carro dele. Dei graças pelo fato de o trânsito ser escasso aos domingos, pois Mordecai não se interessava pelo que os outros carros faziam.
    • Não consegui dizer mais nada, as palavras não me saíam da boca, e combinamos encontrar-nos mais tarde. Sentei-me no sofá e ali estive uma hora sem me mexer.
  • A mãe de Lontae Burton tem trinta e oito anos e está a cumprir uma pena de dez anos por vender crack - informou-me ele. Estivera ao telefone. - Há dois irmãos, ambos presos. Lontae tinha uma história de prostituição e de drogas. Não sabia quem era o pai, ou os pais, dos filhos.
  • Qual é a sua fonte?
  • Descobri a avó dela num complexo de habitação social. A última vez que viu Lontae, ela só tinha três filhos e vendia droga com a mãe. A avó cortou relações com a filha e com a neta por causa do negócio da droga.
  • Quem é que se encarrega do funeral?
  • Os mesmos que se encarregaram do funeral de DeVon Hardy.
  • Quanto custa um funeral decente?
  • Isso é negociável. Está interessado?
  • Gostava que eles fossem bem tratados.Não deviam ter nascido, diriam alguns do meu lado da cidade.

 

    • Os corpos tinham sido levados para o Gabinete do Médico Legista-Chefe, onde também estava instalada a morgue. Era um edifício castanho, de dois andares, ligado ao D. C. General Hospital. Ali ficariam até serem reclamados. Se ninguém se apresentasse no prazo de quarenta e oito horas, seriam obrigatoriamente embalsamados, depositados em urnas de madeira e rapidamente sepultados no cemitério próximo de RFK. Mordecai estacionou num espaço degradado, fez uma pausa e depois perguntou:
    • Estávamos em Pennsylvania Avenue e íamos a passar pelos edifícios gigantescos do Congresso, com o Capitólio ao fundo. Não pude deixar de praguejar em silêncio contra os loucos que gastavam bilhões de dólares todos os meses, quando havia gente sem casa. Como é que quatro crianças inocentes podiam ter morrido na rua, praticamente à sombra do Capitólio, porque não tinham onde viver?
  • Tem a certeza que quer entrar?
  • Acho que sim.O guarda recuou, satisfeito por se ver livre de nós. Num conjunto de portas envidraçadas lia-se a palavra MORGUE, pintada a preto. Mordecai entrou, como se o local lhe pertencesse.

 

    • Mordecai já lá estivera e telefonara com antecedência. Um segurança com uma farda desajeitada atreveu-se a mandar-nos parar, e Mordecai reagiu tão ruidosamente que me assustou. De qualquer modo, eu já sentia nós no estômago.
  • Sou Mordecai Green, advogado da família Burton - rosnou ele ao jovem que se encontrava do outro lado da secretária. Era mais um desafio do que um anúncio.

 

    • O jovem verificou um bloco e depois procurou qualquer coisa no meio de uns papéis.
  • O que diabo está você a fazer? - perguntou Mordecai outra vez.

 

    • O jovem levantou a cabeça, pronto a reagir, e apercebeu-se então da corpulência do adversário.
  • E só um minuto - disse, e aproximou-se do computador.

 

    • Mordecai virou-se para mim e disse em voz alta:
  • Dir-se-ia que eles têm cá uma centena de corpos.Um homem pálido, com o cabelo mal pintado e um aperto de mão viscoso, apareceu à nossa frente e disse chamar-se Bill. Trazia uma bata azul de laboratório e sapatos com solas de borracha grossas. Onde iriam buscar pessoas para trabalhar numa morgue?

 

    • Atravessamos uma porta atrás dele, descemos um corredor estéril onde a temperatura começou a descer e, por fim, entramos na sala principal.
    • Percebi que ele não tinha paciência para burocratas e funcionários públicos, e lembrei-me da sua história acerca do pedido de desculpas da secretária da Segurança Social. Para Mordecai, metade do exercício da advocacia consistia em ameaçar e vociferar.
  • Quantos receberam hoje? - perguntou Mordecai, como se passasse sempre por ali para contar os corpos.

 

    • Bill fez girar o puxador e respondeu:
  • Doze.
  • Sente-se bem? - perguntou-me Mordecai.
  • Não sei.Demos a volta e paramos num canto, com uma auto-mala à esquerda e uma mesa à direita.

 

    • Bill disse:
    • Bill empurrou a porta metálica e entramos. O ambiente estava gelado e cheirava a desinfetante. O chão era de mosaicos brancos e a luz fluorescente, com um tom azulado. Fui atrás de Mordecai, de cabeça baixa, tentando não olhar à volta, mas era impossível. Os corpos estavam cobertos com lençóis, da cabeça até aos tornozelos, tal como se via na televisão. Passamos por dois pés brancos, com uma etiqueta pendurada num dedo. Depois vimos alguns castanhos.
  • Lontae Burton.

 

    • E puxou de repente o lençol até à cintura da morta. Era a mãe de Ontário, com uma camisa branca. A morte não deixara marcas no seu rosto. Podia estar a dormir. Não pude deixar de a fitar.
  • É ela - disse Mordecai, como se a conhecesse há anos. Olhou para mim à espera de confirmação e eu conseguiu fazer um sinal afirmativo. Bill deu meia volta e eu sustive a respiração. As crianças estavam cobertas por um único lençol.Apeteceu-me tocar em Ontário, para lhe afagar o braço e dizer-lhe como lamentava. Apeteceu-me acordá-lo, levá-lo para casa, alimentá-lo e oferecer-lhe tudo o que ele quisesse.

 

    • Dei um passo em frente para o ver mais de perto.
    • Jaziam em fila, muitos juntas, com as mãos entrelaçadas sobre as camisas. Pareciam querubins adormecidos, pequenos soldados da rua finalmente em paz.
  • Não lhe toque - disse Bill.

 

    • Quando eu fiz um sinal afirmativo, Mordecai disse:
  • São eles.Numa sala ao fundo do corredor, Bill exibiu dois grandes cestos de arame com os objetos pessoais da família. Despejou-os em cima de uma mesa e nós ajudamo-lo a fazer o inventário. A roupa que vestiam estava suja e no fim. O meu casaco de sarja era a melhor peça que tinham. Havia três cobertores, uma bolsa, alguns brinquedos baratos, uma loção para bebês, uma toalha, mais roupas sujas, uma caixa de bolachas de baunilha, uma lata de cerveja por abrir, cigarros, dois preservativos e cerca de vinte dólares em notas e moedas.

 

    • Assim que Bill os tapou, fechei os olhos e fiz uma pequena prece, de misericórdia e de perdão. Não permitas que isto volte a acontecer, disse-me o Senhor.
  • O carro está no parque de estacionamento municipal - disse Bill. - Dizem que está cheio de lixo.
  • Nós tratamos disso - disse Mordecai.

 

    • Assinamos as folhas do inventário e saímos com os bens pessoais da família de Lontae Burton.
  • O que fazemos com isto? - perguntei.
  • Entregamos à avó. Quer o seu casaco?
  • Não.

 

    • A capela funerária pertencia a um sacerdote conhecido de Mordecai, que não gostava dele porque a sua igreja não era suficientemente agradável para os sem abrigo, mas que sabia lidar com ele. Estacionamos em frente da igreja, em Georgia Avenue, perto da Universidade Howard, uma zona mais asseada da cidade, onde não havia tantas janelas entaipadas.
  • É melhor você ficar aqui - disse ele. - Eu falo com ele muito mais à vontade se estivermos a sós.

 

    • Não me apetecia ficar sozinho no carro, mas naquele momento confiei-lhe a minha vida.
  • Com certeza - respondi, enterrando-me mais no banco e olhando à volta.
  • Fica bem aqui.O passeio estava cheio de gente. Observei as pessoas que passavam, apressadas e fustigadas pelo vento. Uma mãe com dois filhos passou por mim. Iam todos muito bem vestidos, de mãos dadas. Onde estavam eles na noite anterior, quando Ontário e a família se aconchegavam no carro gélido, a respirar monóxido de carbono inodoro até se esvaírem? Onde estávamos nós?Amaldiçoei o Senhor por ter feito descarrilar a minha vida. Amaldiçoei Mordecai por me fazer sentir culpado. E Ontário por me ter deixado destroçado.Era Mordecai, debaixo de neve, à beira do passeio. Abri a janela.

 

    • Uma pancada no vidro sobressaltou-me. Tinha os nervos em franja.
    • O mundo estava a desmoronar-se. Nada fazia sentido. Em menos de uma semana, vira seis pessoas da rua mortas e não estava preparado para o embate. Era um advogado branco, culto, bem alimentado e próspero, a caminho da fortuna e de todas as coisas maravilhosas que ela podia comprar. É certo que o casamento estava no fim, mas havia de me recompor. Havia muitas mulheres bonitas por aí. Não tinha motivos para me preocupar.
    • Mordecai saiu e eu tranquei as portas. Pouco depois, descontraí-me e comecei a pensar. Mordecai queria ficar a sós com o padre por uma questão de negócios. A minha presença teria complicado tudo. Quem era eu e qual era o meu interesse na família? O preço subiria imediatamente.
  • Ele diz que leva dois mil dólares, pelos cinco.
  • Seja o que for - disse eu, e ele desapareceu.

 

    • Pouco depois, voltou, sentou-se ao volante e arrancou.
  • O funeral é na terça-feira, aqui na igreja. As urnas são de madeira, mas são boas. Ele arranja umas flores, para ficar mais bonito. Queria três mil, mas convenci-o que viria alguém da imprensa e que talvez ele aparecesse na televisão. Ficou satisfeito. Dois mil não é mau.
  • Obrigado, Mordecai.
  • Sente-se bem?
  • Não.Fora diagnosticada a doença de Hodgkin a James, o irmão mais novo de Claire. Daí a cimeira familiar em Providence. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Ouvi-a falar do fim-de-semana, do choque provocado pela notícia, das lágrimas e das orações quando se encostaram uns aos outros e confortaram James e a mulher. A família de Claire era de abraços e de choros, e eu estava encantado por ela não me ter telefonado a pedir que comparecesse. O tratamento começaria imediatamente; o prognóstico era bom.Isto não era o que eu esperava, e não sabia se era o que desejava. Admiti que pudéssemos manter-nos taciturnos ou até discutir. Pouco faltava para que a coisa ficasse feia, e só esperava que nos mostrássemos civilizados e tratássemos da nossa separação como pessoas adultas. Mas depois do que acontecera a Ontário, não estava preparado para lidar com nada que envolvesse emoção. Estava exausto. Ela disse-me várias vezes que eu tinha um ar cansado. Quase lhe agradeci.Como jovens viciados no trabalho, Claire e eu não precisávamos de despertadores, sobretudo nas manhãs de segunda-feira, quando nos aguardava uma semana inteira de desafios. Levantávamo-nos às cinco horas, comíamos cereais às cinco e meia e depois saímos em direções diferentes, praticamente a correr para ver quem saía primeiro. Graças ao vinho, eu conseguira dormir sem ser perseguido pelo pesadelo do fim-de-semana. E quando ia no carro para o escritório, estava determinado a distanciar-me um pouco da gente da rua. Iria ao funeral. Arranjaria tempo para fazer trabalho gratuito em prol dos sem abrigo. Conservaria a amizade com Mordecai, e talvez até aparecesse de vez em quando no seu escritório. Iria visitar Miss Dolly uma vez por outra e ajudá-la-ia a dar de comer aos esfomeados. Daria dinheiro e ajudaria a arranjar mais para os pobres. Decerto conseguiria gerar mais fundos do que qualquer outro censor oficioso.Escolhi um elevador diferente daquele em que subira com o Senhor. Ele pertencia à História; afastei-o da minha mente. Não olhei para a sala de reuniões em que ele morrera. Atirei a pasta e o sobretudo para cima de uma cadeira do meu gabinete e fui tomar café. Descer o corredor antes das seis da manhã, falar com um colega aqui, com um administrativo ali, tirar o casaco, arregaçar as mangas... Era ótimo estar de volta.Por baixo do Post encontrava-se um dossiê castanho de tamanho normal, do tipo dos que a nossa firma usava aos milhões. Não tinha qualquer marca, o que o tornava suspeito. Estava ali, à vista, no meio da minha secretária, onde fora depositado por algum anônimo. Abri-o lentamente.Na coluna da esquerda viam-se os números de um a dezessete.Lontae Burton e três ou quatro filhos . Pousei lentamente o dossiê em cima da secretária, levantei-me e aproximei-me da porta, fechei-a à chave e depois encostei-me a ela. Os primeiros dois minutos passaram--se no meio de um silêncio absoluto. Olhei fixamente para o dossiê que estava no meio da secretária. Fui obrigado a reconhecer que era verdadeiro e rigoroso. Porque havia alguém de forjar tal coisa? Depois, peguei-lhe outra vez, com todo o cuidado. Por baixo da segunda folha de papel, no interior do próprio dossiê, o meu informador anônimo escrevinhara a lápis:   O despejo foi legal e eticamente errado.” A frase estava escrita em letra de imprensa, para evitar a detecção no caso de eu mandar analisá-la. As marcas eram tênues, e o chumbo mal tocara no papel do dossiê.Fui quase malcriado para aqueles que queriam conversar sobre a crise dos reféns e as suas conseqüências. Dei mostras de ser o mesmo, e exibi a minha dureza habitual, pelo que se desvaneceram as preocupações quanto à minha estabilidade emocional. Mais tarde, ainda de manhã, telefonou-me o meu pai. Já não me lembrava há quanto tempo é que ele não me telefonava para o escritório. Disse que estava a chover em Memphis, que estava sentado em casa, aborrecido, e, bem, que ele e a minha mãe estavam preocupados comigo. Claire estava boa, expliquei; depois, para agir pelo seguro, falei-lhe do irmão dela, James, uma pessoa que ele vira uma vez, no casamento. Mostrei-me devidamente preocupado com a família de Claire, e isso agradou-lhe.Meia hora depois, o meu irmão Warner telefonou-me do seu escritório, no centro de Atlanta. Era seis anos mais velho do que eu, sócio noutra grande firma, e litigante. Devido à diferença de idade, Warner e eu nunca fomos íntimos em pequenos, mas gostávamos da companhia um do outro. Durante o seu divórcio, há três anos, ele falava comigo todas as semanas.

 

    • Estava à pressa, tal como eu, por isso percebi que a conversa seria breve.
    • O meu pai ficou radiante por me encontrar no escritório. Eu ainda lá estava, a fazer bom dinheiro, e a preparar-me para fazer mais. Pediu- me que fosse telefonando.
    • Mantive a porta fechada à chave durante uma hora, e entretanto ora ficava à janela a ver o nascer do sol ora me sentava à secretária a olhar para o dossiê. O movimento aumentava no corredor, até que ouvi a voz de Polly. Abri a porta, cumprimentei-a como se tudo estivesse a correr às mil maravilhas, e embrenhei-me nos requerimentos. A manhã foi totalmente preenchida com reuniões e conferências, duas delas com Rudolph e clientes. Portei-me à altura, embora não me conseguisse lembrar de tudo o que tínhamos dito ou feito. Rudolph estava muito orgulhoso por a sua estrela estar de volta a todo o gás.
    • O número quatro era DeVon Hardy. æ frente do número quinze lia-se:
    • Lá dentro havia apenas duas folhas de papel. A primeira era uma cópia da notícia da véspera que fora publicada no Post, a mesma que eu lera dez vezes e que mostrara a Claire na noite anterior. Por baixo, estava uma cópia de qualquer coisa tirada de um processo oficial da Drake & Sweeney. Em título lia-se DESPEJADOS - RIVEROAKS, INC.
    •             Li The Wall Street Journal em primeiro lugar, em parte porque sabia que não tinha nada a ver com as pessoas da rua que morriam em Columbia. Depois, li o Post. Na primeira página da secção da Cidade, havia uma pequena notícia sobre a família de Lontae Burton, com uma fotografia da avó a chorar junto de um prédio de apartamentos. Li-a e a pus de lado. Sabia mais do que o repórter, e estava disposto a não me distrair.
    • Na escuridão do carro, concluí que precisava de uma série de dias de dezoito horas para reajustar as minhas prioridades. A minha carreira sofrera um pequeno descarrilamento; uma orgia de trabalho voltaria a pôr as coisas nos seus lugares. Só um louco deixaria fugir a oportunidade que se me oferecia.
    • Escutei-a com dificuldade até ela se calar e depois a conversa resvalou a pouco e pouco para mim e para o meu fim-de-semana. Contei-lhe tudo - a minha nova vida como voluntário nos abrigos, e depois Ontário e a família. Mostrei-lhe a notícia que vinha no jornal. Claire mostrou-se verdadeiramente comovida, mas também admirada. Eu não era a mesma pessoa de há uma semana, e ela não sabia ao certo se gostava mais da última versão ou da anterior. Eu também não.
    • Claire sentia-se feliz por estar em casa e aliviada por ter alguém com quem desabafar. Bebemos vinho na sala, junto da lareira, com uma manta nos pés. Foi quase uma cena romântica, embora eu estivesse demasiado traumatizado para pensar sequer em ser sentimental. Fiz um grande esforço ao ouvi-la lamentar-se por causa do pobre James e ao interrompê-la com pequenas frases de consolo.
    • Pouco falamos até chegarmos ao meu escritório.
  • Falei com o pai. Ele contou-me tudo - disse.
  • Não duvido.
  • Percebo como te sentes. Todos nós passamos por isso.

 

    • Trabalhamos muito, ganhamos muito dinheiro e nunca paramos para pensar nas pessoas com poucos recursos. Então acontece qualquer coisa, e lembramo-nos dos tempos da faculdade, do primeiro ano, quando estávamos cheios de ideais e queríamos servir-nos dos nossos cursos de Direito para salvar a humanidade. Lembras-te?
  • Lembro. Há muito tempo.
  • Exatamente. No meu primeiro ano de Direito, fizeram um estudo. Mais de metade da minha turma queria ir para o Ministério Público. Três anos mais tarde, quando nos licenciamos, todos foram atrás do dinheiro. Não sei o que aconteceu.
  • A faculdade de Direito torna-nos gananciosos.
  • Creio que sim. A nossa firma tem um programa em que é possível tirar um ano de licença, uma espécie de ano sabático, para exercer advocacia no Ministério Público. Doze meses depois, voltas, como se nunca tivesses saído. Vocês têm alguma coisa deste gênero? Grande Warner. Eu tinha um problema, e ele já tinha a solução. Sem mais nem menos. Doze meses, e eu era um homem novo. Um desvio rápido, mas o futuro está assegurado.
  • Não para os que não são sócios - respondi. - Ouvi dizer que um ou dois sócios saíram para trabalharem para esta ou aquela administração, e que regressaram passados dois anos. Mas só os sócios.
  • Mas as tuas circunstâncias são diferentes. Tu ficaste traumatizado, ias morrendo só porque pertencias à firma. Se fosse eu, havia de insistir com alguém, dizer-lhe que precisava de uma licença. Tira um ano, e depois volta ao escritório.
  • Talvez resulte - disse eu, tentando acalmá-lo. Warner tinha uma personalidade de tipo A, era agressivo como o diabo, sempre preparado para a discussão, em especial com a família.
  • Tenho pressa - disse eu.O almoço foi com Rudolph e um cliente, num restaurante esplêndido. Chamavam-lhe almoço de serviço, o que significava que não bebíamos álcool e que o tempo seria faturado ao cliente. Rudolph cobrava quatrocentos à hora e eu, trezentos. Trabalhamos e comemos durante duas horas, portanto o almoço custou mil e quatrocentos dólares ao cliente. A nossa firma tinha uma conta no restaurante, e por isso ele seria debitado à Drake & Sweeney, e algures no meio do percurso as nossas calculadoras brilhantes da cave haviam de arranjar maneira de faturar também ao cliente o custo da refeição. Eram quase cinco horas quando consegui ficar alguns minutos a sós. Despedi-me de Polly e voltei a fechar a porta à chave. Abri o dossiê misterioso, tomando apontamentos ao acaso num bloco, escrevinhando e fazendo gráficos com setas que apontavam para a RiverOaks e para a Drake & Sweeney, vindas de todas as direções. Braden Chance, o sócio do departamento de Bens Imobiliários com o qual eu me defrontara por causa do processo, foi o mais atingido. O meu principal suspeito era o seu solicitador, o jovem que ouvira a nossa troca de palavras agrestes e que, pouco depois, chamara   idiota , a Chance, quando eu ia a sair do seu gabinete. Ele devia conhecer os pormenores do despejo e ter acesso ao processo.Estava na firma há três anos, sempre nos Bens Imobiliários. Combinei encontrar-me com ele, mas fora do edifício.

 

    • Mordecai telefonou. Perguntou quais eram os meus planos para o jantar.
    • Por um telefone de bolso, para evitar interferências da D&S, falei a um solicitador do departamento de Direito da Concorrência. O seu gabinete fazia esquina com o meu. Ele remeteu-me para outro, e percebi sem dificuldade que o homem que eu pretendia era Hector Palma.
    • A tarde foi um nunca acabar de telefonemas e conferências. Graças a uma força de vontade férrea, mantive as aparências e consegui faturar bastante. Nunca o Direito da Concorrência me parecera tão irremediavelmente denso e monótono.
    • Ele também tinha. Prometemos voltar a falar mais tarde.
  • Eu é que convido - disse ele.
  • Sopa?

 

    • Ele riu-se.
  • Claro que não. Conheço um sítio excelente.Encontramo-nos num restaurante próximo de Dupont Circle. O bar da frente estava cheio de tipos do governo, bem pagos, que bebiam um copo antes de saírem da cidade.

 

    • Combinamos encontrar-nos às sete. Claire voltara à sua vida de cirurgiã, esquecendo-se do tempo, das refeições ou do marido. Telefonara a meio da tarde, só para dizer qualquer coisa à pressa. Não sabia quando chegaria a casa, mas seria muito tarde. Ao jantar, cada um que se amanhasse. Não a culpei. Aprendera comigo a viver àquele ritmo.
  • A história dos Burton está a ganhar novas dimensões - disse ele, beberricando uma cerveja.
  • Lamento, mas estive metido numa gruta nas últimas doze horas.

 

    • O que aconteceu?
  • Imprensa aos montes. Quatro crianças mortas com a mãe, a viverem num carro. Encontraram-nos a dois quilômetros do Monte do Capitólio, onde se discute a reforma da assistência para enviar mais É mães para a rua. É lindo.
  • Então o funeral deve ser um espetáculo.
  • Sem dúvida. Hoje falei com uma dúzia de ativistas sem abrigo.

 

    • Eles vão lá estar, e tencionam levar outros com eles. O local estará a abarrotar com gente da rua. Mais uma vez, muitos elementos da imprensa. Quatro pequenas urnas ao lado da urna da mãe, e as câmaras a filmarem tudo isso para o noticiário das seis. Teremos um comício antes e um cortejo depois.
  • Talvez nasça qualquer coisa boa das suas mortes.
  • Talvez.

 

    • Como advogado experiente da grande cidade, eu sabia que havia um objetivo por trás de todos os convites para almoço ou para jantar. Mordecai tinha qualquer coisa em mente. E percebia-se, pelo modo como os seus olhos seguiam os meus.
  • Sabe porque é que eles não tinham casa? - perguntei, apalpando terreno
  • Não. Talvez pelo motivo habitual. Não tive tempo para fazer perguntas.O criado trouxe saladas e começamos a comer.

 

    • Quando vinha no carro, concluíra que não podia falar-lhe do dossiê misterioso e do seu conteúdo. Era confidencial e eu só o conhecia devido à minha posição na Drake & Sweeney. Revelar o que soubera das atividades de um cliente seria uma quebra clamorosa do sigilo profissional. Só o fato de pensar em divulgá-lo me assustava. Além disso, eu não tinha verificado nada.
  • Esta manhã tivemos uma reunião da firma - disse Mordecai, entre duas dentadas. - Eu, o Abraham e a Sofia. Precisamos de ajuda. Não fiquei admirado ao ouvir aquilo.
  • Que tipo de ajuda?
  • Outro advogado.
  • Julguei que estavam falidos.
  • Temos uma pequena reserva. E adaptamos uma nova estratégia de marketing.

 

    • A idéia da 14’ Street Legal Clinic preocupada com uma estratégia de marketing dava vontade de rir, e foi essa a intenção dele. Sorrimos ambos.
  • Se conseguíssemos que o novo advogado passasse dez horas por semana a ganhar dinheiro, ele poderia pagar-se a si próprio. Voltamos a sorrir.

 

    • Ele continuou:
  • Por muito que deteste admiti-lo, a nossa sobrevivência vai depender da nossa capacidade de fazer dinheiro. A Fundação Cohen está em declínio. Temo-nos dado ao luxo de não pedir, mas agora a situação tem de mudar.
  • E em que consiste o resto do trabalho?
  • Assistência legal à gente da rua. Você já teve a sua conta. Viu o nosso escritório. É uma lixeira. A Sofia é uma espertalhona. O Abraham é um imbecil. Os clientes cheiram mal e o dinheiro é para rir.
  • Quanto?
  • Podemos oferecer-lhe trinta mil por ano, mas só lhe podemos prometer metade nos primeiros seis meses.
  • Porquê?
  • A fundação fecha as contas em trinta de Junho e só então é que nos comunica quanto receberemos no próximo ano fiscal, que começa no dia um de Julho. Temos o suficiente de reserva para lhe pagar os primeiros seis meses. Depois disso, nós os quatro dividiremos o que sobrar das despesas.
  • O Abraham e a Sofia concordaram com isso?
  • Concordaram, depois de uma conversinha comigo. Calculamos que você tenha bons contactos na barra dos tribunais, e como é bem educado, tem bom aspecto, é brilhante, e tudo isso, deve ter facilidade em fazer dinheiro.
  • E se eu não quiser ganhar dinheiro?
  • Nesse caso, nós os quatro podemos reduzir ainda mais os nossos salários, talvez descer aos vinte mil por ano. E depois aos quinze mil. E quando a fundação não der nada, podemos acabar na rua, como os nossos clientes. Advogados sem abrigo.
  • Então eu sou a futura aquisição da 14’ Street Legal Clinic?
  • Foi o que nós resolvemos. Aceitamo-lo como sócio. Veremos se a Drake & Sweeney cobre esta oferta.
  • Estou sensibilizado - disse eu.A sopa de feijão preto chegou e pedimos mais cerveja.

 

    • Também estava um pouco assustado. A oferta de trabalho não era inesperada, mas a sua chegada abria uma porta que não sabia se queria transpor.
  • Qual é a história de Abraham? - perguntei.
  • Um judeu de Brooklyn. Veio para Washington para trabalhar com a equipa do Senador Moynihan. Passou vários anos no Capitólio e acabou na rua. É brilhante. Passou a maior parte do tempo a coordenar o Contencioso com censores oficiosos de grandes firmas. Neste momento, anda atrás da Comissão de Recenseamento para garantir que os sem abrigo sejam contados. E anda atrás do sistema educativo de Columbia para garantir que as crianças sem abrigo vão à escola. O seu relacionamento pessoal deixa muito a desejar, mas é formidável na litigância de bastidores.
  • E Sofia?
  • É uma assistente social de carreira, que freqüenta as aulas noturnas de Direito há onze anos. Age e pensa como uma advogada, sobretudo quando tem pela frente trabalhadores do governo. Você vai ouvi-la dizer,   Fala Sofia Mendoza, advogada , dez vezes por dia.
  • Também é secretária?
  • Não. Nós não temos secretárias. Fazemos a nossa própria datilografia, o nosso arquivo e os nossos cafés.

 

    • Mordecai inclinou-se mais e baixou a voz, acrescentando:
  • Nós os três estamos juntos há muito tempo, Michael, e escavamos os nossos pequenos nichos. Para ser honesto, precisamos de uma cara nova com algumas idéias novas.
  • O dinheiro é sem dúvida tentador - disse eu, tentando fazer humor. Mas ele riu-se.
  • Você não faz isto pelo dinheiro. Fá-lo pela sua consciência.As coisas que desejava transformar-se-iam em recordações distantes.Na terça-feira, telefonei a dizer que estava doente.

 

    • O momento não era mau. Com o casamento a acabar, fazia um certo sentido que introduzisse mudanças drásticas em todas as frentes.
    •             A minha consciência manteve-me acordado durante quase toda a noite. Teria coragem para me afastar? Considerava seriamente o fato de aceitar um emprego em que ganhava tão pouco? Estava literalmente a dizer adeus a milhões de dólares.
  • Talvez seja gripe - disse eu a Polly, que, como estava treinada para isso, quis pormenores. Febre, dores de garganta, dores de cabeça? Tudo. Fosse o que fosse, não me importava. Era preferível estar muito doente, já que tencionava não ir trabalhar. Ela preenchia um formulário e enviava-o a Rudolph. Antecipando-me ao telefonema dele, saí de casa e andei a passear por Georgetown ao princípio da manhã. A neve estava a derreter-se rapidamente; a temperatura máxima chegaria aos dez graus positivos. Passei uma hora a vaguear pelo Porto de Washington, bebendo café aqui e ali e vendo os remadores a gelar no Potomac. Às dez horas, fui ao funeral.Quando passei, uma grande multidão escutava um orador que gritava para um microfone. Viam-se alguns cartazes, pintados à pressa, por cima das cabeças, em benefício das câmaras. Estacionei numa rua lateral, a três quarteirões de distância, e corri para a igreja. Evitei a parte da frente e dirigi-me para uma porta lateral, guardada por um porteiro idoso. Perguntei se havia uma galeria. O homem perguntou se eu era repórter.Estava sozinho e podia sentar-me onde quisesse. Dirigi-me, sem fazer barulho, para um local por cima da porta das traseiras, donde via diretamente a nave central até ao púlpito. Um coro começou a cantar lá fora, na escadaria principal e eu sentei-me tranqüilamente na igreja vazia, a ouvir a música.O soalho da galeria estremeceu quando as carpideiras entraram no santuário. O coro instalou-se atrás do púlpito. O padre encaminhava as pessoas - as equipas de televisão para um canto, a pequena família para o banco da frente e os ativistas e os sem abrigo do meio para baixo. Mordecai entrou com duas pessoas que eu não conhecia. Abriu-se uma porta lateral e os prisioneiros saíram - a mãe de Lontae e dois irmãos, envergando as fardas azuis da prisão, algemados nos pulsos e nos tornozelos, acorrentados uns aos outros e escoltados por quatro guardas armados. Foram encaminhados para o segundo banco, na nave central, atrás da avó e de outros parentes.Empregados de luvas brancas fizeram deslizar as urnas de madeira pela nave e alinharam-nas umas em frente das outras, com a de Lontae ao meio, na cabeceira da igreja. A do bebê era minúscula, com menos de noventa centímetros de comprimento. As de Ontário, Alonzo e Dante eram de tamanho médio. Era um espetáculo pavoroso, e o choro começou. Os elementos do coro começaram a cantar com a boca fechada e a balançar o corpo de um lado para o outro. Os empregados dispuseram as flores à volta das urnas, e por instantes julguei, horrorizado, que iam abri-las. Nunca estivera num funeral de negros. Não sabia o que esperar, mas já vira imagens televisivas de outros funerais em que a urna era aberta e a família beijava o cadáver. Os abutres com as câmaras estavam sempre prontos. Mas as urnas não foram abertas, e por isso o mundo não soube o que eu sabia - que Ontário e a família tinham um ar muito tranqüilo.A assistência bateu palmas quando ela terminou. Então, o sacerdote alongou-se a arrasar todos aqueles que não eram negros e tinham dinheiro.Por fim, o sacerdote entrou e repôs a ordem. Voltou a rezar, acompanhado pela música de fundo do órgão. Quando acabou, iniciou-se uma longa despedida, com as pessoas a passarem pelas urnas em cortejo, pela última vez.As pessoas encaminharam-se para a saída e formou-se um cortejo na direção do Monte do Capitólio. Mordecai ia no meio, e quando eles desapareceram numa esquina perguntei a mim próprio em quantos cortejos e manifestações é que ele participara. Não nos suficientes, seria talvez a sua resposta.            Estava à minha espera às seis da tarde, no seu gabinete, atrás de uma pilha de trabalho. Polly e as outras secretárias já tinham saído, tal como a maioria dos solicitadores e dos administrativos. O movimento no corredor diminuía consideravelmente depois das cinco e meia. Fechei a porta e sentei-me.

 

    • Rudolph Mayes tornara-se sócio da Drake & Sweeney com trinta anos, o que continuava a ser um recorde. E se a vida corresse de acordo com os seus planos, um dia seria o sócio mais antigo no ativo. O Direito era a sua vida, como podiam provar as suas três ex-mulheres. Tudo o resto em que tocava era desastroso, mas Rudolph era o exemplo acabado do membro de uma equipa de trabalho numa grande firma.
    • O serviço fúnebre demorou uma hora e meia. Por dois mil dólares, não fora uma má produção. Sentia-me orgulhoso.
    • Um solo, e mais passagens das Escrituras. Em seguida, o coro lançou-se num hino comovente, que me deu vontade de chorar. Formou-se um cortejo que deu as mãos sobre os mortos, mas que depressa se desfez quando as carpideiras começaram a chorar e a esfregar as urnas. Abram-nas, gritou alguém, mas o sacerdote abanou a cabeça. As pessoas convergiram para o púlpito, aglomerando-se à volta das urnas, aos gritos e aos soluços, enquanto o coro as estimulava. A avó era a que gritava mais, e era acariciada e confortada pelos outros. Eu não podia acreditar. Onde estivera aquela gente nos últimos meses de vida de Lontae? Aqueles corpinhos que jaziam ali no caixão nunca tinham recebido tanto amor.
    • Sentamo-nos e o padre dirigiu uma longa prece. Seguiu-se um solo da irmã não sei de quem e depois uns momentos de silêncio. O sacerdote leu as Escrituras e fez um pequeno sermão. Foi seguido por uma ativista dos sem abrigo, que desferiu um ataque vigoroso à sociedade e aos seus dirigentes, que permitiam que tal coisa acontecesse. Acusou o Congresso, em especial os Republicanos, e apontou o dedo à cidade pela sua ausência de capacidade de liderança, aos tribunais e à burocracia. Mas reservou a sua mais severa diatribe para as classes dominantes, aquelas que tinham poder e dinheiro e que não se importavam com os pobres e os doentes. Mostrou-se conseqüente e indignada, muito eficiente, mas, na minha opinião, não se sentia à vontade num funeral.
    • Quando se fez silêncio, o órgão começou a tocar, com um som suave e triste. Ouviu-se uma algazarra por baixo do sítio em que eu me encontrava e todas as cabeças se viraram para trás. O padre subiu ao púlpito e mandou-nos levantar.
    • A música parou, as portas abriram-se, e a multidão começou a entrar.
    •             Deixou-me entrar e apontou-me para uma porta. Agradeci-lhe e entrei; depois subi um lanço de escadas pouco seguras e saí na galeria que dava para um belo santuário lá em baixo. A carpete era cor de púrpura, os bancos de madeira escura, as janelas tinham vitrais e estavam limpas. Era uma igreja muito bela, e por instantes percebi que o padre se mostrasse relutante em abri-la aos sem abrigo.
    • O acesso ao passeio em frente da igreja estava vedado. Viam-se polícias à volta, com as motos estacionadas na rua. Mais abaixo, estavam as carrinhas de televisão.
  • Julguei que estava doente - disse ele.
  • Vou-me embora, Rudolph - disse eu, com todo o atrevimento de que fui capaz, embora sentisse um nó no estômago. Rudolph afastou os livros para o lado e pôs a tampa na sua caneta cara.
  • Sou todo ouvidos.
  • Vou sair da empresa. Tenho uma oferta de uma empresa de censores oficiosos.
  • Não seja estúpido, Michael.
  • Não estou a ser estúpido. Já decidi. E quero sair daqui com o menor incômodo possível.
  • Você será sócio daqui a três anos.
  • Descobri um negócio melhor do que esse.

 

    • Ele não conseguiu arranjar uma resposta e revirou os olhos, frustrado.
  • Veja lá, Michael. Você não pode fraquejar depois de um único incidente.
  • Não estou a fraquejar, Rudolph. Vou passar para outro campo, pura e simplesmente.
  • Nenhum dos outros oito reféns vai fazer isso.
  • Ainda bem para eles. Se sentem felizes, eu sinto-me feliz por eles. Além disso, eles estão no Contencioso, que é uma raça estranha.
  • Para onde vai?
  • Para uma clínica legal perto de Logan Circle. Especializada em assistência jurídica aos sem abrigo.
  • Assistência jurídica aos sem abrigo?
  • Sim.
  • Quanto é que lhe vão pagar?
  • Uma fortuna. Quer fazer um donativo à clínica?
  • Você está a perder o juízo.
  • É só uma pequena crise, Rudolph. Tenho apenas trinta e dois anos, sou demasiado novo para as crises da meia-idade. Tenciono conseguir superar a minha rapidamente.
  • Tire um mês de licença. Vá trabalhar com os sem abrigo, livre-se disso e depois volte. Esta é uma fase terrível para sair, Mike. Sabe como estamos atrasados.
  • Não resulta, Rudolph. Não tem graça se houver uma rede de segurança.
  • Graça? Você está a fazer isto por graça?
  • Absolutamente. Pense como será divertido trabalhar sem olhar para o relógio.
  • E a Claire? - perguntou ele, revelando as profundezas do seu desespero. Mal a conhecia, e era a pessoa menos qualificada da firma para dar conselhos matrimoniais.
  • Está boa - respondi. - Eu gostaria de sair na sexta-feira.

 

    • Rudolph resmungou, derrotado. Fechou os olhos e abanou a cabeça devagar.
  • Não acredito nisto.Eu não queria que Polly soubesse por outras pessoas, por isso dirigi-me ao meu gabinete e telefonei-lhe. Ela estava em casa, em Arlington, a fazer o jantar. A notícia estragou-lhe a semana.Se Claire esperava uma cilada, não o deu a entender. Ao longo dos anos, tínhamos criado o hábito de nos ignorarmos um ao outro, para não discutirmos. Por isso, as nossas tácticas não eram refinadas. Mas agradava-me a idéia de haver uma parte desconhecida, de estar totalmente preparado para o choque e de estar equipado com os comentários mordazes. Considerava que era uma situação agradável e injusta, totalmente aceitável dentro dos limites de um casamento que estava a desmoronar-se.

 

    • Eram quase dez horas; ela já comera há muito tempo, por isso fomos logo para a sala, com copos de vinho. Espevitei o fogo e sentamo-nos nas nossas cadeiras favoritas. Pouco depois, eu disse:
    • Fui comprar comida tailandesa e levei-a para casa. Pus vinho no frigorífico, preparei a mesa e comecei a ensaiar o meu texto.
    • Apertamos as mãos e prometemos encontrar-nos ao pequeno-almoço para falarmos do trabalho que eu deixaria por acabar.
  • Precisamos de conversar.
  • O que é? - perguntou ela, sem revelar a menor preocupação.
  • Estou a pensar em sair da Drake & Sweeney.
  • Ah, sim?

 

    • Bebeu um golo. Admirei-lhe a frieza. Ou já esperava a notícia ou queria mostrar-se despreocupada.
  • Sim. Não posso voltar para lá.
  • Porquê?
  • Estou disposto a mudar. De repente, o trabalho com as empresas parece-me monótono e insignificante, e quero fazer qualquer coisa para ajudar as pessoas.
  • Isso é bonito.

 

    • Ela já estava a pensar no dinheiro, e eu estava ansioso por ver quanto tempo é que ela levaria a contornar o assunto.
  • De fato, isso é admirável, Michael.
  • Falei-te de Mordecai Green. A clínica dele ofereceu-me um emprego. Começo a trabalhar na segunda-feira.
  • Na segunda-feira?
  • Sim.
  • Então já decidiste.
  • Já.
  • Sem falares comigo. Não tenho voto na matéria, não é verdade?
  • Não posso voltar para a firma, Claire. Disse hoje ao Rudolph.

 

    • Mais um golo, um ligeiro arreganhar de dentes, um lampejo de fúria, mas esperou que passasse. O seu auto-domínio era espantoso. Ficamos a olhar para o fogo, como que hipnotizados pelas chamas alaranjadas. Foi ela a primeira a falar:
  • Posso perguntar-te em que é que isso altera a nossa situação financeira?
  • Altera várias coisas.
  • Qual é o teu novo salário?
  • Trinta mil por ano.
  • Trinta mil por ano - repetiu ela. Depois pronunciou de novo a frase, um pouco mais baixinho. - Isso é menos do que eu ganho. Ela ganhava trinta e um mil dólares, um número que aumentaria drasticamente nos anos seguintes - o dinheiro a sério não era para deitar fora. A bem da discussão, resolvera mostrar-me compreensivo se ela se lamentasse por causa do dinheiro.
  • Ninguém é censor oficioso pelo dinheiro - disse eu, tentando não parecer beato. - Se bem me lembro, não foste para a Escola Médica pelo dinheiro.Claire olhou para o fogo e fez as contas. Calculei que estivesse a pensar na renda. Era um belo apartamento; por dois mil e quatrocentos dólares por mês ainda devia ser melhor. A decoração era adequada. Orgulhávamo-nos do sítio onde vivíamos - o local indicado, um belo prédio, um bairro aparatoso - mas passávamos muito pouco tempo em casa. E era raro recebermos alguém. A mudança corresponderia a um ajustamento, mas podíamos suportá-la.

 

    • Sempre fôramos abertos quanto às nossas finanças; não escondíamos nada. Ela sabia que tínhamos cerca de cinqüenta e um mil dólares em fundos de pensão e doze mil em contas bancárias. Era espantoso como tínhamos poupado tão pouco em seis anos de casamento. Quando trabalhamos a todo o gás numa grande empresa, até parece que o dinheiro não tem fim.
    • Tal como todos os estudantes de Medicina do país, ela iniciara os estudos jurando que não era o dinheiro que a seduzia. Queria ajudar a humanidade. O mesmo acontecia com os estudantes de Direito. Todos nós mentíamos.
  • Acho que teremos de fazer ajustamentos, não é verdade? - disse ela, deitando-me um olhar frio. A palavra   ajustamentos   estava repleta de conotações.
  • Creio que sim.
  • Estou cansada - disse ela. Esvaziou o copo e foi para o quarto.É claro que me apercebia do meu novo estatuto na vida. Dava uma notícia formidável: advogado jovem e ambicioso, transformado em defensor dos pobres, vira as costas a empresa de primeira categoria para trabalhar por nada. Embora pensasse que eu estava a perder o juízo, Claire tivera dificuldade em criticar um santo.Os sócios tinham uma casa de jantar privada no oitavo andar, e era uma honra um simples advogado comer ali. Rudolph era o tipo de idiota que julgava que uma tigela de papas de aveia irlandesas às sete horas da manhã, na sua sala especial, me devolveria o juízo. Como é que eu podia voltar as costas a um futuro repleto de pequenos-almoços revigorantes?Fiquei impressionado e sensibilizado com a idéia, e não podia rejeitá-la sem mais nem menos. Prometi-lhe que iria pensar no assunto, e depressa. Ele avisou-me que teria de ser aprovada pela comissão executiva, visto que eu não era sócio. A firma nunca concedera este tipo de licença a um simples parceiro.No ano anterior, eu faturara pouco menos de setecentos e cinqüenta mil dólares. Por isso é que estava a comer naquela salinha maravilhosa e a ouvir os seus planos drásticos para me conservarem. Também fazia sentido pegarem no meu salário anual, atirarem-no aos sem abrigo ou a outra obra de caridade que eu quisesse, e depois convencerem-me a voltar ao fim de um ano.Estávamos a fazer uma lista das questões a tratar quando Braden Chance se sentou numa mesa não muito longe da nossa. A princípio, não me viu. Havia cerca de uma dúzia de sócios a comer, quase todos sozinhos, embrenhados na leitura dos jornais da manhã. Tentei ignorá-lo, mas por fim levantei a cabeça e dei com ele a olhar para mim.

 

    • Assim que ele acabou de expor a idéia da licença sabática, começamos a rever os assuntos mais prementes do meu gabinete.
    • Rudolph queria desesperadamente que eu ficasse, e isto tinha pouco a ver com amizade. O nosso departamento de Direito da Concorrência estava sobrecarregado de trabalho, e precisávamos pelo menos de mais dois advogados sênior com a minha experiência. Era uma fase péssima para eu sair, mas não me importava. A firma tinha oitocentos advogados. Havia de encontrar os elementos de que precisava.
    • Tinha notícias escaldantes. Falara com Arthur na véspera, já tarde, e havia uma proposta no sentido de me concederam doze meses de licença sabática. A firma complementaria o salário que a clínica me pagasse. Era uma causa nobre; eles tinham de fazer algo mais para proteger os direitos dos pobres. Eu seria tratado como advogado oficioso designado pela firma durante um ano inteiro, e eles ficariam todos bem consigo próprios. Depois, eu regressaria com as minhas baterias recarregadas, com os meus outros interesses aplacados e voltaria a dirigir os meus talentos para a glória da Drake & Sweeney.
    • Pus mais um toro na lareira, preparei outra bebida e dormi no sofá.
    • Que cena patética, pensei. Nem sequer nos odiamos o suficiente para termos uma briga decente.
  • Bom-dia, Braden - disse eu em voz alta, sobressaltando-o e obrigando Rudolph a virar-se para ver quem era.

 

    • Chance baixou a cabeça, não disse nada e, de repente, agarrou-se a uma torrada.
  • Conhece-o? - perguntou Rudolph, sem fôlego.
  • Já nos encontramos - respondi.

 

    • Durante o nosso breve encontro no seu gabinete, Chance perguntara o nome do meu sócio supervisor. Eu dera-lhe o nome de Rudolph. Era óbvio que ele não se queixara.
  • Um idiota - disse Rudolph, num tom quase inaudível. Era uma opinião unânime. Folheou uma página, esqueceu-se de Chance e avançou. Havia muito trabalho por acabar no meu gabinete. Dei comigo a pensar em Chance e no dossiê do despejo. Ele tinha um aspecto frágil, uma pele clara, feições delicadas. Não o imaginava nas ruas, a examinar armazéns abandonados repletos de intrusos, a sujar as mãos para garantir o rigor do seu trabalho. É claro que nunca o fizera; tinha solicitadores. Chance estava sentado à secretária e chefiava o trabalho burocrático, faturando várias centenas de dólares por hora, enquanto Hector Palma se encarregava dos pormenores sujos. Chance almoçava e jogava golfe com os executivos da RiverOaks; era esse o seu papel como sócio.Hector Palma teria de responder a estas perguntas, e depressa.Rudolph pôs fim à nossa reunião às oito horas, mesmo a tempo de outra reunião no seu gabinete com umas pessoas muito importantes. Fui para a minha secretária e li o Post. Havia uma fotografia lancinante das cinco urnas fechadas na igreja, e um resumo completo do serviço religioso e do cortejo posterior.Recortei o editorial, dobrei-o e guardei-o na carteira.Encontramo-nos na biblioteca principal, no terceiro andar, entre pilhas de livros, longe das câmaras de segurança e de toda a gente. Ele estava extremamente nervoso.

 

    • Através da rede de solicitadores, entrei em contacto com Hector Palma. Não seria sensato abordá-lo diretamente; talvez Chance andasse à espreita.
    • Também havia um editorial, um desafio bem escrito dirigido a todos nós que tínhamos comida e teto, no sentido de pararmos para pensar nas Lontae Burton da nossa cidade. Não tinham acabado. Não podiam ser expulsas das ruas e depositadas em qualquer sítio escondido para que não as víssemos. Viviam em automóveis, ocupavam barracões, gelavam em tendas provisórias, dormiam em bancos de jardim, esperavam por camas em abrigos superlotados e por vezes perigosos. Partilhávamos a mesma cidade; elas faziam parte da nossa sociedade. Se não as ajudássemos, multiplicar-se-iam. E continuariam a morrer nas nossas ruas.
    • Era quarta-feira. Eu saía na sexta.
    • Talvez nem soubesse os nomes das pessoas despejadas do armazém da RiverOaks/TAG, e porque havia de saber? Eles não passavam de intrusos, sem nome, sem rosto, sem casa. Ele não estava lá com os polícias quando foram expulsos das suas pequenas habitações e atirados para as ruas. Mas Hector Palma talvez tivesse assistido à cena. E se Chance não sabia os nomes de Lontae Burton e da família, não podia estabelecer a ligação entre o despejo e as mortes. Ou talvez não soubesse. Talvez alguém lhe tivesse dito.
  • Foi você que pôs aquele dossiê na minha secretária?-perguntei-lhe, preto no branco. O tempo era pouco para brincadeiras.
  • Que dossiê? - perguntou ele, olhando à volta como se fôssemos perseguidos por pistoleiros.
  • O do despejo RiverOaks/TAG. Foi você que tratou do caso, não é verdade?

 

    • Ele ignorava até que ponto eu estava dentro do assunto.
  • Fui - respondeu.
  • Onde está o processo?

 

    • Ele tirou um livro da estante e fingiu que estávamos embrenhados numa profunda investigação.
  • O Chance é que guarda todos os processos.
  • No gabinete dele?
  • Sim. Fechados num arquivador.

 

    • Estávamos praticamente a segredar. Eu não estava nervoso por causa do encontro, mas dei comigo a olhar à volta. Quem nos visse perceberia logo que estávamos a tramar qualquer coisa.
  • O que há no processo? - perguntei.
  • Coisas más.
  • Diga-me quais são.
  • Tenho mulher e quatro filhos. Não posso ser despedido.
  • Tem a minha palavra de honra.
  • Você vai-se embora. O que lhe interessa?

 

    • A notícia correra depressa, mas eu não estava admirado. Muitas vezes perguntava a mim próprio quem era mais bisbilhoteiro, se os advogados, se as secretárias. Talvez fossem os solicitadores.
  • Porque pôs aquele dossiê na minha secretária? - perguntei.

 

    • Hector Palma pegou noutro livro, com a mão direita literalmente a tremer.
  • Não sei do que está a falar.

 

    • Folheou algumas páginas e depois foi até ao fim da fila. Fui atrás dele, certo de que ninguém se encontrava perto de nós. Ele parou e pegou noutro livro; queria continuar a conversa.
  • Preciso desse dossiê - disse eu.
  • Não o tenho.
  • Como é que posso arranjá-lo?
  • Terá de o roubar.
  • Ótimo. Onde arranjo uma chave?

 

    • Ele fitou-me por instantes, tentando perceber se eu estava a falar a sério.
  • Não tenho a chave - respondeu.
  • Como se arranja a lista dos despejados?
  • Não sei do que está a falar?
  • Sabe, sim. Foi você que pôs aquilo em cima da minha secretária.
  • Você é doido - disse ele, afastando-se.Não tencionava cansar-me muito nos meus últimos três dias na firma, pensasse Rudolph o que pensasse. Enchi a minha secretária de lixo do departamento, fechei a porta, olhei para as paredes e sorri ao ver tudo o que deixava para trás. A pressão diminuía à medida que respirava. Acabava-se o trabalho a contra-relógio. Acabavam-se as semanas de oitenta horas só porque os meus colegas ambiciosos poderiam estar a fazer oitenta e cinco. Acabavam-se as rabugices aos que estavam acima de mim. Acabavam-se os pesadelos sobre a concessão do estatuto de sócio.Aceitei bem a situação. Afinal, estava a aproximar-me da santidade.

 

    • Entretanto, a minha mulher fora consultar uma advogada especialista em divórcios, com fama de espremer impiedosamente o adversário. Claire estava à minha espera quando cheguei a casa às seis horas, bastante cedo. A mesa da cozinha estava cheia de apontamentos e de folhas de computador. Reparei numa calculadora. Claire estava fria como gelo e bem preparada. Desta vez, eu caíra na cilada.
    •             Telefonei a Mordecai e aceitei formalmente o lugar. Ele riu-se e gracejou, dizendo que havia de arranjar maneira de me pagar. Começaria na segunda-feira, mas ele queria que passasse por lá mais cedo para me dar algumas instruções. Imaginei o interior da 14’ Street Legal Clinic e perguntei a mim próprio qual dos gabinetes fechados e acanhados me seria atribuído. Como se isso tivesse importância. Ao fim da tarde, passei a maior parte do tempo a aceitar as despedidas solenes dos meus amigos e colegas, convencidos de que enlouquecera.
    • Esperei que parasse, mas continuou a andar, passou pelas filas de estantes, pelas pilhas de livros, pela secretária e saiu da biblioteca.
  • Sugiro que nos divorciemos com base em diferenças inconciliáveis
  • disse ela com um ar agradável. - Que não discutamos. Que não apontemos dedos acusadores. Que admitamos o que não fomos capazes de dizer: o casamento acabou.

 

    • Calou-se e esperou que eu dissesse qualquer coisa. Não pude simular surpresa. Ela estava decidida; de que serviria objetar? Tinha de mostrar-me tão frio como ela.
  • Claro - disse, tentando parecer o mais indiferente possível.Mas aborrecia-me que ela desejasse o divórcio mais do que eu. Para manter a vantagem, ela referiu-se então à reunião com Jacqueline Hume, a sua nova advogada, deixando cair o nome como se este fosse o pilão de um almofariz e fazendo depois reverter em meu benefício as opiniões que a sua porta-voz emitira.

 

    • Havia um elemento de alívio no fato de estar finalmente a ser honesto.
  • Porque contrataste uma advogada? - perguntei, interrompendo-a.
  • Queria ter a certeza de que estava protegida.
  • E julgaste que eu me aproveitaria de ti?
  • Tu és advogado. Eu quero um advogado. É tão simples como isto.
  • Podias ter poupado muito dinheiro se não a contratasses - disse eu, tentando ser um pouco conflituoso. Afinal, tratava-se de um divórcio.
  • Mas, agora que o tenho, sinto-me muito melhor.Não me surpreendeu que quisesse ficar com a maior parte. Tínhamos doze mil dólares em dinheiro e ela pretendia servir-se de metade para pagar ao banco o empréstimo do seu carro. Eu receberia dois mil e quinhentos do restante. Nem falou em pagar os dezesseis mil que eu devia pelo meu Lexus. Queria quarenta mil dos cinqüenta e um mil dólares que tínhamos em fundos de pensão. E eu tinha de ficar com o meu 40 I K.

 

    • Estendeu-me o Documento A, uma folha com o nosso ativo e o nosso passivo. O Documento B era uma proposta de divisão de ambos.
  • Não é propriamente uma divisão eqüitativa - disse eu.
  • Não vai ser eqüitativa - disse ela, com toda a confiança de quem acabara de contratar um touro de combate.
  • Porquê?
  • Porque não sou eu que estou a atravessar uma crise da meia-idade.
  • Então a culpa é minha?
  • Não atribuamos culpas. Estamos a dividir os bens. Por motivos que só tu conheces, resolveste passar a ganhar menos noventa mil dólares por ano. Porque hei de eu sofrer as conseqüências? A minha advogada está convencida de que pode convencer o juiz de que os teus atos provocaram a nossa ruína em termos financeiros. Tu podes enlouquecer. Mas não esperes que eu morra de fome.
  • É pouco provável que tal aconteça.
  • Não vou regatear.
  • Eu também não o faria se ficasse com tudo.

 

    • Senti-me obrigado a provocar um certo conflito. Não podíamos gritar nem atirar coisas um ao outro. Tínhamos a certeza de que não iríamos chorar. Não podíamos fazer acusações desagradáveis acerca de casos amorosos ou de tóxico dependência. Que divórcio era este? Um divórcio muito estéril. Ela ignorou-me e continuou a ler a sua lista de apontamentos, decerto preparada pela sua porta-voz.
  • O contrato da casa termina em trinta de Junho e eu ficarei cá até essa data. São dez mil de renda.
  • Quando queres que eu saia?
  • Logo que queiras.
  • Ótimo.            Por pouco não disse uma coisa estúpida como arranjaste alguém   para vir para cá?   Queria embaraçá-la, apanhá-la num momento de fraqueza.-   Sairei no fim-de-semana - disse eu.

 

    • Ela não respondeu, mas não franziu o sobrolho.
    • Mas mantive a frieza.
    • Se ela queria que eu saísse, não iria pedir-lhe para ficar. Era um exercício de medição de forças. Qual dos lados da mesa conseguia mostrar mais desdém do que o outro?
  • Porque julgas que tens direito a oitenta por cento dos fundos de pensão? - perguntei.
  • Não vou receber oitenta por cento. Vou gastar dez mil na renda, mais três mil em pequenos objetos necessários, dois mil para pagar os nossos dois cartões de crédito conjuntos. Além disso, devemos cerca de seis mil em impostos. Isto perfaz um total de vinte e um mil. O Documento C era uma lista completa dos bens pessoais, a começar pela sala e a terminar no quarto vazio. Nenhum de nós se atreveu a cair numa discussão por causa dos tachos e das panelas, portanto a divisão foi bastante amigável.
  • Leva o que quiseres - disse eu várias vezes, sobretudo quando me referia a coisas como toalhas e lençóis. Negociamos algumas coisas, com elegância. A minha posição em relação a vários bens decorreu mais da relutância em deslocá-los fisicamente do que do orgulho da posse.Mas foi decente. Concluímos a tarefa penosa que era o Documento C e consideramo-nos contemplados com equidade. Assinaríamos um acordo de separação, esperaríamos seis meses, e depois comparece-ríamos em tribunal, juntos, e a nossa união seria legalmente dissolvida. Nenhum de nós tinha vontade de conversar depois do que se passara. Peguei no sobretudo e fui dar um grande passeio a pé pelas ruas de Georgetown, perguntando a mim próprio como é que a minha vida sofrera uma mudança tão drástica.A idéia da licença sabática foi rejeitada pela comissão executiva. Apesar de ninguém saber o que este grupo fazia nas suas reuniões privadas, Rudolph comunicou-me, com um ar muito sombrio, que poderia ser aberto um mau precedente. Numa firma tão grande, conceder um ano de licença a um advogado podia despoletar toda uma espécie de pedidos de outros insatisfeitos.

 

    • Não haveria rede de segurança. A porta fechar-se-ia quando eu saísse.
    • O desgaste do casamento fora lento, mas certo. A mudança de carreira atingira-o como uma bala. As coisas estavam a andar demasiado depressa, mas eu não podia detê-las.
    • Eu quis o televisor e alguns pratos. A vida celibatária caíra de repente sobre mim, e não sabia muito bem como equipar uma nova casa. Ela, por outro lado, passara horas a antever o futuro.
  • Tem a certeza que sabe o que está a fazer? - perguntou ele, de pé, em frente da minha secretária. No chão, junto dele, estavam duas grandes caixas. Polly já estava a embalar as minhas bugigangas.
  • Tenho a certeza - respondi com um sorriso. - Não se preocupe comigo.
  • Eu tentei.
  • Obrigado, Rudolph.Depois do ataque inesperado de Claire na noite anterior, eu não conseguira pensar na licença sabática. Pensamentos mais urgentes ocuparam-me o cérebro. Ia divorciar-me, e eu próprio estava só e sem abrigo.Saí cedo para o almoço e passei duas horas a correr pelo centro de Washington, à procura de sótãos. O mais barato era uma lixeira por mil e cem dólares por mês, demasiado caro para um advogado da rua.A chave de cima é da porta do gabinete do Chance. A de baixo é do arquivador que está por baixo da janela. Tenha cuidado, que o Chance é muito desconfiado. Faça desaparecer as chaves.Fechei o dossiê à pressa, sem saber se ela o vira. Esperei um pouco enquanto ela se atarefava a guardar as minhas coisas nas caixas. Não falou no assunto, o que provava que não dera por ele. Mas como via tudo o que se passava no corredor junto do meu gabinete, eu não percebia como é que Hector ou outra pessoa qualquer podia ter entrado e saído sem ser notado.Ficou admirado, depois triste e por fim pareceu livrar-se bem do assunto.

 

    • Barry Nuzzo, um ex-refém e amigo, passou por ali para ter uma conversa séria comigo. Fechou a porta e contornou as caixas. Eu não queria discutir a minha saída e por isso falei-lhe de Claire. A mulher dele e a minha eram ambas de Providence, um fato que parecia ter uma estranha importância em Washington. Tínhamo-nos encontrado com eles algumas vezes ao longo dos anos, mas a amizade do grupo seguira o mesmo rumo do casamento.
    • Polly apareceu de repente, como fazia tantas vezes; nem uma pancada na porta, nem um som, apenas uma súbita presença fantasmagórica na sala. Estava amuada e ignorava-me. Trabalhávamos juntos há quatro anos, e ela afirmava-se desolada com a minha saída. Não éramos assim tão chegados. Ela recuperaria dentro de pouco tempo. Era uma pessoa muito simpática, mas também a menor das minhas preocupações.
    • Quando regressei do almoço, esperava-me outro dossiê; outro dossiê castanho, de tamanho normal, sem nada escrito por fora. Lá dentro, havia duas chaves coladas com fita adesiva ao lado esquerdo e uma mensagem datilografada ao lado direito, onde se lia:
    • De repente, preocupava-me uma nova casa, já para não falar do novo emprego, do novo escritório e da nova carreira. Fechei a porta e examinei a secção de propriedades da lista classificada. Venderia o carro para me livrar da prestação de quatrocentos e oitenta dólares por mês. Compraria um calhambeque, far-lhe-ia um bom seguro e esperaria que ele desaparecesse na sombra do meu novo bairro. Se quisesse um apartamento decente na região, era óbvio que a maior parte do meu salário iria para a renda.
    • Rudolph saiu, a abanar a cabeça.
  • Estás a ter um mau mês - disse ele. - Lamento.
  • Tem sido um longo desabar - disse eu.Pouco depois, afloramos o assunto. Era difícil evitá-lo com as caixas no meio do chão. Percebi que o incidente era o motivo da nossa conversa.

 

    • Falamos dos velhos tempos, dos tipos que tinham entrado e saído. Não nos tínhamos dado ao trabalho de reproduzir o caso do Senhor no meio de duas cervejas, o que me pareceu estranho. Dois amigos que tinham enfrentado a morte juntos, conseguiam livrar-se dela e depois não tinham tempo de se ajudarem um ao outro.
  • Desculpa ter-te abandonado - disse ele.
  • Não digas isso, Barry.
  • Não, a sério, eu devia ter estado presente.
  • Porquê?
  • Porque é óbvio que perdeste o juízo - disse ele, soltando uma gargalhada. Tentei apreciar o seu humor.
  • Sim, estou um pouco desparafusado agora, creio eu, mas hei-
  • de ultrapassar isto.
  • Não, a sério, ouvi dizer que estavas com problemas. Tentei falar contigo na semana passada, mas tu não estavas. Fiquei preocupado contigo, mas tenho andado em julgamentos. O costume, bem sabes.
  • Eu sei.
  • Senti-me mesmo mal por não estar aqui, Mike. Desculpa.
  • Ora. Acaba com isso.
  • Todos nós nos assustamos muito, mas tu podias ter sido atingido.
  • Ele podia ter-nos morto a todos, Barry. Dinamite a sério, uma bala perdida e pum. Não vamos reviver a situação.
  • A última coisa que vi quando íamos a sair foste tu, cheio de sangue, a gritar. Julguei que tinhas sido atingido. Saímos, em monte, com as pessoas a agarrarem-se a nós, a gritarem, e eu fiquei à espera da explosão. Pensei, o Mike ainda lá está, e está ferido. Paramos junto dos elevadores. Alguém nos cortou as cordas dos pulsos, e eu olhei para trás mesmo a tempo de te ver quando os polícias te agarraram. Lembro-me do sangue. De todo aquele maldito sangue.Podia contar a Rudolph e aos outros que pelo menos tentara dissuadir-me.

 

    • Eu não disse nada. Ele precisava disto. De certo modo, aliviá-lo-ia.
  • Quando ia a descer, perguntava constantemente:   O Mike foi atingido? O Mike foi atingido? Ninguém me soube responder. Ao fim de um tempo que me pareceu uma hora é que me disseram que estavas bem. Ia telefonar-te quando cheguei a casa, mas os miúdos não me largaram. Devia ter telefonado.
  • Esquece.
  • Desculpa, Mike.
  • Por favor, não digas isso outra vez. Acabou. Podíamos ter falado nisso durante dias seguidos, que nada teria mudado.
  • Quando percebeste que te ias embora?

 

    • Fui obrigado a pensar nisso por um momento. A verdadeira resposta seria no domingo, no momento em que Bill puxara os lençóis e eu vira o meu pequeno Ontário finalmente em paz. Foi então, nesse momento, na morgue da cidade, que me tornei outra pessoa.
  • Depois do fim-de-semana - respondi, sem mais explicações.Barry abanou a cabeça, como se as caixas fossem essencialmente culpa sua. Resolvi ajudá-lo.

 

    • Ele não precisava delas.
  • Tu não podias ter-me impedido, Barry. Ninguém podia.

 

    • Então ele começou a agitar a cabeça, convencido, porque percebeu. Uma arma apontada à nossa cara, o relógio pára, as prioridades surgem de repente - Deus, a família, os amigos. O dinheiro passa para o último lugar. A Firma e a Carreira desaparecem à medida que passa cada segundo terrível, e nós percebemos que aquele pode ser o último dia da nossa vida.
  • E tu? - perguntei. - O que estás a fazer?

 

    • A Firma e a Carreira ficaram em último lugar durante umas horas.
  • Começamos um julgamento na quinta-feira. Por sinal, estávamos a preparar-nos para ele quando o Senhor nos interrompeu. Não pudemos pedir adiamento ao juiz porque o cliente estava à espera do julgamento há quatro anos. E não fomos atacados, sabes? Não fomos atacados fisicamente, de qualquer modo. Aceleramos, começamos o julgamento e nunca mais abrandamos. O julgamento salvou-nos.

 

    • Evidentemente. Trabalho é terapia, é mesmo a salvação, na Drake & Sweeney. Apeteceu-me gritar-lhe, porque há duas semanas eu teria dito a mesma coisa.
  • Ainda bem - disse. Que maravilha. - Então estás bem?
  • Claro que estou.De repente, o relógio chamou-o. Apertamos as mãos, nos abraçamos e fizemos as habituais promessas de nos mantermos em contacto.Uma, as chaves funcionavam. Duas, aquilo não era uma armadilha; eu não tinha inimigos conhecidos e ia-me embora. Três, o dossiê estava mesmo no gabinete, na gaveta por baixo da janela. Quatro, era possível consegui-lo sem ser apanhado. Cinco, podia ser fotocopiado num curto espaço de tempo. Seis, podia ser devolvido como se nada tivesse acontecido. Sete, e a mais importante, continha provas condenatórias. Escrevi isto num bloco de apontamentos. Pegar no dossiê seria motivo para demissão imediata, mas não me importei. O mesmo aconteceria se fosse apanhado no gabinete de Chance com uma chave não autorizada.Tinha de sair do edifício com ele, o que poderia ser considerado um ato criminoso. Mas não iria roubar o dossiê, apenas pedi-lo emprestado.Os meus sócios ainda lá estavam, à minha espera. Sofia chegou mesmo a sorrir quando lhe apertei a mão, mas só por um instante.

 

    • As quatro horas, entrei no departamento de Bens Imobiliários com as mangas arregaçadas e uma pilha de dossiês na mão, como se tivesse um assunto importante a tratar ali. Hector não estava na secretária. Braden Chance estava no gabinete, com a porta entreaberta. Ouvi a sua voz irritante ao telefone. Uma secretária sorriu-me quando passei por ela. Não vi quaisquer câmaras de segurança a espreitarem de cima. Alguns pisos tinham-nas; outros, não. Quem é que quereria infringir as normas de segurança no departamento de Bens Imobiliários? Saí às cinco. Comprei umas sanduíches numa charutaria e fui para o meu novo escritório.
    • Fotocopiá-lo é que seria arriscado. Como nenhum dossiê da firma tinha menos de dois centímetros e meio de espessura, talvez houvesse cem páginas para fotocopiar, partindo do princípio que fotocopiaria tudo. Teria de manter-me à frente de uma máquina durante vários minutos, em exposição. Isso seria demasiado perigoso. As secretárias e os solicitadores é que tratavam das cópias, e não os advogados. As máquinas eram de alta tecnologia, complicadas, e decerto encravariam no preciso momento em que carregasse num botão. Além disso estavam codificadas - os botões eram utilizados de modo a que todas as cópias fossem debitadas a um cliente. E estavam em espaços abertos. Não me lembrei de uma única fotocopiadora que estivesse a um canto. Talvez descobrisse uma noutra secção da empresa, mas a minha presença levantaria suspeitas.
    • Mantive a porta fechada para poder olhar para o dossiê e resolver o que havia de fazer. Pouco depois, cheguei a algumas conclusões.
    • Barry era litigante, um machista com pele Teflon. Além disso, tinha três filhos, portanto o luxo de fazer um desvio aos trinta e tal estava fora de questão.
  • Bem-vindo a bordo - disse Abraham com um ar grave, como se fôssemos a entrar num barco prestes a afundar-se. Mordecai agitou os braços e indicou-me um pequeno gabinete ao lado do seu.
  • O que diz a isto? Suíte E - disse ele.
  • Uma beleza - disse eu, entrando no meu novo gabinete. Tinha cerca de metade do tamanho daquele que eu deixara. A minha secretária da firma não caberia lá dentro. Havia quatro arquivadores encostados a uma parede, cada um de cor diferente. A luz era uma lâmpada nua pendurada no teto. Não vi nenhum telefone.
  • Agrada-me - disse, e não estava a mentir.
  • Amanhã arranjamos-lhe um telefone - disse ele, correndo as persianas de uma janela. - Este gabinete pertenceu a um jovem advogado chamado Banebridge.
  • O que lhe aconteceu?
  • Não conseguiu agüentar se com o dinheiro.

 

    • Estava a escurecer e Sofia parecia ansiosa por sair. Abraham retirou-se para o seu gabinete. Mordecai e eu jantamos na secretária dele-as sanduíches que eu levara com o mau café que ele fizera. A fotocopiadora era enorme, uma raridade dos anos oitenta, sem painéis de código nem os funfuns e gaitinhas oferecidos pela minha antiga firma. Estava a um canto da sala principal, junto de uma das quatro secretárias repletas de velhos processos.
  • A que horas sai esta noite? - perguntei a Mordecai, entre duas dentadas.
  • Não sei. Talvez daqui a uma hora. Porquê?
  • Só por curiosidade. Tenho de voltar à Drake & Sweeney por duas horas, devido a um assunto de última hora que eles querem que eu acabe. Depois gostaria de trazer para aqui uma série de lixo que tenho no meu gabinete. Seria possível?

 

    • Mordecai estava a mastigar. Abriu uma gaveta, tirou uma argola com três chaves e a atirou.
  • Vá e volte quando lhe apetecer - disse ele.
  • Será seguro?
  • Não. Tenha cuidado. Estacione ali, o mais perto da porta que puder. Ande depressa. Depois, feche-se por dentro.

 

    • Deve ter percebido que eu estava com medo, porque disse:
  • Habitue-se. Mantenha-se alerta.Levei onze minutos a chegar à Drake & Sweeney. Se levasse meia hora a copiar o dossiê do Chance, ele estaria fora do seu gabinete durante cerca de uma hora. Partindo do princípio que tudo correria bem. E Chance nunca saberia. Esperei até às oito e depois encaminhei-me para o departamento de Bens Imobiliários, com as mangas arregaçadas, como se estivesse embrenhado no trabalho.Uma voz de homem gritou por alguém no corredor e fiquei em sobressalto.Encaminhei-me para a porta em bicos de pés. Apaguei a luz e fiquei à escuta. Depois sentei-me no belo sofá de couro do Braden durante dez minutos. Se me vissem a sair do gabinete sem nada nas mãos, não haveria problema. O dia seguinte era a minha última oportunidade. É claro que também não teria o processo.Pensei intensamente na situação, mas em todos os cenários poderia ser apanhado. Tem paciência, disse para os meus botões. Eles vão-se embora. A seguir ao basquetebol vieram as raparigas. Aparentemente nenhum deles era casado; talvez fossem dois estudantes de Direito, que trabalhavam de noite. Pouco depois, as vozes desvaneceram-se. Fechei a gaveta às escuras e peguei no processo. Cinco minutos, seis, sete, oito. Abri a porta sem fazer barulho, pus a cabeça de fora, devagar, e espreitei para um lado e para o outro do corredor. Ninguém.

 

    • Saí, passei pela secretária de Hector e dirigi-me para a zona da recepção, estugando o passo mas tentando manter um ar natural.
    • E se alguém me visse a sair com ele? Se me perguntassem alguma coisa, seria o meu fim.
    • Outra voz de homem respondeu mais ao fundo, e ambos começaram a conversar muito perto da porta do gabinete de Chance. Era uma conversa sobre basquetebol. Bullets e Knicks.
    • Os corredores estavam desertos. Bati à porta do gabinete de Chance e ninguém respondeu. Estava fechado à chave. Em seguida, verifiquei todos os gabinetes, batendo ao de leve a princípio, depois com mais força e por fim rodando o puxador. Cerca de metade estavam fechados à chave. Examinei todos os cantos, à procura de câmaras de segurança. Espreitei nas salas de reuniões e de secretariado. Ninguém. A porta do gabinete dele era precisamente igual à minha, da mesma cor e do mesmo tamanho. Funcionou perfeitamente e de repente vi-me dentro de um gabinete às escuras e confrontado com a decisão de acender ou não a luz. Alguém que passasse por ali de automóvel não saberia dizer qual dos gabinetes tinha a luz acesa, e duvidava que alguém no corredor reparasse na luz por baixo da porta. Além disso, estava muito escuro e faltava-me uma lanterna. Fechei a porta à chave, acendi a luz, fui direito ao arquivador por baixo da janela e abri-o com a segunda : chave. De joelhos, abri completamente a gaveta, sem fazer barulho. Havia dezenas de processos, todos relativos à RiverOaks, e todos cuidadosamente arrumados da mesma maneira. Chance e a secretária eram bem organizados, uma característica apreciada na nossa firma. Num processo grosso, lia-se num rótulo RiverOaks/TAG, Inc. Tirei-o com cuidado e comecei a folheá-lo. Queria certificar-me de que era aquele.
    • Às seis e meia, estuguei o passo e mantive-me alerta quando me dirigia para o meu carro. O passeio estava vazio; nem vagabundos, nem armas, nem um arranhão no meu Lexus. Senti-me orgulhoso quando o abri e arranquei. Talvez eu conseguisse sobreviver nas ruas.
  • Ouça! - gritou alguém atrás de mim.Saí no rés-do-chão, sem fôlego, sem casaco, sem querer que ninguém me visse, sobretudo o segurança que estava de guarda aos elevadores para impedir que entrasse mais gente da rua. Dirigi-me para uma saída lateral, a mesma que Polly e eu tínhamos utilizado para evitar os repórteres na noite em que o Senhor fora abatido a tiro. Estava muito frio e caía uma chuva miúda quando desatei a correr para o meu carro.Descontraí-me um pouco. O radiador estava no máximo. Não podia adivinhar que um ataque surpresa tinha corrido mal, que um polícia tinha sido alvejado e que um Jaguar de um narcotraficante descia Eighteenth Street a toda a velocidade. Apanhei o sinal verde em New Hampshire, mas os tipos que atingiram o polícia não se preocuparam com o código da estrada. O Jaguar surgiu de repente à minha esquerda e depois o air bag rebentou-me na cara.Um dos paramédicos desapertou-me o cinto de segurança. Puxaram-me por cima da consola e tiraram-me pela porta do lado do passageiro.

 

    • Quando recuperei os sentidos, a porta do lado do condutor estava a entalar o meu ombro esquerdo. Rostos de negros fitavam-me através do vidro rachado. Ouvi sirenes e depois desmaiei outra vez.
    • Os meus pensamentos eram os de um ladrão cujo primeiro roubo não fora perfeito. Era uma estupidez. Uma grande estupidez. Fora apanhado? Ninguém me vira a sair do gabinete de Chance. Ninguém sabia que eu tinha um processo que não me pertencia. Não devia ter corrido. Quando o homem gritou, devia ter parado, metido conversa com ele, agido como se tudo estivesse bem, e se ele quisesse ver o processo, repreendia-o e mandava-o embora. Talvez fosse apenas um elemento do pessoal subalterno de que eu ouvira falar. Mas porque gritara ele daquela maneira? Se não me conhecia, porque tentara deter-me do fundo do corredor? Meti-me no carro e fui para Massachusetts, à pressa, para fazer as fotocópias e voltar a pôr o processo no seu lugar. Já passara lá a noite, e, se fosse preciso esperar pelas três da manhã para me meter de novo no gabinete de Chance, fá-lo-ia.
    • Virei uma esquina e, ao olhar para trás à pressa, vi um homem que vinha atrás de mim. A porta mais próxima era a de uma pequena biblioteca. Enfiei-me lá dentro; felizmente estava às escuras. Avancei entre filas de livros até encontrar outra porta do outro lado. Abri-a e, ao fundo de um pequeno corredor, avistei um sinal de saída por cima de uma porta. Corri para ela. Calculando que seria mais rápido descer as escadas do que subi-las, desci, apesar de o meu gabinete ficar dois andares mais acima. Se, por acaso, o homem me reconhecesse, poderia lá ir à minha procura.
  • Não vejo sangue - disse alguém.
  • Consegue andar? - perguntou um paramédico.

 

    • Doíam-me o ombro e as costelas. Tentei levantar-me, mas as pernas não funcionavam.
  • Estou bem - respondi, sentado à beira de uma maca.Eu continuava a repetir   Estou bem, estou bem, , enquanto me mediam a tensão arterial. Partimos; a sirene começou a tocar. Levaram-me para as urgências do Centro Médico da Universidade George Washington. As radiografias não revelaram fraturas de qualquer espécie. Tinha escoriações e muitas dores. Encheram-me de analgésicos e levaram-me para um quarto particular.Claire saiu antes do amanhecer. Um bilhete terno em cima da mesa dizia-me que tinha de ir fazer as suas rondas, e que voltaria a meio da manhã. Falara com os meus médicos, e era provável que eu não morresse.Uma enfermeira acordou-me às sete horas e entregou-me o bilhete. Li-o outra vez enquanto ela tagarelava sobre o tempo - granizo e neve - e me media a tensão arterial. Pedi-lhe um jornal. Trouxe-o meia hora depois, com os meus cereais. A história vinha na primeira página, na Cidade. O agente da brigada de narcóticos fora atingido várias vezes num tiroteio; o seu estado era crítico. Matara um traficante. O segundo traficante era o condutor do Jaguar, que morreu no local do acidente em circunstâncias que seriam investigadas. Não se referiam a mim, o que era ótimo.A enfermeira voltou com mais comprimidos. Obriguei-a a identificada um deles e depois disse que não queria tomar nenhum. Eram para as dores e para a rigidez, e eu queria manter a cabeça fresca. O médico passou pelo meu quarto às sete e meia, para um exame rápido. Como não tinha nada partido nem ferido, as minhas horas como paciente estavam contadas. Sugeriu que me fizessem outra série de radiografias por uma questão de segurança. Tentei dizer que não, mas ele já tra1 do assunto com a minha mulher.Descobrir um automóvel acidentado na região de Columbia é uma tarefa complicada, sobretudo logo após o acidente. Comecei pela ligação telefônica, a minha única fonte, mas não obtive resposta de metade números. Da outra metade, atenderam-me com uma grande indiferença. Era cedo e o tempo estava mau. Era sexta-feira, para que se havia de envolver?Pensei em Mordecai, a minha nova fonte de todas as informação relativas à rua. Esperei pelas nove horas para lhe telefonar. Contei-a história, garanti-lhe que estava em grande forma apesar de encontrar no hospital e perguntei-lhe se sabia como se encontrava automóvel acidentado. Eu tinha algumas idéias.

 

    • Telefonei à Polly e contei-lhe a mesma história.
    • A maior parte dos automóveis acidentados eram levados para parque de estacionamento municipal em Rasco Road, Northeast Sout graças a uma secretária do Quartel-General da Polícia. Ela trabalha no Controlo Animal; eu ligava ao acaso para as várias extensões polícia. Por vezes, outros carros eram levados para outros parque havia uma boa hipótese de o meu ainda se encontrar ligado ao pronto-socorro. Os pronto-socorros eram particulares, explicou ela, e este levantava sempre problemas. Ela trabalhara em tempos na Divisão de Trânsito, mas detestara.
    • Andei a coxear pelo quarto durante uma eternidade. Pus à provas partes magoadas do meu corpo e vi o noticiário da manhã, espera que ninguém entrasse e me encontrasse com uma camisa de amarela clara.
    • Se não tivesse sido envolvido, a história ter-se-ia resumido a um tiroteio entre polícias e traficantes de crack, que eu teria ignorado e não teria lido. Bem-vindo às ruas. Tentei convencer-me que isto podia ter acontecido a qualquer profissional da zona, mas era difícil acreditar. Estar naquela parte da cidade depois do anoitecer era atrair sarilhos. O meu braço esquerdo estava inchado e já a escurecer, e ninguém me podia tocar no ombro esquerdo nem na nuca. Doíam-me tanto as costelas que nem me mexia. Assim só me doíam quando respirava. Consegui ir à casa de banho, onde fiz as minhas necessidades e me vi ao espelho. Um air bag é uma pequena bomba. O impacto atinge a cara e o peito. Mas os danos foram mínimos: o nariz e os olhos ligeiramente inchados e o lábio superior com uma nova forma. Nada que não desaparecesse depois do fim-de-semana.
    • Parecíamos perfeitamente normais e felizes, um casal engraçado e dedicado. Perguntei a mim próprio por que motivo exatamente nos encontrávamos num processo de divórcio.
    • Acordei durante a noite. Claire estava a dormir numa cadeira ao lado da minha cama.
    • Atrás de mim havia um tumulto, mas não me consegui virar. Deitaram-me, ataram-me, e quando entrei na ambulância vi o Jaguar, virado ao contrário e rodeado por polícias e médicos.
  • Você não vem? - perguntou ela, com uma voz trêmula.
  • Estou no hospital, Polly. Está a ouvir-me?

 

    • Houve um momento de hesitação do outro lado da linha, o confirmou os meus receios. Imaginava um bolo ao lado, talvez numa sala de reuniões, em cima da mesa, com cinqüenta pessoas de pé à volta dela a fazerem brindes e pequenos discursos acerca do tipo formidável que eu era. Eu próprio fora a duas festas. Eram horríveis. Estava determinado a faltar à minha própria despedida.
  • Quando sai? - perguntou ela.
  • Não sei. Talvez amanhã.Seguiu-se outro momento de hesitação. O bolo, o ponche, os discursos importantes de pessoas atarefadas, talvez até um ou dois presentes. Como é que ela havia de dar a volta a isso?

 

    • Era mentira. Eu saía antes do meio-dia, com ou sem a aprovação da equipa médica.
  • Lamento - disse ela.
  • Também eu. Anda alguém à minha procura?
  • Não. Ainda não.
  • Ótimo. Por favor, fale ao Rudolph no acidente, que eu telefono-lhe mais tarde. Tenho de desligar. Têm de fazer-me mais exames.Claire chegou depois das onze. Conferenciou com o meu médico no corredor. Ouvia-os lá fora, a utilizarem a sua própria linguagem. Entraram no quarto e anunciaram-me que tinha alta. Vesti a roupa limpa que ela me trouxera de casa. Claire levou-me e durante a curta viagem poucas palavras trocamos. Não havia hipótese de reconciliação. Por que motivo é que um simples acidente de automóvel havia de alterar tudo? Ela estava ali como amiga e como médica, não como esposa.Servindo-me da lista classificada, comecei a telefonar aos agentes imobiliários e às agências de aluguer de apartamentos. Em seguida, telefonei para uma agência de aluguer de automóveis para me trazerem um carro. Tomei um ducha longo e quente para aliviar o corpo dorido.Não me podia dar ao luxo de ter um bom apartamento, mas pelo menos queria um que fosse seguro. Leon tinha algumas idéias. Paramos numa banca e tirei duas brochuras grátis sobre as propriedades da região.Leon ficou horrorizado. Tive de lhe contar a verdade, de lhe dizer onde dormira na noite anterior. Ele abrandou consideravelmente e tornou-se o meu agente imobiliário. Ajudou-me a subir as escadas na minha primeira visita: um apartamento degradado, com um cheiro inconfundível a urina de gato que vinha da carpete. Com grande firmeza, Leon disse à senhoria que devia ter vergonha de mostrar uma casa naquele estado.O sótão seguinte ficava num quarto andar, mas tinha um elevador bonito e asseado. O prédio era em Wyoming, numa linda rua sombria mesmo à saída de Connecticut. A renda era de quinhentos e cinqüenta dólares por mês, e eu já tinha dito que sim antes de ver a casa. Estava a sentir-me pior, e cada vez pensava mais nos comprimidos que deixara na cozinha. Estava pronto a alugar fosse o que fosse.

 

    • Três divisões pequenas num sótão com paredes esconsas, uma casa de banho com uma canalização que parecia funcionar, soalhos limpos e uma pequena vista para a rua.
    • A segunda paragem foi um sótão num quinto andar, cujas escadas quase não consegui subir. Sem elevador. E quase sem aquecimento. Leon agradeceu delicadamente ao gerente.
    • Na opinião de Leon, um bom local para viver naquele momento, embora pudesse mudar dentro de seis meses, era Adams-Morgan, a norte de Dupont Circle. Era uma zona bem conhecida, onde eu já fora muitas vezes, sem qualquer desejo de parar ou de me demorar. As ruas eram ladeadas por prédios da viagem do século, todos ainda habitados, o que, no caso de Columbia, equivalia a um bairro formidável. Os bares e os clubes estavam na moda naquele momento, segundo Leon, e os novos e melhores restaurantes concentravam-se ali. As zonas degradadas ficavam mesmo ao virar da esquina e era preciso muito cuidado. Se as pessoas importantes como os senadores eram assaltadas no Monte do Capitólio, então ninguém estava seguro. Quando nos dirigíamos para Adams-Morgan, Leon foi confrontado de súbito com um buraco maior do que o carro. Passamos por cima dele, subimos no ar durante o que me pareceu serem dez segundos, e depois aterramos com toda a força. Não pude deixar de gritar, quando todo o meu lado esquerdo me doeu.
    • O meu motorista chamava-se Leon. Sentei-me à frente, a seu lado, e tentei não fazer esgares nem gemer sempre que ele passava por cima de um buraco.
    • Preparou sopa de tomate e instalou-me no sofá. Alinhou os meus comprimidos na bancada da cozinha, deu-me instruções e foi-se embora. Ainda me demorei dez minutos, o suficiente para comer metade da sopa e alguns salgados. Depois fui telefonar. Mordecai não encontrara nada.
    • E foi assim que a minha carreira outrora promissora na Drake & Sweeney chegou ao fim. Faltei à festa da minha própria despedida. Com trinta e dois anos, libertei-me das amarras da escravatura empresarial, e do dinheiro. Restava-me seguir a minha consciência. Estaria ótimo se não fosse a faca que sentia nas costas, entre as costelas, sempre que me mexia.
  • Ficamos com ela - disse Leon ao senhorio.Se Leon tinha curiosidade em saber os motivos da minha mudança do aparato de Georgetown para um cubículo de três divisões em Adams. Morgan, pelo menos não fez perguntas. Era um profissional. Levou-me a casa e esperou no carro que eu engolisse o comprimidos e dormisse um pouco.

 

    • Algures no meio do nevoeiro induzido pelos medicamentos, tocou um telefone. A cambalear, consegui encontrá-lo e responder:
    • Eu estava encostado à ombreira da porta, quase a desmaiar. Num pequeno gabinete na cave, li à pressa o contrato de aluguer, assinei-o e passei um cheque para a caução e para o primeiro mês de renda. Dissera a Claire que sairia no fim-de-semana. Estava determinado a fazê-lo.
  • Está?
  • Julguei que você estava no hospital - disse Rudolph.

 

    • Ouvi-lhe a voz e reconheci-a, mas o nevoeiro ainda não se dissipara.
  • Estive - respondi, com uma voz pastosa. - Agora não estou.

 

    • O que quer?
  • Sentimos a sua falta esta tarde.

 

    • Ah, sim. O espetáculo do ponche e do bolo.
  • Não tencionava envolver-me num acidente de automóvel, Rudolph. Peço-lhe que me perdoe.
  • Havia muita gente que se queria despedir de si.
  • Podem escrever-me. Diga-lhes para enviarem um fax.
  • Sente-se mal, não é verdade?
  • Sinto, Rudolph. Sinto-me como se tivesse sido atingido por um carro.
  • Está medicado?
  • Porque se incomoda comigo?
  • Desculpe. Olhe, o Braden Chance esteve no meu gabinete há uma hora. Está ansioso por vê-lo. É estranho, não acha? O nevoeiro levantou e a minha mente estava muito mais lúcida. Ver-me para quê?
  • Ele não disse. Mas anda à sua procura.
  • Diga-lhe que me fui embora.
  • Já disse. Desculpe incomodá-lo. Passe por aqui se tiver um minuto.

 

    • Ainda cá tem amigos.
  • Obrigado, Rudolph.Quando arrancamos, telefonei a Mordecai. Encontrara o relatório do acidente, no qual uma tal Hundley Towing figurava como serviço do pronto-socorro. A Hundley Towing usava um atendedor para recebei a maioria dos telefonemas. As ruas estavam escorregadias, havia muito; acidentes e as pessoas que tinham pronto-socorros andavam atarefadas Por fim, um mecânico atendeu o telefone, por volta das três horas, ma; mostrou-se completamente inútil.

 

    • Leon descobriu a Hudley em Rhode Island, perto de Seventh Street Noutros tempos, fora uma estação de serviço e agora era uma garagem que fazia reboques, vendia carros usados e alugava camionetas. Toda; as janelas estavam enfeitadas com grades pretas. Leon aproximou-se o mais possível da porta principal.
    • Enfiei os comprimidos no bolso. Leon estava a dormitar no carro.
  • Proteja-me - disse eu, saindo do carro e correndo lá para dentro Ouvi homens a conversar e a praguejar nas traseiras. Sem dúvida que tinham voltado ali para jogar aos dados, beber whisky e talvez vendei droga.
  • A polícia é que o tem - disse o homem, olhando para os papéis
  • Sabe porquê?
  • Não. Não houve um crime ou qualquer coisa do gênero?
  • Houve, mas o meu carro não esteve envolvido no crime. O homem deitou-me um olhar vazio. Tinha os seus próprios problemas.
  • Sabe onde ele possa estar? - perguntei, tentando ser agradável
  • Quando eles os apreendem, em geral levam-nos para um parque em Geórgia, a norte de Howard.
  • Quantos parques tem a cidade?

 

    • Ele encolheu os ombros e começou a afastar-se.
  • Mais do que um - disse, e desapareceu.A meu lado no passeio, Leon espreitou pela vedação.

 

    • Fechei a porta com cuidado e corri para o automóvel de Leon. Era de noite quando encontramos o parque, metade de um quarteirão rodeado por uma vedação metálica e arame farpado. Lá dentro, estavam centenas de carros amassados, dispostos ao acaso, e alguns em cima de outros.
  • Está ali - disse eu, apontando.

 

    • O Lexus estava estacionado perto de um barracão, virado para nós. O choque destruíra-lhe a parte da frente do lado esquerdo. O pára-choques desaparecera; o motor estava à vista e amolgado.
  • O senhor é um homem com muita sorte - disse Leon.Havia uma espécie de escritório no barracão, mas estava fechado e às escuras. Os portões estavam fechados com pesadas correntes.

 

    • O arame farpado brilhava à chuva. Não muito longe, numa esquina, avistamos uns tipos com ar de poucos amigos. Senti que nos observavam.
    • Ao lado estava o Jaguar, com o teto amolgado e sem um único vidro.
  • Vamos embora daqui - disse eu.A mesa estava posta; havia comida chinesa no fogão. Claire estava à espera, preocupada até certo ponto, embora fosse impossível dizer quanto. Disse-lhe que fora alugar um carro, na seqüência das instruções da minha companhia de seguros. Ela examinou-me como uma boa médica, e obrigou-me a tomar um comprimido.

 

    • Leon levou-me ao Aeroporto Nacional, o único sítio que eu conhecia onde poderia alugar um carro.
  • Julguei que tinhas ido descansar - disse ela.
  • Tentei, mas não deu resultado. Estou a morrer de fome.

 

    • Seria a nossa última refeição juntos, como marido e mulher, que terminava como começara, com uma coisa rápida e preparada algures.
  • Conheces alguém chamado Hector Palma? - perguntou ela, a meio do jantar. Tive dificuldade em engolir.
  • Conheço.
  • Telefonou há uma hora. Disse que era importante falar contigo.

 

    • Quem é ele?
  • Um solicitador da firma. Devia ter passado a manhã com ele a tratar de um dos meus casos. Ele está numa situação difícil.
  • Deve estar. Quer que te encontres com ele esta noite, no Nathan’s, em M Street.
  • Porquê um bar? - perguntei, para disfarçar.Perdi o apetite, mas continuei a comer para me mostrar imperturbável. Não que fosse preciso. Ela nem deu por isso.O encontro só podia indicar que havia problemas, e preparei-me para ele no caminho. Pensara em mentir para esconder a minha pista e cobrir a primeira fase. Agora que cometera um roubo, não me parecia adequado mentir. Hector podia estar ao serviço da firma; era possível que estivesse sob escuta. Ouvi-lo-ia com todo o cuidado e falaria pouco. O Nathan’s tinha metade da casa cheia. Cheguei dez minutos antes mas ele já lá estava à minha espera, num pequeno compartimento.

 

    • Quando me aproximei, saltou da cadeira e estendeu-me a mão.
    • Fui a pé para M Street. Caía uma chuva miúda que estava a transformar-se em granizo. Eu tinha muitas dores. Teria sido impossível estacionar o carro numa noite de sexta-feira. E esperava esticar os músculos e aclarar as idéias.
    • -   Ele não disse. Pareceu-me desconfiado.
  • Você deve ser o Michael. Sou Hector Palma, do departamento de Bens Imobiliários. Muito prazer.

 

    • Foi um ataque, uma explosão de personalidade que me pôs de sobreaviso. Apertei-lhe a mão, a cambalear, e disse qualquer coisa como:
  • Muito prazer em conhecê-lo.

 

    • Ele apontou para o compartimento.
  • Sente-se aqui - disse, todo sorrisos.

 

    • Inclinei-me delicadamente e consegui enfiar-me no compartimento.
  • O que lhe aconteceu à cara? - perguntou.
  • Beijei um air bag.
  • Sim, ouvi falar de um acidente - disse ele, apressado. Muito apressado. - Você está bem? Tem fraturas?
  • Não - respondi lentamente, tentando compreendê-lo.
  • Ouvi dizer que o outro tipo foi morto - disse, logo a seguir. Ele é que dominava a conversa. Eu era obrigado a segui-lo.
  • Sim, era um traficante de droga.
  • Esta cidade... - disse ele, quando o criado apareceu. - O que toma?
  • Um café - respondi.

 

    • Nesse momento, enquanto ele pensava no que ia beber, senti que um dos seus pés me tocava na perna.
  • Que cervejas tem? - perguntou ao criado, uma pergunta que eles detestavam. O criado olhou em frente e começou a enumerar as marcas.

 

    • O toque fez-nos cruzar o olhar. Ele tinha as mãos em cima da mesa. Servindo-se do criado como escudo, entortou ligeiramente o indicador direito e apontou para o peito.
  • Uma Molson - anunciou de repente, e o criado afastou-se.Isso explicava a saudação exuberante, como se não nos conhecêssemos. Hector fora importunado durante todo o dia e negara tudo.

 

    • Estava sob escuta e eles observavam-nos, algures. Onde quer que se encontrassem, não podiam ver através do criado. Instintivamente, apeteceu-me virar-me para trás e examinar as outras pessoas que estavam no bar. Mas resisti à tentação, em parte graças a um pescoço tão flexível como uma tábua.
  • Sou um solicitador do departamento de Bens Imobiliários - explicou ele. - Você conheceu Braden Chance, um dos nossos sócios.
  • Conheci.

 

    • Como as minhas palavras estavam a ser gravadas, falaria pouco.
  • Trabalho essencialmente para ele. Nós trocamos umas breves palavras na semana passada, quando você foi ao gabinete dele.
  • Se você o diz. Não me lembro de o ter visto.

 

    • Fiz um sorriso tênue, nada que uma câmara de vigilância conseguisse captar. Por baixo da mesa, toquei-lhe na perna com o meu pé. Felizmente, dançávamos a mesma música.
  • Ouça, o motivo por que lhe pedi para me encontrar consigo prende-se com um processo que falta no gabinete do Braden.
  • Eu sou o acusado?
  • Bem, não, mas é um possível suspeito. Foi o processo que você pediu quando foi ao gabinete dele na semana passada.
  • Então, estou a ser acusado - disse eu, irritado.
  • Ainda não. Acalme-se. A firma está a fazer uma investigação rigorosa sobre o assunto e andamos apenas a falar com todos aqueles de que nos lembramos. Como soube que você pediu o processo ao Braden, a firma deu-me instruções para vir falar consigo. E tão simples como isto.
  • Não sei do que você está a falar. É tão simples como isto.
  • Não sabe nada do processo?
  • Claro que não. Porque havia eu de tirar um processo do gabinete de um sócio?
  • Aceitaria submeter-se ao polígrafo?
  • Com certeza - disse eu, firme mas indignado. Nunca aceitaria submeter-me ao teste do polígrafo.
  • Ainda bem. Eles andam a pedir o mesmo a todos nós. A todos aqueles que possam ter-se aproximado do processo.

 

    • O café e a cerveja chegaram, permitindo-nos fazer uma breve pausa para avaliar a situação e descansar. Hector acabara de me comunicar que estava retido num grande sarilho. Um polígrafo daria cabo dele. Você conheceu Michael Brock antes de ele sair da empresa? Falaram do processo que desapareceu? Deu-lhe cópias de qualquer coisa que tenha tirado do processo? Ajudou-o a conseguir o processo em falta? Sim ou não? Perguntas difíceis com respostas fáceis. Não lhe era possível mentir e sobreviver ao teste.
  • Eles também andam a recolher impressões digitais - disse.Não deu resultado. Eu nunca me lembrara das impressões digitais, nem antes do roubo, nem depois.

 

    • Desta vez falou mais baixo, não para tentar evitar o microfone escondido, mas para abrandar o choque.
  • Ainda bem para eles - respondi.
  • Por sinal, estiveram toda a tarde a recolher impressões digitais.

 

    • Na porta, no interruptor e no arquivador. Havia muitas.
  • Espero que encontrem o homem.
  • E de fato uma coincidência, sabe? O Braden tem uma centena de processos ativos no gabinete, e o único que falta é aquele que você queria consultar a todo o custo.
  • Está a tentar dizer alguma coisa?
  • Só o que eu disse, mais nada. É uma verdadeira coincidência.Pensei que também eu devesse talvez representar.

 

    • Hector fazia isto para benefício daqueles que o estavam a ouvir.
  • Não gosto da forma como o disse - respondi-lhe, praticamente a gritar. - Se vocês quiserem acusar-me de qualquer coisa, então vão à polícia, arranjem um mandado e mandem-me prender. De outro modo, guardem as vossas estúpidas opiniões para vocês próprios.
  • A polícia já está metida no assunto - disse ele, com uma grande frieza, e o meu humor forjado desvaneceu-se. - Trata-se de um roubo.
  • Claro que é um roubo. Apanhem o vosso ladrão e deixem de perder o vosso tempo comigo. Hector bebeu um longo golo.
  • Alguém lhe deu um conjunto de chaves do gabinete do Braden?
  • Evidentemente que não.
  • Bem, eles encontraram este dossiê vazio em cima da sua secretária, com um bilhete em que havia uma referência às chaves. Uma da porta e outra de um arquivador.
  • Não sei nada disso - disse eu, com toda a arrogância de que fui capaz, tentando lembrar-me do último sítio em que deixara o dossiê vazio. O meu rasto estava a aumentar. Fora treinado para pensar como um advogado, não como um criminoso.

 

    • Mais um golo prolongado de Hector e mais uma golada de café minha. Já tínhamos dito o suficiente. As mensagens tinham sido entregues, uma pela firma e a outra pelo próprio Hector. A firma queria o processo, com o seu conteúdo não comprometido. Hector queria que eu soubesse que o seu envolvimento poderia custar-lhe o emprego. Competia-me salvá-lo. Podia devolver o processo, confessar, prometer mantê-lo fechado, e talvez a firma me perdoasse. Não haveria problema. Proteger o emprego de Hector poderia ser uma condição da devolução.
  • Mais alguma coisa? - perguntei eu, de repente disposto a ir-me embora.
  • Mais nada. Quando pode fazer o teste do polígrafo?
  • Eu telefono-lhe.Por motivos que em breve viria a entender, Mordecai detestava os polícias da região, apesar de, na sua maioria, serem negros. Na opinião dele, eram duros para com os sem abrigo e esta era a bitola que ele usava invariavelmente para medir o bem e o mal.Entrou na clínica pouco depois das nove horas da manhã de sábado. Eu e Mordecai estávamos a beber café e a tentar aquecer-nos. Peeler não trabalhava aos sábados. Tive a impressão de que preferia ter ficado na cama.

 

    • Com Mordecai a conduzir e a falar, e comigo atrás, percorremos as ruas escorregadias na direção de Northeast. A neve prevista era afinal uma chuva fria. O trânsito era pouco. Era mais uma manhã agreste de Fevereiro. Só os valentes se atreviam a andar nos passeios. Estacionamos junto dos portões fechados a cadeado do parque municipal mesmo à saída de Georgia Avenue. Peeler disse:
    • Mas conhecia alguns. Um era o sargento Peeler, um homem que, segundo Mordecai, era   das ruas. Peeler trabalhava com crianças difíceis num centro social perto da clínica legal e ambos pertenciam à mesma igreja. Peeler tinha contactos e podia puxar os cordelinhos suficientes que me permitissem reaver o meu cano.
    • Peguei no sobretudo e saí.
  • Esperem aqui.Peeler encaminhou-se para os portões, carregou num botão que havia num poste e a porta do barracão abriu-se. Saiu um polícia baixo e magro, sem farda, de chapéu de chuva em punho, e ambos trocaram algumas palavras.

 

    • Peeler regressou ao cano, fechando a porta com força e sacudindo a água dos ombros.
    • Avistei o que restava do meu Lexus.
  • Ele está à sua espera - disse.Fui direito ao banco da frente. O processo não estava lá. Após um momento de pânico, encontrei-o por trás do banco do condutor, no chão, intacto. Agarrei-o e estava pronto a partir. Não me apetecia inspecionar os estragos a que escapara. Sobrevivera inteiro e isso é que era importante. Na semana seguinte, iria à companhia de seguros.

 

    • Saí do cano, abri o chapéu e dirigi-me rapidamente para os portões onde o agente Winkle me aguardava sem o menor vestígio de humor ou de boa vontade. Pegou em dezenas de chaves, encontrou as três que abriam os fortes cadeados e disse-me, por aqui, quando abriu os portões. Fui atrás dele pelo parque de gravilha, evitando sempre que possível os buracos cheios de água acastanhada e de lama. Doía-me o corpo todo ao andar e tinha dificuldade em saltar e esquivar-me. Ele dirigiu-se para o meu cano.
  • É isso?
  • É - respondi, pronto a desaparecer dali.
  • Siga-me.

 

    • Entramos no barracão onde um aquecedor a gás butano zumbia a um canto, bombardeando-nos com ar quente. O homem escolheu um dos dez blocos que tinha na parede e começou a olhar para o processo que eu tinha na mão.
  • Dossiê de papel manilha castanho - disse ele enquanto escrevia. - Com cerca de dois centímetros e meio de espessura. Eu estava ali agarrado ao dossiê, como se fosse de ouro.
  • Tem algum nome escrito?

 

    • Eu não estava em posição de protestar. Um comentário idiota, e eles nunca mais me encontrariam.
  • Porque precisa disso? - perguntei.
  • Ponha-o em cima da mesa - disse ele.

 

    • Obedeci.
  • Riveroaks bana TAG, Inc. - disse ele, continuando a escrever.
  • Dossiê número TBC-96-3381.

 

    • O meu rasto aumentava ainda mais.
  • Isto é seu? - perguntou ele, apontando, muito desconfiado.
  • É.
  • Está bem. Agora pode ir.            Mordecai e Peeler voltaram-se para trás e olharam para o dossiê quando eu entrei. Nenhum deles sabia o que era. Eu só dissera a Mordecai que o dossiê era muito importante. Precisava de recuperá-lo antes que fosse destruído.Senti-me tentado a folheá-lo enquanto voltávamos para a clínica.Agradeci a Peeler, despedi-me de Mordecai, e, com toda a cautela, dirigi-me para o meu novo sótão.A TAG era uma empresa devidamente registrada, cujo único acionista era Tillman Gantry, descrito num memorando como um ex-chulo, um desordeiro nas horas vagas e um criminoso com duas condenações. Uma das muitas figuras castiças da cidade. Depois do crime, Gantry descobrira os carros usados e a compra e venda de propriedades. Comprava prédios abandonados, por vezes fazia renovações à pressa e voltava a vendê-los, ou alugava espaços. Num resumo figuravam catorze propriedades da TAG. O percurso de Gantry cruzara-se com o da RiverOaks quando os Correios dos Estados Unidos precisaram de mais espaço.A RiverOaks e os seus advogados e agentes imobiliários deitaram mãos à obra. Em Janeiro, a empresa comprou quatro propriedades em Florida Avenue, próximas do local onde fora efetuado o despejo. O dossiê incluía dois mapas da zona, nos quais estavam assinalados os lotes já adquiridos e os lotes em fase de negociação.O armazém de Florida Avenue fora adquirido pela TAG, em Julho, por uma quantia não revelada no processo. A RiverOaks comprou-o por duzentos mil dólares em 31 de Janeiro, quatro dias antes do despejo que enviara DeVon Hardy e a família Burton para a rua. No soalho nu de madeira daquela que viria a ser a minha sala de estar, eu retirava cuidadosamente cada uma das folhas de papel do processo, examinava-a, depois reproduzia-a em pormenor num bloco para poder voltar a pô-lo por ordem. Lá estava a habitual série de papéis que devia existir em todos os processos congêneres: os impostos pagos em anos anteriores, os sucessivos registros prediais, contratos anteriores, um acordo para compra e venda da propriedade, correspondência com a imobiliária e outros papéis. Era um negócio a pronto pagamento e portanto não havia nenhum banco envolvido.O processo de Chance era meticuloso; a sua secretária era uma mulher de pormenores. Mas houvera falsificação.Hector foi ao armazém no dia vinte e sete, com um guarda, inspecionou o local, descobriu sem dúvida que havia casos graves de ocupação e preparou um memorando que, a avaliar pelos seus outros documentos, devia ser muito completo.O meu coração parou quando li o seguinte:   A mãe tinha quatro filhos, um dos quais era um bebê. Vivia num apartamento de duas divisões, sem canalizações. Dormiam em dois colchões no chão. Lutou com o polícia enquanto os filhos assistiam. Pouco depois foi retirada. Portanto, Ontário vira a mãe a lutar.A falsificação era óbvia, e disparatada. Mas Chance era sócio. E nunca se ouvira dizer que um sócio tivesse cedido um processo. Não fora cedido; fora roubado. Um ato de furto, um crime para o qual estavam agora a ser reunidas provas. O ladrão era um idiota. Como parte do ritual anterior à admissão, há sete anos, as minhas impressões digitais tinham sido recolhidas por detetives privados. Seria muito simples compará-las com as que tinham sido retiradas do arquivador de Chance. Seria uma questão de minutos. Eu tinha a certeza de que isso já tinha sido feito. Haveria um mandado para me prenderem? Era inevitável. Quando acabei, três horas depois, quase todo o chão estava coberto de papéis. Reconstituí o dossiê com todo o cuidado, depois fui para o escritório e copiei-o.Fechei a porta à chave e desci as escadas. Sabia que voltaria daí a dois dias para vir buscar o resto das minhas coisas, mas pareceu-me que esta era a última vez.Ao partir, não tive qualquer sentimento de libertação. Não era empolgante ficar solteiro outra vez. Tanto eu como Claire tínhamos perdido.Senti a falta da minha cadeira, da minha cadeira giratória de executivo, de couro, que se deslocava conforme eu quisesse. A minha nova cadeira desmontável era pouco melhor do que aquelas que se alugavam para os casamentos. Já devia ser desconfortável nos seus bons tempos; na minha difícil situação deste momento, era um objeto de tortura.As paredes eram de estuque, pintadas há décadas, e cuja cor inicial se transformara num amarelo-limão pálido. O estuque estava rachado; as aranhas tinham-se acumulado aos cantos e no teto. O único elemento decorativo era um cartaz emoldurado anunciando uma Marcha pela Justiça que se realizara no Mall, em julho de 1988.Oh, como os poderosos tinham caído ! Se o meu querido irmão Warren me visse ali num domingo, a tremer de frio, sentado à minha pobre secretária, a olhar para as rachas do estuque, fechado à chave para que os meus potenciais clientes não me assaltassem, ter-me-ia cumulado de insultos tão ricos e coloridos que eu teria sido obrigado a escrevê-los.Uma forte pancada na porta assustou-me. Levantei-me de um salto, sem saber o que havia de fazer. Os vagabundos teriam vindo atrás de mim? Outra pancada quando me aproximava da entrada, e foi então que avistei um vulto tentando espreitar pelas grades e pelo vidro grosso da porta.

 

    • Era Barry Nuzzo, a tremer de frio e ansioso por se pôr a salvo. Abri a porta e deixei-o entrar.
    • Eu não podia aceitar a reação dos meus pais. Seria forçado a telefonar-lhes em breve e a confrontá-los com o duplo choque das minhas mudanças de endereço.
    • O soalho era de carvalho antigo, com as tábuas abauladas nas extremidades, uma prova de que tinham sido muito usadas ao longo dos anos. Fora varrido há pouco tempo, e a vassoura ainda estava a um canto, ao lado de uma pá, um ligeiro indício de que, se eu quisesse ver-me livre do pó outra vez, teria de ser eu a varrê-lo.
    • A secretária era um móvel usado e em mau estado, vindo provavelmente de uma escola abandonada; quadrada como um caixote, com três gavetas de cada lado, que por sinal se abriam todas, mas não sem esforço. As duas cadeiras destinadas aos clientes, que se encontravam do outro lado, eram desmontáveis - uma preta e outra de um tom esverdeado que eu nunca vira.
    • Fechei-me à chave no gabinete. O escritório estava mais frio no domingo do que no sábado. Vesti uma camisola grossa, umas calças de veludo, calcei umas peúgas térmicas, e li o jornal à secretária com duas chávenas de café fumegantes à frente. O prédio tinha um sistema de aquecimento, mas eu não queria mexer-lhe.
    • Ela leria o bilhete, iria verificar as gavetas e os armários para ver o que eu levara, e quando percebesse que me tinha de fato ido embora, sentar-se-ia na sala e verteria uma lágrima à pressa. Talvez tivesse um ataque de choro. Mas ultrapassaria a situação dentro de pouco tempo. Entraria com facilidade na fase seguinte.
    • Ela tinha ido às compras, lia-se no seu bilhete. Tínhamos umas belas malas de viagem, uma coisa que nos tínhamos esquecido de mencionar quando dividimos os bens. Ela viajaria mais do que eu a curto prazo, por isso levei os artigos de menor valor - mochilas e sacos de ginástica. Não queria ser apanhado, pelo que amontoei os objetos básicos em cima da cama - cuecas, roupa interior, t-shirts, artigos de higiene e sapatos, mas só os que calçara no último ano. Ela podia desfazer-se do outros. Limpei à pressa as minhas gavetas e o armário dos medicamentos do meu lado. Ferido e dorido, fisicamente e não só, desci dois lanços de escada com as malas, as pus no meu carro alugado e subi outra vez para ir buscar vários fatos e outras peças de vestuário. Encontrei o meu velho saco-cama, que não usava pelo menos há cinco anos, e levei-o para baixo, com uma manta e uma almofada. Tinha direito a levar o meu despertador, o rádio, o leitor de CD portátil com alguns CD, o televisor a cores de treze polegadas que estava na bancada da cozinha, uma chaleira, o secador e o jogo de toalhas turcas azuis. Quando o carro estava cheio, deixei-lhe um bilhete a dizer que me tinha ido embora. Pus-lo ao lado do que ela me deixara e recusei-me a olhar para ele. Reinava em mim uma confusão de sentimentos, as minhas emoções estavam à flor da pele e não me sentia em condições de os controlar. Nunca mudara de casa; não sabia ao certo como é que isso se fazia.
    • Havia uma lista dos despejados, dezessete ao todo, fora as crianças, a mesma lista que alguém me pusera em cima da secretária na manhã de segunda-feira, com uma fotocópia da notícia do Post. No fim do processo, soltos, sem direito a registro no diário, estavam os avisos de despejo das dezessete pessoas. Não tinham sido utilizados. Os ocupantes não tinham direitos, incluindo o de serem notificados. Os avisos tinham sido preparados posteriormente, numa tentativa de encobrimento. Talvez tivessem sido postos ali pelo próprio Chance depois do episódio do Senhor, no caso de serem necessários.
    • O memorando fora retirado do processo. Evidentemente que não era um crime, e eu próprio tirava constantemente coisas dos processos sem deixar um apontamento no diário. Mas voltava a pô-las no seu lugar. Se um documento estava registrado, tinha de constar do dossiê. O encerramento teve lugar em 31 de janeiro, uma sexta-feira. Na terça-feira seguinte, Hector voltou ao armazém para retirar os ocupantes. Foi auxiliado por um guarda de uma empresa de segurança privada, um agente do distrito, e por quatro brutamontes de uma empresa especializada em despejos. A operação demorou três horas, segundo o memorando, que tinha duas páginas. Embora tentasse disfarçar as suas emoções, Hector não tinha estômago para despejos.
    • Em 22 de janeiro, Hector Palma foi ao armazém, sozinho, para uma inspeção de rotina anterior à compra. Quando ia a entrar por uma deter-minada porta, foi assaltado por dois vagabundos que o atingiram na cabeça com um pau e lhe levaram a carteira e o dinheiro, sob a ameaça de uma faca. Ficou em casa no dia seguinte e preparou um memorando em que descrevia o assalto, para ser guardado no processo. A última frase era a seguinte:   Voltarei na segunda-feira, 27 de janeiro, com um guarda, para inspecionar. O memorando estava devidamente registrado no dossiê. Mas não havia memorando da sua segunda visita. Numa entrada de 27 de janeiro do diário lia-se Memorando de HP - visita ao local e inspeção das instalações .
    • Dentro do dossiê, do lado esquerdo, estava o diário, um formulário impresso no qual eram registradas todas as entradas pela data e com um breve resumo. Era possível avaliar a capacidade de organização de uma secretária da Drake & Sweeney pelo nível de pormenor do diário de um processo. Todos os documentos, mapas, fotografias ou gráficos absolutamente tudo o que constasse do processo - deviam ser registrados no diário. Isto fora enfiado nas nossas cabeças durante a fase de aprendizagem. Quase todos nós tínhamos aprendido à nossa custa - não havia nada mais frustrante do que folhear um grosso processo à procura de qualquer coisa que não fora registrada com suficiente pormenor. Se não conseguíssemos encontrá-la em trinta segundos, seria inútil, dizia o axioma.
    • Faltavam apenas sete dias para o dia 1 de março. Não era de admirar que Chance tivesse dado por falta do processo tão depressa. Trabalhava com ele todos os dias.
    • Em 6 de Janeiro, os Correios informaram a RiverOaks, por carta registrada, que a empresa fora a escolhida para ser o empreiteiro/proprietário/senhorio das novas instalações. Um memorando do acordo garantia pagamentos de renda anuais no valor de um milhão e meio de dólares. A carta também referia, com uma pressa não- governamental, que teria de ser assinado um acordo final entre a RiverOaks e os Correios até ao dia 1 de Março, caso contrário o negócio ficaria sem efeito. Após sete anos de ponderação e de planejamento, o governo federal queria ver o edifício construído de um dia para o outro.
    • A fonte do dinheiro era o governo federal, o que não era de admirar em Columbia. Os Correios tencionavam construir um edifício enorme de vinte milhões de dólares na cidade, e a RiverOaks era uma das várias imobiliárias agressivas que esperavam construí-lo, alugá-lo e geri-lo. Tinham sido considerados vários locais, todos em zonas difíceis e degradadas da cidade. A lista das três pré-qualificadas fora anunciada em dezembro anterior. A RiverOaks começara a arrebatar todas as propriedades baratas de que poderia precisar.
    • Mas não o fiz.
    • Todo aquele esforço por um dossiê de papel manilha?
    • Agradeci-lhe, mas não obtive resposta. Apeteceu-me desatar a correr pelo parque, mas andar já era um desafio. O homem fechou os portões atrás de mim.
  • Mas que covil! - exclamou ele num tom divertido, mirando a sala da frente enquanto eu fechava de novo a porta à chave.
  • Esquisito, não é? - disse eu, afastando-me dele e tentando perceber o que significava aquilo.
  • Mas que lixeira!

 

    • Barry Nuzzo estava divertido com o local. Contornou a secretária de Sofia, tirando as luvas devagar, com receio de tocar em qualquer coisa que provocasse uma avalancha de processos.
  • Reduzimos as despesas ao mínimo, para levarmos para casa todo o dinheiro que pudermos - disse eu. Era uma velha piada que corria na Drake & Sweeney. Os sócios andavam sempre a queixar-se das despesas, ao mesmo tempo que se preocupavam essencialmente com a remodelação dos seus gabinetes.
  • Então estás aqui pelo dinheiro? - perguntou ele, bem-humorado.
  • Evidentemente.
  • Perdeste o juízo.
  • Senti um chamamento.
  • Sim, andas a ouvir vozes.
  • Foi para isso que cá vieste? Para me dizeres que estou louco?
  • Telefonei à Claire.
  • E o que disse ela?
  • Disse que tinhas saído de casa.
  • É verdade. Vamos divorciar-nos.
  • O que tens na cara?- Ah, sim. Já me esquecia. Ouvi dizer que foram apenas uns pára-choques amassados.

 

    • - Foi um air bag.
  • Foram. Os pára-choques ficaram amassados.

 

    • Barry pousou o casaco numa cadeira, mas voltou a vesti-lo à pressa.
  • A contenção de despesas implica que vocês não paguem a conta do aquecimento?
  • De vez em quando falhamos um mês.

 

    • Barry deu mais uma volta, espreitando os gabinetes acanhados.
  • Quem é que paga isto? - perguntou.
  • Uma fundação.
  • Uma fundação em declínio?
  • Sim, uma fundação em declínio rápido.
  • Como é que deste com isto?
  • O Senhor vinha cá. Estes eram os advogados dele.
  • O velho Senhor - disse ele. Interrompeu o seu exame por instantes e fitou a parede. Achas que ele nos teria matado?
  • Não. Ninguém lhe dava ouvidos. Era apenas mais um sem abrigo.

 

    • Ele queria que lhe dessem atenção.
  • Admitiste a hipótese de te atirares a ele?
  • Não, mas pensei em tirar-lhe a arma e dar um tiro no Rafter.
  • Quem dera que o tivesses feito.
  • Talvez para a próxima.
  • Tens café?
  • Claro que tenho. Senta-te.

 

    • Não queria que Bany fosse atrás de mim para a cozinha, que deixava muito a desejar. Descobri uma chávena, lavei-a rapidamente e enchi-a de café. Levei-o para o meu gabinete.
  • Bonito - disse ele, olhando à sua volta.

 

    • - É aqui que se discutem as grandes causas - disse eu, com orgulho. Sentamo-nos em frente da secretária. As cadeiras chiaram e pareciam prestes a desfazer-se.
  • Era com isto que sonhavas na faculdade de Direito? - perguntou ele.
  • Não me lembro da faculdade de Direito. Já faturei muitas horas desde então.

 

    • Barry olhou finalmente para mim, sem um sorriso malicioso, e a brincadeira foi posta de lado. Por muito mal intencionado que fosse o pensamento, não pude deixar de perguntar a mim próprio se Barry não traria um microfone escondido. Eles tinham enviado Hector para a refrega com um por baixo da camisa; fariam o mesmo com Barry. Ele não se ofereceria, mas eles podiam pressioná-lo. Eu era o inimigo.
  • Com que então vieste à procura do Senhor? - perguntou ele.
  • Acho que sim.
  • O que encontraste?
  • Estás armado em parvo, Barry? O que se está a passar na firma? Vocês estão a fazer o cerco? Andam atrás de mim?

 

    • Barry pesou as minhas palavras, enquanto sorvia o café com goles rápidos.
  • Este café é horrível - disse ele, prestes a cuspi-lo.
  • Pelo menos está quente.
  • Lamento o que se passou com a Claire.
  • Obrigado, mas prefiro não falar nisso.
  • Falta um processo, Michael. Toda a gente te aponta o dedo.
  • Quem sabe que estás aqui?
  • A minha mulher.
  • Foi a firma que te mandou cá?
  • De modo nenhum.

 

    • Acreditei nele. Era meu amigo há sete anos, íntimo por vezes. Embora quase sempre estivéssemos demasiado ocupados para fruir a nossa amizade.
  • Porque me apontam o dedo?
  • O processo tem qualquer coisa a ver com o Senhor. Tu foste ter com o Braden Chance e pediste para o consultar. Foste visto nas imediações do gabinete dele na noite em que o processo desapareceu. Há provas de que alguém te deu umas chaves que talvez não devesses ter aceitado.
  • É tudo?
  • Isso e as impressões digitais.
  • Impressões digitais? - perguntei, tentando mostrar-me surpreendido.
  • Por todo o lado. Na porta, no interruptor e até no arquivador. Coincidem perfeitamente. Tu estiveste lá, Michael. Levaste o processo. Que vais agora fazer com ele?
  • O que sabes do processo?
  • O Senhor foi despejado por um dos nossos clientes de uma empresa imobiliária. Ele ocupou o local. Endoideceu, assustou-nos e tu ias sendo alvejado. Enlouqueceste.
  • É tudo?
  • Foi tudo o que eles nos disseram.
  • Quem são eles?
  • Eles são os manda-chuva. Na sexta-feira, recebemos memorandos - toda a empresa, os advogados, as secretárias, os solicitadores, todos - a informar-nos que fora levado um processo, que tu eras o suspeito e que nenhum elemento da firma devia contatar contigo. Estou proibido de estar aqui neste momento.
  • Não direi a ninguém.
  • Obrigado.

 

    • Se Braden Chance estabelecera a ligação entre o despejo e Lontae Burton, não era pessoa para o admitir fosse perante quem fosse. Nem sequer os outros sócios. Ban-y estava a ser sineero. Talvez julgasse que o meu único interesse era DeVon Hardy.
  • Então porque estás aqui?
  • Sou teu amigo. A situação está péssima neste momento. Meu Deus, na segunda-feira os polícias estiveram no escritório, acreditas? A semana passada foi o Corpo de Intervenção, e nós éramos reféns. Agora tu saltaste de um rochedo. E o caso com a Claire. Porque não tiras umas férias? Vamos passar quinze dias a qualquer lado. Levamos as nossas mulheres.
  • Para onde?
  • Não sei. Isso não interessa. Para as ilhas.
  • Qual seria a vantagem?
  • Podíamos descontrair-nos. Jogar tênis. Dormir. Recarregar baterias.
  • Pagos pela firma?
  • Pagos por mim.
  • Esquece a Claire. Acabou, Barry. Demorou muito, mas acabou.
  • Está bem. Vamos nós os dois.
  • Mas tu não deves ter qualquer contacto comigo.

 

    • - Tenho uma idéia. Acho que posso ir ter com o Arthur e ter uma longa conversa. Podemos acabar com isto. Tu devolves o processo, esqueces o que está lá dentro, a firma perdoa-te e esquece também, e tu e eu vamos passar duas semanas a jogar tênis em Maui. Depois, voltas para o teu gabinete requintado. Lá é que é o teu lugar.
  • Foram eles que te mandaram, não foram?
  • Não. Juro.
  • Não vai resultar, Barry.
  • Dá-me uma boa razão. Por favor.
  • Ser advogado é mais do que faturar horas e fazer dinheiro.

 

    • Porque havemos de querer ser prostitutos das empresas? Estou cansado disso, Barry. Quero ser diferente.
  • Pareces um estudante do primeiro ano a falar.
  • Exatamente. Escolhemos esta profissão porque julgávamos que o Direito era um chamamento superior. Podíamos combater a injustiça e os males sociais, e fazer toda a espécie de grandes coisas porque éramos advogados. Noutros tempos fomos idealistas. Porque não podemos voltar a sê-lo?
  • Por causa das hipotecas.
  • Não estou a tentar recrutar ninguém. Tu tens três filhos; felizmente a Claire e eu não temos nenhum. Posso dar-me ao luxo de ter a minha loucura.

 

    • Um aquecedor que estava a um canto, e que eu ainda não vira, começou a zumbir e a assobiar. Olhamos para ele e ficamos à espera de um pouco de calor. Passou um minuto. Dois.
  • Eles vêm atrás de ti, Michael - disse ele, continuando a olhar para o aquecedor, mas sem ver.
  • Eles? Queres dizer nós?
  • Exatamente. A firma. Tu não podes roubar um processo. Pensa no cliente. O cliente tem o direito a esperar confidencialidade. Se um processo sai da firma, esta não pode fazer outra coisa que não seja ir atrás dele.
  • Um processo-crime?
  • Talvez. Eles estão furiosos, Michael. Não podes culpá-los.

 

    • Também falam de uma ação disciplinar junto da Associação. É provável que haja uma interdição do exercício da advocacia. O Rafter já está a trabalhar nisso.
  • Porque não havia o Senhor de ter apontado um pouco mais para baixo?
  • Eles estão a ser duros.
  • A firma tem mais a perder do que eu.

 

    • Barry fitou-me. Não sabia o que estava no processo.
  • Há algo mais para além do Senhor? - perguntou.
  • Muito mais. A firma está tremendamente exposta. Se eles vieram atrás de mim, eu vou atrás da firma.
  • Não podes usar um processo roubado. Nenhum tribunal deste país o aceitará como prova. Tu não percebes nada de litigância.
  • Estou a aprender. Diz-lhes que recuem. Lembra-te que eu tenho o processo e que a história suja está lá.
  • Eles não passavam de um grupo de intrusos, Michael.
  • A situação é mais complicada do que isso. Alguém precisa de se sentar à mesa com o Braden Chance e saber a verdade. Diz ao Rafter para fazer o trabalho de casa antes de fazer acrobacias. Acredita em mim, Barry, que isto é um assunto de primeira página. Vocês vão ter medo de sair de casa.
  • Então propões umas tréguas? Tu ficas com o processo e nós deixamos-te em paz?
  • Por agora. Não sei o que se passará na próxima semana ou na outra.
  • Porque não falas com o Arthur? Eu faço de árbitro. Fechamo-nos os três numa sala e tratamos disto. O que dizes?
  • É demasiado tarde. As pessoas estão mortas.
  • O Senhor suicidou-se.
  • Há outras pessoas.

 

    • E com isto, eu já dissera o suficiente. Apesar de Barry ser meu amigo, iria repetir a maior parte da nossa conversa aos patrões.
  • Queres explicar-te? - disse ele.
  • Não posso. É confidencial.
  • Isso soa a falso, vindo de um advogado que rouba processos.Barry perguntou-me quem eram os outros empregados da clínica.

 

    • Eu fiz-lhe um resumo rápido.
    • O aquecedor gorgolejou e arrotou, e por instantes foi mais fácil olhar para ele do que conversar. Nenhum de nós queria dizer coisas de que viéssemos a arrepender-nos mais tarde.
  • É incrível - disse ele entredentes, mais do que uma vez.
  • Podemos manter-nos em contacto? - disse ainda, à porta.
  • Evidentemente.Mordecai, evidentemente, reparara logo na minha mudança de estilo quando entrei no seu gabinete e anunciei que estava pronto para o trabalho. Não disse nada, mas ficou a olhar para os Nikes. Já vira de tudo - tipos de grandes empresas a descerem das suas torres de marfim para passarem umas horas com os pobres. Por qualquer razão, sentiam-se obrigados a deixar crescer a barba e a vestir-se de sarja.

 

    • Demorei meia-hora a orientar-me, o tempo que levamos a ir da clínica para a Samaritan House em Petworth, no Northeast. Mordecai encarregou-se da condução e da conversa; eu ia sentado, em silêncio, agarrado à minha pasta, tão nervoso como qualquer principiante que está prestes a ser atirado às feras. Ela de jeans, camisa branca e gravata, um velho casaco azul escuro, tênis Nike velhos e gastos e peúgas brancas. Deixara de fazer a barba. Era um advogado da rua e podia apresentar-me como me apetecesse.
  • A sua clientela será um misto de terços - disse ele, guiando mal só com uma mão e pegando na chávena de café com a outra, esquecendo-se de que os outros veículos se acumulavam à nossa volta.
  • Cerca de um terço são empregados, um terço são famílias com filhos, um terço são pessoas com perturbações mentais, um terço são veteranos. E cerca de um terço dos que têm direito a subsídio de habitação devido aos seus baixos rendimentos recebem-no. Nos últimos quinze anos, foram eliminadas dois milhões e meio de casas de renda limitada, e os programas federais de habitação sofreram cortes de setenta por cento. As pessoas que não têm para onde ir vivem nas ruas. Os governos equilibram os orçamentos à custa dos pobres.

 

    • As estatísticas avançaram sem esforço. Esta era a vida e a profissão de Mordecai. Como advogado treinado para guardar apontamentos meticulosos, resisti à tentação de abrir a pasta e começar a escrever. Limitei-me a ouvir.
  • Esta gente tem empregos em que ganha o ordenado mínimo, portanto nem pensa em ter casa própria. Nem sequer sonha com ela. E os seus rendimentos não acompanharam a subida dos preços da habitação. Por isso ficam cada vez mais para trás, e ao mesmo tempo os programas de assistência são cada vez mais atingidos. Veja isto: só catorze por cento dos sem abrigo recebem subsídios. Catorze por cento! Verá muitos casos destes.

 

    • Com um guinchar de travões paramos num sinal vermelho, com o carro de Mordecai quase a bloquear o cruzamento. Só se ouviam buzinas à nossa volta. Deixei-me escorregar no banco, à espera de outra colisão. Mordecai não fazia a mínima idéia de que o seu carro estava a impedir o trânsito de uma hora de ponta. Olhava em frente, como se estivesse noutro mundo.
  • O que assusta neste caso é o que não se vê na rua. Cerca de metade desta gente pobre gasta setenta por cento do seu rendimento a tentar manter a habitação que tem. Teoricamente, deviam gastar um terço. Há dezenas de milhar de pessoas nesta cidade que estão agarradas ao seu teto; um cheque que não foi recebido uma ida inesperada ao hospital, uma urgência que ninguém vê, e perdem a sua casa.
  • Para onde vão?
  • É raro irem diretamente para os abrigos. A princípio, vão para casa das famílias, e depois para as dos amigos. A pressão é enorme porque as famílias e os amigos também têm habitação subsidiada, e os contratos restringem o número de pessoas que podem habitar em cada uma. São obrigados a violar os contratos, o que pode conduzir a um despejo. Andam de um lado para o outro, às vezes deixam um filho com uma irmã e outro com uma amiga. As coisas vão de mal a pior. Muitos dos que não possuem um teto têm medo dos abrigos, e tentam evitá-los a todo o custo.

 

    • Mordecai fez uma pausa para beber o seu café.
  • Porquê? - perguntei.
  • Nem todos os abrigos são bons. Tem havido assaltos, roubos e até violações.

 

    • E era isto que eu tinha a esperar do resto da minha carreira de advogado.
  • Esqueci-me da arma - disse.
  • Não lhe acontecerá nada. Há centenas de advogados oficiosos nesta cidade. Nunca ouvi dizer que nenhum tivesse sido atacado.
  • Isso é agradável de ouvir.

 

    • Arrancamos de novo, um pouco mais seguros.
  • Cerca de metade das pessoas têm qualquer problema de dependência, como o seu amigo DeVon Hardy. E muito vulgar.
  • O que se pode fazer por eles?
  • Não muito, infelizmente. Restam alguns programas, mas é difícil encontrar uma cama. Conseguimos instalar o Hardy numa unidade de recuperação para veteranos, mas ele fugiu. O dependente é que decide quando quer estar sóbrio.
  • Qual é a droga preferida?
  • O álcool. É o mais acessível. E muito crack, porque também é barato. Você vai ver de tudo, mas as drogas duras são muito caras.
  • Quais serão os meus primeiros casos?
  • Está nervoso, não está?
  • Estou, e não tenho pista nenhuma.
  • Descontraia-se. O trabalho não é complicado; exige paciência.

 

    • Verá um que não recebe aquilo a que tem direito, talvez senhas de refeição. Um divórcio. Outro com uma queixa contra o senhorio. Uma disputa laboral. Tem garantido um processo criminal.
  • Que tipo de processo criminal?
  • Pequenas coisas. Nas zonas urbanas da América, a tendência é para incriminar os sem abrigo. As cidades aprovaram toda a espécie de leis destinadas a perseguir aqueles que vivem nas ruas. Não podem pedir esmola, não podem dormir num banco de jardim, não podem acampar debaixo de uma ponte, não podem guardar os objetos pessoais num parque público, não podem sentar-se num passeio, não podem comer em público. Muitos deles foram condenados pelos tribunais. O Abraham fez um belo trabalho para convencer os juízes federais que estas más leis infringem os direitos consignados na Primeira Emenda. É por isso que as cidades reforçam as leis gerais, contra a vadiagem, a vagabundagem, a embriaguez em público. O seu alvo é os sem abrigo. Um tipo todo bem vestido embebeda-se num bar e urina num beco. Não tem importância. Um sem abrigo urina no mesmo beco e é preso por urinar em público. As rusgas são vulgares.
  • Rusgas?
  • Sim. Eles escolhem uma zona da cidade, expulsam todos os sem abrigo e atiram-nos para qualquer outro lado. Atlanta fê-lo antes dos Jogos Olímpicos - não podia ter aquela gente pobre a pedir esmola e a dormir nos bancos de jardim com o mundo inteiro a ver - por isso enviaram tropas especiais e eliminaram o problema. Depois a cidade gabou-se de que estava tudo muito bonito.
  • Onde é que os puseram?
  • De certeza que não os levaram para abrigos porque não os têm.Um gole rápido de café enquanto ajustava o radiador, e nada de mãos no volante durante cinco segundos.

 

    • Obrigaram-nos a ir para outro lado; atiraram-nos para outras zonas da cidade como se fossem lixo.
  • Lembre-se, Michael, que toda a gente tem de estar em qualquer lado. Esta gente não tem alternativas. Se você tiver fome, pede que lhe dêem de comer. Se estiver cansado, dorme onde puder. Se não tiver casa, tem de viver em qualquer lado.
  • Eles prendem-nos?
  • Todos os dias, e é uma política estúpida. Imagine um tipo que vive na rua, entra e sai dos abrigos, trabalha em qualquer lado em troca do salário mínimo, faz o que pode para subir e tornar-se auto-suficiente. Depois é preso por dormir debaixo de uma ponte. Não quer dormir debaixo de uma ponte, mas toda a gente tem de ir para qualquer lado. É considerado culpado porque as autoridades municipais, com todo o brilhantismo, decretaram que é crime não ter uma casa. Tem de pagar trinta dólares para sair da cadeia, e mais trinta de multa. Sessenta dólares dos seus parcos recursos. Então sofre outro golpe. Foi preso, humilhado, multado, castigado e ainda se espera dele que reconheça o seu erro e descubra uma casa. Que saia das malditas ruas. Isto acontece na maioria das nossas cidades.
  • Não seria preferível não sair da cadeia?
  • Você foi a alguma cadeia ultimamente?
  • Não.
  • Não vá. Os polícias não estão preparados para lidar com os sem abrigo, sobretudo com os doentes mentais e os dependentes. As cadeias estão superlotadas. Primeiro, o sistema de justiça criminal é um pesadelo, e perseguir os sem abrigo só o entrava ainda mais. E aqui está a parte asinina: custa mais vinte e cinco por cento por dia manter uma pessoa na prisão do que fornecer-lhe abrigo, comida, transporte e serviços de aconselhamento. Estes teriam, evidentemente, uma vantagem a longo prazo. E isto não inclui os custos da detenção e do processo. Quase todas as cidades estão falidas, em especial Washington - é por isso que eles estão a encerrar abrigos, lembre-se -, mas gasta-se dinheiro transformando os sem abrigo em criminosos.
  • Você parece estar à vontade na litigância - disse eu, embora ele não precisasse de incitamento.

 

    • Estamos a levantar um sem número de processos. Os advogados de todo o país estão a atacar estas leis. As malditas cidades estão a gastar mais em honorários de advogados do que em abrigos para os sem abrigo. Nova Iorque, a cidade mais rica do mundo, não consegue abrigar a sua gente, que dorme nas ruas e pede esmola em Fifth Avenue, e isto incomoda os nova-iorquinos sensíveis, por isso eles elegem um tipo qualquer que promete limpar as ruas e recebe carta branca das autoridades municipais para interditar os sem abrigo, assim sem mais nem menos - não se pode pedir esmola, não se pode estar sentado no passeio, não se pode ser um sem abrigo - e cortam desalmadamente nos orçamentos, fecham abrigos e reduzem a assistência, ao mesmo tempo que gastam uma fortuna a pagar a advogados de Nova Iorque para os defender por tentarem eliminar a gente pobre.
  • Qual é a situação de Washington?
  • Não é tão má como a de Nova Iorque, mas não é muito melhor.

 

    • Estávamos numa zona da cidade na qual eu não me teria aventurado em pleno dia num carro blindado, quinze dias antes. As montras dos estabelecimentos estavam repletas de grades de ferro pretas; os prédios de apartamentos eram altos, estruturas sem vida, com roupa pendurada nos varandins. Eram todos de tijolos cinzentos e ostentavam a insipidez arquitetônica do dinheiro federal gasto à pressa.
  • Washington é uma cidade de negros com uma larga camada que vive bem. Atrai uma série de gente que quer mudar, uma série de ativistas e radicais. Pessoas como você.
  • Dificilmente posso ser considerado um ativista ou um radical.
  • Estamos na manhã de segunda-feira. Pense onde tem passado todas as manhãs de segunda feira nos últimos sete anos.
  • Sentado à minha secretária.
  • Uma secretária muito bonita.
  • É verdade.
  • No seu gabinete decorado com elegância.
  • É verdade.

 

    • Mordecai fez-me um grande sorriso e disse:
  • Agora você é um radical.À frente, à direita, encontrava-se um grupo de homens com várias camadas de roupa em cima do corpo, reunidos junto de um queimador portátil a gás butano, numa esquina. Passamos por eles e estacionamos à beira do passeio. O edifício fora em tempos um centro comercial, há muitos anos. Numa tabuleta pintada à mão lia-se: Samaritan House.

 

    • E com isto, deu por terminados os seus conselhos.
  • É um abrigo particular - explicou Mordecai. - Tem noventa camas, comida decente e foi fundado por uma coligação de igrejas de Arlington. Há seis anos que vimos aqui.

 

    • Uma carrinha de um banco alimentar estava estacionada à porta; voluntários descarregavam caixotes de fruta e legumes. Mordecai falou com um homem de idade que estava à porta, e fomos autorizados a entrar.
  • Vou dar uma volta rápida consigo - disse Mordecai.Um homem franzino, com um olhar esgazeado, estava sentado na beira de um catre, a olhar para nós mas sem dizer nada.

 

    • Mantive-me perto dele enquanto atravessávamos o piso principal. Era um labirinto de pequenos corredores, todos ladeados por pequenos quartos quadrados feitos de divisórias sem pintura. Cada quarto tinha uma porta, com fechadura. Um estava aberto. Mordecai olhou lá para dentro e disse: Bom dia.
  • Este é um bom quarto - disse Mordecai dirigindo-se a mim.-Tem privacidade, uma boa cama, espaço para arrumar coisas e eletricidade.O quarto não tinha teto; os velhos painéis do antigo centro comercial estavam dez metros acima.

 

    • Mexeu num interruptor junto da porta e a lâmpada apagou-se. O quarto ficou às escuras por uns segundos, e depois ele voltou a acender a luz. Os olhos esgazeados do homem nem se mexeram.
  • E quanto a casas de banho? - perguntei.
  • Ficam nas traseiras. Poucos abrigos têm casas de banho individuais. Bom dia - disse ele ao residente, que retribuiu com um aceno de cabeça.

 

    • Havia rádios ligados, alguns com música, outros com noticiários. As pessoas andavam de um lado para o outro. Era uma segunda-feira de manhã; tinham empregos e sítios onde estar.
  • É difícil conseguir um quarto aqui? - perguntei, seguro da resposta.
  • É quase impossível. Há uma lista de espera enorme, e o abrigo pode fazer a triagem de quem entra.
  • Quanto tempo é que eles ficam aqui?
  • Varia. Três meses é talvez uma boa média. Este é um dos abrigos mais agradáveis, portanto aqui estão em segurança. Assim que começam a estabilizar, o abrigo começa a tentar realojá-los em habitações acessíveis.

 

    • Mordecai apresentou-me a uma jovem com botas pretas de combate, que dirigia o local.
  • O nosso novo advogado.Com a mão direita, a mulher agarrou o seio que estava livre e o ofereceu. Precipitei-me para o corredor e encontrei Mordecai. Esperavam-nos alguns clientes. O nosso gabinete ficava a um canto da sala de jantar, perto da cozinha. A nossa secretária era uma mesa desmontável que pedimos emprestada ao cozinheiro. Mordecai abriu um arquivador que se encontrava ao canto e começamos a trabalhar. Seis pessoas sentaram-se numa fila de cadeiras encostadas à parede.

 

    •             Foi assim que me apresentou. Ela deu-me as boas-vindas. Falamos de um cliente que tinha desaparecido, e percorremos o corredor até encontrarmos o apartamento da família. Ouvi um bebê a chorar e aproximei-me de uma porta aberta. O aposento era um pouco maior e estava dividido em cubículos. Uma mulher gorda que não tinha mais de vinte e cinco anos estava sentada numa cadeira, nua da cintura para cima, a amamentar uma criança, completamente indiferente ao fato de eu me encontrar a uns escassos três metros de distância. Duas crianças pequenas davam cambalhotas em cima de uma cama. De um rádio saía o som do rap.
  • Quem é o primeiro? - perguntou Mordecai.A mulher chamava-se Waylene, tinha vinte e sete anos, dois filhos, e não tinha marido.

 

    • Uma mulher avançou com a sua cadeira. Sentou-se em frente dos advogados, ambos equipados com uma caneta e um bloco de apontamentos. Um era um veterano com experiência das leis da rua e o outro não tinha quaisquer referências.
  • Metade vêm do abrigo - disse-me Mordecai, enquanto tomávamos notas. - A outra metade vem das ruas.
  • Levamos alguém?
  • Quem não tiver onde ficar.

 

    • O problema de Waylene não era complicado. Trabalhara num restaurante fast food antes de sair por qualquer motivo que Mordecai considerou irrelevante, e deviam-lhe as duas últimas semanas. Como não tinha endereço permanente, o patrão enviara-lhe os cheques para o sítio errado. Os cheques tinham desaparecido; o patrão não estava preocupado.
  • Onde estará na próxima semana? - perguntou-lhe Mordecai.

 

    • Ela não tinha a certeza, talvez estivesse ali. Andava à procura de emprego e, se arranjasse algum, podiam suceder-se outros acontecimentos e talvez se mudasse. Ou talvez arranjasse uma casa dela.
  • Eu vou buscar o seu dinheiro e levo os cheques para o meu escritório. - Mordecai deu-lhe um cartão de visita. - Telefone-me para este número daqui a uma semana.- Telefone para o sítio da massa, identifique-se como advogado dela, seja simpático a princípio e depois arme um burburinho se eles não colaborarem. Se for necessário, passe por lá e traga você os cheques. Tomei nota destas instruções como se fossem complicadas. Waylene tinha a receber duzentos e dez dólares. O último caso em que eu trabalhara na Drake & Sweeney era uma disputa em que estavam em causa novecentos milhões.

 

    • O segundo cliente não conseguiu apresentar um problema legal específico. Pretendia apenas falar com alguém. Estava embriagado ou era doente mental, talvez as duas coisas, e Mordecai levou-o à cozinha e arranjou-lhe um café.
    • A mulher pegou no cartão, agradeceu-nos e afastou-se.
  • Alguns destes pobres tipos nem sequer se agüentam - disse.Explicou isto. Os seus documentos provavam-no. Mordecai disse:

 

    • O número três era uma residente do abrigo, há dois meses, portanto a questão do endereço era mais simples. Tinha cinqüenta e oito anos, era limpa e arranjada, e viúva de um veterano. De acordo com a pilha de documentos que vasculhei enquanto o meu companheiro falava com ela, a mulher tinha direito aos benefícios. Mas os cheques eram enviados para uma conta bancária em Maryland, à qual ela não tinha acesso.
  • A VA é uma boa agência. Vamos tomar providências para que os cheques sejam enviados para lá.Marvis foi o meu primeiro cliente a solo. Precisava de se divorciar. Também eu. Depois de ouvir a sua história triste, tive vontade de correr para casa ao encontro de Claire e de lhe beijar os pés. A mulher de Marvin era uma prostituta, que fora uma pessoa decente até descobrir o crack. A droga obrigara-a a aproximar-se de um traficante, depois de um chulo, e por fim a fazer vida nas ruas. Durante esse tempo, roubou e vendeu tudo o que eles tinham e crivou-o de dívidas. O marido acusava-a de o ter levado à bancarrota. Ela levou os dois filhos e foi viver com o chulo.

 

    • Falamos de algumas questões genéricas sobre o mecanismo do divórcio, e como eu tinha apenas conhecimentos básicos desvencilhei-me como pude. Enquanto tomava os meus apontamentos imaginei Claire sentada no belo escritório da sua advogada, naquele preciso momento, a finalizar os planos para dissolver a nossa união.
    • A fila aumentava à medida que atendíamos os clientes com eficiência. Mordecai já vira tudo aquilo antes: senhas de refeição cujo envio fora interrompido por falta de um endereço permanente; a recusa de um senhorio em devolver a caução; abonos de família que não eram pagos; um mandado de captura por emissão de cheques falsos; um pedido de subsídio à Segurança Social para um deficiente. Duas horas depois, quando já tinham sido atendidos dez clientes, passei para a extremidade da mesa e comecei eu a atendê-los. No meu primeiro dia como advogado dos pobres, estava entregue a mim próprio, a tomar notas e assumindo a mesma importância do meu colega.
  • Quanto tempo levará? - perguntou ele, obrigando-me a afastar do meu breve devaneio.
  • Seis meses - respondi. - Acha que ela vai contestar?
  • O que quer dizer?
  • Ela vai concordar com o divórcio?
  • Não falamos nisso.Ao meio-dia, cedemos a nossa mesa para que o almoço pudesse ser servido. A zona das refeições estava apinhada; a sopa estava pronta. Como estávamos na zona, paramos no Florida Avenue Grill e escolhemos comida soul. Eu era o único branco no restaurante cheio, mas estava a sair-me bem com a cor da minha pele. Ainda ninguém tentara assassinar-me. Ninguém parecia importar-se com isso.Se eu julgava que o ritmo seria mais brando na rua, estava enganado.No entanto, o meu primeiro telefonema foi para a Drake & Sweeney. Pedi para falar com Hector Palma, do departamento de Bens Imobiliários, e fiquei à espera. Desliguei ao fim de cinco minutos e voltei a ligar. Por fim, atendeu uma secretária que voltou a deixar-me à espera. De repente, ouvi a voz abrasiva de Braden Chance:

 

    • De repente, estava afundado nos problemas de outras pessoas. Felizmente, com a minha experiência de viciado no trabalho, estava à altura da tarefa.
    • Sofia descobriu um telefone que, por acaso, funcionava. Estava debaixo de uma pilha de processos, na secretária mais próxima da porta. Agradeci-lhe e retirei-me para a privacidade do meu gabinete. Contei oito pessoas sentadas em silêncio e à espera de Sofia, que não era advogada, e dos seus conselhos. Mordecai sugeriu que eu passasse a tarde a trabalhar nos casos que tínhamos recebido durante a manhã na Samaritan. Eram dezenove, ao todo. Também deu a entender que eu deveria trabalhar bem para poder ajudar Sofia no atendimento.
    • A mulher saíra de casa há um ano, e pareceu-me que estávamos perante um bom caso de abandono. Se acrescentássemos o adultério, a vitória era certa. Marvis estava no abrigo há uma semana. Era asseado, sóbrio e andava à procura de trabalho. Gostei da meia hora que passei com ele e fiz votos para que conseguisse o seu divórcio. A manhã passou depressa; o meu nervosismo desvaneceu-se. Estava a tentar ajudar pessoas reais com problemas reais, pessoas humildes que não tinham mais ninguém a quem recorrer para obterem assistência jurídica. Deixavam-se intimidar não só por mim como pelo vasto universo de leis, regulamentos, tribunais e burocracias. Aprendi a sorrir e a fazê-los sentirem-se bem-vindos. Alguns pediram desculpa por não me poderem pagar. O dinheiro não era importante, disse-lhes eu. O dinheiro não era importante.
  • Em que posso ajudá-lo?

 

    • Engoli em seco e disse:
  • Queria falar com Hector Palma.

 

    • Tentei elevar o tom de voz e reduzir as palavras.
  • Quem fala?
  • Rick Hamilton, um antigo amigo da faculdade.
  • Ele já não trabalha cá. Desculpe.Havia três Hector Palma na lista telefônica. Quis telefonar-lhes, mas as linhas estavam ocupadas. O escritório tinha duas linhas e quatro advogados.Sofia saiu às cinco horas em ponto, como de costume. O bairro em que vivia era violento, e ela preferia estar em casa ao anoitecer, com as portas trancadas. Mordecai saiu por volta das seis, depois de passar meia hora a falar comigo sobre o que se passara durante o dia.   Não fique até muito tarde , avisou-me ele,   e tente não sair sem ser acompanhado, . Falara com Abraham Lebow, que tencionava ficar a trabalhar até às nove, e combinamos sair juntos. Estacionar o carro perto. Andar depressa. Estar atento a tudo.

 

    • Não tive pressa de sair do escritório no fim do meu primeiro dia de trabalho. A minha casa era um sótão vazio, não muito maior do que qualquer dos cubículos da Samaritan House. Um quarto sem cama, uma sala com um televisor sem fios, uma cozinha com uma mesa de jogar às cartas e sem frigorífico. Tinha planos distantes e vagos para a equipar e decorar.
    • Desligou, e eu fiquei a olhar para o telefone. Pensei em falar a Polly e pedir-lhe que me ajudasse a procurar, a ver o que acontecera a Hector. Não lhe roubaria muito tempo. Ou talvez a Rudolph, ou Barry Nuzzo, ou ao meu solicitador favorito. Depois percebi que eles já não eram meus amigos. Eu fora-me embora. Ultrapassara os limites. Eu era o inimigo. Era sinônimo de sarilho e os poderes superiores tinham-nos proibido de falar comigo.
  • Então o que acha? - perguntou ele, parando à porta antes de sair.
  • Acho que é um trabalho fascinante. O contacto humano é inspirador.
  • Por vezes deixa-nos destroçados.
  • Já deixou.
  • Isso é bom. Se você chegar ao ponto em que não sofre, está na hora de se afastar.
  • Ainda agora comecei.
  • Eu sei, e é bom contar consigo. Sentimos aqui a falta de um peso pesado.
  • Ainda bem que mereço a sua confiança.Com os seus infinitos recursos, a firma tinha muitas maneiras e muitos locais para esconder Hector Palma. Oitocentos advogados, cento e setenta solicitadores, escritórios em Washington, Nova Iorque, Chicago, Los Angeles, Portland, Palm Beach, Londres e Hong-Kong. Eram demasiado espertos para o despedir, porque ele sabia demais. Pagar-lhe-iam o dobro, promovê-lo-iam, transferi-lo-iam para outro escritório noutra cidade, com um apartamento maior.Ouviu-se uma leve pancada na porta, que se abriu sozinha. A fechadura e o puxador estavam gastos e vacilantes, e a porta fechava-se mas o trinco soltava-se. Era Abraham.

 

    • Tomei nota do endereço que vinha na lista telefônica. Se a voz do gravador era a dele, talvez ainda não se tivesse mudado. Com os meus novos conhecimentos da rua, tinha a certeza de que conseguiria encontrá-lo.
    • Mordecai saiu e voltei a fechar a porta à chave. Já me apercebera de que havia uma política, não verbalizada, de porta aberta. Sofia trabalhava na sala, e eu divertira-me durante a tarde a ouvi-la censurar os burocratas uns atrás dos outros enquanto todo o escritório ouvia. Mordecai era um animal ao telefone e a sua voz profunda e rouca atroava os ares, fazendo toda a espécie de exigências e ameaças vis. Abraham era muito mais calado, mas a sua porta estava sempre aberta. Como ainda não sabia o que iria fazer, preferia manter a minha fechada. Tinha a certeza de que eles seriam pacientes. Telefonei para os três Hector Palma que vinham na lista. O primeiro não era o Hector que eu pretendia. Do segundo número, ninguém respondeu. Do terceiro respondeu uma gravação do verdadeiro Hector Palma. A mensagem era brusca: Não estamos em casa. Deixe mensagem. Responderemos ao seu telefonema. Era a voz dele.
  • Tem um minuto? - perguntou, sentando-se.

 

    • Era o seu cumprimento de cortesia, a sua saudação. Tratava-se de um homem silencioso e distante, com uma aura forte e cerebral que me intimidaria se não tivesse passado os últimos sete anos num edifício com quatrocentos advogados de todas as espécies. Encontrara e conhecera uma dúzia de Abrahams, tipos reservados e persistentes que pouco se importavam com as etiquetas sociais.
  • Queria dar-lhe as boas-vindas - disse ele, lançando-se imediatamente numa justificação apaixonada do Direito de interesse público. Oriundo da classe média de Brooklyn, estudara Direito em Columbia, passara três anos horríveis numa empresa de Wall Street, quatro anos em Atlanta com um grupo que combatia a pena de morte, dois anos frustrantes no Monte do Capitólio, e, por fim, chamara-lhe a atenção um anúncio de uma revista de advogados para um lugar de advogado na 14 “ Street Legal Clinic.
  • O Direito é um chamamento superior - disse ele. - É mais do que fazer dinheiro.

 

    • Então, fez outro discurso, uma tirada contra as grandes firmas e os advogados que ganhavam milhões em honorários. Um amigo dele, de Brooklyn, fazia dez milhões por ano a processar empresas de implantes mamários de costa a costa.
  • Dez milhões por ano! Você podia abrigar e alimentar todos os sem abrigo de Columbia!

 

    • De qualquer modo, estava deliciado por eu ter visto a luz, e lamentou o episódio do Senhor.
  • O que faz você exatamente? - perguntei. Estava a gostar da nossa conversa. Ele era arrebatado e brilhante, com um vasto vocabulário que me deixava desarmado.
  • Duas coisas. Programas de ação. Trabalho com outros advogados na formulação de leis. E dirijo o Contencioso, em geral em ações conjuntas. Processamos o Departamento do Comércio porque os sem abrigo foram largamente ignorados no censo de noventa. Processamos o sistema escolar local por se recusar a admitir filhos de pessoas sem abrigo. Processamos as autoridades regionais porque acabaram indevidamente com os vários milhares de subsídios de habitação sem o respectivo processo. Atacamos muitos dos estatutos destinados a incriminar os sem abrigo. Processaremos quase tudo se os sem abrigo continuarem a ser prejudicados.
  • É uma litigância complicada.
  • É, mas, felizmente, aqui em Columbia temos muitos bons advogados que querem oferecer o seu tempo. Eu sou o treinador. Concebo o plano do jogo, reúno a equipa e depois marco os jogos.
  • Você não vê os clientes?
  • De vez em quando. Mas trabalho melhor quando estou ali no meu pequeno gabinete, sozinho. É por isso que me sinto satisfeito por você estar cá. Precisamos de ajuda para o movimento. Levantou-se de repente; a conversa terminara. Combinamos sair às nove em ponto, e ele desapareceu. No meio de um dos seus discursos, reparara que ele não usava aliança.O Direito era tudo o que tínhamos.

 

    • A polícia local esperou até à uma hora da madrugada e depois atacou como se fosse um comando. Tocaram à campainha e começaram imediatamente a bater na porta com os punhos fechados. Quando Claire conseguiu perceber onde estava, sair da cama e vestir qualquer coisa por cima do pijama, eles estavam aos pontapés à porta, dispostos a arrombá-la.
    • O Direito era a sua vida. O velho ditado segundo o qual o Direito era uma amante ciumenta fora elevado a outro nível por pessoas como Abraham e eu próprio.
  • Polícia - anunciaram, depois de Claire, aterrada, ter untado quem era.

 

    • Abriu a porta devagar e depois recuou, horrorizada, no momento em que quatro homens - dois fardados e dois à paisana - irromperam pela casa, como se houvesse vidas em perigo.
  • Para trás! - ordenou um.

 

    • Claire nem conseguiu falar.
  • Para trás! - gritou-lhe ele.

 

    • Bateram com a porta. O chefe, o tenente Gasko, que envergava um fato acanhado e barato, avançou e tirou da algibeira uns papéis dobrados.
  • Você é a Claire Brock? - perguntou, fazendo lembrar o tenente Columbo no seu pior. Ela fez um gesto afirmativo, de boca aberta.
  • Sou o tenente Gasko. Onde está Michael Brock?
  • Já não vive aqui - conseguiu ela articular. Os outros três andavam de um lado para o outro, prontos a saltar sobre qualquer coisa. Gasko não acreditou. Mas não trazia um mandado de captura, apenas uma autorização de busca.
  • Temos uma autorização de busca para este apartamento, assinada pelo juiz Kisner às cinco horas da tarde.

 

    • O homem desdobrou os papéis e estendeu-os para ela os ver, como se a bela caligrafia pudesse ser lida e apreciada naquele momento.
  • Por favor, afaste-se - disse ele.

 

    • Claire recuou ainda mais.
  • O que procuram?
  • Está nos papéis - disse Gasko, atirando-os para cima da bancada da cozinha.O telefone celular estava ao lado da minha cabeça, que descansava em cima de uma almofada no chão, junto da abertura do meu saco-cama. Era a terceira noite que eu dormia no chão, o que correspondia a um certo esforço para me identificar com os meus novos clientes. Comia pouco, dormia ainda menos, tentava afeiçoar-me aos bancos de jardim e aos passeios. O lado esquerdo do meu corpo estava roxo até ao joelho, extremamente dorido, e por isso eu dormia sobre o lado direito.Encontrei o telefone celular e disse:

 

    • Era um pequeno preço a pagar. Tinha um teto, aquecimento, uma porta fechada à chave, um emprego, a segurança do pão de amanhã, o futuro.
    • Os quatro homens desaparecem no interior do apartamento.
  • Está?
  • Michael! - disse Claire em voz baixa. - A polícia está a revistar o apartamento.
  • O quê?
  • Estão cá. São quatro e trazem uma autorização de busca
  • O que querem?
  • Andam à procura de um processo.
  • Daqui a dez minutos, estou aí.
  • Por favor, despacha-te.

 

    •             Irrompi pelo apartamento como um possesso. Gasko foi o primeiro polícia que encontrei.
  • Sou Michael Brock. Quem diabo é você?
  • Tenente Gasko - disse ele com um sorriso trocista.
  • Deixe-me ver os documentos de identificação.

 

    • Voltei-me para Claire, que estava encostada ao frigorífico com uma chávena de café na mão.
  • Arranja-me uma folha de papel - disse eu.

 

    • Gasko puxou a placa que trazia pregada no bolso do casaco e exibiu-a.
  • Larry Gasko - disse eu. - Você será o primeiro a ser processado, às nove horas da manhã. E quem é que veio consigo?
  • Mais três - disse Claire, estendendo-me uma folha de papel.
  • Acho que andam nos quartos.

 

    • Encaminhei-me para as traseiras do apartamento, com Gasko atrás de mim e Claire atrás dele. Vi um polícia à paisana no quarto de hóspedes, de gatas, a espreitar para baixo da cama.
  • Deixe-me ver a sua identificação - gritei-lhe.

 

    • Ele conseguiu levantar-se, pronto a lutar. Avancei um passo, cerrei os dentes e disse:
  • A identificação, idiota.
  • Quem é você? - perguntou ele, recuando e olhando para Gasko.
  • Michael Brock. Quem é você?

 

    • O homem exibiu o distintivo.
  • Darrell Clark - anunciei em voz alta, enquanto escrevia.-O segundo réu.
  • Você não pode processar-me - disse ele.
  • Vai ver, grandalhão. Dentro de oito horas, no tribunal federal, processo-o por busca ilegal e exijo-lhe um milhão de dólares. E ganho, e consigo um julgamento, e depois vou atrás de si até você entrar na bancarrota.

 

    • Os outros dois polícias saíram do meu quarto e rodearam-me.
  • Claire - disse eu. - Vai buscar a câmara, por favor. Quero isto gravado. Claire desapareceu no interior da sala.
  • Temos um mandado assinado por um juiz - disse Gasko, um pouco à defesa. Os outros três avançaram um passo para apertarem o cerco.
  • A busca é ilegal - disse eu com azedume. - As pessoas que assinaram o mandado serão processadas. Todos vocês serão processados. Serão suspensos, talvez sem ordenado, e enfrentarão um processo cível.
  • Temos imunidade - disse Gasko, olhando para os colegas.
  • O diabo é que têm.

 

    • Claire voltou com a câmara.
  • Disseste-lhes que eu não vivo aqui? - perguntei.
  • Disse - respondeu ela, levantando a câmara à altura do olho.
  • Mas vocês prosseguiram a busca. Nesse momento ela passou a ser ilegal. Deviam ter parado, mas é claro que isso não teria graça nenhuma, pois não? É muito mais giro meter o nariz nos objetos particulares das outras pessoas. Vocês tiveram uma oportunidade, rapazes, e desperdiçaram-na. Agora vão sofrer as conseqüências.
  • Você é doido - disse Gasko.O terreno que pisava era muito frágil.

 

    • Ignorei-o.
    • Tentavam não se mostrar amedrontados, mas sabiam que eu era advogado. Não me tinham encontrado no apartamento, por isso talvez eu soubesse do que estava a falar. Não sabia. Mas naquele momento, parecia que sim.
  • Os vossos nomes, por favor - disse, dirigindo-me aos dois polícias fardados, que exibiram os distintivos. Ralph Lilly e Robert Blower. - Obrigado, disse eu, como um verdadeiro espertalhão.-Serão os réus número três e quatro. Agora, ponham-se a andar.
  • Onde está o processo?
  • O processo não está aqui porque eu não vivo aqui. É por isso que vocês vão ser processados, agente Gasko.
  • Estamos constantemente a ser processados, não faz mal.
  • Ótimo. Quem é o vosso advogado?

 

    • O homem não conseguiu lembrar-se do nome de nenhum nos segundos cruciais que se seguiram. Encaminhei-me para a saleta e eles foram atrás de mim, relutantes.
  • Saiam. O processo não está aqui - disse.

 

    • Claire apontava a câmara de vídeo para eles, o que os obrigou a reduzir a agressividade. Blower disse qualquer coisa em voz baixa acerca dos advogados, enquanto todos se encaminhavam para a porta. Depois de saírem, li o mandado. Claire observava-me, bebendo café na mesa da cozinha. O choque da busca dissipara-se; mostrava-se mais uma vez reservada, fria como gelo. Não admitiria que estava assustada, nem se mostraria minimamente vulnerável, e não estava disposta a dar a impressão de que precisava de mim para alguma coisa.
  • O que há no dossiê? - perguntou.

 

    • Não estava interessada em saber. O que Claire queria era uma garantia de que aquilo não voltaria a acontecer.
  • É uma longa história.

 

    • Por outras palavras, não faças perguntas. Ela percebeu.
  • Vais mesmo processá-los?
  • Não. Não há fundamentos para um processo. Só quis ver-me livre deles.
  • Deu resultado. Eles podem voltar?
  • Não.
  • É bom ouvir isso.

 

    • Dobrei a autorização de busca e enfiei-a no bolso. Só visava uma coisa: o dossiê da RiverOaks/TAG, que naquele momento estava bem escondido nas paredes da minha nova casa, junto de uma fotocópia.
  • Disseste-lhes onde vivo? - perguntei.
  • Eu não sei onde vives - respondeu ela.

 

    • Seguiu-se um espaço de tempo durante o qual não seria lógico que ela me perguntasse onde é que eu vivia. Não o fez.
  • Lamento muito que isto tenha acontecido, Claire.
  • Não faz mal. Mas promete-me que não volta a acontecer.
  • Prometo.Terça-feira era dia de recepção na Comunity for Creative Non-Violence, ou CCNV, sem dúvida o maior abrigo de Columbia. Mais uma vez, Mordecai foi ao volante. Tencionava acompanhar-me durante a primeira semana e depois deixar-me entregue à cidade. As minhas ameaças e avisos a Barry Nuzzo tinham caído em saco roto. A Drake & Sweeney iria atacar em força, e eu não estava admirado. A saída do meu ex-apartamento antes do nascer do sol era um rude aviso do que estava para vir. Tinha de contar a Mordecai o que fizera.

 

    • Assim que entramos no carro e arrancamos, disse:
    • Saí sem um abraço, um beijo, um contacto físico de qualquer espécie. Dei-lhe apenas as boas-noites e fui-me embora. Era precisamente isso que ela queria.
  • Separei-me da minha mulher. Saí de casa.

 

    • O pobre homem não estava preparado para tão más notícias às oito horas da manhã.
  • Lamento - disse ele, olhando para mim e quase atropelando um peão distraído.
  • Não lamente. Esta manhã, a polícia invadiu o apartamento onde eu vivia, à minha procura, e, especificamente, à procura de um processo que eu trouxe quando saí da firma.
  • Que tipo de processo?
  • O processo de DeVon Hardy e de Lontae Burton.
  • Sou todo ouvidos.
  • Como agora sabemos, DeVon Hardy fez reféns e deixou-se matar porque a Drake & Sweeney o despejou do sítio onde vivia. Com ele, foram despejadas mais dezesseis pessoas, e algumas crianças. Lontae e a família estavam neste grupo.

 

    • Mordecai ficou a pensar e depois disse:
  • Esta cidade é muito pequena.
  • Por acaso, o armazém abandonado ficava no terreno que a RiverOaks tencionava usar para a construção de um edifício dos Correios. É um projeto de vinte milhões de dólares.
  • Conheço o edifício. Sempre foi usado por ocupantes ilegais.
  • Mas eles não são ocupantes ilegais, pelo menos creio que não.
  • Tem a impressão? Ou tem a certeza?
  • Por agora, não tenho a certeza. O processo foi falsificado; houve documentos retirados e acrescentados. Um solicitador chamado Hector Palma é que fez o trabalho sujo, as visitas ao local, e o despejo propriamente dito, e passou a ser o meu informador. Mandou-me um bilhete anônimo a dizer que os despejos eram ilegais. Enviou-me um conjunto de chaves para eu ter acesso ao processo. Desde ontem que já não trabalha aqui no escritório.
  • Onde está?
  • Muito gostaria eu de saber.
  • Ele deu-lhe as chaves?
  • Não mas entregou. Deixou-as em cima da minha secretária, com instruções.
  • E você serviu-se delas?
  • Servi.
  • Para roubar um processo?
  • Não tencionava roubá-lo. Vinha para cá fotocopiá-lo quando um idiota qualquer não respeitou um sinal vermelho e me mandou para o hospital.- Foi. Eu ia fotocopiá-lo, voltar a pô-lo no seu lugar, na Drake & Sweeney, e ninguém saberia de nada.Mordecai teve vontade de me chamar estúpido, mas a nossa relação ainda era recente.

 

    • - Questiono a sensatez desse passo.
    • - Foi o dossiê que fomos buscar ao seu carro?
  • O que falta lá? - perguntou.

 

    • Resumi a história da RiverOaks e a sua corrida para construir o edifício dos Correios.
  • A pressão estava em conseguir o terreno depressa. Palma foi ao armazém pela primeira vez e foi assaltado. O memorando está no dossiê. Voltou lá, dessa vez com um guarda, e esse memorando falta. Foi devidamente registrado no diário do processo, mas depois foi retirado, talvez por Braden Chance.
  • Então o que está no memorando?
  • Não sei. Mas calculo que Palma inspecionou o armazém, encontrou os ocupantes nos seus apartamentos improvisados, falou com eles, e soube que estavam de fato a pagar renda a Tillman Gantry.

 

    •             Não eram ocupantes, mas sim inquilinos, com direito a todo o tipo de proteção ao abrigo da lei do inquilinato. Nessa altura, a bola destruidora ia a caminho, o local tinha de ser encerrado, e o Gantry estava prestes a perder o negócio, pelo que o memorando foi ignorado e efetuou-se o despejo.
  • Eram dezessete pessoas.
  • Sim, e algumas crianças.
  • Sabe os nomes dos outros?
  • Sei. Alguém me deu uma lista; desconfio que foi o Palma. Estava em cima da minha secretária. Se conseguirmos descobrir essa gente, temos testemunhas.
  • Talvez. Mas é mais provável que esse tal Gantry os tenha intimidado. Ele é um calmeirão, armado, imagina-se um padrinho. Quando diz às pessoas para se calarem, ou elas se calam ou são encontradas a boiar num rio.
  • Mas você não tem medo dele, pois não, Mordecai? Vamos à procura dele, pressionamo-lo; ele há de ceder e contar tudo
  • Você anda há muito tempo nas ruas, não anda? Contratei um palerma.
  • Ele há de fugir quando nos vir.

 

    • O humor não funcionou nesse momento. Nem o radiador, embora a ventoinha girasse a toda a velocidade. O carro estava a ficar gelado.
  • Quanto é que o Gantry recebeu pelo edifício? - perguntou ele.
  • Duzentos mil. Tinha-o comprado há seis meses; não consta do processo por quanto.
  • A quem o comprou ele?
  • æ cidade. Estava abandonado.
  • Talvez tenha pago cinco mil por ele. Dez, no máximo.
  • Não foi um mau negócio.
  • Não foi. Isso é uma promoção para o Gantry. Ele mete-se em tudo - apartamentos duplex, lavagem de carros, mercearias de conveniência, pequenas aventuras.
  • Porque terá comprado o armazém e alugado o espaço para apartamentos baratos?
  • Por dinheiro. Digamos que ele pagou cinco mil pelo armazém e gastou mais mil a mandar levantar umas paredes e a instalar umas casas de banho. Conseguiu a eletricidade e entrou no negócio. A novidade espalha-se; os inquilinos aparecem; ele cobra-lhes cem dólares por mês, pagáveis só a dinheiro. Encarrega-se de que o local continue a parecer uma lixeira, para que, se as autoridades municipais aparecerem, diga que se trata apenas de um grupo de ocupantes. Promete expulsá-los, mas não tenciona fazê-lo. Isso está sempre a acontecer. Alugueres ilegais para habitação.

 

    • Eu ia a perguntar-lhe porque é que a Câmara não intervinha nem reforçava as leis, mas felizmente contive-me. A resposta estava nos buracos, tão numerosos que era impossível contá-los; e na frota automóvel da polícia, um terço da qual era um perigo; e nas escolas com os telhados a cair; e nos hospitais com os doentes enfiados em armários; e nas cinco mil mães com filhos que não conseguiam arranjar um teto. A cidade não funcionava, pura e simplesmente. E um senhorio diferente dos outros, que tirasse mesmo as pessoas das ruas, parecia não ser uma prioridade.
  • Como tenciona encontrar o Hector Palma? - perguntou ele.
  • Calculo que a firma tenha sido suficientemente esperta para não o despedir. Eles têm mais sete escritórios, por isso imagino que o tenham arrumado em qualquer lado. Hei de encontrá-lo.

 

    • Estávamos no centro da cidade. Ele apontou e disse:
  • Está a ver aqueles atrelados uns em cima dos outros? É Mount Vernon Square.

 

    • Era metade de um quarteirão, rodeado por uma vedação alta para que não se visse nada de fora. Os atrelados eram de vários formatos e tamanhos, uns dilapidados e todos imundos.
  • É o pior abrigo da cidade. Aqueles são antigos atrelados dos Correios que o governo deu ao distrito, que por sua vez teve a brilhante idéia de os encher de pessoas sem abrigo. Estão amontoadas naqueles atrelados como sardinhas em lata.O CCNV foi fundado no princípio dos anos setenta por um grupo de opositores à guerra, que se tinham reunido em Washington para atormentar o governo. Viviam juntos numa casa em Northwest. Durante os seus protestos à volta do Capitólio conheceram veteranos do Vietnam que não tinham casa e começaram a aceitá-los. Mudaram-se para umas instalações maiores, para vários sítios nos arredores da cidade, e o seu número foi aumentando. Depois da guerra, viraram-se para a causa dos sem abrigo de Columbia. No princípio dos anos oitenta, um ativista chamado Mitch Snyder apareceu em cena, e depressa se tornou uma voz apaixonada e barulhenta em defesa das pessoas da rua. O CCNV encontrou um colégio abandonado, construído com dinheiro federal e que ainda pertencia ao governo, e invadiu-o com seiscentas pessoas sem abrigo. O edifício passou a ser a sua sede e a sua casa.Em 1989, a Câmara construiu um abrigo em Southeast, longe do centro da cidade, e começou a planear a retirada dos sem abrigo do CCNV. Mas descobriu que eles não eram para brincadeiras. Não queriam sair. Snyder anunciou que estavam a pregar tábuas nas janelas e a preparar-se para um cerco. Os boatos aumentavam - lá dentro estavam oitocentas pessoas da rua; havia armas em quantidade; seria uma guerra aberta. A Câmara recuou nos prazos e conseguiu fazer a paz. O CCNV passou a ter três mil e cem camas. Mitch Snyder suicidou-se em 1990, e a Câmara deu o nome dele a uma das ruas da cidade. Eram quase oito e meia quando chegamos , a hora a que os residentes saíam. Muitos tinham emprego, e quase todos queriam sair durante o dia. Uma centena de homens aglomerava-se à entrada, a fumar cigarros e com a conversa agradável de quem acordara numa manhã fria depois de ter passado uma noite quente.

 

    • Do lado de dentro da porta do primeiro andar, Mordecai falou a um supervisor que se encontrava na   bolha. Assinou o nome e atravessamos o átrio, abrindo caminho por uma multidão de homens que saíam à pressa. Tentei não pensar que era branco, mas era impossível. Estava razoavelmente bem vestido, de casaco e gravata. Conhecera muita gente durante toda a minha vida, e sentia-me à deriva num mar de negros - jovens da rua de aspecto violento, a maioria dos quais tinha antecedentes criminais, embora poucos fossem os que tinham três dólares no bolso. Talvez um deles me partisse o pescoço e me levasse a carteira. Evitei o contacto visual com eles e olhei para o chão, com um ar carrancudo. Esperamos à porta da sala das consultas.
    •             Foram feitas várias tentativas para os desalojar, mas nenhuma foi bem sucedida. Em 1984, Snyder suportou uma greve da fome de cinqüenta e um dias para chamar a atenção para o desprezo a que eram votados os sem abrigo. A um mês de ser reeleito, o presidente Reagan anunciou que tencionava transformar o edifício num abrigo-modelo para os que não tinham casa. Snyder terminou a sua greve. Todos ficaram satisfeitos. Depois das eleições, Reagan renegou a sua promessa, e seguiram-se litígios desagradáveis de toda a espécie.
    • Na Second and D, Mordecai apontou para um prédio de três andares, comprido - abrigava mil e trezentas pessoas.
  • As armas e as drogas estão automaticamente proibidas - disse Mordecai, ao vermos os homens a descerem as escadas. Senti-me um pouco mais seguro.
  • Alguma vez se sentiu nervoso aqui? - perguntei.
  • Habituamo-nos a isto.

 

    • Era fácil para ele dar esta resposta. Falava a mesma linguagem. Na parede, ao lado da porta, estava uma folha de inscrição para as consultas jurídicas. Mordecai pegou nela e examinou os nomes dos nossos clientes. Treze, até aquele momento.
  • Um pouco abaixo da média - disse.

 

    • Enquanto esperávamos pela chave, ele fez-me um breve resumo.
  • Ali é a estação dos correios. Uma das partes frustrantes deste trabalho é conseguirmos manter-nos em contacto com os nossos clientes. Os endereços são instáveis. Os bons abrigos permitem que as pessoas enviem e recebam correspondência. - Apontou para outra porta ao lado. - Ali é a rouparia. Recebem trinta a quarenta novas pessoas por semana. O primeiro passo é o exame médico, e a tuberculose é a doença mais temida. O segundo é uma ida à rouparia para escolherem três mudas de roupa - roupa interior, peúgas, tudo. Uma vez por mês, o cliente pode vir buscar mais um fato, para que no fim do ano tenha um guarda-roupa decente. Isto não é lixo. Recebem mais donativos de roupa do que precisam.
  • Um ano?
  • Exatamente. Mandam-nos embora ao fim de um ano, o que a princípio pode parecer cruel. Mas não é. O objetivo é a auto-suficiência. Quando um tipo entra aqui, sabe que tem doze meses para se desinfetar, para deixar de beber, para adquirir certos conhecimentos e para I encontrar um emprego. Muitos vão-se embora antes dos doze meses. Alguns gostariam de ficar aqui para sempre.

 

    • Um homem chamado Ernie aproximou-se de nós com uma argola i de chaves impressionante. Abriu a porta da sala e desapareceu. Nós instalamo-nos e estávamos prontos para começar. Mordecai dirigiu-se j para a porta com o papel na mão e chamou o primeiro nome:
  • Luther Williams.

 

    • Luther mal cabia na porta e a cadeira guinchou quando se atirou r para cima dela à nossa frente. Vestia uma farda verde, peúgas brancas , e sandálias de borracha cor-de-laranja. Trabalhava de noite numa caldeira por baixo do Pentágono. Uma namorada saíra de casa e levara--lhe tudo, e depois fizera dívidas. O homem perdeu o apartamento e tinha vergonha de estar no abrigo.
  • Só preciso de um tempo - disse, e eu tive pena dele.

 

    • Tinha muitas contas para pagar. As agências de crédito não o largavam. Estava escondido temporariamente no CCNV.
  • Vamos decretar falência - disse-me Mordecai.O cliente seguinte era Tommy, que entrou graciosamente na sala e estendeu uma mão com as unhas pintadas de vermelho. Apertei-a.

 

    • Mordecai, não. Tommy estava num programa de recuperação para tóxico dependentes a tempo inteiro - crack e heroína - e devia dinheiro de impostos. Não pagara impostos durante três anos, e as Finanças tinham descoberto de repente a sua omissão. Também não pagara duzentos dólares de pensão de alimentos ao filho. Fiquei um pouco aliviado ao saber que ele era pai. O programa de reabilitação era intensivo - sete dias por semana - e impedia-o de trabalhar a tempo inteiro.
    • Eu não sabia como se decretava falência. Fiz um sinal afirmativo, de sobrolho carregado. Luther pareceu-me satisfeito. Preenchemos formulários durante vinte minutos e, quando ele saiu, era um homem feliz.
  • Você não pode deixar de pagar a pensão de alimentos nem os impostos - disse Mordecai.
  • Bem, eu não posso trabalhar por causa do programa de reabilitação, e se deixar de o freqüentar, volto outra vez à droga. Portanto, se não posso trabalhar e não posso deixar de pagar, o que posso fazer?
  • Nada. Não se preocupe com isso até acabar o programa de reabilitação e arranjar emprego. Depois telefone a Michael Brock, para aqui.

 

    • Tommy sorriu e piscou-me o olho. Depois saiu da sala.
  • Acho que ele gosta de si - disse Mordecai.O seguinte foi um espetáculo que me chocou: um branco, com cerca de quarenta anos, sem tatuagens, cicatrizes na cara, dentes lascados, brincos, olhos injetados de sangue ou nariz vermelho. Não fazia a barba há uma semana e rapara o cabelo há um mês. Quando apertamos as mãos, reparei que as dele era macias e úmidas. Chamava-se Paul Pelham, e vivia há três meses no abrigo. Em tempos fora médico. Drogas, divórcio, falência e a revogação da sua licença, tudo passara à história; recordações recentes de um passado que se dissipava. Ele só queria falar com alguém, de preferência com um branco. De vez em quando, olhava a medo para Mordecai.Primeiro abusara do Valium, depois tornara-se dependente de drogas mais fortes. Também se iniciara nas delícias da cocaína e na carne de várias enfermeiras da sua clínica. Por outro lado, negociava em propriedades com muitos financiamentos bancários. Depois, deixou cair um bebê durante um parto de rotina. A criança morreu. O pai, um sacerdote muito respeitado, testemunhou o acidente. A humilhação de um processo judicial, mais drogas, mais enfermeiras, e tudo se desmoronou. Apanhou herpes através de um doente, contaminou a mulher, ela ficou com tudo e mudou-se para a Florida.Pelham era fascinante porque, pela primeira vez, eu podia olhar para um cliente e dizer, sim, talvez eu pudesse estar no lugar dele. A vida podia conspirar para abater qualquer pessoa. E ele estava desejoso de falar nisso.

 

    • Deu a entender que talvez o seu percurso não fosse indiferente à situação em que se encontrava. Eu ouvira o suficiente e ia a perguntar porque é que ele precisava de um advogado, quando ele disse:
    • Eu fiquei fascinado com a sua história. Com todos os clientes que conhecera durante a minha breve carreira como advogado dos sem abrigo, quisera ouvir os pormenores tristes do processo que os fizera acabar na rua. Queria ter a certeza de que não me aconteceria o mesmo; de que as pessoas da minha classe social não tinham de se preocupar com tal desventura.
    • Pelham fora um ginecologista distinto em Scranton, Pennsylvania uma grande casa, um Mercedes, uma bela mulher e dois filhos.
    • Ernie trouxe outra folha de assinaturas com onze nomes. Havia uma fila à porta. Adaptamos a estratégia da separação. Eu fui para o outro extremo da sala. Mordecai ficou onde estava, e começamos a receber dois clientes de cada vez. O meu primeiro era um jovem acusado de tráfico de droga. Escrevi tudo o que pude para reproduzir a Mordecai no escritório.
  • Escondi algumas coisas na minha declaração de falência.

 

    • Mordecai despachava os clientes enquanto os dois brancos; tagarelavam, por isso comecei a tirar apontamentos.
  • Que tipo de coisas?

 

    • O advogado que se encarregara da sua declaração de falência fora desonesto, disse, e depois lançou-se numa narrativa sinuosa sobre o modo como os bancos tinham executado as hipotecas demasiado cedo e o tinham arruinado. Falava em voz baixa, e sempre que Mordecai olhava para nós, Pelham calava-se.
  • E há mais - disse.
  • O quê? - perguntei.
  • Isto é confidencial, não é? Recorri a muitos advogados, mas paguei-lhes sempre. Deus sabe como lhes paguei.
  • Isto é extremamente confidencial - disse eu com veemência.

 

    • Podia trabalhar de graça, mas o pagamento ou não pagamento de honorários não afetava o dever de sigilo advogado/cliente.
  • Você não pode contar isto a ninguém.
  • Nem uma palavra.O homem pareceu-me satisfeito.Pelham calou-se e esperou que eu reagisse.

 

    •             - Quando estava em declínio, descobri que a minha mulher andava com outro homem - disse ele ainda mais baixo. - Foi uma das minhas doentes que me contou. Quando examinamos mulheres nuas, elas contam-nos tudo. Fiquei destroçado. Contratei um detetive privado, e era mesmo verdade. O outro homem, bem, digamos que um dia desapareceu.
    • Lembrei-me que viver num abrigo para gente sem teto em Washington com mais mil e trezentas pessoas seria uma bela maneira de alguém se esconder.
  • Desapareceu?
  • Sim. Nunca mais ninguém o viu.
  • Morreu? - perguntei, estupefato.

 

    • Ele fez um leve aceno de cabeça.
  • Você sabe onde ele está.

 

    • Outro aceno.
  • Há quanto tempo foi isso?
  • Há quatro anos.Ele inclinou-se para a frente e segredou:

 

    • A minha mão tremia quando tentei tomar nota de tudo.
  • Era um agente do FBI. Um antigo amigo da faculdade, Penn State.
  • Ora, ora - disse eu, duvidando que ele estivesse a falar verdade.
  • Eles andam atrás de mim.
  • Quem?
  • O FBI. Andam atrás de mim há quatro anos.
  • O que quer que eu faça?
  • Não sei. Talvez arranjar um acordo. Estou cansado de ser seguido.

 

    • Fiquei a pensar nisto enquanto Mordecai acabava a consulta de um cliente e começava outra. Pelham observava todos os seus movimentos.
  • Preciso de algumas informações - disse. - Sabe o nome do agente?
  • Sei. Sei quando e onde é que ele nasceu.
  • E quando e onde é que ele morreu.
  • Sim.

 

    • O homem não trazia apontamentos nem papéis com ele.
  • Porque não vai ao meu escritório? Leve essas informações.

 

    • Não podemos falar aqui.
  • Deixe-me pensar nisso - disse ele, olhando para o relógio.Percebi rapidamente que um dos desafios de ser advogado da rua consistia em saber ouvir. Muitos dos meus clientes pretendiam apenas falar com alguém. Todos tinham sido agredidos e escorraçados de uma maneira ou de outra, e, como a assistência jurídica era gratuita, porque não descarregar nos advogados? Mordecai era um mestre na arte de tatear as histórias e de determinar se havia motivo para se abrir um processo. Eu ainda estava assustado pelo fato de haver gente tão pobre.Vinte e seis cliente passaram por nós até ao meio-dia. Saímos exaustos.

 

    • Também estava a aprender que o melhor caso era aquele que podia ser resolvido ali mesmo, sem seguimento. Tinha um bloco cheio de pedidos de senhas de refeição, subsídios de habitação, assistência médica, cartões da Segurança Social e até cartas de condução. Na dúvida, preenchíamos um formulário.
    • Explicou que era porteiro a tempo parcial numa igreja, e que estava atrasado. Cumprimentamo-nos e foi-se embora.
  • Vamos dar um passeio a pé - disse Mordecai quando saímos do edifício.

 

    • O céu estava límpido, o ar frio, ventoso e refrescante depois de três horas fechados numa sala abafada, sem janelas. Do outro lado da rua ficava o Tribunal Tributário, um edifício elegante e moderno. De fato, o CCNV estava rodeado de prédios muito mais bonitos e de construção mais recente. Paramos à esquina da Second and D e olhamos para o abrigo.
  • O contrato de arrendamento deles expira daqui a quatro anos -disse Mordecai. - Os abutres da agências imobiliárias já andam a rodeá-los. Está projetada a construção de um centro de convenções dois blocos mais abaixo.
  • Vai ser uma luta desagradável.
  • Vai ser uma guerra.

 

    • Atravessamos a rua e seguimos na direção do Capitólio.
  • Aquele tipo branco. Qual era a sua história? - perguntou Mordecai. Pelham fora o único branco.
  • É espantoso - disse eu, sem saber por onde começar. - Em tempos foi médico, em Pennsylvania.
  • Quem é que anda a persegui-lo agora?
  • O quê?
  • Quem é que anda a persegui-lo agora?
  • O FBI.
  • É curioso. Da última vez era a CIA.

 

    • Os meus pés imobilizaram-se; os dele, não.
  • Já o conhecia?
  • Sim, ele faz a ronda. Chama-se Peter ou lá o que é.
  • Paul Pelham.
  • Isso também muda - disse ele, por cima do ombro. - Conta uma grande história, não é verdade?Quando reuni coragem para explicar a Mordecai que precisava da tarde livre, ele informou-me muito bruscamente que a minha posição era igual à dos outros, que ninguém vigiava as minhas horas e que, se precisasse de tempo de folga, que o tirasse. Saí do escritório à pressa. Aparentemente só Sofia é que deu por isso.Perdi mais uma hora na sala de espera do consultório do meu médico. Como era um advogado ocupado, com um telefone celular e muitos clientes, fervia, sentado no meio das revistas e a ouvir o tique-taque do relógio.            As revistas da mesa baixa estavam ali para fazer uma declaração: casos dolorosos de mulheres, nada de futilidades nem de mexericos. Eram para ser admiradas pelas visitas, não para ser lidas. Jacqueline Hume começara por fazer muito dinheiro a expulsar os médicos inconstantes, depois criara uma reputação feroz ao destruir dois senadores namoradeiros. O seu nome atemorizava todos os homens de Columbia com casamentos infelizes e com bons rendimentos. Eu estava ansioso por assinar os papéis e ir-me embora.Atravessei vários quarteirões a pé e parei numa esquina de grande movimento. Encostado a um prédio, liguei para Barry Nuzzo. Ele estava numa reunião, como de costume. Dei o meu nome e disse que era urgente. Trinta segundos depois Barry estava ao telefone.

 

    • Mas tive de esperar meia hora, e estava prestes a fazer uma cena desagradável quando uma solicitadora veio buscar-me e me encaminhou para um gabinete ao fundo do corredor. Estendeu-me o acordo de separação de fato e, pela primeira vez, encarei a realidade. Em título lia-se: Claire Addison Brock contra Michael Nelson Brock. A lei exigia que estivéssemos separados durante seis meses antes de nos divorciarmos. Li o acordo com todo o cuidado, assinei-o e saí. No Dia de Ação de Graças estaria oficialmente solteiro outra vez. A minha quarta paragem da tarde foi no parque de estacionamento da Drake & Sweeney, onde Polly se encontrou comigo às cinco horas em ponto e me entregou duas caixas cheias com o resto das coisas do meu gabinete. Foi educada e eficiente, mas lacônica e, evidentemente, apressada. Talvez estivesse sob escuta.
    • Cheguei ao escritório da advogada de Claire às quatro horas em ponto, e uma recepcionista carrancuda e vestida como um homem veio ao meu encontro. Todo o local exalava vingança. Todos os sons eram anti-masculinos: a voz dura e áspera da mulher que atendia o telefone; os sons de uma cantora country que saíam dos alto-falantes; uma voz estridente que se ouvia de vez em quando ao fundo do corredor. As cores eram de tons pastel claro: alfazema, cor-de-rosa e bege.
    • Passei uma hora a discutir a indenização. O Lexus estava um destroço; a minha companhia oferecia vinte e um mil quatrocentos e oitenta dólares, com a liberdade de ir depois atrás da seguradora do Jaguar. Eu devia ao banco dezesseis mil dólares, portanto fiquei com cinco mil e uns trocos, decerto o suficiente para comprar um carro adequado à minha nova posição de advogado dos pobres e que não tentasse os ladrões de automóveis.
    • Não consegui falar. Fiquei ali, a ver Mordecai afastar-se, de mãos bem metidas na gabardina, e com os ombros a tremer de tanto se rir.
  • Podemos conversar? - perguntei, partindo do princípio que o telefonema estava a ser gravado.
  • Claro.
  • Estou mesmo ao fundo da rua, na esquina da K e da Connecticut.

 

    • Vamos tomar um café.
  • Posso estar aí daqui a uma hora.
  • Não. Ou é agora, ou esquece.

 

    • Não queria que os rapazes tramassem nada. Nem que tivessem tempo para instalar microfones.
  • Está bem, vamos ver. Sim, está bem. Posso ir.
  • Estou num Bingler’s Coffee.
  • Eu sei qual é.
  • Fico à espera. E vem sozinho.
  • Tens visto muitos filmes, Mike.

 

    • Dez minutos depois, estávamos sentados à janela de um pequeno estabelecimento cheio de gente, a tomar café quente e a observar os peões da Connecticut.
  • Porquê o mandado de busca? - perguntei.
  • O processo é nosso. Tu tem-lo e nós queremo-lo de volta. É muito simples.
  • Não vão encontrá-lo, portanto parem com as malditas buscas.
  • Onde vives agora?

 

    • Grunhi e soltei uma gargalhada idiota.
  • Em geral o mandado de captura segue-se ao mandado de busca
  • disse eu. - É assim que vai ser?
  • Não posso dizer.
  • Obrigado, pá.
  • Ouve, Michael, vamos começar por assumir que tu não tens razão. Levaste algo que não é teu. Isso é roubar, pura e simplesmente. E, ao fazê-lo, tornaste-te um adversário da firma. Eu, que sou teu amigo, continuo a trabalhar lá. Não podes esperar que te ajude quando os teus atos estão a prejudicar a firma. Foste tu que criaste esta confusão, não fui eu.
  • O Braden Chance não está a contar tudo. O tipo é um verme, um peru emproado que agiu mal e que agora está a tentar salvar a pele. Ele quer que vocês pensem que se trata apenas de um processo roubado e que é mais seguro virem atrás de mim. Mas o processo pode deixar a firma numa situação humilhante.
  • Então o que pretendes?
  • Desistam. Não cometam nenhum ato estúpido.
  • Como mandar-te prender?
  • Sim, para começar. Tenho passado o dia a olhar por cima do ombro e isso não tem graça nenhuma.
  • Não devias roubar.
  • Eu não tencionava roubar, percebes? Fui buscar o processo.

 

    • Tencionava fotocopiá-lo e devolvê-lo, mas não o fiz.
  • Então admites finalmente que o tens.
  • Sim, mas também posso negá-lo.
  • Estás a brincar, Michael, e isto não é nenhuma brincadeira. Vais acabar por te magoar.
  • Não vou, se vocês desistirem. Por agora. Vamos fazer umas tréguas por uma semana. Não há mais mandados de busca. Nem de captura.
  • Muito bem, e o que dás em troca?
  • Não crio embaraços à firma com o processo.

 

    • Barry abanou a cabeça e bebeu o café.
  • Não estou em posição de fazer acordos. Sou apenas um simples advogado.
  • O Arthur é que está a comandar as operações?
  • Evidentemente.
  • Então diz ao Arthur que só falo contigo.
  • Estás a assumir demasiadas coisas, Michael. Estás a assumir que a firma quer falar contigo. Sinceramente, eles não querem. Estão

 

    • muito agitados com o roubo do processo e com o fato de te recusares a devolvê-lo. Não podes culpá-los.
  • Chama-lhes a atenção, Barry. Este processo dá uma notícia de primeira página; títulos escaldantes com jornalistas barulhentos atrás de uma dúzia de notícias. Se for preso, vou direito ao Post.
  • Perdeste o juízo.
  • Talvez. O Chance tinha um estagiário chamado Hector Palma.

 

    • Ouviste falar dele?
  • Não.
  • Estás fora do circuito.
  • Nunca disse que estava lá dentro.
  • O Palma sabe demais sobre o processo. Desde então que já não trabalha onde trabalhava na semana passada. Não sei onde é que ele está, mas seria interessante descobrir. Pergunta ao Arthur.
  • Devolve o processo, Michael. Não sei o que tencionas fazer com ele, mas não podes usá-lo em tribunal. Bebi o café e levantei-me.
  • Uma semana de tréguas - disse eu, afastando-me. - E diz ao Arthur que te meta no circuito.
  • O Arthur não recebe ordens tuas - respondeu-me ele de chofre.De acordo com a lista telefônica, Palma morava num edifício de apartamentos em Bethesda. Como não tinha pressa e precisava de pensar, dei a volta à cidade no Beltway, colado a milhões de outros automóveis.O episódio do Senhor agitara a firma. Chance fora chamado, estava atado de pés e mãos, e era impensável que admitisse que agira mal. Mentira e fizera-o na esperança de conseguir alterar o conteúdo do processo e de sobreviver de qualquer maneira. Afinal, as suas vítimas eram apenas alguns vagabundos.E o polígrafo? Fora apenas uma ameaça utilizada pela firma contra Hector e eu próprio? Ele teria feito o teste e passado? Duvidava. Chance precisava de Hector para manter a verdade oculta. Hector precisava de Chance para proteger o emprego. A dada altura, o sócio abandonara a idéia do polígrafo, se é que alguma vez a considerara a sério.            O primeiro escritório estava fechado. Segui pelo passeio, à procura de outro. Na lista telefônica não vinha o número do apartamento. Era um complexo seguro. Viam-se bicicletas e brinquedos de plástico nos pequenos pátios. Pelas janelas observavam-se famílias a comer e a ver televisão. As janelas não estavam protegidas com grades. Os auto-móveis estacionados nos parques eram de gama média, quase todos limpos e com as quatro jantes.

 

    • Um segurança impediu-me a passagem. Assim que verificou que eu não constituía qualquer ameaça, apontou na direção do escritório principal, que ficava pelo menos a uns quatrocentos metros.
    • O complexo de apartamentos era comprido e incoerente; tinham sido acrescentadas novas secções à medida que a cidade se expandia para norte, afastando-se do centro. As ruas circundantes estavam repletas de restaurantes de fast food, de bombas de gasolina, de clubes de vídeo, de tudo o que as pessoas precisavam para poupar tempo. Estacionei junto de uns courts de tênis e fui dar uma volta. Não tinha pressa; não tinha para onde ir depois desta aventura. Os polícias locais podiam estar à espreita em qualquer lado, com um mandado de captura e um par de algemas. Fiz um esforço para não pensar nas histórias de terror que ouvira contar sobre a prisão municipal. Mas havia uma que me estava gravada na memória a ferro e fogo. Há uns anos, numa sexta-feira, depois de sair do emprego, um jovem advogado da Drake & Sweeney passara várias horas a beber num bar de Georgetown. Quando tentava chegar a Virginia, foi preso por suspeita de conduzir sob a influência do álcool. Na esquadra, recusou-se a fazer o teste da alcoolemia e foi imediatamente atirado para a masmorra dos bêbados. A cela estava superlotada; ele era o único tipo de fato, o único com um belo relógio de pulso, uns bons sapatos e o único branco. Tropeçou acidentalmente no pé de um colega e levou uma tarefa que o deixou cheio de sangue. Passou três meses num hospital para lhe reconstituírem a face e depois foi para casa, em Wilmington, onde a família tomou conta dele. Os danos cerebrais foram ligeiros, mas suficientes para que não estivesse à altura dos rigores de uma grande empresa.
    • Como conseguira, então, livrar-se de Hector tão depressa? O dinheiro não era problema, visto que Chance era sócio. Se eu estivesse no lugar de Chance, teria oferecido dinheiro a Hector, dinheiro numa mão e a ameaça de desprendimento imediato na outra. E teria telefonado a um colega de Denver, por exemplo, a pedir-lhe um favor - a transferência rápida de um solicitador. O que não teria sido difícil. Hector estava em qualquer outro lado, escondendo-se de mim e de quem lhe fizesse perguntas. Continuava empregado, talvez com um salário melhor.
    • Tinha todas as hipóteses de ser preso dentro de uma semana. A firma não tinha alternativa senão vir atrás de mim, e se Braden Chance estivesse de fato a esconder a verdade a Arthur e à comissão executiva, porque não jogarmos no duro? Havia provas circunstanciais suficientes do meu roubo para convencer um magistrado a emitir um mandado de captura.
    • Saí à pressa, abrindo caminho entre as pessoas no passeio, praticamente a correr para Dupont Circle, ansioso por me afastar de Barry e de alguém que eles tivessem enviado para nos espiar.
  • Quantos apartamentos há aqui? - perguntei.
  • Muitos - respondeu ele. Porque havia de saber o número exato?

 

    • O guarda da noite era um estudante que estava a comer uma sanduíche, com um livro de Física aberto à sua frente. Mas estava a ver o desabafo dos Bullets e dos Knicks num pequeno televisor. Perguntei--lhe por Hector Palma e dedilhou um teclado. Era o apartamento número G-134.
  • Mas eles mudaram-se - disse, com a boca cheia de comida.
  • Sim, eu sei - retorqui. - Trabalhei com o Hector. Ele saiu da empresa na sexta-feira. Ando à procura de um apartamento e lembrei-
  • me que talvez pudesse ver este.

 

    • O rapaz começou a abanar a cabeça antes de eu terminar a frase.
  • Só aos sábados. Temos novecentos apartamentos. E há uma lista de espera.
  • No sábado, não estou cá.
  • Lamento - disse ele, dando outra dentada na sanduíche e continuando a seguir o jogo. Peguei na carteira.
  • Quantos quartos tem? - perguntei.

 

    • O rapaz olhou para o monitor.
  • Dois.

 

    • Hector tinha quatro filhos. Tinha a certeza que a sua nova casa era mais espaçosa.
  • Quanto é por mês?
  • Setecentos e cinqüenta.

 

    • Tirei uma nota de cem dólares, que ele viu logo.
  • Vamos fazer um acordo. Você dá-me a chave. Eu vou dar uma vista de olhos à casa e volto daqui a dez minutos. Ninguém saberá.
  • Temos uma lista de espera - disse ele outra vez, pousando a sanduíche num prato de papel.
  • Está aí no computador? - perguntei, apontando.
  • Está - respondeu ele, limpando a boca.
  • Então seria fácil de alterar.

 

    • O rapaz tirou a chave de uma gaveta fechada e pegou no dinheiro.
  • Dez minutos - disse.

 

    • O apartamento ficava perto, no rés-do-chão de um prédio de três andares. A chave funcionou. O cheiro a tinta fresca saiu pela porta ainda antes de eu entrar. De fato, ainda estavam a pintar a casa; na sala de estar havia uma escada, panos e baldes brancos. Uma equipa especializada na recolha de impressões digitais não teria encontrado vestígios do clä Palma. Todas as gavetas e armários estavam vazios; todas as carpetes e estofos tinham sido removidos e levados. Até as manchas da banheira e da santa tinham desaparecido. Não se via pó, teias de aranha ou sujidade debaixo do lava-louça. A casa estava impecável. Todas as divisões tinham uma camada fresca de tinta branca, exceto a sala de estar, que ainda não estava acabada. Regressei ao escritório e atirei a chave para cima do balcão.
  • Então? - perguntou ele.
  • É muito pequena. Mas agradeço-lhe na mesma - respondi.
  • Quer o seu dinheiro?
  • Você anda a estudar?
  • Ando.
  • Então fique com ele.
  • Obrigado.

 

    • Parei à porta e perguntei:
  • O Palma deixou algum endereço?
  • Julguei que você trabalhava com ele - disse o rapaz.
  • É verdade - disse eu, fechando a porta rapidamente.

 

    • A mulher franzina estava sentada à nossa porta quando cheguei ao escritório na quarta-feira de manhã. Eram quase oito horas; o escritório estava fechado; a temperatura era negativa. A princípio, julguei que ela passara ali a noite, servindo-se da ombreira para se abrigar do vento. Mas quando ela me viu aproximar, levantou-se imediatamente e disse:
  • Bom dia.

 

    • Sorri, cumprimentei-a e comecei a procurar as chaves.
  • É advogado? - perguntou ela.
  • Sou.
  • Para pessoas como eu?

 

    • Calculei que não tivesse casa, e isso era tudo o que perguntávamos aos nossos clientes.
  • Com certeza. Esteja à vontade - disse eu, abrindo a porta.

 

    • Estava mais frio lá dentro do que lá fora. Ajustei um termostato, que não estava ligado a nada, tanto quanto consegui apurar. Fiz café e encontrei uns donuts em mau estado, na cozinha. Ofereci-os e ela comeu logo um.
  • Como se chama? - perguntei. Estávamos sentados na sala da frente, junto da secretária de Sofia, à espera do café e a rezar para que os radiadores funcionassem.
  • Ruby.
  • Eu sou o Michael. Onde vive, Ruby?
  • Aqui e ali.

 

    • Vestia um fato de treino azul, e calçava umas meias castanhas, grossas, e uns tênis brancos, sujos, sem marca. Tinha entre trinta e quarenta anos, era muito magra e ligeiramente estrábica.
  • Vá lá - disse eu, com um sorriso. - Preciso de saber onde vive. É num abrigo?
  • Costumava viver num abrigo, mas tive de sair. la sendo violada.Eu não vira nenhum automóvel estacionado perto do escritório, ao chegar.

 

    • Arranjei um carro.
  • Tem um carro?
  • Tenho.
  • É você que o conduz?
  • Não conduzo. Durmo lá atrás.Ruby sentou-se na beira da minha cadeira castanha desmontável, destinada aos clientes, com os ombros descaídos e toda a parte superior do corpo a envolver a chávena de café, como se fosse a última coisa quente que tinha na vida.

 

    • Eu estava a fazer perguntas sem um bloco de apontamentos, algo a que não estava habituado. Enchi de café duas grandes chávenas de papel e fomos para o meu gabinete onde, felizmente, o radiador estava vivo e a gorgolejar. Fechei a porta. Mordecai estava a chegar e nunca aprendera a arte de entrar sem fazer barulho.
  • Em que lhe posso ser útil? - perguntei, equipado com uma série de blocos de apontamentos.
  • É o meu f ilho, o Terrence. Tem dezesseis anos e o levaram.
  • Quem é que o levou?
  • A cidade, as pessoas da adoção.
  • Onde está ele agora?
  • São eles que o têm.

 

    • As suas respostas eram pequenos acessos nervosos, que se seguiam imediatamente a cada pergunta.
  • Porque não se descontrai e me fala do Terrence? - disse.Mas ela era tóxico dependente e não conseguia livrar-se do crack.Reordenou a sua vida à volta disto: novas sopas dos pobres e jantares mais perto das casa dos Rowland; outros abrigos para emergências, outros becos, parques e carros abandonados. Todos os meses conseguia juntar o dinheiro e nunca faltava a uma visita ao seu filho. Até que foi presa outra vez. A primeira detenção foi por prostituição; a segunda foi por dormir num banco de jardim em Farragut Square. Talvez tivesse havido uma terceira, mas não se lembrava. Uma vez levaram-na para a penitenciária quando alguém a encontrou caída na rua, inconsciente. Colocaram-na numa ala destinada a viciados, mas saiu passados três dias porque tinha saudades de Terrence. Uma noite, estava com ele no seu quarto quando o filho lhe olhou para a barriga e lhe perguntou se estava grávida outra vez. Ela respondeu que estava convencida disso. Quem era o pai?, perguntou ele. Ela não fazia idéia. Ele amaldiçoou-a e gritou de tal maneira que os Rowland pediram a Ruby que se fosse embora.Do terceiro parto, apenas um ano depois, nascera mais um bebê com droga nas veias, que lhe fora imediatamente tirado pelas autoridades municipais. Ruby não viu Terrence durante os quatro dias em que esteve hospitalizada a recuperar do parto. Quando teve alta, regressou à única vida que conhecia.Na noite seguinte, uma assistente social da Câmara estava à espera dela com uns documentos. Alguém fora ao tribunal. Terrence ia ser adaptado. Os Rowland seriam os seus novos pais. Terrence já vivia com eles há três anos. As visitas cessariam até que ela fosse integrada num programa de recuperação e se mantivesse desintoxicada durante um período de sessenta dias.

 

    • Passaram-se três semanas.
    • Terrence era um ótimo estudante, excelente em Matemática e em Espanhol, tocava trombone e representava em peças da escola. O seu sonho era ingressar na Escola Naval. Mr. Rowland servira no Exército. Uma noite, Ruby foi visitar o filho em mau estado. Desencadeou-se uma discussão na cozinha quando Mrs. Rowland se encontrou com ela. Foram trocadas palavras duras; foram feitos ultimatos. Terrence estava no meio; três contra uma. Ou ela se emendava, ou seria expulsa daquela casa. Ruby declarou que levaria o filho e se iria embora. Terrence disse que não ia para parte nenhuma.
    • Durante a gravidez, Terrence pouco contatou com ela. Era desolador - dormir em automóveis, pedir esmola, contar as horas que faltavam para o ver e depois ser ignorada durante uma hora, sentada a um canto do quarto enquanto ele fazia os trabalhos escolares. Ruby começou a chorar quando chegou a este ponto da sua história. Eu tomava notas e escutava-a enquanto Mordecai andava na sala principal, de um lado para o outro, a implicar com Sofia.
    •             Ficou grávida, e quando a criança nasceu as autoridades municipais a tiraram imediatamente. Era uma criança que trazia droga nas veias. Ruby parecia não gostar do bebê; só gostava de Terrence. As autoridades municipais começaram a fazer-lhe perguntas acerca dele, e mãe e filho deslizaram ainda mais para o universo sombrio dos sem abrigo. Desesperada, Ruby foi ao encontro de uma família para a qual trabalhara em tempos como criada, os Rowland, um casal cujos filhos eram crescidos e já não viviam com os pais. Os Rowland tinham uma casinha acolhedora perto da Universidade de Howard. Ruby ofereceu-se para lhes pagar cinqüenta dólares por mês se Terrence pudesse viver com eles. Havia um quartinho por cima do alpendre das traseiras, que ela limpara muitas vezes, e que seria perfeito para Terrence. A princípio os Rowland hesitaram, mas por fim acederam. Eram boas pessoas, nesse tempo. Ruby foi autorizada a ir visitar Terrence todas as noites, durante uma hora. As notas do rapaz melhoraram; estava limpo e em segurança, e Ruby estava satisfeita consigo própria.
    • E ela falou. Sem fazer qualquer esforço para olhar para mim, e com as duas mãos na chávena, contou a sua história. Há vários anos, não se lembrava há quantos, mas Terrence devia ter uns dez, viviam sozinhos num pequeno apartamento. Ela foi presa por vender drogas. Esteve quatro meses na cadeia. Terrence foi viver com a irmã. Quando ela saiu, foi buscar Terrence, e ambos iniciaram uma vida de pesadelo nas ruas. Dormiam em automóveis, abrigavam-se em prédios vazios, dormiam debaixo de pontes quando o tempo estava quente e iam para os abrigos quando estava calor. Ela conseguiu mantê-lo na escola. Pedia esmola nos passeios; vendia o corpo -   fazia partidas ,, como ela dizia - e vendia crack. Fazia o que podia para manter Terrence alimentado, decentemente vestido e na escola.
  • Quero ver o meu filho - disse ela. - Tenho tantas saudades dele.
  • Está nalgum programa de recuperação?

 

    • Ela abanou a cabeça e fechou os olhos.
  • Porquê?
  • Não consigo entrar.

 

    • Eu não sabia como é que um tóxico dependente das ruas era admitido num programa de recuperação, mas chegara o momento de descobrir. Imaginei Terrence no conforto do seu quarto, bem alimentado, bem vestido, seguro, limpo, sóbrio, a fazer os trabalhos escolares sob a supervisão rigorosa de Mr. e Mrs. Rowland, que se tinham afeiçoado a ele quase tanto como a própria Ruby. Imaginava-o a tomar o pequeno-almoço à mesa da família, a recitar listas de vocabulário e a comer cereais quentes, enquanto Mr. Rowland ignorava o jornal da manhã e punha à prova os conhecimentos de Espanhol do rapaz. Terrence era estável e normal, ao contrário da minha pobre cliente, que vivia num inferno. E Ruby queria que eu me encarregasse de reunir mãe e filho.
  • Isso vai levar algum tempo - disse eu, sem fazer a mínima idéia do tempo que este caso levaria. Numa cidade em que quinhentas famílias aguardavam um pequeno espaço num abrigo de emergência, não podia haver muitas camas disponíveis para tóxico dependentes.
  • Você só voltará a ver o Terrence depois de se libertar da droga
  • disse, tentando não me mostrar compassivo.E o que faziam as autoridades municipais com todas as crianças filhas de tóxico dependentes?A voz estridente de Sofia trouxe-me de novo à realidade. æ sua volta ouviam-se vozes alteradas. Quando corri para a porta, o meu primeiro pensamento foi que algum louco como o Senhor tivesse entrado por ali com uma arma.

 

    • Mas as armas eram outras. O tenente Gasko estava de volta, mais uma vez rodeado de ajudantes. Três agentes fardados aproximavam-se de Sofia, que ripostava sem dó nem piedade, mas em vão. Dois homens de jeans e de sweatshirt esperavam o momento de entrar em ação. Quando saí do meu gabinete, Mordecai saiu do dele.
    • Ela não tinha documentos, nem endereço, nem identificação. Não . tinha nada, a não ser uma história desoladora. Parecia totalmente satisfeita, ali sentada na minha cadeira, e comecei a perguntar a mim próprio quando poderia pedir-lhe para se ir embora. O café desaparecera.
    • Os olhos de Ruby marejaram-se de lágrimas, e ela não disse nada. Apercebi-me do pouco que sabia da tóxico dependência. Onde é que ela arranjava a droga? Quanto lhe custava? Quantas vezes se chutava por dia? Quanto tempo durava o efeito? Quanto tempo levaria ela a curar-se? Quais eram as suas hipóteses de abandonar um hábito que tinha há mais de dez anos?
  • Olá, Mikey - disse Gasko dirigindo-se a mim.
  • O que diabo é isto? - gritou Mordecai, fazendo estremecer as paredes. Um dos agentes fardados levou mesmo a mão ao revólver. Gasko dirigiu-se a Mordecai.
  • É uma busca - disse ele, puxando dos documentos necessários a atirando-os a Mordecai. - Mr. Green, é o senhor?
  • Sou - respondeu ele, tirando-lhe os documentos da mão.
  • O que procura? - gritei eu a Gasko.
  • A mesma coisa - respondeu ele, também a gritar. - Entregue-o, e acabaremos já com isto.
  • Não está aqui.
  • Que dossiê? - perguntou Mordecai, olhando para o mandado de busca.
  • O dossiê dos despejos - respondi.
  • Ainda não vi o seu processo - disse-me Gasko. Verifiquei que dois dos agentes fardados eram Lilly e Blower. - É só conversa.
  • Rua! - gritou Sofia, quando Blower se aproximou da sua secretária. Gasko era o responsável.
  • Ouça, minha senhora - disse ele, com o seu habitual sorriso trocista. - Podemos fazer isto de duas maneiras. Uma, a senhora senta-
  • se naquela cadeira e cala-se. Duas, nós algemamo-la e deixamo-la ficar sentada no banco traseiro de um carro durante as próximas duas horas. Um dos agentes andava a espreitar os gabinetes laterais. Senti que Ruby se descontraía atrás de mim.
  • Acalme-se. Acalme-se - disse Mordecai a Sofia.
  • O que há lá em cima? - perguntou-me Gasko.
  • Uma arrecadação - respondeu Mordecai.
  • É sua?
  • É.
  • Ele não está aqui - disse eu. - Estão a perder o vosso tempo.
  • Lá teremos de o perder, não é verdade?Pedi a Ruby que também se fosse embora. Depois entrei no gabinete de Mordecai e fechei a porta.

 

    • Um potencial cliente abriu a porta principal, sobressaltando-nos. Percorreu rapidamente a sala com o olhar e depois viu os três homens fardados. Saiu à pressa para a segurança da rua.
  • Onde está o processo - perguntou ele em voz baixa.
  • Não está aqui, juro. Isto é só para nos atormentarem.
  • O mandado parece válido. Houve um roubo; é razoável concluir que o processo estaria na posse do advogado que o roubou. Tentei dizer qualquer coisa inteligente e própria de um advogado, lembrar-me de qualquer impedimento legal que pusesse termo à busca e expulsasse os polícias. Mas faltaram-me as palavras. Pelo contrário, senti-me envergonhado por ter feito com que a polícia andasse a meter o nariz no escritório.
  • Tem uma cópia do processo? - perguntou ele.
  • Tenho.
  • Já pensou em devolver-lhes o original?
  • Não posso. Isso seria uma admissão de culpa. Eles não sabem ao certo se eu tenho o processo. E mesmo que o devolvesse, eles saberiam que eu o tinha fotocopiado.Fechei a porta principal para que os nossos clientes não assistissem à busca.

 

    • Mordecai cofiou a barba e concordou comigo. Saímos do seu gabinete no preciso momento em que Lilly saltou um degrau ao lado da secretária de Sofia que não estava a ser utilizada. Uma avalancha de processos escorregou para o chão. Sofia gritou com ele; Gasko gritou com ela. A tensão afastava-se rapidamente das palavras e aproximava-se do confronto físico.
  • Aqui está o que vamos fazer - anunciou Mordecai.

 

    • Os polícias deitaram-lhe um olhar furibundo, mas estavam ansiosos por receber instruções. Fazer uma busca num escritório de advogados não era a mesma coisa que atacar de surpresa um bar cheio de menores.
  • O processo não está aqui. Comecemos por esta promessa.Começamos pelo meu gabinete. Os seis polícias, eu e Mordecai entramos na pequena sala, esforçando-nos por evitar o contacto físico com os processos. Abri todas as gavetas da minha secretária, o que só se conseguia através de um bom puxão. A certa altura, ouvi Gasko dizer em voz baixa:

 

    • Podem olhar para todos os processos que quiserem, mas não podem abri-los. Isso seria violar a confidencialidade dos clientes. De acordo? Os outros polícias olharam para Gasko, que encolheu os ombros como se aquilo fosse aceitável.
  • Que belo gabinete!

 

    • Retirei os processos dos armários um a um, agitei-os debaixo do nariz de Gasko e pus-los de novo no seu lugar. Só ali estava desde segunda-feira, portanto ainda não havia muito a procurar. Mordecai saiu do gabinete, aproximou-se da secretária de Sofia e pegou no telefone. Quando Gasko declarou que a busca oficial do meu gabinete terminara, saímos, mesmo a tempo de ouvirmos Mordecai dizer ao telefone:
  • Sim, juiz, obrigado. Ele está aqui mesmo ao meu lado.

 

    • A sua boca abriu-se num sorriso quando atirou o telefone a Gasko:
  • É o juiz Kisner, a pessoa que assinou o mandado de busca. Quer falar consigo.

 

    • Gasko pegou no telefone como se este pertencesse a um leproso.
  • Fala Gasko - disse, muito afastado do bocal.

 

    • Mordecai virou-se para os outros polícias e disse:
  • Meus senhores, podem inspecionar esta sala, e mais nada. Não podem entrar nos gabinetes. São ordens do juiz.
  • Sim, senhor - disse Gasko em voz baixa, e desligou.Todos os processos tinham uma etiqueta, com o nome do caso escrito à mão ou à máquina. Dois dos polícias tomavam nota dos nomes dos processos quando Gasko ou os outros lhes diziam para o fazer. Era um trabalho monótono e completamente inútil.O número cinco da lista dos despejados era Kelvin Lam, um nome vagamente familiar a Mordecai. Em tempos, segundo os seus cálculos, o número de sem abrigo de Columbia devia rondar os dez mil. Havia pelo menos outros tantos processos espalhados pelo seu escritório. Todos os nomes diziam qualquer coisa a Mordecai.

 

    • Ele trabalhava com os circuitos, as cozinhas, os abrigos e as instituições prestadoras de serviços, com os pregadores, os polícias e outros advogados da rua. Depois do anoitecer, metemo-nos no carro e fomos para o centro, para uma igreja entalada entre edifícios de escritórios caros e hotéis de luxo. Numa grande cave com dois pisos, o programa de jantares do Five Loaves decorria a bom ritmo. A sala era ladeada por mesas desmontáveis, todas rodeadas por centenas de pessoas que comiam e conversavam. Não era uma sopa dos pobres; os pratos estavam cheios de milho, batatas, uma fatia de qualquer coisa que parecia peru ou frango, salada de frutas e pão. Ainda não jantara e o aroma abriu-me o apetite.
    • Deixaram a secretária de Sofia para o fim. Foi ela que mexeu nas coisas, pronunciando o nome de cada processo em voz alta, e soletrando os mais simples, como Jones, Smith ou Williams. Os polícias mantiveram-se à distância. Abriu as gavetas o mínimo indispensável para eles espreitarem. Tinha uma gaveta com objetos pessoais, que ninguém quis ver. Eu tinha a certeza que havia armas lá dentro. Os polícias saíram sem se despedirem. Pedi desculpa a Sofia e a Mordecai pela invasão e retirei-me para a segurança do meu gabinete.
    • Acompanhamos os movimentos dos polícias durante uma hora, enquanto eles passavam de umas secretárias para as outras - quatro ao todo, incluindo a de Sofia. Pouco depois, concluíram que a busca era inútil e prolongaram-na saindo o mais devagar possível. As secretárias estavam cheias de processos fechados há muito tempo. Os livros e as publicações legais há muito que não eram consultados. Alguns estavam cobertos de pó. Foi mesmo necessário afastar algumas teias de aranha.
  • Já aqui não venho há uns anos - disse Mordecai, quando paramos à entrada a olhar para a zona de refeições. - Eles dão de comer a trezentas pessoas por dia. Não é formidável?
  • Donde vem a comida?
  • De Columbia. Da Cozinha Econômica Central, de umas instalações na cave do CCNV Criaram estes sistema espantoso que consiste em recolher a comida em excesso dos restaurantes locais. Não são restos, mas sim alimentos não confeccionados que se deteriorariam se não fossem utilizados imediatamente. Têm uma frota de caminhões frigoríficos, e dão a volta a toda a cidade para recolher comida que levam para a cozinha e preparam jantares congelados. Mais de dois mil por dia.
  • Parecem saborosos.
  • São realmente muito bons.Liza não conhecia Kelvin Lam, mas iria informar-se. Vimo-la atravessar a multidão, falando com as pessoas, apontando para os cestos do lixo que se encontravam a um canto, a ralhar com uma senhora de idade. Sentou-se entre dois homens, e nenhum deles olhava para ela enquanto falavam. Foi passando de mesa em mesa. Para nosso espanto, apareceu um advogado, um jovem de uma grande firma, um voluntário da Clínica Legal de Washington Para os Sem Abrigo. Reconheceu Mordecai, que angariara fundos no ano anterior. Falamos de leis durante alguns minutos, e depois ele desapareceu numa sala das traseiras para iniciar três horas de consulta.

 

    • Uma jovem chamada Liza veio ao nosso encontro. Era nova em Five Loaves. Mordecai conhecera a sua antecessora, de quem falaram um pouco enquanto eu observava as pessoas que comiam. Reparei em algo que já devia ter visto. Havia diversos níveis de sem abrigo, que provinham de diversos degraus da pirâmide socioeconômica. Numa mesa, seis homens comiam e conversavam alegremente sobre um jogo de basquetebol que tinham visto na televisão. Estavam razoavelmente bem vestidos. Um comia de luvas e, com exceção deste pormenor, todos eles poderiam estar sentados em qualquer bar de operários da cidade sem que fossem imediatamente identificados como pessoas sem abrigo. Atrás deles, um homem de aspecto tosco, de óculos escuros, comia sozinho, pegando no frango com a mão. Calçava botas de borracha semelhantes àquelas que o Senhor usava no dia da sua morte. O casaco estava sujo e desfiado. O homem parecia indiferente ao que o rodeava. A sua vida era visivelmente mais difícil que as vidas dos homens que se riam na mesa do lado. Estes tinham acesso a água quente e a sabonete; ele não se importava com isso. Eles dormiam em abrigos. Ele dormia nos parques, com os pombos. Mas nenhum deles tinha casa.
  • A Clínica Legal de Washington tem cento e cinqüenta voluntários
  • disse Mordecai.
  • Isso é suficiente? - perguntei.
  • Nunca é suficiente. Acho que devemos revitalizar o nosso programa de voluntários. Talvez você gostasse de se encarregar dele e de o supervisionar. A idéia agrada ao Abraham.

 

    • Era agradável saber que Mordecai e Abraham, e sem dúvida Sofia, tinham falado num programa para eu dirigir.
  • Aumentará a nossa base, tornar-nos-á mais visíveis na comunidade jurídica e permitirá arranjar algum dinheiro.
  • Com certeza - respondi, com convicção.

 

    • Liza voltou para junto de nós.
  • Kelvin Lam está lá atrás - disse ela, acenando. - Na segunda mesa a contar de trás. Com um boné dos Redskins.
  • Falou com ele? - perguntou Mordecai.
  • Falei. É discreto, bastante arguto e disse que tem estado no CCNV e que trabalha a tempo parcial na recolha do lixo.
  • Há alguma sala pequena que possamos utilizar?
  • Claro que há.
  • Diga a Lam que um advogado dos sem abrigo precisa de falar com ele.

 

    • Lam não disse nada nem nos estendeu a mão. Mordecai sentou-se a uma mesa. Eu fiquei de pé a um canto. Lam ocupou a única cadeira disponível e deitou-me um olhar que me deixou arrepiado.
  • Não há qualquer problema - disse Mordecai, tentando acalmá-lo.
  • Precisamos de lhe fazer umas perguntas, mais nada.

 

    • Lam nem levantou a cabeça. Estava vestido como qualquer residente de um abrigo – jeans, um shirt, uns tênis, um casaco de lã - ao contrário das muitas camadas de roupa de quem dormia debaixo de uma ponte.
  • Conhece uma mulher chamada Lontae Burton? - perguntou Mordecai, que falava em nome dos advogados. Lam abanou a cabeça.
  • E DeVon Hardy?

 

    • Mais uma negativa.
  • No mês passado, você vivia num armazém abandonado?
  • Sim.
  • Na esquina da New York e da Florida?
  • Sim.
  • Pagava renda?
  • Sim.
  • Cem dólares por mês?
  • Sim.
  • A Tillman Gantry?

 

    • Lam ficou imóvel e fechou os olhos, a pensar na pergunta.
  • Quem? - perguntou ele.
  • Quem era o dono do armazém?
  • Eu pagava a renda a um tipo chamado Johnny.
  • Para quem é que o Johnny trabalhava?
  • Não sei. Não me interessa. Não perguntei.
  • Quanto tempo lá viveu?
  • Cerca de quatro meses.
  • Porque saiu?
  • Fui despejado.
  • Quem é que o despejou?
  • Não sei. Os polícias apareceram lá um dia, com uns tipos.

 

    • Expulsaram-nos e puseram-nos na rua. Dois dias depois, arrasaram o armazém.
  • Explicou aos polícias que pagava renda para viver ali?
  • Muita gente falou nisso. Uma mulher com filhos pequenos tentou lutar com a polícia, mas isso não deu resultado. Cá por mim, não luto com polícias. Foi uma cena tramada, meu.
  • Deram-lhe alguns papéis antes do despejo?
  • Não.
  • Recebeu algum aviso para sair?
  • Não. Nada. Eles apareceram sem mais nem menos.
  • Nada por escrito?
  • Nada. Os polícias disseram que éramos ocupantes ilegais; que tínhamos de sair imediatamente.
  • Então você mudou-se no Outono passado, algures em Outubro.
  • Mais ou menos isso.
  • Como é que descobriu aquele sítio?
  • Não sei. Alguém me disse que estavam a alugar pequenos apartamentos no armazém. Com rendas baratas, percebe? Por isso fui lá ver. Estavam a pôr umas tábuas, a levantar umas paredes e outras coisas. Havia um telhado lá em cima, uma casa de banho não muito longe e água corrente. Não era mau.
  • E você mudou-se para lá.
  • Exatamente.
  • Assinou algum contrato?
  • Não. O tipo disse-me que o apartamento era ilegal, portanto não havia nada a escrever. Disse-me para eu dizer que ocupava aquele local se alguém me perguntasse.
  • E queria receber em dinheiro.
  • Só em dinheiro.
  • Você pagava todos os meses.
  • Fazia os possíveis. Ele vinha receber por volta do dia quinze.
  • Estava atrasado na renda quando foi despejado?
  • Um pouco.
  • Quanto?
  • Talvez um mês.
  • Foi por isso que foi despejado?
  • Não sei. Eles não apresentaram qualquer motivo. Despejaram toda a gente, todos ao mesmo tempo.
  • Você conhecia as outras pessoas que viviam no armazém?
  • Conhecia duas. Mas cada um fazia a sua vida. Todos os apartamentos tinham uma boa porta, que se podia fechar à chave.
  • Essa mãe de que você falou, aquela que lutou com a polícia, você conhecia-a?
  • Não Talvez a tenha visto uma ou duas vezes. Ela vivia no outro extremo.
  • No outro extremo?
  • Exatamente. Não havia canalização no meio do armazém, por isso é que eles construíram apartamentos nos extremos.
  • Você via o apartamento dela do seu ?
  • Não. O armazém era grande.
  • Como era o seu apartamento?
  • Tinha duas divisões. Não sei de que tamanho.
  • Tinha eletricidade?
  • Tinha, porque eles puseram uns fios. Podíamos ligar rádios e coisas desse gênero. Tínhamos luz. Havia água corrente, mas a casa de banho era comum.
  • E aquecimento?
  • Nem por isso. Aquilo era frio, mas não tão frio como dormir na rua.
  • Então estava satisfeito com o local.
  • Era bom. Quero dizer, por cem dólares por mês não era mau.
  • Disse que conhecia duas outras pessoas. Como se chamavam?
  • Herman Harris e Shine qualquer coisa.
  • Onde estão agora?
  • Não os tenho visto.
  • Onde dorme você?
  • No CCNV.

 

    • Mordecai tirou um cartão da algibeira e estendeu-o a Lam.
  • Quanto tempo vai lá ficar?
  • Não sei.
  • Pode manter-se em contacto comigo?
  • Porquê?
  • Pode precisar de um advogado. Telefone-me se mudar de abrigo ou encontrar uma casa própria.Como sucede em qualquer processo, há várias maneiras de atuar em relação aos réus. Havia três - a RiverOaks, a Drake & Sweeney e a TAG, e não esperávamos acrescentar mais nenhum. A primeira era a cilada. A outra consistia em atirar a bola e esperar que o adversário a apanhasse e a atirasse de novo sem ela tocar no chão.O outro método começava com uma carta dirigida aos réus, na qual fazíamos as mesmas alegações, mas, em vez de os processarmos, convidávamo-los a discutir o assunto. As cartas andavam de um lado para o outro e, em geral, cada uma das partes conseguia prever o que a outra poderia fazer. Se a culpa pudesse ser provada, era provável que se conseguisse um acordo discreto. O litígio seria evitado. A cilada agradava-me, quer a mim quer a Mordecai, por dois motivos. A firma não se mostrara interessada em deixar-me em paz; as duas buscas eram a prova clara de que Arthur no último andar e Rafter com o seu bando de capangas do Contencioso vinham atrás de mim. A minha prisão daria uma bela história nos noticiários, que eles soprariam sem dúvida para me humilhar e pressionar. Tínhamos de preparar o nosso próprio assalto.            Em teoria, o nosso caso era realmente muito simples: os ocupantes do armazém pagavam renda, em dinheiro e sem registros, a Tillman Gantry ou a alguém que trabalhava para ele. Gantry tivera oportunidade de vender a propriedade à RiverOaks, mas tivera de ser com rapidez. Gantry mentira à RiverOaks e aos seus advogados a respeito das pessoas que habitavam no armazém. A Drake & Sweeney encetara diligências e enviara Hector Palma ao local para inspecionar a propriedade antes do seu encerramento. Hector fora assaltado na primeira visita, levara um guarda com ele na segunda e, depois de inspecionar as instalações, soubera que os residentes não eram, de fato, ocupantes, mas sim inquilinos. Redigira um memorando dirigido a Braden Chance, que cometera o erro de o ignorar e de avançar com o encerramento. Os inquilinos tinham sido despejados sumariamente, como se fossem intrusos, sem o respectivo processo.Não era um caso complicado, em teoria. Mas os obstáculos eram enormes. Obrigar os sem abrigo a depor seria perigoso, sobretudo se Mr. Gantry resolvesse vingar-se. Ele controlava as ruas, uma arena na qual eu não estava desejoso de lutar. Mordecai possuía uma vasta rede construída à base de favores e de conversas em surdina, mas não estava à altura da artilharia de Gantry. Passamos uma hora a discutir as várias maneiras de evitar acusar formalmente a TAG, Inc. Por motivos óbvios, o processo legal seria muito mais confuso e muito mais perigoso se envolvesse Gantry. Podíamos não o processar e deixar aos outros argüidos - a RiverOaks e a Drake & Sweeney - a tarefa de o atrair.Tínhamos de encontrar Hector Palma. E, assim que o encontrássemos, tínhamos de convencê-lo ou a apresentar o memorando escondido, ou a dizer-nos o que lá estava. Descobri-lo seria fácil; convencê-lo a falar podia ser impossível. Era muito provável que não o quisesse fazer, já que precisava do emprego. Apressara-se a dizer-me que tinha mulher e quatro filhos.

 

    • Havia outros problemas com o processo, o primeiro dos quais era meramente processual. Nós, como advogados, não estávamos autorizados a mover um processo em nome dos herdeiros de Lontae Burton e dos seus quatro filhos. Era preciso sermos contratados pela sua família. Com a mãe e dois irmãos na cadeia, e sem sabermos a identidade do pai, Mordecai considerava que devíamos pedir ao Tribunal de Família que designasse um administrador para tratar dos assuntos relacionados com os bens dos Lontae. Ao fazê-lo, podíamos evitar a família, pelo menos ao princípio. Na eventualidade de conseguirmos uma indenização, a família seria um pesadelo. Era de admitir que os quatro filhos tinham dois ou mais pais diferentes, e cada um desses fornicadores teria de ser notificado se o dinheiro mudasse de mãos.
    • Mas Gantry era um elemento importante na nossa teoria acusatória, e ignorá-lo como argüido equivaleria a arranjar sarilhos à medida que o caso fosse avançando.
    • Um despejo formal teria levado pelo menos mais trinta dias, um período que nenhum dos intervenientes queria desperdiçar. Mais trinta dias e o Inverno estaria acabado; a ameaça dos nevões ou das noites com temperaturas negativas teria diminuído, além da necessidade de dormir num automóvel com o aquecimento a funcionar. Eram apenas pessoas da rua, sem registros, sem recibos de renda e sem um rasto que alguém pudesse seguir.
    • O segundo motivo tinha a ver com o caso propriamente dito. Hector e as outras testemunhas não podiam ser obrigadas a depor senão quando nós movêssemos o processo e as obrigássemos a dar o seu testemunho. Durante o período de investigação que se seguia à apresentação do processo, teríamos oportunidade de fazer toda a espécie de perguntas sobre os réus, e eles seriam chamados a responder sob juramento. Também seríamos autorizados a chamar quem quiséssemos a depor. Se encontrássemos Hector Palma, podíamos submetê-lo a um interrogatório cerrado sob juramento. Se descobríssemos os outros despejados, podíamos obrigá-los a contar o que se passara. Tínhamos de descobrir o que todos sabiam, o que não era possível sem recorrermos à investigação sancionada p elo tribunal.
    • Com a cilada, podíamos preparar a estrutura das nossas alegações, correr para o tribunal, apresentar o processo, deixá-lo passar para a imprensa e esperar que conseguíssemos provar o que julgávamos saber. A vantagem era a surpresa, e o embaraço dos acusados e, se tivéssemos sorte, da opinião pública. A desvantagem era o equivalente legal a saltarmos de um rochedo com a convicção forte, mas não confirmada, de que havia uma rede algures lá em baixo.
    • Lam pegou no cartão sem dizer uma palavra. Agradecemos a Liza e regressamos ao escritório.
  • Deixaremos essa preocupação para mais tarde - disse Mordecai. - Primeiro temos de ganhar.Trabalhamos até à meia-noite, a fazer e a refazer o rascunho do processo, a discutir teorias e métodos, a sonhar com maneiras de atrair a RiverOaks e a minha antiga firma ao tribunal, num julgamento ruidoso. Mordecai considerava-o uma linha divisória, um momento essencial para inverter o declínio da simpatia da opinião pública para com os sem abrigo. Eu considerava-o apenas como uma forma de corrigir um erro.

 

    • Mais um café na companhia de Ruby. Ela estava à minha espera junto da porta principal quando cheguei às sete e quarenta e cinco. Ficou radiante ao ver-me. Como é que alguém podia estar tão satisfeito depois de passar oito horas a tentar dormir do banco traseiro de um automóvel abandonado?
    • Estávamos na sala da frente, na secretária ao lado da de Sofia, onde o velho computador trabalhava quase sempre. Eu datilografava. Mordecai andava de um lado para o outro e ditava.
  • Tem donuts? - perguntou ela quando eu acendi as luzes.

 

    • Já era um hábito.
  • Vou ver. Sente-se, que eu vou fazer café.Comeu um donut, mordiscando as partes duras e tentando ser educada.

 

    • Vasculhei na cozinha, lavei a cafeteira e procurei qualquer coisa para comer. Os donuts da véspera estavam ainda mais duros, mas não havia mais nada. Prometi a mim próprio não me esquecer de comprar outros no dia seguinte, não fosse Ruby aparecer pelo terceiro dia consecutivo. Algo me disse que ela o faria.
  • Onde toma o pequeno-almoço? - perguntei.
  • Geralmente não tomo.
  • E o almoço e o jantar?
  • Almoço no Naomi’s, em Tenth Street. Ao jantar, vou à Calvary Mission, na Fifteenth.
  • O que faz durante o dia?

 

    • Ela estava de novo enroscada à volta da chávena de papel, tentando aquecer o corpo franzino.
  • Estou quase sempre no Naomi’s - respondeu ela.
  • Quantas mulheres lá estão?
  • Não sei. Muitas. Eles cuidam bem de nós, mas é só durante o dia.
  • É só para mulheres sem abrigo?
  • É. Fecham às quatro. A maioria das mulheres vive em abrigos, e algumas na rua. Eu arranjei um carro.
  • Eles sabem que você anda a tomar crack?
  • Acho que sim. Querem que eu vá às reuniões dos bêbados e dos drogados. Não sou a única. Há muitas mulheres que também fazem o mesmo, sabe?
  • Tomou crack ontem à noite? - perguntei. As palavras fizeram eco nos meus ouvidos. Custava-me a acreditar que estivesse a fazer tais perguntas.

 

    • Ruby deixou descair o queixo e fechou os olhos.
  • Diga-me a verdade - disse eu.
  • Fui obrigada a isso. Tomo-o todas as noites.Ela pediu outro donut. Embrulhei o último em papel de alumínio e pus-lo em cima do café. Ela estava atrasada para qualquer coisa que havia no Naomi’s e foi-se embora.Um coro de igreja vestido de roxo e dourado instalou-se nos degraus e começou a inundar a zona com hinos exaltantes. Centenas de polícias subiam e desciam a rua, numa formação solta, formando barricadas para impedir o trânsito.Reuniram-se em frente dos degraus do District Building e começaram a agitar os cartazes, muitos dos quais eram feitos em casa e pintados à mão. DEIXEM DE MATAR; SALVEM OS ABRIGOS; EU TENHO DIREITO A UMA CASA; EMPREGOS, EMPREGOS, EMPREGOS. Erguiam-nos acima das cabeças e faziam-nos dançar ao ritmo dos cânticos e dos salmos.Uma fotografia de Lontae Burton fora ampliada e fotocopiada para figurar em grandes cartazes, tarjados de negro. Por baixo do seu rosto, liam-se as terríveis palavras: QUEM MATOU LONTAE? Estes cartazes estavam espalhados pela multidão e depressa se tornaram os favoritos, mesmo para os homens do CCNV que tinham trazido os seus próprios estandartes de protesto. O rosto de Lontae agitava-se por cima daquele mar de gente.O mar de gente separou-se; o cortejo encaminhou-se lentamente para a escadaria, enquanto o coro iniciou um réquiem comovente que me deixou à beira das lágrimas. Era uma marcha fúnebre. Uma daquelas pequenas urnas representava Ontário.Era uma cena cheia de dramatismo, e as câmaras aglomeradas junto do estrado gravaram todos os movimentos solenes do cortejo. Vê-los-íamos na televisão nas quarenta e oito horas seguintes. As urnas foram colocadas lado a lado, com a de Lontae no meio, em cima de uma plataforma no meio dos degraus, um pouco abaixo do estrado onde se encontrava Mordecai. Foram profusamente filmadas e fotografadas, e depois começaram os discursos.Com tantos apoios, como é que o problema dos sem abrigo podia existir?Os mesmos temas foram repetidos por todos os oradores, exceto por Mordecai, que falou em quinto lugar e calou a multidão com a sua história sobre as últimas horas da família Burton. Quando se referiu à mudança da fralda do bebê, talvez a última, não se ouvia um som. Nem um acesso de tosse, nem um suspiro. Olhei para as urnas, como se dentro de uma delas se encontrasse de fato o bebê.Os meus pensamentos tornaram-se egoístas. Se aquele homem, meu amigo e companheiro de profissão, conseguia cativar milhares de pessoas a partir de um estrado a trinta metros de distância, o que não conseguiria ele fazer com doze membros de um júri ao alcance da mão?Após hora e meia de discursos, a multidão estava inquieta e pronta a avançar. O coro recomeçou a cantar e as urnas foram levadas pelos carregadores, que afastaram o cortejo do edifício. Atrás das urnas iam os líderes, incluindo Mordecai. Seguiam-se os restantes. Alguém me deu um cartaz de Lontae, e eu ergui-o o mais acima que pude.Mas eu já não era a mesma pessoa de há umas semanas atrás. Nem podia recuar, mesmo que quisesse. O meu passado baseara-se no dinheiro, nos bens materiais e no estatuto, desgraças que agora me perturbavam.As barricadas protegeram-nos quando nos dirigimos para o Monte do Capitólio. A marcha fora bem planeada, e devido às suas dimensões atraiu as atenções ao longo do caminho. As urnas foram colocadas nos degraus do Capitólio. Reunimo-nos em massa à volta delas, depois ouvimos outra série de discursos inflamados de ativistas de direitos cívicos e de dois membros do Congresso.Comprei um charuto barato a um vendedor que estava no passeio e fui dar uma volta a pé pelo Mall.

 

    • Bati à porta ao lado da casa onde os Palma tinham vivido e respondeu-me uma voz de mulher:
    • Os discursos começaram a cansar; já ouvira os suficientes. Os meus irmãos sem abrigo tinham pouco a ver com eles; abrira trinta e um processos desde que iniciara a minha nova carreira, na segunda-feira. Trinta e uma pessoas de carne e osso estavam à minha espera para que conseguisse senhas de alimentação e habitações locais, movesse processos de divórcio, os defendesse de acusações criminais, obtivesse salários que estavam a ser contestados, pusesse fim a despejos, os ajudasse na sua dependência e, de certo modo, fizesse estalar os dedos e assegurasse justiça. Como advogado especializado em Direito da Concorrência, raramente fora obrigado a encontrar-me face a face com os clientes. A situação era diferente na rua.
    • Descontraí-me e gozei o passeio a pé. Cantei com os sem abrigo, agitei o meu cartaz numa harmonia perfeita com os outros, e até tentei cantar hinos que me eram estranhos. Saboreei o meu primeiro exercício de protesto cívico. Não seria o último.
    • As pessoas privilegiadas não marcham nem protestam; o seu mundo é seguro, limpo e governado por leis destinadas a mantê-las felizes. Eu nunca vivera na rua; para quê incomodar-me? E pouco depois de começar a andar, senti-me estranho, ao ver-me envolvido num mar de gente, empunhando um cartaz com o rosto de uma mãe negra de vinte e dois anos, que gerara quatro filhos ilegítimos.
    • Nesse momento, percebi que o processo Burton nunca iria tão longe. Nenhuma equipa de defesa em seu perfeito juízo permitiria que Mordecai Green se dirigisse a um júri negro desta cidade. Se as nossas presunções estivem certas, e se conseguíssemos prová-las, não chegaria a haver julgamento.
    • Depois a família procurou abrigo, explicou ele, em voz baixa, profunda, vibrante. Voltou para as ruas, para o nevão em que Lontae e os filhos tinham sobrevivido apenas mais umas horas. Mordecai usou de um grande rigor factual nesse ponto, porque ninguém sabia exatamente o que acontecera. Eu sabia, mas não me importei. O resto da multidão ficou igualmente hipnotizada com a sua história. Quando ele descreveu os últimos momentos, quando a família se aconchegou numa tentativa vã de se manter aquecida, ouvi mulheres a chorar à minha volta.
    • Os seis oradores seguintes responderam a esta pergunta. Falta de subsídios adequados para começar; depois, cortes orçamentais, surdez do governo federal, cegueira das entidades camarárias, falta de compaixão daqueles que tinham meios, um sistema judicial cada vez mais conservador, e a lista não tinha fim.
    • O moderador era um ativista, que começou por agradecer a todos os grupos que tinham ajudado a organizar o cortejo. Era uma lista impressionante, pelo menos em quantidade. æ medida que ele apresentava os nomes, eu ficava admirado ao ver o número incrível de abrigos, missões, cozinhas econômicas, congregações, clínicas médicas, clínicas legais, igrejas, centros, grupos de ação, programas de formação profissional, programas de combate à tóxico dependência e até de alguns funcionários eleitos, todos responsáveis até certo ponto por aquele acontecimento.
    • Depois a multidão juntou-se. As mãos ergueram-se e tocaram nas urnas, agitando-se à medida que estas avançavam, balançando devagar de um lado para o outro.
    • Ouviu-se ao longe o lamento de uma sirene solitária, que começou a aproximar-se. Um carro funerário escoltado pela polícia foi autorizado a atravessar as barricadas e parou mesmo em frente do District Building, no meio da multidão. As portas traseiras abriram-se; uma falsa urna, pintada de preto, foi tirada pelos carregadores - seis homens sem abrigo, que a puseram aos ombros e se prepararam para começar o cortejo. Mais quatro urnas, da mesma cor mas muito mais pequenas, foram retiradas por outros carregadores.
    • Autocarros das igrejas paravam junto das barricadas e descarregavam centenas de pessoas, muitas das quais não tinham aspecto de viver na rua. Eram gente bem vestida que freqüentava a igreja, sobretudo mulheres. A multidão aumentava e o espaço à minha volta diminuía. Não conhecia uma única pessoa, além de Mordecai. Sofia e Abraham encontravam-se algures no meio da multidão, mas não os via. Dizia-se que aquela era a maior marcha dos sem abrigo dos últimos dez anos-o Comício de Lontae.
    • O CCNV prometera a comparecimento de mil dos seus soldados pedestres, que chegaram em grupo - uma coluna longa, impressionante e desorganizada de homens sem abrigo e orgulhosos da sua situação. Senti-os chegar ainda antes de os ver. Os seus clamores bem ensaiados ouviam-se a vários quarteirões de distância. Quando dobraram a esquina, as câmaras de televisão convergiram para os saudar.
    • O cortejo começou no District Building com um comício a favor da justiça. Como Mordecai era uma pessoa importante no universo dos sem abrigo, deixou-me no meio da multidão e foi ocupar o seu lugar no estrado.
    • Não me apeteceu ralhar com ela. Eu não fizera nada desde a véspera para ajudá-la a encontrar tratamento. De repente, essa tornou-se a minha prioridade.
  • Quem é?

 

    • Não houve qualquer tentativa para dar a volta à chave e abrir a porta. Eu tinha pensado muito na minha história. Até a ensaiara quando vinha no carro para Bethesda. Mas não estava convencido de que fosse convincente.
  • Bob Stevens - respondi, num tom bajulador. - Procuro Hector Palma.
  • Quem? - perguntou ela.
  • Hector Palma. Vivia aqui ao lado.
  • O que é que você quer?
  • Devo-lhe dinheiro. Estou a tentar encontrá-lo, mais nada.

 

    • Se eu fosse receber dinheiro ou estivesse incumbido de qualquer outra missão desagradável, seria natural que os vizinhos se colocassem na defensiva. Calculei que este fosse um pequeno artifício elegante.
  • Ele foi-se embora - respondeu ela, impassível.
  • Eu sei que ele se foi embora. Sabe para onde é que ele foi?
  • Não.
  • Saiu desta zona?
  • Não sei.
  • Viu-os mudarem-se?

 

    • A resposta seria afirmativa, evidentemente. Não era possível contorná-la. Mas em vez de me ajudar, a mulher retirou-se para as profundezas do seu apartamento e foi talvez chamar o segurança. Repeti a pergunta e depois toquei outra vez à campainha. Nada. Dirigi-me então para a porta do outro lado da última morada de Hector. Dois toques, a porta abriu-se um pouco até ficar presa pela corrente, e um homem da minha idade, com maionese ao canto da boca, perguntou:
  • O que deseja?Mas ele não foi desagradável.

 

    • Repeti a história de Bob Stevens. Ele ouviu com todo o cuidado, enquanto os filhos brincavam ruidosamente na sala, com uma televisão aos gritos. Passava das oito horas, estava escuro e frio e eu fora interromper um jantar tardio.
  • Nunca o vi - disse.
  • E a mulher dele?
  • Também não. Viajo muito. Estou quase sempre fora.
  • A sua mulher conhecia-os?
  • Não - respondeu ele de chofre.
  • O senhor ou a sua mulher viram-nos mudarem-se?
  • Não estivemos cá no fim-de-semana passado.
  • E sabe para onde é que eles foram?
  • Não.

 

    • Agradeci-lhe, virei-me e dei de caras com um guarda musculoso, fardado, com um bastão na mão direita, no qual tamborilava com a mão esquerda, como os polícias que se vêem nos filmes.
  • O que está a fazer? - rosnou ele.
  • Está a procura de uma pessoa - disse eu. - Chegue isso para lá.
  • Não permitimos angariadores.
  • Você é surdo? Ando à procura de uma pessoa, não ando a angariar nada.

 

    • Passei por ele, a caminho do parque de estacionamento.
  • Recebemos uma queixa. O senhor tem de sair - disse ele, nas minhas costas.
  • Vou a sair.A solidão era uma forma de adaptação. A minha mulher e os meus amigos tinham ficado para trás. Sete anos passados no suadouro da Drake & Sweeney não tinham permitido fomentar amizades; nem sequer um casamento, por sinal. Com trinta e dois anos, eu estava mal preparado para a vida solitária. Enquanto observava o jogo e as mulheres, perguntei a mim próprio se teria de voltar ao ambiente dos bares e dos clubes noturnos para encontrar companhia. Havia com certeza outros locais e outros métodos.Dirigi-me lentamente para o centro da cidade, sem grande vontade de chegar a casa. O meu nome figurava num contrato de arrendamento, algures num computador, e pelos meus cálculos a polícia conseguiria dar com o meu sótão sem grande dificuldade. Se tencionavam prender-me, estava certo que isso aconteceria de noite. Eles gostariam de me assustar a meio da noite com uma pancada na porta, de me humilhar um pouco enquanto me revistavam e algemavam, de fechar a porta com estrondo, de descer o elevador agarrando-me por baixo dos braços e de me empurrar para o banco de trás de um carro-patrulha para me levarem para a cadeia municipal, onde seria o único jovem profissional liberal branco detido nessa noite. Não havia nada de que eles gostassem mais do que atirarem-me para uma cela de alta segurança com o habitual sortido de assassinos, e deixarem-me lá entregue à minha sorte. Trazia duas coisas comigo, independentemente daquilo que andasse a fazer. Uma era um telefone celular, para poder telefonar a Mordecai assim que fosse preso. A outra era um molho de notas - de notas de vinte dólares - para pagar a fiança e poder safar-me antes de transitar para a cela seguinte.A minha sala de estar estava agora mobiliada com duas cadeiras de jardim e uma caixa de plástico que fazia de mesa baixa ou de suporte para os pés. O televisor estava em cima de outra caixa igual. Diverti-me ao olhar para a escassez do mobiliário, e estava resolvido a guardar a minha casa só para mim. Ninguém havia de ver como eu vivia. A minha mãe telefonara. Ouvi a sua gravação. Ela e o meu pai estavam preocupados comigo, e queriam vir visitar-me. Tinham falado com o meu irmão Warner, e era provável que ele também viesse. Já estava a ouvi-los a analisar a minha nova vida. Alguém tinha de me chamar à razão.Desliguei a televisão e liguei o número de Claire. Não falávamos há quatro dias, e pensei que devia mostrar uma certa delicadeza e quebrar o gelo. Tecnicamente, ainda estávamos casados. Seria agradável jantarmos juntos daí a uma semana.

 

    • Após o terceiro toque, uma voz desconhecida disse com relutância:
    • O comício em memória de Lontae abriu o noticiário das onze horas. Viram-se close-rips das cinco urnas negras pousadas nos degraus do District Building e mais tarde, quando eram transportadas em ombros pela rua. Viu-se Mordecai a pregar às massas. A multidão parecia maior do que eu imaginara - estimava-se que tivessem acorrido cinco mil pessoas. O presidente da Câmara não tinha comentários a fazer.
    • Estacionei a dois quarteirões do meu prédio e observei todos os automóveis vazios, em busca de gente suspeita. Consegui chegar ao sótão intacto e livre.
    • Sentia-me abatido e abandonado.
    • O jantar foi um taco e uma cerveja num bar ali perto. Sentia-me mais seguro a comer nos subúrbios. O restaurante era um daqueles estabelecimentos estereotipados, e pertencia a uma cadeia nacional que estava a enriquecer com pontos de venda lustrosos situados nos novos bairros. A clientela era dominada por jovens trabalhadores do governo, ainda a tentarem arranjar casa, todos a falar de planos de ação e de política, enquanto bebiam cerveja e gritavam, entusiasmados com um jogo.
  • Está?Por instantes, fiquei demasiado surpreendido para responder. Eram onze e meia da noite de quinta-feira. Claire tinha um homem em casa. Eu saíra há menos de uma semana. la a desligar, mas contive-me e disse:

 

    • Era uma voz de homem.
  • A Claire, por favor.
  • Quem fala? - perguntou ele, num tom rude.
  • Michael, o marido.
  • Ela está na ducha - respondeu ele, com um toque de satisfação.
  • Diga-lhe que eu telefonei - disse eu, e desliguei o mais depressa possível.Continuei a dizer a mim próprio que isso não tinha importância. Não estávamos a divorciar-nos por infidelidades. Era demasiado tarde para me preocupar com quem ela andara a dormir.Ela podia ir para o inferno, que eu não queria saber disso para nada. Ela estava acabada, despedida, esquecida. Eu era livre de ir atrás das mulheres, e as mesmas regras se aplicavam a ela.Algumas horas depois, comprei uma caixa com uma dúzia de donuts num Krispy Kreme, dois cafés duplos e um jornal. Ruby estava fielmente à minha espera, à porta, a tremer de frio. Tinha os olhos mais vermelhos do que era habitual, e o sorriso não foi tão pronto.

 

    • O nosso sítio preferido era uma secretária na sala da frente, a que tinha menos processos esquecidos em cima. Libertei o tampo da secretária e servi o café e os donuts. Ela não gostava de chocolate, e preferiu os que tinham recheio de fruta.
    • Sim, muito bem. Às duas horas da madrugada, dei comigo em Dupont Circle, ignorando os convites dos homossexuais e tropeçando em homens com várias camadas de roupa e enrolados em mantas, que dormiam em bancos. Era perigoso, mas não me importava.
    • O casamento acabara, pura e simplesmente. Por qualquer motivo.
    • Percorri as três divisões, de um lado para o outro, até à meia-noite, depois vesti-me outra vez e fui dar um passeio ao frio. Quando um casamento se desmorona, ponderamos todos os cenários. Tratava-se apenas de ir cada um para seu lado, ou era muito mais complicado do que isso? Eu não entendera os sinais? Seria uma companhia ocasional de uma só noite, ou eles já se conheceriam há anos? Seria algum médico emproado, casado e com filhos, ou um estudante de Medicina jovem e viril, que lhe dava o que ela não recebera de mim?
  • Você lê o jornal? - perguntei, desdobrando-o.
  • Não.
  • Tem facilidade em ler?
  • Nem por isso.

 

    • Então eu li-o. Começamos pela primeira página, essencialmente porque tinha uma grande fotografia das cinco urnas aparentemente à deriva no mar de gente. A notícia ocupava a metade inferior da página, e eu li-a, palavra por palavra, a Ruby, que a ouviu com atenção. Ela já ouvira histórias acerca das mortes da família Burton; os pormenores fascinavam-na.
  • Eu podia morrer assim? - perguntou.
  • Não, a menos que o seu carro tenha motor e você ligue o aquecedor.
  • Quem me dera ter um aquecedor.
  • Você podia morrer de exposição.
  • O que é isso?
  • Podia morrer de frio.

 

    • Limpou a boca com um guardanapo e bebeu o café. A temperatura descera aos dez graus negativos na noite em que Ontário e a família tinham morrido. Como é que Ruby sobrevivera?
  • Para onde vai quando está muito frio? - perguntei-lhe.
  • Não vou para lado nenhum.
  • Fica no carro?
  • Fico.
  • Como é que consegue não gelar?
  • Tenho muitos cobertores. Meto-me debaixo deles.
  • Nunca vai para um abrigo?
  • Nunca.
  • Iria para um abrigo se isso a ajudasse a ver o Terrence?

 

    • Ela inclinou a cabeça para um lado e deitou-me um olhar estranho.
  • Diga lá isso outra vez - disse.
  • Quer voltar a ver o Terrence, não é verdade?
  • É verdade.
  • Para ficar limpa, terá de viver num centro de desintoxicação durante um tempo. Está disposta a isso?
  • Talvez. Talvez - disse ela.

 

    • Era um pequeno passo, mas não insignificante.
  • Posso ajudá-la a ver o Terrence outra vez, e você pode fazer parte da vida dele. Mas tem de ser limpa e de se manter limpa.
  • O que tenho de fazer? - perguntou, sem conseguir olhar para mim. Embalava a chávena e o vapor chegava-lhe à cara.
  • Hoje vai ao Naomi’s?
  • Vou.
  • Falei com a diretora. Têm duas reuniões hoje, a dos alcoólicos e a dos tóxico dependentes. Chamam-lhe AA/NA. Quero que vá às duas. A diretora vai-me telefonar.Um longo editorial atacava duramente o Congresso e a cidade pela sua incapacidade de subsidiar serviços destinados aos sem abrigo. Seguir-se-iam outras Lontae, avisava o artigo. Outras crianças morreriam nas nossas ruas, à sombra do Capitólio dos Estados Unidos. Li esta passagem a Ruby, que concordou com tudo.Conspiramos no sentido de empurrarmos Ruby para a sobriedade. Metade das mulheres que ali acorriam estavam mentalmente doentes, outra metade eram viciadas em qualquer coisa e um terço eram soro positivas. Ruby, tanto quanto Megan sabia, não tinha doenças infecciosas.Estava sentado à secretária, embrenhado no meu trabalho, quando Sofia bateu à porta, entrando antes de eu responder.

 

    • Quando saí, as mulheres estavam reunidas na sala principal, a cantar.
    • Começou a cair uma chuvinha gelada, e fui levar Ruby ao local onde passaria o dia. O Centro Feminino Naomi’s era um prédio de quatro andares em Tenth Street, em Northwest, inserido num quarteirão de características semelhantes. Abria às sete, fechava às quatro e todos os dias fornecia comida, duchas, roupas, atividades e aconselhamento a qualquer mulher sem abrigo que lá fosse parar. Ruby era uma visita regular e foi saudada com ternura pelas amigas, ao entrar. Falei em voz baixa com a diretora, uma jovem chamada Megan.
    • Ela fez um sinal afirmativo, como uma criança a quem tivessem ralhado. Não a pressionei mais, pelo menos naquele momento. Ela comeu os donuts, bebeu o café e ouviu com enlevo as sucessivas notícias que lhe li. Pouco se importava com as questões estrangeiras e os desportos, mas as notícias da cidade fascinavam-na. Votara uma vez, há muitos anos, e digeria facilmente os planos de ação da sua região. Compreendia as histórias de crimes.
  • O Mordecai diz que você anda à procura de alguém - disse ela. Trazia um bloco na mão, pronta a tomar apontamentos. Fiquei a pensar e depois lembrei-me de Hector.
  • Ah, sim, ando.
  • Eu posso ajudar. Conte-me tudo o que sabe acerca dessa pessoa.

 

    • Sofia sentou-se e começou a escrever enquanto eu lhe dava o nome, a morada, o último local de trabalho conhecido, a descrição física e lhe referia que ele tinha mulher e quatro filhos.
  • Idade?
  • Talvez trinta.
  • Salário aproximado?
  • Trinta e cinco mil.
  • Com quatro filhos, podemos assumir que pelo menos um está matriculado na escola. E com esse salário e a viver em Bethes da, duvido que tenham optado pelo ensino particular. É hispânico, portanto talvez seja católico. Mais alguma coisa?Uma hora depois, Sofia chegou à porta do meu gabinete e anunciou:

 

    • Não consegui lembrar-me de mais nada. Ela saiu e voltou para a secretária, onde abriu um livro de apontamentos que folheou. Mantive a porta aberta para poder ver e ouvir. O primeiro telefonema foi para alguém dos Correios. A conversa passou imediatamente a ser em espanhol, e eu perdi-me. Os telefonemas sucederam-se. Ela começava a falar em inglês, pedia o contacto e depois falava na sua língua materna. Telefonou para a diocese católica, o que despoletou outra série de chamadas rápidas. Desinteressei-me.
  • Mudaram-se para Chicago. Precisa da morada?
  • Como é que você?...

 

    • As minhas palavras perderam-se no caminho quando olhei para ela, incrédulo.
  • Não faça perguntas. Um amigo de um amigo que pertence à igreja deles. Mudaram-se no fim-de-semana, à pressa. Precisa da nova morada?
  • Quanto tempo leva a sabê-la?
  • Não vai ser fácil. Posso indicar-lhe o caminho certo.

 

    • Sofia tinha pelo menos seis clientes sentados ao pé da janela, à espera dos seus conselhos.
  • Agora, não. Talvez mais tarde. Obrigado.
  • Não tem de quê.A Drake & Sweeney tinha mais de cem advogados na sua filial de Chicago. Eu fora lá duas vezes, para tratar de casos de Direito da Concorrência. Os escritórios ficavam num arranha-céus junto do lago. O átrio do edifício tinha vários andares, com fontes e estabelecimentos a toda a volta e elevadores que subiam em ziguezague. Era o sítio perfeito para esconder e vigiar Hector Palma.Um polícia à paisana espera num automóvel não assinalado, e eles vêem-no.

 

    • Os sem abrigo estão perto das ruas, do pavimento, dos passeios e das goteiras, do betão, do lixo, das tampas dos esgotos, das bocas de incêndio, dos contentores do lixo, das paragens de autocarro e das montras dos estabelecimentos. Deslocam-se lentamente em terreno familiar, dia após dia, parando para falarem uns com os outros, porque o tempo tem pouco significado, parando para observar um carro atolado no trânsito, um novo traficante de droga a uma esquina, uma cara estranha no seu território. Sentam-se nos passeios, escondidos debaixo dos chapéus e dos bonés, atrás dos toldos das lojas e, como sentinelas, observam todos os movimentos. Ouvem os sons da rua, absorvem os odores dos fumos do gás óleo saídos dos autocarros da cidade e da gordura dos fritos dos jantares baratos. O mesmo táxi passa duas vezes numa hora, e eles sabem. Uma arma é disparada à distância, e eles sabem donde vem. Um belo automóvel com placas de matrícula de Virginia ou de Maryland está estacionado junto do passeio, e eles vigiam--no até ele partir.
    • Não tem de quê. Eu tencionava passar mais umas horas a bater às portas dos vizinhos, depois do anoitecer, ao frio, a esquivar-me aos seguranças e esperando que nenhum me desse um tiro. E ela, depois de passar uma hora ao telefone, encontrara a pessoa que eu procurava.
  • A polícia está lá fora - disse um dos nossos clientes a Sofia.

 

    • Sofia aproximou-se da porta da rua, olhou para sudeste, para Q, e avistou o que lhe pareceu ser um carro da polícia sem quaisquer sinais. Esperou meia hora e voltou a espreitar. Depois foi ter com Mordecai. Eu estava distraído porque lutava com a repartição das senhas de alimentação numa frente e com o gabinete do procurador-geral noutra. Numa tarde de sexta-feira, os burocratas da cidade, que se situavam abaixo do padrão de um bom dia de trabalho, tinham pressa de fechar. Davam as notícias em conjunto.
  • Parece-me que os polícias estão à espera - anunciou Mordecai solenemente.

 

    • A minha primeira reação foi enfiar-me debaixo da secretária, mas é claro que não o fiz. Tentei aparentar calma.
  • Onde? - perguntei, como se isso tivesse importância.
  • Na esquina. Estão a vigiar o prédio há mais de meia hora.
  • Talvez andem atrás de si - disse eu. Ah! Ah! Rostos imperturbáveis à minha volta.
  • Telefonei a informar-me - disse Sofia. - E eles têm um mandado de captura contra si. Por apropriação indevida. Um crime! Prisão! Um branco impecável atirado para o poço. Mudei de posição e tentei fazer o possível para não mostrar medo.
  • Isso não é de admirar - disse eu. Estava sempre a acontecer.
  • Vamos tratar disso.
  • Tenho de telefonar a um tipo do gabinete do Procurador-Geral
  • disse Mordecai. - Seria ótimo se eles permitissem que fosse você a apresentar-se.
  • Isso seria ótimo - disse eu, como se assunto não fosse importante. - Mas tenho passado a tarde a falar com o gabinete do Procurador-Geral. Ninguém tem estado à escuta.
  • Eles têm duzentos advogados - disse ele.Eles foram fazer os seus telefonemas e fiquei sentado à secretária, petrificado, sem conseguir mexer-me, pensar ou fazer qualquer outra coisa que não fosse aguardar o guinchar da porta principal. Não tive de esperar muito. æs quatro horas em ponto, o tenente Gasko entrou, seguido por dois dos seus homens.

 

    • No meu primeiro encontro com Gasko, quando ele vasculhava o apartamento de Claire, quando eu fanfarronava, tirava nomes e proferia ameaças de toda a espécie acerca de processos vis contra ele e os colegas, quando todas as palavras pronunciadas por mim deparavam com uma resposta cáustica, quando eu era um advogado difícil de acusar e ele era um pobre polícia, nunca me lembrei que, um dia, ele poderia vir a ter o prazer de me prender. Mas ali estava ele, impotente como um velho atleta, sorrindo-me e troçando de mim ao mesmo tempo, ainda com mais papéis na mão, dobrados e à espera de me serem atirados à cara.
    • Mordecai não fazia amigos daquele lado da rua. Os polícias e os delegados do Ministério Público eram os seus inimigos naturais. Traçamos um plano rápido. Sofia telefonaria a um fiador, que iria ter conosco à cadeia. Mordecai tentaria encontrar um juiz simpático. O que não foi dito era óbvio - era uma tarde de sexta-feira. Eu poderia não sobreviver na cadeia municipal.
  • Quero falar com Mr. Brock - disse ele a Sofia, no momento em que eu entrei na sala, a sorrir.
  • Olá, Gasko - disse eu. - Ainda anda à procura do tal processo?
  • Não. Hoje, não.Todos olhavam para todos.

 

    • Mordecai saiu do gabinete. Sofia estava de pé, junto da secretária.
  • Tem um mandado? - perguntou Mordecai.
  • Tenho. Aqui para Mr. Brock - respondeu Gasko.

 

    • Eu encolhi os ombros e disse:
  • Vamos embora.

 

    • Aproximei-me de Gasko. Um dos brutamontes tirou um par de algemas da cintura. Eu estava disposto pelo menos a mostrar-me frio.
  • Sou o advogado dele - disse Mordecai. - Deixe-me ver isso.

 

    • Mordecai tirou o mandado de captura das mãos de Gasko e examinou-o enquanto eu era algemado, com as mãos atrás das costas e os pulsos beliscados pelo aço frio. As algemas estavam muito apertadas, ou pelo menos estavam mais do que deviam estar, mas eu conseguia suportá-las e estava decidido a mostrar-me despreocupado.
  • Terei muito gosto em levar o meu cliente à esquadra - disse Mordecai.
  • Obrigado, mas eu poupo-lhe o incômodo - respondeu Gasko.
  • Para onde vai ele?
  • Para a Central.
  • Eu vou atrás de si - disse-me Mordecai. Sofia estava ao telefone, o que era ainda mais reconfortante do que saber que Mordecai estaria algures atrás de mim.Um dos brutamontes apertou-me o cotovelo e empurrou-me pela porta. Saí, ansioso por me enfiar no carro deles: um automóvel branco e sujo, sem qualquer distintivo, parado à esquina. Os sem abrigo viram tudo - o carro em posição, os polícias a entrar, os polícias a sair comigo algemado.Gasko sentou-se atrás comigo. Afundei-me no banco, sem ver nada, aparando o choque.

 

    • Prenderam um advogado ,, diriam eles uns aos outros daí a pouco, e a notícia correria pelas ruas.
    • Três dos nossos clientes assistiram a tudo; três homens da rua, inofensivos, entraram para trocar algumas palavras com Sofia. Estavam sentados onde os clientes esperavam sempre, e quando passei por eles, olharam, incrédulos.
  • Mas que perda de tempo - disse Gasko, quando se relaxou, pousando uma bota de cowboy em cima do joelho. - Temos cento e quarenta crimes por resolver nesta cidade, droga em todas as esquinas, traficantes a vender nos liceus, e estamos a perder tempo consigo.
  • Está a tentar interrogar-me, Gasko? - perguntei.
  • Não.
  • Ainda bem.O Brutamontes Número Um voava para sul na Fourteenth, sem luzes nem sirenes, e sem respeito pelos sinais de trânsito nem pelos peões.

 

    •             Ele nem se incomodara com o aviso acerca dos meus direitos e não tinha que o fazer até começar a fazer perguntas.
  • Então deixe-me ir embora - disse eu.
  • Se dependesse só de mim, deixava. Mas você irritou algumas pessoas. O promotor público diz que tem sido pressionado para o prender.
  • Pressionado por quem? - perguntei. Mas sabia a resposta.

 

    • A Drake & Sweeney não perderia tempo com os polícias; preferia falar em termos legais com o procurador-geral.
  • Pelas vítimas - respondeu Gasko, com um forte sarcasmo.Fora presa muita gente famosa. Tentei lembrar-me de alguns. Martin Luther King fora preso várias vezes. Havia Boesky e Milken e outros ladrões célebres, cujos nomes me escapavam. E todos aqueles atores e atletas de renome que tinham sido apanhados a conduzir embriagados, atrás de prostitutas e com cocaína em seu poder? Tinham sido atirados para os bancos traseiros dos carros da polícia e levados como se fossem criminosos de delito comum. Havia um juiz de Memphis que cumpria uma pena de prisão perpétua; um conhecimento dos meus tempos de faculdade em prisão domiciliária; um ex-cliente na penitenciária federal por fuga aos impostos. Todos tinham sido presos, levados para a cidade, registrados, com recolha de impressões digitais, e todos tinham uma fotografia com um pequeno número debaixo do queixo. E todos tinham sobrevivido.Havia uma nota de alívio pelo fato de isto estar finalmente a acontecer. Podia deixar de fugir, de me esconder e de ver se vinha alguém atrás de mim. A espera acabara. E não fora um ataque surpresa a meio da noite, e que decerto me deixaria na prisão até de manhã. Fora a uma hora conveniente. Com sorte, podia ser citado e posto em liberdade sob fiança antes do fim-de-semana.Os documentos podiam perder-se. Podiam criar-se atrasos de vária ordem. A fiança podia ser adiada até sábado, ou domingo, ou mesmo até segunda-feira. Podia ser colocado numa cela superlotada com gente hostil ou mesmo desagradável.Fechei os olhos e tentei sentir-me confortável, o que era impossível enquanto estivesse sentado em cima das mãos.Não foi necessário fazer telefonemas. O meu advogado estava perto, embora Gasko não o tivesse visto. As portas tornavam-se mais pesadas à medida que nos dirigíamos para a cadeia. íamos na direção errada; a rua ficava atrás de nós.

 

    • A citação foi um processo indistinto: movimentos surreais de um lado para o outro, com Gasko a manobrar-me como se eu fosse uma marionete perdida. Olhos no chão, dizia eu constantemente a mim próprio. Não olhes para essa gente. Primeiro o inventário, tudo fora das algibeiras, assinar um formulário. Ir à sala imunda das Fotografias, tirar os sapatos, encostar-me à fita métrica, não é obrigado a sorrir se não quiser, mas por favor olhe para a câmara. Depois, uma de perfil. Depois as Impressões Digitais, que estavam ocupadas. Gasko algemou-me então, como se eu fosse um doente mental, a uma cadeira do corredor, enquanto ir buscar café. Os detidos passavam, todos em várias fases do processo. Polícias por todo o lado. Um rosto branco, não de um polícia mas de um argüido como eu próprio -jovem, do sexo masculino, com um elegante casaco azul, visivelmente embriagado, com uma escoriação na face esquerda. Como é que uma pessoa consegue comparecer perante o juiz antes das cinco horas da manhã de uma sexta-feira? O homem falava alto, num tom ameaçador, com palavras entremeadas, duras, ignoradas por todos. Depois, desapareceu. O tempo passou e comecei a entrar em pânico. Lá fora estava escuro, o fim-de-semana começara, ocorreriam crimes, a cadeia ficaria mais agitada. Gasko voltou, levou-me às Impressões Digitais e ficou a observar enquanto a Poindexter aplicava a tinta com eficiência e me colava os dedos às folhas de papel.
    • Espalhar-se-ia a notícia de que eu fora preso. Os meus amigos abanariam a cabeça e perguntariam a si mesmos o que mais poderia eu fazer para estragar a minha vida. Os meus pais ficariam desolados. Não sabia ao certo o que sentiria Claire, sobretudo agora que o gigolô lhe estava a fazer companhia.
    • Mas havia também uma nota de horror, um medo que nunca sentira na minha vida. Muitas coisas podiam correr mal na cadeia municipal.
    • Desconfiava que até Mordecai Green tinha sentido o aperto frio das algemas.
    • Concordei com a sua avaliação; era difícil imaginar um grupo de advogados prósperos como vítimas de um crime.
  • Não posso pagar fiança? - perguntei finalmente. Vi as grades à minha frente; grades nas janelas e polícias agitados de armas na mão.
  • Acho que o seu advogado está a tratar disso - disse Gasko.Braços e mãos a saírem das grades, estendidos para o corredor estreito. Os homens observavam-nos ao passar. Eu olhava para os pés. Coffey espreitava para todas as celas; calculei que estivesse a contar os corpos. Paramos na terceira cela à direita.Graças a Deus, eles não tinham armas. Graças a Deus, alguém instalara o detector de metais. Eles não tinham pistolas nem facas; eu não tinha mais nada, a não ser a roupa. O meu relógio de pulso, a carteira, o telefone celular e o dinheiro - tudo o que trazia comigo - tinham sido levados e inventariados.Ouviu-se um apito estridente, abriu-se uma porta e Coffey voltou, de bastão em punho. A briga terminou abruptamente, com o bêbado caído de borco e imóvel. Coffey dirigiu-se à cela e perguntou o que acontecera. Ninguém sabia; ninguém vira nada.

 

    • A parte da frente da cela devia ser mais segura do que a parte de trás. Ignorei os olhares deles e ocupei o meu lugar no chão, encostado à porta. Ao fundo do corredor, alguém gritava por um guarda. Estalou uma briga duas celas mais à frente, e através das grades e dos beliches vi o branco embriagado e de casaco azul entalado a um canto por dois negros corpulentos que lhe batiam na cabeça. Outras vozes encorajavam-nos e a desordem começava a instalar-se em toda a ala. Não era um grande momento para um branco.
    • Os meus companheiros de cela eram negros, todos muito mais novos do que eu. A princípio contei quatro, e depois reparei num quinto deitado no beliche de cima. Havia duas camas para seis pessoas. A cela era um pequeno espaço quadrado, com três paredes constituídas só por grades. Via os prisioneiros da cela ao lado e do outro lado do corredor. A parede de trás era de blocos de escória e tinha uma pequena santa a um canto. Coffey fechou a porta atrás de mim. O tipo que se encontrava no beliche superior sentou-se de lado e começou a balouçar as pernas junto da cara de outro que estava sentado no beliche inferior. Todos me fitaram quando eu entrei, tentando mostrar-me calmo e sem medo e fazendo um esforço desesperado para encontrar um lugar no chão onde me pudesse sentar sem correr o perigo de tocar nalgum dos meus companheiros de cela.
    • Entregou-me ao sargento Coffey, que me empurrou para uma parede, afastou-me as pernas com um pontapé e revistou-me como se estivesse à procura de uma moeda. Como não descobriu nada, apontou para um detector de metais e disse qualquer coisa entredentes. Passei pela máquina, que não acusou a presença de nada. Um zumbido, uma porta a abrir-se, um corredor, com filas de grades dos dois lados. Uma porta fechou-se com estrondo atrás de mim, e sumiu-se a minha prece para que fosse libertado facilmente.
  • Calada! - ordenou ele, e depois foi-se embora.

 

    • Passaram-se alguns minutos. O bêbado começou a gemer; alguém vomitava à distância. Um dos meus companheiros de cela levantou-se e aproximou-se do sítio onde eu estava sentado. Os seus pés descalços tocaram-me na perna. Olhei para cima e depois para o lado. Ele olhou para baixo e eu percebi que aquilo era o fim.
  • Belo casaco - disse ele.
  • Obrigado - disse eu em voz baixa, tentando não parecer sarcástico ou provocador. O casaco era um blaizer azul, velho, que eu vestia todos os dias com jeans e calças de caqui, a minha roupa radical. Não merecia ser massacrada.
  • Belo casaco - disse ele outra vez, tocando-me ao de leve com o pé. O tipo que estava no beliche superior saltou para baixo e aproximou--se para ver melhor.
  • Obrigado - disse eu outra vez.Eu devia ser o tipo que mais lhe facilitava a exibição do seu poder.

 

    • Ele tinha dezoito ou dezenove anos, era alto e magro, não tinha um grama de gordura, e talvez fosse membro de um gmig e tivesse passado a vida na rua. Era arrogante e estava ansioso por impressionar os outros com as suas bravatas.
  • Eu não tenho um casaco tão bonito como esse - disse ele.Não devia ser um delinqüente da rua, pensei. Não podia roubar porque não tinha para onde fugir.

 

    • Deu-me um toque mais firme com o pé, destinado a provocar-me.
  • Quer que eu lho empreste? - perguntei, sem olhar para cima.
  • Não.

 

    • Encolhi as pernas de modo a ficar com os joelhos junto do queixo. Era uma posição defensiva. Se ele me desse um pontapé ou um encontrão, eu não ripostaria. Qualquer resistência envolveria imediatamente os outros quatro, e todos se deleitariam a tratar da saúde ao branco.
  • O cavalo diz que tu tens um belo casaco - disse o que estava no beliche superior.
  • E eu agradeci-lhe.
  • Ele diz que não tem um casaco tão bonito como esse.
  • E o que hei de fazer?
  • Um presente seria boa idéia.

 

    • Um terceiro avançou e fechou o semi-círculo à minha volta. O primeiro tocou-me no pé e todos se aproximaram ainda mais. Estavam prontos a saltar, uns à espera dos outros, por isso despi o casaco à pressa e atirei-o para a frente.
  • Isto é um presente? - perguntou o primeiro, pegando nele.
  • É aquilo que você quiser - respondi.

 

    • Olhava para o chão, evitando encará-los; por isso, não vi o pé dele. Foi um pontapé odioso, que me atingiu a têmpora esquerda e me empurrou a cabeça para trás, contra as grades.
  • Merda! - gritei, preparando-me para o ataque.
  • Isto é um presente?
  • É.
  • Obrigado, pá.
  • Não tem de quê - disse eu, esfregando a cara. Senti-me ator-doado.A minha cara latejava, mas não havia sangue. Se não voltasse a ser agredido por um dos meus companheiros, poderia dar-me por muito feliz. Um camarada ao fundo do corredor gritou que não conseguia dormir, e comecei a pensar no que a noite podia trazer. Seis ocupantes e duas camas muito estreitas. Teríamos de dormir no chão, sem cobertor nem almofada?

 

    • O chão estava a ficar frio, e quando me sentei olhei para os meus companheiros e especulei quanto aos crimes que teriam cometido. Eu, evidentemente, tirara um processo com toda a intenção de o devolver. No entanto, ali estava eu, um pobre homem, no meio de traficantes de droga, ladrões de automóveis, violadores e talvez até de assassinos. Não tinha fome, mas pensava na comida. Não tinha escova de dentes. Não precisava de ir à casa de banho, mas o que aconteceria quando precisasse? Onde estava a água para beber? As coisas básicas tornavam-se cruciais.
    • Eles afastaram-se, deixando-me enrolado como uma bola. Passaram-se alguns minutos, embora eu não imaginasse que horas eram. O branco embriagado fazia um esforço para recuperar os sentidos, e outra voz chamava por um guarda. O tipo que pegara no meu casaco não o vestiu. A cela engoliu-o.
  • Belos sapatos - disse alguém, sobressaltando-me. Olhei para cima e vi um deles ao pé de mim. Calçava umas peúgas brancas, sujas, mas não tinha sapatos, e os seus pés eram muito maiores do que os meus.
  • Obrigado - disse eu. Os sapatos em questão eram uns Nike velhos. Não eram sapatos de basquetebol, e não deveriam ter agradado ao meu companheiro de cela. Por uma vez, desejei estar com os meus sapatos de pala.
  • Qual é o tamanho? - perguntou ele.
  • Dez.

 

    • O tipo que me tirou o casaco aproximou-se; a mensagem fora enviada e recebida.
  • É o mesmo tamanho que eu calço - disse o primeiro.
  • Quem quer? - disse eu. Comecei imediatamente a desapertá-los. - Ofereço-vos os meus sapatos.E os meus jeans? E a minha roupa interior. Apeteceu-me perguntar.

 

    • Mordecai apareceu finalmente por volta das sete horas da tarde. Coffey foi buscar-me à cela, e quando nos encaminhávamos para a saída, perguntou:
    • Descalcei-os à pressa e o tipo pegou neles.    
  • Onde estão os seus sapatos?
  • Na cela. Tiraram-nos - respondi.
  • Eu vou buscá-los.
  • Obrigado. Eu também trazia um casaco azul.

 

    • Ele olhou para o lado esquerdo da minha cara, onde o canto do olho começava a inchar.
  • Sente-se bem?
  • Muito bem. Estou livre.Estritamente em termos físicos, eu estava a pagar o preço de ter passado da torre de marfim para a rua. As escoriações provocadas pelo acidente de automóvel já quase tinham desaparecido, mas as dores nos músculos e nas articulações prolongaram-se por várias semanas. Estava a perder peso, por dois motivos: não podia pagar os restaurantes que dantes freqüentava e perdera o interesse pela comida. Doíam-me as costas por dormir no chão, num saco-cama, uma prática que me resolvera a prolongar, para ver se conseguiria suportá-la. Tinha as minhas dúvidas.Mas senti-me feliz por estar vivo, por estar inteiro depois de ter descido aos infernos por algumas horas, antes de ser salvo. O medo do desconhecido desaparecera, pelo menos por agora. Não havia polícias à espreita na sombra.O máximo eram dez anos de prisão. Pensaria nisso mais tarde.Os meus amigos da Drake & Sweeney tinham planeado tudo bem.A história tinha quatro parágrafos, era breve e concisa, e estava quase toda cheia de informações cedidas ao repórter pela firma. Eu trabalhara lá sete anos, no departamento de Direito da Concorrência, cursara Direito em Yale, e não tinha antecedentes criminais. A firma era a quinta maior do país - oitocentos advogados, oito cidades, etc. Ninguém era citado, mas não era preciso. O único objetivo da história era humilhar-me, e nesse ponto era eficaz. ADVOGADO LOCAL PRESO POR GRANDE FURTO, lia-se no título próximo da minha cara. Objetos levados era a descrição do roubo.Objetos levados quando da minha saída recente da firma.A fotografia e a história tinham encontrado um repórter simpático, que estivera disposto a publicar os quatro parágrafos e a esperar que a minha prisão fosse confirmada. Sem qualquer esforço, imaginei Arthur, Rafter e a sua equipa passando horas a planear a minha detenção e o que se lhe seguiria; horas que seriam debitadas à RiverOaks, só porque por acaso era o cliente que se encontrava mais perto.Os paquistaneses não faziam donuts com recheio de frutas. Comprei biscoitos de aveia, meti-me no carro e fui para o escritório. Ruby estava a dormir na soleira da porta, e quando me aproximei perguntei a mim próprio há quanto tempo é que ela ali se encontraria. Estava coberta com duas ou três mantas velhas, e tinha a cabeça assente num grande saco de lona de ir às compras, onde guardava os seus pertences. Levantou-se de um salto quando eu tossi e fiz barulho.

 

    • Mas que golpe de relações públicas! Quatro parágrafos na edição de sábado.
    • Parecia uma pequena briga idiota - um grupo de advogados a sofismarem por causa de uns papéis. Quem se importaria, além de eu próprio e de quem me conhecesse? O embaraço desapareceria rapidamente; havia demasiadas histórias graves no mundo.
    • Na segunda página da Cidade, estava a minha cara, numa fotografia tirada há um ano para uma brochura editada pela firma. Só eles é que tinham o negativo.
    • Saí de casa antes do sol nascer, a um sábado, à pressa, para encontrar o jornal mais próximo. O meu novo café da zona era uma pequena padaria, aberta toda a noite, que pertencia a uma família turbulenta de paquistaneses em Kalorama, numa parte de Adams-Morgan em que, num pequeno quarteirão, tanto era possível encontrar gente segura como traiçoeira. Aproximei-me discretamente do balcão e pedi um copo de leite. Em seguida abri o jornal e descobri a pequena notícia que me tirara o sono.
    • Grande furto não era brincadeira, sobretudo porque eu era culpado.
    • E depois um vadio por pouco não me fraturara o crânio com o pé descalço. Pus gelo na equimose, e sempre que acordava durante a noite ela parecia estar a aumentar.
    • A minha fiança era de dez mil dólares. Mordecai estava à espera com o fiador. Paguei-lhe mil dólares em dinheiro e assinei a papelada. Coffey trouxe-me os sapatos e o casaco, e a minha prisão chegou ao fim. Sofia estava à espera lá fora, no carro dela, e levaram-me.
  • Porque está a dormir aqui? - perguntei.

 

    • Ela olhou para o saco de comida e respondeu:
  • Tenho de dormir em qualquer lado.
  • Julguei que dormia num automóvel.
  • E durmo. Quase sempre.Bebemos café e comemos biscoitos a acompanhar as notícias da manhã. Alternamos histórias - eu li-lhe uma que eu queria, e depois outra que lhe interessava. Ignorei a que falava de mim. Na tarde da véspera, Ruby saíra da reunião dos AA/NA realizada no Naomi’s. A sessão da manhã decorrera sem incidentes, mas ela descartara-se da segunda. Megan, a diretora, telefonara-me cerca de uma hora antes de Gasko aparecer.

 

    • Nada de produtivo resultaria de uma conversa com uma pessoa sem abrigo à qual perguntassem por que razão dormia aqui ou ali. Ruby tinha fome. Abri a porta, acendi as luzes e fui fazer café. De acordo com o nosso ritual, ela foi direita àquela que passara a ser a sua secretária e ficou à espera.
  • Como se sente esta manhã? - perguntei, quando acabei de ler o jornal.
  • Bem. E você?
  • Bem. Estou limpo. E você?

 

    • Ruby ficou desconcertada; desviou o olhar e fez uma pausa suficientemente longa para apurar a verdade.
  • Sim. Estou limpa - respondeu.
  • Não, não está. Não me minta, Ruby. Sou seu amigo e seu advogado, e vou ajudá-la a ver o Terrence. Mas não posso ajudá-la se você me mentir. Agora, olhe para mim e diga-me se está limpa. Ela conseguiu encolher-se ainda mais e, de olhos postos no chão, respondeu:
  • Não estou limpa.
  • Obrigado. Porque saiu da reunião dos AA/NA ontem à tarde?
  • Não saí.
  • A diretora disse-me que você saiu.
  • Julguei que já tinha acabado.

 

    • Eu não ia ser arrastado para uma discussão que não podia ganhar.
  • Hoje vai ao Naomi’s?
  • Vou.
  • Ainda bem. Eu levo-a, mas prometa-me que irá às duas reuniões.
  • Prometo.
  • Tem de ser a primeira a entrar nas reuniões, e a última a sair, está bem?
  • Está bem.
  • E a diretora estará a ver.A droga era crack, como eu desconfiava. Criava imediatamente dependência e era muito barata.

 

    • Quando íamos para o Naomi’s, Ruby perguntou de repente:
    • Ela fez um sinal afirmativo e tirou outro biscoito, o quarto. Falamos de Terrence, da recuperação e da desintoxicação, e voltei a pedir-lhe que compreendesse que a tóxico dependência não conduzia a nada. O simples fato de não se drogar durante vinte e quatro horas era um desafio que a perturbava.
  • Você foi preso, não foi?

 

    • Por pouco não passei com um sinal vermelho. Ela estava a dormir na soleira da porta ao nascer do sol; mal sabia ler. Como é que lera o jornal?
  • Sim, fui.
  • Já calculava.
  • Como é que soube?
  • Ouvem-se coisas na rua.

 

    • Ah, sim. Os jornais eram para esquecer. Os sem abrigo transportam as suas próprias notícias. Aquele jovem advogado do escritório do Mordecai foi preso. Os polícias levaram-no, como se fosse um de nós.
  • É um mal-entendido - expliquei, como se ela se importasse com tal coisa.Megan serviu o café na cozinha e acompanhou-me numa visita rápida ao local. Falávamos em voz baixa, porque as senhoras estavam a rezar não muito longe dali. Havia casas de banho e duchas no primeiro andar, ao pé da cozinha; e um pequeno jardim nas traseiras onde aquelas que sofriam de depressão iam muitas vezes para ficarem sozinhas. O segundo andar era ocupado por gabinetes, salas de consultas e uma sala retangular cheia de cadeiras onde decorriam as reuniões dos Alcoólicos Anônimos/Narcóticos Anônimos.

 

    • Quando subíamos as escadas estreitas, um coro alegre começou a cantar lá em baixo. O gabinete de Megan ficava no terceiro andar. Convidou-me a entrar e assim que me sentei atirou um exemplar do Post para o meu colo.
    • Tinham começado a cantar sem ela; ouvimo-las quando íamos a subir as escada do Naomi’s. Megan abriu a porta da frente e convidou-me a ficar para tomar café. Na sala principal do primeiro andar, naquilo que em tempos fora um belo salão, as senhoras do Naomi’s cantavam e partilhavam e escutavam os problemas umas das outras. Ficamos a observá-las durante alguns minutos. Eu, que era o único homem, sentia-me um intruso.
  • Uma noite difícil, hein? - disse ela, com um sorriso.

 

    • Olhei outra vez para a minha fotografia.
  • Não ficou muito mal.
  • O que é isso? - perguntou ela apontando para a minha têmpora.
  • O meu companheiro de cela queria os meus sapatos. E ficou com eles. Ela olhou para os meus Nike usados.
  • Esses?
  • Sim. Bonitos, não são?
  • Quanto tempo esteve na cadeia?
  • Duas horas. Depois fui libertado. Foi uma espécie de programa de recuperação. Agora sou outro homem.Estaria eu a ficar apanhado? Teria subido as escadas por outro motivo além da visita ao local? Como é que eu não reparara naquele sorriso e naqueles olhos na véspera?Fui obrigado a confessar que nunca pensara nos pobres até há duas semanas. Ela deixou-se cativar pela história do Senhor, e dos seus efeitos purificadores em mim.Os advogados dos pobres não são diferentes das outras pessoas. Podem descobrir romantismo em sítios estranhos, como um abrigo para mulheres sem teto.Tinha uma lista de quase trinta abrigos, cozinhas e centros onde os sem abrigo iam e vinham. E outra com os nomes das dezessete pessoas despejadas, incluindo DeVon Hardy e Lontae Burton. A minha paragem seguinte no sábado de manhã, depois do Naomi’s, foi a Mount Gilead Christian Church, perto da Universidade de Gallaudet.Eu já fizera o mesmo, conforme lhe expliquei, na cozinha de Dolly, durante o nevão. Ela era cortês, mas reservada. Enquanto cortava as cebolas e esfregava os olhos, descrevi-lhe o caso em que estava a trabalhar e dei-lhe os nomes das pessoas despejadas ao mesmo tempo de DeVon Hardy e Lontae Burton.

 

    • Segundo o meu mapa, era a cozinha mais próxima do cruzamento da New York com a Florida, onde em tempos se erguia o armazém. A diretora era uma jovem chamada Gloria, que, quando cheguei às nove horas, estava sozinha na cozinha, a cortar aipo e a lamentar-se pelo fato de ainda não terem chegado voluntários. Depois de me apresentar e de me ter dado ao trabalho de a convencer que as minhas credenciais estavam em ordem, apontou para uma tábua e pediu-me que cortasse as cebolas aos cubos. Como é que um advogado dos pobres de boa fé podia dizer que não?
    • Uma semana depois de atravessar as zonas mais difíceis de Columbia e de passar horas em abrigos, e de um modo geral misturado com os sem abrigo, já não sentia a necessidade de me esconder atrás de Mordecai quando me aventurava a sair. Ele era um escudo precioso, mas para sobreviver nas ruas eu tinha de saltar para a água e aprender a nadar.
    • Convidou-me a voltar para o almoço, para observar Ruby. Se estivesse sol, poderíamos comer no jardim.
    • Fizemos ambos um breve resumo das nossas vidas. O pai dela era sacerdote episcopal em Maryland e um fã dos Redskins que adorava Columbia. Na adolescência, Megan resolvera trabalhar com os pobres. Não havia apelo mais forte.
    • Ela voltou a sorrir, com um sorriso perfeito, e os nossos olhares demoraram-se por uns segundos, e eu pensei, Oh, céus! Ela não tem aliança no dedo. Era alta e um pouco magra de mais. Tinha o cabelo ruivo escuro, curto e elegante, por cima das orelhas como uma colegial. Os olhos eram castanhos claros, muito grandes, redondos e muito agradáveis de contemplar durante um ou dois segundos. Apercebi-me de que era muito atraente, e pareceu-me estranho não ter reparado nisso mais cedo.
  • Nós não resolvemos casos. Só lhes damos de comer. Não sei os nomes de muitos - disse ela.Os meus movimentos estavam planeados; tinha muitos sítios aonde ir, e pouco tempo. Falei com um médico na Capitol Clinic, uma clínica subsidiada por particulares e destinada aos sem abrigo. A clínica tinha um registro de todos os doentes. Era sábado, e na segunda-feira ele daria instruções à secretária para verificar os fichários do computador e compará-los com a minha lista. Se algum constasse do fichários, a secretária telefonar-me-ia.

 

    • Bebi chá com um sacerdote católico na Redeemer Mission, em Rhode Island. Examinou os nomes com muita atenção, mas nenhum lhe dizia nada.
    • Chegou uma voluntária com um saco de batatas. Preparei-me para sair. Gloria agradeceu-me e ficou com uma cópia dos nomes. Prometeu estar mais atenta.
  • Há tantos - disse.

 

    • O único susto da manhã ocorreu na Freedom Coalition, uma grande sala de reuniões construída por uma associação há muito esquecida e mais tarde convertida num centro comunitário. Ás onze horas, começara a formar-se uma fila para o almoço junto da entrada principal. Como eu não estava ali para comer, ignorei a fila e encaminhei-me diretamente para a porta. Alguns dos homens que estavam à espera da comida julgaram que estava a fazer batota e começaram a dirigir-me palavras obscenas. Estavam com fome e de repente enfureceram-se, e o fato de eu ser branco não ajudava. Como puderam confundir-me com um sem abrigo? A porta era controlada por um voluntário, que também julgou que eu estava a armar-me em esperto. Agarrou-me pelos braços com rudeza, outro ato de violência contra a minha pessoa.
  • Não estou aqui para comer! - exclamei, furioso. - Sou um advogado dos sem abrigo!Telefonei a Megan a dizer que não ia almoçar. Desculpei-me dizendo que me encontrava do outro lado da cidade, e que ainda tinha uma longa lista de pessoas para atender. A verdade é que não sabia se ela estava a namorar. Era bonita, inteligente e muito apetecível, e a última coisa de que eu precisava. Há dez anos que eu não namorava; já não sabia as regras.

 

    • Mas Megan tinha grandes novidades. Ruby não só sobrevivera à sessão da manhã dos AA/NA, como prometera manter-se limpa durante vinte e quatro horas. Fora uma cena comovente, que Megan observara do fundo da sala.
    • Estas palavras acalmaram os ânimos; de repente, passei a ser um irmão branco. O diretor era o reverendo Kip, um homem franzino e vivo, com uma boina vermelha e um cabeção preto. Não nos entendemos. Quando ele percebeu que a) eu era advogado; b) os meus clientes eram os Burton; c) eu estava a trabalhar no processo deles; e d) poderia haver uma indenização pelos danos sofridos, começou a pensar em dinheiro. Perdi meia hora com ele, e saí resolvido a mandar lá o Mordecai.
  • Ela não pode ficar na rua esta noite - disse Megan. - Em doze anos, não houve um dia em que não se drogasse. Os meus préstimos eram poucos, evidentemente. Megan tinha várias idéias.Paciência, dizia-me sempre Mordecai. Os advogados da rua têm de ter paciência.Ruby e eu saímos da cidade e tomamos a direção de Virginia. Num centro comercial suburbano, compramos uma escova de dentes, sabonete, shampoo e guloseimas suficientes para todo o Halloween. Afastamo-nos da cidade e, na pequena cidade de Gainesville, descobri um motel impecável, que anunciava quartos individuais a quarenta e dois dólares por noite. Paguei com cartão de crédito; decerto seria dedutível.Sábado à noite, dia um de Março. Jovem, livre, decerto não tão rico como era há pouco tempo, mas não totalmente falido. Um roupeiro cheio de belos fatos, que não estavam a ser usados. Uma cidade de um milhão de pessoas, com muitas jovens sedutoras atraídas pelo centro do poder político, e sempre prontas, dizia-se, para passar um bom momento.Telefonei para saber de Ruby. Ela só atendeu após o oitavo toque, e comecei a entrar em pânico. Estava a divertir-se imenso. Tomara uma ducha demorado, comera meio quilo de doces e vira televisão sem parar. Não saíra do quarto.Durante o meio tempo do jogo Duke-Carolina, o telefone celular, que estava em cima da caixa de plástico, mesmo ao lado da pizza, tocou e sobressaltou-me. Uma voz feminina muito agradável disse:

 

    • Estava a trinta quilômetros de distância, numa pequena cidade mesmo no limite do estado com a zona rural de Virginia, onde nem ela nem eu conhecíamos ninguém. Não tinha qualquer hipótese de encontrar drogas. Felicitei-me mais uma vez.
    • Bebi uma cerveja, comi uma pizza e vi o jogo de basquetebol universitário, sozinho no sótão, sem me sentir infeliz. Naquela noite, qualquer aparecimento em público teria terminado à pressa com a saudação cruel:   Ouça lá, você não é aquele tipo que foi preso? Vi-o no jornal desta manhã.
    • Deixei-a ali, com instruções rigorosas para ficar no quarto, com a porta fechada à chave, até que eu a fosse buscar, no domingo de manhã.
    • Ruby estava à minha espera à porta do Naomi’s, com um sorriso radioso e um abraço apertado. Assistira às duas sessões. Megan já preparara o terreno para as doze horas seguintes - Ruby não seria autorizada a ficar na rua. Ruby concordara.
    • A tarde foi tão infrutífera como a manhã, embora eu soubesse onde ficavam todos os abrigos de Columbia. E conheci gente, estabeleci contactos e troquei cartões com pessoas que talvez voltasse a ver. Kelvin Lam continuava a ser o único despejado que eu conseguira localizar. DeVon Hardy e Lontae Burton tinham morrido. Restavam catorze pessoas, que se tinham sumido nas fendas dos passeios. Os sem abrigo incontornáveis apareciam nos abrigos de vez em quando para comer, para ir buscar um par de sapatos ou um cobertor, mas não deixavam rasto. Não queriam ajuda. Não desejavam o contato com outros seres humanos. Custava a acreditar que os restantes catorze fossem todos assim. Há um mês, tinham um teto e pagavam renda.
  • Olá, prisioneiro.

 

    • Era Claire, sem subtilezas.
  • Olá - disse eu, cortado o som da televisão.
  • Estás bem?
  • Estou ótimo. E tu?
  • Estou bem. Vi a tua cara sorridente no jornal desta manhã, e fiquei preocupada contigo.

 

    • Claire só lia o jornal ao domingo, portanto, se lera a minha história, era porque alguém lhe chamara a atenção para ela. Talvez tivesse sido o mesmo médico de sangue quente que atendera o telefone da última vez que eu lhe falara. Estaria sozinha naquela noite de sábado, como eu?
  • Foi uma experiência - respondi, e depois contei-lhe toda a história, começando por Gasko e terminando com a minha libertação. Ela queria falar e, à medida que a conversa avançava, concluí que estava de fato sozinha, talvez aborrecida e eventualmente solitária. E talvez houvesse uma hipótese de estar mesmo preocupada comigo.
  • A acusação é grave? - perguntou.
  • Grande furto pode dar uma pena de dez anos - respondi com um tom solene. Agradava-me a perspectiva de ela estar apreensiva.
  • Mas não estou preocupado com isso.
  • É apenas um processo, não é verdade?
  • É, e não foi um roubo.

 

    • É claro que fora, mas eu ainda não estava preparado para admiti-lo.
  • Podes perder a carteira profissional?
  • Posso. Se provar que cometi um crime, perdê-la-ei automaticamente.
  • Isso é terrível, Mike. O que farias depois?
  • Ainda não pensei verdadeiramente nisso. Mas não vai acontecer.Agradeci-lhe o telefonema e prometemos mantermo-nos em contacto. Quando pousei o telefone ao lado da pizza, fiquei a olhar para o jogo emudecido e admiti, contrafeito, que sentia a falta dela.

 

    • Ruby tomara ducha, reluzia e vestia as roupas novas que Megan lhe dera na véspera. O quarto dela ficava no rés-do-chão e a porta dava para o parque de estacionamento. Estava à minha espera. Saiu e abraçou-me com força.
    • Estava a ser totalmente honesto. Não pensara a sério em perder a minha carteira profissional. Talvez fosse um assunto que exigisse ponderação, mas eu ainda não arranjara tempo para tal. Perguntamos delicadamente pela família um do outro, e não me esqueci de lhe perguntar pelo irmão, James, e pela sua doença de Hodgkin. O tratamento estava a decorrer e a família encontrava-se otimista.
  • Estou limpa! - exclamou, com um grande sorriso. - Há vinte e quatro horas que estou limpa! Abraçamo-nos outra vez.Regressamos à cidade e fomos ao Naomi’s, onde Megan e o seu pessoal aguardavam notícias. Gerou-se uma pequena festa quando Ruby fez o seu anúncio. Megan tinha-me dito que as primeiras vinte e quatro horas eram as que provocavam maiores aplausos.Eu podia assegurar a estratégia do motel durante alguns dias, estava disposto a pagar. Mas às quatro horas da tarde partiria para Chicago, para começar a procurar Hector, e não sabia ao certo quanto tempo estaria fora. Ruby gostara do motel, parecia mesmo tê-lo adorado. Resolvi fazer uma coisa de cada vez. Megan levaria Ruby para um motel da periferia, que eu pudesse pagar, e onde ela passaria a noite de domingo. Iria buscá-la na segunda-feira de manhã, e depois veríamos o que havíamos de fazer.

 

    • Megan também começaria a tentar convencer Ruby de que tinha de sair da rua. A sua primeira paragem seria num centro de desintoxicação, e depois num abrigo transitório para mulheres, durante seis meses, com uma vida organizada, formação profissional e reabilitação.
    • Era domingo, e um pastor local acabara de chegar para fazer um estudo da Bíblia. As mulheres reuniram-se na sala principal para cantar e rezar. Megan e eu bebemos café no jardim e analisamos as últimas vinte e quatro horas. Além da oração e do culto, Ruby teria mais duas sessões do AA/NA. Mas o nosso otimismo era reservado. Megan vivia no meio dos dependentes quer do álcool quer das drogas, e estava convencida que Ruby escorregaria de novo assim que voltasse para as ruas. Todos os dias convivia com casos semelhantes.
    • Um casal com sessenta e tal anos saiu do quarto duas portas mais abaixo e olhou para nós. Sabe Deus o que estariam a pensar.
  • Vinte e quatro horas é um grande passo - disse ela. - Mas ainda há uma montanha para subir.Os advogados da Drake & Sweeney viajavam sempre em primeira classe; sentiam que tal lhes era devido. Ficavam hospedados em hotéis de quatro estrelas, comiam em restaurantes caros, mas recusavam as limusines, que consideravam demasiado extravagantes. Alugavam Lincolns. Todas as despesas de viagem eram debitadas aos clientes, e como estes contavam com os melhores talentos em leis do mundo, não se podiam queixar dos privilégios de que eles usufruíam.Quando cheguei a O’Hare, apanhei um táxi para um hotel barato no centro da cidade.A filial de Chicago da Drake & Sweeney tinha cento e seis advogados, e era a terceira maior depois de Washington e de Nova Iorque. O departamento de Bens Imobiliários era desproporcionadamente grande, com dezoito advogados, mais do que no escritório de Washington. Concluí que fora esse o motivo pelo qual Hector fora enviado para Chicago - lá havia lugar para ele. Havia muito trabalho para fazer. Lembrei-me vagamente de ouvir dizer que a Drake & Sweeney comprara uma empresa imobiliária próspera, em Chicago, no início da minha carreira.Por volta das sete e meia, o rés-do-chão fervilhava de gente atarefada. æs oito horas, depois de três chávenas de café, estava excitadíssimo e à espera do homem a qualquer momento. As escadas rolantes transportavam centenas de executivos, advogados e secretárias, todos envolvidos em casacos fortes e aparentemente semelhantes. æs oito e vinte, Hector Palma, apressado, entrou no átrio, vindo do lado sul do edifício, com uma série de outras pessoas. Passou as mãos pelo cabelo desgrenhado pelo vento e dirigiu-se para as escadas rolantes.Era Hector, sem dúvida, e resolvi não forçar a sorte. Os meus cálculos estavam certos; fora transferido de Washington, de madrugada, e enviado para o escritório de Chicago, onde podia ser acompanhado, aliciado com mais dinheiro e, se necessário, ameaçado. Eu sabia onde ele estava, e que não sairia nas próximas oito ou dez horas. Do segundo piso do átrio, com uma vista soberba do lago, telefonei a Megan. Ruby sobrevivera à noite; tinham-se passado quarenta e oito horas. Telefonei a Mordecai a contar o meu achado. Segundo o manual da Drake & Sweeney do último ano, havia três sócios no departamento de Bens Imobiliários do escritório de Chicago. O diretório do edifício que estava no átrio indicava que todos eles trabalhavam no qüinquagésimo primeiro andar. Escolhi um ao acaso: Dick Heile.Quando me dirigia para a recepcionista, olhei à volta, à procura de casas de banho. Não vi nenhuma.

 

    • Ela estava a atender o telefone com auscultadores. Franzi o sobrolho e tentei mostrar-me o mais mal disposto possível.
    • Integrei-me na vaga das nove horas que ia para o qüinquagésimo primeiro andar e, quando saí do elevador, entrei num ambiente que me era familiar - mármore, latão, nogueira, luz indireta e belas carpetes.
    • Com a maior naturalidade possível, encaminhei-me para outra escada rolante e fui subindo os degraus. Vi-o de relance, quando virou uma esquina e ficou à espera do elevador.
    • Cheguei ao Associated Life Building pouco depois das sete horas da manhã de segunda-feira. O dia estava cinzento e melancólico, com um vento agreste que soprava do Lago Michigão. Era a terceira vez que ia a Chicago, e das duas outras vezes o tempo estava igualmente mau. Comprei café para beber e um jornal para me esconder, e consegui arranjar um lugar conveniente numa mesa a um canto do grande átrio do rés-do-chão. As escadas rolantes cruzavam-se até ao segundo e ao terceiro pisos, onde doze elevadores aguardavam.
    • Sofia não conseguira descobrir o novo endereço dos Palma. Se eu não encontrasse Hector no escritório da Drake & Sweeney, estaríamos com azar.
    • O meu lugar no vôo para Chicago foi em classe turística, reservado à última hora e, conseqüentemente, no temido banco do meio. O lugar da janela era ocupado por um senhor robusto, cujos joelhos eram do tamanho dos de um basquete, e na coxia ia um jovem malcheiroso de dezoito anos, de cabelo preto cortado como se fosse um verdadeiro Mohawk, e enfeitado com uma espantosa coleção de cabedal preto e peças cromadas pontiagudas. Encolhi-me, fechei os olhos durante duas horas e fiz o possível por não pensar nos indivíduos pomposos que viajavam em primeira classe, tal como eu no passado. A viagem violava frontalmente o meu acordo de fiança - não podia ausentar-me do distrito sem autorização do juiz. Mas Mordecai e eu reconhecemos que se tratava de uma violação menor, sem conseqüências desde que regressasse a Columbia.
    • Saí logo que pude. Ela convidou-me para almoçar. Podíamos comer no seu gabinete e debater assuntos importantes. Os seus olhos dançavam e convidavam-me a dizer que sim. Foi o que eu fiz.
  • Faz favor - disse ela, com um sorriso radioso, no intervalo dos telefonemas.

 

    • Cerrei os dentes, inspirei e disse:
  • Tenho uma reunião com Dick Heile às nove horas, mas não me sinto bem. Deve ter sido qualquer coisa que comi. Posso usar a casa de banho?

 

    • Agarrei-me ao estômago, dobrei os joelhos e devo tê-la convencido de que estava quase a vomitar para cima da secretária. O sorriso desvaneceu-se, e ela levantou-se e começou a apontar.
  • É ali ao fundo, à esquina, à direita.

 

    • Comecei a andar, dobrado pela cintura, como se pudesse rebentar a qualquer momento.
  • Obrigado - disse eu, a custo.
  • Posso arranjar-lhe alguma coisa? - perguntou ela.Ao ritmo a que o telefone dela tocava, estaria demasiado ocupada para se preocupar comigo. Eu estava vestido como um advogado de uma grande firma de advogados, portanto não levantava suspeitas. Dez minutos depois, saí da casa de banho e comecei a descer o corredor em sentido contrário ao posto da recepcionista. Na primeira secretária vazia que encontrei, peguei nuns papéis que estavam grafados e comecei a escrever e a andar ao mesmo tempo, como se tivesse um assunto importante a tratar. Olhava para todo o lado - para os nomes nas portas e nas secretárias, para as assistentes demasiado ocupadas para levantarem a cabeça, para os advogados grisalhos em mangas de camisa, para os jovens advogados ao telefone com as portas entreabertas, para as datilógrafas às voltas com os ditafones. Aquilo era-me tão familiar!Ele recuou na cadeira e levantou os braços com as palmas das mãos viradas para mim, como se estivesse sob a ameaça de uma arma.

 

    • Hector tinha o seu próprio gabinete, uma pequena sala sem nome à vista. Vi-o pela porta entreaberta, entrei imediatamente e fechei a porta atrás de mim.
    • Abanei a cabeça, demasiado assustado para dizer fosse o que fosse. Ao virar a esquina, enfiei-me na casa de banho dos homens, fechei-me numa cabina e fiquei à espera.
  • Com os diabos ! - exclamou.
  • Olá, Hector.Deixou cair as mãos em cima da secretária e sorriu.

 

    • Nada de armas, nada de assaltos, apenas uma má recordação.
  • Com os diabos! - exclamou outra vez.
  • Com que então em Chicago? - perguntei, sentando-me na beira da secretária.
  • O que está você aqui a fazer? - perguntou ele, incrédulo.
  • Podia fazer-lhe a mesma pergunta.
  • Estou a trabalhar - disse ele, coçando a cabeça. Cento e cinqüenta metros acima do nível da rua, enfiado numa salinha indescritível sem janelas, isolado por camadas de gente mais importante, Hector fora encontrado pela única pessoa de quem andava a fugir.
  • Como é que me descobriu? - perguntou.
  • Foi muito fácil, Hector. Agora sou um advogado da rua, inteligente e esperto. Se você voltar a fugir, eu volto a encontrá-lo.
  • Eu já não ando a fugir - disse ele, desviando o olhar.
  • Amanhã vamos apresentar o processo - disse eu. - Os acusados serão a RiverOaks, a TAG e a Drake & Sweeney. Você não terá onde esconder-se.
  • Quem são os queixosos?
  • Lontae Burton e a família. Mais tarde, acrescentaremos os outros despejados, quando os encontrarmos todos.

 

    • Hector fechou os olhos e apertou a cana do nariz.
  • Lembra-se da Lontae, não é verdade, Hector? Era a jovem mãe que lutou com os polícias quando vocês estavam a despejar toda a gente. Você assistiu a tudo e sentiu-se culpado porque sabia a verdade, sabia que ela pagava renda ao Gantry. Pôs tudo no seu memorando, aquele com data de vinte e sete de Janeiro, e tratou que fosse devida-mente registrado no processo. Fê-lo porque sabia que o Braden Chance o tiraria de lá em qualquer altura. E foi o que ele fez. E é por isso que eu estou aqui, Hector. Quero uma cópia do memorando. Tenho o resto do processo, que está prestes a ser revelado. Agora quero o memorando.
  • O que o leva a pensar que tenho uma cópia?
  • Porque você é demasiado esperto para não o ter fotocopiado.

 

    • Sabia que o Chance tirara o original para se proteger. Mas agora ele vai ser desmascarado. Não se afunde com ele.
  • Então para onde vou?
  • Para lado nenhum - respondi. - Você não tem para onde ir.

 

    • Ele sabia. Como sabia a verdade acerca do despejo, seria obrigado a depor em dado momento, e de qualquer maneira. O seu depoimento afundaria a Drake & Sweeney, e ele estaria acabado. Era uma seqüência de acontecimentos de que eu e Mordecai tínhamos falado. Tínhamos umas migalhas para oferecer.
  • Se você me der o memorando, eu não direi de onde é que ele veio - disse. - E não o citarei como testemunha, a menos que seja absolutamente obrigado a isso.

 

    • Ele abanou a cabeça.
  • Eu podia mentir, como sabe - disse ele.
  • É claro que podia. Mas não o fará porque será apanhado. É fácil provar que o seu memorando foi registrado no processo e depois tirado. Você não pode negar que o escreveu. Depois, temos o depoimento das pessoas que vocês despejaram. Darão grandes testemunhas diante de um júri totalmente constituído por negros. E á falamos com o guarda que esteve consigo em vinte e sete de Janeiro.

 

    • Acertamos em cheio, e Hector estava atado de pés e mãos. Na realidade, não tínhamos conseguido encontrar o guarda; o seu nome não constava do processo.
  • Nem pense em mentir. Isso só piorará as coisas - disse eu.

 

    • Hector era demasiado honesto para mentir. Afinal, fora ele que me passara a lista dos despejados e as chaves com que eu roubara o processo. Tinha alma e consciência, e não se podia sentir feliz escondido em Chicago, a fugir do seu passado.
  • O Chance contou-lhes a verdade? - perguntei.
  • Não sei - respondeu ele. - Duvido. Isso exigiria coragem e o Chance é um covarde... Eles vão despedir-me, sabe?
  • Talvez, mas você move-lhes um processo. Eu trato-lhe disso.

 

    • Processamo-los outra vez, e não lhe cobro um cêntimo. Alguém bateu à porta. Ficamos ambos assustados. A nossa conversa fizera-nos recuar no tempo.
  • Sim - disse ele.

 

    • Entrou uma secretária.
  • Mr. Peck está à espera - disse ela, mirando-me de alto a baixo.
  • Já lá vou - disse Hector, e a secretária saiu devagar, deixando a porta aberta.
  • Tenho de ir - disse Hector.
  • Não me vou embora sem uma cópia do memorando.
  • Vá ter comigo ao pé da fonte em frente do edifício, ao meio-dia.
  • Lá estarei.

 

    • Pisquei o olho à recepcionista ao passar pelo foyer.
  • Obrigado - disse. - Sinto-me muito melhor.
  • Não tem de quê - respondeu ela.

 

    • Da fonte, fomos para oeste, para Grand Avenue, e entramos numa charutaria judaica, cheia de gente. Enquanto esperávamos na fila para pedir uma sanduíche, Hector entregou-me o envelope.
  • Tenho quatro filhos. Por favor, proteja-me - disse ele.Esqueci o almoço. Percorri a pé os quatro quarteirões que me separavam do hotel, paguei a conta e atirei as minhas coisas para o interior de um táxi. Enterrado no banco de trás, com as portas trancadas, e o motorista meio adormecido, sem ninguém saber onde me encontrava, abri o envelope.Nesse dia, Hector dirigira-se ao armazém com um guarda armado, Jeff Mackle, da empresa de segurança Rock Creek, chegara às 9.15 da manhã e saíra às 12.30. O armazém tinha três pisos, e, depois de ver as pessoas que se encontravam no rés-do-chão, Hector fora ao segundo piso, onde não havia sinais de habitação. No terceiro piso, vira lixo, roupas velhas e o que restava de uma fogueira que alguém fizera há uns meses.A casa de banho estava muito gasta e suja. Não sofrera melhora-mentos recentes.Hector disse-lhe que juntasse as suas coisas e que se preparasse para sair dali. O edifício seria deitado abaixo daí a dez dias. Ela começou a ficar muito nervosa. Hector tentou provocá-la mais. Perguntou-lhe se tinha alguma prova de que pagava renda. Ela encontrou a carteira, debaixo da cama, e estendeu-lhe um pedaço de papel, um talão da caixa registradora de uma mercearia. No verso, alguém escrevinhara:O memorando tinha duas páginas. Mas havia uma terceira página anexa, uma cópia do recibo, que mal se lia. Hector tirara-o, fotocopiara-o e juntara o original ao memorando. A letra era apressada e imperfeita, a cópia pouco nítida, mas era excelente. Devo ter feito algum ruído revelador do meu êxtase porque o motorista desviou a cabeça e examinou-me através do retrovisor.O juiz aprovou com relutância o nosso contrato a vinte por cento E nós preparamo-nos para apresentar o processo.Foi um assunto de rotina resolvido em privado. O juiz era conhecido de Mordecai. A petição foi aprovada em poucos minutos, e nós ganhamos um novo cliente. Chamava-se Wilma Phelan e era uma assistente social das relações de Mordecai. O seu papel no litígio seria menor, e ser-lhe-ia paga uma importância muito reduzida se conseguíssemos recuperar alguma coisa.Dos vinte por cento de honorários, a clínica podia ficar com metade; os outros dez por cento iam para a fundação. Em catorze anos, Mordecai encarregara-se de dois casos segundo este sistema. Perdera o primeiro devido a um júri desfavorável. O segundo envolvia uma mulher sem abrigo que fora atropelada por um autocarro urbano. Ele pedira uma indenização de cem mil dólares, o que rendera à clínica um total de O jogo começava às sete e trinta e cinco - Georgetown-Syracuse. Mordecai conseguiu arranjar dois bilhetes. O meu avião chegou ao aeroporto às seis e vinte, e meia hora depois encontrei-me com Mordecai à entrada da US Air Arena em Landover. Estávamos acompanhados por quase vinte mil outros fãs. Mordecai deu-me um bilhete e depois tirou do bolso do sobretudo um envelope grosso, fechado, enviado para a clínica à minha atenção, por correio registrado. Era do tribunal.

 

    • A Fundação Cohen podia ser mal gerida do ponto de vista financeiro, mas tinha regras e regulamentos internos que abrangiam todos os aspectos de uma clínica legal sem fins lucrativos. Leonard Cohen fora um advogado obviamente atento aos pormenores. Embora fosse uma prática não estimulada e não encarada com bons olhos, a clínica podia encarregar-se de um caso de indenização ou de morte recebendo honorários na eventualidade de ganhar o processo. Mas estes não podiam ultrapassar vinte por cento da indenização recebida, em vez dos trinta por cento habituais. Alguns advogados cobravam habitual-mente quarenta por cento.
    • Como o pai de Lontae Burton nos era desconhecido, e talvez desconhecido do mundo, e como a mãe e os irmãos estavam na cadeia, tomamos a decisão táctica de ignorarmos a família e de usarmos um procurador como cliente. Na segunda-feira de manhã, enquanto eu estava em Chicago, Mordecai compareceu perante um juiz no Tribunal de Família de Columbia e pediu que fosse nomeado um procurador temporário para proteger os bens de Lontae Burton e dos seus filhos.
    • O memorando era uma descrição perfeita daquilo que Hector vira, dissera e ouvira. Não havia conclusões, nem advertências aos seus superiores. Vou dar-lhes corda suficiente para ver se eles se enforcam, devia ter dito com os seus botões. Era um simples solicitador, e não estava em posição de dar conselhos ou opiniões nem de fazer acordos. Em O’Hare, enviei-o por fax a Mordecai. Se o meu avião caísse, ou se fosse atacado por alguém que o roubasse, queria uma cópia dele bem guardada nos fichários da 14 “ Street Legal Clinic, dez mil, uma parte dos quais utilizara na aquisição de telefones t computadores novos.
    • Recebido de Lontae Burton,15 de Janeiro, cem dólares de renda .
    • Hector encontrou um homem que se identificou como Herman, e Herman não se mostrou interessado em falar. Hector perguntou qual a renda cobrada pelos apartamentos, e Herman respondeu que não era cobrada nenhuma; disse que estava a ocupar aquele sítio. O aparecimento de um guarda armado e fardado esfriou a conversa. No extremo leste do edifício, foram encontradas dez unidades com o mesmo traçado e a mesma construção. Um choro de criança levou Hector a aproximar-se de uma das portas. Hector pediu ao guarda que se escondesse na sombra. Uma jovem mãe respondeu ao seu toque; tinha um bebê ao colo e mais três crianças agarradas às pernas. Hector informou-a de que representava uma firma de advogados, que o edifício fora vendido e que ela teria de sair dali dentro de poucos dias. A princípio, ela disse que estava a ocupar o local, mas depressa passou ao ataque. Era o seu apartamento. Alugara-o a um homem chamado Johnny, que vinha receber cem dólares todos os meses, no dia quinze. Não havia nada escrito. Não sabia quem era o dono do edifício; Johnny era o seu único contacto. Estava ali há três meses e não podia sair porque não tinha para onde ir. Trabalhava vinte horas por semana numa mercearia.
    • No extremo oeste do rés-do-chão, encontrara onze apartamentos temporários, todos montados à pressa com contraplacado e Sheetrock, sem pintura, mas obviamente construídos pela mesma pessoa, mais ou menos ao mesmo tempo, com algum esforço. Todos os apartamentos eram sensivelmente do mesmo tamanho, vistos do exterior. Hector não conseguiu entrar em nenhum. Todas as portas eram iguais, feitas de um material leve e oco, material sintético, talvez plástico, com um puxador e um ferrolho.
    • O memorando estava redigido no formato típico da Drake & Sweeney, fora processado no computador pessoal de Hector, e tinha o código do cliente, o número do processo e a data impressos em letra pequena em baixo, à esquerda. Estava datado de 27 de Janeiro, fora enviado a Braden Chance por Hector Palma e dizia respeito ao despejo ordenado pela RiverOaks/TAG, num armazém em Florida Avenue.
    • Peguei no envelope e ia a dizer qualquer coisa quando ele recuou e se perdeu no meio da multidão. Vi-o abrir caminho até à porta e sair da charutaria, com a gola do sobretudo levantada, quase a correr para se afastar de mim.
  • Chegou hoje. Vou ter consigo aos nossos lugares - disse ele, sabendo exatamente o que estava lá dentro e desaparecendo numa multidão de estudantes.Era uma queixa formal apresentada no Tribunal da Relação, na qual eu era acusado de comportamento não ético. As alegações ocupavam três páginas, mas poderiam ter sido resumidas num parágrafo. Eu roubara um processo. Quebrara o sigilo. Era um malvado que poderia ser:1) excluído permanentemente do foro; 2) suspenso por muitos anos e/ou; 3) repreendido em público. E como o processo ainda não aparecera, o assunto era urgente, e por conseguinte a instrução e o processo deviam ser acelerados.Era evidente que tal não acontecera. Eles queriam sangue. Era típico de uma grande empresa, que trabalhava a sério, e com uma estratégia que não admitia tendências, e eu percebi perfeitamente. O que eles não sabiam era que, às nove horas da manhã seguinte, teria o prazer de os processar por dez milhões de dólares pelas mortes dos Burton.Também era assustador. Desde que entrara na faculdade de Direito, há dez anos, que não encarara a sério a hipótese de trabalhar noutro domínio. O que podia eu fazer se me fosse proibido o exercício da advocacia?Apesar de o jogo prometer ser tenso e empolgante, o basquetebol não era a nossa prioridade máxima. Jeff Mackle trabalhava a tempo parcial na Rock Creek Security e também fazia serviço no campo. Sofia tentara contatá-lo durante todo o dia. Calculamos que se encontrasse entre os cem guardas fardados que cercavam o edifício, a ver o jogo de graça e a mirar as colegiais.Com um dos meus cartões na mão, dirigi-me a ele e apresentei-me.

 

    • Não sabíamos se era velho ou novo, branco ou negro, gordo ou magro, mas os seguranças usavam umas pequenas placas do lado esquerdo do peito, por cima do bolso. Percorremos as coxias e as entradas até quase ao fim da primeira parte, até que Mordecai o descobriu a arrastar a asa a uma empregada da bilheteira junto da Porta D, um local que eu já inspecionara duas vezes. Mackle era alto, branco, sem barba e devia ter mais ou menos a minha idade. O pescoço e o bíceps eram enormes, o peito corpulento e protuberante. A equipa de advogados refletiu durante alguns minutos e concluiu que era preferível ser eu a abordá-lo.
    • Mas Sofia não tinha carteira profissional e era minha colega. Mordecai foi ter comigo à porta que dava acesso aos nossos lugares. Fiz-lhe um breve resumo da petição. Ele mostrou-se pesa-roso.
    • Pelos meus cálculos, eles não me podiam fazer mais nada. Não havia mais mandatos. Nem mais cartas registradas. Tudo estava em cima da mesa, todas as linhas estavam traçadas. De certo modo, era , um alívio estar na posse dos documentos.
    • Havia avisos, formulários e outros documentos em que mal reparei. Foi um choque, e encostei-me à parede para me recompor e pensar no que me esperava. É verdade que admitira a existência de um processo judicial. Seria irrealista pensar que a firma não faria todas as tentativas para recuperar o processo. Mas julguei que a prisão os tivesse acalmado por uns tempos.
    • Abri-o e descobri um sítio com luz suficiente para ler o que vinha lá dentro. Os meus amigos da Drake & Sweeney recorriam a todas as suas armas.
  • Mr. Mackle, sou Michael Brock, advogado.

 

    • Ele deitou-me um olhar consentâneo com o cumprimento e pegou no cartão sem fazer comentários. Interrompera-lhe o namoro com a empregada da bilheteira.
  • Posso fazer-lhe umas perguntas? - perguntei com o meu melhor tom de detetive de homicídios.
  • Você pode perguntar. Eu é que posso não responder - disse ele, piscando o olho à empregada da bilheteira.
  • Alguma vez trabalhou como segurança para a Drake & Sweeney, uma grande firma de advogados de Columbia?
  • Talvez.
  • Alguma vez colaborou com eles em ações de despejo?

 

    • Toquei num ponto sensível. O rosto do homem retesou-se instantaneamente e a conversa terminou.
  • Não creio - respondeu ele, desviando o olhar.
  • Tem a certeza?
  • Não. A resposta é não.
  • Não ajudou a firma a despejar um armazém cheio de ocupantes em quatro de fevereiro?De qualquer modo, Mackle ficou impassível. A empregada da bilheteira estava preocupada com as unhas. Eu fora excluído.

 

    • Ele abanou a cabeça, de queixo firme e olhos semicerrados. Alguém da Drake & Sweeney fora visitar Mr. Mackle. Ou então, a firma ameaçara o seu patrão, o que era mais provável.
  • Mais tarde ou mais cedo terá de responder às minhas perguntas - disse eu.Assisti a dez minutos da segunda parte e depois fui-me embora. com espasmos nas costas, seqüelas do acidente de automóvel.Na terça-feira, às sete e meia da manhã, bati à porta do quarto dela, no segundo andar. Era o quarto 220, segundo as instruções de Megan. Ninguém respondeu. Bati outra vez e rodei o puxador. A porta estava fechada à chave. Corri para o átrio e pedi à recepcionista que telefonasse para o quarto. Mais uma vez, ninguém respondeu. Ninguém tinha feito o check out. Ninguém dera por nada de anormal. Mandei chamar a assistente da gerência e convenci-a que se tratava de uma emergência. Ela chamou um segurança e dirigimo-nos os três para o quarto. No caminho, expliquei o que estávamos a fazer com Ruby, e por que motivo é que o quarto não estava em nome dela. A assistente da gerência não gostou da idéia de nos servirmos do seu belo motel para desintoxicar drogados.            Agradeci-lhes e fui-me embora. O hotel ficava pelo menos a quinze quilômetros do nosso escritório. Telefonei a Megan para a alertar e depois dirigi-me para a cidade, na companhia de um milhão de pessoas. æs oito e um quarto, no meio do trânsito, telefonei para o escritório e perguntei a Sofia se vira Ruby. Ela disse-me que não.A negligência e/ou os atos intencionais dos acusados tinham provocado as mortes, que eram previsíveis. Desgraças que aconteciam a quem vivia na rua, sobretudo às mães solteiras com filhos pequenos. Quem os expulsasse ilegalmente das suas casas pagaria o preço se fossem molestados.A Drake & Sweeney solicitaria imediatamente ao juiz que me pedisse para entregar o processo. O juiz poderia muito bem obrigar-me a fazê-lo, o que seria uma admissão de culpa. Por outro lado, isso poderia custar-me a licença para exercer advocacia. Além disso, seria excluído qualquer elemento de prova que constasse do processo.Assinamos os autos e fomos para o tribunal. Mordecai ia ao volante, enquanto eu voltava a ler o processo, cujas páginas se tornavam mais pesadas à medida que avançávamos.A Drake & Sweeney agira mal, embora eu desconfiasse que os responsáveis pela firma ignoravam a extensão desse mal. Imaginava Braden Chance escondido do outro lado da porta fechada do seu gabinete, a rezar fervorosamente para que aquele momento passasse.Tim Claussen, um colega de faculdade de Abraham, era repórter do Post. Estava à espera à porta do gabinete do funcionário do tribunal, e entregamos-lhe uma cópia do processo. Leu-o enquanto Mordecai entregava formalmente o original, e fez-nos perguntas, às quais respondemos com todo o prazer, mas sem o autorizar a divulgá-las.A idéia de colar tudo a um grupo de advogados brancos e ricos dava uma notícia espantosa. Claussen, um homem calejado, causticado e cansado de anos e anos de jornalismo, não conseguia reprimir o seu entusiasmo.Eu conhecia a mentalidade, sabia como o jogo estava a ser disputado.Consulta no CCNV, sozinho, e com duas horas de atraso. Os clientes aguardavam pacientemente, sentados no chão sujo da entrada, uns a cabecear, outros a ler o jornal. Ernie, que tinha as chaves, não estava satisfeito com o meu atraso; também tinha os seus compromissos. Abriu o gabinete das consultas e entregou-me uma folha com os nomes de treze potenciais clientes. Chamei o primeiro.Entrara no edifício há poucos minutos, sem receio de ser alvejado. Esperara por Ernie no átrio sem me lembrar que era branco. Ouvia os meus clientes com paciência, mas com eficiência, porque sabia o que tinha a fazer. Até me parecia com eles; não fazia a barba há mais de uma semana; o cabelo começava a tapar-me as orelhas e a dar os primeiros sinais de desleixo; as minhas calças de caqui estavam amarrotadas; a minha gravata estava solta. Os Nike continuavam à moda mas estavam já muito gastos. Um par de óculos com armações de osso, e seria o censor oficioso perfeito.Mas não me podia esquecer de Ruby Simon. Não sei como, conseguia associar a ela todos os meus novos clientes. Não estava preocupado com a sua segurança; sobrevivera nas ruas muito mais tempo do que eu teria conseguido sobreviver. Mas por que razão saíra ela do quarto asseado de um motel, com televisão e duche, e atravessara a cidade para ir ao encontro do seu automóvel abandonado?O crack era um ímã, que a obrigava a voltar às ruas.Não me competia tomar a decisão.O Danny O’s estava bem para mim. Estava na moda, era espalhafatoso, caríssimo e tristemente típico.Encontramo-nos no bar apinhado do Danny O’s. Antes de apertarmos a mão ou de nos abraçarmos, Warner recuou para inspecionar a minha nova imagem. Barba, cabelo, calças, tudo.

 

    • Fiquei a olhar para o telefone, muito depois de a conversa ter ter-minado. Não me apetecia ver Warner, porque não queria ouvi-lo. Estava na cidade em serviço, embora isso acontecesse uma vez por ano. Tinha a certeza de que os meus pais é que o tinham mandado. Estavam a lamentar-se em Memphis, desolados com mais um divórcio, tristes com a minha súbita queda da escada. Alguém tinha de me vigiar. Era sempre o Warner.
    • A rotina do fim da tarde foi abalada por um telefonema de Warner, o meu irmão mais velho. Estava na cidade, em serviço, inesperadamente, e poderia ter falado mais cedo se tivesse conseguido descobrir o meu novo número do telefone. Onde poderíamos encontrar-nos para jantar? Ele é que pagava, conforme me disse antes que eu pudesse responder, e ouvira falar num sítio ótimo chamado Danny O’s, onde um amigo comera há uma semana - uma comida fantástica! Há muito tempo que eu não pensava numa refeição cara.
    • Se não conseguira que ela passasse três noites fechada num motel suburbano, como poderia ajudá-la a desintoxicar-se?
    • Era uma tóxico dependente, e esta era a resposta simples e inevitável.
    • Não que os clientes se importassem. Queriam alguém que os ouvisse, e essa era a minha função. A lista aumentou para dezessete, e passei quatro horas a dar conselhos. Esqueci-me da batalha iminente com a Drake & Sweeney. Esqueci-me de Claire, embora, infelizmente, considerasse que isso era mais fácil. Até me esqueci de Hector Palma e da minha ida a Chicago.
    • Estava admirado com os meus progressos no espaço de uma semana.
    • Não tive problemas em ajudar o repórter.
    • A emboscada armada pela imprensa à Drake & Sweeney não me incomodava nada. A firma ditara as regras na semana anterior, quando informara um repórter que eu fora preso. Imaginava Rafter e o seu pequeno grupo de litigantes a reconhecerem alegremente, sentados a uma mesa de reuniões, que - sim! - fazia todo o sentido alertar a comunicação social para a minha detenção; além de lhe facultarem uma bela fotografia do criminoso. Isso deixar-me-ia envergonhado, humilhado, arrependido e obrigar-me-ia a vomitar o processo e a fazer o que eles queriam.
    • A tragédia dos Burton estava a tornar-se rapidamente uma batata quente em termos políticos e sociais no distrito. A responsabilidade passava de uns para os outros a uma velocidade estonteante. Todos os chefes de departamento da cidade se acusavam uns aos outros. O conselho municipal acusava o presidente da Câmara, que por sua vez acusava o conselho municipal e também o Congresso. Alguns congressistas da ala direita tinham ponderado longamente antes de acusarem o presidente da Câmara, o conselho municipal e toda a cidade.
    • Mas também eu agira mal. Talvez nos pudéssemos encontrar algures a meio do caminho e fizéssemos um acordo. Se assim não fosse, Mordecai Green teria o prazer de apresentar o caso Burton a um júri simpático dentro de pouco tempo, e de lhes exigir bom dinheiro. E a firma teria o prazer de estender o meu caso de grande furto até ao limite; até um ponto em que nem sequer queria pensar. O caso Burton nunca iria a julgamento. Eu continuava a pensar como um advogado da Drake & Sweeney. A idéia de enfrentarem um júri local aterrava-os. O embaraço inicial levá-los-ia a tentar reduzir os prejuízos por todos os meios.
    • A solução estava na negociação. A exposição humilharia a Drake & Sweeney, uma firma com um orgulho e um ego enormes, e construída na base da credibilidade, do serviço aos clientes e da confiança. Eu conhecia a atitude mental, a personalidade e o culto dos grandes advogados que não cometiam ilegalidades. Conhecia a paranóia de ser apanhado em falta, de qualquer maneira. Havia o remorso pelo fato de fazerem tanto dinheiro e o desejo correspondente de se mostrarem compadecidos para com os menos afortunados.
    • Na terça-feira, Mordecai reviu comigo o rascunho final e voltou a perguntar-me se queria avançar com o processo. Para me proteger, estava disposto a deixar cair totalmente o assunto. Tínhamos falado disso várias vezes. Tínhamos até uma estratégia mediante a qual desisti-ríamos do processo Burton, negociaríamos umas tréguas com a Drake & Sweeny para limpar o meu nome, esperaríamos um ano que os ânimos arrefecessem e depois passaríamos o caso sub-repticiamente a uma colega do outro lado da cidade. Era uma má estratégia, que abandonamos pouco depois de termos pensado nela.
    • Tínhamos discutido por alto a hipótese de mover um outro processo pela morte do Senhor. Também ele fora despejado ilegalmente, mas a sua morte não podia ser considerada previsível. Fazer reféns e ser alvejado durante o processo não era uma sucessão razoável de acontecimentos para alguém cujos direitos tinham sido atropelados. Além disso, o caso dele teria pouco impacto num júri. Deixamos o Senhor em paz, para sempre.
    • O processo era curto e conciso. Wilma Phelan, a procuradora dos bens de Lontae Burton e dos filhos, processava a RiverOaks, a Drake & Sweeney e a TAG, Inc. por conspirarem com o objetivo de procederem a um despejo ilegal. A lógica era simples; a ligação causal era óbvia. Os nossos clientes não estariam a viver num automóvel se não tivessem sido expulsos do seu apartamento. E não teriam morrido se não vivessem no automóvel. Era uma ótima teoria de responsabilidades, ainda mais atraente devido à sua simplicidade. Qualquer júri do país seria capaz de seguir o raciocínio.
    • O quarto estava vazio. A cama estava impecável, sem sinais de ter sido utilizada durante a noite. Não havia um único objeto fora do seu lugar e Ruby não deixara lá nada que lhe pertencesse.
    • O motel era mais uma das unidades hoteleiras recentes existentes na orla setentrional de ßethesda. A diária também era de quarenta dólares e, ao fim de três noites, eu não podia continuar a garantir a terapia de Ruby. Na opinião de Megan, chegara o momento de ela regressar. Se estivesse disposta a manter-se sóbria, o verdadeiro teste seria feito nas ruas.
    • Os músculos da face de Mackle crisparam-se, mas não respondeu. Eu não estava disposto a insistir mais. Ele era talhado em bruto, do tipo que seria capaz de dar uma tareia a um pobre advogado da rua e deixá-lo estendido. Eu já me tinha magoado o suficiente nos últimos quinze dias.
  • Um verdadeiro radical - disse, com um misto de humor e de sarcasmo.
  • É bom ver-te - repliquei, tentando ignorar a sua teatralidade.
  • Pareces magro - retorquiu ele.
  • Tu, não.

 

    • Warner deu uma palmada na barriga, como se tivesse ganho alguns quilos extra durante o dia.
  • Vou perdê-los.

 

    • Tinha trinta e oito anos, era bem parecido e continuava a preocupar-se muito com a aparência. O simples fato de eu ter comentado o seu excesso de peso levá-lo-ia a perdê-lo no espaço de um mês. Warner estava sozinho há três anos. As mulheres eram muito importantes para ele. Houvera alegações de adultério durante o seu divórcio, mas dos dois lados.
  • Estás com um ótimo aspecto - disse eu.

 

    • E estava. Fato e camisa feitos à medida. Gravata cara. Eu tinha um roupeiro cheio deles.
  • E tu também. É assim que vais vestido para o emprego, agora?
  • Quase sempre. æs vezes, livro-me da gravata.

 

    • Pedimos Heinekens e bebemo-las no meio da multidão.
  • Como está a Claire? - perguntou ele. Os preliminares estavam fora de questão.
  • Suponho que esteja bem. Pedimos o divórcio, de comum acordo.

 

    • Saí de casa.
  • Ela é feliz?
  • Creio que se sente aliviada por se ter livrado de mim. Eu diria que a Claire é hoje mais feliz do que há um mês.
  • Encontrou outra pessoa?
  • Não me parece - respondi. Tinha de ser cauteloso porque a maior parte da conversa, se não toda, seria repetida aos meus pais, sobretudo qualquer motivo escandaloso para o divórcio. Eles gostariam de acusar Claire, e se soubessem que ela tinha sido apanhada na cama com alguém, então o divórcio pareceria lógico.
  • E tu?
  • Não. Nem despi as calças.
  • Então, porquê o divórcio?
  • Por muitas razões. Prefiro não as relembrar.

 

    • Não era o que ele queria. O seu fora desagradável, com ambas as partes a lutarem pela custódia dos miúdos. Partilhara comigo os pormenores, e muitas vezes chegara a ser cansativo. Agora, queria que eu lhe pagasse na mesma moeda.
  • Vocês acordaram um dia e resolveram divorciar-se?
  • Tu passaste por isto, Warner. Não é assim tão simples.Fora enviada uma cópia do processo a Arthur Jacobs, o presidente da comissão executiva, às onze horas da manhã, enquanto eu estava na CCNV. Umstead não era sócio, e por isso perguntei a mim próprio o que saberia ele do processo.Felizmente, a nossa mesa não se via do sítio onde Umstead se encontrava. Olhei à volta para me certificar de que não havia outros tipos perigosos no restaurante. Warner pediu martinis para os dois, mas apressei-me a recusar. Só queria água.Como era sócio numa grande empresa de Atlanta, ganhava muito dinheiro. E gastava muito. O jantar foi acerca do dinheiro.

 

    • Com o Warner, tudo decorria a todo o gás. O trabalho, o divertimento, a comida, a bebida, as mulheres e até os livros e os velhos filmes. Warner ia morrendo gelado durante uma tempestade de neve numa montanha do Peru, e fora mordido por uma cobra mortífera quando fazia mergulho na Austrália. O seu acordo pós-divórcio fora invulgar-mente fácil, sobretudo porque Warner adorava viajar, descer as montanhas suspenso e escalá-las, lutar com tubarões e perseguir mulheres a uma escala global.
    • Era evidente que sabia. Nas reuniões à pressa, ao longo da tarde, a notícia caíra como uma bomba. A defesa tinha de ser preparada; as ordens de marcha dadas; as carruagens cercadas. Nem uma palavra a ninguém que não pertencesse à frma. Aparentemente o processo seria ignorado.
    • O chefe de mesa levou-nos para o fundo do restaurante. Passamos por uma mesa onde Wayne Umstead estava sentado com dois homens que não reconheci. Umstead fora um dos reféns, aquele que o Senhor mandara à porta para receber a comida, aquele que escapara por pouco à bala do atirador especial. Não me viu.
  • Água? - perguntou ele, enjoado. - Vá lá. Bebe qualquer coisa.
  • Não - protestei.

 

    • Warner passaria dos martinis para o vinho. Sairíamos tarde do restaurante e ele levantar-se-ia às quatro horas da manhã, divertido com a bebedeira, afastando a ligeira ressaca, como se fosse apenas mais uma fase do dia.
  • Maricas - disse ele entredentes. Folheei a ementa. Ele examinou as mulheres.

 

    • Quando a bebida dele chegou, encomendamos os pratos.
  • Fala-me do teu trabalho - disse ele, tentando desesperadamente dar a impressão de que estava interessado.
  • Porquê?
  • Porque deve ser fascinante.
  • Porque dizes isso?
  • Fugiste de uma fortuna. Deve haver uma razão muito forte.
  • Há várias razões, e todas elas são fortes para mim.

 

    • Warner tinha planeado a reunião. Havia uma meta, um objetivo, um destino e um esboço do que ele diria para que estivesse ali. Eu não sabia ao certo onde é que ele queria chegar.
  • Fui preso a semana passada - disse eu, distraindo-o. O choque foi suficientemente forte para eu conseguir o que queria.
  • O quê?

 

    • Contei-lhe a história, detendo-me em todos os pormenores, porque era eu que estava a controlar a conversa. Criticou o meu roubo, mas não tentei defender-me. O processo propriamente dito era outro assunto complicado, que nenhum de nós quis explorar.
  • Então a ponte com a Drake & Sweeney está destruída?-perguntou ele enquanto comíamos.
  • Para sempre.
  • Quanto tempo tencionas manter-te como censor oficioso?
  • Ainda agora comecei. Ainda não tinha pensado no fim. Porquê?
  • Durante quanto tempo podes trabalhar em troca de nada?
  • Enquanto conseguir sobreviver.
  • Então a sobrevivência é o teu padrão?
  • Por agora. Qual é o teu?

 

    • Era uma pergunta ridícula.
  • O dinheiro. Quanto é que posso ganhar; quanto é que posso gastar; quando é que posso aplicar em qualquer coisa e vê-lo crescer para um dia ter um mealheiro cheio e não ter de me preocupar com coisa nenhuma.Ele atrevera-se a ser crítico e eu não queria brigar. Era uma briga sem vencedores; tratava-se apenas de uma tentativa suja para tirar nabos da púcara.

 

    • Eu já tinha ouvido esta conversa. A ambição descarada era merecedora de admiração. Tratava-se de uma versão um pouco mais crua do que aquela que nos tinham ensinado em crianças. Trabalhar muito e ganhar muito, e de certo modo toda a sociedade beneficiaria com isso.
  • Quanto é que tens? - perguntei. Warner, que era um ganancioso, orgulhava-se da sua riqueza.
  • Quando fizer quarenta anos, terei um milhão de dólares investido em fundos de pensão. Quando tiver quarenta e cinco anos, terei três milhões. Quanto tiver cinqüenta anos, terei dez. E é então que me retiro de cena.

 

    • Eu sabia estes números de cor. As grandes firmas de advogados eram as mesmas em toda a parte.
  • E tu? - perguntou ele, enquanto cortava o frango.
  • Bem, vejamos. Tenho trinta e dois anos e cinco mil dólares, é pegar ou largar. Quanto tiver trinta e cinco, se trabalhar muito e poupar dinheiro, terei cerca de dez mil. Quando fizer cinqüenta, devo ter cerca de vinte mil enterrados em fundos de pensão.
  • Vale a pena esperar. Dezoito anos de pobreza.
  • Tu não sabes nada acerca da pobreza.
  • Talvez saiba. Para pessoas como nós, a pobreza é um apartamento barato, um carro usado com amolga delas, roupa má, falta de dinheiro para viajar, gozar e ver o mundo, falta de dinheiro para poupar ou investir, não ter reforma, não ter uma rede de segurança, nada.
  • Perfeito. Acabas de provar o meu ponto de vista. Não sabes absolutamente nada acerca da pobreza. Quanto vais receber este ano?
  • Novecentos mil.
  • Eu vou receber trinta mil. O que farias se fosses obrigado a trabalhar por trinta mil dólares?
  • Suicidava-me.
  • Acredito. Acredito sinceramente que pegasses numa arma e estourasses os miolos só para não trabalhares por trinta mil dólares.
  • Estás enganado. Tomaria comprimidos.
  • Cobarde.
  • Não conseguiria trabalhar por tão pouco.
  • Oh, conseguirias trabalhar por tão pouco, mas não conseguirias viver com tão pouco.
  • É a mesma coisa.
  • É aí que tu e eu somos diferentes - disse.
  • Tens muita razão, somos diferentes. Mas como é que nos tornar diferentes? Há um mês, eras como eu. Agora, olha para ti - umas barbas ridículas, roupas fanadas e toda essa conversa acerca de servir as pessoas e salvar a humanidade. Quando é que descarrilaste? Respirei fundo e apreciei o humor da sua pergunta. Ele também se descontraiu. Éramos demasiado educados para discutir em público.
  • És um palerma, sabes? - disse ele, inclinando-se. - Pouco faltava para seres sócio. És inteligente, tens talento, és livre e não tens filhos. Com trinta e cinco anos estarias a ganhar um milhão por ano. Podes fazer as contas.
  • Já fiz, Warner. Perdi o amor pelo dinheiro. É uma maldição do demônio.
  • Que original. Deixa-me fazer-te uma pergunta. O que farás se acordares um dia e tiveres, digamos, sessenta anos? Estás cansado de salvar o mundo, porque ele não tem salvação. Não tens onde cair morto, não tens um centavo, nem uma firma, nem és sócio, nem uma mulher que ganhe bom dinheiro como neurocirurgião; ninguém te pega. O que farás?
  • Bem, tenho pensado no assunto e acho que terei este meu irmão que é podre de rico. Por isso, telefono-te.
  • E se eu tiver morrido?
  • Inclui-me no teu testamento. O irmão pródigo.Warner ainda deixara algumas alfinetadas para o fim. Perguntou-me qual o pacote de benefícios que existia na 14` Street Legal Clinic.

 

    • Muito pobre, disse eu. E um plano de reforma? Nenhum, que eu soubesse. Na sua opinião, eu devia passar apenas dois anos a salvar pessoas antes de regressar ao mundo real. Agradeci-lhe. E ele deu-me um conselho esplêndido: talvez eu devesse arranjar uma mulher que pensasse como eu, mas com dinheiro, e casar com ela. Despedimo-nos no passeio em frente do restaurante. Garanti-lhe que sabia o que estava a fazer, que tudo correria bem e pedi-lhe que se mostrasse otimista perante os pais.
    • Interessamo-nos pela comida, e a conversa esmoreceu. Warner era suficientemente arrogante para pensar que um confronto brusco me chamaria de novo à razão. Alguns comentários ácidos da sua parte acerca das conseqüências dos meus passos, e eu renunciaria ao meu voto de pobreza e arranjaria um emprego a sério.   Vou falar com ele”, dissera aos meus pais.
  • Não os preocupes, Warner. Diz-lhes que tudo vai muito bem por aqui.
  • Telefona-me se tiveres fome - disse ele, esforçando-se por fazer humor. Disse-lhe adeus e afastei-me.    Arthur Jacobs e dois criminosos, dois afro-americanos com pequenos números no peito, todos alinhados, como se fossem iguais, na página dez do Post.As guerras de faxes começariam cedo. Cópias do trio seriam enviadas a escritórios de advogados de costa a costa, e todas as grandes firmas de advogados do mundo soltariam uma gargalhada. Gantry tinha um aspecto extremamente ameaçador, e assustou-me pensar que tínhamos encetado uma luta com ele.A notícia era longa e completa. Começava com o despejo e todos os que nele tinham participado, incluindo Hardy, que aparecera uma semana depois nos escritórios da Drake & Sweeney, onde fizera reféns, um dos quais era eu. De mim passava para Mordecai e depois para as mortes dos Burton. Referia-se à minha prisão, embora tivesse tido o cuidado de falar pouco ao repórter acerca do tão disputado processo. Fora fiel à sua palavra - os nossos nomes não eram referidos senão como   fontes informadas . Eu não teria feito melhor. Nem uma palavra sobre qualquer dos réus. Era como se o repórter tivesse feito poucas ou nenhumas tentativas para os contactar.

 

    • Warner telefonou-me às cinco horas da manhã.
    • E depois vinha a minha fotografia, a mesma que fora publicada no jornal de sábado, quando este anunciara a minha detenção. Era referido como a ponte entre a firma e Lontae Burton, embora o repórter não pudesse saber que chegara a conhecê-la.
    • Imaginava-os reunidos nos gabinetes e nas salas de conferências, com as portas fechadas à chave, os telefones desligados, as reuniões canceladas. Estavam a planear as suas respostas, a delinear cem estratégias diferentes, a consultar os seus relações públicas. Deviam estar a viver a fase mais negra das suas vidas.
    • O Pylon Grill era um café que estava aberto toda a noite, em Foggy Botton, perto da Universidade George Washington. Era conhecido por ser um ponto de reunião de gente com insônias e de viciados em notícias. A última edição do Post chegava lá sempre antes da meia-noite, e o local estava tão cheio àquela hora como uma boa charutaria ao almoço. Comprei o jornal e sentei-me no bar, que oferecia um espetáculo peculiar, visto que todos os que ali se encontravam estavam embebidos nas notícias. Fiquei admirado com o silêncio que reinava no Pylon. O Post acabara de chegar, uns minutos antes de mim, e trinta pessoas liam-no atentamente como se a guerra tivesse sido declarada. A notícia era vulgar para um jornal como o Post. Começava na primeira página, por baixo de um título a negro, e continuava na página dez, onde estavam as fotografias - uma de Lontae tirada dos cartazes do comício a favor da justiça, uma de Mordecai quando tinha menos dez anos, e um conjunto de três, que sem dúvida humilharia os pergaminhos da Drake & Sweeney. Arthur Jacobs estava ao meio. Do lado esquerdo, via-se uma fotografia de polícia de Tillman Gantry, e à direita uma, também de polícia, de DeVon Hardy, que estava associado à notícia só porque fora despejado e se matara de uma forma digna de vir nos jornais.
  • Estás acordado? - perguntou.Tentando manter-me quente no meu saco-cama, escutei-o enquanto ele me dizia exatamente como devia proceder naquele caso. Warner era litigante, um dos muito bons, e o apelo ao júri no caso Burton era insuportável para ele. Não tínhamos pedido a indenização suficiente - dez milhões não davam para nada. O júri adequado, e o céu era o limite. Oh, como gostaria de ser ele a tentar! E Mordecai? Estava habituado a julgamentos?

 

    • E os honorários? Decerto tínhamos um contrato de quarenta por cento. Afinal, talvez eu ainda não fosse um caso desesperado.
    • Encontrava-se na sua suíte de hotel, fabulosa, a trepar pelas paredes com uma série de comentários e de perguntas acerca do processo. Lera o jornal.
  • Dez por cento - disse eu, às escuras.
  • O quê? Dez por cento! Estás doido?
  • Nós somos uma empresa sem fins lucrativos - tentei explicar-lhe, mas ele não me ouviu. Amaldiçoou-me por não ser mais ambicioso.

 

    • O processo era um grande problema, acrescentou, como se nós não tivéssemos pensado nisso.
  • Podes provar o teu caso sem recorreres ao processo?
  • Posso.Desligou no meio de uma frase.Tomei uma ducha e saí, bebi café nos paquistaneses, onde fiquei até ao nascer do sol, e depois comprei biscoitos para Ruby.Se Tillman Gantry julgasse que a violência ajudaria à sua defesa no processo, não hesitaria em recorrer a ela. Mordecai avisara-me, embora os avisos não fossem necessários. Telefonei-lhe para casa e disse-lhe o que vira. Ele chegaria às oito e meia, e combinamos encontrar-nos a essa hora. Ele avisaria Sofia. Abraham não estava na cidade.Imaginava o pânico reinante no interior das paredes de mármore da Drake & Sweeney. Não havia sorrisos, não havia mexericos à hora do café, nem anedotas ou falatório nos corredores. L Tm velório seria mais animado.O único aspecto triste de difamar quatrocentos advogados era a realidade inescapável de que a maioria não só estava inocente como ignorava por completo os fatos. Ninguém se importava com o que acontecia no departamento de Bens Imobiliários. Poucas pessoas conheciam Chance. Eu estava lá há sete anos e nunca vira o homem, e só o conheci porque o procurei. Lamentava os inocentes - os de outros tempos, que tinham construído uma grande empresa e nos tinham treinado bem; os tipos do meu departamento, que manteriam a tradição da excelência; os principiantes que tinham sido surpreendidos pela notícia de que o seu estimado patrão era de certo modo responsável por mortes. Megan fez uma pausa nos rigores da manutenção da ordem numa casa de oitenta mulheres sem abrigo, e fomos dar um pequeno passeio de automóvel por Northwest. Ela não fazia idéia onde Ruby vivia, e na realidade não esperávamos encontrá-la. No entanto, era uma boa razão para passarmos algum tempo juntos.

 

    •  
    • Mas não tinha pena de Braden Chance, nem de Arthur Jacobs ou Donald Rafter. Eles é que tinham resolvido decapitar-me. Deixá-los suar.
    • No Direito da Concorrência, os que me conheciam melhor deviam estar particularmente sorumbáticos. Polly seria estóica, distante e sempre eficiente. Rudolph não sairia do gabinete excepto para ir ter com os superiores.
    • Há duas semanas que me concentrava essencialmente no processo. Houvera outras diversões significativas - Claire, que ia mudar-se, para iniciar uma nova carreira - mas o caso contra a RiverOaks e a minha antiga firma nunca me saía da cabeça. Havia um frenesi que antecedia qualquer grande caso, e em seguida um suspiro de alívio e uma calma agradável depois da bomba rebentar e de a poeira assentar. Gantry não nos matou no dia seguinte àquele em o processamos com os dois outros réus. O escritório funcionou normalmente. Os tele-fones não tocaram mais do que era habitual. A afluência foi a mesma. Com o processo temporariamente posto de lado, era mais fácil concentrar-me nos outros casos.
    • Havia dois automóveis estacionados à esquina da Fourteenth com a Q, junto do escritório. Aproximei-me lentamente, às sete e meia, e o instinto aconselhou-me a não parar. Ruby não estava sentada nos degraus.
    • Eu dormira três horas. Virei-me diversas vezes, mas não consegui voltar a adormecer. Houvera demasiadas mudanças na minha vida para poder descansar em paz.
    • Warner fartou-se de rir ao ver o velho Jacobs no jornal, com um criminoso de cada lado. O avião para Atlanta partia dentro de duas horas. Warner estaria sentado à secretária às nove. Não podia esperar para fazer circular as fotografias. Ia enviá-las imediatamente por fax para a West Coast.
  • Isto não é invulgar - disse ela, tentando acalmar-me. - De um modo geral, as pessoas sem abrigo são imprevisíveis, sobretudo as que têm problemas de dependência.
  • Já teve algum caso destes?
  • Já tive de tudo. Você vai aprender a não se alterar. Quando um cliente afasta os maus hábitos, encontra um emprego e arranja um apartamento, você faz uma pequena prece de agradecimento. Mas não se exalte, porque há de vir outra Ruby que o deixa destroçado. Há mais vales do que montanhas.
  • Como é que você consegue não se deixar afetar pela depressão?
  • Vamos buscar força aos clientes. São pessoas extraordinárias.

 

    • A maioria nasceu sem uma prece ou uma oportunidade, mas consegue sobreviver. Tropeçam e caem, mas levantam-se e continuam a tentar. A três quarteirões do escritório, Passamos pela garagem de um mecânico, em cujas traseiras havia vários veículos acidentados. Um cão grande e com ar de poucos amigos, preso a uma corrente, guardava a entrada. Não tencionava espreitar automóveis velhos e ferrugentos, e o cão facilitou-me ainda mais a decisão. Calculávamos que Ruby vivesse numa zona entre o meu escritório e o Naomi’s em Tenth Street, perto de L, algures entre Logan Circle e Mount Vernon Square.
  • Mas nunca se sabe - disse ela. - A mobilidade desta gente não deixa de me surpreender. Têm muito tempo, e alguns andam quilômetros.O congressista fora eleito por cinco anos e era de Indiana, um Republicano chamado Burkholder que tinha um apartamento em Virginia mas que gostava de correr ao fim da tarde à volta do Monte do Capitólio. O seu gabinete informou a comunicação social que tomara ducha e mudara de roupa num dos ginásio pouco utilizados e isolados existentes na cave de um edifício de escritórios do Congresso.Burkholder foi alvejado ao fim da tarde de quarta-feira, perto de Union Station, quando corria sozinho. Vestia um fato de treino - não levava carteira, nem dinheiro, nem qualquer objeto de valor nos bolsos. Aparentemente, não existia nenhum motivo. Cruzara-se com alguém das ruas, talvez um choque, um encontrão ou uma palavra agreste proferida ou recebida, e tinham sido disparados dois tiros. Um não atingiu o congressista, mas o outro entrou-lhe pelo braço esquerdo, passou-lhe para o ombro e parou muito perto do pescoço. O tiroteio ocorreu pouco depois do anoitecer, num passeio junto de uma rua muito freqüentada. A cena foi presenciada por quatro pessoas, que descreveram o agressor como um negro, aparentemente um sem abrigo, quase uma descrição genérica. O homem desapareceu na noite e, quando o primeiro transeunte conseguiu parar, saiu do carro e correu em socorro de Burkholder, há muito que o agressor já não se via. O congressista foi levado à pressa para o hospital George Washington, onde a bala foi retirada durante uma intervenção cirúrgica de duas horas. O seu estado era considerado estacionário.Burkholder não estava em condições de vociferar quando vi a história no noticiário das onze. Tinha estado a dormitar na minha cadeira, a ler e a ver boxe. Fora um dia fraco em termos de notícias em Colúmbia, até ao momento em que Burkholder fora atingido. O pivot, ofegante, noticiou o acontecimento, fazendo acompanhar os rudimentos da história de uma bela fotografia do congressista em segundo plano, e depois fez uma ligação em direto para o hospital, onde uma repórter tremia de frio à entrada das Urgências, junto da porta pela qual Burkholder entrara há quatro horas. Ao fundo via-se uma ambulância e luzes intensas, mas como não havia sangue nem um cadáver para mostrar aos telespectadores, a repórter via-se obrigada a conferir o máximo de sensacionalismo à notícia.Eu nunca ouvira falar de nenhum deles. Mostraram-se preocupados com o colega e deram a entender que o estado dele era mais grave do que os médicos tinham feito crer. Sem que ninguém lhes pedisse, fizeram a sua avaliação do estado geral de declínio que reinava em Washington. Seguiu-se outra reportagem em direto do local do crime. Mais uma repórter entusiasmada que se encontrava no Local Exato! onde ele caíra, e agora havia alguma coisa para ver. Havia uma mancha de sangue, para a qual chamou a atenção com grande dramatismo, ali mesmo. Baixou-se e quase tocou no passeio. Um polícia apareceu no ecrã e fez um breve resumo do que se estava a passar. A reportagem foi em direto, mas em segundo plano viam-se carros da polícia com luzes azuis e vermelhas a piscar. Reparei nisso; a repórter, não.            Nem todos foram presos e levados para a cadeia. Duas carrinhas, cheias foram levadas para Rhode Island, em Northeast, e despejadas no parque de estacionamento contíguo a um centro comunitário onde uma cozinha econômica funcionava durante toda a noite. Outra carrinha com onze pessoas parou em Calvary Mission, em T Street, a cinco quarteirões do nosso escritório. Os homens puderam escolher entre irem presos ou ficarem na rua. A carrinha ficou vazia.O Pylon Grill estava quente e cheio. Uma camada de fumo de cigarro pairava um pouco acima das mesas e o aroma do café de todo o mundo esperava-nos mesmo à porta. Como era habitual, estava cheio de maníacos das notícias às quatro horas da manhã.Na Cidade, esperava-me uma agradável surpresa. Tim Claussen era obviamente um homem com uma missão. O nosso processo , inspirara-o.A história do edifício dos Correios em Northeast era contada com os mais ínfimos pormenores. Seguia-se a Drake & Sweeney. Como seria de esperar, as fontes de informação não provinham do interior da empresa. Ninguém respondera aos telefonemas. Claussen fornecia as informações básicas - a dimensão, a história e alguns elementos célebres. Havia dois gráficos, ambos retirados da revista US Lniv. Um apresentava as dez maiores firmas de advogados do país, e a outra classificava-as segundo os lucros que os sócios tinham arrecadado no ano anterior. Com oitocentos advogados, a Drake & Sweeney ocupava o quinto lugar e, com novecentos e dez mil e quinhentos dólares, os sócios situavam-se na terceira posição. Eu afastara-me realmente de tanto dinheiro?A notícia não se referia a mim. Não havia qualquer referência a DeVon Hardy nem ao episódio dos reféns. Pouco se dizia acerca de Lontae Burton e das alegações do processo.No dia seguinte, prometia-se, haveria um novo episódio, um olhar sobre a vida triste de Lontae Burton.Eram nove e vinte quando cheguei com o meu advogado ao Edifício Carl Moultrie, onde eram julgados os processos cíveis e criminais do distrito. Havia uma fila à porta da entrada principal, que avançava lentamente enquanto os advogados, os litigantes e os criminosos eram revistados e submetidos ao detector de metais. Lá dentro, o local parecia um jardim zoológico - um átrio cheio de gente nervosa e quatro andares de corredores ladeados por salas de audiências.

 

    • O juiz Norman Kisner funcionava no primeiro andar, na sala número 114. O meu nome constava de uma lista das causas que seriam julgadas nesse dia, e que estava afixada à porta. E era acompanhado por mais onze argüidos. Lá dentro, o banco estava livre; havia advogados por toda a parte. Mordecai desapareceu lá para trás e eu sentei-me na segunda fila. Li uma revista e tentei mostrar-me completamente enfastiado com a cena.
    • Por quanto tempo é que Arthur Jacobs permitiria que a sua amada firma fosse arrastada na lama? Era um alvo tão fácil. O Post sabia ser tenaz. Era óbvio que o repórter lutava contra o tempo. Uma notícia conduziria a outra.
    • Pelo segundo dia consecutivo, uma firma antiga e venerável como a Drake & Sweeney era acusada de conspirar com um antigo chulo. De fato, a notícia dava a entender que os advogados eram piores do que Tillman Gantry.
    • O último membro do trio era Tillman Gantry e a sua vida colorida talhada para o jornalismo de investigação. Os polícias falavam dele. Um ex-companheiro de cela tecia os seus elogios. Um sacerdote de uma seita qualquer de Northeast contava que Gantry construíra recintos de basquetebol para as crianças pobres. Uma antiga prostituta recordava as agressões. Gantry operava por trás de duas empresas - a TAG e a Gantry Group - e, através delas, possuía três parques de automóveis usados, dois pequenos centros comerciais, um prédio de apartamentos onde duas pessoas tinham sido mortas a tiro, seis duplex para aluguer, um bar onde uma mulher fora violada, um clube de vídeo e numerosos parques de estacionamento vagos que comprara à cidade por uma ninharia. Dos três argüidos, Gantry fora o único que se dispusera a falar. Admitiu ter pago onze mil dólares pelo armazém de Florida Avenue em Julho do ano anterior, e tê-lo vendido por duzentos mil à RiverOaks, em 31 de Janeiro. Tivera sorte, afirmou. O prédio era inútil, mas o terreno valia muito mais do que onze mil. Por isso o comprara. O armazém sempre atraíra vagabundos, segundo dizia. De fato, fora obrigado a correr com eles. Nunca cobrara renda e não fazia idéia do que dera origem a tal boato. Tinha muitos advogados e apresentaria uma defesa vigorosa.
    • Num longo artigo, examinava cada um dos três réus, começando pela RiverOaks. A empresa tinha vinte anos, pertencia a um grupo de investidores, um dos quais era Clayton Bender, um especulador imobiliário da Costa Leste, que, dizia-se, valia duzentos milhões. A foto-grafia de Bender vinha no meio da notícia, além de outra da sede da empresa em Hagerstown, Maryland. A RiverOaks construíra onze edifícios de escritórios na zona de Columbia no espaço de vinte anos, a par de vários centros comerciais nos arredores de Baltimore e de Washington. Calculava-se que o valor dos seus ativos ascendesse a trezentos e cinqüenta milhões. Também havia muitas dívidas à banca, ; cujo montante não fora possível quantificar.
    • Burkholder era o homem do momento. O seu rosto vinha na primeira página do Post, e havia várias notícias acerca dele, do tiroteio e da investigação policial. Nada sobre a rusga. Mordecai dar-me-ia os pormenores mais tarde.
    • Eu estava ansioso por arranjar uma cama. Estava a perder muitas horas de sono espojado no chão, tentando provar qualquer coisa a mim próprio. No escuro, antes do amanhecer, sentei-me no saco-cama e prometi a mim próprio que havia de encontrar qualquer coisa mais fofa para dormir. Além disso, não percebia como é que milhares de pessoas conseguiam sobreviver a dormir nos passeios.
    • Estava a decorrer uma rusga. A polícia local estava em força a limpar as ruas, metendo os sem abrigo em carros e carrinhas e levando-os. Ao longo da noite, passaram a pente fino o Monte do Capitólio e prenderam todos aqueles que encontraram a dormir em bancos de jardim, sentados no parque, a pedir esmola no passeio, todos os que pareciam não ter casa. Acusaram-nos de vadiagem, de sujarem as ruas, de estarem embriagados em público e de mendigarem.
    • A operação correu bem, segundo ela afirmou. O estado de Burkholder era estacionário e o paciente estava a descansar. Os médicos tinham emitido um comunicado que não dizia basicamente nada. Antes, vários colegas tinham acorrido ao hospital, e ela conseguira obrigá-los a aparecerem diante das câmaras. Três deles apresentaram-se juntos, todos com um ar suficientemente grave e sombrio, embora Burkholder nunca tivesse corrido perigo de vida. Piscavam os olhos diante das luzes e tentavam fazer crer que houvera uma invasão grave da sua vida privada.
    • Há muitos anos que nenhum congressista era alvejado em Washington. Vários tinham sido assaltados, mas sem ferimentos graves. De um modo geral, os assaltos proporcionavam às vítimas tribunas excelentes para lançarem ataques violentos contra o crime, a ausência de valores e o declínio generalizado de tudo; todas as responsabilidades eram, evidentemente, achacadas ao partido da oposição.
    • Como membro do Congresso, Buckholder era um entre 435; por isso, era praticamente desconhecido, embora estivesse em Washington há dez anos. Era relativamente ambicioso, ostensivamente sério, um maníaco da saúde, de quarenta e um anos. Estava ligado à Agricultura e presidia a uma subcomissão de Fundos e Subsídios.
    • Observamos as pessoas da rua. Examinamos todos os pedintes que passavam por nós. Atravessamos parques, à procura de gente sem abrigo, e deitamos algumas moedas nas suas taças, na esperança de vermos alguém que conhecêssemos. Mas não tivemos sorte. Deixei Megan no Naomi’s e prometi telefonar-lhe de tarde. Ruby tornara-se uma ótima desculpa para nos mantermos em contacto.
  • Bom-dia, Michael - disse alguém da coxia.Baixei a cabeça e consegui dizer:

 

    • Era Donald Rafter, que fechava a pasta com as duas mãos. Atrás dele estava alguém que eu conhecia do Contencioso, mas de cujo nome não me lembrava.
  • Olá.Fora apenas uma amostragem! Eu levantar-me-ia em frente do juiz, enquanto ele lia a acusação. Eu alegaria a minha inocência, seria libertado com base no meu vínculo atual e ir-me-ia embora. Porque estaria Rafter ali?O juiz Kisner tinha pelo menos setenta anos, cabelo farto e grisalho e barba hirsuta e igualmente grisalha, e olhos castanhos que nos trespassavam enquanto falava. Ele e o meu advogado conheciam-se há muitos anos.

 

    • A resposta surgiu lentamente. Continuei a olhar para a revista, tentando manter-me calmo, e por fim percebi que a presença dele servia apenas para me recordar o que se passara. Eles consideravam que o roubo era um assunto grave, e tencionavam seguir todos os meus passos. Rafter era o mais esperto e maldoso dos litigantes. Esperava que eu tremesse de medo ao vê-lo na sala de audiências. æs nove e meia, Mordecai saiu de trás da tribuna e fez-me sinal. O juiz estava à espera no seu gabinete. Mordecai apresentou-me e sentamo-nos os três à volta de uma pequena mesa.
    • Os homens afastaram-se e sentaram-se do outro lado da sala de audiências. Representavam as vítimas e como tal tinham direito a estar presentes em todas as fases do meu processo.
  • Estava precisamente a dizer ao Mordecai que este é um caso muito raro - disse, agitando a mão no ar.

 

    • Concordei, com um gesto de cabeça. Também me parecia.
  • Conheço o Arthur Jacobs há trinta anos. Por sinal, conheço lá muitos advogados. São bons profissionais.

 

    • E eram, de fato. A firma contratava os melhores e treinava-os bem. Não me sentia à vontade com o fato de o juiz que ia julgar-me nutrir uma tão grande admiração pelas vítimas.
  • Um dossiê de trabalho roubado do gabinete de um advogado pode ser difícil de avaliar do ponto de vista monetário. É apenas um monte de papéis, nada que tenha valor exceto para o advogado. Não valeria nada se você tentasse vendê-lo na rua. Não estou a acusá-lo de ter roubado o dossiê compreende?
  • Sim, compreendo.

 

    • Não sabia ao certo se compreendia ou não, mas queria que ele continuasse.
  • Vamos partir do princípio que você tem o dossiê em seu poder, e vamos assumir que o tirou da firma. Se o devolvesse agora, sob a minha supervisão, estaria disposto a avaliá-lo por menos de cem dólares.

 

    • Isso seria um delito leve, evidentemente, e poderíamos varrê-lo para debaixo do tapete, juntamente com outra papelada. É claro que teria de comprometer-se a não utilizar quaisquer informações retiradas do dossiê
  • E se eu não o devolvesse? Continuamos no campo das hipóteses, evidentemente.
  • Então valeria muito mais. Mantém-se a acusação de grande furto, e vamos a julgamento com base nela. Se a acusação provar que tem razão e o júri o considerar culpado, serei eu a ditar-lhe a sentença. As rugas na testa, o olhar duro e o tom da voz deixavam-me poucas dúvidas quanto ao fato de ser preferível evitar a sentença.
  • Além disso, se o júri o considerar culpado de grande furto, perde a licença para exercer advocacia.
  • Compreendo - disse eu, muito acabrunhado.Ao contrário da maioria dos casos que figuram na minha lista, aqui o tempo é crucial - prosseguiu Kisner. - Este processo cível pode debruçar-se sobre o conteúdo do dossiê. A admissibilidade competirá a outro juiz. Eu gostaria de ter a parte criminal resolvida antes de o processo cível avançar demasiado. Mais uma vez, estamos a partir do princípio que você tem o dossiê.

 

    • Mordecai estava recostado na cadeira, a escutar e a absorver tudo.
  • Quanto tempo? - perguntou Mordecai.
  • Creio que duas semanas chegarão para você tomar a sua decisão.Tim Claussen, do Post, chegou, acompanhado por vários advogados.Explicou que estavam na sala dois advogados da Drake & Sweeney, Donald Rafter e outro tipo, e que talvez eles tivessem alguma declaração a fazer ao jornal.A minha presença diante de Kisner fora breve, tal como eu esperava. Declarei a minha inocência, assinei uns formulários e saí à pressa. Não vi Rafter em parte nenhuma.

 

    • Claussen foi ao encontro deles. Ouviram-se vozes lá atrás, vindas do banco em que Rafter estivera a matar o tempo. Os homens saíram da sala e continuaram a discussão lá fora.
    • Viu-nos sentados na sala de audiências, mas não se atreveu a abordar-nos. Mordecai afastou-se de mim e pouco depois aproximou-se dele.
    • Concordamos que duas semanas seriam um período razoável. Mordecai e eu regressamos à sala de audiências, onde esperamos uma hora durante a qual nada aconteceu.
  • De que falaram você e o Kisner antes de eu entrar? - perguntei a Mordecai, assim que entramos no carro.
  • Do mesmo que ele lhe disse.
  • Ele é um duro.
  • É um bom juiz. Mas foi advogado durante muitos anos. Advogado criminal, e um dos melhores. Não tem simpatia por um advogado que rouba processos a outro.
  • Qual será a duração da minha pena se for condenado?
  • Ele não disse. Mas será longa.

 

    • Esperávamos junto de um sinal vermelho. Felizmente, era eu que ia ao volante.
  • Muito bem, Conselheiro. O que fazemos? - perguntei.
  • Temos duas semanas. Vamos pensando devagarinho. Não é este o momento para tomar decisões.A primeira era a prometida na edição da véspera - uma longa história da vida trágica de Lontae Burton. A avó era a fonte principal, embora o repórter também tivesse contactado duas tias, um antigo patrão, uma assistente social, um antigo professor e a mãe e os dois irmãos que estavam na prisão. Com a sua agressividade característica e o seu orçamento ilimitado, o jornal estava a fazer um esplêndido trabalho ao recolher os fatos de que precisávamos para o nosso caso. A mãe de Lontae tinha dezesseis anos quando ela nascera. Lontae era a segunda de três filhos, todos nascidos fora do casamento, todos gerados por homens diferentes, embora a mãe se recusasse a falar do pai dela. Lontae crescera nos bairros violentos de Northeast, e ora andava de um lado para o outro com a mãe, ora vivia periodicamente com a avó e as tias. A mãe fora presa várias vezes e Lontae abandonara a escola pouco depois do sexto ano. A partir de então, a sua vida tornara-se funesta. Drogas, namorados, gangs, pequenos crimes, a vida perigosa das ruas. Lontae tivera vários empregos mal pagos e revelara-se totalmente indigna de confiança.Condenação sem detenção. Nascimento de Ontário quando ela tinha dezoito anos, em Columbia. De pai incógnito, segundo a certidão de nascimento. Presa por prostituição dois meses depois do nascimento de Ontário. Condenação sem detenção. Nascimento dos gêmeos, também em Columbia, igualmente de pai incógnito. Temeko, o bebê da fralda molhada, nascera quando Lontae tinha vinte e um anos. No meio deste triste obituário, havia um lampejo de esperança. Depois de Temeko nascer, Lontae fora ter à House of Mary, um centro de dia para mulheres semelhante ao Naomi’s, onde conheceu uma assistente social chamada Nell Cather. Miss Cather era muito citada na história.Pouco depois, Miss Cather arranjou-lhe um emprego numa grande mercearia, a desempacotar produtos; trabalhava vinte horas por semana e ganhava $4,75 por hora. Nunca faltou ao trabalho.Tomei nota do nome de Nell Cather, na House of Mary, e sorri ao imaginá-la no banco das testemunhas, a contar a história dos Burton a um júri.            Lontae estava drogada. O regulamento da House of Mary proibia a entrada a qualquer pessoa que estivesse visivelmente intoxicada ou sob a influência de drogas. A diretora foi obrigada a pedir-lhe que saísse. Miss Cather nunca mais a viu; nunca mais ouviu falar dela até ler a notícia das mortes no jornal.Queria que ele sofresse, que percebesse que a sua indiferença empedernida pelos direitos e pela dignidade dos outros provocara tanto sofrimento. Estás sentado no teu belo gabinete, Braden, a trabalhar muito a horas mortas, a remexer em papéis para os teus clientes ricos, a ler memorandos redigidos por solicitadores a quem mandaste fazer os trabalhos sujos, e tomaste a decisão fria e calculada de avançar com um despejo que devias ter suspendido. Eles eram apenas vagabundos, não eram Braden? Negros humildes, gente da rua que vivia como animais. Não havia nada escrito, nem contratos de arrendamento, nem papéis, nem direitos. Rua com eles. Qualquer atraso poderia comprometer o projeto.A segunda história era uma agradável surpresa, pelo menos do ponto de vista legal. Também era sinônimo de sarilhos.Kito era um produto típico do submundo urbano, um indivíduo expulso do liceu, sem emprego e com antecedentes criminais. A sua credibilidade seria sempre questionada.Não sabia nada do despejo, embora considerasse que estava errado. Quando lhe perguntaram quais eram as condições do armazém, Kito forneceu pormenores suficientes para me convencer que estivera mesmo lá. A sua descrição era semelhante à que figurava no memorando de Hector.Mordecai e eu não tardaríamos a encontrá-lo. A nossa lista de testemunhas estava a aumentar, e Mr. Spires podia muito bem vir a ser a nossa estrela.O nosso processo estava a atrair mais a imprensa do que nós pensávamos. Só queríamos dez milhões de dólares, um belo número redondo que era escrito diariamente e discutido nas ruas. Lontae tivera relações sexuais com muitos homens. Kito era o primeiro candidato a pai. Com tanto dinheiro em jogo, surgiriam outros pais dentro de pouco tempo e manifestariam o seu amor pelos filhos perdidos. As ruas estavam cheias de candidatos.Eu nunca teria oportunidade de falar com ele.

 

    • Telefonei para a Drake & Sweeney e pedi para falar com Braden Chance. Atendeu uma secretária, e repeti o pedido.
    • Esta era a parte inquietante da história.
    • Kito estava desolado com a morte das crianças e da mãe. Eu assistira ao funeral com muita atenção, e tinha a certeza de que Kito não estava presente.
    • Não sabia que o armazém pertencia a Tillman Gantry. Um negro chamado Johnny é que ia receber a renda, no dia quinze de cada mês. Cem dólares.
    • Vivera no armazém com Lontae e os filhos. Ajudava-a a pagar a renda sempre que podia. Uma vez, depois do Natal, tinham discutido e ele fora-se embora. Atualmente, vivia com uma mulher cujo marido estava preso.
    • Tinham encontrado um antigo namorado, um vadio de dezenove anos, com um ar sinistro, chamado Kito Spires. A sua fotografia assustaria qualquer advogado respeitador da lei. Kito tinha muito a dizer. Afirmava ser o pai dos três filhos mais novos de Lontae - dos gêmeos e do bebê. Vivera com ela durante os últimos três anos, mas não em permanência; tinham sido mais as ausências do que as presenças.
    • Apeteceu-me telefonar-lhe para casa, interromper-lhe o pequeno-almoço e perguntar:   Como te sentes agora, Braden?
    • Ao ler a história, pensei em Braden Chance. Esperava que também ele a tivesse lido, no conforto da sua bela casa nos arredores de Virginia. Tinha a certeza que ele estava acordado àquela hora. Como é que uma pessoa sujeita a tamanha pressão conseguiria dormir?
    • Lontae ficava aterrada ao pensar que podia perder os filhos, porque era muito freqüente tal acontecer. A maior parte das mulheres sem abrigo tinham perdido os seus, e quanto mais Lontae ouvia as suas histórias de horror, mais decidida estava a manter a família unida. Estudava muito, e aprendera até uns rudimentos de informática, e uma vez esteve quatro dias seguidos sem tocar em drogas. Depois foi despejada, e os parcos haveres foram atirados para a rua juntamente com os seus filhos. Miss Cather viu-a no dia seguinte, e ela estava desesperada. As crianças estavam esfomeadas e sujas;
    • Um dia, no Outono anterior, confidenciou a Nell Cather que tinha arranjado um sítio para viver, embora fosse segredo. Considerando que isso fazia parte das suas atribuições, Nell quis inspecionar o local, _ mas Lontae recusou-se. Não era legal, explicou. Era um pequeno apartamento de duas divisões, com um telhado e uma porta fechada à : chave e uma casa de banho próxima, pelo qual ela pagava cem dólares por mês, em dinheiro.
    • Segundo a sua versão dos últimos meses de vida de Lontae, ela estava decidida a abandonar as ruas e a limpar a sua vida. Começara a tomar pílulas anticoncepcionais, fornecidas pela House of Mary. Queria desesperadamente tornar-se limpa e sóbria. Ia às reuniões dos AA/NA no centro e combatia os seus vícios com grande coragem, embora se sentisse perdida quando estava sóbria. Começou a progredir rapidamente na leitura e sonhava em arranjar um emprego certo para sustentar a sua pequena família.
    • Uma grande parte da sua história constava dos arquivos municipais: uma detenção aos catorze anos por roubo num estabelecimento, processada pelo tribunal de menores. Acusada de novo três meses depois por embriaguez em público, no tribunal de menores. Posse de droga aos quinze anos, no tribunal de menores. A mesma acusação sete meses depois. Presa por prostituição com dezesseis anos e tratada como uma adulta. Condenação sem detenção. Presa por grande furto, por ter roubado um leitor portátil de CD de uma loja de penhores.
    • Havia duas notícias no Post da manhã, ambas em grande destaque e acompanhadas de fotografias.
  • Quem fala, por favor? - perguntou.

 

    • Dei-lhe um nome fictício e apresentei-me como um potencial cliente, recomendado por Clayton Bender da RiverOaks.
  • Mr. Chance não pode atender - respondeu ela.
  • Diga-me quando posso falar com ele - retorqui, num tom rude.
  • Ele está de férias.
  • Muito bem. Quando volta?
  • Não sei ao certo - respondeu ela, e desligou. As férias durariam um mês, depois passariam a ser uma licença sabática, por fim uma ausência por tempo indeterminado, e por fim admitiriam que Chance fora despedido.Logo que o processo deu entrada no tribunal, calculei que tivessem arrancado a verdade a Braden Chance. Quer tivesse sido ele a tomar a iniciativa, quer tivesse sido obrigado, a questão era imaterial. Ele mentira-lhes desde o início, e agora a firma fora processada. Talvez ele lhes tivesse mostrado o original do memorando de Hector, e o recibo da renda de Lontae. No entanto, o mais provável era que ele os tivesse destruído e fosse obrigado a descrever o que rasgara. A firma - Arthur Jacobs e a comissão executiva - sabiam finalmente a verdade. O despejo não se devia ter realizado. Os acordos verbais deviam ter sido passados ao papel, agindo Chance em nome da RiverOaks, com trinta dias de antecedência concedidos aos inquilinos.E um atraso de trinta dias teria permitido que Lontae Burton e os outros inquilinos sobrevivessem aos maiores rigores do Inverno. Chance fora obrigado a sair da firma, sem dúvida com uma generosa quantia pela sua quota de sócio. Talvez Hector tivesse sido chamado a Washington para receber instruções. Com a saída de Chance, Hector poderia dizer a verdade e sobreviver. No entanto, não podia falar do seu contacto comigo. æ porta fechada, a comissão executiva encarara a realidade. A firma estava muito exposta. Fora delineado um plano de defesa por Rafter e pela sua equipa de litigantes. Defender-se-iam vigorosamente alegando que o caso Burton se baseava em material roubado de um processo da Drake & Sweeney. E se esse material roubado não pudesse ser usado em tribunal, então o processo seria recusado. O que fazia todo o sentido, do ponto de vista legal.Além disso, havia problemas vindos de outro lado. O processo não indicava até que ponto é que a RiverOaks conhecia a verdade acerca dos ocupantes. De fato, havia muito pouca correspondência entre Chance e o cliente. Aparentemente, ele dera instruções para fechar o negócio o mais depressa possível. A RiverOaks pressionou; Chance cilindrou.Outros grandes clientes também teriam as suas opiniões.   O que se passa aí? , era uma pergunta que todos os sócios ouviriam àqueles que pagavam as contas. No universo implacável do Direito das Sociedades, os abutres de outras firmas começavam a apertar o cerco. A Drake & Sweeney comercializava a sua imagem, a sua percepção pública. Todas as grandes empresas o faziam. E nenhuma poderia suportar o desgaste a que a minha alma mater estava a ser sujeita.Mostrou que estava vivo e boa saúde, pronto a regressar ao seu posto no Capitólio dentro de poucos dias. Uma saudação para os conterrâneos de Indiana.O ataque a Burkholder exercera uma pressão enorme, ainda que temporária, sobre a polícia local, no sentido de esta limpar as ruas. Senadores e representantes tinham passado o dia a perorar sobre os perigos da cidade de Washington. Conseqüentemente, as rusgas recomeçaram depois do anoitecer. Todos os bêbados, pedintes e pessoas sem abrigo que se encontravam nas imediações do Capitólio foram afastados. Uns foram presos. Outros foram apenas obrigados a entrar em carrinhas e transportados como gado para zonas mais distantes.Num parque de estacionamento vazio contíguo ao estabelecimento, atrás de um monte de entulho e de tijolos partidos, a polícia descobriu o corpo de um jovem negro. O sangue era fresco e saía de dois orifícios de bala na cabeça da vítima.Ruby voltou a aparecer na segunda-feira de manhã, com um apetite devorador de biscoitos e de notícias. Estava à espera no degrau, com um sorriso e um olá caloroso, quando eu cheguei às oito horas, um pouco mais tarde do que era habitual. Com Gantry lá fora, eu queria mais luz do dia e maior atividade quando chegasse ao escritório. Ela estava na mesma. Pensei que, ao examinar o seu rosto, talvez detectasse vestígios de uma farra de crack, mas não notei nada de anormal. Tinha um olhar duro e triste, mas estava bem disposta. Entramos juntos e ocupamos o nosso lugar na secretária de Sofia. Era reconfortante ter mais alguém no edifício.

 

    • Mais tarde, o homem foi identificado como sendo Kito Spires.
    • Às onze e quarenta da noite, a polícia foi chamada a um estabelecimento de bebidas alcoólicas em Fourth Street, junto de Rhode Island, no Northeast. O dono da loja ouvira uns tiros, e uma das pessoas que ia a passar afirmara que vira um homem caído no chão.
    • No seu melhor momento, alongou-se sobre o crime nas ruas e a deterioração das nossas cidades. (A sua cidade natal tinha oito mil pessoas.) Era uma vergonha que a capital do nosso país se encontrasse num estado tão deplorável, e, devido ao seu contacto fugaz com a morte, daí em diante dedicaria as suas consideráveis energias a devolver a segurança às nossas ruas. Encontrara um novo objetivo. Seguiu-se uma série de disparates sobre o controlo das armas e mais prisões.
    • O congressista Burkholder teve uma recuperação extraordinária. Um dia depois da operação, recebeu a imprensa numa exibição cuidadosamente encenada. Levaram-no de cadeira de rodas para um estrado provisório montado no átrio do hospital. Levantou-se, com a ajuda da sua linda mulher, e avançou para fazer uma declaração. Por coincidência, usava uma sweatshirt Hoosier vermelho-vivo. Tinha ligaduras no pescoço e o braço esquerdo ao peito.
    • Se partíssemos do princípio que a RiverOaks não sabia que os despejos eram ilegais, então a empresa tinha legitimidade para mover um processo à Drake & Sweeney por negligência profissional. Contra-tara a firma para fazer um trabalho; o trabalho fora mal feito; e o erro era em detrimento do cliente. Com trezentos e cinqüenta milhões de dólares de ativos, a RiverOaks tinha força suficiente para obrigar a firma a remediar os seus erros.
    • No entanto, antes de conseguirem implementar a sua defesa, o jornal interviera. Estavam a ser descobertas testemunhas que podiam depor sobre os mesmos assuntos constantes do processo. Podíamos provar o nosso caso independentemente daquilo que Chance ocultara. A Drake & Sweeney devia estar num caos. Com quatrocentos advogados agressivos que não estavam dispostos a guardar as suas opiniões para si próprios, a firma estava à beira de uma insurreição. Se eu ainda lá estivesse e fosse confrontado com um escândalo semelhante noutro departamento, moveria céus e terra para que o assunto se resolvesse e desaparecesse das páginas dos jornais. A opção de se enclausurarem para se defenderem da tempestade não existia. A narrativa do Post era apenas uma amostra daquilo que um julgamento público arrastaria. E o julgamento seria dentro de um ano.
    • Um atraso de trinta dias teria posto em risco o edifício gigantesco dos Correios, pelo menos para a RiverOaks.
    • Eu desconfiava que ele se fora embora; o telefonema confirmou-o. Como a firma fora a minha vida nos últimos sete anos, não me era difícil prever os seus atos. Havia demasiado orgulho e arrogância para que sofressem as indignidades que lhes eram impostas.
  • Como tem passado? - perguntei.
  • Bem - respondeu ela, pegando num saco para tirar um biscoito.

 

    • Havia três sacos, todos comprados na semana anterior, só para ela, embora Mordecai tivesse deixado um rasto de migalhas.
  • Onde tem ficado?
  • No meu carro.

 

    • Onde havia ela de ficar?
  • Estou contente porque o Inverno está a acabar.
  • Também eu. Tem ido ao Naomi’s? - perguntei.
  • Não, mas vou hoje. Não me tenho sentido muito bem.
  • Dou-lhe boleia.
  • Obrigada.Quando o café estava pronto, enchi duas chávenas e as pus em cima da secretária. Ruby ia no seu terceiro biscoito, que mordiscava como se fosse um rato.Adiante.

 

    • Como podia eu ser áspero para com alguém tão digno de compaixão?
    • A conversa foi um pouco tensa. Ela esperava que eu lhe fizesse perguntas sobre a sua última ida ao motel. Eu tinha vontade de o fazer, mas achei preferível evitar o assunto.
  • E quanto ao jornal?
  • Seria bom.Como o processo estava no centro das atenções, havia um novo grupo que era acusado da tragédia. O dedo apontado à Câmara passara para segundo plano. Os insultos quer dirigidos ao Congresso, quer provenientes dele tinham acabado. Aqueles que tinham sido alvo da veemência das primeiras acusações atiravam-se agora com força e satisfação à grande firma de advogados e ao seu cliente rico.A Drake & Sweeney era de novo atacada pelo jornal. Os seus advogados deviam estar a perguntar a si próprios quando é que a situação chegaria ao fim.No canto inferior da primeira página vinha uma pequena notícia sobre a decisão dos Correios de suspender o projeto em Northeast Washington. A controvérsia que envolvia a aquisição do terreno e do armazém e o processo que abrangia a RiverOaks e Gantry eram fatores que tinham pesado na decisão.Analisamos os acontecimentos a nível mundial. Um sismo no Peru chamou a atenção de Ruby e eu li-lhe a notícia. Na secção da Cidade, as primeiras palavras que li gelaram-me o sangue nas veias. Por baixo da mesma fotografia de Kito Spires, mas com o dobro do tamanho e ainda mais ameaçadora, lia-se em título: KITO SPIRES ENCONTRADO MORTO A TIRO. A notícia recordava que Mr. Spires era uma personagem do drama dos Burton e depois dava alguns pormenores sobre a sua morte. Não havia testemunhas, nem pistas, nada. Apenas mais um vadio alvejado no distrito.

 

    • A RiverOaks perdeu o seu projeto de vinte milhões de dólares. A empresa reagira como qualquer outro agente imobiliário agressivo que tivesse gasto quase um milhão de dólares em dinheiro para comprar uma propriedade urbana inútil. Iria recorrer aos seus advogados. A pressão aumentava.
    • Não seria tão cedo.
    • Ruby estava fascinada com a história dos Burton. Fiz-lhe um breve resumo do processo e do que se passara desde que fora entregue no tribunal.
    • Vinha uma fotografia do presidente da Câmara na primeira página, e como ela gostava de histórias sobre a cidade e o presidente era sempre bom para alguma facção, escolhi-a em primeiro lugar. Era uma entrevista de sábado, na qual o presidente e o conselho municipal, agindo em conjunto numa aliança periclitante e temporária, pediam ao Departamento da Justiça que investigasse as mortes de Lontae Burton e da família. Houvera violação dos direitos cívicos? O presidente dava fortemente a entender que estava convencido disso, mas a Justiça que atuasse!
  • Sente-se bem? - perguntou Ruby, despertando-me do transe.
  • Sim, claro - respondi, tentando respirar outra vez.
  • Porque não está a ler?E porquê? Na minha opinião, era óbvio o que acontecera. O rapaz gozara os seus momentos na ribalta, falara de mais, fizera-se muito caro perante os queixosos (nós !) e tornara-se um alvo demasiado fácil. Li a notícia a Ruby, devagar, atento a tudo o que se passava à nossa volta, vigiando a porta principal e esperando que Mordecai chegasse depressa.No meio do meu terror, apercebi-me de súbito que a história nos era favorável. Tínhamos perdido uma testemunha potencialmente crucial, mas a credibilidade de Kito teria levantado problemas. A Drake & Sweeney voltava a ser mencionada na terceira notícia da manhã, associada à morte de um criminoso de dezenove anos. A firma fora obrigada a abandonar a sua posição arrogante e estava agora na lama, com o seu nome altivo referido nos mesmos parágrafos em que se falava de rufiões assassinados.Não havia dúvidas. Estaria a desestabilizar Rudolph Mayer, o sócio que me chefiava, que por sua vez armaria um pé de vento com a comissão executiva, e reunir-me-ia com os meus pares, os outros advogados sênior da firma. Exigiríamos que o assunto fosse resolvido e encerrado antes que fossem infligidos mais danos. Insistiríamos com eles para que evitassem o julgamento a qualquer preço. Faríamos toda a espécie de exigências.

 

    •             E desconfiava que a maioria dos advogados sênior e todos os sócios estavam a fazer exatamente o mesmo. Com todo aquele rebuliço nos corredores, muito pouco era o trabalho desenvolvido. Estavam a ser faturadas muito poucas horas. A firma estava num caos.
    • Recuei um mês, antes do episódio do Senhor e de tudo o que se seguira, e imaginei-me a ler o mesmo jornal, sentado à minha secretária, antes do nascer do sol. E imaginei que lera as outras notícias e que sabia que as alegações mais graves do processo eram de fato verdadeiras. O que faria?
    • Gantry falara. Outras testemunhas da ruas ou se manteriam em silêncio ou desapareceriam antes que nós as encontrássemos. Matar testemunhas era péssimo. O que havia eu de fazer se Gantry fosse atrás dos advogados?
    • Porque ficara demasiado atordoado para ler em voz alta. Tive de examinar a notícia à pressa, para ver se o nome de Tillman Gantry era referido. Não era.
  • Continue - disse Ruby, despertando-me outra vez.Levei-a ao Naomi’s, onde foi recebida como uma velha amiga. As mulheres abraçaram-na e obrigaram-na a dar a volta à sala, acotovelando-se e até chorando. Passei uns minutos a namorar com Megan, na cozinha, mas os meus pensamentos não se concentravam no romance.Fechei a porta do meu gabinete sem fazer barulho e comecei a mexer nos processos. Em duas semanas, abrira noventa e um e fechara trinta e oito. Estava a ficar para trás e precisava de uma boa manhã agarrado ao telefone para recuperar. O que não iria acontecer. Sofia bateu à porta e, como esta não tinha trinco, abriu-a. Nem olá, nem um pedido de desculpa.

 

    • Sofia tinha uma casa cheia quando voltei ao escritório. A afluência era forte; havia cinco clientes sentados junto da parede às nove horas. Ela estava ao telefone, a ameaçar alguém em espanhol. Entrei no gabinete de Mordecai para saber se ele tinha lido o jornal. Estava a lê-lo e a sorrir. Combinamos reunir-nos daí a uma hora para discutirmos o processo.
    • Percorremos a secção da Cidade, em parte porque queria ver se haveria uma quarta notícia. Não tive essa sorte. Contudo, havia uma notícia sobre as rusgas levadas a cabo pela polícia em resposta ao ataque a Burkholder. Um advogado dos sem abrigo criticava amargamente a operação e ameaçava com um processo em tribunal. Ruby adorou a notícia. Encantava-a o fato de se escrever tanto acerca dos sem abrigo.
  • Onde está a lista das pessoas despejadas do armazém?-perguntou. Tinha um lápis enfiado atrás da orelha e os óculos empoleirados na ponta do nariz. A mulher estava atarefada. A lista estava ali perto. Entreguei-la e ela examinou-a rapidamente.
  • Bingo! - exclamou.
  • O que é? - perguntei, levantando-se.
  • O número oito, Marquis Deese - disse ela. - Julguei que este nome era conhecido.
  • Conhecido?
  • Sim, está sentado à minha secretária. Foi apanhado ontem à noite em Lafayette Park, em frente da Casa Branca, e despejado em Logan Circle. Foi apanhado numa rusga. Hoje é o seu dia de sorte.

 

    • Fui atrás dela para a sala da frente, onde Mr. Deese estava sentado ao lado da secretária. O homem apresentava semelhanças notáveis com DeVon Hardy - quarenta e muitos anos, cabelo e barba a embranquecer, óculos escuros grossos, e várias camadas de roupa como a maioria dos sem abrigo no princípio de Março. Examinei-o de longe ao dirigir-me para o gabinete de Mordecai para lhe dar a notícia. Abordarmo-lo com cautela. Mordecai é que estava encarregado do interrogatório.
  • Desculpe - disse ele, muito delicadamente. - Sou Mordecai Green, um dos advogados deste escritório. Posso fazer-lhe umas perguntas?

 

    • Estávamos ambos de pé, a olhar para Mr. Deese. Ele levantou a cabeça e respondeu:
  • Acho que sim.
  • Estamos a trabalhar num caso que envolve algumas pessoas que viviam num antigo armazém na esquina da Florida com a New York - explicou Mordecai, devagar.
  • Eu vivia lá - disse ele, suspirando.
  • Vivia?
  • Sim. Fui expulso.
  • Sim, é por isso que estamos a tratar deste caso. Representamos algumas das outras pessoas que foram expulsas. Estamos convencidos de que o despejo foi ilegal.
  • Podem ter a certeza.
  • Quanto tempo é que você lá viveu?
  • Cerca de três meses.
  • Pagava renda?
  • Claro que sim.
  • A quem?
  • A um tipo chamado Johnny.
  • Quanto?
  • Cem dólares por mês, só em dinheiro.
  • Porquê em dinheiro?
  • Eles não queriam documentos escritos.
  • Sabe quem era o dono do armazém?
  • Não.Mordecai puxou uma cadeira e falou a sério com Mr. Deese.

 

    • A resposta saiu sem hesitações, e mal consegui disfarçar a minha satisfação. Se Deese não sabia que Gantry era o dono do edifício, porque haveria de ter medo dele?
  • Gostaríamos de tê-lo como cliente.
  • Para quê?
  • Estamos a processar certas pessoas por causa do despejo. Na nossa opinião, vocês foram vítimas de uma ilegalidade ao serem postos na rua. Gostaríamos de o representar e de apresentar um processo em seu nome.
  • Mas o apartamento era ilegal. Por isso é que eu pagava em dinheiro.
  • Isso não interessa. Podemos arranjar-lhe algum dinheiro.
  • Quanto?
  • Ainda não sei. O que tem a perder?
  • Nada, creio eu.

 

    • Toquei no ombro de Mordecai. Pedimos-lhe desculpa e retiramo-nos para o gabinete dele.
  • O que é? - perguntou Mordecai.
  • À luz do que aconteceu a Kito Spires, creio que devíamos registrar o testemunho dele. Já. Mordecai coçou a barba.
  • Não é má idéia. Vamos recolher um depoimento juramentado.

 

    • Ele pode assiná-lo, a Sofia pode reconhecê-lo e depois, se lhe acontecer alguma coisa, podemos tentar que o documento seja admitido.
  • Temos um gravador? - perguntei.

 

    • Os seus olhos viraram-se em todas as direções.
  • Sim, algures.

 

    • Como Mordecai não sabia onde ele estava, levaria um mês a encontrá-lo.
  • E uma câmara de vídeo? - perguntei.
  • Aqui, não.

 

    • Fiquei a pensar e depois disse:
  • Vou a correr buscar a minha. Você e Sofia mantenham-no ocupado.
  • Ele não tem para onde ir.
  • ótimo. Dê-me quarenta e cinco minutos.

 

    • Saí do escritório a correr e dirigi-me para Georgetown. Ao terceiro número que liguei no meu telefone celular, encontrei Claire no intervalo das aulas.
  • O que se passa? - perguntou ela.
  • Preciso que me emprestes a câmara de vídeo. Estou com pressa.
  • Está no mesmo sítio - disse ela, muito devagar, a tentar a analisar a situação. - Porquê?
  • Por causa de um depoimento. Não te importas que eu me sirva dela?
  • Acho que não.
  • Ainda está na sala?
  • Está.
  • Mudaste a fechadura? - perguntei.
  • Não.

 

    • Por qualquer motivo, esta resposta fez-me sentir melhor. Eu ainda tinha uma chave. Podia entrar e sair se quisesse.
  • E o código do alarme?
  • Não. É o mesmo.
  • Obrigado. Depois telefono-te.O telefone tocou um pouco antes do meio-dia. Sofia estava na outra linha, por isso fui eu a atender.

 

    • Instalamos Marquis Deese num gabinete sem móveis, mas cheio de arquivadores. Ele sentou-se numa cadeira, com uma parede branca e lisa atrás. Eu manejava a câmara, Sofia era o notário e Mordecai, o interrogador. As respostas de Deese não podiam ter sido mais perfeitas. Daí a meia hora estávamos despachados. Todas as perguntas possíveis tinham sido feitas e respondidas. Deese julgava saber onde estavam mais dois despejados e prometeu encontrá-los. Os nossos planos consistiam em apresentar um processo por cada pessoa despejada que conseguíssemos localizar; um de cada vez, com muitas informações aos nossos amigos do Post. Sabíamos que Kelvin Lam estava no CCNV, mas ele e Deese eram os únicos que tínhamos conseguido localizar. Os seus casos não valiam muito dinheiro - ficaríamos satisfeitos se conseguíssemos vinte e cinco mil para cada um - mas o fato de darem entrada no tribunal apertaria mais o cerco dos réus. Eu tinha esperança que a polícia fizesse mais rusgas. Quando Deese ia a sair, Mordecai avisou-o que não falasse do processo. Eu sentei-me numa secretária junto de Sofia e datilografei uma queixa de três páginas em nome do nosso novo cliente, Marquis Deese, contra os mesmos três argüidos, alegando que o despejo fora ilegal. Depois tratei do de Kelvin Lam. Arquivei as queixas na memória do computador. Bastaria alterar os nomes dos queixosos à medida que os fôssemos encontrando.
  • Clínica legal - disse eu, como de costume.

 

    • Do outro lado, respondeu a voz de um homem idoso e distinto.
  • Fala Arthur Jacobs, advogado, da Drake & Sweeney. Gostaria de falar com Mr. Mordecai Green.

 

    • Só consegui responder   Com certeza , antes de carregar no botão de espera. Fiquei a olhar para o telefone, em seguida levantei-me devagar e parei à porta do gabinete de Mordecai.
  • O que há? - perguntou ele. Estava embrenhado na leitura do Código Penal.
  • Arthur Jacobs ao telefone.
  • Quem é ele?
  • É da Drake & Sweeney.

 

    • Ficamos a olhar um para o outro durante alguns segundos e depois ele sorriu.
  • Este pode ser o telefonema dos nossos sonhos - disse.Mordecai pegou no telefone e eu sentei-me.Quando acabou, Mordecai reproduziu-a.

 

    • Foi uma conversa breve, na qual Arthur foi aquele que mais falou. Percebi que queria marcar uma reunião para falar do processo, e quanto mais depressa, melhor.
    • Limitei-me a fazer um gesto de concordância.
  • Querem reunir-se conosco amanhã para falarmos do processo.
  • Onde?
  • Nas instalações deles. Às dez da manhã, sem a sua presença.

 

    • Não estava à espera que me convidassem.
  • Estão preocupados? - perguntei.
  • É claro que estão preocupados. Têm vinte dias para responder, mas já falam em acordo. Estão muito preocupados.Era óbvio que eu dormira pouco, embora a falta de sono não tivesse nada a ver com o desconforto físico. O meu nervosismo prolongou-se para além de um grande banho quente e de uma garrafa de vinho. Tinha os nervos em franja.A reunião teve lugar na sala de reuniões particular de Arthur Jacobs, no oitavo andar, num canto oco do edifício onde eu nunca estivera.            Ele sentou-se de um lado da mesa, de frente para Arthur Jacobs, Donald Rafter, um advogado da companhia de seguros da firma e um advogado da RiverOaks. Tillman Gantry tinha representantes legais, mas estes não tinham sido convidados. Se houvesse um acordo, ninguém esperaria que Gantry contribuísse minimamente para ele. A única presença estranha era a do advogado da RiverOaks, mas fazia sentido. Os interesses da empresa estavam em conflito com os da firma. Mordecai disse que a inimizade era óbvia.Arthur começou por dizer que os réus, em especial a Drake & Sweeney e a RiverOaks, tinham sido apanhados de surpresa pelo processo - encontravam-se muito embaraçados e aturdidos e não estavam acostumados à humilhação, além dos ataques de que estavam a ser alvo na imprensa. Falou sinceramente da situação difícil que a sua amada firma estava a atravessar. Mordecai ouvia, como fez durante a maior parte da reunião.

 

    • Arthur assinalou que havia várias questões envolvidas. Começou por Braden Chance, e revelou que ele fora expulso da firma. Não fora ele a despedir-se; fora expulso. Arthur falou com candura dos erros de Chance. Só ele é que estava encarregado dos assuntos da RiverOaks. Conhecia todos os aspectos do encerramento proposto pela TAG e acompanhou todos os pormenores. Talvez tivesse cometido um erro quando permitiu que o despejo avançasse.
    • Arthur foi o que mais falou do seu lado da mesa, e Mordecai quase não acreditava que o homem tivesse oitenta anos. Os fatos não só eram memorizados como recordados instantaneamente. Os assuntos eram analisados por uma mente extremamente arguta, sempre a trabalhar. Primeiro, combinaram que tudo o que fosse visto e dito na reunião seria mantido em sigilo; nenhuma admissão de culpa sairia dali; nenhuma proposta de acordo seria legalmente vinculada até os documentos serem assinados.
    • Mordecai foi tratado como um alto dignitário pela recepcionista e pelo resto do pessoal - despiram-lhe rapidamente o casaco, e ofereceram-lhe café e pãezinhos frescos.
    • Enquanto aconselhava os meus clientes, era difícil concentrar-me em senhas de alimentação, subsídios de habitação e mais delinqüentes, quando a minha vida dependia do equilíbrio existente noutra frente. Saí para almoçar; a minha presença era muito menos importante do que a alimentação do dia-a-dia. Comprei duas carcaças e uma garrafa de água. Meti-me no carro e passei uma hora no Beltway. Quando regressei ao escritório, o carro de Mordecai estava estacionado junto do prédio. Ele estava no gabinete, à minha espera. Fechei a porta.
    • Passei a manhã seguinte na Redeemer Mission, a dar conselhos a clientes, com todo o tacto de quem tratava dos problemas legais dos sem abrigo há vários anos. A tentação apoderou-se de mim, e às onze e um quarto telefonei a Sofia para saber se tivera notícias de Mordecai. Não tivera. Esperávamos que a reunião na Drake & Sweeney fosse demorada. Tinha esperança que então ele me telefonasse a dizer que tudo estava a correr bem. Não tive essa sorte.
  • Talvez? - perguntou Mordecai.

 

    • A outra parte quis saber se Mordecai vira o processo. Onde estava exatamente essa maldita pasta? Mordecai não respondeu. Arthur explicou que tinham sido retirados certos documentos.
  • Os senhores viram o memorando de Hector Palma, com data de vinte e um de Janeiro? - perguntou Mordecai. Eles ficaram hirtos.
  • Não - foi a resposta, dada por Arthur.Fez-se um longo silêncio enquanto liam o memorando, o examinavam, o reliam e por fim o analisavam, procurando desesperadamente hipóteses de fuga e palavras que pudessem ser retiradas do contexto e reverter a seu favor. Nada a fazer. As palavras de Hector eram muito claras e a sua narrativa muito descritiva.

 

    • Então Chance retirara de fato o memorando, além do recibo de Lontae, e destruíra-os. Com um grande aparato, e saboreando todos os segundos, Mordecai tirou da pasta várias cópias do memorando e do recibo. Com uma pose majestática, fê-los deslizar para o outro lado da mesa, onde foram arrebatados pelos advogados tensos, demasiado assustados para respirarem.
  • Posso perguntar-lhe onde arranjou isto? - perguntou Arthur, com delicadeza.
  • Isso não é importante, pelo menos para já.Incrédulos, tinham as cópias na mão.

 

    • Mas como eram litigantes experientes, recompuseram-se e afastaram o memorando para o lado, como se fosse algo de que pudessem ocupar-se mais tarde.
    • Era óbvio que eles estavam consumidos com o memorando. Chance descrevera o seu conteúdo à saída, e o original fora destruído. E se existissem cópias?
  • Acho que isto nos conduz ao processo desaparecido - disse Arthur, ansioso por encontrar argumentos mais sólidos. Tinham uma testemunha ocular que me vira nas imediações do gabinete de Chance, na noite em que eu tirara o dossiê. Tinham impressões digitais. Tinham o dossiê misterioso que aparecera em cima da minha secretária, aquele que acompanhava as chaves. Eu pedira a Chance para ver o processo da RiverOaks/TAG. Existia um motivo.
  • Mas não há testemunhas oculares - disse Mordecai. - É tudo circunstancial.
  • Sabe onde está o processo? - perguntou Arthur.
  • Não.
  • Não temos interesse nenhum em que Michael Brock vá para a cadeia.
  • Nesse caso, por que razão tentam mover-lhe um processo-crime?
  • Está tudo em cima da mesa, Mr. Green. Se conseguirmos resolver a questão do processo, poderemos desistir do processo-crime.
  • Isso é uma ótima notícia. O que propõem para chegarmos a acordo sobre o processo?Com a eficiência característica das grandes empresas, os escravos da Drake & Sweeney tinham passado horas a examinar as tendências mais recentes em todo o país, em termos de indenizações por delitos cíveis. Um ano. Cinco anos. Dez anos. Região por região. Estado por estado. Cidade por cidade. Quanto é que os júris exigiam pela morte de crianças em idade pré-escolar? Não muito. A média nacional era quarenta e cinco mil dólares, mas muito menos no Sul e no Midwest, e um pouco mais na Califórnia e nas cidades maiores.O cálculo daquilo que Lontae poderia ter ganho era muito liberal. Com uma história laboral manchada, tinham partido de certos pressupostos de peso. Ela tinha vinte e dois anos, e dentro de pouco tempo arranjaria emprego a tempo inteiro, a ganhar o ordenado mínimo. Era um pressuposto generoso, mas Rafter estava disposto a fazer concessões. Ela manter-se-ia limpa, sóbria e nunca mais engravidaria enquanto estivesse a trabalhar; outra teoria caridosa. Conseguiria receber formação profissional algures, arranjaria um emprego a ganhar o dobro do ordenado mínimo, e conservá-lo-ia até aos sessenta e cinco anos. Ajustando os seus ganhos futuros de acordo com a inflação e transferindo-os para dólares correntes, Rafter chegara à quantia de $570 000, correspondente aos salários que Lontae não ganhara. Não havia feridas nem queimaduras, nem dor ou sofrimento. Eles tinham morrido durante o sono.

 

    • Para resolver o caso, e admitindo que não tinham sido cometidos erros, a firma oferecia-se generosamente para pagar $50000 por cada criança, mais o total dos ganhos de Lontae, o que perfazia $770000.
    • As crianças em idade pré-escolar não trabalham, não ganham dinheiro, e geralmente os tribunais não admitem previsões quanto à sua capacidade para o ganharem no futuro.
    • Rafter estendeu-lhe um resumo com dez páginas, cheio de gráficos e mapas de várias cores, tudo destinado a fazer crer que a morte de crianças e de mães jovens e incultas não tinham muito valor em tribunal.
  • Isso nem sequer se aproxima do aceitável - disse Mordecai.
  • Posso conseguir isso de um júri só por uma criança morta.Mordecai continuou a desacreditar quase tudo o que constava do belo relatório de Rafter. Não se importava com aquilo que os júris faziam em Dallas ou em Seattle, nem conseguia perceber onde estava o interesse. Não estava interessado nos procedimentos judiciais de Omaha. Sabia o que podia fazer com um júri de Columbia, e só isso é que era importante. Se julgavam que podiam livrar-se do imbróglio por pouco dinheiro, então mais valia ir-se embora.

 

    • Arthur recompôs-se, enquanto Rafter procurava uma saída.
    • Os seus interlocutores enterraram-se nas cadeiras.
  • Isto é negociável. Isto é negociável - disse ele.Os senhores têm um advogado rico de uma empresa próspera, que admitiu que se efetuasse um despejo ilegal, e como conseqüência direta os meus clientes foram postos na rua e morreram quando tentavam aquecer-se. Francamente, meus senhores, é um caso típico em que é possível exigir uma indenização suplementar, sobretudo aqui no distrito.

 

    • Aqui no distrito, significava apenas uma coisa: um júri negro.
    • O cálculo não contemplava qualquer indenização suplementar, e Mordecai chamou-lhes a atenção.
  • Podemos negociar - disse Arthur outra vez. - Que número é que tem em mente?

 

    • Nós tínhamos debatido qual o número que devíamos lançar para cima da mesa. Tínhamos pensado em dez milhões de dólares, mas tínhamos afastado este número. Podiam ser quarenta, cinqüenta ou cem mil.
  • Um milhão por cada um - disse Mordecai. As suas palavras caíram em peso na mesa de mogno. Os que estavam do outro lado ouviram-nas claramente, mas levaram alguns segundos a digeri-las.
  • Cinco milhões? - perguntou Rafter, com uma voz que mal se ouvia.De súbito, os blocos de apontamentos chamaram-lhes a atenção, e cada um dos quatro escreveu algumas frases.

 

    • Pouco depois, Arthur voltou à carga, explicando que a nossa teoria da responsabilidade não era absoluta. Um fenômeno natural - o nevão também fora em parte responsável pelas mortes. Seguiu-se uma longa discussão sobre o tempo. Mordecai pôs fim ao assunto, dizendo:
    • Cinco milhões - exclamou Mordecai. - Um por cada uma das vítimas.
  • Os jurados sabem que neva em Fevereiro, que está frio em Fevereiro e que há nevões em fevereiro.

 

    • Durante a reunião, qualquer referência ao júri, ou aos jurados, fora sempre seguida por alguns segundos de silêncio da outra parte.
  • Eles estão horrorizados com a perspectiva do julgamento -disse-me Mordecai.            Cansado de discutir a responsabilidade, Arthur passou para o seu ponto mais forte: eu. Referiu-se especificamente ao fato de eu ter tirado o processo do gabinete de Chance e de o ter feito depois de me ter sido comunicado que não tinha autorização para isso. A posição deles não era negociável. Estavam dispostos a deixar cair a acusação de crime se fosse alcançado um acordo no processo cível, mas eu tinha de encarar as conseqüências disciplinares com base na queixa de atropelo à ética.

 

    • A nossa teoria era suficientemente forte para resistir aos ataques deles, explicou-lhes Mordecai. Fosse por um ato intencional, fosse por negligência, o despejo fora efetuado. Era previsível que os nossos clientes fossem obrigados a ficar na rua, em Fevereiro, porque não tinham outro sítio para onde ir. Ele poderia transmitir esta idéia extraordinariamente simples a qualquer júri do país, mas ela agradaria especialmente à boa gente do distrito.
  • O que querem eles? - perguntei.
  • Dois anos de suspensão - respondeu Mordecai, com um ar solene.

 

    • Não consegui responder. Dois anos, não negociáveis.
  • Disse-lhes que eles estavam doidos - disse Mordecai, mas não com a ênfase que eu gostaria. - Nem pensar nisso.Discutiram mais um pouco sobre o dinheiro, mas a questão ficou em aberto. Na realidade, não tinham chegado a acordo sobre coisa nenhuma, exceto quanto à realização de uma reunião o mais depressa possível.

 

    • A última coisa que Mordecai fez foi entregar-lhes uma cópia do processo de Marquis Deese, que ainda não fora apresentado no tribunal. Incluía os mesmos três réus e pedia a quantia insignificante de cinqüenta mil dólares pelo despejo ilegal. Seguir-se-iam outros, prometeu-lhes Mordecai. De fato, tencionávamos entregar dois processos no tribunal por semana, até esgotarmos todos os despejados.
    • Era mais fácil manter o silêncio. Eu repetia as palavras na minha mente. Dois anos. Dois anos.
  • Tencionam fornecer uma cópia disto aos jornais? - perguntou Rafter.
  • Porque não? - ripostou Mordecai. - Assim que for entregue no tribunal, é um documento público.
  • É que, bem, nós já estamos fartos da imprensa.
  • Vocês é que começaram.
  • O quê?
  • Sopraram a notícia da prisão do Michael.
  • Isso não é verdade.
  • Como é que o Post conseguiu a fotografia dele?Sozinho no meu gabinete, com a porta fechada, fiquei a olhar para as paredes até que o acordo começou a fazer sentido. A firma estava disposta a pagar muito dinheiro para evitar duas coisas: mais humilhações e o espetáculo de um julgamento que poderia causar-lhes graves prejuízos financeiros. Se eu entregasse o processo, eles desistiriam da queixa-crime. Tudo ficaria no seu lugar, exceto o fato de a firma exigir algumas satisfações.E fizera tudo aquilo com informações provenientes do interior da empresa, pelo menos na opinião de todos eles. Aparentemente, não sabiam do envolvimento de Hector. Eu roubara o dossiê, descobrira tudo o que precisava e depois construíra o processo, peça por peça. Era um Judas. Infelizmente compreendia-os.Sabia que ele passara toda a manhã ao telefone, mas não me aproximara do seu gabinete.

 

    • Muito depois de Sofia e Abraham terem saído, estava eu sentado na penumbra do meu gabinete quando Mordecai entrou e se sentou numa das duas cadeiras fortes que eu comprara numa feira da ladra por seis dólares. O par. O anterior proprietário pintara-as de castanho. Eram muito feias, mas pelo menos deixara de recear que os clientes e as visitas caíssem no chão a meio de uma frase.
    •             Eu não era um vira-casacas, mas, aos olhos deles, tornara-me responsável por toda aquela confusão. Era o elo de ligação entre os seus segredos sujos, bem escondidos na torre de marfim, e a exposição à qual o processo os submetera. O descrédito público era motivo suficiente para me odiarem; a perspectiva de os despojar do seu bem-amado dinheiro alimentava a sua sede de vingança.
    • Arthur disse a Rafter que se calasse.
  • Tenho recebido muitos telefonemas - disse ele. - As coisas estão a andar mais depressa do que nós imaginávamos. Continuei a ouvir; não tinha nada a dizer.
  • Ora com Arthur, ora com o juiz DeOrio. Você conhece o DeOrio?
  • Não.
  • É um tipo duro, mas é bom, justo, moderadamente liberal.

 

    • Começou numa grande firma, há muitos anos, e por qualquer motivo quis ser juiz. Não optou pela fortuna. Julga mais casos do que qualquer outro juiz da cidade, porque mantém os advogados sob controlo. Tem a mão muito pesada. Quer tudo resolvido, e quando não há acordo quer que o julgamento se efetue o mais depressa possível. Odeia casos pendentes.
  • Acho que já ouvi esse nome.
  • Espero que sim. Você é advogado nesta cidade há sete anos.
  • Direito da Concorrência. Numa grande firma. Lá em cima.
  • De qualquer modo, aqui vai o desfecho. Combinamos encontrar-nos amanhã na sala de audiências do DeOrio. Estará lá toda a gente
  • os três réus, com os advogados, eu, você, o nosso procurador, todos aqueles que tenham qualquer interesse no processo.
  • Eu?
  • Sim. O juiz quer que você esteja presente. Disse que você podia ficar sentado no banco dos jurados a observar, mas quer que lá esteja. E quer o processo desaparecido.
  • Com todo o prazer.
  • Ele é célebre, em determinados círculos, creio eu, por detestar a imprensa. É freqüente expulsar os repórteres das suas salas; proíbe as câmaras de televisão de se aproximarem mais de trinta metros dos seus domínios. Já está irritado com a notoriedade que este caso gerou. Está decidido a pôr termo às fugas de informação.
  • O processo é um documento público.
  • Sim, mas ele pode selá-lo, se lhe apetecer. Não creio que o faça, mas ele gosta de alardear.
  • Então ele quer um acordo?
  • Claro que quer. É juiz, não é verdade? Todos os juízes querem acordos para todos os casos. Mais tempo sobra para o golfe.
  • O que pensa ele do nosso caso?
  • Não abriu o jogo, mas insiste em que os três acusados estejam presentes, e que não faltem. Veremos quem consegue tomar decisões no local.
  • E o Gantry?
  • O Gantry vai lá estar. Falei com o advogado dele.
  • Ele sabe que há um detector de metais à porta?
  • Talvez. Já esteve no tribunal. Eu e o Arthur falamos ao juiz da proposta deles. Ele não reagiu, mas não me parece que tenha ficado impressionado. Já viu muitos grandes veredictos. Conhece os seus jurados.
  • E quanto a mim?

 

    • Seguiu-se uma longa pausa do meu amigo, que tentou encontrar palavras simultaneamente sinceras e apaziguadoras.
  • Ele vai ser severo.

 

    • Não havia nada de apaziguador nisto.
  • Onde está a justiça, Mordecai? É o meu pescoço que está no cepo. Perdi a esperança.
  • Não é uma questão de justiça. Você tirou o processo para remediar uma coisa que estava mal. A sua intenção não era roubá-lo, apenas usá-lo durante uma hora. Foi um ato meritório, mas foi um roubo.
  • O DeOrio chamou-lhe roubo?
  • Chamou. Uma vez.Mordecai distribuiu de outra maneira o seu considerável peso. A minha cadeira estalou, mas não cedeu um centímetro. Senti-me orgulhoso dela.

 

    • Então o juiz considerava-me um ladrão. A opinião estava a tornar-se unânime. Não tinha coragem para perguntar a Mordecai qual era a sua opinião. Ele poderia dizer-me a verdade, e eu não queria ouvi-la.
  • Quero que saiba uma coisa - disse ele, com um ar grave.-Você decide, e sairemos deste caso num abrir e fechar de olhos. Não precisamos do acordo; ninguém precisa, verdadeiramente. As vítimas estão mortas. Os herdeiros ou são desconhecidos ou estão na cadeia. Um belo acordo não afetará em nada a minha vida. O caso é seu.

 

    • Você é que decide.
  • Isso não é assim tão simples, Mordecai.
  • Porquê?
  • Tenho medo do processo-crime.
  • E tem motivos para isso. Mas eles vão esquecer o processo-crime.É canja.

 

    • Vão esquecer a queixa. Eu podia telefonar agora mesmo a Arthur e dizer-lhe que nós deixaríamos cair tudo se eles deixassem cair tudo. As duas partes afastavam-se e esqueciam o assunto. Ele ficaria radiante.
  • A imprensa comia-nos vivos.
  • E depois? Estamos imunes. Acha que os nossos clientes se ralam com aquilo que o Post diz de nós?Certas pessoas não podiam proteger-se de si mesmas.

 

    • Ele estava a fazer de advogado do diabo - a defender pontos em que não acreditava. Mordecai queria proteger-me, mas também queria desmascarar a Drake & Sweeney.
  • Está bem, retiramo-nos - disse eu. - E o que conseguimos?

 

    • Eles saem ilesos. Atiram aquela gente para a rua. São apenas responsáveis pelos despejos ilegais, e, em última análise, pelas mortes dos nossos clientes, mas deixamo-los fugir? É disso que estamos a falar?
  • É a única maneira de protegermos a sua licença para exercer advocacia.
  • Não há nada como uma certa pressão, Mordecai - disse eu, num tom bastante ríspido.Mordecai Green ficaria destroçado se eu, de súbito, me atemorizasse.Raramente a causa dos problemas dos seus clientes tinha uma relação tão direta com grandes empresas privadas.A minha presença complicava as coisas. O meu rosto suave e pálido podia ficar atrás das grades. A minha licença para exercer advocacia, e conseqüentemente para viver, estava em risco.

 

    • Como o dinheiro não tinha importância para Mordecai, e como uma grande reparação teria pouco ou nenhum impacto na sua vida, e como os clientes estavam, como ele disse, mortos, presos ou eram desconhecidos, nunca consideraria um acordo antes do julgamento, desde que eu não estivesse envolvido. Mordecai queria um julgamento, uma superprodução ruidosa, com luzes, câmaras e palavras impressas não concentradas nele, mas na situação difícil da sua gente. Os julgamentos nem sempre são sobre erros individuais; por vezes são utilizados como púlpitos.
    • Tudo o seu mundo consistia em ajudar os pobres a recomporem-se. Os seus eram aqueles que não tinham esperança nem teto, aqueles a quem davam pouco e que procuravam apenas as coisas básicas da vida - a refeição seguinte, uma cama enxuta, um emprego com um salário digno, um pequeno apartamento com uma renda acessível.
    • Mas ele tinha razão. O problema era meu, e só eu podia tomar as decisões cruciais. Eu tirara o processo, um ato estúpido, que também estava errado em termos legais e éticos.
  • Não estou a abandonar o navio, Mordecai - disse eu.
  • Nem eu esperava isso de si.
  • Deixe-me pintar-lhe um cenário. E se eu os convencer a pagar uma quantia que nos permita viver? As acusações criminais são retiradas; e não fica mais nada em cima da mesa a não ser eu e a minha licença? E se eu aceitar prescindir dela por um tempo? O que me acontece?
  • Em primeiro lugar, sofre o vexame de uma suspensão disciplinar.
  • O que, por muito desagradável que seja, não será o fim do mundo - disse eu, tentando mostrar-me forte. Estava horrorizado com a situação embaraçosa que se criaria. Warner, os meus pais, os meus amigos, os meus colegas de faculdade, Claire e todos aqueles finaços da Drake & Sweeney. Imaginava a cara que não fariam ao receberem a notícia.
  • Em segundo lugar, não pode exercer advocacia durante a suspensão.
  • Perco o meu emprego?
  • Claro que não.
  • Então o que farei?
  • Bem, manterá este gabinete. Dará consultas no CCNV, na Samaritan House, na Redeemer Mission e nos outros sítios onde já esteve. Continuará a ser sócio da clínica. Chamar-lhe-emos assistente social, e não advogado.
  • Portanto nada muda?
  • Não muito. Olhe para a Sofia. Recebe mais clientes do que todos nós juntos, e meia cidade julga que ela é advogada. Se for necessário ir a tribunal, eu encarrego-me disso. Para si, será o mesmo.

 

    • As regras que norteavam o Direito das ruas eram feitas por aqueles que o praticavam.
  • E se for apanhado?
  • Ninguém se importa com isso. A linha que divide a assistência social do Direito Social nem sempre é clara.
  • Dois anos é muito tempo.
  • É, e não é. Não somos obrigados a concordar com uma suspensão de dois anos.
  • Julguei que isso não era negociável.
  • Amanhã, tudo será negociável. Mas você precisa de fazer alguma investigação. Descubra casos semelhantes, se os houver. Veja o que outras comarcas fizeram com queixas semelhantes.
  • Acha que isto já aconteceu?
  • Talvez. Atualmente somos um milhão. Os advogados sempre foram engenhosos a encontrar maneiras de lixar os outros. Mordecai estava atrasado para uma reunião. Agradeci-lhe e saímos juntos.A sala de audiências de DeOrio ficava no segundo andar do Edifício Carl Moultrie, perto da do juiz Kisner, onde o meu caso de grande furto aguardava a fase seguinte num processo embaraçoso. Os corredores estavam cheios de advogados de Direito Penal e daqueles que resolviam tudo, e que anunciavam na televisão por cabo e nas paragens de autocarro. Misturavam-se com os seus clientes, que pareciam quase todos ser culpados de qualquer coisa, e recusei-me a acreditar que o meu nome figurava na mesma lista daqueles rufiões.Queria sentar-me na tribuna dos jurados, ouvir tudo e não ser incomodado por ninguém. Entramos dois minutos antes da uma hora. A assistente de DeOrio distribuía cópias da agenda. Indicou-nos os nossos lugares - eu para a tribuna do júri, onde me sentei, sozinho e satisfeito, e Mordecai para a mesa da acusação, ao lado da tribuna do júri. Wilma Phelan, a procuradora, já lá estava, e aborrecida porque não fazia idéia de nada do que ia ser discutido.            Avistei Arthur, Rafter e Nathan Malamud. E Barry Nuzzo. Estava resolvido a não permitir que nada me surpreendesse, mas não esperava ver o Barry. Ao escolher três dos colegas que tinham sido feito reféns tal como eu, a firma estava a enviar uma mensagem subtil - todos os outros advogados aterrorizados pelo Senhor tinham sobrevivido sem soçobrarem. O que me acontecera? Porque era eu o mais fraco? A quinta pessoa do grupo deles estava identificada como L. James Suber, advogado de uma companhia de seguros. A Drake & Sweeney tinha um bom seguro contra a negligência profissional, mas eu duvidava que a cobertura se aplicasse a este caso. A apólice excluía atos intencionais, roubos cometidos por sócios ou advogados, violações deliberadas de padrões de conduta. A negligência de um advogado da empresa estava coberta. Os delitos intencionais, não. Braden Chance não se limitara a ignorar um estatuto, um código ou método estabelecido. Tomara a decisão consciente de prosseguir com o despejo, apesar de saber muito bem que os ocupantes eram de fato inquilinos. Travar-se-ia uma luta desagradável à margem, longe da nossa presença, entre a Drake & Sweeney e a sua seguradora. Deixá-los lutar. À uma hora em ponto, o juiz DeOrio apareceu atrás da tribuna e sentou-se.

 

    • A mesa da defesa era uma obra-prima em termos de posição estratégica. A Drake & Sweeney estava reunida a um canto; Tillman Gantry e os seus dois advogados, no outro. Ao centro, e fazendo as vezes de tampão, estavam dois representantes da RiverOaks e três advogados. A agenda também indicava os nomes de todos os presentes. Contei treze pessoas do lado da defesa.
    • O momento em que entrássemos era importante para mim, e insignificante para Mordecai. Não nos atrevemos a brincar com o atraso. DeOrio era um fanático da pontualidade. Mas eu não podia admitir que chegaria dez minutos mais cedo e ficaria sujeito aos olhares, aos cochichos e talvez até à tagarelice banal de Donald Rafter, de Arthur e sabia-se lá de quem eles trouxessem mais. Não me apetecia estar na sala com Tillman Gantry, a menos que o juiz estivesse presente.
    • Fui para a Faculdade de Direito de Georgetown, perto do Monte do Capitólio. A biblioteca estava aberta até à meia-noite. Era o sítio ideal para me esconder e pensar na vida de um advogado caprichoso.
  • Boa tarde - disse ele, num tom rude, enquanto se instalava.Ajustou o microfone e disse:

 

    • Envergava uma toga, o que me pareceu estranho. Não era uma sessão formal, mas sim uma conferência não oficial que visava a obtenção de um acordo.
  • Mr. Burdick, por favor mantenha a porta fechada.Um escrivão começou a registrar todas as palavras que eram pronunciadas.

 

    • Mr. Burdick era um funcionário do tribunal, fardado, que guardava a porta do lado de dentro. Os bancos estavam completamente vazios. Era uma conferência privada.
  • Informaram-me que todas as partes e advogados estão presentes - disse ele, olhando para mim como se fosse apenas mais um violador.
  • O objetivo desta reunião é tentar resolver este caso. Depois de numerosas conversas havidas ontem com os advogados principais, parece-me que uma conferência como esta, realizada neste momento, pode ser benéfica. Nunca participei numa conferência de acordo tão pouco tempo depois da entrega de uma queixa, mas como todas as partes concordam, dou o tempo por bem empregue. Nada do que hoje dissermos pode ser repetido à imprensa, sejam quais forem as circunstâncias.Em seguida, a assistente entregou a cada um de nós uma cópia de um acordo sucinto de dois parágrafos, com o nosso nome. Assinei e devolvi-lhe.

 

    • Um advogado sob pressão não consegue ler dois parágrafos e tomar uma decisão rápida.
    • O juiz olhou para Mordecai e depois para mim. Todas as cabeças da mesa da defesa se viraram para o imitar. Apeteceu-me levantar-me e lembrar-lhes que eles é que tinham iniciado as fugas de informação. É verdade que nós tínhamos desferido os golpes mais duros, mas eles tinham sido os primeiros a atacar.
  • Há algum problema? - perguntou DeOrio à equipa da Drake & Sweeney. Procuravam hipóteses de fuga. Eram treinados para isso. Assinaram os acordos, que foram recolhidos pela assistente.
  • Trabalharemos a partir da agenda - disse o juiz. - O ponto um é um resumo dos fatos e teorias de responsabilidade. Mr. Green, o senhor é que apresentou o processo. Pode começar. Tem cinco minutos. Mordecai levantou-se, sem apontamentos, com as mãos bem enfiadas nos bolsos e completamente à vontade. Em dois minutos, apresentou o nosso caso com clareza e depois sentou-se. O juiz apreciou a brevidade.Também questionou os atos de Lontae Burton.

 

    • Arthur falou em nome dos acusados. Reconheceu a base factual do caso, mas concentrou-se na questão da responsabilidade. Acusou fortemente o estranho nevão que cobriu a cidade e que dificultou a vida a toda a gente.
  • Ela tinha alguns sítios para onde ir - disse Arthur. - Havia abrigos de emergência abertos. Na noite anterior, ficou na cave de uma igreja, como muitas outras pessoas. Porque se foi embora? Não sei, mas ninguém a obrigou, pelo menos ninguém que tenhamos encontrado até agora. A avó tinha um apartamento em Northeast. Uma parte da responsabilidade não devia ser atribuída à mãe? Ela não devia ter feito algo mais para proteger os filhos?

 

    • Seria a única hipótese de Arthur acusar uma mãe morta. Dentro de um ano, mais ou menos, a tribuna do júri onde me encontrava estaria cheia de pessoas com um aspecto diferente do meu, e nem Arthur nem qualquer outro advogado em seu perfeito juízo insinuariam que Lontae Burton tivera em parte culpa da morte dos próprios filhos.
  • Porque estava ela na rua, para começar? - perguntou DeOrio, num tom agreste, que quase me fez sorrir.

 

    • Arthur respondeu, imperturbável:
  • Dado o objetivo desta reunião, Meritíssimo, estamos dispostos a reconhecer que o despejo foi ilegal.
  • Obrigado.
  • Não tem de quê. O que mantemos é que uma parte da responsabilidade deve ser atribuída à mãe.
  • Que percentagem?
  • Pelo menos cinqüenta por cento.
  • Isso é demasiado.
  • Consideramos que não, Meritíssimo. Podemos tê-la posto na rua, mas ela esteve lá mais de uma semana antes da tragédia.
  • Mr. Green?

 

    • Mordecai levantou-se, abanando a cabeça, como se Arthur fosse um estudante do primeiro ano de Direito que se agarrasse a teorias elementares.
  • Essas pessoas não têm acesso imediato à habitação, Mr. Jacobs.Arthur ficou descoroçoado. Rafter, Malamud e Barry ouviram tudo o que foi dito, aterrados ao pensar em Mordecai Green à solta numa sala de audiências, com um júri constituído pelos seus pares.

 

    • É por isso que lhes chamam sem abrigo. O senhor admite que as pôs na rua, e foi lá que elas morreram. Muito gostava eu de discutir isto com um júri.
  • A responsabilidade é clara, Mr. Jacobs - disse DeOrio.-O senhor pode invocar perante o júri a negligência da mãe, embora eu não o aconselhe a fazê-lo.Se conseguíssemos provar no julgamento que os réus eram responsáveis, o júri seria obrigado a considerar a questão das indenizações. Era o ponto seguinte da agenda. Rafter propôs que se aplicasse o mesmo critério com base nas tendências atuais das decisões do júri. Falou de quanto valiam as crianças mortas no nosso sistema judicial. Mas depressa caiu na monotonia quando se referiu à história laboral de Lontae e ao cálculo das perdas dos seus ganhos futuros. Chegou à mesma quantia, $770 000, que tinham oferecido na véspera, e pediu que ela constasse dos autos.

 

    • Mordecai e Arthur sentaram-se.
  • Essa não é a sua proposta final, pois não, Mr. Rafter? - perguntou DeOrio. O seu tom era de desafio; esperava sem dúvida que aquela não fosse a proposta final.
  • Não, Meritíssimo.
  • Mr. Green.

 

    • Mordecai levantou-se outra vez.
  • Rejeitamos a proposta, Meritíssimo. As tendências nada significam para mim. A única tendência que me interessa é quanto é que posso convencer um júri a atribuir, e, com todo o respeito por Mr. Rafter, será muito mais do que estão a oferecer.Mordecai discutiu a opinião deles, segundo a qual uma criança morta valia apenas cinqüenta mil dólares. Insinuou fortemente que uma estimativa tão baixa era o resultado de um preconceito contra as crianças da rua, que por acaso eram negras. Gantry foi o único elemento da mesa da defesa que não se mostrou incomodado.

 

    • Ninguém na sala duvidava.
  • O senhor tem um filho em St. Alban’s, Mr. Rafter. Aceitaria cinqüenta mil dólares por ele?

 

    • O nariz de Rafter ficou a oito centímetros do bloco de apontamentos.
  • Posso convencer um júri nesta sala de audiências que aquelas criancinhas valiam pelo menos um milhão de dólares cada uma, como qualquer criança que freqüenta as escolas preparatórias de Virginia e Maryland.O resumo de Rafter não contemplou a dor nem o sofrimento das vítimas. O raciocínio não era explícito, mas era óbvio. Tinham morrido tranqüilamente, respirando gás inodoro. Não havia queimaduras, fraturas ou sangue.Foi uma intervenção brilhante, feita de improviso e com a mestria de um contador de histórias dotado. Como único jurado, eu ter-lhe-ia entregue um cheque em branco.

 

    • Rafter pagou caro a sua omissão. Mordecai lançou-se numa narrativa pormenorizada das últimas horas de vida de Lontae e dos filhos; a procura de comida e de calor, a neve e o frio agreste, o medo de morrerem gelados, os esforços desesperados para estarem juntos, o horror de serem apanhados por um nevão, num calhambeque, com o motor a trabalhar, a verem o tubo de escape.
    • Fora um golpe baixo, que os atingiu em cheio. Não havia dúvida que os filhos deles iam à escola.
  • Não me falem em dor nem em sofrimento - rosnou, dirigindo-se à Drake & Sweeney. - Os senhores não sabem o que isso significa.A voz de Mordecai fluía e refluía, aumentando de tom com a indignação e diminuindo com a vergonha e a culpa. Não faltou uma sílaba, não houve uma palavra desperdiçada. Estava a dar-lhes uma dose extraordinária daquilo que o júri ouviria.Mordecai deixou o melhor para o fim. Fez uma preleção sobre o objetivo da indenização suplementar - castigar os que cometiam ilegalidades e tomá-los como exemplo para que não pecassem mais. Insistiu nos males cometidos pelos réus, gente rica que não se importava com aqueles que eram menos afortunados.

 

    • Arthur é que controlava o livro de cheques, que lhe deve ter aberto um buraco no bolso.
    • Falou de Lontae como se a conhecesse há vários anos. Uma criança que nascera sem oportunidades, que cometera todos os erros previsíveis. Mas o mais importante é que era uma mãe que adorava os filhos e tentava desesperadamente sair da pobreza. Enfrentara o seu passado e os seus vícios, e lutava pela sobriedade quando os acusados a atiraram de novo para a rua.
  • Não passam de um grupo de vadios. Vamos pô-los na rua!-exclamou Mordecai, atroando os ares.Era o caso típico em que devia ser pedida uma indenização suplementar, e ele não duvidava que um júri pensaria o mesmo. Também eu pensava assim, e naquele momento nem Arthur, nem Rafter, nem qualquer dos outros advogados que estavam presentes queriam nada com Mordecai Green.

 

    • A ganância levara-os a ignorar a lei. Um despejo legal levaria pelo menos mais trinta dias a realizar-se, o que teria destruído o negócio com os Correios. Mais trinta dias e os nevões fortes teriam desaparecido; as ruas seriam um pouco mais seguras.
  • Aceitaremos cinco milhões - disse, chegando ao fim. - Nem menos um cêntimo.

 

    • Fez-se uma pausa quando ele acabou de falar. DeOrio tomou alguns apontamentos e depois voltou a consultar a agenda. Seguia-se a questão do processo.
  • Tem-no? - perguntou-me ele.
  • Tenho, Meritíssimo.
  • Está disposto a entregá-lo?
  • Estou.Tanto ele como os outros estavam ansiosos por pegar no processo.

 

    • Quando o juiz acabou, disse:
    • Mordecai abriu a pasta danificada pelo uso e tirou o processo. Entregou-o à assistente, que o passou ao juiz. Esperamos dez longos minutos, enquanto DeOrio o folheava, página por página. Várias vezes dei com Rafter a observá-lo, mas não me importei.
  • O processo foi devolvido, Mr. Jacobs. Existe um processo-crime pendente ao fundo do corredor. Falei com o juiz Kisner acerca do assunto. O que deseja fazer?
  • Meritíssimo, se conseguirmos chegar a acordo sobre todos os outros assuntos, não insistiremos no processo.
  • Presumo que isto o satisfaça, não é assim, Mr. Brock?-perguntou DeOrio. Era óbvio que me satisfazia.
  • É sim, Meritíssimo.
  • Continuemos. O ponto seguinte é a queixa relativa à ética, apresentada pela Drake & Sweeney contra Michael Brock. Mr. Jacobs, não se importa de falar disto?
  • Com certeza, Meritíssimo.Não admitiam retirar a queixa por atropelo à ética, fossem quais fossem as circunstâncias.

 

    • Os seus argumentos foram bem apresentados, bem defendidos, e ele convenceu-me. Os representantes da RiverOaks pareciam particularmente obstinados.
    • Arthur levantou-se e proferiu uma condenação das minhas deficiências éticas. Não foi exageradamente duro, nem exaustivo. Pareceu-me que extraía prazer do que dizia. Arthur era um advogado por excelência, um dos antigos, que apregoavam a ética e decerto se norteavam por ela. Ele e a empresa nunca me perdoariam a minha falta, mas eu fora, afinal, um deles. Tal como os atos de Braden Chance tinham refletido toda a firma, também o meu erro devia manter certos padrões. Arthur terminou, afirmando que eu não devia escapar ao castigo por ter tirado o processo. Fora uma clamorosa quebra do dever perante o cliente, a RiverOaks. Eu não era um criminoso, e eles não tinham dificuldade em esquecer a acusação de grande furto. Mas eu era advogado, e muito bom, admitiu Arthur, e por conseguinte devia ser responsabilizado.
  • Mr. Brock, tem alguma coisa a responder? - perguntou DeOrio.

 

    • Eu não tinha preparado os meus comentários, mas não tive medo de me levantar e de dizer o que sentia. Olhei para Arthur de frente, e disse:
  • Mr. Jacobs, sempre tive um grande respeito por si, e continuo a ter. Não tenho nada a dizer em minha defesa. Fiz mal ao tirar o processo, e mil vezes desejei não o ter feito. Procurava uma informação que sabia estar a ser sonegada, mas isso não era justificação. Peço-lhe desculpa, a si e ao resto da firma, e ao seu cliente, a RiverOaks. Sentei-me e não consegui olhar para eles. Mordecai disse-me mais tarde que a minha humildade contribuíra muito para quebrar o gelo. DeOrio fez então uma coisa muito sensata. Passou para o ponto seguinte, o litígio que ainda não começara. Tínhamos combinado apresentar um processo em nome de Marquis Deese e de Kelvin Lam, e posteriormente em nome de todos os outros despejados que conseguíssemos encontrar. DeVon Hardy e Lontae já não existiam, portanto havia quinze potenciais queixosos. Isto fora prometido por Mordecai, que informara o juiz.
  • Se o senhor admitir a responsabilidade, Mr. Jacobs, terá de falar de indenizações. Quanto oferece para chegar a acordo sobre estes outros quinze casos? - perguntou o juiz.

 

    • Arthur falou em voz baixa com Rafter e Malamud, e depois respondeu:
  • Bem, Meritíssimo, pelos nossos cálculos, faz agora um mês que essas pessoas ficaram sem a sua casa. Se dermos cinco mil a cada um, podem encontrar outro sítio, talvez alguma coisa melhor.
  • Isso é pouco - disse DeOrio. - Mr. Green.
  • Muito pouco - reconheceu Mordecai. - Mais uma vez, avalio os casos com base naquilo que o júri possa fazer. Os mesmos réus, a mesma conduta errada, os mesmos jurados. Posso conseguir com facilidade cinqüenta mil por cada caso.
  • O que aceita? - perguntou o juiz.
  • Vinte e cinco mil.
  • Acho que o senhor devia pagar - disse DeOrio, dirigindo-se a Arthur. - O pedido é razoável.
  • Vinte e cinco mil a cada um dos quinze? - perguntou Arthur, cuja conduta impecável começou a estalar perante o ataque desferido por dois lados da sala.
  • Exatamente.

 

    • Seguiu-se uma grande confusão, visto que cada um dos quatro advogados da Drake & Sweeney tinha a sua opinião. Era óbvio que não tinham consultado os advogados dos dois outros réus. Era óbvio que a firma assumiria os encargos do acordo. Gantry parecia completamente indiferente; o seu dinheiro não estava em jogo. Talvez a RiverOaks tivesse ameaçado processar os advogados se não fosse alcançado um acordo.
  • Pagaremos vinte e cinco mil - anunciou Arthur tranqüilamente, e $375 000 saíram dos cofres da Drake & Sweeney.

 

    • A sabedoria estava na capacidade de quebrar o gelo. DeOrio sabia que podia obrigá-los a aceitar as indenizações mais pequenas. Assim que o dinheiro começasse a correr, só pararia quando nós quiséssemos. Quanto ao ano anterior, depois de me pagarem o salário e os benefícios adicionais, e de porem de lado um terço daquilo que faturara para despesa, cerca de quatrocentos mil dólares tinham entrado no bolo que os sócios dividiam entre si. E eu era apenas um entre oitocentos.
  • Meus senhores, estamos reduzidos a dois pontos. O primeiro é o dinheiro. Quanto será preciso para chegarem a acordo neste processo?

 

    • O segundo é a questão dos problemas disciplinares de Mr. Brock. Parece que um está ligado ao outro. É nesta fase destas reuniões que eu gosto de falar em particular com cada uma das partes. Vou começar pelos queixosos. Mr. Green e Mr. Brock, querem dirigir-se ao meu gabinete? A assistente indicou-nos o caminho pelo corredor atrás da tribuna. Entramos num soberbo gabinete revestido de madeira de carvalho, onde o juiz se estava a despir e a pedir chá a uma secretária. Perguntou-nos se também queríamos, mas nós declinamos. A assistente fechou a porta, deixando-nos a sós com DeOrio.
  • Estamos a fazer progressos - disse ele. - Devo dizer-lhe, Mr. Brock, que a queixa por atropelo à ética é um problema. Apercebe-se da sua gravidade?
  • Creio que sim.

 

    • DeOrio fez estalar os nós dos dedos e começou a andar de um lado para o outro.
  • Tivemos aqui um advogado na comarca, deve haver uns sete ou oito anos, que cometeu uma proeza semelhante. Saiu de uma empresa com uma série de documentos de investigação que foram parar misteriosamente a outra empresa, que por acaso lhe ofereceu um belo emprego. Não me lembro do nome.
  • Makovek. Brad Makovek - disse eu.
  • Exatamente. O que lhe aconteceu?
  • Foi suspenso por dois anos.
  • Que é o que eles querem de si.
  • De maneira nenhuma, Meritíssimo - disse Mordecai. - Nunca aceitaremos uma suspensão de dois anos.
  • O que aceitam?
  • Seis meses, no máximo. E não é negociável. Ouça, Meritíssimo, esses tipos estão mortos de medo, como sabe. Eles estão assustados e nós não estamos. Porque havemos de chegar a acordo seja no que for? Prefiro enfrentar um júri.
  • Não vai haver júri. - O juiz aproximou-se de mim e fitou-me.
  • Concorda com uma suspensão de seis meses?
  • Concordo - respondi. - Mas eles têm de pagar.
  • Quanto? - perguntou ele a Mordecai.
  • Cinco milhões. Eu conseguia mais de um júri.