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O ALCORÃO - p.2
O ALCORÃO - p.2

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ALCORÃO

Parte II

 

"AD DUKHAN" (A FUMAÇA) Revelada em Makka; 59 versículos. 44ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ha, Mim.(1468)

2 Pelo Livro lúcido.

3 Nós o revelamos durante uma noite bendita(1469), pois somos Admoestador,

4 Na qual se decreta todo o assunto prudente.

5 Por ordem Nossa, porque enviamos (a revelação).

6 Como misericórdia do teu Senhor, sabe que Ele é o Oniouvinte, o Sapientíssimo.

7 Senhor dos céus e da terra e de tudo quanto existe entre ambos, se estais persuadidos.

8 Não há mais divindade além d’Ele! Dá a vida e a morte, é o vosso Senhor e o de vossos antepassados.

9 Porém, estão na dúvida, absortos.

10 Aguarda, pois, o dia(1470) em que do céu descerá uma fumaça(1471) visível.

11 Que envolverá o povo: Será um doloroso castigo!

12 (Então dirão): Ó Senhor nosso, livra-nos do castigo, porque somos fiéis!

13 Como se não se recordassem de quando lhes chegou um elucidativo Mensageiro,

14 E o rechaçaram, dizendo: Ele foi ensinado (por outros), e é um energúmeno.

15 Em verdade, ainda que vos atenuássemos transitoriamente o castigo, seguramente reincidiríeis.

16 Recorda-lhes o dia em que desfecharemos o golpe decisivo; então, os puniremos.

17 Antes deles, provamos o povo do Faraó(1472), ao ser-lhes apresentado um honorável mensageiro.

18 (Que lhes disse): Entregai-me os servos de Deus, porque sou um fidedigno mensageiro, para vós.

19 E não vos rebeleis contra Deus, porque vos trago uma autoridade evidente.

20 E me amparo em meu Senhor e vosso, se quereis apedrejar-me.

21 E se não credes em mim, afastei-vos, então, de mim.

22 (Moisés) exclamou, então, para o seu Senhor: Este é um povo pecador!

23 (Ordenou, então, o Senhor): Marcha, pois, com os Meus servos, durante a noite, porque sereis perseguidos.

24 E deixa o mar como um sulco, para que o exército dos incrédulos nele se afogue!

25 Quantos jardins e mananciais abandonaram;

26 Semeaduras e suntuosas residências.

27 E riquezas com as quais se regozijavam!

28 E foi assim que demos aquilo tudo em herança a outro povo!

29 Nem o céu, nem a terra verterão lágrimas por eles, nem tampouco lhes foi dada tolerância.

30 Sem dúvida que livramos os israelitas do castigo afrontoso,

31 Infligido pelo Faraó; em verdade, ele foi um déspota, e se contava entre os transgressores.

32 E os escolhemos propositadamente, entre os seus contemporâneos.

33 E os agraciamos com certas sinais que continham uma verdadeira prova.

34 Em verdade, estes (os coraixitas) dizem:

35 Não há mais morte do que a nossa primeira, e jamais seremos ressuscitados!

36 Fazei, então, voltar os nossos pais, se estiverdes certos!

37 Quê! Acaso, são eles preferíveis ao povo de Tubba(1473) e seus antepassados? Nós os aniquilamos, por haverem sido pecadores.

38 E não criamos os céus e a terra e tudo quanto existe entre ambos para Nos distrairmos.

39 Não os criamos senão com prudência; porém, a maioria o ignora.

40 Sabei que o dia fixado para todos será o dia da Discriminação,

41 Dia esse em que nenhum protetor poderá advogar, em nada, por outro, nem serão socorridos (os incrédulos).

42 Salvo aquele de quem Deus se apiedar, porque Ele é o Poderoso, o Misericordiosíssimo.

43 Sabei que a árvore de zacum(1474)

44 Será o alimento do pecador.

45 Com metal fundido que lhe ferverá nas entranhas.

46 Como a borbulhante água fervente.

47 (E será dito aos guardiãos): Agarrai o pecador e arrastai-o até ao centro da fogueira!

48 Então, atormentai-o, derramado sobre a sua cabeça água fervente.

49 Prova o sofrimento, já que tu és o poderoso, o honorável!

50 Certamente, há aqui aquilo de que vós duvidáveis.

51 Todavia, os tementes estarão em lugar seguro,

52 Entre jardins e mananciais.

53 Vestir-se-ão de tafetá e brocado, recostados frente a frente.

54 Assim será! E os casaremos(1475) com huris de maravilhosos olhos(1476).

55 Aí pedirão toda a espécie de frutos, em segurança(1477).

56 Lá não experimentarão a morte, além da primeira, e Ele os preservará do tormento da fogueira,

57 Como uma graça do teu Senhor. Tal é o magnífico benefício!

58 Em verdade, temos-te facilitado (o Alcorão) em tua língua, para que meditem.

59 Aguarda, pois, porque eles também aguardarão, igualmente.


"AL JÁSSIYA" (O GENUFLEXO) Revelada em Makka; 37 versículos, com exceção do versículo 14, que foi revelado em Madina. 45ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ha, Mim.(1478)

2 A revelação do Livro é de Deus, o Poderoso, o Prudentíssimo.

3 Sabei que nos céus e na terra há sinais para os fiéis.

4 E em vossa criação e de tudo quanto disseminou, de animais, há sinais para os persuadidos.

5 E na alternação do dia e da noite, no sustento que Deus envia do céu, mediante o que vivifica a terra depois de haver sido árida, é na variação dos ventos, há sinais para os que raciocinam.

6 Tais são os versículos de Deus que, em verdade, te revelamos. Assim, pois, em que exposição crerão, depois de (rechaçarem) Deus e os Seus versículos?

7 Ai de todo mendaz, pecador.

8 Que escuta os versículos de Deus, quando lhe são recitados, e se obstina, ensoberbecido, como se não os tivesse ouvido! Anuncia-lhe um doloroso castigo.

9 E quando chega a conhecer algo dos Nossos versículos, escarnece-o. Estes sofrerão um humilhante castigo.

10 Frente a eles estará o inferno, e de nada lhes valerá tudo quanto tiverem acumulado, nem tampouco os que adotarem por protetores, em vez de Deus. E sofrerão um severo castigo.

11 Este (Alcorão) é uma orientação. Quanto àqueles que negam os versículos do seu Senhor, sofrerão a pena de uma dolorosa punição.

12 Deus foi Quem vos submeteu o mar(1479) para que, com o Seu beneplácito, o singrassem os navios e para que procurásseis algo de Sua bondade, a fim de que Lhe agradecêsseis.

13 E vos submeteu tudo quanto existe nos céus e na terra, pois tudo d’Ele emana. Em verdade, nisto há sinais para os que meditam.

14 Dize aos fiéis que perdoam aqueles que não esperam o dia de Deus,(1480) quando Ele retribuirá a cada povo(1481) segundo o seu merecimento.

15 Quem praticar o bem, será em benefício próprio; por outra, quem praticar o mal, o fará em seu detrimento. Logo retornareis a vosso Senhor.

16 Havíamos concedido aos israelitas o Livro, o comando, a profecia e o agraciamos com todo o bem, e os preferimos aos seus contemporâneos.

17 E lhes prescrevemos as evidências (com respeito aos dogmas); porém, não discreparam, senão por inveja recíproca, após lhes ter chegado o conhecimento. Em verdade, teu Senhor julgará entre eles, devido às suas divergências, no Dia da Ressurreição.

18 Então, te ensejamos (ó Mensageiro) o caminho(1482) reto da religião. Observa-o, pois, e não te entregues à concupiscência dos insipientes.

19 Porque em nada poderão defender-te do castigo de Deus, por os iníquos são protetores uns dos outros. Porém, Deus é o Protetor dos tementes.

20 Este (Alcorão) encerra evidências para o homem, e é orientação e misericórdia para os persuadidos.

21 Pretendem, porventura, os delinqüentes, que os equiparemos aos fiéis, que praticam o bem? Pensam, acaso, que suas vidas e suas mortes serão iguais? Que péssimo é o que julgam!

22 Deus criou os céus e a terra com prudência, para que toda a alma seja compensada segundo o que tiver feito, e ninguém será defraudado.

23 Não tens reparado, naquele que idolatrou a sua concupiscência! Deus extraviou-o com conhecimento, sigilando os seus ouvidos e o seu coração, e cobriu a sua visão. Quem o iluminará, depois de Deus (tê-lo desencaminhado)? Não meditais, pois?

24 E dizem: Não há vida, além da terrena. Vivemos e morremos,(1483) e não nos aniquilará senão o tempo! Porém, com respeito a isso, carecem de conhecimento e não fazem mais do que conjecturar.

25 E quando lhes são recitados os Nossos lúcidos versículos, seu único argumento é dizer: Trazei nosso pais, e estais certos!

26 Dize-lhes: Deus vos dá a vida, então vos fará morrer, depois vos congregará para o Dia indubitável da Ressurreição. Porém, a maioria dos humanos o ignora

27 A Deus pertence o reino dos céus e da terra, e no dia em que chegar a Hora, perecerão os difamadores!

28 E verás cada nação genuflexa;(1484) cada uma será convocada ante o seu registro. Hoje sereis retribuídos, segundo o que tendes feito!

29 Este é o Nosso registro, o qual depõe contra vós, porque anotávamos tudo quanto fazíeis.

30 Quanto aos fiéis que praticam o bem, seu Senhor os acolherá em sua misericórdia. Tal é o evidente benefício!

31 Não obstante, aos incrédulos (será dito): Porventura, não vos foram recitados os Meus versículos? Porém, ensoberbeceste-vos e vos tornastes pecadores.

32 E quando vos foi dito que a promessa de Deus é verdadeira e a Hora é indubitável, dissestes: Não sabemos o que é a Hora e pensamos não passar de uma opinião quimérica, e não estamos convencidos!

33 Então, aparecer-lhe-ão as maldades que tiverem cometido, e os envolverá aquilo de que escarneciam!

34 E ser-lhes-á dito: Hoje vos esquecemos(1485) tal como vos esquecestes do comparecimento a este vosso dia! E a vossa morada será o fogo infernal, e jamais tereis socorredores.

35 Isso, porque escarnecestes dos versículos de Deus e vos iludiu a vida terrena! Assim, nesse dia não lhes será permitido sair dele (o fogo), nem lhes será permitida apelação.

36 Louvado seja Deus,(1486) Senhor dos céus e da terra, Senhor do Universo!

37 De cuja glória, nos céus e na terra, é possuidor, porque é o Poderoso, o Prudentíssimo.


"AL AHCAF" (AS DUNAS) Revelada em Makka; 35 versículos, com exceção dos versículos 10, 15 e 35, que foram revelados em Madina. 46ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ha, Mim.(1487)

2 A revelação do Livro é de Deus, o Poderoso, o Prudentíssimo.

3 Não criamos os céus e a terra e tudo quanto existe entre ambos, senão com prudência, para um término prefixado. Mas os incrédulos desdenham as admoestações que lhes são feitas.

4 Dize-lhes: Porventura, tendes reparado nos que invocais, em lugar de Deus? Mostrai-me o que têm criado na terra! Têm participado, acaso, (da criação) dos céus? Apresentai-me um livro, revelado antes destes, ou um vestígio de ciência, se estiverdes certos.

5 Porém, haverá alguém mais extraviado do que quem invoca, em vez de Deus, os que jamais o atenderão, nem mesmo no Dia da Ressurreição, uma vez que estão desatentos à sua própria invocação?

6 E quando os humanos forem congregados, serão (os invocados) seus inimigos e negarão a sua adoração.

7 E, quando lhes são recitados os Nossos lúcidos versículos, os incrédulos dizem, da verdade que lhes chega: Isto é pura magia!

8 Ou dizem: Ele o forjou! Dize-lhes: Se o forjei, nada podereis obter de Deus para mim. Ele conhece, melhor do que ninguém, o que tentais difamar. Basta Ele por Testemunha, entre vós e mim. E Ele é o Indulgente, o Misericordiosíssimo.

9 Dize-lhes (mais): Não sou um inovador entre os mensageiros, nem sei o que será de mim ou de vós. Não sigo mais do que aquilo que me tem sido revelado, e não sou mais do que um elucidativo admoestador.

10 Dize: Vede! Se (o Alcorão) emana de Deus e vós o negais, e mesmo um israelita confirma a sua autenticidade(1488) e nele crê, vós vos ensoberbeceis! Sabei que Deus não ilumina os iníquos!

11 E os incrédulos dizem aos fiéis: Se esta mensagem(1489) fosse uma boa coisa, (tais humanos) não se teriam antecipado a nós. E como não se guiam por ela, dizem: Isto é uma antigo falsidade!

12 Porém, antes deste, já existia o Livro de Moisés, o qual era guia e misericórdia. E este (Alcorão) é um livro que o corrobora, em língua árabe, para admoestar os iníquos, e é alvíssaras para os benfeitores.

13 Aqueles que dizem: Nosso Senhos é Deus, e permanecem firmes, não pensa por quanto houverem feito.

14 Estes serão os diletos, do Paraíso, onde morarão eternamente, em recompensa por quanto houverem feito.

15 E recomendamos ao homem benevolência para com os seus pais. Com dores, sua mãe o carrega durante a sua gestação e, posteriormente, sofre as dores do seu parto. E de sua concepção até à sua ablactação há um espaço de trinta meses(1490), quando alcança a puberdade(1491) e, depois, ao atingir quarenta anos, diz: Ó Senhor meu, inspira-me, para praticar o bem que Te compraz, e faze com que minha prole seja virtuosa. Em verdade, converto-me a Ti, e me conto entre os muçulmanos.

16 Tais são aqueles dos quais aceitamos o melhor do que têm feito, e lhes absolvemos as faltas, (contando-os) entre os diletos do Paraíso, porque é uma promessa verídica, que lhes foi anunciada.

17 E há quem diga aos seus pais: Que vergonha para ambos! Pretendeis, porventura, prometer-me que serei ressuscitado, sendo que gerações anteriores a mim têm passado (sem renascer outra vez)? E ambos interpelarão Deus, (e reprovarão o filho): Ai de ti! Crê, porque a promessa de Deus é infalível! Porém, ele lhes diz: Estas não são senão fábulas dos primitivos!

18 Tais são aqueles que mereceram a sentença, juntamente com os seus antepassados, gerações de gênios e humanos, porque foram desventurados.

19 E para todos haverá graus, segundo o que fizeram, para que Ele lhes pague pelas suas recompensas, e para que não sejam defraudados.

20 E no dia em que os incrédulos forem colocados perante o fogo, (ser-lhes-á dito): Aproveitastes e gozastes os vossos deleites na vida terrena! Hoje, porém, sereis retribuídos com o afrontoso castigo por vosso ensoberbecimento e depravação na terra.

21 Menciona-lhes o irmão de Ad (Hud), que admoestou o seu povo nas dunas(1492), embora já tivesse havido admoestadores antes e depois dele (que lhes disseram): Nada adoreis além de Deus, porque temo por vós o castigo do dia aziago.

22 Disseram-lhe: Vieste, acaso, para desviar-nos das nossas divindades? Se és um dos verazes, envia-nos a calamidade com que nos ameaças!

23 Respondeu-lhes: O conhecimento (disso) só está nas mãos de Deus! Eu vos proclamo a missão que me tem sido encomendada; porém, vejo que sois um povo insipiente!

24 Mas quando viram aquilo (o castigo), como nuvens, avançando sobre os seus vales, disseram: Esta é uma nuvem de chuva! Retrucou-lhes: Qual! É a (calamidade) que desejastes fosse apressada; um vento que encerra um doloroso castigo!

25 Arrasará tudo, segundo os desígnios do seu Senhor! E, ao amanhecer, nada se via, além (das ruínas) dos seus lares. Assim castigamos os pecadores!

26 Em verdade, estabelecemo-los naquilo que não vos estabelecemos (ó coraixitas). E os dotamos de audição, de visão e de intelecto; porém, de nada lhes valeram os seus ouvidos, as suas vistas e as suas mentes, porque negaram os versículos de Deus e os envolveu aquilo de que escarneciam.

27 (Ó maquenses) Destruímos as cidades que vos rodeavam, e lhes diversificamos os sinais, para que se convertessem.

28 Por que, então, não os socorreram as divindades que haviam adotado, além de Deus, para aproximá-los d’Ele? Qual! Eles se extraviaram, mas tamanha foi a sua falsidade e a sua invenção.

29 Recorda-te de quando te enviamos um grupo de gênios, para escutar o Alcorão. E quando assistiam à recitação disseram: Escutai em silêncio! E quando terminaste a recitação, volveram ao seu povo, para admoestá-lo.

30 Disseram: Ó povo nosso, em verdade escutamos a leitura de um Livro, que foi revelado depois do de Moisés, corroborante dos anteriores, que conduz o homem à verdade e ao caminho reto.

31 Ó povo nosso, obedecei ao predicador de Deus e crede nele, pois (Deus) vos absolverá as faltas e vos livrará de um doloroso castigo.

32 Quanto àqueles que não atenderem ao predicador de Deus, saibam que na terra não poderão frustar (os desígnios de Deus), nem encontrarão protetores, em vez d’Ele. Estes estão em um evidente erro.

33 Não reparam, acaso, em que Deus, que criou os céus e a terra sem Se esforçar, é capaz de ressuscitar os mortos? Sim! Porque é Onipotente.

34 E no dia em que os incrédulos forem colocados perante o fogo (ser-lhes-á dito): Acaso, não é isto Verdade? Responderão: Sim, por nosso Senhor!

35 Persevera, pois, como o fizeram os inflexíveis, entre os mensageiros, e que foram ameaçados, pensarão não haver permanecido (no mundo terreno) mais do que uma hora de um só dia. Eis aqui a Mensagem!(1492-a) Porventura, serão aniquilados outros, além dos depravados!


"MOHAMMAD" Revelada em Madina; 38 versículos, com exceção do versículo 13, que foi revelado durante a Hégira. 47ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quanto aos incrédulos, que desencaminham os demais da senda de Deus, Ele desvanecerá as suas ações.

2 Outrossim, quanto aos fiéis, que praticam o bem e crêem no que foi revelado a Mohammad – esta é a verdade do seu Senhor – Deus absolverá as suas faltas e lhes melhorará as condições.

3 (Isso não ocorrerá com os incrédulos) porque os incrédulos seguem a falsidade, enquanto os fiéis seguem a verdade do seu Senhor. Assim Deus evidencia os Seus exemplos aos humanos.

4 E quando vos enfrentardes com os incrédulos(1493), (em batalha), golpeai-lhes os pescoços, até que os tenhais dominado(1494), e tomai (os sobreviventes) como prisioneiros. Libertai-os, então, por generosidade ou mediante resgate(1495), quando a guerra tiver terminado. Tal é a ordem. E se Deus quisesse, Ele mesmo ter-Se-ia livrado deles; porém, (facultou-vos a guerra) para que vos provásseis mutuamente. Quanto àqueles que foram mortos pela causa de Deus(1496), Ele jamais desmerecerá as suas obras.

5 Iluminá-los-á e melhorará as suas condições,

6 E os introduzirá no Paraíso, que lhes tem sido anunciado.

7 Ó fiéis, se socorrerdes á Deus, Ele vos socorrerá e firmará os vosso passos.

8 Enquanto que os incrédulos...ai dele! Ele desvanecerá as sua ações.

9 Isso, por terem recusado o que Deus revelou; então, Ele tornará as suas obras sem efeito.

10 Porventura, não percorreram a terra, para ver qual foi a sorte dos seus antecessores? Deus os exterminou! Semelhante sorte haverá para os incrédulos.

11 (Tal não ocorrerá aos fiéis) porque Deus é o protetor dos fiéis, e os incrédulos jamais terão protetor algum.

12 Em verdade, Deus introduzirá os fiéis, que praticam o bem, em jardins, abaixo dos quais correm os rios; quanto aos incrédulos, que comem como come o gado, o fogolhes servirá de morada.

13 E quantas cidades, mais poderosas do que a tua, que te expulsou,(1497) destruímos, sem que ninguém tivesse pedido socorrê-las!

14 Porventura, aqueles que observam a evidência do seu Senhor poderão ser equiparados àqueles cujas ações foram abrilhantadas e que se entregaram às suas luxúrias?

15 Eis aqui uma descrição do Paraíso, que foi prometido aos tementes: Lá há rios de água impoluível(1498); rios de leite de sabor inalterável; rios de vinho deleitante para os que o bebem; e rios de mel purificado; ali terão toda a classe de frutos, com a indulgência do seu Senhor. Poderá isto equipar-se ao castigo daqueles que permanecerão eternamente no fogo, a quem será dada a beber água fervente, a qual lhes dilacerará as entranhas?

16 E entre eles, há os que te escutam e, ao se retirarem(1499) da tua assembléia, dizem,

17 àqueles, que foram agraciados com a sabedoria: Que é que foi dito agora? Tais são os

18 que têm os seus corações sigilados por Deus, porque se entregam às suas luxúrias!

19 Por outra, quanto àqueles que os orientam, Ele lhes aumenta a orientação e lhes concede piedade.

20 Porventura, aguardam algo, a não ser a Hora, que os açoutará subitamente? Já lhes chegaram os indícios. De que lhes servirá lhes ser recordado aquilo que os surpreenderá?

21 Sabe, portanto, que não há mais divindade, além de Deus e implora o perdão das tuas faltas, assim como das dos fiéis e das fiéis, porque Deus conhece as vossas atividades e os vossos destinos.

22 Os fiéis dizem: Por que não nos foi revelada uma surata? Porém, quando é revelada uma surata peremptória, em que se menciona o combate, tu vês os que abrigam a morbidez em seus corações, que te olham com olhares de quem está na agonia da morte. É melhor para eles.

23 Obedecer e falar o que é justo. Porém, no momento decisivo, quão melhor seria, para eles, se fossem sinceros para com Deus!

24 É possível que causeis corrupção na terra e que rompais os vínculos consangüíneos, quando assumirdes o comando.

25 Tais são aqueles que Deus amaldiçoou, ensurdecendo-os e cegando-lhes as vistas.

26 Não meditam, acaso, no Alcorão, ou que seus corações são insensíveis?

27 Certamente, aqueles que renunciaram à fé, depois de lhes haver sido evidenciada a orientação, foram seduzidos e lhes foi dada esperança pelo demônio.

28 Isso, porque disseram àqueles que recusaram o que Deus revelou: Obedecer-vos-emos em certas coisas! Porém, Deus conhece os seus segredos.

29 Assim, o que farão, quando os anjos se apossarem das suas almas e lhes golpearem os rostos e os dorsos(1500)?

30 Isso, porque se entregaram ao que indigna Deus, e recusaram ao que Lhe agradava; por isso, Ele tornou sem efeito as suas obras.

31 Pensam, acaso, aqueles que abrigam a morbidez em seus corações, que Deus não descobrirá os seus rancores?

32 E, se quiséssemos, tê-los-íamos mostrado, mas tu os conhecerás por suas fisionomias. Sem dúvida que os reconhecerás, pelo modo de falar! E Deus conhece as vossas ações.

33 Sabei que vos provaremos, para certificar-Nos de quem são os combatentes e perseverantes, dentre vós, e para provarmos a vossa reputação.

34 Em verdade, os incrédulos, que desencaminham os demais da senda de Deus e contrariam o Mensageiro, depois de lhes ser evidenciada a orientação, em nada prejudicarão Deus, que tomará as suas obras sem efeito.

35 Ó fiéis, obedecei a Deus e ao Mensageiro, e não desmereçais as vossas ações.

36 Em verdade, quanto aos incrédulos, que desencaminham os demais da senda de Deus e morrem na incredulidade, Deus jamais os perdoará.

37 Não fraquejeis (ó fiéis), pedindo a paz, quando sois superiores; sabei que Deus está convosco e jamais defraudará as vossas ações.

38 A vida terrena é tão-somente jogo e diversão. Porém, se crerdes e fordes tementes, Deus vos concederá as vossas recompensas, sem vos exigir nada dos vossos bens.(1500-a)

39 Porque, se vo-lo pedisse ou vo-lo exigisse, escatimá-los-íeis então, revelando assim os vossos rancores.

40 Eis, então, que sois convidados a contribuir na causa de Deus. Porém, entre vós, há aqueles que mesquinham; mas quem mesquinha certamente o faz em detrimento próprio; sabei que Deus é, por Si, Opulento, enquanto que vós sois pobres. E se recusardes (contribuir), suplantar-vos-á por outro povo, que não será como vós.


"AL FATH" (O TRIUNFO) Revelada em Madina; 29 versículos. Foi revelada quando do regresso de Hudaibiya. 48ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Em verdade, temos te predestinado um evidente triunfo,(1501)

2 Para que Deus perdoe as tuas faltas, passadas e futuras, agraciando-te e guiando-te pela senda reta.

3 E para que Deus te secunde poderosamente.

4 Ele foi Quem infundiu o sossego nos corações dos fiéis para acrescentar fé à sua fé. A Deus pertencem os exércitos dos céus e da terra, porque Deus é Prudente, Sapientíssimo.

5 Para introduzir os fiéis e as fiéis em jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente, bem como absolver-lhes as faltas, porque é uma magnífica conquista (para o homem) ante Deus.

6 É castigar os hipócritas e as hipócritas, os idólatras e as idólatras que pensam mal a respeito de Deus. Que os açoite a vicissitude! Deus os abominará, amaldiçoá-los-á e lhes destinará o inferno. Que péssimo destino!

7 A Deus pertencem os exércitos dos céus e da terra, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo.

8 Em verdade, enviamos-te por testemunha, alvissareiro e admoestador,

9 Para que creiais (ó humanos) em Deus e no Seu Mensageiro, socorrendo-O, honrando-O e glorificando-O, pela manhã e à tarde.

10 Em verdade, aqueles que te juram fidelidade(1502), juram fidelidade a Deus. A Mão de Deus está sobre as suas mão; porém, quem perjurar, perjurará em prejuízo próprio. Quanto àquele que cumprir o pacto com Deus, Ele lhe concederá uma magnífica recompensa.

11 Os que ficaram para trás, dentre os beduínos(1503), dir-te-ão: Estávamos empenhados em (proteger) os nossos bens e as nossas famílias; implora a Deus que nos perdoe! Dizem, com seus lábios, o que os seus corações não sentem. Dize-lhes: Quem poderia defender-vos de Deus, se Ele quisesse prejudicar-vos ou beneficiar-vos? Porém, Deus está inteirado de tudo quanto fazeis.

12 Qual! Imagináveis que o Mensageiro e os fiéis jamais voltariam às suas famílias; tal pensamento desenvolvia-se nos vossos corações! E pensáveis maldosamente, porque sois um povo desventurado.

13 E há aqueles que não crêem em Deus e em Seu Mensageiro! Certamente temos destinado, para os incrédulos, o tártaro.

14 A Deus pertence o reino dos céus e da terra. Ele perdoa quem quer e castiga quem Lhe apraz; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

15 Quando marchardes para vos apoderardes dos despojos, os que ficarem para trás vos dirão: Permiti que vos sigamos! Pretendem trocar as palavras de Deus. Dize-lhes: Jamais nos seguireis, porque Deus já havia declarado (isso) antes. Então vos dirão: Não! É porque nos invejais. Qual! É que não compreendem, senão poucos.

16 Dize aos que ficaram para trás, dentre os beduínos: Sereis convocados para enfrentar-vos com um povo dado à guerra; então, ou vós os combatereis ou eles se submeterão. E se obedecerdes, Deus vos concederá uma magnífica recompensa; por outra, se vos recusardes, como fizestes anteriormente, Ele vos castigará dolorosamente.

17 Não terão culpa o cego, o coxo, o enfermo. Quanto àquele que obedecer a Deus e ao Seu Mensageiro, Ele o introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios; por outra, quem desdenhar, será castigado dolorosamente.

18 Deus Se congratulou com os fiéis, que te juraram fidelidade, debaixo da árvore.(1504) Bem sabia quanto encerravam os seus corações e, por isso infundiu-lhes o sossego e os recompensou com um triunfo imediato,

19 Bem como com muitos ganhos que obtiveram, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo.

20 Deus vos prometeu muitos ganhos, que obtereis, ainda mais, adiantou-vos estes e conteve as mãos dos homens, para que sejam um sinal para os fiéis e para guiar-vos para uma senda reta.

21 E outros ganhos que não pudestes conseguir, Deus os conseguiu, e Deus é Onipotente.

22 E ainda que o incrédulos vos combatessem, certamente debandariam, pois não achariam protetor nem defensor.

23 Tal foi a lei de Deus no passado; jamais acharás mudanças na lei de Deus.

24 Ele foi Quem conteve as mãos deles, do mesmo modo como conteve as vossas mãos no centro de Makka(1505), depois de vos ter feito prevalecer sobre eles; sabei que Deus bem vê tudo quanto fazeis.

25 Foram eles, os incrédulos, os que vos impediram de entrar na Mesquita Sagrada e impediram que a oferenda(1506) chegasse ao seu destino. E se não houvesse sido por uns homens e mulheres fiéis, que não podíeis, distinguir(1507), e que poderíeis ter morto sem o saber, incorrendo, assim, inconscientemente, num crime hediondo, Ter-vos-íamos facultado combatê-lo; foi assim estabelecido, para que Deus pudesse agraciar com a Sua misericórdia quem Lhe aprouvesse. Se vos tivesse sido possível separá-los, teríamos afrontado os incrédulos com um doloroso castigo.

26 Quando os incrédulos fomentaram o fanatismo - fanatismo da idolatria - em seus corações Deus infundiu o sossego em Seu Mensageiro e nos fiéis, e lhes impôs a norma da moderação, pois eram merecedores e dignos dela; sabei que Deus é Onisciente.

27 Em verdade, Deus confirmou a visão(1508) do Seu Mensageiro: Se Deus quisesse, entraríeis tranqüilos, sem temor, na Sagrada Mesquita; uns com os cabelos raspados, outros com os cabelos cortados, sem medo. Ele sabe o que vós ignorais, e vos concedeu, não obstante isso, um triunfo imediato.

28 Ele foi Quem enviou o Seu Mensageiro com a orientação e com a verdadeira religião, para fazê-las prevalecer sobre todas as outras religiões; e Deus é suficiente Testemunha disso.

29 Mohammad é o Mensageiro de Deus, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si. Vê-los-ás genuflexos, prostrados, anelando a graça de eus e a Sua complacência. Seus rostos estarão marcados com os traços da prostração. Tal é o seu exemplo na tora e no Evangelho,(1509) como a semente que brota, se desenvolve e se robustece, e se firma em seus talos, compraz aos semeadores, para irritar os incrédulos. Deus prometeu aos fiéis, que praticam o bem, indulgência e uma magnifica recompensa.


"AL HUJJURAT" (OS APOSENTOS) Revelada em Madina; 18 versículos. 49ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ó fiéis, não vos antecipeis a Deus e ao Seu Mensageiro, e temei a Deus, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo.

2 Ó fiéis, não altereis as vossas vozes acima da voz do Profeta, nem lhe faleis em voz alta, como fazeis entre vós, para não tornardes sem efeito as vossas obras, involuntariamente.

3 Sabei que os que baixam as suas vozes na presença do Mensageiro de Deus, são aqueles cujos corações Deus testou para a piedade; obterão o perdão e uma magnífica recompensa.

4 Em verdade, a maioria daqueles que gritam (o teu nome), do lado de fora dos (teus) aposentos, é insensata.

5 Mas, se aguardassem pacientemente, até que tu saísses ao seu encontro, seria muito melhor para eles. Deus é Ingulgente, Misericordiosíssimo.

6 Ó fiéis, quando um ímpio vos trouxer uma notícia,(1510) examinai-a prudentemente, para não prejudicardes ninguém, por ignorância, e não vos arrependerdes depois.

7 E sabei que o Mensageiro de Deus está entre vós e que se ele vos obedecesse em muitos assuntos, cairíeis em desgraça. Porém, Deus vos inspirou o amor pela fé e adornou com ela vossos corações e vos fez repudiar a incredulidade, a impiedade e a rebeldia. Tais são os sensatos.

8 Isso, pela graça e favor de Deus; e Deus é Prudente, Sapientíssimo.

9 E quando dois grupos de fiéis combaterem entre si,(1511) reconciliai-os, então. E se um grupo provocar outro, combatei o provocador, até que se cumpram os desígnios de Deus. Se porém, se cumprirem (os desígnios), então reconciliai-os eqüitativamente e sede equânimes, porque Deus aprecia os equânimes.

10 Sabe que os fiéis são irmãos uns dos outros;(1512) reconciliai, pois, os vossos irmãos, e temei a Deus, para vos mostrar misericórdia.

11 Ó fiéis, que nenhum povo zombe do outro(1513); é possível que (os escarnecidos) sejam melhores do que eles (os escarnecedores). Que tampouco nenhuma mulher zombe de outra, porque é possível que esta seja melhor do que aquela. Não vos difameis, nem vos motejeis com apelidos(1514) mutuamente. Muito vil é o nome que detona maldade (para ser usado por alguém), depois de Ter recebido a fé! E aqueles que não se arrependem serão os iníquos.

12 Ó fiéis, evitai tanto quanto possível a suspeita(1515), porque algumas suspeitas implicam em pecado. Não vos espreiteis, nem vos calunieis mutuamente. Quem de vós seria capaz de comer a carne do seu irmão morto(1516)? Tal atitude vos causa repulsa! Temei a Deus, porque Ele é Remissório, Misericordiosíssimo.

13 Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos(1517) de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado.

14 Os beduínos(1518) dizem: Cremos! Dize-lhes: Qual! Ainda não credes; deveis dizer: Tornamo-nos muçulmanos, pois que a fé ainda não penetrou vossos corações. Porém, se obedecerdes a Deus e ao Seu Mensageiro, em nada serão diminuídas as vossas obras, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

15 Somente são fiéis aqueles que crêem em Deus e em Seu Mensageiro e não duvidam, mas sacrificam os seus bens e as suas pessoas pela causa de Deus. Estes são os verazes!

16 Dize-lhes: Pretendeis, acaso, ensinar a Deus a vossa religião, quando Deus bem conhece tudo quanto existe nos céus e na terra? Sabei que Deus é Onisciente.

17 Dizem que te fizeram um favor por se terem tornado muçulmanos. Dize-lhes: não considereis a vossa conversão um favor para mim; outrossim, é a Deus que deveis o mérito de vos Ter encaminhado à fé, se sois verazes.

18 Sabei que Deus conhece o mistério dos céus e da terra, e Deus bem vê tudo o quanto fazeis!


"CAF" (A LETRA CAF) Revelada em Makka; 45 versículos, com exceção de versículo 38, que foi revelado em Madina. 50ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Caf.(1519) Pelo Alcorão glorioso (que tu és o Mensageiro de Deus).

2 Qual ! Admiram-se de que lhes tenha surgido um admoestador de sua estirpe. E os incrédulos dizem: Isto é algo assombroso.

3 Acaso, quando morrermos e formos convertidos em pó, (seremos ressuscitados)? Tal retorno será impossível!

4 Nós já sabemos a quantos deles tem devorado a terra, porque possuímos um Livro de registros.

5 Não obstante, desmentem a verdade quando esta lhes chega, e, ei-los aí em estado caótico.

6 Porém, não reparam, acaso, no céu que está acima deles? Como o construímos(1520) e o adornamos, sem abertura aparente?

7 E dilatamos a terra, fixando nela (firmes) montanhas,(1521) produzindo aí toda a formosa espécie, em pares,

8 Para a observação e recordação de todo o servo contrito.

9 E enviamos do céu a água bendita, mediante a qual produzimos jardins e cereais para a colheita.

10 E também as frondosas tamareiras, cujos cachos estão carregados de frutos em simetria,

11 Como sustento para os servos; e fazemos reviver, com ela, (a água) uma terra árida. Assim será a ressurreição!

12 Antes deles, desmentiram os mensageiros o povo de Noé, os moradores de Arrass(1522) e o povo de Samud.

13 O povo de Ad, o Faraó, os irmãos de Lot,

14 Os habitantes da floresta e o povo de Tubba(1523) todos desmentiram os mensageiros e todos mereceram a Minha advertência.

15 Porventura, exaurimo-nos com a primeira criação? Qual! Estão em dúvida acerca da nova criação.

16 Criamos o homem e sabemos o que a sua alma lhe confidencia, porque estamos mais perto dele do que a (sua) artéria jugular.

17 Eis que dois (anjos da guarda),(1524) são apontados para anotarem (suas obras), um sentado à sua direita e o outro à esquerda.

18 Não pronunciará palavra alguma, sem que junto a ele esteja presente uma sentinela(1525) pronta (para a anotar).

19 E a hora da morte trará a verdade: Eis do que tentáveis escapar!

20 E a trombeta soará. Eis aí o dia da advertência.

21 E cada alma comparecerá, acompanhada de um anjo, como guia, e outro, como testemunha.

22 (Ser-lhe-á dito): Estavas descuidado a respeito disto; porém, agora removemos o teu véu; tua vista será penetrante, nesse dia.

23 E seu acompanhante dirá: Aí está (o registro dos teus atos) completo comigo.

24 (Depois da sentença será dito aos anjos da guarda) : Precipitai no inferno todo o incrédulo obstinado,

25 Que obstruirá o bem, era profanador, dubitável,

26 Que atribuía a Deus outras divindades. Arrojai-o, pois, no severo tormento!

27 Seu acompanhante (sedutor) dirá: Ó Senhor nosso, eu não o fiz transgredir; porém, ele é que estava em um erro profundo.

28 Dir-lhes-á (Deus): Não disputeis em Minha presença, uma vez que nos enviei antecipadamente a advertência.

29 A palavra é insubstituível perante Mim, e jamais sou injusto para com os Meus servos.

30 Naquele dia perguntaremos ao inferno: Estás já repleto? E responderá: Há alguém mais?

31 E o Paraíso, para os tementes, estará preparado, não longe dali.

32 Eis aqui o que se promete a todo o arrependido, observante (dos preceitos),

33 Que teme intimamente o Clemente e comparece, com um coração contrito.

34 Entrai nele (o Paraíso), em paz! Eis aqui o Dia da Eternidade!

35 Lá terão tudo quanto desejarem, e mais ainda, em Nossa presença.

36 E quantas gerações, anteriores a eles e mais poderosas do que eles, temos aniquilado! Conquanto percorressem a terra, tiveram porventura, alguma escapatória?

37 Em verdade, nisto há uma mensagem(1526) para aquele que tem coração, que escuta atentamente e é testemunha (da verdade).

38 Criamos os céus e a terra e, quanto existe entre ambos, em seis dias, e jamais sentimos fadiga alguma.

39 Tolera, pois, tudo quanto te dizem, e celebra os louvores do teu Senhor, antes do nascer do sol e antes do acaso.

40 E glorifica-O ao anoitecer e no fim das prostrações.

41 E aguarda o dia em que o convocador fizer a chamada, de um lugar próximo.

42 Dia esse em que ouvirão verdadeiramente o estrondo; tal será o dia da Ressurreição!

43 Somos Nós que damos a vida e a morte, e a Nós será o retorno.

44 Tal acontecerá, no dia em que a terra se fender acima deles (e eles saírem) apressadamente (dos sepulcros): isso será a congregação, fácil para Nós.

45 Nós bem sabemos tudo quanto dizem, e tu não és o seu incitador. Admoesta, pois, mediante o Alcorão, a quem tema a Minha ameaça!


"AZ ZÁRIAT" (OS VENTOS DISSEMINADORES) Revelada em Makka; 60 versículos. 51ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1.Pelos ventos(1527) disseminadores e impetuosos,

2. Que carregam pesos enormes,

3. Que fluem(1528) com moderação e suavidade,

4. E que são distribuidores,(1529) segundo a ordem (divina),

5. Que o que vos é prometido é verídico,

6. E que o Juízo é infalível!

7. Pelo céu, pleno de sendas,(1530)

8. Que seguis palavras discordantes,

9. As quais vos desencaminharão.(1531)

10. Que pereçam os inventores de mentiras!

11. Que estão descuidados, submersos na confusão!

12. Perguntaram: Quando chegará o Dia do Juízo?

13. (Será) o dia em que serão testados no fogo!

14. (Ser-lhes-á dito): Provai o vosso teste! Eis aqui o que pretendestes apressar!

15. Em verdade, os tementes habitarão entre jardins e mananciais,

16. Desfrutando de tudo com que o seu Senhor os agraciar, porque foram benfeitores.

17. Porque possuíram o hábito de pouco dormir à noite.

18. E, ao amanhecer, imploravam o perdão de suas faltas.

19. E há em seus bens uma parte para o mendigo e o desafortunado(1532)

20. E na terra, há sinais para os que estão seguros na fé.

21. E também (os há) em vós mesmos. Não vedes, acaso?

22. E no céu está o vosso sustento, bem como tudo quanto vos tem sido prometido.

23. Pelo Senhor dos céus e da terra, que isto é tão verdadeiro como é certo que falais!

24. Tens ouvido (ó Mensageiro) a história dos honoráveis hóspedes de Abraão?

25. Quando se apresentaram a ele e disseram: Paz!, respondeu-lhes: Paz! (E pensou): "É gente desconhecida".

26. E voltou rapidamente para os seus, e trouxe (na volta) um bezerro cevado.

27 Que lhes ofereceu...Disse (ante a hesitação deles): Não comeis?

28 Então sentiu medo deles. Disseram-lhe: Não temas! E anunciaram-lhe (o nascimento de) uma criança, que seria sábia.

29 E sua mulher irrompeu, (rindo) em voz alta; e, batendo na própria face, disse: Eu, uma anciã estéril!

30 Disseram-lhe: Assim prescreveu teu Senhor, porque Ele é o Prudente, o Sapientíssimo.

31 Perguntou Abraão: Qual é, então, a vossa incumbência, ó mensageiro?

32 Responderam-lhe: Em verdade, fomos enviados a um povo de pecadores,

33 Para que lançássemos sobre eles pedras de argila,

34 Destinados, da parte do teu Senhor, aos transgressores.

35 E evacuamos os fiéis que nela (Sodoma) havia.

36 Porém, encontramos nela uma só casa de muçulmanos.

37 E deixamos lá um sinal, para aqueles que temem o doloroso castigo.

38 E em Moisés (também, havia um sinal), quando o enviamos ao Faraó, com uma autoridade evidente.

39 Porém, (o Faraó) o rechaçou, com os seus chefes, dizendo: É um mago ou um energúmeno!

40 Porém, apanhamo-lo, juntamente com as suas hostes, e os precipitamos no mar, porque eram réprobos.

41 E (na história do povo de) Ad há um exemplo; desencadeamos contra eles um vento assolador,

42 Que não passava sobre aquilo a que ia de encontro, sem o reduzir a cinzas.

43 E (no povo de) Tamud tendes um exemplo, ao lhes ser dito: Desfrutai transitoriamente!

44 Porém, desacataram insolentemente a ordem de seu Senhor, e a centelha os fulminou, enquanto observavam.

45 E não puderam manter-se de pé, nem socorrer-se mutuamente.

46 E anteriormente a eles houve o povo de Noé; em verdade, era um povo depravado.

47 E construímos o firmamento com poder e perícia, e Nós o estamos expandindo.

48 E dilatamos a terra; e que excelente Dilatador tendes em Nós!

49 E criamos um casal de cada espécie, para que mediteis.

50 Apressai-vos, pois, para Deus, porque sou, da Sua parte, um elucidativo admoestador para vós.

51 E não coloqueis outra divindade junto a Deus, porque sou da Sua parte, um elucidativo admoestador para vós.

52 Mesmo assim, não se apresentou mensageiro algum àquelas que vos precederam, sem que dissessem: É um mago ou um energúmeno!

53 Acaso, tê-la-ão eles transmitido (a expressão), de um para o outro? Qual! São um povo de transgressores.

54 Afasta-te, pois, deles, porque não serás reprovado.

55 E admoesta-os, porque a admoestação será proveitosa para os fiéis.

56 Não criei os gênios e os humanos, senão para Me adorarem.

57 Não lhes peço sustento algum, nem quero que Me alimentam.

58 Sabei que Deus é o Sustentador por excelência, Potente, Inquebrantabilíssimo.

59 Em verdade, os iníquos auferirão a mesma sorte que os seus antepassados. Assim, que não Me constranjam a apressar (o castigo)!

60 Ai, pois, dos incrédulos no dia que lhes tem sido prometido!


"AT TUR" (O MONTE) Revelada em Makka; 49 versículos. 52ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelo monte (Sinai)(1533).

2 Pelo Livro escrito(1534),

3 Em um pergaminho desenrolado.

4 Pelo templo freqüentado(1535).

5 Pelo céu elevado(1536).

6 E pelos oceanos(1537) transbordantes(1538).

7 Que o castigo do teu Senhor está iminente.

8 Ninguém pode evitá-lo.

9 (Será) o dia em que o firmamento(1539) oscilará energicamente.

10 E as montanhas mover-se-ão rapidamente(1540).

11 Ai, nesse dia, dos desmentidores.

12 Que se houverem dado a veleidades.

13 Será o dia em que se verão violentamente impulsionados para o fogo infernal.

14 (Ser-lhes-á dito): Eis aqui o fogo, que negastes!

15 É isto, acaso, magia, ou não vedes ainda?

16 Entrai aí, porque redundará no mesmo, que o suporteis, quer não. Sabei que sempre sereis recompensados pelo que houverdes feito.

17 Quanto aos tementes (a Deus), viverão em jardins e em felicidade.

18 Gozando daquilo com que o seu Senhor os houver agraciado; e o seu Senhor os preservará do suplício infernal.

19 (Ser-lhes-á dito): Comei e bebei, com proveito, pelo que (de bom) fizestes!

20 Estarão recostados sobre leitos enfileirados e os casarmos com huris, de olhos maravilhosos.

21 E aqueles que creram, bem como as sua proles, que os seguirem na fé, reuni-los-emos às suas famílias, e não os privaremos de nada, quanto à sua recompensa merecida. Todo o indivíduo será responsável pelos seus atos!

22 E os proveremos de frutas e carnes, bem como do que lhes apetecer.

23 Aí bridarão de uma taça, cuja(1541) bebida não os levará à frivolidade, nem os induzirá ao pecado.

24 E serão servidos por mancebos, formosos como se fossem pérolas(1542) em suas conchas.

25 E acercar-se-ão em tertúlias.

26 Dirão: Em verdade, antes estávamos temerosos pelos nossos familiares.

27 Portanto, Deus nos agraciou e nos preservou do tormento do vento abrasador.

28 Porque antes O invocávamos, por ser Ele o Beneficente, o Misericordiosíssimo!

29 Predica-lhes, pois, que, mercê do teu Senhor, não és um adivinho, nem um energúmeno.

30 Ou dirão: É um poeta. Aguardamos que lhe chegue a calamidade, (produzida) pelo tempo!

31 Dize-lhes: Aguardai, que eu também sou um dos que aguardam convosco!

32 São, acaso, suas faculdades mentais que os induzem a isso, ou é que são um povo de transgressores?

33 Dirão ainda: Porventura, ele o tem forjado ( o Alcorão)? Qual! Não crêem!

34 Que apresentem, pois, uma mensagem semelhante, se estivermos certos.

35 Porventura, não foram eles criados do nada(1543), ou são eles os criadores?

36 Ou criaram, acaso, os céus e a terra? Qual! Não se persuadirão!

37 Possuem, porventura, os tesouros do teu Senhor, ou são eles os dominadores?

38 Ou possuem alguma escada(1544), para escalar o céu, a fim de detectar ali, os segredos? Que os espreitadores apresentem uma autoridade evidente!

39 Ou pertencem a Ele as filhas e a vós os filhos(1545)?

40 Ou lhes exiges, porventura, alguma recompensa, e por isso ficam sobrecarregados de dívidas?

41 Ou pensam estar de posse do incognoscível donde copiam o que dizem?

42 Ou (nem suma), intentam conspirar (contra ti)? Qual! Saibam os incrédulos que serão envolvidos na conspiração!

43 Ou, por fim, têm outra divindade, além de Deus? Glorificado seja Deus, de tudo quanto Lhe associam!

44 E se vissem desabar um fragmento do céu, diriam: São nuvens saturadas!

45 Deixa-os, pois, até que se deparem com o seu dia, em que serão fulminados!

46 Dia esse em que de nada lhes servirão as suas conspirações, nem serão socorridos.

47 Em verdade, os iníquos, além desse, sofrerão outros castigos; porém, a maioria o ignora.

48 E tu (ó Mensageiro), aguarda até ao Dia do Juízo do teu Senhor, porque estás ante Nossos olhos. E glorifica os louvores do teu Senhor, quando te levantares(1546),

49 E numa parte da noite,(1547) e glorifica-O ao retirarem-se as estrelas.


"AN NAJM" (A ESTRELA) Revelada em Makka; 62 versículos, com exceção do versículo 32, que foi revelado em Madina. 53ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pela estrela(1548), quando cai,

2 Que vosso camarada(1549) jamais se extravia, nem erra,

3 Nem fala por capricho.

4 Isso não é senão a inspiração que lhe foi revelada,

5 Que lhe transmitiu o fortíssimo(1550),

6 O sensato, o qual lhe apareceu (em sua majestosa forma).

7 Quando estava na parte mais alta do horizonte.

8 Então, aproximou-se dele estreitamente,

9 Até a uma distância de dois arcos(1551) (de atirar setas), ou menos ainda.

10 E revelou ao Seu servo o que Ele havia revelado.

11 O coração (do Mensageiro)(1552) não mentiu, acerca do que viu.

12 Disputareis, acaso, sobre o que ele viu?

13 Realmente o viu, numa Segunda descida,(1553)

14 Junto ao limite da árvore de lótus(1554).

15 Junto à qual está o jardim da morada (eterna)(1555).

16 Quando aquela coisa envolvente cobriu a árvore de lótus,

17 Não desviou o olhar, nem transgrediu.

18 Em verdade, presenciou os maiores sinais do seu Senhor.

19 Considerai Al-Lát e Al-Uzza.(1556)

20 E a outra, a terceira (deusa), Manata.

21 Porventura, pertence-vos o sexo masculino e a Ele o feminino(1557)?

22 Tal, então, seria uma partilha injusta.

23 Tais (divindades) não são mais do que nomes, com que as denominastes, vós e vossos antepassados, acerca do que Deus não vos conferiu autoridade alguma. Não seguem senão as sua próprias conjecturas e as luxúrias das suas almas, não obstante ter-lhes chegado a orientação do seu Senhor!

24 Porventura, obterá o homem tudo quanto ambiciona?

25 Sabei que só a Deus pertence a outra vida e a presente.

26 E quantos anjos há nos céus, cujas intercessões de nada valerão, salvo a daqueles que a Deus aprouver e comprazer!

27 Sabei que aqueles que não crêem na outra vida denominam os anjos com nomes femininos,

28 Embora careçam de todo o conhecimento a esse respeito. Não fazem senão seguir conjecturas, sendo que a conjectura jamais prevaleceu, em nada, sobre a verdade.

29 Afasta-te pois, de quem desdenha a Nossa Mensagem, e não ambiciona senão a vida terrena.

30 Tal é o alcance do seu conhecimento(1558). Em verdade, teu Senhor é o mais conhecedor de quem se desvia da Sua senda, assim como é o mais conhecedor de quem se encaminha.

31 A Deus pertence tudo quanto existe nos céus e na terra, para castigar os malévolos, segundo o que tenham cometido, e recompensar os benfeitores com o melhor.

32 Estes são os que se abstêm dos pecados graves e das obscenidades, conquanto cometam faltas leves. Que saibam que o teu Senhor é Amplo na indulgência; Ele vos conhece melhor do que ninguém, uma vez que foi Ele Que vos criou na terra, em que éreis embriões nas entranhas de vossas mães. Não atribuais pois, pureza a vós mesmo, porque Ele bem conhece os tementes.

33 Que opinas, pois, de quem desdenha,

34 Que pouco dá, e, depois, endurece (o coração)?

35 Porventura, está de posse do incognoscível e prognostica (o futuro)?

36 Qual, não foi inteirado de tudo quanto contêm os livros de Moisés,(1559)

37 E os de Abraão (1560), que cumpriu (as suas obrigações),

38 De que nenhum pecador arcará com culpa alheia?(1561)

39 De que o homem não obtém senão o fruto do seu proceder?

40 De que o seu proceder será examinado?(1562)

41 Depois, ser-lhe-á retribuído, com a mais eqüitativa recompensa?

42 E que pertence ao teu Senhor o limite(1563).

43 E que Ele faz rir e chorar.

44 E que Ele dá a vida e a morte.

45 E que Ele criou (tudo) em pares: o masculino e o feminino(1564),

46 De uma gosta de esperma, quando alojada (em seu lugar).

47 E que a Ele compete a Segunda criação(1565).

48 E que Ele enriquece e dá satisfação(1566).

49 E que Ele é o Senhor do (astro) Sírio(1567).

50 E que Ele exterminou o primitivo povo de Ad (1568).

51 E o povo de Tamud, sem deixar (membro) algum?

52 E, antes, o povo de Noé, porque era ainda mais iníquo e transgressor?

53 E destruiu as cidades nefastas (Sodoma e Gomorra)?

54 E as cobriu com um véu envolvente?

55 De qual das mercês do teu Senhor duvidas, pois, (ó humano)?

56 Eis aqui uma admoestação dos primeiros admoestadores.

57 Aproxima-se a Hora iminente!

58 Ninguém, além de Deus, poderá revelá-la.

59 Por que vos assombrais, então, com esta Mensagem?

60 E rides ao invés de chorardes,

61 Em vossos lazeres?

62 Prostrai-vos, outrossim, perante Deus, e adorai-O.


"AL CÂMAR" (A LUA) Relevada em Makka; 55 versículos, com exceção dos versículos 44 a 46, que foram reveladas em Madina. 54ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 A Hora (do Juízo) se aproxima, e a lua se fendeu(1569).

2 Porém, se presenciam algum sinal, afastam-se, dizendo: É magia reiterada!

3 E o rejeitam, e persistem em suas luxúrias; porém, cada coisa terá o seu fim.

4 E, sem dúvida, tiveram bastante admoestação exemplificada.

5 E sabedoria prudente; porém, de nada lhes servem as admoestações.

6 Afasta-te, pois, deles (ó Mensageiro), e recorda o dia em que o (anjo) convocador convocará os humanos a algo terrível.

7 Sairão dos sepulcros, com os olhos humildes, como se fossem uma nuvem de gafanhotos dispersa,

8 Dirigindo-se, rapidamente, até ao convocador; os incrédulos dirão: Este é um dia terrível!

9 Antes deles, o povo de Noé havia desmentido os mensageiros; desmentiram o Nosso servo, dizendo: É um energúmeno!, repudiando-o por todas as vias.

10 Então ele invocou seu Senhor, dizendo: Estou vencido! Socorre-me!

11 Então abrimos as portas do céu, com água torrencial (que fizemos descer).

12 E fizemos brotar fontes da terra, e ambas as águas se encontraram na medida predestinada.

13 E o conduzimos (Noé) em uma arca, de tábuas encavilhadas,

14 Que flutuava sob o Nosso olhar, como recompensa para aquele que foi desmentido.

15 E a expusemos, como sinal. Haverá, porventura, alguém que receberá a admoestação?(1570)

16 Qual! Quão terríveis foram o Meu castigo e a Minha admoestação!

17 Em verdade, facilitamos o Alcorão, para a admoestação. Haverá, porventura, algum admoestado?

18 O povo de Ad rejeitou o seu mensageiro. Porém, quão terríveis foram o Meu castigo e a Minha admoestação!

19 Sabei que desencadeamos sobre eles um vento tormentoso, em um dia funesto,

20 Que arrebatava os homens, como se fossem troncos de tamareiras desarraigadas.

21 Observa, portanto, quão terríveis foram o Meu castigo e a Minha admoestação!

22 Em verdade, facilitamos o Alcorão para a recordação. Haverá, porventura, algum admoestado?

23 O povo de Tamud desmentiu os admoestadores,

24 Dizendo: Quê! Acaso, haveremos de seguir um homem solitário, surgido dentre nós? Cairíamos, então, em extravio e na loucura!

25 Acaso, foi a Mensagem revelada só a ele, dentre nós? Qual! É um mentiroso, insolente!

26 Logo saberão quem é mentiroso e insolente!

27 Em verdade, enviamos-lhes a camela como prova. E tu (ó Saléh), observa-os e aguarda com paciência.

28 E anuncia-lhes que a água deverá ser compartilhada entre eles, e casa qual terá o seu turno registrado.

29 Então, chamaram um companheiro seu, o qual tomou de um sabre e a abateu.

30 Porém, quão terríveis foram o Meu castigo e a Minha admoestação!

31 Sabei que enviamos contra eles um só estrondo, que os reduziu a feno amontoado.

32 Em verdade, facilitamos o Alcorão, para a admoestação. Haverá, porventura, algum admoestado?

33 O povo de Lot desmentiu os seus admoestadores.

34 Sabei que desencadeamos sobre eles uma chuva de pedras, exceto sobre a família de Lot, a qual salvamos na hora da alvorada.

35 Por nossa graça. Assim recompensamos os agradecidos.

36 E (Lot) já os havia admoestado, quanto ao Nosso castigo; porém, duvidaram das admoestações.

37 E intentaram desonrar os seus hóspedes; então, cegamos-lhes os olhos, dizendo: Sofrei, pois, o Meu castigo e a Minha admoestação!

38 E, ao amanhecer, surpreendeu-os um castigo, que se tornou perene.

39 Sofrei, pois o Meu castigo e a Minha admoestação!

40 Em verdade, facilitamos o Alcorão, para a recordação. Haverá, porventura, algum admoestado?

41 E também se apresentaram os admoestadores ao povo do Faraó(1571).

42 Porém, desmentiram os Nosso sinais, pelo que os castigamos severamente, como só pode fazer um Onipotente, Poderosíssimo.

43 Acaso, os vossos incrédulos (ó coraixitas), são melhores do que aqueles, ou, por outra, gozais de imunidade, registrada nos Livros sagrados?

44 Entretanto, dizem: Agimos juntos e podemos (nos) defender!

45 Logo, a multidão será debelada e debandará.

46 E a Hora (do Juízo) é uma promessa, e ela será mais grave e mais amarga(1572).

47 Sabei que os pecadores estarão nos caos e na loucura.

48 No dia em que foram arrastados, no fogo, sobre seus rostos, (ser-lhes-á dito): Sofrei o contato do tártaro!

49 Em verdade, criamos todas as coisas predestinadamente.

50 E a Nossa ordem não é mais do que uma só (palavra), como um abrir e fechar os olhos!

51 E havíamos aniquilado os vossos semelhantes(1573). Haverá, porventura, algum que recebeu a admoestação?

52 Tudo quanto fizeram está anotado nos livros.

53 E toda a ação, pequena ou grande, está registrada.

54 Sabei que os tementes morarão entre os jardins e rios,

55 Em uma assembléia da verdade, na presença de um Senhor Onipotente, Soberaníssimo.


"AR RAHMAN" (O CLEMENTE) Revelada em Madina; 78 versículos. 55ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 O Clemente.

2 Ensinou o Alcorão(1574).

3 Criou o homem.

4 E ensinou-lhe a eloqüência.

5 O sol e a lua giram (em suas órbitas).

6 E as ervas(1575) e as árvores prostram-se em adoração.

7 E elevou o firmamento e estabeleceu a balança da justiça,

8 Para que não defraudeis no peso.

9 Pesai, pois, escrupulosamente, e não diminuais a balança(1576)!

10 Aplainou a terra para as (Suas) criaturas,

11 Na qual há toda a espécie de frutos, e tamareiras com cachos,

12 E as graníferas, com a sua palha, e as odoríferas.

13 –Assim, pois, quais das mercês de vosso Senhor desagradeceis?

14 Ele criou os gênios do fogo vivo.

15 E criou os gênios do fogo vivo.

16 –Assim, pois, quais das mercês de vosso Senhor desagradeceis?

17 É o Senhor dos dois solstícios(1577) e dos dois equinócios.

18 –Assim, pois, quais das mercês dos vosso Senhor desagradeceis?

19 Liberam os dois mares, para que se encontrassem.

20 Entre ambos, há uma barreira, para que não seja ultrapassada.

21 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

22 De ambos saem as pérolas e os corais(1578).

23 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

24 E suas são as naves(1579), que se elevam no mar, como montanhas(1580).

25 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

26 Tudo quanto existe na terra perecerá.

27 E só subsistirá o Rosto do teu Senhor, o Majestoso, o Honorabilíssimo.

28.

29 Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

30 Todos os que estão nos céus e na terra O invocam. A cada dia Ele está ocupado em uma nova obra.

31 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

32 Logo, estabelecermos os vossos assuntos, ó ambos os mundos(1581)!

33 Ó assembléia de gênios e humanos, se sois capazes de atravessar os limites dos céus e da terra, fazei-o! Porém, não podereis fazê-lo, sem autoridade.

34 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

35 Então, uma chama de fogo e uma fumaça serão lançados sobre vós, e não podereis contê-las.

36 Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

37 (Será) quando o céu se fender e derreter; e se avermelhar como um ungüento.

38 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

39 Nesse dia, nenhum homem ou gênio será inquirido por seu pecado.

40 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

41 Os pecadores serão reconhecidos por suas marcas, e serão arrastados pelos topetes e pelos pés.

42 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

43 Este é o inferno, que os pecadores negavam!

44 Circularão nele, e na água fervente!

45 –Assim, pois, quais, das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

46 Por outra, para quem teme o comparecimento ante o seu Senhor, haverá dois jardins.

47 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

48 Contudo todas as espécies (de frutos e prazeres).

49 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

50 Em ambos, haverá duas fontes a verter.

51 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

52 Em ambos haverá duas espécies de cada fruta.

53 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

54 Estarão reclinados sobre almofadas forradas de brocado, e os frutos de ambos os jardins estarão ao (seu) alcance.

55 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

56 Ali haverá, também, aquelas de olhares recatados que, antes deles, jamais foram tocadas por homem ou gênio.

57 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

58 Parecem-se com o rubi e com o coral(1582).

59 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

60 A retribuição à bondade não é, acaso, a própria bondade?

61 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

62 E, além dos dois mencionados, haverá outros dois jardins,

63 –Assim, pois, quais das mercês, do vosso Senhor, desagradeceis?

64 De cor verde-escuro, vicejantes.

65 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

66 Neles haverá duas fontes a jorrar.

67 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

68 Em ambos haverá frutas, tamareiras e romãzeiras.

69 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

70 Neles haverá beldades inocentes,

71 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

72 Huris recolhidas em pavilhões(1583),

73 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

74 Que jamais, antes deles, foram tocadas por homem ou gênio,

75 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

76 Reclinadas em coxins, cobertos com pano verde e formosas almofadas.

77 –Assim, pois, quais das mercês do vosso Senhor desagradeceis?

78 Bendito seja o nome do teu Senhor, o Majestoso, o Honorabilíssimo(1584).


"AL WAQUI’A" (O EVENTO INVEVITÁVEL) Revelada em Makka; 96 versículos, com exceção dos versículos 81 e 82, que foram reveladas em Madina. 56ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando acontecer o evento inevitável(1585),

2 –Ninguém poderá negar o seu advento -,

3 Degradante (para uns) e exultante (para outros)(1586).

4 Quando a terra for sacudida violentamente,

5 E as montanhas forem desintegradas em átomos,

6 Convertidas em corpúsculos dispersos,

7 Então, sereis divididos em três grupos.

8 O dos que estiverem à direita – E quem são os que estarão à direita?

9 O dos que estiverem à esquerda – E quem são os que estarão à esquerda?

10 E o dos primeiros (crentes)(1587) – E quem são os primeiros (crentes) ?

11 Estes serão os mais próximos de Deus,

12 Nos jardins do prazer.

13 (Haverá) uma multidão, pertencente ao primeiro grupo.

14 E poucos, pertencentes ao último.

15 Estarão sobre leitos incrustados (com ouro e pedras preciosas),

16 Reclinados neles, frente a frente,

17 Onde lhes servirão jovens (de frescores) imortais(1588).

18 Com taças, jarras, e ânforas, cheias de néctares (provindos dos mananciais celestes),

19 Que não lhes provocará hemicrania, nem intoxicação.

20 E (também lhes servirão) as frutas de sua predileção,

21 E carne das aves que lhes apetecerem.

22 Em companhia de huris, de cândidos olhares,

23 Semelhantes a pérolas bem guardadas.

24 Em recompensa por tudo quanto houverem feito.

25 Não ouvirão, ali, frivolidades, nem (haverá) qualquer pestilência,

26 A não ser as palavras: Paz! Paz!

27 E o (grupo) dos que estiverem à direita – E quem são os que estarão à direita?

28 Passeará entre lotos (com frutos) sobrepostos,

29 E pomares, com árvores frutíferas entrelaçadas(1589),

30 E extensa sombra,

31 E água manante,

32 E frutas abundantes,

33 Inesgotáveis, que jamais (lhes) serão proibidas.

34 E estarão sobre leitos elevados.

35 Sabei que criamos(1590), para eles, uma (nova) espécie de criaturas.

36 E as fizemos virgens.

37 Amantíssimas, da mesma idade.

38 Para os que estiverem à direita.

39 (Estes) são uma multidão, pertence ao primeiro grupo.

40 E outra, pertencente ao último.

41 E os que estiverem à esquerda – E quem são os que estarão à esquerda?

42 Estarão no meio de ventos abrasadores e na água fervente.

43 E nas trevas da negra fumaça,

44 Sem nada, para refrescar, nem para aprazar.

45 Porque, antes disso, estava na luxúria,

46 E persistiram, em seu supremo pecado.

47 E diziam: Acaso, quando morrermos e formos reduzidos a pó e ossos, seremos ressuscitados,

48 Ou (o serão) nossos antepassados?

49 Dize-lhes: Em verdade, os primeiros e os últimos.

50 Serão congregados, para o encontro de um dia conhecido.

51 Logo, sereis vós, ó desviados, desmentidores,

52 Sem dúvida que comereis do fruto do zacum.(1591)

53 Do qual fartareis os vossos estômagos,

54 E, por cima, bebereis água fervente.

55 Bebê-la-eis com a sofreguidão dos sedentos.

56 Tal será a sua hospedagem, no Dia do Juízo!

57 Nós vos criamos. Por que, pois, não credes (na Ressurreição)?

58 Haveis reparado, acaso, no que ejaculais?

59 Por acaso, criais vós isso, ou somos Nós o Criador?

60 Nós vos decretamos a morte, e jamais seremos impedidos,

61 De substituir-vos por seres semelhantes, ou transformar-vos no que ignorais.

62 E, na verdade, conheceis a primeira criação. Por que, então, não meditais?

63 Haveis reparado, acaso, no que semeais?(1592)

64 Porventura, sois vós os que fazeis germinar, ou somos Nós o Germinador?

65 Se quiséssemos, converteríamos aquilo em feno e, então, não cessaríeis de vos assombrar,

66 (Dizendo): Em verdade, estamos em débito,

67 Estamos, em verdade, privados (de colher os nossos frutos)!

68 Haveis reparado, acaso, na água que bebeis?

69 Sois vós, ou somente somos Nós Quem a faz descer das nuvens?

70 Se quiséssemos, fá-la-íamos salobra. Por que, pois, não agradeceis?

71 Haveis reparado, acaso, no fogo que ateais?

72 Fostes vós que criastes a árvore, ou fomos Nós o Criador?

73 Nós fizemos disso um portento e conforto para os nômades.

74 Glorifica, pois, o nome do teu Supremo Senhor!

75 Juro, portanto, pela posição dos astros,

76 Porque é um magnífico juramento – se soubésseis!

77 Este é um Alcorão honorabilíssimo,

78 Num Livro bem guardado,

79 Que não tocam, senão os purificados!

80 É uma revelação do Senhor do Universo.

81 – Porventura, desdenhais esta Mensagem?

82 E fizestes disso o vosso sustento, para que o pudésseis desmentir?

83 Por que, então(1593), (não intervis), quando (a alma de um moribundo) alcança a garganta?

84 E ficais, nesse instante, a olhá-lo.

85 – E Nós, ainda que não Nos vejais, estamos mais perto dele do que vós –

86 Por que, então, se pensais que em nada dependeis de Nós,

87 Não lhe devolveis (a alma), se estais certos?

88 Porém, se ele for um dos achegados (a Deus),

89 (Terá) descanso, satisfação e um Jardim de Prazer,

90 Ainda, se for um dos que estão à direita,

91 (Ser-lhe-á dito): Que a paz esteja contigo, da parte dos que estão à direita!

92 Por outra, se for um dos desmentidores, extraviados,

93 Então terá hospedagem na água fervente,

94 E entrada na fogueira infernal.

95 Sabei que esta é a verdade autêntica.

96 Glorifica, pois, o nome do teu Supremo Senhor!


"AL HADID" (O FERRO) Revelada em Madina; 29 versículos 57ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tudo quanto existe nos céus e na terra glorifica Deus(1594), porque Ele é o Poderoso, o Prudentíssimo.

2 Seu é o reino dos céus e da terra; dá a vida e dá a morte, e é Onipotente.

3 Ele é o Primeiro e o Último; o Visível e o Invisível, e é Onisciente.

4 Ele foi Quem criou os céus e a terra, em seis dias; então, assumiu o trono(1595). Ele bem conhece o que penetra na terra e tudo quanto dela sai; o que desce do céu e tudo quanto a ele ascende, e está convosco onde quer que estejais, e bem vê tudo quanto fazeis.

5 Seu é o reino dos céus e da terra, e a Deus retornarão todos os assuntos.

6 Ele insere a noite no dia e o dia na noite, e é Sabedor das intimidades dos corações.

7 Crede em Deus e em Seu Mensageiro, e fazei caridade daquilo que Ele vos fez herdar. E aqueles que, dentre vós, crerem e fizerem caridade, obterão uma grande recompensa.

8 E que escusas tereis para não crerdes em Deus, se o Mensageiro vos exorta a crerdes no vosso Senhor? Ele recebeu a vossa promessa, se sois fiéis.

9 Ele (Deus) é Quem revela ao Seu servo(1596) lúcidos versículos, para que vos tire das trevas e vos conduza à luz, porque Ele é, para convosco, compassivo, Misericordiosíssimo.

10 E que escusas tereis para não contribuirdes na causa de Deus, uma vez que a Deus pertence a herança dos céus e da terra? Nesse caso, jamais podereis equiparar-vos aos que tiverem contribuído e combatido, antes da conquista(1597) – estes são mais dignos do que aqueles que contribuíram e combateram posteriormente -, ainda que Deus tenha prometido a todos o bem. Sabei que Deus está inteirado de tudo quanto fazeis.

11 Qual será o fiel que não quererá emprestar espontaneamente a Deus? Será retribuído em dobro, e terá uma generosa recompensa!

12 (Será) o dia em que verás (ó Mohammad) os fiéis e as fiéis com a luz a se irradiar, ante eles, pela sua crença. Nesse dia vos alvissaremos com jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morareis eternamente. Tal será a magnífica recompensa!

13 (Será também) o dia em que os hipócritas e as hipócritas dirão aos fiéis: Esperai-nos: para que nos iluminemos com a vossa luz(1598)! Ser-lhes-á retrucado: Voltai atrás, e buscai a luz! Entre eles se elevará uma muralha provida de uma porta, por detrás da qual estará a misericórdia, e em frente à qual estará o suplício infernal.

14 (Os hipócritas) clamarão: Acaso não estávamos convosco? Ser-lhes-á replicado: Sim! Porém, caístes em tentação e vos enganastes mutuamente e duvidastes (da religião), e os vossos desejos vos iludiram, até que se cumpriram os desígnios de Deus. E o sedutor vos enganou a respeito de Deus.

15 Assim, pois, hoje não se aceitará resgate algum por vós, nem pelos incrédulos. A vossa morada será o fogo, que é o que merecestes. E que funesto destino!

16 Porventura, não chegou o momento de os fiéis humilharem os seus corações à recordação de Deus e à verdade revelada, para que não sejam como os que antes receberam o Livro(1599)? Porém, longo tempo passou, endurecendo-lhes os corações, e a sua maioria é rebelde e transgressora.

17 Sabei que Deus vivifica a terra, depois de ter sido árida. Elucidamos-vos os versículos, para que raciocineis.

18 Em verdade, os caritativos e as caritativas, e aqueles que emprestam espontaneamente a Deus serão retribuídos em dobro, e obterão uma generosa recompensa.

19 E aqueles que crêem em Deus e em Seus mensageiros são os leias, e os mártires terão, do Seu Senhor, a sua recompensa e a sua luz. Em troca, os incrédulos que desmentem, os Nossos versículos, serão os réprobos.

20 Sabei que a vida terrena é tão-somente jogo e diversão, veleidades, mútua vanglória e rivalidade, com respeito à multiplicação de bens e filhos; é como a chuva, que compraz aos cultivadores(1600), por vivificar a plantação; logo, completa-se o seu crescimento e a verás amarelada e transformada em feno. Na outra vida haverá castigos severos, indulgência e complacência de Deus. Que é vida terrena, senão um prazer ilusório?

21 Emulai-vos, pois, em obter a indulgência do vosso Senhor e o Paraíso, cujas dimensões igualam as do céu e da terra, reservado para aqueles que cede a quem Lhe apraz, porque é Agraciante por excelência.

22 Não assolará desgraça alguma, quer seja na terra, quer sejam a vossas pessoas, que não esteja registrada no Livro, antes mesmo que a evidenciemos. Sabei que isso é fácil a Deus,

23 Para que vos não desespereis, pelos (prazeres) que vos foram omitidos, nem nos exulteis por aquilo com que vos agraciou, porque Deus não aprecia arrogante e jactancioso algum,

24 Que mesquinha e recomenda aos demais a avareza. Mas quem desdenhar, que fique sabendo que Deus é, por Si só, o Opulento, o Laudabilíssimo.

25 Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências: e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça; e criamos o ferro(1601), que encerra grande poder (para a guerra), além de outros benefícios para os humanos, para que Deus Se certifique de quem O secunda intimamente, a Ele e aos Seus mensageiros; Sabei que Deus é Poderoso, Fortíssimo.

26 E enviamos também Noé e Abraão, e estabelecemos entre seus descendentes a profecia e o Livro; entre eles, há os encaminhados; porém, a sua maioria é depravada.

27 Então, após eles, enviamos outros mensageiros Nossos e, após estes, enviamos Jesus, filho de Maria, a quem concedemos o Evangelho; e infundimos nos corações daqueles que o seguem compaixão e clemência(1602). No entanto, seguem a vida monástica, que inventaram, mas que não lhes prescrevemos; (Nós lhes prescrevemos) apenas compraz a Deus; porém, não o observaram devidamente. E recompensamos os fiéis, dentre eles; porém, a maioria é depravada(1603).

28 Ó fiéis(1604), temei a Deus e crede em Seu Mensageiro! Ele vos concederá dupla(1605) porção da Sua misericórdia, dar-vos-á uma luz(1606), com que vos encaminhará e vos perdoará; e Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

29 Que os adeptos do Livro saibam que não têm qualquer poder(1607) sobre a graça de Deus, porque a graça somente está na Mão de Deus, que a concede a quem Lhe apraz; Sabei que Deus é Agraciante por excelência.


"AL MUJÁDALA" (A DISCUSSÃO) Revelada em Madina; 22 versículos. 58ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Em verdade, Deus escutou a declaração daquela(1608) que discutia contigo, acerca do marido, e se queixava (em oração) a Deus. Deus ouviu vossa palestra, porque é Oniouvinte, Onividente.

2 Aqueles, dentre vós, que repudiam as suas mulheres através do zihar(1609), saibam que elas não são suas mães. Estas são as que os geraram; certamente, com tal juramento, eles proferiram algo iníquo e falso; porém, Deus é Absolvedor, Indulgentíssimo.

3 Quanto àqueles que repudiarem as suas mulheres pelo zihar(1610) e logo se retratarem disso, deverão manumitir um escravo, antes de as tocarem. Isso é uma exortação para vós, porque Deus está inteirado de tudo quanto fazeis.

4 Mas, quem não o encontrar (escravo)(1611), deverá jejuará dois meses consecutivos antes de a tocar. Porém, quem não puder suportar o jejum, dementar sessenta necessitados(1612). Isso, para que creiais em Deus e em Seu Mensageiro. Tais são as leis de Deus, e aqueles que as profanarem sofrerão um doloroso castigo.

5 Sabei que aqueles que contrariam Deus e Seu Mensageiro serão exterminados, como o foram os seus antepassados; por isso Nós lhes enviamos lúcidos versículos e, aqueles que os negarem, sofrerão um afrontoso castigo.

6 Será o dia em que Deus os ressuscitará a todos e os inteirará de tudo quanto tiverem feito. Deus o memoriza, enquanto eles o esquecem, porque Deus é Testemunha de tudo.

7 Não reparas em que Deus conhece tudo quanto existe nos céus e na terra? Não há confidência entre três pessoas, sem que Ele seja a Quarta delas; nem entre cinco, sem que Ele seja a sexta; nem que haja menos ou mais do que isso, sem que Ele esteja com elas, onde quer que se achem. Logo, no Dia da Ressurreição, os inteirará de tudo quanto fizerem, porque Deus é Onisciente.

8 Acaso, não reparaste naqueles a quem foi proibida a confidência(1613)? Não obstante, reincidem no que lhes foi vedado e falam clandestinamente de iniqüidades, de hostilidades e de desobediências ao Mensageiro! E quando se apresentam a ti, saúdam-te, em(1614) termos com os quais Deus jamais te saudaram, e dizem para si: Por que Deus não nos castiga pelo que fazemos? Bastar-lhes-á o inferno, no qual entrarão! E que funesto destino!

9 Ó fiéis, quando falardes na intimidade, não discorrais sobre iniqüidades, sobre hostilidades, nem sobre a desobediência ao Mensageiro; antes, falai da virtude e da piedade, e temei a Deus, ante Quem sereis congregados.

10 Sabei que a confabulação emana de Satã, para atribular os fiéis. Porém, ele em nada poderá prejudicá-los sem o beneplácito de Deus. Que os fiéis se encomendem a Deus!

11 Ó fiéis, quando vos for dito para que vos aperteis, (dando) nas assembléias (lugar aos demais), fazei-o; e sabei que Deus vos dará lugar no Paraíso! E quando vos for dito que vos levanteis, fazei-o, pois Deus dignificará os fiéis, dentre vós, assim como os sábios, porque está inteirado de tudo quanto fazeis.

12 Ó fiéis, quando fordes consultar privativamente o Mensageiro, fazei antes uma caridade; isso será melhor para vós; e será mais puro; porém, se carecerdes de meios, sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

13 Temeis, acaso, fazer caridade, antes da vossa consulta privativa (a ele)? Mas, se não o fizerdes – e que Deus vos perdoe -, observai, a oração, pagai o zakat(1615) e obedecei a Deus e ao Seu Mensageiro, porque Deus está inteirado de tudo quanto fazeis.

14 Acaso, não reparaste naqueles que entraram (em privacidade) com um povo(1616), o qual Deus abominou(1617)? Não são dos vossos, nem tampouco sois dos deles, e perjuram conscientemente!

15 Deus lhes tem preparado um severo castigo. Quão péssimo é o que fizeram!

16 Fizeram dos seus juramentos uma coberta (para as suas más ações), e desencaminharam-se da senda de Deus; porém, sofrerão um castigo afrontoso.

17 Perante Deus, de nada lhes valerão os seus bens, nem os seus filhos e serão os condenados ao inferno, no qual permanecerão eternamente.

18 No dia em que Deus os ressuscitar a todos, jurar-Lhe-ão, então, como juraram a vós, e crerão que possuem algo. Não são, na verdade, uns mentirosos?

19 Satanás os conquistou e os fez esquecer da recordação de Deus. Estes são os seguidores de Satanás. Não é, acaso, certo, que os seguidores de Satanás serão os desventurados?

20 Sabei que aqueles que contrariam Deus e o Seu Mensageiro contar-se-ão entre os mais humilhados.

21 Deus decretou: Venceremos, Eu e os Meus mensageiros! Em verdade, Deus é Poderoso, Fortíssimo.

22 Não encontrarás povo algum que creia em Deus e no Dia do Juízo final, que tenha relações com aqueles que contrariam Deus e o Seu Mensageiro, ainda que sejam seus pais ou seus filhos, seus irmãos ou parentes. Para aqueles, Deus lhes firmou a fé nos corações e os confortou com o Seu Espírito(1618), e os introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Estes formam o partido de Deus. Acaso, não é certo que os que formam o partido de Deus serão os bem-aventurados?


"AL HAXR" (O DESTERRO) Revelada em Madina; 24 versículos. 59ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tudo quando existe nos céus e na terra glorifica Deus(1619). Ele é o Poderoso, o Prudentíssimo.

2 Foi ele Quem expatriou os incrédulos, dentre os adeptos do Livro (1620), quando do primeiro desterro. Pouco críeis (ó muçulmanos) que eles saíssem dos seus lares, porquanto supunham que as suas fortalezas os preservariam de Deus; porém, Deus os açoitou, por onde menos esperavam(1621), e infundiu o terror em seus corações; destruíram as suas casas com suas próprias mãos(1622), e com as mãos dos fiéis. Aprendei a lição, ó sensatos!

3 E se Deus não lhes tivesse decretado o seu banimento, tê-los-ia castigado nesse mundo, e no outro, sofreriam o tormento infernal.

4 Isso, por terem contrariado Deus e Seu Mensageiro; e, quem contraria Deus(1623) (saiba que), certamente Deus é severíssimo no castigo.

5 (Ó muçulmanos), ficai sabendo que, se cortardes as tamareiras tenras ou se as deixardes de pé(1624), fá-lo-eis com o beneplácito de Deus, e para que Ele avilte os depravados.

6 Tudo quanto Deus concedeu ao Seu Mensageiro, (tirado) dos bens deles (dos Bani Annadhir), não tivestes de fazer galopar cavalo ou camelo algum para conseguir (para transportar). Deus concede aos Seus mensageiros o predomínio sobre quem Lhe apraz, porque Deus é Onipotente.

7 Tudo quanto Deus concedeu(1625) ao Seu Mensageiro, (tomado) dos moradores das cidades(1626), corresponde a Deus, ao Seu Mensageiro e aos seus parentes, aos órfãos, aos necessitados e aos viajantes; isso, para que (as riquezas) não sejam monopolizadas pelos opulentos, dentre vós. Aceitai, pois, o que vos der o Mensageiro, e abstende-vos de tudo quanto ele vos proíba. E temei a Deus, porque Deus é Severíssimo no castigo.

8 (E também corresponde uma parte) aos pobres migrantes(1627) (maquenses), que foram expatriados e despojados dos seus bens, que procuram a graça de Deus e a Sua complacência, e secundam Deus e Seu Mensageiro; estes são os verazes.

9 Os que antes deles residiam(1628) (em Madina) e haviam adotado a fé, mostram afeição por aqueles que migraram para junto deles e não nutrem inveja alguma em seus corações, pelo que (tais migrantes) receberam (de despojos); por outra, preferem-nos, em detrimento de si mesmos. Sabei que eles que se preservarem da avareza serão os bem-aventurados.

10 E aqueles que os seguiram(1629) dizem: Ó Senhor nosso, perdoa-nos, assim como também aos nosso irmãos, que nos precederam na fé, e não infundas em nossos corações rancor algum pelos fiéis. Ó Senhor nosso, certamente Tu és Compassivo, Misericordiosíssimo.

11 Não reparas, acaso, nos hipócritas, que dizem aos seus irmãos incrédulos, dentre os adeptos do Livro(1630): Juramos que se fordes expulsos, sairemos convosco e jamais obedeceremos a ninguém, contra vós; e, se fordes combatidos, socorrer-vos-emos. Porém, Deus atesta que são uns mentirosos.

12 Porque, na verdade, se fossem expulsos, não sairiam com eles, se fossem combatidos, não os socorreriam; e, mesmo que os socorressem, empreenderiam a fuga; e, ainda, eles mesmos não seriam socorridos.

13 Seguramente, vós, ó fiéis, infundis em seus corações mais terror ainda do que Deus; isso, porque são uns insensatos.

14 Eles não vos combaterão (mesmo) em conjunto, senão em cidades fortificadas, ou por detrás das muralhas. A hostilidade entre eles é intensa. Vós os credes unidos, quando os seus corações estão divididos; isso, porque são uns insensatos.

15 Parecem-se com os seus predecessores imediatos(1631), ao auferirem e revés da sua conduta; terão um doloroso castigo.

16 São como Satanás, quando diz ao humano: Renega! Porém, quando este renega a Deus, diz-lhe: Sabe que não sou responsável pelo que te acontecer, porque temo a Deus, Senhor do Universo!

17 Porém, o destino deles é serem condenados ao fogo, onde permanecerão eternamente. Tal será o castigo dos iníquos!

18 Ó fiéis, temei a Deus! E que cada alma considere o que tiver oferecido, para o dia de amanhã; temei, pois, a Deus, porque Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.

19 E não sejais como aqueles que se esqueceram de Deus e, por isso mesmo, Ele os fez esquecerem-se de si próprios. Estes são os depravados!

20 Jamais poderão equiparar-se os condenados ao inferno com os diletos do Paraíso, porque os diletos do Paraíso serão os ganhadores.

21 Se tivéssemos feito descer este Alcorão sobre uma montanha(1632), tê-las-ias visto humilhar-se e fender-se, por temor a Deus, Tais exemplos propomos aos humanos, para que raciocinem.

22 Ele é Deus; não há mais divindade além d’Ele(1633), conhecedor do cognoscível e do incognoscível. Ele é o Clemente, o Misericordiosíssimo.

23 Ele é Deus; não há mais divindade além d’Ele(1634), Soberano, Augusto, Pacífico, Salvador, Zeloso(1635), Poderoso, Compulsor, Supremo! Glorificado seja Deus, de tudo quanto (Lhe) associam(1636)!

24 Ele é Deus, Criador(1637), Onifeitor(1638), Formador. Seus são os mais sublimes atributos. Tudo quanto existe nos céus e na terra(1639) glorifica-O, porque é o Poderoso, o Prudentíssimo.


"AL MUMTAHANA" (A EXAMINADA) Revelada em Madina; 13 versículos. 60ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ó fiéis, não tomeis por confidentes os Meus e os vossos inimigos, demonstrando-lhes afeto(1640), posto que renegam tudo quanto vos chegou da verdade, e expulsam (de Makka) tanto o Mensageiro, como vós mesmos, porque credes em Deus, vosso Senhor! Quando sairdes para combater pela Minha causa, procurando a Minha complacência (não os tomeis por confidentes), confiando-lhes as vossas intimidades, porque Eu, melhor do que ninguém, sei tudo quanto ocultais, e tudo quanto manifestais. Em verdade, quem de vós assim proceder, desviar-se-á da verdadeira senda.

2 Se lograssem tirar o melhor de vós, mostrar-se-iam vossos inimigos, estenderiam as mãos e as línguas contra vós, desejando fazer-vos rejeitar a fé.

3 De nada vos valerão os vossos parentes ou os vossos filhos, no Dia da Ressurreição. Ele vos separará; sabei que Deus bem vê tudo quanto fazeis.

4 Tivestes um excelente exemplo em Abraão e naqueles que o seguiram, quando disseram ao seu povo: Em verdade, não somos responsáveis por vossos atos e por tudo quando adorais, em lugar de Deus, Renegamos-vos e iniciar-se-á inimizade e um ódio duradouros entre nós e vós, a menos que creiais unicamente em Deus! Todavia, as palavras de Abraão para o pai: - Implorai o perdão para ti, embora nada venha a obter de Deus em teu favor – foram uma exceção. (Dizei, ó crentes): Ó Senhor nosso, a Ti nos encomendamos e a Ti nos voltamos contritos, porque para Ti será o retorno;

5 Ó Senhor nosso, não faças de nós um escarmento para os incrédulos e perdoa-nos, ó Senhor nosso, porque és o Poderoso, o Prudentíssimo.

6 Tivestes neles um excelente exemplo, de quem confia em Deus e no Dia do Juízo Final. Mas, quem desdenhar, que fique sabendo que Deus é, por Si, o Opulento, o Laudabilíssimo!

7 É possível que Deus restabeleça a cordialidade entre vós e os vossos inimigos, porque Deus é Poderoso, e porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

8 Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e eqüidade, porque Deus aprecia os eqüitativos.

9 Deus vos proíbe tão-somente entrar em privacidade com aqueles que vos combateram na religião, vos expulsaram de vossos lares ou que cooperaram na vossa expulsão. Em verdade, aqueles que entrarem em privacidade com eles serão iníquos.

10 Ó fiéis, quando se vos apresentarem as fugitivas fiéis(1641), examinai-as, muito embora Deus conheça a sua fé melhor do que ninguém; porém, se as julgardes fiéis(1642), não as restituais aos incrédulos, porquanto elas não lhes cabem por direito, nem eles a elas; porém, restituí o que eles gastaram (com os seus dotes). Não sereis recriminados se as desposardes(1643), contanto que as doteis; porém, não vos apegueis à tutela das incrédulas(1644), mas exigi a restituição do que gastastes no seu dote; e que (os incrédulos), por sua vez, exijam o que gastaram. Tal é o Juízo de Deus, com que vos julga, porque Deus é Sapiente, Prudentíssimo.

11 E se alguma de vossas esposas fugir para os incrédulos(1645), e depois tiverdes acesso (a uma mulher deles), restituí àqueles cujas esposas houverem fugido o equivalente ao que haviam gasto (com os seus dotes). E temei a Deus, em Quem credes.

12 Ó Profeta(1646), quando as fiéis se apresentarem a ti, jurando-te fidelidade, afirmando-te que não atribuirão parceiros a Deus, não roubarão, não fornicarão, não serão filicidas, não se apresentarão com calúnias que forjarem intencionalmente, nem te desobedecerão em causa justa(1647), aceita, então, o seu compromisso e implora, para elas, o perdão de Deus, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

13 Ó fiéis, não tenhais vínculos com o povo que Deus abominou, por ter-se tornado cético quanto à outra vida, como os incrédulos se tornaram céticos quanto aos donos das sepulturas.


"AS SAF" (AS FILEIRAS) Revelada em Madina; 14 versículos. 61ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tudo quanto existe(1648) nos céus e na terra glorifica Deus, porque Ele é o Poderoso, o Prudentíssimo.

2 Ó fiéis, por que dizeis o que não fazeis?(1649)

3 É enormemente odioso, perante Deus, dizerdes o que não fazeis.

4 Em verdade, Deus aprecia aqueles que combatem, em fileiras(1650), por Sua causa, como se fossem uma sólida muralha.

5 Recorda-te (ó Mensageiro) de quando Moisés disse ao seu povo: Ó povo meu, porque me injuriais, quando sabeis que sou o mensageiro de Deus, enviado a vós? Porém, quando se desviaram, Deus desviou os seus corações, porque Deus não encaminha os depravados.

6 E de quando Jesus, filho de Maria, disse: Ó israelitas, em verdade, sou o mensageiro de Deus, enviado a vós(1651), corroborante(1652) de tudo quanto a Tora antecipou no tocante às predições, e alvissareiro de um Mensageiro que virá depois de mim, cujo nome será Ahmad!(1653) Entretanto, quando lhes foram apresentadas as evidências, disseram: Isto é pura magia!

7 Haverá alguém mais iníquo do que quem forja mentiras acerca de Deus, apesar de ter sido convocado ao Islam? Sabei que Deus não encaminha os iníquos.

8 Pretendem extinguir a Luz de Deus com as suas (infames) bocas; porém, Deus completará a (revelação de) Sua Luz, embora isso desgoste os incrédulos.

9 Foi Ele Quem enviou o Seu Mensageiro, com a orientação e com a verdadeira religião, para fazê-las prevalecer sobre toda a religião(1654), ainda que isso desgoste os idólatras.

10 Ó fiéis, quereis que vos indique uma troca que vos livre de um castigo doloroso?

11 É que creiais em Deus e em Seu Mensageiro, e que sacrifiqueis os vossos bens e pessoas pela Sua causa. Isso é o melhor, para vós, se quereis saber.

12 Ele vos perdoará os pecados e vos introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios, bem como nas prazerosas moradas do Jardim do Éden. Tal é o magnífico benefício.

13 E, ademais, conceder-vos-á outra coisa que anelais, ou seja: o socorro de Deus e o triunfo imediato. (Ó Mensageiro), anuncia aos crentes boas novas!

14 Ó fiéis, sede os auxiliadores de Deus(1655), como disse Jesus, filho de Maria(1656), aos discípulos: Quem são os meus auxiliadores, na causa de Deus? Responderam: Nós somos os auxiliadores de Deus! Acreditou, então, uma parte dos israelitas, e outra desacreditou; então, socorremos os fiéis contra seus inimigos, e eles saíram vitoriosos.


"AL JÚMU’A" (A SEXTA-FEIRA) Revelada em Madina; 11 versículos. 62ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tudo quanto existe nos céus e na terra glorifica Deus(1657), o Soberano, o Augusto, o Poderoso, o Prudentíssimo.

2 Ele foi Quem escolheu, entre os iletrados(1658), um Mensageiro da sua estirpe, para ditar-lhes os Seus versículos, consagrá-los e ensinar-lhes o Livro e a sabedoria, porque antes estavam em evidente erro.

3 E ensinar aos outros que o sucederão, porque Ele é o Poderoso, o Prudentíssimo.

4 Tal é a graça de Deus, que a concede a quem Lhe apraz, porque é Agraciante por excelência.

5 O exemplo daqueles que estão encarregados da Tora, e não a observam, é semelhante ao do asno que carrega grandes livros. Que péssimo é o exemplo daqueles que desmentem os versículos de Deus! Deus não encaminha o povo dos iníquos.

6 Dize-lhes: Ó judeus(1659), se pretendeis ser os favorecidos de Deus, em detrimento dos demais humanos, desejai, então, a morte, se estais certos!

7 Porém, jamais a desejarão, por causa do que cometeram as suas mão; e Deus bem conhece os iníquos!

8 Dize-lhes: Sabei que a morte, da qual fugis, sem dúvida vos surpreenderá; logo retornareis ao Conhecedor do cognoscível e do incognoscível, e Ele vos inteirará de tudo quanto tiverdes feito!

9 Ó fiéis, quando fordes convocados, para a Oração da Sexta-feira (1660), recorrei à recordação de Deus e abandonai os vossos negócios(1661); isso será preferível, se quereis saber.

10 Porém, uma vez observada a oração, dispersai-vos pela terra e procurai as graças de Deus, e mencionai muito Deus, para que prospereis.

11 Porém, se quando se depararem com o comércio ou com a diversão, se dispersarem, correndo para ele e te deixarem a sós, dize-lhes: O que está relacionado com Deus é preferível à diversão e ao comércio, porque Deus é o melhor dos provedores.


"AL MUNAFICÚN" (OS HIPÓCRITAS) Revelada em Madina; 11 versículos. 63ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando os hipócritas(1662) se apresentam a ti, dizem: Reconhecemos que tu és o Mensageiro de Deus. Porém, Deus bem sabe que tu és o Seu Mensageiro e atesta que os hipócritas são mentirosos.

2 Fazem dos seus juramentos uma coberta (para as suas más ações), e desencaminham-se da senda de Deus. Que péssimo é o que fazem !

3 Isso porque creram e depois renegaram; consequentemente, foram sigilados os seus corações e por isso são insensatos.

4 E quando os vês, os seus aspectos te agradam; e quando falam escuta-lhes as palavras. Todavia, são como madeira(1663) encostada; pensam que qualquer grito é contra eles. São os inimigos; cuida-te, pois, deles. Que Deus os maldiga! Como se desencaminham!

5 Porém, quando lhes é dito: Vinde, que o Mensageiro de Deus implorará, para vós, o perdão!, meneiam a cabeça e os vês afastarem-se, ensoberbecidos.

6 Tanto se lhes dá que implores ou não o perdão para eles; Deus jamais os perdoará, porque Deus não encaminha os depravados.

7 São aqueles que dizem: Nada dispendais, com os que acompanham o Mensageiro(1664) de Deus, até que se dispersem. Os tesouros dos céus e da terra pertencem a Deus, embora os hipócritas continuem a ser insensatos.

8 Dizem: Em verdade, se voltássemos para Madina (1665), o mais poderoso expulsaria dela o mais fraco. Porém, a potestade só pertence a Deus, ao Seu Mensageiro e aos fiéis, ainda que os hipócritas o ignorem.

9 Ó fiéis, que os vossos bens e os vossos filhos não vos alheiem da recordação de Deus, porque aqueles que tal fizerem, serão desventurados.

10 Fazei caridade de tudo com que vos agraciamos, antes que a morte surpreenda qualquer um de vós, e este diga: Ó Senhor meu, porque não me toleras até um término próximo, para que eu possa fazer caridade e ser um dos virtuosos?

11 Porém, Deus jamais adiará a hora de qualquer alma, quando ela chegar, porque Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.


"AT TAGHÁBUN" (AS DEFRAUDAÇÕES RECÍPROCAS) Revelada em Madina; 18 versículos. 64ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tudo quanto existe nos céus e na terra glorifica Deus(1666); Seu é o reino e Seus são os louvores, porque é Onipotente.

2 Ele foi Quem vos criou; e entre vós há incrédulos, assim como há fiéis, contudo, Deus bem vê tudo quanto fazeis.

3 Em verdade, criou os céus e a terra e vos configurou(1667) com a melhor forma, e a Ele retornareis.

4 Ele conhece tudo quanto existe nos céus e na terra, assim como também conhece tudo quanto ocultais e tudo quanto manifestais, porque Deus é Sabedor das intimidades dos corações.

5 Acaso, não vos chegou a notícia dos incrédulos que vos precederam? Sofreram as conseqüências da sua conduta e, ademais, sofrerão um doloroso castigo.

6 Isto porque, quando os seus mensageiros lhes apresentaram as evidências, disseram: Acaso, os humanos hão de encaminhar-nos(1668)? E renegaram (a Mensagem), recusando-a; porém, Deus pode prescindir deles, porque Deus é por Si, Opulento, Laudabilíssimo.

7 Os incrédulos crêem que jamais serão ressuscitados. Dize-lhes: Sim, por meu Senhor que, sem dúvida, sereis ressuscitados; logo sereis inteirados de tudo quanto tiverdes feito, porque isso é fácil para Deus.

8 Crede, pois, em Deus, em Seu Mensageiro e na Luz que vos temos revelado, porque Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.

9 Quando fordes congregados para o Dia da Assembléia, este será o dia das defraudações recíprocas. Porém, aquele que crer em Deus e praticar o bem, será absolvido das suas faltas, e introduzido em jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morará eternamente. Tal é o magnífico benefício!

10 Por outra, aqueles que renegarem e desmentirem os Nossos versículos, serão condenados ao inferno, onde morarão eternamente. E que funesto destino!

11 Jamais acontecerá calamidade alguma, senão com a ordem de Deus. Mas, a quem crer em Deus, Ele lhe iluminará o coração, porque Deus é Onisciente.

12 Obedecei, pois, a Deus e obedecei ao Mensageiro! Mas, se recusardes, sabei que ao Nosso Mensageiro(1669) somente incumbe a proclamação lúcida da mensagem.

13 Deus! Não há mais divindade além d’Ele! Que a Deus se encomendem, pois, os crentes!

14 Ó fiéis, em verdade, tendes adversários(1670) entre as vossas mulheres e os vossos filhos. Precavei-vos, pois, deles. Porém, se os tolerardes, perdoarde-los e os indultardes, sabei que certamente Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

15 Em verdade os vossos bens e os vossos filhos são uma mera tentação. Mas sabei que Deus vos reserva uma magnífica recompensa.

16 Temei, pois, a Deus, tanto quanto possais, Escutai-O, obedecei-Lhe e fazei caridade, que isso será preferível para vós! Aqueles que se preservarem da avareza serão os bem-aventurados.

17 Se emprestardes a Deus espontaneamente, Ele vo-lo multiplicará o vos perdoará, porque Deus é Retribuidor, Tolerante,

18 Conhecedor do cognoscível e do incognoscível, o Poderoso, o Prudentíssimo.


"AT TALAC" (O DIVÓRCIO) Revelada em Madina; 12 versículos. 65ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ó Profeta(1671), quando vos divorciardes das vossas mulheres(1672), divorciai-vos delas em seus períodos prescritos(1673) e contai exatamente tais períodos e temei a Deus, vosso Senhor(1674). Não as expulseis dos seus lares(1675), nem elas deverão sair, a não ser que tenham cometido obscenidade comprovada. Tais são as leis de Deus; e quem profanar as leis de Deus, condenar-se-á. Tu o ignoras, mas é possível que Deus, depois disto, modifique a situação para melhor(1676).

2 Todavia, quando tiverem cumprido o seu término prefixado, tomai-as em termos eqüitativos ou separai-vos delas, em termos eqüitativos. (Em ambos os casos) fazei-o ante testemunhas eqüitativas, dentre vós, e justificai o testemunho ante Deus, com o qual se exorta quem crê em Deus e no Dia do Juízo Final. Mas, a quem temer a Deus, Ele lhe apontará uma saída.

3 E o agraciará, de onde menos esperar. Quanto àquele que se encomendar a Deus, saiba que Ele será Suficiente, porque Deus cumpre o que promete. Certamente Deus predestinou uma proporção para cada coisa(1677).

4 Quanto àquelas, das vossas mulheres, que tiverem chegado à menopausa, se tiverdes dúvida quanto a isso, o seu período prescrito será de três meses; o mesmo(1678) se diga, com respeito àquelas que ainda não tiverem chegado a tal condição; e, quanto às grávidas, o seu período estará terminado quando derem à luz. Mas, a quem temer a Deus, Ele lhe aplainará o assunto.

5 Tal é o mandamento que Deus vos revelou. E quem temer a Deus, (saiba que) Ele lhe absolverá os pecados e lhe aumentará a recompensa.

6 Instalai-as (as divorciadas) onde habitais, segundo os vossos recursos, e não as molesteis, para criar-lhes dificuldades(1679). Se estiverem grávidas(1680), mantende-as, até que tenham dado à luz. Se amamentam os vossos filhos, pagai-lhes a sua recompensa e consultai-vos cordialmente. Porém, se encontrardes constrangimento(1681) nisso, que os amamente outra mulher(1682).

7 Que o abastado retribua isso, segundo as suas posses; quanto àquele, cujos recursos forem parcos, que retribua com aquilo com que Deus lhe agraciou. Deus não impõe a ninguém obrigação superior ao que lhe concedeu; Deus trocará a dificuldade pela facilidade.

8 Quantas cidades descartaram a autoridade do seu Senhor e dos Seus mensageiros! Saldamo-lhes as contas rigorosamente e lhes infligimos um castigo exemplar.

9 Sofreram, então, a dura conseqüência da sua conduta, e o resultado da sua conduta foi a perdição.

10 Deus lhes preparou um severo castigo. Temei, pois, a Deus, ó fiéis sensatos, pois Deus vos enviou uma Mensagem.

11 Por um Mensageiro, que vos recita os lúcidos versículos de Deus, para tirar os que crêem e praticam o bem, das trevas, para os levar à luz. E os que crêem em Deus e praticam o bem, Ele os introduzirá em jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Deus lhes reservou uma excelente provisão.

12 Deus foi Quem criou sete firmamentos e outro tanto de terras; e Seus desígnios se cumprem, entre eles, para que saibais que Deus é Onipotente e que Deus tudo abrange, com a Sua onisciência.


"AT TAHRIM" (AS PROIBIÇÕES) Revelada em Madina; 12 versículos. 66ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ó profeta, por que te absténs daquilo que Deus te concedeu(1683), procurando, com isso, agradar as tuas esposas(1684), quando sabes que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo?

2 Deus vos permitiu a expiação dos vossos juramentos, porque é vosso Protetor e é o Sapiente, o Prudentíssimo.

3 Quando o Profeta confidenciou um segredo(1685) a uma das suas esposas (Hafsa), ela o revelou (a outra), e Deus informou-o disso; ele, então, confirmou uma parte disso, escondendo a outra. Mais, quando ele contou, ela perguntou: Quem te anunciou isso? Disse: Anunciou-mo o Onisciente, o Sapientíssimo.

4 Se vós, ambas, voltardes arrependidas a Deus, os vossos corações inclinar-se-ão para isso; porém, se confabulardes contra ele, sabei que Deus é o seu Protetor, bem como Gabriel, os virtuosos, dentre os fiéis e os anjos serão os (seus) socorredores.

5 Se ele se divorciar de vós, pode ser que o seu Senhor lhe conceda esposas muçulmanas preferíveis a vós, fiéis, devotas, arrependidas, adoradoras, jejuadoras(1686), anteriormente casadas ou donzelas.

6 Ó fiéis, precavei-vos, juntamente com as vossas famílias, do fogo, cujo alimento serão os homens e as pedras, o qual é guardado por anjos inflexíveis e severos, que jamais desobedecem às ordens que recebem de Deus, mas executam tudo quanto lhes é imposto.

7 Ó incrédulos, não apresenteis escusas hoje, porque só sereis recompensados pelo que houverdes feito!

8 Ó fiéis, voltai, sinceramente arrependidos, a Deus; é possível que o vosso Senhor absolva as vossas faltas e vos introduza em jardins, abaixo dos quais correm os rios, no dia em que Deus não aviltará o Profeta e aqueles que com ele crerem. Uma luz fulgurará diante deles e, com a sua crença, dirão: Ó Senhor nosso, completa-nos a nossa luz e perdoa-nos, porque Tu és Onipotente!

9 Ó Profeta, combate com denodo os incrédulos e os hipócritas, e sê inflexível para com eles, pois a sua morada será o inferno. E que funesto destino!

10 Deus exemplifica, assim, aos incrédulos, com as mulheres de Noé e a de Lot: ambas achavam-se submetidas a dois dos Nossos servos virtuosos; porém, ambas os atraiçoaram e ninguém pôde defendê-las de Deus. Ser-lhes-á dito: Entrai no fogo, juntamente com os que ali entrarem!

11 E Deus dá, como exemplo aos fiéis, o da mulher do Faraó(1687), a qual disse: Ó Senhor meu, constrói-me, junto a Ti, uma morada no Paraíso, e livra-me do Faraó e das suas ações, e salva-me dos iníquos!

12 E com Maria, filha de Imran(1688), que conservou o seu pudor, e a qual alentamos(1689) com o Nosso Espírito, por te acreditado nas palavras do seu Senhor e nos Seus Livros, e por se Ter contado entre os consagrados.


"AL MULK" (A SOBERANIA) Revelada em Makka, 30 versículos. 67ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Bendito seja Aquele em Cujas mãos está a Soberania(1690), e que é Onipotente;

2 Que criou a vida e a morte, para testar quem de vós melhor se comporta – porque é o Poderoso, o Indulgentíssimo -,

3 Que criou sete céus sobrepostos(1691); tu não acharás imperfeição alguma na criação do Clemente! Volta, pois, a olhar ! Vês, acaso, alguma fenda?

4 Novamente, olha e torna a fazê-lo(1692), e o teu olhar voltará a ti, confuso e fatigado.

5 E adornamos o céu aparente com lâmpadas, e lhes destinamos apedrejarem os demônios(1693), e preparamos, para eles o suplício do fogo infernal.

6 Bem como a pena do inferno, para aqueles que negam o seu Senhor. Que funesto destino!

7 Quando nele forem precipitados, ouvi-lo-ão rugir, borbulhante,

8 A ponto de estalar de fúria. Cada vez que um grupo (de réprobos) for precipitado nele, os seus guardiães lhes perguntarão. Acaso, não vos foi enviado nenhum admoestador?

9 Dirão: Sim! Foi-nos enviado um admoestador, porém desmentimo-lo, dizendo: Deus nada revelou! Estais em grave erro(1694)!

10 E dirão (mais): Se tivéssemos escutado o meditado(1695), não estaríamos entre os condenados ao tártaro!

11 E confessarão os seus pecados; anátema aos condenados ao tártaro!

12 Em verdade aqueles que temerem intimamente o seu Senhor obterão indulgência e uma grande recompensa.

13 Quer faleis privativa ou publicamente, Ele é Conhecedor das intimidades dos corações.

14 Como não haveria de conhecê-las o Criados, sendo Ele o Onisciente, o Sutilíssimo?

15 Ele foi Quem vos fez a terra manejável(1696). Percorrei-a pois, por todos os seus quadrantes e desfrutai das Suas mercês; a Ele será o retorno!

16 Estais, acaso, seguros de que Aquele que está no céu não vos fará ser tragados pela terra? Ei-la que treme!

17 Ou estais seguros de que Aquele que está no céu não desencadeará um violento furacão sobre vós? Logo sabereis como é a Nossa advertência.

18 Em verdade, os seus antepassados desmentiram os Meus enviados. Porém, que terrível foi a Minha rejeição!

19 Não reparam, acaso, nos pássaros que pairam sobre eles(1697), protraindo e recolhendo as suas asas(1698)? Ninguém os mantém no espaço, senão o Clemente, porque é Onividente.

20 Ou então, qual é o exército com que contais para socorrer-vos, em vez do Clemente? Em verdade, os incrédulos estão grandemente iludidos.

21 Ou então, quem será que os sustentará(1699) se Ele retiver as Suas mercês? Não obstante, obstinam-se na perfídia e no extravio.

22 Quem está melhor encaminhado: o que anda, vacilante, pela tortuosidade, ou quem anda, altaneiro, pela senda reta?

23 Dize-lhes: Foi Ele Quem vos criou e vos dotou de ouvidos, de vistas e de faculdades. Quão pouco Lhe agradeceis!

24 Dize-lhes (mais): Foi Ele Quem vos multiplicou, na terra, e ante Ele sereis congregados.

25 Porém, perguntaram: Quando se cumprirá tal promessa? Dizei-nos, se estais certos.

26 Responde-lhes: Só Deus o sabe, e eu sou unicamente um admoestador elucidante.

27 Mas , quando o virem (o castigo) de perto, os rostos dos incrédulos se ensombrecerão e lhes será dito: Aqui tendes o que pedíeis!

28 Dize-lhes: Se Deus me fizesse perecer, juntamente com os meus(1700) seguidores ou se se apiedasse de nós, quem livraria os incrédulos de um doloroso castigo?

29Dize-lhes (mais): Ele é o Clemente, no Qual cremos e ao Qual nos encomendamos. Logo sabereis quem está em erro evidente!

30 Dize-lhes (ainda): Que vos parece? Se a vossa água, ao amanhecer,(1701) tivesse sido toda absorvida (pela terra), quem faria manar água potável para vós?


"AL CALAM" (O CÁLAMO) Revelada em Makka; 52 versículos, com exceção dos versículos 17 a 23 e 48 a 50, que foram revelados em Madina. 68ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Nun(1702), Pelo cálamo(1703) e pelo que com ele escrevem,

2 Que tu (ó Mensageiro) não és, pela graça do teu Senhor, um energúmeno(1704)!

3 Em verdade, ser-te-á reservada uma infalível recompensa.

4 Porque és de nobilíssimo caráter.

5 Logo verás e eles também verão,

6 Quem, dentre vós, é o aflito!

7 Em verdade, teu Senhor é o mais conhecedor de quem se desvia da Sua senda, assim como é o mais conhecedor dos encaminhados.

8 Não dês, pois, ouvidos aos desmentidores,

9 Porque anseiam para que sejas flexível, para o serem também.

10 E jamais escutes a algum perjuro desprezível,

11 Detrator, mexeriqueiro,

12 Tacanho, transgressor, pecador,

13 Grosseiro e, ademais, intruso.

14 Ainda que possua bens e (numerosos) filhos,

15 Aquele que, quando lhe são recitados os Nossos versículos, diz: São fábulas dos primitivos,

16 Marcá-lo-emos no nariz(1705)!

17 Por certo que os provaremos (o povo de Makka) como provamos os donos do pomar, ao decidirem colher os seus frutos ao amanhecer,

18 Sem a invocação (do nome de Deus)(1706).

19 Porém, enquanto dormiam, sobreveio-lhes uma centelha do teu Senhor.

20 E, ao amanhecer, estava (o pomar) como se houvesse sido ceifado.

21 E, pela manhã, confabularam mutuamente:

22 Ide aos vossos campos, se quereis colher!

23 Foram, pois, sussurrando:

24 Que não entre hoje (em vosso pomar) nenhum necessitado(1707).

25 E iniciaram a manhã com uma (injusta) resolução.

26 Mas, quando o viram daquele jeito, disseram: Em verdade, estamos perdidos!

27 Em verdade, estamos privados de tudo!

28 E o mais sensato deles disse: Não vos havia dito? Por que não glorificastes (Deus)?

29 Responderam: Glorificado seja o nosso Senhor! Em verdade, fomos iníquos!

30 E começaram a reprovar-se mutuamente(1708).

31 Disseram: Ai de nós, que temos sido transgressores!

32 É possível que o nosso Senhor nos conceda outro (pomar) melhor do que esta, pois voltamo-nos ao nosso Senhor(1709).

33 Tal foi o castigo (desde mundo): mas o castigo da outra vida será ainda maior. Se o soubessem!

34 Em verdade, para os tementes, haverá jardins do prazer, ao lado do seu Senhor.

35 Porventura, consideramos os muçulmanos, tal como os pecadores?

36 O que há convosco? Como julgais assim?

37 Ou, acaso, tendes algum livro em que aprendeis,

38 A conseguir o que preferis(1710)?

39 Ou possuís, acaso, a Nossa promessa formal, até ao Dia da Ressurreição, de conseguirdes tudo o que desejardes?

40 Pergunta-lhes qual deles está disposto a assegurar isto?

41 Ou têm, acaso, parceiros (junto a Mim)? Que os apresentem, pois, se estiverem certos!

42 No dia em que a perna(1711) fica nua, em que forem convocados à prostração e não o conseguirem.

43 Seus olhares serão de humilhação, cobertos de ignomínia, porque foram convidados à prostração, enquanto podiam cumpri-la (e se recusaram).

44 Deixe-Me(1712), pois, a sós com os que desmentem esta Mensagem. Logo os aproximaremos do castigo, gradualmente, de onde menos esperam.

45 E os tolerarei, porque o Meu plano é firme.

46 Acaso lhes exiges recompensa e por isso lhes pesa o débito?

47 Ou estão de posse do incognoscível, e podem descrevê-lo?

48 Persevera, pois (ó Mensageiro), até ao juízo do teu Senhor, e não sejas como aquele que foi engolido pela baleia (Jonas), quando, angustiado, (Nos) invocou.

49 Se não o tivesse alcançado a graça do seu Senhor, certamente teria sido arrojado sobre a orla desértica, em desgraça.

50 Porém, o Senhor o elegeu e o contou entre os virtuosos.

51 Se pudessem, os incrédulos far-te-iam vacilar, com os seus olhares (de rancor), ao ouvirem a Mensagem. E dizem: Em verdade, é um energúmeno!

52 E este (Alcorão) não é mais do que uma mensagem(1713) para todo o universo.


"AL HÁCA" (A REALIDADE) Revelada em Makka; 52 versículos. 69ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 A realidade (1714)

2 Que é a realidade?

3 E o que te fará entender o que significa a realidade?

4 Os povos de Samud e de Ad desmentiram a calamidade.

5 Quanto ao povo de Samud, foi fulminado pela centelha!

6 E, quanto ao povo de Ad, foi exterminado por um furioso e impetuoso furacão.

7 Que Deus desencadeou sobre ele, durante sete noites e oito nefastos dias, em que poderias ver aqueles homens jacentes, como se fossem troncos de tamareiras caídos.

8 Porventura, viste algum sobrevivente, entre eles?

9 E o Faraó, os seus antepassados(1715) e as cidades nefastas disseminaram o pecado.

10 E desobedeceram ao mensageiro do seu Senhor, pelo que Ele os castigou rudemente.

11 Em verdade, quando as águas transbordaram, levamo-vos na arca.

12 Para fazemos disso um memorial para vós, e para que o recordasse qualquer mente atenta.(1716)

13 Porém, quando soar um só toque da trombeta(1717),

14 E a terra e as montanhas forem desintegradas e trituradas de um só golpe,

15 Nesse dia, acontecerá o evento inevitável.

16 E o céu se fenderá, e estará frágil;

17 E os anjos estarão perfilados(1718) e, oito deles, nesse dia, carregarão o Trono(1719) do teu Senhor.

18 Nesse dia sereis apresentados (ante Ele), e nenhum dos vossos segredos (Lhe) será ocultado.

19 Então, aquele a quem for entregue o seu registro, na destra, dirá; Ei-lo aqui! Lede o meu registro;

20 Sempre soube que prestaria contas!

21 E ele gozará de uma vida prazenteira,

22 Em um jardim sublime,

23 Cujos frutos(1720) estarão ao seu alcance.

24 (E será dito àqueles que lá entrarem): Comei e bebei com satisfação, pelo bem que propiciastes em dias pretéritos!

25 Em troca, aquele a quem for entregue o seu registro na sinistra, dirá: Ai de mim! Oxalá não me tivesse sido entregue meu registro.

26 Nem jamais tivesse conhecido o meu cômputo;

27 Oh! Oxalá a minha primeira (morte) tivesse sido a anulação;

28 De nada me servem os meus bens;

29 A minha autoridade se desvaneceu...!

30 (Será dito): Pegai-o, manietai-o,(1721)

31 E introduzi-o na fogueira!

32 Então, fazei-o carregar uma corrente(1722) de setenta cúbitos,

33 Porque não creu em Deus, Ingente,

34Nem diligenciou, no sentido de alimentar os necessitados.

35 Assim, pois, não terá, hoje, nenhum amigo íntimo,

36 Nem mais alimento do que o excremento,

37 Que ninguém comerá, a não ser os pecadores.

38 Juro, pois, pelo que vedes,

39 E pelo que não vedes,

40 Que este (Alcorão) é a palavra do Mensageiro honorável.

41 E não a palavra de um poeta.(1723) – Quão pouco credes-

42 Nem tampouco é a palavra de um adivinho.(1724) Quão pouco meditais!

43 (Esta) é uma revelação do Senhor do Universo.

44 E se (o Mensageiro) tivesse inventado alguns ditos, em Nosso nome

45 Certamente o teríamos apanhado pela destra(1725);

46 E então, Ter-lhe-íamos cortado a aorta,

47 E nenhum de vós teria podido impedir-Nos,

48 E, certamente, este (Alcorão) é uma mensagem para os tementes,

49 –E Nós sabemos aqueles que, dentre vós, são os desmentidores-

50 E ele é uma angústia para os incrédulos;

51 E ele é verdade convicta(1726).

52 Assim sendo, glorifica o nome do teu Senhor, o Ingente.


"AL MA’ÁRIJ" (AS VIAS DE ASCENSÃO) Revelada em Makka; 44 versículos. 70ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Alguém inquiriu sobre um castigo iminente,

2 Indefensável para os incrédulos,

3 Que viria de Deus, o Possuidor das vias de ascensão(1727).

4 Até Ele ascenderão os anjos com o Espírito (o anjo Gabriel) em um dia(1728), cuja duração será de cinqüenta mil anos.

5 Persevera, pois (ó Mensageiro), dignamente!

6 Em verdade, eles o vêem muito remoto,

7 Ao passo que Nós o vemos iminente:

8 Nesse dia, o céu estará como metal fundido,

9 E as montanhas, desintegradas, tal qual (flocos de) lã (tingida)(1729).

10 E nenhum amigo íntimo perguntará pelo seu amigo,

11 Ainda que sejam colocados um perante o outro. Nesse dia, o pecador quererá redimir-se do castigo, com o sacrifício dos seus filhos,

12 Da sua esposa, do seu irmão,

13 Dos seus parentes, que o amparavam,

14 E de tudo quanto existe na terra, como se isso, então, pudesse libertá-lo (do castigo).

15 Qual! (Este) é o fogo infernal,

16 Dilacerador dos membros,

17 Que atrai o renegado desdenhoso(1730),

18 Que acumula e guarda!

19 Em verdade, o homem foi criado impaciente;

20 Quando o mal o açoita, impacienta-se;

21 Mas, quando o bem o acaricia, torna-se tacanho;

22 Salvo os que oram(1731),

23 Que são constantes em suas orações,

24 E em cujos bens há uma parcela intrínseca,

25 Para o mendigo e o desafortunado,

26 São aqueles que crêem no Dia do Juízo,

27 E são reverente, por temor ao castigo do seu Senhor,

28 Porque sabem que o castigo do seu Senhor é iniludível.

29 São aqueles que observam a castidade,

30 Exceto para com as esposas, ou (as cativas), que as suas destras possuem(1732)- nisso não serão reprovados.

31 Mas aqueles que se excederam nisso, serão os transgressores.

32 Os que respeitam as suas obrigações e convênios,

33 Que são sinceros em seus testemunhos(1733),

34 E os que observam as suas orações,

35 Estes serão honrados em jardins.

36 Assim, pois, que ocorre com os incrédulos que te rodeiam, empertigados,

37 Em grupos, pela direita e pela esquerda?

38 Acaso ambiciona, cada um deles, ser introduzido no Jardim do Prazer?

39 Qual! Em verdade, Nós os criamos do que já sabem (1734)!

40 Juro(1735), pois, pelo Senhor dos Orientes e dos Ocidentes (1736) que somos Poderoso(1737),

41 Para suplantá-los por outros melhores do que eles, porque somos Invencível!

42 Deixai-los, pois, que se entretenham, e brinquem(1738), até que topem com o seu dia, o qual lhes foi prometido!

43 Dia em que sairão apressados dos seus sepulcros, como se corressem para uma meta(1739).

44 Seus olhares serão de humilhação, cobertos de ignomínia. Assim será o dia que lhes foi prometido.


"NUH" (NOÉ) Revelada em Makka; 28 versículos. 71ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Em verdade, enviamos Noé(1740) ao seu povo, (dizendo-lhe): Admoesta o teu povo, antes que o açoite um castigo doloroso!

2 Disse: Ó povo meu, em verdade, sou um elucidativo admoestador para vós

3 Adorai a Deus, temei-O e obedecei-me(1741).

4 Ele vos absolverá os pecados e vos concederá um prazo, até um término prefixado, porque quando chegar a hora do término prescrito por Deus, este não será prorrogado. Se o soubésseis!

5 (Noé) disse: Ó Senhor meu, tenho predicado ao meu povo noite e dia;

6 Porém, a minha predicação não fez outro, coisa senão aumentar o afastamento deles (da verdade)(1742).

7 E cada vez que os convocava ao arrependimento, para que Tu os perdoasses, tapavam os ouvidos com os dedos e se envolviam com as suas vestimentas(1743), obstinando-se no erro e ensoberbecendo-se grotescamente.

8 Então, convoquei-os altissonantemente;

9 Depois os exortei palatina e privativamente,

10 Dizendo-lhes: Implorai o perdão do vosso Senhor, porque é Indulgentíssimo;

11 Enviar-vos-á do céu copiosas chuvas,

12 Aumentar-vos-á os vossos bens e filhos, e vos concederá jardins e rios.

13 Que vos sucede, que não depositais as vossas esperanças em Deus,

14 Sendo que Ele vos criou gradativamente?

15 Não reparastes em como Deus criou sete céus sobrepostos,

16 E colocou neles a lua reluzente e o sol, como uma lâmpada?(1744)

17 E Deus vos produziu da terra, paulatinamente.(1745)

18 Então, vos fará retornar a ela, e vos fará surgir novamente.

19 Deus vos fez a terra como um tapete,

20 Para que a percorrêsseis por amplos caminhos.

21 Noé disse: Ó Senhor meu, eles me desobedeceram e seguiram aqueles para os quais os bens o filhos não fizeram mais do que lhes agravar a desventura!

22 E conspiraram enormemente (contra Noé).

23 E disseram (uns com os outros): Não abandoneis os vossos deuses, nem tampouco abandoneis Wadda, nem Sua’a, nem Yaguça, nem Ya’uca, nem Nassara,(1746)

24 Apesar de estes haverem extraviado muitos, se bem que Tu, ó Senhor meu, não aumentarás em nada os iníquos, senão em extravio.(1747)

25 Foram afogados pelos seus pecados,(1748) serão introduzidos no fogo infernal e não encontrarão, para si, socorredores, além de Deus.

26 E Noé disse: Ó Senhor meu, não deixeis sobre a terra nenhum dos incrédulos.

27 Porque, se deixares, eles extraviarão os Teus servos, e não gerarão senão os libertinos, ingratos.

28 Ó Senhos meu, perdoa-me a mim, aos meus pais e a todo fiel que entrar em minha casa, assim como também aos fiéis e às fiéis, e não aumentes em nada os iníquos, senão em perdição.


"AL JIN" (OS GÊNIOS) Revelada em Makka; 28 versículos. 72ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Dize: Foi-me revelado(1749) que um grupo de gênios escutou (a recitação do Alcorão). Disseram: Em verdade, ouvimos um Alcorão admirável(1750),

2 Que guia à verdade, pelo que nele cremos, e jamais atribuiremos parceiro alguém ao nosso Senhor;

3 Cremos em que – exaltada seja a Majestade do nosso Senhor – Ele jamais teve cônjuge ou prole(1751),

4 E o insensato, entre nós, proferiu extravagâncias a respeito de Deus.

5 E jamais imaginamos que os humanos e ao gênios iriam urdir mentiras a respeito de Deus.

6 E, em verdade, algumas pessoas, dentre os humanos, invocaram a proteção de pessoas, dentre os gênios. Porém, estes só lhes aumentaram os desatinos.

7 E eles pensaram como pensastes: que Deus jamais ressuscitará alguém.

8 (Disseram os gênios): Quisemos inteirar-nos acerca do céu e o achamos pleno de severos guardiães e flamígeros meteoros(1752).

9 E usávamos nos sentar lá, em locais (ocultos), para ouvir; e quem se dispusesse a ouvir agora, defrontar-se-ia com um flamígero meteoro, de guarda.

10 E nós não compreendemos se o mal era destinado àqueles que estão na terra ou se o Senhor tencionava encaminhá-los para a boa conduta.

11 E, entre nós (os gênios), há virtuosos e há também os que não o são, porque seguimos diferentes caminhos.

12 E achamos que jamais poderemos safar-nos de Deus na terra, nem tampouco iludi-Lo, fugindo (para outras paragens).

13 E quando escutamos a orientação, cremos nela; e quem quer que creia em seu Senhor, não há de temer fraude, nem desatino.

14 E, entre nós, há submissos, como os também há desencaminhados. Quanto àqueles que se submetem (à vontade de Deus), buscam a verdadeira conduta.

15 Quanto aos desencaminhados, esses serão combustíveis do inferno.

16 Mas, se tivessem sido firmes no (verdadeiro) caminho, tê-los-íamos agraciado com água abundante(1753),

17 Para prová-los, com ela. Em verdade, a quem se afastar da Mensagem do seu Senhor, Ele lhe infligirá um severo castigo.

18 Sabei que as mesquitas(1754) são (casas) de Deus; não invoqueis, pois, ninguém, juntamente com Deus.

19 E quando o servo de Deus se levantou para invocá-Lo(1755) (em oração), aglomeraram-se em tomo dele.

20 Dize-lhes: Invoco tão somente o meu Senhor, a Quem não atribuo parceiro algum.

21 Dize-lhes (mais): Em verdade, não posso livrar-vos do mal, nem trazer-vos para a conduta verdadeira.

22 Dize-lhes (ainda): Em verdade, ninguém poderá livrar-me de Deus, nem tampouco acharei amparo algum fora d’Ele;

23 Somente proclamo o que de Deus recebi, bem como a Sua mensagem. E aqueles que desobedecem a Deus e ao Seu Mensageiro, certamente terão o fogo infernal, onde morarão eternamente.

24 (Eles duvidarão) até que, quando se depararem com o que lhes foi prometido, saberão quem tem menos socorredores e quem tem menor número (de aliados).

25 Dize-lhes: Ignoro se o que vos tem sido prometido é iminente, ou se o meu Senhor fixou-lhe um término remoto.

26 Ele é Conhecedor do incognoscível e não revela os Seus mistérios a quem quer que seja(1756),

27 Salvo a um mensageiro que tenta escolhido, e faz um grupo de guardas marcharem, na frente e por trás dele(1757),

28 Para certificar-se de que transmitiu as mensagens do seu Senhor, o Qual abrange tudo quanto os humanos possuem, e que toma conta de tudo(1758).


"AL MUZZÁMMIL" (O ACOBERTADO) Revelada em Makka; 20 versículos, com exceção dos versículos10, 11 e 20, que foram revelados em Madina. 73ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ó tu, acobertado(1759),

2 Levanta-te à noite (para rezar), porém não durante toda a noite(1760);

3 A metade dela ou pouco menos,

4 Ou pouco mais, e recita fervorosamente o Alcorão(1761).

5 Em verdade, vamos revelar-te uma mensagem de peso.

6 Em verdade, o ato de te levantares à noite para rezares é mais marcante e mais adequado.

7 Porque durante o dia tens muitos afazeres.

8 Porém, recorda-te do teu Senhor e consagra-te integralmente a Ele.

9 Ele é o Senhor do Oriente e do Ocidente. Não há mais divindade além d’Ele! Toma-O, pois, por Guardião(1762)!

10 E tolera tudo quanto te digam, e afasta-te dignamente deles.

11 E deixa por Minha conta os desmentidores, opulentos, e tolera-os por curto tempo,

12 Porque lhes reservamos os grilhões e o fogo,

13 Um alimento que engasga e um doloroso castigo(1763).

14 Será o dia em que haverão de tremer a terra e as montanhas, e haverão de se converter, as montanhas, em dunas dispersas.

15 Sabei que vos enviamos um Mensageiro, para ser testemunha contra vós(1764), tal como enviamos um mensageiro ao Faraó.

16 Porém, o Faraó desobedeceu ao mensageiro, pelo que o castigamos severamente.

17 Se não crerdes, como, então, vos precavereis, no dia em que envelhecerão as crianças.

18 E o céu se fenderá? Sabei que a Sua promessa se cumprirá!

19 Em verdade, esta é uma admoestação(1765), e, quem quiser, poderá encaminhar-se para a senda do seu Senhor.

20 Em verdade, o teu Senhor sabe que tu te levantas para rezar, algumas vezes durante dois terços da noite, outras, metade, e outras, ainda, um terço (1766), assim como (o faz) uma boa parte dos teus; mas Deus mede a noite e o dia, e bem sabe que não podeis precisar (as horas)(1767), pelo que vos absolve. Recitai, pois, o que puderdes do Alcorão(1768)! Ele sabe que, entre vós, há enfermos, e outros que viajam pela terra, à procura da graça de Deus, e outros, que combatem pela causa de Deus(1769). Recitai, oferecei espontaneamente a Deus. E todo o bem que fizerdes, será em favor às vossas almas; achareis a recompensa em Deus, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo(1770).


"AL MUDÁSCIR" (O EMANTADO) Revelada em Makka; 56 versículos. 74ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ó tu, emantado!(1771)

2 Levante-te e admoesta!

3 E enaltece o teu Senhor!

4 E purifica as tuas vestimentas!

5 E foge da abominação!

6 E não esperes qualquer aumento (em teu interesse)(1772),

7 Mas persevera, pela causa do teu Senhor,

8 Pois, quando for tocada a trombeta,

9 Esse dia será um dia nefasto,

10 Insuportável para os incrédulos.

11 Deixa por Minha conta aquele que criei solitário,

12 Que depois agraciei com infinitos bens,

13 E filhos, ao seu lado,

14 E que agraciei liberalmente,

15 E que ainda pretende que lhe sejam acrescentados (os bens)!

16 Qual! Por Ter sido insubmisso quanto aos Nossos versículos,

17 Infligir-lhe-ei um acúmulo de vicissitudes,

18 Porque meditou e planejou.

19 Que pereça, pois, por planejar,

20 E, uma vez mais, que pereça por planejar!

21 Então, refletiu;

22 Depois, tornou-se austero e ameaçador;

23 Depois, renegou e se ensoberbeceu;

24 E disse(1773): Este (Alcorão) não é mais do que magia, oriunda do passado;

25 Esta não é mais do que a palavra de um mortal!

26 Por isso, introduzi-lo-ei no tártaro!

27 E o que te fará compreender o que é o tártaro?

28 Nada deixa perdurar e nada deixa a sós!(1774)

29 Carbonizador do humanos,

30 Guardado por dezenove(1775).

31 E não designamos guardiães(1776) do fogo, senão os anjos, e não fixamos o seu número, senão como prova para os incrédulos, para que os adeptos do Livro se convençam; para que os fiéis aumentem em sua fé e para que os adeptos do Livro, assim como os fiéis, não duvidem; e para que os que abrigam a morbidez em seus corações, bem como os incrédulos, digam: Que quer dizer Deus com esta prova? Assim Deus extravia quem quer e encaminha quem Lhe apraz e ninguém, senão Ele, conhece os exércitos do teu Senhor. Isto não é mais do que uma mensagem para a humanidade.(1777)

32 Qual! Pela lua,

33 E pela noite(1778), quando se extingue,

34 E pela manhã, quando surge,

35 Que isto é um doa maiores portentos,

36 Admoestação para o gênero humano,

37 E para aquele, dentre vós, que se antecipa ou se atrasa!(1779)

38 Toda a alma é depositária das suas ações,

39 Salvo as que estiverem à mão direita,

40 Que estarão nos jardins das delícias. Perguntarão,

41 Aos pecadores:

42 O que foi que vos introduziu no tártaro?

43 Responder-lhes-ão: Não nos contávamos entre os que oravam,

44 Nem alimentávamos o necessitado;

45 Ao contrário, dialogávamos sobre futilidades, com palradores,

46 E negávamos o Dia do Juízo,

47 Até que nos chegou a (Hora) infalível!

48 De nada, então, valerá, a intercessão dos mediadores.

49 Porque, pois, desdenham a admoestação,

50 Como se fossem asnos espantados,

51 Fugindo de um leão?

52 Porém, cada um deles quereria receber (agora) páginas abertas (com a revelação).

53 Qual! Em verdade não temem a outra vida.

54 Qual! Sabei que (o Alcorão) é uma admoestação(1780).

55 Quem quiser, pois, que o recorde!

56 Porém, não o recordarão, a menos que Deus o queira, porque é o Senhor do temor e o Senhor da remissão.


"AL QUÍAMA"

(A RESSURREIÇÃO) Revelada em Madina; 40 versículos. 75ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Juro, pelo Dia da Ressurreição,

2 E juro, pela alma que reprova a si mesma(1781);

3 Porventura, o homem crê que jamais reuniremos os seus ossos?

4 Sim, porque somos capaz de restaurar as cartilagens dos seus dedos(1782).

5 Porém, o homem deseja praticar o mal, (mesmo) perante ele.

6 Perguntam: Quando acontecerá o Dia da Ressurreição?

7 (Responde-lhes): Quando vos forem deslumbradas as vistas,

8 E se eclipsar a lua(1783)

9 E o sol e a lua se juntarem(1784)!

10 Nesse dia, o homem dirá: Onde está o refúgio?

11 Qual! Não haverá escapatória alguma!

12 Nesse dia, se dará o comparecimento ante o teu Senhor.

13 Dia em que o homem será inteirado de tudo quanto fez e tudo quanto deixou de fazer.

14 Mais, ainda, o homem será a evidência contra si mesmo,

15 Ainda que apresente quantas escusas puder.

16 Não movas a língua com respeito (ao Alcorão) para te apressares (para sua revelação)(1785),

17 Porque a Nós incumbe a sua complicação e a sua recitação;

18 E quando to recitarmos, segue a sua recitação;

19 Logo, certamente, a Nós compete a sua elucidação.

20 Qual! Mas, ó humanos, preferis a vida efêmera,

21 E desprezais a outra!

22 No Dia, haverá semblantes risonhos(1786),

23 Dirigindo os seus olhares para o seu Senhor;

24 E também haverá, no Dia, rostos sombrios.

25 E tu saberás que lhes sucederá uma calamidade.

26 Sim! Quando a alma(1787) lhe subir à garganta,

27 E for dito: Haverá, acaso, algum exorcista (que te livre disto)?

28 E concluirá que chegou o momento da separação;

29 E juntará uma perna à outra(1788).

30 Nesse dia, será levado ao teu Senhor,

31 Porque não fez caridades, nem orou.

32 Negou, outrossim, a verdade, e tornou-se insolente,

33 Então, envaidecido, dirigiu-se aos seus.

34 E ai de ti (ó homem), mais e mais.

35 Pensa, acaso, o homem, que será deixado ao léu?

36 Não foi a sua origem uma gota de esperma ejaculada(1789)

37 Que logo se converteu em algo que se agarra, do qual Deus o criou, aperfeiçoando-lhes as formas.

38 De qual fez dois sexos, o masculino e o feminino?

39 Porventura, Ele não será capaz de ressuscitar os mortos?


"AL INSAN" (O HOMEM) Revelada em Madina; 31 versículos. 76ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Acaso, não transcorreu(1790) um longo período, desde que o homem nada era?

2 Em verdade, criamos o homem, de esperma misturado,(1791) para prová-lo, e o dotamos de ouvidos e vistas.

3 Em verdade, assinalamos-lhe uma senda, quer fosse agradecido, quer fosse ingrato.

4 Em verdade, aos incrédulos, destinamos correntes, grilhões e o tártaro.

5 Em verdade, os justos beberão, em uma taça, um néctar, mesclado com cânfora.

6 De uma fonte, da qual beberão todos os servos de Deus. Eles a fazem fluir abundantemente,

7 Porque cumprem os seus votos e temem o dia em que o mal estará espalhado,

8 E porque, por amor a Ele, alimentam o necessitado, o órfão e o cativo.(1792)

9 (Dizendo): Certamente vos alimentamos por amor a Deus; não vos exigimos recompensa, nem gratidão.

10 Em verdade, tememos, da parte do nosso Senhor, o dia da aflição calamitosa.

11 Mas Deus os preservará do mal daquele dia, e os receberá com esplendor e júbilo;

12 E os recompensará, por sua perseverança, com um vergel e (vestimentas de) seda,

13 Onde, reclinados sobre almofadas, não sentirão calor nem frio excessivos(1793),

14 E as sombras (do vergel) os cobrirão, e os cachos (de frutos) estarão pendurados, em humildade(1794).

15 E serão servidos em taças de prata e em copos diáfanos,

16 Feitos de prata, semelhantes a cristal, que lhe serão fornecidos em abundância.

17 E ali ser-lhes-á servido um copo de néctar, cuja mescla(1795) será de gengibre,

18 De uma fonte (no Paraíso), chamada Salsabil(1796).

19 E os servirão mancebos imortais; quando os vires, parecer-te-ão pérolas dispersas.

20 E quando olhares além, verás glórias e um magnífico reino.

21 Sobre eles haverá vestimentas verdes, de tafetá e de brocado, estarão enfeitados com braceletes de prata(1797) e o seu Senhor lhes saciará a sede com uma bebida pura!

22 Sabei que esta será a vossa recompensa, e os vossos esforços serão reconhecidos.

23 Em verdade, temos-te revelado (ó Mensageiro), o Alcorão, por etapas(1798),

24 Persevera, pois, até o Juízo do teu Senhor, e não obedeças a nenhum dos pecadores ou incrédulos,

25 E celebra o nome do teu Senhor, de manhã e à tarde(1799).

26 E adora-O, e glorifica-O durante grande parte da noite.

27 Em verdade, (quanto aos outros) preferem a efêmera vida terrena e tentam afastar a lembrança de um dia (que será) pesado.

28 Nós os criamos e fortalecemos as suas estruturas; porém se quiséssemos, suplantá-los-íamos inteiramente por outros, semelhantes a eles.

29 Em verdade, esta é uma admoestação: e, quem quiser, poderá encaminhar-se até à senda do seu Senhor.

30 Porém, só o conseguireis se Deus o permitir, porque é Prudente, Sapientíssimo.

31 Ele admite em Sua misericórdia quem Lhe apraz; porém, destinou aos iníquos, um doloroso castigo.


"AL MURSALAT" (OS ENVIADOS) Revelada em Makka; 50 versículos, com exceção do versículo 48, que foi revelado em Madina. 77ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelos ventos enviados(1800), uns após os outros(1801),

2 Que sobram impetuosamente(1802),

3 E dispersam (as coisas) violentamente;

4 E discriminam profundamente,

5 Comunicadores da Mensagem(1803),

6 Seja de justificação ou de admoestação,

7 De que o que vos é prometido está iminente!

8 Quanto as estrelas se tornarem escuras(1804),

9 Quando o céu se fender,

10 Quando as montanhas forem desintegradas,

11 E quando os mensageiros forem citados!

12 – Para que dia foi deferido (o portento)? –

13 Para o Dia da Discriminação.

14 E o que te fará compreender o que é o Dia da Discriminação?

15 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

16 Acaso, não exterminamos as gerações primitivas?

17 Então, fizemos os seus sucessores seguirem-nas.

18 Assim faremos com os pecadores.

19 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

20 Porventura, não vos criamos de líquido débil,

21 Que depositamos em um lugar seguro(1805),

22 Até um prazo determinado.(1806)

23 Que predestinamos? E somos(1807) o melhor Predestinador!

24 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

25 Porventura, não destinamos a terra por abrigo,

26 Dos vivos e dos mortos(1808),

27 Onde fixamos firmes e elevadas montanhas, e vos demos para beber água potável?

28 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

29 (Ser-lhes-á dito): Dirigi-vos, pois, ao destino que costumáveis negar!

30 Dirigi-vos à sombra trifurcada,

31 Que com nada guarnece ou protege das chamas!

32 Sabei que arrojará chispas, que parecerão castelos(1809),

33 Semelhantes a camelos, de matizes amarelos(1810).

34 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

35 Esse será o dia em que não falarão (estarrecidos),

36 Nem lhes será permitido escusarem-se.

37 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

38 Eis o Dia da Discriminação, em que vos congregaremos, juntamente com os vossos antepassados!(1811)

39 Assim, pois, se possuís alguma conspiração, conspirai contra Mim!

40 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

41 Por outra, os tementes estarão entre sombras e mananciais(1812),

42 E terão os frutos que lhes apetecerem.

43 Comei e bebei, com proveito, pelo bem que fizestes!

44 Certamente, assim recompensaremos os benfeitores.

45 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

46 Comei e regozijai-vos (ó injustos)(1813), transitoriamente;

47 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

48 E quando lhes foi dito: Genuflecti!, não genuflectiram.

49 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

50 Assim, pois, em que mensagem crerão, depois desta?


"AN NABA" (A NOTÍCIA) Revelada em Makka; 40 versículos. 78ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Acerca de quê se interrogam?

2 Acerca da grande notícia(1814),

3 A respeito da qual discordam.

4 Sim, logo saberão!

5 Sim, realmente, logo saberão!

6 Acaso, não fizemos da terra um leito(1815),

7 E das montanhas, estacas?

8 E não vos criamos, acaso, em casais,

9 Nem fizemos o vosso sono, para o descanso,

10 Nem fizemos a noite, como um manto(1816),

11 Nem fizemos o dia, para ganhardes o sustento?

12 E não construímos, por cima de vós, os sete firmamentos?

13 Nem colocamos neles um esplendoroso lustre?

14 Nem enviamos, das nuvens, copiosa chuva(1817),

15 Para produzir, por meio desta, o grão e as plantas,

16 E frondosos vergéis?

17 Sabei que o Dia da Discriminação está com a hora fixada.

18 Será o dia em que a trombeta soará e em que comparecereis em grupos,

19 E se abrirá o céu, e terá muitas portas(1818).

20 E as montanhas serão dispersadas, parecendo uma miragem.

21 Em verdade, o inferno será uma emboscada(1819),

22 Morada para os transgressores,

23 Onde permanecerão, por tempo ininterrupto.

24 Em que não provarão do frescor, nem de (qualquer) bebida,

25 A não ser água fervente e uma paralisante beberagem, gelada,

26 Como castigo adequado (pelos seus feitos malignos),

27 Porque nunca temeram o cômputo(1820),

28 E desmentiram, descarada e veementemente, os Nossos versículos.

29 Mas anotamos tudo, me registro.

30 Sofrei, pois, conquanto nada vos proporcionaremos, senão castigo.

31 Por outra, os tementes obterão a recompensa,

32 Jardins e videiras(1821),

33 E donzelas, da mesma idade, por companheiras(1822),

34 E taças transbordantes,

35 Onde não escutarão veleidades nem mentidas(1823).

36 Com efeito, receberão a recompensa do teu Senhor, que será uma paga suficiente,

37 (Do) Senhor dos céus e da terra e de tudo quanto existe entre ambos, o Clemente com Quem ninguém pode dialogar.

38 No dia em que comparecerem o Espírito(1824) e os anjos enfileirados, ninguém poderá falar, salvo aquele a quem o Clemente o permitir; e falará a verdade.

39 Tal será o dia infalível; quem quiser, pois, poderá encaminhar-se para o seu Senhor!

40 Sabei que vos temos advertido do castigo iminente, o dia em que o homem verá as obras das suas mãos, e o incrédulo dirá: Oxalá me tivesse convertido em pó!


"AN NAZI’AT" ( OS ARREBATADORES) Revelada em Makka; 46 versículos. 79ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelos que arrebatam violentamente(1825)

2 Pelos que extraem veementemente(1826);

3 Pelos que gravitam serenamente;

4 Pelos que procuram sobrepujar repentinamente,

5 Arranjadores (para a execução) das ordens (do seu Senhor)!

6 No dia em que tudo o que poderá se comover, estará em comoção,

7 E em que acontecerá, pela segunda vez (a comoção),

8 Nesse dia, os corações baterão agitados,

9 Enquanto os olhares estarão humildes.

10 Dirão: Quê! Porventura voltaremos ao nosso estado primitivo,

11 Mesmo que também sejamos ossos deteriorados?

12 Dirão (mais): Tal será, então, um retorno de perdas!

13 Porém, certamente, será um só grito,

14 E, ei-los plenamente acordados.

15 Conheces (ó Mensageiro) a história de Moisés?

16 Seu Senhor o chamou, no vale sagrado de Tôwa,

17 (E lhe disse): Vai ao Faraó, porque ele transgrediu,

18 e dize-lhe: Desejas purificar-te,

19 e encaminhar-te até o teu Senhor, para O temeres?

20 E Moisés lhe mostrou o grande sinal(1827),

21 Porém (o Faraó) desmentiu (aquilo) e se rebelou;

22 Então, rechaçou-o, contendendo tenazmente.

23 Em seguida, congregou (a gente) e discursou,

24 Proclamando: Sou o vosso senhor supremo!

25 Porém, Deus lhe infligiu o castigo e (fez dele) um exemplo para o outro mundo e para o presente.

26 Certamente, nisto há um exemplo para o temente.

27 Quê! Porventura a vossa criação é mais difícil ou é a do céu, que Ele erigiu?

28 Elevou a sua abóbada e, por conseguinte, a ordenou(1828),

29 Escureceu a noite e, (consequentemente) clareou o dia;

30 E depois disso dilatou a terra,

31 Da qual fez brotar a água e os pastos(1829);

32 E fixou, firmemente, as montanhas(1830),

33 Para o proveito vosso e do vosso gado.

34 Mas, quando chegar o grande evento,

35 O dia em que o homem se há de recordar de tudo quanto tiver feito,

36 E a fogueira for exposta visivelmente, para quem a quiser ver,

37 Então, o que tiver transgredido,

38 E preferido a vida terrena,

39 Esse certamente terá a fogueira por morada.

40 Ao contrário, quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado em relação à luxúria,

41 Terá o Paraíso por abrigo.

42 Interrogar-te-ão acerca da Hora: Quando aportará?

43 Com quem está tu (envolvido), com tal declaração?

44 Só ao teu Senhor incumbe tal conhecimento(1831).

45 Tu és comente um admoestador, para quem a teme(1832).

46 No dia em que a virem, parecer-lhes-á não terem permanecido no mundo mais do que um entardecer ou um amanhecer da mesma.


"ÁBAÇA" (O AUSTERO) Revelada em Makka; 42 versículos. 80ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tornou-se austero e voltou as costas(1833),

2 Quando o cego foi ter com ele.

3 E quem te assegura que não poderia vir a ser agraciado,

4 Ou receba (admoestação) e, a lição lhe será proveitosa?(1834)

5 Quanto ao opulento(1835),

6 Tu o atendes,

7 Não tens culpa se ele não crescer (em conhecimentos espirituais).

8 Porém, quem a corre a ti,

9 E é temente,

10 Tu o negligenciais!

11 Qual! Em verdade, (o Alcorão) é uma mensagem de advertência.

12 Quem quiser, pois, que preste atenção.

13 (Está registrado)(1836) em páginas honoráveis,

14 Exaltadas, purificadas,

15 Por mãos de escribas,

16 Nobres e retos.

17 Ai do homem; quão ingrato é!

18 De que Ele o criou?

19 De uma gota de esperma; Ele o criou e o modelou (em seguida).

20 Então, suavizou-lhe o caminho,

21 Depois o fez morrer e o sepultou;

22 E, por fim, quando Lhe aprouver, ressuscitá-lo-á.

23 Qual! O homem ainda não cumpriu o que Ele lhe ordenou.

24 Que o homem repare, pois, em seu alimento(1837).

25 Em verdade, derramamos a água em abundância,

26 Depois, abrimos a terra em fendas(1838),

27 E fazemos nascer o grão,

28 A videira e as plantas (nutritivas),

29 A oliveira e a tamareira,

30 E jardins frondosos,

31 E o fruto e a forragem,

32 Para o vosso uso(1839) e do vosso gado.

33 Porém, quando retumbar o toque ensurdecedor,

34 Nesse dia, o homem fugirá do seu irmão,

35 Da sua mãe e do seu pai,

36 Da sua esposa e dos seus filhos.

37 Nesse dia, a cada qual bastará a preocupação consigo mesmo.

38 Nesse dia, haverá rostos resplandecentes,

39 Risonhos, regozijadores.

40 E também haverá, nesse dia, rostos cobertos de pó(1840),

41 Cobertos de lugubridade.

42 Estes serão os rostos dos incrédulos, dos depravados.


"AT TAQÜIR" (O ENROLAMENTO) Revelada em Makka; 29 versículos. 81ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando o sol for enfolado(1841),

2 Quando as estrelas forem extintas,

3 Quando as montanhas estiverem dispersas,

4 Quando as camelas, com crias de dez meses, forem abandonadas,

5 Quando as feras forem congregadas,

6 Quando os mares transbordarem,

7 Quando as almas forem reunidas,

8 Quando a filha, sepultada vida, for interrogada:

9 Por que delito foste assassinada?

10 Quando as páginas forem abertas,

11 Quando o céu for desvendado,

12 Quando o inferno for aceso,

13 E quando o jardim for aproximado(1842),

14 Então, saberá , cada alma, o que está apresentando.

15 Juro pelos planetas,

16 Que se mostram e se escondem,

17 E pela noite, quando escurece,

18 E pela aurora, quando afasta a escuridão,

19 Que (o Alcorão) é a palavra de um honorável Mensageiro,

20 Forte, digníssimo, ante o Senhor do Trono.

21 Que deve ser obedecido, e no qual se deve confiar.

22 E o vosso companheiro (ó povos), não é um energúmeno!

23 Ele o viu (Gabriel), no claro horizonte,(1843)

24 E não é avaro, quanto ao incognoscível.

25 E não é (o Alcorão) a palavra do maldito Satanás.

26 Assim, pois, aonde ides?

27 Certamente, não é mais do que uma mensagem, para o universo.

28 Para quem de vós se quiser encaminhar.

29 Porém, não vos encaminhareis, salvo se Deus, o Senhor do Universo, assim o permitir.


"AL INFITAR" (O FENDIMENTO) Revelada em Makka; 19 versículos. 82ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando o céu se fender,

2 Quando os planetas se dispersarem(1844),

3 Quando os oceanos forem despejados(1845),

4 E quando os sepulcros forem revirados,

5 Saberá cada alma o que fez e o que deixou de fazer(1846).

6 Ó humano, o que te fez negligente em relação ao teu Senhor, o Munificentíssimo,

7 Que te criou, te formou, te aperfeiçoou,

8 E te modelou, na forma(1847) que Lhe aprouve?

9 Qual! Apesar disso, desmentis o (Dia do) Juízo!

10 Porém, certamente, sobre vós há anjos da guarda,

11 Generosos e anotadores,

12 Que sabem (tudo) o que fazeis.

13 Sabei que os piedosos estarão em deleite;

14 Por outra, os ignóbeis, irão para a fogueira,

15 Em que entrarão, no Dia do Juízo,

16 Da qual jamais poderão esquivar-se.

17 E, o que te fará entender o que é o Dia do Juízo?

18 Novamente: o que te fará entender o que é o Dia do Juízo?

19 É o dia em que nenhuma alma poderá advogar por outra, porque o mando, nesse dia, só será de Deus.


"AL MUTAFFIFIN" (OS FRAUDADORES) Revelada em Makka; 36 versículos. 83ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ai dos fraudadores(1848),

2 Aqueles que, quando alguém lhes mede algo, exigem a medida plena.

3 Porém, quando eles medem ou pesam para os demais, burlam-nos.

4 Porventura, não consideram que serão ressuscitados(1849),

5 Para o Dia terrível?

6 Dia em que os seres comparecerão perante o Senhor do Universo?

7 Qual! Sabei que o registro dos ignóbeis estará preservado em Sijjin(1850).

8 E o que te fará entender o que é Sijjin?

9 É um registro escrito(1851)

10 Ai, nesse dia, dos desmentidores!

11 Que negam o Dia do Juízo,

12 Coisa que ninguém nega, senão o transgressor, pecador.

13 É aquele que, quando lhe são recitados os Nossos versículos, diz: São meras fábulas dos primitivos!

14 Qual! Em seus corações há a ignomínia, pelo que cometeram.

15 Qual! Em verdade, nesse dia, estar-lhes-á vedado contemplar o seu Senhor.

16 Então, entrarão na fogueira.

17 Em seguida, ser-lhes-á dito: Esta é a (realidade) que negáveis!

18 Qual! Sabei que o registro dos piedosos está preservado em Il’lilin!(1852)

19 E o que te fará entender o que é Il’lilin?

20 É um registro manuscrito,

21 Atestado por aqueles que estão próximos (ao seu Senhor).

22 Em verdade, os piedosos estarão em deleite,

23 Reclinados sobre almofadas, olhando-se de frente.

24 Reconhecerás, em seus rostos o esplendor do deleite.

25 Ser-lhes-á dado a beber um néctar (de um frasco) lacrado,

26 Cujo lacre será de almíscar – que os que aspiram a isso rivalizem em aspirá-lo –

27 Em cuja mistura vem do Tasnim(1853),

28 Que é uma fonte, da qual beberão os que estão próximos (a Deus).

29 Sabei que os pecadores burlavam os fiéis.

30 E quando passavam junto a eles, piscavam os olhos, uns para os outros,

31 E quando voltavam aos seus, voltavam ridicularizando (os fiéis);

32 E quando os viam, diziam: Em verdade, estes estão extraviados!

33 Embora não estivessem destinados a ser os seus guardiães.

34 Porém, hoje, os fiéis rirão dos incrédulos.

35 E, reclinados sobre almofadas, observarão.

36 Acaso, os incrédulos não serão punidos, por tudo quanto tiverem cometido?


"AL INXICAC" (A FENDA) Revelada em Makka; 25 versículos. 84ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando o céu se fender,

2 E obedecer(1854) ao (mando do) seu Senhor, em seu temor,

3 E quando a terra for dilatada(1855)

4 E arrojar tudo quanto nela há, e ficar vazia,

5 E obedecer ao (mando do) seu Senhor, em seu temor,

6 Ó humano, em verdade, esforçar-te-ás afoitamente por compareceres ante o teu Senhor. Logo O encontrarás!

7 Quanto àquele a quem for entregue o registro na destra,

8 De pronto será julgado com doçura,

9 E retornará, regozijado, aos seus.

10 Porém, aquele a quem for entregue o registro, por trás das costas,

11 (Este) suplicará, de pronto, pela perdição,

12 E entrará no tártaro,

13 Por se ter regozijado entre os seus,

14 E por ter acreditado que jamais compareceria (ante Nós)!

15 Pois sim! Em verdade, seu Senhor o via.

16 Juro, pelo crepúsculo róseo,

17 E pela noite, e por tudo quanto ela envolve,

18 E pela lua, quando está cheia(1856),

19 Que passareis em plano a plano(1857).

20 Por que, pois, não crêem?

21 E por que, quando lhes é lido o Alcorão, não se prostram?

22 E os incrédulos o negam?

23 Mas Deus bem sabe tudo quanto segredam.

24 Anuncia-lhes, pois, um doloroso castigo,

25 Exceto aos fiéis, que praticam o bem, os quais obterão uma recompensa infalível.


"AL BURUJ" (AS CONSTELAÇÕES) Revelada em Makka; 22 versículos. 85ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelo céu, possuidor das constelações(1858)

2 E pelo dia prometido;

3 E pela testemunha e por aquilo de que presta testemunho(1859)

4 Destruíram-se a si mesmos os donos do fosso (do fogo)(1860),

5 Do fogo, com (abundante) combustível).

6 Estando eles sentados ao seu redor,

7 Presenciando o que fizeram com os fiéis,

8 Os quais deles se vingaram, porque acreditavam em Deus, o Poderoso, o Laudábilíssimo.

9 Ao Qual pertence o reino dos céus e da terra; e Deus é, de tudo, Testemunha.

10 Sabei que aqueles que perseguem os fiéis e as fiéis e não se arrependem, sofrerão a pena do inferno, assim como o castigo do fogo.

11 Por outra, os fiéis, que praticam o bem, obterão jardins, abaixo dos quais correm rios; tal será o grande benefício!

12 Em verdade, a punição do teu Senhor será severíssima,

13 Porque ele origina (a criação) e logo a reproduz.

14 É o Remissório, o Amabilíssimo,

15 O Senhor do Trono Glorioso.

16 Executante de tudo quanto Lhe apraz.

17 Reparaste, acaso, na história dos exércitos

18 Do Faraó e do povo de Samud?

19 Sem dúvida, os incrédulos persistem em desmentir-te;

20 Porém, Deus abrange-os, por trás.

21 Sim, este é um Alcorão Glorioso,

22 Inscrito em uma Tábua Preservada(1860-a).


"AT TÁRIC" (O VISITANTE NOTURNO) Revelada em Makka; 17 versículos. 86ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelo céu e pelo visitante noturno(1861);

2 E o que te fará entender o que é o visitante noturno?

3 É a estrela fulgurante!

4 Cada alma tem sobre si um guardião (angelical).

5 Que o homem considere, pois, do quê foi criado!

6 Foi criado de uma gota ejaculada,

7 Que emana da conjunção das regiões sexuais do homem e da mulher(1862).

8 Sabei que Ele é capaz de ressuscitá-lo(1863)!

9 (Isso se dará) no dia em que forem revelados os segredos,

10 E em que (o homem) carecerá de poder e de um socorredor(1864).

11 Pelo céu, que proporciona a volta da chuva.

12 E pela terra, que se fende (com o crescimento das plantas),

13 Que (este Alcorão) é a palavra concludente,

14 E não entretenimento.

15 Em verdade, eles conspiram intensivamente (contra ti),

16 E Eu conspiro intensivamente (contra eles).

17 Tolera, pois, os incrédulos; tolera-os, por ora!


"AL A’LA" ( O ALTÍSSIMO) Revelada em Makka; 19 versículos. 87ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Glorifica o nome do teu Senhor(1865), o Altíssimo,

2 Que criou e aperfeiçoou tudo;

3 Que tudo predestinou e encaminhou;

4 E que faz brotar o pasto,

5 Que se converte em feno.

6 Ensinar-te-emos a recitar (a Mensagem), para que não esqueças,

7 Senão o que Deus permitir, porque Ele bem conhece o que está manifesto e o que é secreto.

8 E te encaminharemos pela (senda) mais simples(1866).

9 Admoesta, pois, porque a admoestação é proveitosa(1867) (para o atento)!

10 Ela guiará aquele que é temente.

11 Porém, o desventurado a evitará;

12 Entrará no fogo maior (o infernal),

13 Onde não morrerá, nem viverá.

14 Bem-aventurado aquele que se purificar,

15 E mencionar o nome do seu Senhor e orar!

16 Entretanto, vós, (ó incrédulos) preferis a vida terrena,

17 Ainda que a outra seja preferível, e mais duradoura!

18 Em verdade, isto se acha nos Livros primitivos,

19 Nos Livros de Abraão(1868) e de Moisés(1869).


"AL GHÁXIA" ( O EVENTO ASSOLADOR) Revelada em Makka; 26 versículos. 88ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Porventura, chegou-te a notícia do evento assolador(1870)?

2 Haverá rostos humildes, nesse dia,

3 Fatigados, abatidos,

4 Chamuscados, pelo fogo abrasador!

5 Ser-lhes-á dado a beber de um manancial fervente;

6 Não terão, por alimento, nada além de frutos amargos e espinhosos(1871),

7 Que não os alimentará, nem lhes saciarão a fome!

8 (Outros) rostos, nesse dia, estarão calmos,

9 Contentes, por seus (passados) esforços;

10 Estarão em um jardim suspenso,

11 Onde não ouvirão futilidade alguma;

12 Nele haverá um manancial fluente,

13 Nele haverá leitos elevados,

14 E taças, ao alcance da mão.

15 E almofadas enfileiradas,

16 E tapetes de seda estendidos.

17 Porventura, não reparam nos camelídeos, como são criados?

18 E no céu, como foi elevado?(1872)

19 E nas montanhas, como foram fixadas?

20 E na terra, como foi dilatada?

21 Admoesta, pois, porque és tão-somente um admoestador!

22 Não és, de maneira alguma, guardião deles.

23 E, àquele que te for adverso e incrédulo,

24 Deus infligirá o maior castigo.

25 Em verdade, o seu retorno será para Nós;

26 E o seu cômputo Nos concerne.


"AL FAJR" (A AURORA) Revelada em Makka; 30 versículos. 89ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pela aurora,

2 E pelas dez noites(1873),

3 E pelo par e pelo ímpar(1874),

4 E pela noite, quando se retira (que sereis castigados)!

5 Porventura, não há nisso um juramento adequado, para o sensato?

6 Não reparaste em como o teu Senhor procedeu, em relação à (tribo de) Ad,

7 Aos (habitantes de) Iram(1875), (cidade) de pilares elevados,

8 Cujo similar não foi criado em toda a terra(1876)?

9 E no povo de Samud(1877), que perfurou rochas no vale?

10 E no Faraó, o senhor das estacas,

11 Os quais transgrediram, na terra,

12 E multiplicaram, nela, a corrupção,

13 Pelo que o teu Senhor lhes infligiu variados castigos?

14 Atenta para o fato de que o teu Senhor está sempre alerta.

15 Quanto ao homem, quando seu Senhor o experimenta, honrando-o e agraciando-o, diz (empertigado): Meu Senhor me honra!

16 Porém, quando o prova, restringindo a Sua graça, diz: Meu Senhor me afronta!

17 Qual! Vós não honrais o órfão,

18 Nem nos estimulais a alimentar o necessitado;

19 E consumis avidamente as heranças(1878),

20 E cobiçais insaciavelmente os bens terrenos!

21 Qual! Quando a terra for triturada fortemente,

22 E aparecer o teu Senhor, com os Seus anjos em desfile,

23 E o inferno, nesse dia, for destacado, então o homem recordará; porém de que lhe servirá a recordação!

24 Dirá: Oxalá tivesse diligenciado (na prática do bem), durante a minha vida!

25 Porém, nesse dia, ninguém castigará como Ele (o fará),

26 Nem ninguém acorrentará, como Ele (o fará);

27 E tu, ó alma em paz,

28 Retorna ao teu Senhor, satisfeita (com Ele) e Ele satisfeito (contigo)!

29 Entre no número dos Meus servos!

30 E entra no Meu jardim!


"AL BÁLAD" (A METRÓPOLE) Revelada em Makka; 20 versículos. 90ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Qual! Juro por esta metrópole (Makka),

2 – E tu és um dos habitantes(1879) desta metrópole –

3 pelo procriador e pelo que procria,

4 que criamos o homem em uma atmosfera de aflição.(1880)

5 pensa, acaso, que ninguém poderá com ele?

6 Ele diz: Já consumi vastas riquezas.(1881)

7 Crê, ele, porventura, que ninguém o vê?

8 Não o dotamos, acaso, de dois olhos,

9 De uma língua e de dois lábios,

10 E lhe indicamos os dois caminhos?

11 Porventura, ele tentou vencer as vicissitudes?

12 E o que te fará entender o que é vencer as vicissitudes?

13 É libertar um cativo,(1882)

14 Ou alimentar, num dia de privação,

15 Ou parente órfão,

16 Ou um indigente necessitado.

17 É, ademais, contar-se entre os fiéis, que recomendam mutuamente a perseverança e se encomendam à misericórdia.

18 Seus lugares serão à destra.

19 Por outra, aqueles que negam os Nossos versículos terão os seus lugares à sinistra.

20 E serão circundados pelo fogo infernal!


"AX XAMS" (O SOL) Revelada em Makka, 15 versículos 91ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelo sol(1883) e pelo seu esplendor (matinal),

2 Pela lua, que o segue,(1884)

3 Pelo dia(1885), que o revela,

4 Pela noite, que o encobre.

5 Pelo firmamento(1886) e por Quem o construiu,

6 Pela terra e por Quem a dilatou,

7 Pela alma e por Quem aperfeiçoou,

8 E lhe imprimiu o discernimento entre o que é certo e o que é errado,

9 Que será venturoso quem a purificar (a alma),

10 E desventurado quem a corromper.

11 A tribo de Tamud, por suas transgressões, desmentiu o seu mensageiro.

12 E o mais perverso deles se incumbiu (de matar a camela).

13 Porém, o mensageiro de Deus lhes disse: É a camela de Deus! Não a priveis da sua bebida!

14 Porém, desmentiram-no e a esquartejaram, pelo que o seu Senhor os exterminou, pelos seus pecados, a todos por igual.

15 E Ele não teme as conseqüências.


"AL LÁIL" (A NOITE) Revelada em Makka; 21 versículos. 92ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pela noite, quando cobre (a luz),(1887)

2 Pelo dia, quando resplandece,

3 Por Quem criou o masculino e o feminino,(1888)

4 Que os vossos esforços são diferentes (quanto às metas a atingir).

5 Porém, àquele que dá (em caridade e é temente a Deus,

6 E crê no melhor,

7 Facilitaremos o caminho do conforto.

8 Porém, àquele que mesquinhar e se considerar suficiente,

9 E negar o melhor,

10 Facilitaremos o caminho da adversidade.

11 E de nada lhe valerão os seus bens, quando ele cair no abismo.

12 Sabei que a Nós incumbe(1889) a orientação,

13 Assim como também são Nossos o fim e o começo.

14 Por isso, vos tenho admoestado com o fogo voraz,

15 Em que não entrará senão o mais desventurado,

16 Que desmentir (a verdade) e desdenhar.

17 Contudo, livrar-se-á dele o mais temente a Deus,

18 Que aplica os seus bens, com o fito de purificá-los(1890),

19 E não faz favores a ninguém com o fito de ser recompensado,

20 Senão com o intuito de ver o Rosto do seu Senhor, o Altíssimo;

21 A logo alcançará (completa) satisfação.


"ADH DHUHA" (AS HORAS DA MANHÃ) Revelada em Makka; 11 versículos. 93ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelas horas da manhã,(1891)

2 E pela noite, quando é serena,

3 Que o teu Senhor não te abandonou, nem te odiou.

4 E sem dúvida que a outra vida será melhor, para ti, do que a presente.

5 Logo o teu Senhor te agraciará, de um modo que te satisfaça.

6 Porventura, não te encontrou órgão e te amparou?(1892)

7 Não te encontrou extraviado e te encaminhou?

8 Não te achou necessitado e te enriqueceu?(1893)

9 Portanto, não maltrates o órfão,

10 Nem tampouco repudies o mendigo,

11 Mas divulga a mercê do teu Senhor, em teu discurso.


"AX XARH" (O CONFORTO) Revelada em Makka; 8 versículos. 94ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Acaso, não confortamos o teu peito,(1894)

2 E aliviamos o teu fardo,

3 Que feria as tuas costas,

4 E enaltecemos a tua reputação?

5 Em verdade, com a adversidade está a facilidade!(1895)

6 Certamente, com a adversidade está a facilidade!

7 Assim, pois, quando estiveres livre (dos teus afazeres), continua a prédica,

8 E volta para o teu Senhor (toda) a atenção.


"AT TIN" (O FIGO) Revelada em Makka; 8 versículos. 95ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelo figo(1896) e pela oliva,

2 Pelo monte Sinai,

3 E por esta metrópole segura (Makka),(1897)

4 Que criamos o homem na mais perfeita proporção.(1898)

5 Então, o reduzimos à mais baixa das escalas,

6 Salvo os fiéis, que praticam o bem; estes terão uma recompensa infalível.

7 Quem, então, depois disso, te contradirá, quanto ao Dia do Juízo?

8 Acaso, não é Deus o mais prudente dos juízes?


"AL ‘ALAC" (O COÁGULO) Revelada em Makka; 19 versículos. Foi a primeira surata, revelada ao Profeta. 96ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Lê(1899), em nome (1900) do teu Senhor Que criou;

2 Criou o homem de algo que se agarra.(1901)

3 Lê, que o teu Senhor é Generosíssimo,

4 Que ensinou através do cálamo,(1902)

5 Ensinou ao homem o que este não sabia.

6 Qual! Em verdade, o homem transgride,

7 Quando se vê rico.

8 Sabe (ó Mensageiro) que o retorno de tudo será para o teu Senhor.

9 Viste aquele que impede(1903)

10 O servo (de Deus) de orar?

11 Viste se ele está na orientação?

12 Ou recomenda a piedade?

13 Viste se ele nega (a verdade) e a desdenha?

14 Ignora, acaso, que Deus o observa?

15 Qual! Em verdade, se não se contiver, agarrá-lo-emos pelo topete,

16 Topete de mentiras e pecados.

17 Que chamem, então, os seus conselheiros;(1904)

18 Chamaremos os guardiões do inferno!

19 Qual! Não os escutes; porém, prostra-te e aproxima-te (de Deus)!


"AL CADR" (O DECRETO) Revelada em Makka; 5 versículos. 97ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Sabei que o revelamos (o Alcorão), na Noite do Decreto.(1905)

2 E o que te fará entender o que é a Noite do Decreto?

3 A Noite do Decreto é melhor do que mil(1906) meses.

4 Nela descem os anjos e o Espírito (Anjo Gabriel), com a anuência do seu Senhor, para executar todas as Suas ordens.

5 (Ela) é paz, até ao romper da aurora!


"AL BAYINAT" (A EVIDÊNCIA) Revelada em Madina; 8 versículos. 98ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Os incrédulos, entre os adeptos do Livro(1907), bem como os idólatras, não desistiriam da sua religião, a não ser quando lhes chegasse a Evidência:

2 Um Mensageiro de Deus, que lhes recitasse páginas purificadas,

3 Que contivessem escrituras corretas.

4 Os adeptos do Livro não se dividiram, senão depois de lhes ter chegado a Evidência,

5 E lhes foi ordenado que adorassem sinceramente a Deus, fossem monoteístas, observassem a oração e pagassem o zakat; esta é a verdadeira religião.

6 Em verdade, os incrédulos, entre os adeptos do Livro, bem como os idólatras, entrarão no fogo infernal, onde permanecerão eternamente. Estas são as piores das criaturas!(1908)

7 Por outra, os fiéis, que praticam o bem, são as melhores criaturas,

8 Cuja recompensa está em seu Senhor: Jardins do Éden, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Isto acontecerá com quem teme o seu Senhor.


"AZ ZÁLZALA" (O TERREMOTO) Revelada em Madina; 8 versículos. 99ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando a terra executar o seu tremor predestinado,(1909)

2 E descarregar os seus fardos,(1910)

3 O homem dirá: Que ocorre com ela?

4 Nesse dia, ela declarará as suas notícias,

5 Porque o teu Senhor lhas terá revelado.

6 Nesse dia, os homens comparecerão, em massa, para verem as suas obras.

7 Quem tiver feito o bem, quer seja do peso de um átomo(1911), vê-lo-á.

8 Quem tiver feito o mal, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á.


"AL ‘ADIÁT" (OS CORCÉIS) Revelada em Makka; 11 versículos. 100ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelos corcéis(1912) resfolegantes,

2 Que lanças chispas de fogo,

3 Que atacam ao amanhecer,

4 E que levantam nuvens de poeira,(1913)

5 E que irrompem, nas colunas adversárias,

6 Que o homem é ingrato para com o seu Senhor.

7 – Ele mesmo é testemunha disso!(1914)

8 E que é violento quanto ao amor aos bens terrenos.

9 Ignoram eles, acaso, que quando os que estão nos sepulcros forem ressuscitados,(1915)

10 E for revelado tudo quanto encerram os corações (humanos),

11 Nesse dia, o seu Senhor estará inteirado deles?


"AL CÁRI’A" (A CALAMIDADE) Revelada em Makka; 11 versículos. 101ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 A calamidade!(1916)

2 Que é a calamidade?

3 E o que te fará entender o que é a calamidade?

4 (Acontecerá) no dia em que os homens estiverem como mariposas dispersas,(1917)

5 E as montanhas como lã cardada!(1918)

6 Porém, quanto àqueles cujas ações pesarem na balança,(1919)

7 Desfrutará de uma vida prazenteira.

8 Em troca, aquele cujas ações forem leves na balança,

9 Terá como lar um (profundo) precipício.

10 E o que é que te fará entender isso?

11 É o fogo ardente!


"AT TACÁÇUR" (A COBIÇA) Revelada em Makka; 8 versículos. 102ª SURATA Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 A cobiça vos entreterá,(1920)

2 Até que desçais aos sepulcros.

3 Qual! Logo o sabereis!

4 Novamente, qual! Logo o sabereis!

5 Qual! Se soubésseis da ciência certa!(1921)

6 Verdadeiramente, então, havíeis de ver a fogueira do inferno!

7 Logo a vereis claramente.

8 Então, sereis interrogados, nesse dia, a respeito dos prazeres (mundanos).


"AL ‘ASAR" (A ERA) Revelada em Makka; 3 versículos. 103ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pela era,(1922)

2 Que o homem está na perdição,

3 Salvo os fiéis, que praticam o bem, aconselham-se na verdade e recomendam-se, uns aos outros, a paciência e a perseverança!


"AL HÚMAZA" (O DIFAMADOR) Revelada em Makka; 9 versículos. 104ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Ai de todo o difamador, caluniador(1923)

2 Que acumula riquezas e as entesoura,

3 Pensando que as suas riquezas o imortalizarão!

4 Qual! Sem dúvida que ele será precipitado naquilo que consome.

5 E o que te fará entender o que é aquilo que consome?

6 É o fogo de Deus, aceso,

7 Que abrasará os corações.

8 Em verdade, isso será desfechado sobre eles.

9 Em colunas estendidas!


"AL FIL" (O ELEFANTE) Revelada em Makka; 5 versículos. 105ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Não reparaste(1924) no que o teu Senhor fez, com os possuidores dos elefantes(1925)?

2 Acaso, não desbaratou Ele as suas conspirações,

3 Enviando contra eles um bando de criaturas aladas(1926),

4 Que lhes arrojaram pedras de argila endurecida(1927)

5 E os deixou como plantações devastadas (pelo gado)(1928)?


"CORAIX" (OS CORAIXITAS) Revelada em Makka; 4 versículos. 106ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Pelo convênio dos coraixitas(1929),

2 O convênio das viagens de inverno e de verão(1930)!

3 Que adorem o Senhor desta Casa(1931),

4 Que os provê contra a fome e os salvaguarda do temor(1932)!


"AL MA’UN" (OS OBSÉQUIOS) Revelada em Makka; 7 versículos, com exceção dos quatro últimos versículos, que forma revelados em Madina. 107ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Tens reparado em quem nega a religião(1933)?

2 É quem repele o órfão,

3 E não estimula (os demais) à alimentação dos necessitados.

4 Ai, pois, dos praticantes das orações,

5 Que são negligentes em suas orações,

6 Que as fazem por ostentação(1934),

7 Negando-se, contudo, a prestar obséquios!


"AL CÁUÇAR" (A ABUNDÂNCIA) Revelada em Makka; 3 versículos. 108ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Em verdade, agraciamos-te com a abundância(1935).

2 Reza, pois, ao teu Senhor, e faze sacrifício.

3 Em verdade, quem te insultar não terá posteridade(1936).


"AL CÁFIRÚN" (OS INCRÉDULOS) Revelada em Makka; 6 versículos. 109ª SURATA Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Dize: Ó incrédulos,

2 Não adoro o que adorais,

3 Nem vós adorais o que adoro(1937).

4 E jamais adorarei o que adorais,

5 Nem vós adorareis o que adoro.

6 Vós tendes a vossa religião e eu tenho a minha.


"AN NASR" (O SOCORRO) Revelada em Madina; 3 versículos. Foi revelada em Mina, durante a peregrinação da despedida. 110ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Quando te chegar o socorro de Deus(1939) e o triunfo,

2 E vires entrar a gente, em massa, na religião de Deus,

3 Celebra, então, os louvores do teu Senhor, e implora o Seu perdão, porque Ele é Remissório.


"AL MÁSSAD" (O ESPARTO) Revelada em Makka; 5 versículos. 111ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Que pereça o poder de Abu Láhab(1939) e que ele pereça também!

2 De nada lhe valerão os seus bens, nem tudo quanto lucrou.

3 Entrará no fogo flamígero,

4 Bem como a sua mulher, a portadora de lenha,

5 Que levará ao pescoço uma corda de esparto.


"AL ‘IKHLASS" (A UNICIDADE) Revelada em Makka; 4 versículos. 112ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Dize: Ele é Deus,(1940) o Único(1941)!

2 Deus! O Absoluto!

3 Jamais gerou ou foi gerado!

4 E ninguém é comparável a Ele(1942)!


"AL FALAC" (A ALVORADA) Revelada em Makka; 5 versículos.

113ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Dize: Amparo-me no Senhor da Alvorada(1943);

2 Do mal de quem por Ele foi criado.

3 Do mal da tenebrosa noite, quando se estende.

4 Do mal dos que praticam ciências ocultas.

5 Do mal do invejoso, quando inveja!


"AN NÁSS" (OS HUMANOS) Revelada em Makka; 6 versículos. 114ª SURATA

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

1 Dize: Amparo-me(1944) no Senhor dos humanos(1945),

2 O Rei dos humanos,

3 O Deus dos humanos,

4 Contra o mal do sussurro do malfeitor,

5 Que sussurra aos corações dos humanos,

6 Entre gênios e humanos!


1. Por consentimento unânime esta surata foi colocada no princípio do Alcorão, para recapitular em palavras maravilhosamente sucintas e compreensivas, a relação do homem com Deus, em contemplação e oração. Em nossa contemplação espiritual as primeiras palavras devem ser de louvor. Se isto provier do nosso ser interior, por certo nos colocará em comunhão com a Vontade Divina. Então, tudo o que os nossos olhos vislumbrarão será a benevolência, a paz e a harmonia. Não existirão, para vós, o mal, a rebeldia e a beligerância, porquanto os nossos olhos estarão voltados para um ângulo superior, em contemplação. Por outro lado, Deus não necessita de encômios, uma vez que está acima de qualquer panegírico, não necessita de rogos, porquanto avalia as nossas carências melhor do que nós mesmos; e a Sua benevolência está à disposição tanto do justo, como do pecador. A oração será tão-somente para a nossa educação espiritual, para o nosso consolo e para a nossa confirmação. Eis a nossa educação espiritual, para o nosso consolo e para a nossa confirmação. Eis porque as palavras da surata nos são fornecidas de forma que possamos exteriorizá-las. À medida que nos tornemos mais esclarecidos, tanto melhor elas fluirão de nós.

2. As palavras árabes "Rahman" e "Rahim", que traduzimos por Clemente e Misericordioso, respectivamente, são formas intensivas que se referem aos diferentes aspectos do atribulo da clemência de Deus. A forma intensiva árabe é mais adequada para expressar os atributos de Deus do que o grau superlativo português. Este implica comparação com outros seres ou com outros tempos e lugares, ao passo que não há ser algum que se compare a Deus, sendo Ele independente de tempo ou lugar.

3. A palavra árabe "Rabb", traduzida por Senhor, também tem significado de acarinhar, nutrir, fazer amadurecer. Deus cuida de todo o universo que criou.

4. Note-se que as palavras relacionadas com "a graça" estão intrinsecamente ligadas a Deus, e que as relacionadas com a abominação são impessoais. No primeiro caso, a graça de Deus nos alcança, independentemente do nosso merecimento, no segundo, as nossas próprias ações é que são responsáveis pela abominação.

5. São letras do alfabeto árabe. Deus iniciou com elas esta surata, para assinalar o mistério do Alcorão Sagrado, formado de letras idênticas àquelas com que os árabes formam os seus vocábulos, salientando com isso a incapacidade deles em produzir algo semelhante ao Alcorão. São também designativas de sinal de atenção, para que se ouça a recitação dos versículos.

6. Deparamo-nos agora com uma terceira classe de pessoas: os hipócritas. São inverossímeis para consigo mesmos e, por isso, os seus corações são mórbidos (versículo 10). A morbidez tende a espalhar-se, como tudo o que é maléfico. Entretanto, isso é suscetível de cura; porém, se empedernirem os seus corações, logo estarão na categoria daqueles que deliberadamente rejeitaram a elucidação.

7. A adoração é um ato de mais alta humildade, reverência e culto. Quando nos colocamos em comunhão com Deus, Que é nosso Criador e Guardião, a nossa fé evidencia obras de retidão, concedendo-nos uma chance; seremos nós capazes de exercitar o nosso livre-arbítrio e aproveitá-lo? Se o fizermos, toda a nossa natureza será transformada.

8. Abundantes provas da benevolência de Deus são evidenciadas nestes versículos. Toda a nossa vida, material e espiritual, depende d’Ele. A espiritual é simbolizada pela abóbada celeste. A verdade foi trazida abertamente, perante nós. Resistiremos a ela, buscando falsas divindades, frutos da nossa imaginação? Pode ocorrer que as falsas divindades sejam ídolos, superstições, o ego, ou mesmo as grandes e gloriosas coisas, como a poesia, a arte e a ciência, quando atribuídas à semelhança de Deus. Pode ser que se trate do orgulho da raça, do berço, da riqueza, da posição, do poder, do aprendizado, ou mesmo do orgulho espiritual.

9. Esta é uma antítese do versículo precedente. Se a labareda é o símbolo do castigo, o jardim é o símbolo da felicidade.

10. "Mosquito", alcunha da língua árabe para a mais débil das criaturas. Na 29ª Surata, que foi revelada antes desta, foi usada "aranha", à semelhança de "mosquito"; e na 22ª Surata, há ainda a mesma semelhança em "mosca".

11. Os significados literais em árabe, nesta passagem, são: Todos os nomes dos seres e das coisas", que muitos exegetas tomam como significando a natureza intrínseca dos seres e das coisas; e "coisas", aqui, incluiriam os sentimentos.

12. A frase: "Todos se prostram, exceto Lúcifer", leva-nos a presumir que Iblis(Lúcifer) seria um dos anjos. Porém, o termo "anjos caídos" não é comumente aceito pela teologia muçulmana. No versículo 50 da 18ª Surata, Iblis é descrito como sendo um Jinn (Gênio).

13. Seria o Paraíso um lugar nesta terra: obviamente não. Porque, segundo o versículo subseqüente, o 36, foi depois da Queda que a sentença foi pronunciada: "Na terra tereis residência a gozo transitórios". Antes da Queda, é de supor-se que o homem estivesse em outro plano - de felicidade, inocência, confiança, enfim, numa existência espiritual, onde imperava a negação da inimizade, prevalecia o desejo da fé, e de onde se bania todo o malefício. Talvez o tempo e o espaço também não existissem, e o Paraíso fosse algo alegórico, como a árvore. Esta não era a do conhecimento, porquanto foi concedido ao homem, naquele perfeito estado, um conhecimento mais pleno do que o que ele desfruta atualmente; era a árvore do mal, de cujos frutos ele ficou proibido, não só de comer, mas também de se aproximar.

14. O decreto de Deus é o resultado da ação do homem. Note-se a transição (em árabe) do número singular, no versículo 33, para o dual, no 35, e para o plural, aqui, que indicamos, em português, por "descei". Evidentemente, Adão é o protótipo de toda a humanidade, e o sexo corre paralelamente todas as questões espirituais. Ademais, a expulsão aplica-se a Adão, a Eva, e a Satã, tendo-se em mente que o plural árabe é apropriado para qualquer número superior a dois.

15. Assim como "nomes" do versículo 31 é usado para denominar a "natureza das coisas", "palavras", aqui, significa "inspiração", "conhecimento espiritual".

16. Note-se a transição do plural "ordenamos", no princípio do versículo, para o singular "Meu", mais adiante; no mesmo versículo Deus fala de Si Mesmo costumeiramente na 1ª pessoa do plural, "Nós; é o plural de majestade, que também é aplicado na linguagem profana, em proclamações e decretos régios. Porém, quando é estabelecida uma relação especial e pessoal, o singular "Eu" ou "Me" é empregado.

17. O argumento é dirigido aos judeus; porém tem aplicação universal, como têm todos os ensinamentos do Alcorão. A principal característica da adoração judaica consistia na prostração. Quanto ao zakat, significa pagamento, purificação e aumento, em vez que, mediante a pagamento de uma taxa fixa ao Estado, para ser usada em prol dos pobres e necessitados, o doador purifica a lama, ao mesmo tempo em que fatalmente terá os seus bens aumentados, pelas mercês de Deus. Constitui o terceiro pilar do Islam, e foi explicado pelos jurisprudentes muçulmanos, que descreveram as pessoas que são obrigadas a pagá-lo, bem como a quantia a ser paga.

18. Isto ocorreu depois que os Dez Mandamentos, as Leis e as Ordenações foram instituídos, no Monte Sinai. Moisés foi chamado ao Monte, e lá esteve durante quarenta dias e quarenta noites (Êxodo 24:18). O povo, porém, ficou impaciente com a demora, e fabricou um bezerro de ouro fundido, dispensado-lhe adoração e sacrifícios(Êxodo 32:8).

19. Pode ser que a alocução de Moisés esteja construída literalmente, ou seja traduzida, sendo que em ambos os casos reproduzem perfeitamente o Êxodo 32:27-28, mas de uma forma branda, porquanto o Velho Testamento diz: "passai e tornai pelo arraial de porta em porta, que mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo...e o número de pessoas, naquele dia, ficou reduzido de 3.000". uma versão mais humanitária afirma que houve uma ordem de escravização, por meio de julgamento, que foi retirada, porque Deus os perdoou. A palavra traduzida aqui por Criador (Bári) possui, também, um toque da raiz que significa "Libertador", termo este apropriado, com referência aos israelitas tinham sido libertados da servidão em terras egípcias.

20. Maná - hebraico Man-hu, árabe Man-na. No Êxodo, 16:14, é descrito como "uma coisa pequena e redonda, igual a geada espargida pelo chão". Se deixado para o dia seguinte, ele geralmente se deteriorava, derretia-se à soalheira; a quantidade necessária para alimentar um homem era de aproximadamente um ômer, medida hebraica de capacidade, igual a cerca de 2,937 litros. Isto, segundo os hebreus, foi provavelmente distorcido, levados que são pelo tradicional exagero. O maná verdadeiro, encontrado presentemente na região do Sinai, é uma secreção gomosa e sacarina, que se obtém de certas secreções da tamargueira. É produzida pela punctura de uma espécie de inseto, igual à cochonilha, assim como a laca é produzida pela punctura de um inseto em algumas árvores da Índia. Quanto às codornizes, grandes bandos delas voam à deriva dos ventos do Mediterrâneo Oriental, em certas estações do ano.

21. Provavelmente, refere-se a Cetim. Era a "cidade das acácias", bem a leste do Jordão, onde os israelitas eram afeitos à devassidão, à adoração de falsos deuses, bem como ao sacrifício a eles (Números 25:1-2 e 8-9). Desencadeou-se sobre eles um terrível castigo, incluindo a praga, em que morreram 24.000 pessoas. A palavra que os transgressores mudaram talvez se tratasse da palavra chave. No texto árabe é Híttatun e compreende a humildade e a oração pelo perdão, um emblema de luta para distingui-los dos seus inimigos.

22. O jorro dos doze mananciais, provindos da rocha, evidentemente se refere à tradição local, próximo ao Monte Sinai, onde a Lei foi entregue a Moisés, há um enorme massa de granito vermelho de 3,50 m de altura por cerca de 15 m de circunferência, da qual brotam mananciais de água, em números de doze. Isso existia no tempo de Mohammad e ainda existe nos dias atuais, para que possamos contradizer qualquer opinião em contrário.

23. A declinação da palavra Missr, no texto árabe, aqui, mostra que ela é considerada como um substantivo comum, com o significado de qualquer cidade, mais isto não é conclusivo, e a referência diz respeito ao Egito do Faraó,. O Tanwin, que em árabe expressa indefinição, pode significar "qualquer Egito", por exemplo, qualquer país tão fértil quanto o Egito.

24. O Monte Sinai (Turi-sinnin), um destacado monte no Deserto da Arábia, na península entre os dois braços do Mar Vermelho. Foi aí que os dez Mandamentos e a Lei foram entregues a Moisés. Por isso é que se denomina de a Montanha de Moisés (Jabal Mussa). Os israelitas acamparam no seu sopé por cerca de um ano.

25. O castigo pela violação do Sabath, aos olhos da lei mosaica, era a morte. "Guardai o meu Sábado, porque ele deve ser santo para vós. Aquele que o violar será castigado com a morte. Se alguém trabalhar neste dia, será desligado do seio do seu povo" (Êxodo 31:14). Deve ter havido uma tradição judaica acerca de toda uma comunidade pesqueira, em uma cidade litorânea, que persistia em violar o Sabath, sendo, por isso, os seus habitantes transformados em símios (ver a 7ª Surata, versículos 163-166). Ou deveríamos traduzir a passagem por "Sede como símios", em vez de "Sede símios"? Essa é a sugestão de Mohammad Áli sobre esta passagem, baseada na autoridade de Ibn Jarir Attabari. O castigo existiria, não pela violação do Sábado em si, mas pelo desafio contumaz por parte deles, à lei.

26. No Deuteronômio 21:1-9, é estabelecido que se o corpo de um homem assassinado for encontrado no campo, e se o seu assassino for desconhecido, uma novilha deverá ser decapitada, e os anciões da cidade próxima ao domicílio do morto deverão lavar as suas mãos sobre o corpo dela jacente, jurando que não realizaram tal feito, nem presenciaram quem o fez, eximindo-se, assim, da culpa sanguinolenta. A narrativa judaica, baseada nesse fato, diz que em certos casos dessa espécie, todos tentavam livrar-se da culpa, atirando-a sobre os seus vizinhos. Primeiramente eles tratavam de prevaricar e evitavam que uma novilha fosse sacrificada, como no caso da última parábola, porque, quando ela fosse sacrificada, Deus, por milagre, descobriria a pessoa realmente culpada. Ordenava-se que uma posta de rês fosse colocada ao lado do cadáver, o qual volvia à vida e revelava toda história do crime.

27. É um milagre realizado por Deus, por intermédio de Moisés. Posteriormente, foi permitido a Jesus fazer o mesmo.

28. A argumentação imediata diz respeito aos judeus de Madina, mas uma argumentação mais generalizada diz respeito às pessoas de fé e àquelas sem fé, como veremos adiante. Caso os muçulmanos de Madina alimentassem a esperança de que os judeus, em suas cidades, e unanimemente, acolhessem Mohammad como o Profeta, preconizado nos seus próprios livros, estariam bem enganados. No Deuteronômio 18:18, lê-se: "Eu lhes suscitarei, do meio dos seus irmãos, um profeta semelhante a ti" (ou seja, semelhante a Moisés), o que foi interpretado por alguns do seus doutores como referindo-se a Mohammad, fazendo com que abraçassem o Islam. Os árabes constituem um ramo de família semítica, e são corretamente descritos, em relação aos judeus, como "seus irmãos"; e está fora de questão o fato de que não houve outro profeta "semelhante a Moisés" até ao aparecimento de Mohammad; pois, de fato, a pós-escrituração do Deuteronômio, escrito muitos séculos depois de Moisés, diz: "Não apareceu profeta algum, em Israel, desde Moisés, a quem Deus tenha mirado frente a frente". Porém, os judeus, como comunidade, estavam enciumados quanto a Mohammad, e desempenhavam um papel duplo. Quando a comunidade muçulmana começou a ficar mais forte, ele engodaram pertencer a ela, tentando, contudo, esconder dos muçulmanos qualquer conhecimento que possuíssem da sua própria Escritura, senão seriam derrotados por suas próprias argumentações. A interpretação mais generalizada põe-no bem em destaque, em todas as épocas. A fé e a descrença compadecem-se mutuamente. A fé tem de lutar contra o poderio, a organização e o privilégio. Quando ganha terreno, aparece a descrença, e insinceramente reivindica o compartilhamento. Mas Deus tudo conhece e, se as pessoas de fé apenas procurarem sinceramente o conhecimento onde puderem encontrá-lo, poderão derrotar a descrença,. Em seu próprio terreno.

29. Bem diferente da espécie de compromisso, sugerido no versículo 80, o verdadeiro compromisso versa sobre a lei moral, aqui desenvolvida. Essa lei moral é universal e, se a transgredirmos, privilégio algum aliviará o nosso castigo, ou nos auxiliará de alguma maneira (versículo 86). A frase "Falai ao próximo com doçura" não somente significa que os líderes devem externar cortesia no trato com as pessoas mais comuns, mas ainda protegê-las contra a exploração, o engodo ou o entorpecimento, com qualquer ardil que lhes empane a inteligência.

30. O Anjo Gabriel.

31. Os judeus, em sua arrogância, poderão dizer: "Seja qual for o terror do Inferno, para outros povos, os nossos pecados serão perdoados, porque somos os filhos de Abraão; na pior das hipóteses, sofreremos uma punição leve e definida e, então, seremos restabelecidos ao ‘seio de Abraão’". E é aqui que o pavio da bomba começa a arder. Comparar este versículo com os versículos 81 e 82 desta.

32. Depois que os Mandamentos e a Lei foram entregues a Moisés, no Monte Sinai, e o povo assumiu solenemente o Compromisso, Moisés subiu ao Monte e, em sua ausência, o povo fabricou o bezerro de ouro. Quando Moisés voltou, ficou exacerbado: "Ele pegou o bezerro, que eles haviam feito, e o queimou no fogo e o reduziu a pó, no chão, e lançou as suas cinzas à água, e fez com que os israelitas bebessem dela." (Êxodo, 32:20)

33. Uma parte do judeus, no tempo de Mohammad, ridicularizava a crença muçulmana de que o Anjo Gabriel trouxera as revelações ao Profeta. Miguel era denominado, em seus livros "o grande príncipe, que veio em defesa dos filhos do teu povo" (Daniel 12:1). A visão de Gabriel inspirava temor (Daniel 8:16-171). Porém, esta afirmação - de que Miguel era amigo deles e Gabriel era inimigo deles - constitui meramente uma manifestação de sua descrença nos anjos, nos mensageiros, e no Próprio Senhor. Em todo caso, constitui insensatez dizer-se que eles acreditavam em u manjo e não acreditavam nos outros.

34. Este versículo tem sido interpretado diversificadamente. Quem eram Harut e Marut? Que ensinavam eles? Por que o ensinavam? O ponto de vista que se apresenta plausível, a nós, é o do Tafsir Haccani, segundo Baidhawi, e o do Tafsir Alcabir. A palavra "anjos", aplicada com respeito a Harut e Marut, é conotativa. Significa "homens benévolos, de conhecimento, de ciência e de poder".

35. A palavra criticada é Ráina, que, empregada pelos muçulmanos, significa "digna-nos com a tua atenção". Contudo, era ridicularizada pelos inimigos, pois, com uma leve distorção, apresentava um significado insidioso. A outra palavra, sem ambigüidade, é Anzurna, que tem o mesmo significado ("digna-nos com a tua atenção"). A doutrina geram consiste em que devemos nos resguardar do truques cínicos, de usos de palavras que soam como elogio aos nossos ouvidos, mas que, no fundo, encerram aguilhões. Não somente devemos ser concisos nos nossos termos, mas também ouvir respeitosamente as palavras do Mestre a quem nos dirigimos. As pessoas imponderadas usam palavras vãs ou suscitam questões tolas e, inadvertidamente, fazem digressões.

36. A palavra que traduzimos por "versículo" é Áiat. Ela não é usada somente para os versículos do Alcorão, mas, de um modo geral, para todas as Revelações de Deus, como no versículo 39 desta Surata, e para outros Portentos Divinos na história da natureza, ou para os milagres, como no versículo 61 desta Surata. Ela tem sido ainda empregada nas demarcações e nos símbolos de prodígios humanos como, por exemplo, em monumentos e obeliscos erigidos pelo antigo povo de Ad (versículo 128 da 26ª Surata). Qual é o seu significado, aqui? Se nos apegarmos ao sentido generalizado, significará que a mensagem periódica de Deus é sempre a mesma, podendo diferir, porém, na sua forma, de acordo com as necessidades e as exigências da época. Tais formas, como as que foram apresentadas a Moisés, depois a Jesus e depois a Mohammad, diferiam umas das outras. Alguns exegetas aplicam-na, também, ao versículo do Alcorão. Nada há de degradante nisto, uma vez que acreditamos na revelação progressiva. No versículo 7 da 3ª Surata, é-nos distintamente ilustrado que, no Alcorão, enquanto alguns versículos são fundamentais, outros ao alegóricos; assim sendo, é prejudicial levarmos em consideração os versículos alegóricos e os seguirmos ao pé da letra. Por outro lado, é absurdo considerarmos versículos, como o número 115 desta Surata, como se fosse ab-rogado pelo número 144 da mesma Surata, ao se referir à alquibla. Nós voltamos o rosto para o Levante, sem contudo crermos que Deus esteja num só lugar. Ele está em toda parte.

37. Três palavras são usadas, no Alcorão, com o significado aproximado de "perdoar", mas cada uma com um matriz diferente. ‘Afa (aqui traduzida por "perdoar") significa esquecer, obliterar da mente. Safaha (aqui traduzida por "tolerar") significa ser diferente, tratar de um assunto como se ele não afetasse a pessoa em nada. Ghafa-ra (que não aparece neste versículo) significa contrabalançar algo, como faz Deus, com a Sua graça, em relação aos nossos pecados; esta palavra é especialmente apropriada para um dos atributos de Deus, Ghaffar, ou seja, Indulgente.

38. Trata-se, virtualmente, dos idólatras em Makka, que tentavam impedir os árabes muçulmanos de entrar em Caaba, local universal de adoração árabe. Os próprios idólatras a denominavam a Casa de Deus. Com que propósito iriam eles excluir os muçulmanos, que queriam cultuar o Verdadeiro Deus, em vez dos ídolos? Se aqueles idólatras tivessem logrado sucesso, teriam causado violentas dissensões entre os árabes, e destruído a inviolabilidade e a própria existência da Caaba.

39. Ou seja, estarás perante Deus em qualquer direção que te virares.

40. É uma derrogação da glória de Deus - de fato, constitui blasfêmia - dizer que Ele gera filhos, como um homem ou um animal. A doutrina cristã é aqui enfaticamente repudiada. Se as palavras têm significado, seria a atribuição a Deus, de uma natureza material e de funções dos ínfimos animais. Num sentido mais espiritual, nós todos somos filhos de Deus.

41. O sentido principal de Imam é o de "ser primordial"; consequentemente, pode significar: líder religioso; líder em orações em congregação; modelo, padrão, exemplo; um livro de orientação; um livro de evidência e registro. Aqui, os significados de líder religioso, modelo, padrão e exemplo, estão implícitos.

42. A Caaba é a Casa de Deus. Sua fundação remonta, pelas tradições árabes, aos tempos de Abraão. A sua forma cúbica refere-se aqui a: era o centro espiritual, ao qual todas as tribos árabes convergiam, para o exercício do comércio, para a disputa dos torneios poéticos e para a prática da adoração; era um território sagrado, respeitado, tanto por amigos, como por inimigos. Em certas épocas todas as lutas eram, e ainda são, proibidas dentro dos seus limites, e mesmo as armas não podiam ser carregadas, e tampouco caça alguma podia ser morta. A exemplo das cidades de asilo, sob o domínio judaico, nas quais o homicidas se podiam refugiar (Números 35:6), ou dos santuários da Europa medieval, nos quais os criminosos não podiam ser perseguidos, Makka foi reconhecido pelos costumes árabes como invioláveis às perseguições, às vinganças e à violência; era um local de oração; ainda hoje há a Estância de Abraão dentro dos seus limites, onde se supõe que ele orou; deve-se conservá-la pura e sagrada, para todos os propósitos. Embora o versículo, em sua totalidade, seja expresso na 1ª pessoa do plural, a Casa é chamada de "Minha Casa" (1ª pessoa do singular), para enfatizar a relação pessoal do Único e Verdadeiro Deus, e repudiar o politeísmo, que a degradava, antes de ser novamente purificada por Mohammad.

43. Quatro rituais são, aqui, enumerados, os quais adquirem, agora, os seguintes significados técnicos: circungirar o sagrado território da Caaba (Tawaf); retirar-se para aquele local de remanso espiritual, para contemplação e oração (I’ticaf); inclinar as costas em oração (Ruku’); e prostrar-se no chão em oração (Sujud). A proteção do território sagrado é tarefa de todos, sendo que uma higienização e purificação especiais são requeridas, para o bem dos devotos que empreendem esses rituais.

44. O território que circunda Makka é estéril e rochoso, comparado, digamos, ao de Taif, cidade que fica 85 km a leste de Makka. Uma oração pela prosperidade de Makka, portanto, inclui a oração pelas boas coisas materiais da vida. Este é o significado literal. Todavia, note-se que a oposição, neste versículo, situa-se entre os frutos do Jardim, para os virtuosos, e o tormento do Fogo, para os maléficos - uma alegoria espiritual de grande força e persuasão.

45. A totalidade dos israelitas é chamada a testemunhar sobre um dos slogans, de que eles adoravam: "o Deus de seus pais". A idéia, em suas mentes, restringia-se à de um deus tribal. Entretanto, é-lhes rememorado que os seus antepassados possuíam, do leito de morte é descrita na tradição judaica.

46. Hanif, em árabe. Esta palavra inclinava-se à oposição certa, ortodoxa (no significado literal), firme na fé, sadia e firmemente equilibrada, que crê em um só Deus (monoteísta). Talvez a última palavra, monoteísta, sumarie todos os outros matrizes. Os judeus, embora orientados quanto à Unicidade, procuraram falsos deuses, e os cristãos inventaram a Trindade ou a copiaram da idolatria. Nós, por nosso turno, voltamo-nos para a pura doutrina de Abraão (hanif), para vivermos e morrermos na fé em um Deus Uno e Verdadeiro.

47. Eis aqui o verdadeiro credo do Islam: acreditar no único Deus Universal, na Mensagem que nos chegou através de Mohammad, nos sinais interpretados à base de responsabilidade pessoal, na mensagem revelada a outros profetas do passado. Estes tópicos são mencionados em três grupos: Abraão, Ismael, Isaac e as tribos (destes, Abraão tinha aparentemente um livro -versículo 18 da 87ª Surata -, e outros seguiam sua tradição); Moisés e Jesus, cada um deles deixando uma escritura (tais escrituras existem até hoje, não obstante não se apresentarem na sua prístina forma); outras escrituras, outros profetas e outros mensageiros de Deus (não especificamente mencionados no Alcorão - versículo 78 da 4ª Surata). Não fazemos distinção entre qualquer um desses. Sua mensagem (no essencial) foi uma só, e isso constitui a base do Islam.

48. Estamos aqui na trilha daqueles que seguem a única e indivisível mensagem do Deus Único, sempre que outorgada. Se outros a empanam ou a conspurcam, são eles que abandonaram a fé e criaram a dissensão ou cisma. Porém, Deus vê e conhece tudo. E Ele velará pelo que é Seu, e o Seu apoio será infinitamente mais precioso do que qualquer apoio que o homem possa dar.

49. Sibghat, em árabe, com seu significado radical implica matização, coloração, e também significa religião, criação. Assim como a matização e a coloração dão um toque de distinção aos objetos que se prestam a esse expediente, também a nossa vida adquire um novo viço, com a verdadeira Religião de Deus.

50. Quibla quer dizer a direção, ou seja, o locam para o qual os muçulmanos voltam os rostos ao orarem. O Islam imprime grande importância à oração em congregação, dando destaque à nossa fraternidade universal e cooperação mútua. Para que a oração seja devidamente efetuada, a ordem, a pontualidade, a precisão, a postura simbólica e a direção comum são essenciais, resultando que o Imam e toda a sua congregação possam olhar numa única direção e dirigir as suas súplicas a Deus. Nos primórdios, antes de sua organização como povo, os muçulmanos seguiam como símbolo de sua quibla a cidade sagrada de Jerusalém, sagrada tanto para os judeus como para os cristãos, os Adeptos do Livro. Isto simbolizava o seu devotamento às Revelações de Deus. Ao serem desprezados e perseguidos, retiraram-se de Makka e alcançaram Madina. Mohammad, sob inspiração Divina, principiou a organizar seu povo como nação, povo independente, com leis e rituais próprios. Naquela altura a Caaba foi estabelecida como quibla, que voltou assim ao centro primitivo ao qual o nome de Abraão estava ligado, e tradicionalmente, também, o nome de Adão. Jerusalém permaneceu (e permanece) sagrada aos olhos do Islam, devido ao seu passado; mas como o Islam é uma religião progressista, seu novo simbolismo possibilitou-lhe desvencilhar-se das tradições de um passado remotíssimo, e insinuar-se por uma era de liberdade irreprimida, dileta ao espírito da Arábia. A mudança teve lugar cerca de 16 meses e meio depois da Hégira. A quibla de Jerusalém, por si só, deveria Ter parecido igualmente estranha, mormente depois que se haviam acostumado à outra. Em verdade, uma direção ou outra, a Leste ou a Oeste, não importaria, uma vez que Deus está em todos os locais, e independe de tempo e lugar. O que importava era o senso de disciplina, ao qual o Islam imputa grande destaque.

51. Nação do centro. A essência do Islam, é evitar todo tipo de extravagância em qualquer lado. É uma religião simples e prática. A palavra árabe (wasat) tem também o significado de intermediária.

52. Isto demonstra o sincero desejo de Mohammad de procurar a luz do alto no que dizia respeito a quibla. Até à organização de seu próprio povo numa comunidade sólida, com suas leis e regulamentos distintos, ele seguira uma prática baseada no fato de que os judeus e os cristãos consideravam Jerusalém uma cidade sagrada. Contudo, não havia quibla universal alguma entre eles. Alguns judeus, ao orarem, volviam os rostos para Jerusalém, especialmente durante o tempo em que estavam cativos, como veremos mais tarde. Ao tempo do Profeta Mohammad, Jerusalém estava nas mãos do Império Bizantino, o qual era cristão. Os cristãos, porém, orientavam suas igrejas para o leste, que é um ponto da bússola, e não qualquer lugar sagrado. O fato de os altares estarem situados no leste não quer dizer que todos os oradores tenham seus rostos voltados para o leste; porque, pelo menos de acordo com a prática moderna, os assentos de uma igreja estão dispostos de tal maneira que os adoradores olham para diferentes direções. O pregador da Unicidade naturalmente queria, com respeito a este e outros assuntos, um símbolo de completa unidade, e seu coração ficou naturalmente deleitado quando a quibla em direção à Caaba foi estabelecida. A conexão da Caaba com Abraão deu a ela um ar de grande antigüidade; sua característica quanto a ser um centro árabe tornou-se apropriada quando aconteceu de a Mensagem ser revelada em árabe, e ser transmitida através da união daquele povo; na ocasião em que ela foi adotada, a pequena comunidade muçulmana foi expulsa dali, procurando exílio em Madina, não obstante isso, tornou-se um símbolo de esperança e triunfo final, para cuja concretização Mohammad vivia; tornou-se ainda o centro e local de encontro de todos os povos, na peregrinação universal, que foi instituída com a quibla.

53. Este versículo deve ser lido juntamente com o 150 desta, com o qual a sentença é aqui completada. O raciocínio é de que com a designação de Caaba, como quibla, Deus estava aperfeiçoando a religião e preenchendo os requisitos da oração futura, concebidos por Abraão. A oração haveria de ser de caráter triplo: para que Makka se tornasse um santuário sacrossanto (2ª Surata, versículo 126); para que ali uma nação (muçulmana) verdadeiramente crente se estabelecesse com locais de devoção (2ª Surata, versículo 128); para que um Mensageiro fosse enviado entre os árabes com umas certas qualidades (2ª Surata, versículo 129), lá estabelecidas e novamente repetidas aqui, para se completar o raciocínio.

54. A palavra "recordar" apresenta-se muito inconsciente para traduzir dhikr, que adquiriu agora um vasto número de associações em nossa literatura religiosa. Em sua significação verbal ela abrange: lembrar, aprazer (a Deus), mencionando-O freqüentemente; exercitar; celebrar ou comemorar; levar a sério, cultuar a memória como um domínio precioso.

55. A sentença "na perseverança e na oração" mencionada no versículo anterior, não constitui mera passividade. Significa ativamente porfiar pela vereda da Verdade, que é a vereda de Deus. Tal porfia consiste em despendermos nossa vereda, quer com respeito às nossas propriedades, quer com o desapego às nossas vidas e às vidas dos que nos são caros, quer com a perda de frutos da faina de toda a nossa vida, não apenas de bens materiais, mas de alguma aquisição moral e intelectual, de alguma posição que por si só pareça enormemente desejável aos nossos olhos, mas eu devemos espontaneamente sacrificar, se necessário, pela causa de Deus.

56. A virtude da paciente perseverança na fé induz à menção de dois monumentos simbólicos dessa virtude. Existem dois pequenos montes, o de Assafa e o de Almarwa, agora absorvidos pela cidade de Makka, situados perto do poço de Zamzam. Aí, de acordo com tradições, Agar, mãe de Ismael, orou suplicando por água no deserto adusto e, levada pela sua afoita busca ao redor desses montes, teve respondidas as suas orações e avistou o manancial de Zamzam. Infelizmente os árabes idólatras haviam colocado ali um ídolo masculino e outro feminino, causando, com seus rituais grosseiros e supersticiosos, ofensa aos primitivos muçulmanos, fazendo com que estes experimentassem alguma hesitação em percorrer aquelas plagas durante a peregrinação.

57. A Sagrada Mesquita: a Caaba, na sagrada cidade de Makka. Não é correto insinuarmos que a ordem, instituindo a Caaba como quibla, ab-rogue o versículo 115 desta, onde é asseverado que o Leste e o Oeste pertence a Deus e que Ele é Onipresente. Isto é perfeitamente verdadeiro em todas as épocas, antes e depois da instituição da quibla.

58. O Hajj é a peregrinação principal, cujos rituais acontecem durante os primeiros dez dias do mês de Dul-hijja. A Umra constitui uma peregrinação menos formal e se dá em qualquer época do ano. Em ambos os casos suplicante peregrino começa por colocar sobre si uma vestimenta simples, de tecido, sem costura, dividida em duas peças, quando ainda está a alguma distância de Makka. A colocação dessa vestimenta peregrina (Ihram) caracteriza o simbolismo da renúncia às vaidades do mundo. Depois disto, e em todo o transcorrer da peregrinação, ele não deve usar outras roupas, não deve usar ornamentos, besuntar seus cabelos, usar perfumes, caçar, ou praticar outros atos proibidos. O complemento da peregrinação é simbolizado por rasparem as cabeças os homens, cortarem as madeixas de seus cabelos as mulheres, pelo abandono do Ihram a reposição das vestes comuns.

59. Imprecadores, isto é, anjos e humanos (ver versículo 161 desta); os abominados se excluirão da proteção de Deus e dos anjos, tornando-se pessoas não gratas aos humanos porque, pela sua contumaz rejeição da fé, não apenas pecam contra Deus, mas ainda falseiam suas próprias condições de homens, os quais Deus criou no "mais perfeito dos moldes" (95ª Surata, versículo 4).

60. Eternamente = por muito tempo. A maldição não é jogo de palavra; é um terrível estado espiritual, de todo oposto ao estado de graça. Pode o homem maldizer? Certamente não, no mesmo sentido que nos referimos em relação à maldição de Deus. Uma simples maldição verbal não tem efeito. Porém, se uma pessoa é oprimida ou tratada com injustiça, seus clamores podem ascender até a Deus, oração, e descerá, então, a "ira" ou maldição de Deus sobre os iníquos, privando-os de Sua graça.

61. Onde as terríveis conseqüências do Mal como por exemplo, a rejeição de Deus, são mencionadas, há sempre uma ênfase quanto aos atributos da clemência e da misericórdia de Deus. Neste caso, a Unicidade é também enfatizada, porquanto já estamos cientes da quibla como símbolo da unidade, e prontos a abordar o tema da unidade diversificadamente, quanto à Natureza e quanto às leis sociais da sociedade humana.

62. Esta magnífica passagem da Natureza expõe-se como um outeiro sombreando uma planície, realçando a beleza da nossa visão, preparando-nos para as leis e injunções cotidianas que se seguem. Note-se a sua arquitetura literária. Deus é Uno; e entre os Seus assombrosos Portentos está o da uniformidade de desígnios quanto à amplíssima diversificação da Natureza. Os Portentos apresentam-se em forma da beleza, poder, e da utilidade ao próprio homem, e faz com que este apele para a sua própria inteligência e sapiência. Principiamos com a glória dos céus e da terra, em amplos espaços contidos na imaginação humana, remotos, mas tão próximos à sua própria vida. O mais estarrecedor dos fenômenos cotidianos, resultante da relação mútua dos céus e da terra, consiste na alternação do dia e da noite, regular, mas cambiante, de acordo com as estações do ano e as latitudes do globo. A noite para o descanso, e o dia para o trabalho; é preciso que encaremos o trabalho em termos de beleza da natureza; o relato dos navios "que singram" os mares, como meios de comunicação e troca de mercadorias entre os povos. Deste modo, o mar não nos é menos útil do que a terra firme; e o tomar e o dar (drenagem e evaporação) entre o mar, o céu e a terra são eloqüentemente exemplificados pela chuva.

63. Atingimos agora o ponto da regulamentação dos alimentos. Primeiramente (versículos 168-171) deparamo-nos com um apelo a todos os povos, muçulmanos, idólatras, bem como aos Adeptos do Livro; depois (versículos 172-173), aos muçulmanos em especial; então (versículos 174-176) vem aquela espécie de homens que (como alguns fazem) ou acreditam em formalismo em excesso, ou não acreditam em nenhuma restrição. O Islam segue o áureo meio-termo. Todas as sociedades bem regulamentadas estabelecem razoáveis limitações. Estas coisas tornam-se obrigatórias para todos os leais membros de uma determinada sociedade, e mostra o que é "lícito" nessa sociedade. Porém, se as limitações forem razoáveis, o "lícito" também coincidirá repetidas vezes com o que é "bom".

64. Mai-itat: carniça; animal que morre por si. A palavra no original árabe tem um significado um pouco mais amplo, apresentado em Fiquih (jurisprudência), como qualquer coisa que morre por si mesma, não expressamente morta com o intuito de servir de alimento, e sem o Takbir (Em nome de Deus, Deus é o Maior) ser devidamente pronunciado antes de ser sacrificada. Contudo, há exceções: o pescado é lícito (halal), embora não haja sido especialmente envolvido com o halal, nem com o Takbir. Porém, mesmo o pescado, se deteriorado, deve obviamente ser evitado.

65. Quanto à proibição dos alimentos, comparar com os versículos 4-5 da 5ª Surata e com os versículos 121, 138-146 da 6ª Surata, etc. os peritos em Fiquih ordenaram os detalhes com grande elaboração. Nosso propósito é apresentarmos princípios gerais, não detalhes técnicos. A carniça, ou carne putrefata, e o sangue, como gêneros alimentícios, devem causar repulsa a qualquer pessoa de gosto refinado. Assim deveria ser também com a carne de suíno, já que este vive de rebotalhos. Mesmo que os suínos fossem artificialmente alimentados com comida saudável, as abjeções permaneceriam, porque são animais imundos sob outros aspectos, sendo que a carne de animais imundos afeta a quem a consome; a carne de suíno possui mais gordura do que o necessário para a fortificação dos músculos; é mais propensa a causar enfermidades do que outra espécie de carne; apresenta, por exemplo, a triquinose, caracterizada por vermes da finura de um fio de cabelo, nos tecidos musculares. Quanto aos alimentos dedicados aos ídolos ou a falsos deuses, é obviamente inadmissível que os monoteístas se dêem a eles.

66. Note-se primeiramente que este versículo e o seguinte tornam claro que o Islam mitigou, em muitos, os horrores dos costumes pré-islâmicos referentes ao Talião. A fim de satisfazer os estritos clamores da justiça, a igualdade é prescrita, com uma veemente recomendação de clemência e perdão. Apesar de o fazermos, julgamos incorreto, todavia, traduzir quisas como talião. Em todo o caso, é melhor que se evite termos técnicos para se designarem situações diferentes. "Talião" em português tem um significado mais dilatado, equivalente, quase, a "pagar o mal com o mal", e mais adequadamente aplicar-se-ia às contendas sanguinolentas da época de idolatria. O Islam assevera: se deveis tirar uma vida para pagar uma vida, que pelo menos haja um laivo de eqüidade nisso; a morte de um cativo de outra tribo não deve envolver contenda sanguinolenta alguma, pelo qual muitos homens livres seriam arrastados à morte. Porém, um decreto de misericórdia, desde que seja obtido por consenso, com razoáveis compensações, seria preferível.

67. Os jurisprudentes têm cuidadosamente estabelecido que a lei do quisas se refere tão-somente ao homicídio. Ela não se aplica ao crime acidental ou por engano. Nesse caso, não há a pena capital.

68. O irmão: o termo é perfeitamente generalizado, uma vez que o Islam constitui uma irmandade. Nesta, e em todas as questões de herança, as mulheres têm direitos semelhantes aos dos homens e, por isso, o gênero masculino abrange todos os sexos. Aqui, estamos considerando os direitos dos herdeiros sob o prisma de uma vasta fraternidade. Nos versículos 178-179 desta, deparamo-nos com os direitos dos herdeiros quanto à vida; nos versículos 180-182 veremos os herdeiros quanto à propriedade.

69. É permitido um testamento verbal; porém, espera-se que o testador seja justo com seus herdeiros, e não se divorcie do que é considerado eqüitativo. Por esta razão, quinhões definidos foram estabelecidos, mais tarde, para os herdeiros (ver o versículo 11 da 5ª Surata etc.). estes procedentes definem ou limitam o poder testamentário, porém, não o ab-rogam. Por exemplo, entre os achegados encontram-se pessoas (um neto órfão na presença de filhos sobreviventes) que não herdariam sob condições de falta de testamento, mesmo que o testador quisesse fazer algo por elas. Ainda, poderia haver estranhos pelos quais ele gostaria de fazer algo; neste caso, os juristas providenciaram para que ele tivesse poder de disposição de um terço de seus bens. Não deve ser parcial em relação a um herdeiro em detrimento de outro, nem tampouco tentar ludibriar credores legais. Se tentar agir assim as testemunhas de seu testamento oral deverão interferis, agindo de duas maneiras. Uma seria persuadir o testador a mudar o seu legado antes que este morra. A outra seria, depois da morte, reunir as partes interessadas e pedir-lhes que concordassem com um arranjo mais eqüitativo. Afora isto, a mudança de disposição de um testamento é considerada crime, como acontece no caso de todas as leis.

70. Como foi prescrito: isto não quer dizer que o jejum dos muçulmanos seja igual ao de outros anteriormente observados quanto ao número de dias, quanto à hora e à maneira de jejuar, ou quanto a quaisquer outros fatores; isto quer apenas dizer que o princípio da auto-penitência pelo jejum não é novo.

71. O jejum muçulmano não significa auto-tortura. Conquanto seja mais meticuloso que outros jejuns, ele também propicia atenuação temporária para especiais circunstâncias. Se fosse simplesmente uma abstenção temporária, isso seria mais instintos para a comida, a bebida e o sexo são mais intensos na natureza animal, e a abstenção temporária dessas coisas resulta em que a atenção seja dirigida para algo mais elevado. E isto somente se processa através da oração, da contemplação e dos atos de caridade.

72. Enfermidade e viagem não devem ser interpretadas num sentido dilatado; trata-se daquelas que causam verdadeiro martírio ou sofrimento, caso o jejum seja observado. Quanto à viagem, um padrão mínimo de três marchas é prescrito por alguns exegetas; outros fazem-no mais preciso com a estipulação de cerca de 80 km. Uma viagem de 12 ou 15 km a pé é mais cansativa do que a mesma viagem feita por carro de boi. Existem vários graus de fadiga em se cobrir uma distância estipulada, cavalgando (também camelo), a bordo de um confortável trem, de um automóvel, de um navio, de um avião, de uma nave espacial. Em nossa opinião os padrões devem depender dos meios de transporte e dos relativos recursos dos viajantes. É preferível determiná-lo em cada caso, de acordo com as circunstâncias.

73. Homens e mulheres são como vestimentas uns para os outros; são para o apoio mútuo, o conforto mútuo, a proteção mútua, adaptados um ao outro como uma vestimenta se adapta ao corpo. Uma vestimenta tem o condão tanto para embelezar como de abrigar. A questão do sexo é sempre delicada de ser abordada; aqui somos instruídos que, mesmo em tal assunto, uma relação clara, franca e honesta é preferível a uma relação fraudulenta e engano de si mesmo. O instinto sexual é qualificado como um ato de comer e de beber, ocorrências animalescas a refrear, mas não de que se envergonhar. As três contingências são proibidas durante o dia, no jejum, porém permitidas quando o jejum for quebrado, à noite, até que o próximo período de jejum se inicie.

74. Além das três exigências materiais primordiais do homem, que podem ativar a sua concupiscência, existe uma quarta forma de concupiscência na sociedade, aquela em relação à abastança e aos bens. O propósito do jejum não é atingido se essa quarta concupiscência não for, também, refreada. Comumente, as pessoas honestas contentam-se em se absterem do furto, do assalto e do estelionato. Mais duas formas sutis de concupiscência são aqui mencionadas. Uma é aquela em que alguém usa os seus próprios bens para corromper alguns juizes ou algumas autoridades, com o fito de auferir algum ganho material, mesmo sob o manto e a proteção da lei. As palavras traduzidas por "bens alheios" podem também significar "prosperidade pública". Os bens carregam consigo o estigma da responsabilidade. Se falharmos em compreendê-los e satisfazê-lo, não teremos aprendido a consistente lição da abnegação pelo jejum.

75. Havia muitas superstições relacionadas ao novilúnio, como ainda as há hoje em dia. Porém, é-nos aconselhado que nos desvencilhemos de tais superstições. Como divisão de tempo, onde o calendário lunar é observado, a lua nova constitui um importante sinal, pelo qual as pessoas esperam com avidez. As festividades muçulmanas, incluindo a peregrinação, são fixadas pela aparição da lua nova. Os árabes, entre outras superstições, possuíam uma, que consistia em entrarem em suas casas pelas portas de trás, durante ou depois da peregrinação. Isto é desaprovado, porque não há virtude em qualquer dessas restrições artificiosas. Toda virtude procede do amor e do temor a Deus.

76. Eis aqui um provérbio muçulmano, que deveria ser muito repisado, quanto às suas multifárias significações. Umas poucas serão citadas aqui. Se ingressardes numa sociedade, respeitai as suas normas e os seus costumes; se desejardes honradamente alcançar um objetivo, apegai-vos a isso abertamente, e não "sorrateiramente"; não useis de subterfúgios; se desejardes sucesso num empreendimento, providenciai todos os instrumentos necessários para tanto.

77. A guerra somente é permissível em defesa própria, e com limite bem definidos. Uma vez empreendida, ela deve ser conduzida com vigor, não de modo implacável, mas no sentido de restabelecer a paz e a liberdade de culto a Deus. De qualquer modo, os limites rigorosos não devem ser transgredidos; as mulheres, as plantações não devem ser extirpadas, nem tampouco a paz deve ser negada quando o inimigo a propõe.

78. Esta passagem é ilustrada pelos eventos que tiveram lugar em Alhudaibiya, no sexto ano da Hégira, embora não esteja claro se foi revelada na ocasião ou não. Os muçulmanos constituíam, naquele tempo, uma poderosa e influente comunidade. Muitos deles faziam parte dos exilados de Makka, onde os idólatras tinham estabelecido uma autocracia intolerante, perseguindo-os, proibindo-os de visitarem os lares, e mesmo proscrevendo-os da peregrinação, durante o universalmente conhecido período de trégua. Isto denotava intolerância, opressão e autocracia no mais alto grau. A simples disposição, por parte dos muçulmanos satisfaziam fielmente. Mesmo assim os idólatras não tinham escrúpulos em romperem com fé.

79. À semelhança disso, as cercanias de Makka eram consideradas sagradas, locais em que a guerra era proibida. Se os inimigos os Islam infringissem tal conceito, os muçulmanos ficariam livres para, igualmente, o infringirem, na mesma proporção. Qualquer convenção torna-se ineficaz, se uma das partes não a respeita. Tem de haver uma lei de igualdade. Ou talvez a palavra "reciprocidade" expresse melhor essa conjuntura.

80. Toda a luta requer meios para os seus preparativos. Se a guerra é justa e pela causa de Deus, todos os que possuem bens devem gastá-los espontaneamente. Essa deve ser a sua contribuição para a Causa, em adição ao seu esforço pessoal, ou se por qualquer razão se encontrarem impossibilitados de lutar. Se se agarrarem às suas riquezas, talvez as suas próprias mão estejam contribuindo para a sua autodestruição. Ou, por outra, se a sua riqueza estiver sendo gasta, não na causa de Deus, mas em algo que deleita os seus caprichos, poderá acontecer de as vantagens irem para o inimigo, e a pessoa, assim, estará, pela sua ação, contribuindo para a sua própria destruição. Em todos os tópicos, os seus padrões devem ser, ano de egoísmo, mas de benevolência para com a sua irmandade, pois que tal benevolência é prazerosa aos olhos de Deus.

80. - a. Ver nota nº 58.

81. nos meses já mencionados: os meses de Chawal, de Dul-quida, e de Dulhijja (até ao 10º ou ao 13º dia) sai reservados para os rituais do hajj. Isso equivale a dizer que os rituais podem iniciar-se cedo, logo no começo de Chawal, com uma chegada definida a Makka, mas os principais rituais são concentrados nos primeiros dez dias de Dul-hijja, especialmente no 8º, 9º e 10º dias desse mês, quanto a influência de peregrinos alcança o seu auge.

82. A cerca da metade do caminho entre Arafat e Mina (ver versículo 197 desta Surata e a sua respectiva nota), encontra-se um lugar chamado Muzdalifa, onde o Mensageiro fez uma longa oração. Esse lugar tornou-se o Monumento Sagrado, e os peregrinos são instruídos no sentido de seguirem tal exemplo, quando do seu retorno.

83. Ao aproximar-se o fim da peregrinação a multidão é imensa, e se algumas pessoas se retêm, depois do ritual de Arafat, isso causa grande confusão e inconveniência. Por conseguinte, a saída deve ser rápida para todos, conduta esta estritamente necessária. Cada membro da multidão deve pensar no conforto e na conveniência de todos.

84. Depois da peregrinação, no tempo da idolatria, os peregrinos costumavam reunir-se em assembléia, na qual eram decantados os louvores aos antepassados. Como todos os rituais da peregrinação foram espiritualizados no Islam, assim o desfecho da peregrinação foi, também, espiritualizado. Foi recomendado que os peregrinos permanecessem dois ou três dias depois da peregrinação, porém deveriam gastá-los em oração e louvor a Deus. Ver versículo 203 desta Surata.

85. Nos dias já mencionados: os três dias depois do décimo, quando os peregrinos permanecem no Vale de Mina para a oração e o louvor. São os dias do Tachric (ver versículo 200 desta surata e a sua respectiva nota). Os peregrinos têm a opção de partir no segundo ou no terceiro dia.

86. Se carecem de fé, usam de todas as escusas para resistirem ao apelo de Deus. Dizem eles: "Oh, sim, nós acreditamos em Deus, se Ele nos aparecer, acompanhado dos Seus anjos e da Sua Glória!" Em outras palavras, eles querem que seja a sue modo, e não segundo os desígnios de Deus. Porém, assim não será, sabendo-se que a decisão de todas as questões pertence a Deus. Se formos sinceros para com Ele, esperaremos pelo Seu tempo e pela Sua época, e jamais aguardaremos que Ele espere pelo nosso tempo e pela nossa época.

87. Aos israelitas, sob a orientação de Moisés, foram apresentados a glória de Deus e muitos sinais evidentes, mas mesmo assim eles seguiram a sua própria conjectura, preferindo os seus próprios caprichos e fantasias. Assim fazem os povos em todas as eras. Mas eles que não se iludam! A justiça de Deus é inexorável e, quando vier, será implacável e inconfundível para com aqueles que rejeitam as Suas Mercês.

88. Comparar com o versículo 196 desta Surata (final); lá a questão era a daqueles que não temem a Deus. Aqui a questão é a daqueles que Lhe rejeitam os portentos.

89. As dádivas divinas, neste mundo, parecem ser díspares, parecendo, às vezes, que as conseguem aqueles que menos as merecem. A benevolência de Deus é ilimitada, tanto para o justo como para o injusto. Em sua sapiência, Ele pode concedê-la a quem Lhe aprouver. O cômputo pode não ser considerado agora, mas sê-lo-á no final, quando a balança for compensada.

90. A intolerância e a perseguição, por parte de uma súcia de idólatras de Makka, causaram inenarráveis adversidades ao Mensageiro do Islam e aos seus primeiros companheiros. Eles suportaram tudo com humildade e incansável paciência, até que o Mensageiro permitiu que pegassem em armas, para efetuarem a defesa própria. Então, eles foram censurados pela quebra do costume quanto aos meses proibidos, embora fossem compelidos a lutar durante aquele período, contrariando os seus próprios sentimentos, em defesa própria. Os seus inimigos não apenas os forçavam a tomar atitudes guerreiras, mas ainda interferiam nas suas consciências, perseguiam-nos a eles e às suas famílias, insultavam abertamente Deus e O negavam, mantinham os árabes muçulmanos fora da Mesquita Sagrada, e os exilavam. Tais violências e intolerâncias são adequadamente tidas como piores do que o homicídio.

91. Khamr: bebida; literalmente compreendida como significando o sumo fermentado da uva. É aplicada, por analogia, a todas as bebidas fermentadas, e, numa analogia mais intensa, a qualquer bebida ou droga tóxica. Poderá, possivelmente, haver algum benefício nela, mas o dano é maior do que o benefício, especialmente se considerarmos do ponto de vista social, bem como do individual.

92. Maissar: jogo; literalmente, um meio de se conseguir algo, mui facilmente, usufruindo lucros, sem trabalhar para tal; daí, jogo. Esse é o princípio pelo qual o jogo é proibido. A forma mais familiar de jogo, entre os árabes, era a de tirar a sorte por meio de setas, constituindo o princípio da loteria; as setas eram marcadas e serviam ao mesmo propósito dos bilhetes de loteria de hoje. Setas marcadas eram retiradas de um saco. Algumas não possuíam marcas, e aqueles que as retiravam nada ganhavam. Algumas marcas indicavam prêmios, que podiam ser grandes ou pequenos. Tirar alguém polpudo quinhão, ou pequeno, ou nenhum, isso dependeria de pura sorte, a menos que houvesse fraude da parte de algumas pessoas envolvidas. O princípio no qual a objeção está baseada é: mesmo que não haja fraude, ganhamos aquilo que não merecemos pelo esforço, ou perdemos por mero azar. O dado e as apostas estão apropriadamente enquadrados na definição do jogo. Contudo, o expediente do Seguro não é considerado jogo, uma vez conduzido nos princípios negociosos. Aqui as bases dos cálculos constituem estatística em larga escala, da qual o mero azar é eliminado. Os próprios seguradores pagam bônus na proporção dos riscos, calculados exata e estatisticamente.

93. O matrimônio é a mais íntima das comunhões, e o mistério do sexo encontra a sua suprema satisfação quando a harmonia espiritual íntima é combinada com o elo material. Se de maneira alguma a religião exerce uma real influência na vida de um dos consortes, ou de ambos, a diferença nesta questão vital certamente afetará as vidas de ambos, mais profundamente do que as diferenças de berço, raça, língua, ou posição. Por conseguinte, é preciso que as partes, ao se darem em matrimônio, possuam as mesmas aspirações espirituais. Se duas pessoas se amam, as suas aspirações quanto às coisas supremas da vida devem ser idênticas. Note-se que a religião, neste caso, não constitui um simples rótulo, nem tampouco é uma questão de costume ou de berço. Duas pessoas poder ter nascido em religiões diferentes, mas se, por suas mútuas aspirações, vierem a descortinar da mesma maneira a verdade, elas certamente, de pronto, aceitarão os mesmos rituais e a mesma irmandade social. Caso contrário, a situação tornar-se-á insustentável, tanto individual como socialmente.

94. Azan: impureza, poluição. Ambos os conceitos devem ser lembrados. O asseio e a pureza corporais fazem bem, tanto ao corpo como ao espírito. A relação sexual nesse período é proibida. Porém, o assunto deve ser considerado sob o ponto de vista da mulher, bem como do ponto de vista do homem. Quanto a ela, há o perigo da impureza, o que deve ser levado em consideração. No mundo animal o instinto é um guia que deve ser obedecido. O homem deveria ser superior neste particular, mas freqüentemente é inferior.

95. Os árabes possuíam muitas espécies de imprecações, tendo para cada uma delas uma denominação especial em seus jargões. Muitas dessas denominações relacionavam-se com o sexo e causavam o desentendimento, a alienação, a divisão e a separação entre o marido e a mulher. Este e os três versículos seguintes referem-se a isso.

96. Os árabes idólatras tinham um costume um tanto injusto para com as mulheres candidatas ao casamento, e isso foi suprimido pelo Islam. Às vezes, advindo de um arroubo de cólera ou de capricho, o marido proferia um juramento, por Deus, de não tocar a sua esposa. Isso privava-a dos seus direitos conjugais, mas ao mesmo tempo mantinha-a ligada a ele, indefinidamente; assim, ela não se podia casar de novo. Caso quisesse que o marido reconsiderasse, ele argumentava que o seu juramento a Deus o impedia. Em primeiro lugar, o Islam desaprovou os juramentos impensados, mas insistiu em que um juramento adequado, solene e intencional fosse escrupulosamente observado. Num assunto melindroso como esse, em que a esposa é afetada, se o juramento é apresentado com uma escusa, é dito ao homem que de maneira alguma há desculpa. Deus leva em consideração a intenção, não meras palavras insensatas. É permitido às partes um período de quatro meses, para ver se se decidem por um possível reajustamento. A reconciliação é recomendada, mas se eles realmente optam pela separação, é injusto mantê-los ligados indefinidamente. O divórcio é o único expediente justo e eqüitativo, embora, como o Mensageiro declarou, de todas as coisas permitidas, o divórcio seja a mais odiosa aos olhos de Deus. Em tais circunstâncias, Deus perdoará, porque Ele conhece os ressentimentos de cada uma das partes, e atenderá aos clamores daquele que sofre.

97. O Islam tenta manter o estado matrimonial tão prolongado quanto possível, especialmente quando há filhos envolvidos; porém, é contrário às restrições à liberdade do homem e da mulher em assuntos de importância vital, como o amor e a vida familiar. Ele restringe os atos impetuosos tanto quanto possível, e deixa em aberto as portas para a reconciliação em muitos itens. Uma sugestão de reconciliação é feita, sujeira a certas precauções (ver os versículos seguintes) contra atos impensados.

98. A diferença de posição econômica entre homens e mulheres faz com que os direitos e as responsabilidades daqueles sejam superiores aos destas. O versículo 34 da 4ª Surata refere-se ao dever do homem de manter a mulher, bem como a uma certa diferença, quanto à natureza dos sexos. Adstritos a isso, os sexos estão em igualdade de condições perante a lei.

99. No ponto em que o divórcio por incompatibilidade mútua é permitido, há sempre o perigo de que as partes ajam precipitadamente, então arrependam-se e desejem separar-se novamente. Para se evitar a continuidade de tal ação caprichosa, é estabelecido um limite. Dois divórcios (com uma reconciliação entremeada) são permitidos. Depois disso, as partes devem decidir-se definitivamente: ou dissolverem permanentemente a união, ou viverem honradamente juntos, em tolerância e amor mútuos - "conservá-las condignamente"; nenhuma das partes deve infernizar a outra, nem resmungar, nem furtar-se aos deveres e às responsabilidades do casamento.

100. Todas as proibições e limitações, prescritas aqui, o são no interesse de uma vida decente e honrada para ambas as partes, bem como no interesse de uma vida social limpa e virtuosa, sem escândalos, públicos ou secretos. Caso haja qualquer temor de que - por serem salvaguardados os interesses econômicos dela, a sua liberdade pessoal fique afetada - o marido se recuse a dissolver o casamento e talvez a trate com crueldade, então, em tais casos excepcionais, é permitido conceder alguma consideração material ao marido; mas a necessidade e a eqüidade disso devem ser submetidas ao julgamento de juizes imparciais, isto é, a tribunais constituídos. Um divórcio desta natureza é denominado Khul’a.

101. Este versículo é a continuação da primeira sentença do versículo 229 desta surata. São permitidos dois divórcios, seguidos de reconciliação; na terceira vez, o divórcio se torna irrevogável, até que a mulher se case com outro homem e dele se divorcie. Isto serve para estabelecer uma condição quase impraticável. Tira-se daqui a seguinte conclusão: Se um homem ama uma mulher, não deve permitir que ímpetos subitâneos de temperamento ou de furor o induzam a tomar atitudes precipitadas. Que acontece depois de dois divórcios, quando um homem toma a esposa de volta? Ver a nota seguinte.

102. Há, aqui, duas cláusulas condicionais: - "Quando vos divorciardes das vossas esposas..." e "ao terem elas cumprido o período prefixado (iddat)...", seguidas de duas cláusulas conseqüentes: - "Tomai-as de volta eqüitativamente" ou "libertai-as eqüitativamente". A primeira cláusula é relacionada com a terceira, e a Segunda com a quarta, por assim dizer. Todavia, se o marido deseja reatar os laços matrimoniais, não precisa esperar pelo Iddat. Porém, se não deseja, ela fica livre para se casar com outro, depois do Iddat. Para se conhecer o significado do Iddat, ver a nota do versículo 228 desta surata.

103. O término de um laço matrimonial é a questão mais cruciante, tanto para a família, como para a vida social. E todos os expedientes lícitos que possam, eqüitativamente, propiciar a reconciliação dos que já viveram juntos são aprovados, conquanto haja amor entre eles, e possam viver em termos de honradez, um para com o outro. Se tais condições forem satisfeitas, não caberá, por direito, a estranhos, impedir ou obstruir a reconciliação. Estes poderão estar cobiçando os bens ou anelando outras eventualidades. Este versículo foi ocasionado por um fato real, que foi submetido ao Mensageiro, durante a sua vida.

104. A espera para a viúva (quatro meses e dez dias) deve ser mais longa que a do Iddat para a divorciada (três menstruações; ver versículo 288 desta surata). No último caso, o único escopo é certificar-se de que não há concepção proveniente do casamento dissolvido. Isto torna-se claro no versículo 49 da 33ª Surata, onde está especificado que não há Iddat para as divorciadas virgens. No primeiro caso há, em adição, a consideração do luto e do respeito à memória do marido falecido. Em ambos os caos, se houver provas de concepção, um novo casamento, para a mulher, estará certamente fora de cogitação até ao nascimento da criança, desde que se observe, então, um intervalo. Enquanto isso, o seu sustento, numa escala razoável, ficará a cargo do último marido ou dos familiares deste.

105. A lei estipula que, em tal caso, metade do dote fixado deve ser paga pelo homem à mulher. Porém, fica a critério da mulher perdoar a metade do que iria receber ou ao homem perdoar a metade que está autorizado a deduzir.

106. Quem tiver o contrato matrimonial em seu poder, de acordo com a escola hanafita, é o próprio marido que comumente pode, por uma ação sua, dissolver o casamento. Convém-lhe, portanto, se o mais liberal possível para com a mulher pagando-lhe o dote inteiro, mesmo que o casamento não tenha sido consumado.

107. Orações intermediárias: deveria ser traduzido como "as melhores ou as excelentíssimas orações". Os exegetas diferem quanto ao exato significado desta frase. A maioria deles, porém, parece optar pela interpretação disto como "a Oração da Tarde". Assim sendo, ela é passível de ser negligenciada; mas mesmo assim é estritamente necessária, e nos faz lembrar de Deus no meio dos nossos afazeres terrenos. Há uma surata especial (a 103ª), intitulada "Al ‘Asr", de cujo significado místico do texto trata apropriadamente.

108. Devemos combater pela causa de Deus, e nunca para satisfazer as nossas próprias paixões e cupidez egoístas; eis que a admoestação se repete: "Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo".

109. A geração subseqüente a Moisés e a Aarão foi governada por Josué, que cruzou o Jordão, estabelecendo as tribos na Palestina. O seu governo durou 25 anos, após os quais houve um período de 320 anos, em que os israelitas passaram a ter uma história cheia de anomalias. Eles não eram unidos entre si e por isso sofreram duros reveses nas mãos dos madianitas, dos amalecitas e de outras tribos da Palestina. Eles freqüentemente descambavam para a idolatria e olvidavam a adoração do verdadeiro Deus. De tempos em tempos aparecia um líder entre eles, que se investia de poderes ditatoriais. Tais ditadores são chamados de Juizes, na tradução portuguesa do Antigo Testamento. O último de sua estirpe foi Samuel, que constitui um marco na transição da linhagem dos Reis, por um lado, e dos últimos profetas, por outro. Ele data aproximadamente do século XI a.C.

110. Talut é o nome árabe para Saul, que era alto e bem apessoado, e que pertencia à tribo de Benjamim, a menos das doze tribos. Os seus bens terrenos era minguados; e foi quando saiu em busca de alguns asnos que tinham fugido da casa de seu pai, que encontrou Samuel, e foi, por este, ungido rei. O capricho do povo apareceu imediatamente após ele se nomeado. Eles levantaram toda a espécie de objeções triviais. A principal circunspecção em suas mentes era o egoísmo; cada um queria, por seu turno, ser líder ou rei em pessoa, ao invés de querer o bem do povo como um todo, como um líder deve querer.

111. Arca da Aliança: Tábut, em árabe. Um baú de madeira de acácia, coberto e filigranado de ouro puro, cujas dimensões são: 1,50 m X 0,90 m X 0,90 m (ver Êxodo, 25:10-22). Supunha-se conter o "testemunho de Deus" ou os Dez Mandamentos, entalhados em pedras, com relíquias de Moisés e Aarão. A sua tampa de ouro constituía o "Assento da Misericórdia" com dois querubins de ouro maciço, com as asas abertas. Era, para os israelitas, uma possessão sagrada. Ela foi perdida para o inimigo, logo no início do ministério de Samuel; ver o versículo 246 desta Surata, e a sua respectiva nota; quando foi trazida de volta, permaneceu num vilarejo por 20 anos e, aparentemente, foi levada para a capital quando o reinado foi constituído. Tornou-se, assim, um símbolo de unidade e de autoridade.

112. Davi não somente era pastor, guerreiro, rei, sábio e profeta, como também era dotado do Dom da poesia e da música.

113. Este é o "Versículo do Trono" (Áiat-ul-Cursi). Quem poderia traduzir o seu glorioso significado ou reproduzir o ritmo das suas bens escolhidas e compreensíveis palavras? Mesmo no original árabe o significado parece ser maior do que podem exprimir as palavras.

114. Os atributos de Deus são tão diferentes de qualquer coisa que conhecemos, no nosso mundo presente, que devemos ficar satisfeitos com a compreensão de que a única palavra adequada, com que podemos designá-Lo, é "Ele". Ele vive, mas a Sua vida é auto-subsistente e eterna; ela não depende de outros seres e não inclui apenas a idéia de "auto-subsistência", mas também a idéia de "resguardo e manutenção de todas as vidas". A sua vida é a fonte e o esteio, constantes de todas as formas derivadas de vida. A vida perfeita constitui atividade irrepreensível, em contraste com a vida imperfeita, que vemos a nos rodear, a qual não apenas está sujeita à extinção, mas também à necessidade de repouso, ou de diminuição das atividades (algo entre a atividade e sono, para o qual nós, de comum acordo com os outros tradutores, usamos a palavra "inatividade"), pela necessidade de um sono reparador. Porém, Deus não tem necessidade de descansar ou de dormir. A sua atividade, como a Sua vida, é perfeita e auto-subsistente. Contrastante com esta assertiva é a expressão usada no Salmos, 77.65: "E despertou o Senhor, como homem adormecido, como guerreiro subjugado pelo vinho".

115. Depois de nos conscientizarmos de que a Sua Vida é uma Vida absoluta, de que o Seu Ser é um Ser absoluto, ao passo de outras vidas e outros seres são eventuais e evanescentes, nossas idéias de céus e terra desvanecer-se-ão como brumas na presença da luz. O que está por detrás dessas brumas é Ele. Tal realidade, como a que os nossos céus e a nossa terra possuem, é um reflexo da Sua absoluta Realidade. Os panteístas transmitem uma idéia errada, ao dizer que tudo é Ele. A verdade será melhor evidenciada se dissermos que tudo é d’Ele. Como poderia alguém postar-se ante Ele, ufanando-se perante Ele, por direito, e clamar por intercessão junto ao seu próximo? Em primeiro lugar, ambos pertencem a Ele, sendo que Ele vela tanto pela vida de um como pela de outro. Em segundo, ambos estão na dependência da Sua Vontade e do Seu Comando. Porém Ele, em Sua Sapiência e Planificação, pode cotejar as Suas criaturas e conceder-lhes graus de superioridade umas sobre outras. Então, questões, de acordo com as leis e os deveres que lhes forem impostos. Os conhecimentos de Deus são absolutos e não estão condicionados pelo Tempo e pelo Espaço. A nós, Suas criaturas, estão condições sempre se aplicam. Os Seus conhecimentos e os nossos, acham-se, por isso mesmo, em diferentes categorias, sendo que os nossos apenas conseguem alguns reflexos da realidade, quando concordam com a Sua Vontade e Planificação.

116. Trono: assento, poderio, conhecimento, símbolo de autoridade. Em nossos pensamentos englobamos tudo quando dizemos "os céus e a terra". Bem, então, em tudo está presente o poder, a vontade e a autoridade de Deus. Certamente, "tudo" inclui as coisas espirituais, bem como os cinco sentidos.

117. A imposição é incompatível com a religião, porque a religião depende da fé e da vontade, e estas perderiam a sua consistência, se induzidas à força; a verdade e o erro têm sido tão claramente mostrados pela mercê de Deus, que não deveria haver dúvidas na mente de qualquer pessoa de boa vontade quanto aos fundamentos da fé; a proteção de Deus é contínua e os Seus planos hão de sempre guiar-nos, tirando-nos das profundezas das trevas e conduzindo-nos à clareza da luz.

118. Os três versículos 258, 259 e 260, têm dado origem a muitas controvérsias quanto ao seu significado exato, no sentido de correlacionar os incidentes e a exatidão das pessoas aludidas, cujos nomes não são mencionados. Em tais assuntos, em que o Alcorão não menciona nomes, e em que o próprio Mensageiro não deu indicação alguma, parece-nos inútil especular e, ainda por, emitir possíveis opiniões. Em questão de aprendizado, as especulações são freqüentemente interessantes. Contudo, parece-nos que o significado do Alcorão é tão vasto e universal, que corremos o risco de nos desviar do seu real e eterno significado, se continuarmos a disputar sobre pontos de somenos importância. Os três incidentes constituem alguns dos que talvez tenham acontecido repetidas vezes em qualquer fase da vida do Profeta, e podem ser tomados como uma visão impessoal, em qualquer tempo.

119. O primeiro ponto destacado é o orgulho do poderio e a impotência do poder humano ante o poder de Deus. A pessoa que disputava com Abraão pode Ter sido Nemrod ou algum governador da Babilônia ou de outro lugar qualquer. Escolhemos a Babilônia porque foi o berço original de Abraão (Ur da Caldéia), e porque a Babilônia se orgulhava da sua arte e da sua ciência, no mundo antigo. A ciência pode ter muitas práticas magníficas; ela as teve naquele tempo, elas as tem hoje. Porém, os mistérios da vida baldava a ciência daquele tempo e continuam a baldar a ciência de hoje, depois de muitos séculos de progresso.

120. Este incidente refere-se diversificadamente à visão de Ezequiel das ossaturas secas (Ezequiel 37:1-10), à visita de Neemias a Jerusalém em ruínas, depois da capitulação e da sua reconstrução (Neemias 1:12-20), e a Uzair, ou Ezra, ou Esdras, o escriba, sacerdote e reformador, que foi enviado pelo rei persa depois da capitulação de Jerusalém, e sobre o quê há muitas lendas judaicas. A disposição vocabular é perfeitamente generalizada, e nós devemos entendê-las como tal. Achamos que de fato se refira não somente à morte e à ressurreição do indivíduo, mas também da nação.

121. Uma porção deles: Juz’an, em árabe. Acatadíssimos exegetas compreendem que isto significa que os pássaros haviam de ser despedaçados e que os pedaços deles deveriam ser postos nos montes. O despedaçamento ou matança não é mencionado, mas eles afirmam que está implícito, por elipse, uma vez que a questão é a de como Deus ressuscita os mortos.

122. A verdadeira caridade é como uma campina de solo magnífico, situada em local privilegiado. Absorve as precipitações de chuva e a umidade penetra o solo, não obstante a posição privilegiada mantê-lo sempre drenado, fazendo com que as condições saudáveis aumentem enormemente a sua produtividade. Porém, supondo-se mesmo que a chuva não seja abundante, ele absorve o orvalho, aproveitando ao máximo qualquer umidade que possa assimilar, e isso lhe basta. Assim, também, um homem verdadeiramente caritativo é espiritualmente abastado; coloca-se em condições de atrair as mercês de Deus, que ele não guarda egoisticamente, mas faz com que circulem livremente.

123. Tendo sido explicadas as três parábolas concernentes à natureza da caridade verdadeiramente espiritual, uma quarta parábola é aqui adicionada, esclarecendo o seu significado em toda a nossa vida. Suponhamos que possuíssemos um suntuoso pomar, bem irrigado e fértil, com deslumbrantes vistas de riachos, com refúgio para o descanso da mente e do corpo; suponhamos que a velhice fosse se assomando em nós, sendo os nossos filhos ainda muito jovens para se dirigirem por si, ou carentes de saúde; como nos sentiríamos se um torvelinho repentino, seguido de relâmpagos ou de fogo, se abatesse sobre o pomar, esturricando-o, abatendo deste modo todas as nossas esperanças, presentes e futuras, destruindo o resultado de toda a nossa labuta e das nossas economias do passado? Bem, esta nossa vida é uma provação. Podemos trabalhar com afinco, podemos economizar; talvez tenhamos boa sorte. Talvez construamos para nós um magnífico jardim de recreio, e tenhamos meios de nos sustentar, bem como aos nossos filhos. Vem um enorme torvelinho, acompanhado de relâmpagos e de fogo e queima todo o negócio. Somos, então, já idosos para começar novamente, e nossos filhos muito jovens ou débeis para reparar os infortúnios. As nossas chances são remotas, uma vez que não nos prevenimos para tal contingência. O torvelinho é a "calamidade iminente"; a prevenção contra ele é levar uma vida de verdadeira caridade e virtude, que é a fonte da verdadeira e duradoura felicidade, neste mundo e no outro. Sem isso, estaremos sujeitos à vicissitudes desta vida incerta. Podemos, até, pôr a perder a nossa decantada "caridade", por insistirmos na obrigação que os outros têm para conosco, ou por lhes causarmos danos, porque os nossos pretextos não são puros.

124. "De tenra idade": dhu’afan em árabe; literalmente quer dizer fraco, decrépito, enfermo, possivelmente referindo-se tanto à saúde como à vontade, ou ainda ao caráter.

125. O bem e o mal mostram-nos caminhos opostos, por pretextos opostos, e o contraste é bem demarcado na caridade. Quando pensamos em praticar algum ato de benevolência ou de caridade, somos acometidos de dúvidas e invadidos pelo temos do empobrecimento; o mal, no entanto, sustenta qualquer tendência egoística, cúpida ou gasto extravagante para exibições, deleites pessoais ou apetites indecorosos. Ao contrário, Deus nos introduz em tudo o que é bom e benigno, porque neste procedimento encontra-se o perdão dos nossos pecados, bem como a grande e real prosperidade e satisfação. Ato benigno ou generoso algum jamais arruinou alguém. A falsa generosidade, ao contrário, é que, no mais das vezes, conduz à ruína. Tendo em mente que Deus conhece todos os nossos pretextos e Se importa com todos eles, além de ter tudo em Seu poder, é óbvio o rumo que o homem prudente escolherá. Todavia, a prudência é rara, e é somente esta que sabe apreciar o verdadeiro bem-estar, bem como distingui-lo do falso e aparente.

126. A usura é condenada e proibida nos termos mais enérgicos possíveis. Não pode haver polêmica acerca desta proibição. Quanto à definição da usura, isto dá ensejo para diferenças de opinião. Os nossos jurisprudentes, antigos e modernos, elaboraram um extenso trabalho de literatura sobre a usura, baseados, principalmente, nas condições econômicas, tal como existiam no despontar do Islam. Porém, devido ao fato de que os juros ocupam uma posição central na vida da economia moderna e, especialmente, já que os juros são o próprio sangue da vida das instituições financeiras existentes, muitos muçulmanos ficaram inclinados a interpretá-los de uma maneira radicalmente diferente da dos jurisprudentes muçulmanos, ao longo de quatorze séculos, e estão em conflitos acentuados com as injunções categóricas do Profeta. De acordo com os ensinamentos islâmicos, qualquer excesso no capital é ribá (juros). O Islam não aceita distinções, em casos de proibições, entre taxas razoáveis e exorbitantes de juros, e assim, entre aquilo que é considerado diferença entre usura e juros; nem entre retorno, em bônus, para consumo e para propósitos produtivos etc.

127. Um símile adequado: enquanto que a diligência e o comércio legítimos aumentam a prosperidade e a estabilidade dos homens e das nações, a dependência da usura meramente encoraja uma corja de ociosos, de sangue-sugas cruéis e de indivíduos indignos, que nada sabem do seu próprio bem e são, portanto, capazes de enlouquecer os outros.

128. A primeira parte do versículo diz respeito às transações que envolvem pagamentos futuros ou futuras considerações, e a segunda às transações nas quais o pagamento e a entrega são efetuados no ato. São exemplos da primeira circunstância: Mercadorias compradas agora, com pagamento prometido para tempo e local futuros; pagamentos efetuado agora, com entrega contratada para tempo e local futuros. Em tais casos, recomenda-se um documento por escrito, mas deve-se Ter em mente que as palavras "mais eqüitativo... mais válido para o testemunho e o mais adequado para evitar dúvidas" etc., implicam na não-obrigatoriedade, por parte da lei. São exemplos da Segunda circunstância: pagamento à vista e entrega no ato - isso não requer evidência escrita, mas testemunhas oculares, para tais transações, são recomendadas.

129. O escriba, em tais assuntos, assume uma condição de fiduciário; portanto, deve registrar o ato como se estivesse na presença de Deus, pleno de justiça para com ambas as partes. Deve considerar o Dom da escrita como uma dádiva divina, passando a usá-la como se estivesse a serviço de Deus.

130. A ética comercial é, aqui, ensinada da maneira mais prática, sendo ambos os expedientes condizentes com as barganhas a serem realizadas, as evidências a serem providenciadas, as dúvidas a serem desfeitas, e com os deveres e direitos dos escribas e das testemunhas. A probidade, mesmo em assuntos terrenos, terá de ser, não apenas uma simples questão de conveniência ou de política, mas uma questão de consciência e dever religiosos.

131. Um penhor ou segurança fica na dependência do seu próprio mérito, embora seja uma forma muito conveniente de se concluir a barganha, quando as partes não confiam uma na outra, e não podem conseguir um acordo por escrito, com testemunhas adequadas.

132. A lei do depósito requer enorme confiança no depositário, da parte do depositante. O depositário torna-se um fiduciário, sendo que a doutrina da confiança pode ser plenamente desenvolvida nessa base. O dever do fiduciário é salvaguardar os interesses da pessoa, em cujo favor ele conserva a custódia dos bens, e dar de volta as contas e os haveres, quando requeridos. Repisamos que tal dever está mais ligado às sanções da Religião, que requer padrões mais altruísticos do que a Lei.

133. Comparar com o versículo 136 desta surata e com a sua respectiva nota. Não devemos fazer qualquer distinção entre um e outro dos mensageiros de Deus. Devemos honrá-los eqüitativamente, embora saibamos que Deus, em Sua Sapiência, enviou-os com missões diferentes e deu-lhes diferentes graus de consideração.

134. Ver nota do versículo 1 da 2ª Surata.

135. Em algumas edições, a interrupção entre os versículos 3 e 4 ocorre na palavra "discernimento" (furcan). Nós achamos por bem seguir a divisão acatada pelos exegetas egípcios e sauditas. Porém, isso não implica em diferença alguma quanto à numeração dos versículos, uma vez que há somente a questão de se uma linha deve ou não passar para o versículo 3 ou para o 4.

136. Esta passagem nos proporciona um importante indício para interpretação do Alcorão Sagrado. Falando de modo amplo, ele deve ser dividido em duas partes, não dadas em separado, mas interligadas, assim: o núcleo ou substância do Livro é a parte figurada, metafórica, alegórica. é deveras fascinante o tomarmos a última parte para testar a nossa imaginação, quanto ao significado intrínseco; contudo, ela se refere a tão profundo assunto, para o qual a linguagem humana é inadequada e, muito embora pessoas de sapiência retirem alguma luz disso, ninguém deve ser dogmático, pois que o significado último somente é conhecido por Deus. O exegetas, costumeiramente, acham que os "versículos fundamentais" se referem às ordens categóricas da Chari’a (ou a Lei), que é acessível ao entendimento de qualquer um. Todavia, o significado talvez seja mais amplo, ou seja, a essência da Mensagem de Deus, que é distinta das várias parábolas, alegorias e dos rituais ilustrativos.

137. Assim como Moisés preveniu os egípcios, também o aviso aqui é dirigido aos árabes idólatras, aos judeus e aos cristãos, e a todos aqueles que resistem à Fé, admoestando-os que sua resistência será em vão. As décadas seguintes viram a queda dos impérios bizantino e persa, por causa da sua arrogância e da sua resistência às Leis de Deus.

138. Refere-se à batalha de Badr, no mês de Ramadan, no segundo ano da Hégira. A pequena comunidade muçulmano-maquense, exilada, em amigos em Madina, havia-se organizado em uma comunidade temente a Deus, mas estava em constante perigo de ser atacada por seus inimigos idólatras de Makka, em aliança com alguns dos elementos desafeiçoados (judeus e hipócritas), dentre ou perto da própria Madina. O escopo dos habitantes de Makka era juntarem todos os recursos de que dispunham e, com uma força colossal, esmagar e aniquilar Mohammad e seus partidários. Com esse fito, Abu Sufian estava dirigindo uma caravana ricamente carregada, da Síria para Makka. Ele pediu reforço armado a Makka. A batalha foi travada na planície de Badr, a sudoeste de Madina. A força muçulmana consistia de somente 313 homens, a maior parte deles desarmados; porém, eram liderados por Mohammad, e lutavam por sua fé. O exército maquense estava bem armado e bem equipado, com mais de 1.000 homens, e tinha entre seus líderes alguns dos mais experimentados guerreiros da Arábia, incluindo Abu Jahl, o inveterado inimigo do Islam. A braços com todas as espécies de vicissitudes, os muçulmanos conseguiram uma brilhante vitória, e muitos líderes inimigos, inclusive Abu Jahl, foram mortos.

139. Os prazeres deste mundo são, primeiro, enumerados: mulheres, para o amor carnal; filhos, para o reforçamento e o orgulho; riquezas acumuladas, que proporcionassem todas as luxurias; cavalos das melhores e mais finas raças, vasto rebanho de gado - sinal de abastança no mundo antigo, bem como no moderno - ; muitos acres de terra cultivada. Por analogia, podemos incluir, na nossa era mecanizada, máquinas de todas as espécies - tratores, automóveis, aviões, motores com a melhor combustão interna etc. em "entesouramento do ouro e da prata", a palavra árabe para entesouramento é canatir, plural de quintar, que literalmente significa quintal (equivale a 100 kg).

140. A palavra para iletrado é Ummi-i, que também quer dizer árabe.

141. Os exemplos do Profetas assassinados são: "Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem vós destes a morte entre o Templo e o Altar" (Mateus, 23:35). Comparar com o versículo 61 da 2ª surata e com a sua respectiva nota.

142. Os exegetas mencionam um destacado incidente em que uma discussão foi submetida, pelos judeus, ao arbítrio do Mensageiro. Ele apelou para a autoridade do próprio livro deles, a qual eles tentaram dissimular, prevaricando. A lição geral é que os adeptos do Livro deviam ser os primeiros a reconhecer em Mohammad o expoente vivo da mensagem de Deus, como um todo; e alguns deles assim fizeram; outros, porém, esquivaram-se, por arrogância, apoiando-se em textos distorcidos e em doutrinas forjadas, produtos dos seus próprios caprichos, uma vez que não eram afeitos à razão e ao bom-senso.

143. Outra passagem gloriosa, plena de significado - tanto patente como místico. A frase regente é "Em Tuas mãos está todo o Bem". Qual é o padrão pelo qual devemos julgar o bem? É a Vontade de Deus. Por conseguinte, quando nos submetemos à vontade de Deus, tendo o Islam a nos iluminar, vemos o bem como sublime. Tem havido, e há, muita controvérsia, quanto ao que seja o Bem Sublime. Para os muçulmanos não há dificuldade: É a vontade de Deus. Eles devem sempre empenhar-se em aprender e compreender tal Vontade. E, uma vez nessa fortaleza, eles estarão seguros. Não se atribularão com a natureza do Mal. Este constitui a negação da vontade de Deus. O Bem está em conformidade com a vontade de Deus.

144. Verdade, em muitos sentidos. A cada doze horas, a noite se transforma em dia e o dia em noite, e não há limite específico entre eles. A cada ano solar, a noite se alonga em relação ao dia, depois do solstício de verão, e o dia se alonga em relação à noite, no solstício de inverno. Num sentido mais amplo, contudo, se considerarmos a luz e as trevas como símbolos de conhecimento e ignorância, felicidade e sofrimento, discernimento espiritual e cegueira mental, poderemos dizer que os Desígnios ou a Vontade de Deus evidenciam-se tanto no mundo espiritual como no mundo material, e que em Suas Mãos está todo o bem.

145. Podemos interpretar a morte em sentido ainda mais amplo do que o da noite: morte física, intelectual, emocional e espiritual. A vida e a morte podem ser, também, aplicadas a coletividades, a grupos, e à vida nacional. E quem alguma vez solveu os mistérios da vida? Porém, a fé refere-se a eles como sendo dos Desígnios e da Vontade de Deus.

146. O nascimento de Maria - mãe de Jesus - , o de João Batista, o precursor de Jesus - , e o de Jesus - o profeta de Israel, que os israelitas rejeitaram, ocorreram em ordem cronológica, e nessa ordem são relatados. Zacarias não esperava por um filho comum. Ele e sua esposa já haviam passado da idade da paternidade e da maternidade, respectivamente. Ele orou pelo surgimento de alguma criança proveniente de Deus: "Ó Senhor meu, concede-me uma ditosa descendência". Para a sua surpresa, foi-lhe concedido um filho, João - Yáhia em árabe - de sua carne.

147. Aqui iniciamos a história de Jesus. Como prelúdio, temos o nascimento de Maria e a narrativa paralela de João Batista, Yáhia, o filho de Zacarias. Isabel, mãe de Yáhia, era prima de Maria, mãe de Jesus. Isabel era uma das filhas de Aarão, irmão de Moisés e filho de Imran. Seu marido, Zacarias, era virtualmente um sacerdote, e sua prima, Maria, era também presumidamente de família sacerdotal. Pela tradição, a mãe de Maria chamava-se Hannah (em latim Anna e em português Ana) e seu pai chamava-se Imran. Hannah é, por conseguinte, tanto descendente da casa sacerdotal de Imran como esposa de Imran, - uma mulher de Imran, num sentido duplo.

148. Messias; a forma hebraica e árabe é Massih. Cristo (em grego Christos), que quer dizer "o ungido". Os reis e os sacerdotes eram ungidos para que aquilo simbolizasse a consagração dos seus destinos especiais.

149. O apostolado de Jesus durou apenas cerca de três anos, dos 30 aos 33, quando, ao ver dos seus inimigos, ele foi crucificado. Porém, o Evangelho de Lucas (2:46), descreve-o parlamentando com os provectos do Templo, tendo a idade de 12 anos ou menos, ainda uma criança: "Entretanto o menino crescia, e se fortificava, estando cheio de sabedoria: e a graça de Deus era com ele" (Lucas 2:40). Alguns Evangelhos apócritos descrevem-no como "pregando desde a infância".

150. Este milagre dos pássaros de barro é encontrado em alguns Evangelhos apócritos; os da cura dos cegos e dos leprosos, e o da ressurreição dos mortos, encontram-se nos Evangelhos canônicos. O Evangelho original (3ª surata, versículo 48) não se constituía das várias histórias escritas mais tarde pelos discípulos, mas da verdadeira Mensagem, ensinada diretamente por Jesus.

151. A história de Jesus é contada com uma aplicação especial, ao tempo do Profeta Mohammad. Note-se a palavra "colaboradores" (ansar), a este respeito, e "conspiraram", no versículo 54 desta surata. A religião do Mensageiro era a única Religião, a Religião de Deus, que era, em essência, a religião de Abraão, de Moisés e de Jesus. A argumentação se desenrola: "por que, então, fazeis divisões e rejeitais o Mestre vivente?" O Islam consiste em a pessoa curvar-se à Vontade de Deus. Todos os que têm fé devem curvar-se à Vontade de Deus e ser muçulmanos.

152. A palavra árabe makara tem sentido tanto destrutivo como edificante, ou seja, de maquinar planos intrincados ou de desenvolver algum propósito secreto benéfico. Os inimigos de Deus estão constantemente fazendo o primeiro. Porém Deus, em Cujas mãos repousam todas as coisas boas, tem também os Seus planos, contra os quais os malévolos não têm poder algum.

153. No ano das delegações, 10º da Hégira, fez-se, oriunda de Najran (dirigindo-se para o Iêmen, cerca de 240 km ao norte de Saná), uma embaixada cristã. Os seus integrantes tinham ficado muito impressionados ao ouvirem esta passagem do Alcorão, explicando a verdadeira posição de Cristo, e entraram em relações tributárias com o recém-formado Estado Muçulmano. Porém, hábitos e costumes arraigados evitaram que aceitassem de todo o Islam. O Mensageiro, firme em sua fé, propôs um encontro solene (Mubahala), no qual os dois lados convocariam não apenas os seus homens, mas as suas mulheres e crianças, orariam sinceramente a Deus, e invocariam a maldição de Deus sobre aqueles que mentissem. Aqueles que possuíssem uma fé sincera e pura não hesitariam.

154. Estamos, agora, em condições de tratar a questão interrompida no versículo 87 da 2ª Surata. Jesus nada mais é do que um homem. É contra o princípio da razão e da Revelação chamá-lo de Deus ou de Filho de Deus. Ele é denominado o filho de Maria, para deixar isto claro. Não teve pai humano algum conhecido, já que seu nascimento foi de natureza milagrosa. Os milagres que permeiam a sua história relatam não somente o seu nascimento, a sua vida e morte, mas também a história de sua mãe, Maria, e do seu precursor, João. Estes eram os "sinais evidentes" que ele traria. Foram aqueles que o interpretaram mal que obscureceram os seus sinais evidentes e o cercaram de seus próprios mistérios.

155. Falando de modo abstrato, os adeptos do Livro concordariam com todas as proposituras. Nas prática, porém, isso não se daria. À parte dos lapsos da doutrina quanto à unicidade do Único e Verdadeiro Deus, não existia a questão de um sacerdócio consagrado (entre os judeus isso era também hereditário), como se um simples ser humano - Cohen, ou o Papa, ou o Padre, ou Brama - pudesse reivindicar superioridade, para além do seu aprendizado, ou da pureza da sua vida, ou pudesse se colocar entre o homem e Deus, de algum modo especial.

156. Comparar com o versículo 135 da 2ª Surata e com todos os argumentos daquela passagem.

157. Os adeptos do Livro eram duplamente intrigantes para com as pessoas muçulmanas: primeiramente porque, não pertencendo elas à sua estirpe, receberam a Revelação; em segundo lugar porque, tendo-a recebido, admoestavam-nos segundo as suas próprias escrituras, perante o seu Senhor!

158. Quintal de ouro (quintar): um talento de 1200 onças de ouro.

159. Dinar: moeda de prata; no Império Romano tardio, o denarius era uma pequena moeda de prata, do tamanho da de 5 centavos atuais.

160. Os judeus tinham feito um pacto com o Profeta, no ano 1º da Hégira; porém, logo o quebraram.

161. Comparar com o versículo 63 da 2ª Surata. O tema é: Vós (adeptos do Livro) estais comprometidos, pelos vossos votos, solenemente juramentados na presença dos vossos próprios profetas. No Antigo Testamento, como atualmente existe, são citados Mohammad (Deuteronômio 18:18), e a ascensão da Nação Árabe (em Isaías 42:11), porque Kedar era filho de Ismael, sendo este nome usado para designar a Nação Árabe. No Novo Testamento, como atualmente existe, Mohammad é vaticinado (João 14:16, 15:26 e 16:7). O futuro Consolador não pode ser o Espírito Santo pretendido pelos cristãos, uma vez que este já estava presente, auxiliando e guiando Jesus. A palavra grega que se traduziu por " Consolador" é "Paracletos", a qual, por sua vez, é uma patente corruptela de "Periclytos", que constitui quase uma tradução literal de "Mohammad" ou "Ahmad" ( 61ª Surata, versículo 6). Reforçando esta tese, houve outros evangelhos, perdidos no tempo, mas que deixaram traços, que eram ainda mais específicos ao se referirem a Mohammad; por exemplo, o Evangelho de Barnabé, cuja tradução italiana se encontra na Biblioteca Nacional de Viena. Ela foi editada em 1907.

162. A verdade de Deus é evidente, sendo que tudo o que é bom, e é verdadeiro, e é sadio, e é normal, aceita-a com júbilo. Todavia, mesmo que haja "morbidez no coração" (2ª Surata, versículo 10), ou o julgamento esteja obscurecido pela perversidade, todas as criaturas devem constatar a existência de Deus e se conscientizar d’Ele e do Seu Poder (2ª Surata, versículo 167).

163. O termo "muçulmano" é derivado da palavra Islam, que quer dizer: submissão à vontade de Deus.

164. A posição do muçulmano é clara. Ele não se ufana de ter uma religião peculiar, só para si. O Islam não é uma seita ou uma religião étnica. Na sua opinião, todas as religiões são como uma única, pois que a verdade é uma só. Foi a religião decantada por todos os profetas primevos. Foi a verdade ensinada por todos os Livros inspirados. Em essência, ela galga à conscientização da Vontade e dos Desígnios de Deus, e a uma jubilosa submissão a essas características. Se alguém desejar outra religião que não seja essa, será farsante para com a sua própria natureza, assim como pérfido para com a Vontade e os Desígnios de Deus. Tal pessoa não poderá esperar por diretriz alguma, porquanto tem, deliberadamente, renunciando a ela.

165. Os árabes comiam carne de camelo, coisa lícita no Islam, porém proibida pela Lei Mosaica (Levítico 11:4). Ora, tal Lei era muito rígida, devido à "dureza de coração" de Israel, e por causa da insolência e da iniqüidade dos israelitas (6ª Surata, versículo 146). Antes de ela ser promulgada, os israelitas eram livres para escolherem a sua própria alimentação.

166. A grande liberdade do Islam, na questão de leis cerimoniais, comparada às Leis Mosaicas, está no fato de não se constituírem numa reprimenda, mas sim numa admoestação. Voltamo-nos para uma fonte mais antiga do que a do judaísmo - as instituições de Abraão. Todos são unânimes em afirmar que a sua fé era sadia, e que ele certamente não era idólatra, termo este insolentemente atribuído aos árabes para parte dos judeus.

167. Bakka: o mesmo que Makka; talvez um nome mais antigo. A fundação da Caaba remonta aos tempos de Abraão, mas há locais alusivos, no território sagrado, aos nomes de Adão e Eva; por exemplo, em Arafat, o Monte da Misericórdia (ver o versículo 197 da 2ª Surata e a sua respectiva nota).

168. Álamin: que quer também dizer todos os mundos; todas as espécies de seres; todas as nações; todas as criaturas.

169. Há temores de várias espécies: o execrado temor do covarde; o temor de uma criança, ou de um simplório, face a um perigo desconhecido; o temor de uma pessoa racional, que deseja evitar dano para si e para aqueles que quer proteger; a reverência afim ao amor, que teme fazer algo que desagrade ao objeto desse amor. O temor da primeira espécie é indigno do homem; o da segunda é próprio daqueles espiritualmente imaturos; o da terceira é mais uma precaução contra o mal, enquanto este não estiver subjugado; e o da quarta, é o esteio da virtude. Aqueles afeitos à fé cultivam o da quarta espécie; nos estágios primitivos podem apropriar-se do da segunda ou da terceira; têm medo, mas não de Deus. O da primeira é um sentimento do qual qualquer um deve envergonhar-se.

170. Todo o nosso ser deve estar impregnado do Islam; este não deve ser um simples invólucro superficial ou um espetáculo aparatoso.

171. O símile é de pessoas debatendo-se em águas profundas, às quais a Providência arremessa uma forte e inquebrável tábua de salvação. Se todos juntos se agarrarem firmemente a ela, os seus esforços mútuos propiciar-lhes-ão a oportunidade de se salvarem.

172. O "rosto" (wajh) expressa a nossa personalidade, o nosso ser interior. O branco é a cor da luz; tornar-se brando é estar iluminado pela luz, o que quer dizer estar pleno de felicidade, dos raios da gloriosa luz de Deus. O preto é a cor das trevas, do pecado, da rebeldia, da miséria, e da remoção da graça e da luz de Deus. Constituem também, os sinais do céu e do inferno. O padrão da decisão, em todas as questões, constitui a justiça de Deus.

173. A conclusão lógica da evolução da história religiosa é o surgimento de uma religião universal não sectária, não racial e não doutrinária, à qual o Islam se arroga o direito. Porque o Islam é apenas a submissão à Vontade de Deus. Isso implica em : fé, bem-proceder, ser um exemplo para os outros, quanto a fazer o bem, e ter o poder de fiscalizar, no sentido de que o bem prevaleça; abster-se do erro, dando exemplo, para que outros se abstenham dele, e tendo poder de fiscalizar, no sentido de que a injustiça e o erro sejam erradicados. Portanto, o Islam vive, não em função de si mesmo, mas em função de toda a humanidade. Quanto aos adeptos do Livro, tivessem eles tido fé, ter-se-iam tornado muçulmanos, uma vez que foram preparados para o Islam. Infelizmente, há a descrença que, contudo, não pode causar dano àqueles que empunham o estandarte da Fé e do Direito, os que deverão, sempre, sair-se vitoriosos.

174. "Gastar" falsamente pode tanto ser em falsa "caridade", como em "divertir-se". Porque aqueles que resistem aos propósitos de Deus, nenhum deles é, em nada, bom. A essência da caridade é a fé e o amor. Onde não há estes dois elementos, a caridade não é caridade. Algum motivo vilipendiador existe aí; ostentação, ou coisa pior, colocando a pessoa sob o jugo do fornecedor, por uma pretensa caridade, algo ligado à vida deste mundo, avaro e material. Que acontece, então? Tu esperas boa colheita; porém, "enquanto pensas", ó homem de Deus, em como a tua riqueza se está desenvolvendo, vem o vento glacial e destrói todas as tuas esperanças. O vento consiste nalguma calamidade ou no fato que tu constataste! Ou talvez seja "orgulho próprio". Em teu desespero, tu talvez culpes o destino cego, ou talvez culpes a Deus! O destino cego não existe, porque existe a Providência Divina, justa e benevolente. O dano ou a injustiça não procedem de Deus, mas da tua própria alma. Tu conduziste a tua alma por veredas errôneas, e sofreste os efeitos do vento glacial. Todo o espetáculo de bravura dos iníquos, nesta vida, nada é, senão um vento glacial, acompanhado por malefícios para si próprio.

175. O Islam nos proporciona a revelação completa: "em todos os Livros", embora revelações parciais tenham aparecido em todas as épocas. (Comparar com o versículo 23 desta surata e com a sua respectiva nota).

176. A batalha de Uhud foi um grande teste para a jovem Comunidade Muçulmana. O brio, a sapiência e a robustez do seu líder haviam sido mostrados na batalha de Badr (versículo 13 desta surata, e respectiva nota), na qual os idólatras de Makka sofreram uma esmagadora derrota. Eles estavam determinados a vingar a sua desdita e a aniquilar os muçulmanos, em Madina. Atingiam o número de cerca de 3.000 combatentes, sob a direção de Abu Sufian, e estavam tão confiantes na vitória, que levaram suas companheiras, as quais revelaram a mais vergonhosa selvageria depois da batalha. Face ao perigo iminente, Mohammad, com a sua costumeira visão, coragem e iniciativa, resolveu tomar sua posição no sopé do Monte Uhud, que ficava a cerca de 5 km ao norte da cidade de Madina. Cedinho, pela manhã, no dia 16 de Chawal, 3H (janeiro de 625), ele estabeleceu as disposições para a batalha. Ao sul de onde estavam, achava-se a catarata de Nullan; e no desfiladeiro, entre os montes, atrás, achavam-se 50 arqueiros para impedir um ataque inimigo pela retaguarda. O inimigo estava empreendendo a tarefa de atacar as muralhas de Madina, tendo, à sua retaguarda, os muçulmanos. Em princípio, a batalha teve um desenrolar auspicioso para os muçulmanos. O inimigo vacilava; os arqueiros muçulmanos, porém, em desobediência às ordens, abandonaram os seus postos para se juntarem aos outros na perseguição aos inimigos e para a partilha dos despojos. O inimigo tirou vantagem da lacuna deixada pelos arqueiros, o que resultou numa encarniçada luta corpo a corpo, na qual a superioridade favoreceu o inimigo. Muitos dos companheiros do Profeta e dos socorredores foram mortos. Contudo, os muçulmanos não debandaram. Entre os mártires muçulmanos encontrava-se Hamza, um dos irmãos do pai do Mensageiro. As tumbas dos mártires são ainda mostradas em Uhud. O próprio Mensageiro foi ferido na cabeça e no rosto, tendo arrancado um dos seus dentes da frente. Não fosse por sua firmeza, sua coragem e sua serenidade, tudo estaria perdido. Todavia, o Mensageiro, a despeito do seu ferimento, e de muitos outros muçulmanos feridos, inspirados pelo seu exemplo, voltaram ao campo de batalha no dia seguinte, e Abu Sufian e seu exército maquense acharam a retirava mais prudente. Madina estava salva, mas os muçulmanos aprenderam a sua lição de fé, constância, firmeza e imperturbabilidade.

177. Badr dista aproximadamente 80 km de Madina, e o encontro entre muçulmanos e coraixitas deu-se numa terça-feira, 17 de Ramadan do ano 2H - 13 de março de 624 d.C. Foi a primeira batalha entre os muçulmanos e os idólatras coraixitas. O número de combatentes muçulmanos era de aproximadamente 300, providos de 70 camelos e 2 cavalos, ao passo que o número de combatentes inimigos elevava-se a 1.000, providos de todo o tipo de armamento. A batalha terminou com a vitória dos muçulmanos. É considerada como a mais importante batalha, pois foi a primeira vitória dos muçulmanos sobre os idólatras.

178. Uma falange de incrédulos: uma extremidade, um fim tanto superior como inferior. Aqui talvez a passagem deva significar que os chefes dos idólatras de Makka, que chegaram para exterminar os muçulmanos, com tal confiança, voltaram frustrados em seus propósitos. A desavergonhada voracidade com que eles e suas companheiras mutilaram os cadáveres dos muçulmanos, no campo de batalha, deixara indelevelmente patenteada a sua eterna infância. Isso talvez servisse para demonstrar a sua real natureza a alguns dos que lutaram por eles, um dos quais, Khaled Ibn al Walid, não somente aceitou, depois, o Islam, mas ainda se tornou um dos seus mais notáveis paladinos. Ele estava com os muçulmanos na conquista de Makka e, mais tarde, conseguiu destacadas honrarias na Síria e no Iraque.

179. A verdadeira prosperidade não consiste na cupidez, mas no franqueamento de nós próprios e dos nossos recursos à causa de Deus, à verdade de Deus e ao serviço das criaturas de Deus.

180. O Fogo (131, desta Surata) contrasta, como sempre, com o Jardim no sentido espiritual; em outras palavras, o inferno contrasta com o céu. Conquanto pensemos que o céu seja uma espécie de jardim material confinado, algures no firmamento, é-nos elucidado que somente a sua largura tem a dimensão de todo o céu e de toda a terra juntos, com toda a criação que podemos imaginar. Em outras palavras, a nossa felicidade espiritual não somente abrange esta ou aquela parte do nosso ser, mas todas as vidas e todas as existências. Quem lhe poderá medir a largura, o comprimento ou a altura?

181. Somente a Verdade de Deus é duradoura e se sobreporá a tudo, no fim. Se houver derrota, não deveremos descoroçoar, perder o ânimo ou abandonar a porfia. A fé demanda esperança, diligência, labuta constante, para atingir a meta.

182. Estas considerações gerais aplicam-se, particularmente, ao desastre de Uhud. Num combate pela fé, se alguém for ferido, saiba que o adversário também sofreu baixas consideráveis. O sucesso ou o fracasso, neste mundo, acontecem para todos, em tempos diversificados; não devemos resmungar, uma vez que não nos conscientizamos de todo o plano de Deus. O brio do homem é conhecido na adversidade, assim como o ouro é testado no fogo.

183. Batalha de Uhud.

184. Este versículo se refere, primordialmente, à batalha de Uhud, em cujo decorrer houve um clamor de que o Mensageiro havia sido morto. De fato, ele fora seriamente ferido, mas Tal’a, Abu Bakr e Áli estavam ao seu lado para o socorrer, e a incontente bravura deles salvou o exército muçulmano de uma completa derrota. Este versículo foi lembrado, novamente, por Abu Bakr, quando o Mensageiro morreu de morte natural oito anos depois, para lembrar o povo de Deus, Cuja Mensagem ele trouxe, viveria para sempre. E nós temos de nos lembra disto, agora e freqüentemente, por duas razões: quando no sentimos inclinados a dispensar honrarias àqueles que foi o mais veraz, ao mais puro e o maior dos homens, isto no sentido de compensar o nosso enriquecimento de espírito, com os seus ensinamentos; e quando nos sentimos deprimidos pelas nuanças e mudanças de tempo, e nos esquecemos de que o Eterno Deus vive e vela por nós, bem como por todas as Suas criaturas, agora como em toda a história, passada e futura.

185. Há um sutil toque de ironia nisto. No que tange aos arqueiros de Uhud, que desertaram dos seus postos para empreenderem a pilhagem, eles talvez tenham conseguido a sua partilha, mas ao preço de se exporem, bem como a todo o exército, a grande risco. Por causa de um ínfimo ganho terreno, quase perderam as suas almas. Por outro lado, quanto àqueles que ampliaram as suas visões e combateram com denodo, em disciplina, sua recompensa foi preste e segura. Se morressem, poriam sobre as cabeças a coroa do martírio; se vivessem, seriam considerados heróis e honrados, neste mundo e no outro.

186. A ordem era: não se precipitarem em recolher os despojos, mas manterem estrita disciplina. Uhud principiava a se constituir numa vitória para os muçulmanos. Muitos dos inimigos foram mortos, e eles já começavam a se retirar, quando uma parte dos muçulmanos, contra as ordens, encetou a perseguição, atraída pela perspectiva de polpudos despojos.

187. A princípio, a desobediência lhes pareceu prazerosa: estavam perseguindo os inimigos, e havia a perspectiva de despojos. Porém, quando a lacuna foi percebida pelo inimigo, este cerrou fileira em torno da montanha, e quase esmagou os muçulmanos. Não fosse pela graça de Deus e pela firmeza do seu líder e dos seus companheiros imediatos, eles estariam acabados.

188. Parece que um contingente de cavaleiros, conduzido pelo arrojado Khaled Ibn al Walid, apareceu por entre o vazio do desfiladeiro em que os arqueiros deveriam estar e, na confusão que se originou, o antagonista se reorganizou e afoitou-se sobre os muçulmanos. Da planície, os muçulmanos, por sua vez, retrocederam e tentaram reconquistar o morro. Estavam, agora, em dupla desvantagem: estavam atulhados com os despojos que haviam obtido, e muitas vidas tinham sido ceifadas das suas fileiras, de maneira que as suas próprias vidas e as de todo exército estavam em perigo. Com as suas vidas em jogo, eles mal tinham tempo de lamentar a perda dos despojos ou a calamidade geral. Contudo, isso lhes deu consistência, e alguns deles passaram no teste.

189. Depois da surpresa inicial, quando o inimigo caiu em cima deles, uma grande parte dos muçulmanos deu o melhor de si; e, constatando-lhes o brio, o inimigo retirou-se para seu campo. Houve então uma trégua; os feridos descansaram; aqueles que haviam lutado ferrenhamente foram bafejados por um benfazejo sono, esse bálsamo da Natureza. Contrastando com estes, destacava-se seqüela dos hipócritas, cujo comportamento é descrito na nota seguinte.

190. Os hipócritas se retiraram da luta. Aparentemente, eles tinham ficado com aqueles que permaneceram supervisionando a defesa de Madina, dentro das suas muralhas, em vez de saírem intrepidamente ao encontro do inimigo. Sua apreensão era causada pelo seu próprio estado mental; o sono dos justo foi-lhes negado; consequentemente, eles não cessavam de murmurar sobre o que tinha acontecido. Somente os tolos procedem assim; os sábios encaram os acontecimentos.

191. Era dever de todos os que estivessem capacitados, combater pela causa sagrada, em Uhud. Mas uma pequenas seqüela mostrava-se tímida; seus integrantes não eram tão maus como aqueles que reclamavam contra Deus, ou aqueles que insensatamente desobedeciam ordens. Mesmo assim, eles não cumpriram com o dever. São os nossos propósitos interiores que Deus considera. Aquelas pessoas timoratas foram esquecidas por Deus. Talvez, se houvesse para elas uma outra oportunidade, aproveitá-la-iam e cumpririam o seu dever.

192. É a carência de fé que faz com que as pessoas tenham medo de enfrentar a morte, de cumprir com o dever quando este envolve perigo - viajar para ganhar um sustento honesto, ou lutar por uma causa sagrada. Tal temor é parte do castigo pela carência de fé. Se temos fé, não há o que temer em encontrar a morte (ainda mais sabendo que ela nos transportará para mais perto da nossa meta), nem tampouco em encarar o perigo decorrente de uma causa nobre, porque sabemos que a chave da vida e da morte está nas mãos de Deus. Nada acontece, se não for pela vontade de Deus. Se for de Sua vontade que morramos, a nossa permanência em casa não nos salvará. Se for de Sua vontade que percamos a vida, existem três considerações que fazem com que ansiemos por enfrentar o perigo: primeiro, morrer no cumprimento do dever é o melhor meio de alcançar a Graça de Deus; segundo, o homem que tem fé sabe que não irá para nenhum lugar desconhecido - irá para mais perto de Deus; terceiro, ele será "congregado", junto a Deus. Ali encontrará os seus caríssimos companheiros de fé.

193. Nota-se, aqui, um magnífico toquezinho de literatura. À primeira vista, esperar-se-ia, neste caso, a 2ª pessoa "acumulardes", para concordar com a 2ª pessoa da primeira clausura. Contudo, lembremo-nos de que a 2ª pessoa, na primeira clausura, refere-se às pessoas de fé, e de que a 3ª pessoa, na última clausura, refere-se aos incrédulos, como se se dissesse: "Certamente que vós, homens de fé, não vos afeiçoareis a acumular riquezas. O vosso tesouro - o dever e a misericórdia de Deus são muitíssimos mais preciosos do que qualquer coisa que os incrédulos possam acumular nas suas vidas egoístas...

194. A natureza extremamente cândida de Mohammad tornava-o caro a todos, e isso é reconhecido como uma das Misericórdias de Deus. Um dos títulos do Mensageiro é "Misericórdia para toda a Humanidade". Em ocasião alguma tal candura, tal misericórdia, tal sofrimento prolongado, decorrentes da fraqueza humana, foram tão valiosos como depois do desastre de Uhud. Era uma qualidade divina, que, então, como sempre acontece, reatou neles os laços das almas de incontáveis homens.

195. Além de afabilidade de sua natureza, Mohammad era conhecido, desde tenra idade, por sua fidedignidade. Daí o seu título de Al-Amin. Pessoas inescrupulosas freqüentemente descarregam os seus chãos propósitos em outras; mas acontece que suas acusações, que deveriam causar danos, incrementam as várias virtudes pelas quais a pessoa atacada é conhecidíssima. Depois de Uhud, alguns dos hipócritas suscitaram dúvidas quanto à divisão dos despojos, intentando plantar a semente da discórdia nos corações dos homens que tinham desertado dos seus postos em sua ânsia pelos mesmos. Tais meandros rasteiros não foram acreditados por pessoa sensível alguma, o que não tem interesse algum para nós, agora. Todavia, os princípios gerais, aqui declarados, são de valor perpétuo. Os homens de Deus não agem movidos por razões indignas. Os que assim agem são criaturas espiritualmente ínfimas, mas não tirarão proveito disso. Não se deve julgar um homem de Deus pelos mesmos padrões com que se julgam as criaturas cúpidas. Aos olhos de Deus, há vários graus de homens, e nós devemos tentar compreender e considerar tais graus. Se confiamos em nosso líder, não devemos inquirir quanto à sua honestidade sem justa causa. Se ele é desonesto, não está qualificado para se o nosso líder.

196. Trata-se das batalhas de Uhud e de Badr, respectivamente. Se Uhud constituiu um revés para os muçulmanos, eles haviam infligido um revés duas vezes maior aos habitantes de Makka, em Badr. Tal revés não se deu sem a permissão de Deus, uma vez que Ele queria testar e purificar a fé daqueles que seguiam o Islam, e mostrar-lhes que deveriam porfiar e fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para merecerem o adjutório de Deus.

197. Uma bela passagem acerca dos mártires pela causa da verdade. Eles não estão mortos; vivem, num sentido mais altruístico e profundo do que o da vida que deixaram. Mesmo aqueles que não acreditam no além-túmulo, honram as memórias dos que perecem por nobres causas colocando a coroa da imortalidade nas mentes e nas memórias das gerações ainda por nascer. Mas, no caso da fé, nós divisamos uma mais elevada, mais verdadeira e menos relativa imortalidade. Quem sabe, "imortalidade" não seja a palavra certa nesta contextura, uma vez que também implica na continuidade desta vida. No caso deles, através do portal da morte, adentram a verdadeira e real vida, em oposição à sua sombra aqui. A nossa vida carnal é sustentada por alimentação material, e suas alegrias e seus prazeres, no que há de melhor, são aqueles projetados na tela do nosso mundo corpóreo.

198. Depois da confusão em Uhud, os homens passaram a se reagrupar em torno do Mensageiro. Este estava ferido e eles também, mas todos estavam prontos para combater novamente. Abu Sufian e seus idólatras se retiraram, mas lançaram um desafio, no sentido de encontrar o Profeta e seu exército, novamente, na feira de Badr, no ano seguinte. O desafio foi aceito, e um grupo de muçulmanos, escolhidos a dedo, sob a direção do seu intrépido líder, cumpriu a palavra, mas o inimigo não compareceu. Os muçulmanos voltara, não apenas ilesos, mas enriquecidos pelos negócios que fizeram na feira e (presume-se) fortificados pelo acréscimo de novos aderentes à sua causa.

199. O homem, em seu estado de firmeza, seria mais miserável se pudesse desvendar os segredos do Futuro ou do Incognoscível. Porém, as realidades são-lhes reveladas, de tempos em tempos, quando oportuno, por mensageiros escolhidos para o propósito. É nosso dever apegarmo-nos à fé e conduzirmo-nos bem pela vida.

200. As graças são de toda a espécie; materiais, tais como riqueza, propriedade, força física etc.; graças intangíveis, tais como: influência, berço de ouro, inteligência, destreza, visão ampla, etc.; graças espirituais do mais alto teor. Despendermos de todas essas faculdades (excetuando-se o que for necessário para nós mesmos), em prol daqueles que necessitam delas, constitui caridade e purifica o nosso próprio caráter. Recusá-la (excetuando-se o que for de nossa necessidade) constitui, de igual modo, cupidez e egoísmo, e é energicamente condenável.

201. Por meio de uma metáfora apropriada, é asseverado que a sua riqueza, ou quaisquer outras graças que ele tenha acumulado, circundar-lhe-ão o pescoço, e não lhe proporcionarão qualquer bem. Desejará livrar-se daquilo, mas não será capaz. De acordo com a frase bíblica, com outra conotação, aquelas cosias parecer-lhe-ão como uma mó de moinho, em torno do pescoço (Mateus, 18:6). A metáfora, aqui, é mais consistente. Ele abraçou-se, sofregamente, à sua riqueza ou às suas graças. Estas constituir-se-ão em pesado colar, labéu do cativeiro, em torno do seu pescoço. Estarão fortemente atadas e retorcidas, e lhe causarão dor e angústia, em vez de prazer.

202. No versículo 245 da 2ª Surata, lemos: "Quem está disposto a emprestar a Deus, espontaneamente?" Em outros locais, a caridade ou o despender na senda de Deus é metaforicamente descrita como "dar a Deus". O Mensageiro empregava, freqüentemente, essa expressão, para angariar fundos a serem despendidos na senda de Deus. Os escarnecedores zombava, dizendo: "Então, Deus é pobre e nós somos ricos." Tal blasfêmia coadunava-se com toda a sua conduta na história, ao assassinarem os profetas e os diletos de Deus.

203. Os três tópicos mencionados no texto são: Evidências (baiyinat), Zubur; Kitabun-Munir. O significado do primeiro, num sentido mais generalizado, é a clara evidência que a Ação Divina dispensa ao dileto de Deus, que carrega uma verdadeira missão; por exemplo, Moisés, em relação ao Faraó. Traduzimos o segundo por Salmos, já que a raiz zabara implica em algo duro. Os exegetas não concordam, mas os escritos proféticos, que parecem difíceis de ser entendidos pelos contemporâneos, podem muito bem aparecer sob esta descrição. Os Salmos de Davi (4:163) podem, também, aparecer sob esta descrição. Quanto ao terceiro, não há dúvida sobre o significado literal das palavras "Livro Luminoso". Mas, ao que se refere, precisamente? Nós o temos como guia fundamental da conduta - normas claras, injungiras a todas as disposições, para auxiliar os homens a bem dirigirem as suas vidas.

204. A alma não morrerá; mas a morte do corpo dará um sabor de morte à alma, assim que esta se separar do corpo. A lama constatará, então, que esta vida nada mais era do que provação. E as desigualdades aparentes serão, finalmente, ajustadas, no Dia do Juízo Final.

205. Todo este mundo é um espetáculo fugidio dado para ilusão do homem, "porquanto são fornecidas ao homem ilusões". A única Realidade aparecerá quando tivermos atingido a nossa meta final.

206. Não somente a riqueza e os haveres (ou a carência deles) serão instrumentos de nossa provança, mas todos os nossos talentos pessoais, os nossos conhecimentos, as nossas oportunidades, e os seus reversos; em verdade, tudo que nos acontece e que desenvolve a nossa personalidade, constitui um meio de nos testar. Assim acontece com a nossa fé: devemos por ela suportar insultos da parte daqueles que não compartilham dela.

207. A Verdade - a Mensagem de Deus - chega a qualquer homem ou nação por uma questão de custódia sagrada. Ela deve ser transmitida, pela imprensa falada, escrita, e ensinada e esclarecida a todos que puder alcançar. O sacerdócio privilegiado, para começar, erige uma barreira. Porém, ainda pior, quando tal sacerdócio distorce a verdade por comodidade sua, ignorando o resto, vendendo essa dádiva de Deus por um miserando e efêmero lucro, quão miseravelmente a sua lição, quando Nêmesis chegar!

208. Um quadro minucioso, de amplitude mundial! Eles poderão causar danos e misérias a outros; poderão distorcer a verdade de Deus e coroar os falsos padrões de adoração; poderão ser creditados por virtudes que não possuem, e desfrutar de aparentes sucessos, que advirão a despeito das suas desprezíveis fraudes, mas não regozijemos com qualquer glória que isso lhes possa causar.

209. Ou seja, em todas as posturas, o que, novamente, é simbólico em todas as circunstâncias - pessoais, sociais, econômicas, históricas e outras.

210. No Islam, a igualdade de condições entre os sexos, não somente é reconhecida, como imposta veementemente. Se a distinção dos sexos, que é uma distinção fornecida pela natureza, não conta em questões espirituais, muito menos contarão, certamente, as distinções artificiais, tais como: linhagem, riqueza, posição, raça, cor, origem etc.

211. Aqui, como no versículo 198 desta Surata, acima, e em muitos outros locais algures, é dado um destaque no sentido de que, seja qual for a dádiva, a recompensa ou a bem-aventurança que advenha àqueles de conduta reta, o seu principal mérito repousa no fato de tudo emana da Presença do Próprio Deus. A "Proximidade de Deus" expressa essa ocorrência melhor do que qualquer outro símbolo.

212. (Falah) aqui, e em outras passagens, deve ser entendida em um sentido amplo, incluindo a prosperidade nos nossos afazeres terrenos, bem como no nosso desenvolvimento espiritual. Em ambos os casos, ela implica em felicidade e na concretização dos nossos desejos, purificados pela mercê de Deus.

213. Nafs, em árabe, pode significar: ser, ego, pessoa, pessoa vivente, vontade, alma, como no versículo 4 desta Surata. Min-ha: A partícula Min pode então sugerir, aqui, não uma parte ou uma fonte de alguma coisa, mas uma espécie, uma natureza, um similaridade. O pronome há certamente se refere a Nafs.

214. Todos o nossos direitos e deveres mútuos são submetidos a Deus. Nós somos as Suas criaturas. A sua Vontade é o padrão e a medida da Benevolência; e os nossos deveres são medidos pela nossa conformidade com a Sua Vontade. Entre nós (seres humanos), nossos direitos e deveres mútuos vêm da Lei de Deus, sendo o senso do Direito implantado em nós por Ele.

215. Entre os primordiais e maravilhosos mistérios da nossa natureza, encontra-se o do sexo. Irregenerado macho é capaz, face ao orgulho de sua fortaleza física, de esquecer o papel essencial que a mulher desempenha na existência dele e em todos os relacionamentos sociais que se evidenciam em nossas vidas humanas coletivas.

216. A justiça para com os órfãos é prescrita com a citação especial de três tópicos quanto às tentações a que estão afeitos os guardiães: (1) não se deve adiar a restauração de todos os pertences, quando for chegado o tempo (assunto do versículo 5, desta Surata); (2) os bens restituídos deverão ser de igual valor àqueles recebidos; o mesmo princípio se aplica quando se há rol algum; (3) se os haveres forem administrados em conjunto, haverá necessidade de se consumirem os artigos perecíveis; neste caso, uma probidade rigorosa será necessária quando tiver lugar a separação.

217. Note-se a cláusula condicional sobre os órfãos, introduzindo as normas concernentes ao casamento. Isto nos aclara a mente, quanto à ocasião imediata da "promulgação" deste versículo. Deu-se depois do episódio de Uhud, quando a comunidade muçulmana se viu atulhada de um sem-número de órfãos e viúvas, bem como de cativos de guerra. O tratamento dispensado a todos estes deveria ser regido pelos princípios humanitários e de igualdade. A ocasião é a coisa do passado, mas os mesmos princípios permanecem. Desposai as órfãs, se estiverdes bem certos de que, desse modo, podereis proteger os seus interesses e os seus haveres, com perfeita justiça para com elas e para com os vossos dependentes, se é que tendes algum.

218. O número irrestrito de esposas dos "tempos de idolatria" foi, então, meticulosamente reduzido ao máximo de quatro, contanto com se pudesse tratar todas com perfeita eqüidade, no tocante às coisas materiais, bem como em afeição, e às coisas imateriais. Como tal condição é dificílima de ser preenchida, compreendemos estar a tendência descambando para a monogamia.

219. Cativas de guerra.

220. Isto se aplica aos órfãos, mas a enunciação está perfeitamente generalizada. Os bens não somente acarretam direitos, mas também responsabilidades. Talvez o proprietário não possa, absolutamente, fazer o que lhe apraz; seus direitos são limitados ao benefício da comunidade, da qual ele é membro e se ele for incapaz de reconhecer isso, o seu controle sobre os mesmos deverá ser anulado. Todavia, isto não quer dizer que será tratado com rudeza. Pelo contrário, seus interesses devem ser protegidos e ele deverá ser tratado com especial condescendência.

221. As pessoas referidas são aquelas entre as quais as heranças têm de ser divididas. As divisões são especificadas. Aqui, os princípios gerais são no sentido de que as mulheres devam participar da herança, tanto quanto os homens, e de que os parentes - que não têm direito legal de participação na partilha - , os órfãos, e os indigentes não sejam tratados asperamente, se presentes à divisão. A "concessão" deverá ser tirada da propriedade, como parte das despesas do funeral.

222. Este é um pungente argumento, dirigido àqueles que têm de dividir um espólio. Quão ansiosos ficariam se tivessem de deixar atrás uma família em desespero! Se isso acontecer a outrem, ajudai-os e sede complacentes.

223. Os princípios da lei da herança são estabelecidos, em amplo delineamento, no Alcorão; os detalhes precisos têm sido elaborados com base na prática do Mensageiro e na de seus companheiros, bem como por interpretação e analogia. Os jurisprudentes muçulmanos têm compilado uma vasta quantidade de ensinamentos a este respeito, parecendo-nos que esse corpo legislativo é, por si só, suficiente para formar um assunto de estudo durante toda a vida. Trataremos, aqui, apenas dos princípios básicos a serem colhidos do texto, segundo a interpretação dos jurisprudentes. O poder da disposição testamentária estende-se somente a um terço da propriedade; os restantes dois terços são distribuídos entre os herdeiros, como foi prescrito. Toda a distribuição se efetua depois de serem pagos legados e dívidas, incluindo as despesas do funeral.

224. À primeira vista, as palavras árabes parecem significar : "se mais de duas filhas". Contudo, a alternativa na cláusula seguinte é: "se apenas uma filha". Logicamente, portanto, a primeira cláusula deve significar: "se filhas, duas ou mais". Esta é a interpretação geral, confirmada pela provisão suplementar do versículo 176 desta surata, o qual deve ser lido ele conjunto a este.

225. Este versículo trata das partes distribuídas entre filhos e pais. O versículo seguinte trata das partes distribuídas entre o cônjuge do falecido ou da falecida, bem como entre os colaterais. As cotas dos filhos são fixadas, mas as suas importâncias dependerão do que couber aos pais. Se o pai, ou a mãe, estiver vivo e houver filhos, tanto um como a outra receberá um sexto, cada; se apenas um deles estiver vivo, ele ou ela receberá a sua sexta parte, indo o resto para os filhos. Se os pais estiverem vivos e não houver filho algum, ou outro herdeiro, a mãe receberá um terço (e o pai os outros dois terços, restantes); se não houver filhos, havendo, contudo, irmãos ou irmãs (isto é rigorosamente interpretado em ermos de plural), a mãe receberá um sexto e o pai o restante, um vez que, em se tratando do pai, este prescinde de colaterais.

226. O marido receberá a metade dos bens da sua falecida esposa, se esta não deixar prole, indo o restante para os residuários; se ela deixar um filho, o marido receberá apenas um quarto. Seguindo a norma de que a parte que cabe à mulher é, geralmente, a metade da que cabe ao homem, a viúva receberá um quarto dos bens do seu falecido marido, desde que este não deixe prole, e um oitavo, se deixar. Se houver mais de uma viúva, sua cota coletiva será um quarto, ou um oitavo, conforme o caso; entre si, elas dividirão igualmente.

227. A palavra árabe é Kalala. Todavia, ela não foi definida com autoridade, durante a vida do Mensageiro. Este foi um termo que Ômar Ibn al Khattab desejava que o Mensageiro tivesse definido, durante a sua vida; os outros dois são Khilafa (sucessão) e Riba (usura). Respeitando a definição aceita, ater-nos-emos à herança de uma pessoa que não tenha deixado descendentes ou ascendentes (conquanto distantes), mas somente colaterais, com ou sem viúvo ou viúva. Se houver viúvo ou viúva sobrevivente, este ou esta receberá a parte já definida, antes de os colaterais entrarem em cena.

228. Um "irmão ou uma irmã" é, aqui, interpretado como sendo uterinos, ou seja, provenientes da mesma mãe, mas não do mesmo pai. Os casos de irmãos plenos (do mesmo pai e mesma mãe), ou irmãos provenientes do mesmo pai, mas de diferentes mãe, serão tratados mais adiante, no último versículo desta surata. Quando ao irmão ou irmã uterinos, se apenas um sobreviver, receberá um sexto; se mais de um sobreviver, receberão coletivamente um terço, para que o dividam entre si, isto na suposição de não haver descendentes ou ascendentes (embora remotos).

229. As dívidas (das quais as despesas com funerais tomam a primeira linha) e os legados constituem a incumbência primordial no caso de uma pessoa falecida, antes que se proceda à distribuição da herança. Porém, a eqüidade e o trato justo devem ser observados com todas as questões, para que não sejam prejudicados os interesses de ninguém.

230. A maioria dos jurisprudentes compreende que isto se refere ao adultério ou à fornicação; tal caso, eles consideram que a punição foi alterada para cem açoites, de acordo com o versículo 2 da 24ª Surata. Nós, porém, achamos que se refira a uma prática sacrílega, entre as mulheres, análoga à prática sacrílega existente entre os homens (4ª Surata, versículo 16), porquanto punição alguma é especificada aqui para o homem, como seria o caso, se este estivesse envolvido naquela prática; a palavra al-lati, tão-somente al-lati, termo puramente feminino, é empregada para as partes envolvidas naquela prática.

231. A fim de se proteger da integridade das mulheres, evidências meticulosas são requeridas; por exemplo, quatro, em vez das duas testemunhas costumeiras. O mesmo se dá com referência ao adultério (ver versículo 4 da 24ª Surata).

232. "Conservai as cativas até que alguma ordem definida seja recebida." Aqueles que consideram este crime como adultério ou fornicação, dizem que tal ordem definida ("um novo destino") significa um pronunciamento definitivo do Profeta, sob inspiração; esta era a punição por açoites, encontrada no versículo 2 da 24ª Surata. Se entendermos o crime por "prática sacrílega", presumiremos, dada a ausência de qualquer ordem definida ("um novo destino"), que a punição deverá ser semelhante àquela aplicada à pessoa do versículo seguinte. Aquela é, por si só, definida, ou talvez com essa intenção, porquanto o crime é afrontoso.

233. Nos dias de idolatria, em muitas nações, incluindo a árabe, um enteado ou um irmão de criação costumava tomar posse da viúva ou das viúvas do falecido, juntamente com os bens e escravos deste. Tal costume sacrílego foi proibido. Ver, também, o versículo 22 desta surata, mais adiante.

234. Nos costumes pré-islâmicos, outro truque para aviltar a liberdade das mulheres casadas consistia nos maus tratos e no emprego da força, a fim de que pedisse o divórcio (ver o versículo 229 da 2ª Surata e respectiva nota), ou seu equivalente, uma vez que o dote poderia ser pedido de volta. Isto também foi proibido.

235. Na época da idolatria, os homens casavam-se com suas madrastas viúvas.

236. Esta tabela de uniões proibidas concorda, em essência, com o que é costumeiramente aceito por todas as nações, exceto no que diz respeito aos mínimos detalhes. Ela se inicia no versículo anterior (com as viúvas ou as divorciadas, em relação ao pai). O diagrama é esquematizado na conjectura de que a pessoa que pretende se casar seja homem; se for mulher, aplicar-se-á o mesmo diagrama; ler-se-á, então: "vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, etc."; ou poder-se-á, sempre, lê-lo do ponto de vista da relação do marido, porquanto haverá sempre um marido em concernência.

237. Por "mãe" compreende-se, também, a avó (paterna ou materna), a bisavó etc.; por "filha" compreende-se, também, a neta (por parte do filho ou filha), a bisneta etc.; por "irmã" compreende-se a irmã legítima ou a meio-irmã; "tia, por parte do pai" compreende a tia-avó etc.; "tia, por parte de mãe" compreende a tia-avó etc..

238. As relações lactárias desempenham um importante papel na Lei muçulmana e são consideradas como relações consangüíneas; parece-nos, portanto, que não somente mães e irmãs adotivas, mas ainda tias adotivas etc., enquadram-se nas uniões proibidas.

239. É geralmente aceito (sem unanimidade) que "sob vossa tutela" seja uma descrição, não uma condição. Portanto, uma enteada que esteja "sob vossa tutela" enquadrar-se-á na proibição, se a outra condição (sobre a mãe) for preenchida.

240. Por "filhos", compreende-se os netos, mas excluem-se os filhos adotivos ou pessoas consideradas como tais, em decorrência das palavras "vossos filhos carnais".

241. A barreira do casamento conjunto com duas irmãs aplica-se também, à tia e à sobrinha conjuntas, mas não à irmã da esposa falecida.

242. "As que tendes à mãe", isto é, as cativas da guerra contra aqueles que perseguem a fé, e sob as ordens de um Imam virtuoso (Jihad). Em tais casos, as hostilidades dissolveram os laços civis. Por outro lado, era permitido o casamento com as cativas casadas, desde que não se conhecesse o paradeiro dos maridos. Contudo, se ambos estivessem juntos, o Islam não permitia o casamento com ela.

243. Depois das uniões proibidas, o versículo continua a dizer que outras mulheres, que não aqueles especificadas, devem ser procuradas para o casamento; mesmo assim, não por motivos de luxúria, mas a fim de preservar a castidade entre os sexos. O casamento, no original árabe, está aqui descrito por uma palavra que sugere fortalecimento (ihsan); o casamento é, portanto, o fortalecimento da castidade.

244. Assim como a mulher submete a sua pessoa no casamento, o homem também deve submeter (menos parte da sua independência), pelo menos alguns dos seus bens, de acordo com as suas posses. E isto propicia a Lei do Dote. É fixado um dote mínimo, não sendo, porém, necessário apagar-se a esse mínimo, quanto à nova relação criada.

245. Ou seja, cativas tomada durante o Jihad: "As que tendes à mão" não significa, necessariamente, que elas estejam comprometidas convosco, ou que sejam propriedade vossa. Tudo o que é capturado, na guerra, pertence à comunidade e é nesse sentido que elas são "vossas". Se procurarem tais pessoas, para com elas se casarem, não o façam por motivos vis. O cativeiro está, agora, ultrapassado, no verdadeiro espírito do Islam. Contudo, há outras condições, nas quais a liberdade de uma mulher (ou de um homem) é restrita, e o princípio também se aplica aqui.

246. Parafraseemos este versículo, porquanto ele contém um profundo significado: Todas as vossas propriedades, tende-las em custódio, quer estejam em vosso nome, quer pertençam à comunidade, quer pertençam a pessoas sobre quem tenhais controle. Constitui erro e desperdício. No versículo 188 da 2ª Surata, a mesma frase apareceu, acautelando-nos à cupidez. Aqui ela aparece para nos encorajar a aumentar os nossos bens pelo uso moderado dos mesmos. Somos admoestados, no sentido de que o desperdício poderá levar-nos à nossa própria destruição.

247. Tanto os homens como as mulheres desfrutam das dádivas divinas, alguns mais que os outros. Isso poderá parecer injusto, mas é-nos assegurado que a Providência distribuiu as pessoas segundo um esquema, pelo qual todos recebem aquilo a que fazem jus. Se isso não nos parece muito claro, lembremo-nos de que não temos pleno conhecimento, mas Deus sim. Não devemos ficar enciumados se outras pessoas têm mais do que nós, seja em riqueza, posição ou poderio, talento ou felicidade. Talvez as coisas sejam igualadas no todo, a curto ou a longo prazo, ou equacionadas segundo as necessidades e méritos, numa escala da qual não nos podemos aperceber.

248. Quando a emigração de Makka para Madina tomou corpo, vínculos e laços de amizade foram estabelecidos entre os emigrantes e os socorredores, passando ambos a compartilhar a herança uns dos outros. Mais tarde, quando a Comunidade foi solidamente estabelecida e as tensões com aqueles que haviam ficado para trás, em Makka, foram diminuídas, tanto os direitos dos parentes consangüíneos em Makka, como os da irmandade socorredora em Madina, foram salvaguardados. O significado mais generalizado é semelhante: respeitai os vossos laços consangüíneos, de fraternidade, de pacto amigável e de compreensão.

249. No caso de altercação familiar, quatro medidas a serem tomadas, são mencionadas: talvez conselhos verbais ou admoestações sejam suficientes; se noa, as relações sexuais deverão ser suspensas; se isso não bastar algum leve castigo físico deverá ser ministrado, embora todas as autoridades sejam unânimes em deprecar qualquer espécie de crueldade; se nada disto der certo; é recomendado um conselho familiar (versículo 35 desta surata).

250. O mau-humor, o queixume, o sarcasmo, o ato de falar um do outro na presença de outras pessoas, referindo-se a erros passados que deveriam ser esquecidos e perdoados, tudo isso é proibido. E a razão fornecida constitui a característica do Islam. Devemos viver toda a nossa vida como se estivéssemos na presença de Deus, Que está nas alturas, muito acima de nós, mas Que vela por nós.

251. Um plano excelente para se consertar as disputas familiares, sem muita publicidade ou conspurcação, sem recorrer às chicanices da lei. Os casais muçulmanos, em todo o mundo, recorrem a este instrumento. Os países latinos reconhecem este plano, em seus sistemas gerais. Os árbitros de cada família devem conhecer as idiossincrasias de ambas as partes e pôr-se em posição, com a ajuda de Deus, para efetuar uma verdadeira reconciliação.

252. Este preconceito é mais amplo e mais compreensível do que "Amar a Deus e ao próximo", porque ele inclui deveres, tanto para com os animais como para os nossos semelhantes, além de enfatizar os serviços práticos, não os meramente sentimentais.

253. O vizinho próximo, ou seja, em contingência local, bem como em relacionamentos íntimos, assim como o vizinho estranho, "próximo ou não", inclui aqueles que não nos são conhecidos ou que vivem longe ou perto de nós, ou numa esfera totalmente distinta.

254. O Companheiro pode ser o nosso amigo íntimo ou o nosso sócio, assim como o viajante pode ser um conhecido ocasional, que encontremos quando em viagem. Isto tem mais amplitude do que o "vizinho desconhecido".

255. Vossos servos: qualquer criatura que não possua direitos civis. Inclui cativos ou escravos (em qualquer forma que existam), pessoas sob a vossa tutela, ou animais silentes, com os quais tendes de tratar. Todos eles são criaturas de Deus e merecem a nossa simpatia e o nosso serviço prático.

256. A arrogância é a razão pela qual os nossos atos de amor e de benevolência não se desenvolvem. Outras, são a avareza e o egoísmo. Deus é contrário a tudo isso, porquanto todos esses defeitos procedem de falta de amor a Ele e da carência de fé n’Ele. Avaro é o que não somente se recusa a gastar, prestando serviços, mas, por meio de exemplos e preceitos, impede outros de fazê-lo, tornando-se, portanto, por comparação, odioso ante os seus semelhantes. Assim, sendo, ele ou faz de sua precaução uma virtude, ou esconde as dádivas com as quais foi agraciado - riqueza, posição, talento etc..

257. Note-se como o castigo se adapta ao crime. O avarento despreza as pessoas; assim procedendo, ele próprio se torna desprezível.

258. Um defeito oposto à avareza, mas igualmente oposto à caridade, é gastar perdulariamente para se notado pelos homens. Constitui mera hipocrisia; não há amor nisso, tanto para com Deus, como para com o homem.

259. A referência é tanto para o estado de embriaguez como para o de aturdimento mental, devido ao entorpecimento ou a alguma outra causa. Talvez ambos estejam implícitos. Antes que a proibição dos tóxicos fosse totalmente promulgada, era, pelo menos, inconcebível que as pessoas comparecessem às orações em tal estado. Para as orações, é preferível que estejamos de posse de todas as nossas faculdades, a fim de que nos aproximemos de Deus com um espírito de reverência. A "oração", aqui, significa "o local das orações", uma Mesquita; o significado conseqüente será o mesmo.

260. A rigorosa higienização e purificação da mente e do corpo é requerida, especialmente na hora da oração. Contudo, há certas circunstâncias em que a água para a ablução não é facilmente encontrada, mormente nas condições adustas da Arábia. Nesse caso, esfregar-se com areia seca ou com terra limpa é recomendado. Quatro de tais circunstâncias são mencionadas; as duas última, quando o lavar-se é especialmente requerido; as duas primeiras, quando o lavar-se deve ser necessário, não sendo, no entanto, fácil encontrar água. Isso, para um homem doente, que não pode caminhar para conseguir água, e para um homem em viagem, que não possui pleno controle dos seus suprimentos. Nos quatro casos em que a água não pode ser conseguida, a pessoa se limpar com areia ou terra seca é recomendado. Este ato é chamado de Tayamum.

261. Ver nota do versículo 93 da 2ª Surata. Um truque dos judeus consistia em distorcer as palavras e expressões, com o fito de ridicularizar os mais solenes ensinamentos da fé. Quando deveriam ter dito: "Ouvimos e obedecemos", diziam em voz alta: "Ouvimos", e sussurravam: "e desobedecemos". Quando deveriam ter dito, respeitosamente: "Ouvimos", adicionavam com um sussurro: "o que não deve ser ouvido", a fim de escarnecerem. Quando inquiriam do Profeta, usavam palavras ambíguas, aparentemente inofensivas, mas desrespeitosas em suas intenções.

262. Literalmente quer dizer: "Antes que obliteremos as feições (ou rostos) de alguns, fazendo com que suas cabeças se virem para trás (ou que suas costas se voltem para a frente)", constituindo um idiotismo árabe que deve ser livremente traduzido, para que proporcione um significado adequado em português. O rosto é a principal expressão da real essência do próprio homem; ele constitui, também, o índice da sua fama e estima. Os adeptos do Livro foram especialmente favorecidos por Deus, quanto às revelações espirituais. Se se mostrassem indignos, haveriam de perder os seus "rostos". Sua eminência deveria, face à sua própria conduta, degenerar-se em degradação. Outros tomar-lhes-iam o lugar.

263. Comparar com o versículo 65 da 2ª Surata, e respectiva nota.

264. Literalmente, a mais tênue pele, no sulco do caroço da tâmara - uma coisa sem valor (Fatil).

265. Os judeus procuraram a ajuda dos idólatras de Makka contra Mohammad; porém, longe de conseguirem essa ajuda, ambos, judeus e idólatras, foram, outrossim, desbaratados. Esta foi a ocasião imediata, mas as palavras têm um significado perfeitamente genérico.

266. A palavra que traduzimos pela expressão "a mais ínfima partícula" é naquir, o sulco do caroço da tâmara, coisa sem valor nenhum. A avareza e a inveja estão entre as piores espécies de egoísmo, e aparecem especialmente incôngruas nas pessoas de poderio, de autoridade, de influência, de quem era de se esperar generosidade em dar, e generosidade em desejar prosperidade ou a felicidade a outras pessoas.

267. Tal como os reinados de Davi e Salomão, que tinham fama internacional.

268. A inveja é como fogo interno que, por si só, é um inferno.

269. O jardim contrasta com o Fogo; a sombra contrasta com o calor do fogo. O Mal cresce consoante aquilo de que é alimentado. Também a benevolência e a felicidade crescem consoante a sua prática.

270. Úlul-amr = aqueles imbuídos de autoridade, ou de responsabilidade, ou da capacidade de decisão, ou de resolução de disputas. Toda a autoridade emana de Deus. Portanto, os profetas de Deus têm as suas autoridade derivadas da d’Ele. Como o Islam não faz divisões abruptas entre o sagrado e o profano, comumente espera que o governo seja imbuído de espírito justiceiro. O Islam espera que os muçulmanos respeitem e obedeçam à autoridade de tal governo. Caso contrário, não haverá ordem ou disciplina alguma. Onde, na atual conjuntura, existe uma abrupta divisão entre a lei e a mora, entre os assuntos seculares e religiosos, como é o caso da maior parte dos países hoje em dia, o Islam espera que a autoridade civil seja exercida com retidão e, em tal condição, ele prescreve obediência a essa autoridade.

271. A referência imediata é feita aos hipócritas (Munafiquin) de Madina, mas as palavras são generalizadas, sendo que o mal da hipocrisia tem-nos desafiado em todas as épocas. Tais homens declaram estar sempre do lado do Direito, mas sorrateiramente andam de braços dados com o mal e com a injustiça, fazendo desta última o seu juiz, desde que os seus interesses pessoais estejam em jogo.

272. O teste da verdadeira fé não consiste na nossa profissão verbal, mas sim em apresentarmos todas as nossas dúvidas e disputas perante aquele em quem professamos a fé. Indo mais além, quando uma decisão é apresentada, não somente devemos aceitá-la, mas ainda rebuscar os recônditos das nossas almas e retirar dali todos os empecilhos e resistências, propiciando uma jubilosa aceitação, resultante da convicção da nossa própria fé.

273. Aqueles altamente apegados à fé, de bom grado sacrificam as suas vidas, os seus lares e tudo quanto consideram caro pela causa de Deus. Quanto àqueles cuja fé não é tão consistente, espera-se, pelo menos, que façam o que um leal membro de qualquer sociedade faz: que submetam as suas dúvidas e disputas ao cabeça da sociedade, a animadamente aceitam as suas decisões e a elas se submetam.

274. Uma passagem do mais profundo significado espiritual. Mesmo o homem mais humilde, que aceita a fé e pratica o bem, torna-se logo um membro aceito pela majestosa e magnífica confraternidade espiritual. Esta constitui um companheirismo que vive eternamente ao sol da Graça de Deus. Constitui uma gloriosa hierarquia, da qual quatro gruas são especificados: (1) o mais alto é o dos Profetas ou Mensageiros, que recebem inspiração plenária de Deus e que ensinam a humanidade, através de exemplos e preceitos. Esse posto, no Islam, é ocupado por Mohammad; (2) aqueles cujos estandartes são a sinceridade e a verdade; eles amam e exemplificam a verdade com suas pessoas, seus meios, suas influências e com tudo de seu. Esse posto foi ocupado pelos companheiros especiais de Mohammad, cujo modelo encontrava-se em Abu Bakr Assiddik; (3) o nobre exército de Testemunhas, que testificam a verdade. O testemunho pode aparecer em forma de martírio ou pela língua do verdadeiro pregador, ou pela caneta do estudioso, ou pela vida do devotado ao serviço; (4) há uma vasta acumulação de pessoas virtuosas, gente comum, que trata dos seus negócios cotidianos, porém sempre de maneira virtuosa.

275. Combate algum deverá ser empreendido sem as devidas preparações e precauções. Estas satisfeitas, deveremos marchar para frente, sem temor. Embora haja zêugma do verbo, "avançai" está repetido para dar ênfase. Contudo, devemos avançar com espírito coletivo, não com espírito egoístico, tanto em pequenos grupos como em massa, como o nosso Líder determinar.

276. É bem o pensamento de um egoísta. Tais homens estão longe de constituírem a fonte de fortificação da sua comunidade. Não são úteis ao combate; o versículo seguinte implicitamente os delata.

277. Mustadh’af - aquele reconhecidamente fraco e, por conseguinte, maltratado e oprimido. Comparar com o versículo 98 desta surata, e com o 150 da 7ª Surata.

278. Mesmo do ponto de vista humano, a causa de Deus é a causa da justiça, a causa dos oprimidos. Por ocasião da grande perseguição, antes de Makka ser reconquistada, quanta desgraça, ameaça, tortura e opressão não foram suportadas por aqueles de fé inquebrantável! As vidas de Mohammad e de seus aderentes foram ameaçadas; eles era ridicularizados, assediados, insultados, surrados; aqueles ao alcance das mãos dos inimigos era postos a ferros e lançados ao cárcere; outros foram boicotados, proscritos do comércio e dos negócios, banidos das relações sociais; não podiam, nem mesmo comprar o alimento de que necessitava, nem cumprir os deveres religiosos. A perseguição foi redobrada quanto aos escravos, às mulheres e às crianças crédulas, depois da Hégira. Seus clamores por um protetor e auxiliador da parte de Deus foram respondidos quando Mohammad propiciou, novamente, a liberdade e a paz a Makka.

279. Auliyaa, plural de wali, que quer dizer amigo, sustentador, protetor, patrão, da mesma raiz de mawla (ver versículo 33 desta surata e respectiva nota).

280. Antes da ordem de combate ter sido dada, havia alguns impacientes cujos ímpetos mal podiam ser contidos. Queriam lutar por motivos execrandos, tais como pugnacidade, amor à pilhagem, ódio contra seus inimigos, ganho de objetos pessoais. Lutar por tais motivos constitui erro em todos os tempos. Quando chegou o tempo da provação, em que eles teriam de lutar, não para seu benefício mas por uma causa sagrada, em cuja luta haveria muito sofrimento e pouco ganho, os hipócritas negacearam e se amedrontaram.

281. O Mensageiro foi enviado para pregar, guiar, instruir e mostrar o Caminho, não para tornar boas as pessoas, ou para conter tudo o que é mau. Isso não é dos desígnios de Deus, os quais testam a vontade humana. O dever do Mensageiro, por conseguinte, é dar a conhecer a mensagem de Deus, com todos os meios de persuasão que lhe forem disponíveis. Se os homens desobedecerem, perversamente, a essa mensagem, não estarão desobedecendo a ele, mas estarão desobedecendo a Deus. Do mesmo modo, aqueles que obedecerem à Mensagem estarão obedecendo a Deus. Não estarão obsequiando o Mensageiro; tão-somente estarão cumprindo com as suas obrigações.

282. A coragem de Mohammad era tão notável quanto o eram seu critério, sua gentileza e sua confiança em Deus. Ao encarar circunstâncias temerosas, freqüentemente era deixado a sós, e assumia a inteira responsabilidade. Todavia, o seu exemplo e a sua palpável confiança em Deus inspiravam e incentivavam os muçulmanos, além de conter a fúria dos seus inimigos, ao considerarmos que ele era o inspirado Mensageiro de Deus, encarregado de desenvolver o Plano d’Ele, constatamos que nada pode resistir a tal Plano. Se acontece de o inimigo ter solidez, poder ou recursos, saibamos que a solidez, o poder e os recursos de Deus são infinitamente maiores.

283. Nestes passageiros ensejos terrenos, a providência e a justiça de Deus nem sempre se apresentam evidentes aos nossos olhos. Porém, é-nos asseverado que acreditemos em que, se ajudarmos numa boa causa e a apoiarmos, compartilharemos de todo o seu crédito e de toda a sua vitória final. E, inversamente, não poderemos sustentar sua causa má, sem compartilhar de todas as conseqüências maléficas. Se as aparências se assemelharem contrárias a esta assertiva, não nos deixemos levar por elas, porque Deus é Onipotente.

284. Quando a deserção, por parte dos hipócritas, em Uhud, quase resultou numa catástrofe para a causa dos muçulmanos, houve um grande ressentimento por parte destes em Madina, quanto àqueles. Uma parte desejava decapitá-los; a outra, deixá-los em paz. A política vigente, entretanto, procurava evitar ambos os extremos, especificados por este versículo. Era patente que eles constituíam um perigo para a comunidade muçulmana, caso fossem admitidos em seus conselhos, sendo que, de qualquer modo era considerados uma perene fonte de desmoralização. Todavia, conquanto toda precaução possível fosse tomada, medida extrema alguma foi aplicada contra eles. Pelo contrario, foi-lhes propiciada a oportunidade de se reabilitarem. Se fizessem um sacrifício pela causa ("abstendo-vos do que é proibido"- ver o versículo seguinte), sua conduta purgá-los-ia da covardia anterior, e a sua sinceridade faria com que fossem aceitos de volta. Porém, se tornassem a desertar da comunidade muçulmana, seriam tratados como inimigos e ficariam afeitos à penalidade adicional, relativa à deserção, que é hoje aplicada por todas as nações em guerra. Mesmo assim, uma exceção humanitária foi feita nos dois casos, especificados no versículo 90 desta Surata.

285. Migrado: é a forma verbal de que hijrat é derivada. Al Bukhari interpreta isto adequadamente, como "fugir de tudo o que é proibido". Isto incluiria a migração (hijrat) no sentido técnico de abandonar um lugar em que a prática da religião não seja permitida. Contudo, tal expediente é mais generalizado. Em tempos de guerra, se um homem concorda em se submeter à disciplina e em se abster de infringir as ordens expedidas, terá provada a sua fidelidade e será tratado como um membro da comunidade em guerra. Caso contrário, se por falsas pretensões conseguir ingressar nos conselhos internos, meramente para traí-los, será devidamente tratado como traidor ou desertor, e será punido por sua traição e deserção; ou, se escapar, será tratado como inimigo, destituído de quaisquer concessões de misericórdia. Será considerado pior que um inimigo, porquanto reivindicava ser um de vós para vos espionar e ajudar o inimigo.

286. A vida é absolutamente sagrada na Irmandade Muçulmana. Todavia, enganos, às vezes, acontecem, como aconteceu em Uhud, em que vários muçulmanos foram mortos (confundidos que foram com os inimigos) por muçulmanos. Não houve intenção criminosa, portanto não houve crime. Mas, em todo o caso, a família do morto ficava afeita a ressarcimento, a menos que se remitisse disso espontaneamente; em compensação, exigia-se que o desafortunado que cometera o engano manumitisse um escravo crédulo. Assim, um engano deplorável constituía-se numa oportunidade para que um escravo crédulo ganhasse a liberdade, uma vez que o Islam desaprovava a escravidão. O ressarcimento deveria ser feito somente se o morto pertencesse à sociedade muçulmana ou a algum povo que estivesse em paz com essa sociedade. Obviamente, nada seria pago se o morto, embora crédulo, pertencesse a um povo que estivesse em guerra com a sociedade muçulmana; mesmo que se pudesse ter acesso ao seu povo, não seria justo aumentar os recursos do inimigo. Se o morto fosse um inimigo em litígio, automaticamente as leis de guerra justificariam a sua morte como contingências guerreiras, a menos que se tivesse rendido antes. Se o homem que ceifou uma vida involuntariamente não possuísse meios de manumitir um escravo crédulo ou proceder ao ressarcimento deveria, então, por meio de um ato de rigorosa abnegação (jejuando por dois meses consecutivos), demonstrar a conscientização da gravidade do ato que praticara, além do sincero arrependimento. Achamos que isto se aplique a todos os três casos mencionados.

287. Relata-se que Al-Háress Ibn Zaid, da tribo dos Bani Amer, de Makka, quando idólatras, torturou Ai-ach Ibn Rabib, um muçulmano. Depois da Hégira, Al Háress tornou-se muçulmano e viajou para Madina, encontrando-se, então, com Ai-ach; este, sem ter consciência da adesão daquele, matou-o. arrependido, foi à presença do Profeta e contou-lhe o ocorrido, ao que o Profeta disse: "Vá, ó Ai-ach, e liberta um escravo muçulmano."

288. A ocorrência imediata que ocasionou esta passagem foi a da questão da emigração (hijrat) dos locais em que o Islam estava sendo perseguido e subjugado. Obviamente, o dever dos muçulmanos era deixar tais lugares, mesmo que isso significasse abrir mão de seus lares e juntar-se à comunidade muçulmana, fortalecendo-a, para que nela pudessem viver em paz e lutar contra o mal que os rodeava. Porém, o significado é mais amplo. O Islam não diz: "Não ofereçais resistência ao mal!" Pelo contrário, ele impõe uma porfia constante e incessante contra o mal. Para tanto, é necessário que nos esqueçamos dos nossos lares, que nos juntemos à nossa irmandade, tomando de sobressalto e expugnando a fortaleza do mal. Porque o dever do muçulmano não consiste, somente, em praticar o bem, mas em coibir o mal. Para efetuarmos o nosso assalto, deveremos conquistar uma posição da qual tal assalto seja possível; e saibamos que a terra de Deus é suficientemente espaçosa para tal propósito. "Posição" não significa apenas situação geográfica, mas também posição moral e material. Por exemplo, devemos evitar companhias maléficas se não pudermos desbaratar o mal, e diligenciar no sentido de galgar uma posição em que sejamos capazes de empreender tal proeza.

289. Se devido a incapacidade física, mental ou moral estivermos impossibilitados de encetar um bom combate, deveremos contentar-nos em nos opormos ao mal ou nos livrarmos dele. A graciosa Misericórdia de Deus reconhecerá e perdoará a nossa fraqueza, desde que seja real e não meramente uma desculpa.

290. O versículo 101 concede permissão para abreviarem a oração conjunta, quando as pessoas se encontrarem em viagens; os versículos 102-104 tratam de casos em que há perigo de guerra, diretamente com o inimigo. A abreviação da oração conjunta, em ambos os casos, é conduzida, regulamentada minuciosamente, pela prática do Mensageiro e de seus companheiros. Quanto às viagens, duas perguntas são suscitadas: no que consiste uma viagem com esse propósito?; seria o temor de um ataque motivo suficiente para que se abreviassem as orações conjuntas? Quanto à primeira, é preferível deixar o assunto a critério da pessoal, apenas tecendo considerações a todas as circunstâncias da viagem, como no caso da que exclui o jejum (versículo 184 da 2ª Surata e respectiva nota). O texto deixa-a a critério da pessoa. Quanto à segunda, a prática do Mensageiro mostra que o perigo não é uma condição necessária; é meramente mencionado com um possível incidente, O Mensageiro freqüentemente abreviava as orações, de quatro para duas rac’at, na Oração do Meio-dia, na Oração da Tarde, e na Oração da Noite; as outras duas, de qualquer modo, são curtas: a Oração, da Alvorada, com duas rac’at, e a Oração do Crepúsculo, com três.

291. A oração em congregação, em perigo face ao inimigo, vale-se do princípio de que o conciliábulo deve ser dividido em dois grupos; um grupo ora, enquanto o outro vigia o inimigo; então, o outro grupo pratica a oração, enquanto o primeiro recua para enfrentar o inimigo; cada grupo procede de uma ou duas rac’at, ou cerca da metade da oração conjunta; todas as precauções são tomadas no sentido de se evitar uma arremetida do inimigo; mesmo enquanto em oração, armaduras e armas não são necessariamente postas de lado, exceto se for provável uma precipitação de chuva, que causará inconveniência ao portador da armadura e dano às armas, ou quando qualquer indisposição ou fadiga abalar as energias do portador.

292. São possíveis duas interpretações: (1) "quando tiverdes concluído a oração conjunta"; (2) "quando (devido ao perigo extremo) tiverdes de omitir completamente as orações conjuntas, mesmo as curtas, indicadas para o tempo de perigo." Preferimos a última, porquanto está mais de acordo com a sentença seguinte, que nos exorta a nos lembrarmos de Deus individualmente, em qualquer postura possível, durante o perigo. Porém, passado o perigo, as orações completas deverão ser praticadas nos tempos prescritos.

293. Os exegetas explicam esta passagem com referência ao caso de Taima Ibn Ubairac, nominalmente muçulmano, mas na realidade um hipócrita, afeito de toda sorte de iniqüidades. Este era suspeito de haver roubado um conjunto de armadura e, quando as provas contra ele se tornaram deveras evidentes, escondeu a propriedade roubada na casa de um judeu, onde ela foi encontrada. O judeu negou o gravame e acusou Taima, mas as simpatias da comunidade muçulmana estavam do lado de Taima, por causa da sua nominal profissão do Islam. O caso foi levado ao conhecimento do Mensageiro, que inocentou o judeu, de acordo com o rigoroso princípio da justiça, como "dirigido por Deus."

294. Caçaba: cometer, lucrar, obter, conseguir, trabalhar por algo valioso, estabelecer provisões para a Vida Futura. Nós procedemos à nossa labuta diária para obtermos o nosso sustento; de modo que, num sentido espiritual, seja qual for o bem ou o mal que pratiquemos ou façamos nesta vida, este propicia-nos o bem ou o mal na Vida Futura. Nos versículos 110-112 desta Surata, três casos são considerados: se procedermos e não nos arrependermos, crentes que poderemos dissimular, estaremos enganados, pois que nada se esconde de Deus, e sofreremos todas as conseqüências na Vida Futura, porquanto não poderemos furtar-nos à nossa responsabilidade; se procedermos erroneamente, em grande ou pequena escala, e imputarmos a causa a terceiros, a nossa responsabilidade primeira ainda permanecerá, só que adicionaremos a ela algo mais, uma vez que circundaremos o nosso pescoço com o agravo da falsidade, o qual converterá, mesmo as nossas pequenas faltas, em grandes pecados e, de qualquer maneira, estigmatizar-nos-á nesta vida com o opróbrio e a ignomínia.

295. A unicidade, o poder e a benevolência de Deus estão tão patentes na natureza e na mente humanas, desde que esta esteja de acordo com o espírito universal, que tão-somente a mais abjeta perversão poderia ser responsável pelo pecado da traição espiritual. Tal pecado advém de certas idéias pervertidas do sexo e do ego. A perversão do sexo consiste em se supor que este governe os assuntos espirituais. Disso advêm tão horríveis criações da imaginação como a de Kali, a sanguinolenta deusa da Índia, ou Hécate, a deusa da vingança e do ódio, na mitologia grega. Mesmo possuindo garbosas formas de aliciação, como no caso de Saraswati (a deusa do aprendizado) ou de Minerva (a deusa virgem da guerra e cultura), sem falar em Vênus (a deusa do amor), a ênfase dispensada ao sexo destrói a verdadeira contemplação da natureza espiritual. As idéias pervertidas do ego estão estereotipadas na história de Satanás, que era tão arrogante, a ponto de desobedecer a Deus, sendo amaldiçoado por Ele. Ambas estas perversões, se lhes dermos guarida, arruinarão completamente a nossa natureza espiritual, além de desfigurar o artesanato de Deus. Portanto, isso não constitui meramente um pecado extremo, mas um pecado que nos corrompe completamente.

296. O cerceamento das ovelhas das reses é uma outra faceta das superstições de que os homens se tornavam escravos, ao especularem falsos deuses. A astrologia, a magia e as crenças dos homens em entidades que não existem, distanciam-nos do Verdadeiro e Único Deus.

297. A responsabilidade pessoal é repetidas vezes repisadas na temática do Islam. Nela estão implícitas a fé e a conduta reta. A fé não é uma circunstância extrema; ela principia com um ato de vontade que, se verdadeiro e sincero, afeta todo o ser e o leva à virtude. Nisto ela se distingue da espécie de fé que promete salvação, porque um terceiro, em quem nos é pedido que acreditemos, tomou para si todos os pecados dos homens, ou a espécie de fé que prescreve que, porque nascemos de uma certa raça, ou de uma certa casta, somos privilegiados, e a nossa conduta há de ser julgada por padrões diferentes daqueles dos outros homens. Sejamos quem quer que sejamos, ou o que quer que sejamos, se praticarmos o mal, deveremos sofrer as conseqüências, a não ser que a Misericórdia de Deus nos venha em socorro.

298. Naquir: o sulco do caroço de uma tâmara, um objeto sem valor algum. Comparar com o versículo 53 desta surata, e respectiva nota.

299. Abraão é destacado, na teologia muçulmana, com o título de "O amigo de Deus". Isto, certamente, não significa que ele fosse algo mais do que um mortal. Todavia, a sua fé era pura e verdadeira, e a sua conduta era firme e reta, em todas as circunstâncias. Ele foi a origem dos três cursos do pensamento religioso, que mais tarde foram cristalizados pelas instituições de Moisés, Jesus e Mohammad.

300. Uma e outra vez está estampada, na comunidade islâmica, a justeza no trato com as mulheres, os órfãos, as crianças e com todos cuja fraqueza requeira consideração especial. A lei acerca das viúvas, dos órfãos, da herança, do dote e do casamento já foi especificada nos versículos 2-35 desta, com instrução mais consistentes do que as que serão aqui fornecidas acerca da referências igualmente mais importantes. As palavras traduzidas por "mulheres órfãs" designam, cremos, as filhas das viúvas, que eram muitas depois da batalha de Uhud, e que era dever da comunidade muçulmana prover. Mas alguns exegetas tomam-nas como significado somente "mulheres órfãs".

301. Tanto as viúvas como as órfãs têm de ser auxiliadas, porque são comumente fracas, maltratadas e oprimidas. Nas comunidades que fundamentam os seus direitos civis na força bruta, os mais fracos são marginalizados, e a opinião pública nada mais espera. Mesmo em democracias modernas, das mais são espécies, é-nos sugerido que é destino da minoria sofrer; a força da superioridade numérica tornar-se o passaporte para o poderio e o privilégio. O Islam, não obstante preservar os profundos pontos de vista masculinos em geral, prescreve os mais solícitos cuidados para com os fracos e oprimidos de toda a maneira - em direitos de propriedade, em direitos sociais e no direito às oportunidades de desenvolvimento. A força ou a fraqueza material, ou com a superioridade numérica.

302. Para protegerem os interesses econômicos da mulher, várias normas são prescritas quanto ao dote no matrimônio. Porém, a sacraticidade do casamento é, por si só, maior do que qualquer interesse econômico. O divórcio é, de todas as práticas permitidas, a maios odiosa junto a Deus. Portanto, se uma ruptura entre marido e mulher puder ser evitada por alguma consideração econômica, será melhor fazer-se tal concessão, do que pôr em perigo o futuro da esposa, dos filhos e, provavelmente, também do marido.

303. Legalmente, mais de uma esposa (até quatro) é permitido, com a condição de que o homem seja perfeitamente justo para com todas. Todavia, esta é uma condição quase impossível de preencher. Se, na esperança de que venha a poder preenchê-la, o homem se colocar nessa impossível condição, será direito insistir em que ele não deve descartar-se de uma delas, mas que, ao menos, preencha os deveres materiais que lhe cabem com respeito a ela.

304. A existência de Deus é existência absoluta. Ela independe de qualquer outra pessoal ou de qualquer outro arbítrio. E é digna de todo o louvor, pois é "toda-benevolência" e compreende toda a excelência possível. É necessário salientar este ponto, a fim de se mostrar que a lei moral, para o homem, não é uma simples questão de ordens transcendentais, mas repousa, realmente, nas exigências essenciais da própria humanidade. Os mais elevados padrões éticos são injungidos pelo Islam, não como imperativos dogmáticos, mas porque, como pode ser demonstrado, seguem as exigências da natureza humana, bem como o resultado de suas experiências.

305. Algumas pessoas inclinadas a favorecer os ricos, talvez porque esperem algo deles em troca. Algumas pessoas são inclinadas a favorecer os pobres, talvez porque estes estejam, geralmente, desesperançosos. Todavia, a parcialidade, em ambos os casos, é errônea. Sede justos, sem temores ou favores! Tanto o rico como o pobre estão sob a proteção de Deus, tanto quanto seus legítimos interesses estejam em jogo; ambos não devem esperar ser favorecidos às expensas dos outros. E Ele pode proteger-lhes os interesses, bem melhor do que qualquer homem.

306. Eis aqui um aviso inteligível contra aqueles que fazem da sua religião um mero assunto de conveniência terrena. A verdadeira religião é muitíssimo mais profunda. Ela transforma a natureza intrínseca do homem. Depois dessa transformação, será tão impossível, para ele, mudar, como o é, para a luz, transformar-se em tenebrosidade.

307. Se o motivo é auferirmos alguma vantagem, alguma honra, saibamos que a fonte de todo o bem é Deus. Como poderá isso ser realmente esperado por aqueles que negam a fé? Mesmo que haja alguma demonstração de honra terrena, que dignidade teria, face ao desprezo que angariará no mundo espiritual?

308. Os métodos e os motivos da hipocrisia são completamente desmascarados, aqui. Ela não tem escrúpulos, outrossim espreita uma oportunidade de transformar qualquer evento, ao sabor das suas próprias vantagens. Se uma batalha é travada entre dois princípios inconsistentes, ela não acredita em nenhum dos dois, mas espreita, esperando pelo resultado. Existe uma incessante luta entre o bem e o mal neste mundo. Se o bem se matizar como vencedor, os hipócritas cerrarão fileiras ao seu lado com palavras suntuosas, tomando a si grande parte do crédito. Talvez o fiel da balança se incline para o outro lado, mais tarde; então, eles terão de fazer as pazes com o mal. "Oh!", dirão eles airosamente, "estávamos nas fileiras dos vossos inimigos antes, mas com o intuito de vos proteger, uma vez que eles eram muito mais fortes do que vós!" Isto talvez possa satisfazer as exigências deste mundo, mas o dia da sua prestação de contas virá finalmente. Porque o bem deverá, em última análise, triunfar.

309. Se escolhermos o mal deliberadamente, duplicando, assim, a nossa culpabilidade pela fraude e pela trapaça, não estaremos enganando Deus, mas a nós próprios. Estaremos divorciando-nos da graça de Deus e nos infiltrando por caminhos tortuosos, distanciando-nos, cada vez mais, da Senda. Nessas condições, quem poderá guiar-nos ou nos mostrar o Caminho? Nossos instintos verdadeiros e retos tornar-se-ão obtusos; a nossa fraude tornar-nos-á instáveis, as vantagens que tivermos usufruído estarão perdidas, e ficaremos com a mente verdadeiramente conturbada.

310. Mesmo os hipócritas poderão obter perdão, sob quatro condições: (1) sincero arrependimento, o que lhes purificará a mente; (2) emenda em suas condutas, o que lhes purificará a vida externa; (3) constância e devoção à crença em Deus, o que lhes fortalecerá a fé e os protegerá contra o assédio do mal; (4) sinceridade em sua religião ou em seu ser interior, o que lhes propiciará serem membros integrantes do benevolente companheirismo da Fé.

311. Comparar com o versículo 55 da 2ª Surata, quanto ao trovão e ao relâmpago, que fulminaram aqueles que eram tão presunçosos, a ponto de quererem ver Deus frente a frente, e com o versículo 51, da mesma Surata, quanto à adoração do bezerro de ouro. A lição a tirar consiste em que é presunção, da parte do homem, querer julgar os arcanos espirituais em termos de coisas materiais, ou querer ver Deus com seus olhos materiais, sabendo-se que Deus está acima de qualquer forma material, e independe de tempo e espaço.

312. Ver a 2ª Surata, versículo 65 e a 4ª Surata, versículo 47.

313. Neste versículo, há uma recapitulação de três incidentes da teimosia dos judeus, já mencionados na 2ª Surata: o pacto ao pé do Monte (2ª Surata, versículo 63); a sua arrogância, onde lhe foi ordenado entrarem, humildes, numa cidade (2ª Surata, versículo 58); e a sua profanação do sábado (2ª Surata, versículo 65).

314. A falsa acusação imputada a Maria era de que não era casta. Comparar com o versículo 27 da 19ª Surata. Tal acusação já é bastante grave, se imputada a qualquer mulher; mas, em se tratando de Maria, a mãe de Jesus, significava expor ao ridículo o próprio poder de Deus. O Islam é particularmente incisivo em salvaguardar a reputação da mulher. Os difamadores de mulheres têm de providenciar a apresentação de quatro testemunhas que corroborem as suas acusações; e, se fracassarem na apresentação, serão açoitados com oitenta açoites, além de não mais serem aceitos como testemunhas regulares (ver versículo 4 da 24ª Surata).

315. O final da vida de Jesus na terra está tão envolto em mistério quanto a sua natividade e, ainda, como de fato, está também o período da maior parte da sua vida particular, com exceção dos três principais anos do seu sacerdócio. Não será em nada proveitoso discutirmos sobre as muitas dúvidas e conjecturas existentes entre as primitivas seitas cristãs e entre os teólogos muçulmanos. As igrejas cristãs ortodoxas têm como ponto cardeal da sua doutrina que a vida de Jesus chegou ao seu termo na cruz, que ele morreu e foi sepultado, que no terceiro dia ressuscitou corporeamente, com seus ferimentos curados, caminhou e conversou, e comeu com seus discípulos, e que depois foi levado fisicamente para o céu. Esta explicação é necessária para a doutrina teológica do sacrifício e da expiação vicária dos pecados, mas é rejeitada pelo Islam. Contudo, algumas das primeiríssimas seitas cristãs não acreditavam que Cristo tivesse sido morto na cruz. Os basilídios acreditavam que um outro indivíduo lhe serviu de substituto. O Evangelho de Barnabé sustenta a teoria da substituição na cruz. O ensinamento alcorânico diz que Cristo não foi crucificado nem morto pelos judeus, não obstante existissem certas circunstâncias aparentes que produziram a ilusão nas mentes de alguns dos seus inimigos; que as disposições, as dúvidas e conjecturas sobre tais assuntos são vãs; e que ele foi elevado até Deus (ver próximo versículo e respectiva nota).

316. Há diferenças de opinião quanto à exata interpretação deste versículo. As palavras são: Os judeus não mataram Jesus, pois que Deus fê-lo ascender (rafa’a) até Ele. Uma corrente de opinião sustenta que Jesus não teve uma morte humana comum, outrossim ainda vive, fisicamente, no céu; outra, sustenta que ele deveras morreu (versículo 120 da 5ª Surata), mas não como se supôs: que tivesse sido crucificado, e que a sua "ascensão" até Deus significa que, ao invés de ter sido tido na conta de malfeitor, como os judeus pretendiam que fosse, foi tido em conta honrosa, por Deus, como Seu Mensageiro; ver o próximo versículo.

317. Primeiramente, temos uma afirmação generalizada: que a inspiração foi enviada a muitos Mensageiros e que essa inspiração era da mesma espécie da que foi enviada ao Mensageiro Mohammad, porquanto a mensagem de Deus é uma só. Nota-se que aquilo de que se fala, aqui, é inspiração, não necessariamente de um Livro. Toda a nação, ou todo grupo de pessoas, teve um mensageiro (10ª Surata, versículo 47). Alguns destes mensageiros são mencionados pelo nome, no Alcorão, e outros não (4ª Surata, versículo 164).

318. Deus falou a Moisés no Monte Sinai, por meio de uma nuvem (Êxodo, 34.5). Daqui, o título de Moisés na teologia muçulmana: Kalim-Ullah (aquele a quem Deus falou).

319. Todos os Mensageiros proclamam a benevolência de Deus para com os justos, o Seu perdão para aqueles que se arrependem (boas-novas), bem como a ira vindoura para aqueles que rejeitam a fé e vivem na iniqüidade (admoestação). As suas missões de admoestação constituem um prelúdio e um complemento à missão de boas-novas. Ninguém (homem ou mulher) poderá dizer que não sabia.

320. Os atributos de Cristo são mencionados: que ele era filho de uma mulher e, portanto, era um homem; porém era um mensageiro, um homem com uma missão de Deus, e, portanto, considerado com honra; o resultado de um verbo, outorgado a Maria, pois ele foi criado pela palavra de Deus "Sê" (Kun); e foi (3ª Surata, versículo 59) um espírito procedente de Deus, mas não Deus. Sua vida e missão foram mais limitadas do que no caso de outros mensageiros, embora devamos dispensar-lhe iguais honrarias, como um dileto de Deus que foi. As doutrinas da Trindade (iguais com Deus) e da unigenicidade (filho único de Deus) são repudiadas como blasfêmias. Deus independe de toda a necessidade, e não necessita de filhos para gerir os Seus assuntos. O Evangelho de João (seja quem for que o tenha escrito) colocou uma grande qualidade de misticismo alexandrino e gnóstico em torno da doutrina do Verbo (Logos, em grego), mas ela é explicada simplesmente aqui.

321. Cristo freqüentemente vigiava e orava, como um humilde servo de Deus que era; e a sua agonia, no Jardim Getsêmani, foi plena de dignidade humana e de humildade (Mateus 26:36-45).

322. A Prova e a Luz são o Alcorão e a personalidade, a vida e os ensinamentos do Profeta Mohammad.

323. Sua graça = Sua Presença. Ver na 3ª Surata, versículo 195. A mercê e a graça são mencionadas aqui como provindo especialmente d’Ele.

324. Este versículo suplementa a regra da herança quanto às condições da pessoa falecida que não tenha deixado descendentes nem ascendentes. No versículo 12 desta surata, levou-se em consideração o caso da pessoa que não tenha deixado irmãs ou irmãos uterinos. Aqui, leva-se em conta o caso de a pessoa ter deixado irmãos ou irmãs por parte de pai, fosse a mãe a mesma ou não. "Irmãos" e "irmãs", neste versículo, devem ser tomados como sendo aqueles tais irmãos e irmãs.

325. Esta disposição tem sido justamente admirada por sua concisão e compreensibilidade. Obrigações: ucud; a palavra árabe implica em tantas coisas, que um capítulo inteiro de comentários poderia ser escrito sobre ela. Primeiramente, há as obrigações divinas, que advêm da nossa natureza espiritual e da nossa relação com Deus. Na nossa própria vida humana e material, nós nos incumbimos de obrigações mútuas, expressas ou implícitas. Temos obrigações comerciais ou sociais; obrigações matrimoniais, obrigações para com o nosso Estado; obrigações tácitas: vivendo numa sociedade civil, devemos respeitas as suas convenções tácitas, a menos que elas sejam moralmente erradas, sendo que, nesse caso, devemos retirar-nos de tal sociedade. Há obrigações tácitas nas relações hospedeiro/hóspede, viajante/acompanhante, empregador/empregado, etc., das quais todo homem de fé deve desincumbir-se conscientemente. O homem que abandona aqueles que dele necessitam, e se retira para o deserto para orar, é um covarde que negligencia as suas obrigações. Todas essas obrigações estão relacionadas entre elas.

326. Comparar com o versículo 158 da 2ª Surata, onde Assafa e Almarwa são denominados "Símbolos (Cha’aer) de Deus". Aqui os símbolos são tudo o que se relacione com a Peregrinação, a saber: (1) os locais (como Assafa e Almarwa, ou a Caaba e Arafat etc.) (2) os rituais e as cerimônias prescritas; (3) as proibições (tal como a de caçar etc.); (4) as estações e os períodos prescritos. Há simbolismo, tanto espiritual como moral, em todos esses expedientes.

327. Trata-se do mês da peregrinação ou, por outra, coletivamente, os quatro meses sagrados (9ª Surata, versículo 36), a saber, Rajab (7ª), Dul-qui’da (11ª), Dul-hijja (12ª, o mês da peregrinação) e Muharram (1ª mês do ano). Em todos esses meses a guerra era proibida. Com exceção de Rajab, os outros três meses são consecutivos.

328. A imunidade quanto ao ataque ou a interferência estendia-se aos animais trazidos como oferendas para o sacrifício, e aos que portavam guirlandas ou filetes ou marcas distinguíveis que lhes dessem imunidade.

329. Este estado é oposto ao descrito no versículo 1, ou seja, quando houverdes deixado os Recintos Sagrados ou houverdes retirado as vestimentas especiais de peregrinos, coisa que evidenciará a vossa volta à vida comum.

330. No sexto ano da Hégira, os idólatras, levados pelo ódio aos muçulmanos, e pela perseguição a eles, proibiram-lhes o acesso à Mesquita Sagrada. Quando os muçulmanos se restabeleceram em Makka, alguns deles, querendo desforrar-se, procuravam excluir os idólatras ou, de algum modo, interferir na sua participação na Peregrinação. Isto é condenado. Passando do evento imediato ao princípio geral, saibamos que não devemos tirar proveito, ou desforra, ou retribuir o mal com o mal. O ódio, por parte dos iníquos, não justifica a hostilidade da nossa parte. Devemos auxiliar-nos mutuamente na retidão e na piedade, e não fazermos com que se perpetuem rixas, ódios e inimizades.

331. A proibição do consumo da carne de animais mortos por doença, do sangue, da carne de suíno e da carne de animais, em cujo abate tenho sido invocado outro nome que não o de Deus, está explicada na nota do versículo 173 da 2ª Surata.

332. Se o animal morre estrangulado, ou vítima de um golpe violento, ou de uma queda de ponta-cabeça, ou se recebe chifradas (em luta) de outro animal até morrer, ou se é atacado por outro animal selvagem, a pressuposição que se tem é que se transforma em carniça, uma vez que o sangue vital se coagula antes de ser retirado do corpo. Contudo, a pressuposição pode ser refutada. Se o sangue vital ainda fluir e o modo solene de abate (dabh), em nome de Deus, como sacrifício, for observado, então essa carne será lícita para ser consumida.

333. Este era, também, um rito idólatra, diferente daquele em que um sacrifício era dirigido a um ídolo em particular , ou a um falso deus.

334. Os jogos de todas as espécies são proibidos (2ª Surata, versículo 219). Uma espécie de loteria ou roleta, praticada pelos árabes idólatras, foi descrita na nota do versículo 219 da 2ª Surata. A divisão da carne, feita dessa maneira, é aqui proibida, porquanto constitui uma forma de jogo.

335. O último versículo cronologicamente revelado, marcando a aproximação do fim da missão de Mohammad na terra.

336. O versículo anterior foi revelado na forma negativa; ele definiu aquilo que não era lícito comer, a saber, coisas grosseiras ou repugnantes, ou dedicadas a superstições. Este versículo está na forma positiva; ele define o que é lícito, ou seja, tudo o que é bom e puro para o consumo.

337. A caça será legal nas seguintes condições: (1) que os animais estejam treinados para matar, não meramente para satisfazerem os seus próprios apetites ou por mero capricho, mas sim para a alimentação dos seus donos; o treinamento implica em que algo da solenidade que Deus nos ensinou a este respeito, se encontre na ação deles; (2) que invoquemos o nome de Deus sobre a presa; isto é interpretado como querendo dizer que o Takbir deverá ser proferido quando o gavião, ou o cão etc., for enviado sobre a presa.

338. A questão é, geralmente, de comida, a qual tem de ser comumente "boa e pura"; quanto à carne, ela deve proceder de um animal morto com alguma espécie de solenidade, semelhante àquela do Takbir, e as regras do Islam, a este respeito, são análogas àquelas dos adeptos do Livro. Não há objeção ao reconhecimento mútuo (a este respeito), em oposição à carne procedente de animais mortos pelos pagãos, com ritos supersticiosos.

339. O Islam não é exclusivista. As relações sociais, incluindo o casamento com os adeptos do Livro, são permitidas. Um muçulmano poderá desposar uma mulher das fileiras dele, nos mesmos termos que desposaria uma muçulmana, ou seja, deverá garantir-lhe um status econômico e moral, nunca se deixando levar meramente por razões de lascívia ou desejo físico. Uma muçulmana, no entanto, não poderá casar-se com um não-muçulmano, porquanto o seu status muçulmano seria afetado - a esposa, via de regra, é sempre absorvida pela nacionalidade e pelo status que lhe impõe a lei do seu marido. Uma não-muçulmana, ao casar-se com um muçulmano, deverá, finalmente, aceitar o Islam. Qualquer homem ou mulher, de qualquer raça ou credo, ao aceitar o Islam, poderá, espontaneamente, casar-se com qualquer muçulmana ou muçulmano, contanto que seja por motivos de pureza e castidade, e não por razões de cupidez.

340. Como sempre, a comida, o asseio, as relações sociais, o casamento e outras injunções da vida, estão ligados ao nosso dever para com Deus, e à nossa fé n’Ele. Tal dever e fé são para o nosso próprio benefício, aqui e na Vida Futura.

341. Estas são condições essenciais para a realização do Wudhu, ou as abluções preparatórias para se praticar as orações, a saber: lavar todo o roso com água; as mãos, e os braços, até à altura dos cotovelos; fazer uma pequena fricção da cabeça com água (porquanto a cabeça é usualmente protegida e, portanto, comparativamente limpa); banhar os pés, e as pernas até à altura dos tornozelos. Em adição, seguindo a prática do Mensageiro, é comum lavar-se primeiramente a boca, a garganta e as narinas, antes de lavar o rosto etc..

342. Comparar com o versículo 43 da 4ª Surata, e respectiva nota. A impureza cerimonial advém da contaminação sexual.

343. Não consiste o Tayammum, ou o ato da higiene simbólica com areia ou terra limpas, quando a água não estiver disponível. Achamos que essa substituição é permitida tanto para o Wudhu, como para o banho completo nas circunstâncias mencionadas.

344. Há um significado particular e um geral. O significado particular refere-se à Promessa e ao Pacto solenes, feitos por dois grupos de pessoas em Acaba, um vale próximo a Mina; a primeira, cerca de quatorze meses antes da Hégira, e o segundo, um pouco mais tarde. Eram promessas e pactos de lealdade ao Mensageiro de Deus. O significado geral foi explicado na nota do versículo 1, desta surata: o homem encontra-se sob uma obrigação espiritual, sob um pacto implícito com Deus; Ele concedeu ao homem a razão, o discernimento, as elevadas faculdades da alma, e ainda a posição de Seu legatário da terra (2ª Surata, versículo 30); e o homem está obrigado a servi-Lo fielmente e a obedecer a Sua Vontade.

345. Fazer justiça e agir com retidão em uma atmosfera cordial ou neutra já, por si só, encerra os seus mistérios; porém, o verdadeiro teste ocorre quando tendes de fazer justiça em relação um povo que vos odeia ou pelo qual vós nutris aversão. E nada menos do que isso é requerido de vós pela elevada lei da moral.

346. Durante a vida do Mensageiro aconteceu, repetidas vezes, de os inimigos do Islam levantarem as suas mãos contra ele, contra o povo dele e contra os seus ensinamentos. As circunstâncias estavam, de um ponto de vista terreno, a favor deles, mas as suas mãos mostravam-se inertes e débeis, porque estavam lutando contra a verdade de Deus. Assim, isso acontece sempre, agora como estão.

347. Isto aconteceu no sopé da sobranceira altura do Monte Sinai. Os chefes, os líderes, ou anciãos do povo, foram escolhidos de cada uma das doze tribos (ver o versículo 60 da 2ª Surata, e respectiva nota) para fins censuários; em Números, 1:4-16, são denominados "aqueles que são os príncipes das suas tribos e das suas casas". Mais adiante, doze outros "chefes do exército de Israel" foram escolhidos para perquirirem sobre as terras de Canaã; os seus nomes são mencionados em Números, 13:1-6.

348. A promessa dos cristãos deve ser entendida como o encargo que Jesus impôs aos seus discípulos - e que estes aceitaram - , ou seja, o de acolherem o Ahmad (m dos nomes do Profeta - 61ª Surata, versículo 6). São aqueles que se intitulam "cristãos" os que rejeitam isto. Os verdadeiros cristãos aceitaram-no. A inimizade entre aqueles que se intitulam cristãos, e os judeus, continuará até ao último dia!

349. Mubin: desejaríamos ter podido traduzi-la com uma palavra simples do que "lúcido". Porém, deverá significar tão-somente sucinto, que é o oposto de prolixo, sendo o Alcorão, contudo, o mais eloqüente entre os mais eloqüentes livros que a humanidade já teve a oportunidade de ler. "Claro" estaria também certo, porquanto significaria "não-ambíguo, evidente, não envolto em mistérios de origem, história, ou significado, aquele cuja essência as pessoas todas poderiam compreender, sem a intervenção de sacerdotes ou de gente privilegiada". Mubin possui todos esses significados.

350. Os mais reverenciados mensageiros de Deus nada são além de homens. Todo o poder pertence a deus, e não a qualquer homem. A criação de Deus talvez adote muitas formas, mas se alguma é diferente do que costumamos ver diariamente, nem por isso deixa de ser criação, ou e estar sujeita ao poder do Senhor. Criatura alguma poderá ser Deus.

351. Os filhos de Deus: comparar com Jó, 38:7: "Quando as estrelas da alva juntas cantavam alegremente e todos os filhos de Deus se rejubilavam." Comparar, também, com Gênesis, 6:2: "Os filhos de Deus viram as filhas do homens." Predileto: comparar com Salmos, 127:2: "Ele deu as suas preferidas ovelhas." Se usadas em linguagem figurada, estas e outras palavras semelhantes referem-se ao amor de Deus. Infelizmente, o termo "filho" empregado no sentido físico, ou "amantíssimo", num sentido exclusivista, como se Deus amasse somente os judeus, constitui um escárnio à religião.

352. Este refrão, no versículo anterior, neutraliza a idéia de filiação, e neste versículo neutraliza a idéia exclusiva de "amantíssimo". Em ambos os casos conclui-se que Deus independe de relações físicas e de particularidades exclusivistas.

353. Os 600 anos (em cifras redondas) que separaram Cristo de Mohammad constituíram, realmente, a idade das trevas no mundo. A religião foi corrompida; os padrões morais caíram excessivamente; muitos falsos esquemas e heresias tomaram vulto; e houve a interrupção na sucessão de mensageiros, até ao advento de Mohammad.

354. Houve uma longa linhagem de patriarcas antes de Moisés: Abraão, Isaac, Ismael, Jacó etc.

355. Comparar com Êxodo, 19:5: "Se vós logo ouvirdes a minha voz e observardes o pacto que fiz convosco, eu vos tomarei por meu povo particular, com preferência sobre todos os outros povos." Israel foi escolhido para ser o porta-voz da mensagem de Deus, a mais alta honra que qualquer nação pode adquirir.

356. Chegamos, agora, aos eventos detalhados que aparecem no 13º e 14º capítulo do Livro dos Números, no Antigo Testamento. É preciso que se leia estes capítulos como um comentário, que se examine um mapa da Península do Sinai que mostre as suas ligações com o Egito, pelo oeste; com o noroeste da Arábia, pelo leste; com a Palestina, pelo nordeste. Talvez suponhamos que os israelitas tivessem cruzado, em sua caminhada do Egito para a Península, algum lugar próximo à extremidade setentrional do Golfo de Suez. Moisés organizou e contou as pessoas, e instituiu o sacerdócio. Depois, caminharam para o sul, cerca de 280 km, até ao Monte Sinai, onde a Lei foi recebida. Então, talvez a cerca de 140 km, ficava o deserto de Paran, perto das fronteiras meridionais de Canaã. Do acampamento ali formado, foram enviados doze homens para examinar as terras, e eles penetraram até Hebron, digamos, cerca de 140 km do seu acampamento, e cerca de 80 km ao sul da futura Jerusalém. Eles depararam-se com um rico país, e trouxeram romãs e figos, e um cacho de uvas tão pesado que tinha que ser carregado por dois homens, sobre uma verga. Eles voltaram e relataram que a terra era rica, porém os homens que lá estavam eram muito fortes para eles. O povo de Israel não tinha coragem, nem tampouco fé, e Moisés teve que admoestar as pessoas por isso.

357. O povo não estava propenso a seguir a chefia de Moisés, e não estava disposto a lutar por sua "herança". Com efeito, eles disseram: "Elimina, primeiramente, o inimigo, que nós tomaremos posse." Na Lei de Deus, nós temos de trabalhar e porfiar por aquilo de que desejamos desfrutar.

358. Enter aqueles que voltaram, depois de terem feito o reconhecimento das terras, havia dois homens que tinham fé e coragem. Estes eram Josué e Caleb. Tempos mais tarde, Josué iria suceder a Moisés na liderança, isso depois de 40 anos. Estes dois homens era a favor de uma entrada imediata, através dos portões principais. Porém, disseram que todos deveriam depositar a sua confiança em Deus, para alcançarem a vitória.

359. O conselho de Josué e Caleb, e a determinação de Moisés, sob instrução divina, mostraram-se inapetecíveis à multidão, cujos receios estavam sobremaneira inflamados pelos outros dez homens que haviam ido com Josué e Caleb. Aqueles haviam feito um "temeroso relato", pois ficaram apavorados pela enorme estatura dos canaanitas. A multidão rebelou-se abertamente e estava preparada para apedrejar Moisés, Aarão, Josué e Caleb, e voltar para o Egito. Suas respostas a Moisés eram plenas de ironia, de insolência, de blasfêmia e de covardia. Com efeito, eles diziam: "Tu falas do teu Deus e tudo o mais; vai com o teu Deus e luta ali, se quiseres; nós ficaremos aqui sentados, olhando."

360. Moisés orou e intercedeu por eles. Contudo, é-nos dito aqui (e há nisso um toque espiritual, não encontrado na história dos judeus) que Moisés foi suficientemente cuidadoso para apartar-se, e a seu irmão, da rebeldia.

361. Aquela geração não veria a Terra Sagrada. Todos aqueles que tinham mais de 20 anos morreriam nos descampados: "Vossos cadáveres ficarão jazendo na solidão"(Números 14:33). Apenas aqueles que eram crianças alcançariam a terra prometida. E assim aconteceu. Do deserto de Paran, eles erraram nas direções norte, sul e leste, por 40 anos. Da ponta do que é agora denominado Golfo de Acaba eles viajaram para o norte, conservando-se no lado leste da depressão, da qual o Mar Morto e o rio Jordão fazem parte. Quarenta anos mais tarde, eles cruzaram o Jordão, no ponto oposto ao que é agora chamado de Jericó, sendo que nesse tempo Moisés, Aarão e a totalidade da geração mais velha já havia morrido.

362. Literalmente, "conta-lhes, em verdade, a história" etc.. O ponto é que a história, no Gênesis, 4:1-15, constitui uma narrativa estéril, não estando incluídas, lá, as lições aqui encerradas. É então dito ao Mensageiro que propicie a veracidade da questão, os detalhes que reforçarão as lições.

363. Os dois filhos de Adão eram Habil (em português, Abel) e Cabil (em português, Caim). Caim era o mais velho e Abel o mais novo - o justo e inocente. Presunçoso, e por se mais velho, Caim estava cheio de arrogância e ciúme, o que fez com que cometesse o crime de assassinato. Entre os cristãos, Caim era o tipo do judeu, em contraposição a Abel, o cristão. O judeu tentando matar Jesus e acabar com o cristão. Do mesmo modo, em contraposição a Mohammad, o irmão mais velho da família semítica, Caim era o tipo das pessoas do Antigo e do Novo Testamento, as quais tentavam resistir e matar Mohammad e subjugar o seu povo.

364. A minha e a tua culpa. Há duas possíveis interpretações: (1) a interpretação óbvia é a de que o assassinato injusto não somente carrega consigo os encargos do seu próprio pecado, mas também os encargos dos pecados da sua vítima. Esta, ao ser alvo de desmandos ou injustiças, é perdoada dos seu pecados, e o iníquo, tendo sido admoestado, tão-somente agrava os seus próprios pecados; (2) a expressão "minha culpa" tem também sido interpretada como "pecado contra mim, consistindo em que me mataste"; neste caso "tua culpa" talvez tanto signifique "teu crime em cometeres um assassinato" ou "teu crime contra ti mesmo, porquanto o crime cause uma real perda de ti mesmo na Vida Futura." Ver a última cláusula do versículo seguinte.

365. A fala de Abel é plena de significado. Ele é inocente e temente a Deus. À ameaça de morte, feita pelo outro, ele se sai com a resposta calma, com a intenção de corrigi-lo. "Certamente", ele argumenta, "se o teu sacrifício não foi aceito, é por que havia algo de errado contigo, porquanto Deus é Justo e aceita o sacrifício dos virtuosos. Se isto não te dissuade, eu não vou querer revanche, embora haja tanto poder em mim com relação a ti quanto há em ti com relação a mim. Eu temo ao meu Senhor, pois sei que Ele ama toda a Sua Criação. Deixa-me prevenir-te de que está procedendo erradamente. Não pretendo nem mesmo resistir a ti; porém, sabes quais serão as conseqüências? Tu ficarás em eterno tormento espiritual".

366. Sal-at talvez signifique "cadáver", com uma implicação de nudez e vergonha, em dois sentidos: o sentido de estar exposto, sem sepultamento, e o sentido desse corpo estar aviltado, por ter sido violentamente privado, por um injustificado assassinato, da alma que o habitava - a alma, também, de um irmão.

367. A história de Caim é narrada com uns poucos detalhes, a fim de contar a história de Israel. O povo de Israel insultava e assassinava homens virtuosos, que não lhe causavam danos, mas, pelo contrário, vinham para o bem de toda humanidade. Quando Deus retirou os Seus favores de Israel, por causa dos pecados do seu povo, e os concedeu a uma nação irmã, a inveja de Israel descambou para o pecado. Matar ou procurar matar uma pessoa só porque ela representa um ideal, significava matar todos os que prima por esse ideal. Por outro lado, salvar a vida de uma pessoa, nas mesmas circunstâncias, significava salva a comunidade inteira. Qual seria a mais consistente condenação pelo assassinato de uma pessoa e pela vingança?

368. Para o duplo crime de traição contra o Estado, combinado com a traição a Deus, como é o caso dos crimes premeditados, quatro alternativas de punição são mencionadas, cada uma das quais haverá de ser aplicada, de acordo com as circunstâncias, a saber: execução (cortar a cabeça), "crucificação", aleijamento ou exílio. Essas eram as características do Direito Penal de então e de séculos mais adiante, com exceção das torturas, como "enforcamento", afogamento e esquartejamento. Em todos os casos, o arrependimento sincero, antes que fosse tarde, era reconhecido como ponto de apoio para a misericórdia.

369. Compreendido como significando a mão direita e o pé esquerdo.

370. Aqui tocamos num ponto da jurisprudência. Os jurisprudentes do Direito Canônico não são unânimes quanto ao valor da propriedade roubada, a qual envolveria a punição, que consiste em cortar a mão do ladrão ou da ladra. A maioria é de opinião que pequenos furtos são isentos de punição. A opinião geral é que apenas uma das mãos do ladrão primário deve ser cortada. Aparentemente, na época de Jesus os ladrões eram crucificados.

371. Havia homens, entre os judeus, que estavam constantemente sôfregos em constatar uma mentira quando ao Mensageiro. Tinham os seus ouvidos constantemente à escuta de narrativas, mesmo de pessoas que jamais se haviam aproximado dele. Se usarmos a preposição "de", em vez da preposição "para" (pois a palavra árabe contém os dois significados), o sentido ficará: Eles são espreitadores ou espias acurados, em relação a quaisquer mentiras de que puderem tomar conhecimento, e atuam como espias dos outros (seus rabinos etc.) que estão por trás do pano, para os quais levam as falsas narrativas.

372. Comparar com o versículo 14 desta surata. A adição da expressão min ba’di, aqui, evidencia a distorção das palavras quanto ao tempo e aos locais em que foram proferidas. Eles não manipulavam honestamente a sua lei, outrossim, malbaratavam-na, distorcendo-lhe o significado. Ou pode ser que, como portadores das narrativas, eles distorcessem o significado, deturpando o contexto.

373. Ávidos em devorar o que é ilícito: tanto no sentido literal como no figurado. No sentido figurado, seria: Lançavam mão da usura, ou da propina, ou tiravam indevidas vantagens das fracas posições das pessoas, ou dos seus próprios poderes fiduciários, para aumentarem a sua fortuna.

374. Esta é uma pergunta minuciosa quanto às intenções dos judeus de levarem os seus casos para decisões ao Mensageiro. Eles iam ter com ele para ridicularizar o que fosse que ele dissesse, ou para enganá-lo quanto aos fatos, e para se apegarem a uma decisão favorável a eles e que estivesse contra a eqüidade. Se a sua própria lei não se coadunasse com os seus interesses egoísticos, eles muitas vezes a mudavam. Mohammad, porém, era sempre inflexível em sua justiça.

375. Termo Rabbani deve, achamos, ser traduzido pelo título judeu Rabino, que serve para designar os seus homens sábios. O aprendizado judaico é identificado como a literatura rabínica. Ahbar é o plural de Hibr ou habr, pelo que devemos entender jurisprudentes judeus. Mais tarde, o termo foi aplicado àqueles de outras religiões. Estaria, acaso, a palavra relacionada com a mesma raiz de "Hebreu" ou de "Heber" (Gênesis, 10:21), os ancestrais do povo hebraico? Isto nos parece inviável, pelo fato de a raiz árabe para a palavra "Hebreu" ser " ‘Abar" e não Habar.

376. Duas acusações são feitas contra os judeus: (1) que mesmo dos livros que possuíam, eles destorciam o significado, segundo os seus próprios interesses, porque temiam mais aos homens do que a Deus; (2) que o que eles possuíam nada mais era o que fragmentos da Lei original, revelada a Moisés, misturada com uma porção de assuntos semi-históricos e legendários, de alguma poesia elevada. A Tora, mencionada no Alcorão, não se trata do Antigo Testamento como o conhecemos, nem tampouco se trata do Pentateuco (os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, contendo a Lei).

377. A retaliação é prescrita em três locais no Pentateuco, a saber: Êxodo, 21:23-25, Levítico, 24:18-21 e Deuteronômio, 19:21. A redação, nas três citações, é diferente, mas em nenhuma delas se encontra a adicional indução à misericórdia, como se encontra aqui. Note-se que em Mateus, 5:38, Jesus cita a Velha Lei "olho por olho" etc., modificando-a, no sentido do perdão; mas a injunção alcorânica é mais prática. Este apela à misericórdia é no sentido de "entre os homens", no mundo espiritual. Mesmo quando o injuriado perdoa, o Estado ou o Governante é competente para tomar tal ação, conforme for necessário para a preservação da lei e da ordem, na sociedade. Porque o crime possui as suas implicações, que vão além dos interesses da pessoa injuriada; a comunidade é afetada. Ver o versículo 32 desta surata.

378. Isto não faz parte da Lei Mosaica, mas dos ensinamentos de Jesus e de Mohammad. Note-se como os ensinamentos de Jesus são gradualmente introduzidos como preparando o caminho para o Alcorão.

379. Originalmente, a humanidade constituía-se de um simples povo ou uma simples nação; ver o versículo 1 da 4ª Surata e o versículo 213 da 2ª Surata. Assim sendo, Deus poderia ter-nos conservado todos iguais, com uma só língua, uma só espécie de comportamento e um só conjunto de condições físicas (incluindo o clima) para vivermos. Porém, em Sua sapiência, Ele nos proporcionou uma diversidade de tais contingentes, não apenas em um tempo específico, mas em diferentes períodos e épocas. Isto põe à prova, ainda mais, a nossa capacidade para a Unidade (Wahdaniya), e acentua a necessidade da Unidade do Islam.

380. Como a nossa verdadeira meta é Deus, as coisas que nos parecem diferentes, vistas de diferentes pontos de vista, sendo primordialmente reconciliadas n’Ele. Einstein estava certo, ao aprumar as profundezas da Realidade com o mundo da ciência física. Isso aponta, cada vez mais, para a necessidade da Unidade de Deus, no mundo espiritual.

381. O tempo dos insipientes é o tempo da organização tribal, dos feudos e das diferenças de acentuação egoística no homem. Esse tempo, realmente, ainda não se acabou. Constitui missão do Islam tirar-nos dessa falsa atitude mental e levar-nos à verdadeira atitude da Unidade. Se a nossa fé for segura, Deus nos guiará para essa Unidade.

382. Porque "muitos homens são depravados" (versículo 49 desta surata) deduz-se como inevitável que deva haver apóstatas, mesmo numa religião racional e de bom-senso como o Islam. Porém, há aqui uma admoestação, ao corpo dos muçulmanos, no sentido de que não se repita a história dos Judeus, e de que os muçulmanos não se tornem tão auto-satisfeitos ou arrogantes, a ponto de se apartarem do espírito dos ensinamentos de Deus. Se assim fizerem, a perda será deles próprios. A munificência de Deus não se restringe a um grupo ou a uma seção da humanidade. Ela poderá sempre elevar em dignidade aqueles que seguem o verdadeiro espírito do Islam. Esse espírito é definido de duas maneiras, primeiro em termos gerais: os crédulos amarão a Deus, e Deus os amará; e, segundo, por sinais específicos: entre a Irmandade, sua atitude deverá ser de humildade, sendo que, em relação aos iníquos, não se engajarão em compromissos verbosos; porfiarão e lutarão sempre pela verdade e pelo que é direito; não conhecerão medo, tanto físico como daquela espécie insidiosas, que diz: "Que dirão as pessoas se agirmos deste modo?" Serão muitíssimo elevados mentalmente, para que não sejam acossados por qualquer de tais pensamentos. Pois, como diz o versículo seguinte, seus amigos serão: Deus, Seu Mensageiro e Seu povo, povo que julga com justeza, sem receio, ou favores.

383. Não é certo estardes intimamente associados àqueles para os quais a religião é motivo de escárnio ou, no melhor das vezes, nada mais do que brinquedo. Eles poderão ser divertidos, ou ter outros motivos para vos encorajar. Porém, a vossa associação a eles minará a sinceridade da vossa fé, e vos tronará cínicos e insinceros.

384. Há a mais cruciante ironia neste versículo e no seguinte: Ó adeptos do Livro, odiai-nos, acaso, só porque cremos em Deus, e não somente em nossa escritura, mas também na vossa? Talvez nos odieis porque obedecemos a Deus, e vós estais em rebeldia contra Ele! Por que nos odiais? Há coisas piores do que a nossa obediência e nossa fé. Quereis que vos demos a conhecer algumas delas? Nosso teste será: que tratamento dispensou Deus às coisas que passamos a mencionar e qual foi o povo que incorreu na ira de Deus? (Deuteronômio 11:28 e 28:15-68). Quem provocou a ira de Deus? (Deuteronômio 1:34 e Mateus 3:7). Quem abandonou Deus e passou a cultuar o mal? (Jeremias 16:13). Esse é o vosso registro.

385. Para símios, ver o versículo 65 da 2ª Surata. Para homens possuídos pelo demônio e demônios introduzidos em suínos, ver Mateus 8:28-32.

386. Comparar com o versículo 12 desta surata e com o versículo 245 da 2ª Surata, quanto a "emprestar espontaneamente a Deus", e com o versículo 181 da 3ª Surata, quanto ao motejo blasfemo "Deus é pobre!" Constitui uma outra forma de motejo dizer: "A mão de Deus está encerrada; Ele é avaro; Ele nada dá!" Tal blasfêmia é repudiada. Muito pelo contrário, ilimitada é a munificência de Deus; Ele dá, por assim dizer, com ambas as mãos bem abertas - uma figura de retórica de ilimitada liberalidade.

387. A tradução literal das duas linhas deveria ser: "Comeriam do que estivesse sobre eles e do que estivesse sob eles." Comer (akala) é uma palavra muito compreensiva e denota, geralmente, deleite material, social, mental e espiritual. "Saciar-se do que é ilícito", nos versículo 62 e 63, refere-se auferir lucros indevidos provenientes da usura, dos fundos fiduciários, ou de outras fontes. "Comer", então, pareceria significar receber satisfação ou felicidade na vida comum, bem como no mundo espiritual. "Do que estivesse sobre eles" referir-se-ia às coisas celestiais, ou à satisfação espiritual, e "do que estivesse sob eles" referir-se-ia à satisfação terrena. Entretanto, é preferível tomar as palavras como uma expressão idiomática e entender: "agraciamento com as bênçãos dos céus e da terra".

388. Comparar com João 20:17, onde Cristo diz a Maria Madalena "...Vai aos meus irmão e dize-lhes que vou para meu Pai, e vosso Pai, para meu Deus, e vosso Deus"; com Lucas 18:19, onde Cristo repreende certo governante por este tê-lo chamado de Bom Mestre.

389. Maria jamais reivindicou ser a mãe de Deus, ou afirmou que seu filho era Deus. Ela era uma mulher reverente e virtuosa.

390. Note-se quão logicamente o argumento se desenvolve, face ao desvio e à carência de fé dos judeus, às blasfêmias associadas com os nomes de Jesus e Maria, e, nos versículos seguintes, com o culto de troncos e pedras inanimadas.

391. Os Salmos contêm várias passagens de imprecações contra os iníquos: "Ouviu o Senhor e ficou irritado; inflamou-se o fogo contra Jacó e ferveu a cólera contra Israel, porque não tiveram fé em Deus, nem confiaram em Seu socorro". Salmos 77:21-22, e 69:22-28.

392. Comparar com Mateus, 23:33: "Serpentes, raça de víboras, como escapareis vós de serdes condenados ao inferno?", e com Mateus 12:34.

393. Existem homens maldosos em todas as comunidades; porém, se os líderes conviverem com os desmandos dessas comunidades - e pior ainda, se os próprios líderes compartilharem desses desmandos - então essas comunidades estarão condenadas.

394. Os significado não é que eles meramente se intitulavam cristãos, mas eram cristãos sinceros, que apreciavam as virtudes dos muçulmanos, como aconteceu com os abissínios, aos quais os muçulmanos pediram refúgio durante a perseguição ocorrido em Makka.

395. Em prazeres que são benignos e lícitos o pecado consiste no exagero. Não há mérito algum na mera abstinência ou no mero asceticismo, embora a humildade e o desprendimento intrínsecos ao asceticismo possam ter o seu valor. Usai de todas as espécies de dádivas divinas com gratidão, mas sabei que o exagero não é aprovado por Deus.

396. Comparar com o versículo 219 da 2ª Surata, e respectiva nota. As pedras, aqui referidas, são as pedras do altar ou as colunas de pedra, nas quais era derramado óleo para a consagração, ou, ainda, as lajes sobre as quais se processava o ritual do sacrifício da carne para os ídolos. Qualquer prática idólatra ou supersticiosa é, aqui, condenada. Os ansab eram objetos de culto, comuns na Arábia pré-islâmica.

397. Essas setas eram, também, usadas ara tirar a sorte, isto é, para vaticinar momentos de sorte ou de azar, ou para ficar sabendo dos desejos dos deuses pagãos, quanto a se o homem deveria ou não empreender certos atos.

398. Há uma sutil sinfonia que parece, à primeira vista, tratar-se de uma tripla repetição. A relação de tais simples regulamentações, como as da alimentação, ou do jogo, ou a reverência dispensada a locais sagrados ou a instituições sagradas, tem de ser explicada vis-à-vis aos elevados deveres do homem. Porém, as mais simples normas físicas, ou seja, aquelas referentes ao comer, ao asseio etc., se forem boas, referir-se-ão, também, aos aspectos elevados.

399. Literalmente, "saber". A caça é proibida nos Recintos Sagrados. Se deliberadamente transgredirmos essa injunção, daremos provas de falta de fé e de reverência.

400. A veste de peregrino, Ihram, foi explicada na nota do versículo 196 da 2ª Surata.

401. Para uma transgressão inadvertida da norma pertinente à caça não há, aparentemente, penalidade alguma. A transgressão intencional deverá ser prevenida, se possível, por ação prévia. Se, em alguns casos, a ação preventiva não for efetiva, a penalidade será prescrita. A penalidade efetuar-se-á com três alternativas: um animal equivalente deverá ser oferecido à Caaba como sacrifício, e sua carne distribuída entre os pobres; ou os pobres deverão ser alimentados com cereal, ou receber dinheiro, de acordo com o valor do animal, caso tenha sido sacrificado; ou o transgressor deverá jejuar tantos dias quanto o número de pobres que deveria alimentar - aqueles enquadrados na segunda alternativa. Provavelmente, a última alternativa seria uma opção somente para os transgressores muito pobres, que não pudessem desincumbir-se da primeira e da segunda alternativas, sendo que, neste ponto, os jurisprudentes não chegaram a um acordo. O "animal equivalente", na primeira alternativa, seria um animal doméstico de valor semelhante, ou de semelhante peso em carne, ou de forma semelhante (ou seja, de cabra a antílope), como adjudicado por dois homens justos, escolhidos para esse fim. As alternativas sobre a penalidade, a sua remissão ("Deus perdoa o passado"), ou a sua exação, explicam as duas últimas linhas do versículo.

402. Caça aquática, isto é, a caça encontrada na água, ou seja, aves aquáticas, peixes etc.. "Aquática" inclui mares, rios, lagos, açudes etc..

403. Não tem no Alcorão.

404. Não tem no Alcorão.

405. Não tem no Alcorão.

406. Não tem no Alcorão.

407. Um bom número de superstições dos árabes idólatras é aqui mencionado. As mentes idólatras, não compreendendo os segredos ocultos da natureza, atribuíam certos fenômenos à ira divina, e eram acossadas por temores supersticiosos, que infernizavam as suas vidas. Se uma camela ou uma fêmea de um animal doméstico dava cria de um grande número de filhotes, ela (ou um dos seus filhotes) haveria de ter a sua orelha cortada, e esse animal era dedicado a um deus; tal animal era denominado bahira. Ao voltar, em segurança, de uma viagem, ou ao se recuperar de uma doença, uma camela era similarmente dedicada e deixada solta para pastar à vontade; era, então, chamada de as’iba. Quando um animal tinha cria em duplicata, certos sacrifícios ou dedicações eram feitos a ídolos; tal animal, sendo dedicado, era denominado wacila. Um camelo reprodutor, dedicado aos deuses por certos rituais, era chamado de hami. Os exemplos, em particular, levam à verdade generalizada: que a superstição é devida à ignorância, sendo degradante ao homem e desonrosa para Deus.

408. Comparar com o versículo 170 da 2ª Surata. Quando um mensageiro de Deus vem para nos ensinar o melhor caminho, é tolice dizermos: "Basta-nos seguir o que seguiam os nossos pais".

409. Comparar com o versículo 51 desta surata. Então, a unicidade de Deus reconciliará diferentes pontos de vida. A unidade de um Juiz proporcionará justiça perfeita quanto à conduta de cada um, não importando quão diferente, na forma, ela possa ter parecido neste mundo.

410. Istahaca = merece ter algo (bom ou mal), atribuído a alguém; daqui a alternativa significativa: (1) que cometeu (pecado) ou foi julgado culpado (de pecado); (2) que tinha ou reivindicava direitos legais (de propriedade). O procedimento foi seguido, num caso vigente, durante a vida do Mensageiro. Um homem de Madina morreu no exterior, confiando a dois amigos os seus pertences, para que fossem entregues aos seus herdeiros estipulados, em Madina. Eles, contudo, retiveram em seu poder uma valiosa taça de prata. Quando isto foi descoberto, foram tirados juramentos daqueles que sabiam do fato, e a justiça foi feita.

411. Uma cena do Dia do Reconhecimento é posta perante nós em palavras minuciosas, mostrando a responsabilidade e as limitações dos diletos de Deus, enviados para pregarem a Sua Mensagem aos homens, com referência especial à Mensagem de Jesus. Fossem quais fossem as fantásticas formas que a Mensagem tomasse nas reações dos homens, estava além do conhecimento dos mensageiros daquele tempo, estando também além das suas responsabilidades.

412. Os judeus teriam procurado tirar a vida de Jesus, bem antes da tentativa final de crucificá-lo (ver Lucas 4:28-29). A tentativa deles de o crucificarem foi-lhes também frustrada, de acordo com os ensinamentos que recebemos do Alcorão.

413. A pergunta dos discípulos demonstra um pouco da falta de fé, muita atenção para com o alimento físico, e um desejo infantil de milagres ou sinais. Todos esses expedientes podem ser comprovados, partindo-se dos Evangelhos Canônicos. Simão Pedro, bem no princípio da narrativa, pediu a Jesus que se apartasse dele, porquanto ele (Simão) era pecador (Lucas, 5:8). Esse mesmo Pedro, depois, renegou desavergonhadamente seu Mestre três vezes seguidas, quando o Mestre estavam em poder dos seus inimigos. E um dos discípulos (Judas) literalmente traiu Jesus. Mesmo nos Evangelhos Canônicos, muitíssimos dos milagres estão relacionados com a comida e a bebida; por exemplo, a transformação da água em vinho (João, 2:1-11), a transformação de cinco pães e de dois peixinhos em alimento para 5.000 homens (João, 6:5-13), sendo este o único milagre registrado pelos quatro evangelistas; a miraculosa quantidade de peixes, apanhados para a alimentação (Lucas, 5:4-11), a maldição da figueira que não dava frutos (Mateus, 21:18-19), a alegoria de se comer a carne de Cristo e beber o seu sangue (João, 6:53-57). Por causa de os samaritanos não quererem receber Jesus em sua aldeia, os discípulos Tiago e João queriam que uma língua de fogo descesse do céu e os consumisse (Lucas, 9:54).

414. As palavras da oração parecem sugerir a última Ceia. Comparar com a visão de Pedro, em Atos dos Apóstolos, 10:9-16.

415. No Islam, como na oração de Cristo, o sustento deve ser tomado tanto para o fortalecimento físico, como para o espiritual, especialmente para este último.

416. Jesus, aqui, dá a conhecer que era mortal, e que o seu conhecimento era limitado, como o de um mortal.

417. Fauz = felicidades, ventura, realização, salvação, a consecução ou o cumprimento dos desejos. Que magnífica definição de salvação, ou fim da vida! - que nós devemos angariar o aprazimento de Deus, e que devemos chegar ao estágio em que o Seu aprazimento estará em todo o nosso ser!

418. A argumentação é tripla: (1) Deus criou tudo o que vedes e conheceis; como podeis, então, julgar que qualquer de Suas criaturas possa igualar-se a Ele? (2) Ele é o vosso próprio Senhor; Ele vos adora e ama; como podeis, então, ser tão ingratos, e correr atrás de outra entidade? (3) As trevas e a luz existem para ajudar-vos a distinguir entre o verdadeiro e o falso; como podeis, então, confundir a verdade de Deus com as vossas falsas idéias e superstições? Talvez possa haver repúdio quanto ao dualismo da antiga teologia persa; Luz e Trevas não são duas forças conflitantes; ambas são criações do Único e Verdadeiro Deus.

419. Esta vida é um período de provação. O outro período prepara o Julgamento.

420. É insensatez supormos que Deus reina apenas nos céus. Ele reina também na terra. Ele conhece todas as nossas intenções e pensamentos secretos, bem como a real validade do que está por trás daquilo que nos dignamos mostrar. É pelos nossos feitos que Ele nos há de julgar; pelos nossos feitos, bons ou maus, teremos a devida recompensa, no devido tempo.

421. A palavra Quirtás, na época do Mensageiro, poderia significar apenas "pergaminho", que foi empregado como material de escrita na Ásia ocidental, a partir do século II a.C. A palavra derivou-se do grego Charles (comparar com a palavra latina Charta). O papel, como o conhecemos, feito de trapos, foi primeiramente usado pelos árabes, depois da conquista de Samarcanda, no ano 751 d.C. Os chineses haviam-no usado, lá pelo século II a.C. Os árabes o introduziram na Europa, e ele foi usado na Grécia no século XI ou XII, e na Espanha, por intermédio da Sicília, no século XII. O papiro, feito de junco egípcio, já era usado no Egito, por volta do ano 2500 a.C. Então, ele cedeu lugar ao papel, no século X d.C.

422. Os materialistas desejam, literalmente, ver as coisas físicas e materiais perante eles; porém, se tal coisa lhes aparece, provinda de fonte incomum, eles não a podem compreender, e dão-lhe nomes tais como magia, ou superstição, ou qualquer outro nome em voga, não ajudando em nada no sentido de adquirirem fé, porquanto "em seus corações abrigam a morbidez"(2ª Surata, versículo 10).

423. A frase "os escarnecedores foram envolvidos por aquilo de que escarneciam" expressaria, epigramaticamente, só parte do sentido, mas não o todo. O termo "foram envolvidos" implica em que a lógica dos eventos fez o feitiço virar contra o feiticeiro e, uma vez que o homem se vê sitiado e rodeado pelos inimigos, na guerra, e é forçado a se render, então os escarnecedores constatarão que esses eventos é que justificariam a Verdade, não eles. Onde estavam os escarnecedores de Jesus, quando Tito destruiu Jerusalém? Quanto aos escarnecedores que fizeram com que Mohammad fugisse de Makka, qual não foi a sua situação, quando ele voltou triunfante para ali, tendo eles de implorar por misericórdia - e ele lha concedeu! De acordo com o provérbio latino, Magnífica é a Verdade, que deve prevalecer.

424. As pessoas vulgares cultuam falsos deuses, por causa do medo que têm que eles lhes causem danos, ou na esperança de que lhes dispensem alguns benefícios. Esses falsos deuses não podem fazer nem um, nem outro. Todo o poder, toda a beneficência está nas mãos do Único e Verdadeiro Deus. Tudo o mais é pretensão ou ilusão.

425. A palavra Fitnat possui vários significados, partindo da idéia-raiz de "experimentar, testar"; ou seja, (1) um teste ou uma tentação, como nos versículos 102 da 2ª Surata; (2) problemas, tumultos, opressão, perseguição, como nos versículos 191, 193 e 217 da 2ª Surata; (3) discórdia, como no versículo 7 da 3ª Surata; (4) subterfúgio, uma escusa fundamentada na falsidade, como aqui. Outros significados serão notados, à medida que ocorrerem. Aqueles que blasfemavam sobre Deus, verão agora, a "nulidade" das suas imaginações.

426. As mentiras que costumavam contar "sumiram" dos canais que costumavam ocupar, deixando os mentirosos em apuros. Ao negarem o indubitável fato de que acatavam falsos deuses, eles passam a admitir a falsidade de suas noções, e desse modo se condenam, por suas próprias bocas.

427. De acordo com uma fidedigna tradição, este versículo foi revelado devido ao comparecimento de alguns idólatras à assembléia do Profeta, onde se recitava o Alcorão. Ouviram-no, mas nada entenderam. E quando lhes foi pedido que definissem o que o Profeta dizia, responderam: "Nada sabemos; vemo-lo apenas mover os lábios".

428. Sua falsidade não é devida à carência de conhecimentos, mas à sua perversidade e egoísmo. Por isso, nem seu entendimento, nem seus ouvidos, nem seus olhos fazem adequadamente o seu trabalho. Eles distorcem tudo o que vêem, ouvem, o que lhes é ensinado, resultando que se aprofundam cada vez mais no lodo. A trapaça que costumam praticar sobre outras pessoas estará presente perante o Trono do Julgamento, sendo que ela aparecerá claramente perante os seus próprios olhos.

429. Existem muitas evidências de missão divina do Mensageiro, bem como na Mensagem que ele recebeu. Se isto não fosse suficiente para convencer os incrédulos, não seria, acaso, vão, procurar por sinais nas entranhas da terra ou por uma visível ascensão aos céus? Se na avidez do Mensageiro em fazer com que sua mensagem fosse aceita por todos, ele ficasse magoado com o empedernimento deles, com a franca oposição e perseguição a ele, ser-lhe-ia dito que o pleno conhecimento do Plano Divino convencê-lo-ia que a impaciência era desaconselhável.

430. Ser que ande sobre a terra; estão inclusos, nesta expressão, aqueles que vivem na água - peixes, répteis, crustáceos, insetos, bem como os quadrúpedes. Os alados são mencionados separadamente. Tair, que é comumente traduzido por "ave", compreende qualquer animal que voe, incluindo mamíferos, como os morcegos. Em nosso orgulho, nós talvez excluamos os organismos que vivem além da dimensão percebida por nós; contudo, saibamos que eles vivem uma vida social e individual, como nós próprios, e que toda a forma de vida está sujeira ao Plano e à Vontade de Deis. Em outras palavras, tudo obedece ao Seu Plano arquetípico, mesmo o Livro aqui mencionado. Todas as coisas são, em seus vários graus, correspondentes a Seu Plano (serão consagrados, no fim, ante seu Senhor).

431. O limitado livre-arbítrio do homem faz uma pequena diferença. Se ele vir os sinais, mas tapar os ouvidos à verdadeira mensagem, e recusar-se (como um surdo) a falar dessa mensagem que toda a natureza proclama, então, de acordo com o Plano (de seu limitado livre-arbítrio), ele deverá sofrer e vagar, assim como, no caso oposto, receberia a diretriz e a salvação.

432. A atribulação e o sofrimento deveriam (se os tomarmos adequadamente) tornar-se, para nós, as melhores dádivas de Deus. Através do sofrimento exercitamos a humildade, que constitui o antídoto para muitos vícios, e a fonte de muitas virtudes. Porém, se tomarmos o sofrimento com outra disposição, nos queixaremos; tornar-nos-emos pusilânimes, e Satanás terá a sua oportunidade de nos explorar, apresentando-nos os prazeres sedutores de suas futilidades.

433. O castigo de Deus, para com os iníquos, constitui uma medida justiceira, para que sejam protegidas a verdade e a virtude de suas depredações, e para que se mantenham os Seus decretos justiceiros. Esse é um dos aspectos do Seu caráter, ao qual dá ênfase o epíteto "Acalentador dos Mundos".

434. Aprendermos a verdade interior de nós mesmos e do mundo, evidencia um certo estágio avançado de sensibilidade e de desenvolvimento espiritual. Há um estágio mais superficial, no qual a prosperidade e as boas coisas da vida talvez despertem em nós a comiseração, a benevolência e a prestimosidade. Em tais casos, a Mensagem cria raízes. Porém, há um outro tipo de caráter, que se empertiga com a prosperidade. Para os desse tipo, ela constitui um teste, ou ainda uma punição, partindo de um elevado ponto de vista. Eles se aprofundam cada vez mais no pecado e dali são repentinamente retirados, e, então, ao invés de ficarem contristados, ficam meramente desesperados.

435. Alguns dos coraixitas, ricos e influentes, pensavam que estivesse aquém da dignidade deles ouvir os ensinamentos de Mohammad, em companhia dos discípulos de baixas condições financeiras, que se reuniam em torno dele. Ele, porém, recusava-se a dispersar aqueles humildes discípulos, que sinceramente procuravam Deus. Partindo de um modo de ver terreno, eles nada tinham a ganhar de Mohammad, pois este era pobre, e ele igualmente nada tinha a ganhar com eles, pois que não tinham influência. Mas isso não constituía razão para que ele os mandasse embora; com efeito, a sua verdadeira sinceridade angariava-lhes precedência sobre os mundanos, no Reino de Deus, cuja justiça era vindicada na vida cotidiana de Mohammad, nisto, e em outras coisas. Se a sua sinceridade era, de algum modo, dúbia, isso não implicava em responsabilidade para o Pregador.

436. Há, agora, um bom número de argumentos, postos à baila contra os maquenses, que se recusaram a crer na Mensagem de Deus. Cada argumento é introduzido pela expressão "Diz". Eis aqui os quatro primeiros: (1) eu recebi a luz, e a seguirei; (2) eu prefiro a minha Luz aos vossos vãos desejos; (3) quanto ao vosso desafio ("Se há um Deus, por que Ele não extermina de vez os blasfemos?"), não compete a mim levantá-lo; o castigo está nas mãos de Deus; (4) se estivesse em minhas mãos, competiria a mim levantar o vosso desafio; tudo o que sei é que Deus está familiarizado com a existência de insensatez e da iniqüidade, e com muitas outras coisas mais, que mortal algum pode saber; vós podeis divisar poucos lampejos do Seu Plano, mas podeis estar seguros de que Ele não tardará em chamar-vos a prestar contas.

437. Anjos da guarda; muitos exegetas compreendem isto como tal. A idéia de guardar é expressa em um termo geral. Deus vela por nós e nos guarda, além de nos prover de todos os expedientes materiais, morais e espirituais, para que isso nos auxiliem em nosso crescimento e desenvolvimento, nos salvaguardem dos danos, e nos aproximem mais do nosso Destino.

438. No tempo desta revelação, o povo do Mensageiro constituía-se como um corpo que não apenas rejeitava a verdade de Deus, mas ainda perseguia aqueles que a aceitavam. O dever do Mensageiro era dar a conhecer a sua Mensagem, coisa que ele fazia. Ele não era responsável pela conduta dos outros. Contudo, ele lhes dizia detalhadamente que todas as admoestações, provindas de Deus, tinham o seu limite de tempo, como eles logo constatariam. E, com efeito, eles o constataram, num espaço de poucos anos, de sorte que os líderes da resistência chegaram a um fim escabroso, e todo o seu sistema de fraude e egocentrismo foi destruído, dando lugar à mais pura fé do Islam. À parte desta aplicação particular, há a aplicação mais geral, para o presente e para todos os tempos.

439. O argumento culmina com o que está aqui, e leva à enorme visualização de Abraão, o verdadeiro na fé, que não se detinha ante os assombros da natureza; passava "da natureza ao Deus da natureza". Deus não criou apenas os céus e a terra; com cada acréscimo de conhecimento nós vemos em que perfeitas proporções toda a Criação é mantida unida. As criaturas estão sujeitas à influências do tempo, mas não o Criador; Sua palavra é a chave que abre a porta da existência. Mas não se trata apenas do ponto de partida da existência, mas de toda a medida e padrão da Verdade e do Direito. Possivelmente, talvez existam, na nossa visão deste magnífico mundo, aberrações de vontades humanas, ou outras vontades; mas, no momento em que a trombeta soar para o derradeiro dia, o Seu Trono de julgamento restaurará, com perfeita justiça, os domínios do Direito e da Realidade. Porque o Seu conhecimento e a Sua sapiência compreendem toda a realidade.

440. Agora aparece a história de Abraão. Ele viveu entre os caldeus, os quais possuíam enormes conhecimentos das estrelas e dos outros corpos celestes. Contudo, ele penetrou para além do mundo físico e divisou o mundo espiritual, este por detrás daquele. Seus ídolos ancestrais nada significavam para ele. Esse constituiu o primeiro passo. Mas Deus o elevou em muitos graus acima. Deus lhe mostrou, com veemência, as glórias espirituais por detrás das magníficas forças e leis do universo físico.

441. Temos agora uma lista de dezoito Mensageiros, dividida em quatro grupos, compreendendo os grandes Mestres, aceitos entre os adeptos das três grandes religiões, baseadas em Moisés, Jesus e Mohammad. O primeiro grupo a ser mencionado é o de Abraão, com seu filho, Isaac, e o filho de Isaac, Jacó. Abraão foi o primeiro a receber um Livro. Este é mencionado no versículo 19 da 87ª Surata, embora tal Livro esteja agora perdido. Portanto, eles foram os primeiros a receber a Diretriz, em termos de um Livro.

442. No segundo plano, temos os grandes fundadores de famílias, isoladamente de Abraão, a saber: Noé, do tempo do Dilúvio; Davi e Salomão, os verdadeiros estabilizadores da monarquia judaica; Jó, que viveu 140 anos, viu quatro gerações de descendentes, e no fim de sua vida foi abençoado com uma vasta riqueza agropecuária (Jó, 42:12 e 16); José, que foi Ministro de Estado no Egito, realizando ali grandes obras, e foi o progenitor de duas tribos; e Moisés e Aarão, os líderes do Êxodo do Egito para a Palestina. Eles viveram intensamente, e são denominados "praticantes do bem".

443. O terceiro grupo consiste, não de homens, de ação, mas de Pregadores da Verdade, que levaram vidas solitárias. Seu epíteto é "os Virtuosos". Eles foram profetas místicos, e formam um grupo conexo, em torno de Jesus. Zacarias foi o pai de João Batista, o precursor de Jesus (versículos 37;41 da 3ª Surata). Jesus referiu-se a João como sendo Elias: "...ele mesmo é Elias, que há de vir" (Mateus, 11:14); e diz-se que Elias esteve presente, e que falou com Jesus, na Transfiguração, no Monte (Mateus, 17:3).

444. Este é o derradeiro grupo, descrito como o daqueles "favorecidos acima das nações". Ele se constitui de quatro homens, e todos eles passaram por infortúnios, e foram envolvidos nas destruições das nações, permanecendo, contudo, na senda de Deus, surgindo, então, acima das ruínas delas. Ismael era o filho mais velho de Abraão; quando era um bebê, ele e sua mãe quase morreram de sede no deserto, ao redor de Makka; porém, eles foram salvos pelo poço de Zamzam, tornando-se ele o fundador da nova nação árabe. Eliseu (Al-yas’a) sucedeu ao Profeta Elias, que viveu em tempos atribulados para ambos os reinos judaicos (Judá e Israel); havia reis iníquos, com outras nações a pressioná-los; mas ele realizou muitos milagres, e algum revide foi dado ao inimigo, a conselho seu. A história de Jonas (Yunus) é bem conhecida; ele foi engolido por um peixe, ou baleia, mas foi salvo pela misericórdia de Deus; por causa da sua pregação, a sua cidade (Nínive) foi salva (versículo 98 da 10ª Surata). Lot era sobrinho e contemporâneo de Abraão; quando a cidade de Sodoma foi destruída, por causa da corrupção, ele foi salvo, como um homem justo (versículos 80-84 da 7ª Surata.

445. Mãe das Cidades: Makka, agora a Alquibla (Diretriz) e o Centro do Islam. Não obstante este versículo ter sido revelado em Makka antes da Hégira, e antes que Makka tornasse a Alquibla do Islam, Makka era, em verdade, a Mãe das Cidades, estando tradicionalmente relacionada com Abraão e com Adão e Eva (ver versículos 125 e 197 da 2ª Surata). E todas as cidades circunvizinhas, significaria: "todo o mundo", caso considerássemos Makka como o Centro.

446. Algumas das várias idéias relacionadas com a "criação" estão anotadas na nota do versículo 117 da 2ª Surata. Se o corpo do homem foi criado do barro, ou seja, de matéria terrestre, houve um processo primitivo de criação de tal matéria. Aqui, o corpo é deixado de lado, sendo a alma trazida a foco. A alma passou por vários processos de modelagem e adaptação à suas várias funções em seus vários ambientes (versículo 7-9 da 32ª Surata). Porém, cada alma, em particular, depois de deixar o corpo, volta à forma com que foi criada, com nada mais do que sua história - "com as obras que realizou"- , a qual faz parte integrante dela. Qualquer coisa exterior, dada como ajutório para o seu desenvolvimento - "tudo quanto vos concedemos"- deverá, necessariamente, ser deixada de lado, não obstante ela ter-se orgulhado dela. Estas coisas exteriores poderão consistir de coisas materiais, por exemplo, riqueza, propriedades, sinais de poder, influência e causas de orgulho, como filhos, parentes e amigos etc., ou coisas intangíveis, como talento, intelecto etc..

447. No mar, ou nos desertos, ou nas selvas, ou nas desesperadas cenas fantasiosas, sempre que perquirimos as imensidões dos espaços, são as estrelas que atuam como nossos guias, justamente como o sol e a lua, que já foram mencionados, como servindo de cômputo para o tempo.

448. Nossa alegoria leva-nos, agora, para a maturidade, para o fruto, para a colheita, para a vindima. Por meio da semente nós surgimos, do nada para a vida; vivemos a nossa vida cotidiana de descanso e trabalho, e passamos o marco do tempo; tivemos a experiência mental de atravessar vastos espaços, no mundo espiritual, guiando-nos, em nosso rumo, pela estrela da fé; crescemos, e estamos prontos para a colheita ou vindima! Assim será com o homem, se ele produzir os frutos da fé!

449. Cada fruto - sejam uvas, olivas ou romãs - parece ser igual, em seu tipo, e, contudo, cada variedade é diferente em sabor, consistência, forma, tamanho, cor, no suco ou no óleo neles contidos, proporção de sementes que frutifica etc.. Em cada variedade, o indivíduo poderá ser diferente. Aplique-se a alegoria ao homem, cujo variado fruto espiritual poderá ser igualmente diferente e, no entanto, igualmente valioso.

450. Jinns (Gênios): Quem são eles? No versículo 50 da 18ª Surata, é-nos dito que Iblis (Lúcifer) era um dos Jinns, dando a entender que foi por isso que ele desobedeceu à ordem de Deus. Contudo, naquela passagem e em passagens semelhantes, é-nos dito que Deus ordenou aos anjos que se prostrassem perante Adão, coisa que eles fizeram, menos Iblis. Isso implica em que Iblis havia feito parte da companhia dos anjos. Em muitas passagens fala-se concomitantemente de gênios e de homens. Nos versículos 14-15 da 55ª Surata, é relatado que o homem foi criado do barro, ao passo que os gênios foram criados de uma chama de fogo. O significado da raiz de janna, yajinnu, é: "ser coberto ou escondido", e com o verbo na voz ativa, significa: "cobrir ou esconder", como no versículo 76 desta surata. Algumas pessoas dizem que jinn, portanto, significa as qualidades ou capacidades ocultas do homem; outras, que significa seres dos ermos ou da selva, ocultos nos montes ou nas touceiras. Não desejamos ser dogmáticos, mas achamos, por um confronto e estudo das passagens alcorânicas, que o significado simples é "um espírito" ou uma força invisível ou oculta. Em histórias romanescas de folclore, como em As Mil e Uma Noites, eles foram personificados com formas fantásticas, mas não é da nossa alçada desenvolver isso aqui.

451. As principais tarefas com que se depara o dileto de Deus são: observar de perto quaisquer desses fatores que possam promover os elevados fins; tentar purificar aqueles que têm sido mal empregados; introduzir novas idéias e novas maneiras de ver as coisas; e combater o que for errado e não puder ser corrigido; tudo isto com o propósito de conduzir a verdade e deixar entrar a luz espiritual aonde antes só havia trevas. Se isto não for feito com a discrição e a tenacidade de um Mestre espiritual, talvez haja não apenas a reação da obstinação, mas também uma indecorosa mostra de desonra ao verdadeiro Deus e à Sua Verdade, podendo a dúvida espalhar-se entre os irmãos mais fracos cuja fé seja superficial e afeita a ser abalada. O que acontece com os indivíduos pode acontecer coletivamente com as nações e os grupos de pessoas. Em sua obsessão, esses grupos poderão pensar que suas próprias idéias são as certas. Deus, em Sua infinita compaixão, os tolera, e pede àqueles que têm idéias mais puras acerca da fé, que não difamem a fraqueza do seu próximo, a menos, é claro, que este difame a verdade real, e torne a questão ainda pior do que antes. Porquanto haja erros, Deus perdoará e enviará a Sua graça, a fim de evitar a ignorância e a insensatez. Porquanto existia o mal ativo, Deus tratará com ele à Sua própria maneira. Certamente, o virtuoso não há de esconder a sua luz sob uma capa, ou se comprometer com o mal, ou recusar-se a viver uma vida correta, quando tem o meio para isso - o conhecimento.

452. Se os incrédulos estão meramente obstinados, nada os fará retratarem-se. Não há história mais farta de milagres do que a história de Jesus. Contudo, nessa mesma história, é-nos dito que Jesus disse: "Esta geração perversa e adúltera pede um prodígio; e não se lhe dará outro prodígio, senão o prodígio do Profeta Jonas"(Mateus, 16:4). Há sinais, propiciados por Deus, todos os dias - compreendidos por aqueles que crêem. Uma mera insistência sobre sinais particulares ou especiais significa pura contumácia e incompreensão quanto ao mundo espiritual.

453. A graça de Deus está sempre pronta a evitar a fraqueza ou ignorância do homem, a aceitar o arrependimento e a conceder o perdão. Porém, quando o pecador se mostra em virtual rebeldia, é-lhes dado corda, e será sua própria culpa se ele tatear distraidamente ao léu, sem qualquer esperança certa ou refúgio.

454. Um grupo de idólatras de Makka pediu ao Profeta que fizesse aparecer os anjos - para testemunharem que ele era o Mensageiro de Deus - ou que ressuscitasse alguns mortos, para que pudessem inquiri-los sobre a sua veracidade. Todavia, os mais estupendos milagres, mesmo de acordo com as suas idéias, não os teriam convencido. Se todo o aparato do mundo espiritual fosse colocado à frente deles, não teriam crido, porque, por sua livre escolha e vontade, recusam o conhecimento e a fé.

455. Os virtuosos não buscam nenhum outro padrão de julgamento que não seja a Vontade de Deus. Como poderão fazê-lo quando Deus, em Sua graça, tem explicado a Sua Vontade com detalhes, no Alcorão, o qual os homens de todas as capacidades podem entender? Com ele o mais humilde pode aprender lições de conduta reta na vida cotidiana, e o mais avançado poderá encontrar a mais elevada sapiência, em seu ensinamento espiritual, enriquecida por todas as espécies de magníficas metáforas, tiradas da natureza e da história do homem.

456. Eis aqui uma alegoria ao benevolente, com sua missão divina, e ao malevolente, com sua missão maligna. O primeiro, antes de adquirir a sua vida espiritual, estava como que morto. Foi a graça de Deus que lhe concedeu a vida espiritual, com uma Luz com a qual ele pudesse dirigir seus próprios passos, bem como os passos daqueles que querem seguir a luz de Deus. O oposto constitui-se daqueles os que odeiam a luz de Deus, que vivem nas profundezas das trevas, e que tramam e se entocaiam contra tudo o que é bom. Poderão equiparar-se, mesmo por um momento, estes dois tipos? Pode acontecer que a liderança, em todos os centros populacionais, esteja nas mãos de homens maus. Contudo, os bons não deverão ficar desencorajados. Estes deverão obrar em virtude, e concluir a sua missão.

457. Além dos ensinamentos das palavras de Deus, e dos ensinamentos do mundo de Deus, da natureza, da história e dos contatos humanos, muitos outros sinais chegam aos diletos de Deus, que os recebem humildemente, e tentam compreendê-los; e muitos sinais também chegam aos incrédulos, na forma de admoestação ou equivalente, os quais eles não levam em consideração, ou deliberadamente rejeitam. Porém, a obra de Deus estará sempre de acordo com a Sua própria Vontade e Seu próprio Plano, e não de acordo com os desejos e caprichos dos incrédulos.

458. O Plano Universal de Deus é o cadhá-wa-cadar, que é muito mal compreendido. Esse Plano é inalterável, e essa é a Sua Vontade. Isto quer dizer que no mundo espiritual, bem como no material, existem leis de justiça, de misericórdia, de graça, de castigo, etc., que funcionam tão seguramente como qualquer outro instrumento que conheçamos. Se, então, o homem se recusar a aceitar a Fé, tornar-se-á rebelde e, a cada passo, abater-se-á cada vez mais, com a aceleração do seu movimento regular. Quase não será capaz de tomar a respiração espiritual, a ponto de sua recuperação - a despeito da misericórdia de Deus, que ele rejeitara - tornar-se tão difícil, como se tornaria a sua ascensão aos céus. Por outro lado, o devoto achará, a casa passo, mais fácil o próximo.

459. Os estudos científicos modernos provam que quanto mais o homem se eleva na atmosfera, mais difícil se torna a sua respiração pelo nariz. Ao alcançar a altura de 360 m, só poderá respirar pela boca; continuando a elevar-se, chegará o momento em que será totalmente impossível respirar.

460. Eternidade e infinidade são termos abstratos. Não possuem significado especial em nossa experiência humana. A qualificação "salvo para quem Deus quiser" torna-os mais inteligíveis, à medida que formemos alguma idéia - conquanto inadequada - de uma Vontade e de um Plano, e conheçamos a Deus por Seus atributos de Misericórdia e de Justiça.

461. Os iníquos desposam os iníquos, por causa das suas barganhas mútuas. Porém, ao agirem assim, eles livram os virtuosos de tentações piores.

462. Deus é independente de nossas orações ou serviços. É de Sua misericórdia que Ele deseje o nosso bem. Qualquer raça ou povo a quem Ele conceda as suas chances deve entender que o seu fracasso não o afeta; Ele poderia criar outros povos em seus lugares, como fez em tempos passados, e como está fazendo nos nossos próprios dias, caso tenhamos olhos para ver.

463. Aqui há sarcasmo mordaz do mais alto teor, que passou desapercebido a alguns exegetas. Os idólatras geralmente têm um enorme Panteão, embora, afora isso, possuam uma vaga idéia de um Deus Supremo. Porém, os bens materiais vão para as deidades, os "parceiros" fantasiosos de Deus, porquanto estes têm templos, sacerdotes, oferendas, etc., ao passo que o Verdadeiro e Supremo Deus tão-somente recebe cultos verbais ou, quando muito, uma parcela, junto aos inúmeros "parceiros". E era assim também na Arábia. Os quinhões designados para os "parceiros" iam para os sacerdotes e para os sequazes dos "parceiros", que era muitos, e reivindicadores de seus direitos. O quinhão designado a Deus ia, possivelmente, para os pobres, porém, mais provavelmente ia, para os sacerdotes, que mantinham o culto dos "parceiros", já que o Supremo Deus não tinha, em separado, Seus próprios sacerdotes. Deus criou todas as coisas; como poderia ter Ele um quinhão?

464. Era de se supor que os falsos deuses e ídolos - entre muitas nações, incluindo a árabe - requeressem sacrifícios humanos. Comumente, tais sacrifícios são revoltantes ao homem, mas saiba-se que eles eram "tentadores", pelo costume dos idólatras, o qual falsamente reivindicava o título de religião. Tal costume, se adotado, nada mais fazia do que destruir espiritualmente as pessoas que o praticavam, além de transformar a religião num confuso acervo de superstições revoltantes.

465. O tabu, quanto a certas comidas, constitui, às vezes, um instrumento dos sacerdotes para reservarem para si coisas especiais. Isso deve ser reforçado pela pretensão de que a proibição, para os outros, ocorre pela vontade de Deus. Isso constitui uma mentira ou invencionice quanto a Ele. Constituem-no, também, as superstições, em sua maioria.

466. As reses dedicadas aos deuses pagãos deveriam ser poupadas de todo o trabalho útil; nesse caso, tornavam-se um peso morto para a comunidade, e causavam, além disso, uma porção de danos aos campos e às colheitas.

467. Estas são as superstições idólatras mais absurdas. Algumas já apareceram no versículo 103 da 5ª Surata, o qual deve ser consultado, juntamente com a respectiva nota.

468. Refere-se aos costumes dos árabes anteriores ao Islam, que enterravam vivas as filhas e sacrificavam aos ídolos.

469. A superstição acaba com a verdadeira religião. Voltemos às superstições dos árabes idólatras acerca das reses para a alimentação. Os cavalos não são mencionados, porquanto a carne do cavalo não fazia parte da dieta, e não havia superstições sobre ela. Ovelhas e cabras, camelos e bois, eram a fonte comum de carne. As ovelhas e as cabras não eram empregadas como bestas de carga, mas os camelos (de ambos os sexos) eram usados no transporte de carga, e os bois no arado, embora as vacas fossem principalmente utilizadas para leite e dar carne. A frase "Ele criou para vós animais de carga, e outros para o abate" não diferencia todas as espécies, mas evidencia as primeiras e as últimas categorias.

470. As superstições, referidas no versículo 130, acima, são mais ridicularizadas neste versículo seguinte.

471. Sangue fluente: distinto do sangue aderente à carne, ou o fígado, ou qualquer outro órgão interno que purifica o sangue.

472. A palavra Zufur pode significar garra ou casco; ela está no singular; porém, como nenhum animal possui somente uma garra, e não há pontos de interrupção nas garras, devemos considerar o casco, para uma correta interpretação. Segundo a lei judaica, "Tudo o que tem unhas fendidas, e a fenda das unhas divide em duas, e remói, entre os animais, aquilo comereis, destes porém não comereis, dos que remoem ou dos que têm unhas fendidas: o camelo, que remói mas não tem as unhas fendidas; este vos será imundo; e o coelho, porque remói mas não tem as unhas fendidas, este vos será imundo. E a lebre, porque remói, mas não tem as unhas fendidas, esta vos será imunda." (Levítico, 11:3-6). Portanto, "animais solípedes" seria a interpretação correta. Estes três animais, conquanto ilícitos para os judeus, são lícitos para os muçulmanos. Comparar com o versículo 160 da 4ª Surata.

473. A Revelação a Moisés se reportava aos detalhes da vida das pessoas, servindo assim de guia prático para os judeus e, depois, para os cristãos. Confessadamente, a Mensagem do Islam, como se encontra no Alcorão, constitui o próximo guia completo, em relação ao tempo, depois da de Moisés.

474. Porque os diligentes estudos do anterior Povo do Livro foram feitos em linguagem desconhecida ao recém-formado Povo do Islam, ou porque os membros daquele povo haveriam de deparar-se com circunstâncias diferentes das deste, no novo mundo pós-islâmico.

475. Ou seja, o Alcorão, a vida e os ensinamentos de Mohammad, o Mensageiro de Deus.

476. Novamente a doutrina da responsabilidade pessoal. Nós próprios somos responsáveis por nossos atos; não podemos transferir as conseqüências para ninguém mais. Nem tampouco ninguém poderá expiar vicariamente os nossos pecados. Se, honestamente, as pessoas têm dúvidas ou desentendimentos sobre questões importantes quanto à religião, não devem dar início a disputas fúteis. Tudo será esclarecido no fim. Nosso mister, aqui, é mantermos a unidade e a disciplina, e cumprirmos com o dever com que nos deparamos.

477. Comparar com o versículo 30 da 2ª Surata, e respectiva nota, onde traduzimos a palavra Khalifa por "legatário", sendo do Plano de Deus tornar Adão (como representante da humanidade) e Seu legatário na terra. Uma outra idéia implícita em Khalifa é a de "sucessor, herdeiro", isto é, aquele que tem direito prioritário à posse (a quem um testamento em vida foi concedido pelo possuidor), depois que este morreu. No versículo 23 da 15ª Surata aparece a notável palavra "Herdeiro" (com "h" maiúsculo - Wáriçun), aplicada a Deus: "Somos Aquele que dá a vida e a morte, e somos o Único Herdeiro de tudo." A mesma idéia ocorre no versículo 180 da 3ª Surata, onde há que ver a respectiva nota. Aqui, a tradução tenta expressar ambas as idéias, as quais entendemos, partindo do original.

478. Esta é uma combinação de abreviaturas de quatro letras. A combinação, aqui, inclui as três letras, Alef, Lam, Mim, que aparecem no início da 2ª Surata, sendo discutidas na nota do versículo 1, da mesma surata. A letra adicional, Sad, aparece aqui e na 19ª Surata, e, isoladamente, no início da 38ª Surata. O fator comum às 7ª, 19ª e 38ª Suratas é que, em cada caso, o teor delas consiste das histórias (quiças) dos Profetas. Nesta Surata temos as histórias de Noé, de Hud, de Sáleh, de Lot, de Xuiab e de Moisés, culminando com Mohammad , e, na 38ª Surata, as histórias de Davi, Salomão e de Jó, igualmente culminando com Mohammad, ocupando três das cinco seções.

479. Peito, seguindo o original. Usamos a palavra mais apropriada ao idioma português. O significado é que Mohammad se via consolado perante todas as dificuldades que encontrava, ao logo de sua missão, com o fato de que encontrava uma diretriz límpida no Livro, para a sua pregação.

480. Isto foi adicionado com o fito de que o homem não se empertigasse com tal minúsculo conhecimento, como o que possuía, porquanto há grandes alturas a serem alcançadas, no reino espiritual.

481. A história espiritual do homem principia com um prelúdio. Pensemos nas cidades e nas nações que foram arruinadas por iniqüidade. Deus propiciou aos homens grandes oportunidades, e lhes enviou admoestadores e mestres. Arrogantemente, porém, eles continuaram com suas maneiras malignas, até que uma horripilante calamidade os assaltou, e extinguiu mesmo os seus traços.

482. O termo "configuração", ou "forma", deve ser interpretado, não somente referindo-se à forma física, a qual muda a cada dia que passa, mas também às várias configurações ou formas que a nossa existência ideal e espiritual possa tomar, de tempos em tempos, de acordo com as nossas experiências interiores. Comparar com o versículo 8 da 82ª Surata. A Forma, ou Ideal, ou Padrão Original, de acordo com a doutrina mística de Platão, tal como a desenvolve na sua obra, "A República", pode também ser comparada com os "nomes" ou a natureza e qualidade das coisas, que Deus ensinou a Adão (versículo 31 da 2ª Surata, e versículo 94 da 6ª Surata, e respectivas notas). Somente após Adão (o que serve para toda a humanidade) ter sido ensinado, é que foi pedido aos anjos que se curvassem ante ele, pois, pela graça de Deus, seu status ficou virtualmente mais elevado. Note-se a transição: de "vós" (plural), na primeira cláusula, para "Adão"; na Segunda cláusula; Adão e humanidade são sinônimos; o plural é restabelecido nos versículos 14, 16-18 desta surata.

483. Nota-se o estratagema sutil de Iblis: seu egoísmo em querer colocar-se acima do homem, e sua falsidade em ignorar o fato de que Deus não fez meramente de barro o corpo do homem, mas deu-lhe uma forma espiritual - em outras palavras, ensinou-lhe a natureza das coisas e elevou-o em dignidade, acima dos anjos.

484. Outra instância da sutileza e da falsidade de Iblis. Ele espera, até conseguir a tolerância. Então, explode em mentiras e provocações impertinentes. A mentira está em ele sugerir que Deus o desviou do Caminho; em outras palavras, que o desvirtuou, sendo que foi a sua própria conduta a responsável por sua degradação. A provocação consiste em armar ciladas na Senda Reta, para a qual Deus dirige os homens. Ele então cai mais um passo nos planos inferiores, além daqueles cinco mencionados na nota do versículo 13 desta surata. Seu sexto passo consiste na provocação.

485. Agora o caso se volta em direção ao homem. Ele foi colocado num jardim espiritual de inocência e bênção, mas era do Plano Divino conceder-lhe uma limitada faculdade de escolha. Tudo o que lhe era proibido, era aproximar-se da Árvore do Mal; porém, ele sucumbiu às sugestões de Satanás.

486. Comparar toda esta passagem sobre Adão com as passagens dos versículos 30-39 da 2ª Surata e com outras passagens das suratas subseqüentes. Quanto aos locais, as palavras são exatamente as mesmas, e, todavia, todo o argumento é diferente. Em cada caso ele se coaduna com o contexto. Na 2ª Surata, o argumento era sobre a origem do homem. Aqui ele é um prelúdio à sua história na terra, e assim continua, logicamente, na próxima seção, a se dirigir aos Filhos de Adão, e vai mais adiante, com a história dos vários mensageiros que vieram para guiar a humanidade. A verdade é uma só, mas a sua apresentação adequada, palavras humanas, mostra uma faceta diferente, em contextos distintos.

487. Há, aqui, uma dupla filosofia sobre roupas, para que corresponda ao duplo significado do versículo 20 desta surata. Espiritualmente, Deus criou o homem "isolado" (versículo 94 da 6ª Surata); a alma, na sua pureza e beleza despidas, não conhecia a vergonha, porque não sabia o que era culpa; após haver sido tocada pela culpa e conspurcada pelo mal, seus pensamentos e suas ações tornaram-se a sua roupagem e adorno, ações e pensamentos esses que poderiam ser: bons ou maus, honestos ou prostituídos, sempre de acordo com suas intenções interiores. Assim se dá com o corpo: ele é puro e belo, desde que não seja maculado pelo mau uso. Sua roupagem e seu ornamento podem ser bons ou degradantes, sempre de acordo com as intenções da mente e do caráter; se boas, as intenções constituem os símbolos da pureza e da beleza. Entretanto, os melhores vestuários e ornamentos que possamos Ter provêm da virtude, a qual cobre a nudez do pecado.

488. Melhor atavio: zínat - adornos ou aparatos para um viver magnífico - construção para dar a entender, não apenas as vestimentas que adicionam graça aos que as usam, mas ainda a toalete e o asseio, a atenção com os cabelos, bem como com outros pequenos detalhes pessoais, que nenhuma pessoa que tem amor-próprio deve negligenciar quando vai a solenidades, ou mesmo quando comparece perante um grande dignitário humano, seja pela impressão que causará, seja pela dignidade da ocasião. Quão mais importante é observarmos tais detalhes quando, solenemente, colocamos as nossas mentes na Presença de Deus, embora saibamos que Ele está sempre presente em todos os lugares. No entanto, a precaução quanto ao exagero está implícita; os homens não devem ir às orações vestidos de seda, ou com enfeites próprios das mulheres. Igualmente, a alimentação sóbria, sadia e integral, não deve estar divorciada dos ofícios religiosos: apenas a precaução quanto aos exageros é que está estritamente implícita. Um faquir ensebado e desleixado, não pode clamar por santidade no Islam.

489. Nas se deve supor que os rebeldes, quanto a Deus, serão de pronto despojados de suas vidas, por causa de seus pecados. Eles terão as porções que lhes couberem, incluindo as boas coisas da vida, bem como a chance de se arrependerem e se reformarem, durante o seu período probatório nesta terra. Durante esse período, poderão viver intensamente. Depois que esse período expirar serão chamados a prestar contas. Eles verão, por si mesmos, que as coisas quiméricas, nas quais depositavam confiança, eram falsas. Confessarão os seus pecados, mas será tarde demais.

490. As gerações mais remotas cometeram um duplo crime: (1) seus próprios pecados; (2) o mau exemplo que deixaram para aqueles que vieram depois delas. Nós não apenas somos responsáveis por nossos próprios desmandos, mas também por aqueles que o nosso exemplo e os nossos ensinamentos induzem os nossos descendentes a cometer. Contudo, não compete às bocas dos descendentes clamar por um duplo castigo para os seus ascendentes; porque não se trataria de intenção justiceira, mas sim de puro despeito, o que, por si só, constitui pecado. Ademais, as gerações posteriores têm de responder por duas coisas: (1) seus próprios pecados, e (2) seu fracasso em aprenderem daqueles que os precederam; eles estariam em vantagem, pois eram "os primeiros na fila do Tempo"; mas não aprenderam. Deste modo, nada há que escolher entre as mais remotas e as mais recentes gerações, em matéria de culpa. Porém, quão poucas pessoas compreendem isto! No versículo 160 da 6ª Surata foi-nos dito que o bem era decuplamente recompensado, mas que o mal era punido de acordo com o teor da culpa, em perfeita justiça. Este versículo de maneira alguma é incompatível com isso. Dois crimes têm de ter um castigo duplo. Todavia, devemos entender os numerais "décuplo" e "duplo" em sentido figurado, e não quantitativamente.

491. Um homem que tenha sofrido desapontamento talvez possua um inconfesso sofrimento de rancor, no fundo da sua mente, o qual talvez lhe obstrua as alegrias, por causa das recordações passadas que se intrometem no meio da felicidade. Em tais casos, a própria memória constitui motivo de dor. Mesmo os pesares são intensificados pela memória. Mas isso acontece nesta nossa vida imperfeita. Na perfeita felicidade dos virtuosos, todos esses sentimentos serão barrados. Nem tampouco quaisquer sentimentos de inveja ou de carência serão possíveis, nessa bênção.

492. Os que, em conjunto, compartilharem do Fogo, somente poderão responder com uma única palavra: "Sim", tal é o seu estado de miséria. Mesmo assim, suas vozes mesclar-se-ão com a voz do Lamentador, que explicará os seus estados; estarão num estado de maldição, isto é, de privação da graça e da misericórdia de Deus. Tal privação constitui a mais intensa miséria que a alma pode suportar.

493. Os iníquos refletem suas próprias mentes tortuosas, quando a senda de Deus se encontra perante eles. Ao invés de seguirem o caminho reto, tentam encontrar algo nela que satisfaça as suas próprias idéias distorcidas Francamente, eles não têm fé na Meta final - a Vida futura.

494. Esta é uma passagem difícil, os exegetas têm-na interpretado de maneiras diferentes. Três correntes distintas podem ser distinguidas na interpretação: (1) uma acha que os homens, nos cimos, são anjos, ou homens de exaltada dignidade espiritual (ou seja, os grandes mensageiros), que serão capazes de reconhecer as almas, num simples olhar, com respeito à sua dignidade espiritual; os cimos serão a sua estância exaltada, da qual eles darão as boas-vindas aos virtuosos, com uma saudação de paz, por si só, constituir-se-á numa garantia de salvação para aqueles que são saudados; (2) almas que não se encontram decididamente do lado do mérito, ou decididamente do lado do pecado, mas perfeitamente equilibradas entre o céu e o inferno. Seus casos não estão ainda decidido, porém a sua saudação evidencia anseio, porquanto têm esperança da misericórdia de Deus; (3) a terceira linha da interpretação, com a qual concordamos, aproxima-se da primeira, com esta exceção: a divisão e os cimos são uma metáfora. As almas elevadas regozijar-se-ão com a salvação eminente dos virtuosos.

495. Na expressão "seus olhares", de acordo com a interpretação (2) da nota anterior, o pronome "seus" referir-se-ia às pessoas cujos destinos não estão ainda decididos, sendo que as exclamações são suas; segundo as interpretações (1) e (3) da mesma nota, "seus" referir-se-ia aos que em conjunto compartilham do Jardim, e que estariam conscientes da terrível natureza do inferno, e expressariam o seus horror quanto a ele. Nós preferimos esta última interpretação. Então, a menção dos "habitantes dos cimos", com suas exclamações, no versículo 48, aparece naturalmente, como uma espécie diferente de fala, procedente de diferentes espécies de homens.

496. Um versículo sublime, comparável ao versículo do Trono, o 255, da 2ª Surata. A Criação, em seis dias, é certamente, metafórica. Os "Dias de Escarmento de Deus" (versículo 14 da 45ª Surata) não se referem tanto ao tempo, mas ao crescimento, em nós, ca conscientização espiritual, da conscientização do pecado e da Misericórdia de Deus. No versículo 47 da 22ª Surata é-nos dito que um dia, na visão de Deus, é como 1.000 anos dos que conhecemos; e no versículo 4 da 70ª Surata, a comparação é com 50.000 dos nossos anos. Na história da nossa terra material nós devemos reconhecer seis grandes épocas da evolução. Ver versículo 9-12 da 41ª Surata.

497. O termo "Trono" (Árch) talvez seja metafórico, significando um símbolo de autoridade, de poder, de vigilância, como o é o termo Cursi (assento, trono) - comparar com a nota do versículo 255 da 2ª Surata. Cursi talvez se refira à majestade, ao passo que ‘Arch se refere ao poderio, sendo que a pequena diferença de matrizes derrama luz sobre as duas passagens. Aqui, somos instruídos quanto à criação dos céus e da terra em seis dias. Porém, a menos que estejamos obcecados com a idéia judaica de que Deus descansou no sétimo dia, é-nos dito que a Criação não foi mais do que um prelúdio à obra de Deus; porque Sua autoridade é exercida constantemente pelas que Ele estabelece e impõe a todas as partes da Sua Criação. O magnífico emblema retórico da noite e do dia, uma perseguindo o outro, em rápidas sucessões, é mais vantajosamente reforçado pelo verbo árabe Yugchi, duplamente acusativo, demonstrando as interações mútuas do dia e da noite, um substituindo a outra, por seu turno. Os corpos celestes mostram uma ordenação que constitui uma evidência dos constantes desvelo e governo de Deus. Não apenas isso, mas é tão-somente Ele Que cria, mantém e governa, e ninguém mais.

498. A parábola é completa, em seu significado triplo. No mundo material, os ventos correm como verdadeiros porta-vozes de coisas auspiciosas; eles são como que vanguardeiros, atrás da qual vem o grosso do exército dos ventos, impulsionando nuvens saturadas à sua frente; a sábia Providência de Deus é o General, que dirige essas nuvens em direção a uma terra esturricada, sobre a qual as nuvens descarregam os seus animadores aguaceiros de misericórdia, que transformam a terra desolada em terra vivente, fértil e bela, propiciadora de ricas colheitas. No mundo espiritual, os ventos constituem grandes motivos de forcas na mente do homem, ou no mundo em torno dele, ventos esses que trazem as nuvens ou instrumentos da misericórdia de Deus, que descem rumo às almas até então espiritualmente mortas. Uma vez que podemos ver ou experimentar tais ocorrências em nossas vidas, aqui em baixo, podemos, acaso, duvidar da ressurreição das nossas almas, depois de aqui morrermos?

499. A história de Noé, com maiores detalhes, será encontrada nos versículos 25-49 da 11ª Surata. Aqui, o escopo é contar brevemente as histórias de alguns dos profetas, que se destacaram no período entre Noé e Moisés, culminando, desse modo, com uma lição aos contemporâneos do próprio Mensageiro Mohammad. Quando Noé atacava a iniqüidade da sua geração, ele era escarnecido e tido como louco, porquanto mencionava o Grande Dia, que viria na Vida Futura. A retribuição de Deus veio logo depois - o grande dilúvio, durante o qual o seu povo incrédulo foi afogado, ao passo que ele e aqueles que nele acreditavam, e entraram na arca, foram salvos.

500. O povo de Ad, com o seu profeta Hud, é mencionado em muitos lugares. Ver especialmente versículos 123-140 da 26ª Surata e os versículos 21-26 da 46ª Surata. Sua história pertence à tradição árabe. Seu ancestral epônimo, Ad, constitui a 4ª geração de Noé, tendo sido filho de A’us, filho de Aarão, filho este de Sem, filho de Noé. Ele ocupava uma vasta área do território da Arábia Meridional, que se estendia desde o Omã na embocadura do Golfo Pérsico, até Hadramaut e o Iêmen, na extremidade meridional do Mar Vermelho. Os membros do povo eram de estatura alta, e eram grandes construtores. Provavelmente, os longos e sinuosos tratos de areia (ahcaf), em seus domínios (versículo 2 da 46ª Surata), eram irrigados por canais. Eles se esqueceram do verdadeiro Deus e oprimiram o seu povo. Uma fome de três anos os açoitou, mas eles não se escarmentaram. Finalmente, uma terrível rajada de vento os destruiu, bem como à sua terra; porém, uns poucos que restaram, conhecidos como o segundo povo de Ad ou de Tamud (ver mais adiante), foram salvos, sofrendo, depois, sorte semelhante, por seus pecados. A tumba do profeta Hud é ainda tradicionalmente mostrada em Hadramaut. Há ruínas e inscrições nas vizinhanças. É de uso uma peregrinação anual a essa tumba, no mês de Rajab.

501. O povo de Samud foi o sucessor da cultura da civilização do povo de Ad, para cuja história ver a nota anterior. Esses dois povos eram primos, aparentemente um ramo jovem da mesma raça. Sua história também pertence à tradição árabe, de acordo com o seu ancestral epônimo, Samud, que era um dos filhos de A’abir (um dos irmãos de Aarão), filho de Sem, filho de Noé. Sua sede era no quadrante noroeste da Arábia (Arábia Pétrea), entre Madina e a Síria. Ela inclui tanto a região rochosa (Hijr, versículo 80 da 15ª Surata), como o espaçoso e fértil vale (Wadi), e a planície da região de Kurá, que principia bem ao norte da cidade de Madina. Quando, no ano 9 da Hégira, o Mensageiro conduziu uma expedição a Tabuk (cerca de 65 km ao norte de Madina) contra as forças romanas, atendendo a um relatado rumor de invasão romana, proveniente da Síria, ele e seus homens se depararam com os restos arqueológicos de Samud. A cidade rochosa de Petra, recentemente escavada, próxima a Ma’an, talvez remonte aos tempos de Samud, embora sua arquitetura possua muitas características relacionadas com as culturas egípcia e greco-romana, concretizando o que é chamado, pelos escritores europeus, de Cultura Nabatéia. Quem era os nabateus? Eram de uma velha tribo árabe, que desempenhou um importante papel na história, e que depois entrou em conflito com Antígono I, no ano 312 a.C.. Sua capital era Petra, mas eles estenderam o seu território até o Eufrates. No ano 85 a.C. eram os senhores de Damasco sob o reinado de seu rei Hariça (Areta, na história romana). Por algum tempo eles permaneceram aliados do Império Romano, e de posse do litoral do Mar Vermelho. No ano 105 d.C. o imperador Trajano reduziu esse território e o anexou ao seu. Os nabateus sucederam o povo de Samud, na tradição árabe. O nome Samud é mencionado numa inscrição do rei assírio, Sargão, datada do ano de 715 a.C. (Encyclepaedia of Islam).

502. A história da camela encantada, que constituía um Sinal para Tamud, é diversificadamente contada, na tradição. Não precisamos seguir as várias versões da história tradicional. O que nos é dito no Alcorão é: ela constituía um Sinal ou Símbolo, o qual o profeta Sáleh usava como escarmento para os altivos opressores dos pobres; havia escassez de água, e as classes arrogantes ou privilegiadas tentavam obstruir o acesso dos pobres, ou de suas reses às fontes, tendo Sáleh de intervir em favor deles; assim como a água, as pastagens eram consideradas dádivas gratuitas da natureza, neta espaçosa terra de Deus, mas os arrogantes tentavam monopolizar também as pastagens; fez-se desta camela especial um caso-teste para ver se os arrogantes chegavam à razão; estes, ao invés de concederem ao povo os seus direitos inalienáveis, esquartejaram a pobre camela e a mataram, com certeza secretamente; a taça da sua iniqüidade ficou repleta, e o povo de Tamud foi destruído por um horripilante terremoto, que deixou os seus membros prostrados no chão, e os soterrou, juntamente com as suas casas e os seus ricos edifícios.

503. A retaliação não foi por muito tempo adiada. Veio um terrível terremoto e soterrou o povo e destruiu esta tão decantada civilização. A calamidade deve ter sido bem extensa em área, e bem intensa no terror que inspirou, pois é descrita (versículo 31 da 54ª Surata) como "um estrondo", saihatan wahi-datan, ou aquela espécie de estrondo que acompanha todos os grandes abalos sísmicos.

504. Sáleh foi salvo pela misericórdia de Deus, por ser um homem justo e virtuoso. A sua exclamação, aqui, talvez seja uma admoestação de despedida, ou talvez constitua um solilóquio em que ele lamenta a destruição do seu povo, por seus pecados e por sua insensatez.

505. A história de Lot é bíblica, mas destituída de algumas característica vergonhosas, o que constitui uma rasura na narrativa bíblica (ver Gênesis 19:30-36). Ele era sobrinho de Abraão, e foi enviado como mensageiro e admoestador ao povo de Sodoma e Gomorra, cidades sumariamente destruídas por seus inenarráveis pecados. Esse povo ainda não pôde ser localizado com precisão, mas supõe-se que vivia algures nas planícies a leste do Mar Morto. A história da sua destruição é narrada no capítulo 19 do Gênesis.

506. Uma instância do aviltante sarcasmo que os pecadores empedernidos usavam contra os virtuosos. Eles feriam com palavras e reforçavam o insulto com atos de injustiça, pensando que com isso levassem os virtuosos à desgraça. No entanto, é bom que se saiba que Deus vela pelos Seus e, no final, os iníquos, por si só, se destroem, quando a taça da sua iniqüidade está cheia.

507. Na narrativa bíblica ela olha para trás - uma ação física. Aqui, ela constitui o tipo daqueles retardatários, ou seja, aqueles que, por suas atitudes mentais ou morais, a despeito das suas ligações com os virtuosos, são induzidos a olhar para trás, para a rutilação da iniqüidade e do pecado. Os virtuosos devem ter um único objetivo: a Senda de Deus. Não devem olhar para trás, nem mesmo para os lados.

508. A tempestade está explicitamente relatada (versículo 82 da 11ª Surata) como tendo sido de pedras. Nos versículos 73-74 da 15ª Surata é-nos dito que houve uma terrível detonação ou estrondo (saihat), em adição à chuva de pedras. Comparando com estas passagens ou com a passagem bíblica (Gênesis, 19:24 - ver nota do versículo 80, acima), nós julgamos que a tempestade foi "uma chuva de enxofre".

509. A palavra "Madian" talvez deva ser identificada com o adjetivo "madianita"" . Madian e os madianitas são freqüentemente mencionados no Antigo Testamento, embora o incidente particular, aqui mencionado, pertença mais à tradição árabe do que à judaica. Os madianitas eram árabes, embora, como vizinhos dos canaanitas, se mesclassem com eles. Eram uma tribo nômade; foi aos mercados madianitas que José foi vendido como escravo, os quais o levaram para o Egito. Seu principal território, nos tempos de Moisés, ficava a nordeste da Península do Sinai, e a leste do território dos amalecitas. Sob o comando de Moisés, os israelitas encetaram uma guerra de extermínio contra eles; assassinaram o rei dos madianitas, mataram todos os homens, queimaram suas cidades e castelos, e apoderaram-se do seu gado ( Números, 31:7-11).

510. Xuaib pertence mais à tradição árabe do que à tradição judaica, da qual ele é desconhecido. A sua identificação com Jetro, sogro de Moisés, não tem justificativa, nós a rejeitamos. Não há similaridade alguma, nem quanto a nomes, nem quanto a incidentes, pois existem dificuldades cronológicas (ver nota do versículo 93, adiante). Se, como os exegetas dizem, Xuaib fazia parte da Quarta geração de Abraão, sendo bisneto de Madian (um dos filhos de Abraão), ele estaria a apenas um século do tempo de Abraão, ao passo que a Tora nos fornecia um período de quatro a seis séculos entre Abraão e Moisés. O simples fato de que Jetro era madianita, e de que outro nome, o de Hobab, é mencionado coo sendo o do sogro de Moisés (Números, 10:29), propicia campo improfícuo para a identificação. Como os madianitas constituíam principalmente uma tribo nômade, não devemos ficar surpresos com o fato de que a sua destruição, em um dos dois aldeamentos, não afetasse as suas vidas nos clãs da tribo, que se deslocavam para outras regiões geográficas. Aparentemente, a missão de Xuaib restringia-se a um dos aldeamentos dos madianitas, que foi destruído por um terremoto (versículo 91 desta surata). Se isto aconteceu um século depois de Abraão, não há dificuldade alguma em se supor que os madianitas constituíssem uma tribo novamente numerosa, três ou cinco séculos mais tarde, no tempo de Moisés (ver a nota anterior). O nome da mais alta montanha do Iemen, Nabi Xuaib (3500 m), provavelmente não tem conexão com o território geográfico dos madianitas nômades, a menos que suponhamos que o seu vaguear se tenha estendido muito para o sul dos territórios mencionados na nota anterior.

511. Os madianitas estavam no caminho da rota comercial da Ásia, ou seja, entre duas nações opulentas e bem organizadas, o Egito e a Mesopotâmia que compreendia principalmente a Assíria e a Babilônia. Os seus pecados habituais são, deste modo, aqui caracterizados: proporcionar medida e peso inexatos, sendo sabido que a mais estrita probidade comercial é necessária para o sucesso; a forma mais generalizada de tal pecado consistia em privar as pessoas dos seus direitos legítimos; promover desmandos e tropelias, sendo sabido que a paz e a ordem haviam sido estabelecidas (novamente num sentido literal e metafórico): não contentes em conturbarem a vida já assentada, entregava-se ao franco banditismo (tanto literal como metaforicamente), de várias maneiras, obstruindo o acesso das pessoas aos locais de culto de Deus; e abusando da religião e da reverência, por motivos escusos, isto é, a exploração do próprio credo para obtenção dos seus fins trapaceiros, como alguém que constrói casas de oração com ganhos ilícitos, ou faz caridade ostensivamente com dinheiro que obteve à custa de fraudes etc.. Após expor este rol de pecados habituais, Xuaib faz dois apelos, reportando-se ao passado: "Vós começastes como uma insignificante tribo e, pela graça de Deus, crescestes e vos multiplicastes, tanto em número como em recursos; não tereis, então, um dever para com Deus, que consiste em cumprir e fazer cumprir a Sua Lei? Qual foi o resultado, no caso daqueles que se deram ao pecado? Porventura, não vos escarmentaríeis com o exemplo deles?" Assim Xuaib iniciou o seu argumento, com fé em Deus, fonte de todas as virtudes, e o finalizou relatando a destruição por resultado de todos os pecados. No versículo seguinte ele os exorta a que terminem com as suas controvérsias, e se aproximem de Deus.

512. Porventura, podemos fazer qualquer idéia da data da destruição dos madianitas? Na nota do versículo 85 desta surata, discutimos os aspectos geográficos. As seguintes considerações ajudar-nos-ão a fazermos alguma idéia do período. As histórias de Noé, de Hud, de Sáleh, de Lot e de Xuaib parecem estar em ordem cronológica. Portanto, Xuaib vem depois de Abraão, seria impossível ele ter sido contemporâneo de Moisés, que viveu muitos séculos mais tarde. Tal dificuldade é reconhecida por Ibn Alcatir e por outros exegetas clássicos. A identificação de Moisés. Os madianitas, que foram destruídos por Moisés e, depois dele, por Gedeão, constituíam resquícios de povoados locais, tal qual falamos acerca dos judeus, hoje em dia; contudo, a sua existência como nação, em sua terra natal original, parece ter-se findado antes de Moisés: "foram despojados das suas habitações, como se nunca nelas houvessem habitado"(versículo 92 desta surata). Eusébio e Ptolomeu mencionam uma cidade de Madian, que não tinha grande importância. Após os primeiros séculos da Era Cristã, Madian, como cidade, aparece como um local sem importância vivendo no passado.

513. As histórias que foram relatadas deveriam servir de escarmento para as gerações presentes e futuras, que herdam as terras, o poderio e as experiências do passado. Elas deveriam saber que, se cometessem os mesmos pecados, deparar-se-iam com a mesma sorte.

514. O termo "Faraó" ( árabe Fir’aun) é um título dinástico, não o nome de um rei especial do Egito. Têm-se encontrado traços dele nos hieróglifos primitivos, com a variação Per’aa, que significa "Casa Grande". A letra nun é uma letra "fraca", adicionada ao processo de arabização. Quem era o Faraó, na história de Moisés? Caso as inscrições nos auxiliem, poderíamos responder com alguma confiança; porém, desafortunadamente, as inscrições falham quanto a isso. Provavelmente, deve tratar-se do Faraó da 18ª Dinastia, digamos, Tutmés I, lá pelo ano de 1540 a.C.

515. Note-se que Moisés, ao tratar com o Faraó e com os egípcios, não dizia que a sua missão provinha do seu Deus ou do Deus do seu povo, mas sim do "vosso Senhor", do "Senhor do Universo". E sua missão não era apenas para o seu povo: "Eu venho a vós (povo egípcio), da parte do vosso Senhor".

516. A serpente desempenhava um grande papel na mitologia egípcia. O grande deus-sol, Ra, conquistara uma estupenda vitória sobre a serpente de nome Apofis, que estereotipava a vitória da luz sobre as trevas. Muitos dos seus deuses e deusas tomavam formas de serpentes, para imprimir terror aos seus oponentes. O cajado de Moisés, como um tipo de serpente que era, de pronto afetou a mentalidade dos egípcios. O desrespeito, que antes havia tomado conta das suas mentes, convertia-se, então, em terror. Ali estava alguém que podia exercer controle sobre o réptil, coisa que o próprio deus Ra não conseguia fazer.

517. Moisés e seu irmão, Aarão, foram postos "na cova do leão" contra os mais ardilosos mágicos do Egito; porém, eles estavam calmos, e deixaram os mágicos terem o seu turno em primeiro lugar. Como é costumeiro neste mundo, o embuste dos mágicos produziu uma grande impressão sobre os presentes; mas quando Moisés arremessou o seu cajado, a ilusão foi perfeita, e a falsidade foi revelada.

518. No versículo 101 da 17ª Surata, a referência é a nove Milagres Evidentes. Estes são: o Cajado (versículo 107 desta surata); a Mão Diáfana (versículo 108 desta surata); os anos de seca e de escassez de água (versículo 130 desta surata); a colheita minguada (versículo 130 desta surata); e os cinco mencionados neste versículo, a saber: epidemias entre os homens e os animais; os gafanhotos; as lêndeas; os sapos; e a transformação da água em sangue.

519. Quando, por fim, o Faraó deixou que o povo de Israel se fosse, não foi escolhida a estrada para Canaã, nas encostas do Mediterrâneo e que passava por Gaza, porque o povo estava desarmado, e poderia, ali, encontrar imediata resistência, mas os israelitas seguiram pelos caminhos desérticos do Sinai. Eles tinham de atravessar pelas extremidades alagadiças do Mar Vermelho (coisa que fizeram), local em que as hostes do Faraó chegaram em perseguição, perecendo afogadas. Comparar com o versículo 50 da 2ª Surata.

520. Onde estava reunido o Conselho, quando Moisés se dirigiu ao Faraó? A capital do Egito, na 18ª Dinastia, era Tebas (No-Amon), que ficava a mais de 640 km ao sul do Desta, em cujo vértice os israelitas viviam. Mênfis, no ápice do Delta, um pouco mais ao sul de onde agora se encontra o Cairo, ficava também a 170 km dos povoados israelitas. As entrevistas tinham de ser feitas ou em um Palácio perto de Gochen, onde os israelitas viviam, ou em Zoan (Tânis), a capital deltaica, erigida pela dinastia anterior, que estava, certamente, ainda à disposição da dinastia reinante, e não ficava muito longe do povoamento dos israelitas.

521. As quarenta noites da comunhão de Moisés com Deus, na montanha, devem ser comparadas com os quarenta dias do jejum de Jesus, no deserto, antes de iniciar o seu sacerdócio (Mateus, 4:2), e ainda com os quarenta anos da preparação de Mohammad, antes que desse início ao seu sacerdócio.

522. Até o melhor de nós talvez seja induzido a se achar de posse daquelas presunçosa idoneidade, ou ambição espiritual, ainda não justificada pelo estágio que temos alcançado. Moisés já havia visto parte da glória de Deus, quando da sua radiante mão diáfana, que reluzia com a glória divina. Porém, ele era ainda carnal, sendo que sua missão para com seu povo iria começar depois do pacto do Sinai. Era prematuro, da parte dele, pedir para ver Deus.

523. A (outros) homens, ou seja, entre os seus contemporâneos. Ele era portador de uma missão elevada, e tinha tido a honra de falar com Deus.

524. A feitura do bezerro de ouro e a sua respectiva cultuação pelos israelitas, no Monte, durante a ausência de Moisés, estão relatadas no versículo 51 da 2ª Surata, sendo que alguns detalhes mais desenvolvidos são dados nos versículos 83-87 da 20ª Surata. Note-se como, em cada caso, apenas estes pontos são relatados, os quais são necessários ao argumento em questão. Um narrador, que tenha como objetivo a mera narração, conta a história em todos os seus detalhes, além de se enlear nela. Um artista contumaz, que tem por objetivo reforçar as lições, traz à tona cada ponto, em seu lugar adequado. Mestre em todos os detalhes, ele não faz digressões, mas, munido de supremo tirocínio literário, apenas adiciona o toque necessário, em cada lugar, para completar a figura espiritual. Seu objetivo não é a história, mas sim a lição. Note-se, aqui, o contraste existente entre a intensa comunhão espiritual de Moisés, no Monte, e a simultânea corrupção do seu povo, na sua ausência. Podemos entender a sua justa indignação e amargo pesar (versículo 150 desta surata). O povo havia derretido todos dos seus ornamentos de ouro e feito a imagem de um bezerro, parecido com o touro de Osíris, na cidade de Mênfis, nas terras dos iníquos egípcios, aos quais eles haviam voltado as costas. Quanto ao mugido, havia uma abertura nas duas extremidades do bezerro elaborado e, ao passar por elas, o vento produzia um ruído semelhante a um mugido.

525. A imagem de um bezerro: literalmente, a palavra Jasad significa, especialmente, o corpo de um homem. No versículo 8 da 21ª Surata, ela é obviamente empregada para um corpo humano, como também no versículo 34 da 38ª Surata. Entretanto, no último caso, a idéia de uma imagem, sem qualquer vida, é também aventada. Na passagem em questão estão incluídas muitas insinuações; de que se tratava de uma imagem sem vida; como tal, ela não poderia abaixar-se; assim sendo, o simulacro de "abaixar-se", mencionado imediatamente depois, provou tratar-se de uma fraude; contrariamente ao seu protótipo, o touro Osíris, ele nem mesmo era portador do símbolo de Osíris. O ídolo de Osíris possuía, pelo menos, algum princípio da ética.

526. Arrojou as Tábuas; não nos é dito que as Tábuas se quebraram; de fato, o versículo 154 desta Surata, mais adiante, mostra que elas ficaram inteiras. Elas continham a Mensagem de Deus. Haveria um quê de desrespeito (se não de blasfêmia) em se supor que o Mensageiro de Deus houvesse quebrado as Tábuas , em sua raiva incontinente, como é relatado no Antigo Testamento: "...acende-se o furor de Moisés, e arremessou as tábuas das suas mãos, e quebrou-as ao pé do monte."(êxodo, 32:19). Neste ponto, e também no ponto e que Aarão (na história do Antigo Testamento) ordenou que o ouro fosse trazido, e fundiu um bezerro, modelando-o com uma talhadeira, e construindo um altar na frente do bezerro (Êxodo, 32-2-5), a nossa versão difere da do Antigo Testamento. Não cremos que Aarão, que foi designado por Deus para ajudar Moisés como Mensageiro d’Ele, pudesse descer tão baixo, a ponto de induzir o povo à idolatria, fosse qual fosse a sua fraqueza humana.

527. Neste versículo está a prefiguração, a Moisés, do Mensageiro do árabes, o derradeiro dos mensageiros de Deus. Profecias sobre ele poderão ser encontradas na Tora e no Evangelho. Na Tora, como ora aceita pelos judeus, Moisés diz: "O Senhor, teu Deus, te despertará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu."(Deuteronômio, 18:15). O único Profeta que apareceu com uma lei como a de Moisés foi Mohammad; e ele veio da casa de Ismael, o irmão de Isaac, pai de Israel. No Evangelho, como ora aceito pelos cristãos, Cristo prometeu um outro Consolador (João, 14:16); a palavra grega, Paraclete, que os cristãos interpretaram como se referindo ao Espírito Santo, é tida pelos nossos exegetas como se referindo a Rericlyte, que seria a forma grega de Ahmad. Ver o versículo 6 da 61ª Surata.

528. O adjetivo "iletrado", como aplicado ao Profeta, aqui e no versículo 157, acima, possui três significados especiais: ele não era versado nos conhecimentos humanos; todavia, estava de posse da mais elevada sapiência, e tinha os maravilhosíssimos conhecimentos das Escrituras anteriores. Isto constituía uma prova da sua inspiração. Demonstrava um milagre da mais elevada espécie, um "sinal", que todos podiam pôr à prova então, e todos podem pôr à prova agora. Todo o conhecimento humano organizado tende a se cristalizar, ou a se tornar parcial, ou se ter sabor de alguma corrente de pensamento. Os Mestres mais altruísticos têm de estar libertos de tias colorações, assim como uma lousa limpa seria necessária, caso uma mensagem perfeitamente clara e intrépida tivesse que ser nela escrita.

529. Pescar, como todas as outras atividades, era proibido ao povo de Israel no sábado. Como esta prática era costumeiramente observada, aos sábados os peixes chegavam à tona com uma sensação de segurança nas águas dos canais e lagos, coisa que não acontecia nos outros dias, quando a pesca era livre. Isto constituía uma grande tentação para os transgressores, à qual eles não podiam resistir. Alguns dos seus homens reverentes protestavam, mas isso não surtia efeito. Quando as suas transgressões, que, supomos, se estenderam aos outros mandamentos, ultrapassaram os limites, o castigo chegou. Eles foram desprezados pelo seu próprio povo, e se tornaram como os símios, sem lei e sem ordem ou decência, a localidade particular é tida como a cidade de Eliat.

530. Ver Deuteronômio, 28:49: "O Senhor mandará de longe, e das extremidades da terra, sobre ti, uma nação, à semelhança da água que voa impetuosamente e cuja língua tu não podes entender".

531. A dispersão dos judeus é um grande fato na história do mundo. A sua diáspora não terminou ainda, nem tampouco está sujeita a terminar, tanto quanto podemos prever.

532. Esta passagem tem levado a diferenças de opinião quanto à interpretação. Significaria ela que cada indivíduo, na posteridade de Adão, possui uma existência separada do tempo de Adão, e que o Pacto foi feito com todos eles, o qual é obrigatório, de acordo com cada indivíduo? Essa questão, realmente, não é suscitada. As palavras do texto referem-se a todos os descendentes dos filhos de Adão, ou seja, a toda humanidade, nascida ou por nascer, sem qualquer limite de herança espiritual. A humanidade, como tal, possui um aspecto corpóreo. Foram concedidos à humanidade certos poderes e faculdades que criam para nós obrigações espirituais especiais, as quais devemos fielmente cumprir; ver o versículo 1 da 5ª Surata, e respectiva nota. Essas obrigações podem, partindo-se de um ponto de vista legal, ser consideradas como advindas de Pactos implícitos. No versículo anterior desta surata (171), foi feita referência ao Pacto implícito com a nação judaica. Agora nós consideramos o Pacto implícito a toda a humanidade, porquanto a missão do mensageiro era de âmbito mundial.

533. Os exegetas diferem quanto a se esta história ou parábola se refere a um indivíduo em particular e, se assim for, a quem. A história de Balaam, o vidente, que foi convocado pelos inimigos de Israel a amaldiçoar esse país, mas que, ao invés disso, o abençoou (Números, 22, 23 e 14), é bem diferente. É preferível tomarmos a parábola em um sentido generalizado. Há homens de talento e posição, aos quais chegam magníficas oportunidades de introspecção espiritual, mas que perversamente as ignoram. Satanás vê chegada a sua oportunidade, e se apodera deles. Ao invés de se elevarem no mundo espiritual, seus egoísmos e desejos terrenos, bem como as suas objeções, puxam-nos para baixo, e ei-los perdidos.

534. O cão, especialmente no calor, estira a língua (arqueja), seja ele atacando ou perseguindo e esteja cansado, ou seja deixado em paz e em descanso. Babar faz parte da sua natureza. Assim se dá com o homem que rejeita Deus. Quer seja admoestando, quer seja deixado de lado, continua a expelir a sua saliva imunda. Os danos que ele causar, causará à sua própria alma. Contudo, talvez haja infecção, causada pelos seus maus exemplos. Assim sendo, nós devemos proteger os outros. Também, jamais devemos perder as esperanças quanto a sua própria emenda.

535. Conforme contemplamos a natureza de Deus, nós podemos usar os mais soberbos nomes em que podemos pensar, para expressarem os Seus atributos. Há centenas de tais atributos. Na Surata da Abertura nós os temos, indicados em poucas e compreensíveis palavras, tais como Tahman (Clemente), Rahim (Misericordioso) e Rab-ul’alamin (Senhor do Universo). Trazermos tais nomes à lembrança faz parte da nossa Oração e Louvação. Porém, não nos devemos igualar às pessoas que profanam o nome de Deus, ou coisa parecida, como se para darem a entender qualquer coisa derrogatória à Sua dignidade ou Sua unicidade. Comparar com o versículo 110 da 17ª Surata. Os mais belos atributos de Deus são em número de 99, a saber: É Deus, não há mais divindade além d’Ele, Clemente, Misericordioso, Soberano, Augusto, Salvador, Pacífico, Zeloso, Poderoso, Compulsor, Supremo, Criador, Onifeitor, Formador, Indulgente, Irresistível, Liberal, Agraciante, Triunfantes, Sapiente, Restringente, Abastecedor, Depreciador, Exaltador, Glorificador, Sobrepujante, Oniouvinte, Árbitro, Justiceiro, Propício, Conservador, Onipresente, Julgador, Majestoso, Generoso, Velador, Exorável, Munificente, Prudente, Afetuoso, Glorioso, Ressuscitador, Testemunha, Verdadeiro, Autoridade, Fortíssimo, Inflexível, Protetor, Louvável, Onímodo, Autor, Reprodutor, Vivificador, Letífero, Vivente, Subsistente, Perfeito, Excelso, Uno, Único, Eterno, Todo-Poderoso, Onipotente, Promovedor, Obstruidor, Primeiro, Último, Visível, Invisível, Regente, Sublime, Benevolente, Remissório, Punidor, Absolvedor, Compassivo, Imperador, Majestoso e Honorável, Eqüitativo, Congregador, Guia, Engendrador, Perpétuo, Herdeiro, Diretor, Paciente.

536. Seu concidadão, ou seja, o Mensageiro Mohammad, que vivia com eles e no meio deles. Ele foi acusado de loucura porque se comportava de modo diferente do deles. Ele não tinha ambições egoísticas; era sempre veraz, em pensamentos, palavras, ações; era benevolente e tinha consideração para com os fracos, e não se deslumbrava com o poder, a riqueza, ou com a posição no mundo.

537. O mistério do nascimento do homem, o quanto isso afeta o pai e a mãe, somente toca a imaginação dos pais nos derradeiros estágios, quando a criança ainda não nasceu e, no entanto, a vida já se manifesta dentro do corpo da mãe expectante. A chegada da nova vida constitui um acontecimento solene e impregnado de muita esperança, bem como de riscos desconhecidos para a própria mãe. Os pais, em sua ansiedade, voltam-se para Deus.

538. Uma vez nascida a criança, os pais se esquecem de que isso constitui uma dádiva de Deus - um milagre da Criação, coisa que lhes deveria ascender as mentes para os elevados arcanos do Senhor. Em vez disso, a sua gradativa familiaridade com a nova vida faz com que eles a liguem a muitas idéias supersticiosas ou rituais e cerimônias, ou que a tomem por um mero acaso, como um brinquedinho do mundo material. Isto leva à idolatria ou falso culto, ou ao estabelecimento de falsos padrões, em detrimento da dignidade de Deus.

539. A pulcritude e a virtude da vida de Mohammad eram reconhecidas por todos, até que ele recebeu a missão de pregar e combater o mal. Que aconteceu, então? O mal ergueu barricadas para si mesmo. Este tinha olhos, mas recusou-se a ver; tinha ouvidos, mas recusou-se a ouvir; tinha inteligência, mas obstruiu os seus canais de compreensão. Mesmo agora, após treze séculos e meio, uma vida de inusitada pureza, probidade, justiça e virtude, é vista sob falsa luz por detratores cegos!

540. A ocasião é a da divisão das presas de guerra, após a batalha de Badr.

541. Os despojos, conseguidos numa guerra lícita e justa, não pertencem a nenhum indivíduo. Caso ele tenha lutado visando a recompensa com tais acessórios, ele lutou levado por intenções errôneas. Eles pertencem à Causa - neste caso a Causa de Deus - , conforme administrada por seu mensageiro. Qualquer parte concedida a um indivíduo constitui dádiva acessória, bafejo da benevolência do comandante. A principal coisa é ele permanecer leal à Causa de Deus, e não suscitar dissensões entre aqueles que são pela Causa. As nossas relações internas devem ser conservadas estáveis; não devem ser perturbadas pela cupidez ou pelas considerações terrenas de ganho, porquanto qualquer bafejo dessa natureza deverá estar fora dos nossos cálculos.

542. Aquilo com que os agraciamos: tanto no sentido literal como metafórico. O objetivo é que desistam do amor que nutrem pelos despojos e pertences terrenos. Então, por que o haveríamos de querer? Para todos os verdadeiros crentes Deus concede generoso sustento, em qualquer caso, em ambos os sentidos, mas especialmente no sentido espiritual, pois este é mesclado de perdão e de graus de dignidade perante Deus.

543. Um pouco antes da batalha de Badr houve duas alternativas para os muçulmanos, em Madina, para não serem vencidos pelos coraixitas de Makka. Uma, a que apresentava menor perigo, na ocasião, e ainda anunciava muitos despojos, seria cair em cima da caravana coraixita, que voltava da Síria e se dirigia para Makka, ricamente carregada, conduzida por Abu Sufian, e contando com apenas 40 homens desarmados. Do ponto de vista terreno, tal investida seria a mais fácil e mais lucrativa. A alternativa adotada pelo Mensageiro, como a diretriz de Deus, era deixar de lado os despojos e marchar intrepidamente contra o exército dos coraixitas, que contava com 1.000 homens bem armados e bem equipados, provenientes de Makka. Os muçulmanos não possuíam mais do que 300 homens mal armados, para se oporem a tal força. Porém, se pudessem derrotá-la, isso iria abalar o espírito autocrático de que Makka estava possuída. Com a ajuda de Deus eles conquistaram uma esplêndida vitória, e o estandarte da verdade foi erguido, para jamais ser de novo baixado.

544. Comparar com os versículos 123, 125 e 126 da 3ª Surata. A qualidade de anjos - 1.000, em Badr, e 3.500 em Uhud - provavelmente não deve ser tomada literalmente, mas sim expressar um fortalecimento, pelo menos igual, ao do inimigo.

545. As leis que regem os combates espirituais são exatamente iguais àquelas impostas pela virtude e disciplina militares. Enfrentai o vosso inimigo franca e diretamente; não afoita e atabalhoadamente, mas depois dos devidos preparos. O verbo zahfan, no texto (enfrentardes), implica em um proceder lento e bem planejado para com um exército hostil. Uma vez em combate, ide até o fim; não há lugar para pensamentos outros. Morte ou vitória deverá ser o lema de todo o soldado; poderá haver morte para ele, individualmente, mas se ele tiver fé, haverá triunfo para a sua causa, em ambos os casos. Duas exceções são reconhecidas: recuar para melhor saltar para a frente, ou enganar o inimigo, por meio de retiradas estratégicas; se um indivíduo ou um destacamento estiver, pelas circunstâncias da batalha, isolado de sua força, poderá recuar até ela, a fim de dar prosseguimento à batalha. Não há virtude alguma no mero combate solitário. Cada indivíduo deverá usar a sua vida e os seus recursos, da melhor maneira possível, pela causa comum.

546. Quando a batalha se iniciou, o Mensageiro orou: "Ó Senhor, eis que surgem os coraixitas. Vieram com a sua cavalaria para combater o teu Mensageiro. Ó Senhor nosso, peço-Te que me concedas o que me prometeste." Então, apanhou um punhado de areia e o arremessou em direção ao inimigo, constituindo isto um simbolismo da cega arremetida deles para a sua sina. Isto surtiu um grande efeito psicológico.

547. A inferioridade numérica dos muçulmanos era da ordem de um para três. Também de outros modos eles estavam em desvantagem: quanto às armas e equipamentos, dispunham de poucos, ao passo que o inimigo estava bem apoiado; eles eram inexperientes, enquanto os coraixitas haviam trazido os seus mais famigerados guerreiros. Em tudo isto havia um teste, mas esse teste era acompanhado por graciosos e inestimáveis valores; o seu Comandante era aquele em que eles tinham uma fé perfeita, e por quem estavam dispostos a dar as suas vidas.

548. Uma grande família - muitos filhos - era considerada uma fonte de poderio e de fortalecimento (versículos 10 e 116 da 3ª Surata). Assim, também, em português, diz-se que um homem com bastantes filhos tem a sua "aljava cheia". Comparar com Salmos, 127:4-5: "Como as flechas nas mãos do guerreiro são os filhos da juventude. Ditoso o varão que, com elas, enche a sua aljava; não terá vergonha, mas parlamentará com os seus inimigos à porta da cidade". Assim se passa com as propriedades e as posses; elas concorrem para a dignidade, para o poderio e para a influência do homem. Contudo, tanto as posses como uma enorme família constituem uma tentação e uma prova. Talvez elas se constituam numa fonte de queda espiritual, caso sejam mal administradas, ou se o amor a elas fizer com que se exclua o amor a Deus.

549. As conspirações contra Mohammad, em Makka, tinham como objetivo três malefícios. Os conspiradores não apenas se viram frustrados, mas ainda o maravilhoso trabalho de Deus fez com que "o feitiço virasse contra o feiticeiro" e, do mal, tirou o bem, em cada caso. Eles tentaram manter o Mensageiro em sujeição, em Makka, pressionando os seus tios, parentes e amigos. Porém, quanto maior era a perseguição, mais a pequena comunidade muçulmana crescia em fé e em número. Eles tentaram injuriá-lo ou matá-lo. Mas o seu magnífico exemplo de humildade, perseverança e destemor fortaleceu a causa do Islam. Eles tentaram tirá-lo, bem como aos seus, dos seus lares. Porém, eles encontraram um novo lar em Madina, de onde finalmente conquistaram, não somente Makka, mas a Arábia e o mundo.

550. A norma é que a quinta parte seja posta de lado para o Imam (o Comandante), e o restante seja dividido entre as forças. A quinta parte reservada é expressa como sendo para Deus e para o Mensageiro, bem como para propósitos caritativos, para aqueles a quem a caridade é de direito. Primordialmente, tudo fica à disposição de Deus e do Seu Mensageiro (versículo 1 desta surata); porém quatro quintos são divididos, sendo que apenas um quinto fica retido para fins especiais. O Imam tem liberdade de ação quanto ao modo da divisão. Durante a vida do Mensageiro, uma certa porção era designada para ele e para os seus parentes achegados.

551. A pequena força muçulmana, procedente de Madina, foi ao encontro do colossal exército maquense, sendo que se posicionaram nos dois lados do vale, em Badr, ao passo que a caravana dos coraixitas encontrava-se na planície, em direção ao mar, acerca de 5 km de Badr.

552. Eles estavam todos "para o que desse e viesse". A caravana estava se dirigindo para Makka, e pensavam que ela mal chegasse lá. A força dos coraixitas estava pensando em salvar a caravana, e depois aniquilar os muçulmanos. Estes haviam decidido deixar a caravana em paz, e atacar o exército coraixita que vinha de Makka, o qual, pensavam, deveria ser pequeno, mas que se revelou enorme, mais de três vezes o número deles. Contudo, as duas forças se encontraram precisamente no local e no tempo em que uma decisiva batalha deveria ser travada, acontecendo que os muçulmanos dissiparam as pretensões dos maquenses. Se eles houvessem planejado cuidadosamente um encontro mútuo, não teriam feito aquilo com mais precisão. No lado muçulmano, uns poucos mártires sabiam que a vitória seria deles, e aqueles que sobreviveram à batalha gozaram dos frutos da vitória. No lado idólatra, tanto os que morreram como os que viveram sabiam plenamente o resultado intrínseco. Mesmo psicologicamente, ambos os lados entraram na batalha com a plena determinação de decidir o resultado.

553. O exército muçulmano (embora seus componentes soubessem das desvantagens materiais) não se apercebeu das muitas vicissitudes com que iria deparar. Os maquenses estavam exultantes, de qualquer forma, e subestimaram a "desprezível" força que se lhes oporia. Muito embora eles pensassem que a força muçulmana fosse duas vezes maior do que realmente era (versículo 13 da 3ª Surata), mesmo assim achavam essa qualidade desprezível, dada a pobreza de equipamento que possuía. Estes dois erros psicológicos serviram a um Plano principal, que era o de levar a questão a um resultado decisivo, se os idólatras de Makka continuassem com a sua arrogante opressão, já que a religião de Deus deveria ser estabelecida em liberdade e honra.

554. A ocasião imediata foi a da repetida traição dos Banu Curaiza, após os seus tratados com os muçulmanos. Contudo, as lições de caráter genérico permanecem, como são notadas nos dois versículos seguintes. A traição, na guerra, é duplamente desonesta, pois põe em perigo muitas vidas. Essa traição deve ser punida de maneira tal, que não haja chance para uma outra. Não apenas os virtuais perpetradores, mas ainda aqueles que seguem os seus padrões devem ser deixados impotentes. E o tratado que foi quebrado deverá ser denunciado, para que a parte inocente possa, pelo menos, lutar em iguais termos. Partindo das vigentes injunções materiais de guerra, podemos proceder às mesmas lições, quanto às injunções espirituais. Uma trégua ou entendimento é possível com aqueles que respeita os princípios definidos, não o sendo, contudo, com aqueles que não têm princípio algum, e estão meramente dispostos a praticar a opressão e a iniqüidade.

555. A ocasião imediata desta injunção foi quanto à fraqueza da cavalaria, e às ordenações de guerra nos primeiros combates do Islam. Porém, o significado, de caráter genérico, se segue. Em todos os combates, sejam materiais, morais ou espirituais, muni-vos das melhores armas e armamentos contra o vosso inimigo, a ponto de lhes imprimirdes inteiriço respeito, por vós e pela Causa por que lutais.

556. Num combate, as desvantagens, da ordem de um para dez, são aterrorizantes para qualquer indivíduo. Porém, elas não desencorajam os que têm fé. Particularmente, caso se saiam vitoriosos, ou morram, o que prevalece é a sua Causa.

557. Tivessem sido dadas condições de igualdade, os muçulmanos, devido a sua fé, poderiam vencer, mesmo em desvantagem da ordem de um para dez. Porém, como a sua organização era deficiente e o seu equipamento era obsoleto, como foi o caso no tempo de Badr, foi-lhes designado que não se engajassem em combates, estando eles em desvantagem de um contra mais de dois. Com efeito, eles venceram, estando em desvantagem de um contra mais de três.

558. A destruição e a matança, conquanto repugnantes a uma alma meiga como a de Mohammad, eram inevitáveis, quando o mal tentava sobrepujar o bem. Até Jesus, cuja missão era mais limitada, teve de dizer: "Não julgueis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer-lhes paz, mas espada" (Mateus, 10:34). Em Badr foram feitos 70 prisioneiros, e foi decidido que se pediria resgate por eles. Enquanto o princípio genérico de combater por este propósito, ou seja, o de fazer prisioneiros para conseguir seus respectivos resgates, é condenável, a ação particular, neste caso, foi aprovada nos versículos 68-71 desta surata.

559. O mal desposa o mal. Os que fazem o bem têm muito mais razão para se unirem ao bem, para não apenas viverem em harmonia mútua, mas para estarem prontos, em todas as ocasiões, a protegerem uns aos outros. Doutra sorte, o mundo será tomado de agressões por povos inescrupulosos, resultando que o bem fracassará em seu dever de estabelecer a Paz de Deus, e de fortificar ainda mais as forças da verdade e da virtude.

560. O Livro de Deus, ou seja, o Plano Universal, o Decreto Eterno, a Tábua Preservada (versículo 22 da 85ª Surata). A relação consangüínea e os seus direitos e deveres não dependem de circunstâncias especiais de natureza temporária. Quaisquer direitos temporários de herança mútua, estabelecidos entre os primeiros Emigrantes e os Socorredores, não se aplicam àqueles recrutados por último (nota do versículo 72 desta), os quais vieram sob circunstâncias completamente diferentes.

561. Esta é a única Surata de Deus que não se inicia com a expressão "Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso". A razão disso está em que parece ter ela sido revelado, por completo, com advertência às injustiças e à quebra do pacto, cometidas pelos idólatras; constitui uma reprimenda aos hipócritas, e tudo isso não se coaduna com o nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. A esse respeito foi Ibn Sina consultado, ao que respondeu: "O nome de Deus inspira paz a segurança, e não é de bom alvitre associá-Lo à acusações e à agruras."

562. Quatro meses. Alguns exegetas acham que se trate dos quatro meses proibidos, nos quais os expedientes da guerra, segundo um costume da Arábia antiga, eram considerados ilícitos, a saber: Rajab, Dul-Qui’da, Dul-hijja e Muharram (ver versículo 194 da 2ª Surata, e respectiva nota). Contudo, é preferível tomar a significação como se referindo aos quatro meses que imediatamente se seguem à Declaração. Presumindo-se que a Surata haja sido promulgada no início de Chawal, os quatro meses seriam: Chawal, Dul- Qui’da, Dul-hijja e Muharram, dos quais os últimos três seriam também meses costumeiramente proibidos.

563. O grande dia do Hajj; é tanto o 9º dia de Dul-hijja (‘Arafat) como no 10º (o Dia do Sacrifício).

564. Quando a guerra se torna inevitável, ela deve ser encetada com vigor. De acordo com o termo português, não se pode lutar com "luvas de pelica". O combate poderá tomar a forma de matança, ou de aprisionamento, ou de assédio, ou de emboscada e outros estratagemas. Contudo, mesmo assim, há sempre lugar para o arrependimento e a emenda, por parte do lado culpado; e se isso acontecer, será nosso dever perdoarmos e estabelecermos a paz.

565. Mesmo entre os inimigos do Islam, entre os que estão ativamente hostilizando os muçulmanos, talvez haja indivíduos que se encontrem numa posição que requeira proteção. Asilo completo lhes deve ser dado, bem como oportunidades que lhes propiciem ouvir a Palavra de Deus. Se aceitarem a Palavra, tornar-se-ão muçulmanos e irmãos, sendo que questão alguma será suscitada. Se não houver jeito de aceitarem o Islam, requererão proteção dupla: (1) das forças islâmicas, que estão lutando contra o seu povo, e (2) de seu próprio povo, uma vez que se separaram dele. Ambas as espécies de proteção deverão ser-lhes garantidas, sendo que deverão ser seguramente escoltados para um local onde poderão estar a salvo. Tais pessoas somente erram por ignorância, acontecendo que deve haver muito de bom nelas.

566. Entre os árabes, os laços de parentesco eram tão fortes, a ponto de serem quase irrompíveis. Os árabes idólatras, entretanto, saíram da sua linha, a fim dos que romperem, como no caso dos muçulmanos, que eram "unha e carne" com eles. Além dos laços de parentesco, havia ainda os da promessa jurada quanto ao Tratado. Eles quebraram essa promessa, porque a outra parte era composta de muçulmanos.

567. A palavra "Amara, como é aplicada para a mesquita, implica nas seguintes idéias: construir ou consertar; conservá-la na dignidade adequada; freqüentá-la, para fins de devoção; e enchê-la de luz, de vida e de atividade. Por motivo de brevidade, nós usamos somente o termo "freqüentar" na tradução. Antes da pregação do Islam, os idólatras construíam, reformavam e conservavam as mesquitas, e nelas celebravam cerimônias idólatras, incluindo a de dançarem nus, ao redor da Caaba. Disso eles fizeram uma fonte de renda. O Islam protestou, e os idólatras expulsaram os muçulmanos e o Líder destes de Makka, além de lhes obstruírem o acesso à própria Caaba. Quando os muçulmanos ficaram suficientemente fortes, e reconquistaram Makka (8º ano da Hégira), purificaram o santuário e restabeleceram o culto ao verdadeiro Deus. As famílias que antes tinham controle sobre o santuário não podiam, depois disso, em estado de idolatria, controlá-lo mais. Caso se tornassem muçulmanos, isso seria um assunto diferente. Esta foi a ocasião particular a que se refere o versículo. A dedução genérica é clara. A casa de Deus é um local de sincera devoção, e não um teatro de rituais vulgares, nem tampouco uma fonte de renda terrena. Tão-somente os crentes sinceros têm o direito de ali entrar.

568. O dar de beber água fresca aos sedentos peregrinos, e o prestar serviços materiais à mesquita constituem atos de profunda significação; todavia, são apenas externos. Se não tocarem a alma, seu valor será diminuto. Bem maiores, aos olhos de Deus, são os atos de Fé, de Diligência, e de auto-submissão ao seu Senhor. Aqueles que praticarem, obterão honra aos olhos de Deus. A luz e a diretriz de Deus chegarão até eles, mas não chegarão até aqueles seres auto-suficientes, que pensam que uma pequena amostra do que o mundo considera reverência seja suficiente.

569. Eis aqui uma magnífica descrição do Jihad. Ele talvez requeira que se lute pela causa de Deus, como uma forma de sacrifício. Porém, a sua essência consiste em uma verdadeira e sincera Fé, que se fixa em Deus, tanto que todos os motivos egoísticos ou terrenos ficam parecendo insignificantes, e se desvanecem. A fé dos crentes é uma genuína incessante atividade, envolvendo o sacrifício (se necessário for) da própria vida, ou dos bens, para o serviço de Deus. A mera luta brutal é contrária a todo o espírito do Jihad, ao passo que o lápis do estudante, ou a voz do pregador, ou as contribuições do abastado, talvez constituam mais valiosas formas de Jihad.

570. Hunain fica no caminho que vai de Taif a Makka, a cerca de 22 km a leste desta cidade. Trata-se de um vale, numa região montanhosa. Imediatamente após a conquista de Makka, os idólatras pagãos, que estavam a um tempo surpresos e humilhados com a brilhante recepção que o Islam estava tendo, organizaram um tremendo ajuntamento próximo a Taif, a fim de traçar planos de ataque ao Mensageiro. As tribos de Hawzan e de Sa-quif tomaram a liderança, e prepararam uma colossal expedição com destino a Makka, jactando-se de seu poderio e tirocínio militar. Havia, por outro lado, uma onda de confidente entusiasmado por parte dos muçulmanos, em Makka, à qual se juntaram novos muçulmanos. A força inimiga contava com cerca de 4.000 homens, e a força dos muçulmanos atingia um total de 10.000 ou 12.000 homens, uma vez que todos a ela se queriam juntar. A batalha foi travada em Hunain, como descrito na nota seguinte.

571. Pela primeira vez os muçulmanos gozaram de uma tremenda vantagem, e isso foi em Hunain. No entanto, aquilo, por si só, constituía um perigo. Muitos, em suas fileiras, foram tomados mais pelo entusiasmo do que por um espírito de sapiência, mais por um espírito de ufania do que de fé e confiança na virtuosidade da sua causa. O inimigo gozava das vantagens de conhecer completamente o terreno. Ele encetou uma emboscada na qual a vanguarda dos muçulmanos foi apanhada. E por ser a região montanhosa, fácil se tornava ao inimigo ali se entocaiar. Tão logo a vanguarda muçulmana entrou no vale de Hunain, o inimigo caiu em cima deles com fúria tal, que causou uma verdadeira devastação com suas flechas, que partiam de suas tocaias. Em tais circunstâncias, a vantagem numérica dos muçulmanos constituía, já, uma desvantagem. Muitos foram mortos, e muitos voltaram, em confusão e retirada. O Mensageiro, porém, como sempre, mantinham-se calmo em sua sapiência e fé. Ele reagrupou as suas forças, e infligiu ao inimigo a mais fragorosa derrota.

572. Os acontecimentos desenrolados em Makka fizeram com que aumentassem os lucros das transações e do comércio. "Mas, não temais", é-nos dito, "os idólatras constituem um poderio fraco; eles estão sujeitos a desaparecer, sendo que vós deveis fortalecer a vossa própria comunidade, para que eles possam fazer mais do que compensar a da aparente perda dos hábitos; e sabei que Deus possui outros meios de melhorar a vossa posição econômica." Isto virtualmente aconteceu. Os idólatras foram extintos da Arábia, e as contribuições dos peregrinos, vindos de todas as partes do mundo, fizeram com que a economia aumentasse, mais de cem vezes. Eis aqui o bom senso, a sapiência, a habilidade política, e o tacto, ainda que olhemos a questão de um ponto de vista puramente humano.

573. Jizya; o significado é compensação. O significado derivado, que se tornou um significado técnico, era uma capitação exigida daqueles que não aceitavam o Islam, mas que concordavam em viverem sob a sua proteção, estando, deste modo, tacitamente disposto a se submeterem aos ideais impostos pelo Estado Muçulmano, salvo apenas a sua liberdade pessoal de consciência, com relação a eles mesmos. Não havia uma quantia fixa para isso e, de qualquer modo, aquilo era simbólico - uma conscientização de que eles cuja religião era tolerada, por seu turno, não deveriam interferir com a pregação e o progresso do Islam. O Imam Chafi’i acha que a contribuição seria de um dinar por ano, que seria o dinar árabe de ouro, corrente nos Estados Muçulmanos. Ver a nota do versículo 75 da 3ª Surata. A taxa variada de quantia, havendo exceções para os pobres, para as mulheres e crianças (segundo Abu Hanifa), para os escravos, e para os monges ermitões; constituindo-se de uma taxa sobre pessoas fisicamente capazes e em idade para o serviço militar, aquilo seria, de certo modo, uma comutação para este serviço.

574. Este versículo e o seguinte deveriam ser lidos juntos. Eles condenam a conduta arbitrária e egoística dos árabes idólatras que, por causa de um costume havia muito estabelecido, o de observar quatro meses, nos quais o combate era proibido, mudavam os meses, ou os prolongavam, ou os reduziam, a fim de conseguirem uma injusta vantagem sobre o inimigo. Os quatro meses proibidos eram Dhul-quida, Dhul-Hijja, Muharram e Rajab. Caso lhes conviesse, eles mudavam um desses meses, tornando comum um mês proibido; posto que os seus oponentes hesitavam em combater, eles ficavam numa indevida vantagem. Isso ainda abalava a segurança do mês da Peregrinação. Este era um costume antigo, estabelecido para observação geral; e sua transgressão, feita pelos idólatras, é condenada. A questão do ano solar astronômico, em contraposição ao ano lunar eclesiástico, não é suscitada aqui. Contudo, deve-se notar que o ano árabe era quase luni-solar, como o ano hindu; seus meses eram lunares, e a intercalação de um mês, para cada três anos, quase se aproximava, mas não acuradamente, do ano solar. Desde o ano da Peregrinação de Despedida (10º da Hégira), o ano eclesiástico foi definitivamente fixado como um ano puramente da lunar. Quase não chegando a 354 dias, com meses calculados pelo virtual aparecimento da lua. Depois disso, cada mês do ano eclesiástico chegava 11 dias mais cedo do que no ano solar, e desse modo os meses eclesiásticos ocorriam em todas as estações e em todo o ano solar.

575. Os muçulmanos viam-se em desvantagem, devido aos seus escrúpulos quanto aos meses proibidos. É-lhes dito que não se deixem enganar quanto a isso. Caso os idólatras combatessem em todos os meses, por um pretexto ou por outro, era-lhes permitido que se defendessem em todos os meses. Todavia, o controle sobre si mesmos (como sempre), tanto quanto possível, era recomendado.

576. O Interferirem com um costume, havia muito estabelecido, de fazer interromper-se o período de injunções guerreiras durante os meses proibidos ou sagrados, não somente constituía uma demonstração de escárnio, por parte dos idólatras quanto aos muçulmanos, por causa da fé destes, mas ainda era errôneo, e, em si, injusto, uma vez que impedia uma total verificação nas irregularidades das injunções guerreiras, além de prejudicar os respeitadores da lei, por meio de decisões arbitrárias.

577. A referência imediata é à expedição de Tabuk ( 9º ano da Hégira). Entretanto, a lição é perfeitamente genérica. Quando é feito um clamor em favor de uma grande causa, os afortunados são eles que têm o privilégio de atender a tal clamor. Os desafortunados são aqueles que se encontram tão engajados em seus limitados assuntos, que se tornam surdos ao apelo. Estes estão sofrendo de uma enfermidade espiritual.

578. A escolha é entre dois expedientes: iríeis preferir uma nobre ventura e o glorioso privilégio de seguir o vosso líder espiritual, ou a desventura de rastejardes na terra, em busca de algum diminuto ganho terreno, ou por medo da perda das coisas deste mundo? As pessoas que hesitaram em atender ao clamor de Tabuk deixaram de fazê-lo por causa do calor do verão, em meio ao qual a expedição foi empreendida, devido à ameaça à existência da pequena comunidade; e por medo de perder os frutos da colheita, que estava em vias de ser efetuada.

579. A expedição de Tabuk não se constituiu num fracasso. Embora muitos houvessem hesitado, muitos mais se juntaram a ela. Porém, exemplo mais notável deu-se quando o Mensageiro se viu obrigado a deixar Makka e empreender a sua famosa Migração, "Hijrat". Seus inimigos conspiravam contra a sua vida. Ele já havia enviado seus seguidores para Madina. Áli ofereceu-se como voluntário para enfrentar os inimigos, em sua casa. Seu único companheiro era Abu Bakr. Os dois se esconderam por três noites na caverna de Saur, a cerca de 5 km de Makka, tendo o inimigo, em grande número, a vasculhar toda a região à procura infrutíferas deles. "Nós somos apenas dois", disse Abu Bakr. "Qual", disse Mohammad, "fica sabendo que Deus está conosco". A fé lhes dava paz de espírito, e Deus lhes dava segurança. Eles chegaram a Madina, em um glorioso capítulo abriu-se para o Islam. As forças que os auxiliaram eram invisíveis, mas seu poder era irresistível.

580. Literalmente, "o segundo dos dois", que mais tarde passou a ser o honroso título de Abu Bakr.

581. A palavra fitna, como ficou explicado na nota do versículo 25 da 8ª Surata, significa sedição, tumulto, alvoroço ou tentação. Os exegetas, aqui, apegam-se ao último significado, explicando que alguns hipócritas pediram a isenção do serviço, na expedição de Tabuk, que iria em direção à Síria, sob a alegação de que não poderiam suportar os encantos da mulheres daquelas paragens, sendo que melhor fariam se ficassem em casa. A resposta foi: "No entanto, já caístes em tentação aqui, ao vos recusardes ao serviço, desobedecendo à convocação."

582. A espera, tanto dos incrédulos, como dos crentes, se dá em sentido diferente. O desejo dos incrédulos é que aconteçam desastres aos crentes; porém, quer os crentes saiam vitoriosos ou morram como mártires, pela Causa, em ambos os casos estarão felizes com os resultados. Os crédulos esperam a punição para os incrédulos, por causa da infidelidade deles, tanto pelo seu próprio meio, como de outra maneira, dentro dos Desígnios de Deus, coisa que os incrédulos não gostariam, de um modo ou de outro. (comparar com o versículo 158 da 6ª Surata).

583. Sádaca = esmola, que é dada em nome de Deus, principalmente para os pobres e necessitados, e para propósitos semelhantes, especificados no versículo 60. Zakat é a caridade regular e obrigatória, numa comunidade muçulmana organizada, comumente de 2,5 % no tocante a mercadorias, e de 10%, no tocante a frutos da terra. Existe um vasto corpo de obras a este respeito.

584. As esmolas ou as doações caritativas devem ser dadas para os pobres e necessitados e para aqueles que se encontram a seu serviço. Isto é, os fundos de caridade não deverão ser desviados para outros usos; contudo, as despensas genuínas com a administração e distribuição da caridade sairão, com justa razão, de tais fundos.

585. O termo português "mão-de-vaca" satisfaria apenas uma parte do significado. A mão é símbolo do poder, da ajuda e da assistência, isto poderá referir-se ao sentido financeiro ou a outro qualquer. Os hipócritas pretender ser uma porção de coisas, mas realmente são uns inúteis, não se constituindo em ajuda para ninguém.

586. As cidades da planície, Sodoma e Gomorra, nas quais Lot em vão exortou o povo a que desistisse de suas abominações. Ver os versículos 80-84 da 7ª Surata.

587. A referência é a uma conspiração, feita pelos inimigos do Mensageiro, com o fito de matá-lo, quando ele voltava de Tabuk. A conspiração fracassou. O mais estranhável disso é que entre os conspiradores encontravam-se homens de Madina, que haviam enriquecido por causa da prosperidade que se seguiu à paz e ao bom governo que ali se estabeleceu por meio do Islam. O comércio florescia; a justiça era firmemente imposta, com mãos equânimes. E a única retribuição que aqueles homens souberam dar foi a do mal pelo bem, aquilo era uma espécie de vingança, porque o Islam primava por suprimir o egoísmo, defendia os direitos dos mais pobres e mais humildes, e considerava a dignidade mais pela virtude do que pelo berço ou pela posição.

588. Uma terrível admoestação para aqueles que decididamente se opuseram à Causa de Deus. O Mensageiro era, por natureza, pleno de misericórdia e perdão. Ele orava em favor dos seus inimigos. No entanto, em tal caso, mesmo as suas orações se vêem sem efeito, por causa da atitude deles em rejeitarem Deus.

589. A expedição a Tabuk teve de ser realizada às pressas, no rigor do verão, por causa da ameaça ou do temor de uma invasão dos bizantinos. Eles partiram de Madina, por volta do mês de setembro ou outubro, do calendário solar.

590. Na morte de um muçulmano, simplesmente assistir às cerimônias funerárias constitui um dever piedoso, e que nenhum muçulmano das vizinhanças deverá se furtar; praticar as orações antes que o corpo seja baixado à sepultura, sendo que o abaixamento do corpo à sepultura deverá ser feito com um ritual simples, solene e digno, no qual os parentes mais chegados, ou amigos, auxiliam no sepultamento, enquanto os outros permanecem em pé ao lado da sepultura. Para aqueles que tenham demonstrado hostilidade para com o Islam, isto não seria correto, e seria proibido.

591. Khaualif é o plural de khalifa, ou seja, aqueles que ficaram para trás, enquanto os homens iam para a guerra. Havia homens que preferiam ficar para trás, com as mulheres, quando havia trabalhos árduos para serem feitos por homens com tal como defenderem os seus lares. Eles não eram apenas covardes, porém também tolos, uma vez que não compreendiam as coisas de seu próprio interesse. Caso o inimigo se saísse melhor do que seus irmãos, eles próprios seriam esmagados. "Seus corações serão selados." Os hábitos de covardia e de hipocrisia que eles adotaram tornaram-se a sua segunda natureza.

592. Os pagamentos se referem à caridade regular, estabelecida pelo Islam - esmolas obrigatórias. Caso as consideremos como uma multa ou um encargo, sua virtude estará desfeita. Se nos regozijarmos em ter aí a oportunidade de ajudar a comunidade a manter os seus padrões de assistência pública, e a suprimir a mendicância, livrando-se de inconveniente e repugnante importunação, cujo abrandamento é apenas governado por motivo de se livrarem de nocivos obstáculos do caminho, então o nosso ponto de vista será inteiramente diferente. Nós desejamos que haja esforços organizados e efetivos para que se revolvam os problemas humanos da pobreza e da miséria. Ao procedermos assim, aproximar-nos-emos de Deus, e angariaremos os votos e as orações dos religiosos, conduzidos pelo nosso Líder, Mohammad.

593. Note-se como este simbolismo aparece nas descrições do cumprimento final do destino do homem. Na ciência matemática, isso seria como uma letra ou fórmula, que sumariaria um longo curso de racionalizações. Nas artes gráficas, seria o que um lótus é para o budismo, ou seja, expressaria todo um complexo de experiências emocionais e religiosas. Na música, seria como as notas características de Brahms ou Paganini. Nesta mesma Surata, ele ocorre antes, nos versículos 72 e 89. Nós estamos levando em consideração os bons e os maus beduínos, e fechando o círculo, quanto a eles.

594. Os árabes do deserto não eram todos gente simples. Havia hipócritas astutos entre eles, tanto entre certas tribos acampadas ao redor de Madina, como entre outras, na própria Madina. Compreendemos que ambos os grupos pertencem aos Arab a quem o contexto se refere, e não aos cidadãos de Madina, já estabilizados, de cujos hipócritas já foi falado em seções anteriores. Talvez aparentassem ser simples, mas eram, em sua ignorância, os mais obstinados hipócritas.

595. Esta é uma classe de insidiosos malfeitores, cujo tipo é ilustrado pela história de Kubá ("Mesquita dos desmandos" - dhirar). Kubá é um subúrbio de Madina, cerca de 4,5 km a sudeste. Quando o Profeta se dirigia para Madina, na Hégira, ele descansou por quatro dias em Kubá, entes de atingir o seu destino. Aí foi construída a 1ª mesquita, a "Mesquita da Piedade" (taqwa) ou a mesquita do poder do Islam (Quwat-ul-Islam), à qual ele freqüentemente ia, durante as suas subseqüentes estadas em Madina. Para tirar vantagens sagradas, alguns hipócritas da tribo Bani Ghannam construíram uma mesquita de oposição em Kubá, fingindo ajudarem o Islam. Na realidade, eles estavam aliados a um famigerado inimigo do Islam, um tal de Abu Amir, que havia lutado contra o Islam em Uhud, e que estava agora, depois da batalha de Hunain (9º ano da Hégira), na Síria; os seus confederados queriam uma mesquita, para que o Profeta a ela fosse; porém, aquilo constituir-se-ia apenas numa fonte de desmandos e divisão, ficando o esquema desaprovado.

596. Abu Amir, cognominado o Ráhib (monge), uma vez que havia estado em contato com os monges cristãos.

597. A original "Mesquita da Piedade", construída pelo Mensageiro.

598. O homem que constrói sua vida, baseado na piedade (coisa que inclui a sinceridade e a pureza de todas as intenções), e nas suas esperanças no Bom Aprazimento de Deus, deve construí-la numa firme fundação rochosa que jamais será abalada. Em contraposição a este, está o homem que constrói a sua vida num oscilante morro sedimentário, à beira de um abismo, já minado por forças que ele não vê. O morro e as fundações, tudo ruirá, juntamente com ele, resultando que ele será arrojado no Fogo da miséria, do qual não há escapatória.

599. Entre os fiéis, o maior número consistia daqueles que eram perfeitamente leais e estavam sempre prontos a cumprir com seus deveres. Eles obtiveram o amor e o bom aprazimento de Deus. Em seguida vêm uns poucos que titubeara, porque suas vontades eram fracas, e se viram desencorajados pelos perigos e dificuldades com que se haviam de ver; a graça salvadora de Deus os protegeu, e eles superaram as suas fraquezas, e não fracassaram em seus deveres; Deus os perdoou e aceitou-lhe o arrependimento. Por último, da ilustração tirada da questão de Tabuk, houve alguns que fracassaram em seus deveres, não por contumácia ou má vontade, mas por insensatez, por frouxidão, e por fraqueza humana; eles literalmente deixaram de obedecer aos clamores do Profeta, e foram naturalmente chamados para se explicarem, e, por fim, foram excluídos da vida da comunidade. O estado mental deles é aqui descrito graficamente. Embora a terra seja espaçosa, para eles ela se tornou constrangida. Em suas almas, eles tinham uma sensação de constrangimento. Nas conjunturas terrenas eles se sentiam pobres de espírito. Cientificaram-se de que não podiam fugir de Deus, mas tão-somente poderiam encontrar conforto e refúgio, voltando-se para Ele.

600. O combate talvez seja inevitável e, quando a convocação, da parte do governante do Estado islâmico, for feita, deverá ser obedecida. Todavia, o combate não deverá ser glorificado, à exclusão de tudo o mais. Mesmo entre aqueles que estão aptos a partir, uma parte deverá ficar para trás - uma em cada cidadela ou círculo - para fins de estudo; assim, quando os combatentes voltarem para casa, suas mentes ficarão novamente em sintonia com os mais normais interesses da vida religiosa, sob a direção de mestres adequadamente instruídos. Os estudantes e os mestres passam a ser soldados de Jihad, em seu espírito de obediência e disciplina.

601. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

602. Aiat = sinais, ou versículos do Alcorão. Ambos os significados devem aqui ser compreendidos. Cada versículo constitui uma pepita de outro da sabedoria. E, nos versículos imediatamente subseqüentes, a saber, os 3-6 desta surata, são fornecidos exemplos das maravilhas da Criação Material de Deus. Se os céus estrelados nos impressionam por sua sublimidade, como sinais da sapiência e do poder de Deus, quão mais portentoso não seria o fato de Ele ter falado aos humanos, na própria linguagem deles, por intermédio dos Seus Mensageiros, para que eles entendessem?

603. Ver a nota do versículo 54 das 7ª Surata.

604. Hamim; líquido fervente; está associado, como no versículo 57 da 38ª Surata, com gassak, um líquido escuro, almiscarado, ou intensivamente frio; ambos constituem simbolismos do castigo que resulta a rebeldia contra Deus.

605. O epíteto adequado ao sol é diyá (esplendor e glória do brilho), e, para a lua, é "uma luz" (de beleza), a luz fria que ilumina e nos ajuda na escuridão da noite. Porém, o sol e a lua constituem, também, medidas de tempo. Com a mais simples observação desses corpos, podemos acompanhar o ritmo dos verdadeiros meses e anos lunares, coisa de que os pecuaristas e agricultores não podem prescindir. Para a agricultura os anos solares são acuradamente observados, uma vez que eles indicam as mudanças das estações; todavia, os anos solares comuns nunca são exatos; mesmo o ano solar, de 365 ¼ dias, requer correções de avanços cálculos astronômicos.

606. A palavra árabe é Cur’an, que também significa leitura. O dever do mensageiro de Deus é dar a conhecer a Sua Mensagem, à medida em que ela lhe é revelada, agrade ou desagrade ela àqueles que a ouvem. Os egocêntricos querem inserir seus próprios desejos e caprichos nos preceitos religiosos e, deste modo, estão freqüentemente dispostos a usar a religião para conseguirem seus fins. A maior parte das corrupções, ocorridas na Religião, é devida a esta causa. No entanto, a Religião não deve ser desse modo prostituída.

607. Mohammad passou toda a sua vida de pureza e virtude entre o seu povo; ele sabia ou estava ciente de tal pureza e virtude, mesmo antes que ele recebesse a sua missão. Sabia que o povo amava a sua nação, e era leal a ela. Por que deveriam voltar-se contra ele, quando lhe devia apontar, sob inspiração, todos os pecados e desmandos? Aquilo era para o próprio bem deles. Ele tinha de argumentar mais e mais com eles: "Não compreendeis? Vede que glorioso privilégio é, para vós, receberdes a verdadeira diretriz de Deus."

608. Todas as grandes invenções e descobertas, das quais os humanos se ufanam, constituem frutos daquela genialidade e engenhosidade que Deus lhes tem gratuitamente concedido de Sua Graça. Porém, o espírito do homem continua mesquinho, como é ilustrado pela parábola concernente ao mar. Ah, como o coração do homem se regozija, quando o navio desliza suavemente, ao sabor dos ventos favoráveis! Ah, como, na adversidade, ele se volta, em terror e desesperança, a Deus, e faz promessas! Ah, como essas promessas são desconsideradas, tão logo o perigo passa! Comparar com o versículo 63 da 6ª Surata.

609. Com a nossa insolência e orgulho, não vemos o quão pequena e efêmera é, de nós, a parte que é mortal. Vê-la-emos, por fim, quando aparecermos perante o nosso Juiz. Enquanto isso, as nossas ridículas pretensões tão-somente nos ferirão.

610. Uma outra magnífica Parábola, explicando a natureza de nossa vida presente. A chuva cai em gotas, e se mistura com a terra. Por meio disso, pelo artesanato incomparável de Deus, as entranhas da terra são tornada férteis. Todas as espécies de grãos, benéficos, úteis e magníficos, bem como as frutas e os vegetais, são produzidos para os humanos e animais. A terra cobre-se com a sua ostentação de verde, amarelo, e com todas as variedades de cores. Talvez o "dono" das terras atribua a si todo o crédito, pense que isso durará eternamente. Então vem uma rajada de vento, ou de erupção vulcânica, e a destrói; ou poderá ocorrer, mesmo em condições normais, que chegando o tempo da colheita, os campos e os pomares sejam arrasados por alguma praga ou doença. Onde está a beleza e a magnificência de ontem? Tudo o que resta são pó e cinzas. Que coisas mais poderemos obter, desta vida material e física?

611. Em contraste com os prazeres efêmeros e incertos desta vida material, existe a vida mais elevada, à qual Deus nos está constantemente exortado. Ela é denominada O Lar da Paz. Eis que aí não há temores, desapontamentos, ou pesares. A ela todos são conclamados, mas serão escolhidos não aqueles que tiverem procurado as vantagens materiais, mas aqueles que tiverem procurado o Bom Aprazimento de Deus. A palavra Salam (Paz) provém da mesma raiz de Islam, a Religião da Unidade e da Harmonia.

612. Tendo sido feita alusão à obra e à sapiência de Deus, tanto como à real Verdade, como contra o falso culto e contra os falsos deuses que os humanos estabelecem, segue-se que o desconsiderar a Verdade deverá levar-nos a erros clamorosos, não apenas em nossas crenças, mas também em nossa conduta. Errarem e estaremos perdidos! Como poderemos, então, fugir à Verdade?

613. A desobediência a Deus ocasionam as suas próprias e terríveis conseqüências em nós mesmos. A Lei, a Palavra e o Decreto de Deus devem ser cumpridos. Se procurarmos falsos deuses, a nossa Fé será diminuída, e então extinta. As nossas faculdades espirituais estarão mortas.

614. Taawil: elucidação, explicação, realização final. Comparar com o versículo 53 da 3ª Surata. A Mensagem de Deus não somente nos proporciona as normas para a nossa conduta cotidiana, mas nos fala dos elevados assuntos de significado religioso, os quais requerem elucidação, de três maneiras: (1) por instrução de mestres de grande experiência espiritual; (2) por experiência dos fatos vigentes da vida; e (3) pelo preenchimento final das esperanças e dos escarmentos em que agora depositamos confiança por meio da nossa Fé. Os incrédulos rejeitam a Mensagem de Deus, simplesmente porque não podem compreendê-la; e não dão a ela nem mesmo uma chance de elucidação, em nenhuma dessas maneiras.

615. Os hipócritas vão encontrar algum grande mestre, mas não tirarão proveito disso, porque não estão sinceramente à procura da verdade. São como os cegos, ou como os surdos, ou como os imbecis. É impossível guiá-los, porquanto não têm vontade de ser guiados.

616. O Mensageiro está seguro de que a culminação do mal é o mal, assim como a culminação do bem é o bem. Torne-se esse resultado patente perante seus próprios olhos, durante o tempo da sua existência, ou depois, não faz diferença. Os iníquos não devem regozijar-se por eles ter sido dado corda, nem por lhes parecer que estavam de posse de um triunfo (por certo tempo), nem tampouco os virtuosos devem perder o ânimo; porque a promessa de Deus é inexorável, e se cumprirá. E, de qualquer modo, a balança só poderá ser parcialmente ajustada, se isto for possível, nesta vida. Haverá o ajuste final e completo no Dia do Julgamento. Deus é Onisciente, e toda a verdade estará perante Ele.

617. Esta será a sina final, sabendo-se que eles próprios trá-la-ão para si. A psicologia dos incrédulos é aqui exposta e analisada. Este argumento particular principia no versículo 47 desta surata, e termina no versículo 53 da mesma. Ele se inicia com uma declaração generalizada de que cada povo teve as admoestações e explicações, por intermédio de um Mensageiro, especialmente enviado a ele; esse Mensageiro constituir-se-á uma relevante testemunha, no julgamento final, quando a questão será julgada com perfeita eqüidade. Então, segue-se um diálogo. Os incrédulos perguntam zombeteiramente: "Por que não envia agora o castigo?" A resposta para os incrédulos é: " Ele virá no devido tempo, de Deus." É dito aos crédulos para observarem e verem como os pecadores tomariam o castigo, caso este lhes chegasse de pronto. Não iriam achar que chegou mui repentinamente? Quando ele virtualmente chegar, o pânico deles será indescritível. "Será verdade?, perguntarão os incrédulos. "Sim, a verdade verdadeira", será a resposta. "E nada poderá impedi-la".

618. Aqueles que procedem erroneamente possuem uma enfermidade me seus corações, coisa que lhes causará a morte espiritual. Deus, em Sua Misericórdia, declara-lhes a Sua Vontade, coisa que deveria dirigir-lhes as vidas, e lhes proporcionar a cura para a sua enfermidade espiritual. Caso aceitassem a Fé, o remédio faria efeito; encontrar-se-iam sob a diretriz certa, e receberiam de Deus o perdão e a misericórdia. Em verdade estas seriam dádivas bem melhores do que as vantagens materiais, as posses ou as riquezas.

619. O "sustento" deve ser tomado tanto no sentido literal como metafórico. No sentido literal, que magníficas e variegadas ordenações Deus no proporciona, seja na terra, no mar e no ar, distribuídas nos três reinos, vegetal, animal e mineral! No entanto, mentes tacanhas colocam barreiras artificiais quanto ao seu uso. No sentido metafórico, que assombrosos campos de conhecimento e de enlevo espiritual nos são proporcionados em nossas vidas, individual e social! E quem irá dizer que alguma dessas coisas é lícita e outra proibida? Supondo-se, em circunstâncias especiais, que assim fosse, não é direito que se atribuam restrições artificiais dessa espécie a Deus, e que arbitrariamente se fabriquem sanções religiosas contra elas.

620. Quanto às pessoas que mentem com respeito à Religião, ou inventam falsos deuses, ou falsa adoração, terão elas alguma idéia do Dia do Julgamento, quando serão chamadas a prestar contas, e terão de responder por seus feitos?

621. A referência à história de Noé, aqui, é apenas incidental, para ilustrar um ponto especial. A história toda encontra-se nos versículos 25-49 da 11ª Surata e em muitas outras passagens, a saber, versículos 59-64 da 7ª Surata, 23-32 da 23ª Surata, 105-122 da 26ª Surata e 75-82 da 37ª Surata. Em cada local, no contexto, há um ponto especial. O ponto especial aqui, é que a própria vida e pregação de Noé, entre seu povo iníquo, foi causa de ofensa para eles. Porém ele nada temeu, confiou em Deus, proclamou sua mensagem, e foi salvo do Dilúvio.

622. A história, abrangendo Moisés, Aarão e o Faraó, é fartamente contada nos versículos 103-137 da 7ª Surata, havendo referências a ela em muitos locais do Alcorão. A referência incidental, aqui, é para ilustrar um ponto em especial, ou seja, que os iníquos são arrogantes e estão interligados pelos seus pecados, e os preferem à Verdade; eles não hesitam em atribuir os diletos de Deus, que trabalham com desprendimento para eles, intenções maldosas, coisa que abalaria a eles, os iníquos, em circunstâncias semelhantes.

623. Quando eles arrojaram seus cajados, estes se transformaram em serpentes por um truque de feitiçaria; no entanto, os milagres de Moisés eram maiores do que os truques da mistificação, porque tinham a Verdade verdadeira por detrás deles.

624. Esta instrução, supomos, foi dada quando os mistificadores foram levados à confusão, e alguns dos egípcios acreditaram. Moisés permaneceria no Egito por um certo período, para que sua Mensagem tivesse tempo de surtir efeito, ates que os israelitas fossem levados para fora dali. Eles teriam que transformar as suas casas em locais de oração (Quibla), uma vez que o Faraó provavelmente não permitiria que estabelecessem locais públicos de culto, porquanto eles tão-somente teriam de ser, então, vilegiaturistas no Egito. A Quibla haveria de ser um simbolismo da posterior restauração do puro culto de Deus, na Caaba, sob a orientação de Mohammad. Estas eram as boas-novas (o Evangelho) do Islam, pregadas por Noé, Abraão, Moisés e Jesus, e concretizadas por Mohammad.

625. A súplica de Moisés, à qual se juntou Aarão, pois sempre estava com ele, pode ser deste modo parafraseada: "Ó Deus, nós entendemos que a opulência e as riquezas dos egípcios não devem ser invejadas. Elas são apenas venturas efêmeras desta vida. Elas constituem uma desvantagem na qual, com seu orgulho por suas posses, os egípcios se desvirtuaram, bem como aos outros. Que seu orgulho seja a sua ruína! Faze com que sua riqueza se transforme em amargura, e com que seus corações se tornem empedernidos, porque eles Te rejeitaram, e não acreditarão, até que literalmente vejam o castigo por seus pecados!"

626. Depois de os israelitas ficaram errando pelo Sinai, estabeleceram-se na terra de Canaã, descrita como "... uma terra em que mana leite e mel"(Êxodo, 3:8). Eles tiveram uma terra próspera; e foram agraciados com o sustento espiritual, proporcionado por enviados, para proclamarem a Mensagem de Deus. Eles deveriam ter agido melhor do que descambarem para disputas e cismas, mas assim o fizeram. Aquilo era o que de mais imperdoável havia, considerando-se os favores que tinham recebido de Deus. Os cismas advieram da arrogância egoística, mas Deus julgará entre eles, no Dia do Julgamento.

627. Deus, em Sua infinita Misericórdia, aponta como um escarmento a contumácia do Pecado, e faz alusão ao excepcional caso de Nínive e de seu Profeta Jonas. A história de Jonas é contada nos versículos 139-148 da 37ª Surata, onde seria lugar apropriado para mais comentários. Aqui é suficiente notarmos que Nínive era uma cidade antiquíssima, que agora não mais se encontra no mapa. Acredita-se que sua localização haja sido demarcada por dois outeiros, na margem esquerda do Tigre, defronto à florescente cidade de Mosul e que está na margem direita, cerca de 370 km a noroeste de Bagdá. Um dos dois outeiros possui o nome de "Tumba de Nabi Iúnus". Os arqueólogos ainda não exploraram por completo a sua antigüidade. Não obstante, claro está que se trata de uma velhíssima cidade sumeriana, talvez remontando ao ano 3.500 a.C.. Ela tornou-se a terceira capital sucessiva da Assíria. O primeiro Império Assírio, sob o governo de Chalmanesser I, por volta do ano 1.300 a.C., tornou-se a suprema força da Ásia Ocidental. A Babilônia, da qual a Assíria havia sido anteriormente tributária, tornou-se então tributária da Assíria. O segundo Império Assírio surgiu por volta de 745 a.C., sendo que Sennarista (705-681 a.C.) embelezou a cidade com muitas obras públicas. Ela foi destruída pelos citas (então chamados medas) em 612 a.C.. Caso se presuma que o tempo de Jonas foi por volta do ano de 800 a.C., teria sido entre o primeiro e o segundo Império Assírio; quando a cidade foi quase destruída por causa de seus pecados, mas dado seu arrependimento, foi concedido ao povo um novo período de vida gloriosa, que veio com o segundo Império.

628. Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. Mesmo quando sofremos, sob provações e atribulações, isso é para o nosso bem, e ninguém pode impedir isso senão Ele, sendo que, em Seu Plano, Ele faz com que aconteça o melhor para todos. Por outro lado, não há força capaz de interceptar as Seus favores e bênçãos, sendo que Sua benevolência flui livremente, quando a merecemos, e freqüentemente, quando não a merecemos.

629. O Furcan, ou o Discernimento entre o certo e o errado, foi-nos enviado, procedente de Deus. Se nós aceitarmos a diretriz, não será para parecer como um favor conferido àqueles que no-la concederam. Eles sofrem abnegadamente por nós, a fim de que possamos ser guiados, para o nosso próprio bem. Por outro lado, se a rejeitarmos, bem, a perda será nossa. Nós temos uma certa quantidade de livre-arbítrio, e a responsabilidade é nossa, não a podendo deixar recair sobre os Mestres, enviados por Deus.

630. Quando, a despeito de todos os esforços dos diletos de Deus, as pessoas não aceitam a Verdade, e o mal parece florescer por certo tempo, nós devemos esperar e ser pacientes, e, ao mesmo tempo, não devemos perder as esperanças, ou deixar de envidar esforços, no sentido contrário, porque, só deste modo, poderemos fazer a nossa parte, nos Planos de Deus.

631. Ver o versículo 1 da 2ª Surata, e respectiva nota.

632. Todo o princípio básico está incluso na Revelação de Deus, e é fartamente ilustrado e explicado em detalhes.

633. A Mensagem de Mohammad era admoestar quanto ao mal, e tinha por finalidade anunciar a boas-novas da Misericórdia e da Graça de Deus, para todo aquele que a quisesse receber, em Fé e em confiança em Deus. Esta dupla Mensagem é ilustrativamente proclamada nesta Surata.

634. O gozo de todas as boas e verdadeiras coisas desta vida refere-se, achamos, à vida presente, com seus limitados termos, e a abundante Graça refere-se às elevadas recompensas espirituais, que começam aqui, e são completadas na vida por vir.

635. O coração (literalmente, peito, em árabe) já está bem guardado no corpo; e supõe-se que os segredos estejam ocultos no coração, ou peito. Os tolos poderão procurar intensivamente cobrir seus corações com indumentárias, mas, mesmo assim, nada poderá ser escondido de Deus.

636. É cientificamente correto dizermos que toda a vida se desenvolveu na água, sendo que tal assertiva também aparece no versículo 30 da 21ª Surata. O Trono da autoridade de Deus é metaforicamente descrito como estando sobre a água, ou seja, regularmente, sobre toda a vida.

637. Se os homens do mundo desejarem o resplendor desta vida, tê-lo-ão a mancheias; contudo, saibam que se trata de falso resplendor, e que implica na negação da vida espiritual, a qual procede da diretriz da luz interior, e da revelação de Deus, como é descrito no versículo 17 desta surata, mais adiante.

638. "Uma testemunha enviada por Ele"; ou seja, o Livro que foi concedido a Mohammad, o Sagrado Alcorão, que é comparado à Revelação original, concedido a Moisés. Nós não fazemos distinção entre uma verdadeira e genuína Mensagem e outra, nem tampouco entre um mensageiro e outro - porque todos eles procedem do Único e Verdadeiro Deus.

639. A missão de Noé destinava-se a um mundo corruptos, afundado em pecados. A missão era de caráter duplo, como a missão de todos os diletos de Deus: ela tinha por finalidade admoestar os humanos quanto ao mal, convocando-os ao arrependimento, e ainda anunciar-lhes a boas-novas da Graça de Deus, caso eles se voltassem para Ele: ela se constituiu numa Diretriz e em Misericórdia.

640. A resposta de Noé (como a do Dileto de Deus, o qual, épocas mais tarde, falou em Makka e em Madina) constituiu-se num padrão de humildade, de cavalheirismo, de firmeza de caráter, de persuasão, de veracidade, e de apego ao seu próprio povo. Primeiro, submissamente - não exultantemente -, ele informa a seus concidadãos que está de posse da Mensagem de Deus. Segundo, ele lhes diz que, mesmo em sua parte admoestatória, trata-se de uma Mensagem de Misericórdia, e que talvez, devido à arrogância deles, a Misericórdia lhes seja ocultada. Terceiro, ele lhes diz abertamente que não pode haver compulsão quanto à religião; contudo, acaso, não deveriam aceitar de bom grado aquilo que era para o próprio benefício deles? Ele argumenta com eles como um deles.

641. O ridículo a que os pecados expunham Noé, partindo do próprio ponto de vista deles, era natural. Lá estava um pregador feito carpinteiro! Lá estava um planalto, fora do alcance da bacia mesopotâmica, drenada pelos majestosos Tigre e Eufrates, que ia desaguar no mar, longe dela 1.200 ou 1.300 km, e em linha reta! E ele ainda falava de inundação, como no mar! Todas as civilizações materiais orgulhavam-se de suas obras públicas e de seus traçados de drenagem. E lá estava um indivíduo contando com Deus! Porém, acaso, o orgulho tacanho deles não pareceria também ridículo para o dileto de Deus? Ali estavam homens impregnados de pecado e insolência! E eles pretendiam competir com o poder de Deus e folgar quanto à sua promessa! Em verdade, desprezível raça e a humana!

642. Um filho (ou enteado, ou neto) de Noé, desobediente e recalcitrante, é mencionado mais adiante (versículos 42-43 e 45-46). Um membro de sua família, ao se apartar das tradições da progênie, em assuntos que lhe dizem respeito, deixa de compartilhar dos privilégios dela.

643. Os símiles das montanhas são as ondas, que são altas como os montes - literalmente, pois os picos estavam sendo encobertos.

644. Os incrédulos recusam-se a acreditar em Deus, mas têm grande fé nas coisas materiais. Aquele jovem iria tentar salvar-se subindo aos picos das montanhas, não sabendo que os próprios pios iriam ficar submersos.

645. Não há dúvida de que o nome está ligado à palavra "Kurd", na qual a letra r constitui uma interpolação posterior, porquanto os velhos registros sumérios mencionam um povo chamado Kutir ou Gutu, que dominava a região do médio Tigre, não muito depois do ano 2.000 a.C.. Esta região compreende o moderno distrito turco de Bothan, no qual está situado Jabal Judi (perto das fronteiras da moderna Turquia, do moderno Iraque, e da moderna Síria), e a cidade de Jazirat Ibn Ômar (na presente fronteira turco-síria), e se estende no Iraque e no Irã. A enorme massa de montanha do Plateau Ararat domina esse distrito. O sistema de montanhas "é o único no Velho Mundo que contém grandes lençóis de água que são lagos não salgados e sem saída, sendo que os principais são o Lago Van e o Lago Urumiya". Tal deveria ter a própria região de estupendo Dilúvio, se considerarmos que a escassa precipitação pluviométrica se transformou em um torrencial aguaceiro. Um represamento glaciário do Lago Van, na Idade do Gelo, teria produzido o mesmo resultado. A região possui muitas tradições locais, relacionadas com Noé e o Dilúvio. A lenda bíblica de que o Monte Ararat seja o local de repouso da Arca de Noé é inadmissível, visto que o pico mais alto do Monte tem mais de 4.800 m de altitude. Caso se trate de um dos picos menores do sistema Ararat, a lenda concorda com a tradição muçulmana sobre o Monte Judi (ou Guti), e isto em concordância com as mais antigas e mas conceituadas tradições locais. Estas tradições locais são aceitas pelos cristãos orientais e pelos judeus.

646. A adição de força à força talvez se refira ao aumento da população, como alguns exegetas acham. Enquanto outras partes da Arábia eram esparsamente povoadas, as terras irrigadas do povo de Ad podiam manter uma população relativamente densa, que lhe aumentava o vigor natural nos expedientes de guerra e paz. Contudo, o termo empregado é perfeitamente genérico. Aquele era um povo poderoso, em seu tempo. Se tivesse obedecido a Deus, e seguido o exemplo dos virtuosos, ter-se-ia tornado ainda mais poderoso, porque "a virtude exalta uma nação."

647. Agarrar pelo topete; uma expressão árabe, referindo-se à crina do cavalo. Quando o homem consegue agarrar-se a ela, tem o cavalo sob completo domínio; para o cavalo, ela é, por assim dizer, a coroa de sua beleza, a concentração de sua força e auto-afirmação. Assim, o poder de Deus sobre todas as criaturas é ilimitado, e ninguém pode resistir ao Seu decreto. Comparar com os versículo 15-16 da 96ª Surata.

648. As histórias de Sáleh e do povo de Tamud foram contadas sob um outro ponto de vista, nos versículo 73-79 da 7ª Surata. A diferença quando ao ponto de vista, lá e aqui, é a mesma quanto à história de Hud; ver o versículo 50 desta surata, e respectiva nota. Note-se como a história agora é a mesma, e contudo, os novos pontos e detalhes são trazidos à tona para ilustrarem cada novo argumento. Note-se, também, como o pecado inveterado do povo de Ad - orgulho e obstinação - é distinto do vício dominante do povo de Tamud - a opressão dos pobres, ilustrada pelo simbolismo da camela; ver o versículo 73 da 7ª Surata, e respectiva nota. Todo o pecado resume-se, num sentido, no orgulho e na rebeldia; contudo, os pecados adquirem matrizes particulares, em circunstâncias diferentes, e tais colorações são trazidas à baila num dos quadros mais artisticamente pintados - com a maior parcimônia possível de palavras e a mais penetrante análise de intenções. Para a localidade e a história do povo de Tamud, ver a nota e o versículo 73 da 7ª Surata.

649. Apenas um prazo de três dias para pensamentos posteriores e arrependimento. Porém, eles não prestaram atenção. Um terrível terremoto veio durante a noite, precedido por uma rajada de vento retumbante (provavelmente vulcânica), que é um bem conhecido fato em áreas afeitas e abalos sísmicos. Ele veio durante a noite e os soterrou nas suas próprias casas-fortalezas, que eles pensavam que fosse locais seguros. A manhã os encontrou jacentes de bruços, ocultos à luz. Como os poderosos são aviltados!

650. De acordo com a seqüência da 7ª Surata, a referência seguinte deveria ser a história de Lot, sendo que essa história começa no versículo 77 desta surata, mais ainda adiante; porém, ela é introduzida por uma breve referência a um episódio da vida de seu tio Abraão, de cuja semente advieram os povos aos quais Moisés, Jesus e Mohammad foram enviados com a maior das Revelações. Abraão, em seu tempo, passou pelo fogo das perseguições, nos vales da Mesopotâmia; ele havia deixado atrás de si a idolatria ancestral de Ur, dos caldeus; ele havia sido testado, e saiu triunfante, quanto à perseguição de Nemrod,; ele havia, então, fixado residência em Canaã, da qual seu sobrinho, Lot, foi chamado a pregar nas cidades iníquas da planície oriental do Mar Morto, que é por isso chamada de Bahr Lut. Desse modo preparado e santificado, Abraão se acha então pronto para receber a Mensagem de que ele fora escolhido para ser progenitor de uma interminável linha de Profeta; e é essa a Mensagem que é agora referida.

651. A narrativa é muito concisa, sendo que a maioria dos detalhes é tida como certa. Podemos supor que os anjos deram a notícia primeiramente a Abraão, que já contava, de acordo com a Bíblia, Gênesis, 21:5, 100 anos de idade, e depois a sua esposa, Sara, que não tinha muito menos do que 90 anos (Gênesis, 17:7). Ela deveria provavelmente estar oculta, segundo um costume oriental. Ela mal pôde acreditar na notícia. Em seu ceticismo (em seu júbilo, alguns dizem), ela gargalhou. Contudo, a notícia de que ela iria ser mãe de Isaac e, através de Isaac, avó de Jacó, foi-lhe formalmente comunicada. Jacó iria constituir-se numa árvore frutífera, com seus doze filhos. Porém, até então, Abraão não tinha tido filho algum com ela, e Sara havia passado da idade de conceber. "Como poderia aquilo acontecer?", ela pensou.

652. A história de Lot é contada nos versículos 80-84 da 7ª Surata. Aqui, a ênfase é quanto ao trato de Deus para com os humanos - em misericórdia, quanto ao verdadeiro serviço espiritual, e em justiceira ira e punição quanto àqueles que desafiam as leis da natureza, estabelecidas por Ele. Também se dá ênfase ao trato dos homens uns com os outros, bem como o contraste entre os virtuosos e os iníquos, que não respeitam nenhuma lei divina ou humana.

653. A narrativa bíblica dá a entender que as filhas eram casada e que seus maridos estavam por perto (Gênesis 19:14), e que essas mesmas filhas, mais tarde, cometeram incesto com seu pai, resultando que dele tiveram filhos (Gênesis 19:31). Em parte alguma do Alcorão Sagrado se dá a entender tais abominações. Alguns exegetas sugerem que "minhas filhas", na boca de um homem venerável, tal como Lot, o pai de seu povo, pode significar quaisquer jovens garotas daquelas cidades. A expressão "meu filho" (Waladi) é ainda hoje um modo de as pessoas mais velhas se dirigirem a um jovem, nos países de fala árabe.

654. Na própria família de Lot havia uma pessoa que destoava quanto à harmonia da família a mulher dele. Ela era desobediente para com seu marido, que então obedecia à ordem de Deus. Ela olhou para trás, compartilhando da sina dos habitantes iníquos das cidades da planície. Ver o versículo 10 da 66ª Surata. A narrativa bíblica diz que ela se transformou numa estátua de sal (Gênesis, 19:26).

655. Sijjil é uma palavra persa, arabizada, vinda de ang-ogil, ou sang-i-gil, que quer dizer pedra de argila, ou duro como argila cozida, de acordo com Câmus. Sodoma e Gomorra situava-se numa região de solo duro, empedrado e sulfuroso, ao qual esta descrição muito bem se aplica. Comparar com o versículo 33 da 51ª Surata, onde as palavras são "pedra de argila" (hijárat min Tin), em relação ao mesmo incidente.

656. Comparar com os versículos 85-93 da 7ª Surata. A localização de Madian está explicada na nota do versículo 85 da 7ª Surata. Aqui a ênfase é quanto ao trato de Deus para com os homens, às maneiras tortuosas e obstinadas do homem; lá, a ênfase era, outrossim, quanto ao pecado dos habitantes de Makka, em tempos posteriores.

657. Tanto Platão como Aristóteles definem a justiça como a virtude que "dá a cada um o que lhe é devido". Partindo deste ponto de vista, a justiça torna-se a virtude-mestra, incluindo a maior parte das outras virtudes. Foi a falta dessa virtude que arruinou os madianitas. Seu egoísmo consistia no "agravo intencional", ou seja, estragar os negócios das outras pessoas, não lhes dando o que lhes era devido.

658. Os arcanos espirituais são fáceis de ser entendidos, se a eles dispensarmos as devidas considerações. Contudo, aqueles que os aborrecem deliberadamente, cerram os olhos aos Sinais de Deus, pretendendo, em sua arrogância, estar "bem além deles"! Quão aquém estão!

659. Só o que eles entendem é a força bruta. Eles praticamente dizem: "Não vês que temos todo o poder e influência, e que tu, Xuaib, és apenas um pobre mestre? Poderíamos apedrejar-te ou aprisionar-te, ou fazer o que quiséssemos contigo! Agradece-nos por nossa benevolência, se tu poupamos - pelo bem de tua família. Isto é mais do que tu mereces!"

660. A história de Moisés com o Faraó aparece em muitos lugares no Alcorão e, em cada um, em conexão com algum ponto especial a ser ilustrado. Aqui o ponto é que o trato de Deus está para com o homem é concernente a todas as coisas, sendo ele justo em todos os tempos. Contudo, o homem, sob falsas lideranças, fracassa, por escolha deliberada, e perece juntamente com os seus falso líderes. No exercício da inteligência e da liberdade de escolha que lhe foram concedidas, o homem deveria ser especialmente cuidadoso, e entender as suas próprias responsabilidades, e tirar proveito dos Sinais de Deus, para obter a Graça e as bênçãos d’Ele.

661. Yaumun mach-hud. Para dar a entender o significado da expressão árabe, nós a traduzimos por "um dia testemunhável". Expliquemos os vários matizes de significados implícitos: (1) um Dia para o qual todas as testemunhas apontarão, de todos os quadrantes da Terra; (2) um Dia em que os testemunho será dado, perante o Trono do Julgamento de Deus, por todas as testemunhas relevantes, ou seja, por todos os Profetas que pregaram, por todos os homens ou mulheres que tenhamos beneficiado ou agravado, pelos anjos que tiverem registrado todos os nossos pensamentos e atos, ou por todos os pensamentos e atos personificados; (3) um Dia que será testemunhado, isto é, visto por todos, não importando como e onde tenham morrido.

662. Falará, isto é, seja em defesa própria, seja em acusação a outros; ou interceder por outros, ou entrar em conversa, ou fazer perguntas uns aos outros. Será um Dia solene, em que tudo se desenrolará perante o Grande Juiz, de Quem tudo será conhecido, e Cuja autoridade será inquestionável. Não haverá lugar para tergiversações ou equívocos ou subterfúgios de qualquer espécie, nem tampouco ninguém poderá lançar culpa sobre outrem, ou se responsabilizar por outrem. A responsabilidade pessoal será estritamente mantida.

663. Comparar com o versículo 62 desta surata. Sempre existiu, nos assuntos humanos, o conflito entre o velho e o novo - os carcomidos sistemas de nossos ancestrais, e o novo e vivente manancial de inspiração de Deus, que se adapta aos novos tempos e aos novos ambientes. Os que advogam pelo primeiro olham para este último, não apenas com uma dúvida intelectual, mas ainda com uma suspeição moral, como fizeram os Adeptos do Livro quanto ao Islam, com o seu novo ponto de vista e com o seu vigoroso e realístico modo de ver as coisas.

664. Os dois extremos do dia de doze horas: manhã e tardezinha. A Oração da Manhã é denominada Fajr, que se pratica tão logo a luz aparece, mas antes do nascer do Sol; desta maneira, nós nos levantamos em boa hora, e iniciamos o dia com a lembrança de Deus, e do nosso dever para com Ele. A Oração do Meio-dia é denominada Duhr, e é praticada logo depois do meio-dia; nós nos encontramos no meio dos nossos afazeres cotidianos, e novamente nos lembramos de Deus.

665. Em certas horas da noite; zulafan, que quer dizer uma aproximação, algo muito próximo de acontecer. Como a língua árabe possui, como o grego, o número dual, distinto do plural - e o plural é aqui usado, não o dual -, é razoável argumentarmos que pelo menos três "aproximações da noite" estão aqui compreendidas. A Oração da Tarde (Asr), e a do Crepúsculo (Magrib), logo depois do pôr-do-sol, seria a segunda. A Oração da Noite (ichá) seria a terceira, quando nos postamos perante Deus, antes de irmos dormir. Estas são as cinco orações canônicas do Islam.

666. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

667. Para a compreensão da Parábola, tudo o que é necessário saber é que José era um dos Diletos Escolhidos de Deus. Quanto à história, é necessário que se incluam mais uns poucos detalhes. Seu pai era Jacó, também chamado Israel, o filho de Isaac, este, filho mais novo de Abraão. Este pode ser chamado o pai da linha da profecia semítica. Jacó teve quatro esposas. De três delas ele teve dez filhos. Em sua velhice ele teve, de Raquel (em árabe, Rahil), uma mulher lindíssima, dois filhos, José e Benjamim (o caçula). Quando esta história começa, supõe-se que José tivesse por volta de 17 anos de idade. O local onde Jacó, sua família e seu rebanho se estabeleceram foi Canaã, sendo por tradição mostrado como ficando próximo à moderna cidade de Nablus (antiga Chechem), cerca de 49 km ao norte de Jerusalém. A tradicional localidade do poço em que José foi atirado por seus irmãos é ainda mostrada, nas redondezas.

668. José era uma pessoa correta. Seu pai o amava. Seus meio-irmãos ficaram enciumados dele e passaram a odiá-lo. Seu destino tinha sido traçado na visão. Iria ser exaltado acima de seus onze irmãos (estrelas) e de sua mãe e seu pai (sol e lua).

669. A história é logo trazida para o seu aspecto espiritual. Aqueles irmãos corruptos nada mais eram do que joguetes nas mãos do Mal. Eles permitiram que suas masculinidades fossem subjugadas pelo Mal, não se conscientizando de que o Mal era oponente ou inimigo declarado da verdadeira natureza e dos instintos da masculinidade.

670. Deus estava com José em todas as dificuldades, seus pesares e sofrimentos, assim como está com todos os Seus servos que n’Ele depositam confiança. O pobre rapaz foi traído por seus irmãos, e deixado, talvez, para morrer ou ser vendido como escravo. Porém, seu coração era destemido. Sua coragem jamais o abandonou.

671. O aguadeiro ficou surpreso e estarrecido quando ele trouxe para cima, não água, mas um jovem de aparência donairosa, inocente como um anjo, com um semblante tão resplandecente quanto o sol. E o aguadeiro se pôs a gritar, como se aquilo fizesse parte de uma boa-nova.

672. Tratava-se de uma caravana de mercadores. Pensaram: Que dinheiro poderia advir daquilo? Ali estava um jovem desconhecido, não reclamado, de beleza rara, aparentemente com uma imaginação tão refinada quanto a sua beleza exterior. Ele bem podia ser vendido nos opulentos mercados de escravos de Mênfis, ou fosse qual fosse a capital da Dinastia Hykos, então o reinando no Egito. E que preços ele poderia alcançar! Deveras, eles haviam topado com um tesouro. Assim, tratavam de escondê-lo, com medo de que se tratasse de um escravo alheio, que havia fugido de seu dono, dono esse que haveria de vir reclamá-lo. As circunstâncias eram peculiares, e os mercadores tinham de ser cuidadosos.

673. A palavra ahádis deve significar histórias, coisas imaginárias ou relatadas, coisas que acontecem na vida real, ou em verdadeiros sonhos. Supor-se que os eventos fenomenais sejam a única realidade constitui uma marca de um materialismo unilateral. Os eventos exteriores possuem a sua realidade limitada; todavia, há realidades maiores por trás deles, as quais, às vezes, aparecem anuviadamente nas visões dos homens comuns, porém, mais claramente nas dos poetas, dos videntes, dos sábios e dos profetas.

674. Perante a esposa de seu amo, com sua louca paixão, a situação tornou-se intolerável, e José se dirigiu para a porta. Ela correu atrás dele para detê-lo. Para tanto, agarrou-se às suas vestes. Conforme ele se estava retirando, ela somente pôde agarrar-se à parte de trás de sua camisa, e, no esforço, a rasgou. Ele estava determinado a abrir a porta e deixar o local, uma vez que era inútil argumentar com ela, em sua louca paixão. Quando a porta se abriu, aconteceu que Aziz não estava muito longe. Nós não devemos presumir que ele estivesse a espionar, ou que tivesse qualquer suspeita, tanto com relação a sua esposa como com relação a José. À sua exígua e limitada maneira, ele era um homem justo. Podemos também imaginar a consternação de sua esposa. Uma falta leva a outra. Ela devia recorrer a uma mentira, não apenas para justificar, mas ainda para se vingar do homem que havia desprezado seu amor. O amor desfeiteado (o da espécie física) fê-la feroz, e ela perdeu todo o senso do certo e do errado.

675. Quando o fato real tornou-se claro para todos, o Aziz, como o cabeça da casa, tinha de decidir o que fazer. A sua própria posição era difícil, e ele achava-se ridicularizado. Ele era um alto dignitário do Estado, digamos um economista da nobreza. Sua dignidade e seu status foram reforçados pelo propalado casamento com uma princesa de alta linhagem. Iria ele declarar ao mundo que sua esposa havia corrido atrás de um escravo? Ele provavelmente era muito apegado a ela, mas estava cônscio da inocência, da lealdade e do elevado mérito de José. Ele deveria tratar o assunto todo como uma brincadeira feminina - loucura do amor passional, truques e enredamentos ligados ao amor sexual. Não deveria tomar nenhuma decisão antecipada; outrossim, deveria levar em consideração a sua esposa, e fazer justiça.

676. A sua fala é sutil, e demonstra que qualquer arrependimento ou contrição que talvez houvesse sentido é encoberto pela mentalidade coletiva das pessoas, na qual ela deliberadamente se deixou cair.

677. Dois homens foram presos, quase ao mesmo tempo que José. Ambos eram aparentemente oficiais do rei (do Faraó), que haviam incorrido na ira deste. Um deles era um "copeiro" (criado ou chefe dos mordomos), cujo dever consistia em preparar os vinhos e as bebidas do rei. O outro era o padeiro do rei, cujo dever era preparar o pão para este. Ambos haviam caído em desgraça. O primeiro citado, sonhou que estava novamente desempenhando suas funções, ou seja, pisando a uva; o segundo citado, sonhou que estava transportando pães, mas não conseguiu alcançar seu mestre, pois os pássaros os comeram.

678. Estes homens era egípcios, talvez arraigados ao materialismo, à idolatria e ao politeísmo. José deveria ensinar-lhes o Evangelho da Unicidade. E o fez de modo simples, apelando para a sua própria experiência: "O Senhor sempre foi bom para comigo: na prosperidade e na adversidade eu tenho sido apoiado pela Fé; nesta vida, homem algum pode viver em erro ou malevolência; talvez um de vós tenha cometido algo de errado, pelo que se encontra aqui; talvez um de vós seja inocente; de qualquer modo, não aceitaríeis vós a Fé, para viverdes para sempre?"

679. José jamais atribuiu a si a faculdade da interpretação dos sonhos, nem tampouco disse provir de si a bondade dispensada, na prisão, aos seus companheiros de sofrimento. Depois, quando o sonho do "copeiro" se tornou realidade, e ele foi solto e restaurado nos favores do rei, podemos imaginá-lo despedindo-se afetuosamente de José, e mesmo perguntando-lhe, em seu júbilo, se poderia fazer algo por ele. José não necessitava de favores terrenos, muito menos de reis ou dos seus favorecidos. A graça divina lhe bastava. Contudo, ele tinha um grande trabalho a fazer, que não poderia ser feito estando ele na prisão - um trabalho pelo Egito com o seu rei, e pelo mundo geral. Se o "copeiro" o mencionasse junto ao rei, não por via de recomendação, mas porque a própria justiça do rei estava sendo adulterada, ao manter no cárcere um homem inocente, talvez isso ajudasse no desenvolvimento da causa do rei e do Egito. E assim ele disse: "Fala de mim ao Faraó."

680. A conversa deve ter sido longa, para explicar as circunstâncias. São-nos apenas fornecidos os pontos essenciais. De José ele nada esconde. Ele está ciente de que José sabe mais do que ele. Ele diz a José que se ele, membro do Conselho, conseguisse o significado, iria apresentá-lo a esse Conselho. Seria impertinente da parte do "copeiro" oferecer a José, o dileto de Deus, como suborno, a esperança da sua libertação.

681. José não apenas mostrou o que aconteceria, mas ainda, sem isso lhe ser solicitado, sugeriu as medidas a serem tomadas para o trato com a calamidade, se ela chegasse. Haveria sete anos de abundantes colheitas. Com um cultivo diligente e racional conseguir-se-iam espigas colossais. Destas, tomar-se-ia o estritamente necessário para o sustento, e armazenar-se-ia o resto na própria espiga, constituindo isto a melhor medida para preservá-lo das pestes que costumam atacar as medas, quando passarem pela eira.

682. Este é o símbolo de um ano abundantíssimo, depois de sete anos de seca. O Nilo deve ter trazido abundantes e fertilizantes águas e sedimentos de sua cabeceira, e houve provavelmente alguma chuva, também no baixo Egito. As parreiras e as oliveiras, que deviam ter sofrido com a seca, reviviam então, e produziam já o seu suco e o seu óleo.

683. O mensageiro do rei, com toda a certeza, esperava que o prisioneiro ficasse muito contente com as solicitações do monarca. José, porém, seguro de si, queria alguma garantia de que ficaria a salvo de toda a espécie de importunação e perseguição a que estivera sujeito por parte das damas. Se o rei não tinha conhecimento de todas as artimanhas lançadas contra José por elas, Deus tinha conhecimento de todas as intenções e conspirações deles.

684. Interpretamos os versículos 52 e 53 como sendo continuação da fala da esposa do Aziz, e, de acordo com isso, os traduzimos. Há tanto boa razão, como autoridade para isso (por exemplo, Ibn Alcatir). Todavia, a maior parte dos exegetas interpretam os versículos 52-53 como constituindo a fala de José, em cujo caso eles estariam querendo dizer que ele se estava referindo à sua fidelidade para com Aziz, ao fato de que ele jamais tirara vantagem da ausência dele para assediar a sua esposa, embora ele, José, fosse humano e afeito ao erro. A nosso ver, a esposa de Aziz, conquanto reprovasse a sua conduta culposa, esperava misericórdia e perdão, e pela capacidade, por fim, compreender o que era o verdadeiro amor. Fossem quais fossem as acusações que ela fizera, fizera-o num momento de paixão, e na presença dele, jamais a sangue frio, ou nas suas costas.

685. Ver a nota do versículo 52. Vemos este versículo como constituindo uma continuação da fala da esposa de Aziz. Isso é mais apropriado a ela do que a José. Como é do nosso entendimento, ela chegou, por fim, à conscientização de tudo o que havia de errado em sua conduta, bem como vislumbrou um lampejo do verdadeiro significado do amor espiritual, que tem algo de divino, e não pode ser obtido, a não ser com a infusão de toda nossa alma em Deus.

686. José não havia aparecido perante o rei. A ordem do rei, nos mesmos termos do versículo 50, referia-se a uma mensagem vinda de José, e ao subseqüente prosseguimento, quanto às damas. Agora que a inocência, a sapiência e a fidedignidade de José haviam sido provadas - e confirmadas pelos esplêndidos atributos da esposa do Aziz -, e a própria atitude máscula de José, perante o rei, havia sido evidenciada, o rei ficou impressionadíssimo e chamou-o para especialmente servir à sua própria pessoa com seu fidedigno e confidencial Vizir. Se, como é provável, o Aziz, por esse tempo, estivesse morto (porquanto nunca mais foi mencionado), José o iria substituir nesse cargo; com efeito, ele é tratado como Aziz, no versículo 78, mais adiante. Porém, José adquiriu mais dignidade e poder, uma vez que foi designado para encetar uma grande política de emergência, para contrabalançar os dificílimos tempos de depressão, que haviam sido previstos. Foram-lhe dados plenos poderes e a mais plena confiança que um rei poderia conceder ao seu mais creditado homem, que provou ser o melhor Vizir ou Primeiro-Ministro, com especial acesso à sua Pessoa, como um economista da nobreza.

687. José tratou seus irmãos liberalmente. Talvez ele tivesse condescendido em entrar em conversação com aqueles estranhos, e inquirido sobre a sua família. Os dez irmãos ali estavam. Haviam eles deixado um pai atrás deles? Que espécie de pessoa era ele? Muito idoso? Bem, certamente ele não poderia ter vindo. Tinham eles outros irmãos? Sem dúvida, os dez irmãos nada disseram sobre o seu irmão que se perdera, José, nem tampouco contaram mentira alguma sobre ele. Porém, talvez a solícita insistência do hospedeiro houvesse trazido o nome de Benjamim à sua baila. Como estava ele? Trá-lo-iam da próxima vez? Isso eles deveriam fazer, ou não conseguiriam mais trigo, e ele nem mesmo os haveria de ver.

688. Bidháat = sortimentos; capital com o qual os negócios são realizados; dinheiro, quando usado como capital de giro. Aqui é melhor supormos que eles estavam trocando mercadorias por cereais. Comparar com o versículo 19 desta surata.

689. Os exegetas referem-se a uma superstição ou costume judaico ou oriental, o qual prescreve que os membros de uma família numerosa jamais apareçam juntos, em massa, por temor de "mau-olhado". Todavia, independentemente de Ocidente ou Oriente, ou de costume ou superstição, seria ridículo que os membros de qualquer família numerosa, dez ou onze, desfilassem juntos, numa procissão, entre estranhos. Porém, havia neste caso uma razão particular e melhor, que tornava o conselho de Jacó viável; e ele era, como constatado no versículo seguinte, um homem de sabedoria e experiência. Entrando separadamente, eles atrairiam menos atenção. Jacó mui sabiamente lhes disse que tomem a precaução humanamente possível. Contudo, como um dileto de Deus, eles os previne de que todas as precauções humanas não funcionariam, caso eles negligenciassem ou corressem opostos às questões bem mais impressionantes - uma delas, a vontade e a lei de Deus.

690. Aquele era o costume de sua família. Certamente, era bem anterior à Lei mosaica, a qual estabelecia bem claramente a restituição do roubo, e que se o culpado fosse encontrado sem nada, deveria ser vendido, pelo valor do roubo (Êxodo, 22:3). Mas então, o crime constituía mais do que simples roubo: constituía roubo, mentira, e o mais descarado abuso de confiança e hospitalidade. Enquanto os dez sentiam uma satisfação íntima em sugerir o castigo, estavam inconscientemente dando expansão ao plano de José. Deste modo, as mais vis intenções, freqüentemente, podem ajudar e dar expansão aos mais benéficos planos.

691. O pronome "ele" pode referir-se somente a José. Ele deve ter estado presente durante todo o tempo da ação, ou talvez tivesse acabado de entrar em cena, uma vez que o roubo da taça do próprio rei (versículo 72 da 12ª Surata, acima) era um caso sério e importantíssimo, e que a investigação requeria a sua supervisão pessoal. Tudo o que seus oficiais faziam era com ordem dele. É como os advogados dizem: Quem faz algo através de outrem, fá-lo por si.

692. A palavra Kabir talvez signifique "o mais velho". Contudo, no versículo 78 desta surata, acima, a palavra em questão difere de Chaikh, e por isso nós traduzimos uma como "respeitável" e a outra como "ancião". No versículo 71 da 20ª Surata, a palavra Kabir obviamente significa "mestre" ou "chefe", não mantendo nenhuma relação com a idade. Portanto, traduzimos aqui por "chefe", ou seja, dentre eles, o irmão que tomava a parte mais ativa naquelas transações. Seu nome não é mencionado no Alcorão. O irmão mais velho chamava-se Rubem. Porém, de acordo com a história bíblica, o irmão que tomou a parte mais ativa naquelas transações foi Judá, um dos irmãos mais velhos, sendo o quarto filho depois de Rubem, Simeão e Levi, sendo, ainda, filho da mesma mãe destes. Foi Judá quem deu o voto de confiança a Jacó, quanto a Benjamim (Gênesis, 93:9). Portanto, é natural que Judá se oferecesse, como aqui, para ficar para trás.

693. Jacó ficou positivamente estupefato com a história. Ele conhecia muito bem o seu querido Benjamim, para que pudesse acreditar que ele tinha roubado. Ele simplesmente se recusava a acreditar naquela história, tachando-a de "mal contada", o que realmente era, embora não no mesmo sentido pelo qual ele refutava os nove irmãos. Com os olhos da fé ele via claramente a inocência de Benjamim, embora não atinasse com todos os detalhes do que havia acontecido.

694. A palavra, em árabe, é rauh, não ruh, como alguns tradutores têm erroneamente interpretado. A palavra rauh inclui a idéia de uma misericórdia que amaina ou acalma o nosso estado de perturbação, e que, aqui, é especialmente apropriada, partindo de Jacó.

695. José então desejava revelar-se e tocar as suas consciências. Ele tão-somente tinha que relembrar-lhes os verdadeiros fato, quanto ao trato com seu irmão José, que eles pretendiam ter perdido. Ele ficou então ciente de que Benjamim fora vítima de desconsideração e injustiças, e de que também havia sofrido nas mãos deles, após a proteção de José haver sido retirada dele e da casa. Não havia, acaso, o próprio José visto que eles estavam muito propensos a crer no pior e a respeito de Benjamim e a dizer o pior de José? Todavia, José seria caridoso - não no sentido que eles tomavam, ao pedir por uma caritativa concessão de cereais, mas num sentido muitíssimo mais altruístico. Ele os perdoaria e poria a mais caritativa interpretação no que eles haviam feito - ou seja, que eles não sabiam o que estavam fazendo!

696. Literalmente, "Sinto o odor, ou o ar, ou a atmosfera, ou a respiração de José", uma vez que a palavra rih possui todos esses significados. Ou ainda, podemos traduzir: "Sinto a presença de José no ar".

697. Acabou-se a história; mas trata-se realmente de uma história? Trata-se, outrossim, de um recital de forças e intenções, de pensamentos e sentimentos, de implicações e resultados, incomumente vistos pelos homens. Por mais que eles concertem os seus planos e unam as suas forças, sejam quão negros forem os complôs nos quais apoiem os seus recursos, o plano de Deus funcionará irresistivelmente, e se dissiparão todas as suas maquinações. No fim, o bem triunfará, e nunca como a gente planejou; o mal fica frustrado, e, freqüentemente, os seus próprios complôs auxiliam o bem.

698. O Islam se apega ferrenhamente ao único fato central do mundo espiritual - a unicidade de Deus, com toda a realidade que emana d’Ele, e tão-somente d’Ele. Não pode haver ninguém nem nada em competição com essa exclusiva e única Realidade. Ela constitui a essência da Verdade. Todas as outras idéias ou existências, incluindo a nossa percepção do Ser, são meramente relativas - são meramente projeções das maravilhosas faculdades que Ele nos concedeu. Isto não é, para nós, simples hipótese. Isso se encontra na mais recôndita experiência. No mundo material diz-se que ver é crer. No nosso mundo interior, este senso de Deus é tão claro como a visão do mundo material. Portanto, Mohammad e todos aqueles que realmente o seguiram, no mais verdadeiro senso terreno, conclamam o mundo de que veja esta Verdade, sinta esta experiência, siga este caminho.

699. Uma história como a de José não pode ser meramente uma fábula imaginária. Os povos das Escrituras têm-na em sua literatura sagrada. Aqui, ela é confirmada em suas principais delineações, contendo, porém, numa detalhada exposição espiritual que não é encontrada em lugar algum das primitivas literaturas. A exposição cobre todos os aspectos da vida humana. Se adequadamente compreendida, ela fornece valiosas lições de diretriz e conduta - uma instância da graça e misericórdia de Deus para com as pessoas que se voltam para Ele, e que Lhe depositam nas mãos os seus assuntos.

700. Quanto às letras, Alef. Lam. Mim., ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata. Aqui nós não só levamos em consideração o A (começo), o L (meio) e o M (fim) da história espiritual do homem, como também o futuro imediato do interior da nossa comunidade quando se aproximava o fecho do período de Makka.

701. Achamos que isto se refira ao sexo das plantas, porquanto temos visto outros assim traduzirem. As plantas, como os animais, possuem seus aparelhos reprodutores - as masculinas, estames, as femininas, pistilos. Na maioria dos casos uma mesma flor combina tantos os estames; como os pistilos, mas em alguns casos tais órgãos se particularizados em flores distintas e, em alguns casos, ainda, mesmo em árvores separadas. A tamareira da Arábia e o mamoeiro da Índia são exemplos de árvores frutíferas unissexuadas ou assexuadas.

702. Será que "sementes e diferentes" qualifica tanto as "tamareiras", como as "videiras", e as "sementeiras"? esta última qualificação é adotada pelos exegetas clássicos; neste caso, a referência é o fato de que duas ou mais palmeiras ocasionalmente crescem de uma raiz, ou que as palmeiras às vezes crescem como árvores singelas e às vezes em touceiras. Caso as duas primeiras qualificações sejam adotadas, a referência seria ao fato de que as tamareiras (e as palmeiras, generalizando), e algumas outras plantas, crescem de uma singela raiz principal, ao passo que a maioria das árvores crescem de um complexo de raízes, que se encontram extensivamente espalhadas.

703. A tamareira, as espigas de grãos alimentícios e as videiras, tudo é alimentado pela mesma espécie de água; não obstante, quão diferentes são as colheitas que proporcionam! E isso se aplica a toda vegetação. As frutas e frutos são produzidos em várias formas, tamanhos, cores, sabores etc., em infindáveis variedades.

704. A última sentença deste versículo tem sido costumeiramente interpretada como significando que a função do Mensageiro era meramente a de admoestar, e que a diretriz era fornecida por Deus para todas as nações, por meio de seus mensageiros. Achamos que a seguinte interpretação é igualmente possível: "Constitui, por si só, um Sinal, o fato de Mohammad admoestar e pregar, além de apresentar o Alcorão, sendo que a diretriz que ele proporciona é universal, como toda a que procede de Deus".

705. O útero feminino e das fêmeas constitui apenas um exemplo, um tipo, de reserva extrema. Nem mesmo a própria mulher ou fêmea sabe o que está em seu útero - se se trata de um menino ou macho, de uma menina ou fêmea, se se trata de um ou mais, de uma ou mais, se nascerá no tempo certo, se antes do tempo, ou depois do tempo. Todavia, as coisas mais ocultas e aparentemente desconhecíveis são claras ao conhecimento de Deus. Todas as coisas são regulamentadas por Deus, na justa medida e justa proporção. A proposição geral está clara na última sentença: "...e com Ele tudo tem sua medida apropriada."

706. Em árabe, um versículo de ritmo incomparável.

707. Aqui, então, encontra-se o clímax da resposta aos sarcásticos desafios dos incrédulos quanto ao castigo, e em uma linguagem de grande sublimação: por que procurarmos o mal em vez do bem, o castigo em vez da misericórdia, temermos a força e as chispas do relâmpago em vez de esperarmos pela benevolência e abundância das colheitas que a chuva proporcionará, chuva essa que virá com nuvens que ocasionam o relâmpago?

708. Qual o quê, o próprio trovão que vos atemoriza nada mais é do que uma força controlada e beneficiente perante Ele, a qual proclama os Seus louvores, como o resto da criação. De maneira que o trovão, adequadamente, dá nome a esta surata de contrastes, em que se vê que o que se nos apresenta terrível é, na verdade, um submisso instrumento do bem nas mãos de Deus.

709. Este versículo é rico em parábolas: (1) é Deus Quem envia a chuva, e a envia para todos. Vede como ela flui por diferentes canais, de acordo com a capacidade destes. Em alguns, de maneira morosa; em outros, em torrente. Alguns formam grandes rios que irrigam grandes tratos de território; alguns são regatos claros como cristal, ribanceiras com leitos de pedregulhos, os quais podemos ver através da água. Alguns rios produzem deliciosos peixes comestíveis; outros são infestados de crocodilos e monstros danosos. E há graus de rios, riachos, arroios, lagos, lagoas, e mares. Assim é a chuva, que a misericórdia, o reconhecimento, a sabedoria e a diretriz de Deus envia. Todos podem recebê-la. Diferentes pessoas reagem de acordo com as suas capacidades; (2) no mundo material a água é pura e benéfica. Porém, a espuma e a escória se formam, de acordo com as condições locais. Assim como as enchentes levam embora as escórias e purificam as águas, também a enchente da misericórdia espiritual de Deus leva embora a nossa "escória" e purifica as nossas "águas";(3) a espuma talvez forme uma grande mancha na água, mas desaparecerá. Porém, a Verdade de Deus perdurará.

710. Nesta seção, o contraste entre a Fé/Retidão por um lado, e a Infidelidade/Mal por outro, é estabelecido. O homem reto é conhecido como aquele que (1) acata a admoestação; (2) é verdadeiro para com os seus compromissos; (3) segue a Religião Universal da Fé e da prática, juntando-as; (4) é paciente e perseverante na busca de Deus; e, quanto aos assuntos práticos, é conhecido como sendo (5) regular na prática das orações; (6) generoso na verdadeira caridade, seja ela aberta ou secreta; e (7) não é vingativo, mas sim, está ansioso em transformar o mal em bem, rompendo desse modo as cadeias do mal, o qual pretende perpetuar-se.

711. As relações desta vida são efêmeras; mas o amor, em retidão, é perene. No eterno Jardim da Bem-aventurança os virtuosos serão reunidos com todos aqueles que lhes foram caros e achegados, a quem eles amaram, bastando para isso tão-somente que também tenham sido virtuosos, porquanto na eternidade nada mais conta. Relações consangüíneas e matrimoniais criam certos laços físicos nesta vida, que poderão levar tanto ao bem como possivelmente ao mal. Todo mal material passará; entretanto, o bem se evidenciará com um novo significado, no reconhecimento final. Assim, antepassados e descendentes, esposos e esposas, irmãos e irmãs (porquanto o termo zurriyat inclui todos eles), cujo amor era puro e santificado, encontrarão uma nova bem-aventurança na perfeição do seu amor, e verão um novo e místico significado nos antigos e efêmeros laços.

712. Em relação aos outros profetas, o nosso Profeta veio mais tarde no tempo, a fim de lhes completar a Mensagem e universalizar a Religião. E, decididamente, foi depois da era dele que o processo de unificação do mundo se iniciou. O processo ainda não está completo, mas está andando a passos largos.

713. Que os incrédulos não pensem que, se prosperarem por um certo tempo, isso será o fim da questão. Eles serão admoestados acerca de três coisas: (1) seus malfeitos deverá portar conseqüências malignas para eles, todo o sempre, embora por um certo tempo eles não o percebam; (2) seus lares, seus locais de afluência, os círculos nos quais se movimentam, serão também atingidos pelas suas más ações e respectivas conseqüências. Porque o mal faz do seu ambiente um complexo. Quando as muralhas de Jericó caírem, deverão trazer toda a Jericó em suas ruínas; (3) o Desastre primordial, o Reconhecimento final deverá vir, porquanto Deus jamais falha em Sua promessa. Os verdadeiros valores deverão ser restabelecidos: o bem com o bem, o mal com o mal. Os exegetas extraem ilustrações da vida do Mensageiro quanto ao exílio que obteve em Madina, em sua restauração. Milagres semelhantes acontecem em toda a história. Porém, o comando pertence a Deus.

714. O Alcorão é escrito em árabe; portanto, os árabes, entre os quais ele foi promulgado, não deveriam ter dificuldades em entender os seu preceitos e usá-los para julga o que é de caráter universal, e ninguém deveria dar preferência às suas fantasias, em detrimento desta Declaração autorizada.

715. Todos os mensageiros de quem temos qualquer conhecimento detalhado, com exceção de um, tiveram esposas e filhos. A exceção é concernente a Jesus, o filho de Maria. Porém, sua vida apostolar foi incompleta; seu sacerdócio durou escassamente três anos; sua missão foi limitada, sendo que ele não foi convocado a lidar com problemas multilaterais, que avultam numa sociedade ou Estado organizado. Nós devotamos igual respeito a ele, porque ele foi um Mensageiro de Deus, mas não há que presumir que a sua mensagem cubra o mesmo âmbito universal da de Mohammad. Não haverá reprovação quanto a um ser humano comum, desde que ele viva uma vida humana normal; haverá, sim, glória, se ele magnificar e estabelecer exemplos de virtude, mais nobres que os dos outros homens, como fez Mohammad.

716. Um-mul-quitab = Livro-matriz; a fundação original de toda a revelação; a Essência da Vontade e da Lei de Deus. Comparar com o versículo 7 da 3ª Surata, e respectiva nota.

717. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

718. Os incrédulos estão aqui caracterizados de três maneira: (1) eles adoram esta vida efêmera, com as suas vaidades, mais do que a Verdadeira Vida, que perdurará por toda a Eternidade; (2) eles não apenas causam dano a si mesmos, mas ainda desviam outros; (3) as suas mentes distorcidas procuram por algo distorcido na Senda reta de Deus (comparar com o versículo 45 da 7ª Surata). Todavia, agindo assim, eles se distanciam cada vez mais da Verdade.

719. "Os dias de Deus": os dias em que a misericórdia de Deus lhes será mostrada de modo especial. A cada dia, a cada hora, a cada minuto, a Graça de Deus flui abundantemente até nós; porém, há eventos na história pessoal ou coletiva em que os Dias devem ser marcados a vermelho. Para os israelitas, tais Dias foram estabelecidos com grande detalhes nos versículos 30-61 da 2ª Surata, e em outros locais.

720. Mesmo os nomes de todos os profetas não são conhecidos dos homens; muito menos os detalhes de suas histórias. Se algumas "notícias" (porquanto a palavra traduzida por "história" deve também ser traduzida por "notícia") chegam até nós, é para fornecerem instruções espirituais para as nossas vidas.

721. Comparar com o versículo 62 da 11ª Surata. A distinção entre as palavras Chac e raib deve ser notada. Chac trata de uma dúvida intelectual, uma dúvida quanto ao falo: "É assim, ou não?" Raib trata de algo mais consistente do que nossa crença moral, além de nos causar uma inquietação na alma. No versículo 30 da 52ª Surata, ela é usada como equivalente a "calamidade" ou "desastre", ou algum castigo ou mal. Ambas as espécies de dúvidas são insinuadas contra os diletos de Deus.

722. Eis aqui uma figura gráfica e dissuasiva da pregação dos primeiros profetas em relação aos desatenuantes horrores dos tormentos do inferno. Mesmo a válvula de escape do "aniquilamento" está fechada para os iníquos.

723. Quando a hora do julgamento vier, haverá duas espécies de desilusões à espera dos ímpios: (1) aqueles que foram desviados e fracassaram em ver que cada alma tem a sua responsabilidade pessoal (versículo 134 da 2ª Surata), e não pode descarregá-la sobre outrem, voltar-se-ão para aqueles que os desviaram, na expectativa de que estes intercedam por eles ou façam algo para os ajudar. Eles recebem uma resposta manifesta como na última parte deste versículo; (2) aqueles que se colocaram ao lado de Satanás, o Poder do Mal. A resposta deste (no versículo 22 desta surata, acima) é direta, cínica e brutal.

724. A árvore nobre é conhecida por: (1) sua beleza; ela proporciona prazer a todos os que a vêem; (2) sua estabilidade; ela permanece firme e inabalável nas tormentas, porque as suas raízes estão firmemente fixas na terra; (3) sua ampla copa; seus galhos altaneiros absorvem todo o sol, proporcionando sobra para incontáveis pássaros, animais e homens, que se abrigam sob ela; (4) os frutos abundantes que ela dá constantemente. Assim é a Boa Palavra. Ela é tão magnífica quanto a verdadeira. Ela perdura em todos os cambiantes e contingências desta vida, e mesmo depois dela (ver versículo 27, acima), jamais é abalada por pesares, ou pelo que nos parecem calamidades; suas "fundações" estão profundamente enterradas nos consistentes fatos da vida. Seu alcance é universal, está por cima, em torno e por baixo; é iluminada pela Luz divina do céu, e o consolo que proporciona alcança incomparáveis seres, de todos os graus da vida. Seus frutos - as alegrias das suas bênçãos - não se restringem a uma estação ou a um conjunto de circunstâncias; outrossim, o afortunado que constitui o veículo dessa Palavra não possui orgulho; ele atribui à Vontade e Vênia de Deus, toda a sua bondade e o seu ato de disseminar essa bondade.

725. Há, aqui, um significado particular e um geral. O significado particular é compreendido como uma referência aos idólatras de Makka, que transformaram a Casa de Deus num local de adoração a ídolos horríveis, e de práticas de inusitados rituais e cultos. Realmente, não há dificuldade alguma em aceitar isto como constituindo parte de uma Surata anterior revelada em Makka, mesmo sem supor que se trate de uma profecia. Os idólatras de Makka transformaram a Religião em uma superstição blasfema, resultando que desvirtuaram o seu povo e perseguiram o verdadeiro Mensageiro de Deus, e todos aqueles que lhe seguiam os ensinamentos. A sua taça de iniqüidade parecia quase cheia, e eles estavam caminhando para a perdição, como os acontecimentos posteriores mostraram.

726. Se nos colocarmos na posição em que a comunidade muçulmana se encontrava em Makka, pouco antes da Hégira, poderemos imaginar o quanto eles necessitavam de encorajamento e consolo, os quais provinham das pregações, da fé e da firmeza de caráter de Mohammad. Uma perseguição intolerante era a ordem do dia; nem a vida, nem as propriedades ou reputações do muçulmanos estavam seguras. Era-lhes pedido que buscassem revigoramento e tranqüilidade nas orações e na ajuda mútua, de acordo com as suas necessidades e recursos.

727. Aqui, como em outros lugares, deve-se dar à palavra "agraciar" os sentimentos literal e metafórico. Entre os muçulmanos havia muitos pobres, ou escravos, ou deprimidos, e que eram desprovidos de meios de subsistência por causa das suas crenças. Eles tinham de ser alimentados, vestidos e abrigados por aqueles que possuíssem meios para isso. Havia ignorantes que precisavam de apoio espiritual; tinham de ser revigorizados por aqueles a quem Deus havia dispensado sabedoria e firmeza de caráter. Comumente, a caridade tinha de ser secreta, para que se evitassem as ostentações e especulações, ou, talvez para que o inimigo não pudesse minar tais recursos, através de sórdida violência; porém, deveria ter havido mais expedientes abertos ou organizados, a fim de que todos os necessitados a eles pudessem recorrer, para que pudessem ser aliviados.

728. O sol desprende calor, que á fonte de toda a vida e energia neste planeta; o sol, dada a inclinação do eixo da Terra, produz as estações do ano, fazendo com que o homem supra as suas necessidades, não apenas materiais como também imateriais, na forma de luz, saúde e outras bênçãos. O sol e a lua, juntos, provocam as marés, cosia que é de grande importância na vida de homem. A sucessão do Dia e da Noite é devida ao aparente percurso diário do sol através do céu. Pelo fato de haver leis aqui, que o homem pode entender e calcular, ele está apto a usar todas estas coisas para os seus próprios serviços, sendo que, nesse sentido, os corpos celestes ficam submetidos a ele, pela ordem de Deus.

729. O vale de Makka é rodeado de montes por todos os lados, ao contrário de Madina, que possui planuras niveladas e cultivadas. Porém, por causa do seu isolamento natural, é próprio para ser o centro de Oração e Louvação.

730. Abraão contava 100 anos quando Isaac nasceu (Gênesis 21:5); e como Ismael contasse 13 anos quando Abraão contava 99 (Gênesis 17:24-25), foi também um filho na idade avançada de seu pai, tendo nascido quando Abraão estava com 86 anos de idade. A progênie do filho mais moço desenvolveu a Fé de Israel e a de Cristo; a progênie do mais velho aperfeiçoou a universalíssima Fé do Islam, a Fé de Abraão, o Veraz.

731. Meus pais. O pai de Abraão foi um idólatra (versículos 74 da 6ª Surata e 26 da 43ª Surata). Não apenas isso, mas também perseguiu a Fé da Unidade e ameaçou Abraão com o apedrejamento e o exílio (versículo 46 da 19ª Surata); e ele e seu povo arrojaram-no ao fogo, para que fosse queimado (versículos 52 e 68 da 21ª Surata). Contudo, o coração de Abraão era terno, e ele suplicava por perdão para o seu pai, por causa de uma promessa que havia feito (versículo 114 da 9ª Surata), embora houvesse renunciado à terra de seus pais (Caldéia).

732. A expressão "trocada por outra, como também os céus", refere-se à completa mudança de condições, no final, das coisas como as conhecemos agora, para que tão-somente possamos ter o novo mundo, o qual é-nos descrito por meio de símbolos e metáforas nos versículos seguintes; e ao mundo espiritual das mudanças de valores, mesmo com o passar do tempo, para que o julgamento do homem comece gradativamente a surtir efeito, mesmo enquanto ele se encontre extremamente no mundo de fenômenos; porque, em seu ser interior, ele estará experimentando os efeitos, bons ou maus, da sua conduta na terra. No último caso, também, a sua experiência mística somente pode ser descrita por símbolos.

733. Ver a nota do versículo 1 da 10ª Surata.

734. Mohammad foi acusado, pelos ímpios, de ser louco ou estar possesso, porque falava de coisas mais elevadas do que eles podiam conhecer. Assim, em um grau menor, se dá com todos os virtuosos na presença de um mundo ímpio. Seus motivos, suas ações, suas palavras, suas esperanças e aspirações são ininteligíveis para os seus confrades, e eles são acusados de serem loucos ou de estarem privados das suas faculdades. Mas eles sabem que estão no caminho reto, e que são os ímpios que, realmente, estão agindo contra os seus próprios e melhores interesses.

735. A pureza do texto do Alcorão, através de quatorze séculos, constitui a prelibação do desvelo eterno com o qual a Verdade de Deus é guardada por todas as eras. Toda a corrupção, a invencionice e a criação passarão, mas a Verdade pura e santa de Deus jamais será eclipsada, muito embora o mundo inteiro zombe dela, e diligencie no sentido de destruí-la.

736. Quando atentamos para os incontáveis milhões de astros, no universo visto por nós, o primeiro comportamento em nosso conhecimento astronômico é encontrar a maravilhosa ordenação, a beleza e harmonia, numa escala de grandiosidade que cada vez mais nós apreciamos, à medida em que o nosso conhecimento aumenta. O primeiro grande cinturão que distinguimos é o Zodíaco. Cada uma marca o caminho solar através dos céus, ano após ano, bem como o limite do curso errático dos planetas. Nós fazemos doze divisões dele, e as denominamos Signos do Zodíaco. Cada uma marca o caminho solar através dos céus, como vemos, mês após mês. Nós podemos destacar as estações em nosso sistema solar, e expressar, em leis definidas, os mais importantes fatos da meteorologia, da agricultura, os ventos estacionais e as marés. Há, então, as casas da lua, o cartograma das Constelações, e outros fatos dos céus, alguns dos quais afetam a nossa vida física, nesta terra. Contudo, as lições mais elevadas que podemos tirar deles são as espirituais. O autor desta maravilhosa Ordenação e Beleza é Um. Ele, e tão-somente Ele é digno de nossa adoração.

737. Quanto aos céus materiais, podemos imaginar a suprema melodia ou harmonia - a Música das Esferas - salvaguardada de toda e qualquer força perturbadora. Se, por acaso, uma força rebelde do mal procurar obter furtivamente um som daquela harmonia, será perseguida por um meteoro, uma vez que não há consonância entre o bem e o mal.

738. Todas as maravilhosas dádivas, forças e energias que vemos no mundo, em torno de nós, têm as suas fontes e os seus mananciais de Deus, o Criador e o Sustentador do Universo. E aquilo que vemos ou percebemos ou imaginamos é apenas uma pequena porção do que na realidade existe.

739. Aparentemente, a arrogância de Iblis tinha dois pretextos: (1) o de que o homem havia sido feito de argila, ao passo que ele havia sido feito do fogo; (2) o de que ele não desejava fazer o que os outros faziam. Ambos os pretextos eram falsos: (1) porque o homem tinha o espírito de Deus alentado nele; (2) porque o desprezo, em relação aos anjos que obedeciam à palavra de Deus, não mostrava a superioridade de Iblis, mas sim a sua inferioridade. A palavra bachar, designando "ser humano" (versículo 33) sugere um grande corpo físico.

740. Aghwaitani: Tiraste-me do caminho, colocaste no erro. Comparar com o versículo 16 da 7ª Surata. Satã, como poder do mal que é, não pode ver veraz, nem mesmo na presença de Deus. Por sua própria arrogância e rebeldia ele caiu; e atribui isso a Deus. Entre o julgamento criterioso de Deus e as armadilhas e tentações de Satã não pode haver a mais remota comparação.

741. Ser o indivíduo sincero no culto a Deus significa estar propenso à purificação de toda a mácula do mal, bem como a isenção de toda a influência dele. Isso muda toda a natureza do homem. Depois disso o mal não pode atingi-lo. O mal se aperceberá de que ele está além do seu poder, e nem mesmo o tentará. Sem mencionar essas almas purificadas, todo aquele que adora a Deus faz o convite para que Sua graça o proteja. Porém, se ele se coloca no caminho errado e deliberadamente escolhe o mal, deve arcar com as conseqüências. A culpa não recairá nem mesmo sobre Satanás, o poder do mal; é o próprio pecador quem se coloca no poder dele.

742. Os corações e as mentes estarão tão purificados, que todos os rancores, ciúmes, ou sensos de injúria passados ficarão obliterados. A verdadeira Irmandade será estabelecida num lugar onde cada um terá a sua própria dignidade; não haverá questionamento algum de comparações invejosas; cada um olhará para o outro com alegria e confiança. Não haverá sentimento algum de porfia ou estafa, e a alegria durará para sempre.

743. Para um homem sem prole e com idade já avançada, o nascimento de um filho, por si só, constitui uma boa nova; porém, o nascimento de um filho que fosse dotado de sapiência prometia algo infinitamente mais consistente. Considerando-se que os anjos eram mensageiros divinos, a referia sapiência era divina, e o evento tornou-se de importância primordial para a história do mundo religioso. Porque Abraão tornou-se, através de sua progênie, a raiz das três grandes religiões universais, espalhadas pelo mundo.

744. As cidades da Planície, em torno do Mar Morto, que até hoje é chamado de Bahr Lut. Elas se deram a inenarráveis abominações. A este respeito ver os versículos 77-83 da 11ª Surata.

745. As cidades do Sodoma e Gomorra foram totalmente destruídas, sendo que as suas posições precisas não podem ser identificadas. Contudo, a planície contendo enxofre, naquela parte do território, ainda existe, bem na estrada entre a Arábia e a Síria.

746. "Os habitantes da floresta": ashab ul aicati. Ademais, talvez aica seja um nome próprio, o nome de uma cidade ou território. Quem eram os habitantes da floresta? São mencionados quatro vezes no Alcorão, a saber: nos versículos 176 a 191 da 26ª Surata, no versículo 13 da 38ª Surata, e no versículo 14 da 50ª Surata. A única passagem com detalhes é a fornecida nos versículos 176 a 191 da 26ª Surata. Aí é-nos dito que o seu Profeta era Xuaib. Os outros detalhes fornecidos correspondem ao povo de Madian, a quem Xuaib foi enviado como mensageiro.

747. "Alhijr" é sem dúvida um nome geográfico. Nos mapas da Arábia será encontrado um trato de território denominado Hijr, ao norte de Madina. Jabal Hijr fica a cerca de 240 km ao norte de Madina. O trato de território nasceria na estrada para a Síria. Esse seira o país de Samud. Quanto a esse país e seus habitantes, ver o versículo 73 da 7ª Surata, e respectiva nota.

748. Os resquícios desses edifícios de pedra, em Hijr, ainda são encontrados, e a cidade de Petra não fica a mais de 600 km de distância de Jabal Hijr. Ver a nota do versículo 73 da 7ª Surata. "Petra", em grego, significa "Rocha".

749. Os sete versículos reiterativos são usualmente compreendidos como sendo a Surata de Abertura, Alfátiha. Eles sumariam todo o ensinamento do Alcorão. Que dádiva poderá ser a mais preciosa para o muçulmano, do que o glorioso Alcorão ou quaisquer das suas suratas? A riqueza, a honra, as posses terrenas, ou qualquer coisa mais, desaparecem na insignificância, em comparação a ele.

750. A metáfora refere-se a uma ave que abre as suas asas em terna solicitude para com a sua ninhada. Comparar com o versículo 24 da 17ª Surata, onde a metáfora é aplicada a "abaixar as asas" para os pais idosos.

751. Os exegetas diferem à precisa significação dos versículos 90-91. Serão as pessoas citadas nos dois versículos as mesmas, ou diferentes? Em quem são elas? Nós adotamos o ponto de vista, para o qual há muita autoridade, de que as duas classes de pessoas eram diferentes, porém semelhantes. O versículo 90, achamos, refere-se aos judeus e cristãos, os quais tiraram as Escrituras o que lhes foi conveniente, e ignoraram e rejeitaram o resto (versículos 85 e 101 da 2ª Surata).

752. Os idólatras de Makka, nos primórdios do Islam, a fim de desvirtuarem e ridicularizarem o Alcorão, dividiam em partes o que havia sido revelado, e as repartiam com as pessoas que iam a Makka para a peregrinação, por diferentes vias, difamando e injuriando o Mensageiro de Deus.

753. Ou seja, a morte.

754. Isto constitui uma resposta ao escárnio dos idólatras, que disseram: "Se é eu há um Deus, o Único e Verdadeiro Deus, como tu dizes, com controle unificado, por que Ele não castiga os malfeitores de uma vez?" A resposta é: "O decreto de Deus cumprir-se-á inevitavelmente; chegará suficientemente cedo; quando chegar, vós desejareis que ele seja adiado; quão tolo de vossa parte quererdes mesmo cortar o vosso último fio de esperança de perdão!"

755. Se examinarmos a história dos transportes, constataremos que tem havido grandes mudanças através das eras; desde os rudes animais de carga até aos mais finos equipamentos, depois até os dispositivos mecânicos, aos meios de transporte elegantes como carruagens, bondes, trens, aos utilíssimos caminhões, carros Rolls Royce, aeronaves e aeroplanos de todas as espécies. Porém, não devemos supro que o limite tenha sido alcançado ainda, e que ainda será num tempo futuro. É por meio da mente e da genialidade do homem que Deus cria as novas coisas, até então desconhecidas para ele.

756. Não procede assim, para que os humanos tenham oportunidade de escolher entre os caminhos do bem e do mal.

757. A noite e o dia são causados por rotações planetárias. Ou mais importante, para os humanos, é notarem como Deus lhes deu inteligência, para que fizessem uso dessa alternação, para descansarem e trabalharem; como o homem, ao sair do estado primitivo, pôde balancear a desigualdade do dia e da noite, por meio de iluminação artificial, com óleos vegetais ou minerais, carvão, gás, ou eletricidade, que são primordialmente provenientes da energia do sol armazenada; como o calor do sol pôde ser temperado pelos vários meios artificiais, e armazenado para o uso, conforme o homem o desejasse; como o homem pôde desembaraçar-se das marés causadas pela lua e pelo sol, que antes ofereciam obstáculos à navegação, mas que não mais se colocavam no caminho dele; como a navegação, antes estava sujeita à observação direta da Estrela Polar e de outras, mas como a bússola e as cartas geográficas alteraram, então, completamente a situação, de maneira que o sul, a lua e as estrelas se tornaram servos úteis do homem e para o homem, tudo pela dádiva de Deus e por Seu comando, sem o que não haveria leis que governassem os astros, nem tampouco inteligências que fizessem uso deles.

758. Os apreciadores sabem dos delicados sabores dos peixes do mar, tais como o arenque do Atlântico Norte, o salmoneto dos mares de Marselha, e muitas outras espécies. A palavra Tari, traduzida por "fresca", refere-se também à natureza macia e hidratante do peixe fresco. Constitui um outro portento de Deus o fato de que a água salgada possa produzir esse sabor fresco, terno e delicado.

759. Deus é o único Criador e a única Realidade Primordial. Tudo o mais é criado por Ele, e reflete a Sua glória. Quão tolo é, então, adorarmos a qualquer outro que não seja Deus!

760. O mal sempre tramará insurreições contra os diletos de Deus. Assim foi com Mohammad, assim foi com os mensageiros antes dele. Porém, as imponentes estruturas que os ímpios constróem (metaforicamente) ruem, por ordem de Deus, e eles são castigados com punições vindas dos redutos dos quais menos esperavam punição. Por exemplo, os coraixitas estavam confiantes em sua superioridade numérica, em sua organização, e em seu equipamento superior. Contudo, no campo de Badr, onde esperavam a vitória, encontraram a derrota.

761. "Estado de pureza"; divorciados dos males deste mundo, da carência de fé e de graça. A pureza, quanto a tais males, constitui a marca do verdadeiro Islam, acontecendo com aqueles que morrem com tal pureza são recebidos na Felicidade, com a saudação da Paz.

762. Isto é, até que a morte lhes ocorra, ou ocorra algum castigo nesta mesma vida, coisa que os impossibilite do arrependimento e, consequentemente, da Graça de Deus.

763. Os árabes idólatras prescreviam várias proibições arbitrárias quanto à questão da carne; ver os versículos 143-145 da 6ª Surata. Estas, certamente, não são reconhecidas pelo Islam, o qual ainda retirou algumas das restrições da lei judaica (versículo 146 da 6ª Surata). O significado geral, contudo, é bem mais amplo. Os homens constróem as suas próprias injunções e proibições, barreiras e restrições, e as atribuem à Religião. Isto constitui um erro, e é mais consistente com as práticas idólatras do que com o Islam.

764. Muito embora os Sinais de Deus estejam em toda parte, na natureza e na própria consciência dos homens, assim mesmo, em adição, Deus tem enviado Mensageiros a todos os povos, para os chamar à atenção quanto ao bem, e fazer com que abandonem o mal. Assim, eles não podem fingir que Deus os abandonou, ou que Ele não Se importa com o que eles fazem. A sua Graça divina sempre os exorta a que escolham o certo.

765. A "Palavra" de Deus é por só o Feito. A "Promessa" de Deis é por si só a Verdade. Na há interposição alguma de tempo ou condição entre a Sua Vontade e as suas conseqüências, porquanto Ele constitui a Realidade Primordial. Deus é independente das causas próximas ou materiais, porquanto Ele Próprio as cria, estabelecendo-lhes as Leis, como Lhe apraz.

766. Tomamos a palavra "coisas", aqui, como se tratando de inanimadas, porquanto o versículo seguinte fala de criaturas "viventes" e de anjos. Metaforicamente mesmo as coisas inanimadas reconhecem Deus, e humildemente O cultuam. Até as sombras que essas coisas projetam se movem da esquerda para a direita, de acordo com a luz vinda de cima, e humildemente se prostram no chão, para louvar Deus. As "sombras" sugerem que todas as coisas desta vida são meras sombras da verdadeira Realidade dos céus; e elas giram e se movimentas, de acordo com a divina luz, como as sombras das árvores e dos edifícios, que se movem de uma direção para outra, e se alongam ou encurta, de acordo com a luz vinda do céu.

767. Os persas antigos acreditavam em duas forças no Universo, sendo uma boa e outra má; os árabes idólatras tinham também um par de deidades: Jibit (bruxaria), e Tagut (o Mal), a que se refere o versículo 51 da 4ª Surata, e respectiva nota, ou os ídolos Assafa e Almárwa, a que se refere o versículo 158 da 2ª Surata, e respectiva nota; seus nomes eram Is’af e Naila.

768. Os idólatras talvez possuíssem um lampejo do Único e Verdadeiro Deus, mas possuíam também um temor mórbido das malévolas Forças do Mal. É-lhes dito que tais temores são infundados. O mal não tem poder sobre aqueles que confiam no Senhor (versículo 42 da 15 ª Surata). O único temor que deveriam ter é o da ira de Deus. Para os virtuosos todas as coisas provêm d’Ele, e não possuem medo em seus corações.

769. Alguns dos árabes idólatras chamavam os anjos de as filhas de Deus. Em suas próprias vidas eles odiavam ter filhas, como é explicado nos dois versículos seguintes. Praticavam o infanticídio feminino. Em seu estado de permanente guerra, os filhos constituíam uma fonte de reforço para eles, ao passo que as filhas tornavam-nos sujeitos a humilhantes incursões!

770. O decreto de Deus funciona sem falhar. Se Ele fosse punir por cada erro ou deficiência, nenhuma simples criatura vivente escaparia à Sua punição. Porém, em Sua infinita misericórdia e indulgência, Ele concede um prazo; Ele concede tempo para o arrependimento. Caso o arrependimento se faça presente, a misericórdia de Deus também se faz presente, sem falta. Caso contrário, a punição se fará inevitavelmente presente, na expiração do Termo. O pecador não pode antecipá-la por desafios insolentes, nem tampouco poderá retardá-la, quando ela chegar. Que ele não pense que o prazo que lhe foi concedido quer dizer que poderá fazer o que quiser, e que poderá escapar ileso das conseqüências.

771. O leite é uma secreção do corpo das fêmeas, tal qual outras secreções, porém, bem mais especializada. Não é maravilhoso o fato de que a mesma alimentação, absorvida por machos e fêmeas, produza nestas, quanto as crias, o integral e completo alimento, conhecido por leite? Então, quando o gado é domesticado e especialmente criado para produzir leite, o suprimento desse alimento é bem maior do que o necessário para os seus filhotes, e dura por um tempo maior do que aquele em que lhes é de mamar. E note-se que ele constitui uma dieta integral e agradável para o homem. É puro, como o caracteriza a sua brancura. Contudo, trata-se de uma secreção como qualquer outra, que flui por entre as excreções que o corpo rejeita (por inúteis) e a preciosa corrente sangüínea que circula pelo corpo; e é o símbolo da própria vida para o animal que a produz.

772. Existem bebidas e comidas saudáveis, que podem ser conseguidas da tamareira e da videira, como por exemplo, bebidas sem álcool da tâmara e da uva, o vinagre, os açúcares da tâmara e da uva; e as próprias tâmaras e uvas. Se a palavra sácar for tomada com sentido de vinho fermentado, ela deverá referir-se ao tempo em que as bebidas inebriantes não haviam sido proibidas; esta é uma Surata revelada em Makka, e a proibição deu-se em Madina.

773. A palavra Auha, comumente, significa inspiração, a Mensagem colocada na mente ou no coração, por Deus. Aqui, o instinto da abelha refere-se aos ensinamentos de Deus, coisa que indubitavelmente é. No versículo 5 da 99ª Surata, ela é aplicada à terra; discutiremos o significado preciso quando chegarmos àquela passagem. O próprio favo de mel, com as suas células hexagonais geometricamente perfeitas, constitui uma estrutura portentosa, sendo adequadamente denominado buiut - lares. E o modo como as abelhas encontram locais inacessíveis nos montes, nas árvores, e mesmo entre as habitações humanas, é uma das maravilhas da natureza, isto é, a obra de Deus na Sua Criação.

774. A abelha assimila o pólen de várias espécies de flores e frutos, e forma em seu corpo o mel, que armazena nas células de cera. As diferentes espécies de alimentação, das quais ela faz o seu mel, causam as diferentes cores do mesmo; ele pode ser marrom escuro, marrom claro, amarelo, branco etc.. O gosto e o aroma também variam, como no caso do mel de urze, do mel de flores odoríferas etc.. Como alimento, é doce e saudável, sendo amplamente usado como remédio. Note-se que, conquanto os atos individuais instintivos estejam descritos no singular, os produtos de "seus abdomens" estão descritos no plural, como resultado dos seus esforços coletivos.

775. "De vossa espécie", ou de vós mesmos. Ser, personalidade, ou alma, tudo isso implica num feixe de atributos, capacidade, predileções e disposições, que podemos sintetizar na palavra Nafs, ou natureza. A mulher foi feita: (1) parceira e companheira do homem; (2) a não ser pelo sexo, é da mesma natureza do homem e, portanto, com os mesmos direitos e deveres morais e religiosos; e (3) não considerada como fonte de todo o mal ou pecado, como os monges cristãos a caracterizavam, outrossim como uma bênção, como um dos favores de Deus.

776. A primeira parábola é a de dois homens, um dos quais é um escravo, completamente sob o domínio de outrem, sem poderes de qualquer espécie, tratando-se, o outro, de um homem livre, de tal maneira dotado, que é generosíssimo em dar a sua opulenta riqueza (tanto tangível como intangível), privativa e publicamente, sem empecilho ou obstáculo; porque ele é auto-suficiente, sem ter que prestar contas a ninguém. O primeiro é como os deuses imaginários, que os homens estabeleceram, quer se trate das forças da natureza, que não têm existência independente, mas constituem manifestações de Deus, quer se trate de heróis ou homens deificados, que nada podem fazer com as suas autoridades, mas que estão sujeitos à Vontade e ao Poder de Deus; o segundo caracteriza, de modo justo, a posição de Deus, o Auto-Subsistente, a Quem pertence o domínio de tudo o que existe nos céus e na terra, o Qual concede gratuitamente as Suas dádivas e todas as Suas criaturas. Na segunda parábola, um dos homens é mudo; ele nada pode explicar e, certamente, nada pode fazer; ele constitui um fardo para o seu amo, no que quer que seja que este lhe mande fazer; ou pode ocorrer que ele seja realmente mais danoso do que útil; tais são os ídolos (literal ou metaforicamente), quando tomados como falsos deuses. O outro está em posição de mando e ordena o que é justo e correto.

777. A referência imediata poderá não ser quanto ao juramento de fidelidade feito ao Profeta, tomado por este em Ácaba, 14 meses antes da Hégira, e repetido um pouco mais tarde; ver o versículo 8 da 5ª Surata, e respectiva nota. Contudo, o significado geral é muitíssimo mais amplo. Isto deve ser visto sob dois aspectos: (1) todo juramento feito ou compromisso assumido constitui um pacto perante Deus, devendo ser fielmente observado. Nisto, ele se aproxima do significado do versículo 1 da 5ª Surata; (2) de modo particular, todos os muçulmanos, pela profissão de sua Fé, assuem um compromisso com Deus, compromisso esse que eles confirmam cada vez que repetem essa profissão. Por conseguinte, eles devem observar fielmente os deveres que lhes foram impostos pelo Islam.

778. Não façais da vossa religião um mero instrumento para tornardes a vossa facção numericamente mais forte, guarnecendo-a pelos pactos que estareis ávidos em quebrar, quando um grupo mais numeroso oferecer a sua adesão. Os coraixitas estavam entregues a esse vício; e hoje em dia, na política internacional, isto parece quase constituir um padrão de dignidade e de tirocínio internacional. O Islam ensina as nobres normas de ética aos indivíduos e às nações. Um pacto deve ser considerado como uma coisa solene, e não deve ser feito sem a mais sincera das intenções de cumpri-lo; ele deve ser obrigatório, ainda que um grande número de pessoas cerre fileiras contra isso.

779. Trata-se do título do Anjo Gabriel, por meio de quem a mensagem foi dada a conhecer.

780. Os idólatras, bem como aqueles que eram hostis à revelação de Deus, no Islam, não podiam entender, como ainda hoje não entendem, como tais palavras maravilhosas pudessem cair na boca do Profeta. Mesmo o mais eloqüente dos árabes não podia, como ainda hoje não pode, produzir algo com eloqüência, a amplitude e a profundidade dos ensinamentos alcorânicos, como é evidenciado em todos os versículos do Livro.

781. A exceção refere-se a casos com o de Ammar, cujo pai, Iasis e a mãe Sumaiya, foram objetos de inenarráveis torturas por sua crença no Islam, mas que jamais se retrataram. O próprio Ammar era de idade imatura e, com a mente voltada para o sofrimento dos pais, proferiu umas palavras interpretadas como retratação, embora o seu coração jamais retrocedesse, voltando de pronto ao Profeta, que o consolou em sua dor e o revigorou em sua fé.

782. Achamos que este versículo se refira os homens que, originariamente, estavam com os idólatras, mas que depois passaram para o Islam, sofreram asperezas e exílio, e combateram e porfiaram pela Causa, com paciência e constância. Suas ações passadas seriam esquecidas e perdoadas. Homens como Khalid Ibn Alwalid, e outros, foram contados entre os mais destacados heróis do Islam.

783. A referência talvez seja a qualquer uma das cidades ou populações dos tempos antigos, que se rebelaram quanto à lei de Deus, resultando-lhes o castigo inevitável, mesmo em meio a suas iniqüidades. Alguns exegetas vêem aqui uma referência à cidade de Makka, sob o controle dos idólatras.

784. O Evangelho da Unidade tem sido a pedra fundamental da Verdade, por todo o mundo. A este respeito, Abraão constitui o modelo e a origem do mundo da Ásia ocidental e de seus descendentes, por todo o mundo. Abraão viveu entre um povo (os caldeus) que adora os astros, e que abandonara o Evangelho da Unidade. Ele viveu entre eles, mas não foi um deles. Sofreu perseguições, abandonou o seu lar e o seu povo, e se estabeleceu na terra de Canaã.

785. "Se o procedimento de Abraão era certo", diziam os judeus zombeteiramente, "então por que tu não guardas o Sábado?" A resposta é dupla: (1) o Sábado nada tem a ver com Abraão; foi instituído pela Lei Mosaica, por causa da dureza dos corações do povo de Israel (2ª Surata, versículo 74); porque eles disputavam constantemente com o seu profeta, Moisés (2ª Surata, versículo 108); e havia constantemente, entre eles, homens que desrespeitavam o Sábado (2ª Surata, versículo 65); (2) Qual era o verdadeiro Dia de Sábado? Os judeus observam o próprio Sábado. Os cristãos, que incluem o Antigo Testamento em sua inspirada Escritura, guardam o domingo, sendo que uma seita entre eles (os adventistas do Sétimo Dia) discorda, e guardam o sábado. Assim, há discordância entre os adeptos do Livro. Que disputem entre eles! A sua disputa não será apaziguada até ao Dia do Julgamento. Enquanto isso, que os muçulmanos sejam emancipados quanto a tais restrições rigorosas. Para eles, há certamente o Dia da Oração em Congregação nas sextas-feiras, não sendo, contudo, de maneira alguma, igual ao Sábado judaico ou ao protestante.

786. No contexto, esta passagem se refere às controvérsias e discussões; todavia, as palavras são suficientemente amplas para cobrirem todas as porfias, disputas e lutas humanas. Na mais estrita eqüidade, não devemos desferir golpe maior do que aquele que recebemos. Porém, aqueles que tenham alcançado o mais elevado padrão espiritual, nem mesmo isso farão. Refrear-se-ão e serão pacientes.

787. É com respeito à Mi’raj, ou seja, a ascensão, sobre a qual há diversificadas versões; alguns exegetas afirmam tratar-se da visão que ele teve.

788. Masjid; é um local para a oração. Aqui, refere-se à Caaba, em Makka. Ela não havia sido expurgada dos seus ídolos, nem novamente dedicada exclusivamente ao Único e Verdadeiro Deus. Constituía um símbolo da nova Mensagem que estava sendo dada a conhecer à humanidade.

789. A Mesquita de Alacsa deve referir-se ao Templo de Salomão, em Jerusalém, no monte de Moriah, sobre o qual ou perto do qual se encontra o Domo da Rocha, também denominado Mesquita de Ômar. Esta, mais a mesquita conhecida como a Mesquita Longínqua, ( Masjid-ul-Acsa), foram completadas pelo Califa Abdul Málik no ano 68 H.. Longínqua, porque se tratava do mais longínquo local de adoração, no oeste, que foi conhecido pelos árabes nos tempos do Profeta; era um local sagrado, tanto para os judeus como para os cristãos, acontecendo, porém, que os cristãos tinham a primazia, uma vez que tal local fazia parte do Império Bizantino (Romano), império esse que mantinha um patriarca em Jerusalém. Os principais dados com relação ao Templo são: ele foi terminado por Salomão por volta de 1004 a.C.; foi destruído pelos babilônios sob o governo de Nabucodonosor, por volta de 586 a.C.; tornou-se um tempo dos ídolos pagãos, sob um dos sucessores de Alexandre, Antiochus Epiphanis, em 167 a.C.; foi restaurado por Herodes, de 17 a.C. a 29 d.C.; e foi completamente destruído pelo Imperador Tito, no ano 70 d.C.. Tais altos e baixos constituem grandes marcos na história da Religião.

790. Ao que se referem as duas ocasiões? Pode ser que "duas vezes" se trate de uma figura de retória para "mais de uma vez", "freqüentes vezes". Ou pode ocorrer que as duas ocasiões se refiram: (1) à destruição do Templo, sob o babilônio Nabucodonosor em 586 a.C., quando os judeus foram levados em cativeiro, e (2) à destruição de Jerusalém por Tito no ano 70 d.C., após que o Templo nunca mais foi reconstruído. Ver 3, acima. Em ambas as ocasiões isso constituiu um julgamento de Deus quanto aos pecados dos judeus - seus deslizes e sua arrogância.

791. Uma boa descrição do beligerante Nabucodonosor, com seu exército babilônico. Eles eram servos de Deus, no sentido de que constituíam instrumentos por meio dos quais a ira do Senhor foi derramada sobre os judeus, porquanto penetraram suas terras, invadiram o seu Templo e os seus lares, levando os judeus, homens e mulheres, em cativeiro. A respeito das "filhos de Sião", ver as acerbas condenações em Isaías, 3: 16-26.

792. O retorno do cativeiro, por parte dos judeus, deu-se por volta do ano 520 a.C.. Eles reiniciaram as suas vidas. Reconstruíram o seu Templo. Encetaram várias reformas, e erigiram um neo-judaísmo, em associação com Ezra. Por um certo tempo, prosperaram. Enquanto isso seus opressores, os babilônios, foram absorvidos pela Pérsia. Subseqüentemente, os persas foram absorvidos pelo Império de Alexandre. A totalidade da Ásia Ocidental foi helenizada, assim acontecendo com a nova escola judaica, que possuía um consistente centro de Alexandria. Porém, o seu pisotear das terras palestinas continuou, resultando que, sob o governo da dinastia asmoniana (167-63 a.C.), os judeus tiveram um revivescimento nacionalista, acontecendo que os nomes dos macabeus são lembrados como heróicos. Uma outra dinastia, da Iduméia (de 63 a 4 a.C.), à qual Herodes pertencia, também desfrutava de algum poder semi-independente. O cetro da Síria (incluindo a Palestina) passou para os romanos no ano 65 a.C., sendo que os reis feudais judaicos tinham uma autonomia em relação a eles. Porém, os judeus novamente mostraram uma resistência empertigada quanto ao mensageiro de Deus, no tempo de Jesus, resultando que o que se seguiu foi o inevitável destino da completa destruição do Templo, sob o governo de Tito, no ano de 70 d.C.

793. A destruição de Jerusalém, por Tito, no ano 70 d.C., foi completa. Tito era filho do imperador romano Vespasiano; no tempo da destruição de Jerusalém possuía o título de César, como herdeiro que era do trono. Ele governou o Império Romano de 79 a 81 d.C.. Merivale, em sal obra Romans Under The Empire (Os Romanos sob o Império), fornece um cômputo gráfico do assédio e da destruição final de Jerusalém (ed. 1890, VII. 221-225). A população de Jerusalém era de 200.000 habitantes. De acordo com o historiador latino Tácito, era para perto de 600.000. Houve fome e houve massacres. Havia muito fanatismo. A assertiva de Merivale é: "Eles (os judeus) estava judicialmente abandonados às suas próprias paixões e, naturalmente, ao castigo que esperava por eles".

794. A doutrina da expiação vicária é condenada. A salvação dos iníquos não poderá ser alcançada por meio da punição dos inocentes. Uma pessoa não poderá arcar com a carga de outra; isso seria injusto. Cada um deverá arcar com a sua própria responsabilidade pessoal.

795. A metáfora é a de uma ave altívola que, levada pela ternura, abre as suas asas para abrigar a ninhada. Há uma dupla adequabilidade; (1) quando os pais eram fortes, e a criança indefesa, afeições paternas foram dispensadas a ela; quando a criança cresce e fica forte, e os pais indefesos, pode ela fazer menos do que dispensar semelhante carinho aos pais?; (2) ainda mais: deve abordar os assuntos com gentil humildade; porque, por acaso o amor dos pais não lhe lembra o grande amor com o qual Deus vela as suas criaturas? Aqui há algo maior do que a simples gratidão humana; isto ascende às mais elevadas regiões espirituais.

796. Note-se que nos é pedido que honremos nossos pais e mães, não "para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor Deus te dá"(Êxodo, 20:12), mas em termos mais altruísticos e universalizados, condizentes com uma revelação perfeita. Em primeiro lugar, é-nos ordenado não apenas respeito para com os pais, mas ainda benevolência desvelada, bem como humildade. Em segundo lugar, tal ordem é ligada àquela de adorar o Único e Verdadeiro Deus; o amor paterno (materno) deve ser, para nós, o tipo do amor divino; nada que possamos fazer poderá jamais compensar o que recebemos.

797. No Decálogo judaico, dado a um povo primitivo e de coração endurecido, tal refinamento e benevolência - para com aqueles carentes e viajantes (ou seja, todos os forasteiros que venhamos a encontrar) - não encontrava guarida. Nem tampouco havia o perigo de eles desperdiçarem as suas substâncias, provenientes da exuberância. Mesmo o mandamento "honrar pai e mãe" não tem prioridade da cerimoniosa observação do Sábado. Entre os muçulmanos, a adoração a Deus está ligada à benevolência - para com os pais, parentes, necessitados, e aqueles que se encontram longe de seus lares, embora nos sejam totalmente estranhos. E não se trata de mera benevolência verbal; estes últimos têm direitos que devem ser respeitados.

798. Toda a caridade, benevolência e ajuda estão condicionadas aos nossos próprios recursos. Não haverá mérito algum se meramente gastarmos demonstrado bravatas ou espetaculosidades. Quantas famílias não ficam arruinadas com gastos extravagantes, dispendiosos casamentos, funerais, etc., (como dizem) para "obsequiarem parentes e amigos" ou, ainda, dando dinheiro para mendigos capazes e itinerantes? Apropriadamente, para ninguém mais do que para os muçulmanos dos dias presentes, esta ordem foi dada.

799. Comparar com a frase quanto à avareza, no versículo 67 da 5ª Surata. Não devemos ser tão liberais a ponto de nos tornarmos carentes, e incorrermos, assim, na censura dos homens de bom-senso, nem tampouco é plausível que neguemos os nossos recursos às devidas necessidades daqueles que têm direito à nossa ajuda. Até os estranhos têm tal direito, como vimos no versículo 26 desta Surata, acima. Portanto, devemos manter uma justa medida entre a nossa capacidade e a necessidade dos outros.

800. Os árabes pré- islâmicos eram afeitos ao infanticídio feminino. Numa sociedade permanentemente em estado de guerra, um filho homem constituía uma fonte de reviramento, ao passo que uma filha constituía uma fonte de enfraquecimento. Mesmo agora, o infanticídio, por razões econômicas, não é desconhecido em outros países. Esse crime contra as vidas das crianças é aqui tido como um dos maiores pecados.

801. Literalmente, "é mau como uma estrada (ou caminho)". O adultério não apenas é, por si só, vergonhoso e incompatível com qualquer respeito próprio ou respeito para com os outros, mas também abre caminho para muitos pecados. Ele destrói a base da família; vai contra os interesses dos filhos nascidos ou por nascer; pode causar assassinatos, contendas entre famílias, perda da reputação e mesmo de propriedades, além de afrouxar permanentemente os laços da sociedade. O adultério não somente deve ser evitado como um pecado, como ainda qualquer tentativa, ou tentação a ele deve ser evitada.

802. Quanto à questão do Quisas (talião), ver o versículo 178 da 2ª Surata, e respectiva nota. Sob as estritas limitações lá expostas, uma vida deve ser tirada para pagar outra vida. Ao herdeiro é dado o direito de demandar por essa vida; contudo, não deve ultrapassar os devidos limites, porquanto é auxiliado pela Lei. Exegetas há que entendem que "ele" (oculto) em "estando favorecido (pela lei)" se refere ao herdeiro da pessoa contra a qual se procura aplicar o Quisas. Ele também será favorecido pela lei, caso o herdeiro do referido morto exceda as limitações da lei.

803. Comparar com o versículo 152 da 6ª Surata e com outras passagens relacionadas com os órfãos, por exemplo, o versículo 220 da 2ª Surata. Caso se mexa na propriedade de um órfão, deverá ser para aumentá-la, ou para acrescentar-lhe algo que a deixe melhor do que estava antes - jamais para tirar vantagem em benefício próprio. Uma barganha que talvez pareça bem justa, entre duas pessoas independentes, seria, sob o ponto de vista deste versículo, injusta entre um custódio e o órfão, até que este atinja a maioridade.

804. A palavra achudun significa a idade em que o órfão atinge a sua plena maturidade de vigor e compreensão, digamos, entre os 18 e 30 anos. A idade legal para a emancipação poderá ser aos 18 anos (para certos propósitos, em alguns países) ou aos 21 (em outros países). Para certos propósitos, pela lei muçulmana, a maioridade poderá dar-se com menos de 18 anos. No interesse do órfão, um padrão muito mais restrito é requerido, quando a este caso.

805. Segundo o contexto, as circunstâncias referidas relacionar-se-iam aos contratos beneficiários ligados à propriedade do órfão, ou às promessas e incumbências, por parte do custódio ou implicado, em termos de sua ordenação. Todavia, as palavras são de cunho geral, devendo ser interpretadas neste sentido.

806. Proporcionar peso e medida exatos não é apenas correto, mas ainda resulta na melhor vantagem material e espiritual que a pessoa que assim procede pode usufruir.

807. A curiosidade fútil poderá levar-nos a nos metermos com o mal, através da nossa ignorância, ignorância esta que já constitui um mal. Devemos nos resguardar deste perigo. Devemos tão-somente ouvir coisas que saibamos serem de boa comunicação, ver coisas boas e instrutivas, e aliciar em nossos corações sentimentos, ou que, em nossas mentes e idéias, tenhamos razão para esperar que sejam espiritualmente proveitosos para nós. Seremos chamados a prestar contas pelo exercício de cada faculdade que nos foi concedida. Isto vai um pouco mais além do que aquela famosa escultura de um templo japonês, onde são mostrados, em três atitudes diferentes, macacos, colocando as mãos respectivamente sobre os ouvidos, os olhos e as bocas, numa demonstração de que estão prontos a não ouvir, não ver e não falar coisas malignas. Aqui, a curiosidade fútil é condenada. A futilidade deve ser evitada, ainda que não atinja o grau do mal positivo.

808. A insolência, ou arrogância, ou jactância indevida dos nossos poderes ou capacidades, constitui o primeiro passo para muitos males. Além do mais, isso não se justifica; todas as nossas dádivas e dotações provêm de Deus.

809. A lei moral, como explanada nos versículos 23-29 desta surata, inicia-se com uma menção de adoração do Único e Verdadeiro Deus, e termina com uma menção semelhante, a fim de fechar o argumento, desse modo imprimindo ênfase ao fato de que o amor de Deus abrange o amor do homem, bem como a ajuda prática aos nossos semelhantes.

810. Toda a criação, animada ou inanimada, proclama os louvores de Deus, e Lhe celebra a glória - a animada, com a consciência de Deus, e a inanimada, na evidência que favorece quanto à unicidade e à glória de Deus. Portanto, toda a Natureza dá testemunho do Seu poder, da Sua sapiência e benevolência. Tão-somente "vós" (isto é, que rejeitais toda a inclinação da vossa natureza e negais a Fé, simplesmente porque vos foi concedida uma limitada possibilidade de escolha e livre-arbítrio) sois os que não compreendeis aquilo que todas as outras criaturas compreendem, proclamando isso um júbilo e orgulho.

811. Véu invisível; alguns exegetas acham que mastur, aqui, é equivalente a sátir, um véu que torna as coisas invisíveis, um véu espesso e escuro. Contudo, achamos que o significado de mastur (na voz passiva), como "oculto" ou "invisível", é mais condizente com o significado de toda a passagem. Se toda a natureza, exterior e dentro de nós mesmos, declara a glória de Deus, aqueles desafortunados que se divorciam do melhor que há em suas naturezas, têm de ficar isolados dos diletos de Deus e da revelação que estes dão a conhecer, porque: (1) não são dignos de fiar na companhia destes; e (2) os diletos de Deus, com a revelação que dão a conhecer, devem ser protegidos da atribulação que a blasfêmia ou a rebeldia fatalmente causam à sua natureza imaculada. O véu, todavia, é real, mesmo que esteja invisível.

812. Não somente não devemos não julgar os outros homens comuns, nem criticá-los, como ainda não devemos estabelecer falsos padrões de julgamento quanto aos diletos de Deus. Se um deles nasceu da raça árabe iletrada, foi, contudo, uma misericórdia para toda a humanidade. Se um deles falava com Deus, e a vida de outro começou como um milagre espiritual, isso não implica em superioridade. Isso apenas significa que a sapiência de Deus é mais profunda do que tudo aquilo que possamos esquadrinhar.

813. Alguns exegetas acham que isto se refira ao Mi’raj (versículo 1 desta surata), e outros às visões espirituais. Tais visões constituem milagres, acontecendo que se tornam uma pedra de tropeço no caminho dos incrédulos. Entretanto, constituem um encorajamento para os homens de fé. Por isso, constituem "uma prova para os humanos".

814. A árvore do zacum, uma árvore cujas folhas e cujos frutos são amargos e pungentes, e crescem no fundo do inferno, constituindo o tipo de tudo o que é desagradável. Ver os versículos 62-65 da 37ª Surata, e 52 da 56ª Surata. Todas essas suratas são cronologicamente anteriores a esta. A aplicação do nome de uma árvore da espécie mirabólano, encontra na região de Jericó, data, acham, da era pós-alcorânica. Ela representa uma provação para os malfeitores. Ver o versículo 63 da 37ª Surata, e respectiva nota.

815. Nós discutimos as várias significações da palavra Imam no versículo 124 da 2ª Surata, e respectiva nota. Qual é o significado, aqui? As opiniões dos exegetas se dividem. Alguns compreendem-no como sendo o líder com a qual cada grupo aparecerá, líder esse que prestará testemunho quanto às virtudes ou pecados dele (do grupo). Comparar com o versículo 84 da 16ª Surata. Outro ponto de vista é que o Imam será a revelação, o livro de cada povo ou grupo. Um terceiro ponto de vista é que o Imam será o registro dos seus feitos, relatados na cláusula seguinte. Nós preferimos a primeira opinião.

816. Literalmente, algo com o valor de um fatil, uma película na fissura de um caroço de tâmara, ou seja, sem valo algum. No dia do julgamento, os filhos da luz receberão e lerão com atenção os seus registros, e renderão jubilosas graças a Deus por Suas Misericórdias. E quanto aos filhos das trevas? Eles já haviam estado cegos na vida deste mundo, e não receberão luz alguma do Semblante de Deus, então. Pelo contrário, notarão que quanto mais longo o tempo em que viajaram, tanto se distanciaram da Senda. Note-se a associação de idéias - cegueira, não ver a luz, e distanciar-se cada vez mais da verdadeira Senda.

817. Os exegetas entendem que aqui a ordem é quanto às cinco orações canônicas diárias, a saber, as quatro que se praticam desde o declínio do sol do zenite, até à completa escuridão da noite, e a oração que se pratica cedo, pela manhã (fajr), que é costumeiramente acompanhada pela recitação do Alcorão Sagrado. As quatro orações da tarde são: Duhr, imediatamente depois que o sol principia a declinar, ao meio-dia; ‘Asr, bem à tarde; Maghrib, logo após o pôr-do-sol; e Ichá, depois que a claridade do dia desaparece, e a escuridão da noite se faz presente. Existe diferenças de opinião quanto ao significado de palavras ou frases particulares, mas isso não chega a mudar o efeito da passagem.

818. Sabe-se que as ciências desenvolvidas, após o advento do Islam, bem como todo e qualquer desenvolvimento científico no Oriente, tiveram como fonte inspiradora o Alcorão. A filologia, as leis, a origem da jurisprudência e o estudo da religião foram conseqüências da observação e do estudo do Alcorão.

819. A prova do Alcorão consiste da sua própria beleza e natureza, e das circunstâncias em que foi promulgado. O mundo é desafiado a produzir um Livro como ele, sendo que ainda não produziu nenhum. É o único Livro revelado, cujo texto permanece puro e imaculado até hoje. Para um desafio semelhante, ver 2ª Surata, versículo 23, 10ª Surata, versículo 38 e 11ª Surata, versículo 15.

820. No Alcorão, tudo é explicado em detalhes, segundo vários pontos de vista, por ordens, comparações, exemplos, narrativas, parábolas, etc.. Ele não conta meramente histórias, ou expõe vagas proposições abstratas. Proporciona ajuda detalhada, quanto à vida interior e exterior.

821. Nove Sinais Evidentes; ver o versículo 133 da 7ª Surata, e respectiva nota. A história do Faraó (ou uma fase dela) é aqui narrada, com vistas a exibir declínio de uma alma adstrita ao orgulho do poder e às dignidades materiais.

822. A segunda cominação; a primeira, provavelmente foi mencionada no versículo 5 desta Surata, acima, a segunda, no meio do versículo 7, também desta surata. Quando esta segunda cominação, devida à rejeição a Jesus, aconteceu, os judeus foram arrebanhados em uma aglomeração heterogênea, sendo que deste então nunca mais tiveram uma nacionalidade judaica. Alguns exegetas entendem a segunda cominação como se tratando do Dia do Julgamento, a Promessa da Vida Futura.

823. Comparar com o versículo 180 da 7ª Surata. A palavra Rahman descreve um dos atributos de Deus - sua Graça e Misericórdia, que chegam ao pecador mesmo antes de ele se aperceber da necessidade delas -, qual seja a Graça preventiva, que salvaguarda do pecado os servos de Deus. Ver a nota do versículo 1 da 1ª Surata. Deus pode ser chamado, tanto simplesmente pelo Seu nome, que inclui todos os atributos, como por um dos nomes que implicam os atributos com os quais tentamos explicar a Sua natureza com a nossa limitada compreensão. O atributo Misericordioso, na palavra Rahman, era particularmente repugnante para os árabes idólatras (ver o versículo 60 da 25ª Surata e o 36, da 21ª Surata); eis porque uma importância especial é dada a ele, no Alcorão.

824. Ver a 7ª Surata, versículo 180, e nota.

825. Comparar com o versículo 205 da 7ª Surata. Todas as orações devem ser praticadas com sinceridade e humildade, sejam elas em congregação, ou constituam uma efusão da própria alma da pessoa. Tal atitude é incompatível com uma pronunciação muito alta das palavras, embora, nas orações em público, os padrões permissíveis de tonalidade sejam naturalmente mais volumosos do que no caso de orações privativas. Nas orações em público, certamente, o adan, ou chamamento para a oração, deve ser feito num tom de voz elevado, para que seja ouvido, tanto pelos que estão próximos, como pelos que se encontram mais afastados; todavia, as recitações do Alcorão Sagrado não devem ser feitas nem em um tom alto, para que não atraiam as atenções hostis daqueles que não crêem, nem em um tom baixo, a ponto de não poderem ser ouvidas por toda a congregação.

826. O tema da Surata anterior, de que Deus é Magnânimo e digno de todo o louvor por parte das Suas criaturas, as quais Ele concedeu uma clara revelação, é continuado nesta surata.

827. A advertência não é dirigida apenas àqueles que negam Deus ou a Sua Mensagem, mas também àqueles cujas falsas idéias de Deus degradam a religião, na suposição de que Deus gerou um filho, quando se sabe que é Uno, e está acima de qualquer idéia de reprodução física.

828. A atribuição a Deus de um filho "gerado" não possui bases em fatos ou na razão. Nem mesmo é um dogma racionalizado ou que possa ser explanado de um modo consistente com a natureza espiritual de Deus.

829. Raquim = inscrição. Essa palavra é assim interpretada pelo Jalalain, sendo que a maioria dos exegetas com isso concordam. Ver a nota seguinte. Outros acham que se tratava do nome de um cão; ver o versículo 18 desta surata, mais adiante.

830. A história cristã é contada na obra de Gibbon, Decline and Fall of the Roman Empire (Declínio e queda do Império Romano - fim do capítulo 33). No reinado de um imperador romano que perseguia os cristão, sete jovens de Éfeso, fiéis ao cristianismo, deixaram a cidade e foram esconder-se numa caverna de uma montanha das proximidades. Eles caíram no sono, e permaneceram em estado de sonolência por algumas gerações ou séculos. Quando a muralha que selava a caverna estava sendo demolida, os jovens acordaram. A concepção deles quanto ao mundo era a mesma do tempo em que haviam vivido; não tinham idéia alguma da passagem do tempo. Porém, quando um deles foi à cidade para adquirir provisões, constatou que o mundo havia mudado completamente. A religião cristã, ao invés de estar sendo perseguida, era a que estava em voga; com efeito, era então a religião estatal. Sua vestimenta, sua fala e o dinheiro que portava pareciam pertencer a um outro mundo; isto atraiu as atenções. Os maiorais da terra visitaram a caverna e verificaram a veracidade da narrativa ao questionarem os companheiros do homem. Ao tornar-se a história popularíssima, a ponto de circular por todo o Império Romano, podemos muito bem supor que uma inscrição foi colocada na entrada da caverna.

831. Os jovens esconderam-se na caverna, mas confiaram em Deus, entregando a Ele, em oração, todo o seu caso. Eles, então, aparentemente caíram no sono, e nada sabiam do que estava acontecendo no mundo exterior.

832. Isto é, selamos os seus ouvidos, para que nada pudessem ouvir. Assim eles ficaram completamente desligados do mundo exterior. Foi como se eles tivessem morrido, permanecendo os seus conhecimentos e idéias no ponto do tempo em que eles haviam entrado na caverna.

833. Quando recobraram a consciência, haviam perdido a contagem do tempo. Embora tivessem entrado juntos, e jazido juntos no mesmo local pelo mesmo espaço de tempo, suas impressões, quanto ao tempo que havia passado, eram bem diferentes. Deste modo é o tempo relacionado com as nossas próprias experiências interiores. Nós temos de nos conscientizar de que homens, tão bons como nós mesmos, diferem quanto às reações a certos fatos, e de que as disputas em tais assuntos são inconvenientes. É preferível dizer: "Deus sabe mais" (versículo 19 desta Surata).

834. Para que eles não tivessem medo de falar abertamente, e de proclamar a verdade da Unicidade que eles viam claramente em seus próprios corações e mentes.

835. Talvez suponhamos que eles tivessem tomado suas decisões e feito uma proclamação pública, antes de se retirarem para a caverna (versículo 16 desta surata). A história realmente começa no versículo 13 desta surata, sendo que os versículos 9-12 podem ser considerados como introdutórios. Como queremos dar ênfase às lições espirituais, os fatos relatados na parte introdutória são, na história, levemente analisados por cima.

836. Além dos cultos aos deuses pagãos, o culto aos imperadores esteve também em voga, no Império Romano, nos três primeiros séculos da era cristã. A estátua de Diana (Ártemis), em Éfeso, foi uma das maravilhas do mundo antigo. A cidade era um grande porto de mar, e a capital da Ásia romana. Portanto, podemos imaginar como os cultos pagãos deveriam ter aí florescido. O apóstolo Paulo passou três anos aí pregando, e foi agredido e assaltado, e compelido a ir-se embora (Atos 19:1-4)

837. Na latitude de Éfeso (38º de latitude Norte), ou seja, bem acima da declinação setentrional do sol, uma vez que o lado ensolarado fica ao sul. Caso os jovens estivessem deitados de costas, com os rostos voltados para o norte, ou seja, em direção à entrada da caverna, o sol levantar-se-ia pelo lado direito deles, e pôr-se-ia do lado esquerdo, deixando-os refrescados e em conforto.

838. O nome do cão deles é tradicionalmente conhecido como Quirmir; porém, ver a nota 829.

839. Este é o ponto culminante da história. Suas impressões humanas haviam de ser comparadas umas com as outras. Eles haveriam de ver que: com a melhor boa vontade e com a mais honesta inquirição, talvez chegassem a diferentes conclusões; não deveriam desperdiçar o seu tempo em vãs controvérsias, mas entregar-se aos principais afazeres da vida; e apenas Deus possui pleno conhecimento das coisas que, para nós, parecem estranhas ou inconsistentes, ou inexplicáveis, ou que produzem diferentes impressões em diferentes mentalidades. Se eles tivessem entrado na caverna pela manhã e acordado na parte da tarde, um deles bem poderia pensar que estivessem lá havia apenas umas poucas horas - apenas uma parte do dia. Esta relativa ou ilusória impressão de tempo ainda nos dá uma vaga idéia do estágio da Ressurreição, quando não haverá tempo, quando as nossas imperfeitas impressões desta vida serão corrigidas pela Realidade final. Este mistério do tempo tem pasmado muitas mentes contemplativas.

840. Eis que eles abandonam as barreiras controvertíveis e se entregam aos afazeres práticos da vida. Contudo, seus pensamentos encontram-se condicionados pelo estado de coisas que existia quando eles entraram na caverna. O dinheiro que portavam era dinheiro cunhado do reinado do monarca que perseguia a Religião da Unicidade e favorecia os falsos cultos da idolatria.

841. Eles pensavam que o mundo não houvesse mudado, e que a ferrenha perseguição de que tinham conhecimento ainda estivesse grassando, sob a qual a pessoa tinha de pagar com a vida a sua fé religiosa, uma vez que não conformasse com o culto idólatra.

842. Suas vestimentas fora de moda, sua fala antiquada, sua aparência inusitada o seu dinheiro fora de circulação, tudo isso de pronto atraiu a atenção das pessoas sobre ele. Quando tomaram conhecimento da história, aperceberam-se de que Deus, Que pode proteger Seus servos, acordando-os de um sono após um longo tempo, tem poderes de acordar os homens para a Ressurreição, e de que a Sua promessa de benevolência e misericórdia para com aqueles que O seguem, é verdadeira, e foi exemplificada daquela maneira estarrecedora. Além disso, tornou-se claro que Deus pode mudar a situação, antes que estejamos conscientes, e que a nossa confiança n’Ele não é fútil, e que mesmo quando nos encontramos à beira do desespero, uma revolução poderá estar tomando vulto no mundo, antes que este se conscientize disso.

843. Mesmo depois de muito tempo a controvérsia alastrou-se, acerca do número dos sonolentos: eram eles em número de três, cinco, sete? As pessoas respondiam, não guiadas pelo conhecimento, mas pela conjectura. A versão de Gibbon, que é agora a mais conhecida, estabelece em sete os números dos sonolentos. O ponto é imaterial; o ponto real consistia na lição espiritual.

844. Os historiadores vulgares pouco ou nada sabem do verdadeiro significado das histórias e das parábolas. Nós temos uma clara exposição, no Alcorão. Que necessidade há de entrar em detalhes quanto ao número de jovens na caverna, ou do tempo que eles lá permaneceram?

845. Na geometria, um círculo perfeito constitui uma figura ideal. Qualquer círculo que desenhemos não é tão perfeito, a ponto de não podermos desenhar um outro, que mais se aproxime do ideal. Assim, em nossa vida, há sempre a esperança de nos aproximarmos, cada vez mais, de Deus.

846. Este versículo deve ser lido juntamente com o versículo seguinte. Na flutuante tradição oral, a duração do tempo na caverna foi dada diferentemente em diversificadas versões. Quando a tradição foi assentada em escritos, alguns escritores cristão (por exemplo, Simeão Metaphrates) apontaram 372 anos, alguns menos. Em números redondos, 300 anos do calendário solar dariam um total de 309 anos do calendário lunar. No entanto, o versículo seguinte ressalta que tudo isto são meras conjecturas; o número, só por Deus é conhecido. A autoridade de Gibbon, se válida, menciona dois reinados definidos: o de Décio (249-252 d.C.) e o de Teodósio II (409-450 d.C.). Tomando por base os 250 e 450, temos um intervalo de 200 anos. Porém, o ponto culminante da história não se apoia no nome de um determinado imperador, mas no fato de que o início do período coincidiu com o do imperador perseguidor; o nome do imperador, no final do período deve ser tomado como sendo aproximadamente correto, porquanto a história foi registrada por duas gerações posteriores. Um dos mais ferrenhos imperadores perseguidores dos cristãos foi Nero, que reinou de 54 a 68. Se tomássemos o final de seu reinado (68 d.C.) como ponto de partida, e (digamos) o ano de 440 d.C. como ponto final, teríamos os 372 anos de Simeão Metaphrates. Porém, nenhum desses escritores sabia mais do que nós sabemos. Nosso melhor alvitre é seguir a injunção alcorânica: "Dize-lhes: Deus sabe melhor do que ninguém o quanto permaneceram" (versículo 26 desta surata). Há ainda uma refutação implícita: "não imiteis estes homens que adoram controvérsias maquiavélicas!" Por fim, é-nos fornecida uma narrativa, mais como parábola do que como história.

847. Eis aqui uma parábola simples do contraste entre dois homens. Um estava orgulhoso de sua bolsa, esquecendo-se de que tudo o que possuía provinha de Deus, constituindo-se tão-somente num custódio e num teste para esta sua vida. O outro de nada se ufanava; sua confiança estava depositada em Deus. A riqueza terrena do primeiro foi destruída, nada restando. O seguindo foi mais feliz, no final.

848. Os dois homens começaram a comparar dados. O arrogante empertigava-se com suas posses, seus rendimentos, sua enorme família e seus seguidores, sendo que pensava, em sua vaidade, que aquilo duraria para sempre. Ele ainda errou em olhar de cima para o seu companheiro, o qual, embora menos afluente, era o melhor dos dois.

849. Entra em cena o espírito ganancioso do materialista. Em sua mente, o termo "melhor" significa mais riqueza e mais poder, da espécie que ele estava desfrutando na vida, embora, na realidade, mesmo o que ele possuía se assentasse em fundações oscilantes, e estivesse destinado a ruir e a traze-lo para baixo, juntamente com as ruínas.

850. A água da chuva é, por si só, uma coisa boa, mas ela não dura, e nós não podemos erigir sólida fundação alguma acerca disso. Ela é logo absorvida pela terra, que produz a aparente florescência de relva e vegetação - por certo tempo. Logo estas se deterioram, tornando-se secas como palha, a qual o menos vento de qualquer quadrante da terra soprará daqui para ali, como uma coisa sem importância. A água vai-se, e com ela também a vegetação, à qual é emprestado, temporariamente, um intrépido espetáculo de luxúria. Tal é a vida neste mundo, contrastada com a vida verdadeira e interior que se volta para a Vida Futura. Deus é a única Força duradoura, para a qual nós nos devemos voltar, superior a todas as coisas.

851. Os diletos de Deus não são enviados para nos animar com dialéticas, ou para satisfazerem a nossa vulgar curiosidade, concernente a milagres ou as coisas obscuras, ou inusitadas. Não há "contradição" em sua pregação. Eles vêm para pregar a Verdade - não de uma maneira abstrata, mas com sua referência especial à nossa conduta. Eles nos fornecem as boas-novas da salvação, a menos que sucumbamos na presença do pecado, e nos admoestam quanto aos perigos do Mal. Vãs controvérsias, acerca das palavras, apenas enfraquecem a sua missão, ou tornam-na ridícula. Os ímpios usam, também, de um truque, tratando a pregação deles com escárnio, ridicularizando-a.

852. Este episódio da história de Moisés pretende ilustrar quatro tópicos: (1) Moisés era versado na sabedoria dos egípcios. Mesmo assim essa sabedoria não englobava tudo, tal qual todo o acúmulo de sabedoria, hoje em dia, nas ciências, nas artes e na literatura 9se é que se pode supor que seja adquirido por um indivíduo), não inclui todo o conhecimento. O conhecimento divino, por outro lado, é ilimitado. Mesmo depois que Moisés recebeu a sua missão divina de mensageiro, o seu conhecimento não era tão perfeito que não precisasse receber outras adições; (2) um constante esforço é necessário para mantermos o nosso conhecimento paralelo à marcha do tempo, e tal esforço é mostrado pelo que Moisés está fazendo; (3) o misterioso homem que ele encontra (versículo 65 desta surata e respectiva nota), ao qual a tradição dá o nome de Khidr (literalmente, Verde), é o tipo daquele cujo conhecimento é sempre recente, renovado e florescente, sempre em contato com a vida que é realmente vivida, não meramente cristalizado em livros ou em dísticos de segunda mão. A segunda espécie de conhecimento possui o seu uso, sendo, contudo, apenas um degrau para a primeira espécie de conhecimento, a qual constitui o verdadeiro conhecimento, e provém diretamente de Deus (versículo 65 desta surata); (4) há paradoxos na vida; a perda aparente pode constituir-se num verdadeiro ganho; a aparente crueldade pode constituir-se numa misericórdia real; retribuir o mal com o bem pode ser justiça, não generosidade (versículos 79-82 desta). A sabedoria de Deus transcende todos os cálculos humanos.

853. A mais provável localização geográfica (se é que alguma é requerida numa história que constitui uma parábola) é aquela em que os dois braços do Mar Vermelho se encontraram, a saber, o Golfo de Ácaba e o Golfo de Suez. Eles formam a Península do Sinai, na qual Moisés e os israelitas passaram anos, vagueando. Há também autoridade para se interpretar os dois mares como sendo os dois grandes ramos do conhecimento, os quais encontrar-se-iam nas pessoas de Moisés e de Khidr.

854. Era para Moisés ir ao encontro de um servo de Deus, que o instruiria com conhecimentos tais que ele ainda não tinha adquirido. Era para ele levar um peixe consigo. O local onde ele iria encontrar o seu misterioso Mestre seria indicado pelo fato de que o peixe desapareceria quando ele ali chegasse. O peixe constitui um símbolo do conhecimento secular, que se junta ao conhecimento divino, no ponto em que a inteligência humana está pronta para a junção dos dois. Mas a mera junção do conhecimento secular, por si só, não produz o conhecimento divino. Este último, há que ser procurado pacientemente.

855. Quando eles chegaram à junção dos mares, Moisés se esquecera do peixe, e seu auxiliar se esquecera do fato de que ele havia visto o peixe escapar para o mar, de um modo maravilhoso. Eles prosseguiram, mas os estágios então se tornaram cada vez mais exaustivos e fatigantes para Moisés. Assim, quando o nosso conhecimento antigo se torna obsoleto, e nós chegamos à beira de um novo conhecimento, temos um sentimento de estranheza, de monotonia e de dificuldades, especialmente quando queremos passar por cima do novo conhecimento, sem desejarmos torná-lo nosso. Algumas inovações, mesmo que sejam feitas da nossa velha e tradicional maneira, são requeridas, para nos mantermos. Contudo, devemos retrair os nossos passos, e procurar o repositório creditado do conhecimento, que constitui a nossa procura. É da nossa alçada procurá-lo. Mas saibamos que não o encontraremos sem esforço.

856. O auxiliar realmente viu o peixe nadar para o mar, e mesmo assim "esqueceu-se" de dizê-lo ao seu mestre. Nesse caso, o "esquecimento" foi mais do que esquecimento. A inércia fê-lo deixar de contar a importante novidade. Em tais assuntos, a inércia é quase tão danosa quanto a malevolência ativa, a sugestão de Satanás. Assim sendo, o novo conhecimento, ou conhecimento espiritual, não apenas é ultrapassado pela ignorância, mas, às vezes, pela negligência culposa.

857. Um dos nossos servos; seu nome não é mencionado no Alcorão, mas a tradição menciona-o como Khidr. Em torno dele acumulou-se um bom número de contos populares pitorescos, com os quais não nos preocupamos aqui. "Khidr" significa "Verde"; seu conhecimento é recente e renovado, tirado das vivas fontes de vida, uma vez que é tirado da própria Presença de Deus. É um ser misterioso, que deve ser procurado. Ele possui os segredos dos paradoxos da vida, que as pessoas comuns não compreendem, ou compreendem num sentido errôneo, como veremos mais adiante.

858. Eles tomaram um barco que fazia viagens de aluguel. Seus donos nem mesmo eram gentes comuns que se preocupavam com o comércio. Eles haviam sido reduzidos à pobreza, talvez devido à circunstâncias adversas, e eram alvo de grande comiseração, tanto que preferiram uma ocupação honesta à mendicância. Eles não sabiam, mas Khidr sim, que o barco, talvez um barco novo, estava marcado para ser confiscado por um rei injusto, que tomava posse de todos os barcos que pudesse conseguir - talvez para propósitos guerreiros. Se o barco fosse tirado daqueles homens que têm amor-próprio, eles teriam sido reduzidos à mendicância, sem lhes restar recurso algum. Os donos poderiam consertá-lo, tão logo o perigo passasse. Khidr provavelmente pagou as passagens; e o que parecia uma ação enigmaticamente cruel, constituiu o maior ato de benevolência que ele poderia realizar em tais circunstâncias.

859. Àqueles que agem, não levados por capricho ou por um impulso próprio, mas levados pela autoridade, são imputados, por parte da plebe vulgar, atos da mais alta sabedoria e utilidade. Nos assuntos humanos, muitas coisas são inexplicáveis, coisas essas que são da mais elevada sabedoria no Plano Universal.

860. Literalmente, "aquele de dois chifres ou cornos", o rei com os dois cornos, ou o Senhor das Duas Épocas. Quem foi ele? Quando e onde viveu? O Alcorão não nos fornece matéria, na qual possamos nos basear para uma resposta positiva. Nem tampouco é necessário que se encontre uma resposta, uma vez que a história é apresentada como uma parábola. A opinião popular identifica Zul Carnain com Alexandre, o Grande. Zul Carnain foi um rei poderosíssimo; mas foi Deus Quem, em Seu Plano Universal, lhe deu poder, e o proveu com modos e meios para que ele realizasse a sua grande obra. Sua influência fez-se sentir sobre o Oriente e o Ocidente, e sobre os povos de diversas civilizações.

861. Este é o primeiro dos três episódios aqui mencionados, ou seja, a sua expedição para o Ocidente. A expressão "chegando ao poente do sol" não quer dizer o extremo Oeste, pois não há tal coisa. Oeste e Leste são termos relativos. Significa uma expedição ocidental, limitada por uma "fonte fervente". Se Zul Carnain era Alexandre, o Grande, a referência poderá ser facilmente compreendida como sendo a Lychnitis (agora Ochrida), a oeste da Macedônia. Ela é inteiramente alimentada por fontes do subsolo, numa região calcária, onde a água nunca é muito cristalina.

862. Quem era o povo de Gog e Magog? Esta pergunta está ligada à pergunta "Quem era Zul Carnain?" O que principalmente nos interessa, aqui, é a interpretação espiritual. O Conquistar havia, então, chegado a um povo diferente do dele, em fala e raça, mas não tão primitivo, porquanto era habilidoso em trabalhar metais, e podiam fazer blocos (ou tijolos) de ferro, derreter metais com foles ou assopradores, e trabalhar com chumbo derretido (versículo 96 desta Surata). Aparentemente, eles constituíam um povo pacífico e industrioso, sujeito, em muito, às incursões de tribos selvagens, que eram denominadas Gog e Magog. A proteção que eles queriam era o fechamento de uma garganta na montanha, através da qual as incursões eram feitas.

863. "Até que se tornem fogo". O que quer dizer isso? Provavelmente, refere-se às barras de ferro que, liqüefeitas, tornam-se vermelhas como fogo, para serem ligadas com o chumbo.

864. As muralhas, as portas e as torres de ferro eram suficientemente altas para que fossem escaladas, e suficientemente fortes, com metal soldado, para resistirem a qualquer tentativa de arrombamento.

865. A palavra Firdaus, em persa, significa um local cercado, um parque. Na linguagem "técnico-teológica", a palavra é empregada para especificar o círculo interno do Céu, ou o Céu mais elevado, o destino daqueles que preenchem estes dois requisitos, a saber, uma fé sadia, e uma conduta perfeitamente virtuosa. As faltas pequenas, em ambos os respeitos, serão perdoadas; a Misericórdia de Deus entre em cena. Talvez haja um desenvolvimento espiritual e um progresso, mesmo após a morte.

866. Esta é a única Surata que se inicia com as letras Kaf, Ha, Ya, Ain, Sad. Como foi relatado na nota do versículo 1 da 2ª Surata, tais letras constituem símbolos, cujos significados verdadeiros só Deus conhece. Não devemos ser dogmáticos quanto a quaisquer conjecturas que fizermos.

867. A misericórdia de Deus para com Zacarias foi de muitas maneiras demonstrada: (1) na aceitação de suas orações; (2) em lhe conceder um filho com Yahia (João); e (3) no amor existente entre pai e filho, em adição à obra que Yahia realizou para o mundo, como mensageiro de Deus - comparar com os versículos 38-41 da 3ª Surata, e respectivas notas. Naquele caso, o sacerdócio público foi o ponto acentuado; neste, são acentuadas as magníficas relações entre filho e pai.

868. Intimamente; porque ele temia que sua própria família e parentela se desviasse (19ª Surata, versículo 5), e desejava conservar a lâmpada de Deus consistentemente acesa. De modo algum ele iria mencionar publicamente o temor que havia em seus colegas (que eram seus parentes).

869. Este prefácio mostra a ardente fé de Zacarias. Ele era um sacerdote do Altíssimo Deus. Seu ofício era o Templo, seus parentes eram os colegas. Contudo, ele não encontrava neles o verdadeiro espírito da prestação do serviço a Deus e ao homem. Estava cheio de ansiedade, quanto a quem iria apoiar as idéias piedosas que tinha em mente, as quais eram estranhas aos seus colegas ímpios.

870. Seu desejo por um filho era um desejo meramente vulgar. Se fosse, teria orado muitíssimo, bem antes, em sua vida, quando era ainda jovem. Ele se encontrava demasiado impregnado da verdadeira piedade, para que colocasse coisas meramente egoístas em suas orações. Porém, tratava-se de uma necessidade pública, no serviço do Senhor. Ele era muito velho, mas talvez pudesse ter um filho - que seria um herdeiro, "proveniente de Deus" (ver a nota do versículo 38 da 3ª Surata).

871. Trata-se de João Batista, o precursor de Jesus. De acordo com as orações de seu pai, ele e Jesus (para quem ele preparou o caminho) reativaram a Mensagem de Deus, que havia sido conspurcada, e estava perdida entre os israelitas. A forma árabe Yahia sugere "Vida". Deus, pela primeira vez, chamou um dos Seus eleitos por aquele nome.

872. Cada homem nada era antes de ser criado, isto é, as existências da sua personalidade foi ordenada por Deus. Mesmo em se sabendo que há um processo material para a formação do corpo, de acordo com as leis da natureza, saiba-se que a real força criadora está em Deus. Porém, aqui, o significado é mais sutil. João foi o anunciador de Jesus, preparando o caminho para eles; e esta sentença também nos prepara para o milagroso nascimento de Jesus - ver o versículo 21, mais adiante. Para Deus tudo é possível.

873. Entendemos que a "prova" não seria convencer Zacarias de que a promessa do Senhor era verdadeira, porque ele tinha fé; mas tratava-se de um símbolo, pelo qual ele teria de mostrar, em sua conduta, que iria conformar-se com o seu novo destino, como pai de Yahia, que haveria de vir. Yahia deveria ser posto a trabalhar, e Zacarias deveria ficar em silêncio, embora ele fosse são e nada houvesse que o impedisse de falar.

874. O tempo passa. Nasce o filho, neste ponto da surata, o centro de interesse é Yahia, e a instrução então dada a ele: "Ó Yahia, observa fervorosamente o Livro!", porque um mundo incrédulo o havia tanto conspurcado como negligenciado, e Yahia (João Batista) iria preparar o caminho para Jesus, que viria renová-lo, e reinterpretá-lo.

875. João Batista não viveu muito. Foi aprisionado por Herodesm, o tetrarca (governador provincial do Império Romano), que ele havia recriminado por seus pecados, e por isso foi decapitado, por instigação da mulher pela qual Herodes estava apaixonado. Mas, mesmo na sua jovem vida, foi-lhe dado: (1) sabedoria, com a qual intrepidamente denunciava o pecado; (2) piedade gentil e amor por todas as criaturas de Deus, pois só andava entre os humildes e simples, e desprezava as "vestimentas aparatosas"; (3) pureza de vida, pois renunciou ao mundo, e passou a viver no deserto. Toda a sua obra, ele a realizou na juventude. Sua obra mostrou-se por si mesma, na sua conduta, pois ele era devotado, demonstrando amor para com as criaturas de Deus, e, mais particularmente, para com os seus pais (pois nós estamos considerando esse aspecto da sua vida); isto foi, ainda, demonstrado pelo fato de que ele jamais usou de violência, jamais teve uma atitude de arrogância, nem tampouco alimentou um espírito de rebeldia contra a Lei, humana ou divina.

876. Para um compartimento privado que dava para o leste, talvez um templo. Ela se separou das pessoas de sua família, e das pessoas em geral, e foi para a sua privacidade, por devoção, para orar. Foi nesse estado de pureza que o anjo apareceu a ela na forma de um homem. Ela pensou tratar-se realmente de um homem; ficou assustada, e implorou-lhe que não invadisse a privacidade dela.

877. Deus a havia destinado a ser a mão do profeta Jesus Cristo, e então chegara o tempo em que isso deveria ser anunciado a ela.

878. A missão de Jesus é anunciada de duas maneiras: (1) ele iria ser um Sinal para os homens; seu maravilhoso nascimento e sua maravilhosa vida iriam trazer a volta de Deus a um mundo ateu; e (2) sua missão iria trazer consolo e salvação aos que se arrependessem. Este, de um modo ou de outro, é o caso que se passa com todos os mensageiros de Deus, e foi, predominantemente assim, no caso do Mensageiro Mohammad. Mas o ponto principal, aqui, é que os israelitas, para os quais Jesus foi enviado, para quem a mensagem de Jesus era verdadeiramente um Evangelho de Misericórdia, eram um povo de coração duro.

879. Para qualquer coisa que Deus deseja criar, Ele diz: "Seja!", e é (comparar com o versículo 47 da 3ª Surata). Não há intervalo algum entre o Seu decreto e a consumação deste, exceto se Ele assim o estipular, no próprio decreto. Pode ser que o tempo seja apenas uma projeção de nossas mentes, neste mundo de relatividade.

880. A anunciação da concepção, podemos supor, teve lugar em Nazaré (da Galiléia), digamos, a 100 km ao norte de Jerusalém. O parto deu-se em Belém, cerca de 10 km ao sul de Jerusalém. Foi num lugar longínquo, não apenas com relação à distância de 110 km, mas porque em Belém o nascimento deu-se num local obscuro, sob uma palmeira, de onde talvez a criança foi depois removida para uma manjedoura, em um estábulo.

881. Ela era tão-somente humana, e sofria as dores de uma mãe que está esperando, e sem ninguém para olhar por ela. Porque a circunstância era peculiar, ela teve de ir para longe do seu povo.

882. Literalmente! Refresca teus olhos; uma frase idiomática para "consola-te". O significado literal, contudo, não deve ser esquecido. Ela teria de refrescar os seus olhos (talvez marejados de lágrimas) com a água fresca do regato, e consolar-se com a notável criança que havia nascido dela. Ela teria, também, de olhar ao seu redor, e, se alguém se aproximasse, teria de declinar qualquer conversa. Aquilo era bem a verdade: ela se encontrava sob juramento, e não podia conversar com ninguém.

883. Ela teria de evitar toda a conversa, com homem ou mulher, com a justificativa de um juramento de Deus. O jejum, no original, não significa, literalmente, a abstinência quanto ao comer e ao beber. Foi-lhe aconselhado que comesse tâmaras e que bebesse do regato. Outrossim, significa abstinência das costumeiras refeições caseiras, e, de modo geral, das relações com os humanos.

884. A admiração das pessoas não tinha limites. De qualquer maneira, as pessoas estavam propensas a pensar o pior, uma vez que ela desapareceu do seio de seus familiares por algum tempo. E agora, lá vinha ela, desavergonhadamente desfilando com um filho do colo! E como ela havia desgraçado a casa de Aarão, a fonte do sacerdócio! Podemos supor que a cena se desenrolou no Tempo, em Jerusalém, ou em Nazaré.

885. Aarão, o irmão de Moisés, foi o primeiro, na linhagem do sacerdócio israelita. Maria e sua prima, Isabel (mãe de Yahia) vinham de uma família sacerdotal, e, portanto, eram "irmãs de Aarão", ou filhas de Imran (que era pai de Aarão). Ver a nota do versículo 35 da 3ª Surata. Maria é conscientizada da sua alta linhagem, e das irrepreensíveis qualidades morais do seu pai e da sua mãe. Como foi, disseram as pessoas, que ela se perdeu, e desgraçou o nome dos seus progenitores?

886. Que podia Maria fazer? Como poderia ela explicar? Iriam as pessoas, com seus modos de censura, aceitas a explicação dela? Tudo o que ela podia fazer era apontar para a criança, a qual, ela sabia, não era uma criança comum. E a criança viera para a salvação dela. Por um milagre a criança falou, e defendeu a sua mãe, e pregou a um público incrédulo.

887. Há um paralelismo por todo o relato da história de Jesus e Yahia, com algumas variações. Por exemplo, Jesus declara, desde o princípio, que era um servo de Deus, negando, desse modo, a falsa noção de que era Deus ou filho de Deus. A grandiosidade de Yahia é descrita nos versículos 12-13 da 19ª Surata, em termos não aplicáveis a Jesus; porém, os termos dos versículos 14-15 da 19ª Surata, aplicáveis a Yahia, são quase idênticos àqueles aplicáveis a Jesus, aqui (versículos 32-33).

888. A violência arrogante não é apenas injuriosa e danosa para a pessoa contra quem é praticada; ela é, talvez, ainda mais danosa para a pessoa que a pratica, porque sua alma torna-se turva, insegura, infeliz e arruinada - o estado das almas que se encontram no Inferno.

889. Cristo não foi crucificado (versículo 157 da 4ª Surata). Contudo, aqueles que crêem que ele jamais morreu devem ponderar sobre este versículo.

890. As discussões quanto à natureza de Jesus Cristo foram em vão, mas persistentes e sanguinolentas. Os cristãos modernos deixam-nas para trás; e fariam muito bem se, juntamente com isso, abandonassem os dogmas tradicionais.

891. Gerar um filho é um ato fisiológico que depende das necessidades da natureza animal do homem. Deus, o Altíssimo, é independente de todas as necessidades, e é derrogatório atribuir-Lhe tal ato. Isso constitui meramente uma relíquia das superstições pagãs, antropomórficas e materialistas.

892. Em oposição às superstições fraudulentas, que se apoiam em toda a sorte de sofismas metafísicos, para provar que dois e dois são cinco. No Alcorão não há fraudulência alguma (versículo 1 da 18ª Surata). O ensinamento de Cristo era simples, como simples era a sua vida, mas os cristãos tornaram-no fraudulento.

893. Abraão deixou seu pai e a terra de seus pais (Ur na Caldéia), e nunca mais regressou. Ele partiu porque foi escorraçado, e porque não lhe era possível fazer concessões a respeito do que era falso, em matéria de religião. Em resposta aos abusos, ele proferiu palavras gentis. E expressou a sua fervorosa esperança de que, pelo menos ele (Abraão) obteria a bênção de Deus, em resposta às suas orações. Aquilo foi uma prefiguração de uma outra Hégira, que se daria muitos séculos mais tarde! Em ambos os casos, as orações foram abundantemente atendidas.

894. Isaac e seu filho, Jacó, são mencionados como a dar continuidade à linha de tradições de Abraão. Outra linha foi continuada por Ismael, que é mencionado, independentemente, cinco versículos mais adiante, da mesma maneira que a sua linhagem é tratada com especial honraria quanto ao Profeta do Islam. Eis porque a menção a ele vem depois da de Moisés. Comparar com o versículo 72 da 21ª Surata.

895. Abraão, seu filho Isaac e seu neto Jacó, em sua linhagem, mantiveram o estandarte da verdade espiritual de Deus por muitas gerações, e conseguiram, merecidamente, ganhar louvor - o louvor da verdade -, nas línguas dos homens. Abraão orou para que fosse louvado pela língua da verdade, entre os homens que viriam em eras posteriores. O louvor comum talvez nada signifique: pode ser devido à bajulação egoística da parte dos outros, ou a um expediente astuto da pessoa a ser louvada. O louvor vindo da boca da verdade sincera, é deveras o louvor!

896. Moisés foi (1) especialmente escolhido, e preparado e instruído na sabedoria dos egípcios, para que pudesse libertar o seu povo do cativeiro do Egito; deve ainda haver uma referência ao título de Moisés, Kalimulah, ou seja, aquele a quem Deus falou, sem a intervenção de anjos, mas de trás de uma nuvem; (2) foi um profeta (nabi), e recebeu a inspiração; e (3) foi um mensageiro (rassul), sendo que possuía um livro de Revelação e uma Comunidade (Ummat) organizada, nesta instituindo as leis.

897. Achamos que o incidente aqui descrito refere-se aos incidentes mais plenamente descritos nos versículos 9-36 da 20ª Surata. O tempo é aquele em que Moisés (com sua família) estava viajando e apascentando o rebanho de seu sogro, Jetro, um pouco antes de ele receber a comissão de Deus. O local é em algum lugar próximo ao Monte Sinai (Jabal Musa). Moisés lobrigou ao longe uma áscua, e, quando chegou perto, ouviu uma voz, que lhe disse que aquele solo era sagrado. Deus pediu-lhe que tirasse os sapatos e que se aproximasse; e quando se aproximou, grandes mistérios lhe foram revelados. Foi-lhe dado o seu comissionamento, e seu irmão, Aarão, deveria partir com ele, e ajudá-lo. Foi depois disso que ele e Aarão foram ter com o Faraó do Egito. O lado direito do monte talvez signifique que Moisés ouviu a voz, vinda do lado direito do monte, quando ele foi ter com ela; ou talvez tenha o significado metafórico de "certo", em árabe, o lado que era abençoado ou constituía o solo sagrado.

898. Moisés estava difidente e relutante em ir ter com o Faraó, porque possuía uma deficiência em sua língua; assim sendo, ele pediu ao seu irmão, Aarão, que se associasse a ele naquela missão.

899. Ismael era um Dabihulah, ou seja, o escolhido para o sacrifício de Deus, na tradição muçulmana. Quando Abraão lhe contou sobre o sacrifício, ele ofereceu-se voluntariamente para isso, e jamais se furtou à promessa, até que o sacrifício foi redimido por um carneiro, segundo as ordens de Deus. Ele foi o manancial da comunidade árabe, e sua posteridade chegou até ao Mensageiro de Deus. A comunidade e o Livro do Islam remontam ao apostolado de Ismael, versículo 85 da 21ª Surata, onde ele é mencionado entre os perseverantes.

900. Tudo quanto nos é dito é que ele era um homem da verdade e da sinceridade, e um profeta, e que desfrutava de uma elevada posição entre o seu povo. Este é o ponto que o junta com uma série de homens apenas mencionados; ele se conservou em contato com o seu povo, e foi por ele honrado. O progresso espiritual não faz com que nos divorciemos das pessoas a nós achegadas; outrossim, nós devemos ajudá-las e guiá-las. Ele se ateve à verdade e à piedade, no mais alto grau.

901. As gerações mais antigas são agrupadas em três épocas, partindo-se de um ponto de vista espiritual: (1) de Adão a Noé; (2) de Noé a Abraão; e (3) de Abraão a um tempo indefinido, digamos, ao tempo em que a mensagem de Deus foi conspurcada, e adveio a necessidade de um derradeiro Mensageiro da Unidade e da verdade. Israel é outro nome para Jacó.

902. Duas interpretações são possíveis: (1) a interpretação genérica é que as almas devem passar através, ou sobre o Fogo, ou perto dele. Pode ser o fogo da tentação, ou da ansiedade, ou da angústia; mas elas devem ver o inferno. Aqueles que são tementes (ver o versículo 2 da 2ª Surata, e respectiva nota) serão salvos pela Misericórdia de Deus, ao passo que os pecadores irretratáveis sofrerão os tormentos em ignomínia; (2) se o pronome "vós" se referir "àqueles que tiverem sido mais rebeldes para com o Clemente", no versículo 69, acima - tanto os líderes no pecado, como seus seguidores -, este versículo se aplicará apenas aos corruptos.

903. A crença em que Deus gerou um filho não é uma questão meramente de palavras ou de pensamento especulativo. É uma espantosa blasfêmia contra Deus. Isso abaixa Deus ao nível de um animal. Se combinado isso com a doutrina da expiação vicária, chega às raias da negação da justiça de Deus e da responsabilidade pessoal do homem. É destrutivo, quanto à ordem moral e espiritual, e é condenado nos termos mais consistentes possíveis.

904. Este princípio básico foi posto no início do argumento (versículo 35 desta surata). Ele foi ilustrado por uma referência à história pessoal de muitos mensageiros, incluindo o próprio Jesus, que se comportava tal qual um homem, em relação aos seus familiares, e humildemente servia a Deus. Os resultados malignos de tais superstições foram apontados, como no caso de muitas gerações anteriores que encontraram a sua ruína, por terem desonrado Deus. E o argumento é agora completado no fecho da surata.

905. Deus não tem filhos favoritos ou parasitas, conforme os associamos com seres humanos. Por outro lado, todas as Suas criaturas obtêm o Seu amor e o Seu cuidado carinhoso. Todas elas, conquanto humildes, são individualmente marcadas perante o Seu Trono de Justiça e Misericórdia, e comparecerão perante Ele, de acordo com o seu próprio merecimento.

906. Tudo parece indicar que é um dos nomes do Profeta, como mostra a seqüência da surata. Se o significado dessa palavra é "Ó homem", esse é, por si só, um significado místico, como já explicado; porém, as letras formam uma só palavra, e não devem ser classificadas como letras abreviadas (ver o versículo 1 da 2ª Surata, e respectiva nota). Isto, contudo, é uma questão de classificação, e não afeta o significado. É apenas conjectura, e ninguém pode ser dogmático, nesse particular.

907. Deus está em tudo, e as coisas belas que podemos pensar referem-se a Ele. Seus nomes, os quais sumariam os atributos, são como títulos de Honra e Glória.

908. A história de Moisés, em seus diferentes incidentes, é contada em muitos lugares no Alcorão, e, em cada caso, a fase mais apropriada, no contexto, entre em referência ou é enfatizada. Nos versículos 49-61 da 2ª Surata, alude-se a fase da história religiosa da humanidade; nos versículos 103-162 da 7ª Surata, aparece a fase da formação da nação de Israel, e a história tem continuidade até aos tempos posteriores a Moisés; nos versículos 101-103 da 17ª Surata, temos um retrato do declínio de uma alma, na arrogância do Faraó; aqui, nos versículos 9-24 desta surata, temos o retrato da ascendência de uma alma, no comissionamento dado por Deus a Moisés.

909. A história espiritual de Moisés principia aqui. Deu-se um nascimento espiritual. Sua vida física, sua infância e sua educação são relatadas depois, a fim de ilustrar um outro ponto. Moisés cresceu, deixou o palácio do Faraó e foi para junto do povo madianita, na península do Sinai. Casou-se entre eles, e encontrava-se, então, viajando com a sua família e com os seus rebanhos, quando foi chamado por Deus, para receber a sua missão. Ele foi até ao fogo, por causa do conforto e da orientação. Ele encontrou um conforto e uma orientação bem mais elevados e santificados. A passagem toda está cheia do mais elevado significado, no original, nos curtos versículos rimados.

910. Trata-se do vale logo abaixo do Monte Sinai, onde subseqüentemente ele iria receber a Lei. No significado místico paralelo, somos selecionados por privações nessa vida humilde, cujo "vale" é igualmente sagrado, a ponto de receber a glória de Deus, tanto quanto o cume do Monte (Tur), caso tenhamos suficiente introspecção para percebê-lo.

911. "Desata o nó de minha língua" é tradução literal.

912. A tradução literal seria: "Endireita minhas costas com as dele". O vigor de um homem está em suas costas e em um espinhaço, que conserva ereto, e faz com que intrepidamente se desincumba de suas tarefas.

913. Imbuído de sua desordenada vaidade, o Faraó se esquecera de quão insignificante criatura era perante Deus. Isto teria de ser trazido, novamente ao seu conhecimento, para que talvez se arrependesse e passasse a crer, ou, pelo menos, e por temor, se contivesse de "passar do limites". Algumas pessoas abstêm-se de agir errado, por sincero amor a Deus e por compreensão para com os seus semelhantes; e outras (de mentes tacanhas), por temor das conseqüências. Mesmo a segunda conduta pode ser um passo para a primeira.

914. Moisés não caiu na armadilha. Ele se lembrou da injunção que lhe foi dada, no sentido de falar mansamente (versículo 44 desta surata). Ele falou mansamente, mas não de modo a tolher a verdade. Com efeito, ele disse: "O conhecimento de Deus é perfeito, como se, entre os homens, fosse um registro. Porque os homens se enganam ou não se lembram; mas Deus jamais Se engana ou Se esquece. Deus, ainda, não é apenas Sapientíssimo; é também Beneficiário. Olha em torno de ti: a terra toda se estende, como um tapete. Os homens andam nela livremente; Ele envia água em abundância do céu, a qual, em forma de chuva, causa as cheias do Nilo e fertiliza todo o solo do Egito, que dá de comer aos homens e aos animais."

915. O grande dia de um festival do Templo; quando os palácios e suas ruas estivessem ornamentados, e o povo estivesse gozando um feriado, sem trabalhar. Moisés organiza o encontro nesse dia para que o presencie o maior número possível de pessoas, porquanto o seu dever primeiro é pregar a Verdade. E ele aparentemente o fez com algum efeito sobre alguns egípcios (versículos 70 e 72-76 da 20ª Surata), embora o Faraó e os seus poderosos oficiais rejeitassem a Verdade, recebendo depois o castigo.

916. O ataque concentrado do mal é, às vezes, tão bem planejado, em todos os pontos, que a falsidade aparece, e é aclamada como sendo a verdade. O crédulo, na verdade, fica isolado, e uma espécie de vertigem moral toma conta de sua mente. Porém, pela graça de Deus a Fé se afirma, dá-lhe confiança, e aponta as verdades específicas que dissiparão e destruirão a prolífera ninhada da falsidade.

917. A magia, a farsa e a fraude, que pertenciam à religião pagã, tornaram-se um credo, um Estado, uma profissão de fé, aos quais os cidadãos tinham de se curvar, e os quais seus sacerdotes tinham ativamente de praticar. E o Faraó estava à testa de todo o sistema. Com justiça, contudo, os magos convertidos põem a culpa no Faraó, negando veementemente a falsa acusação de que eles haviam estado em conluio com Moisés.

918. Isto foi quando Moisés se encontrava no cimo do Monte, quarenta dias e quarenta noites. Enquanto ele se encontrava num estado de honra estática, no cimo do Monte, seu povo estava-se entregando a estranhas cenas, lá em baixo. Eles estavam sendo testados, e fracassaram no "teste". Eles fizeram a imagem dourada de um bezerro para a adoração, como descrito adiante.

919. Quem era esse samaritano? Se esse era o seu nome pessoal, estava suficientemente próximo ao significado da palavra-raiz original para ter um artigo definido ligado a ele. Qual era a raiz para "Sámari"? se olharmos para o antigo idioma egípcio, encontraremos "Shemer" = um estranho, um estrangeiro. Como os israelitas tinham deixado o Egito havia pouco, eles muito bem poderiam ter entre eles um judeu egiptizado, que portava aquele apelido. Que o nome Shemer não foi subseqüentemente desconhecido entre os hebreus, está claro, a julgar pelo Antigo Testamento. Em Reis 16:24, nós lemos sobre o tal Omri, rei de Israel, na parte setentrional do reino dividido, que reinou por volta de 903-896 a.C., e construiu a nova cidade de Samaria, numa colina que ele comprara de Shemer, o seu dono, por dois talentos de prata. (ver também History of Israel, de Renan II, 210). Para uma discussão mais esclarecedora da palavra, ver a nota 921, mais adiante.

920. Comparar com Êxodo 12:35-36. Antes de deixarem o Egito, os israelitas tomaram emprestadas dos egípcios "jóias de prata e jóias de ouro, e vestimentas"; e "eles estragaram os egípcios", ou seja, tiraram-lhes a sua valiosa joalheria. Note-se que as respostas dos apóstatas são de várias maneiras maliciosas: (1) o samaritano, sem dúvida alguma, foi responsável por sugerir que fizessem o bezerro de outro, mas eles não poderiam, por causa disto, tirar a responsabilidade de si próprios; a carga do pecado está sobre aquele que o comete e ele não pode pretender que estivesse impotente para evitá-lo; (2) quando muito, o peso do ouro que eles carregavam não podia ter sido excessivo, mesmo que um dos dois homens o carregassem, mas teria sido insignificante, se distribuído; (3) o ouro é valioso, e não é nada provável que se eles quisessem desfazer-se dele, tivessem necessidade de acender uma fornalha e, derretê-lo para dar-lhe a forma de um bezerro.

921. A efígie fundida foi derretida e destruída. Assim termina a história do Sámiri. Deve ser de interesse examinarmos as transformações por que a palavra Sámiri passou nos últimos tempos. Para a sua origem, ver a nota 919. Se a raiz da palavra Sámiri era originalmente egípcia ou hebraica, isso não afeta a história posterior. Quatro fatos devem ser notados: (1) Havia um homem que portava um nome dessa espécie no tempo de Moisés, que liderou uma revolta contra Moisés, e foi por este esmagado. (2) No tempo do rei Omri (903-896 a.C.), do reino setentrional de Israel, havia um homem chamado Shemer, de quem, de acordo com a Bíblia, foi comprada uma colina, na qual foi construída a nova capital do reino, a cidade de Samaria. (3) O nome da colina era Shomer (= vigia, vigilante, guardião), e dessa forma também aparece como nome de homem (ver Reis II 12:21): alguns exegetas acham que o nome da cidade foi tirado da colina, e não do homem, mas isso é, para o nosso propósito presente, irrelevante. (4) Havia, e ainda há, uma divergente comunidade de israelitas (denominados samaritanos), os quais possuem seus próprios e separados Pentateuco e Targum; dizem ser os verdadeiros filhos de Israel, e que desprezam os judeus ortodoxos, tal como estes os desprezam; eles dizem ser os verdadeiros guardiães (shomerinos) da Lei, e essa é provavelmente a origem do nome samaritano, o qual adentra no tempo, antes da fundação da cidade de Samaria. Achamos provável que o cisma se tenha originado no tempo de Moisés, e que a imprecação de Moisés quanto ao samaritano explica a posição.

922. Zurc = ter olhos com uma cor diferente da cor normal, que no Oriente é preto; ter olhos azuis, ou olhos afetados pela penumbra, pelo estrabismo, ou pela cegueira; consequentemente, metaforicamente, de olhos turvos (atônitos).

923. A pergunta foi literalmente feita ao Profeta: que será das sólidas montanhas? Elas não são mais substanciais do que qualquer outra coisa, neste mundo passageiro. Quando o "novo mundo" ( versículo 5 da 13ª Surata), do qual os incrédulos duvidaram, estiver realmente acontecendo, as montanhas deixarão de existir. Nós podemos imaginar a cena do julgamento como numa planície nivelada, na qual não haverá altos e baixos, e nenhum luar para ninguém se esconder. Tudo será reto e nivelado, sem cantos, esquinas, mistérios, ou esconderijos duvidosos.

924. O Alcorão foi escrito em língua árabe castiça, para que mesmo um povo inculto como o árabe pudesse compreendê-la e tirar proveito de suas admoestações, e para que o resto do mundo pudesse aprender através dele (o Alcorão), como o fez nos primeiros séculos do Islam, e pode fazê-lo agora, quando nós, muçulmanos, mostamo-nos dignos de explicar e exemplificar o seu significado.

925. As conseqüências da rejeição à diretriz de Deus são aqui expressas mais distintamente: uma estreiteza e uma cegueira que persistirão além desta vida. "Uma mísera vida" possui muitas implicações: (1) trata-se de uma vida da qual as influências beneficentes do vasto mundo de Deus são excluídas; (2) é uma vida para a personalidade, não para todos; (3) ao olhar exclusivamente para as "boas coisas" desta vida, a pessoa se afasta da verdadeira Realidade.

926. A palavra Taraf, plural atráf, pode significar lados, pontas, extremidades. Se o dia for comparado à uma figura tubiforme, posta em pé, o topo e a base serão claramente demarcados, o mesmo não acontecendo com os lados; estes seriam atráf, e não tarafain (dual). Então, a Oração da Alvorada é claramente Fajr; a de antes do pôr-do-sol é Asr; a "parte das horas da noite" indicaria Maghrib (tardezinha ou noitezinha, logo depois do pôr-do-sol); e Ichá, antes de se ir para a cama. Foi deixado do Zênite; há que se considerar a latitude quanto à hora precisa. A maioria dos exegetas é a favor das cinco orações canônicas, e alguns incluem orações opcionais. Mas nós achamos que as palavras são até mais compreensíveis. A vida de um homem bom é toda ela uma doce canção de louvor a Deus.

927. Cada minuto os vês mais das suas sentenças, e, contudo, eles se mantêm tristemente negligentes, e até viram as costas para a Mensagem que os salvaria.

928. Literalmente, "num estado no qual vós (realmente) vedes (que é feitiçaria)". Quando o Mensageiro de Deus provou estar acima deles em dignidade moral, em verdadeira introspecção, em sinceridade e eloqüência, eles o acusaram de feiticeiro, uma palavra que nada pode significar, ou talvez signifique algum truque misterioso e fraudulento.

929. As arremetidas dos inimigos contra o inspirado Mensageiro de Deus estão amontoadas. "É magia!", diz um, o que significa, "Nós não a entendemos!" Diz outro: "Ora, mas nós sabemos! Ele é um mero sonhador de sonhos confusos!"

930. Ver o versículo 43 da 16ª Surata, e respectiva nota. Isto responde ao sarcasmo dos incrédulos, que diziam: "Ele é apenas um homem como nós!" Isto era verdade, mas acontece que todos os Mensageiros, enviados por Deus, foram homens, não anjos ou qualquer outra espécie de entidades, que não podiam entender os homens, aos quais os homens não podiam entender.

931. Quando eles tiveram toda a chance de se arrependerem e se reformarem, rejeitaram a Mensagem de Deus, e mesmo talvez encetassem um desafio em aberto. Quando começaram literalmente a sentir a Ira a chegar, começaram a fugir, mas já era muito tarde! Ademais, para onde poderiam ir, fugindo da Ira de Deus? Daí o irônico apelo a eles, no versículo seguinte: é melhor que renuncieis as vossa luxurias, e o que julgastes ser o vosso lar permanente! Comparar com o dizer de Cristo, em Mateus (3:7): "Raça de víboras, que vos ensinou a fugir da ira futura?"

932. As diferentes espécies de falsos deuses, que as pessoas tiram das suas imaginações, são agora citadas. Nos versículos 21-23, é feita referência aos deuses da terra, quer se trate de ídolos ou deuses locais, ou de heróis deificados ou animais ou plantas ou forças da natureza que nos rodeiam, as quais os homens têm adorado de tempos em tempos. Estas, como deidades, não têm vida, a não ser aquela que os seus adoradores lhes dão.

933. Após os falsos deuses da terra (versículo 21), são mencionados os falsos deuses dos céus e da terra, como aqueles do Panteão Grego, que discutiam e lutavam e difamavam uns aos outros, fazendo do Olimpo uma perfeita rinha!

934. Isto se refere tanto à superstição trinitária, dizendo que Deus gerou um filho, como à superstição árabe de que os anjos eram as filhas de Deus. Todas essas superstições são derrogatórias da glória de Deus. Os profetas e os anjos nada mais são do que servos de Deus; eles são altamente elevados em honra, e, portanto, merecem o nosso mais alto respeito, mas não a nossa adoração.

935. Eles nunca dizem nada, antes que recebam ordem de Deus, e suas orações são igualmente condicionadas. Este é, também, o ensinamento de Jesus, como está relatado no Evangelho de João (12:49-50) "Porque eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, me deu a ordem no tocante ao que eu deveria dizer, ao que eu deveria falar. E eu sei que a Sua ordem é para a vida toda; o que quer que eu fale, portanto, é o que o Pai disse que eu falasse". Se corretamente compreendido, "Pai" tem o mesmo significado de "Rabb", - Sustentador e Velador, e não Procriador, ou Progenitor.

936. A evolução dos mundos ordenados, como os vemos, é dada a entender. À medida em que o olhar intelectual do homem sobre o mundo físico se expande, ele vê cada vez mais como a unidade é a nota dominante no maravilhoso Universo de Deus. Tomando tão-somente o sistema solar, nós sabemos que a intensidade máxima das manchas solares corresponde à intensidade máxima das manchas solares corresponde à intensidade máxima das tempestades magnéticas na Terra. A lei universal da gravidade parece unir as massas todas juntas. Os fatos físicos apontam para a formação dos planetas a partir de vastas quantidades de matéria nebular difusa, da qual o núcleo central condensado é o sol.

937. Cerca de 72 por cento da superfície do nosso globo é coberto por água, e tem sido estimado que se as diferenças da superfície fossem niveladas, toda a superfície ficaria sob a água, uma vez que a principal elevação do nível da terra, seria de 2.000 a 3.000 m abaixo da superfície do oceano. Isso mostra o predomínio da água no nosso globo. Que toda a vida começou na água é também uma conclusão para a qual os nossos últimos conhecimentos da biologia apontam. À parte o fato de que o protoplasma, a base original da matéria viva, é um líquido ou semi-líquido, num estado de constante fluxo e instabilidade, há o fato de que os animais terrestres, como os vertebrados superiores, incluindo o homem, mostram, em sua história embriológica, órgãos como os dos peixes, indicando que o seu habitat original era na água. A constituição do protoplasma é de 80 a 85 por cento de água.

938. "...para que esta não oscilasse com eles"; "eles", aqui, refere-se outra vez ao "ele" do final do versículo anterior, querendo dizer "os incrédulos". Poderia ser a humanidade em geral, mas é destacado, para dirigir-se àqueles que não se conscientizam da Misericórdia de Deus, e não a compreendem; é apropriado para levar às terras deles o fato de que é a providência bem ordenada de Deus, que normalmente os protege de cataclismos, como terremotos, mas que eles poderiam, por sua iniqüidade, ser destruídos num instante, como os povos de Ad e de Tamud foram destruídos antes deles. Como apontado na nota anterior, se a superfície da Terra fosse nivelada, ela estaria toda debaixo d’água; portanto, as firmes montanhas são as mais vantajosas fontes de segurança que evoluíram nas formas terrestres. Embora as montanhas pareçam barreiras intransponíveis, contudo a providência de Deus proporcionou largas gargantas entre elas, que servem de estradas para as comunicações humanas.

939. Nós indicamos, ao contrário da maior parte dos tradutores, a metáfora da gravitação implícita nas palavras originais; quão belo é contemplarmos os corpos celestes gravitando, através do espaço, em suas órbitas elípticas!

940. A vida sem a morte, neste planeta, não tem sido concedida a qualquer homem. As lendas sobre o Khidher constituem contos populares. Suas vida sem morte, nesta terra, não é mencionada em lugar algum do Alcorão. O escárnio dos incrédulos quanto o Profeta, portanto, era fútil. Poderia qualquer um deles viver sem morrer, num tempo ou noutro? Poderiam eles citar alguém com quem isso tivesse acontecido?

941. A pressa está no sangue do homem. Se lhe é dada uma folga para o seu próprio bem, a fim de que tenha uma chance de se arrepender e voltar para Deus, ele diz, incrédula e impacientemente: "Que venha depressa o castigo, para que eu veja se o que dizes é verdade!" Qual, como é verdade! Quando o castigo realmente chegar, e ele o vir, não quererá que lho apressem. Pobre criatura apressada!

942. Comparar com o versículo 41 da 13ª Surata, e respectiva nota. O significado especial é que o Islam se expandiu, social e geograficamente, das fronteiras exteriores, gradativamente, para o núcleo interior. A fímbria social era constituída de pessoas humildes, tais como escravos e gente pobre. A referência geográfica é Madina, e a demográfica é quanto às tribos em torno do centro de Makka. Os orgulhosos e descrentes coraixitas foram os últimos a chegar, quando o círculo se estava apertando, mais e mais, em torno deles. A significação geram aplica-se a todos os tempos. A Verdade de Deus abre seu caminho, primeiramente entre os pobres e os humildes, gente cuja mente não está conspurcada por preconceitos, ou falso orgulho, ou falso conhecimento, mas gradativamente encurrala os obstinados, até que, por fim, prevalece.

943. O literalismo de George Sale excedeu-se aqui; ele traduz: "...e haverá suficiente prestação de contas junto a Nós!" O que isso quer dizer é que quando há prestação de contas junto a Deus, o Seu cômputo é perfeito; não há falha nele, como acontece com os contadores terrenos, que requerem o auxílio de outras pessoas em alguns assuntos de contabilidade que eles não entendem, por carecerem de conhecimento daquele departamento particular como qual estão tratando. O conhecimento de Deus é perfeito, e portanto Sua justiça é também perfeita porque ele não deixará de levar em conta as coisas mais intangíveis, as quais determinam a conduta e o caráter. Ver a nota anterior. Não há contradição alguma entre isto e o que dizem os versículos 104-105 da 18ª Surata, onde se lê que os homens de obras vãs, de feitos superficiais e hipócritas, não terão peso algum, relacionado com, seus feitos. Em verdade, os dois casos se correspondem.

944. Eles lhe fizeram uma pergunta formal. Não houve mistério sobre isso. Ele havia já abertamente ameaçado fazer algo aos ídolos, e as pessoas que haviam ouvido as suas ameaças lá estavam. Ele, então, continua com a sua irônica zombaria, quanto aos idólatras: "Vós perguntais a mim! Por que noa perguntais aos ídolos? Não vos parece que o grandalhão, aqui, esmagou os menores, numa turra?" Se eles não perguntavam aos ídolos, confessavam que os seus ídolos não eram suficientemente inteligentes para responder! Este argumento é desenvolvido nos versículos 64-67. Note-se que, enquanto os falsos adoradores de ídolos se riam da sua franqueza, ele lhes pagava na mesma moeda, com uma brincadeira de mau gosto, o que, ao mesmo tempo, favorece a causa da Verdade.

945. A natureza do fogo, por todas as leis físicas da matéria, é ser quente. A supremacia da mente sobre a matéria é uma frase muitíssimo usada; mas a supremacia espiritual sobre a material é tão comumente compreendida. Todavia, ela constitui o maior fator, na estimativa da Realidade. O material é efêmero e relativo. O espiritual é eterno e absoluto. Em meio ao fogo da perseguição e do ódio, Abraão permaneceu ileso. O fogo tornou-se frescor, e um meio de segurança para Abraão.

946. Podemos, acaso, formar uma idéia vaga do lugar onde ele passou pela fornalha, e do estágio de sua carreira em que isso aconteceu? Ele nasceu em Ur, na Caldéia, um local dos baixos do Eufrates, não chegando a 160 km do Golfo Pérsico. Esse foi um dos berços da civilização. A astronomia era ali estudada nos tempos mais remotos, e a adoração ao sol, à lua, e às estrelas era a forma predominante de religião. Abraão se revoltou contra aquilo, bem cedo em sua vida, e o seu argumento é citado nos versículos 74-82 da 6ª Surata. Eles também tinham ídolos em seus templos, provavelmente ídolos que representavam corpos celestes e criaturas celestiais aladas. Ele era, ainda, um adolescente (versículo 60 desta surata), quando destruiu os ídolos. Após aquilo, ele ficou marcado como um rebelde, e foi perseguido. Talvez alguns anos se tivessem passados antes do incidente de ele ter sido atirado ao Fogo (versículos 68-69 desta Surata), ou o incidente pode ser alegórico. Tradicionalmente, o Fogo é relacionado com um certo rei, denominado Nemrod, sobre o qual, ver a nota do versículo 69 da 11ª Surata; se a capital de Nemrod era na Assíria, perto de Nínive (situada perto da moderna Mosul), podemos tanto supor que o governo do rei se estendeu por sobre a Mesopotâmia, como que Abraão derivou para o norte, através da Babilônia, até à Assíria. Vários estratagemas foram planejados para o matar (ver o versículo 70 desta surata), mas ele foi sempre salvo pela misericórdia de Deus.

947. A terra de Aram, ou Síria, que em sua mais ampla conotação inclui Canã ou a Palestina, a Síria e o Líbano, é uma terra bem irrigada e fértil, com um litoral mediterrâneo, no qual as famosas cidades comerciais de Tiro e Sidon estão situadas. Sua população é muito mesclada, uma vez que tem sido a espinha dorsal da disputa entre todos os grandes reinos e impérios da Ásia Ocidental e do Egito; e o interesse europeu nela data dos tempos mais remotos.

948. As ovelhas, por causa da negligência do pastor, entraram em um campo cultivado (ou num parreiral), à noite, e comeram as plantas novas, e seus brotos tenros, causando, talvez, danos do montante da colheita de um ano. Davi era o rei, e, do seu trono de julgamento, ele considerou o assunto tão sério, que premiou o dono daquele campo com as mesmas ovelhas, como compensação pelo dano. Seu filho, Salomão, um mero rapaz de onze anos, pensou numa decisão melhor, em que a penalidade condizia melhor com a ofensa. O prejuízo fora a perda dos frutos ou do produto do campo; o corpus da propriedade não fora perdido. A sugestão de Salomão foi de que dono do campo não deveria tomar as ovelhas todas, mas tão-somente retê-las o tempo suficiente para que recuperasse o dano real, usufruindo do leite, da lã e possivelmente das crias, e então devolvendo as ovelhas ao pastor. O mérito de Davi está em ele ter aceito a sugestão, embora ela tivesse partido de um rapazinho. O mérito de Salomão está em ele ter distinguido entre corpus e produção, e, embora muito jovem, não ter vergonha de expor o caso perante o seu pai.

949. A fabricação das couraças é atribuída a Davi. Trata-se de uma arma defensiva, e, portanto, sua descoberta e suprimento está associada aos feitos dos virtuosos, de que tratam os versículos 10-11 da 34ª Surata, em contraste com as armas mortíferas, que os homens inventaram para propósitos ofensivos. Em verdade, toda a luta, que não seja em defesa dos virtuosos, é mera "violência".

950. Isto foi interpretado como a significar que Salomão tinha poderes milagrosos sobre os ventos, e podia fazer com que eles obedecessem às suas ordens. Podemos dizer o mesmo dos aeronautas de hoje. Em todo o caso, o poder, por trás dele, provinha, e provém de Deus, o Qual concedeu ao homem inteligência, e as faculdades, com as quais ele pode domar as mais incontroláveis forças da natureza.

951. Jó (Aiub) foi um homem próspero, com fé em Deus, que viveu algures, no quadrante nordeste da Arábia. Ele sofreu um sem-número de calamidades: seu gado foi destruído, seus servos, mortos pela espada, e sua família, esmagada sob o seu teto. Mas ele se apegou ferrenhamente à sua fé em Deus. Deus fez recair sobre ele a Sua misericórdia, e ele reassumiu a sua humildade e abandonou a justificativa. Foi-lhe restabelecida a prosperidade, duas vezes mais consistente do que antes; seus irmãos e seus amigos voltaram a dar-lhe atenção; ele passou a ter uma nova família, com sete filhos e três bonitas filhas. Ele chegou a uma velhice razoável, e viu quatro gerações de descendentes.

952. "Dulkifl", poderia, literalmente, significar "possuidor, ou concessor de uma dupla recompensa ou quinhão"; ou também "aquele que usava uma vestimenta duplamente espessa", sendo este um dos significados de Kifl. Os exegetas diferem em opinião quanto a quem é feita a referência, porquanto o título é aplicado a ele, e ao fato de ele estar agrupado com Ismael e Idris, pela constância e paciência. Se aceitarmos "Dulkifl", não como um epíteto, mas como uma forma arabizada de "Ezequiel", isso se coadunará no contexto. Ezequiel foi um profeta em Israel, que foi levado para a Babilônia por Nabucodonosor, após o seu segundo ataque a Jerusalém (por volta do ano 599 a.C.). O seu Livro está incluído no Antigo Testamento. Dulkifl é novamente mencionado no versículo 48 da 38ª Surata, juntamente com Ismael e Eliseu.

953. Dun-nun (o homem do Peixe, ou da Baleia) é o título dado a Jonas (Yunus), porque ele foi engolido por um enorme peixe ou baleia. Ele foi o profeta enviado para admoestar a capital assíria, Nínive. Quando a sua primeira admoestação foi desconsiderada pelas pessoas, ele anunciou a Ira de Deus sobre elas. Porém, elas se arrependeram, e Deus as perdoou por algum tempo. Jonas, no entanto, partiu zangado, desencorajado com o aparente fracasso da sua missão. Ele foi embora para o mar, e tomou um navio; mas aparentemente os marinheiros o atiraram à água, como homem de mau augúrio, em meio a uma tempestade. Ele foi engolido por um enorme peixe (ou uma baleia); porém, nas profundezas da escuridão, ele implorou a Deus, e confessou a sua fraqueza. Deus, o Graciosíssimo, o perdoou. Ele foi arremessado à praia; foi-lhe dado, como abrigo, em seu estado de lassidão física e mental, uma planta. Ele ficou renovado e revigorado, e o trabalho da sua missão prosperou. Assim, ele sobrepujou todos os seus desapontamentos pelo arrependimento e pela Fé, e Deus o aceitou.

954. Aqui não se trata de uma questão de povo ou nação, de um "povo escolhido", ou da "semente de Abraão", ou da "semente de Davi"; dos judeus ou gentios, os árabes ou persas, dos turcos ou dos europeus ou asiáticos, dos brancos ou dos pretos, dos arianos, dos semitas, dos mongóis, ou dos africanos, ou dos americanos, dos australianos, ou dos polinésios. Para todos os homens e para todas as criaturas, além dos homens, que possuam alguma responsabilidade, os princípios se aplicam universalmente.

955. Se eles realmente têm dúvidas quanto à vida após a morte, tão-somente têm de voltar as suas atenções para a sua própria natureza, e para a natureza, em torno deles. Quão maravilhoso é o seu próprio crescimento físico, da matéria inerte ao sêmen, ao óvulo fecundado, ao feto, à infância, à juventude, à velhice, à morte! Como podem duvidar de que o Autor desses maravilhosos estágios de suas vidas também pode lhes dar uma espécie de vida no final desta? Ou, se atentarem para a natureza externa, verão a terra morta e estéril, e os aguaceiros fertilizadores de Deus darem-lhe a vida, o crescimento e a beleza, de variadas formas. O Criador desse grande desfile de Beleza, pode, certamente, criar um outro mundo novo.

956. Os estágios do crescimento físico do homem, a partir do nada, até que se completa o ciclo desta vida, são descritos com palavras cuja acuidade, beleza e compreensibilidade somente podem ser plenamente estendidas pelo biólogos. Paralelamente ao crescimento físico, pode ser entendido o crescimento interior, também por estágios, e pelo artesanato criativo de Deus.

957. Isto é, uma criança do sexo masculino ou feminino, uma criança bonita ou feia, uma criança dócil ou rebelde, etc., envolvendo incontáveis mistérios de genética e hereditariedade.

958. Alguns exegetas acham que isto se refira a Abu Jahl, mas as palavras são perfeitamente generalizadas, sendo que este tipo de homem é comum em todas as eras. O mesmo se diga quanto ao versículo 3, acima; os exegetas dão uma referência imediata a um tal Nadhr Ibn Haris.

959. Há alguma diferença de opinião quanto à interpretação deste versículo. A maior parte dos exegetas concorda em que o pronome "o" (jamais o socorrerá) se refira ao Profeta, e em que o pronome "quem" se refira aos inimigos dele, os quais desejavam vê-lo destruído e retirado do cenário do seu jogo. Ibn Abbás, que nós seguimos aqui, e que um grande número de exegetas segue, constrói as últimas cláusulas com sentido dado no texto. Livremente parafraseado, significa: se os inimigos do Mensageiro de Deus estão enfurecido com o sucesso dele, que pendurem uma corda nos tetos de suas casas e se enforquem.

960. Para os sabeus, ver a nota do versículo 62 da 2ª Surata; o versículo 72, da 5ª Surata, também se refere a eles. Em ambas as passagens os muçulmanos são mencionados, juntamente com os judeus, os cristãos e os sabeus, recebendo a proteção e a misericórdia de Deus. Aqui, além as quatro religiões, há uma menção mais consistente aos Magos e aos Politeístas; não é dito que eles deverão receber a Misericórdia de Deus, mas tão-somente que Deus julgará entre as várias formas de fé. A adição dos politeístas - aqueles que juntam deuses a Deus - pode parecer um pouco surpreendedora. Porém, a argumentação é que todas as formas de fé que são sinceras (e não meramente contumazes) são assuntos em que nós, como homens, não podemos interferir. Nosso dever é sermos tolerantes, dentro dos limites da tolerância - isto é, desde que não haja opressão, injustiça e perseguição. Quando pudermos corrigir um erro óbvio, é nosso dever tratar de fazê-lo; contudo, seria errado da nossa parte querermos alvoroçar-nos, sem poder nem autoridade, simplesmente porque as outras pessoas não acatam o nosso ponto de vista.

961. Este é o único lugar onde os Magos (Majus) são mencionados no Alcorão. O culto deles é muito antigo. Eles consideram o Fogo como o mais puro e o mais nobre elemento, e o cultuam como um adequado emblema de Deus. O local era a Pérsia, os planaltos de Madian e os vales da Mesopotâmia. A sua religião foi formada pelo Profeta Zaratrusta (data incerta, por volta do ano 600 a.C.). A sua escritura é o Zend-Avesta, a bíblia dos persas. Eram "os Sábios do Oriente", mencionados nos Evangelhos.

962. O terreno de Makka foi concedido a Abraão (a seu filho Ismael) para um local de culto que deveria ser puro (sem ídolos, sendo que o culto deveria ser feito ao Único e Verdadeiro Deus), e universal, sem ser reservado (como o Templo de Salomão, de tempos mais tarde) a qualquer povo ou raça.

963. Quando a peregrinação era conclamada, as pessoas vinham a ela de todos os quadrantes, de perto ou de longe, a pé ou montadas. Os "camelos" cansados, que chegavam após uma fatigante jornada, através da longínquas montanhas, patenteiam as dificuldades da viagem, a quais os peregrinos não levavam em consideração, dados os benefícios materiais e espirituais, a que se refere o versículo seguinte.

964. Os três dias especiais do Hajj são 8, 9 e 10 do mês de dul-hijja, e os dois ou três dias subseqüentes ao Tachric; ver os rituais que são explicados na nota do versículo 197 da 2ª Surata. Contudo, devemos, ordinariamente, incluir os primeiros dez dias do mês de dul-hijja no termo.

965. O grande dia do Sacrifício comemorativo (Id-ul-Adhha) é o dia 10 de dul-hijja; a carne do gado, nesse dia abatido, deve ser comida e distribuída entre os pobres e necessitados. Bahimat significa animal, de um modo geral; an’am significa gado, especialmente o usado para a alimentação, e aqui, para o sacrifício.

966. Taraf = o que cresce superfluamente no corpo da pessoa, tal como, unhas, pêlos, cabelos, e que não é permitido, no Ihram, aparar. Estes podem ser aparados no dia 10, quando o Hajj estiver completo; esse é o ritual do acabamento.

967. O espírito da Peregrinação não é completado pela realização dos ritos externos. Os peregrinos devem ter em mente algum voto de serviço espiritual e de diligência para realizá-lo. Então, vem o Tawaf, que consiste em circundar a Caaba por sete vezes.

968. As proibições gerais de alimentos serão encontradas no versículo 173 da 2ª Surata, nos versículos 4-5 da 5ª Surata e nos versículos 121, 138-146 da 6ª Surata. Elas são estabelecidas, para o bem da saúde e da limpeza; mas a pior das abominações a o evitar é aquela do falso culto e da falsa alocução. Aqui a questão é sobre a comida, durante a Peregrinação. A carne é lícita, mas a caça não é permitida.

969. Chaá-ir = símbolos, sinais e marcas pelos quais se sabe que algo pertence a algum grupo de homens particular, tias como as bandeiras. No versículo 158 da 2ª Surata, a palavra foi aplicada a Safa e Marwa (ver a respectiva nota). Aqui, ela parece estar sendo aplicada aos rituais do sacrifício. Tal sacrifício é simbólico; pode indicar dedicação e piedade de coração (ver o versículo 37, desta surata, mais adiante).

970. O sacrifício real não é realizado na Caaba, mas em Mina, distante 8 ou 9 km do local onde os peregrinos acampam (ver a nota do versículo 197 da 2ª Surata). Tumma = então, finalmente, no final; isto é, após todos os rituais serem realizados (Tawaf, Safa e Marwa, e Arafat).

971. Esta é a verdadeira finalidade do sacrifício, e não a proporção de altos poderes, pois Deus é Único, e Ele não Se delicia com carne ou sangue (versículo 37 desta surata); e repartirmos a carne com os semelhantes constitui um símbolo de rendição de graças a Deus. O solene pronunciamento do nome de Deus, no sacrifício, constitui parte essencial ao rito.

972. Ver a nota do versículo 33 desta surata. O que foi expresso, em termos gerais, é aplicado aqui, mais especificamente aos camelos, os mais preciosos e úteis animais da Arábia, cujo modo de abate, para o sacrifício, é diferente daquele dos animais menores; a palavra especial, para tal sacrifício é Nahr (versículo 2 da 108ª Surata).

973. A essência do sacrifício foi explicada na nota 971 desta Surata. Ninguém deve supor que a carne ou o sangue seja aceito pelo Único e Verdadeiro Deus. Vem da fantasia pagã de que Deus deve ser aprazido com um sacrifício sanguinário. Porém, Deus aceita as oferendas dos nosso corações. Ele nos deu poder sobre a criação animal, e permitiu que comêssemos carne, mas somente se pronunciarmos o Seu nome no ato de tirar a vida, porque, sem esta solene invocação, estamos afeitos a esquecer a sacraticidade da vida. Por meio da invocação lembramo-nos de que a crueldade dissoluta não está em nossos pensamentos, mas apenas a necessidade de alimento. Agora, se negarmos a nós mesmos a maior parte do alimento (alguns teólogos fixam a proporção em três quartos ou dois terços), para o bem dos nosso irmãos mais pobres, em assembléia solene, nos recintos do Haram (território sagrado), o nosso ato simbólico será a expressão prática da benevolência, e essa é a virtude que se procura ensinar.

974. A permissão para que um povo virtuoso lute contra outro povo feroz e amante da desordem era plenamente justificada, quando a pequena comunidade muçulmana não apenas lutava pela sua própria existência, contra os coraixitas de Makka, mas pela existência da Fé no Único e Verdadeiro Deus. Eles tinham tanto direito de estar em Makka e orar na Caaba quanto os coraixitas; contudo, foram exilados por causa da sua Fé. Isso afetou, não a fé de um povo em particular; o princípio envolvido era o de todos os fiéis: judeus, cristãos e muçulmanos, e o de todas as fundações, erigidas para usos religiosos.

975. "Recomendam o bem e proíbem o ilícito", isto é um dever essencial da comunidade muçulmana e um dos principais propósitos para a qual foi criada.

976. Primeiramente caíram os telhados, então toda a estrutura, incluindo as paredes, e tudo desmoronou depois, como acontece nas ruínas. O local foi virado de ponta-cabeça.

977. A palavra "coração", em árabe, implica tanto a sede das faculdades da inteligência e da compreensão, como a sede das afeições e emoções. Aqueles que rejeitam a Mensagem de Deus podem ter os olhos e os ouvidos físicos, mas seus corações são cegos e surdos. Caso as sua faculdades de entendimento fossem ativas, não veriam eles os Sinais da Providência do Senhor e a Ira de Deus, na natureza, ao redor deles, e nas cidades e nas ruínas, se viajassem inteligentemente?

978. A condição de Mártir representa o sacrifício da vida ao serviço de Deus. A recompensa por isso é, portanto, ainda maior que a boa vida comum. Os pecados dos mártires são perdoados pelo próprio ato do martírio, o que implica em rendição no mais lato sentido da palavra. Deus conhece tudo da sua vida passada, mas abster-Se-á de chamá-lo a prestar contas das coisas que seriam estritamente da sua conta.

979. Comumente, aos muçulmanos é prescrito suportar as injúrias com paciência, e retribuir o mal com o bem (versículo 96 da 23ª Surata). Porém, há ocasiões em, que os sentidos humanos obtêm o melhor de nossas sábias resoluções, ou quando, num estado de conflito ou de guerra, nós retribuímos "da melhor maneira que podemos". Nesse caso, a nossa represália é permitida, desde que a injúria que infligirmos não seja maior do que a que recebermos. Após tal represália, nós ficamos quites; todavia, se o outro lado agir agressivamente de novo, e exceder os limites ao nos atacar, seremos merecedores da proteção de Deus, a despeito de todas as nossas faltas; porque Deus é o Único Que pode apagar os nossos pecados, e perdoar.

980. Os rituais e as cerimônias podem aparentar ser assuntos sem importância, comparados "às questões de peso da Lei", e às elevadas necessidades da natureza espiritual do homem. Contudo, são necessários para a organização social e religiosa, e o seu efeito sobre os próprio indivíduo não deve ser desprezado. Em todo o caso, uma vez que constituem símbolos externos visíveis, eles dão origem às mais acaloradas controvérsias. Tais controvérsias devem ser deprecadas. Isso não quer dizer que devamos fazer pouco caso dos nossos rituais e das nossas cerimônias. Os rituais do Islam encontram-se entre as mais altas necessidades sociais e religiosas do homem; se estivermos convencidos de que estamos no Caminho Certo, deveremos convidar todos a se unirem a nós, sem entrarem em controvérsias acerca de tais questões.

981. Quanto à porfia estar em concernência com Jihad, num sentido exíguo, ver as limitações na nota do versículo 190 da 2ª Surata e na nota do versículo 191, também da 2ª Surata. Porém, são perfeitamente generalizadas, e se aplicam a toda a verdade e à porfia desinteressada, para o bem espiritual.

982. Os judeus se viam a braços com muitas restrições, e a sua religião era racista. O cristianismo, como originalmente pregado, era uma religião eremita: "vende tudo o que possuis..." (Marcos, 10:21); "não penses no amanhã" (Mateus, 6:34). O Islam, como originalmente pregado, dá liberdade ao homem, e trata de desenvolver as suas faculdades de todas as espécies. É universal, e reivindica datar desde Adão; o pai Abraão é mencionado como o grande ancestral daqueles entre os quais o Islam foi primeiramente pregado (judeus, cristão e árabes idólatras).

983. Humildade na oração, no que diz respeito à estimativa da sua própria valia na presença de Deus; à estimativa dos seus próprios poderes e vigor, a menos que sejam ajudados por Deus; e às petições que fazem a Deus.

984. Os muçulmanos devem-se resguardar quanto a toda espécie de abuso ou perversão sexual. A nova psicologia, associada ao nome de Freud, traça muitos dos nossos motivos ocultos quanto ao sexo, e é do conhecimento comum que o nosso refinamento ou a nossa degradação sexual pode ser medido pelas atividades ocultas dos nossos instintos sexuais. Mas mesmo o natural e lícito exercício do sexo é restringido aos limites do casamento, sob o qual os direitos de ambas as partes são devidamente regulamentados e mantidos.

985. Isto está bem mais explicado e aplicado no versículo 25 da 4ª Surata. Será ali visto que o status de uma cativa, quando elevado à liberdade por meio do casamento, é o mesmo de uma livre, com respeito a seus direitos, porém mais leniente quanto ao castigo a lhe ser infligido se ela deixar de observar as virtudes.

986. As responsabilidades devem ser expressas ou implícitas; as expressas são aquelas em que a propriedade é confiada ou os deveres são assinalados por alguém a outro alguém em que ele confia, para ser desenvolvida, tanto imediatamente como em contingências específicas, como no caso de morte. As implícitas provêm do poder, ou da posição, ou da oportunidade; por exemplo, um rei governa o seu reinado em nome de Deus quanto aos seus súditos. O assunto dos pactos, expressos ou implícitos, foi discutido na nota do versículo 1 da 5ª Surata. Os pactos criam obrigações e responsabilidades, expressas ou implícitas, e reunidos, abrangem todo o campo das obrigações.

987. No versículo 2, fomos orientados para o espírito da humildade e do ardor, em nossas orações. Aqui é-nos dito o quão necessário é o hábito das orações regulares, para o nosso bem-estar e desenvolvimento espirituais, uma vez que isso coloca mais perto de Deus, sumariando, assim, o cintilar das variedades das sete jóias da nossa Fé, a saber: a humildade, o banimento da vaidade, a caridade, a pureza sexual, a fidelidade às responsabilidades e aos pactos; e o sincero desejo de estarmos mais perto de Deus.

988. Nesta magnífica passagem, a obra criativa de Deus, concernente ao homem, é recapitulada, a fim de mostrar a verdadeira posição do homem nesta vida. Aqui não entramos em concernência com o primeiríssimo estágio, a criação, do nada, da matéria primeva. Esse foi também um processo de criação, quando a matéria inorgânica se transformou em matéria viva. Deste modo, os constituintes inorgânicos da terra são absorvidos pela matéria viva, por meio dos alimentos, e a matéria vida, se reproduz por meio do esperma. Este é depositado no óvulo e o fertiliza, permanecendo por um certo tempo em segurança, no útero da mulher. A primeira mudança do óvulo fertilizado é a conversão em espécie de invólucro de grosso sangue coagulado. As células zigóticas crescem por segmentação; então a massa disforme gradativamente vai assumindo uma forma, em seu crescimento, de feto. Do montante desenvolvem-se ossos, carne, órgãos e um sistema nervoso. De qualquer modo, o desenvolvimento do feto do homem é igual ao desenvolvimento do feto de um animal; porém, depois acontece um processo diferente, que transforma a criança animal numa criança humana. Isto é o alento nela do espírito de Deus (versículo 29 da 15ª Surata); tal processo não necessita acontecer precisamente num dado ponto de tempo. Pode tratar-se de um processo contínuo, paralelo ao crescimento físico. A criança nasce, cresce, depois, como adulta entra em declínio e morre; porém, após a morte, um outro capítulo se abre para o indivíduo, e é para nos lembrarmos do mais momentoso dos capítulos, que os estágios anteriores são recapitulados.

989. O crescimento, no estágio fetal, é silente e invisível. O feto é protegido no útero da mãe como um rei num castelo; está firmemente fixo, e obtém a proteção do corpo da mãe, do qual depende para o seu próprio crescimento, até ao nascimento.

990. Partindo de um mero animal, consideramos agora o homem como tal. O fato de que do pó seco (turab -versículo 5 da 22ª Surata), ou da matéria inorgânica seja feito o protoplasma (argila úmida ou matéria orgânica), por si só, não constitui um sinal de maravilha; dele cresce uma nova vida animal; e dele deve crescer a vida humana, com todas as suas capacidades e responsabilidades. O homem leva consigo os Sinais da sabedoria e do poder de Deus, e ele pode vê-los todos os dias, no universo ao redor dele.

991. A nossa morte física, nesta vida mortal, parece constituir uma interrupção. Porém, se fosse o fim de tudo, as nossas vidas tornar-se-iam sem significado. Nossos próprios instintos nos dizem que isso não pode ser assim, e Deus nos assegura que haverá uma ressurreição, para o julgamento.

992. Normalmente a chuva cai bem distribuída; ela molha o solo; a umidade retida por um longo tempo, nos terrenos altos; ela molha e penetra as muitas camadas do solo, e forma a arquitetura, e a geografia física; o poder de retenção dos solos altos faz com que os rios corram perenemente, mesmo onde a precipitação é estacional, e restrita a uns poucos meses por ano. Uma outra forma pela qual a água desce do céu, nas devidas medidas, é por meio da neve e do granizo; estes têm, também, o seu lugar na temperança do ar e do solo. Se não fosse pela neve e pelas geleiras, que ficam nas regiões montanhosas, alguns rios deixariam de correr caudalosamente. Tão maravilhosa como a precipitação da água e a presença da umidade é a sua drenagem. A água volta para o mar e para o ar, das mais variadas maneiras, sendo que a formação de nevoeiros e de nuvens fazem repetir o ciclo. Se não fosse pela drenagem e liberação das águas, teríamos enchentes e inundações, como acontece quando o processo normal da natureza é temporariamente obstruído.

993. Na Arábia, as melhores olivas crescem perto do Monte Sinai. O figo, a oliva, o Monte Sinai e a sagrada cidade de Makka são mencionados juntos e em associação, nos versículos 1-3 da 95ª Surata. O azeite de oliva é um ingrediente usado em ungüentos medicinais e em unção empregadas em cerimônias religiosas, tal como a unção de reis. Desse modo, ele tem um significado simbólico. Se usada como alimento, a azeitona tem um sabor delicioso.

994. Íbrat: o significado radical do verbo é interpretar, ou expor, ou instruir, como no versículo 43 da 12ª Surata; o substantivo significa: uma interpretação, ou exemplo, ou sinal que instrui, como aqui e no versículo 66 da 16ª Surata, ou que admoesta, como no versículo 13 da 3ª Surata.

995. Ver o versículo 40 da 11ª Surata, e respectiva nota, onde a palavra tanur (forno) é explicada.

996. Se isto se refere a qualquer profeta em particular, deve ser a Hud, cuja missão era para com o povo de Ad, ou a Sáleh, cuja missão era para com o povo de Tamud. Esta é a seqüência após Noé, nos versículos 50-68 da 11ª Surata. Porém, achamos que, como o nome não é mencionado, devemos, geralmente, entender os tipos de profetas pós-diluvianos, até chegar a Moisés e a Jesus. O objetivo, aqui, não é recontar as histórias, mas mostrar que a resistência dos iníquos não fez diferença alguma para o triunfar da Verdade de Deus.

997. O tipo sibarita, de mente estreita, não desfruta das coisas boas desta vida, nega a vida futura, e se rebela contra qualquer um que queira alargar o seu horizonte, é aqui descrito, em poucas mas magistrais pinceladas. Agasta-se à menção das coisas sérias que estão além da sua argúcia. Para que, diz ele, falar sobre o futuro? Vivamos o presente. O ganho está todo no presente; e a perda está toda no futuro.

998. Ghuçaa’, literalmente restolho de folhas mortas, ou a espuma que corre numa torrente.

999. O nascimento de Jesus de uma virgem constituiu um milagre, tanto para ele como para sua mãe. Ela foi falsamente acusada de falta de castidade, mas o menino Jesus, a vindicou por meio dos seus próprios milagres (versículo 27 a 33 da 19ª Surata), e mostrou, com a sua vida, a torpeza da calúnia contra a sua mãe.

1000. As pessoas que começaram a negociar com os nomes dos profetas cortaram essa unidade e formaram seitas; e cada seita se contenta com a sua própria doutrina exígua, em vez de se apegar ao ensinamento universal da Unicidade de Deus. Porém, essa confusão sectarista é invenção do homem. Ela durará por um certo tempo, mas os raios da Verdade e da Unicidade finalmente dissiparão.

1001. Samir, em árabe, aquele que fica acordado à noite; aquele que passa a noite proseando, ou recitando histórias de romances, entretenimento favorito dos dias de idolatria.

1002. A referência é a uma severíssima penúria que houve em Makka, e que os incrédulos atribuíram à presença do Profeta entre eles, e à sua pregação contra os seus deuses. Sendo esta uma surata revelada em Makka, a referida penúria deve ser aquela descrita por Ibn Alkatir como tendo acontecido no 8º ano da Missão, digamos uns quatro anos antes da Hégira; houve também uma penúria após a Hégira, que é citada por Albukhari, mas este é um evento posterior.

1003. Alguns exegetas acham tratar-se, aqui, da batalha de Badr; se assim for este versículo particular seria do período madinense. Contudo, é melhor que o entendamos como se referindo à mesma "adversidade" do versículo anterior, ou aos castigos em geral, os quais os pecadores obstinados se recusam a tomar como admoestações, para que se emendem, em arrependimento, a Deus.

1004. No primeiro exemplo, isto se aplicava ao Mensageiro. A sua subseqüente Hégira de Makka e a queda final da oligarquia maquense provaram amplamente a realização da profecia. Todavia, o significado geral, isso se aplica a todos. É-nos ensinado que o mal será açoitado com um terrível castigo, não apenas na vida futura, mas nesta mesmíssima vida, quando a taça de iniqüidade estiver cheia, e chegar o tempo da punição, no Plano de Deus. Se isso acontecer enquanto nós ainda estivermos na cena desta vida, é-nos dito que oremos, para que não nos encontremos na companhia daqueles que atraem tal punição para si mesmos. Em outras palavras, devemos evitar a associação com os malignos.

1005. Barzakh, em árabe, uma barreira, um obstáculo ou uma partição; o local ou estado em que as pessoas ficarão, após a morte e antes do julgamento (comparar com o versículo 53 da 25ª Surata e com o versículo 20 da 55ª Surata). Atrás deles está a barreira da morte, e na frente, o Barazkh, a divisão, um estado quiescente, até que chegue o julgamento.

1006. A pergunta e a resposta sobre o tempo implicam em duas coisas: (1) a atenção dos ímpios é chamada para o tempo extremamente curto da vida neste mundo, comparado com a eternidade que ora eles encaram; é-lhes feito ver isto, para que se conscientizarem de quão errado estavam, em sua valorização comparativa das coisas espirituais e das materiais; (2) o tempo, como ora o conhecemos, terá passado e parecerá quase nada. É apenas uma questão relativa, para esta vida de provação temporária (comparar com a experiência dos Companheiros da Caverna, no versículo 10 da 28ª Surata).

1007. A Criação de Deus não é destituída de um elevado e sério propósito. Ela não é em vão, ou para mero entretenimento ou mera brincadeira. No que concerne ao homem, as mais altruísticas prescrições estão no seu comportamento desta vida. "A vida é real, a vida é séria, e o túmulo não é a sua meta", como com verdade diz Longfellow. Nós devemos, portanto, buscar seriamente a Verdade de Deus, encorajados pelo fato de que a Verdade de Deus está, também, devido à sua ilimitada misericórdia, procurando-nos, e tentando alcançar-nos.

1008. Não se deve pensar que os exames das ofensas sexuais, ou das pequenas impropriedades que se relacionam com o sexo ou a privacidade, seja assuntos que não afetam a vida espiritual, no mais alto grau. Esses assuntos estão intimamente ligados aos ensinamentos espirituais, tais como os que Deus enviou nesta Surata. A ênfase está no pronome "nós" (oculto): estas coisas não são meramente questões de conveniências; outrossim, Deus nos-las ordenou para a nossa observância na vida.

1009. A palavra Zina inclui a relação sexual entre um homem e uma mulher que não sejam casados um com o outro. Por conseguinte, ela se aplica tanto ao adultério (o que quer dizer que uma ou ambas as partes são casadas com uma pessoa ou pessoas que não aquelas referidas) como à fornicação, o que, em sua estrita significação, implica em que as partes não são casadas. A lei do casamento e do divórcio, no Islam, é simples, para haver o mínimo de tentação quanto à relação sexual fora dos expedientes bem definidos do casamento. Isto colabora para o maior respeito próprio, tanto do homem como da mulher. Outras ofensas sexuais são também puníveis, mas esta seção se aplica estritamente à Zina, acima definida.

1010. A punição deve ser pública, para que seja dissuasiva.

1011. O Islam prescreve a pureza sexual, para o homem e para a mulher, permanentemente - antes do casamento, durante o casamento e após a dissolução do casamento. As práticas culposas ou ilícitas são banidas do círculo matrimonial dos homens castos e das mulheres castas.

1012. A mais séria atenção é voltada para as pessoas que fazem insinuações difamatórias ou escandalosas acerca de mulheres, sem a adequada evidência. Se algo for dito contra a castidade de uma mulher, isso deverá ser apoiado por um evidência duas vezes mais forte do que a requerida em transações comerciais, ou mesmo em casos de assassinato. Com efeito, quatro testemunhas seriam requeridas, em vez de duas. Não havendo essa evidência preponderante, o difamador seria tratado como um transgressor iníquo, e seria punido com oitenta açoites. Não apenas seria sujeito a esta ignominiosa forma de punição, mas ficaria privado dos seus direitos de cidadão de fornecer evidências em todos os assuntos da sua vida, a menos que se arrependesse e se reformasse, podendo, nesse caso, ser readmitido com uma testemunha competente.

1013. A punição por açoites é infligida em qualquer caso de difamação sem base. Porém, a privação do direito cívico do indivíduo de prestar evidências poderá ser cancelada pela subseqüente conduta dele, se ele se arrepender, mostrar que sente o que fez, e jurar que no futuro jamais apoiará a sua afirmação em algo do qual não possua a mais plena evidência.

1014. O caso das pessoas casadas é diferente do dos estranhos. Se uma delas acusar a outra de falta de castidade, a acusação refletirá, em parte, também sobre o acusante. Ademais, o laço que une as pessoas casadas, mesmo quando as diferenças aparecem, com certeza atua como uma firme influência contra a trama das falsas acusações de falta de castidade, particularmente quando o divórcio é permitido (como no Islam), por motivos outros que não a falta de castidade. Suponhamos que um marido apanhe a esposa num ato de adultério; dada a natureza do conhecimento, quatro testemunhas - ou mesmo uma testemunha de fora - seria coisa impossível. O assunto é, então, deixado ao critério dos dois cônjuges. Se o marido puder jurar solenemente quatro vezes sobre o que viu, e, em adição, invocar uma maldição sobre si mesmo, caso esteja mentido, isso constituirá evidência prima facie da culpa da esposa. Porém, se a esposa puder, de igual modo, jurar quatro vezes, e, do mesmo modo, invocar uma maldição sobre si mesma, estará, pela lei, isenta da culpa. Se ela não der este passo, a acusação estará provada, e ela ficará sujeita ao castigo.

1015. O incidente, aqui citado, ocorreu no regresso da expedição Bani Mustalic (5-6 H.). quando a marcha foi ordenada, Aicha não estava em sua tenda, tendo saído para procurar um valioso colar que havia deixado cair. Como a sua liteira era protegida por véus, não foi notado que ela não estava lá dentro, até que o exército fez a próxima parada. Entrementes, vendo que o acampamento havia partido, ela sentou-se, na esperança de que alguém voltasse para a apanhar, quando a sua ausência fosse notada. Era noite, e ela pegou no sono. Na manhã seguinte ela foi encontrada por um migrante, que havia sido inadvertidamente abandonado. Ele a pôs em seu camelo e a levou, dirigindo a pé o animal. Isso proporcionou a oportunidade para que os inimigos suscitassem um malicioso escândalo. O cabeça, "entre tais inimigos", era o chefe dos hipócritas de Madina, Abdulah Ibn Ubai, ao qual se refere a última cláusula deste versículo. Ele foi entregue ao castigo espiritual de um pecador impenitente, tanto que morreu nesse estado.

1016. Foi a misericórdia de Deus que os salvou de muitas conseqüências malignas, tanto nesta vida como na Futura - nesta vida, porque as sábias medidas do Mensageiro cortaram pela raiz qualquer separação incipiente, entre aqueles que lhe eram adjacentes e caros; e, no aspecto espiritual, porque os agentes menores, que espalharam o escândalo, arrependeram-se e foram perdoados. Dúvida alguma ou divisões algumas, nem tampouco desconfiança mútua alguma foi permitido que ficassem em seus corações, depois de o assunto ser esclarecido.

1017. Há três coisas, aqui, que são reprovadas, por foça dos ensinamentos espirituais: se outras pessoas falam palavras más, não há razão para que devais aviltar a vossa língua; se tiverdes um pensamento ou uma suspeita que não sejam baseados no vosso conhecimento certo, não o façais circular, dando-lhes expressão; e outras pessoas poderão achar que seja um assunto de somenos importância falar, de leve, algo que poderia arrasar o caráter ou a reputação de uma pessoa; aos olhos de Deus esse é um assunto sério, em qualquer caso, mas especialmente quando estão envolvidas a honra e reputação de uma mulher de pendores religiosos.

1018. Notemos o refrão que aparece quatro vezes nesta passagem ("E se não fosse pela graça de Deus e pela Sua misericórdia..."). cada vez, a expressão tem uma aplicação diferente: no versículo 10 foi em conexão com a acusação de infidelidade, feita por uns dos cônjuges contra o outro; ambos foram relembrados da misericórdia de Deus, e admoestados quanto à suspeita e à inverdade; no versículo 14 foi dito aos crédulos que se acautelassem quanto aos falsos rumores, senão iriam causar sofrimento e divisão entre si próprios; é a graça de Deus que os mantém unidos. Aqui, uma admoestação para o futuro; pode haver conspirações e ciladas, dispostas pelo Mal, contra as pessoas simples; é a graça de Deus que as protege; no versículo 21 a admoestação geral é dirigida pela a observância da pureza, em ação e em pensamento, concernente à própria pessoa, e concernente a outros; é apenas a graça de Deus que pode manter imaculada essa pureza, pois Ele atende às orações, e sabe de todas as ciladas que são postas no caminho do Bem.

1019. A referência imediata é com relação a Abu Bakr, o pai de Aicha. Ele foi abençoado, tanto com a graça espiritual, vinda de Deus, como com amplíssimos meios, os quais sempre usou a serviço do Islam e dos muçulmanos. Um dos difamadores de Aixha aconteceu ser Mistah, um primo de Abu Bakr, que ele tinha o hábito de sustentar. Naturalmente, Abu Bakr desejava parar com a ajuda, mas, de acordo com os altos padrões da ética muçulmana, foi-lhe pedido que perdoasse e esquecesse o que ele fez, com os mais felizes resultados para a paz e unidade da comunidade muçulmana. Contudo, a aplicação geral contém o bem para todo o sempre. Um benfeitor generoso não deve, em caso de zanga pessoal, retirar o seu apoio, mesmo em faltas sérias, se o delinqüente se arrepende e emenda o seu proceder. Se Deus nos perdoa, quem somos nós para nos recusarmos a perdoar o nossos semelhantes?

1020. As mulheres bondosas são, às vezes, indiscretas, porque não têm maus pensamentos. Todavia, mesmo essa indiscrição inocente põe-nas, e àqueles que lhes são caros, em dificuldades. Tal foi o caso de Aicha, que ficou em extremo sofrimento e desassossego, por todo um mês, por causa das difamações sobre ela. Seu marido e seu pai foram, também, colocados numa situação constrangedora, considerando-se a sua posição, e a grandiosa obra em que estava engajados. Porém, as pessoas sem princípios, que dão início às difamações, e os seus irracionais instrumentos, que ajudam a espalhar tais difamações, são culpados da mais grave ofensa espiritual, acontecendo que o seu maior castigo consiste na privação da graça de Deus, coisa que significa um estado de Maldição.

1021. Quer dizer, se ninguém responder, pode ser que haja alguém na casa que não esteja num estado apresentável. Ou, mesmo que a casa esteja vazia, não tendes direito de entrar, até que obtenhais a permissão do dono, esteja ele onde estiver. O fato de não receberdes uma resposta não vos dá o direito de entrardes sem permissão. Deveis esperar, bater mais duas vezes ou três vezes, e vos retirar, se não for obtida permissão. Se por acaso vos for pedido que vos retireis, uma vez que os moradores não se acham em condições de vos receber, deveis fazê-lo à fortiori, por um certo tempo, ou permanentemente, conforme os moradores desejarem que façais. Mesmo que eles sejam vossos amigos, não tendes o direito de os tomardes de surpresa, ou de entrardes, contra o desejo deles. A vossa própria pureza de vida e de conduta, bem como de motivos, é desta maneira testada.

1022. A regra das moradias é estrita, porquanto a privacidade é preciosa e essencial para uma vida decente, refinada e bem ordenada. Tal regra, certamente, não se aplica às casas usadas para outros propósitos úteis, como uma estalagem, ou uma loja ou um armazém. Contudo, mesmo assim, certamente uma permissão implícita do dono é necessária, por uma questão de bom-senso. A questão, nesta passagem, é a privacidade pessoal, e não a dos direitos de propriedade.

1023. A regra da moderação se aplica tanto aos homens como às mulheres. Um olhar impudente de um homem para uma mulher (ou mesmo para um homem) constitui uma quebra das maneiras refinadas. No que se refere ao sexo, a moderação não apenas constitui uma "boa fórmula", mas é também para resguardar o sexo fraco, e também para salvaguardar o bem espiritual do sexo forte.

1024. A necessidade de moderação é a mesma, tanto para o homem como para a mulher. Todavia, devido à diferenciação dos sexos, dos temperamentos e da vida social, uma maior reserva é requerida da mulher mais do que do homem, especialmente no que diz respeito à vestimenta e ao cobrimento do peito.

1025. Zínat significa tanto a beleza natural como os ornamentos artificiais. Nós achamos que ambos os significados estão implícitos aqui, mas principalmente o primeiro. É pedido à mulher que não faça exposição da sua figura, ou que não apareça semi-despida na frente das pessoas, com exceção de: seu marido; seus parentes que estejam vivendo sob o mesmo teto; suas mulheres, isto é, suas criadas, as quais têm de estar em constante atendimento a ela. Alguns exegetas incluem todas as crédulas; seus criados isentos das necessidades físicas sexuais; adolescentes e criancinhas antes de terem qualquer senso de sexo (comparar com o versículo 59 da 33ª Surata).

1026. Constitui um dos truques de mulheres espetaculosas ou licenciosas o ato de tilintarem os ornamentos dos seus tornozelos, para chamarem a atenção sobre si.

1027. O assunto das éticas sexuais e das boas maneiras leva-nos à questão do casamento. A palavra "celibatários" (ayáma, plural ay-im), aqui, significa qualquer um que não esteja ligado pelos laços do matrimônio, quer solteiro ou licitante divorciado, ou viúvo. Se pudermos, deveremos desposar em nosso próprio círculo; mas se não tivermos os meios, não haverá mal algum se escolhermos alguém de círculos inferiores, contanto que a nossa escolha seja determinada pela virtude. A pobreza quanto a uma das partes não importa, desde que haja virtude e amor. Um homem afortunadamente casado tem maior riqueza numa esposa virtuosa, sendo que sua felicidade fá-lo um ganhador em potencial.

1028. O casamento entre os muçulmanos requer uma espécie de dote para a esposa. Se o homem não dispões disso, deve esperar, e manter-se casto. Não é certo ele dizer que precisa satisfazer os anseios naturais, dentro ou fora do casamento. Deve ser dentro do casamento.

1029. A lei da escravidão, no sentido legal do termo, está agora obsoleta. Enquanto ela possuía um significado, o Islam tornava a sorte dos escravos a mais fácil possível. Um escravo, ou escrava, podia pedir por escrito uma manumissão condicional, fixando a quantia requerida para a mesma, e era permitido ao escravo, ou escrava, nesse meio tempo, ganhar dinheiro por meios lícitos, e talvez casar-se e constituir família. Tal ato não deveria ser recusado, se o pedido fosse genuíno e o escravo tivesse boa reputação. Não apenas isso, mas era prescrito que o amo ou a ama ajudasse com dinheiro do seu próprio bolso, para que capacitasse o escravo ou escrava a ganhar sua própria liberdade.

1030. Quando a escravidão era lícita, o que é agora denominado "tráfico de escravos brancos", era praticado por pessoas iníquas como Abdulah Ibn Ubai, um líder hipócrita de Madina. Isto é absolutamente condenado. Conquanto as modernas nações tenham ordinariamente abolido a escravidão, o "tráfico de escravos brancos" ainda continua a constituir-se num grande problema social em certos Estados. Isso é aqui absolutamente condenado. Não pode haver comercialização mais desprezível do que essa.

1031. As pobres e desafortunadas garotas que forem vítimas desse nefasto comércio encontrarão a misericórdia de Deus, cuja generosidade se estende às mais humildes de Suas criaturas.

1032. A luz material nada mais é do que um reflexo da verdadeira Luz do mundo da Realidade, e essa verdadeira Luz é Deus. Nós apenas podemos imaginar Deus em termos das nossas experiências objetivas; e, no mundo do fenômeno, a luz é a coisa mais pura que conhecemos. Contudo, a luz material tem empecilhos incidentais à sua natureza material; por exemplo, ela depende de alguma fonte exterior; é um fenômeno passageiro; se a tomarmos como uma forma de movimento ou energia; ela é instável, como todos os fenômenos físicos; ela depende de espaço e tempo; ela percorre 300.000 km por segundo, e há estrelas cuja luz demora milhares de anos para chegar à terra. A perfeita Luz de Deus está livre de defeitos.

1033. Os três primeiros tópicos da Parábola centralizam-se em torno dos símbolos do nicho, da luz e da candeia. O nicho constitui-se de uma reentrância rasa na parede de uma casa oriental, a uma boa distância do piso, na qual uma fonte de luz (antes do advento da eletricidade) era costumeiramente colocada. Sua altura permitia a difusão da luz no compartimento, e minimizava as sombras. O fundo da parede e os lados do nicho ajudavam a jogar luz no compartimento; e se a parede fosse caída, ainda agia como um refletor; a abertura, na frente, dava passagem à luz. Assim acontece com a Luz espiritual: ela está colocada bem alto, acima das coisas terrenas; ela tem o seu próprio nicho ou habitação, na Revelação e nos outros Sinais de Deus; a sua aproximação dos homens é feita de uma maneira especial, aberta a todos, todavia fechada para aqueles que recusam os seus raios. A Luz espiritual é o âmago da verdade espiritual, que é a verdadeira iluminação; o nicho nada é sem ela; ele é virtualmente feito ara ela. A candeia é o meio transparente, pelo qual a luz passa. Por um lado, ela protege a luz das mariposas e outras formas de vida inferior (os ínfimos motivos dos homens) e quanto às correntes de vento (paixão); e por outro, ela transmite a luz, através de um meio familiar às substâncias grosseiras da terra. Assim, a Verdade espiritual tem de ser filtrada por meio da linguagem ou da inteligência humanas, para tornar-se inteligível à humanidade.

1034. A candeia, por si só, não brilha. Porém, quando a luz surge dentro dela, ela brilha como uma estrela. Assim, os diletos de Deus, que pregam a Sua Verdade, são, por sua vez, iluminados pela Luz de Deus, e tornam-se um instrumento, através do qual a Luz se difunde, e permeia a vida humana.

1035. A oliveira mística não está sujeita a localidades; não é do Oriente, nem tampouco do Ocidente. É universal, porquanto o é também a Luz de Deus. Aplicando-se à oliveira, há ainda um significado mais literal, que pode ser alegorizado de uma maneira diferente. Uma oliveira à mostra para o Oriente, apanha apenas os raios do sol matutino; uma à mostra para o Ocidente, apenas os raios do sol vespertino. Porém, uma árvore situada numa planície aberta, ou numa colina, obtém um contínuo brilho do sol durante todo o dia; ela será mais madura, e o fruto e o óleo de qualidades superiores. Do mesmo modo, a Luz de Deus não está sujeita a localidades, e não é incompleta; é perfeita e universal.

1036. Isto é, em todos os lugares de puro culto; porém, alguns exegetas compreendem-no como sendo as mesquitas especiais, como a da Caaba, em Makka, ou as mesquitas de Madina e de Jerusalém, porquanto estas são especialmente tidas em grande honra.

1037. A miragem que, nos desertos, é um estranho fenômeno de ilusão. Constitui um engano da nossa visão. Na linguagem de nossa parábola, a nossa visão rejeita a Luz que nos mostra a Verdade, e nos engana com a Falsidade. Um viajante solitário, num deserto, quase a morrer de sede, vê uma grande represa de água; vai naquela direção, cada vez mais atraído pela água, mas nada encontra. E morre, em prolongada agonia.

1038. Que excelente metáfora a das trevas das profundezas do oceano! Onda sobre onda, e, por cima de tudo, densas nuvens escuras! Há pouca luz, mesmo nas profundezas comuns do oceano, sendo que os peixes que aí vivem perdem a visão, por ela se tornar órgão inútil.

1039. Os artistas, ou os amantes da natureza, ou os observadores das nuvens, apreciarão esta descrição dos efeitos nubígenos: finas camadas de nuvens que flutuam com formas fantásticas, juntam-se, e tomam corpo e substância, então aparecem como pesadas nuvens amontoadas, que se condensam e se precipitam, como a chuva. Então, que dizer das pesadas nuvens negras das regiões altíssimas, que trazem o granito - quão distintas e, contudo, quão semelhantes são! São verdadeiras massas! E quando o granizo cai, veja-se como é local o fenômeno! Ele atinge certas localidades e não outras, mesmo estando muito próximas. E os relâmpagos - quão ofuscantemente eles descem das nuvens tempestuosas! Neste Livro da natureza não podemos acaso ver a Mão do poderoso e beneficiente Deus?

1040. Comparar com o versículo 30 da 21ª Surata, e respectiva nota. O protoplasma é a base de toda a matéria vivente, e "a força vital do protoplasma parece depender da presença da água". Os estudos de zoologia são claros neste ponto.

1041. As criaturas rastejantes incluem as minhocas e as formas ínfimas de vida animal, bem como répteis (como as serpentes), centípedes, aranhas, e insetos. Quando essas criaturas têm pernas, elas são pequenas, e a descrição de rastejar ou arrastar-se é mais aplicável do que a de caminhar. Não se pode dizer que os peixes e os animais marinhos caminham; o seu nado é como "rastejar sobre as barrigas". Os animais de dois pés compreendem as aves e o homem. A maioria dos mamíferos caminha sobre quatro patas. Isto inclui todo o mundo animal.

1042. Na Vontade e no Plano de Deus, a variedade de formas e de hábitos, entre os animais, é adaptada aos seus vários modos de vida e de estágios de evolução biológica.

1043. Chegamos, agora, às normas do decoro no seio do círculo familiar e da alta sociedade. Os serviçais e as crianças têm bem mais liberdade de acesso, uma vez que vêm a toda hora, e há menos cerimônia quanto a eles. Contudo, mesmo no caso deles, há restrições. Durante a noite e antes da oração da madrugada, eles devem discretamente pedir permissão para entrar, em parte porque não devem perturbar desnecessariamente as pessoas que dormem, e em parte porque as pessoas podem estar despidas. O mesmo se aplica à sesta do meio-dia, e ainda à hora após a oração da noite, quando costumeiramente as pessoas se despem para dormir. Para os adultos, a norma é mais estrita: eles devem pedir sempre permissão para entrar (ver o versículo 59 desta).

1044. Constitui uma marca de refinamento, para damas e cavalheiros, o não serem relaxados ou vulgarmente informais no vestir, no falar ou na conduta. E o Islam visa fazer de todo muçulmano ou muçulmana, seja quão humilde for em status, dama ou cavalheiro refinado, para que ela ou ele subam a escada do desenvolvimento espiritual com uma humilde confiança em Deus, e com a cooperação dos seus irmãos e irmãs no Islam. Os princípios aqui dispostos se aplicam - mesmo se forem interpretados com a devida elasticidade, mesmo se os hábitos sociais e domésticos mudarem - às mudanças de clima ou de hábitos raciais e pessoais. O meticuloso respeito próprio e o respeito pelos outros, tanto nas coisas pequenas como nas grandes, é a idéia básica nestas simples normas de etiqueta.

1045. Crianças entre vós, isto é, em vossa casa, não necessariamente os vossos filhos. Todos os que estão na casa, incluindo os estranhos, dentro dos seus limites, devem-se conformar com estas normas benéficas.

1046. Seus predecessores; literalmente, aqueles antes deles, ou seja, aqueles que já eram adultos antes que eles chegassem à maioridade. É sugerido que cada geração, à medida que atinja a maioridade, deva seguir as tradições benéficas dos seus predecessores. Enquanto são crianças, comportam-se como crianças; quando crescerem, deverão comportar-se como adultos.

1047. Para as mulheres idosas da casa, as normas do vestir e do decoro não são tão severas como para as jovens; contudo, é-lhes prescrito que exercitem a moderação, já porque isso, por si só, é bom, já porque serve de exemplo para as pessoas jovens.

1048. Havia várias superstições e fantasias árabes, que são combatidas e rejeitadas aqui. Supunha-se que os cegos, ou os coxos, ou os afligidos por sérias enfermidades, fossem alvos do desagrado divino, e, como tais, não devessem conviver com as outras pessoas, compartilhar das suas refeições em suas casas; não devemos alimentar tal pensamento, porquanto não somos juizes das causas dos infortúnios dessas pessoas, as quais merecem a nossa simpatia e benevolência. Se algumas pessoas alimentam a superstição no sentido de que devam sempre comer separadamente, ou que devam sempre comer em companhia, em ambos os casos estão erradas. O homem é livre, e deve regular a sua vida de acordo com as necessidades e circunstâncias.

1049. Um assunto de coletiva; qualquer coisa que afete a Comunidade como um todo. As orações das sextas-feiras e das comemorações religiosas são ocasiões periódicas dessa espécie; mas o que se pretende, aqui, achamos, são as consultas coletivas com vistas aos empreendimentos coletivos tal como o jihad, ou alguma outra espécie de organização de paz.

1050. Ifk, aqui traduzido por "calúnia", deve ser distinguido de zur, no final deste versículo, traduzido por "falsidade". A "impostura", que os inimigos do dileto de Deus lhe atribuíam, no sentido de que o Alcorão, para eles, era lago que na realidade não existia, mas que era inventado pelo Profeta com a ajuda de outras pessoas; a implicação era que, (1) a Revelação não era uma revelação, mas uma invenção, e (2) as coisas reveladas, isto é, as notícias da Vida Futura, a Ressurreição, o julgamento, a bênção dos virtuosos e o sofrimento dos malignos, eram fantasiosas e não tinham base em fatos. A desilusão é também aventada. A resposta é que, longe de ser este o caso, os fatos eram verdadeiros e as acusações, falsas (zour) - e a falsidade era devida aos hábitos de iniqüidade, pelos quais a inteira atitude mental e espiritual dos incrédulos era responsável.

1051. Em sua desordenada arrogância, eles dizem: "Nós já ouvimos tais coisas antes; são contos bonitos, que vêm de tempos remotos; são bons para a diversão, mas quem os pode levar a sério?" Quanto a beleza e o poder da Revelação são apontados, bem como os seus milagres, vindos de um homem inculto, novamente eles citam outros homens que os escrevem, embora não possam apresentar ninguém que posa escrever algo como isto.

1052. A resposta é que o Alcorão ensina o conhecimento espiritual, que é comumente oculto da visão do homem, sendo que tal conhecimento pode tão-somente proceder de Deus, de Quem é conhecido o Mistério de toda a Criação. A despeito do pecado e da fraqueza do homem, Ele perdoa, e envia a Sua mais preciosa dádiva - a Revelação da Sua Vontade.

1053. As imputações que os inimigos do Mensageiro de Deus fizeram a ele recaíram contra aqueles que as fizeram. O Mensageiro foi vingado, e passou de revigoramento a revigoramento, pois a Verdade de Deus sempre prevalece. Os homens que perversamente deixaram o caminho da verdade, da virtude e da sinceridade, não apenas se desencontraram do caminho, mas, devido à sua perversidade, jamais estarão aptos a encontrar o caminho que os leve de volta à Verdade.

1054. No Plano universal de Deus, cada unidade, ou coisa, serve a um propósito. Se alguém é rico, o pobre não deve invejá-lo; pode acontecer que a proximidade do rico constitua um teste para a sua virtude. Se alguém é pobre, o rico virtuoso não deve desprezá-lo nem negligenciá-lo; pode acontecer que o convívio com ele constitua um teste para o verdadeiro sentimento de caridade e de amor fraterno do rico. Se A é temperamental, ou persegue e ilude B, pode acontecer que essa seja uma oportunidade para que B demonstre sua paciência e humildade, ou sua fé na prevalência da justiça e da verdade. Sejam quais forem as nossas experiências como os outros seres humanos, nós devemos fazer com que se promovam as metas do nosso desenvolvimento espiritual, e também, a deles.

1055. As palavras são gerais, e, para nós, o interesse é de sentido geral. Um homem que realmente recebe a Verdade e está no caminho certo, se se desviar desse caminho, por causa das maquinações de um amigo terreno, é mais culpado.

1056. "Meu povo"; trata-se, certamente, dos coraixitas incrédulos. Todavia, eles eram um punhado de pessoas, cujos interesses criados foram tocados pelas beneficentes reformas, iniciadas pelo Islam. Logo eles se foram, e todo o povo que falava ou compreendia árabe considerava o Alcorão como um tesouro de Verdades, expresso na mais bela linguagem possível, com um significado que se aprofundava cada vez mais com a pesquisa.

1057. Os exegetas não são claros quanto a quem eram "os habitantes de Arras". O significado raiz de ras é um velho poço ou um açude raso. Uma outra raiz liga-a ao sepultamento dos mortos. Porém, é, provavelmente, o nome de uma cidade ou região.

1058. Isto se refere à história da destruição de Sodoma e Gomorra, as cidades iníquas da planície que fica próxima ao Mar Morto, causada por uma chuva de enxofre. O local fica na estrada entre a Arábia e a Síria ( compara com os versículos 74 e 76 da 15ª Surata, e respectivas notas).

1059. Na nossa vida artificial, e nos nossos arredores, deixamos de notar os magníficos mistérios da Luz e da Sombra. Nós admiramos, (e merecidamente), as deslumbrantes cores do pôr-do-sol. Nós vemos, particularmente em latitudes mais setentrionais, o sutil jogo de Luz e Sombra no lusco-fusco que sucede ao pôr-do-sol. Se fôssemos assíduos em ver o nascer do sol, e o jogo de Luz e Sombra que o precede, veríamos fenômenos ainda mais impressionantes, uma vez que as manhãzinhas parecem-nos mais sagradas do que qualquer uma das vinte e quatro horas do dia. Há, primeiramente, a falsa madrugada, com a sua curiosa e incerta luz, e com as curiosamente longas e incertas sombras que lança. Então há estrias de negro no Leste, que precedem a verdadeira madrugada, com os seus delicados tons de cores e com luz e sombra. A luz dessa verdadeira (ou falsa) madrugada não é proporcionada pelos raios diretos do sol. Num sentido, não se trata de luz, mas de sombras ou reflexos de luz. E elas gradativamente se mesclam com o virtual nascer do sol, com as suas sombras mais substanciais e mais definidas, a quais podemos, definidamente, relacionar com o sol.

1060. As sombras da madrugada são compridas e mais definidas, e o seu comprimento e a sua direção parecem ser definidos pelo sol. Contudo, eles mudam insensivelmente, a cada segundo ou fração de segundo.

1061. À medida em que o sol se eleva cada vez mais, as sombras se contraem. Nas regiões em que o sol fica literalmente no zênite, ao meio-dia não há sombra. Aonde ela vai? Ela nada mais é do que uma sombra, produzida por uma substância, e foi absorvida pela substância que a produziu. Porém, todas as substâncias materiais nada mais são do que sombras; e a única e verdadeira Realidade é Deus, a Quem todas as coisas retornam. Assim são as sombras, absorvidas pela Realidade auto-suficiente.

1062. As sombras estão em constante estado de fluxo; assim todas as coisas na Criação, todas as coisas que vemos ou cobiçamos nesta vida. Se Deus quisesse, poderia dar a algumas delas grandes fixidade ou comparativa estabilidade. O sol é tão-somente uma sombra da Luz de Deus; contudo, ele ilumina todo o nosso mundo. Assim, o grande Profeta da época derivava a sua luz de Deus, e nós podemos acender as nossas pequenas velas espirituais nele. Ou a Revelação é a luz do sol, e nós podemos acender a nossa vida com ela. Uma vez que a luz do sol é identificada com o sol, que é a fonte da vida, também a Revelação é identificada com o Profeta, por meio do qual ela veio.

1063. Aqui, o simbolismo apresenta um novo ponto de vista. É ainda o contraste entre a Luz e a Sombra; porém, a sombra da Noite é como um manto, que nos cobre e isola, e nos dá repouso da atividade; e a luz do Dia é para a porfia, para o trabalho, para a atividade. Ou, ainda, a Noite é como a morte, a nossa morte temporária antes do Julgamento, o tempo durante o qual os nossos sentidos estão relacionados; e o Dia é como a renovação da vida na Ressurreição.

1064. Comparar com o versículo 57 da 7ª Surata. Os ventos são os arautos do júbilo, trazendo chuva, que é uma das formas da Misericórdia de Deus. O simbolismo, aqui, apresenta um novo ponto de vista. O calor (que está ligado à luz) forma correntes na atmosfera, além de sugar a umidade dos mares, e distribuí-la, por meio dos ventos, por vastas superfícies da terra.

1065. Bahrain: dois mares, ou duas unidades de água corrente; porque bahr é aplicada tanto para o mar salgado como para os rios. No mundo, tomado como um todo, há duas espécies de água, a saber: (1) o grande Oceano salgado, e (2) as unidades de água potável, alimentadas pela chuva, sejam elas rios, lagos ou mananciais subterrâneos; a fonte pluvial dessas unidades fá-las uma, e sua drenagem, quer na superfície, quer subterrânea, se dá eventualmente para o Oceano, fazendo-as também uma. Elas são livres para se misturarem, e, num sentido, elas se misturam, pois existe um ciclo aquátil. Os rios correm constantemente para o mar, e os rios sujeitos a marés recebem água salgada, por vários quilômetros acima dos seus estuários, na maré alta. Contudo, a despeito de tudo isto, as leis da gravidade são como uma barreira ou separação posta por Deus, pela qual os dois corpos de água, como um todo, são mantidos separados e distintos.

1066. A base de toda a matéria vida do mundo material, o protoplasma, é a água. (Comparar com os versículos 45 da 24ª Surata e 30 da 21ª Surata, e respectivas notas).

1067. A água é um fluído, uma coisa instável; contudo, dela advém a mais elevada forma de vida que nos é conhecida neste mundo: o homem. E o homem não apenas possui funções e características dos mais nobres animais, mas suas relações abstratas são ainda típicas da mais elevada natureza. Ele pode traçar linhagem e estirpe, e assim lembrar e solenizar uma longa linha de antepassados, aos quais está ligado por laços de religião, coisa que nenhum outro animal pode fazer. Ademais, há a mística união do casamento; não se trata apenas da união física dos animais, mas isso dá surgimento a relações advindas dos sexos de indivíduos que não estavam relacionados um com o outro. Estes são fatos físicos e sociais. Mas por trás deles está, novamente, a lição simbólica dos contrastes espirituais; assim como há um longo caminho a percorrer entre a água e o homem, de igual maneira há um longo caminho a percorrer entre o homem comum e aqueles que se encontra iluminado pela Luz divina. Quanto aos sexos opostos, embora diferentes quanto a função, são um, e contribuem para a felicidade um do outro, para que as pessoas de talentos diversos possam se unir no mundo espiritual, para o seu próprio e elevado bem e no serviço de Deus.

1068. Eis aqui o maior de todos os contrastes: coisas materiais que são inertes, e Deus, cuja Benevolência e poder são supremos; Crença e Descrença, merecendo bons auspícios e admoestações; egocêntrico, e o dileto de Deus, que trabalha para os outros, sem visar recompensa.

1069. A gloriosa Lâmpada do céu é o Sol; e depois dele está a Lua, que nos dá a Luz que lhe é emprestada. Certamente, as constelações incluem os Signos do Zodíaco, que marcam a trilha dos planetas, nos céus.

1070. Tratando-se de gasto comum, esta é uma norma sábia. Porém, mesmo na caridade, na qual nós damos o melhor de nós, não se espera que sejamos extravagantes, por exemplo que demos por espectaculosidade, ou para impressionar a terceiros, ou que a façamos impensadamente. Em verdade, não devemos ser mesquinhos, mas devemos lembrar-nos dos direitos de cada um, incluindo os nossos, e estabelecer um equilíbrio perfeitamente justo entre eles.

1071. Aqui, três coisas são expressamente condenadas: (1) a adoração dos ídolos, o que constitui um crime contra Deus; (2) tirar a vida de alguém, o que constitui um crime contra os nossos semelhantes; e (3) a fornicação, o que constitui um crime contra o nosso respeito próprio, contra nós mesmos. Todos os crimes são contra Deus, contra as Suas criaturas e contra nós mesmos; mas alguns podem ser visualizados mais em relação a um do que a outro.

1072. Esta é um combinação de três letras abreviadas. Essa abreviação particular aparece aqui, e no começo da 28ª Surata, ao passo que a surata intermediária tem-na já na forma sincopada, Tah Sin. O nosso posicionamento é o de que, desde que tenhamos material, devemos prosseguir na nossa pesquisa, mas não devemos ser dogmáticos em tais assuntos, uma vez que alguns mistérios não podem ser esclarecidos por meio de mera pesquisa.

1073. A parte da história de Moisés, aqui contada, é a de como ele sentia hesitante em empreender a sua missão; de como Deus o fez ficar seguro de si; de como ele foi ter com o Faraó, com os "Sinais"; de como o Faraó e o seu povo o rejeitaram; de como a blasfêmia recaiu sobre eles, e a causa de Deus triunfou. Em outras palavras, o ponto, aqui, é a reação do povo iníquo à Luz que lhes foi enviada, refletindo, em sua relação, a mente do Mensageiro de Deus.

1074. Indo mais além, o Faraó lembra a Moisés que este matara o egípcio, e o insulta: "Tu não apenas és um assassino; és um infeliz ingrato (usando novamente a palavra Káfir num sentido duplo), por teres morto uma pessoa da raça que te criou!".

1075. Comparar com os versículos 107-108 da 7ª surata; ver toda a passagem, bem como as notas.

1076. No versículo 109 da 7ª surata, são os chefes que dizem isto. O fato é que houve uma consulta geral, e este foi o sentido geral, expresso em palavras de uns para os outros.

1077. Um dia assinalado; um solene dia de festa (ver o versículo 59 da 20ª Surata). O objetivo era reunir o maior número possível de pessoas. Era confiantemente esperado que os feiticeiros egípcios, com toda a sua organização, vencessem, com os seus truques, aqueles amadores israelitas, para que o culto estatal da adoração ao Faraó pudesse ser, mais firmemente do que nunca, atado aos pescoços das pessoas.

1078. O resto da história - das pragas do Egito - é já passado, não sendo pertinente ao presente argumento. Chegamos agora à história dos israelitas deixando o Egito, perseguidos pelo Faraó. Aqui, novamente, há três contrastes: (1) a cega arrogância dos egípcios, contra o desenvolvimento do Plano de Deus: (2) a Fé de Moisés, em contraposição aos temores de seu povo; e (3) a libertação final da semente da virtude, em contraposição à destruição da força bruta.

1079. Em deferência à autoridade quase unânime, traduzimos esta passagem (versículos 58-60), como se fosse uma afirmação parentética do propósito de Deus. Pessoalmente, preferimos outra construção. De acordo com isso, os versículos 58-59 farão parte da proclamação do Faraó: "Nós destituímos os israelitas de tudo quanto é bom na terra, e os tornamos nossos escravos." E somente o versículo 60 será parentético: "Pobres ignorantes! Vós podeis oprimir àqueles que são indefesos; porém, Nós (ou seja, Deus) temos decretado que eles herdarão todas essas coisas", como certamente o fizeram (por certo tempo), na Terra da Promissão, a Palestina.

1080. Para o argumento desta surata, os incidentes da vida de Abraão em nada são relevantes, e não são mencionados. O que é mencionado é: (1) a maneira pela qual ele ensinou acerca do pecado do falso culto, na forma de diálogo; (2) a meta do virtuoso, não apenas em sua vida individual, mas também para com os seus antepassados e a sua descendência, na forma de oração; e (3) o quadro do Julgamento Futuro, na forma de visão. O tópico (1) é coberto pelos versículos 70-82; o (2) pelos versículos 83-87 e o (3) pelos versículos 88-102.

1081. Comparar com o versículo 50 da 19ª Surata. A passagem, na íntegra, sobre Abraão, ali, pode ser comparada com esta passagem.

1082. Agora temos uma visão do Dia do Julgamento. Nada valerá então, a não ser um coração puro; todas as espécies dos decantos "bons feitos" deste mundo, sem intenções de pureza, serão inúteis. O contraste entre o Jardim das Bênçãos e o Fogo da Miséria estará patentemente visível. O Mal será mostrado em suas verdadeiras cores - isolado, impotente, amaldiçoador e desesperado; e todas as chances terão sido, então, perdidas.

1083. Esta aparente ansiedade por uma chance de regresso é desonesta. Se fossem mandados de volta, com certeza voltariam aos seus maus propósitos (versículos 27-28 da 6ª Surata). Ademais, eles tiveram inúmeras chances, ainda nesta vida, e as usaram para engodos ou para o mal.

1084. A geração de Noé havia perdido toda a fé, e havia-se dado ao mal. Rejeitara as mensagens dos mensageiros anteriormente enviados ao mundo. Noé foi enviado a eles como um deles ("seu irmão"). Sua vida foi aberta perante eles; ele provou ser puro de coração e de conduta reta (tal qual o Mensageiro da Arábia, que apareceu muito tempo depois), e digno de toda a confiança. Iriam eles temer a Deus, e seguir o seu conselho? Eles podiam ver que ele não tinha interesses próprios a servir. Não iriam eles ouvi-lo?

1085. Amin = aquele a quem um voto de confiança é dado, com vários matizes de significado implícitos, por exemplo, (1) digno de confiança; (2) afeito a fazer valer tal confiança, e, como profeta, afeito a proclamar a sua Mensagem; (3) afeito a agir inteiramente de acordo com a confiança, e, como profeta, afeito a proclamar tão-somente a Mensagem de Deus, e a não lhe adicionar algo da sua própria cabeça; e (4) afeito a não procurar satisfazer qualquer interesse próprio.

1086. Quanto aos outros casos, parece-nos tratar-se dos profetas de Deus que foram ameaçados de morte por apedrejamento: um deles foi Abraão (versículo 46 da 19ª Surata), e o outro foi Xuaib (versículo 91 da 11ª Surata). Em nenhum dos casos as ameaçados impediram de dar prosseguimento às suas missões. Pelo contrário, as ameaças recaíram sobre aqueles que os ameaçaram. Assim também aconteceu no caso de Noé e do Profeta do Islam.

1087. A história do Dilúvio de Noé é contada nos versículos 36-48 da 11ª Surata. Aqui, o ponto a destacar é a paciência de Noé quanto às ameaças, ao triunfo e à preservação da Verdade de Deus, muito embora o mundo estivesse agrupado contra isso.

1088. Este versículo e o seguinte são um refrão no decorrer desta surata, e proporcionam a idéia básica para o tema: como a Mensagem de Deus é pregada, como é rejeitada em todas as eras, e como triunfa no fim, por meio da Misericórdia de Deus. (Ver os versículos 8-9, 68-69, 102-104, 121-122, 139-140, 158-159, 174-175, e 190-191 desta Surata).

1089. Ver a nota do versículo 65 da 7ª Surata, quanto aos povo de Ad e a sua localização. Aqui, o destaque é para o fato de que eles eram uns materialistas que acreditavam na força bruta, e se sentiam seguros nas suas fortalezas, com os seus recursos, mas se encontraram bem impotentes quando a Mensagem de Deus chegou e eles a rejeitaram.

1090. Quanto ao povo de Tamud, ver a nota do versículo 73 da 7ª Surata. Eram magníficos construtores em cantaria, e tinham riqueza agrícola, mas era um povo exclusivista que oprimia os pobres. O ponto posto em destaque, aqui, é: "Por quanto tempo durará a vossa riqueza, especialmente quando reprimis o vosso povo, e desonrais os Sinais de Deus, por meio do sacrilégio?"

1091. A tamareira floresce em uma longa espata; quando as flores se transformam em frutos, os mais pesados se dependuram num cacho curvado. O povo de Tamud, evidentemente, era orgulhoso da sua perícia em produzir cereais e frutos, e em esculpir finas moradias nas rochas, como as moradias do tempo dos romanos, na cidade de Petra.

1092. A história de Lot será encontrada nos versículos 80-84 da 7ª Surata e respectivas notas. O ponto a destacar, aqui, é que o povo das Cidades da Planície era desavergonhadamente dado a vícios contrários à natureza; e a admoestação de Lot apenas exasperou os seus membros, resultando que eles foram destruídos por uma chuva de enxofre.

1093. Quanto a Xuaib, ver a nota do versículo 85 da 7ª Surata.

1094. Eles eram um povo comerciante, mas eram dados à fraude, à injustiça e à ação nociva (intrometendo-se nos assuntos dos outros). É-lhes pedido que temam a Deus, e que Lhe sigam os caminhos; foi Ele Que criou também os seus predecessores, entre a humanidade, os quais jamais prosperaram por meio da fraude e dos desmandos violentos, mas tão-somente pela justiça e pelo trato justo.

1095. Tendo sido mencionada a recepção hostil de que foram vítimas os Mensageiros anteriores, as características especiais do Alcorão são, então, mencionadas, para mostrar: (1) que isto é a verdade; e (2) que a rejeição a isto, feita pelos idólatras de Makka, foi uma amostra da experiência anterior na história do homem; os interesses criados resistem à Verdade, mas ela prevalece.

1096. Ruh-ul-amin, o epíteto de Gabriel, o anjo que veio com a inspirada Mensagem do Profeta, é difícil de se reproduzir, na tradução, em um simples epíteto. Na nota do versículo 107 desta surata, nós descrevemos alguns dos vários matizes de significado, relacionados com o adjetivo Amim, aplicado ao Profeta. Uma significação mais sólida, ligada ao Espírito da Inspiração, é que ele é a própria quinta essência da Fé e da Verdade, ao contrário dos espíritos mentirosos que iludem os homens com a falsidade. No todo, achamos que "o Espírito Fiel" representaria melhor o original.

1097. Calb (Coração) significa não apenas a sede dos sentimentos, mas também a sede da memória e da compreensão. O processo da inspiração é indicado pela impressão da Mensagem divina no coração, na memória e na compreensão da pessoa inspirada, da qual foi promulgada para o mundo na fala humana. Neste caso a fala humana foi a perspícua língua árabe, que poderia ser plenamente inteligível para o público imediatamente capaz de ouvi-la e transmiti-la ao mundo.

1098. Chegada a vez da Arábia receber a Revelação de Deus, como havia sido vaticinado nas Revelações anteriores, era inevitável que fosse em língua árabe e por meio da boca de um árabe. Doutra sorte, ela seria ininteligível e os árabes não poderiam ter recebido a Fé e se tornado os veículos para a sua promulgação, como realmente aconteceu na história.

1099. Quando algo de extraordinário acontece, há sempre pessoas desejosas de atribuir a esse algo o que de pior existe, dizendo que é obra dos malignos, dos demônios. Assim, quando o Alcorão chegou com a sua Mensagem, em maravilhoso árabe, os inimigos dele tão-somente puderam dar-se contra do seu poder, atribuindo-o a espíritos malignos! Tal mensagem benéfica jamais pode satisfazer os propósitos dos malévolos, nem tampouco está ao alcance deles produzi-la. Com efeito, o Bem e o Mal são pólos opostos, e o Mal nem sequer pode ouvir palavras de Bem, de terna piedade para os pecadores, e de perdão para os penitentes!

1100. Literalmente, o ato de ficar em pé e a prostração são posturas da oração muçulmana; o Profeta era franco, sincero e zeloso quanto à doação, tanto para si mesmo, como para o seu povo. Todavia, há uma significação mais ampla. As posturas, na oração, são simbolismos das atitudes da mente e, em geral, do comportamento na vida; e os "movimentos" podem referir-se, também, às várias vicissitudes, nas quais a alma do homem é provada e testada, assim como o corpo é exercitado ao ficar de pé, ao se curvar, ao se ajoelhar e ao se prostrar, na oração. O comportamento do Profeta era exemplar em todas as instâncias, conquanto os tolos possam sofismar; sua pureza e retidão são plenamente conhecidas por Deus.

1101. A poesia e as belas-artes recomendadas são aquelas emanadas de mentes arraigadas na Fé, que tentam exprimir os sentimentos refinados em sues trabalhos artísticos, e têm como meta a glória de Deus, e não a auto-glorificação ou a total louvação do homem feito de barro, e tampouco (como o Jihad) a nada atacam, exceto ao mal agressivo. Neste sentido, um perfeito artista seria um perfeito homem, especialmente daquele que deseja tornar-se um artista supremo, não apenas em técnica, mas também em espírito e essência. Entre os recomendados poetas contemporâneos do Profeta podem ser mencionados Bassan e Labid; este último teve a honra de ser um sete que tiveram os seus poemas selecionados para serem expostos na Caaba (Al Mualakat), nos Dias da Idolatria.

1102. Ver a nota do versículo 1 da 26ª Surata.

1103. Comparar com os versículos 9-24 da 20ª Surata. Tanto lá como aqui há uma referência ao nascimentos da Revelação no coração de Moisés. Os pontos ali postos em destaque serão encontrados nas notas daquela passagem. Aqui, o destaque é quanto à maravilhosa natureza do Fogo, e à maravilhosa maneira pela qual Moisés foi transformado, pelo toque da Luz espiritual. Ele estava viajando pelo deserto, no Sinai, com a sua família. Buscando a luz comum, ele se deparou com uma Luz que o levou aos mais intrincados mistérios de Deus. Sem dúvida alguma, sua história pessoal havia-o preparado para o seu destino. É a história pessoal que importa, e não o local em que o homem está ou a posição que ocupa, aos olhos dos seus companheiros comuns.

1104. Comparar com o versículo 22 da 20ª Surata. Aí a expressão é: "Junta a mão ao teu flanco". Tanto quanto o ato físico é envolvido, as expressões, lá e aqui, significam a mesma coisa. Moisés tinham um manto folgado. Se ele pusesse a mão entre as suas dobras, ela iria ao seu peito, ao lado oposto do qual havia saído; por exemplo, se se tratasse da mão direita, ela iria ter do lado esquerdo do seu peito. A mão sai branca e radiante, imaculada. Costumeiramente, se a pele se torna branca, isso é sinal de enfermidade ou de lepra. Aqui acontece o oposto. Aquilo era sinal de fulgor e da glória da mais consistente Luz.

1105. Para "os nove sinais", ver a nota do versículo 133 da 7ª Surata.

1106. A "sabedoria", quer dizer aquele conhecimento que leva às coisas altruísticas da vida, a sabedoria que foi mostrada em suas decisões e julgamentos, e a compreensão que os capacitou a cumprirem a sua missão na vida. Ambos eram justos e mensageiros de Deus. Quanto a Salomão, também, conquanto seja descrito como um glorioso rei, há histórias da sua propensão para o pecado e para a idolatria. Os ensinamentos muçulmanos consideram ambos como homens religiosos e de sabedoria, e altamente dotados de conhecimento espiritual.

1107. A linguagem dos pássaros. A palavra, na linguagem humana, é diferente dos meios de comunicação que os pássaros e os animais têm entre si. No entanto, ninguém pode duvidar de que eles tenham os seus meios de comunicação, se se observar o ordenado vôo das aves, o comportamento das formigas, das abelhas, e de outras criaturas que vivem em comunidades. A sabedoria de Salomão e de outros como ele (ele fala na 1ª pessoa do plural) consistia em compreender estas coisas - do mundo animal e dos limites inferiores da inteligência humana.

1108. Este versículo e o seguinte, lidos juntos, sugerem o significado simbólico como predominante. A formiga, na aparência exterior, é uma criatura humílima. Na grande pompa e nas circunstâncias deste mundo, ela pode ser negligenciada, ou mesmo pisoteada, por pessoas que não lhe desejam mal. Contudo, devido à sua sabedoria, ela continua a desenvolver a sua própria vida, dentro da sua própria esfera ("habitações"), sem ser molestada, e constitui-se numa valiosa contribuição para a economia mundial. Assim, há lugar para as pessoas mais humildes no mundo espiritual.

1109. Em contrapartida à posição da humilde formiga, está a posição de um grande rei como Salomão. Ele ora para que o seu poder e a sua sabedoria e todos os outros dotes sejam usados em prol da virtude, e para o benefício de todos ao seu redor. Ocupando a formiga os seus pensamentos, podemos supor que ele não deseja, principalmente em sua oração, pisotear desavisadamente seres humildes, nas suas preocupações com as grandes coisas do mundo.

1110. Sabá pode, razoavelmente, ser identificada com a Sabá bíblica (Reis I, 10:1-10). Esse nome é mais bem desenvolvido na surata que leva o seu nome (34ª Surata, versículos 15-20). Tratava-se de uma cidade, no Iêmen que se dizia ficava a três dias de viagem (digamos 80 km) da cidade de Saná. Um explorador alemão, o Dr. Hans Helfritz, diz tê-la localizado onde agora é o Hadramaut. A famosa represa de Maarib tornou o país muito próspero, e fez com que atingisse um alto grau de civilização ("provida de tudo", no versículo seguinte). A rainha de Sabá, portanto, com propriedade tinha a cabeça levantava, até que contemplou as glórias de Salomão.

1111. A Rainha de Sabá (de nome Bilquis, na tradição árabe) veio, aparentemente, do Iêmen, mas tinha afinidades com os abissínios, e, provavelmente também os governava. A tribo Habacha (de onde a Abissínia tirou o nome) viera do Iêmen. Entre a costa meridional do Iêmen e a costa nordeste da Abissínia, há somente o Estreito de Bab-al-Mandab, não chegando a 32 km de comprimento. No século X ou XI a.C. houve freqüentes invasões da Abissínia, provenientes da Arábia, sendo que o reinado de 40 anos de Salomão é costumeiramente sincronizado com os anos 992-952 a.C. Os alfabetos sabino e himiarita, nos quais encontramos inscrições pré-islâmicas árabes, passaram para o etíope, a língua da Abissínia. Os abissínios possuem uma tradicional história, intitulada "O Livro da Glória dos Reis" (Kebra Nagast). Ele versa sobre a Rainha de Sabá e seu único filho, Menielek I, como fundadores da dinastia abissínia.

1112. A antiga religião do povo de Sabá (himiarita ou sabina) consistia na adoração dos corpos celestes - sol, planetas e atros. Provavelmente, o culto tinha conexão com o da Caldéia, a terra natal de Abraão. O Iêmen tinha acesso à Mesopotâmia e ao Golfo Pérsico por via marítima, bem como à Abissínia. Isso serve também para os cristãos de Najran e para a dinastia judaica de reis (por exemplo, Du-Nawas)ano 524 d.C.), que perseguiu os cristãos, um século antes do Islam - serve ainda para o Governador cristão abissínio Abraha, e seu desbaratamento, no ano do nascimento do Profeta (105ª Surata), ou seja no ano 570 d.C. As influências judaica e cristã eram poderosas na Arábia, no século VI da era cristã. A religião desses sabeanos (em árabe, escrita com a letra Sin) não deve ser confundida com a dos sabeus (com a letra Sad), para os quais, ver a nota do versículo 62 da 2ª Surata.

1113. O falso culto dos sabeus é, aqui, exposto de três maneiras: (1) eles se envaideciam com as suas aquisições humanas, em vez de procurar por Deus; (1) a luz dos corpos celestes, que eles adoravam, era dependente da verdadeira Luz de Deus, que se estende pelo céu e pela terra, o Criador deve ser adorado, e não a Sua Criação; e (3) Deus conhece os segredos ocultos das mentes dos homens, bem como os objetos que abertamente dizem professar; não seria o caso de os falsos adoradores adorarem a si próprios, ou "aos pecados em que pensam", e estarem temerosos de recorrer a Deus, Que de tudo sabe?

1114. O mensageiro (a Poupa); trata-se de uma ave dócil, como deve ser um mensageiro de Salomão. Após mencionar o falso culto dos sabeus, ele pronuncia o Credo da Unidade, e dá ênfase aos atributos de Deus como o Senhor do Trono da Suprema Glória, a fim de tornar claro que, seja qual for a magnificência de um trono humano, como o que ele havia descrito, de maneira alguma é desviado de sua lealdade para com Salomão, expoente máximo da verdadeira Religião da Unidade.

1115. As características da Rainha Bilquis, reveladas aqui, são as de uma governante que desfrutava de grande riqueza e dignidade, e da plena confiança de seus súditos. Ela nada faz sem consultar do seu Conselho, e este está sempre pronto a fazer valer as ordens dela em todas as coisas. Sua gente é viril, leal e contente, e pronta a sair a campo contra qualquer inimigo do seu país. Porém, sua rainha é prudente em matéria de política, e não está disposta a envolver seu país numa guerra. Ela tem discernimento suficiente para ver que Salomão não é como esses reis comuns que conquistam pela violência. Talvez, em seu coração, ela possua já um raio da luz divina, embora o seu povo seja ainda pagão. Ela deseja que o seu povo participe em tudo quanto faz, porque ela é leal a ele, como ele é leal a ela. Uma troca de presentes, provavelmente estabeleceria melhores relações entre os dois reinos. Talvez ela também antecipasse algum entendimento espiritual, uma esperança que foi mais tarde realizada. Em Bilquis nós temos o retrato da mulher gentil, prudente, e capaz de pôr um freio nas paixões selvagens dos seus súditos.

1116. O significado simbólico leva-nos a um estágio mais vantajoso. Mas primeiro tomemos a história literal. Bilquis, tendo sido recebida, em sua chegada, com honraria, e tendo aceito a transformação do seu trono, presumivelmente colocado num edifício fora do palácio, é solicitada a entrar no próprio palácio. O piso do grande palácio era feito de quadrados de vidro liso e polido, que brilhavam como água. Ela pensou tratar-se realmente de água, e levantou a saia para atravessá-la, mostrando os seus pés descalços, até à altura dos tornozelos. Esse ato era pouco dignificante para a mulher, especialmente uma que era rainha. Salomão imediatamente a esclareceu quanto ao erro que cometera, e lhe contou do que se tratava, ao que ela ficou grata, e se juntou a Salomão na louvação de Deus.

1117. A história de Lot é contada em outro lugar. As passagens, cuja referência pode ser feita aqui, são: versículos 160-175 da 26ª Surata e 80-84 da 7ª Surata. Porém, o ponto em destaque, aqui, é que o crime das cidades da planície foi contra a sua própria natureza, sendo que eles lhe viram a enormidade, e, contudo, saciaram-se nele. Pode, acaso, a degradação tomar corpo? A esposa dele aparentemente, não era crente. Sua anterior simpatia para com o povo pecador "destinou-a"(ver o versículo 57 adiante) a um fim miserável, uma vez que ficou para trás e compartilhou da destruição dos seus familiares.

1118. Fazer uma simples semente germinar e crescer, até se tornar uma árvore, está além do poder do homem. Tratando-se de um magnífico e bem ordenado jardim, de beleza e deleite, ninguém pensaria que ele cresceu por si mesmo, sem a consumada perícia de jardineiro. E um pomar representa mais do que as árvores que nele se encontram; há desígnio e beleza em seu arranjo; espaços adequados são deixados entre elas, para a penetração do ar e da luz do sol entre os seus galhos. Como pode qualquer um deles pensar no maravilhoso Universo, sem pensar na elevada Unidade de Desígnios, a evidência do Único e Verdadeiro Deus?

1119. Comparar com o versículo 15 da 16ª Surata, e respectiva nota. A terra firme, a água corrente, e o ciclo da circulação da água - mar, vapor, nuvens, chuva, rio e novamente mar -, apresentam um único e contudo distinto obstáculo, como uma espécie de barreira entre a água salgada e a água potável; pode o homem ver tudo isto e ainda ignorar Deus?

1120. Comparar com o versículo 53 da 25ª Surata, e respectiva nota.

1121. Comparar com o versículo 165 da 6ª Surata, e respectiva nota.

1122. Comparar com o versículo 34 da 10ª Surata, e respectiva nota.

1123. Os judeus tinham inúmeras seitas. Algumas estavam completamente fora do âmbito deles, como por exemplo, a dos samaritanos, que tinham um Taurat separado: eles odiavam os outros judeus, e eram por eles odiados. Mas, mesmo dentro do porco ortodoxo havia várias seitas, dentre as quais as seguintes podem ser mencionadas: (1) os fariseus, que eram literalistas, formalistas e fatalistas, e tinham uma vasta gama de literatura tradicional, com a qual revestiam a Lei de Moisés; (2) os saduceus, que eram racionalistas, e pareciam pôr em dúvida a doutrina da Ressurreição e da Vida Futura; (3) os essênios, que praticavam uma espécie de comunismo e asceticismo, e proibiam o casamento. Quanto a muitas de suas doutrinas, eles tinham disputas acirradas, as quais foram harmonizadas pelo Alcorão, que suplementou e aperfeiçoou a Lei de Moisés. Ele também explicou claramente a natureza de Deus e a Revelação, bem como a doutrina da Vida Futura.

1124. O Animal constituir-se-á num dos Sinais dos Últimos Dias, que virá antes de o presente Mundo se acabar e de o novo Mundo surgir. Na linguagem simbólica, isso representaria um grosseiro materialismo. Esse Animal seria a incorporação do triunfo terreno, que se identificaria com o mundo desvirtuado e degenerado, porque esse mundo não teve uma fé segura nos Sinais de Deus ou na Luz espiritual. Será, por si só, um Sinal ou Portento, que fechará a porta ao arrependimento. Nós não sabemos se esse Animal é qualquer referência ao simbolismo do capítulo 12 do Apocalipse, que finaliza o Novo Testamento. Se a palavra taklimuhum for lida em vez de tukallimuhum, isso significa que o Animal os ferirá; simbolicamente, isso significa que o materialismo produza a sua própria Nêmesis.

1125. O Senhor desta Metrópole; isto foi dito em Makka, digamos, por volta de 5ºano da Hégira, quando o Profeta e os seus adeptos estavam sendo perseguidos como inimigos do culto ali efetuados. Bem longe de se colocarem contra o verdadeiro espírito da sagrada cidade de Makka, estavam realmente a colocar-se em apoio a esse espírito, o qual havia sido revestido das idolatrias e abominações dos coraixitas pagãos. É-lhes dito que o novo Ensinamento provém do Próprio Senhor de Makka, o Único e Verdadeiro Deus, o Qual havia santificado a cidade, no tempo de Abraão. Para que eles não pensassem que se tratava de um culto local ou tribal ou de âmbito restrito, é adicionado que Ele não apenas é Senhor dessa Cidade, mas o Senhor do Universo, "a Ele tudo pertence". Trata-se de uma Mensagem universal; mas quão triste seria se os maquenses, a quem ela chegou primeiro, a rejeitassem!

1126. O dever do Mensageiro e dos seus adeptos era, principalmente, o de aceitarem o Islam, e se tornarem brilhantes exemplos da graça e da misericórdia de Deus, como de fato eram, e, segundo lugar, pregarem a Mensagem, e espalharem a Luz, por todos à sua volta. A Mensagem não deveria ser impingida sobre as pessoas de má vontade; porque qualquer um que a rejeitasse, causaria a sua própria perda espiritual. Contudo, ele deveria claramente preveni-las das conseqüências.

1127. Poucos anos depois disso, muitas coisas maravilhosas aconteceram, as quais dirimiram as dúvidas dos que duvidaram, e confirmaram a fé dos crentes. Elas mostraram que a lógica dos eventos provou a verdadeira missão do Mensageiro. Outras coisas aconteceram, mas algumas mentes não estão aptas a aprender. Porém a lógica dos eventos aí está, para quem quiser ver.

1128. Ver a nota do versículo 1 da 26ª Surata.

1129. Haman era, evidentemente, ministro do Faraó; não deve ser confundido com o Haman que é mencionado no Antigo Testamento (Ester 3:1), ministro de Assuero, rei da Pérsia, o mesmo que invadiu a Grécia, e governou de 485 a.C. a 464 a.C.

1130. As parteiras egípcias tinham ordens para matar os bebês israelitas. Moisés foi salvo delas, e sua mãe o amamentou. Mas quando o perigo da descoberta era iminente, ela o pôs numa cesta, e fê-lo flutuar no Rio Nilo. A cesta flutuou até perto do palácio do rei, e a cesta com a criança foi apanhada, como é relatado a seguir. A mãe, depois, não teve motivos para temer ou se entristecer, pois o menino cresceu sob ternos cuidados, e tornou-se, mais tarde, um dos mensageiros de Deus.

1131. Por idade adulta pode ser entendida a juventude madura, digamos, entre 18 e os 30 anos de idade. Por essa ocasião, a pessoa já se encontra firmemente estabelecida na vida; sua constituição física está completa, e seus hábitos mentais e morais estão formados. Neste caso, como Moisés era bom de coração, veraz e leal para com o seu povo, e obediente e justo para com aqueles com quem vivia, foi-lhe concedido do alto conhecimento e sabedoria, para serem usados nos tempos de conflito que lhe haviam de chegar. Estando o seu desenvolvimento interno completo, ele então sai para o mundo exterior, e novamente é posto à prova, até que obtém o seu divino comissionamento.

1132. Isso tanto pode ter sido na hora de sesta do meio-dia, quando todos os afazeres são suspensos (mesmo agora, no Egito), ou à noite, quando as pessoas usualmente estão dormindo. A última hipótese é mais provável, de acordo com o versículo 18, adiante, porém, há outra alternativa. Um convidado ao palácio não livre para circular à vontade nas seções plebéias da cidade a todas as horas, e isso se aplica ainda mais a um habitante do Palácio, criado como filho. Moisés, portanto, estava a visitar a Cidade, em segredo, despistando os guardas. Seu objetivo talvez tivesse sido o de ir ver, por si mesmo, como as coisas estavam indo; talvez ele tivesse ouvido dizer que seu povo estava sendo oprimido, uma vez que, supõe-se, mantinha contato com a sua mãe.

1133. A leste do Baixo Egito, a cerca de 482 km, fica a Península do Sinai, limitada, ao sul, pelo Golfo de Suez, e ao norte, pelo que era o Istmo de Suez, agora cortado pelo Canal do mesmo nome. Sobre o Istmo fica a rodovia para a Palestina e para a Síria; o fugitivo não poderia, comodamente, tomar essa estrada, uma vez que os egípcios estavam no seu encalço. Se ele pudesse, estaria em território madianita, onde as pessoas seriam árabes, e não egípcias. Ele foi para lá, e novamente orou a Deus pedindo uma orientação.

1134. A primeira coisa que um errante do deserto procuraria seria um oásis onde pudesse obter água, de um manancial ou poço, à sobra das árvores, para se abrigar do sol escaldante, e a companhia de algum ser humano. A aguada dos madianitas era, provavelmente, um poço fundo, uma vez que os mananciais de superfície são raros nos desertos arenosos, onde o nível das águas é baixo, a menos que haja um monte, de onde flua um regato.

1135. As moças se foram, com sorrisos nos lábios e gratidão em seus corações. Quais foram as reflexões de Moisés, conforme voltava para a sombra da árvore? Ele voltou a dar graças a Deus pela brilhante e rápida visão que tivera. Havia ele procedido bem? Preciosa fora a oportunidade que tivera. Havia aplacado a sede. Porém era um errante sem lar, e tinha uma ansiedade em sua alma que não se atrevia a pôr em palavras. Aqueles pastores não constituíam companhia para ele. Em verdade, ele se encontrava como um mendigo em desesperada necessidade. Por qualquer pequena coisa boa que cruzasse seu caminho ele estaria grato. Mas, que era aquilo? - aquela visão de uma casa confortável, presidida por um velho rico em rebanhos, e mais rico ainda pelas duas filhas, tão recatadas quanto belas? Talvez ele jamais as visse novamente! Porém, a Providência estava preparando uma outra surpresa para ele.

1136. Ele quase nem chegara a descansar, quando uma das donzelas voltou, caminhando com modesta graça! Timidamente, ela deu a sua mensagem: "Meu pai está agradecido pelo que tu fizeste por nós. Ele te convida à nossa casa, para que possa agradecer-te pessoalmente, e, pelo menos, dar-te alguma retribuição pela tua bondade."

1137. Nada poderia ter sido mais bem-vindo do que tal mensagem, e por intermédio de tal "mensageiro". Moisés certamente foi, e viu o velho. Encontrou um bem ordenado lar patriarcal. O ancião estava feliz com as suas filhas, e elas com ele. Havia confiança mútua. Evidentemente elas haviam descrito o estranho de tal modo que garantiram boas-vindas. Por outro lado, Moisés havia dado asas à sua imaginação, no sentido de pintar o pai com algo de cores gloriosas, em cuja pintura as filhas apareciam junto a ele como uma visão angelical. Os dois homens tornar-se-iam logo amigos. Moisés contou ao ancião a sua história - quem ele era, como fora criado, e a forma desafortunada como tivera deixado o Egito. Talvez a família inteira, incluindo as filhas, tivesse ficado a ouvir atentamente a sua narrativa. Talvez o seu pasmo e a sua admiração estivessem mesclados com uma certa dose de compaixão. De qualquer modo, o estranho ganhara um lugar em seus corações. O ancião, o cabeça da casa, assegurou-lhe, com a sua hospitalidade, segurança sob o seu teto.

1138. Passou-se um pouco de tempo, e, por fim, o pai aventou o assunto do casamento. O fugitivo não deveria sugerir um laço permanente, especialmente quando, na riqueza deste mundo, a família da moça era superior, tendo uma posição estabilizada, ao passo que ele era um mero errante. O pai pediu que, caso ele se casasse com uma das suas filhas, ficasse com eles pelo por menos oito anos ou, se ele quisesse, dez, ficando o termo mais longo à sua vontade. Já que ele não trazia dote algum, seus serviços, durante esses anos, seriam mais do que suficientes para substituir o dote. A particular garota pretendida estava, sem dúvida, tácita e previamente escolhida pela própria atração mútua entre os jovens corações. Moisés ficou contente com a proposta, e a aceitou. Eles ratificaram o noivado da maneira mais solene, invocando o nome de Deus. O ancião, sabendo da valia do seu genro, solenemente lhe assegurou que de maneira alguma tiraria vantagem da sua posição, ou insistiria em nada contrário aos interesses de Moisés, caso um novo futuro se abrisse para ele. E um novo e glorioso futuro estava a esperar por ele, após o seu aprendizado.

1139. Nas sociedades patriarcais não é incomum depararmos com casamentos acondicionados a certos termos de serviços. Neste caso, o episódio fornece duas lições: (1) um homem destinado a ser um mensageiro de Deus é, sobretudo, um homem, e deve passar pelos altos e baixos da vida, como qualquer outro; apenas ele o faz com mais graça e distinção do que os outros homens; (2) as magníficas relações, no amor e no casamento, podem, por si só, constituir-se numa preparação para o elevado destino espiritual que aguarda o Mensageiro de Deus. Uma mulher não precisa, necessariamente, ser uma armadilha e uma tentação: ela pode ser a companheira compreensiva e auxiliadora, coisa que a Senhora Khadija foi para o Mensageiro do Islam.

1140. Devemos supor a aparição de um facho, que queimava mas não se consumia (Êxodo, 3:2), um emblema, adotado pela Igreja Escocesa na sua heráldica armorial. A Escócia, aparentemente, tomou esses emblema e lema (Nec tamen consumebalur - "não obstante não foi consumido") do Sínodo da Igreja Reformada da França, que os adotara em 1583. A verdadeira explicação do Facho Ardente será encontrada no versículo 8 da 27ª Surata, e respectivas notas; não se tratava de fogo, mas do reflexo da Glória de Deus.

1141. Literalmente, "recolhe as tuas asas para junto de ti, (para longe) do medo". Quando a ave está assustava, abre as asas e se prepara para voar; porém, quando ela se acalma e se recompõe, repousa com as asas recolhidas, demonstrando uma mente segura quanto ao perigo.

1142. Após a destruição da tirania faraônica e de outras tiranias similares, antes dela, Deus começou uma nova era de Revelação, a era de Moisés e de seu livro. A humanidade começou novamente, por assim dizer, do princípio. Tratou-se de uma plena Revelação (ou Chariat), para a qual se pode olhar, partindo de três pontos de vista: (1) como uma luz ou introspecção para os homens, para não tatearem na escuridão; (2) como um Guia, para lhes mostrar o Caminho, a fim de que não sejam conduzidos pela Senda errada; e (3) como uma Misericórdia de Deus, para que, seguindo o Caminho, eles recebam o Seu Perdão e a Sua Graça. No versículo 91 da 6ª Surata, temos uma referência à Luz e à Diretriz com relação à Revelação de Moisés, e no versículo 154 da mesma surata temos uma referência à Diretriz e à Misericórdia, na mesma conexão. Aqui, os três pontos são combinados, com a substituição de Basir por Nur. Basir é o plural de Basirat, e pode também ser traduzido por provas, como fizemos no versículo 104 da 6ª Surata.

1143. A Península do Sinai fica no quadrante noroeste da Arábia. Mas a referência, aqui, achamos, é ao lado ocidental do vale de Túwa. O Monte Tur, onde Moisés recebeu a sua missão profética, fica do lado ocidental do vale.

1144. Houve cristãos e judeus que reconheceram que o Islam constituía um desenvolvimento lógico e natural da Revelação de Deus, a qual foi propiciada às eras anteriores, e não apenas deram bom acolhimento e aceitaram o Islam, mas afirmavam, com justeza, que sempre haviam sido muçulmanos. Nesse sentido, Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus, todos haviam sido muçulmanos.

1145. A ocasião imediata, para isso, foi a morte de Abu Tálib, um tio do Mensageiro, que ele amava ternamente, e que o havia ajudado e protegido. Naturalmente, o Mensageiro desejava ansiosamente que ele acabasse os seus dias na profissão da verdadeira Fé, mas os líderes pagãos coraixitas persuadiram-no a permanecer firme na fé de seus pais. Foi uma ocasião de desapontamento e pesar para o Mensageiro. É-nos dito que, em tais circunstâncias, não devemos desesperar. Nem todos os que amamos compartilham, necessariamente, dos nossos pontos de vista ou das nossas crenças.

1146. Alguns coraixitas diziam: "Nós vemos a verdade do Islam; mas se abandonarmos o nosso povo, perderemos a autoridade sobre a nossa terra, e outro povo nos absorverá". A resposta é dupla; uma é literal e a outra é da mais profunda importância; (1) "Vossa terra? Qual, o santuário de Makka é sagrado e seguro porque Deus assim o tornou. Se obedecerdes à Palavra de Deus, sereis revigorados, e não enfraquecidos."; (2) "Makka é símbolo da Fortaleza do Bem-estar Espiritual. Os frutos de todos os Feitos aparecem ou deveriam aparecer como um tributo ao Bem-estar Espiritual. E que tendes medo? Trata-se da Fortaleza de Deus. Quanto mais buscardes, tanto mais fortes ficareis, nessa Fortaleza."

1147. No versículo 71 foi mencionado o "prolongamento da noite", para o qual a faculdade da "compreensão" era apropriada, uma vez que toda a luz fora retirada. Neste versículo, o prolongamento do dia é mencionado, para o qual a faculdade da "visão" é apropriada. Através de muitas portas, o elevado conhecimento pode adentrar nossas almas. Acaso não poderíamos usar cada uma delas, conforme exigisse a ocasião?

1148. Carun é identificado como o Coré da Bíblia, em português. Sua história é contada em Números 16:1-35. Ele e seus seguidores, perfazendo um total de 250 homens, levantaram-se em rebelião contra Moisés e Aarão, reivindicando que sua posição e fama na congregação os punham em pé de igualdade com os sacerdotes, em assuntos espirituais; diziam ser tão santos como qualquer outro, e queriam queimar incenso no Altar sagrado reservado aos sacerdotes. Tiveram uma punição em regra: "E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, assim como a todos os homens que pertenciam a Coré, e todos os seus bens. E eles, e tudo o que era seu, desceram ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram, em meio à congregação.

1149. A riqueza ilimitada de Carun é descrita no Midrach, ou as compilações baseadas nos ensinamentos orais das Sinagogas, os quais, contudo, exageram no peso das chaves, ou seja, o equivalente à carga de 300 mulas!

1150. Usbat: uma corporação de homens, aqui usada indefinidamente. Usualmente significa uma corporação de 10 a 40 homens. As obsoletas chaves eram grandes e pesadas, e, se haviam centenas de cofres, elas deveriam perfazer um grande peso. Como eles estivessem viajando pelo deserto, os tesouros foram presumivelmente deixados no Egito, e somente as chaves estavam sendo carregadas. O desleal Carun havia deixado o seu coração no Egito, juntamente com os seus tesouros.

1151. Repatriará: a ocasião em que seremos restituídos para a Presença do nosso Senhor. Diz-se que este versículo foi revelado em Juhfa, na estrada de Makka para Madina, a uma curta distância de Makka, na viagem da Hégira. O Profeta estava triste de coração, e isso lhe foi dado como um consolo. Se essa fosse uma ocasião particular, o significado geral referir-se-ia à repatriação, por ocasião da Ressurreição, quando todos os valores serão restaurados, conquanto possam ser perturbados pela interferência temporária do mal nesta vida.

1152. Isto sumaria a lição de toda a Surata. A única Realidade Eterna é Deus. Todo o mundo dos fenômenos está sujeito a fluxos e mudanças, e passará, mas Ele perdurará para todo o sempre. Se pensarmos em um Deus impessoal, uma força abstrata do bem, não poderemos reconciliá-la com o Ser ou Entidade vital, do qual nós percebemos tênue eco ou reflexo, nos momentos mais íntimos da nossa exaltação espiritual. Ficamos sabendo, então, que o que nós chamamos de nosso ser não tem significado algum, pois há apenas um Ser verdadeiro, e esse é Deus.

1153. Para as letras abreviadas, ver anota do versículo 1 da 2ª Surata. É-nos pedido que ponhamos em contraste, em nossa vida presente, a real vida interior com a vida exterior, que tiremos lições do passado acerca das porfias da alma que se apega à verdade de Deus, contra a ambiência do mal, que lhe resiste, e que voltemos os nossos pensamentos para o Maad, ou o destino futuro do homem, na Vida Futura.

1154. O verbo "distinguir" é aqui usado mais no sentido de testar, do que no aquilotar o conhecimento. Deus é Onisapiente; Ele não precisa de teste algum para aumentar o Seu conhecimento; contudo, o teste é para queimar a escória que há em nós.

1155. Comparar com o versículo 56 da 9ª Surata e com outras passagens, onde a astúcia dos hipócritas é exposta. O homem que na adversidade vira as costas à Fé, e apenas diz ser amigo dos fiéis quando há algo a ser lucrado, é passível de uma dupla condenação: primeiramente, por ter rejeitado a Fé e a Verdade, e em segundo lugar por ter falsamente pretendido ser um daqueles que ele temia ou odiava, de coração. Mas nada, na criação, fica oculto de Deus.

1156. A história de Noé e do Dilúvio não é contada aqui. É contada em outros lugares (11:25-48). Há apenas uma referência aqui, para apontar que a vida de Noé durou um longo tempo: 950 anos (comparar com Gênesis 9:28-29, que declara que a sua vida durou 950 anos, dos quais 350 foram vividos após o Dilúvio). A despeito da sua longa vida, os seus contemporâneos não o ouviram, e foram destruídos. Porém a história da Arca permanece como símbolo permanente de escarmento para a humanidade - um sinal de livramento para os virtuosos e de destruição, para os iníquos.

1157. A história de Abraão tem sido contada em várias fases, em diferentes passagens. As mais ligadas à presente passagem são: versículos 51-72 da 21ª Surata (o ato de ele ser tirado dentro do fogo, e deste ser salvo), e 41-49 da 19ª Surata (seu exílio, voluntário, do lar dos seus pais). Aqui a história não é contada, mas é mencionada, a fim de reforçar os seguintes pontos: (1) o povo de Abraão somente respondia à pregação com a ameaça de queimá-lo vivo (versículos 16-18 e 24 desta Surata); (2) o mal desposa o mal, mas terá um rude despertar (versículo 25 desta Surata); (3) os bons aderem aos bons, e são abençoados (versículos 26-27 desta Surata). Note-se que o comentário da passagem dos versículos 19-23 desta surata é parentético, embora alguns exegetas considerem uma parcela dele como parte do discurso de Abraão.

1158. Percorrei a terra; outra vez, tanto literal como simbolicamente. Se viajarmos por esta extensa terra, veremos as coisas maravilhosas da Sua Criação - o Grand Canyon e as Cataratas do Niágara, na América; os maravilhosos portos como o de Sidney, na Austrália; a Baía de Guanabara, no Brasil; montanhas, como a Fujiyama, o Himalaia e Elbruz, na Ásia; o Nilo, com as suas maravilhosas cataratas, na África; o Rio Amazonas; os fiordes da Noruega, as geleiras da Islândia; a cidade do sol da meia-noite, em Tromso, e incontáveis maravilhas, em todo os lugares. E maravilhas sobre maravilhas são descobertas na constituição da própria matéria, o átomo, e a força da energia, como também nos instintos dos animais, e nas mentes e capacidades dos homens. E não há limites para estas coisas. Mundos e mais mundos são criados e transformados a cada momento, dentro, e presumivelmente, fora do campo de visão do homem. A partir do que conhecemos, podemos julgar o que não conhecemos.

1159. Lot era sobrinho de Abraão. Ele aderiu aos ensinamentos e à fé de Abraão, e aceitou o exílio voluntário, com ele, pois Abraão deixara o lar de seus pais na Caldéia, e migrara para a Síria e Palestina, onde Deus lhe deu um aumento em prosperidade, e uma numerosa família, a qual ergueu a bandeira da Unidade e da Luz de Deus.

1160. Isaac era filho de Abraão, e Jacó, seu neto; e entre a sua progênie esteve incluído Ismael, o filho mais velho de Abraão. Cada um destes tornou-se uma fonte de Profecia e da Revelação - Isaac e Jacó, através de Moisés, e Ismael, através do Profeta Mohammad.

1161. Eles infestavam as estradas e cometiam os seus crimes horríveis, não apenas secreta, mas aberta e publicamente, mesmo em suas assembléias. Alguns exegetas compreendem que "impedindo assim a continuação" se refira aos assaltos de estradas; isto é possível, e é também possível que os crimes praticados em suas assembléias fossem a injustiça, violência etc.. Mas o contexto refere-se em especial aos seus crimes horrendos, e o ponto parece ser que eles não se envergonhavam daquilo, e o praticavam publicamente. A degradação não poderia continuar.

1162. Esta parte da história deve ser lida detalhadamente, nos versículos 77-83 da 11ª Surata.

1163. O castigo constituiu-se de uma chuva de enxofre, que abrangeu completamente as cidades, possivelmente acompanhada de um terremoto e de uma erupção vulcânica (ver o versículo 82 da 11ª Surata).

1164. Todo o trato do território do lado leste do Mar Morto ( onde as cidades estavam situadas) é coberto com sais sulfúricos, que são mortíferos para animais e plantas. O próprio Mar Morto é chamado, em árabe, Bahr Lut (o Mar de Lot). Trata-se de uma cena de tremenda desolação, que deveria ser tomada como um símbolo de destruição que espera todo pecado.

1165. A história dos povos de Xuaib e de Madian apenas entra em referência, aqui. Ela é contada nos versículos 84-95 da 11ª Surata. Seus pecados costumeiros eram a fraude e a imoralidade comercial. Sua punição constituiu-se de uma poderosa explosão, como as que acompanham as erupções vulcânicas. O ponto de referência, aqui, é que eles continuavam a fazer corrupção na terra, sem jamais pensar no Maad, ou na Vida Futura, que é o tema particular desta Surata. O mesmo ponto entra em breves referências nos dois versículos que se seguem, acerca de Ad, Samud, Carun, o Faraó e Haman, embora o pecado costumeiro, em cada caso, fosse diferente. Os madianitas formavam um povo de comerciantes que comerciavam de terra em terra; suas fraudes são descritas como espalhando "a corrupção na terra".

1166. Para o povo de Ad, ver os versículos 65-72 da 7ª Surata, e respectivas notas; e para o de Tamud, os 73-79 da 7ª Surata, e respectiva nota. Os remanescentes de seus edifícios que mostram que (1) tinham grande inteligência e habilidade; (2) seus construtores estavam orgulhosos da sua civilização material; (3) sua destruição mostra que as maiores civilizações e os recursos materiais não podem salvar um povo que desobedece à lei moral de Deus.

1167. Quanto a Carun, ver os versículos 76-82 da 28ª Surata; o Faraó é freqüentemente mencionado no Alcorão, mas é também mencionado em associação com Haman, no versículo 6 da 28ª Surata. Eles pensavam ser muito donos de si, mas chegaram a um triste fim.

1168. A casa da aranha é um dos maravilhosos sinais da criação de Deus. Ela é feita de finíssimos fios que saem das glândulas do corpo da aranha. Há muitas espécies de aranhas e muitas espécies de casas de aranhas. Os principais tipos de casas devem ser mencionados. Há um ninho tubular, ou teia, uma casa ou toca forrada de seda, com uma ou duas portas-armadilhas. Isto pode ser chamado de residência, ou mansão familiar. Há, então, o que é comumente denominado teia de aranha, que consiste de um ponto central com fios radiais concêntricos e quase circulares, que formam o corpo da teia. Este é o seu pavilhão de caça. A estrutura inteira dá exemplo de economia de tempo, de material e de desprendimento de energia. Se um inseto cair na rede, a vibração que se processa nos finos radiais logo avisa a aranha, que vem, e mata a sua presa. No caso de a presa ser poderosa, a aranha é provida de glândulas venenosas, com as quais liquida a presa. A aranha tanto descansa no centro da teia, como se esconde na parte de baixo de uma folha, ou dentro de alguma greta, mas sempre dispõe de uma linha que a liga à teia, que a mantém em comunicação. A fêmea da aranha é bem maior que o macho, e em árabe o gênero de ankabut é feminino.

1169. A maior parte dos fatos da nota anterior pode ser lida com a Parábola. Dada a espessura, os fios da teia de aranha são muito fortes, do ponto de vista da relatividade; mas, no nosso mundo, são muito frágeis, especialmente os fios de teia de aranha que flutuam no ar. Assim é também a casa do homem que confia em recursos materiais, conquanto finíssimos ou relativamente belos; perante a Realidade eterna eles nada são.

1170. A enunciação do Alcorão implica em: (1) ensaiá-lo ou recitá-lo, e publicá-lo no exterior, para o mundo; (2) lermo-lo para nós mesmos; (3) estudá-lo e compreendê-lo, como deve ser estudado e compreendido (versículo 121 da 2ª Surata); meditarmos sobre ele, para harmonizarmos o nosso conhecimento, a nossa vida e os nossos desejos, segundo ele. Isso resulta na verdadeira oração, e esta nos purga de tudo (ação, plano, pensamento, intenção, palavras) que nos possa causar vergonha, ou que poderia resultar em injustiça para os outros.

1171. Os judeus cristãos sinceros encontraram no Profeta do Islam o preenchimento da sua própria religião. Quanto aos nomes de alguns judeus que reconheceram e abraçaram o Islam, ver anota do versículo 197 da 26ª Surata. Entre os cristãos, também, a Fé, aos poucos, ganhou terreno. Diversos embaixadores foram enviados pelo Profeta, no 6º e 7º anos da Hégira, para todos os principais países ao redor da Arábia, a saber, a capital do Império Bizantino (Constantinopla), a capital do Império Persa (Madáin), a capital Sassânida, conhecida no Ocidente pelo nome grego de Ctesphon (cerca de 480 km ao sul da moderna Bagdá), para a Síria, Abissínia e o Egito. Todos esses países (exceto a Pérsia) eram cristãos. Na mesma conexão, um embaixador foi também enviado para Yamama, a própria Arábia (a leste do Hijaz), onde a tribo dos Bani Hanifa era cristã, assim como a tribo Haris, do Najran, que voluntariamente enviou um embaixador a Madina. Todos esses países, exceto a Abissínia, finalmente tornaram-se muçulmanos, sendo que a própria Abissínia (Etiópia) tem agora uma considerável população muçulmana, e enviou convertidos muçulmanos para Madina, no tempo do Profeta.

1172. O Profeta do Islam não era um homem culto. Antes de o Alcorão lhe ser revelado, ele jamais disse ser um Mensageiro de Deus. Ele não tinha o hábito de pregar eloqüentes verdades, como as tiradas de livros, antes de receber a sua Revelação, nem tampouco era capaz de escrever ou transcrever com as suas próprias mãos. Se ele tivesse tido essa dádiva terrena, haveria alguma plausibilidade nas acusações dos faladores, de que falava, não por inspiração, mas baseado nos livros de outros povos, ou de que ele mesmo havia composto os magníficos versículos do Alcorão, e os havia guardado de memória, para que os recitasse para o povo. As circunstâncias em que o Alcorão chegou prestam o seu próprio testemunho da sua autenticidade em proceder de Deus.

1173. "Conhecimento" tanto significa poder de julgamento, ao discernir o valor da verdade, como a familiarização com as revelações anteriores. Isso implica em introspecção literária e espiritual. Para os homens assim dotados, as revelações e os Sinais de Deus são evidentes. Eles se recomendam aos seus corações, às suas mentes e aos entendimentos, coisa que é evidenciada, em árabe, pela palavra sadr, "peito".

1174. Não há desculpa para que ninguém diga que não pôde fazer o bem, ou que foi forçado a fazer o mal, por causa das circunstâncias e da ambiência, ou pelo fato de que viveu em tempos malignos. Devemos evitar o mal e procurar o bem, porque a Criação de Deus é suficientemente ampla, bastando somente que tenhamos a vontade, a paciência e a constância para fazê-lo. Pode ocorrer que tenhamos de mudar de aldeia, de cidade ou de país; ou que tenhamos de nos afastar dos nossos vizinhos ou dos nossos associados; ou tenhamos de mudar os nossos hábitos ou o nosso tempo disponível, nossa posição na vida, ou as nossas relações humanas, ou as nossas tendências. A nossa integridade, perante Deus, é mais importante do que essas coisas, e devemos estar preparados para o exílio (ou Hijrat), em todos esses sentidos. Porque os meios com os quais Deus nos dota, para os colocarmos ao Seu serviço, são amplos, e, se falharmos, será nossa culpa.

1175. Comparar com os versículos 185 da 3ª Surata e 35 da 21ª Surata, e respectivas notas. A morte é a separação da alma, quando o corpo perece. Nós não devemos temer a morte, porque ela tão-somente nos leva de volta a Deus. As várias espécies de hijrat ou exílio, físico ou espiritual, mencionadas na nota anterior, são também, num sentido, modos de morte; que há, então, a temer?

1176. Se atentarmos para a criação animal, vemos que muitas criaturas parecem quase impossibilitadas de encontrar o seu próprio alimento ou de sustentar a sua vida plena, cercadas que estão por muitos inimigos. Contudo, no Plano de Deus, elas encontram todo o sustento e toda a proteção. Tal qual o homem. As necessidades do homem - bem como o desamparo - são de muitas maneiras maiores. Deus ouve os pedidos e as súplicas de todas as Suas criaturas, e sabe de todas as suas necessidades, e provê a subsistência de todas elas. Portanto, o homem não deveria hesitar em suportar o exílio ou a perseguição pela Causa de Deus.

1177. Comparar com os versículos 81-89 da 23ª Surata. "Eles", em ambas as passagens, refere-se à espécie de homens inconsistentes que estão conscientes do poder de Deus, mas são levados, por falsas noções, à desobediência à Lei de Deus e ao desrespeito pela Sua Mensagem.

1178. Comparar com o versículo 29 da 7ª Surata, onde nós fizemos uma pequena mudança na frase em português, de acordo com o contexto. Foi mostrado, no versículo anterior, que a vida neste mundo é fugidia, e que a verdadeira vida - aquela que conta - é a vida futura. Contrastando com essa realidade patente, mostra-se agora a visão estreita da insensatez do homem. Quando ele enfrenta os perigos físicos do mar, que nada são além de um incidente deste mundo fenomenal, ele real e sinceramente procura a ajuda de Deus; mas quando está a salvo, de volta à terra firme, esquece-se das Realidades, volta aos prazeres e às vaidades de fenômenos fugidios, e sua devoção, que deveria ser exclusivamente dedicada a Deus, é repartida entre ídolos e futilidades da sua própria imaginação.

1179. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

1180. O Império Romano perdeu a maior parte do território asiático, e foi encurralado por todos os lados, na sua capital, Constantinopla. "Em terra muito próxima" deve referir-se à Síria e à Palestina. Jerusalém foi perdida nos anos 614-15, um pouco antes de esta surata ser revelada.

1181. Os coraixitas pagãos de Makka regozijaram-se com a queda de Roma, causada pela Pérsia. Eles eram pró-Pérsia, e esperavam que o nascente movimento do Islam - que naquele tempo, de um ponto de vista terreno, era fraquíssimo e indefeso -, entrasse em colapso com a perseguição deles. Porém, eles não souberam ler os verdadeiros Sinais dos tempos. É-lhes dito que logo iriam desiludir-se em todos os seus cálculos, e isso realmente aconteceu na batalha de Isso, no ano 622 (o ano da Hégira), e em 624, quando Heráclitos desenvolveu a sua campanha no coração da Pérsia, e os coraixitas de Makka foram batidos na batalha de Badr.

1182. A batalha de Badr (ano 2H. = 624 d.C.) foi uma verdadeira época de regozijo para os fiéis, e uma época de desilusão para os arrogantes coraixitas, os quais pensavam que poderiam esmagar todo o movimento islâmico em Madina, como haviam tentado fazer em Makka, mas foram visivelmente repelidos.

1183. Que nenhuma geração pense que é melhor do que as que a precederam. Talvez nós sejamos "herdeiros de todas as eras, os arquivos primordiais do tempo". Isso não é motivo para arrogância, mas, pelo contrário, é adicionado à nossa responsabilidade. Quando pensamos em quantas cidades e quantos reinos florescentes existiram antes, em como eles floresceram, em número e prosperidade, em lei de Deus, nós temos um senso de humildade, e vemos que foi a rebeldia e a vontade própria que os derrubaram. Deus foi mais do que justo. Foi também misericordioso. Eles é que causaram a sua própria ruína.

1184. As horas especiais para a recordação de Deus são então descritas, incluindo todas as nossas atividades na vida - quando nos levantamos pela manhã, quando vamos dormir à noite; quando estamos em pleno trabalho, com o sol a pino, e no declínio do sol, à tardezinha. Note-se que estes são estágios notáveis da passagem do sol pelo nosso dia terrestre, bem como estágios importantes da nossa vida de trabalho diário. Nisto estão baseados os horários das cinco orações canônicas, mais tarde prescritas em Madina: (1) oração da madrugada, antes do nascer do sol (Fajr); (2) quando o dia começa a declinar, logo depois do meio-dia (Duhr); (3) à tarde, digamos, a meio caminho entre o meio-dia e o pôr-do-sol (Asr); (4) a oração da tardezinha, logo depois do pôr-do-sol (Magrib); e (5) a oração da noite, quando toda claridade do dia já sumiu, sendo a hora indicada para o repouso e o sono (Ichá); (comparar com os versículos 114 da 11ª Surata, e respectiva nota, versículos 78-79 da 17ª Surata, e respectiva nota, versículos 130 da 20ª Surata, e respectiva nota).

1185. Comparar com o versículo 31 da 10ª Surata. De matérias inertes, a ação criadora de Deus produz vida e matérias viventes, sabendo-se que nem a ciência ainda foi capaz de explicar o mistério da vida. A vida e a matéria vivente; outra vez, parecem atingir a maturidade e novamente morrer, como constatamos todos os dia. Nenhuma coisa material parece ter vida eterna. Porém, constantemente nós vemos o processo criador de Deus em ação, e o ciclo da vida e da morte parece ter continuidade.

1186. Comparar com o versículo 164 da 2ª Surata. A própria terra, aparentemente tão inerte, produz a vida vegetal com uma simples precipitação de chuva, e de várias maneiras sustenta a vida animal. Normalmente, ela parece morrer no inverno, nos climas frios, e com a seca, em outros lugares; mas vem a primavera, e ela revive com toda a sua glória. Metaforicamente falando, muitos movimentos, sempre sob a maravilhosa dispensação de Deus. Assim também a nossa personalidade será ressuscitada quando aparentemente tivermos morrido nesta terra, a fim de colhermos os frutos da nossa vida de provações.

1187. Comparar com o versículo 37 da 18ª Surata, e respectiva nota. A despeito da origem inferior do corpo do homem, Deus lhe deu uma mente e uma alma, com as quais ele pode quase alcançar o mais longínquo limite do Tempo e do Espaço. Não é isto suficiente para evidenciar um milagre ou Sinal? Partindo de um ponto de vista físico, vejamos como o homem, uma criatura feita do pó, se dissemina pelos mais longínquos quadrantes da terra!

1188. Isto se refere ao maravilhoso mistério do sexo. As crianças nascem da união dos sexos. E é sempre o sexo feminino que dá à luz os rebentos, quer sejam meninas ou meninos. E também o pai é tão necessário quanto a mãe, para o nascimento das filhas ou dos filhos.

1189. As variações de linguagem e de cores podem ser visualizadas partindo do aspecto geográfico, ou aspecto dos períodos de tempo. Toda a humanidade foi criada de um único par de pais; contudo, ela se espalhou por diferentes países e climas, e desenvolveu diferentes línguas e diferentes matizes da tez. Mesmo assim, a sua unidade básica permaneceu inalterada. Os humanos sentem todos da mesma maneira, e são todos iguais, sob os cuidados de Deus. Há, contudo, as variações de tempo. Velhas línguas morrem, e outras evoluem. Novas condições de vida e de pensamento estão constantemente proporcionando o aparecimento de novas palavras e expressões, novas estruturas sintáticas, e novos modos de pronúncia. Mesmo os velhos povos morrem, e novos povos nascem.

1190. Do versículo 20 ao versículo 25, é mencionada uma série de Sinais e Milagres que deveriam despertar as nossas almas, e nos levar à verdadeira Realidade, se quiséssemos compreender Deus: (1) há a nossa origem e o nosso destino, os quais devem necessariamente ser o nosso ponto de partida subjetivo; "eu penso, logo existo"; nenhum esforço particular da nossa parte, é aqui requerido (versículo 20); (2) o começo da vida social vem por meio do sexo e do amor; para compreendermos isto em sues princípios, devemos "refletir" (versículo 21); (3) o próximo ponto é entendermos as nossas diferenças de fala, cor etc., provenientes das diferenças de clima e de condições exteriores; todavia, há a unidade em meio a essa diversificação, da qual nos conscientizamos por meio do conhecimento extensivo (versículo 22); (4) depois, nos voltamos para as nossas condições psicológicas: sono, descanso, visões, introspecção etc., aqui nós precisamos de ensinamento e diretriz, para o que devemos prestar atenção (versículo 23); (5) então, devemos nos acercar das elevadas esferas das esperanças e dos temores espirituais, simbolizados pelas forças sutis da natureza, como o relâmpago e a eletricidade, os quais podem, no seu rastro, acabar com a tolice ou trazer prosperidade, por causa da chuva e da colheita abundante; para compreender as mais elevadas esferas das esperanças e dos temores espirituais, assim simbolizados, nós precisamos da mais alta sabedoria (versículo 24); (6) e, por fim, talvez seremos de tal modo transformados, que estaremos acima de todas as coisas terrenas, insignificantes e efêmeras; Deus nos chamará e nós nos levantaremos; então, nenhum processo humano contará, porquanto o próprio Chamamento de Deus terá chegado (versículo 25-27).

1191. Ver a nota anterior, item (5). Comparar com o versículo 12 da 18ª Surata. Para os covardes, o relâmpago e o trovão aparentam ser forças terríveis da natureza; o relâmpago lembra a morte e a destruição, onde a sua irresistível incidência não é obstruída por pára-raios. Porém, o relâmpago é também o arauto das nuvens impregnadas de chuva, e de aguaceiros que, em seu rastro, trazem a fertilidade e a prosperidade. Este duplo aspecto é também um símbolo de temores e esperanças espirituais - temores de não sermos receptivos ou dignos da irresistível e perspícua Mensagem de Deus, e esperanças de que a recebamos no espírito correto, e que sejamos abençoados por sua força vigorosa de transformação a fim de que alcancemos o bem-estar espiritual. Note-se que a repetição da frase "vivifica a terra, depois de haver sido árida" liga este versículo ao 19, acima; em outras palavras, a Revelação, que devemos receber com sabedoria e compreensão, é um Sinal do próprio poder e da misericórdia de Deus, e é concedido para salvaguardar o nosso Futuro final.

1192. No mundo físico, o céu e a terra, como os vemos, não estão apoiados em nada, isso por causa do artesanato de Deus. Eles prestam testemunho de Deus; a terra por sua produção, e o céu pela chuva, pelo calor do sol, e por outros fenômenos da natureza - trazem às nossas mentes a nossa relação com Deus, Que os fez e Que nos fez. Como, então, podemos ser tão duros, a ponto de não nos conscientizarmos de que o nosso elevado Futuro - o nosso Maad - está ligado ao chamamento e à misericórdia de Deus?

1193. Saído da mão criadora de Deus, o homem é inocente, puro, veraz, livre, inclinado à retidão e à virtude, e dotado da verdadeira compreensão quanto à sua posição no universo, e quanto à bondade, à sabedoria e ao poder de Deus. Essa é a sua verdadeira natureza, assim como é da natureza do cordeiro ser manso, e do cavalo, ser veloz. Porém, o homem é apanhado pelas malhas dos costumes, das superstições, dos desejos egoísticos e dos falsos ensinamentos. Isto tudo torna-o beligerante, impuro, falso, desejoso daquilo que é errado ou proibido, e desviado do amor para com os seus semelhantes, e da pura adoração ao Único e Verdadeiro Deus. O problema com que se deparam os mentores espirituais consiste em curarem essas anomalias, e restaurarem a natureza humana no que ela deveria ser, segundo a Vontade de Deus.

1194. No versículo 36 da 9ª Surata, traduzimos Din-cai-i-im por "cômputo exato". Aqui o significado é mais amplo, uma vez que inclui a vida, os pensamentos e os desejos do homem. A "verdadeira religião", ou o verdadeiro caminho, é contrastado desse modo com vários sistemas humanos, que entram em conflito uns com os outros, e se denominam "religiões" ou "seitas" separadas (ver o versículo 32, adiante). A verdadeira Religião de Deus é uma, uma vez que Deus é Um.

1195. A "contrição" não quer dizer hábito de penitente, ou assumirmos um pessimismo taciturno. Quer dizer trocarmos a morbidez pela disposição, a aberração (que é normal) pelo Caminho Reto; quer dizer a restauração da nossa natureza, como Deus a criou, tirando-a da falsidade introduzida pelos engodos do Mal.

1196. Uma boa descrição do sectarismo vaidoso, contrário à verdadeira Religião.

1197. Riba é qualquer aumento, obtido através de meios ilegais, tais como usura, suborno, logro, tráfico fraudulento etc.. Ver os versículos 275-277 da 2ª Surata, e respectivas notas. Todas as obtenções ilícitas de riqueza, às expensas de outras pessoas, são condenadas. O egoísmo econômico, e muitas das práticas ríspidas, individuais, nacionais e internacionais, estão incluídas neste banimento. O princípio é o de que qualquer lucro que devamos procurar deverá ser através do nosso esforço próprio e às nossas expensas, não por meio de explorarmos outras pessoas, e às suas expensas, não importando o quanto nos enrolemos no processo da fraseologia da alta finança ou do jargão citadino. Porém, é-nos pedido que passemos além desse preceito negativo de evitarmos o que é errado. Devemos mostrar o nosso amor ativo para com o nosso próximo, gastando a nossa própria substância ou recurso, ou lançando mão da utilização dos nossos talentos e nossas oportunidades, a serviço daqueles que deles necessitam. Então, a nossa recompensa não será meramente o que merecermos; ela será multiplicada muitas vezes mais do que o nosso estrito acerto de contas.

1198. Na forma, esta cláusula (aqui, como em outros lugares) é negativa, mas tem um significado positivo: Deus ama aqueles que têm fé e n’Ele confiam, e os recompensará, por causa de Sua Graça e Benevolência, quantitativa e qualitativamente.

1199. No mundo material, os ventos não apenas refrescam e purificam o ar, trazendo a bênção da chuva que fertiliza o solo, mas ainda auxiliam no comércio internacional e nas relações entre os homens, nas vias marítimas (barcos a vela), e agora nas vias aéreas. Aqueles que sabem tirar vantagem dessas bênçãos de Deus, prosperam e se regozijam, ao passo que aqueles que ignoram ou não sabem entender esses Sinais, perecem nas tempestades. Assim acontece no mundo espiritual: porta-vozes de boas-novas foram enviados por Deus, na forma de mensageiros; aqueles que tiraram proveito da sua Mensagem prosperaram, em ganho espiritual, e aqueles que ignoraram ou se opuseram aos Claros Sinais, pereceram espiritualmente.

1200. Novamente, a Parábola dos Ventos é apresentada sob um outro aspecto, tanto material como espiritual. No mundo material, a gente vê como eles carregam as nuvens; sugam a unidade da água terrestre, carregam-na em nuvens negras como é preciso, e a fazem descer como chuva, que é necessária. Assim, também, a maravilhosa Graça de Deus delineia as aspirações espirituais dos homens, e as suspende, como mistérios obscuros, de acordo com a Sua Vontade e Seu Plano; e quando a Sua Mensagem alcança os corações dos homens, estes se alegram, muito embora, antes disso, estivessem em profundo desespero.

1201. Depois das duas parábolas sobre a purificadora ação dos ventos e da sua atuação fertilizante, temos agora a parábola da terra, que parece morrer no inferno, ou com a seca, e depois revive na primavera, ou com a chuva, pela Graça de Deus; assim, também, na esfera espiritual, o homem parece estar morto, e vive novamente, pelo alento de Deus e por sua Misericórdia, quando se coloca em Suas mãos.

1202. Outra parábola das forças da natureza. Já vimos o quanto os ventos alegraram, vivificaram e enriqueceram aqueles que deles se utilizaram, com o espírito certo. Porém, o vento pode ser pernicioso para a lavoura, em certas circunstâncias; assim, também, as bênçãos de Deus - por causa da resistência e das blasfêmias dos malfeitores - podem trazer a punição para os maldosos. Ao invés de tomarem a punição com o espírito certo - com o espírito com o qual os fiéis, encaram os seus infortúnios - os incrédulos anatematizam, e se aprofundam em seus pecados!

1203. As maravilhas da criação de Deus podem, de uma maneira geral, ser observadas por todo aquele que tem disposição para permitir que tal conhecimento penetre a sua mente. Porém, se o homem, por causa da obstinação, aniquila a própria faculdade que Deus lhe deu, como pode, então, entender? Além disso, juntamente com homens que aniquilam seu senso espiritual, há homens que podem ser equiparados aos surdos, aos quais falta uma faculdade, mas que lançam mão de outra faculdade, tal como o sentido da visão; mas se se descuidarem, e se recusarem a ser instruídos, como poderá a Verdade chegar até eles?

1204. Ver a nota anterior. Então, há o caso dos homens aos quais o dizer "o maior cego é aquele que não quer ver" se aplica. Eles preferem perambular por caminhos de erros e de prazeres sensoriais. Como poderão , de algum modo, ser guiados? As únicas pessoas que ganham com os ensinamentos espirituais são aquelas que se importam com eles - que crêem e que submetem as suas vontades à Vontade de Deus. Esta é a doutrina central do Islam.

1205. O Profeta de Deus não esmorece em seus esforços, nem se sente desencorajado só porque os incrédulos se riem dele, ou o perseguem, ou, ainda, parecem ter sucesso em bloquearem a sua Mensagem. Ele possui fé firme, e sabe que Deus, no fim, estabelecerá a Sua Verdade. Ele continua em sua tarefa, divinamente confiada, com paciência e perseverança, a qual deverá prevalecer contra a leviandade dos seus oponentes, os quais não têm fé, e certamente nada em que se apoiar.

1206. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

1207. Esta surata se relaciona com a Sabedoria, e o Alcorão é chamado de o Livro Sábio, ou de o Livro da Sabedoria. No versículo 12, adiante, há uma referência a Lucman, o Sábio. "Sábio", neste sentido (Hakim), não se refere apenas a um homem versado no conhecimento humano e divino, mas também àquele que desenvolve, na conduta prática (‘amál), o curso certo da vida até os limites de sua força. Seu conhecimento é correto e prático, mas não necessariamente completo, pois o homem não é perfeito. Esse ideal envolve a concepção de um homem de ação heróica, bem como um profundo e laborioso conhecimento da natureza humana e da própria natureza - não meramente sonhos ou especulações. Esse ideal se evidenciou em notabilíssimo grau, no Mensageiro do Islam e no Livro Sagrado, que foi revelado por meio dele. "Livro Sábio" (Kitab-il-hakim) é um dos títulos do Alcorão.

1208. A vida é tomada a sério por homens que se conscientizam das injunções convenientes a ela. Mas há homens de mentalidades frívolas, que preferem ouvir contos ociosos, a ouvir as verdadeiras Realizações; a estes são, com justiça, aqui censurados. No tempo do Profeta do Islam havia um certo pagão, Nadhr Ibn Al-Haris, que preferia ouvir os romances persas a ouvir a Mensagem de Deus, e com isso desviava muitos ignorantes dos ensinamentos da Palavra de Deus.

1209. Tais homens se comportam como se nada tivessem ouvido de muita importância, e riem-se dos ensinamentos sérios. A perda será deles. Perderão todas as cosias elevadas da vida, e ficarão fora do alcance das bênçãos de Deus.

1210. Note-se a mudança de pronome, neste estágio do versículo. Antes, falou-se de Deus na 3ª pessoa, "Ele", e os citados atos da criação eram aqueles que, em sua maioria, foram completados quando o universo, como o vemos, passou a existir, embora a sua lenta evolução continue. Depois, Deus fala na 1ª pessoa, "Nós", o plural de majestade, como foi explicado antes (ver a nota do versículo 38 da 2ª Surata); e os processos citados são aqueles que acontecerão continuamente perante nós, como é o caso da precipitação da chuva e do crescimento do reino vegetal. De algum modo, a criação dos céus e da terra, e da vida animal., pode ser considerada impessoal ao homem, ao passo que o processo da queda da chuva e da vegetação tem uma especial relação pessoal com ele.

1211. Lucman, o Sábio, de quem esta surata tira o nome, pertence à tradição árabe. Muito pouco é sabido de sua vida. Ele está costumeiramente associado à vida longa, sendo o seu tútulo Moammar (o longevo). Ele é colocado por alguns na época do povo de Ad, para o quê ver a nota do versículo 65 da 7ª Surata. Ele representa o tipo da sabedoria perfeita. Diz-se que, pertencendo a uma humilde camada da sociedade, sendo um escravo ou um carpinteiro, recusou o poder terreno e um reino. Muitos apólogos instrutivos, similares à Fábulas do Esopo, da tradição grega, são creditados a ele. A identificação de Lucman com Esopo não tem fundamento histórico, embora seja verdade que as tradições sobre eles tenham influenciado uma a outra.

1212. Lucman é tido como o padrão de sabedoria, porque realizou o máximo neste mundo, com uma vida sábia, baseada na mais alta esperança da vida íntima. Para ele, como no Islam, a verdadeira sabedoria humana é também sabedoria divina; as duas não podem estar separadas. O princípio de toda a sabedoria, portanto, consiste na conformidade com a Vontade de Deus (versículo 12 desta surata). Isso significa que devemos entender as nossas relações com Ele, e adorá-Lo como se deve (versículo 13). Então, devemos ser bondosos para com a humanidade, a começar pelos nossos pais (versículo 14). Porque os dois deveres não são diferentes, mas um só. Quando eles parecem estar em conflito, há algo de errado com a vontade humana.

1213. O conjunto de dentes de elite de uma criança humana é completado com a idade de dois anos, que é o natural e extremo limite para a amamentação. Na nossa vida espiritual a duração é bem maior.

1214. Os versículos 14-15 não são a fala direta de Lucman, mas acontecem por meio do comentário dos seus ensinamentos. Ele falava como um pai ao seu filho, e não podia, de modo claro, pedir respeito para si mesmo, e atrair a atenção do filho para as limitações da obediência filial. Deve-se supor que estes versículos sejam diretrizes gerais, advindas dos ensinamentos de Lucman aos homens, e não dirigidos a seu filho; embora, em ambos os casos, uma vez que Lucman adquirira de Deus a sabedoria, sejam os princípios divinos os enunciados.

1215. A semente de mostarda é uma coisa proverbialmente pequena, diminuta, uma coisa por cima da qual as pessoas, costumeiramente, passam. Mas não Deus. Dá-se muita ênfase ao fato de se supor que a semente de mostarda esteja escondida por baixo de uma rocha, ou esteja perdida na espaçosa imensidão da terra ou dos céus. De Deus tudo é conhecido, e Ele dá conta disso.

1216. O "meio-termo" ou a "moderação" é o pivô da filosofia de Lucman, assim como o é da filosofia de Aristóteles, e também do Islam. E isso flui, naturalmente, de uma verdadeira compreensão da nossa relação com Deus, com o Seu universo e com os nossos semelhantes, especialmente o homem. Em todas as coisas, diz ele, sê moderado. Não apertes o passo, e não sejas moroso ou fiques estacionário. Não sejas falador, nem calado. Não sejas espalhafatoso, nem tímido. Não sejas mui confiante, nem te acovardes. Se tiveres paciência, ser-te-ão dadas constância e determinação, para que bravamente enfrentes as porfias da vida. Se tiveres humildade, isso será para salvaguardar-te da indecorosa jactância, e não para refrear-te o espírito correto, ou a determinação racional.

1217. A tais homens falta conhecimento, uma vez que não fazem uso dos seus intelectos, mas deixam-se levar por suas paixões; falta-lhes diretriz, uma vez que são impacientes e descontrolados; e os frutos da revelação ou da introspeção espiritual não os alcançam, uma vez que rejeitam a Fé e a Revelação.

1218. "Palavras de Deus"; Seus maravilhosos Sinais e Mandamentos são infinitos, e não poderiam ser expressos, mesmo que todas as árvores fossem transformadas em lápis, e todos os oceanos, multiplicados por sete, fossem transformados em tinta. Qualquer Livro da Sua Revelação trataria de assuntos que o homem poderia entender, e usar em sua vida; há mistérios sobre mistérios, que o homem jamais poderá imaginar. Nem tampouco qualquer louvor que pudéssemos escrever, com recursos infinitos, seria adequado para descrevermos o Seu Poder, a Sua Glória e Sabedoria.

1219. A grandiosidade e a infinitividade de Deus são tais, que Ele pode criar não apenas toda uma massa, mas cada alma individual, e pode-lhe seguir a história até ao Dia do Juízo Final. Isto não apenas mostra a glória, a onisciência e a onipotência de Deus; mostra também o valor de cada alma individual aos Seus olhos, e eleva a responsabilidade individual, quanto à relação com Ele.

1220. Comparar com o versículo 61 da 22ª Surata, e respectiva nota. Mesmo que pudéssemos formar uma concepção da infinitividade de Deus, pelos Seus tratos com cada indivíduo da Sua criação, como no versículo 28 acima, isso seria ainda inadequado. Que é um indivíduo? Que representa a sua relação com as Leis universais de Deus? Na natureza exterior, nós podemos ver que não há uma linha definida entre a noite e o dia; uma se mescla com o outro. Todavia, o sol e a lua obedecem a leis definidas. Embora eles pareçam eternos, saiba-se que a sua duração e existência não são mais do que uma fração de tempo no imenso universo de Deus. Quanto amalgamação e imperceptível gradação há ainda no mundo espiritual interior? Nossas próprias ações não podem ser classificadas, etiquetadas e rotuladas, quando examinadas em relação aos motivos e às circunstâncias. No entanto, são um livro aberto para Deus.

1221. A questão do Conhecimento ou Mistério governa ambas as cláusulas aqui, a saber: a chuva e os ventres. De fato, governa as cinco coisas mencionadas neste versículo (1) a hora; (2) a chuva; (3) o nascimento de uma nova vida (ventres) ; (4) a nossa vida física do dia a dia; (5) a nossa morte. Com respeito à chuva, é-nos pedido que contemplemos como e quando ela cai. A umidade é sugada pelo calor do sol no Mar Arábico, ou no Mar Vermelho ou no Oceano Índico, perto da África Oriental, ou na região lacustre, na África Central. Os ventos a levam para aqui e para ali, por entre milhares de quilômetros, ou pode ser que se trate de uma curta distância. "O vento sobre onde quer". Sem dúvida, ele obedece a certas Leis físicas estabelecidas por Deus; mas veja-se como essas Leis estão entrelaçadas, umas com as outras! A meteorologia, a gravidade, a hidrostática e a dinâmica, a climatologia, a higrometria, e uma dezena de outras ciências e outros fenômenos são empregados, e ninguém pode, completamente, ser senhor de todos eles; e, contudo, isto se relaciona apenas a uma dos milhões de facetas da natureza física, que são governadas pelo Conhecimento e pela Lei de Deus. Todo o reino vegetal é primordialmente afetado pela chuva. A menção do ventre nos traz o mistério da vida animal, a embriologia, o sexo, e um milhão de outras coisas. Quem pode dizer - tão-somente no caso do homem - se a criança concebida é menino ou menina, por quanto tempo permanecerá no ventre, se nascerá viva, que espécie de indivíduo será - uma bênção ou uma maldição par aos pais e, para a sociedade?

1222. "Ganhar", aqui, como em outros lugares, não apenas significa "ganhar a vida", no sentido material, mas também colher as conseqüências (boas ou más) da conduta, de um modo geral. A sentença inteira, praticamente significa: "Ninguém sabe o que o amanhã lhe trará".

1223. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

1224. No templo do Profeta do Islam, os primeiros Livros da Revelação haviam sido corrompidos pela ignorância, fraude ou pelo egoísmo dos humanos, ou mal interpretados, ou completamente perdidos. Havia seitas que disputavam violentamente umas com as outras quanto ao seu verdadeiro significado. Tais dúvidas teriam de ser postas de lado, e foram postas de lado com a Revelação do Alcorão. A inspiração alcorânica vinha diretamente de Deus, o Senhor do Universo, e não consistia meramente de conjecturas humanas, ou de uma filosofia reconstruída, na qual sempre há lugar para dúvidas ou disputas.

1225. Seis dias: Esse "Dia" não é o dia como o conhecemos, ou seja, uma volta aparente do sol em volta da terra, pois refere-se a condições que começaram antes de o sol e a terra serem criados.

1226. De que maneira poderia ser melhor inculcado em nossas mentes o imenso mistério do tempo? O nosso dia pode ter a duração de mil ou cinqüenta mil anos, e o nosso ano, a mesma proporção. No remoto passado deu-se o ato de Deus da criação; e ainda continua, pois Ele guia, governa, e controla todos os assuntos; e, no imenso futuro, todos os assuntos irão para Ele, pois Ele será o Juiz, e Sua restauração de todos os valores durará um dia, ou uma hora, ou um piscar de olhos; e isto, contudo, será , para a nossa imaginação, o equivalente a mil anos!

1227. Pede-se ao homem que contemple o seu próprio começo humilde. Seu corpo material (à parte da vida) é um pedaço de terra ou barro, o que é um outro termo para a matéria primeva. A matéria é, portanto, o primeiro estágio, mas mesmo a matéria não se criou. Foi criada por Deus.

1228. Então vem a vida e a reprodução da vida. Estamos ainda olhando para o aspecto puramente físico, mas agora num estágio mais elevado; trata-se de um animal. Sua reprodução se dá por meio do esperma ou sêmen, que é a quinta-essência de todas as partes do corpo do homem. No entanto, ele sai do mesmo lugar que a urina, e por isso torna-se desprezível aos olhos do homem. Trata-se de célula ou células vivas, a recapitularem muito da vida histórica ancestral (comparar com o versículo 12 da 23ª Surata, e respectiva nota).

1229. O terceiro estágio é indicado por "o modelou" nas devidas proporções. Comparar com o versículo 29 da 15ª Surata. Após a fecundação do óvulo pelo esperma, uma vida individual passa a existir, e é gradativamente modelada; seus membros são formados; sua vida animal começa a funcionar; todas as magníficas adaptações entram em atividade. O quarto estágio, aqui mencionado, é o do Homem distinto, que é alentado com o Espírito de Deus. Então ele se eleva acima dos animais.

1230. Como um homem completo, ele adquire faculdades muito elevadas. Entendemos que os cinco sentidos animais estejam incluídos no terceiro estágio. Mas é no quarto estágio que ele se eleva, e é tratado na 2ª pessoa, "tu", em vez de o ser na 3ª, "ele". Ele tem, então, a contraparte espiritual da audição (a capacidade de ouvir a Mensagem de Deus), da visão (visão interior), e dos sentimentos dos nobres ideais do amor e da compreensão quanto ao comportamento da vida interior (ambos tipificados pelo coração). Todavia, com todas essas dádivas, que agradecimento dá ao homem irregenerado ou corrupto a Deus?

1231. Alusão feita ao livre-arbítrio.

1232. "Em adoração" (Sujudan), ou numa postura de prostração, demonstrativa de profunda humildade e fé. Esta é a palavra-chave da surata, que tem o nome de Sajda. Todos os Sinais de Deus elevam os nossos pensamentos até Ele; e sempre que eles são explanados, a nossa atitude deverá ser de gratidão humilde para com Deus. Nesta passagem é costumeiro curvarmo-nos em adoração.

1233. Junub, literalmente os lados do corpo, sobre os quais as pessoas dormem ou se viram, no seu sono. Traduzimo-la por "corpos", por brevidade. Os virtuosos e as virtuosas procuram evitar as camas macias e confortáveis, e o sono profundo e prolongado. Os lados dos seus corpos estão melhor exercitados na devoção, especialmente durante a noite.

1234. Um lar traz às nossas mentes um quadro de paz e felicidade. Quando a ele são adicionadas honra e hospitalidade, o quadro é ampliado para a idéia da felicidade.

1235. A expressão "o Livro" não é, aqui, co-extensiva com a Revelação. Moisés teve, revelada a ele, uma Lei, chariat, que iria guiar o seu povo em todos os assuntos práticos da vida. Jesus, após ele, foi também inspirado por Deus; porém, seu Injil ou Evangelho continha apenas princípios gerais, e não um Código ou chariat. O Profeta do Islam foi o próximo a apresentar uma lei ou um "Livro" nesse sentido; porque o Alcorão contém tanto um Código como princípios gerais. Esta surata foi revelada em Makka. O Código veio mais tarde, em Madina. Porém, foi assegurado ao Profeta que ele teria, também, um Código, que suplantaria a Lei anterior, e completaria a Revelação de Deus.

1236. Quando ele chegar a ti; lika-i-hi. Os exegetas diferem, quanto à construção do pronome hi, que pode tanto ser traduzido por "seu" (neutro, de qualquer coisa), como "dele" (pessoal). Nós o interpretamos como que se refere a "o Livro", uma vez que dá um significado mais natural, como é explicado na nota anterior.

1237. A série de juizes, profetas e reis, em Israel, continuava a proporcionar uma boa diretriz, de acordo com a lei de Deus, desde que o povo continuasse na Fé e na Constância (cultuando a paciência). Quando essa condição cessou, a graça de Deus foi retirada, e o povo se dividiu em seitas conflitantes, e praticamente sofreu uma aniquilação de âmbito nacional.

1238. Ah, se as nações que se extraviam pudessem aprender a sua lição com as nações anteriores, que foram destruídas por causa dos seus males! Poderiam ver vestígios, em seus vaivéns diários. Os judeus poderiam ver vestígios dos filisteus, dos amalecitas etc., na Palestina, e os árabes pagãos, vestígios dos povos de Ad e de Samud, na Arábia.

1239. "Ouvem"; ouvir as admoestações evidenciadas pelos Sinais de Deus. Note-se quão naturalmente a transição, do material para o espiritual, é efetuada - dos vestígios materiais das ruínas das nações ímpias desta terra, aos mais intangíveis Sinais, evidenciados pela história e pela Revelação. Aqui, o sentido da audição é mencionado, tanto no seu aspecto material como no espiritual ou metafísico. No versículo seguinte, o sentido da visão é mencionado, nos dois aspectos.

1240. Novamente, como no versículo anterior, há uma fácil transição do aspecto material para o espiritual. Na natureza física pode haver solos esturricados que são como que mortos para todos os propósitos. Deus envia a chuva, e eis que o solo morto é convertido em solo vivente, que produz ricas espigas de milho ou trigo, bagos e frutos, para matarem a fome do homem e dos animais. Assim acontece, também, no mundo espiritual. O homem morto é revivificado pela graça e misericórdia de Deus, por intermédio da Sua Revelação. Ele se torna útil, não apenas para si próprio, mas também para os seus dependentes e para os que estão ao seu redor.

1241. O versículo começa com "Não reparam?" (aua lam yarau) - uma ação física. Termina com "Não vêem?" (afa la yubsirun) - uma questão de discernimento espiritual.

1242. O quinto ano da Hégira foi um ano crítico na história externa do começo do Islam, e esta surata deve ser lida à luz dos eventos que então tiveram lugar. A grande Confederação contra o Islam investiu contra Madina, e fracassou fragorosamente. Ela consistia dos maquenses incrédulos, beduínos da Arábia Central, dos judeus anteriormente expulsos de Madina, por traição, e dos hipócritas conduzidos por Abdulah Ibn Ubai, que já foram descritos nos versículos 43-110 da 19ª Surata. Seu traço de união era o ódio comum que nutriam pelo Islam, e esse traço se rompeu sob os reveses que encontraram.

1243. "Dois corações no peito do homem"; duas atitudes inconsistentes, ou seja, ele servir a Deus e a Mammon; ou submeter-se tanto à Verdade como à Superstição; ou pretender hipocritamente uma coisa e fazer outra. Tal coisa é contrária à Lei e à Vontade de Deus. À parte da condenação da hipocrisia generalizada, dois costumes pagãos dos Tempos da Ignorância são mencionados, e sua iniqüidade apontada. Nem tampouco o homem pode amar duas mulheres com amor eqüitativo.

1244. Trata-se de um mau costume árabe, pelo qual o marido egoisticamente privava a esposa de seus direitos conjugais, e contudo a mantinha para si qual escrava, sem que ela ficasse livre para se casar novamente. Ele dizia palavras no sentido de que ela era como sua mãe. Após isso, ela não poderia fazer valer os seus direitos conjugais, mas não ficava livre do controle dele, para que pudesse contrair novas núpcias. Ver também os versículos 1-5 da 58ª Surata, onde isso é condenado no mais veemente dos termos, apontando para tanto o castigo. Um homem algumas vezes dizia tais palavras num acesso de raiva; elas não o afetavam, mas degradavam a posição da mulher.

1245. Se um homem chamasse um filho de outro de "seu filho", isso poderia criar complicações entre relações naturais e normais, se tomando mui literalmente. É mostrado que se trata apenas de uma maneira de falar, da parte dos homens, e não deve ser tomado ao pé da letra. Verdade é verdade, e não pode ser alterada pelo fato de os homens adotarem "filhos". A "adoção", no sentido técnico, não é permitida pela Lei muçulmana. Aquelas que foram "esposas de vossos filhos" estão entre os Graus Proibidos de casamento (versículo 23 da 4ª Surata); mas isso não se aplica aos filhos "adotados".

1246. Os homens que eram libertados freqüentemente levavam os nomes de seus amos - "filho de fulano". Quando eram escravos, talvez os nomes de seus pais tivessem ficado completamente perdidos. É mais correto falarmos deles como os Maula de fulano. Porém, Maula, em árabe, também pode implicar uma relação íntima de amizade; nesse caso, ainda é melhor o termo correto, em vez do termo "filho". "Irmão" não é objetável, porque a palavra "irmandade" é usada num sentido mais amplo do que "paternidade", e está menos sujeita a mal-entendidos.

1247. O que se tem em mira é destruir a superstição de se levantarem falsas relações, em detrimento ou perda das verdadeiras relações consangüíneas. Não se tem intenção de penalizar um desliza involuntário sobre o assunto, mesmo no caso em que um homem trate outro por seu filho ou pai, que não seja seu filho ou pai, por polidez ou afeição.

1248. Com respeito à relação espiritual, o Profeta é tratado com ais respeito e consideração do que nas relações consangüíneas. Os fiéis devem segui-lo mais do que a seus pais ou mães ou irmãos, quanto à questão dos deveres. Ele está até mais perto - mais próximo de nossos reais interesses - de nós do que nós mesmos. Em algumas narrativas, como as de Ubai Ibn Kab, ocorrem ainda as palavras "e ele é um pai para eles", coisa que implica em suas relações espirituais, e que se liga com as palavras "e suas esposas são suas mães".

1249. Esta surata estabelece a dignidade das esposas do Profeta, que tinham uma missão e responsabilidade especiais, como mães dos fiéis. Elas não iriam ser como as mulheres comuns; elas haveriam de instruir as outras mulheres em assuntos espirituais, visitar e assistir os enfermos e desesperados, e fazer outras tarefas benignas, em ajuda à missão do Profeta.

1250. Ninguém deve privar seus parentes consangüíneos desses direitos de manutenção e de propriedade, como eles talvez tivessem feito. A comunidade dos fiéis, habitantes de Madina, e aqueles que haviam emigrado de Makka para aquela cidade, tinham também seus direitos mútuos, mas este não deveriam constituir-se numa desculpa para o descaso em relação aos direitos primordiais das relações naturais. Nos primeiros dias em Madina , os Ânsar deveriam herdar dos Muhajrin, cujos parentes naturais não haviam migrado; contudo, tal prática não teve continuidade quando as relações normais foram restabelecidas entre Makka e Madina.

1251. Neste versículo estão sumariados o começo e o fim do esforço fatídico do sítio de Madina, no ano 5 da Hégira. Havia a composição de uma Confederação de idólatras, que chegara para destruir o Islam. Eles chegaram com uma força compreendendo de dez a doze mil combatentes - um exército jamais visto naquele tempo e naquele país. A batalha ficou conhecida como a Batalha da Trincheira. Após uma cerrada investida, que durou de duas a quatro semanas, durante as quais o inimigo ficou desencorajado devido aos sucessivos fracassos, houve uma dilacerante rajada de vento frio, vinda do leste. Aquele foi um inverno rigoroso, pois o mês de fevereiro pode ser um mês muitíssimo frio em Madina, que fica a 750 m acima do nível do mar. As tendas do inimigo foram rasgadas, suas fogueiras apagadas e a areia e a chuva fustigaram-lhes os rostos, e eles ficaram aterrorizados com os portentos que se abatiam contra eles. Decidindo, entre si, empreender uma retirada apressada, foram embora.

1252. A psicologia dos combatentes é descrita com vigor incomparável, no texto sagrado. A investida do inimigo foi realmente tremenda. A trincheira, ao redor de Madina, encontrava-se entre os defensores e a enorme força atacante, com uma elevação atrás: quando apareciam, através do vale ou por sobre a trincheira, parecia que vinham de baixo. As chuvas de flechas e pedras, de ambos os lados, pareciam também vir do ar.

1253. Antes do ataque a Madina, naquele ano, os muçulmanos haviam alcançado, com sucesso, a fronteira com a Síria, pelo norte, e havia esperanças de alcançarem o Iêmen, pelo sul. O Profeta do Islam via sinais claros de vitória para os muçulmanos. Na ocasião em que eles se encontravam fechados na trincheira, e na defensiva, os hipócritas os escarneciam, por se terem deixado levar por esperanças enganosas. Porém, os eventos encarregaram-se de mostrar que as esperanças não eram enganosas. Elas estaria realizadas, além da expectativa, em poucos anos.

1254. Que passou a se chamar Madinat An-Nabi, ou simplesmente Madina.

1255. Todos os combatentes de Madina haviam saído da cidade e acampado nos espaços abertos, ente a cidade e a trincheira que havia sido cavada ao redor da mesma. Os inamistosos hipócritas, dentre os fiéis passaram a semear rumores derrotistas, e fizeram de conta que se retiravam em defesa de seus lares, embora estes não estivessem expostos, e foram totalmente cobertos pela vigilante força defensiva que se encontrava dentro da trincheira.

1256. O ímpeto da luta estava no lado norte, mas toda a trincheira estava guardada. Em um ou dois pontos os guerreiros inimigos apresentaram investidas no circuito da trincheira, mas foram logo dispersados. Ali distinguiu-se particularmente em muitos combates, usando a própria espada e armadura do Profeta. Caso alguém do inimigo fosse capaz de penetrar na cidade, o elemento surpresa - o que apenas estava sentado no parapeito -, levantar-se-ia de pronto contra os muçulmanos - sem nenhuma delonga, exceto a que era necessária para se equipar da armadura e das armas.

1257. Aparentemente, após a batalha de Uhud, certos homens que haviam mostrado covardia, foram perdoados sob a condição de se comportarem melhor da próxima vez. Uma promessa solene, feita ao Mensageiro de Deus, representa uma promessa a Deus, e não pode ser quebrava impunemente.

1258. Na luta pela Verdade houve (e há) muitos que sacrificaram tudo - recursos, conhecimento, influência, a própria vida - pela causa, e jamais titubearam. Tal foi o caso de Saad Ibn Moaz, o chefe da tribo Aus, o porta-estandarte do Islam, que morreu vítima de um ferimento que recebeu na Batalha da Trincheira. Outros heróis lutaram valentemente e viveram, sempre prontos a dar as suas vidas pela causa. Ambas as classes foram constantes: jamais mudaram ou vacilaram.

1259. A despeito das intensivas preparações e das grandes forças com que os maquenses - em harmonia com os beduínos da Arábia Central, com os judeus descontentes, e com os traiçoeiros hipócritas - sitiaram Madina, todos os seus planos se frustraram. Sua fúria de nada lhes valeu. Fugiram, com acalorada pressa. Esse foi o seu último e mortífero esforço. A iniciativa, depois daquilo, estava com as forças do Islam.

1260. Isto é com referência à tribo judaica dos Banu Curaiza. Eles contavam-se entre os cidadãos de Madina e estavam obrigados, por solenes promessas, a ajudar na defesa da cidade. Porém, na ocasião do sítio confederado, feito pelos coraixitas e seus aliados, eles se congraçaram com os inimigos, e traiçoeiramente os ajudaram. Imediatamente após o sítio terminar, e os confederados fugirem com calorosa pressa, o Profeta voltou a sua atenção para aqueles "amigos" traidores, que haviam traído a sua cidade, na hora do perigo.

1261. Os Banu Curaiza ficaram aterrorizados quando a cidade de Madina ficou livre do perito coraixita. Eles se enclausuraram em seus castelos, cerca de 4 ou 5 km a leste de Madina, e agüentaram um cerco, que durou 25 dias, após o que se renderam, estipulando que se entregariam, pela decisão de seu destino, mas mãos de Saad Ibn Moaz, chefe da tribo Aus, com o qual haviam estado em aliança. Saad julgou segundo o que está descrito na Lei Judaica: "O Senhor, teu Deus, a dará na tua mão; e todo o macho que houver nela passarás ao fio da espada, salvo somente as mulheres, e as crianças, e os animais; e tudo o que houver na cidade, todos os seus despojos, tomarás para ti; e comerás os despojos dos teus inimigos os que te deu a Senhor teu Deus" (Deuteronômio 20:13-14). Os homens Curaiza foram executados, mas mulheres foram vendidas como cativas de guerra, e suas terras e propriedades foram divididas entre os Muhajirin.

1262. Chegamos, agora, ao assunto da posição dos Consortes da Pureza, azuaj mutahharat, ou seja, das esposas do Profeta do Islam. O único casamento jovem do Profeta do Islam foi o seu primeiro, com Khadija. Ele a desposou 15 anos antes de receber a revelação; a vida matrimonial deles durou 25 anos, e sua devoção mútua foi a mais nobre, a julgar tanto pelos padrões espirituais, como pelos sociais. Durante a vida dela, ele não teve nenhuma outra esposa, coisa que era incomum para um homem de suas condições, entre o seu povo. Quando ela morreu, a idade dele era de 50 anos; se não fosse por duas considerações, ele provavelmente jamais teria se casado novamente. As duas considerações que propiciaram os seus casamentos posteriores fora: (1) compaixão e clemência, como querendo amenizar o sofrimento das viúvas que, doutra sorte não se poderiam manter em qualquer outro estágio da sociedade; algumas delas, como Sauda, tinham rebentos de seus anteriores matrimônios, rebentos esses que se requeriam proteção; (2) a ajuda delas quanto ao seu dever de liderança junto às mulheres, que deveriam ser instruídas e conservadas unidas na imensa família muçulmana, onde homens e mulheres tinham direitos sociais similares. Aicha, filha de Abu Bakr, era inteligente e culta, sendo que nos Hadisses constitui uma importante autoridade sobre a vida do Profeta. Zainab, filha de Cuzaima, era especialmente devotada aos pobres; era denominada "a Mãe dos Pobres". A outra Zainab, filha essa de Jahch, também trabalhava junto aos pobres, aos quais ensinava os segredos de seu trabalho manual, pois era perita em trabalhar o couro.

1263. Uma comprovada má conduta; isto é, por oposição aos falsos mexericos dos inimigos. Tais mexericos não deveriam contar, mas se qualquer uma delas se comportasse de maneira imprópria, as suas más ações contar-se-iam como ofensas piores do que no caso das mulheres comuns, por causa da sua posição especial. Certamente, nenhuma delas foi, na mínima coisa, culpada.

1264. A punição, nesta vida, para a falta de castidade de uma mulher casa é muito severa: para adultério, açoitamento em público de cem açoites, segundo o versículo 2 da 24ª Surata; ou para impudícia, a prisão (ver o versículo 15 da 4ª Surata); ou o apedrejamento até à morte, para o adultério, de acordo com certos precedentes estabelecidos no Direto Canônico. Porém, a questão, aqui, não versa sobre esta espécie de punição ou aquela espécie de ofensa. Mesmo as melhores indiscrições, como nos casos das mulheres que deveriam constituir-se em padrões de decoro, seriam passíveis de repreensão; e a punição, na Vida Futura, é, num plano mais elevado, coisa que podemos dificilmente compreender. Porém, Deus pode apreciar cada indício de intenção em nós. Então, o mais e o menos são possíveis, não o podendo ser na rudimentar lei que administramos aqui.

1265. Isto constitui o núcleo da passagem inteira. As Consortes do Profeta não eram como as mulheres comuns, nem tampouco seus matrimônios foram matrimônios comuns, nos quais apenas as considerações sociais e pessoais contavam. Elas tinham uma posição especial e responsabilidades especiais, no sentido de guiarem e instruírem as mulheres que entravam para as fileiras do Islam. O Islam têm espaço tanto quanto os homens, e a instrução íntima delas obviamente tem de ser feita por meio de outras mulheres.

1266. Conquanto elas tivessem de ser bondosas e gentis com todos, tinham d ser protegidas, por causa de sua posição especial, senão a gente grosseira poderia interpretá-las mal e tirar vantagem da bondade delas. Elas não deveriam proporcionar espetaculosidades mundanas vulgares, como nos tempos da idolatria.

1267. Um número de virtudes muçulmanas é aqui especificado, mas a ênfase principal é dada ao fato de que essas virtudes são necessárias tanto à mulher como ao homem. Ambos os sexos têm direitos e deveres espirituais e humanos em igual grau, e a "recompensa" da Vida Futura, ou seja, a Bênção Espiritual, é proporcionada tanto para uma, como para o outro.

1268. As virtudes a que se refere o versículo, são: (1) fé, esperança e confiança em Deus e em Seu benevolente governo do mundo; (2) devoção e prestação de serviços, quanto à vida prática; (3) amor à verdade e prática da mesma, em pensamento, intenção, palavra e ação; (4) paciência e constância, no sofrimento e na porfia; (5) humildade e esquivança, quanto a uma atitude de arrogância e superioridade; (6) caridade, isto é, ajudar os pobres e desafortunados, uma virtude que advém do dever geral de prestação de serviço; (7) moderação, não só na alimentação, mas também em todos os apetites; (8) castidade, pureza na vida sexual, pureza de intenção, de pensamento, de palavra e de ação; e (9) atenção constante à Mensagem de Deus, e o cultivo do desejo da estada cada vez mais perto d’Ele.

1269. Este era Zaid, filho de Hariça, um dos primeiros a aceitarem a fé do Islam. Ele foi libertado pelo Profeta, que o amava como a um filho e lhe deu, em casamento, a sua própria prima, Zainab. O matrimônio, contudo, foi infeliz.

1270. O casamento de Zaid com a prima do Profeta, Zainab, filha de Jahch, foi celebrado em Makka, oito anos antes da Hégira, mas tornou-se um casamento infeliz. Zainab, bem nascida, olhava com altivez para Zaid, o liberto, que havia sido escravo. E ele tampouco era agradável de se olhar. Ambos eram gente boa à sua maneira, e ambos amavam o Profeta, mas havia incompatibilidade de gênio, e isso é fatal para a vida conjugal. Zaid queria divorciar-se dela, mas o Profeta pediu-lhe que se contivesse, e ele obedeceu. Ela era intimamente relacionada com o Profeta; ele lhe havia dado um lindo presente de casamento, em seu matrimônio com Zaid. O povo certamente começaria a falar, se tal casamento fosse desfeito, e a reputação do pobre Zaid ficaria arruinada. Esse era o temor, na mente do Profeta. Porém, casamentos são feitos na terra, não no céu, e não faz parte do Plano de Deus torturar as pessoas com um laço que deveria constituir a fonte da felicidade, mas virtualmente constitui a fonte da miséria. O desejo de Zaid - aliás, o desejo mútuo do casal - foi por algum tempo posto de lado, mas tornou-se finalmente um fato estabelecido, do qual todos chegaram a saber.

1271. Quando um casamento é infeliz, o Islam permite e espera que o laço seja dissolvido, contanto que todos os interesses concernentes a ele sejam salvaguardados. Aparentemente não havia herdeiros, então, a serem considerados. Zainab viu realizado o mais caro desejo de seu coração, ao ser elevada à condição de Mãe dos Fiéis - com toda a dignidade e responsabilidade dessa posição.

1272. O Iddat, ou o período de espera após o divórcio (versículo 228 da 2ª Surata, e respectiva nota) foi devidamente completado.

1273. A superstição e o tabu idólatras sobre os filhos adotivos tinham de ser destruídos (ver os versículos 4-5 desta Surata).

1274. A cláusula seguinte é parentética. Estas palavras, então, ligam-se com o versículo 39. Entre os adeptos do Livro não havia tabu algum sobre os filhos adotivos, como havia na Arábia pagã.

1275. O Profeta foi enviado por Deus com cinco injunções. Três delas são mencionadas neste versículo, e as outras duas no versículo seguinte: (1) ele veio a todos os homens como testemunha de todas as verdades espirituais que haviam sido obscurecidas pela ignorância ou superstição, ou pela poeira da controvérsia sectária. Ele não veio para estabelecer uma nova religião ou seita; veio, outrossim, ensinar a Religião. É também testemunha, junto a Deus, dos feitos dos homens, e de como eles recebem a Mensagem de Deus; (2) veio como portador de Boas-Novas da Misericórdia de Deus. Não importando o quanto os homens tenham transgredido, eles poderão ter esperança se acreditarem, se arrependerem, e levarem uma vida pura; (3) veio como admoestador, para os que estão desatentos.

1276. Ver a nota do versículo 228 da 2ª Surata. O Iddat contra por três menstruações, ou, se não houver menstruações, por três meses.

1277. Este presente é considerado por alguns um acréscimo à metade do dote que lhes é devido, especificado no versículo 237 da 2ª Surata.

1278. O presente deve ser dado de coração, e a liberdade da mulher não deve de maneira alguma ser prejudicada. Se ela escolher casar-se outra vez, e imediatamente, nenhum obstáculo deverá ser posto em seu caminho. Sob nenhum pretexto deverá ser permitido que ela tenha dúvida quanto à sua liberdade.

1279. Isto introduz uma nova isenção ou um novo privilégio,. Os versículos 50-52 meramente declaram os pontos nos quais os casamentos do Profeta, por causa das circunstâncias especiais (ver nota 1262, atrás), diferiam do dos muçulmanos comuns. Isto é considerado sob quatro tópicos, os quais examinaremos nas quatro notas que se seguem.

1280. Tópico 1. Casamento com dote (versículo 4 da 4ª Surata) - este é o casamento universal muçulmano. A diferença, no caso do Profeta, era que não havia a limitação de quatro esposas (versículo 3 da 4ª Surata), e que as mulheres do povo do Livro não se contavam entre suas esposas, mas tão-somente as fiéis. Esses pontos não são expressamente mencionados aqui, mas são inferidos pela prática. Obviamente, as mulheres que se esperava devessem instruir outras mulheres tinham de ser muçulmanas.

1281. Tópico 2. Prisioneiras de Guerra. O ponto não vem ao caso agora, uma vez que todos os incidentes e as condições de guerra foram alterados, e a escravidão foi abolida, por meio de acordos internacionais.

1282. Tópico 3. Trata-se de primas em primeiro grau, que não estão entre os Graus Proibitivos de Casamento (ver os versículos 23-24 da 4ª Surata). Estas encontram-se especialmente mencionadas aqui, por causa da limitação. Nenhuma delas poderia casar-se com o Profeta, a menos que tivesse realizado a Hégira com ele. Se ela não a tivesse realizado, a despeito de suas relações íntimas, não poderia ser creditada com grande fervor pelo Islam, ou ser considerada qualificada para instruir as outras mulheres do Islam.

1283. Tópico 4. Uma fiel que se dedica ao Profeta - isto é restringido pela contingência de que o Profeta o considera um adequado e apropriado caso de verdadeiro serviço à comunidade, e não meramente uma excentricidade sentimental de mulher. Alguns exegetas acham que não houve tal caso. Outros, porém, com os quais nós concordamos, acham que isto se aplica a Zainab Bint Khuzaima, que se havia dedicado aos pobres, e era denominada Mãe dos Pobres (Umm-ul-masákin). Similarmente, este último tópico talvez se refira a Zainab Bint Jahch, que era filha da tia paterna do Profeta, ela mesma filha de Abdul Mutalib.

1284. A lei comum do casamento, entre os muçulmanos, será encontrada principalmente nos versículos 221-235 da 2ª Surata, 3-4 da 4ª Surata, 34-35 da 4ª Surata, 6 da 5ª Surata.

1285. O casamento é uma relação importante, não apenas para a nossa vida material, mas também para a nossa vida moral e espiritual, sendo que seus efeitos se estendem não somente às próprias partes, mas ainda aos filhos e às gerações futuras. Um grande número de problemas é levantado, de acordo com circunstâncias especiais. Todo homem e toda mulher deve considerar seriamente os lados da questão, e ambos devem fazer o que puderem para temperarem os instintos e as inclinações, com sabedoria e com a diretriz de Deus. Deus deseja tornar fácil o caminho de todos, pois Ele é deveras "Indulgente, Misericordiosíssimo".

1286. No versículo 3 da 4ª Surata, fica estabelecido que mais de uma esposa não é permissível, "...se temerdes não poder se eqüitativos para com elas..." No lar muçulmano não há lugar para uma "esposa favorita". Nas circunstâncias especiais do Profeta havia mais de uma, sendo que ele costumeiramente observava a norma de eqüidade para com elas, tanto nas demais coisas como na rotatividade dos direitos conjugais. Todavia, considerando-se o fato de que seus casamentos, depois que ele foi investido da missão profética, eram ditados por razões outras que não as considerações conjugais ou pessoais (ver a nota do versículo 28 desta surata), a rotatividade não poder ser sempre observada, embora ele o fizesse na medida do possível. Este versículo isenta da absoluta aderência da rotatividade fixa. Há outras interpretações, mas nós concordamos com a maioria dos exegetas, em vista do que temos explicado.

1287. Refrescar os olhos: uma expressão idiomática árabe, que quer dizer pôr ânimo e conforto nos olhos que anseiam por ver aqueles que amam. Não havia muito, no tocante a satisfações bens e terrenos, que o Profeta lhes pudesse dar (ver o versículo 28, atrás). Contudo, ele era bondoso, justo e veraz - o melhor dos homens para a sua família, e todos se apegavam a ele.

1288. Isto foi revelado no ano 7 da Hégira. Depois disso o Profeta não mais se casou, a não ser pela aceitação de Maria, a Copta, que lhe foi dada como presente, pelo cristão Mucaucas, do Egito. Ela se tornou a mãe de Ibrahim, que morreu na infância.

1289. As normas das refinadas éticas sociais devem igualmente ser alcançadas hoje, como o eram pelos rudes árabes, aos quais o Profeta foi enviado para ensinar, em seus dias. As normas mencionadas neste versículo podem ser recapituladas, deste modo: (1) não entreis na casa de um amigo sem permissão; (2) se fordes convidados para jantar, não deveis ir muito cedo - fostes convidados para o jantar, não para o preparo da comida; (3) estai lá presentes na hora apontada, para que entreis na casa na hora quem que sereis esperados; (4) após a refeição, não entreis em familiaridades com o anfitrião, especialmente se houver uma grande distância entre ele e vós; (5) não desperdiceis tempo com vãs tagarelices, que causam inconveniência e talvez aborrecimento ao anfitrião; (6) compreendei qual é o comportamento adequado a vós; pode ocorrer que o anfitrião seja mui delicado, para vos pedir que saiais. Tudo isto tem um aspecto tanto espiritual como social; o respeito e a consideração, para com os outros, estão entre as mais elevadas virtudes.

1290. Isto se reporta à parte do Hijab (véu) do versículo 53, acima. A lista daqueles perante os quais as esposas do Profeta poderiam informalmente aparecer, sem véu, consistia de: seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus sobrinhos, suas criadas e seus servos domésticos. Os exegetas incluem os tios (paternos e maternos), sob a denominação de "pais". "Suas mulheres" é tido como sendo todas as mulheres que pertencem à comunidade muçulmana.

1291. Comparar com o versículo 112 da 4ª Surata. Naquela passagem é-nos dito que todo o culpado que acusar pessoas inocentes da culpa dele estará obviamente colocando-se numa posição de duplo risco; primeiramente, por causa da própria e original culpa e, segundo, por causa da culpa de falsa acusação. Aqui, nós temos duas espécies de homens, em vez de dois indivíduos. Os homens e as mulheres de fé, fazendo o que podem para servir a deus e à Humanidade. Se eles forem insulados, injuriados ou aborrecidos, por aqueles que cujos próprios pecados deles culpam, estes sofrerão as penalidades de uma dupla culpa: seus próprios pecados, mais os insultos ou as injúrias que cometem contra aqueles que tentam corrigi-los. Ao invés de se ressentirem com a pregação da Verdade, deveriam recebê-la bem e tirar proveito dela.

1292. Isto é para todas as muçulmanas, tanto para aquelas do lar do Profeta, como para as outras. Os tempos eram de insegurança (ver o versículo seguinte), por isso era-lhes pedido que se cobrissem com roupagem exterior, quando saíssem. Jamais foi adotado o ponto de vista de que elas deveriam ficar confinadas em suas casas, como prisioneiras.

1293. Jilbab, plural jalabib; uma roupagem exterior, uma longa toga, que cobria todo o corpo, ou um capote que cobria o pescoço e o busto.

1294. O objetivo não era restringir a liberdade das mulheres, mas sim protegê-las dos danos e dos molestamentos que propiciavam as condições então existentes em Madina. Tanto no Oriente como no Ocidente uma roupa conspícua, para se usar em público, de uma forma ou de outra, sempre tem sido uma marca de distinção, tanto entre os homens como entre as mulheres. Isto pode ser constatado, mesmo quando nos reportamos as civilizações mais antigas.

1295. A Lei Judaica era muito mais severa (ver as notas do versículo 26 desta surata). Essa severidade é abrandada no Islam. Contudo, constitui um princípio universal o fato de que qualquer elemento que deliberadamente se recusa a obedecer à lei e, de modo agressivo, secreta e abertamente tenta subverter a ordem na sociedade, deve ser efetivamente suprimido, para a preservação da vida e do bem-estar geral da comunidade.

1296. O povo de Moisés freqüentes vezes o vexou, e se rebelou contra ele e contra a Lei de Deus. Aqui, a referência parece ser a Números 12:1-13. É dito, aí, que a irmã de Moisés, Miriam, e seu irmão, Aarão, falavam contra Moisés, porque este se casou com uma etíope. Deus isentou Moisés da acusação de ter feito algo errado: "Meu servo, Moisés, não é desse feitio, e, além do mais, é fiél em toda a Minha Casa". Miriam contraiu lepra por sete dias, como castigo, depois do que foi perdoada, assim acontecendo também com Aarão. Este é a história do Antigo Testamento. O Profeta do Islam foi também atacado por casa do seu casamento com Zainab Bint Jahch, mas não em seu próprio círculo; suas intenções eram as mais nobres; e foram completamente vindicadas, como vimos anteriormente.

1297. Qual é o significado da oferta do encargo aos céus, à terra e às montanhas? Isso é mencionado para que tais parábolas ajudem os homens a refletir. Podemos, portanto, tomar as montanhas, a Terra e os Céus como simbólicos. As montanhas significam firmeza e estabilidade; elas foram criadas para essa finalidade; e permanecem sempre fiéis a ela. Um terremoto ou um vulcão tem a ver com os movimentos dentro da crosta terrestre, mas nada tem a ver com a "vontade" da montanha. Com efeito, ela não possui livre-arbítrio de espécie alguma; não há a questão da confiança, aqui. Se tomarmos a terra como um todo, como parte do sistema solar ou um extrato da natureza terrestre, veremos que ela obedece às leis fixas de Deus, e não há a questão de vontade ou confiança. Se tomarmos os céus, tanto como o espaço abobadado, ou como um simbolismo dos anjos, veremos que eles obedecem absolutamente à Vontade e à Lei de Deus; não têm vontade própria.

1298. Os céus, a terra e as montanhas, outras criaturas de Deus além do homem, recusaram-se a tomar o encargo ou responsabilidade, e poderiam ter-se dado felizes, por a imputação do bem e do mal que lhes foi dada por meio de sua vontade. Ao dizer que eles recusaram, nós lhes imputamos uma vontade; porém a limitamos, pela afirmação de que eles não tomaram o encargo de lhes ser dada uma chance entre o bem e o mal. Eles preferiram submeter a sua vontade inteiramente à Vontade de Deus, o Qual é Onisciente e Perfeito, e lhes dá felicidade bem maior do que a faculdade de escolha, com seu imperfeito conhecimento. O homem foi muito audacioso e ignorante para se conscientizar disto, e o resultado foi que o homem, como raça, tem estado separado; os malignos têm traído a confiança e trazido o castigo para si mesmos, ao passo que o bom tem sido capaz de se elevar bem acima da Criação, para se tornar o próximo de Deus. Segue-se disto, incidentalmente, que os céus e a terra foram criados antes do homem, sendo que isso está de acordo com o que conhecemos do mundo material, na ciência: o homem entrou em cena num estágio comparativamente recente.

1299. Aqueles que permanecem firmes em sua fé e cumprem com seus pactos receberão o auxílio da Graça de Deus; suas faltas e fraquezas serão curadas; e serão dignos de seu exaltado destino, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.

1300. A declaração do louvor a Deus tem um significado um tanto místico. Toda a Criação declara os seus louvores, isto é, manifesta a Misericórdia, o Poder, a Benevolência e a Verdade d’Ele - todos os sublimes atributo estão sumariados nos Seus Magníficos Nome (ver os versículos 180 da 7ª Surata e 110 da 17ª Surata, e respectivas notas). Para o homem, contemplá-los, por si só já constitui uma revelação. Esta atitude mental dá abertura a cinco Suratas do Alcorão, igualmente distintas, a saber, a 1ª, 6ª, 18ª, 34ª, 35ª Suratas. Aqui, o ponto mais bem posto em destaque é que a Sua sapiência e misericórdia, que compreendem todas as coisas, avaliadas no tempo e no espaço - aqui, em todo lugar, agora e sempre.

1301. Um ignorante talvez pense que a água absorvida pelo solo ou que a semente semeada sob um torrão está perdida; contudo, a água forma incontáveis córregos e regatos, e alimente e sustenta um sem-número de raízes e de formas de vida, e faz com que surjam todas as espécies de vida vegetal. Assim acontece com as coisas que saem da terra: quem pode contar as miríades de formas de ervas e de árvores, que crescem e perecem, e, contudo, sustentam uma vida contínua, por eras e eras? Todavia, isto constitui simbolismo de outras coisas ou entidades que estão além do tempo e espaço, e além da forma material. Nós vemos o nascimento e a morte da parte animal do homem: quando ele está sepultado sob o solo, os ignorantes talvez pensem que é o fim dele. Porém, que incontáveis estágios ainda jazem à frente dele, quanto à vida interior e espiritual? E assim acontece com as formas platônicas das coisas: benevolência, virtude, misericórdia e as várias funções da alma. Estas jamais se perdem, mas elevam-se a Deus.

1302. O ferro, ou o aço é um material duro; no entanto, nas mãos de um artífice, se torna mole e maleável, sendo que com ele podem ser feitos instrumentos para a defesa da virtude. Estes, no sentido lato, são as cotas de malha e armaduras defensivas; e a confecção delas é tradicionalmente atribuída a Davi. Porém, para a guerra, tanto no mundo material como no mundo espiritual, a armadura é necessária, sendo que ela pode ser feita de alguns dos mais duros materiais da vida.

1303. No Antigo Testamento, Crônicas - II, Capítulos 3 e 4 -, estão descritos os vários materiais custosos, com os quais o Templo de Salomão foi erigido, sendo que foi ornado com vasos, candelabros, candeias, turíbulos etc.. "E fez Salomão todos estes vasos em grande quantidade, porque o peso do cobre não podia ser encontrado (Crônicas - II, 4:18).

1304. Mahráb (plural Máharib); traduzido por "arco", pode ser aplicado a qualquer estrutura arquitetônica fina, elevada e espaçosa. Como a referência aqui é ao Templo de Salomão, achamos que a palavra "arcos" fosse a mais apropriada. "Arcos" seriam os ornamentos estruturais do Templo. E as estátuas seriam como as imagens de bois e de querubins, mencionadas em Crônicas - II 4:3 e 3:14; as vasilhas (Crônicas - II 4:22) eram, talvez, os grandes pratos redondos, em torno dos quais os homens podiam sentar-se e comer, de acordo com um antigo costume oriental, enquanto as caldeiras ou potes (Crônicas - II 4:16) estavam fixadas num só lugar, sendo de capacidade tal, que não podiam ser removidas facilmente.

1305. A construção do templo constitui um grande evento para a história israelita. O lema aqui fornecido é "Trabalha!", porque somente assim poder-se-ia justificar a manutenção do Reino de Davi, que alcançou o seu fastígio sob o governo de Salomão. Sem trabalho, tanto literal como figurativamente, para os "efeitos virtuosos", todo aquele poder e toda aquela glória estariam fora de lugar, desapareceriam em poucas geração, juntamente com o declínio do espírito moral que estava por trás daquilo tudo.

1306. Este é o mesmo território e a mesma cidade, no Iêmen, mencionado no versículo 22 da 27ª Surata; ver a nota, aí, quanto à localização. Lá, o período foi o tempo de Salomão e da Rainha Bilquis. Aqui, trata-se de alguns séculos mais tarde. Era ainda um país próspero e feliz, amplamente irrigado pela represa de Marib. Suas estradas, e talvez os seus canais, eram marginados por jardins, de ambos os lados; em qualquer ponto dado, viam-se sempre dois jardins. O país produzia frutas, especiarias e olíbanos.

1307. Naquele feliz Jardim do Éden, que era a Arábia Feliz, entrou a insidiosa serpente da Descrença e da Injustiça. Talvez o povo se tornasse arrogante por causa da sua prosperidade, ou da sua ciência, ou da sua habilidade quanto à engenharia de irrigação, ou por causa das magníficas obras da barragem que seus antepassados construíram. Talvez se tivessem dividido em ricos e pobres, privilegiados e destituídos, gente fina e gente ínfima desconsiderando as dádivas, e fechando a porta às oportunidades, dadas por Deus, e todas as suas criaturas. Talvez tivessem desrespeitado as leis da própria natureza que os alimentava e sustentava. Então veio a Nêmesis; talvez viesse repentinamente, talvez vagarosamente. As águas contidas no lado oriental do planalto do Iêmen foram coletadas e confinadas pela Barragem de Maarib. Uma grande enchente aconteceu e a represa arrebentou e desde então nunca mais foi consertada. Essa foi uma colossal calamidade; isso talvez tenha sido precedido de e seguido por uma lenta seca no país.

1308. "Arim" (diques ou barragens) talvez tenha sido um substantivo próprio, ou talvez simplesmente signifique o grande trabalho de argila e pedras que formou a represa de Maarib, da qual traços ainda existem. O viajante francês T.J. Arnaud, em 1843, viu a cidade e as ruínas da Barragem de Maarib, e descreveu as obras gigantescas da barragem e das suas inscrições. A barragem, aquilatada por Arnaud, tinha 3 km e meio de comprimento e 36 m de altura. A data de sua destruição está estimada por volta do ano 120 d.C.

1309. o florescente "Jardim da Arábia" transformou-se num deserto. As exuberantes árvores frutíferas tornaram-se selváticas, ou cederam lugar a plantas selvagens de frutos amargos. As tamargueiras, levemente folhadas, que servem apenas para fazer varas e trabalhos de estaca, tomaram o lugar das plantas e flores fragrantes. Espécies raquíticas e agrestes de arbustos espinhentos, como o loto silvestre, que não serviam para dar frutos nem fazer sombra, cresciam, em lugar das romãzeiras, das tamareiras e dos vinhedos. O loto pertence à família Rhammacea Zizyphus Spina Christi, da qual (é suposto) a coroa de espinhos de Cristo foi feita. Agreste, ele é arbustiforme, espinhento e inútil; cultivado, produz bons frutos, alguma sombra, e pode ficar sem espinhos, tornando-se desse modo um símbolo da bênção celestial (versículo 28 da 56ª Surata).

1310. Um exemplo agora é dado da espécie de cobiça da parte do povo de Sabá, que arruinou a sua prosperidade e o seu comércio, e cortou as suas próprias gargantas. A velha rota do incenso era a grande Estrada (sabil muquim - 76 da 15ª Surata) entre a Arábia e a Síria. Através da Síria ela se comunicava aos grandes e florescentes reinos dos vales do Eufrates e do Tigre, de um lado, e ao Egito de outro, e ao grande Império Romano, em torno do Mediterrâneo. No outro extremo, através da costa do Iêmen, a estrada se comunicava, por transporte marítimo, com a Índia, Malásia e China. A estrada Iêmen-Síria era muitíssimo movimentada, e Madain Salih era uma das estações da rota, depois na rota dos peregrinos. A Síria era a terra na qual Deus "derramara as Suas bênçãos", pois era um país rico e fértil, onde Abraão vivera; inclui a Terra Santa da Palestina.

1311. Há seis proposições, aqui introduzidas pela palavra "Dize", nos versículos 22, 24, 25, 26, 27, e 30. Elas claramente explicam a doutrina da Unidade (versículo 22), da Misericórdia de Deus (versículo 24), da Responsabilidade Pessoal do homem (versículo 25), da Justiça Final (versículo 26), do Poder e da Sabedoria de Deus (versículo 27) e da Inevitabilidade do Julgamento, pelo qual os verdadeiros valores serão restabelecidos (versículo 30).

1312. Para os idólatras todas as escrituras constituem tabus, quer se trate do Alcorão ou de qualquer Revelação que veio antes dele. O povo do Livro desprezava os idólatras; porém, na sua arrogante presunção de superioridade, não permitia, por seu exemplo, que fosse aceita a derradeira e universalíssima Escritura que veio na forma de Alcorão. Esta posição de homens que se jactam do seu conhecimento, e dos homens que eles espezinham, exploram e desviam, sempre existiu na terra. Mencionamos o povo do Livro e os árabes pagãos, por questão de mera ilustração.

1313. Trata-se dos mais inteligentes, que exploram os mais fracos, e estão constantemente maquinando, noite e dia, no sentido de manter os últimos ignorantes, sob o seu jugo. Os primeiros que mostram os caminhos do mal, porque, por esse meio, os segundos estão mais em sue poder.

1314. Wali, em árabe, pode significar amigo, tanto no sentido de protetor e benfeitor, como no sentido de bem-amado. Os laços de benevolência, de confiança e de amizade estão implícitos, tanto ativa como passivamente. Os anjos primeiramente proclamaram a sua dependência quanto a Deus, e a necessidade da Sua proteção, e então desmentem qualquer idéia de terem protegido ou encorajado os falsos adoradores a adorarem outros seres, que não Deus. Eles vão além, e dizem que quando os homens pretendiam adorar os anjos, eles adoraram, não anjos, mas gênios (ver a nota seguinte).

1315. Para gênios, ver o versículo 100 da 6ª Surata, e respectiva nota. Os falsos adoradores pretendiam adorar os brilhantes e radiantes anjos do bem, mas na realidade, adoravam as escuras e ocultas forças do mal - os demônios escondidos neles mesmos, ou na vida em torno deles. Eles confiavam e acreditavam nas tais forças do mal, embora essas forças não tivessem realmente poder algum.

1316. Passando dos povos anteriores aos antepassados imediatos, o Povo do Livro, ou Povo de Sabá, e o Povo de Ad, e o Povo de Samud, todos haviam recebido favores e dádivas, poderes e riquezas, dez vezes maiores do que os que eram desfrutados pelos coraixitas pagãos. Contudo, quando eles deram as costas a eles; e que terríveis conseqüências se desencadearam sobre eles, quando eles perderam a Graça de Deus! Isto deve fazer com que todos abram os olhos, e não menos a posteridade do Mensageiro Mohammad, caso se esqueçam da Verdade de Deus, porquanto tal posteridade tem recebido um elevado Ensinamento!

1317. Note-se que nos versículos 46,47, 48, 49 e 50, os argumentos são sugeridos ao Profeta, dizendo que com eles ele poderia convencer qualquer homem bem intencionado, quanto à sua sinceridade e veracidade. Aqui o argumento é que ele não está possesso ou louco. Se ele é diferente dos homens comuns é porque ele tem de apresentar um escarmento do terrível perigo espiritual às pessoas que ama, mas que não entende a sua Mensagem.

1318. Professarão então a sua fé na verdade, mas que valor terá tal profissão? A fé é uma crença no incognoscível. Então tudo estará claro e em aberto perante eles. A posição na qual poderiam ter recebido a fé é deixada distante, atrás deles, sendo que a Verdade lutava e pedia ajuda ou asilo, e eles cruel, arrogante e insultantemente a repudiaram.

1319. Não rejeitaram apenas a Verdade do Incognoscível (a verdade Realidade), mas espalharam todo o tipo de falsas e maliciosas insinuações contra os divulgadores da verdade, chamando-os de pessoas desonestas, mentirosas, hipócritas etc. fizeram o papel do covarde que, de uma posição sorrateira, distante da luta, arremessa flechas em direção a um alvo distante.

1320. Note-se que os versículos 51-54 constituem uma poderosa descrição do conflito entre o certo e o errado, e podem ser entendidos como possuindo muitos significados: (1) a descrição se aplica à posição na Vida Futura, comparando-se com a posição nesta vida; (2) aplica-se à posição do triunfal Islam em Madina, e mais tarde, em comparação à posição do perseguido Islam dos primeiros dias, em Makka; (3) aplica-se, ainda, à reversibilidade da posição do certo e do errado, em várias fases da história do mundo, ou (4) da história individual.

1321. À medida em que o conhecimento do homem, quanto aos processos da natureza, avança, ele vê quão complexa é a evolução da própria matéria, deixando de lado a questão da origem da vida e das forças espirituais, questão essa que está além da argúcia da ciência experimental. Contudo, esse próprio conhecimento torna-se uma espécie de "véu de luz"; o homem se torna cônscio das suas causas próximas, e fica afeito, em seu orgulho, a se esquecer da Causa primeva, a Causa das Causas, a primordial mão de Deus na Criação. E então a criação se torna um processo complexo. A palavra fatara, aqui usada, significa a criação da matéria primeva à qual ulteriores processos criadores têm de ser acrescentados pela mão de Deus, pois Deus "aumenta a criação conforme Lhe apraz", não apenas em quantidade, mas em qualidade, funções, relações e variações, de infinitos modos.

1322. A alegoria, aqui, é dupla: (1) o adusto e não-promissor solo talvez pareça, para todos os intentos e propósitos, morto; não há manancial de água por perto; a umidade é sugada pelo calor do sol, num oceano longínquo, e as nuvens são formadas; os ventos aparecem; mas é realmente a providência de Deus que dirigem os ventos para a terra morta; a chuva cai, e eis que há vida e movimento e beleza por todo lado! Assim também, no mundo espiritual, a Revelação de Deus e a Sua Misericórdia são a Sua Chuva; pode ser que haja a ressurreição individual (Nuxur), ou o desabrochamento da alma; (2) assim, outra vez, poderá dar-se à Ressurreição geral (Nuxur), o desabrochar de um novo Mundo no Porvir, tirado de um velho Mundo, que foi envolvido e morto (Takwir, Surata 81ª).

1323. Comparar com o versículo 37 da 18ª Surata, e respectiva nota. Aqui o argumento é de que a origem material do homem é reles; seu corpo físico nada mais é do que pó; seu esperma sai de uma parte do seu corpo, a qual ele esconde, considerando-a um lugar de vergonha; e o mistério do sexo mostra que nenhum indivíduo, em toda a humanidade, é por si só suficiente. A glória, o poder e o conhecimento não estão com ele, mas com Deus tão-somente, do Qual ele tira qualquer glória, ou poder, ou conhecimento que possui.

1324. "Então", nesta e na cláusula seguinte, refere-se, não aos estágios do tempo, mas aos estágios do argumento. É quase equivalente a "ainda mais", "também" e "em adição".

1325. O grande oceano salgado, com seus mares e golfos, é um só; e as grandes massas de água potável dos rios, dos lagos, das lagoas e dos veios subterrâneos, são também uma só; e uma é ligada à outra pela constante circulação que se dá, com o sol a provocar os vapores, e os ventos a carregarem-nos para as nuvens que então fazem descer a chuva, ou a neve ou o granizo, que se misturam com os rios, com os regatos, e voltam ao Oceano.

1326. Tais como pérolas e corais, vindos do mar, e pedras delicadamente coloridas, como a coralina, a ágata, a pepita, ou outras variedades de seixos de quartzo encontrados nos leitos dos rios. A areia de alguns rios apresenta, ainda, quantidades diminutas de ouro. Nos rios largos e navegáveis e nos grandes lagos, como aqueles da América do Norte, bem como no mar, estão as rotas para os navios mercantes.

1327. Comparar com o versículo 2 da 13ª Surata. A posição da Terra, em relação ao Sol, determina as estações, e o Sol constitui a fonte de energia e de vida material para todo o sistema solar. O sol e a lua se movem segundo leis estabelecidas, e assim continuarão, não para sempre, mas por um período apontado por Deus, para a sua duração.

1328. Kitmir: a pele fina e branca, que cobre o caroço da tâmara. Não tem consistência, nem textura, e também não tem valor algum. Qualquer um que se apoie em outro poder que não o de Deus, apoia-se em nada. O Kitmir vale monos do que o proverbial "vintém furado". Comparar com os versículos 53 e 124 da 4ª Surata, onde a palavra nakir (a ranhura de um caroço de tâmara) é similarmente usada para especificar uma coisa de nenhum valor ou significância.

1329. Pecador: Hámilatun: feminino, em árabe, referindo-se à alma (nafs), como no versículo 164 da 6ª Surata.

1330. O relacionamento natural pode ser considerado uma causa razoável, ou uma oportunidade para as pessoas carregarem os fardos umas das outras. Por exemplo, uma mãe ou um pai poderá oferecer-se para morrer por seu filho, e vice-versa. Porém, isso não se aplica aos assuntos espirituais. Aqui, a responsabilidade é estritamente pessoal, e não pode ser transferida para outra pessoa.

1331. Todos podem ver o espírito artístico de Deus a produzir, com a chuva, a maravilhosa variedade de cereais e frutos - dourados, verdes, vermelhos e amarelos -, mostrando todas as maravilhosas cores em que podemos pensar. E todos eles passam, na natureza, por uma ligeira variação de cores em sua transformação do estado embrionário para o estado de amadurecimento.

1332. Essas maravilhosas cores e matizes de cores podem ser encontrados não apenas na vegetação, mas também em rochas e em extratos minerais. Há os brancos veios do mármore, do quartzo e do gesso, a bauxita que se extrai da vermelha laterita, as rochas basálticas azuis, e todas as variedades, matizes e gradações de cores. Quanto às montanhas, nós as vemos com um "matiz azulado", à distância devido aos efeitos atmosféricos, que levam os nossos pensamentos à glória das nuvens, do pôr-do-sol, da luz zodiacal, da aurora boreal, e de todos os espetáculos exuberantes da natureza.

1333. Nas formas físicas da vida humana e animal, nós também constatamos variações de matizes e graduações de cores de toda a espécie. Porém, conquanto essas variações e graduações possam ser maravilhosas, nada são, comparadas com as variações e diferenças que existem no mundo interior ou espiritual.

1334. Os custódios do Alcorão, após o Mensageiro, foram os povos do Islam. Eles foram escolhidos para o Livro, não num sentido restrito, mas no sentido de que o Livro lhes foi dado, para que eles ficassem encarregados de preservá-lo e propagá-lo, para que toda a humanidade o recebesse. Mas isso não quer dizer que eles foram e são todos fiéis ao seu encargo, como deveras vemos mui lamentavelmente, em nosso meio, hoje. Assim como os humanos foram coletivamente escolhidos para serem "os legatários de Deus" - e alguns se deram ao mal -, também alguns, na casa do Islam, deixaram de seguir a Luz que lhes foi dada e, desse modo, "se condenaram"; porém, alguns seguem um curso intermediário; no caso destes, "o espírito está inclinado, mas a carne é fraca"; suas intenções são as melhores, mas têm de aprender, ainda, com os verdadeiros muçulmanos e com as virtudes muçulmanas. Há ainda uma terceira classe: podem não ser perfeitos, mas tanto suas intenções como suas condutas são irrepreensíveis, e eles constituem um exemplo para os outros homens; eles "se emulam na beneficência". São assim, não por seus próprios méritos, mas pela Graça de Deus. E eles alcançaram o mais alto desiderato - a salvação, que é tipificada pelas várias metáforas que se seguem.

1335. Comparar com os versículos 31 da 18ª Surata e 23 da 22ª Surata.

1336. Em primeira instância, isto se refere aos coraixitas. Suas atitudes para com o Povo do Livro eram de empertigada superioridade e de desculpas insinceras. Eles criticavam os judeus e os cristãos, por estes se terem desviado da sua própria luz e das suas próprias revelações; e quanto a eles mesmos, disseram que não haviam recebido nenhuma revelação direta de Deus, ou ter-se-iam mostrado os mais moldáveis à disciplina, os mais prontos a seguirem a lei de Deus. Isto aconteceu antes de o Profeta do Islam receber de Deus a sua missão. Quando ele a recebeu, e a anunciou, eles lhe voltaram as costas. Fugiram dela e estabeleceram uma distância cada vez maior entre eles e ela. Mas é esta a maneira dos pecadores. Eles têm muito o que criticar nos outros, e muito o que desculpar em si mesmos. Porém, quando todos os termos de desculpas estão esgotados, eles se encontram cada vez mais longe da verdade e da virtude.

1337. As leis de Deus são fixas e Sua maneira de tratar aqueles que seguem a iniqüidade é a mesma, em todas as épocas. Nossa vontade humana pode sair do seu curso, mas a Vontade de Deus seguirá sempre o seu curso, e não poderá ser desviada por nenhuma causa.

138. Se nenhum outro argumento convencer os que seguem o mal, que eles percorram a terra por algum tempo e aprendam com a experiência dos outros. O mal sempre terá um final maldoso. Que nenhum indivíduo ou geração pense que poderá escapar, utilizando-se de algum estratagema. Pessoas bem mais sábias e mais poderosas foram chamadas a prestarem contas pelas suas iniqüidades.

1339. Um só ser; isto talvez se refira ao homem, criatura viva, que caminha com tantas possibilidade e, contudo, com tamanha fraqueza. Porém pode significar, literalmente, todas as criaturas, uma vez que a vida neste planeta gira mais ou menos em torno da vida do homem. Tem-lhe sido conferido o domínio, nesta terra e, em estado de pureza, ele é legatário de Deus.

1340. Alguns exegetas acham que Ya seja a partícula vocativa, e Sin a abreviação de Insan (homem), sendo, Sin, a única "letra firme" da palavra. Nesse caso, isso seria dirigido ao homem: "Ó homem!" Porém, "homem", aqui, é compreendido como querendo dizer o líder dos homens, o mais nobre entre a humanidade, Mohammad, o Profeta de Deus, porque esta surata trata principalmente do Profeta do Islam e de sua Mensagem. Contudo, nenhuma asserção dogmática pode ser feita sobre as letras do início das suratas. Ya Sin é usualmente tido como um título do Profeta do Islam.

1341. Muitos dos exegetas clássicos supõem que a cidade a que se refere o texto fosse Antióquia. Segundo Ibn Alcatir, rejeitamos decisivamente a identificação com Antióquia. Nome algum, ou período, ou local, é mencionado no texto. A significância da história está nas lições a serem aprendidas da parábola. Isso é independente de nome, tempo, ou local.

1342. Comparar com Atos, 14:15, onde Paulo e Barnabas dizem, na cidade de Listra, próxima à moderna Cônia: "Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos pedimos que fujais dessas vaidades..."

1343. Tair significa pássaro. Como os augúrios romanos, os árabes tinham a superstição de deduzir essa crendice dos pássaros. Comparar com a palavra portuguesa "auspiciosos", do latim avis (ave) e specio (vejo). De tair (pássaro) veio ta-taiyara (tirar maus augúrios). Porque os diletos de Deus denunciavam o mal, que lhes acontecia provinha dos seus próprios malefícios. Comparar com o versículo 131 da 7ª Surata, onde os egípcios atribuíam as suas calamidades à má sorte trazida por Moisés, e com o versículo 47 da 27ª Surata, onde o povo de Samud atribuía a má sorte à pregação de Sáleh.

1344. As tamareiras e as videiras constituem símbolos de árvores frutíferas de todas as espécies, sendo a tâmara e a uva, as frutas características da Arábia. Os cereais foram mencionados no versículo anterior; as frutas são mencionadas agora. Tudo quanto é necessário para a alimentação, do mais fino paladar, é produzido do que parece ser um solo inerte, fertilizado pela chuva e pelos córregos. Eis aqui a maravilhosa evidência do talento artístico e da providência de Deus.

1345. O mistério do sexo está presente em toda a criação - no homem, na vida animal, na vida vegetal, e possivelmente, em outras coisas das quais não temos conhecimento. Há, então, os pares de forças opostas na natureza, como por exemplo, a eletricidade negativa e a eletricidade positiva etc.. O próprio átomo consiste de um núcleo, com prótons positivamente carregados, rodeado de elétrons, negativamente carregados. A constituição da própria matéria é desse modo apresentada, em pares de energias opostas.

1346. As casas lunares são as 28 divisões do Zodíaco, que se supõe sirvam para marcar o curso diário da lua no céu, desde o tempo da lua nova até ao seu desaparecimento para nós (fim do quarto minguante).

1347. Urjun: um cacho de tâmaras ou da tamareira; ou a base ou a parte de baixo do cacho. Quando ele fica velho, torna-se amarelado, seco e murcho, e curva-se qual foice. Daí a comparação com a aparência de foice da lua nova. A lua passa por todas as fases, aumentando e diminuindo a intensidade da claridade, até que desaparece, para depois aparecer, na forma de uma fina curva.

1348. Embora o sol e a luz atravessem a zona do Zodíaco, e seus movimentos sejam diferentes, não há possibilidade de colidirem. Quando o sol e a lua estão num mesmo lado e formam, com a terra, uma linha reta, há o eclipse solar (que pode ser total, parcial ou anelar), e quando estão de lados opostos, formando também uma minha reta, há o eclipse lunar (que pode ser total ou parcial), mas não há colisão. Suas Leis são determinadas por Deus, e constituem motivo de estudo para a astronomia.

1349. Tradicionalmente, o anjo que fará soar a trombeta será Israfil, embora o nome não apareça no Alcorão. A trombeta é mencionada em muitos lugares, como, por exemplo nos versículos 73 da 6ª Surata e 18 da 78ª Surata etc..

1350. Há alguma diferença de opinião, entre alguns exegetas, quanto ao exato significado a ser atribuído a esta cláusula. Como a entendemos, o significado para ser este: o homem é capaz de se esquecer do verdadeiro Deus ou voltar as costas s Ele, Que é a fonte de todo o bem de que ele desfruta, e correr atrás de poderes imaginários, em forma de deuses, de heróis, ou de coisas abstratas, como a ciência, a natureza, a filosofia, ou coisas supersticiosas, como a magia, a boa sorte, a má sorte, ou da incorporação dos seus próprios desejos egoísticos. Ele acha que essas coisas poderão ajudá-lo, nesta Vida ou na Vida Futura (se é que ele acredita na Vida Futura). Porém, elas não podem ajudar; pelo contrário, todas as coisas falsas serão trazidas e condenadas perante o Trono do Julgamento, e os que cultuam as falsidades serão também tratados como uma tropa que favorece as falsidades, e, portanto, dignos de condenação. As falsidades, portanto, ao invés de os ajudarem, contribuirão para a sua condenação.

1351. Os três atos, nos versículos 1-3, são consecutivos, como é mostrado pela partícula fa. Nós os compreendemos como querendo dizer que os anjos e os bondosos estão prontos a se alinhar nas fileiras, para o serviço de Deus, e atuam em perfeita disciplina, e de acordo com todos os tempos; que eles interceptam e frustam o mal onde quer que o encontrem, e, ao fazê-lo, são revigorados pela sua disciplina e pelo fato de se alinharem em fileiras, e que tal serviço faz propaganda do Reino de Deus e proclama a Sua Mensagem e a Sua glória para toda a criação.

1352. A Mensagem divina é sumariada no evangelho da Unidade Divina, no qual a maior ênfase é dada: "Em verdade, vosso Deus é Único". Esse é um fato que está intimamente ligado à nossa própria vida e ao nosso próprio destino. "Vosso Senhor é aquele Que vela por vós; sois caros a Ele. E Ele é o Único; é tão-somente Ele que deveis procurar, pois Ele é a fonte de todo o bem, de todo o amor e de todo o poder. Vós não sois companheiros de tantos que lutam contra as forças ou contra chances cegas. Há uma completa harmonia e unidade no céu, e vós vos deveis colocar em uníssono com ela, isso por meio da disciplina nas fileiras, por meio da unidade de plano e propósito, repelindo o mal, encetando uma ação que promova o Reino de Deus. "Eis aqui o mistério da múltipla variedade da criação, que converge para a Unidade absoluta do Criador.

1353. Essa Unidade compreende tudo quanto existe - os céus e a terra, e tudo quanto há entre ambos. Porque Ele é o Senhor dessas coisas. Ele é o Senhor dos Macháric (de todos os pontos em que o sol se levanta). Como os cientistas nos contam, há , no ano, apelas dois equinócios, dias em que o sol se levanta no leste; em cada um dos outros dias o sol nasce numa posição cambiante, quer mais a nordeste, quer mais a sudeste.

1354. Esse está situado abaixo do céu elevado, o Empíreo - a esfera de foto (Gurrat-un-nar), o assento, supomos, dos celícolas (de anjos), mencionados no versículo 8, diante. Nas imaginações poéticas do Oriente e do Ocidente, há os sete céus dos planetas do sistema solar; acima deles está a esfera de estrelas fixas; acima desta está a esfera cristalina, equilibrando outros movimentos; mais acima, ainda, está o premum-mobile (o primeiro a se mover), a fonte dos movimentos celestiais; e acima de tudo, o Empíreo. Os atros e os planetas, por conseguinte, encontram-se nos céus inferiores. A mesma imaginação será encontrada em Dante.

1355. "Estrelas", pode ser tomado aqui no sentido popular, como referindo-se às estrelas fixas, aos planetas, aos cometas, às estrelas cadentes etc. Numa noite límpida, a beleza de um céu estrelado é proverbial. Eis que as estrelas podem ilustrar dois pontos: (1) sua maravilhosa beleza, seu agrupamento e movimento (aparente ou real), manifestando e tipificando o Desígnio e a Harmonia do Único e Verdadeiro Criador; e (2) o poder e a glória, atrás delas, especificam que há uma salvaguarda contra as investidas do Mal.

1356. Isto é, se suas esposas também eram iníquas. Elas são mencionadas em separado, porquanto o termo árabe para "iníquo" é do gênero masculino. Todos os associados na iniqüidade serão mesclados. Haverá a responsabilidade pessoal, nem o marido, nem a esposa, poderão pôr a culpa um no outro.

1357. Frutos: comparar com o versículo 57 da 36ª Surata. Os prazeres espirituais estão delineados seguindo as experiências paralelas na nossa vida presente, e seguem uma ordem ascendente: alimento se frutas; jardins da bem-aventurança; o lar da felicidade e dignidade, com companhia apropriada, bebidas deliciosas, de fontes cristalinas, para o prazer social; e a companhia do sexo oposto, com beleza e charme, mas sem nenhuma grosseria, muitas vezes incidentais a tais companhias nesta vida.

1358. No emblema usado aqui, então, o tipo puro do sexo feminino casto é configurado. Elas são castas, tímidas em seus olhares; contudo, seus olhos são grandes, portentosos e belos, prefigurando graça, inocência e uma refinada capacidade de apreciação e admiração.

1359. Isto é costumeiramente entendido como referindo-se à delicada tez de uma mulher bela, a qual é comparada à transparente concha de ovos de um ninho, guardada de perto pelo pássaro-mãe, a concha é cálida e limpa. No versículo 58 da 55ª Surata, a frase usada é "Parecem-se com o rubi e com o coral", referindo-se ao vermelho ou cor-de-rosa de uma bela cútis.

1360. O companheiro era um cético, quereria da religião e do outro mundo. Como tudo muda!, o devoto tempera a sua fé com uma bela vida e está agora em bem-aventurança. O outro era cínico e estragou a sua e está agora queimando no fogo do inferno.

1361. O Dilúvio, a Inundação de Noé. A história principal será encontrada nos versículos 25-48 da 11ª Surata.

1362. Seu nome é sempre lembrado; ele deu início a uma nova era na história religiosa! Nota-se que as palavras dos versículos 78-81, com pequenas modificações, formam uma espécie de refrão aos parágrafos que se seguem, sobre Abraão, Moisés e Elias, mas não sobre Lot e Jonas. Lot era sobrinho de Abraão, e supõe-se que faça parte da história de Abraão. A carreira de Jonas quase terminou em tragédia para ele, e, ao seu povo, foi dada uma concessão de poder "por algum tempo" (versículo 148 desta surata). E tanto Lot como Jonas pertencem a uma limitada tradição local.

1363. A história do Dilúvio é encontra, de uma forma ou de outra, em todas as nações, e não apenas entre aquelas que seguem a tradição mosaica. Na tradição grega, o herói do Dilúvio é Deucalião, com sua esposa Pirra. Na tradição hindu (Chatapaça Brahmana e Mahabhrata), há a saga de Manu e do Peixe. A tradição chinesa de uma grande inundação é registrada em Chu-King. Entre os índios americanos, a tradição era comum a muitas tribos.

1364. Esta foi a hégira de Abraão. Ele abandonou seu povo e a sua terra, porque a verdade lhe era mais cara do que as falsidades ancestrais de seu povo. Ele se confiou a Deus e, sob a Sua diretriz, lançou as fundações de grandes povos (ver a nota do versículo 69 da 21ª Surata).

1365. Isto ocorreu no solo fértil da Síria e da Palestina. O menino, dessa forma nascido, era, de acordo com a tradição muçulmana, o primogênito de Abraão, a saber, Ismael. O nome provém da raiz Samiá (ouvir), porque Deus havia ouvido a súplica de Abraão (versículo 100). A idade de Abraão, quando Ismael nasceu, era 86 anos (Gênesis, 16:16).

1366. Onde ocorreu esta visão? O ponto de vista muçulmana é que foi em Makka ou perto dela. Alguns identificariam o local como sendo o vale de Mi na, cerca de 9 km ao norte de Makka, onde um sacrifício comemorativo é anualmente levado a efeito, como um ritual do Hajj, no décimo dia de Dul-Hijja, o dia do Sacrifício, o Eid (festa) do sacrifício de Abraão e Ismael. Outros dizem que o local original do sacrifício foi perto do monte Almarwa o qual está associado à infância de Ismael.

1367. A nossa versão pode ser comparada com a versão judaico-cristã do Antigo Testamento vigente. A tradição judaica, a fim de glorificar o ramo mais jovem da família, que descendia de Ismael, ancestral dos árabes, atribui esse sacrifício como sendo de Isaac (Gênesis, 22:9 e 10). Ora, Isaac nasce quando Abraão tinha 100 anos (Gênesis 21:5), ao passo que Ismael nasceu quando Abraão contava 86 anos de idade (Gênesis 16:16). Ismael era, portanto, 14 anos mais velho do que Isaac. Durante os seus primeiros 14 anos de vida, Ismael foi o único filho de Abraão: em tempo algum foi Isaac filho único de Abraão. No entanto, falando do sacrifício, o Antigo Testamento diz (Gênesis 22:2): "E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas, e vai-te para a terra de Moriá, e oferece-o em holocausto sobre uma das montanhas..." Este desliza mostra, de qualquer forma, qual era a versão mais velha, e como foi elaborada nos presentes registros judaicos, e nos interesses de uma religião tribal. O termo "terra de Moriá" não está claro; ela ficava a três dias de viagem do local onde estava Abraão (Gênesis 22:4). Há menos justificava em ela identificar-se com o Monte de Moriá, sobre o qual Jerusalém foi depois erguida, do que com o monte de Márwa, que é identificado com a tradição árabe acerca de Ismael.

1368. O adjetivo que qualifica "sacrifício", aqui, azim (grande, importante), pode ser entendido, tanto no sentido literal, como no figurado. No sentido literal, compreende-se que uma ovelha ou um carneiro de boa qualidade foi simbolicamente posto em substituição. O sentido figurado é ainda mais importante. Foi deveras uma grande e importante ocasião, em que dois homens, de comum acordo, "alinharam-se nas fileiras" daqueles para os quais a dedicação a serviço de Deus era a coisa suprema da vida. Porém, note-se que o resgate e a consumação do sacrifício não foram realizados pelos homens, mas por Deus. Deus quer a nossa boa vontade e devoção, não necessariamente as nossas vidas, num sacrifícios físico. Ele encontrará meio, se nos oferecermos a Ele, de nos usar, não para a nossa destruição, mas para o nosso avanço adicional.

1369. A história de Moisés é narrada em numerosas passagens do Alcorão. As passagens mais ilustrativas da presente passagem poderão ser encontradas no versículo 4 da 28ª Surata (a opressão do povo egípcio) e nos versículos 77-79 da 20ª Surata (o triunfo dos israelitas sobre os seus inimigos, quando os últimos foram afogados no Mar Vermelho).

1370. Os israelitas foram agraciados, em três etapas, como é mencionado nos versículos 114, 115 e 116, respectivamente. Mas a consumação da graça de Deus foi (versículos 117-118) a Revelação dada a eles, que os guiou pela senda reta, Revelação que preservaram intacta e lhes seguiram os preceitos. As três etapas eram: a Divina Missão de Moisés e Aarão, a libertação do cativeiro; o triunfo de cruzarem o Mar Vermelho e a destruição do exército do Faraó.

1371. Ver a nota do versículo 85 da 6ª Surata. Elias é o mesmo que Elijá, cuja história pode ser encontrada no Antigo Testamento, em I Reis, 17-19, e II Reis, 1:2. Elijá viveu no reino de Ahab (896-874 a.C.) e Ahaziah (874-872 a.C.), reis do reino (setentrional) desde Israel ou Samaria. Ele era um profeta do deserto, tal e qual João Batista - diferente do nosso Profeta do Islam, que tomou parte, controlou e guiou todos os assuntos do seu povo.

1372. Baal, o deus-sol, cultuado na Síria. O culto incluía a adoração das forças da natureza e dos poderes procriadores, dando margem a que seus seguidores cometessem muitos abusos.

1373. Eles o perseguiram, e ele teve de fugir para salvar a vida. Finalmente, ele desapareceu de modo misterioso.

1374. Iliasin talvez seja uma forma alternativa de Ilias (versículo 20 da 23ª Surata) e de Sinin (versículo 2 da 95ª Surata). Ou pode ainda ser o plural de Ilias, significando "pessoas como Ilias".

1375. Comparar com o versículo 76 da 15ª Surata, e respectiva nota. O trato do território, onde eles se situavam é na estrava para a Síria, onde as caravanas árabes passavam regularmente "ao amanhecer e ao anoitecer". Não poderiam, as gerações futuras, aprender a lição da destruição daqueles que procederam erroneamente?

1376. Para passagens mais ilustrativas, ver os versículos 87-88 da 21ª Surata, e respectiva nota, e 48-50 da 68ª Surata. A missão de Jonas era com respeito à cidade de Nínive, então afundada em corrupção. Ele foi rejeitado, pois anunciou a ira de Deus sobre eles; mas eles se arrependeram e obtiveram o perdão de Deus. Jonas, porém, "partiu, bravo" (versículo 87 da 21ª Surata), esquecendo-se de que Deus possui misericórdia, bem como perdão. Ver as notas seguintes (comparar com o versículo 98 da 10ª Surata, e respectiva nota).

1377. Jonas fugiu para Nínive. Ele poderia ter ficado em seu posto, e fundido sua vontade com a Vontade de Deus. Ele se apressou em sair e tomar uma embarcação, como se pudesse escapar o Plano de Deus!

1378. A embarcação estava lotada e encontrou mau tempo. Os marujos, de acordo com a sua superstição, queriam encontrar aquele que seria responsável pela má sorte; um escravo fugitivo causaria tal má sorte. A sorte caiu em Jonas, e ele foi atirado para fora.

1379. Os rios da Mesopotâmia têm alguns peixes grandes. A palavra, aqui usada, é Hut, que pode ser um peixe ou um crocodilo. Caso se tratasse de mar aberto, poderia ser uma baleia. A localidade não é mencionada; no Antigo Testamento é dito que ele tomou uma embarcação no porto de Jope (agora Jafa), no Mediterrâneo (Jonas, 1:3), que não distaria menos de 900 km de Nínive. O rio Tigre, mencionado por alguns dos nossos exegetas, é o mais provável, e contém peixes de extraordinário porte.

1380. Comparar com o versículo 89 desta surata. Sua estranha situação talvez tivesse feito com que ficasse doente. Ele queria ar fresco e solidão. Ele conseguiu ambos na planície aberta; e a copuda cabaceira, ou alguma árvore frutífera, como ela, forneceu-lhe tanto sobre como sustento. A cabaceira é uma plante trepadeira, que pode espalhar-se sobre qualquer telhado ou estrutura em ruínas.

1381. A cidade de Nínive era muito grande. O Antigo Testamento diz: "Era pois Nínive uma grande cidade de deus, a três dias de caminho"(Jonas, 3:3), em que estão mais de 120 mil homens..." (Jonas, 4:11). Em outras palavras, seu perímetro era de cerca de 73,5 km, e sua população era de mais de 120 mil habitantes.

1382. Eles se arrependeram e creram, e Nínive adquiriu uma nova fase de vida. Quanto às datas que podem ser postas em relação com Jonas, e às vicissitudes da história da cidade, como sede do Império Assírio, ver as notas do versículo 98 da 10ª Surata. As lições tiradas da história de Jonas são: (1) que homem algum pode arrogar-se o direito de julgar a ira ou a misericórdia de Deus; (2) que, não obstante, Deus perdoa o verdadeiro arrependimento, seja num homem virtuoso, seja numa cidade iníqua e (3) que o Plano de Deus sempre prevalecerá, e jamais poderá ser derrotado.

1383. Iniciamos um novo argumento aqui. Os árabes pagãos chamavam os anjos de "filhas de Deus". Eles próprios ficavam envergonhados de ter filhas, preferindo ter filhos, os quais lhes acrescentariam poder e dignidade (ver os versículos 57-59 da 16ª Surata, e respectiva nota). No entanto, inventaram filhas para Deus!

1384. Os anjos são, pelo menos, seres puros que estão a serviço de Deus. As superstições idólatras, porém, não apenas os ligavam a Deus, dizendo que eram Suas filhas, mas ainda relacionavam Deus com todas as espécies de espíritos, bons ou maus! Em algumas mitologias, os poderes mais malignos são deuses ou deusas, como se eles pertencessem à família de Deus, o Criador, e tivessem alguma semelhança com Ele. Isto também é repudiado, nos mais enérgicos termos.

1385. Para rematarmos o argumento da surata, voltamos à idéia com a qual ela começou. Os enfileirados, para a prática unida do serviço de Deus (ver o versículo 1, desta surata) - quer sejam anjos ou homens -, estão felizes em conservarem a sua posição e executarem tudo o que lhes é ordenado. Não é da sua conta questionarem o Plano de Deus, porque sabem que é bom, e que no fim triunfará. Qualquer demora aparente não os preocupa, e nunca falsearão na sua posição.

1386. Este versículo e o seguinte são repetições dos versículo 174-175, com uma pequena alteração verbal. O argumento, nos versículos 176-177, conduziu a um novo ponto. Quando termina, a repetição nos leva de volta ao argumento principal, e remata toda a surata.

1377-x. Sad é uma letra do alfabeto árabe. Quanto a esta letra particular, ver o segundo parágrafo da nota do versículo 1 da 7ª Surata. Dogmatismo algum nos é permitido, ao tentarmos interpretar as letras abreviadas. Mas é aventado que ela possa substituir a palavra quissas (Histórias), na qual a consoante dominante é S. porque esta surata é, principalmente, relacionada com as histórias de Davi e Salomão, ilustrativas das relativas posições dos poderes espirituais e terreno. A nota de George Sale, diz que ela pode representar "Salomão", constitui erro clamoroso, uma vez que a letra árabe Sad não aparece no nome Salomão.

1378-x. Quando no início do Islam, a sua mensagem estava sendo pregada, e o Pregador e seus seguidores estavam sendo perseguidos pelos pagãos, um dos expedientes adotados pelos líderes pagãos consistia em fazer com que o tio do Profeta, Abu Tálib, denunciasse ou renunciasse ao seu querido sobrinho. Uma conferência com Abu Tálib foi realizada, para tal propósito. Com o fracasso dessa empresa, os líderes foram embora e começaram a fazer desacreditar o grande movimento, anunciando falsamente que ele era contrário à influência pessoa, e estava fadado a pôr o poder nas mãos do Profeta. A conversão de Ômar ocorreu no sexto ano da Missão (sete anos antes da Hégira). As circunstâncias, ligadas a isso, alarmaram grandemente os chefes coraixitas, os quais, ávidos por autocracia, procuraram confundir a ocorrência, acusando o Pregador Virtuoso de conspirar contra o poder deles.

1379-x. O título do Faraó (Senhor das Estacas) denota poder e arrogância, das seguintes maneiras: (1) a estaca faz com que a tenda fique firme e estável, e é um símbolo de firmeza e estabilidade; (2) muitas estavas significam um campo e um numeroso exército para lugar; (3) espetar com estacas era uma punição cruel, imposta pelos Faraós, no seu arrogante orgulho e poder.

1380-x. Esta história ou parábola não é encontrada na Bíblia, a menos que a visão, aqui descrita, seja considerada equivalente à parábola de Natan, em Samuel 11 e 12. O exegeta Baidhawi parece ser a favor desse ponto de vista, mas outros o rejeitam. Davi era um homem religioso, e tinha uma câmara privada (mihrab), bem guardada para a oração e o louvor.

1381-x. Como foi afirmado na nota 1380-x, essa visão, com a sua moral, não é encontrada em lugar algum da Bíblia. Aqueles que acham que vêem uma semelhança com a parábola do Profeta Natan (Samuel, 12:1-17) nada têm em que se apoiar, a não ser na menção de "uma só" cordeira, aqui, e a "única cordeirinha", na parábola de Natan. Toda a história, aqui, é diferente, e toda a atmosfera é diferente. O título bíblico de "homem segundo o próprio coração de Deus", dado a Davi, é refutado pela própria Bíblia, no escandaloso conto dos crimes hediondos atribuídos a Davi nos capítulos 11 e 12 de Samuel II, a saber, adultério, trato fraudulento quanto a um de seus servos, a consumação do seu crime. Depois, no capítulo 13, temos a história concernente a estupros, incesto e fratricídio, na própria família de Davi! O fato é que passagens como essas constituem meras narrativas escandalosas, de crimes do mais horrendo caráter. A idéia muçulmana de Davi é a de um homem justo e reto, dotado de todas as virtudes, sobre quem o menor pensamento de auto-exaltação tem de ser banido, e trocado para o de arrependimento e perdão.

1382-x. A história não é encontrada no Antigo Testamento. Interpretamo-la de modo a significar que, como seu pai, Davi, Salomão era muito meticuloso, para não permitir que o menor motivo egoístico se misturasse com as suas virtudes espirituais. Ele adorava cavalos; possuía grandes exércitos e riqueza; mas usava-os para o serviço de Deus (comparar com os versículos 19 e 49 da 27ª Surata, e respectivas notas). Suas batalhas não eram travadas por sede de sangue, mas como Jihad, pela causa dos virtuosos. Seu amor pelos cavalos não era como um amor de um aperfeiçoado a corridas ou de um guerreiro; havia um elemento espiritual nisso. Ele tinha uma espécie de amor que era espiritual - o amor do mais alto bem.

1383-x. O "corpo sem vida", em seu trono, tem sido diversamente interpretado. A interpretação que mais nos parece razoável é que o seu poder terreno, apenas de grande, era como um corpo sem alma, a menos que fosse vivificado pelo Espírito de Deus. Porém, Salomão, voltou-se realmente a Deus, em verdadeira devoção, e o seu verdadeiro poder repousa nisso. Ele fez o melhor que pôde para cercear a idolatria, e completou o Templo de Jerusalém para o culto do Único e Verdadeiro Deus (ver a conversão, feita por ele, de Bilquis, a Rainha de Sabá - versículo 40 da 27ª Surata, e respectiva nota). Ver também o versículo 148 da 7ª Surata, onde a mesma palavra, Jassad, é usada em conexão com a imagem de um bezerro, que os israelitas fizeram para a adoração, na ausência de Moisés. Os homens podem adorar o poder terreno, como podem adorar um ídolo, pois há grande tentação em tal poder; porém, Salomão soube resistir a essas tentações.

1384-x. A aflição era de muitas espécies: física, mental e espiritual (ver a nota do versículo 83 da 21ª Surata). Ele tinha chagas asquerosas; havia perdido seu lar, suas posses e sua família; e quase perdeu o seu equilíbrio mental. Porém, não perdeu a Fé, mas voltou-se a Deus (ver o versículo 44, acima), e o processo recuperativo teve início.

1385-x. Com o processo recuperativo iniciado, foi-lhe ordenado que golpeasse a terra ou a rocha com os seus pés, para que uma fonte ou fontes surgissem, a fim de que ele tomasse banho e limpasse o seu corpo, para que refrescasse o seu espírito; e para que bebesse e se saciasse. Isto constitui um novo traço, que não é mencionado na 21ª Surata, nem no Livro de Jó, mas que engrandece magnificamente a nossa realização da imagem.

1386-x. Em sua pior aflição, Jó foi paciente e constante na fé, mas aparentemente, sua esposa não o foi. De acordo com o Livro de Jó (Jó, 2:9-10): "Então sua mulher disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus e morre. Porém, ele lhe disse: Como fala qualquer das doidas, falas tu; recebemos o bem de Deus, e por que não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios." Ele deve ter dito à mulher, em sua precipitação, que bateria nela; é-lhe pedido, então, que a corrija apenas com um feixe de capim, para mostrar-lhe que ele é gentil e humilde, bem como paciente e constante.

1387. Isto mostra que o mundo material, me torno de nós, foi criado antes que Deus criasse o homem, e o alentasse com o Seu Espírito. A antropologia também mostra que o homem entrou em cena num estágio muitíssimo tardio da história deste planeta.

1388. Mutakalif: o homem que se atém a coisas que não são verdadeiras, ou que declara como verídicas coisas que não existem; aquele que toma sobre si tarefas que não lhe são devidas. Os verdadeiros profetas não são pessoas dessa espécie.

1389. Constitui blasfêmia dizer-se que Deus gerou um filho. Se isso fosse verdade, Deus teria de ter tido uma esposa (versículo 101 da 6ª Surata), e Seu filho teria de ser da mesma espécie d’Ele; no entanto, Deus é Único, sem ninguém que se Lhe assemelhe (versículo 4 da 112ª Surata). Gerar é um ato animal, que corre paralelamente com o sexo. Como pode isso coadunar-se com a nossa concepção d’Aquele Que está acima de todas as criaturas? Se tal idéia blasfema fosse possível, ou seja, a de que Deus queria alguém para O ajudar, Ele certamente teria escolhido a melhor das Suas criaturas, em vez de Se rebaixar a um ato animal. Porém, glória a Deus! Ele está acima de tais coisas! Ele é Onipotente, não requer criatura nenhuma para O ajudar, ou para lhe trazer outras criaturas.

1390. Ver os versículos 143-144 da 6ª Surata, onde quatro espécies de gado são mencionadas, em pares, em conexão com certas superstições árabes, que são ali condenadas. Aqui, as mesmas quatro espécies são mencionadas, como representativas do gado domesticado, dado por Deus para ser útil ao homem. Trata-se das ovelhas, das cabras, dos camelos, dos bois. No idioma árabe, os cavalos não estão incluídos entre o "gado".

1391. Os três véus das trevas que cobrem a criança não nascida são o âmnio ou membrana, o útero e o ventre, onde se encontra o útero. Porém, devemos entender o numeral "três" no sentido cumulativo, e não no sentido numérico.

1392. A pior penalidade, no sentido espiritual, é causarmos o desprazer de Deus, da mesma forma que a mais alta façanha, a realização de todos os desejos, é a obtenção do aprazimento de Deus.

1393. Os exegetas constróem esta cláusula de duas maneiras alternativas: (1) se o termo "palavra" for tomado como qualquer palavra, a cláusula significará que os bondosos ouvem tudo o que lhe é dito, e escolhem o melhor; (2) se o termo "palavra" for tomado como sendo a palavra de Deus, significará que devem ouvi-la reverentemente, e, enquanto cursos permissivos e alternativos são permitidos para aqueles que não são suficientemente fortes para seguir o curso mais elevado, aqueles dotados de entendimento preferirão seguir o curso mais elevado de conduta. Por exemplo, é permitido que punamos (dentro dos limites) aqueles que nos fazem mal, embora a atitude mais nobre seja pagar o mal com o bem (versículo 96 da 23ª Surata); deveríamos seguir o curso mais nobre.

1394. Mi’ad: o tempo, o local e a maneira de se cumprir a promessa. A promessa de Deus será cumprida, em todos os seus pormenores, melhor do que possamos imaginar.

1395. O ciclo da água - pelo qual a chuva cai das nuvens, é absorvida pela terra, corre através de rios ou córregos subterrâneos para o mar, e novamente se eleva como vapor, e forma nuvens - já foi explicado nas notas do versículo 53 da 25ª Surata. Aqui, a nossa atenção é dirigida para uma parte do processo. A chuva fertiliza o solo e faz frutificar as sementes. Produtos de várias espécies aparecem. A safra amadurece e é colhida. As plantas murcham, secam e se desfazem. Homens e animais são alimentados. E o ciclo inicia-se novamente, em uma outra estação. Eis aí um Sinal da Graça e da Benevolência de Deus, claríssimo para aqueles que têm entendimento.

1396. Será que a palavra mutachabih deve ser entendida com o mesmo sentido do versículo 7 da 3ª Surata, onde nós a traduzimos por "alegóricos"? A melhor opinião é a de que há uma pequena diferença de significado aqui, como é sugerido pelo contexto da passagem anterior, onde a palavra era o oposto de Muh-kam;; aqui ela é contrastada ou comparada a Matani. O significado-raiz é: "que tem algo em comum, que funciona por analogia ou alegoria ou parábola; que tem as suas partes consistentes umas com as outras". Adotamos, aqui, o último significado. O Alcorão foi revelado em partes, em tempos diferentes. E, contudo, suas partes estão em conformidade umas com as outras. Não há contradição ou inconsistência em nenhum lugar.

1397. A pele constitui o revestimento externo do corpo. Ela recebe o primeiro choque, causando por qualquer coisa incomum, e treme, e, por fim, o pêlo se eriça, sob o excitamento. Assim, também, nos assuntos espirituais, o primeiro estímulo, causado pela Mensagem de Deus, é externo. Aqueles que recebem a Fé fazem-no com excitação, não com apatia. Porém, no estágio seguinte, ela penetra as naturezas externas deles, e vai diretamente aos corações. As suas naturezas são "abrandadas", para que recebam a Mensagem beneficente, transformando-os completamente.

1398. O pecado sempre traz desgraça e humilhação nesta vida, mas a verdadeira punição será na vida futura. Mas o homem não compreende a espiritualidade desse assunto. Se prosperar aqui, por algum tempo, pensa que poderá escapar da conseqüência real, na Vida Futura. Ou se sofrer uma pequena injúria, aqui, pensa que isso suprirá a penalidade, e que escapará à Vida Futura. Ambas as idéias estão erradas.

1399. A diferença entre o credo do politeísmo e o Evangelho da unidade é explicada com a alegoria de dois homens. Um pertence a muitos amos; este discordam entre si, e o pobre homem de muitos amos tem de sofrer, por causa das brigas dos muitos amos; essa é uma posição intolerável e insustentável. O outro homem serve a apenas um amo; este é bondoso, e faz tudo quanto pode pelo seu servo; o servo pode concentrar a sua atenção no seu serviço; ele é feliz, e o seu serviço é feito com eficiência. Pode, acaso, haver dúvida quanto a (1) qual dos dois é o mais feliz, e (2) qual dos dois ocupa uma posição mais natural? Ninguém pode servir a dois amos, muito menos a numerosos amos.

1400. O mistério da vida e da morte, do sono e do sonho, constitui um fascinante enigma cuja solução talvez esteja além da argúcia do homem. Uma vasta massa de superstição e de literatura psicológica cresceu com ele. Porém, a mais simples e verdadeira doutrina religiosa é apresentada aqui, em poucas palavras. Na morte, nós entregamos à nossa vida física, mas a nossa alma não morre; ela volta para um plano de existência, no qual fica mais cônscia das realidades do mundo espiritual: "Deus recolhe as almas".

1401. Comparar com o versículo 60 da 6ª Surata. Que é sono? No que concerne à vida animal, é a cessação do trabalho do sistema nervoso, embora as outras funções tais como a digestão, o crescimento e a circulação do sangue continuem, possivelmente num ritmo diferente. É o repouso do sistema nervoso, e, neste particular, isso é comum a homens e animais e, talvez, às plantas, se é que as plantas possuem um sistema nervoso. O processo mental (e certamente a volição) é também suspenso no sono, exceto pelo fato de que nos sonhos comuns há uma miscelânea de recordação, a qual freqüentemente apresenta vividamente às nossas consciências coisas que não acontecem ou não podem acontecer na natureza, como a conhecemos, com as nossas mentes coordenadas. Porém, há uma outra espécie de sonho que é mais rara: aquela em que o sonhador vê coisas como realmente acontecem, avançada ou recuadamente no tempo, ou em que indivíduos dotados vêem verdades espirituais, doutra forma imperceptíveis a eles. Como podemos explicar isso? É aventado que a nossa alma ou personalidade - aquele algo que está acima da nossa vida animal - está num plano de existência espiritual, que é parecido com a morte física (ver a nota anterior), onde estamos mais perto de Deus. Na imaginação poética, o sono é o "irmão gêmeo da morte".

1402. Sendo o sono o irmão gêmeo da morte, as nossas almas ficam por um tempo libertas do cativeiro da carne. Deus as recolhe por um tempo. Se, como acontece com alguns, viermos a morrer pacificamente durante o sono, a nossa lama não regressa ao corpo físico, e este se deteriora e morre. Se, como só acontecer, nós ainda tivermos um período de vida a cumprir, de acordo com o decreto de Deus, a nossa alma regressa ao corpo, e nós reassumimos as nossas funções desta vida.

1403. Ninguém poderá interceder por nós junto a Deus, exceto (1) com a Sua permissão, e (2) aqueles que se prepararam, através da penitência, par a aceitação de Deus. Mesmo nas cortes terrenas a intercessão não é permitida a qualquer um; o advogado deve se apresentar como tal, antes de poder parlamentar perante o juiz.

1404. Os mistérios da vida e da morte, da adoração, e do crescimento espiritual, são assuntos de alta importância, o que deve ser difícil de compreender nesta vida. É inútil argüirmos a respeito disso e mergulharmos em infinitas controvérsias. A atitude apropriada é apelarmos, humildemente, a Deus, para que aceite os nossos purificados corações e a nossa Fé, na firme esperança de qualquer coisa, atualmente vaga para nós, agora, seja esclarecida na Outra Vida.

1405. Mafazat: Lugar ou estado de segurança ou salvação, lugar ou estado de vitória ou realização. Isto é contrastado com a frustração, o fracasso e a perdição dos filhos do mal, o que se pode chamar de maldição, em frase teológica.

1406. A mensagem da Unicidade, renovada pelo Islam, tem sido a Mensagem de Deus, desde o início do Mundo.

1407. Sa’ica implica na idéia de desfalecimento ou perda de toda a consciência; implica na paralisação das funções normais da vida ou do sentimento. A metáfora significa que ao primeiro toque da trombeta da ressurreição, o mundo todo cessará de estar na forma e na relação que vemos agora; haverá um novo firmamento e uma nova terra; ver o versículo 48 da 14ª Surata; as almas humanas, naquele momento, ficarão atordoadas e perderão a memória ou a consciência de tempo, lugar e personalidade. Com o segundo toque, levantar-se-ão, num mundo novo; verão, com visão claríssima, e o julgamento começará.

1408. "Grupos", palavra-chave que fornece o nome desta surata.

1409. Estas são as palavras de abertura da 1ª Surata, e descrevem a atmosfera das benesses finais no Paraíso, à luz do Semblante do vosso Senhor, o Senhor do Universo.

1410. Esta é a primeira de uma série de sete suratas, que se iniciam com as letras Há, Mim. Cronologicamente, elas pertencem ao mesmo período, o derradeiro período maquense, e sucedem à última surata. Quanto às letras, ver o versículo 1 da 2ª Surata.

1411. Comparar com o versículo 75 da 39ª Surata. Como o Trono de Deus é metafórico, assim o é também o ato de carregá-lo ou sustentá-lo.

1412. Destro, possui vários significados: (1) o tempo da vida presente ou do intervalo - antes do Julgamento, ou seja, antes da restauração dos valores verdadeiros - é tão curto, comparado com a eternidade, que pode ser considerado insignificante; no versículo seguinte, o Dia é caracterizado como "o dia iminente"; (2) a despeito da grande afluência das almas para serem julgadas, o processo do Julgamento será quase instantâneo, "num piscar de olhos", porque tudo é conhecido por Deus, e então nenhuma injustiça será feita.

1413. Os corações lhes subirão às gargantas: um modo de falar que implica em que todas as funções da vida deles serão angustiantes. Mas um significado mais sutil emerge de uma análise adicional. O coração (ou o peito) é a base da aflição, emoção, e de toda espécie de sentimentos, tal como terror, dor, angústia, desespero etc.. Essas coisas, à medida que vão subindo às gargantas, angustiam-nos. A garganta é o veículo da voz; a voz deles serão de angústia, e nada poderão dizer. A garganta é o canal dos alimentos, por meio da qual estes vão ao estômago e mantêm as funções salutares da vida; a angústia significa que as funções salutares paralisar-se-ão e nada haverá, além de lamentos.

1414. Ver o versículo 9 da 3ª Surata. Podemos tirar lições das histórias de nações anteriores. Muitas delas eram mais poderosas, ou deixaram mais vestígios ou monumentos e causaram impressões mais profundas no mundo ao seu redor, do que qualquer outra geração. "Traços", no texto, pode ser tomado em seu senso extensivo. E tudo isso não os salvará das conseqüências dos seus pecados.

1415. Esta não é a própria história de Moisés. Ela é tão-somente uma introdução à história do homem fiel, da família do Faraó (ver o versículo 28).

1416. Nada há para justificar a identificação deste homem com aquele mencionado na 28ª Surata, versículo 20, que preveniu Moisés, antes de este receber a sua missão. Ao contrário, nesta passagem, o homem fala após Moisés ter recebido a sua missão, pregando ao Faraó, e conseguindo uma certa dose de sucesso, pelo que o Faraó e o seu povo estavam tentando matá-lo.

1417. Este dia pode ser o Dia do Julgamento, cujas características são aqui mencionadas.

1418. O Dia do Julgamento é descrito como "O Dia em que se declararem as testemunhas". Este descrição implica em duas coisas: que lá os homens serão julgados com justiça; suas ações passadas e suas faculdades e oportunidades serão testemunhas do uso a que foram submetidas (24ª Surata, versículo 24); como de fato, o próprio homem será testemunha contra si próprio (6ª Surata, versículo 130); e que os profetas e os justos testemunharão que pregaram e admoestaram os homens (39ª Surata, versículo 69; 2ª Surata, versículo 133.

1419. A alternância do dia e da noite, na nossa vida física, freqüentemente mencionada, está como um símbolo para chamar a nossa atenção para as mercês de Deus. Se observarmos bem estas coisas, poderemos servir e pedir orientação a Ele.

1420. O argumento, nos dois últimos versículos, era o da experiência pessoal da vida física do homem. Neste e no versículo seguinte, um argumento paralelo é endereçado ao homem, num plano mais elevado: Olhai para a terra e par o céu; olhai para a posição especial que ocupais, sobre os outros animais que vós conheceis, em forma de configuração, em capacidades espirituais e morais; considerai o vosso refinamento, em alimentos e frutos, e o elevado sustento espiritual, do qual o vosso alimento físico é um tipo; não deveis glorificar Deus, o Único?

1421. Comparar com a 7ª Surata, versículo 11.

1422. "O Livro" pode referir-se ao Alcorão ou às revelações fundamentais, "O Livro Matriz", porquanto os livros revelados aos mensageiros são as revelações definitivas, que são reveladas aos homens de tempos em tempos.

1423. Os Sinais de Deus estão em toda a parte, e podem ser vistos pelos olhos dos discernentes, a todo o instante. Mas se Sinais extraordinários são exigidos pelos cínicos ou incrédulos, não serão atendidos pelo simples fato de os exigirem. É a Vontade de Deus que os distribui, e não o mero desejo do homem, mesmo que se trate de um Mensageiro de Deus.

1424. O fato de que os animais selvagens, tão nocivos em seu estado selvático, sejam, quando domesticadas, tão úteis ao homem, é por si um dos grandes sinais de Deus. A grande utilidade do gado é muito instrutiva. Ele serve para ser cavalgado, e muitos deles são destinados à alimentação. Ainda são utilizados para a agricultura, e para a produção de leite, ou da lã, ou para se lhes extrair a pele; e de suas carcaças o homem extrai ossos e chifres para muitos usos industriais; mas passando para os elevados aspectos da vida, eles constituem usos sociais, morais e espirituais, como animais de tração, no transporte, que serve aos propósitos fundamentais da civilização, sendo, a esse respeito, como navios para o comércio internacional; (30ª Surata, versículo 46).

1425. Comparar com o versículo 69 da 9ª Surata. Se uma geração qualquer se orgulha excessivamente de suas simples realizações em ciência ou arte, torna-se ridícula, se levarmos em consideração a larga sucessão da história. Em primeiro lugar, o homem descobrirá que uma grande parte daquilo que ele atribui aos seus próprios méritos tornou-se possível, devido aos trabalhos dos seus predecessores. Em segundo lugar, muitos dos seus predecessores eram mais numerosos e mais poderosos do que ele, apenas de a perspectiva do tempo ter reduzido a aparente profundidade da sua influência, e de os monumentos, que deixaram, terem sofrido na mão destruidora do tempo. Em terceiro lugar - e o mais importante de tudo - quando eles se esqueceram de Deus e da Sua Lei inexorável, nenhum dos seus trabalhos manuais lhes foi proveitoso; eles pereceram como perecem todas as vaidades. Comparar também como o versículo 21 desta surata.

1426. Ver a nota do Versículo 1 da 2ª Surata.

1427. Esta passagem ou é um complexo de superioridade, adotando um tom sarcástico de um complexo de inferioridade, ou expressando uma indiferença calculada a um ensinamento espiritual. Com eleito, ela diz: "Nossos corações e nossas mentes não são suficientemente inteligentes para compreenderem as vossas idéias nobres, nem nossos ouvidos são tão acurado para ouvirem a vossa explicação; nós e vós somos diferentes; há um abismo entre nós. Por que estais preocupados conosco? Segui o vosso caminho, que seguiremos o nosso!"

1428. A resposta, realmente, é: que o portador da Mensagem não é um anjo, nem é um deus e, por isso, não há nenhuma barreira entre ele e o seus ouvintes. Ele foi escolhido, apenas para transmitir a Mensagem da verdade e proporcionar-lhes esperança. Eles devem aceitar a Unicidade indiscutível e, através do arrependimento, obterem a graça e o perdão de Deus.

1429. Não haverá nada além da pena, para aqueles que rejeitam a Verdade; correm atrás das falsas adorações, não sentem nenhuma simpatia por seus semelhantes, e negam até que haja uma Vida Futura.

1430. Esta é uma passagem difícil, descrevendo a criação primária da nossa terra física e dos céus físicos, que nos rodeiam. Se contarmos os dois dias mencionados neste versículo, os quatro, mencionados no versículo 10 e os dois, mencionados no versículo 12, teremos um total de 8 dias, enquanto em muitas passagens a criação é estabelecida em seis dias. Os exegetas compreendem que os "quatro dias" do versículo 10 incluem os dois do versículo 9, e assim o total permanece em 6 dias.

1431. As montanhas mais altas estão a 8.750 m acima do nível do mar e as maiores profundezas do oceano acham-se a 9.500 m. Assim, a diferença entre o ponto mais alto e o mais baixo, na crosta sólida terrestre é de aproximadamente 18.250 m. As partes mais altas são as fontes principais de fornecimento de água, em todas as regiões da terra, e a vida animal e vegetal depende desse fornecimento.

1432. Segundo o versículo 30 da 79ª Surata, poderia parecer que a terra surgiu depois da criação dos céus. Na presente passagem, a criação da terra e a evolução da vida, em nosso globo, são mencionadas primeiro; a criação dos céus, em sete firmamentos, é mencionada depois. As duas exposições não são inconsistentes. É manifestado, aqui, que quanto os céus foram feitos em sete firmamentos, eles existiam previamente como fumaça, ou vapor, ou gases. A idéia que se deriva de uma comparação das relevantes passagens alcorânicas é que Deus primeiro criou a matéria primeva, sem ordem, forma ou simetria. Este estado é chamado de caos, em oposição ao cosmo, na cosmogonia grega. O estágio seguinte seria a condensação dessa matéria primeva em gases, líquidos ou sólidos. Neste sentido, não nos é dada nenhuma informação precisa; isso pertence ao domínio da física. Quanto à terra, somos informados sobre quatro estágios ou dias.

1433. Tomamos isso como significando que o desígnio de Deus, na criação, não foi para conservar separados o céu e a terra, mas juntos, como de fato estão, fazendo, ambos, parte do sistema solar, e viajando pelo espaço. E toda a matéria criada por Deus obedece às leis atribuídas a ela.

1434. "Dias" pode incluir milhares de anos. Referem-se aos estágios, na evolução da natureza física. Na cosmogonia bíblica (Gênesis I e II: 1-7), que reflete a cosmogonia babilônica, o esquema deve aparentemente ser tomado literalmente, no que concerne a dias, e é como segue: no primeiro dia, Deus criou a luz; no segundo, o firmamento; no terceiro, a terra e a vegetação; no quarto, as estrelas e os planetas; no quinto, os peixes e as aves marinhas; no sexto, o gado, as coisas rastejantes, os animais selvagens e o homem; no sétimo, ele terminou e descansou. O nosso esquema é totalmente diferente: (1) Deus não descansou e nunca descansa; (2) a obra de Deus não terminou; Sua atividade continua (32ª Surata, versículo 5; 7ª Surata, versículo 54); (3) o homem, em nosso esquema, não surgiu com os animais da terra; seu advento foi bem posterior; (4) os nossos estágios não são rigorosamente separados um do outro, como no esquema acima, onde as estrelas e os planetas foram criados no quarto dia; não é inteligível como os primeiros três dias foram contados, nem como a vegetação cresceu, no terceiro dia. Nossos estágios para o céu e a terra não estão em seqüência de tempo. Eles são amplamente explicativos: (1) a fissão do nosso planeta da matéria cósmica; (2) seu resfriamento e condensação; (3 e 4) o crescimento dos vegetais e animais; (5 e 6) o crescimento paralelo do mundo estelar e o do nosso sistema solar.

1435. Literalmente: pela frente e por trás, ou, de todos os pontos de vista.

1436. Deus não será afetado, de nenhuma forma, se o homem se rebelar contra Ele. O próprio homem é que sai perdendo. A glória de Deus é celebrada noite e dia pelos anjos e pelos homens que recebem o privilégio de se aproximarem d’Ele. Para eles, é um prazer e uma honra estarem à sombra da Verdade e da Felicidade.

1437. Comparar com os versículos 104-105 da 16ª Surata e com o versículo 2 da 12ª Surata. Era mais racional e natural que o Mensageiro, sendo árabe, recebesse a mensagem em seu próprio idioma, podendo, assim, expô-la com todos os detalhes, com maior força e eloqüência. Mesmo sendo endereçada à humanidade, a sua exposição inicial devia ser em árabe. Mas se o povo não possuísse fé e estivesse espiritualmente surdo ou cego, não importaria em que idioma viesse.

1438. Insensibilidade e auto-suficiência, em religião, são freqüentemente ilustradas por seitas como a dos fariseus e saduceus, entre os judeus. Quando há honestas diferenças de opinião, elas podem, no Plano de Deus, conduzir para maior indagação e emulação. Quando as diferenças são irascíveis, há freqüentemente mais tempo deixado para o arrependimento. De qualquer modo, a Palavra ou o Decreto de Deus é para as melhores obras, e não pode perturbar a fé. Comparar com o versículo 19 da 10ª Surata.

1439. Ver a nota da 2ª Surata, versículo 1.

1440. Esta Surata possui dois conjuntos de letras abreviadas, um no versículo 1 e o outro no 2. Não existe uma explicação autorizada sobre este 2º conjunto, e nós nos abstemos de especular a respeito.

1441. A cidade de Makka. Ver o versículo 92 da 6ª Surata. Este é indubitavelmente um versículo revelado em Makka. Além de ser a Alquibla, Makka é o centro do Islam e, em todo o seu redor, está o mundo.

1442. O mistério do sexo não possui apenas os seus aspectos físicos, mas também os morais e espirituais, e, portanto, a humanidade, neste respeito, é diferenciada dos animais inferiores; e entre a humanidade os graus e qualidades são sugeridos pela frase "de vossas espécies". No que diz respeito ao gado, ele é especialmente mencionado entre os animais, como tendo relações especiais com o homem, especialmente servindo às suas necessidades, não apenas na esfera física, mas também em matéria de transporte, chave de toda a civilização e cultura; ver a 36ª Surata, versículos 71-73, e 23ª Surata, versículos 21-22, onde o gado é comparado ao navio, o símbolo do intercâmbio internacional.

1443. A Religião de Deus é a mesma em essência, quer tenha sido dada, por exemplo, a Noé, a Abraão, a Moisés, a Jesus ou a Mohammad. A fonte da unidade é a revelação de Deus. No Islam ela é estabelecida como uma instituição e não permanece como uma vaga sugestão.

1444. Fé, dever, ou religião, não são matérias sobre as quais se dispute. A formação de seitas é contra o próprio princípio da Religião e da Unidade. O que devemos fazer é lutar pela constância no dever, na fé e na Unidade, entre a humanidade.

1445. A missão do Islam é descrita mais adiante: (1) o Deus que ele prega não é exclusivista. Ele é o Senhor do Universo, para qualquer pessoa, de qualquer credo; Ele é o seu Deus, como é o meu; (2) nossa fé não é uma questão de palavras; são os atos que contam; cada um de nós tem responsabilidade pessoal para com a sua própria conduta; (3) não há causa de disputa, qualquer que seja, quando pregamos a Unidade, a Fé e a Vida Futura; (4) se tivermos dúvida, o Árbitro final será Deus, e o Seu Trono é a nossa meta.

1446. Dáb-batun: seres viventes, de todas as espécies; ver o versículo 164 da 2ª Surata. Similarmente, no versículo 45 da 24ª Surata, e em outras passagens, a palavra é usada para criaturas viventes de todas as espécies. A vida, geralmente, é aquela misteriosa matéria básica que a ciência chama de protoplasma. Quanto mais aumenta o nosso conhecimento biológico, mais nos maravilhamos perante a unidade da vida e a sua diversidade.

1447. A vida não está confinada ao nosso pequeno planeta. É uma velha especulação imaginarmos alguma vida semelhante à nossa no planeta Marte. Já que nenhuma prova científica há, é racional supormos que a vida, de alguma forma, está disseminada em alguns dos milhões de corpos celestes do espaço.

1448. Consulta: esta é a palavra-chave da surata, e sugere o ideal de como um homem de bem deve conduzir os seus assuntos. Este princípio era aplicado, em todos os sentidos, pelo Profeta, em sua vida particular e pública.

1449. Antes de receber a sua missão, aos 40 anos de idade, o Profeta, apesar de ser um homem de virtude e pureza inabaláveis, resoluto na sua busca da Verdade (ver versículos 22-23 da 100ª Surata), não estava ainda familiarizado com a Revelação, em seu mais alto senso. Alguns exegetas compreendem que Ruh, que traduzimos por Espírito, refere-se ao Anjo Gabriel.

1450. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

1451. Comparar com o versículo 7 da 3ª Surata e com versículo 39 da 13ª Surata. A mãe do Livro, a base da Revelação, tábua reservada (Lauh Mahfuz, 85ª Surata, versículo 22), é o âmago ou a essência da revelação, o princípio original, ou a fonte principal da Lei Eterna e Universal de Deus. Desta fonte brotam todas as correntes do conhecimento e da sabedoria, que fluem através do tempo, e alimentam as inteligências das criaturas.

1452. Comparar com o versículo 53 da 20ª Surata. Mihad - um tapete ou leito - não implica apenas em liberdade de movimento, mas também em descanso.

1453. Por analogia, todos os meios de transporte, incluindo cavalos, camelos, navios, trens, aeroplanos etc.. A domesticação os animais, bem como a invenção da máquina, requerem habilidade e empenho do homem, que lhe são concedidos por Deus como mercês.

1454. Imaginar deusas ou mães ou filhas de Deus era blasfêmia, na boa de um povo que tratava o sexo feminino com desprezo. Tais eram os árabes idólatras e tais são alguns dos atuais. Eles estremecem quando uma filha lhes nasce e desejam ardentemente ter filhos varões. Como, com essa mentalidade, atribuem filhas a Deus?

1455. Nota-se a 1ª pessoa do singular, mostrando a solicitude pessoal de Deus aos descendentes de Abraão, em ambos os ramos. O contexto, aqui, se refere à prosperidade, desfrutada por Makka e seus habitantes, até que rejeitaram a verdade do Islam, pregado em seu seio por um Mensageiro, cuja mensagem era tão clara quanto a luz do sol.

1456. Ornamentos: palavra-chave desta surata. Todos os fatos resplendores e ornamentos deste mundo nada são. Eles mais atrapalham do que ajudam.

1457. A distância entre o Oriente e o Ocidente; literalmente, "a distância entre os dois Orientes". A maior parte dos exegetas o compreendem neste sentido, mas alguns interpretam a frase como significando a distância entre os dois pontos do nascer do sol, entre o solstício de verão e o solstício de inverno. Comparar com o versículo 5 da 37ª Surata.

1458. Os galardões e as correntes de ouro estavam, possivelmente, entre os sinais da realeza. De qualquer modo, eles denotavam riqueza, e os materialistas julgam um homem pela riqueza, pelos seus seguidores e pelos seus equipamentos. Assim o Faraó desejava ver Moisés.

1459. Jesus era um homem e um profeta para os israelitas, apesar de não ter sido aceito por eles. Algumas das igrejas, fundadas depois dele, adoraram-no como "Deus" e como "o filho de Deus", a exemplo da igreja trinitária dos nossos dias. As igrejas ortodoxas fizeram o mesmo durante o tempo do Profeta Mohammad. Quando a doutrina da Unidade foi renovada e a falsa adoração de outros, ao lado de Deus, foi estritamente proibida, todos os falsos deuses foram condenados (ver versículo 98 da 21ª Surata). Jesus foi um dos maiores profetas; não era um deus, nem foi responsável pelas evasivas sutis do Credo Atanasiano.

1460. Se se disser que o nascimento de Jesus sem pai coloca-o acima dos outros profetas e que a criação dos anjos sem o concurso de pai e mãe, isso os colocará mais alto ainda, especialmente porque os anjos não necessitam de alimentos e não estão sujeitos às leis físicas. Todavia, os anjos não são superiores.

1461. Isto é compreendido como se referindo à segundo vinda de Jesus, nos Últimos Dias, logo antes da ressurreição, quando ele destruirá as falsas doutrinas que usam o seu nome, e preparará o caminho para a aceitação Universal do Islam.

1462. Nos versículos 26-28 é feito um apelo aos árabes idólatras, no sentido de que o Islam é a sua própria religião, a religião de Abraão, seu antecessor; nos versículos 46-54, é feito um apelo aos judeus, no sentido de que o Islam é a mesma religião que fora ensinada por Moisés; nos versículos 57-65 é feito um apelo aos cristãos, mostrando que o Islam é a mesma religião que fora ensinada por Jesus.

1463. "Frutos" e "alimentos" são metáforas. Mesmo como símbolos, o comer e o beber foram sugeridos por "bandejas e copos de ouro", no versículo 71, acima. Os "frutos", aqui, estão ligados às últimas palavras do versículo 72: "que herdastes por vossas boas ações?" Não é a doutrina de "recompensas", assim estritamente chamada. Uma recompensa é medida por mérito, mas aqui a bênção está além dos méritos ou merecimentos. É uma doutrina de trabalhos com seus frutos. Cada ato deve Ter a sua inevitável conseqüência.

1464. A palavra acala é usada em muitas passagens, no sentido de "desfrutar", "ter satisfação"; ver o versículo 69 da 5ª Surata e o versículo 19 da 7ª Surata.

1465. Málik: literalmente, senhor ou proprietário; aplicado ao anjo guardião do inferno.

1466. Os exegetas clássicos constróem esta cláusula de modo diferente. De acordo com a sua construção, poderia ser: "Com exceção daqueles que declaram a verdade, e com pleno conhecimento."

1467. Os exegetas têm opinião dividida quanto à construção. Alguns acham que o termo Quílihi é um genitivo, governado pelo termo ‘Ilm, do versículo 85. Outra construção seria considerar o wau como de juramento, e nesse caso haveria necessidade de outras cláusulas para se completar o sentido.

1468. Ver a nota do 1º versículo da 2ª Surata.

1469. Geralmente considerada uma noite do mês de Ramadan, a 23ª, 25ª ou 27ª noite desse mês. É denominada a Noite do Poder, nos versículos 1-2 da 97ª Surata. A noite em que a Mensagem de Deus é enviada é deveras uma noite abençoada.

1470. Que dia é este? Ele se refere, obviamente, a uma grande calamidade e, pelas explicações, deve ser uma grande calamidade futura, vista com o olho profético. A palavra yaghcha, no versículo 11, deve ser comparada à palavra gháchya, do versículo 1 da 88ª Surata, a qual se refere ao Dia do Julgamento. Porém, o versículo 15, abaixo, "ainda que vos atenuássemos transitoriamente o castigo", mostra que é alguma calamidade que está por acontecer.

1471. A fumaça é interpretada, baseando-nos em fidedignas autoridade, como se referindo a uma severa fome em Makka, durante a qual os homens estavam tão marcados pela mesma, que viam uma névoa na frente dos olhos, quando olhavam para o céu. Abu Sufian (8 anos após a Hégira) foi ter com o Profeta, para que ele intercedesse e orasse pela cessação da mesma, posto que os idólatras atribuíam-na à praga do Profeta.

1472. Esta passagem refere-se mais à queda do orgulhoso Faraó e do seu povo, do que à história de Moisés. Também os versículos 30-33 desta se referem às mercês sobre os israelitas, contrastando com o seu orgulho, descrença e queda; e o versículo 37 refere-se ao antigo reino de Himiar, no Iêmen, no qual, por sua vez, ruiu por seus pecados.

1473. Tuba é compreendida como um título ou nome de família dos reis de Himiar, no Iêmen, da tribo de Hamdan. Os himiaritas formavam um antigo povo. Em certo tempo parece que estenderam a sua hegemonia a toda a Arábia, e talvez para além, até à costa Oriental africana. Sua religião parece ter sido o sabeísmo, ou a adoração por corpos celestes. Parece também que, em épocas diferentes, professaram o judaísmo e o cristianismo. Entre os embaixadores enviados pelo Profeta nos anos 9-10 da Hégira, um fora enviado ao povo de Himiar o que causou o seu ingresso no Islam. Isto ocorreu, certamente, bem depois da revelação desta surata.

1474. Ver a 37ª Surata, versículo 12.

1475. Os companheiros, como o cenário, as vestimentas, as perspectivas e as frutas serão belos. Estas palavras simbólicas não devem ser tomadas como significando que haverá comidas, bebidas, vestimentas ou casamentos, ou qualquer coisa física dessa espécie. Haverá vida, mas livre de todas as coisas terrenas. As mulheres, assim como os homens desta vida, alcançarão esta indescritível bênção; 19ª Surata, versículo 72; e os objetos de beleza, graça e satisfação, descritos simbolicamente, devem aplicar-se a ambos.

1476. Hur implica as seguintes idéias: pureza; possivelmente a palavra, Hawarium, aplicada aos primeiros discípulos de Jesus, esteja ligada a esta raiz; beleza, especialmente dos olhos, onde aparece o branco intenso do globo ocular, em contraste com o imenso negro das pupilas, dando assim a aparência de lustre, e sentimento intenso, em contraste à inércia de expressão; verdade e boa vontade.

1477. Seu significado metafórico está explicado na nota do versículo 73 da 43ª Surata.

1478. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

1479. Comparar com o versículo 14 da 16ª Surata. O oceano, que quase cobre a totalidade do nosso globo, constitui um dos fatos mais significantes da nossa geografia física. Sua água salgada é um agente de higiene do globo. Os efeitos do ar salubre do mar, com o seu ozônio, são bem conhecidos por todos que recuperaram a sua saúde graças a ele. Os navios são meios de comunicação e de intercâmbio entre a humanidade.

1480. Comparar com o versículo 54 da 7ª Surata. Interpretamos "o dia de Deus" não como períodos de 24 horas, mas como estágios, durante os quais os propósitos de Deus agem sobre nós, mostrando-nos o sentido do pecado e o significado das suas mercês. Devemos ser pacientes com aqueles que ainda não alcançaram tal significado. "Os dias de Deus" podem, também, significar os Dias do Reino de Deus, quando o mal será destruído e a autoridade de Deus reinará inquestionavelmente.

1481. "Povo", aqui, deve ser entendido como um grupo com características comuns, os virtuosos, em contraste com os perversos, os oprimidos, em contraste com os opressores, e assim por diante.

1482. Chari’at: Achamos por bem traduzir por "caminho reto da religião", por ser mais amplo do que as meras formalidade rituais e legais, reveladas em Madina, em período bem posterior a este versículo, revelado em Makka.

1483. Comparar como versículo 37 da 23ª Surata. O toque adicional, aqui "E não nos aniquilará senão o tempo", denota a filosofia materialista para a qual a matéria e o tempo são eternos e, apesar de as pessoas perecerem, a raça permanece, até que o tempo a destrua. Isto não passa de conjectura.

1484. A palavra-chave deste Surata.

1485. Comparar com o versículo 51 da 7ª Surata. O termo "esquecer" é, certamente, metafórico, para significar "ignorar deliberadamente".

1486. Tendo sido completado o argumento sobre os frutos desta vida, e sendo eles colhidos, na vida futura, quando o perfeito equilíbrio será restaurado e a justiça reinará, a Surata termina com louvores e glórias a Deus. Note-se como o argumento é completado pela permanência da última cláusula do versículo 2 da mesma.

1487. Ver a nota da 2ª Surata, versículo 1.

1488. Houve sábios judeus e cristãos que viram no Profeta o Mensageiro de Deus, predito nas revelações anteriores e, por isso, aceitaram o Islam. Como esta Surata foi revelada em Makka, não precisamos considerar isto como referente a Abdullah Ibn Salam, cuja conversão se deu em Madina, dois anos antes da morte do Profeta, a menos que entendamos este versículo como revelado em época posterior.

1489. Uma grande parte dos primeiros muçulmanos ocupava posições humildes e era menosprezada pelos líderes coraixitas. Eles diziam, sarcasticamente: "se tais homens pudessem ver qualquer bem no Islam, não poderia haver nenhum bem nele; e se houvesse algum bem, seríamos os primeiros a percebê-lo!"

1490. Na 31ª Surata, versículo 14, o tempo de desmama foi estabelecido em dois anos, ou seja, 24 meses. Isto deixa seis meses como um período mínimo de gestação, depois do qual sabe-se que a criança está formada. E isto está de acordo com as mais recentes descobertas científicas. O tempo médio é de 280 dias, ou dez vezes o período menstrual. O tempo máximo de amamentação (dois anos) está novamente de acordo com o tempo de complementação da primeira dentição. Os incisivos inferiores centrais de leite aparecem entre o sexto e o nono meses; então aparecem os de leite intervalos, até ao aparecimento dos caninos. Os segundos molares aparecem aos 24 meses, e com eles a criança tem a dentição de leite completa. A natureza, nesta altura, espera que ela mastigue e seja independente do leite da mãe. Por outro lado, amamentar uma criança com a dentição de leite completa machucaria a mãe. Os dentes permanentes começam a aparecer aos seis anos de idade, e os segundos molares aparecem aos 12. Os terceiros molares, ou dentes de siso, aparecerão aos 18 ou 20 anos, ou nunca.

1491. A idade da puberdade é estabelecida entre os 18 e 30 anos. Entre os 30 e 40 anos o homem está na sua maturidade. Depois disso, ele começa a se preocupar com os filhos e a instruir a nova geração. Talvez as suas faculdades espirituais, após os 40 anos, alcancem o mais alto nível.

1492. Dunas "Ahcaf". São as longas extensões de montes de areia, características do país do povo de Ad, unido o Hadramaut e o Iêmen. Ver o versículo 65 da 7ª Surata.

1492-a. Todo o trabalho espiritual se processa no devido tempo. Não devemos nunca ser impacientes, tanto acerca do seu sucesso, como da punição, que na certa virá para aqueles que se opõem a ele, ou o suprimem. A punição inevitável é relatada como a Punição Prometida. Ela acontecerá tão pronta e repentinamente, que parecerá não haver o retardamento de uma simples hora, num simples dia! O tempo constitui um grande fator, nos nossos afazeres deste mundo, mas ele quase não conta, no Reino espiritual.

1493. Uma vez a luta iniciada, participai dela como todo o vigor e desferi os vossos golpes nos pontos mais vitais. Não podeis manipular a guerra com luvas de pelica.

1494. No primeiro ataque haverá, necessariamente, grandes perdas de vidas; mas quando o inimigo estiver completamente batido, não mais estando apto a investir contra a verdade, firmes arranjos devem ser efetuados, para colocá-lo sob controle. Comparar com o versículo 67 da 8ª Surata.

1495. Quando o inimigo estiver sob controle, a libertação dos prisioneiros, com ou sem resgate, é recomendada.

1496. Há duas alternativas de leitura: Cátalu (lutaram) e cútilu (foram mortos). O significado da primeira alternativa é mais amplo e inclui a Segunda. Traduzimo-la de acordo com a segunda alternativa, baseados no texto da edição egípcia de Alazhar.

1497. Uma referência aos idólatras de Makka, que expulsaram o Profeta pela retidão deste e por ele pregar o arrependimento. A data da revelação desta surata deve ser posterior à Hégira.

1498. Neste simbolismo há quatro espécies de bebidas e toda a espécie de frutos. As quatro espécies de bebidas são: água impoluível; leite de sabor inalterável; vinho deleitante e mel. Metaforicamente, estas bebidas refrescarão o espírito, alimentarão o coração, amainarão as aflições e adoçarão a vida.

1499. Comparar com o versículo 42 da 10ª Surata e com os versículos 25 e 36 da 6ª Surata. O caso, aqui, se refere aos hipócritas, que compareciam às assembléias do Islam em Madina e fingiam ouvir os ensinamentos e as pregações do Profeta. Porém, seus corações e suas mentes não ocupavam em aprender, mas em criticar as coisas que viam e ouviam. Quando saíam, nada sabiam dos ensinamentos, e formulavam perguntas néscias, para levantarem dúvidas.

1500. Rostos e dorsos: há uma sutil metáfora, aqui. Os rostos são os que olham para a frente, para o mundo exterior; o dorso é o oculto do mundo. Os hipócritas serão golpeados em ambos os pontos. Comparar com o versículo 50 da 8ª Surata.

1500-a. A dedicação completa, se voluntariamente oferecida, significa que a devoção da pessoa é exclusiva e completamente para a Causa. Porém, lei ou norma alguma poderá demandá-lo. E a mera proposta de a pessoa se matar não tem significado. Deveis estar prontos a arriscar as suas vidas, lutando pela Causa, mas deveis ter como meta a vida, não a morte. Se viverdes, devereis estar prontos para colocar a vossa substância e a vossa aquisição à disposição da Causa. Contudo, não é racional que torneis pobres e dependentes, pela Causa.

1501. refere-se ao Tratado de Al Hudaibiya. Por este tratado, os coraixitas de Makka, depois de muitos anos de conflitos inflexíveis com o Islam, por fim reconheciam a força do mesmo como igual à deles. Na realidade, a porta foi, então, aberta, para a livre expansão do Islam através da Arábia, e depois, para o mundo.

1502. Nas negociações do Tratado de Al Hudaibiya, quando não se sabia se a delegação do Profeta seria bem ou mal recebida pelos coraixitas, havia uma grande expectativa, no campo muçulmano, composto de 1.400 a 1.500 homens. Eles vieram com grande entusiasmo e juraram fidelidade ao Profeta, colocando as suas mãos em conjunto, uma em cima da outra, de acordo com o costume árabe. Isto, por si só, já era uma fabulosa demonstração de força física e moral, uma verdadeira vitória. É chamado "O Juramento de Fidelidade de Comprazer a Deus" (bai’at ur radwan) na história islâmica.

1503. Quando o Profeta iniciou a sua jornada em direção a Makka, terminando em Hudaibiya, ele pediu que todos os muçulmanos se juntassem a ele, e teve um esplêndido atendimento. Porém, algumas tribos do deserto apresentaram desculpas para não se juntarem a ele. Suas desculpas eram que estavam ocupados em proteger as suas famílias, os seus rebanhos e a sua gente.

1504. A grande cerimônia do Juramento de Fidelidade aconteceu debaixo de uma árvore, na planície de Hudaibiya. Essa árvore tornou-se objeto de muitas superstições e venerações por parte das gerações posteriores, e teve de ser cortada.

1505. Pequenos acidentes aconteceram, quase envolvendo muçulmanos e coraixitas em uma luta. Por um lado, os coraixitas estavam determinados a conservar os muçulmanos fora da cidade, sem que tivessem direito a isso. Por outro, os muçulmanos, apesar de desarmados, estavam determinados a permanecer juntos e, se fossem atacados, a forçar a sua entrada na Caaba, no centro de Makka. Porém, Deus impediu ambos os lados de qualquer coisa que pudesse violar a paz do Santuário. Depois da assinatura do tratado, todo o perigo cessou.

1506. Os muçulmanos de Madina haviam trazido animais para o sacrifício e haviam vestido o Ihram, a vestimenta da peregrinação (ver versículo 197 da 2ª Surata). Eles não foram apenas proibidos de entrar em Makka, mas também lhes foi proibido levar os animais para o local de sacrifício. Este foi efetuado, então, em Hudaibiya.

1507. Na época, havia em Makka muçulmanos de ambos os sexos, e a crença de alguns deles era desconhecida dos seus irmãos de Madina. Se a luta tivesse sido iniciada em Makka, mesmo os muçulmanos tendo tido sucesso, poderiam inadvertidamente matar alguns desses muçulmanos desconhecidos, e assim cometeriam o pecado de derramar sangue de muçulmanos. Isto foi evitado pelo tratado.

1508. O Profeta havia tido um sonho, no qual ele adentrava a Mesquita Sagrada de Makka, pouco antes de se decidir pela viagem, que resultou no Tratado de Al Hudaibiya. Por aquele tratado, ele e os seus seguidores puderam, no ano seguinte, sem qualquer molestamento, cumprir os rituais da peregrinação, com as vestimentas apropriadas e com os cabelos cortados.

1509. A similaridade no Evangelho, é a respeito de como a boa semente brota e cresce gradualmente, mesmo acima da expectativa do semeador: "...e a semente brotaria e cresceria, não sabendo ele como. Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão na espiga" (Marcos 4:27-28).

1510. Tudo são tagarelices e relatos - especialmente se oriundos de pessoas desconhecidas - e tudo deve ser testado e a verdade verificada. Se fossem acreditados causariam muitas injúrias, pelo que depois disso, vos arrependeríeis. O escândalo e a calúnia de toda a espécie são, aqui, condenados.

1511. As querelas individuais são mais fáceis de ser resolvidas do que as dos grupos, ou, no mundo moderno, as querelas de âmbito nacional. A coletividade islâmica, porém, deveria ser a mais importante, entre os grupos ou as nações. Seria de se esperar que agisse com justiça e tratasse de resolver as querelas, pois a paz é melhor do que guerra. Se uma parte, porém, estiver determinada a ser agressora, toda a força da comunidade deverá combatê-la. A condição essencial, certamente, é que haja perfeita eqüidade, justiça e consideração aos princípios superiores.

1412. A observância da Irmandade Islâmica é o maior ideal social do Islam. Nele foi baseado o sermão do Profeta, na Peregrinação de Despedida, e o Islam não poderá ser completamente executado sem que esse ideal tenha sido alcançado.

1513. A ridicularização mútua deixa de ser divertida quando há nela arrogância ou egoísmo ou malícia. Podemos rir com as pessoas para compartilhar da sua alegria de vida; nunca ri das pessoas, pois elas podem ser melhores do que nós em muitas coisas.

1514. A difamação pode consistir em falar mal dos outros, por meio de palavras ou atos, de tal modo que sugira uma acusação contra alguma pessoa que não estejamos em condições de julgar. Observação mordaz, injuriante ou sarcástica está incluída na palavra lamaza. Um apelido ofensivo pode acarretar difamação, mas em todo caso, não se deve usar apelidos ou nomes que sugiram algum defeito real ou imaginário. Por exemplo, mesmo se um homem é coxo, é condenável chamá-lo "ó coxo!", isto causar-lhe-ia dor, além de constituir péssimas maneiras. O mesmo caso aplica ao homem de cor.

1515. Muitas espécies de suspeitas são infundadas e devem ser evitadas, e algumas são, por si, crimes, pois causam injustiça cruel a inocentes. Espionar ou questionar curiosamente sobre os assuntos de outrem, significa ou curiosidade inútil - e isto é futilidade - ou expediente levado a um estágio que se torna pecado.

1516. Ninguém poderia nem mesmo pensar em tal abominação, como a de comer a carne do seu irmão. Mas quando o irmão morre, a carne torna-se carniça, e à abominação é acrescentada abominação. Da mesma maneira somos advertidos a nos refrear de ferir os sentimentos dos outros quando estão presentes; bem pior seria se disséssemos coisas verdadeiras ou falsas sobre eles, quando estão ausentes.

1517. Isto é dirigido a toda a humanidade e não apenas aos muçulmanos, já que é compreendido quem em um mundo perfeito os dois poderiam ser sinônimos. Como foi formada, a humanidade descende de um casal de progenitores. Suas tribos, raças e nacionalidades são rótulos convencionais, através dos quais podemos distinguir certas características diferentes. Perante Deus, são iguais, e ele agracia mais o mais virtuoso.

1518. Os beduínos estavam indecisos em sua fé. Seus corações e mentes eram mesquinhos, e eles pensavam em coisas mesquinhas, enquanto o Islam requeria a completa submissão do ser a Deus. Alguns defeitos dos beduínos são descritos nos versículos 11-15 da 48ª Surata. A referência, aqui, porém, é dirigida aos Banu Asad, que passaram a professar o Islam, a fim de conseguirem caridade durante um período de fome.

1519. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.

1520. Os maiores filósofos encontraram dificuldade em compreenderem a posição cética quando contemplavam a maravilha e o mistério dos céus, com todos os incontáveis astros e estrelas, e a luz que se desprende deles, as leis de ordem, o movimento e a simetria que correspondem às mais elevadas abstrações matemáticas, sem uma falha. Poderia a mudança cega criar tais condições?

1521. Comparar com o versículo 3 da 13ª Surata e com o versículo 19 da 15ª Surata. A terra é redonda e, no entanto, parece estirada, como uma vasta expansão, semelhante a um tapete, conservado firme com o peso das montanhas.

1522. Ver a nota do versículo 38 da 25ª Surata.

1523. Ver o versículo 37 da 44ª Surata.

1524. Isto deve ser tomado em sentido figurado. Dois anjos estarão constantemente perto dele, para anotarem seus pensamentos, palavras e ações.

1525. Então, cada "palavra" pronunciada é anotada pelo observador (raquib). Isto significa que o observador apenas registrará palavras, e não pensamentos que não tenham sido exteriorizados. Os pensamentos podem ser perdoados, se não forem exteriorizados e se não forem colocados em ação.

1526. Como Cristo disse: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". (Mateus 11:15). Muitas lições espirituais podem ser aprendidas por qualquer um que tenha o coração e a compreensão para pôr em prática os ensinamentos de Deus e possa formar pensamentos genuínos daquilo que vê.

1527. Quatro agentes são mencionados nos versículos de 1 a 4, como evidências, ou tipos, ou símbolos da precisão e da unidade da verdade, descritos nos versículos 5 e 6. O que são esses agentes é descrito por certos particípios adjetivos, como o substantivo no plural usualmente compreendido como "ventos". O termo para vento, "Rih", é feminino em árabe. Alguns exegetas, todavia, compreendem que outros substantivos estão implicados, ou seja, anjos, nos quatro versículos, ou coisas diferentes, em cada um dos quatro.

1528. Estes devem ser os ventos que sopram as velas dos navios com suaves e favoráveis brisas, e que levam homens e mercadorias aos seus destinos.

1529. Estes devem ser os ventos (ou outros agentes) que distribuem as chuvas, de acordo com as ordens de Deus.

1530. O estudo das numerosas órbitas regulares dos planetas e das órbitas irregulares dos cometas, e os vários movimentos, visíveis e invisíveis, das estrelas em gravitação, forma por si, uma rede de conhecimentos ou ciência, de uma natureza elevadíssima.

1531. Alguns exegetas inferem deste versículo uma rígida doutrina da Predestinação ou Determinismo, não claramente deduzível das palavras. A palavra Úfica (desencaminhar, desviar) ocorre em muitos lugares, no Alcorão. Ver o versículo 75 da 5ª Surata ou o versículo 30 da 9ª Surata.

1532. A verdadeira caridade não se lembra apenas daqueles necessitados que pedem, mas também daqueles que são impedidos por alguma razão, de pedir. O homem de verdadeira caridade busca este último. A caridade, no seu elevado sentido, inclui todo o tipo de ajuda, de alguém mais agraciado para o menos agraciado. Comparar com o versículo 177 e com os versículos 273-274 da 2ª Surata.

1533. A evocação é sobre cinco coisas que explicaremos agora. Uma exortação é feita àqueles cinco sinais, nos versículos 1 a 6, onde a certeza de futuros eventos é asseverada, nos mais enfáticos termos, nos versículos 7 a 28, em três partes, ou seja: a chegada do Dia do Julgamento e o desaparecimento deste mundo dos fenômenos (versículos 7 a 10): os males futuros, conseqüência dos maus atos (versículos 11 a 16); e o alcance das bênçãos e completa realização do amor e das mercês de Deus (versículos 17 a 28).

1534. Os cinco sinais, aos quais a exortação é feita, são: (1) o monte (da revelação) - versículo 1; (2) o livro escrito (versículos 2-3); (3) o templo freqüentado (versículo 4); (4) o céu elevado (versículo 5); (5) os oceanos abundantes de água (versículo 6).

1535. O templo freqüentado é usualmente compreendido como a Caaba, porém, pode significar qualquer templo, ou casa de oração, dedicado ao Deus verdadeiro.

1536. O céu elevado é o céu cujos limites não podem ser alcançados pela mente humana. E o Templo da Natureza, no qual todas as criaturas adoram a Deus - o símbolo em que o material é o visível se fundem no espiritual e intuitivo.

1537. O oceano - o vasto e ilimitado oceano - é o símbolo material da natureza universal, ilimitada e compreensiva, do mundo espiritual e invisível. É designado como transbordante, cheio de poder, inundando toda a terra. Comparar com o versículo 6 da 81ª Surata. É uma descrição perfeita do desaparecimento final do nosso mundo transitório e do estabelecimento supremo da realidade, depois disso.

1538. Isto completa os cinco sinais ou símbolos, por intermédio dos quais o homem tem a certeza de que o julgamento virá. Note-se que eles foram mencionados em ordem decrescente; o mais elevado, ou o mais remoto na consciência humana, em primeiro, e o mais próximo, por último.

1539. O dia do Julgamento é caracterizado por duas figuras: "O firmamento oscilará energicamente". O céu, como o vemos, sugere-nos paz e tranqüilidade, e o poder das leis fixas, as quais todos os corpos celestes obedecem. Isto será sacudido no despertar do novo mundo espiritual. (Para a segunda figura, ver a nota seguinte.)

1540. As montanhas são um símbolo de firmeza e estabilidade. Porém, as coisas que consideramos firmes e estáveis, nesta vida material, são desintegradas, e não serão mais substanciais do que uma miragem no deserto.

1541. Taças para beber; em nossa vida, neste mundo, podem ser mal usadas, em duas oportunidades: (1) podem ser ocasiões de meras frivolidades ou perda de tempo; (2) podem acarretar maus pensamentos, más sugestões, más palavras ou más ações. Para salvaguardar a alegoria, adicionamos que o cálice estará livre de qualquer incitamento ao pecado. Será puro, em qualquer grosseria.

1542. A alegoria continua. Não há problemas de sexo nos céus. Porém, a característica de graça e gentileza da feminilidade implicada na palavra Hur (companheiras, versículo 20, acima), é mencionada, bem como a característica da simpatia e força da masculinidade, na alegoria das pérolas.

1543. Foram eles criados do nada? Três significados alternativos são sugeridos pelos exegetas, de acordo com o significado que damos à preposição árabe min: de, por, com, para: (1) Foram eles criados por nada? ou seja, vieram a existir por si próprios? Foi mera coincidência a de se tornarem seres? (2) foram eles criados de nada? ou seja, não houve uma maravilhosa semente, da qual pode ser traçado o crescimento de sua matéria como o trabalho de um Criador Onisciente? (3) foram eles criados para nada? Se eles fossem criados para um propósito, não deveriam eles tentar aprender tal propósito, compreendendo as Revelações de Deus?

1544. Uma referência a um credo idólatra, que dizia que por intermédio de uma escada material, o homem pode galgar até ao céu e estudar os seus segredos!

1545. Comparar com os versículos 57-59 da 16ª Surata. De acordo com o Evangelho da Unidade, é repugnante atribuir as gerações de filhos ou filhas a Deus. Mas as superstições árabes, de os anjos serem filhas de Deus, era blasfêmia, já que os próprios árabes detestavam ter filhas e consideravam um símbolo de humilhação.

1546. Praticamente todos os tradutores e exegetas compreendem tacumu, no sentido de acordar do sono. No versículo 218 da 29ª Surata, temos as mesmas duas palavras, hina tacumu, com o significado de se erguer (para orar). No versículo 25 da 57ª Surata, temos "liacumu an-nasu bilquisti", com o significado de observar a justiça. No versículo 38 da 78ª Surata, temos yacumu, usada para os anjos no sentido de comparecerem enfileirados.

1547. Não é necessário compreender isto como uma oração carônica especial. É bom passar um parte da noite em oração. Comparar com o versículo 6 da 78ª Surata e com os versículos 78-79 da 17ª Surata.

1548. Najm é interpretada de várias maneiras. Como é mais comumente aceito, significa ou uma estrela genérica ou o agrupamento de sete estrelas, conhecidas como as plêiades da Constelação de Touro.

1549. Camarada: trata-se do Profeta Mohammad que viveu entre os coraixitas durante toda a sua vida.

1550. Refere-se ao Anjo Gabriel, por intermédio do qual a revelação foi feita.

1551. Dois arcos, formando um círculo completo de união.

1552. A palavra "coração", em árabe, inclui a faculdade da inteligência, bem como a do sentimento.

1553. A primeira ocasião em que Gabriel apareceu, numa forma visível, foi no Monte Hirá, quando trouxe a primeira revelação, que se inicia com a palavra: "Lê" (ver os versículos 29-35 da 100ª Surata). A segunda vez foi na "Viagem Noturna" (ver a 17ª Surata). Estas foram as duas únicas vezes em que Gabriel apareceu, em sua forma visível.

1554. Para o significado literal da árvore de Lótus, ver a nota do versículo 16 da 24ª Surata).

1555. A morada eterna deve sempre estar em nossos pensamentos. Ela e alcançada quando o conhecimento espiritual do homem não mais consegue alcançar um conhecimento mais elevado.

1556. Os três principais ídolos do idólatras árabes eram: Lat, Uzza e Manata. Há opiniões divergentes, quanto à sua forma. Uma versão diz que Lat possuía a forma humana, Uzza tinha a sua origem numa árvore sagrada, e Manata numa pedra branca. Todos representavam Deus numa forma feminina.

1557. Comparar com os versículos 57-59 da 16ª Surata e com o versículo 39 da 52ª Surata.

1558. O homem, com a sua mente materialista, cujos desejos estão ligados ao sexo e às coisas materiais, nunca irá além dessas coisas. Seu conhecimento será limitado ao estreito círculo em que os seus pensamentos se movem. O mundo espiritual está além da sua percepção.

1559. Livros de Moisés: aparentemente não se trata de Pentateuco ou da Tora, mas de outros livros, agora perdidos. Por exemplo, o Livro das Guerras de Jeová, mencionado no Antigo Testamento (Números 21:14), eu ora está perdido. O Pentateuco presente não possui uma mensagem clara sobre a vida futura.

1560. Não existe nenhum livro original de Abraão. Mas um livro, chamado "O Testamento de Abraão", chegou até nós, e parece ser uma tradução grega do hebraico.

1561. Aqui se segue uma série de onze aforismos da sabedoria antiga, incorporados aparentemente no folclore semita vigente. O primeiro é sobre a carga espiritual do homem - a responsabilidade por seus pecados - que deve ser arcada por ele próprio e não por outra pessoa. Não poderá haver expiação vicária.

1562. O segundo e o terceiro aforismo são aqueles de que o homem devem lutar, ou nada obterá. Se ele lutar, o resultado aparecerá brevemente, e ele encontrará a sua recompensa na medida exata.

1563. O quarto, o quinto e o sexto aforismos dizem que todas as coisas retornarão a Deus. Que todas as nossas esperanças devem estar depositadas n’Ele.

1564. O sétimo aforismo relaciona-se com o mistério do sexo: todas as coisas são criadas em pares; casa sexo cumpre a sua própria função.

1565. A Sua promessa de que ressuscitará os mortos, dando-lhes uma nova vida no outro mundo, é maravilhosa. Este é o tema do oitavo aforismo.

1566. Riqueza e lucros materiais são desejados pela maior parte dos homens. Esta esperança, porém, não é sempre alcançada. Há um lado físico e outro espiritual, para isso. Mas ambos os lados, o material e o espiritual, dependem do Plano de Deus. Isto é mencionado no nono aforismo.

1567. O décimo aforismo refere-se a um poderoso fenômeno da natureza, o magnífico astro Sírio, que aparece proeminente nos céus, em algumas épocas do ano. É a estrela mais brilhante do firmamento. Os árabes o adoravam como divindades.

1568. O décimo primeiro aforismo refere-se à punição dos povos mais antigos, por seus pecados.

1569. Dois significados as o inferidos, e talvez ambos sejam aplicados aqui: que o profético passado indica o futuro; a fenda da lua indica o sinal da aproximação do Julgamento; que a frase é metafórica, significando que o assunto torna-se claro como a lua. O primeiro pode ser a ruptura do sistema solar na nova criação. Comparar com os versículos 8-9 da 75ª Surata. O segundo poderá ser uma alegoria oriental, baseada no primeiro significado.

1570. Um refrão, que ocorre seis vezes nesta surata.

1571. O povo egípcio é o último mencionado nesta surata, como exemplo de iniqüidade. Os egípcios tiveram muitos sinais. Era um povo agraciado, que alcançou tantos progressos na ciência e na arte. Ele deveria ter tirado lições da história, no sentido de que quando as altas virtudes desaparecem, a nação decai. Ver os versículos 75-90 da 10ª Surata.

1572. Os cálculos dos injustos na ciência, nas pesquisas, nos números, etc., serão adulterados, mesmo neste mundo, como é estabelecido nos dois últimos versículos. Mas a sua punição real virá no Dia do Julgamento, quando encontrarão o seu lugar real no mundo espiritual, quando da restauração dos verdadeiros valores.

1573. Achiá-‘acum: grupos semelhantes a vós: dirigidos aos fracos que arrogantemente confiam na sua força, apesar de não poderem enfrentar a Vontade de Deus.

1574. A revelação provém de Deus, o Clemente, e é um dos maiores sinais da Sua Graça e Benevolência. Ele é a Fonte de toda a Luz, e a Sua Luz é difundida por todo o Universo.

1575. Najm pode significar, tanto ervas como estrelas, ou ambas as coisas.

1576. Deve ser considerado, tanto literalmente como em sentido figurado. Um homem deve ser honesto e reto em todos os assuntos cotidianos, tais como pesar coisas que ele estiver vendendo; ele deve ser reto, justo e honesto, em todos os altos negócios, não apenas para com as outras pessoas, mas para consigo próprio, em obediência às leis de Deus. A justiça e a virtude central e o evitar tanto os excessos como os defeitos, na conduta, conservam o mundo humano contrabalançado, tal como o mundo celestial é conservado contrabalançado, por ordem matemática.

1577. Literalmente, os dois orientes e os dois ocidentes. São os dois pontos separados, onde o sol nasce durante o ano, e inclui todos os pontos intermediários. Similarmente, quanto aos dois ocidentes, são os dois pontos separados do pôr-do-sol e todos os pontos intermediários. O número dual está de acordo com a atmosfera geral de dualidade deste surata.

1578. As pérolas são produzidas por ostras, e o coral pelo pólipo, uma diminuta criatura marinha que, aos milhões, através de secreções, produz recifes, ilhas e bancos, em ambos os lados do Mar Vermelho e em outras partes do mundo. Ambos, pérolas e corais, são usados como gemas. As ostras, que produzem as pérolas, são também encontradas em alguns rios. Consideradas alegoricamente, as duas espécies de gemas podem denotar as jóias desta vida e as do mundo espiritual. As jóias deste mundo - como o coral - são duras, vastamente espalhadas no mundo, comparativamente baratas e opacas à luz. As jóias espirituais - como as pérolas - são macias, raras, caras e translúcidas. A analogia pode ser dos dois tipos de conhecimento, humano e divino, mencionados na história de Moisés e Khidhr, porém, a inteligência e a ciência, que tornaram isto possível, foram concedidas pelo Criador do homem.

1579. Os navios - navios, trens (e por analogia, aviões e aeronaves, que navegam majestosamente pelo espaço) - são feitos pelo homem. Porém, a inteligência e a ciência, que tornaram isso possível, são dádivas do Criador do homem e, portanto, os navios são dádivas de Deus.

1580. Como montanhas, devido às altas velas ou mastros, e à altura dos navios acima da superfície do mar.

1581. Takal: peso, algo pesado. Os dois mundos: trata-se de gênios e humanos, que foram sobrecarregados som a responsabilidade ou, como alguns exegetas opinam, com o pecado. Ambos estão perante Deus, e os assuntos são conduzidos sob o Seu comando. Se há desigualdade ou rupturas aparentes do equilíbrio, é só por um período. Deus deu aos bons e aos maus uma chance, nesse período de provação; mas esse período cessará brevemente, e o julgamento será estabelecido.

1582. Ou seja, rosados.

1583. Macsurat (recolhidas), aqui, é o particípio passivo do mesmo verbo do particípio ativo Cássirat nos versículos 48 da 37ª Surata e outros. Este é o único lugar, no Alcorão, em que a forma passiva ocorre.

1584. Comparar com o versículo 27 da 55ª Surata. Este eco menor completa a simetria das duas idéias dominantes desta Surata: A Honorabilidade e a Majestade de Deus, e o dever do homem de se fazer merecedor de estar próximo d’Ele.

1585. O Evento inevitável é a Hora do Juízo Final. As pessoas, hoje, podem ter dúvidas a respeito da sua chegada. Porém, quando chegar, repentinamente, chegará com tão tremenda realidade, que arderá profundamente em cada alma. Ninguém, então, terá falsas noções a seu respeito.

1586. Haverá a classificação do Bem e do Mal, ou melhor, de acordo com o versículo 7, haverá três classes principais: haverá a classe dos especialmente exultantes, aqueles que estiveram mais próximos de Deus (Mucarrabin, versículo 11), os virtuosos, geralmente chamados de Companheiros da Direita (Ashab-ul maimana, versículo 27). Haverá, ainda, aqueles que estarão em agonia, os Companheiros da Esquerda (Ashab-ulmach-ama, versículo 41).

1587. Os primeiros crentes: há dois sentidos implícitos: daqueles que alcançaram os graus mais elevados na compreensão espiritual, tais como os profetas e os mentores da humanidade; aqueles que foram os primeiros a aceitar a mensagem de Deus.

1588. A juventude e a imortalidade dos ajudantes é o símbolo de uma assistência verdadeira, tal como esperamos que seja, no mundo espiritual.

1589. Talh, em árabe. Alguns opinam que seja a bananeira, cujos frutos são sobrepostos. Porém, a bananeira não nasce na Arábia, e seu nome comum, em árabe, é mauz. Talvez seja uma espécie de acácia, cujas flores aparecem sobrepostas.

1590. O pronome, em árabe, está no gênero feminino, mas para que não surjam idéias vulgares de sexo, é esclarecido que essas companheiras serão uma criação especial, de virgindade pura, de graça e beleza, inspirando e inspiradas no amor, com a eliminação dos problemas da idade e do tempo.

1591. Ver o versículo 62 da 37ª Surata e o versículo 43 da 44ª Surata.

1592. Tendo apelado para a nossa natureza interior, Ele apela agora para a exterior, que é evidente para nós. Três exemplos são dados: a semente que espalhamos no solo; a água, que bebemos; e o fogo, que ateamos.

1593. Há um hiato, após "Por que, então", e duas cláusulas parentéticas, e então o "por que, então" se repete, com o seu complemento no versículo 87. É permitido, ao tradutor, acrescentar algumas palavras, aqui, para tornar a tradução compreensível.

1594. Uma conexão entre este e a última surata. Ver o versículo 96 da 56ª Surata.

1595. Comparar com o versículo 3 da 10ª Surata. Isto não significa que Deus completou a criação em seis dias e descansou no sétimo. Certas formas externas do universo foram completadas pela ordem de Deus, em seis períodos de evolução. Mas o Seu processo criativo continua, estando Ele para sempre em Seu Trono, Onisciente e Regente de todos os assuntos.

1596. O Profeta Mohammad. Os sinais revelados e ele são: os versículos do Alcorão, a sua vida e as suas obras, nos quais o Plano e o Propósito de Deus estão depositados.

1597. Isto é compreendido como referindo-se à conquista de Makka, depois da qual os muçulmanos sucederam, no poder e na posição, aos coraixitas, que deles faziam mau uso. Depois, os muçulmanos tiveram a hegemonia sobre a Arábia e, em poucos séculos, tiveram a hegemonia sobre o mundo. Todavia, as palavras são totalmente genéricas e devemos compreendê-las no seu sentido genérico, também: que os povos que oferecem o melhor de si e lutam pela causa de Deus, a qualquer hora, são louváveis: porém, merecem distinção especial aqueles que o fazem, quando a causa está sendo ameaçada e tendo maior necessidade de assistência, antes de chegarem à vitória.

1598. Uma cuidadosa preparação na vida, e a luz da fé que reflete a luz divina, são questões de vida pessoal e não podem ser emprestadas a outro. Assim acontece na parábola cristã das dez virgens, onde as incautas deixaram as suas candeias se apagarem por falta de azeite. Pediram, então, azeite emprestado às prudentes, porém estas responderam: "Não... ide antes aos que o vendem, e comprai-os para vós" (Mateus 45:1-13).

1599. A referência aos judeus e aos cristãos contemporâneos. Para cada uma dessas comunidades foi dada a revelação de Deus, mas à medida que o tempo passou, eles a corromperam, tornaram-se arrogantes e de corações endurecidos, subvertendo a justiça, a verdade e a pureza da vida. Porém, as lições gerais são bem mais amplas. Ninguém é favorecido por Deus, a não ser por motivos de retidão. A não ser nesse caso, não há referência por indivíduo ou raça. Não há boa ou má sorte; tudo acontece de acordo com leis justas e a Vontade de Deus.

1600. Cuffár é usada, aqui, no sentido incomum de "cultivadores", porque eles plantam as sementes e as cobrem com terra. Mas o sentido comum de "pecadores" também pode ser incluído.

1601. Ferro: o metal mais útil, conhecido pelo homem. Dele se faz o aço e de ambos são feitos implementos de guerra, tais como espadas, lanças, armas de fogo, etc., bem como instrumentos pacíficos, tais como arados, instrumentos de pedreiro, de arquiteto, de engenheiro, etc.. o ferro é o símbolo da força, do poder, da disciplina, das sanções, etc.. as indústrias de ferro e de aço são as bases da prosperidade e do poder das nações modernas.

1602. A característica principal dos ensinamentos dos Evangelhos é a humildade. A primeira bênção do Sermão da Montanha é para "os pobres de espírito": "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque é deles o reino dos céus". A mesma frase se aplica aos "que choram" e aos "mansos"; e foi dito: "Basta a cada dia o seu mal" (Mateus 6:33). É-lhes recomendado, também: "Não resistais ao mal; mas se qualquer um te bater na face direita, oferece-lhe também a outra" (Mateus 5:39). Conquanto estes atos representem piedade, simpatia para com o sofrimento e atos de compaixão, tal proceder representa o espírito de Cristo.

1603. A corrupção na Igreja Cristã, as disputas minuciosas e o ódio mútuo, entre as seitas, tornaram-se um escândalo, no tempo em que a luz do Islam apareceu no mundo. As páginas da história testemunham isso. A religião tornou-se vazia de sentido, e a vida do povo, dos sacerdotes e da laicidade, caiu num grande precipício de degradação.

1604. De acordo com o contexto anterior (ver o versículo 27) e posterior (ver a nota seguinte), isto se refere aos cristãos e aos adeptos do Livro que conservaram sua verdadeira fé imaculada.

1605. A dupla porção refere-se ao passado e ao futuro. Como é mencionado na nota anterior, esta passagem é dirigida aos cristãos e aos adeptos do Livro que, quando encararam honestamente a questão da nova revelação do Islam, encontraram nela o preenchimento das revelações anteriores, e assim creram em Mohammad, o Mensageiro de Deus. Seus méritos prévios serão duplamente reconhecidos, e serão tratados em igualdade de condições na nova comunidade.

1606. Como isto é dirigido aos cristãos e aos adeptos do Livro, as seguintes palavras de Cristo, em seus últimos dias, devem interessá-los: "A luz ainda está convosco por um pouco de tempo; andai, quanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus; e, retirando-se escondeu-se, deles"(João 12:35-36). Comparar com o versículo 12 desta surata.

1607. Que nenhuma raça ou comunidade, que nenhum povo ou grupo creia que possui a exclusiva graça de Deus, ou que pode influenciar nas Suas dádivas. A graça de Deus é livre e controlada inteiramente por Ele, independentemente de qualquer sacerdote ou povo privilegiado. Ele a dispensa, de acordo com as Suas Própria Sabedoria e Vontade, e a Sua Graça é ilimitada.

1608. É o que aconteceu com Khaula, filha de Ta’alaba, esposa de Auss Ibn Assámet. Apesar de Auss ser muçulmano, ele divorciou-se de sua esposa seguindo um costume idólatra. O expediente era conhecido como zihar, e consistia das seguintes palavras: "Doravante serás tão ilícita para mim quanto a minha mãe". Este era um costume idólatra para indicar um divórcio e libertar o marido de qualquer responsabilidade para com os deveres conjugais, sem dar liberdade, porém, à esposa, para abandonar o lar do marido ou para contrair outro matrimônio. Tal costume era degradante para a mulher.

1609. Ver a nota anterior.

1610. Se o zihar fosse ser ignorado, como se as palavras nunca tivessem sido proferidas, significava que os homens poderiam, estupidamente, recorrer a tal expediente sem penalidades. É aqui estabelecida a penalidade, conservando-se os direitos da mulher. Ela pode usufruir da sua manutenção bem como da de seus filhos, sem que o seu marido possa reclamar os seus direitos conjugais.

1611. A penalidade é manumitir um escravo, quer seja o dele próprio ou o de outra pessoa. Se não houve escravo, que jejue por dois meses consecutivos (a exemplo do jejum de Ramadan). Se não puder, que alimente 60 pessoas pobres.

1612. Há uma grande quantidade de argumentos eruditos, entre os juristas muçulmanos, quanto aos requisitos preciso da lei sobre o termo "alimentar" o necessitado. Por exemplo, é estipulado que 1 kg de trigo ou 2 kg de tâmaras, ou o seu equivalente em dinheiro podem preencher os requisitos. Outros estipula que 0,50 kg é o suficiente. Isto é, aproximadamente, a ração diária de um homem. É melhor considerar o espírito do texto na sua simplicidade total e dizer que se deve dar a um necessitado o suficiente para se alimentar duas vezes por dia.

1613. Quando a comunidade muçulmana estava adquirindo força em Madina, e as forças da desunião estavam sendo desbaratadas, em luta aberta contra o Profeta, os iníquos recorreram à duplicidade e às intrigas secretas, nas quais os líderes eram os judeus descontentes e os hipócritas, cujas maquinações são freqüentemente mencionadas no Alcorão. Ver o versículo 8-16 da 2ª Surata e os versículos 142-145 da 4ª Surata.

1614. A saudação de Deus era e continha sendo "paz!" Mas os inimigos, que não possuíam a coragem de lutar abertamente, freqüentemente distorciam as palavras, e usando uma palavra como "sam", que significa "morte", em vez de "Salam" (paz), eles pensavam que estavam expressando o seu ódio e, aparentemente, usando uma saudação polida. Comparar com o versículo 106 da 2ª Surata, onde está exporto a um outro artifício semelhante.

1615. O zakat, que traduzimos por tributo, foi instituído no ano 2 da Hégira, aproximadamente.

1616. Isto se refere aos hipócritas de Madina, que alegaram ser muçulmanos, mas faziam intrigas, juntamente com os judeus.

1617. Neste tempo, os judeus de Madina e as tribos judaicas dos arredores da cidade se haviam tornado ativamente hostis ao Islam.

1618. Comparar com o versículo 87 da 2ª Surata, onde é mencionado que Deus fortaleceu Jesus com o Espírito da Santidade. Aqui, lemos que todos os virtuosos foram fortalecidos, por Deus, como o Espírito da Santidade.

1619. Este versículo introdutório da surata é idêntico ao versículo introdutório da 57ª Surata. O tema de ambas as suratas versa sobre o maravilhoso Plano de Deus e a Sua Providência. A 57ª Surata refere-se à conquista de Makka e fornece lições de humildade. Esta, se refere ao desalojamento dos traiçoeiros judeus (os Banu Annadhir), do seu ninho de intrigas, na vizinhança de Madina, praticamente sem luta.

1620. Isto se refere aos Banu Annadhir, cujas intrigas e traições quase aniquilaram a causa islâmica, durante os perigosos dias da batalha de Uhud, no mês de Chawal, do ano 3 da Hégira. Quatro meses depois, foram tomadas medidas contra eles. Foi-lhe ordenado que abandonassem a posição estratégica que ocupavam, a aproximadamente 5 km de Madina, pondo em perigo a própria existência da comunidade local. No início eles se recusaram, confiando em suas fortalezas, em sua alianças secretas com os idólatras de Makka e nos hipócritas de Madina. Mas quando o exército muçulmano se concentrou para combatê-los, cercando-os por alguns dias, os seus aliados não levantaram um dedo para auxiliá-los e eles foram bastante inteligentes em partir. A maior parte deles se juntou aos seus irmãos na Síria, com a permissão dos muçulmanos. Outros se juntaram aos seus irmãos em Khaibar.

1621. Eles haviam feito um jogo duplo. Originariamente, eram aliados dos muçulmanos de Madina, mas secretamente participavam de intrigas juntamente com os idólatras de Makka e os hipócritas de Madina. Tentaram mesmo assassinar traiçoeiramente o Profeta, enquanto este lhes fazia uma visita, quebrando assim as leis da hospitalidade e do seu próprio juramento de aliança. Pensavam eles que os coraixitas de Makka e os hipócritas de Madina os ajudariam. Porém, não o fizeram. Pelo contrário, os onze dias de cerco mostraram-lhes a sua própria fraqueza. Seus suprimentos haviam sido cortados; e as exigências do cerco obrigaram à destruição dos seus pomares, e a reviravolta da sua sorte desanimou-os. Seus corações ficaram abatidos, pelo terror, e eles tiveram de capitular. E além de tudo, destruíram as suas próprias casas, antes de abandoná-las. Ver a nota seguinte.

1622. Suas vidas foram poupadas e foi-lhes dado um prazo de dez dias para se mudarem juntamente com suas famílias, podendo levar todos os apetrechos que pudessem carregar. Determinados a não deixar habitações para os muçulmanos, demoliram suas próprias casas e destruíram suas propriedades para completarem a devassa que as operações de guerra haviam causado pelas mãos das forças sitiantes muçulmanas.

1623. A punição dos Banu Annadhir foi devida à sua quebra de palavra dada ao Mensageiro, por terem resistido à aceitação da Mensagem de Deus, apoiado os inimigos desta Mensagem e se rebelado contra Sua Vontade Sagrada. Por tais razões a punição foi severa, apesar de, nesse caso, ter sido abrandada com misericórdia.

1624. O corte desnecessário de árvores frutíferas ou a destruição dos campos agrícolas, ou qualquer ato de devassidão, mesmo na guerra, é proibido pela lei e pelas práticas islâmicas. Todavia, alguma destruição se faz necessária para se pressionar o inimigo, e por isso é permitida. Porém, tanto quanto possível, mesmo com objetivos militares, tais árvores não devem ser cortadas. Ambos os princípios estão de acordo com a Vontade Divina e foram seguidos pelos muçulmanos em suas expedições.

1625. Os judeus vieram originariamente de fora da Arábia e se fixaram na terra próxima a Madina. Eles recusaram adaptar-se aos costumes dos povos da região, e foram, de fato, um espinho no flanco dos árabes de Madina. Sua disposição consistia na restauração das terras de seu povo original. Porém, a palavra "Fái" é aqui compreendida em seu sentido técnico, significando propriedade abandonada pelo inimigo, ou tomada dele sem uma guerra formal. Nesse sentido distingue-se de "Anfal", ou espólios, tomados depois de uma luta. Quanto a estes, ver os versículos 1 e 41 da 8ª Surata.

1626. Os moradores da cidades: As cidades eram as habitações dos judeus ao redor de Madina, e possivelmente de outras tribos, além da tribo de Banu Annadhir. A referência não deve ser sobre Wádi-il-Curá (Vale das Cidades), agora chamado de Madáin Saleh, que foi subjugado após Kaibar e Fadak, no ano 7 da Hégira, a menos que este versículo seja posterior ao resto da surata.

1627. Os migrantes são aqueles que abandonaram os seus lares e propriedades em Makka, com o intuito de darem assistência ao Profeta, na sua migração para Madina (Hijrat).

1628. Isto se refere aos Ansar (Socorredores), os habitantes de Madina que aceitaram o Islam, quando eles era perseguido, em Makka, e que convidaram o Profeta a juntar-se a eles, tornando-o o seu líder em Madina.

1629. Aqueles que os seguiram: o significado imediato pode ser "os que chegaram posteriormente a Madina", ou que aderiram posteriormente ao Islam, comparados com os primeiros migrantes. O significado geral, porém, poderia incluir todos os futuros adeptos do Islam.

1630. Os judeus de Banu Annadhir tinham a promessa dos hipócritas de Madina de que estes os apoiariam em sua causa. Eles pensavam eu a sua deserção da causa do Profeta poderia enfraquecer aquela causa, e que eles poderiam salvar os seus amigos. Porém, estes nunca tencionaram fazer nada que significasse um sacrifício para eles. Se eles tivessem auxiliado os seus amigos judeus, não havia certeza que estes fossem bem sucedidos; e mesmo se tivessem tido à luta com eles, não teriam nem valor, nem fervor para apoiá-los, e teriam fugido ignominiosamente, ante a disciplina, a seriedade e a fé dos muçulmanos.

1631. A referência é (talvez) aos judeus da tribo de Cainucá, que também habitavam uma cidade fortificada, perto de Madina. Eles também foram punidos com o banimento, pelas suas traições, aproximadamente um mês após a batalha de Badr, na qual os idólatras coraixitas haviam sofrido uma derrota significativa.

1632. Há duas idéias, associadas nas mentes humanas, a respeito de uma montanha: uma é a sua altura, e a outra são as suas rochas, pedras e a sua dureza. Daí a metáfora. A Revelação de Deus é tão sublime, que mesmo as montanhas mais altas se humilham perante ela. A Revelação é tão poderosa e convincente, que mesmo as rochas mais duras se desintegram perante ela.

1633. Aqui se segue uma passagem de grande sublimidade, recapitulando os atributos. Começamos com a proposição de que não há palavras adequadas para descrevê-Lo, e que só podemos chamá-Lo de "Ele" pois nada há que possa igualá-Lo. Pensamos em Sua Unicidade; todas as variadas e conflitantes forças na Criação são controladas por Ele, e não poderemos nunca captar uma verdadeira idéia d’Ele, a menos que compreendamos o significado místico da Unicidade. Sua onisciência se estende a tudo o que é visível e invisível, presente e futuro, próximo e distante, ser e não ser; de fato, estes contrastes, que se aplicam ao nosso conhecimento, não se aplicam a Ele. Sua clemência e misericórdia são ilimitadas. A menos que compreendamos isso, não teremos uma verdadeira concepção da nossa posição na atividade da Sua Vontade.

1634. Esta frase é uma repetição do versículo anterior para nos conduzir à complementação de alguns outros atributos de Deus.

1635. Como pode um tradutor reproduzir a sublimidade e compreensibilidade das magnificentes palavras árabes? "O Soberano", na nossa linguagem humana, implica na única autoridade inconteste; o poder que executa a lei e a justiça. A autoridade humana pode ser mal usada, mas o título "o Augusto" nós postulamos a um Ser livre de toda mácula ou maldade, e repleto de elevadíssima Pureza. Salam (Pacífico) não tem apenas a idéia de paz em oposição a conflito, mas de integridade em oposição a defeitos. Mu-min (Salvador), ou Aquele que considera a fé, que sustenta esta fé e por isso Ele salva a Seus servos.

1636. Sendo esses os atributos de Deus de divindade e Poder, quão tolo é o homem, em adorar outra coisa além d’Ele.

1637. Depois da referência aos atributos de benevolência e poder de Deus, temos agora os da Sua energia criativa, dos quais três aspectos são aqui mencionados. O ponto principal é que Ele não cria e abandona. Ele continua, evolvendo novas formas e cores, e sustentando todas as energias e capacidades, as quais Ele colocou em Sua criação, de acordo com várias leis, que estabeleceu.

1638. O ato ou os atos da criação têm vários aspectos e a várias pessoas palavras usadas nesta conexão são mencionadas nos versículos 117 da 2ª Surata, 94 da 6ª Surata, 98 da 6ª Surata. Khalaca é o termo geral para a criação e o Autor de toda a Criação é Khálic. Baraa implica um processo de evolução de uma matéria, ou estado, previamente criado. O Autor deste processo é Bári-u (Onifeitor). Sauara implica em dar forma definitiva ou cor, fazendo com que uma coisa se harmonize com um fim ou objetivo dado; daí o atributo Musauer (Formador).

1639. Assim, o argumento da surata retorna ao mesmo diapasão que ocorre no primeiro versículo da mesma. O primeiro versículo e o último são os mesmos, exceto no que diz respeito ao tempo do verbo sabbaha.

1640. A revelação ocorreu por ocasião de uma carta secreta remetida por um tal de Hatib, um imigrante de Madina, aos idólatras de Makka, nos termos mais amigáveis, pedindo a proteção para os seus filhos e parentes, deixados em Makka. A carta foi interceptada e ele confessou a verdade. Ele foi perdoado por ter dito a verdade e pelo seu motivo não parecer abominável, porém esta instrução foi dada, para futuras orientações. Isto aconteceu um pouco antes da conquista de Makka, mas o princípio é de aplicação universal.

1641. Pelo Tratado de Hudaibia, as mulheres sob tutela (incluindo mulheres casadas), que fugiam dos coraixitas de Makka para a proteção do Profeta, em Madina, eram mandadas de volta. Mas antes de este versículo ser revelado, os coraixitas haviam quebrado o tratado, e eram necessárias algumas instruções quanto ao que os muçulmanos de Madina deveriam fazer, nestas circunstâncias. Mulheres muçulmanas, casadas com idólatras, em Makka, estavam sendo oprimidas, devido à sua fé, e algumas delas vieram para Madina como refugiadas. Depois disso, elas não eram devolvidas ao custódio dos seus maridos idólatras, em Makka, já que os casamentos de mulheres crentes com não-muçulmanos eram dissolvidos, se os maridos não aceitassem o Islam. E para evitar a reclamação dos idólatras, de que eles estavam sendo tratados injustamente, já que perderiam o dote que haviam dado em casamento, tal dote era devolvido aos maridos. Assim, as refugiadas desamparadas eram protegidas, à custa dos muçulmanos.

1642. A condição era que fossem muçulmanas. Como poderiam os muçulmanos saber? Uma mulher não-muçulmana, tem intenção de fugir do seu guardião legal de Makka, poderia alegar que era muçulmana. A sua verdadeira intenção só poderia ser do conhecimento de Deus. Mas se os muçulmanos, testando a mulher, concluíssem que ela professava o Islam, ela tinha o direito à proteção. O teste consistia dos pontos mencionados no versículo 12, adiante.

1643. Já que o casamento podia ser dissolvido, não havia barreira para um novo casamento com refugiadas das refugiadas muçulmanas com os muçulmanos, que lhes pagassem o dote devido.

1644. As não-muçulmanas, numa sociedade muçulmana, só poderiam servir de empecilho e desvantagem. Não poderia ter nem felicidade, nem poderiam se conduzir-se de nenhuma forma para uma vida saudável, na sociedade na qual viviam como estranhas. Teriam de ser devolvidas.

1645. Uma contingência improvável, considerando-se a melhor posição que a mulher ocupava sob o Islam do que sob a idolatria. Mas todas as contingências devem ser consideradas pela eqüidade da legislação.

1646. Estes são os pontos que a mulher que aderisse ao Islam deveria comprometer-se a preencher. Pontos similares aplicam-se aos homens, mas a questão aqui é sobre as mulheres, e especialmente naqueles dias primitivos do Islam, e no caso de passarem de uma sociedade idólatra para uma sociedade muçulmana, nas condições discutidas nas notas 1641 e 1642. É chamado juramento de lealdade das mulheres. Foi também o juramento os homens, até ao segundo pacto da ‘Acaba quando o dever de defesa foi adicionado ao juramento dos homens.

1647. Assim, voltamos ao tema com que esta surata começou: que não tenhamos vínculos com povos que quebraram a lei de Deus. As várias frases desta questão, e as legítimas qualificações foram mencionadas, e o argumento aqui é repetitivo. Ver também o versículo 14 da 58ª Surata.

1648. Este versículo é idêntico ao versículo 1 da 59ª Surata. Esta última ilustrava o tema da maravilhosa obra de Deus, na frustração dos estratagemas do Seus inimigos. Aqui é ilustrado o mesmo tema, mostrando-se a necessidade de uma disciplina rígida, se esperamos o auxílio de Deus.

1649. Em Uhud houve alguma desobediência, e, portanto, a quebra da disciplina. O povo falou muito, mas falhou em pôr em prática as suas resoluções em palavras com firmeza na ação. Ver o versículo 121 da 3ª Surata, e respectiva nota. Mas, em toas as ocasiões, quando os atos dos homens não eqüivalem às suas palavras, a sua conduta torna-se odiosa perante Deus, e só se salvam dos desastre devido à misericórdia d’Ele.

1650. Uma disposição para a batalha, na qual um grande número de pessoas resiste, marcha ou se mantém junto, contra um assalto, como se fosse uma sólida muralha, é um extraordinário exemplo de ordem, disciplina, coesão e coragem.

1651. A missão de Jesus era para o seu próprio povo, os judeus. Ver Mateus 10:5-6 e Mateus 15:24. "Não fui enviado, senão às ovelhas desgarradas da Casa de Israel". Ver também Mateus 15:26: "Não é dado tomar o pão filhos e jogá-lo aos cachorrinhos".

1652. Comparar com Mateus 5:17: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir."

1653. "Ahmad" ou "Mohammad", o louvado, é quase a tradução da palavra grega Paracleto. No Evangelho de João 14:16, 15: 26 e 16:7, a palavra "Consolador", na versão portuguesa, refere-se a Paracleto, que significa "Intercessor", "alguém chamado em auxílio de outro, um amigo generoso"; é melhor do que "Consolador". Os nossos doutos afirmam que Paracleto é uma corruptela de Periclytos, e que no dito original de Jesus havia uma profecia sobre um Profeta, chamado Ahmad. Mesmo se lermos Paraclete, isto poderia ser aplicado ao Profeta Mohammad, que foi "uma misericórdia para a humanidade" (21ª Surata, versículo 107).

1654. "Sobre toda a religião": no singular, e não sobre todas as outras religiões, no plural. Há, na verdade, uma só Religião verdadeira, a Mensagem de Deus e a submissão à Sua Vontade, e isto é chamado de Islam. Foi a religião pregada por Moisés e Jesus; foi a religião de Abraão, de Noé e de todos os profetas, qualquer que seja o nome que lhe demos. Se as pessoas corrompem essa luz pura, e denominam as suas religiões com nomes diferentes, devemos tolerá-las e devemos admitir os nomes por conveniência. Ver também o versículo 33 da 9ª Surata e o versículo 28 da 68ª Surata.

1655. Se nós pedimos o auxílio de Deus, devemos, primeiro, auxiliar na Causa d’Ele, ou seja, dedicarmo-nos a Ele, inteiramente e sem reservas. Este também foi o ensinamento de Jesus, como é mencionado neste versículo. Quanto ao que é encontra no Novo Testamento, a metáfora usada é a da luz. "Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". (Mateus 16:24).

1656. Ver o versículo 52 da 3ª Surata. Os nomes dos discípulos são encontrados em Mateus 10:2-4.

1657. "Tudo quando existe nos céus e na terra glorifica Deus", porque as Suas mercês se estendem e são extensivas a todas as Suas criaturas.

1658. Iletrados: como é aplicado a um povo, refere-se aos árabes, em comparação com os adeptos do Livro, que possuíam uma tradição mais erudita, cujo fracasso é mencionado no versículo 5, abaixo. Aplicado a indivíduos, significa que a Revelação de deus é para o benefício de todos os homens, quer tenham sabedoria terrena ou não.

1659. Judeus: ser judeus é muito diferente de seguir a Lei da Vontade de Deus. A reivindicação arrogante de serem um povo escolhido, de serem os únicos possuidores dos ensinamentos divinos, de estarem isentos de qualquer punição pela quebra das leis divinas (ver versículo 88 da 2ª Surata), constitui blasfêmia. Isso pode ser judaísmo, mas no sentido do de Moisés.

1660. Sexta-feira: é o Domingo dos muçulmanos. Primeiramente, é o Dia da Assembléia, o dia do encontro semanal para a Oração em Congregação, precedida de um Sermão (Khutba), no qual o Imam examina a esfera espiritual semanal da comunidade e apresenta avisos e exortações sobre a vida. Comenta aos muçulmanos as séries de o contato social se eles seguem os rituais de sua fé: cada membro recorda Deus, por si só, cinco ou mais vezes por dia, em casa, no lugar de serviço, na mesquita, ou ao ar livre; às sextas-feiras há um encontro local, na mesquita central de casa localidade; nas duas comemorações anuais "Eid" há uma grande reunião local em um centro; uma vez na vida, quando possível, um muçulmano participa de uma vasta assembléia internacional, no centro do Islam, na peregrinação a Makka. Uma feliz combinação de descentralização e centralização da liberdade individual e encontro coletivo e contato em vários estágios ou graus. A parte mecânica desta prática é fácil de se executar.

1661. A idéia referente ao do dia semanal muçulmano de congregação é diferente daquela do sábado judeu ou do domingo cristão. O sábado judeu é uma comemoração do término das obras de Deus e o descanso do sétimo dia (Gênesis 2:2; Êxodo 20:11). Nós aprendemos que Deus não necessita de descanso, nem sente fadiga (versículo 255 da 2ª Surata). A ordem judaica proíbe o trabalho naquele dia, mas nada diz a respeito da adoração ou oração (Êxodo 20:10). A nossa prática dá uma grande ênfase à recordação de Deus. O formalismo judaico foi longe, a ponto de matar o espírito do sábado, e provocou o protesto de Jesus: "O sábado foi feito por causa do homem, e noa o homem por causa do sábado." A Igreja Cristã, apesar de ter mudado o dia da congregação de sábado para domingo, herdou o espírito judaico. Os nossos ensinamentos dizem: "Ó fiéis, quando fordes convocados para a oração de sexta-feira, apressai-vos à recordação de Deus e abandonai os vossos negócios; isso será preferível, se quereis saber. Porém, uma vez observada a oração, dispersai-vos pela terra e procurai as dádivas de Deus..."

1662. O elemento hipócrita. Se existir um, numa sociedade, se torna uma fonte de fraqueza e um perigo para a sanidade e para a própria existência dela. Quando o Profeta migrou para Madina, na sua chegada foi acolhido por todos os cidadãos patrióticos. Isso não apenas os uniu em vida comum e eliminou as suas velhas diferenças, mas também lhes trouxe luz e honra, na pessoa do maior mestre da verdade. Todavia, havia alguns elementos desprezíveis e cheios de inveja. Suas esperanças de conseguir poder e liderança, tirando vantagem das inimizades entre as facções, haviam caído por terra. Começaram, então, a maquinar secretamente. Por temerem a maioria, não ousaram opor-se à nova comunidade, crescente, de virtuosos. Eles tentaram miná-la através de intrigas secretas com os seus inimigos, enquanto juravam abertamente a sua lealdade ao Profeta. Foram completamente desmascarados e desacreditados na Batalha de Uhud. Ver o versículo 167 da 3ª Surata.

1663. A boa madeira é resistente e pode suportar tetos e prédios. A madeira oca é inútil e tem de ser apoiada contra outras coisas. Os hipócritas são como a madeira podre. Não possuem um caráter firme, e para os outros são apoio inseguro em que confiar.

1664. Os migrantes, que foram ter com o Profeta e acorreram em seu exílio, foram recebidos, auxiliados e sustentados pelos Ansar (Socorredores). Os hipócritas de Madina não gostaram disso e tentaram, por meios clandestinos, dissuadir o povo de Madina de auxiliar os exilados. Suas maquinações, porém, não vingaram. A pequena comunidade islâmica cresceu de força em força, até chegar ao ponto de se sustentar com os seus próprios recursos e de aumentar, ao mesmo tempo, os recursos dos seus acolhedores hospitaleiros.

1665. Palavras deste porte eram proferidas por Abdullah Ibn Ubai, o líder dos hipócritas de Madina, quanto aos exilados, quando da expedição contra os Banu Almustalic, no quarto ou quinto ano da Hégira. Ele tinha esperanças de liderança, que se desvaneceram com a chegada de um homem bem mais importante do que ele. Assim, ele se cognominou, arrogante, "o mais honorável (elemento)".

1666. Comparar com o versículo 1 da 62ª Surata. Todas as coisas, por sua mera existência, proclamam louvores a Deus. Ele possui domínio sobre tudo, mas usa este domínio para fins justos e louváveis. Ele possui poder sobre tudo; logo, pode combinar a justiça com a graça, e os Seus Plano e Propósito não podem ser frustrados pela existência do mal, misturado com o bem, em Seu Reino.

1667. Comparar com o versículo 64 da 40ª Surata e com o versículo 11 da 7ª Surata. Em adição à beleza e ao esplendor da criação de Deus, Ele dotou o homem com aptidões especiais, com faculdades e capacidades, e com dignidades especiais que o elevam à condição de legatário de Deus na terra. "Com a melhor forma" também inclui a idéia de "adaptação ao fim para o qual os homens foram criados".

1668. Isto está mais bem explicado nos versículos 9-11 da 14ª Surata.

1669. O Mensageiro veio para guiar e ensinar, e não para forçar ou compelir. Os ensinamentos do Mensageiro são claros, livres de ambigüidades e estão à disposição de todos. Comparar com o versículo 95 da 5ª Surata.

1670. Em alguns casos, as exigências da família (esposa e filhos), podem estar em conflito com as convicções e obrigações morais e espirituais do homem. Em tais casos, ele talvez deva prevenir-se quanto ao abandono das suas convicções, obrigações e ideais por causa das exigências ou dos desejos dela. Todavia, não deve maltratá-los. Deve garantir-lhes uma nova provisão razoável, e se persistirem em se opor abertamente a ele, deverá perdoá-los e não o expor à vergonha ou ao ridículo. Ao mesmo tempo, deve permanecer firme nas suas obrigações. Tais casos ocorreram com alguns muçulmanos, que se exilaram em Madina, para serem fiéis à sua fé.

1671. Nota-se que, em primeira instância, o Profeta é tratado individualmente, como o mentor e o representante da comunidade. Então, as injunções são dirigidas a toda a comunidade.

1672. "De todas as coisas lícitas, o divórcio é a mais odiosa aos olhos de Deus" é uma tradição do Profeta. As instruções gerais e as limitações a respeito do divórcio podem ser estudadas nos versículos 228, 232, 236, 237 e 241 da 2ª Surata e no versículo 35 da 4ª Surata.

1673. O Iddat, um termo técnico na lei do divórcio, está explicado na nota do versículo 228 da 2ª Surata. Seu significado geral é o de "um período prescrito". Neste sentido, ele é usado no versículo 185 da 2ª Surata, para o período prescrito do jejum.

1674. O período prescrito está de acordo com os interesses da esposa, do marido, de uma criança gerada - e não nascida - (se houver uma) e das leis do sexo na natureza, e por isso, nos ditames elementares de uma sociedade refinada. Es exegetas sugerem que o divórcio não deve ser efetuado durante o período menstrual. Isso implica em que quaisquer que sejam as diferenças entre marido e mulher, isto não leve a um ponto de debate, num tempo em que o sexo é menos atraente e quase repulsivo. Tudo deve ser feito para o fortalecimento dos aspectos espirituais e sociais do casamento, reprimindo os impulsos desenfreados do instinto animal. As partes devem pensar seriamente, num ambiente de benevolência, conservando, em suas mentes o temor a Deus.

1675. Como o Islam trata a mulher casada como uma completa personalidade jurídica, em todos os sentidos do termo, uma mulher casada tem o direito, no seu status de casada, a uma casa. Isto implica em gastos razoáveis, para a conservação da casa e para a sua manutenção, para a manutenção da mulher e dos seus filhos. Isto não é apenas obrigatório, durante o status matrimonial, mas durante o Iddat, por tratar-se de um período mais probatório para a mulher. Durante este período, ela tanto não deve ser expulsa, como também não será decente, da parte dela, que saia por sua própria vontade, para que não diminuam as chances de reconciliação.

1676. A reconciliação é possível, e deveras recomendada, em qualquer estágio. As primeiras diferenças, entre as partes, devem ser submetidas a um conselho familiar, no qual ambas as partes devem estar representadas (ver o versículo 35 da 4ª Surata); o divórcio não deverá ser formulado quando a atração física mútua estiver arrefecida; quando o divórcio for formulado, deverá haver um período de provação; o dote deve ser pago, e fornecidas provisões adequadas, em termos eqüitativos. Todos os meios devem ser fornecidos para a reconciliação, até ao último momento.

1677. As nossas raiva e impaciência devem ser refreadas. Os nossos amigos podem parecer-nos fracos e pouco razoáveis; as circunstâncias podem parecer-nos desencorajadoras; contudo, devemos confiar em Deus. Como podemos medir as nossas fraquezas e a nossa cegueira? Deus é Onisciente. Seu Propósito Universal é sempre benéfico. Sua ordenação no universo observa uma justa, perfeita e devida proporção.

1678. Comparar com o versículo 228 da 2ª Surata. Para uma mulher normal, o Iddat é de três períodos menstruais, após a separação. Se ela não mais tiver os períodos ou se estes forem irregulares, serão três meses do calendário. Este tempo é suficiente para se saber se ela está grávida ou não. Se estiver, o tempo de espera será até dar à luz.

1679. Um homem egoísta, aproveitando-se do divórcio, pode, no período probatório, tornar miserável a vida da mulher. Isto é proibido. Ela deve ser provisionada no mesmo nível dele, de acordo com o seu status de vida.

1680. Se a mulher estiver grávida, uma terceira vida entra em cena, por causa da qual é acrescentada a responsabilidade de ambos os pais. De qualquer modo, não pode haver separação, antes da criança nascer. Mesmo depois do nascimento, es a reconciliação entre os pais não for possível, o pai tem o dever de cuidar da criança e da mãe, e deve haver consentimento mútuo entre eles.

1681. "Se encontrardes constrangimento", ou seja, se o leite da mãe cessar, ou se a sua saúde não ajudar, ou se surgir qualquer circunstância que impeça o procedimento natural da mãe de alimentar o seu próprio filho.

1682. O pai deve arcar com todas as despesas, com a pensão razoável e necessária para a mãe.

1683. A família do Profeta não era igual às outras famílias. Esperava-se que as suas esposas tivessem um padrão de vida mais elevado, quanto ao comportamento, do que as outras mulheres, já que elas tinham uma importantíssima tarefa a realizar (ver o versículo 28 da 33ª Surata). Contudo, elas eram seres humanos, acima de tudo, e estavam sujeitas às fraquezas do seu sexo, e por vezes cometiam erros. A mente do Profeta estava aflita, e ele renunciou à companhia de suas esposas por algum tempo. Parece que esta renúncia é referida, aqui. A situação, todavia, era difícil para ele, porque ela era a filha de Abu Bakr, um dos mais fiéis e íntimos, dentre os seus Companheiros, e seu lugar-tenente. A filha de Ômar, Hafsa, também ocupava uma posição de destaque. Quando as duas combinaram, em reunião secreta, e discutiram certos assuntos, revelando segredos à outra, elas causaram muita tristeza ao Profeta, cujo coração era sensível, e que tratava toda a sua família com paciência e afeto exemplares.

1684. As palavras afetuosas de admoestação, dirigidas às esposas do Profeta, nos versículos 28-34 da 33ª Surata, explicam melhor a situação do que qualquer comentário.

1685. Quem eram essas duas esposas e qual era o assunto confidencial, que foram revelado, não nos é dito. O fato, mencionado na nota 1683, dito acima, porém, ajudar-nos-á a compreender esta passagem. Não é necessário nos aprofundarmos em todas as insignificantes tagarelices, que alguns exegetas coletaram, ou nas insinuações maliciosas daquelas que não compreenderam a grandeza do Profeta. As palavras sagradas indicam que o assunto foi de grande importância; todavia, os detalhes não tinham importância suficiente para serem permanentemente registrados.

1686. "Sá-ihát", significa, literalmente, "aquelas que viajam pela fé, renunciando a desejos e residências", ou seja, aquelas que peregrinam, que jejuam, que negam a si próprias os prazeres ordinários da vida. Isto se aplica a todas as mulheres, moças ou idosas, quer sejam viúvas ou divorciadas.

1687. Tradicionalmente conhecida com o nome de Ásia, uma das quatro mulheres perfeitas. As outras três são: Maria, mãe de Jesus, Khadija, a esposa do Profeta, e Fátima, sua filha.

1688. Imran é, tradicionalmente o nome do pai de Maria, mãe de Jesus. Ver o versículo 35 da 3ª Surata.

1689. Comparar com o versículo 91 da 21ª Surata. Como virgem, ela deu à luz Jesus (ver os versículos 16-29 da 19ª Surata). No versículo 9 da 32ª Surata, o relato é sobre o nascimento de Adão, onde se diz que Deus "o modelou, então, alentou-o com o Seu Espírito". No versículo 29 da 15ª Surata, são usadas palavras semelhantes, com referência a Adão. O nascimento de uma pessoa, por parte de uma virgem, não deve, portanto, implicar em que Deus foi o Pai de Jesus, no sentido que a mitologia grega dava a Zeus, o pai de Apolo, por intermédio de Latona, ou de Nino por intermédio de Europa.

1690. "Mulk": soberania, domínio, o direito de exercer a Sua Vontade ou de fazer o que deseja. A onipotência, mencionada na cláusula seguinte, é a Capacidade de exercer a Sua Vontade, de modo que nada possa resistir a ela ou neutralizá-la. Aqui, a beneficência é totalmente identificada com o domínio e com a onipotência, exemplificados nos versículos seguintes. Nota-se que Mulk, aqui, tem um perfil diferente da palavra Malakut. Ambas as palavras são da mesma raiz e as traduzimos, a ambas, pela palavra "soberania". Malakut, porém refere-se à soberania do mundo incognoscível, enquanto Mulk se refere à soberania do mundo cognoscível. Deus é o Senhor de ambos os mundos.

1691. Os céus, como aparecem às nossas vistas, parecem estar arranjados em camadas sobrepostas, e a astronomia antiga considerava os movimentos dos corpos celestes como um esquema elaborado de esferas. O que nos interessa, aqui, é a ordem e a beleza do espaço incomensurável e os maravilhosos corpos, que seguem leis regulares de movimento, no vasto espaço do mundo visível. Disto podemos formar uma concepção do mundo incognoscível, muitíssimo maior, para o qual necessitamos de uma especial visão espiritual.

1692. Retornando ao simbolismo do mundo exterior ou visível, somos impelidos a estudá-lo acuradamente e tão minuciosamente quanto possamos. Por mais perto que o observemos, não encontraremos fenda algum. Deveras, a região de averiguação é tão vasta, e se estende para tão longe da nossa percepção, que os nossos olhos, mesmo auxiliados pelos mais poderosos telescópios, se confessam incapazes, ao tentarem penetrar os seus mais profundos mistérios. Não encontramos defeitos na criação de Deus; encontramos, sim, falhas no nosso próprio poder de irmos além de um certo limite.

1693. A fantasia simbólica da perseguição das estrelas foi explicada em outros versículos. O simbolismo, aqui, nos conduz a um passo a mais. Vemos nos céus aparentes, perfeição e beleza. As luzes e o fogo, que vemos, são sagrados e benéficos. Mas se forem usados em magia, ou em superstições da nossa própria imaginação, não estaremos brincando com fogo?

1694. Os sinais de Deus não eram rejeitados ou desafiados, apenas; eram, negados categoricamente. Ainda mais, mesmo a sua possibilidade era negada. As pessoas de bem e os mentores espirituais eram perseguidos, ou eram objeto de zombaria. Eram chamados de malucos e acusados de estarem em um grave erro.

1695. É dado ao próprio homem o poder de distinguir entre o bem e o mal. Além disso, ele é auxiliado pelos ensinamentos dos grandes mensageiros ou mestres do mundo. Quando tais mestres não têm contatos pessoais com algum indivíduo ou com uma geração, o significado verdadeiro dos seus ensinamentos pode ser compreendido através da razão, com a qual Deus agraciou todos os seres humanos.

1696. O homem tem construído caminhos através dos desertos e das montanhas, através de rios e mares, utilizando os navios, e através dos ares, por meio de aeroplanos; tem construído pontes e túneis, bem como outros meios de comunicação. Ele foi capaz de tais empreendimentos graças à inteligência que Deus lhe deu.

1697. O vôo dos pássaros é a coisa mais bela e maravilhosa da natureza. A criação e o arranjo das suas penas e dos seus ossos, o seu formato, do bico ao rabo, são exemplos de adaptação. Eles pairam, com as asas estiradas; arremessam-se, com as asas retraídas; o seu movimento ondulatório, a sua estabilidade no ar e o seu descanso sobre as patas dão muitas idéias ao homem na ciência e na arte da aeronáutica.

1698. No árabe há um toque artístico, impossível de se produzir na tradução.

1699. O sustento, aqui, refere-se a tudo o que é necessário para o sustento e para o desenvolvimento da vida, em todas as suas facetas, espiritual, mental e física.

1700. Os céticos dizem aos crentes: "Bem, se a calamidade recair sobre nós, ela envolverá o bom e o mau, da mesma forma como dizeis que Deus cumula, com as Suas mercês, os bons e os maus!" A resposta é: "Não deveis vos preocupar conosco! Mesmo supondo que seremos destruídos, juntamente com os crentes, há acaso um consolo para vós? Os vossos pecados causar-vos-ão os sofrimentos e nada vos livrará deles. Se formos atingidos por algumas tristezas ou sofrimentos, nós os consideraremos como provas, para temperar o nosso caráter, já que cremos nas mercês de Deus e n’Ele confiamos".

1701. A surata termina com uma parábola, tomada de um fato vital da nossa vida física, e nos orienta, para que compreendamos a nossa vida espiritual. Na nossa vida cotidiana, o que aconteceria, se acordássemos, em alguma manhã, e verificássemos que as fontes e os reservatórios, nosso suprimento de água, tinham desaparecido, tragados pelas profundezas da terra? Nada poderia salvas as nossas vidas. Sem água não podemos viver, e a água não pode subir acima do seu nível. Outrossim, procura níveis mais baixos. O mesmo acontece com a vida espiritual. Suas fontes estão na sabedoria divina, que flui das alturas. Deus é a fonte real da vida, e Ele é todas as formas de vida.

1702. Nun, pode significar um peixe ou um tinteiro, ou pode ser a letra n, do alfabeto árabe. No último caso, deve referir-se a um ou a ambos os significados. Note-se que a rima árabe, em toda a surata, termina em n.

1703. O cálamo e a escrita são as bases simbólicas da revelação para o homem. O juramento, pelo cálamo, descarta a irreverente acusação de que o Mensageiro de Deus estava possesso. Pois ele pronunciou palavras de poder, sem incoerência, cheias de significado e, por intermédio da escrita do cálamo, esse significado revelou-se em inumeráveis aspectos para incontáveis gerações.

1704. As pessoas chamam de louco todo o indivíduo cujos padrões de vida sejam diferentes dos deles. A loucura, na crença de algumas pessoas supersticiosas, é causada por possessão demoníaca, uma clara idéia na mente dos escritores do Novo Testamento, pois Lucas fala de um homem do qual os "demônios" foram arrancados, estando então "vestido, e em seu juízo" (Lucas 8:35).

1705. Literalmente, a parte mais sensível da tromba do elefante.

1706. Devemos sempre nos lembrar, em todos os nossos planos, de que todos eles dependem, para o seu sucesso, do quanto estão de acordo coma Vontade de Deus. Sua Vontade Universal está acima de qualquer empreendimento. Os idiotas possuíam um plano secreto para fraudarem o pobre nos seus direitos; foram colocados, porém, numa posição em que não poderiam levá-lo a cabo. Ao tentarem frustrar aos outros, eles próprios foram frustrados.

1707. No Oriente, o pobre tem direito a uma parte da colheita, quer seja como recolhedor, ou artífice, ou como criado. Os proprietários ricos do pomar, na parábola, desejavam fraudar este direito. Mas a avareza foi punida, acarretando-lhes uma grande perda.

1708. Quando a cupizes ou a injustiça é punida, as pessoas estão prontas para jogar a culpa nos outros. Neste caso, uma pessoa em particular pode ter percebido a culpa moral de opor-se à Vontade de Deus e ao direito do homem. Se ele, porém, participar da empresa na esperança de auferir lucros, não poderá eximir-se de toda a responsabilidade.

1709. Se o arrependimento for verdadeiro, então haverá esperança. Se não for, eles adicionarão a hipocrisia aos seus outros pecados.

1710. É claramente contra a lógica e a justiça supormos que as pessoas de bem tenham o mesmo fim que os pecadores. Mesmo nesta vida o homem não pode obter o que escolhe, embora tenha uma limitada liberdade de escolha. Como ele espera conseguir tal cosia, sob um perfeito reino de justiça e verdade?

1711. Isto é, quando todo o mistério desaparecer.

1712. Note-se a transição de "Me" para "Nós" (oculto) neste versículo e, de novo, para "Eu" (oculto) e "Meu", no versículo seguinte. A 1ª pessoa do plural, normalmente usada no Alcorão como a palavra de Deus, é o tratamento de respeito. Em decretos régios, a 1ª pessoa do plural é sempre usada. Quando a 1ª pessoa do singular é usada, ela diz respeito a alguma relação especial, quer seja de mercês ou graças, quer seja de punição, como é o caso, aqui.

1713. Esta é a análise extrema da loucura ou da possessão demoníaca. Ver o versículo 2, desta surata e respectiva nota.

1714. A realidade: o evento que inevitavelmente acontecerá, o estado em que toda a falsidade e toda a pretensão desaparecerão e a verdade absoluta revelar-se-á. As questões, nos três versículos, levaram uma espécie de mistério. A solução é sugerida ao que aconteceu ao povo de Tamud, ao povo de Ad e a outros povos da antigüidade. Simbolicamente, sugere o grande cataclismo do Dia do Juízo Final.

1715. Se seguirmos a seqüência dos povos, que foram destruídos, devido aos seus pecados, começaremos com o povo de Noé; então, virão os povos de Ad e de Samud, depois os coraixitas, aos quais foi enviado o postremo dos profetas, o Profeta Mohammad. Esta é a seqüência cronológica. Aqui não há este detalhe e nem mesmo todos foram mencionados.

1716. Comparar com a frase bíblica: "Quem tiver ouvidos para ouvir, ouvirá" (Mateus 11:15). A frase, usada aqui, porém, tem uma significação mais complexa. Um ouvido pode ouvir, mas o ouvinte não pode reter para sempre as lições que ouviu, ainda que, quando as ouvisse se tivesse impressionado com elas. A penetração da verdade é mais profunda e sutil. Este é o objetivo, aqui.

1717. Chegamos agora ao Evento Inevitável, o Dia do Juízo, o tema desta surata.

1718. Todo o quadro é pintado com imagens poéticas para indicar o que não pode ser adequadamente descrito com palavras que, na verdade, nossas faculdades humanas, com seu limitado poder, não estão aptas a compreender.

1719. Os anjos representam as manifestações da glória divina. O número oito talvez não tenha nenhum significado especial, a menos que seja com referência ao formato do Trono, ou ao número de anjos. O trono oriental é sempre octogonal e os seus carregadores se posicionam nos cantos, para carregá-lo. Toda a descrição é simbólica, representando a Majestade de Deus, o Altíssimo.

1720. A metáfora é de saborosas uvas maduras, penduradas em cachos pesados, tão baixos que podem ser colhidos e consumidos com toda a facilidade.

1721. Talvez a palavra "manietar" pudesse ser interpretada no sentido de "manietai suas mãos ao redor de seu pescoço, para lembrá-lo que elas, quando livres, se fecharam para todos os atos de caridade".

1722. Os efeitos do pecado estão descritos com palavras de brilhante imaginação: (1) "Pegai-o"- a primeira coisa que acontecerá ao pecador será a perda da sua liberdade espiritual, tornando-se escravo da paixão, do preconceito, da inveja, do ódio e de toda a espécie de mal; (2) "manietai-o"- suas mãos serão atadas ao redor do seu pescoço e todas as suas forças e todos seus impulsos serão restringidos; (3) "introduzi-o na fogueira"- hei-lo, então consumido, pelas chamas da destruição que ele próprio procurou; (4) "fazei-o carregar uma corrente"- as conseqüências do pecado se ramificarão e se estenderão, tornando-se uma longa corrente de setenta cúbitos.

1723. Um poeta dá asas à sua imaginação, e o fator subjetivo é tão forte que, apesar de podermos aprender muito com ele, não podemos crer como fatos as belas histórias que ele tem para dizer. E o poeta, que não é vidente, é um partidário vulgar do exagero e da falsidade.

1724. Um adivinho pretende, simplesmente, prever eventos futuros, de profundas conseqüências espirituais. A maior parte destas profecias são fraudes, e nenhuma delas está apta a dar lições de admoestação real. Estas lições são trabalho de um mensageiro honorável.

1725. A destra é a mão da ação e do poder. Todo aquele que for preso pela mão direita fica desprovido de ação. O argumento é que, na eventualidade de um impostor aparecer, logo seria descoberto. Não poderia permanecer com a sua fraude, indefinidamente. Os homens de Deus, porém, por mais perseguições que sofram, ganham maior poder a cada dia que passa como aconteceu com o Profeta Mohammad, cuja veracidade, sinceridade e amor para com todos foram reconhecidos, como a sua própria vida mostra.

1726. Toda a verdade é, por si só, certa. Recebida pelos homens, porém, e compreendida do ponto de vista da psicologia humana, pode ter certos graus. Há a probabilidade ou a certeza, resultantes da aplicação do poder de julgamento do homem e da sua avaliação da evidência, isto é, "llm-ul-yaquin" (Ciência da Verdade), por raciocínio lógico ou inferência. Então, há a certeza de que ver alguma coisa com os próprios olhos. "Ver é crer", isto é "Ain-ul-yaquin". Então, como é o caso aqui, há a verdade absoluta, sem possibilidade de erro de julgamento ou engano do olho. Esta verdade absoluta é a "hac-ul-yaquin" (verdade convicta), aqui mencionada.

1727. Ma’arej: vias de ascensão. Aqui há um profundo significado espiritual. Podemos, acaso, alcançar as alturas de Deus, o Altíssimo? Em Sua graça infinita, Ele dá este privilégio aos anjos e aos seres espirituais, considerando o ser humano neste aspecto. Mas o caminho não é fácil, nem pode ser percorrido em um só dia.

1728. Porém, tal gloriosa transformação não pode ser alcançada sem o mais alto exercício espiritual. Se medirmos o tempo, como o fazermos no plano desta vida, levará milhares de anos. No plano espiritual deve ser apenas um dia ou um momento.

1729. As montanhas, que parecem tão sólidas, ficarão como flocos de lã, manipulados pelo cardador.

1730. A análise do pecado é feita em quatro etapas, das quais as duas primeiras se referem à vontade ou à psicologia do pecador, e as duas últimas ao uso que ele faz das boas coisas da sua vida.

1731. A descrição dos devotos da oração é dada em uma série de cláusulas, que são introduzidas pela palavra "aqueles".

1732. As cativas de guerra podiam ser tomadas em matrimônio, porém o seu status era inferior ao das livres, até que se tornassem livres. Esta instituição das cativas de guerra é, agora, obsoleta. Tal inferioridade de status, estava no status de cativa e não no status de cansada, no qual não há graus, exceto por costumes locais que o Islam não reconhece.

1733. Se conhecermos alguma verdade, de qualquer espécie, deveremos declará-la, mesmo que isso afete as vidas ou os interesses dos nossos semelhantes, isto com firmeza, e não titubeantes, sem medo ou favoritismo, mesmo que isto nos cause perdas ou problemas.

1734. A parte animal do homem não é algo para ele se orgulhar, e ele sabe disso. É por intermédio de esforços espirituais e através de longa preparação que o homem pode elevar a sua parte animal a altas dignidades espirituais.

1735. O testemunho, aqui colocado ante nós, por Deus, é o Seu Próprio Poder e Sua própria Glória, manifestados no esplendor do nascer e do pôr-do-sol em pontos diferentes, no decorrer do ano solar.

1736. Se Deus possui tal poder quanto ao maravilhoso fenômeno do nascer do sol, em pontos variados, repetidas vezes, ano após ano, não é para verdes, ó incrédulos e blasfemos que Ele pode facilmente substituir-vos por seres melhores?

1737. Note-se a transição do singular "eu" para o plural "nós".

1738. A sua conversa e o seu ceticismo são em vão, porque toda a evidência espiritual está contra ele.

1739. Então haverá uma meta definida ou um estandarte da verdade inexorável, que todos deverão reconhecer. Eles a reconhecerão, na vergonha e no desânimo, e o tempo para o seu arrependimento e a sua correção terá, então, passado.

1740. A missão de Noé é mencionada em muitas passagens do Alcorão.

1741. Três aspectos do dever do homem são postos em destaque: (1) a adoração verdadeira, com o coração e a alma; (2) confissão, por temor a Deus, de que toda a maldade levará à deterioração e ao julgamento; (3) então, virão o arrependimento, a correção da vida e a obediência aos conselhos dos homens de bem.

1742. Quando os argumentos convincentes e as admoestações são colocados diante dos pecadores, há duas espécies de reações. Os inteligentes recebem a admoestação, arrependem-se e produzem frutos, corrigindo a sua vida e retornando a Deus. Por outro lado, aqueles que são insensíveis a qualquer advertência, tomam-na como reprovação, afastam-se cada vez mais da retidão e fecham os canais através dos quais poderiam alcançar a graça curativa de Deus.

1743. O significado literal poderia ser este: assim como enfiam os dedos nos ouvidos, para evitar que a voz do admoestador os alcance, eles cobrem os corpos com as suas vestimentas, para que a luz da verdade não penetre neles e para que não sejam vistos pelo pregador. Porém, há um significado simbólico mais profundo. "Suas vestimentas" são os adornos das vaidades, os maus hábitos, costumes e tradições, bem como seus padrões e interesses efêmeros.

1744. Em outro versículo, o sol é mencionado como a lâmpada dos céus: "Bendito seja Quem colocou constelações no firmamento e pôs, nele, uma lâmpada e uma luz refletidora".

1745. Em outro versículo, o crescimento de Maria, mãe de Jesus, é descrito pela mesma palavra "nabat", comumente denotando o crescimento das plantas e das árvores. A similaridade é a da uma semente que germina, cresce e morre, e volta para a terra.

1746. Nomes dos ídolos, adorados pelo povo de Noé.

1747. Tais superstições e cultos pagãos nada acrescentaram ao conhecimento ou ao bem-estar humano. Só acrescentaram erros maléficos. Por exemplo, quanta devassidão resultou das bacanais greco-romanas? Quanta lascívia resultou das sagradas canções da ribalta? Este é o resultado natural, e Noé, em seu amargor de espírito, orou para que a graça de Deus fosse cortada aos iníquos. Eles extraviam os outro: que eles próprios se extraviem!

1748. A punição do pecado cerca a alma por todos os lados e de todas as formas. A água indica morte por afogamento, através do nariz, dos olhos, da boca, da garganta e dos pulmões. O fogo tem efeitos opostos. Ele queima a pele, os membros, a carne, o cérebro, os ossos e todas as partes do corpo. Assim, a destruição, deflagrada pelo pecado, é completa sob todos os pontos de vista.

1749. A revelação pode ser feita através de vários canais, e um deles é o da visão, por intermédio das quais o Profeta vê e ouve eventos, que passam claramente, perante ele.

1750. O Alcorão Sagrado poderia ser, para eles, um recital maravilhoso, tento em assuntos subjetivos, como nas circunstâncias em que chegou à Arábia, em meio a uma nação de pagãos e ignorantes.

1751. Eles repudiam a idolatria e a suposição do filho de Deus, que implica numa esposa, da qual ele nasceria.

1752. Os que falam, aqui, se arrependeram do pecado e do mal; mas eles reconhecem que há ainda maldosos, entre eles; as suas tramas serão desbaratadas pela vigilância dos guardiães do bem, simbolizados pelos feixes de luz meteórica, no céu.

1753. A água representa toda a espécie de bênçãos materiais, morais e espirituais.

1754. Este é uma surata revelada em Makka, a palavra Álmasjad deve ser compreendida no sentido literal, como uma mesquita. Mas no sentido fundamental, significa qualquer lugar de adoração ou prostração humilde, a serviço de Deus, ou qualquer faculdade ou acessório, usado em tal adoração.

1755. A referência é aos coraixitas idólatras que, na época, estavam de posse da Caaba, e puseram toda a sorte de obstáculos no caminho do Profeta, por ele pregar o culto ao Único Deus Verdadeiro, e por ser contrário à adoração dos ídolos.

1756. "Mistérios", ou o incognoscível; aqui há dois aspectos. (1) o incognoscível relativo, com referência a uma pessoa em particular, por causa da intervenção do tempo, espaço ou circunstância particulares. Por exemplo: não podemos, hoje, ver uma casa que vimos no ano passado, por ter sido derrubada. Ou não podemos ver os satélites de Júpiter a olho nu, apesar de podermos fazê-lo por intermédio de um telescópio; (2) o incognoscível absoluto, porém, o mistério absoluto, ou o mistério de Deus, é algo que nenhuma criatura pode conhecer ou ver, a menos que Deus lho revele.

1757. A revelação não é uma coisa mecânica ou material. Ela deve ser salvaguardada de ser distorcida pela ignorância, pelo egoísmo, ou pelos poderes do mal.

1758. No reino espiritual, como de fato, em todas as instâncias, o conhecimento, a sabedoria e o plano de Deus compreendem todas as coisas, grandes e pequenas. Nada fazemos e nada acontece sem o conhecimento de Deus.

1759. Muzzammil. Alguns exegetas compreendem isto como "vestido apropriadamente para a oração", ou "enrolado" num lençol, a exemplo de alguns que renunciam às vaidades deste mundo. O termo é usado como um dos títulos do Profeta. Todavia, há um significado místico mais profundo nesta passagem, que continua com o primeiro versículo da próxima surata. A natureza humana requer vestimentas quentes, para proteger o corpo do sol, da chuva e do frio. No mundo espiritual, porém, estas vestimentas são inúteis. A alma deve apresentar-se nua e aberta perante Deus, no silêncio da noite, mas não tão austeramente, como mostram os versículos seguintes.

1760. O Profeta era inclinado a práticas rigorosas, na caverna de Hirá, antes e depois de receber a missão, passando dias e noites em oração e contemplação. As orações e contemplações, à meia-noite e após a meia-noite, receberam o nome de Tahjjud. Ver também o versículo 20, adiante.

1761. Neste tempo, havia apenas 96ª Suratas, a 68ª Surata, possivelmente a 74ª Surata e a Surata da Abertura. Mas o coração do Mensageiro tinha recebido iluminação e essa luz estava, gradualmente, encontrando expressão nos versículos do Alcorão. Para nós, agra, com todo o texto do Alcorão à nossa frente, a injunção é necessária. As palavras do Alcorão não devem ser lidas apressadamente. Elas devem ser estudadas e deve-se ponderar sobre o seu significado profundo. São, por si, tão belas, que devem ser afetuosamente pronunciadas, em tons de música rítmica.

1762. Deus é Tudo em todos, e Ele é o Senhor de todos os lugares. Ele governa o universo. Portanto, não fique desencorajado com a trama ou com a inimizade dos fracos. Deixe todas as coisas a cargo de Deus; confie n’Ele. Ele é Justo e fará justiça. Afaste-se, apenas, do injusto, mas de uma forma digna e nobre, ou seja, para mostrar-lhe claramente que não o teme, mas deixa os seus assuntos nas mãos de Deus. Se dividirmos o mundo em hemisférios, Norte e Sul, "Oriente e Ocidente" cobrirão todos as direções.

1763. Em termos gerais, a penalidade, pelo pecado, deve ser descrita como uma penalidade grave, uma agonia. Ela poderá ou não acontecer nesta vida, porém na próxima será inexorável. Podemos, também, considerar a punição sob um outro aspecto. O primeiro objetivo da punição é proteger o inocente das devastações do criminoso; temos de coibir isso. O objetivo seguinte é acender em seu coração a chama do arrependimento, para consumir as suas más inclinações e para iluminar a sua consciência em fazermos algo que lhes cause dor, privando-os de coisas que normalmente lhes causam prazer, tais como alimento, bebidas, e satisfação das necessidades físicas. As pessoas em que as altas faculdades espirituais estão dormentes podem, talvez, ser acordadas através dos mais baixos traços físicos de sua vida. Quando também isto falha, há, finalmente, a agonia completa, um tipo ou símbolo muito terrível para contemplar.

1764. O nosso Mensageiro tinha de avisar a sua geração, regenerá-la, quanto ao pecado, e ser testemunha, a favor dos virtuosos, e contra os maus, como o fez Moisés, na sua geração.

1765. Isto não é uma ameaça vazia. É uma admoestação, para o vosso bem. O arrependimento e a emenda são o caminho reto, para a vossa aproximação de Deus.

1766. O Profeta e um grupo zeloso dos seus Companheiros ficavam acordados aproximadamente dois terços ou metade da noite, permanecendo em oração e recitando o Alcorão. É-lhes dito ser isto muito severo, especialmente se a sua saúde for afetada, ou se estiverem lutando denodadamente pela causa de Deus.

1767. A duração da noite e do dia solar, e a hora precisa da metade da noite só podem ser determinadas por observações precisas de um céu claro ou por intermédio de cronômetros, o que não é possível a qualquer um realizar. Deus fixou a noite e o dia em devidas proporções, para o descanso e para o trabalho do homem. Para se efetuarem as orações não há necessidade de observações meticulosas daquele tipo, e nem elas são possíveis. As orações podem ser efetuadas de várias maneiras, como é explicado abaixo.

1768. A leitura do Alcorão, aqui, é quase equivalente à oração e às evocações religiosas. Isto não deve ser transformado numa obsessão cega ou numa carga. Devemos fazê-lo atentamente e não de forma mecânica.

1769. Isto se refere ao Jihad (a luta pela causa de Deus).

1770. Comparar com a frase bíblica: "Ajuntai tesouros no céu" (Mateus 6:20).

1771. Como é comum, nestes maravilhosos versículos místicos, há uma dupla corrente de pensamento: (1) uma ocasião ou pessoa particular é mencionada; (2) uma lição geral e espiritualizada é ensinada. Quanto à primeira, o Profeta ultrapassava o estágio de contemplação pessoal, deitado ou sentado, com o seu manto; devia então corajosamente sair e proclamar, publicamente, a sua mensagem. O seu coração fora sempre puro, mas então os seus feitos exteriores deveriam ser dedicados a Deus, e o respeito convencional aos costumes antigos devia ser posto de lado. O trabalho, como mensageiro, era a mais generosa dádiva que poderia brotar de sua personalidade; não devia, contudo, esperar nenhuma recompensa ou reconhecimento do seu povo. Ao contrário, haveria maior exigência da sua paciência, o seu contentamento surgiria do fato de aprazer a Deus.

1772. A fórmula legal e comercial é dar para receber. Geralmente, esperamos receber algo melhor do que aquilo que demos. A consideração espiritual é dar e nada esperar em troca. Nós servimos a Deus e às Suas criaturas.

1773. Os exegetas consideram que esta passagem se refira a Ualid Ibn Mughia, um sibarita rico, idólatra ao extremo, e um inveterado inimigo do Profeta. El e Abu Jahl fizeram tudo o que estava ao seu alcance, desde o início da pregação do Islam, para injuriarem e perseguirem o pregador, e para destruírem a sua doutrina e injuriarem também aqueles que nela acreditavam. Mas o significado, para nós, é a inspiração divina. Eles procuram explicar a sua maravilhosa influência sobre as vidas humanas por uma fórmula insignificante, como "mágica". A esperança eterna, para eles, é mera ilusão humana.

1774. É um estado em que nem se vive, nem se morre.

1775. Quem são os dezenove? E por que este número? Os 19 guardiões do inferno são compreendidos, simbolicamente, como anjos ou faculdades humanas. O Imam Fakhurddin Razi os classifica como 19 faculdades ou poderes humanos, os quais, quando devidamente usados, levam o homem ao avanço espiritual. Se mal usados, porém, levam-no à perdição. Essas faculdades ou esses poderes podem ser comparados com os anjos, pois estes são poderes ou instrumentos de algo do mundo espiritual.

1776. O significado místico dos números é um ema favorito de alguns escritores, mas nós não damos ênfase a isso. Na teologia cristã, o número da Besta, 666, em Revelações, 13:18, levantou muita controvérsia, e pode referir-se apenas ao valor numérico das letras do nome do imperador romano Nero.

1777. Um juramento, na língua humana, invoca algo sagrado, no coração do homem. Na mensagem de Deus, também, quando revelada em linguagem humana, a ênfase solene é indicada por um apelo a algo formidável, entre os sinais d’Ele, indo diretamente para o coração do homem, ao qual está endereçado. De qualquer maneira, o apelo refere-se ao ponto em particular, reforçado no argumento.

1778. A noite, quando iluminada pelo luar, é clara, num sentido, mas na realidade é escura e deve dar lugar à aurora, quando aparece como arauta do sol. O mesmo se dá nos assuntos espirituais; quando cada alma se der conta da sua própria responsabilidade, parecerá cada vez menos capacitada a refletir a luz, e através da beleza de um despertar, estará preparada, cada vez mais, para o esplendor da luz divina, a meta dos céus dos nossos sonhos.

1779. Três interpretações são possíveis: (1) aqueles que se antecipam devem ser os virtuosos, e os que se atrasam, devem ser os preguiçosos, os incrédulos, que rejeitam o amor, o zelo e a graça de Deus; (2) pode-se atribuir o texto a homens de duas espécies de temperamento: aqueles que estão sempre na vanguarda e aqueles que sempre estão na retaguarda:; (3) ou pode-se concluir que as advertências são efetivas, apenas para aqueles que almejam mover-se para a frente e para trás, conforme o caso, mas estão perdidos, no estado letárgico.

1780. O próprio Alcorão é uma admoestação - o derradeiro, entre os livros revelados por Deus. Se o homem tiver vontade de aprender, ele poderá conservar a mensagem sempre à sua frente, e a graça de Deus irá auxiliá-lo a realizá-la, na sua conduta.

1781. Os nossos doutos postulam três estágios de desenvolvimento da alma: Am-mara, ou propensa ao mal, que se não for modificada e controlada, pode levar à perdição; Lau-uama, como aqui, que reprova a si mesma, que tem consciência do mal e resiste a ele, pede pela graça de Deus e pelo perdão, após o arrependimento, e trata de emendar-se; Mutma-inna, o estado mais elevado de todos, quando encontrará o descanso eterno e alcançará e felicidade.

1782. Uma referência à parte mais delicada do seu corpo.

1783. A lua, com a sua atual refletida, cessará de brilhar. Toda a verdade refletida ou relativa transformar-se-á em nada, perante a Única Realidade.

1784. Em relação à lua, o sol é a fonte de luz, mas o próprio sol é uma luz criada e transformar-se-á em nada, juntamente com a lua. Ambos parecerão conchas vazias, porque o Protótipo de toda a Luz estará brilhando, com todo o esplendor, num mundo novo.

1785. O significado imediato era para que o Profeta permitisse que a revelação lhe fosse transmitida penetrassem em sua mente e em seu coração, e que não fosse impaciente, a respeito disso; Deus certamente a completaria, de acordo com o Seu plano, e veria que seria recolhida e preservada pelos homens, sem nenhuma perda. O significado geral segue a mesma linha: não devemos ser impacientes, a respeito da Palavra inspirada, devemos segui-la, à medida que se esclarece a nós, pelas faculdades que nos foram concedidas por Deus.

1786. Esta passagem (especialmente com referência aos versículos 26-28) parece tratar do que os nossos doutos chamam de julgamento menor (Quiamatus Sughra), que se dará logo após a morte, e não do julgamento final.

1787. Um quadro simbólico da agonia da morte.

1788. Quando a alma parte, as pernas são colocadas juntas, em preparação aos rituais preliminares do sepultamento. "Sác", literalmente perna, pode também significar, metaforicamente, uma calamidade.

1789. O argumento, aqui, deve ser exposto da seguinte forma: a sua origem animal torna-o não mais do que um bruto; o seu desenvolvimento fetal continua como o de um animal; então, em algum estágio, aparecem os membros e a forma humana; o espírito divino é-lhe insuflado; é-lhes aperfeiçoada a forma, para o seu alto destino. A despeito disso, o mistério do sexo continua na sua natureza: somos almas viventes, mas homens e mulheres. Deus, que criou estas maravilhas, não teria, acaso, poder para ressuscitar os mortos?

1790. É certo que o mundo físico exista bem antes de o homem ter sido mencionado, como os registros geológicos provam. É também verdade que o mundo espiritual exista bem antes de o homem entrar em cena. O homem, aqui, é tomado num sentido genérico.

1791. Misturado: o óvulo feminino tem de ser fertilizado com o esperma masculino, antes que o novo animal nasça. O homem, como animal, possui esta humilde origem. Mas foram-lhe dadas certas faculdades, para receber instruções e possuir discernimento, espiritual e intelectual. Por isso, a sua vida tem um significado: com uma certa dose de livre-arbítrio, é legatário de Deus na terra. Ele deve ser, porém, treinado e testado, e este é todo o problema da vida humana.

1792. O cativo: quando tomado literalmente, refere-se ao antigo estado de coisas, em que os cativos de guerra tinham de conseguir o seu próprio alimento ou a sua libertação; mesmo prisioneiros criminosos passavam fome, até que alguns amigos lhes fornecessem alimentos. Mas há um significado simbólico a mais, que se aplica aos indigentes, aos órfãos e aos cativos, ou seja, àqueles que se encontram neste estado, no sentido espiritual; aqueles que não possuem recursos mentais ou morais, ou que não têm ninguém que cuide deles, estando num cativeiro social, moral ou econômico.

1793. O sol e a lua, como os conhecemos, não mais estarão ali. Haverá um novo mundo, num plano diferente. Mas para darmos uma idéia de conforto, lembramos o calor excessivo do sol, especialmente em climas tropicais, e o frio excessivo da lua, especialmente em climas do norte, e somos contrários a ambas as hipóteses. A lua não e mencionada no versículo, mas a palavra zamharir (frio excessivo) é algumas vezes usada para designar a lua.

1794. Sem o sol e sem a lua não haverá, certamente, sombra, no sentido literal da palavra. Mas, para o conforto completo, na metáfora, haverá sombras protetoras para o descanso, com luz diferente da que há aqui. A idéia toda, na metáfora, porém, é de humildade. Mesmo as sombras mostram humildade. As "bandejas e copos de ouro" são mencionados em outra passagem. Como tudo o que é simbólico, o ouro ou a prata ou o cristal não importam. A idéia comunicada é de raridade, preciosidade e esplendor imaculado.

1795. Comparar com os versículos 5-6 desta surata, onde o copo de cáfur (cânfora) foi mencionado, para o frescor dos virtuosos, que já tiverem sido julgados. O segundo estágio é simbolizado pelos versículos 12-14, quando eles adentrarem o Paraíso com vestimentas de seda, e verificarem que a sua humildade anterior, na vida probatória, é recompensada com honra elevada, no mundo novo que adentraram. O terceiro estágio está nos versículos 15-21, onde estabelecer-se-ão bênçãos, com vestimentas de seda e brocado, com ornamentos e jóias, com um banquete e copo de zanjabil (gengibre).

1796. Esta fonte, Salsabil, nos traz outra idéia metafórica. A palavra significa literalmente "solicitar o Caminho". O caminho está, agora, aberto para a presença do Altíssimo.

1797. Os braceletes são descritos como sendo de ouro, em outra passagem. Mas como tudo é simbólico, para dar a idéia de raridade e suntuosidade, ou o ouro ou a prata servem ao propósito do simbolismo.

1798. O Alcorão fora revelado por etapas, à medida em que a ocasião as requeria. A revelação desta surata foi uma das primeiras. Perseguições, abusos e falsas acusações estavam sendo levadas a efeito contra o Profeta. Mas é-lhes ordenado permanecer firme na sua missão. Esta surata se aplica a todos os que sofrem pela causa da verdade.

1799. São mencionados três métodos de oração e devoção: lembrar e celebrar sempre o nome de Deus; permanecer uma parte da noite em humildade prostração; e glorificar a Deus, em longas horas de vigília.

1800. Esta surata, altamente mística, começa com um apelo a cinco coisas, à media que vai apontando para a manifestação essencial no versículo 7, dizendo que o Dia da Justiça e do Julgamento está para vir e devemos nos preparar para isso. É difícil traduzir, mas fácil de compreender, se nos lembrarmos de que uma corrente tripla de alegoria se depreende desta passagem (versículos 1-7). As cinco cosias ou fases que serão agora consideradas em detalhe, referem-se aos ventos, no mundo físico, aos anjos, no mundo espiritual e aos Profetas, no mundo humano, ligando-o ao mundo espiritual.

1801. Se compreendermos a passagem como se referindo aos ventos, podemos ver que são fatores poderosos, no governo do mundo físico. Ele vêm, suavemente, como precursores das bênçãos da chuva e da fertilidade. Mas podem vir violentamente, em forma de furacão, destruindo tudo. Podem dispersar as sementes e podem separar a casca do grão, ou limpar o ar das epidemias; e podem, liberalmente, conduzir o som e, portanto as mensagens, e, metaforicamente, são instrumentos para tornar a revelação de Deus acessível aos que a ouvem. Todas estas coisas apontam para o poder e para a benevolência de Deus, e é-nos pedido que creiamos que sua promessa de graça e de justiça no além é, deveras, verídica.

1802. Se considerarmos que a passagem não se refere aos ventos, mas aos anjos, estes são os agentes do mundo espiritual e desempenham funções similares, mudando e revolucionando a face do mundo. Eles vêm suavemente, como portadores de beneficência e de graça; são encarregados de punir e destruir pelo pecado, como é o caso dos dois anjos que apareceram a Lot. Eles distribuem as graças de Deus, como os ventos distribuem as boas sementes: eles separam o bem do mal, entre os homens e são os agentes, por intermédio dos quais, as mensagens e as revelações são conduzidas aos profetas.

1803. Se compreendermos a passagem com referência aos profetas ou mensageiros de Deus, ou aos versículos de Revelação, o que seria apropriado nos versículos 5-6, nós também conseguiremos uma solução satisfatória da alegoria. Os profetas se sucederam, em uma série; os versículos do Alcorão foram revelados sucessivamente, à medida em que eram necessários. Em ambos os casos, isto ocorreu para o proveito espiritual do homem. Eles causaram grandes mudanças, num mundo espiritualmente decadente; arrancaram as raízes e os ramos das instituições malignas e os substituíram por outros, novos. Proclamaram as suas verdades em todas as direções, sem receio, nem favoritismo. Por seu intermédio, foram separados os homens de fé dos rebeldes contra as leis de Deus. Eles transmitiram uma mensagem, por intermédio da qual os justos foram inocentados pelo arrependimento, e os maus foram admoestados pelos seus pecados. Alguns exegetas consideram uma ou outra dessas alegorias e outros aplicam uma alegoria a uns poucos desses versículos e outros a outros poucos. Na nossa opinião, a alegoria é suficientemente ampla para dar a entender todos os significados que expusermos.

1804. Agora, em quatro versículos (8-11), somos informados, novamente em alegoria, apesar de podermos considerá-los literalmente, se o desejarmos, com referência às coisas que acontecerão naqueles dias derradeiros. O brilho das estrelas tornar-se-á escuro; de fato, elas desaparecerão. A abóbada celeste se fenderá. As montanhas serão desintegradas e voarão, como se fossem pó. Todos os marcos do mundo físico, como os conhecemos, serão varridos para longe.

1805. O crescimento silencioso, no ventre da mãe, e a proteção e o sustento que a criança recebe, da vida da mãe, são, por si, maravilhas da criação.

1806. O período aproximado de nove messes e dez dias está sujeito a muitos ajustes. De fato, por toda a vida pré-natal, bem como pela pós-natal, há maravilhosos e bem ponderados ajustamentos, os quais passam inconscientemente.

1807. Talvez a vida no ventre, em relação à vida após o nascimento, seja uma alegoria da nossa vida probatória na terra, em relação à vida eterna, que virá. Talvez, também, o nosso estado, quando somos sepultados na cova, sugira uma alegoria da vida no ventre, em relação à vida no outro mundo.

1808. Que parábola maravilhosa! A terra é um lugar onde a morte e a vida decaem e crescem e decaem; erva verde, restolho e combustível, corrupção e purificação andam juntos, um sempre levando o outro expediente. O drama que vemos com os nossos olhos, neste mundo, poderá capacitar-nos a apreciarmos as maravilhas do mundo espiritual, onde os despregados e rejeitados receberão as mais elevadas honrarias.

1809. Casr: castelo, grande construção, palácio.

1810. As chispas amarelas, voando rapidamente, uma após a outra, sugerem uma fileira de camelos, marchando rapidamente, tal como os do Najd e da Arábia Central, dos quais os árabes tanto se orgulham há uma dupla alegoria. A passagem não se refere apenas à cor e à rápida sucessão de chispas, mas à vaidade do orgulho terreno, como se dissesse: "Vossos camelos amarelos, dos quais tendes tanto orgulho nesta vida, não são mais do que chispas, voando para longe, que vos atormentarão no outro mundo".

1811. Podemos supor que isto foi dirigido, primeiramente, aos coraixitas, que conspiravam contra o Profeta. Podeis usar toda a vossa sabedoria e a dos vossos ancestrais, mas não sereis capazes de derrotar Deus ou os Seus planos.

1812. Isto, em contraste com a tripla sombra de fumaça e pecado, para os pecadores, que nem lhes dá frescor, nem os protege do fogo. Em linguagem mística, as sombras e as fontes do Paraíso são interpretadas alegoricamente.

1813. "Comei" é, certamente, o símbolo de se ter as boas coisas da vida, neste mundo. Talvez elas nos sejam dadas somente como prova. Porque as mentes e os desejos correm para as coisas errôneas; as oportunidades para o erro são múltiplas, já que o ímpeto para o bem ou para o mal aumenta progressivamente. É-lhes dito que se arrependam e se emendem. Se não o fizerem, serão alvo de compaixão, mesmo pelas coisas boas desta vida, pois terão um péssimo fim, na próxima vida.

1814. A grande notícia. Nesse caso, refere-se ao Alcorão, ou à Mensagem da Revelação, ou à Mensagem do Profeta.

1815. A extensão espaçosa da terra é um dos dez portentos de Deus, enumerados até ao versículo 16: o grande panorama da nossa natureza exterior (versículos 6-7); a criação dos humanos em casais, com a sucessão do descanso e do trabalho, adaptando-se à alternância da noite e do dia (versículos 8-11); o firmamento, em cima, com as suas esplêndidas luzes (versículos 12-13); e as nuvens e a chuva, e abundantes colheitas, que mantêm o céu, a terra e os homens juntos (versículos 14-16). Estas coisas apontam para Deus, e a Mensagem de Deus aponta para a vida futura.

1816. As trevas da noite são como um manto. Assim como o manto nos protege da exposição ao frio ou ao calor, também este manto nos proporciona um alívio espiritual dos golpes do mundo material e das atividades estafantes dos nossos próprios esforços interiores. O descanso pelo sono (versículo 9) é suplementado pelo manto da noite, com o qual Deus nos proveu.

1817. Note-se como a evidência de Deus e da Sua beneficência é disposta em quatro grupos: (1) olhai para a natureza externa, na terra, em torno de vós, (versículos 6-7); (2) a vossa própria natureza, física, mental e espiritual (versículos 8-11); (3) os céus estrelados e a glória do sol (versículos 12-13); (4) a interdependência da terra, do ar, do céu, do ciclo da água, das nuvens, da chuva, dos cereais e dos jardins, todos servindo, de maneira diversificada, para avantajar todo o plano do mundo, quando nos afeta.

1818. Um sinal de que a presente ordem de coisas cessará de existir e um mundo novo aparecerá. Tal figura se aplica aos céus, neste versículo, e à terra, no versículo seguinte. O mistério do que há além dos céus desvanecer-se-á através das portas, que então serão abertas. As sólidas montanhas, como supomos que sejam, dispersar-se-ão como uma miragem irreal.

1819. O inferno, a personificação do mal, está à espreita, como numa emboscada, para todos. Devemos ficar vigilantes. Quanto aos transgressores, àqueles que de espontânea vontade se rebelarem contra Deus, o inferno será um destino definitivo, do qual não haverá volta, exceto, talvez, depois de eternidades, isto é, dependendo da Vontade de Deus.

1820. Não foram ações isoladas, mas um contínuo decurso de ações maléficas; eles repudiaram as responsabilidades morais e espirituais das suas vidas; e impunemente trataram a Verdade por falsos nomes e descarneceram os Desígnios de Deus, os quais lhes foram outorgados para a sua instrução. Estas não foram meras impressões; foram fatos sólidos, "preservados em tábuas", para que cada feito pudesse ter o seu devido peso, no ajuste de contas.

1821. A suprema realização, ou a satisfação dos anseios do coração, descrito no versículo anterior, é agora descrito em três símbolos (versículos 32-34) e, vantajosamente explicado por meio de dois tópicos negativistas (versículo 35). O primeiro símbolo é o Pomar confinado, e o símbolo tomado para a fruta as Uvas. O Pomar, em seus vários aspectos, é o mais freqüente símbolo da Bênção.

1822. O segundo símbolo constitui-se das Companheiras da Mesma Idade, Donzelas ou Virgens, os símbolos da pureza, da graça, da inocência, da verdade e da simpatia.

1823. A explicação dos dois símbolos é feita de forma extraordinariamente clara, pelas duas negações: (1) não haverá conversas fúteis, associadas a este plano, quanto a Jardins prazerosos, à Companhia de idade igual, ou as generosas Taças transbordantes, nas Assembléias; (2) ali não haverá Inverdades, Falsidade, Insinceridade ou Fraudulência. Tudo estará num plano de absoluta Verdade e Realidade.

1824. "O Espírito", que alguns consideram tratar-se do Anjo Gabriel, uma vez que ele está encarregado de transmitir as Mensagens aos mensageiros humanos. Contudo, é melhor tomarmos a expressão num sentido mais amplo, ou seja, as almas dos homens, coletivamente, ou à medida que ascenderem ao Banco do Julgamento de Deus.

1825. A tarefa de um tradutor, em tais passagens, é extremamente difícil. Ele tem de se haver como símbolos de um domínio que está além da ordem normal da experiência expressada com linguagem elítica, e tem de transformá-los em outro idioma, com palavras de precisão, inteligíveis para os leitores. É-lhes portanto, necessário, colocar parte da tradução em forma de comentário.

A evidência de cinco individualidades é aqui invocada nos versículos 1 a 5, para que se chegue a uma conclusão no versículo 6 e nos seguintes. Ou, se considerarmos os versículos 3 a 5 como três estágios da mesma individualidade, haverá três individualidades a serem consideradas em cinco estágios. Quais são elas?

Há muita diferença de opinião, entre os exegetas, quanto às cinco individualidades ou entidades, mencionadas nestes versículos. Seguimos a opinião geral, em nossa interpretação, segundo a qual os anjos são agentes que, em seu trato com a humanidade, mostram claramente a justiça, o Poder e a Misericórdia de Deus, que mais uma vez lembram o Julgamento vindouro como uma certeza da qual ninguém se poderá safar. O primeiro tópico a que se refere este versículo é aquele em que as almas dos iníquos estarão relutantes em partir, com os seus corpos materiais, na hora da morte, sendo que as suas vontades em nada contarão; suas almas serão arrojadas em outro mundo. Quem, então, negará a Ressurreição e o Julgamento?

1826. o segundo tópico consiste de um contraste: ao contrário das almas dos iníquos, as dos abençoados serão atraídas, gentilmente, para as suas novas vidas. Elas estarão prontas para isso. Em verdade, a morte, para elas, constituir-se-á num alívio das truculentas injunções, impostas pelos sentidos corpóreos. Para estas, a aproximação do Julgamento será bem-vinda.

1827. Em que consistia o Grande Sinal? Consistia no fato de Moisés haver sido enviado ao Faraó e de ter subseqüentemente convertido os mistificadores e os egípcios mais esclarecidos ao verdadeiro Deus, embora o Faraó e os seus chefes tenham resistido, pagando depois pelos seus pecados.

1828. O mistério dos céus, com as suas incontáveis estrelas, com os planetas que obedecem às leis da cinética, com o sol e a lua a exercerem influência na temperatura e nos climas da terra, a milhares ou milhões de quilômetros, ilustram a ordem e a perfeição que Deus dispensou à Sua Criação. Poderá então eximir-se o homem da responsabilidade pelos seus atos, dotado como é, de vontade, ou negar o Dia do Comparecimento, que também será o Dia do Julgamento?

1829. Os ribeirões subterrâneos e os poços com água, bem como os rios e as geleiras dos pólos, existem devido aos diferentes níveis das terras altas e não das baixas. Tais reservas espalham igualmente a umidade, de maneira propícia, e proporcionam o aparecimento de cereais, de frutas e de vegetais, para o homem, e de pastagens e de forragem, para os animais dos campos.

1830. As montanhas constituem os principais reservatórios de coleta e distribuição gradativa de água, a base primordial da vida do homem e dos animais.

1831. Não há termo de comparação entre o tempo, em nosso atual estado, e a ausência de tempo, no novo estado do mundo espiritual, no qual o Julgamento Final terá lugar. Nem a sua duração será estabelecida, exceto pela Vontade de Deus, Todo-Poderoso, Senhor Supremo da Sapiência, da Justiça e da Benevolência.

1832. A admoestação somente é efetiva para aqueles que crêem em Deus e no Acerto Final de Contas. Tais pessoas estão sempre prestes a voltar a Deus em arrependimento, e é para guia e auxiliar tais pessoas que os profetas são enviados.

1833. Em uma ocasião o Profeta estava profunda e ardentemente atarefado, a tentar explicar o Alcorão Sagrado a um dos líderes pagãos coraixitas, quando foi interrompido por um cego (Abdullah Ibn Ummi-i-Maktum), que era tão pobre que ninguém lhe prestava atenção. Ele queria aprender o Alcorão. Naturalmente, o Profeta não gostava de interrupções e mostrou impaciência. Talvez os sentimentos do pobre homem ficasse feridos. Porém aquele, cujo coração meigo sempre fora compreensivo, em relação aos pobres e aflitos, obteve nova Luz do Alto e, sem a mínima hesitação, tornou pública esta revelação quer forma parte da sagrada escritura do Islam, segundo é descrito nos versículos 13 a 16. Depois disso, o Profeta sempre considerou os humanos, nas mais altas honrarias. A lição demonstra que nem a dignidade espiritual, nem o prospecto da diretriz espiritual efetiva devem ser medidos pela posição que o homem ocupa nesta vida. Os pobres, os cegos, os coxos, os mutilados podem ser mais susceptíveis, quanto ao ensinamento da Palavra de Deus do que aqueles aparentemente bem dotados, mas apegados à arrogância e ao egocentrismo.

1834. Pode ser que um pobre cego, em virtude da sua vontade de aprender, esteja mais afeito a crescer em desenvolvimento espiritual, ou a aproveitar qualquer lição que lhe seja ensinada, mesmo de repreensão, do que um líder proeminente e egocêntrico. De fato, assim foi, porque o cego tornou-se um verdadeiro e sincero muçulmano e veio a ser governador de Madina.

1835. Este devia ser um líder pagão coraixita, que o Profeta estava ansioso por trazer para as suas lides, para que o trabalho de pregação da Mensagem de Deus pudesse ser facilitado. Porém, tal Mensagem surte mais efeito entre gente simples e humilde, pobre e desprezada, e os poderosos, nesta terra, somente se dão conta quanto a torrente se precipita, com irresistível força.

1836. Na época em que esta surata foi revelada, quem sabe, existiam somente cerca de 42 ou 45 suratas, nas mãos dos muçulmanos. Todavia, constituíam-se numa suficiente coleção de Revelações de alto valor espiritual, à qual a descrição, aqui dada, poderá ser aplicada. Tal coleção foi considerada como da mais alta honorabilidade; seu lugar, no coração dos muçulmanos, foi mais exaltado do que qualquer outra coisa; como Palavra de Deus, ela era pura e sagrada; e aqueles que a transcreveram eram homens honrados, justos e piedosos. A lenda de que as primeiras suratas não foram anotadas na sua totalidade, e preservadas em livros, é pura invenção. As revisões, feitas mais tarde, no tempo do primeiro e do terceiro califas foram meramente para preservar a pureza e para salvaguardar os arranjos do texto, no tempo em que a expansão do Islam, entre as pessoas de fala não-árabe, tornava tais precauções necessárias.

1837. Após uma referência à história íntima do homem, há agora uma nova referência a um determinado item em sua vida cotidiana externa: seu alimento. É mostrado como as forças dos céus e da terra são unificadas, pela Ordem de Deus, para servirem ao homem e aos seus dependentes, "para o vosso uso e o de vosso gado" (versículo 32 desta). Se este é o caso, com apenas um item, o alimento, quão mais compreensível se torna a beneficência de Deus, quando todas as necessidades do homem são consideradas!

1838. A água provém das nuvens em copiosa abundância; a terra é arada, o solo é fragmentado, produzindo uma abundante colheita de cereais (grãos), frutas em caramanchão (uvas) e vegetais nutritivos (verduras e legumes), bem como frutos, que podem ser conservados por um longo período, prestando-se a variados usos, como azeitonas e tâmaras.

1839. Tudo na terra foi, pela generosa providência de Deus, disposto para prover o homem segundo o seu uso de conveniência, bem como a vida inferior que depende dele. A mediação entre a providência de Deus e o virtual uso de outras dádivas divinas é a própria inteligência e iniciativa do homem, que também são dádivas de Deus.

1840. O pó, nos rostos dos pecadores, contrastará com o brilho resplandecente nos rostos virtuosos; a lugubridade, nos rostos daqueles contrastará com "risos e regozijos", nos rostos destes. Mas o pó sugere ainda que, sendo dos que rejeitam Deus, seus rostos e olhos e faculdades estão mergulhados nas trevas, e a lugubridade sugere que, por praticar a iniqüidade, não têm direito a pureza alguma ou a porções da Luz. Outro contraste pode, possivelmente, ser deduzido: os humildes e os de baixas condições de vida podem estar no "pó", neste plano, e os pecadores, arrogantes, à luz do sol; mas os papéis reverter-se-ão, no Dia do Julgamento.

1841. Os versículos de 1 a 13 constituem-se de cláusulas temporais, sendo que a cláusula substantiva começa no versículo 14. Tempo virá em que os processos da natureza, como os conhecemos, deixarão de funcionar, e as almas só então terão, por convicções próprias, conhecimento dos resultados das suas ações. Com referência à alma individual, sua ressurreição e suas supremas crises, todo o mundo dos sentidos, e a mesmo da imaginação e da razão, desvanecer-se-á, e todo o seu rol espiritual será exposto, perante ela. As cláusulas temporais são em número de 12, divididas em dois grupos de seis. As primeiras seis dizem respeito à vida exterior e material do homem; as últimas seis, à sua vida interior e espiritual. Estudemo-las uma a uma. Os fatores mais importantes, que nos afetam no mundo exterior e material, são: a luz, o calor o talvez a energia elétrica e magnética do sol. O sol é a fonte de toda a luz, de todo o calor e de toda a energia, e com certeza a fonte de toda a sustentação da vida material que conhecemos. Ele é o fator mais importante da vida e, no entanto, é o mais remoto dos corpos, em nosso sistema solar. O sol, como o centro do nosso sistema solar, também se apresenta como um símbolo da presente ordem das coisas. As forças físicas, definidas nas Leis da Matéria e da Gravidade de Newton, chegarão ao fim, com o desaparecimento do sol.

1842. Na literatura ocidental, especialmente em alegorias religiosas, há comumente mais de um significa, compreendo outros. Estes devem ser entendidos, se os leitores desejam um completo sentido da passagem. E esta especialidade cabe somente ao Alcorão. O significado paralelo considera seis fatos materiais (versículos 1 a 6) como alegóricos: (1) o sol é o centro do sistema solar; assim também o nosso ser interior é o centro das nossas intenções e dos desejos comuns; a luz desse ser inferior deverá ser empanada, para que dê lugar à luz da Realidade; (2) a luz menos intensa, a das estrelas, é o nosso saber humano comum; ela deverá ser retirada, antes de readquirirmos visão espiritual; (3) as nossas ambições terrenas são representadas pelas montanhas, as quais deverão, similarmente, desaparecer; (4) a cupidez e a usura são as camelas, prestes a dar cria, que deverão ser deixadas de lado; (5) as nossas paixões são representadas pelos animais selvagens, que deverão ser domados; (6) os oceanos da graça divina deverão transbordar e cobrir todo o nosso ser. Tudo isto deverá acontecer em qualquer tempo, mesmo a um indivíduo, nesta vida, quando a Glória de Deus se derramar sobre ele.

1843. Ver a 53ª Surata, versículos 1-18 e notas.

1844. Kaukab, aqui, tem mais o significado de um planeta fixo numa constelação; e o oposto de uma ordem fixa e definida é "dispersada", o verbo aqui usado. Como de fato, por toda esta passagem, a idéia dominante é a de perturbação da ordem e da simetria. A metáfora, por trás da dispersão das constelações, é que na presente ordem das coisas, nós vemos muitos ajustes conjuntamente associados, como, por exemplo, linhagem com honra, riqueza com conforto, etc.. No novo Mundo Espiritual, estas coisas parecerão ser meramente fortuitas.

1845. Comparar com o versículo 6 da 81ª Surata, "Quando os mares transbordarem". Aqui "Quando os oceanos forem despejados", expressa o fim da presente ordem das coisas, que pode ser de duas maneiras, se interpretado literalmente: (1) a barreira, que conserva dentro dos seus respectivos limites os vários fluxos, de água salgada e doce, será retirada; (2) o oceano avassalará todo o globo. Em sentido figurado, os diferentes mananciais de conhecimento, grande e pequeno, serão nivelados; porque somente um conhecimento, a Luz Divina, dominará o campo.

1846. "O que fez e o que deixou de fazer" talvez signifique os feitos realizados e os omitidos desta vida. Ou, ainda, as palavras árabes poderão ser traduzidas por "o que fez e o que deixou de fazer"; isto é, as possibilidades espirituais, que ele diligenciou para a sua outra vida, e as coisas materiais, das quais ele se ufanou nesta vida, mas das quais teria de abrir mão. Ou, por outra, as coisas que ele considerou como de primeiro plano e as que considerou de segundo, talvez troquem de lugar, no mundo novo da Realidade. "Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros."

1847. Por "forma", aqui, compreendemos o formato geral das coisas, nas quais qualquer personalidade dada é colocada, incluindo o seu ambiente material e social, os seus dotes mentais e espirituais, e tudo o que se junta para se formar a sua vida exterior e interior. A Graça de Deus é revelada em todas essas coisas, porque a Sua Vontade é formada com perfeito conhecimento, com perfeita sapiência.

1848. A palavra "fraudadores" deve, aqui, ser tomada com sentido amplo e geral. Ela compreende aqueles que proporcionam medidas e pesos a menos, mas abrange muito mais do que isso. Os dois versículos seguintes deixam claro que o que é condenável é o espírito de injustiça, ou seja, dar pouco e pedir muitíssimo. Isto pode ser verificado nas transações comerciais, em que uma pessoa exige padrões mais altos em seu favor do que em favor de outras pessoas. Em questões domésticas ou sociais, um indivíduo ou grupo exige honra, respeito e ajuda, que não é capaz de dispensar aos outros, em circunstâncias similares. Isso é pior do que o egoísmo unilateral, porquanto se trata de injustiça em dose dupla. Todavia, pior do que tudo é quando se trata de religião ou da vida espiritual; como uma pessoa pediria pela misericórdia e pelo amor de Deus, quando ela própria se furta a dispensá-los aos seus semelhantes?

1849. As sanções legais e sociais contra a fraude dependem, para a sua eficácia, do fator flagrante. As sanções morais e religiosas são de espécies diferentes. Desejaríeis degradar a vossa própria natureza? Não levais em consideração que haverá o Dia o Acerto de Contas, perante um Juiz, Que de tudo sabe, pois é o Ressalvador de todos os interesses, Senhor e Velador do Universo?

1850. Esta é uma palavra proveniente da mesma raiz Sijn, prisão. Ela rima e contrasta com Il’lilin, no versículo 18 desta surata, mais adiante. Portanto, ela é compreendida pelos exegetas como um local, uma prisão ou uma masmorra, em que os iníquos serão confinados, estando pendente a sua apresentação perante o Trono do Julgamento. A menção do Registro Escrito, no versículo 9 desta surata, talvez evidencie que Sijjin seja o nome do Registro dos Feitos Denegridos, embora esse versículo seja elítico e talvez apenas descreva o local, pelo sentido do seu conteúdo.

1851. Se considerarmos Sijjin como sendo o próprio Registro, e não o local em que ele é guardado, o próprio Registro será uma espécie de prisão, para aqueles que fazem o mal. Es está escrito, por extenso: ninguém, que estiver ali, se ocultará, e para cada entrada haverá um completo Registro, a fim de que não haja escapatória para o pecador. Certamente, não devemos tomá-lo como um registro material, feito de papel ou de pergaminho, escrito com pena e tinta. Toda a descrição é metafórica quando ao inescapável registro que o pecado cria; cada detalhe, cada intenção, cada maneirismo, cada circunstância, etc., contribui para a deterioração do pecador.

1852. Il’lilin é o caso oblíquo da forma subjetiva il liun, que aparece no versículo seguinte. Contrasta com Sijjin, que aparece no versículo 7, desta surata. Literalmente, significa "Planos Elevados". Aplicando o paralelismo racional, o que fizemos quanto a Sijjin, poderemos interpretar a palavra como o local onde é guardado o Registro dos Virtuosos.

1853. Tasnim, literalmente, indica altura, plenitude, opulência. Aqui é o nome de uma Fonte celestial, que fornece uma bebida superior ao néctar. Esta será ingerida por aqueles que estiverem próximos a Deus, os mais elevados em dignidade espiritual; todavia, uma amostra dela será dada a todos, de acordo com as suas capacidades espirituais.

1854. Nós talvez pensemos que os céus que vemos, muito acima das nossa cabeças, altos e indevassáveis, aparentemente vastos e ilimitados, eternos e intemporais, não sejam matéria criada. Mas são. E assim permanecerão tanto tempo quanto quiser Deus, nem um segundo mais. Tão logo e Seu Comando apontar para a sua dissolução, eles obedecerão e desaparecerão, e todos os seus mistérios serão esvaziados. E isso deve necessariamente ser assim, porquanto a sua própria natureza, como seres criados, exige que eles se curvem ante a Voz do seu Criador, mesmo ao preço da sua própria extinção.

1855. A Terra é um globo, encerrando o seu bojo muitos segredos e mistérios, ouro e diamantes em suas minas calor e forças magnéticas, em suas entranhas, bem como corpos de incontáveis gerações de homens, enterradas em seu solo. Com a sua erupção, todas essas coisas serão lançadas para fora; ela perderá a sua forma e deixará de existir.

Um significado mais místico encontra-se além do sentido comum da extinção dos céus e da terra, como os ventos. As nossas idéias, quanto a eles, os seus conteúdos subjetivos, com relação a nós mesmos, perderão também todo o propósito e consistência e desaparecerão, perante a veracidade eterna.

1856. a astronômica lua cheia, às nossas vistas, não dura senão um momento. No momento e que a lua está cheia ela começa a declinar, e no momento em que ela está em seu "desfalecimento interlunar", ela novamente inicia a sua carreira para tornar-se uma lua nova. Assim é a vida do homem, aqui embaixo; não é fixa ou permanente, tanto nas suas fases materiais, ou, o que é ainda mais estarrecedor, em suas fases mais sutis, intelectual, emocional e espiritual.

1857. O homem viaja e ascende de plano em plano. A vida espiritual do homem poderá, similarmente, ser comparada a uma ascensão de um céu para o outro.

1858. Eis aqui uma invocação, dos três símbolos dos versículos 1-3, sendo que a proposição substantiva encontra-se encerrada nos versículos 4-8, constituindo-se duma denúncia dos perseguidores corruptos dos devotos de Deus, perseguidores estes que queimavam os virtuosos, tão-somente por causa da sua Fé. Os três símbolos são: (1) o céu glorioso, com um amplíssimo acúmulo de constelações, designando os doze signos do Zodíaco; (2) o Dia do Julgamento, em que todo o mal será punido; (3) certas pessoas que testemunharão, e certas pessoas ou circunstâncias que serão objetos dos testemunhos.

1859. O significado literal é claro, mas a sua aplicação metafórica tem sido explicada numa considerável variedade de maneiras por diferentes exegetas. As palavras são claramente compreensivas e deveriam, achamos, ser entendias em conexão com o Julgamento. Então, as testemunhas seriam: o Profeta, o Próprio Deus; os anjos registradores; os mal utilizados membros do próprio pecador; o seu registro de ações; o próprio pecador. Assunto do testemunho poderá ser a ação ou o crime, ou o pecador contra quem o testemunho clama. A invocação destas contingências significa que o pecador não poderá possivelmente escapar às conseqüências de seu crime. Ele deverá arrepender-se, procurar a Misericórdia de Deus, e emendar-se na vida.

1860. Quem eram os executantes do fosso do fogo, no qual eram queimados as pessoas por causa da sua fé? As palavras estão generalizadas, e não precisaremos procurar por nomes em particular, a não ser para efeito de ilustração. Na história antiga e na Europa Medieval, muitas vidas foram sacrificadas na fogueira, porquanto as vítimas não se conformavam com a religião estabelecida. Na tradição árabe, encontramos a história de Zu-Nuwas, o último rei himiarita, do Iêmen, judeu por religião, que perseguia os cristãos de Najran, sendo constatado que queimou muitos deles na fogueira. Parece que ele viveu na última metade do sexto século cristão, fazendo parte da geração imediatamente precedente ao nascimento do Profeta, no ano 570 d.C.

1860-a. Inscrito em uma Tábua Preservada, isto é, a Mensagem de Deus não é efêmera, é eterna. A "Tábua" é "preservada", ou resguardada contra a corrupção (ver a 15ª Surata, versículo 9), porque Mensagem de Deus deverá durar para sempre. Tal Mensagem constitui a "base do Livro"(ver a 3ª Surata, versículo 7 e respectiva nota).

1861. A invocação, aqui, constitui-se de um singelo e místico símbolo, a saber, o céu, com o seu visitante noturno, sendo que a proposição substantiva se encontra no versículo 4: "Cada alma tem sobre si um guardião angelical". Na surata anterior, constatamos a perseguição aos partidários da Causa de Deus, e ficamos cientes de como Deus os protegeu. Aqui, é apresentado o mesmo tema, mas sob outro aspecto. Na escuridão dos céus aparece mais brilhantemente a luz da mais brilhante estrela. Assim, na noite da escuridão espiritual - quer por ignorância, quer por desespero - brilha a gloriosa estrela da Revelação Divina. Pelo mesmo indício, o homem afeito à Fé e à Verdade, nada terá a temer. Deus protege os Seus.

A "Estrela Fulgurante" é compreendida como sendo a Estrela d’Alva, por uns, e o planeta Saturno, por outros, e, ainda Sírio ou uma estrela cadente. Achamos que o melhor será tomá-la como "estrela", no sentido coletivo ou genérico, porquanto as estrelas brilham todas as noites do ano, e brilhos fulgurantes são mais destacáveis, nas noites mais escuras.

1862. O sêmen do homem constitui a quinta-essência do seu corpo. Portanto, diz-se, metaforicamente, que ele provém da sua virilha, ou seja, de entre a bacia e as costelas, emanando da conjunção das regiões sexuais do homem e da mulher. A sua espinha dorsal é a fonte e o símbolo do seu vigor e da sua personalidade. Na medula espinhal e no cérebro encontra-se a energia diretora do sistema nervoso centra, sendo que é esta que dirige toda a ação, quer orgânica, quer psíquica. A espinhal corre paralela à medula óssea no cérebro.

1863. O Criador, que pode combinar as forças da ação muscular, física ou psíquica, na criação do homem, como foi explicado na última nota, poderá, com certeza, dar-lhe uma nova vida, depois da morte física aqui, e restaurar-lhe a personalidade, no mundo novo que se lhe abrirá no futuro.

1864. Nesse mundo novo, todas as nossa ações, intenções, imaginações, todos os nossos pensamentos, enfim, nesta vida, embora secretos, serão expostos como um livro aberto, e julgados segundo os padrões da absoluta Verdade, e não segundo falsos padrões de costumes, de preconceitos, ou de parcialidades. Nesse severo julgamento, quaisquer vantagens fortuitas desta vida, sejam quais forem, não terão força ou valia, não podendo ajudar de modo algum.

1865. A palavra "Senhor", por si só, é inadequada para representar Rabb, aqui, empregada. Porque ela implica adoração, resguardo do mal, custódio, e garantia de todos os meios e de todos as oportunidades de desenvolvimento.

1866. O caminho a trilhar, no Islam, é simples e fácil. Ele não depende de mistérios obscuros ou de auto-flagelo, mas de uma conduta virtuosa, humanitária e concorde com as leis da natureza humana, implantadas por Deus. Pelo contrário, a perfeição espiritual é mais difícil de conseguir, posto que ela implica em uma completa rendição, da nossa parte, em todos os nossos relacionamentos, pensamentos e desejos; contudo, depois desta rendição, a Graça Divina tornará o nosso caminho fácil.

1867. Esta frase não é tão rígida quanto a frase bíblica: "não lanceis aos porcos as vossas pérolas"(Mateus, 7:6). Os casos em que a admoestação de fato surte proveito espiritual e aqueles em que ela não surte, são mencionados mais adiante, nos versículos 10 e 13, respectivamente. A Mensagem de Deus deverá ser proclamada a todos. Todavia, admoestações especiais e pessoais são também dirigidas àqueles que se devotam à Mensagem, e em cujos corações há o temor a Deus; no caso daqueles que fogem dela e a desvirtuam, tal admoestação especial e pessoal mostra-se inútil. São aqueles desafortunados, que preparam a sua própria ruína.

1868. Nenhum Livro de Abraão chegou até nós. No entanto, o Velho Testamento reconhece que Abraão foi um profeta (Gen. 20:7). Há um livro, em grego, traduzido por G. H. Box, intitulado Testament of Abraham (Testamento de Abraão) (publicado pela Society for the Promotion of Christian Knowledge (Sociedade para a Promoção de Conhecimentos Cristãos - Londres, 1927). Parece ser uma tradução grega do original hebraico. O texto grego foi, provavelmente, escrito no segundo século do cristianismo, no Egito; mas, na sua forma presente, presume-se que remonte apenas ao século 9 ou 10. Ele foi popular, entre os cristãos. Talvez o Midrash judaico também se refira a um Testamento de Abraão.

1869. A revelação original de Moisés, da qual o presente Pentateuco constitui uma recensão remanescente.

1870. Gháxiya: aquela coisa ou evento que ofusca ou esmaga, e que abrange tudo, fazendo com que as pessoas percam a razão.

1871. O significado da raiz da palavra árabe (Dhari) novamente implica a idéia de humilhação.

1872. A segunda coisa que deverão considerar é a nobre abóbada azul, acima deles, o sol e a lua, as estrelas e os planetas, e outros corpos celestiais.

1873. Por "dez noites" entende-se, costumeiramente, as primeiras dez noites da época da Peregrinação (Dul Hijja). Desde os tempos mais remotos, Makka sempre foi o centro da peregrinação árabe. A história de Abraão está intimamente ligada a ela. Nos tempos da idolatria, foram introduzidas várias superstições, que o Islam dissipou. Este purificou, ainda, os rituais e as cerimônias, imprimindo-lhes um novo significado. Os dez dias, especialmente devotados à peregrinação, introduzem uma formidável contraste, na vida, tanto de Makka, como na dos peregrinos. Makka, sendo uma cidade um tanto pacata, torna-se, então fervilhante, com milhares de peregrinos de todas as partes do mundo. Estes despem-se das vestes usuais, de todas as espécies de vestes, e colocam uma veste simples e comum (Ihram); eles suspendem toda a sorte de lutas e altercações; abstêm-se de toda a espécie de luxúria e epicurismo; tomam toda a vida por sagrada, não importando quão humilde ela seja, exceto na maneira de conduzirem o simbólico e cuidadosamente regulamentado sacrifício; e passam as suas noites em oração e meditação.

1874. O par e o ímpar seguem-se mutuamente, em sucessões regulares; cada um é independente, e nenhum é auto-suficiente. Em última análise, todos os números pares fazem parelha com os ímpares. E todas as coisas existem aos pares. No mundo animal, os casais consistem de dois indivíduos, sendo que um constitui o complemento do outro. Tanto as coisas abstratas como as concretas são, freqüentemente, compreendidas, em contraste com os seus opostos.

1875. Iram parece ter sido a antiga capital de Ad, na Arábia Meridional. Ela se ufanava da sua elevada arquitetura (elevados pilares). Alguns exegetas entenderam que Iram é o nome de um herói eponímico de Ad, em cujo caso a linha seguinte, "de pilares elevados", deveria ser traduzida por "de estatura elevada". O povo de Ad era um povo de pessoas altas.

1876. Há um certo trato de território da Arábia Meridional que foi, outrora, muito próspero (Arabia Felix), em cujas ruínas encontraram-se inúmeras inscrições. Ele tem sempre sido objeto de grande interesse por parte dos árabes.

1877. A civilização do povo de Samud mostra traços de influência egípcia, síria (e mais tarde) greco-romana. Ela erigiu magníficos templos, catacumbas e edificações feitas na rocha. O culto ao ídolo Lat floresceu ali.

1878. A herança pode ser malbaratada de duas maneiras: (1) os guardiões e os fiduciários das heranças dos menores e das mulheres, ou as pessoas impossibilitadas de cuidar dos seus próprios interesses, deverão preencher a confiança neles depositada, com desvelo ainda maior do que o que devotariam aos seus próprios interesses; (2) as pessoas, que herdam bens, em seus próprios direitos, devem lembrar-se de que, nesse caso, também, essa é uma responsabilidade sagrada.

1879. Hillun: habitante, homem com direitos lídimos, homem livre das obrigações que atingiriam um forasteiro, homem liberto, num sentido mais amplo do que o técnico, ao qual a palavra está restrita em usanças hodiemas. O Profeta deveria ter sido honrado, em sua cidade natal; outrossim, ele foi realmente perseguido. Ele deveria ter sido amado, como um pai ama um filho; outrossim, a sua cabeça estava a prêmio, e aqueles que nele acreditavam viviam sob constante interdição. Todavia, o tempo iria mostrar que ele adentraria triunfante a sua cidade natal, depois de ter tornado Madina uma cidade sagrada, por causa da sua vida e do seu trabalho.

1880. Comparar com "O homem nasce para o trabalho, e a ave para voar" (Jó 5:7). "Todos os seus dias estão cheios de dores e de amarguras" (Eclesiásticos 2:23). A vida do homem é repleta de sofrimento e humilhação; o nosso texto, contudo, possui um significado diferente: o homem nasce para labutar e porfiar; e se ele sofrer, será devido à austeridade reinante. Deverá exercitar a paciência, porquanto Deus lhe amenizará o caminho. Por outro lado, ninguém deverá vangloriar-se dos seus bens terrenos ou da sua prosperidade terrena.

1881. O homem que não tem senso de responsabilidade e pensa que pode fazer o que lhe apraz, nesta vida, esquece-se dos seus deveres para com Deus. Ele se ufana da sua riqueza e a malbarata, julgando que poderá, desse modo, comprar o apoio do mundo. Por uns tempos talvez o possa. Porém, acontecerá um rude despertar, porquanto as suas esperanças estão baseadas em hipóteses pouco substanciais. Ou se ele gastar o seu patrimônio, satisfazendo o seu amor à boa vida, ele estará debilitando e se colocando numa cilada, que o destruirá.

1882. O caminho difícil da virtude é definido como o caminho da caridade e do amor desinteressados, sendo apresentadas três instâncias específicas para satisfazer o nosso entendimento: (1) libertar o cativo; (2) alimentar o órfão; (3) alimentar um indigente necessitado. Quanto ao cativo, devemos entender não somente a referência ao cativo legalizado, que felizmente encontra-se extinto em todas as terras civilizadas, mas a muitas outras espécies de cativeiro, as quais floresce, especialmente, em sociedades modernas. Há cativeiros políticos, cativeiros industriais e cativeiros sociais. Há também o cativeiro das convenções, da ignorância e da superstição. Há ainda o cativeiro da riqueza, o das paixões e o do poder. O benevolente tenta libertar homens e mulheres de todas as espécies de cativeiro, não raro com grande perigo para si próprio. Todavia, ele começa, primeiramente, por libertar-se a si mesmo.

1883. Seis tipos de fenômenos da portentosa obra de Deus na natureza são tomados, em três pares, como símbolo ou evidência da providência de Deus, bem como os contrastes da Sua sublime criação que, contudo, conduzem à harmonia cósmica (versículo 1). Então (versículos 7-8) a alma do homem, com regularidade e proporção internas, em suas capacidades e faculdades proporcionadas por Deus, é posta em pauta, como tendo sido dotada do poder de discriminação entre o bem e o mal.

1884. O primeiro par seguinte do glorioso sol, a fonte da nossa luz e da nossa vida material, e da lua que o segue, subordinada a ele, na tarefa de iluminar o nosso mundo.

1885. O par seguinte consiste, não de luminárias, mas de condições, de períodos de tempo, ou seja, o dia e a noite. Aquele revela a glória do sol e esta o esconde da nossa visão.

1886. O par seguinte consiste do deslumbrante e altíssimo firmamento, e da terra, debaixo dos nossos pés, dilatando-se e ampliando os nossos horizontes. O céu nos dá a chuva e a terra nos dá o alimento.

1887. A evidência de três coisas é invocada, a saber: a noite, o dia e o mistério do sexo, sendo que a conclusão é manifestada no versículo 4, onde se lê que as metas dos homens diferem umas das outras. Similarmente, no entanto, há contrastes, na própria natureza. Que contraste poderia ser maior do que aquele existente entre a noite e o dia? Quando a noite estende o seu manto, a luz do sol fica escondida, mas não perdida. O sol ali está, em seu lugar, e reaparecerá, no seu devido tempo. Comparar com a 91ª Surata, versículos 3-4. O homem que almeja diversas metas talvez as encontre, devido à sua posição. A luz de Deus é, para ele, obscurecida, mas ele deve esforçar-se tenazmente, no sentido de se colocar num posição que a alcance em toda a sua plenitude.

1888. O mistério do sexo ocorre em todas as formas de vida. Há uma atração irresistível entre os opostos; cada um realiza as suas próprias funções, possuindo características especiais, primárias e secundárias, dentro de esferas limitadas, e ainda assim ambos têm características comuns em muitas outras esferas. Cada um é indispensável ao outro. O amor, no sentido mais nobre, é o paradigma da devoção celestial e o mais alto grau de benevolência; no seu sentido degradante, ele conduz aos pecados mais chãos e aos piores crimes. Aqui, então, é necessário um esforço, no sentido de se alcançar o mais alto grau de benevolência.

1889. Deus, em Sua infinita misericórdia, proveu substancial orientação para as Suas criaturas. Para toda a Sua criação há marcos, indicativos do caminho certo. Para o homem Ele concedeu os cinco sentidos da percepção, juntamente com as faculdades mentais e espirituais, a fim de que estas se coordenem com as suas percepções físicas e o conduzam cada vez mais para o alto, em pensamento e em sentimento. Ademais, Ele enviou homens inspirados, para a orientação e para os ensinamentos mais vantajosos.

1890. A palavra-raiz árabe, zacca, tanto implica em aumento como em purificação, sendo que ambos os significados devem, aqui, estar contidos e ser entendidos. A riqueza (compreendida, tanto literal, como metaforicamente) existe, não para satisfações egoísticas, nem para demonstrações de ócio. Ela é mantida em custódio. Poderá, intrinsecamente, constituir-se em uma prova, em cujo desempenho o homem que for bem-sucedido será um homem de vida pura; e mesmo que ele tenha sido benevolente antes, o uso adequado da sua riqueza aumentará as suas posição e dignidade, no mundo moral e espiritual.

1891. É a luz plena do sol quando, em seu esplendor, brilha, em contraste com as sombras da noite, que já passou. As crescentes horas da luz da manhã, do nascer do sol até ao meio-dia, equiparam-se ao crescimento da vida espiritual e do trabalho, ao passo que a quietude da noite constitui, para aqueles que a entendem, apenas uma preparação para isso. Não devemos imaginar que a serenidade ou a quietude da noite constitua um desperdício, ou signifique estagnação, em nossa vida espiritual.

1892. Há o caso do órfão, literal e figurativamente. O próprio Profeta foi um órfão. Seu pai, Abdullah, morreu jovem, antes de a criança ter nascido, não deixando haveres alguns. Sua mãe, Amina, possuía saúde deficiente, e ele foi precipitadamente criado por sua aia, Halima. Sua própria mãe morreu quando ele tinha apenas seis anos de idade. Seu idoso avô, Abdul Muttalib, tratou dele como se fosse seu próprio filho, mas morreu dois anos mais tarde. Dali por diante, seu tio, Abu Tálib, tratou dele, como se fora seu próprio filho. Deste modo, ele foi órfão por várias vezes, e mesmo assim o amor que recebeu, de cada uma das pessoas que tomaram conta dele, superou o costumeiro amor paterno ou materno.

1893. O Profeta nasceu em meio à idolatria e ao politeísmo de Makka, no seio de uma família que custodiava este falso culto. Ele percorreu as paragens em busca da Unicidade, e a encontrou, através da orientação de Deus. Nós, contudo, talvez nos encontremos vagando em dédalos de erros, em pensamentos, em motivações; devemos sempre orar pela graça de Deus, para que Ele nos dispense orientação.

1894. O peito é simbolicamente tomado como a sede do conhecimento e dos sentidos altruísticos, do amor e da afeição, bem como o repositório em que estão armazenadas as jóias, concernentes à qualidade do caráter humano, o qual se aproxima da divindade. A natureza humana do Profeta foi purificada, desdobrava e elevada, tanto que ele se tornou uma Misericórdia para toda a Criação. Com tal natureza, ele possuía recursos para poder passar por cima das intenções rasteiras da humanidade comum, que fazia com que fossem feitos contra ele ataques vergonhosos. Seu vigor e coragem podiam, ainda, fazer com que ele suportasse o fardo de um trabalho estafante que tinha de ser feito, no sentido de apontar o pecado, dominá-lo e proteger da opressão as criaturas de Deus.

1895. Este versículo é repetido, para dar uma ênfase extra. Sejam quais forem as adversidades ou vicissitudes, com que se deparem os homens, Deus sempre providencia uma solução, uma saída, um alívio, um meio que leve ao conforto e à felicidade, desde que sigamos o Seu Caminho, mostremos fé e paciência e pratiquemos o bem. Contudo, a solução, ou alívio, não acontece meramente depois das adversidades; vem com elas. Nós compreendemos o sentido genérico do artigo definido ‘usr e o traduzimos por "a" adversidade.

1896. A clausula substantiva encontra-se nos versículos 4-8, e está consolidada pelo apelo a quatro símbolos sagrados, a saber, o figo, a oliva, o Monte Sinai e a Cidade Sagrada de Makka. Sobre a interpretação precisa dos dois primeiros símbolos, em especial o símbolo do figo, há muita controvérsia. Se tomarmos o figo literalmente, como fruta ou árvore, isso poderá servir de simbolismo ao destino do homem, de várias maneiras. Após o cultivo, ela poderá tornar-se a mais deliciosa e completa fruta que existe; em seu estado primitivo, nada mais é do que uma diminuta semente insípida, não raro cheia de bichos e de larvas. O homem, também, quanto às suas boas qualidades, possui um destino nobre; quanto às suas más qualidades, pertence à mais baixa das escalas.

1897. Após termos discutido, em detalhes, os quatro símbolos, passemos a considerá-los em conjunto. Está claro que eles se referem à Luz de Deus ou Revelação, a qual mostra ao homem o mais altruístico destino, caso ele se disponha a seguir o Caminho. A cidade de Makka está, para o Islam, como o Monte Sinai, para Israel, como o Jardim das Oliveiras, para a original e pura Mensagem de Jesus Cristo. Seguindo este princípio, todas as grandes religiões do mundo poderiam ser indicadas. Entretanto, mesmo que nos referíssemos ao figo e à oliva no tocante simbolismo contido em suas naturezas como frutos, e não a qualquer religião em especial, o contraste entre o Melhor e o Pior destinos do homem persistiria, e ele continuaria a constituir no escopo principal.

1898. Taqwim: molde, simetria, forma, natureza, constituição. Não há imperfeição na criação de Deus.

1899. Ikra pode significar "lê", ou "recita", ou "proclama em voz alta" (o arrebatamento compreendido como a Mensagem de Deus). Só para se ter uma idéia das circunstâncias em que se deu esta primeira revelação de incumbência divina de pregar e proclamar a Mensagem de Deus, saiba-se que esta chegou ao Profeta na caverna de Hirá. Ele não era versado nas letras terrenas, mas a sua mente e a sua alma estavam plenas de conhecimentos espirituais, e era chegada a hora de ele comparecer perante o mundo, e declarar a sua missão.

1900. A declaração ou proclamação deveria ser feita em nome de Deus, o Criador. Não deveria resultar em qualquer benefício para o Profeta; para ele, aquilo acarretaria acirrada perseguição, agruras e sofrimento. A proclamação constituía o chamado de Deus para o benefício da humanidade errante. Deus é mencionado, pelo atributo "teu Senhor", para estabelecer uma relação direta entre a fonte de Mensagem e o seu proclamador. A Mensagem não foi meramente uma abstrata proposição filosófica, mas uma mensagem concreta e direta, de um Deus pessoal, às criaturas, que Ele ama e por quem Ele vela. O pronome "teu", referente ao Profeta, é adequado, por duas razões: (1) ele mantinha um contato direto entre o Mensageiro Divino (Gabriel) e Aquele que enviou a Mensagem; (2) representava toda a humanidade, num sentido mais amplo do que aquele em que Jesus Cristo é denominado "O Filho do Homem".

1901. A origem animal pouco lisonjeira, do homem, é contrastada com o seu destino altipotente, concedido a ele em sua natureza intelectual, moral e espiritual, por seu Liberalíssimo Criador. Nenhum conhecimento é vedado ao homem; pelo contrário, através das faculdades, gratuitamente concedidas a ele, o ser humano adquire-o em quantidades tais, que ultrapassam a sua compreensão imediata, levando-o a diligenciar por significados cada vez mais inéditos.

1902. Os símbolos de uma revelação permanente são o cálamo místico e o Registro Místico. As palavras que traduzem "ensino" e "conhecimento" possuem a mesma raiz. Numa tradução, é impossível produzir-se uma completa harmonia orquestral para as palavras ler, ensinar, cálamo (que implicam em leitura, escrita, livro, estudo, pesquisa): "conhecimento" (que inclui ciência, conscientização de si mesmo, compreensão espiritual); e "proclamar" (um significado alternativo da palavra "ler"). Tal proclamação ou leitura implica não somente no dever de proclamar a mensagem de Deus, intrínseco à missão, mas também no dever de promulgar, e amplamente disseminar a Verdade, por entre todos os que a possam compreender.

1903. As palavras poderão ser geralmente aplicadas à humanidade perversa, que não somente procura rebelar-se contra as Leis de Deus, mas ainda procura impedir os outros de as seguirem. Poderá, todavia, haver uma referência, aqui, a Abu Jahl, um contumaz inimigo do Islam, que no começo costumava insultar e perseguir o Profeta e aqueles que seguiam os seus ensinamentos. Com efeito, ele costumava usar de métodos vergonhosos, para evitar que o Profeta fosse à Caaba praticar as suas devoções, e proibir qualquer um que fosse oferecer as suas orações, sob a influência do Profeta. Abu Jahl era arrogante e orgulhoso da sua riqueza; mas ele encontrou o seu fim, na batalha de Badr.

1904. Os coraixitas pagãos, que formavam uma opressiva junta ao conselho para dirigir a Caaba, tinham afinidades com Abu Jahl, embora não chegassem aos desabridos extremos que chegava este último. Porém, não foram capazes, todos combinados, de reter a marcha progressiva da missão divina, embora fizessem tudo para contê-la.

1905. Os literalistas acham que se trata de alguma noite em particular do calendário. Mas não há consenso, quanto que a noite seja. A 23ª , a 25ª da noite do mês de Ramadan, bem como outras noites foram aventadas. É de bom alvitre ter em mente o seu sentido místico, que também aparece no versículo 3 desta surata, onde se diz que a Noite do Decreto é melhor do que mil meses. Ela transcende o tempo, porquanto se trata do Poder de Deus, dissipando as Trevas da ignorância, com a sua Revelação em todas as espécies de assuntos.

1906. O numeral "mil" deve ser tomado em um sentido indefinido, como se demonstrasse um período de tempo muito extenso. Isso não se refere às nossas idéias de tempo, mas sim ao Tempo eterno. Um momento luzidio, sob a Luz de Deus, é melhor do que mil meses ou anos de vida animal, sendo que tal momento transforma a noite de travas em um período de glória espiritual.

1907. Os Adeptos do Livro, aos quais se reporta o versículo, são os judeus e os cristãos, que receberam escrituras, na mesma linha de profecias, tal qual o nosso Profeta. Suas escrituras deveriam tê-los preparado para o advento da chegada do maior e derradeiro dos profetas. Quanto aos judeus, suas escrituras lhes prometeram, sendo eles primos dos árabes ou irmanados com estes, um profeta igual a Moisés: "O Senhor, teu Deus, te suscitará um Profeta como tu, da tua nação, e dentre os teus irmãos; a este ouvirás".(Deuteronômio, 18:15). E Cristo promete um consolador (João 14:16; 15:26) quase pelo nome. Todavia, quando o Profeta prometido chegou, na pessoa de Mohammad, rejeitaram-no, porquanto não estavam em busca da Verdade, mas seguindo as suas próprias fantasias, desejos e devaneios.

1908. Receber a faculdade da discriminação entre o certo e o errado, e, então, rejeitar a verdade, constitui o pior dos desatinos, que as criaturas dotadas com tal faculdade poderiam cometer. Isto acarretará punição, quer a pessoa se denomine de "filho de Abraão, ou um dos redimidos por Cristo:, ou guie-se meramente pela luz da natureza e da razão, como os pagãos. Aos olhos de Deus, a honra não é oriunda da raça ou da profissão de fé, mas da conduta sincera e virtuosa.

1909. Para o observador humano comum, um terremoto violento constitui um fenômeno terrificante, quer pela sua subitaneidade, quer pela sua origem misteriosa, quer pelo seu poder de desarraigar e destruir os mais sólidos edifícios, quer por trazer das entranhas da terra, para a superfícies, as matérias mais estranhas. O Evento Assolador (88ª Surata), que indica a ocasião do Julgamento, constituir-se-á de uma convulsão maior e mais abrangente do que qualquer terremoto que conhecemos. Todavia, os incidentes dos terremotos talvez nos dêem alguma idéia desse Evento Supremo, que assolará o mundo.

1910. Um terremoto, se acompanhado de erupções vulcânicas, lança para cima penedos colossais de lava, de debaixo da crosta terrestre. Estes são lançados para cima, como ser constituíssem fardos, para uma Terra personificada. Podem conter todas as espécies de minerais, ou tesouros enterrados em seus esconderijos. Então, na grande e final convulsão, os mortos, desde há muito enterrados e esquecidos, levantar-se-ão; os assuntos e as intenções, secretamente ocultos e metaforicamente enterrados, serão trazidos à luz do dia, e a justiça será feita, no pleno fulgor da Verdade absoluta.

1911. Zarrat: do peso de uma formiga, o menor peso de ser vivente, em que o homem poderia pensar. Metaforicamente, consiste na mais sutil forma em que o bem e o mal podem ser levados em consideração; e assim será feito, aberta e convincentemente: ele "o verá".

1912. As cláusulas substantivas encontram-se nos versículos 6-8 desta Surata, sendo que as metáforas e os símbolos que reforçam a lição se encontram aqui, nos versículos 1-5. Estes símbolos contêm, pelo menos, três espécies de significados místicos: (1) olhai os corcéis (éguas ou camelos rápidos) resfolegantes, indo para a guerra, para o benefício dos seus donos. Vão arrancando chispas de fogo, com os seus cascos, à noite, comandados pelos seus cavaleiros; pela manhã, estes dirigem os seus corcéis para casa, propiciando cavalheirescamente ao inimigo os benefícios da luz do dia. E a despeito do cintilar do aço das armas dos seus inimigos, eles intrepidamente penetram no meio dos adversários, arriscando as suas vidas pela causa. Demonstra, acaso, o irregenerado, fidelidade ao seu Senhor, Deus? Pelo contrário, é mal agradecido. Demonstra-o por suas ações: seu intenso amor pelo ganho, pela riqueza e pelas coisas perecíveis; (2) por meio de metonímia, a brava fidelidade do cavalo de guerra talvez signifique os homens bravos e verdadeiros, que se agrupam sob o estandarte de Deus e o levam à vitória, em contraste com a poltronaria e inoperância dos irregenerados; (3) todo o conflito, toda a luta e toda a vitória possam ser aplicados à batalha contra aqueles que são apanhados e esmagados, no campo do Mal.

1913. As nuvens de poeira caracterizam a ignorância e a confusão, nas mentes daqueles que se opõem à Verdade.

1914. O próprio homem, por sua conduta, é vítima do ônus da traição, que enceta contra si mesmo.

1915. Os corpos dos mortos, as tramas secretas, os maus pensamentos e as imaginações, todos desde há muito sepultados, apresentar-se-ão perante o Trono do Julgamento de Deus. Ao invés de estarem intimamente escondidos ou esquecidos, como deverão estar na consciência da humanidade, estarão presentes na conscientização de Deus, que tudo abrange, e que jamais sofre de sono ou de fadiga.

1916. O Dia da Calamidade e do clamor será o Dia do Julgamento, quando toda a presente ordem de coisas ruirá, com uma convulsão colossa. Todos os nossos marcos presentes estarão perdidos. Constituirá uma experiência atordoante, para começar, mas isso inaugurará um novo mundo de valores verdadeiros e permanentes, no qual todas as ações humanas terão as suas verdadeiras e justas conseqüências, como se fossem pesadas na balança.

1917. As mariposas são criaturas frágeis e leves. A visão de tais insetos, dispersos num violento torvelinho, dá algo da idéia de confusão, de desgraça e de desamparo, ante os quais o homem se acabrunhará no Dia do Acerto de Contas velhas memórias aparecerão como um livro quase esquecido. Novas esperanças serão coisas vagas no novo mundo, que acaba de surgir no horizonte.

1918. As montanhas são estruturas sólidas, o que dá a idéia de que nada poderia movê-las. No entanto, naquele tremendo cataclismo, elas estarão dispersas, parecendo flocos de lã eriçada ou cardada. Isto constitui uma metáfora para mostrar que aquilo que consideramos muito substancial nesta vida, será um eterno nada no mundo espiritual.

1919. Certamente, a Balança é metafórica. As boas ações serão pesadas e aquilatadas. Tal aquilatamento será uma espécie mais condigna e justa, porquanto levar-se-ão em conta as intenções, as tentações, as provocações, as condições concernentes, os antecedentes, as emendas subseqüentes, e todas as circunstâncias.

1920. A ganância, ou seja, a paixão em procurar um aumento de riqueza, de posição, do número de adeptos ou seguidores ou sustentadores, de produção e organização em massa, poderá afetar um indivíduo apenas, ou ainda uma sociedade ou nação inteira. O exemplo ou a rivalidade com outras pessoas, em tais expedientes, quando se torna desordenado e chega a monopolizar a atenção, não deixa tempo para que sigamos as coisas elevadas da vida; uma clara admoestação é aqui representada, do ponto de vista espiritual. O homem poderá estar imbuído destas coisas, até que a Morte se aproxima, sendo que, então, ele olhará para trás, para uma vida desperdiçada, no que diz respeito às coisas elevadas.

1921. Nós ouvimos, pela boca de alguém, ou inferimos, de algo que conhecemos; isto se refere ao nosso próprio estado mental. Se instruíssemos as nossas mentes desta maneira, saberíamos valorizar melhor as coisas profundas da vida, e não desperdiçaríamos todo o nosso tempo em coisas efêmeras. Mas se não usarmos as nossas faculdades, de raciocínio agora, veremos, com os nossos próprios olhos, o Castigo pelos nossos pecados. Estará certamente à vista.

1922. Asr pode significar: (1) o Tempo atrás das eras, ou um longo período, que, nesse caso, se aproxima da idéia abstrata do Tempo (Dahr), que algumas vezes foi deificado pelos árabes pagãos; (2) ou a tardezinha, da qual a oração canônica Asr toma nome. O uso místico de ambas as idéias é compreendido aqui. É feita uma referência ao Tempo, como uma das criações de Deus, a respeito do qual todos sabem algo, mas cujo significado exato ninguém sabe, plenamente, explicar. O tempo é inexorável e destrói todas as coisas materiais.

1923. Três defeitos são, aqui, condenados, nos mais veementes termos: (1) provocação de escândalo, ao falar, ou sugerir o mal a um homem ou uma mulher, por meio de palavras ou insinuações, ou posturas, ou mímicas, ou sarcasmo, ou insulto; (2) difamação do caráter de terceiros, por trás das suas costas, mesmo que as coisas sugeridas sejam verdadeiras, sendo contudo, más as intenções; (3) entesouramento de riquezas, não para uso e serviço daqueles que necessitam delas, mas em um miserável açambarcamento, como se isso pudesse prolongar-lhe a vida de avarento ou proporcionar imortalidade, sabendo-se que a avareza, por si só, é uma espécie de escândalo.

1924. Não reparaste? - com a tua visão mental. O incidente aconteceu no mesmo ano do nascimento do Profeta, mais ou menos dois meses antes.

1925. Estes faziam parte das tropas de Abraha, o abissínio, que invadiu Makka com um vasto exército, contando com o concurso de vários elefantes.

1926. O milagre consistiu de pássaros, que apareceram em um grande bando e arremessaram pedras contra o exército, causando uma pestilência contagiante e destruindo todo o exército de Abraha.

1927. Sijjil. São pedras de barro cozido, ou duras, como argila cozida, que fazem parte do milagre dessa história.

1928. Uma plantação, da qual todas as espigas e grãos foram comidos, restando somente a palha, com os talos ou caule; uma plantação inerte e inútil. Em tal estado ficou o exército de Abraha: inerte e inútil. Uma outra versão possível seria: como palha e talos cozidos, encontrados nos excrementos dos animais. O significado seria o mesmo, porém mais enfático.

1929. Os coraixitas constituíram a mais nobre tribo da Arábia, tribo à qual o próprio Profeta pertencia. Eles possuíam a custódia da Caaba, relicário central da Arábia, e a posse de Makka dava-lhes uma tripla vantagem: (1) possuíam uma influência dominante sobre as outras tribos; (2) sua posição central facilitava-lhes o comércio e as transações, fato que lhes propiciava honra e lucros; (3) sendo o território de Makka, por um costume árabe, inviolável quanto às guerras vindicativas e feudais, eles desfrutavam de uma posição segura, livre de quaisquer perigos.

1930. Devido às suas viagens comerciais, à tepidez do Iêmen, no inverno, e às frescas regiões da Síria e do norte, no verão, os coraixitas tornaram-se viajantes e comerciantes experimentados, adquiriram muito conhecimento do mundo, muita engenhosidade, e aperfeiçoaram o seu linguajar, como um meio elegante de expressão literária.

1931. As caravanas comerciais dos coraixitas os tornavam ricos, e atraíam gente de regiões distantes, que iam em visita de Makka, levando para lá as suas mercadorias, e os seus presentes.

1932. Posto que o seu território era inviolável, eles não corriam, em seu seguro lar, ricos nas constantes questões guerreiras, tanto da parte de feudos particulares, como de rupturas da paz.

1933. Din pode significar: (1) o Julgamento que virá, a responsabilidade quanto ao mundo moral e espiritual, por todas as ações praticadas pelos homens; (2) a Fé, a Religião, os princípios do certo e do errado quanto às questões espirituais, as quais freqüentemente entram em choque com as predileções ou os desejos egoísticos. Todas as desditas ocorrem porque o homem renega a Fé, ou a responsabilidade futura, trata os desamparados com desprezo e leva uma vida arrogante e egoística.

1934. "Quando se dispõem a orar, fazem-no com indolência, para fazerem ostentação ante os demais, e apenas mencionam Deus".

1935. Cauçar: a celestial e ilimitada Fonte da graça e do conhecimento, da misericórdia e da benevolência, da verdade e da sabedoria, da força espiritual e da visão de longo alcance, as quais foram concedidas ao Profeta, o homem de Deus, e, de uma maneira ou de outra, a todos os humanos, homens e mulheres, que são sinceros e devotados a Deus. Tal Fonte mitiga a mais elevada sede espiritual do homem; ela concede benefícios superabundantes, de toda a sorte. Tal pessoa em nada mais estará carente; a pompa e a riqueza terrena serão como a poeira por sob os seus sapatos.

1936. O ódio e o despeito não constituem contribuições construtivas à obra de edificação deste mundo; constituem, outrossim, o seu oposto. Abu Jahl e os seus cúmplices pagão deram razão aos seus despeitos e peçonhas pessoais contra o Profeta, ridicularizando-o com a perda dos seus dois filhos menores (de Khadija); porém, onde estavam tais detratores peçonhentos, poucos anos mais tarde, quando a Luz divina brilhou mais intensamente do que nunca? Foram estes que não tiveram posteridade, neste mundo e ou outro.

1937. Os versículos 2-3 descrevem as condições, no tempo, em que esta surata foi revelada, podendo ser livremente parafraseados: Eu sou adorador do Único e Verdadeiro Deus, Senhor de todas as coisas, vosso Senhor e meu; contudo, vós, falso culto, tanto de ídolos como de pessoas. Os versículos 4-5 descrevem as raízes psicológicas: Sendo eu um Profeta de Deus, não posso e não devo desejar seguir os vossos meios falsos e ultrapassados; e, sendo vós useiros e vezeiros da falsa adoração, não tendes estímulo para abandonardes a vossa maneira de culto, que é errônea.

1938. Caçado e perseguido, o Profeta emigrou de Makka para Madina. Ali todas as forças da verdade e da virtude se congregaram em torno dele, resultando que os esforços dos líderes de Makka e dos seus cúmplices para destruírem o Profeta e a sua comunidade recaíram sobre as suas próprias cabeças. Gradualmente, todas as partes distantes da Arábia enfileiraram-se em torno dos seus preceitos do Islam, fazendo com que a conquista de Makka, sem derramamento de sangue, se constituísse na coroação e no prêmio por sua paciência e constante porfia. Depois disso, tribos inteiras e tratos de território oferecera coletivamente a sua adesão a ele, sendo que antes da sua missão terrena findar, o campo estava preparado para a conquista do vasto mundo o Islam. Qual foi a lição a ser aprendida neste pequeno epítome da história do mundo? Não, naturalmente, a vanglória do homem, mas a humildade; não o amor pelo poder, mas a disposição em servir; não uma exortação ao egoísmo do homem, mas à conscientização da Graça e da Misericórdia de Deus, bem como a intensa difusão do aprazimento de Deus, em palavras e em conduta.

1939. Abu Lahab, "Pai da Chama", era o apelido de Abdul Uzza, tio do Profeta, devido ao seu temperamento rude e à sua tez avermelhada. Ele foi um dos mais inveterados inimigo dos muçulmanos, nos primórdios do Islam. Quando o Profeta tenteou reunir os coraixitas e a sua própria parentela, com o fito de que fossem ouvir a sua pregação e admoestação quanto aos pecados do seu povo, o "Pai da Chama" inflamou-se e amaldiçoou o Profeta, dizendo: "Que a perdição recaia sobre ti!" Contudo, de acordo com um dito português: "Praga de urubu magro não pega", as suas palavras mostraram-se fúteis, o seu poderio e a sua força mostraram-se em vãos. A estrela do Islam elevava-se mais e mais, a cada dia que passava, e os seus perseguidores diminuíam em força e em poderio. Muitos dos líderes perseguidores pereceram na batalha de Badr, e o próprio Abdul Lahab encontrou o seu fim uma semana após aquele feito, consumido que foi pelo pesar e pelas suas próprias paixões flamígeras. O versículo 3 constitui uma profecia do seu fim, nesta mesma vida, embora se refira também ao Outro Mundo.

1940. A natureza de Deus é-nos, aqui, indicada em poucas palavras, de maneira que possamos entender. As qualidades de Deus são descritas alternadamente, em inúmeros lugares e em inúmeras passagens do Alcorão. Aqui, é-nos ensinado a evitarmos as armadilhas em que os homens e as nações caíram, em variadas épocas, ao tentarem compreender Deus. A primeira coisa a notar é que a Sua natureza é tão sublime, está tão além da nossa limitada percepção, que a melhor maneira pela qual nos podemos conscientizar d’Ele, sentirmo-Lo como uma Personalidade; "Ele", e não uma mera e abstrata percepção filosófica, que está próximo de nós; Ele vela por nós; nós devemos a nossa existência a Ele. Ademais, Ele é o Uno e Único Deus, o Uno e Único, a Quem devemos adorar; todas as outras coisas ou entidades em que ou em quem pudermos pensar são as Suas criaturas, de maneira alguma comparáveis a Ele. Ainda, Ele é Eterno, sem começo ou fim, é Absoluto, não limitado por tempo, lugar ou circunstância; é a Realidade, perante a qual todas as outras coisas ou localidades são meras sombras ou reflexos. Ainda mais, não devemos pensar que Ele teve um filho ou um pai, porquanto isso seria querer imputar-Lhe qualidades materiais, ao formarmos juízo d’Ele. Ainda, novamente, Ele não é igual a qualquer outra pessoa ou coisa que conhecemos ou que possamos imaginar; Suas qualidades e Sua natureza são únicas.

1941. Isto nega a idéia do cristianismo quanto à divindade do Pai, o Filho unigênito etc..

1942. Este argumento sintetiza todos os outros e, em especial, admoesta-nos quanto ao antropomorfismo, ou seja, a tendência a concebermos Deus segundo os nossos próprios padrões, tendência esta insidiosa, que se desenvolveu em todas as épocas, entre todos os povos.

1943. Falac significa Madrugada ou Alvorada, a ruptura das trevas e a manifestação da luz. Isto pode ser entendido em vários sentidos: (1) literalmente, quando a escuridão da noite se encontra com a intensidade total e os raios de luz se infiltram por ela, produzindo a alvorada; (2) quando as trevas da ignorância são muito intensas e a luz de Deus se infiltra por entre elas, iluminando-as; (3) a inexistência significa trevas, sendo que a vida e a atividade podem ser caracterizadas pela luz. O Autor e a Fonte de toda a verdadeira luz é Deus; e se O procurarmos, ficaremos livres da ignorância, da superstição, do temor e de toda a sorte de males.

1944. A surata anterior apontava a necessidade de o indivíduo procurar a proteção de Deus contra os fatores materiais que o pudessem afetar. Aqui, a necessidade da proteção contra fatores materiais, tendo em vista a humanidade como um todo, é apontada.

1945. A relação do homem com Deus pode ser vista sob três aspectos: (1) Deus é o seu Senhor, Criador e Velador; Deus o sustenta, e vela por ele; Ele o provê com todos os meios para o seu crescimento e desenvolvimento, bem como para a sua proteção contra o mal; (2) Deus é o rei ou governante; mais do que qualquer rei terreno, Deus está investido da autoridade de guiar a conduta do homem e de conduzi-lo por caminhos que lhe proporcionarão o bem-estar; Ele ainda lhe concedeu leis; (3) Deus é Aquele a Quem a humanidade retornará, para prestar contas de todos os seus feitos desta vida. Deus será o Juiz; Ele é a Meta do Mundo do Futuro, e o Único Ser meritório de adoração, por parte do homem, em qualquer época. Por causa de todos esses fatores, o homem precisa e deve procurar a proteção de Deus, contra o mal.

                                                                                        

 

                      

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