A necessidade premente de escapar do jugo da família, leva Gregor MacFingal Cameron a sair à procura de uma noiva rica, apenas para ser seqüestrado e jogado dentro de uma cela fria. Logo uma linda jovem também é capturada pelos bandidos e levada para a mesma cela, o que faz com que Gregor se arrependa de sua busca interesseira por uma esposa. Depois de uma fuga audaciosa, Gregor se une a Alana Murray na missão de resgatar a irmã dela, porém, a tentação leva à sedução e a promessas fáceis de fazer, mas difíceis de cumprir... Alana sabe que o vínculo forjado pelo perigo e pelo desespero lhe proporcionou um aliado pronto para lutar pela causa de sua irmã. Mas a sedução tentadora de Gregor a deixa arrebatada, e ela agarra a oportunidade de viver uma grande paixão antes de se prender a um casamento arranjado... sem imaginar a inevitável intensidade de um homem e de um amor que mudará tudo...
Escócia, primavera de 1475
— Ai
Ai? Atordoada e tentando recuperar o fôlego, Alana imaginou que o gemido de dor só poderia ter escapado de seus lábios. Afinal, chãos duros e imundos não diziam ai. Era estranho, contudo, o modo como sua voz reverberara, grave e quase masculina, nas paredes rústicas de pedra da masmorra. Quando estava finalmente conseguindo se restabelecer, sentiu o solo se mover.
Levou algum tempo para se dar conta de que não tinha caído no chão, e sim sobre uma pessoa, dotada de uma voz profunda. Seu rosto não estava sobre poeira ou pedra, mas apoiado em um tecido. Escutava também o som constante de batimentos cardíacos sob seu ouvido. Com os dedos meio suspensos no ar, ela tocou de leve o chão frio e úmido. Estava esparramada sobre um homem como se fosse uma devassa.
Saiu de cima dele, pedindo desculpas por ter esbarrado com os joelhos e os cotovelos em locais impróprios, à medida que se mexia. Uma coisa era certa, o tal homem sabia xingar. Em pé, olhando para o alto, ela viu três indivíduos mirando-a. A luz das tochas que seguravam mal iluminava os sorrisos estampados nos rostos barbados e sujos.
— Não podem me jogar aqui com um homem — protestou.
— Não temos outro local para colocá-la — disse o mais alto dos três, chamado Clyde, que ela concluiu ser o lorde.
— Sou uma dama.
— Você não passa de uma criança descarada. Agora vai nos contar quem é?
— Para que tentem extorquir meu povo? Não vou, não.
— Então, ficará aí mesmo.
Ela nem teve tempo de balbuciar uma nova queixa. A grade se fechou, e a fraca fonte de luz desapareceu rapidamente, conforme os Gowan se afastavam. Tentou se lembrar de como as coisas tinham chegado àquele ponto. Tudo o que almejava era ajudar na busca por sua irmã gêmea, Keira, mas nenhum dos membros da família a escutara quando tinha dito que sabia como encontrá-la. A idéia de se disfarçar de criança e seguir os irmãos, esperando apenas o momento certo para se unir a eles, parecera excelente. Teria sido maravilhosa a sensação de conduzir os pobrezinhos ao exato local onde Keira se encontrava. E o plano ia muito bem até perceber que não apenas havia perdido a trilha dos irmãos, como não tinha idéia de onde estava.
Sentindo pena de si mesma, e sem saber por que seus dons haviam falhado de maneira tão abrupta quando mais precisara deles, Alana estivera amuada, assando um coelho, quando fora encontrada pelos Gowan. Ela sorriu ao se recordar da própria reação. Talvez, se houvesse se mostrado dócil e indefesa, não tivesse sido jogada em um buraco no chão com um homem que aparentemente se aliviava em um balde. Talvez devesse ter revelado logo seu nome. Os Gowan pediriam um resgate em troca de sua vida, e ela poderia sair daquele lugar horrendo. Assustada, tentava recuperar a coragem e as forças.
Gregor praguejou em pensamento assim que terminou de se aliviar. Não era a melhor maneira de se apresentar à nova companheira de cela, mas não tivera outra opção. Ter um corpo jogado contra o dele, acertando-o com joelhos e cotovelos, tornara impossível que ignorasse suas necessidades fisiológicas. Pelo menos, a total escuridão do local serviu para proporcionar-lhe um pouco de privacidade.
Tentava descobrir onde a moça estava, quando ouviu os resmungos. Clyde Gowan a chamara de criança descarada, mas havia algo no tom de voz rouco que o fizera pensar que se tratava de uma mulher. A suposta criança havia sido atirada masmorra abaixo e caíra como uma tora sobre ele. Assim que conseguira recuperar o fôlego, tinha tido a nítida impressão de que o corpo macio e quente era de uma mulher feita, apesar das poucas curvas. Meneou a cabeça enquanto caminhava com cautela em direção à voz que balbuciava.
Apesar da precaução, acabou trombando contra as costas dela. A moça sobressaltou-se e bateu a cabeça no queixo dele. Praguejou, cerrando os dentes ao sentir uma dor profunda. Ficou surpreso ao ouvir que ela também havia deixado escapar um xingamento.
— Jesus — ele murmurou —, você conseguiu deixar mais marcas em mim do que quando fui apanhado por aqueles idiotas.
— Quem é você? — ela perguntou, fazendo uma careta e esfregando o ponto dolorido no alto da cabeça, certa de que logo um galo enorme surgiria no local.
— Meu nome é Gregor. E o seu?
— Alana.
— Só Alana?
— Só Gregor?
— Direi meu sobrenome depois que disser o seu.
— Acho melhor não. Alguém pode estar nos escutando, na esperança de que façamos exatamente isso.
— E você não confia em mim, não é mesmo?
— Por que deveria? Não sei quem é. Nem mesmo consigo vê-lo. — Ela olhou ao redor e se deu conta de que as possibilidades de seu disfarce ser descoberto eram mínimas, uma vez que não conseguia ver nem sequer as próprias mãos. — Por que o prenderam?
Alana subitamente temeu que pudesse estar presa em uma cela escura com um criminoso perigoso, talvez um estuprador ou até mesmo um assassino. Em seguida, lembrou-se de que os Gowan pediriam um resgate em troca de sua vida. Nem mesmo aqueles idiotas seriam estúpidos a ponto de colocá-la junto de um assassino, perdendo, assim, a oportunidade de ganhar um bom dinheiro.
— Para pedir resgate — ele respondeu.
— Ah, estou na mesma situação. Eles vagam pela região apanhando pessoas como se fossem margaridas?
Gregor riu e meneou a cabeça.
— Apenas aquelas que aparentam ter dinheiro para encher os bolsos deles. Estavam trocando um prisioneiro pelo resgate quando me trouxeram para cá. O homem parecia bem vestido, apesar de as roupas já estarem um tanto desgastadas, depois de todo o tempo que passou neste buraco. Suspeito que seu traje tenha indicado a eles que vem de uma família de posses. Mataram os seus guardas?
Alana sentiu um leve rubor nas faces.
— Não, eu estava sozinha, perdida.
Gregor concluiu que ela mentia, e não era nada boa nisso. Após dias passados na mais profunda escuridão, seus sentidos estavam tão aguçados que ele era capaz de captar as nuances da voz ao mais leve vacilo.
— Espero que seus familiares punam de maneira adequada os soldados que se descuidaram de guardá-la.
Ah, sim, realmente alguém seria punido, ela pensou. Quanto a isso não restava a menor dúvida. Essa era uma daquelas ocasiões em que preferia levar uma surra do pai a ser obrigada a ouvir o longo e interminável sermão que a aguardava e, ainda pior, suportar a culpa por ter sido motivo de preocupação.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou, na esperança de mudar o rumo da conversa.
— Dois dias, acho. E difícil saber ao certo. Deram-me alguns cobertores, um balde que esvaziam com certa freqüência, água e comida a cada doze horas, mais ou menos. O que me preocupa é quem vencerá esse jogo do fique-aí-até-que-me-conte-o-que-eu-quero-sa-ber. Meu clã não é tão pobre, mas não tem dinheiro para pagar um resgate muito alto. E não pagará enquanto não souber como esse dinheiro será usado.
— Oh, eles não lhe contaram?
— Eu estava inconsciente quando fui trazido para cá. Tudo o que ouço desde que cheguei é sempre a mesma pergunta sobre quem eu sou e qual o meu nome. Questionam-me diariamente, três vezes ao dia, e concluí que essa atitude faz parte de uma tática. — Gregor pensou nas horas passadas na escuridão. — Creio que este seja o final do terceiro dia, pois perdi a consciência novamente quando me jogaram aqui e só despertei com alguém gritando que estava na hora do jantar. Recebi comida e água, e me disseram que o balde e os cobertores estavam num canto.
— Tem razão, já é noite. A lua estava subindo quando cruzamos os portões. Então, passou três dias na escuridão. Num buraco no chão — ela murmurou, estremecendo ao imaginar que enfrentaria a mesma situação. — O que faz para passar o tempo?
— Penso.
— Oh, céus. Acho que vou enlouquecer.
— De fato, não é o melhor passatempo.
— Não gosto muito do escuro — Alana acrescentou, e teve um sobressalto ao sentir um braço pousando leve, como para oferecer conforto, sobre seu ombro.
— Ninguém gosta, especialmente da escuridão impiedosa de um lugar como este. — Após uma breve pausa, ele indagou: — Eles a machucaram?
Pelo tom suave da pergunta, ela soube a que tipo de ferimento ele se referia. Só nesse instante pensou que, em momento algum, temeu um estupro.
— Não. Eles apenas me apanharam, chamaram-me de descarada e me jogaram sobre a sela de um cavalo.
Gregor sorriu.
— Descarada?
— Se não houver uma palavra melhor... Fui mesmo uma descarada, sentando-me diante de uma fogueira, assando um coelho que tive a sorte de pegar e enfrentado cinco homens que me informaram que eu era uma prisioneira e teria de me identificar para que enviassem um pedido de resgate aos meus familiares. Eu disse a eles que tinha tido um dia péssimo, que a última coisa que queria era receber ordens de homens barbudos e fedorentos, e que eles deveriam voltar para a caverna de onde haviam saído. Ou mais ou menos isso — ela concluiu baixinho.
Alana se aborreceu ao ouvir a gargalhada de Gregor, e quase perdeu a calma. Afinal, sempre fora comedida e os parentes teriam estranhado sua postura desafiadora diante do inimigo. Os Gowan, pelo menos, haviam parecido bastante espantados. Os cinco tinham ficado paralisados, ouvindo a suposta menina, como se tivessem sido atacados de surpresa, diretamente no pescoço, por um esquilo. Tudo estava indo muito bem até eles perceberem que estavam sendo insultados por alguém que poderiam rachar ao meio com um único golpe.
Por pouco ela não tinha conseguido escapar. Todos os membros de sua família eram capazes de correr quilômetros sem se cansar e sabiam se esconder com facilidade entre as sombras. Na verdade, tudo não passara de uma sucessão de azares, pois os Gowan haviam tido de suar muito para capturá-la.
— Eles contaram por que estão capturando tantas pessoas em troca de resgate? — Gregor perguntou.
— Sim. — Depois de terem sido acusados de corruptos, e de Alana ter dito que precisavam de um bom banho, em vez de ficarem seqüestrando as pessoas para exigir dinheiro, os Gowan acabaram expondo seus motivos. — Disseram que era para defesa.
— O quê?
— Eles decidiram que esta espelunca precisa de um sistema de defesa mais eficaz. E isso requer dinheiro, coisa que eles não têm. Acho que devem ter ouvido algo sobre os ataques que estão ocorrendo, não muito longe daqui, o que os levou a concluir que estavam muito vulneráveis. Pelo pouco que pude ver, quando estava pendurada na sela de Clyde, esta é uma construção velha, que tanto pode ter sido atacada recentemente como estar apenas malcuidada, ou ambas as opções. Parece reformada o suficiente para ser habitável, mas ainda falta, muita coisa para ficar razoável. Pelo que a esposa de Clyde disse, essa pequena propriedade foi o dote que ela trouxe ao se casar.
— Você conversou com a esposa de Clyde?
— Bem, não exatamente. Ela deu uma bronca no marido assim que ele colocou os pés em casa. Pelo visto, ela não aprova as atitudes dele. Disse-lhe que, uma vez que havia dado início a essa bobagem, era bom que conseguisse levantar uma fortuna, pois precisariam de muito dinheiro para se proteger dos inimigos que estavam arrebanhando.
Gregor ainda tinha o braço em torno de seus ombros, e ela sabia que deveria se afastar. Mas o calor que aquele corpo emanava era bom e talvez aquilo não passasse de um gesto de conforto ou até mesmo de uma tentativa de afastar o medo da escuridão.
Ele parecia ser muito alto. Provavelmente, um pouco mais alto do que seus irmãos mais velhos, calculou. Recostada contra o peito aconchegante, pôde sentir a força dos músculos. Considerando que já estava preso naquele buraco havia três dias, ele ainda cheirava muito bem.
O fato de reparar no perfume dele deveria ter servido de alerta para que se afastasse. O problema era que se sentia bem ali. Ele transmitia calor, força e calma, tudo de que ela precisava naquele momento.
Alana deixou escapar um suspiro, admitindo que não pretendia se mover dali tão cedo. Além do mais, que mal haveria em continuar aproveitando um pouco do aconchego? Afinal, Gregor imaginava que ela não passava de uma menina e, portanto, nunca pensaria que se tratasse de um convite ousado. A escuridão e a solidão proporcionavam um anonimato confortante. Depois de dias sozinho no escuro, ela não se surpreenderia se descobrisse que ele também estava gostando do contato.
— Para onde estava indo? Existe alguém mais, além dos soldados que a acompanhavam, que esteja à sua procura? — Gregor perguntou, um pouco preocupado por estar apreciando tanto abraçá-la, e apesar do alerta de sua intuição, que dizia que Alana não era de fato a criança que fingia ser.
— E possível. — Duvidava que o bilhete que deixara em casa tivesse servido de consolo. Aquela altura, provavelmente o pai já tinha enviado alguém para procurá-la. — Eu estava indo até minha irmã.
— Ah, então, acho que os Gowan logo descobrirão quem é você, mesmo que não conte.
— Talvez. E quanto a você? Alguém se preocupará com o seu desaparecimento?
— Creio que ainda não.
Era cedo para que os familiares se afligissem com sua ausência. Gregor havia viajado para fazer a corte à sua futura noiva, e era com ela que todos pensavam que ele ainda estivesse. Entretanto, os três dias de solidão lhe haviam dado tempo para pensar sobre a vida, sobre todos os motivos que o tinham levado a sair em busca de uma noiva rica e por que escolhera justamente aquela mulher. Mavis era uma boa moça, bonita o suficiente, e possuía tanto terras quanto dinheiro para oferecer ao futuro marido. Ele havia saído de lá com uma sensação de vitória. O noivado estava praticamente acertado e tudo caminhava rumo ao desfecho previsto. Porém, mesmo assim, a cada hora que passara sozinho, sentado na escuridão com seus pensamentos, sentira-se mais infeliz. Parecia não estar tomando a decisão correta. E, a todo momento, lembrava-se das palavras de seu primo Sigimor. Mavis realmente não parecia ser a mulher certa para ele. Ela não se encaixava bem.
Amaldiçoou os próprios pensamentos. Que diferença fazia? Tinha quase trinta anos e ainda não havia encontrado a mulher ideal. Mavis lhe oferecera a chance de ser senhor de si mesmo, de se tornar um lorde e de assumir o controle das próprias terras. Ela era uma escolha feita com bom senso. Não que estivesse apaixonado, mas, depois de tantos anos e de tantas mulheres, sem nunca ter sentido nada de especial por nenhuma, duvidava que fosse capaz de amar realmente. O desejo poderia ser despertado com um toque apenas e a compatibilidade poderia ser conquistada. Seria o suficiente.
Estava prestes a perguntar a Alana a respeito da distância que os familiares dela poderiam percorrer para procurá-la quando escutou alguém se aproximar.
— Fique parada aqui — ele disse antes de se afastar. — Está na hora de esvaziarem o balde e descerem a água e a comida. Não quero colidir com você.
Alana sentiu um calafrio assim que ele se afastou. Deu alguns passos para trás até tropeçar em uma pilha de cobertores e cair sentada. A grade que fechava o calabouço foi aberta e uma corda com um gancho amarrado na ponta desceu pela abertura. A tocha que o homem segurava iluminava apenas o suficiente para que a corda pudesse ser vista. Quando Gregor se moveu para apanhar o balde, Alana vislumbrou a silhueta do misterioso companheiro. Era, de fato, muito alto e esbelto. Maldita ausência de luz que a impedia de ver o restante.
— Precisaremos de dois baldes de água para nos lavarmos pela manhã — Gregor gritou para o homem, enquanto o outro balde era esvaziado.
— Dois? — o sujeito questionou. — Por quê?
— Um para mim e outro para a garota.
— Os dois podem se levar com a mesma água.
— Não faz idéia do que é passar uma noite neste buraco imundo. Um balde mal dá para lavar uma pessoa, muito menos duas.
— Perguntarei ao lorde.
Alana se assustou quando a grade se fechou e a exígua fonte de luz desapareceu por completa. Tentou adivinhar onde Gregor estava, prestando atenção aos movimentos, mas, mesmo assim, levou um susto ao perceber que ele se sentava ao seu lado. Em seguida, sentiu o cheiro de queijo e pão quentinho, e seu estômago roncou.
Ele riu.
— Cuidado ao se mexer. Coloquei a comida entre nós — ele avisou. — Os Gowan fornecem alimento suficiente, mas é uma refeição muito simples.
— Melhor do que nada. Talvez devesse me passar a comida, pois estou com medo de derrubar. Acho que precisarei de algum tempo para aprender a me movimentar no escuro com a mesma agilidade que você.
Alana mal tinha terminado de falar quando sentiu a mão máscula tocando sua perna. Ficou tensa, mas logo percebeu que Gregor estava colocando um pedaço de pão sobre seu colo. Com fome, ela o apanhou e o levou à boca no mesmo instante. Decerto, o companheiro estava apenas tentando se certificar do local exato onde ela estava sentada quando a tocou. Alana se perguntou por que tinha sentido uma pontinha de decepção ao constatar o fato.
— É melhor que coma tudo. Não fui incomodado por nenhum roedor, porém ouvi alguns barulhos, o que quer dizer que eles andam por aqui. Deixar comida apenas servirá para atraí-los.
Ela estremeceu.
— Odeio ratos.
— Eu também, e é por isso que não cedi à tentação de guardar alimentos para mais tarde.
Eles comeram em silêncio. Saciada a fome, o cansaço tomou conta de Alana, e o peso do dia difícil finalmente se abateu sobre seu corpo. Ela, então, se deu conta de que não havia espaço para improvisar uma cama nem cobertores suficientes.
— Onde dormirei? — indagou, aliviada pela escuridão que escondia o rubor de suas faces.
— Aqui, comigo — Gregor respondeu. — Ficarei próximo à parede. — Ele sorriu, como se pudesse sentir a tensão que a dominava. — Não tenha medo. Não a machucarei. Nunca teria coragem de molestar uma criança.
É claro, Alána refletiu, mais relaxada. Ele pensava que era uma criança. Por uma fração de segundo, tinha se esquecido do próprio disfarce. A idéia de continuar com o jogo durante dias não era das mais animadoras, mas seria melhor assim. Gregor continuaria tratando-a como se fosse a irmãzinha caçula. Se soubesse que era uma mulher feita, ele poderia querer tirar algum proveito da situação. Mais uma vez, ela abafou o desapontamento, lembrando-se de que não tinha a menor idéia nem mesmo da aparência do companheiro.
Assim que terminaram de comer, ele colocou o balde de lado. Ela ouviu o barulho de roupas sendo removidas e, pela movimentação, concluiu que ele estava entrando embaixo das cobertas. No entanto, ao sentir um pé cutucando seus quadris, ela recuou um pouco, assustada, esperando o próximo movimento.
Passados alguns minutos, desamarrou os laços do vestido e tirou as botas antes de também se enfiar sob as cobertas. Ao sentir-se aconchegada pelo calor que emanava do corpo forte, deixou escapar um longo suspiro. Havia algo naquele homem que a acalmava, que fazia com que conseguisse encarar a prisão escura com coragem. Porém, estava cansada demais para tentar descobrir o que era.
— Amanhã planejaremos nossa fuga — ele disse.
— Tem alguma idéia de como sair daqui?
— Uma vaga noção. Agora, durma. Vai precisar estar bem descansada.
A promessa não soara muito tentadora, Alana pensou, fechando os olhos.
Alana fez uma careta ao terminar de se lavar. Em seguida, enxugou-se com um pedaço de pano e vestiu as roupas limpas, porém umedecidas devido à friagem do local. Os Gowan forneciam água suficiente para as necessidades dos dois, mas não havia nada que pudessem fazer quanto à umidade da cela. Sentiu um calafrio ao se enrolar em seu xale. Estando naquele buraco havia três dias, era como se o frio tivesse penetrado em seus ossos. Ela somente se sentia um pouco mais aquecida quando estava encolhida nos braços protetores de Gregor.
E isso estava começando a ser tornar um verdadeiro tormento, pensou, enquanto trançava os cabelos. A vontade de confessar que não era uma criança, e sim uma mulher, a dominava com uma freqüência cada vez maior. Não entendia como podia desejar um homem que conhecera fazia tão pouco tempo, alguém que nunca tinha visto antes e que, ainda por cima, havia revelado muito pouco sobre si mesmo. Para todos os efeitos, ele era um estranho, mas a sensação que tinha era de que o conhecia havia anos. Cada vez que sentia o corpo forte contra suas costas, queria se aproximar ainda mais e esperava que ele estivesse desejando o mesmo. Tudo não passava de pura loucura. E o pior era que não conseguia pensar em uma maneira de curar essa insanidade.
Já estava mais do que na hora de Gregor arquitetar o tal plano de fuga, especialmente porque ela mesma não tinha pensado em nenhum. A primeira e única vez em que ele tinha tocado no assunto havia sido na noite em que ela chegara à masmorra. Depois disso, nas poucas vezes em que tentara abordar o assunto, Gregor tinha dado a mesma resposta: Paciência, minha cara. Quanta paciência ainda teria de ter? Se ele tivesse um plano, poderia compartilhar com ela e, caso não tivesse, por que simplesmente não admitia? Seria frustrante, mas não era ele o único culpado por não conseguirem encontrar uma maneira de escapar daquele fosso profundo.
— E melhor se acomodar na cama. Nossa comida está chegando.
Ela tateou com cuidado o caminho até a cama improvisada. Duvidava que um dia conseguisse se mover no escuro com tanta facilidade quanto Gregor. Tropeçando nas cobertas, rapidamente se sentou e observou o fio de luz surgindo ao alto.
— Estão prontos para nos dizer quem são? — perguntou o homem que baixava o balde limpo para as necessidades fisiológicas.
— Não — Alana respondeu, orgulhosa por ter resistido à tentação de gritar seu nome, explicar como chegar ao seus familiares e implorar para ser tirada da escuridão de uma vez por todas.
Franziu o cenho ao ouvir que Gregor grunhia uma resposta semelhante à dela conforme trocava o balde sujo pelo limpo. Em seguida, ele fez exatamente como nos últimos três dias: permaneceu parado, olhando fixamente para a corda, enquanto o guarda levantava o balde sujo e, logo depois, baixava o outro com a comida. Gregor observava, compenetrado, a troca dos recipientes, o que já estava se tornando um verdadeiro mistério para ela.
O sujeito se foi, levando consigo o ponto de luz, deixando-a trêmula. Como sempre, ela só conseguiu respirar aliviada e se acalmar quando Gregor se sentou ao seu lado e a abraçou. Todas as vezes que a luz desaparecia, seu medo do escuro ressurgia com mais força. Era embaraçoso precisar do companheiro de prisão para aplacar o pavor. Parecia covardia, o que, não mudava absolutamente nada. Alana esperava que, ao menos, ele não estivesse percebendo seu temor, apesar de não fazer idéia de por que isso era importante.
— Finalmente arquitetei um plano — ele informou enquanto ela dividia a comida entre os dois.
— Quando teve a idéia? — Alana indagou calmamente, disfarçando a ansiedade. — Antes ou depois da troca dos baldes?
— É muito astuta para alguém tão pequena — ele murmurou, sorrindo. — Durante dias tenho observado a subida e a descida dos recipientes.
— Percebi. Não consigo ver muito com aquele filete de luz, mas me pareceu que estava bastante interessado na movimentação toda.
― Eu avaliava a situação. Levei um tempo para calcular algo.
— E o que seria?
— A profundidade do calabouço.
— É muito profundo para qualquer um de nós conseguir escalá-lo, e não é preciso muito cálculo para saber disso.
— Sim, mas, talvez, não tão profundo para nós dois.
— O que quer dizer com nós dois?
— Qual a sua altura?
— Um metro e meio.
— Tenho em torno de um metro e oitenta e dois.
— Deve se orgulhar disso — ela disse e suspirou, irritada. — Porém, que diferença faz?
— A sua altura somada à minha deve ser o suficiente para que alcancemos a abertura.
— Para quê? Roer as espessas barras de ferro?
— A grade não está trancada nem presa com cadeado. — Gregor captava o nervosismo de Alana, apesar de não estarem tão próximos.
― Tem certeza?
― Sim. Por que eles iriam se dar a esse trabalho? O fosso é muito profundo, o que torna impossível alcançar a saída, ou, ao menos, é o quê pensam. E as paredes não podem ser escaladas. Tentei várias vezes antes da sua chegada e tudo que consegui foi me cansar e arrumar alguns arranhões e hematomas. Tenho facilidade para escalar, mas é preciso que haja vãos, galhos ou raízes para que eu me apoie.
— Então, como planeja sair daqui?
— Acho que, se subir sobre os meus ombros, conseguirá alcançar a grade.
Alana olhou para cima. Era uma grade pesada, de ferro. Trancada ou não, seria difícil que ela a movesse, ainda mais se estivesse apoiada sobre os ombros de um homem, e não em terra firme. Outro aspecto era que não gostava de altura, mas essa questão poderia ser contornada se fosse para sair dali. Será que o plano poderia dar certo?
— Acho que não terei forças para remover a grade de ferro.
— Não será nada fácil para nenhum de nós. Porém, não temos outra saída. Não posso subir sobre os seus ombros.
— E verdade. Vale a pena tentar.
— Talvez tenhamos que tentar várias vezes, por causa da ausência de luz. Não é nada fácil fazer as coisas no escuro. Podemos começar após o jantar.
— Por que esperar?
— Se conseguirmos remover a grade, será melhor fugirmos durante a noite. Depois que a última refeição for entregue, eles só voltarão na manhã seguinte. Se falharmos, teremos tempo suficiente de esconder os sinais do que tentamos fazer. Caso percebam algo, irão trancar a grade, e meu plano irá por água abaixo. Não quero que isso aconteça.
— Acha que deveríamos guardar alguma comida para levarmos?
Gregor suspirou.
— Sim, mas ainda temo atrair os ratos.
— Também não desejo tal companhia, porém não ouvi nenhum barulho que indique a presença de roedores. Talvez tenham desistido, uma vez que estamos aqui há quase uma semana e ainda não deixamos nenhum resto de comida para eles.
— Podemos tentar. Quem sabe se embrulharmos o alimento em um pedaço de pano, eles não sintam o cheiro.
A simples idéia de ratos transitando na pequena cela causou calafrios em Alana. Ela odiava aquelas criaturas. Infelizmente, era preciso tentar guardar um pouco de comida para a fuga. Se conseguissem escapar daquele lugar, teriam de correr o máximo possível, o que impediria que se detivessem para caçar. Provavelmente, os Gowan tentariam recapturá-los. Apesar de imaginar que a perseguição talvez não durasse muito, poderia levar alguns dias para que eles desistissem. E, se isso acontecesse, ela e Gregor precisariam manter as forças.
— É uma pena que não possamos recuperar nossos cavalos — Alana murmurou.
— Sim — ele concordou. — Apesar de achar que aqueles idiotas nem perceberiam se tentássemos passar com um ou dois cavalos pelos portões.
Ela deixou escapar uma risadinha, e então franziu o cenho, ao se dar conta de uma possível falha nos planos.
— Caso eu consiga abrir a grade, como nós dois escaparemos daqui? Uma vez aberta, posso sair, mas não conseguirei puxá-lo.
— Bem, esse é o ponto fraco do meu plano. Mas acho que tenho a solução. Poderemos usar um ou dois cobertores como corda. Depois de mover a grade de ferro, subirá com a corda amarrada à cintura. E, lá em cima, poderá prendê-la a alguma pilastra ou a algo pesado.
— É, talvez funcione.
— O primeiro problema que precisamos solucionar, é como mantê-la firme o suficiente sobre os meus ombros até que consiga abrir a maldita grade. Quanto acha que pesa?
— Quarenta e quatro quilos.
— Posso levantá-la facilmente, mas nunca tentei equilibrar esse peso sobre os ombros. No entanto, não se preocupe. Sou forte e conseguirei segurá-la caso caia.
A garantia não foi um grande consolo para Alana. Um metro e oitenta e dois não constituía uma altura tão assustadora de onde cair, porém o chão era duro, e ela ainda estava dolorida do dia que a tinham jogado masmorra abaixo. Por uma fração de segundo, sentiu uma imensa vontade de dizer a Gregor que não poderia executar o plano, que tinha muito medo de altura, mas então abafou esse sentimento, guardando-o consigo. Precisavam sair dali, e não apenas para poupar suas famílias do custoso resgate. Ela almejava escapar logo daquele buraco escuro, pois não sabia por quanto tempo mais conseguiria conter o medo da escuridão. Cada vez que os Gowan vinham com aquele bendito feixe de luz e, em seguida, o levavam embora, Alana tinha de resistir ao desejo de se agarrar a Gregor em busca de proteção. Essa sensação estava se tornando cada vez mais insuportável.
E ainda havia a umidade insalubre. Era surpreendente como o companheiro se mantinha forte e saudável depois de ter passado quase uma semana em um local tão lúgubre. Ela, por sua vez, sentia que a saúde, antes tão boa, minguava a cada dia. De qualquer forma, parecia condenada a se lançar sobre o corpo de Gregor e grudar nele como um parasita. Se não fosse pelo pavor do escuro, seria devido à friagem que se infiltrava em seus ossos dia após dia.
— Por que a careta? — ele perguntou, embalando com cuidado um pouco da comida, um trabalho simples que se mostrava muito difícil de ser executado no escuro.
— Como sabe a expressão que tenho no rosto?
— Faz um barulhinho diferente quando está irritada.
— Barulhinho?
— Algo como um grunhido.
— Damas não grunhem.
— E claro que não. Eu me enganei — disse, em tom divertido.
Alana ignorou o comentário.
— O que está fazendo?
— Tentando guardar um pouco de comida. Uma tarefa simples. Ou poderia ser... se não estivesse tão escuro — resmungou. A seguir, perguntou: — O que a aborrece?
Ela respirou fundo è soltou o ar devagar.
— Estava apenas pensando em como sou covarde.
Gregor fez um ruído que se pareceu com uma risadinha. Ela até achou lisonjeiro que ele tivesse se espantado com a afirmação.
— Sempre me senti insegura na escuridão — Alana prosseguiu. — Bem, já não posso continuar mentindo para mim mesma. Isto me assusta de verdade, tenho medo do escuro. Quanto ao seu plano de fuga? Equilibrar-me sobre os seus ombros para tentar abrir a grade parece ser uma boa idéia e vou procurar fazer o melhor, mas preciso confessar outro medo: a altura. Por outro lado, estou cansada do frio e da umidade, posso senti-los em meus ossos. Cada vez que aqueles idiotas perguntam quem sou, tenho de me conter para não responder. Uma parte de mim quer gritar o meu nome, dizer de onde sou, orientá-los como chegar até minha família e implorar que o façam logo. E esse lado está se fortalecendo mais e mais a cada dia. Por isso, só me resta admitir que sou mesmo uma covarde.
Gregor riu de leve ao se aproximar de Alana e passar as mãos em torno dos ombros delicados. Ela parecia extremamente irritada consigo mesma. E ele a compreendia, pois havia dias vinha lutando contra os próprios temores. O tempo que passara sozinho no escuro tinha servido para que refletisse sobre a vida e visse as coisas com mais clareza. Ele suspeitava que poucos considerariam a experiência positiva.
— Creio que não é a única pessoa no mundo a ter medo de escuro e de altura — ele disse. — Acho que os temores já nascem conosco e nunca conseguimos superá-los completamente. Não há nada de errado em sentir medo de algo, mas o ponto crucial é não se deixar controlar por esse sentimento. Quanto ao frio e à umidade? Sinto o mesmo, e estou cada vez mais cansado disto tudo.
— Está há mais tempo aqui.
— E tenho muito mais carne envolvendo meus ossos para suportar a friagem penetrante. Embora, porém, ela me atinja também. Não se sinta covarde por causa disso. Você não chorou nem reclamou de nada sem motivos.
Alana permaneceu calada, e se aconchegou um pouco mais ao corpo de Gregor, dizendo a si mesma que estava apenas em busca de calor. Não sabia ao certo se tinha acreditado nas palavras gentis, mas elas haviam sido confortantes do mesmo jeito. A vontade de gritar e puxar os cabelos ardia por dentro, entretanto a presença daquele homem a ajudava a suportar a prisão. Ela sabia que não deveria falar nada. Não seria justo jogar essa responsabilidade sobre as costas largas do companheiro.
Por um momento, desejou nunca ter saído às escondidas, mas acabou aceitando o fato de que não teria agüentado ficar em casa apenas esperando notícias da irmã. Após ter sabido que Keira estava viúva e que seu lar havia sido tomado por um homem cuja fama de mau era notória, permanecera sem notícias por meses. O temor aumentara a cada dia que tinha passado sem nenhuma novidade. Escutava apenas rumores, e os piores possíveis. A única coisa que a impedira de sair às cegas à procura da irmã gêmea foi a sensação de que ela ainda estava viva. Sem falar dos sonhos.
Ficou triste ao se dar conta de que não tinha mais sonhado com Keira desde que se perdera dos irmãos. Poderia ser um mau sinal, mas, mesmo assim, não acreditava que ela estivesse morta. Ainda sentia a forte presença da irmã e tinha a noção exata da direção a seguir quando estivesse livre novamente. Porém, não deixava de ser estranho que houvesse perdido os outros canais que a conectavam a Keira. Sempre tinha existido uma forte ligação entre ambas. Sentindo-se solitária, aconchegou-se um pouco mais a Gregor.
— Está preocupada?
— Não — mentiu, pois ainda não sabia se podia realmente confiar nele. — Acho que a vontade de fugir daqui é tão grande que temo acreditar demais e depois me decepcionar.
Ele esfregou a mão sobre o braço delicado de Alana.
— Acho que entendo o que está sentindo. Agora que temos um plano, não podemos ignorar a possibilidade da falha, por mais triste e desesperador que possa parecer.
Ela anuiu, sentindo a lã macia do xale escocês de Gregor roçando seu rosto. Conhecia o sabor amargo da derrota. O plano pretensioso de conduzir os irmãos até Keira tinha falhado em proporções monumentais. Isso afetava seu orgulho e a incomodava profundamente. Parecia que os seus talentos e dons a tinham abandonado, o que não fazia o menor sentido. Era como se todos os poderes outrora outorgados a ela como uma bênção houvessem sido tomados, sem que entendesse o motivo.
Estremeceu. Tudo o que estava acontecendo deveria ter um propósito. Tinha de haver alguma razão para que Deus e o destino conspirassem no sentido de evitar o reencontro das irmãs. Talvez Keira precisasse passar por um teste e aprender verdades sobre si mesma ou, quem sabe, a presença de Alana pudesse atrapalhar os desígnios divinos. Ou ainda talvez fosse ela quem estivesse passando por uma provação. Não gostou nem um pouco dessa idéia, e logo dirigiu um pedido de desculpas à irmã por esperar que o teste se destinasse a ela, e não a si mesma. Keira era bela, gentil e inteligente, muito mais apta a passar por qualquer tipo de provação que testasse sua coragem e força de espírito.
Apesar de amar Keira profundamente, e considerá-la sua melhor amiga e aliada, Alana admitiu com pesar que sempre sentira uma pontinha de inveja dela. A irmã se portava como se fosse a matriarca da família, e era lindíssima, com seus cabelos negros, tez alva e olhos verdes. Alana era menor e mais morena de pele. Keira tinha o verdadeiro dom de curar tudo o que tocasse. Alana sabia usar seus conhecimentos e talentos muito bem, mas lhe faltava o instinto com que a irmã fora agraciada.
Alana estava intimamente ligada a Keira. Em certas ocasiões, sonhava com algo ou tinha algum pressentimento. Apesar de ambas serem de boa índole, Keira era a mais gentil e dócil. Alana reconhecia que possuía uma língua afiada como um punhal. E, apesar de saber que tudo não passava de uma bobagem e que era tão amada quanto a irmã, às vezes, achava que, por ter nascido depois, tinha entrado no mundo à sombra de Keira, de onde nunca tinha saído. Suspirou, desanimada com a própria tolice.
— Isso foi um som pesaroso, moça — Gregor disse. — Tem certeza de que não está com nenhum problema?
— Não, apenas pensava em quanto tempo precisaremos esperar antes de tentar fugir — mentiu mais uma vez, sentindo vergonha dos próprios pensamentos.
Gregor não precisava de luminosidade para saber que ela não estava sendo sincera, mas decidiu não pressioná-la.
— Bem, o que acha de uma partida de xadrez para passar o tempo? — ele indagou, recostando-se à parede e puxando-a consigo.
— Sim, estou preparada para derrotá-lo outra vez — ela respondeu. — Faça o primeiro movimento.
— Quanta gentileza — Gregor disse, suspeitando que perderia de novo.
Em seguida, ele fechou os olhos, imaginou um luxuoso tabuleiro de xadrez e levou algum tempo para decidir por onde começar. Se tivesse sorte, demoraria um pouco mais para ser derrotado, e assim sua vitória consistiria em mantê-los ocupados por mais tempo, durante a longa espera que teriam de enfrentar.
Alana caiu, esparramada, em cima de Gregor, que praguejou enquanto ela lutava para recuperar o fôlego. Obviamente, ainda levariam um bom tempo para encontrar o ponto certo entre a força e o equilíbrio, de forma que ela conseguisse agir, mantendo-se nos ombros do companheiro. O único consolo era que o desempenho dele não era muito melhor. Gregor conseguia segurá-la bem quando ficava parada, mas, assim que tentava remover a pesada grade de ferro, ele perdia o controle. Nas três primeiras tentativas, ele a tinha segurado com facilidade. Porém, nessa última, até mesmo nisso falhara.
— Acho que quatro tentativas são o suficiente por hoje — ele opinou, esfregando a cabeça. Ele a batera no chão com força, quase perdendo os sentidos.
— Concordo — ela falou, rouca e ofegante. — Talvez amanhã, entre o almoço e o jantar, pudéssemos treinar os movimentos.
— Pode ser.
Esforçando-se para sair de cima do corpo másculo, ela girou para o lado.
— Precisamos aprender a nos movimentar como se fôssemos um só, uma pessoa muito alta.
Gregor riu.
— Segurá-la não é a parte mais difícil. O problema é quando você se mexe para tentar remover a grade. — Ele tinha os ombros e braços muito doloridos. — Acha que conseguirá abri-la?
— Sim. É pesada, mas conseguirei. Só preciso descobrir como movê-la sem perder o equilíbrio. Deve haver um jeito para isso, apenas tenho de encontrá-lo.
— Ótimo. Amanhã podemos treinar alguns movimentos, com você sobre meus ombros.
— E, então, depois do jantar, tentamos de novo?
— Sim. E nos próximos dias, até conseguirmos.
— Que animador.
― Quase posso ouvi-la rindo de mim.
— É apenas uma grade de ferro, Alana — disse Gregor. — Um objeto inanimado que não pode rir de ninguém.
— Ela vem me derrotando há três noites. E está rindo de mim, sim.
Ele sorriu, contorcendo-se em seguida, quando ela pisou em um dos vários hematomas adquiridos nas últimas noites. Sabia que ela também sofria com dores semelhantes, por causa dos tombos levados durante as incontáveis tentativas frustradas, mas Alana era teimosa. Tinha a nítida impressão de que cada derrota servia para aumentar ainda mais a determinação dela. Era sempre ele quem decidia parar, temendo que um dos dois se machucasse seriamente, em razão do cansaço. Na noite anterior, ela ficara inconsciente durante um longo e assustador período. Depois de ampará-la da queda do precário poleiro sobre seus ombros, ambos haviam batido com força contra a parede de pedra da prisão. Enquanto ela permanecera desacordada em seus braços, ele tinha passado por um momento de terror que não desejava experimentar outra vez.
O plano que, a princípio, parecera tão simples estava se mostrando muito mais complicado e perigoso do que o imaginado. Quando alguém caía sobre pedras e o chão duro, o que mais importava não era a altura da queda, e sim a maneira como a pessoa atingia o solo. Além de encontrar forças para erguer a grade, Alana precisava empurrá-la para o lado. Isso exigia que ela se esticasse e se contorcesse, e era aí que os problemas começavam.
No momento em que ela alongou o corpo, ele a segurou com força. Imaginando que a ajudaria a manter o equilíbrio, deslizou as mãos ao longo das pernas delgadas e, com os braços levemente curvados, apertou suas coxas. Sentiu-a tombar um pouco para a frente, contraindo os músculos.
— Muito bem, garota — ele disse. — Curve-se como um arco, para que consiga manter o equilíbrio.
A última coisa em que Alana pensou ao sentir as mãos imensas se movendo por suas pernas foi em equilibrar-se. Ela quase olhou para baixo para se certificar de que não estava pegando fogo, tamanho o calor que emanava de Gregor. Não havia nada de sedutor no toque, mas isso não a impediu de divagar. Ele está apenas me segurando firme para que eu consiga mover essa maldita grade de ferro. Porém, seu corpo parecia não querer escutar. Uma parte dela desejava que Gregor não estivesse interressado apenas na fuga e que acariciasse suas pernas novamente.
Ela fez o que pôde para concentrar todos os seus esforços na remoção da grade que os impedia de sair dali. Suas mãos estavam feridas, cobertas de hematomas e arranhões. Quando percebeu que havia perdido o medo de se equilibrar sobre ele, a determinação tomou conta do resto. O instinto lhe dizia que Gregor poria um fim às tentativas se percebesse o péssimo estado em que se encontravam suas mãos. Ele quase havia desistido quando ficara desacordada depois de se chocar contra a parede, no dia anterior. Contudo, ela conseguira convencê-lo de que faltava pouco para que lograssem seu intento.
Foi então que, lentamente, levantou a grade. Esticando-se o máximo possível, teve de admitir que a nova maneira que Gregor encontrara para segurá-la realmente lhe dava mais firmeza. Ela respirou fundo diversas vezes, reunindo todas as suas forças, fez uma pequena prece e empurrou a grade. O som do ferro pesado sendo arrastado sobre o piso de pedra ecoou em seus ouvidos, porém ela levou algum tempo para perceber que finalmente tinha conseguido. Mal acreditando, ergueu as mãos e passou-as pela abertura desobstruída, a fim de confirmar o êxito.
— Consegui — sussurrou.
De repente, foi retirada dos ombros largos de Gregor. Um pouco ofegante por causa do movimento brusco, não conteve um gritinho de surpresa quando ele a envolveu em um abraço vigoroso. Logo, colocou-a de pé e se afastou. No instante seguinte, ela sentiu o cobertor sendo amarrado em torno de sua cintura.
— Não será fácil fazer isso no escuro — Gregor advertiu. — Precisará tomar muito cuidado.
— Eu sei. Seria muito fácil voltar a cair aqui embaixo.
— Sim e, uma vez que não consigo enxergar, não sei se poderia ampará-la.
— Amparar-me, é? Acho que isso soa um pouco melhor do que deixar que eu caia sobre você.
Gregor riu e ajudou-a a colocar-se de pé sobre seus ombros de novo.
O medo que Alana sentia ao ficar tão alta e estar em uma posição perigosa dessa vez foi ignorado com mais facilidade. A perspectiva de liberdade se mostrou uma cura eficaz para todos os temores.
Com cautela, ergueu os braços e tateou até encontrar a abertura. Em seguida, apoiou-se na borda para sair. Antes que pudesse pedir a Gregor que a erguesse um pouco mais, ele lentamente o fez. Com um impulso, subiu, vitoriosa. Por alguns instantes, ficou esparramada de bruços, contra o frio piso de pedra, tentando se acalmar e controlar o entusiasmo.
Porém, sua alegria desapareceu ao se dar conta do quanto estava escuro ao redor. Teria de ir tateando até encontrar algo firme, onde pudesse amarrar a corda improvisada. Depois, com cuidado, precisaria achar o caminho de volta e baixar a corda para Gregor, sem cair no buraco. Não seria nada fácil, ela pensou enquanto se movia com vagar.
Gregor olhava para cima, em direção à abertura da cela. Ouviu alguns ruídos, indicando a leve movimentação de Alana. Não houve gritos, nem sinal de que os Gowan a tivessem surpreendido, o que era bom. No entanto, a espera parecia não ter fim.
Estava consciente do longo caminho que percorreriam até a total liberdade. Uma vez fora da prisão, precisariam sair da fortaleza, e ele não tivera tempo de observá-la em detalhes quando tinha sido conduzido até ali. Alana também devia ter visto muito pouco. Isso significava que estariam à mercê da sorte para conseguir escapar de vez. Naquele exato momento, preso havia mais de uma semana em um calabouço e quase noivo de uma mulher com quem já não queria se casar, ele não sabia se confiava tanto assim na sorte.
Não que soubesse exatamente por que não queria mais se casar com Mavis. Preferia pensar que, depois de ter passado tanto tempo sozinho, refletindo sobre a vida, fosse natural ser acometido por certa hesitação com relação ao casamento. Contudo, no fundo, sabia que havia algo mais. Desejava o mesmo que o irmão e o primo tinham, as companheiras perfeitas, de corpo e alma. Mavis era uma boa mulher, que lhe daria terras e dinheiro, mas não era sua alma gêmea.
Olhando para a abertura da prisão, Gregor teve a sensação de que sua verdadeira alma gêmea estava lá em cima, tateando na escuridão e praguejando baixinho. Seus instintos diziam que Alana não era a menininha que estava fingindo ser. Ela conversava e raciocinava de forma muito madura. Apesar de ambos terem evitado revelar quem realmente eram, haviam contado histórias sobre suas experiências, e, de acordo com o que Alana dissera, ela tinha bem mais do que treze ou catorze anos de idade. Claro que, se estivesse enganado, seria embaraçoso. Nenhum homem gostaria de pensar que sua companheira de vida era uma criança pouco mais velha que seus próprios filhos.
— Gregor! E melhor que se afaste um pouco. Não, aquela não era a voz de uma criança, ele pensou.
— Por quê? O cobertor é leve, não vai me machucar.
— Acontece que não descerei apenas o cobertor. Encontrei algo melhor: a corda do balde, que é bem grossa. Porém, não consegui desatar o nó que a prende ao recipiente, então tome cuidado.
Ele recuou depressa e, um instante depois, escutou o balde descendo rapidamente. Ergueu as mãos bem a tempo de proteger a cabeça. Alana era esperta, uma boa companheira, e tinha sido uma fonte de calor bem-vinda nas noites frias. Contudo, representava um perigo para a saúde de um homem. Uma coisa era certa, ela lhe dera algo que nunca tinha ganhado de outra mulher: uma porção de hematomas.
Gregor amarrou os pacotes preparados para a fuga na ponta da corda.
— Puxe nossos alimentos. Depois baixe a corda novamente para que eu possa subir.
Com uma careta de dor devido às feridas nas mãos, Alana obedeceu. Foi difícil desatar o nó simples que ele tinha feito, pois seus dedos já não estavam tão ágeis e sangravam um pouco. Após jogar a corda de volta, ela tirou os pacotes do caminho e saiu à procura de algo para enfaixar a mão. A limpeza e o curativo adequados teriam de esperar.
Estava envolvendo as mãos em algumas tiras que havia rasgado da anágua quando escutou Gregor saindo do fosso. Ao perceber que a grade estava sendo colocada de volta no lugar, ela quase lhe disse que duvidava que os Gowan pudessem ser enganados por muito tempo. Mas era uma atitude inteligente cobrir o buraco enquanto estivessem vagando em busca da saída.
Notando que Gregor não se uniu a ela de imediato, permaneceu parada, atenta aos movimentos dele. Estava prestes a falar algo para indicar onde se encontrava quando escutou uma exclamação. Em seguida, ouviu um barulhinho familiar ecoar na penumbra antes de ver a luz emitida pela tocha que ele acabara de acender. Piscando para se adaptar à inesperada luminosidade, observou-o colocá-la no suporte da parede e ir em busca da saída da masmorra. Outra exclamação escapou dos lábios dele quando encontrou o que possivelmente eram sua espada e punhal. Ele, então, virou-se para fitá-la.
Alana ofegou. Apesar da barba por fazer, Gregor era um homem muito charmoso, belo demais para a paz de espírito de qualquer mulher. Já sabia que ele era alto e forte, mas nunca imaginara tamanha perfeição. Ele tinha o peito largo, o abdômen definido, os quadris estreitos e as pernas longas, moldadas para fazer disparar os corações femininos. O dela já batia, acelerado. À medida que ele se aproximava, podia observar a graça dos movimentos, a força e a agilidade reveladas a cada passo.
Os cabelos longos, negros e lustrosos emolduravam uma face desenhada com perfeição. As sobrancelhas eram levemente curvadas, nem grossas, nem finas. Os cílios longos e espessos atenuavam a rigidez das feições masculinas. A boca era bem delineada, e os lábios carnudos, que contribuíam para suavizar o que poderia ser uma fisionomia fria e dura, eram tentadores para qualquer mulher com sangue nas veias. Quando ele se aproximou o suficiente para que visse a cor de seus olhos, concluiu que pareciam duas jóias que completavam uma obra-prima. Nem grandes nem pequenos, harmonizavam-se à perfeição com o nariz longo e fino. E a cor era belíssima, um azul-prateado que a fez sentir vontade de suspirar como uma tola.
Era exatamente esse o problema, concluiu com tristeza. Estava, de fato, entorpecida por tanta beleza. Ele era deslumbrante. Ao mesmo tempo em que sentia o coração bater com força ante as emoções, desejos e necessidades que floresciam em seu peito, afligia-se. Ele era perfeito demais para alguém sem graça como ela.
Gregor a observava com atenção e constatava que sua intuição não falhara; Alana não era uma criança. Não se tratava de uma dessas mulheres exuberantes, mas disso ele já suspeitava. Por mais adorável que fosse seu rosto, definitivamente era o de uma mulher, que conseguiria manter a aparência jovem por muito mais tempo do que a maioria das outras. Os cabelos castanho-escuros lembravam as terras férteis e a madeira de lei, assim como havia imaginado quando os tocara, vez ou outra. Longos, espessos e volumosos, chegavam até a cintura e pareciam demasiado pesados para o pescoço fino. Ela era pequena e delicada. Em uma ocasião em que roçara sem querer suas costas durante a noite, tinha desconfiado que houvesse faixas embaixo do vestido. Estava curioso para saber como era a silhueta dela. Imaginava que tivesse cintura fina e quadris delicados. Sabia, porém, que sua curiosidade não seria satisfeita até que ela confiasse plenamente nele. Foi o rosto pequeno e oval, com olhos grandes e dourados, que mais chamou sua atenção. Os cílios espessos, sob sobrancelhas levemente arqueadas, davam o acabamento final ao semblante, adicionando um ar de docilidade e inocência. Um nariz pequeno e fino levava a uma boca que denunciava que aquele ar de criança inocente não era verdadeiro. Os lábios carnudos e convidativos tinham um quê de selvagem e pareciam implorar por um beijo. Ele estava imaginando se era realmente tristeza o que via naqueles belos olhos quando percebeu que as mãos dela estavam enfaixadas.
— O que aconteceu com você? — indagou.
— Ah, arranhei-me um pouco ao rastejar — ela respondeu. — Mas está tudo bem. Mais tarde, examinarei com mais calma. Então, o que vamos fazer agora?
Gregor olhou ao redor.
— Primeiro precisamos descobrir se há algum caminho secreto para a fuga. A maioria das torres antigas possui um. Dessa forma, escaparíamos mais rápido. Senão, teremos de tentar sair pelo portão principal.
— O que seria muito arriscado — ela murmurou. ― Entretanto, ficar aqui é ainda mais arriscado.
— Exato, por isso não perderemos muito tempo procurando uma passagem secreta.
Gregor encontrou outra tocha, acendeu-a e a entregou a Alana, que começou a busca no mesmo instante. Além de escapar dos Gowan sem serem vistos, precisavam ainda obter uma boa vantagem antes que a fuga fosse descoberta. Sem cavalos, não seria nada fácil.
Assim que Gregor decidiu que já tinham desperdiçado tempo suficiente, virou-se para ir atrás de Alana e estranhou quando não a encontrou de imediato. A preocupação já começava a se transformar em pânico quando ela, de repente, surgiu detrás de uma pilha de barris.
— O que encontrou? — ele indagou. Puxando-o pelo braço, ela lhe mostrou o que havia atrás dos toneis.
— Nossa passagem secreta. — Suspirou. — Acho que não será possível caminhar por ela. Não pude ver muito bem como é lá dentro, mas creio que teremos de engatinhar junto de outras criaturas horripilantes que costumam percorrer caminhos escuros como esse. Encontrei também esta lamparina, que poderá ser útil. Acho que quem estiver à frente deve carregá-la.
Gregor removeu os barris para examinar melhor o túnel e se conteve para não praguejar. Havia uma boa possibilidade de que o caminho os levasse para fora de lá sem serem vistos, e não tinham outra opção a não ser arriscar. Contudo, aquilo seria uma tortura. Mesmo com a lamparina, ainda seria escuro a ponto de assustar Alana. Quanto a ele, sempre evitara lugares estreitos. A idéia de rastejar ao longo do túnel cercado de pedras, sujeira e outras coisas mais era de arrepiar.
— Creio que devemos ir agora — ela disse.
Ele percebeu a relutância na voz de Alana, sentimento que compartilhava com todo o coração.
— Eu esperava encontrar uma passagem um pouco maior — ele declarou, acendendo a lamparina.
Algo que lembrasse menos uma cova, pensou Alana.
— Devemos esperar que os Gowan tenham cuidado melhor da manutenção desta passagem do que do resto da fortaleza — Gregor murmurou, estendendo-lhe a lamparina.
Alana segurou-a enquanto ele apagava as tochas. Ela não estava com a menor vontade de entrar ali. Por outro lado, também não queria ficar. Portanto, precisava se encher de coragem e fugir enquanto era tempo.
Assim que entraram no túnel, com Gregor à frente, ela fechou a portinhola de madeira atrás deles. Por uma fração de segundo, foi atingida por uma onda de pânico e por uma vontade quase incontrolável de sair dali o mais rápido possível. Porém, lutou contra a sensação. Aquela poderia ser a única chance que teriam de escapar, e não permitiria que sua covardia roubasse essa oportunidade.
Assim que ele começou a se mover, seguiu-o para não perder de vista o pequeno feixe de luz. Aquela claridade e a presença de Gregor eram suas únicas esperanças de conseguir conter o medo. Fixou o olhar no corpo firme e bem definido, sentindo prazer ao observar seus movimentos. Muitos poderiam zombar das calças justas, vistas como uma afetação inglesa, mas nesse exato momento ela apreciava, e muito, os trajes que ele usava. Embaraçoso, no entanto, foram os pensamentos impróprios que ela não conseguia refrear. A idéia de querer vê-lo nu invadia sua mente a todo o momento, o que a ajudava a manter sua covardia sob controle. Perguntou-se, então, por que ele estaria tão bem vestido. Afinal, não tinha mencionado nada sobre alguma ocasião importante ou uma visita à corte do rei.
Espantou as inquietações despertadas por esse questionamento, sufocando a intuição aguçada, que sua família sempre a aconselhara a escutar. Podia haver vários motivos para que ele estivesse tão bem vestido. Até mesmo a vaidade seria uma justificativa. Alana não sabia por que, mas, lá no fundo de sua mente, uma voz continuava sussurrando que os trajes elegantes tinham a ver com uma mulher. Não deveria se surpreender com isso, pois, afinal, um homem como aquele não passava despercebido aos olhares femininos.
Estava concentrada, tentando conter os pensamentos perturbadores, quando notou que Gregor tinha parado e se ajoelhara. Sentou-se sobre os calcanhares e percebeu que ele tentava abrir um pesado tampão de madeira que havia sobre eles. Quando ele conseguiu abri-lo, terra e folhas começaram a cair. Removeu rapidamente a lamparina do que imaginou que seria uma avalanche de sujeira, e viu que Gregor se afastou com agilidade quando sua suspeita se confirmou. Mas, então, para sua tristeza, percebeu que não havia luz do lado de fora. Pelo visto, a liberdade seria tão escura quanto a prisão. Tinha esperado encontrar, no mínimo, a luz do luar. Aguardou, tensa, enquanto ele espiava com cautela, colocando a cabeça para fora, pela abertura.
— Onde saímos? — ela sussurrou.
— Do lado de fora da fortaleza, mas a poucos metros do muro — ele respondeu ao abaixar-se para apanhar a lamparina. — Estamos a uns dez metros de uma floresta. Podemos engatinhar ou correr para lá. Você escolhe.
— O que acha mais seguro?
— Que tal um pouco de cada?
— Vá à frente.
Quando chegaram ao abrigo da floresta, Alana finalmente foi tomada pelo cansaço e pela dor. Não esperava que percorrer uma distância tão curta pudesse ser tão penoso. Quando sentiu a primeira gota de chuva em seu rosto, quase deixou escapar uma imprecação.
— E agora? — perguntou, olhando para o céu.
— Vamos correr — Gregor respondeu.
— Por quanto tempo?
— Até não suportarmos mais. Então faremos uma pausa para descansar e em seguida correremos novamente.
— Que animador.
Por que tinha imaginado que, ao sair do buraco onde fora jogada pelos Gowan, ficaria seca e aquecida?, Alana se perguntou enquanto tentava acompanhar os passos de Gregor. Estava simplesmente exausta, molhada e com frio. Já amanhecera fazia horas, e eles ainda estavam correndo. Gregor permitira algumas paradas para descanso e tinha alternado o ritmo da corrida, ora aumentando, ora diminuindo de intensidade. Alana sabia que era uma boa corredora, capaz de avançar com rapidez por um bom tempo, mas temia ter ultrapassado os próprios limites havia quilômetros.
A umidade da chuva começava a penetrar em seus ossos, juntando-se com a friagem acumulada nos dias passados na prisão. O corpo doía de frio e cansaço. Tudo o que desejava era se recostar em algum lugar quente e seco e permanecer lá por um ou dois dias, talvez até mesmo uma semana. Nesse instante, ocorreu-lhe que nem sabia para onde estavam correndo. Porém, quanto mais se distanciassem dos Gowan, melhor seria. Assim que possível, retomaria a busca por Keira.
Quando Gregor parou para tomar água do odre de couro que carregava, Alana cambaleou. No minuto seguinte, sentiu ás pernas cedendo sob seu corpo. Estava cansada demais até mesmo para praguejar quando desabou no solo enlameado e frio. Apesar de saber que não era sensato sentar-se e que precisavam prosseguir, ela não conseguia reunir forças para se levantar. Logo, todo o seu corpo começou a tremer e o estômago roncou de fome. Aos poucos, o mundo parecia estar sendo encoberto por uma névoa tênue.
Gregor resmungou algo e se ajoelhou ao lado dela. Passando um braço sob as costas estreitas, ergueu-a da lama. A maneira como a cabeça pendeu para trás e o corpo ficou inerte indicou que ela estava inconsciente. Enquanto lhe removia a lama do rosto, ele praguejava. A pele delicada sob seus dedos estava quente, apesar da chuva gelada que caía.
— Pobrezinha, está febril — ele murmurou. — Levei-a à exaustão.
Pegou-a no colo e acomodou-a sob uma árvore, onde o solo estava menos enlameado. Com o próprio xale, fez um suporte para que pudesse carregá-la na parte da frente de seu corpo e ainda ficasse com as mãos e braços livres. Após algumas tentativas, finalmente conseguiu acomodá-la contra o peito, de modo que as pernas dela ficassem para os lados e não atrapalhassem seus passos.
O destino sorriu para ele uma hora depois, quando encontrou uma pequena cabana de pedra. Ao perceber que ninguém respondeu às batidas à porta, ele a abriu, com cautela. Olhou ao redor e constatou que não havia nenhum sinal de vida. A cabana parecia firme e o teto estava intacto. Apossou-se rapidamente do abrigo abandonado. Colocou Alana no chão e, com uns pedaços de turfa que sempre carregava consigo, acendeu uma fogueira. Em breve precisaria arrumar lenha para alimentar o fogo, mas primeiro era preciso secar Alana e aquecê-la.
Agradeceu a Deus por ter dois cobertores extras nos Hacos que carregava. Começou a remover as vestes úmidas da companheira e rezou para que ela continuasse inconsciente até que terminasse de despi-la, pois tinha certeza de que não gostaria nada da idéia.
Primeiro tirou as botas e as meias, e esfregou-lhe as pernas com vigor, para que o sangue voltasse a circular normalmente. Observando-a, sentiu-se ainda mais convicto de que aquele corpo não pertencia a uma criança.
Praguejou ao terminar de remover o casaco e o vestido. As roupas íntimas estavam tão úmidas quanto as demais. Deu-se conta, então, de que não tinha escolha, a não ser continuar despindo-a. Logo percebeu que havia várias camadas de bandagens de linho enroladas em torno de seu peito. Como aquele tecido também estava úmido, ele sacou o punhal e cortou-o.
Seios pequenos e arredondados se revelaram ante seu olhar apreciativo, despertando-lhe a vontade de provar o sabor daqueles mamilos tentadores. Aplacou o desejo que o aquecia enquanto terminava de remover as últimas peças de roupa. A essa altura, já sabia que estava prestes a se deparar com a intimidade de uma mulher feita, mas, mesmo assim, a visão do corpo nu o surpreendeu. Alana era maravilhosa. As pernas firmes e esguias, os quadris levemente arredondados e o ventre liso e macio. Entre as belas coxas, havia uma pequena elevação encoberta de pêlos castanho-avermelhados. Ela era a perfeição em pessoa, ele concluiu.
Percebeu que estava ofegante. Envergonhado por se portar como um animal no cio, rapidamente terminou de enxugá-la. A seguir, buscou entre os pertences dela uma muda de roupa limpa, e cobriu-a dos pés à cabeça com o cobertor seco.
Resolveu, então, examinar as mãos enfaixadas. Ao remover as bandagens, resmungou imprecações diante da situação de penúria dos dedinhos delicados. Usando um pouco da água do odre, limpou com cuidado os ferimentos até remover toda a sujeira e decidiu que o melhor seria deixá-los livres das ataduras por enquanto. Preocupado, ansiava que a febre que a acometia cedesse.
Levantou-se para inspecionar a cabana com mais atenção. Levou apenas alguns segundos para concluir que o local tinha sido usado havia poucos dias, pois encontrou um pouco de turfa e lenha em uma caixa próxima à lareira. Aparentemente, não fazia muito tempo que tinham sido colocadas ali. Depois de reforçar a fogueira, puxou um banco de madeira para mais perto do fogo e estendeu as roupas úmidas de Alana para secar. Em seguida, retomou a exploração do local.
O fato de possuir uma porta de madeira de boa qualidade deveria ter servido para alertá-lo de que não se tratava de uma simples cabana, concluiu. Ao abrir uma das três venezianas de madeira de lei, deparou-se com uma vidraça, um luxo para uma cabana como aquela. Os colchões das camas estavam recheados com palha e eram grossos, firmes e limpos. Um homem pobre teria levado embora um colchão tão bom. Talvez fosse um ponto de parada usado por algum lorde em viagem. Ou quem sabe um local para o tal nobre se divertir com as amantes, longe dos olhos da esposa.
Sacudindo os cabelos molhados, trocou suas roupas úmidas por outras secas. Depois de ajeitar mais um banco defronte da lareira, estendeu as próprias roupas para secar também. Quando sonhara encontrar um abrigo para eles, não havia imaginado algo tão fino. Definitivamente, a sorte estava começando a sorrir para ele outra vez.
Ao entrar no segundo cômodo, nos fundos da cabana, viu-se dentro de uma pequena cozinha. Quem quer que tivesse vivido ali deixara poucas coisas para trás, porém muito úteis. Ficou impressionado ao perceber que a lareira da sala tinha dois lados, e o que ficava na cozinha fora construído para ser usado como fogão. Ali também havia uma provisão de madeira e turfa.
Abrindo a porta dos fundos, viu o quintal, onde havia um poço providencial. Sem querer se molhar novamente, colocou um balde do lado de fora para obter água da chuva. Ela seria suficiente até que pudesse ir ao poço sem se ensopar.
Quando estava começando a fechar a porta, um animal entrou na cabana correndo e seguiu em direção à sala. O bicho se moveu com tanta rapidez que Gregor não conseguiu identificá-lo. Com a faca em punho, entrou na sala e parou ao ver a criatura encolhida perto do fogo. O fato de o animal saber exatamente onde estava o calor já era motivo suficiente para crer que ele conhecia bem o ambiente. Era um gato que, mesmo molhado, sujo e assustado, não se moveu quando Gregor se aproximou com cautela.
Levou certo tempo, mas o bichano finalmente permitiu que ele enxugasse seu pêlo com um pano seco. Por um momento, imaginou que o ingrato estivesse rosnando, mas logo constatou que o som rouco não era uma ameaça, e sim um ronronar de pura satisfação.
Colocou um pouco de água para o bichano em uma tigelinha de madeira e cortou um pedaço de carne que trouxera consigo da prisão.
— Tem sorte de eu gostar de gatos. Você até que fez um bom trabalho por aqui, livrando o local dos ratos. Agora merece uma refeição decente — disse, sentando-se perto de Alana. — Que dia triste em que me vejo obrigado a conversar com um gato — murmurou, sem-graça.
O felino fitava-o com seus grandes olhos amarelados.
Gregor meneou a cabeça e voltou a atenção para Alana. Passou a mão na testa e nas faces macias, e então franziu o cenho. Ela ainda estava com febre, e a temperatura era alta. Disse a si mesmo que o nó que o incomodava na garganta era proveniente de uma preocupação natural com uma moça que estava morrendo e que tinha sido uma boa amiga e companheira.
Decidiu trazer um dos colchões do quarto para perto da lareira. Quando removeu o cobertor de Alana para forrar o colchão, observou-a por um breve instante.
— Ela é uma moça pequena e bonita, gato — sussurrou ao acomodá-la sobre o colchão e colocar o outro cobertor sobre ela. — Miúda o suficiente para se passar por uma criança. Só não entendo por que ela não confiou em mim para contar a verdade.
Pelo olhar de desgosto que o bichano lançou-lhe, Gregor imaginou tratar-se de uma fêmea.
— Não devo me supreender se eu também estiver com febre. Achar que você sabe do que estou falando só pode ser sinal de que estou delirando.
Lembrando-se de algo que já vira ser feito para alguém com febre, Gregor apanhou o balde com água da chuva e rasgou em tiras o vestido que vira entre os pertences de Alana. Desejando saber mais a respeito do assunto, começou a banhá-la, na esperança de conter a febre.
— Artan? — ela sussurrou de repente.
Gregor surpreendeu-se, tanto por ouvir a voz dela, quanto por sentir-se estranhamente aborrecido ao escutá-la pronunciar o nome de outro homem. Fitou os olhos febris.
— Não, sou eu; Gregor.
— Quando os Gowan permitiram que tivéssemos luz na cela?
— Não estamos mais na prisão. Conseguimos escapar, lembra-se?
Por um momento, ela contraiu os olhos e observou ao redor.
— Ah, sim. Escapamos. Conseguimos nos afastar o bastante?
— O suficiente por enquanto, e acho que este é um bom lugar para nos esconder.
— Ah, é bom ouvir isso, estou muito cansada.
— Quem é Artan?
— Meu irmão. Por um momento, pensei que fosse ele. Bobagem, ele nem sabia que eu o estava seguindo.
— Por que o seguia?
Apesar de Alana ter fechado os olhos, Gregor esperou a resposta. Suspirou após alguns minutos de silêncio. Pelo visto, ela adormecera novamente. Apesar de saber que era melhor assim, ficou desapontado por ter perdido uma chance de obter algumas respostas para as muitas perguntas que o incomodavam.
Quando terminou de lavá-la, Gregor arrumou algo para comer. Dividiu metade da pouca comida com o gato e decidiu que tinha mesmo um coração muito mole. Depois disso, retomou o lugar ao lado de Alana.
Ele nunca se sentira tão desalentado antes e odiava a sensação de impotência. A febre podia ser fatal, mas ele nem mesmo sabia diferenciar se aquela era desse tipo ou se não passava de uma reação natural do organismo exausto, afetado pelo frio e pela umidade. Mesmo que conseguisse encontrar algumas ervas, não fazia a menor idéia de quais seriam benéficas.
— Acho melhor mandar buscar minha avó — Alana sussurrou. Ela estava delirando. — Não estou me sentindo muito bem.
— Não posso mandar chamar a sua avó. Nem mesmo sei quem é ela. — Mas Alana parecia assustada, e Gregor decidiu que o melhor seria concordar com tudo o que ela dissesse.
— Então, encontre a minha irmã Keira. Talvez as minhas primas, Gillyanne ou Elspeth. Realmente não estou me sentindo bem e elas saberão o que fazer.
— Vou mandar chamá-las. Agora descanse. É tudo de que você precisa no momento.
— Sim. O sono é reparador, mas um dos chás que elas preparam poderia ajudar bastante.
Quando Alana se acalmou, Gregor esperou que ela adormecesse novamente. Um dos nomes que ela havia mencionado lhe era familiar, e ele franziu a testa. A esposa de seu irmão Ewan tinha uma cunhada chamada Gillyanne. Podia ser apenas uma coincidência, mas o fato era que não se tratava de um nome tão comum. E, caso se tratasse da mesma pessoa, Alana devia pertencer ao clã dos Murray. Mas por que uma moça da família Murray estaria viajando sozinha e disfarçada de menina?
Essa pergunta não teria uma resposta tão cedo, concluiu ao apanhar seu manto, que já estava seco. Deitando-se no colchão ao lado de Alana, colocou o manto sobre os dois e resolveu descansar um pouco. Algo que sabia a respeito de febre era que, com freqüência, piorava muito antes de melhorar. Havia uma boa chance de que não tivesse tempo para dormir nos próximos dias.
Gregor estremeceu e praguejou ao sentir o punho de Alana colidindo contra o seu queixo. Ela era bem mais forte do que aparentava, pensou, enquanto tentava impedi-la de acertá-lo de novo. Ele tinha conseguido dormir algumas horas antes que os delírios da febre mais uma vez a atormentassem. Depois de dois dias e duas noites naquela situação, Gregor estava cansado e assustado. Não gostava de ver uma pessoa morrendo, salvo seus inimigos, mas imaginá-la partindo provocava um vazio em seu peito que ele não conseguia entender.
— Preciso encontrar Keira — ela dizia, chorando.
— A sua irmã? — Gregor indagou, passando a mão por baixo das costas dela para erguê-la, a fim de que tomasse um pouco de água.
— Sim, minha irmã gêmea. Ela precisa de mim, mas não me deixam ir procurá-la.
— Ah, então foi por isso que saiu sozinha. — Ele se sentou próximo, mantendo o braço sob o corpo frágil e trazendo-o para perto de si.
— Sei que posso encontrá-la. Estou certo disso.
— Então há outra moça perdida pelo país? Uma igualzinha a você?
— Keira é linda, inteligente e dócil, e tem o verdadeiro dom da cura. Não passo de uma garota sem graça.
Ele fitou-a, surpreso, mas ela já tinha fechado os olhos.
— Você é muito bonita.
— Não, sou uma garota sem graça. Keira é bonita. Todos a amam, e não consigo encontrá-la.
— Nós a encontraremos. Assim que essa febre passar e você recuperar as forças, sairemos à procura da sua irmã.
Alana respondeu com um murmúrio apenas, disse algo sobre os irmãos não muito espertos, sobre o mau cheiro dos Gowan e, em seguida, dormiu profundamente. Gregor a acomodou com carinho sob o cobertor e ajeitou o manto de lã por cima. Ela só não estava mais pálida por causa das faces rosadas decorrentes da febre, os cabelos tinham adquirido um tom opaco, como se a alta temperatura tivesse roubado todo o brilho e a vida, e os lábios pareciam queimados do sol. Alana definitivamente não se mostrava nada bem, e, mesmo assim, ele a considerava uma bela mulher. Perguntava-se quem a convencera de que não passava de uma jovem sem graça. Queria saber também por que desejava encontrar a tal pessoa e dar-lhe uma surra até que pudesse enxergar com clareza todos os encantos de Alana.
Espantando os pensamentos, Gregor se preparou para sair em busca de comida. Era preciso conseguir algo para a companheira comer se quisesse mesmo ajudá-la a combater a maldita febre.
Não fosse pela doença que a acometera, ele poderia dizer que os dois haviam tido muita sorte. A armadilha que ele tinha preparado do lado de fora havia capturado um coelho, e, ao olhar com mais cuidado pelo quintal, acabou encontrando alguns vegetais e ervas que reconheceu como boas.
Quando estava terminando de comer, percebeu algo estranho em Alana. A pele branca parecia brilhar sob a luz da lareira. Pousou o prato sobre a mesa e rapidamente se aproximou para tocá-la na testa. Estava fria e molhada de suor. Ficou tão aliviado ao ver que a febre estava cedendo que quase gritou de alegria. Em seguida, foi apanhar um pouco de água e panos para limpá-la.
Assim que terminou de secá-la e acomodá-la sobre cobertores secos, encontrou-se possuído por um frenesi inesperado que o deixou confuso e incomodado. Apesar da opinião do irmão mais velho, Ewan, Gregor nunca tivera problemas para controlar seus desejos. O fato de Alana precisar de cuidados, estando doente e totalmente dependente, já deveria ter sido o suficiente para acalmar seus instintos básicos, o que não havia acontecido. Ele nunca se sentira tão tentado pela simples visão de um corpo feminino. Seria fácil jogar a culpa no fato de não ter se deitado com nenhuma mulher havia semanas, porém ele não conseguia se convencer disso. Algo em Alana fazia seu sangue ferver.
Precisava pensar nessa questão com muita seriedade, decidiu enquanto colocava a coberta para secar sobre o banco próximo ao fogo. Desde o momento em que conhecera Alana, suas dúvidas com relação ao casamento com Mavis só tinham aumentado. Sabia que a possibilidade de Alana ser uma menina tinha, em parte, contido seus desejos, mas, assim que removera as faixas que escondiam sua feminilidade, tudo fora por água abaixo.
Deitou-se ao lado dela, fazendo uma careta ao senti-la se aconchegar a ele. Na prisão, quando tinham compartilhado a mesma cama, Alana estava vestida e ele ainda achava que ela poderia ser uma menina. Mas agora estava nua, e ele tinha plena consciência de todas as curvas macias daquele belo corpo de mulher. Sentia uma mistura de necessidade e desejo que parecia se apoderar de cada parte de seu corpo.
No passado, ele simplesmente a teria seduzido, saciado sua luxúria e virado as costas. No entanto, não poderia agir dessa forma com ela. Alana poderia ser uma Murray, moça bem-nascida com um exército de familiares pronto para se vingar de qualquer um que ousasse insultá-la. E, mais dó que isso, ela significava algo para ele, apesar de não saber exatamente o que ou a profundidade desse sentimento. A inquietante sensação de que, se fizesse amor com ela, talvez não fosse capaz de lhe virar as costas nunca mais de alguma maneira estava refreando a vontade de possuí-la.
Ele tinha de tomar algumas decisões muito sérias. Porém, estava cansado demais no momento. Quando estivesse com os pensamentos mais claros, e menos incitado pelo desejo, cuidaria disso. Precisava esclarecer algumas coisas também, refletiu, ao fechar os olhos.
Tais como quem de fato era aquela mulher, por que estava vagando sozinha, o que tinha acontecido com a irmã e, talvez o mais importante, seja estava comprometida com alguém. A idéia de que Alana pudesse estar noiva de outro fez Gregor estremecer, e ele se apressou a afugentar tal pensamento. Sim, era preciso tomar algumas decisões, e, assim que ela despertasse e estivesse em sã consciência, ele poderia ter as respostas pelas quais tanto ansiava.
Havia um corcunda dormindo ao seu lado. Alana fechou de novo os olhos e abriu-os lentamente em seguida. Ele ainda estava lá. Quando a corcunda nas costas se moveu, ela quase pulou da cama de susto. Só não o fez porque ainda se sentia muito fraca para executar movimentos bruscos.
O homem que dormia ao seu lado tinha cabelos longos, negros e brilhantes. O cheiro dele era familiar, assim como o peso do braço sobre a sua cintura e o som da respiração. Só podia ser Gregor, concluiu e sorriu, aliviada.
Mas então arqueou as sobracelhas. Ninguém podia ficar corcunda em apenas um ou dois dias. Portanto, o que seria aquela estranha elevação nas costas dele? Com cuidado, ergueu a coberta, deparando-se com um gato cinzento que, acomodado junto às costas de Gregor, a encarava.
Além do bichano, logo descobriu outro detalhe que a fez corar. Ela estava completamente nua. Mais que depressa, abaixou a coberta, resistindo à tentação de verificar se Gregor também estava nu e, em seguida, puxou-a até o pescoço. Um movimento ao seu lado chamou sua atenção. Quando virou a cabeça lentamente, viu os belos olhos azuis e corou ainda mais.
— Estou nua — ela sussurrou.
— Sim.
— Por quê?
— Porque estava molhada quando começou a ter febre e imaginei que não seria uma boa idéia deixá-la dormir com as roupas úmidas. O outro vestido também não estava seco, e tive que rasgar o terceiro, pois precisava de panos limpos para lavá-la. — Era espantoso ver como o rubor de Alana ia se intensificando a cada palavra.
— Tive febre? — ela perguntou e, no mesmo instante, começou a se lembrar de várias coisas que imaginara terem sido parte de um sonho estranho. — Há quantos dias estamos aqui?
— Quase três.
Ela olhou para as próprias mãos, ainda segurando firme a coberta, e notou que as bandagens tinham sido removidas e os ferimentos estavam quase cicatrizados. Era embaraçoso saber que Gregor havia cuidado dela durante quase três dias. Agora se lembrava da sensação dos panos frios sobre a pele, acalmando o calor que a assolava. Provavelmente outros momentos de mais intimidade tinham acontecido entre eles. Mesmo assim, tudo em que pensava era que ele agora sabia que não era uma criança. Seus seios podiam até não ser muito grandes, mas decerto não haviam passado despercebidos quando as faixas tinham sido removidas.
Gregor sabia que ela tinha mentido. Talvez "mentira" fosse uma palavra muito forte. Quem sabe fosse melhor substituí-la por "omissão". Praguejou em pensamento. A verdade era que havia mentido, o que indicava falta de confiança nele, apesar de não senti-la de fato.
Voltou o olhar para Gregor e percebeu que ele a observava, atento e com um leve sorriso no canto esquerdo da boca. Alana imaginou se não poderiam simplesmente se esquecer do detalhe da mentira e falar de coisas mais interessantes.
— Há um gato nas suas costas — disse e, só pela expressão de Gregor, percebeu que ele sabia qual era o seu jogo, e que não funcionaria.
— Sei disso — ele falou, arrastando as palavras.
— De onde ele veio?
— O antigo morador obviamente resolveu abandonar o pobre animal. Quantos anos tem, Alana?
A pergunta a pegou tão de surpresa que ela respondeu sem hesitar:
— Vinte e dois.
Movendo-se com cuidado para que o bichano saísse de suas costas, Gregor se deitou de forma a encará-la.
— Por que está à procura da sua irmã?
— Como sabe disso?
— Você me contou.
Pelo visto, ela havia falado bastante durante os delírios provocados pela febre, Alana concluiu, fazendo uma careta. Era evidente também que revelara o suficiente e seria bobagem tentar esconder seus segredos. Uma vez que tinham se unido para fugir dos Gowan, era melhor que ele soubesse de toda a verdade.
— Sim, estou à procura de Keira, minha irmã gêmea — ela afirmou. — Há meses ficamos sabendo que o marido dela, o lorde de Ardgleann, fora assassinado e, desde então, não tivemos mais noticias. Bem, nada além de rumores. Meu cunhado foi cruelmente assassinado, suas terras foram tomadas por um homem vil, e não sabemos ao certo se minha irmã foi ferida, se fugiu, morreu ou é prisioneira.
— Ninguém do seu povo foi até lá para verificar?
— Foram dois dos nossos. Quando o primeiro não retornou, outro foi enviado. Este voltou, mas viveu apenas o suficiente para nos contar que Keira não era prisioneira, que havia rumores de que ela tinha sido ferida, mas conseguira escapar, e que o maldito realmente tomara posse das terras.
— Então, saiu à procura da sua irmã? — Gregor se levantou antes de ceder ao imenso desejo de tomá-la nos braços.
Alana o fitava. Ele estava apenas de ceroulas. Quando se espreguiçou, ela observou os músculos das costas largas e das pernas longas, e teve a nítida sensação de estar com febre novamente. Para sua infelicidade, ele começou a se vestir. Era praticamente um pecado cobrir aquele belo corpo. Ela afastou os pensamentos lascivos e tentou voltar a se concentrar na questão de Keira.
— Meus irmãos, Artan e Lucas, decidiram sair em busca de Keira. Pedi para ir com eles. Afinal, ela é minha irmã gêmea. E sei que ela gostaria que eu ficasse a seu lado, especialmente se estivesse ferida. Mas ninguém deu atenção ao meu pedido. Por isso, fugi e os segui, com intenção de me juntar a eles quando estivéssemos distantes o suficiente de casa para que não pudessem me mandar de volta.
Essa não era toda a verdade, e ela se sentia um pouco culpada. Mas precisava ter cautela. As pessoas costumavam se apegar a muitas superstições a respeito de irmãos gêmeos. As crendices eram tão fortes que algumas famílias chegavam a deixar um dos bebês morrer ou até mesmo o matavam na hora do nascimento. E saber da intensa ligação que podia haver entre gêmeos apenas fortalecia os medos irracionais. Apesar de Gregor não aparentar ser do tipo que dava importância a essas bobagens, Alana precisou admitir que tinha receio de testá-lo.
Ele acendeu o fogo e colocou o cozido para esquentar.
— Você acabou perdendo o rastro dos seus irmãos?
— Sim, apesar de acreditar que eu os teria encontrado caso não tivesse sido capturada pelos Gowan.
— Considerando-se o perigo para o qual estavam rumando, não acha natural que não quisessem levá-la?
Ele se virará para fitá-la com um olhar machista, insinuando que Alana se comportara como uma tola, guiada pela emoção e não pelo bom senso. Contraiu os lábios, aborrecida, mas respirou fundo, tentando se acalmar. Aquele não era um bom momento para iniciar uma discussão.
— Keira está em apuros. E meu dever estar ao lado da minha irmã.
Apesar de entender os motivos de Alana, Gregor ainda achava que ela havia sido impulsiva e tinha a sensação de que ela pensava o mesmo, o que provavelmente nunca admitiria. De qualquer maneira, não havia nada a ganhar, discutindo a questão. Ele estava mais interessado em descobrir quem ela era e o que planejava fazer agora que escapara dos Gowan.
— Consegue se vestir sozinha? — perguntou, decidido a deixar para depois da refeição as outras perguntas que ainda queria fazer.
— Sim.
Ele lhe estendeu as roupas e saiu da cabana. Agora que ela havia recuperado a consciência seria preciso ter mais consideração para com a privacidade feminina. Assim como teria de encontrar forças para conter o desejo ardente que não o deixava em paz.
Quando Alana conseguiu terminar de vestir as roupas de baixo, trançar os cabelos e se levantar, estava tão fraca que até tremia. A febre, obviamente, tinha sugado suas forças. Ainda levaria alguns dias para que pudessem deixar a cabana, e isso a preocupou. Decerto estavam sendo procurados, e esse santuário poderia se tornar uma armadilha. E, por mais estúpidos que os Gowan fossem, duvidava que lhes dariam outra chance de fuga, caso fossem recapturados.
Estremeceu ao pensar em voltar àquele lugar escuro. Sentiu-vergonha de si mesma, mas sua primeira preocupação ao considerar a possibilidade de ser feita prisioneira de novo não era com a irmã, e sim com a sua própria sanidade. Esperava que seu corpo reagisse como sempre fizera e que logo recuperasse as forças. Estava ansiosa para sair do alcance dos Gowan o quanto antes.
Gregor retornou no exato momento em que ela apanhava o restante das roupas. Ela corou, mas não recusou a oferta de ajuda quando ele se aproximou. Apesar do embaraço, ainda não se sentia firme o suficiente, e o orgulho não iria ajudá-la a terminar de se vestir.
— Consegue esperar um pouco? — ele perguntou. — Vou arrumar a cama.
— Sim. — Recostou-se à parede. — Se eu não agüentar, simplesmente deslizarei até sentar no chão.
Ele riu, mas se apressou para ajeitar tudo o mais rápido possível. Quando se aproximou de Alana, ela já estava prestes a cair. Gregor a amparou e carregou-a até o leito.
— A febre me deixou muito fraca — ela murmurou, sentada, as costas contra a parede e o cobertor sobre as pernas.
— Foram muitos dias de febre alta — ele disse, enquanto apanhava um pouco do cozido de coelho para ela. — Coma. Se lhe cair bem, mais tarde poderá tentar se alimentar de algo mais consistente.
Alana saboreou o caldo quentinho. Não tinha o melhor dos sabores, mas no momento servia muito bem. A maioria dos homens sabia como se virar em um acampamento, e ela teve de admitir que Gregor obviamente fazia o possível para ajudá-la a se restabelecer. Era muita sorte, pois ele poderia simplesmente ter assado o coelho em um espeto e lhe dado um naco de carne para mastigar.
Apanhando o prato vazio, ele se sentou junto a ela na cama.
— Agora, talvez possa responder a algumas perguntas.
— Talvez — ela sussurrou. — Se você fizer o mesmo.
— Justo, mas eu começo. Quem é exatamente? Ela foi direto ao ponto:
— Sou Alana Murray, de Donncoill. E você, quem é?
— Gregor MacFingal Cameron.
— Dois sobrenomes?
— MacFingal é criação do meu pai, pois ele teve um desentendimento com nossos parentes do lado Cameron. Acho que já deve ter ouvido falar de alguns dos meus parentes. Meu irmão Ewan é casado com Fiona MacEnroy, irmã de Connor MacEnroy, o lorde de Deilcladach, casado com...
— A minha prima Gillyanne! — Alana o fitou, surpresa. — Você não parece muito admirado com a sucessão de coincidências.
— É que você falou um pouco sobre seus parentes em alguns momentos de delírio. Gillyanne é um dos nomes que mencionou, e é por isso que não estou tão surpreso.
Ela tentou imaginar o que mais teria falado, porém resistiu à imensa vontade de perguntar. Se tivesse dito algo embaraçoso e revelador, logo saberia. Já havia estado com várias pessoas febris para saber que aquele que cuidava acabava se tornando um confidente involuntário. Como o seu maior segredo era a atração que sentia por Gregor, rezou para que não a houvesse mencionado.
— Acho que o destino nos pregou uma peça — Alana declarou.
— O destino, a sorte e algumas decisões impensadas. Você não deveria ter seguido seus irmãos, e eu não deveria ter viajado sozinho.
— Por que o fazia?
Gregor não estava com vontade de responder a essa pergunta no momento. Decidiu que não diria toda a verdade.
— Os únicos acompanhantes que consegui eram homens com quem não me dou muito bem. Uma vez que não havia rumores de confusão nas terras para as quais me dirigia, achei que viajar sozinho não seria um problema.
A maneira como Gregor desviou o olhar ao responder fez Alana questionar se ele estava mesmo dizendo a verdade. A princípio, aborreceu-se um pouco, achando que ele não confiava nela, mas então concluiu que estava sendo hipócrita. Afinal, ela também não estava dizendo toda a verdade. Ele podia simplesmente estar escondendo que voltava de algum encontro amoroso. E, uma vez que ela não queria saber se ele tinha ou não uma mulher em sua vida, ainda que fosse um casinho passageiro, era melhor não insistir no assunto.
― Por que estava disfarçada de criança?
— Pensei que seria mais seguro. Nem quero imaginar o que os Gowan poderiam ter feito se tivessem descoberto que não sou uma garotinha.
— Estou surpreso que seus parentes não tenham saído atrás de você.
— Ah, bem, eles vieram, mas eu os despistei. Acho que não persistiram muito, pois devem ter encontrado a mensagem que deixei, explicando exatamente o que eu pretendia fazer.
— No entanto, acabou se perdendo dos seus irmãos.
— Sim.
— Onde acha que sua irmã se encontra?
— Não tenho idéia. Tudo o que sei é que ela não está morta e precisa de ajuda.
— Então, devemos procurá-la, e também a seus irmãos. Parece que todos os que passaram por Ardgleann tiveram problemas. Agora que começou sua busca é melhor que a termine, mas não sozinha. Só me diga se há algum marido ou noivo à sua procura. Não desejo me meter nesse tipo de encrenca. — Ele odiava imaginá-la nos braços de qualquer outro homem.
— Oh, não. Nem marido, nem noivo.
Ainda não, ela pensou. O pai estava disposto a arrumar um marido para ela. Entretanto, até o dia da fuga de Donncoill, nada havia sido acertado. De uma coisa Alana tinha certeza. Seja lá qual fosse a escolha do pai, ele não iria resolver nada sem a aprovação da filha. As coisas podiam ser diferentes para as outras mulheres, mas no clã dos Murray elas tinham permissão para escolher o esposo. Uma vez que não dissera sim a ninguém, não havia motivos para mencionar esse detalhe a Gregor. De qualquer maneira, não queria que ele soubesse que o pai dela estava à procura do tal pretendente simplesmente porque nenhum homem até então se interessara por ela.
— Foi difícil para mim quando Keira se casou e mudou para Ardgleann — disse Alana, percebendo que ainda sentia dor pela perda. — Foi duro para ela também, mas, como a maioria das mulheres, ela queria ter o próprio lar e filhos. Donaid MacKail parecia ser um bom homem, embora as poucas cartas enviadas por ela não indicassem que estava realmente feliz. Na última mensagem que escrevi, pedia permissão para ir visitá-la. Assim, eu poderia ver o que estava acontecendo. Não tenho certeza se Keira a recebeu, pois logo depois ficamos sabendo que um homem chamado Rauf Mowbray tinha tomado Ardgleann, Donaid estava morto e Keira desaparecera. Para mim, ela tinha fugido de lá e estava voltando para nós. Porém, em seguida, chegaram outros rumores, ainda mais sombrios sobre as maldades de Mowbray e a gravidade dos ferimentos de minha irmã.
— Foi então que Artan e Lucas resolveram ir atrás de Keira? Ninguém pensou em levar um exército para Ardgleann?
— É claro que sim, mas ficou decidido que era melhor descobrirmos o verdadeiro destino de minha irmã antes de iniciar um confronto e colocar a vida dela em risco, caso ainda estivesse naquelas terras.
— Será difícil encontrá-la, especialmente se estiver se escondendo de Mowbray. Também ouvi coisas terríveis sobre esse homem. Sua gente está certa ao pensar que ele seria capaz de matá-la se houvesse um confronto ou caso se sentisse ameaçado. Se metade do que dizem é verdade, ele é um fora-da-lei cruel. Assim como seus seguidores. — Gregor pousou a mão sobre o ombro de Alana ao senti-la estremecer. — Um homem declarado fora-da-lei pela Coroa carrega a morte sobre os ombros. Como sabe que está marcado para morrer, sai cometendo crimes sem se importar. O fato de Mowbray andar na impunidade mostra que ele não é um homem fácil de ser capturado nem derrotado.
— E agora ele tem uma fortaleza.
— Sim. Seus parentes agem com esperteza ao tentar descobrir a real situação de sua irmã, de Ardgleann e de Mowbray, antes de tomar uma atitude mais drástica.
— Sei disso, mas mesmo assim não é nada fácil esperar.
Quando Alana tentou disfarçar um bocejo, Gregor sorriu e se levantou da cama. Era melhor impor certa distância entre ambos. Agora que ele tinha visto a beleza que havia por baixo das roupas femininas, a necessidade de fazer amor com ela dominava seus pensamentos. Por várias vezes, ao banhá-la quando tivera febre, fora quase impossível ignorar a atração que sentia por aquele corpo macio. Agora, obrigava-se a se lembrar de que ela se recuperava, ainda estava fraca, e a última coisa de que precisava por perto era um tolo cheio de desejo.
— Descanse — ele falou.
Ainda ajeitava o cobertor sobre o corpo de Alana quando ela adormeceu. Meneou a cabeça ao ver o gato subindo na cama e se acomodando junto a ela. Gato de sorte, pensou. Gregor gostaria de estar lá, com os braços em torno do corpinho delgado depois de terem feito amor.
Era hora de sair para caçar, concluiu, pois seu corpo ardia de um desejo quase incontrolável. Talvez nem conseguisse apanhar nada, mas precisava se afastar de Alana e limpar a mente para tomar uma decisão.
Agora estava certa de que não poderia se casar com Mavis, apesar do dote atrativo. Ela merecia um marido melhor, que se entregasse de corpo e alma ao casamento. Gregor ainda não sabia se Alana era sua alma gêmea, porém Mavis certamente não era. O violento desejo que sentia por Alana constituía prova suficiente. Ele nunca experimentara nada parecido por Mavis e duvidava que um dia viesse a sentir. Assim que retornasse a Scarglas, enviaria uma carta ao pai dela, explicando que não haveria mais noivado. Para ela, mandaria uma de caráter pessoal, colocando os fatos de maneira gentil e honesta.
Contudo, ainda tinha dúvidas sobre como proceder com relação a Alana. Era uma mulher desimpedida de vinte e dois anos e estava mais do que pronta para ser cortejada. Porém, ele não confiava em seus talentos de galanteador. Com Mavis, ele não tivera muito trabalho, uma vez que o pai dela havia tomado a frente de tudo. Jamais se preocupara em seduzir as mulheres, pois nunca tinha se apaixonado. No entanto, com Alana era diferente. Precisaria pensar em algo totalmente novo, que pudesse ajudá-lo a descobrir se ela era mesmo a alma gêmea que havia tanto tempo buscava, mas sem dar-lhe falsas esperanças, caso descobrisse que se enganara. Para colocar seu plano em prática, teria de seduzi-la, pois de uma coisa estava certo: não pretendia voltar a Scarglas sem provar o gostinho de Alana Murray. De preferência, mais de uma vez.
Um pequeno punho cerrado acertou Gregor. Praguejando, ele se virou para conter Alana, que murmurava e se debatia, segurando suas mãos e deitando-se sobre ela. Por um momento, imaginou que a febre tivesse voltado, apesar da melhora dos últimos três dias. No entanto, ela não estava quente, ao contrário dele, que se sentia fervendo por dentro com aquela proximidade.
— Keira! —Alana gritou, tentando se livrar de seus braços.
— Calma, calma — ele disse. — Foi só um sonho.
— Ela está em perigo! Precisa de mim.
— Tudo não passou de um pesadelo. Calma.
Qualquer que tivesse sido o sonho, deixara-a muito assustada. Ele lhe deu alguns beijinhos no rosto, murmurando palavras de consolo, numa tentativa de acalmá-la.
Alana tinha gosto de quero mais, e sua pele era doce e macia. Mas, apenas quando a beijou nos lábios, percebeu que ela finalmente se tranqüilizava. Ele abriu os olhos e se deparou com uma fisionomia que expressava espanto e desejo ao mesmo tempo.
Ao sentir o toque suave da boca de Gregor na sua, ela despertou de um pesadelo assustador com Keira. Senti-lo sobre si lhe aqueceu os pensamentos, tornando-os um tanto impróprios. Sabia que o que havia provocado aquela reação em certa parte do corpo de Gregor, que ele pressionava com firmeza contra ela, não se relacionava a algum sonho que ele pudesse ter tido ou com uma reação involuntária de seu corpo. Os beijos que ela sentira em seu rosto comprovavam isso, assim como explicavam por que seu pesadelo se transformara em algo bastante sensual. Keira e o homem que a ameaçava tinham desaparecido, substituídos por imagens dela e de Gregor, nus e abraçados.
As cenas continuavam vividas em sua mente e demorariam a desaparecer. Agora a boca que a havia beijado estava a apenas alguns centímetros de distância. Ela sabia que deveria empurrá-lo, mas algo a impedia de tomar uma atitude decente. Apesar de não ser muito experiente no assunto, sentia que Gregor queria beijá-la outra vez e pretendia permitir. Certamente não fora apenas o sonho sensual que a deixara imóvel, esperando que ele pusesse em ação as intenções denunciadas por seu olhar. Fazia dias que sonhava ser beijada por aquele homem. Na expectativa de experimentar essas novas sensações, umedeceu os lábios.
Ao vê-la correr a língua pelos lábios carnudos, Gregor foi tomado por uma onda de desejo incontrolável. No fundo, suspeitava que ela fosse inocente demais para se dar conta do convite que acabara de fazer e que ele, por sua vez, pretendia aceitar. As chances de conseguir tudo o que queria eram mínimas, mas não desperdiçaria aquela oportunidade, esperando que não houvesse maiores conseqüências para seus atos.
Roçou a boca contra a dela, sentindo-a estremecer. Deslizando os dedos pelos cabelos sedosos, descobriu que aquele beijo doce e contido já não o satisfazia. Mordiscou de leve seu lábio inferior e, quando Alana ofegou, aproveitou para inserir a língua na boca delicada. Sentiu-a tensa, o que indicou que ela nunca tinha sido beijada daquela forma, e a idéia de ser o primeiro só serviu para aumentar ainda mais o desejo que o assolava.
Alana quase o empurrou quando sentiu a língua dele em sua boca, mas esse impulso logo passou. O modo como ele a explorava logo a levou a abraçá-lo, exigindo em silêncio cada vez mais. No minuto seguinte, seu corpo todo estava tomado pelo desejo. Não era tão inocente a ponto de não saber onde aqueles beijos poderiam levá-la, mas decidiu que esperaria mais um pouquinho para pôr um ponto final naquela situação.
Em seguida, Gregor tocou-a nos seios, e a carícia íntima enviou ondas de calor por todo o seu corpo. O que mais a chocou, contudo, foi que ela podia sentir o desejo dele como se fosse o seu. Apesar de já ter ouvido a avó e a tia Elspeth falarem sobre isso, nunca acreditara ser mesmo possível se sentir parte de alguém, como se os dois formassem uma só pessoa. Certamente nunca tinha imaginado que viveria essa experiência um dia. Alarmada com a estranheza de tudo, pousou as mãos sobre o peito largo, ignorando a sensação tentadora da pele macia sob seus dedos, e o empurrou.
Ele ficou tenso, antes de lentamente se apoiar nos antebraços, afastando-se um pouco dela. O rosto ruborizado, o olhar escurecido e a respiração acelerada revelavam o esforço de Gregor para conter seu desejo. Ela suspeitava que se encontrava na mesma condição, especialmente por experimentar também a força das sensações dele.
Se a avó e a tia estivessem certas, o homem que a fitava, com os cabelos longos roçando seu rosto, era a sua alma gêmea. Gregor MacFingal Cameron era seu companheiro. Porém, ela não tinha a mínima idéia do que fazer a respeito. O próximo passo poderia determinar todo o seu futuro, mas primeiro precisava pensar com seriedade sobre o assunto. Por mais tentador que fosse, em hipótese alguma poderia se deixar levar por um impulso. Todas as mulheres casadas de sua família costumavam contar que o amor que sentiam pelos respectivos maridos era algo que brotava do fundo da alma e Alana ainda não tinha tanta certeza se criaria coragem para experimentar algo tão arrebatador.
Gregor a encarava. Cada parte de seu corpo implorava que ignorasse a recusa manifestada pelas mãos que empurravam de leve seu peito. Lutou para subjugar aquele lado ávido. Alana tinha todo o direito de detê-lo. O que o consolava era o fato de que ela também o desejava intensamente.
Ainda era cedo, refletiu enquanto respirava fundo e tentava se recompor. Ela não deveria ser pressionada. Tratava-se de uma moça bem-nascida e inocente, conforme revelara o beijo inexperiente. Aquilo tudo era muito novo para ela, e se aproveitar disso a magoaria, em vez de fazer bem. Alana tinha de ser gentilmente seduzida e ensinada a deliciar-se com a própria paixão. Uma vez que nenhuma das mulheres que conhecera no passado havia precisado de nada disso, pois não eram inocentes, ele tinha dúvidas se saberia lidar com a nova situação. No entanto, com o sabor daquele beijo ainda na boca, ele estava mais do que disposto a aprender.
— Desculpe — ele murmurou ao sair de cima dela.
— Desculpá-lo? — Vendo a expressão de arrependimento no rosto dele, sentiu o peito apertar-se.
— Sim, perdi o controle. — Ele ousou beijar-lhe de leve a face. — Você é muito bonita e não resisti ao desejo de prová-la. Foi muito atrevimento de minha parte ter me aproveitado da sua fragilidade para roubar um beijo.
Alana respirou aliviada, espantando a dor incômoda causada pelo pedido de desculpas. Por uma fração de segundo, imaginara que Gregor tivesse simplesmente se virado na cama e a encontrado ao alcance das mãos, sem de fato saber quem ela era. O que poderia significar que as sensações que tanto a tinham alarmado não haviam passado de fruto da sua imaginação. Mesmo se assustando com a idéia de compartilhar os sentimentos dele de tal forma, teria ficado desapontada se percebesse estar totalmente enganada. O pedido de desculpas por ter tomado certas liberdades quando ela estava sonolenta era aceitável, apesar de achar que ele não parecia muito arrependido.
— Tive um pesadelo terrível — ela sussurrou, sem saber que comentário fazer sobre o beijo. Afinal, não estava arrependida por ter retribuído e tampouco queria afugentá-lo de vez, dizendo algo impróprio.
— Foi com a sua irmã?
Alana suspirou e ponderou se deveria pedir a ele que parasse de acariciar seus cabelos. Porém, resolveu reagir como se não houvesse nada de incomum no gesto, pois a sensação era boa e ela, no fundo, queria que ele continuasse.
— Sim. No meu sonho, Keira estava em perigo. Um homem a ameaçava. Havia tanta maldade no ar que era de arrepiar. — Alana franziu o cenho. — Outra pessoa tentava ajudá-la, uma jovem, mas o homem a empurrou com facilidade. Em seguida, ele segurou o pescoço de Keira e começou a apertá-lo. Senti o medo que minha irmã experimentava, até mesmo a falta de ar.
Gregor ficou espantado com o realismo do sonho. Não era um pesadelo maluco, com maus agouros, ou demônios advindos de temores internos, como os que costumavam assombrar a maioria das pessoas. Parecia mais uma visão de um episódio real, um presságio.
Então, de repente, ele se lembrou de algo que tinha ouvido falar a respeito dos Murray. Dizia-se que vários membros da família possuíam dons especiais. Além disso, Alana era gêmea, e havia alguns gêmeos no clã de Gregor capazes de sentir e saber o que o irmão pensava sem que uma palavra fosse dita.
Pelo jeito, ela não estava disposta a anunciar que possuía algum dom. Gregor não sabia se gostava da idéia. Esse tipo de coisa o inquietava, ainda que não acreditasse tratar-se de algo demoníaco, como muitos costumavam achar. Talvez essa fosse a razão da cautela de Alana. No entanto, não gostava quando ela guardava um segredo, demonstrando não confiar plenamente nele.
— Teve um sonho muito claro — ele disse. — Parece mais uma visão.
Ela empalideceu e o olhou, preocupada, revelando-lhe que estava certo.
— Foi apenas um sonho.
— Você mente muito mal. Ouvi falar dos Murray e do dom que alguns dos membros do clã possuem. Não precisa tentar esconder isso de mim.
— Keira é a abençoada pelo dom. Ela tem o poder de curar as pessoas. Eu apenas partilho de uma ligação muito forte com ela.
— Foi por causa de um pesadelo como esse que se arriscou, seguindo o rastro dos seus irmãos?
Alana respirou fundo, fechou os olhos por um momento e então fitou-o novamente. Ele não aceitaria respostas evasivas. Ela falara sobre o sonho com preocupação e agora não tinha como retirar as palavras ditas. Realmente havia uma imensa possibilidade de Gillyanne ter mencionado os muitos dons dos Murray, que se difundiam mais do que seria desejado, tendo em vista as perigosas superstições que as pessoas costumavam associar a eles. Alana não via nenhum sinal de aborrecimento em Gregor, mas sentia que ele estava incomodado. Tratava-se de um comportamento aceitável, pois ela também sé sentia um pouco inquieta com essas coisas. Resolveu contar toda a verdade:
— Sim, temos um dom. — Ela não sabia ao certo por que ele tinha nos lábios aquele sorriso tão belo, mas, de qualquer forma, sentiu-se impelida a retribuí-lo. — Não foi surpresa para mim quando recebemos a notícia de que Keira estava ferida e que havia fugido. Eu já sonhara com isso. Na primeira vez, um homem bruto e arrogante queria feri-la.
— E desta vez?
— A mesma maldade ainda estava lá, mas vi certo desespero nele também. A ira por ter sido derrotado, se é que isso faz algum sentindo.
— Sim. A derrota pode enfurecer um homem. Gregor percebeu que sua inquietação tinha passado. Naquele instante, estava intrigado. Alana ainda falava como se tivesse sonhado, mas tudo não passara de uma visão, e ambos sabiam disso. Estava surpreso por ela ter admitido a verdade, e percebeu que tal fato tinha a ver com confiança. Ao revelar um segredo tão íntimo e perigoso, ela demonstrara acreditar que Gregor não se afastaria nem a trairia. Ser presenteado com uma atitude assim era uma alegria para qualquer um.
— O outro homem não estava no sonho desta vez — ela prosseguiu.
— Que outro homem?
— O homem bonito que também foi ferido. Primeiro sonhei que Keira tinha sido ferida, depois tive outro sonho. Neste o homem bonito estava muito ferido e minha irmã cuidava dele. Ambos fugiram juntos — murmurou e franziu a testa, ainda intrigada com o significado.
Gregor ficou aborrecido ao ouvi-la se referir a outro homem como belo.
— Pode descrevê-lo?
Ela se esforçou para se lembrar das feições do estranho.
— Tinha cabelos pretos, olhos azul-esverdeados muito claros, um rosto perfeito. Alto e forte. — Ela estremeceu. — Lindo. Estranho, pois ele parecia irritar um pouco Keira.
Ele não estava gostando nada da idéia desse homem vagando nos sonhos de Alana, ainda que estivesse na companhia da irmã. De repente, ele teve de engolir uma risada. Era simplesmente ridículo sentir ciúme de um sonho. No minuto seguinte, franziu o cenho, decidindo que não estava achando aquilo tudo tão engraçado assim. Nunca havia sentido ciúme antes, e não gostou da nova sensação. As coisas entre Alana e ele estavam se complicando com muita rapidez, e, o que era pior, ela parecia não perceber. Isso era humilhante para um homem acostumado a ter todas as mulheres que desejava, sem fazer muito esforço.
— Você tem visões com freqüência?
— Não. Só com Keira. Por isso não o considero um dom verdadeiro, e sim uma forte ligação com ela. Sempre sentimos quando uma de nós está em perigo.
Era mais aceitável para ele do que o dom de tudo ver e prever. A ligação que unia irmãos gêmeos consistia em algo bem comum e fácil de compreender.
— Compreendo, pois meu primo Sigimor tem um irmão gêmeo, e às vezes ele diz que sente quando o irmão está em perigo. Tenho dois irmãos que também afirmam saber o que o outro está sentindo.
— Preciso encontrá-la — Alana disse suavemente, temendo pela vida de Keira.
Gregor envolveu-a pela cintura, aproximando-a de si.
— Nós a encontraremos. Você não pode sair por aí sozinha de novo. Teve muita sorte de conseguir enganar os Gowan com aquele disfarce de criança. Sei que é triste, mas o mundo é cruel e pode não ter a mesma sorte com outros homens. Os Gowan podem ser uns estúpidos, mas obviamente têm alguma honra. Porém, não espere o mesmo comportamento de todos que encontrar pelo caminho. E você não cruzará com seus irmãos tão cedo. Terá de procurá-los também. E a ajudarei.
— Mas você seguia para casa — ela protestou, embora estivesse grata pela oferta.
— Não há nada urgente à minha espera em Scarglas. Posso adiar meu retorno.
Seria ótimo ter um homem bom ao seu lado enquanto estivesse à procura de Keira. Alana odiava ter de admitir, mas, quando perdera o rastro de Artan e Lucas, havia sentido medo. Ver-se sozinha numa terra desconhecida não era uma experiência que ela queria repetir. Somente no momento em que os Gowan surgiram, ela se deu conta da própria vulnerabilidade. Podia até ser astuta e rápida, mas às vezes isso não era o suficiente para sobreviver.
— Será reconfortante contar com a sua ajuda — ela concordou, por fim. — O sonho me mostrou um homem tentando acabar com a vida de Keira, mas, mesmo assim, não sinto que ela esteja morta. Preciso vê-la para sossegar. Há uma sombra maligna perseguindo minha irmã, e tenho de ajudá-la a escapar.
— Vamos encontrá-la, Alana. Terá as respostas às suas perguntas e poderá sossegar. — Mais uma vez, Gregor ousou roubar um beijo suave, apenas um leve roçar de lábios. — Agora, descanse. Amanhã ou depois de amanhã, daremos início à nossa jornada.
— Por que a incerteza quanto ao dia?
— Você precisará estar forte o suficiente e tenho de me certificar de que nosso primeiro dia de viagem não será embaixo de chuva.
— Ah, bem pensado — ela sussurrou, virando-se para o outro lado na cama, acomodando-se de costas para Gregor.
— Obrigado.
— Todos sempre deveriam fazer planos.
— Tinha um quando saiu atrás dos seus irmãos?
— Sim. — Alana afagou a orelha do gato quando ele se aninhou em seu peito. — Eu lhe disse. Iria segui-los até que estivessem longe e não pudessem me mandar de volta para casa. Então, simplesmente me juntaria a eles na busca por Keira.
Gregor conteve a vontade de dizer que esse era um plano ingênuo e passível de falha, como tinha sido comprovado logo no início. Após alguns instantes de silêncio, sentiu a respiração cadenciada de Alana. Erguendo a cabeça, percebeu que ela tinha adormecido. Recostou-se no travesseiro, fazendo uma careta quando ela se aproximou ainda mais, aconchegando-se ao seu corpo, que ardia de desejo. A noite prometia ser longa. Se tudo desse certo, seria melhor que partissem na manhã seguinte. Já haviam passado muitas horas sozinhos na cabana, abraçados durante as noites e juntos durante os dias. Ele estava prestes a perder a cabeça.
― Não podemos levar o gato, Alana.
— Mas seria muito cruel deixar o pobre animal para trás, Gregor.
Ele olhou para o felino que se esfregava nas pernas dela, ronronando. O bichano tivera a sabedoria de escolher a aliada certa. Gregor também não gostava da idéia de deixá-lo para trás. No entanto, era preciso aceitar o fato de que tinham uma longa e dura viagem pela frente, e com os Gowan no encalço. Não havia como levar o gato. Mas Alana e o animal obviamente não pensavam assim.
— Um gato não conseguiria fazer essa viagem — ele insistiu.
— E possível que ele saia vagando por aí ou coisa do tipo, e sei que não podemos perder tempo procurando-o, mas, pelo menos, poderíamos tentar. Posso carregá-lo em um saco improvisado com um cobertor, e, desse modo, ele estará sempre perto de mim.
— Meu único temor é ser apanhado pelos Gowan novamente.
Gregor teve de conter o sorriso ao notar o semblante tristonho de Alana e a maneira como olhava para o gato, como se estivesse com medo de que ele houvesse se ofendido. Porém, o felino mantinha o ar presunçoso e inabalável.
— As pessoas não levam gatos em viagens — Gregor acrescentou.
— Levam, sim. Minha prima Gillyanne sempre carrega seus gatos para onde quer que vá. Minha tia Elspeth também. Não é tão incomum.
Gregor decidiu que não seria muito prudente dizer o que estava pensando. Só porque os parentes de Alana viajavam com gatos não queria dizer que era algo normal.
— Terá de concordar, aqui e agora, que não poderemos perder tempo procurando ou esperando o animal, pelo menos não enquanto estivermos nas terras dos Gowan. Não pretendo ser jogado naquela prisão novamente, muito menos por causa de um gato.
— Concordo. Mas ele será um ótimo companheiro de viagem.
Assentindo com um gesto de cabeça, ele ajudou Alana a amarrar o cobertor para que formasse uma espécie de bolsa na parte da frente de seu corpo. Ele se surpreendeu ao ver que o bichano permitiu, mansinho, que o acomodassem no novo abrigo. Alana apanhou alegremente o pacote com seus pertences e suprimentos, mas Gregor estava determinado a ficar de olho nela. Afinal, fazia apenas quatro dias que a febre tinha sido vencida e ele não queria que ela se cansasse muito.
Ele fechou a cabana, e partiram. Já tinham caminhado alguns quilômetros quando Gregor se convenceu de que ela realmente estava bem. Andava com passos firmes e constantes, sem demonstrar sinais de fraqueza. O que o fazia desviar o olhar depressa, no entanto, era o gato, que estava confortavelmente instalado, olhando para a frente, só com a cabeça para fora do abrigo. Nem o bichano nem Alana pareciam achar estranha a situação. Gregor temia que, se não parasse de olhar para eles, tivesse um acesso de riso que o impediria de continuar caminhando.
Perguntou-se, então, se ele também não estaria um pouco estranho. Seus instintos diziam que aquela mulher era a certa para ele, que se encaixava. Pensou nas fraquezas dela, como o medo do escuro e de altura, e logo se lembrou de que ela nunca se entregara a nenhuma delas. Era pequena, sim, mas ao mesmo tempo muito forte e determinada. Fora abalada apenas pela febre, mas por pouco tempo, pois simplesmente não tinha a estrutura física necessária para lutar contra os efeitos da exposição ao frio e à umidade durante dias seguidos. Ele ainda estava surpreso por não ter sucumbido também.
E não havia nada que pudesse ser dito que diminuísse a atração que sentia por Alana. Ela era totalmente diferente de todas as mulheres que conhecera. E essas diferenças o fascinavam. Apesar do desejo não satisfeito, Gregor seguia em paz, pois se sentia à vontade ao seu lado e confiava nela. Algo inusitado para ele, que nunca havia tido esse tipo de sensação com nenhuma outra mulher em toda a vida. Nem mesmo Mavis lhe transmitia a mesma paz de espírito, e ele não a conhecia o suficiente para dizer que confiava nela. Mais uma razão para pôr fim ao noivado.
— Gostaria de ter escondido melhor minha bolsinha de dinheiro — Alana disse, acariciando a cabeça do gato.
Arrancado de seus pensamentos, Gregor teve de pensar um pouco sobre o que ela comentara.
— Por quê? — ele indagou.
— Bem, o dinheiro seria muito útil agora. Poderíamos até comprar um cavalo.
— Tinha um bocado de dinheiro, não é?
— O suficiente. Um cavalo facilitaria muito a nossa viagem.
— De fato, mas ajudaria os Gowan a nos encontrar.
— Ah, é claro — Alana assentiu. — Um cavalo deixaria rastros que os levariam até nós.
— Sim. E também poderiam ficar sabendo com facilidade sobre a venda do animal.
— Tem razão. Devem saber de tudo que se passa por aqui. Imagina onde terminam as terras deles?
— Não.
— Talvez possamos parar em uma vila e perguntar a alguém.
Gregor meneou a cabeça.
— Se a vila estiver na propriedade dos Gowan, seremos capturados e entregues a Clyde. Já faz uma semana que fugimos e a notícia deve ter se espalhado por toda a região. Faremos o possível para passarmos despercebidos, inclusive ao mais pobre pastor, até que tenhamos certeza de que já não estamos mais no território deles.
— Mas, se não pararmos em uma vila para perguntar onde estamos, será bem difícil descobrir, não acha?
— Sim. Tenho uma noção de que direção devemos seguir, contudo não estou muito certo da distância a que nos encontramos de meu caminho original. Você sabe onde estava quando foi capturada ou a direção para a qual foi levada?
— Não tenho a menor idéia. Lembre-se de que eu estava seguindo meus irmãos, e não traçando um caminho próprio. Quando os Gowan me cercaram pela primeira vez, fiquei surpresa por não serem meus irmãos, dizendo: Ah! Pegamos você! Seria típico deles fazer algo assim se tivessem me apanhado. De qualquer forma, foi bom que não estivessem por perto.
— Por que diz isso? Seus irmãos poderiam tê-la livrado dos Gowan.
— Sim, mas provavelmente teriam matado vários deles e, por mais inoportunos que fossem, não acho que merecessem uma punição tão severa.
Gregor fitou-a, sem saber se ela estava brincando.
— Parece muito segura do que disse. Ela concordou.
— Sim. Meus irmãos são excelentes guerreiros e perdem a calma com facilidade. Encarariam a atitude dos Gowan como um grande insulto. Foram treinados por parentes da minha mãe que vivem nos confins das Terras Altas. Uma vez que Donncoill está repleta de rapazes da família Murray, meu pai ofereceu a quem quisesse a chance de receber treinamento em outro lugar. Meus irmãos gostaram da idéia. Viram a oferta como uma grande aventura. Voltaram para casa como guerreiros bem treinados, porém com modos um tanto rudes. Papai teve muito trabalho para civilizar os dois um pouquinho.
— Civilizá-los? Sempre imaginei que um guerreiro que não foge a uma boa luta é bem-vindo em qualquer castelo.
— Oh, meu pai não quis mudar isso. O fato é que eles pareciam treinados apenas para a luta. Como papai costuma dizer, ele enviou dois garotos imberbes e com alguns modos, e recebeu de volta dois selvagens que acham que uma conversa consiste em socar um homem até que ele concorde com o que é dito.
Gregor riu.
— Eles se parecem com muitos dos meus parentes.
— Há bondade e gentileza em meus irmãos, mas acho que eles preferem cortar a própria língua a admitir isso. — Ela deu uma olhada nas roupas que Gregor usava, da fina camisa de linho branco visível sob o gibão entreaberto até a calça elegante e as botas caras. — Eles não usariam roupas tão elegantes, considerando-as muito inglesas. Costumam usar kilt e botas resistentes. Mamãe os obrigou a usar ceroulas por baixo do kilt. — Alana sorriu. — Ela não me contou o que disse para convencê-los, mas dever ter sido bem persuasiva, pois nunca mais se falou nisso.
— Você tem mais irmãos?
— Sim. Quatro. Todos mais novos. Três irmãos e uma irmã. E você?
— Tenho muitos. A maioria homens. Uma coisa que meu pai faz bem é gerar filhos. — Gregor sorriu de leve diante da expressão de Alana, ajudando-a a passar sobre um galho de árvore caído. Ela parecia chocada e intrigada ao mesmo tempo. — Meu pai não era fiel a nenhuma mulher até se casar com Mab. As pessoas dizem que ele estava tentando criar o próprio exército. Muitos de nós, meus irmãos e eu, o considerávamos meio louco. Mas isso é coisa do passado. Ele foi e continua sendo um bom pai, apesar de não o enxergarmos dessa forma até bem pouco tempo.
— Os irmãos bastardos vivem com sua família?
— Sim, os que meu pai conhece.
— Bem, isso mostra um lado bom dele.
— De fato, apesar de não o eximir da culpa de ter gerado tantos filhos, conquistando muitos inimigos no caminho, e ter sido infiel a todas as mulheres que levou para a cama ou com quem se casou. Ele ainda se recusa a fazer as pazes com o nosso clã e voltar a usar o sobrenome Cameron.
Enquanto seguiam, Gregor contou a ela muitas histórias sobre o pai. Agora que não sentiam mais necessidade de esconder quem realmente eram, ele podia falar sobre sua família e a própria vida. Podia até mesmo contar como as coisas tinham mudado desde que sua cunhada Fiona chegara a Scarglas e tudo o mais. O fato de Alana parecer estar se divertindo com as histórias, embora às vezes ficasse um pouco chocada, fazia com que se sentisse bem. Gregor percebeu, então, que a vida com ela ao seu lado seria agradável, caso descobrisse que, realmente, era a mulher certa.
Estavam rindo de algo que ele tinha acabado de contar a respeito de seu clã quando chegaram a um campo aberto, onde havia um rebanho de ovelhas pastando. Gregor fez um sinal para que ela se ajoelhasse atrás de uns arbustos enquanto ele sondava o local com cautela.
— Não vejo ninguém — ela sussurrou. — Nem naquela cabana, nem ao redor.
— Eu também não, apesar de imaginar que o pastor das ovelhas deva estar por perto.
— É verdade. Podemos dar a volta — ela murmurou.
— Sim, mas adicionaríamos várias horas à nossa jornada, que já é longa o bastante.
Essa era a dura realidade, Alana pensou após um longo suspiro. Nem ela nem Gregor sabiam exatamente onde estavam, e a única certeza que tinham era de que ainda faltava muito para que chegassem aonde queriam.
Gregor olhava, atento, por cima do arbusto.
— Acha que podemos seguir em segurança?
— Não, mas não temos muitas opções. Podemos permanecer aqui até escurecer, dar a volta ou nos arriscar a cruzar o campo.
— Acho que deveríamos arriscar. — Alana encolheu os ombros quando ele arqueou uma sobrancelha. — A passos rápidos. Se alguém nos vir, provavelmente ficará se perguntando quem são aqueles dois que estão correndo. Enquanto isso, já estaremos quase do outro lado, fora do alcance de quem quer que seja.
Gregor sorriu brevemente.
— Parece um bom plano. Acha que consegue correr, carregando o gato?
— Sim, ele não pesa muito.
— Então, vamos lá — ele disse, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
Quando estavam cruzando o campo, Alana sentiu que os músculos de seu corpo ficavam cada vez mais retesados, dificultando que continuasse no ritmo intenso. Estavam apenas no meio do caminho quando ela decidiu que o plano não era tão bom quanto imaginara, e a cada passo sua intuição crescia ainda mais, principalmente quando viu um homem saindo da cabana. Para seu alívio, ele permaneceu observando de longe. Suspeitou que estivesse apenas se certificando de que ela e Gregor não iriam roubar nenhuma ovelha.
— Bem, se os Gowan passarem por aqui, conseguirão nos rastrear com facilidade — Gregor falou. — Isso se aquele homem já não saiu para avisá-los.
— Se ele sabe que estão à nossa procura, por que não veio atrás de nós?
— Por que se arriscaria? Não vai ganhar nada com isso.
— Os Gowan podem estar oferecendo alguma recompensa pela nossa captura, você não acha?
— Não. Afinal, eles nos raptaram porque precisavam do dinheiro do resgate. Não acho que queiram dividir com ninguém o que conseguirem.
— Provavelmente não. — Alana olhou para trás. — Mas, se estas terras fazem parte de seus domínios, eles não devem estar tão pobres assim. O lugar é bom e as ovelhas estão gordas e saudáveis.
— Ou Clyde Gowan não é inteligente o suficiente para cuidar do que possui, ou não estamos mais nas terras dele. No entanto, não creio que tenhamos saído tão rápido da propriedade dele. Se essas terras não pertencem aos Gowan, então devem ser de algum parente, o que significa que estão abertas para eles. E melhor sairmos o quanto antes daqui, e sem deixar rastros.
Alana praguejou em pensamento. Uma aventura perdia todo o encanto quando era preciso passar a maior parte do tempo correndo e se escondendo, ela concluiu. Já que a outra alternativa era parar e enfrentar os Gowan, ela resolveu não verbalizar suas queixas nem diminuir o passo. Esperava apenas que não tivessem de percorrer muitos quilômetros ainda, antes que Gregor resolvesse que estavam fora do alcance dos inimigos.
Alana gemeu assim que se sentou no solo musgoso, embaixo de um pinheiro enorme. Esboçou um sorriso quando o gato colocou a cara para fora de seu confortável recanto e olhou ao redor. O receio de que o animal pudesse sair e se perder veio e passou rapidamente. Ele odiara ter sido deixado para trás uma vez, e Alana estava quase certa de que agora ele ficaria por perto para não ser abandonado novamente.
— Está cansada? — Gregor perguntou ao se sentar junto a ela.
— Meus pés certamente estão — admitiu.
— Sim, entendo a sensação. — Colocou o braço sobre os ombros dela e a trouxe para mais perto de si. — Sou obrigado a admitir que o gato está se comportando muito bem — disse, desviando a atenção de Alana do afago que lhe fazia, antes que ela tivesse tempo de protestar. — É claro que ele foi o que menos esforço fez. Nem teve de andar.
— Sim. Estou pensando em dar um nome para ele. — Ela sabia que deveria se manter distante de Gregor, mas reconheceu que estava com saudade de se sentir protegida por aqueles braços fortes. — Não podemos continuar chamando-o de gato.
— Ele não parece se importar.
— E nosso companheiro de viagem. Merece um nome. Charlemagne é interessante. — Ela estreitou os olhos ao perceber que ele se esforçava para conter uma gargalhada.
Estava prestes a ralhar com ele por rir quando percebeu que ele tinha parado. Olhava diretamente para seus lábios com uma expressão que a fez estremecer. Ia beijá-la. Sabia que não o impediria, apesar de uma voz no fundo de sua mente dizer que deveria. Ela estava brincando com fogo, mas ansiava muito pelo calor daquele beijo.
Protestou quando Gregor se afastou após um leve roçar de lábios e ele, então, abraçou-a com mais força. Estava muito perto de entrar na fogueira de corpo e alma.
Depois desse beijo, ela recuaria, prometeu a si mesma. Provaria somente mais uma vez a delícia de sentir o desejo de Gregor consumi-la também, e então se afastaria para que pudesse pensar com mais clareza se estava disposta a se arriscar por esse homem.
Contudo, ao sentir a mão máscula sobre seu seio nu e os dedos longos acariciando com habilidade o mamilo intumescido, Alana constatou que já tinha perdido toda a capacidade de raciocínio. Lutava para recuperar a capacidade de falar quando o escutou praguejar baixinho. No momento em que ele removeu a mão, forçou-se a engolir o protesto. A interrupção da carícia a deixou com frio e desapontada. Ainda confusa com o que acabara de acontecer, notou que ele amarrava seu vestido e se endireitava. O fato de ele ter tomado a iniciativa de interromper as carícias sensuais a fez corar. Ao mesmo tempo, ficou muito irritada, pois ele conseguia controlar tão bem o próprio desejo enquanto ela não tinha domínio algum.
— Eu não deveria ter feito isso — ele murmurou.
Ela não concordava, pensou, antes de repreender-se em silêncio. Sua habilidade de defender a própria virgindade era nula quando estava ao lado de Gregor. Ela deveria se preocupar, e muito, com tal falta de iniciativa, e não ficar pensando em como era bom receber os carinhos daquele homem. Nesse instante, ocorreu-lhe que, se Gregor estava fazendo algo que o levava a pedir desculpa, por que continuava fazendo? Não restava nenhuma dúvida de que ele tinha experiência de vida e que ela não era do tipo de mulher que levava um homem à loucura. Além do mais, ele não parecia tão culpado quanto dizia estar. Assim como da última vez, ele dissera palavras que não pareciam transmitir o que sentia.
Percebeu que ele estava tentando seduzi-la, mas não sabia exatamente o que achava disso. Obviamente, era lisonjeiro saber que alguém como ele queria ir para a cama com ela. Porém, as razões dele poderiam ser ofensivas, uma vez que ela era a única mulher à disposição. A hipótese de ele estar querendo usá-la apenas porque seria conveniente a aborreceu. Encarou-o, pensando que até poderia ser tola o bastante para colocar seu coração e sua virtude aos pés de um homem que talvez ferisse seus sentimentos e lhe desse as costas, mas não daria tudo a alguém que a visse como uma mulher com quem pudesse se divertir um pouco, por pura falta de opção.
Gregor observava, fascinado, a fisionomia de Alana se transformando. Podia apenas imaginar o que se passava com ela. Contudo, ao ver que os olhos se contraíam e a íris cor de mel escurecia, não precisou se esforçar muito para deduzir que estava furiosa. A única coisa que esperava era ao menos saber quais de seus pecados tinham despertado o acesso de ira, a fim de que pudesse se defender.
— Você está tentando me seduzir — Alana vociferou. — Resolveu se aproveitar da minha companhia para satisfazer seus instintos masculinos e se divertir um pouco durante a viagem?
Ele não precisou fingir que estava ofendido quando se levantou, pois realmente se sentiu insultado.
— Não vou perguntar que tipo de homem pensa que sou para me acusar dessa maneira. Suspeito que a sua resposta só vá me aborrecer ainda mais. Fique tranqüila que lhe darei um pouco de sossego. Vou sair para apanhar lenha e fazer uma fogueira. Se a sorte estiver ao meu lado, encontrarei algo para comermos.
Alana sentiu-se culpada conforme o observava se afastar. Porém, logo pensou que não deveria ser tão tola. Talvez ele não fosse o conquistador que ela imaginava, mas que estava tentando seduzi-la, isso estava. Enquanto arrumava um local para colocar suas coisas, ela decidiu que não iria pedir desculpas. Afinal, tinha todo o direito de estar ofendida com a tentativa de sedução. Se Gregor não havia gostado das conclusões a que ela chegara, que se explicasse. Ela realmente desejava que ele o fizesse, pois assim seria bem mais fácil decidir o que fazer com relação ao desejo que sentia por ele.
Quando terminaram de comer o coelho que Gregor havia caçado, descobriu que ele era do tipo que emburrava com facilidade. Já estava pronta para pedir desculpas pelas palavras duras, a fim de aliviar a tensão que se instalara entre os dois havia um bom tempo, quando notou que ele voltava a agir como antes. Ficou aliviada ao ver que ele tinha arrumado apenas uma cama para ambos, perto do fogo. Estava se tornando um hábito dormir de costas contra o corpo de Gregor e com o gato acomodado no peito. Exausta após um longo dia de caminhada, acomodou-se, abraçando Charlemagne, e adormeceu.
Gregor suspirou quando percebeu que ela havia adormecido. O corpo esguio aconchegado ao dele era uma tentação e mantinha-o excitado. No fundo, ainda estava um pouco desapontado por ela não ter lhe pedido desculpas e por ter pensado que seria capaz de usá-la como se fosse uma vagabunda, mas acabou chegando à conclusão de que ele era o maior culpado de tudo o que acontecera. Afinal, não tinha dito nada que demonstrasse como se sentia em relação a ela.
Alana não se via como uma mulher capaz de despertar a paixão dos homens e, por isso, questionava o desejo que ele demonstrava. A maneira como falara sobre si mesma tinha revelado essa opinião dias atrás. Agora teria de se esforçar para fazê-la acreditar que a achava extremamente desejável. Fazer amor não seria o suficiente para convencê-la, não importava o quão bom pudesse ser. Se quisesse mesmo conquistar o prêmio com o qual sonhava, teria de oferecer muito mais do que prazer àquela mulher. Teria de conquistá-la de corpo e alma. E precisaria trabalhar duro para alcançar seus objetivos. Enquanto descansava o rosto sobre os cabelos macios e a tocava com carinho num dos seios, Gregor decidiu que o esforço valeria a pena.
Era uma vila muito simpática, Alana concluiu enquanto observava do alto de uma colina, ao lado de Gregor, a ordenada disposição de casinhas logo abaixo. Sem perceber, deixou escapar um suspiro quando ele passou o braço em torno de sua cintura, trazendo-a para mais perto. Ela sabia que jogo era aquele, de toques constantes e beijos. Ele ainda estava tentando seduzi-la. Mas o que não sabia muito bem era como se sentia com o fato de ele estar sendo bem-sucedido. Era desalentador perceber que estava prestes a sucumbir após apenas alguns dias de investidas. Acreditara que um homem, mesmo um tão belo quanto Gregor, teria de oferecer mais do que palavras doces e beijos ardentes para convencê-la a abrir mão de sua pureza. Obviamente, estivera tremendamente enganada.
Charlemagne soltou um leve miado, e Alana coçou a orelhinha do felino num gesto automático. Em seguida, olhou para Gregor, que fitava a vila. Estava mais do que claro que ele não pretendia descer até lá. Ambos contavam com algumas moedas que tinham passado despercebidas aos Gowan. Ela não acreditava que a hesitação de Gregor fosse porque não pudessem pagar por uma noite numa estalagem e um jantar. Uma vez que já estavam viajando havia quatro dias, ela não achava que ainda estivessem nas terras dos Gowan. Além do mais, não pareciam ricos o suficiente para possuírem tantas terras.
Alana tinha várias razões para querer entrar na vila. Estava difícil conter a vontade de implorar a Gregor que se hospedassem na estalagem que avistavam, onde poderiam finalmente tomar um banho quente. Também queria comer algo que não fosse coelho assado. Sabia que era mimada, que havia muitas pessoas no mundo que se consideravam abençoadas por ter algo para pôr à mesa, mas ela realmente estava se cansando de coelho.
— Vamos entrar na vila ou ficaremos apenas a rondá-la? — perguntou por fim.
— Acho que não estamos mais nas terras dos Gowan — Gregor murmurou.
— Foi o que pensei. Se eles possuíssem tantas terras, seriam ricos como reis.
— Se descermos até lá, finalmente teremos noção de onde estamos.
— Sim, seria muito bom. — Alana sabia que Gregor pensava em voz alta enquanto tentava tomar uma decisão, mas esperava que ele o fizesse com mais rapidez.
— E estou farto de coelho.
— Ah, sim — ela concordou com mais entusiasmo do que queria ter demonstrado.
Ele riu, beijou-a na face e começou a descer a colina.
— Vamos arriscar — ele disse —, apesar de não imaginar o que pensarão de nós, carregando um gato como se fosse uma criança.
Ela ignorou o comentário.
— Acha que eu poderia tomar um banho?
— Sim, somando o que temos será o suficiente para um banho, um jantar e, se for seguro como parece, um quarto para dormirmos. Será um prazer poder deitar em uma cama de verdade.
Um quarto? Alana pensou, mas não comentou nada. Suspeitou que houvesse vários bons motivos para compartilharem apenas um cômodo. E, uma vez que vinham dividindo a mesma cama desde que tinham se conhecido na masmorra, seria bobagem temer por isso. De qualquer maneira, não havia dinheiro para se darem ao luxo de alugar dois quartos.
Quando chegaram à pequena estalagem no coração da vila, Alana estava cansada de ser alvo de olhares curiosos. Sabia que era por causa do gato. Infelizmente, seus seios não eram do tipo que costumavam atrair tantas atenções. Fez uma careta para uma senhora que a encarava. Não entendia o que havia de tão estranho em carregar um gato. Várias pessoas viajavam com animais de estimação, e os bichanos não tinham sido feitos para andar quilômetros a fio. Ficou ao lado de Gregor enquanto ele negociava um quarto, com direito a banho e jantar, com o robusto estalajadeiro, que não tirava os olhos de Charlemagne.
— O gato vai ficar com os senhores? — ele perguntou.
— Sim, sr. Dunn — Gregor respondeu. — É o animal de estimação da minha esposa e é muito comportado.
— O bicho está doente? Por isso o carrega dessa maneira, milady? — indagou o sr. Dunn.
— Não. Estou carregando-o porque gatos não costumam acompanhar os donos como os cachorros. Além do mais, ele não pesa muito. — Ela praguejou em pensamento ao ver o olhar de comiseração que o homem lançou a Gregor, por estar sendo obrigado a lidar com uma tolice feminina.
— Tenho camas limpas — disse o sr. Dunn. — Não quero que fiquem infestadas de pulgas.
Alana estava prestes a protestar pela difamação contra o animal quando viu um cachorro muito grande e feio vindo em sua direção. Temendo que uma briga entre Charlemagne e o cão tivesse início, ela ficou tensa e preparou-se para proteger o felino. Um leve movimento no fundo da bolsa improvisada chamou sua atenção. Charlemagne se escondeu o máximo que podia e ficou imóvel. O cão se sentou ao lado do estalajadeiro e não demonstrou nenhum sinal de que tivesse visto o bichano.
— O gato é muito limpo — Gregor assegurou ao sr. Dunn. — E não passa de um covarde, como pode ver.
— Graças a Deus — Alana sussurrou, ignorando o sorriso de Gregor.
Após mais alguns minutos de negociações, o homem os conduziu escadaria acima. Ela colocou a pequena bagagem no chão e, depois de se certificar de que o cachorro não os seguira, pôs Charlemagne sobre a cama. Em seguida, sutilmente verificou a limpeza do lugar enquanto o banho era preparado. O quarto amplo realmente estava limpo. Olhou pela janela e constatou que tinham uma boa visão do pátio da hospedaria, o que poderia ser algo bastante útil. Quando Gregor parou à sua frente, ela o encarou e se surpreendeu ao receber um beijinho rápido nos lábios.
— Vou deixá-la à vontade para tomar o seu banho — ele disse e seguiu em direção à porta. — Não demore muito. O gentil sr. Dunn cobra à parte pelo que considera um luxo desnecessário, como, por exemplo, baldes extras de água aquecida.
— Prometo não demorar.
— Ótimo. Enquanto isso, tentarei descobrir onde estamos exatamente.
A porta mal tinha terminado de fechar quando Alana começou a se despir. Estava desapontada por não poder mergulhar na água quente e lá permanecer até que esfriasse e sua pele ficasse enrugada como uma uva passa, mas, apesar do contratempo, estava determinada a aproveitar o pequeno luxo. Um murmúrio de prazer escapou de seus lábios ao relaxar na água quentinha. Durante alguns minutos, ela se rendeu à tentação e apenas aproveitou o calor penetrando em seu corpo. Porém, logo se apressou, uma vez que Gregor retornaria em breve para o banho.
Terminava de amarrar o espartilho quando ele bateu à porta e ela lhe deu permissão para que entrasse.
— Alguma novidade? — perguntou assim que o viu, seguido por dois rapazes, carregando água quente.
— Sim. — Ele se aproximou de Alana, inspirando o perfume que os cabelos limpos exalavam. — O aroma é de rosas, estou certo?
Ela corou ao se dar conta de que o sabão de rosas usado deixara a água com um perfume que nenhum homem gostaria de ter em si.
— Desculpe — ela murmurou.
— Bem, vai desaparecer logo? Espero que sim, pois acho que vou ter de lhe pedir o sabão emprestado.
Ela disfarçou o riso e apontou o pedaço de sabão que secava sobre uma toalha de linho.
— Acho melhor eu sair para que possa ter um pouco de privacidade.
Gregor franziu o cenho.
— Não estou certo de que seja uma boa idéia você vagar sozinha. — Ele sorriu e piscou. — Além do mais, poderia ficar para esfregar as minhas costas.
Alana ruborizou, e sabia que não havia sido por causa do convite ousado, mas pela vontade que sentira de aceitá-lo.
— Acho melhor não. Vamos passar a noite aqui?
— E o meu plano.
— Então vou até a cozinha ver se consigo comprar um pouco de comida para levarmos na viagem. Talvez eu economizasse o pouco dinheiro que ainda me resta se fosse ao mercado, mas não sei se seria uma boa idéia me expor. Espero que a cozinheira aceite algumas moedas e não conte nada ao sr. Dunn.
Gregor assentiu, mesmo sem ter muita certeza se era aconselhável que ela deixasse o quarto. A água do banho utilizada por ela ainda estava morna, por isso ele acrescentou apenas um dos baldes de água quente antes de entrar na tina. Cheirando o sabão de rosas, ele riu ao se lembrar de Sigimor dizendo que um homem esperto sempre levava consigo o próprio sabonete. Perguntou-se qual seria a fragrância apreciada pelo primo.
Um dos aspectos que Gregor apreciava em Alana era a higiene. Ela não reclamava se precisasse se sujar, porém não hesitava diante da primeira oportunidade de se limpar. Ele nunca dera muita atenção a isso, mas agora sabia que, se tivesse de estar com outra mulher, certamente sentiria saudade do cheiro da pele limpa com perfume de rosas. Suspirou enquanto lavava os cabelos. Tinha a forte sensação de que não era apenas aquele aroma que o afastaria das outras mulheres dali em diante.
O plano de seduzir Alana estava se mostrando mais difícil do que o imaginado. Ele não tinha nenhuma dúvida de que ela o desejava tanto quanto ele a queria, mas a inocência e a baixa auto-estima que ela demonstrava constituíam um obstáculo e tanto. Gregor ainda não tinha encontrado a chave que pudesse destrancar o valioso prêmio. O fato de ela ter consciência de que estava sendo seduzida e de ele, por sua vez, não oferecer nada em troca da pureza de Alana não ajudava muito. Ele ainda não podia fazer promessas. Não apenas por causa da insegurança em relação aos próprios sentimentos, mas porque, de certa maneira, ainda estava comprometido com Mavis. Não seria certo tomar qualquer atitude referente a Alana antes de ter dito a Mavis que não haveria mais casamento.
Saiu da água que esfriara rapidamente e começou a se enxugar com uma áspera toalha de linho. Seduzir Alana e não oferecer nada em troca o estava deixando muito perturbado. Sempre que a tinha em seus braços, que a beijava e tocava aquela pele macia, sentia uma vontade imensa de prometer tudo que nunca tinha prometido a uma mulher antes. Sabia que isso deveria indicar algo, mas não estava bem certo do quê. Embora tivesse a sensação de que seu corpo e o coração já haviam decidido que Alana era a escolhida, a mente ainda parecia relutar. Seus devaneios foram interrompidos quando ela surgiu no quarto. Trazia nas mãos um saco enorme, e ele se perguntou como teria conseguido comprar tanta comida com tão pouco dinheiro. Foi então que percebeu que ela o olhava, boquiaberta. De repente, lembrando-se de que estava nu e, após uma rápida olhadinha para confirmar, excitado, supôs que deveria se cobrir imediatamente. Em vez disso, ele sorriu ao dizer:
— Chegou tarde demais para esfregar as minhas costas.
Ainda surpresa, Alana o encarava, tentando apagar da mente a visão do corpo nu. Ela sabia que entrara no quarto correndo e sem bater, ansiosa para contar a ele algo muito importante. Porém, no momento, a notícia lhe escapava por completo. A maneira como ele sorria mostrava que nem precisava ouvi-la dizer o quanto o havia achado lindo. Era embaraçoso admitir que a visão do corpo musculoso em toda a sua glória a fizesse sentir vontade de pular sobre ele e implorar que fizesse amor com ela, ainda que a visão do membro ereto a assustasse um pouco. Mas, uma vez que Deus tinha feito o homem e a mulher para se reproduzirem, ela concluiu que tudo tinha seu propósito, embora chegasse a duvidar de que fosse possível sentir prazer.
Alana só voltou a si quando ele começou a se vestir. De repente, lembrou-se do motivo que a fizera entrar no quarto num rompante. Em seu passeio pela cozinha, conseguira muito mais do que a comida que carregava.
— Temos de ir embora — ela informou enquanto guardava os próprios pertences. — Agora.
— Por quê? — Ele se preocupou ao notar a ansiedade dela.
— O sr. Dunn nos vendeu aos Gowan.
— Os Gowan estão aqui?
— Ainda não, mas o estalajadeiro mandou chamá-los. Ele tinha ouvido dizer que os Gowan estavam à procura de um homem e uma menina. — Ela estremeceu ao se recordar das palavras do homem. — Ouvi quando o sr. Dunn mandou um dos funcionários ir atrás dos Gowan. Ele está certo de que você é o homem que estão procurando. No entanto, disse que a moça que o acompanha não é uma menina. Em seguida, falou que entendia o engano dos Gowan, pois sou pequena como uma criança e tenho tantas curvas quanto uma tábua.
—- Esse homem é cego como os Gowan.
Alana corou com prazer, apesar de saber que tais palavras não passavam de lisonjas, ditas apenas para atenuar o golpe em sua vaidade.
— A sra. Dunn ficou ultrajada quando soube o que o marido estava fazendo. Ela disse que seria péssimo para os negócios se todos comentassem que o sr. Dunn vendia qualquer um que por aqui passasse. Ficou tão nervosa que me deu este saco de comida, dizendo que deveríamos partir o quanto antes.
— E é o que faremos. Estou pensando seriamente em roubar um cavalo do estábulo de Dunn.
— Acho que ele desconfiou disso, pois mandou dois garotos ficarem de guarda.
Gregor praguejou.
— Apanhe o gato. Espero que consigamos escapar sem sermos vistos. — Rapidamente, ele guardou suas coisas enquanto Alana acomodava Charlemagne na bolsa. — Nossa cama será sob as estrelas novamente.
Gregor dividiu a comida entre eles o mais depressa que pôde. Pensando em tudo o que havia pagado, mas não iria usufruir, pegou também os lençóis da cama. E rezou para que os Gowan não estivessem muito perto, pois ele e Alana tinham perdido muito tempo na preparação para partir. Puxando-a pela mão, ele seguiu para a escada dos fundos, que descobrira enquanto ela tomava banho, e saiu da estalagem. Enquanto a conduzia por uma rota alternativa, entrando e saindo de vielas que davam para os fundos das casas, Gregor mantinha-se atento. E não ficou muito surpreso ao constatar que seus perseguidores já estavam chegando quando os dois nem tinham conseguido sair da vila ainda. Ultimamente, a sorte não andava lhe favorecendo.
De olho nos Gowan, que vagavam nas proximidades da estalagem, ele finalmente conseguiu chegar à extremidade da vila. O campo aberto que teriam de cruzar para alcançar as colinas no bosque, onde poderiam se esconder, não era muito vasto, mas ele sabia que era grande o suficiente para representar um perigo. Bastaria um dos homens dar uma olhada naquela direção, e estariam totalmente expostos até que atingissem a proteção das árvores. Uma vez que não tinham escolha, prosseguiram com determinação e rapidez. Gregor não se surpreendeu ao ver que Alana acompanhava seu ritmo, mesmo segurando a bolsa com o gato.
Ele só parou para olhar para trás depois que estavam sob o abrigo das sombras das árvores. Sentiu certa satisfação quando viu os Gowan procurando em vão. No entanto, a alegria desapareceu ao ouvir o gemido de Alana. Já sacando a espada, virou-se. Os Gowan obviamente tinham sido espertos o suficiente para colocar um guarda na floresta. E o homem apontava uma espada para Alana.
— Deixe-nos passar — Gregor vociferou. — Não pretendo feri-lo.
— Tenho ordens do meu senhor para capturá-lo — o sujeito respondeu. — Ele precisa do dinheiro do seu resgate e não pode deixá-lo escapar assim. Além disso, não ficaria bem para a nossa reputação.
— Devo me afastar um pouco para que possa cortar esse infeliz em mil pedaços, Gregor? — Alana perguntou, irônica.
— Seria muita gentileza sua, minha querida — ele murmurou.
— Então, divirta-se.
Gregor teve de conter a vontade de rir. Divirta-se? Agora que a fúria por ter visto Alana ser ameaçada havia se aplacado um pouco, percebeu que não tinha intenção de matar aquele homem. O idiota estava simplesmente obedecendo a ordens e, sem sombra de dúvida, queria capturá-los com vida. Infelizmente, quando o tilintar das lâminas das espadas começasse a ecoar, seria fácil se esquecer de tudo isso.
— Seria melhor se nos deixasse passar — Gregor disse.
Os dois homens se encaravam, andando em círculos, cada um esperando que o outro desse início à batalha que parecia inevitável.
— Melhor para quem? Para você ou para a mocinha? Para mim é que não seria. — Ele olhou de relance para Alana. — Vejo que os seios da menina cresceram bastante. Tenho a impressão de que a espertinha tentou nos enganar. Humm, parece que estou sentindo cheiro de fruta doce no ar. Não vejo por que mandar a pobrezinha de volta para o calabouço. Não, ela poderá ficar na minha cama quente. Como o sr. Dunn disse, ela é reta como uma tábua, mas servirá aos meus propósitos.
Gregor respirou fundo.
— E eu que estava em dúvida se deveria matá-lo. Bem, não o desapontarei depois de ter se esforçado tanto para acabar com qualquer resquício de misericórdia que havia em meu coração.
O súbito ataque do homem afastou todos os pensamentos da mente de Gregor, restando apenas o instinto de sobrevivência. Apesar de ter testado rapidamente as habilidades do sujeito e de se sentir confiante o suficiente para vencê-lo, Gregor não baixou a guarda. Até mesmo o mais inepto dos espadachins poderia ter um golpe de sorte, e aquele homem não era totalmente incapaz de manejar uma espada. Exatamente quando pensava nisso, o destino resolveu lhe dar uma lição de humildade. Gregor tropeçou em uma pedra e praguejou quando a arma do oponente roçou o lado direito de seu corpo. Recuperou-se com rapidez, sabendo que o ferimento não tinha sido tão sério, mas que a perda de sangue o enfraqueceria.
Alana praguejou, sentindo o gosto amargo do medo na boca, quando a espada do inimigo acertou Gregor. Aparentemente, não tinha sido um ferimento muito profundo, pois ele se mantinha firme. Porém, a mancha escura de sangue aumentava rapidamente. Os dois homens lutavam com afinco, e ela duvidava que o guarda dos Gowan se lembrasse de que Gregor precisava ser capturado vivo, pois do contrário não haveria resgate.
Era um momento estranho para ela se dar conta Ide que seus sentimentos por Gregor iam além de uma paixão passageira ou da atração pelo corpo forte e bonito, pensou, enquanto buscava uma arma. Ao ver um galho grosso no chão, ela o apanhou e se moveu devagar na direção do oponente. Eles estavam tão concentrados na luta que nem a notaram. Assim que viu sua chance, Alana acertou a cabeça do homem com toda a força que tinha. Ele permaneceu parado por um momento, antes de desabar de cara no chão.
Ofegante, Gregor olhou o guarda desacordado e depois a fitou.
— Não estou certo de que essa tenha sido uma maneira honrosa de terminar uma luta, minha querida — ele disse com toda a calma.
— Não me importo — ela murmurou, atirando longe o porrete. — Gregor... — Ela parecia preocupada ao se aproximar dele. — Você está sangrando.
— Foi só um arranhão. — Ele embainhou a espada.
— É preciso enfaixar para conter a hemorragia.
Rapidamente, Alana apanhou do pacote as bandagens que usara para ocultar os seios e as enrolou no torso largo. — Preciso limpá-lo e examinar a ferida com mais atenção.
— Sei disso. Mas é melhor deixar essa tarefa para mais tarde. Agora precisamos sair daqui o mais rápido possível.
Gregor estava certo, e ela tentou não se preocupar com ele enquanto fugiam. Até onde sabia, os homens podiam ser muito tolos quanto aos seus machucados, ignorando a própria condição até não suportarem mais se sustentar. Por outro lado, ela estava ciente de que precisavam se afastar ao máximo dos Gowan. Mesmo assim, estava determinada a não permitir que Gregor fosse longe demais, a ponto de deixar que um ferimento simples se transformasse em algo perigoso e até mesmo fatal. De repente, um grito vindo de trás indicou que as coisas seriam bem mais complicadas do que o imaginado. Pelo visto, os Gowan finalmente tinham voltado as atenções para a floresta.
Gregor se recostou contra uma árvore e fechou os olhos. Cada músculo de seu corpo protestava por causa do esforço excessivo e ele sabia que a sensação perduraria por um bom tempo. Ouviu um leve baque aos seus pés e olhou para baixo apenas para se assegurar de que Alana ainda estava consciente. Ela tinha se deitado de costas na grama, com Charlemagne aninhado em seus braços. Lentamente, Gregor deslizou pelo tronco da árvore até se sentar ao lado dela.
— Será que os despistamos? — ela perguntou ao recuperar o fôlego.
— Sim. Acho que os despistamos no momento em que o sol se pôs.
— Mas foi há uma hora.
— Eu só queria ter certeza.
— Agora tem?
— Sim — ele respondeu depois de um momento. — Duvido que continuem a busca durante a noite. Por isso, acho que podemos descansar um pouco.
— Ótimo, pois estou impossibilitada de dar um passo sequer. — Alana se sentou devagar. — Acho melhor eu dar uma olhada no seu ferimento.
— Não passa de um arranhão. O gibão atenuou o golpe.
— Mesmo o mais leve dos arranhões pode se tornar um perigo se não for tratado devidamente.
Não havia como discutir. Gregor a observou retirando da bolsa algumas tiras de linho, água e um potinho com algo. Ficou feliz por não ter visto agulha e linha. Após remover o gibão, começou a tirar a bandagem anterior. Cada movimento fazia com que se contorces-se de dor. Com cuidado, ela o ajudou a se livrar da camisa. A seguir, Alana apanhou um toco de vela e uma pedra-de-fogo da bolsa. Após acendê-la, examinou o ferimento.
— Não vai precisar de pontos.
— Graças a Deus — ele murmurou.
— Mesmo depois de tanta corrida, o sangramento quase estancou. Vou limpar o ferimento, colocar um pouco de pomada e enfaixá-lo. Seria ótimo se pudesse repousar, assim a ferida fecharia. Você acha que é possível?
— Vamos ver. — Gregor praguejou por entre os dentes enquanto Alana o limpava. Apesar de tocá-lo com suavidade, ela não conseguia evitar que sentisse dor. — Amanhã de manhã estarei melhor.
— Espero que tenhamos despistado mesmo os Gowan e que eles estejam correndo em círculos a uma hora dessas. — Ela passou um pouco da pomada com muito cuidado, mas mesmo assim o ouviu gemer.
— Segure isto por um momento. — Colocou a mão dele sobre um chumaço de linho que cobria a ferida.
— Vou arrumar nossa cama para que se deite — informou, enrolando uma longa tira em torno do corpo de Gregor, para que o chumaço ficasse preso sobre o ferimento. — O corte irá doer e repuxar todas as vezes que se mexer. Está num lugar complicado. Cicatrizará mais rápido se permanecer deitado durante um ou dois dias.
— Não acho que tenha sido tão profundo assim — ele opinou.
— Tem razão, mas ainda está sangrando um pouco. E, se não receber os devidos cuidados, poderá infeccionar. Acho que não preciso lhe dizer isso, não é?
— Não, mas necessitará de ajuda para montar nosso acampamento.
— Fique tranqüilo, posso cuidar de tudo sozinha.— Sorriu diante da expressão de dúvida de Gregor.
— Confie em mim.
Ele assentiu com um gesto de cabeça, apesar de não gostar da idéia. Infelizmente, toda a lateral de seu corpo doía e a temperatura parecia subir, o que indicava que a sua situação não era das melhores. Recostado contra a árvore, observou a talentosa mulher montando uma fogueira. Em seguida, ela lhe trouxe um pedaço de pão, queijo e carne. Enquanto comia, viu-a preparando a cama perto da fogueira. Certamente alguém a ensinara alguns princípios básicos de sobrevivência. Isso era bom, mas, ao mesmo tempo, o deixava um pouco desconfortável, pois ela poderia se perguntar para que precisava dele.
Precisava que ele a protegesse, pensou, e fez uma careta ao se lembrar por que ela estava montando o acampamento sozinha. Na primeira batalha para protegê-la, ele tinha tropeçado como se fosse um novato desajeitado e acabara se ferindo. Para piorar, havia sido a própria Alana quem os livrara do inimigo. Um golpe violento no orgulho masculino. Ele queria parecer útil aos olhos dela, só não sabia como.
Quando ela o ajudou a se levantar, passou o braço ao redor de sua cintura, apoiando-o com o próprio corpo. O gesto o animou, e ele começou a pensar em uma maneira de tirar proveito daquela proximidade. Mas, após dois passos apenas, acabou reconhecendo que não seria possível se aproveitar da gentil preocupação dela essa noite. O que começara como um abraço agradável acabou se tornando um apoio indispensável para que se mantivesse em pé. Pelo visto, ele tinha perdido muito mais sangue do que imaginara.
Alana franziu o cenho no momento em que ele se sentou sobre a cama improvisada.
— Está muito pálido, Gregor.
— Vai passar — ele disse. — Acho que o ferimento sangrou mais do que imaginei.
— Um pequeno machucado pode enganar. Meu primo Syme quase morreu por causa de uma ferida desse tipo. Ele estava caçando quando perfurou o tornozelo em algo, porém não deu muita importância ao ocorrido. Apenas horas depois ele se deu conta de que a bota estava encharcada de sangue e havia deixado um longo rastro vermelho para trás. Sorte que meus outros primos, Uileam e Kelvin, estavam caçando junto. Eles o levaram até a nossa avó rapidamente. Syme se salvou por pouco.
— Um ferimento no tornozelo?
— Sim. Minha avó disse que uma das artérias principais que sangram até a morte devia ter sido atingida. Eu já sabia sobre as artérias do pescoço, do pulso e da coxa, mas fiquei muito surpresa quando descobri a do tornozelo.
Ele a observou tirar as botas e usar um pouco de água de seu suprimento para lavar o rosto e as mãos. Fiona dissera que a maioria das mulheres do clã Murray era treinada por lady Maldie para se tornar curandeira. Estava mais do que claro que, apesar de Alana afirmar que a irmã possuía o dom da cura, ela também tinha seus talentos, mais do que imaginava. Ele quase sorriu. Se a levasse consigo, Alana poderia se juntar à esposa do pai, Mab, e a Fiona, e, dessa forma, Scarglas teria três curandeiras. Seu clã se tornaria o mais poderoso em termos de cura, tirando o dos Murray, claro.
— Não — Gregor murmurou enquanto entrava embaixo das cobertas, acomodando-se do lado direito. — Acho que é melhor me deitar do outro lado.
— Também acho. — Alana se ajeitou à esquerda de Gregor.
Sorriu discretamente quando ele passou o braço ao redor da sua cintura e a puxou para mais perto. O sorriso aumentou ao sentir algo rijo cutucando-a nas costas. Mesmo dizendo a si mesma que aquilo não passava de um simples desejo masculino e que os homens costumavam senti-lo por qualquer mulher, ela não conseguia deixar de encarar a excitação de Gregor como algo lisonjeiro e muito estimulante.
Já estava mais do que na hora de decidir o que fazer com relação ao que estava sentindo por ele. Não importava o quanto fosse belo, forte e habilidoso com uma espada, o fato é que era um simples homem, que podia sangrar e morrer. Tudo o que aprendera sobre cura lhe dizia que o ferimento era superficial, mas o conhecimento e o bom senso tinham sido pouco eficazes para atenuar o medo que sentira ao vê-lo ser atingido. Sabia que estava apaixonada. Só precisava descobrir até onde iria a sua coragem de lutar por esse amor.
Primeiro, deveria parar de se esquivar das investidas de Gregor. Suspeitava que, em parte, tinha tomado essa decisão por causa da visão do corpo nu que não saía de sua mente. Um calor intenso a dominou. As palmas das mãos ardiam de vontade de tocar a pele morena, macia e lisa sobre os músculos firmes.
Estremeceu de leve ao se lembrar do tamanho do membro rijo. A primeira vez provavelmente doeria, mas a paixão sempre tinha um preço para as mulheres. Ansiava pela sensação que teria depois que o incômodo passasse.
Sabia que não precisava se tornar amante de Gregor para conquistar seu amor, mas suspeitava que isso pudesse ajudar um pouco. Sabia também que havia a possibilidade de ele lhe proporcionar algumas noites de prazer seguidas de um adeus, mas tinha de tentar. Se acabasse sozinha, pelo menos se consolaria com a noção de que havia feito tudo que estava ao seu alcance para conquistar o coração daquele homem. Restariam também as boas lembranças para os momentos de solidão.
Decidida, relaxou nos braços musculosos e sorriu quando ele moveu a mão devagar até tocar em seu seio. Ele sempre fazia isso quando pensava que ela já estava dormindo.
Alana sentiu o corpo em brasa. Quando despertou o suficiente, sentiu as mãos de Gregor acariciando seus seios e a respiração quente em sua nuca. Dessa vez, o movimento às costas dela não era tão sutil. Ele, sem dúvida, tinha acordado bastante faminto.
Por um momento, ela simplesmente se deixou levar pelo prazer. O toque suave das mãos e dos lábios masculinos era bom demais. A maneira como ele se esfregava contra seu corpo provocava um calor prazeroso em seu ventre. Lembrou-se de que antes de dormir havia decidido que se entregaria à paixão que os atormentava. Estava prestes a fazer isso quando pensou no ferimento. Uma noite de descanso não tinha sido suficiente para que ele se recuperasse. Caso ela permitisse que as carícias prosseguissem, ele poderia sangrar novamente. Foi o suficiente para que ela reunisse forças e se afastasse.
Mas, em vez de sair da cama de imediato, como fazia todas as manhãs, ela se virou para fitá-lo e viu o desejo estampado em seu rosto. Resolveu, então, que estava na hora de demonstrar que ele logo conseguiria o que tanto ansiava, o que ambos almejavam. Envolvendo os braços em torno de seu pescoço, deu-lhe um beijo ousado antes de sair do leito.
— Alana! — Gregor exclamou enquanto ela se afastava.
— Preciso apanhar mais lenha para a fogueira. — Continuou andando. — Chame se precisar de algo.
Ele queria que ela voltasse e cumprisse a promessa insinuada com o beijo. Sentia-se confuso e frustrado ao mesmo tempo. Era a primeira vez que ela dava sinais de ousadia, que tomava a iniciativa. Aquele tinha sido um grande passo. O sangue de Gregor ainda fervia, devido ao calor daquele beijo. Um gesto que havia revelado uma paixão e um fogo que estava curioso para provar. Mostrava aceitação; disso estava certo.
Ele se sentou com cuidado. O ferimento ainda doía, mas era um alívio perceber que não estava febril. Infelizmente, ainda não se encontrava em condições de corresponder às expectativas de Alana. Apesar do estado de fraqueza, a simples idéia de finalmente poder fazer amor com ela o deixava excitado. Era como se tivesse esperado por essa mulher durante anos, em vez de apenas três semanas.
— Não posso acreditar que funcionou — Alana sussurrou, olhando para os três peixes que havia pescado.
Ao sair em busca de lenha para a fogueira, encontrara um rio. Não era grande, mas profundo o suficiente para ter peixes. A princípio, simplesmente tinha apreciado o som da água correndo sobre as pedras, e então bebera um pouco do precioso líquido. Anos atrás, seu primo Logan tinha lhe ensinado a pescar com as mãos e revelado quais peixes se podia capturar com mais facilidade dessa maneira.
O sucesso na pesca a surpreendeu e, de certa forma, a orgulhou. A fome e a necessidade tinham feito dela uma ótima caçadora. No entanto, ficaria muito feliz quando estivesse de volta ao lugar onde sempre havia alguém que caçava para pôr comida em sua mesa.
— Oh, Charlemagne, não ouse — falou quando o gato se aproximou dos peixes. — Terá a sua parte depois que eu assar os pobrezinhos. E, acredite, vou pedir a Gregor que os limpe. Isso não vai prejudicar em nada o ferimento nem enfraquecê-lo.
O gato se sentou, movendo o rabo e levantando as folhas ao redor.
— Não precisa ficar mal-humorado, rapaz. Logo terá o que quer.
Guardou os peixes dentro do saco que havia levado na esperança de encontrar algo mais para comer. Voltou ao acampamento, carregando a lenha, com Charlemagne sempre ao seu lado. O animal raramente a perdia de vista, e ela não sabia se isso a comovia ou a preocupava. Espantando o breve momento de superstição, permitiu que os pensamentos voltassem a Gregor.
— Ah, Charlemagne, estou prestes a fazer papel de tola — confessou ao gato.
Ele bateu com a patinha numa folha que caíra de uma árvore.
— Sim, uma tola que fala com gatos e que está a ponto de entregar sua tão guardada virgindade a um homem que talvez nunca corresponda ao seu amor.
Charlemagne parou de repente, para afiar as unhas no tronco de uma árvore.
Alana suspirou, desejando que pudesse conversar com uma de suas parentes. Considerando as histórias românticas que haviam lhe contado, aconselhariam-na a fazer exatamente o que estava planejando. Aceitaria Gregor como amante e rezaria com fé para que a atração que ele sentia por ela tivesse a semente do amor.
Um arrepio de antecipação perpassou seu corpo só de se imaginar fazendo amor com ele. Sua decisão estava tomada e não tinha volta. Era um risco enorme que iria correr, e poderia ficar solteira para sempre, mas não se importava. Tudo que sabia era que amava Gregor, desejava-o e precisava dele. Pela primeira vez na vida, ela faria exatamente o que queria e torcia para que as conseqüências não fossem severas demais. Esperava apenas não causar nenhum tipo de embaraço à sua família.
Ao chegar ao acampamento e vê-lo se sentando lentamente com uma expressão de dor, ela soube que teria tempo suficiente para se preparar para o grande passo que daria. Acomodou a lenha perto do fogo e colocou os peixes perto de Gregor, sorrindo do olhar de espanto que ele lhe lançou ao ver o resultado da pesca.
— Como conseguiu esses peixes?
Ele escutou a história, e sua surpresa aumentou quando ela estendeu a faca, indicando que ele deveria limpá-los. Espantado, ele fez seu trabalho em silêncio, enquanto ela alimentava a fogueira com mais lenha. Ficar aos cuidados de Alana Murray podia ser uma experiência bastante humilhante, decidiu. Ele nunca tinha conseguido pegar um só peixe com as mãos, muito menos três.
— Onde os apanhou? — ele perguntou, observando-a apanhar os peixes limpos e colocá-los para assar.
— Há um rio aqui perto — ela respondeu. — E uma fonte bem-vinda de água, apesar de ser um tanto fria para o meu gosto. Não vi nenhum sinal dos Gowan nem de qualquer outra pessoa enquanto apanhava lenha.
Gregor assentiu.
— Acho que finalmente perderam nosso rastro. Acho que cruzamos uma fronteira que eles não traspassarão.
— Mas você pretende se manter atento, não?
— Pretendo, sim. Eles nos perseguiram muito mais do que pensei que fariam.
— Eu também ficarei de olho, mas acho que finalmente estamos fora do alcance dos Gowan. Poderia cuidar dos peixes para mim? Vou apanhar mais um pouco de lenha da pilha que formei no caminho para cá.
— Sim, pelo menos disso posso cuidar. — Percebeu a nota amarga na própria voz, e não se surpreendeu ao ver que ela continha um sorriso. Ele tinha soado como um garoto resmungão. — Antes de ir, poderia me trazer a bolsa de viagem, por favor? Preciso trocar de roupa.
Ela lhe entregou a bolsa e saiu em busca de mais lenha. Resistiu à imensa tentação de dar uma espiada enquanto ele mudava de roupa. Foi preciso muita força de vontade para refrear o impulso de aconselhá-lo a ficar nu para que nada irritasse seu ferimento. Meneou a cabeça enquanto caminhava, determinada a dar o tempo necessário para que ele se vestisse com tranqüilidade.
Quando retornou ao acampamento, Gregor estava sentado próximo ao fogo, usando uma camisa de linho branco, com o xale escocês em torno do corpo e calçando botas rústicas de couro de veado. Gostou de vê-lo em trajes simples. As outras roupas que ele vestia eram finas e o identificavam como um cortesão. Apesar de ainda estar lindo, ele agora parecia mais acessível. Mais ao seu alcance.
O brilho nos olhos de Gregor enquanto a observava revelava que ele se lembrava muito bem do beijo ousado daquela manhã. Não fosse pelo ferimento, suspeitava que ele estaria demostrando como tinha compreendido com clareza a mensagem silenciosa. Ela conteve o rubor ao servi-lo de um pedaço de peixe.
Os instintos de Alana diziam que os Gowan já não eram mais uma ameaça. Ela e Gregor poderiam permanecer por ali até que o machucado cicatrizasse. E, se o tempo colaborasse, ficariam confortáveis durante alguns dias. Ao olhar para as árvores ao redor, as violetas selvagens sob a base dos troncos e as colinas não muito distante, Alana resolveu que aquele era o local perfeito para uma mulher ser introduzida à arte do amor. Fitando-o novamente, pensou que não poderia ter escolhido um professor melhor. Tudo que tinha de fazer era esperar que ele se recuperasse o suficiente para dar início às aulas.
— Alana.
A voz profunda a assustou e ela quase derrubou o peixe que tinha acabado de apanhar. Rapidamente, jogou-o na margem e olhou para Gregor. Ele estava recostado contra o tronco de uma árvore, de braços cruzados sobre o peito largo. Durante quanto tempo ele se encontrava ali, observando-a, era um mistério. Ela apenas desejava que ele não tivesse ouvido a conversa com Charlemagne sobre as intenções de se tornar sua amante.
— É melhor que saia logo da água. Suas pernas estão ficando azuis.
Ela lançou-lhe um olhar zangado, achando que aquilo não era muito eficaz na tentativa de seduzi-la. Mesmo assim, deixou o rio, escondendo as pernas sob a saia.
— Um cavalheiro de verdade não fica reparando nas pernas de uma dama.
— Bem, eu nunca disse que sou um cavalheiro, e tenho planos de ver um pouco mais do que as suas pernas bonitas.
O comentário a fez corar, e logo um calor se espalhou por seu corpo. Era evidente que ele não teria de se esforçar muito para seduzi-la. Já estavam havia três dias naquele local, aproveitando a paz e o tempo bom. A saúde de Gregor melhorava com incrível rapidez. Seus beijos e carícias eram cada vez mais ousados, e ela retribuía da mesma forma, mas ele sempre se continha antes de avançar demais. Porém, naquele exato momento, a expressão que Gregor tinha no rosto indicava que estava cansando de fugir do inevitável.
— E muito audacioso, Gregor MacFingal Cameron.
— E planejo ousar ainda mais.
— É sempre bom que um homem tenha um plano — ela sussurrou, surpreendendo-se quando ele a puxou para perto de si. — Precisamos levar os peixes para o acampamento.
— Quem disse que vamos voltar para lá? Gosto deste lugar.
— Mas ainda é dia.
— Acho que não terei paciência de esperar até que o sol se ponha.
Alana ia comentar algo sobre a avidez de Gregor, que a envaidecia muito, mas ele se apossou de seus lábios, fazendo-a se esquecer rapidamente do que ia dizer. A paixão estava evidente no beijo intenso e o desejo se revelava no modo como ele a pressionava contra o próprio corpo. Excitada, correspondia com ardor, enquanto ele lentamente a colocava sobre as folhas na margem do rio. Cada parte de Alana, coração, corpo e alma, recebeu-o de braços abertos quando ele se deitou sobre ela.
Finalmente, o momento tinha chegado. A atração que sentiam um pelo outro se intensificara a cada beijo, cada toque e cada olhar nos últimos três longos dias. Havia muito tempo ela se livrara de todas as dúvidas. Suspeitava que tinha estado tão ansiosa quanto ele para que o ferimento melhorasse.
— Diga sim — ele murmurou na curva macia do pescoço dela enquanto abria seu vestido. — Há três dias vem demonstrando isso com seus beijos doces, carícias suaves e suspiros, mas nunca falou em voz alta. Quero ouvir de sua boca. Quero escutá-la dizendo sim.
— Sim.
Se Gregor não estivesse tão desesperado para ficar bem próximo a ela, suspeitava que teria entrado em colapso naquele mesmo instante, tamanho o alívio que sentiu. Apesar de todos os sinais, indicando que ela realmente desejava se entregar, ainda tinha dúvidas. Alana era uma jovem bem-criada, cuja inocência era um prêmio guardado exclusivamente para o marido, e ele em momento algum oferecera uma promessa de amor ou casamento. Por isso, temia que, no último instante, ela hesitasse, cobrando algo que ele não poderia proporcionar, pois não era um homem totalmente livre ainda.
Terminou de despi-la, guiado pelo desespero e pela necessidade. Quando jogou para o lado a última peça de roupa, ajoelhou-se e a fitou por inteiro, ignorando o rubor que lhe cobria as faces. Ela era macia e delgada. Comparada às mulheres que conhecera, parecia uma criança, mas ele não a via como uma desde o dia em que havia cortado as faixas que encobriam os seios arredondados e firmes. Alana não tinha curvas generosas, porém suas formas delicadas eram lindas para ele.
Observando os mamilos enrijecendo sob seu olhar, ele tirou as próprias roupas. Sabia que teria de se controlar ao penetrá-la. Não era preciso ter nenhuma experiência com virgens para saber que a primeira vez era muito importante e deixava marcas, boas ou más, na memória de uma mulher. Apesar de toda a sensualidade do momento, ele estava um pouco nervoso.
Quando se acomodou nos braços acolhedores e seus corpos nus se tocaram pela primeira vez, ele estremeceu. Um leve tremor perpassou o corpo de Alana também e ele respirou, aliviado, concluindo que talvez não fosse tão difícil quanto imaginava. Afinal, ela parecia tão ávida quanto ele.
— É tão bom tocá-la — ele sussurrou, deslizando as mãos livremente ao longo do corpo esguio. — Tenho esperado por este instante desde que descobri que não era uma criança.
Agora que ele não a encarava com tanta ousadia, Alana sentiu seu embaraço desaparecer. — Tenho pensado nisso também. — Suavemente, ela tocou o peito largo, sentindo o calor da pele sob seus dedos. — E um homem muito bonito, Gregor.
— E eu nunca vi nada mais belo do que você, deitada aqui, sob a luz do sol.
No instante em que ela ia contestar as palavras lisonjeiras, Gregor a calou com um beijo. Ele se incomodava um pouco ao perceber que ela duvidava de seus elogios, mas era compreensível. A sensação de não se achar bonita era muito antiga, tinha sido despertada em algum momento no passado. Podia ser proveniente de coisas ditas ou feitas a ela, ou até mesmo originada de seus próprios medos e preocupações, mas estava arraigada. Seria necessário mais do que alguns beijos ou do ato de amor para banir essas dúvidas. Decidiu que daria a ela paixão e autoconfiança. Mesmo que não ficassem juntos — e o simples pensamento provocou-lhe uma dor estranha e profunda —, no que dependesse dele, Alana passaria a ter consciência da própria beleza e sensualidade. Era o mínimo que podia oferecer em troca do presente que ela estava prestes a lhe dar.
Acariciando o corpo viril enquanto ele traçava uma trilha de beijos ao longo de seu pescoço, Alana mal podia acreditar em como era bom senti-lo. O calor da pele sob suas mãos, o movimento dos músculos quando ele mexia os braços e até mesmo a leve aspereza da cicatriz sob seus dedos, tudo a encantava e servia para alimentar ainda mais o desejo que a consumia.
Assim que Gregor cobriu seus seios com as mãos grandes e beijou o vão entre eles, fechou os olhos e se perdeu nas delícias provocadas pelos toques dele. O roçar quente e úmido da língua sobre seus mamilos intumescidos resultou numa onda de tremor. Um gemido de prazer escapou de seus lábios quando ele os sugou. O prazer que se espalhou por seu corpo era tão intenso que se surpreendeu por não perder os sentidos. Em vez disso, deslizou os dedos por entre os cabelos longos e faltos, mantendo-o perto de si, num pedido silencioso para que continuasse.
Gregor murmurava palavras doces enquanto afagava seu ventre, mas ela não compreendia ao certo o que dizia. Logo, ele deslizou a mão entre suas coxas, fazendo-a ficar tensa. Quando conseguiu pensar em algo para dizer, protestando ante tal intimidade, já não queria repreendê-lo. Era uma carícia ousada, mas excitante. Todo o desejo que sentia por ele parecia se concentrar no exato local que estava sendo estimulado pelos dedos hábeis. Ela ouviu o próprio gemido quando ele a penetrou com o dedo, movendo-o no mesmo ritmo da língua que voltara a acariciar o interior de sua boca. Seu corpo clamava por mais.
— Gregor — ela gritou quando ele tornou a cobrir seus seios de beijos. — Eu preciso...
— Sim, sei disso. Posso sentir sua necessidade. — Ele retirou a mão que a acariciava, rezando para que ela estivesse preparada o suficiente para a dor que em breve sentiria. — Está tão quente e úmida... — murmurou em seu ouvido, ao se acomodar entre suas coxas e começar a penetrá-la. — Ponha essas pernas lindas em volta de mim, querida. — Soltou um gemido assim que ela obedeceu.
Apesar de arder de paixão, Alana sentiu certo desconforto conforme ele se aprofundava em seu corpo.
— Você é um homem muito grande — ela sussurrou, tentando não ficar tensa, pois suspeitava que isso só dificultaria as coisas.
— Obrigado.
Ela riu e então gritou quando ele a penetrou profundamente. Num gesto instintivo, colocou as mãos contra o peito musculoso e tentou empurrá-lo, numa tentativa de afastar a dor. Mas ele a beijou com carinho e recostou a testa contra a dela. Alana percebeu que ele esperava que a sensação desagradável passasse e que seu corpo se acostumasse com a invasão. Gregor estremeceu de leve enquanto lutava para se manter parado. Ela o abraçou ao perceber que a dor tinha cedido. Por um momento, permaneceu de olhos fechados e se concentrou no fato de que, naquele instante, eles eram um só, e se encontravam o mais próximo que duas pessoas poderiam estar. Sentindo o desejo retornar, olhou para ele, que estava de olhos fechados e dentes contraídos, e sorriu. Já era tempo de pôr um fim àquele sofrimento.
Gregor se perguntava se aquilo tudo poderia levar um homem à loucura. Ele estava exatamente onde queria estar havia algumas semanas, dentro de Alana. Sentir o calor de seu corpo envolvê-lo era puro prazer, mas não poder se mover era pura agonia. Com certeza, o tipo de tormento que poderia levar um homem à loucura. Uma vez que ela não se mexia, ele temia ter causado um sofrimento intenso, talvez tão forte a ponto de fazê-la se arrepender de ter dito "sim". Quando ele lentamente abriu os olhos, percebeu que ela o fitava, com um sorriso nos lábios.
— Acordou do cochilo? — ela indagou.
— Pobrezinha. Eu a machuquei.
— Um pouco. Mas já passou.
— Graças a Deus.
Enquanto retomava o ritmo com movimentos lentos, como se temesse que ela pudesse quebrar, Gregor a beijava. Alana enlaçou as pernas com mais força ao redor do corpo viril e aos poucos foi entrando no mesmo compasso, deixando-se guiar livremente pelo instinto. Logo começou a desejar que ele fosse menos gentil, menos contido nos movimentos. Todo o seu corpo parecia tenso e pronto para transpor uma barreira invisível. Correu as mãos pelas costas dele, e agarrou suas nádegas, pressionando-as para ainda mais perto. Ele gemeu e começou a se mover com mais ímpeto.
Ele murmurou algo que soou como um pedido de desculpas, mas Alana não prestou muita atenção. Ela parecia estar alcançando algo que não sabia ao certo o que era. Sentiu-se estremecer, sendo tomada por ondas de calor que percorreram seu corpo inteiro. Gritou o nome dele, querendo que compartilhasse aquilo com ela. No minuto seguinte, ao escutar a voz rouca sussurrar seu nome, percebeu que ele a acompanhava. Abraçou-o, prendendo-o dentro de si, entregando-se por completo ao prazer que ele acabara de lhe proporcionar.
Gregor se deitou sobre ela, sustentando seu peso nos cotovelos apoiados ao chão. Estava dominado por uma mistura de orgulho e espanto. Tinha cumprido a promessa de satisfazê-la, mas estava admirado com o que ela lhe dera em troca. Nunca tinha sentido uma paixão assim, nem uma satisfação tão completa com outra mulher. Ainda estava tomado pelas sensações que havia experimentado. Sentia-se saciado, mas sabia que logo iria querer prová-la novamente.
Era exatamente aquela emoção que ele buscara nos braços de outras mulheres, mas nunca havia encontrado. Desistira da busca e tinha resolvido que abandonaria de vez o sonho de uma grande paixão, trocando-o por um pedaço de terra e algumas moedas obtidos por meio do casamento. Com Alana, pensou, encontrara o valioso sentimento que fazia de Ewan e Sigimor homens felizes. Era o que desejava, do que precisava e o que pretendia ter.
As palavras vieram à sua boca, mas as conteve. Não se sentia no direito de falar sobre o futuro ainda. E, depois de quase selar um noivado com a mulher errada, hesitava em fazer promessas a outra. Ele precisava ter certeza... absoluta certeza. Alana parecia ser a pessoa certa, mas talvez a paixão estivesse obscurecendo seu bom senso. Seria cauteloso dessa vez. Além disso, havia o fato de não querer que Alana descobrisse a respeito de Mavis depois de ter-lhe feito promessas. Aquilo a levaria a considerá-lo leviano e achar que o que dizia não significava nada.
Lentamente, Gregor se esquivou dos braços que o envolviam, virou-se de lado e a trouxe pára perto de si. Ela ainda estampava o prazer na fisionomia, e os olhos que o fitavam emanavam um brilho especial. Quando se virou e o beijou no peito, ele foi tomado por outra onda de excitação.
— Está sentindo alguma dor, querida? — indagou, acariciando-a no quadril.
— Não, apenas uma leve ardência e, bem... — ela corou —, estou um pouquinho grudenta. Gregor riu e se levantou. Em seguida, ajudou-a a fazer o mesmo, apreciando o corpo nu. Havia algumas marcas vermelhas sobre os seios dela causadas pelo roçar de sua barba por fazer, e um pouco de sangue escorria entre as coxas delicadas. Ele a apanhou em seus braços e caminhou até o rio. A água estava fria, mas o dia quente tornou o mergulho quase agradável. Depois que a colocou em pé, começou a lavá-la, ignorando os protestos.
— Você não tem respeito pelo recato de uma pessoa. — ela reclamou enquanto Gregor a tirava da água.
— Não — ele concordou animadamente, ajudando-a a se vestir após secá-la com a camisa.
Alana o observou se enrolar no manto e suspirou. Fazer amor com ele tinha sido do jeito que ela sonhara, mas os momentos seguintes estavam sendo decepcionantes. Ele havia sido carinhoso, abraçando-a gentilmente após a explosão de prazer, porém as tão esperadas palavras de amor não tinham sido pronunciadas. Disse a si mesma que ainda era cedo, que os homens precisavam de mais tempo para admitir o que sentiam.
— Está muito séria — ele falou. — Arrependida?
— Não.
— Ótimo. — Passando as mãos nos ombros de Alana, beijou-a no rosto. — E melhor voltarmos ao acampamento antes que Charlemagne roube nossos peixes.
Ao ver o gato se aproximando do embornal, ela correu para salvar a refeição. Em seguida, apanhou as outras peças de roupa e caminhou ao lado de Gregor. Apesar de a ausência de palavras românticas incomodá-la, a maneira como ele se comportava a deixava à vontade ao seu lado, apesar do que tinham acabado de fazer... Na margem do rio, em plena luz do dia. Meneou a cabeça, espantada com a própria ousadia.
Enquanto ela cuidava da fogueira, ele limpava os peixes. Em seguida, ela se encarregou de assar o pescado, e ele foi buscar mais lenha. Tudo parecia normal, tão comum, que chegava a ser um pouco estranho. Havia algumas horas, ela perdera a virgindade. Somente uma leve ardência entre as pernas indicava que não tinha sido um sonho. Alana se perguntava se era assim que os amantes agiam, levando a vida normalmente exceto por breves momentos de prazer.
Não, ela pensou, devia haver mais. Duvidava que Gregor se deitasse com uma virgem todos os dias. Ele deveria ter feito, ao menos, um elogio ou dois. Parecia que estava economizando as palavras, falando o mínimo possível, embora ela não entendesse a razão. Pensou que talvez pudesse perguntar a ele o que estava sentindo, mas logo descartou a abordagem direta, temerosa da resposta.
Ela, por sua vez, também não dissera nada. Tinha, na ponta da língua, uma infinidade de palavras, mas elas vinham diretamente do coração, e não acreditava que Gregor estivesse preparado para ouvi-las. Havia feito amor com ele porque o amava. Porém, sabia que os homens não precisavam sentir algo tão profundo para se relacionar com uma mulher. Gregor estava atraído por ela, quanto a isso não restava dúvida, mas Alana precisava de muito mais. Pelas histórias que ouvira das mulheres de sua família, conseguir esse algo mais de um homem poderia levar tempo. Esperava que tivesse a paciência necessária.
Gregor fez -de tudo para manter a conversa entre eles o mais superficial possível durante todo o jantar. Sabia que estava agindo como se nada de importante tivesse acontecido à beira do rio, pois ainda se achava muito confuso e com receio de tecer algum comentário. Percebia, pelo brilho dos olhos de Alana, que ela estava perturbada com aquela reação, mas ele precisava de tempo para pensar. Apesar de não querer fazer nenhuma promessa de amor, também não queria agir como se não tivesse sido afetado pelo que haviam compartilhado.
Quando entraram embaixo das cobertas, ele notou que ela estremecia de leve e sabia que tinha de fazer algo. Puxou-a para mais perto e beijou-a, ficando aliviado ao vê-la retribuir a carícia.
— Minha querida Alana, você é capaz de fazer um homem tremer até a raiz dos cabelos — ele murmurou enquanto beijava a cavidade entre o ombro e o pescoço delicado.
— Você não me pareceu muito abalado.
— Acha que me deito com uma virgem todos os dias?
Ela deixou um leve sorriso escapar ao afagar os braços de Gregor. Só então percebeu que estivera tão concentrada nos próprios pensamentos que nem havia se dado conta de que ele se deitara sem roupa.
— Bem, não. Pelo pouco que ouvi, a maioria dos homens costuma evitar as virgens.
E ambos sabiam o motivo, ele pensou. Tirar a pureza de uma moça era o caminho certo para o altar, mas esse era um assunto que ele pretendia evitar a todo custo.
— Você me deu um presente maravilhoso — Gregor disse com carinho. — E não estou me referindo à sua doce inocência. Você despertou algo novo dentro de mim, a sensação mais profunda e esplêndida que experimentei em toda a minha vida. Mais doce também. Temi que a tivesse machucado, especialmente quando me tornei tão rude no final.
— Não, você não me machucou. E não acho que tenha sido rude.
— E um alívio ouvir isso, apesar de eu ainda acreditar que deveria ter sido mais gentil.
Alana deslizou os dedos com delicadeza pelo peito forte. Ele parecia desgostoso consigo mesmo. Suspeitou que um homem como Gregor não gostasse de perder o controle, como havia acontecido. Apesar de achar um tanto embaraçoso comentar sobre o ato em si, ela não queria que ele continuasse com a impressão de que agira com rispidez. Pelo contrário, o tempo todo ela estivera envolvida no mesmo ritmo, e os momentos finais tinham sido fantásticos. Tudo transcorrera exatamente como havia sonhado. Alana não queria que ele se preocupasse tanto com cada movimento a ponto de deixar de se concentrar nela e no prazer que poderiam compartilhar. Desejava Gregor, e somente ele, do jeito que era.
— Confesso que gostei quando você foi um pouco rude — ela murmurou, fitando-o rapidamente antes de baixar o olhar. — Você agiu da forma que eu esperava.
Alana era uma jóia preciosa, ele pensou ao erguer-lhe o rosto com a ponta dos dedos para beijá-la.
— Conte-me, meu tesouro, está dolorida?
— Não.
— Ótimo, pois quero fazer amor com você novamente. — Começou a livrá-la da roupa.
A voz de Gregor soou estranhamente tensa, porém ela atribuiu o fato ao desejo. Sentia o membro ereto roçando suas coxas. Ele ainda não falara nada sobre amor, mas isso já não a incomodava tanto. Pelo visto, ele tinha sofrido do mesmo embaraço que ela. Ouvi-lo falar sobre a atração que sentia por ela e o prazer que encontrara ao seu lado seria o suficiente por enquanto, disse a si mesma. Então, voltou todas as atenções ao deleite que encontraria nos braços dele.
Gregor ajeitou-se na cama improvisada com Alana dormindo em seus braços e beijou-a na testa. Ele acariciava o ventre perfeito e sorriu ao ouvi-la murmurar seu nome em um sonho. Deveria estar exausto depois de terem feito amor mais uma vez e de maneira mais do que intensa, porém o que sentia era um fogo ardendo por dentro. Alana o estava transformando em um homem insaciável, concluiu, sorrindo.
Aceitara as palavras dela como verdadeiras e se permitira apenas dar e receber prazer, preocupando-se somente que ela desfrutasse da relação tanto quanto ele. Dessa vez, ele se deixara levar, sem calcular muito cada gesto. Esse tinha sido o interlúdio mais sensual que já experimentara. O fato de Alana entregar-se de corpo e alma a cada carícia, ávida por mergulhar na paixão que havia entre eles, só facilitava as coisas.
Enquanto observava Charlemagne se acomodando no peito dela, bocejou e fechou os olhos. Se o tempo continuasse bom, poderiam ficar ali por mais um ou dois dias, vivendo aqueles momentos de paixão. Porém, logo teriam de encarar os problemas da vida.
Precisavam ir em busca da irmã de Alana, e ele teria de romper os laços com Mavis. Esperava desfazer o compromisso assim que chegasse a Scarglas. Abraçou Alana com mais intensidade. Não importava o que o futuro lhes reservava, nunca mais ele consideraria a hipótese de se casar se não houvesse, no mínimo, uma forte e verdadeira paixão.
Alana sentiu Gregor dentro de seu corpo enquanto despertava lentamente, deixando escapar um leve gemido de prazer ao perceber que não se tratava de um sonho. Uma das mãos fortes segurava um seio enquanto a outra deslizava pelos quadris arredondados. Surpreendeu-se ao se dar conta de que seus corpos tinham se unido enquanto ainda estava de costas para ele. Porém, logo os dedos hábeis começaram a acariciá-la entre as pernas, levando-a à loucura, e ela perdeu toda a capacidade de pensar. Abandonou-se à excitação enquanto ele os conduzia ao paraíso.
Tremores de prazer ainda a percorriam quando passou a acariciar o braço de Gregor que envolvia sua cintura. Alana não imaginava que houvesse tantas posições distintas para fazer amor. Nos últimos dois dias, ele lhe ensinara muitas coisas. Por outro lado, não estava nem um pouco curiosa de saber onde ele havia aprendido tudo aquilo, nem queria pensar em, quanta experiência ele tinha. Seria fácil começar a se comparar com todas as lindas mulheres que ele conhecera antes dela.
Esses pensamentos rapidamente esfriaram o calor que ainda a percorria, e Alana se esquivou do abraço. Em seguida, vestiu-se, apanhou a bolsa de viagem e procurou um canto privado na floresta. Sabia que era tolice permitir que o ciúme das mulheres que Gregor tivera no passado estragasse os bons momentos do presente. Ele era seu agora. E, uma vez que havia assumido o risco, era bobagem perder o precioso tempo ao lado daquele homem maravilhoso preocupando-se com isso.
Após cuidar de suas necessidades pessoais, seguiu na direção do rio para se banhar. Olhando ao redor para se certificar de que não havia ninguém por perto, ela se despiu e entrou na água. Cerrou os dentes de frio e lavou-se o mais rápido que pôde.
Já estava farta de comer coelho e peixe e, principalmente, de tomar banhos frios. Na primeira oportunidade que tivesse, iria tomar um longo banho quente, prometeu a si mesma.
Quando, por fim, chegassem a um lugar onde ela poderia se dar a algum luxo, provavelmente Gregor já teria tido tempo de se decidir se ficaria com ela ou se seguiria o próprio caminho, concluiu após um longo suspiro. Ela precisava encontrar Keira, para saber se a irmã estava bem, mas isso significava o fim da viagem com Gregor. Apesar da ausência de palavras de amor, Alana sabia que era importante para ele pela maneira como a abraçava enquanto dormiam, pelos sorrisos trocados e até mesmo pelo modo como falava, usando um tom de voz suave. Ou talvez ele tratasse dessa forma todas as amantes, antes de abandoná-las.
Portanto, teria de se esforçar mais para fazer com que Gregor quisesse continuar ao seu lado. Se estivessem na casa dele, poderia demonstrar que seria uma boa esposa. Fizera sua parte ao mantê-los aquecidos e alimentados durante as viagens, mas duvidava que Gregor visse as coisas dessa maneira. Sabia que ele gostava de conversar com ela sobre diversos assuntos e era uma boa parceira de xadrez. Mas, apesar de apreciar a sua companhia e da satisfação que Alana lhe proporcionava, ele não havia dado nenhum sinal de amá-la.
Enquanto caminhava de volta ao acampamento, decidiu que daquele dia em diante seria a melhor amante que ele já tivera. Talvez essa fosse a chave para o coração dele. E, estava ansiosa para tentar, pois seus instintos diziam que o tempo que restava para encontrar essa chave estava se esgotando rapidamente.
Assim que Alana retornou ao acampamento, Gregor lhe deu um beijo e saiu para cuidar de sua higiene pessoal. A vida nunca fora tão boa, ele pensou no caminho para o rio. O local onde estavam acampados era farto em alimento e água. O tempo estava excepcionalmente bom, como se a natureza tivesse decidido que eles mereciam uma trégua do frio e da umidade.
E, para completar, ainda havia a doce Alana, que estava se mostrando uma amante incomparável, concluiu, com um sorriso embevecido na face. A água fria do rio apagou rapidamente a excitação que o tomara ao pensar nela. Enquanto se banhava, tentava descobrir de que forma Alana era tão melhor do que todas as mulheres que haviam se deitado em sua cama. Gregor sempre acreditara que, em se tratando de sexo, todas elas eram iguais. Mas Alana tinha provado o contrário.
Claro que o fato de saber que era o primeiro e único homem a se deitar com ela já consistia em motivo suficiente para alimentar seu orgulho masculino. Por mais arrogante e hipócrita que pudesse parecer, era bom saber que nenhum outro havia tocado naquela pele macia, beijado os belos seios nem sentido o calor das coxas quentes ao redor do corpo enquanto ela gritava seu nome. Gregor nunca tinha se importado com quem ou com quantos homens uma mulher se deitara antes dele, mas apenas a idéia de Alana beijando outro homem era o suficiente para levá-lo à loucura.
Ao pisar na margem do rio, enxotou Charlemagne da toalha que havia trazido da estalagem e rapidamente começou a se enxugar, ainda tentando desvendar o mistério representado por Alana. Ela lhe dera a liberdade de ser ele mesmo na cama e fora dela, pensou com um sorriso. Com ela, não precisava planejar ou calcular. Ele quase sentia o prazer que seu toque proporcionava a ela. Não era um tolo romântico, mas podia jurar que, quando atingiam o clímax, era como fossem um só ser, unidos por um prazer indescritível. Aquela era uma sensação que talvez nunca compreendesse de fato, mas que estava se tornando um verdadeiro vício.
Ao caminhar de volta ao acampamento, decidiu que já era tempo de seguirem viagem. Não que gostasse da idéia de abandonar aquele paraíso, mas tinha prometido a Alana que a ajudaria à encontrar Keira. Sendo assim, não poderiam continuar vivendo na floresta como se fossem dois espíritos livres. Havia também a possibilidade de sua família ter ficado sabendo sobre o seu desaparecimento no caminho de volta da casa de Mavis. E os parentes de Alana também deviam estar preocupados. Apesar de um lado egoísta querer se esquecer de todas as preocupações e continuar naquela vida boa ao lado dela, sabia que não poderiam ficar ali para sempre, esquecidos do restante do mundo.
A fisionomia de Gregor estava tão séria quando ele se sentou e se serviu de um pouco de mingau de cereais que ela não pôde evitar a pergunta:
— Há algo errado?
— Não, apenas decidi que é melhor que retomemos nossa caminhada, e confesso que não estou muito feliz com a idéia — ele respondeu, sorrindo em seguida.
A idéia também não agradou a Alana, porém ela disse, também sorrindo:
— Sim, já é tempo. Tenho sentido que Keira está por perto.
— Mas não em perigo?
— Não, mas continua perturbada. O homem mau que aparecia no meu sonho se foi. Espero que tenha morrido. Reconheço que é crueldade de minha parte, mas creio que se tratava de alguém com as mãos sujas de sangue, que nunca deixaria Keira em paz se um dos dois não morresse.
— Uma verdade dura, que não pode ser ignorada. Bem, se pode sentir a sua irmã com mais força, quer dizer que estamos mais perto dela.
— Acho que sim, apesar de não saber onde nos encontramos.
— Se nos apressarmos, chegaremos ao Monastério de Saint Bernard antes do. anoitecer.
Alana o fitou, surpresa.
— O monastério próximo a Muirlan?
— Sim. Sabe onde fica? — Gregor saboreou as últimas gotas do vinho que a sra. Dunn lhes dera.
— Sei. Meu primo Matthew está lá. Bem, ele é o irmão Matthew agora.
Gregor meneou a cabeça.
— Há alguém nessas terras que não seja parente dos Murray?
Alana riu, erguendo os ombros.
— De fato somos uma família muito grande, porém Matthew é um Kirkcaldy. Da família da minha mãe.— Ela se engasgou ao se dar conta de algo. — É claro! E por isso que estou sentindo a presença de Keira.
— Acha que ela foi buscar a ajuda do seu primo?
— Ela foi se esconder no mosteiro. — Alana refletiu por um momento e ficou ainda mais convencida disso.
— Sim, ela procurou o primo Matthew quando estava ferida, o que significa que Ardgieann não deve ser tão distante de Muirlan e do monastério.
— Não sei ao certo onde é Ardgieann, mas tenho conhecimento de que Muirlan não é muito longe de Scarglas. — Encolheu os ombros ante o olhar curioso de Alana, pois a maioria dos homens conhecia muito melhor as terras ao redor. — Meu pai costuma criar inimigos por onde passa, por isso estamos cercados por eles. Por exemplo, o clã dos Gray, que se sente no direito de matar qualquer MacFingal que encontrar. Por isso, não costumamos viajar para muito longe e, quando é preciso, usamos as estradas mais movimentadas. Posso dizer bastante sobre cada clã que rodeia Scarglas, um pouco sobre como chegar a Dubheidland, onde meu primo Sigimor é o senhor, e alguns de nós já estivemos em Deilcladach, onde o irmão de Fiona, Connor, tem certo poder, mas não sei muito mais do que isso. Hoje em dia, não é mais tão perigoso, porém é difícil abandonar os velhos hábitos, e ainda não costumamos ir a terras muito distantes.
De repente, Gregor se deu conta de que Alana poderia lhe perguntar o que ele estava fazendo tão longe de casa quando foi capturado pelos Gowan e resolveu mudar o rumo da conversa, questionando sobre o monastério. Foi um alívio quando ela se animou, pondo-se a falar sobre o primo Matthew. Esconder segredos de Alana estava se tornando cada vez mais difícil e o fazia sentir-se culpado.
Uma hora depois, estavam prontos para partir. Alana olhou ao redor, ao mesmo tempo triste por partir e ansiosa para iniciar a jornada que a levaria ao encontro da irmã. Com um leve sorriso, segurou a mão que Gregor estendia, e os dois deixaram o local, lado a lado. Era melhor nem pensar que aquela viagem estava próxima do fim, podendo tanto conduzir à alegria como a um grande sofrimento. O único consolo de Alana era o reencontro com Keira, que atenuaria a dor da perda, caso falhasse na missão de conquistar o coração de Gregor.
Ele decidiu que poderiam parar para um descanso no meio do dia, pois já tinham avançado bastante. Sentou-se sobre uma pedra e observou Alana, que cuidava de Charlemagne.
— Gostaria de um pedaço de bolo de aveia? — ele indagou. — E o último dos generosos presentes da sra. Dunn.
— Sim — ela respondeu de uma pequena pilha de pedras, que observava com atenção. — Já estou indo.
Ele franziu o cenho ao ver a expressão dela ficar tensa.
— Encontrou algo?
— Sim — ela disse, imóvel e num tom de voz distante. — Uma víbora.
Um calafrio perpassou o corpo de Gregor. Ele se levantou rapidamente e sacou o punhal. Caminhando o mais lentamente que podia, aproximou-se dela. Levou um momento até que conseguisse ver a cobra, pois as sombras das pedras a ocultavam muito bem. O réptil estava muito próximo do pulso de Alana, indicando que o bote seria certeiro mesmo que ela não se movesse.
No mesmo instante em que Gregor preparou o punhal e mirou, rezando para conseguir matar a cobra antes que a picasse, Charlemagne saltou no ar de algum lugar à direita dele. Alana gritou, alarmada, mas Gregor a segurou, puxando-a para junto de si antes que ela pudesse tentar deter o gato. Abraçando-a, ele recuou alguns passos, começando a sentir muita pena do felino condenado à morte. Mas, para a surpresa de ambos, Charlemagne veio em direção a eles com a víbora dependurada na boca. Ainda segurando Alana, Gregor recuou mais alguns passos.
— Céus! Largue isso! — ele ordenou, surpreendendo-se ao ver que o bichano lhe obedecia.
— A cobra está morta?— Alana perguntou, lutando contra a vontade de correr e apanhar Charlemagne nos braços.
— Parece que sim — ele respondeu, depois de um olhar mais atento. Em seguida, apanhou um graveto e cutucou o réptil, que não se moveu. — Sim, está morta.
— Oh, Charlemagne! — Alana se esquivou dos braços de Gregor e correu para apanhar o gato. — Acha que ele foi picado, Gregor? — interrogou, enquanto buscava algum sinal de ferimento no felino.
— Acredito que, se houvesse sido picado, o veneno já estaria fazendo efeito.
Gregor revirou os olhos e fez uma careta enquanto ela acariciava o gato, dizendo que ele era um animal muito valente e coisas do tipo. Seguindo-a de volta ao lugar em que tinham deixado suas coisas, ele não sabia se ria ou chorava. Tinha sido superado por um gato. Aparentemente sua missão nessa viagem com Alana era aprender a ser humilde, ele concluiu, deixando escapar um sorriso. Sentando-se sobre uma pedra, observou-a alimentar o bichano com a carne de coelho que haviam guardado para mais tarde.
— Pensei que esse fosse o meu jantar — resmungou.
— Há o suficiente para nós três — ela disse ao se levantar, olhando para o gato, que comia como se nada tivesse acontecido. — Ele me parece bem, não acha?
Charlemagne terminou sua refeição e começou a se lamber.
— Eu não imaginava que gatos sabiam caçar e matar cobras — Gregor falou.
— Nem eu. Não tenho certeza se todos sabem. No entanto, Charlemagne se saiu muito bem. Foi rápido e preciso.
— Então, você não é completamente inútil, não é mesmo? — ironizou, dirigindo-se ao gato e contendo o riso ao ver o ultraje estampado no rosto de Alana.
— Ele é um animal muito bom — murmurou. Gregor sorriu.
— Sim, ele é, mesmo tendo estragado a minha oportunidade de bancar o herói.
— Oh. — Ela mordeu o lábio, mal conseguindo conter o riso. — Bem, quem sabe da próxima vez.
Ainda tomado pelo resquício do temor que sentira por Alana, Gregor apenas resmungou algo. O veneno de uma víbora nem sempre era fatal, mas sobreviviam apenas algumas pessoas que tivessem mais sorte. Alana provavelmente teria morrido se tivesse sido picada, pois era miúda. No momento em que vira que ela estava prestes a ser atacada pela cobra, sentira um medo profundo. E ainda estava trêmulo.
Chegou à conclusão de que aquela mulher tinha se tornado parte importante de sua vida; Muitíssimo importante. Contudo, estava determinado a tomar uma decisão a respeito desse assunto com toda a calma e frieza possíveis. Era o que imaginara ter feito com relação a Mavis, mas agora sabia que a ganância pelo dote havia interferido em seu julgamento, assim como a vontade de ter o mesmo que Sigimor e Ewan. Ele ainda alimentava esse desejo. Porém, dessa vez, a mulher que encontraria para compartilhar o resto de sua vida teria de se encaixar com perfeição.
— Parece que o gato sobreviverá — ele disse ao se levantar, impelido pela necessidade de se movimentar para desanuviar os pensamentos.
— Sim. — Alana sorriu, erguendo-se também e ajeitando a saia. — Ainda não consigo acreditar no que Charlemagne fez.
— Nem eu. Acho que ele pensa que é um cachorro. Segue-nos como se fosse um cão fiel, viaja conosco e nos protege. — Gregor olhou para o bichano que esperava, paciente, que Alana ajeitasse a bolsa na qual o carregaria. — O pobrezinho está confuso.
— Não, ele só tem medo de ser abandonado — ela disse, com um tom de riso na voz por causa das tolices que ele acabara de falar. Acomodou o felino como se ele fosse um bebê para, em seguida, terminar de recolher os pertences.
Gregor entendia o desejo do gato de não ficar sozinho. Essa era uma das razões que o tinha levado a buscar uma esposa. Desfrutar de momentos fugazes de prazer com várias mulheres já não o satisfazia mais. O prazer desaparecia rapidamente, deixando apenas um vazio profundo.
De mãos dadas com Alana, ele retomou a jornada. Tentou imaginar Mavis caminhando ao seu lado durante tantos dias, dormindo ao relento, pescando e cozinhado, mas foi impossível. Decerto ela não seria capaz de metade das coisas que Alana fizera. Não que se importasse se Alana não contasse com essas habilidades, mas ficava contente que ela as tivesse. Havia algo quase reconfortante nisso e, seguramente, a viagem tinha sido mais fácil e agradável.
— Continua achando que a sua irmã está no monastério? — ele indagou, franzindo o cenho quando a viu se soltar da sua mão e voltar à pilha de pedras. — Pode haver mais cobras escondidas aí.
Alana apanhou o galho que ele usara para cutucar a víbora e se aproximou da ilha rochosa. Em seguida, pegou algo e correu de volta para perto dele.
— Bem, que tesouro valioso a fez correr o risco de encarar outra víbora? — ele perguntou, enquanto retomavam a caminhada. Franziu a testa quando ela abriu a mão para lhe mostrar o prêmio. — Trata-se de uma pedra.
— Sim, e é muito bonita.
— Estou vendo. Por acaso, decidiu que carregar o gato e uma bolsa cheia de coisas não é peso suficiente e resolveu adicionar algumas pedras?
Ela suspirou. Gregor parecia aborrecido com o que acreditava não passar de um capricho feminino. Duvidou que ele entendesse, mas esperava que uma explicação ajudasse ou, ao menos, atenuasse a raiva que demonstrava por ela ter retornado a um local perigoso. Afinal, já estava difícil o bastante conquistar o coração desse homem.
— Gosto de coisas bonitas — ela murmurou. — Esta pedra é furta-cor e, quando a toco, transmite um friozinho agradável. — Com cuidado, colocou-a na mão de Gregor. — Gosto de pedras. Fazem parte da criação divina e da natureza, e essa provavelmente existe há mais anos do que conseguimos contar ou imaginar.
Era verdade, Gregor pensou, não que já tivesse refletido sobre o assunto antes. Havia pedras em todas as partes, mas, se algum dia pensara em alguma, tinha sido com a intenção de jogá-la contra um inimigo. Aquela pedra era geladinha e se encaixava perfeitamente na palma de sua mão. Até que era bonitinha. Porém, não explicava por que Alana se sentira compelida a voltar para apanhá-la no local onde poderia haver um ninho de cobras.
— Ela tem um valor simbólico também — ela prosseguiu com a explicação. — Daqui a vários anos, olharei para ela e me lembrarei desta aventura. — Aceitou a pedra quando Gregor a devolveu, então a guardou em um bolso oculto entre as pregas da saia. — Sempre pego uma pedra do local onde algo importante aconteceu.
— E encarar a morte não foi o suficiente para que se lembrasse para sempre desse momento?
— Ah, sim, isso foi assustador. Fiquei paralisada, apenas encarando a cobra e esperando que me picasse. Mas você e Charlemagne vieram me salvar. Agora, cada vez que eu olhar para essa pedra, verei a cena novamente. — Ela estremeceu. — Cada um tem um jeito de guardar suas lembranças.
Era verdade, Gregor pensou. No entanto, não estava certo de querer se lembrar de que o gato salvara a vida de Alana enquanto ele ficara paralisado. Mesmo assim, compreendeu a necessidade de guardar algo como lembrança, pois com o tempo muitas vezes as memórias se turvavam. Ele havia conhecido uma mulher que costumava guardar uma mecha de cabelo de cada um de seus amantes, mas resolveu que era melhor não comentar o episódio com Alana. Ela poderia perguntar como ele soubera disso, e não estava disposto a revelar que uma mecha de seus cabelos fazia parte da coleção da mulher.
— Essa pedra é tudo de que precisa para se lembrar da aventura?
Alana corou.
— Bem, tenho outra pedra que encontrei perto do rio. — Gregor não precisava saber sobre as pedras apanhadas no calabouço, na cabana, na estalagem onde pela primeira vez o vira nu, nem no acampamento, onde tinham feito amor ao lado da fogueira. O bolso do vestido estava começando a ficar bastante pesado.
Ele assentiu, mas por dentro estava sorrindo como um tolo. A ocasião à margem do rio quando a possuíra era definitivamente uma lembrança que gostaria que ela mantivesse sempre nítida. Ficou um pouco triste por não ter, ele mesmo, apanhado uma pedrinha como recordação.
O sol desaparecia no horizonte quando Alana e Gregor chegaram ao monastério. Os pesados portões da austera construção já estavam fechados. Ela sentiu um leve temor assim que ele tocou a sineta. Segundos depois, que pareceram horas para ela, surgiu um monge de rosto redondo.
— O que os senhores querem? — ele perguntou num tom nada amistoso.
— Gostaríamos de falar com o irmão Matthew — ela respondeu. — Somos primos. Meu nome é Alana Murray, de Donncoill.
— Murray?
Ela arregalou os olhos ao ver o espanto no rosto dele.
— Sim. Alana Murray. Espero que ele saiba sobre o paradeiro da minha irmã, Keira Murray MacKail.
O homem balançou a cabeça com veemência, antes de encarar Gregor por um momento, e então olhar ao redor.
— Aqueles selvagens dos seus irmãos não estão junto, estão? Eles já estiveram aqui duas vezes.
— Selvagens? — Alana começava a se aborrecer com a maneira como o monge se referira à sua família.
— Deixe-me falar com o irmão Matthew.
— Não! — o homem gritou. — Chega de Murray por aqui! — Em seguida, bateu a porta com força.
Olhando para o portão que tinha sido fechado com violência, Alana ouviu o monge colocar a tranca de madeira do lado de dentro. Ele resmungava algo que, apesar de não ser possível entender com clareza, pelo tom não parecia nada amigável. Um momento depois, outras vozes se juntaram à dele. Mais alguns monges chegaram e obviamente estavam discutindo junto ao portão. Alana olhou para Gregor, recostado contra o muro de pedra, com os braços cruzados sobre o peito.
— Acho que Keira realmente procurou nosso primo Matthew.
— Concordo com você. — Ele não conseguiu conter o riso. A expressão de desgosto e contrariedade no rosto de Alana o fez rir ainda mais. — E me parece que seus irmãos também estiveram aqui.
— Isso não é engraçado — ela murmurou, perguntando-se o que sua família teria feito para irritar tantos os monges de Saint Bernard.
— Desculpe-me, mas estou achando esta situação muito divertida — ele disse, tentando se controlar.
— Acha que o monge se referiu aos irmãos que você estava seguindo?
Ela anuiu, suspirando.
— Sim, e temo que Artan e Lucas saibam intimidar quando querem, apesar de não acreditar que tenham ameaçado os monges. E por que teriam vindo duas vezes? Eles gostam do irmão Matthew, mas costumam dizer que os outros monges são irritantes. Provavelmente, pelo fato de eles serem os ouvidos de Deus na Terra e por causa do celibato. — Dessa vez, Alana acabou rindo com Gregor, mas a súbita abertura do portão desviou sua atenção. — Matthew! — ela exclamou ao ver o primo, mas o vão não havia sido aberto o suficiente para que pudessem se abraçar. — Não sou mesmo bem-vinda aqui?
— Claro que é — ele afirmou em voz alta, tentando inutilmente omitir as vozes que vinham do lado de dentro e diziam o contrário. — Tivemos alguns problemas, e os irmãos estão um pouco nervosos, só isso.
— Olhou para Gregor. — Quem é esse que a acompanha, prima?
— Gregor MacFingal Cameron — Alana falou.
E alguém gritou:
— Não podemos permitir a entrada de outro membro dessa família também.
Ela olhou para Gregor e ergueu uma sobrancelha.
— Parece que minha família não foi a única a causar problemas por aqui.
— Não, não, problema algum, prima — Matthew interveio, fazendo de tudo para manter o portão aberto enquanto impedia que os outros monges conseguissem fechá-lo de vez. — Espere um pouco, prima, e você também. Volto já. Precisam de algo para comer e beber?
— Se não for muito incômodo, sim. E gostaria de saber sobre o paradeiro de Keira.
— Bem, tenho muitas coisas para lhe contar a respeito disso. Aguarde-me com paciência que logo voltarei.
O portão foi fechado com violência de novo, e Alana ouviu mais vozes altercadas. Olhou para Gregor.
— Que estranho, não acha? Acho que deve haver uma história muito interessante por trás de tudo isso e mal posso esperar para ouvi-la.
— Eu queria saber se um dos meus parentes realmente esteve aqui — Gregor disse. — Ou apenas algum homem de nome Cameron.
— Pode ter sido um dos seus parentes. Mas a pergunta é por quê? E por que meus irmãos estiveram aqui duas vezes? A presença de Keira é a única coisa que faz sentindo. Por outro lado, não consigo imaginar o tipo de confusão que ela pode ter causado, pois não costuma criar problemas.
Alana estava prestes a bater novamente no portão quando Matthew apareceu, segurando duas cestas enormes de comida. Gregor aliviou seu fardo, e o monge começou a conduzi-los por um caminho sinuoso.
— Para onde vamos, primo?
— A uma cabana onde costumamos hospedar os visitantes do monastério. E um gato que está carregando aí?
— Sim. Chama-se Charlemagne.
Enquanto caminhavam, ela contou a história do felino e respondeu a todas as perguntas do primo sobre como eles tinham vindo parar no monastério. Apesar de estar louca para saber da irmã, Alana manteve a calma e permitiu que Matthew contasse todas as novidades até que estivesse pronto para falar a respeito do que mais a interessava.
— Entrem e fiquem à vontade — Matthew disse ao colocar a cesta sobre a mesa. — Podemos comer e conversar.
— Ela esteve aqui. Nesta cabana — Alana sussurrou, surpreendendo-se ao sentir a presença de Keira de maneira tão intensa. — E estava com medo de algo. Ou de alguém.
— De alguém — murmurou o irmão Matthew. — Por favor, Alana, sente-se e permita que eu lhe conte tudo.
Ignorando o olhar desconfiado do monge, Gregor pousou o braço sobre os ombros de Alana e a manteve perto de si por um momento.
— Encontramos o rastro da sua irmã, meu amor. Agora vamos ouvir a história — ele disse e beijou-a na testa antes que ela se sentasse.
— Não posso acreditar que você e Keira tenham passado por tamanhas aventuras — falou Matthew enquanto servia vinho em três cálices de madeira.
— Graças a Deus, as duas sobreviveram.
— Não me feri de fato, primo — Alana esclareceu.
— Mas previ que Keira estava muito ferida.
— Sim, ela se encontrava seriamente machucada quando chegou aqui.
— Acho melhor que comece do início — Gregor opinou, saboreando o pão fresquinho. — Tudo o que Alana sabe é que o marido da irmã morreu, que Keira foi ferida quando tomaram Ardgleann e que ela, então, desapareceu.
— Coma enquanto lhe conto tudo — disse Matthew.
— Depois que eu terminar, poderá perguntar o que quiser. Bem, um fora-da-lei chamado Rauf Mowbray assassinou o marido de Keira. Rauf e seus homens tomaram Ardgleann apesar da resistência do povo. Sim, Keira ficou seriamente ferida, pois Rauf queria se apossar da esposa do lorde juntamente com as terras. Sua irmã sofreu os graves ferimentos quando lutou contra ele.
— Ele... — Alana ia perguntar, morrendo de medo de ouvir a resposta, apesar de sentir que a irmã havia conseguido escapar do destino cruel.
— Não! — O monge tocou na mão de Alana. — Keira escapou antes que ele pudesse cometer tal pecado contra ela.
Alana assentiu, procurando se acalmar. Apenas imaginar esse abuso contra a irmã foi o suficiente para deixá-la apavorada. Porém, pensando com mais calma, sabia que o primo tinha dito a verdade. Se Keira tivesse sido estuprada, ela saberia, pois teria sentido.
— Keira permaneceu aqui para se recuperar — Matthew continuou. — A princípio, ela ficou no quarto de hóspedes dentro do monastério. Quando já estava em condições de se cuidar sozinha, eu a trouxe para cá.
Um rápido olhar para Gregor disse a Alana que ambos pensavam a mesma coisa. Um dos monges provavelmente tivera problemas em manter o voto de castidade e dificultara a vida de Keira no monastério. No entanto, Alana permaneceu calada, começou a comer e esperou que o primo prosseguisse.
— Keira sonhou com um homem que precisava de ajuda — ele acrescentou. — Liam Cameron.
Gregor se endireitou no assento.
— Liam? Meu primo estava gravemente ferido?
— Sim — Matthew afirmou. — Foi espancado e jogado colina abaixo. Caiu sobre umas pedras e acabou quebrando uma perna. Uma mulher mandou que dessem uma surra nele. Ela estava com ciúme, pois imaginou que ele estivesse interessado na irmã dela. O maior problema era que ambas eram casadas.
— Não poder ser. Liam não costuma ir para a cama com mulheres casadas. — Gregor sorriu sem jeito quando o irmão Matthew corou ao ouvir a palavra cama.
— Bem, o fato é que ele se curou aqui. Keira cuidou do seu primo. Porém, a mulher veio atrás dele, seguida pelo marido ciumento, que queria se vingar. Liam e Keira fugiram para Scarglas. — Olhou para Alana. — Mas, antes de ficar viúva, Keira tinha prometido ao marido que ajudaria o povo de Ardgleann a se livrar do domínio de Rauf Mowbray. Foi então que ela decidiu que já era tempo de cumprir a promessa. Liam jurou que a ajudaria a conquistar a vitória e achou que os homens de seu clã contribuiriam com todo o prazer. — Matthew tirou do bolso do hábito uma carta e a entregou a Alana. — Acabei de receber essa correspondência que conta tudo o que aconteceu com eles depois que saíram daqui. Acho que as palavras de Keira dirão mais do que as minhas.
Alana leu a carta duas vezes antes de passá-la a Gregor. Keira tinha sido sucinta e não se importaria se outros lessem a mensagem. Ela não revelara os sentimentos a respeito do novo marido, Liam Cameron, nem sobre o mal que acometera o povo de Ardgleann. Alguns assuntos ainda estavam pendentes, e Alana pôde sentir as preocupações e dúvidas da irmã por trás das palavras frias que escrevera. A ameaça de Rauf Mowbray já não existia e Ardgleann se recuperaria, mas Keira anda estava triste e insegura.
Gregor não deixou transparecer a preocupação após terminar de ler o que mais parecia o relatório isento de um magistrado, um simples relato de fatos, do que a carta de uma jovem que tinha vencido seu pior inimigo e se casado com um homem como Liam. Gregor suspeitou que Keira Murray MacKail, agora Cameron, estava escondendo algo.
Um olhar para Alana foi o suficiente para ver que ela também estava apreensiva. Liam sem dúvida era o belo homem que ela tinha visto nos sonhos. A maioria das mulheres seria capaz de qualquer coisa para se casar com alguém como ele, mas não havia nenhum indício desse triunfo nem de alegria na carta de Keira.
Gregor e Alana tinham chegado à mesma conclusão. A última coisa que ele desejava era que surgisse um problema entre ambos porque um primo seu não estava fazendo a irmã dela feliz.
— Liam Cameron é um homem bom, prima — disse o irmão Matthew. — Ele morou aqui, queria ser monge. Mas percebeu a tempo que não tinha recebido o verdadeiro chamado. — Sem tirar os olhos de Alana e com um sorriso vago, ele apanhou a carta que Gregor devolvia. — Liam será um bom marido para Keira, gentil e fiel, e um ótimo senhor pára o povo de Ardgleann. Sim, ele tem a força e a habilidade para fazer o que for preciso. — Olhou mais uma vez para a carta antes de guardá-la de volta no bolso. — Talvez as palavras de Keira tenham soado um pouco vagas porque ela deve estar com algumas dúvidas ainda, mas logo Liam resolverá tudo.
Alana suspirou e mordeu uma maçã.
— Talvez. Agora que finalmente sei onde Keira está, poderei me juntar a ela.
— Estou certo de que ela ficará muito feliz em vê-la, pois a notícia do seu desaparecimento se espalhou e foi motivo de grande preocupação para todos.
— Oh. Então foi por isso que Artan e Lucas estiveram aqui duas vezes. Uma vez por causa de Keira e depois por minha causa, creio. Eles causaram muita confusão?
O irmão Matthew riu.
— Os moradores do mosteiro não são os homens mais corajosos que existem, e seus irmãos estavam de péssimo humor. Como Artan disse, eles tinham acabado de caçar uma irmã e tudo que queriam era descansar um pouco quando souberam que teriam de sair à caça da outra. — O monge sorriu quando Alana resmungou algo. — A notícia que chegou a eles foi a de que, após sair no encalço dos dois, você desapareceu. Ficaram muito preocupados e resolveram voltar para casa pelo mesmo caminho que tinham feito, na esperança de encontrá-la. Não sei como não se cruzaram.
— Rezemos para que meus irmãos não se encontrem com os Gowan.
— Eles não estavam com cara amistosa, prima. Não acredito que os Gowan tivessem coragem de tentar capturar os dois como reféns.
— Estou preocupada com os Gowan. — Todos riram, divertidos. — Pelo menos agora sei por que fui recebida de maneira tão hostil no mosteiro.
— Eu disse aos monges que não agiram corretamente. Não foram Keira e Liam que causaram a confusão, e sim a mulher e o marido enfurecido. Bem, e o irmão Peter ainda jura que Keira o enfeitiçou. Não se preocupe, ele não tocou um dedo nela. Liam o atirou contra a parede antes. O problema é que a igreja afirma que as mulheres são culpadas por todos os pensamentos pecaminosos que surgem na mente dos homens. Quanto a Artan e a Lucas, digamos que os monges ficaram com medo apenas de olhar para os dois. — Matthew meneou a cabeça, desgostoso com o comportamento de seus companheiros de monastério. — Seus irmãos não tocaram em ninguém, nem quebraram absolutamente nada.
— Ah, então eles se comportaram muito bem.
Matthew riu mais uma vez e assentiu.
— Bem, exceto pela ameaça que fizeram ao irmão Peter quando vieram pela segunda vez. Um rapaz que tinha sido enviado pela sua família passou por aqui antes de ir até Ardgleann. Temo que ele tenha contado aos seus irmãos sobre Peter ter tentado algo com Keira. Artan e Lucas não o feriram, apesar de eu achar que tinham todo o direito. Mas, como disse Artan, não é nada divertido bater em um homem que treme só de avistar um punho em riste.
— Artan tem sabedoria — murmurou Alana.
Por um momento, eles comeram e conversaram, compartilhando as novidades. Somente quando o irmão Matthew se levantou, pronto para retornar ao monastério, Alana se deu conta da situação estranha em que se encontrava. Respirou, aliviada, assim que Gregor tomou o monge pelo braço e o acompanhou até a porta da cabana, falando sobre a generosa hospitalidade, a comida boa e os rigores da viagem. Era um posicionamento covarde o dela, mas preferiu deixá-lo lidar com eventuais protestos que o primo pudesse fazer.
Os dois homens deixaram a cabana, e Gregor só deu chance ao irmão Matthew de parar quando já estavam distantes o suficiente de Alana.
— Nada que disser nos fará mudar de idéia, irmão Matthew. Alana e eu ficaremos juntos,
— Ela é uma moça de boa família... — o monge começou, mas foi interrompido.
— Sei disso. Assim como estou ciente de que ela é para casar. Mas isso cabe a nós decidir. Alana tem vinte e dois anos, é mulher feita.
— Mesmo assim ainda é pura e inocente. Gregor pensou que não seria prudente corrigi-lo. De qualquer maneira, imaginou que o irmão Matthew talvez não estivesse se referindo ao corpo de Alana apenas. E nisso o homem tinha razão. Ela não era o tipo de mulher de quem ele pudesse se aproveitar e depois lhe virar as costas. Como parente da doce Alana, o bom monge tinha todo o direito de estar preocupado. Talvez o mais correto fosse dizer a verdade, pois, nos últimos quilômetros da jornada, a razão dizia a Gregor que ele seria um tolo se deixasse Alana escapar. E foi exatamente o que contou ao irmão Matthew. Falou também sobre a complicação chamada Mavis.
— Oh, entendo... — Matthew franziu o cenho.—Tem certeza de que não está legalmente noivo da mulher?
— Sim. Nenhum voto foi trocado, nenhum papel assinado, e eu nem fiz o pedido. Porém, não era segredo para ninguém que eu estava prestes a oficializar o compromisso, e é por isso que me sinto na obrigação de dar uma explicação a Mavis e ao pai dela antes de pensar em me comprometer com Alana.
— Deve mesmo uma satisfação aos dois. — O monge suspirou, meneando a cabeça. — Rezo para que Alana não descubra tudo o que está escondendo, e digo isso pelo bem de ambos.
As palavras reverberavam na mente de Gregor enquanto irmão Matthew se afastava. Havia certo risco em deixar de contar a Alana o que ele queria e precisava fazer, mas, mesmo assim, preferiu arriscar. Não tinha dúvidas de que ela se afastaria dele se soubesse de Mavis. E isso era inimaginável.
— Meu primo está muito irritado? — ela perguntou assim que Gregor pisou na cabana.
— Não. Acho que sua irmã e meu primo causaram as mesmas preocupações. Fique tranqüila. Sendo parente, ele se sentiu na obrigação de dizer algo.
Ela se afastou, e Gregor foi acender o fogo. Naquela noite, poderiam fazer amor em uma cama de verdade, e ele estava ansioso por isso. O calor da lareira impediria que o ar frio da noite invadisse a cabana e propiciaria luz suficiente para que ele pudesse vê-la por inteiro.
Nesse momento, ela o fitou, corando em seguida. Sabia muito bem o significado do brilho que ele tinha nos olhos. Por uma fração de segundo, sentiu uma pontinha de vergonha e embaraço, mas logo espantou esses sentimentos. Estava sem jeito por causa do primo, que, afinal de contas, era um monge. Por outro lado, suspeitava que o irmão Matthew não seria tão rigoroso a ponto de condená-la. Além do mais, ele conhecia muito bem as mulheres da família Murray para pressioná-la com rigor quanto a isso.
Gregor se levantou lentamente diante da lareira e caminhou até ela, movendo-se como um grande felino prestes a atacar a presa, fazendo-a estremecer diante da sensualidade que emanava. Tomando-a nos braços, ele sorriu, roubando-lhe o fôlego.
— Temos uma cama de verdade, meu tesouro. — Ele começou a desamarrar seu vestido. — Não uma feita de cobertores sobre o chão duro.
— Sim.
Ela permaneceu imóvel enquanto ele a livrava das roupas, peça por peça, e beijava a pele que ia sendo revelada. A timidez dizia para que fugisse de tamanha exposição, mas ela lutou para dominá-la. Seria o momento perfeito para dar início ao plano de conquistar o coração de Gregor de uma vez por todas. Se ele gostava de olhá-la, que olhasse então. Não demorou muito para que ela vencesse o acanhamento, chegando a se excitar com o simples fato de observá-lo enquanto ele a admirava nua. O calor daquele olhar aquecia todo o seu corpo.
— Minha pequena Alana — ele murmurou ao beijá-la no pescoço, feliz. —Você é macia como pluma e doce como mel. —Tocou-a nos mamilos com gentileza antes de carregá-la para a cama.
Rapidamente, ele tirou as próprias roupas e se juntou a ela. Alana gemeu de prazer ao tocar o corpo forte, deslizando os dedos pelo abdômen definido. Retribuía aos beijos dele com avidez. A mesma audácia que a fizera permanecer nua diante dele sem nem mesmo corar a libertou pára agir de acordo com o próprio desejo. Nunca imaginara que fazer amor com ele pudesse ser ainda melhor do que já era. Todas as amarras que a impediam de se entregar por completo ao prazer tinham sido rompidas, e agora ela se deliciava livremente a cada carícia.
Um leve protesto escapou de seus lábios quando ele parou de beijá-la nos seios. Então, tentou tocá-lo nos locais que sabia que ele gostava, mas de repente Gregor pareceu esquivo. Quando a mão máscula deslizou entre suas pernas, Alana se abriu para a carícia íntima. Porém, no momento em que ele começou a beijá-la na junção das coxas, substituindo com a boca os dedos que a estimulavam, ela se retraiu.
— Gregor — sussurrou, chocada, apesar de o corpo arder ainda mais.
— Relaxe, meu amor — ele murmurou. — Acho que você vai gostar disso. E eu sei que vou adorar. Deixe-me prová-la, por favor.
Ela permitiu. Sentindo os primeiros toques de sua língua, toda e qualquer hesitação desapareceu, e ela passou a encorajá-lo. Completamente extasiada, tentou puxá-lo para cima, mas ele a ignorou. Ela foi conduzida em um ritmo cada vez mais rápido a um estado de excitação que parecia infindável até reconhecer a sensação familiar do clímax. Ainda estremecia quando ele a penetrou. Envolveu-o com as pernas, recebendo-o em seu corpo, sentindo-o amá-la com ímpeto até que o acompanhasse na explosão de prazer que os consumia.
Gregor precisou de alguns minutos para recuperar as forças antes de se deitar de costas e trazer para cima de si o corpo lânguido de Alana. Sorriu quando a ouviu murmurar algo antes de se aconchegar a ele. Seus planos de fazer amor a noite toda com ela provavelmente tinham ido por água abaixo, mas não estava tão desapontado assim, uma vez que fora o causador do estado de exaustão em que ela se encontrava.
Certamente havia uma grande satisfação em ter proporcionado a Alana algo que nunca dera a nenhuma mulher. Sabia que era uma pequena retribuição em troca da inocência dela, mas ainda assim ficou satisfeito. Ele não sabia ao certo o que o havia impedido de se entregar totalmente no relacionamento com as outras amantes, mas estava feliz por descobrir que com Alana ele não tinha limites. Faria com ela o que nunca experimentara com outra, e estava ansioso para explorar esse mundo de prazeres ainda desconhecidos.
Pretendia mantê-la ao seu lado. Agora que a decisão estava tomada, ele se perguntou por que hesitara em encarar a verdade durante tanto tempo. Ela era sua alma gêmea. Não tinha dúvidas de que Alana era a mulher certa. Ela se encaixava.
Não havia comparação entre o acordo frio que seria seu casamento com Mavis e os planos que estava fazendo em relação a Alana. Permitir que o coração o guiasse não o tornava um tolo. O que faria dele um tolo seria tentar usar apenas a calma e a lógica para tomar uma decisão a respeito de algo tão doce quanto o que compartilhavam. Nem mesmo se importava em entender se podia usar a palavra amor para descrever o sentimento que o fazia sentir-se ligado a ela de tantas formas. Mais tarde pensaria nisso. Assim que liberasse Mavis, pretendia manter Alana ao seu lado de todas as maneiras possíveis. Ela ainda não sabia disso, mas estava presa a ele, e nunca permitiria que partisse. Tinha sido seu primeiro amante e pretendia ser o último.
― Temos um cavalo — Gregor anunciou ao entrar na cabana, os cabelos ainda úmidos do banho matinal. — Seu primo fez a gentileza de arrumar uma montaria para que possamos seguir viagem até Scarglas. — Estendeu a Alana o bilhete que encontrara preso à sela do animal junto com um pacote de comida.
Ela sorriu ao ler a nota de despedida de Matthew, cheia de pedidos de desculpas por não poder ter vindo dizer adeus pessoalmente. Ele pedia também que ela lhe enviasse notícias sobre tudo o que havia acontecido assim que chegasse a Scarglas. Alana não tinha certeza do que o primo esperava que pudesse ocorrer a ela, pois Scarglas marcaria o fim da longa jornada, mas mesmo assim prometeu a si mesma que escreveria a ele quando possível. Ao guardar o papel dobrado no bolso, ela riu da observação no rodapé da folha, que dizia que o irmão Peter emprestara o cavalo sem nenhuma restrição. Ainda tinha restado muito do menino brincalhão em Matthew, que ela conhecera quando criança.
Ao sair da cabana, logo atrás de Gregor, Alana quase engasgou. O cavalo de irmão Peter era um belo animal, tão bem cuidado que até ficou um pouco preocupada em pegar emprestado. Parecia estranho, contudo, que um monge tivesse uma montaria tão elegante e cara. Grande e forte, sarapintado de cinza, era o cavalo de um cavaleiro, e não de um monge.
— Relaxe, querida — Gregor disse ao montar no enorme garanhão e, em seguida, puxá-la e acomodá-la atrás de si. — Pretendo devolvê-lo intacto. — Deu um tapinha no pescoço do animal. — Ou pagar o preço justo se ele provar ser um companheiro valente e bravo. O pobrezinho deve estar cansado de ficar andando por aí e não fazer muito além de puxar alguma carroça ou levar um monge a passos lentos estrada afora.
— Eu pensava o mesmo. — Ela olhou para o céu e sorriu. — Acho que nossos pedidos por um dia bonito não foram ouvidos.
Depois de observar a atmosfera cinzenta, Gregor cutucou o cavalo para que acelerasse o trote.
— Certamente não parece muito promissor, mas pelo menos não teremos de seguir caminhando.
Para Alana, viajar a pé ou a cavalo na chuva dava no mesmo. Colocando de lado a bolsa de Charlemagne, ela passou os braços ao redor de Gregor e pousou o rosto sobre as costas protetoras. Sorriu depois de bocejar longamente. Ele a acordara no meio da noite para fazerem amor mais uma vez. Ela havia aceitado o convite sem nenhum pudor e, apesar de ainda não ter dominado totalmente a timidez e o embaraço, estava empenhada em deixar a vergonha de lado para sempre.
Na noite anterior, descobrira nos braços de Gregor mais do que uma paixão cega. Ao se libertar dos pudores, tinha se sentido bela e sedutora. O modo como sua audácia o incitara lhe havia dado uma sensação de poder. Apesar de saber que não deveria abusar, ela gostara e muito daquilo. Ao mesmo tempo, reconhecia a ameaça que isso significava para si mesma, pois poderia se tornar confiante demais, a ponto de pensar que a batalha pelo coração de Gregor já estivesse ganha. O que seria muito perigoso, refletiu. Se perdesse o jogo da conquista, toda a confiança adquirida só serviria para aumentar sua dor caso ele a abandonasse.
O calafrio causado pela água da chuva despertou Alana do belo sonho que estava tendo com Gregor, em que ela segurava no colo o filho deles, uma criança forte e sorridente. Franzindo a testa, olhou para o céu. O tom escuro das nuvens indicava que a chuva fina que caía logo se transformaria em um verdadeiro dilúvio. Um miado agudo chamou sua atenção e ela rapidamente ajeitou a bolsa de Charlemagne para abrigá-lo melhor. A solução duraria pouco, pois. o cobertor não era uma proteção muito boa contra a umidade.
— Já acordou? — Gregor perguntou.
— Sim. Desculpe se não tenho sido uma boa companheira de viagem. — Fez uma pausa. — Acho que em breve ficaremos encharcados.
— Talvez. Não muito distante daqui, há uma choupana para pastores. O seu primo me deu um mapa detalhado da região. Acho que ele já previa essa virada de tempo.
— Matthew sempre foi bom nisso.
— Ele também é bom em desenhar mapas, pois marcou com detalhes todos os abrigos ao longo do caminho, onde é possível nos escondermos da chuva.
— Bem, ele nunca gostou de se molhar.
— Isso explica tudo então. Achei esquisito ele me dar um mapa que mostra o caminho até minha casa. Cheguei a encarar essa atitude como um insulto. Mas agora reconheço que ele queria apenas apontar os abrigos ao longo do percurso. Acho que ele agiu dessa forma pensando em você.
— Talvez tenha sido pelo bem de Charlemagne — ela disse, rindo.
A chuva caía pesada e o vento tinha ganhado força quando eles chegaram à choupana dos pastores. Alana se encolhia sob ó casaco, com Charlemagne enfiado no fundo da bolsa, enquanto Gregor cuidadosamente verificava se não havia ninguém ou nenhum animal selvagem lá dentro. Assim que ele sinalizou, indicando que estava tudo bem, ela entrou correndo, sem se importar com a simplicidade do abrigo.
Alana colocou a bolsa de viagem no chão e, em seguida, soltou o gato. O olhar atravessado de Charlemagne ao analisar o lugar foi de arrancar risos. Ele estava se tornando um felino muito mimado.
— Sim, não é um lugar bonito — ela falou ao tirar o casaco, chacoalhá-lo e dependurá-lo em um prego atrás da porta. — Mas pelo menos tem uma porta para nos proteger do frio — concluiu num murmúrio.
Gregor fechou a porta e colocou os dois pacotes que carregava no chão, perto dos pertences de Alana. Pendurou o casaco e avaliou melhor a humilde choupana. No centro havia um buraco no chão, que servia de lareira, e um furo no teto, no lugar da chaminé. A luminosidade não era muito boa, pois as únicas fontes de luz vinham de duas pequenas aberturas, uma na parede da frente e outra na dos fundos. A pilha de lenha e turfa recostada contra uma das paredes sugeria que se tratava de um local muito usado como abrigo para os viajantes de passagem e pastores. Pelo menos contava com um sólido teto de ardósia e paredes de pedras para protegê-los.
— Dessa vez não teremos de sair para caçar a nossa comida — ele disse enquanto acendia o fogo. — Seu primo enviou um verdadeiro banquete.
— Acho que Matthew ficou sem jeito pela maneira como os monges nos receberam — ela opinou, sentando-se perto da fogueira, desejando se aquecer um pouco.
— Como ele mesmo falou, os monges não são os homens mais valentes e temem hospedar belas donzelas, como se elas fossem guerreiros armados até os dentes.
— Talvez seja mais fácil que mantenham o voto de castidade pensando que o pecado está nas mulheres.
Gregor riu e se sentou ao lado dela.
— Foi por causa de bobagens como essas que Liam desistiu de ser monge. Ele tem uma fé inabalável, mas discorda em muitos pontos da igreja. — Gregor piscou para ela enquanto aquecia as mãos no fogo. — Ele também sentia falta das mulheres.
— Sei. — Ela mordeu o lábio e então perguntou: — Liam será bom para Keira?
— Sim. — Gregor colocou o braço em torno dos ombros de Alana, trazendo-a para perto de si e sorrindo quando Charlemagne colocou a cara de fora, espremido entre os dois. — Ele é um bom homem. Apenas não recebeu um chamado verdadeiro como o de Matthew. Mesmo assim, quando meu primo deixou o monastério, ele não virou as costas para tudo o que tinha aprendido ou para o que o atraíra no princípio. Liam fez um juramento à sua irmã e irá cumpri-lo. Ele sempre chamou a atenção das mulheres, mas nunca se envolveu com as comprometidas. Estou certa de que ele se casou com Keira por amor, caso contrário ele não o faria.
Alana assentiu, querendo muito acreditar em tudo o que acabara de ouvir. Mesmo assim, no fundo, ela sentia que a irmã estava muito triste. Se Liam Cameron não era a causa da tristeza de Keira, então o que seria? Alana precisava vê-los juntos para tirar suas conclusões. A visão masculina dos fatos era muito diferente da feminina em vários aspectos.
— Pare de se preocupar com ela — Gregor disse enquanto desembalava a comida. — Não vai mudar nada.
— Tem razão. — Ela sacou a faca da bainha que trazia à cintura e cortou um pedaço de queijo. — Keira não foi muito feliz no primeiro casamento, mas, mesmo assim, acho estranho ela ter resolvido se casar tão depressa com outro. E ainda por cima com um homem tão belo, capaz de levar até mulheres casadas à loucura.
Gregor não estava gostando de ouvir Alana se referir a Liam como um homem belo. Quando ela fosse visitar a irmã, ele iria junto. Somente um tolo permitiria que sua mulher chegasse perto de um homem como Liam, que virava a cabeça do sexo oposto apenas com um sorriso. Gregor já não achava tão engraçado o ciúme que Ewan, Sigimor e outros maridos sentiam do primo.
— As mulheres sempre perseguiram Liam — ele explicou enquanto cortava um pedaço de carne para Charlemagne. — Isso não o impediu de virar as costas para elas e permanecer no mosteiro durante anos.
— Bem, Keira irá me contar o que a perturba quando nos encontrarmos. Talvez, ao chegarmos a Scarglas, a tristeza que sinto nela já tenha passado. — Alana franziu o cenho, escutando o vento soprar forte contra a porta. — Será uma tempestade e tanto. Não acha que deveríamos trazer o cavalo para dentro?
Gregor conteve um sorriso. Somente ela poderia temer por um animal tão grande e forte como aquele e ainda sugerir acolhê-lo na pequena choupana. Alana tinha um coração mole em relação aos bichos.
— Há um pequeno abrigo para o cavalo, atrás da cabana, que o protegerá da chuva e do vento. Além de um ótimo suprimento de lenha e feno. Acho que os usuários deste local repõem tudo antes de partirem.
A princípio, Gregor tinha planejado se hospedar em uma estalagem no caminho entre o monastério e Scarglas, mas se lembrara de que nessa hospedaria havia uma ou duas moças robustas que o conheciam muito bem. Alana certamente sabia que ele não era um homem casto, mas nem por isso se fazia necessário que ela conhecesse as mulheres do seu passado. O pior era que não havia a menor possibilidade de suas aventuras amorosas terem sido esquecidas, pois ele passara ali logo antes de viajar para a casa de Mavis, e fora uma noite que ficaria para a história, pois tinha se comportado de maneira bastante voraz.
Alana fitou-o enquanto bebia do odre de vinho que Matthew colocara junto da comida, apreciando o modo como a simples visão de Gregor a aquecia. De repente, sentiu-se culpada por estar escondendo os planos que o pai tinha para ela. A confiança mútua era importante em uma relação, algo que ela ansiava ter. Para Alana, omitir um fato era quase o mesmo que mentir, e sempre havia a possibilidade de essa mentira vir à tona. As coisas poderiam se complicar ainda mais se o pai tivesse resolvido quebrar a tradição dos Murray e ajeitado um noivado, comprometendo-a com alguém sem lhe perguntar antes. Não que imaginasse que ele fosse capaz de tomar tal atitude, mas não era impossível. Seria uma complicação que poderia atrapalhá-la muito. Por outro lado, a reação de Gregor serviria como um parâmetro para medir o que ele realmente sentia por ela.
— Ainda está preocupada com a sua irmã?
— Não. — Alana sorriu. — Estava pensando na minha família. Deixei um bilhete para eles, mas acho que devem estar preocupados comigo. Meu desaparecimento pode ter soado um tanto estranho para o meu pai.
— Explique-se melhor.
— Bem, não menti para você quando disse que não era casada nem noiva, pois essa era minha condição quando deixei Donncoill. No entanto, meu pai estava à procura de um marido para mim. Não é assim que os Murray costumam agir, mas... — Ela estremeceu.
Gregor não gostou nem um pouco da idéia de que outro homem pudesse reclamar o direito de se deitar com Alana.
— O quê?
— Tenho vinte e dois anos e já deveria ter me casado. Muitas mulheres com a minha idade têm filhos pendurados na barra da saia. Antes de você, eu nunca havia sido beijada de verdade, como deve ter percebido. Por isso, meu pai sugeriu que iria arrumar um marido para mim, e acabei concordando. Fui obrigada a reconhecer que tinha fracassado na missão. Ele estava empenhado na procura quando fugi.
A conversa parecia muito estranha para Gregor. Porém, não acreditava que Alana estivesse insinuando que ele deveria pedi-la em casamento. Tratava-se de uma confissão, nada mais. Eles eram amantes, e ela obviamente acreditava que ele tinha todo o direito de saber a verdade sobre as circunstâncias que a envolviam.
Gregor teria de agir com cautela. Queria lhe assegurar que não havia motivos para preocupação, pois ela pertencia a ele, e ficaria mais do que feliz em enfrentar qualquer homem que ousasse dizer o contrario. Contudo, por enquanto, era melhor conter as palavras. Bastaria fazer juras de amor a Alana para que seu azar entrasse em cena e ela descobrisse tudo sobre Mavis. Pensaria, então, que ele era um conquistador barato, que tinha o hábito de sair pedindo as mulheres em casamento.
— Se é costume entre os Murray permitir que as moças escolham seus maridos, é provável que seu pai o mantenha — Gregor murmurou. — De qualquer maneira, não acredito que ele tenha continuado a procurar um marido para você depois do seu desaparecimento. No momento, deve estar mais preocupado em encontrá-la.
Por um instante, quando ela falara sobre a possibilidade de um casamento ter sido arranjado para ela, Gregor tinha parecido muito aborrecido. Mas fora apenas por um momento. Ela suspirou. Vira um brilho de ciúme e posse nos olhos dele, porém não tinha sido o suficiente para saber que o sentimento que nutria por ela era profundo. Bem, ela havia feito a sua parte e agido com toda a honestidade. O fato era que estava cansada de tentar se convencer de que se satisfaria com o que ele oferecesse. Ela simplesmente assentiu para o que Gregor dissera e se retirou para apanhar o balde que ele tinha colocado para captar a água da chuva. Em seguida, colocou-o próximo ao fogo para aquecê-lo um pouco.
Ele praguejou em silêncio e se levantou para apanhar os cobertores e preparar a cama perto do fogo. Pelo visto, seus problemas eram muito diferentes dos de Alana. Afinal, era comum um pai arrumar um marido para a filha. Por outro lado, ele era dono do próprio nariz e tinha saído à procura de uma esposa que pudesse lhe dar terras e dinheiro. Alana confessara estar em uma situação que podia ou não ter sido acertada enquanto ela vagava tentando encontrar a irmã. A confissão de Gregor, se tivesse coragem de fazê-la, dizia respeito a algo que ele havia escolhido e agora reconhecia como um erro.
Naquele momento, ele só podia se considerar um tremendo covarde. Estava desperdiçando a ótima oportunidade de confessar tudo sobre Mavis, mas sabia que seu silêncio era fruto do medo. Restava tão pouco tempo para ficar a sós com Alana que não suportava a idéia de dar algum motivo que a levasse a se afastar dele. E o fato de estar praticamente noivo de outra seria uma boa razão para que ela não quisesse mais nem mesmo olhá-lo.
Gregor resolveu verificar se o cavalo estava bem. Do lado de fora, o vento frio cortava a noite enquanto a chuva caía, inclemente. Quando voltou ao abrigo da pequena cabana, cuidou de colocar a trava na porta. Em seguida, olhou para a cama, onde Alana se encontrava encolhida sob as cobertas. Ao lado, estava o vestido cuidadosamente dobrado. Ele não hesitou em se despir, passar uma água no rosto e mergulhar sob as cobertas.
Abraçou-a, feliz, ao perceber que ela também estava nua.
— Agradeço a Deus por seu primo não gostar de se molhar. Lá fora a tempestade está terrível — ele disse enquanto a acariciava nas costas.
— O cavalo está bem? — ela indagou, afagando-o nos quadris.
— Ótimo — Gregor respondeu, beijando entre risos a face corada de Alana. — Confie em mim, eu teria trazido o animal para dentro se houvesse algum risco. Um homem que não se importa com o próprio cavalo age como se não considerasse seus familiares.
Ela assentiu e se aconchegou um pouco mais a ele quando o vento uivou do lado de fora. No fundo, ainda estava ressentida com a reação dele quando confessara sobre a possibilidade de seu noivado. Tinha sido tolice de sua parte imaginar que seria diferente. Alana já tivera muita sorte por ele não ter pensado que sua intenção era arrancar alguma declaração de amor ou promessa. Pelo que havia aprendido observando os casais de sua família, um truque como esse poderia enfurecer um homem. Simplesmente queria que Gregor aprendesse a confiar nela. Se conseguisse conquistar essa confiança, seria o suficiente, por enquanto.
Ele ergueu seu rosto com a ponta dos dedos e beijou-a. O desejo que o dominava logo espantou os pensamentos confusos de Alana, que o abraçou enquanto gentilmente era virada de costas para o colchão. Ela esperava que nunca viesse a ter problemas tão grandes que não pudessem ser esquecidos com um beijo de Gregor. Mas uma voz em sua mente completou: Caso ele fique com você. Alana a ignorou, pois os momentos a sós com o homem amado estavam se esgotando e não queria desperdiçar um único segundo desse precioso tempo temendo o futuro.
Ávida por fazer amor e se sentir livre de todas as preocupações, ela se entregou à paixão que tomava conta de seu corpo. Ficou um pouco tensa quando sentiu os lábios dele entre as coxas. Porém, as sensações que os beijos íntimos de Gregor despertavam nela eram irresistíveis, apesar de assustadoramente intensas. O pensamento fugaz de que poderia fazer com ele algo semelhante ocorreu-lhe, mas logo desapareceu diante do desejo cego que a deixou sem forças para pensar em mais nada.
No auge da excitação, Alana ouviu ao longe a própria voz convidando-o para se unir a ela. Gregor sorriu e deixou uma trilha de beijos quentes do ventre aos seios até deitar-se sobre ela. Ao mesmo tempo em que tomava seus lábios, penetrou-a e, com movimentos rápidos e decididos, levou-a ao êxtase. A maneira como ele a acompanhou no clímax tornou tudo ainda melhor, assim como os. murmúrios roucos que emitiu na finalização do ato de amor. Lutando para recuperar o fôlego, ela deslizou os dedos pelas costas musculosas, deleitando-se ao sentir o corpo dele pressionado contra o seu. O hálito quente na curva do seu pescoço a arrepiava. Alana sorriu ao se dar conta de que gostava até mesmo do modo como ele lentamente ia perdendo a ereção e deslizando para o lado.
Com os pensamentos mais claros, considerou as pequenas diferenças que sentira em Gregor enquanto faziam amor. Dessa vez, tinha sentido uma possessividade, uma necessidade masculina de reclamá-la como sua. No momento, estivera tão dominada pelo próprio desejo que nem notara, mas naquele instante não tinha como ignorar. Era bem provável que ele não tivesse ficado tão indiferente à possibilidade de ela se casar com outro quanto tinha deixado transparecer.
Um fio de esperança perpassou seu coração e ela se agarrou a ele. De alguma maneira, Gregor tentara deixar sua marca nela. Alana sabia que um homem podia se sentir dono de algo ou de alguém, ainda que não o quisesse para sempre. Os homens eram possessivos até mesmo com o próprio punhal. De qualquer forma, concluiu que não havia nada de errado em ver a atitude dele como um bom sinal. Ela ainda teria de agir com cautela, mas já podia se dar o direito de reconhecer uma pequena indicação de sucesso no modo como ele tinha repetido a mesma palavra inúmeras vezes.
A cada investida, ele dissera minha.
Gregor sentiu-se despertando de um sonho muito sensual com Alana, pouco antes de perceber que não se tratava de um sonho. Os lábios quentes e as mãos pequenas e macias exploravam seu corpo. Ele gemeu e estremeceu de leve quando ela segurou seu membro ereto e acariciou-o com gentileza. Baixando o olhar, Gregor viu, entre um emaranhado de cabelos, um leve rubor e um sorriso no rosto dela.
— Bom dia — ela murmurou, lançando-lhe um olhar sedutor sob os longos cílios.
— Sim, será um bom dia — ele respondeu, cerrando os punhos ao lado do corpo quando ela subiu para beijá-lo no abdômen, ao mesmo tempo em que os dedinhos delicados continuavam com as carícias no membro que pulsava.
Foi preciso muito esforço para conseguir conter a vontade de puxá-la e assumir o controle da situação. Estava mais do que pronto para possuí-la, mas lutou para refrear o desejo voraz. Ela estava ousando, e não queria detê-la. Ficou tenso só de pensar até onde iria todo aquele atrevimento. O fato era que ela estava se saindo muito bem, pensou, gemendo ao sentir o mamilo enrijecido roçando sua coxa.
Quando ela beijou-o nas pernas em vez de no lugar que tanto ansiava pelo toque dos lábios femininos, seus cabelos roçaram-lhe a virilha, e Gregor sentiu o desejo se intensificando ainda mais, apesar do leve desapontamento. No momento em que pensava que era tolice esperar que ela fizesse algo de que provavelmente nem mesmo ouvira falar, ele sentiu a ponta da língua tocando seu membro. Foi impossível conter os murmúrios que imploravam para que ela não parasse.
— Minha nossa — Gregor sussurrou ao sentir o calor da boca macia envolvê-lo.
— Não está certo? — Alana indagou, sem jeito.
— Está ótimo! Perfeito — ele respondeu, acariciando-lhe os cabelos e estimulando-a para que continuasse. — Boa garota.
Que coisa mais estúpida de se dizer, ele pensou, e não se surpreendeu ao ouvir uma risadinha. Mas sua idiotice não fez com que ela se interrompesse.
De olhos fechados, ele lutava para tentar refrear a excitação, de modo que pudesse se deleitar um pouco mais com a carícia extasiante. Era algo que tinha experimentado duas vezes apenas. Uma quando não passava de um mero aprendiz da arte do amor, nas mãos de uma viúva mais velha, e a outra quando já era homem feito e mais experiente. Da última vez tinha sido bom, mas a mulher desempenhara o ato demonstrando tanto sacrifício que ele nunca mais havia pedido a ninguém. Agora o toque suave dos lábios de Alana o estava levando à loucura. Uma sensação que se tornava ainda mais intensa ao imaginar que ela se empenhava apenas para lhe dar prazer.
Quando não conseguiu mais se conter, puxou-a para cima de seu corpo e ajudou-a a se posicionar. Intrigada com a novidade, Alana sentou-se sobre os quadris de Gregor e lentamente fez com que ele deslizasse para dentro de si. Ela fechou os olhos ao sentir um prazer imenso percorrendo seu corpo, a ponto de deixá-la atordoada. Em seguida, ele a segurou pelos quadris, incitando-a a se mover. Alana logo assumiu o controle, inspirada pelas palavras de paixão que ele dizia com voz rouca, aumentando o ritmo até chegarem, juntos, ao orgasmo.
Ainda trêmula devido à força da experiência que havia acabado de ter, ela sucumbiu sobre o corpo de Gregor. Com o ouvido pressionado contra o peito forte, era possível escutar o coração dele batendo tão apressado quanto o seu.
Quando ele parou de acariciar suas costas, percebeu que ele dormira de novo. Com o máximo de cuidado, levantou-se e se vestiu com rapidez. Sorrindo, constatou que era revigorante saber que tinha sido capaz de levar à exaustão um homem grande como aquele.
Abriu a porta e olhou para fora. O dia estava lindo. Lembrando-se de um pequeno riacho pelo qual tinham passado pouco antes de alcançar a choupana, apanhou alguns itens para o banho. A água sem dúvida estaria muito fria, uma vez que descia da colina e provavelmente nascia nas montanhas não muito distantes, mas valeria o sacrifício. Se corresse, estaria de volta antes de Gregor despertar, o que a pouparia de um sermão sobre andar sozinha e desprotegida por aí. Saindo da choupana, fechou a porta antes que Charlemagne a seguisse.
A água, de fato, estava muito gelada, e ela nunca imaginou que pudesse se banhar tão depressa. Mesmo quando já estava seca e vestindo as roupas limpas, ainda tremia. Por isso, buscou um local ensolarado para se esquentar. Sentada sobre uma pedra, secou os cabelos e começou a trançá-los. Apesar de ser agradável ficar ao sol, permitindo que o calor se espalhasse por seu corpo, não poderia aproveitar esse prazer por muito mais tempo. Gregor ficaria preocupado caso despertasse e não a visse ao seu lado. Alana podia não estar certa sobre os verdadeiros sentimentos dele, mas não tinha dúvida de que era muito protetor.
As lembranças do que tinha feito naquela manhã não lhe saíam da mente. Ela mal podia acreditar que tivera tanta coragem. Se ele não houvesse demonstrado claramente o quanto gostara da carícia, ela até poderia imaginar que o havia chocado ou que o atrevimento pudesse afastá-lo. No entanto, definitivamente, não havia motivos para temer nenhuma dessas hipóteses. E ela sabia que faria tudo de novo na primeira oportunidade. Não havia palavras para descrever o quanto fora bom fazer amor com ele daquela maneira.
Ela se levantou, espantando os pensamentos tentadores, e estava indo recolher suas coisas quando seis homens saíram de trás de algumas árvores. Por cima dos ombros dos estranhos, foi possível avistar um sétimo, que segurava os cavalos do grupo. Eram tipos malvestidos, que a fizeram sentir o estômago revirar de medo. Pararam entre ela e a choupana. Para piorar a situação, ela nem sequer tinha trazido seu punhal.
— Vejam a belezinha que encontramos — disse um sujeito baixinho, de peito largo e rosto quase encoberto pela barba.
— Não estou sozinha -— alertou-os. — É melhor apanharem os cavalos e saírem o quanto antes daqui.
Mas a ameaça não os assustou. Toda a área em volta era um enorme descampado, e não havia sinal de que houvesse outra pessoa além dela por ali. Alana não se surpreendeu quando o homem que a encarava olhou ao redor antes de fitá-la novamente.
— Está pensando que sou bobo? — ele esbravejou. — Agora, venha aqui.
— Não vou, não. — Será que ele realmente pensava que ela seria tola a ponto de se render facilmente?
— A moça não vai gostar de me ver irritado. Não vamos machucá-la, belezinha — ele acrescentou com um falso tom de docilidade na voz.
O sorriso que o sujeito tinha nos lábios só serviu para despertar ainda mais aversão em Alana. Os dentes parcialmente revelados por entre a barba espessa e encaracolada pareciam podres. Ela sabia que teria de decidir logo qual seria seu próximo passo. O homem não tinha jeito de que iria gastar muito tempo tentando convencê-la a fazer o que ele queria. Sutilmente, ela olhou ao redor para tentar descobrir qual seria a melhor rota de fuga. E rezou para que sua habilidade de correr e se esconder não falhasse outra vez, pois aquele grupo fazia os Gowan parecerem santos.
— Acho que não acredito em você — ela disse com toda a calma, apesar de os batimentos cardíacos estarem acelerados.
— Está me chamando de mentiroso?
— Talvez.
— E melhor parar com esse joguinho bobo, ou vou agarrá-la à força. Pode acreditar.
— Será que realmente conseguiria me agarrar? Um rosnado escapou dos lábios do homem, e ela o entendeu como um alerta. Então, disparou em direção às árvores adiante. Eles vieram logo atrás, gritando. O som das vozes a fez se lembrar dos gritos dos caçadores perseguindo uma presa. Um deles continuava fazendo ameaças horripilantes.
Aqueles homens não eram tão tontos quanto pareciam. Enquanto três corriam em seu encalço, outros três voltavam até os cavalos. Alana olhou rapidamente para trás e concluiu que seria fácil despistar os três que corriam a pé, mas os que estavam a cavalo logo conseguiriam cercá-la. No entanto, ainda havia a possibilidade de conseguir entrar na floresta antes disso, onde, com um pouco de sorte e muita agilidade, ela teria mais chances de escapar. Quem sabe até de se esconder no topo de uma árvore, onde poderia permanecer até que eles desistissem. Foras-da-lei não perderiam muito tempo com ela.
Porém, quando estava quase conseguindo chegar ao abrigo das árvores, a sorte pareceu abandoná-la por completo. Dois homens a cavalo se colocaram entre ela e a floresta. Estavam tão próximos que era possível sentir o bafo dos cavalos em seu rosto. Ela ainda tentou sair de lado, mas eles a bloquearam com facilidade. Justamente quando percebeu que não a estavam atacando, mas apenas cercando-a, sentiu um golpe nas costas. Embora houvesse estendido as mãos para amparar a queda, o impacto contra o chão foi tão forte que a deixou sem fôlego.
Ela ainda estava tentando recuperar o ar no momento em que o homem que a derrubara a virou de costas para o chão, deu-lhe uma bofetada e se sentou sobre ela. Era o mesmo que tinha feito as ameaças durante a perseguição e estava mais do que ansioso para cumprir cada uma delas. Alana nunca vira uma pessoa tão imunda e fedida quanto aquela. A identidade do homem que a violentaria poderia até não vir ao caso, pois o abuso em si já era horrível o suficiente, mas o fato de ser uma criatura nojenta como aquela era assustador. Ela duvidava que um dia conseguisse se sentir limpa novamente, caso sobrevivesse.
Pensou em Gregor e em tudo o que tinham compartilhado, e sentiu vontade de gritar. Mas aquele era o tipo de homem que adoraria ver o pavor nos olhos da vítima indefesa, e por isso permaneceu em silêncio. Não era fácil, pois ao lado do medo crescia um ódio profundo. Aquele estranho horroroso estava prestes a estragar todas as doces lembranças com Gregor, manchar toda a beleza com o asqueroso ato de violência.
Antes mesmo de avaliar o risco do que estava pensando em fazer, Alana cerrou o punho e acertou um soco bem no meio do nariz do sujeito com toda a força. Ela estava tão irritada que o sangue e o som de ossos quebrando nem mesmo a perturbaram.
O homem berrou, com a mão sobre o rosto, e rolou para o lado, praguejando e fazendo ameaças. Ela aproveitou para ficar rapidamente em pé e sair correndo. Outro homem tentou segurá-la, mas Alana conseguiu escapar, acertando-lhe um chute na virilha. Porém, era impossível conter o pânico que a tomava. O fato de todos os homens não terem avançado contra ela ao mesmo tempo consistia em sua única vantagem. Mesmo assim, para cada canto que virava, surgia um deles que a forçava a mudar de direção. Seu corpo doía depois de ter sido jogada ao chão e agüentado tanto peso sobre si. Não sabia quanto tempo ainda suportaria se esquivando.
Alana sentiu o gosto amargo da derrota no fundo da garganta quando percebeu que estava encurralada à beira de um desfiladeiro. Para todas as direções que olhava, via um homem no caminho. Atrás deles, encontravam-se quatro cavaleiros a postos. Aquele que ela socara vinha em sua direção, fazendo-a se encolher, assustada, à beira do precipício. Ela sabia que não tinha chances, porém não pensava em facilitar as coisas.
— Pagará por isso, sua vadia estúpida — ele gritou, tocando o nariz que ainda sangrava. — Eu pretendia ser gentil com você, mas agora desisti. Quero vê-la sangrando também.
Ele riu, e Alana tentou se esquivar do ataque, mas, ao se mover, outro homem se aproximou. Um grito de alerta escapou do primeiro sujeito, detendo o segundo, mas o movimento privou Alana da chance de escapar. O homem com o nariz quebrado a agarrou e tentava derrubá-la quando ela ouviu outro gritando:
— Cuidado com o abismo, Rob!
Ela sabia que ambos estavam prestes a despencar. O tal Rob ainda resmungou algo, tentando puxá-la para longe do terreno escorregadio, à beira do desfiladeiro. Enquanto Alana procurava se soltar, ele acabou apertando seu pescoço e ela gritou mais de susto do que de dor. Ao perceber que Rob se ocupava tentando rasgar seu vestido, ela se aproveitou da distração e deu uma cabeçada nele com toda a força, tentando fazer que ele a soltasse. Porém, tudo que conseguiu foi machucar a própria cabeça e arrancar alguns xingamentos do sujeito. Foi então que notou que a sua perna estava na posição exata para acertar a virilha dele. Erguia o joelho quando ele se deu conta de como estava vulnerável, mas já era demasiado tarde para que se salvasse. Alana o golpeou bem no ponto fraco. Ele gritou e a empurrou antes de cair ao chão, encolhido de dor.
Contudo, a sensação de triunfo dela durou pouco. Ã beira do abismo, sentiu o chão desaparecendo sob os pés. Ergueu as mãos, procurando inutilmente algo em que se agarrar. As frenéticas tentativas para evitar a queda acabaram fazendo com que a acelerasse ainda mais desfiladeiro abaixo. Ela caiu de costas. A última coisa que ouviu antes de ser engolida pela escuridão foi um som que se parecia muito com o rugido de uma fera enraivecida.
Gregor despertou, espreguiçou-se e olhou ao redor em busca de Alana. Franziu o cenho quando não a viu. Pensando que ela tivesse saído para alguns minutos de privacidade, ele se vestiu e fez o mesmo. Só depois de dar uma olhada no cavalo, lavar o rosto e colocar mais lenha no fogo, começou a ficar preocupado. Ela estava demorando muito. Quando Charlemagne veio se esfregar nele, as preocupações aumentaram ainda mais. Se Alana só houvesse saído para se aliviar, ela teria levado o gato.
Ele suspirou e disse para si mesmo que estava exagerando. Ela caminhara pelas florestas onde tinham ficado acampados e nunca se ferira. Afinal, ele mesmo, em várias ocasiões, não havia se sentido um inútil ao ver a destreza com que ela resolvia os próprios problemas?
Mas, e se ela tivesse sido apanhada pelos Gowan novamente, Gregor se perguntou ao morder um pedaço de bolo de cereais. Ele também fora apanhado, acabou admitindo com relutância, portanto, isso não contava. Havia também o incidente com a cobra para levar em consideração. Poderia ter acontecido com qualquer um, porém revelava que nem sempre era possível se proteger de alguns perigos ocultos, tanto naturais como humanos.
Olhando para a porta, pensava se deveria ou não sair à procura de Alana. Provavelmente não acontecera nada de errado. Quem sabe ela não teria resolvido pescar ou caçar um coelho? Apesar de suspeitar que a água estivesse fria como gelo, ainda restava a possibilidade de ela ter ido se banhar. Havia uma dúzia de bons motivos para que ela não estivesse ali na cabana, sorrindo, quando ele despertou. Gregor faria papel de bobo se saísse para procurá-la.
— Maldição — ele resmungou ao se levantar e apanhar a espada. — Tenho a sensação de que aconteceu algo ruim. — Praguejou novamente assim que percebeu que estava falando com o gato. — Essa mulher está me levando à loucura. Estou conversando com um gato e preocupado como uma velha. Não é certo que saia por aí sozinha como se o mundo fosse um paraíso, onde nada de mal pudesse acontecer a uma jovem.
Quando Charlemagne miou, Gregor lhe deu uma bronca e deixou a choupana, fechando a porta para que o animal não tentasse segui-lo. Aquele era mesmo um gato estranho, Gregor pensou. Entretanto, o mais estranho era ele ficar imaginando se o felino tinha ou não noção do desaparecimento da sua mulher.
Minha mulher, ele repetiu mentalmente e achou que soava bem e lhe dava muita satisfação. Até chegara a sentir certa emoção com a possibilidade de se casar com Mavis, devido à perspectiva de ter as próprias terras e os bolsos cheios. Com Alana, simplesmente não interessava o que ela possuía. Ficaria com ela, mesmo que isso significasse ganhar apenas um, gato maçante. Naquele mesmo dia, eles chegariam a Scarglas, caso não surgisse nenhum problema. Então, ele tomaria todas as providências necessárias para se livrar dos Kerr. A única coisa que levaria mais tempo seria encontrar um jeito de contar tudo a Mavis sem magoá-la. Mas Gregor resolveria essa questão o mais rápido possível e da melhor maneira. Não via a hora de contar para todo o mundo que Alana era sua.
O modo como haviam feito amor nessa manhã o convencera de que estava disposta a se casar com ele, mesmo que Gregor não tivesse muito a oferecer além de si mesmo. Nenhuma mulher faria aquilo com um homem se não se importasse com ele. Cada beijo e cada carícia carregavam um sentimento profundo que ele ansiava por provar novamente.
Concluiu que não iria se contentar com carícias e desejos ardentes. Queria que ela o amasse. Sabia que não era justo esperar esse sentimento de Alana quando ele não havia dado um nome ao que sentia, mas mesmo assim queria que ela o amasse. Ele a protegeria, lhe daria prazer e filhos, e nunca a trairia com outra. Isso, ele decidiu, era o bastante para fazer qualquer mulher feliz.
Ao ver que ela não estava no riacho, a preocupação de Gregor aumentou. Descendo pelas margens, encontrou marcas de que ela estivera ali. Mas para onde teria ido depois?
O som de um grito chamou sua atenção. Olhou entre as árvores na direção de uma clareira. A princípio, imaginou que fossem caçadores tentando conseguir um pouco de carne para a refeição, apesar de não ter visto nenhum sinal de antílope nem de qualquer outro animal, mas logo avistou Alana sendo perseguida por vários homens. Não lhe restou nenhuma dúvida do que fariam com ela quando a apanhassem. A idéia de alguém tocando sua Alana com violência fez seu sangue ferver nas veias.
Gregor teve um sobressalto quando um homem se atracou com ela no chão, porém foi obrigado a lutar contra a vontade de correr para cima do grupo com a espada em punho. Ele seria um contra sete e, se morresse, ela não teria mais nenhuma chance de escapar. Era difícil se mover com precaução e, ao mesmo tempo, observar o sujeito colocar-se sobre ela e esbofeteá-la, mas sabia que o único modo de superar a imensa desvantagem seria agindo às escondidas.
Um suspiro de alívio escapou ao vê-la se livrando do cretino. Contudo a sensação durou pouco. Ao se aproximar mais, viu que eles a cercavam lentamente. Mesmo de onde estava, assistiu ao exato momento em que Alana se deu conta do perigo iminente, mas era tarde demais para salvá-la.
Apesar da vontade imensa de retalhar o homem que a estava ameaçando. Gregor se conteve. Com orgulho, viu-a lutando contra o sujeito, e até riu quando ela acertou-o com o joelho. No entanto, novamente a alegria durou pouco e logo foi substituída pelo terror quando ela desapareceu no abismo.
Gregor ouviu um grito de dor e ódio, e percebeu que saíra dos próprios lábios. Partiu para cima do homem que estava à beira do penhasco, furioso demais para ponderar sobre a sua situação de desvantagem. Tudo que queria era matar todos os que tinham levado a sua Alana para longe dele. De soslaio, percebeu que os homens que estavam a cavalo fugiram antes de se certificarem se ele estava ou não sozinho. Tinham restado apenas três.
O primeiro sentiu o peso de sua espada em poucos minutos. Apesar de o pai ter sido um encrenqueiro inútil, uma coisa que ele ensinara bem aos filhos tinha sido lutar. Gregor estava certo de que mataria os outros dois. Só precisava decidir se o faria rapidamente ou se lhes infligiria sofrimento por terem roubado a alegria de sua vida.
Quando um último resquício de sanidade soprou no fundo de sua mente, dizendo que Alana talvez não estivesse morta, ele decidiu que precisava matar os dois restantes o quanto antes. As chances de ela ter sobrevivido a uma queda como aquela eram mínimas, mas ele não poderia correr o risco de deixá-la lá embaixo por muito tempo somente para satisfazer sua sede de vingança.
Sendo assim, primeiro ele matou o causador da queda, cortando-o ao meio com a espada enquanto apunhalava o segundo. Por uma fração de segundo, o primeiro homem pensou que teria uma morte lenta até todo o seu sangue se esvair pelo ferimento, mas Gregor o acertou mais uma vez, diretamente no coração, acabando com tudo. Quando se virou para o segundo, viu que o sujeito suava de medo, o que não lhe despertou nenhuma compaixão. Com pressa de chegar até Alana, logo pôs um fim àquela situação.
Depois de verificar se os covardes que tinham abandonado os companheiros à morte não estavam por perto, Gregor caminhou com cuidado até a beirada do penhasco. Ao ver Alana esparramada de costas quase gritou outra vez. Ela não se movimentava, mas havia uma chance de estar apenas inconsciente.
Ele limpou a espada na roupa de um dos homens mortos, embainhou-a e se pôs a descer o penhasco. Quando chegou lá embaixo, permaneceu parado por um momento, fitando-a, com medo de tocá-la e descobrir que estava morta. Espantando os temores, ajoelhou-se ao lado dela. Quando percebeu que respirava, foi tomado por uma onda de alívio tão intensa que se sentiu fraquejar. Ao levar as mãos ao rosto, para tentar se acalmar, não se surpreendeu ao perceber que lágrimas escorriam de seus olhos. O curto espaço de tempo em que imaginara que ela estivesse morta tinha sido o suficiente para despojá-lo de todas e quaisquer defesas e aceitar o que vinha negando havia muito tempo: Alana era mais do que importante para ele; ela estava em seu coração. Gregor a amava.
Alana abriu os olhos lentamente e a primeira coisa que viu foi Gregor debruçado sobre seu corpo.
— Está muito pálido — ela disse, sem entender por que sua voz soara tão fraca.
— Pálido? Sim, devo estar. Vê-la caindo de um penhasco realmente me preocupou.
— De um penhasco? — ela indagou. Então, toda a tragédia voltou-lhe à mente. Tentou se mover, nervosa e sentindo muita dor.
— Calma, não se mexa. Preciso que me ajude a verificar se não quebrou nenhum osso. — Gentilmente, ele a acariciou até que se tranqüilizasse. — Não creio que tenha quebrado algo, pois me parece que se moveu com certa facilidade. Mas é preciso ir devagar, mexendo um membro de cada vez.
— Onde estão aqueles homens? — ela perguntou enquanto testava com cautela um braço, depois o outro e assim sucessivamente.
— Três estão mortos, è os outros quatro fugiram.
— Três estão mortos?
— Eu estava furioso. — Gregor suspirou, aliviado, ao constatar que ela não havia quebrado nada. — Quando a vi caindo por causa daqueles cretinos, fiquei maluco. Não tive misericórdia de nenhum. Os únicos sobreviventes foram os que fugiram a cavalo, e não voltarão.
— Obrigada por ter vindo em meu socorro. Ele gemeu.
— Teria sido um bom resgate se eu houvesse conseguido evitar a sua queda. Agora, quero que verifique a sua coluna e me responda como está.
— Não está quebrada, Gregor. Caso isso tivesse ocorrido, eu não conseguiria movimentar nem os braços nem as pernas. Como pode ver, estou mexendo tudo. Devo ter ganhado alguns hematomas e arranhões, mas nada além disso.
— E a sua cabeça?
— Dói, mas não está ferida — ela respondeu com um sorriso.
Ele sentiu uma onda de alívio perpassando seu corpo e achou que fosse chorar novamente. Algumas lágrimas até eram aceitáveis quando derramadas em segredo, mas não queria que Alana o visse em prantos.
Endireitou-se, tentando se conter. Era difícil acreditar que ela sobrevivera à queda e que tinha escapado com apenas alguns hematomas.
— Preciso dar um jeito de tirá-la daqui. Temos de ir a Scarglas o mais rápido possível, para que Fiona trate dos seus ferimentos.
Alana franziu a testa só de imaginar a dor que poderia sentir. Embora não tivesse quebrado nada, cada parte de seu corpo doía como se houvesse levado uma surra. Havia hematomas e cortes doloridos por todos os lados. A cabeça doía tanto que causava náuseas. Tudo que realmente desejava era ficar deitada ali, esperando melhorar.
Respirando fundo, ela olhou para o alto do penhasco de onde despencara. A subida provavelmente iria doer tanto quanto a descida, mesmo com a ajuda de Gregor. No entanto, ela não tinha escolha.
Com cuidado é com o amparo do braço forte, ela se sentou. Vacilou ao sentir dor e se recostou em Gregor. Após algumas respirações profundas e lentas, ela foi se acalmando.
— Relaxe, meu amor — ele murmurou, inseguro, diante do tremor de Alana. Se apenas para se sentar ela havia sofrido tanto, ele não imaginava como faria para levá-la até a cabana. — Descanse um pouco se quiser.
— Seria bom, mas acho melhor tentarmos subir logo e continuar nossa viagem.
— Está tão trêmula e fraca.
— Ah, esse tremor é de medo. — Ela deu um leve sorriso.
— Eles não... — Gregor começou, quase engasgando com as palavras, pois temia que aqueles homens houvessem conseguido o que tinham pretendido, apesar de não ter visto nenhum sinal de abuso em Alana.
— Não, não me estupraram — ela respondeu —, apesar de terem tentado. — Só a menção da palavra foi o suficiente para que ela estremecesse de novo. — Fiquei apavorada quando percebi que estava cercada.
— É compreensível — Gregor disse, compartilhando da mesma dor, talvez por motivos que ele sabia serem um tanto egoístas. — Você poderia ter morrido.
— Sim. Se não fosse durante o abuso, creio que acabariam me matando de qualquer maneira para que eu não contasse nada a ninguém. Mesmo assim, meu maior medo não era da morte. Eu sabia que, se sobrevivesse, eles teriam destruído algo muito precioso dentro mim. — Alana assumiu um tom mais doce, ciente de que estava prestes a revelar seus sentimentos. — Aqueles sujeitos teriam manchado o que compartilhamos, roubado a beleza de tudo, Gregor.
Pelo abraço terno com que a envolveu, ela percebeu que estava comovido.
— Eu não a abandonaria — afirmou. — Não sou como os tolos que acreditam que as mulheres que sofrem esse tipo de abuso são culpadas por terem despertado o desejo.
Alana sorriu.
— Sei disso. Não compreendo por que, mas não tive medo disso nem por um momento.
— Obrigado, meu amor. — Ele a beijou no rosto, emocionado com tamanha confiança, especialmente porque nenhuma palavra de amor nem promessa de que ficariam juntos ao final da jornada tinha saído de seus lábios.
Ela encolheu os ombros e sentiu uma dor tremenda.
— Levará um bom tempo até que me esqueça do pavor que senti. — Alana olhou para o alto do penhasco. — Acha mesmo que eles se foram?
— Sim. Três já devem estar no inferno, que é o lugar a que pertencem, e os outros fugiram. Acho que ficaram com medo de mim. — Abraçou-a, animado por ouvi-la rir. — Está pronta para tentar? — perguntou, olhando para as pedras acima.
— Sim — ela murmurou.
Ele a ajudou a ficar em pé, e logo passou o braço em torno da cintura dela, ao perceber um leve vacilo. Ela estava indo bem, apesar dos sinais de fraqueza. O fato de uma mulher tão pequena e delicada conseguir se erguer após uma queda terrível já dizia muito sobre sua força interior, Mas isso não queria dizer que venceria a subida íngreme com tranqüilidade. Vacilante como estava, se ela escorregasse, dessa vez a queda poderia ser fatal.
— Acha que consegue se segurar nas minhas costas, enquanto a carrego até lá em cima? — Gregor perguntou.
— Creio que sim.
O trajeto não foi dos mais fáceis, porém ela agüentou firme, agarrando-se a Gregor como pôde. Assim que atingiram o topo, suas forças a abandonaram. Ele a amparou com firmeza, evitando que despencasse novamente.
No momento em que chegaram à cabana, a cabeça de Alana latejava e todo o seu corpo doía muito. Mas a alegre recepção de Charlemagne acabou arrancando um sorriso do rosto contorcido pelo sofrimento. Gregor a ajudou a se deitar na cama, e o gato imediatamente se acomodou ao lado da dona, ronronando.
— Acho que ele estava com medo de ser deixado para trás — ela murmurou, acariciando o felino.
Gregor meneou a cabeça.
— Ele não percebeu que os gatos têm hábitos furtivos e são solitários. Eu disse, ele está confuso.
— Isso tudo não passa de bobagem. Um gato pode ser tão amigável e carinhoso quanto um cachorro. A maioria das pessoas não demonstra afeto pelos pobres felinos, deixando-os nos estábulos ou na cozinha, encarregados de livrar a casa dos ratos e de outros bichos indesejados. Os gatos da minha família, por exemplo, são muito carinhosos.
— Bem, mas dessa vez não sei se você conseguirá carregar o seu bom amigo.
— Claro que sim. Ele é pequeno.
— Podemos tentar. Mas primeiro quero saber se deseja comer algo. Duvido que já tenha tomado café da manhã.
— Ainda há bolo de cereais?
Gregor deu a ela o último pedaço e saiu para preparar o cavalo para a viagem. Seria preciso ficar de olho em Alana até que tivesse certeza de que ela não sofrerá nenhum ferimento interno. Estava preocupado com o fato de ter de colocá-la sobre o lombo de um cavalo depois da queda terrível, porém ela precisava de cuidados que ele não podia oferecer.
Quando voltou à cabana, surpreendeu-a bocejando. Para ele, foi um bom sinal. Se ela estava sonolenta, não iria tentar se esforçar além dos próprios limites e facilitaria muito a viagem.
Dois quilômetros depois, ela já havia dormido. Gregor a segurou com mais firmeza, ajeitando-a à sua frente sobre a sela do cavalo. A viagem não seria das mais fáceis, mas não havia alternativa.
Durante o caminho, ele não conseguia tirar os olhos dela, sempre verificando se não estava muito pálida e se respirava bem. Lembrava-se com toda a clareza do que ela lhe contara sobre o pavor que sentira ao ser perseguida por aqueles homens imundos, e isso ainda o comovia profundamente. Alana dissera que os momentos que tinham compartilhado haviam sido de extremo valor para ela, o que só podia significar que ela sentia muito mais do que desejo e atração física por ele. Agora precisava descobrir se esse sentimento era de fato amor. Pois ser amado por Alana era uma necessidade.
Bem, fosse lá o que sentisse por ele, seria posto à prova nos próximos dias. Provavelmente, seria obrigado a deixá-la sob os cuidados de Fiona enquanto ia falar com Mavis, e, por isso, não poderia revelar a ela o verdadeiro motivo da nova viagem. Para completar, ainda havia seus dois filhos bastardos esperando por ele em casa. Era algo que deveria ter sido mencionado antes, mas Gregor estivera tão preocupado em conquistar o coração de Alana e em não fazer nenhuma promessa que eventualmente não pudesse cumprir que acabara deixando de contar sobre eles. Agora era tarde e não havia uma maneira de revelar tais novidades sem chocá-la e correr o risco de perdê-la para sempre.
Bem, deixaria para lidar com tudo isso depois que chegassem a Scarglas. Além do mais, Alana precisaria de muito repouso e, portanto, não poderia fugir. Ele teria tempo para resolver o assunto com os Kerr, e então fazer a corte a Alana com todas as palavras que estavam guardadas no fundo do peito. Era algo que poderia enlouquecê-lo caso ficasse pensando muito a respeito. A única saída seria resolver um problema de cada vez e esperar que o amor de Alana por ele fosse forte o suficiente para perdoar todas as suas faltas.
Alana fez uma careta quando o cavalo acelerou um pouco o trote, jogando-a de um lado para o outro na sela. O modo como Gregor a segurava atenuava um pouco o desconforto, mas, após horas de cavalgada, nada ajudaria muito, exceto uma cama macia. Dormir durante horas havia sido uma bênção e renovara suas forças. Contudo, todo o seu corpo doía e ainda precisava de um repouso decente. Ao longo do caminho, tinham feito algumas paradas para que ela pudesse esticar as pernas doloridas, mas, cada vez que precisava subir no cavalo era um sacrifício. Tudo que queria era chegar logo e se deitar.
— Scarglas fica atrás daquelas árvores — Gregor informou.
— Que maravilha!
— Eu me sentiria muito satisfeito e até envaidecido se soubesse que você está feliz assim simplesmente porque deseja conhecer o meu lar, mas sei que tudo que deseja é uma cama macia. Alana riu.
— Sim, e um bom banho quente.
— Logo que chegarmos, terá as duas coisas.
— Será uma alegria.
— Sentiu alguma dor diferente?
— Não, somente aquelas que já estava sentindo. Como eu disse anteriormente, acho que só sofri alguns arranhões e ganhei uns hematomas.
Ele assentiu, puxando as rédeas do cavalo.
— Aí está Scarglas.
Ela fitou a fortaleza escura adiante. Mesmo que não houvesse escutado as histórias de Gregor sobre os tempos de guerra, imaginaria que os homens dali eram guerreiros natos. Tratava-se de uma construção que tinha sido erguida para defesa.
— Não é um lugar bonito — ele falou enquanto diminuía a velocidade do cavalo para seguirem num trote mais suave.
— Não, mas serviu de proteção no passado.
— De fato. E, apesar de meu irmão Ewan ter derrotado a maioria dos nossos inimigos, preferimos mantê-la assim, como sempre foi. O futuro pode reservar ameaças ou armadilhas muito mais difíceis de superar.
— Depois de tudo que me contou sobre a sua gente, duvido que algum de vocês acabe relaxando com a segurança do lar.
—- Acho que tem toda a razão.
Antes que Alana pudesse pensar em mais uma pergunta sobre o povo que estava prestes a conhecer, eles já estavam dentro da movimentada propriedade. Rapidamente, Gregor foi cercado de um grupo de homens belos e morenos, que faziam perguntas ao mesmo tempo. Não foi difícil adivinhar que eram todos irmãos de Gregor, e ela teve de reconhecer a virilidade do pai dos belos rapazes. Ao mesmo tempo, era estranho se ver cercada por tantos homens semelhantes a ele.
Quando Gregor ajudou-a a descer do cavalo e a apresentou, o inesperado silêncio foi ainda mais estranho. Com o canto do olho, percebeu que ele ficou muito sério e parecia tão confuso e desconfiado quanto ela. Uma vez que nenhum dos homens a conhecia, Alana não acreditou que tivesse sido a causa do inusitado silêncio.
Gregor escutou os irmãos murmurarem algumas poucas palavras de boas-vindas à recém-chegada e, em seguida, se retirarem um a um, dizendo que mais tarde todos se encontrariam no salão principal. Havia algo estranho, mas era mais do que óbvio que ninguém queria contar-lhe qual era o problema.
— Quer que eu a carregue para dentro? — ele perguntou, fitando-a.
— Não, obrigada. Posso caminhar. Mas o seu amparo será bem-vindo.
— Então vamos entrar e descobrir o que fez meus irmãos correrem de nós como se estivéssemos com a peste.
Alana riu e aceitou o braço estendido. Uma vez dentro do castelo, o tom escuro e ameaçador de Scarglas desapareceu. O local era agradável, tinha as paredes enfeitadas com belas tapeçarias e, sobre o assento de cada uma das cadeiras em torno das mesas, havia almofadas acolchoadas.
Se sua intuição feminina não tivesse falhado, aquela que olhava para Gregor só podia ser Fiona. Ela fitou-a e, apesar do sorriso de boas-vindas, havia uma expressão preocupada na fisionomia da mulher que deixou-a apreensiva. Algo estava acontecendo, e, mesmo sem imaginar o que fosse, ela parecia ser parte do problema. Será que seus irmãos haviam aparecido por lá e ofendido a todos ou até mesmo feito algum tipo de ameaça?
— Lembra-se de Alana Murray, Fiona? — Gregor indagou.
— Sim, apesar de fazer anos que não nos vemos.
Antes que algo mais pudesse ser dito, uma jovem bela e robusta surgiu no salão principal. Ao ver o modo como a moça grudou no braço de Gregor, Alana cuidadosamente recuou alguns passos. O mais estranho foi vê-lo imóvel e tenso ao lado da recém-chegada.
Então, um homem forte, de cabelos grisalhos e olhar zangado apareceu e foi ao encontro de Gregor.
— Já era tempo de voltar para casa, rapaz — o homem disse com rispidez. — Soubemos sobre o seu desaparecimento há três semanas e viemos para cá, a fim de tentar descobrir o que de fato havia acontecido. Sendo sua noiva, Mavis decidiu que deveria esperar junto de sua família por notícias de seu paradeiro.
De tudo que o homem dissera, somente uma coisa chamou a atenção de Alana. Uma palavra que perfurou seu coração como um punhal. Ficou tão chocada, tão ferida, que mal conseguiu recuar mais alguns passos quando a moça se atirou nos braços de Gregor, enchendo-o de beijos. Alana rapidamente percebeu que aquela tinha sido uma péssima maneira de descobrir que o tempo todo fizera papel de boba. Ela olhou-o, com a mente fixa naquela única palavra, esperando que ele negasse ou aceitasse o título.
— Noiva?! — Gregor questionou com uma expressão de espanto e fúria.
Em seguida, fitou Alana por cima da cabeça de Mavis. Era como se ele quisesse amenizar o que parecia ser uma traição horrível com um olhar e algumas palavras. Mas, com Mavis grudada nele, era impossível dizer qualquer coisa. E a maneira com que Alana o encarava, como se valesse menos que um verme, indicava que ela não iria ouvi-lo de qualquer modo.
Ele não entendia o que Mavis fazia ali. Deixara bem claro que iria visitá-la depois que tivesse falado com a sua família. Tomara todo o cuidado para não fazer nenhuma promessa a ela. Nenhum papel havia sido assinado, nenhuma cerimônia de noivado acontecera e nenhum pedido oficial tinha sido feito. Não havia como negar que lhe dera esperanças, mas imaginara que pudesse voltar atrás com dignidade.
Agora estava com uma mulher nos braços que não queria, enquanto a que desejava fitava-o como se esperasse a primeira oportunidade para estrangulá-lo. Pior ainda era que não podia humilhar Mavis dizendo que não havia noivado algum. Esperanças não eram o mesmo que promessas, mas, uma vez que tinha feito a corte à moça e até mesmo falado com o futuro sogro, Gregor agora devia uma explicação a ela, e em particular.
— Ficamos muito preocupados com você — disse Mavis ao se afastar um pouquinho.
Gregor abriu a boca para falar, mas então percebeu que não sabia o que dizer. Sua família e o pai de Mavis olhavam, desconfiados, para ele. Gregor encarou Fiona em busca de auxílio. Ela o observava e, para seu grande alívio, rapidamente se moveu na direção de Alana.
— Venha comigo, lady Murray — disse, amparando-a. — Deve estar cansada e louca por um banho, não é mesmo?
— Sim — Alana respondeu, deixando-se levar.
Sentia-se zonza e um pouco entorpecida. No entanto, toda a fúria que a tomara de assalto ao ver aquela mulher se atirando nos braços de Gregor tinha se aplacado, deixando apenas a sensação de ter feito papel de boba. Gregor pertencia a outra e nunca seria seu. Alana queria continuar entorpecida, pois suspeitava que uma imensa dor começava a ganhar espaço em seu coração ferido.
Fiona lhe deu uma leve sacudida, trazendo-a de volta à realidade. Só então Alana se deu conta de que estavam dentro de um quarto.
— Oh, que bonito...
— Minha nossa, Alana, está agindo como se houvesse levado uma pancada na cabeça!
— Chamou-me de Alana, e não de lady Murray.
Quer dizer que se lembrou de mim?
— Eu já havia me lembrado. — Fiona riu. — Só achei que o momento pedia mais formalidade.
— Ah, sim. — Sentindo dor em todo o corpo, Alana caminhou na direção da cama e se sentou, permitindo que Charlemagne saísse da bolsa para explorar o novo espaço.
— Por que está mancando? — Fiona perguntou, acariciando o gato.
— Bem, tive um confronto com malfeitores e acabei caindo de um penhasco. Mas só sofri arranhões e hematomas.
— Deixe-me vê-la.
Antes que pudesse protestar, Fiona já estava desamarrando seu vestido e ordenando que ela lhe contasse toda a história dos fora-da-lei. Ansiosa para se esquecer, ainda que por pouco tempo, da traição de Gregor, ela concordou. Só depois de estar banhada, com as roupas limpas e os ferimentos tratados, ela desconfiou que Fiona, com muito talento, havia conseguido manter sua mente ocupada. Mas era hora de voltar à realidade e enfrentar os fatos. Após um longo suspiro, sentou-se em um banquinho diante da lareira.
— Acho que a história dos marginais é apenas uma das muitas que você tem para contar — Fiona disse, enquanto escovava os cabelos úmidos de Alana. — Há quanto tempo você e Gregor estão juntos?
— Há um bom tempo, e ele nunca tinha dito que estava noivo. — Alana praguejou em pensamento, pois até mesmo ela podia notar a dor e a ira embutidas nas próprias palavras. — Isso não importa. Eu me juntarei a Keira o mais rápido possível.
— Não vai a lugar algum até que esteja curada. Teve sorte de não quebrar nenhum osso, porém não significa que esteja pronta para sair cavalgando por aí.
— Mas cheguei até aqui... — Alana começou.
— Foi sua única opção. Está abatida. Precisa descansar.
— Minha irmã poderá me ajudar.
— E terei muita sorte se ela não vier até aqui ralhar comigo por eu ter permitido que você saísse da cama e subisse no lombo de um cavalo.
— Eu poderia viajar em uma carruagem.
Fiona cruzou os braços sobre o peito e franziu a testa.
— Não. Acho que já deve estar sabendo de tudo que aconteceu a Keira. Sua irmã já tem problemas suficientes. Agora, enquanto termino de pentear seus cabelos, conte-me o que você e Gregor fizeram durante as últimas semanas e por que ficaram tão espantados e tristes quando viram Mavis.
— Ele a abraçou — Alana murmurou. — Não acho que estava tão triste assim.
— Diga-me o que aconteceu entre ambos, então falarei tudo que deseja saber sobre Keira.
Alana considerou a idéia de recusar a barganha, mas concluiu que seria inútil. Fiona estava determinada e nada a faria mudar de idéia. Enquanto contava toda a sua história, Alana tentou omitir os fatos que pudessem indicar que ela e Gregor tinham se tornado amantes, assim como o que sentia por ele. Mas algumas trocas de olhares com Fiona mostraram que os esforços estavam sendo inúteis.
— Bem, você certamente viveu uma grande aventura — ela disse depois que Alana terminou. — Assim como respondeu a algumas dúvidas que eu tinha sobre esse noivado de Gregor com Mavis.
— Como assim? Não falei nada sobre o noivado do dissimulado. — O que ela menos queria era conversar sobre aquele maldito noivado, pois sentia a fúria crescer dentro de si, a ponto de extravasar a qualquer momento.
Fiona puxou um banquinho e se sentou diante dela.
— Você acabou de falar sobre o noivado, percebeu?
— Não.
— Gregor não é dissimulado. Está bem, ele pode até ser um tolo como os outros MacFingal, mas é um homem honesto. Sim, acredito que deva existir algum motivo para o pai de Mavis ter anunciado o compromisso. Gregor estava à procura de uma esposa, porém ele não quebraria uma promessa se a houvesse feito. Quando Mavis e o pai chegaram a Scarglas e anunciaram o noivado, ficamos todos confusos, pois Gregor não tinha mencionado nada a respeito.
— Ele estava voltando para cá. Talvez fosse para contar que finalmente havia encontrado uma noiva. — Alana sentiu a voz vacilando quando pronunciou as últimas palavras.
— Talvez, mas pareceu surpreso e em seguida muito aborrecido.
— Claro que parecia aborrecido. Foi desmascarado diante de todos.
— Não acredito nisso, Alana. Acho até que o noivado tenha sido discutido entres os homens, mas não creio que houvesse sido acertado. Talvez o pai de Mavis tenha gostado muito da idéia, e por isso foi tão enfático, como se tudo já estivesse acordado. Conhecendo Gregor, acredito que ele estava vindo para casa a fim de pensar no assunto, talvez até mesmo pedir a opinião de Ewan. Aquele não foi um acordo nascido do amor e da paixão, e ele ainda iria ponderar muito a respeito, independentemente do que poderia ganhar com o casamento.
Fiona estava dando esperanças que Alana não ousaria aceitar. Ela ainda não tinha digerido a dor de ver outra mulher reclamando Gregor. Não adiantaria se iludir e se deixar levar por falsas expectativas, uma vez que isso só lhe causaria mais sofrimento. Ele nunca dissera que era um homem livre. Tratava-se de uma omissão tão grave quanto uma mentira. Perguntou-se de que outras formas Gregor a teria enganado.
— Bem, nada disso importa. Ele e eu fomos apenas companheiros de prisão e depois de viagem — Alana afirmou com convicção.
— Mente muito mal, Alana Murray. Não peço que me conte tudo que se passou entre vocês, mas não creio que tenham sido apenas dois prisioneiros que fugiram juntos e viajaram até aqui. Além do mais, a expressão de Gregor quando viu Mavis deixou claro que você e ele compartilharam muito mais do que uma cela e um cavalo.
— Seja lá o que tenhamos passado juntos, agora acabou. Ele se casará com Mavis.
Fiona se levantou para terminar de trançar os cabelos de Alana.
— Veremos. Agora, vai ficar escondida neste quarto ou descer para jantar conosco?
— Pensei ouvi-la dizer que preciso de descanso.
— Falei que você não deveria viajar por aí antes de estar totalmente recuperada. Mas colocar um vestido e descer para uma refeição não vai lhe fazer mal algum.
A última coisa que Alana desejava era se sentar à mesa e olhar para Gregor ao lado da noiva. Podia até não prejudicá-la fisicamente, mas certamente lhe causaria muita dor no coração. Por outro lado, o orgulho a impedia de se esconder no quarto como se fosse ela quem tivesse feito algo errado. Tamanho ato de covardia só serviria para mostrar a Gregor que a magoara, e não queria que ele soubesse que sentia algo mais além de raiva por ter sido usada. Ela não sucumbiria à tormenta de sentimentos que fervilhava dentro de si e, se conseguisse conter a ira, talvez pudesse esconder a dor durante algumas horas.
— Duvido que eu consiga comer muito — resmungou, mas, de qualquer forma, aceitou o convite.
Gregor ansiava ir atrás de Alana e tentar explicar tudo, mas sabia que não poderia fazê-lo. Assim como tinha consciência de que não seria nada fácil contornar a situação com Mavis e o pai dela. Havia muitas pessoas ao redor, e ele precisava pensar com cuidado sobre o que exatamente deveria dizer a ela. Depois de assegurar a Mavis que estava bem, Gregor subiu para o quarto, a fim de tomar um banho e vestir roupas limpas. Não se surpreendeu quando, logo depois do banho, Ewan apareceu para uma conversa.
— Não está agindo como um homem que finalmente encontrou a mulher dos seus sonhos — o irmão opinou, esparramando-se sobre a cama dele.
— Ah, mas eu a encontrei — Gregor respondeu, enquanto se vestia. — Infelizmente, não é Mavis Kerr.
— Não? Ela e o pai parecem bem convencidos disso. Se você não tinha certeza, não deveria ter ficado noivo.
— E não fiquei. Fiz a corte a ela e abordei o assunto com o pai algumas vezes, não posso negar. No entanto, não fiz o pedido oficial nem assinei papel algum que selasse o compromisso. Estava voltando para casa com o intuito de conversar a respeito disso com você antes de tomar uma decisão, quando os Gowan interferiram nos meus planos.
— Mas não a renegou quando ela se atirou em seus braços.
— Tirando o fato de eu ter ficado surpreso quando me deparei com Mavis esperando por mim e o pai dela afirmando que ela era minha noiva, eu não poderia humilhá-la diante de todo mundo, negando o compromisso. Ela é uma boa moça e, bem, confesso que lhe dei esperanças. Meu plano era procurá-la e gentilmente pôr um fim a essa expectativa. Acho que a atitude precipitada do pai dela só serviu para dificultar as coisas. Aqui, entre os meus familiares, será difícil me posicionar sem que pareça um insulto ou cause algum tipo de humilhação.
— Bem, eu gostaria de ajudá-lo a sair dessa enrascada, mas partirei amanhã de manhã.
— Para onde vai?
— Para Ardgleann. Ouviu falar algo sobre o que aconteceu lá? Quero dizer, tirando o fato de a irmã de Alana estar viva e casada novamente.
Gregor contou a Ewan tudo que o primo de Alana havia dito sobre aquele assunto.
— O irmão Matthew ficou satisfeito com o recente casamento de Keira e feliz por Liam ter se tornado o novo senhor de Ardgleann.
— Liam fez muito bem em se casar, e será um bom lorde. Ele encontrou sua alma gêmea. — Ewan sorriu. — Tem tido alguns problemas com a esposa, por causa do passado que paira como uma nuvem negra sobre ele, mas estou certo de que logo tudo estará resolvido.
— Talvez isso possa ser usado para evitar que Alana corra ao encontro da irmã — Gregor concluiu em voz alta.
— Fiona já conseguiu conter a pressa da srta. Murray de correr para Ardgleann. Disse-lhe que não poderia ir a lugar algum enquanto não estivesse totalmente recuperada. Apesar de achar que isso não a impedirá de partir por muito tempo, suspeito que Fiona possa convencê-la de que será melhor dar um tempo para que Liam e Keira se acertem sozinhos. Isto é, se você desejar que Alana continue aqui.
— Sim, quero. Ela é minha alma gêmea. Ewan assentiu.
— Eu já desconfiava. A maneira como você olhou para ela quando Mavis se atirou em seus braços indicou que você tinha mudado de idéia com relação à escolha da noiva.
— Comecei a rever minha decisão logo depois que fui jogado na masmorra dos Gowan. Ficar sentando sozinho na escuridão pode clarear muito a mente de um homem. Mavis realmente é uma boa mulher, e não é difícil enxergar isso, com o dote que ela tem e um bom pedaço de terra. Porém, não tocou meu coração. Acho até que com o tempo eu acabaria aprendendo a sentir afeição verdadeira por ela, mas de repente percebi que não queria me prender pelo resto dos meus dias a uma mulher que, na melhor das hipóteses, apenas me desperta carinho.
— Tem toda a razão. Esse caminho pode levar à tristeza e ao fim do casamento. O que, todos sabemos muito bem, acarretaria uma decepção ainda maior. Por outro lado, está certo ao dizer que não pode colocá-la de lado de qualquer jeito.
— E que isso requer uma habilidade com as palavras que não sei se possuo. — Gregor suspirou.
— Então venha comigo a Ardgleann. Aquele miserável do Mowbray acabou com toda a comida do lugar e estou indo levar suprimentos. Será fácil explicar os motivos para tal viagem, pois existem muitos. Além do mais, Mavis e o pai vieram para cá sem ter sido convidados e, portanto, não poderão reclamar de nada. Eles mentiram para todos nós. Ficaremos fora durante alguns dias, e você terá tempo suficiente para pensar no que dizer.
— Um plano e tanto, mas parece que estarei fugindo covardemente de uma confusão que eu mesmo criei.
Ewan se levantou, rindo.
— Pense nele como uma saída estratégica que lhe dará condições de se preparar para a batalha.
— Soa melhor. — Gregor penteou os cabelos com pressa. — Só me pergunto se Alana enfrentará o jantar ou se também planejou uma saída estratégica.
— Ela é orgulhosa?
— Sim, apesar de não se valorizar muito.
— Estará presente. Decerto não vai querer que você pense que está magoada pelo que acredita ter sido uma grande traição.
— Acho que sua hipótese está correta. Alana deve ter visto tudo como uma grande traição.
— Você a seduziu?
— Sim, nos tornamos amantes. — Gregor percebeu o tom defensivo na própria voz e se irritou.
— Não vamos discutir se você deveria ou não ter contado a ela sobre Mavis, mas não me surpreende o fato de terem se tornado amantes. Caso realmente esteja certo de que ela é sua alma gêmea.
— Sim, ela é. Mas, depois do que aconteceu, será muito difícil convencê-la disso.
— Um prêmio tem muito mais valor quando dá trabalho para ser conquistado. E não se esqueça de que ela o aceitou como amante. Pelo que Fiona me contou sobre as mulheres da família Murray, elas são muito seletivas quanto a esse assunto.
— Rezo para que Fiona esteja certa. Entretanto, primeiro, terei de enfrentar um jantar onde me sentarei ao lado da jovem que pensa ser minha noiva e perto da outra com quem quero me casar, mas que neste momento prefere ver minha cabeça espetada na ponta de uma lança.
Durante todo o jantar, Alana tentou evitar ao máximo olhar para Gregor, que estava sentado entre Mavis e lorde Kerr. Cada porção de comida que ela levava à boca tinha gosto de areia e caía no estômago como uma pedra. Cada sorriso que Gregor dava a Mavis era uma apunhalada em seu coração. Ele certamente não estava agindo como se o noivado não fosse verdadeiro. Alana estava começando a achar que Fiona era a única que tinha dúvidas quanto àquele compromisso.
Nas poucas horas que separavam sua chegada a Scarglas daquela refeição, tudo que descobrira sobre Gregor tinha servido apenas para aumentar ainda mais a sensação de que ela era a maior tola do mundo. Ele não só havia escondido que era noivo, mas omitira que tinha dois filhos, cada um nascido de uma mãe diferente, e nenhuma das mulheres nem sequer fora casada com ele. O homem era um conquistador e ela havia sido mais uma entre tantas outras. As belas palavras não haviam passado de elogios vazios para seduzi-la. O pensamento a deixou tão aborrecida que imaginou a cabeça de Gregor espetada na ponta de uma lança, ou, o que era mais adequado, em uma outra parte do corpo que ele usava tão bem.
Durante o jantar, ele foi pressionado por todos a falar sobre as suas aventuras. Alana percebeu o cuidado que ele tomou para contar a história, escondendo com habilidade todos os fatos que levassem alguém a desconfiar que ela tivesse exercido outro papel além de companheira de cela. Gregor deixou claro que ela não passava de uma mulher apanhada na mesma armadilha e que ele fora gentil o suficiente para trazer para casa. Ele se saiu muito melhor do que ela quando tentou fazer segredo sobre eles com Fiona. Alana sabia que ele não poderia se vangloriar diante de todos de terem se tornado amantes, nem ela o queria. Mas o que mais a incomodava era que ele não parecia estar fazendo nenhum esforço para afastar Mavis. Alana não podia acreditar no calor que via nos olhos do tratante todas as vezes que seus olhares se cruzavam. Provavelmente, ele fitava Mavis da mesma maneira.
A pergunta era: para onde essa situação a levaria? Gregor a usara, tinha se aproveitado de sua inocência e, mesmo assim, ela não estava inclinada a exigir que a desposasse. Não queria que ninguém soubesse como se deixara enganar por alguns olhares e palavras doces. O mais triste era que, apesar de tudo, ainda o desejava.
Porém, a única coisa que poderia fazer seria ignorá-lo. Não haveria mais beijos, encontros amorosos nem conversinhas. Falar com Gregor era perigoso. Não apenas porque ele era capaz de levá-la para a cama com toda a facilidade, mas poderia também convencê-la a permanecer ali, na posição de amante, mesmo depois que ele estivesse casado com Mavis. Alana sabia que nunca poderia envergonhar sua família dessa maneira. Ou a ela mesma.
Quando Mavis colocou um pedaço de maçã na boca dele, decidiu que já tinha visto o suficiente. O orgulho exigira que ela descesse para o jantar, que mostrasse a ele que não havia se deixado abater pelas omissões e traição. Até onde sabia, o próprio orgulho fora aplacado. Mas ser obrigada a vê-los trocando gentilezas a estava deixando num tamanho estado de fúria e ódio que logo correria um sério risco de cuspir toda essa dor que a tanto custo tentava esconder. Usando a desculpa de que estava cansada da viagem e dolorida da queda, pediu licença para se recolher. Já estava na metade da escadaria quando ouviu passos apressados e teve a nítida impressão de que se tratava da única pessoa que não queria ver naquele momento, e talvez nunca mais.
— Alana, espere — Gregor chamou.
— Por que deveria? — Lentamente, ela se virou para fitá-lo. — Para um convite de casamento? — O amargor incutido nas palavras indicou que ela estava perdendo o controle. Porém, a resposta furiosa serviu para conter o avanço dele.
— Posso explicar... — ele começou, mas foi interrompido.
— Pode mesmo? Tinha se esquecido da outra? Pelo que ouvi, você foi capturado pelos Gowan dias depois de ter partido da casa de Mavis. Isso não depõe a favor da sua honestidade.
— Alana, tudo não passou de um mal-entendido.
— Sou uma tola por ter acreditado nas suas palavras bonitas. Agora não quero ouvir mais nada. — Virou-se e seguiu seu caminho.
Gregor chegou a subir mais alguns degraus, porém Mavis o chamou. Alana olhou sobre o ombro e viu a mulher parada aos pés da escadaria, observando-os com um jeito que demonstrava mais curiosidade do que preocupação. Gregor fitou Mavis e depois voltou a olhar para Alana. Sua fisionomia era uma estranha mescla de tristeza e súplica. Alana fez uma cortesia a Mavis e continuou sem olhar para trás, antes que ele tivesse tempo de tentar impedi-la.
Uma vez dentro do quarto, fechou a porta, trancou-a e se recostou a ela. Experimentou, ao mesmo tempo, uma sensação de alívio e desapontamento quando, após alguns minutos de silêncio, ficou óbvio que Gregor optara por se juntar à noiva na sala. Aquilo doeu. Mais do que todo o resto. Estava dividida entre um imenso desejo de feri-lo na mesma proporção que ele a havia magoado e a vontade de deixar Scarglas o mais rápido possível.
Após tirar as roupas e vestir a camisola que Fiona lhe emprestara, ela se deitou na cama confortável. Não havia nada que pudesse fazer para machucá-lo, apesar de a idéia de espetá-lo com uma lança ter lhe proporcionado alguns minutos de puro prazer vingativo. Não seria possível deixar Scarglas ainda. Fiona estava certa. Alana sentia o corpo protestando pela simples ousadia de ter descido para o jantar. Viajar naquele momento seria uma grande agonia. Mesmo com os cuidados de Gregor, a última parte da viagem a Scarglas já não tinha sido fácil.
Pelo visto, teria de escolher entre dois tipos de dor. Poderia agüentar a dor física em uma viagem rumo à casa da, irmã em Ardgleann ou permanecer em Scarglas até se recuperar, mas então teria de enfrentar um sofrimento ainda maior, o de ver seu amado ao lado da noiva. Eram duas opções difíceis, como escolher entre a cruz e a espada, concluiu, irrompendo em lágrimas.
Ainda tentou lutar contra a vontade de chorar, mas resolveu que era melhor soltar as rédeas das emoções. Imaginara que poderia conquistar o coração de Gregor, mas agora estava mais do que claro que ele não tinha um para oferecer. Tamanho desapontamento provocou mais lágrimas. Decidiu que permaneceria em Scarglas até que se recuperasse, fingindo que Gregor MacFingal Cameron não significava absolutamente nada para ela e que já o havia arrancado de dentro de si por completo. Talvez, se conseguisse fingir bem e por tempo suficiente, se convencesse disso.
― Partiu? Mas quando? Para onde? Alana estava ciente de que não conseguia esconder o espanto enquanto olhava para Fiona, à espera das respostas a suas várias perguntas. Ela descera para tomar o café da manhã, determinada a agir o mais naturalmente possível, tratando Gregor como se não passasse de um simples conhecido. Em vez disso, tinha chegado tarde demais, restando-lhe como companhia apenas Fiona, que anunciara alegremente a partida do cunhado. Embora manter a calma e esconder o sofrimento enquanto ele não estivesse por perto fosse bem mais fácil, o fato de ele ter partido a incomodava.
E a deixava desolada. Mal podia acreditar que era tão patética a ponto de ficar triste porque não poderia ao menos olhar para o homem que a magoara profundamente. O amor não respeitava a dignidade e o orgulho das mulheres, concluiu. Isso tudo só servira para mostrar que Gregor poderia se aproveitar de sua fraqueza se quisesse. Apenas um dia atrás, ela nunca imaginaria que ele fosse capaz de descer tão baixo. De repente, Alana se lembrou da presença de Fiona.
— Ele foi embora com a noiva?
— Não, e ainda acho que não estão noivos — Fiona respondeu enquanto colocava mel num pedaço de pão.
— Mas Gregor não negou o noivado — argumentou, ignorando o fato de ele ter alegado que tudo não tinha passado de um mal-entendido.
— Acho que meu cunhado preferiu pensar no assunto com mais privacidade, algo que não conseguiu fazer aqui desde que chegou. — Após uma breve pausa, indagou: — Como você está se sentindo hoje?
Alana levou alguns segundos para se dar conta de que Fiona perguntava dos ferimentos físicos, e não de seu estado emocional.
— Ainda estou dolorida, mas não tanto quanto ontem à noite.
— Ótimo. Provavelmente não houve nenhuma lesão interna. Eu já havia imaginado. A dor vai melhorar com o passar dos dias.
A dor física sim, mas a do coração Alana duvidava que um dia desaparecesse. Ter chorado quase a noite toda não a aliviara. A revolta que ainda sentia por ter sido usada e traída só servia para ajudá-la a esconder a dor, não para eliminá-la.
— Para onde Gregor foi afinal?
— Para Ardgleann com Ewan — Fiona respondeu, enquanto descascava uma maçã.
— Sem mim? Eu gostaria de ao menos ter enviado uma carta a Keira.
— Ewan e Gregor darão as boas novas a ela. Keira entenderá a sua ausência. Além do mais, Ewan já havia planejado a viagem. Como você, também me surpreendi quando soube, nesta manhã, que Gregor iria com meu marido. — Fiona franziu o cenho. — Ewan achou melhor não me contar antes.
E ele iria pagar por isso, Alana pensou, quase rindo.
— Seria bom se eu pudesse ter enviado algumas palavras a minha irmã.
— Haverá outras oportunidades para uma carta. Essa não foi a primeira nem será a última viagem para lá. Aquele cretino do Mowbray deixou o povo de Ardgleann sem comida, e eles estão com o plantio atrasado.
— Poderia me falar um pouco sobre Liam Cameron? Irmão Matthew jura que ele é bom e que será um ótimo marido para Keira, mas meu primo vê apenas bondade em todos. Gregor concorda com a opinião dele, mas os homens nem sempre reconhecem os defeitos dos companheiros. Sei que Keira não foi feliz no primeiro casamento e gostaria que esse fosse melhor. Ele é um homem bonito, não é?
— Liam é lindo, a ponto de despertar o ciúme dos outros homens.
Alana riu, mas rapidamente recuperou a seriedade.
— E ele será um marido bom e fiel?
— Sim, não tenho dúvidas quanto a isso. Ele e Keira formam um par perfeito. — Fiona encheu uma tigela com cereais e colocou leite por cima. — A sua irmã o ama e acredito que Liam corresponda a esse sentimento. Fico feliz que tenha perguntado sobre eles, pois acho que você deveria esperar para visitá-los até que ela e o marido possam se acertar.
— Estão com problemas?
— Somente do tipo que envolve duas pessoas apaixonadas, que não têm coragem de confessar um ao outro esse amor.
— Espero que esteja certa. Tenho sonhado com Keira. Ou melhor, tenho tido visões — Alana admitiu, meio sem jeito, apesar de Fiona ter passado um bom tempo com os Murray antes de se casar com Ewan.
— Nos sonhos a sua irmã não está feliz?
— Sim e não. Os sonhos que me fizeram sair à procura de Keira eram claros. Quando me encontrei com irmão Matthew e ele me contou o que tinha acontecido, fiquei mais calma. Mas tive outros sonhos onde ela parece muito triste, ao lado de um homem lindo.
— Provavelmente ela estava triste com tudo que aconteceu ao povo de Ardgleann.
— Foi o que pensei. Então, tive algumas visões de Keira feliz, porém ainda com certa tristeza no coração. — Alana contraiu a testa, tentando se lembrar o que tinha sentido de fato. — Ela parecia estar em dúvida. Temia algo, que não sei o que é.
Fiona assentiu.
— Agora, diga-me se isso não se parece com a situação de uma mulher que ama um homem, mas não tem certeza do que ele sente por ela? Essa dúvida pode deixar uma pessoa insegura e com medo do futuro.
Alana pensou por um momento na própria situação.
— Sim, faz sentido. Há mais uma coisa. Acho que Keira está grávida.
— Isso não me surpreenderia. Liam é um homem muito viril. — Fiona olhou para Alana e ergueu uma sobrancelha. — Todos os Cameron são...
Quando o significado dessas palavras atingiu a mente de Alana, ela quase engasgou com o bolo de cereais que comia. Homens viris faziam filhos. Gregor já tinha dois. Rezou para não estar esperando o terceiro. Ela amaria a criança, assim como sua família, porém os outros só veriam a vergonha, e seu filho seria quem mais sofreria pela fraqueza da mãe. E ainda teria de gastar um bom tempo tentando convencer os irmãos de que não valeria a pena matar Gregor. Ela estava certa ao pensar que a paixão tinha conseqüências para as mulheres e muito errada ao concluir que poderia simplesmente ignorá-las.
— Em que está pensando?
— Deve imaginar. Mas não se preocupe, não permitirei que machuquem Gregor — Alana afirmou.
— Agradeço, mas nunca imaginei que permitiria uma coisa dessas. — Fiona piscou para ela. — Uma mulher de coração partido é capaz de fantasiar as piores torturas e as mais variadas formas de matar o homem que ama, o que não significa que seja capaz de permitir que algo seja feito contra ele.
— Eu nunca disse que amo aquele mentiroso. Fiona revirou os olhos e apanhou um pedaço de bolo.
— Claro que não. Enganei-me.
— Está bem, vou lhe dizer a verdade.
— Prefiro.
— Sim, eu o amo. Porém, no momento, gostaria de vê-lo sendo devorado por um bando de lobos, assim como apreciaria contemplar certa parte do corpo de que ele se orgulha tanto dependurada num prego na parede.
Fiona riu, assentindo.
— Parece que está mesmo amando.
Surpresa por estar assumindo seu amor, Alana sorriu de leve.
— Se ele realmente está noivo de Mavis, por que não me falou antes? Sim, de fato eu não teria ficado muito feliz ao ouvir que ele tinha cortejado outra mulher e até havia pensado em se casar com ela, mas pelo menos eu estaria preparada para o que está acontecendo. No entanto, a única coisa que Gregor me disse foi que tudo não passava de um mal-entendido. E ninguém aqui em Scarglas sabe se de fato eles estão noivos ou não.
— Imagino como você deve estar atormentada. Alana assentiu.
— Mas confesso que planejo acabar com esse sentimento o mais rápido possível. Mesmo que os Kerr estejam mentindo ou tenham entendido algo errado, isso não mudará o fato de que Gregor me enganou. Tenho a impressão de que nossos momentos juntos não passaram de puro divertimento para ele.
— Oh, Alana, não acredita realmente nisso, não é?
— Tenho de acreditar. Pelo que parece, Gregor está noivo, e apenas ele e os Kerr sabem da verdade. Bem, se ele tiver um compromisso com Mavis, de fato fiz papel de boba, e, se não tiver, ele me seduzirá novamente e então serei mais tonta ainda.
— Entendo... Talvez não tenha sido o momento oportuno para que você ficasse sabendo sobre Mavis.
— O momento oportuno teria sido antes de ele teime levado para a cama. Outro momento oportuno teria sido quando contei a ele que meu pai planejava arrumar um marido para mim.
Fiona arfou.
— Você não está noiva, está?
— Não. A verdade é que tenho vinte e dois anos e nunca fui cortejada. Mas sempre sonhei em ter a minha casa e meus filhos. Por isso, meu pai disse que iria arrumar um marido para mim. Ele estava procurando, mas não havia me apresentado nenhum pretendente ainda. Sendo assim, não estou noiva de ninguém. Imagino que meu pai não acertaria um noivado sem a minha aprovação.
— E claro que não. Os Murray dão liberdade de escolha às filhas. Pretendo fazer o mesmo no futuro. E, sim, teria sido melhor se Gregor houvesse lhe contado antes sobre Mavis. Acredito que ele tenha ficado com medo ou talvez tenha imaginado que pudesse desfazer a confusão antes de você ficar sabendo de tudo. Os homens sempre têm esse tipo de idéia tola. Espero que Gregor aprenda que não é inteligente esconder um segredo da mulher amada.
Alana estava prestes a dizer a Fiona que não havia esperanças para eles quando Mavis entrou na sala ao lado de um belo rapaz, a quem Fiona se dirigiu como Brian. Era evidente, apenas olhando para ele, que se tratava de um dos tantos irmãos de Gregor. Assim como estava claro que ele e Mavis eram muito amigos. O rubor que coloriu as faces da moça quando soltou o braço de Brian e se sentou à mesa falou por si só. Alana e Fiona se entreolharam, desconfiadas, antes de voltar a atenção aos dois.
Mavis era uma mulher atraente, com belos cabelos castanhos e olhos cor de mel. Tinha também um quê de volúpia, que despertou uma pontinha de inveja em Alana. Deixando de lado esses pensamentos, observou-os com atenção enquanto comiam e conversavam com Fiona e ela. Ao vê-los se retirar, Alana não conseguiu definir se estava feliz por si mesma ou ultrajada por Gregor. Encarou Fiona.
— Acha que Mavis está traindo Gregor com o irmão dele? — Alana perguntou.
— Não, ela não é do tipo de mulher que quebra um juramento.
— Então permiti que minha imaginação me fizesse ver o que não era verdade. Acho que nunca deixarei de ser tola.
— Ah, você enxergou muito bem. Se os dois ainda não são amantes logo serão.
— Mas você disse...
— Que Mavis não quebraria um juramento. Porém, uma vez que ambos parecem atraídos um pelo outro e, pelo visto, não estão lutando muito contra esse sentimento, podemos concluir que ela não deve estar noiva de Gregor.
Alana teve um sobressalto e em seguida massageou as têmporas, sentindo a aproximação de uma leve dor de cabeça.
— Por que acha que ela e o pai mentiriam sobre o noivado?
— Imagino que tenha sido uma iniciativa de lorde Kerr. Mavis é dócil e submissa, e nunca ousaria discutir nem desafiá-lo. Quanto aos motivos que levaram-no a mentir... Bem, Mavis é filha única e ele quer um genro forte que possa assumir as terras e a filha depois que ele se for. Ele também deseja ter netos, e uma coisa que este clã sabe fazer bem é gerar filhos. Uma vez que ela é um pouco mais velha do que você, as pessoas começam a perguntar por que ainda está solteira, o que aumenta a ansiedade de um pai. Por isso, ele grudou no nosso Gregor.
De fato fazia sentido, mas Alana resistia à idéia de renovar suas esperanças. Mesmo que o noivado não fosse verdadeiro e Gregor resolvesse o problema, ainda teria de levar em consideração tanto a omissão quanto o fato de ele ser um conquistador. Havia também a questão de ele nunca ter lhe falado sobre amor e casamento. Gregor poderia até não se casar com Mavis, mas isso não queria dizer que se casaria com ela.
— Se Mavis é tão dócil e submissa ao pai, então o noivado entre ela e Gregor não está descartado.
— Acho que não. Ela provavelmente sabe que o pai considera Gregor o homem forte que lhe dará os desejados netos. Mas, para esses propósitos, nosso Brian servirá tão bem quanto o irmão. Só não sei ao certo como tudo isso vai terminar. O pai de Mavis é um homem teimoso que não gosta de ser contrariado. Ele escolheu Gregor. Essa vai ser uma disputa interessante. — Fiona tamborilava os dedos na mesa. — Tenho a sensação de que meu marido sabe sobre Brian e Mavis.
E suspeito que tenha sido por isso que ele convenceu Gregor a viajar a Ardgleann.
— Para deixar o caminho livre para Brian?
— Sim. Ewan teve uma longa conversa com Gregor ontem à noite e depois me disse que eu estava certa, que não existe um noivado oficial. Revelou também que Gregor precisava conversar com Mavis o mais rápido possível, de uma maneira que não a magoasse nem a colocasse em uma situação humilhante, pois, apesar de não estarem noivos, ele tinha dado esperanças à moça ao cortejá-la. Ewan ainda me disse que iria levar Gregor com ele para que o irmão pudesse pensar melhor em como terminar tudo da maneira mais decente. E que isso não seria possível se ele continuasse preso aqui com Mavis e o pai em seu rastro. O tolo acabaria se casando com a mulher errada. — Fiona fitou Alana. — Parece-me um bom plano. Tenho certeza de que Ewan levou Gregor consigo para que Brian pudesse cortejar Mavis.
— Que confusão! Bem, de qualquer maneira, ninguém deveria ser forçado a se casar, mesmo com um cachorro sedutor como Gregor. Se Mavis quer ficar com Brian e vice-versa, desejo boa sorte ao casal. No entanto, não acho que isso mude a minha situação. Fiona fez uma careta.
— Por que não? Gregor ficará livre.
— Livre, sim, mas ainda será o mesmo mentiroso que não me contou sobre os filhos, prova das seduções do passado.
— Ah, a maioria dos homens tem um passado de luxúria.
Alana ignorou o comentário ainda que soubesse que era a mais pura verdade.
— Ele também nunca me falou a respeito do que sente por mim ou se tem planos para um futuro ao meu lado.
— Gregor não poderia fazer isso enquanto não tivesse resolvido a situação com Mavis. — Fiona sorriu.
— Parece cruel, eu sei. Mesmo ele não tendo prometido nada a ela, Mavis é um nó que ele precisa desfazer. — Ela inclinou-se e segurou a mão de Alana. — Sim, ele não foi honesto com você e agiu como um sedutor no passado. Gregor não é perfeito. Mas que homem é? Ou que mulher? Alana, você o ama e conheço muito bem as mulheres da família Murray para saber que não teria ido para a cama com ele, a menos que estivesse certa de que Gregor é sua alma gêmea. Acho que Mavis logo deixará o caminho livre, o que colocará um fim a essa complicação toda. Por isso, espere. Apenas aguarde até que ele esteja livre e veja o que acontecerá. Ele não vale o esforço?
Sim, valia, mas ainda assim Alana desejava pensar o contrário. Tudo que Fiona dissera sobre os motivos que o haviam levado a omitir Mavis fazia sentido. Entretanto, não entendia por que ele não comentara nada sobre os filhos. Na noite passada, tinha tentado falar com ela, mas estivera irritada e magoada demais para ouvi-lo. Então, Mavis sugira e o levara embora.
E aquilo, reconheceu, tinha causado mais uma ferida. Gregor estava cheio de cuidados com os sentimentos e o orgulho de Mavis. Mas onde estava a consideração com ela? Não era possível que estivesse tão cego a ponto de não perceber que estava magoada, sentindo-se traída e humilhada, e, mesmo assim, era com Mavis que se preocupava. Duvidava que ele realmente sentisse algo por ela. Decerto, não havia passado de uma amante de conveniência.
— Não gosto da sua fisionomia neste exato momento — Fiona murmurou.
— Estou fazendo o que você aconselhou: pensando.
— Sim, mas não acho que esteja pensando sobre os sentimentos de amor e perdão que eu esperava.
— Fiona, aguardarei, como me pediu, apesar de Gregor nunca ter falado sobre amor e casamento comigo. Vou esperar e refletir, mas não terei esperanças. Quando ele estiver livre, verei qual será o próximo passo que ele dará, e então decidirei o que fazer. Você não pode me pedir mais do que isso.
— Já é o suficiente. Apenas tente não ser muito dura com ele e consigo mesma.
Alana descansou e passou a maior parte do tempo perdida em seus pensamentos. Durante três dias, avaliou com cuidado as palavras de Gregor e a forma como a tratara quando tinham estado juntos. No fundo, sabia que poderia perdoá-lo, mas não queria ter muitas expectativas.
O romance entre Mavis e o irmão de Gregor ficou claro para todos, exceto para o pai dela. Lorde Kerr andava reclamando que tinha sido abandonado pelo futuro genro e dizia que a data do casamento seria marcada assim que Gregor voltasse, mas não enxergava que a filha estava se apaixonando por Brian. E a cada dia, Alana tinha mais certeza de que o casal não planejava pedir a bênção dele.
No final do quarto dia, Alana admirava o luar pela janela de seu quarto quando constatou que estava certa a respeito dos amantes. Estivera pensando em Gregor, como fazia com freqüência, ao notar uma movimentação no estábulo. Um homem conduzia dois cavalos para fora, e, apesar da distância, Alana imaginou que se tratasse de Brian. A súbita aparição de Mavis confirmou sua suspeita. O casal se abraçou, ele a ajudou a subir no cavalo e montou no outro animal. Em seguida, segurou a mão dela e falou-lhe algo. Depois que ela sorriu, assentindo, os dois saíram pelos portões, deixando Scarglas.
Por uma fração de segundo, Alana considerou a idéia de avisar alguém. Via aquilo como um insulto a Gregor e se sentiu ultrajada por ele. Gregor tinha se preocupado com Mavis, não querendo que ela se magoasse nem fosse humilhada, e aquela era uma maneira muito ingrata de ela retribuir a gentileza.
— Sou mesmo uma tonta — murmurou ao voltar para a cama, onde Charlemagne a esperava.
Depois que se acomodou embaixo das cobertas, percebeu que uma dorzinha lá no fundo do coração tinha passado e amaldiçoou-se por isso. Estava mais do que claro que não havia conseguido eliminar todas as esperanças. Chegou a pensar seriamente em fazer o mesmo que Brian e Mavis. Fugir de Scarglas. A única coisa que a impediu foi a promessa que fizera a Fiona. Alana tinha medo de se magoar ainda mais, porém lutou para agüentar firme e com coragem. Por Gregor, valia a pena tentar pelo menos uma vez. O amor que ela não havia conseguido aniquilar cobrava essa última chance. No entanto, isso não queria dizer que iria facilitar as coisas para ele.
Alana descia os primeiros degraus para ir tomar o café da manhã quando viu lorde Kerr saindo do salão principal com o rosto muito vermelho. Em seguida, ele abriu a porta que dava para o pátio do castelo e gritou para que lhe trouxessem um cavalo veloz. Assim que ele partiu, Alana correu até a porta entreaberta do salão e verificou o interior antes de entrar. Fiona comia calmamente, sentada à cabeceira da mesa, ocupando a cadeira do marido. Charlemagne passou por ela e seguiu na direção de Fiona, que o agraciou com um pedaço de frango.
— Pensei que tivesse acordado cedo o suficiente para tomar o café com todos os outros — Alana disse enquanto se dirigia ao assento do lado de Fiona.
— Estavam todos aqui assim que o sol nasceu e então sumiram — ela respondeu.
— Para que não tivessem de presenciar a irritação do pai de Mavis?
— Você o viu? — Ela riu quando Alana concordou.
— Não invejo Brian por ter um sogro como esse.
— Vi quando Mavis e Brian fugiram, na noite passada.
— Não olhe para mim — Fiona falou, sorrindo.
— Não tive nada a ver com isso. Ewan deve ter falado com os irmãos sobre o suposto romance entre os dois. Essa é a única justificativa que encontrei para que ninguém tenha tentado impedir Brian de fazer a corte a Mavis. Alguém deve ter dito a eles que ela não estava realmente noiva de Gregor. Os Cameron podem ser um bando de conquistadores, mas nunca tocam em uma mulher que pertence a um parente.
Alana se serviu de um pouco de mingau de cereais e adoçou-o com mel.
— Devem ter descoberto que Mavis e Gregor não estavam noivos, mas isso não quer dizer que tivessem certeza de que ele não a quisesse.
— É verdade. No entanto, acho que perceberam que não havia amor entre Gregor e Mavis.
— Será? Quase soei o alarme para impedir a fuga deles.
Fiona riu e meneou a cabeça.
— Eu também. Só conseguia pensar em como tiveram coragem de humilhar Gregor daquela maneira.
— Exatamente. No entanto, o bom senso me impediu, e não apenas porque Gregor ficaria livre e desimpedido, mas também porque Mavis nunca me fez nada de mau e parece ser uma boa mulher. Ela merece ser feliz como todo mundo.
— É verdade. Agora esperaremos o retorno de Gregor.
— Sim.
— Dessa vez você dará uma chance a ele de se explicar, não é mesmo?
— Se ele quiser falar, eu o escutarei, mas não posso permitir que tente me seduzir para que voltemos ao ponto em que estávamos antes da aparição de Mavis. Pensei que fosse desimpedido, e estava me arriscando para conquistar seu coração. Bem, agora ele terá de se esforçar para conquistar o meu, se quiser, e para recuperar a minha confiança. Acreditei nele e fui enganada. — Sentiu-se aliviada quando Fiona concordou. — Na noite passada, decidi que darei uma chance a ele, mas isso não quer dizer que eu vá facilitar as coisas.
— Ótimo. Você tem toda a razão.
— Mas, se ele não agir de maneira correta, se não demonstrar que sente algo além de atração por mim, irei embora.
— Justo. Só tenho mais um conselho a lhe dar.
— E qual seria?
— Preste muita atenção quando estiver dificultando as coisas para Gregor. Talvez esteja apenas sendo teimosa e tornando tudo impossível.
Alana riu.
— De acordo.
— Foi embora? Para onde?
Gregor olhava, espantado, para Fiona e perguntava-se por que Ewan parecia conter o riso. Ele passara cinco dias longe de Scarglas, preparando-se para enfrentar Mavis e o pai, pensando com cuidado e escolhendo cada palavra que diria aos dois. Nos últimos dez quilômetros da jornada de retorno, repassara mentalmente o discurso várias vezes para não se atrapalhar com as palavras na hora do confronto. Havia até mesmo feito um grande esforço para se esquecer da atitude um tanto indelicada de pai e filha, que tinham vindo à sua casa sem convite, e ainda por cima anunciado um noivado que não existia, causando um sofrimento que Alana não merecia enfrentar.
Gregor olhou ao redor do salão principal e se deu conta de que estava sozinho com Ewan e Fiona. Era estranho que não houvesse nenhum outro membro da imensa família presente para ouvir as novidades. Suspeitou, então, de que algo mais tinha acontecido. Estava prestes a exigir que Fiona terminasse de comer logo aquela maçã e respondesse às suas perguntas de uma vez por todas, mas a noção de que ela não se comoveria nem um pouco com a ordem e de que se arriscaria a apanhar do irmão por gritar com ela foram suficientes para que se contivesse.
— Mavis fugiu com Brian — ela finalmente falou.
Depois de permanecer encarando-a, imóvel, durante um tempo, Gregor se sentou e serviu-se de um pouco de cerveja. Foi preciso tomar alguns goles da bebida para que seu espanto cedesse e ele começasse a recuperar o raciocínio, Fiona e Ewan o fitavam com um leve sorriso. Isso, somado à estranha ausência de sua grande família, revelou-lhe que o acontecimento não era surpresa para ninguém, exceto para ele mesmo.
— E lorde Kerr? — indagou.
— Saiu em busca do casal hoje cedo, porém as chances de alcançá-los são mínimas. Os dois escaparam na calada da noite.
— Você sabia que isso poderia acontecer, não sabia, Ewan?— Gregor perguntou, encarando o irmão.— Foi por esse motivo que me convenceu a ir a Ardgleann. Queria dar tempo para que Mavis e Brian se decidissem.
— Você queria Mavis então? — Fiona perguntou.
— Não, mas isso não significa que eu pretendesse fazer papel de bobo. Sei muito bem que fui o último a saber de tudo. Se alguém tivesse me contado o que estava acontecendo, eu poderia ter me poupado de cinco longos dias tentando encontrar uma saída para essa confusão.
— Você teria ficado aqui, e acho que o seu afastamento foi a melhor coisa a ser feita — justificou-se Ewan. — Mavis tem medo do pai. Assim que você chegou, ela passou a andar ao seu lado, só por receio dele. Acho que lorde Kerr a teria convencido a se casar com você. Ela é uma filha muito leal para enfrentar o pai e dizer a ele que desejava se casar com outro homem. Com a sua ausência, Brian teve a liberdade necessária para cortejá-la e convencê-la a seguir o coração.
Gregor tomou um longo gole da cerveja. Perguntava-se por que se sentia tão aborrecido. Deveria estar feliz e espalhar a sua alegria. O nó tinha ficado atado por tanto tempo que acabara se desfazendo sozinho. Brian havia arrumado uma boa esposa, terras, e enchido os bolsos de dinheiro. E claro que teria Ian Kerr como sogro, mas Gregor suspeitava que o irmão saberia lidar com ele. Deu-se conta de que seu orgulho estava ferido. Mavis preferira outro, ainda que Gregor não quisesse se casar com ela. O fato de ter sido o último a saber o incomodava, pois o fizera passar por tolo diante de todos.
Porém, rapidamente tratou de colocar os pesares de lado. Afinal, antes mesmo de ter conhecido Alana, ele já não tinha certeza se queria de fato se casar com Mavis. Deveria estar satisfeito com tudo que havia acontecido, sem se importar sobre como as coisas tinham se resolvido ou com o quanto tinham afetado seu orgulho.
Poderia voltar suas atenções para Alana e tentar reparar os erros que cometera. Sentiu uma pontada no fundo do coração ao se perguntar por que ainda não a* vira.
— Onde está Alana? — indagou, ansioso para acertar as coisas entre eles.
— No solário — respondeu Fiona. — Ela correu para lá quando ouviu que você estava chegando.
Aquilo o feriu, apesar de compreender. Ele a havia magoado e, mesmo que ninguém soubesse que tinham se tornado amantes, isso a envergonhava, ainda que apenas diante de si mesma. As possibilidades de ela estar imaginando que ele a usara para passar o tempo e saciar suas necessidades masculinas durante a viagem até Scarglas, onde se reencontraria com a noiva, eram imensas.
Gregor não se atrevia nem a imaginar como Alana estaria se sentindo, e ela não permitira que se explicasse. Pior do que isso era o fato de ele ter passado quase toda a viagem preocupado com as explicações que daria a Mavis, mas não ter pensado em nada que pudesse dizer a Alana. A idéia de que poderia simplesmente se desculpar com humildade e beijá-la era tola, porém, no desespero, acabara se agarrando a ela como se fosse a única solução.
Conhecer a irmã gêmea de Alana tinha sido estranho, apesar de não se parecerem muito, exceto pela estatura e o formato do rosto. Keira era uma mulher adorável e certamente tão ligada a Alana quanto ela à irmã. Não restava dúvida de que Keira sabia de tudo que se passara entre os dois, inclusive que ele magoara Alana. Fora tentador perguntar-lhe se ela sabia como Alana estava se sentindo no momento e se ela o amava, mas não tivera coragem para tais confidencias. Infelizmente, ela também não revelara nada a respeito dos próprios temores e, por isso, ele tinha pouco a contar a Alana para acalmá-la a respeito da felicidade da irmã.
Liam havia sido bem mais receptivo, e Gregor poderia tentar tranqüilizá-la com essa notícia. Não que pensasse que seria o suficiente. Estaria dando a ela a versão masculina dos fatos, além de Alana ainda poder estar sentindo a infelicidade da irmã. Era o passado de Liam que o impedia de conquistar a confiança da esposa, e Gregor receava que seu passado viesse a causar os mesmos problemas. Pelo menos, o primo não tinha nenhum filho bastardo sob o mesmo teto que lembrasse à esposa o tempo todo de que o marido havia sido um conquistador.
— Não vai conseguir resolver sua situação se permanecer parado aí, olhando para essa cerveja — disse Fiona.
Gregor franziu a testa.
— Duvido que Alana queira me ver. Acho que ela deixou isso bem claro ao correr para o solário quando cheguei.
— Você deveria ter contado a ela sobre Mavis — Fiona opinou, ignorando o murmúrio de protesto do marido quanto à sua interferência. — Agora vou dizer o que quiser. Afinal, Gregor deixou-me aqui para lidar com a noiva e a amante debaixo do mesmo teto. Fiquei em uma situação muito delicada.
— Reconheço que errei ao omitir de Alana a minha situação com Mavis, mas será muito difícil corrigir esse erro se ela não ouvir o que tenho a dizer.
— Sim, realmente você cometeu um erro. Contudo piorou ainda mais as coisas ao se preocupar com os sentimentos de Mavis, esquecendo-se dos de Alana.
— Não é verdade — Gregor protestou sem muita convicção, pois de repente percebera que Alana poderia estar pensando o mesmo.
Ou melhor, Alana certamente pensava assim, e com razão. Ao chegar a Scarglas, tinha se deparado com Mavis declarando-se sua noiva, vira a mágoa e raiva de Alana, e não havia raciocinado com clareza. A única coisa em que pensara era na necessidade de manter Mavis e o pai felizes e calmos até que pudesse discretamente desfazer o mal-entendido e levá-los a partir. A culpa por ter cortejado a moça em razão do dote o mantivera preocupado com seus sentimentos, impelindo-o a ser cuidadoso para não humilhá-la. Agindo assim era o que tinha feito com Alana.
Praguejou. O número de deslizes que cometera com ela só aumentava. Ele deveria ter feito algo, até mesmo forçá-la a ouvi-lo mas, em vez disso, preferira bancar o noivo gentil. Se Alana o tivesse tratado assim, se ela houvesse agido dessa forma diante dele, não teria ficado tão calado. Decerto haveria um homem morto antes do final do jantar.
Mas, certamente ele teria lhe dado uma chance de se explicar. Se ela somente o tivesse escutado por um minuto, tudo o que fizera aquela noite teria sido compreensível. Sabia que Alana não passaria por cima de alguém por causa de seu orgulho. Ela também não gostaria que Mavis tivesse sido ferida ou humilhada.
— Precisará convencê-la a se sentar para ouvi-lo— disse Fiona.
— E acha que isso será fácil? — Gregor perguntou com uma raiva dirigida a si mesmo.
— Fácil teria sido se você houvesse contado tudo a ela antes. Agora não explicará apenas a questão do noivado, mas por que o escondeu. — Fiona suspirou.
— Não percebe que fez Alana pensar que não passou de uma mulher conveniente para esquentar sua cama até que chegasse em casa e se casasse com outra?
— Você fala o que lhe vem à cabeça.
— E preciso, ou esse nó nunca será desatado, o que custaria muito a você e ainda mais a ela. Acho que deixou de dizer-lhe várias coisas, talvez por receio de fazer promessas enquanto não estivesse completamente desimpedido, porém agora terá de pagar um preço alto por essa atitude. Alana perdeu a confiança em você, Gregor. Será preciso muito mais do que algumas palavras doces para que consiga recuperá-la. Ewan me disse que você a considera sua alma gêmea, mas acho que não deu nenhuma demonstração disso a ela.
Não havia como negar tudo que Fiona estava dizendo. Para Gregor, seus motivos haviam sido os mais honrados possíveis. Não seria correto fazer promessas a uma mulher quando estava quase noivo de outra, e ele mesmo não tinha tanta certeza do que estava sentindo. No entanto, as palavras de Fiona o colocaram em xeque. Ele não sabia como iria reconquistar a confiança da mulher que realmente amava e convencê-la de que tudo que se passara entre eles havia sido muito mais do que uma simples aventura.
— E é claro que Alana também já sabe sobre os seus filhos.
Gregor fitava o tampo da mesa, imaginando se poderia se sentir melhor caso batesse a cabeça ali algumas vezes.
— Não escondi nada sobre os meus filhos. — Gregor fez uma careta. — O problema com Mavis era tão grande que eu me esqueci de tudo o mais. — Franziu o cenho. — Acha que, se eu conseguir resolver a situação com Alana, ela aceitará os meninos? -— perguntou, apesar de já saber a resposta.
— É claro que sim, e você sabe disso. Vou lhe contar uma coisa. Ela me prometeu que iria escutá-lo. O resto é com você. Se não conseguir convencê-la, atenuar as mágoas e tudo o mais, ela partirá para Ardgleann, e não vou impedi-la dessa vez.
— É uma mulher muito esperta, Fiona. — Gregor sorriu. — Farei o que for possível. Sei que ela está esperando notícias da irmã e isso servirá de pretexto para que eu a procure e me explique.
Ele rumou para o solário, sentindo uma mistura de esperança e medo. Não era nada simples para um homem se colocar diante de uma mulher como se estivesse enfrentando sua pior batalha, e ainda por cima correr o sério risco de ser obrigado a recuar como um covarde. Respirou fundo, enquanto tentava se preparar para o confronto. Sabia que o futuro seria vazio sem Alana ao seu lado. Durante o tempo que havia passado com ela, descobrira como gostava de tê-la ao seu lado à noite, caminhar com ela de manhã e saber que ela se encontrava por perto durante o dia. Pensando bem, gostar não era a palavra exata. Ele precisava dela.
A primeira batida à porta não foi seguida de imediato por uma autorização para entrar. Gregor chegou a considerar seriamente a idéia de invadir o local sem permissão. Mas o bom senso dizia que essa não seria a melhor maneira de aplacar a ira de Alana. Então, ouviu-a dizendo que entrasse. Ao abrir a porta, ele rezou para que conseguisse encontrar as palavras certas que a trouxessem de volta para os seus braços.
Só de olhar para aquele homem, os batimentos cardíacos de Alana dispararam, e ela ficou com raiva de si mesma por ser tão tola. Naquele momento, com a dor da traição ainda ardendo em seu peito e sem palavras de amor às quais se agarrar, ela só podia se recordar dos momentos nos braços de Gregor com dor e vergonha por ter sido tão inocente. Talvez esses sentimentos passassem com o tempo e as recordações voltassem a ser belas novamente.
— Fez uma boa viagem? — perguntou enquanto ele ocupava um assento diante dela.
O modo como Gregor contraiu os olhos diante do tom frio e distante que ela usara a fez se sentir um pouco melhor. Alana sabia que era mesquinho de sua parte aprazer-se em perturbá-lo, mas não se importava. Ele a havia abandonado com sua própria dor e fúria por cinco dias, lado a lado com a mulher que se dizia noiva dele. Se estivesse ansioso para resolver as coisas e explicar que tudo não passara de um mal-entendido, deveria ter ficado em Scarglas e se esforçado um pouco mais.
— Minha viagem foi boa o suficiente — Gregor respondeu —, apesar de ter sentido muito a sua falta.
— Ah, que pena, mas achei que Charlemagne precisava descansar um pouco.
Alana sabia ser desagradável quando estava com raiva, Gregor pensou, dividido entre a vontade de sorrir e a de chacoalhá-la. O tempo que tinham ficado com os Gowan deveria ter servido para alertá-lo disso. Ela insultara aqueles homens com sua língua ferina diversas vezes. Aceitaria essa atitude como uma punição pelos seus erros. Sabia que a havia magoado, ainda que não tivesse a exata noção de quanto, e entendia que ela podia estar querendo se vingar. Poderia também ter sido uma maneira que ela encontrara para impor certa distância entre ambos, mas logo descobriria que sua tática não duraria muito.
— Onde está o gato? — Gregor perguntou, olhando ao redor em busca do animal que nunca saía de perto da dona.
— Seus filhos gostaram de Charlemagne e devem estar brincando com ele.
Gregor sentiu-se ruborizar e praguejou em pensamento. Não tinha previsto que ela pudesse jogar-lhe na cara uma de suas omissões com tanta rapidez. Explicar que se esquecera de contar sobre os filhos porque estivera muito preocupado, pensando numa maneira de resolver o problema com Mavis, não iria ajudá-lo muito. Na verdade, estava envergonhado com tudo aquilo.
— Fico contente. — Agora a conversa estaria reduzida a uma troca de gentilezas superficiais. — Gostaria de saber como a sua irmã está passando?
— Sim, como vai Keira?
Alana se endireitou no assento, com os braços cruzados sobre o colo, como aprendera quando era criança. Era o modo com que as pessoas civilizadas deveriam se sentar diante dos visitantes, e ela suspeitou que Gregor soubesse da regra de etiqueta, pois o cenho franzido era um indício. Se ele estava pensando que ela se apresentaria cheia de sorrisos e o receberia calorosamente só porque Mavis tinha fugido com Brian, estava redondamente enganado. Seria tratado como se não passasse de um conhecido até que lhe desse um bom motivo para recebê-lo de outra maneira.
— Ela está bem — Gregor informou. — A tristeza que você sentia em Keira pode ter sido fruto do sofrimento pelo qual o povo de Ardgleann passou. Mowbray e seus homens trataram as moças daquele vilarejo como se fossem éguas do próprio estábulo. Arrancou-as de seus lares e familiares e manteve-as para divertimento pessoal. Elas não culpam Keira por isso, mas acho que sua irmã se sente responsável por não ter conseguido socorrê-las a tempo. Para completar, eles estragaram algumas partes muito belas de Ardgleann, que eram motivo de grande orgulho para o povo. Toda a comida estocada e animais domésticos acabaram na barriga dos invasores, e o plantio está atrasado. Como pode perceber, Keira tem muitos motivos para estar triste, apesar de as coisas já começarem a melhorar.
Alana precisou de um tempo para espantar o horror que sentia só de imaginar o que as mulheres de Ardgleann tinham passado. E entendeu por que Keira se culpara por não ter retornado imediatamente para enfrentar os invasores.
— Sim, é isso mesmo. Keira está sofrendo o peso de uma culpa que não é dela, mas não é só isso. Acho que há algo errado com o casamento da minha irmã.
— Não, Alana, não há nada errado. O começo é complicado às vezes. Algumas coisas ainda precisam se ajustar entre eles, mas não passa disso. Liam realmente gosta da esposa, mas ela parece não acreditar nisso, ou pelo menos é o que ele acha. Liam é um homem do tipo que a maioria das mulheres acha lindo, e a sua irmã se incomoda com o fato. Eles só precisam de tempo para se conhecer melhor e para que Keira acredite que não será trocada por outra, não importa o quanto uma mulher tente seduzi-lo.
— Como aquela que apareceu no monastério, causando confusão?
— Exatamente. As pessoas de Ardgleann já aprenderam a confiar em Liam e o respeitam como o novo lorde. A opinião do povo não diz algo sobre meu primo?
— Sim, mas ainda acho que preciso falar com Keira.
— Logo poderá visitá-la. Vamos dar um tempo para que ela e o marido se acertem. Keira não parecia tão infeliz ao lado dele e não demonstrava nenhum ressentimento quando o tratavam como o novo lorde, apesar de Ardgleann fazer parte da herança dela. Liam a respeita e a consulta antes de tomar qualquer decisão.
Alana ficou satisfeita com o que ouvia e achou a atitude do cunhado muito promissora. Apesar de saber que todos os casamentos eram realizados tendo-se em vista o ganho de terras, dinheiro ou alianças políticas, Keira não precisara se casar por nenhum desses motivos. Perguntava-se se Liam a tinha desposado por interesse. Contudo, saber que ele compartilhava com a esposa o poder atribuído ao lorde indicava que talvez tivesse se unido a ela por outras razões, que não sua herança.
De repente, percebeu que Gregor estava com o corpo inclinado para a frente, fitando-a. Pelo visto, as novidades sobre Ardgleann tinham acabado. A conversa sobre Keira e Liam servira para amenizar o clima de tensão, e Alana se perguntava se tudo não havia passado de um plano dele.
— Sei que está pensando que brinquei com você, que a usei — ele falou, tomando-lhe uma das mãos e ignorando o leve esforço dela para se esquivar.
— Você deveria ter me contado sobre Mavis, que era um homem comprometido.
— Mas eu não estava noivo. Sim, fiz a corte a ela. Tinha decidido que já era tempo de arrumar uma esposa. Chega um momento em nossas vidas que descobrimos que temos de assentar. Ouvi falar sobre Mavis Kerr e fui ver se ela me servia. Constatei que tinha terras e os bolsos cheios. Sinto muito se soa insensível, mas é no que a maioria dos homens pensa quando procura uma esposa. Cortejei-a, mas não chegamos a ficar noivos. Eu precisava pensar melhor antes de tomar uma decisão.
— Por que não me falou nada sobre ela antes de chegarmos a Scarglas?
— No começo achei que não era importante. Eu já havia decidido que não iria me casar com Mavis, que, por mais tentador que fosse o dote, eu nunca sentiria nada além de um grande afeto por ela. Durante os dias que passei sozinho na masmorra dos Gowan, percebi que não queria me prender a uma mulher que não amasse de verdade.
— Tudo é muito compreensível, mas lhe pergunto mais uma vez: por que não me contou sobre ela antes de nos tornarmos amantes? Por que não disse nada depois? Nesse ponto, o problema era meu também, não acha?
Gregor acariciou os cabelos de Alana. Ele não queria contar que quisera avaliar se ela serviria como sua esposa, testando os próprios sentimentos para se assegurar de que eram fortes o suficiente para se casar. Se parecia calculista para ele, com certeza a ofenderia. Não gostaria de ouvir que Alana o havia analisado da mesma maneira.
— Sim, concordo — ele respondeu. — Quando nos tornamos amantes, no entanto, eu já a conhecia o suficiente para saber que você não se deitaria comigo novamente enquanto eu não tivesse resolvido a questão com Mavis. Sou um grande egoísta e não queria que você fugisse da minha cama. Pensei que pudesse resolver o assunto com os Kerr sem que você desconfiasse. Quando me contou sobre os planos do seu pai, achei que seria a oportunidade perfeita para lhe falar sobre Mavis, mas o medo de que você pudesse fugir de mim retornou e eu engoli as palavras.
De alguma maneira, Alana se sentiu lisonjeada, mas tentou não se deixar levar pelo momento. Ela estava certa de que havia outros motivos obscuros que o tinham levado a se calar a respeito de Mavis, mas não o pressionou. Afinal, suspeitava que esses motivos tinham ido mudando com o passar dos dias em que haviam estado juntos.
— Não entende, querida? Eu não queria perder o seu calor. — Gregor suspirou enquanto Alana apenas arqueou as sobrancelhas. — Quando chegamos aqui e nos deparamos com Mavis e o pai anunciando o noivado, fiquei surpreso e atordoado. Eu não sabia o que fazer e, ao mesmo tempo, não quis humilhar Mavis, dizendo que não havia noivado nenhum. Ela não teve culpa de nada, eu lhe dei esperanças e, por isso, eu tinha de agir como um homem honrado e resolver tudo o mais discretamente possível. O fato de eu ter magoado você, levando-a a pensar que tudo que havíamos compartilhado não passara de uma aventura, também me perturbou. Tudo que eu conseguia pensar naquele momento era em encontrar a melhor maneira de me livrar dela e do tal noivado. Agora vejo que, agindo assim, a fiz pensar que eu não passava de um canalha, que a havia usado e virado as costas.
— Isso passou mesmo pela minha cabeça — ela murmurou.
— Eu só queria me livrar de Mavis. Depois eu poderia acertar as coisas com você. Se ao menos tivesse permitido que eu explicasse...
Ela o interrompeu.
— Eu poderia ter permitido, mas Mavis não pareceu inclinada a nos deixar sozinhos tempo suficiente para que você pudesse me convencer de que tinha motivos para estar agindo daquela maneira, e que não era apenas um conquistador barato. — Alana se levantou, ignorando a expressão de Gregor, uma estanha mistura de assombro com irritação. — Já se explicou e eu o escutei. Agora preciso pensar, decidir se posso confiar em um homem capaz de se esquecer que tem dois filhos bastardos, especialmente em se tratando de dois meninos tão inteligentes e belos, e que não considera importante contar para a amante que estava quase noivo de outra mulher. Um homem que nunca disse o que sentia por mim de verdade nem o que queria comigo.
Gregor se levantou e puxou-a para seus braços, ignorando seu corpo tenso. Em seguida, beijou-a com toda a paixão acumulada durante os últimos dias, além do desespero que o assolava. Ciente do risco que correria caso avançasse rápido demais, soltou-a e caminhou em direção à porta. Antes de sair, ainda disse:
— Quanto ao que quero de você? É muito simples, quero tudo. Tudo que tiver para me dar. — Fechou a porta com cuidado e se foi.
― O que aconteceu com ele? — Alana perguntou ao entrar no solário e se deparar com Fiona colocando um bálsamo na face ferida de James, o meio-irmão de Gregor.
— Gregor não reage bem quando zombam de sua falta de jeito para fazer a corte — Fiona respondeu com a voz abafada, enxugando as mãos e encarando o rapaz. — Agora deixe o pobre homem em paz, Jamie.
Ele saiu rindo, mas antes parou e sussurrou para Alana:
— Tenha pena do meu irmão, moça.
Alana suspirou e olhou para Fiona. Duas semanas tinham se passado desde que Gregor se explicara e dissera o que queria. Ela havia levado alguns dias para perceber que ele realmente queria tudo, inclusive casamento. Não sabia ao certo por que estava hesitando tanto em aceitar. Talvez estivesse com medo. A lembrança de vê-lo ao lado de outra mulher ainda doía a ponto de deixá-la mais cautelosa. Havia também a possibilidade de ela não tê-lo perdoado de fato, pelo menos não o suficiente para confiar nele novamente.
— Como está se sentindo hoje? — Fiona indagou.
— Muito bem — respondeu enquanto se movia na direção de uma cadeira. — Quando me levantei da cama nesta manhã, não tive nenhuma pontada de dor.
Essa não era toda a verdade, Alana pensou, sentindo-se um pouco culpada. De fato, ela não sofria com mais nenhum incômodo que pudesse lembrar a queda do penhasco, mas em compensação já não agüentava mais os enjôos que a acometiam todas as manhãs. O modo como Fiona a olhava fez com que estremecesse. Fiona era uma mulher experiente, e com certeza tinha notado algo de diferente nela. Era como se a verdade estivesse escrita em sua testa.
— Ótimo, quem sabe agora você pare de jogar com Gregor e se acerte com ele — ela disse. — Não acha que já brincou o suficiente?
— Não é o que estou fazendo — Alana protestou.
— Não? Você ouviu o que ele tinha a dizer e permaneceu em Scarglas quando ambas sabemos que está bem o suficiente para viajar até a casa da sua irmã há mais de uma semana. Se decidiu ficar, pensei que o houvesse perdoado e que iria resolver as coisas.
Alana sorriu.
— Realmente acreditei tê-lo perdoado no dia em que ele voltou de Ardgleann e veio falar comigo. Mas agora já não tenho certeza.
— Gregor quer se casar com você.
— Creio que sim, apesar de ele não ter dito com todas as letras. Ele me pediu perdão, explicou-se, mas ainda falta algo que não sei o que é.
— E uma questão de confiança — Fiona opinou com toda a calma. — Você não consegue confiar nele.
— Sim, acho que pode ser isso. Quando sinto que estou me aproximando de Gregor, paro e volto atrás. Ah, doeu muito, Fiona. Doeu quando ouvi o pai de Mavis dizendo que ele estava noivo da filha. Percebi que tinha sido enganada, usada, e, com certeza, feito papel de boba. Acho que estou com medo de que ele me magoe novamente e sou muito covarde para correr o risco.
Fiona assentiu.
— Talvez isso possa acontecer de novo, mas quem pode prever, Alana? Não é algo planejado. Gregor lhe disse o que fez e por quê. As palavras dele podem parecer apenas desculpas masculinas, mas não significa que seja tudo mentira. Ele pode jurar que nunca mais mentirá, porém você precisa acreditar nele. Não importa o ângulo do qual se olhe o problema, o importante é que você ó perdoe e confie nele outra vez. É um risco? Sim, é. Mas amar é arriscado e você ainda o ama, não?
Alana sorriu sem jeito.
— Sim, eu o amo, e isso me assusta. Vê? Sou uma covarde.
— Não. Você não é covarde, pois ainda está aqui. Uma parte sua deseja dar uma chance a ele e acho que é o que você deveria fazer. Apenas não exija que ele faça promessas impossíveis.
— Tais como?
— Nunca esconder um segredo de você, por exemplo. Essa promessa logo seria quebrada e então você pensaria que ele não merece sua confiança. Ou, com a intenção de manter a promessa, ele passaria a lhe contar tudo. Até mesmo coisas que você não desejaria saber. Só para ter certeza de que não seria apanhado escondendo um segredo.
Por um momento, Alana apenas olhou para Fiona, assimilando aquelas palavras. Então, riu.
— Seria terrível. — Mas logo ficou séria e suspirou. — Bem, acho que tomarei uma decisão o mais rápido possível, nem que seja para pôr um ponto final a essas brigas entre irmãos. Os MacFingal são uns selvagens.
— E como! Espere até conhecer o pai. — Ela revirou os olhos.
Alana riu e se levantou. De repente, sentiu uma tontura e se sentou novamente.
— Ah, já tinha imaginado isso — Fiona disse, servindo-lhe um pouco de cidra. — Beba devagar. Você se levantou muito rápido. Terá de tomar mais cuidado daqui para a frente. — Cruzou os braços e observou Alana tomando o refresco. — É por isso que está adiando a decisão com relação a Gregor.
— Por causa de uma simples tontura?
— Pensa que sou tonta, não é?
— Não, esperava apenas que você pudesse bancar a ingênua por educação.
— Eu não saberia fingir. Então está grávida. Alana franziu a testa.
— Pode ser apenas um enjôo — respondeu com uma ponta de esperança.
— Bem, posso lhe dar algo para que se sinta melhor.
Ciente do tipo de bebida fermentada que Fiona lhe ofereceria, Alana lentamente meneou a cabeça.
— Não, não estou grávida. Mas acho que uma febre teria sido bem mais agradável do que a náusea que senti.
Fiona riu e se inclinou para tocar no joelho dela.
— Acho que daqui a sete ou oito meses teremos um bando de bebês na família. — Ela assentiu quando Alana olhou, surpresa. — Sim. Espero que você não esteja pensando que tenho o hábito de comer como se estivesse alimentando o exército do rei. E acho que Keira pode estar grávida também.
— Gregor não me disse nada.
— Ele não sabe. Liam perguntou a Ewan sobre como as mulheres se comportam quando estão grávidas e quais são os sinais que confirmam a gravidez. Uma vez que todos os sintomas que Liam descreveu são compatíveis com os de uma gestante, Ewan disse que tem certeza de que ela está grávida. No entanto, não recebemos nenhuma notícia oficial de Ardgleann.
— Certamente explicaria algumas das coisas estranhas que ando sentindo. —A alegria de Alana pela irmã desapareceu, assim que pensou na própria situação. — Bem, pelo menos ela está casada e não tem de decidir o que fazer só porque tem uma criança a caminho.
— Pare de ter pena de si mesma. Acha que Ewan e eu sempre fomos só carinhos e amores desde que nos conhecemos? Ou que o casamento de qualquer uma das mulheres da nossa família tenha sido sempre um mar de rosas? Você deve ter ouvido muitas histórias sobre as dificuldades enfrentadas por elas. E muito raro que um casal não tenha dúvida nem receios. Você ama Gregor, não ama?
— Sim.
— Então, nada mais importa. Ele a quer, você o ama, e ambos têm um filho a caminho.
— Se Gregor souber que será pai, dirá que devemos nos casar imediatamente, mas ele ainda não deixou claro o que sente por mim.
— Quer dizer que ele não disse que a ama?
— Isso mesmo.
— Bem, espere um pouco mais para contar a novidade então, porém mostre a ele que você está mais acessível. As palavras virão quando Gregor perceber que finalmente está conquistando seu coração. Acredite, os homens têm medo de dizer essas palavras, não importa o quão forte e verdadeiro seja o que sentem.
— Acho que as mulheres agem da mesma forma.
— Alana sorriu. — Afinal, eu também não disse que o amo. — As duas riram juntas. — Prometo ceder um pouco. E silenciarei aquela voz covarde da desconfiança. Você está certa. Gregor merece uma oportunidade.
— Acariciou o ventre que ainda não mostrava nenhum sinal do filho que provavelmente esperava. — Esta vidinha que talvez esteja crescendo dentro de mim é motivo suficiente para que eu deixe minhas tolices de lado e corra o risco. Depois, se Gregor se mostrar um mau marido, eu a culparei por isso.
— Justo — Fiona respondeu, e ambas riram.
Gregor viu Alana caminhando em direção à sombra da imensa sorveira que havia no jardim e correu para se encontrar com ela. Estava ficando realmente muito frustrado. Era quase um alívio quando um dos seus vários irmãos zombava dele, forçando-o a socar o espertinho, pois ajudava a aliviar a tensão que parecia acompanhá-lo a todo o momento. Cortejar uma mulher era um trabalho difícil, pensou, e quase riu da própria tolice.
Por outro lado, perguntava-se por que Alana não cedera nem um pouco. Afinal, ele estava se esforçando para cortejá-la com todo o respeito. Havia ocasiões em que ela parecia estar prestes a aceitá-lo de novo, que o havia perdoado, mas então se afastava novamente e tudo voltava à estaca zero. Gregor sabia que tinha falhado com ela e que traíra sua confiança, mas havia imaginado que ela tinha aceitado suas explicações. Bem, agora precisava convencê-la de que significava muito para ele, que a amava de verdade e que seus planos para o futuro eram os melhores e mais honrados possíveis.
Quando ela se virou e sorriu ao vê-lo se aproximar sentiu as esperanças renascerem. Era um daqueles sorrisos que ela costumava dar antes de ficar sabendo sobre Mavis.
— Acho que o último de seus hematomas finalmente sumiu — ele disse ao ajeitar atrás da orelha dela uma mecha de cabelo.
— Sim, minha queda do penhasco agora não passa de uma lembrança distante.
Fitava-o, parado ali, sorrindo. Ele a olhava com o mesmo calor e interesse de sempre. Sentiu-se tola por estar levando adiante toda aquela desconfiança. As explicações já tinham sido dadas, e havia motivos para ele ter feito tudo que fizera. Ela certamente não teria desejado que ele houvesse sido ríspido com Mavis. O fato de ter tentado ser gentil com a moça demonstrava que Gregor era um homem honrado, e não o contrário. Alana se esforçara muito para ver as coisas por esse ângulo. Afinal, ela também não havia tido pressa para contar sobre os planos de seu pai lhe arrumar um marido.
— Finalmente recebemos notícias de Mavis e Brian — Gregor informou.
Alana captou a relutância no tom de voz dele. Gregor não devia hesitar ao dar-lhe as notícias. — Está tudo bem com eles?
— Sim. Casaram-se e o pai de Mavis só os encontrou dois dias atrás. Brian contou que ele aceitou bem a notícia, apesar de achar que ainda irá reclamar durante algum tempo pela ingratidão da filha e coisas do tipo.
— Gregor respirou, aliviado, ao ver que Alana estava sorrindo, pois receara mencionar o nome de Mavis e perder o pequeno progresso que tinha conseguido.
— Fico feliz. Todos podiam ver que os dois se gostavam.
— Menos eu.
— Ah, você mal teve oportunidade de observá-los juntos, pois logo partiu para Ardgleann. Por isso, não pôde ver o que presenciamos. Ewan foi o único a se dar conta do fato antes de todos.
E ele não havia contado nada a Fiona, Alana refletiu. Mesmo assim, ela não ficara irritada com o marido. Foi então que percebeu que tinha ficado tão indignada com tudo que lhe acontecera que não havia raciocinado com clareza. Gregor mentira para ela e a magoara, mas estava sinceramente arrependido. Já era tempo de cauterizar a ferida e começar uma vida nova.
— Esse meu irmão...
Gregor colocou o braço sobre os ombros de Alana e levou-a em direção a um banco de pedra, entre um canteiro de rosas e heras. Suas esperanças aumentaram ao notar que ela não tinha ficado tensa ao sentir o toque nem tentara se esquivar. Havia ocorrido uma mudança. Duvidava que tivesse sido devido a seus parcos talentos de cortejador, mas não importava. Pretendia tirar o máximo proveito da situação.
Depois de ajudá-la a se sentar, acomodou-se ao lado dela, envolvendo novamente os ombros delicados com o braço. Todo o seu corpo ardia de desejo por ela e pelo esforço de ter sido obrigado a agir como se eles nunca houvessem sido amantes. Quando começara a fazer a corte a Alana, tinha pensado em se valer da paixão que compartilhavam para reconquistar o coração dela, mas acabou reconhecendo que não séria correto. Pagara um preço alto por ter se reprimido, passando noites em claro, imaginando-a deitada sozinha e pensando no quanto gostaria de se juntar a ela.
Após duas semanas, com certeza já podia tentar roubar um beijo, Gregor decidiu. Lentamente, aproximou a boca dos lábios dela, atento ao menor sinal de recusa. Mas, em vez disso, ela ergueu um pouco o rosto em sua direção, num convite silencioso. Ele gemeu de leve ao beijá-la.
O doce calor daqueles lábios e o sabor que havia tanto tempo ele ansiava sentir novamente o deixaram excitado e aceleraram os batimentos de seu coração. Passou os braços em torno dela e beijou-a sem esconder a vontade de possuí-la que crescia dentro de si. Gregor não sabia ao certo quais seriam os efeitos de duas semanas de abstinência agora que a tinha nos braços de novo.
Alana se perguntava de onde tinha tirado á idéia de que poderia dar as costas àquele homem. Seu desejo veio à tona ao primeiro contato com os lábios sedutores. Ela o envolveu pelo pescoço, pressionando o. corpo contra o dele. As lembranças de cada carícia e do prazer que ele era capaz de lhe proporcionar invadiram sua alma e seu coração.
Aquele era o homem que ela amava, pensou enquanto ele a deitava de costas sobre o banco. Gregor tinha tomado uma decisão errada e a ferira. Porém, não valia a pena que ela arrancasse o próprio coração apenas para protegê-lo de mágoas futuras. E era isso o que estiver a fazendo, ao manter Gregor afastado. Agora que estavam abraçados pela primeira vez em semanas, questionava-se que tipo de loucura a acometera a ponto de fazê-la virar as costas para tudo que haviam compartilhado.
Foi então que Alana percebeu que ainda confiava nele. Que acreditava que ele a protegeria, assim como aos filhos que juntos teriam, que seria gentil e que cuidaria dela. Ele não era perfeito, mas quem era? Ainda havia mais um detalhe que ela demorara a perceber. Gregor não era o tipo de homem que costumava repetir os erros.
— Oh, meu tesouro, senti tanta falta de você — ele sussurrou.
— Também senti saudade, Gregor.
— Você me perdoou então?
— Sim —Alana respondeu, deixando para trás o último resquício de resistência. — Eu estava com medo.
— De que eu não a tratasse bem?
— De que eu não pudesse confiar no meu julgamento.
— Compreendo muito bem seus receios.
Ele deslizou a mão por dentro do decote do vestido e acariciou-lhe os seios, trêmulo devido à vontade de amá-la que crescia dentro de si, Ela também tremia e arqueou-se, entregando-se às carícias. Ela voltara para ele, Gregor pensou, realizado. Sentiu que o vazio que o tinha assombrado durante semanas estava prestes a desaparecer para sempre.
A sensação das mãos de Gregor deslizando em seu corpo era puro prazer, Alana concluiu, apegando-se ao último resquício de juízo que a advertia de onde estavam. O jardim no meio do dia não era o local ideal para aquele tipo de encontro. Soltando um leve gemido de frustração, ela tocou no peito de Gregor e o empurrou de leve com as duas mãos. O olhar que ele lhe lançou era de puro desapontamento. O desejo que o consumia se refletia nela, o calor que emanava dele ardia nela. Alana já deveria saber que algo assim não seria possível a menos que ele sentisse mais do que uma simples paixão passageira por ela.
— Estamos no jardim, Gregor — ela sussurrou e não ficou nada surpresa ao perceber que sua voz soara rouca de paixão, pois o sangue ainda fervilhava em suas veias.
— Sim, estamos. — Ele arqueou as sobrancelhas e olhou ao redor, retomando o bom senso.
— A luz do sol.
— Sim, é verdade.
— E posso ouvir seus irmãos no campo de treinamento não muito distante daqui.
— Os miseráveis.
Alana riu e ficou satisfeita ao ver que ele também sorria. Gregor balançou a cabeça e soltou-a com um suspiro tão profundo de pesar que ela quase soltou uma gargalhada. Tinha sido gostoso rir, sentir novamente aquela alegria que ele sempre incitara. Ela havia se deixado atolar num mar de autopiedade, medo e dúvidas por muito tempo.
Quando ele a ajudou a se sentar e abraçou-a novamente, trazendo-a para perto de si, ela pensou em revelar que estava grávida. Segundos depois, fio entanto, a idéia foi descartada. Ainda restavam algumas coisas a serem ditas e feitas entre eles, e Alana não queria que a gravidez o levasse a dizer o que não estava sentindo no fundo do coração. Seria a vez dela de esconder um segredo.
Gregor a acariciou no rosto, satisfeito por ver de novo o brilho em seus olhos. O que quer que a tivesse incomodado por tanto tempo havia, por fim, desaparecido. E, de alguma maneira, tudo que ele fizera havia sido esperar que ela lutasse contra os próprios pensamentos e sentimentos. Agora, sim, começaria a cortejá-la de verdade.
De súbito, sentiu-se sem jeito. Não era tão difícil dizer palavras bonitas e dar presentinhos para tentar atenuar a mágoa que causara. Porém, isso não seria suficiente. Teria de falar sobre os próprios sentimentos, sobre o futuro e sobre muitas coisas que nunca tinha tratado com uma mulher. De repente era como se todas as palavras que planejara dizer, houvessem desaparecido de sua mente num piscar de olhos.
Quando ele se tornara tão covarde? Amava Alana. Queria vê-la dormindo ao seu lado todas as noites. Queria ter filhos com ela. Queria ter certeza de que ela estaria ao seu alcance todas as vezes que sentisse vontade de ver seu sorriso ou tocá-la. Não deveria ser tão difícil expressar esses sentimentos em voz alta, mas mesmo assim sua garganta continuava fechada, impedindo que as palavras fluíssem. Talvez precisasse praticar um pouco antes. A idéia parecia boba, mas continuar sentado ali como se fosse um tolo era embaraçoso.
— Precisamos conversar, querida.
— Sim. — Alana franziu o cenho, pois ele parecia um tanto agitado e pálido. — Você não tem outro segredo para me contar, tem?
— Não. — A resposta saiu firme. — Minha nossa, você me conhece melhor do que qualquer outra mulher. Não preciso nem abrir a boca quando estou ao seu lado para que saiba o que se passa na minha cabeça.
Ela conteve o sorriso, pois Gregor parecia um tanto desconfortável com isso.
— Gosto de saber o que você está pensando e ouvir o que pretende fazer.
— Sinto o mesmo em relação a você. Ele relaxou um pouco, imaginando que finalmente criaria coragem de confessar tudo que tinha no coração. Talvez se deixasse as palavras saírem lentamente, falando de uma coisa de cada vez, não se sentisse tão sufocado. Mas era preciso levar em conta o quanto seria difícil desnudar o coração e a alma, até mesmo para a mulher que ele sabia que jamais se aproveitaria disso. Gregor podia se lembrar dos conselhos que dera a Ewan quando havia conhecido Fiona e ficou com raiva da própria hipocrisia. Dar conselhos era bem mais fácil do que recebê-los.
A sensação de sentir os dedos macios de Alana tocando seu rosto desviou-o das conjecturas, fazendo-o sorrir. Ela parecia confusa, e não era para menos. Ele a vinha perseguindo havia semanas e, agora que ela finalmente cedera, gaguejava, desajeitado, como se fosse um garoto diante da primeira namorada. Se isso tivesse acontecido com qualquer um de seus irmãos, Gregor teria zombado sem misericórdia. Porém, no momento, ele agradecia a Deus por nenhum deles estar por perto para vê-lo naquela situação.
Considerando que Gregor não iria mesmo lhe oferecer nenhuma palavra de amor, Alana olhou para o céu.
— Já está quase na hora do almoço. Acho melhor entrarmos.
— O aperitivo... — ele murmurou, sem conseguir resistir à tentação de beijá-la mais uma vez.
Alana estremeceu de prazer com o toque daqueles lábios na curva do seu pescoço.
— O quê?
— Meu pai chama o que acabei de fazer de aperitivo.
— Mas a Igreja chama de...
— Sim, mas meu pai não se importa com o que a Igreja diz. Não é possível rezar e comer ao mesmo tempo. — Gregor sorriu, roçando os lábios no pescoço de Alana enquanto ela ria também. — Você tem razão. Já está na hora do almoço, e, se não nos apressarmos, Fiona provavelmente comerá tudo sozinha.
Ele se endireitou e passou o braço por cima dos ombros de Alana.
— Senti muito a sua falta, meu amor — ele disse com carinho.
— Não arredei os pés de Scarglas, Gregor.
— Você sabe o que eu quero dizer. E, sim, esteve o tempo todo aqui, ao meu alcance, mas esta é a primeira vez que realmente a senti ao meu lado.
Uma pontinha de culpa a afetou pela maneira como o tratara nas últimas semanas, mas logo a deixou de lado. Ele tinha sua parcela de responsabilidade em tudo o que havia acontecido entre eles. Era verdade que ela se deixara amargurar por mais tempo do que o necessário. Contudo, nada disso importava mais. Inclinando-se, roçou-lhe os lábios. Gregor, então, abraçou-a com vontade e beijou-a profundamente. A paixão avassaladora que havia entre eles esperara muito tempo para ser satisfeita, e beijos inocentes não bastariam.
De repente, de modo tão abrupto que ela quase caiu do banco, Gregor foi tirado de seus braços. Alana viu, espantada, os pés dele sacudindo no ar, a alguns centímetros do chão. Olhando para cima, percebeu o que acontecia. Artan e Lucas finalmente tinham encontrado a irmã.
Gregor ficou tão surpreso ao se ver suspenso no ar que levou algum tempo para se dar conta de que poderiam estar em risco. Virou-se para Alana, a fim de se certificar de que ela estava bem, quando percebeu que ela fitava o homem que o segurava pelo kilt. Havia algo no olhar dela que indicava que não estavam correndo tanto perigo. Olhando por cima dos ombros, viu duas fisionomias nada amistosas às suas costas. Eram homens grandes, belos e absolutamente idênticos.
— Alana, acho que seus irmãos acabaram de chegar — Gregor resmungou.
— Coloque-o no chão imediatamente — ela ordenou a um dos rapazes, praguejando quando Lucas deu de ombros e soltou Gregor de repente. — Isso era totalmente desnecessário — ela esbravejou e correu para ajudá-lo a se levantar.
Ele sorriu para ela.
— Acho melhor você fazer as devidas apresentações, meu amor.
— Estes são meus irmãos. Artan é o da direita e Lucas o da esquerda. Eram eles que eu estava seguindo quando fui capturada pelos Gowan.
— Estou mais preocupado em saber quem é esse homem que a agarrava, irmãzinha — disse Artan.
— Gregor MacFingal Cameron.
— Ele não pode escolher apenas um sobrenome?
— Você conheceu meu primo e alguns dos meus irmãos, por isso não precisa fingir que não entendeu— Gregor respondeu.
Artan deu de ombros e então o encarou.
— Talvez você pudesse nos explicar o que estava fazendo com a nossa irmã.
— Creio que a beijava.
— E creio que vou quebrar sua cabeça.
No mesmo instante, Alana se colocou entre Gregor e os irmãos. Ela já estava acostumada ao comportamento beligerante dos dois rapazes, mas o que a surpreendeu foi o modo como Gregor estava reagindo. A última resposta que ele dera tinha soado como um desafio, se ela havia entendido bem. E, diante das circunstâncias, isso parecia algo tolo.
— Basta disso — ela interveio.
— Era exatamente o que eu ia dizer — Lucas falou num tom arrastado. — Não é certo uma jovem como você ficar num jardim, permitindo que o sujeito introduza a língua em sua boca.
Apesar de ruborizada devido à censura do irmão, ela estava determinada a não ceder.
— Sou uma mulher adulta, e não é da sua conta quem eu permito que coloque a língua na minha boca.— Deu um longo suspiro, encarando os três, que pareciam espantados com o que tinham acabado de escutar. — Como conseguiram me encontrar? Foi o homem que enviamos para avisá-los de meu paradeiro que os trouxe para cá?
— Não. Ele não nos encontrou. Nós o encontramos.
— O que querem dizer com isso?
— Talvez fosse melhor entrarmos e conversarmos enquanto comemos — Gregor propôs.
— Parece-me uma boa idéia — disse Artan, pegando Alana pela mão para afastá-la de Gregor.
Ela se livrou do irmão e rapidamente voltou para o lado de Gregor. De braços dados, o casal seguiu para dentro do castelo. Por uma fração de segundo, os irmãos permaneceram parados no lugar, mas a fome falou mais alto e resolveram segui-los.
— Gregor, aquelas não são as nossas montarias? — Alana perguntou, ao ver os dois cavalos sendo levados para os estábulos.
— Sim. Como vieram parar aqui? — Ele imaginou se os irmãos de Alana tinham algo a ver com o estranho aparecimento dos cavalos.
Ao se virar para os gêmeos, ela percebeu que ambos já haviam entrado no castelo.
— Aqueles dois terão de me explicar muitas coisas — ela murmurou, andando, apressada, e arrastando Gregor consigo.
Ele estava pasmo ao ver como Alana lidava com Lucas e Artan. Eles eram grandes, de modos rudes e sabiam ser duros quando preciso, mas, mesmo assim, ela não demonstrava temer a dupla. Por outro lado, sabia que os dois nunca teriam coragem de ferir a irmãzinha, e ela devia saber disso também. Foi então que Gregor suspeitou que eles poderiam tentar levá-la embora e, pior, teriam todo o direito de fazê-lo.
Assim que colocou os pés no salão principal, Gregor percebeu que Ewan olhava torto para os irmãos Murray, que, por sua vez, não tiravam os olhos de Fiona, o que lhe pareceu muito divertido. Ele acompanhou Alana à mesa e sentou-se ao seu lado enquanto os gêmeos estavam distraídos. Os olhares idênticos que ambos lançaram para ele quando se sentaram nas cadeiras à frente o fizeram rir.
— Gregor — Alana disse enquanto se acomodava —, aquele não é o homem que enviamos para avisar meus irmãos que eu estava aqui? Sim, ele certamente se parece muito com o jovem Simon.
Olhando na direção para a qual ela apontava, Gregor viu seu meio-irmão Simon sentado com seus outros irmãos, rindo e conversando. Voltou-se, então, para os Murray.
— Vejo que vocês se encontraram com Simon.
— Sim, nós o achamos em poder dos Gowan — Artan respondeu, enquanto abastecia o prato de carne e um pouco de legumes.
— Os Gowan tinham capturado Simon para pedir resgate?
— Sim.
— Precisamos pagá-los por isso — Ewan interveio.
— Não nos custou nada — Artan respondeu num tom quase dócil.
— Artan, não gostaria de lhe dar trabalho, mas será que você poderia nos contar toda a história, em vez de esperar que continuemos tentando arrancar palavra por palavra da sua boca? — indagou Alana, num tom doce que serviu para acobertar o mau humor.
— Você não apanhou o suficiente quando era criança.
— Nunca levei uma surra. Agora, por favor, conte-nos como encontraram Simon e os cavalos.
— Ela é uma mulher muito mandona, você não acha, Lucas?
— Artan!
— Sim — respondeu Lucas —, mas é melhor fazer o que ela pede antes que a maluca resolva correr atrás de você com aquele punhal que ela carrega na cintura.
— Está bem. Seguimos para a fortaleza dos Gowan e, no caminho, ouvimos tudo que havia acontecido. A história da fuga de vocês é uma das favoritas contadas pelos homens nas tavernas. Foi então que ficamos sabendo sobre o novo sujeito que os Gowan tinham capturado, e aí resolvemos ir trocar algumas palavrinhas com eles. Nós os convencemos de que seria bom se eles nos entregassem os cavalos que haviam roubado de você e de Gregor MacFingal e que, se não se importassem, gostaríamos de levar conosco também o homem que eles haviam jogado no calabouço, pois achávamos que já tinham ido longe demais com aquele jogo. Em seguida, viemos para cá, pois o jovem Simon disse que era aqui que você estava.
Alana os encarava com uma imensa vontade de esganá-los. Artan sabia falar bem quando queria e era capaz de contar histórias de uma maneira tão envolvente que deixava todos boquiabertos. O que mais a aborrecia naquele momento era que ele estava sendo sucinto de propósito.
— Não contou a história direito, Artan. Faltam detalhes importantes.
Lucas sorriu.
— Sim, acho que foi uma história muito curta mesmo. Quase tão pequena quanto o pardalzinho à minha frente. — Piscou para Alana.
— Não sou pequena. Vocês dois é que são altos demais. — Ela deu a mesma resposta que dava havia anos.
— Sim, crescemos além do necessário.
— Como os Gowan resolveram entregar os cavalos a Simon sem que pagassem pelo resgate ou se juntassem a ele naquele calabouço medonho?
— Artan conheceu a esposa do lorde.
— Oh, minha nossa — Alana murmurou, suspeitando aonde chegaria o final da história. As mulheres costumavam se encantar com os gêmeos, e talvez um pouco do fascínio estivesse no fato de serem idênticos e muito belos.
— Sim, a mulher gostou do nosso Artan e contou a ele sobre os planos dos Gowan, o resgate e tudo o mais. Ela é muito infeliz no casamento.
— Não posso ficar com as glórias sozinho, Lucas — Artan interveio. — Ela lhe contou um pouco também.
— Só porque ela pensou que eu era você, meu irmão.
Alana trocou olhares com Fiona e então tomou um gole de cidra para se acalmar. Estava dividida entre a vontade de rir e um imenso desejo de deslizar para baixo da mesa para se esconder, tamanha a vergonha que sentia. Sensação recorrente quando estava com os irmãos. Ewan e Gregor mal podiam esconder o espanto. Alana tinha sérias dúvidas se lady Gowan havia mesmo confundido os irmãos ou simplesmente resolvera se divertir com os dois.
— Bem, continuando — Lucas disse, para alívio de Alana —, entramos na fortaleza na calada da noite e convencemos o lorde de que seria muita gentileza se ele nos devolvesse os cavalos e nos entregasse Simon. Nós o informamos de que isso iria aplacar um pouco a nossa fúria pelo modo como ele havia tratado nossa irmãzinha.
Artan assentiu e prosseguiu:
— Ele decidiu então que não queria ser pregado ao chão e nem se mostrou interessado nas outras coisas divertidas que pretendíamos fazer com ele. Assim, permitiu que levássemos os cavalos e Simon.
De repente, Lucas sorriu.
— A esposa dele queria que a trouxéssemos também, mas Artan disse a ela que as duas mulheres que ele já tem não iriam gostar muito se surgisse uma terceira. — Riu ainda mais quando Alana gemeu de leve.
— Alguns deles ainda tentaram vir atrás de nós, mas deixamos bem claro que não queríamos companhia.
— Vocês não os eliminaram, não é? — Alana indagou, sentindo um pouco de pena dos Gowan, pois sabia como os gêmeos costumavam reagir quando se sentiam ameaçados.
— Não somos tão cruéis.
— Lucas — Alana o repreendeu, apesar de saber de antemão que os irmãos iriam ignorar suas ameaças assim como ela, as deles.
— Não — ele respondeu. — Lembramos do que mamãe nos ensinou. — Piscou de novo para a irmã.
— E o que ela ensinou?
— Que não devemos matar um homem apenas porque ele é um idiota, apesar do bem que isso faria ao mundo. — Lucas lançou um sorriso doce para Fiona, e riu ao perceber a cara feia de Ewan.
— Bem, agradeço por terem recuperado nossos cavalos e trazido Simon para casa. Foi muita gentileza dos dois. — Alana omitiu um sorriso ao ver o ar de satisfação estampado no rosto dos gêmeos por terem sido elogiados. — Acho que ambos poderiam nos fazer outro favor quando partirem. Tivemos de pegar emprestado o cavalo do irmão Peter quando deixamos o monastério e...
— O cavalo é seu agora — interrompeu Lucas, enquanto descascava uma maçã.
— Não, ele pertence ao irmão Peter. O primo Matthew disse.
— Sim, mas quando paramos no monastério, ele nos informou de que vocês não precisavam devolver o cavalo.
— Céus! Vocês não ameaçaram os monges outra vez?
— Não, só convenci irmão Peter de que seria muita gentileza se ele desse o cavalo a você, pois assim não teríamos de voltar até lá só para devolver o animal. Falei também que o gesto seria visto como um sinal de arrependimento pelo que ele havia feito à nossa irmã Keira. Ele concordou.
— Então, o cavalo pertence a Keira. Ela foi a afrontada.
— Sim, mas se há algo sobrando em Ardgleann são cavalos. Ela não precisa de mais um. Por isso, é seu.
Alana achou melhor não discutir com o irmão. Uma coisa era certa: o cavalo não pertencia mais ao irmão Peter. Sua dúvida era se deveria dar o animal de presente de casamento a Gregor, caso ele tocasse no assunto. Foi então que percebeu que teria poucas oportunidades para uma conversa em particular ou para uma troca de beijos enquanto os gêmeos estivessem por perto. Precisava encontrar um jeito de se livrar da dupla sem que tivesse de partir junto.
— Não nos olhe assim. Não iremos embora antes do casamento — disse Artan, e Lucas resmungou, concordando, como se tivessem acabado de ler os pensamentos de Alana.
— Casamento? Que casamento? — ela indagou, surpresa.
— O seu com esse rapazinho.
Ewan não conteve a gargalhada, e Alana desconfiou que fosse porque muitas pessoas da família costumavam chamar Gregor de rapazinho. O modo como os gêmeos a fitavam indicou que eles estavam preparados para uma boa discussão, e ela decidiu que não iria desapontá-los. Tudo o que mais queria era se casar com Gregor, mas só se ele realmente o desejasse. Não queria que ele fosse arrastado para o altar. Já tinham ocorrido muitos erros, entre eles, e ela não pretendia somar a isso tudo um casamento forçado e todas as mágoas e os ressentimentos que acompanhavam esse tipo de união.
— Não há razão para forçarem um casamento.
— Não foi o que o primo Matthew nos disse. Assim que pudesse, Alana enviaria uma carta ao primo, passando um sermão pela boca grande.
— Ele não sabe de nada.
— Esse sujeito estava com a língua dentro da sua boca — Artan acusou, encarando Gregor por cima do copo, enquanto bebia a cerveja.
No mesmo instante, ela corou.
— Não é motivo suficiente para que nos casemos. Tenho certeza de que você já enfiou a língua na boca de várias mulheres e nem por isso se casou com alguma delas. — Alana mal podia crer nas coisas que estava dizendo e decidiu que os culpados por isso eram os irmãos.
— É claro que já. Mas a maioria delas não era para casar. Você é.
— Um homem não deve ser forçado a se casar com uma moça só porque a beijou no jardim.
Discutir com aqueles dois era o mesmo que bater com a cabeça contra a parede, e Alana resolveu dar um basta. — Acho que não temos mais nada a dizer sobre esse assunto. — Levantou-se com toda a dignidade.
— Pode se retirar então, minha cara — disse Lucas.
— Não nos importamos de continuar a conversa com Gregor. O homem parece incapaz de decidir que sobrenome usar, mas acho que podemos colocar um pouco de juízo na cabeça dele.
Ela voltou a se sentar no mesmo instante. As discussões dos irmãos Murray com outros homens sempre acabavam em brigas, e Alana tinha a nítida sensação de que com os MacFingal as coisas não seriam muito diferentes.
— Pelo jeito, os gêmeos estão sempre despertando em você o desejo de bater com algo pesado e duro na cabeça deles — Fiona murmurou para Alana.
— Na maior parte do tempo. Algo duro, mas não pesado, porque, caso contrário vou me cansar de bater. — Alana ignorou o sorriso dos gêmeos. — Não há motivos para insistirem nesse casamento. Não importa o que irmão Matthew tenha dito. Ele não dormiu conosco no chalé, dormiu? E, apenas porque duas pessoas compartilharam um chalé, não quer dizer que tenha havido algo mais. Para começar,,na primeira semana que Gregor e eu passamos juntos na prisão, ele pensava que eu era uma criança. Assim, ele me resgatou dos Gowan e me trouxe em segurança até aqui. Ele salvou minha vida várias vezes. Vocês deveriam se envergonhar por contestar a honra dele dessa maneira.
— Muito bem — Gregor murmurou, sorrindo. Logo que terminasse de dar umas palmadas nos
irmãos, seria a vez de Gregor levar algumas, Alana decidiu.
— Não foi assim que mamãe disse que deveríamos nos comportar fora de casa. — Por um momento, os gêmeos pareceram incomodados, mas logo Lucas contraiu os olhos, indicando que o plano da irmã para que eles se calassem tinha falhado.
— Um homem honrado que se envolve com uma moça bem-nascida tem o dever de se casar com ela — argumentou Artan.
— Oh! Agora você refutou a minha honra! Gregor sentiu uma dor profunda, vendo a recusa de Alana em se unir a ele como uma rejeição, e se deu conta de que já esperava por isso. De repente, percebeu o que Alana estava fazendo. Ela não queria que ambos fossem forçados a se casar, e ele concordava com isso. Até que tivessem uma oportunidade de conversar e que ele criasse coragem para revelar o que realmente sentia, não seria bom para ambos serem forçados ao matrimônio. Além do mais, Gregor não estava gostando nada de ficar ali ouvindo ordens dos gêmeos.
Por um momento, ele até considerou a idéia de deixar os dois irmãos irem adiante, pois as coisas acabariam exatamente como ele desejava, sem que fosse obrigado a pronunciar as palavras que estavam enroscadas na garganta. Alana seria sua, e ele estaria livre do fardo de ter de expor tudo que guardava em seu coração.
Mas acabou pondo a idéia de lado. Eles precisavam conversar abertamente sobre o que sentiam um pelo outro e o que queriam e esperavam do futuro. Apesar de tê-la magoado profundamente, ela lhe dera uma segunda chance. Gregor sabia que agora tinha o dever de se abrir com toda a sinceridade. Se fossem forçados a se casar, ele suspeitava que acabaria se deixando levar pela covardia depois que tivesse conseguido o que tanto queria.
Além do mais, havia outro motivo para que tivesse uma conversa séria com Alana. Afinal, não sabia ao certo o que ela sentia por ele. Ela também não dissera muito sobre o que se passava em seu coração. Apesar de ter dito que os momentos compartilhados entre os dois tinham sido maravilhosos, essas não eram de fato palavras de amor, e sim de paixão. O que realmente esperava da mulher com quem pretendia se casar era um sentimento muito mais profundo do que a atração física. Ele esperava o amor.
Gregor nunca tinha se preocupado com os sentimentos de uma mulher antes e deveria se envergonhar. Mas isso era passado, e agora ele olhava para o futuro. Tudo que mais desejava era que Alana se juntasse a ele de livre e espontânea vontade. Esperava que ela conseguisse convencer os irmãos de que não havia necessidade de arrastá-los para o altar.
— Já pensaram em nosso pai e no que ele deve estar fazendo neste exato momento? —ela perguntou, esperando seriamente que lorde Murray não tivesse lhe arrumado um noivo. Porém, no momento, essa seria uma boa desculpa para tirar da cabeça dos irmãos a idéia fixa de forçar Gregor a se casar com ela.
Estava achando estranho que Gregor ficasse sentado ali, aparentemente perdido nos próprios pensamentos. Vez ou outra ele sorria para ela, mas em momento algum saíra em defesa da própria honra nem protestara contra os planos que os gêmeos estavam arquitetando para ele. Não esperava que ele declarasse em voz alta que não tinha nenhuma intenção de desposá-la, mas imaginara que ele se manifestaria de alguma maneira. A maioria dos homens já teria discutido com os irmãos Murray simplesmente por não gostar de receber ordens.
Os gêmeos falavam baixinho entre eles, e Alana franziu o cenho. Esse era sempre um mau sinal. Ou sabiam algo sobre o pai, que seria usado como contra-ataque, ou estavam preparando a tacada final, que poderia ser física ou verbal. Não seria a primeira vez que os dois se cansariam da conversa e apelariam para a força bruta para encerrar uma discussão. E, uma vez que não iriam ferir a própria irmã, partiriam para cima de Gregor. Um ataque direto poderia despertar a ira de toda a família MacFingal. Mesmo sendo muito bons de briga, Alana duvidava que seus irmãos conseguissem deter Gregor e seu exército. Ela tampouco desejava um combate como esse.
Tomou um gole de cidra e tentou agir como se tivesse encurralado os gêmeos e vencido a disputa. No entanto, o murmurinho ao redor crescia, e ela acabou reconhecendo que se mostrara confiante cedo demais. O modo como Lucas ergueu a cabeça e fitou-a indicou que ainda haveria muito a ser discutido. Ela respirou fundo antes de se preparar para enfrentá-lo.
— De acordo com as últimas notícias que recebemos, nosso pai ainda não tinha encontrado nenhum tolo que quisesse se casar com você — Lucas resmungou. — E duvido que você tenha ficado sabendo de algo desde que saiu de Donncoill.
— Não precisa me insultar porque perdeu a discussão. Vocês também não receberam nenhuma notícia desde que saíram de Donncoill, por isso não têm como saber muito mais do que eu.
— Ah, então vamos levá-los a Donncoill para falarmos com o nosso pai sobre o que se passa — disse Artan, sorrindo em seguida. — Ele dará a palavra final para a solução deste problema.
— Tenho o direito de escolher meu marido, e vocês sabem disso — Alana esbravejou, ao ficar em pé. Quando ainda se perguntava por que Fiona praguejava baixinho, ela sentiu todo o sangue lentamente descendo de sua cabeça. — Oh, minha nossa. Isso não é bom sinal — ela sussurrou, caindo devagar.
Gregor viu toda a cor sumir das faces de Alana. Num minuto, ela estava ruborizada devido ao calor da discussão; no outro mostrava-se branca como a neve. Ele estendeu o braço para ampará-la com uma destreza incrível.
Talvez fosse alguma seqüela mais séria da queda do penhasco, concluiu, apavorado. Sempre havia a possibilidade de os danos surgirem com o tempo. Ele olhou para Fiona em busca de respostas, mas tudo que viu foram os olhos azuis dos irmãos de Alana emitindo um brilho ameaçador.
― Acho que você andou enfiando mais do que a língua na... — A ira de Artan e as palavras um tanto grosseiras foram interrompidas com um tapa na nuca dado por Lucas.
Gregor estava louco de vontade de responder aos ataques beligerantes dos gêmeos à altura, mas não o fez por consideração a Alana. Segurando-a junto a ele, seguiu em direção à saída do salão principal. Logo atrás vieram correndo os gêmeos, Ewan e Fiona. De todos os que os seguiam, Fiona era a única que não o aborreceu com essa atitude, pois ele confiava na habilidade de cura da cunhada.
Assim que colocou Alana sobre a cama, Fiona correu para o lado dela, murmurando:
— Eu disse a ela que não se levantasse tão rápido.
Gregor não tinha entendido nada do que Fiona estava dizendo até que ela corou e olhou-o de relance, como se soubesse mais do que deveria, antes de voltar as atenções para Alana novamente. Só então ele começou a considerar o que poderia fazer uma mulher, que estava adorando discutir com os irmãos teimosos, desmaiar simplesmente por ter se levantado muito rápido. Gregor já tivera contato com muitas mulheres grávidas. Alana estava esperando um filho seu.
Mas por que ela não dissera nada? Ele sentiu uma dor profunda ao imaginar todos os motivos ruins que poderiam ter levado àquele silêncio. De repente, sorriu diante da própria idiotice. Ela não contara nada sobre o bebê por causa da história com Mavis. Somente após duas semanas de muita insistência e galanteios, ele havia conseguido aplacar o sofrimento que lhe infligira e tinha reconquistado sua confiança. Havia ainda a possibilidade de ela só ter descoberto que estava esperando um filho recentemente. No fundo, Gregor esperava que ela não tivesse finalmente cedido a seu assédio insistente somente por causa da criança. Não que se importasse tanto assim se esse fosse o motivo. Contanto que ela se tornasse irrevogavelmente sua e que voltasse para a sua cama, terminariam de acertar as coisas entre eles mais tarde.
O som de uma tosse distante o tirou do turbilhão de pensamentos. Ao se virar em direção ao ruído, ele se deparou com os dois irmãos de Alana, parados, aos pés da cama, encarando-o. Com certeza, a dupla já tinha adivinhado qual era o verdadeiro motivo do desmaio da irmã.
— Você está ficando cada vez mais inoportuno, Cameron — Lucas resmungou.
— MacFingal — Gregor rosnou de volta.
Não foi nenhuma surpresa para ele quando Fiona e Ewan o olharam como se tivesse enlouquecido. Cada vez que os irmãos de Alana lhe dirigiam a palavra, ele sentia uma vontade imensa de responder no mesmo tom irritante, apesar de saber que os gêmeos tinham todo o direito de agir daquela maneira. Afinal, defendiam a honra de uma jovem de boa família, que saíra de casa virgem, e que Gregor havia transformado em amante. Não que ele pensasse isso de Alana, mas sabia que era o que todos acabariam concluindo muito em breve. Além do mais, ele não tinha dado nenhuma razão para que os irmãos Murray ou até mesmo Alana imaginassem que suas intenções fossem honradas.
— Irá se casar com Alana assim que encontrarmos um padre.
— E algo que deve ser decidido entre mim e ela, não acham?
— Deveria ter tomado essa decisão antes de colocar o seu filho no ventre da minha irmã.
— Não temos certeza se ela desmaiou por causa disso.
Lucas torceu o nariz e lançou um olhar nada amistoso para Gregor.
— Não me resta a menor dúvida de que é esse o motivo. — Lucas fitou Fiona para confirmar suas palavras. — Ela está grávida, sim. E você também sabe disso, pois está agindo como um maldito convencido que precisa levar uns socos no meio da cara.
— Talvez devêssemos ter uma conversinha com ele lá fora — interveio Artan, abrindo e cerrando os punhos de modo a deixar bem claro como seria a conversa.
De repente, Gregor percebeu que aprendera a diferenciar os gêmeos e quase riu. Talvez devesse sair com os dois e ter a tal conversa, pois pelo visto havia perdido a cabeça de vez. Quem sabe a dupla pudesse devolver-lhe algum juízo.
— Gregor — Ewan falou, colocando-se ao lado do irmão —, a decisão é sua. Não lhe direi o que fazer. Mas, se deixar claro que não quer se casar com a moça, ficarei do seu lado e o ajudarei a enfrentar os dois.
Ewan colocou tudo de uma forma tão sucinta que só então Gregor percebeu o quanto estava sendo tolo. Com um único sinal de apoio, Ewan delicadamente o lembrara de que a questão não dizia respeito apenas a ele e a Alana..Sua família não poderia aceitar calada que um membro fosse atacado ou insultado, assim como os Murray também não poderiam simplesmente fechar os olhos para o que tinha sido feito a Alana. Já estava na hora de parar de trocar insultos e olhares com os irritantes rapazes, por mais divertido que fosse, e encarar os fatos.
Claro que Gregor queria Alana. Ainda mais porque estava esperando um filho seu. Era sua companheira e ele já sabia disso havia algum tempo. Amava-a e a queria ao seu lado pelo resto da vida.
— Não, Ewan, não haverá briga — Gregor afirmou. — Sabe que quero me casar com ela.
— Então por que está discutindo conosco? — Artan interrogou.
— Porque vocês me irritam — ele respondeu, erguendo os ombros.
Artan fechou e abriu os olhos lentamente, antes de sorrir.
— Parece justo. — Em seguida, olhou para Ewan.
— Onde podemos encontrar um padre? Assim que Ewan informou, os dois se foram. Gregor olhou para o irmão.
— Aqueles dois são muito estranhos.
— Mas acho que são homens honrados — opinou Fiona enquanto ajeitava as cobertas de Alana.
— São muito mais espertos do que as pessoas imaginam. Pensem um pouco em tudo que os dois passaram durante as últimas semanas. Saíram à procura da irmã, imaginando as piores coisas, devido aos boatos que corriam. Encontraram-na com o nosso Liam, enfrentaram uma batalha e, em seguida, saíram atrás da outra irmã que havia desaparecido. Suspeito que os gêmeos tenham imaginado tudo que aconteceu durante a viagem de vocês dois a caminho daqui. E o que encontraram quando chegaram a Scarglas? Alana com Gregor aos beijos no jardim. As vezes me pergunto por que eles não acabaram com você ali mesmo antes de levá-la de volta para casa.
Gregor pensou no que Fiona disse e sorriu.
— Sim, está certa. — Rapidamente recuperou a seriedade e se aproximou de Alana para acariciar-lhe os cabelos. — Por que ela ainda não voltou do desmaio?
— Ela está dormindo — Fiona respondeu. — Acho que as duas últimas semanas foram muito cansativas para ela. E a gravidez não colaborou muito. Toda aquela discussão e troca de provocações entre você e os gêmeos cansaram ainda mais a pobre moça. Agora ela precisa descansar.
— Logo os dois estarão de volta com o padre.
— Quando chegarem, nós a acordaremos. — Fiona sorriu em agradecimento a Ewan, quando ele colocou uma cadeira ao lado da cama para a esposa. — Agora vá cuidar dos preparativos — ela disse a Gregor. — Acho que pelo menos podemos tentar transformar o momento em algo festivo.
— Mas preciso contar a ela tudo que aconteceu e o que foi decidido.
— Posso fazê-lo. Será melhor assim. Ela não irá discutir comigo. E você precisa conversar com os irmãos Murray.
Ele assentiu e deixou o quarto acompanhado de Ewan. Pelo visto, teriam de deixar aquela conversa importante para depois do casamento, o que o incomodava. Porém, logo se deu conta de outra implicação daquele casamento inusitado. Ele a teria na sua cama ainda naquela noite. Animado, seguiu para o salão principal, onde ele e Ewan se ocuparam com os preparativos do casamento.
— Um casamento? Agora?— Alana encarava Fiona, assustada, enquanto se sentava.
Assim que despertara e abrira os olhos, tinha ficado aliviada ao ver que os irmãos não estavam no quarto. Por outro lado, mostrara-se desapontada ao ver Fiona ao seu lado em vez de Gregor, mas acabara percebendo que tinha sido melhor assim. Teria tempo de se preparar para todas as perguntas que iriam lhe fazer sobre os motivos do desmaio súbito. Fiona, então, havia lhe dito que tinha sido bom que tivesse cochilado, já que iria precisar de todas as forças para o casamento.
— O seu casamento com Gregor, é claro.
— Meus irmãos não o ameaçaram para que ele se casasse comigo, ameaçaram?
— Bem, de certa forma, sim, porém, isso não deve ser surpresa para você. Estava indo muito bem com seus argumentos, Alana, e poderia ter ganhado o dia se não tivesse desmaiado. No entanto, quando seus irmãos perceberam que você está grávida, não houve nada que pudéssemos dizer para tirar da cabeça dos dois a idéia de ir buscar um padre para realizar a cerimônia.
— Eles sabem sobre o bebê? — Alana gemeu quando Fiona assentiu. — Gregor também? — Fiona anuiu mais uma vez, e Alana praguejou. — Por que contou a eles?
— Não foi preciso. Seus irmãos perceberam antes de Gregor, mas ele também não demorou muito para adivinhar.
Alana supôs que não deveria se surpreender, pois, apesar de os irmãos agirem como se não tivessem cérebro, não eram os idiotas que fingiam ser, e sim muito observadores. Além do mais, vinham de uma família numerosa e sempre tinham uma mulher grávida por perto. Sendo assim, sabiam reconhecer quando uma mulher estava esperando uma criança. Considerando o número de sobrinhos e irmãos que Gregor tinha, sem dúvida ele também era capaz de identificar os sinais.
— Eu não queria que Gregor fosse forçado a se casar comigo — ela disse baixinho, perguntando-se como as coisas tinham tomado aquele rumo quando parecia que ia dar tudo certo.
— Somente o dia do casamento está sendo imposto. Gregor pretendia se casar com você de qualquer maneira.
— Ele nunca disse isso, Fiona.
— E o que você acha que as duas últimas semanas significaram?
— Que ele queria me levar para a cama? — Alana riu ao ver a expressão de desânimo de Fiona.
— Alana, um homem não faz a corte a uma jovem com a determinação que Gregor demonstrou nas últimas semanas se não pretende se casar. Especialmente quando se tem um bando de irmãos rindo à sua custa o tempo todo. Sei que ele criou um pouco de caso para ceder às investidas dos gêmeos, mas isso aconteceu porque ninguém gosta de receber ordens. Gregor acabou confessando a Artan que discutiu com eles simplesmente porque os achou irritantes.
Alana conteve o riso.
— Meus irmãos sabem atormentar as pessoas. São bons nisso. As vezes acho que querem apenas se divertir.
Fiona sorriu.
— E possível. Ou melhor, eu diria que é isso mesmo. Sigimor, o primo de Ewan, também gosta de agir assim. — Fiona se levantou e esticou-se um pouco. — Acha que está bem descansada para o casamento?
— Sim, mas não gosto disso — Alana murmurou, levantando-se com cautela. Esperou um pouco para ver como se sentia, e suspirou, aliviada, quando não teve tontura. — Ainda faltam tantas coisas para serem acertadas entre mim e Gregor. Depois que fiquei sabendo sobre Mavis, este foi o primeiro dia em que voltamos ao que éramos.
— E só o começo. — Fiona a ajudou a se despir e ajeitou as dobras do vestido novo que separara enquanto Alana dormia. — Depois do casamento, terão muito tempo para se acertarem.
Alana pensou a respeito disso enquanto Fiona a ajudava a pôr o vestido azul-marinho que obviamente pertencia a ela. Ela e Gregor tinham ultrapassado uma barreira no jardim, a que ela mesma havia imposto ao seu coração ferido. A paixão estava acesa novamente, apesar de suspeitar que nunca tivesse se apagado. A sua, pelo menos, fora simplesmente sufocada por uns tempos pela dor e pela raiva. Mas nem se lembrava mais de todo aquele sofrimento, pois estava determinada a conquistar o coração de Gregor.
Além do mais, era preciso pensar na criança que estava a caminho, Alana refletiu, alisando o próprio ventre enquanto Fiona a fazia se sentar sobre um banquinho para que pudesse pentear seus cabelos. Os filhos de Gregor eram meninos bons, belos e fortes, mas sempre carregariam a pecha de bastardos, por mais injusto que fosse. Alana não queria isso para o seu bebê. Não era o melhor motivo para se casar, mas era tão bom quanto os outros que levavam um homem e uma mulher a se ajoelharem diante de um padre.
— Vamos, Alana, não fique com essa cara de assustada. Sabe que Gregor quer se casar com você. Talvez esteja com algumas dúvidas, mas tem de concordar que existe algo especial entre vocês ou não estaria esperando um filho dele, estaria?
— Atração física, Fiona. Basta isso para Gregor, e ambas sabemos que um homem pode se sentir atraído por qualquer mulher que não seja tão feia, velha ou malcheirosa.
Fiona riu ao ajudá-la a se levantar novamente.
— É verdade. No entanto, se Gregor tivesse sido guiado apenas pela atração física, teria se deitado com você do mesmo jeito e se casado com Mavis pelo dote. Além disso, não teria bancado o monge enquanto se esforçava para reconquistar seu coração.
Alana fitou Fiona, surpresa.
— Isso nem me passou pela cabeça. Apesar de Mavis e dos dois meninos bonitos, frutos do passado de conquistas de Gregor, nunca imaginei que ele pudesse se deitar com outra mulher enquanto estivesse me cortejando.
— Significa que, apesar de toda a dor e raiva que encobriram seus pensamentos nos últimos tempos, lá no fundo você ainda confiava nele.
— Acho que sim.
— E deve confiar mesmo. Quando ele fizer o juramento diante do padre, estará sendo sincero. Sim, o pai de Gregor era um safado, infiel a todas as esposas e amantes que teve, até conhecer Mab. O velho tolo realmente se importa com ela, como você mesma poderá ver quando eles voltarem de viagem. Levou um bom tempo, mas, quando ele jurou fidelidade a Mab, estava sendo sincero. Os filhos acompanharam de perto todo o tormento que as escapadas do pai causaram e nenhum deles demonstrou querer seguir o mesmo caminho. Talvez seja por isso que não têm pressa de subir ao altar. Eles precisam ter certeza sobre a moça com quem vão se casar, pois sabem que o casamento é uma escolha definitiva. Meu Ewan também deixou claro que entende que os juramentos feitos diante de Deus devem ser levados a sério. Gregor está ciente disso e já fez a sua escolha.
— Acho que ele não teve alternativa, não?
— É claro que sim.
— Casar-se ou enfrentar uma briga entre os nossos clãs, por exemplo. — Alana suspirou. — Não importa. Posso estar com medo do meu futuro e lamentar meu destino, mas quero ficar com Gregor.
— Tudo dará certo.
— Espero que ele pense o mesmo.
Gregor fez uma careta enquanto ajeitava as bordas do gibão ornamentado que vestia. Era surpreendente a rapidez com que se acostumara a usar o confortável kilt e uma camisa simples. Porém, ele considerava importante vestir um traje mais elegante na cerimônia do casamento. Afinal, tinha se arrumado bem para Mavis e devia o mesmo a Alana.
— Tem certeza de que deseja se casar? — Ewan indagou ao se aproximar dele.
— Sim, como eu já havia dito antes de os irmãos de Alana aparecerem. Eu sabia que a amava há um bom tempo, mas neguei esse sentimento para mim mesmo
— Gregor murmurou. Ewan assentiu.
— Não é uma decisão fácil. Não foi um sinal de fraqueza de sua parte, e sim de força.
Gregor ficou surpreso ao ver um leve rubor no rosto do irmão, que desviava o olhar, sem jeito. Sabia que ele estava falando de amor. Era difícil para um homem admitir que a sua felicidade estivesse nas mãos delicadas e macias de uma mulher. Afinal de contas, deveriam ser fortes, líderes, guerreiros e protetores.
Tentou ver seu amor por Alana como um sinal de força, mas não era fácil enxergar as coisas por esse ângulo.
— Não tenho muita certeza disso. Nem mesmo sei se me sinto fortalecido.
— Ficará convencido assim que notar que não está sozinho. É a incerteza que faz tudo parecer tão difícil. Acho que logo entenderá o que quero dizer, mas por enquanto não se preocupe muito.
— Às vezes as esperanças chegam muito perto da certeza, mas não importa. Não tenho outra escolha.
— Gregor soltou um leve sorriso. — Talvez essa seja uma das coisas que mais me incomoda.
Não houve tempo de Ewan responder, pois Fiona e Alana chegaram. Gregor voltou todas as atenções para a noiva, que vinha em sua direção. Sentira-se ao mesmo tempo aliviado e preocupado ao deixar Fiona encarregada de contar a Alana sobre o casamento, mas percebeu que não havia nenhum sinal de aborrecimento na fisionomia da noiva. Ela parecia nervosa, incerta e um pouco assustada. Mas era compreensível. Ele sentia o mesmo.
Alana estava adorável no vestido azul-marinho. Gregor se perguntou mais uma vez como em vinte e dois anos ela havia passado despercebida aos olhos dos outros homens. Virando-se para os irmãos Murray, parados de braços cruzados sobre os peitos largos, teve certeza de que os gêmeos tinham algo a ver com isso. Seria um tormento para ele se de repente descobrisse que devia um favor à dupla.
Alana estava dividida entre o desejo de pular triunfante no pescoço do marido que estava prestes a conquistar ou sair correndo sem rumo. Gregor estava tão lindo e elegante no traje branco-e-preto que a deixara sem fôlego. Achou-se louca por ter imaginado que conseguiria fazer com que um homem como aquele a amasse, ou que fosse capaz de satisfazê-lo por anos. Tudo que lhe passava pela cabeça eram os próprios defeitos, desde ser magra demais até ter medo do escuro.
— Calma, Alana — Fiona sussurrou. — Geralmente é o homem que corre do altar, e Gregor não parece estar disposto a fugir antes de o nó ser amarrado e bem apertado.
— Ele está preso em uma armadilha — Alana murmurou.
— Deixe de ser boba. Lembre-se de que você não fez o filho que está carregando no ventre sozinha e que está presa na mesma armadilha.
Era verdade, Alana refletiu ao parar diante de Gregor. Fiona afastou-se, postando-se junto a Ewan. Alana viu quando os dois trocaram um sorriso cúmplice e quase suspirou de inveja. Era esse companheirismo que ela desejava, mas temia que nunca conseguisse tê-lo. No entanto, não havia muito que pudesse fazer a respeito naquele momento, concluiu ao ver Gregor se curvando com elegância para beijar sua mão. O calor deixado pelo simples roçar daqueles lábios sobre sua pele se espalhou por todo o seu corpo. Nesse instante, ela se esqueceu dos complexos e das dúvidas que pairavam em sua cabeça.
Aquele homem era sua alma gêmea, e o destino o colocara em seu caminho. Precisava crer que não era tão inadequada quanto imaginava. Ele sentia algo mais do que uma simples atração por ela. Tinha certeza disso nos momentos em que estava mais confiante. Havia algum sentimento profundo no coração daquele homem, do contrário ele não teria perdido tanto tempo cortejando-a e agüentando as brincadeiras dos próprios irmãos enquanto ela mostrava somente indiferença às investidas amorosas. Além do mais, ele havia terminado tudo com Mavis, abrindo mão do dinheiro e das terras que ganharia com aquela união.
Esse não era o momento de desistir de tudo. O padre estava esperando e, pela cara feia dele, suspeitou que seus irmãos o tivessem arrancado à força de algo importante. Os gêmeos não eram famosos pela paciência. Na verdade, tinha quase certeza de que ambos logo iriam começar a reclamar da demora. Mesmo com o local cheio de irmãos e meios-irmãos de Gregor, sobrinhos e filhos, não seria uma boa idéia testar os limites da paciência dos Murray.
— Tudo dará certo, querida — Gregor sussurrou ao ouvido de Alana e beijou-a na face.
— Meus irmãos não deveriam tê-lo ameaçado — ela murmurou, olhando com desgosto para os dois.
— Deveriam, sim. Muitos homens não teriam ficado apenas nas ameaças. Eu só queria fazer uma pergunta antes de nos ajoelharmos diante daquele padre com cara de irritado: por que não me contou sobre o bebê?
Alana corou e encolheu os ombros.
— Só tive certeza hoje. Na semana passada, suspeitei da gravidez, mas só confirmei hoje de manhã quando mergulhei a cabeça em um balde para esvaziar meu estômago.
— Pobrezinha. Talvez Fiona conheça algum chá para isso.
— Acho que sim. Perguntarei a ela.
— Está pronta, meu amor?
Alana observou as carrancas dos irmãos e a fisionomia igualmente fechada do padre.
— Sim, vamos acabar logo com isto. — Ela corou. — Bem, não quis dizer...
— Sei exatamente o que quis dizer e não me ofendi. É irritante agüentar aqueles dois nos encarando.
— Muito irritante.
De mãos dadas, Alana e Gregor caminharam e se ajoelharam diante do padre. Assim que o religioso começou a ler as palavras que a uniria a Gregor enquanto vivessem, Alana tinha uma única coisa em mente. Dali a alguns minutos apenas, seus irmãos não poderiam mais controlar a sua vida, e ela os mandaria embora de Scarglas.
— Esta é a minha noite de núpcias — Alana falou, andando de um lado para o outro no quarto, com o gato ao seu lado. — Não notou algo estranho, Charlemagne? Pois lhe direi o que está errado. Estou sozinha em minha noite de núpcias, andando de um lado para o outro e conversando com um gato. — Ela se deteve, colocou as mãos sobre os quadris e olhou para a porta. ― Onde estará meu marido?
Charlemagne se esparramou no chão e começou a lamber a barriga.
— As confusões e intrigas que envolvem os pobres mortais não o interessam nem um pouco, não? — Ela se abaixou para acariciar o felino.
Estava assustada. Aparentemente tudo correra bem durante o casamento. Gregor não havia apenas aceitado o destino, ele parecia feliz com isso. Tinha jurado com convicção diante de todos, sem hesitações. E o beijo que lhe dera para selar o juramento tinha escandalizado o padre e a deixara tão atordoada que nem mesmo corara quando os parentes dele tinham murmurado obscenidades. Após a cerimônia, ele saíra acompanhado dos irmãos de Alana, e ela subira para o quarto onde dormiriam juntos. Então, Gregor simplesmente desaparecera.
Alana se levantou e olhou para a porta novamente. Se seus irmãos houvessem ferido o marido, ela mesma faria com que eles pagassem pelo mal. Por outro lado, não lhe ocorria nenhum motivo que pudesse levar os gêmeos a essa atitude. Afinal, tinham conseguido o que queriam. Ela tampouco conseguia imaginar que os três estivessem sentados no quarto de Gregor, bebendo e estreitando os laços de amizade. Esperava que eventualmente eles se tornassem amigos, mas ainda era muito cedo para isso. Sua curiosidade e ansiedade só aumentavam a cada minuto.
Mordendo o lábio, ela tocou no trinco da porta e, em seguida, retirou a mão rapidamente. Era Gregor quem deveria vir ao seu encontro, e não o contrário. Ela tinha se banhado, passado perfume e vestido uma camisola de tecido tão fino e delicado que mal encobria as partes mais íntimas de seu corpo. Estava vestida exatamente como uma noiva deveria, mas o noivo parecia ter se esquecido dela.
De repente, a raiva suplantou os temores e as dúvidas. Apanhou um cobertor da cama, jogou-o em torno do corpo e saiu à procura de Gregor. Durante a comemoração que se seguira à cerimônia, ele prometera uma noite de muito amor e carícias. Bem, já estava mais do que na hora de ele cumprir as promessas que a tinham deixado tão excitada, contando os minutos para que subissem ao quarto e finalmente aproveitassem a noite. Ele que colocasse um fim ao que estava fazendo e que viesse se juntar a ela.
Gregor fitava a caneca de cerveja em sua mão e se perguntava o que fazer. Ao aceitar se casar com Alana sem nem ao menos querer saber do dote que ela possuía, ele se sentira um tanto complacente e até mesmo um pouco virtuoso. Mas agora que descobrira que o dote de Alana fazia o de Mavis parecer irrisório era como se tivesse levado um soco no estômago. Quando Keira tinha se casado da primeira vez, doara seu dote a Alana, que, somado ao que ela já tinha, a tornava uma noiva muito rica para um homem como ele.
Por que Alana nunca mencionara nada a respeito disso nem por que não havia um homem escondido atrás de cada árvore por onde ela passava pronto para agarrá-la e forçá-la a se casar era um mistério. Os homens capturavam noivas por dotes bem mais modestos. Ninguém acreditaria que ele tivesse se casado com Alana por outro motivo que não a fortuna dela. Correr atrás de uma mulher com o dote como o de Mavis, para a maioria das pessoas, seria um ato de extrema esperteza. Mas casar com uma mulher tão rica quanto Alana o fazia parecer um homem ganancioso.
A pura verdade era que ela era muito boa para ele em todos os sentidos. Alana merecia algo muito melhor. Era quase o mesmo que uma princesa se casar com um ferreiro. E justamente quando tinha conseguido conquistar a mulher que queria, Gregor se via obrigado a deixá-la partir. Esse seria o único caminho honrado a seguir.
Apesar de já ter bebido além da conta, ele levou a caneca à boca e tomou outro gole de cerveja. Estava bebendo desde que Artan e Lucas haviam lhe dado as boas novas sobre tudo que Alana trazia para o casamento, mas a bebida não ajudara a superar o choque. Pelo contrário, só o fizera se sentir melancólico. E, se havia algo que odiava, era um bêbado melancólico.
Ao erguer a caneca de cerveja mais uma vez, deu-se conta de que estava olhando para os seios de Alana. Eles estavam cobertos por um linho muito fino, tão fino que era possível ver os mamilos. Realmente amava os seios daquela mulher, Gregor pensou e suspirou. Num segundo, um cobertor encobriu a bela visão. Lentamente, ele ergueu o olhar e fitou os olhos cor de mel. Teria de enfrentar toda a ira que ela ocultara; toda a raiva por ter sido forçada pelos irmãos a se casar com um pobretão.
— Talvez você possa explicar por que está sentado aqui, sozinho, tomando cerveja na nossa noite de núpcias.
O tom frio da voz o fez franzir o cenho.
— Não haverá noite de núpcias.
Alana se perguntou quanto ele teria bebido. Considerando o tempo que fazia que ele deixara o salão principal, acompanhado dos irmãos Murray, provavelmente bebera uma boa quantidade de cerveja.
— Sei — ela murmurou, sem conseguir esconder o desapontamento. — Ouvi dizer que muita bebida alcoólica prejudica o desempenho...
— Prejudica? — Ele pegou a mão da esposa e colocou-a sobre o membro que estava ereto desde que ele a havia beijado no jardim aquela manhã. — Seria preciso muito mais cerveja para conseguir me derrubar.
Alana ignorou a jactânciá.
— Então por que disse que não haverá noite de núpcias?
— Porque você é uma noiva muito refinada para um homem como eu. Seus irmãos me contaram sobre o seu dote. O que ouvi quase me derrubou. Por que não me contou que é rica como uma princesa?
Alana arregalou os olhos ao notar o tom de acusação na voz de Gregor.
— Não comentei nada porque você não demonstrou interesse. Em se casar comigo, quero dizer. Quando um homem faz a corte a uma mulher e dá a entender que quer se casar, aí então é hora de falar sobre o dote.
Era verdade, Gregor concluiu, mas continuava muito abalado com a notícia.
— Você deveria ter me contado que é uma mulher rica. Foi um choque quando descobri. Se eu tivesse ficado sabendo antes, não teríamos nos casado. Agora, a única coisa que nos resta é não consumar o casamento até que consigamos anular a união. Você merece um homem melhor do que eu, alguém que tenha algo além de algumas roupas elegantes, um bom cavalo e uma família que não é das mais respeitadas na região. A maioria das pessoas pensa que meu pai é um maluco. Até bem pouco tempo, nós também pensávamos.
— Gregor meneou a cabeça e se sentiu meio zonzo.
— Não; não sei onde seus irmãos estavam com a cabeça quando imaginaram que eu serviria para me casar com você.
Colocando a caneca sobre a mesa, ele se levantou com muito cuidado e foi até uma bacia usada como lavatório para molhar a cabeça com água fria. Tinha acabado de perceber que estava demasiado bêbado para ter aquela conversa. Porém, não poderia mandá-la embora em sua noite de núpcias. Sendo assim, a conversa não poderia ficar para a manhã seguinte, quando estivesse raciocinando com mais clareza. Alana merecia uma explicação do por que havia ficado sozinha no quarto que tinham escolhido para eles.
O corpo de Gregor continuou ardendo de desejo mesmo quando deixou a água fria escorrer pela nuca, para dento da camisa. A última coisa que queria fazer era deixá-la sozinha naquela noite ou em qualquer outra. Ela usava uma camisola feita para seduzir, e sua pele exalava o perfume doce de rosas. Ele ansiava para prová-la novamente. Praguejou enquanto enxugava o rosto com uma toalha limpa, percebendo que não se sentia tão atordoado por causa da bebida, e sim pelo estado de excitação em que se encontrava.
Por mais errado que fosse, Gregor teria de pedir-lhe que se retirasse e dizer que no dia seguinte conversariam. Se ela não saísse do seu alcance o quanto antes, ele poderia fraquejar e acabaria tomando-a nos braços. Então, não haveria volta, não seria mais possível tomar a atitude certa e honrada, deixando-a livre para encontrar um marido melhor e que fosse motivo de orgulho. Atirou longe a toalha, olhou para ela e franziu a testa. Alana estava de braços cruzados, e ele pôde ver um pezinho descalço batendo, impaciente, sobre o piso. Sem falar da expressão do rosto delicado que lhe dizia estar se comportando como um completo idiota.
— Gregor, não acho que o fato de não consumarmos o casamento faça alguma diferença a esta altura. — O tom da voz era calmo e doce, como se estivesse explicando algo a uma criancinha, e isso o irritou.
— Um casamento pode ser anulado por não ter sido consumado, apesar de eu não saber exatamente qual é o procedimento.
— Esqueceu-se de que não sou mais virgem? Que estou grávida de um filho seu?
Por um momento, Gregor apenas a fitou, as palavras reverberando em sua cabeça. Ele era mesmo um idiota. Tinha se esquecido daqueles detalhes tão importantes. O choque limpara sua mente, deixando apenas a idéia de que Alana era uma noiva muito rica para um homem como ele. Muita cerveja tinha se encarregado de colocar de lado o raciocínio lógico. Ele se perguntava se conseguiria disfarçar o embaraço, ao mesmo tempo em que rezava para que ela não o forçasse a admitir em alto e bom som que tinha feito papel de bobo..
— Você não precisa de um homem como eu, mesmo que tenhamos sido amantes e que esteja esperando um filho. Com o dote que tem, poderá encontrar o homem que quiser, e sabe disso. Se o seu pai anunciasse o valor desse dote, estou certo de que os homens fariam fila diante dos portões de sua casa, mesmo que você tivesse uma dúzia de filhos. — Ele sentiu um aperto no peito só de imaginar outro homem criando seu filho, mas se manteve firme, pois sabia que estava considerando o bem de Alana.
Ela o encarava. Havia algo de melancólico no rosto de Gregor que a fez descartar a hipótese de ele estar fazendo tudo aquilo apenas para se livrar do casamento. Pelo visto, realmente estava pensando que era muito boa para ele, devido ao tamanho do dote. Já estava na hora de parar de resguardar seu coração, Alana pensou, de manter para si as palavras que queria dizer havia semanas. Talvez ele não aceitasse a lógica daquilo tudo, por isso só lhe restava tentar acalmá-lo com sentimentos.
— Mas meu filho não ficará sem pai, não é mesmo? Ele tem um pai, um homem maravilhoso, capaz de fazer o meu sangue ferver com um sorriso apenas.
Gregor sentiu-se ainda mais excitado. Um simples elogio, e ele estava agindo como um garoto desajuizado diante da primeira namorada. Alana esboçou um sorriso, e ele franziu o cenho, quase ousando dizer algo. Não era apenas um sorriso que ele queria usar para fazer o sangue dela ferver, pensou, soltando um leve gemido.
— Você não fez a corte a Mavis por causa do dote? Por que considerou a idéia de aceitar os bens que ela possuía e não quer consentir em receber os meus?
— Porque, perto do seu, o dote de Mavis é uma ninharia, porém o suficiente para um homem como eu viver bem.
— Gregor, acha que minha irmã não levou nada para o casamento com Liam? Ela doou a mim parte do dote a que tinha direito porque herdaria Ardgleann um dia e a propriedade é valiosa o bastante. Você condena seu primo por ter aceitado os bens dela?
Uma mulher inteligente podia ser uma maldição, Gregor pensou, e percebeu que o choque e a cerveja tinham acabado de vez com o seu bom senso e a sua lógica. Não havia como provar que sua linha de raciocínio fazia algum sentido. Sem argumentos, acabaria sendo obrigado a admitir que ele havia pensado e agido, sob a influência da bebida, como um completo idiota. Só lhe restava esperar que tivesse a sorte de encontrar as palavras certas para atenuar o golpe que seu amor-próprio sofrerá, pelo menos aos olhos de Alana.
— Fiquei chocado — Gregor admitiu. — Profundamente chocado. Tudo que eu podia ver era que é uma mulher muito rica, que nunca estaria ao meu alcance não fosse pela coincidência de termos sido jogados na mesma masmorra. Pensei que o mundo todo iria imaginar que me casei com você por dinheiro, e eu não suportaria isso.
— Ah, orgulho.—Alana se aproximou e lentamente passou os braços ao redor do pescoço dele.
— Sim, fiquei preocupado com meu orgulho masculino, mas também não queria que todos acreditassem que só me casei com você por dinheiro ou que essa seria a única maneira de você arrumar um marido.
Novamente a capacidade de Gregor de pensar com clareza evaecia conforme Alana roçava os lábios em seu rosto. Parecia que todo o seu corpo clamava por ela. Uma vez que o casamento não podia ser anulado, por que a hesitação?, ele perguntou a si mesmo.
— É muita gentileza sua ter se preocupado tanto comigo a ponto de considerar a hipótese de me deixar. Entretanto, no fundo, sei que não é o que deseja.
— Ela começou a desamarrar a camisa dele. — Você me quer, não é mesmo, querido?
Puxando-a pelos quadris, ele a trouxe para mais perto de si, pressionando-a contra o membro ereto e pulsante.
— Sim, preciso de você como um peixe precisa da água para viver. Preciso de você para encarar todas as manhãs com esperança e vontade de viver. — Deslizou a mão pelo ventre da esposa. — Preciso de você para me dar belos filhos de olhos cor de mel. Sim, preciso de você e sinto muito se a fiz duvidar disso.
Alana estava tão comovida que a única coisa que conseguia fazer era fitá-lo, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Desde que tinham se conhecido, essa era a primeira vez que ele falava sobre os próprios sentimentos, e ela ficou trêmula pela força impregnada em cada palavra. Ele não tinha dito que a amava, o que já não fazia muita diferença. Um homem que dizia tais coisas a uma mulher com certeza a amava ou estava bem perto disso.
— Acho melhor deixarmos de lado meu plano de anular o casamento — Gregor sussurrou, erguendo-a nos braços.
— Que tal nos dirigirmos a nossa cama confortável?
— Alana propôs ao se acomodar nos braços dele.
— Mais tarde...
Alana abriu os olhos e piscou, sem saber ao certo onde estava. Em seguida, sentiu Gregor se movendo e ouviu Charlemagne pulando da cama. Sorriu. Depois de terem feito amor nos aposentos dele, tinham subido para o quarto de núpcias e haviam se entregado à paixão novamente. Um ato selvagem, quente e louco, ela pensou, feliz, ao sentir que era beijada na nuca.
— Estava esperando que você acordasse — ele murmurou, virando-a de frente.
Ele a beijou nos lábios e deslizou a mão até o ventre de Alana. Estava ansioso para sentir seu filho se mexendo dentro dela. Ele amava os dois garotos que já tinha e nunca os deixaria de lado em razão do que estava por vir, mas o fato de ter gerado este com a mulher que amava, e não apenas por descuido, fazia toda a diferença de uma maneira estranha e íncomensurável. A intuição dizia que não era preciso temer que Alana fosse capaz de preterir seus filhos bastardos em função do bebê que ela esperava. Beijou-a com carinho na barriga.
— Está se sentindo bem? Acho que agimos como selvagens na noite passada, e eu não queria machucar nosso filho.
— Não, você não vai machucá-lo fazendo amor comigo — ela murmurou, acariciando as costas largas. — Posso não saber muito sobre isso, mas sempre ouvi dizer que fazer amor durante a gravidez não fere o bebê.
— Fico aliviado, pois pretendo fazer muito amor com você.
Alana suspirou de prazer enquanto ele beijava seus seios. Passando os dedos entre os cabelos fartos do marido, ela o puxou para mais perto enquanto ele sugava seus mamilos. Queria muito conversar sobre o futuro e o que sentiam um pelo outro, mas era uma covarde. Por outro lado, tinha a nítida impressão de que, se não forçasse a situação um pouco, a chance desapareceria. Gregor se acomodaria e talvez não tocasse mais no assunto. Ela poderia ficar meses, até mesmo anos, sem ter a certeza dos verdadeiros sentimentos que ele nutria em relação a ela.
— Senti falta de você na minha cama, meu tesouro — ele disse, ao mesmo tempo em que a tocava entre as coxas esguias com a intenção de levar a excitação de Alana às alturas. — Temi que, em minha estupidez, eu a tivesse perdido, matado tudo que compartilhamos justamente quando percebi o que você significava para mim.
Ela ficou tensa, perguntando-se, intrigada, se Gregor de alguma maneira havia lido seus pensamentos e resolvido dar o primeiro passo. Apesar de estar louca para ouvir tudo que ele tinha a dizer, o desejo que estava sendo despertado dificultava sua capacidade de concentração. Não se surpreenderia caso acabasse descobrindo que aquela era mesmo a intenção dele. Entretanto, não permitiria que ele continuasse escondendo seus verdadeiros sentimentos.
— Você não tem como me perder, querido. Não sabe disso?
— Espero mesmo que não. Mas por que diz isso?
— ele indagou, beijando-a na intimidade.
Gregor brincava com ela, conduzindo-a na direção que ele queria, porém ela não se importou. Suas carícias a estavam enlouquecendo. Arqueou-se para sentir melhor os beijos e suspeitou que ele soubesse muito bem o que estava fazendo. Gregor dizia com beijos que, se ela desnudasse sua alma, ele a recompensaria com muito prazer. Segurando com força os ombros largos daquele homem, decidiu que um dos dois teria de tomar a iniciativa de dar um fim à covardia que os dominava, e esse alguém podia muito bem ser ela.
— Você não pode me perder, Gregor, porque sou sua de corpo, mente, coração e alma. Eu o amo com todas as minhas forças — ela sussurrou.
Ele gemeu, sem parar de acariciá-la, arrebatando-a com a língua até que ela implorasse para ser possuída. Nesse instante, ele uniu seus corpos e a fitou nos olhos. O belo rosto de Alana estava ruborizado de ex-citação, e tudo em que ele conseguia pensar era que nunca tivera uma visão tão bela.
— Repita o que disse, meu amor.
— Eu o amo — Alana falou e foi recompensada quando ele recuou e penetrou-a mais intensamente.
Continuaram com a brincadeira durante alguns minutos até que ela achasse que estava prestes a enlouquecer. Para sua alegria, ele logo perdeu o controle. Antes que tivesse tempo de perguntar-lhe se o sentimento era recíproco, o ímpeto da paixão tomou conta dos seus sentidos, conduzindo-os ao clímax.
Somente algum tempo depois de ele relaxar em seus braços, Alana começou a se recuperar. Embora tivesse ficado contente por Gregor ter achado a sua declaração de amor excitante a ponto de pedir que a repetisse sem parar, ela sentiu certa irritação. Ele devia amá-la se estava tão ávido para escutar aquelas palavras repetidas vezes, mas não lhe dera o mesmo conforto. Parecia muito injusto. Esperava que ele não fosse daqueles homens que exigiam o amor da esposa, porém não consideravam importante a reciprocidade desse sentimento para a felicidade do casal.
— Você ficou tensa, querida — ele disse, levantando a cabeça e beijando-a nos lábios.
— Estava apenas pensando sobre o quanto foi importante ter ouvido de mim o que sinto por você.
Fechando os olhos, ele esfregou o nariz sobre a pele macia entre o pescoço e o ombro dela e respondeu distraidamente:
— Eu queria ter certeza de que não era o único que estava amando, que meu amor estava sendo retribuído. — Quando ela ficou ainda mais tensa, Gregor a encarou. — O que foi? Está chorando? — indagou com um tom de pânico na voz.
Ela enxugou as lágrimas com a ponta do lençol, antes de questionar:
— Você me ama?
— É claro que sim.
— Como eu poderia saber se você nunca me disse!?
— Tenho certeza de que o disse minutos atrás, quando a possuía para me certificar de que nossa união estava incontestavelmente consumada. — Ele sorriu, lembrando-se, satisfeito, do ato de amor.
Alana franziu a testa ao tentar se recordar do frenesi daquele momento, quando ambos haviam feito amor como loucos. Tinha uma vaga lembrança de Gregor pressionando o rosto em seu pescoço enquanto a penetrava e de ter sentido a boca dele se movendo contra a sua pele. Fora naquele instante que ele lhe dissera que a amava? E ela não havia escutado? O covarde fizera de propósito, ela concluiu, e o acertou no braço.
Surpreso, fitava-a enquanto esfregava o braço dolorido.
— Acho que você se lembrou.
— Você murmurou algo no meu pescoço; Mas me recordo muito bem de que me pediu que eu repetisse que o amava inúmeras vezes em alto e bom som.
— Entendi... Quer que eu faça o mesmo em relação a você.
Alana arqueou as sobrancelhas ao ver um leve rubor nas faces do marido, e conteve um sorriso.
— Não vai doer nada — ela falou calmamente.
— Não sei, pois nunca disse isso a outra mulher antes — ele resmungou, olhando com cobiça para a curva macia entre o ombro e o pescoço dela.
— Você não queria me amar?
— Sim, querida, pois não consigo pensar em nenhuma mulher em quem eu possa confiar mais do que em você. Porém, não é fácil para um homem assumir esse sentimento. — Gregor respirou fundo e gentilmente pressionou a testa contra a dela. — Eu amo você. — Ele arregalou aos olhos ao ver de novo o brilho das lágrimas. — Não comece a chorar outra vez.
Ela riu e o abraçou.
— É de alegria, Gregor. Não se preocupe. Quando descobriu que me ama?
— Quando você caiu daquele penhasco. — Ele se deu conta de que não era assim tão difícil falar de seus sentimentos com a mulher amada nos braços. — E você, quando descobriu que me ama?
— Oh, provavelmente no momento em que resolvi aceitá-lo como meu amante. — As palavras saíram arrastadas, e ela riu quando ele a beliscou de leve. — Eu só precisava saber que me ama, Gregor. Não vou lhe pedir que repita todos os dias, apesar de não me importar se quiser fazê-lo. Agora que sei o que sente por mim, todos os receios que ainda me assombravam foram afastados. Ganhei forças com isso. Sim, e a certeza de que nosso casamento será maravilhoso.
— Sim, será, meu amor.
Fitando-a com intensidade, ele percebeu que poderia ter poupado a ambos de toda aquela dor que os atormentara se simplesmente tivesse dito algumas palavras de amor, oferecendo alguma base para quando os problemas surgissem. Só lhe restou jurar a si mesmo que nunca mais seria tão cauteloso. Desabituado a expor seus sentimentos, sabia que ainda levaria algum tempo para superar a resistência, mas iria tentar. Para ver novamente aquele brilho de alegria no rosto de Alana, valeria qualquer esforço.
— Eu não sabia que estava insegura quanto aos meus sentimentos por você. Pensei que estavam claros para que todos vissem.
— Não sei por que imaginou uma coisa dessas. Sabe esconder muito bem o que está pensando e sentindo.
— Ah, mas se tivesse prestado atenção havia uma pista.
— E qual era?
— Eu estava agindo como um completo idiota.
— Gregor sorriu quando Alana riu e o abraçou novamente. — Esse é o sinal mais evidente de que um homem perdeu o coração. Foi por isso que, de certa forma, tentei fugir da armadilha. Nunca gostei de agir como um tolo.
— Bem, pelo visto, desenvolvi uma predileção por idiotas.
— Acho que sim.
— E estou loucamente apaixonada por um idiota.
— E você o amará para sempre? — A pergunta não passou de um sussurro contra os lábios de Alana.
— Para sempre e no dia seguinte também.
Seis meses depois...
Suspirando, Alana se sentou num banco de pedra ao lado de Keira. Aquela seria a última visita que faria à irmã em meses, pensou ao acariciar a barriga arredondada. Uma vez que Keira estava com formas semelhantes às suas, os tornozelos inchados, e os movimentos afetados, Alana sabia que nenhuma das duas poderia viajar novamente durante algum tempo, muito menos com o inverno que se aproximava.
— Ardgleann está prosperando, quase voltando à glória — Alana falou, admirando as flores ao redor. — E seu jardim ainda está muito belo para o fim do outono.
— A temperatura tem estado mais amena do que o normal, o que é uma bênção. Apesar de termos iniciado o plantio atrasados, ainda teremos uma boa colheita. Não será das melhores, pois não houve muito tempo, mas conseguiremos alimentar a todos. Como Craigdene está indo?
— Muito bem — Alana respondeu com um sorriso largo. — Não é um lugar tão grande quanto este, mas gostamos muito de lá. Gregor com certeza aprovou as dimensões mais modestas de nossas terras, para que ninguém pense que ele se casou com uma mulher rica. O valor do meu dote ainda o incomoda. Craigdene é um lugar bom e fica próximo das pessoas que mais amamos, tornando visitas como esta, mais fáceis.
— Vou ter um menino — Keira contou a novidade.
— Eu também — Alana disse com um sorriso. — E uma menina. Mab falou.
— É mesmo? Eu também.
As duas riram e acenaram para os maridos, que estavam não muito distantes, conversando.
— Casamos com homens bonitos. Keira assentiu.
— Muito bonitos e bons para nós, embora tenhamos demorado um pouco a encontrar a felicidade que agora paira no ar. Às vezes, ainda me sinto culpada por tê-la encontrado em meio à tragédia.
— Não deve se lamentar por isso — Alana consolou a irmã. — Foi o destino. Quem acreditaria que eu encontraria minha alma gêmea na masmorra dos Gowan?
Ambas olharam para os maridos e suspiraram, o que arrancou risos de Alana.
— Acho que sempre suspiro quando olho para Gregor. Ele é um homem tão belo. Às vezes o observo dormindo e me pergunto por que ele escolheu a mim para amar dentre todas as mulheres.
— Também me questiono a respeito disso. Mas, como você disse há pouco, é o destino. Encontramos nossos pares perfeitos.
— De fato. E será muito interessante ver como nossos belos e fortes maridos irão reagir quando, daqui a alguns meses, mostramos a eles nossos filhos e filhas. Você já contou para Liam?
— Não, quero fazer uma surpresa.
— Eu também.
— Não acha que é um pouco cruel?
— Não. Além do mais, se eu contar a Gregor nesse momento, ele se tornará ainda mais protetor do que já está para comigo.
— Seria insuportável — Keira concordou. — Liam faria o mesmo.
— E, é claro, estragaríamos a surpresa. Alana e Keira riram.
Gregor sorriu de leve ao ver as duas irmãs se divertindo.
— Não tenho certeza se gostaria de saber o que elas acham tão engraçado.
Liam riu.
— Pelo bem do nosso orgulho masculino, é melhor não perguntarmos.
— Ainda não me acostumei com a idéia de estar casado e de logo ser pai. Mesmo tendo dois filhos, não acompanhei a gestação de nenhum deles. Simplesmente foram deixados nos portões de Scarglas. Mas o que sinto agora é ao mesmo tempo assustador e maravilhoso.
— Concordo. E diria ainda que é muito estranho estar casado com uma mulher que tem uma irmã gêmea, sem falar da forte ligação entre ambas.
— Às vezes, é difícil compreender a relação de Alana e Keira. Acho que saberei exatamente quando a sua esposa entrar em trabalho de parto.
— E eu a sua — Liam disse, rindo. — Bem, mas há coisas piores. Quase me tornei um monge.
— Sim, e quase me casei com a mulher errada.
— Acho que você teria pagado um preço bem mais alto com a sua opção anterior do que eu com a minha.
— Sem dúvida. Porém, há algo nisso tudo que ainda me incomoda.
Liam olhou, confuso, para Gregor.
— O que é?
— Ter percebido que Sigimor estava certo em tudo que disse.
— Explique-se, por favor.
— Ele falou que saberíamos reconhecer a mulher certa com quem deveríamos nos casar.
— Porque ela se encaixaria — Liam acrescentou, rindo. — Agora me lembro de quando ele disse isso. Então, você ama Alana de verdade, não ama?
— Sim, apesar de ter precisado vê-la caindo de um penhasco para poder admitir. — Gregor meneou a cabeça. — Eu me sentia dividido. Ao mesmo tempo em que gostaria de encontrar a minha cara-metade, achava que o amor fazia o homem agir como um idiota.
Mas, ao negar meu amor por Alana, agi como um tolo do mesmo jeito.
— Agora você é um idiota muito feliz, não é?
— Sim.
Liam olhou para Keira e começou a caminhar na direção dela.
— Bem, eu diria que existem boas recompensas por ser um idiota.
Seguindo os passos do primo, com o olhar fixo na esposa sorridente, Gregor concordou.
Hannah Howell
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