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O AMANTE DE LADY CHATTERLEY / D. H. Lawrence
O AMANTE DE LADY CHATTERLEY / D. H. Lawrence

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY

 

            A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a aceitá-la tragicamente. O cataclismo deu-se, estamos entre as ruínas, desatamos a construir novos pequenos habitat, a alimentar novas esperançazinhas. É uma tarefa difícil, já não há nenhuma estrada suave em direção ao futuro: rodeamos os obstáculos, ou passamos por cima deles. Seja qual for o número de réus que desabem, temos de viver.

            Esta era, mais ou menos, a posição de Constance Chatterley. A guerra tinha sido como um teto que lhe caísse em cima, e ela compreendera que seria necessário viver e aprender.

            Casara-se com Clifford Chatterley em 1917, numa altura em que ele estivera na Inglaterra a gozar um mês de licença. Tiveram uma lua-de-mel de um mês. Regressara depois à Flandres, para voltar outra vez à Inglaterra, seis meses mais tarde, mais ou menos aos poucos. Constance, a mulher, tinha então vinte e três anos e ele vinte e nove.

            O apego dele à vida foi maravilhoso. Não morreu e os poucos pareceram voltar a juntar-se outra vez. Durante dois anos andou pelas mãos dos médicos. A seguir foi dado como curado e pôde voltar de novo à vida com a parte inferior do corpo, da cintura para baixo, paralisada para sempre.

            Estava-se em 1920. Clifford e Constance voltaram ao lar deles, ao lar da família, Wragby. O pai de Clifford falecera, ele era agora um baronete, Sir Clifford, e Constance era Lady Chatterley.

            O casal iniciou a sua vida no lar bastante delapidado dos Chatterley com um rendimento razoavelmente limitado. Clifford tinha uma irmã, mas falecera e não havia mais parentes próximos. O irmão mais velho morrera na guerra. Aleijado para sempre, sabendo que nunca poderia ter descendentes, Clifford regressou à fumacenta região dos Midlands para manter vivo, enquanto pudesse, o nome dos Chatterley.

            Não se sentia realmente deprimido. Podia deslocar-se pelos seus próprios meios numa cadeira de rodas e dispunha também de uma outra cadeira de rodas com um pequeno motor: assim, podia deslocar-se devagarinho pelo jardim e pelo gracioso e melancólico parque, de que tanto se orgulhava, embora se mostrasse desprendido de tudo.

            Tendo sofrido tanto, a capacidade para o sofrimento, em certa medida, acabara por abandoná-lo. Permanecia um ser estranho, animado e bem disposto. Dir-se-ia, quase, que era um ser alegre pela aparência do seu corado e saudável rosto e pelos seus olhos azul-claros, provocantes e brilhantes. Os ombros dele eram largos e robustos e fortes as mãos. Vestia-se muito bem e usava graciosas gravatas adquiridas na Bond Street. Mas, mesmo na sua cara, podia detectar-se o olhar atento, a leve vacuidade de um aleijado.

            Estivera de tal maneira quase à beira de perder a vida, que aquilo que restava dela era para ele desmesuradamente precioso. Podia ver-se, no brilho ansioso dos seus olhos, como ele se sentia orgulhoso de si mesmo por estar vivo após tão grande choque. Mas havia sido tão dolorosamente ferido, que algo dentro dele morrera, alguns dos seus sentimentos tinham desaparecido. Havia um vazio de insensibilidade.

            Constance, a mulher de Clifford, tinha um ar de rapariga de campo, corada, com cabelo castanho e suave, um corpo robusto e movimentos lentos carregados de uma invulgar energia. Tinha uns olhos grandes e sonhadores e uma voz suave e doce. Parecia ter acabado de chegar da sua aldeia natal, mas não era. O pai de Constance era o velho Sir Malcolm Reid, que fora outrora bem conhecido por pertencer à Academia Real, a mãe fora um dos distintos membros da Sociedade Fabiana (1) do período florescente, mais exatamente do período pré-rafaelita.

 

[1. Sociedade fundada na Inglaterra em 1884 e que preconizava princípios da evolução progressiva. (N. da T)]

 

            Criadas entre artistas e socialistas cultos, Constance e a irmã, Hilda, tinham tido o que se poderá chamar uma educação estética, mas inconvencional. Haviam sido levadas, por princípios artísticos, a Paris, Florença e Roma; e, com outro, haviam sido levadas à cidade da Haia e a Berlim, a grandes convenções socialistas, onde os oradores falavam em todas as línguas civilizadas e onde ninguém se sentia intimidado.

            Assim, as duas raparigas, desde muito cedo, nem por sombras se manifestavam desconcertadas quer pela arte, quer pelas ideologias políticas. Essas coisas faziam parte do mundo delas. Eram ao mesmo tempo cosmopolitas e provincianas, com aquele provincianismo artístico que é compatível com os puros ideais sociais.

            Aos quinze anos tinham sido mandadas para Dresda, para estudar Música, entre outras coisas, e aí passaram uns tempos muito agradáveis. Viviam livremente entre estudantes, discutiam com os homens sobre assuntos filosóficos, sociológicos e artísticos, e eram tão boas como eles, ou melhores ainda, pelo fato de serem mulheres. E palmilhavam as florestas com jovens robustos, que traziam as suas guitarras, cantavam canções de Wandervogel, e eram livres, livres! Essa a grande palavra, num mundo sem barreiras, em florestas à luz da manhã, com rapazes sadios e vozes magníficas, livres de fazerem o que queriam, e, acima de tudo, de dizer o que queriam. Era a discussão o que mais interessava; o debate apaixonado, em que o amor era apenas um mero acessório.

            Ambas tiveram a sua tentadora história de amor aos dezoito anos. Os jovens com quem discutiam tão apaixonadamente, com quem cantavam e acampavam debaixo das árvores em completa liberdade, quiseram, evidentemente, relações amorosas. As raparigas estavam indecisas, mas era uma coisa de que se falava muito e parecia ser muito importante. E eles humildes e insistentes. Porque era que uma rapariga não se havia de se comportar como uma rainha e conceder as suas graças?

            E assim se deram, como mulheres, cada uma ao jovem com quem tinha discussões mais sutis e íntimas. As conversas, as discussões, eram o ponto importante. A relação amorosa e a ligação eram apenas uma espécie de retorno ao primitivo e constituíam anticlímax. Depois, gostaram menos dos rapazes, e quase sentiam um pouco de ódio, como se eles tivessem violado a sua intimidade, a sua liberdade interior. Porque, evidentemente, toda a dignidade e significado da vida de uma rapariga consistia na obtenção de uma liberdade absoluta, perfeita, pura e nobre. Que mais poderia significar a vida de uma rapariga, para além da rejeição de velhas e sórdidas ligações e emancipação de sujeições?

            E, apesar de ser possível sentimentalizar, a parte sexual foi sempre uma das mais antigas e sórdidas ligações e sujeições. Os poetas que a glorificaram eram na grande maioria homens e as mulheres sempre souberam que havia algo de melhor e mais nobre. E agora sabiam-no com maior certeza do que nunca. A bela e pura liberdade de uma mulher era infinitamente mais maravilhosa do que o amor-sexo. Lamentavelmente, os homens estavam muito atrasados em relação às mulheres nesse ponto. Insistiam no ato sexual como cães.

            E a mulher tinha de ceder. Um homem era como uma criança com os seus caprichos. A mulher tinha de lhe dar o que ele queria ou como uma criança tornar-se-ia provavelmente desagradável e agitar-se-ia com impaciência e estragaria o que podia ser uma ligação muito agradável. Mas a mulher podia dar-se a um homem sem que o seu eu interior livre cedesse, e a este ponto os poetas e os homens que falaram sobre o sexo não deram suficiente importância. Uma mulher podia conquistar um homem sem se atraiçoar, podia tê-lo sem se submeter ao seu poder, podia usar o sexo para exercer o seu poder sobre ele. Bastava retrair-se no ato sexual e deixá-lo terminar e esgotar-se sem ela ter a sua crise. E então ela podia prolongar o ato e alcançar o orgasmo e a sua crise, enquanto ele era apenas um instrumento.

            As duas irmãs tiveram a sua experiência amorosa na altura em que a guerra rebentou e tiveram de voltar apressadamente a Inglaterra. Nenhuma delas esteve apaixonada por um rapaz, a não ser que ele e ela estivessem verbalmente muito próximos, exceto quando lhes interessava profundamente falar um com o outro. A grande, espantosa, profunda e inacreditável emoção residia na discussão apaixonada com um jovem realmente inteligente, recomeçando hora a hora, dia após dia, e isto durante meses. Isso nunca elas tinham pensado que fosse possível até ao momento em que aconteceu! A promessa do Paraíso - "Terás homens com quem falar!" - nunca fora proferida. A promessa cumpriu-se antes de a conhecerem.

            E, depois destas discussões vivas e revitalizantes que estimulavam a intimidade e iluminavam o espírito, o sexo tornara-se mais ou menos inevitável. Acontecia. Assinalava o fim de um capítulo. Tinha também uma emoção própria: uma estranha vibração corporal, um espasmo final de auto-afirmação, como que a última palavra, excitante, muito semelhante à linha de asteriscos que se põe para indicar o fim de um parágrafo e uma interrupção no tema.

            Quando as raparigas regressaram das férias do Verão de 1913, Hilda tinha então vinte anos e Connie dezoito, o pai percebeu logo perfeitamente que elas tiveram a experiência amorosa.

            L'amour avait Passé Par là, (1) como se costuma dizer. Mas ele próprio era um homem com experiência e permitia que a vida seguisse o seu rumo. Enquanto a mãe, uma doente nervosa, nos últimos meses de vida, queria apenas que as filhas fossem "livres" e "se realizassem". Ela nunca o conseguira, isso fora-lhe negado. Só Deus sabia porquê, porque era uma mulher que tinha o seu próprio rendimento e o seu próprio rumo. Culpava o marido, mas na realidade era devido a uma velha impressão de autoridade gravada no espírito ou na alma de que não se conseguia libertar. Sir Malcolm, que permitia à sua mulher nervosa, hostil e corajosa, que se ocupasse dos seus assuntos, enquanto ele seguia o seu caminho, não tinha culpa.

 

            [1 "O amor tinha passado por lá." (N. da T)]

 

            Assim, as duas jovens eram "livres" e voltaram para Dresda e para a sua música, para a universidade, para os rapazes. Amavam-nos e eles amavam-nas com toda a paixão da atração mental. Todas as coisas maravilhosas que eles pensavam, e diziam, e escreviam, pensavam-nas, diziam-nas, e escreviam-nas para as raparigas. O jovem de Connie era músico, o de Hilda técnico. Eles viviam exclusivamente para elas, no que respeitava a espírito e a intelecto. Noutros pontos eram um pouco repelidos, embora não o soubessem.

            Era óbvio, olhando para eles, que conheciam o amor, isto é, tiveram a experiência física. É curiosa a sutil, mas inequívoca, transformação que isso provoca no corpo quer dos homens, quer das mulheres: a mulher floresce, as suas formas ficam mais redondas, as formas angulosas atenuam-se, a expressão torna-se inquieta ou triunfante; o homem torna-se mais calmo, mais interiorizado, e o contorno dos ombros e dos rins menos acentuado, mais hesitante.

            As duas irmãs quase sucumbiram ao poder estranho do macho, quando sentiram no corpo a excitação sexual. Mas rapidamente se recompuseram, encararam a excitação sexual como uma sensação e continuaram livres. Os homens, gratos às mulheres pela experiência física, deram-lhes um pouco das suas almas. Depois, pareciam mais uma pessoa que perde dez tostões e encontra cinco. O jovem de Connie tinha mau feitio e o de Hilda era trocista. Mas os homens são assim! Ingratos e sempre insatisfeitos; se não são aceitos, odeiam a mulher por não os aceitar; se o são, odeiam-na por qualquer outra razão, ou por nenhuma razão, porque são crianças descontentes e nada os satisfaz, por mais que a mulher faça.

            Todavia a guerra rebentou e Hilda e Connie regressaram apressadamente a Inglaterra, depois de já terem estado em casa em Maio para o funeral da mãe. Antes do Natal de 1914, os dois jovens já estavam mortos, e as irmãs choraram-nos e amaram-nos apaixonadamente, mas no fundo tinham-nos esquecido, já não existiam.

            As duas irmãs viviam na casa do pai, ou, melhor, da mãe, em Kensington. Davam-se com um jovem grupo de Cambridge que lutava pela "liberdade" e defendia as calças, camisas de flanela abertas no pescoço e uma espécie de cortês anarquia emocional. Tinham uma voz sussurrante de quem fala baixo e eram ultra-sensíveis. Hilda, porém, casou de súbito com um homem dez anos mais velho do que ela, dos mais velhos membros do mesmo grupo de Cambridge, um homem com bastante dinheiro e com um bom cargo oficial, que escrevia também ensaios filosóficos. Vivia com ele numa pequena casa em Westminster e começou a freqüentar aquele tipo de sociedade do meio governamental que não é exatamente o pináculo, mas que constitui, ou, pelo menos, deveria constituir, o poder realmente inteligente da nação: pessoas que sabem do que falam, ou falam como se assim fosse.

 

            Connie teve um emprego de guerra e ligou-se aos intransigentes, de calças de flanela do grupo de Cambridge, que sutilmente troçavam de tudo. O seu "amigo" era Clifford Chatterley, um jovem de vinte e dois anos, que regressara apressadamente de Bona, onde estudava as técnicas da exploração mineira do carvão. Antes estivera em Cambridge dois anos e agora era primeiro-tenente num regimento de escol. Assim podia escarnecer de tudo, mais elegantemente no seu uniforme.

            Clifford Chatterley era de melhor sociedade que Connie. Esta pertencia à intelectualidade próspera, mas ele era da aristocracia, não da alta, mas da aristocracia, de qualquer modo. O pai era baronete e a mãe filha de um visconde.

            Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido. Sentia-se à vontade no seu pequeno "grande mundo", isto é, entre a aristocracia da terra, mas tímido e nervoso perante esse outro grande mundo que consiste nas hordas das classes média e baixa e dos estrangeiros. Para dizer a verdade, ele tinha um pouco de receio da humanidade da classe média e baixa e dos estrangeiros que não pertenciam à sua classe. Estava consciente da sua impossibilidade de defesa, embora possuísse a defesa do privilégio. É curioso, mas é um fenômeno do nosso tempo.

            Assim, a suave autoconfiança de uma rapariga como Constance Reid fascinava-o. Ela era muito mais senhora de si mesma naquele mundo caótico do que ele.

            Todavia, também ele era um rebelde, rebelando-se até contra a sua classe. "Rebelde" talvez seja uma palavra forte demais. Ele apenas partilhava da aversão geral e popular dos jovens às convenções e a qualquer tipo de verdadeira autoridade. Os pais eram ridículos, o seu ainda mais por ser obstinado. E os governos eram ridículos, e o nosso principalmente por manter uma atitude de expectativa. E os exércitos eram ridículos, assim como os antiquados generais, o mais importante de todos o corado Kjtchner. Até a guerra era ridícula, embora matasse muita gente.

            De fato, tudo era um pouco ridículo, ou muito ridículo: tudo aquilo relacionado com autoridade, quer fosse no exército, no governo ou nas universidades, era muitíssimo ridículo. E, na medida em que as classes dirigentes tinham pretensões de governar, eram também ridículas. O pai de Clifford, Sir Geoffrey, era bastante ridículo a deitar abaixo as árvores e a expulsar os homens da mina de carvão para os mandar para a guerra, sendo ele tão prudente e patriota, e ao mesmo tempo gastando mais dinheiro do que possuía para bem da pátria.

            Quando Miss Chatterley chegou a Londres, vinda dos Midlands, para trabalhar como enfermeira, era discretamente muito espirituosa quando falava de Sir Geoffrey e do seu patriotismo decidido. Herbert, o irmão mais velho e herdeiro, ria abertamente, embora fossem as suas árvores que caíssem para fazer as trincheiras da propriedade, mas Clifford só sorria, um pouco constrangido. De fato, tudo é ridículo, mas quando nos começa a tocar de mais perto tornamo-nos também ridículos... Pelo menos, pessoas de outra classe, como Connie, eram honestas em alguma coisa, acreditavam em alguma coisa.

            Eram honestas em relação ao problema dos "Tommies", e à ameaça de recrutamento e à escassez de açúcar e de caramelos para as crianças. Evidentemente, que por este estado de coisas as autoridades estavam a laborar ridiculamente num erro. Mas Clifford não podia tomar isto muito a peito; para ele, as autoridades eram ridículas não por causa dos caramelos ou dos "Tommies".

            E as autoridades sentiam-se ridículas e comportavam-se de uma forma bastante ridícula, e tudo aquilo pareceu durante algum tempo uma festa em casa de um louco. Até que as coisas chegaram a este ponto no continente, e Lloyd George vinha salvar a situação na ilha. Isto ultrapassava os limites do ridículo, os jovens irreverentes deixaram de rir.

            Em 1916 Herbert Chatterley foi morto; assim, Clifford passou a ser o herdeiro. Até com isso ficou aterrorizado, a sua importância como filho de Sir Geoffrey e senhor de Wragby estava tão arraigada nele que não se podia libertar. E, apesar de tudo, sabia também que isto era ridículo aos olhos do imenso mundo em agitação. Agora era herdeiro e responsável por Wragby. Era uma situação terrível e esplêndida e, ao mesmo tempo, talvez, profundamente absurda.

            Sir Geoffrey não compreendia o absurdo de tudo aquilo. Era pálido e tenso, reservado, obstinadamente decidido a salvar o seu país e a sua posição, fosse Lloyd George quem fosse. Estava tão isolado, tão separado daquela Inglaterra que era a verdadeira Inglaterra, tão profundamente incapacitado, que tinha mesmo boa opinião de Horatio Bottornley. Sir Geoffrey lutava pela Inglaterra e por Lloyd George como os seus antepassados tinham lutado pela Inglaterra e por São Jorge, e nunca compreendeu que havia uma diferença. Assim, Sir Geoffrey deitava as suas árvores abaixo e defendia Lloyd George e a Inglaterra, a Inglaterra e Lloyd George.

            E queria que Clifford casasse e lhe desse um herdeiro. Clifford reconhecia que o pai era um anacrônico incurável, mas o único ponto em que estava mais evoluído era exatamente no sentido de ridículo em relação a todas as coisas, e no imenso ridículo da sua própria posição. Porque, quer fosse desejado ou indesejado, assumiu a baronia e Wragby com a maior seriedade.

            O entusiasmo alegre da guerra desaparecera. Morrera. Havia demasiada morte e horror. Um homem precisava de apoio e de conforto, tinha necessidade de uma âncora num mundo seguro. Um homem precisava de uma esposa.

            Os Chatterley, dois irmãos e uma irmã, por estranho que pareça, tinham vivido sempre isolados, fechados em conjunto em Wragby, apesar de todas as suas relações pessoais. Uma sensação de isolamento reforçara os laços de família, uma sensação de fragilidade da sua posição, de carência de defesas, apesar do título e da propriedade, ou talvez por causa disto. Viviam afastados desse Midlands industrial no qual tinham passado as suas vidas. Viviam afastados das pessoas da sua classe, pelo carácter instável, obstinado, taciturno, de Sir Geoffrey, o pai, de quem escarneciam, mas a quem eram muito sensíveis.

            Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e Sir Geofrey queria que Clifford casasse. Sir Geoffrey mal tocava no assunto, falava muito pouco. Mas a insistência silenciosa, melancólica, de que assim deveria ser fora para Clifford difícil de suportar.

            Mas Emina disse "Não!". Era dez anos mais velha do que Clifford e sentia que o casamento dele seria uma deserção e uma traição a tudo aquilo por que tinham lutado os jovens da família.

Apesar disso, Clifford casou com Connie e teve o seu mês de lua-de-mel com ela. Foi no terrível ano de 1917, e viviam tão intimamente como duas pessoas que se mantêm unidas num navio prestes a afundar-se. Ele era virgem quando casou e a parte sexual não tinha para ele grande significado. Eram tão íntimos, ele e ela, independentemente disso! E Connie sentiu-se feliz com essa intimidade que estava para além do sexo, para além da "satisfação" do homem; Clifford, de qualquer forma, interessava-se menos por essa satisfação do que a maior parte dos homens. Não, a intimidade era mais profunda, mais pessoal do que isso, e o sexo era apenas um acidente, ou um complemento, um desses processos curiosamente obsoletos, orgânicos, que persistem na sua própria inépcia, mas não são na realidade necessários. Connie, porém, queria filhos, quanto mais não fosse para a proteger contra a cunhada Emina.

            Mas, nos princípios de 1918, Clifford foi reenviado para Inglaterra aos poucos, e não haveria filhos. E Sir Geoffrey morreu de desgosto.

            Connie e Clifford foram para Wragby no Outono de 1920. Miss Chatterley, indignada ainda com a deserção do irmão, tinha saído de casa e vivia num pequeno apartamento em Londres.

            Wragby era uma casa comprida, baixa e antiga de pedra castanha, principiada a construir nos meados do século XVIII e sucessivamente aumentada, sem no entanto ter um estilo definido. Edificada numa elevação no meio de um parque antigo e belo com carvalhos, mas podia-se ver a pouca distância a chaminé da hulheira de Tevershall, com as suas nuvens de vapor e fumo e, na distância úmida e enublada da colina, a aldeia de Tevershall toscamente dispersa, uma aldeia que começava quase nos portões do parque e se estendia numa grande extensão sinistra, feia e profundamente esmagadora: casas, filas de pequenas casas de tijolo, miseráveis, pequenas, enegrecidas, com telhados pretos de ardósia, com ângulos pontiagudos e de aspecto sombrio, intencional e inexpressivo.

            Connie estava habituada a Kensington, ou às colinas da Escócia, ou às dunas do Sussex: esta era a sua Inglaterra! Com o estoicismo dos jovens, aceitou imediatamente a fealdade extrema, desumana dos Midlands de carvão e ferro. Era incrível, e não valia a pena pensar nisso. Das divisões sombrias de Wragby ela ouvia o chocalhar dos crivos na mina, o barulho do motor do guindaste, o estalido das camionetas em manobras e o desgarrado e enrouquecido apito das locomotivas de carvão. O silo do poço de Tevershall estava a arder havia anos, e custaria milhares para o extinguir. Por isso tinha de arder. E quando o vento soprava desse lado, o que era freqüente, a casa enchia-se do cheiro pestilento da combustão sulfurosa do excremento da terra. Mas, mesmo nos dias sem vento, havia sempre o cheiro a qualquer coisa debaixo da terra: enxofre, ferro, carvão ou ácido. E até sobre as rosas do Natal se fixava a fuligem persistente e inconcebivelmente, como se fosse um maná negro de um céu maldito.

            Bem, assim era, estava escrito como todo o resto. Era terrível, mas para quê resistir? Não era possível, tinha de se continuar. A vida como sempre. No céu baixo e negro da noite havia manchas vermelhas de fogo que iluminavam, oscilavam, tornando-se nítidas, cresciam e contraíam-se, como queimaduras que fazem sofrer. Eram as fornalhas. A princípio fascinaram Connie, mas sentia ao mesmo tempo pavor, tinha a impressão de estar a viver debaixo da terra, depois habituou-se a elas. De manhã chovia sempre.

            Clifford dizia que gostava mais de Wragby do que de Londres. Aquela região tinha uma determinação própria, inflexível, e os habitantes eram corajosos. Connie perguntava a si mesma se teriam algo mais: olhos e espírito não tinham com certeza. As pessoas eram tão pálidas, disformes, tristes e hostis como a terra. Só na dureza do seu dialeto e no malhar das botas mineiras, ferradas, quando em grupo se arrastavam no asfalto em direção a casa vindos do trabalho, havia qualquer coisa de terrível e de misterioso.

            Não houve boas-vindas para o jovem fidalgo, nem festa, nem delegação, nem mesmo uma simples flor. Somente uma viagem úmida de carro através de uma estrada sombria e úmida, que desaparecia por entre as árvores tristes e reaparecia na vertente do parque, onde carneiros cinzentos e úmidos pastavam, até chegar ao cimo do monte, onde a casa estendia a sua fachada castanha-escura e a governanta e o marido esperavam, como caseiros indecisos, prontos a balbuciar as boas-vindas.

            Não havia comunicação entre Wragby Hall e a aldeia de Tevershall, nenhuma. Nem saudações, nem reverências. Os mineiros apenas olhavam, os comerciantes tiravam os bonés a Connie como a uma pessoa conhecida e baixavam a cabeça desajeitadamente a Clifford. E era tudo. Havia um abismo intransponível e um tranqüilo ressentimento de parte a parte. Ao princípio, Connie sentiu-se afetada com os laivos constantes de ressentimento que a aldeia manifestava. Depois tornou-se insensível e passou a ser como um tônico aquilo com que era obrigada a viver. Ela e Clifford não eram de modo nenhum impopulares, mas pertenciam a uma espécie diferente da dos mineiros. Havia um abismo intransponível, uma brecha indescritível, talvez como riem sequer exista no sul de Trent. Mas nos Midlands e o Norte industrial havia um abismo tal que era impossível uma comunicação. "Fica no teu lugar que eu fico no meu!" Uma estranha recusa do pulso comum da humanidade.

            No entanto, a aldeia gostava de Clifford e de Connie, num plano abstrato. Na carne, de cada lado era "Deixem-me em paz".

            O reitor era um homem simpático, de cerca de sessenta anos, sempre ocupado com os seus deveres, e reduzido como pessoa quase a uma insignificância pelo silencioso "Deixem-me em paz" dos aldeões. As mulheres dos mineiros eram quase todas metodistas, os mineiros não eram nada. Mas até o uniforme oficial do clérigo era o suficiente para ocultar a realidade de que ele era um homem como qualquer outro. Não, ele era o senhor Ashby, uma espécie de obrigação automática, para pregar e orar.

            Esta teimosia, tendência de pensar sempre "Somos tão boas como tu, Lady Chatterley", nos primeiros tempos confundia e desorientava Connie profundamente. A amabilidade curiosa, desconfiada, falsa, com que as mulheres dos mineiros lhe correspondiam; e o tom estranhamente ofensivo de "Valha-me Deus! Agora sou alguém, porque a Lady Chatterley falou comigo! Mas ela que não pense que vale mais do que eu" que ela sempre ouvia vibrar nas vozes, quase aduladoras, das mulheres, eram impossíveis de suportar. Era impossível de transpor esta barreira. Era irremediável e ofensivamente não conformista. Clifford deixava-as em paz, e ela aprendeu a fazer o mesmo.

            Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso, impedindo imediatamente toda a cordialidade. Na realidade era sempre assim com pessoas de outra classe. Mantinha-se firme sem fazer qualquer tentativa de conciliação. O povo não gostava nem desgostava dele, apenas fazia parte das coisas como a própria mina e Wtagby.

            Mas Clifford, desde que ficara estropiado, era extremamente tímido e embaraçado. Odiava ver pessoas a não ser os seus criados, porque tinha de estar sentado numa cadeira de rodas. Todavia vestia-se com a mesma elegância de sempre, ternos feitos por caros alfaiates e as habituais gravatas da Bond Street, e, sentado, parecia tão elegante e distinto como sempre. Nunca fora um dos jovens modernos, efeminado; até bastante bucólico, com o seu rosto corado e ombros largos. Mas a sua voz suave, hesitante, e os olhos ao mesmo tempo corajosos e assustados, firmes e inseguros, revelavam a sua natureza. A sua maneira de ser era muitas vezes ofensivamente arrogante, e, logo a seguir, modesta e humilde, quase trêmula.

            Connie e Clifford estavam ligados um ao outro à maneira moderna, distraída. Ele estava demasiado machucado pelo choque que sofrera, ficar aleijado, para poder ser simples e superficial. Era uma coisa magoada e Connie por isso mesmo era-lhe apaixonadamente fiel.

            Mas não podia deixar de sentir que ele tinha realmente pouca ligação com as pessoas. Os mineiros eram, de certo modo, os seus homens, mas considerava-os mais como objetos do que como homens, partes da mina e não partes da vida, mais um fenômeno rude e natural do que seres humanos. De certa maneira, receava-os, não podia suportar que eles o observassem agora, que estava aleijado. E a vida deles, estranha e rude, parecia-lhe tão anormal como a do ouriço-cacheiro.

Era um homem remotamente interessado, como se visse tudo por um microscópio ou por um telescópio. Estava de fora. Estava afastado de todos, exceto de Wragby, por tradição, e, por um laço estreito de defesa familiar, de Emina. Para além disto, nada realmente o tocava. Connie sentia que estava longe dele, talvez porque não havia nada entre os dois, só a negação do contato humano.

No entanto, ele era totalmente dela, precisava dela em todos os momentos. Embora grande e forte, não podia fazer nada. Podia deslocar-se na cadeira de rodas e na cadeira de três rodas com motor, que lhe permitia passear lentamente pelo parque. Mas sozinho era como uma coisa perdida; precisava que Connie estivesse com ele, para lhe garantir que ainda existia.

            Todavia, era ambicioso. Tinha começado a escrever histórias, histórias curiosas, muito pessoais, sobre pessoas que conhecera. Inteligentes, um pouco malévolas e, no entanto, estranhamente vazias de significado. A observação era extraordinária e peculiar, mas sem ligação, sem contato real, era como se toda a ação se passasse no vácuo. E porque a vida hoje é muito semelhante a um palco artificialmente iluminado, as histórias eram curiosamente fiéis à vida moderna, à moderna psicologia.

            Clifford era sensível às histórias de um modo quase doentio. Queria que todos as considerassem de boa qualidade, da melhor, neplus ultra. Foram publicadas nas revistas mais modernas, e como é habitual foram elogiadas e censuradas. Mas para Clifford a censura era uma tortura, como se fossem facas a picá-lo, era como se todo o seu ser estivesse nas suas histórias.

            Connie ajudava-o no que podia. A princípio entusiasmara-se. Discutia com ela sobre tudo, numa voz monótona, insistente, persistente, e ela tinha de responder com todo o seu entusiasmo. Era como se toda a sua alma, o seu corpo e o seu sexo tivessem de despertar e passar para as histórias. Isto apaixonava-a e absorvia-a.

            A vida material era limitada. Ela tinha de dirigir a casa, mas a governanta trabalhara para Sir Geoffrey durante muitos anos, e a mulher que servia à mesa, seca, de certa idade, extremamente correta - a quem não se podia chamar criada de sala, nem mesmo mulher -, estava naquela casa havia quarenta anos. Até as outras criadas já não eram novas. Um horror! Que se poderia fazer em semelhante lugar, a não ser deixar as coisas como estavam? Todos aqueles salões enormes de que ninguém se servia, toda a rotina dos Midlands, o asseio e a ordem mecânicos! Clifford insistira em ter uma nova cozinheira, uma mulher bastante experiente que tinha sido sua criada em Londres. Tudo no solar parecia dirigido por uma anarquia mecânica. As coisas decorriam em perfeita ordem, dentro de uma limpeza e pontualidade estritas, e até de uma estrita honestidade. E, todavia, para Connie era uma anarquia metódica, nenhum calor humano a unia intrinsecamente. A casa parecia tão lúgubre como uma rua abandonada.

            Que poderia ela fazer senão deixar as coisas continuarem como antes? E assim fez. Miss Chatterley aparecia de vez em quando, com o seu rosto aristocrático e magro, e exultava ao ver que nada se tinha alterado. Nunca perdoaria a Connie por a ter despojado da sua união psicológica com o irmão. Deveria ser ela, Emina, a produzir esses contos, esses livros, com ele. Os contos Chatterley, algo de novo no mundo, e que era deles, dos Chatterley. Não existia nada que os tivesse precedido, nem nenhuma ligação orgânica, quer de pensamento, quer de expressão. Apenas algo de novo no mundo: os livros Chatterley, inteiramente pessoais.

            O pai de Connie, quando fez uma visita rápida a Wragby, disse à filha, a sós: "Aquilo que Clifford escreve está em voga, mas é vazio. Não terá futuro!". Connie olhou para aquele cavalheiro escocês corpulento, que sempre vivera bem, e os seus olhos, os seus grandes olhos azuis espantados, tornaram-se vagos. Vazio! Que quereria ele dizer com vazio? Se os críticos elogiaram, e o nome era quase famoso, e já ganhava até dinheiro com o que escrevia... que quereria o pai dizer com o "vazio" dos seus contos? Que é que lhes faltava?

            Connie adotara o lema das jovens: o momento presente era tudo. E os momentos sucediam-se sem relação necessária uns com os outros.

            No segundo Inverno passado em Wragby, o pai disse-lhe:

            - Espero, Connie, que não permitas que as circunstâncias te obriguem a ser uma demí-vierge.

            - Demi-víerge!- repetiu Connie, num tom vago. - Porquê? Porque não?

            - A não ser que gostes, evidentemente - respondeu o pai com vivacidade.           Depois disse o mesmo a Clifford, estando os dois a sós:

            - Receio que Connie não seja do tipo de mulher que se adapte a uma demi-vierge.

            - Semivirgem - repetiu Clifford, traduzindo, para ter certeza da expressão.

            Pensou por uns momentos, depois ficou muito vermelho. Estava zangado e ofendido.

            - Em que é que não se adapta a ela? - perguntou, num tom duro.

            - Está a ficar magra... angulosa. Não é o estilo dela. Não é do gênero de mulher magra como uma solha, é uma truta escocesa das grandes.

            - Sem as manchas, evidentemente - respondeu Clifford. Mais tarde quis falar no assunto a Connie, da história da demi-vierge, do estado de semivirgindade das suas relações, mas não foi capaz. Era, ao mesmo tempo, demasiado íntimo com ela e não suficientemente íntimo para o fazer. Espiritualmente, os dois eram como se fossem um só, mas, corporalmente, não existiam, e nenhum deles seria capaz de falar no corpus delicti. Eram muito íntimos e muito intocáveis.

            Connie sabia no entanto que o pai tinha dito alguma coisa, e que essa coisa estava na mente de Clifford. Sabia que ele não se importava que ela fosse meio virgem ou meio mundana, desde que ele o ignorasse completamente e nunca fosse obrigado a saber.

            O que os olhos não vêem, o espírito não conhece: não existe.

            Connie e Clifford viviam já há quase dois anos em Wragby, aquela vida vaga de absorção por Clifford e pelo seu trabalho. Os seus interesses eram todos canalizados para a sua obra. Conversavam e discutiam na angústia da composição, e sentiam que algo se estava a passar, realmente, que preenchia todo o vazio.

            E a vida era isto: vazio. Todo o resto não existia. Wragby estava ali com os criados... somente espectros inexistentes. Connie dava passeios no parque e na floresta próxima, e desfrutava a solidão e o mistério. Pisava as castanhas folhas de Outono e colhia as primaveras. Mas tudo era um sonho, ou um simulacro da realidade. As folhas de carvalho pareciam-lhe agitar-se, refletidas num espelho, ela própria era uma figura tirada de um livro, e que colhia primaveras que eram apenas sombras ou recordações ou palavras. Não havia substância à sua volta, nada... nada para tocar, nenhum contato. Somente aquela vida com Clifford, aquele entrelaçar permanente de fios de histórias, das minúcias da consciência, aquelas histórias que Sir Malcolm considerava vazias e efêmeras. Porque é que haviam de ter conteúdo e porque é que haviam de ser duradouras? Cada dia tem o seu calvário. Cada momento, a sua aparência de realidade.

            Clifford tinha bastante amigos, mais conhecidos do que amigos, que convidava para Wragby. Convidava todos os tipos de pessoas, críticos, escritores, pessoas que contribuiam para que os seus livros fossem elogiados. Todos se sentiam lisonjeados pelo convite para Wragby, e elogiavam realmente. Connie entendia tudo perfeitamente. Mas porque não? Era uma das transitórias imagens do espelho. Não via nisso nenhum inconveniente.

            Recebia todas aquelas pessoas, na sua maioria homens. Recebia igualmente as poucas relações aristocráticas de Clifford. Com a sua doçura e o seu bom aspecto de rapariga do campo, com tendência para as sardas, com os grandes olhos azuis e o cabelo castanho encaracolado e uma voz suave, o torso feminino, mas forte, era considerada um pouco antiquada e demasiado "feminina". Não era "um esqueleto", nem tinha peito e nádegas de rapazinho. Era demasiado mulher para ser completamente elegante.

            Por isso os homens, especialmente os não jovens, eram muito gentis para com ela. Mas, sabendo a tortura que Clifford poderia sentir à menor suspeita de devaneio amoroso da sua parte, não lhes dava absolutamente nenhum encorajamento. Era tranqüila e distante, não tinha nenhum contato com eles nem tencionava tê-lo. Clifford sentia-se extraordinariamente orgulhoso.

            A família de Clifford tratava-a de uma forma muito gentil. Sabia que essa gentileza não era mais do que falta de medo, pois esse tipo de pessoas só respeitam aqueles que receiam. Também não tinha contato com eles, deixava-os ser amáveis e desdenhosos, deixava-os sentir que não precisavam de se pôr em defesa. Estava completamente longe deles.

            O tempo passava. Tudo o que acontecia não era nada, porque ela estava fora de todas as coisas. Ela e Clifford viviam as suas idéias e os livros dele. Ela recebia, pois havia sempre visitas em casa. O tempo passava, como num relógio. Eram oito e meia em vez de sete e meia.

 

            Connie, contudo, sentia dentro de si uma inquietação crescente. Em virtude do seu afastamento de todas as coisas, uma inquietação apossava-se dela como se fosse demência, contraía-lhe os membros quando não queria, fazia-a levantar-se quando preferia ficar confortavelmente sentada; vibrava dentro dela, no ventre, por todo o corpo, até sentir que tinha de se atirar à água para se libertar. Era uma inquietação exasperada. Fazia bater o coração com muita força e sem razão. E estava a emagrecer.

            Era apenas inquietação. Queria correr pelo parque, abandonar Clifford e deitar-se de barriga para baixo nos fetos. Fugir daquela casa, tinha de fugir daquela casa e das pessoas. O bosque era o seu único refúgio, o seu santuário.

            Mas não era realmente um refúgio, um santuário, porque ela não tinha nada a ver com ele. Era apenas o lugar para onde podia ir libertar-se do resto. Nunca esteve em contato com o espírito do bosque, se é que tal absurdo existia.

            Sabia vagamente que, de certo modo, se estava a desfazer física e mentalmente. Sabia vagamente que estava fora de tudo, que tinha perdido o contato com o mundo real e vital. Só Clifford e os seus livros, que não existiam, vazios por dentro do vazio. Tinha consciência de tudo isto, vagamente. Mas era como bater com a cabeça contra uma pedra.

            O pai voltou a avisá-la: "Porque não arranjas um apaixonado, Connie? Aproveita o que há de bom na vida".

            Nesse Inverno, Michaelis veio passar alguns dias em Wragby. Era um jovem irlandês, que já tinha feito fortuna com as suas peças na América. Fora apoiado muito entusiasticamente por uns tempos pela alta sociedade de Londres, porque escrevia peças de salão. Depois, gradualmente, essa mesma sociedade foi percebendo que tinha sido ridicularizada por um rato sujo das ruas de Dublim, e a reação súbita sobreveio. Michaelis era a última palavra em grosseria e má-criação. Descobriu-se que ele assumia uma posição antibritânica, e para a classe que tinha feito esta revelação, era pior do que o crime mais condenável. Foi completamente ignorado e o seu cadáver lançado à lata do lixo.

            Apesar disso, Michaelis tinha o seu apartamento em Mayfair, e a imagem de um cavalheiro descia a Bond Street, porque nem os melhores alfaiates põem de parte os clientes grosseiros quando estes pagam.

            Clifford convidava um homem de trinta anos no momento menos auspicioso da sua carreira. Mas, apesar de tudo, Clifford não hesitou. Michaelis captara as atenções de talvez um milhão de pessoas, provavelmente, e, sendo um intruso sem remissão, sem dúvida ficaria grato pelo convite para Wragby no momento em que todo o mundo elegante o repudiava. Sem dúvida que a sua gratidão só poderia trazer "vantagens" a Clifford, do lado de lá, na América. Glória! Um homem consegue a glória, seja ele o que for, se se falar dele da maneira certa, especialmente "do lado de lá". Clifford era um homem de futuro, e era notável o seu profundo instinto de publicidade. Afinal retratou-o magnificamente numa peça, e Clifford era uma espécie de herói popular. Até ao dia em que descobriu que tinha sido ridicularizado.

            Connie estranhava um pouco a tendência cega, imperiosa de Clifford de se tornar conhecido, conhecido nesse mundo vasto e amorfo, que ele próprio não conhecia e que receava com inquietação; ser conhecido como escritor, como escritor moderno de primeira classe. Connie sabia, pelo afortunado, velho, vigoroso e bonacheirão Sir Malcolm, que os artistas faziam a sua própria publicidade e se esforçavam por exportar as suas obras. Mas o pai servia-se de vias já preparadas, que eram de todos os outros acadêmicos que vendiam os seus quadros, enquanto Clifford descobria novas vias de publicidade, quaisquer que fossem. Convidava todos os tipos de pessoas para Wragby, sem no entanto se rebaixar. Mas, decidido a conseguir rapidamente uma reputação, servia-se de tudo o que estivesse ao seu alcance.

            Michaelis chegou no momento oportuno, num bom carro, com o seu motorista e um criado. Era incontestavelmente um homem de Bond Street ! Mas, ao vê-lo, Clifford, que tinha qualquer coisa de fidalgo rural, retraiu-se. Ele não era de modo nenhum... não era exatamente... de fato, em suma, não era como pretendia parecer, atendendo à sua aparência. Para Clifford isto era decisivo e suficiente. Apesar de tudo foi muito delicado, porque ele alcançara um êxito extraordinário. A Glória, a deusa-cadela, como se costuma chamar, andava à volta dos pés de Michaelis, quase humildes e provocadores, ao mesmo tempo rosnadora e protetora, e isso intimidava totalmente Clifford, porque ele também se queria prostituir à Glória, deusa-cadela, se ela o aceitasse.

            Obviamente que Michaelis não era inglês, apesar dos alfaiates, chapeleiros, barbeiros e sapateiros do melhor bairro de Londres. Não, era óbvio que ele não era inglês, tinha uma cara fora do comum, pálida e uniforme, e um rancor também fora do comum. Mostrava ressentimento e rancor, e isso era evidente para qualquer cavalheiro de genuíno sangue inglês, que nunca permitiria que tais sentimentos transparecessem. Pobre Michaelis, tinha sido tão maltratado, que ainda não perdera um certo ar de cauda entre as pernas. Tinha aberto o seu caminho por puro instinto e total ousadia até à cena, à boca da cena, com as suas peças. Tinha surpreendido o público e pensara que os maus dias tinham acabado. Mas não, nunca acabariam. De certo modo fazia os possíveis por ser maltratado, porque se imiscuía num meio a que não pertencia: a alta sociedade inglesa. E divertia-se com os pontapés que lhe dava. E ele odiava-a.

            Mesmo assim viajava com o criado e num bom carro, esse vadio de Dublim.

            Havia qualquer coisa nele que Connie apreciava. Não se fazia importante, não tinha ilusões sobre si próprio. Conversava com Clifford de maneira delicada, breve, prática sobre tudo que este queria saber. Não se expandia nem se deixava entusiasmar. Sabia que tinha sido convidado para Wragby para ser usado, e, como um velho homem de negócios, esperto e indiferente, como um importante homem de negócios, permitia que o interrogassem e respondia sem que os seus sentimentos interferissem.

            - Dinheiro! O dinheiro é uma espécie de instinto, uma das características da natureza humana é fazer dinheiro. Não tem nada a ver com o que uma pessoa faça, nem é um jogo. É uma espécie de acidente permanente da nossa própria natureza. Quando se começa, faz-se dinheiro e não se pára mais, até um determinado ponto, é claro.

            - Mas e preciso começar - respondeu Clifford.

            - Oh, absolutamente, é preciso entrar na roda, quando se está de fora não se consegue nada. Tem de se lutar para entrar, e uma vez que o tenha conseguido, é inevitável.

            - Mas poderia ter ganho dinheiro sem as peças?

            - Oh, provavelmente não! Posso ser bom ou mau, mas sou escritor, um escritor teatral, e não podia ser outra coisa. Disso não tenho a menor dúvida.

            - E acha que tem de ser um autor de peças para o grande público? - perguntou Connie.

            - É esse exatamente o ponto! - respondeu Michaelis, voltando-se para ela, num impulso súbito. - Tudo isso não significa nada. A popularidade não significa nada, nem o grande público, se quiser. Realmente não há nada nas minhas peças que as torne populares, não é isso. São apenas como o tempo... São como têm de ser, pelo menos por agora.

            Olhou para Connie e os seus olhos um pouco rasgados e a expressão lenta eram de quem se tivesse afogado numa desilusão abismal. Ela sentiu um estremecimento. Parecia muito velho, infinitamente velho, formado por camadas de desilusão, afundando-se dentro dele geração após geração, como os estratos geológicos. E, ao mesmo tempo, estava perdido como uma criança. Um proscrito, de certo modo, mas com a coragem desesperada de uma existência de ratazana.

            -   Pelo menos é extraordinário o que você já fez, com a sua idade - disse Clifford, pensativo.

            - Tenho trinta anos, sim, trinta! - respondeu Michaelis, de maneira ríspida e brusca, com um riso estranho, ao mesmo tempo profundo, triunfantemente amargo.

            - E está só? - perguntou Connie.

            - Que é que quer dizer? Se vivo só? Tenho o meu criado, é grego, ele assim o afirma, e é bastante incompetente. Mas conservo-o. E vou casar. Ah, sim, tenho de casar.

            - Parece que está a falar de uma operação às amígdalas - disse Connie, a rir-se. - Tem de fazer esforço?

            Ele olhou para ela com admiração.

            - Bem, Lady Chatterley, de certo modo tenho. Acho... desculpe... acho que não me poderia casar com uma inglesa, nem mesmo com uma irlandesa.

            - Experimente com uma americana! - disse Clifford.

            - Oh, as americanas! - respondeu, com um grande sorriso.

            - Não, pedi ao meu criado que me encontrasse uma turca, ou coisa assim... mais oriental.

            Connie estava realmente impressionada com este curioso e melancólico espécime, com um êxito extraordinário. Dizia-se que, só da América, tinha um rendimento de cinqüenta mil dólares. Por vezes era atraente, outras, quando olhava de lado ou para baixo, e a luz incidia nele, tinha uma beleza silenciosa e persistente, como uma máscara de um negro esculpida em marfim, com os seus olhos muito rasgados, as sobrancelhas pronunciadas, curiosamente arqueadas, a boca imóvel e contraída. Aquela imobilidade momentânea, mas expressa, aquela imobilidade e intemporalidade a que o Buda aspira e que os negros possuem por vezes, sem querer. Qualquer coisa de velho, de velho e aquiescente, própria da raça. Séculos de aquiescência como destino de raça, em vez da nossa resistência individual. E depois uma travessia a nado como fazem os ratos num rio escuro. Connie sentiu uma súbita e estranha simpatia por ele, feita de compaixão, e com uma tonalidade de repulsa, quase amor.

            O intruso! O intruso! E chamavam-lhe pretensioso! Clifford parecia muito mais pretensioso e convencido! E muito mais estúpido.

            Michaelis percebeu imediatamente que a tinha impressionado. Olhava-a com os seus olhos rasgados, cor de avelã, ligeiramente salientes, com uma expressão de pura indiferença. Estava a avaliá-la e a avaliar a impressão que despertara. Com ingleses ele nunca podia deixar de ser o eterno intruso, mesmo tratando-se de amor. No entanto, algumas vezes, as mulheres cediam, e as inglesas também.

            Sabia exatamente a sua posição em relação a Clifford. Eram dois cães de raça diferente que teriam preferido rosnar, e que, pela força das circunstâncias, sorriam um para o outro. Mas, em relação à mulher, não estava seguro.

            O pequeno-almoço era servido nos quartos; Clifford nunca aparecia antes do almoço e a sala de jantar era um pouco lúgubre. Depois do café, Michaelis, bastante inquieto, perguntava a si próprio o que havia de fazer. Era um lindo dia de Novembro, bonito para Wragby. Olhou para o melancólico parque. Meu Deus, que lugar!

            Mandou uma criada perguntar a Lady Chatterley se precisava de alguma coisa. Pensou ir de carro até Sheffield. A resposta chegou. Lady Chatterley convidava-o para a sua sala.

            Connie tinha uma sala de estar no terceiro andar, o último da parte central da casa. Os aposentos de Clifford eram, evidentemente, no rés-do-chão. Michaelis estava lisonjeado por ter sido convidado e seguiu a criada como se fosse cego, nunca reparava nas coisas, nem tinha contato com que o rodeava. Na sala relanceou vagamente os olhos pelas belas reproduções alemãs de Renoir e Cézanne.

            - Isto aqui é muito agradável - comentou, com o seu estranho sorriso, mostrando os dentes, como se lhe doesse sorrir. Fez muito bem em ter escolhido o último andar.

            - Também acho - respondeu ela. Os seus aposentos eram os únicos alegres e modernos na casa, o único lugar em Wragby, onde a sua personalidade se revelava. Clifford não os conhecia e eram poucas as pessoas que ela recebia ali.

            Sentaram-se em frente um do outro, um de cada lado do fogão de sala e conversaram. Ela fez-lhe perguntas de ordem pessoal, sobre a mãe e o pai e os irmãos, as outras pessoas eram sempre para ela uma surpresa, e, quando a sua simpatia era despertada perdia o sentimento de classe. Michaelis falou dele com inteira franqueza, sem afetação, revelando simplesmente a sua alma de cão perdido, azeda e indiferente, e, ao mesmo tempo, qualquer coisa do seu orgulho vingativo pelo êxito que alcançara.

            - Mas porque é tão solitário? - perguntou-lhe Connie, e ele voltou a olhá-la com os seus olhos rasgados, penetrantes, cor de avelã.

            - Algumas pessoas são assim - replicou. E depois com uma ironia quase íntima: - E você? Não será também uma solitária?

            Connie, um pouco surpreendida, pensou por instantes e acabou por responder.

            - De certo modo, sim. Mas não totalmente como você.

            - Sou totalmente solitário? - perguntou ele, com aquele sorriso rasgado, como se tivesse dor de dentes, era tão forçado. Os seus olhos nunca mudavam, sempre melancólicos, ou estóicos, ou desiludidos, ou receosos.

            - Porquê? - perguntou ela, quase sem respirar, enquanto o fitava. - E não é?

            Sentiu uma terrível atração por ele, que quase a fez perder o equilíbrio.

            - Sim, tem razão - respondeu, virando a cabeça para outro lado, olhando de lado e desviando o olhar, com aquela imobilidade estranha de uma raça antiga que dificilmente se encontra no nosso tempo. Era exatamente isso que impedia Connie de o encarar friamente.

            Olhou para ela com aqueles olhos que viam tudo e tudo registravam. Nesse momento, a criança que gritava na noite, que gritava no seu peito e chamava por ela, afetava-a profundamente.

            - É muito gentil da sua parte pensar em mim - disse laconicamente.

            - Porque é que não havia de pensar em si? - exclamou ela, quase ofegante.

            Ele riu, de maneira estranha e rápida, num riso de troça.

            - Bem, dessa forma! Posso pegar na sua mão por um minuto? - perguntou, de repente, fixando os seus olhos nela, com uma força quase hipnótica e lançando uma súplica que a penetrou violentamente.

            Ela ficou a olhá-lo, fascinada e petrificada. Aproximou-se e ajoelhou-se ao lado dela e prendeu-lhe os pés com as mãos, enterrou a cara no colo de Connie, e assim ficou sem se mexer. Ela estava como hipnotizada, contemplando com uma espécie de admiração a linha suave da sua nuca, sentindo a cara dele a apertar-lhe as coxas. Com toda a consternação violenta que sentia dentro de si, não podia deixar de afagar com ternura e compaixão aquela nuca desprotegida, e ele começou a tremer com força. Depois olhou para ela, e nos seus olhos rasgados e brilhantes lia-se aquela súplica terrível a que ela não se sentia capaz de resistir. Todo o seu ser respondia ao desejo ardente do homem e ela era capaz de lhe dar o que ele quisesse.

            Ele foi um amante estranho e dócil, muito dócil com a mulher. Tremia sem controle, mas, ao mesmo tempo mantinha-se consciente, atento ao menor ruído do exterior.

            Para Connie, aquilo não significou mais que uma entrega sua àquele homem. E ele, finalmente, deixou de tremer e ficou tranqüilo, completamente tranqüilo. Ela, com os seus dedos pálidos e compassivos, afagou-lhe a cabeça, deitada no seu peito.

            Quando ele se levantou, beijou-lhe as mãos, os pés nos chinelos de camurça, e, em silêncio, afastou-se até ao fim do quarto, onde ficou, de costas voltadas para ela. Durante uns minutos não trocaram uma única palavra. Depois virou-se e veio para junto dela, enquanto ela se sentava no seu lugar, junto ao fogão da sala.

            - E agora, suponho, que me odiará - comentou ele, com a voz calma, como se fosse uma coisa inevitável. Ela levantou rapidamente os olhos para ele.

            - Porquê? - perguntou.

            - É sempre assim - depois corrigiu. - Quero dizer... as mulheres reagem sempre assim.

            - Este é o último momento em que poderia odiá-lo - respondeu ela, ressentida.

            - Julguei... julguei que deveria ser assim. É muito boa para mim... - exclamou ele, lastimoso.

            Ela não percebia porque é que ele havia de se sentir infeliz.

            - Porque não se senta outra vez? - perguntou ela, enquanto ele olhava para a porta.

            - Sir Clifford! Ele não... não... ? Ela ficou uns momentos pensativa.

            - Talvez! - E depois, olhando para ele: - Não quero que Clifford saiba... nem que suspeite sequer. Isso magoá-lo-ia muito. Mas eu não acho mal. Acha?

            - Mal? Não, meu Deus, não! Você é infinitamente boa para mim... mal posso acreditar.

            Ele virou-se, e ela percebeu que ele estava quase a chorar.

            - Mas não é necessário permitirmos que Clifford saiba, pois não? - insistiu ela. - Isso fá-lo-ia sofrer tanto! E, se não souber, se não suspeitar, ninguém ficará machucado.

            - Por mim? - respondeu ele, num tom quase furioso. - Por mim ele nunca saberá nada. Aliás, poderá verificar. Eu deixar-me apanhar? - E ria, forçado, cinicamente, com tal idéia. Ela olhava-o, espantada. Ele acabou por dizer: - Posso beijar-lhe a mão e ir-me embora? Creio que irei até Sheffield almoçar, se me permite. Estarei de volta à hora do chá. Em que poderei ser-lhe útil? Posso ter certeza de que não me odeia, e que não me vai odiar? - terminou, com uma nota desesperada e cínica.

            - Não, não o odeio, você agrada-me!

            - Ah! - respondeu ele, furiosamente. - Como gosto muito mais que me diga isso do que se dissesse que me ama! Significa muito mais para mim. Vemo-nos então esta tarde. Terei muito tempo para pensar em tudo.

            Beijou-lhe humildemente as mãos e foi-se embora. Ao almoço, Clifford comentou:      

            - Acho que não posso suportar aquele homem.

            - Porquê? - perguntou Connie.

            - É um pretensioso. Debaixo do verniz... está sempre à espera do momento oportuno para nos saltar em cima.

            - Acho que as pessoas têm sido muito rudes para com ele. - respondeu ela.

            - E admira-se? Acha que ele aproveita as suas horas de lazer para ser agradável com as pessoas?

            - Creio que há nele uma certa generosidade.

            - Em relação a quem?

            - Isso não sei.

            - Naturalmente que não sabe. Receio que esteja a confundir falta de escrúpulos com generosidade.

            Connie calou-se. Estaria realmente a confundir? Se assim era, a falta de escrúpulos de Michaelis tinha para ela um certo fascínio. Ele ia até ao fim das coisas, ao passo que Clifford apenas dava uns passos tímidos. Era assim que tinha conquistado o mundo, que era o que Clifford queria fazer. Seriam os meios e fins de Michaelis mais desprezíveis do que os de Clifford? Seriam os processos do pobre intruso, que tinha singrado, forçado as portas, piores que os de Clifford, de autopropaganda, para ser conhecido? A deusa-cadela, a Glória era perseguida por milhares de cães ofegantes e de língua de fora. O primeiro que a apanhava era realmente o cão entre os cães, se é que se podia estabelecer a diferença à base do êxito. Por isso Michaelis podia andar com a cauda levantada.

            Mas o que era estranho é que não andava. Regressou à hora do chá com um grande ramo de violetas e de lírios, e a mesma expressão de cão vadio, astuto e envergonhado. Connie, por vezes, perguntava a si própria se seria uma espécie de máscara para desarmar os opositores, de tal modo era fixa. No fundo, seria Michaelis o cão infeliz que parecia?

            O seu ar de cão triste, de pessoa morta por dentro, manteve-se durante o serão, muito embora Clifford sentisse que, por baixo, se ocultava um desafio. Connie não o sentiu, talvez porque não era dirigido às mulheres, somente aos homens, com as suas presunções e convicções. Esse desafio indestrutível, interior, daquele homem magro, constituía a causa principal do rancor que os outros homens lhe tinham. A presença, só por si, era uma afronta a qualquer homem da sociedade, por mais escondida que estivesse sob as boas maneiras.

            Connie estava apaixonada por ele, mas conseguiu ficar sentada a fazer o seu bordado sem interromper a conversa dos homens e sem se trair. Michaelis foi perfeito; exatamente o mesmo homem melancólico, atento, reservado, da noite anterior, infinitamente distante dos seus hospedeiros, capaz de conviver laconicamente na medida exata, mas não se permitindo a menor aproximação. Connie sentia que ele tinha esquecido o que se tinha passado de manhã. Ele não se esquecera, mas sabia perfeitamente a posição em que se encontrava, a mesma posição, a margem, onde se conservam aqueles que aí nasceram. Para ele, fazer amor não significava nada de pessoal. Sabia que nunca deixaria de ser um cão sem dono, a quem toda a gente inveja a coleira de ouro, mas que ninguém quer acolher e transformar em belo cão de sala.

            O fato final é que, mesmo no fundo da sua alma, ele era um homem à margem, anti-social, e aceitava-o como tal, apesar da sua aparência impecável de Bond Street. O seu isolamento era-lhe fundamental, tão fundamental como a sua aparição e a sua integração entre as pessoas da alta sociedade.

            Mas o amor, de quando em quando, como um reconfortante e um lenitivo, era bom, e ele não era ingrato. Sentia-se ardente e profundamente grato a qualquer gesto de gentileza natural e espontânea, quase chorava. Sob o seu rosto pálido, imóvel, desiludido, uma alma de criança soluçava de gratidão pela mulher e ansiava por estar de novo com ela. Ao mesmo tempo, sabia que a sua de proscrito se afastaria realmente dela.

            Teve uma oportunidade de lhe dizer, enquanto acendiam as velas na entrada:

            - Posso subir?

            - Não, eu irei ter consigo - respondeu ela.

            - Está bem! Esperou por ela bastante tempo, mas ela chegou. Ele era o tipo de amante que tremia de excitação, com uma crise que sobrevinha rapidamente e de curta duração. O seu corpo nu tinha qualquer coisa de infantil e indefeso, como o de uma criança nua. Todas as suas defesas eram mentais e de certo modo engenhosas, e, quando estas estavam como que em suspenso, ele parecia duplamente nu e semelhante a uma criança, com um corpo inacabado, suave, que se debate desesperadamente.

            Despertava na mulher uma compaixão e uma ternura selvagens e um desejo físico, violento e selvagem também. Pela sua rapidez, não satisfazia o desejo físico, de Connie. Depois abandonava-se deitado no peito dela, recuperando a sua atitude de desafio, enquanto ela permanecia confusa, desiludida, perdida.

            Mas depressa aprendeu a dominá-lo, a conservá-lo após a sua crise. E então ele era generoso e curiosamente potente; mantinha-se dentro dela, dando-se-lhe, enquanto ela era ativa, muito selvática e apaixonadamente ativa, até atingir a sua crise. Quando sentia que ela tinha alcançado o orgasmo através da sua passividade firme, experimentava uma sensação curiosa de orgulho e satisfação.

            - Ah, que bom! - murmurou ela, com voz trêmula, e ficou inerte, presa a ele. E ele ficou no seu isolamento, mas orgulhoso.

            Dessa vez só se demorou três dias, e para Clifford foi sempre igual à primeira noite. Para Connie também. A sua fachada de homem exterior nunca se alterou.

            Escreveu a Connie no mesmo tom triste e melancólico de sempre, por vezes irônico, e imbuído de um estranho afeto sem sexo.

            O seu afeto por ela não envolvia nenhuma expectativa, e a distância que mantinha continuava igual. Não havia lugar para expectativa ou esperança dentro dele. Odiava a esperança. "Une immense espérance a traversé la terre", (1) era uma frase que tinha lido não sabia onde, e à qual acrescentou "e destruiu na sua passagem tudo o que valia a pena".

 

            [1. "Uma enorme esperança atravessou a Terra." (N. da T)]

 

            Connie nunca o percebeu muito bem, mas, à sua maneira, amou-o. Ela sentia sempre dentro de si a sua falta de esperança, e, sem esperança, não podia amar. Ele, pela mesma razão, jamais seria capaz de amar.

            Continuaram a escrever-se durante um tempo e a encontrar-se ocasionalmente em Londres. Ela continuava a querer aquela emoção física, sexual, que conseguia através da sua própria atividade, depois do curto orgasmo de Michaelis. E ele continuava a querer dar-lhe isso mesmo. Era o suficiente para continuarem ligados.

            Queria ainda dar-lhe uma forma de autoconfiança, cega e um pouco arrogante. Era uma confidência quase mecânica do seu poder, que fazia com muito bom humor.

            Sentia-se extremamente bem disposta em Wragby. E utilizava toda essa boa disposição despertada para estimular Clifford, que escreveu o melhor da sua obra nessa época e sentiu-se quase feliz no seu estranho estado de cegueira. Ele colhia os frutos da satisfação que ela tirava da passividade ereta do macho. Mas nunca o soube, e, se o tivesse sabido, não se sentiria agradecido.

            No entanto, quando os dias de completa, rejubilante jovialidade e excitação acabaram, acabaram totalmente, e ela se mostrou deprimida e irritável, Clifford sentiu-lhe imensamente a falta! Se soubesse, talvez desejasse um recomeço entre ela e Michaelis.

 

            Connie adivinhou sempre que a sua ligação com Mick, como as pessoas lhe chamavam, era temporária. No entanto, parecia que os outros homens nada significavam para ela. Estava ligada a Clifford, que lhe exigia muito da sua vida e ela dava-lhe. Mas queria muito da vida de um homem, e Clifford não lhe dava, não podia. Mas ela soube sempre que aquela ligação com Michaelis acabaria. Ele não podia manter coisa nenhuma, era parte integrante da sua própria natureza ter de romper com todos os elos, e ficar liberto, isolado, abandonado. Esta era a sua maior necessidade, embora sempre tivesse dito: "Ela deixou-me".

            Parece que o mundo possui imensas possibilidades, mas estas, na experiência pessoal, ficam reduzidas a muito poucas. Há muito bom peixe no mar... talvez haja... mas sobretudo cavala e arenque, e, se não se é cavala ou arenque, não se encontra muito bom peixe no mar.

            Clifford começava a ganhar fama e até dinheiro. As pessoas vinham para o visitar. Connie quase sempre tinha convidados em Wragby, mas, se não eram cavalas eram arenques, ou, ocasionalmente, carapau de gato ou congro.

            Havia alguns que apareciam regularmente, antigos companheiros de Clifford em Cambridge. Tommy Dulkes, que tinha ficado no exército, e era brigadeiro. "O exército deixa-me tempo para pensar e evita que eu tenha de enfrentar a batalha da vida", dizia. Charles May, irlandês, que escrevia livros científicos sobre as estrelas. Hammond, também escritor.

            Todos eles tinham mais ou menos a idade de Clifford, o grupo dos jovens intelectuais do momento. Acreditavam na vida do espírito, e tudo o que não fosse vida do espírito eram assuntos estritamente pessoais e pouco importantes. Ninguém pergunta a ninguém a que horas costuma ir à casa de banho. São coisas que interessam somente ao próprio, exatamente como a maior parte dos fatos do dia-a-dia. O dinheiro, o amor, as aventuras, tudo isto respeita meramente ao próprio, tal como ir à casa de banho. Nada disso interessa aos outros.

           - Tudo o que se pode dizer sobre o problema sexual - disse Hammond, que era um homem magro, alto, casado e com dois filhos, mas exclusivamente interessado na máquina de escrever - é que não há nada a dizer sobre isso. Não constitui rigorosamente um problema. Se não vamos atrás de uma pessoa para a casa de banho, também não nos interessa segui-la quando vai para a cama com uma mulher. Se dermos tanta importância a uma coisa como a outra, deixa de haver problema. Não faz sentido e não interessa. Não passa de uma curiosidade inoportuna.

            - Está bem, Hammond, está bem, mas se alguém começa a fazer a corte a Júlia, tu enervas-te, e se continua, tu explodes.

            Júlia era a mulher de Hammond.

            - Evidentemente que expludo, como também explodiria se alguém começasse a urinar num canto da minha sala de visitas. Cada coisa tem o seu lugar.

            - Queres dizer que não te importarias se essa pessoa fizesse amor com a Júlia numa alcova discreta?

            Charles May estava a ser um pouco irônico, porque tinha feito vagamente a corte a Júlia e Hammond não tinha gostado.

            - Claro que me importava. O sexo é uma coisa privada entre mim e Júlia, e claro que não gostava que qualquer outra pessoa se intrometesse.

            - De fato - comentou Tommy Dulkes, que era magro e sardento e parecia muito mais irlandês do que o pálido e gordo May. - De fato, Hammond, você tem um forte instinto de posse, uma forte vontade de auto-afirmação, e de querer o êxito. Desde que fiquei definitivamente no exército e me afastei da vida em sociedade, percebi como é extraordinariamente forte o desejo de auto-afirmação e de êxito nos homens. Está hiperdesenvolvido. Toda a nossa individualidade se orienta nesse sentido. É evidente que homens como você pensam que terão mais possibilidades com o apoio de uma mulher. É por isso que são tão ciumentos. O sexo para vocês significa isso... um dínamo vital e pequeno entre si e Júlia, visando o êxito. Se começasse a ser mal sucedido, começaria a fazer a corte a outras mulheres, é o caso de Charlie. As pessoas casadas como você e Júlia têm rótulos, como as malas de viagem. O rótulo de Júlia é Mrs. Arnold B. Hammond...tal como uma mala no estrada de ferro que pertence a alguém. E você Arnold B. Hammond, Mrs. Arnold B. Hammond. Oh, no fundo tem razão, imensa razão. A vida do espírito necessita de uma casa confortável e de uma boa cozinha. E até de posteridade. Mas tudo gira à volta do instinto de êxito.

            Hammond parecia um pouco irritado. Tinha orgulho na sua integridade de espírito e de não ser um escravo do tempo. No entanto procurava o êxito.

            - É verdade, não se pode viver sem dinheiro - comentou May. - Tem de se ter algum para se poder viver, e, para se ser livre, para pensar, é necessário ter dinheiro, senão o estômago não deixa. Mas acho que o sexo não deve ser rotulado. Somos livres para falar com quem nos apetece; porque é que não havemos de ser livres, para fazer amor com uma mulher que nos apetece?

            - Fala o celta lascivo - exclamou Clifford.

            - Lascivo? Bem, porque não? Não vejo em que posso fazer maior mal a uma mulher dormindo com ela do que dançando ou falando sobre o tempo. É apenas uma troca de sensações em vez de idéias, portanto qual é o mal?

            - A promiscuidade dos coelhos - respondeu Hammond.

            - Porque não? O que é que os coelhos fazem de mal? São piores do que os homens neuróticos, revolucionários, cheios de raiva?

            - Mas nós não somos coelhos - insistiu Hammond.

            - Exatamente. Tenho uma vida de espírito. Tenho de fazer cálculos em assuntos de astronomia que me preocupam quase mais do que a vida ou a morte. Às vezes sofro de indigestão. A fome far-me-ia muito mal, exatamente como a falta de atividade sexual. Qual seria a diferença?

            - Acho que lhe faria muito pior a indigestão sexual provocada por excesso - comentou Hammond, ironicamente.

            - Não, não exagero na comida nem no amor. Tenho liberdade de escolher se hei de comer muito ou pouco. Mas você matava-me à fome.

            - De modo nenhum! Pode casar.

            - Como é que sabe se posso? O casamento pode não estar de acordo com a minha estrutura de espírito. O casamento poderia, ou talvez, acabaria por me matar o espírito. Não estou motivado para isso, de que me serviria ficar fechado numa cela como um monge? Que loucura, meu caro. Tenho de viver e de fazer os meus cálculos. De vez em quando preciso de uma mulher, o que não é muito importante para mim, e recuso-me a ouvir qualquer censura ou condenação em nome da moral. Teria vergonha de ver uma mulher com o meu nome como rótulo, morada e destino como uma mala de roupa.

            Os dois homens não se tinham esquecido do caso com Júlia.

            - É uma idéia engraçada, Charlie - disse Dulkes -, essa do sexo ser outra forma de diálogo, em que se representam as palavras em vez de as pronunciar. Acho que é assim. Suponho que podemos trocar tantas sensações e emoções com as mulheres como opiniões sobre o tempo, etc. O sexo devia ser uma espécie de diálogo habitual entre o homem e a mulher. Não falamos com uma mulher se não temos idéias em comum, isto é, não se fala se não há um interesse. Do mesmo modo que não dormimos com uma mulher, se não compartilhamos emoção ou simpatia com ela. Mas se tivéssemos...

            - Se sentimos em relação a uma mulher emoção e simpatia, temos obrigação de dormir com ela - respondeu May. - É a única coisa decente a fazer, ir para a cama com ela. Exatamente como quando estamos interessados em falar com alguém, a única coisa decente é falar. Não colocamos a língua entre os dentes e a mordemos pudicamente. Se é a vez de falar, fala-se. Com o amor é o mesmo.

            - Não - disse Hammond -, não é assim. Você por exemplo, May, desperdiça metade da sua energia com mulheres. Você nunca fez realmente o que devia, apesar da cabeça que tem. Uma grande parte de si perde-se noutras coisas.

            - Talvez seja assim... e quanto a si é o contrário, perde muito pouco de si com essas coisas, casado ou solteiro, meu caro Hammond.

Você pode conservar a pureza e a integridade do seu espírito, mas ele está a ressequir-se. O seu puro espírito está tão ressequido como arcos de rabeca, pelo menos assim parece. Você estraga-o com o que diz.

            Tommy Dulkes começou a rir à gargalhada.

            - Oh! Que dois grandes espíritos! Olhem para mim, não tenho um trabalho mental elevado e puro, limito-me a registrar algumas idéias. E, no entanto, não me caso nem ando atrás de mulheres. Acho que Charlie tem razão. Se quer andar atrás de mulheres, pode fazê-lo como quiser, eu nunca o proibiria. Quanto a Hammond, com o seu instinto de posse, convém-lhe a estrada reta e o portão estreito. Hão de vê-lo ainda um homem de letras britânico, ABC da cabeça aos pés. Resto eu, que não sou nada, que sou uma coisita. E você, Clifford? Acha que o sexo é um dínamo que ajuda o homem a conseguir êxito na vida?

            Nestas ocasiões Clifford falava sempre muito pouco, nunca insistia nas suas idéias, que não eram suficientemente importantes, e sentia-se também confuso e emotivo. Corou e ficou com um ar pouco à vontade.

            - Bem, como estou hors de combat, (1) não tenho nada a dizer sobre isso.

 

            [1-"Fora de combate."]

 

            - De modo nenhum - respondeu Dulkes -, a sua cabeça não está de modo nenhum hors de combat. Tem a vida do espírito sólida e intacta. Portanto, diga-nos o que pensa.

            - Bem - balbuciou Clifford -, mesmo assim não penso grande coisa, não é o "case-se e pronto" que simboliza muito bem aquilo que penso. Se bem que, evidentemente, o amor para um homem e uma mulher que gostam um do outro seja uma coisa importante.

            - Coisa importante como? - perguntou Tommy.

            - Oh! completa a intimidade - respondeu Clifford, embaraçado como se fosse uma mulher na mesma situação.

            - Pois bem, Charlie e eu cremos que o sexo é uma espécie de comunicação, como a linguagem. Se uma mulher enceta comigo uma conversa sobre sexo, é natural que a acabemos na cama na dela.

Infelizmente nenhuma mulher a começa, e tenho de ir para a cama sozinho. Não me sinto infeliz por isso, creio. Mas como poderia ter certeza? De qualquer modo não faço cálculos brilhantes que pudessem ser prejudicados, e também não escrevo obras imortais. Sou simplesmente um homem que se refugia no exército.

            Caiu o silêncio. Os quatro homens fumavam e Connie dava mais um ponto ao seu trabalho de costura. Sim, ela estava ali, sentada, silenciosa. Tinha de estar calada como um rato, para não interferir nas especulações extremamente importantes daqueles homens superiores. Sem a presença dela as coisas não correriam bem, as suas idéias não fluíam tão livremente. Clifford, quando ela não estava, ficava muito mais indeciso e nervoso, com os pés frios, e o diálogo não se estabelecia. Tommy Dulkes era o que se saía melhor, sentia-se inspirado com a presença de Connie. De Hammond, ela não gostava, era intelectualmente egocêntrico. E Charles May, embora simpatizasse com ele, parecia-lhe destituído de gosto e desordenado, apesar das suas estrelas.

            Tantas noites que Connie ficou ali sentada a escutar as manifestações dos quatro homens! E demais outros dois ainda. Nunca chegavam a conclusão nenhuma, mas isso não a afetava profundamente. Gostava de ouvir o que eles tinham a dizer, especialmente quando Tommy estava presente. Era divertido. Em vez de os homens a beijarem e a tocarem fisicamente, revelavam o seu espírito. Era divertido! Mas os espíritos eram gelo.

            Ao mesmo tempo, tudo aquilo era um pouco irritante. Ela tinha mais respeito por Michaelis, por quem todos sentiam um tão profundo desprezo, esse mestiço insignificante, arrivista e pretensioso inculto, como lhe chamavam. Mestiço e pretensioso, ou não, chegava com prontidão às suas próprias conclusões, e não se limitava a pensar em círculos com milhões de palavras, na parada da vida do espírito.

            Connie apreciava bastante a vida do espírito e entusiasmava-se muito. Mas achava que era levada ao excesso. Gostava de ficar ali, no ambiente de tabaco daqueles famosos serões de amigos íntimos, como lhes chamava para si própria. Divertia-se muito e sentia-se orgulhosa pelo fato de, até para aquelas conversas, necessitarem da sua presença silenciosa. Tinha um enorme respeito pelo pensamento, e aqueles homens esforçavam-se, pelo menos, por pensar com honestidade. Mas havia sempre um obstáculo, que não era transposto, com que todos chocavam e que ela não conseguia dizer o que era. Mick também chocava com esse mesmo obstáculo.

            Mas Mick não queria mais do que fazer a sua vida e impô-la às outras pessoas, enquanto os outros queriam impor a sua vida à dele. Era realmente um anti-social, Clifford e os seus amigos não o eram, e acusavam-no por isso. Tinham uma tendência para salvar a humanidade, ou pelo menos para a instruir.

            Num domingo à noite houve uma animada conversa sobre o amor mais uma vez.

            - "Bendito o elo que liga, de uma ou de outra maneira, os nossos corações, numa só afinidade" - disse Tommy Dulkes. Gostava de saber o que é esse elo, esse elo que hoje nos liga é uma fricção mental que exercemos uns nos outros. E, à parte isso, não temos outros elos. Separamo-nos e dizemos coisas terríveis do próximo, como todos os intelectuais, e toda a gente afinal. Ou então escondemos as coisas terríveis que pensamos, sob falsa doçura. É curioso que a vida do espírito parece florescer com as suas raízes no rancor, num rancor inefável e abismal. Sempre foi assim! Reparem em Sócrates, em Platão e o seu grupo! O rancor total, a alegria em reduzir o outro a zero. Protágoras, ou como é que se chama! E Alcibíades e os seus cães fiéis acompanhando-o na luta. Devo dizer que isto nos leva a preferir Buda, tranqüilamente sentado sob uma árvore assustadora, ou Jesus contando aos seus discípulos histórias de domingo, em paz e sem fogos-de-artifício mentais. Na verdade, há qualquer coisa na vida do espírito que está errada, radicalmente errada, pois tem as suas raízes na inveja e no rancor. E a árvore conhece-se pelos frutos.

            - Não acho que as pessoas sejam assim tão malévolas - protestou Clifford.

            - Meu caro Clifford, repare na forma como discutimos uns com os outros, todos nós. Sou o pior, porque prefiro infinitamente o ódio espontâneo às lisonjas forjadas que são veneno. Se começar a fazer elogios a Clifford, pobre Clifford! Pelo amor de Deus, todos vocês dizem coisas terríveis a meu respeito, então ficarei a saber que significo alguma coisa para vocês. Não façam elogios, ou estarei perdido.

            - Mas creio que nós somos todos sinceramente amigos - comentou Hammond.

            - Nós temos... temos de dizer coisas tão desagradáveis, temos de dizer mal uns dos outros por detrás. Eu sou o pior.

            - Creio que você confunde vida mental com atividade crítica. Concordo que Sócrates deu um grande impulso à atividade crítica, mas fez mais do que isso - disse Charles May magistralmente. Os amigos eram extremamente pomposos sob a capa da falsa modéstia! Era tudo muito ex cathedra numa aparente humildade.

            Dulkes recusou-se a falar de Sócrates.

            - Isso é verdade, crítica e conhecimento não são a mesma coisa - disse Hammond.

            - Evidentemente que não - intrometeu-se Berry, um homem tímido, moreno, que tinha telefonado para saber de Dulkes e passava ali a noite.

            Todos olharam para ele como se um burro tivesse falado.

            - Não me referi ao conhecimento, referi-me à vida do espírito - comentou Dulkes, a rir. - O verdadeiro conhecimento vem da consciência na sua totalidade, do ventre e do pênis, como do cérebro e do espírito. O espírito apenas pode analisar e racionalizar. Se a razão tem poder sobre tudo, só pode criticar, e mais nada. Digo tudo o que pode fazer. Meu Deus, o mundo hoje tem necessidade de crítica, de uma crítica tremenda. Portanto vivamos a nossa vida do espírito, glorifiquemos o nosso ódio, desmantelemos o velho espetáculo. Mas atenção, enquanto vivemos a nossa vida, somos de certa maneira um todo orgânico com tudo o que é vida. Quando vivemos a vida do espírito, arrancamos a maçã da árvore. Quebra-se a conexão entre a maçã e a árvore, a conexão orgânica. E se não temos mais nada senão a vida do espírito, então somos maçãs colhidas, caídas da árvore. E, nesse caso, o ódio é uma necessidade lógica, da mesma forma que o apodrecimento é uma necessidade natural.

            Clifford estava muito espantado, nada daquilo fazia sentido para ele. Connie ria secretamente.

            - Bem, então somos todos maçãs colhidas - exclamou Hammond, de uma forma azeda e petulante.

            - Bem, tornemo-nos em cidra - acrescentou Charlie.

            - Mas que é que pensam do bolchevismo? - interrompeu Berry, como se toda a conversa levasse necessariamente a este ponto.

            - Bravo! - exclamou Charlie. - Que é que pensam do bolchevismo?

            - Ora, não vamos agora para o bolchevismo! - disse Dulkes.

            - Acho que o bolchevismo é um problema muito vasto - comentou Hammond, abanando a cabeça com ar grave.

            - O bolchevismo, parece-me - começou Charlie -, é apenas um ódio superlativo por tudo o que chamam burguês. Não está definido o significado de burguês, e inclui o capitalismo entre outras coisas. Os sentimentos e emoções são incontestavelmente tão burgueses que é necessário inventar um homem que não os tenha. "O indivíduo, o homem enquanto pessoa, é burguês, portanto tem de ser suprimido. O homem deve mergulhar numa coisa mais elevada, que é o Estado socialista soviético. Até um organismo é burguês, e o ideal tem de ser mecânico; uma unidade não orgânica, composta de muitas partes diferentes, todas elas essenciais, é uma máquina; cada homem é uma parte da máquina, e a força motriz da máquina é o ódio; o ódio por tudo o que é burguês; isto para mim é o bolchevismo."

            - Absolutamente - respondeu Tommy. - Mas parece-me ser também a descrição perfeita de todo o ideal industrial. É o ideal do dono da fábrica numa casca de noz, cuja única diferença é ele negar que a força motriz é o ódio. E é... ódio da própria vida. Reparem neste Midlands, se a palavra ódio não está inscrita em toda a parte! Mas faz parte da vida do espírito, é um desenvolvimento lógico.         - Recuso-me a aceitar que o bolchevismo seja lógico, porque rejeita as premissas básicas - disse Hammond.

            - Meu caro, admite premissas de ordem material, como o espírito... exclusivamente.

            - Pelo menos, o bolchevismo resolveu ir até ao fundo das coisas - disse Charlie.

            - Até ao fundo! Um fundo sem fundo. Dentro de pouco tempo os bolchevistas terão o melhor exército do mundo e o melhor equipamento mecânico.

            - Mas isso não pode continuar... todo esse ódio. Tem de haver uma reação... - disse Hammond.

            - Bem, esperamos durante anos... e vamos esperar mais uns tempos. O ódio é uma coisa que cresce, como todo o resto. É a conseqüência inevitável da violência que impomos aos nossos instintos e sentimentos mais profundos, para estarem de acordo com as nossas idéias. Guiamo-nos por uma fórmula, como uma máquina. O espírito lógico pretende ordenar tudo, e esse tudo converte-se em ódio. Somos todos bolchevistas e hipócritas. Os russos são bolchevistas sem serem hipócritas.

            - Mas há muitas outras formas sem ser a soviética - disse Hammond. - Os bolchevistas não são realmente inteligentes.

            - Evidentemente que não. Mas, às vezes, ser inteligente é ser imbecil, para se conseguir o que se quer. Pessoalmente, considero o bolchevismo imbecil, mas a nossa vida social no Ocidente também é imbecil. E a nossa grande vida do espírito também é imbecil. Somos uns cretinos indiferentes, uns idiotas desapaixonados. Todos nós somos bolchevistas, só que damos outro nome. Pensamos que somos deuses, ou homens iguais a deuses. É como o bolchevismo. Para se ser humano é necessário possuir um coração e um sexo, senão transformamo-nos em deuses, ou em bolchevistas, porque Deus e bolchevistas são a mesma coisa, demasiado boas para poderem ser verdadeiras.

            No meio de um silêncio de reprovação ouviu-se a pergunta ansiosa de Berry:

            - Você acredita no amor, não é verdade, Tommy?

            - Rapaz encantador! - respondeu Tommy. - Não, meu querubim, cem vezes não. O amor é outra das coisas imbecis dos nossos dias. Rapazes com cinturas oscilantes fazendo amor com rapariguinhas que dançam jazz e têm ancas pequenas como os rapazes, semelhantes a dois botões de colarinho! Referes-te a esse tipo de amor? Ou o da propriedade comum, em vista do êxito, ou do meu marido minha mulher? Não, meu caro, não acredito mesmo nada.

            - Mas acredita nalguma coisa?

            - Eu? Sim, intelectualmente acredito que tenho um bom coração, um pênis vivo, uma inteligência ativa e a coragem de dizer "merda" diante de uma senhora.

            - Bem, isso tudo tem realmente - respondeu Berry.

            Tommy Dulkes começou a rir às gargalhadas.

            - Meu anjo! Se eu tivesse! Ah, se eu tivesse! Não, o meu coração está tão paralisado como uma batata, o meu pênis cai e nunca levanta a cabeça e eu preferia cortá-lo a dizer "merda" à frente da minha mãe ou da minha tia, que são senhoras. E não sou realmente inteligente, sou apenas um adepto da vida mental. Seria maravilhoso ser inteligente: sentir-me-ia vivo em todas as partes citadas e não citadas. O pênis de uma pessoa inteligente levanta a cabeça e diz: "Como está?". Renoir dizia que pintava os seus quadros com o pênis, e era verdade. E que belos quadros! Gostava de fazer qualquer coisa com o meu, mas, meu Deus, só podemos falar dele. Mais uma tortura a juntar às do Inferno. E foi Sócrates que começou.

            - Há mulheres agradáveis no mundo - comentou Connie, levantando a cabeça e falando, finalmente.

            Os homens ofenderam-se. Ela devia ter fingido que não estava a ouvir, não gostavam de admitir que ela tinha seguido tão de perto aquela conversa.

            - Meu Deus! Se não são agradáveis comigo, que me importa que sejam agradáveis?

            - Não, não há nada a fazer. Simplesmente não posso vibrar em uníssono com uma mulher. Não há nenhuma mulher que eu realmente queira, quando a encaro, e não vou forçar-me a isso. Meu Deus, isso não! Continuarei como sou, e a ter a minha vida de espírito. É a única coisa honesta que posso fazer. Sinto-me muito feliz a falar com uma mulher, mas é um prazer puro, desesperadamente puro.

Desesperadamente puro! Que diz, Hildebrand, meu pequeno?

            - É tudo muito menos complicado se é puro - respondeu Berry. -Sim, até a vida é demasiado simples.

 

            Numa manhã gelada de Fevereiro, em que o sol mal brilhava, Clifford e Connie foram dar um passeio através do parque até ao bosque. Clifford manobrava a sua cadeira com motor e Connie caminhava a seu lado.

            O ar pesado ainda cheirava a enxofre, mas já estavam habituados. No horizonte perpassava uma neblina, opalescente pela geada e pelo fumo, lá em cima um pouco de céu azul. Parecia que tudo estava fechado, enclausurado. A vida era um sonho, um delírio, mas sempre encarcerado.

            Os carneiros pastavam a erva dura e seca do parque, cujas moitas a geada colorira de azul. Através do parque passava um caminho até ao portão do bosque, uma bela faixa cor-de-rosa, que Clifford tinha mandado cobrir recentemente com cascalho da mina. Depois de a rocha e os resíduos do mundo subterrâneo arderirem e libertarem enxofre, ficava cor-de-rosa claro, cor de camarão nos dias secos, e mais escuro, cor de caranguejo, nos dias úmidos. Naquele dia estava cor de camarão, pálido, com um tom branco azulado da geada. Connie gostava daquele caminho colorido rosa-claro. Era um vento maléfico, que não fazia bem a ninguém.

            Clifford conduzia cautelosamente, descendo a colina desde o castelo, e Connie conservava a mão sobre a cadeira. Em frente ficava o bosque, a mata de avelaneiras primeiro e ao fundo os carvalhos cor de púrpura. Da orla do bosque coelhos saltavam, mordiscavam aqui e ali. As gralhas apareciam de repente no horizonte e subiam para o céu deixando um rastro negro.

            Connie abriu a cancela de madeira do bosque e a cadeira, que transportava Clifford, deixando escapar um leve vapor, seguiu lentamente por entre a larga estrada que penetrava na espessura da mata ladeada de avelaneiras. O bosque era aquilo que restava da grande floresta onde Robin Hood caçava, e a estrada, antiga pista para cavaleiros, outrora atravessava o país. Agora, evidentemente, era apenas uma pista de cavaleiros em mata privada. A estrada de Mansfield passava mais ao norte.

            No bosque tudo estava imóvel, velhas folhas juncavam o chão conservando a geada. Bruscamente um gaio gritou e muitos passarinhos bateram as asas. Mas não havia nenhum animal de caça, nem mesmo faisões, tinham sido mortos durante a guerra, e o bosque tinha ficado desprotegido, até ao momento em que Clifford tinha de novo arranjado um couteiro.

            Clifford amava o bosque e os velhos carvalhos, tinha a impressão que lhe pertenceram durante gerações; queria protegê-los, manter aquele lugar inviolado, desligado do mundo.

            A cadeira prosseguiu lentamente, lutando contra uma ladeira, oscilando e aos solavancos sobre a terra gelada. E, subitamente, à esquerda, apareceu uma clareira onde não havia nada mais que um emaranhado de fetos mortos, pequenos arbustos despontando aqui e ali, e grandes troncos serrados, ainda com raízes, já sem vida. E manchas escuras, locais onde os lenhadores haviam queimado montes de folhas, ramos secos, e lixo.

            Era um dos terrenos em que a madeira fora toda mandada cortar por Sir Geoffrey durante a guerra, para guarnição das trincheiras. Toda a colina que se elevava à direita da estrada estava nua e estranhamente abandonada. O cume da colina, onde tinha havido carvalhos, estava nu, e do alto, por cima das árvores, podia ver-se o estrada de ferro da mina e as novas fábricas de Stacks Gate. Connie tinha parado e mirava aquela falha de toda a reclusão do bosque, que deixava penetrar o mundo. Mas nada disse a Clifford.

            Aquele lugar despido incomodava terrivelmente Clifford. Ele que tinha vivido a guerra, sabia o que isso significava. Mas só tinha realmente sentido raiva quando vira aquela despida. Estava a fazer a replantação, mas tudo aquilo fê-lo odiar Sir Geofrey.

            Clifford subia lentamente na sua cadeira, com o rosto imóvel. Quando chegaram ao cimo, parou, não se arriscava a descer a rampa comprida e irregular. Ficou a olhar a abertura esverdeada da pista de cavaleiros, a passagem por entre fetos e carvalhos. No sopé da colina fazia uma curva, e desaparecia. Mas era uma curva tão suave que evocava os cavaleiros montando os seus cavalos e as donzelas nos seus palafréns.

            - Acho que isto é realmente o coração da Inglaterra - disse para Connie, enquanto estava ali sentado à luz esbatida do sol de Fevereiro.

            - Sim? - respondeu ela, sentando-se num cepo junto ao caminho. Estava vestida com um vestido azul de malha.

            - Absolutamente! Isto é a velha Inglaterra, o coração da Inglaterra, que tenciono conservar intacto.

            - Com certeza. E, ao mesmo tempo, ouviu as sirenes das onze horas na mina de carvão em Stacks Gate. Clifford estava demasiado habituado àquele som para ouvir.

            - Quero este bosque perfeito... intacto, e que ninguém aqui entre sem minha autorização.

            Havia qualquer coisa de trágico nas suas palavras. O bosque ainda conservava um pouco do seu mistério selvagem, da velha Inglaterra, mas os cortes de Sir Geoffrey durante a guerra tinham sido um golpe fatal. As árvores tranqüilas, com os seus inúmeros ramos enrugados, erguidos para o céu, e os troncos cinzentos e obstinados despontavam por entre os fetos castanhos. Os pássaros voavam entre as árvores sem receio. Outrora, naquele lugar, havia veados e archeiros e monges montados em burros. A aldeia lembrava-se ainda.

            O sol pálido incidia no cabelo macio e muito louro de Clifford, no seu rosto indecifrável e rosado.

            - Quando venho aqui, sinto mais do que nunca a falta de um filho.

            - Mas o bosque é mais antigo do que a sua família - respondeu Connie, delicadamente.

            - É verdade, mas nós conservamo-lo, e sem nós ter-se-ia perdido, como o resto da floresta. Temos de conservar o que resta da velha Inglaterra!

            - Temos? Mesmo se tivermos de a conservar contra a nova Inglaterra? É triste, eu sei.

            - Se não for preservado um pouco da velha Inglaterra, a Inglaterra desaparecerá - respondeu Clifford. - E nós, que temos este tipo de propriedade e a amamos, temos de a conservar.

            Fez-se silêncio.

            - Sim por algum tempo - respondeu Connie.

            - Por algum tempo, sim! É tudo o que podemos fazer, podemos contribuir com a nossa pequena parte. Sinto que todos os homens da minha família o fizeram, desde que esta herdade nos pertence. Podemos ir contra a convenção, mas temos de manter a tradição.

            De novo o silêncio.

            - Que tradição? - perguntou Connie.

            - A tradição da Inglaterra! De tudo isto!

            - Sim - respondeu Connie, com voz lenta.

            - É por isso que é útil ter um filho, nós somos apenas um elo da cadeia.

            Connie não apreciava cadeias, mas não respondeu. Pensava na curiosa impessoalidade daquele homem ter um filho.

            - Lamento que não possamos ter um filho - respondeu ela. Ele olhou-a fixamente, com os seus olhos azul-pálidos.

            - Seria quase de desejar que tivesse um filho de outro homem-disse. - Seria educado em Wragby, e pertencer-nos-ia, assim como à herdade. Não acredito realmente muito na paternidade, e, se tivéssemos um filho para educar, seria nosso, e continuar-nos-ia. Não acha que é de pensar no assunto?

            Connie olhou para ele, finalmente. O filho, o seu filho, era um "assunto" para Clifford. Um "assunto"!

            - E o homem?

            - Tem muita importância? Será que essas coisas nos afetam muito? Teve esse amante na Alemanha... que é que ele significa hoje na sua vida? Praticamente, nada. Parece-me que o importante na vida não são esses atos e ligações insignificantes. Passam, e onde ficam? Onde? Onde estão as neves do ano passado? O que conta é o que é duradouro na vida; a minha vida é importante para mim pela sua continuidade e desenvolvimento. Que interessam as ligações ocasionais? Particularmente as de ordem sexual? Se as pessoas não as exagerarem ridiculamente, como os acasalamentos das aves. E está certo. Que importam? O que importa é a companhia de uma vida inteira, o viver a dois, dia-a-dia, e não a pessoa com quem se dormiu uma ou duas vezes. Nós somos marido e mulher, aconteça o que acontecer, estamos habituados um ao outro, e, para mim, os hábitos são mais vitais do que a excitação de momento. Aquela coisa longa, lenta, duradoura, é a nossa vida, e não um espasmo ocasional, de qualquer tipo. Pouco a pouco, quando duas pessoas vivem juntas, sentem uma união mais funda, uma vibração comum. Esse é o verdadeiro segredo do casamento, e não o sexo, pelo menos o sexo como função. Estamos unidos por um casamento. Se nos mantivermos fiéis a ele, parece-me que podemos encontrar uma solução para o problema físico, que é como ir ao dentista, uma vez que o destino nos deu um xeque-mate sob esse ponto de vista.

            Connie estava sentada e ouvia-o espantada e um tanto receosa. Não sabia se ele tinha ou não razão.

            Havia Michaelis, que ela amava; repetia-o para si mesma. Mas o seu amor era como uma excursão fora do seu casamento com Clifford - um duradouro e lento hábito de intimidade, formado em anos de sofrimento e paciência. Talvez a alma humana tenha necessidade de excursões, e não se lhe devem negar. Mas a particularidade de uma excursão é que depois se regressa a casa.

            - E não faz questão de saber de que homem eu pudesse ter um filho?

            - Mas, Connie, confio no seu instinto natural de decência e de seleção! Com certeza não permitiria que um indivíduo menos bem lhe tocasse.

            Ela pensou em Michaelis que era exatamente o tipo de indivíduo menos bem para Clifford.

            - Mas os homens e as mulheres têm sentimentos diferentes sobre os homens - respondeu.

            - Não - replicou ele , interessa-se por mim, não creio que alguma vez se pudesse interessar por um homem que fosse incompatível comigo. O seu próprio ritmo não lhe permitiria.

            Ela calou-se. A lógica não admitia réplica, porque estava completamente errada.

            - E quer que lhe diga? - perguntou ela num relance.

            - Não, prefiro não saber. Mas concorda comigo que um ato físico ocasional não significa nada, comparado com uma longa vida em comum, não é verdade? Não acha que podemos subordinar a questão sexual às necessidades de uma longa vida? Usá-la, uma vez que somos assim. Afinal essas excitações temporárias terão importância? Toda a problemática da vida não consistirá, afinal, na construção lenta de uma personalidade completa através dos anos? Em levar uma vida completa? Uma vida incompleta não interessa. Se a ausência de relações físicas a deixa incompleta, então saia e tenha uma aventura. Se a falta de uma criança a deixa incompleta, tenha um filho se puder. Mas faça-o somente para ter uma vida completa, em harmonia consigo própria. Podemos colaborar os dois, não acha? Se nos adaptarmos às necessidades, podemos, ao mesmo tempo, converter a nossa mútua adaptação numa construção sólida da nossa vida em comum, não lhe parece?

            Connie ficou um pouco confusa com aquelas palavras. Sabia que ele tinha razão, teoricamente. Mas, quando mencionou a construção sólida de uma vida em comum, ela... ela hesitou. Seria realmente o seu destino continuar absorvida na vida dele para sempre? Não haveria mais nada na sua vida? Pois seria realmente assim? Ter-se-ia de satisfazer com a vida em comum, como se fossem um só, vida essa enfeitada, aqui e ali, pela flor ocasional de uma aventura. Mas como poderia ela saber o que sentiria no ano seguinte? Alguém poderia sabê-lo? Como é que se poderia dizer "Sim"? Um sim durante anos e anos? Um pequeno sim, como um suspiro, e ficar-se preso a essa palavra leve como uma borboleta! Evidentemente que tinha de bater as asas e desaparecer, para ser seguido por outros sins e nãos, como um bando de borboletas a esvoaçar.

            - Acho que tem razão, Clifford. E creio que concordo consigo, mas a vida de repente pode mudar.

            - Mas, enquanto não mudar, concorda?

            - Sim, penso que sim, realmente.

           Ela estava a prestar atenção a um cão, um spaniel castanho que surgira de uma curva do caminho, e os olhava com o focinho no ar, soltando um breve e suave latido. De repente, apareceu um homem com uma espingarda, atrás do cão, avançando para eles, como se fosse atacar. Em vez de os atacar, parou, cumprimentou e começou a descer o monte. Era o novo guarda-caça, o couteiro, mas Connie tinha-se assustado, ele surgira como uma ameaça súbita. Foi assim que ela o viu, uma ameaça que aparecia de repente sem ela saber de onde.

            Era um homem que envergava calças de bombazina verde-escuras e polainas, à moda antiga, de rosto vermelho e bigode ruivo, e um olhar distante. Descia o monte em passos rápidos.

            - Mellors! - chamou Clifford.

            O homem voltou-se e saudou, num movimento rápido de continência como um soldado.

            - É capaz de fazer o favor de virar a cadeira para ela andar? Assim seria mais fácil para mim.

            O homem suspendeu imediatamente a caçadeira em bandoleira, avançou no mesmo movimento rápido e simultaneamente suave, como se quisesse ser invisível. Era de tamanho mediano, um pouco magro, e não falou. Nem sequer olhou para Connie, só a cadeira lhe prendeu a atenção.

            - Connie, este é o novo couteiro, Mellors. Não conhecia ainda Lady Chatterley, Mellors?

            - Não, Sir Clifford.

            A resposta foi imediata e neutra.

            O homem tirou o chapéu, deixando ver o cabelo espesso, quase louro. Fitou Connie nos olhos, com uma expressão perfeita, sem receio, impessoal, como se quisesse perscrutar. Isto intimidou-a. Baixou-lhe a cabeça timidamente, ele mudou o chapéu para a mão esquerda, e fez uma pequena vênia como um cavalheiro. Mas não disse nada, ficou calado com o chapéu na mão.

            - Mas já cá está há um tempo, não é verdade? - perguntou Connie.

            - Oito meses, minha senhora... Vossa senhoria - corrigiu, tranqüilamente.

            - E agora? - perguntou ela, olhando-o nos olhos. Os olhos dele fizeram-se menores, com ironia e um pouco de impudência.

            - Sim, obrigado, minha senhora. Fui criado aqui...

            Fez outra pequena vênia, voltou-se, pôs o chapéu na cabeça e preparou-se para pegar na cadeira. As últimas palavras que proferiu tiveram o tom pesado e arrastado do dialeto... talvez até por troça, porque antes não se tinha notado. Quase que podia ser um cavalheiro. De qualquer forma era um homem curioso, perspicaz, singular, solitário, mas seguro de si.

            Clifford acionou o motor, o homem virou cuidadosamente a cadeira e pô-la voltada de frente para o declive que ia dar à mata de avelaneiras.

            - É tudo, Sir Clifford? - perguntou.

            - Não, talvez seja melhor acompanhar-me, porque ela pode parar. O motor não é suficientemente forte para subir.

            O homem olhou em volta, procurando o cão atentamente. O spaniel olhou para ele e agitou levemente a cauda. Um pequeno sorriso, irônico ou brincalhão, mas suave, aflorou nos seus olhos por momentos, depois desapareceu e o seu rosto retomou a mesma expressão vaga. Desceram bastante depressa o declive, o homem segurava a barra com as mãos para a controlar. Parecia mais um soldado do que um criado, e havia qualquer coisa nele que, para Connie, fazia lembrar Tommy Dulkes.

            Quando chegaram à pequena mata de avelaneiras, Connie, de repente, estugou o passo e abriu o portão que dava para o parque. Enquanto ela o segurava, os dois homens olharam-se ao passar, Clifford com um olhar crítico, o outro com espanto e uma curiosidade indiferente, como se quisesse simplesmente ver o aspecto dela. E ela notou nos seus olhos azuis, impessoais, uma expressão de sofrimento, indiferença e ternura ao mesmo tempo. Porque seria ele tão distante, tão ausente?

            Clifford parou a cadeira, já dentro do parque, e o homem avançou delicadamente para fechar o portão.

            - Porque correu para abrir o portão? - perguntou Clifford numa voz lenta, calma, que evidenciava a sua reprovação. - Mellors podia tê-lo feito.

            - Pensei que não queria parar - respondeu ela.

            - E deixá-la para trás para ter de correr até chegar ao pé de nós?

            - Oh, gosto de correr de vez em quando!

            Mellors segurou de novo a cadeira, com um ar perfeitamente ausente, embora Connie sentisse que ele prestara atenção a tudo. Enquanto empurrava a cadeira pela inclinação íngreme do parque, a sua respiração era rápida com os lábios entreabertos. Não era muito forte, na verdade. Possuía uma certa vitalidade, mas era frágil e sufocava facilmente. O seu instinto de mulher sentiu-o.

            Connie ficou para trás deixando passar a cadeira. O dia tornara-se cinzento e a pequena réstia de céu desaparecera. O círculo de névoa fechara-se, e estava frio, um frio desagradável. Ia nevar. Tudo cinzento, tudo cinzento! O mundo parecia exausto.

            A cadeira esperava por ela no cimo do caminho cor-de-rosa. Clifford voltou-se para a ver.

            - Está cansada? - perguntou ele.

            - Não, não.

            Mas estava. Começava a invadi-la uma estranha sensação de fadiga e insatisfação. Clifford nada notou, não tinha consciência da existência desse tipo de coisas. Mas o estranho percebeu. Connie sentia que o seu mundo e a sua vida estavam gastos, e a sua insatisfação era mais antiga do que aquelas colinas.

            Chegaram junto da casa, contornando-a até às traseiras, onde não havia degraus. Clifford conseguiu passar sozinho para a cadeira de rodas baixa; tinha muita força e agilidade nos braços. Depois, Connie levantou as pernas mortas e ajeitou-as.

            O guarda, esperando em sentido que o mandassem embora, observava tudo atentamente sem perder um só pormenor. Empalideceu como que receoso quando viu Connie levantar nos braços as pernas inertes daquele homem, enquanto ele se voltava na cadeira. Estava assustado.

            - Obrigado pela ajuda, Mellors - agradeceu Clifford, distraidamente, começando a empurrar a cadeira em direção ao corredor, que dava para os aposentos dos criados.

            - Precisa de mais alguma coisa, Sir ? - disse Mellors na sua voz neutra, como as dos sonhos.

            - Mais nada, bom dia.

            - Bom dia, Sir.

            - Bom dia! Foi muito amável em empurrar a cadeira pela colina acima, e espero que não tenha sido um esforço demasiado - disse Connie, voltando-se para o guarda, de pé, fora da porta.

            Ele fitou-a nos olhos por instantes, como se tivesse acordado e percebido a sua presença.

            - Não, não foi demasiado! - respondeu ele depressa. Depois voltou a falar dialeto, acrescentando: - O bom dia a vossa senhoria!

            - Quem é o seu couteiro? - perguntou Connie, ao almoço.

            - Mellors! Viu-o.

            - Sim, mas donde é ele?

            - De parte nenhuma! Nasceu em Tevershall, era filho de um mineiro, creio eu.

            - E ele era mineiro?

            - Foi ferreiro na mina, creio, chefe dos ferreiros. Mas foi guarda aqui durante dois anos, antes da guerra, depois entrou para a tropa. O meu pai sempre teve boa opinião dele, assim quando regressou e voltou para a mina a oferecer-se para ferreiro, apenas o recebi outra vez como guarda. Fiquei muito satisfeito quando ele aceitou, porque é praticamente impossível encontrar um bom guarda nesta zona, e um couteiro tem de ser um homem que conheça as pessoas.

            - E não é casado?

            - Foi. Mas a mulher partiu com... outro... com outros homens, até que acabou por trocá-lo por um mineiro de Stacks Gate. Creio que ainda lá vive.

            - Então não tem ninguém?

            - Mais ou menos. A mãe vive na aldeia, parece-me, e acho que tem um filho.

            Clifford olhou para Connie, nos seus olhos azul-pálidos, ligeiramente salientes, aflorou uma expressão de vazio. Aparentemente parecia estar vigilante, mas no fundo era como a atmosfera dos Midlands, nebuloso, esfumado. E a neblina parecia estar a mover-se vagarosa e silenciosamente. Quando fitava Connie, de um modo peculiar, dando-lhe informações rigorosas e precisas, ele sentia o mais profundo do seu ser encher-se de bruma e de vazio. Isso assustava-o, tornava-o impessoal, próximo da demência.

            E ela percebia levemente uma das grandes leis da alma humana: quando a alma emocional recebe um golpe que fere, mas que não mata o corpo, a alma parece restabelecer-se ao mesmo tempo que este; mas isto é apenas aparente, não passa do mecanismo de um hábito reassumido; lentamente, muito lentamente, a ferida da alma começa a fazer-se sentir, como uma chaga que se torna mais profunda e dolorosa, até que recobre toda a psique; e quando julgamos que recuperamos e esquecemos, surgem outros efeitos, terríveis, mais agudos do que nunca.

            Era assim com Clifford. Depois de ficar "bom" e voltar a Wragby, começou a escrever as suas histórias, sentiu-se seguro da vida, apesar de tudo, parecia ter esquecido e recuperado toda a serenidade de espírito. Mas os anos foram passando, e, lentamente, Connie foi notando que a chaga do medo e do horror crescia e se espalhava dentro dele. Durante um certo tempo foi tão profunda quanto invisível, quase inexistente. Agora começava a desenhar-se mais concretamente, em contornos de medo, que se aproximavam da paralisia. Mentalmente estava vivo. Mas a paralisia, a chaga de um golpe demasiado severo, alastrava gradualmente ao seu eu afetivo.

            E invadia-o a ele e ao mesmo tempo a ela. Connie sentia a sua alma penetrada de um medo interior, de um vazio e indiferença em relação a todas as coisas. Quando Clifford estava bem disposto, podia ainda ser brilhante, por assim dizer, e determinar o futuro, como quando no bosque ele lhe falara em ter um filho e em dar um herdeiro a Wragby. Mas no dia seguinte todas essas palavras brilhantes pareciam folhas mortas, retorcidas, a desfazerem-se em pó, sem significado, arrastadas por uma rajada de vento. Não eram palavras folhudas de uma vida real, com uma energia jovem fazendo parte da árvore. Eram folhas caídas, pedaços de uma vida malograda.

            Tudo lhe parecia desfeito, por toda a parte. Os mineiros de Tevershall falavam novamente numa greve, e Connie sentia que não era mais uma vez uma manifestação de força, era a chaga da guerra que estivera em suspenso e que, lentamente, vinha agora à superfície e gerava uma grande dor de inquietação, torpor e descontentamento. A chaga era funda, funda, funda... a chaga de uma guerra falsa e desumana. Seriam necessários muitos anos para que o sangue vivo das gerações dissolvesse o enorme coágulo preto de sangue que lhes marcava as almas e os corpos. E seria necessária uma esperança nova.

            Pobre Connie! Os anos passavam, e crescia dentro dela o medo do vazio. A vida mental de Clifford e a sua estavam ameaçadas pelo vazio, e o casamento, a vida em comum, fundada num hábito de intimidade, como ele dizia, havia dias em que tudo se tornava em vazio, em nada. Palavras, muitas palavras, mas a única realidade era o vazio, coberto por uma hipocrisia de palavras.

            Depois, havia o êxito de Clifford: a deusa-cadela! Na verdade, ele era quase famoso, e os seus livros rendiam mil libras. A sua fotografia aparecia em toda a parte, tinha o seu busto e um retrato em duas galerias. Parecia a voz mais moderna da moderna geração. Graças ao seu estranho instinto de pessoa aleijada para a publicidade, em quatro ou cinco anos tinha-se tornado o mais conhecido dos jovens "intelectuais". Onde estava o "intelectualismo", Connie não percebia. Clifford conseguia uma análise inteligente e levemente humorista das pessoas e dos motivos, mas que destruía tudo. Era como os cachorrinhos a rasgar as almofadas do sofá; mas aqui não era sinal de juventude nem brincadeira, mas sim de velhice e vaidade obstinada. Estranho e vazio, assim ecoava duas ou três vezes na sensibilidade de Connie. Aquilo não era nada, não passava de um espetáculo maravilhoso de vazio. Um espetáculo! Um espetáculo! Um espetáculo!

            Michaelis tinha escolhido Clifford para figura central de uma peça. A intriga estava esboçada e o primeiro ato escrito. Michaelis era ainda melhor do que Clifford na construção de um espetáculo de vazio. Era o último sopro de vida que ainda existia dentro destes dois homens: a paixão pelo espetáculo. Desconheciam a paixão sexual, estavam mortos sob esse ponto de vista. E nessa altura não era dinheiro que Michaelis pretendia. Clifford também não tinha iniciado a sua carreira por dinheiro, embora não desperdiçasse oportunidades, porque o dinheiro é a marca e o selo do êxito. Êxito era o que ambos procuravam. Ambos queriam fazer uma verdadeira exibição, uma exibição de si próprios, que prendesse as multidões durante um tempo.

            Estranha, essa prostituição à deusa-cadela. Connie, uma vez que estava de fora e já era insensível a tudo aquilo, sentia de novo todo o vazio. Até a prostituição à deusa-cadela era um nada, embora os dois homens se prostituíssem sem cessar. Até isso era destituído de sentido.

            Michaelis escreveu a Clifford sobre a peça. Evidentemente que ela tinha conhecimento disso havia muito tempo. Clifford ficou entusiasmado, mais uma vez viria a público levado, e com vantagem, por outro. Convidou Michaelis para Wragby com o ato I. Michaelis veio. Era Verão. Vestido com um terno claro, luvas brancas de camurça e um ramo de orquídeas cor de malva para Connie. O ato I era extraordinário. Até Connie gostou - naquela medida em que podia ainda gostar. E Michaelis estava maravilhoso, emocionado pelo seu poder de arrebatar as pessoas. E estava belo, pelo menos aos olhos de Connie, via nele aquela inércia antiga de uma raça que já não pode sofrer desilusão, um máximo de impureza que no fundo é pura. Naquilo em que se afastava da sua prostituição suprema à deusa-cadela, parecia puro, puro como uma máscara africana de marfim que, pelo sonho, converte a impureza em pureza, nos seus contornos claros.

            O momento em que tinha conseguido entusiasmar os dois Chatterley, foi o ponto culminante da vida de Michaelis. Tinha triunfado, tinha-os entusiasmado. Até Clifford o adorou temporariamente, se assim se pode dizer.

            Na manhã seguinte, Mick estava mais agitado do que nunca: inquieto, devorado, as mãos nervosas metidas nos bolsos das calças. Connie não tinha ido ter com ele na noite anterior, e ele não sabia onde ela estava. Coquetismo!... no próprio momento do seu grande triunfo.

            De manhã subiu à sala de estar de Connie. Ela sabia perfeitamente que ele viria. E a sua agitação era evidente. Perguntou-lhe a opinião sobre a peça, se a tinha achado boa. Precisava de ouvir elogios, os elogios tocavam-no, naquele pequeno fio de paixão que ainda existia dentro dele, para além do orgasmo sexual. E ela enalteceu-a entusiasticamente, embora no fundo da sua alma soubesse que não tinha sentido nada.

            - Escute - acabou ele finalmente por dizer -, porque não fazemos o que deve ser, porque não nos casamos?

            - Mas eu sou casada! - respondeu ela, espantada, e, no entanto, sem nada sentir.

            - É verdade, mas ele aceita o divórcio. Porque não nos casamos? Quero casar, sei que seria para mim a melhor solução. Casar e ter uma vida normal. Levo uma vida dos diabos e dou cabo de mim. Escute, nós somos feitos um para o outro, como a luva para a mão. Porque não nos casamos? Vê alguma razão para o não fazermos?

            Connie olhou-o, admirada, e sem a menor perturbação. Os homens são todos iguais, esquecem-se de tudo o que é essencial. Elevam-se no ar como se fossem foguetes e esperam que os sigam no balanço das frágeis canas.

            - Mas eu já sou casada - repetiu ela - e sabe que não posso deixar Clifford.

            - Mas porque não? Porquê? - gritou Mick. - Daqui a seis meses ele mal se lembra que o deixou. Para ele não existe ninguém, senão ele próprio. Nem precisa de si, vive preocupado exclusivamente consigo próprio, tanto quanto posso observar.

            Connie sentiu que havia uma certa verdade nas suas palavras, mas sentiu, ao mesmo tempo, que Michaelis revelava claramente todo o seu egoísmo.

            - Não se preocuparão todos os homens exclusivamente consigo próprios? - perguntou ela.

            - Até certo ponto, concordo. É necessário, para se conseguir ser alguém, para triunfar. Mas não é essa a questão. Até que ponto um homem pode fazer uma mulher feliz. Ele pode fazê-la feliz ou não? Se não pode, não tem quaisquer direitos...

            Parou e fitou-a, com os seus olhos rasgados, cor de avelã, quase hipnotizantes.

            - Bem - acrescentou -, creio que sou capaz de fazer uma mulher feliz, e julgo que posso garantir.

            - Fazer feliz como? - perguntou Connie. E continuava a olhá-lo com um espanto próximo da inquietação. Continuava a não sentir nada por dentro.

            - De todas as maneiras, que diabo, em tudo. Vestidos, jóias até certo ponto, clubes noturnos, conhecer gente, acompanhar o ritmo da vida moderna... Viajar, ser importante em qualquer lugar... Sei lá, em tudo.

            Michaelis falava, quase com um brilho de triunfo nos olhos, e Connie fitava-o, como se estivesse deslumbrada, mas sem nada sentir. Nem à superfície ela estava excitada com o futuro esplendoroso que ele lhe oferecia. Nem o seu eu exterior, que outrora teria reagido, se sentia tocado. Não sentia nada, não podia "partir". Continuou sentada, a olhá-lo com espanto, sem sentir nada, apenas o extraordinariamente desagradável odor da deusa-cadela, em qualquer parte.

            Mick estava sentado, inclinado para a frente, na cadeira, aflito e fitando-a com uma expressão quase histérica. E, na sua vaidade, estaria mais ansioso pelo sim dela ou mais apavorado no seu receio desse mesmo sim? Quem poderia sabê-lo?

            - Terei de pensar nisso - respondeu ela. - Por agora nada lhe posso dizer. Pode-lhe parecer que Clifford não conta, mas não é verdade. Quando me lembro do seu estado...

            - Mas, pelo amor de Deus, quando as pessoas se começam a servir das suas desgraças! Podia começar a dizer como me sinto sozinho, como sempre me senti, todos os sentimentalismos do gênero. Pelo amor de Deus, quando não resta mais nada senão as desgraças para manter uma posição!

            Voltou-se e mexia furiosamente as mãos nos bolsos das calças. Nessa noite disse a Connie:

            - Vem ao meu quarto, não vem? Não sei onde é o seu.

            - Está bem - respondeu ela.

            Nessa noite foi um amante mais apaixonado do que nunca, na sua nudez estranha e frágil de rapazinho. Connie não conseguiu realizar-se antes de ele acabar, embora ele despertasse nela uma certa paixão ansiosa, na sua nudez macia de rapazinho. Quando ele acabou, ela continuou, num tumulto selvagem e agitado dos rins, enquanto ele, heroicamente, manteve a posição dentro dela, na entrega completa de si próprio, até que ela conseguiu a sua realização, dando pequenos gritos estranhos.

            Quando finalmente se afastou dela, comentou com uma voz amarga quase sarcástica:

            - Não será capaz de se realizar ao mesmo tempo que eu? Ou só o consegue sozinha e no momento escolhido por si?

            Este pequeno comentário, naquele momento, constituiu um dos grandes choques da sua vida. Aquela forma passiva de ele se dar constituía a sua maneira de comunicar com os outros, e isso era evidente.

            - Que quer dizer?

            - Sabe muito bem o que quero dizer. Continua até muito depois de eu ter acabado, e tenho de me manter de dentes cerrados até conseguir o seu prazer sozinha.

            Ela ficou aturdida com aquela brutalidade súbita e inesperada, exatamente no momento em que se sentia invadida por um amor sem palavras, talvez uma forma de amor por ele. Como tantos homens modernos, ele terminava pouco depois de começar, o que obrigava a mulher a ser ativa.

            - Mas não quer que eu continue até sentir prazer?

            Ele deu uma gargalhada sinistra.

            - Quero, claro que quero! Quero manter-me de dentes cerrados enquanto se esforça.

            - Mas não quer?

            Ele iludiu a resposta.

            - Todas as mulheres são assim. Ou não têm orgasmo como se estivessem mortas, ou esperam até um homem acabar, e então atuam por si, começam a sentir prazer e o homem tem de aguentar. Nunca me deitei com uma mulher que se realizasse ao mesmo tempo que eu.

            Connie mal ouvia este relatório masculino, que era novo para ela, estava aturdida com aquela agressividade, aquela incompreensível brutalidade. Sentia-se inocente.

            - Mas quer que sinta prazer ou não? - insistiu.

            - Claro que sim, estou de acordo. Mas aguentar até uma mulher ter o orgasmo, não é lá muito agradável.

            Este discurso foi um dos golpes cruciais na vida de Connie. Matou qualquer coisa dentro dela. Nunca se tinha sentido muito entusiasmada por Michaelis antes dele agir. Não o queria. Era como se nunca o tivesse querido de verdade. Mas depois de tudo começar, parecia-lhe tão natural realizar-se com ele! Quase o tinha amado por isso... nessa noite quase o amara, quase desejara casar com ele.

            Talvez instintivamente ele o soubesse, e fosse essa a razão daquela brutalidade que destruía tudo como um castelo de cartas a tombar. Toda a emoção sexual que sentia por ele, ou por qualquer outro homem, morreu nessa noite. A sua vida separou-se completamente da dele como se jamais ele tivesse existido.

            Os dias continuaram a passar-se lentamente. Nada restava senão aquele mecanismo de vazio a que Clifford chamava vida completa, uma longa vida em comum de duas pessoas que estão habituadas a viverem na mesma casa.

            O vazio. Aceitar o grande vazio da vida pareceu a Connie ser o único objetivo da sua existência. Todas as pequenas coisas importantes e urgentes que, somadas, constituem a totalidade do vazio.

 

            - Porque é que os homens e as mulheres de hoje não gostam uns dos outros? - perguntou Connie a Tommy Dulkes, que era para ela uma espécie de oráculo.

            - Oh, mas eles gostam! Desde que a espécie humana foi criada, não creio que tenha havido uma época em que os homens e as mulheres tenham gostado tanto uns dos outros como a nossa. É um afeto genuíno! Eu sou um exemplo. Na verdade, gosto mais das mulheres do que dos homens, são mais corajosas, e pode-se ser franco para com elas.

            Connie ficou a meditar nestas palavras.

            - É verdade, mas nunca tem nada a ver com elas - respondeu.

            - Eu? Que é que estou a fazer neste momento, senão a falar com toda a sinceridade com uma mulher?

            - Sim, falar...

            - E que mais poderia fazer, se você fosse um homem, do que falar consigo com sinceridade?

            - Possivelmente mais nada. Mas uma mulher.

            - A mulher quer que um homem goste dela e fale com ela, mas, ao mesmo tempo, que a ame e a deseje, e parece-me que as duas coisas se excluem mutuamente.

            - Mas não devia ser assim.

            - Sem dúvida que a água não devia ser tão úmida, é um excesso de umidade. Mas é assim. Gosto de mulheres e falo com elas, por isso não as amo nem desejo. As duas coisas não coexistem em mim.

            - Acho que deviam coexistir.

            - Está bem. Mas o fato de as coisas deverem ser uma coisa e serem outra não é da minha conta.

            Connie ficou a pensar.

            - Isso não é verdade. Os homens podem amar as mulheres e falar com elas. Não compreendo como podem amar sem falarem, sem amizade, sem intimidade. Não lhe parece?

            - Bem, não sei. Para quê generalizar? Apenas conheço o meu caso pessoal. Gosto de mulheres, mas não as desejo. Gosto de falar com elas, e, embora se estabeleça depois uma intimidade, afasto-me sempre mais. No que respeita a beijarmo-nos, por exemplo. É assim. Mas não me tome como um exemplo da maioria. Provavelmente sou um caso particular, um daqueles homens que gostam de mulheres, mas não as amam, e que até as odeiam se os obrigam a meterem-se numa história de amor ou a simulá-la.

            - E isso não o entristece?

            - Porquê? De modo nenhum. Vejo Charles May e outros homens que têm aventuras. Não, não os invejo. Se o destino me fizesse encontrar uma mulher que eu quisesse, ótimo, mas nunca conheci nem vi nenhuma. Ora, creio que sou frígido, mas há mulheres de quem realmente gosto muito.

            - Gosta de mim?

            - Muito! E, como vê, não nos apetece beijarmo-nos, não é verdade?

            - Sem dúvida, mas não nos devia apetecer?

            - Porquê? Pelo amor de Deus?! Gosto de Clifford, mas o que diria, se o fosse beijar?

            - Mas não há uma diferença?

            - Onde é que ela está, em relação a pessoas como nós? Somos seres humanos inteligentes, e o problema do sexo é secundário. Absolutamente secundário. Que sentiria se de repente começasse a comportar-me como os homens do continente e a fazer exibições amorosas.

            - Detestava.

            - Aí tem! Repare, se realmente sou um macho, não ando atrás de uma fêmea da minha espécie. Não lhe sinto a falta. Simplesmente gosto de mulheres. Quem é que me vai obrigar a amar, ou a fingir amar, ou a fazer exibições amorosas?

            - Não, eu não. Mas não acha que há qualquer coisa que está errada?

            - Você pode ter essa impressão, eu não.

            - Eu sinto... sinto que está qualquer coisa errada entre os homens e mulheres. As mulheres já não têm encanto para os homens.

            - E os homens para as mulheres?

            Ela pensou no outro aspecto da pergunta.

            - Não muito - respondeu com sinceridade.

            - Então deixemos isso, sejamos decentes e simples, como seres humanos dignos. A compulsão sexual artificial não interessa. Recuso-me a pensar nisso.

            Connie sabia que ele tinha razão. Contudo, sentia-se abandonada... abandonada e perdida como uma apara num lago escuro.

            Nada tinha sentido, nem ela própria.

            Era a sua juventude que se revoltava. Aqueles homens pareciam velhos e frios. Tudo lhe parecia velho e frio, e Michaelis tinha-a desiludido. Também não lhe interessava. Os homens não queriam realmente uma mulher, nem mesmo Michaelis.

            E os pretensiosos que fingiam e simulavam o amor eram os piores de todos. Era triste, e nada se podia fazer contra isso. O homem tinha perdido o encanto para a mulher, e a única solução era a auto-sugestão, pensar que um homem a possuía, como em relação a Michaelis. Entretanto, a vida ia passando. Ela compreendia perfeitamente a razão da existência dos cocktails, do jazz do charleston até à exaustão. Era necessário dar um escape à juventude, sob pena de ela devorar o indivíduo. Horrível, a juventude, quando os jovens se sentem tão velhos como Matusalém, e, apesar de tudo, qualquer coisa ferve por dentro e não dá alívio. Que vida! Sem qualquer perspectiva de futuro! Quase desejou ter partido com Mick e transformado a sua vida num cocktail e numa noite de jazz, permanentes. Era preferível do que vaguear à espera da morte.

            Num dos seus dias maus foi dar um passeio pelo bosque, lentamente, sem prestar atenção a nada, sem saber sequer para onde ia.

            O estampido de um tiro, não muito longe, assustou-a e irritou-a.

            À medida que foi avançando ouviu vozes e recuou. Pessoas! Não queria ver pessoas. Mas o seu ouvido apurado captou outro som, que lhe chamou a atenção: uma criança a chorar. Percebeu imediatamente que alguém maltratava uma criança. Desceu rapidamente o caminho molhado, indignada, preparando-se para fazer uma cena.

            De uma curva do caminho viu duas figuras ao fundo da senda: o couteiro e uma garota com um casaco cor de púrpura e uma touca de pele de toupeira. A criança chorava.

            - Ah, cala-te, mentirosa! - dizia o homem, e a criança soluçava mais alto.

            Constance aproximou-se, com os olhos a brilhar. O homem voltou-se e olhou para ela, saudando-a friamente; estava pálido de cólera.

            - Que é que se passa? Porque é que ela está a chorar? - perguntou Constance imperiosamente, quase sem respirar.

            Com uma espécie de sorriso trocista, o homem respondeu com certa brutalidade, em dialeto cerrado.

            - Não sei, acho melhor que pergunte a ela.

            Connie sentiu-se como se ele lhe tivesse dado uma bofetada, e a sua cara mudou de cor. Depois correspondeu ao desafio, olhou para ele, com os olhos azuis a brilhar:

            - Foi a si que perguntei - exclamou ofegante. Ele fez uma pequena vênia, tirando o chapéu.

            - Perguntou, minha senhora...- E, de novo, em dialeto: - Mas não lhe posso dizer. - E parecia de novo um soldado, impenetrável, mas pálido por ser incomodado.

            Connie voltou-se para a criança, que não teria mais de nove ou dez anos, corada e de cabelo preto.

            - Que foi, minha querida? Diz-me porque estás a chorar. - Falou-lhe num tom de voz e de doçura, apropriadas. A criança redobrou ainda mais o choro, segura de si. Connie disse-lhe, com maior doçura ainda: - Então... então, não chores. Vá, conta-me o que é que te fizeram!

            Enquanto falava com a criança tateava na algibeira do casaco de malha, até que encontrou uma moeda de seis pence.

            - Não chores - e inclinando-se para ela. - Vê o que eu tenho para ti!

            Entre soluços e fungadelas, a pequena tirou a mão da cara, cheia de lágrimas, e os seus olhos pretos e vivos projetaram-se por um segundo na moeda. Depois mais soluços, mas menos fortes.

            - Então, qual é o problema? Conta-me - insistiu Connie, pondo o dinheiro na mão rechonchuda, que logo se fechou.

            - Foi... foi... o bichano! - exclamou aos arranques.

            - Que bichano, querida?

            Após breve silêncio, timidamente, apontou com a mão fechada sobre os seis pence para a moita.

            - Ali!

            Connie olhou e viu realmente um gato preto, grande, estendido no chão, ameaçador e com sangue.

            - Oh! - disse com repulsa.

            - Um caçador furtivo, minha senhora - comentou o homem, ironicamente.

            Ela olhou-o, irritada.

            - Não admira que a criança chore, se disparou à frente dela. Não admira.

            Olhou-a nos olhos, lacônico, desdenhoso, sem esconder os seus sentimentos. Connie corou de novo. Sentiu que tinha estado a fazer uma cena a alguém que a não respeitava.

            - Como te chamas? - perguntou à criança em tom de brincadeira. - Não queres dizer-me o teu nome?

            Fungou e respondeu, numa voz afetada e estridente.

            - Connie Mellors.

            - Connie Mellors! É um nome bonito. E saíste com o teu papá e ele deu um tiro num gatinho? Mas ele era mau!

            A criança olhou para ela, com os seus olhos negros, impudentes e inquiridores, medindo-a a ela e à extensão da sua simpatia.

            - Queria ficar com a avozinha.

            - Querias? Mas onde está a tua avozinha? A criança levantou um braço e apontou para o caminho.

            - Na casa do bosque.

            - Na casa do bosque? E queres voltar para lá? Arrepios e soluços mais fracos.

            - Quero!

            - Vem então, que eu levo-te. Queres que te leve para a tua avó? E assim o teu papá pode fazer o seu trabalho.

            Voltando-se para o homem:

            - É sua filha, não é verdade?

            O homem respondeu com uma saudação e um sinal afirmativo com a cabeça.

            - Creio que posso levá-la - acrescentou Connie.

            - Como vossa senhoria quiser.

            Voltou a olhá-la nos olhos com a mesma expressão calma, indiferente, de um homem muito solitário e independente.

            - Queres que te leve para o pé da tua avó para a cabana, querida?

            A criança respondeu com voz trêmula e um sorriso afetado:

            - Quero!

            Connie não gostou daquela criança mimada e falsa; apesar disso, limpou-lhe a cara e pegou-lhe na mão. O guarda saudou sem dizer palavra.

            - Bom dia - disse Connie.

            Estavam a cerca de uma milha da cabana pitoresca do couteiro, e, quando chegaram, Connie já se tinha cansado da pequena, tão cheia de artimanhas como um macaco e muito segura de si.

            A porta estava aberta e ouvia-se barulho lá dentro. Connie deteve-se, a criança soltou a mão e correu para dentro de casa.

            - vó... vó!

            - Ah, já cá estás outra vez.

            Era um sábado de manhã e a avó tinha acabado de pôr carvão no fogão. Veio à porta com o seu avental de serapilheira e uma escova na mão; tinha uma mascarra no nariz. Era uma mulher baixa, ressequida.

            - Meu Deus - disse, enquanto limpava apressadamente a cara com as costas da mão quando viu Connie parada no limiar da porta.

            - Bom dia - disse esta. - Ela estava a chorar e vim trazê-la a casa.

            A avó voltou rapidamente a cabeça e fitou a criança.

            - Onde está o teu pai?

            A garota agarrou-se às saias da avó, a sorrir.

            - Estava ali - respondeu Constance-, mas matou um gato, um caçador furtivo, e a miúda ficou perturbada.

            - Oh, não tinhas nada que incomodar Lady Chatterley! Foi muito gentil da sua parte, mas tu não devias ter incomodado a senhora. Nunca se viu tal coisa!

            E depois a velhota voltou-se para a criança:

            - Lady Chatterley teve este incômodo todo por tua causa! Não tinhas nada que a amolar!

            - Não foi incômodo nenhum, apenas um passeio - respondeu Connie, a sorrir.

            - Ah!, foi muito gentil. Então ela estava a chorar? Tinha certeza que, antes de se afastarem, ia passar qualquer coisa. Ela tem medo dele, é o que é, ele é quase um estranho para ela... quase um estranho e não vejo que se entendam. Ele tem a sua maneira de ser.

            Connie não sabia que responder.

            - Olhe, vó - interrompeu a criança.

            A velhota viu a moeda de seis pence na mão da miúda.

            - E seis pence e tudo! Oh, Lady Chatterley, não devia ter sido tão boa. Foi muito boa para ela. Palavra que esta manhã estás cheia de sorte.

            Ela pronunciou o nome como todas as outras pessoas da aldeia: "Chat'ley". Connie não podia deixar de olhar para o nariz da mulher, que voltou a limpar a cara com as costas da mão sem tirar a mancha.

            Connie ia-se embora.

            - Muito obrigada Lady Chat'ley, muito obrigada. Diz muito obrigada a Lady Chat'ley.

            - Obrigada! - murmurou a criança.

            - É um amor! - disse Connie, com um sorriso. - Bom dia.

            E foi-se embora, satisfeita por se afastar. Era curioso como aquele homem magro e orgulhoso podia ser filho de uma mulher baixa e astuta.

            Mal Connie havia partido, a velhota correu a agarrar num espelhinho da copa. Quando se viu com a cara suja bateu com o pé no chão, impaciente.

            "Evidentemente que ela tinha de me ver com este avental e a cara suja. Deve ter ficado com uma bonita idéia a meu respeito!"

            Connie dirigiu-se lentamente para Wragby. Para "casa"! Casa era uma palavra calorosa para aquela enorme barraca triste. Outrora tivera significado, mas perdera-se. Todas as palavras grandiosas tinham perdido o significado para a geração de Connie: amor, alegria, felicidade, casa, mãe, pai, marido - numa agonia prolongada. A casa era o lugar onde se vivia, o amor uma coisa sobre que não havia ilusões, alegria a palavra que se aplicava a um bom charleston, felicidade o termo hipócrita para enganar os outros, o pai um indivíduo que gostava da vida, o marido aquele com quem se vivia e se compartilhava o bom humor. O sexo, a última das palavras grandiosas, não passava de um termo de cocktail para traduzir uma excitação que animava por uns escassos momentos, mas que depois deixava a pessoa mais desprotegida do que nunca. Um desgaste como se as pessoas fossem feitas de matéria de má qualidade que se ia desfazendo até ficar em nada.

            Tudo o que realmente subsistiu foi um estoicismo obstinado, de que era possível extrair prazer. A própria experiência do vazio da vida, fase por fase, etapa por etapa, trazia uma forma tristonha de satisfação. É assim! - era sempre a última palavra: casa, amor, casamento, Michaelis: é assim! E à hora da morte, as últimas palavras à vida seriam: é assim!

            E o dinheiro? Com o dinheiro não se pode dizer o mesmo, as pessoas sempre quiseram o dinheiro. O dinheiro, o êxito, a deusa-cadela - como Tommy Dulkes dizia sempre parafraseando Henry James -, eram uma necessidade permanente. Não se pode gastar o último tostão e depois dizer: é assim! Não, porque é preciso dinheiro para isto ou para aquilo, mesmo que seja para mais dez minutos de vida. Num desenrolar mecânico, para tudo é preciso dinheiro. É preciso tê-lo, tem de se ter dinheiro. Nada mais interessa. É assim!

            Já que não temos culpa de estar vivos, mas como estamos, o dinheiro é uma necessidade, a única necessidade absoluta. Pode-se passar sem todas as outras coisas, em caso de emergência, mas não sem dinheiro. Enfaticamente. É assim!

            Ela pensou em Michaelis e no dinheiro que podia ter com ele e que nem sequer desejava. Preferia a quantia menor que ajudava Clifford a ganhar com os seus livros. Ela realmente ajudava-o a ganhar esse dinheiro. "Clifford e eu ganhamos mil e duzentas libras por ano com os seus livros", dizia. Ganhar dinheiro! Ganhá-lo! Extraí-lo do ar, ou de coisa nenhuma! Era o único ponto de honra. O resto não interessava.

            Voltou para casa, para Clifford, para juntar as suas forças às dele e fazerem uma história do nada. Uma história significava dinheiro. Clifford preocupava-se muito com as suas histórias, se seriam consideradas literatura de primeira classe ou não. Ela com isso não se importava. "Vazias!", tinha-lhe dito o pai. Mil e duzentas libras no ano passado - era a resposta simples e definitiva.

            Quando se é jovem, cerram-se os dentes, até morder, e espera-se, até que o dinheiro comece a surgir do invisível; trata-se de uma questão de força, uma questão de vontade. É uma emanação muito sutil e poderosa da vontade que devolve esse misterioso vazio que é o dinheiro: uma palavra escrita num pedaço de papel. É uma espécie de magia, e significa com certeza o êxito. A deusa-cadela! Bem, se a pessoa tem de se prostituir, ao menos que seja à deusa-cadela! Pode-se sempre desprezá-la, mesmo depois da prostituição à Glória, o que constitui uma vantagem.

            Clifford continuava, evidentemente, a ter muitos tabus e feitiços da infância. Queria que pensassem que ele era "realmente bom", como pretensão, não fazia o menor sentido. Um escritor realmente bom é aquele que se torna popular, e não vale a pena ser bom sem conseqüências. Parecia que a maior parte dos homens "realmente bons" perdiam o autocarro. A vida é só uma, e se se perde o autocarro fica-se sozinho no passeio com a carga de todos os fracassos.

            Connie tencionava passar com Clifford o Inverno seguinte em Londres. Ambos tinham apanhado o autocarro, assim podiam também viajar no segundo piso, e que toda a gente visse.

            O pior era que Clifford tinha tendência para o vago, para a ausência, para crises de vazio e depressão. Era a chaga da sua alma que se começava a fazer sentir e Connie tinha vontade de gritar. Meu Deus, se o próprio mecanismo da consciência acabasse por falhar, que se poderia fazer? Far-se-á o que for possível. Mesmo perder totalmente a coragem?

            Por vezes chorava amargamente, mas mesmo durante esses acessos, dizia para si mesma: "Idiota, sempre a molhar lenços, como se isso resolvesse alguma coisa!".

            Depois de romper com Michaelis, tinha decidido que não queria nada da vida. Esta parecia a solução mais simples de tudo o que era insolúvel. Não queria nada mais do que já tinha: Clifford, os seus livros, Wragby, o título, dinheiro, fama. Queria viver de tudo isso. O amor, o sexo, e todo o resto era como se fossem apenas sorvetes de frutas. Se a pessoa os devorar e os esquecer, se se convencer que não significavam nada, não significam mesmo. Especialmente o sexo!... Por uma decisão mental, o problema fica resolvido. Sexo e um cocktail : duraram mais ou menos o mesmo tempo, tiveram o mesmo efeito e conduziram ao mesmo fim.

            Mas uma criança, um filho! A isso ainda ela reagia. Mas só com toda a prudência se meteria em tal aventura. Havia a considerar o problema do homem, e era curioso, não havia um único homem no mundo de quem ela quisesse ter um filho. Um filho de Mick- era um pensamento que repudiava, era como ter um filho de um coelho. Tommy Dulkes?... Ele era muito gentil, mas impossível associá-lo a um filho, a outra geração. Ele acabava em si próprio. E, em todo o círculo de relações de Clifford, que não era restrito, não havia um único homem por quem ela não sentisse desprezo, quando pensou em ter um filho dele. Muitos seriam absolutamente possíveis como amantes, até Mick. Mas deixá-los gerar um filho! Seria uma abominável humilhação.

            Assim era! Apesar disso, Connie continuava a pensar num filho. Esperar! Esperar! Passaria várias gerações de homens na sua peneira, e procuraria até encontrar um que servisse para pai do seu filho. "Ide pelas ruas e atalhos de Jerusalém e vede se podeis encontrar um homem.

 

"Não foi possível encontrar um homem na Jerusalém do Profeta, embora houvesse milhares de machos. Mas um homem! Gest une autre chose! ["Isso é outra coisa." (N. da T)]

 

            Pensava num estrangeiro, não queria um inglês, e um irlandês ainda menos. Um estrangeiro mesmo.

            Mas era preciso esperar, esperar! No Inverno seguinte levaria Clifford a Londres; depois, no outro, iriam para o Sul da França e Itália. Esperar! Ela não tinha pressa em relação à criança. Era um assunto que só a ela dizia respeito, e o único que, na sua originalidade de mulher, queria levar a sério no mais profundo da sua alma. Não se iria arriscar ao primeiro arrivista, não! Um amante pode ser qualquer pessoa, mas um homem para fazer um filho... Esperar, esperar, trata-se de um problema muito diferente. "Ide pelas ruas e atalhos de Jerusalém..." Não era uma questão de amor, mas sim de um homem. Ela até poderia odiar como pessoa. Mas se ele fosse o homem, esse ódio não interessaria. O importante era a outra parte da pessoa.

            Tinha chovido, como sempre, os caminhos estavam demasiado enlameados para a cadeira de Clifford, mas Connie iria sair. Saía todos os dias sozinha e passeava no bosque, onde podia estar realmente só, onde não via ninguém.

            Naquela dia, porém, Clifford quis mandar um recado ao guarda, e como o criado estava de cama com gripe - havia sempre alguém com gripe em Wragby -, Connie disse que passaria pela cabana.

            O ar era suave e calmo, como se o mundo estivesse a morrer. Um silêncio cinzento e viscoso. Nem sequer se ouvia o ruído arrastado das minas, porque estavam a laborar durante pouco tempo, e naquele dia tinham parado. O fim de todas as coisas!

            No bosque tudo estava completamente inerte e imóvel, só dos ramos despidos de folhas se desprendiam grandes gotas fazendo um ruído seco. Entre as velhas árvores havia profundidades cinzentas, numa inércia sem esperança, silêncio, vazio.

            Connie foi avançando quase sonambúlica. O velho bosque emanava uma melancolia, sem idade, algo que lhe agradava muito mais do que a dura insensibilidade do mundo exterior. Gostava daquela interioridade do que restava da floresta, a taciturnidade silenciosa das velhas árvores. Pareciam fortes e caladas, e eram, ao mesmo tempo, uma presença viva. Elas também estavam à espera: uma espera obstinada, estóica, e libertavam a sua força silenciosa. Talvez esperassem unicamente o seu fim: serem cortadas, levadas, como o fim da floresta, o fim de todas as coisas. Mas talvez o seu forte e aristocrático silêncio, o silêncio de robustas árvores, tivesse qualquer outro significado.

            Quando saiu do bosque, no lado norte, avistou a cabana do guarda, muito escura, de pedra castanha, com empenas e uma chaminé graciosa. Parecia desabitada, silenciosa, abandonada. Mas um fio de fumo saía da chaminé e o pequeno jardim rodeado de uma vedação em frente da casa estava cavado e tratado. A porta estava fechada.

            Naquele momento sentiu vergonha daquele homem de olhos estranhamente perspicazes. Não gostava de lhe dar ordens, e sentiu vontade de se ir embora. Bateu à porta suavemente, mas ninguém respondeu. Voltou a bater. Espreitou por uma janela e viu a pequena sala escura, com um aspecto privado, quase sinistro, como se não quisesse ser invadida.

            Ficou ali à escuta e pareceu-lhe ouvir ruídos do lado de trás da cabana. Como não conseguiu fazer-se ouvir, o seu brio estava despertado, não se daria por vencida.

            Deu a volta à casa. Atrás o terreno elevava-se a pique, e o pátio das traseiras ficava enterrado, cercado por um muro baixo de pedra. Virou a esquina da casa e parou. A dois passos dela o homem estava a lavar-se, completamente absorto. Desnudado até às ancas, com as calças de belbutina caídas a expor-lhe o torso até aos rins, e as suas delicadas costas curvavam-se para uma grande bacia de água, onde boiava espuma de sabão, na qual mergulhava a cabeça e esfregava num movimento rápido, erguendo os braços delgados e brancos. Tirava a água ensaboada dos ouvidos rápido e sutil, como uma doninha a brincar com a água, completamente só. Connie recuou, contornando a esquina da casa, e retirou-se apressadamente para o bosque. Sem querer tinha tido um choque, afinal era apenas um homem a lavar-se, coisa banal, ela própria não percebia porquê.

            De certo modo como uma visão, que a afetara fisicamente. Vira as calças grosseiras a escorregarem pelo torso alvo, delicado, os ossos um pouco à mostra, e um sentido de solidão total, de uma criatura completamente só. Tudo isto a tinha perturbado. Uma nudez perfeita, singela, solitária, de um ser que vive só e é profundamente solitário por dentro. Uma certa beleza de um ser puro; não a beleza material, nem mesmo a beleza do corpo, mas uma cintilação, um calor, uma chama branca de uma vida solitária, a revelar-se em contornos palpáveis. Um corpo!

            Connie tinha tido um choque no mais profundo do seu ser, sabia-o, e a impressão conservou-se. Mas, mentalmente, via o ridículo: um homem a lavar-se num pátio das traseiras de uma casa.

            De certeza, com sabão amarelo de cheiro desagradável. Estava irritada. Porque é que havia de ter presenciado aquela cena íntima e banal?

            Começou a andar para fugir de si mesma, mas logo se sentou num cepo. Estava demasiado confusa para pensar, mas, no meio da sua confusão, resolveu dar o recado ao homem. Não se deixaria inibir. Tinha de lhe dar tempo de se vestir, mas não para sair.

            Voltou lentamente à cabana, atenta ao menor ruído. Quando já estava perto, notou que tudo permanecia na mesma. Um cão ladrou, bateu à porta. O seu coração batia violentamente, o que a perturbava.

            Ouviu os passos do homem, a descerem a escada, com rapidez. Abriu de repente a porta, ela sobressaltou-se. Ele próprio parecia embaraçado, mas imediatamente um sorriso aflorou-lhe o rosto.

            - Lady Chatterley! - disse. - Deseja entrar?

            Recebia-a de maneira tão afável e descontraída, que ela passou a soleira e entrou no compartimento pequeno e lúgubre.

            - Tenho um recado de Sir Clifford - disse ela, numa voz suave, quase ofegante.

            O homem fitou-a com aqueles olhos azuis introspectivos, e ela teve de virar um pouco a cara. Ele achou-a donairosa, quase bonita na sua timidez, e imediatamente tomou conta da situação.

            - Quer-se sentar? - perguntou, convencido que ela não o faria.

            A porta continuava aberta.

           - Não, obrigada. Sir Clifford pergunta... - e deu-lhe o recado, fitando-o inconscientemente nos olhos.

            Os olhos do homem eram ardentes e afáveis, principalmente para uma mulher, maravilhosamente ardentes e afáveis, e descontraídos.

            - Muito bem, minha senhora. Vou já tratar disso.

            Quando recebeu o recado, todo o seu eu se modificou e ficou recoberto de uma certa dureza e distância. Connie hesitou. Tinha de ir embora. Mas olhou à volta, para aquela sala pequena, limpa, arrumada, porém escura, quase com consternação.

            - Vive aqui sozinho? - perguntou.

            - Completamente, minha senhora.

            - Mas a sua mãe?

            - Tem uma casa onde vive, na aldeia.

            - Com a criança?

            - Com a criança.

            E o seu rosto liso e gasto teve uma nota de sarcasmo, mudava constantemente, o que a desconcertava.

            - Não - acrescentou ele, vendo que Connie não estava a perceber -, a minha mãe vem cá todos os sábados fazer a limpeza. Eu mesmo faço o resto.

            Connie fitou-o mais uma vez. Os seus olhos sorriam de novo, mas de maneira um pouco trocista, ardentes, azuis, e afáveis. Ela olhava-o com um certo espanto. Ele estava vestido com umas calças e uma camisa de flanela e uma gravata cinzenta. O cabelo era macio, mas estava ainda úmido. O rosto era muito pálido e gasto. Quando os seus olhos paravam de sorrir, parecia um homem que tinha sofrido muito, mas todavia sem perderem o seu ardor. Mas notava-se-lhe uma solidão. Para ele, ela não estava ali.

            Sentiu o desejo de dizer muitas coisas, mas nada disse. Só olhou para ele de novo e comentou:

            - Espero não ter incomodado.

            Os olhos dele ficaram menores com um sorriso de troça:

            - Estava só a pentear-me, se não se importou de esperar. Só peço desculpa de não ter vestido o casaco, mas não fazia idéia de quem estava a bater. Aqui ninguém bate, e o inesperado é sempre ameaçador.

            Desceu o carreiro do jardim à frente dela, para segurar o portão. Em camisa, sem o casaco grosseiro de belbutina, ela tornou a notar como ele era esbelto, um tanto curvado. Quando passou por ele, viu que no seu cabelo louro e nos olhos cintilantes havia algo de muito jovem e vivo. Devia ser um homem de trinta e sete ou trinta e oito anos.

            Connie foi andando com dificuldade até ao bosque. Sabia que ele ficara a olhá-la e ela preocupava-se com isso mais do que queria.

            Ele voltou para casa pensando: "Ela é encantadora, realmente. Ela é mais atraente do que julga!".

            Ele confundia muito. Não parecia um couteiro, nem tão pouco um trabalhador. Todavia tinha qualquer coisa de comum com as pessoas da região. Mas também qualquer coisa que não tinha nada a ver com elas.

            - O couteiro, Mellors, é uma criatura muito curiosa - disse ela a Clifford. - Quase poderia ser um cavalheiro.

            - Podia!? - respondeu Clifford. - Nunca tinha reparado.

            - Mas não acha que ele tem qualquer coisa de especial? - insistiu Connie.

            - Penso que é simpático, mas conheço-o mal. Saiu do exército no ano passado, há menos de um ano. Veio da Índia, creio. Pode ter apanhado certos hábitos, talvez fosse ordenança de um oficial, e subisse de posto. A alguns acontece isso. Mas não é nada bom para eles, porque têm de retomar os seus antigos empregos quando regressam.

            Connie olhou para Clifford, pensativa. Notou nele uma repulsa inabalável contra todas as pessoas de classe baixa que podiam subir na vida, o que era característico do seu meio.

            - Mas não acha realmente que ele tem qualquer coisa de especial?

            - Francamente não. Que eu tenha notado, é claro.

            Ele olhou-a com estranheza, constrangido, semidesconfiado. Ela sentiu que ele estava a dizer a verdade, mas não para ele próprio. Detestava a menor sugestão de que um ser de outra classe fosse excepcional. As pessoas tinham de estar mais ou menos ao seu nível, ou abaixo.

            Connie sentiu uma vez mais a impermeabilidade, a mesquinhez dos homens da sua geração. Eram tão limitados, tinham tanto medo da vida!

 

            Quando Connie subiu para o quarto, fez o que não fazia há muito tempo: despir-se completamente e ver-se nua no enorme espelho. Não sabia o que procurava, nem o que queria ver, não sabia; no entanto, deslocou o candeeiro para, com a luz, se ver melhor.

            E pensou uma vez mais o que já tinha pensado muitas vezes... como é frágil, sensível, patético, um corpo humano nu! Qualquer coisa de inacabado, de incompleto.

            As pessoas diziam que ela tinha boa figura, mas, presentemente, estava fora de moda: era um corpo demasiado feminino, sem contornos de um adolescente. Não era muito alta, tinha um tipo escocês, baixo, com uma certa graça fugidia que podia ser beleza. A pele era levemente morena, os membros emanavam uma certa paz. O seu corpo devia ter possuído uma riqueza e uma plenitude, fugidias, mas faltava-lhe qualquer coisa: em vez de estar amadurecido nos seus contornos, estava a ficar mole e um pouco rígido, como se lhe faltasse sol e calor. Um pouco acinzentado, sem seiva!

            Desiludido o corpo de mulher, pois não lograra tornar-se pueril, imaterial e transparente; em vez disso ficara opaco. Tinha os seios pequenos, caídos em forma de pêra. Mas também não amadurecidos, um pouco amargos, sem sentido. A barriga tinha perdido o brilho fresco e arredondado de quando era nova, dos tempos do jovem alemão que a tinha verdadeiramente amado fisicamente. Nessa época o seu corpo era jovem, expectante, com um aspecto característico. Agora estava a ficar flácido, sem profundidade, magro demais, com uma magreza mole. As coxas, antes ágeis e cheias de vida na sua rotundidade feminina, estavam achatadas, relaxadas, sem sentido.

            O seu corpo estava a perder o significado, a ficar apagado e opaco, uma substância insignificante. Isto fê-la sentir-se muito deprimida e desesperada. Haveria alguma esperança? Estava uma velha, velha aos vinte e sete anos, sem brilho, sem fulgor carnal. Velha por abandono e recusa. Sim, recusa. As mulheres da moda mantinham os corpos resplandecentes como porcelana delicada, pelos cuidados que lhes prestavam. Mas o corpo de Connie nem porcelana parecia. Oh!, a vida do espírito! Nesse momento sentiu um ódio surdo por essa imensa fraude!

            Olhou no outro espelho o reflexo das suas costas, a cintura, os rins. Estava a emagrecer, o que não lhe ficava bem. A curva da cintura, por detrás, que ela podia ver torcendo a cabeça, estava gasta, quando tinha outrora um aspecto jovial. O movimento das ancas e das nádegas tinha perdido o brilho, o sentido de opulência. Tudo isso tinha desaparecido! Só o jovem alemão o amara, mas estava morto havia quase dez anos. Como tinha passado o tempo! Morto havia dez anos, e ela tinha somente vinte e sete. Esse rapaz saudável com toda a sua sensualidade jovem e inexperiente que ela tanto desprezava! Onde poderia encontrá-la de novo? Extinguira-se nos homens! Tinham os seus espasmos patéticos de dois segundos, como Michaelis; mas não possuíam uma sensualidade humana saudável, que aquece o sangue e refresca todo o corpo.

            Achava contudo a parte mais bela do seu corpo a queda das ancas no fundo das costas, e a quietude arredondada e adormecida das nádegas. Pareciam colinas de areia, da terra dos árabes, macias e inclinadas. Aí tinha ela ainda uma réstia de vida. Mas também aí estava mais magra, e a ficar um pouco madura, rígida.

            A parte da frente do corpo desesperava-a, estava a ficar flácida, com uma magreza mole, quase mirrada, a envelhecer antes de ter realmente vivido. Pensou no filho que poderia ter. Estava ela ainda em estado de conceber uma criança?

            Vestiu a camisa de noite, foi para a cama, e começou a chorar amargamente. Da sua amargura nasceu uma indignação fria contra Clifford, os seus livros e tudo o que ele dizia; contra todos os homens como ele, que defraudavam uma mulher até do seu próprio corpo.

            Era injusto... injusto! O sentido de uma profunda injustiça física invadia-lhe a alma.

            Mas, no dia seguinte, tudo foi igual, levantou-se às sete horas da manhã e desceu ao quarto de Clifford. Tinha de o ajudar em todas as coisas íntimas, porque não tinha um criado e recusava uma criada. O marido da governanta, que o conhecia de pequeno, ajudava-o e pegava-lhe ao colo. Mas as coisas mais pessoais fazia-as Connie, e fazia-as de boa vontade. Custava-lhe, mas queria ajudá-lo em tudo o que podia. Por isso quase nunca saía de Wragby, nunca por mais de um dia ou dois. Nessas ocasiões era a senhora Betts, a governanta, que tratava de Clifford. Ele, com o decorrer do tempo, passou a aceitar todo o auxílio. Obviamente, teria de ser assim.

            No entanto, dentro dela começou a ganhar forma um sentido de injustiça e frustração. O sentido físico de injustiça é um sentimento perigoso quando desperta. Tem de se manifestar, ou acaba por devorar a pessoa que o sente. Pobre Clifford, ele não tinha culpa. A maior desgraça era dele. Tudo fazia parte da catástrofe geral.

            Mas, de certo modo, não teria ele culpa? A falta de entusiasmo da parte dele, de um contato físico simples, apaixonado, não seria culpa sua? Ele nunca era arrebatado, nem gentil, estava embrenhado nos seus pensamentos, concentrado, sempre naquela maneira delicada e fria! Não possuía aquele calor que um homem pode dispensar a uma mulher, como o pai de Connie dispensava à filha: o calor de um homem que pensa em si e só em si, mas que ainda sabe confortar uma mulher com toda a sua masculinidade.

            Mas Clifford era um homem diferente, como todos da sua raça. Interiormente, eram insensíveis e indiferentes, e a afabilidade não de uma nota de mau gosto.

            Estaria tudo muito certo se fossem duas pessoas da mesma classe e da mesma raça. Então podia-se ser reservado e estimado, e ao mesmo tempo manter uma posição e usufruir a satisfação de a possuir. Mas quando se pertence a outra classe e raça, não resulta, não se sente prazer em ser indiferente, nem em pertencer à classe dominante.

            Que sentido pode isso ter se até os melhores aristocratas têm pouco para ser reservados! A sua regra não é uma regra, mas uma farsa. Que sentido pode isso ter? Não passa de uma imbecilidade sem sentido.

            Uma sensação de revolta estava latente em Connie. Que significava tudo aquilo? Que sentido tinha o seu sacrifício e dedicação a Clifford? Que causa estava afinal a servir? Um espírito gelado e vaidoso, incapaz de contatos humanos, corrupto como um judeu de nascimento humilde, ansioso por se prostituir à deusa-cadela da Glória. Nem a certeza de Clifford, fria e distante, de pertencer à classe dirigente evitava que corresse com a língua de fora atrás da deusa-cadela. Afinal, Michaelis era muito mais digno em tudo isso, tinha um êxito muito maior. Vendo bem, Clifford não passava de um bobo, e ser bobo é muito mais humilhante do que ser pretensioso.

            Comparando os dois homens, Michaelis podia ser-lhe muito mais útil. Ele até precisava mais dela. Qualquer boa enfermeira podia encarregar-se das pernas estropiadas de Clifford. E quanto a esforços heróicos, Michaelis era um rato corajoso e Clifford um cão-d'água exibicionista.

            Havia pessoas hospedadas em Wragby, entre elas uma tia de Clifford, Eva, Lady Bennerley. Era uma mulher magra, de sessenta anos, com um nariz vermelho. Viúva e com qualquer coisa de grand dame. (1) Pertencia a uma das melhores famílias, e via-se. Connie gostava dela, era simples e franca, na medida exata em que o queria ser, e superficialmente gentil. No fundo, era mestra na reserva, e considerava os outros um pouco abaixo. Não era sequer uma snobe, tinha demasiada confiança em si; perita no jogo frio da reserva e em conseguir que os outros cedessem sempre.

 

            [1. "Grande senhora." (N. da T)]

 

            Era gentil para Connie e tentava penetrar no seu espírito com o estilete afiado das suas observações delicadas.

            - Acho-a verdadeiramente extraordinária - disse a Connie - e tem feito maravilhas pelo Clifford. Nunca tinha suspeitado do gênio dele, mas teve êxito. - A tia Eva sentia-se complacentemente orgulhosa pelo triunfo de Clifford, que era mais uma pena na boina da família. Não se interessava absolutamente nada pelos seus livros. Para quê?

            - Oh, não creio que seja obra minha - respondeu Connie.

            - Tem de ser! Não pode ser demais ninguém. E parece-me que não é suficientemente recompensada.

            - Como?

            - Vive aqui fechada! Já disse a Clifford: se aquela rapariga um dia se revolta, a culpa é tua!

            - Mas Clifford nunca me recusa coisa nenhuma.

            - Mas, minha filha - e Lady Bennerley pousou a mão magra no ombro de Connie -, uma mulher tem de viver a sua vida, ou depois arrepende-se de a não ter vivido. Acredite-me!

            E bebeu um pouco mais de brandy, que era talvez a sua manifestação de arrependimento.

            - Mas eu vivo a minha vida, não vivo?

            - Não acho! Clifford devia levá-la para Londres e deixá-la sair. Os amigos dele estão bem para ele, mas estarão para si? Se estivesse no seu lugar não me satisfazia. A sua juventude está a ir-se embora, e passará a velhice e a meia-idade a arrepender-se.

            Lady Bennerley caiu num silêncio pensativo suavizado pelo brandy.

            Mas Connie não queria ir para Londres e ser introduzida por ela no mundo elegante. Achava-se pouco dotada para viver nesse mundo, não lhe interessava. Sentia toda a frieza característica, fulminante, desse mundo: como a terra do Labrador, que tem à superfície pequenas flores de cores vivas, mas poucos centímetros mais abaixo é gelo.

            Tommy Dulkes estava em Wragby, outro homem era Harry Winterslow, ainda Jack Strangeways e a mulher, Olive. A conversa que se estabelecia era muito mais desconexa do que quando só estavam os amigos íntimos, e as pessoas aborreciam-se, porque fazia mau tempo e só se podiam entreter com os bilhares ou a dançar ao som da pianola.

            Olive estava a ler um livro sobre o futuro, em que as crianças seriam reproduzidas em garrafas e as mulheres "imunizadas".

            -   Que bom seria - comentou ela - uma mulher poder fazer a sua vida.

            Strangeways queria filhos, mas Olive não.

            - Gostaria de ser imunizada? - perguntou-lhe Winterslow,com um sorriso desagradável.

            - Espero já o estar, naturalmente. De qualquer modo o futuro terá mais sentido, e a mulher deixará de ser escrava das suas funções.

            - Talvez flutuem e desapareçam no espaço - comentou Dulkes.

            - Penso que uma civilização capaz deveria eliminar muitas das incapacidades físicas - respondeu Clifford. - Todos os problemas ligados ao amor, por exemplo, podiam também ser eliminados. Creio que o seriam se pudéssemos reproduzir crianças em garrafas.

            - Não! - exclamou Olive. - Isso faria com que as pessoas tivessem mais tempo livre para se divertirem!

            - Creio - disse Lady Bennerley, pensativa - que se os problemas de amor desaparecessem, qualquer outra coisa tomaria o seu lugar. Morfina, talvez. Um pouco de morfina no ar! Seria maravilhosamente reconfortante para as pessoas!

            - O governo lançar éter para o ar todos os sábados para as pessoas passarem um fim-de-semana agradável! - disse Jack. - Soa bem, mas como nos sentiríamos nós às quartas-feiras?

            - Desde que consigam esquecer o corpo, os homens viverão felizes; no momento em que começam a tomar consciência do corpo, os homens sentem-se deprimidos. Assim, uma das coisas em que a civilização nos pode ajudar será a esquecer o corpo, e o tempo passará agradavelmente, sem darmos por isso. Ajudem-nos a libertar-nos a todos do corpo - comentou Winterslow -, já é tempo de o homem ver a sua natureza aperfeiçoada, especialmente no que diz respeito ao físico.

            - Imaginem se flutuássemos como o fumo do tabaco - interveio Connie.

            - Isso não acontecerá - respondeu Dulkes. - O nosso velho espetáculo será um fracasso, a nossa civilização cairá. E cairá num poço sem fundo, no abismo. Acreditem, a única ponte sobre o abismo será o falo.

            - Oh! Não! Impossível, general! - exclamou Olive.

            - Creio que a nossa civilização vai desmembrar-se - disse a tia Eva.

            - E que virá depois? - perguntou Clifford.

            - Não faço a mínima idéia, mas qualquer outra coisa creio eu. - respondeu a idosa senhora.

            - Connie fala em pessoas como baforadas de fumo, Olive em mulheres imunizadas e bebês em garrafas, Dulkes no falo, ponte para o futuro. E pergunto o que irá realmente acontecer - disse Clifford.

            - Oh, não se preocupe com isso - disse Olive. - Continuemos com o presente. O que é preciso é que essas garrafas para as crianças apareçam depressa, e as pobres das mulheres possam ter um pouco de paz.

            - Numa fase futura poderão até existir verdadeiros homens. Realmente homens, inteligentes, sadios, e mulheres também sadias e bonitas. Não acham que seria uma grande mudança em relação a nós? Nós não somos homens e as mulheres não são mulheres. Limitamo-nos a cerebralizar experiências provisórias, místicas, intelectuais. É possível que venha uma civilização de homens e mulheres genuínos, em vez dos nossos pequenos grupos de homens habilidosos, todos com a idade mental de sete anos. Tudo isso seria ainda mais espantoso do que seres de fumo e bebês em garrafas.

            - Oh, quando se começa a falar de verdadeiras mulheres, eu desisto - respondeu Olive.

            - Realmente, a única coisa que possuímos com um certo valor é o espírito - acrescentou Winterslow.

 

            - Espírito (1) - troçou Jack, bebendo o seu uísque com soda.

            [ 1. Referência ao "espírito" (álcool). (N. da T)]

 

            - Troça, não? Dêem-me a ressurreição do corpo! - disse Dulkes. - Com o tempo virá, quando tivermos afastado um pouco o peso de espírito, do dinheiro e o resto. Então teremos uma democracia de contato, em vez de democracia de algibeira.

            Estas palavras tiveram eco em Connie. "Dêem-me a democracia de contato, a ressurreição do corpo." Não percebia exatamente o que aquilo queria dizer, mas sentiu-se reconfortada, como as coisas sem sentido produzem sempre esse efeito. De qualquer forma, tudo aquilo era terrivelmente absurdo, e Connie sentia-se farta de tudo, de Clifford, da tia Eva, de Olive e Jack, de Winterslow e até de Dulkes. Falar, falar, falar! Era um inferno aquele palavreado permanente.

            Mas depois de todos irem embora, o ambiente não ficou mais agradável. Continuou a dar os seus passeios, mas a cólera e a irritação tinham-se apoderado dela, e não se conseguia libertar. Os dias pareciam rodar lentamente, dolorosamente, e nada acontecia. Não parava de emagrecer, o que até a governanta notou e perguntou-lhe como se sentia. Tommy Dulkes insistia também que ela não andava bem de saúde, embora ela negasse.

            Começou a ter medo das pedras tumulares muito brancas, desse branco repugnante do mármore de Carrara, odiosas como dentes postiços, que se erguiam na vertente da colina onde ficava a igreja de Tevershall, e que ela via perfeitamente do parque. O eriçar dos hediondos dentes postiços das pedras tumulares chocavam-na, sentia um pavor medonho. Tinha a impressão que se aproximava o dia em que seria enterrada ali, juntamente com a multidão sinistra que repousava sob aquelas pedras e monumentos destes horrorosos Midlands.

            Precisava de ajuda, tinha consciência disso. Escreveu um pequeno cri du coeur à irmã Hilda: "Não me tenho sentido bem ultimamente e não sei o que tenho".

            Hilda preparou-se imediatamente para descer até Wragby, vinda da Escócia, onde estava a morar. Chegou em Março, só, ao volante do seu carro de dois lugares. Subiu pelo caminho, buzinando, e contornou a relva ovalada junto a duas grandes faias selvagens num terreno plano em frente da casa.

            Connie correu pelos degraus. Hilda parou o carro, saiu e abraçou a irmã.

            - Connie! Mas que é que se passa?

            - Nada! - respondeu Connie, timidamente.

            Ela, em contraste com Hilda, estava marcada por tudo o que tinha sofrido. As duas irmãs tinham a mesma pele dourada, luminosa, um cabelo castanho sedoso e um aspecto forte e saudável. Mas agora Connie estava magra e tinha uma cor térrea. Da gola do blusão saía um pescoço descarnado, amarelecido.

            - Mas tu estás doente, minha filha! - disse Hilda, quase sem respirar, numa voz suave, comum às duas irmãs.

            Hilda era pouco menos de dois anos mais velha do que Connie.

            - Não, não estou doente. Sinto-me incomodada, talvez - respondeu Connie, num tom de voz um pouco patético.

            A animação do combate resplandeceu no rosto de Hilda: era o tipo da antiga amazona, afável e calma, que não se entendia com os homens.

            - Maldito lugar! - exclamou Hilda, numa voz mansa, olhando o pobre, velho, pesado Wragby com verdadeiro ódio.

            Tinha um aspecto agradável e ardente, como uma pêra madura, e era uma amazona da melhor linhagem.

            Entrou calmamente à procura de Clifford. Ele lembrava-se de como ela era graciosa, mas, ao mesmo tempo assustava-o. A família da mulher não tinha o mesmo tipo de maneiras, de etiqueta. Considerava-os um pouco intrusos, mas quando apareciam cedia sempre.

            Estava sentado na sua cadeira, bem arranjado, os cabelos louros macios, uma pele fresca, os olhos azuis e pálidos um pouco salientes. A sua expressão era imperscrutável, mas cortês. Hilda achou-o com um ar carrancudo e estúpido. Ele esperava que ela falasse, com aprumo, mas para Hilda não interessava o ar dele, estava pronta para protestar energicamente, e teria sido o mesmo se ele fosse o papa ou imperador.

            - Connie está com muito mau aspecto - disse ela com a sua voz suave, fitando-o com os lindos olhos cinzentos ameaçadores.

            Hilda tinha, como Connie, um ar de rapariga, mas ele conhecia bem o espírito da obstinação escocesa que estava por baixo.

            - Está um pouco mais magra - respondeu ele.

            - Não faz nada para solucionar isso?

            - Acha que é necessário? - perguntou ele com a afetação mais melíflua, própria dos ingleses. As duas características, em geral, incluem-se mutuamente.

            Hilda limitou-se a olhar para ele, ameaçadoramente, sem responder. A réplica não era o seu forte, como também não era para Connie. Ficou a olhá-lo, o que o fez sentir-se muito mais constrangido do que se ela tivesse falado.

            - Vou levá-la ao médico - disse Hilda, por fim. - Sabe indicar-me algum bom, aqui nas redondezas?

            - Creio que não.

            - Então levo-a para Londres. Temos um médico em que confiamos.

            Embora fervendo de raiva, Clifford não disse nada.

            - Suponho que posso também aqui passar a noite - disse Hilda tirando as luvas - e amanhã levo-a de carro à cidade.

            Clifford estava amarelo de raiva, e à noite as córneas dos seus olhos estavam também um pouco amarelas. Sentia-se mal disposto. Hilda manteve o seu ar humilde de rapariga.

            - Devia ter uma enfermeira ou qualquer pessoa para tratar de si. Devia ter um criado - disse Hilda, quando se sentaram numa calma aparente, à hora do café depois do jantar.

            Hilda falava suavemente, gentilmente, mas Clifford sentiu como se ela lhe tivesse batido na cabeça com uma moca.

            - Acha que sim? - disse friamente.

            - Tenho certeza, é necessário. Ou então o pai e eu temos de levar Connie por alguns meses. Isto não pode continuar.

            - Não pode?

            - Não vê como ela está? - perguntou Hilda, olhando-o fixamente.

            Clifford parecia um enorme caranguejo cozido naquele momento. Pelo menos aos olhos de Hilda.

            - Connie e eu discutiremos o assunto.

            - Já o discuti com ela - respondeu Hilda.

            Clifford tinha passado um período demasiado longo nas mãos de enfermeiras, e odiava-as, porque não o deixavam ter a sua vida privada. E um criado!... não podia suportar um homem a andar lentamente à volta dele. Quase preferia uma mulher. Mas porque não havia de ser Connie?

            As duas irmãs partiram na manhã seguinte. Connie parecia um cordeiro pascal, muito pequena, ao lado de Hilda, que ia ao volante. Sir Malcolm não estava em Londres, mas a casa de Kensington estava aberta.

            O médico examinou Connie atentamente e fez-lhe todo o tipo de perguntas sobre a sua vida.

            - Vejo às vezes a sua fotografia e a de Sir Clifford em jornais ilustrados. São quase celebridades, não é verdade? É o que acontece às jovens bem-educadas, e você continua a ser uma jovem, apesar dos jornais. Não, não há nenhuma perturbação orgânica, mas a sua vida não pode continuar assim. Diga a Sir Clifford que tem de a trazer à cidade ou de a levar para o estrangeiro para se divertir. Tem de se divertir, a sua vitalidade está muito debilitada, não tem reservas, nenhumas. Os nervos do coração já não estão em muito bom estado. Oh, sim, são somente nervos, e com um mês em Cannes ou em Biarritz ficará boa. Mas isto não deve continuar, não deve, garanto-lhe, e eu não me responsabilizo pelas conseqüências. Está a gastar a sua vida sem a renovar. Tem de se divertir de maneira correta, saudável. Está a perder a energia sem nada ganhar em troca. Não pode ser, sabe? E a depressão! Evite a depressão!

            Hilda começou a fazer um sermão, e isso tinha algum significado.

            Michaelis soube que elas estavam na cidade e apareceu com um ramo de rosas.

            - Que é que se passa? - exclamou. - Você parece uma sombra de si própria. Mas que mudança, meu Deus! Porque é que não me disse nada? Venha para Nice comigo, ou para a Sicília. Venha para a Sicília, agora é uma altura ótima. Você precisa de sol, de vida! Está-se a desgastar. Venha comigo! Venha até África, e mande Sir Clifford para o diabo. Caso logo que ele se divorcie de si. Venha viver a vida. Pelo amor de Deus! Um lugar como Wragby dá cabo de qualquer pessoa. Lugar sórdido, infecto! Dá cabo de qualquer pessoa! Venha comigo para os países do Sol, é do sol que você precisa, e, evidentemente, de uma vida normal.

            Mas Connie, por dentro, não reagia à idéia de abandonar Clifford naquele lugar e naquela altura. Não podia fazer isso, tinha de voltar para Wragby.

            Michaelis estava profundamente desgostoso. Hilda não gostou dele, mas quase o preferiu a Clifford. As duas irmãs voltaram para os Midlands.

            Hilda falou com Clifford, que ainda tinha os globos oculares amarelos quando elas regressaram. Ele próprio também estava exausto, mas teve de ouvir a opinião de Hilda, do médico, só não a de Michaelis, é claro. Ficou em silêncio durante o ultimato.

            - Tem aqui a morada de um bom criado de um inválido, cliente do médico, até ele morrer, no mês passado. É um bom homem, vem de certeza.

            -   Mas eu não sou um inválido e não quero um criado - respondeu Clifford, pobre diabo.

            - Estão aqui as moradas de duas mulheres. Vi uma delas, servirá muito bem. Deve ser uma mulher dos seus cinqüenta anos, calma, forte, afável, e de certo modo culta.

            Clifford limitou-se a amuar e não respondeu.

            - Muito bem, Clifford. Se amanhã não tiver decidido nada, telegrafo ao meu pai e levamos Connie.

            - Connie irá? - perguntou Clifford.

            - Ela não quer, mas sabe que deve ir. A nossa mãe morreu de cancro provocado pela inquietação. Não vamos correr esse risco.

            Assim, no dia seguinte Clifford sugeriu a senhora Bolton, uma enfermeira da paróquia de Tevershall. Parece que foi a senhora Betts que a indicou. A senhora Bolton tinha-se afastado dos seus deveres da paróquia para se ocupar de serviços de enfermagem particular. Clifford tinha um pavor fora do vulgar de se entregar nas mãos de uma estranha, mas a senhora Bolton tinha-o uma vez tratado de escarlatina, e ele conhecia-a, portanto.

            As duas irmãs foram imediatamente visitar a senhora Bolton, que vivia numa casa quase nova numa rua, para Tevershall, era muito seleta. Encontraram uma mulher com muito bom aspecto, de quarenta a cinqüenta anos, vestida de enfermeira, com um colarinho e um avental a preparar o chá, numa pequena sala de estar a abarrotar de móveis.

            A senhora Bolton era muito atenciosa e delicada, parecia simpática; falava com um pouco de pronúncia, mas num inglês muito correto. Como tratara de mineiros durante muitos anos, tinha boa opinião a seu respeito e grande confiança em si. Em resumo, era à sua maneira uma das pessoas da classe dominante na aldeia, e todos a respeitavam.

            - Sim, Lady Chatterley não está com bom aspecto! Tinha um ar tão saudável, dantes, e agora não! Foi enfraquecendo durante o Inverno. É terrível, pobre Sir Clifford! É a guerra a responsável por estas desgraças.

            A senhora Bolton estava disposta a seguir imediatamente para Wragby se o doutor Shardlow autorizasse. Tinha de fazer o serviço da paróquia durante mais quinze dias, por direito, mas talvez alguém a pudesse substituir.

            Hilda foi procurar o doutor Shardlow, e no domingo seguinte a senhora Bolton chegou a Wragby, no carro de aluguel de Leiver, com duas malas. Hilda conversou muito com ela; a senhora Bolton estava sempre pronta para conversar. E parecia tão jovem! Quando se emocionava corava, embora fosse muito pálida. Tinha quarenta e sete anos.

            O marido, Ted Bolton, tinha morrido vinte e dois anos antes na mina, fizera precisamente vinte e dois anos no Natal. Deixara-a com duas filhas, sendo uma delas ainda um bebê de peito. Esse bebê estava já casada com um farmacêutico de Sheffield. A outra era professora primária em Chesterfield, vinha visitar a mãe aos fins de semana quando esta estava em casa. Os jovens de hoje divertiam-se, não era como no tempo de rapariga de Ivy Bolton.

            Ted Bolton contava vinte e oito anos quando morrera devido a uma explosão na mina. O mineiro que seguia à frente gritou para todos se deitarem imediatamente no solo, eram quatro homens. Todos se deitaram logo, menos Ted, só a ele vitimara.

            Depois, no inquérito, segundo os outros mineiros, que defendiam os capatazes, disseram que Ted se assustara e que tentara fugir, sem obedecer às ordens, morrera por sua culpa. Desse modo, a compensação que lhe coubera fora apenas de trezentas libras, e elaboraram-no de forma a parecer mais uma dádiva do que uma compensação legal, porque a culpa fora do marido. Mas não a deixaram receber o dinheiro; ela queria montar uma pequena loja, mas eles disseram que possivelmente ela o iria gastar, talvez em bebida. Só podia receber trinta xelins por semana. Sim, todas as segundas-feiras de manhã tivera de se deslocar aos escritórios e esperar de pé duas horas pela sua vez. Durante quatro anos aconteceu

o mesmo todas as segundas-feiras. Que podia ela fazer com duas filhas para sustentar? A mãe de Ted foi muito boa para ela. Quando a menor começou a andar, tomava conta delas durante o dia enquanto ela, Ivy Bolton, ia assistir às aulas em Sheffield em cursos especiais de ambulâncias. Ao fim de quatro anos fez um exame de enfermagem e obteve o diploma. Estava decidida a ser independente e a criar as filhas. Trabalhou como enfermeira auxiliar no hospital de Uthwaite durante um tempo. Mas quando a Companhia, a Companhia Mineira de Tevershall, na realidade Sir Geoffrey, viu que ela já não precisava de ninguém, e que sempre a tratara bem, ajudou-a, e deu-lhe o serviço da paróquia; e apoiou-a, isso confirmava ela. Nunca tinha abandonado o lugar, mas presentemente era demasiado trabalho, e precisava de um serviço menos pesado, e uma enfermeira oficial tinha muito que fazer.

            - Sim, a Companhia tem sido muito boa para mim, digo-o sempre. Mas não me esqueço do que disseram do Ted, que não podia ser mais corajoso e ousado do que era, o mais valente de todos. Depois de ele morrer, já não se podia defender.. chamaram-lhe covarde.

            Aquela mulher, quando falava, manifestava uma estranha variedade de sentimentos. Gostava dos mineiros, tinha-os tratado durante muito tempo, mas sentia-se superior a eles. Sentia-se quase de uma classe superior, e, ao mesmo tempo, havia dentro dela um ressentimento contra a classe dominante. Os patrões! Entre os patrões e os homens ela era sempre a favor dos homens. Mas quando tudo corria bem, ela própria queria ser superior, pertencer ao escalão social mais elevado. As classes superiores fascinavam-na, atraíam a sua paixão, essa paixão tão profundamente inglesa pela superioridade.

            Sentia-se emocionada por trabalhar em Wragby, falar com Lady Chatterley, palavra de honra, tão diferente das mulheres dos mineiros. Disse isto pelas mais diversas palavras. E, no entanto, sentia-se nela um rancor pelos Chatterley, uma raiva aos patrões.

            - Oh, evidentemente que este trabalho acabava por dar cabo de Lady Chatterley. Foi uma felicidade a irmã vir em seu auxílio. Os homens não pensam, os da alta como os da baixa sociedade acham normal o que uma mulher faz por eles. Repreendi muitas vezes os mineiros por causa disso. Mas é muito duro para Sir Clifford, é claro, assim inválido. Foi sempre uma família orgulhosa, distante. Mas têm direito a sê-lo, e, depois disto, o trabalho é mais duro para Lady Chatterley, demasiado duro, talvez. Do que ela se priva! Só tive Ted durante três anos, mas, palavra de honra, enquanto o tive foi um marido que ainda hoje não posso esquecer.

Igual a ele há um entre mil, e alegre como um dia de sol. Quem havia de pensar que ia morrer? Ainda hoje me custa a acreditar, nunca consegui acreditar, embora tenha sido eu própria que o lavei. Mas para mim nunca morreu, nunca, nunca aceitei isso.

            Era uma voz diferente em Wragby, muito diferente para Connie. Ouvia-a com um interesse diferente.

            Na primeira semana, a senhora Bolton foi muito pacífica em Wragby. Perdeu os modos seguros e autoritários, e andava nervosa. Com Clifford era tímida, quase receosa, e taciturna. Ele apreciava isso e depressa recuperou o seu autodomínio, permitindo que ela lhe prestasse serviços sem mesmo perceber a sua presença.

            - Ela é uma nulidade muito útil - dizia ele.

            Connie abria os olhos, espantada, mas não o contradizia. Como duas pessoas podem ter impressões tão diferentes!

            Rapidamente, tornou-se soberbo, assumindo ares de grande senhor perante a enfermeira. Ela estava à espera que isso acontecesse e ele dava-lhe razão sem o saber. Tão sensíveis que nós somos àquilo que se espera de nós! Os mineiros sempre se tinham comportado com a senhora Bolton como se fossem crianças; falavam com ela, contavam-lhe o que os fazia sofrer, enquanto ela lhes punha ligaduras e os tratava. Sempre a tinham feito sentir-se importante, quase sobre-humana, nos seus serviços. Agora Clifford fazia-a sentir-se insignificante, uma criada, e ela aceitava o fato sem protestos, adaptando-se à classe superior.

            Aparecia, silenciosa, com o seu rosto comprido e belo, e de olhos baixos, para o tratar. E dizia humildemente:

            - Quer que faça isto, Sir Clifford? Quer que faça aquilo?

            - Não, deixe por agora. Faz depois.

            - Muito bem, Sir Clifford.

            - Venha daqui a meia hora.

            - Muito bem, Sir Clifford.

            - E leve aqueles jornais velhos, sim?

            - Muito bem, Sir Clifford. Retirava-se sem fazer ruído, e voltava silenciosa, meia hora depois. Sentia-se oprimida, mas não se importava. Estava a viver a sua experiência da alta sociedade. Não se ofendia nem antipatizava com Clifford: ele fazia parte de um fenômeno, o fenômeno das pessoas de alta categoria, que ela não conhecia, mas começava a conhecer. Sentia-se mais à vontade com Lady Chatterley, e, no fundo, a dona da casa é sempre a pessoa mais importante.

            A senhora Bolton ajudava Clifford a acomodar-se à noite na cama, e dormia no corredor, a seguir ao quarto dele. Se ele a chamava, ela ia. Auxiliava-o também pela manhã, e, ao fim de pouco tempo, encarregava-se de tudo, até de o barbear, suave e femininamente. Era muito boa e competente, e rapidamente aprendeu a dominá-lo. Afinal, não era muito diferente dos mineiros, quando ela lhe ensaboava e o barbeava. A altivez e a falta de sinceridade não a incomodavam, era uma nova experiência na sua vida.

           Clifford, no entanto, nunca perdoou a Connie por ter desistido de tratar dele e contratar uma mulher. Estava convencido que com isso se tinha destruído a verdadeira flor da intimidade entre os dois. Para Connie essa flor não passava de uma orquídea, um bolbo parasita na árvore da sua vida que dava flores velhas.

            Passou a ter mais tempo para si própria e podia tocar suavemente piano na sua sala e cantar: "Não toques na urtiga... porque os laços do amor estão doentes, prestes a quebrar-se". Ela, até há pouco, nunca conseguira compreender como estavam doentes, prestes a quebrar-se, esses laços do amor. Mas graças a Deus, tinha-os quebrado! Sentia-se feliz por estar só, e não ter de falar sempre com Clifford. Quando estava sozinho escrevia, escrevia, escrevia à máquina, sem parar. Mas quando não estava a "trabalhar", e ela estava ao pé dele, falava, falava; infinitas análises das pessoas e dos motivos, de resultados, caracteres e personalidades. A ponto de ela se ter cansado. Durante anos, tinha gostado, mas agora estava cansada, subitamente tinha-se tornado um exagero. Estava grata por poder estar só.

            Era como se milhares e milhares de pequenas raízes e filamentos da consciência de dois seres se tivessem entrelaçado numa rede complicada, até não ser possível mais nenhum entrelaçamento; a planta estava a morrer, tranqüilamente, sutilmente, ela desfazia a rede das duas consciências, quebrava os filamentos, um a um, ao mesmo tempo com paciência e impaciência para se libertar. Os laços daquele amor estavam mais doentes, prestes a quebrar-se do que muitos outros, embora a vinda da senhora Bolton tivesse constituído um grande auxílio.

            Mas, como dantes, Clifford continuava a querer aqueles serões íntimos para conversar com Connie: falar ou ler em voz alta. Mas ela tinha conseguido que a senhora Bolton os viesse interromper às dez horas. Então, Connie subia para o quarto e podia ficar só. Clifford ficava com a senhora Bolton, em boas mãos.

            A senhora Bolton comia com a senhora Betts nos aposentos desta, porque eram agradáveis. E, coisa curiosa, parecia que os aposentos do pessoal tinham ficado muito mais próximos, junto ao gabinete de Clifford, quando antes eram tão distantes. E só porque a senhora Betts de vez em quando ia visitar a senhora Bolton, e Connie ouvia-as falar baixo, sentia que uma vibração forte das classes trabalhadoras invadia a sala quando estava só com Clifford. Wragby tinha mudado muito com a vinda da senhora Bolton. E Connie sentia-se liberta, noutro mundo, a respirar de outra maneira. Mas continuava a ter medo de todas aquelas raízes, talvez mortais, que estavam entrelaçadas nas de Clifford. No entanto, sentia-se respirar mais livremente. Uma nova fase iria começar na sua vida.

 

            Também a senhora Bolton tinha um sentido maternal em relação a Connie, sentia que a sua proteção como mulher e como profissional lhe era extensiva. Insistia sempre para que Connie saísse de casa, fosse de carro até Uthwaite, para tomar ar. Connie tinha adquirido o hábito de ficar calmamente sentada junto do fogo a fingir que lia ou que cosia, e saía raramente.

            Num dia ventoso, depois da partida de Hilda, a senhora Bolton disse-lhe:

            - Porque é que não vai dar um passeio pelo bosque e ver os narcisos que estão por detrás da cabana do couteiro? São a coisa mais linda que se pode ver num dia de Março. E podia pôr alguns no seu quarto, os narcisos selvagens são tão bonitos, não são?

            Connie aceitou as sugestões da mulher, mesmo a troca da palavra narcisos pelo verbo renunciar, mas narcisos selvagens! Afinal a pessoa não devia confiar no seu juízo! A Primavera voltava... "As estações voltam, mas para mim não volta o dia, nem a suavidade da tarde, nem a da manhã."

            E o guarda, com o seu corpo magro e branco como o pistilo solitário de uma flor invisível! Na sua enorme depressão, tinha-se esquecido dele, mas, naquele momento, qualquer coisa despertava... "Pálido além do pórtico e do portal."... O que é preciso é passar os pórticos e os portais.

            Sentia-se mais forte, podia andar melhor, e no bosque o vento não era tão cansativo como no parque, abatendo-se contra ela. Ela queria esquecer, esquecer o mundo e toda essa gente horrível com corpos podres. "Tendes de nascer outra vez! Acredito na ressurreição do corpo! Se o grão de trigo cai na terra e não morre, desenvolve-se.

Quando o croco nascer, eu também sairei da terra e verei o sol."

            Naquele dia ventoso de Março frases sem fim perpassavam na sua consciência.

            Pequenas réstias de sol espraiavam-se, estranhamente brilhantes, e iluminavam as celidôneas na orla do bosque sob as hastes das avelaneiras cobertas de lantejoulas resplandecentes e amarelas. E o bosque estava silencioso, mais silencioso do que nunca, agitado somente pelas réstias de sol. As primeiras anêmonas começavam a despontar, e todo o bosque tinha um aspecto pálido, com a palidez das pequenas anêmonas sem fim que matizavam o solo irregular. "O mundo empalideceu ao teu sopro."

            Mas, desta vez, era o sopro de Perséfone, (1) que tinha saído do Inferno numa manhã fria. Começaram a soprar rajadas de vento frio, e na ramaria havia já uma fúria de vento emaranhado, preso nos galhos das árvores. O vento também tinha sido apanhado e procurava libertar-se, o vento, como Absalão. (2) Nas suas saias de crinolina verde as anêmonas pareciam encolhidas de frio, balanceando os seus ombros brancos! Mas suportavam-no. Igualmente, pelo carreiro branqueavam umas quantas primaveras e botões amarelos desabrochavam.

 

[1. Mitologia grega. Rainha dos Infernos, filha de Zeus e de Demêter. Identificada com a Prosérpina dos romanos. (N. do T.)]

[2. Filho de David, revoltou-se contra o pai. Vencido em combate, evadiu-se, mas a sua longa cabeleira emaranhou-se nos galhos de uma árvore, deixando-o em suspenso. Joab, que o perseguia, matou-o. (N. do T.)]

 

            O rumor e a correria ouvia-se por entre as árvores, embaixo só havia correntes de ar frio. Connie sentia-se ali no bosque estranhamente excitada; a cor aflorava-lhe as faces e os seus olhos azuis brilhavam mais. Caminhava muito lentamente, colhendo algumas primaveras e as primeiras violetas, que exalavam um aroma doce e frio; tão doce e tão frio! Vagueava sem saber onde estava.

            Ao chegar à clareira, no extremo do bosque, viu a casa de campo, de pedra manchada de verde que parecia quase cor-de-rosa como a parte de dentro de um cogumelo, a pedra aquecida numa explosão de sol. E junto à porta havia uma cintilação de jasmins amarelos, junto à porta fechada. Não se ouvia nenhum som, nem um cão a ladrar, nem fumo a sair da chaminé.

            Deu lentamente a volta à casa onde o terreno se elevava; tinha a desculpa de ir à procura de narcisos. E encontrou-os, umas flores com pés curtos, a resfolhar, a balouçar, a agitar-se tão intensamente brilhantes e vivos, mas sem terem parte alguma para onde pudessem voltar os rostos e escapar ao vento. Agitavam com tanta aflição os brilhantes e dourados farrapos que os cobriam! Mas no fundo talvez gostassem de ser fustigados.

            Connie sentou-se com as costas apoiadas a um jovem rebento de pinheiro, que se movimentava contra ela como uma criatura animada de uma vida estranha, elástica, poderosa e ascendente; ereto, vivo, com a copa voltada para o Sol. Olhava os narcisos subitamente dourados por um raio de sol, que lhe atingiu o rosto e o colo como uma lufada de calor; sentiu até o odor tênue e um pouco semelhante ao alcatrão, que se desprendia das flores. E assim, calma e solitária, parecia-lhe que voltava a entrar na corrente do seu próprio destino. Tinha sido agarrada com uma corda, sacudida e empurrada, como um barco preso com amarras; agora estava liberta e à deriva.

            O sol deu lugar ao frio. Os narcisos estavam envoltos na escuridão, inclinados em silêncio, ficavam assim durante o resto do dia e da noite, longa e fria. Mas como eram fortes na sua fragilidade!

            Ergueu-se, com o corpo um pouco rígido, colheu alguns narcisos e começou a descer. Não gostava de arrancar flores, queria simplesmente uma ou duas. Tinha de voltar para Wragby e para aquelas paredes, que agora odiava, especialmente aquelas paredes espessas. Paredes, sempre paredes! No entanto precisava delas por causa do vento.

            Quando chegou a casa, Clifford perguntou-lhe:

            - Aonde foi?

            - Atravessei o bosque. Olhe, não são lindos estes narcisos? Pensar que eles vêm da terra!

            - Como do ar e do sol - respondeu ele.

            - Mas modelados na terra - retorquiu Connie, tão pronta na sua réplica, que até se surpreendeu.

            No dia seguinte, à tarde, voltou ao bosque. Enveredou pelo largo carreiro, antiga pista para cavalos, que serpenteava por entre a mata de lariços até uma fonte chamada John's Well. Naquela parte da colina fazia frio e não se avistava uma única flor na escuridão dos lariços. Mas a pequena fonte gelada tentava elevar-se do seu leito minúsculo de seixos límpidos, de um branco-avermelhado. A água estava gelada, transparente e brilhante! O novo guarda tinha colocado, com certeza, seixos à pouco tempo. Ouvia o som abafado da água que saía do leito e gotejava pela encosta abaixo. Mesmo com o ruído sibilante da mata de lariços, que espalhava a sua escuridão eriçada, sem folhas e feroz no talude, ela escutava o tinido como se fossem sinos de água. Este lugar era um pouco sinistro, frio e úmido. No entanto, a nascente deve ter sido um fontanário durante centenas de anos. Presentemente já não era. A pequena clareira onde ficava situada era luxuriante, fria e triste.

            Ergueu-se e dirigiu-se lentamente em direção a casa. De repente ouviu à sua direita o tênue som e ficou à escuta. Seriam marteladas ou um pica-pau? Marteladas com certeza.

            Continuou a caminhar, sempre à escuta, e viu um caminho estreito entre pequenos abetos, um caminho que parecia não conduzir a parte nenhuma. Mas percebeu que alguém tinha passado ali. Resolveu meter por ele corajosamente, por entre os espessos e novos abetos, que logo davam lugar a uma mata de velhos carvalhos. Continuou a seguir o trilho, e as marteladas estavam agora mais próximas, no silêncio do bosque ventoso, porque o ruído do vento a bater nas árvores era o próprio silêncio.

            Descobriu uma pequena clareira recôndita e uma cabana isolada feita de estacas rústicas. Nunca ali tinha estado antes! Percebeu que era naquele lugar tranqüilo que os faisões faziam criação. O guarda, em mangas de camisa, estava de joelhos, a martelar. A cadela aproximou-se dela a correr, com um latido breve e estridente o que levou o guarda a levantar a cabeça. Olhou-a, surpreso.

            Endireitou-se e cumprimentou, fitando-a em silêncio, enquanto ela avançava, com as pernas a tremer. Ele não gostou da sua intromissão, amava a solidão como a única forma de liberdade possível.

            - Ouvi as marteladas e tive curiosidade de ver o que era - disse ela, sentia-se fraca e ofegante, um pouco receosa do olhar dele.

            - Estou a reparar as capoeiras para as aves pequenas - respondeu o guarda, em dialeto cerrado.

            Ela não sabia o que havia de dizer, e sentiu perder as forças.

            - Gostava de me sentar aqui por uns momentos.

            - Venha sentar-se na cabana - respondeu ele, avançando à frente, em direção à cabana, empurrando com o pé algumas vigas e objetos. Puxou uma cadeira rústica de galhos secos de avelaneira. - Quer que acenda o lume? - perguntou no seu dialeto.

            - Oh, não se incomode. Mas ele notou que ela estava com as mãos azuladas. Rapidamente, pegou nalgumas hastes de lariços e pô-las na pequena lareira de tijolo, e logo uma chama amarela subia pela chaminé. Ele arranjou-lhe um lugar junto à fogueira.

            - Sente-se aqui um pouco e aqueça-se.

            Ela obedeceu. Emanava dele um tipo curioso de autoridade protetora a que ela obedecia. Sentou-se e aqueceu as mãos na fogueira, deitou-lhe cepos, enquanto ele continuava a martelar lá fora. Na realidade não lhe apetecia estar ali sentada, empurrada para um canto junto ao lume. Preferia ficar à porta, a vê-lo, mas tinha de se sujeitar.

            A cabana era muito acolhedora, forrada de pinho natural, com uma pequena mesa e um banco, rústicos, além da cadeira onde ela estava sentada. Havia ainda um banco de carpinteiro, uma caixa grande, ferramentas, tábuas, pregos; muitas coisas penduradas em cavilhas: um machado, outra machadinha, armadilhas, coisas em sacos, o casaco do guarda. Não tinha janelas, a luz entrava pela porta aberta. Havia uma confusão lá dentro, mas era também como um pequeno santuário.

            Ela escutava o bater do martelo, que já não era tão alegre. Ele sentia-se angustiado, tinha havido uma violação da sua intimidade, e uma violação perigosa. Uma mulher! Ele tinha atingido aquele estado em que tudo o que queria no mundo era conservar a sua solidão. Mas estava impotente para a preservar; ele era um empregado e ela a patroa.

            Muito em especial não se queria envolver outra vez com uma mulher. Tinha medo, a ferida deixada por antigos contatos era muito grande. Sentia que, se não pudesse estar só, e se não o deixassem, morreria. O seu afastamento do mundo exterior era total, o bosque era o seu último refúgio, onde se podia esconder.

            Connie começava a aquecer junto do lume, que ela atiçara, depois já estava com calor. Levantou-se e sentou-se no banco na soleira, a ver o homem a trabalhar. Parecia não notar a sua presença, mas sabia. Continuava no entanto a trabalhar como se estivesse absorvido. A cadela castanha, sentada a seu lado, contemplava o mundo falso.

            Esbelto, tranqüilo e destro, o homem acabou a capoeira que estava a fazer, virou-a, experimentou a porta corrediça, depois pô-la de lado. Levantou-se, foi buscar uma capoeira velha e levou-a para o cepo onde estava a trabalhar. Ajoelhou-se e experimentou as hastes; algumas partiram-se-lhe nas mãos; começou a tirar os pregos. Depois virou-a ao contrário e ficou a pensar. E tudo isto sem dar o menor sinal de ter notado a presença da mulher.

            Connie olhava-o fixamente. Aquela mesma solidão interior que tinha visto no seu corpo despido, via-a nele vestido: solitário, concentrado, como um animal que trabalha sozinho, mas que também pensa, como uma alma que se afasta de todo o contato humano. Silenciosamente, pacientemente, aquele homem afastava-se, até dela própria, naquele momento. Era a paciência tranqüila e intemporal, num homem impaciente e apaixonado, que perturbava Connie. Notava isso na sua cabeça inclinada, nas mãos rápidas e calmas, na curva do torso delgado e delicado. Em todo ele havia uma nota de paciência e retraimento. Sentia que a experiência dele tinha sido mais profunda e maior do que a sua. Muito maior e mais profunda, e talvez mais mortal ainda. Este pensamento consolava-a; sentiu-se quase irresponsável.

            Ficou sentada na soleira da cabana como se estivesse a sonhar, profundamente inconsciente do tempo e das circunstâncias. Ela estava tão longe dali que ele olhou de repente para ela e viu-a completamente serena, com uma expressão expectante. Achou que era esta a expressão dela. E uma pequena e fina língua de fogo deslizou-lhe subitamente pelas costas, e sentiu uma dor no coração. Receava com uma repulsa quase mortal qualquer contato humano. Acima de tudo, desejava que ela fosse embora e o deixasse no seu próprio isolamento. Receava a vontade dela, a sua vontade de mulher, e a sua insistência de mulher moderna. Acima de tudo receava a sua impudência fria, própria da alta sociedade: fazer o que queria. Porque, no fundo, ele era um empregado. E odiava a presença dela ali.

            Connie voltou a si e sentiu-se pouco à vontade. Levantou-se. Começava a cair a noite, mas não conseguia ir-se embora. Aproximou-se do homem, que estava de pé, em sentido. Tinha um rosto gasto, firme e sem expressão, os olhos observavam-na.

            - É tão agradável este lugar, tão repousante! - disse ela. Nunca aqui tinha vindo.

            - Não?

            - Creio que virei sentar-me aqui de vez em quando.

            - Sim!

            - Fecha a cabana à chave quando não está aqui?

            - Sim, minha senhora.

            - Não seria possível arranjar outra chave? Existem duas chaves?

            - Que eu saiba não.

            Ele recomeçava a falar dialeto.

            Connie hesitou; ele estava a oferecer resistência. Aquela cabana era dele ou quê?

            - Não seria possível arranjar outra? - perguntou ela, na sua voz suave, que encobria a determinação de uma mulher de conseguir o que queria.

            - Outra? - comentou ele, olhando-a com raiva e escárnio ao mesmo tempo.

            - Sim, uma cópia - respondeu, corando.

            - Talvez Sir Clifford saiba - respondeu ele, desculpando-se.

            - Está bem, é possível que ele tenha outra. Senão manda-se fazer outra pelo molde daquela que está na sua posse. Suponho que não levará mais de um ou dois dias, portanto pode dispensá-la por esse tempo.

            - Não lhe sei dizer. Saiba vossa senhoria que nestas redondezas não conheço ninguém que faça chaves.

            Connie sentiu-se corar de irritação.

            - Está bem. Eu própria tratarei disso.

            - Muito bem, minha senhora.

            Os olhos de ambos encontraram-se. Os dele frios, ameaçadores, plenos de desagrado, desprezo e indiferença pelo que se estava a passar. Os de Connie brilhavam devido à recusa que tinha sofrido. Mas ela sofria. Via como era profunda a antipatia que ele lhe tinha quando ela lhe resistia. E via-o com uma espécie de desespero.

            - Boa tarde!

            - Boa tarde a vossa senhoria! - cumprimentou ele voltando-lhe as costas. Ela tinha acordado os cães adormecidos da sua raiva tenaz contra a fêmea obstinada. E ele sentia-se impotente, impotente. Ele sabia-o.

            Estava furiosa contra o macho obstinado. De mais a mais um criado! Dirigiu-se para casa, taciturna. Foi encontrar a senhora Bolton debaixo da grande faia no cimo do monte, que andava à procura dela.

            - Minha senhora, estava aqui à espera que voltasse para casa- comentou num tom alegre.

            - Estou atrasada? - perguntou Connie.

            - Oh... Sir Clifford estava à sua espera para o chá.

            - Porque é que não fez e serviu o chá?

            - Oh, não, não me competia a mim. Penso que Sir Clifford não gostaria.

            - Não percebo porquê.

            Entrou em casa dirigindo-se ao gabinete de Clifford, onde a velha chaleira de latão fervia na bandeja.

            - Estou atrasada, Clifford? - perguntou, pousando as flores e pegando na lata do chá, junto do tabuleiro, de chapéu e lenço ao pescoço. - Lamento muito, mas porque não mandou a senhora Bolton preparar-lhe o chá?

            - Foi coisa que nunca me passou pela idéia - respondeu com uma ponta de ironia. - Não a imagino muito bem a presidir o chá.

            - Não há nada de sacrossanto a respeito de um bule de prata.

            Ele mirou-a com curiosidade.

            - Que é que fez durante a tarde? - perguntou ele.

            - Dei um passeio e estive sentada num lugar abrigado. Sabe que ainda há bagas no azevinheiro grande?

            Tirou o lenço, mas ficou com o chapéu e sentou-se para fazer o chá. As torradas já estariam com certeza duras. Colocou o abafador para o chá no bule e levantou-se para ir buscar uma jarra pequena para as violetas. As pobres flores pairavam sobre os seus pés frágeis.

            - Voltarão a reviver - disse ela, pondo as flores na frente dele para que sentisse o aroma.

            - "Mais doces que as pálpebras de Juno" - citou Clifford.

            - Não vejo nenhuma relação entre o verso e as violetas propriamente ditas. Os isabelinos eram muito retóricos.

            Serviu-lhe o chá.

            - Acha que haverá uma segunda chave daquela cabana pequena próxima de John's Well, onde se criam os faisões?

            - Talvez haja. Porquê?

            - Descobri-a hoje, nunca lá tinha estado antes. É um lugar encantador. Podia ir até lá de vez em quando, não é verdade?

            - Mellors estava lá?  

            - Estava, e foi por ele que descobri a cabana, estava a martelar. Creio que não lhe agradou o meu aparecimento. Na realidade, foi quase grosseiro quando lhe perguntei por uma segunda chave.

            - Que é que ele disse?

            - Oh, nada de especial. Foi simplesmente a maneira de falar. Disse que não sabia de nenhuma chave.

            - Talvez haja uma no gabinete do pai. A Betts conhece-as uma por uma, estão todas lá. Digo-lhe para procurar.

            - Agradecia-lhe muito!

            - Então Mellors foi quase grosseiro?

            - Não propriamente, mas não creio que lhe agradasse a idéia de eu poder utilizar livremente aquele local.

            - Oh! Porque não?!

            - Mas não vejo nenhuma razão para ele se importar. Não é a casa dele, não é o lugar onde vive. Não percebo porque não haveria de ir para lá quando me apetecer.

            - Tem razão. Aquele homem pensa demasiado em si próprio.

            - Acha que sim?

            - Em absoluto! Julga-se um ser invulgar. Já lhe disse que ele era casado com uma mulher com quem não se entendia, por isso alistou-se em 1915. Foi mandado para a Índia, penso eu. De qualquer modo, foi ferrador num regimento de cavalaria no Egito durante uns tempos. Esteve sempre ligado a cavalos, percebe isso. Depois um coronel indiano simpatizou com ele e fê-lo tenente. É verdade, deram-lhe uma comissão. Creio que regressou à Índia com o coronel e estiveram na fronteira do noroeste. Adoeceu, e ficou com uma pensão; creio que só saiu do exército no ano passado.

É natural que não seja fácil para um homem deste tipo retomar o seu lugar no nível social a que pertence. Teve as suas dificuldades. Mas cumpre os seus deveres, no que me diz respeito. Simplesmente, não estou disposto a aceitar a faceta tenente Mellors.

            - Como é que se pode ser oficial se ele fala o dialeto de Derbyshire?

            - Não fala, a não ser quando lhe convém. Sabe falar um inglês perfeito, para o seu nível. Creio que ele pensa que, tendo voltado à antiga posição, é melhor falar como os da sua classe.

            - Porque é que nunca me tinha falado dele?

            - Oh, não tenho paciência para esses romances. São a ruína da ordem, e lamento mil vezes que ainda hoje aconteçam.

            Connie sentiu-se levada a concordar. Qual a vantagem de existirem pessoas descontentes que não se integram em situação nenhuma?

            No período de bom tempo, também Clifford quis ir até ao bosque. O vento era frio, mas não cansava, e o sol era como a própria vida, quente e pleno.

            - É espantoso - comentou Connie - como as pessoas se sentem diferentes num dia realmente bonito. Geralmente parece que o próprio ar está semimorto. As pessoas matam o ar.

            - Acha que são as pessoas?

            - Acho. A exalação do cansaço, do descontentamento, da raiva de todas as pessoas, mata a vitalidade do ar. Estou convencida disso.

            - Ou talvez sejam as próprias condições da atmosfera que reduzem a vitalidade das pessoas - respondeu Clifford.

            - Não, é o homem que envenena o universo - afirmou ela.

            - Polui o seu próprio ninho - acrescentou Clifford.

            A cadeira avançava lançando baforadas de fumo. Na mata de avelaneiras anãs pendiam candeias cor de ouro pálido, e as anêmonas, nos lugares onde os raios de sol batiam de chapa, estavam completamente abertas, que pareciam proclamar a alegria de viver, como no tempo em que as pessoas a podiam proclamar com elas. Tinham um aroma tênue de flor de macieira. Connie colheu algumas para Clifford. Este pegou nelas e contemplou-as atentamente.

            - "Tu, noiva da quietude ainda inviolada" - recitou ele, citando. - Parece que está muito mais de acordo com as flores do que com ânforas gregas.

            - Violada é uma palavra tão horrível! - exclamou ela. - São somente as pessoas que violam as coisas.

            - Oh, não sei... os caracóis também.

            - Os caracóis só as comem, e as abelhas não violam.

            Connie sentia-se irritada com ele, por converter tudo em palavras: as violetas eram as pálpebras de Juno, as anêmonas noivas invioladas. Odiava as palavras que sempre se interpunham entre ela e a vida. As palavras é que violam tudo - as palavras e as frases feitas que sugavam a seiva das coisas vivas.

            O passeio com Clifford não melhorou a situação. Entre ele e Connie havia uma tensão que ambos fingiam não notar, mas que existia. De repente, com toda a violência do seu instinto de mulher, ela começava a repudiá-lo. Queria libertar-se dele, e, sobretudo, da sua consciência, das palavras, da obsessão de si próprio, uma obsessão infinita, monótona, de si mesmo, e das suas palavras.

            Recomeçou a chover. Mas, um ou dois dias depois, ela voltou a sair, mesmo com chuva, e foi até ao bosque. Dirigiu-se à cabana. Chovia, mas não fazia frio, e o bosque estava silencioso e longínquo, inacessível no crepúsculo chuvoso.

            Chegou à clareira. Deserta! A cabana estava fechada à chave, e ela sentou-se no socalco de madeira da entrada, sob o pórtico rústico, aquecendo-se com o próprio calor do corpo. Ficou sentada a observar a chuva e a escutar o ruído silencioso e os estranhos sussurros do vento nos ramos mais altos, embora parecesse não haver vento. Os velhos carvalhos cinzentos, de troncos fortes, enegrecidos pela chuva, redondos e vigorosos, libertavam as pernadas audaciosas. O terreno estava relativamente liberto de mato, matizado por anêmonas; havia um ou dois arbustos mais velhos, ou bolas-de-neve, e um emaranhado arroxeado de sarças: o velho castanho-avermelhado dos fetos quase desaparecia sob tufos verdes de anêmonas. Talvez aquele fosse um dos inviolados. Inviolado! Todo o mundo estava inviolado. Há coisas que não podem ser violadas, como uma lata de sardinhas. Muitas mulheres e homens também não. Mas a terra!

A chuva estava a aliviar. Os carvalhos já não pareciam envoltos em escuridão. Apeteceu-lhe ir-se embora, no entanto continuou sentada. Começava a sentir-se penetrada pelo frio, mas a opressiva inércia do seu ressentimento interior retinha-a ali, como se estivesse paralisada.

            Violado! Podia-se ser violado sem o menor contato. Violado por palavras mortas tornadas obscenas, por idéias mortas convertidas em obsessões.

            Um cão castanho, escorrendo água, apareceu a correr sem ladrar, levantando a cauda que mais parecia uma pluma. Seguiu-se o homem, que envergava um casaco preto de couro, curto, encharcado, como usam os motoristas, e o rosto afogueado. Ela notou um recuo no seu passo rápido, quando a viu. Levantou-se e ficou no pequeno espaço seco debaixo do pórtico. Saudou-a sem falar, aproximando-se lentamente. Connie começou a afastar-se.

            - Ia-me já embora - murmurou ela.

            - Estava à espera para entrar na cabana? - perguntou em dialeto, olhando para a cabana, e não para ela.

            - Não, só me sentei aqui por instantes para me abrigar - respondeu com uma dignidade calma.

            Ele fitou-a. Pareceu-lhe que ela tinha frio.

            - Então Sir Clifford não tinha outra chave? - perguntou.

            - Não, mas não faz mal. Posso perfeitamente sentar-me debaixo deste pórtico para me recolher da chuva. Boa tarde!

            Odiava aquele dialeto arrastado do guarda. Ele ficou a olhá-la enquanto ela se afastava. Depois puxou subitamente o casaco, meteu a mão na algibeira das calças, tirando a chave da cabana.

            - Talvez seja melhor ficar com esta chave e eu trato das aves noutro lugar.

            Connie fitou-o.

            - Que é que quer dizer com isso? - perguntou.

            - Quero dizer que arranjo outro lugar para tratar dos faisões. Se quer vir para aqui, não quer com certeza que esteja aqui a trabalhar.

            Ela olhou para ele, tentando perceber o que ele dizia no seu palavreado em dialeto, que era como um nevoeiro a envolver as palavras.

            - Porque é que não fala o inglês de toda a gente? - perguntou friamente.

            - Eu?! Julgava que era o de toda a gente.

            Ficou calada por um momento, irritada.

            - Se quer uma chave é melhor ficar com esta. Ou talvez seja melhor eu entregar-lhe amanhã, e hoje arrumo tudo. Está bem assim?

            Connie estava cada vez mais irritada.

            - Não quero a sua chave e não quero que arrume coisa nenhuma. Não quero de modo nenhum expulsá-lo da cabana. Obrigado! Só queria vir aqui de vez em quando, como hoje. Posso sentar-me perfeitamente debaixo do pórtico. Não se fala mais nisso.

            Ele voltou a fitá-la com olhar malévolo.

            - Mas - começou ele, no seu dialeto pesado e lento -, vossa senhoria é bem-vinda, como o Natal, à cabana com a chave e todas as coisas que lá estão dentro. Só que nesta altura do ano há ovos para pôr no choco, tenho de andar por aqui para tratar das aves. No Inverno quase nunca venho a este lugar. Mas na Primavera Sir Clifford quer que eu trate dos faisões, e vossa senhoria não gostaria que eu andasse por aqui a rondar quando lhe apetecesse vir.

            Ela escutava com estupefação.

            - Porque é que me havia de importar que estivesse? - perguntou ela.

            Ele fitou-a com estranheza.

            - Mas importo-me eu - respondeu, com brevidade e segurança.

            Connie corou.

            - Muito bem! - disse ela por fim. - Não o incomodarei. Mas acho que não me teria importado de ficar sentada a vê-lo a tratar das aves. Teria gostado. Mas, uma vez que isso o perturba, não o incomodo, não tenha medo. É o guarda de Sir Clifford, não o meu.

            A frase soou-lhe estranha, sem saber porquê, mas não corrigiu.

            - Não, minha senhora, a cabana é sua. Seja como vossa senhoria quiser. Pode mandar-me embora de oito em oito dias, mas...

            - Mas o quê? - perguntou ela, desconcertada.

            Puxou para trás o chapéu, de maneira cômica.

            - Pensei que quisesse a cabana só para si quando aqui viesse, não gostasse de ouvir-me trabalhar.

            - Mas porque não? - respondeu, irritada. - Acaso não é um ser humano civilizado? Acha que devia ter medo de si? Porque hei de me importar que esteja aqui ou não? É assim tão importante a sua presença?

            Ele olhou para ela, o seu rosto cintilava com um riso malévolo.

            - Não, de maneira nenhuma - respondeu.

            - Então qual é o problema? - perguntou Connie.

            - Posso arranjar-lhe outra chave então?

            - Não, obrigada, não quero.

            - De qualquer maneira, arranjo-a. É melhor haver duas chaves desta porta.

            - É um insolente - disse Connie, enrubescida e um pouco ofegante.

            - Não, não - respondeu ele, apressadamente. - Não diga isso, não! Não queria dizer nada de especial, só pensava que queria que eu não estivesse aqui quando viesse. Nesse caso tinha de levar tudo e arranjar outro lugar. Mas, se vossa senhoria não se importa que esteja aqui, a cabana é de Sir Clifford, e tudo será como quiser, desde que não se importe comigo enquanto faço o meu trabalho.

            Connie afastou-se completamente desorientada. Não tinha certeza de ter sido insultada e mortalmente ofendida ou não. Talvez a única intenção do homem fosse realmente a que ele tinha dito, pensar que ela o queria fora dali. Nunca quereria tal coisa! Como se ele fosse importante, ele e a sua estúpida presença.

            Voltou para casa, sem saber o que pensar ou o que sentir.

 

            Connie admirava-se do seu sentimento de aversão por Clifford, e o que é mais importante, sentia que realmente nunca tinha gostado dele. Não era ódio, mas um sentimento completamente destituído de paixão, uma profunda aversão física. Quase lhe parecia que tinha casado com ele porque lhe desagradava de maneira secreta, física. Mas, evidentemente, casara, porque mentalmente ele a atraía e a excitava. Parecera, de certo modo, o seu mestre, fora do seu alcance. Agora a excitação mental desgastara-se e sucumbira, e ela estava apenas consciente da aversão física, que crescia dentro dela. Compreendia até que ponto lhe tinha devorado a vida.

            Sentia-se fraca e completamente perdida. Desejava que algum auxílio viesse do exterior, mas em todo o mundo não havia auxílio. A sociedade era terrível, porque estava louca. A sociedade civilizada está alienada. O dinheiro e o pseudo-amor são as duas grandes manias, principalmente o dinheiro. O indivíduo, na sua loucura desordenada, tenta afirmar-se das duas formas; pelo dinheiro e pelo amor. Michaelis, por exemplo! A sua vida e atividade eram loucura. O seu amor era como que uma loucura. O mesmo acontecia com Clifford. Toda aquela conversa, toda aquela literatura! Toda aquela luta selvagem para tentar atrair as atenções! Tudo aquilo era loucura. E ia-se agravando, próxima da demência total.

            Connie sentia-se exausta de medo. Mas agora pelo menos Clifford exercia a sua tirania sobre a senhora Bolton e não sobre ela. Ele não tinha consciência disso. Como acontece com todos os loucos, a medida da sua loucura podia ser avaliada pela quantidade de coisas de que não tinha consciência, pelos enormes espaços desertos da sua consciência.

            A senhora Bolton era admirável em muitos aspectos. Mas tinha aquele prazer estranho de dominar, de afirmação constante da sua vontade, que são sinais de loucura na mulher moderna. Estava convencida de que era totalmente subserviente e que vivia para os outros. Clifford fascinava-a, porque, sempre ou quase sempre, frustrava a sua vontade, como se fosse pelo instinto mais puro. A forma de afirmação da vontade dele era mais requintada, mais sutil. Nisto residia o seu principal encanto aos olhos da senhora Bolton. Talvez Connie tivesse achado também algum encanto nisso mesmo.

            - Está um dia maravilhoso - costumava ela dizer, na sua voz meiga, persuasiva. - Acho que devia dar uma pequena volta na cadeira de rodas, está um sol encantador.

            - Ah, sim? Dê-me aquele livro, por favor, o amarelo. Acho que será melhor tirar daqui aqueles jacintos.

            - Oh! Mas são tão bonitos! E o aroma é simplesmente esplêndido!

            - É exatamente o cheiro que me incomoda, acho-o um pouco fúnebre.

            - Acha? - dizia ela, surpresa, um pouco ofendida, mas impressionada.

            E levava os jacintos para fora do quarto, impressionada com tanto tédio.

            - Quer que o barbeie esta manhã ou barbeia-se sozinho?

            Sempre a mesma voz suave, meiga, subserviente, mas, apesar disso, dominadora.

            - Não sei bem. Se não se importa, espere um pouco. Toco a campainha quando estiver pronto.

            - Muito bem, Sir Clifford - respondia ela, suave e submissa, retirando-se discretamente.

            Mas cada réplica fazia aumentar dentro dela a energia de uma vontade firme. Quando, passado um bocado, ele tocava, vinha imediatamente. E ele então diria:

            - Penso que é melhor a senhora barbear-me.

            O coração dela batia mais apressado de excitação e ela respondia com redobrada brandura:

            - Muito bem, Sir Clifford!

            Ela era muito hábil, com um toque suave, quase acariciante. A princípio Clifford ressentira-se daquele toque infinitamente suave na sua cara, mas depois agradava-lhe, até com uma voluptuosidade crescente. Deixava-se barbear quase todos os dias, o rosto dela junto ao seu, os olhos dela, concentrados, atentos ao que fazia. E, gradualmente, as pontas dos seus dedos passaram a conhecer perfeitamente as faces, os lábios, os maxilares, o queixo e a vertente do pescoço até à maçã-de-adão. Clifford era forte e tinha muito bom aspecto, o rosto e o pescoço muito atraentes; era um cavalheiro.

            Ela também era graciosa, pálida, e de rosto completamente parado, comprido, olhos brilhantes, inexpressivos. Pouco a pouco, com uma infinita doçura, quase com amor, começou a dominá-lo, e ele deixou.

            Presentemente a senhora Bolton era quem tudo fazia à Clifford, que se sentia mais à vontade com ela, menos envergonhado por aceitar aqueles pequenos serviços, do que com Connie. Ela gostava de o manejar, de lhe ter o corpo, completamente debaixo do seu domínio, em todos os pormenores. Um dia disse à Connie:

            - Todos os homens são crianças, quando se conhecem. Lidei com os indivíduos mais rudes que passaram pela mina de Tevershall. Mas se alguma coisa de mal lhes acontece e precisam que alguém trate deles, são umas crianças, crianças grandes. Oh, os homens não são muito diferentes!

            Antes, a senhora Bolton pensava que os senhores, os cavalheiros autênticos, como Sir Clifford, eram diferentes. Era uma vantagem que Clifford tinha. Mas, gradualmente, à medida que ia penetrando no seu íntimo, para empregar o seu próprio termo, verificou que era como os outros homens, uma criança grande com as proporções de um homem. Mas uma criança com um temperamento estranho, modos delicados, força interior, e sabendo muitas coisas que ela não pensava que existissem. Era assim que ele a podia oprimir.

            Connie, por vezes, sentia vontade de lhe dizer:

            - Pelo amor de Deus, não te entregues tão completamente nas mãos dessa mulher!

            Mas achava que, afinal, ele não lhe interessava o suficiente para o dizer.

            Continuava ainda a ser um hábito passarem os serões juntos, até às dez horas. Conversavam, ou liam, ou falavam do novo manuscrito. Mas a emoção tinha desaparecido. Estava farta de manuscritos, embora continuasse a datilografá-los, como se de uma obrigação se tratasse. Mas mais tarde até isso a senhora Bolton passou a fazer. Connie tinha sugerido à senhora Bolton que devia aprender a escrever à máquina. E a senhora Bolton, sempre pronta, começara imediatamente a praticar diligentemente. Assim, Clifford já podia de vez em quando ditar uma carta, que ela datilografava, devagar, mas corretamente. E ele tinha muita paciência para lhe soletrar as palavras difíceis, ou expressões em francês. Ela sentia-se emocionada, era quase um prazer ensinar-lhe o que quer que fosse.

            Connie, de vez em quando, pretextava uma dor de cabeça para ir para o quarto logo a seguir ao jantar.

            - Talvez a senhora Bolton não se importe de jogar piquet (1) consigo - dizia para Clifford.

 

            [1. Piquet - Jogo feito com trinta e duas cartas. (N. da T)]

 

            - Oh, não se importe. Vá para o quarto e descanse, querida.

            Logo que ela saía, tocava para chamar a senhora Bolton para jogar piquet ou bezigue, ou até xadrez. Tinha-lhe ensinado todos esses jogos, e Connie considerava curiosamente censurável o fato de ter visto a senhora Bolton corar e tremer como uma donzela ao percorrer com dedos indecisos peças como a rainha ou o cavalo, acabando por retirá-los. E Clifford sorria disfarçadamente de superioridade trocista, ensinava:

            - Deve dizer clube!

            Ela olhava-o com uns olhos brilhantes, surpreendidos, e murmurava tímida e obedientemente:

            - Adouberè! (2)

 

[2. Adouberè um verbo francês que significa mudar provisoriamente uma pedra do jogo. (N. da T)]

 

            Sim, ele estava a educá-la e tirava prazer das lições, davam-lhe uma sensação de poder. Ela vibrava. Estava a aprender pouco a pouco as coisas que eram privilégio dos patrícios, para além do dinheiro. Aquilo arrebatava-a. E, ao mesmo tempo, obrigava-o a querê-la sempre ao pé dele. A sua excitação natural era para ele um elogio sutil e profundo.

            Para Connie, Clifford revelava cada vez mais claramente o que na realidade era: um homem vulgar, igual a todos os outros, destituído de inspiração, gordo. Os truques de Ivy Bolton e o seu autoritarismo humilde eram também demasiado transparentes. Mas não surpreendia Connie aquela excitação genuína da mulher do seu contato com Clifford. Dizer que estava apaixonada por ele seria incorreto. Estava excitada pelo contato com um homem da alta sociedade, com um nobre, com um escritor que compunha livros e poemas, e cuja fotografia aparecia nos jornais ilustrados. Tudo isso despertara dentro dela uma estranha paixão. E o fato de ele a "educar" despertava nela uma paixão de estímulo e resposta mais profunda do que se partisse de uma ligação amorosa. Na verdade, a própria circunstância de não poder haver ligação amorosa deixava-lhe toda a liberdade de vibrar ao máximo com outro tipo de paixão, a paixão de saber, de saber como ele sabia.

            Sem dúvida que, de certo modo, estava apaixonada por ele, qualquer que seja o valor que se dê à palavra amor. Era graciosa e tinha um ar jovem, e os seus olhos cinzentos eram, por vezes, lindos. Ao mesmo tempo lia-se nela uma doce satisfação interior, mesmo de triunfo, uma satisfação íntima. Ah! Como Connie detestava aquela satisfação íntima!

            Clifford estava sem dúvida preso àquela mulher. Ela tinha uma verdadeira adoração por ele, constante, e punha-se totalmente ao seu serviço, para ele fazer dela o que quisesse. Era natural que ele se sentisse lisonjeado!

            Connie ouvia longas conversas travadas entre os dois, a maior parte das vezes era a senhora Bolton quem falava. Revelava-lhe com todos os pormenores as novidades da aldeia de Tevershall. Não era só má-língua. Eram também Gaskell, George Eliot, Miss Mitford, tudo isto junto, e mais umas tantas coisas que ficavam por dizer. Quando começava, a senhora Bolton era melhor do que qualquer livro sobre a vida das pessoas. Conhecia-as tão intimamente, interessava-se tanto com o que se passava com elas! Era uma coisa maravilhosa e humilhante ouvi-la. Ao princípio não se tinha atrevido a "falar de Tevershall" com Clifford, mas depois da primeira vez, nunca mais hesitou. Clifford escutava por causa do "material", que descobriu em grande quantidade. Connie compreendeu que a pseudogenialidade dele residia exatamente nisso: uma perspicácia especial para a má-língua sobre as pessoas, inteligente e aparentemente desconexa. A senhora Bolton evidentemente "falava" de Tevershall com muito entusiasmo, era levada pelas suas próprias palavras. Extraordinário tudo o que se passava e que ela sabia. Teria dado para dúzias de livros.

            Connie sentia-se fascinada quando a escutava, mas logo a seguir um pouco envergonhada. Não devia escutar com aquela estranha e apaixonada curiosidade. Afinal, era possível ouvir as histórias mais íntimas de outras pessoas, mas num espírito de respeito por essa coisa que luta e que sofre: a alma humana. É necessário um espírito de simpatia delicada, discriminativa. Porque até a sátira é uma forma de simpatia. O que determina realmente a vida de uma pessoa é exatamente a maneira como a simpatia se dá e se retira. E neste ponto reside a enorme importância do romance, se for corretamente manuseado. Pode informar e conduzir a novos lugares a corrente da nossa consciência complacente e pode libertar a nossa simpatia de coisas já mortas. Por isso, o romance corretamente manuseado pode revelar os lugares mais recônditos da vida. E são esses lugares da vida, recônditos, dominados pela paixão, que a maré do conhecimento sensível deve banhar e neles deve penetrar para os purificar e refrescar.

            Mas o romance, como a má-língua, pode também excitar simpatias e aversões falsas, mecânicas e insensíveis para o espírito. O romance pode glorificar os sentimentos mais corruptos, desde que sejam convencionalmente "puros". Então o romance, como a má-língua, acaba por se converter num vício terrível, porque se coloca sempre, e ostensivamente, ao lado dos anjos. A má-língua da senhora Bolton estava sempre do lado dos anjos. "Ele era tão mau, e ela era tão boa." No entanto, Connie percebia, pela maneira como ela contava as coisas, que a mulher era do tipo de falinhas mansas e que o homem era colérico mas honesto. Mas a honestidade encolerizada fazia dele um "homem mau", e a melifluidade fazia dela uma "mulher boa", dentro da corrente de simpatia, viciosa e convencional, da senhora Bolton. E por tudo isto era humilhante escutá-la. Pela mesma razão, a maior parte dos romances, sobretudo os populares, são humilhantes. O público só adere quando se apela para os vícios.

            Contudo, através da senhora Bolton, tinha-se uma nova visão de Tevershall. Parecia uma terrível confusão de vidas sórdidas, e, de modo nenhum, aquela monotonia cinzenta vista de fora. Clifford, evidentemente, conhecia de vista quase todas as pessoas mencionadas. Connie só uma ou duas. Mas aquilo parecia mais uma selva da África Central do que uma aldeia inglesa.

            - Julgo que ouviu dizer que a Allsopp casou na semana passada! Imagine! A Allsopp, filha do velho James, o sapateiro. Sabe que construíram uma casa em Pye Croft, o velho morreu de uma queda no ano passado; oitenta e três anos e ágil como um rapaz. Mas escorregou em Bestwood Hill, numa pista para trenós que os rapazes tinham feito no ano passado, fraturou o fêmur e isso liquidou-o, pobre velho, foi uma pena! Bem, deixou tudo o que tinha à Tattie, nada aos rapazes. E a Tattie, que eu saiba, tem mais cinco anos... exatamente, fez cinqüenta e três o Outono passado. E sabe, eram pessoas muito religiosas, palavra! Durante trinta anos ensinara na igreja todos os domingos, até o pai morrer. Depois começou a acompanhar com um homem de Kinbrook, não sei se o conhece, um homem já velhote de nariz vermelho, vestido como um peralta, o Willcock, que trabalha no depósito de madeira do Harrison. Pois bem, ele tem pelo menos sessenta e cinco anos, e, se os visse, pareciam um par de rolas, de braço dado, a beijarem-se ao portão. É verdade. E ela sentada no joelho dele, no vão da janela que dá para a Pye Croft Road, para toda a gente ver. E ele tem filhos com mais de quarenta anos, e a mulher morreu há dois anos. Se o velho James Allsopp não saiu do túmulo por causa disto, nunca sairá, porque ele educou-a com muito rigor. Agora estão casados e foram viver para Kinbrook, e dizem que ela anda de roupão de manhã à noite, um autêntico espetáculo. Francamente, é horrível a conduta destes velhos! São piores que os novos, mais repugnantes. Na minha opinião o cinema é que tem a culpa disto tudo.

Mas não se pode proibir ninguém de ver os filmes. Eu sempre lhes disse: vão ver um bom filme instrutivo, mas fujam, pelo amor de Deus, desses melodramas e filmes de amor. Acima de tudo, não deixem que as crianças os vejam. Mas, aí tem, os adultos são piores do que os novos, são mesmo os piores. E os velhos batem todos. Falem em moralidade! Ninguém liga. As pessoas fazem o que querem, e vivem melhor assim, também reconheço. Mas agora, que as minas vão tão mal, têm de ser mais moderados, não têm dinheiro. E o que se queixam! É horrível, especialmente as mulheres. Os homens são tão bons e pacientes! Que é que eles hão de fazer, os desgraçados? Mas as mulheres, oh, são terríveis! Dão nas vistas, contribuindo para o presente de casamento da princesa Mary, e depois de verem todas as esplêndidas coisas que haviam sido dadas tinham desatado a comentar: "Quem é ela, é melhor do que qualquer outra pessoa! Porque é que a Swan e Edgar não me dá um casaco de peles, em vez de lhe dar seis? Antes tivesse guardado os meus dez xelins! Gostava de saber o que é que ela me vai dar em troca. Para aqui ando eu que nem posso comprar um casaco para a Primavera, porque o meu pai ganha pouco, e a ela dão-lhe tudo! já é altura de os pobres terem algum dinheiro para gastar, os ricos já o têm há muito. Preciso de um casaco novo para a Primavera, e como é que o vou comprar?".

            "Eu costumo dizer-lhes: "Devem sentir-se agradecidas por andarem bem comidas e bem vestidas, mesmo sem todas as fantasias que desejariam ter". E elas respondem-me: "Porque é que a princesa Mary não se sente agradecida por andar vestida com roupas já usadas, em vez de comprar outras? Pessoas como ela têm muito que vestir, e eu nem na Primavera posso ter um casaco novo. É uma vergonha! Princesa! Diabos levem as princesas! O que interessa é o dinheiro, e como ela já tem muito, dão-lhe mais. A mim ninguém me dá nada, tenho tanto direito como qualquer outra pessoa. Não me venham falar de educação, o dinheiro é que conta. Quero um casaco novo para a Primavera, queria mesmo, e não o vou ter, porque não há dinheiro".

            "Só pensam em roupas, e não se importam de pagar sete ou oito guinéus por um casaco de Inverno, as filhas dos mineiros, imagine, ou dois guinéus por chapéu de Verão de criança. E vão à igreja com o chapéu de dois guinéus; no meu tempo se comprassem um de três xelins e meio, já era muito bom. Ouvi dizer que, pelo aniversário da igreja metodista, vão construir este ano uma tribuna tão alta, quase como um teto, para as crianças da escola. Ouvi dizer que a Thompson, que dá as aulas da primeira classe, contou que haverá mais de mil libras em vestidos e roupas novas de domingo nessa tribuna. E assim estão os tempos! Mas não se podem impedir, são loucas por vestidos e os rapazes também; gastam todo o dinheiro que têm em ternos, tabaco, bebidas no Centro Social dos Mineiros ou em passeatas a Sheffield duas ou três vezes por semana. É outro mundo, o de hoje. Não têm medo nem respeito por coisa nenhuma, os jovens. Os velhos são pacientes e bons, realmente, e deixam as mulheres fazer tudo o que querem. E eis o resultado! As mulheres são verdadeiros demônios. Mas os rapazes são como os pais. Não se sacrificam por coisa nenhuma, é tudo para bem deles. E se se lhes diz que deviam economizar para fazer uma casa, respondem: "Isso pode esperar, pode esperar. Quero divertir-me enquanto posso. O resto pode esperar". São grosseiros e egoístas, e tudo cai em cima dos velhos. É por isso que a vida está má."

            Clifford principiou a ter uma nova perspectiva da sua aldeia natal, o lugar que sempre o tinha assustado, mas que ele julgava estável. Agora?

            - Há muitos socialistas, bolchevistas, entre eles? - perguntou ele.

            - Oh! - respondeu a senhora Bolton. - Ouvem-se alguns barulhentos. Mas a maior parte são as mulheres que têm muitas dívidas. Os homens não ligam. Não acredito que os homens de Tevershall alguma vez se tornem vermelhos, são demasiado equilibrados para isso. Mas os jovens às vezes falam muito e tolamente, não que realmente se interessem por essas coisas, só querem algumas moedas na algibeira para gastar no Centro Social ou irem para a pândega em Sheffield. É tudo o que lhes interessa. Quando não tiverem dinheiro é que ouvirão as declamações dos vermelhos. Mas, no fundo, ninguém acredita.

            - Acha então que não há perigo?

            - Oh, não, se os negócios correrem bem, não. Mas se as coisas continuarem a correr mal por muito tempo, os jovens podem tornar-se estranhos. Já lhe disse, são egoístas e estragados com mimos. Mas não creio que jamais façam alguma coisa. Não levam nada a sério, a não ser dar nas vistas montados em motos e dançar no palaís de danse em Sheffield. É impossível levá-los a encarar qualquer coisa a sério. Os rapazes sérios vestem traje de cerimônia e vão para o Pally mostrar-se às raparigas, dançar o charleston e não sei quê mais. Tenho certeza de que às vezes o autocarro vai cheio de rapazes, bem vestidos, filhos de mineiros, que seguem para o Pally, e isto para não falar dos que vão com as raparigas de automóvel ou de moto. Não levam nada a sério, exceto as corridas de Doncaster e no Derby. Apostam em todas as corridas. E no futebol! Mas até o futebol já não é o que era! Dizem que se assemelha muito mais a um trabalho duro. Preferem ir de moto para Sheffield ou Nottingliam aos sábados à tarde.

            - Mas que é que fazem em Sheffield?

            - Oh, andam por lá, tomam chá num lugar elegante como o Mikado, vão ao Pally, ao cinema, ou ao Empire, com alguma rapariga. As raparigas são tão livres como os rapazes, fazem o que querem.

            - E quando não têm dinheiro para isso, que é que fazem?

            - Arranjam-no, parece, e começam a falar mal. Mas não percebo como é que poderia haver bolchevismo, quando o que todos os rapazes querem é dinheiro para se divertirem e as raparigas é a mesma coisa e terem bonitos vestidos, não querem saber de mais nada. Não têm cabeça para ser socialistas nem sabem tomar as coisas a sério, nem nunca saberão.

            Connie considerava as classes baixas muito parecidas com as outras. Passava-se sempre o mesmo, quer fosse em Tevershall, Mayfair ou Kensington. Presentemente só há uma classe: a das pessoas de dinheiro. A única diferença entre elas reside na quantidade de dinheiro que se possui e que se queira possuir.

            Sob a influência da senhora Bolton, Clifford começou a interessar-se pelas minas. Começou a sentir que pertencia àquele lugar e ganhou uma certa autoconfiança. Afinal, era ele o senhor de Tevershall, era ele as próprias minas. Descobriu um novo sentido de poder, algo a que ele se tinha esquivado, até agora, com pavor.

Os poços iam mal. Já só havia duas minas: a de Tevershall e a de New London. Tevershall fora em tempos uma mina famosa e dera muito dinheiro. Mas os dias bons tinham acabado. New London nunca tinha sido muito rica, e em tempos normais rendia o suficiente. Mas agora os tempos estavam maus, minas como New London ficavam para trás.

            - Muitos homens de Tevershall foram para Stacks Cate e Whiteover - contava a senhora Bolton. - Nunca viu as fábricas de Stacks Cate que abriram depois da guerra, pois não, Sir Clifford? Oh, tem de lá ir um dia. São muito modernas, grandes oficinas de química à entrada da mina, não se parece nada com uma mina de carvão. Dizem que fazem mais dinheiro com os derivados químicos do que com o carvão, já não me lembro o que é. E as casas para os mineiros? São verdadeiros palácios! Evidentemente que isto trouxe muita gentalha de toda a região. Muitos homens de Tevershall continuam lá e estão a viver bem, muito melhor do que os nossos homens. Dizem que Tevershall acabou, que não dá mais, que é só questão de mais uns anos, e será encerrada, e que New London será a primeira. Palavra de honra, como será Tevershall sem as minas? Já é mau quando há greves, mas, meu Deus, se fecham de vez, será como o fim do mundo. Quando era rapariga, eram as melhores minas, e um homem que arranjava lá trabalho era feliz. Oh, Tevershall deu dinheiro! E agora os homens dizem que parece um navio a afundar-se, que é altura de todos irem embora. Não é horrível? Mas, evidentemente, há muitos que só partirão quando forem obrigados. Não gostam dessas minas novas tão profundas, onde se trabalha com máquinas. Alguns chegam a ter medo daqueles homens de ferro, como lhes chamam, aquelas máquinas de cortar o carvão, quando eles sempre fizeram esse trabalho. E dizem que também é um desperdício. Mas o que se desperdiça poupa-se em salário, e muito mais. Parece que em breve os homens não servirão para nada na face da terra, as máquinas farão tudo. Mas o que os homens dizem agora é o que sempre disseram quando tiveram de abandonar os velhos teares de fazer meias. Ainda me lembro de um ou dois casos assim. Mas, palavra de honra, parece que quantas mais máquinas há, mais gente há também. Dizem que do carvão de Tevershall não se podem extrair os mesmos produtos químicos de Stacks Gate, é estranho, estão a menos de três milhas uma da outra. Isto é o que eles dizem. Mas todos dizem que é uma pena que não se possa fazer alguma coisa para os homens viverem um pouco melhor e as raparigas terem trabalho. Aquelas que vão a pé para Sheffield todos os dias! Palavra, como era interessante as minas de Tevershall renascerem outra vez, quando todos dizem que acabaram, que são como um navio a afundar-se, de onde eles têm de fugir como ratos de porão! Mas as pessoas falam demais. Evidentemente que durante a guerra houve uma baixa, e então Sir Geoffrey resolveu resguardar-se e salvaguardar todo o seu dinheiro. É o que eles dizem. Mas também dizem que os chefes e os donos não ganham hoje muito com as minas. Até custa a acreditar, não é? Sempre pensei que os poços das minas nunca deixariam de funcionar. Quem poderia pensar o contrário, nos meus tempos de rapariga? Mas a de New England fechou, assim como a de Colwick Wood. É terrível atravessar aquela pequena mata e ver Colwick Wood abandonado, no meio das árvores, com os arbustos a crescerem no alto da mina, e as linhas vermelhas de ferrugem. É como a própria morte, uma mina de carvão, morta. O que é que se poderia fazer se Tevershall fechasse? Até dói pensar nisso. Sempre aquela multidão, exceto quando havia greves, e mesmo assim os ventiladores raramente paravam. O mundo é estranho, está a transformar-se de ano para ano, a gente já não sabe com o que pode contar.

            Foram as palavras da senhora Bolton, que fizeram nascer em Clifford um novo espírito de luta. Como ela dizia, o seu rendimento estava seguro devido às medidas tomadas pelo pai, embora não fosse elevado. As minas realmente não lhe interessavam. O mundo que ele queria conquistar era o outro, o da literatura e da fama. O mundo do público, não o mundo dos operários. Agora compreendia a diferença entre o êxito popular e o êxito do trabalho; a populaça do prazer e a populaça do trabalho. Ele, pessoalmente, estivera a proporcionar entretenimento à populaça com o prazer das suas histórias, e tinha-se tornado popular. Mas, abaixo da populaça do prazer, jazia a populaça do trabalho, sinistra, suja, terrível. Essa também tinha de ter os seus fornecedores, e era mais difícil enfrentá-la do que a outra. Enquanto trabalhava nas suas histórias e "penetrava" no mundo, Tevershall ia-se afundando. Então compreendeu que a deusa-cadela da Glória tinha dois apetites essenciais: o do elogio, da adulação, das carícias e das cócegas, que os escritores e artistas lhe davam, e o outro, mais terrível, de carne e ossos. E a carne e os ossos para a deusa-cadela eram fornecidos por aqueles homens que ganhavam dinheiro na indústria. Sim, havia dois grandes grupos de cães, que brigavam por causa da deusa-cadela, o grupo dos aduladores, que lhe forneciam divertimento, histórias, filmes e peças de teatro, e o outro, muito menos pretensioso, de uma raça muito mais feroz, que lhe dava a carne, a substância real do dinheiro. Os cães, bem alimentados e exibicionistas, brigavam e rosnavam entre si pelos favores da deusa-cadela. Mas isso não era nada comparado com a guerra silenciosa, uma guerra de morte entre aqueles que lhe eram indispensáveis, os que lhe traziam os ossos.

            Mas sob a influência da senhora Bolton, Clifford sentia-se tentado a participar na outra luta, a capturar a deusa-cadela por meios brutos da produção industrial. De certo modo, tinha recuperado a sua coragem. À sua maneira, a senhora Bolton tinha feito dele um homem, coisa que Connie jamais conseguira. Connie tinha-o mantido isolado, fê-lo, tornar-se sensível, consciente de si e do seu mundo interior. A senhora Bolton fizera-o tomar consciência do mundo exterior. Por dentro começou a amolecer, mas por fora a tornar-se eficiente.

            Recobrou ânimo para ir mais uma vez às minas. Quando lá estava, descia numa cesta e era puxado para o interior dos poços. As coisas que tinha aprendido antes da guerra, e que parecia ter completamente esquecido, voltavam-lhe ao espírito. Lá ficava sentado, estropiado, com o administrador da mina, que lhe mostrava o filão com um archote. Falava pouco, mas o seu intelecto começava a trabalhar.

            Começou a reler livros técnicos sobre a indústria mineira do carvão, estudou os relatórios do governo, analisou cuidadosamente os últimos artigos sobre a exploração mineira e a química do carvão e do xisto, publicados em alemão. Evidentemente que as descobertas mais importantes eram mantidas em sigilo, tanto quanto era possível, mas quando se começa uma investigação no campo da exploração mineira do carvão, no estudo de métodos e meios, dos subprodutos e das possibilidades químicas do carvão, era aterradora a ingenuidade, o talento quase sinistro da moderna mentalidade técnica, como se de fato o próprio Diabo tivesse concedido uma inteligência demoníaca aos técnicos cientistas da indústria. E tudo isso era muito mais interessante, esta ciência técnica da indústria, do que a arte, a literatura, todos esses temas emocionais e fracos de espírito. Neste campo os homens assemelhavam-se a deuses ou demônios, inspirados para a descoberta, lutando para as levar a cabo. Nessa atividade, os homens tinham atingido uma idade mental para além de quaisquer cálculos. Mas Clifford sabia que, no plano da vida humana, emocional, tinham uma idade mental de cerca de treze anos. Uns rapazes fracos! A discrepância era enorme e terrível. Mas isso não interessava. Se a humanidade, no que respeita às emoções e ao espírito, caminhasse para a idiotia geral, Clifford não tinha nada a ver com isso. Estava interessado na tecnologia da moderna indústria mineira do carvão e em salvar Tevershall do abismo.

            Dia após dia descia ao poço da mina, estudava, submetia todos os administradores e engenheiros a provas por que eles nunca tinham pensado passar. Poder! Tinha uma nova sensação de poder, poder sobre todos aqueles homens e centenas de mineiros. Estava num período de descoberta, e a colocar tudo sob a sua alçada.

            Na realidade parecia que tinha renascido. Agora a vida invadia-o! Tinha morrido gradualmente, com Connie, numa vida isolada e privada de artista e de ser consciente. Nada disso lhe interessava agora, podia ir tudo para o Diabo. Sentia simplesmente que a vida o invadia partindo do carvão, do poço da mina. Até o ar viciado da mina lhe era mais benéfico que o oxigênio, dava-lhe uma sensação de poder. Estava a fazer qualquer coisa, ia fazer coisas. Iria triunfar, não um triunfo como o que obtera com as suas histórias, mera publicidade, num mundo comprimido de energia e de malícia. Seria uma vitória humana.

            A princípio pensou que a solução podia estar na eletricidade, converter o carvão em energia elétrica. Depois teve outra idéia.

Os alemães tinham inventado uma nova locomotiva com auto-abastecimento, que não precisava de fogueiro. Essa locomotiva trabalhava com um novo combustível, que ardia em pequenas quantidades a uma temperatura muito elevada, em determinadas condições especiais. A idéia de um novo combustível concentrado, que ardia lentamente a elevada temperatura, foi o que logo lhe suscitou a atenção. Tinha de haver qualquer espécie de estímulo exterior para a inflamação desse combustível, o ar não chegaria. Começou a fazer experiências e contratou como seu colaborador um jovem que tinha feito brilhantes estudos de química.

            Sentia-se triunfante. Finalmente conseguira transcender-se. Realizara o desejo ardente, secreto, que alimentara durante toda a sua vida, superar-se a si próprio. Através da arte não o conseguiria, antes o tornara mais difícil. Mas, finalmente, conseguira.

            Até que ponto a senhora Bolton o apoiara, não tinha ele consciência disso, nem até que ponto dependia dela. Mas por tudo isto, era evidente que quando Clifford estava com ela, a voz dele baixava para uma cadência suave de intimidade, muito pouco vulgar até.

            Com Connie, era um pouco reservado. Reconhecia que lhe devia tudo, e testemunhava-lhe o maior respeito e consideração, desde que ela, exteriormente, apenas o respeitasse. Mas era evidente que a receava em segredo. O novo Aquiles tinha um calcanhar, a mulher. Uma mulher como Connie podia feri-lo mortalmente. Continuou a ter para com ela um receio semi-subserviente e uma extrema gentileza. Mas, sua voz ficava um pouco tensa quando falava com ela e passou a manter-se calado sempre que ela estava presente. Somente quando estava a sós com a senhora Bolton, se sentia realmente fidalgo e patrão, falava quase com a mesma facilidade e verbosidade como quando ela conversava.

 

            Connie estava agora mais tempo sozinha, vinham menos pessoas a Wragby. Clifford já não queria visitas, nem mesmo os amigos íntimos. Estava estranho. Preferia ouvir rádio, que tinha instalado, finalmente, com alguma despesa, mas com bastante êxito. Por vezes conseguia captar Madrid ou Francoforte, apesar das condições atmosféricas dos Midlands.

            E ficava horas a ouvir o rugido do altofalante , o que espantava e atordoava Connie. Mas ali continuava sentado, com uma expressão vaga e extasiada, como uma pessoa que está a perder a razão, que ouve ou parece ouvir aquele objeto indizível. Estaria realmente a ouvir? Ou o aparelho era uma espécie de soporífero que ele tomava, enquanto qualquer outra coisa se passava dentro dele. Connie não sabia. Fugia para o quarto ou para o bosque. Por vezes, sentia-se invadida por uma espécie de terror, um terror da demência incipiente de toda a espécie civilizada.

            Mas agora Clifford afastava-se pouco a pouco para esta outra misteriosa atividade industrial, estava a tornar-se uma criatura, resguardada sob uma concha bastante dura, mas que ocultava uma fragilidade interior. Parecia um daqueles assombrosos caranguejos, ou lagostas, do moderno mundo financeiro e industrial, invertebrados da ordem dos crustáceos, com conchas de aço como máquinas, mas os corpos de polpa mole. Connie sentia-se completamente abandonada, nem sequer era livre, porque Clifford queria-a ao pé de si, como que parecia dominado por um terror nervoso de que ela o deixasse. A sua parte frágil, a faceta emocional e humana, dependia dela com terror, como uma criança, quase como um idiota. Ela tinha de estar ali, em Wragby, a sua mulher, senão ele sentir-se-ia perdido como um idiota num pântano. Connie percebeu-se, horrorizada, desta surpreendente dependência. Ouviu-o falar com os diretores da mina, com os membros do conselho de administração, com os jovens cientistas, e ficava surpresa com o seu conhecimento judicioso dos assuntos, a sua força, o estranho poder material sobre os chamados homens práticos. Ele próprio se tinha convertido num homem prático, extraordinariamente astuto e poderoso, um chefe. Connie atribuía toda aquela transformação à influência da senhora Bolton, num momento de crise da vida de Clifford. Mas este homem astuto e prático era quase um idiota no que respeitava à sua vida emocional. Idolatrava Connie, a sua mulher, um ser superior. Devotava-lhe uma estranha e covarde adoração, como um selvagem, que venera aquilo de que tem medo, e odeia o poder do ídolo, do terrível ídolo. Tudo o que queria era que Connie jurasse repetidamente que não o deixaria, que não o abandonaria.

            - Clifford - disse-lhe, depois de ter a chave da cabana - gostaria realmente de que eu um dia tivesse um filho?

            Ele olhou-a, apreensivo, com uma expressão furtiva nos seus olhos claros e salientes.

            - Não me importaria desde que entre nós nada se alterasse.

            - Não se alterasse o quê?

            - A nossa relação, o nosso amor. Se isso vier a acontecer, oponho-me terminantemente. De resto, talvez um dia possa vir a ser pai!

            Ela olhou-o, espantada.

            - Quero dizer, possa um dia recuperar.

            Ela continuava a fitá-lo, espantada, e ele começou a sentir-se constrangido.

            - Portanto, não gostaria que eu tivesse um filho?

            - Já lhe disse - respondeu ele apressadamente como em dificuldades- acho muito bem, desde que não afete o seu amor por mim. Caso contrário, oponho-me tenazmente.

            Connie só podia ficar calada, sentindo um medo frio e desprezo. Aquelas palavras eram realmente as de um idiota. Ele já não sabia o que dizia.

            - Oh, não iria alterar o que sinto por si - respondeu ela com um certo sarcasmo.

            - Aí está! Isso é que importa. Nesse caso, não me importo nada. Até acho que seria muito agradável haver uma criança a correr pela casa e sentirmo-nos a construir algo para o seu futuro. Assim, teria algo por que lutar, e saberia sempre que era o seu filho, não é, minha querida? E pareceria como se fosse o meu próprio filho, porque nestes assuntos quem conta é você. Você sabe disso, não é verdade, querida? Eu não conto, sou um zero. Você é realmente o importante da minha vida. Sabe isso, não sabe? Eu não sou nada sem si, vivo para si e para o seu futuro; eu não conto.

            Connie escutava tudo com uma consternação e uma repulsa, crescentes. O que ele dizia era uma daquelas horríveis meias-verdades que envenenam a existência humana. Que homem de bom senso diria tais coisas a uma mulher? Mas os homens não estão no seu pleno juízo. O homem com um pouco de dignidade nunca poria para cima de uma mulher aquele fardo horrível de responsabilidade da vida, deixando-a depois no vazio.

            Meia hora mais tarde, Connie ouviu-o falar com a senhora Bolton, com uma voz quente, impulsiva, revelando-se àquela mulher com uma paixão impassível, como se ela fosse quase sua amante, sua mãe adotiva. E a senhora Bolton vestia-o cuidadosamente para o jantar, pois havia importantes visitas de negócios nessa noite.

            Connie sentia por vezes que a morte se aproximava. Sentia-se mortalmente esmagada por misteriosas mentiras e por uma surpreendente e cruel idiotia. A estranha eficiência comercial de Clifford inspirava-lhe de certo modo terror, e a sua declaração de veneração íntima faziam-na entrar em pânico. Não havia nada entre eles, ela nem sequer lhe tocava, e ele nunca tinha nenhum contato com ela, não lhe pegava na mão, nem a segurava com ternura; não, mas por não terem qualquer tipo de ligação ele torturava-a com as suas declarações de idolatria. Era a crueldade da impotência absoluta, e Connie sentia que ia enlouquecer ou morrer. Fugia o mais que podia para o bosque. Uma tarde, enquanto estava sentada a meditar, olhando para as bolhas frias de água na John's Well, o guarda dirigiu-se para ela com grandes passadas.

            - Já mandei fazer uma chave, minha senhora.- disse ele, cumprimentando-a e entregando-lhe a chave.

            - Muito obrigada! - respondeu ela, surpresa.

            - A cabana não está muito arrumada, desculpe, fiz o que pude.

            - Mas eu não queria que se incomodasse!

            - Não foi incômodo nenhum. Dentro de uma semana ponho as fêmeas no choco, mas elas não terão medo de si. Terei de cuidar delas de manhã e à noite, mas farei o possível por não a incomodar.

            - Mas não me incomoda de modo nenhum. Quase seria melhor eu não ir nunca à cabana, se estorvo.

            Ele fitava-a com os seus olhos azuis, perspicazes. Parecia afável, mas distante. Pelo menos era são de espírito e robusto, apesar da sua magreza e aspecto pouco saudável. A tosse atormentava-o.

            - Anda com tosse - comentou ela.

            - Não passa de uma constipação. Depois da pneumonia fiquei com tosse, mas não tem importância.

            Continuava afastado dela, e nada o faria aproximar-se. Connie quase todos os dias se dirigia para a cabana, de manhã ou à tarde, mas nunca o encontrava. Sem dúvida que a evitava intencionalmente, queria preservar a sua solidão.

            Tinha arrumado a cabana, colocado a mesa pequena e a cadeira junto à lareira, deixado uma pilha de paus para arder e guardado as ferramentas e armadilhas, apagando todos os sinais da sua presença. Lá fora, perto da clareira, tinha construído uma cobertura com ramos e palha, um abrigo para as aves, e sob a qual estavam cinco capoeiras. Um dia ela encontrou duas galinhas castanhas, vigilantes e ferozes, a chocarem ovos de faisão, inchadas de orgulho e gravidade do calor do seu sangue de fêmeas. Isto quase entristeceu Connie. Ela sentia-se tão perdida e abandonada, não era uma fêmea, mas apenas uma coisa dominada por terrores.

            As capoeiras ficaram todas ocupadas com galinhas, três castanhas, uma cinzenta e uma preta. Todas aninhadas sobre os ovos, no seu macio e pesado anseio de fêmeas, na sua natureza de fêmeas, espalhando as suas penas. E, com olhos brilhantes, observavam Connie ajoelhada em frente delas, e soltavam cacarejos breves e estridentes de cólera e receio, sobretudo de cólera feminina, pela aproximação de uma pessoa estranha.

            Connie encontrou milho dentro da caixa para cereais na cabana e deu-o às galinhas na mão. Não comeram, somente uma lhe deu uma bicada na mão, o que a assustou. Mas ansiava por lhes dar fosse o que fosse, àquelas mães, que estavam a chocar, e nem se alimentavam ou bebiam. Foi buscar água numa pequena lata, e ficou contente quando uma delas começou a beber.

            Visitava diariamente as galinhas, que eram a única coisa no mundo que a reconfortava. As declarações solenes de Clifford deixavam-na gelada da cabeça aos pés. A voz da senhora Bolton também a gelava, tal como o ruído dos homens de negócios que lá apareciam. Uma carta de Michelis, de longe em longe, provocava nela a mesma sensação de frio. Sentia que morreria com toda certeza se aquilo continuasse por mais tempo.

            Contudo, a Primavera tinha voltado, as campainhas começavam a despontar no bosque, e a folhagem das avelaneiras a desabrochar como salpicos de chuva verde. Era terrível reconhecer em plena Primavera que tudo era insensível. Só as galinhas, que espalhavam tão maravilhosamente as penas sobre os ovos, eram ardentes nos seus corpos quentes e chocos de fêmeas. Connie sentia-se, em todos os momentos, perto do desmaio.

            Num dia, num dia maravilhoso de sol, em que enormes tufos de primaveras se espalhavam sob as avelaneiras e numerosas violetas salpicavam os caminhos, Connie foi ver as galinhas à tarde. Um pintainho muito pequeno e atrevido saltitava em frente da capoeira, e a mãe-galinha cacarejava aterrorizada. O pintainho era magro, de um castanho-acinzentado com manchas escuras, e o pequeno ser mais vivo que existia sobre a terra nesse momento. Connie ajoelhou-se e ficou a olhá-lo quase em êxtase. A vida, a vida! Uma nova vida, pura, animada, sem medo! Uma nova vida! Tão frágil e tão corajosa! Até quando correu atabalhoadamente para entrar na capoeira, e desapareceu sob as penas da galinha, obedecendo aos gritos de alarme da mãe não foi por medo, agiu como se fosse uma brincadeira, o jogo da vida. Durante um momento, através das penas castanho-douradas da galinha, uma cabecita espreitou, contemplando o cosmo. Connie estava fascinada. E sentiu ao mesmo tempo, como jamais sentira, a agonia do seu abandono de fêmea, que começava a tornar-se insuportável.

            O seu único desejo consistia em ir para a clareira no bosque. Todo o resto não passava de um sonho doloroso, mas, por vezes, era obrigada a ficar todo o dia em Wragby, presa pelos seus deveres de dona de casa. Nessas ocasiões sentia-se também vazia e a perder a razão.

            Uma tarde, sem se preocupar com os convidados, fugiu depois do chá. Começava a anoitecer e Connie corria pelo parque como se tivesse medo de que a chamassem. Na altura em que ela entrou no bosque o Sol já começara a se pôr, mas prosseguiu vigorosamente por entre as flores. A claridade continuaria por cima do bosque.

            Chegou à clareira, congestionada e semiconsciente. O guarda estava lá, em mangas de camisa, a começar a fechar as capoeiras para as crias ficarem protegidas durante a noite. Mas três pintos andavam ainda cá fora, nas suas patas frágeis de criaturas minúsculas, acastanhadas e ligeiras, debaixo do abrigo de palha, que se recusavam a obedecer ao chamamento da mãe inquieta.

            - Não consegui deixar de vir ver os pintos! - comentou ela, ofegante, olhando timidamente o guarda, quase inconsciente da presença dele. - Quantos mais é que saíram dos ovos?

            - Trinta e seis, até agora. Nada mau!

            Ele também sentia um estranho prazer ver nascer aquelas pequeninas criaturas.

            Connie ajoelhou-se em frente da última capoeira. Os três pintos tinham acabado de entrar, mas as suas cabeças atrevidas pareciam olhar por entre as penas amarelas, depois recolheram-se, e ficou só uma cabecita a espreitar por debaixo do corpo opulento da mãe.

            - Adorava tocar-lhes - disse ela, introduzindo cautelosamente a mão por entre as barras da capoeira.

            Mas a mãe-galinha picou-a selvaticamente, e Connie retirou a mão, surpresa e amedrontada.

            - Como ela pica! Detesta-me! - disse, espantada. - Mas eu não ia fazer-lhes mal.

            O homem de pé, junto dela, riu, agachou-se ao lado dela, de joelhos abertos, e meteu a mão, com uma lentidão segura e tranqüila, dentro da capoeira. A velha galinha picou-o, mas menos iradamente.

Lenta e delicadamente, com os seus dedos delicados e firmes, tateou entre as penas da ave e retirou-se trazendo na mão fechada um pintainho, que mal piava.

            - Aqui tem! - disse, depositando-o nas mãos dela. Ela pegou naquela coisinha acastanhada, segurando-a entre as mãos, que ficou equilibrada nas suas perninhas frágeis, que mais pareciam canas, um átomo de vida palpitando nas patas, quase sem peso, nas mãos de Connie, em concha. O pinto levantou com ousadia a sua cabecita graciosa, bem modelada, e bruscamente olhou à volta, soltando um pequeno "pio".

            - Que coisinha adorável! Tão atrevida! - disse ela, baixinho.

            O guarda, acocorado a seu lado, fitava também deleitado a corajosa avezinha que ela tinha nas mãos. De repente viu cair uma lágrima no pulso de Connie.

            Ergueu-se, mantendo-se à distância, dirigiu-se para outra capoeira. Subitamente voltava a sentir a antiga chama que o feria e lhe traspassava os rins, que ele julgava apagada para sempre. Lutava contra ela, voltando-lhe as costas. Mas a chama voltava a invadi-lo e descia-lhe até aos joelhos.

            Voltou-se de novo e fitou-a. Ela estava ajoelhada, com as mãos estendidas para a frente, sem saber o que fazer para o pinto voltar para a mãe. E havia qualquer coisa de tão silencioso e perdido nela, que ele se sentiu devorado até às entranhas por um sentimento de compaixão.

            Inconscientemente, avançou para junto dela, voltou a ajoelhar-se, tirou-lhe o pinto das mãos, porque ela tinha receio da galinha, e pô-lo de novo dentro da capoeira. Subitamente na curva dos rins a chama acesa como nunca.

            Fitou-a, apreensivo. Ela virara a cara para o outro lado e chorava amargamente, com toda a angústia da sua geração perdida. O coração do homem enterneceu-se de repente, como uma faísca, e estendeu a mão e pôs-lhe os dedos no joelho.

            - Não chore! - disse, docemente. Mas depois ela cobriu o rosto com as mãos e sentiu que o seu coração estava destroçado e já nada tinha importância.

            Ele pousou-lhe a mão no ombro e deixou-a deslizar brandamente, suavemente pelas costas até aos rins, uma carícia cega. Depois docemente, muito docemente, desceu para a anca, num afago disfarçado e instintivo.

            Ela conseguira encontrar o lenço e tentava enxugar as lágrimas.

            - Venha para a cabana - disse ele, numa voz tranqüila, neutra.

            E estreitando-a, levantou-a e conduziu-a lentamente pelo braço para a cabana, não a largando até entrar. Afastou a cadeira e a mesa e tirou da arca um cobertor da tropa, estendeu-o lentamente. Ela fitava-o sem se mexer. A cara dele estava pálida e sem expressão, como a de um homem que se submete ao destino.

            - Deite-se ali - disse com doçura, fechando a porta, para que ficasse escuro, completamente escuro.

            Numa estranha obediência, ela deitou-se no cobertor. Sentiu depois a mão dele, suave, tateante, desamparadamente desejosa, a tocar-lhe o corpo, depois o rosto. A mão acariciou-lhe ternamente, e era infinitamente tranqüilizadora e segura, por fim sentiu o calor de um beijo.

            Ela jazia imóvel, numa espécie de sonho. Estremeceu quando sentiu a mão tateante, extremamente inábil, sob a roupa. Mas a mão sabia também despir o que queria. Puxou-lhe as calças de seda, até aos pés, lenta e cuidadosamente. Depois, com um estremecimento de intenso prazer, ele tocou o corpo quente e macio, beijou-lhe o umbigo por um momento. E teve de a penetrar imediatamente, penetrar na paz da terra que era o corpo dela, macio e imóvel. Para ele, penetrar o corpo de uma mulher era um tempo de paz absoluta.

            Ela continuava imóvel como se estivesse adormecida. Foram dele a atividade e o orgasmo; ela não podia lutar mais. Até o aperto dos seus braços à volta do corpo de Connie, o enérgico movimento do corpo, e o fluxo do seu sêmen dentro dela, eram como um sono de que ela só começou a despertar quando ele acabou e ficou sobre ela, quase ofegante.

            Então perguntou a si mesma, vagamente, porquê? Porque é que aquilo era necessário? Porque é que tinha retirado de cima dela uma grande nuvem e lhe dera paz? Seria real? Seria isto real?

            Todavia, o seu espírito atormentado de mulher moderna não se deixava tranqüilizar. Seria real? Sabia que se entregar àquele homem era uma realidade; mas sabia também que, tentando conter-se, não seria nada. Estava velha, tinha milhões de anos. E já não conseguia aguentar sozinha a sua carga. Era necessário alguém tomá-la, tomá-la também.

            O homem jazia numa imobilidade misteriosa. O que é que ele estaria a sentir? O que é que ele estaria a pensar? Ela não sabia. Ele era um estranho, não o conhecia. Teria de esperar, porque ela não ousava interromper a sua misteriosa quietude. Continuava abraçado a ela, o seu corpo úmido sobre o dela, muito próximo. Totalmente desconhecido. E apesar de tudo, tranqüilo. A sua quietude era serena.

            Teve consciência disso quando finalmente ele despertou e se afastou dela. Era como um abandono. No escuro, puxou-lhe o vestido até os joelhos, e por momentos parecia que estava a ajustar as próprias roupas. Depois abriu calmamente a porta e saiu.

            Connie viu a lua pequena e muito brilhante que espargia por cima dos carvalhos o seu esplendor. Rapidamente, levantou-se e arranjou-se. Depois caminhou em direção à porta da cabana.

            Todo o bosque estava mergulhado na sombra, era quase noite cerrada; no entanto, o céu estava claro como cristal, mas não irradiava claridade.

            Ele avançou para ela por entre a penumbra com o rosto levantado como uma mancha pálida.

            - Vamos? - perguntou ele.

            - Aonde?

            - Acompanho-a até ao portão.

            Ele resolvia as coisas à sua maneira. Fechou à chave a porta da cabana e seguiu-a.

            - Não está arrependida, pois não? - perguntou, enquanto caminhava ao lado dela.

            - Não! Não. Você está?

            - Arrependido por isso? Não. - Mas, pouco depois, acrescentou: - Mas há todo o resto!

            - Qual resto?

            - Sir Clifford, as outras pessoas. Todas as complicações.

            - Porquê complicações? - perguntou ela, desiludida.

            - É sempre assim. Tanto para si como para mim. Há sempre complicações.

            Ele continuava a andar com passo firme na escuridão.

            - Está arrependido? - perguntou ela, de novo.

            - De certo modo - respondeu, olhando para o céu. - Pensei que tudo isso tivesse acabado para mim. Agora recomecei.

            - Recomeçou o quê?

            - A viver.

            - A viver! - repetiu ela, com um estremecimento estranho.

            - A vida é isto, não se pode evitar. E quando se evita, mais vale morrer. Por isso não pude evitar mais.

            Ela não concordava inteiramente, mas, no entanto...

            - É o amor - disse ela, num tom alegre.

            - Ou seja o que for - respondeu ele.

            Continuaram a atravessar o bosque escuro, em silêncio, até chegarem quase ao portão.

            - Mas não me detesta, pois não? - perguntou ela, ansiosa.

            - Não, não... E, subitamente, abraçou-a de novo com força, com a paixão que os tinha unido.

            - Não, para mim foi bom, foi bom! E para si?

            - Para mim também - respondeu ela, com alguma falsidade, porque tinha estado pouco consciente de tudo.

            Ele beijou-a suavemente, com uma ternura apaixonada.

            - Se ao menos não houvesse outras pessoas no mundo - disse, lúgubre.

            Ela riu. Estavam junto ao portão do parque, que ele abriu para ela passar.

            - Não avanço mais.

            - Não?!

            Ela estendeu-lhe a mão, como para um simples cumprimento, mas ele segurou-a entre as suas.

            - Acha que volte? - perguntou, ansiosa.

            - Sim! Sim!

            Ela deixou-o e atravessou o parque. Ele ficou a vê-la na escuridão, desenhada contra o horizonte pálido. E sentiu dentro de si uma amargura por a ver partir. Ela tinha-se unido a ele, quando desejara ficar só. Aquela mulher tinha-lhe custado a amarga independência de um homem que, a determinada altura, apenas quer ficar só.

            Embrenhou-se no bosque sombrio. Estava tudo calmo, a lua tinha-se escondido. Mas ele tinha consciência dos ruídos da noite, das máquinas em Stacks Gate, do movimento na estrada principal. Começou a subir lentamente um pequeno monte despido de vegetação, e do cimo podia avistar a região, filas de luzes em Stacks Gate, e algumas luzes na mina de Tevershall, as luzes amarelas da aldeia, luzes por toda a parte, aqui e ali, na terra escura com o vermelho longínquo das fornalhas, tênue e rosado, porque a noite estava clara e o metal branco aquecido ficava cor-de-rosa. Luzes elétricas potentes, agressivas, de Stacks Gate! Aquelas luzes brilhando numa maldade indefinível, todo o desassossego e o pavor, sempre presente, que imperava nas noites industriais dos Midlands. Ouvia os motores dos guindastes em Stacks Gate, que transportavam os mineiros do turno das sete horas. Na mina funcionavam três turnos.

            Regressou ao negrume, ao isolamento do bosque, sabendo que essa solidão era ilusória. Os ruídos da indústria podiam quebrá-la, as luzes penetrantes, apesar de ocultas, zombavam dela. Um homem já não podia estar só. O mundo não permite que haja eremitas. Tendo tomado a mulher, expusera-se a um ciclo de sofrimento e fatalidade. Sabia por experiência o que isso significava. A culpa não era da mulher, nem do amor, nem das relações sexuais. A culpa era de outras coisas, daquelas luzes elétricas maléficas e dos ruídos ásperos e diabólicos das máquinas, daquele mundo mecanicamente ávido, daquele mecanismo insaciável e da avidez mecanizada, que pareciam lucilar e jorrar metal quente e bramir com o tráfico, lá se estendia aquele mundo diabólico pronto a destruir tudo o que não se lhe submetesse. Em breve acabaria por destruir o bosque, e as primaveras deixariam de nascer. Todas as coisas vulneráveis têm de morrer sob o peso do ferro.

            Pensou na mulher com uma ternura infinita. Aquela mulher perdida, bastante mais atraente do que ela julgava. Oh, demasiado delicada para o meio rude em que vivia integrada. Tinha qualquer coisa de vulnerabilidade dos jacintos selvagens, não era de borracha e platina como as raparigas modernas. E acabariam por matá-la! Tal como a vida, acabariam por matá-la, como a todos os seres vivos, naturais e ternos. Ternos! Ela tinha a ternura dos jacintos a crescer, e que a mulher de hoje, feita de celulóide, tinha perdido. Mas ele protegê-la-ia com o seu coração durante um tempo. Até que o mundo de ferro insensível e o Mammon (1) da cobiça mecanizada os matasse, aos dois.

 

[1. Palavra aramaica que serve, no Evangelho, para personificar as riquezas mal adquiridas.]

 

            Regressou a casa com a espingarda e o cão, para a cabana escura. Acendeu a luz, o fogo, e comeu a sua refeição de pão, queijo, cebolas e cerveja. Estava só, no silêncio que tanto amava. O quarto estava limpo e arrumado, mas um pouco frio. No entanto, o fogo estava esperto, o fogão escrupulosamente limpo e o candeeiro de petróleo pairava resplandecente sobre a mesa coberta com um oleado branco. Experimentou ler um livro sobre a Índia, mas naquela noite não era capaz de ler. Sentou-se junto à lareira em mangas de camisa, sem fumar, com uma caneca de cerveja à mão. Pensava em Connie.

            Na verdade, lamentava o que tinha acontecido, mais por ela. Tinha um pressentimento qualquer. Não era uma sensação de ter feito algo de mal ou pecado; a este respeito a consciência não o preocupava. Os seus problemas de consciência, e ele sabia-o, eram acima de tudo medo da sociedade, ou das pessoas. Não tinha medo de si mesmo, mas, conscientemente, receava a sociedade, que, por instinto, sabia que era como um animal malévolo e semilouco.

            A mulher! Se ela pudesse estar ali com ele e não existisse mais ninguém no mundo! O seu desejo despertou de novo, o pênis começou a agitar-se como um pássaro vivo. Ao mesmo tempo que lhe faziam vergar os ombros o peso do abatimento, o receio de se expor e de expor a ela, perante essa coisa que cintilava viciosamente nas luzes elétricas. Ela, pobre criatura, não era mais do que uma fêmea jovem; mas uma fêmea jovem que ele tinha possuído e que desejava de novo.

            Espreguiçou-se, num suspiro de desejo, porque tinha vivido sozinho e separado dos homens e das mulheres durante quatro anos. Levantou-se, pegou de novo no casaco e na espingarda, reduziu a chama do candeeiro, e embrenhou-se na noite estrelada, seguido pelo cão. Impelido pelo desejo e pelo medo dessa coisa malévola, fez a ronda ao bosque, lentamente, suavemente. Gusulva da escuridão e de penetrar nela, adaptava-se à turgidez do seu desejo, que, apesar de tudo, era precioso; com essa inquietude palpitante do pênis, com esse fogo nos rins. Oh, se houvesse outros homens com quem estar, para lutar contra aquela coisa elétrica e cintilante do exterior, para preservar a ternura da vida, a ternura das mulheres, a preciosidade natural do desejo! Se houvesse homens com quem se pudesse lutar lado a lado! Mas os homens estavam todos lá no exterior, vangloriando-se da coisa, ora triunfantes, ora esmagados, sob o peso da avidez mecanizada ou do mecanismo ávido.

            No que lhe tocava, Connie correu pelo parque até casa, quase incapaz de pensar no que quer que fosse. Chegaria a horas para o jantar.

            No entanto, foi encontrar todas as portas fechadas e teve de tocar, o que a aborreceu sobremaneira.

            A senhora Bolton abriu a porta.

            - Oh, é vossa senhoria! Começava a pensar que se tinha perdido! - disse ela, com um pouco de malícia. - Sir Clifford ainda não perguntou pela senhora, está a falar com o senhor Linley sobre qualquer coisa. Parece que ele ficará para o jantar, não concorda?

            - Provavelmente.

            - Posso retardar o jantar um quarto de hora? Dar-lhe-á tempo para se arranjar sem pressa.

            - Sim, talvez seja o mais conveniente.

            O senhor Linley era o gerente geral das minas, um homem do Norte, já de certa idade, sem verdadeira capacidade de mando na opinião de Clifford, desadaptado às circunstâncias e aos mineiros do pós-guerra, com o seu credo astucioso. Mas Connie gostava dele; todavia, estava satisfeita por não ter de suportar a bajulação da mulher.

            Linley ficou para jantar e Connie desempenhou o seu papel de anfitriã, de que os homens tanto gostavam; uma dona de casa modesta e no entanto tão atenciosa e consciente naqueles seus olhos grandes, azuis, cheios de uma calma suave que ocultava suficientemente os seus pensamentos. Foram tantas as vezes que desempenhara esse papel, que a faceta se tornara para ela quase uma segunda natureza, sendo curioso como, enquanto procedia dessa forma, tudo o mais desaparecia da sua consciência.

            Esperou pacientemente pelo momento de se retirar e de se entregar aos seus pensamentos. Quando chegou ao quarto sentiu-se ainda pouco segura e confusa. Não sabia o que havia de pensar. Que espécie de homem seria ele na realidade? Gostaria realmente dela? Sentia que não. Mas era gentil. Tinha qualquer coisa, uma espécie de gentileza terna e ingênua, estranha e intempestiva, que fizera quase com que as suas entranhas se abrissem para ele. Connie sentia que ele podia ser igualmente gentil com outras mulheres, mas, de qualquer modo, era estranhamente repousante, reconfortante. E era um homem impulsivo, saudável e apaixonado, talvez não totalmente pessoal, podia ter sido igual com todas as outras mulheres como fora com ela. Não foi realmente pessoal. Ela, para ele, teria representado uma simples fêmea; mas talvez fosse melhor assim. E, afinal, ela agradava à sua natureza de mulher, o que nenhum outro tinha conseguido. Os homens sempre foram terrivelmente gentis com a sua pessoa, mas cruéis com a sua natureza de mulher, que desprezavam ou ignoravam. Os homens sempre foram muito gentis com Constance Reid ou com Lady Chatterley, mas nunca com a mulher sexual que ela era. Este acariciava os seus rins e os seios.

            No dia seguinte dirigiu-se ao bosque. Era uma tarde cinzenta e calma. A mercurial (1), verde-escura, estendia-se por entre a mata de avelaneiras, e as árvores faziam um esforço silencioso por abrir os seus botões. Hoje sentia quase correr-lhe no corpo a seiva que alimentava as grandes árvores e atingia as pontas dos botões e acabava nas folhas de carvalho cor de fogo, cor de bronze como sangue. Era como uma maré túrgida que subia para o céu.

 

[1. Planta da família das euforbiáceas, também chamada urtiga-morta. (N. da T)]

 

            Chegou à clareira, mas ele não estava lá. No fundo, não esperava encontrá-lo. Os jovens faisões andavam de um lado para o outro, dentro das capoeiras, correndo ligeiros como insetos, onde as galinhas cacarejavam ansiosamente. Connie sentou-se e observou os animais esperando. Estava somente à espera, quase sem ver as aves. Esperava apenas. E ele não vinha. O tempo passava com uma lentidão de sonho. Não esperava encontrá-lo. Ele nunca aparecia à tarde. Tinha de ir para casa tomar chá, mas hesitava.

            Quando se dirigia para casa começou a cair uma chuvinha miúda.

            - Está de novo a chover? - perguntou Clifford, vendo-a sacudir o chapéu.

            - Apenas um chuvisco. Serviu o chá em silêncio, absorta numa espécie de obstinação. Queria ver o guarda, verificar se ele seria real. Se é que o era.

            - Posso ler um pouco para si depois? - perguntou Clifford.

            Ela fitou-o. Teria percebido alguma coisa?

            - A Primavera faz que eu me sinta um pouco estranha, julgo que será melhor descansar um pouco - respondeu ela.

            - Como quiser. Não se sente mesmo mal, pois não?

            - Não! Apenas cansada, por causa da Primavera. Quer que a senhora Bolton venha jogar consigo?

            - Não, provavelmente ficarei a ouvir rádio.

            Ela notou um tom de quase satisfação na voz dele. Subiu para o quarto. Lá ouviu o altofalante anunciar idiotamente, numa espécie de voz de falsete, uma série de pregões de rua, uma triste imitação. Pegou na velha gabardina cor de violeta, e saiu a toda a pressa por uma porta lateral.

            A chuva miúda era como um véu lançado sobre o mundo, tornando-o misterioso e tranqüilo, não fria. Sentia-se até muito quente enquanto atravessava o parque a toda a pressa. Teve de abrir o impermeável.

            O bosque estava silencioso, calmo e escondido, naquela chuva miúda do entardecer, pleno do mistério dos ovos e dos botões meio abertos, flores quase desabrochadas. Na obscuridade as árvores reluziam, parecendo nuas e escuras, como se elas próprias se tivessem despido, e as manchas verdes do solo eram ainda mais verdes.

            A clareira continuava deserta. Os pintos haviam-se recolhido sob as mães, só um ou dois mais atrevidos debicavam aqui e ali sob o abrigo de palha. Mas não pareciam muito seguros.

            Bem! Ele não aparecera ainda, afastava-se de propósito. Talvez tivesse acontecido alguma coisa! Hesitou se deveria ou não ir à casa de campo para o ver. Mas ela nascera para esperar. Abriu com a sua chave a porta da cabana. Estava tudo muito arrumado, como o milho posto na caixa respectiva, os cobertores dobrados na prateleira, a palha a um canto; um novo fardo de palha, a lanterna à prova de vento suspensa de um prego, a mesa e a cadeira de novo no lugar onde ela estivera deitada.

            Sentou-se num banco, à porta. Como tudo estava parado. A chuva miudinha caía como se fosse uma leve película, tocada pelo vento, mas sem o mais leve ruído. Nenhum barulho. As árvores pareciam seres poderosos, esbatidos, crepusculares, silenciosos e vivos. Tudo estava intensamente vivo!

            Caía a noite, e ela tinha de voltar para casa. Ele evitava-a. Quando repentinamente surgiu na clareira, caminhando com grandes passadas, envergando um casaco preto de oleado como um motorista. Olhou rapidamente na direção da cabana, esboçou uma saudação incompleta, virou-se e dirigiu-se para as capoeiras, curvando-se junto às portas, silenciosamente, fechou-as cuidadosamente para que as fêmeas e os pintos ficassem protegidos da noite. Ela continuava sentada no banco, até que finalmente ele se dirigiu para ela, parando debaixo do alpendre.

            - Sempre veio - disse ele, com uma entoação de dialeto.

            - Vim! - disse ela olhando para ele. - Chega tarde!

            - É verdade! - respondeu, virando o olhar na direção do bosque.

            Ela levantou-se e afastou o banco.

            - Quer entrar? - perguntou ela. Ele lançou-lhe um olhar incisivo.

            - As pessoas não começam a falar por vir aqui todas as noites? - perguntou.

            - Porquê? - respondeu ela, fitando-o, atrapalhada.

            - Disse que vinha.

            - Ninguém mais sabe.

            - Mas acabarão por saber. E depois?

            Ela não sabia o que havia de responder.

            - Mas porque é que hão de saber?

            - Porque sabem sempre - respondeu ele num tom fatalista.

            Os lábios de Connie tremeram ligeiramente ao responder:

            - Não posso evitar - balbuciou.

            - Pode. Não vindo, se quiser - acrescentou, baixando o tom da voz.

            - Mas não quero - murmurou.

            Ele olhou o bosque, silencioso.

            - Mas que poderá acontecer se descobrirem? Imagine. Imagine como ficaria rebaixada. Um criado de seu marido!

            Ela procurou-lhe os olhos, que ele desviou.

            - Mas... mas não me quer?

            - Pense um pouco. Pense que as pessoas descobriam, Sir Clifford e toda a gente a falar.

            - Bem, posso ir-me embora.

            - Para onde?

            - Para qualquer parte. Tenho o meu dinheiro. Herdei vinte mil libras da minha mãe e sei que Clifford não lhe pode tocar. Posso ir-me embora.

            - Mas se depois não lhe apetece ir?

            - Apetece. Não me interessa o que me possa acontecer.

            - Acha que não? Interessa-lhe, como a toda a gente. Não se pode esquecer que é Lady Chatterley e eu um couteiro. Se eu fosse um senhor, seria diferente. Tem de lhe interessar.

            - Garanto-lhe que não. Não me interessa o título de lady, na verdade até o odeio. Sinto que cada vez que as pessoas o proferem é como se estivessem a fazer troça. E estão mesmo. Você também.

            - Eu! Pela primeira vez ele olhou-a fixamente, nos olhos.

            - Não faço troça de si.

            Ela fitou-o. Os olhos dele pareceram enegrecer, as pupilas alargarem-se.

            - Não se preocupa com o risco? - perguntou ele numa voz rouca. - Vai-se importar, mas depois será já tarde.

            Havia na sua voz um aviso estranho e suplicante.

            - Mas não tenho nada a perder - respondeu ela, irritada. Se soubesse o que é, gostaria com certeza de o perder. Mas tem medo por si?

            - Tenho - disse ele, com brevidade. - Tenho medo, tenho medo das coisas.

            - Que coisas? - perguntou ela.

            Ele fez um gesto de cabeça, indicando o mundo exterior.

            - Coisas, pessoas, tudo. Subitamente inclinou-se e beijou o rosto infeliz de Connie.

            - Não, não me interessa. O que acontecer, logo se vê. Mas, se era para se vir a arrepender, nunca devia tê-lo feito.

            - Não me rejeite - suplicou ela.

            Ele fez-lhe uma carícia e voltou a beijá-la.

            - Vamos para dentro - murmurou. - E tire o impermeável.

            Pendurou a espingarda, tirou rapidamente o casaco de cabedal, encharcado, e foi buscar os cobertores.

            - Trouxe mais um cobertor para nos podermos cobrir, se quiser.

            - Não posso demorar-me, o jantar é às sete e meia.

            Ele olhou para ela, depois para o relógio.

            - Está bem. Fechou a porta e acendeu a lanterna.

            - Para a outra vez teremos mais tempo.

            Estendeu cuidadosamente os cobertores no chão e ajeitou o outro dobrado para servir de travesseiro a Connie. Depois sentou-se por instantes no banco, puxou-a para ele, com um dos braços manteve-a bem apertada ao peito, enquanto a outra não lhe acariciava todo o corpo. Ela ouviu a alteração da respiração dele quando ele lhe tocou: por baixo da delicada combinação estava nua.

            - Eh! Como é agradável tocar-te! - murmurou ele, enquanto os seus dedos acariciavam a delicada pele quente da parte mais secreta da cintura e quadris.

            Baixou-se e esfregou o rosto contra o ventre e as coxas dela. E ela pensou que espécie de enlevo representaria aquilo para ele. Não percebia a beleza que ele encontrava nela, quando tocava o seu corpo secreto e vivo, quase num êxtase de beleza. Só a paixão é capaz de a despertar. E quando a paixão já não existe, ou simplesmente não existe, a impressão magnífica que a beleza pode provocar é incompreensível e até um pouco desprezível. A beleza quente, viva, do contato é mais profunda que a beleza intelectual. Ela sentia o deslizar do seu rosto nas coxas, no ventre, nas nádegas e o roçar do bigode, o seu cabelo macio e espesso, e os joelhos dela começaram a tremer. Dentro de si sentia uma nova palpitação, uma nova nudez. Ficou quase com medo, quase preferia que não a acariciasse assim. Estava de certa maneira a prendê-la. Ela continuava no entanto à espera... à espera.

E quando a penetrou com uma intensidade de prazer e realização, num momento de pura paz, ela continuava à espera. Sentia-se um pouco posta de parte, e sabia que, em parte, a culpa era sua. Queria, daquele modo, manter a distância, e agora talvez estivesse condenada a isso. Não se mexia, sentia os movimentos dele dentro de si, a sua concentração profunda, e o súbito estremecimento quando brotou o sêmen, depois um impulso mais lento. Aquela arremetida das nádegas era um pouco ridícula. Uma mulher que pudesse observar tudo sem participar, acharia tremendamente ridículo. O homem ficava extremamente ridículo naquela posição e naquele ato.

            Mas ela continuava imóvel, sem recuar. Mesmo quando ele acabou, não lhe apeteceu conseguir o seu próprio prazer, como fazia com Michaelis; continuou quieta e as lágrimas começaram a inundar-lhe os olhos e a cair.

            Ele estava quieto também. Apertou-a mais e tentou tapar as pernas dela, delicadas e nuas, com as suas, para as manter quentes.

            - Tens frio? - perguntou ele, com uma voz suave, que mal se ouvia, como se ela estivesse muito perto, mas ela estava distante.

            - Não, mas tenho de ir-me embora - respondeu ela, docemente.

            Ele soltou um suspiro, abraçou-a com mais força, depois alargou o braço para descansar de novo. Não tinha dado conta que ela estivera a chorar. Pensava que estava com ele.

            - Tenho de ir - repetiu ela.

            Ele levantou-se, mas ficou de joelhos junto dela por instantes, e beijou-lhe a parte interior das coxas, e depois baixou-lhe as saias, levantando-se e começando a abotoar-se distraidamente, sem se virar, à luz fraca da lanterna.

            - Gostava que um dia pudesse ir à casa de campo - disse olhando-a com uma expressão quente, segura, tranqüila.

            Mas continuava deitada inerte, olhava-o e pensava: "Um estranho! Um estranho!". Melindrava-se um pouco com ele.

            Ele vestiu o casaco e procurou o chapéu, que caíra no chão, depois pôs a espingarda em bandoleira.

            - Vamos! - disse ele, fitando-a com os seus olhos ardentes e serenos.

            Ela levantou-se lentamente. Não se queria ir embora, mas também não queria ficar. Ele ajudou-a a vestir o impermeável e verificou se estava bem arranjada.

            Abriu a porta. Lá fora estava escuro. O cão fiel, que ficara sob o alpendre, levantou-se, contente de o ver. A chuva miúda espalhava-se na escuridão. Era noite cerrada.

            - Tem de levar a lanterna, não há ninguém - disse ele.

            Caminhava à frente dela pelo caminho estreito, levando a lanterna baixa, o que permitia ver a relva molhada, as raízes brilhantes e negras das árvores, que pareciam serpentes, e as flores pálidas. Todo o resto era uma nuvem de chuva e escuridão.

            - Gostava que um dia pudesse ir à casa de campo, não vai? -disse ele. - Perdido por um, perdido por mil.

           Confundia-a o estranho e persistente desejo dele, na medida em que não havia nada entre os dois, em que ele nunca realmente tinha falado com ela. E, embora, sem querer, embirrava com o dialeto. Aquele "a senhora tem de ir" parecia que não lhe era dirigido, mas sim a uma mulher vulgar. Ela reconheceu as folhas das dedaleiras no caminho, antiga pista para cavaleiros, sabia, mais ou menos, onde estavam.

            - São sete e um quarto, ainda chega a tempo.

            Tinha mudado o tom de voz, parecia ter percebido o afastamento de Connie. Na última curva do caminho perto do muro da mata de avelaneiras e do portão, ele apagou a luz.

            - Aqui já se vê - disse ele, agarrando-a delicadamente pelo braço.

            Mas era difícil, a terra debaixo dos pés era um enigma, ele tateava o caminho já estava habituado. Quando chegaram ao portão ele deu-lhe a lâmpada elétrica portátil.

            - No parque há mais claridade. Mas tenha cuidado para não sair do caminho.

            Era verdade, o parque estava banhado por uma luz cinzenta fantasmagórica. Ele meteu-lhe outra vez subitamente as mãos úmidas e frias por baixo do vestido, acariciando o seu corpo quente, ao mesmo que a puxava contra ele.

            - Era capaz de morrer pelo contato de uma mulher como tu. - disse com voz gutural. - Se pudesses ficar mais um minuto. Ela sentiu mais uma vez a força do desejo daquele homem.

            - Não, tenho de me apressar - disse ela, um pouco descontrolada.

            - Sim - respondeu ele, mudando de tom de voz, largando-a.

            Afastou-se, mas logo voltou para trás e disse-lhe:

            - Beija-me.

            Ele inclinou-se sobre ela, imperceptível, e beijou-a no olho esquerdo. Ela ofereceu-lhe o rosto e ele beijou-a suavemente na boca, mas afastou-se imediatamente. Detestava beijos na boca.

            - Voltarei amanhã, se puder - disse ela, começando a afastar-se.

            - Sim, mas não tão tarde - replicou a voz dele da escuridão.

            Ela já não o podia ver.

            - Boa noite - disse Connie.

            - Boa noite a vossa senhoria.

            Ela deteve-se, olhando para trás na noite escura e úmida. Só via a sombra dele.

            - Porque é que disse isso?

            - Por nada. Então boa noite, corra!

            Ela mergulhou na noite cinzenta-escura e tangível. Foi encontrar a porta lateral aberta e escapou-se para o quarto sem ser vista. Enquanto fechava a porta, o gongo soou, mas decidiu tomar banho fosse como fosse... tinha de tomar banho. "Nunca mais me atrasarei - disse para si mesma -, é muito desagradável."

            No dia seguinte não foi ao bosque, deslocou-se a Uthwaite com Clifford. Ele agora podia sair de carro de vez em quando, tinha arranjado um jovem, sadio, para motorista, que o podia ajudar a sair do carro se fosse preciso. O seu objetivo era visitar o padrinho, Leslie Winter, que vivia em Shipley Hail, perto de Uthwaite. Winter era um cavalheiro de certa idade, rico, um dos mais ricos proprietários de minas de carvão, que tivera o seu apogeu no tempo do rei Eduardo. O rei Eduardo tinha estado várias vezes em Shipley, na época da caça. Era uma bela e antiga casa senhorial trabalhada em estuque, elegantemente apetrechada, porque Winter era bacharel e tinha muito orgulho no seu estilo. Mas o solar estava rodeado pelas minas de carvão. Leslie tinha estima por Clifford, mas pessoalmente não o respeitava muito, por causa das fotografias nos jornais ilustrados e dos seus livros. Era um senhor da escola do rei Eduardo, que entendia que a vida era uma coisa, as literatices outra. O Squire era muito galanteador em relação a Connie, achava-a atraente, reservada, e mal empregada em Clifford. Lamentava que ela não pudesse dar um herdeiro a Wragby; ele próprio não tinha herdeiros.

            Connie perguntava a si mesma o que é que ele diria se soubesse que ela tinha relações com o couteiro de Clifford, e que ele lhe dizia em dialeto: "Gostava que a senhora pudesse ir um dia à casa de campo". Detestá-la-ia e desprezá-la-ia, porque odiava os esforços das classes trabalhadoras para singrarem na vida. Se fosse um homem da mesma classe de Connie, não se importaria, porque a natureza a tinha dotado de um aspecto de virgindade modesta e submissa, que talvez correspondesse à sua maneira de ser. Winter chamava-lhe "querida filha" e tinha-lhe oferecido uma linda miniatura do século XVIII representando uma mulher, apesar dos seus protestos.

            A ligação com o guarda preocupava Connie. Afinal, o próprio Winter, que era um cavalheiro e um homem do mundo, tratava-a como um ser humano individualizado. Não a misturava com as outras mulheres, com os "tua" e os "tis".

            No dia seguinte não foi ao bosque, nem nos dois dias que se seguiram. Não apareceu durante os dias em que se sentiu, ou pensou sentir, que o homem a esperava, a desejava. Mas ao quarto dia estava extremamente perturbada e ansiosa. Recusou-se a ir ao bosque e mais uma vez entregar-se a ele. Teceu uma dezena de planos. Iria de automóvel até Sheffield fazer visitas, mas tudo isso lhe pareceu desagradável. Finalmente, decidiu dar um passeio, não em direção ao bosque, mas na direção oposta. Iria até Marehay, passando o pequeno portão de ferro do outro lado da vedação do parque. Era um dia de Primavera cinzento e calmo, quase quente. Foi andando sem dar fé de nada que a rodeava, absorta, sem mesmo disso ter consciência. Na verdade nada vira e nem sequer dera fé do caminho percorrido, se não fora ter sido desperta do ensimesmamento pelo ladrar do cão da quinta de Marchay. A quinta de Marchay! As pastagens estendiam-se até à vedação do parque de Wragby, portanto eram vizinhos, mas havia já algum tempo desde a última visita de Connie.

            - Bell! - disse para o bull-terrier grande e branco. - Então Bell, já não te lembras de mim? Não me conheces?

            Tinha medo dos cães, mas Bell recuou, a rosnar. Ela queria atravessar o pátio da quinta até ao caminho para casa.

            A senhora Flint apareceu. Era uma mulher da idade de Constance, tinha sido professora Primária, mas achava-a um pouco falsa.

            - Oh, é a Lady Chatterley! Que surpresa! Os olhos da senhora Flint brilharam e corou como uma garota.

            - Bell! Bell! Então tu ladras a Lady Chatterley?! Bell! Caluda! Precipitou-se para o cão e bateu-lhe com um pano branco, que tinha na mão, depois avançou em direção a Connie.

            - Ela costumava conhecer-me - comentou Connie, apertando a mão da senhora Flint.

            Os Flint eram inquilinos dos Chatterley.

            - Mas claro que ela ainda conhece vossa senhoria! Estava unicamente a exibir-se - respondeu a senhora Flint, com os olhos brilhantes e uma expressão confusa. - Mas há muito tempo que ela não a vê. Espero que já esteja outra vez de boa saúde.

            - Sinto-me excelente, obrigada.

            - Mal a vimos durante o Inverno. Não quer fazer o favor de entrar para ver o bebê?

            - Bem! - Connie hesitou. - Então só por um minuto.

            A senhora Flint correu precipitadamente para dentro de casa para pôr tudo em ordem, e Connie seguiu-a lentamente, vacilante entrou na cozinha escura onde uma chaladeira com água fervia junto ao lume. A senhora Flint voltou a aparecer.

            - Peço-lhe que não repare. Por aqui, por favor.

            Entraram na sala de estar, onde o bebê estava sentado em cima de um tapete de retalhos colocado em frente da lareira e a mesa para o chá estava posta toscamente. Uma criada muito nova, tímida e desastrada, desapareceu pelo corredor, recuando.

            O bebê era vivo, com cerca de um ano, com cabelo ruivo, como o pai, e atrevidos olhos azuis-claros. Era uma rapariga e não parecia ser desencorajada. Estava sentada entre almofadas e rodeada de bonecas de trapos e muitos brinquedos, como é habitual.

            - Que amorosa! E como está crescida! Uma mulherzinha, uma mulherzinha!

            Quando a criança nascera, ela tinha-lhe oferecido um xale e pratos de celulóide pelo Natal.

            - Olha, Josephine, sabes quem veio visitar-te? Quem é, Josephine? É Lady Chatterley! Conheces Lady Chatterley, não conheces?

            A criancinha, viva, fitou Connie insolentemente. Os títulos nada significavam para ela.

            - Vem cá, anda! - disse-lhe Connie.

            A criança não ligou; portanto, levantou-a e pô-la no regaço. Era quente e doce ter uma criança ao colo! Uns bracinhos frágeis, umas perninhas inconscientes e impertinentes.

            - Ia tomar uma chávena de chá sozinha. Luke foi ao mercado, por isso posso tomar o chá quando quiser. Não quererá uma chávena de chá, Lady Chatterley? Não é aquilo que está habituada, mas enfim...

            Connie aceitou, embora não lhe tivesse agradado a referência aos seus hábitos. A mesa foi posta de novo com as melhores chávenas e o melhor bule.

            - Só se não for muito incômodo - disse Connie.

            Mas se a senhora Flint não se incomodasse, onde é que estava a graça! Assim, Connie brincou com a criança e divertiu-a a intrepidez feminina. Sentia quase um profundo prazer sensual devido ao calor suave da garota. Uma vida tão jovem! Tão corajosa! Tão corajosa por ser tão indefesa. Todas as outras pessoas são tão limitadas pelo medo!

            Tomou uma chávena de chá bem forte, muito bom pão com manteiga e ameixas em conserva. A senhora Flint corava e exaltava de excitação, como se Connie fosse um cavaleiro galante. E tiveram uma conversa de mulheres, que agradou a ambas.

            - É um chazinho pobre - disse a senhora Flint.

            - Gostei muito mais do que em casa - responde Connie, sem mentir.

            - Oh, oh! - exclamou a senhora Flint, sem acreditar, evidentemente.

            Mas finalmente Connie levantou-se.

            - Tenho de ir, o meu marido não faz a menor idéia do lugar onde estou e não sei o que ele já terá pensado a esta hora.

            - Nunca pensará que está aqui - respondeu a senhora Flint, rindo, excitada. - Daqui a pouco manda um pregoeiro.

            - Adeus, Josephine - disse Connie, beijando o bebê, emaranhando-lhe os cabelos ruivos e finos.

            A senhora Flint insistiu em abrir a porta da frente, que estava fechada à chave e trancada. Connie entrou no pequeno jardim da quinta, cercado por uma vedação de ligustros. Dos dois lados do caminho havia orelhas-de-urso, aveludadas e profusas.

            - Que lindas orelhas-de-urso! - exclamou Connie.

            - Estouvadas, como diz Luke. Leve algumas. - A senhora Flint riu. E, avidamente, colheu uma braçada das aveludadas e amarelas flores.

            - Chega! Chega! - dizia Connie.

            Chegaram ao portão do pequeno jardim.

            - Por que lado vai? - perguntou a senhora Flint.

            - Pelos campos de pastagem.

            - Deixe ver! Sim, as vacas estão fechadas, mas ainda não se levantaram. Mas o portão está fechado, tem de trepar.

            - Posso trepar.

            - Talvez seja melhor ir consigo até ao cercado.

            E seguiram pelos pastos devastados pelos coelhos. No bosque os pássaros cantavam, num tom de triunfo crepuscular. Um homem andava a juntar as últimas vacas, que se arrastavam pelo caminho do prado já cansado.

            - Estão atrasadas, têm de ser ordenhadas hoje - disse a senhora Flint severamente. - Mas os homens sabem que Luke não regressa antes da noite.

            Chegaram à vedação, atrás da qual se eriçava a jovem e densa mata de abetos. Havia um portão pequeno, mas estava fechado. Do lado de dentro, na relva, estava uma garrafa vazia.

            - É a garrafa de leite, vazia, do guarda - explicou a senhora Flint. - Nós trazemo-la até aqui e ele vem buscá-la.

            - A que horas?

            - Oh, a qualquer hora que ele ande por aqui. Geralmente de manhã. Então, adeus, Lady Chatterley! E venha mais vezes. Foi tão agradável a sua visita!

            Connie passou, trepando-a, a vedação e prosseguiu pela estreita trilha entre os abetos espessos e eriçados. A senhora Flint corria pelo prado com o seu chapéu, porque era, realmente, uma professora primária. Connie não simpatizava muito com aquela parte da floresta por ser densa, achava-a sinistra e sufocante. Avançava com a cabeça baixa, absorta a pensar no bebê da senhora Flint. Que delicioso bocadinho de carne. Imaginou se as pernitas do bebê viriam a ficar um pouco arqueadas como as do pai. Já tinham essa forma, mas talvez com o crescimento isso desaparecesse. Como era bom e repousante ter um filho! E a senhora Flint tinha-o revelado bem! Ela possuía qualquer coisa que faltava a Connie, e que aparentemente não podia ter. Sim, a senhora Flint tinha exibido a sua maternidade. E Connie tinha sentido um pouco de ciúmes, não podia evitá-lo. Subitamente, acordou dos seus pensamentos e deu um grito de medo. Estava ali um homem.

            Era o guarda, no meio do caminho, como um burro de Balaam, a barrar-lhe a passagem.

            - Olha, que é isso? - perguntou ele, surpreso.

            - De onde é que você surgiu? - perguntou ela ainda sem fôlego.

            - E tu de onde vens? Foste à cabana?

            - Não! Não! Fui a Marehay.

            Ele olhou para ela, curiosa e penetrantemente, e ela baixou a cabeça, sentindo-se um pouco culpada.

            - E agora ias à cabana? - perguntou ele, num tom severo.

            - Não, não posso, fiquei em Marehay, ninguém sabe onde estou. Estou atrasada. Tenho de me apressar.

            - Estás-me a evitar? - disse ele, com um sorriso vagamente irônico.

            - Não! Não. Não é isso. É que...

            - Então o que é?

            Ele caminhou para ela e abraçou-a. Ela sentiu o corpo dele muito próximo e vivo.

            - Oh, não, agora não! - exclamou ela, tentando afastá-lo,

            - Porque não? São só seis horas. Tens meia hora. Não! Não! Eu quero-te.

            Ele apertou-a e ela sentiu a urgência dele. O primeiro instinto de Connie foi lutar pela sua liberdade, mas havia qualquer coisa estranha dentro de si, inerte e pesada. O corpo dele reclamava-a e ela não tinha coragem para lutar.

            Ele olhou em volta.

            - Vem... vem por aqui! - disse ele, olhando atentamente os abetos espessos, que eram ainda jovens e rasteiros.

            Voltou-se e fitou-a. Ela reparou nos seus olhos ansiosos e muito brilhantes, não ternos. Mas já não tinha vontade própria e sentia um estranho peso nos membros. Começava a ceder, a abandonar-se.

            Ele conduziu-a através do denso arvoredo de acúleos, difícil de se transpor, até um lugar aberto e um monte de ramos mortos. Juntou um ou dois, cobriu-os com o casaco e o colete, e obrigou-a a deitar-se ali, sob os ramos de uma árvore, como um animal, enquanto ele esperava, em camisa e calças, fitando-a com uma expressão sinistra. Previdente, como sempre, tinha-a feito deitar corretamente. E foi ele que lhe tirou a roupa interior, porque ela não o ajudou, nem se mexeu.

            Descobriu também a parte da frente do corpo dele e ela sentiu a sua pele nua contra a dela quando a penetrou. Por momentos, o pênis ficou quieto dentro dela, túrgido e palpitante. Depois começou a mover-se, num orgasmo imediato e inevitável, em torrentes agitadas, incontroláveis, como chamas suaves, tão suaves como penas, que atingiam pontos brilhantes, finos, fundentes, que a enfraqueciam por dentro. Era como o som de um sino, subindo de onda em onda até ao ponto culminante. Ela emitia pequenos gritos inconscientes, gritos quase inarticulados.

            Mas aquela comunhão terminou logo a seguir, muito rapidamente, e ela já não conseguia continuar sozinha. Tinha sido diferente, desta vez, diferente, e ela já não pôde fazer mais nada. Já não podia tornar-se insensível e obter sozinha o seu prazer. Só pôde esperar, esperar e sofrer em pensamento, enquanto o sentia retirar-se, afastar-se, contrair-se, quase a chegar ao terrível momento em que a abandonaria e se afastaria dela. Enquanto as suas entranhas continuavam docemente abertas, chamando-o suavemente, como uma anêmona marinha sob a corrente, chamando-o para ele voltar a satisfazê-la. Connie continuou a apertá-lo contra si, numa paixão inconsciente, e ele não a abandonou; sentiu-o de novo a movimentar-se, em cadências estranhas, num estranho movimento rítmico cada vez mais intenso, até que preencheu todo o seu campo de consciência, e então recomeçou aquele movimento inefável, que não era verdadeiramente um movimento, mas turbilhões puros e profundos de sensações rodopiando cada vez mais fundo, invadindo toda a carne e a consciência, e tudo dentro dela se transformou em fluido concêntrico e perfeito de sensações. Continuava estendida, soltando gritos inconscientes e inarticulados. Era a voz que rasgava os confins da noite, a vida! O homem, quase com terror, sentia-a debaixo dele, enquanto a sua vida brotava e a penetrava. E ao mesmo tempo que a voz ia desaparecendo, ele também acabou por sossegar, por ficar calmo, inconsciente. Lentamente ela deixou de o agarrar com força e ficou inerte. E assim continuaram, inconscientes de tudo, até um do outro, ambos absortos. Finalmente, sentiu os sentidos acordarem e ele percebeu a sua nudez indefesa, e ela sentiu que o corpo dele ia afrouxando sobre o seu. Ele ia-se afastar, mas no íntimo não podia suportar que a deixasse desprotegida. A partir desse dia tinha de protegê-la para sempre.

            Finalmente, separou-se, beijou-a, cobriu-a e começou a cobrir-se também. Ela permanecia estendida, olhando para os ramos da árvore, incapaz de se mover. Ele abotoava as calças, olhando em volta. Tudo estava silencioso e denso, se não fosse o cão assustado, que tinha o focinho entre as patas. Ele sentou-se no silvado e pegou na mão de Connie em silêncio.

            Ela virou-se e fitou-o.

            - Desta vez expulsámo-nos juntos - disse ele.

            Ela não respondeu.

            - É muito bom quando isso acontece. A maior parte das pessoas vive uma vida inteira sem saber o que isso é - comentou ele, num tom um pouco sonhador.

            Ela olhou o seu rosto pensativo.

            - É verdade? - perguntou. - Está feliz?

            Ele fixou-a nos olhos.

            - Feliz, sim. Mas não digas mais nada.

            Não queria que ela falasse. Inclinou-se e beijou-a, e ela sentiu que ele teria de a beijar assim, para sempre.

            Finalmente, ela sentou-se.

            - As pessoas não se expulsam freqüentemente ao mesmo tempo? - perguntou ela, com uma curiosidade ingênua.

            - Muitas jamais o conseguiram. Pode-se ver no seu ar bisonho.

            Ele respondia, contrariado, arrependido por ter começado a conversar.

            - Aconteceu-lhe muitas vezes com outras mulheres?

            Ele olhou-a, divertido.

            - Não sei, não sei.

            Ela compreendeu que ele nunca lhe diria nada que não quisesse. Inspecionou-lhe o rosto e sentiu dentro de si um impulso de paixão a que tinha resistido enquanto podia, porque sabia que era o seu fim.

            Ele vestiu o colete e o casaco e começou a abrir caminho entre as árvores.

            Os últimos raios de sol penetravam no bosque.

            - É melhor eu não a acompanhar.

            Ela olhou-o, melancólica, antes de se virar. O cão esperava-o, impaciente, e ele parecia não ter mais nada a dizer. Não havia mais nada a dizer.

            Connie seguiu para casa lentamente e tomava consciência da profundidade dessa outra coisa dentro de si. Havia nela um outro eu vivo, ardente, que se fundia nas suas entranhas, e esse eu tinha uma paixão por aquele homem. Ela adorava-o e, à medida que caminhava, sentia os joelhos a fraquejarem. Por dentro, nas entranhas estava leve, viva, vulnerável e indefesa na adoração que tinha por ele, como a mais ingênua das mulheres. "É como se tivesse um filho, como se tivesse um filho dentro de mim", disse, para si própria. Era verdade; era como se o seu útero tivesse estado sempre fechado e agora se abrisse e se enchesse com uma nova vida, que era quase um fardo, no entanto adorável.

            "Se eu tivesse um filho - pensava -, se o tivesse dentro de mim sob a forma de um filho." E voltou a sentir os membros fraquejar, e percebeu a enorme diferença entre ter um filho só seu e ter um filho de um homem que se deseja ardentemente. O primeiro caso pareceu-lhe, de certo modo, vulgar; mas a idéia de um filho de um homem que adorava e desejava fê-la sentir-se diferente de tudo o que tinha sido até aí, como se ela tivesse mergulhado profundamente, mesmo no centro da situação de ser mulher e do sono da criação.

            Não era a paixão que a surpreendia, mas aquela adoração ávida, que sempre receara, porque sabia que a deixaria indefesa. E continuava a ter medo, para que não o adorasse demasiado, e depois perder-se, apagar-se. E ela não queria apagar-se, tornar-se uma escrava, como uma mulher selvagem. Era preciso não se tornar uma escrava. Tinha medo da sua própria adoração, mas, no entanto, não iria agora lutar contra ela. Sabia que a podia combater. Com a sua obstinação demoníaca podia guerrear aquela adoração avassaladora, esmagá-la. Ainda podia destruí-la, assim o supunha, poderia então apoderar-se da paixão com a sua própria força de vontade.

            Ah, sim! Ser apaixonada como uma bacante, como um ébrio a correr através dos bosques em busca de Iacchus (1), o falo resplandecente, que não tinha nenhuma personalidade independente, mas era um mero servidor divino da mulher. O homem, o indivíduo, não se deve intrometer. Era um acólito do templo, o portador e guardião do falo brilhante, ela mesma.

 

[1- Iacchus-Título solene concedido a Baco nos mistérios eleusinos. (N. da T)]

 

            Assim no fluxo do novo despertar, a paixão antiga, violenta, irrompeu por momentos nela, e o homem ficou reduzido a um objeto desprezível, um simples portador do falo, que podia ser despedaçado depois de cumprir o seu dever. Ela sentia nos membros e no corpo a força da bacante, a mulher cintilante e veloz que destrói o macho. Mas, no meio de tudo, sentiu-se triste. Não era isso que queria, não tinha mistério, era árido, estéril. O único tesouro que possuía era aquela adoração tão insondável, suave, profunda e desconhecida. Não, não renunciaria à sua força feminina e resplandecente, que a fatigava e a endurecia. Mergulharia no novo banho da vida, nas profundezas das suas entranhas, que entoavam a canção áfona da adoração. Era ainda cedo para começar a recear o homem.

 

            - Fui até a Marehay e estive a tomar chá com a senhora Flint - disse a Clifford. - Queria ver o bebê. É um encanto, tem um cabelo como teia de aranhas vermelhas. Tão querido! O senhor Flint tinha ido ao mercado, e tomamos chá as três. Imaginou onde é que eu estava?

            - Bem, não podia imaginar, mas supus que tinha ficado em qualquer lado a tomar chá - respondeu Clifford, com ciúmes.

            Com uma espécie de segundo sentido pressentiu qualquer coisa de novo na mulher, que não percebia, mas que atribuiu ao bebê. Achava que o que afligia Connie era o fato de não ter um filho, pelo menos poder gerá-lo automaticamente, por assim dizer.

            - Vi-a sair do parque pelo portão de ferro, minha senhora, por isso mesmo julguei que talvez fosse fazer uma visita à reitoria - disse a senhora Bolton.

            - De fato pensei em ir à reitoria, mas depois resolvi ir até Marehay.

            Os olhos das duas mulheres encontraram-se: os da senhora Bolton, cinzentos, brilhantes e perscrutadores; os de Connie, azuis, velados e estranhamente belos. A senhora Bolton tinha quase certeza de que ela tinha um amante, mas quem? Quem? Onde poderia estar esse homem?

            - Oh, faz-lhe muito bem sair e estar com pessoas - disse a senhora Bolton. - Acabara de dizer a Sir Clifford que seria bom para vossa senhoria sair mais vezes.

            - Sim, na verdade sinto-me contente por ter ido, a criança é engraçada, amorosa, Clifford. O cabelo dela é como teia de aranha e de uma cor alaranjada tão brilhante, os olhos são de um azul ímpar, intenso, como porcelana fina. É claro que é uma menina, ou não seria tão corajosa, mais corajosa que Sir Francis Drake.

            - Tem razão, minha senhora. Vê-se logo que é uma Flint. As pessoas da família sempre tiveram cabelo ruivo - disse a senhora Bolton.

            - Não gostava de a conhecer, Clifford? Convidei-as para o chá para a ver.

            - Quem? - perguntou ele, olhando para Connie, muito preocupado.

            - A senhora Flint e a filha, para a próxima segunda-feira.

            - Pode servir-lhes o chá no seu quarto.

            - Porquê? Então não quer ver o bebê? - exclamou ela.

            - Oh, claro que sim, mas não quero passar todo o tempo do chá com elas.

            - Oh! - exclamou Connie, fitando-o com os olhos velados. Na realidade não estava a vê-lo, ele era outra pessoa.

            - Pode tomar chá no seu quarto, agradável e confortavelmente, e talvez a senhora Flint se sinta mais à vontade do que na presença de Sir Clifford - disse a senhora Bolton.

            Estava convencida que Connie tinha um amante, e na sua alma qualquer coisa exultou. Mas quem seria? Talvez a senhora Flint lhe desse uma pista.

            Connie nessa noite não tomaria banho. A sensação da carne dele a tocar a sua, colada contra o seu corpo, era tudo quanto havia demais querido para ela e, de certo modo, sagrado.

            Clifford estava muito inquieto. Depois do jantar não quis que ela fosse embora, e ela queria tanto ficar só! Fitou-o, mas com uma submissão estranha.

            - Vamos jogar, ou prefere que eu leia, ou qualquer outra coisa? - perguntou ele, constrangido.

            - Prefiro que leia - respondeu Connie.

            - O quê? Verso ou prosa? Ou teatro?

            - Leia Racine.

            Antigamente uma das suas especialidades tinha sido ler Racine à maneira grandiloqüente e empolada dos franceses, mas agora estava destreinado e um pouco embaraçado; na verdade, preferia o altofalante. Mas Connie estava a costurar um pequeno vestido de criança de seda amarelo-pálida, que cortara de um dos seus vestidos, para a filha da senhora Flint, tinha-o feito, depois de chegar a casa e antes do jantar, sentada no seu enlevo suave e tranqüilo começou a armá-lo enquanto ele lia. Sentia dentro de si os ecos da paixão como os sons que ficam a pairar depois dos pesados sinos terem ressoado.

            Clifford fez-lhe certo comentário a respeito de Racine. Ela apanhou as palavras mesmo depois de elas se perderem.

            - Sim! Sim! - exclamou ela, olhando para ele. - É esplêndido.

            Ele observou a profunda chama que se via no fundo daqueles olhos azuis e de novo sentiu receio, e também pela sua postura, pela sua tranqüilidade suave. Ela nunca estivera tão doce e tranqüila. Não conseguia evitar o fascínio que ela exercia sobre ele, como um perfume que o intoxicasse. Recomeçou a sua leitura solitária e o som gutural do francês parecia-lhe o vento ao passar pelas bocas das chaminés. Mas de Racine, desse é que ela não ouvia sequer uma única sílaba. Estava absorta, virada para si mesma, era como uma floresta sussurrando à passagem do brando e terno zéfiro da Primavera, que começa a florescer. Sentia-se no mesmo mundo com o homem, esse homem sem nome, andando com belos pés, belo no seu mistério fálico. E dentro dela, nas velas, sentia-o e ao filho. Sentia o filho do homem no sangue que lhe corria nas veias, como um crepúsculo.

            "Porque ela não tinha mãos, nem olhos, nem pés, nem o tesouro dourado do cabelo ..."

            Ela sentia-se como uma floresta, como os ramos sombrios dos carvalhos entrelaçados, zumbindo inaudivelmente com as miríades de rebentos a brotarem. Entretanto, os pássaros do desejo tinham adormecido no vasto entrelaçamento intrincado do corpo dela.

            Mas a voz de Clifford prosseguia vibrante, gorgolejante em sons desabituais. Extraordinário! Como era extraordinário, inclinado sobre o livro, existia nele uma capacidade bizarra, civilizada, com ombros largos e sem penas. Que ser estranho, dotado da vontade tenaz e fria de uma ave, e completamente destituído de calor humano! Um desses seres do futuro, sem alma, com uma vontade extraordinariamente vigilante, uma vontade de gelo. Ela estremeceu, arrepiada, ele assustava-a. Mas a chama doce e quente da vida era mais forte do que ele, e a verdadeira realidade, ele ignorava-a.

            A leitura acabara. Ficou sobressaltada. Levantou o olhar e mais inquieta ficou ainda por ver Clifford a fitá-la com o brilho tênue, sinistro, quase de ódio.

            - Estou-lhe imensamente agradecida! Lê Racine de uma maneira tão bela - disse ela, com ternura.

            - De modo nenhum mais bela do que a sua maneira de escutar - respondeu ele, furiosamente. - Que é que está a fazer?

            - Um vestido para a filha da senhora Flint.

            Ele desviou a cara. Um filho! Um filho! Estava obcecada.

            - Afinal de contas - prosseguiu ele, num tom declamatório - apreendemos todas as emoções que quisermos em Racine. As emoções ordenadas e já com forma são mais importantes do que as desordenadas.

            Ela olhou-o velada, vagamente, abrindo muito os olhos.

            - Sim, estou certa de que isso é verdade! - exclamou ela.

            - O mundo moderno vulgarizou as emoções dando-lhes livre curso. O que nós precisamos é do controle clássico.

            - Sim - anuiu ela, com lentidão, visualizando-o a ouvir com uma cara inexpressiva as imbecilidades emocionais na rádio. - As pessoas fingem ter emoções, e na realidade não sentem nada. Creio que isso se chama ser romântico.

            - Exatamente! - exclamou ele.

            Ele sentia-se cansado, aquela noite tinha-o esgotado. Preferia ter ficado com os seus livros técnicos, ou com o gerente da mina, ou a ouvir rádio.

            A senhora Bolton entrou com dois copos de leite com malte. Ajudava Clifford a dormir e Connie a engordar. Era uma bebida que ela introduzira nos hábitos da casa.

            Connie, depois de beber o leite, sentiu-se encantada por se poder ir embora e de não ser mais necessário auxiliar Clifford a ir para a cama. Colocou o copo dele no tabuleiro, pegou nele para o deixar fora da sala.

            - Boa noite, Clifford! Durma bem! O Racine atua dentro de uma pessoa como se fosse um sonho. Boa noite!

            Encaminhara-se para a porta. Partia sem dar a Clifford o habitual beijo de despedida. Ele contemplou-a com uma expressão dura e fria. Nem sequer lhe dava um beijo, depois de ele ter passado a noite a ler para ela. Não compreendia esse tipo de insensibilidade nela. Mesmo que o beijo não passasse de mera formalidade, a vida depende dessas formalidades. Ela era uma bolchevista, no fundo! Fitava com uma cólera fria a porta fechada atrás dela. Cólera! E de novo se sentiu invadido pelo pavor da noite. Era um meandro de nervos em franja; quando não se retemperava com o trabalho, dando escape a todas as suas energias, ou não escutava a rádio, num vazio completo, a ansiedade perseguia-o, atormentado por uma sensação de vácuo perigoso e iminente. Tinha medo. E Connie, se quisesse, podia fazer com que ele não tivesse medo. Mas não queria, sem dúvida. Era insensível, fria e insensível a tudo o que ele fazia por ela. Tinha-lhe dado a sua vida e ela era indiferente. Só queria seguir a sua própria vontade. "A mulher só gosta de fazer o que quer." Agora andava obcecada com a idéia de um filho. E queria um filho só dela, não de ambos.

            Clifford, afinal, era tão saudável! Tinha um rosto bem parecido e corado, uns ombros largos e fortes, um peito amplo. Tinha engordado, e ao mesmo tempo tinha medo da morte. Um terrível vazio parecia ameaçá-lo em qualquer parte, e nesse vazio a sua energia perdia-se. Sem energia, por vezes, sentia-se morto, verdadeiramente morto. Por isso, os seus olhos mortiços e salientes tinham uma expressão estranha, furtiva, embora um pouco cruel, quase impudente também. Essa expressão de impudência era muito singular, como se triunfasse sobre a vida, apesar de ela o ter aniquilado. "Quem pode conhecer os mistérios da vontade, da vontade que triunfa até sobre os anjos!" As noites em que não podia conciliar o sono eram o maior terror de Clifford. Esses momentos eram na verdade horrorosos, quando a aniquilação o penetrava por todos os lados. Era sinistro existir sem vida, existir sem vida na noite.

            Mas presentemente dispunha do recurso de tocar a chamar a senhora Bolton, e ela vinha sempre. Isso era muito agradável. Ela acorria logo, em roupão, com o cabelo apanhado numa trança a cair-lhe pelas costas e o seu bizarro aspecto de menina, muito discreto, embora a trança castanha fosse raiada de cinzento. Preparava-lhe café ou chá de camomila e jogava xadrez ou piquet com ele. Possuía até uma rara faculdade de ser capaz de jogar xadrez, embora três terços do seu ser estivessem a dormir, suficientemente bem para que a vitória dele tivesse sentido. Assim, na intimidade da noite cheia de silêncio, ficavam os dois sentados, ou ela sentada e ele na cama, com o candeeiro de mesa derramando sobre eles a sua luz solitária, ela quase perdida de sono, ele quase perdido de medo, e jogavam, jogavam. Depois tomavam juntos uma chávena de café e comiam um biscoito, quase sem trocarem uma palavra, no silêncio da noite, reconfortando-se mutuamente.

            Mas naquela noite a senhora Bolton continuava a magicar quem seria o amante de Lady Chatterley. E pensava no seu Ted, morto há tantos anos, mas cuja morte ela nunca aceitara totalmente. E quando pensava nele, o seu rancor tão antigo contra o mundo despertava, sobretudo contra os patrões, que o tinham morto. Na verdade, não o tinham morto, mas, para ela, a um nível emocional, eram eles os assassinos. E, em conseqüência disso, no seu íntimo era uma niilista ou uma anarquista.

            No seu estado de semivigília, Ted e o amante desconhecido de Lady Chartterley eram duas idéias que se misturavam, e ela sentia-se a compartilhar com outra mulher um grande rancor por Sir Clifford e por tudo o que ele representava. Ao mesmo tempo, jogava piquet com ele, em apostas de seis xelins. Para ela era um enorme prazer jogar piquet com um baronete, mesmo quando perdia. Quando jogavam as cartas, faziam sempre apostas. Fazia-o esquecer-se de si próprio, e, geralmente, ganhava. Nessa noite, uma vez mais estava a ganhar, por isso não iria para a cama descansar antes do despontar do dia. Felizmente começou a amanhecer por volta das quatro e meia.

            Connie estava na cama e dormia profundamente. Mas, o guarda também não podia sossegar. Tinha fechado as capoeiras e feito a ronda ao bosque, depois dirigira-se à cabana e comera a refeição da noite. Mas não foi para a cama. Sentou-se junto à lareira a pensar. Recordou a sua adolescência em Tevershall e nos seus cinco ou seis anos de casado. Pensava na mulher sempre com um certo azedume. Ela tinha sido tão cruel, mas desde 1915 que não a via, e na Primavera desse ano tinha-se alistado no exército. E ela vivia agora a menos de três milhas, mais cruel do que nunca. Tinha esperança de nunca mais na vida a encontrar.

            Pensou na sua vida no estrangeiro, como soldado, na Índia, no Egito e de novo na Índia: aquela vida cega, despreocupada, entre os cavalos, no coronel que o adorava e que ele tinha adorado, nos vários anos da sua carreira de oficial, de tenente, com grandes possibilidades de chegar a capitão. Depois, a morte do coronel com uma pneumonia e a doença quase fatal que o fizera perder a saúde para sempre, na sua profunda inquietude, na sua saída do exército, no seu regresso a Inglaterra para voltar a ser um trabalhador.

            Tinha contemporizado com a vida, tinha pensado que estaria a salvo pelo menos durante uns tempos naquele bosque. Já não se faziam caçadas, tinha de tratar dos faisões. Não tinha de lidar com as armas. Ficaria só, afastado da vida, que era o que ele sempre desejara. Tinha de ter as suas raízes, e estas estavam implantadas na sua terra natal. Tinha ainda a mãe, embora não tivesse muito valor para ele. E podia continuar a viver o seu dia-a-dia, sem ligações e sem esperanças. Porque ele não sabia o que fazer da sua própria vida. Não sabia o que fazer da sua própria vida. Uma vez que tinha sido oficial durante alguns anos, convivido com oficiais e funcionários civis, com as mulheres e famílias, perdera toda a ambição de "prosperar". As classes média e superior, que ele tão bem tinha conhecido, eram constituídas por pessoas inflexíveis, de uma crueza de borracha, sem vida por dentro, e deixavam-no frio e afastado delas.

            Assim, fora obrigado a reintegrar-se no seu meio para encontrar nele o que já tinha esquecido com a sua ausência de vários anos, uma pequenez e uma vulgaridade de maneiras extremamente desagradáveis. Admitia, finalmente, a importância das maneiras, e também a importância de fingir que seis dinheiros ou as coisas insignificantes da vida são indiferentes. Mas entre pessoas do povo não havia fingimento. Um dinheiro a mais ou a menos numa fatia de presunto era pior do que uma alteração dos Evangelhos. E isso não o suportava ele.

            Depois o problema dos salários. Tendo vivido entre a classe dirigente, reconhecia a total futilidade de uma esperança de solução do problema dos salários. Não havia solução, muito simplesmente. O melhor era não ligar aos salários. Todavia, se se for pobre e desgraçado, tem mesmo de se interessar. De qualquer modo, é a única coisa com que o povo se preocupa. A atenção dada ao dinheiro era como um cancro que corroesse os indivíduos de todas as classes. Ele recusava-se preocupar-se com o dinheiro. E depois? Que mais proporciona a vida para além da preocupação com o dinheiro? Nada.

            No entanto, podia viver só, gozar essa solidão, criar faisões, para finalmente serem mortos por homens corpulentos a seguir a um pequeno-almoço. Tudo era fútil, até à última das potências.

            Mas porquê preocupar-se, incomodar-se?

            Até aquela mulher aparecer na sua vida, jamais se tinha preocupado com coisa alguma. Era quase dez anos mais velho do que ela, mas milhares de anos mais velho em experiência, desde as suas profundezas. A sua ligação começava a ser mais forte. Ele via aproximar-se o dia em que seria indestrutível e que teriam de viver juntos. "Porque os laços do amor estão doentes, prestes a quebrar-se." E depois? E depois? Deveria ele voltar ao princípio sem ter sequer um ponto de partida? Deveria prender aquela mulher? Deveria ter uma horrível disputa com o marido estropiado? E outra com a sua própria mulher, tão cruel, que o odiava? Tormentos! Só tormentos! E ele já não era jovem nem alegre! Nem pertencia ao grupo dos indiferentes. Tudo o que era feio e amargo magoava; e a mulher também.

            Mas ainda que se conseguissem libertar de Sir Clifford e da mulher dele, que poderiam fazer? Que é que ele poderia fazer? Sim, porque ele tinha de fazer qualquer coisa, não podia viver à custa dela, do dinheiro dela, nem da sua pequena pensão. Não tinha solução. Pensou em ir para a América, tentar novas terras. Não tinha uma excessiva confiança no dólar, mas talvez houvesse outra coisa qualquer.

Não conseguia descansar, nem ir para a cama. Depois de estar sentado numa letargia de pensamentos amargos até à meia-noite, levantou-se de repente e foi buscar o casaco e a espingarda.

            - Vamos, rapariga - disse para a cadela. - Estamos melhor no bosque.

            A noite estava estrelada, mas não havia luar. Começou a fazer a ronda, lenta, meticulosa, em passadas ligeiras, secreta e tranqüila. Tinha apenas de se precaver contra as armadilhas que os mineiros, sobretudo os de Stacks Cate, montavam aos coelhos do lado de Marehay. Mas estava-se na época de criação, e até os mineiros a respeitavam. Mesmo assim a ronda cautelosa em busca de caçadores furtivos acalmou-o e fê-lo abstrair-se dos seus pensamentos.

            Mas quando acabou aquela batida lenta, prudente - era uma caminhada de cerca de cinco milhas -, sentiu-se cansado. Subiu ao cimo do monte e mirou o mundo à sua volta. Mas nem um som, apenas o ruído tênue e arrastado da mina de carvão de Stacks Cate, que nunca parava. E mal se via uma luz, à exceção das filas brilhantes de lâmpadas nas fábricas. O mundo dormia, sombrio e fumegante. Eram duas e meia. Mas mesmo a dormir, era um mundo agitado, cruel, animado pelo barulho de um comboio, ou de um grande caminhão na estrada, e iluminado pelas chamas rosadas das fornalhas. Era um mundo de ferro e carvão, com a crueldade do ferro e o fumo do carvão, movimentado por uma avidez infinita. Apenas a avidez, a avidez a agitá-lo no seu sono.

           Estava frio e ele começou a tossir. Soprava uma aragem fria no cimo do monte. Pensou na mulher. Naquele momento daria tudo o que possuía ou que podia vir a possuir para a estreitar e aquecer nos seus braços, os dois envoltos num cobertor a dormirem. Daria toda a esperança na eternidade e tudo o que conquistara no passado para a ter ali com ele, envolvê-la com calor num cobertor e dormirem, dormirem simplesmente. Parecia-lhe que a única necessidade era dormir abraçado a ela.

            Dirigiu-se para a cabana, embrulhou-se no cobertor e deitou-se no chão para dormir. Mas não conseguia adormecer, tinha frio. E, além disso, sofria cruelmente com a sua natureza incompleta. Sentia dolorosamente a sua condição de homem solitário. Precisava dela, precisava do contato dela, de a apertar contra ele, com firmeza, num momento de plenitude e de paz. Levantou-se de novo e saiu, dirigindo-se desta vez aos portões do parque, depois encaminhou-se lentamente para o solar. Eram quase quatro horas, o dia ainda não tinha raiado, mas estava claro e frio. Habituara-se à escuridão, via perfeitamente o caminho.

            Lentamente, muito lentamente a mansão atraía-o como um ímã. Queria estar perto dela. Não era o desejo que o impelia, mas a sensação cruel de solidão, que lhe exigia a mulher silenciosa nos seus braços. Talvez a conseguisse ver. Ou talvez a chamasse para vir ter com ele, ou descobrisse o caminho até ao quarto dela. A sua necessidade era muito forte.

            Lentamente, silenciosamente, subiu a rampa. Depois contornou as grandes árvores no cimo do monte até ao caminho que fazia uma grande curva, contornando um losango de erva em frente da entrada. Já podia ver as duas enormes faias, que dominavam, imponentes, neste losango em frente da casa, destacando-se na escuridão.

            Lá estava a casa, atarracada, comprida e vaga, no rés-do-chão brilhava uma luz. Era no quarto de Sir Clifford. Mas em que quarto estaria ela, a mulher que segurava a outra ponta do frágil fio que o puxava implacavelmente? Não sabia.

            Deu mais uns passos, com a espingarda na mão, e ficou ali no caminho, imóvel, vigilante. Talvez assim a pudesse ver de qualquer modo, chegar até ela. A casa não era inexpugnável: ele era tão ágil como qualquer ladrão.

            Continuou imóvel, à espera, enquanto a aurora, fraca e imperceptível, despontava, por trás dele. Viu extinguir-se a luz da casa, mas conseguiu distinguir a senhora Bolton a aproximar-se da janela e a afastar as velhas cortinas de seda azul-escura e ficar de pé no quarto escuro a observar tudo na semiescuridão do dia prestes a nascer, a tão desejada aurora, à espera que Clifford tivesse realmente certeza de que a manhã rompera. Este só conseguia ir dormir quando tivesse certeza de que o dia despontara, então adormecia imediatamente. A senhora Bolton manteve-se à janela cega de sono, à espera. Assustou-se, quase soltou um grito, estava lá fora, no caminho, uma figura obscura no crepúsculo. A sonolência que a invadia dissipou-se, e ficou vigilante, mas sem fazer um único ruído para não perturbar Sir Clifford.

            A luz do dia começava a iluminar o mundo, a figura obscura parecia ficar menor e mais definida. Reconheceu a espingarda, as polainas e o casaco largo. Era sem dúvida Oliver Mellors, o couteiro. Sim, lá estava o cão a farejar como uma sombra, à espera dele.

            Que quereria ele? Viria chamar alguém? Porque é que ele estaria ali imóvel, petrificado, como um cão em cio, incapaz de se afastar do lugar onde está a cadela? Meu Deus! A verdade atravessou a senhora Bolton como uma bala. Era ele o amante de Lady Chatterley! Ele! Ele! Quem havia de pensar tal coisa? Mas ela, Ivy Bolton, também se tinha interessado um pouco por ele. Tinha ele dezesseis anos e

ela vinte e seis. Ela andava a estudar enfermagem, ajudara-a muito em anatomia e outras coisas que ela tinha de aprender. Era um rapaz inteligente, tinha uma bolsa de estudo para a Escola Secundária de Sheffield, aprendeu francês e outras coisas. Depois tinha sido mestre ferrador, porque, segundo dizia, gostava de cavalos; mas, na verdade, era porque tinha medo de enfrentar o mundo, embora nunca fosse capaz de o admitir.

            Era um rapaz encantador, tinha-a ajudado muito com as suas explicações. Era tão inteligente como Clifford e entendia-se sempre bem com as mulheres. Melhor do que com os homens, diziam as pessoas.

            Depois tinha partido e casado com Bertha Coutts, como se quisesse mortificar-se. Algumas pessoas casam-se por masoquismo, porque se sentem desiludidas. Não admirava que tivesse sido um fracasso. Afastara-se durante anos, durante a guerra. Ora! Chegara a tenente e foi um cavalheiro. Depois voltou a Tevershall e empregou-se como couteiro. Realmente, há pessoas que não sabem aproveitar as oportunidades! E voltara a falar dialeto de Derbyshire, o dialeto mais cerrado, quando ela, Ivy Bolton, sabia muito bem que ele falava como um cavalheiro.

            Bem, bem! Então Lady Chatterley cedeu aos encantos dele! Bem, não era a primeira mulher a quem isso acontecia. Ele tinha qualquer coisa de especial. Mas ainda assim! Um rapaz nascido e criado em Tevershall, amante de Lady Chatterley, de Wragby Hall! Céus! Era uma bofetada nos orgulhosos Chatterley!

            Mas ele, o guarda, com a chegada da manhã, percebia que não valia a pena, que não valia a pena querer livrar-se da sua solidão. Tinha de viver sozinho para sempre, e, de vez em quando, lá teria uma compensação. Mas só de vez em quando. Tem de se aceitar a solidão e viver com ela para toda a vida. E aceitar as vezes em que a lacuna fosse preenchida. E essas vezes viriam de vez em quando, não se podem forçar.

            Com um súbito estalido o desejo, que sangrava e que o tinha arrastado até ali, quebrou-se. Ele quebrou-o, porque tinha de ser assim. Cada um tinha de avançar, e, se ela não fosse até ele, não a perseguiria. Não devia. Tinha de ir embora e esperar que ela voltasse.

            Voltou para trás lentamente, pensativo, aceitando de novo o seu isolamento. Sabia que era melhor assim. Ela iria ter com ele, não valia a pena andar atrás dela. Não valia a pena!

            A senhora Bolton viu-o desaparecer, o cão corria atrás dele.

            - Bem, bem! Nele nunca tinha pensado, e era o único que me devia ter ocorrido. Em rapaz foi muito bom para mim, depois que perdi Ted. Bem, bem! Só gostava de saber o que ele diria se soubesse!

            Lançou um olhar triunfante sobre Clifford, que já estava a dormir, quando saía do quarto sem fazer barulho.

 

            Connie encontrava-se a proceder a uma escolha de objetos num dos quartos de arrumação de Wragby. Havia vários: a casa parecia um armazém, e a família nunca tinha vendido coisa nenhuma. O pai de Sir Geoffrey gostava de pintura e a mãe de mobiliário do século XVI, Sir Geoffrey de velhos cofres de carvalho esculpidos, cofres de sacristia. E assim as coisas foram-se acumulando através de gerações. Clifford colecionava pintura moderna de preço moderado. Assim, no quarto de arrumação encontrou um mau Landseer e ninhos patéticos de William Henry Hunt. E ainda outros quadros de pintura acadêmica, que chegavam para assustar a filha de um membro da Academia Real. Ela decidiu que um dia passaria a revista a tudo aquilo e faria uma limpeza geral. E o mobiliário grotesco despertou-lhe a atenção.

            Encontrou, cuidadosamente tapado para o proteger do caruncho, um velho berço de família, de pau-rosa. Teve de o desembrulhar para o ver. Tinha um certo encanto, ficou a olhá-lo muito tempo.

            - É uma pena não poder ser utilizado - murmurou a senhora Bolton, que estava a ajudar. - Embora esses berços já não se usem.

            - Pode vir a ser utilizado. Posso ter um filho - disse Connie, com indiferença, como se dissesse que podia ter um chapéu novo.

            - Quer dizer se nada acontecer a Sir Clifford! - balbuciou a senhora Bolton.

            - Não! Mesmo como as coisas estão. Trata-se simplesmente de paralisia muscular... não o afeta - respondeu Connie, a mentir com a mesma naturalidade com que respirava.

            Clifford tinha-lhe metido aquela idéia na cabeça. Costumava dizer:

            - Evidentemente que eu posso ter um filho. Na verdade, não estou mutilado. A potência pode facilmente voltar mesmo com os músculos dos quadris e das pernas paralisados. E então o sêmen pode ser transmitido.

            Nos seus períodos de energia e de excessivo trabalho nas minas ele sentia-se como se, na verdade, a potência lhe voltasse de novo.

            Connie fitava-o, aterrorizada. Mas era suficientemente esperta para se servir daquela sugestão para sua própria defesa. Porque teria um filho, se pudesse, mas não dele.

            A senhora Bolton ficou por instantes sem fôlego, espantada. No entanto, não acreditava, viu que era um estratagema dela, embora os médicos conseguissem milagres. Até podiam enxertar esperma.

            - Bem, espero que assim seja, espero realmente que se concretize. Seria extraordinário para si e para todos. Meu Deus, uma criança em Wragby! Como tudo seria diferente!

            - Não seria? - respondeu Connie.

            E escolheu três quadros acadêmicos de há sessenta anos para mandar à duquesa de Shortlands para o seu próximo bazar de caridade. Chamavam-lhe a "Duquesa dos Bazares", e ela pedia sempre a toda a gente do condado que lhe enviasse coisas para vender. Ficaria encantada com os três quadros emoldurados e assinados. Podia até fazer uma visita para agradecer. Como Clifford ficava furioso quando ela os visitava!

            "Mas, meu Deus - pensava a senhora Bolton -, ela prepara-se para nos dar um filho de Oliver Mellors? Meu Deus, nesse caso seria um bebê de Tevershall no berço de Wragby! E nem sequer seria uma desonra para o berço!"

            No meio de outras monstruosidades naquele quarto de arrumação estava uma caixa bastante grande, lacada de negro, excelente e ingenuamente trabalhada há sessenta ou setenta anos que continha tudo o que se pudesse imaginar. Em cima, um estojo de toilette completo: escovas, frascos, espelhos, pentes, caixas e até três bonitas lâminas metidas nas suas bainhas de proteção, uma taça de barba, tudo. Em baixo uma espécie de estojo de escritório: mata-borrões, penas, tinteiros, papel, sobrescritos, agendas, e depois: um estojo com tesouras de três tamanhos diferentes, dedais, agulhas, sedas e algodões, um ovo de passajar, tudo da melhor qualidade e inteiramente perfeito. Finalmente, um estojo de farmácia com frascos com rótulos, como: láudano, tintura de mirra, essência de cravo-da-Índia e muitos mais, mas estavam vazios. Estava tudo novo, e o estojo, fechado, era do tamanho de uma pequena mala. Por dentro, as peças estavam perfeitamente encaixadas e os frascos nem sequer podiam entornar, por falta de espaço. Os acabamentos era ótimos, um trabalho manual da época vitoriana. Era monstruoso. Um Chatterley qualquer teria certamente pensado o mesmo, porque nunca tinha sido usado. Era de uma vulgaridade estranha.

            No entanto, a senhora Bolton estava entusiasmada.

            - Veja que bonitas escovas, tão caras, até pincéis de barba, tão perfeitos! E as tesouras! São do melhor que há! É lindo!

            - Acha? Então fique com ele.

            - Oh, não, minha senhora!

            - Porque não? Quer que fique aqui até ao juízo final? Se não o quiser para si, mando-o à duquesa juntamente com os quadros, e ela não merece. Fique com ele!

            - Oh, minha senhora, não sei como lhe agradecer!

            - Não se esforce por isso - respondeu Connie, a rir. E a senhora Bolton foi-se embora com a enorme caixa negra, nas mãos, corada de excitação.

            O senhor Betts levou-a no carro de duas rodas, puxado por cavalos, à casa dela, na aldeia, com a caixa. Teve de convidar algumas amigas para mostrar o estojo: a professora, a mulher do farmacêutico, a senhora Weedon, e a mulher do tesoureiro. Acharam-no maravilhoso. Depois começaram a falar em voz baixa sobre o filho de Lady Chatterley.

            - Os milagres nunca acabam - disse a senhora Weedon.

            Mas a senhora Bolton estava convencida de que se nascesse uma criança seria de Sir Clifford. E assim... Pouco tempo depois o reitor disse docemente a Clifford:

            - Podemos realmente contar com um herdeiro em Wragby? Ah, isso seria uma grande obra de Deus!

            - Bem, acho que podemos ter esperança - disse Clifford, com uma vaga ironia e uma certa convicção ao mesmo tempo. Começava a acreditar que podia realmente ser possível que o filho fosse seu.

            Uma tarde apareceu Leslie Winter, o Squire Winter, como lhe chamavam: magro, impecável, com os seus sessenta anos, um cavalheiro em tudo, como a senhora Bolton dizia à senhora Betts. Um verdadeiro cavalheiro, apesar do seu tom de voz altissonante fora de moda, que o fazia parecer mais antigo do que um homem de cabeleira postiça. O tempo, na sua passagem, deixa cair estas lindas e velhas penas.

            Falaram sobre as minas de carvão. A idéia de Clifford era de que o carvão, mesmo o de qualidade inferior, podia ser transformado em combustível altamente concentrado, o qual, com umidade, ar acidulado e a uma grande pressão, podia arder a elevada temperatura. De há muito tinha notado que, quando soprava um determinado vento forte e úmido, saía do poço da mina uma chama muito brilhante, praticamente sem fumo, que deixava um pó de cinza muito fino, em vez de cascalho cor-de-rosa.

            - Mas onde vai encontrar as máquinas apropriadas para queimar o combustível? - perguntou Winter.

            - Posso fabricá-las e utilizarei o meu combustível. E depois vendo energia elétrica. Tenho certeza que consigo.

            - Se conseguir, meu rapaz, é ótimo, ótimo, ótimo! Se o puder ajudar em qualquer coisa, só me dará prazer. Receio estar um pouco antiquado, e as minas são como eu. Mas, quem sabe?, quando eu desaparecer poderão vir outros homens como você. Ótimo! Assim podia empregar todos os homens, não teria de vender o carvão, nem haveria o perigo de não o vender. É uma idéia magnífica e espero que tenha êxito. Se eu tivesse filhos, teriam sem dúvida idéias novas para Shipley: sem dúvida! A propósito, meu rapaz, tem algum fundamento o rumor de haver esperanças de um herdeiro em Wragby?

            - Mas dizem isso? - perguntou Clifford.

            - Bem, meu filho, o Marshall de Fillingwood perguntou-me, é tudo quanto sei. Evidentemente que não tornarei a falar no assunto se não tiver fundamento.

            - Bem, Sir - respondeu Clifford, embaraçado, com os olhos estranhamente brilhantes -, há uma esperança, uma esperança.

            Winter atravessou a sala e apertou a mão de Clifford.

            - Meu filho, meu filho, se soubesse o que isso significa para mim, ouvir uma coisa dessas! E saber que está a trabalhar para um filho, e que pode dar trabalho aos homens de Tevershall. Ah, meu filho! Manter o nível da raça e haver trabalho para todos os homens que queiram trabalhar!

            O velho estava realmente comovido. No dia seguinte Connie estava a pôr tulipas amarelas de pé alto numa jarra.

            - Connie - disse Clifford -, já sabe que dizem que vai haver um filho e um herdeiro em Wragby?

            Connie sentiu-se subitamente em pânico; no entanto, não fez o mais leve movimento e continuou a arranjar as flores.

            - Não! - respondeu. - É uma brincadeira? Ou maldade?

            Ele ficou uns momentos sem responder.

            - Nem uma coisa nem outra, espero. Espero que seja uma profecia.

            Connie continuou a pôr as flores.

            - Recebi esta manhã uma carta do meu pai. Pergunta-me se não me esqueci que aceitou, por convite de Sir Alexander Cooper, passar os meses de Julho e Agosto na Villa Esmeralda, em Veneza.

            - Julho e Agosto? - perguntou Clifford.

            - Oh, não ficarei os dois meses. Tem certeza de que não quer vir?

            - Não me apetece ir para o estrangeiro - respondeu Clifford imediatamente.

            Ela levou as flores para a janela.

            - Importa-se que eu vá? Sabe que já estava combinado para este Verão.

            - Quanto tempo fica?

            - Talvez três semanas.

            Ficaram em silêncio.

            - Bem - disse Clifford, numa voz lenta e um pouco triste. Acho que poderei passar três semanas sem a sua companhia, se me garantir que volta.

           - Tenho certeza de que volto - respondeu ela, com uma tranqüila simplicidade, plena de convicção, pois estava a pensar no outro homem.

            Clifford sentiu a convicção dela, e acreditou, acreditou que fosse por ele. Sentiu-se imensamente aliviado, subitamente feliz.

            - Nesse caso, penso que está bem, não é verdade?

            - Acho.

            - Agrada-lhe mudar de ambiente?

            Ela fitou-o com uma expressão estranha nos seus olhos azuis.

            - Vou gostar de voltar a Veneza e tomar banho numa daquelas ilhas cobertas de seixos do outro lado da laguna. Mas sabe que detesto o Lido, e não me parece que vá gostar de Sir Alexander Cooper e de Lady Cooper. Mas se a Hilda for e tivermos uma gôndola nossa, pode ser maravilhoso. Queria tanto que viesse também!

            Disse aquilo com sinceridade. Gostava de fazê-lo feliz nas pequenas coisas.

            - Ah, imagine, eu na Gare du Nord e no cais de Calais!

            - Mas porque não? Já vi muitos homens em cadeiras de rodas, outros mutilados de guerra. De resto, iríamos de carro.

            - Tínhamos de levar dois homens conosco.

            - Oh, não! O Field chegava. O outro homem seria sempre fácil de arranjar.

            Mas Clifford abanou a cabeça.

            - Este ano não, querida. Este ano não. Talvez no ano que vem eu tente.

            Ela foi-se embora, melancólica. No ano que vem! Como seria no ano seguinte? Ela, na realidade, não queria ir para Veneza. Não naquela altura, em que havia o outro homem. Mas ia por uma questão de disciplina. E também porque, se tivesse um filho, Clifford pensaria que ela tivera um amante em Veneza.

            Era Maio, e deviam partir em Junho. Sempre os compromissos! Sempre uma vida comprometida! Uma roda cujo movimento não se podia controlar.

            Era Maio, mas estava de novo um tempo frio e úmido. Um Maio frio e úmido, bom para o milho e para o feno. Como são importantes o milho e o feno! Connie teve de ir a Uthwaite, à pequena cidade onde os Chatterley eram ainda os Chatterley. Foi sozinha no carro, com Field ao volante.

            Apesar de ser Maio e os campos estarem verdes, a paisagem era triste. Estava frio, e à chuva acrescentava-se uma neblina e um ar saturado de vapor. Uma pessoa tem de viver da sua própria endurance. Não era de admirar que aquelas pessoas fossem feias e rudes.

            O carro atravessou o centro de Tevershall, naquela subida longa e sórdida, ladeada de casas de tijolo enegrecido com os telhados de ardósia cortantes e luzidios, a lama negra do carvão, os passeios úmidos e pretos. Era como se uma soturnidade tivesse penetrado completamente em todas as coisas. Era a negação da beleza natural, a negação total da alegria de viver, a ausência total do instinto da beleza perfeita, que cada ave e cada animal possui, a morte terrível de toda a faculdade humana de intuição. As barras de sabão nas mercearias, os ruibarbos e os limões nas lojas de fruta, os terríveis chapéus nas modistas, tudo feio, feio, feio; depois o cinema de argamassa dourada, onde se anunciavam filmes em cartazes encharcados, A Woman Love, e a nova e grande capela primitiva, realmente primitiva, em tijolo nu e janelas com vidraças verdes e cor de framboesa. A capela wesleyana, mais acima, de tijolos denegridos, um pouco recuado atrás de um gradeamento de ferro e de arbustos negros. A Capela da Congregação, altiva, tinha sido construída em pedra cor de areia, e tinha um campanário não muito alto. Logo atrás, os novos edifícios da escola, em tijolo rosa, mais caro, com um pátio rodeado por gradeamento de ferro, de aspecto imponente, um misto de capela e de prisão. Duas raparigas, na aula de canto, acabavam os exercícios de solfejo e entoavam uma cantiga infantil, que nada tinha de parecido com uma canção espontânea: era mais um uivo com laivos de melodia. Não era um canto selvagem, os selvagens têm ritmos sutis. Não era um uivo de animal, os animais quando uivam querem exprimir algo. Era diferente de tudo, e chamava-se àquilo cantar. Connie ficou a ouvir, desolada, enquanto Field metia gasolina. Qual seria o futuro daquela gente, que tinha perdido toda a faculdade de intuição, inerte como agulhas, e possuía unicamente o dom de estranhos uivos mecânicos e uma energia sinistra?

            Uma carroça de carvão descia a ladeira, a guinchar à chuva.

Field voltou a arrancar, passou as lojas de modas, enormes e soturnas, os correios, e chegou à praça onde se realizava a feira, onde Sam Black surgiu à porta do Sol, um café a que chamavam estalagem, e onde costumavam ficar os caixeiros-viajantes, cumprimentou Lady Chatterley. Mais embaixo, à esquerda, ficava a igreja entre árvores enegrecidas. Depois o carro principiou a descida, passando pela Associação dos Mineiros, depois de ter passado pelo Wellington, pelo Nelson, pelo Mechanics Hall e pelo novo e garrido Centro Social dos Mineiros. Depois vinham as vilas, de construção recente, na estrada sombria, entre sebes e campos de cor verde-escura, que conduzia a Stacks Gate.

            Tevershall! Aquilo era Tevershall! A agradável Inglaterra! A Inglaterra de Shakespeare! Não a velha Inglaterra de Shakespeare, mas a de hoje, era o que descobria Connie, desde que ali vivia. Estava a produzir uma nova raça da humanidade, hipersensível ao dinheiro e aos aspectos sociais e políticos, mas morta em relação a tudo o que é espontâneo e intuitivo. Uma raça de cadáveres dotados de uma consciência terrível e persistente. Tudo aquilo tinha qualquer coisa de sinistro, de obscuro. Era um mundo subterrâneo, imperscrutável. Como é possível captar as reações dos cadáveres? Connie quando viu as grandes camionetas cheias de operários da siderurgia de Sheffield, semelhantes a homens, uns seres estranhos, deformados e um tanto baixos, que iam numa excursão a Matlock, sentiu-se desmaiar, e pensou: "Meu Deus, o que o homem pode fazer ao homem! O que os seus chefes fizeram aos homens seus iguais! Reduziram-nos a qualquer coisa abaixo do humano, e não pode haver fraternidade entre eles. Que pesadelo!".

            Sentiu-se de novo invadida por uma onda assustadora da inutilidade cinzenta e fragmentada de todas as coisas. Aqueles seres constituíam a massa industrial, os outros que ela conhecia, as classes dirigentes, não havia nenhuma esperança... já não havia nenhuma esperança. E mesmo assim queria um filho, um herdeiro para Wragby! Teve um estremecimento de pavor.

            E Mellors vinha daquilo também. Tinha-se emancipado, como ela, mas dentro dele não havia fraternidade, tinha morrido. Sim, o sentido da fraternidade tinha morrido dentro dele, só existia isolamento e desespero, em relação a todas as coisas. E isto era a Inglaterra, a imensa magnitude da Inglaterra. E ela sabia-o, porque a tinha atravessado desde o centro.

            O carro subia em direção a Stacks Gate. A chuva estava a parar e na atmosfera pairava uma bizarra claridade transparente anunciadora de Maio. O terreno desaparecia em longas ondulações para sul, para os lados de Peak, e para leste, ao encontro de Mansfield e Nottingham. Connie dirigia-se para sul.

            À medida que ia avançando naqueles montes, à sua esquerda, via perfeitamente suspenso sobre o terreno ondulante o castelo de Warsop, uma massa poderosa, sombria e cinzenta. Lá embaixo avistavam-se os rebocos encarnados de novas moradias para os mineiros e ainda mais abaixo distinguiam-se penachos de fumo negro e penachos de vapor branco da grande mina de carvão que metera por ano centenas de milhares de libras nos bolsos do duque e dos outros acionistas. Lá estava, ao longe, na linha onde o horizonte confundia a terra com o céu, a massa poderosa do velho castelo em ruínas, acima das colunas de fumo negro e dos penachos de fumo branco de vapor, que ondulavam no ar úmido.

            A seguir, a estrada fazia uma curva, e começaram a subir para Stacks Gate. Stacks Gate vista da estrada não passava de um hotel novo, gigantesco e magnificente, o Coningsly Arms, permanecendo vermelho, branco e dourado, num isolamento bárbaro afastado da estrada. Mas olhando-se para a esquerda, podiam ver-se filas de bonitas e modernas "moradias" dispostas como pedras de dominó, separadas por jardins, um jogo de dominó bizarro a ser jogado pelos "patrões" misteriosos sobre a terra surpreendida. E para além destes blocos de moradias, nas traseiras, erguiam-se as espantosas e assustadoras construções de uma mina verdadeiramente moderna, fábricas de transformação química e compridas galerias, enormes, de formas nunca conhecidas pelos homens. A entrada e o poço da própria mina pareciam insignificantes no meio daquelas gigantescas e novas instalações. Em frente, as pedras de dominó pareciam esperar, numa atitude de surpresa, que alguém as jogasse.

            Assim era Stacks Gate, nova na face da terra, desde a guerra. Connie não conhecia isto, mas na verdade, meia milha abaixo do hotel ficava a velha Stacks Gate, com uma pequena e velha mina, casas de tijolo enegrecido pelo tempo, uma ou duas capelas, umas lojas e uma ou duas tavernas. Mas isso não interessava. Do novo complexo mineiro podiam divisar-se os penachos de fumo a vapor, era a atual Stacks Gate: nem capelas, nem tavernas, nem lojas. Apenas as grandes fábricas, que constituem a moderna Olímpia, com templos a todos os deuses, as casas-modelo e o hotel. O hotel não representava mais que uma taverna para os mineiros, embora parecesse de primeira classe. Fora já no tempo da vinda de Connie para Wragby que aquela aldeia e aquelas moradias tinham surgido, e as pessoas, vindas não se sabe de onde, haviam afluído a ocupá-las, e que, entre outras ocupações, tinham a de roubar coelhos nas terras de Clifford.

            O carro prosseguia a sua marcha pelas terras altas, com Connie a ver espraiada a região acidentada. A região! Outrora tinha sido uma região majestosa e orgulhosa. Em frente, indefinida na linha do horizonte, estava a gigantesca e esplêndida massa de Chadwick Hall, com mais janelas do que paredes, um dos mais famosos solares isabelinos. Ali estava ele, cheio de nobreza, altaneiro acima do seu grandioso parque, mas ultrapassado, abandonado. Ainda se mantinha, mas apenas como casa-museu. "Eis como os nossos antepassados o dominaram!"

            Aquilo era o passado. O presente estava ali embaixo. Só Deus sabe onde fica o futuro! O automóvel ia já a dar a curva, por entre as moradias dos mineiros, enfarruscadas e velhas, a fim de descer para Uthwaite. E Uthwaite, naquele dia úmido, estava a enviar para o alto penachos de fumo e de vapor como uma oferenda a deuses desconhecidos. Uthwaite, lá embaixo no vale, com os carris da via férrea, que seguia para Sheffield, as hulheiras e a siderurgia enviando para o céu fumo e um brilho intenso por longos tubos, e a patética e pequena flecha em forma de saca-rolhas da igreja, a cair aos pedaços, que continuava a furar a fumaça, comoviam sempre Connie profundamente. Era uma antiga vila de mercadores, centro dos vales. Uma das principais estalagens chamava-se Chatterley Arins. Em Uthwaite, Wragby era conhecido como Wragby, como um lugar definido, e não, como para os intrusos, meramente Wragby, perto de Tevershall.

            As casas dos mineiros, escuras, alinhavam-se pelo caminho, aquela pequenez e intimidade de uma centena de anos atrás. A estrada tinha-se transformado numa rua, e à medida que se ia descendo, esquecia-se instantaneamente o campo aberto e ondulado, onde castelos e casas senhoriais dominavam, mas como fantasmas. Agora estava-se mesmo por cima de um emaranhado de carris nus de estrada de ferro, e das fundições e outras fábricas que se erguiam tão alto, tão gigantescas, que uma pessoa só tinha consciência de que eram muros. Ouvia-se o ruído profundo e ressonante do ferro a ser trabalhado, o dos caminhões que abalavam a terra e de apitos estridentes. Mas, todavia, logo que uma pessoa se enfronhava por aquelas ruas e ruelas, passando atrás da igreja, encontrava-se num mundo de há duzentos anos. Aquelas ruas tortuosas onde ficavam a Chatterley Arins e a antiga farmácia, que outrora se abriam para o mundo vasto e selvagem dos castelos e casas senhoriais, que ja não se mantinham atentos e de cabeça levantada.

            Mas na esquina, um policial levantou a mão enquanto passavam três gigantescos caminhões carregados de ferro, abalando o velho templo. E só quando eles haviam já passado, é que o agente da lei pôde cumprimentar sua senhoria. Eis como as coisas estavam. Através das velhas e tortuosas ruas do burgo alinhavam-se as antigas moradias enegrecidas, que albergavam multidões de mineiros. Logo a seguir essas moradias davam lugar aos novos blocos, casas mais cor-de-rosa, mais amplas, cobrindo o vale. Aí habitava a nova camada operária. Mais adiante, nas vastas regiões acidentadas dos castelos, o fumo misturava-se com o vapor e manchas vermelhas do tijolo assinalavam os novos complexos mineiros, por vezes metidos em barrancos, e outros, sombriamente horríveis, alcandorados pelas vertentes dos montes até à linha do horizonte. E entre os espaços não ocupados, bocados da velha Inglaterra, a Inglaterra de Robin Hood, por onde os mineiros vagueavam com a melancolia de homens com os instintos desportivos reprimidos, quando não trabalhavam.

            Inglaterra, minha Inglaterra! Mas qual é a minha Inglaterra? Os grandiosos lares da Inglaterra davam excelentes fotografias e criavam a ilusão de uma ligação com os tempos isabelinos. Os belos solares antigos ainda se mantinham eretos, desde o tempo da rainha Ana e de Tom Jones, mas o fundo enegreceu os estuques castanho-claros, outrora dourados, eram apenas manchas. Abandonados um a um. Alguns estavam a ser demolidos. E as casas de campo de Inglaterra lá estão, grandes habitações revestidas de tijolo nos campos condenados.

            Os solares estavam a ser demolidos, e as mansões jorgianas desapareciam. Fritchley, uma bela mansão jorgiana, estava a ser deitada abaixo, embora estivesse em perfeitas condições de ser reparada, quando Connie passou no carro. Até à guerra os Weatherley tinham lá vivido opulentamente. Era demasiado grande, a conservação elevada, e a região tinha-se tornado muito hostil. A nobreza estava a partir para lugares mais aprazíveis, onde podiam gastar o seu dinheiro sem terem de ver como ele era obtido.

            É assim a história. Uma Inglaterra obscurecia apagava a outra. Com o dinheiro realizado nas minas tinham-se feito aquelas casas, que destruíam as antigas, e estas, por sua vez, eram agora destruídas. A Inglaterra industrial apaga a Inglaterra agrícola. Um sentido apaga o outro. A nova Inglaterra apaga a velha Inglaterra numa continuidade não orgânica mas mecânica.

            Connie, que pertencia à classe privilegiada, estava presa aos restos da velha Inglaterra. Fora necessário muito tempo a Connie para aceitar que a velha Inglaterra estava condenada a desaparecer por uma nova e soturna Inglaterra e que a eliminação acabaria por ser total. Fritchley acabara e Eastwoed também. Shipley estava a desaparecer, o bem amado solar do Squire Winter.

            Connie parou por momentos em Shipley. Os portões do parque, nas traseiras, estavam ao mesmo nível do estrada de ferro da mina; a mina de Shipley ficava por detrás das árvores. Os portões mantinham-se abertos, por direitos de caminhos vicinais, os mineiros podiam atravessar o parque, espalhavam-se por toda a parte. O carro passou pelos lagos ornamentais, nos quais os mineiros deitavam os seus jornais, e tomou a alameda que conduzia ao solar. Erguia-se altaneiro, era uma bela construção de meados do século XVIII. Tinha uma magnífica alameda de teixos, que outrora servira uma antiga casa; conduzia à mansão, que se estendia serenamente, e as janelas de estilo jorgiano tremeluziam como se estivessem alegres. Atrás ficavam belos jardins.

            Connie gostava muito mais do interior de Shipley do que de Wragby. Era mais claro, mais vivo, elegantemente concebido. As salas e quartos eram apainelados com frescos delicados, os tetos levemente dourados, tudo tinha um aspecto de ordem, as mobílias de excelente gosto, sem olhar a despesas. Até os corredores conseguiam ser amplos e graciosos, de curvas suaves e plenos de vida. Mas Leslie Winter estava só. Tinha amado extremosamente o seu lar, mas contíguas ao parque estavam as suas minas. Fora um homem generoso nas suas idéias. Quase que acolhera de boa mente os mineiros dentro do seu parque: ou as minas não o tivessem tornado num homem rico! De modo que, quando via grupos de mineiros disformes a deambularem perto das suas fontes ornamentais não no jardim privado, a tanto não ia a sua generosidade, dizia: "Os mineiros não são ornamentais como os veados, mas são de longe mais lucrativos". Mas isto passava-se na áurea - monetariamente - segunda metade do reinado da rainha Vitória. Nessa época os mineiros eram "trabalhadores honestos". Winter tinha dito isso mesmo num pequeno discurso, quase apologético, ao seu convidado, o rei Eduardo, quando este era ainda príncipe de Gales. O príncipe respondera com a sua gutural pronúncia inglesa: "Tem absoluta razão. Se houvesse carvão por baixo dos jardins de Sandringham, abriria uma mina nos relvados, e acho que seria uma forma excelente de jardinagem. Oh, por esse preço, estou disposto a trocar os veados por mineiros. Disseram-me que os seus homens são muito sérios." Mas nessa altura talvez o príncipe tivesse uma idéia exagerada do valor do dinheiro e sobre as maravilhas do industrialismo. Todavia, o príncipe velo a ser rei, e esse rei tinha morrido, e agora havia outro rei, cuja principal função parecia ser inaugurar sopas dos pobres.

            E os trabalhadores honestos estavam de certo modo a sitiar Shipley. Novas aldeias mineiras inundavam o parque, e o Squire sentia que aquela gente era estranha. Estava habituado a sentir-se, de forma bem humorada e condescendente, senhor dos seus domínios e hulheiras. Agora, por via da sutil penetração do novo espírito, de certa maneira tinha sido expulso. Era ele que já não fazia parte daquelas terras, sem dúvida. As minas e a indústria possuíam uma vontade própria que se contrapunha à do proprietário, do grande senhor. Os mineiros participavam dessa vontade, e era difícil viver a lutar contra ela. A mesma vontade expulsava as pessoas da região, como as expulsava da vida.

            O Squire Winter, que fora soldado, não tinha cedido. Deixara de apreciar o costume que tinha de dar o seu passeio pelo parque depois do jantar. Quase se escondia dentro de casa. Uma vez tinha acompanhado Connie até ao portão, sem chapéu, de sapatos de verniz e meias de seda cor púrpura, conversando no seu inglês altissonante. Mas quando passaram por pequenos grupos de mineiros, que paravam e o fitavam insolentemente e nem sequer lhe davam a salvação, Connie sentiu aquele velho magro e distinto estremecer como um antílope gracioso treme dentro de uma jaula perante um olhar indiscreto. Os mineiros não lhe eram pessoalmente hostis, de maneira nenhuma. Antes indiferentes, e expulsavam-no. E, no fundo, tinham-lhe ódio. "Trabalhavam para ele." E na sua fealdade, ofendiam-se com a sua existência elegante, bem arranjada, culta. "Quem é ele!" O ressentimento era contra a diferença. E, lá no fundo, no mais íntimo do seu ego britânico, sendo um soldado por temperamento, achava que eles tinham razão para se sentirem melindrados com a diferença. Ele próprio via que estava errado, porque tinha todas as vantagens do seu lado. Contudo, era o representante de um sistema, e não se deixaria expulsar. Só a morte o afastaria dali. Falecera subitamente pouco depois da visita de Connie. Os herdeiros deram imediatamente ordem para demolir Shipley. Manter o solar seria muito dispendioso, e nenhum deles viveria lá. Portanto foi demolido. Os teixos da alameda foram cortados e arrancaram as árvores do parque divididas em lotes. Ficava perto de Uthwaite. Depois do corte das árvores e da demolição da casa, o amplo lugar ficara nu, estranho, mais uma terra de ninguém, tinham começado a erguer pequenas moradias geminadas, muito acolhedoras. A Quinta de Shipley Hall !

            No espaço de um ano, depois da última visita de Connie, estava tudo pronto. A Quinta de Shipley Hall passara a ser um complexo de moradias geminadas de tijolo em ruas novas. Era difícil de acreditar que doze meses antes existira naquele lugar uma bela mansão.

            Mas esta era uma frase posterior da concepção de jardinagem do rei Eduardo, que consistia em ornamentar um relvado com uma mina de carvão.

            Uma Inglaterra apaga a outra. A Inglaterra dos Squire Winter e dos Wragby Hall chegava ao fim, morria. O processo de destruição ainda não estava completo. Que viria depois? Connie não conseguia imaginar. Só via ruas novas de tijolo alastrando pelos campos, os novos edifícios elevando-se acima das minas, as raparigas com meias de seda, os filhos dos mineiros a descansar no Pally ou no Centro. As gerações mais novas não tinham consciência do que fora a velha Inglaterra. Havia um hiato na continuidade da consciência, de tipo americano, mas, no fundo, industrial. Que viria depois? Connie sentia que não havia depois. Queria enterrar a cabeça na areia ou, pelo menos, no peito de um homem vivo.

            O mundo era tão complicado, tão misterioso, tão macabro! Tanta gente, e gente tão terrível! No regresso a casa, Connie pensava em tudo isso; via os mineiros arrastarem-se das minas, enfarruscados, deformados, com um ombro mais alto do que o outro, fazendo barulho com as pesadas botas ferradas. Rostos cinzentos de um mundo subterrâneo, córneas ondeadas, pescoços curvados pelos tetos das galerias, costas deformadas. Homens! Homens! E, em certos aspectos, talvez até homens pacientes e bons. Noutros, inexistentes. A sua natureza perdera qualquer coisa que faz parte dos homens; no entanto, eram homens. Podiam ser pais. Uma mulher podia ter um filho de um daqueles homens. Idéia terrível, terrível! Eram bons e afáveis, mas não totalmente humanos. Eram "Sérios", na sua metade amputada. E se a outra metade, morta, um dia ressurgisse? Mas não, era um pensamento sinistro. Connie tinha medo das massas industriais. Pareciam-lhe tão misteriosas. Vidas destituídas de beleza, de intuição, vidas de minas.

            Filhos daqueles homens! Meu Deus! E, no entanto, Mellors tinha nascido de um pai daqueles. Não totalmente daqueles, pois quarenta anos trazem grandes transformações na humanidade. O ferro e o carvão tinham devorado o corpo e a alma daqueles homens.

            Fealdade humanizada, mas contudo viva! O que seria deles uns anos mais tarde? Talvez, quando o carvão se extinguisse, eles desaparecessem também da face da terra. Tinham vindo não se sabia de onde, aos milhares, quando o carvão os chamara. Talvez não passassem de uma estranha fauna dos jazigos de carvão. Criaturas de outra realidade, elementos que serviam os elementos do ferro. Homens não humanos, mas animais de carvão, ferro e barro. Fauna de elementos, carvão, ferro e silício. Tinham qualquer coisa da estranha e desumana beleza dos minerais, o brilho do carvão, o peso e o azulado do ferro, a transparência do vidro. Criaturas elementares, estranhas e deformadas, do mundo mineral. Pertenciam ao carvão, ao ferro, ao barro, como os peixes pertencem ao mar e os vermes ao bosque morto. Espíritos da desintegração mineral.

            Connie sentiu-se satisfeita por estar em casa, para enterrar a cabeça na areia. Até lhe agradou conversar com Clifford. Afetou-a o terror daqueles Midlands de ferro, que a invadia como se fosse uma gripe.

            - Evidentemente que tive de tomar chá na loja da senhora Bentley - disse ela.

            - De verdade? Winter também lhe servia chá?

            - Oh, sim, mas não me atrevi a desiludir a senhora Bentley.

            A senhora Bentley era uma velha donzela, pálida, com um nariz volumoso e temperamento romântico, que servia chás com uma intensidade meticulosa, como se estivesse a ministrar um sacramento.

            - Ela perguntou por mim?

            - Evidentemente! "Posso perguntar a vossa senhoria como se encontra Sir Clifford?" Acho que, para ela, ainda está acima da enfermeira Cavel!

            - Suponho que lhe disse que estou florescente.

            - Pois claro! E ela ficou como se eu tivesse dito que as portas do Céu estavam abertas para si. Disse-lhe que quando viesse a Tevershall poderia vir visitá-lo.

            - A mim? Para quê? Visitar-me?

            - Porque não, Clifford? Se o adoram, tem de lhes dar qualquer coisa em troca. São Jorge da Capadócia ao pé de si não é ninguém para eles.

            - E acha que ela virá?

            - Oh, até corou. E, durante um momento, até ficou bonita. Porque é que os homens não casam com as mulheres que são capazes de os adorar?

            - As mulheres só começam a adorar muito tarde. Mas ela disse que viria?

            - Oh! - Connie imitou a ofegante senhora Bentley: - "Minha senhora, nunca me atreveria a tomar essa liberdade!"

            - Atrever-se a tomar a liberdade! Que absurdo!

            - Mas só espero realmente que não venha. E como estava o chá?

            - Oh, o Lípton, muito forte. Mas, Clifford, não tem consciência de que é o Roman de la Rose para a senhora Bentley e para muita gente como ela?

            - Mesmo assim não me sinto lisonjeado.

            - Cada fotografia sua nos jornais ilustrados é um tesouro para eles, e, provavelmente, rezam por si todas as noites. É lindo.

            Connie subiu para mudar de roupa. Nessa noite Clifford disse-lhe:

            - Acha que há algo de eterno no casamento, não é verdade?

            Ela fitou-o.

            - Mas, Clifford, fala em eternidade como de um sepulcro, ou de uma longa cadela sem fim que ande sempre conosco para toda a parte.

            Ele fitou-a, aborrecido.

            - O que quero dizer é que receio que vá para Veneza à espera de uma aventura amorosa que possa tomar au grand sérieux. (1)

            - Uma aventura em Veneza, au grand sérieux. Não, garanto-lhe. Uma aventura em Veneza nunca seria a sério.

 

            [1. "Muito a sério." (N. da T)]

 

            Disse isto com um tom de desprezo na voz.

            Ao descer pela manhã do seu quarto, viu Flossie, a cadela do guarda, sentada no corredor em frente da porta do quarto de Clifford, a soltar desolados ganidos.

            - Olá, Flossie! - disse com carinho. - Que é que fazes aqui? E abriu lentamente a porta do quarto. Clifford estava sentado na cama, com uma mesa de cama e a máquina de escrever ao lado, e o guarda em sentido, ao fundo da cama. Flossie entrou, a correr. Num movimento discreto da cabeça e dos olhos, Mellors mandou-a ir e ela esgueirou-se.

            - Bom dia, Clifford! Não sabia que estava ocupado.

            Depois voltou-se para o guarda e disse bom dia. Ele murmurou um bom dia, olhando-a vagamente. Mas da presença dele chegava até ela uma onda de paixão.

            - Desculpe, se o interrompi, Clifford.

            - Não, não estávamos a tratar de nada realmente importante.

            Connie voltou a sair do quarto e subiu as escadas até à sala azul, no primeiro andar. Sentou-se à janela e viu Mellors a descer a estrada de uma maneira estranha, silenciosa, apagada. Havia nele uma distinção natural e tranqüila, um orgulho reservado e um toque de fragilidade. Um assalariado! Um dos criados de Clifford! "A culpa, caro Brutus, não está nas nossas estrelas, mas em nós, porque nós somos inferiores."

            Ele seria inferior? Seria mesmo? O que é que pensaria dela? Estava um dia de sol e Connie trabalhava no jardim, e a senhora Bolton ajudava-a. Por qualquer razão, as duas mulheres tinham-se aproximado, num daqueles fluxos de simpatia, inexplicáveis, que unem os seres. Estavam a pôr estacas nos cravos e plantavam flores para o Verão, o que ambas gostavam de fazer. Especialmente Connie, que sentia prazer em colocar as raízes macias de jovens plantas na terra escura e de as tapar suavemente. Naquela manhã de Primavera sentia as suas entranhas igualmente palpitantes, como se o sol as tivesse penetrado e afagado.

            - Perdeu o seu marido há muitos anos? - perguntou à senhora Bolton, enquanto apanhava outra planta pequena e a colocava no buraco.

            - Há vinte e três - respondeu a senhora Bolton, ao mesmo tempo que separava cuidadosamente as columbinas. - Já fez vinte e três anos que o trouxeram para casa.

            Connie sentiu-se estremecer com aquele terrível e definitivo "trouxeram-no para casa".

            - Porque é que ele se deixou morrer, sabe? - perguntou ela. - Ele era feliz consigo?

            Era uma pergunta de uma mulher para outra mulher. A senhora Bolton afastou da cara uma madeixa de cabelo com as costas da mão.

            - Não sei, Lady Chatterley. Ele não cedia nunca, não se deixava ir atrás dos outros. E detestava curvar-se ao que quer que fosse. Foi uma obstinação que o matou. Não tinha medo, compreende? A culpa foi da mina. Ele nunca devia ter ido para as minas. Mas o pai dele mandou-o para lá em rapaz. E, depois dos vinte anos, não é muito fácil mudar de trabalho.

            - Ele dizia que não gostava de trabalhar na mina?

            - Oh, não! Nunca! Nunca dizia que não gostava de uma coisa. Troçava simplesmente. Era um daqueles homens que não têm cuidado com eles. Como aqueles jovens que partiram entusiasmados para a guerra e foram os primeiros a morrer. Ele não era doido, mas não tinha cuidado. Costumava dizer-lhe: "Não te interessas por nada nem por ninguém!". Mas não era verdade! O ar dele, quando nasceu o meu primeiro filho, sem se mexer, a fixar-me com olhos fatais depois do parto! Sofri bastante, mas tinha de o consolar. A certa altura disse-lhe: "Já acabou, homem, já acabou". Olhou-me e sorriu-me de um modo estranho. Nunca disse nada. Mas acho que nunca mais teve prazer comigo de noite, não se entregava, talvez não pudesse. Não queria que tivesse mais filhos. Sempre acusei a mãe dele por o ter deixado assistir ao parto. Ele nunca devia ter assistido. Os homens exageram tudo quando começam a cismar.

            - Impressionou-se assim tanto? - perguntou Connie, espantada.

            - Sim, não conseguia achar natural todas aquelas dores. Isso roubava-lhe um pouco do prazer no amor conjugal. Dizia-lhe: "Mas se eu não me importo, porque é que tu te hás de importar? Isso diz-me respeito". Ele limitava-se a responder: "Não é justo que seja assim!".

            - Talvez ele fosse muito sensível.

            - Era! Quando conhecemos bem os homens, chegamos sempre à conclusão que são demasiado sensíveis onde não deviam ser. E acho que, embora não o soubesse, odiava a mina, odiava. Tinha um aspecto tão tranqüilo depois de morto, como se se sentisse livre. Era um belo rapaz! Partiu-se-me o coração vê-lo tão tranqüilo e puro, como se tivesse querido morrer. Partiu-se-me o coração. A culpa foi da mina.

            Caíram lágrimas amargas pelo rosto das duas mulheres.

            Era um dia quente de Primavera, cheirava a terra e a flores amarelas, os botões abriam, e a seiva do sol inundava o jardim.

            - Deve ter sido terrível para si! - comentou Connie.

            - Oh! A princípio eu não acreditava. Só dizia para mim: "Meu pequeno, porque me quiseste deixar?". Era tudo o que conseguia dizer. E acreditava que ele um dia voltaria.

            - Mas ele não quis deixá-la!

            - Não, isso era o que eu dizia no meu desgosto. E continuei a esperá-lo. Especialmente de noite. Acordava constantemente e pensava: "Porque é que ele não está aqui na cama comigo?". Os meus sentimentos não podiam aceitar a morte dele. Sentia que ele tinha de voltar e deitar-se a meu lado, para eu o sentir. Era tudo quanto queria, tê-lo ali comigo. E sofri muito tempo, anos e anos, até compreender que ele não voltaria.

            - O contato do corpo dele - disse Connie.

            - É isso mesmo. O contato do corpo dele. Ainda hoje não esqueci, e nunca esquecerei. Se há um Céu, ele estará lá, e deitar-se-á a meu lado para eu poder dormir.

            Connie fitava, assustada, aquela cara bonita e pensativa. Mais um ser apaixonado saído de Tevershall! O contato do corpo dele! "Porque os laços do amor estão doentes, prestes a quebrar-se."

            - É terrível ter um homem nas veias - comentou Connie.

            - É isso que faz sofrer muito. Depois sente-se que os outros o queriam ver morto, que a mina o quis matar. E sentia que, se não fossem as minas e os donos das minas, ele nunca me deixaria. Mas todos querem separar um homem e uma mulher, quando eles vivem unidos.

            - Fisicamente unidos.

            - Exatamente. Há pessoas que têm coração de pedra. Quando ele se levantava de manhã para ir para a mina, eu sentia que ele não devia ir, não devia. Mas o que é que ele podia fazer? Que é que um homem há de fazer?

            Dentro daquela mulher ardia subitamente um estranho ódio.

            - Mas pode durar assim tanto tempo a recordação de um contato? - perguntou Connie, bruscamente. - A ponto de perdurar ainda?

            - Oh, Lady Chatterley, mas que outra coisa é que pode perdurar? Os filhos crescem e vão-se embora. Mas o homem é diferente! E até isso os outros querem matar dentro de nós, a lembrança desse contato. Até os próprios filhos. Se ele não tivesse morrido, talvez até nos separássemos um dia, quem sabe? Mas o sentimento é diferente. O melhor é não nos prendermos. Mas quando uma mulher nunca foi aquecida por um homem, tenho pena dela, por melhor que se vista e melhor vida que tenha, parece-me um pobre mocho. Não, nada me fará mudar de opinião. Não me importo nada com o que pensem as outras pessoas.

 

            Depois do almoço, Connie seguiu imediatamente para o bosque. Estava um dia lindo, os primeiros dentes-de-leão pareciam sóis e despontavam margaridas brancas. A mata de avelaneiras era uma renda de folhas entreabertas e de candeias poeirentas. As moitas de celidôneas amarelas, muito abertas, precisando de se apertar, no seu amarelo brilhante, intenso do princípio do Verão. Quanto às primaveras, espraiavam-se por toda a parte formando autênticos cachos, parecendo pálidas no seu abandono de flores que perderam a timidez. O verde-escuro dos jacintos era como um mar, carregado de botões que se erguiam pálidos como hastes de centeio enquanto que no caminho desabrochavam miosótis e os rendados purpurinos das columbinas, cujas folhas se iam alargando cada vez mais, e, sob um arbusto, viam-se restos de cascas de ovos de pássaro. Por toda a parte os botões e a força da vida.

            O guarda não estava na cabana. Os pintos castanhos corriam cheios de vida, tudo estava sereno. Connie caminhava na direção da casa, queria encontrá-lo.

            O sol batia em cheio na casa afastada da orla do bosque. Os tufos de narcisos continuavam a germinar, perto da porta aberta, as margaridas vermelhas guarneciam as margens do caminho. Um cão ladrou: era Flossie, que apareceu, a correr. A porta aberta! Então ele estava em casa. O sol tombava no chão de tijolo vermelho. Enquanto subia a vereda, viu-o através da janela, sentado à mesa, em mangas de camisa, a comer. A cadela rosnou suavemente, abanando a cauda.

            Ele levantou-se e dirigiu-se para a porta, limpando a boca com um lenço vermelho, mas ainda a mastigar.

            - Posso entrar? - perguntou ela.

            - Entra!

            A sala despida era iluminada pelo sol e lá dentro persistia um cheiro a costeletas de carneiro grelhadas. A caçarola de fritar batatas estava ainda ao lado da chaminé, em cima de um papel, e no lume estava colocada sobre as barras de ferro do fogão uma chaleira.

            Em cima da mesa, coberta com um oleado branco, estava um prato com batatas e os restos da costeleta. Também havia pão, sal e uma caneca azul com cerveja. Ele mantinha-se de pé, na sombra.

            - Estás atrasado! Mas acaba de comer.

            Ela sentou-se numa cadeira de madeira, ao sol, junto à porta.

            - Tive de ir até Uthwaite - disse ele, sentando-se à mesa, mas sem comer.

            - Continua a comer! - disse ela.

            Mas ele não tocou na comida.

            - Queres comer alguma coisa? Tomar uma chávena de chá? A chaleira está ao lume... - E fez menção de se levantar.

            - Posso ser eu própria a arranjar o chá? - perguntou ela levantando-se.

            Ele tinha um ar triste, e ela sentiu que estava a incomodá-lo.

            - Se quiseres... O bule está ali - disse ele, apontando para um pequeno armário de canto - e as chávenas e a lata do chá naquela prateleira da lareira, aí por cima da tua cabeça.

            Connie tirou o bule, pegou o chá, verteu água a ferver no bule para o lavar, e parou um momento sem saber onde o havia de despejar.

            - Despeja lá para fora - disse Mellors, atento. - É água limpa.

            Foi até à porta e deitou a água para o caminho. Como tudo aquilo era encantador, tranqüilo, tão campestre! Os carvalhos deixavam cair folhas avermelhadas, no jardim as margaridas pareciam botões de pelúcia vermelha. Olhou as grandes e baixas lajes de grés da soleira, que poucos transpunham.

            - É lindo isto! Tão tranqüilo, tudo tão vivo e calmo.

            Ele recomeçara a comer, vagarosamente e com relutância, e ela sentiu-o abatido. Preparou o chá, em silêncio, colocou o bule na grade junto à lareira, como se conhecesse os hábitos do povo. Ele empurrou o prato para o lado e saiu para as traseiras. Ela ouviu o barulho do fecho da porta, e ele voltou com queijo num prato e manteiga.

            Ela pôs as duas chávenas na mesa, as duas únicas chávenas que existiam.

            - Queres uma chávena de chá? - perguntou ela.

            - Como quiseres. O açúcar está no armário e um jarro com natas. O leite está numa na despensa.

            - Posso tirar-te o prato da frente? - perguntou ela.

            Ele levantou o olhar para ela, com um sorriso um pouco irônico.

            - Se não te importas - respondeu, comendo lentamente pão e queijo.

            Ela foi às traseiras, à copa que ficava num telheiro perto da bomba. À esquerda, havia uma porta que devia ser da despensa. Abriu-a e quase sorriu ao ver o lugar a que ele chamava de despensa: era uma prateleira caiada, comprida e estreita, onde havia, no entanto, espaço para um barril de cerveja, alguns pratos e pequenas porções de víveres. Tirou algum leite da bilha amarela.

            - Como é que consegues arranjar o leite? - perguntou-lhe, quando voltou para a mesa.

           - Os Flint. Deixam-me uma garrafa no portão das coelheiras. Naquele lugar onde nos encontramos.

            Ele estava abatido. Ela serviu o chá, segurando o jarro das natas.

            - Sem leite - disse ele.

            Depois pareceu-lhe ouvir um ruído e ficou a olhar atentamente para a porta.

            - Acho que é melhor fechar a porta - disse.

            - Que pena! - respondeu Connie. - Ninguém vem aqui, pois não?

            - Seria um acaso, mas nunca se sabe.

            - E se alguém viesse não teria importância. Estamos a tomar chá. Onde é que estão as colheres?

            Ele inclinou-se e abriu a gaveta da mesa. Connie estava sentada à mesa, ao sol, que entrava pela porta.

            - Flossie- disse Mellors para a cadela, deitada no degrau.- Vai espreitar, anda!

            Levantou o dedo para reforçar o "espreitar". A cadela correu para ir fazer o reconhecimento do bosque.

            - Estás triste hoje? - perguntou-lhe Connie.

            Rapidamente voltou os olhos e fitou-a.

            - Triste não, aborrecido. Tive de ir tratar da notificação de dois caçadores furtivos que apanhei, não gosto das pessoas.

            Falava num tom frio, num inglês correto e com raiva na voz.

            - Não gostas de ser couteiro?

            - Não, ser couteiro gosto, desde que me deixem em paz. Mas quando tenho de ir à polícia e a outros lugares esperar que um bando de patetas me atenda... perco a cabeça... - respondeu ele, a sorrir, com uma certa graça, reservada.

            - Não poderias ser realmente independente? - perguntou ela.

            - Eu? Acho que sim, se queres dizer viver somente da pensão. Podia. Mas se não trabalhasse morria. Tenho de me ocupar com qualquer coisa, e o meu temperamento não me permite trabalhar por minha conta. Tenho de trabalhar por conta de outrem ou em menos de um mês largaria tudo, num ataque de mau gênio. Portanto sinto-me bem aqui, em especial ultimamente...

            Riu-se dela de novo, com um humor trocista.

            - Mas estás hoje mal humorado porquê? Ou queres dizer que estás sempre mal humorado?

            - Quase sempre - respondeu ele, a rir. - Não digiro bem a minha bílis.

            - Que bílis?

            - Bílis! Não sabes o que é bílis?

            Ela ficou calada e desapontada. Ele mantinha-se indiferente à presença dela.

            - Vou-me embora por algum tempo no mês que vem - disse ela.

            - Vais? Para onde?

            - Veneza.

            - Veneza! Com Sir Clifford? Por quanto tempo?

            - Um mês, mais ou menos. Mas Clifford não vai.

            - Fica aqui?

            - Sim! Desde que ficou aleijado não gosta de viajar.

            - Pobre diabo! - comentou ele, com simpatia. Fez-se silêncio.

            - Não me esquecerás na minha ausência? - perguntou.

            Ele levantou os olhos e fitou-a.

            - Esquecer-me? Sabes muito bem que ninguém esquece, não é uma questão de memória.

            Ela quis perguntar "que é então?" mas não o fez. Limitou-se a murmurar:

            - Disse a Clifford que poderia ter um filho. Ele olhou para ela com uma expressão profunda e perscrutante.

            - Disseste? E ele que respondeu?

           - Oh, não se importaria. Até ficaria contente, de fato, desde que desse a impressão de que era dele.

            Ela não se atrevia a levantar os olhos para ele. Ele ficou taciturno durante bastante tempo, depois pôs-se a olhar fixamente para o rosto de Connie.

            - Não se referiu a mim, evidentemente.

            - Não. Não se falou de ti.

            - Não, dificilmente me aceitaria como substituto. E como é que pensas ter esse filho?

            - Podia ter uma aventura amorosa em Veneza.

            - Podias - replicou ele, lentamente. - É por isso que vais?

            - Não para ter a aventura - respondeu ela, olhando para ele com um olhar suplicante.

            - Somente para fingir - disse ele.

            Silêncio absoluto. Ele sentou-se a olhar pela janela, com um sorriso vago, um misto de escárnio e de amargura. Ela detestava o seu sorriso.

            - Não tomaste nenhuma precaução para evitar a gravidez, pois não? - perguntou-lhe ele, subitamente. - Eu pela minha parte não a tomei.

            - Não - respondeu ela num murmúrio. - Nunca seria capaz de o fazer.

            Ele olhou para ela, depois para a janela com o mesmo sorriso misterioso. Reinava um silêncio impressionante. Por fim ele, voltou a cabeça e disse num tom de sarcasmo:

            - Foi por isso que me quiseste, para ter um filho!

            Ela baixou a cabeça.

            - Não, no fundo não.

            - Então no fundo porque foi? - perguntou com ironia.

            Ela fitava-o com uma expressão de censura, dizendo:

            - Não sei.

            Ele deu uma gargalhada.

            - Macacos me mordam se eu sei.

            Ficaram de novo em silêncio, num silêncio frio.

            - Bem - disse ele, finalmente. - É como vossa senhoria quiser. Se tiver um filho, Sir Clifford dar-lhe-á as boas-vindas e eu não terei perdido nada. Pelo contrário, foi deveras uma experiência muito agradável.

            E espreguiçou-se, bocejando disfarçadamente.

            - Serviu-se de mim - continuou. - Não foi a primeira vez que alguém se serviu de mim, e foi mais agradável do que das outras, embora não seja motivo de orgulho para ninguém.

            Voltou a espreguiçar-se, de maneira curiosa, os músculos a tremer e os maxilares cerrados.

            - Mas eu não me servi de ti - respondeu ela, suplicante.

            - Ao serviço de vossa senhoria.

            - Não, gostei do teu corpo.

            - Sim?! - replicou ele a rir. - Então estamos quites, porque também gostei do teu.

            E fitou-a com olhos estranhamente escuros.

            - Queres subir? - perguntou-lhe, numa voz estrangulada.

            - Não, aqui não! Agora não! - respondeu ela, num tom de voz pesado e lento.

            No entanto, se ele tivesse insistido, ela teria cedido, porque não tinha força para lutar contra ele.

            Ele voltou a virar a cara, dando a impressão de se ter esquecido que ela estava ali.

            - Quero tocar-te como me tocas - disse ela. - Nunca toquei realmente o teu corpo.

            Ele olhou-a e sorriu de novo.

            - Agora? - perguntou.

            - Não! Não! Aqui não. Na cabana. Não te importas?

            - Como é que te toco?

            - Quando me acaricias.

            Ele voltou a olhá-la e captou o seu olhar denso e inquieto.

            - E gostas quando te acaricio? - perguntou, a sorrir tranqüilamente.

            - Sim, e tu?

            - Oh, eu! - depois mudou o tom de voz. - Sim, sabes sem perguntar.

            Era verdade. Connie levantou-se e pegou no chapéu.

            - Tenho de me ir embora - disse.

            - Tem? - perguntou ele delicadamente.

            Ela queria que ele a tocasse, que lhe dissesse qualquer coisa, mas ele não disse nada, apenas esperava cerimoniosamente.

            - Obrigada pelo chá.

            - Não agradeci a vossa senhoria a honra de se ter servido do meu bule.

            Connie partiu, e ele ficou à porta, sorrindo ironicamente. Flossie apareceu a correr, com a cauda levantada. E Connie tinha de caminhar penosamente através do bosque, em silêncio, sabendo que continuava lá, a segui-la com os olhos, com uma expressão enigmática.

            Regressou a casa muito deprimida e irritada. Não gostava de o ouvir dizer que se tinham servido dele, porque, de certo modo, era verdade. Mas não o devia ter dito. Por isso, mais uma vez, sentia-se dividida entre dois sentimentos: ressentimento contra ele e desejo de fazer as pazes com ele.

            Depois do chá, longo e incomodador, Connie subiu imediatamente para o quarto. Se bem que, depois de lá estar, não se sentiu melhor. Não conseguia estar sentada nem de pé. Tinha de fazer qualquer coisa. Iria até à cabana, se ele não estivesse lá, tanto melhor.

            Esgueirou-se pela porta lateral e dirigiu-se diretamente para a cabana, um pouco mal-humorada. Quando chegou à clareira sentiu-se terrivelmente inquieta. Ele lá estava, em mangas de camisa, curvado, tirando as galinhas das capoeiras, ao mesmo tempo que tirava os pequenos faisões, que estavam a ficar um pouco mais jeitosos, mas eram muito mais elegantes do que os pintos das galinhas.

            Precipitou-se para ele.

            - Vim, como vês.

            - Estou a ver - respondeu ele, endireitando-se e sorrindo para ela, ligeiramente divertido.

            - Deixas as galinhas cá fora?

            - Sim, elas estão reduzidas a pele e osso. E agora já nem sequer querem sair para comer. O "eu" não existe para uma galinha no choco: só existem os ovos e os pintos.

            - Pobres mães-galinhas! Que amor cego, mesmo quando os ovos não são delas!

            Connie olhava-as, compadecida. O homem e a mulher ficaram em silêncio.

            - Vamos para a cabana? - perguntou ele.

            - Desejas-me? - perguntou ela, num tom de desconfiança.

            - Sim, se quiseres vir.

            Ela não respondeu.

            - Vamos então! - disse ele.

            E seguiram os dois para a cabana. Quando ele fechou a porta, ficou escuro, e, como sempre, acendeu a lanterna.

            - Estás despida por baixo? - perguntou ele.

            - Sim!

            - Vou-me despir também.

            Estendeu os cobertores, pondo um de lado para fazer de colcha. Ela tirou o chapéu e sacudiu o cabelo. Ele sentou-se, tirou sapatos e as polainas, e começou a desabotoar as calças de bombazina.

            - Deita-te! - disse-lhe, quando já estava em camisa.

            Ela obedeceu em silêncio e ele deitou-se ao lado dela, puxou o cobertor para cobrir os dois.

            - Cá estamos! - disse ele.

            Levantou-lhe o vestido até aos seios e beijou-os suavemente, prendendo os mamilos nos lábios em leves carícias.

            - Ah, é bom, é bom - murmurou, esfregando subitamente a aura num movimento para se aconchegar na sua barriga quente.

            Ela abraçou-o sob a camisa, mas sentiu medo, medo daquele corpo magro, macio e nu, mas que parecia tão forte, medo daqueles músculos violentos. Ela contraiu-se com medo. E quando ele disse "é bom, é bom!" algo dentro dela estremeceu, e qualquer coisa no seu espírito acordou, pronto a resistir. A resistir àquela terrível intimidade física e a urgência da posse. E o êxtase violento da paixão não a invadiu. Ficou de mãos inertes no corpo do homem em luta. E, embora tentasse, não conseguia deixar de observar friamente, distante, o que se passava; e o movimento das ancas do homem era ridículo, e mais ridículo o frenesi do pênis até à pequena crise da ejaculação. Sim, aquilo era o amor, aquele movimento ridículo das nádegas, aquele esmorecimento de um pênis insignificante e úmido. Era esse o divino amor! Afinal, os modernos tinham razão em desprezar aquela representação teatral, porque, no fundo, não passava de uma representação. Tinham razão os poetas ao dizerem que o Deus que criou o homem teve um humor sinistro em o criar como criatura dotada de razão e obrigá-lo àquela posição ridícula, e a desejar cegamente aquela representação. Até Maupassant achava que era um anticlímax humilhante. Os homens tinham desprezo pelo ato sexual, e no entanto, praticavam-no.

            Frio e ridículo, o seu estranho espírito feminino manteve-se afastado, e, embora ela não se mexesse, o seu impulso era para levantar os rins, empurrar o homem, subtrair-se àquela prisão e ao movimento das suas ancas ridículas. O corpo dele era uma cola. Na louca, impudente, imperfeita, um pouco repugnante na sua inépcia incompleta. Uma transformação completa com certeza eliminaria aquela representação, aquela "função". E, no entanto, quando ele acabou e ficou muito quieto, retirando-se em silêncio, num afastamento estranho, sem movimento, inatingível, o coração de Connie começou a chorar. Ela sentia-o afastar-se, afastar-se, deixando-a como uma pedra na praia. Ele afastava-se espiritualmente dela. E ele tinha consciência disso. E, invadida de uma verdadeira tristeza, atormentada pela sua dupla consciência e reação, começou a chorar. Ele não deu por isso, talvez não soubesse que ela estava a chorar. A tempestade de soluços cresceu dentro dela e sacudiu os dois corpos.

            - Sim, não resultou, desta vez. Estavas ausente.

            Ele percebera. Os soluços de Connie tornaram-se mais violentos.

            - Mas que tens? - perguntou ele. - Isso acontece de vez em quando.

            - Eu... eu não sou capaz de te amar - soluçou Connie, com o coração despedaçado.

            - Não? Não faz mal. Não há nenhuma lei sobre isso. Não te preocupes.

            Ele continuava com a mão sobre o peito dela, mas ela tinha-o largado. As palavras dele não a reconfortavam. Ela soluçava mais alto.

            - Então, então! É preciso conhecer o bom e o mau, hoje foi o mau - dizia ele.

            Ela chorava amargamente, soluçando.

            - Mas eu quero amar-te, e não consigo. É horrível. Ele riu-se, meio amargo e divertido.

            - Não é assim tão horrível - continuou -, embora pareça. És tu que achas pior do que é. Não te importes se me amas ou não. Não podes forçar-te. Num cesto de nozes há sempre uma podre. É preciso tirar a podre e as boas.

            Tirou a mão do peito de Connie, deixando de lhe tocar. E como não lhe tocava, ela sentiu quase uma satisfação perversa. Odiava o dialeto e os "tus" dele. Ele podia levantar-se se quisesse e abotoar aquelas ridículas calças de bombazina ali mesmo à frente dela. Michaelis tinha, pelo menos, a delicadeza de virar as costas. Aquele homem era tão seguro de si que nem sequer pensava que os outros o podiam achar ridículo e grosseiro. No entanto, quando ele ia afastar-se, para se levantar silenciosamente e a deixar, ela agarrou-o em pânico.

            - Não! Não te vás! Não me deixes! Não te zangues comigo! Abraça-me! Abraça-me com força! - murmurava ela, num frenesi, sem saber o que dizia, abraçada a ele com uma força estranha. Queria ser salva dela mesma, da sua exasperação e resistência interior. Mas era tão forte aquela resistência interior que a dominava!

            Ele abraçou-a novamente e apertou-a contra o peito. De súbito ela tornou-se pequena nos seus braços e frágil. A resistência tinha desaparecido, e ela começou a sentir dentro de si uma paz maravilhosa. Assim, pequena e maravilhosa, nos braços dele acordou-lhe um desejo infinito, e todas as veias do homem pareciam escaldar num desejo intenso, mas doce, um desejo daquela mulher, da sua doçura, da beleza penetrante que tinha nos braços e lhe entrava no sangue. E, docemente, na carícia suave e vertiginosa da sua mão, animada de um desejo puro, afagou-lhe a curva macia dos seus rins, desceu, desceu até às nádegas quentes e suaves, cada vez mais perto do que havia demais vivo no corpo dela. E ela sentia-o como uma chama de desejo, doce, e sentia-se fundir nessa chama. Deixava-se ir. Sentiu o pênis erguer-se com uma força e uma asserção assombrosas, e deixou-se ir. Cedeu, e, com um estremecimento que parecia de morte, abriu-se para ele. Ah, se naquele momento ele não fosse terno com ela, seria tão cruel! Estava completamente aberta para ele, entregue.

            Estremeceu de novo com a penetração potente, inexorável, tão estranha e tão terrível. Trouxe-lhe a idéia da lâmina de uma espada no seu corpo docemente aberto, e isso seria a morte. Abraçou-se a ele, tomada de uma súbita e terrível angústia. Mas foi um golpe de paz, estranho e lento, o sinistro golpe de paz, de uma ternura potente e primordial, como a que criou o mundo. E o terror abrandou no seu peito, ficou em paz, e deixou-se ir, inteira, na corrente.

            Parecia que era um mar, somente vagas escuras levantando e baixando, até toda aquela massa em movimento a converter-se num oceano, a animar toda a imensidão negra. E no mais profundo do seu corpo, a profundidade desse oceano abria-se e movia-se dos dois lados do mergulhador, que no seu mergulho doce e fundo chegava sempre mais longe, sempre mais longe, e as vagas rebentavam numa praia qualquer, deixando-as a descoberto. E o desconhecido palpável mergulhava cada vez mais fundo, e as vagas rolavam cada vez mais longe, abandonavam-na, até que, subitamente, numa conclusão doce e violenta, todo o seu plasma foi atingido. Ela mesma sentiu-se atingida, tudo estava consumado, e ela desapareceu. Desapareceu, deixou de ser, e nasceu: uma mulher.

            Ah, maravilhoso, maravilhoso! No refluxo, ela captou toda a maravilha. Naquele momento todo o seu corpo se uniu com amor àquele homem desconhecido, e, cegamente, contra o pênis enfraquecido que, meigamente, fragilmente, e sem o saber, se retirava após o acesso de potência. Retirava-se secreto e sensível e abandonava o corpo dela. E ela soltou um pequeno grito inconsciente, um grito de pura perda, e quis prolongar a união. Tudo tinha sido perfeito e tão maravilhoso! E só agora ela compreendeu a pequenez do pênis, a sua delicadeza, a sua reticência. E soltou de novo um pequeno grito de pasmo e entusiasmo. O grito do coração de uma mulher, maravilhada pela fragilidade daquilo que antes fora potência.

            - Foi tão bom! Foi tão bom! - murmurou.

            Ele não respondeu. Limitou-se a beijá-la ternamente, deitado tranqüilamente em cima dela. E ela gemia, em beatitude, como uma vítima, como algo que acaba de nascer. Tinha despertado no seu coração uma estranha admiração por ele. Um homem! A estranha potência da virilidade em cima dela! As suas mãos vagueavam pelo corpo dele, ainda um pouco receosas perante aquela coisa estranha, hostil, que ela julgara repugnante: um homem. E quando o tocou, oh!, eram os filhos de Deus em contato com as filhas dos homens. Era belo, puro no contato! A serenidade de um corpo sensível era maravilhosa e forte, e, ao mesmo tempo, pura e delicada. Era belo! Tão belo! E as suas mãos deslizaram timidamente pelas costas dele, até às esferas das suas nádegas, macias e pequenas. Que beleza! Uma nova chama de conhecimento, súbita, invadiu-a. Como era possível tanta beleza onde antes ela só tinha visto repulsa? A beleza inefável daquelas nádegas quentes e vivas que ela tocava! A vida dentro da vida, a beleza simples, forte, quente! E o peso estranho dos testículos! Que mistério! Como era estranho aquele peso do mistério, suave e pesado, que cabia numa mão! Eram as raízes, a raiz de tudo quanto é belo, a raiz primitiva da beleza total.

            Abraçou-o com força, num suspiro de surpresa próximo do medo e do terror. Ele apertou-a de encontro ao peito, mas não disse nada. Nunca falou. Ela aproximou-se ainda mais, vagarosa e silenciosamente, apenas para estar mais próxima daquele milagre sensual que ele significava. E, da imobilidade dele, absoluta, incompreensível, ela voltou a sentir a ereção lenta e fatal do falo, com uma nova potência. E de novo o coração dela se contraiu de terror. Mas, desta vez, a sua presença dentro dela foi toda ela doçura e iridiscência, somente doçura e iridiscência, como nenhuma consciência podia apreender. Todo o seu ser estremecia, inconsciente e vivo, como protoplasma. Ela não podia saber o que era, nem lembrar-se o que tinha sido, a não ser que era mais maravilhoso do que qualquer outra coisa no mundo. Apenas isso. Depois ficou completamente serena e inconsciente, sem saber por quanto tempo. Mas ambos ficaram tranqüilos, num silêncio insondável. E daquilo nunca falariam.

            Quando começou a retomar consciência, Connie murmurou:

            "Meu amor, meu amor!", e ele apertou-a em silêncio. E ela enroscou-se no peito dele, completamente.

            Mas o seu mutismo era abismal. As suas mãos seguravam-na como flores, suaves e estranhas.

            - Onde estás? - murmurou Connie. - Onde estás? Fala comigo! Diz qualquer coisa!

            Ele beijou-a docemente e murmurou:

            - Minha pequenina!

            Mas ela não sabia o que ele queria dizer. Não sabia onde ele estava. E no seu silêncio parecia tê-la perdido.

            - Amas-me? - murmurou ela.

            - Sim, tu sabes.

            - Mas diz-me! - suplicou ela.

            - Sim, sim, não o sentiste? - respondeu ele, debilmente, mas com doçura e segurança.

            Ela abraçou-o com mais força. Ele era mais sereno no amor do que ela, e ela queria que ele a tranqüilizasse.

            - Não é verdade? Tu amas-me - murmurou, com firmeza.

            As mãos dele acariciavam-na suavemente, como se ela fosse uma flor, sem o frêmito do desejo, mas com uma intimidade delicada. Mas sentia-se ainda devorada pela angústia de perder aquele amor.

            - Diz que me amarás sempre! - pediu ela.

            - Sim - respondeu ele, distraidamente.

            Ela sentiu que as suas perguntas o afastavam dela.

            - Temos de nos levantar! - disse ele, finalmente.

            - Não!

            Mas ela podia sentir a consciência dele a desviar-se e a ficar atenta aos ruídos do exterior.

            - É quase noite! - disse ele.

            Ela pressentiu a urgência na voz dele. Beijou-o com a dor de uma mulher que sente o tempo a fugir-lhe.

            Ele levantou-se, pôs mais alta a chama da lanterna, e, depois, começou a vestir-se rapidamente. Ficou de pé a abotoar as calças, fitando-a com os seus olhos rasgados e sombrios, o rosto corado, o cabelo em desordem, estranhamente arrebatado, tranqüilo e belo à luz tênue da lanterna, mais belo do que ela quereria alguma vez dizer-lhe. Fê-la desejar agarrar-se de novo a ele, porque havia um afastamento na sua beleza, ardente e semiadormecido, que a levava a gritar e a colar-se a ele para o possuir. Nunca o possuiria. Ela continuava deitada no cobertor, de ancas nuas, abobadas e macias. E ele não sabia o que ela estava a pensar, mas achava-a bela, aquela doce e maravilhosa criatura que ele podia penetrar e em quem se podia perder.

            - Adoro penetrar dentro de ti - disse ele.

            - Agrado-te? - perguntou ela, com o coração a bater com força.

            - O principal é poder entrar dentro de ti. Gosto de entrar em ti, que te abras para mim.

            Inclinou-se, deu-lhe um beijo, esfregando o rosto, depois cobriu-a.

            - E nunca me deixarás?

            - Nunca perguntes essas coisas - respondeu ele, em dialeto.

            - Mas acreditas que eu te amo?

            - Amas-me agora mais do que pensaste ser possível amar-me. Mas não sei como será quando começares a pensar.

            - Não digas essas coisas. E não pensas que me servi de ti, pois não?

            - Como?

            - Para ter um filho.

            - Qualquer pessoa pode ter um filho neste mundo - respondeu ele em dialeto, sentando-se para prender as polainas.

            - Ah, não! - exclamou ela. - Não falas a sério, pois não?

            - É! Foi o que nós fizemos - disse ele, olhando para ela, de sobrancelhas franzidas.

            Ela continuava imóvel. Ele abriu lentamente a porta. O céu estava azul-escuro, com uma orla de um azul-turquesa cristalino. Saiu para fechar as galinhas, falando ternamente para a cadela. Connie meditava no milagre da vida e do ser.

            Quando ele voltou, ela continuava deitada, atraente como uma cigana. Ele sentou-se no banco junto dela.

            - Tens de vir uma noite à casa de campo antes de te ires embora, está bem? - perguntou, levantando as sobrancelhas, enquanto olhava as mãos que balouçavam entre os joelhos.

            Falava em dialeto.

            - Vens? - repetiu Connie, imitando o dialeto, trocista.

            Ele sorriu.

            - Vens? - repetiu ele.

            Ela ia repetindo o dialeto nas frases seguintes.

            - E dormirás comigo? É necessário. Quando vens?

            - Talvez no domingo. Ele troçava.

            - Não consegues imitar-me.

            - Porquê? Ela ria. Ela era cômica a imitar o dialeto.

            - Bem, temos de nos ir embora. Estava inclinado sobre ela e fazia-lhe festas na cara.

            - És muito boa embaixo, quando queres.

            - Que é que isso quer dizer, embaixo?

            - Não sabes?

            - É beijar?

            - Não. Beijar é outra coisa. Mas tu, oh!, tu és um animal a fazer amor.

            Ela levantou-se e beijou-o entre os olhos, que lhe pareciam tão escuros, doces, e muito ardentes e belos.

            - Gostas de mim? - perguntou ela.

            Ele beijou-a, sem responder.

            - Agora vai-te embora.

            A sua mão deslizou pelas curvas do corpo dela, com firmeza, sem desejo, mas com um conhecimento suave e íntimo.

            Enquanto ela corria para casa, no crepúsculo, o mundo parecia um sonho: as árvores do parque pareciam velas de um barco ancorado, enfoladas e agitadas, e a encosta onde ficava a casa estava cheia de vida.

 

            No domingo seguinte, Clifford manifestou desejo de ir passear pelo bosque. Estava uma linda manhã. As pereiras e ameixeiras haviam desabrochado como por encanto, aqui e ali havia montinhos de flores brancas, que pareciam ter surgido não se sabe de onde. Era duro para Clifford, enquanto o mundo floria, ver-se forçado a depender de outrem quando tinha de ser transferido de uma cadeira de rodas para outra de motor. Mas já se esquecera e parecia ter um certo orgulho na sua enfermidade. Connie ainda sofria quando tinha de pegar naquelas partes inertes. Mas agora eram a senhora Bolton ou Flint que se encarregavam de o fazer. Ela aguardava-o no alto do caminho junto à vedação de faias. A cadeira com motor, arquejando, arrastava-se num ritmo lento de um inválido importante. Ao aproximar-se da mulher, comentou:

            - Sir Clifford no seu corcel espumante!

            - Pelo menos, roncador - respondeu ela, a rir.

            Ele parou, abrangendo com o olhar a longa fachada da casa, baixa e castanha.

            - Wragby nem pestanejou. Nem devia pestanejar! Monto as realizações do espírito humano e isso vence qualquer cavalo.

            - Sem dúvida. É a alma de Platão cavalgando a caminho do céu, numa quadriga de dois cavalos, subiria agora num Ford.

            - Ou num Rolls-Royce, Platão era um aristocrata!

            - Absolutamente. Já não há um corcel negro para açoitar, maltratar. Platão nunca pensou que pudéssemos ir mais longe do que os seus corcéis brancos e pretos, e que chegássemos a não ter corcéis, unicamente um motor.

            - Um motor e gasolina - respondeu Clifford. - Para o ano, temos de fazer uns consertos na casa velha. Espero ter nessa altura em mãos aí umas centenas. A mão-de-obra está tão cara!

            - Coisa boa! Se não houver outra greve...

            - Qual seria a vantagem deles entrarem de novo em greve? Só para arruinar a indústria, o que resta dela. E aqueles mochos já começaram a perceber isso.

            - Talvez não se importem de arruinar a indústria - respondeu Connie.

            - Ah, não fale como uma mulher! A indústria enche-lhes as barrigas mesmo quando o dinheiro não lhes sobra na algibeira - respondeu Clifford, numa entoação que fazia lembrar a senhora Bolton.

            - Mas não disse, no outro dia, que era um anarquista moderado? - perguntou ingenuamente Connie.

            - E não percebeu o que eu queria dizer? - retorquiu ele.- Queria dizer que as pessoas podem ser o que quiserem e sentirem o que lhes apetece em privado, desde que conservem intacta a sua forma de vida, o aparato.

            Connie deu mais uns passos. Depois disse, com uma certa obstinação:

            - É como dizer que o ovo pode estar tão podre quanto possível, desde que não lhe quebremos a casca. Mas a casca acaba sempre por se partir por ela própria.

            - Não acho que as pessoas sejam ovos, nem sequer ovos de anjos, minha querida evangelista.

            Naquela luminosa manhã, Clifford encontrava-se em ótima disposição. As cotovias cantavam por todo o parque, a mina, distante, exalava um vapor silencioso. Aquilo lembrava os velhos tempos de antes da guerra. Connie não sentia vontade alguma de discutir. Mas também não lhe apetecia nada ir com Clifford para o bosque. Caminhava ao lado da cadeira, com uma certa relutância.

            - Não - continuou ele. - Não haverá mais greves, se as coisas forem bem orientadas.

            - Porquê?

            - Porque se fará com que as greves sejam impossíveis.

            - E acha que os homens o vão deixar fazer isso?

            - E quem é que lhes vai perguntar isso? Trataremos de agir quando os apanharmos desprevenidos. É para bem deles e da indústria!

            - E para seu bem também.

            - Com certeza! Será bom para todos, ainda mais do que para mim. Posso viver sem as minas, eles não. Se as minas deixarem de funcionar, morrem de fome, e eu tenho outras formas de rendimento.

            Na encosta desceram o olhar pelo vale pouco profundo até à mina. Mais além as casas de Tevershall, com telhados de ardósia escura, pareciam trepar pelo outeiro, como um réptil. Os sinos da velha igreja castanha repicavam: domingo, domingo, domingo!

            - Mas deixá-lo-ão eles impor condições? - perguntou ela.

            - Terão de deixar... se uma pessoa arranjar as coisas pela calada.

            - Não devia existir um entendimento mútuo?

            - Com certeza, mas primeiro terão de perceber que a indústria é mais importante do que o indivíduo.

            - Mas para isso é necessário que seja o dono da indústria?

            - Não. Mas como sou, é realmente necessário. O direito de propriedade converteu-se numa questão religiosa, sempre o foi, desde Jesus e São Francisco. Mas já não se põe em termos de "pega o que tens e dá aos pobres", mas sim "usa tudo o que tens para desenvolver a indústria e dá trabalho aos pobres". É a única maneira de alimentar todas as bocas e vestir todos os corpos. Dar-se tudo o que se tem equivale à fome dos pobres e à nossa também. E a fome universal não é objetivo para ninguém. Até a fome geral é desagradável, é feia. E a desigualdade? Isso é o destino! Porque é que Júpiter é maior do que Netuno? Não pode começar a alterar a disposição das coisas.

            - Mas uma vez gerados, esta inveja, este ressentimento e descontentamento...

            - O que se tem de fazer é acabar com eles. Alguém tem de ser o mandão.

            - Mas quem é o chefe?

            - Os homens que possuem e dirigem a indústria.

            Ficaram ambos em silêncio.

            - Parece-me que não são bons chefes.

            - Então que sugere que eles façam?

            - Não levam muito a sério a sua posição de chefes.

            - Levam-na mais a sério do que você a sua dignidade de senhora.

            - Mas essa é-me imposta. Não a quero - disse ela, desastradamente.

            Ele parou a cadeira e olhou para ela.

            - Quem é que neste momento está a ignorar as responsabilidades? Quem é que está agora a fugir às responsabilidades da situação de chefe, como você diz? - perguntou Clifford.

            - Oh! Eu não pretendo ser chefe.

            - Mas isso é covardia. Tem de o ser, é o seu destino, tem de aceitar. Quem foi que deu aos mineiros tudo o que eles têm de bom na vida? A liberdade política, a educação, a higiene, as condições de saúde, os livros, a música, tudo? Quem lhes deu tudo isso? Foram os mineiros que ajudaram os próprios mineiros? Não! Todos os Wragby e os Shipley da Inglaterra contribuíram com uma parte, e têm de continuar a contribuir. Têm essa responsabilidade.

            Connie ouvia-o, vermelha.

            - Gostava de dar alguma coisa, mas não posso. Hoje em dia tudo é vendido e comprado, e todas as coisas que mencionou são vendidas ao povo, por Wragby e por Shipley, com bons lucros. Tudo é vendido. Você nem dá um pouco de simpatia autêntica. E, além do mais, quem roubou às pessoas a sua vida natural e a sua humanidade e lhes concedeu em troca este pesadelo industrial? Quem foi?

            - E o que quer que faça? - perguntou Clifford, pálido. Que lhes diga que me pilhem a casa?

            - Por que motivo é Tevershall tão feia, tão medonha? Porque é que a vida daquela gente é tão vazia?

            - Eles fizeram a sua própria aldeia, e isso faz parte da ostentação da sua liberdade. Eles próprios construíram a sua linda Tevershall e vivem razoavelmente. Eu não posso viver por eles. Cada inseto tem vida própria.

            - Mas fá-los trabalhar para si. A vida que eles vivem é a da mina de carvão.

            - De modo nenhum. Cada inseto procura o seu próprio alimento. Nenhum homem é obrigado a trabalhar para mim.

            - As vidas deles são industrializadas e vazias, como as nossas!- exclamou ela.

            - Não concordo. Isso é uma figura de retórica romântica, uma relíquia do romantismo em declínio. E você não tem nada o aspecto de uma figura de retórica, vazia, minha querida.

            Ele tinha razão. Porque os olhos azuis escuros de Connie dardejavam, tinha o rosto afogueado, parecia invadida por uma paixão rebelde distante do desespero. Ela ia atentando nas prímulas novas e penugentas ainda meio enroladas nos tufos de erva. E perguntava a si mesma, furiosa, porque, sabendo que Clifford não tinha razão, era incapaz de lhe dizer, e de lhe dizer exatamente onde ele não tinha razão.

            - Não admira que o odeiem - disse ela.

            - Mas é que não me odeiam - redarguiu Clifford. - Não se deixe enganar, no sentido que a palavra tem para si, eles não são homens. São animais que não compreendem nem poderão jamais compreender. Não force as suas ilusões nas outras pessoas, as massas sempre foram iguais e sempre o serão. Os escravos de Nero faziam muito pouca diferença dos nossos mineiros ou dos operários da Ford. Refiro-me aos escravos de Nero que trabalhavam nas minas e nos campos. Assim são as massas: elas são o inalterável. Um indivíduo pode emancipar-se das massas, mas uma emancipação não altera a massa, que é de si inalterável. Este é um dos pontos mais importantes da ciência social- Panem et circenses! Hoje a educação é um dos maus substitutos do circo. O mal é que fizemos profundos cortes no programa do circo e envenenamos as massas com um pouco de educação.

            Quando Clifford se exaltava, ao falar de pessoas comuns, Connie ficava assustada. As suas palavras continham uma verdade destruidora. Era uma verdade que matava.

            Vendo-a pálida e em silêncio, Clifford pôs o motor a trabalhar e não voltaram a trocar uma palavra até chegarem ao portão do parque, que ela abriu, e ele parou a cadeira de novo.

            - E do que nós precisamos agora é de chicotes e não de espadas. Desde sempre, e até ao fim dos tempos, as massas foram dirigidas e têm de o ser. Dizer que são capazes de se autodirigir é uma pura hipocrisia e uma farsa.

            - Mas você é capaz de as dirigir?

            - Eu? Com certeza! Nem o meu espírito nem a minha vontade estão estropiados, e não os domino com as pernas. Garanto-lhe que sou capaz de dirigir a parte que me compete. E dê-me um filho, que eu o treinarei para o mesmo fim.

            - Mas não seria seu filho, e poderia não pertencer à classe dirigente - murmurou ela.

            - Não me interessa quem possa ser o pai, desde que seja um homem saudável e com uma inteligência acima da média. Dê-me um filho de um homem saudável e com uma inteligência normal, e farei dele um Chatterley perfeitamente competente. O que interessa não é o homem que nos fez, mas sim a situação em que o destino nos põe. Ponha qualquer criança no meio da classe dirigente e ele crescerá para ser um chefe. Ponha filhos de reis e de duques entre a plebe e eles serão pequenos plebeus, produtos das massas. É o resultado da pressão esmagadora do meio.

            - Nesse caso, o povo não constitui uma raça e os aristocratas uma linhagem.

            - Não, minha filha. Tudo isso é uma ilusão romântica. A aristocracia é uma função, faz parte do destino. A plebe é uma função também, a outra parte do destino. O indivíduo pouca importância tem. É tudo uma questão de função que se tem de desempenhar e à qual é necessário adaptarmo-nos. Não são os indivíduos que fazem a aristocracia: é a atuação da aristocracia como um todo e é a atuação da massa como um todo que fazem o homem comum tal como é.

            - Não há portanto uma humanidade comum entre todos nós?!

            - Como entender. Todos nós precisamos encher a barriga. Mas, quando se trata de uma atuação expressiva ou executiva, há um abismo profundo entre as classes dirigentes e as classes baixas. As duas funções são opostas e a função determina o indivíduo.

            Connie fitava-o, estupefata.

            - Não quer continuar o seu passeio?

            Ele pôs a cadeira em movimento. Tinha acabado o seu discurso, e recaiu naquela apatia que lhe era peculiar e que Connie achava desesperadora. Uma vez dentro do bosque, ela resolveu silenciar os seus argumentos. A frente de ambos dilatava-se um caminho espaçoso destinado a passeios a cavalo, ladeado por avelaneiras e frescas árvores cinzentas. A cadeira ia avançando laboriosamente, abrindo lentamente passagem por entre os miosótis, que cresciam em profusão como espuma de leite, fora da sombra das avelaneiras. Clifford guiava pelo meio do caminho, onde os pés das pessoas tinham aberto um canal por entre as flores. Mas Connie, que seguia atrás, via as rodas esmagarem as aspérulas, as ervas-férreas e os calicezinhos dourados das lisimáquias, emergindo no meio dos miosótis. Via-se por ali toda a espécie de flores, as primeiras campainhas, todas em molhos azuis, assemelhavam-se a uma água parada.

            - Tem razão quando diz que isto é belo - disse Clifford. É de uma beleza surpreendente. Que haverá demais belo do que uma Primavera inglesa?

            Connie achou que ele falava como se até a Primavera surgisse por uma lei votada no Parlamento! Uma Primavera inglesa! Mas porque não irlandesa ou judia?

            A cadeira ia progredindo lentamente, esmagando as fortes campainhas, em molhos, que se erguiam como pés de trigo, e as folhas cinzentas das bardanas.     Quando chegaram à parte aberta do bosque, onde as árvores tinham sido abatidas, a luz inundava cruamente. Aí, as campainhas aglomeravam-se em manchas de um azul brilhante, que se fundia em lilás e em púrpura. E, no meio destas, os fetos alçavam as cabeças castanhas e enroladas, como legiões de jovens cobras que murmurassem ao ouvido de Eva um novo segredo.

            Clifford mantinha a cadeira sempre em movimento, até atingir o cimo do outeiro. Connie seguia-o a passo lento. Os rebentos dos carvalhos abriam-se, macios e castanhos. Tudo por ali renascia ternamente da antiga dureza. Até os carvalhos que, com toda a sua dureza e rugosidade, exibiam as novas folhas tenras, espalhando as suas pequenas asas finas e castanhas como jovens morcegos na claridade. Porque é que os homens não renasciam, porque não haveria neles uma nova frescura? Que homens velhos!

            Clifford parou a cadeira no cimo do outeiro. Baixou o olhar até às campainhas que pululavam na parte de cima da descida do caminho. Pela colina abaixo corriam as flores como um manto azul, que, de tão azul, parecia aquecer.

            - É de fato uma cor lindíssima - disse ele. - Mas muito ingrata em pintura.

            - É verdade - respondeu Connie, completamente desinteressada.

            - Acha que me aventure até à nascente? - perguntou Clifford.

            - A cadeira poderá voltar a subir?

            - Vamos tentar. Sem experimentar é que não se pode saber.

            E a cadeira começou lentamente a descer a longa colina, pelo largo e elegante caminho dos cavaleiros, passando por entre os jacintos azuis. Oh, último dos navios, deslizando por entre baixios de jacintos! Última nau sobre as águas selvagens, na última viagem da nossa civilização! Oh!, estranho navio de rodas, aonde te leva o teu lento rumo? Sereno e orgulhoso, como capitão ao leme da aventura, Clifford ia guiando a cadeira, com o seu velho chapéu preto e o seu casaco de tweed, imóvel e cheio de prudência. Oh, capitão, meu capitão, acabou a nossa maravilhosa viagem! Oh, ainda não! Descendo a encosta, na esteira do navio, vigilante, no seu vestido cinzento.

            Passaram pelo trilho que conduzia à cabana. Felizmente, era demasiado estreito para a cadeira, por ele só cabia uma pessoa. A cadeira desapareceu numa curva, já no fundo da colina. E Connie ouviu um pequeno assobio atrás dela. Olhou à volta. O guarda avançava na sua direção, seguido pela cadela.

            - Sir Clifford vai à cabana? - perguntou o guarda, olhando-a nos olhos.

            - Não, vai só à nascente.

            - Ainda bem. Assim eu desapareço. Mas vemo-nos esta noite. Espero por ti no portão do parque cerca das dez horas.

            Ele voltou a fitá-la nos olhos.

            - Está bem - respondeu Connie, um pouco hesitante. Ouviram a buzina de Clifford, a chamá-la, e respondeu-lhe com um grito. O guarda teve um esgar e afagou-lhe o peito. Ela olhou-o assustada, e começou a correr: ele ficou a vê-la, sorrindo, depois começou a descer o trilho.

            Connie foi dar com Clifford a subir em direção à nascente, pertinho do começo da colina no bosque sombrio de lariços. Ele já lá estava quando ela o encontrou.

            - Ela portou-se bem - comentou Clifford, referindo-se à cadeira.

            Connie olhava as grandes folhas de bardana cinzenta, conhecida pelo nome de ruiba-tbo de Robin Hood, amontoavam-se entre os lariços espectrais. Estava tudo tão silencioso e melancólico junto à nascente! A água borbulhava brilhante e bela. E havia pedaços de eufrásia e contas de vidro azuis. Sob o talude, a terra amarela movia-se. Uma toupeira ia escavando com as suas patas cor-de-rosa, a agitar o focinho, com o nariz levantado.

            - Parece que vê com a ponta do nariz - comentou ela.

            - Melhor do que com os olhos - respondeu Clifford. Não quer beber?

            - Você quer?

            Connie foi buscar uma caneca de esmalte que pendia da árvore e inclinou-se para a encher. Clifford bebeu em pequenos goles. Ela encheu-a de novo e bebeu um pouco.

            - Está gelada! - exclamou ela, retomando a respiração.

            - É boa, não é? Desejou alguma coisa?

            - E você?

            - Já, mas não digo.

            Connie ouviu o matraquear de um pica-pau, depois deu-se conta de que por entre os lariços se levantava vento, um vento brando, mas que causava arrepios. Ergueu o olhar e viu nuvens atravessando o céu azul.

            - Nuvens! - disse.

            - Carneirinhos brancos, simplesmente - respondeu Clifford.

            A sombra atravessou a pequena clareira. A toupeira alcançara a superfície, escavando a terra amarela e macia.

            - Que bichinho mais desagradável, devíamos matá-lo - comentou Clifford. Olhe, parece um padre no púlpito!

            Ela colheu umas aspérulas e deu-lhe .

            - Cheira a feno acabado de segar. Não acha que tem o aroma das senhoras românticas do século passado, que, apesar de tudo, sabiam muito bem o que faziam?

            Ela olhava para as nuvens brancas.

            - É capaz de vir aí chuva! - disse.

            - Chover? Porquê? Apetece-lhe que chova?

            Puseram-se a caminho de casa. Clifford guiava cautelosamente na descida. Chegados ao fundo do vale sombrio, cortaram à direita, e passada uma centena de jardas, subiram o longo outeiro, onde as campainhas se espraiavam na claridade.

            - Vamos a isto, rapariga! - exclamou Clifford, dirigindo-se à cadeira e ligando o motor.

            Era uma subida difícil e irregular. A cadeira pulou num estremeção frouxo e arrancou de má vontade, com sacudidelas. Mas chegou até aos jacintos, que à sua volta se espalhavam, e nesse momento deixou de funcionar, quis avançar, conseguiu, ainda que a custo, afastar-se das flores. Depois parou.

            - É melhor buzinar para chamar o guarda - disse Connie. Ele pode empurrá-la. Ou então empurro-a eu, talvez resulte.

            - Deixemo-la retomar o fôlego. Importa-se de travar a roda com uma pedra?

            Connie encontrou uma pedra, que colocou junto da roda e ficaram à espera. Esperou um bocado; depois, ligou novamente o motor. Tentou avançar, hesitou como um mecanismo escangalhado, emitindo estranhos ruídos.

            - Deixe-me empurrar - disse Connie, vindo para trás da cadeira.

            - Não, não empurre - respondeu ele irritado. - Se isto tem de ser empurrado, então não vale de nada. Volte a pôr a pedra!

            Nova paragem, novo arranque, mas os resultados foram ainda mais infelizes.

            - Tem de me deixar empurrar - disse Connie. - Ou então buzine para chamar o guarda.

            - Espere!

            Ela esperou. A cadeira entregou-se a novos esforços, porém mais nocivos do que úteis.

            - Buzine, ou deixe-me empurrar - insistiu Connie.

            - Diabo! Veja se se cala um bocadinho!

            Connie calou-se um momento. Clifford continuou a forçar violentamente o pequeno motor.

            - Acaba por dar cabo do motor, Clifford. E, além disso, está a enervar-se.

            - Se ao menos me pudesse levantar e ver isto por baixo - respondeu ele, furioso.

            E buzinou estridentemente.

            - Talvez Mellors possa ver qual é a avaria.

            E ficaram à espera, entre as flores esmagadas sob o céu suavemente coalhado de nuvens. No silêncio, um pombo bravo começou a arrulhar. Clifford fê-lo calar com um toque de buzina.

            O guarda apareceu, dando largas passadas, curioso, na curva do caminho. Cumprimentou-os.

            - Percebe alguma coisa de motores? - perguntou Clifford, rispidamente.

            - Não, avariou-se?

            - Parece que sim - respondeu Clifford, com brusquidão.

            O homem abaixou-se, solícito, junto à roda e olhou com atenção para o pequeno motor.

            - Acho que não percebo nada destas coisas mecânicas, Sir Clifford - disse, num tom de voz calmo. - Se não lhe falta gasolina ou óleo...

            - Veja com atenção, pode haver alguma coisa partida - insistiu Clifford, com mau modo.

            O homem encostou a espingarda a uma árvore, tirou o casaco e atirou-o para o chão. A cadela castanha ficou de guarda. Depois, apoiado nos calcanhares, espreitou por baixo da cadeira e com os dedos examinava o pequeno motor oleoso. Irritava-o pensar em alguma nódoa na sua camisa de domingo.

            - Não está nada partido, parece-me.

           Ele levantou-se, empurrou o chapéu para trás, coçou a sobrancelha como se estivesse a estudá-la.

            - Viu as bielas por baixo? - perguntou Clifford. - Veja se estão em bom estado.

            Deitou-se de ventre para baixo, com o pescoço levantado, apalpou o motor. Connie pensava como um homem era uma coisa patética, fraca e pequena, quando deitado sobre a grande terra-mãe.

            - Tanto quanto vejo, está tudo bem - disse o guarda numa voz apagada.

            - Não me parece que você possa fazer alguma coisa - disse Clifford.

            - Também me parece que não - disse, levantando o corpo, até ficar novamente de calcanhares no chão, à maneira dos mineiros. - Não está nada partido, pelo menos à vista.

            Clifford pôs de novo o motor a trabalhar e desembraiou. A cadeira não se moveu.

            - Acelere um bocadinho mais - sugeriu o guarda.

            Clifford não gostou da interferência. Obrigou o motor a zumbir como uma mosca varejeira. Novo frouxo de tosse, rosnou. O motor parecia ter pegado.

            - Dá a impressão que pegou - disse Mellors.

            Clifford desembraiou. A cadeira deu um esticão e avançou molemente.

            - E se eu lhe desse um empurrão? - propôs o guarda, indo postar-se atrás da cadeira.

            - Afaste-se! - gritou Clifford. - Ela tem de desenvolver.

            - Mas, Clifford, sabe muito bem que está a forçar o motor. Porque é tão obstinado?

            Clifford estava pálido de raiva. Começou a fazer manobra com a alavanca. A cadeira teve uma espécie de arranque súbito, avançou uns metros e estacou no meio de uma mancha excepcionalmente bela de campainhas.

            - Não vai lá! Não tem força suficiente.

            - Já não é a primeira vez que o faz - respondeu Clifford, friamente.

            - Desta vez não vai lá - disse o guarda.

            Clifford não respondeu. Insistia com o motor, acelerava e abrandava como se estivesse a compor uma melodia. O bosque respondia em eco àqueles ruídos estranhos. Depois desembraiou bruscamente e largou o travão.

            - Assim, rebenta com ela - murmurou o guarda.

            Mas a cadeira avançou com uma guinada louca para a vala.

            - Clifford! - gritou Connie, precipitando-se para o marido.

            Mas o guarda já segurava a cadeira pela barra de apoio. No entanto, Clifford, aumentando a velocidade, conseguiu metê-la pelo caminho e, com um ruído singular, a cadeira começou a subir o outeiro. O guarda ia empurrando por trás, com firmeza, e a cadeira lá se ia arrastando como para se reabilitar.

            - Vê que ela lá vai? - comentou Clifford triunfante, olhando para trás. Foi então que viu o rosto de Mellors. - Está a empurrar?

            - Pois se ela não andava!

            - Largue-a! Não lhe pedi nada...

            - Ela sozinha não vai lá!

            - Deixe-a experimentar! - gritou Clifford, com ênfase.

            O guarda afastou-se na intenção de ir buscar o casaco e a espingarda. A cadeira pareceu ter um colapso e parou. Clifford sentia-se como um prisioneiro. Ficou branco de raiva. Acionava a alavanca com a mão, os pés não lhe serviam para nada. Ela emitiu uns sons esquisitos. Com uma impaciência selvagem ia acionando pequenos manípulos, e ela soltava ruídos, mas, como não se movia, acabou por desligar o motor.

            Connie continuava sentada no talude, a contemplar as campainhas destruídas e esmagadas. "Não há nada mais belo do que a Primavera inglesa." "Sou capaz de desempenhar as minhas funções de chefe." "Precisamos mais de chicotes do que espadas." "As classes dirigentes!"

            O guarda começou a subir a passos largos, já munido do casaco e da espingarda, Flossie seguia, cautelosamente, atrás dele. Clifford pediu então a Mellors que examinasse o motor. Connie, que não percebia nada da técnica dos motores e não tinha experiência de avarias, continuava placidamente sentada no talude, como se não existisse. Ele deitara-se de bruços. As classes dirigentes e as classes servidoras!

            Mellors levantou-se e disse com paciência:

            - Experimente outra vez - com voz calma como se se dirigisse uma criança.

            Clifford experimentou e ele foi para trás para a empurrar. A cadeira avançava, o motor fazia metade do trabalho e o homem o resto.

            Clifford voltou-se, amarelo de raiva.

            - Saia já daí!

            Mellors afastou-se rapidamente para a banda, enquanto Clifford acrescentava:

            - Como é que hei de saber se ela está a funcionar?

            O guarda pousou a espingarda e começou a vestir o casaco. Desligara-se do assunto.

            A cadeira começou a recuar lentamente.

            - Clifford, olha que a cadeira não está travada! - gritou Connie.

            Ela e Mellors conseguiram agarrar a cadeira, fazendo-a parar. Durante um momento pairou um profundo silêncio.

            - É evidente que me encontro à mercê de qualquer pessoa! exclamou Clifford, que estava amarelo de raiva.

            Ninguém respondeu. Mellors estava a pôr a espingarda a tiracolo, o seu rosto tinha uma expressão estranha e impassível; só uma paciência abstrata a caracterizava. A cadela Flossie, vigilante, quase entre as pernas do dono, terrivelmente perplexa, fitava a cadeira com um olhar carregado de desconfiança e hostilidade entre aquelas três criaturas humanas. O tableau vivant (1) continuava imóvel entre as campainhas esmagadas. Ninguém proferiu uma palavra.

 

            [1. "Quando vivo." (N. da T)]

            - Creio que será necessário empurrar - disse Clifford, por fim, com uma afetação de sangfroid. (2)

            [2. "Sangue-frio." (N. de T)]

 

            Ninguém respondeu. Mellors, distante, parecia não ter ouvido. Connie fitou-o ansiosamente. Clifford também, à volta.

            - Importa-se de me empurrar a cadeira até a casa, Mellors? - num tom de superioridade. - Acho que não disse nada que o possa ter ofendido - acrescentou indiferente.

            - Não tem importância, Sir Clifford! Quer que lhe empurre a cadeira?

            - Se não se importa.

            O homem aproximou-se, mas não conseguiu nada, porque o travão tinha encravado. Empurraram-na, puxaram por ela e mais uma vez o guarda pousou a espingarda e despiu o casaco. Mas Clifford remetera-se completamente ao silêncio. Por fim, Mellors conseguiu, à força de pulso, levantar a parte de trás da cadeira, e, com um súbito empurrão de pés, tentou libertar as rodas. Não conseguiu, a cadeira caiu. Clifford agarrava-se aos lados da cadeira. O homem estava ofegante com o peso.

            - Não faça isso! - gritou Connie.

            - Se pudesse empurrar a roda para este lado, assim! - respondeu ele, mostrando-lhe como ela havia de fazer.

            - Não, não pode levantar a cadeira. Dá cabo de si - insistiu Connie, vermelha de fúria.

            Ele fitou-a nos olhos e fez-lhe um sinal com a cabeça. Ela fez o que ele dizia. Ele levantou-a e ela puxou com força, a cadeira vacilou.

            - Pelo amor de Deus! - exclamou Clifford, assustadíssimo.

            Mas estava tudo bem, Mellors tinha conseguido soltar o travão. Pôs uma pedra debaixo da roda e foi sentar-se no talude. O coração batia com muita força, a cara estava branca do esforço, quase inconsciente.

            Connie olhou para ele e quase gritou de raiva. Os três mantinham-se em silêncio, um silêncio sepulcral. Connie viu as mãos dele tremerem sobre as coxas.

            - Está ferido? - perguntou ela, dirigindo-se para ele.

            - Não, não! - Ele voltou-se, irritado. Novamente fez-se um silêncio de morte. A cabeça loura de Clifford não se movia. Até a cadela estava imóvel. O céu cobria-se de nuvens.

            Por fim, Mellors soltou um suspiro e assoou-se a um lenço vermelho.

            - A pneumonia deu cabo de mim.

            Ninguém respondeu. Connie calculava o esforço que ele devia fazer para levantar a cadeira e o volumoso Clifford. Devia ter sido um esforço enorme, com certeza. Oxalá não viesse a fazer-lhe mal. Ele levantou-se, apanhou o casaco e pendurou-o na barra de apoio da cadeira.

            - Está a postos, Sir Clifford?

            - Quando você quiser!

            Com o pé, Mellors afastou a pedra e aplicou o peso do corpo à cadeira. Estava bastante pálido; Connie jamais o vira tão falho de cor, nem tão ausente. Clifford era um homem pesado e a subida muito inclinada. Connie pôs-se ao lado do guarda.

            - Também quero empurrar! - disse.

            E começou a impeli-la com toda a sua turbulenta energia de mulher enfurecida. A cadeira começou a andar mais depressa. Clifford voltou-se.

            - É necessária a sua ajuda?

            - Muito necessária. Quer matar o homem? Se tivesse deixado o motor trabalhar enquanto podia!

            Mas não continuou. Estava a perder as forças. Abrandou um pouco, era muito cansativo.

            - Mais devagar! - aconselhou o guarda, com um tênue sorriso nos olhos.

            - Tem certeza de que não está machucado? - perguntou ela, ferozmente.

            Ele abanou a cabeça. Ela olhava para as mãos dele, pequenas, curtas, vivas, bronzeadas pelo tempo. Eram aquelas mãos que a acariciavam, e ela nunca tinha olhado para elas. Pareciam tão calmas como ele, dotadas de uma tranqüilidade interior que levava Connie a querer tocar-lhes, como se fossem inacessíveis. E sentiu-se de repente empurrada para ele. Ele estava tão calado e fora de alcance! Mellors sentiu uma nova força nas pernas. Continuou a empurrar a cadeira com a mão esquerda e com a direita envolveu o pulso de Connie, aquele pulso branco e suave, numa carícia. E sentiu uma chama de força nas costas e nos rins, reanimando-o. Ela de repente inclinou-se e beijou-lhe a mão. E a cabeça de Clifford continuava hirta e imóvel à frente deles.

            No cimo do outeiro pararam para descansar. Connie sentiu-se aliviada por largar a cadeira, tinha vagamente sonhado com uma amizade entre os dois homens, o seu marido e o pai do seu filho. Agora via o absurdo do seu sonho. Os dois machos eram tão hostis como o fogo e a água, eliminavam-se mutuamente. E, pela primeira vez, tinha consciência disso, e, deliberadamente, sentiu ódio por Clifford, um ódio real, como se ele devesse ser eliminado da face da terra. É, coisa estranha, odiá-lo assim e aceitar o seu ódio, dava-lhe uma sensação de liberdade e de plenitude. "Agora que o odeio, não sou capaz de viver com ele", era um pensamento que lhe ocupava o espírito.

            Acabada a subida, o guarda podia empurrar a cadeira sozinho.                                                  

            Clifford meteu conversa com ela, para lhe mostrar que estava completamente calmo: sobre a tia Eva que, nessa altura, se encontrava em Dieppe, e de Sir Malcolm, que escrevera a perguntar se Connie quereria ir dar um passeio com ele a Veneza, no seu pequeno carro, ou se iria de comboio com Hilda.

            - Preferia ir de comboio - disse Connie. - Não gosto de viagens longas de automóvel, principalmente quando há pó. Mas tenho de ver o que Hilda prefere.

            - Há de querer guiar o carro dela e levá-la com ela.

            - Possivelmente. Aqui tenho de ajudar. Não imagina como esta cadeira é pesada.

            Voltou para trás da cadeira e ao lado do guarda ajudou a empurrá-la, subiram o caminho cor-de-rosa, sem se importar com quem visse.

            - Podia ficar aqui à espera do Field. Ele tem força suficiente para empurrar a cadeira sozinho. - disse Clifford.

            - É já tão perto! - disse ela ofegante.

            Mas quando chegaram ao cimo, tanto ela como Mellors tinham o suor a escorrer-lhes pela cara. Era curioso aquele pequeno trabalho em comum tinha-os aproximado mais do que nunca.

            - Muitíssimo obrigado, Mellors - disse Clifford, quando chegaram à porta. - Tenho de arranjar um motor diferente, não há dúvida. Vá até à cozinha comer qualquer coisa. Já devem ser horas.

            - Não, obrigado, Sir Clifford. Hoje é domingo, vou jantar com a minha mãe.

            - Como preferir.

            Mellors vestiu o casaco, olhou para Connie, cumprimentou e foi-se embora.       Connie foi para o quarto, furiosa.

            Ao almoço não foi capaz de se conter por mais tempo.

            - Porque é que tem tão pouca consideração pelas pessoas, Clifford? É inacreditável!

            - Por quem?

            - Pelo guarda. Se é essa a conduta das classes dirigentes, tenho pena de si.

            - Porquê?

            - Um homem que esteve doente, que não é forte! Palavra de honra, se eu pertencesse à classe dos criados, garanto-lhe que o fazia esperar pelos meus serviços.

            - Acredito.

            - Se ele estivesse na cadeira paralítico das pernas e se se comportasse como você, que lhe faria?

            - Minha querida evangelista, essa sua confusão de pessoas e ações é de muito mau gosto. Noblesse oblige! (1) Você e as suas classes dirigentes!

 

            [1. Em francês no original. (N. da T)]

 

            - É a sua falta da mais elementar simpatia, tão mesquinha e o estéril, é ainda de pior gosto.

            - Que é que eu deveria fazer? Ter uma série de emoções desnecessárias em relação ao meu couteiro? Recuso-me. Deixo isso à minha evangelista.

            - Como se ele não fosse um homem igual a si, meu Deus!

            - É o meu couteiro, pago-lhe duas libras por semana e dou-lhe uma casa.

            - Paga! Que é que julga que lhe paga com duas libras por semana e uma casa?

            - Os serviços que ele me presta.

            - Bah! Se fosse comigo, dizia-lhe para guardar as suas duas libras e a casa.

            - Provavelmente seria o que ele gostaria de fazer, mas não se pode dar a esse luxo.

            - Você e o poder! Você não domina, não se iluda. Você simplesmente tem mais dinheiro do que os outros, e fá-los trabalhar para si por duas libras por semana, sob pena de morrerem de fome. Poder! E como é que podia ser patrão? Está ressequido por dentro, e tudo o que faz é aproveitar-se dos outros, graças ao seu dinheiro, como um judeu qualquer!

            - Exprime-se de uma forma muito elegante, Lady Chatterley!

            - Garanto-lhe que hoje no bosque também foi muito elegante. Estava profundamente envergonhada por sua causa. O meu pai é dez vezes mais um ser humano do que você: seu cavalheiro!

            Clifford pegou na campainha e tocou para chamar a senhora Bolton.

            Estava amarelo de cólera. Connie subiu para o quarto, furiosa, dizendo para si própria: "Ele e a sua mania de comprar as pessoas. A mim não me compra e não vejo nenhuma razão para viver com ele. Cavalheiro disfarçado com alma de celulóide. E as suas belas maneiras, o seu desejo simulado e a sua origem nobre enganam bem! Há tanto sentimento neles como no celulóide".

            Estabeleceu os seus planos noturnos e resolveu não pensar mais em Clifford. Não queria odiá-lo, mas não queria de forma nenhuma ter qualquer espécie de ligação com ele com nenhum tipo de sentimentos. Queria que ele não percebesse nada do que ela sentia, sobretudo do que ela sentia pelo guarda. A discussão sobre a sua atitude em relação aos criados já era antiga. Ele tinha-a achado sempre demasiado afável, e ela achava-o estupidamente insensível e duro em relação às pessoas.

            Voltou a descer tranqüilamente, com a mesma gravidade de porte, à hora do jantar. Clifford continuava lívido, com uma daquelas crises que o punham muito estranho. Estava a ler num livro francês.

            - Alguma vez leu Proust?

            - Tentei, mas aborreci-me.

            - Acho-o realmente extraordinário.

            - É possível, mas maça-me; toda essa sofisticação! Não tem sentimentos, apenas palavras sobre os sentimentos. Estou cansada de mentalidades que se consideram importantes.

            - Prefere antes animalidades que se intitulam importantes

            - Talvez! Mas é possível encontrar algo que não se auto-admire?

            - Gosto da sutileza de Proust e da sua anarquia bem-educada.

            - Isso rouba-lhe a vida!

            - Está outra vez a minha angélica esposa a falar!

            Recomeçavam as eternas discussões. Ela não conseguia deixar de o guerrear. Ele parecia um esqueleto emitindo uma vontade de esqueleto, fria e cinzenta. A tal ponto que ela quase sentia o esqueleto a agarrá-la e a apertá-la contra as costelas. Mas o esqueleto também estava sempre revoltado e ela tinha um certo medo dele.

            Foi para cima logo que pôde e deitou-se cedo. Às nove e meia levantou-se e saiu, pondo-se à escuta. Não havia o menor ruído. Vestiu um roupão e desceu. Clifford e a senhora Bolton jogavam, fazendo apostas. Provavelmente continuariam até à meia-noite.

           Connie voltou ao quarto. Despiu o pijama e atirou-o para cima do leito, vestiu uma camisa de noite, fina, e um vestido de lã por cima. Calçou uns sapatos de tênis e pôs um casaco pequeno. Estava pronta. Se encontrasse alguém, diria que ia sair por alguns momentos. E de manhã, quando entrasse, teria ido dar um passeio ao relento, o que acontecia muitas vezes antes do pequeno-almoço. O único perigo era se alguém fosse ao seu quarto durante a noite. Mas era pouco provável. Não havia nenhuma possibilidade de isso vir a acontecer.

            Betts não tinha ainda fechado as portas à chave, só a trancava às dez horas e abria de novo às sete horas da manhã. Ela esgueirou-se silenciosamente e sem ser vista. A meia-lua brilhava no céu, iluminava o mundo, mas não o suficiente para a tornar visível no seu casaco cinzento escuro. Atravessou rapidamente o parque, não muito excitada com o encontro mas com o coração a arder de raiva e de revolta. Não era o estado de espírito ideal para um encontro amoroso. Mas à la guerra comme à la guerre! (1)

 

            [1. "Em tempo de guerra não se limpam armas." (N. da T)]

 

            Ao aproximar-se da porta do parque, ouviu que o couteiro a abria. Lá estava ele na escuridão do bosque, tinha-a visto.

            - Vieste cedo - disse ele no escuro. - Correu tudo bem?

            - Muito bem. Ele fechou o portão suavemente, depois de ela ter passado. A lua, ainda baixa, iluminava um pequeno círculo no chão, coberto de flores claras e ainda abertas àquela hora da noite. Caminhavam afastados um do outro, em silêncio.

            - Tens certeza de que não te machucaste esta manhã a empurrar a cadeira? - perguntou Connie.

            - Não, não!

            - Essa pneumonia, que conseqüências teve?

            - Nenhuma. Fiquei com o coração mais fraco e os pulmões menos elásticos. É normal.

            - Então não devias fazer esforços físicos violentos?

            - Não muitas vezes.

            Ela continuou a andar, em silêncio, mas irritada.

            - Odeias Sir Clifford? - perguntou ela, por fim.

            - Ódio? Não. Encontrei muitos homens como ele na minha vida, para o poder odiar. Sei que não gosto desse tipo de pessoas, e é tudo.

            - De que tipo é ele?

            - Sabes melhor do que eu. Os homens bastante novos, bem instalados na vida, um pouco efeminados, sem tomates.

            - Sem o quê?

            - Tomates! Tomates de homem!

            Ela ficou a pensar nas palavras dele.

            - Achas que o problema vem daí? - perguntou ela, um pouco irritada.

            - Diz-se que um homem não tem cabeça quando é estúpido; que não tem coração quando é mau; que não tem estômago quando é covarde. E quando não tem aquela virilidade selvagem, diz-se que não tem tomates. Quando está como que domesticado.

            Ela ficou de novo a pensar.

            - E Clifford está domesticado?

            - Está, e é desagradável por isso mesmo, como todos esses, quando alguém os contraria.

            - E tu achas que não estás domesticado?

            - Não completamente.

            Connie, à distância, viu uma luz amarela. Parou.

            - Deixaste a luz acesa?

            - Deixo sempre a casa iluminada.

            Ela continuou a andar ao lado dele, mas sem lhe tocar, e perguntando a si própria por que o acompanhava.

            Ele abriu a porta, que tornou a fechar à chave, depois dela entrar. "Como se fosse uma prisão", pensou ela. Na lareira, onde o lume ardia com fulgores vermelhos, assobiava a chaleira, estavam chávenas em cima da mesa.

            Sentou-se na cadeira de braços junto ao fogo. Estava calor depois do frio da noite, ao ar livre.

            - Vou tirar os sapatos, estão encharcados - disse ela.

            Pousou os pés, ainda com meias, no guarda-fogo de aço reluzente. Ele foi à despensa buscar comida: pão, manteiga e língua em conserva. Connie já estava com calor, e despiu o casaco, que ele pendurou na porta.

            - Queres beber cacau, ou chá ou café? - perguntou ele.

            - Não me apetece nada - respondeu ela, olhando para a mesa. - Mas come tu!

            - Não, não quero. Vou só dar de comer à cadela.

            Caminhava sobre o soalho de tijolo, calmamente, como era habitual, e pôs comida para a cadela numa tigela castanha. A spaniel olhou para ele, ansiosa.

            - Esta é a tua cela, e vê lá se não a comes!

            Colocou a tigela sobre um capacho ao fundo das escadas e sentou-se numa cadeira encostada à parede para tirar as polainas e as botas. A cadela, em vez de comer, aproximou-se dele, e ficou a olhá-lo, inquieta.

            Ele começou a desatar as polainas lentamente e a cadela aproximou-se mais.

            - Que é que tens? Estás preocupada por ver gente? É uma mulher. Vai comer a tua ceia!

            Pousou-lhe a mão na cabeça e a cadela encostou o focinho a ele. Ele puxou-lhe vagarosamente a orelha sedosa.

            - Pronto, agora vais comer a tua ceia! Vai!

            Empinou a cadeira para a tigela, que estava no capacho, a cadela avançou docilmente e começou a comer.

            - Gostas de cães? - perguntou Connie.

            - Não, no fundo não. São demasiado domesticados, demasiado meigos.

            Tinha tirado as polainas e descalçava as botas. Connie tinha-se afastado da lareira. Era tão vazio aquele pequeno compartimento! Na parede, acima da cabeça dele, pendia uma fotografia, enorme e horrenda, de um jovem casal, ele e uma mulher de rosto bem marcado, com certeza a mulher.

            - És tu? - perguntou-lhe Connie.

            Ele virou-se e fitou a moldura na parede.

            - Sou, foi tirada antes de casarmos, quando tinha vinte e um anos.

            Olhava, impassível, a fotografia.

            - Gostas dela?

            - Se gosto? Não! Nunca gostei dessas coisas. Mas ela tinha organizado tudo.

            E continuou a descalçar as botas.

            - Se não gostas, porque é que a tens pendurada? Talvez a tua mulher gostasse de a possuir.

            Ele olhou para ela ironicamente.

            - Ela levou de casa tudo o que podia ter valor. Mas isso deixou.

            - Então porque é que a guardas? Por razões sentimentais?

            - Não! Nunca olho para ela, já nem me lembrava que aí estava. Tem estado sempre aí desde que viemos para aqui.

            - Porque não a queimas?

            Ele virou-se de novo, olhou para a fotografia emoldurada em castanho e dourado, muito feia. Representava um rapaz, sem barba, muito jovem, com um colarinho alto, e uma mulher um tanto média e forte, também nova, com o cabelo em anéis e uma blusa preta, de cetim.

            - Não seria má idéia, pois não?

            Já tinha descalçado as botas e enfiado uns chinelos nos pés. Subiu para a cadeira e tirou o retrato. No lugar ficou uma grande mancha no papel de parede, esverdeado.

            - Nem vale a pena limpar o pó - comentou ele, encostando-o à parede.

            Foi à copa e voltou com um martelo e um alicate. Sentou-se na mesma cadeira e começou a arrancar o papel que protegia as costas do retrato da enorme moldura e a tirar os pregos que seguravam o cartão, onde fora montada a fotografia, absorto no seu trabalho, como sempre.

            Pouco depois os pregos estavam todos arrancados, tirou o cartão e, depois, a fotografia emoldurada em branco. Ficou a olhá-la com ar de troça.

            - Mostra bem o que nós éramos. Eu um jovem coadjutor e ela uma megera. Um pedante e uma megera!

            - Deixa ver - disse Connie.

            Realmente, ele tinha o ar muito bem barbeado e muito limpo de um jovem de há vinte anos. Até na fotografia se notavam os seus olhos vivos e audazes. A mulher não exatamente uma megera, apesar do queixo proeminente. Tinha qualquer coisa de atraente.

            - Nunca se devem conservar estas coisas - disse Connie.

            - Nunca! Acima de tudo não se deviam ter feito.

            Colocou o quadro em cima dos joelhos e foi-o rasgando e, quando já estava reduzido a bocados, lançou-os ao fogo.

            - Até estraga o fogo - comentou.

            O vidro e o cartão levou-os cuidadosamente para o andar de cima, e, com o martelo, dando algumas pancadas, reduziu a moldura a bocados que fizeram voar em fragmentos a cercadura moldada em gesso. Depois levou o que restava dela para a copa.

            - O resto queima-se amanhã, tem muito gesso.

            Sentou-se, depois de ter limpo tudo.

            - Amaste a tua mulher? - perguntou Connie.

            - Amar? Amaste Sir Clifford?

            Mas ela não estava disposta a desviar a conversa.

            - Mas gostaste dela? - insistiu ela.

            - Eu? Gostar dela? - resmungou ele.

            - E continuas a gostar?

            - Eu? - Os olhos abriram-se ainda mais. - Não, não consigo pensar nela - respondeu tranqüilamente.

            - Porquê?

            Ele abanou a cabeça.

            - Então porque é que não te divorcias? Ela um dia pode querer voltar para ti.

            Ele olhou-a atentamente.

            - Não é capaz de se aproximar de mim sequer. Tem-me mais ódio do que eu a ela.

            - Vais ver que ela volta para ti.

            - Ela nunca fará isso. Acabou! Eu ficaria doente só de a ver.

            - Acabarás por vê-la. Não estão legalmente separados, pois não?

            - Não.

            - Então verás: ela volta e tens de a receber.

            Ele fitou-a pasmado. Depois abanou a cabeça.

            - És capaz de ter razão. Fui um estúpido em ter voltado para aqui, mas sentia-me perdido, tinha de ir para algum lado. Um homem, às vezes, sente-se como uma criança abandonada, não há nada mais triste do que um vagabundo. Mas tens razão, tenho de me divorciar e livrar-me dela. Tenho um ódio de morte aos funcionários, aos tribunais e aos juízes, mas não tenho outra saída. Vou-me divorciar.

            Disse isto com os maxilares cerrados, e Connie, interiormente, exultou.

            - Acho que vou beber uma chávena de chá - disse ela.

            Ele levantou-se para o preparar. O seu rosto estava imóvel. Quando se sentaram à mesa, ela perguntou:

            - Que te levou a casar com ela? Era inferior a ti, contou-me a senhora Bolton, que também me disse que nunca tinha percebido porque te tinhas casado com ela.

            Ele olhou fixamente para ela.

            - Vou-te contar - disse, finalmente. - Conheci pela primeira vez uma rapariga aos dezesseis anos. Era filha do professor de Ollerton, bonita, linda mesmo. Tinha fama de esperto no colégio de Sheffield, tinha aprendido um pouco de francês e alemão e estava convencido da minha superioridade. Ela era o tipo de mulher romântica que odeia a vulgaridade. Orientou-me para a poesia e para a leitura, de certo modo fez de mim um homem. Eu lia e pensava como uma casa a arder, por causa dela. Estava empregado num escritório em Butterley, era magro, pálido e entusiasmava-me com tudo o que lia. Discutíamos sobre todas as coisas um com o outro, tão depressa estávamos em Persépolis como em Tombuctu, e éramos o par com maior cultura dos dez condados. Tinha uma paixão por ela, positivamente uma paixão, sentia-me nas nuvens. E ela adorava-me. Mas havia uma serpente na relva: o sexo. Pode dizer-se que a ela o sexo não interessava, nos moldes em que interessa às outras pessoas. Emagrecia e andava louco. Então disse-lhe que tínhamos de ser amantes. Acabei por convencê-la, como sempre. Ela finalmente concordou. Fiquei entusiasmado, mas ela nunca quis, não sentia necessidade. Adorava-me, adorava conversar comigo, e que eu a beijasse; nessa medida tinha também uma paixão por mim. Mas eu queria exatamente de outra maneira, e essa não lhe interessava. Há muitas mulheres como ela. Acabamos por nos separar, fui cruel e abandonei-a. Depois, passei a andar com outra rapariga, uma professora, que tinha dado um grande escândalo com um homem casado e que quase o fez enlouquecer. Era uma mulher afável, de pele clara, mais velha do que eu, e tocava rabeca. Mas era um verdadeiro demônio. Gostava de tudo no amor, exceto de sexo. Insinuante, meiga, seduzia de todas as maneiras. Mas quando queria fazer amor com ela, arreganhava os dentes e exalava ódio. Acabei por obrigá-la, e ela odiou-me por isso. Senti-me mais uma vez frustrado. Passei a detestar tudo aquilo. Queria uma mulher que me quisesse e quisesse o que eu pretendia.

            "Então conheci a Bertha Coutts. Vivia perto da minha casa, quando eu era rapaz, e conhecia bem a família. Era uma gente ordinária. A Bertha tinha ido para Birmingham ou não sei para onde, dizia ela como dama de companhia, mas toda a gente afirmava que tinha ido como criada num hotel. Tinha eu vinte e um anos e estava farto da outra rapariga, a Bertha regressava a casa vestida estravagantemente, pavoneando-se, com um certo brilho sensual, que tanto pode existir numa mulher como num elétrico. Bem, eu estava capaz de quebrar tudo. Abandonei o trabalho em Butterley, porque achava que era indigno de mim, e fiquei mestre-ferrador em Tevershall. Ferrava cavalos, sobretudo isso, como o meu pai, e o trabalho de que eu mais gostava era sem dúvida lidar com cavalos, era-me fácil. Deixei de falar "fino" como eles dizem do inglês correto, e passei para o dialeto. Em casa continuava a ler, mas ferrava cavalos e tinha um carro puxado por um pônei. O meu pai deixou-me trezentas libras quando morreu, e juntei-me com Bertha, de quem gostava por ser igual a toda a gente. Eu também queria ser igual a toda a gente, e casamo-nos, demo-nos bem. As outras mulheres "puras" quase tinham dado cabo de mim, mas ela não. Queria-me mesmo, não hesitava. E sentia-me feliz da vida, era o que eu queria: uma mulher que queria que eu a possuísse, eu possuía-a o mais que podia. E creio que ela tinha um certo desprezo por mim, por eu ter tanto prazer, e por lhe trazer às vezes o pequeno-almoço à cama. Ela não se importava com coisa nenhuma, quando chegava do trabalho não me arranjava um jantar decente, e se dissesse alguma coisa caía-me em cima. Depois discutia ainda mais. Ela atirava-me com uma chávena e eu agarrava-a pelo pescoço e quase a estrangulava. Um horror! Passou a ser insolente para mim e a repudiar-me sempre quando eu a queria. Sempre! E depois de me repudiar, quando eu já não a queria, vinha com falinhas mansas e eu cedia. Sempre me conseguiu levar. Mas quando fazíamos amor nunca se realizava ao mesmo tempo que eu. Nunca! Ficava à espera, e, se eu me contivesse durante meia hora, ela continha-se mais tempo ainda. Quando eu acabava, então começava ela, e eu tinha de ficar dentro dela até ela se realizar. Gritava e agitava-se e fazia muita força, muita força, e finalmente, realizava-se e ficava em êxtase. E dizia "foi bom!". Pouco a pouco tudo aquilo me começou a meter nojo, e ela cada vez a ficar pior. Realizava-se sempre mais dificilmente e rasgava-me como se tivesse um bico de pássaro. Meu Deus, diz-se que uma mulher é macia embaixo, como um figo, mas garanto-lhe que as mulheres têm um bico entre as pernas e rasgam um homem até ficar doente. Eu, eu, e mais eu, só pensam nelas. Sempre o eu que rasga e que grita. E ainda falam do egoísmo dos homens! Às vezes penso no quanto nos pode afetar a dureza cega da mulher quando chega àquele ponto. Como uma meretriz! Mas ela era assim; chegamos a falar nisso, eu disse-lhe que detestava, e ela nem sequer fez um esforço. O único esforço de que era capaz consistia em ficar quieta e deixar-me ser eu a fazer tudo. Mas não resultou e ela não tinha nenhum prazer. Tinha de ser ativa, de moer o seu próprio café, e isso para ela era como uma necessidade louca, tinha de ir até ao fim, e rasgar, dilacerar, como tivesse sensibilidade na ponta daquele bico, daquele bico que roçava e rasgava. Os homens costumavam dizer que as antigas prostitutas eram assim. Era uma obstinação abjecta, uma obstinação abjecta e devastadora, como a de uma mulher que bebe. Por fim, já não aguentava mais, passamos a dormir separados. Foi ela própria que começou por querer, uma vez disse que eu mandava nela e queria ver-se livre de mim. Ela ficou então com um quarto para si, mas chegou o dia em que eu já não a deixava entrar no meu. De modo algum!

            "Eu detestava aquilo. E ela odiava-me. Meu Deus, como ela me odiava antes de a criança nascer! Penso depois de ela nascer, aquela criança foi concebida por ódio. Depois de ela nascer, abandonei-a. Depois veio a guerra e eu alistei-me, e só voltei para aqui quando soube que ela vivia com o tal homem de Stacks Gate."

            Parou de falar. Estava pálido.

            - E que gênero é o homem de Stacks Gate? - perguntou Connie.

            - É um bebê em ponto grande, muito ordinário. Ela arrelia-o e bebem os dois.

            - Meu Deus, se ela volta!

            - É verdade! Ia-me embora, desaparecia outra vez.   

            Ficaram os dois calados. O cartão queimado tinha ficado reduzido a cinza.

           - Quando encontrou uma mulher que o quisesse - disse Connie -, fartou-se dela bastante depressa.

           - É verdade. No entanto gostei mais dela do que das outras. A do amor branco da minha juventude, do lírio que exalava o veneno, e das outras.

            - Quais outras?

            - As outras? Não houve outras. Aprendi por experiência que a maioria das mulheres são assim: a maior parte delas querem um homem, mas não querem o sexo, suportam-no, como uma conseqüência necessária. As mais antiquadas deixam-se simplesmente possuir, e não fazem nada. Aquilo não lhes interessa e são capazes de gostar do homem. O amor não significa nada para elas, é uma coisa um pouco desagradável. E há muitos homens que gostam assim, mas eu odeio. E há mulheres que são dissimuladas, que fingem ser outra coisa. Então fazem-se apaixonadas e inventam emoções, mas é tudo uma aldrabice, tudo forjado.

            "Depois há as mulheres que gostam de tudo, todo o tipo de sensações e carícias, exceto do que é natural. Obrigam o homem a realizar-se fora da cópula normal, e ele cede. Depois há o tipo pior de todas, a mulher com quem o homem é difícil realizar-se, mas realizam-se elas sozinhas, como a minha mulher. São as que têm de ser ativas. E ainda aquelas que estão mortas por dentro, que estão mortas e sabem-no. E também as que obrigam o homem a terminar antes de ter prazer, e que continuam a contorcer os rins até que conseguem realizar através do contato com as coxas do homem. Estas mulheres são lésbicas, acima de tudo, consciente ou inconscientemente. Parece-me que são quase todas lésbicas.

            - E importas-te?

            - Era capaz de as matar. Quando estou com uma mulher que é realmente lésbica, sinto-me cheio de raiva por dentro e só me apetece matá-la.

            - E que é que fazes?

            - Afasto-me o mais depressa possível.

            - Mas achas pior uma lésbica do que um homossexual?

            - Acho, porque as lésbicas fizeram-me sofrer. Abstratamente, não sei o que será pior, mas quando encontro uma lésbica, consciente ou inconsciente de que o é, vejo vermelho à frente. Não, não! E o que eu queria era nunca mais ter mulheres, queria fechar-me em mim próprio, conservar a minha solidão e a minha respeitabilidade.

            Estava pálido e melancólico.

            - Lamentas que eu tenha aparecido?

            - Fiquei desolado e contente ao mesmo tempo.

            - E presentemente?

            - Exteriormente, lamento todas as complicações, as coisas sujas e as recriminações, que mais cedo ou mais tarde hão de surgir. Isto quando me sinto deprimido. Mas quando estou bem disposto sinto-me feliz, triunfante até. Estava realmente a tornar-me numa pessoa azeda. Achava que já não havia amor, que nenhuma mulher era realmente capaz de "estar" com um homem, exceto as negras, e, seja como for, nós somos brancos e as negras são algo como lama.

            - E agora estás satisfeito por me teres?

            - Estou! Quando consigo esquecer-me de todo o resto. Quando não consigo, apetece-me meter-me debaixo da mesa e morrer.

            - Porquê debaixo da mesa?

            - Porquê? - respondeu ele, a rir. - Suponho que para me esconder como as crianças.

            - Parece-me que deves ter tido experiências muito desagradáveis com mulheres - disse ela.

            - Compreendes, nunca consegui enganar-me a mim mesmo. A maior parte dos homens conseguem-no. Tomam uma atitude, aceitam uma mentira. Nunca fui capaz de me enganar. Sabia o que queria de uma mulher, e não dizia que o tinha conseguido quando não tinha sido assim.

            - E agora consegues?

            - Creio que sim.

            - Porque é que estás tão pálido e triste?

            - Estou cheio de recordações, e talvez com medo de mim próprio.

            Ela continuava sentada, em silêncio, já era tarde.

            - Achas que é importante um homem e uma mulher?

            - Para mim é o centro da minha vida, se tiver uma relação verdadeira com uma mulher.

            - E se não conseguisses?

            - Habituava-me à idéia.

            Ela ficou pensativa antes de perguntar:

            - Achas que sempre te portaste bem com as mulheres?

            - Não, pelo amor de Deus! Fui eu que permiti que a minha vida chegasse ao que chegou, tive muita culpa, fui eu que a estraguei. Sou muito desconfiado, conta com isso. É-me muito difícil deixar de o ser, cá por dentro. Talvez seja desconfiado por eu próprio ser uma fraude. E a ternura não pode ser uma fraude.

            Ela olhava para ele.

            - Mas não se desconfia com o corpo. Quando o teu sangue começa a ferver, não estás a ser desconfiado, pois não?

            - Não, e por isso mesmo meti-me em vários sarilhos. E é também por isso que o meu espírito é desconfiado.

            - Deixa-o ser! Que importa isso?

            A cadela, inquieta, suspirou no tapete. O fogo ia apagar-se com as cinzas.

            - Somos dois guerreiros vencidos - disse Connie.

            - Sentes-te vencida também? E mesmo assim voltamos ao combate - disse ele, a rir.

            - É verdade, tenho realmente medo.

            - Eu também.

            Ele levantou-se, pôs os sapatos a secar, juntamente com os dele, perto do fogo. De manhã iria engraxá-los. Afastou o mais que pôde as cinzas do cartão queimado, para o fogo não se apagar.

            - Até depois de queimado, isto é horrível.

            Foi buscar novas achas e colocou-as na grade junto à lareira, para de manhã. Depois saiu com a cadela, por um instante.

            Quando voltou, Connie disse-lhe:

            - Também quero ir lá fora por um momento.

            Embrenhou-se sozinha na escuridão. Havia estrelas no céu. E chegava até ela o perfume das flores no ar da noite. Sentia os sapatos molhados ficarem ainda mais molhados, e um desejo de partir, de se afastar dele e de toda a gente.

            Estava frio. Teve um arrepio e voltou para casa. Ele estava sentado junto ao fogo, quase extinto.

            - Que frio que está! - comentou ela, arrepiada.

            Ele pôs mais achas no lume, foi buscar outras, e, de repente, toda a chaminé ardia e dava calor. As chamas amarelas e ondulantes alegraram ambos, aqueceram-lhes os corpos e as almas.

            - Não penses! - disse ela, pegando-lhe na mão. - Fazemos que podemos.

            Ele estava silencioso e distante, e suspirou, num sorriso forçado.

            Ela deslizou para junto dele, até ficar nos seus braços, em frente do fogo.

            - Esquece! - murmurou ela. - Esquece!

            Ele apertava-a nos braços, envolvidos no calor ondeante do fogo. E a própria chama era um esquecimento, tal como o peso suave, doce, pleno da mulher! Lentamente, sentiu o sangue transformar-se, recuperar a força, o vigor, a coragem.

            - E talvez essas mulheres tenham realmente querido amar-te, e não fossem capazes. Talvez a culpa não tivesse sido delas - disse Connie.

            - Eu sei. Eu também sei o que eu era: uma serpente pisada com a espinha partida.

            Ela abraçou-o de repente. Não queria recomeçar a mesma conversa, mas uma certa perversidade tinha-a forçado.

            - Mas agora já não és. Agora já não és uma serpente pisada com a espinha partida.

            - Já não sei o que sou. O futuro parece-me muito negro.

            - Não! - protestou Connie, abraçada a ele. - Porquê? Porquê?

            - O futuro parece-me negro para nós e para toda a gente. - repetiu ele, numa melancolia profética.

            - Não, não digas isso!

            Ele ficou em silêncio, mas ela sentia o vazio e o desespero dentro dele. Era a morte de todo o desejo, a morte do amor; aquele desespero era como uma caverna escura dentro do homem que perdera o espírito.

            - Falas do ato sexual de maneira tão fria - disse ela - como se quisesses apenas o teu prazer e satisfação.

            Ela começava a insurgir-se com nervosismo contra ele.

            - Não - respondeu ele. - Quis que o meu prazer e a minha satisfação partissem da mulher, e nunca o consegui, porque só poderiam partir dela, e ao mesmo tempo, ela sentisse prazer comigo. Isso nunca aconteceu, são precisas as duas pessoas.

            - Mas nunca acreditaste nas mulheres que tiveste. Nem sequer acreditas realmente em mim.

            - Não sei o que significa acreditar numa mulher.

            - Vês, é isso!

            Ela continuava aninhada no colo dele, mas o espírito do homem estava sombrio e ausente, longe dela. E tudo o que ela dizia só o afastava cada vez mais.

            - Mas em que é que acreditas? - insistiu ela.

            - Em nada, como todos os homens que conheço.

            Ficaram os dois calados.  

            Finalmente, ele levantou-se e disse:

            - Não é verdade, há qualquer coisa em que acredito. Acredito no calor humano, especialmente no amor, no ato sexual. Acredito se os homens fizessem amor com calor humano e as mulheres também, tudo seria diferente. Mas o amor frio é a morte, é estúpido.

            - Mas quando fazes amor comigo não és insensível - protestou Connie.

            - Não quero fazer amor contigo. Neste momento o meu coração está como uma batata.

            - Oh! - exclamou ela, beijando por troça. - Façamos sautées.

            Ele riu e ficou direito.

            - É um fato - continuou ele. - Daria tudo por um pouco de calor humano. Mas as mulheres não gostam, nem mesmo tu. Gostam da fornicação bem feita, completa, mas fria, e depois fingem que tudo foi doce. Onde está a tua ternura por mim? Desconfias de mim como o gato do cão, e, como já disse, para haver calor humano são precisas duas pessoas. Gostas de fazer amor, está bem, mas queres que seja algo de imponente e misterioso para te sentires importante na tua vaidade pessoal. A tua vaidade pessoal é cinqüenta vezes mais importante para ti do que qualquer homem, ou do que estar com um homem.

            - Mas isso é exatamente o que eu diria de ti. A tua pessoa é tudo para ti.

            - Ai, bom! - comentou ele fazendo o gesto de se pôr em pé.

            - Então separemo-nos. Prefiro morrer a fazer amor mais alguma vez sem calor humano.

            Ela afastou-se e ele levantou-se.

            - E achas que eu quero? - perguntou ela.

            - Espero que não - replicou ele. - Mas, seja como for, vai para a cama e eu durmo cá embaixo.

            Ela fitou-o. Ele estava pálido, sobrolho carregado, estava tão distante como o Pólo Norte. Os homens eram todos iguais.

            - Só posso voltar para casa de manhã - disse ela.

            - Está bem, vai-te deitar. Falta um quarto para a uma.

            - Não vou com certeza.

            Ele atravessou a sala para ir buscar as botas.

            - Então vou lá para fora! - disse ele.

            Ele começou a calçar as botas. Ela olhava para ele, estupefata.

            - Espera! - balbuciou. - Espera! Que é que aconteceu conosco?

            Ele estava inclinado para a frente a atar as botas, e não respondeu. Passaram uns segundos. Invadia-a uma obscuridade como um desmaio, uma perda de consciência. Fitava-o com os olhos muito abertos, perdida, sem saber mais nada.

            Devido ao silêncio, ele levantou os olhos, e viu-a assim perdida. E como se o vento o impelisse, levantou-se e avançou para ela com um pé calçado e outro descalço, tomou-a nos braços, apertando-a contra o corpo, quase a machucá-la. E ela deixou.

            E as suas mãos começaram a procurá-la às cegas, a procurá-la, até que alcançaram, por debaixo da roupa, a parte macia e quente.

            - Minha pequenina! - murmurava ele em dialeto. - Minha pequenina, não nos zanguemos, não nos zanguemos nunca. Gosto de ti, e gosto de te tocar. Não te zangues comigo, não te zangues. Fiquemos juntos.

            Ela levantou a cara e olhou para ele:

            - Não te aborreças, não te aborreças, que não vale a pena. Queres ficar comigo?

            Ela olhava-o com os seus olhos grandes e firmes. Ele parou, ficou subitamente tranqüilo, e desviou a cara. Ficou sem se mexer e na mesma posição.

            Depois levantou a cabeça, olhou-a nos olhos e com o seu sorriso irônico acrescentou:

            - Sim, sim, fiquemos juntos sob juramento.

            - A sério? - perguntou ela, com os olhos rasos de lágrimas.

            - A sério! Juntos em tudo.

            Ele sorria ligeiramente para ela, mas nos seus olhos havia um toque de ironia e de amargura.

            Ela continuava a chorar sem dizer nada. Ele deitou-se a seu lado, penetrou-a ali mesmo sobre o tapete e ficaram os dois mais tranqüilos.

            Depois subiram rapidamente para o quarto, porque tinha arrefecido e estavam exaustos. Ela aninhou-se nos braços, sentia-se pequena e envolvida, e adormeceram os dois imediatamente num só sono. Ficaram imóveis até que o Sol nasceu e começou um novo dia.

            Ele acordou, olhando a claridade. As cortinas estavam abertas. Ouvia os apelos selvagens dos melros e dos tordos no bosque. A manhã estava brilhante, eram cinco e meia, a hora de se levantar. Tinha dormido tão bem! Ela estava ainda a dormir, toda enroscada e terna. Fez-lhe uma carícia e ela abriu os olhos azuis espantados, e sorriu sem dar por isso.

            - Estás acordado? - perguntou ela.

            Ele olhava-a nos olhos. Sorriu-lhe e beijou-a. Subitamente ela levantou-se e ficou sentada na cama.

            - É estranho eu estar aqui - disse ela.

            Olhou em volta. O quarto era pequeno, caiado, tinha o teto inclinado e uma janela de empena, com cortinas brancas corridas. Os únicos móveis eram uma pequena cômoda pintada de amarelo e uma cadeira, além da cama não muito grande e branca, onde estava deitada com ele.

            - É estranho estarmos aqui - disse ela, olhando para ele.

            Estava deitado na cama, contemplava-a e afagava-lhe os seios, por baixo da camisa de noite, muito frágil. Quando ele estava tranqüilo e feliz tinha um ar jovem e atraente, os seus olhos tinham uma expressão tão ardente. Ela estava fresca e nova como uma flor.

            - Queria tirar isto - disse ela, amassando a fina camisa de noite, de cambraia, passando-a pela cabeça.

            Ela estava sentada, com os ombros nus e os longos seios levemente dourados, que ele gostava de fazer oscilar suavemente como se fossem sinos.

            - Tira também o pijama! - disse ela.

            - Isso não!

            - Sim, sim - insistiu ela.

            Ele despiu o casaco de pijama de algodão e as calças. À exceção das mãos e dos pulsos e do rosto, era branco como o leite, tinha um corpo fino e musculoso. Connie mais uma vez o achou extremamente belo, como naquela tarde em que o tinha visto a lavar-se.

            Os raios dourados do Sol tocavam nas brancas cortinas fechadas. Ela sentiu que o sol queria entrar.

            - Oh, vamos abrir as cortinas! Os pássaros já cantam! Deixa entrar o sol!

            Ele saltou da cama, de costas voltadas para ela, nu, alvo e magro, e avançou para a janela, um pouco curvado, afastando as cortinas e ficando um momento a olhar para fora. As suas costas eram brancas e finas, umas nádegas pequenas e belas, com uma estranha e delicada virilidade, a nuca rosada, era ao mesmo tempo frágil e forte.

            Existia naquele corpo suave e belo uma força que era interior e não exterior.

            - És tão belo! Tão puro e delicado! Vem cá! - disse ela, estendendo-lhe os braços.

            Sentia-se constrangido por ter de se voltar, por causa da exibição da sua própria nudez.

            Pegou na camisa que estava no chão, cobriu-se e avançou.

            - Não! - disse ela, sempre de braços estendidos, belos e magros e com os seios pendentes. - Deixa-me ver-te!

            Ele deixou cair a camisa e ficou quieto, a olhá-la. O Sol através da janela baixa projetava os seus raios, iluminando-lhe as coxas o abdômen magro e o falo ereto, que se erguia, sombrio e quente, da pequena nuvem brilhante de pêlos de cor castanha avermelhada.

            Ela sentia-se admirada e receosa.

            - É estranho - disse ela, lentamente. - Como é estranho, e tão grande! Tão obscuro e seguro de si! É mesmo assim?

            O olhar do homem desceu ao longo do seu corpo magro e franco e riu. No peito magro, os pêlos eram escuros quase pretos. Mas ao fundo do ventre, onde o falo se erguia grosso e recurvado, eram de um ruivo-dourado, brilhante, juntos numa pequena nuvem.

            - Tão orgulhoso! - continuou ela, inquieta. - E tão altivo! Agora compreendo porque é que os homens são tão arrogantes! Mas, no fundo, é belo! É como se fosse um outro ser, um pouco assustador, mas belo. E é a mim que ele quer!

            E prendeu o lábio inferior entre os dentes, receosa e excitada.

            O homem fitava em silêncio o falo tenso, sem se mexer.

            - Bem - disse finalmente em voz baixa -, bem, meu rapaz, tu estás bem, podes levanta a cabeça, não deves nada a ninguém. És o patrão, hem? O meu patrão! E és mais vivo do que eu, e falas menos. John Thomas, que é que queres? Queres a Lady Jane? Queres? Já sorris? Então pronto, tens a Lady Jane. Agora diz: "Abri-vos, ó portas, e entrará o rei da Glória". O que tu queres sei eu, John Thomas.

            - Oh, não troces dele - disse Connie, ajoelhando-se na cama, pondo os braços à volta da cintura, de pele branca e delicada, puxando-o para ela de modo que os seus seios pendentes e oscilantes tocavam a cabeça do falo excitado e ereto e atingiam as gotas de umidade. Ela abraçou o homem com mais força.

            - Deita-te! Deita-te e deixa-me furar-te!

            Estava possuído de uma urgência súbita. Depois de acabarem e de se sentirem ambos de novo tranqüilos, a mulher quis vê-lo outra vez, quis contemplar o mistério do falo.

           - E agora está pequeno e macio como um botão de vida - disse ela, pegando no pênis, com a mão. - É lindo! Tão independente e tão estranho! E tão inocente! E entra em mim tão fundo! Nunca o deves insultar, sabes? Também me pertence, não é só teu. É meu também. Tão belo e inocente!

            E pegava docemente no pênis. Ele riu.

            - Bendito seja o elo que une os corações irmanados no amor - disse ele.

            - É verdade. Mesmo quando está pequeno e macio sinto que o meu coração se lhe prende. Os teus pêlos são bonitos aqui, tão diferentes, tão diferentes!

            - São do John Thomas, não são meus.

            - John Thomas! John Thomas! -

            E deu um beijo rápido no pênis, que começava de novo a agitar-se.

            O homem esticou-se, num jeito quase de dor.

            - Ele tem as raízes na minha alma, este cavalheiro. E às vezes não sei o que hei de fazer. Tem vontade própria, e, de vez em quando, é difícil de satisfazer. E, no entanto, por nada o quereria perder.

            - Não admira que os homens tivessem sempre medo dele - respondeu Connie. - É terrível.

            O corpo do homem estremeceu, e a corrente da consciência mudou de novo de direção, no sentido do abdômen. Ele estava indefeso, e o pênis, em ondulações suaves, inchava, levantava-se, crescia, endurecia, e acabou por ficar curiosamente ereto como uma torre. A mulher tremia, contemplando-o.

            - Pronto. Toma-o. É teu - disse o homem.

            E ela estremeceu de novo, de corpo e espírito. Ondas suaves de um prazer inexprimível percorreram-na, à medida que ele a penetrava e começava num frêmito que se fundia estranhamente e se espalhava cada vez mais, até a transportar num arroubo cego ao limite de todas as coisas.

            O homem ouviu ao longe as sirenes de Stacks Gate, eram sete horas de uma segunda-feira. Sentiu um arrepio, e com o rosto entre os seios dela, apertou-os contra os ouvidos para não ouvir.

            Ela nem sequer tinha ouvido as sirenes. Estava deitada, perfeitamente imóvel, sentindo a alma límpida e transparente.

            - Tens de te ir embora, não tens? - murmurou ele.

            - Que horas são? - perguntou ela, numa voz velada.

            - Sete.

            - Creio que sim.

            A pressão do exterior irritava-a sempre. Ele sentou-se na cama e ficou a olhar pela janela, sem nada ver.

            - Amas-me? - perguntou ela, docemente.

            Ele olhou-a.

            - Sabes tudo. Porque é que perguntas? - respondeu ele, um pouco irritado.

            - Quero que me impeças e não me deixes partir.

            Os olhos do homem irradiavam um calor e uma ternura sombrios, incapazes de pensar.

            - Quando? Agora?

            - Agora no teu coração. E dentro de pouco tempo quero viver contigo para sempre.

            Ele estava sentado em cima da cama, nu, de cabeça baixa, sem conseguir pensar.

            - Queres? - perguntou ela.

            - Quero.

            E os mesmos olhos sombrios irradiavam uma nova chama de consciência, como num só. Olhou para ela.

            - Não me perguntes nada. Deixa-me continuar assim. Gosto de ti. Amo-te quando estás aí. É bom ter uma mulher. Amo-te, amo as tuas pernas, o teu corpo, a tua feminilidade. Amo-te com todo o meu coração. Mas não me perguntes nada. Deixa-me estar assim enquanto puder. Depois pergunta-me tudo. Agora, agora não.

            E, suavemente, pousou a mão sobre o monte-de-vênus de Connie, castanho e macio, e continuou sentado na cama, nu, imóvel, numa completa abstração física, com uma expressão semelhante à do Buda. Imóvel e na chama invisível de uma outra consciência, ficou a mão pousada no corpo dela, à espera.

            Pouco depois apanhou a camisa do chão, vestiu-se rapidamente, em silêncio, olhando para ela enquanto ela estava deitada imóvel, nua e levemente dourada como uma Glória de Dijon. Depois levantou-se e desapareceu.

            Ela continuou deitada, a sonhar, a sonhar. Custava-lhe partir, afastar-se dos braços dele. Ele gritou do fundo das escadas "sete e meia". Ela suspirou e levantou-se.

            O pequeno quarto quase não tinha mobília, além da cômoda e do leito estreito. O chão estava muito limpo. No canto, junto à janela de empena, havia uma prateleira com alguns livros, uns de uma biblioteca ambulante. Ela olhou. Livros sobre a Rússia bolchevista, livros de viagens, um volume sobre o átomo e o elétron, outro sobre as camadas da Terra e sobre as causas dos tremores de terra. Ainda alguns romances e três livros sobre a Índia. Ele lia, apesar de tudo.

            O sol batia-lhe nas pernas nuas, passando pela janela de empena. Lá fora viu a cadela, Flossie, a andar de um lado para o outro. A mata de avelaneiras estava mesclada de verde e verde-escuro, onde despontavam mercuriais. Estava uma manhã clara, os pássaros esvoaçavam e cantavam triunfantes. Se ela ao menos pudesse ali ficar! Se não existisse aquele mundo sinistro de fumo e de ferro! Se ela conseguisse construir um mundo para ela.

            Desceu a longa e estreita escada, com degraus de madeira. Seria capaz de viver feliz naquela casa, se tivesse um mundo à parte.