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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Anel de Noivado / Danielle Stel
O Anel de Noivado / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Anel de Noivado

 

            Uma dramática história de amor que cobre três gerações de personagens, iniciada na Alemanha anterior à II Guerra Mundial e chegando aos dias de hoje nos Estados Unidos. Começa com Kassandra Von Gotthard, uma bela prisioneira numa jaula de ou­ro, mulher de um dos banqueiros mais ricos de Berlim... e seu amante, Dolff Sterne, romancista internacionalmente famoso, judeu-alemão, homem com uma confiança cega de que a sua pá­tria jamais o atraiçoaria, mas na Ale­manha de Hitler é inevitável que o seu caso de amor termine de modo infeliz. E a sua tragédia marca as vidas de to­dos aqueles que os amam — e persegui­rá os Von Gotthard durante as gera­ções futuras. Passando da dé­cada de 30 até os Estados Unidos de hoje, ele fala da paixão de uma mulher que acaba por dar forma ao destino de uma dinastia inteira.

 

          

 

            Kassandra Von Gotthard estava sentada serenamente à margem do lago no Parque Charlottenburger, olhando a água fazer pequenas ondas à volta da pedrinha que acabara de arremessar. Os dedos longos e graciosos, que seguravam outra pedra pequena e lisa, ficaram imóveis por um momento, depois a lançaram ao acaso dentro d'água mais uma vez. Era um dia quente e ensolarado de fim de verão, e o cabelo louro-avermelhado lhe caía numa onda longa e macia até os ombros, afastado do rosto num só lado por uma travessa de marfim. A linha da travessa no cabelo macio e dourado era tão perfeita e graciosa quanto todo o restante do seu rosto. Os olhos eram enormes e amendoados, do mesmo tom vivo de azul das flores às suas costas no parque. Eram olhos que prometiam risos, e, no entanto sussurravam ao mesmo tempo algo terno; olhos que acariciavam e implicavam, e de­pois ficavam pensativos, como que perdidos em algum sonho distante, tão afastados do presente quanto o Charlottenburger Schloss do outro lado do lago era distante da turbulenta cidade. O velho castelo se erguia, eterno, observando-a, como se ela fosse da sua época.

            Recostada na grama à margem do lago, Kassandra parecia uma mulher num quadro ou num sonho, as mãos delicadas remexendo suavemente na grama, buscando mais uma pedrinha para lançar. Ah perto, os patos estavam entrando na água, provocando palmas de alegria de duas criancinhas. Kassan­dra as observou, parecendo examinar-lhes os semblantes por um longo mo­mento, enquanto elas riam e se afastavam.

— No que estava pensando agora?

            A voz ao lado tirou-a do devaneio. Ela virou-se para a voz com um leve sorriso.

— Em nada.

            O sorriso ficou mais amplo, e ela estendeu a mão para ele, com o elabo­rado anel de sinete, incrustado de diamantes, brilhando ao sol. Mas ele não notou. As jóias que ela usava pouco lhe importavam. Era Kassandra que o intrigava, que parecia possuir o mistério da vida e da beleza para ele. Era uma pergunta à qual ele jamais teria a resposta, um dom que nunca possuiria inte­gralmente.

            Tinham-se conhecido no inverno anterior, numa festa para comemorar o segundo livro dele, Der Kuss. Em seu estilo franco, ele chocara toda a Alemanha por algum tempo, mas apesar disso o livro fizera ainda mais sucesso do que o primeiro. A história era profundamente sensível e erótica, e o lugar dele no pináculo do movimento literário contemporâneo alemão parecia asse­gurado. Era controverso, era moderno, às vezes era escandaloso, e também muito, muito talentoso. Aos 33 anos, Dolff Sterne tinha chegado ao topo. E então conhecera o seu sonho.

            A beleza de Kassandra o deixara sem fôlego na noite em que se conhe­ceram. Já ouvira falar dela; todo o mundo em Berlim sabia quem era. Pare­cia intocável, inatingível, e assustadoramente frágil. Dolff sentira algo pareci­do com uma pontada de dor quando a viu pela primeira vez, usando um ves­tido de seda, justo, de um tecido dourado, o cabelo lustroso mal encoberto por uma minúscula touca dourada, um casaco de zibelina jogado sobre o bra­ço. Mas não fora o ouro ou a zibelina que o aturdira, fora a presença dela, o seu isolamento e silêncio no clamor da sala, e finalmente os olhos. Quando se virou e sorriu para ele, por um instante Dolff sentiu como se fosse morrer.

— Parabéns.

— Por quê?

            Fitara-a por um instante, quase emudecido, sentindo os seus 33 anos se reduzirem a 10, até que notou que ela também estava nervosa. Não era abso­lutamente o que ele esperava. Era elegante, mas não distante. Ele desconfiava de que tinha medo dos olhos que a fitavam, da multidão. Ela saíra cedo, desa­parecendo como a Gata Borralheira, enquanto ele cumprimentava outros con­vidados. Teve vontade de segui-la, de encontrá-la, de vê-la de novo, nem que fosse por um instante, para olhar outra vez nos olhos cor de lavanda.

            Duas semanas mais tarde, tinham-se encontrado de novo. No parque, ali em Charlottenburg. Ele a vira olhando para o castelo, e depois sorrindo para os patos.

— Vem aqui com freqüência?

            Tinham ficado parados lado a lado por um momento tranqüilo, o tipo alto e moreno dele contrastando fortemente com a beleza delicada dela. O ca­belo dele era da cor da zibelina, e seus olhos de ônix brilhante fitavam os dela. A moça assentiu com um aceno de cabeça e depois ergueu os olhos para ele com aquele sorriso misteriosamente infantil.

— Costumava vir aqui quando criança.

— Você é de Berlim? — Parecia uma pergunta cretina, mas ele não tinha certeza do que devia dizer.

            Ela riu, mas sem malícia.

— Sou. E você?

— De Munique.

            A moça meneou a cabeça de novo, e ficaram em silêncio por um longo tempo. Ficou imaginando quantos anos ela teria. Vinte e dois? Vinte e qua­tro? Era difícil dizer. E então, subitamente, Dolff ouviu uma risada cristalina enquanto ela observava três crianças, que brincavam com o cachorro, escapar da babá e entrar na água até os joelhos, o buldogue teimoso recusando-se a reunir-se a elas de novo na margem.

— Fiz isso certa vez. Minha babá não me deixou voltar aqui durante um mês.

            Sorriu para ela. Podia imaginar a cena. Ela ainda parecia jovem o bastan­te para entrar na água, no entanto a zibelina e os diamantes que usava fa­ziam com que parecesse improvável que algum dia tivesse sido despojada o bastante para sair correndo atrás de um cachorro e entrar na água. No entan­to, ele quase podia vê-la, e à governanta de uniforme e touca engomados brigando com ela da margem. E quando teria sido isso? 1920? 1915? Pare­cia a anos-luz de distância das suas atividades na época. Então, Dolff estava lutando para conseguir estudar e trabalhar ao mesmo tempo, ajudando os pais na padaria de manhã, antes da escola, e durante longas horas todas as tardes. Como isso parecia distante desta mulher dourada.

            Depois disso, não deixara mais de ir ao Parque Charlottenburg, di­zendo a si mesmo que precisava de ar puro e do exercício, depois de escre­ver a manhã toda, mas secretamente sabia que não era por isso. Estava procu­rando aquele rosto, aqueles olhos, o cabelo dourado... e finalmente a encontrou, novamente junto ao lago. Ela parecera feliz ao vê-lo, quando se encontraram de novo. E então se tornou uma espécie de acordo tácito. Ele dava passeios quando acabava de escrever, e se os desse na hora certa, ela estaria lá.

            Tornaram-se guardiões espirituais do castelo, pais substitutos das crian­ças que brincavam perto do lago. Sentiam uma espécie de alegria possessiva pelo ambiente que os cercava, contando um ao outro, histórias da infância, e cada um escutando o outro contar seus sonhos. Kassandra queria fazer tea­tro, para o horror do pai, mas aquilo sempre fora o seu sonho particular. Compreendia perfeitamente que jamais aconteceria, mas de vez em quando sonhava que, quando fosse mais velha, escreveria uma peça. Sempre ficava fascinada quando Dolff falava do seu trabalho, de como começara a escrevei, do que sentira quando seu primeiro livro se tornara um sucesso. A fama ainda não lhe parecia muito real, e talvez nunca parecesse. Faria cinco anos desde o seu primeiro romance de sucesso, sete anos que deixara Munique e viera para Berlim, três anos desde que comprara o Bugatti, dois desde que a bela e antiga casa em Charlottenburg se tornara sua... e ainda nada daquilo era totalmente real. O fato de não acreditar totalmente o mantinha jovem, dando-lhe a expressão de deleite e espanto nos olhos. Dolff Sterne ainda não era blasé, não no tocante à vida, ou a escrever, e muito menos em relação a ela.

            Kassandra ficava encantada enquanto escutava. Ao ouvi-lo falar dos seus livros, ela sentia as histórias ganharem vida, os personagens se tornarem reais; e ao estar com ele, também se sentia ganhar vida. E semana após semana, en­quanto se encontravam, Dolff notou que o medo nos olhos dela diminuía. Havia agora algo de diferente nela, quando a encontrava no lago. Algo engra­çado, jovem e delicioso.

— Tem idéia do quanto gosto de você, Kassandra? — Falara com ar brin­calhão, enquanto davam lentamente a volta no lago, certo dia, aproveitando a brisa gostosa da primavera.

— Vai escrever um livro a meu respeito, então?

— E devia?

            Mas Kassandra baixou os olhos cor de lavanda por um momento, e de­pois, voltando a olhar para ele, sacudiu a cabeça.

— Não. Não haveria nada para dizer. Nem vitórias, nem sucessos, nem realizações. Absolutamente nada.

            Seus olhos fitaram os dela por um longo momento, a cor de lavanda e o preto dizendo palavras que ainda não podiam ser ditas.

— É o que você acha?

— E a verdade. Nasci para a minha vida e vou morrer nela. E nesse meio tempo usarei uma grande quantidade de belos vestidos, irei a mil jantares comportados, assistirei a inúmeras óperas bem cantadas... e isso, meu amigo, é tudo.

            Aos 29 anos ela já parecia ter perdido a esperança... a esperança de que a vida algum dia pudesse ser diferente.

— E a sua peça?

            Kassandra deu de ombros. Ambos sabiam a resposta. Era prisioneira numa jaula de diamantes. E então, virando-se para ele, riu de novo.

— Portanto minha única esperança de conseguir fama e glória é que vo­cê crie algo para mim, me coloque num romance e me transforme num personagem exótico, na sua cabeça.

            Isso ele já tinha feito, mas não ousava dizer-lhe. Ainda não. Em vez disso, continuou com a brincadeira, dando-lhe o braço.

— Está certo. Nesse caso, que pelo menos lhe agrade. O que gostaria de ser? O que lhe parece adequadamente exótico? Uma espiã? Uma cirurgia? A amante de um homem muito famoso?

            Ela fez uma careta e riu para ele.

— Que horrível. Juro, Dolff, não tem graça nenhuma. Vejamos... -Tinham parado para se sentar na grama, enquanto ela tirava o chapéu de palha de abas largas e sacudia a cabeleira dourada. — Uma atriz, acho... Podia fazer-me uma atriz dos palcos londrinos... e então... — Inclinou a cabeça para o lado, enrolando o cabelo nos dedos longos e graciosos, enquanto os anéis brilhavam ao sol. — Então...  eu iria para os Estados Unidos, e me torna­ria uma estrela.

— Estados Unidos, hem? Onde?

— Nova York.

— Já esteve lá?

            Ela fez que sim, com um aceno de cabeça.

— Com meu pai, quando fiz dezoito anos. Foi fabuloso. Ficamos...

E então ela se deteve. Estava prestes a lhe dizer que tinham ficado hospedados com os Astors, em Nova York, e depois com o Presidente, em Wash­ington, D.C., mas aquilo não lhe pareceu direito. Não queria impressioná-lo. Queria ser sua amiga. Gostava demais dele para fazer esse tipo de jogo com ele. E não importa o quanto se tivesse tornado bem-sucedido, a verdade é que ele jamais seria parte daquele mundo. Ambos o sabiam. Era uma coisa que nunca discutiam.

— Ficaram o quê? — Ele a observava, o rosto magro e bonito junto ao dela.

— Ficamos apaixonados por Nova York. Pelo menos, eu fiquei. — Sol­tou um suspiro e olhou, melancólica, para o lago deles.

— É parecida com Berlim?

            A moça sacudiu a cabeça, apertando os olhos, como que para fazer o Charlottenburger Schloss desaparecer.

— Não,  é   maravilhosa. É nova, moderna, movimentada e excitante.

— E naturalmente Berlim é tão sem graça. — Às vezes, não podia deixar de rir dela. Para Dolff, Berlim ainda era todas aquelas coisas que Kassandra dissera de Nova York.

— Está implicando comigo. — Havia reprovação na voz dela, mas não nos olhos. Gostava da companhia dele. Adorava o ritual dos seus passeios ves­pertinos. Cada vez mais, escapava às restrições e limitações dos seus deveres diários e vinha encontrar-se com ele no parque.

            Os olhos eram bondosos, quando ele respondeu.

— Estou implicando com você, Kassandra. Importa-se muito?

Ela sacudiu a cabeça, lentamente.

— Não, não me importo. — E após uma pausa: — Sinto como se o conhecesse melhor do que qualquer outra pessoa de minhas relações. — Era perturbador, mas ele sentia a mesma coisa. No entanto, Kassandra ainda era seu sonho, sua ilusão, e fugia dele constantemente, exceto aqui no parque. — Sabe o que quero dizer?

            Ele fez que sim, sem ter certeza do que dizer. Ainda não queria assustá-la. Não queria que parasse de vir encontrar-se com ele para aqueles passeios.

— Sei, sim. — Muito mais do que ela imaginava. E então, tomado por um momento de loucura, segurou a mão dela, longa e frágil, na sua, um pouco atrapalhado pelos grandes anéis que ela usava. — Quer vir tomar chá na minha casa?

— Agora? — O coração dela se agitara estranhamente, ante a pergunta. Tinha vontade, mas não tinha certeza se...  não achava que...

— Sim, agora. Tem alguma coisa para fazer?

— Não, não tenho — disse ela, sacudindo a cabeça, lentamente. Podia ter-lhe dito que estava ocupada, que tinha um compromisso, que era esperada para o chá em algum lugar. Mas não o fez. Olhou para ele com aqueles imensos olhos cor de lavanda. — Gostaria muito.

            Caminharam lado a lado, rindo e conversando, secretamente nervosos, abandonando a proteção do Éden pela primeira vez. Ele lhe contava histórias engraçadas, e a moça ria enquanto o acompanhava, apressadamente, balançan­do o chapéu. Havia uma súbita urgência no compromisso deles. Como se fosse para isso que se tivessem preparado naqueles meses de passeios no parque.

            A pesada porta entalhada abriu-se lentamente e ambos entraram num grande saguão de mármore. Havia uma imensa e linda tela pendurada acima de uma escrivaninha Biedermeier. Seus passos ressoavam ocamente, enquanto ela entrava atrás dele, na casa.

— Então é aqui que mora o famoso autor.

            Sorriu para ela, nervosamente, enquanto pousava o chapéu na escrivaninha.

— A casa é muito mais famosa do que eu. Pertenceu a um barão do sé­culo dezessete, e tem passado por mãos bem mais ilustres do que as minhas, desde então. — Olhou em derredor orgulhosamente, e em seguida abriu um sorriso para ela, que fitava o teto rococó entalhado e depois voltava os olhos para ele.

— É lindo, Dolff. — Parecia muito quieta, e ele lhe estendeu a mão.

— Venha, vou mostrar-lhe o resto.

            Os demais aposentos da casa confirmavam as promessas feitas pela en­trada, com tetos altos e lindamente entalhados, maravilhosos pisos de parquete, pequenos lustres de cristal e janelas longas e elegantes dando para um jar­dim cheio de flores brilhantes. No térreo ficavam uma grande sala de visitas e uma sala menor que ele usava como gabinete. No andar seguinte ficavam a cozinha e a sala de jantar e um pequeno quarto de empregadas, onde ele guar­dava uma bicicleta e três pares de esquis. E, mais acima, ficavam dois imensos e belos quartos, com vista do castelo e do parque deles. Havia lindas sacadas nas janelas de cada quarto, e no maior, uma estreita escada em espiral num dos cantos.

— O que fica ali? — Ela estava curiosa. A casa era mesmo uma beleza. Dolff tinha bons motivos para se sentir orgulhoso.

            Sorriu para ela. Apreciava a admiração e a aprovação que estava vendo nos seus olhos.

— Minha torre de marfim. E onde trabalho.

— Pensei que trabalhava lá embaixo, no gabinete.

— Não, lá é só para receber os amigos. A sala de visitas ainda me intimi­da um pouco. Mas este — apontou para o alto, do pé da escada estreita — é o lugar.

— Posso ver?

— Claro, se puder abrir caminho entre os papéis ao redor da minha mesa.

            Mas não havia papéis ao redor da mesa de trabalho bem arrumada. Era um aposento pequeno, lindamente proporcionado, com uma vista de 360°. Havia uma lareira aconchegante, e livros em cada canto imaginável. Um aposento em que, virtualmente, era possível viver-se, e Kassandra se instalou satis­feita numa grande poltrona vermelha, com um suspiro.

— Que lugar maravilhoso! — Olhava sonhadora pela janela para o castelo deles.

—  Acho que foi por este motivo que comprei a casa. Minha torre de marfim, e a vista.

— Não o culpo, embora todo o resto também seja lindo. — Sentara-se com uma perna dobrada sob o corpo, e sorria para o amigo com uma expres­são de paz como ele nunca vira igual antes no seu rosto. — Sabe de uma coisa, Dolff? Parece que finalmente estou em casa. Sinto como se tivesse esperado toda a minha vida só para vir aqui. — Os olhos dela não se afastavam dos dele.

— Talvez — a voz dele era um sussurro na sala — a casa tenha esperado por você todos esses anos... assim como eu. — Sentiu uma onda de choque percorrê-lo. Não pretendera dizer-lhe aquilo. Mas os olhos dela não demonstravam raiva. — Desculpe, não tive intenção.

— Está tudo bem, Dolff.

            Estendeu-lhe a mão, o anel de sinete de diamantes refletindo o sol. Dolff tomou-lhe a mão, suavemente, e, sem parar para pensar, puxou-a lentamente para os seus braços. Manteve-a ali pelo que pareceu uma eternidade, en­quanto se beijavam sob o céu azul de primavera, e se abraçavam apertado na torre de marfim dele. Beijou-o com uma fome e uma paixão que apenas alimentaram a chama dele, e parecia que se tinham passado horas, quando ele teve a presença de espírito de se afastar.

—- Kassandra... — Havia prazer e tormento a um só tempo nos olhos de­le, mas ela se levantou e deu-lhe as costas, olhando para o parque.

— Não. — A voz dela era um murmúrio. — Não me diga que sente mui­to. Não quero escutar...  não posso... — E então voltou-se para ele, os olhos ardendo com uma dor semelhante à dele. — Há tanto tempo que o desejo.

— Mas... — Odiava-se por suas hesitações, mas tinha que dizer algo, nem que fosse por ela.

            Kassandra ergueu a mão para silenciá-lo.

— Compreendo. Kassandra Von Gotthard não diz essas coisas, não é? — Os olhos dela endureceram. — Tem razão. Não digo. Mas quis dizer. Ah, Deus, como quis dizer. Nem mesmo sabia o quanto, até agora. Nunca falei antes. Vi­vi a minha vida até agora como devia viver. E sabe o que tenho, Dolff? Nada. Sabe quem sou? Ninguém. Estou vazia. — E então, com as lágrimas toldando-lhe os olhos: — E estava buscando por você para preencher minha alma. — Deu-lhe as costas de novo. — Desculpe.

            Dolff se aproximou por trás dela, suavemente, rodeando-lhe a cintura com os braços.

— Não. Jamais pense que não é ninguém. Você é tudo para mim. Todos esses meses, só o que eu queria era conhecê-la melhor, estar com você, dar-lhe um pouco do que sou, e partilhar um pouco de você. Só não quero magoá-la, Kassandra. Não quero puxá-la para o meu mundo, arriscando-a a não conse­guir mais viver no seu. Não tenho o direito de fazer isso. Não tenho o direito de levá-la a um lugar onde você não poderia ser feliz.

— O quê? Aqui? — Virou-se para fitá-lo, incrédula. — Acha que eu pode­ria ser infeliz aqui com você? Mesmo por uma hora?

— Mas é este o problema. Por quanto tempo, Kassandra? Por uma hora? Duas? Uma tarde? — Parecia angustiado, quando se virou para ela.

— É o bastante. Até mesmo um minuto disto em toda a minha vida seria o bastante. — E então, com os delicados lábios tremendo, ela baixou a cabeça. — Eu o amo, Dolff... eu o amo..  eu ...

            Silenciou-lhe os lábios com os dele, e lentamente desceram de novo a es­cada estreita. Mas não foram além. Tomando-a meigamente pela mão, levou-a até a cama dele, e despiu a seda cinzenta do seu vestido, e o cetim bege da combinação, até que chegou à delicada renda que havia por baixo, e finalmen­te ao veludo de sua carne. Ficaram ali deitados durante horas; os lábios, as mãos, os corpos e os corações fundindo-se num só.

            Fazia quatro meses, desde aquele dia, e o romance tinha modificado a ambos. Os olhos de Kassandra brilhavam e dançavam; ela implicava e brincava com ele, e ficava sentada de pernas cruzadas na sua grande e linda cama entalhada contando-lhe histórias engraçadas do que havia feito na véspera. Quanto a Dolff, o seu trabalho adquirira uma nova textura, uma nova profundidade, e havia uma força nova nele que parecia vir do seu âmago. Juntos, partilhavam uma coisa que tinham certeza ninguém jamais partilhara antes. Era um ema­ranhado do melhor de dois mundo: a dura luta por ele vencida com tanta de­terminação para se destacar e a frágil tentativa que ela fazia para libertar-se da prisão dourada em que vivia.

            Ainda caminhavam pelo parque, mas com menos freqüência, e quando estavam fora da casa dele agora, Dolff geralmente a achava triste. Havia pessoas demais, crianças e babás e outros casais passeando pelo parque. Queria ficar sozinha com ele no seu mundinho particular. Não queria ser lembrada de um mundo do lado de fora dos muros dele, o qual não partilhavam.

— Quer voltar?

            Há algum tempo que a observava discretamente. Estava estirada gracio­samente na grama, um vestido de voile cor de malva pálida cobrindo-lhe as pernas, o sol refletindo o dourado nos seus cabelos. Um chapéu de seda cor de malva jazia ao lado, na grama, e as suas meias eram do mesmo tom de mar­fim dos sapatos de pelica. Um fio pesado de pérolas envolvia-lhe o pescoço, e atrás dela, na grama, estavam as duas luvas de pelica e a bolsa de seda cor de malva, com o fecho de marfim, que combinava com o vestido.

— Sim, quero voltar. — Levantou-se rapidamente, com um sorriso de fe­licidade. — O que estava olhando?

            Ele a havia fitado intensamente.

— Você.

— Por quê?

— Porque é tão incrivelmente linda. Sabe que se escrevesse a seu respei­to às palavras me faltariam completamente?

— Então diga apenas que sou feia, burra e gorda. — Sorriu para ele, e de­pois ambos soltaram uma risada.

— Isso lhe agradaria?

— Imensamente. — Estava brincalhona e travessa de novo.

— Bem, pelo menos ninguém a reconheceria, se eu a descrevesse assim.

— Vai mesmo escrever a meu respeito?

            Ele ficou pensativo por algum tempo, enquanto os dois se dirigiam para a casa que amavam.

— Um dia. Mas ainda não.

— Por quê?

— Porque ainda estou fascinado demais por você para escrever qualquer coisa coerente. Na verdade — sorriu para ela, do alto de sua considerável esta­tura — pode ser que nunca mais venha a ser coerente de novo.

Suas tardes juntos eram sagradas, e com freqüência sentiam-se divididos entre passá-las na cama ou sentados confortavelmente na torre de marfim, conversando sobre o trabalho dele. Kassandra era a mulher pela qual esperara a metade da vida. E com Dolff, Kassandra tinha encontrado o que sempre ne­cessitara tão desesperadamente, alguém que entendia os estranhos caminhos de sua alma, os anseios, os pedaços fragmentados, a rebelião contra as restri­ções solitárias do mundo dela. Haviam chegado a um acordo. E sabiam que, pelo menos no momento, não tinham outra escolha.

— Quer um pouco de chá, querido? — Jogou o chapéu e as luvas sobre a mesa do saguão de entrada e pegou o pente na bolsa. Era de ônix e marfim, incrustado, lindo e caro, como tudo o que ela possuía. Colocou-o de novo na bolsa, e se virou para Dolff com um sorriso. — Pare de rir desse jeito para mim, seu bobo...  chá?

— Hem...  o quê? Sim. Quero dizer, não. Deixe isso para lá, Kassandra. - E então, firmemente, tomou-a pela mão. — Vamos lá para cima.

— Está pretendendo mostrar-me um novo capítulo, não é? — Lançou-lhe aquele sorriso incomparável, enquanto os olhos dançavam.

— Claro. Tenho todo um livro novo que quero discutir calmamente com você.

            Uma hora mais tarde, enquanto ele dormia serenamente a seu lado, olhou-o com lágrimas nos olhos. Saiu com cuidado da cama. Sempre detestava ter que deixá-lo. Mas eram quase seis horas. Fechou mansamente a porta do grande banheiro de mármore branco. Saiu de lá 10 minutos depois, completamente vestida, com uma expressão de grande ansiedade e tristeza no rosto. Parou por um momento ao lado da cama, e como se pressentisse que ela estava parada a seu lado, Dolff abriu os olhos.

— Já vai?

            Ela fez que sim, e por um instante ambos partilharam uma expressão de dor.

— Eu o amo.

            Ele compreendeu.

— Eu também. — Sentou-se na cama e estendeu os braços para ela. — Até amanhã, minha querida.

Ela sorriu, deu-lhe um beijo, e depois jogou outro da porta, antes de descer, apressadamente, as escadas.

 

            A viagem de Charlottenburg para Grunewald, apenas um pouco mais longe do centro da cidade, era feita por Kassandra em menos de meia hora. Podia fazê-la em exatamente 15 minutos, se mantives­se o pé firme no acelerador do seu pequeno Ford cupê azul-marinho. Há mui­to tempo tinha estabelecido qual o caminho mais curto para casa. Seu coração batia com um pouco mais de força, enquanto olhava para o relógio.

            Hoje, estava mais atrasada do que de costume, mas ainda tinha tempo para trocar de roupa. Irritava-a sentir-se tão nervosa. Parecia absurdo ainda sentir-se como uma garota de 15 anos, chegando depois da hora marcada pelos pais.

            As ruas estreitas e curvas de Grunewald surgiram rapidamente, enquanto o Grunewaldsee à sua direita parecia plano e espelhado. Não havia uma on­dulação nas águas, e só o que ela podia escutar eram os pássaros. As casas grandes que ladeavam a estrada erguiam-se solidamente por detrás de muros de tijolos e portões de ferro, ocultas por árvores e envoltas no seu silêncio con­servador, enquanto nos quartos dos andares superiores as empregadas ajuda­vam as patroas a se vestirem. Mas Kassandra ainda tinha tempo, não estava atrasada demais.

            Freou o carro rapidamente diante da entrada para carros de sua casa e saltou depressa enfiando a chave na pesada fechadura de latão do portão. Abriu os dois lados e passou com o carro. Mandaria alguém fechar o portão mais tarde. Agora não tinha tempo. O cascalho fazia muito ruído sob as rodas do carro, enquanto ela examinava a casa com olhar experiente. Tinha sido construída em estilo francês, e se estendia interminavelmente para cada lado da porta principal. Eram três andares de aparência sóbria de discreta pedra cin­zenta, encimados por outro andar com tetos mais baixos, aninhado sob um te­lhado de mansarda muito elegante. No andar superior moravam os criados. Por baixo dele ficava um andar que agora ela notava estava com quase todos os aposentos iluminados. A seguir ficavam os seus próprios aposentos, além de vários quartos de hóspedes, e duas lindas bibliotecas, uma dando para o jar­dim, a outra para o lago. No andar onde ficavam os seus aposentos, apenas uma luz brilhava, e por baixo dele, no térreo, tudo estava fartamente ilumi­nado. A sala de jantar, o salão principal, a grande biblioteca, o pequeno salão de fumar de lambris escuros, com prateleiras cheias e livros raros. Perguntou-se por um momento por que todas as luzes do andar térreo pareciam estar acesas naquela noite, e então se lembrou, levando rapidamente a mão à boca.

— Ah, meu Deus... Oh, não! — O coração batendo mais forte, largou o carro diante da casa. O gramado imenso e perfeitamente bem tratado estava deserto e até os canteiros fartamente floridos pareciam reprová-la enquanto subia correndo o curto lance de escadas. Como podia ter-se esquecido? O que ele iria dizer?                 

Agarrando o chapéu e as luvas numa das mãos, a bolsa presa sem cerimônia sob o braço, lutou para enfiar a chave na porta da frente. Po­rém, enquanto o fazia, a porta se abriu e ela se viu fitando o rosto intransi­gente de Berthold, o mordomo deles, a cabeça calva brilhando à luz viva dos lustres gêmeos no saguão principal, a casaca impecável como sempre, os olhos frios demais até para registrarem desaprovação. Simplesmente fitaram os dela, inexpressivamente. Atrás dele uma empregada de uniforme preto e avental de renda e touca brancos passou, apressada, pelo saguão principal.

— Boa noite, Berthold.

— Madame.

            A porta se fechou resolutamente às costas dela, quase no mesmo mo­mento em que Berthold batia os calcanhares.

            Nervosa, Kassandra lançou um olhar para o salão principal. Graças a Deus tudo estava pronto. O jantar para 16 pessoas nem passara por sua cabe­ça. Felizmente, discutira tudo detalhadamente com a governanta na manhã anterior. Frau Klemmer tinha tudo sob controle, como sempre. Dando um aceno de cabeça para os criados enquanto caminhava, Kassandra alcançou a escada rapidamente, desejando poder subir de dois em dois degraus, como fa­zia na casa de Dolff quando estavam correndo para a cama...  para a cama...  um lampejo de sorriso subiu-lhe aos olhos, ao pensar nisso, mas teve que afas­tá-lo dos pensamentos à força.

            Parou no patamar, olhando para o longo corredor atapetado de cinza. Tudo a seu redor era cinza-pérola, a seda nas paredes, os tapetes espessos, as cortinas de veludo. Havia duas belas cômodas Luís XV, magnificamente incrus­tadas e encimadas por mármore, e a curtos intervalos, nas paredes, arandelas antigas com luzes em forma de chama. E entre elas ficavam pequenos esbo­ços de Rembrandt, pertencentes à família há anos. Portas se estendiam à es­querda e à direita, e um vislumbre de luz brilhava por baixo de apenas uma. Parou por um momento e depois continuou rapidamente, descendo o cor­redor na direção do seu quarto. Tinha chegado lá quando ouviu uma porta às suas costas se abrir, e o corredor mal iluminado ficou subitamente inundado de luz.

— Kassandra?

A voz atrás dele era intimidativa, mas quando ela se virou para defrontar-se com ele, os olhos não o eram. Alto, flexível, ainda elegante aos 58 anos de idade, os olhos dele eram de um azul mais gélido do que os dela, o cabelo, uma mistura de areia e neve. Era um belo rosto, o tipo de rosto que se via nos antigos retratos teutônicos, e os ombros eram retos e largos.

— Desculpe...   não pude evitar... atrasei-me terrivelmente...

            Por um instante ficaram ali, olhos fitos uns nos outros. Muita coisa fi­cou por dizer.

— Compreendo. — E compreendia. Muito mais do que ela sabia. - Vai poder dar um jeito? Seria constrangedor, se você se atrasasse.

— Não me atrasarei. Prometo. — Olhou-o com ar triste. Mas sua tristeza não era pelo jantar que esquecera, mas pela alegria que não mais partilhavam.

            Sorriu para ela, do outro lado da vasta distância que parecia separar suas duas vidas.

— Apresse-se. E... Kassandra... — Fez uma pausa, e a moça sabia o que viria, enquanto ondas de culpa subiam-lhe à garganta. - Já esteve lá em cima?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não, ainda não. Irei antes de descer.

            Walmar Von Gotthard então fechou suavemente a porta. Para além desta ficava o apartamento particular dele, um quarto grande e severo mobiliado com antigüidades alemãs e inglesas em madeira escura; um tapete persa em tons de vinho e azul-mar forrava os belos pisos de madeira. As paredes do quarto eram em lambris de madeira, assim como as do escritório que era o seu retiro particular, logo além. Havia também um grande quarto de vestir e o ba­nheiro.

            O apartamento de Kassandra ainda era maior. E agora, atravessando às pressas a porta do quarto, ela jogou o chapéu sobre o edredom de cetim cor-de-rosa que cobria a cama. Os seus aposentos eram tão parecidos com ela, quanto os de Walmar com ele. Tudo era macio e suave, marfim e rosa, cetim e seda, forrado e delicado, e oculto do mundo. As cortinas eram tão fartas que obscureciam a vista do jardim, o quarto tão forrado e fechado que, como sua vida com Walmar, escondia-a do mundo lá fora. O quarto de vestir era quase tão grande quanto o de dormir, uma série sólida de armários cheios de roupas finíssimas, uma parede inteira de sapatos feitos sob medida, e do lado oposto fileiras intermináveis de caixas de cetim rosa cheias de chapéus. Por trás de uma pequena tela impressionista francesa ficava escondido o cofre onde Kas­sandra guardava as jóias. E para além do quarto de vestir, uma pequena sala de estar com vista para o lago. Havia uma espreguiçadeira que tinha perten­cido à sua mãe, e uma minúscula escrivaninha feminina francesa. Havia livros que agora não lia mais, um bloco de desenho em que não tocava desde mar­ço. Era como se não vivesse mais ali. Só ganhava vida nos braços de Dolff.

Tirando os sapatos de pelica cor de marfim e desabotoando apressadamente o vestido cor de lavanda, escancarou as portas de dois armários, reven­do mentalmente o que havia lá dentro. Porém, enquanto fitava o conteúdo dos armários, teve que parar, mal conseguindo respirar. O que estava fazendo? O que tinha feito? Que tipo de existência louca estava vivendo? Que esperanças tinha de algum dia ter uma vida de verdade com Dolff? Era a mulher de Walmar para sempre. Sabia disso, sempre o soubera, desde que se casara com ele, aos 19 anos. Ele estava com 48 anos, na época, e o casamento parecera tão adequado. Um associado do pai, diretor de um banco afiliado ao do pai, tinha sido uma fusão, tanto quanto um casamento. Para pessoas como Kassandra e Walmar, era isso que fazia sentido. Partilhavam um estilo de vida, conheciam as mesmas pessoas. Suas famílias tinham-se casado entre si mais de uma vez. Tudo no casamento deveria ter dado certo. Não importava que ele fosse tão mais velho, e não era como se fosse idoso ou semimorto. Walmar sempre fora um homem fascinante, e 10 anos depois do casamento ainda o era. E o mais importante: ele a compreendia. Compreendia sua fragilidade irreal, sabia co­mo a mulher tinha sido cuidadosamente isolada e superprotegida durante sua jovem vida. Ele a protegeria dos momentos mais ásperos da vida.

E assim Kassandra tivera sua vida resolvida para ela, seguindo um pa­drão muito gasto pela tradição e cortado por mãos mais hábeis do que as suas. Tudo o que tinha a fazer era o que se esperava dela, e Walmar a adoraria e pro­tegeria, guiaria e orientaria, e continuaria a manter o casulo que fora tecido para ela quando nascera. Kassandra Von Gotthard não tinha nada a temer de Walmar; na verdade, não tinha absolutamente nada a temer, exceto talvez a si mesma. E sabia disso, agora, melhor do que jamais o soubera.

Mas ao se abrir um pequeno buraco no casulo que a protegia, ela fugira, se não no corpo, pelo menos na alma. No entanto, ainda tinha que voltar para casa à noite, pára desempenhar o seu papel, para ser quem devia ser, para ser a mulher de Walmar Von Gotthard.

— Frau Von Gotthard?

Kassandra virou-se nervosamente ao ouvir a voz às suas costas, no quar­to de vestir.

— Ah, Anna...  obrigada. Não preciso de ajuda.

— Fráulein Hedwig pediu-me que lhe dissesse — ah, Deus, aí vem o que eu temia: deu as costas à empregada, sentindo a culpa penetrá-la mais uma vez até o âmago — que as crianças gostariam de vê-la antes de ir para a cama.

— Subirei tão logo esteja pronta. Obrigada.

O tom da voz dizia à jovem no uniforme de renda preta que podia ir. Kassandra conhecia perfeitamente quais os tons a usar, as entonações e pala­vras certas eram parte do seu sangue. Jamais rude, jamais zangada, raramente brusca, era uma dama. Este era o seu mundo. Mas, quando a porta se fechou suavemente atrás da empregada, Kassandra desabou numa cadeira do quarto de vestir com os olhos marejados de lágrimas. Sentia-se impotente, destroça­da, puxada. Este era o mundo dos seus deveres, a existência para a qual fora criada. E era precisamente do que fugia cada dia, quando ia encontrar-se com Dolff.

Walmar agora era a sua família. Walmar e as crianças. Não tinha ninguém a quem recorrer. O pai estava morto. E a mãe, que morrera dois anos depois do pai, será que também se sentira tão sozinha? Não havia ninguém a quem perguntar, e ninguém que a conhecia diria a verdade.

Desde o começo ela e Walmar tinham mantido uma distância respeitosa. Walmar sugerira quartos separados. Havia noitadas no boudoir dela, champa­nha gelando em baldes de prata, que acabavam por levá-los para a cama, em­bora muito raramente, desde o nascimento do último filho deles, quando Kassandra estava com 24 anos. A criança nascera de cesariana, e ela quase mor­rera. Walmar preocupava-se com o que outra gravidez poderia acarretar à mu­lher, e esta também. O champanha gelara cada vez com menos freqüência des­de então. E desde março não houvera mais noitadas no boudoir. Walmar não fizera perguntas. Fora preciso muito pouco para fazer-se entender, a menção a várias visitas ao médico, a referência a uma dor, um mal-estar, uma dor de cabeça. Ela se recolhia cedo todas as noites. Estava tudo bem, Walmar com­preendia. Mas, na verdade, quando Kassandra voltava para esta casa, a ca­sa dele, o quarto dela, sabia que não estava absolutamente bem. O que faria agora? Era isso o que a vida tinha prometido? Devia continuar assim, indefi­nidamente? Era provável. Até que Dolff se cansasse do jogo. Por que ele se cansaria, teria que se cansar. Kassandra já o sabia, embora Dolff ainda não. E depois? Um outro? E mais outro? Ou mais nenhum? Enquanto fitava desola­da o espelho, não tinha mais certeza. A mulher que tinha tido certeza na ca­sa de Charlottenburg naquela tarde não estava mais tão confiante. Sabia ape­nas que era uma mulher que traíra o marido e o seu estilo de vida.

Inspirando fundo, levantou-se e voltou para o armário. Não importava o que sentia agora, tinha que se vestir. O mínimo que podia fazer por ele era estar bem vestida no seu jantar. Os convidados eram todos colegas banqueiros e suas mulheres. Kassandra era sempre a mais jovem em qualquer reunião, mas saía-se muito bem.

Por um instante, Kassandra teve vontade de bater a porta do armário e correr para o andar de cima, a fim de ficar com os filhos...   os milagres ocultos dela no terceiro andar. As crianças que brincavam no lago em Charlotten­burg sempre a faziam lembrar-se delas, e sempre lhe doía dar-se conta de que conhecia os próprios filhos tão pouco quanto aqueles minúsculos estranhos sorridentes no lago. Fráulein Hedwig era a mãe deles, agora. Sempre fora e sempre seria. Kassandra sentia-se como uma estranha com o menino e a meni­na, ambos tão parecidos com Walmar, e tão pouco parecidos com ela...

— Não seja absurda, Kassandra. Você não pode tomar conta dela.

— Mas eu quero. — Tinha olhado para Walmar com tristeza no dia se­guinte ao nascimento de Ariana. — Ela é minha.

— Não é sua, é nossa. — Sorrira para a mulher gentilmente, enquanto os olhos dela ficavam cheios de lágrimas. — O que quer fazer, ficar acordada a noite toda, trocando fraldas? Ficaria exausta em dois dias. Isso é inconcebível, é... uma bobagem.

Por um momento, parecera irritado. Mas não era bobagem, era o que ela queria, e sabia também que era o que não lhe permitiriam fazer.

 A ama chegara no dia em que deixaram o hospital, e carregara a peque­nina Ariana para o terceiro andar. Naquela noite, quando Kassandra subira para vê-la, fora advertida pela Fraulein por ter perturbado o bebê. Este deve­ria ser levado até ela, insistia Walmar; não havia motivo para Kassandra ir ao andar superior. Mas a sua filhinha só era levada até ela uma vez, pela manhã, e quando Kassandra aparecia no quarto do bebê, mais tarde, diziam-lhe sem­pre que era cedo demais ou tarde demais, que o bebê estava dormindo, ou irritadiço, ou de mau humor. E Kassandra era mandada de volta a seu quarto, para ficar penando.

— Espere até a criança ficar mais velha — Walmar lhe dizia. — Então vo­cê poderá brincar com ela sempre que tiver vontade.

Mas, a essa altura, era tarde demais, Kassandra e a filha eram estranhas. A ama vencera. E quando o segundo filho nasceu, três anos depois, Kassandra estava doente demais para lutar. Quatro semanas no hospital, e mais quatro semanas de cama, em casa. Mais quatro meses de tremenda depressão. E quan­do acabou, soube que era uma batalha que jamais venceria. Sua assistência não era necessária, ou sua ajuda, ou seu amor, ou seu tempo. Era uma linda senhora que vinha fazer visitas, usando roupas bonitas e cheirando a perfume francês. Dava-lhes às escondidas bolos e doces, gastava fortunas em brinque­dos exóticos, mas o que eles precisavam da parte dela, não lhe era permitido dar aos filhos, e o que ela queria deles em troca, há muito tempo já tinham dado à ama.

Cessadas as lágrimas, Kassandra se controlou, tirou o vestido do armário e atravessou o quarto para achar um par de sapatos pretos de camurça. Tinha nove pares para a noite, mas escolheu o que tinha comprado mais recente­mente, com aberturas em forma de pêra sobre os dedos, deixando visíveis as unhas pintadas. As meias de seda pareciam sussurrar enquanto as tirava de sua caixa de cetim, e trocava por elas as meias cor de marfim que usara antes. Su­bitamente, sentiu-se agradecida por ter tomado banho na casa de Dolff. Ago­ra, enquanto se enfiava cuidadosamente no vestido preto, parecia-lhe incrível que chegasse a existir no mundo de Dolff. A casa em Charlottenburg mostra­va-se um sonho distante. Esta era a sua realidade. O mundo de Walmar Von Gotthard. Era irrecuperável e inegavelmente sua mulher.

Puxou o zíper do vestido, que era uma túnica longa e estreita de crepe de lã preto de mangas compridas e gola alta, que chegava quase até os sapatos pretos. Era impressionante e sóbrio, e somente quando ela se virava era que a be­leza total da roupa, e dela própria, se revelava. Uma grande abertura oval, como uma lágrima gigante, deixava à mostra as suas costas, do pescoço à cintura; a pele de marfim brilhava pela abertura, como o luar refletido num oceano ne­gro numa noite de verão.

Colocando uma pequena capa de seda sobre os ombros para proteger o vestido, penteou cuidadosamente o cabelo e fez um coque, enfiando nele lon­gos alfinetes de coral negro. Satisfeita com o efeito obtido, tirou o rimei dos olhos, depois refez a maquiagem, deu uma última olhada no espelho e prendeu em cada orelha um grande diamante em forma de pêra. Nas mãos estavam a grande esmeralda que costumava usar à noite e o anel de sinete de diamantes que sempre usava na mão direita. O anel enfeitava as mãos das mulheres da sua família há quatro gerações. Trazia as iniciais de sua bisavó em diamantes, e brilhava ao refletir a luz.

Com um último olhar por cima do ombro, soube que estava como sempre, deslumbrante, linda e tranqüila. Ninguém sonharia que por baixo havia tormento. Ninguém adivinharia que tinha passado a tarde nos braços de Dolff.

No corredor longo, quieto e cinzento, parou apenas por um instante na base das escadas que levavam ao terceiro andar. Um relógio no canto bateu as horas. Ela se arrumara a tempo, na verdade. Eram sete horas, e os convidados eram esperados às sete e meia. Tinha meia hora para passar com Ariana e Gerhard antes que fossem para a cama. Meia hora de maternidade. Ficou-se per­guntando, enquanto subia as escadas para vê-los, quanto isso somaria, na vida deles. Quantos 30 minutos multiplicados por quantos dias? Mas, teria visto a própria mãe com mais freqüência? Sabia, enquanto atingia o último degrau da escadaria, que não. E o que tinha de mais vivido e tangível era o anel de sine­te, que sempre estivera no dedo da mãe.

Diante da porta do grande quarto de brinquedos, hesitou por um momento e depois bateu. Não houve resposta, mas ela podia ouvir gritinhos e ri­sos do outro lado. Já teriam comido há horas, e a essa altura já teriam tornado banho. Fraulein Hedwig teria providenciado para que guardassem os brin­quedos, ajudados nessa tarefa monumental pela empregada encarregada do quarto das crianças. Porém, pelo menos, estavam de volta... tinham passado a maior parte do verão no campo, e Kassandra não os vira nem uma vez. Es­te ano, pela primeira vez, Kassandra não quisera deixar Berlim, por causa de Dolff. Uma obra de caridade conveniente lhe fornecera a desculpa tão desesperadamente procurada.

Bateu de novo, e desta vez eles ouviram. Fráulein Hedwig disse-lhe que entrasse. Quando Kassandra ingressou no aposento, fez-se um repentino silêncio, as crianças parando de brincar com um ar de assombro. De tudo, era aquilo o que a mãe mais detestava. O olhar que lhe lançaram, sempre como se nunca a tivessem visto ali antes.

— Alô, todo mundo. — Kassandra sorriu e estendeu os braços. Por um instante, ninguém se moveu, e então, ante a insistência de Fráulein Hedwig, Gerhard veio primeiro. Precisaria apenas de um momento de instigação, e voa­ria livremente para os braços da mãe. Porém, a voz de Fráulein Hedwig logo o deteve.

— Gerhard, não toque! Sua mãe está vestida para a festa.

— Não faz mal. — Os braços abertos de Kassandra não vacilaram, mas a criança recuou para longe do alcance deles.

— Alô, mamãe. — Os olhos eram grandes e azuis como os dela, mas o rosto era de Walmar. Tinha feições perfeitas e lindas, um sorriso feliz, cabelo louro, e o corpinho ainda gorducho de bebê, a despeito de estar quase com cinco anos. — Machuquei o braço hoje. — E mostrou, sem ainda ter chegado junto aos braços da mãe. Esta o tocou suavemente.

— Deixe ver. — E então: — Ah, que horrível. Doeu muito?

Era um arranhão pequeno e um machucado ainda menor, mas para ele era importante, enquanto olhava do braço ferido para a mulher no vestido preto.

— Doeu. Mas não chorei.

— Foi muito corajoso de sua parte.

— Eu sei.

Parecia satisfeito consigo mesmo, e depois se afastou dela para ir guardar um brinquedo que esquecera no outro quarto, o que deixou Kassandra so­zinha com Ariana, que ainda lhe sorria timidamente, parada ao lado de Fráu­lein Hedwig.

— Não vou ganhar um beijo hoje, Ariana? — A menina fez que sim e se aproximou, hesitante, graciosa, com uma beleza delicada que prometia suplantar até a da mãe. — Como vai?

— Bem, obrigada, mamãe.

— Nenhum machucado, nenhum arranhão para eu beijar? — Ela sacudiu a cabeça, e as duas trocaram um sorriso. Gerhard fazia as duas rirem, às vezes. Era mesmo um garotinho. Mas Ariana sempre fora diferente. Pensativa, quie­ta, muito mais tímida do que o irmão. Kassandra costumava perguntar-se se teria sido diferente se nunca tivesse havido a ama. — O que fez hoje?

— Li, e fiz um desenho.

— Posso ver?

— Ainda não está terminado. — Nunca estava.

— Não importa. Gostaria de vê-lo, assim mesmo.

Mas Ariana enrubesceu vivamente e sacudiu a cabeça. Kassandra sentiu-se mais do que nunca uma intrusa, e desejou, como sempre acontecia, que Hedwig e a empregada desaparecessem, ou pelo menos fossem para o outro quarto, para que pudesse ficar a sós com os filhos. Era apenas em raras oca­siões que ela ficava sozinha com as crianças. Hedwig ficava por perto para im­pedir que as crianças se comportassem mal.

— Olhe só o que ganhei! — Gerhard voltara para junto deles, de pijama, com um grande cachorro de brinquedo.

— De quem ganhou?

— Da Baronesa Von Vorlach. Ela me trouxe hoje à tarde.

— Foi? — Kassandra parecia confusa.

— Disse que a senhora ia tomar chá com ela, mas que se esqueceu.

            Kassandra fechou os olhos e sacudiu a cabeça.

— Que horrível. Esqueci. Terei que ligar para ela. Mas é um cachorro muito bonito. Já tem nome?

— Bruno. E Ariana ganhou um grande gato branco. — Foi?

Ariana guardava a novidade para si mesma. Quando partilhariam as coisas? Quando a menina crescesse, talvez fossem amigas. Mas agora era tarde de­mais, e no entanto cedo demais.

Lá embaixo o relógio bateu de novo, e Kassandra olhou para os filhos, sentindo a angústia tomar conta dela. E Gerhard olhou para ela, desolado, pe­quenino e gorduchinho.

— Tem que ir?

Kassandra fez que sim com a cabeça.

— Desculpe. Papai está dando um jantar.

— A senhora também não está? — perguntou Gerhard, olhando-a com curiosidade, e ela sorriu.

— Estou, sim, mas é para um pessoal do banco dele, e de alguns outros bancos.

— Parece muito enjoado.

— Gerhard! — repreendeu, rapidamente, Hedwig, mas Kassandra riu. Baixou a voz, num tom conspiratório, enquanto falava com aquela criança deliciosa.

— E vai ser... mas não conte a ninguém... é o nosso segredo.

— Mas a senhora está muito bonita. — Examinou-a com ar de aprovação, e ela beijou a mãozinha gorducha.

— Obrigada. — Tomou-o nos braços, então, e beijou-o docemente no al­to da cabecinha loura. — Boa noite, meu pequenino. Vai levar o cachorro no­vo para a cama?

O menino sacudiu a cabeça com firmeza.

— Hedwig falou que não posso.

Kassandra se endireitou e sorriu amavelmente para a mulher, que era mais velha e corpulenta.

— Acho que pode.

— Pois não, madame.

Gerhard abriu um sorriso para a mãe e trocaram um outro olhar conspiratório, e então os olhos dela se voltaram para Ariana.

— Também vai levar o gato novo para a cama com você?

— Acho que sim. — A menina olhou primeiro para Hedwig, depois para a mãe, e Kassandra sentiu algo profundo morrer dentro dela de novo.

— Terá que mostrá-lo para mim amanhã.

— Sim, senhora.

As palavras doeram fundo, mas a dor não transparecia enquanto Kassandra beijava suavemente a filha, acenava para as duas crianças e fechava mansamente a porta.

Com o máximo de rapidez que lhe permitia o estreito vestido preto, Kassandra desceu os degraus, chegando ao pé da escada bem a tempo de ver Walmar recebendo os primeiros convidados.

— Ah, aí está você, querida.

Virou-se para sorrir para ela, apreciando, como sempre, sua aparência. Fez as apresentações enquanto calcanhares batiam e mãos eram beijadas. Era um casal que Kassandra tinha visto com freqüência nas festas do banco, mas que ainda não tinha visitado a casa deles. Recebeu-os calorosamente e tomou o braço de Walmar, enquanto entravam no salão principal.

Foi uma noite de conversas civilizadas, comida farta e o melhor dos vinhos franceses. Os convidados falavam principalmente de assuntos bancários e viagens. Crianças e política ficavam estranhamente ausentes da conversa, em­bora estivessem em 1934, e a morte do Presidente Von Hindenburg naquele ano tivesse removido a derradeira ameaça ao poder de Hitler. Não era um as­sunto que valesse a pena discutir. Desde que Hitler se tornara Chanceler, no ano anterior, os banqueiros da nação tinham mantido, sua posição. Eram importantes para o Reich, tinham o seu trabalho a fazer, e Hitler tinha o dele. Conquanto alguns deles o tivessem em muito pouca conta, Hitler não iria criar problemas no seu meio. Viva e deixe viver. E havia aqueles, é claro, que estavam satisfeitos com o Reich de Hitler.

Walmar não estava entre estes, mas era um ponto de vista que partilhava com poucos. Ficara atônito com o poder cada vez maior dos nazistas, e adverti­ra os amigos, particularmente em várias oportunidades, de que aquilo levaria à guerra. Mas não havia motivo para se discutir o assunto, naquela noite. Os crepes flambées, servidos com champanha, pareciam bem mais interessantes do que o Terceiro Reich.

O último convidado só se retirou à uma e meia, ocasião em que Walmar se virou para Kassandra, cansado e com um bocejo.

— Acho que foi um jantar muito bem-sucedido, querida. Gostei do pato mais do que do peixe.

— Foi?

Tomou nota mentalmente para dizer à cozinheira, no dia seguinte. Ser­viam jantares gigantescos, com entrada, sopa, peixe, carne, salada, queijo, sobremesa e finalmente frutas. Era o que se esperava deles, portanto agiam assim.

— Passou uma noite agradável? — perguntou, olhando para ela gentil­mente, enquanto subiam lentamente as escadas.

— Claro que sim, Walmar. —- Ficou grata por ele ter perguntado. — Vo­cê não?

— Útil. Aquela transação belga que estávamos discutindo provavelmente será realizada. Foi importante que Hoffmann tivesse vindo hoje. Ainda bem que veio.

— Ótimo. Então, concordo com você. — Enquanto o acompanhava, sonolenta, perguntava-se se seria esta a sua finalidade: encorajá-lo na sua transa­ção belga, e a Dolff no seu novo livro. Seria isso, então? Devia ajudá-los a rea­lizar o que quer que fossem fazer? Mas se os ajudava, por que não aos filhos? E então pensou, por que não a si mesma? — Achei a mulher dele muito bonitinha.

Walmar deu de ombros, e enquanto estavam parados no patamar, sorriu para ela, mas com uma sombra de tristeza nos olhos.

— Eu não. Infelizmente você me estragou para qualquer outra mulher. Kassandra sorriu de volta para ele.

— Obrigada.

Houve um momento de constrangimento enquanto ficavam ali parados na escada. Era o momento da separação. Parecia mais fácil nas noites em que não tinham nada para fazer. Ele se recolhia ao seu escritório, ela subia sozinha para ler um livro. Porém, o fato de subirem a escada juntos deixava-os com uma bifurcação na estrada que nunca ficava menos pungente, e deixava a am­bos sentindo-se muito sozinhos. Antes, sempre sabiam que poderiam encon­trar-se mais tarde no quarto dela, mas agora não era segredo entre eles que não o fariam. E sempre havia uma aura de adeus cada vez que chegavam ao patamar. Sempre parecia muito mais do que um simples boa noite.

— Está com melhor aparência ultimamente, querida. E não me refiro à sua beleza. — Sorriu meigamente. — Refiro-me à sua saúde.

Ela retribuiu o sorriso.

— Acho que estou me sentindo melhor.

Mas havia algo ausente nos olhos dela, enquanto falava, e rapidamente desviou os olhos dos deles. Fez-se um instante de silêncio enquanto o relógio bateu suavemente o quarto de hora.

— É tarde, é melhor você ir para a cama.

Beijou-lhe a cabeça e caminhou resolutamente para a porta do seu quar­to. Ela viu apenas as costas dele, enquanto murmurava baixinho:

—  Boa noite. — Em seguida, desceu rapidamente o corredor na direção do seu próprio quarto.

 

— Está bem quentinha? — Olhou para ela, sorridente, e Kassandra riu.

— Nisto? Ficaria encabulada de admiti-lo, se não estivesse.

— E devia ficar.

Olhou com admiração para o novo casaco de zibelina, que terminava a apenas alguns centímetros do chão. Ela usava um chapéu combinando, inclinado para um lado da cabeça, e o cabelo louro e lustroso estava preso num co­que na nuca. Tinha as faces rosadas de frio e os olhos pareciam mais espanto­samente violetas do que nunca. Dolff lhe envolvia os ombros com o braço, e olhava para ela com orgulho. Estavam em novembro, e ela já era sua há mais de oito meses.

— Como se sente, agora que acabou o livro?

— Como se estivesse desempregado.

— Sente muita falta dos personagens?

— No início, sentia uma falta terrível deles. — E então lhe beijou a ca­beça. — Mas sinto menos, quando estou com você. Pronta para voltar, agora?

Ela fez que sim, e os dois retomaram para a casa dele, andando rapidamente as poucas quadras até que chegaram diante da porta. Ele a abriu para Kassandra, e ambos entraram no saguão. Sentia-se cada vez mais em casa, ali. Na semana anterior tinham até mesmo chegado a entrar juntos numas lojas de antigüidades, comprando duas cadeiras e uma pequena mesa.

— Chá? — Sorriu carinhosamente para ele, que balançou a cabeça afirmativamente, como resposta, seguindo-a até a cozinha. Ela botou a chaleira no fogo e se sentou em uma das cadeiras bastante usadas da cozinha.

— Tem alguma idéia do quanto e maravilhoso tê-la aqui, madame?

— Tem alguma idéia do quanto é maravilhoso estar aqui?

Agora, estava aceitando melhor a idéia da culpa. Este era simplesmente o seu modo de vida, e se sentira grandemente reconfortada ao tomar conheci­mento por acaso, alguns meses antes, de que uma das irmãs do pai tivera o mesmo amante durante 32 anos. Talvez esse também fosse o seu destino. En­velhecer com Dolff e Walmar, sendo útil a ambos, o tecido da sua vida irrevogavelmente trançado com o de Dolff, e debruado pelos braços protetores de Walmar. Afinal de contas, isso era tão terrível? Alguém estava realmente sofren­do? Atualmente, era raro sentir as pontadas da culpa. Somente quando estava com as crianças é que sentia alguma espécie de dor, mas já tinha essa sensação muito antes de Dolff aparecer.

— Está com cara de séria, de novo. No que estava pensando?

— Ah, em nós...

Ficou pensativa de novo, enquanto lhe servia o chá. Como era diferente aqui na cozinha confortável, ao contrário da cerimônia elaborada realizada na casa de Grunewald, quando convidava amigas para o chá, bom Berthold, o mordomo, fitando-as sombriamente.

— Pensar em nós a deixa séria?

Virou-se para olhar para ele, enquanto lhe entregava uma xícara.

— Às vezes. Levo isto muito a sério, você sabe.

Olhou para ela, solenemente.

— Eu sei. Eu também. — E então, subitamente, teve vontade de falar uma coisa que nunca lhe dissera antes. — Se as coisas fossem...  diferentes... quero que saiba que...  eu iria querê-la para sempre.

Os olhos dela não se desviaram dos dele.

— E agora?

A voz dele era uma carícia no aposento cálido.

— Ainda a quero para sempre. — E com um pequeno suspiro: — Mas não posso fazer nada a respeito.

— Não espero que faça. — Sentou-se diante dele com um sorriso meigo. — Estou feliz desse jeito. — E então lhe revelou uma coisa que nunca dissera antes. — Esta é a parte mais importante da minha vida, Dolff. — Significava tudo para Dolff que ela fosse parte de sua vida. Tanta coisa se alterara na vida dele, no último ano. O resto do mundo estava mudando em derredor, porém ele estava muito mais consciente disso do que ela. Kassandra tocou-lhe a mão suavemente, puxando-o de volta dos seus pensamentos. — Agora, fale-me do livro. Que disse o seu editor?

Mas, enquanto ela falava, uma expressão estranha lhe apareceu nos olhos.

— Não muita coisa.

— Não gostou? — Parecia chocada. O livro era maravilhoso. Ela mesma o lera, enfiada na cama dele, nas tardes frias de inverno. — O que foi que ele disse?

— Nada. — Notou que os olhos dele endureciam. — Não estão inteira­mente certos de poderem publicá-lo.

Então era esta a sombra que tinha visto nos olhos dele quando chegara, logo depois do almoço. Por que não lhe contara mais cedo? Mas era bem do jeito dele, ocultar inicialmente os seus problemas dela. Sempre queria saber dela antes.

— Estão malucos? E quanto ao sucesso do seu último livro?

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. — Afastou-se e foi botar a xícara na pia.

— Dolff, não estou compreendendo.

— Nem eu, mas acho que compreenderemos. Nosso amado líder logo nos mostrará.

— De que está falando? — Fitou-lhe as costas, e depois a raiva nos seus olhos, quando ele se virou.

— Kassandra, tem alguma idéia do que está acontecendo a seu país?

— Está-se referindo a Hitler? — Ele fez que sim. - Vai passar — conti­nuou Kassandra. — As pessoas ficarão entediadas com ele, e cairá das boas graças de todos.

— É mesmo? É isso o que você acha? — E com amargura: — É isso o que o seu marido acha?

Ficou espantada à menção de Walmar.

— Não sei. Ele não fala muito a respeito. Pelo menos, não comigo. Ne­nhuma pessoa razoável gosta de Hitler, é óbvio, mas não creio que seja tão pe­rigoso quanto alguns acham.

— Então você é uma tola, Kassandra. — Nunca lhe falara antes com aquele tom de voz. Porém, subitamente ela viu a raiva e a amargura que jamais desvendara para ela, antes. — Sabe por que o meu editor está em cima do mu­ro? Não porque o meu último livro não tenha vendido, não porque não gostasse do novo original. Foi burro o bastante para deixar que eu soubesse o quanto gostara dele, antes de bancar o indiferente. Mas, por causa do Partido ... — Olhou-a com uma angústia que despedaçou o coração dela. — Porque sou judeu, Kassandra... porque sou judeu. — No final, sua voz era um mur­múrio que mal se ouvia. — Um judeu não deve ser bem-sucedido, não deve ga­nhar prêmios nacionais. Se Hitler conseguir o que quer, não haverá lugar para os judeus na Nova Alemanha.

— Mas isso é loucura.

O seu rosto dizia que não acreditava nele. Era algo que nunca haviam discutido. Ele lhe falara dos pais, do passado, da infância, da padaria, mas nunca tocara no assunto de ser judeu, no que isso significava ou deixava de significar para ele. Kassandra simplesmente presumira que ele o era, e se esquecera do assunto. E nas raras ocasiões em que pensava naquilo, era uma coi­sa que a agradava, parecia diferente e exótico, de um modo muito agradável.

Mas era algo que simplesmente nunca entrara nas suas discussões, e raramen­te nos pensamentos dela. E a realidade do que podia significar para ele estava aos poucos se tornando clara.

Kassandra ficou pensando nas implicações do que ele dissera.

— Não pode estar falando sério. Não pode ser isso.

— Não? Está começando a acontecer com alguns dos outros. Não sou o único. E está acontecendo apenas com os judeus. Não aceitam nossos novos li­vros, não querem publicar nossos artigos, não atendem aos nossos telefonemas. Creia-me, Kassandra, eu sei.

— Então procure outro editor.

— Onde? Na Inglaterra? Na França? Sou alemão, quero publicar o meu trabalho aqui.

— Então faça-o. Não podem todos ser tolos.

— Não são tolos. São muito mais espertos do que imaginamos. Estão vendo o que vem vindo, e estão com medo.

Kassandra fitou-o, chocada com o que estava escutando. Não podia ser tão ruim quanto ele achava que era. Estava simplesmente nervoso por causa da rejeição. Soltou um longo suspiro e tomou-lhe a mão.

— Mesmo que seja verdade, não vai continuar assim para sempre. Eles vão relaxar quando virem que Hitler não vai causar tantos problemas quanto imaginam.

— O que a faz pensar assim?

— Não pode. Como poderia? O poder ainda está nas mãos certas. O es­teio deste país está nos bancos, nas empresas, nas famílias antigas...  eles não vão acreditar em todo esse lixo que ele fica declamando. As classes baixas po­dem acreditar, mas quem são elas, afinal?

Dolff tinha um ar sombrio, quando respondeu:

— As "famílias antigas", como você diz, podem não acreditar, mas se não se manifestarem contrárias a isso, estaremos perdidos. E você está errada quanto a mais outra coisa. Não são mais o poder neste país. O poder é o homem comum, exércitos e exércitos e exércitos de homens comuns, homens que são individualmente impotentes, mas fortes como grupo, gente que está cansada do "esteio" a que você se referiu, cansada das classes superiores e das "famílias antigas" e bancos. Essa gente crê em cada palavra que Hitler está pregando; acha que encontrou um novo deus. E se todos se juntarem, serão o verdadeiro poder neste país. E se isso acontecer, todos estaremos encrenca­dos, não apenas os judeus, mas gente como você, também.

Ficou apavorada ao ouvir o que ele estava dizendo. Se estivesse certo... Mas não poderia estar... não podia. Sorriu para ele e se levantou para correr as mãos lentamente pelo seu peito.

— Tomara que nada seja tão terrível quanto você prediz.

Beijou-a com meiguice, e com o braço ao redor de sua cintura, conduziu-a lentamente para o quarto. Kassandra teve vontade de perguntar-lhe o que ia fazer quanto ao novo livro, mas detestava insistir, não queria reavivar mais os temores dele. E para um autor de sua magnitude, parecia improvável que os preconceitos de Hitler contra os judeus e autores judeus pudessem ter alguma importância. Afinal, ele era Dolff Sterne.

Naquela noite, Kassandra estava pensativa, enquanto voltava para Grunewald, remoendo o que Dolff dissera. A expressão nos olhos do amante a atormenta­va, enquanto ela entrava em casa. Tinha uma hora para desfrutar sozinha, an­tes do jantar, e esta noite, ao invés de ir ver as crianças, buscou refúgio no quarto. E se ele tivesse razão? O que poderia significar? O que significaria para ambos? Mas enquanto afundava devagarinho numa banheira cheia de água quente, concluiu que a coisa toda era provavelmente uma bobagem. O livro seria publicado. Ele ganharia um novo prêmio. Os artistas, às vezes, eram um pouco malucos. Sorriu enquanto recordava outros momentos da tarde. Ainda estava sorrindo consigo mesma, quando ouviu a batida na porta do quarto, e disse distraidamente para a empregada entrar.

— Kassandra? — Mas não era Anna. Era a voz do marido, no outro apo­sento.

— Walmar? Estou no banho.

Tinha deixado as portas abertas, e ficou imaginando se o marido entraria no banheiro, mas quando a voz dele a alcançou de novo, não estava che­gando mais perto, e continuaram falando pela porta aberta.

— Quer fazer o favor de vir me ver, quando estiver vestida?

Parecia sério, e por um instante ela sentiu o medo agitar-lhe o coração. Iria confrontá-la? Fechou os olhos e prendeu a respiração.

— Quer entrar?

— Não, bata na minha porta antes do jantar. — Parecia mais preocupado do que zangado.

— Estarei lá daqui a alguns minutos.

— Ótimo.

Ouviu a porta fechar-se de novo, mansamente, e terminou rapidamente o banho. Levou apenas alguns minutos para se maquiar e correr um pente pe­los cabelos. Vestiu um costume cinzento simples para o jantar, com uma blu­sa de seda branca que acabava num nó frouxo no pescoço. Os sapatos eram de camurça cinzenta, as meias do mesmo tom discreto, e ela rapidamente colocou o fio duplo de pérolas negras que fora o preferido da mãe, junto com os brin­cos que combinavam. Parecia discreta e séria, ao se olhar no espelho antes de descer o corredor. O único toque de cor era o cabelo, e o profundo azul Wedgwood dos olhos. Quando chegou diante da porta de Walmar, bateu de leve, e um momento depois ouviu-lhe a voz, do outro lado.

— Entre.

Cruzou a soleira da porta, sentindo a saia de seda do costume roçar-lhe nas pernas. Walmar estava sentado numa das confortáveis poltronas de couro marrom do escritório, e apressou-se a largar o relatório que estava lendo, quando a mulher entrou.

— Está linda, Kassandra.

— Obrigada.

Perscrutou-lhe os olhos e viu a verdade, a dor. Teve vontade de estender as mãos para ele, oferecer-lhe conforto. Porém, enquanto o observava, desco­briu que não podia aproximar-se dele. Pegou-se subitamente fitando-o, com um abismo a separá-los. Foi Walmar quem recuou.

— Sente-se, por favor. — Ela obedeceu, enquanto o marido a observava. —Xerez? — Ela sacudiu a cabeça. Podia ver nos seus olhos que ele sabia. Virou o rosto para o outro lado, fingindo olhar o fogo. Não havia nada que lhe pudesse dizer. Teria que agüentar as acusações e chegar a uma solução, no fi­nal. O que poderia fazer? Qual dos homens abandonaria? Precisava dos dois, amava os dois. — Kassandra...

Manteve os olhos fitos no fogo por um momento, e finalmente virou-os para ele.

— Sim. — Era um gemido doloroso.

— Preciso dizer-lhe uma coisa. É... — Parecia agoniado, mas ambos sa­biam que agora não havia como recuar. —   é extremamente doloroso para mim discutir isso com você, e tenho certeza de que é igualmente desagradável para você. — O coração dela batia com tanta força nos ouvidos que mal podia ouvir o que o marido dizia. Sua vida tinha terminado. 0 fim estava come­çando. — Mas preciso falar-lhe. Para o seu bem. Para a sua segurança. E talvez para a nossa.

— Minha segurança? — Era apenas um murmúrio, mas ela o fitava, confusa.

— Escute o que vou dizer. — E então, como se fosse demais para ele, recostou-se na poltrona e suspirou. Quando olhou para o marido, Kassandra viu o brilho vivo das lágrimas não derramadas nos seus olhos. — Eu sei... tenho ciência de que... nos últimos meses... você tem estado envolvida numa si­tuação... um tanto difícil. — Kassandra fechou os olhos e escutou o som da­quela voz monótona nos ouvidos. — Quero que saiba que eu... compreendo ... não estou insensível.

Os enormes olhos tristes se abriram de novo.

— Ah, Walmar... — Lentamente as lágrimas começaram a rolar pelas faces dela. — Não quero... não posso...

— Pare. Preste atenção. — Por um momento ele falou igual ao pai dela, e depois de mais um suspiro, continuou. — O que vou lhe dizer é terrivelmente importante. Quero também que saiba, já que a situação está mais ou menos às claras, agora, que eu a amo. Não quero perdê-la, não importa o que possa pen­sar de mim agora.

Kassandra sacudiu a cabeça, e tirando um lenço de renda do bolso, assoou o nariz, por entre as lágrimas.

— Não tenho nada exceto respeito por você, Walmar. E eu o amo, tam­bém. — Era verdade. Ela o amava, e morria um pouquinho por causa da dor dele.

— Então preste atenção no que tenho a dizer. Vai ter que parar de ver ... o seu amigo. — Kassandra fitou-o com horror mudo. — E não pelos mo­tivos que está pensando. Sou vinte e nove anos mais velho do que você, minha querida, e não sou tolo. Essas coisas às vezes acontecem, e podem magoar muito as pessoas envolvidas, mas, se forem tratadas de modo adequado, pode-se sobreviver à provação. Mas não é isso o que estou lhe dizendo agora. Estou-me referindo a uma coisa muito diferente. Estou-lhe dizendo que, por motivos que não têm nada a ver comigo, com o nosso casamento, você tem de parar de ver... Dolff. — Parecia causar-lhe angústia ter que dizer o nome do outro. — Na verdade, mesmo que não fosse casada agora, que nunca tivesse si­do, é um relacionamento que não se pode dar o luxo de ter.

— Como assim? — Pôs-se de pé iradamente, a gratidão por sua benevolência desaparecendo instantaneamente. — Por quê? Porque é escritor? Acha que é algum tipo de boêmio? Pelo amor de Deus, Walmar, ele é um homem muito decente, maravilhoso. — O absurdo de estar defendendo o amante com o marido ainda não lhe ocorrera, enquanto fitava os olhos de Walmar.

Este recostou-se na poltrona com mais um suspiro.

— Espero que não me ache suficientemente bitolado para eliminar escri­tores e artistas e gente como eles do rol daqueles que tomo por amigos. Nunca fui culpado de opiniões tão preconceituosas, Kassandra. Ficaria bem para vo­cê lembrar-se disso. Estou falando de uma coisa inteiramente diversa. Estou-lhe dizendo — inclinou-se para a frente na poltrona e falou com ela com súbita veemência — que não se pode dar ao luxo de conhecer o homem, de estar com o homem, de ser vista na casa dele, não porque é um escritor... mas porque é judeu. E fico doente ao ter que lhe dizer isso, porque acho que o que está co­meçando a acontecer neste país é revoltante, mas a verdade é que está aconte­cendo, e você é minha mulher e mãe dos meus filhos, e não quero que seja assassinada ou posta na cadeia! Está entendendo? Está entendendo o quanto isso é importante?

Kassandra fitava-o, incrédula. Era como a continuação do pesadelo do que Dolff lhe falara à tarde.

— Está-me dizendo que acha que podem matá-lo?

— Não sei o que farão, e a verdade é que não sei mais o que pensar. Mas enquanto vivermos uma vida tranqüila e ficarmos longe do que está acontecendo, estamos seguros, você está segura, Ariana e Gerhard estão seguros. Mas aquele homem não está seguro. Kassandra, por favor... — Estendeu a mão e segurou a dela. — Se alguma coisa acontecer a ele, não quero que você tome parte nisso. Se as coisas fossem diferentes, se vivêssemos noutra época, eu ficaria magoado com o que você está fazendo, mas fecharia os olhos, porém não posso fazer isso agora. Devo detê-la. Você mesma deve deter-se.

— Mas, e quanto a ele?

Agora, achava-se assustada demais para chorar. A magnitude do que o marido dissera desanuviara-lhe a cabeça. Walmar meneou a cabeça.

— Não podemos fazer nada para ajudá-lo. Se ele for esperto, e as coisas continuarem desse jeito, faria bem em deixar a Alemanha. — Walmar olhou para Kassandra. — Diga-lhe isso.

Kassandra ficou sentada, olhando para o fogo, sem ter certeza do que esperar. A única coisa de que tinha certeza era de que não iria desistir dele. Nem agora, nem depois, nem nunca.

Um minuto depois, seus olhos se encontraram com os dele, e, a despeito da raiva, havia neles muita ternura por ele, também. Foi até Walmar e beijou-o meigamente na face.

— Obrigada por ser tão correto. — Não a repreendera por ser infiel. Esta­va apenas preocupado com sua segurança, e talvez até mesmo com a do seu amigo. Que homem extraordinário! Por um momento, seu amor por ele se inflamou como não se inflamava há anos. Olhou-o, com a mão no ombro dele. — É tão ruim assim?

Ele fez que sim.

— Acho que talvez seja pior. Simplesmente ainda não sabemos. — E após um momento: — Mas saberemos.

— Acho difícil acreditar que as coisas pudessem fugir tanto ao controle. Olhou para ela com urgência, enquanto a mulher se levantava para sair do quarto.

— Fará o que pedi, Kassandra?

Queria prometer que sim, tranqüilizá-lo de que o faria, mas algo se havia modificado sutilmente entre os dois. Ele sabia a verdade, e era melhor assim. Kassandra não tinha mais que mentir.

— Não sei.

— Não tem escolha. — Agora, a voz dele estava irada. — Kassandra, eu a proíbo...

Mas ela já se retirara suavemente do quarto.

 

Seis semanas mais tarde, um dos escritores amigos de Dolff desapareceu. Era muito menos renomado do que Dolff, mas também es­tava tendo dificuldades em publicar os seus trabalhos mais recen­tes. A namorada dele telefonara para Dolff às duas da manhã, histérica. Fora visitar a mãe em Munique, e quando voltara para casa, à noite, encontrara o apartamento arrombado, Helmut desaparecido, e sangue no chão. O origi­nal no qual vinha trabalhando estava espalhado pelo chão. Os vizinhos tinham ouvidos berros, depois gritos, mas era só o que ela sabia. Dolff fora encontrar-se com a moça perto do apartamento de Helmut, e a levara para a casa dele. No dia seguinte, ela foi refugiar-se na casa da irmã.

Quando Kassandra chegou, mais para o final da manhã, encontrou-o profundamente deprimido, e louco de dor com o desaparecimento de Helmut.

— Não compreendo, Kassandra. Aos pouquinhos, o país todo está fican­do maluco. É como um veneno de ação lenta andando pelas veias do país. Acabará por chegar ao coração, e nos matará. Não que eu tenha que me preo­cupar com isso. - Fitou-a sombriamente, e ela franziu a testa.

— O que quer dizer?

— O que acha que quero dizer? Quanto tempo pensa que se vai passar, antes que venham buscar-me? Um mês? Seis meses? Um ano?

— Não seja maluco. Helmut não era romancista. Era um escritor de não-ficção altamente político que vinha criticando Hitler abertamente desde que este subiu ao poder. Não vê a diferença? O que acha que lhes causaria raiva, no seu caso? Um romance como Der Kuss?

— Sabe, não estou certo de enxergar a diferença, Kassandra. — Correu os olhos pelo quarto, irritado. Nem se sentia mais seguro em sua casa; era co­mo se esperasse que viessem buscá-lo a cada dia.

— Dolff... querido, por favor... seja razoável. Foi uma coisa horrível o que aconteceu, mas não pode acontecer com você. Todo mundo o conhe­ce. Simplesmente não vão fazê-lo desaparecer da noite para o dia.

— Por que não? Quem vai detê-los? Você? Alguém? Claro que não. O que foi que fiz por Helmut ontem à noite? Nada. Absolutamente droga ne­nhuma.

— Está certo, então vá embora, pelo amor de Deus. Vá para a Suíça ago­ra. Você poderá publicar lá. E estará seguro.

Mas ele apenas olhou para ela, desanimado.

— Kassandra, sou alemão. Este é meu país, também. Tenho tanto direi­to de estar aqui quanto outro qualquer. Por que diabos devo ir?

— Então o que está querendo dizer, droga? - Era a primeira briga que tinham em um ano.

— Estou dizendo que meu país está  se destruindo, e à sua gente, e que isso está  me deixando doente.

— Mas você não pode impedi-lo. E se é nisso que acredita, então saia da­qui antes que ele o destrua.

— E quanto a você, Kassandra? Fica aqui fingindo que nada disso a to­cará? Acha que não?

— Não sei... não sei... não sei de mais nada. Não compreendo mais nada.

A jovem loura vinha parecendo cansada há semanas. Estava sendo acos­sada de ambos os lados, agora, e se sentia impotente face aos temores deles. Buscava neles conforto, a confirmação de que tudo aquilo em que acreditava jamais mudaria, e os dois lhe diziam que tudo estava mudando; no entanto, tudo o que Walmar queria fazer a respeito era que ela parasse de ver Dolff, e tudo o que este queria era deblaterar sobre algo que nenhum deles tinha o poder de mudar. Ele continuou falando desconexamente por mais meia ho­ra, e subitamente Kassandra pôs-se de pé, furiosa.

— Que diabo quer de mim? O que posso fazer? - disse ela.

— Nada, droga... nada.  — E então, enquanto as lágrimas começaram a lhe escorrer pelas faces, pelo amigo perdido, Dolff a abraçou com força, enquanto soluçava. - Ah, Deus...  Kassandra... ah, Deus...

Ela ficou assim durante uma hora, abraçando-o como teria abraçado um filho.

— Está tudo bem... tudo bem, querido... eu o amo...

Era só o que restava a dizer, mas o dedo do temor que ela estava evitan­do começou a subir por sua espinha, também. E se fosse Dolff a ser arrastado aos gritos, dentro da noite? E se fosse ela a estar no lugar da namorada histé­rica de Helmut? Mas isso não podia acontecer com ela... ou com ele... essas coisas não aconteciam... e não aconteceriam com eles.

Quando chegou em casa, no fim da tarde, Walmar estava esperando por ela, não no seu escritório, mas no salão principal. Fez sinal para que ela se reunisse a ele, e fechou suavemente as portas duplas envidraçadas.

— Kassandra, isso está-se tomando impossível.

— Não quero discutir o assunto. — Deu-lhe as costas, fitando o fogo que ardia sob o retrato do avô dele, cujos olhos sempre pareciam acompanhar a todos na sala. — Não é a hora certa.

— Nunca vai haver uma hora certa. — E então: — Se não fizer o que es­tou pedindo, mandarei você para fora.

— Não irei. Não posso deixá-lo agora. — Era uma loucura estar discutindo aquilo com Walmar, mas não tinha escolha. Há quase dois meses que o assunto fora ventilado, e não importa o quanto lhe fosse custar, não ia ceder. Já desistira de coisas demais na vida. Os sonhos do teatro, os filhos... não iria desistir de Dolff. Virou-se para olhar para o marido. — Walmar, não sei o que fazer. É muito difícil acreditar no que ando escutando. O que está acontecendo conosco? Com a Alemanha? É tudo por causa daquele homenzinho bobo?

— Parece que sim. Ou quem sabe ele despertou alguma insanidade incipiente que tínhamos em nossas almas o tempo todo. Talvez toda essa gente que o recebeu tão bem estivesse simplesmente à espera de alguém que a li­derasse.

— Não se pode detê-lo antes que seja tarde demais?

— Já pode ser tarde demais. Ele entusiasma as pessoas. Promete-lhes progresso, riquezas e sucesso. Para todos aqueles que nunca provaram nada disso, é hipnótico. Não podem resistir.

— E quanto ao resto de nós?

— Esperamos para ver. Mas não o seu amigo, Kassandra. Se as coisas continuarem como estão, ele não vai poder dar-se o luxo de esperar. Oh, Deus, por favor, escute-me, é preciso. Vá para a casa da minha mãe por alguns dias. Pense no assunto. Assim ficará algum tempo longe de nós dois.

Mas ela não queria ficar longe deles. E não queria deixar Dolff.

— Vou pensar no assunto. — Mas o marido soube pelo tom de sua voz que ela não o faria. Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Pela primeira vez nos seus quase 60 anos de vida, Walmar Von Gotthard sentia-se um ho­mem derrotado. Ela ficou vendo-o levantar-se em direção à porta, estendendo-lhe depois a mão. — Walmar... não fique assim... eu... sinto muito...

Mas Walmar apenas se virou da porta, para olhar para ela.

— Você sente muito, Kassandra. E eu também. E as crianças também sentirão, antes que isso chegue ao fim. O que você está fazendo irá destruí-la, e quem sabe no final das contas destruir-nos a todos.

Mas Kassandra Von Gotthard não acreditava nisso.

 

Foi em fevereiro que Walmar e Kassandra compareceram ao Baile da Primavera. O tempo ainda estava gélido, mas era animador co­memorar a próxima chegada da primavera. Ela usou o seu arminho de corpo inteiro sobre um vestido de veludo branco severamente simples. 0 corpete era de frente única e a saia caía em total perfeição da cintura até os pés calçados de cetim branco. O cabelo era urna massa de cachinhos deli­cados presos num coque alto, e ela estava mais linda do que nunca, parecen­do não ter uma só preocupação no mundo. O fato de que Dolff estivera irritadiço de novo o dia todo por causa do original não-publicado, e de que Walmar e ela mal se estavam falando, enquanto sua batalha continuava, não transpare­cia. Treinada desde o berço para demonstrar apenas afabilidade além dos limi­tes do seu quarto, ela sorria com benevolência a cada apresentação, e dançava de bom grado com todos os amigos de Walmar. Como sempre, a entrada deles no salão causara uma pequena sensação, tanto pelas roupas que ela usava co­mo pelo seu rosto de beleza impressionante, que ofuscava até as roupas.

— Está encantadora, Frau Gotthard. Como uma princesa das neves.

O elogio foi feito pelo homem que acabara de conhecer, um banqueiro ou coisa parecida. Walmar o cumprimentara com um aceno breve e amistoso de cabeça, e concordara rapidamente quando o outro lhe pedira permissão para tirar Kassandra para dançar. Estavam valsando lentamente, enquanto Kassandra observava Walmar que batia papo com uns amigos.    

— Obrigada. O senhor conhece meu marido, não é?

— Apenas ligeiramente. Tivemos o prazer de fazer negócios uma ou duas vezes. Mas...  as minhas atividades têm sido de natureza um pouco menos co­mercial, durante o último ano.

— Ah? Tirando umas férias? - Kassandra sorria amavelmente, enquanto valsavam.

— Absolutamente. Meus esforços têm sido dedicados a ajudar nosso lí­der a restaurar as finanças do Terceiro Reich. — O homem falou com tanto vi­gor que Kassandra ficou espantada e olhou-o nos olhos.

— Sei. Isso deve mantê-lo ocupado.

— Sem dúvida alguma. E a senhora?

— Meus filhos e meu marido me mantêm ocupada a maior parte do tempo.

— E o resto do tempo?

— Como disse? — Kassandra começou a se sentir pouco à vontade nosbraços deste estranho ousado.

— Ao que me consta a senhora é uma espécie de patrona das artes.

— É mesmo? — Kassandra começou a rezar para que a música termi­nasse.

— É, sim. — Sorriu amavelmente para ela, mas havia um brilho sinistro nos seus olhos. — Contudo, eu não perderia muito do meu tempo com isso. Sabe, nosso conceito de arte vai mudar muito com a ajuda do Terceiro Reich.

— Vai? — Por um momento, sentiu-se tonta. Este homem a estaria advertindo sobre Dolff? Ou ela estava ficando tão maluca quanto o amante temendo ameaças a cada passo.

— Vai, sim. Sabe, tivemos artistas... tão inadequados, mentes tão doentias segurando a pena. — Então era Dolff a quem ele se referia. — Tudo isso vai ter que mudar.

Mas, subitamente, ela ficou zangada.

— Talvez já tenha. Parece que não estão publicando mais os mesmos autores, não é? — Ah, Deus, o que estava fazendo? O que diria Walmar, se pu­desse ouvir? Mas a valsa estava chegando ao fim. Estava prestes a se livrar des­te estranho malévolo. Mas agora estava com vontade de falar mais.

— Não se preocupe com toda essa bobagem, Frau Gotthard.

— Não estava pretendendo preocupar-me.

— É encorajador ouvi-lo.

O que era? O que queria dizer? Mas já a estava conduzindo de volta a Walmar. Estava tudo acabado. E ela não viu mais o homem naquela noite. Ao voltarem para casa, teve vontade de contar a Walmar, mas teve medo de deixá-lo zangado... ou pior, com medo. E no dia seguinte Dolff estava de novo tão animado que ela também não lhe contou o que acontecera. E afinal de contas, o que significava aquilo? Um banqueiro idiota apaixonado por Hitler e o Terceiro Reich? E daí?

Dolff chegara a uma decisão. Ia continuar a escrever, quer publicassem seus trabalhos, quer não. E ia continuar tentando ser publicado. Mesmo que morresse de fome, ia ficar ali. Ninguém iria forçá-lo a sair de sua terra. Tinha o direito de estar ali, e de prosperar, mesmo sendo judeu.

— Posso interessá-la num passeio perto do castelo?

Kassandra sorriu para ele. Seria a primeira vez que sairiam para dar um passeio em duas semanas.

— Adoraria.

Caminharam durante quase duas horas, perto do castelo e junto ao lago, vendo as poucas crianças que tinham vindo brincar por ali, e sorrindo para as outras pessoas que passeavam. Parecia-se finalmente como o primeiro inverno deles, quando se encontravam ali por acaso diversas vezes, buscando ansiosa­mente um ao outro, e no entanto temerosos do futuro.

— Sabe no que costumava pensar enquanto a procurava por aqui? -Sorria para Kassandra, a mão agarrando a dela com firmeza, enquanto cami­nhavam.

— Em quê?

— Costumava pensar que você era a mulher mais esquiva e misteriosa que jamais tinha conhecido, e que, se pudesse passar um dia com você, seria feliz pelo resto da vida.

— E agora? Está feliz? — Chegou-se mais para perto dele, a jaqueta cur­ta de pele uma bola de felpa sobre uma saia longe de tweed e sapatos de ca­murça marrons escuros.

— Nunca fui tão feliz. E você? O último ano foi duro demais para você? — Ainda se preocupava muito com isso. Ela é quem sofria as pressões, com Walmar e as crianças, especialmente agora que o marido sabia. Tinha-lhe con­tado da advertência de Walmar.

— Não foi duro. Foi lindo. - Olhou para Dolff com a plenitude do amor deles nos olhos. — É tudo que sempre quis...  e que sempre pensei que não poderia ter. — E ainda não podia ter. Não de verdade. Não o tempo todo. Mas até isso era suficiente. Apenas essas tardes preciosas que partilhava com Dolff.

— Você sempre terá a mim, Kassandra. Sempre. Mesmo muito depois de morto.

Mas a moça olhou para ele, com tristeza.

— Não diga tais coisas.

— Queria dizer quando estivesse com oitenta anos, bobinha. Não irei a parte alguma sem você.

Então ela sorriu, e depois correram de mãos dadas em volta do lago. Sem explicar ou perguntar, foram para casa e subiram felizes as escadas, depois de preparar o chá. Mas beberam-no rapidamente, tinham outras coisas em mente, e fizeram amor apaixonada e urgentemente, como se cada um precisas­se do outro desesperadamente, e mais do que qualquer coisa no mundo. No fi­nal da tarde, estavam adormecidos, Kassandra enrascada nos braços do amante.

Foi Dolff quem se mexeu primeiro, cônscio de que alguém esmurrava a porta lá embaixo, e a seguir escutou o súbito ruído de pés na escada que vinha do térreo. Ficou deitado por um instante, escutando, depois despertou completamente e sentou-se na cama. Sentindo o movimento do corpo dele, Kassandra se mexeu, e então, como que pressentindo o perigo, arregalou os olhos. Sem dizer-lhe uma só palavra, Dolff jogou as cobertas por cima dela e saltou da cama, ficando parado no centro do grande aposento, despido, justo no momento em que eles irrompiam porta adentro. À primeira vista parecia um exército de uniformes marrons e braçadeiras vermelhas, mas eram somen­te quatro.

 Vestindo o robe, Dolff se manteve firme.

— O que significa isso?

Mas os homens apenas riram. Um deles agarrou-o rudemente e cuspiu-lhe no rosto.

— Escute só o judeu!

Dois deles subitamente lhe seguraram o corpo bem esticado e o terceiro desferiu-lhe um violento soco na barriga, e Dolff gemeu de dor e se dobrou em dois, caindo na direção do chão. Desta vez o terceiro homem o chutou, e instantaneamente o sangue espirrou de um corte perto da boca, enquanto o quarto homem corria os olhos calmamente pelo aposento.

— O que temos aqui sob as cobertas? Uma cadela judia aquecendo o nosso ilustre escritor? — Com um movimento súbito, arrancou as cobertas de cima dela, expondo cada centímetro de Kassandra aos seus olhares interes­sados. — E bonita, ainda por cima. Levante-se. — Imóvel por um momento, ela depois obedeceu, sentando-se e jogando as pernas graciosamente para o chão, o corpo esguio e flexível tremendo ligeiramente, os olhos arregalados de terror enquanto fitava Dolff, mudamente. Os quatro homens a observavam, os três à volta de Dolff olhando interrogativamente para o quarto, para ver o que ele faria. Ele a examinou cuidadosamente, os olhos esquadrinhando-lhe a car­ne, mas ela podia apenas fitar Dolff, ainda ofegante, encolhido e sangrando, entre os dois homens fardados. E então o quarto virou-se para eles, com uma expressão de desdém. — Tirem-no daqui. — E então, divertido, enquanto toca­va no cinto: — A não ser que ele queira assistir.

De repente, Dolff se deu conta do que se passava, os olhos buscando Kassandra desesperadamente, depois virando-se furiosamente para o homem no comando.

— Não! Não toque nela!

— Por que não, Senhor Autor Famoso? Ela está com gonorréia?

Os quatro homens riram em uníssono, enquanto Kassandra soltava uma exclamação abafada. A percepção total do que ia acontecer encheu-a de um terror que jamais conhecera. A um sinal do seu sargento, foram empurrando Dolff para fora do quarto, e um instante depois um estrondo retumbante disse a Kassandra que Dolff fora jogado escada abaixo. Houve um alarido de vozes iradas, e ela escutou a de Dolff acima das demais. Estava chamando o nome dela, e tentando lutar contra os seus captores, mas uma série de ruídos desordenados logo o silenciou, e depois houve um som de algo sendo arrasta­do, no pé da escada, e a voz de Dolff não chegou mais aos seus ouvidos, enquanto, horrorizada, ela voltou os olhos para o homem prestes a desabotoar a braguilha da calça.

— Vocês vão matá-lo... Ó, meu Deus, vão matá-lo!

Encolheu-se toda, recuando, os olhos dilatados, o coração batendo desordenadamente. Mal podia pensar em si mesma, agora, só em Dolff, que já podia até estar morto.

— E se matarmos? — O seu atacante parecia divertido. — Não é uma grande perda para nossa sociedade. Talvez até mesmo não seja uma grande perda para você. Não passa de um judeuzinho. E você, minha boneca? A sua linda princesa judia?

Mas agora os olhos de Kassandra faiscavam; havia raiva misturada ao ter­ror nos alucinados olhos azuis lavanda.

— Como ousa! Como ousa!

Foi um grito angustiado, enquanto ela corria da parede para cima dele, tentando arranhar-lhe o rosto. Porém, com um movimento hábil do braço, o homem a esbofeteou com as costas da mão. Quando falou com ela, a voz era serena, mas o rosto estava tenso.

— Agora chega! Perdeu o namorado, judiazinha, mas vai descobrir o que é ser possuída por uma raça melhor. Vou ensinar-lhe uma lição, minha cara.

E com isso, o cinto saiu velozmente das presilhas e a atingir com vio­lência nos seios. Aguilhoada por asas mordentes de dor, ela agarrou os seios e inclinou a cabeça.

— Ó, Deus... — E então, sabendo que tinha que fazê-lo, olhou para ele, a raiva misturada com a vergonha. Ele a mataria. Iria estuprá-la, e depois ma­tá-la. Tinha que contar-lhe. Tinha... não havia escolha. Não era corajosa co­mo Dolff. Olhou cheia de fúria para o homem que acabara de espancá-la, ain­da segurando os seios que sangravam. — Não sou judia.

— Oh, não?

Acercou-se dela, o cinto esperando para atacar de novo. Enquanto o fi­tava, notou a ereção inegável estufando a parte da frente da calça A calma que ele ostentara alguns momentos antes estava dando lugar a um frenesi es­pumante que Kassandra temia já estar fora de controle.

— Meus documentos estão na minha bolsa. Sou — crispou-se ante a ago­nia do que estava fazendo, mas não tinha escolha — Kassandra Von Gotthard. Meu marido é o presidente do Banco Tilden.

Por um instante o homem fez uma pausa, fitando-a com raiva e descon­fiança, sem saber ao certo o que fazer. É então, estreitou os olhos.

—  E o seu marido não sabe que está aqui?

Kassandra tremeu. Contar-lhe que o marido sabia era botar Walmar a perder junto com ela. Contar-lhe que Walmar não sabia era ficar numa situação insustentável.

— Minha governanta sabe exatamente onde estou.

— Muito esperta. — O cinto voltoua ser enfiado lentamentenas presilhas da calça. — Seus documentos?

— Ali - apontou ela.

Em duas passadas, ele alcançou a bolsa de crocodilo marrom com o fe­cho de ouro. Quase o arrebentou ao abri-la, remexeu nela por um momento, e encontrou a carteira guardada lá dentro. Rudemente, tirou a carteira de motorista e cartões de identidade e jogou-os no chão. Quase rosnava enquanto o fazia, e depois caminhou ameaçadoramente para junto dela de novo. Não ti­nha funcionado. O homem estava-se lixando para quem ela era. Kassandra se preparou para o que viria a seguir.

Ficou parado olhando para ela por um momento interminável, depois a esbofeteou violentamente de novo.

— Puta! Puta nojenta! Se fosse seu marido, eu a mataria. E um dia, por uma coisa dessas, você morrerá como aquele judeu filho da mãe. Você é no­jenta. Nojenta. É uma desgraça para a sua raça, o seu país. Cadela nojenta!

E então, sem mais uma palavra, virou-se e foi embora, as botas descendo ruidosamente as escadas enquanto ele se afastava, até que finalmente Kassan­dra ouviu a porta da frente bater. Estava acabado... acabado... Com cada centímetro do seu corpo a tremer, caiu de joelhos no chão, um filete duplo de sangue ainda lhe escorrendo dos seios, o rosto pisado, os olhos cheios de lágrimas, enquanto se deitava no chão, soluçando.

Pareceu passar horas ali soluçando, chorando pelo último instante, em que vira Dolff, e apavorada com o que viria a seguir. E então, subitamente, ocorreu-lhe o que podia acontecer. Poderiam voltar, para destruir a casa dele. Agora desesperadamente, olhando apreensiva a seu redor, ela se vestiu. Parada por um último momento no quarto onde ela e Dolff tinham dado à luz os seus sonhos, fitou, soluçante, o local onde o vira pela última vez, e então, sem pensar, estendeu a mão para as roupas que ele usara poucas horas antes. Lar­gadas no chão antes de fazerem amor esfaimadamente, ainda cheirando ao perfume especial de limão que ele usava, Kassandra as tateou por um momento, depois correu-as por entre os dedos, apertando a camisa contra o rosto, com um soluço. Em seguida, saiu correndo do quarto, e escada abaixo. Foi no úl­timo patamar que viu, a poça de sangue onde Dolff jazera, e a trilha que o sangue fizera quando o arrastaram, inconsciente, de sua própria casa. Fugiu do prédio e correu desesperadamente para seu carro, estacionado logo mais abaixo, na mesma rua.

Nunca soube direito como conseguiu voltar para Grunewald, mas dirigi­ra até em casa, ainda soluçando, agarrada ao volante. Arrastara-se para fora do carro, destrancara o portão, levara o carro até a porta de casa e a abrira com sua chave. Silenciosamente, e com as lágrimas ainda escorrendo dos olhos, subira correndo as escadas até seu quarto, batera a porta, e olhara em derredor. Estava de volta, estava em casa...  no quarto cor-de-rosa que tinha visto tantas vezes... cor-de-rosa... cor-de-rosa... era só o que podia enxergar, enquanto o aposento girava à sua frente, e ela finalmente desabou no chão, perdendo os sentidos.

 

Quando Kassandra voltou a si, estava deitada na sua cama, uma compressa fria na cabeça. O quarto achava-se às escuras, e ela es­cutava um estranho zumbido. Percebeu dali a um momento que o som que escutava era dentro de sua cabeça. À distância estava Walmar, fitando-a e aplicando uma coisa úmida e pesada contra o seu rosto. Dali a pouco percebeu que lhe haviam tirado a blusa, e sentiu uma ardência terrível, e de­pois uma coisa quente colocada sobre os seios nus. Pareceu passar muito tem­po antes que pudesse enxergar o marido claramente, e então finalmente o zumbido parou, e ele se sentou discretamente numa cadeira ao lado da cama. Não falou nada, apenas ficou ali sentado, enquanto ela ficava fitando o teto, sem vontade ou capacidade para falar. Ele não lhe perguntou nada. Apenas mudava as compressas, de vez em quando. O quarto ficou às escuras durante horas, e quando, ocasionalmente, ouvia-se uma batida à porta, Walmar despa­chava quem quer que fosse. Olhou para ele, agradecida, depois pegou no so­no. Era meia-noite quando acordou de novo; uma luz fraca ardia à distância, no seu boudoir e, mantendo sua vigília silenciosa, ele ainda estava lá.

Finalmente, o marido não pôde mais se controlar, e vendo pelos olhos dela que estava consciente, não mais em estado de choque, teve que saber o que acontecera, pelo bem dela e dele próprio.

— Kassandra, tem que falar agora. Tem que me contar. O que aconte­ceu?

— Eu o desonrei. — A voz não passava de um sussurro, e ele sacudiu a cabeça e segurou-lhe a mão.

— Não seja boba. — E após mais um momento: — Querida, conte-me. Precisa contar-me. Tenho que saber. — Anna tinha vindo procurá-lo, gritando que algo terrível acontecera a Frau Von Gotthard, e que ela jazia quase mor­ta no chão do quarto. Apavorado, correra para junto dela e a encontrara, não quase morta, mas espancada e em estado de choque. E então ele soubera. — Kassandra?

— Ele ia... me matar... me violentar... disse-lhe... quem eu eraWalmar sentiu um arrepio de medo percorrê-lo.

— Quem era?

— Eles... o levaram... — E então murmurou, horrivelmente: — Eles le­varam Dolff... espancaram-no... eles... ele estava... sangrando... e então eles... o arrastaram... escada... abaixo... — Sentou-se na cama e teve ân­sias de vômito, enquanto Walmar sentava-se a seu lado, impotente, segurando uma toalha cor-de-rosa com monograma. Quando acabou de vomitar, ela fitou o marido com olhar vazio. — E um deles ficou... por minha causa... eu lhe disse... eu lhe disse... - Olhou pateticamente para Walmar. — Pensavam que eu fosse judia.

— Fez bem em dizer-lhe quem era. Estaria morta, a esta altura, se não o tivesse feito. Podem não matá-lo, mas provavelmente teriam matado você. — Ele sabia que o mais provável era que o inverso fosse a verdade, mas tinha que mentir, pelo bem dela.

— O que farão com ele?

Walmar tomou-a nos braços, então, e ela soluçou por quase uma hora. Quando acabou, ficou largada ali, exausta e alquebrada, e então ele a fez deitar-se sobre os travesseiros e apagou a luz.

— Tem que dormir, agora. Passarei a noite toda aqui com você.

E passou, mas quando ela acordou de manhã, ele finalmente tinha ido descansar. Para ele tinha sido uma noite de angústia, observando o rosto páli­do se crispar e contorcer nos seus pesadelos, por sob as feias contusões que o marcavam. Fosse quem fosse o homem que a esbofeteara, não poupara um mínimo de sua força ao fazê-lo. E enquanto a observava, hora após hora, Wal­mar passou a odiá-los de um maneira como não odiara antes. Este era o Ter­ceiro Reich. Era isto que os esperava nos anos vindouros? A pessoa devia agra­decer aos céus por não ser judeu? Walmar não se conformava em ver o seu amado país transformar-se numa nação de bandidos e vândalos, espancando mulheres, violentando inocentes, censurando os artistas por sua raça. O que acontecera ao mundo deles, para este ser o preço que sua amada Kassandra tivesse que pagar? Sentia-se ultrajado e, a seu modo, também pranteava Dolff.

Quando ele a deixou para ir tomar banho e beber uma xícara de café, correu os olhos, temeroso, pelo jornal. Sabia como eles o fariam, e esperava encontrar a notícia de que Dolff sofrerá algum "acidente". Fora assim que ti­nham agido, anteriormente. Porém desta feita não houve nenhuma notícia pequena, "sem importância". Ou melhor, foi tão pequena que ele nem a notou, na última página.

Quando Walmar voltou para junto do leito de Kassandra, duas horas mais tarde, ela estava calada e desperta, o olhar vazio fitando o teto. Ouvira Walmar entrar no quarto, mas não voltou os olhos para ele.

— Está-se sentindo melhor? — Porém ela apenas fitava o teto, em respos­ta, e de vez em quando fechava os olhos. — Quer alguma coisa? — Desta vez, ela sacudiu a cabeça. — Talvez se sinta um pouquinho melhor se tomar um bom banho quente.

Mas a mulher apenas ficou deitada ali, por longo tempo, fitando o teto, depois a parede, e finalmente, como se o esforço fosse quase superior às suas forças, voltou lentamente os olhos para ele.

— E se eles vierem matá-lo e às crianças? — Era só no que conseguia pensar, desde que acordara.

— Não seja ridícula, não virão. — Mas agora ela sabia que não era assim. Eram capazes de tudo. Arrancavam as pessoas de suas camas e as matavam, ou pelo menos as levavam embora. — Kassandra... querida... estamos todos a salvo. — Contudo, até mesmo Walmar sabia que estava mentindo. Ninguém es­tava mais a salvo. Um dia não seriam apenas os judeus.

— Não é verdade, eles vão matá-lo. Porque eu lhes disse quem era. Virão aqui... eles...

— Não virão. — Forçou-a a olhar para ele de novo. — Não virão. Seja razoável. Sou um banqueiro. Precisam de mim. Não me farão mal, ou à minha família. Não a soltaram ontem, quando lhes disse quem era?

Kassandra assentiu; porém ambos sabiam que ela jamais se sentiria segu­ra de novo.

— Eu o desonrei — repetia o refrão.

— Pare com isso! Está tudo acabado. Foi um pesadelo. Um pesadelo feio, horrível, mas acabou. Agora você precisa acordar.

Mas, para o quê? Dolff desaparecido? O mesmo pesadelo, repetidas ve­zes? Haveria apenas o vazio, além da dor e do horror que ela sabia que jamais esqueceria. Só o que queria era dormir. Para sempre. Um sono negro e profun­do do qual jamais teria que acordar.

— Tenho que ir ao escritório durante duas horas, para aquela reunião dos belgas, e depois voltarei e passarei o dia todo com você. Vai ficar bem? — Ela fez que sim. O marido se debruçou e beijou os dedos longos e delicados da mão esquerda dela. — Eu a amo, Kassandra. E tudo vai-se ajeitar, novamente.

Walmar deu ordens a Anna para lhe trazer um café da manhã ligeiro e deixá-lo na bandeja ao lado da cama, e depois se retirar. E o que quer que tivesse visto não devia ser discutido com os outros criados.

Anna assentiu, compreensivamente, e levou o café dali a meia hora para Kassandra. Era a bandeja de café que Kassandra usava todas as manhãs, de vime branco, coberta com uma toalha de renda branca. Numa jarrinha  fina estava enfiada uma longa rosa vermelha, e a louça do café era o Limoges pre­ferido da avó dela. Porém Kassandra não disse nada quando a bandeja apare­ceu. Foi só depois que Anna se retirou do quarto que Kassandra demonstrou algum interesse, vendo o jornal da manhã colocado na parte lateral da bande­ja. Tinha que lê-lo, quem sabe alguma notinha havia saído. Umas poucas pala­vras que lhe dissessem alguma coisa em relação ao destino de Dolff. Dolorosamente, apoiou-se num dos cotovelos e abriu o jornal sobre a cama. Leu cada linha, cada página, cada notícia e, ao contrário de Walmar, seus olhos acharam a notícia na última página. Dizia apenas que Dolff Sterne, romancista, sofrerá um acidente no seu Bugatti e estava morto. Ao ler aquilo, soltou um grito, e então subitamente o quarto ficou silencioso.

Permaneceu ali deitada, imóvel, por mais de uma hora, e então, decididamente, sentou-se na beira da cama. Ainda estava trêmula e bastante tonta, mas conseguiu chegar ao banheiro e abrir as torneiras da banheira. Fitou-se no espelho e viu os olhos que Dolff amara, os olhos que o tinham visto ser arrancado do quarto, da sua casa, da vida dele e da dela.

A banheira se encheu muito depressa, e ela fechou a porta suavemente. Foi Walmar quem a encontrou ali uma hora mais tarde, os pulsos cortados, sem vida, a banheira cheia do seu sangue.

 

O Mercedes marrom escuro que levava Walmar Von Gotthard, seus filhos, Ariana e Gerhard, e Fráulein Hedwig rodava solene­mente atrás do carro fúnebre preto. Era uma manhã cinzenta de fevereiro, e desde o alvorecer tinha havido neblina e chuva. O dia era tão lúgubre quanto Walmar e as crianças, sentadas rigidamente, agarradas às mãos de sua querida ama. Tinham perdido sua linda dama. A mulher dos cabelos dourados e dos olhos azuis não existia mais.

Só Walmar compreendia integralmente o que tinha acontecido. Apenas ele sabia quão profunda e longamente ela estivera dividida. Não somente en­tre dois homens, mas entre duas mentes, duas vidas, dois estilos de vida. Nun­ca fora totalmente capaz de se adaptar às regras rígidas da vida para a qual nascera. Talvez tivesse sido um erro forçá-la a entrar na forma. Talvez ele de­vesse ter tido a sensatez de deixá-la para um homem mais jovem. Mas ela era tão jovem, tão livre, tão linda, tão inteiramente o que ele sempre sonhara em ter numa esposa. E outros pensamentos o atormentavam. Talvez tivesse er­rado ao mantê-la afastada dos filhos.

Enquanto seguiam adiante, implacavelmente, Walmar lançou um olhar à ama a quem os filhos agora pertenciam. Uma fisionomia vigorosa, marcante, olhos bondosos, mãos fortes. Tinha sido anteriormente governanta dos seus sobrinhos. Fráulein Hedwig era uma boa mulher. Mas Walmar sabia que, em parte por causa dela, sua mulher não existia mais. Era uma mulher sem causa ou razão para viver, depois da tragédia da véspera. A perda de Dolff tinha sido chocante demais, o medo do que talvez tivesse acarretado a Walmar grande demais para suportar. Talvez fosse um ato de covardia, ou loucura, no entanto Walmar sabia bem que era mais. O bilhete que deixara ao lado da banheira fora escrito com mão trêmula. Apenas: "Adeus...  desculpe... K." Seus olhos se encheram de lágrimas de novo quando ele se lembrou... auf Wiedersehen, mi­nha querida... adeus...

O Mercedes marrom parou finalmente diante dos portões do cemi­tério de Grunewald, os montículos verdes cercados de flores vivas, as belas lápides fitando-os solenemente por entre a chuva que recomeçara.

— Vamos deixar mamãe aqui?

Gerhard parecia chocado, e Ariana apenas olhava fixamente. Fraulein Hedwig fez que sim. Os portões se abriram, e Walmar fez sinal ao chofer para prosseguir.

A cerimônia religiosa fora breve e particular na igreja luterana de Grunewald, com apenas os filhos e a mãe dele presentes. Naquela noite uma men­ção do falecimento de Kassandra apareceria na imprensa, atribuído a uma sú­bita moléstia, um ataque inexplicável de uma gripe letal. Kassandra sempre parecera tão frágil que seria difícil não acreditar. E os funcionários que conhe­ciam a verdade estariam intimidados demais por Walmar para revelá-la.

O pastor da igreja luterana seguira-os até o cemitério no seu velho car­ro. Não tinha sido possível realizar o enterro na igreja católica que normal­mente freqüentavam, por causa do suicídio. Porém o pastor luterano fora bondoso. Agora, saltava discretamente do seu automóvel, seguido pela mãe de Walmar, a Baronesa Von Gotthard, que saía do seu Rolls com motorista. Os dois choferes uniformizados dos Von Gotthards ficaram a um canto, discretamente, enquanto o caixão era baixado do carro fúnebre para o chão. Um empregado do cemitério já estava à espera, o rosto severo, o guarda-chuva aberto, enquanto o pastor tirava do bolso uma pequena Bíblia, que já tinha marcado na página certa.

Gerhard chorava baixinho, agarrando com força as mãos de Fraulein Hedwig e da irmã, e Ariana olhava em derredor. Tantas lápides, tantos nomes. Pedras tão grandes, estátuas tão grandes, tantas colinas, e árvores de apa­rência tão sinistra. Na primavera seria tudo verde e bonito, mas agora, exce­tuando os trechos de relva sobre os caixões, tudo parecia tão horrível e lúgubre. Sabia, enquanto observava, que jamais esqueceria aquele dia. Na noite an­terior, chorara pela mãe. Sempre tivera um pouco de medo daquela beleza ofuscante, dos olhos imensos e tristes, do cabelo lustroso. Fraulein Hedwig sempre dissera para não tocar nela, para não manchar-lhe o vestido. Parecia tão estranho deixá-la aqui agora, naquela caixa, debaixo de chuva. Ariana fi­cou triste ao pensar nela, sozinha, sob um daqueles montículos verdes e lisos.

Kassandra ia ser enterrada no lote da família Von Gotthard. Já estavam enterrados o pai de Walmar, o seu irmão mais velho, os seus avós e três tias. E agora ele a deixaria com os outros, a sua noiva esfuziante, a esposa frágil do riso esquivo e dos olhos estupendos. Seu olhar se desviou das lápides para os filhos: Ariana parecia-se apenas ligeiramente com a mãe, e Gerhard não se pa­recia nada. Ariana, com as longas pernas de potro, estava parada ao lado dele, usando um vestido branco, meias brancas e o casaco de veludo azul-escuro com a gola de arminho, sobras do esplêndido casaco da mãe. Ao lado dela o pequenino Gerhard, vestido como a irmã, de calças curtas brancas, meias brancas e o mesmo casaco azul-escuro. Eram tudo o que Walmar tinha agora, estas duas crianças paradas a seu lado. Jurou silenciosamente protegê-las do mal que havia tão brutalmente destruído a mulher. Não importa o que acontecesse a seu país, não importa o quanto fossem atraiçoados os seus valores, não deixaria coisa alguma acontecer aos filhos. Mantê-los-ia a salvo do veneno dos nazistas até que a Alemanha estivesse novamente livre de Hitler e da sua laia. Não poderia durar eternamente, e quando a tempestade tivesse passado, ainda estariam a salvo em casa.

—  ... para guardar a Sua filha, Pai, na paz eterna que encontrou agora a Seu lado. Que descanse em paz. Amém.

Os cinco acompanhantes fizeram silenciosamente o sinal-da-cruz e fica­ram parados por um momento, fitando o escuro caixão de madeira. Os guar­da-chuvas de Walmar e do pastor estavam bem acima deles, enquanto o céu abria o seu coração e chorava também. Mas nenhum deles parecia notar a chu­va que caía torrencialmente. Finalmente, Walmar meneou a cabeça e tocou suavemente no ombro das crianças.

— Vamos, crianças, está na hora de ir.

Mas Gerhard não queria deixá-la; apenas sacudiu a cabeça, olhando fi­xamente. Afinal, Fráulein Hedwig simplesmente conduziu-o de volta para o carro, e colocou-o lá dentro. Ariana seguiu-os rapidamente, com um último olhar por sobre o ombro para onde jazia o caixão, e onde o pai estava parado sozinho, agora que a avó também se afastara. O pastor voltou depressa para seu carro, e apenas Walmar sobrou ali, olhando para o caixão coberto com uma única coroa de grandes flores brancas. Havia orquídeas, rosas e lírios-do vale, todas as flores que ela amava.

Por um instante, teve vontade de levá-la com ele, para não deixá-la nes­te lugar com os outros, que tinham sido tão diferentes dela. As tias e o pai e o irmão mais velho que morrera na guerra. Ela fora tão infantil, e ainda era tão jovem, Kassandra Von Gotthard, morta aos 30 anos. Walmar ficou parado ali, incapaz de acreditar que ela não mais existia.

Foi Ariana quem finalmente veio buscá-lo. Ele sentiu os dedinhos se entrelaçando com os seus, e baixou os olhos, deparando com a filha parada ali, o casaco azul de gola de arminho ensopado de chuva.

— Temos que ir agora, Papai. Vamos levar o senhor para casa.

Parecia tão velha, sensata e carinhosa, os imensos olhos azuis uma som­bra distante daqueles que ele conhecera. Não se importava com a chuva, para­da ali. Apenas erguia os olhos para ele, agarrando-lhe com força a mão. E en­tão, silenciosamente, ele assentiu com a cabeça, o rosto molhado de lágrimas e da chuva de inverno. O chapéu pingava água nos seus ombros, e a mãozinha estava firmemente presa na sua.

Não olhou para trás, por cima do ombro, e nem a criança o fez. De mãos dadas, entraram calados no Mercedes e o chofer fechou a porta. Então, os coveiros do cemitério de Grunewald começaram lentamente a co­brir o caixão de Kassandra Von Gotthard, até que, também ele se tornasse um montículo verde, para repousar com todos os outros que vieram antes dela, e que Kassandra jamais conhecera.

 

— Ariana? — Ele estava ao pé da escada, esperando. Se ela não se apressasse, chegariam atrasados. — Ariana! O andar dos quartos das crianças estava acima dele, transforma­do agora em quartos mais apropriados para adolescentes. De vez em quan­do pensava em mudar as crianças para o andar de baixo, para ficar perto dele, mas os dois já estavam acostumados com seu próprio pavimento, e ele ja­mais tivera coragem de reabrir os aposentos de Kassandra. As portas do apar­tamento vazio de Kassandra estavam cerradas há sete anos.

O relógio bateu a meia hora, e como se obedecesse a uma deixa, a luz inundou o corredor superior. Quando ele ergueu os olhos, lá estava ela, uma visão em camadas de organdi branco, com um ramo de minúsculas rosas bran­cas entrelaçadas nos cabelos louros. O longo pescoço era como marfim surgin­do de dentro do vestido cor de neve, as feições um camafeu perfeitamente en­talhado, e enquanto olhava para ele, os olhos azuis dançavam. Lentamente, desceu a escada na direção dele, ao mesmo tempo em que Gerhard sorria lá de cima, espiando da porta do que fora no passado o quarto de brinquedos deles. O garoto quebrou o encanto do momento, dizendo para o pai, que esperava, aturdido, ao pé da escada:

— Está bem, não está? Para uma garota.

Tanto Ariana quanto o pai sorriram, então. Walmar concordou, e lan­çou ao filho um sorriso cansado.

— Eu diria que está extraordinária, para uma garota.

Walmar tinha completado 65 anos, naquela primavera. E os tempos não estavam fáceis, não para um homem da sua idade, ou para qualquer um, hoje em dia. O país achava-se em guerra há quase três anos. Não que aquilo modificasse o modo como eles viviam. Berlim ainda estava vivida de beleza e emoção, quase ao ponto do frenesi, com festas constantes, teatro, ópera, e intermináveis novas formas de divertimento que ele achava cansativas para um homem de sua idade. Além disso, havia a tensão constante de manter a ordem na família, dirigir o banco, não se meter em encrencas, e proteger os fi­lhos do veneno que agora corria livremente pelo sangue do país. Não, não ti­nha sido fácil. Mas, até agora, Walmar dera um jeito de fazer tudo. O Banco Tilden ainda era sólido, suas relações com o Reich eram boas, o seu estilo de vida ainda estava seguro, e por causa de sua importância como banqueiro, en­quanto continuasse a ser útil ao Partido, ninguém perturbaria seus filhos, ou ele próprio.

Quando Ariana e Gerhard chegaram à idade em que se esperava que par­ticipassem de um grupo de jovens, explicou-se discretamente que Gerhard es­tava tendo dificuldades nos estudos, tinha um toque de asma, e era doentia­mente tímido com as crianças de sua idade. Desde a morte da mãe... claro que compreendem... e Ariana... não temos certeza absoluta de que se re­cuperará do choque. Um viúvo nobre de passado aristocrático, seus dois fi­lhos moços, e um banco. Não se precisava de mais nada para sobreviver na Alemanha, exceto a paciência para suportar, a sabedoria para ficar quieto, a disposição para ser cego e mudo.

Ele ainda se lembrava do horror de Ariana quando fora ver o peleteiro da mãe, certo dia, três anos após a morte de Kassandra. Quando ela era garotinha, Rothmann, o peleteiro, sempre lhe dava chocolate quente e biscoitos, e de quando em vez um rabinho de vison. Porém, quando ela fora procurá-lo, encontrara, em vez dele, uma dúzia de homens com braçadeiras de guarda diante da loja, que estava vazia e às escuras, a marquise destroçada, as vitrines quebradas, o imenso e luxuoso depósito vazio, e nas vitrines uma só palavra — Juden.

Ariana correra chorando para o escritório do pai no banco, e ele fechara a porta e agira com firmeza.

— Não pode contar a ninguém, Ariana! A ninguém! Não pode discutir o assunto ou fazer perguntas. Não conte a ninguém o que viu!

Ela o fitara, confusa.

— Mas outras pessoas também viram. Os soldados estavam todos do la­do de fora, armados, e a vitrine... e, Papai... eu sei... vi sangue!

— Você não viu nada, Ariana. Nem esteve lá.

— Mas...

— Silêncio! Você almoçou comigo hoje, no Tiergarten, e depois volta­mos para o banco. Ficamos aqui sentados durante algum tempo, você tomou uma xícara de chocolate quente, e depois o chofer levou-a para casa. Está bem claro? — A filha nunca o vira daquele jeito, e não estava compreendendo. Seria possível que o pai estivesse com medo? Não podiam tocá-lo. Era um banqueiro importante. E além do mais, o pai não era judeu. Mas, para onde tinham levado Rothmann? E o que iria acontecer à sua loja? — Está compreen­dendo, Ariana?

A voz do pai era alta, áspera, quase irada, no entanto ela pressentia que não estava com raiva dela.

— Estou. — E então, numa vozinha que perfurou o silêncio: — Mas, por quê?

Walmar Von Gotthard soltou um suspiro e se afundou na cadeira. Era um escritório grande e impressionante, uma enorme escrivaninha, e sentada diante dele, a despeito do fato de que tinha 12 anos, Ariana parecia muito pe­quena. O que poderia dizer-lhe? Como poderia explicar?

Um ano depois daquele incidente, o pior acontecera. Em setembro, entraram em guerra. Desde então, Walmar planejara o seu curso com cautela, mas sabia que tinha tido êxito. As crianças estavam seguras e protegidas. Gerhard agora estava com 12 anos e meio, e Ariana, com 16. Muito pouco mudara para eles, e embora as crianças sempre desconfiassem de que o pai odiava Hitler, era uma desconfiança que não discutiam, nem mesmo entre si. Era peri­goso admitir que se odiava Hitler. Todos sabiam disso.

Ainda moravam em Grunewald, freqüentavam as mesmas escolas, iam à mesma igreja, mas raramente visitavam a casa de outras pessoas. Walmar mantinha-os sob rédea curta para o seu próprio bem, explicou-lhes cuidado­samente, e aquilo fazia sentido para eles. Afinal, o país estava em guerra. Por toda a parte havia fardas, soldados risonhos, lindas garotas, e à noite, às ve­zes, ouviam música, quando os vizinhos davam grandes festas para os oficiais e amigos. De certa forma, por toda Berlim, era uma época de alegria sem con­ta. Mas as crianças sabiam que também era triste. Muitos dos pais dos seus amigos estavam longe, lutando. Alguns deles já tinham perdido pais e irmãos na guerra. Mas para Ariana e Gerhard, a despeito das provocações das outras crianças, era um alívio saber que o pai deles era velho demais. Já haviam per­dido a mãe, não teriam suportado perdê-lo, também.

— Mas o senhor não é velho demais para festas — disse Ariana a Walmar, com um sorriso maroto. Estavam na primavera do seu 16º aniversário, e ela desejava desesperadamente comparecer ao seu primeiro baile. Tinha idade su­ficiente para se lembrar de que, quando a mãe era viva, os pais tinham levado intensa vida social. Mas nos sete anos desde que ela falecera, Walmar passara praticamente cada momento em que estava desperto ou no banco, ou em casa nos seus aposentos, ou jogando cartas com eles. A vida de bailes e fes­tas terminara, quando Kassandra tirara a própria vida. Mas as crianças sabiam muito pouca coisa sobre a mãe. Os fatos de como e por que a mãe morrera eram verdades dolorosas que Walmar nunca partilhara.

— Então, Papai? Po­demos? Por favor? — A filha olhara súplice para ele, e Walmar sorrira.

— Um baile? Agora? Durante a guerra?

— Ah, Papai, todo mundo vai a festas. Até aqui em Grunewald ficam acordados a noite toda.

Era verdade... até mesmo no seu respeitável bairro residencial, as farras iam regularmente até as primeiras horas do dia.

— Você não é um pouquinho jovem para isso?

— De jeito nenhum. — Olhou-o altivamente, parecendo-se estranhamen­te mais com a mãe dele do que com a dela própria. — Estou com dezesseis anos.

Finalmente, com a ajuda do irmão, Ariana o convencera e agora estava parada ali, como uma princesa de conto de fadas, usando o vestido de organdi branco que os dedos hábeis de Fráulein Hedwig tinham confeccionado.

— Está muito linda, querida.

Sorriu para ele, de modo infantil, admirando-lhe a casaca.

— O senhor também.

Mas Gerhard ainda os observava, e ouviram-no dar uma risadinha, do al­to da escada.

—  Acho que os dois estão com cara de bobos. — Mas também parecia orgulhoso deles.

— Vá para a cama, seu monstro — gritou ela alegremente, por cima do ombro, enquanto descia rapidamente o último lance da escada.

O Mercedes fora substituído pouco antes do começo da guerra por um Rolls preto e cinza, e agora o carro estava à espera deles diante da ca­sa, o idoso chofer parado junto à porta. Ariana trazia um leve agasalho à volta dos ombros, e o vestido branco rodopiava em torno dela enquanto entrava no carro. A festa ia ser na Ópera, e todas as luzes estavam freneticamente acesas quando os Von Gotthards se aproximaram. O largo bulevar continuava boni­to como sempre, Unter den Linden não tinha sido modificado por causa da guerra.

Walmar olhava orgulhoso para a filha, sentada como uma princesa a seu lado no Rolls.

— Emocionada?

Ela acenou com a cabeça, toda feliz.

— Muito. — Estava encantada com a perspectiva do seu primeiro baile.

E foi ainda melhor do que a jovem havia esperado. As escadarias que le­vavam à Ópera tinham sido atapetadas de vermelho, o saguão principal com o seu teto maravilhoso estava todo iluminado. E por toda a parte viam-se mu­lheres de vestido de baile e diamantes, enquanto os homens usavam fardas e medalhas ou casacas. Para Walmar, o único senão da noite era a grande bandei­ra vermelha que pendia diante deles, com o emblema preto e branco do Reich.

A música sussurrava para eles, vinda do salão principal, e ao seu redor ro­dopiavam e giravam inúmeros corpos enfeitados, alvoroçados, cobertos de jóias. Os olhos de Ariana pareciam duas imensas águas-marinhas no delicado rosto de marfim, a boca um rubi delicadamente lapidado.

Dançou a primeira música com o pai, e depois ele rapidamente a levou para a segurança de um círculo de amigos. Havia diversos banqueiros conheci­dos agrupados numa mesa perto do salão onde os casais valsavam.

Ela estivera tagarelando toda contente com eles a uns 20 minutos, quando Walmar notou a presença de um rapaz alto, próximo ao grupo. Observava Ariana com um ar de interesse e conversava baixinho com um amigo. Walmar desviou o olhar do soldado e convidou a filha para dançar de novo. Não era justo fazer isso, mas ele achava que devia adiar o inevitável o máximo que pudesse. Sabia, quando a trouxera, que ela dançaria com outros homens. No entanto, as fardas...  as fardas...  era inevitável... podia apenas rezar para que todos a achassem jovem demais para ter alguma atração especial.

Mas enquanto Walmar e Ariana circulavam pelo salão juntos, ele soube que ela chamaria a atenção de qualquer homem. Era jovem, fresca e linda, po­rém mais do que isso: Ariana tinha uma atração, um poder sereno que fascina­va quem quer que olhasse naqueles profundos olhos azuis. Era como se ela ti­vesse as respostas para um segredo. Notara a reação nos seus próprios amigos. Era uma qualidade que hipnotizava a maioria dos homens. Era o rosto sereno, os olhos meigos, e então o sorriso repentino, como o sol de verão num lago. Havia uma qualidade em Ariana que atraía as pessoas, uma magia e um espí­rito que se desejava conhecer mais, a despeito de sua juventude. Ela era mui­to menor do que o irmão, e de ossatura muito mais delicada. O alto de sua cabeça mal chegava aos ombros do pai, e os pés pareciam voar, enquanto val­sava.

Foi quando voltou com a filha para a mesa deles que o jovem oficial finalmente se aproximou. Silenciosamente, Walmar se retesou. Por que não podia ter sido um dos outros? Alguém que não estivesse fardado... um ho­mem e não um Reich. Era só o que eram para ele, aquelas fardas, não eram gente, eram simplesmente um bando de malfeitores glutões e comodistas, e em uníssono, juntamente com aquilo que representavam e ameaçavam, tinham matado sua mulher.

— Herr Von Gotthard? — Walmar respondeu com um breve aceno de cabeça, e o braço direito do rapaz imediatamente se elevou no gesto familiar. — Herr Hitler. — Walmar meneou de novo a cabeça, desta vez com um sorriso fixo. — Creio que esta é sua filha?

Walmar teve vontade de esbofeteá-lo, mas, olhando para Ariana e de no­vo para o intruso, deu-lhe uma resposta seca.

— Sim. É um pouco jovem para estar aqui esta noite, mas dei meu consentimento, contanto que permaneça a meu lado.

Ariana pareceu chocada ante aquele pronunciamento, mas não protestou. E o rapaz fez que sim, compreensivamente, e depois olhou para a prince­sa de conto de fadas com um sorriso estonteante. Tinha uma longa fileira de dentes perfeitos, brancos como a neve, realçados ainda mais pela curva dos lábios e a beleza do sorriso. O azul dos seus olhos era semelhante ao de Aria­na, mas enquanto o cabelo dela era louro clarinho, o dele era negro. Era al­to e gracioso, de ombros largos, quadris estreitos e pernas longas acentuadas pela farda e pelas botas lustrosas.

Desta vez o jovem oficial fez uma reverência para o pai de Ariana, ao es­tilo de uma época anterior aos braços direitos estendidos; bateu os calcanha­res, depois ficou ereto de novo.

— Werner Von Klaub, Herr Von Gotthard. — O sorriso ofuscante dirigiu-se para Ariana de novo. — E estou vendo que a Srta. Gotthard é realmente muito jovem, mas ficaria honrado se o senhor a confiasse a mim para uma dança.

Walmar hesitou. Conhecia a família do rapaz, deu-se conta agora, e recusar seria uma ofensa tanto a seu nome quanto ao uniforme que usava. E Ariana parecia tão esperançosa e bonita. Como podia recusar? Não podia lutar contra os uniformes, quando eles haviam tomado conta do seu mundo inteiro.

— Suponho que não possa fazer objeção, não é? — Lançou um olhar meigo para a filha, a voz cheia de ternura e pesar.

— Posso, Papai? — Os olhos muito grandes, muito esperançosos, e muito azuis e brilhantes.

— Pode.

Von Klaub fez nova reverência, desta vez para Ariana, e depois a con­duziu para o salão. Dançaram lentamente, como o Príncipe Encantado e a Ga­ta Borralheira, como se tivessem sido feitos perfeitamente para os braços um do outro. Era um prazer observá-los, disse o homem parado ao lado de Wal­mar. Talvez fosse, mas não para Walmar. Deu-se conta, ao observá-los, de que uma nova ameaça acabara de entrar na sua vida. E o que era mais importante, na de Ariana. Quanto mais crescida ficava, mais linda se tornava, e o pai não podia mantê-la eternamente prisioneira na casa deles. Acabaria por perdê-la, e talvez para um "deles". Que coisa estranha, pensou consigo mesmo, enquan­to os observava. Em outra vida, outra era, Von Klaub teria sido bem-vindo na sua casa e na vida da filha, mas agora... a farda tinha mudado tudo para Walmar. A farda e aquilo que ela representava. Era mais do que ele podia su­portar.

Quando a dança terminou, Ariana olhou para o pai, uma pergunta franca nos olhos, e ele já ia sacudir a cabeça, negando a permissão, mas descobriu que não podia fazer isso com ela. E então concordou. E depois disso, mais uma vez. E então, sabiamente, o jovem oficial alemão levou-a de volta ao pai, fez nova reverência e despediu-se de Ariana. Mas algo no modo como sorria para ela disse ao pai da moça que ainda veriam Werner Von Klaub.

— Quantos anos ele tem, Ariana? Ele lhe disse?

— Vinte e quatro — Olhava diretamente para o pai, com um ligeiro sor­riso. — Ele é muito simpático, sabe. Gostou dele?

— O que importa é...  você gostou?

Ela deu de ombros, com indiferença, e pela primeira vez em toda a noi­te o pai riu.

— Então está começando, não é? Minha querida, você vai partir mil co­rações.

Esperava apenas que, entre eles, não partisse o dele próprio. Protegera-a tão cuidadosamente do veneno que, se ela contrariasse as crenças dele, aquilo o mataria.

Mas a jovem não deu sinal de atraiçoá-lo, ou os seus princípios, à medida que os anos se passavam. Wemer Von Klaub viera visitá-los, mas apenas uma ou duas vezes. Achara-a tão encantadora quanto na primeira noite, no entanto achara-a também muito jovem e mais do que um pouco tímida. Não era tão divertida quanto as mulheres que tinham sucumbido aos encantos de sua farda, nos últimos três anos. Ariana não estava pronta, e Werner Von Klaub não estava interessado o bastante para esperar.

O pai dela mostrou-se aliviado quando as visitas cessaram, e ela não pa­receu ficar particularmente triste com a perda. Estava feliz com sua vida em casa com o pai e o irmão, e tinha muitas amigas de sua idade na escola. A luta incansável de Walmar para protegê-la deixara-a, de certa forma, jovem para a idade. No entanto, contrabalançando a inocência, havia a sabedoria que ga­nhara com a perda e a dor. A morte da mãe, não importa o quanto Kassandra estivesse distante dela, não importa quão bem disfarçadas fossem as realidades daquela perda, havia marcado Ariana, e a ausência de uma mãe a quem pu­desse recorrer havia deixado uma tristeza à espreita nos olhos da pequena bel­dade. Mas era um tipo particular de tristeza, uma janela para algo vazio dentro de si mesma... não era devido à exposição às agruras da guerra. A despeito do aumento considerável do número de bombardeios a Berlim desde 1943, e do tempo que passava no porão com Gerhard, o pai e os criados durante os ataques aéreos, Ariana não teve contato real com a dor da guerra até os 18 anos, na primavera de 1944.

Durante toda a primavera os Aliados tinham aumentado seus esforços, e Hitler havia recentemente emitido novos decretos confirmando sua adesão à guerra total.

Ariana chegara da escola e encontrara o pai fechado no salão principal com um amigo, segundo Berthold, o mordomo, que estava agora muito ido­so e também muito surdo.

— Ele falou quem é? — Ariana sorriu para ele. Berthold era uma das suas lembranças mais antigas. Sempre estivera ali.

— Sim, senhorita. — Sorriu bondosamente, o rosto de pedra se rachando em vincos carinhosos apenas para ela. Balançou a cabeça como se tivesse en­tendido, mas ela soube imediatamente que não tinha.

Conhecendo bem suas fraquezas, Ariana falou mais alto, ao contrário do irmão, que geralmente implicava abertamente com ele por estar surdo. Mas, do jovem Gerhard, Berthold agüentava qualquer coisa. Gerhard era o seu xodó.

— Perguntei se meu pai falou quem estava de visita.

— Ah... não, senhorita. Não falou. Frau Klemmer foi quem o deixou entrar. Eu estava lá embaixo por um momento, ajudando o Senhorzinho Gerhard com seu equipamento de química.

— Oh, Deus, isso não. — Sim?

— Pode deixar, Berthold, obrigada.

Ariana entrou graciosamente no corredor. A casa e a sua vasta criadagem também tinham sido uma constante em sua vida. Não conseguia imaginar viver noutro lugar.

Cruzou com Frau Klemmer no corredor superior, enquanto se dirigia a seu quarto. Ela e Frau Klemmer haviam discutido um segredo pela manhã, so­bre reabrir o quarto da mãe. Já fazia nove anos, agora, e Ariana estava prestes a completar 18. Irritava-a partilhar o andar de cima com Gerhard, que era ba­rulhento e estava constantemente fazendo explodir suas misturas químicas, tentando fabricar pequenas bombas. E a jovem e o pai já tinham resolvido que ela só ingressaria na universidade depois da guerra. Assim, quando terminasse a escola, dali a dois meses, ficaria mais ocupada dentro de casa. Tinha planeja­do trabalhar como voluntária. Já ajudava num hospital duas vezes por semana. Mas parecia-lhe mais apropriado que, depois de terminar a escola secundária, melhorasse ao mesmo tempo sua posição dentro de casa. A perspectiva de ocupar os aposentos da mãe agradava-a imensamente... se ao menos pudesse fazer o pai concordar.

— Já pediu a ele? — perguntou Frau Klemmer num sussurro conspiratório, e Ariana sacudiu a cabeça.

— Ainda não. Hoje à noite. Se conseguir livrar-me de Gerhard depois do jantar. — Soltou um suspiro e revirou os olhos. — Ele é uma pestinha.

O irmão tinha acabado de fazer 15 anos.

— Acho que, se der tempo a seu pai para pensar no assunto, ele prova­velmente concordará. Vai gostar de tê-la mais perto dele. Subir todas aquelas escadas até o terceiro andar para vê-la deixa-o esgotado.

Era um motivo sensato, mas Ariana não tinha certeza se seria o motivo adequado para convencê-lo. Aos 68 anos, o pai não gostava que lhe lembrassem sua idade.

— Vou pensar em alguma coisa. Queria falar com ele agora, mas está ocupado. Sabe quem está com ele? Berthold falou que você deixou alguém entrar.

— Foi. — Pareceu brevemente intrigada. — É Herr Thomas. E não está parecendo nada bem.

Mas quem parecia, hoje em dia? Até mesmo o pai de Ariana se mostrava exausto, agora, quando chegava do banco. O Reich estava pressionando cada vez mais todos os banqueiros do país para comparecerem com os fundos que não tinham.

Quando Frau Klemmer se retirou, Ariana ficou refletindo por um mo­mento se devia ou não descer e se reunir ao pai. Estava com vontade de entrar de novo nos aposentos da mãe, para admirar o lindo quarto e para ver se o boudoir tinha tamanho suficiente para acomodar sua escrivaninha. Mas pode­ria ver isso mais tarde. Preferia ir fazer um pouco de companhia ao amigo do pai.

Herr Thomas era uns 30 anos mais moço do que o pai dela, mas a despeito da grande diferença de idades, o pai tinha muita afeição por aquele ho­mem de fala mansa. Ele passara quatro anos trabalhando para o pai dela, de­pois resolvera estudar Direito. Durante o curso, casara-se com uma colega, e tinham tido três filhos em quatro anos. O mais moço estava agora com três anos, mas Herr Thomas não o via desde que a criança tinha quatro meses. Sua mulher era judia, e ela e as crianças tinham sido tiradas dele. Durante os dois primeiros anos da guerra, Max conseguira afastar os nazistas. Mas, afinal, não houve como adiar o inevitável. Sarah e as crianças tiveram que ir. Em 1941, três anos antes, foram levadas embora. O choque de perdê-los quase o tinha destruído, e agora, quando visitava o pai de Ariana, parecia ter 15 anos a mais do que os seus 37 anos. Lutara desesperadamente para encontrá-los, e no últi­mo ano Ariana sabia que ele praticamente perdera as esperanças.

Suavemente, a moça bateu nas portas duplas, mas só o que pôde ouvir foi o zumbido baixo de conversa lá dentro. Já estava se afastando, quando, finalmente, ouviu o pai responder.

Abriu a porta devagar e espiou para o interior do aposento, com seu sorriso meigo.

— Papai? Posso entrar? — Mas o que viu a espantou, e não sabia se devia fechar a porta e ir embora, ou ficar. Maximilian Thomas estava sentado de costas para ela, os ombros tremendo levemente, o rosto enterrado nas mãos. Ariana fitou o pai, esperando que a mandasse embora, mas, para sua surpresa, ele lhe fez sinal para ficar. Walmar achava-se confuso, agora. Havia tão pouco a dizer. Quem sabe a filha pudesse oferecer a Max algum conforto, além do que ele lhe pudera dar. Era o primeiro ato de reconhecimento de Walmar de que Ariana não era mais criança. Se tivesse sido Gerhard a aparecer à porta, ele o teria mandado de volta para cima com um aceno de mão imperioso. Mas Ariana não era apenas uma garota, agora, tinha também a meiguice de uma mulher. Fez sinal chamando-a, e quando ela se aproximou, Max tirou o rosto das mãos. O que ela viu quando se acercou dele foi uma expressão de desespero total.

— Max...  o que aconteceu?

Caiu de joelhos ao lado do homem, e sem pensar, estendeu os braços. E com a mesma naturalidade ele se inclinou para ela, soluçando baixinho enquanto se abraçavam. Max não disse nada durante longos minutos, e finalmente enxugou os olhos e se afastou.

— Obrigado. Desculpe ter ...

— Compreendemos.

Walmar foi até a longa mesa antiga onde, numa grande salva de prata, ficavam várias garrafas de conhaque e os restos do seu estoque de uísque es­cocês. Sem perguntar a Max sua preferência, serviu um cálice de conhaque e estendeu-lhe silenciosamente a bebida. Max pegou o cálice e sorveu o drinque lentamente, enquanto enxugava mais uma vez os olhos que não paravam de minar.

— É Sarah? — Ariana teve que perguntar. Tivera notícias? Há tanto tempo que ele buscava informações dos nazistas, sem sucesso.

Os olhos dele buscaram os dela, em resposta, e a dor do que soubera aquele dia estava ali, marcada em todo o seu horror, os seus piores temores confirmados.

— Estão todos... — Max não conseguia forçar-se a dizer a palavra — ... mortos. — Inspirou fundo, sofridamente, e largou o conhaque. — Todos os quatro...  Sarah...  e os meninos...

— Meu Deus. — Ariana fitou-o angustiada e queria perguntar-lhe por quê. Mas todos sabiam por quê. Porque eram judeus... Juden. — Tem cer­teza?

Ele confirmou.

— Disseram-me que devia sentir-me agradecido. Que agora posso come­çar de novo com uma mulher da minha própria raça. Ó, Deus... Ó, Deus... meus filhinhos... Ariana...

Estendeu os braços para ela de novo, sem pensar, e mais uma vez ela o abraçou com força, desta vez com as lágrimas escorrendo por suas faces, tam­bém.

Walmar sabia que precisava convencer Max a partir imediatamente. Ele não podia mais ficar em Berlim.

— Max, escute. Tem que pensar agora. O que vai fazer?

— Como assim?

— Pode ficar aqui? Agora? Agora que sabe.

— Não sei... não sei... Queria partir há anos. Em 1938, falei para Sa­rah... mas ela não queria... as irmãs, a mãe... — Era um refrão familiar para ambos. — E, depois, fiquei porque tinha de encontrá-la. Pensei que, se soubes­se onde estava, poderia barganhar com eles, poderia... Ó, Deus, eu devia ter imaginado...

— Isso não teria mudado nada, não é? — Walmar olhou para o amigo, patilhando-lhe a dor. — Mas agora você conhece a verdade. E se ficar, eles o atormentarão. Vigiarão o que fizer, onde for, com quem fizer alguma coisa, e onde. Há anos que é suspeito, por causa de Sarah, e agora precisa mesmo ir embora.

Max Thomas sacudiu a cabeça. Walmar sabia muito bem o que estava di­zendo. Por duas vezes, o escritório de advocacia de Thomas tinha sido destruído, com a expressão "Amante de Judeu" rabiscada em cada peça de mobiliá­rio e pintada nas paredes. Porém, ele ficara. Tinha que ficar. Para achar a mu­lher.

— Penso que ainda não entendi direito que acabou, que... que ela... que não há mais ninguém para eu procurar. — Recostou-se na cadeira, os olhos cheios de uma compreensão terrível. — Mas, para onde eu iria?

— Para qualquer lugar. Suíça, se puder chegar lá. Quem sabe depois os Estados Unidos. Mas saia da Alemanha, Max, este país o destruirá se você ficar aqui.

... Como destruiu Kassandra... e Dolff, antes dela... A lembrança es­tava vivida de novo, enquanto olhava no rosto do homem mais moço.

— Não posso ir — disse Max, sacudindo a cabeça.

— Por que não? — Walmar ficou subitamente zangado. — Porque é pa­triota? Porque ama o país que foi tão bondoso com você? Santo Deus, ho­mem, por que motivo ficar? Trate de dar o fora.

Ariana os observava, assustada; nunca vira o pai daquele jeito.

— Max... talvez Papai tenha razão. Talvez mais tarde você possa voltar. Mas Walmar continuava de fisionomia fechada.

— Se for esperto, não fará isso. Comece uma vida nova em algum lugar. Em qualquer lugar, Max, qualquer lugar, mas dê o fora daqui antes que tudo desabe sobre sua cabeça.

Max Thomas olhou, desolado, para Walmar.

— Já desabou.

Walmar soltou um profundo suspiro e sentou-se em sua cadeira de novo, sem tirar os olhos do amigo.

— É, eu sei, compreendo. Porém, Max, você ainda tem sua vida. Já per­deu Sarah e as crianças. — A voz era macia, mas Max chorou de novo. — Deve a eles e a você mesmo sobreviver agora. Por que acrescentar mais uma tragédia, mais uma perda? — Se pudesse ter dito isso a Kassandra. Se ela pudesse ter compreendido isso.

—  Como eu iria? - Max fitava-o, pensando, sem compreender direito, o que significava deixar sua casa, sua herança, o país que dera à luz os seus fi­lhos e os seus sonhos.

— Não sei. Podemos pensar no assunto. Suponho que, com todo o caos existente hoje em dia, você poderia simplesmente desaparecer. Na verdade — Walmar parecia estar pensando — se desaparecesse agora, imediatamente, eles poderiam pensar que enlouqueceu com a notícia. Poderia ter fugido, se mata­do, feito qualquer coisa. Não ficarão desconfiados de imediato. Mais tarde, poderão ficar.

— E o que isso significa? Que saio de sua casa hoje à noite e começo a andar na direção da fronteira? Com o quê? Minha pasta, meu sobretudo e o relógio de ouro do meu avô? — O relógio de que falava estava, como sempre, no bolso do colete.

Mas Walmar ainda estava pensando. Acenou com a cabeça, suavemente.

— Talvez.

— Está falando sério?

Ariana os observava, chocada com tudo o que escutava. Era isto, então, o que estava acontecendo? Matavam mulheres e crianças, levando outros a fu­girem a pé para a fronteira no meio da noite? Aquilo a enchia com um tipo de medo que jamais conhecera, e o rostinho miúdo de marfim parecia mais páli­do do que antes.

Walmar olhou para Max. Tinha um plano.

— Sim, estou. Acho que você deve ir agora.

— Esta noite?

— Talvez não deva partir esta noite, mas tão logo seja possível, tão logo consigamos arranjar os papéis. Contudo, creio que deve desaparecer hoje.  — E, depois de outro gole de conhaque. — O que você acha?

Max estivera escutando atentamente as palavras de Walmar, e sabia que o que o homem mais velho estava dizendo fazia muito sentido. Que motivos ti­nha para se apegar a um país que já destruíra tudo o que lhe era caro? Silen­ciosamente, concordou. E depois de mais um momento:

— Tem razão. Partirei. Não sei para onde... ou como.

Os olhos dele não desfitavam os de Walmar, mas agora o homem mais velho olhava para a filha. Este era um ponto crítico em todas as três vidas.

— Ariana, quer nos deixar a sós, agora?

Por um instante nenhum dos três se mexeu no aposento, depois ela olhou indagadoramente para o pai.

— Quer que eu vá, Papai? — Mas ela não queria ir. Queria ficar ali com ele e Max.

— Pode ficar, se quiser. Se compreender a importância de manter tudo isso em segredo. Não pode discuti-lo com ninguém. Ninguém. Nem Gerhard, nem os criados. Nem mesmo comigo. O que vai acontecer, acontecerá em silêncio. E, quando acabar, nunca terá acontecido. Está claro? — Ela fez que sim, e por um instante Walmar questionou a sanidade da decisão de envolver a filha naquilo, mas estavam todos envolvidos. Logo poderia estar acontecendo com eles. Era hora de ela saber. Há algum tempo já que pensava nisso. Ariana precisava compreender como a situação era desesperadora. — Está compreendendo, Ariana?

— Perfeitamente, Papai.

— Pois bem. — Fechou os olhos por um momento, e depois virou-se para Max. — Você vai sair daqui esta noite, pela porta da frente, parecendo ainda mais perturbado do que quando chegou e simplesmente desaparecerá. Caminhe na direção do lago. E mais tarde, você vai voltar. Eu mesmo o deixarei entrar, depois que a casa estiver às escuras. Ficará aqui um dia ou dois. E em seguida partirá. Discretamente. Para a fronteira. Para a Suíça. E depois, meu amigo, você desaparece para sempre. Para uma nova vida.

— E como vou financiar tudo isso? Você pode retirar o meu dinheiro do banco?

Max parecia preocupado, e Walmar sacudiu a cabeça.

— Não se importe com isso. Só tem que se preocupar com voltar para cá logo mais. E depois com chegar à fronteira. Deixe que cuido do dinheiro e dos documentos.

Max ficou impressionado, embora um tanto surpreso, com o seu velho e respeitável amigo.

— Conhece alguém que faça esse tipo de coisa?

— Sim, conheço. Informei-me sobre isso há uns seis meses, para o caso de... porém não foi necessário. — Ariana estava atônita, mas ficou quieta. Não tinha idéia de que o pai jamais tivesse pensado numa coisa dessas. — Está tudo claro, então? — Max fez que sim. — Quer ficar para o jantar? Poderá sair de maneira bastante óbvia, depois do jantar.

— Está certo. Mas onde irá esconder-me?

Walmar ficou calado por um momento... estivera pensando na mesma coisa. Desta vez foi Ariana quem teve a resposta.

— Nos aposentos de Mamãe. - Walmar olhou para ela, com rápido desa­grado, e Max observou o diálogo mudo que os olhos deles trocaram. — Papai, é o único lugar do qual ninguém chega perto. — Era verdade, porém, que ela e Frau Klemmer tinham estado ali naquele mesmo dia. Fora isso que trouxera à sua mente tão depressa os aposentos em questão. Normalmente, a família e a criadagem quase faziam de conta que os aposentos de Kassandra não mais per­tenciam à casa dos Von Gotthards. — Papai. É verdade. Max estaria a salvo, ali. E eu poderia arrumar tudo, depois que ele se fosse. Ninguém jamais sa­beria.

Walmar fez uma pausa que pareceu interminável. A última vez em que estivera naquele apartamento, a mulher jazia morta numa banheira cheia de sangue. Nunca mais entrara nos aposentos dela. Não podia suportar a dor da­quelas últimas lembranças, aquele rosto machucado e os olhos desesperados, os seios feridos pela fivela do cinto do nazista que quase a violentara.

— Suponho que não haja escolha. — Falou com uma agonia que somente Max compreendeu. Ambos sabiam do que os nazistas eram capazes.

— Desculpe estar sendo um problema para você, Walmar.

— Não seja ridículo. Queremos ajudá-lo. — E depois, com um sorrisinho frio. — Quem sabe um dia você ainda nos ajudará.

Fez-se um longo silêncio na sala, e finalmente Max falou:

— Walmar, você pensa mesmo em partir?

O homem mais idoso ficou pensativo.

— Não estou certo de poder. Sou mais visado do que você. Eles me vi­giam, me conhecem. Precisam de mim mais do que de você. Sou uma fonte de recursos para eles. O Banco Tilden é importante para o Reich. É a pedra ao redor do meu pescoço, mas também é a minha salvação. Um dia, pode vir a ser a arma apontada para a minha cabeça. Mas, se for preciso, farei a mesma coisa que você está fazendo.

Ariana ficou chocada ao ouvi-lo falar assim. Jamais desconfiara de que o pai pretendia fugir um dia. E então, como se tivesse sido combinado, Berthold bateu à porta e avisou que o jantar estava pronto, e os três deixaram a sala em silêncio.

 

Walmar Von Gotthard andou pé ante pé por sua própria casa e es­perou no saguão da frente. Tinha avisado a Max Thomas que vies­se descalço pelo jardim. Faria menos barulho do que andar de sa­patos sobre o cascalho. E dera-lhe sua chave do portão da frente. Max os dei­xara por volta das 11, e agora faltavam alguns minutos para as três. A Lua es­tava cheia, e era fácil vê-lo, correndo rapidamente pelo gramado. Os dois homens não trocaram nenhum cumprimento, apenas breves acenos de ca­beça, enquanto Max Thomas limpava cuidadosamente os pés com as meias. A terra dos canteiros de flores teria deixado rastros no piso de mármore bran­co. Walmar ficou satisfeito com o modo de pensar atilado de Max. Era um ho­mem diferente daquele que estivera sentado no seu escritório alquebrado e soluçante, há apenas 10 horas. Agora que Max Thomas estava fugindo, sua so­brevivência iria depender do raciocínio rápido e da cabeça fria.

Os dois homens subiram rapidamente a escadaria principal e logo chega­ram à porta no final do longo corredor. Por um instante Walmar ficou parado ali, como se não tivesse certeza de que devia entrar. Mas Ariana estivera espe­rado por ambos e agora, pressentindo a presença deles, abriu um pouco a por­ta do quarto. Vendo a fisionomia concentrada de Max diante da porta, abriu-a mais para deixá-los entrar, mas Walmar apenas sacudiu a cabeça, parado ali, como se ainda não se pudesse forçar a entrar. Max entrou rapidamente. Talvez estivesse na hora de Walmar abrir as portas de novo; talvez, como Max, esti­vesse na hora de seguir em frente.

Fechou a porta sem fazer ruído, às suas costas, e seguiu o amigo, enquanto Ariana fazia sinal chamando-os para o pequeno aposento que fora o gabinete da mãe, agora de uma rosa ainda mais desbotado. A espreguiçadeira ainda continuava no canto, e Ariana cobrira-a de mantas quentes para que Max pudesse dormir ali. A moça levou o dedo aos lábios e murmurou baixi­nho:

— Achei que você ficaria mais seguro dormindo aqui. Caso alguém espie pela porta, não o verá do quarto.

O pai assentiu, e Max olhou em derredor, agradecido, mas havia linhas de fadiga rodeando-lhe os olhos. Walmar olhou para ele mais uma vez, meneou a cabeça, e depois saiu do quarto, acompanhado rapidamente por Aria­na. Walmar tinha prometido que arranjaria os documentos o mais depressa possível. Esperava, pelo bem de Max, estar de posse deles até a noite seguinte.

Ariana e o pai se despediram no corredor com os seus próprios pensamentos, e sem palavras. A jovem voltou para seu quarto, pensando em Max e na viagem solitária que ele estava prestes a fazer. Ainda se lembrava de Sarah, uma mulher miúda de olhos escuros e sorridentes. Sempre contava histórias engraçadas, e era muito bondosa para Ariana quando se encontravam. Agora, aquilo parecia ter acontecido há muito tempo. Ariana pensara nela com fre­qüência nos três últimos anos, imaginando onde estaria e o que lhe tinham feito... e aos meninos... Agora já sabiam.

Max estava tendo os mesmos pensamentos, deitado na espreguiçadeira coberta de cetim cor-de-rosa no quarto da mulher que vira apenas uma vez, logo que conhecera Walmar. Fora uma mulher fascinante, de cabelos doura­dos, quase cor de cobre. Ele a havia considerado a visão mais impressionante que tivera na vida. E, pouco depois, soube que tinha morrido. De gripe, segundo lhe disseram. Mas, deitado ali, sentia que houvera um outro moti­vo para sua morte. Uma sensação estranha tinha passado de Walmar para ele, como se o amigo também soubesse, como se também ele tivesse sofrido nas mãos dos nazistas. Não parecia ser possível, mas nunca se sabia.

No seu próprio quarto, Walmar ficou olhando para o lago ao luar, mas não era o lago que via, era a sua mulher. Kassandra, loura, radiosa, linda... a mulher que amara tão desesperadamente, há tanto tempo... os sonhos que tinham partilhado naquele quarto. E agora estava vazio, solene, coberto com panos, esquecido. Uma parte de si mesmo fora arrancada naquela noite, ao cruzar a porta com o homem que estavam escondendo, e Ariana com aqueles mesmos insondáveis olhos azuis-lavanda. Deu as costas ao luar, cheio de tris­teza, e finalmente se despiu e foi para a cama.

— Perguntou a ele? — indagou Frau Klemmer depois do café, quando se en­contraram no corredor.

— Sobre o quê? — Ariana estava preocupada com outras coisas.

— O quarto. O apartamento de sua mãe.

Que garota estranha ela era, tão distante, tão fechada, às vezes... será que já tinha esquecido? Frau Klemmer imaginava com freqüência que mistérios se esconderiam por detrás daqueles profundos olhos azuis.

— Ah, isso... sim... quero dizer, não. Ele disse que não.

— Ficou zangado?

— Não, mas foi bastante taxativo. Acho que vou ficar onde estou.

— Por que não força um pouquinho? Talvez ele pense um pouco mais no assunto e ceda.

Mas Ariana sacudiu a cabeça, com determinação.

— Ele já tem preocupações de sobra.

A governanta deu de ombros e seguiu seu caminho. Às vezes, era difí­cil entender a garota, mas, afinal, a mãe dela também era esquisita.

Quando Ariana foi para a escola, de manhã, Walmar já tinha saído de casa no seu Rolls. A moça tivera vontade de passar o dia em casa para o caso de Max precisar de alguma coisa mas o pai havia insistido para que ela não alterasse seu ritmo de vida em nada, e para assegurar-se da proteção de Max, o próprio Walmar tinha trancado a porta do apartamento de Kassandra.

Pareceu levar horas até Ariana poder voltar para casa, mas finalmente as aulas acabaram. Tinha passado o dia todo sentada na escola, distraída, pen­sando em Max e imaginando como estaria. Pobre homem, como devia sentir-se estranho, cativo na casa de outra pessoa. Com passo calmo, Ariana desceu o corredor principal, cumprimentou Berthold e subiu ao andar superior. De­clinou a oferta de chá feita por Anna, e entrou no seu banheiro para pentear o cabelo. Foi só dali a 15 minutos que ousou descer para o outro andar. Pa­rou por um momento diante da porta do quarto do pai, e depois passou por ele segurando a chave que tomara emprestado de Frau Klemmer há apenas dois dias.

A porta se abriu com facilidade enquanto a moça girava a chave e a maçaneta, e ela se esgueirou silenciosamente para o interior e desapareceu. Pi­sando leve, atravessou o quarto correndo, sem fazer ruído, sem fôlego, e de­pois ficou parada no vão da porta, uma visão sorridente diante de Max, cansa­do e com a barba por fazer.

— Alô — sussurrou.

Ele sorriu e a convidou para se sentar.

— Já comeu? — Max sacudiu a cabeça. — Foi o que pensei. Tome. — Trouxera-lhe um sanduíche escondido no bolso fundo da saia. — Vou trazer-lhe um pouco de leite mais tarde. — Naquela manhã ela lhe deixara uma jarra d'água. Tinham avisado a Max para não abrir as torneiras. Os canos es­tariam enferrujados, depois de todos aqueles anos, e fariam um barulho hor­rível, alertando os criados de que alguém estaria nos aposentos. — Está bem?

— Estou ótimo. - Engoliu rapidamente o sanduíche. — Não precisava fazer isso. — E então, sorriu para ela. — Mas estou contente porque fez. — Parecia um pouco mais jovem, como se anos de preocupação lhe tivessem aban­donado a fisionomia. Parecia abatido, e diferente, com a barba por fazer, mas não tinha aquele ar macilento e aflito da véspera. — Que tal foi a escola hoje?

— Terrível Fiquei preocupada com você.

— Não devia. Estou bem, aqui. — Era estranho, só estava escondido há algumas horas, mas já se sentia isolado do mundo. Sentia falta dos ônibus, dos ruídos, do seu escritório, do telefone, até das botas pisando pelas ruas. Tu­do parecia tão remoto, ali. Como se tivesse entrado num outro mundo.

Um mundo esquecido e desbotado de cetim cor-de-rosa, no boudoir de uma mulher morta há muito tempo. Juntos, correram os olhos pelo pequeno gabi­nete, e seus olhos se encontraram ao mesmo tempo.

— Como era ela... sua mãe?

Ariana olhou à sua volta, estranhamente.

— Não tenho certeza. Nunca a conheci direito. Morreu quando eu estava com nove anos. — Por um instante, lembrou-se de Gerhard no cemi­tério, e dela própria parada na chuva ao lado do pai, segurando-lhe a mão com força. — Ela era muito linda. Acho que não sei muito mais do que isso.

— Eu a vi uma vez. Era incrível. Achei-a a mulher mais bela que já tinha visto.

Ariana assentiu.

— Costumava subir para nos ver, de roupa toalete e cheirando a perfu­me. Seus vestidos faziam uns ruídos maravilhosos enquanto ela cruzava o quarto, os sons farfalhantes de seda, tafetá e cetim. Sempre me pareceu terrivelmente misteriosa. Suponho que sempre parecerá. — Ariana olhou para ele com os grandes olhos tristes. — Já pensou para onde irá?

Falando com ele no murmúrio que estavam usando para conversar, pa­recia uma criança perguntando-lhe um segredo, e ele sorriu.

— Mais ou menos. Acho que seu pai tem razão. Primeiro, a Suíça. De­pois, talvez quando a guerra tiver terminado, eu tente ir para os Estados Uni­dos. Meu pai tem um primo lá. Nem tenho certeza se ainda está vivo. Mas é um começo.

— Não vai voltar para cá? — Pareceu chocada por um momento, quando ele sacudiu a cabeça. — Nunca, Max?

— Nunca. — Soltou um suspiro baixo. — Nunca mais quero ver este lu­gar. — Parecia estranho para Ariana que ele quisesse isolar-se para sempre da­quilo que tinha sido toda a sua vida. Mas talvez estivesse mesmo certo em fe­char aquela porta com tanta firmeza. Perguntou-se se seria como o pai jamais voltar a entrar no quarto da mãe até a noite anterior. Havia lugares aos quais a gente simplesmente não voltava. A dor era insuportável. Quando olhou para ele de novo, Max sorria docemente: — Você e seu pai virão me ver nos Estados Unidos, depois da guerra?

— Isso parece estar ainda muito longe — disse ela, sorrindo.

— Espero que não.

E então, sem pensar, estendeu a mão e segurou a dela. Segurou-a por um longo momento, e depois Ariana se inclinou lentamente na sua direção e beijou-o docemente no alto da cabeça. Não havia necessidade de mais palavras entre ambos; ele apenas a abraçou e ela lhe acariciou suavemente o ca­belo. Pouco depois, mandou que a jovem se fosse, dizendo-lhe que era perigo­so para ela ficar ali. Mas a verdade é que estava pensando no inconcebível, en­quanto se escondia na casa do velho amigo.

Mais tarde, na mesma noite, Walmar veio vê-lo, e parecia bem mais can­sado e desanimado do que Max. Já estava com os documentos de viagem prontos, e com um passaporte alemão em nome de Ernst Josef Frei. Tinham usado o retrato do passaporte de Max, e o carimbo oficial utilizado parecia bem real.

— Um trabalho e tanto, hem? — Max fitou o documento falso, fasci­nado e depois voltou o olhar para Walmar, sentado pouco à vontade numa ca­deira cor-de-rosa — E agora?

— Um mapa, algum dinheiro. Consegui também uma permissão para viajar. Pode chegar perto da fronteira indo de trem. Depois disso, meu amigo, está por sua conta. Mas deve conseguir — fez uma pequena pausa — com isto. — Entregou-lhe um envelope cheio de dinheiro, o bastante para mantê-lo folgadamente por várias semanas. — Não ousei retirar mais do que isso, ou alguém poderia ficar imaginando por quê.

—  Será que há alguma coisa em que não pensou, Walmar? — Max fi­tou-o, cheio de admiração. Que velho notável era Von Gotthard.

— Espero que não. Infelizmente, sou um pouco novo nesse tipo de coi­sa. Mas acho que pode ser um bom treino.

— Está mesmo pensando em partir? — Walmar ficou pensativo. — Por que você?

— Por vários motivos. Quem sabe o que vai acontecer, a que altura eles perderão o controle. E também tenho que pensar em Gerhard, agora. No outono fará dezesseis anos. Se a guerra não terminar logo, poderão convocá-lo. Então, partiremos.

Max concordou. Compreendia. Se ainda tivesse um filho para proteger dos nazistas, faria o mesmo.

Mas não era apenas Gerhard que preocupava Walmar, era Ariana, também. A inundação de fardas na cidade preocupava-o quase que o tempo to­do. Ela era tão delicadamente bonita, tão atraente, em seu jeito quieto e distante. E se lhe fizessem mal, se a agarrassem, ou pior, se algum oficial de alta patente se encantasse por sua única filha? Aquilo o deixava cada vez mais as­sustado, agora que ela estava mais velha, e dali a alguns meses não mais es­taria na escola. Saber que trabalhava como voluntária no Hospital Martin Luther o apavorava mais do que tudo. Ficou ali pensando, enquanto Max olhava de novo para o seu passaporte falso.

— Walmar, o que posso fazer para lhe agradecer?

— Fique a salvo. Comece uma nova vida. É agradecimento suficiente.

— Não me parece nada. Posso avisá-lo de onde estou?

— Discretamente. Apenas um endereço. Nenhum nome. Eu saberei. — Max concordou. — O trem parte da estação à meia-noite. — Walmar tirou do bolso as chaves de um carro. — Na garagem atrás da casa você encontrará um antigo Ford cupê azul. Era de Kassandra. Mas eu o examinei hoje de manhã. Milagrosamente, ainda funciona. Acho que os criados saem com ele de vez em quando, para mantê-lo em forma. Pegue-o, vá até a estação e deixe-o lá. De manhã darei queixa de que foi roubado. Você já estará longe há muito tempo. Iremos para a cama cedo hoje, portanto não deverá haver qualquer problema. Quando você sair, às onze e meia, todos deverão estar dormindo. E isso, meu amigo, deixa tudo resolvido... exceto uma coisa.

Max não podia imaginar de que se tratava. Porém Walmar tinha pensado em mais uma coisa. Entrou silenciosamente no quarto de Kassandra e tirou dois quadros da parede. Com um canivete, retirou-os cuidadosamente das molduras que os mantinham esticados há 20 anos. Um deles era um peque­no Renoir que pertencera à sua mãe, o outro um Corot que comprara para a mulher em Paris na lua-de-mel, 20 anos antes. Sem dizer nada para o homem que o observava, enrolou firmemente as duas telas e depois entregou-as ao amigo.

— Tome. Faça o que tiver que fazer. Venda-os, coma-os, troque-os. Va­lem muito dinheiro. O bastante para ajudá-lo a começar sua nova vida.

— Walmar, não! Nem mesmo o que estou deixando no banco aqui cobri­ria o valor deles. — Gastara muito dinheiro tentando achar Sarah e os meninos.

— Tem que levá-los. E não ajudam ninguém, pendurados aqui. Você pre­cisa deles... e eu jamais suportaria olhar para eles de novo... não depois de terem estado aqui. São seus agora, Max. Leve-os. Presente de um amigo.

Neste momento, Ariana entrou discretamente no quarto. Ficou intriga­da ao ver as lágrimas nos olhos de Max, e então, quando viu as molduras va­zias junto à cabeceira da cama da mãe, compreendeu rapidamente.

— Você vai agora, Max? — perguntou Ariana, os olhos dilatados.

— Daqui a algumas horas. Seu pai acaba de... não sei o que dizer, Walmar.

—  Wiedersehen, Maximilian. Boa sorte.

Apertaram-se as mãos com firmeza, enquanto Max lutava para conter as lágrimas. Um momento mais tarde, Walmar os deixou, e Ariana permaneceu ali ainda alguns minutos. Mas antes de a jovem deixá-lo para ir jantar, Max puxou-a para si, e ambos se beijaram.

O jantar transcorreu com o maior decoro, exceto por Gerhard, que le­vou o tempo todo jogando bolinhas de miolo de pão nas costas de Berthold. Repreendido pelo pai, abriu um sorriso e jogou mais uma, um momento mais tarde, nas costas da irmã.

— Vamos ter que voltar a mandá-lo jantar com Fràulein Hedwig, se con­tinuar a fazer isso.

— Desculpe, Papai.

Mas, a despeito de sua tagarelice simpática, não conseguiu despertar o pai ou a irmã para muita conversa, e acabou também por ficar calado enquanto comia.

Depois do jantar, Walmar se retirou para o seu escritório, Ariana para seu quarto, e Gerhard para as suas peraltices. Ela teve vontade de voltar mais uma vez para Maximilian, mas teve medo. O pai insistira em que não deviam correr mais nenhum risco de despertar a atenção dos criados. A fuga de Max dependia de ninguém saber onde ele estava, e a segurança deles de ninguém saber onde estivera. E assim ela ficou no quarto durante horas, e obediente­mente, seguindo as ordens do pai, apagou as luzes às dez e meia. Porém, si­lenciosamente, aguardou, pensando, rezando, até que finalmente não pôde mais esperar, e às 11:20 desceu a escada pé ante pé até chegar à porta dos aposentos da mãe.

Entrou sem fazer ruído e encontrou-o à espera, como se soubesse que ela viria. Beijou-a longamente, desta vez, abraçando-a com tanta força que ela mal pôde respirar. Beijaram-se por um longo e último minuto, e depois, abotoando o casaco, ele se afastou.

— Preciso ir agora, Ariana. — Sorriu meigamente. — Cuide-se bem, mi­nha querida. Até mais ver.

— Eu o amo. — Era um simples sussurro, e os olhos falavam tanto quan­to as palavras. — Vá com Deus.

Ele assentiu e agarrou com a mão direita a pasta com as telas de valor inestimável escondidas no meio de jornais, no fundo.

— Vamo-nos encontrar de novo depois que tudo isso tiver acabado. — Ele corria como se estivesse indo para o escritório. — Quem sabe em Nova York.

Ela deu uma risadinha abafada.

— Você é maluco.

— Talvez. — E então seus olhos ficaram sérios. — Mas eu a amo, também. — E era verdade. Ela o tocara, viera a seu encontro num momento em que ne­cessitava de uma amiga terna.

E então, sem dizer mais nenhuma palavra, passou por ela cautelosamente e se dirigiu para a porta. Ela a abriu, trancou-a atrás deles, e acenou-lhe uma última vez, enquanto ele descia a escada na ponta dos pés. A jovem se refugiou rapidamente em seu quarto, e finalmente pôde ouvir o ruído do carro da mãe cruzando velozmente o portão.

— Auf Wiedersehen, meu querido. — Ficou parada à janela por quase meia hora, pensando no primeiro homem que a beijara, e se perguntando se voltariam a se encontrar.

 

Não havia nada evidente nos modos do pai, no dia seguinte, que le­varia alguém a desconfiar de que algo anormal estava ocorrendo nem nos de Ariana, enquanto tomavam café juntos. E naquela tar­de, quando o chofer veio relatar solenemente que o velho Ford de Frau Von Gotthard fora roubado, Walmar chamou a polícia imediatamente. O carro foi encontrado naquela mesma noite, abandonado perto da estação ferroviá­ria, e em perfeito estado. E foi sugerido, de modo malicioso mas divertido, que Gerhard fora o culpado, e que saíra para dar uma voltinha. Os policiais tentaram disfarçar a graça que estavam achando, e Gerhard comportou-se com a indignação apropriada, quando foi chamado. Mas o assunto foi entre­gue para ser tratado em família, agradeceu-se à polícia, e guardou-se o carro na garagem.

— Mas não peguei o carro, Papai! — O garoto enrubesceu fortemente, parado diante de Walmar.

— Não? Nesse caso, então suponho que esteja tudo bem.

— Mas o senhor pensa que fui eu!

— Não importa. O carro está de volta à garagem. Contudo, tome provi­dências para que nem você nem seus amigos tentem... hã... tomar empres­tado de novo... o carro de sua mãe.

Era uma atitude que Walmar detestava tomar, mas não havia escolha. Ariana compreendeu perfeitamente, e tentou consolar Gerhard, enquanto o levava para fora da sala.

— Mas é muito injusto! Não fui eu! — E então, fitou-a. — Foi você?

— Claro que não! Não seja bobo. Não sei dirigir.

— Aposto que foi você!

— Gerhard, não seja bobo! — Mas, subitamente, ambos estavam rindo, e subiram de braços dados as escadas que levavam aos seus quartos, Gerhard convencido de que fora ela.

Contudo, a despeito do seu modo jovial de tratar o irmão, Walmar no­tou que havia algo errado. Ela estava mais quieta do que de costume, pela manhã, e quando voltava da escola ou do trabalho como voluntária, à noitinha, desaparecia imediatamente no seu quarto. Não conversava com facilidade, e afinal, uma semana depois que Max os deixara, procurou o pai sozinha no escritório, os olhos marejados de lágrimas.

— Teve alguma notícia, Papai?

Ele soube instantaneamente. Era o que eu temia.

— Não, nada. Mas logo teremos. Pode passar algum tempo até que ele tenha condições de nos avisar.

— O senhor não pode saber. — Afundou numa cadeira perto do fogo.

— Ele pode estar morto.

— Talvez. - A voz era triste e suave, enquanto ele a observava. — E tal­vez não. Mas Ariana, ele se foi. Deixou-nos. Foi viver sua vida, seja lá onde for. Não pode apegar-se a ele. Somos apenas parte da vida antiga que ele deixou. — Mas ficou assustado ao vê-la, e as palavras seguintes escaparam antes que pudesse detê-las. — Está enamorada dele, Ariana?

Ela se virou para ele, chocada com a pergunta. Nunca ouvira o pai perguntar uma coisa daquelas.

— Não sei. Eu... — Fechou os olhos com força. — É só que eu estava preocupada. Ele podia ter... — Enrubesceu de leve e fitou o fogo, sem querer contar-lhe a verdade.

— Sei. Espero que não esteja. É difícil comandar essas coisas, mas... — Como poderia dizer-lhe? O que poderia falar? — Em épocas como estas é me­lhor guardar nosso carinho para dias melhores. Em tempo de guerra, em cir­cunstâncias difíceis, existe uma sensação de romance que geralmente é irreal, e pode não durar. Você poderá voltar a vê-lo daqui a anos, e achá-lo bastante diferente. Sem nada a ver com o homem que você recorda da semana passada.

— Compreendo. — Era por esse motivo que evitava cuidadosamente qualquer envolvimento com os homens feridos no hospital onde trabalhava.

— Sei disso, Papai.

— Folgo em sabê-lo. — Soltou um profundo suspiro enquanto a fitava. Era mais um ponto crítico para ele. Mais uma bifurcação na estrada cada vez mais traiçoeira. — Poderia ser perigoso amar um homem na posição de Max. Agora está fugindo, dentro em breve poderá estar sendo caçado pelos nazistas. E se você se apegar a ele, poderão caçá-la também. Mesmo que você não seja prejudicada, a simples dor poderia destruí-la, como de certa forma a dor de perder Sarah quase o destruiu.

— Como podem castigar as pessoas por causa de quem amam? — Estava zangada. — Como se pode saber antecipadamente qual é o lado certo, e qual o errado?

Aquela pergunta infantil, tão ingênua, e no entanto tão certa, trouxe-lhe de roldão as lembranças de Kassandra... ele a avisara... ela sabia...

— Papai? — Ariana observava-o sondar a si mesmo. Parecia a um milhão de quilômetros de distância.

— Tem que esquecê-lo. Poderia ser perigoso para você. — Olhou para ela severamente, e os olhos dela não se desviaram nem por um minuto dos do pai.

— Foi perigoso para o senhor ajudá-lo, Papai.

— Isso é diferente. Embora, de uma certa forma, você tenha razão. Mas não estou preso a ele pelos laços do amor. — E, olhando para ela mais atentamente  — E espero que você também não.

Ela não respondeu, e finalmente Walmar caminhou até a janela que dava para o lago. Quase podia ver o cemitério de Grunewald dali. Mas, mentalmen­te, enxergava o rosto dela. Como fora quando ele a advertira. Como fora na véspera de se matar.

— Ariana, vou-lhe contar uma coisa que jamais quis dizer a você. Sobre o preço de amar. Sobre os nazistas... sobre sua mãe. — A voz dele tinha um tom suave e distante. Ariana, confusa, esperava, fitando as costas do pai. — Não é um julgamento que faço dela, nem uma crítica. Não tenho raiva. Não lhe estou contando isso para fazê-la sentir-se envergonhada. Nós nos amávamos profundamente. Mas nos casamos quando ela era muito jovem. Eu a ama­va, mas nem sempre a compreendia. De certa forma, era diferente das mulhe­res de sua época. Tinha uma espécie de fogo tranqüilo na alma. — Virou-se para olhar para a filha. — Sabe que, quando você nasceu, Kassandra queria cuidar ela mesma de você, sem ama? Era inconcebível. E achei que era uma bobagem. Portanto, contratei Fráulein Hedwig, e acho que alguma coisa acon­teceu com sua mãe. Depois disso, sempre me pareceu um pouco perdida. — Deu-lhe as costas de novo, ficou calado por um momento, e depois continuou: — Quando já estávamos casados há dez anos, ela conheceu alguém, um ho­mem mais moço do que eu. Era um escritor muito famoso, era bonito e inte­ligente, e ela se apaixonou. Eu soube quase desde o começo. Talvez até mes­mo antes de ter começado. Contaram-me que os tinham visto. E vi algo dife­rente nos olhos dela. Algo entusiasmado e feliz e cheio de vida de novo, algo maravilhoso. — A voz dele ficou mais suave. — E acho que, de certa forma, aquilo fez com que eu a amasse mais. A tragédia de Kassandra não foi que estivesse apaixonada por um homem que não era o seu marido, mas que o seu país tivesse caído nas mãos dos nazistas, e que o homem que amava tão desesperadamente fosse judeu. Eu a avisei, para o bem dela e dele, mas ela não quis deixá-lo. Na verdade, não quis deixar nenhum de nós dois. À sua maneira, era leal a ambos. Não posso dizer que tenha realmente sofrido com a ligação dela com esse homem. Era tão devotada quanto o fora antes, talvez até mais. Porém, era igualmen­te devotada a ele. Até mesmo quando pararam de publicar os trabalhos dele, até mesmo quando o desprezaram, e finalmente... — A voz falhou, e Walmar quase não pôde prosseguir: — Até mesmo quando o mataram.

Estava com ele no dia em que o levaram. Arrastaram-no da sua pró­pria casa, espancaram-no, e quando encontraram sua mãe... espancaram-na... podiam até mesmo tê-la matado, mas ela lhes disse quem era, e então a deixa­ram em paz. Kassandra conseguiu voltar para casa. E quando cheguei, só no que conseguia falar era que me desonrara, e no medo que tinha de que eles nos magoassem. Achou que tinha de oferecer sua vida em troca da segurança das nossas... e não podia viver com o que haviam feito a ele. Fui a uma reu­nião no banco que durou duas horas, e quando retomei, ela estava morta. No banheiro dos seus aposentos... — Fez um gesto vago na direção do apar­tamento que Max ocupara apenas uma semana antes.

Esta, Ariana, é a história de sua mãe, que amou um homem que os nazistas queriam morto. Ela não pôde suportar a dor da realidade que lhe mos­traram... não pôde viver com a maldade, a brutalidade e o medo... Assim — voltou-se para olhar para a filha — num certo sentido, eles a mataram. Co­mo, num certo sentido, poderão ousar matá-la, se você resolver correr o ris­co de amar Max. Não o faça... ó, Deus, por favor, Ariana... não...

Walmar afundou o rosto nas mãos, e pela primeira vez na vida Ariana viu o pai chorar. Foi para junto dele, trêmula e calada, e abraçou-o com força, as suas próprias lágrimas caindo no paletó dele, enquanto as dele se misturavam ao dourado dos cabelos da filha.

— Desculpe... Oh, Papai, desculpe. — Repetiu essas palavras diversas vezes, horrorizada com o que ele lhe contara, e no entanto, pela primeira vez na vida, a mãe se tornara real. — Papai, não... por favor, desculpe... não sei o que aconteceu... estou muito confusa. Foi tão estranho tê-lo aqui naquele quarto... na nossa casa, escondido, assustado. Tive vontade de ajudá-lo. Sen­ti muita pena dele.

— Eu também. — O pai ergueu a cabeça, finalmente. — Mas você precisa deixá-lo ir. Vai haver um homem para você, algum dia. Um bom homem, e es­pero que o homem certo, numa época melhor.

Ela concordou em silêncio, enquanto secava uma nova onda de lágrimas.

— Acha que o veremos de novo?

— Quem sabe algum dia. — Abraçou a filha. — Eu espero. — Ela fez que sim, e ficaram parados ali, o homem que perdera Kassandra e a garotinha que ela deixara em seu lugar. — Por favor, minha querida, tome cuidado agora, enquanto estamos em guerra.

— Tomarei, prometo. — Voltou os olhos para ele, enquanto o mimoseava com um pequenino sorriso. — Além disso, nunca quero deixá-lo.

Mas ele riu baixinho de suas palavras.

— E isso, minha querida, vai mudar também.

Duas semanas mais tarde, Walmar recebeu uma carta no escritório. Não trazia remetente e continha uma única folha de papel com um endereço rabiscado às pressas. Max estava em Lucerna. Foi a última notícia que Walmar Von Gothard teve dele.

 

O verão passou sem maiores novidades. Walmar achava-se ocupado no banco, e Ariana trabalhava no hospital três vezes por semana. Já livre do compromisso da escola, tinha mais tempo para o traba­lho como voluntária e mais tempo para administrar a casa. Ela, Gerhard e o pai foram passar uma semana de férias nas montanhas, e quando voltaram, Gerhard completou 16 anos. O pai anunciou, divertido, na manhã do aniver­sário, que o filho agora era um homem. Aparentemente, esta também era a opinião do Exército de Hitler, porque no último impulso desesperado do ou­tono de 1944, estavam convocando todos os homens e rapazes disponíveis. Gerhard recebeu a notícia de que fora convocado quatro dias depois do ani­versário que ele e o pai e a irmã haviam comemorado com tanto júbilo. Ti­nha três dias para se apresentar.

— Não acredito. — Fitou o comunicado enquanto tomava o café da ma­nhã. Já estava atrasado para o colégio. — Mas não podem fazer isso... po­dem, Papai?

O pai olhou para ele, sombriamente.

— Não tenho certeza. Vamos ver.

Mais tarde, na mesma manhã, Walmar visitou um velho amigo, um coronel, e soube que nada podia ser feito.

— Precisamos dele, Walmar. Precisamos de todos eles.

— Está tão ruim assim, então?

— Está pior.

— Entendo.

Tinham falado sobre a guerra, a mulher do coronel, e o banco de Walmar durante alguns minutos, e depois, resolutamente, Walmar voltara para o escritório. Sentado no banco de trás do Rolls-Royce que o chofer dirigia, ficou matutando no que tinha que fazer. Não perderia o filho. Já tinha perdi­do o bastante.

Quando Walmar voltou para o escritório, deu dois telefonemas. Voltou para casa na hora do almoço, retirou alguns papéis do cofre de parede do seu gabinete, e voltou para o trabalho. Só chegou em casa naquela noite depois das seis horas, e quando chegou, encontrou os filhos no terceiro andar, no quarto de Gerhard. Ariana tinha chorado, e o rosto de Gerhard estava cheio de medo e desespero.

— Eles não podem levá-lo, não é, Papai?

Ariana acreditava que o pai podia mover montanhas. Mas havia pouca esperança nos olhos dela. Assim como nos de Walmar, quando ele respondeu suavemente:

— Podem, sim.

Gerhard ficou calado, parado, aturdido com o que lhe acontecera. O papel da convocação ainda jazia aberto sobre sua escrivaninha. Já o lera umas 100 vezes, desde a manhã. Dois outros rapazes da sua turma também tinham recebido os seus comunicados. Mas ele não contara do seu. O pai lhe dissera para ficar calado, para o caso de haver alguma coisa que pudesse fazer.

— Então quer dizer que eu vou. — O rapaz falou numa voz seca, inex­pressiva, e a irmã recomeçou a chorar.

— Quer dizer sim, Gerhard. — A despeito da voz severa, fitou os filhos meigamente. — Sinta-se orgulhoso de servir ao seu país.

— O senhor está maluco? — Ele e Ariana fitaram o pai, num horror cho­cado.

— Fique quieto.— Enquanto dizia as últimas palavras, fechava a porta do quarto de Gerhard. Levando o dedo aos lábios, chamou-os mais para per­to e depois murmurou baixinho: — Você não precisa ir.

— Não? — Gerhard sussurrou, cheio de júbilo. - Ajeitou tudo?

— Não. — Walmar sacudiu a cabeça, com ar sério. — Não consegui. Va­mos partir.

— O quê? — Gerhard parecia chocado de novo, mas o pai e a irmã troca­ram um olhar significativo. Era como a fuga de Max, alguns meses antes. — Como iremos?

— Eu o levarei para a Suíça amanhã. Podemos dizer que você está em casa, doente. Só tem que se apresentar na quinta-feira... daqui a três dias. Cruzarei a fronteira com você e o deixarei com amigos meus em Lausanne, ou em Zurique, se for preciso. Depois virei buscar sua irmã. — Olhou ternamente para a filha e tocou-lhe a mão. Talvez ela fosse ver Max de novo, afinal de contas.

— Por que ela não vem conosco? — perguntou Gerhard, intrigado, mas o pai sacudiu a cabeça.

— Não posso aprontar tudo com tanta rapidez, e se ela ficar aqui, não suspeitarão de que estamos dando o fora de vez. Voltarei dentro de um dia, e então irei embora com ela, definitivamente. Mas vocês terão que manter isso em segredo absoluto, total. Nossas vidas dependem disso. Estão compreendendo?

Os dois assentiram, em silêncio.

— Gerhard, arranjei um passaporte diferente para você. Podemos usá-lo na fronteira, se for preciso. Mas, nesse meio tempo, quero que pareça resigna­do de entrar para o Exército. Quero até que pareça satisfeito. Isso quer dizer aqui em casa, também.

— Não confia nos criados? — A despeito dos seus 16 anos, Gerhard ain­da era ingênuo. Não enxergava a preocupação de Berthold com o Partido, e a fé cega de Fráulein Hedwig em Adolf Hitler.

— Não, quando as suas vidas estão em jogo.

Gerhard deu de ombros.

— Está bem.

— Não leve nada. Compraremos lá tudo o que precisarmos.

— Vamos levar dinheiro?

— Já tenho dinheiro lá. — Há anos que Walmar estava preparado. — Só lamento termos esperado tanto. Jamais devíamos ter voltado das férias.

Soltou um profundo suspiro, mas Ariana tentou consolá-lo.

— Não podia saber. Quando voltará da Suíça, Papai?

— Hoje é segunda. Partiremos pela manhã... estarei de volta quarta à noite. E você e eu partiremos na quinta à noite, depois que eu for ao banco naquele dia. Podemos dizer que vamos jantar fora, e nunca mais voltaremos. Vai custar um pouco enganar os criados, dizendo que Gerhard se apresentou ao Exército sem se despedir. Contanto que você mantenha  Anna e Hedwig longe dos aposentos de Gerhard amanhã e quarta-feira, podemos dizer que ele saiu cedo demais na quinta de manhã para ver alguém. Se você e eu estivermos aqui, ninguém suspeitará de nada. Vou tentar estar de volta na hora do jantar.

— O que disse ao pessoal do banco?

— Nada. Não terei que explicar minha ausência. Há reuniões secretas acontecendo a toda hora, atualmente, e pensarão que estou numa delas. Tudo certo com vocês dois? Está tudo bem claro? A guerra está quase acabando, crianças, e quando terminar, os nazistas derrubarão tudo junto com eles, quando caírem. Não quero que nenhum de vocês dois esteja aqui para isso. Está na hora de ir. Poderemos nos recompor mais tarde. Gerhard, encontre-me no café na esquina do meu escritório amanhã às onze. Iremos direto para a estação ferroviária. Está bem claro?

— Está — respondeu o menino, com ar subitamente solene.

— Ariana? Você ficará aqui amanhã cuidando de Gerhard, não é?

—  Sem dúvida, Papai. Mas como ele sairá de casa de manhã sem ser vis­to?

— Sairá às cinco, antes que os outros acordem. Certo, Gerhard?

— Certo, Papai.

— Use roupas quentes para a viagem. Teremos que fazer a pé a última parte do trajeto.

— O senhor também, Papai? — Ariana estava preocupada, enquanto perscrutava os olhos do pai.

— Eu também. E sou muito capaz de fazê-lo. Provavelmente muito mais do que esse rapazinho. — Levantou-se, despenteou os cabelos de Gerhard, e se preparou para sair do quarto. Sorriu para eles, mas não houve retribuição por parte dos filhos. — Não se preocupem. Tudo dará certo. E um dia, voltaremos.

Mas, enquanto o pai fechava a porta atrás de si, Ariana se perguntava se voltariam.

 

— Frau Gebsen — Walmar Von Gotthard olhou imperiosamente para a secretária, segurando o chapéu. — Passarei fora o resto do dia, em reuniões. A senhora compreende... aonde vou.

— Claro, Herr Von Gotthard.

— Muito bem.

Saiu rapidamente da sala. Ela não tinha idéia de onde ele ia. Mas pensa­va que sim. Para o Reichstag, é claro, encontrar-se novamente com o Ministro das Finanças. E se não aparecesse no dia seguinte, ela compreenderia que as reuniões tinham continuado. Compreendia essas coisas.

Walmar sabia que tinha calculado à perfeição sua saída. O Ministro das Finanças estava passando uma semana na França, fazendo consultas sobre a situação das finanças do Reich em Paris, e inventariando a vasta quantidade de quadros que estavam mandando para Berlim. Uma coisa caída do céu para o Reich.

Dissera ao motorista que não o esperasse, naquela manhã, e dobrou ra­pidamente a esquina para o café dos operários. Gerhard tinha saído de casa na hora marcada, às cinco da manhã, com um beijo da irmã e uma última olhada por cima do ombro para a casa em que crescera, antes de caminhar os 19 qui­lômetros até o centro de Berlim.

Quando Walmar entrou no café, viu o filho, mas não deu sinais de reconhecê-lo. Simplesmente se dirigiu para o banheiro dos homens, o rosto obscurecido pelo chapéu e com a pasta na mão. Por trás da porta trancada do ba­nheiro, tirou rapidamente o terno e vestiu um par de velhas calças de traba­lho que trouxera da garagem. Por cima da camisa vestiu um suéter, na cabeça enfiou um boné ordinário, depois uma velha jaqueta quente, e o terno foi pa­ra dentro da pasta. O chapéu foi enfiado com força, no fundo da lata de lixo. Um momento mais tarde, reuniu-se a Gerhard, e com um vago aceno de ca­beça e um cumprimento grosseiro fez-lhe sinal para irem.

Tomaram um táxi até a estação e logo se perderam em meio à multidão fervilhante. Vinte minutos mais tarde se achavam no trem que se destinava à fronteira, os documentos de viagem em ordem, as identificações seguras, os rostos feito máscaras. Walmar sentia cada vez mais orgulho de Gerhard, que desempenhara o seu papel à perfeição. Tomara-se um fugitivo da noite para o dia, mas estava aprendendo rapidamente como ser um fugitivo bem sucedido.

— Fraulein Ariana... Fraulein Ariana? — Bateram vivamente à porta. Era Fraulein Hedwig, o rosto aparecendo próximo ao da jovem, quando esta abriu cuidadosamente a porta. Mas Ariana levou o dedo aos lábios rapidamente, para silenciar Hedwig, e foi fazer companhia à mulher mais velha, no cor­redor. — O que está se passando?

— Psiu... vai acordá-lo. Gerhard não está-se sentindo nada bem.

— Está com febre?

— Acho que não. É apenas um terrível resfriado.

— Deixe-me vê-lo.

— Não posso. Prometi que o deixaríamos dormir o dia todo. Está apa­vorado de ficar doente demais e não poder apresentar-se ao Exército na quin­ta-feira. Quer dormir para ver se fica bom.

— Claro. Compreendo. Não acha que devíamos chamar o médico?

— Só se ele piorar demais — retrucou Ariana.

Fraulein Hedwig fez que sim, satisfeita de que seu jovem pupilo estivesse tão ansioso para servir ao país.

— Ele é um bom menino.

Ariana sorriu benevolentemente, em resposta, e beijou a velha na face, enquanto estavam paradas no corredor.

— Graças a você.

Hedwig enrubesceu ante o elogio de Ariana.

— Quer que eu traga um chá para ele?

— Não precisa. Mais tarde eu faço um pouco. Agora, ele está dormindo.

— Bem, avise-me se ele precisar de mim.

— Avisarei. Prometo. E obrigada.

— Bitte schõn. — E um segundo mais tarde, Fraulein Hedwig seguiu seu caminho.

Por duas vezes à tarde, e uma vez à noitinha, a empregada voltou a ofe­recer os seus serviços para Ariana, mas em todas essas ocasiões a jovem insis­tiu em que o irmão tinha acordado, comido alguma coisa e voltado a dormir. A essa altura estavam já na noite de terça-feira, e só tinha que fazer o jogo até que o pai voltasse, na quarta à noite. Depois disso, estariam a salvo. O pai po­deria alegar que ele próprio tinha levado Gerhard ao Exército, ao romper da aurora. Só tinham que ultrapassar a quarta-feira. Apenas 24 horas. Ela conse­guiria. E na quinta à noite, ela e o pai também partiriam.

Seu corpo estava cansado e dolorido, quando ela desceu a escada, tarde da noite de terça-feira. Passara o dia sob tensão, de olho em Hedwig e Anna, mantendo o embuste, de guarda junto ao quarto de Gerhard. Precisava esca­par daquele andar, mesmo que por alguns minutos. Assim, entrou no gabinete do pai e ficou fitando as cinzas na lareira. Ele estivera naquele aposento pela manhã? Fora ali que fizera as suas rápidas despedidas? Parecia um aposento diferente, agora, sem a sua presença, os papéis arrumados sobre a mesa, os livros em ordem na estante. Levantou-se e foi olhar para o lago, enquanto se lembrava das palavras dele, ao se despedir...

— Não se preocupe, estarei de volta depois de amanhã. E tudo estará bem com Gerhard.

— Não é com Gerhard que estou me preocupando. É com o senhor.

— Não seja boba. Não confia no seu velho pai?

— Mais do que em qualquer outra pessoa viva.

— Ótimo. Porque é exatamente assim que confio em você. E é por isso, minha querida Ariana, que lhe vou mostrar agora algumas coisas que um dia poderão ser de muita utilidade. Acho que são coisas de que você precisa saber. — Mostrara-lhe o cofre secreto no quarto dele, outro na biblioteca principal, e o último no quarto da mãe, onde ainda guardava todas as jóias dela. — Um dia elas serão suas.

— Por que agora? — Ficara com os olhos marejados de lágrimas. Não queria que ele lhe mostrasse tudo isso naquele momento. Não no dia em que estava partindo e levando Gerhard embora.

— Porque eu a amo, e quero que saiba cuidar de si mesma, se for preci­so. Se alguma coisa acontecer, tem que dizer-lhes que ignorava tudo. Diga-lhes que pensava que Gerhard estava doente lá em cima, e que não imaginava que ele havia partido. Minta. Mas proteja-se, com sua inteligência, e isto. — Mos­trou-lhe uma pequena pistola e uma dúzia de pilhas de notas novinhas. — Se a Alemanha cair, elas não valerão nada, mas as jóias de sua mãe proverão suas necessidades. — A seguir, mostrou-lhe o volume falso de Shakespeare, no qual estavam a esmeralda grande, que fora o anel de noivado, e o anel de sinete de diamante que Kassandra usara na mão direita. Quando Ariana o viu, estendeu a mão para tocá-lo, inconscientemente. Seu brilho era familiar. Podia lembrar-se de tê-lo visto na mão da mãe, há muitos anos. — Ela sempre usava isto.

A voz do pai parecia sonhadora, enquanto olhavam juntos para o anel de sinete de diamante.

— Eu me lembro.

— Lembra? — Walmar pareceu surpreso. — Não se esqueça de que está aqui, se precisar dele. Use-o bem, minha querida, e a memória dela estará bem servida.

Enquanto recapitulava o que se passara de manhã, percebeu que ficar aqui no gabinete do pai não o traria de volta mais depressa do que se fosse para a cama. E tinha que acordar cedo para retomar sua vigília, para o caso de Fráulein Hedwig ficar zelosa demais e insistir em ver Gerhard, pessoalmente.

Em silêncio, Ariana apagou as luzes do escritório do pai, fechou a porta e voltou lá para cima.

Na estação de Müllheim, Walmar cutucou suavemente Gerhard, que dormia, sereno, no seu assento. Há quase 12 horas que estavam no trem, e o garoto dormia há quatro. Parecia muito jovem e inocente, sentado ali, com a cabeça encostada no canto, contra a parede do trem. Os soldados haviam embarcado em diversas estações, e os documentos de ambos tinham sido examinados duas vezes. Walmar referira-se a Gerhard apenas como seu jovem amigo; os do­cumentos pareciam estar em ordem, e quando ele falou com os oficiais, seu tom fora respeitoso e o sotaque, grosseiro. Gerhard pouco falou, apenas tinha arregalado os olhos, admirando os soldados, e um deles despenteara-lhe os ca­belos e prometera-lhe de brincadeira uma missão para breve. Gerhard sorrira, cativantemente, e os dois homens fardados seguiram seu caminho.

Em Müllheim ninguém embarcou, e a parada foi breve, mas Walmar queria o filho acordado antes de chegarem a Lòrrach, onde saltariam. De qual­quer forma, logo ficaria desperto, com o ar frio da noite. Dali teriam uma ca­minhada de 14 quilômetros, e o seu maior desafio: cruzar a fronteira e chegar à Basiléia o mais cedo possível. De lá, tomariam um trem para Zurique. Wal­mar resolvera deixá-lo ali... estaria a salvo na Suíça. Ele voltaria dali a dois dias com Ariana, e poderiam continuar até Lausanne, depois.

Estava ansioso para voltar o mais breve possível para junto da filha. Ela não iria conseguir manter aquela charada para sempre, e o principal era levar Gerhard a salvo para Zurique. Mas, primeiro, Lòrrach, e a sua longa caminhada. Eram 28 quilômetros de Müllheim a Lòrrach, e meia hora depois de Ge­rhard ter-se mexido, sonolento, no banco e olhado distraidamente à sua volta, o trem parou totalmente. Era o fim da linha para eles.

À uma e meia da madrugada, com um punhado de outras pessoas, eles saltaram, e por um instante Walmar sentiu as pernas tremerem, ante a sensação estranha de terra firme. Mas não disse nada para Gerhard, simplesmente puxou o boné para baixo, levantou a gola do casaco, fez um gesto na direção da estação, e seguiram adiante. Um velho e um rapaz indo para casa. Não des­toavam em Lòrrach, nas suas roupas toscas; apenas as mãos bem-tratadas e o cabelo bem cortado de Walmar poderiam tê-lo denunciado, mas ele usara o boné durante toda a viagem, e tomara o cuidado de sujar bem as mãos na es­tação poeirenta, antes de deixarem Berlim.

— Está com fome? — perguntou a Gerhard, que bocejou e deu de om­bro.

— Estou bem. E o senhor?

— Tome — disse o pai, sorrindo. Entregou-lhe uma maçã que guardara no bolso, sobra do almoço que tinham comprado no trem. Gerhard foi mastigando a fruta, enquanto desciam a estrada. Não havia ninguém à vista.

Levaram cinco horas para percorrer os 14 quilômetros. Gerhard poderia ter feito a caminhada em menos tempo, mas Walmar não conseguia mais andar tão depressa como quando jovem. Contudo, para um homem de quase 70 anos, saíra-se excepcionalmente bem. E então, perceberam que tinham chega­do à fronteira. Quilômetros de cerca e arame farpado. A distância, podiam ou­vir as patrulhas de fronteira passando por eles. Duas horas antes, tinham saído da estrada. Mas, na escuridão antes dos primeiros raios do alvorecer, pareciam dois lavradores indo cedo para o trabalho. Nenhuma sacola para chamar a atenção, apenas a pasta de Walmar, que ele teria jogado prontamente no meio da vegetação, se tivesse ouvido alguém se aproximar. O pai tirou rapidamente do bolso o alicate, observado por Gerhard, e enquanto cortava o rapaz segura­va o arame. Dali a alguns minutos tinha feito um buraco de tamanho suficien­te para passarem, arrastando-se.

Walmar sentia o coração batendo com força... Se fossem apanhados, seriam fuzilados... Não se importava consigo mesmo, mas o garoto... Rapidamente, passaram para o outro lado da cerca, e ele pôde ouvir seu paletó se rasgando, mas um minuto depois estavam na Suíça, perto de um grupo de árvores, num campo. Walmar fez um gesto silencioso, e ambos começaram a correr, metendo-se por entre as árvores pelo que lhes pareceu horas, até que, finalmente, pararam. Mas ninguém os seguira, ninguém ouvira. Walmar sabia que um ano ou dois antes teria sido bem mais difícil cruzar para o outro lado da fronteira, mas nos últimos meses o Exército estava necessitando tão desesperadamente de soldados que havia bem menos deles nas patrulhas de fron­teira suíças.

Caminharam por mais meia hora, chegando à Basiléia com o romper do dia. Havia um esplêndido alvorecer nas montanhas, e por um instante Walmar envolveu os ombros de Gerhard com o braço, e parou para olhar os tons de rosa e malva pintarem o céu que o Sol iluminava. Pensou por um breve momento que nunca se sentira tão livre. Teriam uma boa vida ali, até que a guer­ra terminasse, e talvez por mais tempo.

Com os pés doendo, chegaram à estação ferroviária bem a tempo de tomar o primeiro trem. Walmar comprou duas passagens para Zurique e se acomodou no seu assento para descansar. Fechou os olhos e sentiu o sono começar a ficar cada vez mais profundo. Pareceu-lhe terem-se passado alguns minutos apenas, quando Gerhard começou a puxar-lhe o braço. Durante a viagem de quatro horas e meia, olhando para a vista agradável do Vale Frick, o filho não quisera acordá-lo.

— Papai... acho que chegamos.

Walmar olhou, sonolento, a seu redor, vendo a familiar Praça Bahnhof e a Catedral Grossmünster a distância, e ainda mais longe podia vislumbrar as montanhas do Uetliberg. Naquele momento, sentiu-se como em casa.

— Chegamos.

Enquanto desciam a salvo do trem em Zurique, a despeito das costas cansadas e das pernas doloridas, Walmar teve vontade de pegar o braço do fi­lho e sair dançando. Ao invés disso, um amplo sorriso iluminou-lhe o rosto, e ele abraçou o filho. Tinha conseguido. Estavam livres. A vida de Gerhard agora estava garantida. Jamais serviria no Exército de Hitler. Jamais matariam seu filho.

Caminharam rapidamente até uma pequena pensão da qual Walmar se recordava vagamente. Almoçara ali uma vez, enquanto esperava pelo trem. E ainda estava onde ele se lembrava, pequena, modesta, quieta, amigável. Era um lugar onde se sentia à vontade deixando Gerhard, enquanto voltava para passar suas últimas horas em Berlim.

Tomaram um café da manhã gigantesco e depois Walmar levou-o para seu quarto. Olhou em derredor, satisfeito; depois, virou-se para olhar para o garoto que se tomara adulto no espaço de poucos dias. Foi um momento precioso entre pai e filho. Foi Gerhard quem falou primeiro, olhando com os olhos úmidos de admiração para o pai que o conduzira para a segurança, cortara os arames farpados, cruzara a fronteira e o trouxera até ali.

— Obrigado, Papai... obrigado.

Jogou os braços à volta do pescoço do pai. Este era o pai de quem às ve­zes seus amigos debochavam, chamando-o de "velho". Mas não era um velho que o estava abraçando, era um homem que teria atravessado as montanhas descalço e sangrando para salvar o filho. Por um longo momento, Walmar o abraçou, depois se afastou lentamente.

— Está tudo bem. Está salvo agora. Ficará bem, aqui. — Caminhou rapidamente até a mesa simples, pegou um pedaço de papel e a sua caneta de ouro cuidadosamente escondida. — Vou-lhe dar o endereço e o telefone de Herr Müller... para o caso de Ariana e eu nos atrasarmos. — O rosto do rapaz se anuviou, mas Walmar ignorou seus temores. — Só uma precaução. — Nem pen­sara em dar-lhe o telefone de Max. Era perigoso demais. O outro homem era um banqueiro que Walmar conhecia bem. — E vou deixar minha pasta com você; nela há alguns papéis e algum dinheiro. Não creio que você vá precisar de muito, nos próximos dois dias. — Só o que levava consigo era uma carteira fina cheia de dinheiro vivo, nada com que pudesse ser identificado, caso o detivessem desta vez na estrada. Agora seria bem mais difícil. Seria dia claro, mas ele não queria arriscar-se atrasando sua volta a Berlim. Queria retornar para junto da filha até a noite. Virou-se então para olhar para Gerhard e viu que o rapazinho estava chorando. Eles se abraçaram de novo, despedindo-se. — Não fique tão preocupado. Trate de dormir um pouco. Quando acordar, coma bem, dê um passeio, veja os pontos turísticos. Este é um país livre, Gerhard, nada de nazista, nem de braçadeiras. Aproveite. E Ariana e eu de­vemos estar de volta até amanhã à noite.

— Acha que Ariana conseguirá fazer a caminhada de Lorrach até a fron­teira? — Mesmo para eles tinha sido dura.

— Dará um jeito. Direi a ela para não usar os sapatos de salto alto. Gerhard sorriu por entre as lágrimas e abraçoucom força o pai, pela úl­tima vez.

— Posso acompanhá-lo até a estação?

— Não, rapazinho, o que pode fazer agora é ir para a cama.

— E quanto ao senhor?

O pai parecia exausto, mas apenas sacudiu a cabeça.

— Dormirei na viagem para a Basiléia, e provavelmente durante todo otrajetode volta a Berlim.

Olharam-se longa e fixamente, então. Não havia mais nada a dizer.

—  Wiedersehen, Papai.

Falou baixinho, enquanto o pai acenava para ele e descia rapidamente as escadas que levavam ao saguão principal da pensão. Tinha 10 minutos para pegar o trem de volta para a Basiléia, e andou rapidamente os poucos quar­teirões até a estação, chegando justo a tempo de comprar a passagem e tomar o trem. Na pensão, Gerhard estava estirado na cama, e já dormia a sono solto.

 

— Bem, como está ele? — Fraulein Hedwig olhou com ar preocupado para Ariana, enquanto a jovem saía para o corredor a fim de apa­nhar as bandejas com o café da manhã deles. Com expressão con­fiante, Ariana sorriu para a velha ama.

— Está muito melhor, mas ainda tosse um pouco. Acho que, com mais um dia de cama, estará ótimo.

— Além de uma visita do médico, Fraulein Ariana. Não queremos que se apresente ao Exército com pneumonia. Não seria uma boa coisa para o Reich.

— Não é absolutamente pneumonia, Fraulein Hedwig. — Ariana olhou para a ama bondosamente, mas com altivez. — E se o mau humor dele é si­nal de que está melhorando, então estará em bela forma para o Reich. — Fez um gesto para voltar para o apartamento deles, com a bandeja do irmão. Re­tornaria dali a um minuto para apanhar a sua, mas Fraulein Hedwig já a pega­ra. — Pode deixar, fraulein. Volto para pegá-la daqui a um minuto.

— Não seja tão independente, Ariana. Se está tomando conta daquele menino desde ontem, pode acreditar, está precisando de ajuda. — Ficou resmungando, e pousou a bandeja na mesa da sala de estar dos jovens.

— Obrigada, fraulein. — Ficou parada, esperando claramente que a velha ama se retirasse.

— Bitte. — E então ela estendeu a mão para a bandeja que Ariana ainda estava segurando. — Vou levar para ele.

— Ele não vai gostar. É melhor não fazer isso. — A moça agarrava com firmeza a bandeja. - Sabe como ele detesta ser tratado como bebê.

— Não um bebê, Fraulein Ariana, um soldado. É o mínimo que posso fazer. — Com ar severo, estendia a mão para a bandeja.

— Não, obrigada, Fraulein Hedwig. Tenho as minhas ordens. Ele me fez prometer que não deixaria ninguém entrar.

— Eu não sou "ninguém", fraulein.

Empertigou-se toda. Em outra ocasião qualquer, Ariana teria ficado intimidada. Agora, não tinha a menor intenção de deixar que a velha ama levas­se a melhor.

— Claro que você não é "ninguém", mas sabe como ele é.

— Ainda mais difícil do que costumava ser, aparentemente. Acho que o Exército lhe fará bem.

— Não deixarei de dizer a ele que você falou isso.

Sorriu alegremente, levou a bandeja rapidamente para o quarto de Gerhard e fechou a porta. Pousou a bandeja imediatamente, apoiando todo o seu peso contra a porta, para o caso de Fraulein Hedwig insistir, mas um minuto depois Ariana ouviu a porta da sala de estar fechar-se com firmeza, e soltou um longo suspiro de alívio. Esperava que o pai voltasse naquela noite, como combinado. Seria impossível manter Hedwig a distância por muito mais tempo.

Passou a manhã sentada nervosamente na sala de estar, e na hora apro­priada deixou as duas bandejas do lado de fora da porta, tendo mexido em ambas. Agradeceu a Anna por uma pilha de toalhas limpas e deu graças a Deus por Hedwig só ter aparecido no final da tarde.

— Como está ele?

— Muito melhor. Acho que estará pronto para o Exército amanhã. É capaz até de explodir o quarto, antes de partir. Estava falando em pegar seu equipamento de química para uma última experiência.

— Era só o que nos faltava. — Olhou para Ariana com ar reprovador. Não estava gostando nada do jeito de mandona com que a garota estava-se comportando. Aos 19 anos, podia ser uma adulta, mas não no que dizia res­peito a Fraulein Hedwig. — Diga a ele que me deve uma explicação por se es­conder desse jeito no quarto, como um garoto mimado.

— Direi a ele, Fraulein Hedwig.

— Não se esqueça.

A ama se afastou novamente, desta feita subindo para seu aposento, no quarto andar. E 20 minutos mais tarde Ariana ouviu baterem novamente à porta da sala de estar. Esperando ver Hedwig, abriu a porta com um sorriso tenso. Mas desta vez era Berthold, ainda ofegante da longa subida dos dois lances de escada.

— É um telefonema do escritório do seu pai. Aparentemente, é urgente. Quer vir atender?

Por um segundo, Ariana hesitou... deveria largar seu posto de guarda? Mas, afinal de contas, Hedwig já fora afastada. Seria seguro, por alguns minutos. Saiu atrás de Berthold e atendeu o telefonema no vão do saguão princi­pal.

— Sim?

— Fraulein Von Gotthard?

Era Frau Gebsen, a secretária do pai no banco.

—  Sim. Algum problema? -— Quem sabe tinha recebido alguma noticia do pai? Alguma mudança de planos?

—  Não sei... sinto muito... não queria preocupá-la, mas seu pai... imaginei que... Ele falou qualquer coisa, quando saiu ontem de manhã. Eu pensava que estivesse com o Ministro das Finanças, mas agora sei que não está.

— Tem certeza? Quem sabe tinha uma outra reunião. Tem importância?

— Não estou certa. Recebemos um telefonema urgente de Munique, ten­tei falar com ele, mas não estava no ministério. O ministro se encontra em Pa­ris, e passou toda a semana lá.

— Então, quem sabe a senhora o entendeu mal? Onde está ele agora? — O coração da  jovem batia loucamente.

— Foi por isso que liguei. Não veio trabalhar hoje de manhã, e se não es­tava com o Ministro das Finanças, então onde está? A senhorita sabe?

— Claro que não. Está provavelmente numa outra reunião. Estou certa que ligará para a senhora mais tarde.

— Mas ele não ligou o dia todo, fràulein. E — parecia vagamente embaraçada, afinal de contas Ariana ainda era muito jovem — Berthold falou que ele não veio para casa ontem à noite.

— Frau Gebsen, permita-me lembrar-lhe que o paradeiro noturno do meu pai não lhe diz respeito, ou a Berthold, ou a mim mesma. — Sua voz tre­mia de indignação, ou assim parecia; na verdade, era de puro medo.

— Claro, fràulein. Peço-lhe desculpas, mas o telefonema de Munique... e fiquei preocupada. Pensei que talvez tivesse sofrido um acidente. Não é comum seu pai não ligar.

— A não ser que esteja numa reunião secreta, Frau Gebsen. O Ministro das Finanças não deve ser o único homem importante com quem meu pai desaparece. Realmente não entendo por que isso é tão importante. Simplesmente diga-lhes em Munique que, no momento, é impossível entrar em con­tato com ele, e logo que chegue em casa direi a ele para ligar para a senhora. Estou certa de que não vai demorar.

— Espero que tenha razão.

— Tenho absoluta certeza que sim.

— Muito bem, então peça a ele para me telefonar.

— Pedirei.

Ariana desligou cuidadosamente, esperando que seu terror não transparecesse enquanto subia as escadas com a indignação apropriada. Mas teve que parar no primeiro patamar para tomar fôlego, antes de prosseguir. E quando chegou ao segundo patamar, encontrou a porta da sala de estar entreaberta. Apressadamente, acabou de abri-la, e deparou com Bertholde e Hedwig numa séria conferência, diante da porta aberta do quarto do irmão.

— O que estão fazendo aqui? — Ariana quase gritou.

— Onde está ele? — A voz de Hedwig era uma acusação, seus olhos frios como gelo.

— Como vou saber? Provavelmente escondido lá embaixo, em algum canto. Mas, ao que me lembre, pedi-lhe claramente...

— E onde está seu pai? — Agora era a vez de Berthold.

— Como disse? O paradeiro do meu pai não é da minha conta, Berthold, nem da sua. — Mas, enquanto os fitava, seu rosto ficou mortalmente pálido. Rezava para que sua voz não tremesse e revelasse seu nervosismo para Hedwig, que a conhecia tão bem. — E quanto a Gerhard, provavelmente saiu por aí. Estava aqui da última vez que olhei.

— E quando foi isso? — Os olhos de Hedwig estavam cheios de descon­fiança. — Aquele garoto nunca arrumou uma cama na vida.

— Eu a arrumei para ele. E agora, se os dois quiserem me dar licença, gostaria de tirar um cochilo.

— Sem dúvida, fraulein.

Berthold curvou-se corretamente e fez sinal a Hedwig para segui-lo para fora do quarto. Depois que a deixaram, Ariana ficou sentada, pálida e trêmu­la, na cadeira favorita de Gerhard. Ó, Deus, o que iria acontecer agora? Com as mãos apertadas contra a boca e os olhos fechados, mil imagens aterradoras passavam atropeladamente por sua cabeça. Mas nenhuma delas tão aterradora como o que aconteceu meia hora mais tarde, quando escutou uma batida fir­me na porta.

— Agora não, estou descansando.

— Está mesmo, frauleint Então precisa desculpar essa invasão dos seus aposentos particulares. O homem que lhe falava não era um criado, mas sim um tenente do Reich.

— Como?

Levantou-se, atônita, enquanto ele entrava. Teriam vindo buscar Gerhard? O que àquele homem estava fazendo aqui? E não apenas o tenente... ela viu, enquanto o oficial penetrava confiante no quarto, que havia mais três soldados andando para cá e para lá no corredor do terceiro andar.

— Receio ter que lhe pedir desculpas, fraulein.

— De modo algum, Tenente. — Ergueu o corpo, decidida, alisando o ma­cio cabelo louro no coque retorcido que usava. Pôs um suéter de cashmere azul-escura sobre os ombros e  tentou caminhar sem pressa para a porta. — Gostaria de conversar lá embaixo?

— Sem dúvida. — Assentiu o tenente, afavelmente. — Pode pegar seu casaco pelo caminho.

— Meu casaco? — O coração dela batia loucamente.

— Sim. O capitão achou que poderíamos ir direto ao assunto mais rapidamente, se a senhorita viesse vê-lo em seu gabinete, ao invés de brincar de tomar chá aqui com a senhorita.

Os olhos do oficial brilhavam de modo desagradável, e ela se pegou odiando aqueles olhos cinzentos, duros como aço. O homem era um nazista até o âmago, desde a lapela da farda até as profundezas da alma.

— Algum problema, Tenente?

— Talvez. Vamos deixar que nos explique isso.

Será que tinham apanhado o pai dela e Gerhard? Não, não podia ser. Não se permitiria pensar nisso, enquanto o seguia, aparentemente calma, até o andar de baixo, e então compreendeu. Tinham vindo interrogá-la, mas não sabiam de nada. Ainda. E ela não devia contar-lhes. Não importa o quê.

 

— E a senhorita pensou que seu pai estava numa reunião secreta, Frãulein Von Gotthard? Não diga. Que interessante. Com quem? — O Capitão Dietrich Von Rheinhardt examinava-a com interesse. Era muito bonita. Hildebrand já o avisara disso, antes de trazê-la para a sala. E controlada, para uma pessoa tão jovem. Parecia totalmente serena, uma dama do alto dos cabelos louros lustrosos até as pontas dos pés calçados de sapatos pretos de crocodilo. — Com quem disse que pensou que seu pai se estava reunindo?

Aquilo já durava quase duas horas, desde que a tinham escoltado da Mercedes preta, quando saltaram na Kõnigsplatz, sobre a qual se erguia o intimidativo esplendor de seis colunas do Reichstag, levando-a apressadamente para o prédio e para esta sala de aparência impressionante. Era o gabinete do oficial-comandante, e aquele aposento havia deixado gelados até a alma muitos outros antes dela. Mas Ariana não demonstrou terror, nem raiva, nem exasperação. Simplesmente respondeu repetidas vezes às perguntas, educada e calmamente, com aqueles modos refinados inabaláveis.

— Não tenho idéia da pessoa com quem meu pai estava-se reunindo, Capitão. Ele não partilha comigo os seus segredos profissionais.

— E a senhorita acha que ele tem segredos?

— Apenas em termos do trabalho que faz para o Reich.

— Falou encantadoramente. — E então, ele se recostou e acendeu um cigarro. — Aceita um pouco de chá?

Por um momento, Ariana teve vontade de dar-lhe uma resposta malcriada, que eles tinham dito que não queriam brincar de tomar chá, e que por isso a tinham trazido para ali, mas apenas meneou a cabeça, educadamente.

— Não, obrigada, Capitão.

— Um pouco de xerez, quem sabe?

Ariana não estava se interessando por tais delicadezas. Não conseguia fi­car à vontade naquela sala, com um retrato em tamanho natural de Hitler bem diante de sua cara.

— Não, obrigada, Capitão.

— E essas reuniões secretas do seu pai?... Fale-me delas.

— Não disse que ele tinha reuniões secretas. Só sei que, em algumas noi­tes, chega em casa bem tarde — estava começando a ficar cansada, e mesmo a contragosto, a tensão estava começando lentamente a transparecer.

— Uma amiguinha, talvez, fräulein.

— Desculpe Capitão, não sei.

— Claro que não. Que indelicado da minha parte tocar nisso. — Algo feio irado e malvado saltou sobre ela, vindo dos olhos dele. — E seu irmão, fräulein, também comparece a reuniões secretas?

— Claro que não, mal completou dezesseis anos.

— Mas também não comparece às reuniões de jovens, não é? Não é, fräulein. Seria possível, então, que sua família não tenha simpatia pelo Reich, como imagináramos anteriormente?

— Isso não é verdade, Capitão. Meu irmão teve muitos problemas com os estudos, além de sofrer de asma, e é claro... desde a morte da minha mãe ... — Interrompeu a frase no meio, esperando desencorajar novas perguntas, mas logo perdeu as esperanças.

— E quando foi que sua mãe morreu?

— Há dez anos, Capitão. — Graças a pessoas como o senhor.

—  Sei. Que tocante ver que o menino ainda se lembra da mãe. Deve ser um rapaz muito sensível. — Ela meneou a cabeça, sem saber direito o que responder, e desviou os olhos do rosto dele. — Sensível demais para o Exército, fräulein. Será que ele e seu pai desertaram a pátria na sua hora final de ne­cessidade?

— De modo algum. Se tivessem feito isso, por que me teriam deixado para trás?

— A senhorita me diga por quê. E pode dizer-me também alguma coisa sobre um amigo chamado Max. Maximilian Thomas? Um rapaz que costuma­va visitar seu pai, ou será que visitava a senhorita?

— Era um velho amigo do meu pai.

— O qual, há apenas cinco meses, fugiu de Berlim. O que é interessan­te... Desapareceu exatamente na mesma noite em que um dos carros do seu pai foi roubado, e depois encontrado de novo, é claro, em perfeito estado, diante da estação ferroviária de Berlim. Uma feliz coincidência, naturalmente.

Ó, Deus, então eles sabiam do Max? E tinham ligado seu pai ao desapa­recimento, afinal de contas?

— Não creio que o fato de o carro ter sido roubado tenha algo a ver com Max.

O capitão tirou uma longa baforada do cigarro.

— Vamos falar de novo sobre seu irmão por um momento, fräulein. On­de supõe que possa estar? — Falava com ela no tom de voz monótono de alguém falando com um retardado mental, ou com uma criança muito pequena. — Pelo que sei, a senhorita esteve cuidando dele, que estava muito resfriado, nos últimos dois dias. — Ela concordou com um gesto de cabeça. — E então, milagrosamente, quando a senhorita foi atender um telefonema no andar de baixo, o garoto desapareceu. Irritante da parte dele, é claro. O que me estou perguntando, contudo, é se ele não teria desaparecido há mais tempo. Como por exemplo, ontem de manhã, mais ou menos na hora em que seu pai foi vis­to pela última vez no escritório? Que tipo de coincidência acha que isso seria?

— Uma coincidência muito improvável, é o que eu diria. Ele esteve em casa todo o dia de ontem, a noite passada e hoje de manhã, no seu quarto.

— E que sorte tem de ter uma irmã tão devotada como a senhorita. Pelo que soube, protegeu-o com o zelo de uma jovem leoa protegendo os filhotes.

Enquanto o capitão falava, Ariana sentiu um arrepio correr-lhe pela espinha, havia apenas uma maneira de o capitão poder ter sabido disso. Pela boca de Hedwig ou Berthold. Uma onda de náusea acometeu-a, enquanto ela compreendia a verdade. Pela primeira vez, Ariana sentiu a força total dos fatos. E então, subitamente, sentiu uma fúria violenta percorrê-la, ante a traição deles. Mas não podia deixar que o capitão percebesse. Tinha que continuar o jogo, a qualquer preço. O capitão continuou, implacavelmente.

— Sabe, fräulein, o que me intriga é que eles parecem ter fugido e a dei­xado aqui, o seu pai e seu irmão juntos, talvez para impedir que o garoto en­trasse para o Exército, ou talvez por motivos ainda mais maliciosos. Mas, seja lá por que motivo, parecem tê-la abandonado, minha cara. E, no entanto, a senhorita os protege. Será que é porque sabe que seu pai vai voltar? Imagino que seja isto. Caso contrário, não entendo sua obstinação em não falar.

Pela primeira vez, Ariana se dirigiu a ele bruscamente, cheia de irritação; a tensão do interrogatório estava finamente lhe dando nos nervos.

— Estamos conversando há quase duas horas, mas simplesmente não te­nho as respostas para as perguntas que me faz. Suas acusações são inexatas, e sua pressuposição de que meu pai e meu irmão fugiram e me deixaram para trás é ridícula. Por que fariam uma coisa dessas?

— Para falar a verdade, minha cara senhorita, não creio que o fizessem. E é exatamente por isso que vamos esperar para ver. E quando seu pai voltar, ele e eu vamos discutir negócios.

— Que tipo de negócios? — Ariana fitou Von Rheinhardt com descon­fiança.

— Uma pequena troca, digamos assim? Sua encantadora filha por... bem, não vamos discutir os detalhes. Terei prazer em acertar tudo com seu pai quando ele voltar. E agora, fräulein, se me dá licença, mandarei que o Tenente Hildebrand a acompanhe até seu quarto.

— Meu quarto? Quer dizer que não vou para casa? — Teve que lutar para impedir que as lágrimas lhe saltassem aos olhos. Mas o capitão sacudia a cabe­ça com firmeza, ainda ostentando seu sorriso insuportavelmente falso.

— Não, fräulein, temo que prefiramos demonstrar-lhe nossa hospitalida­de aqui, pelo menos até a volta do seu pai. Ficará bastante confortável no seu ... hã... quarto aqui conosco.

— Entendo.

— Sim. - Olhou para ela gravemente por um momento. — Suponho que a esta altura já entenda. Preciso cumprimentar seu pai quando o vir, isto é, se o vir. Tem uma filha impressionante, encantadora, inteligente, e extraordinariamente bem-criada. Não chorou, implorou, ou suplicou. Na verdade, apre­ciei imensamente nossa pequena tarde.

A "pequena tarde" consistira em horas de interrogatório exaustivo, e ela teve vontade de esbofeteá-lo quando ouviu essas palavras.

O capitão tocou uma campainha no lado de sua mesa, e ficou esperando que o Tenente Hildebrand aparecesse. Aguardaram por longo tempo, e depois o capitão tocou de novo a campainha.

— O bom tenente parece estar ocupado; aparentemente, terei que ar­ranjar outra pessoa para acompanhá-la até seu quarto. — Falava como se fosse uma suíte no Danieli de Veneza, mas Ariana sabia muito bem que o que a esperava não era um quarto de hotel, mas uma cela. Com as botas brilhando à luz artificial, o capitão, obviamente irritado, caminhou até a porta. Abriu-a, puxando a grande maçaneta de latão, e olhou com cara feia para fora. Eram quase sete horas da noite, e o Tenente Hildebrand aparentemente fora procu­rar seu jantar. O único oficial visível do lado de fora do gabinete era um homem alto com um rosto severo e uma cicatriz longa e estreita que lhe riscava uma das faces. — Von Tripp, onde diabo, estão os outros?

— Creio que foram todos comer. São... — olhou para o relógio e depois para o capitão. — Estava ficando tarde.

— Porcos. Só pensam em encher o pandulho. Está certo, não tem importância. Você servirá. E por que não está com eles, por falar nisso? — Olhou ir­ritado para o seu primeiro-tenente, que devolveu o olhar de irritação do seu superior com um curto e gelado sorriso.

— Estou de serviço hoje à noite, senhor.

O capitão fez um aceno na direção do seu gabinete para a mulher que estava parcialmente oculta pela porta.

— Leve-a lá para baixo, então. Já acabei com ela.

— Sim, senhor. — O tenente se levantou, fez uma bela continência, bateu os calcanhares e entrou rapidamente na sala.

— Levante-se - falou o tenente vivamente, e Ariana deu um pulo na ca­deira.

— Como disse?

Os olhos do Capitão Von Rheinhardt brilharam, malévolos, enquanto ele voltava para a sala.

— O Tenente lhe ordenou que se levantasse, fräulein: Tenha a gentileza de obedecer. Caso contrário, infelizmente... bem, sabe, seria constrangedor ... — Tocou no chicote de montaria preso à cintura.

Ariana se pôs de pé instantaneamente, tentando deter o fluxo de pensa­mentos que a invadia. O que iam fazer com ela? O oficial alto e louro que a mandara levantar-se com tanta brusquidão parecia apavorante, e Ariana não ficou nada encorajada pela cicatriz pequena e feia na face dele. Parecia insen­sível, uma máquina, e ficou a seu lado como um autômato, enquanto ela saía da sala.

— Tenha uma boa noite, fräulein — debochou Von Rheinhardt, as suas costas.

Ariana não respondeu ao capitão e, na ante-sala, o tenente agarrou-a pelo braço com firmeza.

— A senhorita me acompanhará e fará exatamente o que eu mandar. Não gosto de discutir com prisioneiros, especialmente mulheres. Tenha a bon­dade de tomar isso fácil para si mesma, assim como para mim.

Era uma advertência severa, e a despeito das passadas longas dele, a jo­vem caminhou rapidamente a seu lado. Fora bem claro. Agora era uma prisioneira. Nada mais do que isso. E subitamente pegou-se imaginando se até mesmo o pai seria capaz de tirá-la dali.

O tenente alto e louro conduziu-a por dois compridos corredores e depois por um longo lance de escadas, descendo para as entranhas do prédio, onde o ambiente ficou subitamente úmido e frio. Esperaram que abrissem uma pesada porta de ferro, depois que um guarda espiou pela abertura e fez um sinal de cabeça para o tenente. A porta se fechou aterradoramente às costas deles, passaram-lhe uma tranca, depois a fecharam à chave, e Ariana se viu descendo mais um lance de escadas. Era como estar sendo conduzida para uma masmorra, e quando viu a cela onde sua jornada terminava, deu-se conta de que era exatamente isto.

O tenente ficou em absoluto silêncio, enquanto um sargento do corpo feminino era chamado e Ariana era revistada e apalpada. A seguir, foi empur­rada para dentro da cela, e o tenente ficou parado vendo a mulher trancar a porta. Nas celas à sua volta, havia mulheres chorando e chamando, e a jovem chegou a pensar que tinha ouvido os choramingos de uma criança. Mas não conseguia enxergar nenhum rosto, as portas eram placas sólidas de metal com janelas gradeadas de alguns centímetros quadrados. Era o lugar mais aterrador que Ariana podia imaginar e, logo que se viu dentro da cela escura, teve que lutar a cada momento para não berrar e perder totalmente o con­trole. Com a ajuda da minúscula faixa de luz que entrava pela diminuta janela, pôde ver o que pensava ser uma privada, e descobriu, segundos depois, que era apenas uma grande bacia branca de metal. Era realmente uma prisio­neira... aquilo finalmente o tomou real.

Em meio ao fedor da cela, começou a chorar baixinho, até que afinal desabou num canto, enterrou a cabeça nos braços, e foi tomada pelos soluços.

 

Quando Walmar Von Gotthard saiu da estação de Basiléia naquela manhã, olhou ao seu redor cuidadosamente antes de começar a longa caminhada para Lorrach, para tomar o trem de volta a Ber­lim. Cada músculo do seu corpo doía, e ele finalmente parecia tão sujo e esmolambado quanto fingira ser pela manhã. Parecia-se muito pouco com o banqueiro que dirigia o Tilden, comparecia a reuniões com o Ministro das Finanças e era, na realidade, o banqueiro mais destacado de Berlim. Parecia um velho cansado que fizera uma longa viagem e ninguém teria desconfiado que levava secretamente uma grande quantia.

Chegou à fronteira sem problemas ao meio-dia, e agora ia começar a dureza: a caminhada de 14 quilômetros de volta a Lorrach, a qual ele havia terminado tão vitoriosamente na fronteira suíça, há apenas seis horas. A seguir vinha a parte mais difícil da viagem, o caminho de volta para Berlim. E, depois, teria que enfrentar novamente os mesmos terrores com Ariana. E logo que seus dois filhos estivessem a salvo do outro lado da fronteira suíça, ele não se importaria de cair morto. Na verdade, enquanto passava pelo bura­co que havia feito no arame farpado naquela manhã, pensava que teria muita sorte, se não caísse morto muito antes disso. Para um homem de sua idade, fora uma aventura e tanto, mas se pudesse salvar tanto Ariana quanto Gerhard, nada importava. Teria feito qualquer coisa a seu alcance, e muito mais, por eles.

Novamente, parou, olhou em derredor, e prestou atenção. Mais uma vez correu para a proteção das árvores. Mas agora não teve tanta sorte quanto de manhã, e ouviu passos na vegetação a curta distância. Tentou embrenhar-se mais nos arbustos, mas os dois soldados estavam, instantaneamente, nos seus calcanhares.

— Salve, vovô, aonde vai? Entrar para o Exército, em Berlim? - Tentou sorrir com ar aparvalhado para os soldados, mas mesmo assim um dos dois homens da patrulha da fronteira engatilhou a arma e mirou o seu coração.     — Pa­ra onde está indo?

Resolveu dizer-lhes, com um forte sotaque de camponês.

— Para Lòrrach.

— Por quê?

— Minha irmã mora lá. — Sentia o coração dançando dentro do peito.

— Mora? Que ótimo. — Acenou de novo com a arma na direção do peito de Walmar, e fez sinal ao colega para começar a revistá-lo. Rasgaram-lhe a ja­queta ao abri-la, apalparam os bolsos, e depois tatearam por sua camisa.

— Estou com meus documentos em ordem.

— Ah, é? Deixe ver.

Walmar estendeu a mão para pegá-los, mas antes que seus dedos chegassem lá, o soldado que o estava revistando sentiu algo longo e macio oculto sob o braço direito do fugitivo.

— O que é isso, vovô? Escondendo alguma coisa da gente?

Riu grosseiramente, e piscou o olho para o amigo. Os velhos eram tão engraçados... Todos pensavam ser muito espertos. Os soldados rasgaram a camisa que agora estava suja e esmolambada, sem reparar no tecido fino que estavam despedaçando. Não tinham motivo para desconfiar dele. Era apenas um velho camponês. Mas o que encontraram na carteira secreta os impres­sionou, pois havia uma fortuna em notas grandes e pequenas, e ficaram de olhos arregalados de espanto, enquanto contavam o que tinham encontrado.

Estava levando isso para o Führer?

Riram da própria piada, e depois sorriram alegremente para o velho.

Walmar manteve os olhos baixos, para que não vissem a raiva neles, e torceu para que se satisfizessem em levar apenas o dinheiro. Mas, a esta altura, os soldados estavam calejados nos expedientes da guerra. Trocando um rápido olhar, fizeram o que tinha que ser feito. O primeiro homem recuou, enquanto o segundo disparava. Walmar Von Gotthard caiu sem vida na grama alta que o cercava.

Os soldados o arrastaram firmemente pelos calcanhares para a vegetação mais espessa, tiraram-lhe os documentos, guardaram o dinheiro, e volta­ram para sua choça, onde se sentaram para contar o dinheiro, entusiasma­dos, e jogaram na fogueira os documentos do velho. Nem se deram ao traba­lho de lê-los. Não importava quem ele tinha sido. Exceto para Gerhard, espe­rando num quarto de hotel em Zurique. E para Ariana, que jazia, apavorada, em sua cela em Berlim.

 

O Tenente Von Tripp fez sinal ao soldado com o grande molho de chaves para abrir a cela de Ariana. A porta se abriu lentamente, rangendo, e os dois homens tentaram não reagir ao fedor que sem­pre emanava lá de dentro. Todas as celas eram assim por causa da umidade e, é claro, porque nunca eram limpas.

Livre da escuridão, Ariana ficou instantaneamente cega, sem conseguir enxergar, à luz forte. Não sabia há quanto tempo estava ali. Sabia apenas que chorara a maior parte do tempo. Mas quando tinha ouvido que eles se aproxi­mavam, secara rapidamente os olhos e tentara limpar o rimei que sabia tinha escorrido pelo rosto com um canto da combinação de renda. Alisara rapida­mente o cabelo, e esperara, enquanto os ouvia destrancando a porta. Quem sa­be havia notícias do pai e de Gerhard? Esperou e rezou, ansiosa por escutar vozes conhecidas, mas só havia o som metálico das chaves. Finalmente, conse­guiu enxergar vagamente, e viu a figura do tenente alto e louro que a havia levado até ali no dia anterior.

— Saia da sua cela, por favor, e venha comigo.

A moça se levantou, toda trêmula, apoiando-se contra a parede da cela, e por um instante ele teve vontade de estender a mão para ajudá-la, quando ela cambaleou. Parecia tão incrivelmente pequena e frágil. Mas os olhos que fitaram os dele, dali a um momento, não eram os de uma beldade frágil suplicando ajuda; eram os olhos de uma jovem resoluta desejando desesperadamente sobreviver, e tentando manter um ar de dignidade contra todas as vicissitudes. O cabelo dela se soltara do coque retorcido que usara na noite an­terior. Agora lhe caía pelas costas, como um feixe solto de trigo. A saia esta­va amassada, mas era cara, e a despeito do fedor espantoso em que jazera durante quase 24 horas, um leve toque de perfume ainda permanecia no seu cabelo.

— Por aqui, por favor, fräulein.

O tenente deu um passo para o lado, cuidadosamente, e caminhou bem atrás dela, para ter certeza de que não fugiria dele, e enquanto a observava, sentia ainda mais pena do que antes. Ela endireitara os ombros estreitos e mantinha a cabeça alta enquanto caminhavam, os saltos batendo resolutamen­te pelos corredores, e pelas escadas que subiam. Apenas uma vez hesitou, por um instante, curvando a cabeça como se estivesse tonta demais para conti­nuar. Ele não disse nada enquanto esperava, e dali a um momento Ariana con­tinuou a subir a escada, agradecida ao tenente por não tê-la empurrado ou gri­tado com ela por ter parado.

Porém Manfred Von Tripp não era como os outros. Só que Ariana não sabia disso. Era um cavalheiro, como ela era uma dama, e de modo algum a teria empurrado, ou gritado, ou cutucado, ou chicoteado. E havia quem não gostasse dele por causa disso. Von Rheinhardt era um que não gostava particularmente de Von Tripp. Mas aquilo não tinha muita importância, porque Von Rheinhardt era o comandante e podia fazer Von Tripp dançar, se lhe desse na telha.

Quando chegaram ao alto do último lance de escadas, o Tenente Von Tripp mais uma vez segurou-a firmemente pelo braço e a levou pelo corredor familiar, onde, de novo, o capitão estava à espera, sorrindo e fumando tranqüilamente um cigarro, como na véspera. O tenente bateu continência rapi­damente, juntou os calcanhares, e desapareceu.

— Boa tarde, fräulein. Passou uma noite agradável? Espero que não te­nha ficado muito... hã... desconfortável no seu... ah... quarto. — Ariana não respondeu. — Sente-se. Sente-se. Por favor. — Ela se sentou sem falar e fitou-o, de sua cadeira. — Lamento ter que lhe dizer que não tivemos notícias do se pai. E temo que algumas das minhas conjecturas tenham sido bastante verdadeiras. Seu irmão também não apareceu, o que o torna, a partir de hoje, um desertor. O que a deixa, cara fräulein, momentaneamente meio enrascada. E à nossa mercê, deixe-me acrescentar. Quem sabe hoje gostaria de par­tilhar conosco um pouco mais do que sabe?

— Não sei nada além do que lhe disse ontem, Capitão.

— Que coisa desagradável para a senhorita. Nesse caso, não vou perder seu tempo, ou o meu, interrogando-a mais um pouco. Simplesmente a deixa­rei à sua sorte, sentada na sua cela, enquanto esperamos notícias.

Õ, Deus, por quanto tempo? — Teve vontade de gritar enquanto ele fa­lava, mas nada transpareceu no rosto dela.

O capitão se levantou e apertou a campainha, e um momento mais tar­de Von Tripp apareceu de novo.

— Onde, diabos, está o Hildebrand? Toda vez que o chamo, está zanzando por aí.

— Desculpe senhor. Creio que foi almoçar. — Na verdade, Manfred não tinha absolutamente a menor idéia de onde o outro estava, nem se impor­tava. Hildebrand estava sempre sumindo, deixando seu trabalho de menino de recados na mão dos outros.

— Acompanhe a prisioneira de volta à sua cela, então. E diga a Hildebrand que quero vê-lo, quando ele voltar.

— Pois não, senhor.

O tenente escoltou Ariana da sala. Ela agora estava familiarizada com a rotina, os longos corredores, a caminhada interminável. Pelo menos não estava confinada na cela, e durante esses minutos podia respirar e se mover e tocar e enxergar. Não se importaria se tivessem caminhado por aqueles corredores du­rante horas. Tudo, exceto os honores daquela cela minúscula e nojenta.

Foi na segunda escada que encontraram Hildebrand, sorrindo satisfeito e cantarolando. Ergueu os olhos para Von Tripp, espantado, e depois correu os olhos por Ariana, com interesse, como tinha feito na manhã anterior, quando entrara no quarto dela, na casa do pai.

— Boa tarde, fraulein. Aproveitando sua estada? — Ela não respondeu, mas o olhar que lhe lançou teria aberto buracos na rocha. Ele voltou a olhar para ela, com irritação, depois sorriu para Manfred. — Levando-a de volta?

Manfred fez que sim, desinteressadamente. Tinha coisa melhor a fazer do que conversar com Hildebrand. Não suportava o sujeito, ou a maioria dos oficiais com quem trabalhava, mas desde que fora ferido na frente de batalha tivera que agüentar esse tipo de serviço.

— O capitão quer vê-lo. Disse-lhe que você estava almoçando.

— E estava, caro Manfred. Na verdade, estava. — Sorriu novamente; em seguida, bateu continência e subiu a escada, e os outros dois continuaram a descer. Hildebrand lançou um último olhar para Ariana, por sobre o ombro, enquanto Manfred a conduzia através da última porta, pelos corredores, para dentro das entranhas do prédio e finalmente até a porta de sua cela. Em algum lugar por perto havia uma mulher gritando. Ariana fechou os ouvidos ao barulho e ficou finalmente aliviada por poder largar-se no chão da cela.

Dali a três dias ela atravessou o corredor mais uma vez para ver o capitão; de novo ele lhe disse que o pai e o irmão não tinham voltado. Mas agora, ela não estava compreendendo, e sabia que, ou estavam mentindo (e tinham encontrado o pai e Gerhard), ou algo saíra desesperadamente errado. Se eles estivessem realmente lhe dizendo a verdade, então parecia não haver mesmo notícias do pai ou do irmão, e depois de alguns minutos em seu gabinete, Von Rheinhardt mandou-a embora.

Desta vez, foi Hildebrand quem a conduziu pelos corredores, os dedos apertando sua carne até o osso, porém, ao mesmo tempo, colocando a mão numa altura tal, no seu braço, de modo a poder tocar-lhe o seio com as costas da mão. Falava com ela aos arrancos, de modo estranho, como se ela fosse um animal que precisasse ser instigado a prosseguir, com chute se empurrões, se necessário, e, como ele nunca se cansava de mencionar, havia sempre o chi­cote.

Desta vez, quando chegaram à porta da masmorra particular de Ariana, ele não esperou que a mulher efetuasse a revista. Passou as mãos lentamente pelo corpo da jovem, descendo pela barriga, subindo pelas nádegas, roçando os seios. Com cada centímetro do seu corpo, Ariana se crispou, tentando fugir àquele toque, olhando com ódio para o seu rosto, enquanto ele ria, e a mulher fechava a porta com firmeza entre eles.

— Boa noite, fraulein. — E com essas palavras ele se afastou, mas os pas­sos pararam a curta distância. Ela o ouviu dar uma ordem seca à inspetora. — Esta aqui. Ainda não a experimentei.

Prestando atenção, de olhos fechados, Ariana ouviu as chaves fazerem barulho, a porta abrir-se, e os passos dele desaparecerem. Momentos mais tar­de, escutou gritos e súplicas, o som do chicote cortando o ar e atingindo a car­ne, e depois silêncio, nada mais de gritos, apenas uma longa série de grunhidos horríveis. Mas ela não escutava mais a mulher, e nas suas piores fantasias não conseguia imaginar o que ele tinha feito. Espancara a mulher até ela perder a consciência? Chicoteara-a até a morte? Mas, finalmente, escutou soluços bai­xinhos e soube que a mulher estava viva.

Encostada contra a parede de sua minúscula cela, Ariana esperou, aten­ta aos passos, temendo que se aproximassem de sua porta de novo, mas, ao invés disso, eles dobraram o longo corredor e foram desaparecendo ritmadamente. Soltando um suspiro de alívio, a moça voltou a se largar no chão.

Aquilo continuou durante dias e semanas, com visitas regulares ao capitão, que lhe informava que não tinham tido notícias do pai dela, e que ele não tinha voltado. No fina da terceira semana, estava exausta, imunda, mor­rendo de fome, e não podia entender o que estava acontecendo, por que não tinham voltado para buscá-la. Ou será que Von Rheinhardt estava mentindo? Quem sabe Gerhard e o pai tinham sido capturados e também eram prisioneiros. A única resposta que não se permitia aceitar era a pior: os dois tinham sido mortos.

Foi depois de sua última visita ao capitão, passadas três semanas dessas entrevistas, que Hildebrand a acompanhou de volta à cela. Até então, tinha sido geralmente o outro tenente, e de quando em vez uma outra pessoa.

Mas hoje era ele que segurava seu braço, enquanto se dirigiam para as profundezas da prisão. Estava exausta, e tropeçou três ou quatro vezes. O ca­belo lhe caía pelas costas e ao redor do rosto, numa massa emaranhada. Ela o afastava do rosto com freqüência, com os dedos longos e delicados, mas as unhas estavam quebradas, e não havia mais vestígio de perfume no cabelo. O suéter de cashmere que usara a princípio tão atrevidamente sobre os ombros, agora agarrava bem junto ao corpo, para aquecer-se, e a saia e blusa estavam rasgadas e sujas, e, as meias, tinha jogado fora, depois dos primeiros dias. O ho­mem examinou tudo com um ar de interesse, como um homem que investia em cabeças de gado ou comprava ovelhas, e na última escada no interior da prisão encontraram-se com o Tenente Manfred Von Tripp. Este acenou seca­mente para Hildebrand, e seus olhos evitaram o olhar de Ariana. Sempre olha­va acima dela, como se não tivesse nenhum interesse particular no seu rosto.

— Boa tarde, Manfred.

Hildebrand estava estranhamente informal, no momento em que se cruzavam, mas Von Tripp bateu continência e murmurou apenas:

— Tarde.

E então, como que para observá-los, virou-se brevemente e os fitou. Ariana estava cansada demais para notar, mas Hildebrand lançou ao outro um olhar significativo e um amplo sorriso. Von Tripp se afastou, então, e voltou para sua mesa lá em cima. Mas, enquanto ficava ali sentado, ardia de raiva. Hil­debrand estava demorando demais para voltar ao trabalho. Levara-a lá para baixo há quase 20 minutos; não havia motivo para demorar tanto. A menos que... aos poucos, foi-se dando conta da verdade. O idiota. Faria uma coisa dessas até mesmo com ela. Tinha alguma idéia de quem era o pai da moça, ou do mundo de que ela vinha? Não percebia que era uma alemã, uma moça de classe e educação, não importa onde o pai dela estivesse, ou o que tivesse fei­to? Talvez pudesse safar-se com o seu comportamento espantoso com algumas das prisioneiras, mas certamente não com uma garota como aquela. E não im­porta quem fossem as vítimas, as atitudes ultrajantes de Hildebrand deixavam Manfred enojado. Sem pensar mais, ele se pegou descendo rapidamente os corredores, e depois ruidosamente as escadas. Manfred sabia, no íntimo, que para eles não importava quem diabos fosse o pai dela. Para eles, era apenas uma garota. Pegou-se rezando para que não fosse tarde demais.

Tirou o molho de chaves das mãos da inspetora, fazendo-lhe sinal para continuar sentada, e deu uma ordem seca:

— Não se incomode. Fique aqui. — E então, com um rápido olhar por sobre o ombro, fez uma pergunta. — Hildebrand está lá embaixo?

A mulher fardada fez que sim, e Manfred desceu rapidamente o último lance de escadas com as chaves, os calcanhares das botas batendo nos degraus.

O sons que vinham lá de dentro avisaram-no de que Hildebrand estava na cela da moça. Sem emitir uma só sílaba, Manfred girou a chave e escanca­rou a porta, e o que viu foi Ariana, quase nua, as roupas em farrapos e o san­gue escorrendo de um corte no lado do rosto. Hildebrand também estava lá, o rosto brilhando, os olhos alucinados de luxúria, o chicote numa das mãos, a outra puxando os cabelos emaranhados de Ariana. Mas pela saia que ainda a cobria parcialmente e pela luta que ainda enxergava nos olhos da jovem, ele soube que o pior ainda não acontecera. Ficou agradecido por não ter chegado tarde demais.

— Saia daqui.

— E o que você tem a ver com isso, porra? Ela é nossa.

— Não é "nossa", pertence ao Reich, assim como você, assim como eu, assim como todo mundo.

— Pertence uma ova. Você e eu não estamos presos aqui dentro.

— Então você a estupra, é isso? — Os dois homens se fitaram com fúria cega e, por um instante, Ariana, ofegante e sem fôlego no canto, perguntou-se se seu atacante também iria chicotear o primeiro-tenente que era seu superior. Mas ele não era tão louco assim. Von Tripp falou e se afastou da porta. — Já lhe disse para sair. Eu o verei lá em cima.

Hildebrand rosnou enquanto passava por Manfred, e por um instante, na cela escura, nem Von Tripp nem Ariana falaram. E então, enxugando corajosamente as lágrimas das faces e afastando o cabelo dos olhos, ela tentou cobrir-se decentemente, enquanto o tenente ficava olhando para o chão. Quando pressentiu que a moça estava mais calma, ergueu os olhos para ela de novo e desta feita não evitou o rosto dela, ou os olhos dolorosamente tristes.

— Fráulein Von Gotthard... lamento muito... eu devia ter sabido. To­marei providências para que isso não volte a acontecer. — E então: — Não so­mos todos assim. Nem consigo dizer-lhe o quanto lamento. — E lamentava. Tivera uma irmã mais moça que teria aproximadamente a idade de Ariana, embora ele próprio tivesse 39 anos. — Está bem?

Ficaram ali conversando no escuro, com apenas uma pequena réstia de luz penetrando pela porta. Com o cabelo louro esvoaçando, Ariana balançou a cabeça, e ele lhe entregou seu lenço para que enxugasse o sangue que ainda lhe escorria do rosto.

— Acho que estou bem. Obrigada.

Estava muito mais agradecida do que ele imaginava. Pensara que Hilde­brand ia matá-la, e quando compreendeu que iria violentá-la, torceu para que a matasse primeiro.

Manfred olhou para ela de novo por um longo minuto, e depois soltou um profundo suspiro. Embora tivesse acreditado piamente nesta guerra antes, tinha finalmente aprendido a odiá-la. Tinha-se tomado uma corrupção de tu­do em que confiara e que defendera no passado. Era como observar uma mu­lher que já se respeitou tomar-se uma prostituta.

— Posso fazer mais alguma coisa?

Ela sorriu para ele, então, segurando a suéter enrolada no tórax, com aqueles olhos grandes, tristes, desamparados.

— Já fez tudo o que podia. A única outra coisa que pode fazer por mim é achar meu pai. — E então, subitamente, ousando perguntar-lhe a verdade, seus olhos se encontraram com os do tenente. — Ele está aqui? No Reichstag?

Lentamente, Manfred sacudiu a cabeça.

— Não tivemos notícias. — E então: — Talvez ele ainda venha. Não perca a esperança, fráulein. Jamais faça isso.

— Não perderei. Não depois de hoje. — Sorriu para ele de novo.

Olhando para ela com ar sério, ele meneou a cabeça, saiu da cela e tran­cou a porta mais uma vez. Lentamente, Ariana largou-se no chão, pensando no que tinha acontecido, e no oficial que chegara providencialmente bem na hora. Sentada na escuridão da cela, seu ódio por Hildebrand foi diminuindo com a gratidão pelo que Von Tripp fizera. Eram uma turma estranha, todos eles. Jamais entenderia aqueles tipos.

Não viu nenhum dos dois novamente até o final da outra semana. A es­ta altura, estava trancada na cela da masmorra há exatamente um mês. E o que mais temia era que o pai e Gerhard tivessem sido mortos. Ainda assim, não conseguia aceitar a idéia. Permitia-se apenas pensar no momento presente. No inimigo. E em vingar-se deles.

Um oficial que nunca vira antes veio buscá-la e a arrastou com brutalidade da cela. Empurrou-a escada acima, quando ela cambaleou, e xingou-a quando tropeçou e caiu. Ela agora mal conseguia andar, de fadiga e fome, e a falta de exercício tinha deixado suas pernas eternamente duras e entorpeci­das. Quando chegou ao gabinete de Dietrich Von Rheinhardt, era uma moça diferente daquela que se havia sentado ali tão controlada e serena, há apenas um mês. Von Rheinhardt fitou-a com algo semelhante à repulsa, mas por bai­xo da imundície e dos trapos, ele sabia exatamente o que se encontrava. Uma bela moça, bem-educada, inteligente, que seria um presente encantador para dar a qualquer homem do Reich. Não para ele, que tinha outros prazeres, ou­tras necessidades. Mas daria um belo presente para alguém. Ainda não tinha certeza de quem.

Não perdeu mais tempo com "frauleins" ou palavreado bonito. Ela não tinha mais utilidade para eles.

— E então, infelizmente, você se tomou inútil. Uma prisioneira pela qual se quer obter um resgate, quando não existe ninguém para pagar o resga­te, não é um bem valioso, mas uma carga. Não há motivo para alimentar­mos e hospedarmos mais. Na verdade, nossa hospitalidade acabou.

Então, iam fuzilá-la, concluiu Ariana. Porém, não mais se importava. Era um destino melhor do que as outras possibilidades. Não queria tomar-se uma prostituta para os oficiais, e não tinha mais forças para esfregar pisos. Ti­nha perdido a família, seu motivo para viver. Se a fuzilassem, tudo termina­ria para sempre. Ao ouvi-lo sentiu-se quase aliviada.

Mas Von Rheinhardt não tinha acabado.

— Será levada para casa pelo período de uma hora. Poderá pegar seus pertences, e depois partir. Não poderá levar nada de valor da casa, nem dinhei­ro, nem jóias, apenas os pertences pessoais de que irá precisar num futuro imediato. Depois disso, poderá cuidar de si mesma.

Não iam fuzilá-la, então? Mas, por que não? Fitou-o, incrédula.

— Você vai morar na caserna das mulheres e trabalhará como todas as outras. Mandarei que alguém a leve a Grunewald daqui a uma hora. Nesse meio tempo, queira esperar no corredor.

Como podia esperar lá fora, à vista de todos, no seu estado vergonhoso? Semidespida, nas roupas que Hildebrand arrancara do seu corpo fazia uma se­mana. Eles eram verdadeiramente uns animais.

— O que vai acontecer agora com a casa do meu pai? — A voz dela pare­cia um grasnido, de tão pouco que falara no último mês.

Von Rheinhardt se ocupou com os papeis sobre a mesa, e finalmente ergueu o olhar.

— Será ocupada pelo General Ritter. E seu corpo de auxiliares. — O "corpo de auxiliares" consistia em quatro mulheres complacentes que ele havia colecionado com cuidado nos últimos cinco anos. — Estou certo de que ele será muito feliz ali.

— Estou certa que sim.

Como eles tinham sido. O pai e o irmão, no passado a mãe, e ela. Todos tinham sido felizes ali. Antes que esses miseráveis tivessem chegado para des­troçar-lhes a vida, e agora estavam roubando a casa em Grunewald. Por um instante, ficou com os olhos marejados de lágrimas. Quem sabe — pensou, es­perançosa, nos ataques aéreos aos quais já se acostumara — quem sabe as bom­bas viriam e os matariam a todos.

— É só, frãulein. Apresente-se à caserna até as cinco horas da tarde. E deixe-me acrescentar que as acomodações ali são uma coisa opcional. É livre de arrumar outras... hã... acomodações, dentro dos limites do Exército... é claro.

Sabia o que ele queria dizer. Ela poderia oferecer-se para ser a amante do general, e este a deixaria ficar na sua própria casa. Sentiu uma pontada de indignação enquanto se sentava, entorpecida, num comprido banco de ma­deira no corredor. Seu único consolo era que, quando voltasse para Grunewald, as roupas em frangalhos, o rosto arranhado e ferido, imunda, faminta, espancada, então Hedwig e Berthold poderiam ver o que tinham feito. Este era o precioso Partido que os velhos idiotas amavam. Era isso que se obtinha com "Heil Hitler". Ariana estava entretida com seus pensamentos e sua fúria, e não percebeu a aproximação de Von Tripp.

— Frãulein Von Gotthard? — Ergueu os olhos, surpresa ao vê-lo. Não se tinham encontrado desde o dia em que ele a salvara de Hildebrand e seu chicote. — Parece-me que deverei levá-la para casa.

Não sorriu para ela, mas também não desviou mais o olhar.

— Quer dizer que vai me levar para a caserna? — Olhou gelidamente para ele. Depois, lamentando sua raiva, soltou um suspiro. Não era culpa dele. — Desculpe.

Ele aceitou o pedido de desculpas.

— O capitão falou que eu devia levá-la para Grunewald, para pegar suas coisas. — Ela fez que sim, em silêncio, os olhos imensos no rosto esfomeado. E então, como se não pudesse evitar, ele pareceu ficar menos formal, e sua voz era bondosa. — Já almoçou? — Almoçar? Nem sequer tomara café, ou jan­tara na noite anterior. As refeições na sua cela fétida só apareciam uma vez por dia, e nem mereciam um nome, café da manhã, almoço, jantar. Era lavagem para porcos, não importa a hora em que era servida. Forçara-se a comer, fi­nalmente, apenas para não morrer de fome. Ela não lhe deu resposta, mas ele sabia no que estava pensando. — Compreendo. — E então, fez-lhe um gesto para se levantar do banco. — Está na hora de ir.

Falou com certa severidade, e Ariana acompanhou-o lentamente, deixando o corredor bastante iluminado. Sentiu os joelhos moles por um minu­to, e a luz do sol cegou-a brevemente, mas ficou parada ali, inspirando fundo, e quando entrou no carro ao lado dele, virou a cabeça como se estivesse olhando para a fileira de casas que faziam as vezes de caserna, para que não a visse chorar.

Rodaram por alguns minutos, e depois ele encostou o carro no meio-fio e ficou fitando por um momento a parte de trás da cabeça da moça. Ariana estava sentada, imóvel, totalmente inconsciente do homem alto e louro com os olhos gentis e a aristocrática cicatriz de duelo.

— Volto já, frãulein.

Ariana não respondeu, apenas recostou a cabeça no banco e enrolou-se ainda mais na manta que ele lhe dera. Estava pensando de novo no pai e em Gerhard, imaginando onde estariam. Há mais de um mês que não se sentia tão confortável, e não se importava com o que fosse acontecer agora, pelo menos estava fora daquela cela fétida.

Von Tripp voltou para o carro dali a um momento, trazendo um pe­queno embrulho fumegante que passou para ela, sem dizer palavra. Duas gor­das bratwurst enroladas em papel, com mostarda, e um grande naco de pão preto. Olhou o embrulho, enquanto ele lhe entregava, e depois fitou-o. Que homem estranho era. Como Ariana, raramente desperdiçava palavras, no en­tanto enxergava tudo; e, novamente como ela, havia uma espécie de tristeza nos seus olhos, como se sentisse a dor do mundo na própria carne, e agora a dor dela, também.

— Achei que podia estar com fome.

Teve vontade de dizer-lhe que fora muito simpático de sua parte. Ao invés disso, apenas acenou com a cabeça e segurou o embrulho. Não importa o que ele fizesse, não podia esquecer-se quem era ou o que estava fazendo. Era um oficial nazista, e a estava levando para casa para apanhar suas coi­sas... suas coisas... que coisas? Quais delas devia levar consigo, agora? E de­pois da guerra, o que aconteceria? Receberia a casa de volta? Não que isso lhe importasse mais. Com o pai e Gerhard desaparecidos, pouco estava li­gando. Os pensamentos e perguntas atormentavam-se incessantemente en­quanto rodavam, e ela dava pequenas mordidas nas bratwurst que Von Tripp comprara para ela. Tinha vontade de devorá-las, mas não ousava. Depois de viver tanto tempo à base de pão e sobras de carne, tinha medo de passar mal se comesse a lingüiça picante depressa demais.

— Fica perto do lago, em Grunewald?

Ela fez que sim. Na realidade, estava surpresa que eles a estivesse deixando ir para casa pegar qualquer coisa. Era estranho como subitamente dei­xara de ser prisioneira.

Era apavorante dar-se conta de que a casa agora era deles. Os objetos de arte, a prataria, as jóias que encontrassem, até as suas peles seriam dadas às amantes dos generais, e naturalmente, havia todos os carros do pai dela. O di­nheiro e os investimentos já tinham sido confiscados por eles há semanas. Por­tanto, no todo, não estavam insatisfeitos com os lucros obtidos no negócio. E Ariana — era apenas um extra, um par de mãos para realizar qualquer trabalho que pudesse, a não ser que, é claro, despertasse o interesse de alguém. A pró­pria Ariana chegara a esta conclusão. Mas preferia morrer a se tornar a amante de um nazista. Passaria o resto da vida na caserna nojenta deles, antes de fazer uma coisa dessas.

— Fica ali, descendo mais um pouco a estrada, à esquerda.

Os olhos de Ariana se dilataram e mais uma vez ela virou o rosto para esconder as lágrimas. Estava quase em casa, agora... a casa com que sonhara tão desesperadamente naquelas horas sombrias, deitada na cela escura, a casa onde rira e brincara com Gerhard e esperara o pai voltar para casa à noite, onde ficara sentada escutando histórias horas a fio, enquanto Fráulein Hedwig as lia para ambos ao pé do fogo, e onde vira a mãe de relance há tanto tempo ... a casa que agora perdera. Para eles. Os nazistas. Fervilhando de ódio, lan­çou um olhar ao homem fardado que estava a seu lado. Para ela, era parte do que eles representavam. Terror, perda, destruição, estupro. Não importa que lhe tivesse trazido comida e a tivesse salvado de Hildebrand. Na verdade, ele era apenas parte de um todo aterrador. E, tendo oportunidade, acabaria por fazer com ela as mesmas coisas que os outros.

— Lá está ela, ali.

Apontou subitamente enquanto dobravam a última curva, e Von Tripp diminuiu a velocidade do carro ao vê-la, enquanto Ariana a fitava com triste­za e pena, e ele com respeito e admiração. Queria dizer-lhe que era linda, e que ele, também, já vivera numa casa assim. Que a mulher e os filhos dele ti­nham morrido na casa perto de Dresden, durante os bombardeios, e que tam­bém ele, agora, não teria para onde ir. O castelo dos seus pais tinha sido "to­mado emprestado" por um general logo no começo da guerra, deixando os pais virtualmente sem teto, até que eles tinham ido morar com a mulher de Manfred e os dois filhos na sua casa de Dresden. E agora todos tinham mor­rido, sob as bombas dos Aliados. Enquanto o general continuou morando no castelo, esteve a salvo, como teriam estado os filhos de Manfred, se seus pais tivessem podido ficar na casa deles.

A Mercedes que Manfred dirigia fazia ruído sobre o cascalho, repetin­do o som que Ariana ouvira dez milhões de vezes antes. Se fechasse os olhos, seria domingo, e ela, Gerhard e o pai estariam voltando do passeio ao redor do lago, depois da igreja. Não estaria sentada ali com aquele estranho, vestida nos farrapos do que uma vez fora o seu vestido. Berthold estaria à espera. E logo que entrassem, ela serviria o chá.

—  ...nunca mais... — Disse as palavras baixinho para si mesma, sal­tando sobre o cascalho, fitando sua amada casa.

— Tem meia hora. — Manfred detestava ter que lembrar-lhe isso, mas ti­nham que voltar, e aquelas foram as ordens de Von Rheinhardt. Já tinham perdido tempo demais com a garota. Von Rheinhardt fora bem claro quanto a Manfred passar o mínimo de tempo possível na missão, e depois voltar rapi­damente.

— ... e olho nela! — dissera-lhe, para o caso de ela tentar surrupiar algo de valor da casa. Além disso, era possível que houvesse cofres ocultos e pai­néis secretos, e qualquer coisa que Manfred pudesse descobrir seria de utili­dade. Já tinham mandado equipes de peritos vasculharem a casa, mas, mesmo assim, era possível que Ariana os levasse até alguma outra coisa que não hou­vessem descoberto.

Insegura, Ariana tocou a campainha, imaginando se veria o rosto fami­liar de Berthold, mas o que viu, afinal, foi o ajudantes-de-ordens do general. Parecia-se muito com o homem às costas dela, porém um pouco mais severo, enquanto fitava horrorizado a moça em farrapos. Olhou dela para Manfred, os dois homens bateram continência e o Tenente Von Tripp explicou:

— Fráulein Von Gotthard, senhor. Veio buscar algumas roupas.

Os dois homens trocaram mais algumas palavras.

— Não sobrou muito, sabe. — O homem falou com Manfred, não com Ariana, que o fitava, chocada. Não tinha sobrado muito? De quatro armários cheios de roupas? Quão espantosamente cobiçosos tinham sido... e rápidos.

— Acho que não vou precisar de muita coisa.

Havia fagulhas de raiva nos olhos dela, enquanto entrava pela porta da frente. Tudo parecia o mesmo, e no entanto, diferente. Os móveis estavam no mesmo lugar, mas, de um modo intangível, alguma qualidade da casa tinha-se modificado. Não havia rostos familiares, nenhum dos sons das pessoas que ela e a casa sempre conheceram. O andar arrastado e envelhecido de Bethold, o manquejar crescente de Anna, as constantes batidas de porta e corridas de Gerhard, o caminhar distinto do pai pelo longo corredor de mármore. Espera­va ver Hedwig — depois de toda a sua devoção ao Partido, sem dúvida a teriam conservado na casa — mas até mesmo o rosto conhecido de Hedwig não estava entre aqueles que fitavam Ariana, enquanto ela subia. Havia na sua maior par­te fardas entrando e saindo apressadamente do escritório principal, e várias outras esperando do lado de fora do salão principal. Havia ordenanças car­regando bandejas de schnapps e café, e diversas empregadas desconhecidas. Era como voltar numa outra encarnação, depois que todo mundo que você conheceu estivesse morto há muito tempo, e outra geração tivesse repovoado todos os lugares que você amou. Sua mão tocou o corrimão familiar, enquan­to ela apressava o passo e corria lá para cima com sua sombra eterna sempre atrás de si: o Tenente Von Tripp mantinha uma distância discreta, mas estava sempre ali.

Ela parou por um momento no primeiro patamar, fitando a porta do quarto do pai. Ó, Deus, o que lhes poderia ter acontecido?

— É ali, fràulein! — A voz de Von Tripp era suave, às suas costas.

— Como disse? — Virou-se rapidamente, como se tivesse descoberto um intruso na sua casa.

— Aquele é o quarto onde vai apanhar suas coisas?

— Eu... meu quarto fica lá em cima. Mas terei que voltar aqui depois.

Acabara de se lembrar. Mas quem sabe era tarde demais. O livro já po­deria não mais estar lá. Ou talvez não. Mas ela realmente não se estava importando, agora. Com a perda de Gerhard e do pai, e agora da casa, tudo estava perdido.

— Muito bem. Não temos muito tempo, frãulein.

Ao ouvir isso, ela subiu correndo o último lance de escadas até o quarto onde Hedwig a traíra, a porta que os oficiais haviam cruzado pela primeira vez. Hildebrand, com o seu pisar arrogante, entrando na sua sala de estar, enquan­to Ariana rezava pela volta do pai. Abriu a primeira porta, e depois a porta do seu quarto, mantendo os olhos desviados da porta do quarto de Gerhard, do outro lado do corredor. Não tinha tempo para nostalgia, e aquilo lhe teria causado uma dor forte demais.

Dali a um momento, saiu do quarto para ir procurar uma mala no depósito acima deles, no andar onde ficavam os quartos dos criados, e foi ali que a encontrou, a traidora, dirigindo-se apressadamente para seu quarto, de cabeça baixa. Como um dardo arremessado contra as costas em fuga da mulher, Ariana pronunciou a palavra:

— Hedwig! — A velha parou e depois continuou, apressada, sem se virar para olhar para a moça que criara desde o nascimento. Mas agora Ariana não queria largá-la. Na verdade, jamais o faria de novo. — Não consegue olhar para a minha cara? Está com tanto medo assim?

As palavras, uma carícia venenosa, um convite para tomar veneno, uma faca de mato escondida num presente de peles. A mulher parou e se virou lentamente.

—  Sim, Frãulein Ariana? — Calmamente, tentou fitar a moça, mas seus olhos estavam amedrontados e as mãos tremiam na pilha de roupa que estava levando para o quarto para cerzir.

— Costurando para eles, é? Devem ser gratos a você. Como nós éramos. Diga-me, Hedwig. — Nada mais de "Frãulein", nada mais de respeito, apenas ódio, agora. Ariana estava com as mãos fortemente cerradas, os dedos parecendo garras. — Diga-me, depois que costurar suas roupas, depois que cuidar dos seus filhos, se os tiverem, irá atraiçoá-los, também?

— Não a atraiçoei, Frãulein Von Gotthard.

— Ora, ora, quanta formalidade. Então foi Berthold, e não você, quem chamou a polícia?

— Foi seu pai quem a atraiçoou, fraulein. Ele nunca deveria ter fugido como fugiu. Gerhard deveria ter ficado para servir a seu país. Foi errado da parte dele fugir.

— Quem é você para julgar isso?

— Sou alemã. Todos devemos julgar uns aos outros. - Então, era nisso que dera. Irmão contra irmão. — É nosso dever, e nosso privilégio, vigiarmos uns aos outros e cuidar para que a Alemanha não seja destruída.

Mas Ariana cuspiu-lhe uma resposta:

— A Alemanha já está morta, graças a pessoas como você; pessoas como você destruíram meu pai, meu irmão e minha pátria. — Ficou parada ali, as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto, sem conseguir continuar, enquanto sua voz baixava para um murmúrio. — E eu os odeio a todos.

Deu as costas para a velha ama, entrou no depósito e tirou de lá uma única valise na qual arrumaria os pertences que levaria da casa. Em silêncio, Von Tripp seguiu-a de volta ao quarto e acendeu um cigarro, enquanto a observava empilhar apressadamente suéteres, saias e blusas, roupas de baixo e camisolas, juntamente com vários pares de sapatos resistentes. Não havia lugar para supérfluos agora. Não havia supérfluos na vida de Ariana Von Gotthard.

Mas até mesmo o que estava arrumando era de uma qualidade e finura incompatíveis com uma vida na caserna: as saias que usara para ir à escola, os sapatos que usava para ir ver Gerhard jogar pólo, ou para caminhar lentamen­te com o pai ao redor do lago. Lançou um olhar sobre o ombro, enquanto jo­gava uma escova de cabelos de prata e marfim dentro da mala.

— Será que se importarão se eu levar isso? É a única escova de cabelos que tenho.

Manfred pareceu momentaneamente embaraçado e deu de ombros. Para ele, era estranho vê-la fazer a mala. No momento em que entrou no saguão principal, era evidente que aqui era o seu lugar. Movia-se com uma confiança, uma autoridade, que dava vontade de a pessoa curvar-se ligeiramente e sair do seu caminho. Mas também tinha sido em relação a ele, em Dresden. A casa deles era apenas ligeiramente menor e, na verdade, servida por um número ainda maior de empregados. A casa pertencera ao pai da sua mulher, e quando ele morreu, dois anos após o casamento, passara a ser deles. Um belo acrésci­mo ao castelo que ele próprio herdaria, por morte dos seus pais. Assim, o es­tilo de vida de Ariana não lhe era desconhecido, nem tampouco a dor do seu destino, ao sair de casa. Manfred ainda podia ouvir a mãe chorando, quando soube que teria que abandonar o castelo, enquanto durasse a guerra.

— E como podemos saber que o receberemos de volta? - soluçara para o pai dele.

— Nós o receberemos de volta, Ilse, não seja boba.

Mas agora eles estavam todos mortos. E o castelo pertenceria a Man­fred, quando os nazistas finalmente o deixassem, depois da guerra. Fosse lá quando fosse. E agora Manfred não se importava mais. Não havia ninguém a esperá-lo em casa. Nenhuma casa em que quisesse estar. Não sem eles... a mulher, Marianna, os filhos... não suportou pensar naquilo enquanto ficava ali, vendo Ariana colocar mais um par de sapatos confortáveis na mala.

— Está pretendendo tomar-se andarilha, Fráulein Von Gotthard? — Deu um sorriso para afastar a dor de sua mente. Ela sem dúvida botara na mala um bom estoque de equipamento pesado.

— Como disse? Esperavam que eu fosse lavar banheiros de vestido de baile? É isso o que as mulheres nazistas fazem? — Os olhos dela se dilataram com sarcasmo, enquanto jogava mais uma suéter de cashmere na pilha. — Não tinha idéia de que fossem tão formais.

— Talvez não sejam, mas tenho minhas sérias dúvidas de que o capitão pretenda que a senhorita esfregue pisos até o fim da guerra. Seu pai tinha ami­gos, eles a convidarão. Outros oficiais...

Ela o interrompeu brutalmente, os olhos duros feito pedra.

— Como o Tenente Hildebrand, Tenente? — Fez-se um longo silêncio entre eles, e então ela desviou o rosto. — Desculpe.

— Compreendo. É que pensei que... — Era tão jovem, tão bonita, e ha­veria muitas oportunidades para ela fazer outra coisa além de esfregar pisos. Mas tinha razão, e ele sabia. Seria melhor para ela ficar escondida na caserna. Haveria outros como Hildebrand. Mais ainda, agora que estava livre. Eles a veriam agora, lustrando maçanetas, varrendo folhas secas, limpando privadas ... veriam os imensos olhos azuis, o rosto de camafeu, as mãos graciosas. E a desejariam. Estaria acessível a todos eles, agora. Não havia nada para detê-los. Estava indefesa, não tanto quanto estava naquela cela fétida, mas quase. Per­tencia ao Terceiro Reich, um bem, um objeto, como uma cama ou uma cadei­ra, e poderia ser usada, se alguém assim o desejasse. E Manfred sabia que al­guém desejaria. Só de pensar nisso, Manfred Von Tripp sentiu-se enojado. — Talvez tenha razão.

Não falou mais nada; ela terminou a arrumação e colocou a mala no chão. Tinha deixado sobre a cama uma saia pesada de tweed marrom, uma suéter de cashmere marrom-escuro, e um quente casaco marrom, juntamente com roupas de baixo adequadas e um par de sapatos de salto baixo de camur­ça marrom.

— Tenho tempo para trocar de roupa?

Manfred fez que sim, silenciosamente, e ela desapareceu. Oficialmente, deveria vigiá-la, mas o tenente não iria sujeitar nenhum dos dois àquela prova­ção. Não era uma prisioneira que tivesse que ser vigiada a todo momento. Hildebrand teria feito esse tipo de bobagem, forçando-a a despir-se diante dele enquanto ficaria babando, e acabaria puxando-a para junto de si. Esse não era o tipo de jogo a que Manfred von Tripp se dedicava.

Ariana voltou do banheiro um momento mais tarde, um retrato solene em marrom, com apenas o cabelo louro fornecendo alguma luz à cena sombria. Vestiu o casaco por cima da suéter, e Manfred teve que lutar contra o impulso de ajudá-la. Era doloroso e confuso estar ali parado ao lado dela. Além disso, teve que deixá-la carregar a mala. Aquilo ia contra tudo o que lhe tinha sido ensinado, tudo o que sentia por esta miúda e frágil estranha que es­tava deixando sua casa pela última vez. Mas já lhe comprara o almoço e a sal­vara uma vez de ser violentada. Não podia fazer muito mais, não agora.

Ariana parou no alto do último lance de escadas, olhando de novo para a porta do pai, e depois para Von Tripp, parado a seu lado.

— Gostaria de...

— O que fica aí? — indagou, franzindo a testa, pouco à vontade.

— O gabinete do meu pai.

Oh, Deus, o que ela estava querendo? Dinheiro que ele escondera em al­gum lugar? Algum tesouro? Uma pistola minúscula que pudesse mirar contra a cabeça de algum assaltante, ou até dele mesmo, enquanto voltassem para Berlim?

— É puramente sentimental? Fraulein, este agora é o gabinete do ge­neral... Não devia...

— Por favor.

Parecia tão desolada, tão indefesa, ele não pôde forçar-se a recusar. Ao invés disso, balançou a cabeça lentamente, soltou um suspiro e abriu a porta cautelosamente. Havia um ordenança lá dentro, arrumando um uniforme de gala para o general, e Manfred olhou para o soldado, indagadoramente.

— Mais alguém aí?

— Não, Tenente.

— Obrigado, não demoraremos mais do que um momento.

Ela caminhou rapidamente até a mesa, mas não tocou em nada, depois caminhou mais lentamente até a janela e ficou olhando para o lago. Lembrou-se de quando o pai estivera ali, falando sobre Max Thomas, e depois contando-lhe a verdade sobre a mãe, e quando estivera ali novamente, na noite ante­rior à partida dele com Gerhard. Se ela ao menos tivesse sabido que seria a úl­tima despedida deles...

— Fraulein... — Fingiu que não o estava ouvindo, os olhos grudados ao Grunewaldsee ainda azul. — Temos de ir andando.

E então, enquanto concordava, ela se lembrou mais uma vez. O motivo pelo qual desejara entrar no gabinete. O livro.

Lançou um olhar cheio de naturalidade à estante de livros, sabendo, muito antes de estender a mão, o lugar onde ele se encontrava, e o tenente a observava, esperando que não fosse fazer nada de desesperado que o forçasse a delatá-la ou devolvê-la à prisão. Mas a jovem estava apenas tocando em um ou outro dos velhos livros encadernados em couro que enchiam tão abundan­temente as estantes do aposento.

— Posso levar um?

— Suponho que sim. — Não havia mal algum, na verdade, e ele tinha que voltar para o escritório em Berlim. — Mas ande depressa. Já faz quase uma ho­ra que estamos aqui.

— Sim, desculpe... vou levar este.

Depois de olhar para três ou quatro, decidiu-se por um deles, um volu­me de Shakespeare traduzido para o alemão, encadernado em couro e bastan­te manuseado. Manfred olhou para o título, concordou, e abriu a porta.

— Fraulein.

— Obrigada, Tenente.

Ela atravessou a porta com a cabeça erguida, rezando para que seu ar de triunfo não a delatasse. No livro que tirara da estante do pai repousava o único tesouro que ainda possuía. O anel de sinete de diamantes estava lá, escondido em Shakespeare, juntamente com o anel de noivado de esmeralda. Enfiou o livro rapidamente no bolso fundo do casaco de tweed marrom, on­de ninguém poderia vê-lo, e onde não perderia a última coisa que lhe restava. Os anéis da mãe. Eles, e o livro do pai, eram só o que sobrara de sua vida per­dida. A cabeça de Ariana estava cheia de lembranças, enquanto atravessava gravemente o longo corredor.

Enquanto o fazia, a mala batendo com força contra as pernas, marcando-a como refugiada onde no passado fora a anfitriã, uma porta se abriu re­pentinamente à sua direita e uma farda cheia de medalhas apareceu instanta­neamente.

— Fraulein Von Gotthard, prazer em vê-la.

Olhou, atônita, para ele, espantada demais para sentir repulsa. Era o ve­lho General Ritter, que agora era o dono da casa do seu pai. Mas estendia a mão para ela, como se a tivesse encontrado enquanto se dirigiam para tomar chá.

— Como vai?

Ela respondeu reflexivamente, e ele rapidamente tomou-lhe a mão, fitando os profundos olhos azuis e depois sorrindo, como se tivesse encontrado algo que o tivesse deixado muito satisfeito.

— Estou muito contente em vê-la. — Ela não sugeriu que ele não tinha motivos para não estar. Já era o orgulhoso possuidor da casa deles. — Faz mui­to tempo.

— Faz? — Não conseguia lembrar-se de tê-lo visto antes.

— É, creio que, da última vez que nos vimos, a senhorita teria... uns de­zesseis anos... no baile da Ópera. — Os olhos dele brilhavam. — Estava linda. — Por um momento, ela ficou distraída. Tinha sido o seu primeiro baile. E conhecera o oficial com quem tanto simpatizara... e que o pai não aprovara totalmente... como era mesmo o nome dele? — Estou certo de que não se lembra. Faz uns três anos.

Quase esperou que ele fosse beliscar-lhe a face, e por um momento Aria­na sentiu-se mal. Mas ficou grata pelo treinamento que a tornava capaz de su­portar, além de fingir. Tinha uma dívida para com Hedwig, afinal de contas.

— Sim, eu me lembro. — A voz era inexpressiva mas não exatamente rude.

— Ah, lembra? — O general parecia imensamente satisfeito. — Bem, terá que voltar aqui um dia desses. Quem sabe para uma festinha. — Pronunciava as palavras de um modo nauseante, e por um momento Ariana pensou que ia vomitar. Morreria primeiro. Na verdade, a idéia da morte estava-se tornando cada vez mais atraente, enquanto ela começava a compreender qual seria real­mente o seu destino. Não lhe deu resposta. Mas os olhos azuis fugiram dele, quando estendeu a mão para tocar-lhe o braço. — Sim, sim, espero vê-la aqui de novo. Vamos ter muitas festinhas, fraulein. Precisa partilhá-las conosco. Afinal, esta foi a sua casa.

Ainda é, seu cretino. . Teve vontade de gritar as palavras, mas apenas baixou os olhos educadamente, para que ele não enxergasse a fúria que ardia em seu coração.

— Obrigada. Os olhos do general lançaram uma mensagem críptica para Von Tripp, e depois ele fez um gesto vago para o ajudante-de-ordem que se postava às suas costas.

— Lembre-se de ligar para Von Rheinhardt e dizer-lhe... hã... dar-lhe um... hã... convite para Fraulein Von Gotthard. Isto é, se... hã...já não houver outros convites para ela.

Estava sendo cauteloso, desta feita. A última concubina que acrescentara a seu grupo fora uma mulher que roubara bem debaixo do nariz de outro general. Aquilo causara mais encrencas do que a mulher valera a pena. E em­bora esta fosse bonita, ele já tinha dores de cabeça de sobra, no momento. Dois dos carregamentos por trem com os quadros que ele estava esperando de Paris tinham sido bombardeados. Portanto, esta linda virgenzinha não era o assunto mais premente. No entanto, gostaria muito de poder acrescentá-la às suas ou­tras garotas. Sorriu para Ariana uma última vez, bateu continência, e desapa­receu.

A mala estava no banco de trás, ela mantinha a cabeça erguida, e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Não se deu ao trabalho de esconde-las do te­nente. Ele que visse. Eles todos que vissem como ela se sentia em relação ao que haviam feito. Mas o que Ariana não viu enquanto olhava a casa desapa­recendo às suas costas foi que também havia lágrimas nos olhos de Manfred Von Tripp. Compreendera com toda a clareza a mensagem críptica do general. Ariana Von Gotthard estava prestes a ser acrescentada ao harém do velho e de­vasso filho da mãe. A não ser que alguém a reclamasse primeiro.

 

— Terminou com a garota? — O Capitão Von Rheinhardt olhou para Manfred com irritação, enquanto este passava por sua mesa, no fi­nal daquela tarde.

— Sim, senhor.

— Levou-a a Grunewald para pegar suas coisas?

— Sim, senhor.

— É uma bela casa. Um homem de sorte, o general. Eu não acharia nada mau ter uma casa daquelas. — Mas ele também não se estava saindo mal. Uma família cuja casa possuía uma vista do Lago e do Castelo de Charlottenburg fora afortunada o bastante em ceder-lhe a casa.

O capitão continuou a tratar de outros assuntos com Manfred. Hildebrand estava ocupado atendendo o telefone. Manfred pegava-se pensando, a toda hora, se um dos telefonemas seria do ajudante-de-ordem do General Ritter, perguntando sobre a garota. Então, detinha seus pensamentos. Que di­ferença aquilo fazia para ele? Ela não representava nada para ele, era apenas uma jovem que estava enfrentando dificuldades, que perdera a família e a ca­sa. E daí? Milhares de outras se achavam na mesma situação. E se era atraente o bastante para chamar a atenção de um general, então este era um problema que teria que aprender a enfrentar sozinha. Uma coisa era protegê-la da vio­lência de um oficial de patente inferior que pretendia estuprá-la em sua cela, outra bem diferente era roubá-la de um general. Aquilo significaria encrenca. Para ele.

Manfred Von Tripp tomara cuidado para evitar problemas com seus superiores e outros oficiais durante todo o curso da guerra. Não era uma guerra que aprovasse, mas este era o país ao qual servia. Era um alemão, primeiro do que tudo, e mais do que muitos outros tinha pago caro pelo fervor ao Reich. Mas mesmo assim não discutia, ficava de boca fechada e agüentava. E um dia tudo terminaria, ele voltaria para a terra dos pais e o castelo lhe pertenceria. Queria restaurar o esplendor medieval do castelo, arrendar as fazendas, trazer de volta à vida as terras que circundavam o castelo. E ali ele se recordaria de Marianna, do filhinho e da filhinha, dos pais. Não queria nada além de sobre­viver à guerra para isso. Não queria mais nada, nada dos nazistas, nenhum qua­dro roubado de alto valor, nem jóias ou carros conseguidos ilegitimamente, não queria pilhagem, nem recompensas, nem ouro, nem dinheiro. O que ele queria e amava já perdera.

Mas o que incomodava Manfred enquanto ficava sentado à sua mesa e escutava, era o fato de ela ser tão inocente e jovem. De uma certa forma, as vidas deles eram bem parecidas, agora, mas Manfred tinha 39 anos, e ela 19. Perdera tudo, mas não estivera indefeso como ela, agora. Ficara agoniado, destroçado, angustiado, mas não assustado e sozinho... Manfred havia escutado as histó­rias. Sabia qual o tipo de jogos a que o velho se dedicava, as moças juntas, ele e as moças, um pouco de perversão, um pouco de brutalidade, um pouco de sadomasoquismo, um chicotezinho, mais um... Só de pensar, sentia-se mal. O que havia de errado com todos eles? O que acontecia com os homens, quando iam para a guerra? Deus, estava cansado daquilo! Estava cansado de tudo aquilo!

Manfred largou a caneta sobre a mesa, depois que o Capitão Von Rheinhardt saiu do escritório, e se recostou na cadeira com um suspiro. Foi então que veio o telefonema do general, ou melhor do seu ajudante-de-ordens, que falou com Hildebrand, que apenas abriu um sorriso. O outro tenente desli­gou depois de ter tomado o recado de que o capitão deveria ligar para ele, no dia seguinte de manhã.

— Uma mulher na história. Puxa, aquele velho sacana vai acabar esta guerra com o seu exército particular... um exército de mulheres.

— O ajudante-de-ordem falou quem era?

Hildebrand sacudiu a cabeça.

— Só um assuntozinho que queria tratar com o capitão. A não ser, como disse o ajudante-de-ordem, que já seja tarde demais. Ele falou que o ge­neral acha que este docinho não vai demorar a sair da prateleira da confeita­ria. Talvez até já tenha saído. Conhecendo o Ritter, ela terá sorte se assim for. E quem será que está de olho, desta vez.

— Sabe-se lá.

Mas, depois do telefonema, Manfred remexeu-se na cadeira, inquieto. Hildebrand foi para casa, e Manfred se pegou sentado ali, à mesa de trabalho, por mais duas horas. Não conseguia deixar de pensar nela e no que Hildebrand dissera. O general queria Ariana... a não ser que o docinho já não estivesse mais na prateleira da confeitaria... Ficou ali por um longo minuto, como que hipnotizado, e depois, agarrando rapidamente o sobretudo, apagou a luz do escritório e desceu correndo a escada, saiu do prédio e cruzou a rua.

 

O Tenente Manfred Von Tripp achou Ariana Von Gotthard facil­mente, na caserna. Estava pretendendo tomar informações na en­trada, mas isso acabou sendo desnecessário. Ela estava lá fora, varrendo as folhas secas e colocando grandes braçadas delas num barril, e de­pois as iria queimar. Era fácil ver que era a primeira vez na vida que fazia al­gum trabalho manual.

— Fráulein Von Gotthard. - — Estava com ar oficial, os ombros retos, a cabeça terrivelmente ereta, como um homem prestes a fazer um pronunciamento da maior importância, e caso Ariana o conhecesse melhor, teria visto, também, que havia medo à espreita nos seus olhos azuis-acinzentados. Mas ela não o conhecia tão bem assim. Na verdade, não conhecia absolutamente Man­fred Von Tripp.

— Sim, Tenente? —  Falou cansada, afastando uma longa mecha de ca­belo louro dos olhos. Estava usando delicadas luvas de camurça para o traba­lho, pois eram as únicas que possuía. Imaginava que ele vinha vindo para lhe dar mais ordens. Desde a tarde já esfregara dois banheiros, limpara bandejas no refeitório, levara caixas do último andar até o portão, e agora isto. Não ti­nha sido exatamente uma tarde de lazer.

— Queira ter a gentileza de pegar sua valise.

— Minha o quê? — Olhou para ele, totalmente confusa.

— Sua mala.

— Não posso ficar com ela aqui? — Ou será que alguém havia admirado o couro, e agora estavam levando a mala dela, também? Ainda estava com o pequeno livro de couro com o compartimento falso no bolso do casaco. E quando teve que deixar o casaco no quarto, escondera-o dentro de um bolo de roupas sujas, debaixo da cama. Fora o único lugar em que pudera pensar, na sua pressa de ir trabalhar. A inspetora encarregada era uma mulher grande, parecendo um touro, com uma voz mais apropriada aos exercícios de treina­mento do que a uma caserna feminina. Mantivera Ariana adequadamente apavorada a tarde toda. Mas agora Ariana olhava para Manfred com nojo indisfarçável. — Então agora tem alguém querendo minha mala. Bem, deixe que fiquem com ela. Não vou a parte alguma, durante algum tempo.

— Está-me entendendo mal. — A voz dele era meiga, mas a dela não era. Tinha que lembrar a si mesma o tempo todo que este homem a havia salvo de Hildebrand naquela noite, na cela. Caso contrário, era fácil demais pensar que era igual a todos os outros. Porque, afinal de contas, ele era. Estava inextricavelmente entrelaçado na teia do seu pesadelo, e ela não mais conseguia separar as necessidades dele das dos outros. Não acreditava mais em nada, ou em nin­guém. Nem mesmo neste oficial alto e sereno que olhava para ela suave mas firmemente. — Na verdade, Fraulein Gotthard, está completamente errada. A senhorita vai, sim.

— É? — A princípio Ariana olhou para ele, subitamente aterrorizada. E agora? O que estavam planejando para ela? Uma terrível internação num campo de concentração? Depois, uma forte pontada de alegria... Seria pos­sível? — Encontraram meu pai?

A rápida expressão de pesar no rosto dele disse-lhe tudo o que precisa­va saber.

— Lamento muito, fraulein. — A voz dele era tranqüilizadora. Tinha notado o terror no rosto dela. — Estará segura.

Por enquanto, pelo menos. O que já era alguma coisa, nos dias atuais. Um certo tempo era melhor do que nada. E qual deles estava seguro? Neste último ano de ataques aéreos incessantes, as bombas não paravam de cair.

— Como assim, estarei segura? — Olhou-o com medo e desconfiança, agarrada firmemente à vassoura, mas o tenente apenas sacudiu a cabeça e fa­lou docemente:

— Confie em mim. — Tentou tranqüilizá-la com o olhar, mas ela ainda parecia desesperadamente assustada. — Agora, por favor, faça a gentileza de arrumar sua mala. Estarei à espera no saguão principal.

Fitou-o com um desalento que se tornava desespero. Que importância tinha isso, agora?

— O que direi à inspetora? Não acabei aqui.

— Eu darei as explicações.

Ela fez que sim e entrou no prédio, enquanto Manfred a observava, cala­do. Pegou-se conjeturando que diabos estava fazendo. Era tão maluco quanto o general? Mas não era nada disso, falou a si mesmo. Estava agindo assim ape­nas para proteger a garota. No entanto, também ele se sentira estimulado. Ti­nha consciência da beleza que existia apenas levemente escondida sob as rou­pas escuras e a tristeza dela. Custaria muito pouco polir o diamante levando-o de volta ao antigo brilho, mas não era isso que estava fazendo, não era por esse motivo que a estava levando para Wannsee, naquela noite. Levava-a a fim de salvá-la do general, para tirar o docinho da prateleira da confeitaria. Ariana Von Gotthard estaria a salvo em Wannsee...

Manfred falou vivamente com a inspetora, dizendo que a garota estava sendo transferida. Conseguiu explicar, com inferências e nuanças sutis, que era um assunto do prazer de alguém, ao invés de qualquer decisão militar con­cernente à garota. A inspetora compreendeu perfeitamente. A maioria das garotas como Ariana era carregada pelos oficiais no espaço de poucos dias. Apenas as feias permaneciam ali para ajudá-la, e logo que vira Ariana soubera que não ia ficar. Não tinha importância, na verdade. A garota era pequena e delicada demais para o trabalho. Bateu continência para o tenente e mandou outra garota ir lá para fora varrer as folhas.

Ariana estava de volta ao saguão principal dentro de 10 minutos, agar­rando com força a mala. Manfred não disse nada, girou nos calcanhares e saiu rapidamente do prédio, esperando que Ariana o seguisse, o que ela fez. Abriu a porta da Mercedes, tirou a mala das mãos dela, desta vez, jogou-a no banco de trás e depois deu a volta, tomou lugar ao volante e ligou o motor. Pela pri­meira vez em muito tempo, Manfred Von Tripp parecia satisfeito.

Ariana ainda não entendia o que estava acontecendo, e olhava a cidade com curiosidade, enquanto se afastavam. Levou quase 20 minutos para se dar conta de que seguiam na direção de Wannsee. Estavam quase chegando à casa de Manfred. Porém, a esta altura, ela já percebera o que estava aconte­cendo. Então fora para isto que a salvara, naquela noite na cela. Ficou imagi­nando se ele também usava o chicote. Quem sabe fora desse modo que adqui­rira a fina cicatriz que cortava seu maxilar.

Alguns minutos mais tarde, estacionaram diante de uma pequena casa. Parecia respeitável, mas não tinha nada de suntuoso, e lá dentro estava escuro. Manfred fez-lhe sinal para que saltasse do carro, e tirou a mala do ban­co de trás, enquanto ela se dirigia para a porta da frente, com a espinha abso­lutamente reta e os olhos evitando os deles. Como ajeitara as coisas de modo encantador. Aparentemente, ela devia ser dele. Em caráter definitivo, ficou-se perguntando, ou apenas por aquela noite?

Sem maiores cerimônias, ele destrancou a porta da frente, fez-lhe sinal para entrar, e a seguiu. Fechou a porta com firmeza atrás deles, acendeu as luzes, e olhou a seu redor. A faxineira tinha estado lá de manhã, e tudo parecia limpo e em ordem. Havia uma sala de visitas despretensiosa mas simpá­tica, com muitos livros e plantas, e uma pilha de lenha recém-cortada perto da lareira, onde toda a noite ele acendia o fogo. Havia fotos, na maioria dos filhos dele, e um tipo de diário fechado sobre a escrivaninha. Janelas grandes, amplas, que davam para um jardim cheio de flores, uma vista partilhada pela cozinha, um pequeno gabinete de leitura e a sala de jantar pequena e aconche­gante, todos esses aposentos ocupando o andar térreo da casa. Havia uma es­treita escada de madeira, coberta por um tapete gasto, que já fora bonito, e só o que Ariana conseguia enxergar dali debaixo era um corredor de teto re­baixado.

Como se esperasse que ela entendesse suas intenções, Manfred passava de um aposento ao outro, em silêncio, abrindo portas e depois entrando no aposento seguinte, até que finalmente ficou parado ao pé da escada. Olhou para a moça, hesitante, por um momento, fitando-lhe os olhos azuis profun­dos e irados. Ainda trazia o casaco e as luvas que usara para varrer as folhas diante da caserna; o coque apertado estava-se desmanchando. A mala jazia às costas deles, esquecida perto da porta da frente da casa de Manfred.

— Vou mostrar-lhe lá em cima. — Falou suavemente, enquanto lhe fazia sinal para precedê-lo. Ainda não confiava nela a ponto de deixá-la atrás de si. A moça estava com medo demais, zangada demais, e ele sabia que devia proteger-se, mesmo de uma criança como ela. Lá em cima, não havia muito o que mostrar. Um banheiro e duas portas de aspecto ameaçador. Ariana fitou as portas com terror, os imensos olhos azuis baixando lentamente para as mãos de Manfred, e depois subindo para seu rosto. — Venha, vou-lhe mostrar.

As palavras eram suaves, mas isso era inútil; ele podia ver pelo rosto dela que estava tão apavorada que mal conseguia escutar. O que poderia fazer para tranqüilizá-la? Como poderia explicar o que fizera? Mas ele sabia, que com o tempo, ela compreenderia.

Escancarou a porta do seu quarto, um aposento severo e simples, deco­rado em tons de marrom e azul. Nada na casa era muito extravagante, mas tu­do era confortável e precisamente o que ele desejara, quando resolvera pro­curar um lugar para morar, em Berlim. Uma casa onde podia fugir de tudo, onde podia sentar-se sossegadamente à noite, olhando para o fogo, fumando cachimbo, lendo. Seu cachimbo preferido jazia numa mesa no seu quarto, ao lado da lareira onde se sentava numa cadeira bem usada, sempre convidativa. Mas, ao invés de enxergar o ambiente inofensivo, Ariana ficou parada ali, olhos arregalados, braços caídos, os pés fixos no chão.

— Este é o meu quarto.

Os olhos o fitaram com terror impotente, e ela acenou com a cabeça.

—Sei.

E então, tocando-lhe o braço gentilmente, Manfred passou por ela e abriu uma porta que Ariana imaginara fosse um armário. Mas ele entrou lá dentro e desapareceu.

— Venha por aqui, por favor.

Cautelosamente, tremendo, ela o seguiu e descobriu que era um outro quarto. Havia uma cama, uma cadeira, uma mesa, uma escrivaninha tão pe­quena que serviria melhor para uma criança, mas havia bonitas cortinas e uma colcha com rosas que combinava com o papel de parede. Era reconfortante, e Ariana sentiu isso ao entrar.

— E este é o seu quarto, fraulein. — Olhou para ela cora simpatia, mas notou que ainda não havia compreendido. Os olhos dela o fitavam de novo, com a mesma dor, a mesma tristeza, e ele sorriu para ela, e soltou um longo suspiro. — Fráulein Von Gotthard, por que não se senta, parece exausta. — Indicou-lhe gentilmente a cama. Ela a fitou por um momento, e finalmente se sentou, com o corpo rígido. — Gostaria de lhe explicar uma coisa. Acho que não entende.

Pareceu-lhe subitamente muito diferente, enquanto falava com ela, não como o oficial severo que a acompanhara por aquelas escadas e corredores in­termináveis, mas como o tipo de homem que chegava em casa de noite, janta­va, sentava-se ao pé do fogo e pegava no sono lendo o jornal, porque estava muito cansado. Parecia uma pessoa de verdade, mas ainda assim Ariana se en­colhia toda, enquanto olhava para ele, sentada na cama.

— Trouxe-a para cá esta noite porque achei que estava em perigo. — Recostou-se lentamente na cadeira e rezou para que a jovem relaxasse. Era im­possível conversar com ela, enquanto ficava sentada ali, daquele jeito, fitando-o. — É uma mulher muito bonita. Fraulein Von Gotthard, ou devo dizer que é uma moça muito bonita. Quantos anos têm? Dezoito? Dezessete? Vinte?

— Dezenove. — Era mais uma exclamação abafada do que uma palavra.

— Não errei por muito, então, mas existem pessoas que não se impor­tarão.  — O rosto dele ficou sério, por um momento. — Como o nosso amigo Hildebrand. Ele não ligaria a mínima, se a senhorita tivesse doze anos. E exis­tem outros... - Se fosse um pouquinho mais velha, se já tivesse enfrentado o mundo um pouco antes de toda essa tragédia lhe acontecer, teria alguma idéia de como cuidar de si mesma. Franziu a testa e ela o fitou. Parecia mais o pai dela falando, do que um homem que a fosse levar para a cama e vio­lentá-la. E, na sua cadeira, ele estava pensando nela varrendo as folhas secas diante da caserna; não parecia ter mais de 14 anos. — Está entendendo, fráulein.

— Não, senhor. - Parecia infinitamente pálida e assustada. A jovem que tentara enfrentar valentemente Von Rheinhardt no começo já não existia mais. Esta era apenas uma criança.

— Bem, eu soube hoje à noite que havia uma possibilidade de que a senhorita fosse instada a... hã... reunir-se ao general... - O terror voltou a subir aos olhos dela, mas Manfred ergueu a mão. — Achei que esse não seria um começo auspicioso para sua vida sozinha. Portanto, fraulein — correu os olhos pelo quarto que seria dela — trouxe-a para cá.

— Vão forçar-me a ir para ele amanhã? — Fitou-o com uma ansiedade desesperada, enquanto ele tentava não notar o dourado impecável dos cabelos dela.

— Não, é muito improvável. O general nunca se empenha em coisa al­guma. Se a senhorita ainda estivesse lá na caserna, ele a teria levado para Grunewald, mas se já não está mais lá, não tem nada a temer. — E então, teve um pensamento. — Importa-se? Teria valido a pena agüentá-lo para poder voltar para sua casa?

Mas ela sacudiu a cabeça, com tristeza.

— Não suportaria vê-la assim, cheia de estranhos, e — engasgou com as palavras — preferiria morrer a ficar com ele.

Manfred concordou e viu que ela o examinava com ar avaliador, como que para ver o que recebera em troca, e não pôde reprimir uma gargalhada. Sabia exatamente por que ela o olhava daquele jeito. E pelo menos estava sa­bendo que ele não ia arrancar-lhe as roupas, enquanto a carregava para a cama.

— Esse arranjo lhe agrada, fraulein. — Fitou-a, e ela soltou um débil suspiro.

— Suponho que sim. — O que ele estava esperando? Que lhe agradecesse por tê-la feito sua amante, ao invés do general?

— Lamento que essas coisas tenham que acontecer. Tem sido uma guer­ra feia... para todos nós. — Tinha um ar distante e pensativo. — Venha. Vou mostrar-lhe a cozinha.

Em resposta à pergunta dele se sabia cozinhar, ela sorriu.

— Jamais cozinhei antes. Não havia necessidade. — Sempre havia criados para isso.

— Não faz mal. Eu lhe ensino. Não mandarei que varra folhas secas ou limpe privadas... tenho uma faxineira que faz tudo isso... mas seria agradá­vel que, como parte do nosso relacionamento, a senhorita se encarregasse da cozinha. Acha que pode fazê-lo?

Tinha um ar bastante sério, e ela se sentiu repentinamente muito cansada. Agora, era a concubina dele. Como uma escrava que tivesse sido compra­da. Soltou um suspiro e olhou para ele.

— Suponho que sim. E quanto à roupa suja?

— Só terá que se preocupar com a sua. Na verdade, só precisa cozinhar. Era um preço pequeno a pagar por sua segurança. A cozinha, e o fato de que ia tornar-se sua amante. Tudo isso ela compreendia.

Ficou parada a seu lado, enquanto ele lhe ensinava como preparar ovos, partiu o pão, mostrou-lhe como cozinhar cenouras e batatas, e depois dei­xou-a para lavar os pratos na pia. Ouviu-o pondo a lenha na lareira e acenden­do o fogo, e depois viu-o escrevendo sossegadamente à escrivaninha. De quan­do em vez olhava para as fotos de um dos filhos, depois baixava a cabeça e es­crevia mais um pouco.

— Gostaria de um pouco de chá, senhor? - Sentiu-se como uma das empregadas de sua própria casa, mas lembrando-se de que estivera vivendo na­quela cela de pesadelo no Reichstag ainda naquela manhã, sentiu-se subita­mente grata por poder estar na casa do tenente. - Senhor?

— Sim, Ariana? — E então ele enrubesceu ligeiramente. Era a primeira vez que a chamava pelo nome de batismo. Mas é que estava distraído. Por um momento, ela nem teve certeza se ele tinha dito Ariana ou Marianna. Era di­fícil dizer. -— Desculpe.

— Está tudo bem. Só lhe perguntei se queria chá.

— Obrigado. — Preferiria café, mas a esta altura era quase impossível de conseguir. — Quer um pouco?

Ela não ousara servir-se de uma xícara da preciosa substância, mas ante o oferecimento dele, correu para a cozinha para pegar uma xícara e se serviu de um pouco de chá. Por um instante, ficou apenas parada ali, deliciando-se com a fragrância exótica. Há um mês que sonhava com luxos tão remotos como o chá.

— Obrigada. — Por um longo momento, Manfred ficou imaginando como seria o som de sua risada. Será que chegaria a escutá-la? Por duas vezes, naquela noite, fora merecedor do seu sorriso radioso. Sentiu o coração se agitar, enquanto a observava. Era tão desesperadamente séria, tão infeliz, os olhos e o rosto estavam tão marcados pelo trauma recente. A jovem estava passando em revista a sala, os olhos se detendo nas fotos das crianças. — Seus filhos, Tenente?

Olhou-o com curiosidade, mas ele não sorriu. Era um chá estranho, este que partilhavam, os dois com as vidas despedaçadas. Manfred apenas assentiu com um aceno, em resposta à pergunta, e sugeriu que ela se servisse de mais uma xícara de chá, enquanto ele acendia o cachimbo e esticava as longas per­nas na direção do fogo.

Ficaram ali sentados, sossegadamente, até quase 11 horas, falando pou­co, simplesmente estando ali, Ariana acostumando-se aos poucos ao ambiente, o tenente apreciando ter outro ser vivente em sua casa. De vez em quando, os olhos dele se dirigiam para ela, e ficava observando-a, sentada, fitando sonha­dora o fogo, como se tivesse voltado para um mundo muito remoto. Às 11 horas, Manfred se levantou e olhou para ela, e depois começou a apagar as luzes.

— Tenho que acordar cedo amanhã.

Como que obedecendo à deixa, ela também se levantou, mas seus olhos estavam novamente cheios de medo. O que aconteceria a seguir? Este era o momento que temera a noite toda.

Esperou que ela saísse lentamente da sala, e depois a acompanhou. Che­garam primeiro à porta dele, e ficaram parados ali. Ele hesitou por um longo minuto, e depois, com um pequeno sorriso, estendeu a mão. Ela o fitava, es­pantada, e teve que forçar-se a dar-lhe a mão. Aquilo era totalmente inespe­rado para ela, e quase ficou de queixo caído enquanto ele lhe apertava a mão.

— Espero que um dia, fraulein, sejamos amigos. Não é uma prisioneira aqui, sabe. Este me pareceu o arranjo mais sensato... para o seu bem. Espero que entenda.

Seus olhos se iluminaram lentamente, então, e ela sorriu para ele.

— Quer dizer que...

— Sim, quero. — Os olhos dele eram meigos, e ela pôde ver que se tra­tava de um homem bondoso. — Pensa mesmo que eu iria bancar o substituto do general? Não acha que seria um pouco injusto? Já lhe disse, não é minha prisioneira. Na verdade — fez uma bela reverência e bateu os calcanhares  — eu a considerarei minha hóspede. — Mas Ariana apenas o fitava, aturdida. — Boa noite, fraulein.

A porta se fechou suavemente atrás dele e, num espanto total, ela se­guiu pelo corredor sem fazer ruído.

 

— Bem, onde, diabos, está ela? — Von Rheinhardt fitava Hildebrand, irritado. — Von Tripp disse que a levou para lá ontem. Perguntou à inspetora?

— Não, ela não estava na recepção.

— Então volte lá. Tenho outras coisas com que me preocupar, além des­sa bobagem, pelo amor de Deus.

Hildebrand voltou para ver a inspetora e se apresentou de novo ao capitão uma hora mais tarde, enquanto Von Tripp se mantinha ocupado com vá­rios assuntos que não tinha resolvido na véspera.

— O que foi que a inspetora disse? — O capitão olhou com cara feia para Hildebrand, do outro lado da mesa de trabalho. Tudo estava dando er­rado para ele, o dia todo. E não se importava o mínimo com o general e aque­la maldita garota Von Gotthard. Tinham acabado com ela, e o que lhe acontecesse agora não o interessava, absolutamente. Se o General Ritter estava com tesão nela, problema dele. Devia ter mandado seu maldito ajudante-de-ordem sair à cata da garota.

— Ela não está mais lá.

— Que diabo quer dizer com "não está mais lá"? — E então pareceu subitamente furioso. — Fugiu?

— Não, nada disso, Capitão. Alguém a levou. A inspetora falou que foi um oficial, mas não tinha certeza de quem se tratava.

— Você verificou o livro de registros? — perguntou Von Rheinhardt, fitando-o.

— Não. Quer que eu volte?

— Não precisa. Se ela se foi, então se foi. O general vai encontrar mais meia dúzia que lhe interesse, até a semana que vem. E o programa podia não valer o preço da entrada. Sempre existe a chance, embora sem dúvida remota, de que o pai dela apareça, um dia. E ia haver o diabo, se Ritter a tivesse acrescentado ao seu harém. — Von Rheinhardt revirou os olhos, e Hildebrand riu.

— Acha mesmo queo velho dela aindaestá vivo? —Olhou para seu capi­tãocom interesse.

— Não, não acho.

O oficial mais antigo deu de ombros e mandou que Hildebrand voltasse ao trabalho. E foi só no final da tarde que o capitão em pessoa deu um pulo até a caserna para bater um papo com a inspetora. Alguns minutos mais tarde, ela apresentou discretamente o livro de registros, e Von Rheinhardt conseguiu a informação que viera buscar. Leu o nome com interesse e foi refletindo en­quanto voltava para seu escritório. Talvez Von Tripp estivesse voltando para o mundo dos vivos, afinal. Desconfiava de que Von Tripp jamais se recuperaria da perda da mulher e dos filhos, nem do ferimento que sofrerá no Natal an­terior. Depois que foi ferido, Manfred pareceu desistir da vida. Era como uma casca de homem... jamais participando da vida social mais livre. Mas quem sabe agora... era interessante... Já estava desconfiado, e por isso atravessara a rua para ir examinar o livro de registros. Muito pouca coisa escapava à aten­ção de Dietrich Von Rheinhardt.

— Von Tripp?

— Sim, senhor? — Manfred ergueu os olhos, surpreso. Não vira o capi­tão entrar. Na verdade, nem o vira sair, meia hora antes. Estivera ocupado do outro lado do corredor, procurando umas pastas que se tinham extraviado.

— Gostaria de vê-lo no meu gabinete, por favor. — Manfred acompa­nhou-o, sentindo-se inquieto. O oficial mais antigo não perdeu tempo. — Manfred, por acaso dei uma olhada no livro de registros do outro lado da rua.

Mas ambos sabiam que o capitão não fazia nada "por acaso". — É?

—  Sim, "é". Está com ela? — Era impossível ler sua fisionomia, mas Manfred concordou lentamente.

— Sim, estou.

— Posso perguntar-lhe por quê?

— Eu a queria, senhor. — Era o tipo de resposta franca que Von Rhei­nhardt compreenderia facilmente.

— Posso entender isso, mas por acaso você sabia que o General Ritter também a queria?

— Não, senhor. — Manfred sentiu-se ficar todo arrepiado. — Não, se­nhor, não sabia. Embora o tivéssemos encontrado por um instante no saguão da casa de Grunweald ontem. Contudo, ele não deu indicação...

— Está bem, está bem, não faz mal. — Os dois homens se fitaram du­rante um longo minuto. — Eu poderia fazer com que a entregasse ao Ritter, sabe.

— Espero que não faça isso, senhor. — A frase não expressava nem uma parcela do que ele sentia realmente, e por um longo momento nenhum dos dois falou.

— Não farei, Von Tripp. — E, após mais uma pausa: — É bom vê-lo vivo de novo. — Abriu um sorriso. — É bom vê-lo se importando. Há três anos que lhe venho dizendo que é só disso que você estava precisando.

— Sim, senhor. — Manfred sorriu de modo convincente, querendo dar uma bofetada na cara do seu comandante. — Obrigado, senhor.

— De nada. — E em seguida, o capitão deu uma risadinha abafada. — Bem feito para o Ritter. É o homem mais velho daqui, e sempre fica com as garotas mais jovens. Não se preocupe, tenho uma outra que vou mandar para ele. Deverá mantê-lo satisfeito durante algumas semanas. — Riu debochada-mente consigo mesmo, e fez sinal a Manfred para sair da sala.

Então, ficara com ela, e graças ao capitão, afinal de contas. Sentiu que um longo suspiro lhe escapava, enquanto corria os olhos pelo escritório e se dava conta de que estava na hora de ir para casa.

— Tenente? — O rosto dela apareceu no corredor, os lindos cabelos dourados enrolados graciosamente no alto da cabeça, e os grandes olhos azuis dançan­do nervosamente para ver se era ele.

— Boa tarde, Ariana. — Parecia insuportavelmente formal ao fitar os olhos azuis, enquanto ela ficava parada diante dele com uma expressão an­siosa no rosto.

— Houve... foi... — Tropeçava nas palavras com uma expressão de terror, e Manfred compreendeu instantaneamente.

— Está tudo bem, tudo acertado.

— Ficaram muito zangados?

Os imensos olhos azuis pareciam maiores do que nunca, enquanto ele sacudia lentamente a cabeça. Cada momento de terror do último mês estava marcado nos seus olhos, enquanto ela esperava. Embora geralmente se mostrasse tão corajosa aos olhos dele, agora parecia uma criança pequenina e indefesa.

— Já lhe disse, está tudo bem. Estará segura aqui. — Ela teve vontade de perguntar-lhe por quanto tempo, mas não teve coragem. Ao invés disso, apenas sacudiu a cabeça.

— Obrigada. — E, a seguir: — Aceita uma xícara de chá?

— Aceito. — Fez uma pequena pausa. — Se a senhorita também to­mar uma.

Ela aceitou e sumiu cozinha adentro. Voltou dali a alguns momentos, com uma bandeja e duas xícaras fumegantes do precioso líquido. Para ela, era um dos maiores luxos daquela casa, depois do mês passado na cela. Poder ficar limpa de novo, e tomar chá outra vez. Chegara a ousar tomar uma xícara sozinha, durante a tarde, enquanto vagava à toa pela sala de visitas, olhando para os livros dele e pensando novamente no pai e em Gerhard. Mal conseguia deixar de pensar neles o tempo todo. E a dor da preocupação e da tristeza ainda transparecia nos seus olhos. Manfred olhou para ela gentilmente, enquanto pousava a xícara. Havia tão pouco que lhe pu­desse dizer. Sabia muitíssimo bem o que era enfrentar a dor de uma perda. Soltou um suspiro baixo e pegou um dos seus cachimbos, enquanto se sen­tavam.

— O que fez hoje, fraulein.

Ariana meneou a cabeça, lentamente.

— Eu... nada... eu... fiquei olhando para alguns dos seus livros.

Aquilo fez com que ele pensasse na esplêndida biblioteca que vira na casa dela, na véspera, e na sua própria, há tanto tempo. Ao voltar o pensamen­to para o passado, resolveu pegar o touro à unha. Os seus olhos buscaram os dela, cuidadosamente, enquanto ele acendia o cachimbo.

— Ê uma bela casa, fràulein. — Ela soube instantaneamente a que casa se referia.

— Obrigada.

— E um dia será sua de novo. A guerra não pode durar para sempre. — Pousou o cachimbo e seu coração se abriu para ela, através dos olhos. — A casa dos meus pais também foi tomada.

— Foi? — Um lampejo de interesse perpassou-lhe pelo rosto. — Onde fi­cava, Tenente?

A tristeza voltou-lhe aos olhos, enquanto ele respondia.

— Nos arredores de Dresden. — Leu instantaneamente a pergunta nos olhos dela. — Não foi tocada pelos bombardeios. — O castelo não... mas to­do o resto sim... e todos... todos... as crianças, Theodor e Tatianna... Marianna, sua mulher... seus pais, a irmã, todos eles... mortos. Como o pai e o irmão dela, sem dúvida. Para sempre.

— Que sorte a sua.

Ergueu os olhos, espantado com as palavras dela, e depois se lembrou de que estiveram falando do castelo. -Sim.

— E sua família?

Ele inspirou fortemente.

— Não teve tanta sorte, infelizmente. — Ela esperou, o silêncio pesando entre eles. — Meus filhos... minha... mulher... e meus pais... estavam na cidade. — Pôs-se de pé e caminhou até a lareira. Só o que ela podia enxergar agora eram as suas costas. — Foram todos mortos.

— Lamento muito. — A voz dela era um murmúrio suave. Ele se virou para olhá-la, então.

— Não mais do que lamento pela senhorita. — Ficou parado por um lon­go momento, e seus olhos se encontraram e não se desfitaram.

— Houve... — Mal conseguia forçar-se a perguntar-lhe, mas precisava saber. — Houve alguma notícia?

Manfred sacudiu lentamente a cabeça. Era hora de ela enfrentar a verda­de. Pressentia que no seu coração, na sua cabeça, ela se recusara a enfrentá-la, aquele tempo todo.

— O seu pai, senhorita, não creio que a tenha abandonado... esquecido. Pelo que soube dele, não era desse tipo de homem.

Ela sacudiu lentamente a cabeça.

— Não, eu sei disso. Algo deve ter-lhes acontecido. — Então, olhou para ele com ar de desafio. — Eu os encontrarei depois... depois da guerra.

Olhou-a com tristeza, e os olhos dele estavam úmidos.

— Não creio, fraulein. Acho que deve entender isto, agora. A esperança, a esperança falsa, pode ser uma coisa muito cruel.

— Soube de alguma coisa? — perguntou, o coração disparando.

— Não soube de nada. Mas... meu Deus, pense só. Ele partiu para impe­dir o garoto de entrar para o Exército, não foi? — Ela ficou calada. Quem sabe era um truque cruel, para conseguir finalmente que ela traísse o pai. Mas não o faria. Nem mesmo para este homem em quem estava quase confiando. — Está certo, não diga nada. Mas é o que imagino. — E então, ele a chocou: — É o que eu teria feito. O que qualquer homem de juízo teria feito para salvar o filho. Mas ele devia estar planejando voltar para buscá-la, Ariana. E a única coisa que o teria impedido seria sua própria morte. E a do garoto. Não há jei­to de terem passado para a Suíça, não há jeito de ele ter conseguido voltar.   Es­tou certo de que a patrulha da fronteira os pegou. Tem que ter sido isso.

— Mas não teriam me avisado? — Havia lágrimas nas faces dela, agora, rolando lentamente para o queixo, enquanto escutava as palavras de Manfred, e fez-lhe a pergunta num sussurro.

— Não necessariamente. Eles não são exatamente a tropa mais refinada que temos por lá. Se os mataram, e devem tê-lo feito, simplesmente se desfizeram dos corpos. Eu... — pareceu encabulado, por um momento. — Já ten­tei informar-me. Mas ninguém me contou nada, fraulein. Acho, contudo, que deve enfrentar o que aconteceu. Eles desapareceram. Devem estar mortos.

Ela lhe deu as costas, lentamente, a cabeça baixa, os ombros trêmulos, e o tenente deixou a sala silenciosamente. Dali a um momento, ela ouviu a por­ta do quarto dele fechar-se. Ficou ali parada, soluçando baixinho, e finalmen­te se deitou no sofá e pôs-se realmente a chorar. Era a primeira vez desde que o pesadelo começara que verdadeiramente se soltava. E quando acabou, sen­tiu-se entorpecida.

Só viu Manfred de novo na manhã seguinte, e quando o fez, evitou-lhe o olhar. Não queria ver a piedade, a compaixão, a própria dor dele... mal esta­va conseguindo dar conta da sua.

Nas semanas que se seguiram, Ariana pegava-o com freqüência olhando para as fotos das crianças, e sentia uma dor no próprio peito, ao observá-lo, pen­sando em Gerhard e no pai, sabendo que jamais os veria de novo. E agora, sentada na sala de visitas a tarde toda, sozinha, os rostos sorridentes dos filhos de Manfred a perseguiam, como se a repreendessem por estar ali com o pai de­les, quando não mais podiam fazê-lo.

Às vezes, ressentia-se com eles por fitarem-na, uma de trancinhas e fitas de cetim brancas, o outro de cabelos muito lisos e olhos azuis olhando para ela por sobre as sardas infantis... Theodor... Mas o que mais ressentia nas crianças é que tomavam o tenente humano, tomavam-no mais real, de certa forma. E ela não queria que ele o fosse. Não queria saber nada a respeito dele, ou se importar com ele. A despeito do que lhe dissera quando a trouxe para Wannsee, era, num certo sentido, o seu carcereiro. Não queria vê-lo sob ne­nhuma outra luz. Não queria saber dos sonhos ou esperanças ou tristezas dele, não mais do que queria contar-lhes os seus. Manfred não tinha o direito de sa­ber o quão profundamente ela sentia sua própria dor. Já tinha visto demais da vida dela, do seu sofrimento e vulnerabilidade. Vira-a à mercê de Hildebrand na cela do Reichstag, vira seus últimos momentos angustiados na sua casa. Vi­ra demais, e não tinha esse direito. Ninguém tinha. Jamais voltaria a partilhar uma parcela de si mesma com alguém. Manfred Von Tripp sentia isso nela, en­quanto ficava sentado em silêncio, fitando o fogo, noite após noite, fumando o cachimbo e falando pouquíssimo com Ariana, que permanecia sentada edu­cadamente a seu lado, imersa nos seus pensamentos, por trás do muro da pró­pria dor.

Há três semanas que estava naquela casa, quando Manfred se virou para ela, subitamente, uma noite, e pegou-a de surpresa, pondo-se de pé e largando o cachimbo.

— Quer dar uma volta, fraulein.

— Agora?

Parecia espantada, e um pouco amedrontada. Seria uma armadilha? Aonde a estaria levando, e para quê? A expressão nos olhos dela o magoou, enquanto compreendia rapidamente como era grande seu medo e sua desconfiança, mesmo depois de todos esses dias tranqüilos. Mas levaria uma vida inteira para apagar a lembrança daquele período nas entranhas do Reichstag. Assim como levaria uma vida inteira para ele esquecer o que vira, quando vol­tara a Dresden para vasculhar as ruínas da sua casa... as bonecas destruídas sob as vigas e o reboco caído, os enfeites de prata retorcidos de que Marianna tinha tanto orgulho... agora derretidos e enegrecidos... como as jóias dela ... como os seus sonhos. Manfred forçou os pensamentos de volta ao pre­sente, enquanto olhava para aqueles olhos azuis assustados.

— Não gostaria de fazer um pouco de exercício? - Sabia que ela não passara do jardim da casa, nas semanas em que ali estava. Ainda tinha medo.

— E se houver um ataque aéreo?

—  Correremos para o abrigo mais próximo. Não precisa preocupar-se. Estará segura comigo. — Ela se sentiu tola, discutindo com a voz profunda e calma e os olhos ternos.

Seria sua primeira saída para o mundo em dois meses. Passara um mês na prisão, e quase o mesmo período em Wannsee, amedrontada demais para pisar além de alguns metros fora da casa. Vivia atormentada por todo o tipo de terrores, e hoje, pela primeira vez, Manfred compreendeu toda a extensão do pavor dela. Ficou observando enquanto ela vestia o casaco, meneando a cabeça suavemente. Ariana não sabia, mas aquele era o olhar que Manfred lançava à filha, Tatianna, quando sabia que ela estava com medo.

— Está tudo em ordem. O ar puro nos fará bem. — A noite toda ele estivera lutando com seus pensamentos. Estava acontecendo cada vez com mais freqüência. Não apenas os pensamentos referentes aos filhos, ou aos pais ou à mulher... mas outros pensamentos, também... pensamentos referentes a Ariana, que haviam começado a atormentá-lo há semanas. — Está pronta?

Ela fez que sim, em silêncio, os olhos muito abertos, e enquanto saíam para o frescor da noite, ela enfiou a mãozinha enluvada na curva do seu braço. Fingiu não notar que ela agarrava com força a manga dele, enquanto ca­minhava.

—  Lindo, não é? — Ela olhou para o céu e sorriu de novo. Seu sorriso era tão raro e lindo, que o fez sorrir também.

— E, sim. E está vendo, nada de ataque aéreo.

Contudo, meia hora mais tarde, quando tinham começado a voltar para casa, as sirenes principiaram a tocar, e as pessoas começaram a sair cor­rendo de casa, dirigindo-se para os abrigos próximos. Ao primeiro toque das sirenes, Manfred envolveu-lhe os ombros com o braço e correu para o abrigo, junto com os outros.

Ariana correu com ele, mas, no íntimo, não se importava se estava em segurança ou não. Não lhe sobrava mais motivo para viver.

No abrigo, havia mulheres chorando, bebês gritando, e crianças brincan­do, como sempre o faziam. Era sempre os adultos que tinham medo. As crian­ças haviam crescido com a guerra. Uma delas bocejava, duas outras cantavam uma canção tola, enquanto as sirenes continuavam a soar acima deles, e à dis­tância ouviam as bombas. Durante tudo aquilo, Manfred observava Ariana, o rosto calmo, os olhos tristes, e, sem pensar, estendeu a mão e tomou a dela. Ficou calada, sentada ali, segurando a mão grande e macia na sua, observando os que estavam em derredor, perguntando-se para o que viviam, por que conti­nuavam.

— Acho que agora já é seguro, fràulein. — Ainda a chamava assim, a maior parte do tempo. Pôs-se de pé e ela o seguiu, e se dirigiram rapidamente para casa. Era um tipo de caminhada diferente da que deram mais cedo, na­quela mesma noite. Manfred queria levá-la de novo para casa, onde estaria a salvo.

Quando entraram no saguão da casa, ficaram parados por um momento, calados, fitando-se, algo novo e diferente nos olhos. Mas Manfred apenas meneou a cabeça e depois se virou e subiu a escada.

 

Quando ele chegou em casa na noite seguinte, Ariana estava em cima de uma cadeira na cozinha, tentando desesperadamente al­cançar uma pequena lata que fora colocada numa prateleira alta. Enquanto ia descendo o corredor, ele a viu foi rapidamente para junto dela e pegou a lata, entregando-lhe. Depois, sem pensar, pegou-a pela cintura e des­ceu-a da cadeira. Ela enrubesceu ligeiramente e lhe agradeceu, e depois foi preparar a xícara de chá costumeira. Mas era como se ela também pressentis­se alguma coisa de diferente, agora. Uma corrente de eletricidade que não existira antes, ou que existira, mas permanecera latente entre essas duas pes­soas angustiadas, com tantas preocupações. Desta vez, quando lhe entregou a xícara de chá, ela se esquecera do açúcar, e enrubesceu de novo, enquanto se afastava.

Os dois estavam quietos e tensos, durante o jantar, e mais tarde ele suge­riu outra caminhada. Desta vez, tudo correu bem, e só houve ataques aéreos bem tarde da noite. Ambos acordaram rapidamente, mas tarde demais para fugir... tiveram que se refugiar no porão, envoltos em roupões de banho e usando pesados sapatos. Manfred guardava uma mala no porão, com uma muda de roupa, para o caso de ter que fugir às pressas, mas se deu conta, sen­tado ali, de que nunca pedira a Ariana para trazer também algumas de suas coisas. Sugeriu-lhe isso agora, e ela deu de ombros ligeiramente, à luz do ca­chimbo dele. Havia pedaços de pano preto tapando as janelas, portanto nin­guém poderia ter enxergado a pontinha de luz que ele provocava ao fumar. Ficou intrigado com o gesto dela, e depois compreendeu.

— Não se importa com a sobrevivência, Ariana?

Ela sacudiu, lentamente, a cabeça.

— Por que deveria?

— Porque ainda é tão jovem. Vai construir toda uma vida. Quando isso tiver terminado, terá tudo à sua frente.

Ela não pareceu convencida.

—  E o senhor se importa tanto? — Tinha visto a expressão dos olhos dele, quando olhava para as fotos da mulher e dos filhos. — Sobreviver signi­fica tanto assim para o senhor?

— Agora, significa mais do que já significou. — Sua voz era estranha­mente suave. — E com o tempo vai significar mais para você, também, nova­mente.

— Por quê? Que importância tem qualquer coisa, agora? Isto jamais vai terminar.

Juntos, ficaram escutando as bombas distantes. Mas ela não parecia amedrontada, apenas desesperadamente triste. Queria que as bombas matas­sem todos os nazistas, e então ela estaria livre... ou morta.

— Vai terminar um dia, Ariana. Eu lhe prometo.

A voz dele era suave, enquanto ficavam sentados na escuridão, e como fizera na noite anterior, tomou a mão dela, em silêncio. Mas, desta vez, quando a segurou, ela sentiu algo se agitar no seu corpo. Ele lhe segurou a mão duran­te um longo tempo, e então Ariana sentiu que Manfred a puxava lentamente para si. Sentiu-se incapaz de resistir ao gesto suave, e não tinha vontade de empurrá-lo. Como se fosse o que sempre desejara, sentiu-se envolvida nos pos­santes braços, e sentiu-lhe a boca baixar lentamente sobre a sua. Os sons das bombas a distância desapareceram, e só o que ela sentia era uma pressão forte nos ouvidos, enquanto ele a segurava, beijava e acariciava, e então, sem fôlego, ela se afastou. Fez-se um breve silêncio cheio de constrangimentos, e então ele soltou um suspiro.

— Desculpe... desculpe. Ariana... eu não devia.

Mas desta feita foi Manfred quem ficou atônito, quando ela o silenciou com um beijo e depois saiu mansamente do porão e subiu para o quarto. Na manhã seguinte, nenhum dos dois fez menção ao que acontecera na véspera. Mas a cada dia que passava, ambos se aproximavam mais um do outro, havia uma atração ainda maior à qual achavam gradativamente mais difícil resistir, até que, finalmente, certa manhã, ela acordou e deparou com ele no seu quarto.

— Manfred? — Olhou para ele, sonolenta, sem perceber que o chamara pelo nome de batismo pela primeira vez. — Alguma coisa errada?

Lentamente, ele sacudiu a cabeça e se dirigiu para a cama. Usava pijama de seda azul por baixo de um robe de seda azul-escuro. Por um longo mi­nuto, ela não soube ao certo o que ele queria, e depois entendeu. Não sabia o que lhe dizer, enquanto ele continuava parado ali, mas sabia, enquanto olha­va para ele, que desejava aquele homem desesperadamente. Tinha-se apaixona­do por seu captor, o Tenente Manfred Von Tripp. Porém, enquanto olhava para ela, ávida e tristemente, ele se deu conta de que cometera um engano ter­rível, e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, já se virará e se dirigia apressadamente para a porta.

— Manfred... o que está fazendo... onde...

Ele se voltou para olhar para ela.

— Desculpe... não devia... não sei o que...

Mas ela lhe estendia os braços. Não os braços de uma criança, mas de uma mulher. E ele se virou lentamente para ficar cara a cara com ela. Dirigiu-se para ela com um sorriso meigo e sacudiu a cabeça.

— Não, Ariana... você não passa de uma criança. Eu... não sei o que aconteceu. Fiquei deitado na cama pensando em você durante horas e... acho que perdi o juízo, por um momento.

Ela desceu mansamente da cama então, e ficou parada ali, esperando que ele viesse a seu encontro, esperando que compreendesse. Olhou-a com ar espantado, enquanto a jovem ficava parada ali, de camisola de flanela branca e com um pequeno sorriso.

— Ariana? — Não podia acreditar no que estava enxergando nos seus olhos. — Querida?... — Foi o mais leve dos murmúrios, enquanto veio para junto dela e a tomou nos braços, e a boca da moça encontrou a dele, e ela se aninhou nos seus braços.

— Eu o amo, Manfred.

Não soubera até aquele momento que era verdade, mas enquanto ele a apertava contra o coração que batia alucinadamente, Ariana teve certeza. E minutos mais tarde, estavam deitados juntos, e ele a possuiu com a ternura de um homem muito apaixonado. Amou-a hábil e ternamente, de novo e mais uma vez.

Continuou assim até o Natal, enquanto Ariana e Manfred deleitavam-se no seu mundo particular. Ariana passava o dia todo na casa e no jardim, arrumando as coisas e lendo, e à noite eles jantavam tranqüilamente e depois ficavam um pouco ao pé do fogo, mas subiam muito mais rapidamente, agora que havia a atração das maravilhas que Manfred estava ensinando a Ariana na cama. Partilhavam um amor profundo e romântico, e a despeito da perda do pai e de Gerhard, Ariana nunca fora tão feliz na vida. Quanto a Manfred, voltara ao mundo dos vivos com vigor, alegria e humor. Aqueles que o tinham conhecido desde a morte dos filhos mal podiam acreditar que era o mesmo homem. Mas, nos dois últimos meses, ele e Ariana tinham sido infinitamente felizes, e agora somente a ameaça do Natal os preocupava um pouco, com fantasmas de vidas passadas, anos passados, que não mais estavam por perto para compartilhai a alegria recém-descoberta do jovem casal.

— Bem, o que vamos fazer quanto ao Natal? Não quero nenhum de nós dois ficando deprimido pensando no que não existe mais. — Manfred fitava-a com ar circunspecto, enquanto tomavam o chá da manhã, que agora era servi­do na cama. Naquela manhã fora a vez dele trazer a bandeja. — Ao invés disso, quero comemorar o que temos neste Natal, não chorar o que não temos. Por falar nisso, o que vai querer de Natal?

Ainda faltavam duas semanas, e o tempo tinha estado revigorante e gélido, nos últimos dias.

Ela sorriu para ele, recostada nos travesseiros, a expressão dos olhos uma carícia.

— Sabe o que quero de Natal, Manfred?

— O que, minha querida?

Mal podia manter as mãos longe dela quando estava daquele jeito, os cabelos louros espalhados à sua volta como fios de ouro, os seios delicados nus, a expressão dos olhos, um convite carinhoso.

— Quero um bebê. O seu bebê.

Por um instante, ele ficou quieto. Era uma coisa na qual havia pensado mais de uma vez.

— Fala sério, Ariana?

Mas ela ainda era muito jovem. Tanta coisa podia mudar. E depois da guerra... Não gostava de pensar nisso, mas podia ser que, quando ela não mais precisasse viver sob a proteção dele, talvez alguém mais moço aparecesse e... Detestava essa idéia.

Mas ela o fitava com ar sério.

— Não estou brincando, querido. A coisa de que eu mais gostaria seria o nosso filho.

Abraçou-a com força por um longo momento, sem conseguir falar. Era o que ele queria, algum dia. Mas ainda não. Não nessa época terrível.

— Ariana, minha querida, prometo-lhe que — afastou-se para olhar para ela meigamente — quando a guerra acabar, teremos um bebê. Você terá o seu presente de um filho.

— É uma promessa? — perguntou, sorrindo feliz para ele.

— Uma promessa solene.

Abraçou-o com força e deu aquela risada cristalina que ele amava tanto.

— Então, não quero mais nada de Natal. É só o que quero no mundo.

— Mas isso ainda não pode ter. — A alegria dela era contagiante e Man­fred agora também estava rindo. - Não existe mais nada que deseje?

— Não, exceto uma coisa — respondeu, feliz.

— O quê?

Mas ela ficou com vergonha de dizer. Falar em ter um bebê era uma coi­sa, mas pedir a um homem para se casar simplesmente não era de bom-tom. Então, a moça remanchou, brincou e não respondeu, e ele ameaçou de forçá-la a dizer até a noite. Mas Manfred também tinha suas próprias idéias, no to­cante ao casamento. Queria desesperadamente casar-se com Ariana, mas queria esperar até o país estar em paz novamente. A guerra não podia durar para sempre, e significaria muito para ele poder casar-se no castelo de sua família.

Mas tinha uma outra idéia no tocante ao Natal, e quando o dia de festa amanheceu, havia meia dúzia de caixas debaixo da árvore. Uma era uma suéter que Ariana tricotara para Manfred, outra era uma série de poemas que escrevera para ele e enrolara feito um canudo. E a terceira era uma caixa dos seus biscoitinhos favoritos, que ela dera um duro danado para acertar fazer, e finalmente conseguira que ficassem do jeito que ele gostava. Lebkuchen para o Natal, em todos os formatos tradicionais, alguns cobertos de chocola­te, outros não, salpicados com confeitos coloridos. Ficou profundamente emocionado, ao ver como ela se esforçara.

Os presentes de Manfred para Ariana eram um pouco menos caseiros, e ela sacudiu todas as caixas com expectativa e júbilo.

— O que devo abrir em primeiro lugar?

— A grande.

Na verdade, ele tinha mais duas outras grandes escondidas no armário do corredor, mas não quisera deslumbrá-la de uma só vez. 0 primeiro embrulho que ela abriu continha um belo vestido azul-gelo, que pendia dos seus ombros e dançava suavemente sobre a pele nua. Era de frente única, com um V baixo nas costas, e depois do seu inverno de saias ásperas, sapatos resisten­tes e suéteres pesadas, Ariana deu um gritinho de alegria ao ver o lindo vestido.

— Oh, Manfred, vou usá-lo hoje no jantar! — Mal sabia ela que isso era mais ou menos o que ele estava pretendendo. O segundo embrulho conti­nha um lindo colar de águas-marinhas para combinar com ele, e o terceiro um par de sapatos de noite prateados, absolutamente perfeitos. Enrolada em to­dos os seus presentes, Ariana ficou deitada na cama deles, tomando chá como se fosse champanha, e cantando numa voz rouca de barítono. Manfred riu para ela, satisfeito, e foi buscar o resto das caixas, onde estava um vestido de cashmere branco bem diferente das roupas que ela andava usando, e um de lã preta que facilmente se encaixaria no seu guarda-roupa antigo. Comprara-lhe um par de sapatos pretos, uma bolsa de crocodilo preta, e um casaco de lã preto perfeitamente simples, que ela vestiu encantada, experimentando um traje após o outro. — Ah, vou ficar muito elegante, Manfred! — Abraçou-o fortemente, e ambos riram de novo.

— Você já está elegante! — Ela estava usando o colar de águas-marinhas, as sandálias prateadas, e o casaco preto novo, e mais a roupa de baixo de renda branca. — Na verdade, diria que está sensacional! Mas está faltando uma coisa...

Começou a remexer no bolso do roupão de banho procurando o último presente, este escondido numa caixinha muito pequena. Jogou-o dentro das mãos abertas da moça, e depois se recostou na cabeceira da cama, com um largo sorriso.

— O que é?

— Abra para ver.

Abriu-o lenta e cuidadosamente, e quando a caixa estava aberta na mão, nos olhos dela havia a alegria de quem é amada. Era um lindo anel de noivado de Louis Werner, do Kurfürstendamm.

— Ah, Manfred, você é maluco!

—  Sou? É que pensei que, se você está querendoter um bebê umdia, podiaser interessante ficarmos noivos, antes.

— Ah, Manfred, é tão lindo!

— E você também.

Enfiou o diamante redondo no dedo dela, enquanto Ariana ficava ali, sorrindo para o anel, vestida de modo extravagante, com o traje improvisado da montanha de presentes que ele lhe dera.

Ela se apoiou num dos cotovelos, enquanto ambos ficavam sentados por ali.

— Gostaria que pudéssemos sair para eu poder exibir todas as minhas coisas bonitas. — Mas aquilo foi dito pensativamente, sem grande urgência.

Nos últimos três meses, tinham-se contentado apenas em dar passeios por Wannsee ou um dos outros pequenos lagos. Lá uma vez ou outra iam almoçar num restaurante, mas na realidade viviam como ermitães, e sentiam-se mais felizes em casa, um com o outro. Mas ele lhe havia comprado coisas tão bonitas para usar, que de repente ela se sentiu tentada a enfrentar o mundo de novo.

— Gostaria mesmo disto? — perguntou, Manfred,  cautelosamente.

Ela fez que sim, entusiasmada.

— Gostaria.

— Há um baile esta noite, sabe, Ariana.

— Onde?

Na realidade, havia diversos. Dietrich Von Rheinhardt estava dando uma festa, assim como o General Ritter, na antiga casa do pai dela. Havia mais uma no quartel-general, e mais outras duas festas grandes dadas pelas altas patentes. Podiam ir a qualquer uma delas. Apenas a de Ritter era que Manfred estava an­sioso para evitar. Porém, excetuando aquela, Manfred lhe apresentou a lista, e escolheram três.

— Vou usar meu vestido azul novo e meu colar... e meu anel de noiva­do. — Sorriu para ele, radiante, e depois se lembrou de uma coisa que jamais lhe mostrara antes.

— Manfred? — Olhou para ele, hesitante.

— Sim, meu amor? — O rosto dela ficara tão sério de repente que ele não tinha certeza do que pensar. — Algum problema?

— Você ficaria zangado, se eu lhe mostrasse uma coisa?

Ele sorriu da pergunta.

—  Só vou saber depois que você me mostrar.

— Mas, e se você ficar zangado?

— Eu me controlo.

Ela foi até o quarto que antes fora o seu e voltou com o livro do pai.

— Vai ler Shakespeare para mim agora? Na manhã de Natal? - indagou ele, afundando na cama com um gemido.

— Não brinque, Manfred. Ouça... tenho uma coisa para lhe mostrar. Lembra-se do dia em que me levou a Grunewald, e eu peguei o livro do papai? Bem, na noite em que meu pai foi embora com Gerhard e... — Por um mo­mento, os olhos ficaram tristes, os pensamentos voltados para seu íntimo. Há muito tempo que lhe tinha contado tudo, e segurando o livro na mão, con­tinuou: — Meu pai me deixou isto aqui, para o caso de vir a precisar, se algu­ma coisa desse errado. Eram da minha mãe.

Sem mais delongas, abriu o compartimento secreto e revelou os dois anéis, o de sinete de diamante e o de esmeralda. Não ousara incluir a pequena arma que o pai lhe dera. Quando tirara o livro, empurrara o revólver bem para o fundo da prateleira. Ser apanhada ocultando uma arma significaria morte imediata. Mas os anéis eram o seu tesouro... tudo o que lhe restava. Sem esperar o que ela lhe iria mostrar, Manfred soltou uma exclamação abafada.

— Meu Deus, Ariana! — E depois: — Alguém sabe que você está com isto? — Mas é claro que ninguém sabia. Ela sacudiu a cabeça. - Devem valer uma fortuna.

— Não sei. Papai disse que ajudaria, se eu tivesse que vendê-los.

— Ariana, quero que esconda este livro de novo. Se alguma coisa der errado, se a guerra terminar e não vencermos, esses anéis poderão comprar sua vida, algum dia, ou levá-la para algum lugar onde possa ser livre.

— Você está falando como se fosse abandonar-me — disse ela com os olhos grandes e tristes.

— Claro que não, mas qualquer coisa pode acontecer. Podemos ficar separados, por algum tempo. — Ou ele podia ser morto, mas não quis falar dis­so na manhã de Natal. — Guarde-os bem. E já que é tão boa para guardar se­gredos, também, Fráulein Von Gotthard — olhou para ela, numa repreensão simulada — acho que devia tomar conhecimento disto. — Sem maiores expli­cações, puxou uma gaveta, tirou-a do lugar e mostrou a Ariana onde escon­dera dinheiro e uma pequena arma, com aparência de eficaz. — Se precisar disto, Ariana, sabe onde está. Quer botar os anéis aí junto, também?

Ela fez que sim, e os dois guardaram os anéis da mãe dela, e Ariana ficou olhando feliz para o seu próprio. No dia de Natal de 1944, Ariana Alexandra von Gotthard ficara noiva do Tenente Manfred Robert Von Tripp.

 

A noite deles começou no Ópera, no largo bulevar que Ariana tanto amava, Unter der Iinden, sua extensão ladeada de árvores inter­rompida apenas pelo Portão Brandenburg, que ficava diretamente à frente.

Manfred observou com prazer enquanto ela saltava do carro, o vestido azul-claro pendendo do corpo como uma lâmina de gelo, as águas-marinhas dançando no pescoço. Era a primeira vez em meses que Ariana usava roupas que lembravam até mesmo de leve as antigas, e por uma noite era maravilhoso esquecer as tragédias do ano que passara.

Agarrava-se a ele com força, enquanto atravessavam um mar de fardas, rumo àquelas de mais alta patente, às quais Manfred tinha que prestar homenagem antes de se reunirem aos outros para aproveitar o baile. Manfred apre­sentou-a com ar circunspecto a dois generais, vários capitães e um punhado de coronéis que conhecia, fazendo de cada vez uma apresentação formal, en­quanto Ariana se mantinha imóvel, a cabeça ereta, a mão estendida. Teria sido motivo de orgulho para qualquer homem, e o coração de Manfred se dila­tava, feliz, ao ver sua classe. Esta era sua primeira vez sob o escrutínio de me­tade dos oficiais superiores do Reich. Embora fosse princesa cativa, todos es­tavam um pouco intrigados, e ela sabia. Apenas Manfred soube como estivera amedrontada no começo da noite, enquanto sentia sua mão tremer na dele, ao conduzi-la para o salão de baile, a fim de valsarem.

—  Está tudo bem, querida, você estará sempre segura comigo. — Sorriu para ela docemente, e o queixinho dela se ergueu ainda mais um pouco.

—  Sinto como se todos me estivessem fitando.

—  Apenas porque você é tão linda, Ariana.

Mas ela sentia, mesmo enquanto dançava com ele, que jamais se sentiria completamente segura de novo. Eles podiam fazer qualquer coisa, tirar sua casa de novo, matar Manfred, trancafiá-la numa cela. Mas era absurdo pensar assim... era Natal, e ela e Manfred estavam dançando... e então, de repente, enquanto rodopiavam pelo salão, ela se lembrou e seus olhos riram de novo, fitando os dele.

— Sabe, vim ao meu primeiro baile aqui! Com meu pai. — Seus olhos brilhavam, lembrando-se da noite em que tinha estado ali, tão entusiasmada e cheia de admiração.

— Ah fraulein, devo ficar com ciúmes?

— De modo algum. Eu só tinha dezesseis anos. — Olhou para ele imperiosamente, e Manfred achou graça.

— Claro, que tolice da minha parte, Ariana. Você é tão mais velha, agora.

E era, de muitas maneiras. Era uma vida inteira mais velha do que a mo­cinha que, há apenas três anos, dançara naquele mesmo salão, nas suas cama­das de organdi branco e flores no cabelo. Parecia há mil anos. Enquanto ela se recordava, sonhadoramente, alguém tirou o retrato deles. Ela deu um salto, surpresa, e fitou os olhos dele, piscando.

— O que foi isso?

— Tiraram uma foto nossa, Ariana. Está tudo bem. — Era costume tirar dúzias de fotos dos oficiais e suas acompanhantes em cada festa, cada baile. Eram publicadas nos jornais, expostas nos clubes de oficiais, e tiravam-se cópias para mandar para os parentes. — Você se importa, Ariana?

Por um momento, o desapontamento ficou expresso nos olhos dele. Seis meses antes teria ficado lívido, se tivessem tirado o seu retrato com qual­quer mulher, mas agora queria uma fotografia deles, como se o fato de ver seus rostos diante de si, no papel, fosse fazer tudo parecer mais real. A moça compreendeu a expressão dos olhos dele rapidamente, e inclinou a cabeça com um pequeno sorriso.

— Claro que está bem. Só fiquei surpresa. Vou poder ver as fotografias? Ele fez que sim, e ela sorriu.

Ficaram no Ópera por mais de uma hora, e depois, olhando para o relógio, ele murmurou no ouvido dela, e foi pegar seu agasalho. Esta fora apenas a primeira parada da noite, e o compromisso mais importante na sua agenda ainda estava por vir. Ele quisera que ela se acostumasse ao mar de fardas a seu redor, às miradas curiosas, aos flashes que faziam com que pontinhos pretos ficassem dançando diante dos seus olhos, porque na festa seguinte ainda seria observada mais atentamente. Como sua noiva seria alvo de considerável escru­tínio, e ele desconfiava de que o Führer também comparecesse.

Quando chegaram ao Palácio Real, Manfred notou imediatamente a Mercedes 500 K preta de Hitler. Havia dúzias de guardas especiais cercando o palácio, e uma vez dentro do esplendor espelhado e dourado da antiga Sala do Trono, Manfred sentiu Ariana apertar com mais força seu braço. Deu uma palmadinha suave na sua mãozinha e olhou-a com um sorriso carinhoso. Um após outro, ele foi fazendo as necessárias apresentações, caminhando lentamente por entre as filas de fardas, apresentando-a aos generais e suas esposas ou amantes. Observando-a inclinar a cabeça muito ligeiramente e estender a mãozinha graciosa, ele sentiu o coração se dilatar. Até que finalmente chegaram a um rosto conhecido, e o General Ritter agarrou a mão jovem e delicada.

— Ah, Fráulein Von Gotthard... que surpresa agradável. — Lançou-lhe um olhar de júbilo, e depois uma mirada de breve reprovação para Manfred, a seu lado. — Tenente. — Manfred bateu os calcanhares e fez uma reverência.

— Gostaria de nos fazer companhia mais tarde, fráulein. Vamos ter uma pequena ceia em minha casa.

Na casa "dele". Manfred viu os olhos dela começarem a dançar de raiva, e ele apenas apertou a pressão na sua mão esquerda, e depois enfiou-a tran­qüilamente no braço, para que o general pudesse ver com facilidade o anel de diamantes.

— Lamento, General — a voz de Manfred era toda doçura — minha noi­va e eu já temos um compromisso para esta noite, mas quem sabe — falava reverentemente, com um sorriso esperançoso — uma outra vez?

— Claro, Tenente. E... disse sua noiva? — Fez a pergunta para Manfred, mas seus olhos não deixavam os de Ariana enquanto falava. Ela podia sentir os olhos do homem quase a despindo; ficou toda arrepiada, mas fingiu não notar.

Mas desta feita Ariana falou antes de Manfred, os olhos fixando os do general, o tom de voz polido mas frio.

— Sim, agora estamos noivos, General.

— Que ótimo. — Encrespou o lábio. — Seu pai ficaria muito satisfeito.

— Não tão satisfeito quanto ficaria em ter o senhor na casa dele, caro Gene­ral... filho da mãe nojento... Teve vontade de bater nele, enquanto sorria para aquele rosto repulsivo. — Posso dar-lhes os parabéns?

Manfred curvou-se de novo e Ariana meneou a cabeça modestamente, antes de se afastarem.

— Acho que nos saímos muito bem — disse Ariana, olhando para Man­fred com um pequeno sorriso.

— Foi, é? — Estava achando graça e, ao mesmo tempo, loucamente apaixonado por ela. Era formidável sair com ela. — Está se divertindo, Ariana? — Olhou para ela, cheio de interesse, os olhos deixando transparecer o orgulho que sentia em estar com ela.

Ariana retribuiu o olhar de prazer, e meneou a cabeça.

— Sim, estou.

— Ótimo. Então, na segunda-feira, iremos fazer compras.

— Santo Deus, para quê? Você me deu três vestidos e um casaco hoje de manhã... e um colar... e sapatos e um anel de noivado. — Foi enumerando nos dedos, feito uma criança.

— Não se incomode, fráulein. Acho que está na hora de você e eu começarmos a sair.

Contudo, mal acabara de falar, quando um silêncio estranho se fez na sala, e a distância podiam ouvir as bombas. Até mesmo na noite de Natal a guerra estava com eles, e Manfred se pegou imaginando que lindo monumento, que linda casa, os filhos de quem, acabavam de ser destruídos. Mas o bom­bardeio parou rapidamente, e ninguém teve que fugir para o abrigo debaixo do prédio, e a música voltou a tocar. E todos continuaram a fingir que esta era uma noite de Natal como qualquer outra. Mas o Grosses Schauspielhaus tinha sido destruído recentemente, e havia outros prédios e igrejas que de­sapareciam agora, quase todo o dia. Há cerca de um ano, muitos berlinenses iam para a cama completamente vestidos e com malas ao lado das camas, prontos para uma rápida viagem para os abrigos, onde muitos deles passavam quase todas as noites. Os Aliados não iam diminuir a pressão agora, e aquilo assustava Manfred terrivelmente. E se Berlim fosse outra Dresden? E se alguma coisa acontecesse a Ariana, também, antes do término da guerra? Porém, a seu lado, a jovem pressentiu instantaneamente os seus sentimentos, e tomou-lhe rapidamente a mão, segurando-a com força, os lindos e profun­dos olhos azuis fitando-o para tranqüilizá-lo, a boca sensual e doce. Olhando para ela, Manfred pôde apenas sorrir.

— Não se preocupe, Manfred, tudo vai dar certo.

Ele sorriu lentamente, olhando para ela.

— Na segunda-feira, iremos fazer compras.

— Está bem, se isso o faz sentir melhor. — E depois ficou na pontinha dos pés e sussurrou no ouvido dele: — Podemos ir para casa, agora?

— Já? — A princípio pareceu surpreso, depois abriu um sorriso, sussur­rando de volta para sua princesinha. — Não tem vergonha, fraulein!

— Nenhuma. Prefiro muito mais ficar em casa com você, do que aqui esperando para ver o Führer.

Mas ele levou o dedo aos lábios.

Afinal de contas, eles o viram assim mesmo. Entrou na sala cercado por seus asseclas pouco antes de ambos se retirarem, um homem pequeno de cabe­lo escuro e bigode, e aparência pouco atraente, mas mesmo assim uma corren­te de eletricidade percorreu toda a sala. Ariana podia sentir os corpos se retesando, vozes se erguendo, e subitamente se ouviu um entoar alucinado de "Salves" ao Führer, e ela ficou olhando atônita enquanto a multidão de ho­mens fardados e mulheres de vestidos de baile ficava enlouquecida. Ela e Manfred permaneceram até o frenesi terminar e a multidão ter-se acalmado e estar-se divertindo de novo, e então, lentamente, foram abrindo caminho por entre a multidão. Foi perto da porta que alguém a tocou, apenas um breve toque no braço, e enquanto se virava, viu Manfred ficar pronta e feroz­mente em posição de sentido, o braço direito erguido. E ela compreendeu en­tão que fora Hitler quem a tocara, e agora ele sorria benignamente, e seguia seu caminho, como se tivesse dado uma bênção. Então, rapidamente, ela e Manfred se retiraram. Por um longo momento, ficaram calados, e então, já dentro do carro dele, ela falou finalmente:

— Manfred, eles quase ficaram malucos.

— Eu sei. Sempre ficam. — E então se virou para ela. — Nunca o tinha visto antes em pessoa?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não. Papai não queria que eu me envolvesse em nada disso. — E então se arrependeu de ter falado... talvez Manfred tomasse aquilo como reprovação à sua pessoa. Mas ele concordou comum gesto, rapidamente. Compreendia.

— Estava certo. E seu irmão?

— Mantinha-o longe de tudo, o máximo que podia. Mas acho que tinha medo de modo diferente, por minha causa.

— E com toda a razão. — Rodou por mais um minuto, e depois se voltou para Ariana de novo. — Sabe o que vão fazer na festa do General Ritter, hoje à noite? Vai haver dançarinas exóticas e travestis para divertir os con­vidados. Hildebrand me contou que isso já faz parte das festas dele. — Uma expressão de nojo apareceu no rosto dele.

— O que são dançarinas exóticas e travestis? — Recostou-se no banco do carro com os olhos arregalados e curiosos de uma criança, e Manfred achou graça.

— Oh, minha querida inocente, eu a amo. — Era em momentos como esse que ele se lembrava que Ariana era apenas cinco anos mais velha do que seu filho mais velho seria. — Uma dançarina exótica é uma mulher nua que dança de maneira provocante para divertir os outros, e um travesti é um ho­mem que se faz passar por mulher, geralmente de roupas de baile. Eles dan­çam e cantam e podem ser bem sugestivos.

Mas Ariana estava rindo, enquanto olhava para o rosto dele.

— Não são terrivelmente engraçados?

— Às vezes, mas geralmente não — disse ele, dando de ombros. — Ritter não apresenta os "engraçados", mas sim os bons. E quando terminam de se apresentar, todo mundo... — Subitamente, lembrou-se de que estava falando com ela. — Deixe para lá, Ariana. É uma diversão muito repulsiva. Não a quero envolvida em nada disso.

E estava havendo mais e mais festas daquele tipo, ultimamente. Não apenas na casa de Ritter, em Grunewald; os outros estavam-se dedicando às mesmas extravagâncias. Como se a cada dia que passasse, com a guerra que os cercava ficando pior, tivessem que se entregar às suas fantasias mais escanda­losas, e ir a extremos mais e mais indecentes. Não era aquilo que ele queria apresentar-lhe, agora. Mas, tendo saído com ela naquela noite, voltou a sentir o prazer de freqüentar recepções com uma bela mulher pelo braço, passean­do em meio a olhares de admiração, vendo-a brilhar de uma maneira especial. Aquilo tornava seu isolamento na casa de Wannsee ainda mais precioso, e no entanto, subitamente, estava gostando também da idéia de sair com ela.

— Não está desapontado de perder as outras festas hoje, Manfred? Feliz, ele sacudiu a cabeça.

— Havia uma no Palácio de Verão em Charlottenburg que poderia ter si­do boa. Mas, na verdade, sei de uma festa muito melhor em Wannsee. — Olhou para ela, carinhosamente, e ambos sorriram.

Subiram as escadas rapidamente e caíram felizes nos braços um do ou­tro, na cama grande e confortável.

Na manhã seguinte, ao café, Ariana estava pensativa, e Manfred olhou para ela sossegadamente. Era domingo, e ele não tinha que ir trabalhar. Hildebrand estava de serviço, naquele domingo.

Foram dar um longo passeio no Tiergarten. Ele a convenceu a experimentar patins de gelo no Neuer See, e juntos deslizaram no gelo como crian­ças sorridentes, por entre as mulheres bonitas e os homens fardados. Era difí­cil acreditar que ainda estavam em guerra.

Depois, Manfred levou-a a um café no Kurfürstendamm, que sempre pa­recia a Ariana exatamente como o Champs-Elysées em Paris, onde estivera an­tes da guerra com Gerhard e o pai, numa curta viagem. No café, os dois se sen­taram entre os poucos artistas e escritores que ainda restavam em Berlim. Ha­via muitos homens fardados, mas a atmosfera era jovial e Ariana abafou um bocejo feliz, enquanto se sentavam no café aconchegante.

— Cansada, querida? — Sorria para ela, quando, subitamente, a distân­cia, puderam ouvir o barulho das bombas. Retiraram-se e foram rapidamente para o carro.

Enquanto rodavam pelo Kurfürstendamm, voltando para Wannsee, Ariana aconchegou-se mais a ele e enfiou a mão no seu braço.

— Está vendo aquela igreja, Manfred? — Apontou, e por um instante ele tirou os olhos da estrada. Era a conhecida Igreja Memorial Kaiser Wilhelm, no Kurfürstendamm.

— Sim? Está-se sentindo religiosa a esta hora da noite? — Implicou com ela, e ambos sorriram.

— Só queria que você soubesse que aquela é a igreja onde quero casar-me com você, algum dia.

— Na Kaiser Wilhelm?

— Sim. — E Ariana olhou de novo para o lindo anel de diamante. Manfred rodeou-lhe os ombros com o braço, meigamente.

— Não vou-me esquecer, meu amor. Feliz? — Olhou para ela, na escuri­dão. As bombas tinham cessado, ao menos por algum tempo.

— Jamais tão feliz em toda a minha vida.

E quando receberam as fotos dos bailes da noite de Natal, era fácil ver que estava dizendo a verdade para Manfred, quando dizia que era feliz. O rosto se abria num largo sorriso para a câmara, a cabeça erguida, os olhos brilhando de amor, enquanto, logo atrás dela, Manfred, em uniforme de gala, fitava a câmara com orgulho indisfarçável.

 

No final da semana de Natal, ante a insistência de Manfred, foram fazer compras no centro de Berlim, na Grunfeld's. Tinha que comprar mais roupas para ela. O Capitão Von Rheinhardt o esta­va pressionando para sair do isolamento e se reunir a seus camaradas do Reich.

— Ele estava zangado, Manfred? — Ela parecia preocupada enquanto se dirigiam para o centro, mas Manfred apenas deu-lhe uma palmadinha na mão e sorriu.

— Não, mas suponho que passei o máximo de tempo possível como ermitão. Agora não dá mais. Não precisamos sair todas as noites, mas devemos começar a aceitar alguns convites para jantar. Acha que vai agüentar?

— Claro. Podemos ir ver os travestis do General Ritter? — Estava com um ar travesso, e ele não pôde reprimir uma risada.

— Ariana, francamente!

Eles saíram cambaleando da loja três horas mais tarde, tão carregados de caixas que mal conseguiram chegar ao carro de Manfred. Outro casaco, uma jaquetinha, meia dúzia de lindos vestidos de lã, três vestidos toalete e mais um de baile, e um terninho de noite divino, que parecia um smoking masculino, exceto que no lugar da calça havia uma longa saia justa com uma fenda do lado. E, em honra da memória da mãe dela, compraram também um vestido longo e justo de lamê dourado.

— Meu Deus, Manfred, onde vou usar isto tudo?

Ele a mimara completamente. Sentia como se tivesse uma esposa de novo, uma mulher para mimar e adorar, para vestir e proteger e divertir. Não eram de maneira alguma estranhos um para o outro, e ela se sentia mais à vontade com Manfred do que com qualquer pessoa na vida.

Teve muitos lugares para usar as roupas. Foram a vários concertos na Filarmônica, a uma recepção oficial no Reichstag para o Parlamento e obsequiaram oficiais que serviam em Berlim; houve uma festa no Castelo de Bellevue e vários pequenos jantares perto da casa deles em Wannsee, onde outros ofi­ciais haviam buscado acomodações mais tranqüilas do que teriam encontrado.

 Do centro da cidade. Aos poucos, Ariana e Manfred foram-se tornando um casal aceito, e todos já sabiam que eles se casariam depois da guerra.

— Para que esperar, pelo amor de Deus, Manfred? Por que não se casa agora? — disse um outro tenente, seu colega, levando-o para um canto num dos jantares a que compareceram.

Mas Manfred apenas soltou um suspiro e fitou o anel de sinete de ouro que usava na mão esquerda.

— Porque ela é muito jovem, Johann; não passa de uma criança. — Sol­tou outro suspiro. — E estamos vivendo numa época especial. Ela deve ter a oportunidade de tomar essa decisão numa época normal. — E depois, sacudin­do de leve a cabeça. — Se é que vamos voltar a viver uma época normal.

— Tem razão, Manfred. A época não é boa. Por este motivo, acho que você seria mais sensato, se se casasse com Ariana agora. — Baixou a voz, em tom conspiratório. — Não podemos agüentar para sempre, Manfred.

— Os americanos? Johann sacudiu a cabeça.

— Estou muito mais preocupado com os russos. Se eles chegarem aqui primeiro, estaremos mortos. Sabe lá Deus o que farão conosco, e mesmo que consigamos sobreviver, poderão mandar-nos a todos para campos de concen­tração. Mas vocês poderão ter uma leve chance de ficar juntos, se forem casa­dos. Também, do ponto de vista prático, os americanos poderão tratá-la me­lhor, se for a mulher legítima de um tenente do Exército alemão, ao invés de uma concubina.

— Acha que está tão ruim assim? — Fez-se um curto silêncio, enquanto Johann desviava os olhos.

— Acho que pode estar, Manfred. Acho que até mesmo os mais chega­dos ao Führer pensam assim, também.

— Quanto tempo mais acha que podemos agüentar?

O outro homem encolheu os ombros.

— Dois meses... três... se um milagre acontecer, talvez quatro. Mas está quase acabado. A Alemanha jamais voltará a ser como você e eu a conhecemos.

Manfred estava de acordo... aos seus olhos ela já não era há muito tem­po o país que amara. Quem sabe agora, se os Aliados não a destruíssem total­mente, teria a oportunidade de renascer.

Durante os dias que se seguiram, Manfred tomou informações discretas. A informação de Johann foi confirmada por todas as pessoas influentes que Manfred conhecia. Não era mais uma questão de se Berlim cairia, mas quan­do. Manfred se deu conta de que tinha que fazer planos.

Algumas perguntas nos ouvidos certos fizeram aparecer o primeiro artigo da sua lista de compras. Ele o trouxe para Ariana dali a dois dias, e ela deu um gritinho de alegria.

— Manfred, adorei! Mas você não vai ficar com sua Mercedes?

Era um feioso Volkswagen cinzento, com três anos de uso, um dos pri­meiros a ser fabricado em 1942. O homem de quem o comprara insistia que era de confiança e útil. Só que ele não mais precisava dele, pois perdera ambas as pernas num ataque aéreo, no ano anterior. Manfred não contou a Ariana o motivo pelo qual o carro estava à venda. Simplesmente, deixou entender que concordava e abriu a porta para que ela entrasse.

— Sim, vou ficar com a Mercedes. — E depois de um momento: — Aria­na, este é para você.

Deram uma volta no quarteirão, e ele ficou convencido de que ela sabia lidar com o carro direitinho. Há um mês que a ensinava a guiar a Mercedes, mas este era um carro muito mais fácil de dirigir. Manfred estava com ar sério, quando pararam de novo diante da casa deles. Ariana pressentiu logo seu esta­do de espírito. Suavemente, tocou-lhe a mão.

— Manfred, por que o comprou? — Desconfiava da verdade, mas queria ouvi-la de sua boca. Estavam de partida? Iam fugir?

Ele se virou lentamente para ela, com uma expressão de dor e preocupa­ção nos olhos.

— Ariana, acho que a guerra vai terminar logo, o que será um alívio pa­ra todos. — Antes de continuar, tomou-a nos braços e apertou-a com força. — Mas antes que termine, minha querida, as coisas podem ficar muito duras para nós. Berlim pode ser ocupada. O Exército de Hitler não vai ceder com facilidade. Não vai ser outra Anschluss, ou quando tomamos a França. Os ale­mães lutarão até a morte, assim como os americanos e os russos... Este final poderá ser uma das batalhas mais sangrentas da guerra.

— Mas nós estaremos a salvo aqui juntos, Manfred. — Não gostava quan­do ele ficava com medo, e podia sentir agora que estava.

—  Talvez; mas talvez não. Porém, não quero arriscar-me. Se houver algu­ma coisa, se a cidade cair e for ocupada, se algo me acontecer, quero que pe­gue este carro e saia. Vá até onde puder. — Falou com determinação férrea, e um súbito horror brotou nos olhos de Ariana. — E quando não puder mais dirigir, deixe o carro e comece a andar.

—  E deixar você? Está maluco? Aonde eu iria?

— Para qualquer lugar que conseguir alcançar. A fronteira mais próxima. Talvez a Alsácia, e de lá você poderia entrar na França. Pode dizer aos ameri­canos que é alsaciana, se for preciso. Eles não notarão a diferença.

— Para o diabo com os americanos, Manfred. E quanto a você?

— Eu virei a seu encontro. Depois que tiver acertado as coisas por aqui. Não posso fugir, Ariana. Tenho um dever a cumprir. Apesar de tudo... sou um oficial.

Mas ela sacudiu a cabeça enfaticamente e depois agarrou-se a ele, abraçando-o com mais força do que jamais o fizera.

— Não vou deixá-lo, Manfred. Nunca. Não me importo se me matarem, não me importo de Berlim desabar sobre minha cabeça, jamais vou deixá-lo. Vou ficar com você até o fim, e eles podem nos levar embora juntos.

— Não seja tão dramática. — Deu-lhe uma palmadinha suave e abraçou-a.

 Sabia que o que estava dizendo a assustava, mas precisava ser dito. Haviam transcorrido três meses desde o Natal, e a situação havia piorado considera­velmente. Os ingleses e os canadenses tinham chegado ao Reno, e os america­nos estavam em Arbrucken.

— Mas já que está tão resolvida a não me dei­xar... — Sorriu para ela, docemente. Tinha decidido seguir o conselho de Johann. Era possível que, para a segurança dela, aquilo fizesse diferença, e por este motivo não iria perder mais tempo. — Já que é tão tremendamente tei­mosa, mocinha, e parece que estamos metidos nisto juntos, e definitivamente — abriu um sorriso para ela — será que posso convencê-la a se casar comigo?

— Agora? — Fitou-o, chocada. Sabia como Manfred se sentia quanto a esperar, mas enquanto ele acenava com a cabeça, Ariana também sorriu. Não procurou mais por um motivo, além do que via nos olhos dele.

— Sim, agora. Estou cansado de esperar por torná-la minha mulher.

— Oba! — abraçou-o com força, bateu-lhe nas costas, toda feliz, depois se afastou de novo, a cabeça inclinada, os olhos brilhantes e infantis, a boca num largo sorriso. — Podemos ter logo um bebê?

Mas desta feita Manfred apenas achou graça.

— Ah, Ariana, querida... será que dá para esperarmos apenas alguns meses, até depois da guerra? Ou acha que estarei velho demais para ser pai, a essa altura? É por isso que está com tanta pressa, garotinha?

Sorriu para ela docemente, e Ariana retribuiu o sorriso e sacudiu a cabeça.

— Você nunca será velho demais, Manfred. Nunca. — E depois, tomando-o de novo nos braços, com força, fechou os olhos. — Sempre o amarei, meu querido, pelo resto da minha vida.

— Também sempre a amarei.

Disse as palavras, rezando para que ambos sobrevivessem ao que os esperava.

 

Dez dias mais tarde, no primeiro sábado de abril, Ariana caminhou lentamente pela nave da pequena Maria Regina Kirche, numa rua que dava para o Kurfürstendamm, de braço dado com Manfred Robert Von Tripp. Não havia ninguém para entregá-la ao noivo; não havia pa­drinhos, nem damas de honra. Havia apenas Manfred e Ariana, e Johann, que viera servir de testemunha.

Enquanto seguia pela nave da linda igrejinha na direção do idoso padre que os esperava no altar, Manfred podia sentir a leve pressão da mão dela no seu braço. Estava usando um costume branco simples, de ombros largos, que acentuava seu corpinho frágil. O cabelo louro estava preso num coque alto e frouxo que lhe emoldurava o rosto, e tinha colocado habilmente uma nu­vem macia de véu por trás do coque. Manfred jamais a vira tão linda, enquan­to descia a nave da igreja. Milagrosamente, ele conseguira desencavar algumas gardênias brancas; Ariana estava usando duas na lapela e uma no cabelo. Além disso, neste dia muito especial, trazia o anel de sinete de diamante da mãe na mão direita, além do anel de noivado que ele lhe dera na esquerda.

A aliança, que Manfred comprara para ela no Louis Werner, era de ouro e fininha. No final da cerimônia, ele a enfiou no dedo dela e depois a beijou com uma imensa sensação de alívio. Tinha acabado, estava feito. Ariana era agora Frau Manfred Robert Von Tripp, e não importa o que acontecesse a Berlim, aquilo lhe ofereceria alguma proteção. Somente agora, quando tudo acabou, foi que ele pensou na sua primeira mulher, Marianna, que parecia tão mais velha e forte do que esta mocinha delicada. Era como se isto fizesse par­te de uma outra vida. Sentia-se ligado a Ariana como nunca se sentira em rela­ção a ninguém e, enquanto a olhava nos olhos, podia perceber que ela sentia o mesmo.

— Eu a amo, querida — falou docemente para ela, enquanto entrava no carro dele.

Ariana virou-se para o marido com um sorriso que lhe iluminou o rosto de dentro para fora, e ela sabia que jamais tinham sido tão felizes, enquanto acenavam para Johann e se afastavam na direção de Kurfürstendamm, em bus­ca do restaurante onde Manfred havia prometido levá-la para a "lua-de-mel", antes de voltar para casa. Ariana olhou por cima do ombro para a igreja, quan­do estavam chegando no Kurfürstendamm, e se virou. Houve um ruído ensurdecedor e uma explosão à volta deles, e Ariana agarrou-se ao braço de Manfred, com terror e desespero. Voltou-se a tempo de ver a igreja explodir em um milhão de pedaços às costas deles, e Manfred pisou com força no ace­lerador, mandando que se agachasse no chão do carro, para a eventualidade de os destroços dos outros prédios arrebentarem o pára-brisa e lhe cortarem o rosto.

— Fique abaixada, Ariana! — Estava dirigindo depressa, e ziguezagueando terrivelmente, para evitar os pedestres e os caminhões do corpo de bombeiros que passavam a toda. A princípio, Ariana ficou aturdida demais até para reagir, mas depois, quando se deu conta de que haviam escapado da morte apenas por segundos, começou a chorar baixinho. Mas já estavam quase em Charlottenburg, quando Manfred parou o carro. E quando o fez, inclinou-se e a puxou para seus braços. — Ah, querida, lamento tanto...

— Manfred... nós podíamos... a igreja. — Soluçava histericamente.

— Está tudo bem, minha querida, acabou... Acabou... Ariana...

— Mas, e Johann? Acha que...

— Estou certo de que já tinha se afastado tanto quanto nós. — Mas, intimamente, Manfred não tinha tanta certeza quanto fingia ter. E quando conti­nuaram a rodar, alguns minutos mais tarde, sentiu uma onda de exaustão to­mar conta dele. Estava desesperadamente cansado da guerra. Todas as pessoas que se amava, todos os lugares que significavam alguma coisa, todas as casas e monumentos e cidades, destroçados.

Foram para casa em silêncio, Ariana quieta e trêmula a seu lado, no véu e lindo costume branco, as gardênias lançando o perfume exótico na direção dele. Manfred deu-se conta então de que a fragrância das gardênias sempre o faria recordar-se daquela noite, da noite do seu casamento e da fuga da morte por um triz. Subitamente, teve vontade de chorar, de alívio, de exaustão, de terror, de preocupação por esta mulher miúda e linda que acaba­ra de tomar sua. Ao invés disso, simplesmente abraçou-a com bastante força, tomou-a nos braços e levou-a para a casa deles. Subiu as escadas e entrou com ela no quarto, onde, desta vez, pensando apenas um no outro, abandonaram todo o cuidado, toda a reserva, toda a preocupação, e se fundiram num só.

 

— Encontrou Johann? — perguntou Ariana, olhando cheia de preo­cupação para Manfred, quando ele voltou do escritório, no dia seguinte.

— Encontrei, ele está bem — respondeu secamente, com medo de que ela descobrisse que estava mentindo. Na verdade, Johann morrera em frente à igreja, na noite anterior. Manfred ficara sentado no escritório, tremendo, durante uma hora, incapaz de aceitar que mais uma pessoa a quem estimava ti­nha partido. Com um suspiro, sentou-se pesadamente na sua cadeira favorita. — Ariana, quero falar-lhe sobre uma coisa muito séria.

A moça teve vontade de implicar com ele, para tirar um pouco daquela ansiedade terrível dos seus olhos, mas, enquanto olhava para Manfred, sabia que não havia razão para isso. A vida em Berlim era muito séria, atualmente. Sentou-se suavemente e fitou-o nos olhos.

— O que é, Manfred?

— Quero estabelecer um plano para você, para que saiba o que fazer, se alguma coisa der errado. Quero que esteja preparada o tempo todo, agora. E, Ariana... estou falando sério... precisa prestar atenção.

Ela sentou-se e o fitou nos olhos.

— Está certo, prestarei.

— Sabe onde guardo o dinheiro e a arma no quarto. Se alguma coisa ter­rível acontecer, quero que os pegue, e os anéis de sua mãe, e parta.

— Partir para onde? — perguntou, momentaneamente desconcertada.

— Para a fronteira... há um mapa no seu Volkswagen. E quero que dei­xe o tanque de gasolina sempre cheio. Tenho uma lata de reserva guardada na garagem para você. Encha o tanque antes de partir.

Ela concordou, detestando as instruções e explicações. Jamais iria a par­te alguma. Jamais o deixaria.

— Mas como acha que tudo isso vai acontecer? Eu simplesmente iria em­bora e o deixaria aqui, Manfred? — Era uma sugestão ridícula, jamais o faria.

— Ariana, talvez precise fazer isso. Se a sua vida estiver em jogo, quero que vá. Você não tem idéia de como ficará esta cidade, se for invadida pelas tropas aliadas. Haverá saques, pilhagens, assassinatos, estupros.

— Você faz isso parecer a Idade Média.

— Ariana, será o pior momento que este país já conheceu, e você fi­cará totalmente indefesa aqui, se por algum motivo eu não puder alcançá-la. Posso ficar retido no Reichstag, por exemplo, durante semanas... ou dias, pe­lo menos.

— E você acha mesmo que eles vão-me deixar sair daqui, naquele car­rinho ridículo, com os anéis de minha mãe e o seu revólver? Manfred, não seja maluco.

— Não seja maluca você, droga. Preste atenção! Quero que vá até onde puder no carro, e depois livre-se dele. Corra, ande, rasteje, roube uma bici­cleta, esconda-se no mato, mas dê o fora da Alemanha. Os Aliados já estão a oeste daqui, na fronteira francesa, e acho que você estará mais segura na Fran­ça. Poderá passar pelas linhas aliadas. Não creio que consiga mais chegar à Suíça. Quero que tente chegar a Paris.

— Paris? — Parecia aturdida. — Fica a novecentos quilômetros daqui, Manfred.

— Eu sei. E não importa quanto tempo leve para chegar lá, tem que che­gar. Tenho um amigo em Paris, um colega de escola. Pegou um caderninho e anotou um nome, cuidadosamente, num papel.

— O que o faz pensar que ainda esteja lá?

— Pelos relatórios que recebi nos últimos seis anos, diria que está. Ele teve paralisia infantil em criança, portanto esteve a salvo do Exército deles e do nosso. É Ministro Assistente da Cultura em Paris, e tem levado à loucura os nossos oficiais.

— Acha que faz parte da Resistência? — perguntou, intrigada.

— Conhecendo Jean-Pierre como conheço, diria que há uma possibili­dade disso. Mas, se faz parte, é esperto o bastante para ser discreto. Ariana, se alguém puder ajudá-la, será ele. E sei que cuidará de você para mim até que nos possamos reunir novamente. Fique em Paris se ele mandar, vá a qualquer lugar que ele achar conveniente. Confio nele profundamente. — Olhou para ela, com ar solene. — O que quer dizer que confio você a ele. — Entre­gou-lhe o papel com o nome: Jean-Pierre de Saint Marne.

— E depois? — Parecia infeliz, segurando o pedaço de papel, mas estava aos poucos começando a se perguntar se Manfred não estava mesmo com a razão.

— Você espera. Não vai demorar muito. — Sorriu meigamente. — Pro­meto. — E então sua fisionomia endureceu de novo. — Mas, de agora em dian­te, quero-a pronta o tempo todo. A arma, os anéis, o dinheiro, o endereço de Saint Marne, roupas quentes, comida o bastante para levar com você, e o tan­que de gasolina do carro sempre cheio.

— Sim, Tenente. — Ela sorriu docemente e bateu continência, mas ele não riu.

— Espero que nunca precisemos, Ariana.

Ela concordou com um aceno de cabeça, o sorriso desaparecendo, o olhar parado.

— Eu também. — E após algum tempo: — Quero tentar encontrar meu irmão depois da guerra. — Ainda acreditava que Gerhard havia escapado. O tempo e a distância tinham feito com que se desse conta do quão mais arris­cado fora para o pai, mas havia uma chance de que Gerhard tivesse escapado.

Manfred concordou compreensivamente.

— Faremos o máximo que puder.

Passaram o resto da noite tranqüilamente, e no dia seguinte foram dar um longo passeio na praia deserta que ficava por perto. No verão, a praia de Strandbad em Grosser Wannsee era uma das mais populares nas proximidades de Berlim. Mas agora parecia triste e vazia, enquanto Manfred e Ariana cami­nhavam pela areia.

— Quem sabe no verão que vem tudo terá acabado e poderemos vir para cá e relaxar — falou ela, sorrindo para Manfred, cheia de esperanças, e ele se abaixou para pegar uma concha. Entregou-a à mulher dali a um momento, e ela a examinou lentamente. Era lisa e bonita e tinha a mesma cor azul-acinzentada dos olhos dele.

— Espero que seja exatamente o que faremos, Ariana. — Sorriu para ela, enquanto olhava para as águas.

— Poderemos ir para o seu castelo?

Ele pareceu divertido com a expressão de naturalidade do olhar dela.

— Se eu já o tiver recebido de volta. Gostaria disso?

Ariana fez que sim com a cabeça.

— Muitíssimo.

— Ótimo. Então também iremos para lá.

Estava-se tomando um jogo, como se pudessem apressar o fim da guer­ra e o começo de sua própria vida, desejando que o pesadelo tivesse acabado e falando do que fariam "depois".

Mas, na manhã seguinte, como lhe prometera antes de ele sair para o tra­balho, Ariana reuniu as coisas que Manfred queria que mantivesse sempre em ordem — a arma, os anéis da mãe no seu esconderijo, um pouco de comida, algum dinheiro, o endereço do amigo francês — e foi verificar se o Volkswa­gen estava com o tanque cheio. Quando saiu, escutou a distância (mas não muito distante) o barulho de disparos de armas. Naquela tarde, as bombas foram lançadas mais para o centro da cidade. Manfred chegou em casa cedo. Como sempre, durante os ataques aéreos, ela estava esperando no porão, com o rádio e um livro.

— O que aconteceu? Falou no rádio que...

— Não importa o que o rádio disse. Está pronta, Ariana?

Ela fez que sim, apavorada.

— Estou.

— Tenho que ir para o Reichstag esta noite. Querem todos os homens disponíveis para defender o prédio. Não sei quando vou voltar. Você tem que ser uma mocinha, agora. Espere aqui, mas, se tomarem a cidade, lembre-se de tudo o que lhe falei.

— Como vou escapar, se tomarem a cidade?

— Eles deixarão os refugiados saírem, especialmente as mulheres e crian­ças. Sempre deixam.

— E você?

— Eu a encontrarei, depois que tudo estiver terminado. — Então, olhan­do para o relógio, subiu para buscar as suas coisas, e em seguida desceu de novo, lentamente. — Tenho que ir.

Ficaram agarrados silenciosamente por um momento interminável, e Ariana teve vontade de suplicar-lhe que não fosse. Para o diabo com Hitler, com o Exército, com o Reichstag, com tudo. Queria apenas que ele ficasse ali com ela, onde ambos estariam a salvo.

— Manfred...

Pelo pânico na voz dela, ele sabia o que vinha vindo. Silenciou-a com um longo e temo beijo, e sacudiu a cabeça.

— Não fale nada, minha querida. Tenho que ir, agora, mas logo esta­rei de volta. — As lágrimas escorriam dos olhos dela enquanto subia as esca­das com ele, e ficava parada ao lado da Mercedes. Ele se virou e enxugou-lhe as faces meigamente com a mão. — Não chore, minha querida, eu vou ficar bem, prometo.

Ariana jogou os braços à volta do pescoço dele.

— Se alguma coisa lhe acontecesse, Manfred, eu morreria.

— Nada vai acontecer, prometo. — E então, sorrindo para ele em meio à própria dor, tirou o anel de sinete do dedo e colocou-o na palma da mão da moça, fechando os dedos à volta dos dela. — Cuide disto para mim até eu voltar.

Sorriu docemente para ele, e os dois se beijaram por um longo tempo antes de Manfred tirar o carro da entrada, fazer-lhe um aceno, e voltar para o Reichstag em Berlim.

Dia após dia, ela ouvia as notícias no rádio, descrevendo as batalhas que eram travadas em cada esquina de Berlim. Na noite de 26 de abril, já sabia que todos os setores tinham sido afetados, Grunewald assim como Wannsee. Ariana não saía do porão há dias. Escutara os disparos e explosões a seu re­dor, e não ousara subir para o andar principal. Sabia que os russos estavam avançando pelo Schonhouserallee até o Stargardestrasse, mas o que não sabia era que por toda Berlim gente como ela estava bloqueada nos porões, a maio­ria sem comida, água ou ar. Não se fizeram planos para uma evacuação. Até mesmo as crianças estavam condenadas ao mesmo destino dos pais, presas co­mo ratos, esperando que tudo terminasse. E o que nenhum deles sabia era que o Alto Comando já tinha fugido de Berlim.

Na noite de 19 de maio, a morte de Hitler foi anunciada no rádio, enquanto a população escutava com estupefação sombria, à espera nos seus bura­cos escuros, nos porões, presa debaixo dos prédios, enquanto a batalha conti­nuava feroz, e a cidade ardia. Os Aliados aumentavam o fogo a um grau tre­mendo. Depois que a morte de Hitler foi anunciada, o som de Wagner e da Sétima Sinfonia, de Bruckner, encheu os ares no porão onde Ariana se escondia, transmitido pelo rádio. Parecia uma nota estranha, enquanto ela escutava os disparos e explosões a distância, lembrando-se da última vez que ouvira aquela sinfonia, com Gerhard e o pai, na Ópera, anos antes. E agora estava sentada, esperando que tudo se acabasse, imaginando onde estaria Manfred no holocausto que era Berlim. Mais tarde, na mesma noite, soube que a família Goebbels cometera suicídio, com os pais envenenando todos os seis filhos.

No dia dois de maio escutou a notícia do cessar-fogo dada em três idiomas no rádio. Não a compreendeu em russo, pareceu-lhe irreal em alemão, mas quando uma voz americana apareceu no rádio, dizendo-lhe num alemão hesitante que tudo tinha acabado, ela compreendeu finalmente. Mas ainda não fazia sentido para ela... ainda podia ouvir armas explodindo a distância, e a seu redor em Wannsee ainda podia ouvir a batalha continuando. Os céus agora estavam quietos; a batalha estava sendo travada a pé, en­quanto os saqueadores atacavam as casas à sua volta, embora no coração da cidade os berlinenses tivessem abandonado seus lares. Mas em Wannsee aquilo continuou por mais três dias, e depois fez-se um silêncio lúgubre, quando tudo pareceu parar. Pela primeira vez em semanas não houve ruído al­gum, exceto um disparo ocasional, e depois novamente o silêncio. Ariana fi­cou sentada, esperando, ouvidos atentos, sozinha na casa, quando o sol raiou na quietude lúgubre do dia cinco de maio.

Logo que o dia clareou, resolveu ir procurar Manfred. Se os Aliados tinham tomado a cidade, precisava saber onde ele estava. Ele não precisava mais defender o Reichstag... não havia mais um Reich para defender.

Pela primeira vez em dias, subiu as escadas que levavam a seu quarto e vestiu uma das saias feias e quentes, meias de lã e os antigos sapatos resis­tentes. Enfiou um suéter e agarrou uma jaqueta, empurrando o revólver de Manfred bem para o fundo do bolso e tampando-o com uma luva. Não faria mais nenhum preparativo. Ia apenas encontrar Manfred, e se não o encontras­se, voltaria para casa para esperar. Alguns minutos mais tarde, do lado de fora pela primeira vez em anos, ou assim lhe parecia, inspirou fundo e sentiu subi­tamente o cheiro acre da fumaça. Entrou no seu Volkswagen sem ser vista, li­gou o motor e pisou no acelerador.

Levou apenas 20 minutos para alcançar o centro da cidade, e, quando lá chegou, soltou uma exclamação abafada ante o que seus olhos viam. As ruas estavam cheias de destroços e entulho, não havia como passar. Ao primeiro olhar, parecia não haver sobrado nada. Olhando mais de perto, viu que ainda havia alguns prédios de pé, mas nenhum escapara das marcas da batalha que durara dias. Ariana ficou sentada, olhando incrédula para o que a rodea­va, e finalmente se deu conta de que era absurdo tentar passar de carro por aquela confusão. Dando marcha à ré lentamente, enfiou o carro num beco secundário, e tentou deixá-lo o mais escondido possível. Guardou as chaves no bolso, sentiu a arma ainda no seu esconderijo, apertou com mais força o lenço de cabeça, e saltou do carro. Só o que sabia era que tinha que encon­trar Manfred.

Enquanto caminhava na direção do Reichstag, apenas via levas de soldados americanos e ingleses passando apressadamente, e aqui e ali uma ilha de berlinenses curiosos, fitando-os dos vãos das portas, ou se apressando em deixar a cidade, e se perguntavam o que viria a seguir. E foi apenas muito mais tarde, quando se aproximou mais do Reichstag, que viu homens com fardas alemãs, amontoados, imundos, exaustos, esperando que os ônibus apareces­sem para levá-los, enquanto os americanos os vigiavam, com as metralhado­ras apontadas para eles, mas parecendo igualmente imundos e cansados. En­quanto Ariana os observava e tropeçava nas calçadas destruídas, deu-se conta até o âmago de como a luta fora dura.

Então fora isto o que acontecera a seu país, isto ao que os nazistas os haviam levado, no final das contas. Mais de 5.000 soldados tinham tentado defender o Reichstag e metade morrera. En­quanto ficava ali parada, sem saber para onde se dirigir, um segundo grupo de homens de fardas alemãs passou por ela. Ariana soltou uma exclamação aba­fada ao reconhecer Hildebrand — um dos olhos feridos e inchados, a cabeça sangrando, envolta numa atadura, o uniforme rasgado, o olhar perdido. Ela acenou desesperadamente para chamar-lhe a atenção e correu para perto dele. Sem dúvida saberia onde Manfred se encontrava. Foi instantaneamente deti­da por dois americanos com armas cruzadas para bloquear-lhe a passagem. Suplicou-lhes em alemão. Mas era óbvio que não arredariam pé. Ela berrou para Hildebrand, chamando seu nome com urgência, até que ele se virou.

— Onde está Manfred?... Hildebrand... Hildebrand... Hildebrand!... Onde está...

Os olhos dele dardejaram para a esquerda, e quando lhe acompanhou o olhar, Ariana ficou arrasada com o que viu. Uma pilha de corpos destroçados esperando que os caminhões viessem levá-los embora. As fardas estavam tão imundas que nem podiam ser reconhecidas, os rostos contraídos no ricto da morte. Caminhou lentamente naquela direção, e então, como se fosse seu des­tino encontrá-lo, enxergou o rosto familiar quase que imediatamente.

Seu coração soube antes da cabeça, e ela ficou ali parada, petrificada, incrédula, a boca aberta dando origem a um grito que não saía. Até mesmo o soldado americano não conseguiu fazer com que ela o deixasse. Ajoelhou-se ao lado dele e limpou a sujeira do seu rosto.

Ficou ali ao lado do marido durante quase uma hora, até que de repente, apavorada, compreendeu o que aquilo significava agora, e com um último beijo nos olhos adormecidos, tocou-lhe o rosto e fugiu. Correu com quantas forças tinha, e o mais depressa que podia, para o beco onde deixara o carri­nho engraçado. E, quando chegou lá, notou que dois homens já estavam me­xendo nele, tentando fazer o motor pegar sem usar a chave. De olhos aperta­dos e voz trêmula, tirou do bolso o revólver, apontando-o para os seus conter­râneos até que eles recuaram, de mãos erguidas. A seguir, Ariana entrou no carro, trancou as portas, ainda segurando a arma apontada para os dois ho­mens com uma das mãos, e com a outra deu partida no veículo. E então, forçando o carro ao máximo, saiu do beco de marcha à ré e se afastou.

Não tinha nada a perder, agora... nada pelo que viver... e enquanto rodava, podia ver os saqueadores, outros alemães, alguns soldados... alguns eram até russos. Sua cidade ia sofrer o diabo, de novo. E se a matassem, não havia problema, ela agora não estava mesmo se importando. Não fazia diferença se a matassem ou não. Mas tinha prometido a Manfred que tentaria fugir para um lugar seguro. E, por causa disso, tentaria sair da cidade.

Guiou o mais rapidamente que pôde até Wannsee, botou no carro as poucas coisas que já estavam prontas, à espera. Algumas batatas cozidas, um pouco de pão, um pouquinho de carne ensopada. E depois pegou o pacote com o dinheiro, o endereço do francês e o livro que ocultava os dois anéis. Ela deixou o anel de noivado de Manfred no dedo - ai de quem ousasse ti­rá-lo dela — juntamente com sua aliança e o anel de sinete dele.

 Mataria quem tentasse tirar os anéis de suas mãos. Os olhos duros, a boca cerrada, botou o revólver no colo e deu partida no carro, mais uma vez; e depois, lançou um último olhar por sobre o ombro à casa para onde Manfred a trou­xera, e grandes soluços angustiados dilaceraram-lhe o coração. Ele não mais existia, o homem que a salvara... tinha desaparecido para sempre. Ante a dor dessa conclusão, Ariana pensou que ia morrer.

 Metera no meio dos seus papéis a única carta que lhe escrevera, uma carta de amor cheia de ter­nura e promessa que lhe entregara após a primeira vez em que tinham feito amor. E também trouxera consigo algumas fotos... deles na sua primeira fes­ta juntos no Ópera, mais algumas do baile no Palácio Real, mais algumas do Tiergarten, e até mesmo aquelas dos seus filhos e da mulher morta. Ariana não iria deixar essas fotos para os olhos de outra pessoa qualquer. Eram dela, como Manfred seria, pelo resto da vida.

 

Juntamente com milhares de outros fugitivos — a pé, de bicicleta, e de quando em vez de carro — Ariana saiu da cidade e foi para o oes­te. Os Aliados não detiveram as mulheres, crianças e velhos que estavam deixando a cidade como ratos assustados. Ariana não podia suportar a agonia do que estava vendo, e repetidas vezes parou para ajudar alguém, até que soube que não podia mais parar. Cada vez que o fazia, tentavam roubar-lhe o carro, e apenas por uma vez concordou em dar uma carona para duas velhinhas. Elas ficaram silenciosas e agradecidas, moravam em Dahlem, e só o que queriam era sair da cidade. A loja delas no Kurfürstendamm fora des­truída naquela manhã, os maridos estavam mortos, e agora temiam pelas pró­prias vidas.

— Os americanos vão-nos matar a todos, fraulein — disse a mais velha das duas, chorando.

Ariana não pensava assim, mas estava cansada demais para discutir com qualquer uma das duas. Estava angustiada até para falar. Mas sabia que, se os americanos realmente queriam matá-los, tinham oportunidade de sobra, enquanto os refugiados lotavam as estradas. Guiando ao lado deles, Ariana tinha que ir devagar, mas finalmente conseguiu alcançar algumas estradas se­cundárias conhecidas. E, afinal, conseguiu chegar até Kassel, cerca de 300 quilômetros de Berlim, onde a gasolina acabou.

Há muito tinha largado as suas passageiras em Kalbe, onde tinham primos, e foram recebidas de braços abertos, e em lágrimas. Enquanto as obser­vava, Ariana sentiu uma pontada de inveja. Ao contrário daquelas mulheres idosas, ela agora não tinha ninguém. E, depois de tê-las deixado, continuara a guiar com indiferença até que o carro foi parando aos poucos, e finalmente não andou mais. A lata de gasolina de reserva no banco de trás estava vazia. Percorrera a metade do caminho entre Berlim e Saarbrücken, a cidade ao nor­te de Estrasburgo onde Manfred quisera que ela tentasse atravessar para a França. Mas ainda lhe faltavam uns 300 quilômetros para chegar até lá. Ficou sentada ali, por um momento, pensando no mar de refugiados que vinha deixando Berlim. Agora era apenas mais um rosto entre eles, arrastando-se na direção do nada, sem amigos ou bens, sem lugar para ir. Lutando contra as lágrimas, enquanto olhava por sobre o ombro para a segurança perdida do pe­queno carro cinzento, segurou com mais força seus embrulhos e começou a longa caminhada para a França.

Levou dois dias para caminhar os 60 quilômetros para Marburg, e ali encontrou um velho médico do interior que a deixou andar com ele de carro até Mainz. Conversaram pouco enquanto rodavam durante três horas. A viagem foi de uns 120 quilômetros, e quando chegaram em Mainz, ele a olhou compassivamente e ofereceu-se para levá-la até Neunkirchen, que, afinal de contas, ficava no caminho dele. Ela aceitou, agradecida, a cabeça ainda rodando com o que acontecera na véspera.

Em Neunkirchen, Ariana agradeceu, fitando-o cegamente e desejando dizer mais alguma coisa, mas nas horas intermináveis em que guiara, depois caminhara e finalmente andara de carro com ele, alguma coisa dentro dela se cristalizara, uma sensação de perda, de esperança destroçada, de profundo desespero. Nem tinha mais certeza do porquê de estar fugindo, a não ser que Manfred lhe havia falado que o fizesse, e ela era sua mulher. Mandara que fosse para Paris, então iria. Quem sabe o amigo em Paris teria as respostas; talvez lhe dissesse que o que vira ao alvorecer, três dias antes, era uma mentira. Talvez Manfred estivesse em Paris, esperando que ela chegasse.

— Fraulein?

O velho vira a aliança, mas achava difícil acreditar que fosse realmente casada. Parecia tão jovem. Talvez a estivesse usando como proteção. Não que fosse protegê-la dos soldados, ou que precisasse daquele tipo de proteção por causa dele. Sorriu gentilmente para ela, enquanto a moça tirava seu embrulho do banco.

— Obrigada, senhor. — Olhou para ele por um longo e vazio momento.

— Ficará bem? — Ela fez que sim. — Quer uma carona de volta daqui a alguns dias? Vou de novo para Marburg.

Mas ela não ia voltar de novo. Para ela, era uma viagem apenas de ida, e seus olhos estavam cheios da tragédia das últimas despedidas. Suavemente, meneou a cabeça.

— Vou ficar com minha mãe, obrigada.

Não queria admitir para ele que estava tentando fugir do país. Agora, não confiava em mais ninguém. Nem mesmo neste velhinho.

— Bitte.

Apertou a mão dele, polidamente, recuou, e ele se afastou. Agora, só o que tinha que fazer era percorrer os 30 quilômetros até Saarbrücken, e depois mais 15 quilômetros até a fronteira francesa e estaria tudo bem. Porém, desta vez, não havia nenhum senhor idoso dirigindo, e levou três longos dias para percorrer a distância. As pernas lhe doíam, estava cansada e com frio e com fome. A comida tinha acabado no primeiro dia. Por duas ve­zes vira lavradores assustados; um deles lhe dera duas maçãs, o outro apenas sacudira a cabeça. Mas, finalmente, ela chegara à fronteira, seis dias depois do início da viagem. Conseguira... conseguira... conseguira... Só o que tinha a fazer era arrastar-se pelo meio do arame farpado e passar para a França. Ela o fez devagarzinho, com o coração batendo forte, imaginando se alguém a veria e atiraria imediatamente. Mas parecia mesmo que a guerra tinha realmente aca­bado... ninguém se importava se uma moça imunda e exausta de saia e suéter rasgadas estava atravessando o arame, arranhando o rosto, os braços e o corpo. Ariana olhou em derredor, exausta, e murmurou:

— Bem-vinda à França.

Depois, deitou-se para descansar. Acordou cerca de seis horas mais tar­de, ao som de sinos de igreja, o corpo doído e todo duro. Não fora preparada para isto, tendo vivido ao amparo do pai em Grunewald, e depois sob a prote­ção de Manfred, nos últimos oito meses. Começou a caminhar de novo, e dali a meia hora desmaiou na estrada. Uma mulher idosa a encontrou duas horas mais tarde, e pensou que estivesse morta. Apenas um leve movimento sob a suéter, enquanto seu coração ainda batia mansamente, deixou a mulher intri­gada, e ela foi para casa chamar a nora, e as duas juntas a arrastaram para den­tro de casa. Tocaram-na, cutucaram-na e a ampararam, e quando finalmente acordou, vomitou horrivelmente, e teve febre durante os dois dias seguintes. Às vezes, elas pensavam que a moça morreria ali com elas. Só o que a velha sa­bia sobre a garota era que era alemã, pois encontrara o revólver alemão e os marcos que carregava. Mas a velha não guardava ressentimento por causa dis­so; seu próprio filho fora trabalhar para os alemães em Vichy, quatro anos antes. A gente fazia o que tinha que fazer, nos tempos de guerra, e se agora a garota estava fugindo, a velha estava disposta a ajudá-la. A guerra terminara, afinal de contas

 Cuidaram dela durante mais dois dias, enquanto ela ficava deitada vomitando, e então, finalmente, Ariana insistiu que estava bem o bastante para viajar. Falava com elas no seu próprio idioma, e com o seu sota­que culto e conhecimento fluente de francês, tanto podia ser de Estrasburgo quanto de Berlim.

A mulher idosa fitou-a, sensatamente.

— Ainda falta muito para onde vai?

— Paris.

— São mais de trezentos quilômetros. Não pode ir andando até lá, sabe. Não no estado em que está.

Ariana já estava dando sinais de desnutrição, e imaginava que arranjara uma concussão quando caíra, caso contrário não teria vomitado tanto ou sentido tanta dor nos olhos, depois. E parecia uns 10 anos mais velha do que quando a viagem se iniciara.

— Posso tentar. Alguém pode me dar uma carona.

— No quê? Os alemães tiraram todos os nossos carros e caminhões, e o que eles não tiraram, tiraram os americanos. Estão todos baseados em Nancy, e já andaram por aqui para apanhar mais carros.

Mas a nora se lembrou de que o velho padre ia para Metz à noitinha. Tinha um cavalo que usava para as suas viagens. E se Ariana tivesse sorte, ele lhe daria uma carona. Ariana acabou tendo sorte, e o padre a levou junto com ele.

Chegaram em Metz de manhã, e depois das longas horas sacolejando pe­las estradas rurais, Ariana vomitou violentamente de novo. Doente demais para comer, doente demais para se mexer, apesar de tudo tinha que fazê-lo.

 De Metz tinha que viajar mais uns 60 quilômetros até Bar-le-Duc. Pôs-se a ca­minho mais uma vez, a pé, rezando para que aparecesse alguém de caminhão, e depois dos primeiros seis quilômetros as suas preces foram atendidas — pas­sou um homem com uma carroça puxada a cavalo. Não era nem moço nem velho. Nem hostil nem amistoso. Ela fez sinal para que parasse, ofereceu-lhe algum dinheiro francês e subiu na carroça. Ficou sentada ao lado dele duran­te horas, com o sol de primavera batendo-lhe com força na cabeça, enquan­to o homem ficava em silêncio e o cavalo seguia seu caminho. O Sol já se pu­nha quando o homem finalmente parou.

— Estamos em Bar-le-Duc? — perguntou Ariana, surpresa, mas ele sacu­diu a cabeça com firmeza.

— Não, mas estou cansado. E meu cavalo também. — A verdade é que também ela estava exausta, mas estava ansiosa para continuar. — Vou parar um pouco e descansar, e depois continuamos. Está bem para você?

Ela não tinha muita escolha. Ele já tinha aberto o paletó no chão e estava-se preparando para comer um pouco de pão com queijo. Comeu voraz e rudemente, sem oferecer nada para Ariana, que se sentia cansada e enjoada demais para comer, que dirá para vê-lo comer. Deitou-se na grama a certa dis­tância dele, a cabeça apoiada no seu precioso embrulho, e fechou os olhos. A grama era macia e quente, graças ao sol de maio que a castigara o dia todo, e Ariana sentiu que cochilava, de exaustão. Foi então que sentiu o homem en­fiar a mão debaixo de sua saia. Agarrou-a rudemente, largando-se com força em cima dela e ao mesmo tempo erguendo sua saia e puxando para baixo as calcinhas, enquanto, atônita, ela o empurrava, lutando desesperadamente e socando-lhe o rosto com ambas as mãos. Mas ele estava indiferente à falta de interesse dela na sedução; empurrou-a com força com as mãos e o corpo, e depois com algo duro e quente que ela sentiu pulsando entre as pernas, e en­tão, pouco antes de poder penetrá-la houve um movimento, um grito, e um tiro disparado para o alto. O homem deu um salto para trás, assustado, e, para sua vergonha, completamente exposto. Ariana se pôs de pé num salto, e depois tropeçou de repente quando uma onda de tontura a acometeu, e quase caiu. Duas mãos fortes seguraram-na pelos ombros e ela foi recolocada suavemente no chão.

— Está bem? — Ela deixou pender a cabeça e fez que sim, sem querer ver o rosto do homem, e também sem querer que ele visse o dela. A voz que a salvara falava em inglês, e ela soube que tinha chegado a mãos americanas.

 Pensando que ela não o estava compreendendo, falou-lhe num francês desajei­tado. Ela se forçou a não sorrir, quando finalmente ergueu os olhos. Parecia engraçado que ele tivesse acreditado com tanta facilidade que ela era francesa.

— Obrigada.

O homem tinha um rosto simpático e um bocado de cabelo castanho e macio, aparecendo sob o capacete, e a distância ela pôde ver mais três homens e um jipe.

— Ele a machucou? — perguntou com firmeza, e ela sacudiu a cabeça. Sem maiores discussões, o jovem americano de capacete deu um belo soco bem na cara do francês. — Isso deverá cuidar dele. — O que o deixava puto era que estavam sempre sendo acusados de estuprar as moças locais, enquanto, na verdade, os filhos da puta estavam estuprando as próprias conterrâneas. E então baixou o olhar de novo para a lourinha miúda, que estava se pondo de pé e sacudindo a grama e a poeira dos cabelos finos e dourados. — Precisa de uma carona para algum lugar?

— Sim. — Sorriu, debilmente. — Para Paris. — Era uma loucura até mes­mo estar ali falando com ele.

— Que tal Châlons-sur-Marne? Fica a uns cento e cinqüenta quilôme­tros, e de lá eu talvez consiga arranjar alguém para levá-la o restante do ca­minho.

Seria possível que ele a ajudaria a chegar a Paris? Fitou-o enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas faces.

— Como é? Ajudaria? — Os olhos dele eram meigos, e seu sorriso se alargou enquanto ela concordava. — Vamos, venha comigo.

O francês ainda estava tirando a poeira do corpo, enquanto Ariana seguia o americano até o jipe. Eram jovens, ruidosos e felizes; enquanto roda­vam, os quatro rapazes fitavam, curiosos, a moça calada, imprensada entre eles. Os olhos pousavam no cabelo dourado, no rosto delicado, nos olhos tris­tes, e depois davam de ombros é continuavam a conversar, ou de vez em quan­do se punham a cantar uma canção apimentada. O rapaz que a salvara do fran­cês tinha o nome de Henderson no bolso da farda, e foi ele quem arranjou para dois outros soldados a levarem até Paris, uma hora depois de terem chegado em Châlons.

— Estará a salvo com eles, senhorita — tranqüilizou-a, no seu francês de­sajeitado, e estendeu a mão.

— Obrigada, senhor.

— De nada, madame.

Ela se virou para acompanhar os dois soldados que se dirigiam para Paris numa missão que envolvia dois coronéis que aparentemente se enviavam men­sagens pelo menos três vezes por dia. Mas não era nos coronéis que Henderson estava pensando. Matutava no ar de desalento e desespero que vira naquele rostinho pálido. Já tinha visto aquele ar antes, em tempos de guerra. E tam­bém sabia de mais uma coisa, de olhar para aquele rosto com os olhos azuis fundos, a pele esticada, as olheiras. A garota estava doente à beca.

 

Os dois jovens americanos explicaram a Ariana que iam para um endereço na Rue de Ia Pompe. Ela sabia para onde estava indo? Aria­na apanhou o papel que Manfred lhe dera. O endereço ficava na Rue de Varenne.

— Acho que fica na Margem Esquerda, mas não tenho certeza.

E ficava, mesmo. Paris também dava sinais da guerra, mas não eram cho­cantes como em Berlim. Mais do que os danos feitos pelas bombas, Paris sofrerá nas mãos dos alemães que tentaram remover todas as coisas disponí­veis e enviá-las para a Pinakothek, em Berlim.

Um velho de bicicleta explicou aos dois jovens soldados onde ficava o lugar a que Ariana queria ir, e depois ofereceu-se, simpaticamente, para ir mostrando o caminho. Foi então que Ariana viu Paris pela primeira vez des­de que estivera ali em criança, com o pai e o irmão. Mas estava cansada de­mais para apreciar os pontos turísticos, ou até mesmo a beleza da cidade. O Arco do Triunfo, a Place de Ia Concorde, a Ponte Alexandre III passaram velozmente por ela. Simplesmente fechou os olhos e foi seguindo no jipe, ouvindo o velho gritar instruções de vez em quando, e o jovem america­no ao volante gritar seus agradecimentos. Finalmente chegaram ao destino dela, e Ariana abriu os olhos. Não teve outra escolha senão descer, embora tivesse preferido infinitamente dormir no banco de trás da viatura deles. Sua fuga de Berlim acabara levando nove dias completos, e agora estava ali em Paris, sem idéia do motivo por que viera, ou de como seria esse homem que estava procurando. Talvez até estivesse morto, a esta altura. Parecia-lhe que todo mundo estava. Enquanto esperava diante da imensa porta enfeitada, ansiava mais do que nunca pela casinha aconchegante em Wannsee que ela e Manfred tinham partilhado. Porém não havia mais nada ali, tinha que se ficar lembrando. Absolutamente nada. Manfred não existia mais.

— Oui, mademoiselle? — Uma velha gorda e grisalha abriu a porta princi­pal, deixando ver um belo pátio do outro lado. Para além do pátio ficava um lindo hotel particulier do século XVIII e um lance pequeno de escadas de mármore. — Vous désirez? — As luzes da casa brilhavam convidativamente na escuridão.

— Monsieur Jean-Pierre de Saint Mame. — Ariana respondeu em francês, e por um longo momento a mulher não desviou os olhos dos dela, como se não quisesse compreender. Mas Ariana insistiu. — Não está em casa?

— Não é isso. — A mulher sacudiu lentamente a cabeça. — Mas a guerra terminou, mademoiselle. Não há mais necessidade de incomodar Monsieur de Saint Marne. — Estava tão cansada dessa gente que há tanto tempo vinha apa­recendo, suplicando e implorando. Eles que se dirigissem aos americanos, ago­ra. Iam matar Monsieur com as suas histórias exaustivas, seus terrores, suas emoções. Por quanto tempo mais essa imposição continuaria? Abusando do pobre homem desse jeito. Observando o rosto dela, Ariana não compreendeu.

— Eu... desculpe... meu marido e Monsieur de Saint Marne eram ve­lhos amigos. Ele sugeriu que eu procurasse Monsieur de Saint Marne ao che­gar aqui...

Hesitou, e a velha sacudiu a cabeça.

— É o que todos dizem. — E esta não estava com melhor aparência do que os outros. Doentia, magricela, mortalmente pálida, de roupas rasgadas e sapatos gastos, com apenas um minúsculo embrulho nas mãos. E parecia que não tomava banho pelo menos há uma semana. E só porque Monsieur tinha dinheiro não havia motivo para esta ralé de refugiados abusar dele. — Vou ver se Monsieur está em casa. — Mas o belo Rolls estacionado no pátio indi­cava que o patrão estava mesmo em casa. — Espere aqui.

Ariana desabou, agradecida, num banco estreito no pátio, estremecendo ligeiramente ao ar frio da noite. Mas estava acostumada a sentir frio, can­saço e fome. Será que alguma vez fora diferente? Era difícil lembrar-se, en­quanto cerrava os olhos. Pareceu-lhe horas mais tarde, quando alguém a sacu­diu, e ela ergueu os olhos, deparando com a velha, os lábios comprimidos, em sinal de reprovação, mas acenando com a cabeça.

— Ele a verá agora.

Ariana sentiu uma onda de alívio tomar conta dela, não tanto à perspectiva de vê-lo, mas somente porque não teria que andar mais naquela noite. Pelo menos, esperava que não. Não se importaria que ele a mandasse dormir no sótão, mas não acreditava que pudesse dar mais um só passo até de ma­nhã. Torcia desesperadamente para que ele a deixasse ficar.

Acompanhando a mulher, subiu o lance pequeno de escadas de mármo­re até a porta principal, e um mordomo de ar melancólico abriu a porta e se afastou para o lado. Por um instante, ele fez Ariana lembrar-se de Berthold, mas este homem tinha o olhar mais bondoso. Olhou para ela por um breve momento e depois, sem dizer uma só palavra, girou nos calcanhares e desapa­receu. Ante o gesto dele, a velha sacudiu de novo a cabeça, em flagrante repro­vação e resmungou para Ariana no saguão de entrada:

— Ele foi buscar o Patrão. Mandarão chamá-la daqui a um minuto. Eu já vou.

— Obrigada. — Mas a velha estava pouco se importando com os agradecimentos de Ariana.

O mordomo retomou. Ela foi conduzida por um corredor lindamente decorado, com cortinas de veludo, e pontuado a intervalos regulares com qua­dros que retratavam os ancestrais de Saint Marne. Ariana fitou-os cegamente enquanto caminhava, até que finalmente chegaram a um grande vão, e o mor­domo escancarou uma única porta espelhada. O que viu dentro da sala que ele abrira fez Ariana se lembrar muitíssimo do Palácio Real de Berlim, com que­rubins e painéis dourados, incrustações e marchetarias, e espelhos interminá­veis encimando cornijas de lareira de mármore branco, e no meio de todo aquele esplendor estava um homem de aspecto sério, da idade de Manfred, porém de corpo mais franzino, com rugas fundas de preocupação entre os olhos. Observava-a, sentado numa cadeira de rodas no centro da sala.

— Monsieur de Saint Marne? — Sentia-se quase cansada demais para a etiqueta que as circunstâncias e a sala pareciam exigir.

— Sim. — Ele não se moveu na cadeira de rodas, mas seu rosto convi­dava-a a se aproximar. Virou-se simpaticamente para ela, os olhos ainda sé­rios, mas amistosos, ainda assim. — É quem sou. E você, quem é?

— Ariana... — Hesitou por um momento. — A Sra. Manfred Von Tripp — falou mansamente, fitando os olhos gentis que a observavam. — Manfred me falou que, se Berlim caísse, eu deveria vir para cá. Desculpe, espero que...

As rodas se aproximaram rapidamente, enquanto ela lutava para continuar. Parou muito junto da moça, e estendeu a mão.

— Bem-vinda, Ariana. Sente-se, por favor. — O rosto dele ainda não se abrira num sorriso alegre de boas-vindas. Tinha certeza de que a garota tinha mais a lhe dizer, e não estava certo de que fossem boas novas.

Ela se sentou, mansamente, olhando para o rosto do francês. Era bonito, de uma maneira estranha, embora totalmente diferente de Manfred que era quase difícil imaginar que tivessem sido amigos. Enquanto fitava o colega do marido, Ariana sentiu ainda mais saudades do homem que jamais veria de novo.

— Quanto tempo demorou para chegar aqui? — perguntou ele, os olhos perscrutando-lhe o rosto. Já tinha visto tantos outros como ela. Doente, cansada, destruída, amedrontada.

— Nove dias - respondeu ela, soltando um suspiro.

— E como veio?

— De carro, a cavalo, a pé, de jipe... — De arame farpado, de preces,, quase sendo estuprada por um homem nojento... Seus olhos fitavam Saint Marne com expressão vazia. E então ele lhe fez a pergunta que queria fazer desde o começo.

— E Manfred? - Ele falou suavemente, e Ariana baixou os olhos. Sua voz não passava de um sussurro na sala grandiosa.

— Está morto. Morreu... na queda... de Berlim. — Fitou-o nos olhos, então. — Mas me dissera para vir procurá-lo. Não sei por que saí da Alemanha, exceto que agora não tenho mais nada por lá. Tinha que sair.

— Sua família? - Os olhos dele pareciam acostumados ao tipo de má notícia que acabara de ter sobre o amigo.

Em resposta à pergunta, a moça soltou um suspiro entrecortado na sala silenciosa.

— Creio que meu pai está morto. Minha mãe morreu antes da guerra. Meu irmão... pode ainda estar vivo. Na Suíça. Meu pai o levou para lá em agosto passado, para fugir do alistamento militar. Meu pai nunca voltou da Suíça, e eu jamais tive notícias de Gerhard. Não sei se está vivo ou não.

— Gerhard ia ficar lá? — Ela confirmou. — E seu pai deveria voltar?

— Sim, para me apanhar. Mas... nossa ama... isto é, chamaram os nazistas. Eles me pegaram e me detiveram como refém. Eles também pensavam que meu pai ia voltar. — Ergueu os olhos para.ele, suavemente. — Depois de um mês, me soltaram. Manfred e eu...— Interrompeu-se, antes da che­gada das lágrimas.

Jean-Pierre soltou um suspiro e puxou um pedaço de papel para perto de si, na escrivaninha.

— Suponho que seja por isso que Manfred mandou que viesse procu­rar-me.

Ariana pareceu confusa.

— Acho que apenas me mandou para cá, porque você era seu amigo, e achou que eu estaria a salvo, aqui.

Jean-Pierre de Saint Marne deu um sorriso cansado.

— Manfred era realmente um bom amigo. Mas era também um amigo sensato. Sabia o que eu andava fazendo durante toda a guerra. Eu me comuni­cava com ele. Discretamente, é claro. — Fez um gesto vago na direção da ca­deira de rodas. — Como pode ver, sou um tanto... tolhido... mas me saí muito bem, apesar disso. Tornei-me uma espécie de filantropo, digamos assim, reunindo as famílias, às vezes em outros países, providenciando "férias" em climas mais quentes.

Ela fez que sim com a cabeça, ante os eufemismos.

— Em outras palavras, tem ajudado os refugiados a escaparem.

— Principalmente. E agora vou passar os próximos anos tentando reunir as famílias. Isso deve manter-me ocupado durante um bom tempo.

— Então vai poder ajudar-me a encontrar meu irmão?

— Vou tentar. Dê-me as informações que tiver, e vou ver o que posso descobrir. Mas infelizmente vai ter que pensar em mais do que isso, Ariana. E quanto a você? Aonde irá, agora? Voltará para a Alemanha?

Ela sacudiu a cabeça lentamente, olhando para ele com ar inexpressivo.

— Não tenho ninguém lá.

— Pode ficar aqui, durante algum tempo.

Mas ela também sabia que aquilo não seria um arranjo permanente. E depois, para onde iria? Não pensara naquilo, não pensara em nada. Saint Mame assentiu suavemente, com compreensão e simpatia, e fez diversas anotações.

— Está certo, pela manhã verei o que posso fazer por você. Precisa con­tar-me tudo o que sabe para me ajudar a encontrar Gerhard. Se é isso que quer que eu faça.

Ela concordou, mal conseguindo absorver aquilo tudo. A presença dele, a sala, esta oferta de ajudá-la a encontrar Gerhard.

— E nesse meio tempo — ele sorriu, docemente — você precisa fazer uma outra coisa.

— O que é? — A moça tentou retribuir o sorriso, mas era um esforço enorme apenas fitá-lo nos olhos e não pegar no sono na cadeira intoleravelmente confortável.

— O que precisa fazer agora, querida Ariana, é descansar um pouco. Pa­rece muito, muito cansada.

— E estou.

Todos pareciam assim quando chegavam a ele, exaustos, feridos, assus­tados. A jovem estaria com uma cara melhor dentro de um ou dois dias, pen­sou ele. Que coisinha bonitinha ela era, e como fugia ao estilo de Manfred casar-se com alguém tão frágil, tão etérea, tão jovem. Marianna fora bem mais sólida. A princípio, Jean-Pierre ficara chocado ao se dar conta de que Ariana era a nova mulher de Manfred. Não tinha esperado que Manfred fosse casar-se. Ficara tão abalado quando a mulher e os filhos morreram. Mas aqui estava esta garota. E ele podia compreender facilmente a paixão de Manfred

 Era tão diminuta, tão bonita, mesmo nas roupas rasgadas e imundas. Gosta­ria de tê-la visto com Manfred numa época melhor. Depois que se achou so­zinho na sala, mais uma vez, ficou refletindo sobre o velho amigo

 Por que a tinha mandado para cá, afinal de contas? Para esperar por ele, como ela dis­sera, se conseguisse sobreviver às lutas em Berlim? Ou será que queria algo mais? Proteção para ela? Ajuda na busca do irmão? O quê? Não podia deixar de sentir que o fato de tê-la mandado procurá-lo fora uma espécie de mensa­gem, e desejava desesperadamente decifrar qual era. Talvez, pensou consigo mesmo, enquanto ficava olhando pela janela, com o tempo aquilo se tornaria evidente.

E no seu quarto, com a vista do lindo pátio de chão de pedras, Ariana já dormia a sono solto. Fora conduzida para o quarto por uma mulher bondo­sa de meia-idade, de saias amplas e avental, que tirara a colcha da cama, dei­xando ver cobertores grossos, um acolchoado, e lençóis limpos. Parecia a Aria­na que há uns 100 anos não via uma coisa tão linda, e sem mais um pensamen­to sequer de Jean-Pierre, ou do irmão, ou até mesmo de Manfred, deitou-se na cama e adormeceu profundamente.

 

Na manhã seguinte, Ariana foi reunir-se a Jean-Pierre depois do café. Era evidente, à luz do dia, que ela estava doente. Sentava-se no es­critório dele, o rosto de um tom esverdeado.

— Estava doente antes de sair de Berlim?

— Não, não estava.

— Pode estar apenas esgotada pela viagem... e a sua perda. — Vira a reação à dor muitas vezes, antes. Suores, vômitos, tonteira. Vira homens adultos desmaiarem de puro alívio por ter atingido finalmente a segurança da sua casa. Mas estava menos preocupado com o seu estado físico do que o emocional, naquele momento. — Mais tarde chamarei um médico para vir vê-la. Mas, pri­meiro, quero descobrir o máximo que puder sobre seu irmão. A descrição dele, altura, tamanho, peso. Depois o que estava usando, aonde estava indo, quais seus planos exatos. Quem conhecia?

Fitava-a francamente, e de uma em uma ela foi respondendo a todas as perguntas, explicando detalhadamente o plano que o pai pretendia seguir, caminhando da estação ferroviária em Lorrach até a fronteira suíça, cruzando-a e indo até a Basiléia, onde tomariam outro trem para Zurique, e depois o pai voltaria para buscá-la.

— E em Zurique, o que aconteceria?

— Nada. Ele simplesmente teria que esperar.

— E depois, o que os três fariam?

— Continuaríamos até Lausanne, onde encontraríamos amigos do meu pai.

— Os amigos sabiam que vocês viriam?

— Não tenho certeza. Papai pode não ter querido ligar para eles de casa ou do escritório. Pode ter planejado apenas telefonar quando chegasse em Zurique.

— Teria deixado o telefone deles com seu irmão?

— Estou certa que sim.

— E nunca soube noticias deles, nem dos amigos, do seu irmão, oudo seu pai?

Ela fez que não, lentamente.

— De ninguém. E depois Manfred falou que tinha certeza de que meu pai estava morto.

Jean-Pierre podia perceber pela voz dela que já se conformara com isto. Agora era a perda de Manfred que não podia suportar.

— Mas meu irmão... — Ergueu os olhos súplices para ele, que meneou a cabeça.

— Vamos ver. Vou dar alguns telefonemas. Por que não volta para a cama? Eu a avisarei tão logo saiba de alguma coisa.

— Virá acordar-me?

— Prometo.

Mas, afinal de contas, não se deu ao trabalho. Descobriu tudo que ha­via para descobrir dentro de uma hora, e não era importante o bastante para valer que despertasse Ariana. Esta acabou dormindo o dia todo, até o anoitecer, e quando Lisette veio avisá-lo de que a moça estava finalmente sentada na cama, e com melhor aparência, ele entrou com a cadeira de rodas no quarto dela.

— Alô, Ariana, como se sente?

— Melhor. — Mas não parecia. Parecia pior. Mais pálida, esverdeada, e era óbvio que lutava a cada momento para não vomitar. — Nenhuma notícia?

Ele fez uma pequena pausa, mas ela soube imediatamente. Olhou para ele mais atentamente, e Jean-Pierre ergueu a mão espalmada.

— Não, Ariana. Não há absolutamente nenhuma notícia. Vou-lhe contar o que descobri, mas é menos do que nada. O garoto desapareceu.

— Está morto? — indagou, com voz trêmula. Sempre esperara que pu­desse estar vivo. A despeito do que Manfred pensava.

— Talvez. Não sei. O que soube foi o seguinte: liguei para o homem cujo nome você me deu. Ele a mulher morreram num acidente de automóvel exatamente dois dias antes do seu pai e do garoto terem saído de Berlim. O casal não tinha filhos, a casa foi vendida, e nem os novos donos da casa nem os só­cios do homem no banco jamais tiveram notícias do seu irmão. Falei com um funcionário do banco que conhecia seu pai, é claro, mas que não teve notícias dele. É possível que tenha deixado o garoto e voltado para buscá-la, e que tenha sido morto no caminho de volta. Nesse caso, o garoto acabaria por tele­fonar para a pessoa cujo nome seu pai lhe dera, e descobriria que estavam ambos mortos, marido e mulher. Então, presumo que teria entrado em contato com o banco onde o homem trabalhava, ou então teria concluído que estava por conta própria, arregaçaria as mangas e arrumaria um trabalho, para sobre­viver. Mas não há vestígio dele, Ariana, nem em Zurique, nem com a Polícia Central, nem com os banqueiros em Lausanne. Não há nem mesmo vestígio de Max Thomas. — Ela também lhe dera este nome. Olhou para Ariana, desolado. Tentara desesperadamente o dia todo. Mas não havia nada. Nenhum vestígio. — Tentei todos os caminhos costumeiros, além de alguns dos meus melhores contatos. Ninguém jamais deparou com o garoto. Isto pode ser um bom sinal, ou um sinal muito ruim.

— O que você acha, Jean-Pierre?

— Que ele e seu pai morreram juntos, entre Lorrach e a Basiléia. — Sou­be pelo seu silêncio que ficara paralisada de dor. Continuou falando para man­ter contato com ela, para fazê-la superar aquilo. — Ariana, precisamos continuar.

— Mas, para onde?... Para o quê?... E porquê? — Soluçou raivosamen­te. — Não quero continuar. Não agora. Não sobrou ninguém. Só eu.

— É o bastante. É só o que tenho agora.

— Você, também? — Fitou-o e assoou o nariz enquanto ele começou a falar suavemente.

— Minha mulher era judia. Quando os alemães ocuparam Paris, levaram-na — sua voz fraquejou de modo estranho, e ele virou a cadeira de rodas, dan­do as costas a Ariana — e à nossa filhinha.

Ariana fechou os olhos com força, por um momento. De repente, sen­tiu-se terrivelmente mal. Não agüentava mais. As perdas intermináveis, a dor incomensurável. Este homem, e Manfred, e Max, e ela própria, todos tendo perdido pessoas que amavam, filhos e esposas e irmãos e pais. Sentiu o quarto girar, sentiu-se girar; deitou-se numa débil tentativa de se firmar. Ele levou a cadeira de rodas até seu lado e acariciou-lhe suavemente o cabelo.

— Eu sei, ma petite, eu sei.

Nem lhe falou da única pista que tivera. Aquilo tornaria a verdade cruel ainda mais difícil de suportar. Um dos empregados do hotel em Zurique achava que se lembrava de um rapazinho como o que Jean-Pierre descrevera. Pu­xara conversa com ele, e lembrava-se que dissera que estava esperando por pa­rentes. Passara duas semanas no hotel, sozinho, à espera. Mas depois o empre­gado se lembrava que tinha encontrado os parentes, e ido embora. Não podia ter sido Gerhard. O jovem não tinha mais nenhum parente. O pai de Ariana lhe teria contado, se isso fizesse parte do plano. Era evidente que era um ho­mem muito meticuloso. O empregado se lembrava do garoto partindo com um casal e a filha. Portanto, não era Gerhard, afinal de contas. E fora só. Não havia outras pistas, outros sinais de esperança. O garoto desaparecera, e como milhares de outras pessoas na Europa, Ariana não tinha mais ninguém. Depois de muito tempo, Jean-Pierre falou com ela de novo.

— Tenho uma idéia para você. Se for corajosa o bastante. Cabe a você decidir. Mas, se eu fosse ainda muito jovem, eu o faria. Para fugir de todos esses países que foram destruídos, deformados, destroçados, bombardeados. Eu iria embora e começaria tudo de novo, e é isso que acho que você deve fazer.

Ela ergueu a cabeça e enxugou os olhos.

— Mas para onde? - Parecia apavorante. Não queria ir a parte alguma. Queria ficar ancorada, escondendo-se para sempre no passado.

— Para os Estados Unidos — falou o francês, mansamente. — Há um na­vio de refugiados que parte amanhã. Foi conseguido por uma organização de Nova York. O pessoal da organização receberá o navio quando atracar, e a aju­dará a se instalar.

— E quanto à casa de meu pai em Grunewald? Não acha que posso reavê-la?

— Você a quer, mesmo? Poderia viver ali? Se puder mesmo reavê-la, o que duvido.

A verdade das suas palavras atingiu-a com força. E então, subitamente, enquanto falava com ela, ele compreendeu qual tinha sido a mensagem de Manfred. Fora por este motivo que Ariana havia sido enviada ao amigo de infância do marido. Ele sabia que Jean-Pierre encontraria uma solução. E agora o fran­cês sabia que esta era a correta.

A única dúvida que tinha era se ela estaria bem o bastante para viajar. Mas sabia, por sua longa experiência com as pessoas a quem ajudara nos últi­mos seis anos, que levaria meses para ela voltar a ficar bem.

 Simplesmente per­dera demais, e os nove dias da louca corrida pela Alemanha, depois do choque de ver Manfred morto, foram a última gota. Era esta a doença dela, na verda­de: fadiga, exaustão, fome, andanças demais, tristeza demais, perda demais. Havia também o problema de que talvez não houvesse um outro navio duran­te um longo tempo.

— Vai fazer o que eu disse? — Os olhos de Jean-Pierre não deixavam os dela. — Podia significar toda uma nova vida.

— Mas, e quanto a Gerhard? Não acha que pode ter ido para Lausanne, afinal de contas? Ou ficado em Zurique, e que se eu fosse para lá talvez o encontrasse? — Mas a esperança também tinha desaparecido dos seus olhos.

— Estou praticamente certo, Ariana. Não há absolutamente sinal dele, e se estivesse vivo, haveria. Acho que aconteceu como eu lhe falei. Ele e seu pai devem ter sido ambos mortos.

Ela sacudiu a cabeça lentamente, deixando que a conclusão definitiva se instalasse nela. Perdera-os a todos. Podia deixar-se ficar deitada e morrer, também... ou prosseguir.

Lutando contra as ondas de tonteira e náusea, olhou para Jean-Pierre sentado na cadeira de rodas a seu lado, e balançou a cabeça afirmativamente. Algum instinto lá dentro dela fez com que falasse e, aos seus ouvidos, a voz não lhe pareceu a sua própria.

— Está certo. Irei.

 

O grande Rolls preto de Jean-Pierre entrou tranqüilamente no porto do Havre. Ariana sentava-se languidamente no banco de trás. Mal tinham falado durante toda a viagem de Paris até ali. As estradas estavam cheias de caminhões, jipes e pequenos comboios transportando equi­pamentos entre Paris e o porto. Mas a situação ao redor de Paris tinha-se aco­modado razoavelmente, e excetuando a cor triste dos veículos do Exército, as estradas pareciam quase normais, enquanto os dois as percorriam.

Jean-Pierre a observara discretamente durante a maior parte do percurso, e pela primeira vez nos anos em que prestava ajuda aos refugiados sem lar, alquebrados e assustados, não pôde achar palavras para oferecer conforto. A expressão dos olhos dela dizia claramente que nada que qualquer pessoa pudesse dizer aliviaria sua carga terrível.

Enquanto rodavam, a realidade da situação a estava atingindo. Não havia mais ninguém no mundo a quem quisesse bem, ninguém em quem se apoiar; ninguém jamais poderia partilhar uma lembrança do que fora o seu passado, ninguém jamais entenderia sem tradução, ou teria lembranças do irmão dela, do pai, da casa em Grunewald... da mãe... de Fräulein Hedwig... dos verões no lago... ou das risadas por trás das costas de Berthold, à mesa... Ninguém teria sentido o cheiro do equipamento de química de Gerhard, quando pegou fogo. Nem existiria pessoa alguma que tivesse conhecido Manfred... não neste novo mundo para o qual estava indo. Não haveria ninguém que entendesse o que fora estar enjaulada naquela cela. Atacada por Hildebrand... e depois salva por Manfred, carregada para Wannsee. Com quem poderia partilhar a lembrança do "ensopado" que fizera da lingüiça de fígado, da cor da colcha da cama naquele primeiro quarto... ou da ex­pressão dos olhos dele, quando fizera amor com ela pela primeira vez... ou do toque do seu rosto, quando finalmente o encontrara diante do Reichstag, em Berlim. Jamais conheceriam qualquer coisa desse último ano na sua vida, ou dos últimos 20, e enquanto rodava ao lado de Saint Marne a caminho do navio que a levaria para longe, para sempre, não podia acreditar que fosse vol­tar a se partilhar com qualquer outra pessoa, novamente.

— Ariana? — chamou-a com sua voz profunda e o sotaque francês. Mal ousara falar com ela naquela manhã, até que saíram para o Havre. A moça estivera doente demais para se levantar. No dia anterior, desmaiara duas vezes. Jean-Pierre notava agora que parecia um pouco mais forte, e rezou silenciosa­mente para que estivesse bem o bastante para sobreviver à viagem para Nova York. Se chegasse lá, eles a deixariam entrar nos Estados Unidos, que abrira os braços para os refugiados de guerra. — Ariana? — falou com ela de novo, meigamente, e ela veio aos poucos voltando ao presente.

— Sim?

— Você e Manfred estiveram juntos por muito tempo?

— Quase um ano.

Ele acenou com a cabeça, lentamente.

— Suponho que neste momento um ano lhe pareça uma vida inteira. Mas — um pequeno sorriso tentou oferecer-lhe esperança — aos vinte anos, um ano parece uma enormidade. Daqui a vinte anos, não parecerá tanto.

A voz dela era gélida, quando respondeu.

— Está sugerindo que vou esquecê-lo? — Estava escandalizada por Saint Marne dizer uma coisa dessas, mas o francês sacudiu a cabeça, tristemente.

— Não, minha querida, você não o esquecerá. — Por um instante pensou na mulher e na filha, perdidas há apenas três anos, e a dor estraçalhou-lhe o coração. — Não, não vai esquecer. Mas acho que, com o tempo, a dor não será tão vivida. Não será tão insuportável para você quanto é agora. — Pôs um bra­ço em volta dos seus ombros. — Seja grata, Ariana, por ser ainda jovem. Para você, nada terminou. — Tentou animá-la, mas não havia sinal de esperança nos grandes olhos azuis.

Quando finalmente chegaram ao Havre, ele não saltou do carro para acompanhá-la até o navio. Era complicado demais tirar a cadeira de rodas da mala e instalar-se nela com a ajuda do chofer. Agora, não havia mais nada que pudesse fazer por ela. Tinha providenciado a passagem para Nova York, onde sabia que a Organização de Consolo das Mulheres de Nova York cuidaria dela.

Estendeu-lhe a mão pela janela aberta, enquanto Ariana ficava ali, segu­rando a pequena mala de papelão que a governanta dele trouxera do porão e arrumara com algumas das roupas da mulher dele, e que provavelmente não serviriam nela. Era tão pequena e infantil, parada ali, os olhos tão imensos no rosto incrivelmente delicado, que subitamente ele se perguntou se tinha feito a coisa errada, providenciando-lhe a passagem.

 Talvez fosse frágil demais para fazer a viagem. Mas conseguira percorrer os 900 quilômetros desde Berlim, a pé e de carro e a cavalo e de carroça e de jipe, ao longo de nove dias traiçoei­ros... sem dúvida conseguiria agüentar mais uma semana para cruzar o ocea­no. Valeria a pena, para colocar o máximo de distância entre si mesma e o pesadelo, e começar uma vida nova numa terra nova.

— Vai-me avisar como está se saindo, não vai? — Sentia-se como um pai banindo uma filha adorada, para uma escola numa terra estranha.

Aos poucos, um sorriso frio apareceu nos lábios dela, e depois subiu para os olhos azuis.

— Sim, vou. E Jean-Pierre... obrigada... por tudo o que fez.

Ele meneou a cabeça, assentindo.

— Gostaria apenas... que as coisas pudessem ter sido diferentes. — Gostaria que Manfred estivesse parado ali, ao lado da mulher.

Mas ela compreendera o que ele quisera dizer, e concordou:

— Eu também.

E então, numa voz gentil, ele sussurrou:

— Au revoir, Ariana. Boa viagem.

Os olhos dela lhe agradeceram uma última vez, e a jovem se virou para a prancha de embarque do navio que ia tomar. Voltou-se uma última vez, ace­nou solenemente e murmurou:

— Adieu. — As lágrimas escorriam-lhe dos olhos.

 

OSS Pilgrim 's Pride fora batizado apropriadamente. Parecia ter sido usado pelos imigrantes puritanos ingleses, os peregrinos, muito antes de eles terem embarcado no Mayflower. Era pequeno, estreito, escuro e cheirava a mofo. Mas era forte, bem construído. E estava completa­mente lotado. O Pilgrim 's Pride fora comprado por diversas organizações ame­ricanas de salvamento, e era administrado principalmente pela Organização de Consolo das Mulheres de Nova York, que até então tinha supervisionado quatro viagens desta natureza, trazendo mais de 1.000 refugiados da Europa destruída pela guerra até Nova York. Tinham arranjado "padrinhos" para todos, através das várias organizações congêneres espalhadas pelos Estados Unidos, e contratado uma tripulação decente para fazer a viagem, trazendo homens, mulheres, crianças e velhos dos destroços da Europa para uma vida nova nos Estados Unidos.

As pessoas que faziam a viagem no navio estavam todas em condições precárias, e tinham chegado a Paris vindas de outros países, além de diversas regiões da França. Algumas haviam viajado a pé por semanas e meses; outras, como algumas das crianças, vagavam, sem lar, há anos.

 Nenhuma delas tinha conseguido comida de verdade há um tempão, e muitas jamais viram o mar antes, que dirá andar de navio.

A Organização de Consolo não conseguira encontrar um médico para fazer as travessias com o navio, mas contratara uma jovem enfermeira excepcionalmente competente. Em cada uma das travessias, até então, os seus ser­viços haviam sido vitais. Já tinha ajudado nove bebês a virem ao mundo, par­ticipado de vários e tristes abortos espontâneos, quatro enfartes e seis mor­tes. Assim, Nancy Townsend, como enfermeira de bordo, tinha que lidar com saudades de casa, fadiga, fome, privações e as necessidades desesperadas de gente que havia pago o preço da guerra por tempo demais.

 Na última viagem, havia quatro mulheres que estiveram na cadeia, nos arredores de Paris, por quase dois anos, antes que os americanos as libertassem. Mas apenas duas delas sobreviveram à viagem de mar até Nova York. De cada vez, enquanto observa­va os passageiros que embarcavam, Nancy Townsend sabia que nem todos chegariam a Nova York. Geralmente era fácil perceber quais eram os mais for­tes e quais os que jamais deveriam ter enfrentado a viagem. Mas, era freqüen­te, também, alguns deles parecerem fortes e subitamente desabar na fase der­radeira de sua fuga.

Parecia que a lourinha miúda no convés inferior, numa ca­bina com outras nove mulheres, era uma dessas.

Uma mocinha dos Pireneus tinha vindo correndo em busca de Nancy, gritando que havia alguém morrendo no beliche abaixo do seu. Quando Nancy viu a moça, soube que estava morrendo de enjôo, fome, desidratação, dor, delírio... era impossível dizer o que a havia feito desabar, mas tinha os olhos revirados, e quando Nancy a tocou, a testa da moça estava quente e ressequi­da, com uma febre altíssima.

Tomando-lhe o pulso, a enfermeira se ajoelhou a seu lado e fez sinal às outras para recuarem. As passageiras estavam fitando Ariana, cheias de mal-estar, imaginando se iria morrer no quarto delas, à noite. Aquilo há lhes acontecera dois dias antes, no quarto dia após a saída do Havre. Uma judiazinha magra como um palito que viajara de Bergen-Belsen até Paris não sobrevivera à última fase da viagem.

Vinte minutos depois de tê-la visto no camarote superlotado, a Enfermeira Townsend transferira Ariana para um dos quartos de isolamento. Foi ali que a febre ficou ainda mais alta, e que ela teve cãibras violentas nos braços e pernas. Nancy pensou que a jovem ia entrar em convulsões, mas não entrou, e no último dia da viagem a febre finalmente cedeu. Ariana vomitava constan­temente, e cada vez que tentava sentar-se na cama, a pressão baixava tanto, que desmaiava. Não conseguia lembrar-se de quase nada do seu inglês, e falava com a enfermeira constantemente num alemão assustado e desesperado, que Nancy não entendia, exceto os nomes que repetia inúmeras vezes... Manfred... Papai... Gerhard... Hedwig... gritara estridentemente repetidas vezes: "Nein, Hedwig!" Isto enquanto fitava sem ver os olhos da enfermeira america­na. E quando soluçava, tarde da noite, era impossível consolá-la. Às vezes, Nancy Townsend se perguntava se a moça estava tão doente porque não que­ria mais viver. Não seria a primeira.

Ariana olhou-a confusamente na última manhã, os olhos menos febris, mas cheios de dor.

— Espero que esteja se sentindo melhor — disse Nancy Townsend, sor­rindo meigamente.

Ariana acenou com a cabeça, vagamente, e voltou a dormir. Nem viu o navio entrar no porto de Nova York, ou a Estátua da Liberdade com o sol dourado brilhando no braço que segurava a tocha. Aqueles que podiam estavam nos tombadilhos, dando vivas alucinados, as lágrimas escorrendo pelas fa­ces, abraçados uns aos outros... tinham conseguido, finalmente! Mas Ariana não tomou conhecimento de nada disso. Não tomou conhecimento de coisa alguma, até que o funcionário da imigração desceu a seu quarto, depois de te­rem atracado. O homem cumprimentou serenamente a enfermeira e leu seus relatórios. Em geral, mandavam a maioria dos passageiros diretamente para os padrinhos, mas esta era uma que teria que esperar. Devido ao delírio e à febre, queriam certificar-se de que não estava com nenhuma moléstia grave. O fun­cionário da imigração elogiou a enfermeira por ter colocado a moça no isola­mento, e depois, olhando para a jovem adormecida e em seguida para a mu­lher uniformizada, alçou uma sobrancelha, interrogativamente.

— O que acha que é?

A enfermeira fez um gesto silencioso na direção do corredor, e deixaram a enferma dormindo.

— Não sei dizer ao certo, mas pode ser que tenha sido torturada de algu­ma forma, ou talvez estado num dos campos de concentração. Simplesmente não sei. Vocês terão que mantê-la sob observação.

O funcionário meneou a cabeça, em resposta, olhando compassivamente pela porta aberta.

— Nenhuma ferida aberta, infecções, lesões evidentes?

— Nada que eu pudesse ver. Mas ela vomitou durante toda a travessia do Atlântico. Acho que deviam ficar de olho nisso. Pode ser que haja algum dano interno. Desculpe. — Olhou-o contritamente. — Mas não tenho nenhuma cer­teza quanto a esta aí.

— Não se preocupe, Srta. Townsend. É por este motivo que a está entre­gando aos nossos cuidados. Deve tê-la mantido bem ocupada. - Fitou os gráficos de novo.

Mas e enfermeira deu um sorriso lento, olhando o porto.

— Sim, mas ela chegou aqui. — Voltou os olhos suavemente para os de­le. — Acho que agora viverá. Mas cheguei a pensar...

— Posso imaginar. — O funcionário acendeu um cigarro e olhou para baixo, para ver os outros desembarcando.

Esperou enquanto dois auxiliares vieram e colocaram a moça gentilmen­te na maça. Ariana mexeu-se de leve, e depois, com um último olhar para a en­fermeira que a mantivera viva, deixou o navio. Não tinha a menor idéia de pa­ra onde a estavam levando, e realmente não se importava.

 

— Ariana?... Ariana... Ariana... — A voz parecia chamá-la de uma grande distância, e enquanto a escutava, não tinha certeza se era a mãe ou Fráulein Hedwig, mas, fosse quem fosse, não conseguia forçar-se a responder. Sentia-se terrivelmente cansada e pesada, estava fazen­do uma longa viagem, e dava muito trabalho voltar. — Ariana... — Mas a voz era muito insistente. Franzindo o cenho suavemente, enquanto dormia. Aria­na teve consciência de uma sensação de estar voltando de uma longa distân­cia.  Teria que responder, afinal de contas... mas não tinha vontade... o que queriam? — Ariana... — A voz continuava chamando, e depois do que pare­ceu um longo tempo, Ariana abriu os olhos.

Havia a seu lado uma mulher alta e grisalha vestida de preto. Usava saia e suéter pretas, e o cabelo estava repuxado num coque pesado. E alisava os ca­belos de Ariana com mãos fortes e frescas. Quando finalmente afastou as mãos, Ariana pôde ver um grande anel de diamante na mão esquerda.

— Ariana? — A moça descobriu que sua voz parecia estar faltando, e pôde apenas balançar a cabeça, em resposta. Mas não conseguia lembrar-se do que tinha acontecido. Onde estava? Onde tinha estado anteriormente? Quem era esta mulher? Tudo na sua cabeça estava misturado e fora do contexto.

            Es­tava num navio? Estava em Paris?... Berlim? — Sabe onde está? — O sorriso era suave como tinham sido as mãos no cabelo emaranhado de Ariana, e fala­va inglês. Agora Ariana se lembrava, ou pelo menos achava que sim, enquan­to olhava indagadoramente para a mulher. — Está em Nova York. Num hos­pital. Nós a trouxemos para cá para ter certeza de que estaria bem.

E o estranho era que, ao que lhes constava, ela estava bem. Ruth Liebman tinha conhecimento, a esta altura, que havia muita coisa sobre essa gente que jamais se sabia ou saberia, muita coisa que não se tinha o direito de per­guntar.

— Está-se sentindo melhor?

O médico dissera a Ruth que não conseguiam achar motivo para a exaustão, o sono profundo, a fraqueza, exceto, é claro, os vômitos e a febre que a moça tivera no navio. Agora, contudo, achavam que era imperativo que alguém fizesse o esforço de puxar a moça da beira do abismo onde ainda se encontrava. Era a opinião oficial deles de que a jovem estava simplesmente de­sistindo da luta para continuar vivendo, e que agora era crucial que alguém in­terferisse e a puxasse, antes que fosse tarde demais. Como chefe das voluntá­rias da Organização de Consolo das Mulheres de Nova York, Ruth Liebman viera ver a moça, ela mesma. Esta era a segunda vez que vinha visitá-la. Na primeira oportunidade, apesar de ter-lhe alisado o cabelo docemente, e tê-la chamado com insistência, Ariana nem se mexera. Ruth a examinara discreta­mente, tentando achar os números tatuados no lado de dentro do braço direi­to da moça. Porém não vira nada. Fora uma das poucas afortunadas que esca­para a esse destino. Talvez tivesse sido escondida por alguma família, ou tal­vez tivesse sido uma das vítimas especiais, aquelas que não tinham sido marca­das com números, mas usadas de outras formas. O rosto sereno e adormecido da beldade loura e miudinha nada lhe dizia, e só o que sabiam dela era o seu nome e que tinha sido enviada através da organização de refugiados de Saint Marne, na França. Ruth conhecia um pouco a respeito do homem, um alei­jado que perdera a mulher e a filha na guerra.

Ela suportara suas próprias tragédias desde que Pearl Harbor arrastara os Estados Unidos para a guerra. Quando a guerra estourou, tinha quatro fi­lhos sadios e felizes; agora tinha duas filhas e apenas um filho. Simon fora abatido em Okinawa, e quase tinham perdido Paul em Guam. Quando o telegrama chegou, Ruth quase desmaiou, mas com a fisionomia fechada e mãos trêmulas, trancara-se no gabinete do marido. Sam estava no escritório.

 As meninas se encontravam lá em cima, e ela segurava nas mãos o papel que se parecia tanto com o primeiro... o papel que lhe revelaria o destino do seu último filho. Ruth resolvera enfrentar sozinha as notícias. Mas, quando leu o telegrama, o choque foi de alívio. Paul fora apenas ferido, e voltaria para os Estados Unidos dali a poucas semanas. Quando ligou para Sam, foi com a histeria da comemoração. Não precisava mais manter sua calma de ferro. Para eles, a guerra tinha acabado. Seu júbilo dera um vigor renovado a cada gesto, cada pensamento. Ficara abaladíssima com as notícias dos horrores alemães, e sentira uma espécie de culpa especial, por não ter sofrido como os judeus na Europa. Lançara-se toda no seu trabalho de voluntária. Via aquela gente agora com maior amor e compaixão, e a gratidão que sentia pela sobre­vivência de Paul derramava-se sobre as horas que passava com os refugiados... ajudando-os a localizar os padrinhos desconhecidos, colocando-os nos trens que os levariam para as cidades distantes do Sul e do Centro-Oeste, e agora, visitando esta mocinha assustada. Ariana fitou-a atentamente, depois fechou os olhos.

— Por que estou aqui?

— Porque esteve muito doente no navio, Ariana. Queríamos ter certeza de que não havia nada errado.

Mas Ariana sorriu com uma ironia cansada, ante essas palavras. Como poderiam ter certeza disso? Tudo estava errado.

Com a ajuda da mulher mais velha, ela se sentou lentamente e bebeu um pouco do caldo quente que a enfermeira deixara, e depois se deixou cair, exausta. Até mesmo aquele pequeno esforço fora demasiado. Suavemente, Ruth Liebman afofou os travesseiros da moça e fitou os atormentados olhos azuis. E então compreendeu o que os médicos estavam dizendo. Havia algo de aterrador naqueles olhos, que dizia que a garota deitada ali já abandonara to­da a esperança.

— Você é alemã, Ariana? — Ela fez que sim, e fechou os olhos. O que significava agora ser alemã? Era apenas uma refugiada cornos outros, fugindo de Berlim três semanas antes. Ruth viu as pálpebras se agitarem, enquanto a moça se lembrava, e tocou meigamente na mão dela, enquanto Ariana abria de novo os olhos. Talvez precisasse conversar com alguém, talvez precisasse fa­lar alguma coisa, para os fantasmas pararem de persegui-la. — Saiu da Alema­nha sozinha, Ariana? — Novamente, a jovem apenas fez que sim com a cabe­ça. — Que coisa corajosa que você fez. — Falou cuidadosa e precisamente. A enfermeira lhe dissera que Ariana falava inglês, mas que não sabia ao certo se falava muito bem. — Viajou muito?

Ariana fitou o rosto bondoso com desconfiança, e depois resolveu responder. Se esta mulher pertencia ao Exército ou à polícia ou à imigração, isso já não importava mais. Por um instante, pensou nos interrogatórios intermi­náveis às mãos do Capitão Von Rheinhardt, mas aquilo só lhe trouxe lembran­ças de Manfred de novo. Fechou os olhos com força, por um instante, e de­pois os abriu, enquanto duas lágrimas imensas deslizaram lentamente por seu rosto.

— Viajei novecentos quilômetros... até a França.

Novecentos quilômetros?... E partindo de onde? Ruth não ousou perguntar. Era evidente que a um simples toque nas lembranças a moça ficava to­mada de angústia renovada.

Ruth Liebman era uma mulher que jamais abandonava a esperança. Era uma atitude que comunicava aos outros, e era por isso que se mostrava tão ex­traordinária nesse tipo de trabalho. Sempre desejara ser assistente social, quando mais moça, porém, como mulher de Samuel Liebman, seu trabalho fora destinado a outras áreas.

Estava sentada muito quieta, agora, observando Ariana, tentando enten­der a tristeza da moça, querendo saber como poderia ajudar.

— E sua família, Ariana? — As palavras foram ditas muito docemente, no entanto ficou claro para Ariana que eram palavras que ainda não estava pronta para ouvir. Chorando mais livremente, sentou-se na cama e sacudiu a cabeça.

— Morreram todos... todos eles... meu pai... meu irmão... meu... — Começou a dizer "meu marido", mas não conseguiu continuar, e sem pensar mais Ruth tomou Ariana nos braços. — Todos eles... todos eles. Não tenho ninguém... nenhum lugar... nada... — Ondas renovadas de sofrimento e terror tomaram conta da moça. Sentia-se atormentada por tudo aquilo, en­quanto jazia ali, rezando para sua vida terminar.

— Não pode olhar para trás, Ariana. — Ruth Liebman falou com ela mansamente, enquanto a segurava, e por um instante Ariana sentiu como se tivesse encontrado outra mãe, deitada nos braços da mulher, soluçando. — Precisa olhar para a frente. É uma vida nova para você, um novo país... e as pessoas a quem amou naquela outra vida jamais a deixarão. Estão aqui com você. Em espírito, Ariana, você sempre as levará consigo.

Como ela levava Simon... como jamais perderia o seu primogênito. Acreditava nisso, e Ariana vislumbrou uma esperança enquanto se agarrava à mulher alta e magra, cujo otimismo e força pareciam quase tangíveis, ao mesmo tempo em que seus olhos se encontravam e não se deixavam.

— Mas, o que vou fazer agora?

— O que fazia, antes? — Mas até mesmo Ruth compreendeu rapidamen­te que fora uma pergunta tola. A despeito da expressão de anos a mais e de fadiga que havia nos seus olhos, era evidente que a moça provavelmente não tinha mais de 18 anos. — Você trabalhava?

Ariana fez que não, lentamente.

— Meu pai era banqueiro. — E depois soltou um suspiro. Era tudo uma piada, agora. Todos aqueles sonhos destroçados sem importância. — Eu preten­dia ir para a universidade, depois da guerra. — Mas até mesmo ela sabia que jamais teria aproveitado a instrução recebida. Ter-se-ia casado e tido filhos, dado almoços e jogado cartas, como as outras mulheres. Até mesmo com Manfred, não teria feito nada além de viajar entre a casa da cidade e o castelo, nos fins de semana e férias, onde teria que providenciar para que tudo esti­vesse em ordem para o marido... e naturalmente haveria os filhos. . Teve que cerrar os olhos de novo. — Mas tudo isso foi há muito tempo. Não tem mais importância.

Nada mais tinha. E ela o demonstrava.

— Quantos anos você tem, Ariana?

— Vinte.

Paul era apenas dois anos mais velho, e Simon teria 24 anos. Será que ela poderia ter viajado tanto, com apenas 20 anos? E como se separara da sua família? Por que tinham matado os pais e o irmão dela, e a poupado? Mas, en­quanto Ruth olhava para ela, compreendeu.a resposta para esta pergunta, e sentiu uma dor renovada nascer no seu coração pela moça. Ariana era tão de­vastadoramente bonita, mesmo no seu estado de debilidade atual, com aque­les olhos azuis, imensos e tristes. Ruth teve a súbita certeza de que os nazistas a tinham usado. Ficou claro para ela num instante o que acontecera com Aria­na durante a guerra. E fora por este motivo que não a tinham matado, porque não marcaram o seu corpo ou lhe tatuaram os braços. Ao perceber total­mente a realidade, sentiu-se profundamente comovida, e teve que lutar contra as lágrimas que lhe vinham aos olhos. Era como se tivessem pegado uma das amadas filhas de Ruth e a usado como o fizeram com Ariana; só de pensar nis­so, Ruth Liebman quase se sentiu mal.

Por um longo momento, houve silêncio entre as duas mulheres, e depois Ruth segurou meigamente a mão de Ariana.

— Precisa esquecer tudo o que ficou para trás. Tudo. Deve permitir-se ter uma nova vida. - Caso contrário, aquilo a marcaria para sempre. Era obviamente uma garota de berço, mas, se o permitisse, o pesadelo com os nazis­tas destruiria sua vida. Podia acabar uma bêbada, uma prostituta, mentalmen­te perturbada em alguma instituição, ou podia ficar ali deitada na cama, no Hospital Beth David, e resolver morrer. Mas, enquanto segurava a mão de Ariana, Ruth fez uma promessa silenciosa: dar a esta criança miúda e sofrida uma chance nova na vida. — De hoje em diante, Ariana, tudo é novo. Uma nova casa, novo país, novos amigos, novo mundo.

— E quanto aos meus padrinhos? — Ariana fitou Ruth, desanimada, e a resposta desta foi vaga.

— Ainda temos que ligar para eles. Primeiro, queríamos ter certeza de que você estava bem. Não queríamos assustá-los ligando antes de saber. — Mas a verdade é que já tinham ligado para eles, uma família judia de Nova Jersey que havia feito o que considerava o seu dever, mas que não estava nem um pouco entusiasmada. Uma mocinha seria um problema; tinham um negócio no qual ela pouco poderia ajudar; além disso, odiavam os alemães. Tinham di­to à Organização de Consolo que queriam alguém francês. E que diabo iam fa­zer com ela, se estava numa cama de hospital em Nova York?... Apenas uma precaução, Ruth lhes assegurara, nada de importância, temos quase certeza. Mas as pessoas tinham sido secas e desagradáveis. E Ruth não tinha certeza de que a aceitariam. A não ser que... Teve uma súbita idéia, sentada ali... a não ser que pudesse convencer Sam a deixar Ariana vir ficar com eles. — Por falar nisso... — Ruth Liebman olhou pensativa para Ariana, depois se pôs de pé, com sua altura considerável. Um sorriso surgiu lentamente nas feições grandes e bondosas, e ela deu nova palmadinha na mão de Ariana. — Por falar nisso, te­nho que vê-los daqui a pouco. Estou certa de que tudo dará certo.

— Por quanto tempo mais tenho que ficar aqui? — perguntou Ariana, correndo os olhos pelo pequeno e triste quarto. Continuavam mantendo-a no isolamento, especialmente por causa dos intermináveis pesadelos que acabavam em gritos, mas não iam deixá-la ali por muito mais tempo. Ruth ouvira-os falar, naquela manhã, sobre colocá-la na enfermaria.

— Provavelmente vai ficar no hospital apenas mais alguns dias. Até sabermos que está mais forte. — Sorriu meigamente para Ariana. — Não vai que­rer sair depressa demais, Ariana, só serviria para ficar doente de verdade.

Aproveite o descanso aqui. — Porém, enquanto se preparava para sair, viu uma nova onda de pânico percorrer a moça, que olhou com terror para o quarto vazio.

— Meu Deus, minhas coisas... onde estão? — Seus olhos voaram para Ruth Liebman, que a tranqüilizou rapidamente com um sorriso cálido.

— Estão a salvo, Ariana. A enfermeira do navio deu sua mala para o motorista da ambulância e, ao que me consta, está guardada aqui. Estou certa de que vai encontrar nela tudo o que havia lá, Ariana. Não precisa preocu­par-se.

Mas estava preocupada... os anéis da mãe! E, ao pensar neles, olhou pa­ra as mãos. Sua aliança e o anel de noivado de Manfred tinham desaparecido, assim como o anel de sinete dele. Olhou com ar desesperado para a outra mu­lher, que compreendeu imediatamente.

— A enfermeira guardou no cofre todas as suas coisas de valor. Ariana. Confie um pouquinho em nós. — E depois, mais suavemente: — A guerra aca­bou, menina. Você agora está a salvo.

Estava mesmo?, perguntava-se Ariana. Estava a salvo, e que importância isso tinha?

Alguns minutos mais tarde, tocou chamando a enfermeira, que veio correndo. Achava-se curiosa para ver a moça de que todos estavam falando. A tal que escapara dos campos de concentração na Alemanha, e que dormira du­rante quatro dias seguidos.

Ariana esperou nervosamente até que a mulher lhe trouxesse a mala.

— Onde estão os meus anéis? Das minhas mãos? — O seu inglês estava le­vemente enferrujado. Desde antes da guerra que seu professor de inglês não lhe dava aulas. — Desculpe... eu estava usando anéis.

— Estava?

A enfermeira pareceu incerta e foi verificar. Voltou dali a um momento com um pequeno envelope, que Ariana pegou dela e segurou com força, abrindo-o lentamente depois que a enfermeira tinha saído do quarto. Estavam todos ali, a aliança estreita que a havia unido a Manfred, o anel de noivado que ele lhe dera no Natal, e o anel de sinete, que ela usara atrás dos outros, para que não caísse. Ficou com os olhos cheios de lágrimas de novo, enquan­to os colocava nas mãos. E quando o fez, deu-se conta de que estivera real­mente mais doente do que imaginara nos 22 dias desde que saíra de Berlim. Quando baixou os dedos, os anéis caíram rapidamente no seu colo. Nove dias para chegar a Paris, dois dias ali, doente de exaustão, sofrimento e terror, sete dias desesperadamente doente no oceano, e agora quatro dias neste hospital ... 22 dias... que pareciam mais 22 anos... Quatro semanas antes estivera nos braços do marido, e agora jamais o veria de novo. Segurou os anéis com força na palma da mão esquerda, enquanto, soluçando de determinação, con­seguiu controlar-se. Abriu a mala.

As roupas arrumadas pela governanta de Jean-Pierre de Saint Marne ain­da estavam arrumadas, direitinho. Depois dos dois primeiros dias no navio, ela se sentira doente demais para se mexer ou trocar de roupa. Por baixo delas havia um par extra de sapatos, e por baixo destes o embrulho que estava bus­cando desesperadamente, o envelope com as fotos, e o pequeno livro de cou­ro com o compartimento secreto, no qual ainda se encontravam as jóias da mãe. Lentamente, tirou-as de lá, a esmeralda grande e bela, e o anel de sinete de diamante, de tamanho menor, que o pai lhe dera na noite em que partira. Porém não colocou nenhum dos dois nos dedos, apenas fitou-os, enquanto os segurava. Eram os seus únicos bens, sua única segurança, as únicas lembranças tangíveis do passado. Eram tudo o que lhe restava do passado. Eram só o que tinha, agora, daquele mundo perdido. Os dois anéis da mãe, os anéis dados por Manfred, o anel de sinete de ouro que lhe pertencera, e uma pilha de re­tratos que mostravam um homem de uniforme de gala e uma moça sorriden­te e feliz, nos seus 19 anos.

 

A secretária do lado de fora do escritório particular de Sam Liebman, em Wall Street, guardava a presença dele ali como um anjo vingador com uma espada. Ninguém, nem mesmo a mulher e os filhos, tinha permissão para entrar, a não ser que ele os tivesse chamado. Quan­do estava em casa, era todo deles, mas quando se encontrava no trabalho, considerava-o um mundo sagrado. Todos na família sabiam disso, especial­mente Ruth, que raramente vinha ao escritório dele, exceto em assuntos da máxima importância, motivo pelo qual se achava sentada ali, agora.

— Mas ele pode ficar ocupado durante horas. — Rebecca Greenspan olhava para a mulher do patrão, levemente exasperada. Ruth Liebman já es­tava sentada ali há quase duas horas. E o Sr. Liebman tinha deixado ordens severas para não ser perturbado.

— Se ele não foi almoçar hoje, Rebecca, terá que sair mais cedo ou mais tarde para comer. E enquanto está comendo, posso dar-lhe uma palavrinha.

— Não dá para esperar até logo mais à noite?

— Se pudesse, eu não estaria aqui, não é mesmo?

Sorriu agradável mas firmemente para a moça que tinha mais ou menos metade de sua idade, e também mais ou menos metade de sua altura. Ruth Liebman era uma mulher imponente, alta, de ombros largos, mas não masculinizada. Ela mesma ficava apequenada pela altura impressionante do marido. Samuel Julius Liebman media 1,93m, sem sapatos; tinha ombros largos, so­brancelhas espessas e uma juba leonina com a qual os filhos implicavam: o seu cabelo era quase da cor da chama. Agora que estava mais velho, estava menos vivo, passara a uma espécie de bronze acobreado, que ficava mais esmaecido à medida que o cabelo vermelho ia sendo tomado pelos fios grisalhos. Assim como ele, o filho mais velho, Simon, fora ruivo, mas o resto dos filhos era mo­reno como a mãe.

Ele era um homem de sabedoria, caridade e bondade, e no ramo bancá­rio era um homem de grande reputação. A casa de Langendorf & Liebman suportara até o colapso de 1929, e ao longo dos 20 anos de existência, torna­ra-se uma firma de investimentos respeitada por todos. E um dia, Paul iria substituir o pai. Este era o sonho de Sam. Naturalmente, sempre imaginara que seriam Simon e Paul. Agora, toda a responsabilidade recairia sobre os om­bros do filho mais moço, tão logo estivesse recuperado.

Finalmente, às três horas, a porta do seu retiro particular se abriu e o gigante da juba leonina apareceu vestindo um temo escuro de listras e um cha­péu, e com as sobrancelhas franzidas e a pasta na mão.

— Rebecca, vou para uma reunião. — E então, atônito, viu Ruth espe­rando pacientemente numa cadeira do outro lado da sala. Por um instante, foi tomado pelo terror.

O que fora, agora?

A mulher deu um sorriso travesso para o marido, e a preocupação dele se desvaneceu. Retribuiu o sorriso e beijou-a suavemente, enquanto ela se le­vantava e ficava a seu lado, na ante-sala, e a secretária desaparecia discreta­mente.

— Isto não é jeito de gente velha e respeitável estar-se comportando, Ruth. Especialmente às três da tarde.

Beijou-o meigamente e envolveu-lhe o pescoço com os braços.

— E se fingirmos que é mais tarde?

— Então eu perco a reunião para a qual já estava atrasado. — Riu baixi­nho. — Pois bem, Sra. Liebman, o que está querendo? — Sentou-se e acendeu um charuto com ar de expectativa. — Vou-lhe dar exatamente dez minutos, portanto vamos tentar acertar depressa o que quer que seja. Acha que é possível? — Os olhos dele dançavam, acima do charuto, e ela sorriu. Eram famo­sos por suas prolongadas disputas. Ela possuía lá as suas idéias sobre alguns assuntos, e Sam tinha as dele, e quando não estavam em perfeita harmonia, as disputas podiam durar semanas. — Que tal fazermos com que esta discus­são seja rapidinha?

O sorriso ficou bem amplo. Durante os 29 anos em que estavam casados, tinham aprendido que, no final, era um acordo que servia melhor a ambos.

— Para mim seria ótimo. Agora é com você, Sam.

— Ah, Deus, Ruth... não mais uma dessas. Da última vez que você fa­lou que uma coisa "era comigo", quase me deixou maluco com o carro para Paul antes de ele entrar para o Exército. "É comigo", uma ova, você já o ti­nha prometido ao rapaz antes de me dizer qualquer coisa. "É comigo." — Sol­tou uma risadinha. — Pois bem, o que é?

Seu rosto ficou sério, e ela resolveu ir direto ao assunto.

— Quero que sejamos padrinhos de uma moça que trouxemos para o país faz alguns dias, Sam. A Organização de Consolo trouxe-a de navio. Está no Beth David desde que chegou, e a família que se ofereceu para apadrinhá-la não a quer. — Os olhos dela demonstravam amargura e raiva. — Que­riam alguém francês. Uma empregada francesa de um filme de Hollywood, tal­vez, ou uma prostituta francesa?

— Ruth! — Olhou para ela com ar de reprovação. Ela raramente falava de tal jeito. — O que ela é, então?

— Alemã - disse Ruth, suavemente, e Sam acenou com a cabeça, em si­lêncio.

— Por que está no hospital? Está muito doente?

— Não de verdade. — Ruth soltou um suspiro e caminhou lentamente pela sala. — Não sei, Sam, acho que está destroçada. Os médicos não conseguem achar vestígios de uma doença específica, e nada de contagioso, sem dú­vida. — Ruth hesitou por um longo momento. — Ah, Sam, ela está tão... tão desesperançada. Tem vinte anos e perdeu toda a família. É de cortar o cora­ção. — Olhou para ele, súplice.

— Mas são todos assim, Ruth. — Soltou um débil suspiro. Há um mês que vinham sabendo diariamente de mais atrocidades dos campos. — Não po­de levar todos eles para casa.

A verdade era que, apesar de todo o seu trabalho com a Organização de Consolo das Mulheres, jamais quisera levar alguém para casa antes.

— Sam, por favor...

— E quanto a Julia e Debbie?

— O que há em relação a elas?

— Como se sentirão tendo uma completa estranha trazida para casa?

— Como se sentiriam se tivessem perdido toda sua família, Sam? Se elas não conseguem ter pena dos problemas das outras pessoas, então acho que fa­lhamos como pais. Houve uma guerra, Sam. Elas têm que compreender isso. Todos temos que dividir as conseqüências.

— Elas sofreram as conseqüências. — Os pensamentos de Sam Liebman se voltaram instantaneamente para o filho mais velho. — Todos sofremos. Está pedindo muito da família, Ruth. E quanto a Paul, quando voltar para casa? Pode ser difícil para ele encontrar ali uma completa estranha, enquanto está tentando lidar com os problemas que a perna lhe traz, e... — Sam parou, sem conseguir continuar, mas Ruth compreendeu imediatamente. — Vai ter vários choques quando chegar em casa, Ruth, você sabe disso. Não vai tornar as coi­sas mais fáceis para ele ter uma jovem estranha dentro de casa.

A mulher alta e de cabelos escuros sorriu para o marido.

— Pode ter o efeito contrário. Na verdade, acho que pode fazer-lhe mui­to bem. — Ambos sabiam muito bem o que esperava Paul quando voltasse para casa. — Mas não é disso que se trata. É da garota. Temos um quarto em casa para ela. O que quero saber de você é se deixará que eu a traga para viver com a gente, por algum tempo.

— Quanto tempo?

— Não sei, Sam. Falando realisticamente, seis meses, um ano. Ela não tem família, não tem bens, nada, mas parece bem-educada, fala inglês direitinho. Com o tempo, quando tiver se recuperado do choque de tudo o que aconteceu, imagino que será capaz de arranjar um emprego e cuidar de si mesma.

— E se não for capaz, o que faremos? Ficamos com ela para sempre?

— Claro que não. Quem sabe possamos discutir isso com ela. Podemos oferecer para ficar com ela por seis meses, e talvez prolongar a oferta por mais seis meses, depois; mas deixamos claro desde o início que, após um ano, esta­rá por sua própria conta.

Sam sabia que ela vencera. À sua moda, sempre vencia. Mesmo quando ele pensava que estava vencendo, ela sempre conseguia tirar alguma vantagem.

— Sra. Liebman, acho a senhora perturbadoramente persuasiva. Ainda bem que não trabalha para nenhuma firma rival da minha.

— Isso quer dizer sim?

— Quer dizer que vou pensar no seu caso. — E, depois de um momen­to: — Onde ela está?

— No Hospital Beth David. Quando irá vê-la? — Ruth Liebman abriu um sorriso, e o marido soltou um suspiro e largou o charuto.

— Vou tentar vê-la antes de ir para casa, logo mais. Ela vai reconhecer meu nome, se disser quem sou?

— Devia. Passei a manhã toda com ela. Diga-lhe apenas que é o marido da voluntária chamada Ruth. — E depois notou que ele estava preocupado com alguma coisa. — O que é?

— Ela está desfigurada?

Ruth foi até junto dele e tocou-lhe a face, meigamente.

— Claro que não. — Amava as fraquezas e temores que às vezes enxerga­va nele; aquilo a tornava ainda mais consciente de suas forças, e o reduzia a uma escala que lhe parecia mais humana. Ter aqueles vislumbres sempre fazia com que o amasse mais. Olhou para ele com um pequeno sorriso e uma pisca­dela. — Na verdade, é muito bonita. Mas está tão... tão desesperadamente so­zinha, agora... você vai compreender quando a vir. É como se tivesse perdido toda a esperança.

— E provavelmente perdeu, depois de tudo por que passou. Por que de­via acreditar em alguém, agora? Depois do que fizeram àquela gente... — Os olhos de Sam Liebman chamejaram subitamente. Ficava maluco quando pensava no que aqueles filhos da puta tinham feito. Quando lera os primeiros relatórios sobre Auschwitz, ficara sentado sozinho no seu escritório, lendo, pensando e rezando, e finalmente chorando a noite toda. E depois olhou de novo para Ruth, enquanto estendia a mão para o chapéu. — Ela confia em você?

Ruth pensou por um minuto.

— Acho que sim. O quanto pode confiar em alguém, agora.

— Está certo, então. — Pegou a pasta. — Vou vê-la. — Olhou para a mu­lher por um longo momento, depois caminharam juntos até o elevador. — Eu a amo, Ruth Liebman. Você é uma mulher maravilhosa, e eu a amo.

Beijou-o meigamente, em resposta, e então, pouco antes das portas do elevador se abrirem, Ruth falou:

— Eu também o amo, Sam. Como é, quando vai dizer-me?

Ele revirou os olhos enquanto as portas se abriam e eles entravam no elevador.

— Digo logo mais à noite, quando chegar em casa. Está bem?

E estava sorrindo para ela, que assentiu, satisfeita, e depois beijou-o ra­pidamente na face, enquanto ele partia para sua reunião e ela entrava no seu Chevrolet novo e se dirigia para casa.

 

No quarto do hospital, Ariana ficou sentada na cama a manhã toda, olhando pela janela para a luz viva do sol, e quando isso ficou can­sativo, fitando o chão do quarto. Dali a pouco, apareceu uma en­fermeira insistindo para que fosse caminhar um pouco, e após umas débeis tentativas de se arrastar pelo corredor, segurando-se a corrimãos e portais, fi­nalmente voltou para a cama. Mas, depois do almoço, disseram-lhe que ia mu­dar-se, e na hora do jantar estava numa cama na enfermaria lotada. A enfermeira dissera que lhe faria bem ver outras pessoas, mas logo Ariana pediu que puses­sem um biombo ao redor de sua cama; e enquanto escutava as risadas e ruí­dos, e sentia o cheiro das bandejas de jantar que a cercavam, Ariana deixou-se ficar deitada na cama, infeliz, tomada por ondas de náusea. Ainda estava segurando a toalha junto à boca, os olhos aguando pateticamente depois de novo ataque de engulhos, quando bateram no biombo que a protegia dos olhos dos demais, e com um ar de pânico ela largou a toalha e ergueu os olhos.

— Quem é?

Não que tivesse importância... não conhecia ninguém aqui. Falou baixinho, e seus olhos pareceram ficar maiores, quando surgiu à sua frente um homem imenso. Jamais se sentira menor ou mais assustada do que naquele momento, e enquanto Samuel Liebman olhava para ela, a jovem começou a tremer visivelmente e teve que lutar para não gritar. Quem era ele? O que que­ria com ela? De terno escuro e chapéu, tinha uma aparência tão oficial que ela teve certeza de que era da polícia ou da imigração. Iam mandá-la de volta para a França?

Mas o homem olhou para ela gentilmente, os olhos suaves e carinhosos, a despeito da imensa altura.

— Srta. Tripp? — Este era o nome nos seus papéis. Saint Marne havia abandonado convenientemente o "Von".

— Sim? — falou, e sua voz mal passava de um sussurro.

— Como vai? — A moça nem ousou responder. Tremia tanto que ele nem teve certeza se devia ficar. Estava doente, assustada e sozinha, e ele podia compreender por que Ruth ficara tão comovida com a moça. Era uma bela criança. E era evidente para Sam, enquanto a observava, que era pouco mais do que uma criança. — Srta. Tripp, sou o marido de Ruth Liebman. — Queria estender a mão para ela, mas tinha medo de que, se mexesse em sua direção, ela saltasse da cama, tremendo, pois parecia tão precária ali, tão apavora­da e pronta para fugir. — Sabe, Ruth Liebman, a senhora que esteve aqui hoje de manhã? A voluntária?

Sam lutou por forçar-lhe a memória. Aos poucos, a luz foi-se fazendo nos seus olhos. Mesmo naquele estado total de pânico, o nome Ruth significou alguma coisa.

— Sim... sim... eu sei... ela esteve aqui... hoje. — O inglês de Aria­na era mais do que adequado, até mesmo refinado, mas a moça falava tão bai­xinho que Sam mal conseguia escutar.

— Ela me pediu para vir vê-la. Então resolvi dar uma passadinha por aqui antes de ir para casa.

Ela pediu? Por quê? Uma visita social? As pessoas ainda fazem esse tipo de coisa? Ariana fitou-o, assombrada, o olhar confuso, e depois, lembrando-se de sua educação, meneou a cabeça lentamente.

— Obrigada. — E então, como que fazendo um grande esforço, estendeu uma pequena e espectral mão.

— É um prazer — assegurou-lhe Sam, embora ambos soubessem que a palavra não era exatamente aquela. A enfermaria era um horror, e os guinchos e gritos pareciam aumentar, ao invés de diminuir, enquanto os dois tentavam conversar. A jovem tinha feito sinal para ele se sentar ao pé da cama, e agora Sam estava ali, parecendo constrangido e tentando não olhar fixo para ela. — Está precisando de alguma coisa? Quer que lhe traga algo?

Os olhos imensos não se desgrudavam dos dele, mas só o que ela fez foi sacudir a cabeça, enquanto ele se recriminava pela pergunta cretina. As neces­sidades dela não podiam ser facilmente preenchidas. Continuou a falar:

— Minha mulher e eu queremos que saiba que gostaríamos de ajudá-la, da maneira que pudermos. — Soltou um suspiro entrecortado e prosseguiu: — É difícil para as pessoas deste país entenderem o que realmente se passou por lá... mas nós nos importamos... nos importamos profundamente... e o fato de você ter sobrevivido é um milagre que temos que agradecer. Você e os outros sobreviventes serão uma espécie de monumento a esta época, e aos ou­tros, e você precisa viver bem agora... para si mesma, e para eles. — Levan­tou-se e caminhou para junto dela.

Fora um discurso difícil para ele, e Ariana observou-o com olhos arregalados. O que exatamente estava pensando? Sabia que ela escapara de Berlim? De que "outros" estava falando? Ou apenas se referia aos alemães que tinham sobrevivido? Mas, fosse lá o que queria dizer, ou a quem se referia, estava claro que este era um homem que se importava muitíssimo. Com sua imensa altura e cabelos revoltos, parecia tão diferente do pai dela, no entanto, sentiu-se ligada a ele como se fosse um velho amigo. Ali estava um homem de digni­dade e compaixão, um homem que respeitava, e a quem o pai também teria respeitado. Ela se inclinou para a frente então, colocou as mãos de leve nos seus ombros largos e o beijou cuidadosamente na face.

— Obrigada, Sr. Liebman. O senhor me faz feliz por estar aqui.

— E deve ficar. — Sorriu meigamente para ela, emocionado com o beijo. — Este é um grande país, Ariana. — Era a primeira vez que a chamava assim, mas agora achava que podia. — Você vai descobrir como são as coisas aqui. É um mundo novo, uma vida nova para você, vai conhecer gente nova, novos amigos. — Mas os olhos dela pareciam ainda mais tristes enquanto ele falava. Não queria gente nova, queria a antiga, e esta não existia mais. Porém, como se enxergasse a dor que voltara aos olhos da moça, Sam Liebman tocou-lhe a mão. — Ruth e eu somos seus amigos agora, Ariana. Foi por isso que vim vê-la.

E então, quando compreendeu o que ele estava dizendo, que tinha vindo para vê-la, ali no hospital, naquela enfermaria pavorosa, que viera porque se importava com ela, Ariana ficou com os olhos cheios de lágrimas. Porém, por trás das lágrimas havia um sorriso.

— Obrigada, Sr. Liebman.

Enquanto a observava, Sam também teve que controlar as lágrimas. Levantou-se lentamente, ainda segurando a mãozinha dela, e depois apertou-a por um momento.

— Preciso ir agora, Ariana. Mas Ruth voltará para vê-la amanhã. E eu a verei em breve, também.

Como uma criança sendo abandonada, ela assentiu com um aceno, ten­tando sorrir, e lutando desesperadamente contra as lágrimas que ameaçavam fugir a seu controle. E então, incapaz de se conter por mais tempo, Samuel Liebman a tomou nos braços. Segurou-a assim, num abraço apertado, por quase meia hora, enquanto Ariana soluçava incontrolavelmente. Afinal, quan­do parou, ele lhe entregou um lenço e ela assoou o nariz, com força e demoradamente.

— Desculpe... não queria... foi só que...

— Psiu... pare com isso. — Alisava meigamente sua cabeça. — Não pre­cisa explicar, Ariana, eu compreendo.

Enquanto olhava para a loura miudinha, enterrando a cabeça no lenço dele, na cama grande, perguntou-se como ela sobrevivera. Parecia frágil demais para ter sobrevivido a um só momento difícil, no entanto ele pressentia que, por detrás das feições delicadas, do corpinho magro, pequeno e gracioso, ha­via uma mulher que poderia sobreviver a quase tudo, e ainda sobreviveria. Al­go de duro e invencível nela lhe permitira sobreviver, e enquanto Sam Lieb­man olhava para a garota que acabava de se transformar na sua terceira filha, agradeceu a Deus por ela ter sobrevivido.

 

Os preparativos para a chegada de Ariana foram feitos com uma mistura de júbilo e assombro. Sam voltara para casa depois de tê-la conhecido, e só faltou mandar que Ruth tirasse aquela criança da enfermaria no dia seguinte. Já que os médicos achavam que sua doença não era do tipo que pudesse prejudicar as filhas dele, queria que Ariana fosse trazi­da para a casa da Quinta Avenida com o máximo de rapidez possível. As filhas foram chamadas ao gabinete dele, depois do jantar, e foi-lhes explicado que Ariana estava prestes a se reunir a eles, que era alemã, tinha perdido toda a fa­mília, e que teriam que ser pacientes com ela durante algum tempo.

Assim como os pais, Julia e Debbie eram compassivas. Também elas es­tavam dominadas pelo choque do que as notícias revelavam diariamente sobre a Alemanha. Também elas queriam dar o seu apoio. Na manhã seguinte, su­plicaram a Ruth que as deixasse ir com elas na sua visita ao hospital. Mas, quanto a isto, os Liebmans mais velhos mantiveram firme sua posição. Haveria tempo suficiente para as moças conhecerem Ariana em casa. E esgotada como a jovem estava desde a desastrosa viagem por mar, Ruth temia que a visita das moças fosse ser demais. Na verdade, por sugestão do médico, estava planejan­do manter Ariana na cama durante a primeira semana. Depois disso, se sen­tisse mais forte, poderiam levá-la com eles para almoçar ou jantar fora, ou mesmo a um cineminha. Mas, primeiro, era óbvio que ela ia ter que se fortalecer.

Ruth apareceu no hospital e comunicou a Ariana que ela e o marido queriam que a moça se mudasse para a casa deles, não pelos seis meses que primeiro mencionara a Sam, mas enquanto Ariana precisasse de uma família. Ariana fitou-a, completamente atônita, certa de que seu inglês falhara mo­mentaneamente e que não entendera direito.

— Como disse? — Olhava para Ruth, interrogativamente. Era impossível que tivesse ouvido o que pensara ter ouvido. Mas Ruth tomara ambas as mãozinhas de Ariana nas suas mãos maiores, e se sentara na cama da enfermaria comum sorriso.

— O Sr. Liebman e eu gostaríamos que viesse morar conosco, Ariana. Pelo tempo que quiser. — Depois de tê-la visto, fora Sam que desistira das condições de seis meses a um ano.

— Na sua casa? — Mas por que esta mulher faria uma coisa dessas? Aria­na já tinha padrinho, e esta mulher já perdera tanto tempo ficando com Aria­na. Olhava agora para sua benfeitora, com nada menos do que assombro.

— Sim, na nossa casa, com as nossas filhas, Deborah e Julia, e daqui a algumas semanas nosso filho também irá voltar para casa. Paul esteve no Pací­fico, mas recentemente foi atingido por alguns fragmentos de granada na ró­tula, e logo estará bem o bastante para viajar. — Não lhe falou de Simon. Não havia por quê. Simplesmente continuou a tagarelar alegremente, falando dos filhos, dando tempo à moça para pôr suas idéias em ordem.

— Sra. Liebman... — Ariana a fitava. — Não sei o que dizer. — Por um momento, começou a falar em alemão, mas o conhecimento de iídiche de Ruth Liebman ajudou-a a compreendê-la um pouco.

— Não precisa falar nada, Ariana. — E então, subitamente, a mulher mais velha sorriu. — Mas, se falar, deve tentar fazê-lo em inglês, caso contrário as meninas não a entenderão.

— Falei em alemão de novo? Desculpe. — Ariana enrubesceu, e depois pela primeira vez em semanas olhou para Ruth Liebman e riu. — Vai mesmo levar-me para casa com a senhora? — Olhou para a amiga, num espanto total, e as duas mulheres trocaram um longo sorriso, enquanto Ruth fazia que sim e segurava com força as mãos da moça. — Mas, por que vai fazer uma coisa dessas? Por que motivo? É muito trabalho para a senhora e seu marido.

E então subitamente se lembrou de Max Thomas durante os dois dias que passara com eles. Ele se sentira como ela estava-se sentindo agora... mas aquilo fora diferente. Max fora um velho amigo. E o pai dela não lhe oferece­ra sua casa para sempre. Porém, ao pensar no assunto, soube que o pai a teria oferecido. Quem sabe este era o mesmo tipo de coisa.

Ruth estava olhando para ela com ar sério, agora.

— Ariana, queremos fazer isso. Porque lamentamos tudo o que acon­teceu.

Ariana olhou para a outra tristemente.

— Mas não é culpa sua, Sra. Liebman. Foi apenas... a guerra...

Ariana pareceu tão indefesa por um momento que Ruth Liebman envolveu-lhe os ombros com o braço, correndo a mão pelo cabelo dourado e macio que lhe descia pelas costas.

— Sentimos os dentes da guerra, a injustiça, o horror, a angústia, até mesmo aqui. — Enquanto falava, pensava em Simon, que morrera por seu país, mas verdadeiramente por quê? — Mas nunca sentimos o que vocês experimentaram na Europa. Talvez, de alguma forma, se pudermos, poderemos compensar um mínimo do que lhe aconteceu,para você poder esquecer por um momento, para poder começar de novo. — E então olhou meigamente para a moça. — Ariana, você ainda é muito jovem.

Mas Ariana sacudiu a cabeça lentamente, em resposta.

— Não sou mais.

Algumas horas mais tarde, o Daimler com o motorista de Samuel levava Ariana tranqüilamente para a casa da Quinta Avenida. Do outro lado da rua, o Central Park ostentava suas grandes árvores e flores vivas, enquanto, cruzando lenta­mente as trilhas do parque, Ariana podia ver cabriolés e jovens casais de bra­ços dados. Era uma bela manhã de primavera no final de maio. E esta era a primeira visão que Ariana tinha de Nova York. Parecia uma criancinha, sen­tada ali, entre Samuel e Ruth.

Sam deixara o escritório para ir ao hospital, e ele próprio carregara a única e patética mala de papelão de Ariana até o carro. Ariana arrumara nela mais uma vez os seus tesouros, e pretendia tirar dela o que fosse preciso para se vestir para sair do hospital, quando os Liebmans viessem buscá-la. Porém Ruth dera uma passadinha na Best & Co., pela manhã, e a caixa que entregou orgulhosamente para Ariana trazia um lindo vestido azul-claro de verão, qua­se da cor dos olhos da jovem, com uma cinturinha justa e uma saia muito far­ta. Usando-o, Ariana parecia mais do que nunca uma princesa de conto de fa­das, e Ruth deu um passo atrás para olhar para ela com um sorriso cálido. Tinha-lhe comprado também luvas brancas, uma suéter, e um lindo chapéu de palha natural, que se inclinava um pouco para o lado, realçando o rosto de Ariana. E, milagrosamente, os sapatos que comprara serviam direitinho nos mi­núsculos pés de Ariana. Quando saíram do hospital, ela parecia uma outra moça, e sentada no belo carro marrom de Sam Liebman, vendo a cidade pela primeira vez, parecia mais uma turista do que uma refugiada.

Por um instante, Ariana se pegou imaginando se seria apenas um jogo de faz-de-conta... se fechasse os olhos por um minuto, pareceria que estava de novo em Berlim, a caminho da casa em Grunewald... mas, como se estivesse testando uma ferida muito recente, percebeu que tocá-la ainda lhe tra­zia ondas de dor indesejada. Era mais fácil manter os olhos abertos, olhar a seu redor e absorver tudo aquilo. De vez em quando, Ruth e Sam sorriam um para o outro, por cima da cabeça da jovem. Estavam felizes com a decisão que haviam tomado. Quinze minutos depois de terem deixado o hospital, o Daimler parou e o chofer saltou e abriu a porta. Era um preto de aparên­cia distinta e preocupada, de uniforme e boné pretos, camisa branca e gravata-borboleta.

Tocou no boné enquanto Sam descia, depois ofereceu o braço a Ruth. Esta recusou, com um olhar simpático, olhando por cima do ombro para Ariana, e depois ela própria a ajudou a saltar. Ariana ainda não recuperara todas as suas forças, e a despeito do lindo chapéu e vestido, ainda se achava muito pálida.

— Você está bem, Ariana?

— Estou sim, obrigada.

Mas Ruth e Sam a observavam atentamente. Enquanto se vestia, sentira-se tão tonta que tivera que se sentar, e fora sorte Ruth estar por perto para ajudá-la. Mas era uma outra coisa que Sam estivera observando, sua elegância, pose, a calma com que se movera no momento em que entrara no carro. Era como se a jovem tivesse finalmente entrado num mundo em que se sentia inteiramente à vontade, e ele se pegou desejando fazer-lhe perguntas.

 Não era apenas uma moça bem-criada, bem-educada; era uma jovem dos escalões mais altos, um diamante de primeira, o que tornava ainda mais trágico o fato de que agora não tinha mais nada. Porém agora, tinha-os,  consolou-se Sam, enquanto ela ficava parada ao lado de Ruth por um momento, olhando para o parque com admiração e um longo e lento sorriso.

 Estivera pensando no Grunewaldsee e nas árvores e barcos. Mas aquilo bem que podia pertencer a um outro planeta, pensou, sentindo-se longe, muito longe de casa.

— Pronta para ir para casa, agora?

Ariana fez que sim, e Ruth levou-a lentamente lá para dentro, para o saguão principal, que se erguia por dois andares acima deles, com fartas cortinas de veludo cor de gema, e cheio de antigüidades que o casal tinha adquirido em viagens à Europa antes da guerra. Havia quadros medievais, estatuetas de cavalos, compridas passadeiras persas, uma pequena fonte de mármore e um piano de cauda visível no conservatório no final do corredor. E no centro da entrada uma escadaria que subia em espiral para os céus, e na qual estavam duas garotas morenas e desajeitadas de cabelos escuros.

Em silêncio, ambas fitaram Ariana, depois a mãe, depois Ariana de novo, esperando algum sinal mudo, mas de repente, sem parecer se importar com o que era esperado delas, desceram correndo as escadas e jogaram os bra­ços à volta de Ariana, berrando, dando risadinhas e pulos de alegria.

— Bem-vinda, Ariana! Bem-vinda à nossa casa!

Era uma harmonia de gritos que trouxe novas lágrimas aos olhos de Ruth Liebman. Ficara para trás o momento solene entre os mais velhos — as meninas tinham até obscurecido o momento agridoce de Ariana e o transformado na comemoração que era. Tinham um bolo à espera, e bolas de gás e serpentinas, e Debbie tinha cortado um imenso buquê de rosas frescas das ro­seiras do jardim. Julia havia preparado o bolo, e as duas juntas tinham saído de manhã e comprado para Ariana todas as coisas que achavam que uma senhorita na idade avançada de Ariana devia precisar: três batons cor-de-rosa forte, diversos pós-de-arroz e duas imensas plumas, um vidro de ruge, vários pregadores e grampos de tartaruga, e até mesmo uma engraçada rede de cabe­lo azul, que Debbie jurava seria a última moda no outono. Tinham embrulha­do para presente cada um dos artigos e os empilhado sobre a penteadeira do quarto de hóspedes que Ruth reservara para Ariana na véspera.

Quando Ariana viu o quarto, ficou com os olhos cheios de lágrimas de novo. Ele lhe lembrava, de certa forma, os aposentos fechados da mãe em Grunewaid. Este, também, era um paraíso de sedas e cetins em tom de algodão-doce cor-de-rosa, mas este quarto era ainda mais bonito, a cama maior, e tudo era novo, perfeito e alegre, como se esperaria que fosse um quarto nos Estados Unidos. A cama tinha um enorme dossel de organdi branco, a colcha da cama era um lindo edredom rosa e branco. Havia uma escrivaninha coberta de padrões intricados e flores, um imenso guarda-roupa antigo para os seus per­tences, uma lareira de mármore branco encimada por um belo espelho doura­do, e uma abundância de pequenas cadeiras estofadas em cetim cor-de-rosa, onde as meninas podiam vir fazer companhia a Ariana, tagarelando até de ma­drugada. Para além do quarto ficava um pequeno quarto de vestir, e mais além um banheiro de mármore rosa. E por toda a parte que Ariana olhava havia ro­sas cor-de-rosa, e numa mesa posta para cinco achava-se o bolo de Julia.

Sem conseguir achar palavras para agradecer, Ariana simplesmente as abraçava e continuava alternadamente a rir e a chorar. Depois, abraçou Sam e Ruth de novo. Que milagre era este, que ela acabava por vir morar numa casa como esta? Era como se o círculo se tivesse fechado, da casa em Grunewaid, para a cela minúscula onde Von Rheinhardt a deixara, para a caserna, e de­pois para a segurança da casa de Manfred, e depois disso para o mundo, para o nada, e agora de volta ao conforto luxuoso de um mundo que conhecia, um mundo no qual crescera, um mundo de criados e carros grandes e banheiros de mármore cor-de-rosa, como este que agora fitava, incrédula. Mas o rosto que vislumbrou rapidamente no espelho não era mais o rosto da mocinha que conhecera. Esta era uma estranha magra e cansada, alguém que não se encai­xava nesta casa. Agora não se encaixava em lugar nenhum, não pertencia a ninguém, e se eles queriam ser bondosos para com ela durante algum tempo, deixaria que fossem, e seria grata, mas jamais contaria com um mundo de ba­nheiros de mármore cor-de-rosa de novo.

Numa comemoração solene, sentaram-se para comer o bolo todo confeitado de Julia. Ela escrevera "Ariana" com pétalas de rosa cor-de-rosa de glacê, e Ariana sorriu, ao mesmo tempo em que tentava lutar contra a náusea desesperada que parecia nunca mais deixá-la e enquanto lhe cortavam uma fatia do bolo. Descobriu que mal conseguia comê-lo, e embora as meninas fos­sem uns amores, ficou agradecida quando Ruth finalmente as expulsou do quarto. Sam tinha que voltar para o escritório, as meninas tinham que ir almo­çar com a avó, e Ruth queria que Ariana fosse paia a cama.

 Estava na hora de a deixarem sozinha para descansar. Tinha separado o robe e uma das quatro camisolas que comprara para ela de manhã na Best, e mais uma vez Ariana fi­tou os presentes, espantada. Renda e cetim brancos,.. renda cor-de-rosa... cetim azul... era tudo tão maravilhosamente familiar, e no entanto agora tu­do parecia tão admirável e tão novo.

— Você está bem, Ariana? — Ruth lançou-lhe um olhar indagador, en­quanto Ariana se deitava na cama.

— Estou ótima, Sra. Liebman... e foram todos tão bons para mim... ainda não sei o que dizer.

— Não diga nada. Aproveite. — E então, após um momento de silêncio pensativo, olhou para Ariana. — De certa forma, acho que é o nosso modo de conviver com a culpa.

— Que culpa? — perguntou Ariana, olhando-a confusa.

— A culpa de estarmos todos a salvo aqui, enquanto todos vocês na Europa....— Parou por um momento. — Vocês não eram diferentes de nós, no entanto todos pagaram o preço de serem judeus.

Num momento de silêncio estupefato, Ariana compreendeu. Eles pensavam que ela era judia. Então era por isso que a tinham acolhido como um das próprias filhas... era por isso que eram tão bons para ela... pensavam que era judia. Desolada e angustiada, fitou Ruth Liebman. Tinha que lhe contar. Não podia deixar que pensasse... mas o que lhe poderia dizer? Que era uma alemã... de verdade... que era uma da raça que havia morto aqueles judeus? O que iriam pensar, então? Que era nazista. Mas não era. Nem o pai fora... nem Gerhard. Ficou com os olhos cheios de lágrimas, ao pensar nisso... ja­mais compreenderiam... jamais... a expulsariam para longe deles... a co­locariam no navio de novo. Soltou um soluço, e Ruth Liebman correu para junto dela e abraçou-a com força, enquanto ficavam sentadas lado a lado na cama.

— Ó, meu Deus... desculpe, Ariana... desculpe. Não há necessidade de falarmos disso agora.

Mas ela tinha que contar... tinha que contar... mas uma vozinha den­tro de Ariana a silenciou. Ainda não. Depois que a conhecerem melhor, compreenderão. E estava exausta demais para continuar a discutir com a voz. Dei­xou que Ruth Liebman a pusesse na cama de dossel, sob a colcha de cetim rosa, e com um suspiro longo e entrecortado, Ariana dormia dali a alguns mo­mentos.

E quando acordou, ficou de novo pensando no seu problema. Devia contar-lhes agora, ou esperar? Mas a essa altura Debbie já tinha escrito um poema para ela, e Julia batia suavemente na porta para lhe trazer uma xícara de chá e outra fatia do bolo. Era impossível contar-lhes. Já estava entrosada demais com eles. Já era tarde demais.

 

— Agora, o que vocês três estão inventando? — Ruth foi dar uma es­piada nas três moças, dando risadinhas juntas no quarto de Aria­na. Esta mostrava às duas outras como aplicar ruge. — Ahá! Mu­lheres pintadas!

Ruth olhou para os três rostos e abriu um sorriso. Ariana parecia ainda mais gozada do que as outras, com sua beleza loura de camafeu e o longo cabelo louro caindo nos ombros, feito o de uma criança; o ruge parecia incrivelmente deslocado em suas faces.

— Podemos levar Ariana para sair, amanhã?

Julia olhou súplice para a mãe; era um potro sensual de pernas longas, com imensos olhos castanhos que a faziam parecer ter mais do que 16 anos. Era tão alta quanto a mãe, mas de feições mais delicadas. Ariana achava-a linda, e um tanto exótica. E era maravilhosamente franca e honesta, muito viva e inteligente.

Debbie, por sua vez, era mais meiga, mais quieta, porém também mui­to linda. Era ainda um pouco sonhadora e, ao contrário de Julia, não estava absolutamente interessada em rapazes. Apenas se interessava por seu amado irmão, que dentro de uma semana deveria chegar em casa. A essa altura, pro­metera Ruth, Ariana poderia sair com as meninas todos os dias, se tivesse vontade. Mas, nesse meio tempo, ainda queria que ela ficasse sossegada, e po­dia ver, também, que a despeito dos seus protestos, Ariana gostava de ficar so­zinha e permanecer deitada.

— Ariana, querida, você se sente doente, ou apenas muito cansada?

Aquilo ainda preocupava muito a Ruth, e tinha mais medo, a cada dia, que Ariana tivesse ficado marcada para toda a vida, de certa maneira. Às vezes, ficava muito animada, e estava-se entrosando rapidamente nas brincadeiras e discussões da família nos fins de semana e após as refeições, mas ainda assim Ruth podia ver que a moça não estava recuperada de sua provação. Tinha fei­to Ariana prometer que voltariam ao médico, se ela não se sentisse bem melhor até a semana seguinte.

— Juro, não é nada. Estou apenas cansada... acho que foi de ter enjoa­do tanto no navio.

Mas Ruth sabia muito bem que não era a travessia do oceano. Era um mal do coração. Mas Ariana não vacilava, não se queixava. Ajudava as meninas diariamente com os seus estudos de verão, arrumava o quarto, costurava para Ruth, e por duas vezes Ruth a encontrara lá embaixo, ajudando a gover­nanta a dar uma nova arrumação na rouparia, mexendo em montanhas de lençóis, toalhas de mesa e guardanapos. Esforçando-se por dar uma ordem nas áreas em que Ruth raramente tinha tempo ou interesse em interferir. Da últi­ma vez que a pegara, Ruth dera-lhe uma corrida, mandando-a para o quarto, com ordens de voltar a descansar. Mas ao invés disso, Ruth encontrara-a no quarto de Paul, costurando as cortinas novas que Ruth começara, mas nunca tinha tempo de acabar. Era óbvio que Ariana queria fazer parte das comemo­rações da volta dele ao lar. Todos na casa faziam parte delas, e ela também queria fazer.

E enquanto Ariana costurava sossegadamente no quarto de Paul, ficava-se perguntando que tipo de rapaz ele seria. Sabia que era infinitamente queri­do pelos pais, mas não sabia muito mais do que isso, exceto que tinha mais ou menos a idade dela, e que as fotos da escola secundária expostas no quarto dele mostravam um rapaz alto, sorridente, de porte atlético, ombros largos e um brilho travesso no olhar. Simpatizou com ele, mesmo antes de conhecê-lo, e não ia demorar muito para isso. Paul chegaria no sábado, e Ariana sabia ago­ra quão desesperadamente tinham ansiado por sua volta, especialmente depois da morte do filho mais velho. Ruth lhe contara delicadamente sobre Simon, e naturalmente Ariana sabia que a perda de Simon fora um golpe severo, o que tornava Paul ainda mais precioso para eles, agora. Mas Ariana também sa­bia que a volta de Paul ao lar não ia ser fácil por outro motivo.

Ruth lhe contara que quando partira, há dois anos, Paul queria ser igual­zinho ao irmão mais velho. Tudo o que fazia tinha que ser espelhado no que o irmão fazia. E quando Simon partiu, estava noivo. Assim, pouco antes de em­barcar, Paul também ficou noivo. De uma garota que conhecera a vida toda.

— É um amor de garota — suspirara Ruth. -— Mas ambos estavam com vinte anos, e de certa forma Joan era muito mais madura do que Paul. — En­quanto fitava os olhos de Ruth, Ariana compreendeu subitamente. — Há seis meses Joan se casou com outro homem. Não é o fim do mundo, é claro, ou não devia ser, mas... — Ergueu os olhos agoniados para Ariana. — Ela não contou a Paul. Pensávamos que tinha escrito para ele, mas Joan finalmente nos disse que nunca lhe revelou nada.

— Ele ainda não sabe? — A voz de Ariana estava cheia de compaixão. Tristemente, Ruth sacudiu a cabeça. — Oh, meu Deus. E vocês vão ter que lhe contar quando ele chegar em casa?

— Vamos. E não consigo pensar em nada que tenha menos vontade de fazer.

— E quanto à moça? Não estaria disposta a vir contar-lhe tudo? Quero dizer, não precisaria contar-lhe que estava casada. Bastaria terminar o noiva­do, e se depois ele descobrisse...

Mas Ruth deu um sorriso de pesar.

— Eu adoraria, mas ela está grávida de oito meses. — Ariana sorriu. — Infelizmente isso vai estourar nas mãos do pai e nas minhas.

Então era isso que os esperava. Ariana não podia deixar de se perguntar como ele receberia essa notícia. Já soubera pelas irmãs que ele tinha um gênio feroz e era um rapaz muito impetuoso. Preocupava-se, também, com a reação dele de ter uma estranha ali, na sua casa, quando voltasse. Para ele, afi­nal de contas, seria uma estranha, embora mesmo antes de voltar para casa Paul já não fosse um estranho para ela. Ouvira dúzias de histórias a seu respei­to, a sua infância, suas piadas, suas travessuras. Sentia-se como seja fosse sua amiga. Mas o que ele iria sentir por essa alemã misteriosa que surgira repenti­namente no meio deles? Não podia deixar de imaginar que talvez a repelisse, depois de encarar os alemães como inimigos por tanto tempo; ou, quem sabe, como o resto da família, confiaria nela e a aceitaria como um deles.

Eram exatamente esta confiança e esta aceitação que faziam com que não lhes contasse que não era judia. Após dias de tormento silencioso, tomara sua decisão. Não podia dizer-lhes, isso destruiria tudo. Jamais compreenderiam que uma alemã não-judia pudesse ser um ser humano decente. Estavam cegos demais por sua dor e pelo nojo ante o que os alemães haviam feito. Era mais simples ficar quieta e sofrer as pontadas de culpa. Não importava, agora. O passado estava morto e enterrado. E eles jamais descobririam a verdade. Se descobrissem, sentir-se-iam magoados, traídos. E não tinham sido traídos. Ariana perdera tanto quanto qualquer um

 Precisava dos Liebmans tanto quanto eles imaginaram que precisasse, desde o princípio. Não havia motivo para lhes contar. E ela não podia, agora. Não poderia suportar perder mais uma família. Torcia apenas para que Paul a aceitasse. De vez em quando, tinha me­do que o rapaz fizesse perguntas demais, mas teria que esperar para ver.

Mas os pensamentos de Ruth estavam voltados para uma direção bem diferente. Ocorrera-lhe que ter uma moça tão linda como Ariana por perto distrairia o filho. A despeito da fadiga que continuava a acometê-la, a moça florescera nessas duas semanas. Tinha a tez mais perfeita que Ruth já vira num ser humano, era como um pêssego perfeitamente aveludado, os olhos como a urze beijada pelo orvalho. Sua risada era viva e alegre, o corpo flexível e gra­cioso, a inteligência aguçada. Teria sido um presente para qualquer mãe, e este pensamento não escapava a Ruth Liebman, quando se preocupava com Paul. Mas não podia pensar apenas em Paul, agora; tinha que levar Ariana em consi­deração, também, o que lhe lembrava que havia algo que lhe queria perguntar. Estreitou os olhos enquanto mirava Ariana, que se sentiu repentinamente co­mo uma criancinha, ante aquele olhar.

— Diga-me uma coisa, mocinha, por que não me contou que desmaiou ontem de manhã? Eu a vi na hora do almoço, e você me disse que estava bem. — Os empregados lhe tinham contado, à tarde.

— É que naquela hora eu estava bem. — Sorriu para Ruth, mas esta não pareceu satisfeita.

— Quero que me conte, quando essas coisas acontecerem. Está me en­tendendo, Ariana?

— Sim, Tia Ruth. — Tinham resolvido que esta era a melhor forma de tratamento.

— Quantas vezes isso já aconteceu?

— Só uma ou duas. Acho que só acontece quando estou muito cansada, ou quando não como.

— O que, pelo que vejo, é o tempo todo. Não está comendo direito, mo­cinha.

— Sim, senhora.

— Pare com isso. Se desmaiar de novo, quero saber imediatamente, e por sua boca, não pelos criados. Falei claro?

— Sim, desculpe-me. É que não quis preocupá-la.

— Então me preocupo um pouco. Fico mais preocupada ainda se sinto que não me estão contando. — E então seu rosto se suavizou de novo e Ariana sorriu. — Por favor, querida. Preocupo-me mesmo com você. E é importante que nesses primeiros meses a gente cuide muitíssimo bem de sua saúde. Se to­mar cuidado e se recuperar direito agora, não terá cicatrizes feias do passado para sempre. Mas, se não se cuidar, pode pagar por isso pelo resto da vida.

— Desculpe, Tia Ruth.

— Não peça desculpas. Cuide de si mesma. E se continuar a desmaiar, quero levá-la de volta ao nosso médico. Está bem? — Ele já a tinha examinado no hospital, antes de Ariana sair de lá.

— Prometo que aviso, da próxima vez. Mas não se preocupe comigo, já vai estar bastante ocupada com Paul na semana que vem. Ele vai ter que ficar de cama?

— Não, acho que não será preciso, se for cuidadoso. Vou ter que ficar andando atrás de vocês dois para ter certeza de que estão se cuidando direito.

Mas Ruth não precisou ficar andando atrás do filho, quando Paul che­gou em casa. Quando lhe deram a notícia do casamento de Joan, ficou tão arrasado que passou dois dias trancado no quarto. Não deixou ninguém entrar, nem as irmãs, e foi o pai que se impôs e finalmente o convenceu a sair do quarto. Quando apareceu, estava um horror, exausto, barbado. Mas o resto da família estava quase tão ruim quanto ele. Depois dos longos anos de terror e preocupação, tê-lo finalmente em casa, e tão abalado com o noivado rompido, deixava a todos doídos de frustração com sua dor. Mas, numa explosão de rai­va, o pai finalmente o acusara de paparicação e mimos infantis, e sua própria raiva ante as palavras do pai acabou por tirá-lo do isolamento. Apareceu à mesa do café no dia seguinte, de barba feita, pálido e de olhos vermelhos, e embora falasse secamente com todos os presentes, pelo menos estava ali. Foi só no final da refeição que se dirigiu a alguém.

 Estivera fitando a todos raivo­samente, exceto a Ariana, a quem parecia nem enxergar. E então, subitamen­te, como se alguém lhe tivesse batido no ombro, olhou para ela, do outro la­do da mesa, com uma expressão surpreendida.

Por um momento, ela não teve certeza se devia sorrir para ele, ou apenas permanecer como estava. Sentia quase pavor do olhar dele. Era penetrante e parecia atingir-lhe o âmago, questionando sua presença na casa dele, à sua mesa, perguntando-lhe mudamente por que estava ali. Seguindo seus instintos, Ariana meneou a cabeça, depois desviou os olhos, mas podia sentir o olhar dele sobre si durante minutos intermináveis, e quando voltou a olhar para ele, parecia haver mil perguntas nos olhos do rapaz.

—  De que parte da Alemanha você veio? — Não disse o nome dela, e a pergunta caiu estranhamente no meio da conversa dos pais dele, enquanto con­tinuava a fitá-la, como se a atravessasse com uma lança.

— Berlim — respondeu Ariana, fitando-o nos olhos. Ele encarou-a, as sobrancelhas subitamente franzidas.

— Viu a cidade depois da queda?

— Apenas rapidamente.

Ruth e Samuel trocaram olhares constrangidos, mas Ariana não vacilou. Apenas suas mãos tremiam ligeiramente, enquanto passava manteiga numa torrada.

— Que tal? — Paul olhava para ela com interesse crescente. No Pacífico, eles tinham apenas escutado boatos distantes do que fora realmente a queda de Berlim.

Mas, para Ariana, a pergunta trouxe à mente uma súbita visão de Manfred na pilha de corpos diante do Reichstag, e involuntariamente ela fechou os olhos, como se aquele gesto pudesse banir a lembrança, como se alguma coisa fosse capaz disso. Por um momento, fez-se um silêncio terrível na mesa, e depois Ruth apressou-se em preenchê-lo.

— Não creio que se precise discutir essas coisas. Pelo menos não agora, e muito menos na hora do café. — Olhou com preocupação para Ariana, que já abrira os olhos, mas deixando ver que estavam cheios de lágrimas.

Ariana sacudiu a cabeça suavemente, e sem pensar estendeu a mão para Paul, por cima da mesa.

— Desculpe... é que... é tão... - Faltou-lhe a voz. - ... é muito difí­cil... para mim... ter que lembrar. — As lágrimas agora escorriam livremente por seu rosto. — Perdi... tanto.

E então, de repente, os olhos de Paul também ficaram cheios de lágri­mas, e tomou a mão estendida da moça nas suas, com força.

— Eu e que peço desculpas. Fui muito cretino. Jamais lhe farei esse ti­po de pergunta de novo.

Ela aceitou as desculpas, com um sorrisinho agradecido, e então ele se levantou cuidadosamente, foi até junto dela e enxugou-lhe as lágrimas do ros­to com o guardanapo de linho. O silêncio na sala era total, enquanto ele fazia isso, e depois o resto da família rapidamente se recompôs e continuou agindo normalmente. Mas um laço parecia ter-se formado logo entre os dois, e ela sentiu que tinha um amigo.

Ele era alto como o pai, mas ainda tinha o corpo estreito de um homem bastante jovem. Tinha os olhos castanho-escuros da mãe, e cabelo quase negro, como o das irmãs, mas ela sabia, pelos retratos, que seu sorriso era dife­rente do sorriso dos demais. Rasgava seu rosto com uma grande explosão de entusiasmo, abrindo uma trilha de marfim de radiância na face normalmente séria. Fora o seu lado mais sério que Ariana vira naquela manhã, quando pa­recera quase opressivo, com as sobrancelhas negras franzidas, os olhos escuros zangados, como um furacão que se preparava para esvaziar a ira dos céus a qualquer momento. A gente quase esperava raios e trovões, quando ele ficava com aquela cara. Ao pensar nisso, ela sorriu, enquanto vestia uma roupinha de algodão branco e calçava as sandálias Anabela de salto de cortiça que ela e Julia tinham comprado, iguais, há alguns dias. Ruth insistira para que fosse fa­zer compras, adquirindo mais algumas coisas. Mas Ariana ainda não sabia o que fazer com essa generosidade constante com que a bombardeavam. A úni­ca solução que encontrou foi manter um registro completo, e mais tarde, quando se sentisse bem o bastante para arranjar um emprego, ela pagaria pelos chapéus, os casacos, os vestidos, a roupa de baixo, os sapatos. O armário no seu quarto estava-se enchendo rapidamente de belas roupas.

Quanto aos anéis que ainda guardava escondidos, nem podia pensar em vendê-los. Não agora. Eram a única segurança que tinha. Mexia nos anéis da mãe, de vez em quando, e uma vez sentiu-se tentada a mostrá-los a Ruth, mas ficou com medo que parecesse que se estava exibindo. E os anéis de Manfred ainda estavam grandes demais para ela, devido ao peso que perdera. Gostaria de usar os anéis do marido. De uma maneira diferente dos anéis da mãe, sen­tia que os anéis de Manfred eram parte de sua alma, assim como ele era, e sempre seria. Gostaria de ter contado aos Liebmans sobre ele, mas era tarde demais. E de qualquer forma, explicar-lhes que fora casada, e que o marido também morrera era mais do que suportaria contar-lhes, mais do que agüen­tava recordar, e talvez mais também do que eles gostariam de saber.

— Por que está com uma cara tão séria, Ariana? — Julia entrara no quar­to com um pequeno sorriso. Estava usando sandálias idênticas às de Ariana, e esta olhou para os pés da mocinha e sorriu.

— Por nada de especial. Gosto dos nossos sapatos novos.

— Eu também. Quer sair com meu irmão?

— Vocês três não preferem ficar sozinhos?

— Não, ele não é como o Simon era. Paul e eu estamos sempre brigando, e depois ele implica com Debbie, e os três começamos a gritar... — Deu um sorriso convidativo para Ariana, meio mulher, meio menina. — Não parece interessante? Venha, você vai adorar.

— Sabe, talvez você esteja apenas imaginando que ele vai-se comportar assim. Passou dois anos na guerra, desde que você o viu pela última vez, Julia. Pode ter-se modificado muito. — Ela própria percebera isso de manhã, à mesa.

Mas Julia apenas alçou as sobrancelhas.

— Não a se julgar pelo papel que fez por causa de Joanie. Poxa, Ariana, ela nem era assim tão simpática. Ele só ficou com raiva porque ela se passou para outro sujeito. E — Julia deu uma risadinha maldosa — você devia vê-la — esticou os braços bem para a frente — parece um elefante, desde que ficou grávida. Mamãe e eu a vimos na semana passada.

— Foi? — A voz vinda da porta era gélida. — Bem, agradeço se não dis­cutir este assunto. Comigo ou qualquer pessoa desta casa.

Paul entrou no quarto, lívido. E Julia ficou roxa de vergonha por ter sido apanhada em flagrante mexericando sobre a vida dele.

— Desculpe. Não sabia que você estava parado aí.

— É evidente. — Mas, enquanto a fitava com altivez, Ariana deu-se con­ta subitamente do papel que ele estava desempenhando. Era apenas um menino, afinal de contas, fingindo ser um homem. E fora magoado. Talvez fosse por isso que tivesse tentado confortá-la na sua dor. Parecia-se muito com Gerhard, de uma forma estranha. E enquanto o observava, não pôde deixar de sorrir suavemente, e quando Paul a viu, olhou para ela por um longo momen­to, e depois sorriu também. — Desculpe se fui grosseiro, Ariana. — E, após um momento: — Parece que tenho sido grosseiro com todo mundo, desde que voltei para casa.

Era realmente muito parecido com Gerhard, e ela sentia ainda mais carinho por ele por causa disso. Seus olhos se encontraram com simpatia, e não se desfitaram.

— Teve motivos para isso. Estou certa de que deve ter sido difícil voltar para casa, depois de tanto tempo. Muitas coisas se modificaram.

Mas Paul apenas lhe sorriu, em resposta, e depois falou suavemente:

— Algumas coisas até se modificam para melhor.

Foram até a Baía Sheepshead em Brooklyn para comer ostras, e depois seguiram até a ponta de Manhattan para dar uma olhada na Estátua da Liberdade, que Ariana estivera doente demais para ver, há algumas semanas; roda­ram lentamente pela Quinta Avenida, e depois Paul levou-as até a Terceira Avenida para apostar corrida com o trem elevado. Mas enquanto corriam por sobre as pedras arredondadas do chão da Terceira Avenida, Ariana começou a ficar evidentemente esverdeada.

— Desculpe, minha jovem.

— Não foi nada — replicou, encabulada. Paul sorria para ela, bem-humorado.

— Mas teria sido um problema, se você tivesse vomitado no carro novo da minha mãe.

Até Ariana teve quer rir disso, e o grupo continuou até o Central Park, onde eles fizeram piquenique perto do lago dos barcos, e depois foram rir dos animais do zoológico. Os macacos estavam pintando o sete nas suas jaulas, o Sol estava alto e quente, era uma tarde perfeita de junho, e todos eram jovens. E pela primeira vez desde que perdera Manfred, Ariana achou que se sentia verdadeiramente feliz de novo.

— Ei, o que vamos fazer no verão? — Paul abordou o assunto durante o jantar.

— Vamos ficar na cidade?

Os pais trocaram olhares, rapidamente. Paul era sempre o que tocava as coisas para diante. Levava algum tempo para se adaptarem a tê-lo de novo em casa.

— Bem, não tínhamos certeza de quais seriam seus planos, querido. — Ruth sorriu para ele, enquanto se servia de um pouco de rosbife da travessa de prata que uma das empregadas segurava. — Estava pensando em alugar alguma coisa em Connecticut ou Long Island, mas seu pai e eu ainda não tomamos nenhuma decisão.

Depois da morte de Simon, eles tinham vendido a velha casa de campo no norte do Estado de Nova York. As lembranças ali eram por demais doloro­sas.

— O que me lembra — falou o pai, com naturalidade — que você tem umas outras decisões para tomar primeiro. Mas não há pressa, Paul. Você aca­ba de voltar para casa. — Estava-se referindo à sala, na sua firma, que estava sendo redecorada para o filho.

— Acho que temos muita coisa para conversar, Papai — respondeu, olhando diretamente para o Liebman mais velho, e este sorriu.

— Acha? Então por que não vem almoçar amanhã comigo na cidade? — Diria à secretária para mandar trazer bandejas especiais da cozinha que ficava logo abaixo da sala de reuniões.

— Gostaria muito.

Sam Liebman não estava era preparado para o que o filho queria: ganhar um Cadillac esporte e ter mais um verão ocioso antes de começar a traba­lhar para o pai no outono. Mas até mesmo Sam teve que admitir que fazia sen­tido o rapaz querer aquilo. Tinha apenas 22 anos e, se estivesse terminando a faculdade, as mesmas regras teriam sido aplicadas. Tinha direito a um último verão de liberdade, e o carro não era tanto assim para pedir. Estavam gratos por ele estar em casa agora... gratos que ele houvesse conseguido voltar para casa...

Às quatro da tarde, Paul parou na porta aberta do quarto de Ariana; ficou surpreso ao vê-la sozinha.

— Bem, consegui. — Parecia tranqüilo, mais vitorioso, e por um instante tinha a impressão de ser mais homem do que rapaz.

— O que conseguiu, Paul? — Sorriu para ele e fez um gesto na direção de uma das cadeiras. — Venha sentar-se e me contar o que foi.

— Consegui que meu pai me desse o verão de férias antes de ir trabalhar para ele, no outono. E — abriu um sorriso para ela, garoto novamente — ele vai-me dar um Cadillac esporte. O que lhe parece?

—  Formidável. — Tinha visto apenas um Cadillac na Alemanha antes da guerra, e mal podia lembrar-se dele. Tinha certeza de que não era um carro es­porte. Este era um mundo inteiramente novo. — Que tal é, esse carro?

— Uma formosura. Sabe dirigir, Ariana? — Olhou para ela com um sor­riso curioso, e o rosto dela se anuviou.

— Sei, sim.

Paul não sabia o que tinha acontecido, mas sabia que havia revivido alguma dor antiga. Meigamente, estendeu a mão e segurou a dela, fazendo lem­brar mais ainda Gerhard, enquanto ela lutava contra as lágrimas.

— Desculpe, não devia ter perguntado. É só que, às vezes, esqueço que não devo fazer perguntas sobre seu passado.

— Não seja bobo. — Segurou a mão dele com mais força. Queria que ele soubesse que não havia feito nada de mal. — Não pode tratar-me sempre como um embrulho frágil. Não pode ter medo de me perguntar as coisas. E, com o tempo, eu vou parar de sofrer... É só que, agora... algumas coisas ainda ma­chucam muito, Paul... é tudo tão recente. — Ele podia entender, pensando em Joan e no irmão: eram as únicas perdas que tinha conhecido. Uma tão real e definitiva, a outra diferente, mas igualmente dolorosa. Enquanto o ob­servava, com a cabeça baixa, Ariana sorriu de novo. — Às vezes, você me faz lembrar do meu irmão.

Ele ergueu os olhos para ela, então... era a primeira vez que lhe falava do passado, espontaneamente.

— Como era ele?

— Chocante, às vezes. Certa vez, fez explodir o quarto com seu estojo de química. — Por um momento ela sorriu, mas era fácil ver que seus olhos estavam ficando rapidamente cheios de lágrimas. — E num outro dia, pegou o Rolls novo do meu pai, quando o chofer não estava olhando, e bateu com ele numa árvore. — A essa altura, Paul já podia ouvir as lágrimas na voz dela. — Eu costumava... — Fechou os olhos por um momento, como se não pudesse agüentar a dor do que estava prestes a dizer. — Costumava dizer a mim mesma que um menino como ele... como Gerhard... não podia estar mor­to. Que arranjaria um jeito de ficar vivo... de... sobreviver... — Abriu os olhos e as lágrimas escorreram silenciosa e tristemente por seu rosto, e quando os virou para Paul havia neles mais angústia do que ele tinha visto nos dois anos de guerra. — Mas, agora, há meses venho dizendo-me que tenho que acreditar no que me contaram, que preciso abandonar as esperanças. — A voz era um débil sussurro. — Tenho que me convencer que ele está morto... não importa o quanto tenha rido... ou o quanto tenha sido bonito, jovem e for­te... não importa o quanto — os soluços saíam entrecortados de sua garganta, enquanto murmurava as palavras — eu o amasse. A despeito de tudo isso... ele está morto. — Fez-se um silêncio interminável entre eles, e depois Paul a tomou suavemente nos braços e a segurou enquanto chorava.

Foi só dali a muito tempo que ele falou de novo, e quando o fez, enxugou de leve os olhos dela com seu lenço de linho branco. Mas embora suas pa­lavras fossem despreocupadas e joviais, seus olhos diziam que se importava muito com a dor dela. Não havia nada de irreverente no que sentia por essa moça.

— Vocês eram assim tão ricos, então? Ricos o bastante para ter um Rolls?

— Não sei o quanto éramos ricos, Paul. — Sorriu levemente. — Meu pai era banqueiro. Os europeus não falam muito sobre essas coisas. — E então, com um profundo suspiro, tentou falar do passado sem chorar. — Minha mãe tinha um carro americano, quando eu era muito criança. Acho que era um Ford.

— Um cupê?

— Não sei. — Deu de ombros, na sua ignorância. — Suponho que sim. Você teria gostado dele. Ficou parado na garagem depois, durante anos.

Mas o fato de pensar naquilo a fez lembrar de Max, e depois de Manfred e do Volkswagen que usara na primeira parte de sua fuga... cada lembrança puxava outra, para Ariana. Ainda era um jogo perigoso. Sentiu o peso da perda pousar sobre si mais uma vez, enquanto ficava ali sentada. Era como se tivesse vivido num universo que não existia mais.

— Ariana, no que estava pensando?

Fitou-o francamente. Agora era seu amigo. Seria honesta com ele, o máximo possível.

— Estava pensando em como é estranho que tudo tenha desaparecido, que nada daquilo exista mais... nenhuma das pessoas... nenhum dos lugares ... todos estão mortos, tudo foi bombardeado...

— Mas você não está. — Fitou-a meigamente. — Agora você está aqui. — Segurou a mão dela com força, e se olharam nos olhos por um longo minuto. — E quero que saiba como estou contente por isso.

— Obrigada.

Fez-se um longo silêncio entre os dois, e então Julia irrompeu quarto adentro.

 

Paul trouxe para casa o seu Cadillac esporte verde-escuro uma se­mana mais tarde, e a primeira voltinha foi de Ariana. Em seguida, teve que dar uma volta com Julia, depois com Debbie, com a mãe, e finalmente Ariana de novo. Deram um passeio pelo Central Park. O estofamento de couro era macio e cremoso, e o carro todo tinha um cheiro de novo em folha que Ariana apreciava.

— Oh, Paul, é lindo!

— Não é? — Deu uma risadinha de contentamento. — E é todo meu. Pa­pai falou que é um empréstimo até eu começar a trabalhar para ele, mas eu o conheço muito bem. O carro é de presente. — Sorriu, orgulhoso, para o carro novo, e Ariana achou graça. Na semana anterior também convencera a mãe a alugar uma casa em Long Island, e já estavam sendo tomadas as providências para encontrar um lugar adequado para todos eles por um mês, se não dois. — E depois, o batente. — Sorriu para Ariana enquanto rodavam lentamente pelo parque.

— E depois? Vai ter seu próprio apartamento?

— Provavelmente. Sou um pouco velho demais para morar em casa. Ariana concordou, lentamente. Era também maduro demais. O cordão umbilical já tinha sido cortado há muito tempo. Já aprendera isso a respeito dele.

— Mas eles vão ficar desapontados, se você se mudar. Especialmente sua mãe e as meninas.

Olhou para ela de um modo estranho, e Ariana sentiu algo dentro dela tremer. Então, ele estacionou o carro.

— E você, Ariana? Também vai sentir minha falta?

— Claro que sim, Paul. — A voz era muito suave. Mas ficou pensando subitamente na conversa que tinham tido sobre o passado dela. Paul já a tinha tocado profundamente. E ia doer, perdê-lo agora.

— Ariana... se eu deixasse a casa, você passaria algum tempo comigo?

— Claro que sim.

— Não. — Olhou para ela significativamente. — Não estou falando só como um amigo.

— Paul, o que está dizendo?

— Que gosto de você, Ariana. — Os olhos de Paul não desfitavam os de­la. — Estou dizendo que gosto muito, muito de você. Senti-me atraído por vo­cê desde aquele primeiro dia, acho.

O pensamento dela voltou instantaneamente para aquele café da manhã, quando Paul a fizera chorar perguntando-lhe sobre Berlim, e depois enxugara as lágrimas do seu rosto. Sentira uma estranha atração por ele, naquele mo­mento, e a sentira desde então. Mas resistira, desde o início. Era errado sentir-se desse jeito com relação a ele, e era cedo demais.

— Sei o que está pensando. — Recostou-se no banco, mas os olhos continuavam fitos em Ariana, etereamente bela, como sempre, numa blusa justa de seda branca. — Está pensando que mal a conheço, que até duas semanas atrás eu pensava que estava noivo de outra moça. Está pensando que é apressado, que estou tentando ir às forras do fora que levei... — continuou, com natura­lidade, e Ariana sorriu mansamente.

— Não é bem assim.

— Mas é um pouco?

Ela concordou.

— Você não me conhece de verdade, Paul.

— Conheço, sim. Você é engraçada, carinhosa e bondosa, não é amarga, a despeito de tudo por que passou. E não ligo a mínima para o fato de você ser alemã e eu americano. Pertencemos ao mesmo tipo de mundo, ambientes semelhantes, e ambos somos judeus.

Por um instante, ela pareceu desesperadamente aflita. Cada vez que um deles dizia uma coisa dessas, lembrava-se de novo da sua mentira. Mas era tão importante para eles que fosse judia. Era como se tivesse que ser judia para merecer o amor deles. Pensara nisso com freqüência. Todos os que eles conhe­ciam, todas as amigas das meninas, todas as pessoas com quem Sam fazia ne­gócios, todos eram judeus. Era essencial. Era um dado. Uma invariável. E a idéia de que Ariana pudesse ser outra coisa que não judia seria inimaginável, para eles. Pior do que isso, a moça sabia que isso seria encarado como uma trai­ção, talvez até a traição máxima. Porque ela havia conquistado o amor deles.

Sam e Ruth odiavam os alemães, os não-judeus. Para eles, todo alemão que não era judeu era nazista. Ariana seria uma nazista para eles, se soubessem a verdade. Logo se apercebera disso, e ainda lhe doía. Era a dor de se aperce­ber disso de novo o que Paul enxergava nos seus olhos. A jovem desviou o ros­to para o outro lado, com uma expressão de pesar.

— Não, Paul... não... por favor.

— Por quê? — Tocou-lhe o ombro. — Ainda é cedo demais? Não sente o que sinto?

As palavras eram cheias de esperança, e por um longo momento Ariana não respondeu. Para ela era e sempre seria cedo demais. No seu coração, ainda era casada. Se Manfred fosse vivo, estariam tentando ter seu primeiro filho. Não queria pensar em outro homem. Ainda não, não agora, não por muito tempo.

Virou-se lentamente para Paul, com um ar de tristeza nos olhos.

— Paul, existem partes do meu passado... posso nunca estar pronta... não é justo deixar que você pense...

— Gosta de mim, como amigo?

— Muitíssimo.

— Está bem, então, vamos dar mais um tempo. — Seus olhos se encontraram e não se desviaram, e ela sentiu um súbito desejo por ele que a assus­tou. — Confie em mim. É só o que peço.

E então, muito docemente, ele a beijou na boca. Ela queria resistir, devia isso a Manfred, mas descobriu que não queria fazer Paul parar, e estava afogueada e sem fôlego, quando ele descolou a boca da sua.

— Ariana, eu espero, se for preciso. E nesse meio tempo — beijou-lhe a face meigamente e deu partida no carro — vou-me contentar em ser seu ami­go. Mas, enquanto ele falava, Ariana sabia que precisava dizer mais algu­ma coisa. Não podia deixar as coisas nesse pé.

— Paul — colocou a mão meigamente no ombro dele — o que lhe posso dizer para que saiba o quanto fico agradecida por seus sentimentos? O que posso dizer para que saiba que gosto de você como de um irmão, mas...

— Não me beijou como uma irmã — interrompeu ele. Ela enrubesceu.

— Você não compreende... não posso... não estou... não estou pre­parada para ser uma mulher para qualquer homem.

E então ele não pôde suportar mais, e antes de chegarem a casa onde os outros esperavam, virou-se para Ariana com uma expressão de dor nos olhos que ela jamais vira.

— Ariana, eles a machucaram?... Quero dizer, os nazistas... eles...?

Ante a preocupação nos olhos dele, os olhos de Ariana encheram-se de lágrimas, e, abraçando-o com força pelo quanto ele lhe queria bem, sacudiu a cabeça.

— Não, Paul, os nazistas não fizeram comigo o que você está pensando.

Contudo, naquela noite, Paul soube que não acreditava nela, quando es­cutou seu grito terrível. Em muitas noites tinha escutado seu tormento, mas desta vez, ao invés de virar para o outro lado, sabendo que a guerra em que ela ainda lutava era exclusivamente dela, agora ele se dirigiu descalço para o quar­to dela, e foi encontrá-la sentada na beira da cama, uma luzinha acesa, o rosto enterrado nas mãos, soluçando baixinho, segurando um pequeno livro de couro.

— Ariana? — Avançou para ela, que se virou. Paul viu então o que jamais tinha visto nela antes, a angústia crua do tormento. Não falou mais nada. Ape­nas sentou-se a seu lado e abraçou-a até que finalmente os soluços cessaram e ela ficou calma.

Nos seus sonhos tinha visto Manfred de novo... morto diante do Reichstag. Mas não havia jeito de explicar isso a este moço. Depois que Ariana es­tava muito tempo com a cabeça no ombro dele, Paul tirou o pequeno livro de couro das suas mãos e olhou para a lombada.

— Shakespeare? Minha querida, que coisa intelectual, numa hora dessas. Não admira que estivesse chorando. Shakespeare faria a mesma coisa comigo.

Ela sorriu por entre as últimas lágrimas, depois sacudiu a cabeça.

— Não é de verdade. — E então, tomando o livro das mãos dele: — Es­condi isso dos nazistas... e' tudo o que me resta. — Abriu o compartimento secreto, e por um instante Paul pareceu aturdido. — Eram da minha mãe. — As lágrimas começaram a correr de novo. — E agora são tudo o que tenho.

Paul podia ver uma esmeralda e um grande anel de sinete de diamante entre os demais, mas não ousou perguntar-lhe nada. Era evidente o quanto estava abalada.

Ariana tivera a presença de espírito de enfiar as fotos de Manfred den­tro do forro da bolsa, mas só o pensar nelas fez as lágrimas escorrerem de no­vo... pensar que tinha que escondê-lo daquele jeito.

— Psiu... Ariana, pare. — Abraçou-a com força e sentiu que ela tremia, ainda fitando os dois anéis. — Meu Deus, que pedras incríveis. Tirou-as de lá sem que os nazistas vissem? — Ela fez que sim, vitoriosa, e ele pegou o grande anel de esmeralda. - Que jóia extraordinária, Ariana.

— Não é? — Sorriu. — Acho que foi da minha avó, antes de ser da minha mãe, mas não tenho certeza. Dizem que minha mãe o usava o tempo todo. — Pegou o sinete de diamante. — E este aqui, também. Estas são as iniciais da minha bisavó. — Mas o desenho era tão intricado que a pessoa tinha que saber que estavam ali.

Então, Paul fitou Ariana com assombro.

— É de admirar que ninguém os tenha roubado de você, na viagem de navio. — Ou em outra parte qualquer em que tivesse estado. Não ousava dizer o que estava pensando, mas fora preciso engenhosidade para ter trazido o livrinho até tão longe. Engenhosidade e garra, mas ele já sabia que ela possuía um bocado de ambas as coisas.

— Não deixaria que ninguém os tirasse de mim. Eram só o que me resta­va. Teriam que me matar primeiro.

E enquanto a fitava nos olhos, ele soube que falava sério.

— Não há nada por que valha a pena morrer, Ariana. — Agora, suas pró­prias experiências lhe transpareciam nos olhos. — Eu mesmo aprendi isso.

E ela agora compreendia. Manfred tinha descoberto a mesma coisa. O que existira pelo qual valesse a pena ter morrido? Nada. O inverno estava nos seus olhos, quando voltou a olhar para Paul, e desta feita, quando a beijou, ela não se afastou.

— Trate de dormir um pouco.

Sorriu meigamente para ela, e fez-lhe sinal para voltar a se meter sob as cobertas, para que ele pudesse ajeitá-la na cama. Mas ela já se estava recrimi­nando mudamente por ter deixado que a beijasse. Não era direito. Mas, depois que Paul saiu do quarto, os pensamentos distante e voltaram para as coisas que ele dissera sobre a guerra... sobre si mesmo. . eram coisas que Manfred po­deria ter dito. Paul era jovem, mas a cada dia se tornava mais um homem, aos olhos de Ariana.

 

Ariana, você está passando, bem, hoje? — Ruth Liebman olhou para ela durante o café, na manhã seguinte, e achou-a estranhamente pálida.

 Ariana levara horas para voltar a dormir, depois que Paul se fora, na noite anterior. Sentia-se culpada por tê-lo encorajado. Sabia que,com o correr do tempo, depois que ele já estivesse em casa há algum tempo, se tivesse diver­tido um pouco, encontrado velhos amigos, e feito amigos novos, ela não re­presentaria uma atração tão grande para ele. Porém, nesse meio tempo, Paul era como um cãozinho novo, grandão e devotado, e ela não queria magoá-lo. Estava irritada consigo mesma, mas ele fora tão bondoso para com ela, quan­do tivera o pesadelo e, afinal de contas, também era humana. Olhou para Ruth Liebman com olhos grandes e tristes, naquela manhã, e a mulher mais velha franziu a testa, preocupada.

— Minha querida, algum problema? Ariana sacudiu a cabeça, mansamente.

— Não, acho que só estou cansada, Tia Ruth. Não é nada. Vou descan­sar um pouco e logo estarei bem.

Mas Ruth Liebman ficou tão preocupada que dali a meia hora discou o telefone, e mais tarde naquela manhã apareceu no quarto de Ariana.

A moça ergueu a cabeça do travesseiro com um sorriso desbotado. A noite sem dormir tivera conseqüências terríveis. Depois de ter tomado do ca­fé da manhã, voltara para o quarto e vomitara durante meia hora. Agora, os efeitos eram visíveis no rostinho pálido, enquanto Ruth puxava uma cadeira e se sentava.

— Acho que seria uma boa idéia se você fosse ver o Dr. Kaplan hoje. — Ruth tentou esconder sua preocupação com palavras comuns.

— Mas eu estou bem... verdade...

— Ora vamos, Ariana. — Olhou com ar de reprovação para a mocinha quase escondida pelas cobertas, e Ariana concordou, relutante.

— Está certo, mas não quero ir ao médico, Tia Ruth. Não há nada de errado comigo.

— Você está parecendo a Debbie ou a Julia. Por falar nisso — abriu um sorriso — está até parecendo o Paul. - E continuou, no mesmo diapasão: — Ele não anda pressionando você, anda, Ariana? — Observou atentamente o rosto da moça, enquanto Ariana sacudia a cabeça.

— Não, claro que não.

— Só fiquei pensando. Ele está muito enrabichado por você, sabe. Ariana ainda não tinha ouvido a palavra "enrabichado", mas entendeu direitinho o que era.

— Foi o que notei, Tia Ruth. — Ariana sentou-se na beira da cama. — Mas não tenho nenhuma intenção de encorajá-lo. É como se fosse um irmão, e sinto tanta falta do meu irmão... — A voz dela foi sumindo, e Ariana olhou mais uma vez nos olhos da mulher mais velha. — E eu jamais faria algo que a desagradaria tanto.

— É isso que achei que devia lhe dizer, Ariana. Não me desagradaria em absoluto.

— Não? — exclamou Ariana, aturdida.

— Não. — Ruth Liebman sorriu. — Sam e eu conversamos sobre isso, no outro dia. E sabemos que ele ainda está meio abalado com o fora que levou de Joanie, Ariana, mas é um bom rapaz. Não a estou forçando em nenhuma dire­ção, só queria que soubesse que, se o assunto vier à baila... — Olhou meiga­mente para a jovem alemãzinha sentada na cama do quarto de hóspedes. — Nós a amamos muito.

— Ah, Tia Ruth. — Abraçou instantaneamente a mulher que fora tão boa para ela, desde que se conheceram. — Eu a amo tanto.

—  Queremos que se sinta livre para fazer o que você quer fazer. Faz par­te da família, agora. Tem que fazer aquilo que for bom para você. E se ele cismar com isso, não deixe que a pressione, se não é o que você deseja. Sei como ele é teimoso!

Ariana riu, em resposta.

— Não creio que vá chegar a tanto, Tia Ruth. — Ela não permitiria. Ain­da não lhe parecia direito.

— Não pude deixar de me perguntar se era isso o que estava acontecen­do, que Paul estava dando em cima de você e você se achava cheia de culpas por nossa causa.

— Não. — Ariana disse sem muita convicção. — Embora Paul tenha dito alguma coisa, no outro dia, mas — Ariana deu de ombros e sorriu — acho que é só porque está "enrabichado". — Experimentou a palavra nova.

— Basta você seguir seu coração.

Ruth sorriu para ela, esperançosa, e Ariana riu enquanto saltava da cama.

— Não sabia que as mães deviam bancar o Cupido.

— Bem, não sei se devem. Nunca fiz isso antes. — Por um momento, os olhos de ambas se encontraram e não se desfitaram. — Mas não consigo pensar noutra pessoa que gostássemos mais de ter como nora, Ariana. Você é uma ga­rota muito linda e especial.

— Obrigada, Tia Ruth. — Com um ar de gratidão, ela se virou para o guarda-roupa e tirou de lá um vestidinho leve, de listras cor-de-rosa, e sandá­lias brancas. O sol de junho já era quente. E já ia virar-se de novo para Ruth, a fim de lhe dizer que era uma bobagem irem ao médico, quando, sem nenhum aviso, sentiu-se tonta e desabou lentamente no chão.

— Ariana! — Ruth pulou da cadeira instantaneamente, correndo para o lado da moça.

 

O consultório do Dr. Stanley Kaplan ficava na Rua 53 com Park Avenue, e Ruth deixou Ariana na porta do prédio e foi para o es­tacionamento.

— Bem, mocinha, como está se sentindo? Acho que é uma pergunta burra. Não muito bem, é óbvio, ou não estaria aqui. — O homem idoso sorria para ela, do outro lado de sua escrivaninha, enquanto Ariana se sentava diante dele, na cadeira do consultório. Da última vez que a vira, estava abati­da, pálida, assustada, descarnada. Agora, parecia-se com a bela moça que era. Quase. Ainda havia aquela expressão atormentada nos olhos, aquele ar de dor, perda e tristeza que não iria desaparecer tão depressa. Mas, fora isso, sua pele estava boa, os olhos brilhantes: estava usando o longo cabelo louro em estilo pajem. E no vestidinho de listras bem passado que estava usando naquela ma­nhã, parecia-se com a filha de qualquer um dos pacientes dele, não com uma jovem que fugira da Europa destroçada pela guerra algumas semanas antes. — Diga-me, qual é o problema? Ainda os pesadelos, a náusea, as tonteiras e desmaios? Diga-me.

— É, ainda tenho os pesadelos, mas não com tanta freqüência. Agora, pelo menos às vezes consigo dormir.

— É — concordou ele — você parece mais descansada.

Ela admitiu, mas acrescentou que enjoava depois de quase todas as refeições. Ele pareceu chocado.

— Ruth sabe disso? — Desta feita, Ariana sacudiu a cabeça. — Precisa contar-lhe. Devia estar fazendo uma dieta especial. Todas as refeições, Ariana?

— Quase.

— Não admira que esteja tão magra. Já teve isso antes, esse problema de estômago?

— Só desde que fiz a pé quase toda a viagem até Paris. Uma vez fiquei sem comer por dois dias, e duas vezes tentei comer um pouco de terra num campo.

— E os desmaios? — indagou o médico, suavemente.

— Ainda acontecem bastante.

E então ele fez uma coisa que ela não estava esperando. Largou a cane­ta e olhou para ela longa e fixamente, mas com uma expressão de bondade e completa compaixão, e quando falou com ela, Ariana soube que aquele ho­mem era seu amigo.

— Ariana, quero que saiba que não há nada que não me possa dizer. Quero que me conte tudo que preciso saber sobre sua vida passada. É quase impossível para mim ajudá-la, se não tenho idéia daquilo por que passou. Mas quero que saiba que o que me contar é sagrado. Sou médico e fiz um juramento sagrado. Qualquer coisa que me disser não posso repetir para mais ninguém, e nunca o faria. Nem para Ruth, nem para Sam, nem para os fi­lhos deles. Ninguém, Ariana. Sou o seu médico, e seu amigo, também. E sou um velho que já viu muita coisa na vida, talvez não tanta quanto você viu na sua, mas já vi o bastante. Nada me irá chocar. Portanto, se houver al­guma coisa que precise contar-me para o seu próprio bem, sobre as coisas que lhe fizeram que podiam levar a esses problemas, quero que fale. — O ros­to dele era tão bondoso que ela teve vontade de beijá-lo, mas ao invés dis­so apenas soltou um débil suspiro.

— Acho que não, Dr. Kaplan. Passei mais de um mês numa cela, e só o que me davam para comer era caldo de batata, pão dormido e água, e uma vez por semana nos davam restos de carne. Mas isso faz muito tempo, quase um ano, agora.

— Foi então que os pesadelos começaram?

— Alguns deles. Eu... estava preocupadíssima com meu pai e meu ir­mão. — Sua voz baixou de volume, denotando pesar. — Nunca mais os vi, depois disso.

O médico meneou a cabeça e disse:

— E os problemas com o estômago, iniciaram nessa época também?

— Não exatamente. — Um sorriso iluminou-lhe o rosto, então, enquanto se lembrava das suas primeiras tentativas de cozinhar para Manfred, e do "ensopado" de lingüiça de fígado. Quem sabe fora isso que destruíra seu estôma­go. Porém não explicou o sorriso para o médico.

— Ariana, sinto que já nos conhecemos um pouquinho melhor, agora. — Abordou o assunto aos poucos. Da primeira vez que a vira, não tivera coragem de perguntar.

— Sim? - indagou, olhando para ele, na expectativa.

— Você foi... — pensou como falar da maneira mais delicada — ... usa­da? — A julgar por sua beleza delicada, tivera certeza desde o começo que sim, mas a jovem sacudia a cabeça, agora, e o médico se perguntava se estava sim­plesmente com medo de dizer a verdade. — Nunca?

— Uma vez. Quase. Na mesma cela. — Mas não deu maiores explicações, e ele concordou.

— Então talvez seja melhor darmos uma olhada em você. — Chamou a enfermeira, que a ajudou a se despir, na sala de exames.

O médico tinha uma sensação estranha, enquanto examinava o corpo dela. Franziu as sobrancelhas, examinou-a mais atentamente, pediu mais informações, e depois, finalmente, com pesar, sugeriu um exame de toque. Es­tava certo de que ela o consideraria uma provação. Mas parecia preparada pa­ra o inevitável, e estava estranhamente quieta, enquanto ele a tocava e sen­tia finalmente o que já vinha suspeitando, o útero com duas vezes o tama­nho normal.

— Pode sentar-se, Ariana. — Ela obedeceu, e ele olhou para ela, com tristeza. Estivera mesmo mentindo. Não apenas a tinha violado, tinham-na emprenhado. — Ariana. - Ficou ali sentada, depois que a enfermeira saiu da sala, tão pálida, tão jovem, o lençol lhe cobrindo o corpo. — Infelizmente tenho uma coisa para lhe dizer, e talvez devamos conversar mais um pouco.

— Algum problema, Doutor? — Parecia assustada. Imaginara que estives­se apenas sofrendo de exaustão. Nunca acreditara que estivesse realmente doente. Até mesmo a falta de regras atribuíra ao choque, à viagem, à readaptação.

— Infelizmente sim, minha pequena. Você está grávida. — Esperou para ver a expressão de sofrimento e horror. O que viu, no entanto, foi uma ex­pressão de espanto total, e depois um pequeno sorriso. — Não tinha desconfia­do? — Ela fez que não, o sorriso ficando ligeiramente mais amplo. — E está satisfeita? — Agora, era ele quem estava espantado.

Ariana parecia ter recebido um presente de valor inestimável, além de qualquer esperança ou expectativa, e fitava o Dr. Kaplan com os olhos azuis cheios de amor e assombro. Tinha que ter acontecido logo depois que eles se casaram... no fim de abril, quem sabe naquela última vez antes de ele ir defender o Reichstag... o que significava que estava grávida de umas sete se­manas. Fitava o médico, incrédula.

— Tem certeza?

— Farei um teste, se quiser, mas para ser franco, tenho certeza. Ariana, você sabe...

Ergueu os olhos para ele, sorrindo docemente.

— Sim, sei. - Sabia que podia confiar neste homem. Tinha que confiar. - O bebê é do meu marido. É o único homem que... conheci.

— E onde está ele agora, o seu marido?

Os olhos de Ariana baixaram lentamente, e duas longas lágrimas caíram dos seus cílios até as faces.

— Está morto... como todos os outros. — Ergueu a cabeça lentamente de novo. — Está morto.

— Mas você terá o filho dele. — Kaplan falava suavemente, e regozijava-se com ela, em silêncio. — Agora, sempre terá isso. Não é?

Ela sorriu docemente, permitindo-se finalmente pensar em Manfred, ver o rosto dele mentalmente, lembrar-se do seu carinho. Era como se agora ela pudesse permitir que sua lembrança voltasse para ela, para partilhar a ale­gria do filho deles. Até então, lutara desesperadamente com as lembranças, temerosa de que elas inundassem seu pensamento. Mas agora, quando o mé­dico saiu da sala de exames, ficou sentada ali por bem uns 10 minutos, banha­da nas lembranças temas e nos sonhos; e quando as lágrimas chegaram, estava sorrindo. Este era o momento mais feliz de sua vida.

Quando voltou a se reunir ao médico no consultório, o Dr. Kaplan olhou para ela com ar sério, durante algum tempo.

— Ariana, o que vai fazer agora? Terá que contar a Ruth.

Fez-se silêncio por um longo momento. Ariana ainda não tinha pensado nisso. Por um momento, todos os Liebmans tinham sido apagados da sua mente. Mas agora dava-se conta de que tinha que lhes contar, e sabia o que iriam dizer. Como poderiam receber bem este bebê... o bebê de quem? De um oficial nazista? Tinha que defender o filho. O que faria, agora? Pensou nos anéis da mãe. Se fosse preciso, ela os usaria para se sustentar até o bebê nas­cer. Faria qualquer coisa que tivesse que fazer, mas não se aproveitaria mais deles. Dali a alguns meses, iria embora.

— Não quero contar à Sra. Liebman, Doutor.

— Mas, por que não? — Parecia aflito. — É uma boa mulher, Ariana, uma mulher bondosa, compreenderá.

Mas Ariana estava inflexível.

— Não posso lhe pedir que faça mais do que já fez. Já fez muito por mim. E isso seria demais.

— Tem que pensar no bebê, Ariana. Deve a esse bebê uma vida decente, uma oportunidade decente, uma chance tão boa quanto a que lhe foi dada, quanto a que os Liebmans lhe deram.

Foi uma conversa pesada, que a atormentou durante toda a noite, depois de ter feito o médico prometer que não diria nada a Ruth. Ele simplesmente disse a Ruth que Ariana ainda estava obviamente um tanto cansada, mas que não era motivo para preocupação. Não devia exagerar, devia comer bem, dormir bastante, mas, tirando isso, estava ótima.

— Ah, sinto-me tão melhor ouvindo isso — dissera Ruth a Ariana, en­quanto voltavam para casa. Parecia ainda mais bondosa do que de costume, naquele dia, e a moça sentiu-se muito mal de ter que enganá-la sobre a crian­ça. Mas parecia errado pedir-lhe ainda mais. Tinha que fazer isso por conta própria, tinha que cuidar da criança sozinha. Era dela... só dela... e de Man­fred. Era o bebê que ambos tinham querido tanto... concebido em meio às cinzas dos seus sonhos. Ele agora voltaria para florescer nas colinas mais ver­des, uma lembrança de como o amor deles fora belo. Ficou sentada no quarto, à noite, sozinha, imaginando, sonhando, seria menina ou menino? Será que se pareceria com Manfred... ou quem sabe com o pai dela?... Era como estar esperando um visitante de um velho mundo familiar, enquanto se pegava imaginando qual dos rostos que jamais veria de novo renasceria nesta criancinha. O médico falou que o bebê chegaria no fim de janeiro, talvez até no começo de fevereiro. Era freqüente, insistira ele, que os primogênitos nascessem mais tarde. E ele achava que a barriga ia começar a aparecer em setembro, talvez até em outubro, dependendo das roupas que Ariana usasse. Então, até lá, ela teria que deixar os Liebmans. E depois que estivesse instalada, depois que ti­vesse arranjado um emprego, então ela lhes contaria. Quando o bebê chegasse, Julia e Debbie podiam vir visitá-lo. Sorriu consigo mesma, ao pensar no bebezinho embrulhado em roupas de tricô que as meninas visitariam...

— Por que está com essa cara tão feliz, Ariana? — Era Paul, parado a seu lado. Nem notara a entrada dele.

— Não sei. Estava só pensando.

— No quê? — Sentou-se ao lado dela, olhando o rostinho perfeito.

— Em nada de especial. — Sorriu lentamente para ele. Era quase impos­sível esconder sua felicidade, e agora sua alegria estava tocando Paul, também.

— Sabe no que estive pensando, hoje? No nosso verão. Vai ser uma maravilha para nós lá no campo. Podemos jogar tênis e ir nadar. Podemos tomar banho de sol e comparecer a festas. Não lhe parece divertido?

Parecia, mas ela agora tinha outra pessoa em quem pensar. Fez que sim com a cabeça. E depois, ficando séria, olhou para o jovem amigo.

— Paul, tomei uma grande decisão.

— Qual é? — Ele sorria, em expectativa.

— Em setembro vou arranjar um emprego e me mudar.

— Seremos dois. Quer ser minha companheira de apartamento?

— Muito engraçado. Estou falando sério.

— Eu também. E que tipo de emprego vai arranjar, por falar nisso?

— Ainda não sei, mas vou pensar em alguma coisa. Talvez seu pai pos­sa dar-me umas idéias.

— Eu tenho uma idéia melhor. — Debruçou-se e beijou o cabelo louro e macio. — Ariana, por que não me escuta?

— Porque você não tem idade suficiente para ter juízo. — Há muitos meses ela não se sentia tão feliz, e ele deu uma risada, em resposta. Podia per­ceber o bom humor dela.

— Sabe, se está falando sério sobre conseguir um emprego em setembro, então este também será o seu "último verão". Nossa última brincadeira despreocupada antes de nos acomodarmos.

— Na verdade — sorriu amplamente para ele — é exatamente o que será.

Paul riu para ela, e se pôs de pé.

— Então, vamos fazer com que seja bom. O melhor verão que já tivemos. Ela sorriu, sentindo o coração alçar vôo dentro do peito.

 

Dali a uma semana todos se mudaram para a imensa casa em East Hampton. Tinha um prédio principal com seis dormitórios, três quartos de empregada, uma sala de jantar grande o bastante para acomodar um exército, uma sala de visitas grande e formal, um gabinete me­nor, e uma sala para a família, no andar debaixo. A cozinha era gigantesca e simpática, e nos fundos havia uma casa para hóspedes e uma casa de praia onde se podia trocar de roupa. Na casa de hóspedes havia cinco quartos para convidados, que os Liebmans estavam pretendendo manter cheios o verão todo, com parentes e amigos. As férias tinham começado esplendidamente até que Ruth soube por Paul, no dia seguinte à chegada deles, que Ariana estava pretendendo mudar-se e arrumar um emprego no outono.

— Mas, por que, Ariana? Não seja boba. Não queremos que se vá. — Ruth Liebman olhava para ela, desconsolada.

— Mas não posso ficar me aproveitando de vocês para sempre.

— Não está se aproveitando. É uma de nossas filhas. Ariana, isso é um absurdo. E se não quiser desistir do emprego, por que não pode continuar mo­rando em casa? — Já parecia abalada ante a perspectiva de perder a moça. — Vá para a universidade, se quiser... você certa vez falou que tinha vontade. Pode fazer uma infinidade de coisas, mas não há absolutamente motivo algum para se mudar.

— Ah, Paul, ela parecia muito magoada.

Ariana olhava para ele, cheia de desespero, enquanto o rapaz a levava à cidade no seu carro esporte, para pegar umas miudezas que tinham prometido à mãe que apanhariam em Nova York. Mais dois maiôs para Debbie, um re­médio para Julia, uns papéis referentes à Organização de Consolo das Mulhe­res que Ruth esquecera em cima da escrivaninha. Pegaram tudo rapidamente, depois Ariana olhou para o pequeno relógio de ouro que Ruth lhe tinha emprestado.

— Acha que tenho tempo para mais uma coisinha?

— Claro, o que é?

— Prometi ao Dr. Kaplan que passaria por lá para pegar umas vitaminas, se tivesse tempo.

— Sem dúvida. — Olhou para ela, com ar severo. — Devíamos ter feito isso em primeiro lugar.

— Sim, senhor.

Riu para ele, e ambos levaram todas as coisas que tinham vindo buscar para o carro e se dirigiram para o centro. Era gostoso ser jovem e estar aproveitando o verão. A luz do sol sorria para eles, e Ariana espreguiçou-se, satis­feita, no automóvel.

— Quer experimentar guiar, na volta?

— Seu precioso carrinho? Paul, andou bebendo?

Ele riu, satisfeito por ela estar tão descontraída.

— Confio em você. Falou que sabia dirigir.

— Estou muito lisonjeada que queira deixar que eu guie seu carro novo.

— Ficou emocionada com a oferta, sabendo o quanto o veículo significava para ele.

— Confiaria a você qualquer coisa minha. Até mesmo meu carro novo.

— Obrigada.

Havia muito pouco que pudesse dizer até chegarem ao consultório do Dr. Kaplan e ela se preparar para entrar. Mas ele saltou rapidamente para aju­dá-la. Estava usando calça branca, de linho, e um blazer, e com seu andar descontraído e sorriso simpático, parecia viçoso e elegante.

— Vou entrar um minutinho com você. Há algum tempo que não o vejo.

—  Não havia mais muito motivo para ele ver Kaplan; o joelho que o tirara de ação estava quase curado. Na verdade, quase nem se podia notar que manca­va um pouco, e com o exercício que ia fazer durante o verão, no outono o joelho estaria como novo.

Mas o Dr. Kaplan ficou encantado ao vê-lo, e o trio bateu papo por um momento, até o médico perguntar se podia ver Ariana sozinho. Paul concordou prontamente e ficou sentado na sala de espera, colocando seu chapéu de palha na cadeira ao lado.

Na sala do médico, Ariana olhou para ele com olhos arregalados.

— Como está-se sentindo, Ariana?

— Bem, obrigada. Se tomar cuidado com o que como, fico ótima.

Sorriu para ele, e o médico pensou que jamais a vira tão em paz. Usava um vestido de verão de saia farta e cintura justa, e um imenso chapéu de pa­lha amarrado sob o queixo com fitas azuis da mesma cor dos olhos.

— Está com uma aparência maravilhosa. — E depois de uma pausa cheia de constrangimento, olhou para ela mais atentamente. — Não contou a ne­nhum deles, não é?

— Não. — Sacudiu a cabeça, lentamente. — Já tomei minha decisão. O senhor falou que ia aparecer em setembro, assim, quando voltarmos de Long

Island no fim do verão, vou mudar-me e arranjar um emprego. E depois contarei tudo a eles. E estou certa de que compreenderão. Mas recuso-me a abu­sar ainda mais deles, ou esperar que sustentem meu filho.

— Muito nobre de sua parte, Ariana. Mas tem alguma idéia de como vo­cê e o bebê vão comer? Pensou no bebê, ou apenas em si mesma? — Eram palavras anormalmente duras partidas dele e Ariana ficou um pouco zangada, e depois magoada.

— Claro que pensei no bebê. É só no que penso. O que quer dizer?

— Que você está com vinte anos, não tem experiência, não tem profis­são, e que vai ficar sozinha com um bebê num país que não conhece, onde as pessoas poderão não empregá-la simplesmente porque é alemã. Recém terminamos uma guerra com a Alemanha, e às vezes as pessoas guardam essa má­goa por muito tempo. Estou-lhe dizendo que não está dando a esse bebê uma chance decente, e poderia dar, se não esperar demais. Se fizer algo a respeito agora.

Olhou para ela atentamente, e a moça o fitou.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer, Ariana — a voz dele ficou mais macia — case-se. Dê a si mesma e ao bebê uma chance decente. Sei que é uma coisa danada de se fa­zer, mas Ariana, desde que a vi pela última vez tenho-me atormentado, e acho que é a única solução. Tenho pensado, pensado e pensado. Conheço Paul des­de bebê. Estou vendo o que sente por você. Minha consciência pesa pra burro ao sugerir isso... mas quem sairá magoado? Se você se casar com aquele rapaz na sala de espera, garantirá o futuro do bebê, e o seu próprio.

— Não me importo comigo. — Estava chocada com o que ele sugeria.

— Mas se importa com o bebê. E quanto a ele?

— Mas não posso fazer isso... é desonesto.

— Não acha que muitas outras moças fazem a mesma coisa? Moças que têm bem menos motivos para fazê-lo do que você... Ariana, o bebê só nasce­rá daqui a sete meses. Eu podia dizer que nasceu prematuro. Ninguém precisa­ria saber. Ninguém. Nem Paul.

Olhou para o médico, chocada com o que ele estava sugerindo.

— Não acha que eu podia sustentar o bebê sozinha?

— Claro que não. Quando foi a última vez que viu uma mulher grávida trabalhando? Quem a empregaria? E para fazer o quê?

Ela ficou sentada por um longo momento, e depois meneou a cabeça, pensativa. Talvez ele tivesse razão. Ela simplesmente imaginara que poderia arranjar emprego numa loja. Mas que coisa para se fazer... que embuste... que coisa para fazer com Paul... como poderia mentir daquele jeito? Era amigo dela, e ela o amava, de uma certa forma. Na verdade gostava muitíssimo dele.

— Como eu poderia fazer uma coisa dessas, Doutor? É errado. — Sentia a culpa e a vergonha inundarem-na, só de pensar.

— Poderia fazê-lo pelo bem do seu bebê que ainda não nasceu. O que fez para chegar até Paris, até aqui? Foi sempre tão honesta? Não teria menti­do ou atirado ou matado para salvar sua vida? Tem que fazer o mesmo pelo bebê, Ariana. Para lhe dar uma família, um pai, um estilo de vida decente, refeições na barriga, instrução...

Ariana se deu conta de que era ingênua em pensar que alguns anéis es­condidos numa caixa poderiam proporcionar tudo isso. Lentamente, balançou a cabeça.

— Vou ter que pensar no assunto.

— Pense, mas não demore demais. Se esperar muito tempo mais, será tarde. Agora, se o bebê chegar de sete meses, eu poderei explicar facilmen­te alegando sua saúde frágil, a viagem da Europa até aqui, e todo o resto.

— Pensa em tudo, não é?

Olhou para ele, dando-se conta de que o médico lhe estava dando o empurrão de que necessitava para sobreviver. Estava-lhe ensinando as regras de um jogo que Ariana estava aprendendo a jogar muito bem, e intimamen­te sabia que o Dr. Kaplan tinha razão. Mas, onde terminaria tudo aquilo?

— Se fizer isso, Ariana — o médico estava falando — seu segredo sem­pre estará a salvo comigo.

— Obrigada, Doutor... pela minha vida... e a vida do meu bebê.

Ele lhe entregou as vitaminas e tocou-lhe o ombro meigamente, quando ela saiu.

— Tome sua decisão depressa, Ariana.

— Tomarei — disse, meneando a cabeça.

 

— Ariana, quer vir nadar?

Julia estava batendo à porta da moça às nove da manhã, e Ariana abriu um olho, cheia de sono.

— Tão cedo? Ainda nem acordei.

— Paul também não tinha acordado. E ele vem nadar.

— É verdade — confirmou ele, entrando porta adentro — e se tenho que me levantar para ir nadar com essas monstrinhas, você também tem.

— Ah, tenho, é? — Ariana se espreguiçou e sorriu, enquanto o rapaz se sentava ao lado dela e beijava o cabelo louro que lhe caía sobre o rosto.

— Tem, sim, caso contrário vou arrancá-la da cama e levá-la para a praia, aos gritos.

— Que encantador de sua parte, Paul.

— Não é, mesmo? — Sorriram um para o outro, por um momento. — A propósito, gostaria de ir a uma festa em Southampton, hoje à noite? Meus pais vão passar a noite fora com as meninas, num lugar qualquer.

— Por que?

— É o fim de semana do Quatro de Julho, querida. O Dia da Independên­cia Americana. Espere só até ver... deve ser um acontecimento e tanto.

E, na verdade, foi. Foram nadar com as meninas pela manhã, e fazer piquenique com toda a família na parte da tarde. Depois, Sam e Ruth saíram com as meninas para seu passeio, e Ariana subiu para tirar seu cochilo. Mas, às sete horas, estava pronta para sair para a festa com o rapaz, e quando des­ceu a escada da grande casa de verão, Paul assobiou e abriu um sorriso.

— Poxa, moça, ninguém tinha me avisado que você ia ficar desse jeito, bronzeada de sol.

Ela usava um vestido de seda turquesa que acentuava a pele recém-amorenada. Paul estava igualmente atraente num terno de linho branco, cami­sa branca e gravata azul-marinho larga com bolinhas brancas, e os dois juntos se dirigiram para a festa, no carro novo dele.

Com espírito festivo, ele deixou que Ariana guiasse o carro até a festa, e logo que lá chegaram ele lhe trouxe imediatamente um gin fizz. Hesitante quanto às suas reações à bebida, ela tomou apenas pequenos goles. Mas a festa à sua volta ia a todo o vapor. Havia duas orquestras tocando, uma dentro de casa e outra no gramado. Vários iates haviam aparecido para participar da festa, e estavam atracados no comprido cais, onde uma dúzia de marinheiros cuidava dos barcos, e havia uma bela Lua de verão no céu.

— Quer dançar, Ariana? — Sorria para ela, meigamente, e a moça foi para seus braços, com elegância. Era a primeira vez que dançavam juntos, e à luz da Lua era fácil fingir que era Manfred, ou o pai dela, ou outra pessoa qualquer. — Alguém já lhe disse que dança como um anjo?

— Não ultimamente, ao que me consta.

Riu baixinho do elogio e dançaram juntos até a orquestra fazer um descanso. Caminharam lentamente até um parapeito, de onde podiam olhar para os barcos que se balançavam lá embaixo, e Paul olhou para ela com uma serie­dade que Ariana ainda não tinha visto.

— Fico muito feliz quando estou com você, Ariana. Nunca conheci nin­guém como você, antes.

Teve vontade de implicar com ele e perguntar sobre Joanie, mas sabia que agora não era o momento.

— Ariana — olhou para ela, suavemente — tenho uma coisa para lhe di­zer. — Estendeu as mãos lentamente, tomou as mãos dela nas suas, e depois beijou-as docemente, uma de cada vez. — Eu a amo. Não sei de que outro jei­to dizer isso. Eu a amo. Não suporto ficar sem você. A seu lado, sinto-me... bem... tão feliz e forte... como se fosse capaz de fazer qualquer coisa, como se tudo que tocasse fosse uma espécie de presente... como se tudo vales­se a pena... e nunca mais quero deixar essa sensação ir embora. Se você for morar sozinha depois do verão, e eu fizer a mesma coisa, vamos perder isso. — O rapaz ficou com os olhos úmidos, enquanto falava. — E, Ariana, não su­porto perdê-la.

— Não vai ter que perder. — A voz dela era um sussurro. — Paul... eu...

E então, como se Paul tivesse marcado o tempo, os primeiros fogos ex­plodiram lá em cima. Ele tirou do bolso um grande anel de diamante. Antes que ela se desse conta do que estava acontecendo, já o tinha colocado no de­do dela, e sua boca estava fazendo pressão sobre a dela, com força, enquanto sua urgência e sua paixão se transmitiam para ela. Ariana sentiu um desejo e uma emoção que pensava que jamais iria sentir de novo. Agarrou-se ao rapaz quase desesperadamente por um momento, retribuindo o beijo e lutando con­tra o desejo que lhe invadia a alma.

Finalmente, depois que seus lábios se tinham separado, ela falou que estava cansada, e os dois voltaram para a casa dos pais dele, em East Hampton, num estado de espírito bem mais tranqüilo. Ela ainda tentava lutar contra sua consciência. Como podia continuar com aquilo? E não era que não o amasse. Amava-o, de uma forma carinhosa e amistosa, mas era errado tirar vantagem do afeto dele, errado atribuir-lhe um filho que não era dele. Quando finalmen­te saíram do carro, diante da casa, Paul envolveu-a com um abraço carinhoso e levou-a para dentro. E no saguão de entrada, olhou para ela, com tristeza.

— Sei o que está pensando. Não o quer, nem o anel, nem o que ele representa, nem a mim... nada. Está certo, Ariana, compreendo. — Mas havia lágrimas na voz dele, enquanto a apertava contra si. — Mas, ó, Deus, eu a amo tanto, por favor, por favor, deixe-me ficar a sós com você aqui, só esta noite. Deixe-me sonhar, deixe-me imaginar como seria se esta fosse a nossa casa, se fôssemos casados, se todos os sonhos se tivessem tornado realidade.

— Paul.

Afastou-se meigamente dele, mas, quando o fez, viu que o belo rosto jovem estava lavado em lágrimas. E então, Ariana não pôde suportar mais; pu­xou-o para junto de si e ergueu o rosto para ele, oferecendo-lhe um calor e um carinho que jamais pensara teria para dar a alguém de novo. Dali a momentos chegaram ao quarto dela, e com uma ternura que ultrapassava seus poucos anos, Paul despiu cuidadosamente o vestido de seda dela.

 Ficaram dei­tados ali por um longo tempo, ao luar, abraçando, acariciando, sonhando, bei­jando, e sem dizer nada. E, finalmente, ao alvorecer, com a última paixão es­gotada, adormeceram um nos braços do outro.

 

Bom dia, minha querida. Ariana apertou os olhos, à luz forte do sol, ao vê-lo. Tinha posto uma bandeja com o café da manhã sobre a cama, e estava abrindo várias gavetas e colocando seu conteúdo dentro de uma pequena mala que pu­sera em cima da cama.

— O que está fazendo? — Sentou-se na cama e teve que lutar contra uma onda de náusea. O cheiro do café era forte, e a noite fora comprida.

— Estou arrumando sua mala. — Sorriu para ela, por cima do ombro.

— Mas, aonde vamos? Seus pais vão voltar hoje à noite. Ficarão preocupados, se não nos encontrarem...

— Estaremos de volta até lá.

— Então, por que a mala, Paul? Não estou entendendo. — Sentia-se totalmente desorientada, sentada ali, ainda nua, enquanto esse homem grandão de pernas compridas vestindo um roupão de seda azul-marinho lhe arrumava a mala. — Paul, quer fazer o favor de parar e falar comigo? — Havia um leve tom de pânico na voz.

— Daqui a um minuto. — Virou-se, sentou-se na cama e tomou a mão dela na sua, aquela que ainda ostentava o enorme anel de diamante. — Está bem, agora vou dizer-lhe. Vamos para Maryland agora de manhã, Ariana.

— Maryland? Por quê?

Mas, desta feita, ele a fitou francamente. Era como se, da noite para o dia, se tivesse tornado um homem.

— Vamos para Maryland para casar, porque estou cansado de brincar e agir como se tivéssemos quatorze anos. Não temos, Ariana. Sou um homem e você é uma mulher, e se algo como ontem à noite pôde acontecer entre nós uma vez, então pode acontecer mais e mais vezes. Não vou brincar com você, não vou implorar. Eu a amo e acho que você também me ama. — E então a voz dele suavizou-se de novo, ligeiramente. — Quer casar comigo, Ariana? Querida, eu a amo de todo o coração.

— Oh, Paul.

Os olhos dela ficaram cheios de lágrimas enquanto abria os braços para ele. Seria possível que pudesse fazê-lo feliz? Se casasse com Paul, por gratidão, pelo que daria ao filho dela, sempre seria boa para ele. Mas só o que con­seguia fazer era chorar, enquanto o rapaz a abraçava. Era uma decisão tão imensa, e ela ainda não tinha certeza do que fazer.

— Quer parar de chorar e me dar uma resposta? — Beijou-lhe o pesco­ço suavemente, depois o rosto, depois o cabelo. — Ah, Ariana, eu a amo... como a amo...

Beijou-a de novo, e então lentamente, desta vez, ela fez um aceno de ca­beça, e depois olhou-o de frente, enquanto outros rostos vieram à sua cabeça... Manfred... o pai... chegou até a se lembrar de Max Thomas, beijando-a no quarto da mãe dela, na noite em que fugiu de Berlim. O que todos eles pen­sariam dela, se se casasse com este homem? E então deu-se conta de que não tinha importância, que era a sua decisão, a sua vida, agora. Não deles. Todos tinham morrido. Todos eles. Só sobrara ela... ela... o bebê... e Paul. Ele era mais real do que os outros jamais poderiam ser, agora. Estendeu a mão para ele com um longo e lento sorriso. Estava deixando para trás uma vida, entregando-se com todo o coração e a alma, e, ao fazê-lo, jurou silenciosamen­te jamais trair o amor deles.

— E então?

Olhava para ela, tremendo, com medo de segurar-lhe a mão, com medo de se mexer. Mas ela segurou ambas as mãos dele e as levou lentamente até a boca. E então, beijou-lhe os dedos de um em um e fechou os olhos. Quando os abriu de novo, havia neles uma expressão de ternura que tocou o fundo da alma de Paul.

— Sim. — Sorriu para ele e puxou-o mais para perto de si. — Sim, meu querido. Sim! A resposta é sim. — E então, enterrando a cabeça no ombro de­le, rejubilou-se. — Como vou amá-lo, Paul Liebman. — E então deu um passo atrás para olhar para ele. — Que homem maravilhoso você é.

— Meu Deus! — Abriu um sorriso para ela. — Acho que você ficou ma­luca. Mas, a cavalo dado não se olham os dentes. Continue maluca, e deixe que cuido do resto.

E foi o que fez. Dali a uma hora estavam na estrada para Maryland, com as malas no banco de trás e os documentos de identidade temporários de Ariana no bolso dele. Dali a algumas horas, a mulher de um juiz de paz nos arredores de Baltimore bateu a foto deles, enquanto o marido fitava Paul solenemente e murmurava com firmeza, acenando com a cabeça:

— Pode beijar a noiva.

— Mamãe... Papai... — A voz de Paul quase tremia, ao olhá-los de frente, mas estendeu a mão meigamente e tomou a de Ariana. Segurou-a com orgulho, e depois sorriu para os pais com uma expressão que dizia que era um ho­mem. — Ariana e eu acabamos de nos casar. — Sorriu para a moça miudinha e nervosa. — Quase tive que forçá-la a aceitar, e foi por isso que não perdi tempo esperando para discutir o assunto com vocês. Portanto - olhou para os pais com carinho, e embora estivessem obviamente aturdidos, não pare­ciam aborrecidos — posso apresentar-lhes a Sra. Paul Liebman?

Inclinou-se graciosamente para ela, que fez uma mesura para ele. E então, com um único movimento rápido e gracioso, ela se esticou e beijou-o, e depois abriu os braços para Ruth. A mulher mais velha abraçou-a apertado por um longo momento, lembrando-se da moça desesperadamente doente que tinha ido buscar no navio. Sam observou-as por um momento, e depois abriu os braços para o filho.

 

Conforme o planejado, Ariana e Paul ficaram em East Hampton até setembro, e depois do Dia do Trabalho americano voltaram para a cidade a fim de procurar um lugar para morar. Paul começou a trabalhar com o pai no escritório, e Ruth acompanhou Ariana na procura da casa certa. Pouco depois de terem comemorado o Rosh Hashanah todos jun­tos, uma bonita casinha numa rua na altura dos 60 entrou no mercado, e depois de muito pouca discussão Paul decidiu que tinha que ser deles. No momento, estavam apenas alugando, mas o proprietário achava-se interessado em vender-lhes a casa, quando vencesse o contrato de locação. O jovem casal concluiu que era um arranjo perfeito. Aquilo lhes daria uma chance de decidir se realmente gostavam da casa.

Agora, só o que precisavam era de mais móveis e, com as meninas de volta à escola, Ruth tinha mais tempo para ajudar. Estava ura pouco menos ocupada com sua organização de refugiados, e vinha passando quase todos os dias com Ariana, o que fez com que visse que a moça não estava passando bem, novamente.

— Você foi ver o Kaplan de novo? — Ruth olhava para ela com preocupa­ção, e Ariana fez que sim, tentando decidir-se sobre uma fazenda para cortina que encomendara para combinar com o tapete novo da casa. — Como é, foi?

— Fui, na quinta-feira passada. — Evitou o olhar de Ruth por um mo­mento, e depois fitou a sogra com um pequeno sorriso.

— O que foi que ele disse?

— Que os desmaios e os problemas com o meu estômago ainda vão continuar durante algum tempo.

— Ele acha que é permanente? — Ruth olhava para ela com preocupa­ção ainda maior, mas Ariana sacudiu a cabeça.

— Absolutamente. Na verdade, nem está mais se preocupando com isso. Falou que, antes, era por causa do que passei para chegar até aqui. Mas, ago­ra, é o preço que estou pagando pelo que fiz depois que cheguei.

— O que quer dizer com isso? — E então, subitamente, Ruth enten­deu a mensagem enigmática. Arregalou os olhos e fitou a nora com um sorri­so longo e lento. — Quer dizer que está grávida?

— Estou, sim.

— Oh, Ariana! — Olhou para ela, toda feliz, e atravessou rapidamente a sala para dar-lhe um abraço. Mas então olhou para a moça miúda com preocupação renovada. — Ele acha que não lhe fará mal? Não é cedo demais depois de ter estado tão doente... você é tão pequenina, não é uma cavalona como eu. — Mas agarrava com força a mão de Ariana, entusiasmada com a notícia. Por um instante aquilo lhe fez lembrar-se da alegria que sentira, quando soube­ra que estava esperando o primeiro filho.

— A única coisa que ele quer é que eu vá consultar um especialista um pouco mais tarde, quando o parto estiver mais próximo.

— É razoável, e quando será o parto, a propósito?

— No começo de abril.

Intimamente, Ariana crispou-se ante a mentira, rezando para que Ruth nunca viesse a saber a verdade sobre o bebê, e prometendo a si mesma e a Ruth, mudamente, que um dia haveria um bebê Liebman de verdade. Devia ao Paul ter um filho dele, e logo que tivesse condições, ia ter mais um, e mais outros, se ele quisesse. Devia-lhe tudo por proteger o filho de Manfred.

À medida que os meses iam-se passando, Paul amadurecia, ficando cada vez mais paternal, ajudando Ariana a preparar o quartinho do bebê e sorrindo para ela, que passava noite após noite tricotando roupinhas. Ruth também trouxera para a casa deles várias caixas de coisas dos seus filhos, e parecia ha­ver chapeuzinhos, meinhas, vestidinhos e sueterezinhos por toda a parte que Paul olhava.

— Bem, pelo aspecto desta casa, Sra. Liebman, eu diria que vamos ter um bebê.

Faltavam duas semanas para o Natal. Paul pensava que ela estava grávi­da de cinco meses e meio, mas, na verdade, o nascimento do bebê estava pre­visto para dali a seis semanas. Mas ninguém parecia achar absurdo o tamanhão dela. Imaginavam que era simplesmente devido ao fato de que a barriga aparecia mais numa mulher baixa como Ariana. E a essa altura Paul já gostava do barrigão... chamava-o de nomes engraçados e dizia que precisava esfregá-lo duas vezes para dar sorte, antes de sair para o trabalho, todos os dias.

— Não faça isso! — Deu um gritinho, quando ele lhe fez cócegas. — Vai fazer com que ele me chute de novo.

— Deve ser um menino. — Ele falou com ar muito sério, certa noite, en­quanto escutava a barriga da mulher. — Acho que está tentando jogar futebol.

— Sem dúvida que está jogando futebol aí dentro... com os meus rins, acho. — Ariana ergueu e revirou os olhos, rindo para o marido.

Na manhã seguinte, depois que Paul saiu para o trabalho, uma coisa es­tranha aconteceu, e durante horas a fio Ariana ficou dominada pela nostalgia da sua antiga vida. Ficou sentada durante horas numa cadeira, pensando em Manfred, e pegou a caixa de jóias, experimentando os anéis dele. Ficou ali sentada pensando nos seus planos e promessas, e depois pegou-se imaginando o que ele teria pensado deste filho. Perguntou-se até que nome ele gostaria que o bebê tivesse. Paul estava resolvido a chamá-lo de Simon, em homena­gem ao irmão que morrera. E era uma coisa que Ariana achava que devia fazer por ele.

Enquanto mexia nos seus guardados, naquela manhã, pegou no envelo­pe com as fotos dela e de Manfred, escondido num livro numa gaveta trancada no fundo de sua escrivaninha. Tirou as fotos e espalhou-as no colo, fitando o rosto que amara, lembrando-se de cada centímetro do uniforme, ouvindo as palavras dele no seu primeiro Natal. Era difícil acreditar que as fotos dos bai­les do Natal tinham sido tiradas apenas há um ano. Com dois riozinhos de lá­grimas escorrendo-lhe das faces e pingando na barriga enorme, segurava os re­tratos, e nem escutou o marido entrar. Dali a um momento, Paul estava para­do atrás dela, fitando as fotos, primeiro confuso, depois horrorizado, quando a insígnia da farda lhe chamou a atenção.

— Meu Deus, quem é este aí?

Fitou as fotos, furioso e espantado, vendo o rosto sorridente de Aria­na ao lado do homem. Ariana deu um salto, aterrorizada, ao ouvi-lo. Não tinha a menor idéia de que o marido estivesse parado ali.

— O que está fazendo aqui? — As lágrimas tinham cessado e ela ainda segurava as fotos, enquanto se levantava.

— Vim dar uma espiada em minha mulher, e saber se ela queria ir almo­çar comigo, mas estou vendo que interrompi um momento muito particular. Diga-me, Ariana, você faz isso todos os dias, ou apenas em algumas datas? — E depois de um momento gélido: — Importa-se de dizer quem era esse aí?

— Era... um oficial alemão. — Olhou para Paul, quase desesperada. Este não era o jeito que queria que ele viesse a descobrir.

— Isso eu já sabia, pela braçadeira nazista. Mais alguma coisa que quei­ra dizer-me? Por exemplo, quantos judeus ele matou? Qual o campo que dirigia?

— Não matou nenhum judeu, nem dirigiu nenhum campo. Na verdade, salvou minha vida. Impediu que um tenente me violentasse e que um general fizesse de mim sua amante. Se não fosse por ele — começou a soluçar incontrolavelmente, segurando a foto do homem que estava morto há sete meses — se não fosse por ele... eu provavelmente estaria morta, agora.

Por um instante, Paul lamentou o que lhe dissera, mas depois olhou de novo para as fotos que oscilavam na mão dela, e sentiu-se mais uma vez to­mado de raiva.

— Então, que diabo está fazendo rindo e sorrindo nessas fotos, se sua vidaesteve tanto em jogo? — Estendeu as mãos para as fotos, percebendo, cheiode fúria, que ela estava dançando com o oficial nazista num baile.

— Ariana, quem é este homem? — E então, subitamente, compreendeu como ela sobrevivera aos campos de concentração, afinal. A mãe dele estava com a razão. E ele não tinha o direito de repreendê-la pelo que havia feito. A moça não tivera escolha. Meigamente, sentindo-se abalado, estendeu os braços para Ariana, e puxou-a para o mais perto que o barrigão permitia. — Desculpe... oh, querida, desculpe. Acho que por um momento esqueci o que aconteceu. Vi apenas o rosto e o uniforme e tudo pareceu tão alemão, e acho que perdi a cabeça, por um minuto.

— Mas eu também sou alemã, Paul. — Ainda chorava, soluçando baixi­nho nos braços dele.

— É, mas não é como eles, e se o que teve que fazer foi ser amante des­se homem para sobreviver aos campos, Ariana, então não ligo a mínima para o que aconteceu. — Porém, enquanto falava, sentiu-a imobilizar-se nos seus bra­ços. E depois, ela se afastou dele e se sentou.

— É isso o que você acha, não é, Paul? — Fitou-o por um minuto interminável, e ele ficou calado, e depois ela continuou mansamente: — Acha que fui amante desse homem para salvar minha própria pele. Bem, não é verdade, e quero que saiba a verdade. Depois da morte do meu pai e de Gerhard, ele... Manfred... me levou para a casa dele, e não esperou nada de mim, nada. Não me estuprou, não me tocou, não me machucou. Deu-me apenas sua prote­ção, e tornou-se meu único amigo.

— É uma história comovente, mas esse é um uniforme nazista, não é, Ariana? — A voz dele era como gelo, tocando-a, mas ela não sentia medo... sabia que estava fazendo a coisa certa.

— É, sim. Paul. Mas havia alguns homens decentes que usavam unifor­mes nazistas, e ele era um deles. Não existem apenas os mocinhos e os bandidos. A vida não é assim tão simples.

— Ora, ora, querida. Obrigado pela aula. Mas, sinceramente, acho um pouco difícil de engolir eu chegar em casa e encontrar minha mulher choran­do diante do retrato de um nazista amaldiçoado e depois descobrir que era "amigo" dela. Os nazistas não eram amigos de ninguém, Ariana. Não entende? Como pode dizer o que está dizendo? Você é uma judia! — Estava furioso com ela, e então Ariana se levantou para enfrentá-lo, e sacudiu a cabeça.

— Não, Paul, não sou judia, sou alemã. — O choque foi tão grande que ele continuou calado, e a moça prosseguiu, temendo que as palavras lhe faltassem, se parasse agora. — Meu pai era um bom alemão, e um banqueiro; era o diretor do banco mais importante de Berlim. Mas, quando convocaram meu irmão, depois que fez dezesseis anos, meu pai não quis que Gerhard fosse.

—  Tentou sorrir para ele, agora. Que alívio era contar-lhe a história, contar-lhe a verdade, não importa o quanto lhe custasse, no final. — Meu pai nunca foi simpatizante dos nazistas, e quando eles tentaram convocar Gerhard, ele che­gou à conclusão de que tínhamos que escapar. Arquitetou um plano para levar meu irmão para a Suíça, e depois viria buscar-me, no dia seguinte. Só que al­guma coisa deve ter acontecido, e ele jamais voltou. Nossos criados me dela­taram... gente em quem eu confiava a vida toda — a voz aumentou de volu­me — e os nazistas vieram e me levaram. Fiquei numa cela durante um mês, Paul, para que meu pai pagasse um resgate por mim, caso voltasse, mas ele não voltou. Durante um mês vivi numa cela minúscula e nojenta, meio maluca e meio morta de fome, num quarto com metade do tamanho de um dos armá­rios das empregadas de sua mãe. E depois eles me soltaram, porque eu não ti­nha utilidade. Apossaram-se da casa do meu pai, ficaram com todas as nossas coisas, e me jogaram no olho da rua. Mas o general que se apossou da casa do meu pai em Grunewald estava de olho em mim, também. Manfred, este ho­mem — apontou para as fotos com mão trêmula, enquanto as lágrimas rolavam por suas faces — salvou-me do general, e de todos. Manteve-me a salvo até que a guerra acabou. — A voz perdeu a firmeza, então. - Até a queda de Berlim, quando foi morto. — Ergueu os olhos para Paul, mas o rosto do marido estava duro como pedra.

— E vocês foram amantes, você e esse nazista nojento?

— Não entende? Ele me salvou! Não se importa com isso? — Fitou-o por um longo momento, sua própria raiva crescendo.

— Importo-me com o fato de que você foi amante de um nazista.

— Então é um tolo. Eu sobrevivi, droga, sobrevivi!

— E gostava dele?

A voz do marido era gélida, e de repente, embora tivesse vindo a amar Paul,odiava-o, agora. Queria magoá-lo como ele a estava magoando.

— Gostava muito. Era meu marido, e ainda seria, se não estivesse morto.

Por um instante ficaram parados ali, fitando-se, subitamente cônscios de tudo o que fora dito, e quando Paul falou de novo, sua voz tremia. Apon­tou para a barriga dela, depois ergueu os olhos para o seu rosto.

— De quem é esse bebê?

Ariana teve vontade de mentir para ele, pelo bem do bebê, mas não pôde mais.

— Do meu marido — respondeu. Sua voz era forte e cheia de orgulho, como se estivesse trazendo Manfred de volta à vida.

— Eu sou o seu marido, Ariana.

— De Manfred — respondeu baixinho, dando-se conta subitamente do que fizera com Paul. Quando o impacto total a atingiu, Ariana quase cam­baleou.

— Obrigado — sussurrou ele, e então, girando nos calcanhares, bateu a porta do quarto.

 

Na manhã seguinte, Ariana recebeu um pacote de papéis do advo­gado de Paul. Estava sendo notificada de que o Sr. Paul Liebman tinha a intenção de pedir o divórcio. Estava sendo formalmente notificada de que, quatro semanas após o nascimento do bebê, teria que aban­donar a casa, mas que, nesse meio tempo, poderia ficar ali. Também continua­ria a ser sustentada durante aquele breve período, e depois que saísse da casa, após o nascimento do bebê, receberia um cheque de 5.000 dólares. O bebê não iria receber nenhuma pensão, já que aparentemente não era filho do Sr. Liebman, nem tampouco ela, dadas as circunstâncias do casamento breve e aparentemente fraudulento. Uma carta no mesmo pacote, da parte do sogro, confirmava os acordos financeiros, e um bilhete da sogra a repreendia por tê-los traído a todos. Como ela ousara ter fingido que era judia. Era, como Ariana sempre suspeitara que seria, a traição máxima, sem falar no fato de que estava grávida de "um nazista qualquer". A guerra os atingira para valer. "Um nazista qualquer", Ariana crispou-se ao ler aquilo. Mais ainda, Ruth proibia Ariana de ir à casa da Quinta Avenida. Se descobrisse que Ariana tentara en­contrar-se com Deborah ou Julia, Ruth não se constrangeria de chamara polícia. Enquanto Ariana lia o que lhe haviam remetido, teve uma vontade de­sesperada de entrar em contato com Paul. Mas o marido se refugiara junto aos pais, e sob circunstância alguma atendia seus telefonemas. Ao invés disso, co­municava-se com ela através do advogado; as providências foram tomadas, o processo de divórcio teve início, os Liebmans a ignoravam, e no dia 24 de de­zembro, pouco depois da meia-noite, um mês antes do tempo, Ariana entrou em trabalho de parto, sozinha em casa.

Sua bravata cessou, naquela hora, e momentaneamente a coragem tam­bém. Ficou paralisada de medo... do desconhecido, da sua solidão, mas con­seguiu comunicar-se com o médico e ir de táxi para o hospital.

Doze horas mais tarde, Ariana ainda estava em pleno trabalho de par­to, e quase incoerente de dor. Assustada, desesperada, ainda chocada com o que acontecera com Paul e os Liebmans, não estava em condições de lidar com o que estava acontecendo, e vezes sem conta gritava o nome de Manfred, até que finalmente eles lhe deram algo para aliviar a dor. As dez horas da noite de Natal, o bebê finalmente nasceu, de cesariana, mas, a despeito das dificulda­des do parto nem a mãe nem a criança sofreram danos. Os médicos o mostra­ram brevemente a Ariana, um montinho de carne enrugada com as mãos e pés menores que ela já vira.

Não se parecia com ela ou com Manfred ou com Gerhard ou com o pai dela. Não se parecia com ninguém.

— Que nome vai-lhe dar? — perguntou a enfermeira baixinho, seguran­do a mão de Ariana.

— Não sei.

Estava tão cansada, e ele era tão pequenino... ela se perguntava se não haveria problema de ele ser tão pequeno. Mas em meio à dor e à anestesia, ainda assim sentia o calor do júbilo.

— É Natal, podia chamá-lo Noel.

— Noel? — Ariana pensou por um momento, sorrindo, semi-adormecida pelo efeito das drogas. — Noel? É bonito. — E então, virando o rosto para on­de imaginava que o bebê estaria, deu um sorriso sereno. — Noel Von Tripp — disse consigo mesma, e adormeceu.

 

Exatamente quatro semanas após o nascimento do bebê, Ariana es­tava parada no saguão de entrada de sua residência, com o restante de suas malas. Como fora combinado, estava deixando vaga a ca­sa, e o bebê já aguardava no táxi. Iam para um hotel recomendado por uma enfermeira do hospital. Era aconchegante e barato, e a proprietária dava as re­feições. Tão em seguida à cesariana, Ariana não devia, na verdade, estar de pé. Mais uma vez tentara entrar em contato com Paul no escritório, e novamente se permitira tentar falar com ele, em casa. Mas foi inútil. Ele não queria falar com ela. Estava tudo acabado. Ele lhe enviara os 5.000 dólares. Só o que que­ria agora eram as chaves da casa.

Ela fechou a porta suavemente às suas costas, e com suas roupas e o be­bê, as fotos de Manfred e o volume de Shakespeare com o compartimento se­creto para os anéis, começou sua nova vida. Já tinha devolvido o anel de dia­mante que Paul lhe dera, e estava mais uma vez usando os anéis de Manfred. Eles pareciam encaixar-se melhor nos dedos dela, e sabia agora que jamais os tiraria de novo. Seria Ariana Von Tripp para sempre. Se fosse mais sensato nos Estados Unidos, ela retiraria o "Von", mas jamais atraiçoaria sua vida antiga, jamais mentiria ou fingiria novamente sobre quem e o que era. Tinha sofrido nas mãos dos nazistas, no entanto sabia melhor do que ninguém que os nazis­tas eram apenas uma horda de homens, e que naquela horda não deixara de existir uns homens bons. Jamais trairia Manfred novamente.

Ele era o marido que ela adoraria por toda a vida. Era o homem de quem falaria para o filho. O homem que servira corajosamente seu país e a mulher que amara, até o fim. Contaria a ele do avô e do meigo Gerhard. Talvez até lhe contasse que se casara com Paul, mas quanto a isso não tinha cer­teza. Sabia que errara ao tentar enganá-lo, mas afinal pagara caro por isso, também. Porém, pensou sorrindo para o bebê adormecido, sempre teria o filho.

 

Quando Noel estava com dois anos, Ariana respondera a um anún­cio no jornal e conseguira um emprego numa livraria que se espe­cializava em livros estrangeiros. Permitiam que ela trouxesse o be­bê para o trabalho, e lhe pagavam um salário escasso com o qual, pelo menos, ela e o bebê podiam sobreviver.

— Ariana... você devia fazer isso, sem dúvida.

A moça olhava para ela intensamente, enquanto Ariana tentava ficar de olho no filho levado. Trabalhava na livraria há mais de um ano, e Noel aprendera a andar cedo, e já vivia fascinado pelos livros coloridos empilhados nas prateleiras junto ao chão.

— Não creio que queira nada deles, Mary.

— Sei, mas não quer alguma coisa para o bebê? Quer ficar fazendo esse tipo de trabalho pelo resto da vida? — Ariana olhou para ela, hesitante. — Não vai tirar pedaço se você for perguntar. E você não está pedindo caridade, está pedindo o que é legitimamente seu.

— O que foi meu. É diferente. Quando fui embora, estava tudo nas mãos dos nazistas.

— Pelo menos vá até o consulado e pergunte.

Mary era insistente, e Ariana decidiu que talvez fosse perguntar-lhes no seu próximo dia de folga. O governo alemão instituíra um sistema pelo qual as pessoas que haviam perdido bens e propriedades para os nazistas podiam agora pedir ao governo alguma compensação por sua perda. Ela não tinha ne­nhuma prova do que lhe pertencera, nem a casa em Grunewald nem o castelo da família de Manfred, que, por direito, também era seu.

Dali a duas semanas, numa quinta-feira, seu dia de folga, foi empurrando o carrinho de Noel até o consulado. Era um dia frio e tempestuoso de mar­ço, e ela quase não tinha saído com medo que nevasse. Mas enrolou o bebê no seu cobertor pesado e entrou pela magnífica porta de bronze.

— Bitte!

— O que deseja?

Porum instante, Ariana apenas olhou fixamente para seu interlocutor. Fazia tanto tempo que não ouvia o seu idioma, não via um europeu ou via as coisas sendo feitas daquele jeito oficial a que se acostumara, que por um momento só o que pôde fazer foi olhar à sua volta, atônita. Era como se tivesse sido transportada para casa. Lentamente, começou a responder e explicar por que tinha ido até ali. E, para sua surpresa, foi tratada com o máximo de res­peito e cortesia, recebeu a informação que desejava e uma pilha de formulá­rios para preencher, e mandaram que voltasse na semana seguinte.

Quando retornou, havia muitas pessoas agrupadas no saguão. Ela estava com os formulários preenchidos no bolso, e só o que tinha a fazer agora era esperar por uma entrevista com um funcionário subalterno qualquer, que cuidaria do seu caso. E depois, quem sabe quanto tempo demoraria? Talvez anos... se é que ia receber alguma coisa deles. Mas valia a pena tentar.

Enquanto estava ali no consulado, com Noel adormecido no carrinho, não pôde resistir ao impulso de fechar os olhos e se imaginar em casa de novo. Estava cercada de alemães, os sons da Baviera, de Munique, de Leipzig, de Frankfurt, e depois a gíria de Berlim. Tudo era tão doce e familiar, e ao mes­mo tempo doloroso. No meio de todas aquelas palavras e sotaques e gírias fa­miliares, nem uma só voz conhecida. E então, subitamente, como se estivesse sonhando, sentiu alguém agarrá-la pelo braço, ouviu uma breve exclamação, um prender de respiração, e quando ergueu os olhos, estava fitando um par de olhos castanhos conhecidos. Eram olhos que já tinha visto antes... olhos que conhecera... e que vira pela última vez há três anos.

— Ó, meu Deus! Ó, meu Deus!

E então, de repente, ela estava chorando. Era Max... Max Thomas... e sem pensar, jogou-se nos braços dele. Pelo que lhe pareceu horas, ele a abra­çou com força, enquanto ambos riam e choravam. Ele a abraçava, beijava, segurava o bebê... para ambos era um sonho que nunca pensaram se tornaria realidade. E então, enlaçados no corredor enquanto esperavam, ela lhe falou do pai e de Gerhard, e de como tinham perdido sua casa. E depois, falou-lhe mansamente de Manfred; sem mais sentir medo ou vergonha, contou a Max que o amava, que se tinham casado e que Noel era filho dele. Mas logo desco­briu que, com exceção de Noel, ele já sabia de tudo. Tinha vasculhado Berlim atrás dela e do pai, depois da guerra.

— Procurou por eles depois da guerra, Ariana?

Ela hesitou por um momento, depois sacudiu a cabeça.

— Não sabia como. Meu marido disse que tinha certeza de que meu pai estava morto. E depois entrei em contato com um amigo dele em Paris, um homem que dirigia uma espécie de organização de ajuda a refugiados, antes de deixar a Europa. Ele examinou cada pista possível, procurando um sinal deles, especialmente de Gerhard. — Soltou um leve suspiro. — Tentou até mesmo localizar você, mas não havia sinal seu... ou de Gerhard.

E então, subitamente, sentiu o impacto total do que acabara de dizer. Não tinha havido sinal de Max, e ele estava vivo... Gerhard também não po­dia estar? Pareceu estupefata por um momento, e Max tomou-lhe suavemente o rosto nas mãos, enquanto sacudia a cabeça de um lado para o outro.

— Não. Eles estão mortos, Ariana. Eu sei. Também procurei. Depois da guerra voltei para Berlim para tentar achar seu pai, e... — Quase dissera "para ver você". — Soube pelos homens do banco em Berlim o que aconteceu."

— O que lhe contaram?

— Que ele desapareceu. E que, agora, praticamente todos sabiam que sumira para livrar Gerhard do serviço militar. Não há absolutamente nenhum vestígio do seu pai, nem de Gerhard. Certa vez, na Suíça, a empregada de um hotel reconheceu uma foto que eu tinha dele, achou que se parecia comum garoto que estivera lá cerca de um ano antes, mas não tinha certeza, e depois de ter olhado para a foto por algum tempo, disse que tinha certeza de que não era o mesmo garoto. Voltei para a Suíça e procurei por eles durante três me­ses. — Soltou um profundo suspiro e se encostou pesadamente na parede. — Acho que a patrulha da fronteira os pegou, Ariana. É a única resposta que faz algum sentido. Se estivessem vivos, teriam acabado por voltar para Berlim. E não voltaram. Eu me mantive em contato.

Ouvir tais palavras da boca de Max tornava a coisa real de novo, e ele ti­nha razão. Se ambos estivessem vivos, teriam aparecido, e se Max mantivera contato com o pessoal do banco em Berlim, então era certo. Ouvir aquilo fez a notícia parecer recente de novo, e ela sentiu outra vez o coração dilacerado pela dor. Max lhe envolveu os ombros com o braço e com uma das mãos lhe alisou o cabelo dourado.

— Sabe, é espantoso. Tinha conhecimento de que você viera para os Estados Unidos, mas não p