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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O APRENDIZ DO MAGO / Joseph Delaney
O APRENDIZ DO MAGO / Joseph Delaney

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O APRENDIZ DO MAGO

 

                                       A PEDRA VIGILANTE

 

             UM SÉTIMO FILHO

Quando o Mago chegou, a luz já começava a diminuir. Fora um dia longo e duro e eu estava pronto para a ceia.

— Tem certeza de que ele é um sétimo filho? — perguntou. Mirava-me de alto a baixo e abanava a cabeça, cheio de dúvidas.

O meu pai anuiu.

— E você também é um sétimo filho?

O meu pai voltou a anuir e começou a bater impacientemente com os pés, salpicando-me as calças de gotículas de lama e estrume. A chuva escorria-lhe pela pala do boné. Chovera durante a maior parte do mês. Havia folhas novas nas árvores, mas o tempo primaveril ainda tardava muito.

O meu pai era agricultor, tal como o pai dele também fora, e a primeira regra da agricultura é manter a terra unida. Não pode ser dividida pelos filhos, senão vai ficando menor a cada geração, até não restar nada. Por isso, um pai deixa a fazenda ao filho mais velho. Depois arranja ocupações para os restantes. Se possível, tenta encon­trar um ofício para cada um.

Para tal, precisa de muitos favores. O ferreiro local é uma opção, em especial se a propriedade for grande e ele lhe tiver solicitado bastante trabalho. Então, é provável que o ferreiro ofereça um apren­dizado, mas ainda só fica com um filho arrumado na vida.

Eu era o sétimo e, quando chegou a minha vez, tinham-se esgo­tado os favores. O meu pai estava tão desesperado que tentou mesmo convencer o Mago a aceitar-me como seu aprendiz. Ou, pelo menos, foi o que pensei na altura. Devia ter desconfiado que a mão da minha mãe andava ali.

Ela estava por trás de muitas coisas. Muito antes de eu nascer, fora o dinheiro dela que comprara a nossa fazenda. De que outra forma poderia um sétimo filho tê-la adquirido? E a minha mãe não era do Condado. Vinha de uma terra distante, do outro lado do mar. A maio­ria das pessoas não reparava, mas por vezes, se escutasse com muita atenção, havia uma ligeira diferença na maneira como ela pronunciava certas palavras.

Mas não julguem que eu estava sendo vendido como escravo ou algo assim. Fosse como fosse, estava farto de agricultura e aquilo que cha­mavam «a vila» pouco mais era do que uma aldeota para lá do Sol poente. Não era certamente um lugar onde quisesse passar o resto da minha vida. Por isso, de certa forma, agradava-me bastante a idéia de ser Mago; era bem mais interessante do que ordenhar vacas ou fertilizar a terra.

Mas sentia-me bastante nervoso, porque era um trabalho assusta­dor. Iria aprender a proteger fazendas e aldeias das coisas que andam por aí à noite. Lidar com fantasmas, demônios e todo o tipo de seres maléficos, tudo faria parte de uma rotina normal. Era o que o Mago fazia e eu ia ser seu aprendiz.

— Quantos anos ele tem? — perguntou o Mago.

— Fará treze em Agosto próximo.

— É um bocado baixo para a idade. Sabe ler e escrever?

— Sim — respondeu o meu pai. — Sabe ambas as coisas e tam­bém sabe grego. A minha mãe ensinou-o e já conseguia falar antes mesmo de andar.

O Mago anuiu e olhou para o caminho enlameado que se esten­dia do portão em direção à casa da fazenda, como se escutasse algo. Depois encolheu os ombros.

— Já é uma vida bastante dura para um homem, quanto mais um rapaz — disse. — Acha que ele está à altura?

— Ele é forte e será tão grande quanto eu quando chegar à idade adulta — retorquiu o meu pai, endireitando as costas e erguendo-se em toda a sua altura. Mesmo assim, o alto da sua cabeça ficava exatamente ao nível do queixo do Mago.

De repente, o Mago sorriu. Era a última coisa que eu estava esperando. O seu rosto era grande e parecia ter sido esculpido em pedra. Até ali achara-o um bocado mal-encarado. A sua capa preta e com­prida e o capuz faziam lembrar um padre, mas quando ele nos olhava diretamente, a sua expressão sinistra fazia-o assemelhar-se mais a um carrasco a avaliar-nos por causa da corda.

O cabelo que aparecia sob a parte da frente do capuz condizia com a barba, que era grisalha, mas tinha sobrancelhas pretas e muito espessas. Saíam-lhe também uns pêlos pretos das narinas, e os seus olhos eram verdes, a mesma cor dos meus.

Reparei então em algo mais nele. Trazia um bordão comprido. Claro que o vira mal ele aparecera, mas não percebera até àquele momento de que o segurava na mão esquerda.

Quereria dizer que era canhoto como eu?

Fora algo que me trouxera muitos problemas na escola da aldeia. Até tinham chamado o pároco local para me observar e ele abanara constantemente a cabeça e dissera-me que teria de contrariar o há­bito antes que fosse tarde demais. Não entendi ao que se referia. Nenhum dos meus irmãos era canhoto nem tampouco o meu pai. No entanto, a minha mãe é canhota e isso nunca pareceu incomodá-la sobremaneira, por isso, quando o professor ameaçou fazer-me perder a mania à pancada e me amarrou a caneta à mão di­reita, ela tirou-me imediatamente da escola e daquele dia em diante ensinou-me em casa.

— Quanto quer para aceitá-lo? — perguntou o meu pai, inter­rompendo os meus pensamentos. Agora é que estávamos verdadeira­mente a negociar.

— Dois guinéus por um mês, como experiência. Se ele tiver jeito, voltarei no Outono e ficará me devendo outros dez. Se não, trago-o de volta e será só mais um guinéu pelo incômodo que tive.

O meu pai voltou a anuir e o negócio se fez. Fomos até ao celeiro e pagaram-se os guinéus, mas não houve aperto de mãos. Ninguém queria tocar num Mago. O meu pai era um homem corajoso, ao estar ali a menos de dois metros dele.

— Tenho um assunto a tratar aqui perto — disse o Mago —, mas virei buscar o rapaz ao raiar do dia. Ele que esteja pronto. Não gosto que me deixem esperando.

Quando ele se foi, o meu pai bateu-me no ombro.

— Agora é uma vida nova para você, filho — disse-me. — Vá se lavar. Acabou-se a agri­cultura para você.

Quando entrei na cozinha, o meu irmão Jack envolvia a mulher Ellie com um braço e ela sorria.

Gosto muito de Ellie. É calorosa e amiga de uma forma que sen­timos que ela gosta realmente de nós. A minha mãe diz que foi bom para Jack casar com Ellie porque o ajudou a ficar menos agitado.

Jack é o mais velho e o maior de todos nós e, como o meu pai diz às vezes na brincadeira, o mais bonito de um grupo feioso. É certo que ele é grande e forte, mas, apesar dos seus olhos azuis e sadias faces coradas, as suas sobrancelhas farfalhudas quase se juntam no meio, pelo que sempre discordei dessa opinião. Algo que nunca pus em causa é o fato de ter conseguido atrair uma mulher boa e bo­nita. Ellie tem o cabelo da cor da palha da melhor qualidade três dias após uma boa colheita e uma pele que brilha realmente à luz da vela.

— Vou embora amanhã de manhã — anunciei bruscamente. — O Mago vem me buscar ao raiar do dia.

O rosto de Ellie iluminou-se.

— Quer dizer que ele resolveu acei­tá-lo?

Anuí.

— Vou ficar um mês como experiência.

— Oh, muito bem, Tom! Fico realmente satisfeita por você — disse ela.

— Não acredito! — zombou Jack. — Você, aprendiz de um Mago! Como pode exercer semelhante ofício, se não consegue adormecer sem uma vela acesa?

Ri da piada dele, mas tinha razão. Às vezes via coisas no es­curo e uma vela era a melhor maneira de mantê-las afastadas para poder dormir um pouco.

Jack veio direto a mim e, com uma gargalhada, prendeu-me a ca­beça e começou a arrastar-me em volta da mesa da cozinha. Era a sua idéia de brincadeira. Ofereci apenas a resistência suficiente para satisfazê-lo e passados alguns segundos ele me soltou e deu-me uma palmada nas costas.

— Muito bem, Tom — disse ele. — Vai fazer uma fortuna com esse ofício. No entanto, só há um problema...

— Qual é? — indaguei.

— Vai precisar de todos os cêntimos que ganhar. Sabe porquê?

Encolhi os ombros.

— Porque os únicos amigos que vai ter serão aqueles que comprar!

Tentei sorrir, mas havia um grande fundo de verdade nas palavras de Jack. Um Mago trabalhava e vivia sozinho.

— Oh, Jack! Não seja cruel! — admoestou Ellie.

— Foi só uma piada — replicou Jack, como se não compreendesse a razão de tanto desagrado de Ellie.

Mas Ellie olhava para mim e não para Jack e vi o seu rosto de re­pente esmorecer.

— Oh, Tom! — lamentou-se. — Isto quer dizer que não estará aqui quando o bebê nascer...

Parecia realmente desapontada e fiquei triste por não estar em casa para ver a minha nova sobrinha. A minha mãe dissera que ia ser uma menina e ela nunca se enganava nestas coisas.

— Virei fazer uma visita assim que puder — prometi.

Ellie fez um esforço para sorrir, e Jack aproximou-se e apoiou o braço nos meus ombros.

— Terá sempre a sua família — disse. — Estaremos sempre aqui, se precisar de nós.

Uma hora depois, sentei-me à mesa para jantar, sabendo que par­tiria de manhã. O meu pai deu graças como fazia todas as noites e todos nós murmuramos «Amém» exceto a minha mãe. Limitara-se a olhar para a comida como sempre, esperando educadamente até ter­minar. Quando a prece acabou, a minha mãe esboçou-me um pequeno sorriso. Foi um sorriso caloroso e especial e não creio que mais alguém tivesse percebido. Fez-me sentir melhor.

O fogo continuava aceso na lareira, enchendo a cozinha de calor. No centro da nossa grande mesa de madeira havia um candelabro de latão, que fora polido até se conseguir ver nele o rosto. Era uma vela cara, feita de cera de abelha, mas a minha mãe não permitia sebo na cozinha, por causa do cheiro. O meu pai tomava a maior parte das decisões sobre a fazenda, mas em algumas coisas ela levava a sua por diante.

Quando atacamos os nossos pratões de guisado fumegante, ocor­reu-me que o meu pai parecia envelhecido naquela noite — envelhe­cido e cansado — e havia uma expressão que se estampava no seu rosto de tempos em tempos, uma pontinha de tristeza. Mas animou-se um pouco quando começou a trocar impressões com Jack sobre o preço da carne de porco e se era ou não o momento certo para chamar o ma­tador de porcos.

— É melhor esperarmos mais um mês ou dois — afirmou o meu pai. — Com certeza o preço vai subir.

Jack abanou a cabeça e começaram a discutir. Era uma discussão amigável, daquelas que as famílias têm com freqüência, e poderia se dizer que o meu pai estava gostando. No entanto, eu não participei. Tudo aquilo chegara ao fim para mim. Como dissera o meu pai, acabara-se a agricultura para mim.

A minha mãe e Ellie riam baixinho. Tentei escutar o que diziam, mas entretanto Jack estava todo entusiasmado, a sua voz subindo cada vez mais de tom. Quando a minha mãe olhou para ele, vi que estava saturada do barulho que ele fazia.

Ignorando os olhares da minha mãe e continuando a discutir sono­ramente, Jack estendeu a mão para o saleiro e, sem querer, derrubou-o, entornando um pequeno cone de sal no tampo da mesa. Logo em seguida, pegou uma pitada e atirou-a por cima do ombro esquerdo. É uma velha superstição do Condado. Com este gesto, estaremos afastando o azar adveniente do seu derramamento.

— Jack, a verdade é que nem precisa de pôr sal — ralhou a minha mãe. — Estraga um bom guisado e é um insulto à cozinheira!

— Desculpe, mãe — justificou-se Jack. — Tem razão. Assim está perfeito.

Ela sorriu, depois indicou-me com um gesto de cabeça.

— E depois, ninguém está dando atenção a Tom. Não deve ser tratado assim na sua última noite em casa.

— Eu estou bem, mãe — assegurei-lhe. — Já me satisfaz estar aqui sentado ouvindo.

A minha mãe anuiu.

— Bem, tenho algumas coisas a dizer-te. Depois da ceia fique na cozinha para termos uma conversinha.

Assim, depois que Jack, Ellie e o meu pai terem ido se deitar, sen­tei-me numa cadeira junto à lareira e aguardei pacientemente para ouvir o que a minha mãe tinha a dizer.

A minha mãe não era mulher de grandes espalhafatos; a princípio não disse muito, além de explicar o que estava preparando para eu levar: um par de calças de reserva, três camisas e dois pares de meias boas que só tinham sido cerzidas uma vez cada.

Olhei para as cinzas da lareira batendo com os pés nas lajes, en­quanto a minha mãe se levantava da cadeira de balanço e a posicio­nava de modo a ficar bem de frente para mim. O seu cabelo preto apresentava alguns fios brancos, mas além disso, parecia-me pra­ticamente igual a quando eu começara a dar os primeiros passos, mal lhe chegando aos joelhos. Os seus olhos continuavam brilhantes e, à exceção da pele pálida, parecia vender saúde.

— Esta é a última vez que vamos poder conversar um pouco — disse ela. — É um grande passo sair de casa e iniciar uma vida nova. Por isso, se quiser dizer alguma coisa, se precisar perguntar alguma coisa, agora é o momento para fazê-lo.

Não me ocorreu uma só pergunta. Na verdade, não conseguia sequer pensar. Só de ouvi-la dizer tudo aquilo, senti as lágrimas começarem a atormentar-me os olhos.

O silêncio continuou durante um bom tempo. Apenas se ouvia o ruído dos meus pés nas lajes. Por fim, a minha mãe soltou um pe­queno suspiro.

— O que se passa? — perguntou-me. — O gato comeu sua língua?

Encolhi os ombros.

— Pare com esse desassossego, Tom, e concentre-se no que estou dizendo — advertiu a minha mãe. — Em primeiro lugar, está ansioso para que chegue o dia de amanhã, para começar a aprender o seu novo ofício?

— Não tenho certeza, mãe — disse-lhe, recordando a piada de Jack a respeito de ter de comprar os amigos. — Ninguém quer se aproximar de um Mago. Não terei amigos. Estarei sozinho o tempo todo.

— Não será tão mau quanto julga — redarguiu a minha mãe. — Terá o seu mestre com quem conversar. Ele será o seu profes­sor, e sem dúvida acabará por se tornar seu amigo. E estará ocupa­do o tempo todo. Ocupado a aprender coisas novas. Não terá tempo para se sentir sozinho. Não acha toda esta novidade entusiasmante?

— Entusiasmante é, mas o ofício assusta-me. Quero segui-lo, mas não sei se sou capaz. Uma parte de mim quer viajar e conhecer ou­tros lugares, mas será difícil deixar de viver aqui. Vou sentir sauda­des de todos. Vou sentir falta de estar em casa.

— Não pode ficar aqui — disse a minha mãe. — O seu pai está velho demais para trabalhar e no próximo Inverno vai entregar a fazenda a Jack. Ellie terá o bebê em breve, sem dúvida o primeiro de muitos; acabará por não haver espaço para você aqui. Não, o me­lhor é se acostumar antes que isso aconteça. Não pode voltar para casa.

A voz dela pareceu fria e um pouco sacudida, mas ao ouvi-la falar comigo daquela maneira, senti subitamente uma dor profunda no peito e na garganta, a ponto de mal conseguir respirar.

queria ir para a cama, mas ela tinha muito que dizer. Raramente a ouvira usar tantas palavras de uma só vez.

— Tem um trabalho a fazer e vai fazê-lo — disse-me em tom austero. — E não é só fazê-lo; é fazê-lo bem. Casei com o seu pai por­que ele era um sétimo filho. E dei-lhe seis filhos para poder ter a você. Você é sete vezes sete e possui o dom. O seu novo mestre ainda é forte, mas já não é o que era e um dia vai finalmente chegar a sua hora. Há quase sessenta anos que percorre as linhas do Condado cumprindo o seu dever. Fazendo o que tem de ser feito. Em breve será a sua vez. E, se não o fizer, quem o fará? Quem olhará pela gente comum? Quem a protegerá do mal? Quem tornará as fazendas, aldeias e vilas seguras, para que as mulheres e as crianças possam andar nas ruas e veredas sem receio?

Não soube o que dizer e não consegui olhá-la nos olhos. Esforcei-me apenas por reprimir as lágrimas.

— Gosto muito de todos nesta casa — prosseguiu ela, a voz agora mais branda — mas, em todo o Condado, você é a única pessoa real­mente como eu. E, no entanto, não passa de um menino que ainda tem muito que crescer, mas é o sétimo filho de um sétimo filho. Possui o dom e a força para fazer o que tem de ser feito. Sei que vai me en­cher de orgulho.

— Ora ainda bem — concluiu a minha mãe, pondo-se em pé — que resolvemos isto. Agora vá se deitar. Amanhã é um grande dia e quero que esteja no seu melhor.

Levei um abraço e um sorriso caloroso e esforcei-me realmente por me mostrar animado e retribuir o sorriso, mas assim que cheguei ao meu quarto, sentei-me na beira da cama, de olhar vago e a pensar no que a minha mãe me dissera.

A minha mãe é muito respeitada na vizinhança. Sabe mais de plan­tas e remédios caseiros do que o médico local, e quando há dificuldade em fazer nascer um bebê, a parteira manda sempre chamá-la. A minha mãe é perita no que ela chama de partos pélvicos. Às vezes, um bebê tenta nascer com os pés para a frente, mas a minha mãe sabe virá-lo enquanto ainda está na barriga. Há dúzias de mulheres no Condado que lhe devem a vida.

Pelo menos era o que o meu pai estava sempre dizendo, mas a minha mãe era modesta e nunca mencionava semelhantes coisas. Limitava-se a fazer o que era preciso e eu sabia que ela esperava o mesmo de mim. Por isso queria enchê-la de orgulho.

Mas era mesmo verdade que só se casara com o meu pai e tivera os meus seis irmãos para poder me dar à luz? Não parecia possível.

Depois de pensar muito bem em tudo, fui até a janela virada para o norte e sentei-me na velha cadeira de vime durante alguns minutos, olhando lá para fora.

A lua brilhava, banhando tudo com a sua luz prateada. Conseguia ver para lá do pátio da fazenda, os dois campos de feno e a pastagem norte, e mesmo até o limite da nossa fazenda, que terminava a meio da Colina do Carrasco. Gostava da paisagem. Gostava da Colina do Carrasco ao longe. Gostava que fosse a coisa mais distante que se con­seguia avistar.

Durante anos, fizera isto antes de subir para a cama, todas as noi­tes. Costumava olhar para aquela colina e imaginar o que haveria do outro lado. Na realidade, sabia que eram apenas mais campos e a seguir, três quilômetros mais adiante, o que era considerado a al­deia local — meia dúzia de casas, uma pequena igreja e uma escola ainda menor —, mas a minha imaginação criava outras coisas. Às vezes imaginava penhascos altos com um oceano do outro lado, ou quem sabe uma floresta ou uma grande cidade com torres altas e luzes a cintilar.

Mas agora, ao contemplar a colina, recordei também o meu medo. Sim, era bonita, vista de longe, mas não era um local de que eu quisesse me aproximar. A Colina do Carrasco, como já terão adivinhado, não obtivera o seu nome em vão.

Três gerações antes, alastra uma guerra por toda a terra e os ho­mens do Condado tinham participado dela. Fora a pior de todas as guerras — uma guerra civil amarga em que as famílias haviam ficado divididas e em que, por vezes, irmão chegara a lutar contra irmão.

No último Inverno da guerra, houvera uma grande batalha cerca de quilômetro e meio a norte, exatamente nos arredores da aldeia. Quando finalmente terminou, o exército vitorioso trouxe os pri­sioneiros até esta colina e enforcou-os nas árvores da vertente seten­trional. Enforcaram igualmente alguns dos seus homens, invocando atos de covardia perante o inimigo, mas circulava outra versão da­quela história. Diziam que alguns destes homens tinham se recusado a lutar contra pessoas que consideravam seus vizinhos.

Nem mesmo Jack gostava de trabalhar perto da vedação confinante, e os cães não queriam avançar mais que alguns passos na mata. Quanto a mim, em virtude de conseguir sentir coisas que os outros não sen­tem, não era sequer capaz de trabalhar na pastagem norte. Sabem, é que eu os ouvia dali. Ouvia as cordas chiando e os ramos gemendo sob o peso deles. Ouvia os mortos serem estrangulados e sufocarem do outro lado da colina.

A minha mãe dizia que éramos iguais. Bem, ela era sem dúvida igual a mim num aspecto: eu sabia que ela também via coisas que os outros não conseguiam ver. Num Inverno, eu era muito jovem e todos os meus irmãos viviam em casa, os ruídos na colina eram tão fortes à noite que os ouvia até do meu quarto. Os meus irmãos não davam por nada, mas eu sim, e não conseguia dormir. A minha mãe vinha ao meu quarto sempre que eu chamava, apesar de ter que se levantar ao raiar do dia para efetuar as tarefas domésticas.

Por fim, disse que ia resolver o assunto e, uma noite, subiu sozi­nha à Colina do Carrasco e foi até junto das árvores. Quando regres­sou, estava tudo calmo e assim ainda se mantinha depois de meses.

Por isso, havia um aspecto em que divergíamos.

A minha mãe era muito mais corajosa do que eu.

 

                PELA ESTRADA FORA

Levantei-me uma hora antes da aurora, mas a minha mãe já se encontrava na cozinha, a preparar o meu desjejum preferido, touci­nho defumado com ovos.

O meu pai veio para baixo quando eu limpava o prato com a úl­tima fatia de pão. Quando nos despedimos, ele tirou algo do bolso e colocou-o em minhas mãos. Era a pequena caixa de mechas que per­tencera ao pai dele e, antes disso, ao avô. Um dos seus objetos pes­soais preferidos.

— Quero que fique com isto, filho — disse ele. — Pode vir a ser útil no seu novo ofício. E venha nos visitar em breve. Só porque vai sair de casa, isso não significa que não possa regressar para uma visita.

— Está na hora de ir, filho — observou a minha mãe, aproxi­mando-se de mim para um último abraço. — Ele está ao portão. Não o faça esperar.

Éramos uma família que não gostava de demasiadas efusões e, como já tínhamos nos despedido, saí sozinho para o pátio.

O Mago encontrava-se do outro lado do portão: uma silhueta es­cura recortada na luz cinzenta da aurora. Tinha o capuz sobre a cabeça e erguia-se em toda a sua altura, o bordão na mão esquerda. Encami­nhei-me para ele, levando a minha pequena trouxa de pertences, sentindo-me muito nervoso.

Para minha surpresa, o Mago abriu o portão e entrou no pátio.

— Bem, rapaz — disse ele —, siga-me! Agora, poderíamos começar pelo caminho que tencionamos tomar.

Em vez de se dirigir para a estrada, rumou para o norte, direito à Colina do Carrasco, e não tardamos a atravessar a pastagem norte, o meu coração já começando a bater forte. Quando chegamos à vedação confinante, o Mago escalou-a com a agilidade de um homem da metade de sua idade, mas eu fiquei estático. Assim que apoiei as mãos na extremidade superior da vedação, ouvi os sons das árvores a estalar, os seus ramos vergados e curvados sob o peso dos enforcados.

— O que se passa, rapaz? — perguntou o Mago, virando-se para me olhar. — Se está com medo de algo bem à sua porta, me será de pouca serventia.

Respirei fundo e passei por cima da vedação. Subimos penosa­mente, a luz da aurora escurecendo à medida que penetrávamos na som­bra das árvores. Quanto mais subíamos, mais frio parecia ficar, e não tardou que começasse a tremer. Era o tipo de frio que nos deixa a pele arrepiada e faz com que os pêlos se ericem na nuca. Já o sentira antes, quando algo que não pertencia a este mundo se aproximava.

Assim que chegamos ao alto da colina, pude vê-los por baixo de mim. Deviam ser no mínimo uma centena, por vezes dois ou três pendurados na mesma árvore, vestindo uniformes de soldados com cinturões de couro largos e botas altas. Tinham as mãos atadas atrás das costas e cada um deles se comportava de maneira diferente. Alguns debatiam-se desesperadamente, pelo que o ramo por cima deles se agitava e sacudia, ao passo que outros apenas rodavam lenta­mente na extremidade da corda, apontando primeiro numa direção, depois na outra.

Enquanto observava, senti subitamente um vento forte no rosto, um vento tão frio e intenso que não podia ser natural. As árvores cur­varam-se até o chão e as suas folhas encarquilharam-se e começaram a cair. Numa questão de momentos, todos os ramos ficaram despidos. Quando o vento cessou, o Mago apoiou a mão no meu ombro e guiou-me até o enforcado que estava mais perto. Paramos a poucos passos do mais próximo.

— Olhe para ele — disse o Mago. — O que vê?

— Um soldado morto — respondi, a minha voz começando a tremer.

— Que idade aparenta?

— Dezessete anos, no máximo.

— Ótimo. Muito bem, rapaz. Agora, diga-me, ainda sente medo?

— Um pouco. Não gosto de estar tão próximo dele.

— Por quê? Não há nada a temer. Nada que possa te fazer mal. Pense no que deve ter sido para ele. Concentre-se nele e não em si. Como terá se sentido? O que seria a pior coisa?

Tentei pôr-me no lugar do soldado e imaginar como deveria ter sido morrer daquela maneira. A dor e a falta de ar deviam ter sido terríveis. Mas talvez tivesse acontecido algo ainda pior.

— O fato de saber que ia morrer e que nunca mais poderia ir para casa. Que nunca mais voltaria a ver a família — disse ao Mago.

Ditas aquelas palavras, invadiu-me uma onda de tristeza. Depois, no exato momento em que isso aconteceu, os enforcados começaram a desaparecer lentamente, até ficarmos sozinhos na vertente da colina e as folhas voltarem às árvores.

— Como se sente agora? Ainda com medo?

Abanei a cabeça.

— Não — respondi. — Sinto-me apenas triste.

— Muito bem, rapaz. Está aprendendo. Nós somos os sétimos fi­lhos de sétimos filhos e possuímos o dom de ver coisas que os outros não conseguem. Mas, por vezes, esse dom pode ser uma maldição. Se tivermos medo, pode haver coisas que vêm alimentar-se desse medo. O medo só torna tudo pior para nós. O segredo é concentrar-se na­quilo que consegue ver e parar de pensar em si mesmo. Funciona sempre.

— Foi uma visão terrível, rapaz, mas são apenas imagens fantas­magóricas — prosseguiu o Mago. — Não há muito que possamos fazer por elas e com o tempo acabarão sumindo. Daqui a cem anos ou mais, não restará nada.

Queria dizer-lhe que a minha mãe fizera em tempos algo por eles, mas calei-me. Contradizê-lo teria sido um mau começo para ambos.

— Agora, se fossem fantasmas, seria diferente — afirmou o Mago. — Pode-se falar com os fantasmas e esclarecê-los sobre o que se passa. Só o fato de lhes fazer ver que estão mortos é um ato de enor­me bondade e um passo importante para que se vão embora. Normal­mente, um fantasma é um espírito desorientado, preso a esta terra, mas sem saber o que aconteceu. Por isso, é frequente estarem atormen­tados. E não só: há outros que estão aqui com uma finalidade concreta e podem ter algo a dizer. Mas uma imagem fantasmagórica não é nada mais do que um fragmento de uma alma que alcançou uma situação melhor. Estes eram somente isso, rapaz. Apenas imagens fantasma­góricas. Viu as árvores mudarem?

— As folhas caíram e era Inverno.

— Bem, as folhas agora estão de volta. Por conseguinte, estava apenas olhando para algo do passado. Apenas uma lembrança das coisas más que por vezes acontecem nesta terra. Por norma, se for cora­joso, não conseguem vê-lo e não sentem nada. Uma imagem fantas­magórica é apenas como um reflexo num lago que fica para trás quando a pessoa a quem pertence seguiu caminho. Compreende o que estou dizendo?

Acenei com a cabeça.

— Bom, este assunto já está resolvido. De vez em quando, iremos lidar com os mortos, para que fique bem acostumado a eles. De qual­quer forma, vamos começar. Temos um longo caminho a percorrer.

— Tome, a partir de agora vai levar isto.

O Mago entregou-me o seu enorme saco de couro e, sem olhar para trás, continuou a subir a colina. Segui-o até o alto, depois desci por entre as árvores em direção à estrada, que era uma cicatriz cinzenta distante a serpentear para sul através da manta de retalhos verde e cas­tanha dos campos.

— Viajou muito, rapaz? — O Mago falou por cima do ombro. — Viu grande parte do Condado?

Respondi-lhe que nunca me afastara mais de dez quilômetros da fazenda do meu pai. O mais longe que viajara fora até o mercado local.

O Mago murmurou algo entre dentes e abanou a cabeça; pude ver que não ficara muito satisfeito com a minha resposta.

— Bem, as suas viagens começam hoje — disse-me. — Vamos para sul, em direção a uma aldeia chamada Horshaw. Fica apenas a vinte e cinco quilômetros em linha reta e temos de chegar lá antes de escurecer.

Ouvira falar de Horshaw. Era uma aldeia mineira e possuía os maiores depósitos de carvão do Condado, recebendo a produção de dú­zias de minas circundantes. Nunca esperara ir lá e fiquei curioso em relação ao que o Mago poderia querer de um lugar daqueles.

Caminhava a bom ritmo, dando grandes passadas sem esforço. Não tardei a ter dificuldade em acompanhá-lo; além de carregar a minha própria trouxa de roupas e outros pertences, tinha também que levar o saco enorme dele, que parecia ficar mais pesado a cada ins­tante. Depois, para piorar as coisas, começou a chover.

Cerca de uma hora antes do meio-dia, o Mago parou subitamente. Virou-se e olhou-me com dureza. Nesta altura, eu estava cerca de dez passos atrás. Doíam-me os pés e já começara a mancar ligeiramente. A estrada pouco mais era do que uma trilha de terra batida que rapida­mente se transformou em lama. Exatamente quando o alcancei, dei uma topada, escorreguei e quase perdi o equilíbrio.

Ele manifestou impaciência.

— Sente-se tonto, rapaz? — per­guntou.

Abanei a cabeça. Queria dar um pouco de descanso ao braço, mas não me pareceu correto pousar o saco dele na lama.

— Isso é bom — comentou o Mago com um ligeiro sorriso, a chuva a escorrer da orla do seu capuz para a barba. — Nunca confie num homem que se desequilibra. Eis algo que convém mesmo não esquecer.

— Não estou tonto — protestei.

— Não? — indagou o Mago, arqueando as sobrancelhas espessas. — Nesse caso, devem ser suas botas. Não serão muito úteis nesta ocupação.

As minhas botas eram iguais às do meu pai e às de Jack, suficien­temente fortes e adequadas para a lama e o esterco do pátio da fazenda, mas daquelas a que levávamos tempo a acostumar-nos. Um novo par custava-nos por norma quinze dias de bolhas, antes dos pés se adap­tarem.

Olhei para as do Mago. Eram feitas de couro forte, de boa quali­dade, e possuíam solas muito espessas. Deviam ter custado uma for­tuna, mas calculo que, para alguém que caminhava muito, valiam cada cêntimo. Flexionam-se quando ele andava e percebi que haviam sido confortáveis desde o primeiro momento em que as calçou.

— Um bom par de botas é importante neste ofício — anunciou o Mago. — Não dependemos nem do homem nem dos animais para nos levarem aonde queremos ir. Se contar com as suas duas pernas boas, elas não te decepcionarão. Por conseguinte, se eu resolver acei­tá-lo, arranjarei um par de botas iguais às minhas. Até lá, terá que se arrumar o melhor que puder com essas.

Ao meio-dia, paramos para uma breve pausa, abrigando-nos da chuva num alpendre para gado abandonado. O Mago tirou um pe­daço de pano do bolso e desembrulhou-o, revelando um grande naco de queijo amarelo.

Partiu um pedaço e entregou-me. Já vira pior e estava com fome, por isso engoli-o vorazmente. O Mago comeu apenas um pequeno pedaço antes de embrulhar o resto e enfiá-lo de novo no bolso.

Uma vez abrigado da chuva, empurrou o capuz para trás, pelo que tive finalmente a oportunidade de vê-lo bem. Além da barba com­prida e dos olhos de carrasco, o seu traço fisionômico mais perceptível era o nariz, sinistro e pronunciado, com uma curvatura que fazia lem­brar o bico de uma ave. A boca, quando fechada, ficava quase escon­dida pelo bigode e a barba. A primeira vista, julgara-a grisalha, mas, quando olhei melhor, tentando ser o mais discreto possível para que ele não se desse conta, reparei que parecia irradiar dela a maior parte das cores do arco-íris. Havia tonalidades de vermelho, negro, casta­nho e, obviamente, muito cinzento, mas, como vim a perceber mais tarde, tudo dependia da luz.

«Queixo pequeno, caráter fraco», costumava dizer o meu pai, e ele acreditava também que alguns homens usavam barba apenas para ocultar esse fato. No entanto, ao olhar para o Mago, podia ver-se, apesar da barba, que tinha um queixo comprido e, quando abria a boca, revelava uns dentes amarelos que eram muito aguçados e mais adequados para devorar carne vermelha do que mordiscar queijo.

Com um arrepio, percebi subitamente de que ele me fazia lembrar um lobo. E não era apenas a forma como olhava. Ele era uma espécie de predador porque perseguia o escuro; vivia unicamente de mordiscadas de queijo que o deixariam sempre esfomeado e o tornariam ruim. Se concluísse o meu aprendizado, acabaria igualzinho a ele.

— Ainda tem fome, rapaz? — inquiriu, os seus olhos verdes cravando-se intensamente nos meus até começar a sentir-me um pouco tonto.

Estava encharcado até os ossos e doíam-me os pés, mas tinha so­bretudo fome. Então anuí, pensando que ele fosse me oferecer um pouco mais, mas limitou-se a abanar a cabeça e a murmurar algo para si mesmo. Depois, e mais uma vez, olhou-me intensamente.

— A fome é algo a que vai ter que se acostumar — disse. — Não comemos muito quando estamos trabalhando e, se for um trabalho muito difícil, não comemos nada senão depois. O jejum é a coisa mais segura porque nos torna menos vulneráveis ao escuro. Deixa-nos mais fortes. Por isso pode começar a treinar desde já, pois quando chegarmos a Horshaw vou submetê-lo a um pequeno teste. Vai passar uma noite numa casa assombrada. E vai fazê-lo sozinho. Assim, poderei avaliar realmente a sua fibra!

 

           O NÚMERO 13 DE WATERY LANE

Chegamos a Horshaw quando o sino da igreja começou a se ouvir ao longe. Eram sete horas e começava a escurecer. Uma chuva forte batia-nos diretamente no rosto, mas ainda havia luz suficiente para eu poder ver que este não era um lugar onde quisesse viver e ao qual até uma curta visita seria de evitar.

Horshaw era uma mancha negra nos campos verdes, um lugarzinho lúgubre e feio com cerca de duas dúzias de filas de casas humildes de costas umas para as outras, amontoando-se principalmente na verten­te sul de uma colina úmida e inóspita. Toda a zona estava crivada de minas e Horshaw ficava no meio delas. Bem acima da aldeia via-se um enorme monte de escórias que assinalava a entrada de mais uma mina. Por detrás do monte de escórias ficavam os depósitos de carvão, que armazenavam combustível suficiente para aquecer as maiores cidades do Condado, mesmo durante os Invernos mais longos.

Não tardamos a percorrer as estreitas ruas empedradas, mantendo-nos junto das paredes enegrecidas a fim de evitarmos as carroças carregadas de bocados de carvão preto, molhado e brilhante da chuva. Os enormes cavalos de tiro que as puxavam esforçavam-se sob as suas cargas, os cascos escorregando no empedrado reluzente.

Havia poucas pessoas no exterior, mas as cortinas de renda agita­vam-se à nossa passagem, e até nos cruzamos com um grupo de mi­neiros carrancudos, que subia penosamente a colina para iniciar o turno da noite. Os homens iam falando em voz alta, mas calaram-se subitamente e colocaram-se em fila única a fim de passarem por nós, mantendo-se sempre do outro lado da rua. Um deles chegou mesmo a se benzer.

— Vá se habituando, rapaz — resmungou o Mago. — Somos ne­cessários, mas raramente bem-vindos, e alguns lugares são piores do que outros.

Por fim, dobramos uma esquina para a rua mais inferior e com pior aspecto de todas. Ninguém vivia ali — via-se logo. Em primeiro lugar, algumas das janelas estavam quebradas e outras vedadas e, ape­sar de ser quase noite, não se viam luzes acesas. Num extremo da rua ficava um armazém de comércio de cereais abandonado, as duas enor­mes portas de madeira escancaradas e pendendo das dobradiças enfer­rujadas.

O Mago parou junto da última casa. Era a que ficava na esquina mais próxima do armazém, a única casa na rua que tinha nú­mero. Esse número fora feito em metal e pregado na porta. Era o treze, o pior e mais nefasto de todos os números, e havia uma tabuleta com o nome da rua no alto da parede, pendendo de um único rebite enfer­rujado e apontando quase verticalmente para o empedrado. Nela, lia-se, WATERY LANE.

Esta casa tinha vidraças, mas as cortinas de renda estavam amare­las e cheias de teias de aranha. Devia ser a casa assombrada de que o meu mestre me falara.

O Mago tirou uma chave do bolso, abriu a porta e seguiu na frente até a escuridão lá dentro. A princípio, até fiquei contente por me abrigar da chuva, mas quando ele acendeu uma vela e a colocou no chão mais ou menos no meio da pequena divisão da frente, soube que ficaria mais confortável num estábulo abandonado. Não se via uma única peça de mobiliário, apenas o chão lajeado despido e um monte de palha suja debaixo da janela. A divisão também estava úmida, o ar muito desagradável e frio, e podia ver o vapor da minha respiração à luz tremulante da vela.

Se aquilo que via já era suficientemente mau, o que ele disse foi bem pior.

— Bom, rapaz, tenho uns assuntos a tratar, por isso vou andando, mas voltarei mais tarde. Sabe o que tem a fazer?

— Não, senhor — respondi, observando o tremular da vela, receo­so de que pudesse apagar-se a qualquer instante.

— Bem, é o que te disse antes. Não estava ouvindo? Tem que ficar acordado, e não sonhando. De qualquer forma, não é muito difícil — explicou, coçando a barba como se algo andasse a rastejar nela. — Só tem que passar a noite aqui sozinho. Trago todos os meus novos apren­dizes a esta casa velha na sua primeira noite, para avaliar a fibra deles. Oh, mas há uma coisa que ainda não te disse. À meia-noite, quero que desça à cave[1] e enfrente o que quer que se esconde lá. Se conseguir agüentar, estará no bom caminho para ser aceito em caráter permanente. Há alguma pergunta que queira fazer?

Perguntas não me faltavam, mas estava assustado demais para ouvir as respostas. Por isso abanei a cabeça e tentei evitar que meu lábio superior tremesse.

— Como saberá que é meia-noite? — inquiriu ele.

Encolhi os ombros. Eu me desvencilhava bastante bem adivi­nhando as horas pela posição do sol ou das estrelas e, se por acaso acordasse no meio da noite, sabia quase sempre que horas eram, mas aqui não tinha tanta certeza. Em alguns lugares o tempo parece passar mais lentamente e tinha a sensação de que esta casa velha iria ser um deles.

De repente, lembrei-me do relógio da igreja.

— Deram há pouco as sete — afirmei. — Ouvirei as doze badaladas.

— Bem, pelo menos agora está acordado — disse o Mago com um leve sorriso. — Quando o relógio der a meia-noite, pegue o toco da vela e sirva-se dele para encontrar o caminho para a cave. Até lá, durma, se for capaz. Agora, ouça com atenção — há três coisas im­portantes para não esquecer. Não abra a porta da rua para ninguém, por mais insistentemente que bata, e não se atrase para descer à cave.

Deu um passo em direção à porta da rua.

— Qual é a terceira coisa? — perguntei em alto e bom som no último instante.

— A vela, rapaz. Faça o que fizer, não deixe que ela se apague...

A seguir, foi-se, fechando a porta atrás de si, e fiquei completamen­te sozinho. Cautelosamente, peguei a vela, fui até à porta da cozi­nha e espreitei lá para dentro. Estava completamente vazia, com exceção de uma pia de pedra. A porta dos fundos encontrava-se fechada, mas o vento soprava ainda por baixo dela. Havia duas outras portas à direita. Uma estava aberta e deixava ver as escadas de madeira que conduziam aos quartos no piso de cima. A outra, a mais próxima de mim, estava fechada.

Algo me deixou inquieto a respeito daquela porta fechada, mas de­cidi ir dar uma espreitadela rápida. Cheio de nervosismo, agarrei o puxador e dei um puxão na porta. Não se deslocou e por um momento tive a arrepiante sensação de que alguém a mantinha fechada do outro lado. Quando lhe dei um puxão ainda mais forte, abriu-se bruscamente, fazendo-me perder o equilíbrio. Recuei alguns passos e quase larguei a vela.

Uma escada de pedra conduzia à escuridão; estava negra do pó de carvão. Curvava para a esquerda, pelo que não pude ver diretamente a cave, mas subiu por ela uma corrente de ar frio, fazendo a chama da vela dançar e tremular. Fechei rapidamente a porta e vol­tei para a divisão da frente, fechando igualmente a porta da cozinha.

Pousei cuidadosamente a vela no canto mais distante da porta e da janela. Assim que me certifiquei de que não tombaria, procurei um lugar no chão onde pudesse dormir. Não havia muito por onde esco­lher. Certamente não ia dormir na palha úmida, por isso instalei-me no meio da divisão.

As lajes eram duras e frias mas fechei os olhos. Mal adormecesse, me afastaria daquela casa velha e lúgubre e estava confiante de que acordaria bem antes da meia-noite.

Normalmente, não tenho dificuldade em adormecer, mas ali era diferente. Não parava de tremer de frio e o vento começava a sacudir as vidraças. Havia também sussurros e ruídos que vinham das paredes. São apenas ratos, disse para mim mesmo diversas vezes. Estávamos sem dúvida acostumados a eles, na fazenda. Mas depois, repentina­mente, chegou um novo som perturbador lá de baixo, das profunde­zas da cave escura.

A princípio foi fraco, levando-me a apurar o ouvido, mas depois cresceu gradualmente até deixar de ter dúvidas a respeito do que con­seguia ouvir. Acontecia algo lá em baixo, na cave, que não deveria estar acontecendo. Alguém cavava ritmicamente, revolvendo terra pe­sada com uma pá pontiaguda de metal. Primeiro ouviu-se o raspar da extremidade de metal numa superfície pedregosa, seguido de um som suave de esmagar e sugar na altura em que a pá se cravava fundo no barro pesado e o libertava da terra.

Continuou por vários minutos até o barulho parar tão subitamente quanto começara. Reinava o silêncio. Até os ratos pararam com os seus ruídos. Era como se a casa e tudo nela sustivesse a respiração. Sei que era o que eu estava fazendo.

O silêncio terminou com uma pancada surda ressoante. Depois toda uma série de pancadas, bem ritmadas. Pancadas que aumenta­vam de intensidade. Mais sonoras ainda. E mais próximas também...

Alguém subia as escadas, vindo da cave.

Peguei rapidamente na vela e encolhi-me no canto mais distante. Pum, pum, o som de botas pesadas cada vez mais próximo. Quem po­deria ter estado a cavar lá em baixo, no escuro? Quem poderia vir neste momento subindo as escadas?

Mas talvez não devesse perguntar quem subia as escadas. Seria tal­vez mais correto perguntar o quê...

Ouvi a porta da cave abrir-se e o som de botas na cozinha. Encolhi-me todo ao canto, tentando tornar-me o menor possível, à espera de que a porta da cozinha se abrisse.

E abriu-se, muito devagarinho, com enorme chiadeira. Entrou algo na sala. Senti então o frio. Verdadeiro frio. O tipo de frio que me dizia que estava próximo de mim algo que não pertencia a esta terra. Era como o frio na Colina do Carrasco, só que muito, muito pior.

Levantei a vela, a sua chama projetando sombras misteriosas que dançaram pelas paredes acima, até o teto.

— Quem está aí? — perguntei. — Quem está aí? — A minha voz tremia ainda mais do que a mão que segurava a vela.

Não obtive resposta. Até o vento lá fora se silenciara.

— Quem está aí? — tornei a perguntar.

Novamente nenhuma resposta, mas botas invisíveis rasparam nas lajes ao avançarem na minha direção. Estavam cada vez mais próxi­mas e conseguia ouvir agora uma respiração. Algo grande respirava com dificuldade. Parecia um enorme cavalo de tiro que acabara de puxar uma carga pesada por uma colina íngreme.

Naquele exato momento, os passos se afastaram de mim e estaca­ram perto da janela. Sustive a respiração e a coisa junto à janela pareceu respirar por ambos, inalando grandes golfadas para os pulmões como se nunca conseguisse ar em quantidade suficiente.

Exatamente quando já não conseguia mais agüentar, aquilo sol­tou um grande suspiro que pareceu cansado e triste ao mesmo tempo, e as botas invisíveis rasparam mais uma vez nas lajes, passos pesados que se afastavam da janela, voltando para a porta. Quando começa­ram a descer ruidosamente as escadas da cave, pude voltar finalmente a respirar.

O meu coração começou a desacelerar, as minhas mãos pararam de tremer e me acalmei gradualmente. Tinha que me recompor. Ficara as­sustado, mas se aquilo era o pior que ia acontecer naquela noite, con­seguira ultrapassá-lo, passara no meu primeiro teste. Se ia ser aprendiz do Mago, então teria que me acostumar a lugares como esta casa assom­brada. Ossos do ofício.

Depois de mais ou menos cinco minutos, comecei a me sentir me­lhor. Pensei até em tentar dormir mais um pouco, mas, como costuma dizer o meu pai, «Os maus nunca têm descanso». Bem, não sei que mal fizera, mas outro novo som súbito veio me perturbar.

A princípio foi tênue e distante — alguém batendo em uma porta. Seguiu-se uma pausa, depois voltou a ouvir-se. Três pancadas distin­tas, mas um pouco mais próximas, desta vez. Outra pausa e mais três pancadas.

Não demorei muito a perceber o que se passava. Alguém batia com força a cada porta da rua, aproximando-se cada vez mais do número treze. Quando chegasse finalmente à casa assombrada, as três panca­das na porta da rua seriam suficientemente sonoras para acordar os mortos. Iria a coisa na cave subir as escadas para responder ao chamamento? Senti-me aprisionado entre ambos: algo lá fora que­rendo entrar; algo lá em baixo que queria libertar-se.

E depois, repentinamente, ficou tudo bem. Uma voz chamou-me do outro lado da porta da rua, uma voz que reconheci.

— Tom! Tom! Abra a porta! Deixe-me entrar!

Era a minha mãe. Fiquei tão contente de ouvi-la que corri para a porta da rua sem pensar. Chovia lá fora e ela estava se molhando.

— Depressa, Tom, depressa! — gritava a minha mãe. — Não me deixe esperando.

Já levantava a tranca para abri-la, quando me lembrei do aviso do Mago: «Não abra a porta da rua a ninguém, por mais insisten­temente que bata...»

Mas como eu poderia deixar minha mãe ali no escuro?

— Vamos, Tom! Deixe-me entrar — gritou de novo a voz.

Lembrando-me do que o Mago dissera, respirei fundo e tentei pen­sar. O senso comum dizia-me que não podia ser ela. Por que motivo me seguira até ali? Como podia ter sabido para onde íamos? O meu pai ou Jack tê-la-iam acompanhado.

Não, era qualquer outra coisa à espera, lá fora. Algo sem mãos que mesmo assim conseguia bater à porta. Algo sem pés que conseguia erguer-se no passeio.

As pancadas fizeram-se ouvir com maior intensidade.

— Por favor, deixe-me entrar, Tom — suplicava a voz. — Como pode ser tão insensível e cruel? Estou gelada, molhada e cansada.

Por fim começou a chorar e soube então com certeza que não podia ser a minha mãe. A minha mãe era forte. A minha mãe nunca cho­rava, por pior que fosse a situação.

Decorridos alguns momentos, os sons diminuíram e depois cessa­ram por completo. Deitei-me no chão e procurei dormir novamente. Virava-me constantemente, primeiro para um lado e depois para o outro, mas, por mais que tentasse, não conseguia adormecer. O vento começou a abanar as vidraças cada vez com mais força, e o relógio da igreja foi dando as horas e as meias horas, aproximando-me cada vez mais da meia-noite.

Quanto mais perto estava a hora de eu descer as escadas da cave, mais nervoso ia ficando. Queria passar no teste do Mago, mas, oh, como ansiava estar de novo em casa, na minha rica caminha segura e quente!

E depois, assim que o relógio deu uma única badalada — onze e meia — recomeçaram as escavadelas...

Mais uma vez ouvi o lento pum, pum de botas pesadas a subirem as escadas da cave; mais uma vez a porta se abriu e as botas invisíveis vieram até à divisão da frente. Nesta altura, a única parte de mim que se mexia era o meu coração, que batia com tanta força que parecia prestes a partir-me as costelas. Mas desta vez as botas não se encami­nharam para a janela. Continuaram a avançar — Pum! Pum! Pum! —, vindo na minha direção.

Senti-me levantado bruscamente pelos cabelos e a nuca, tal como uma gata transporta os gatinhos. Depois, um braço invisível enrolou-se à volta do meu corpo, prendendo-me os braços aos lados. Tentei encher os pulmões de ar, mas era impossível. O meu peito estava a ser esmagado.

Era transportado na direção da porta da cave. Não conseguia ver o que me levava mas ouvia a sua respiração asmática e debati-me, em pânico, porque de certa forma sabia exatamente o que ia acontecer. Sabia por que motivo se ouvira cavar lá em baixo. Levavam-me pelas escadas da cave para a escuridão e sabia que uma sepultura me aguar­dava ali. Ia ser enterrado vivo.

Estava aterrado e tentei gritar, mas era pior do que ser apenas agar­rado com toda a força. Ficara paralisado e não conseguia mover um músculo.

De repente, senti-me cair...

Encontrei-me de quatro, a olhar pela porta aberta que dava para a cave, a escassos centímetros do degrau de cima. Em pânico, o meu co­ração tão acelerado que nem conseguia contar os batimentos, pus-me em pé e fechei com força a porta da cave. Ainda a tremer, voltei para a divisão da frente, constatando que desrespeitara uma das três regras do Mago.

A vela apagara-se...

Quando me encaminhava para a janela, um clarão súbito de luz ilu­minou a divisão, seguido de um forte ribombar de trovão mesmo por cima do telhado. A chuva fustigava a casa, sacudindo as janelas e fazen­do a porta da rua chiar e gemer como se algo tentasse entrar.

Espreitei lá para fora durante alguns minutos, muito infeliz, vendo os relâmpagos. Estava uma noite péssima, mas, apesar de os relâmpa­gos me apavorarem, teria dado tudo para estar lá fora, a andar nas ruas; tudo para evitar descer àquela cave.

Ao longe, o relógio da igreja começou a dar horas. Contei as badaladas e foram exatamente doze. Agora tinha de enfrentar o que estava na cave.

Foi então, quando um relâmpago voltou a iluminar a sala, que reparei nas grandes pegadas no chão. A princípio julguei que tives­sem sido deixadas pelo Mago, mas eram negras, como se as botas enor­mes que as tinham feito estivessem cobertas de pó de carvão. Vinham da direção da porta da cozinha, iam quase até à janela e davam meia volta, regressando pelo caminho que haviam trazido. Voltavam para a cave. Para o escuro aonde eu tinha de ir!

Obrigando-me a avançar, tentei encontrar no chão o toco de vela. Depois, procurei às apalpadelas a minha pequena trouxa com as roupas. Embrulhada no meio dela estava a caixa de mechas que o meu pai me dera.

Remexendo às escuras, despejei a pequena pilha de mechas no chão e servi-me da pedra e do metal para fazer saltar faíscas. Ateei aquela pequena pilha de madeira até irromperem chamas, apenas com a altura suficiente para acender a vela. Mal o meu pai sabia que o seu presente se iria revelar logo tão útil.

Quando abri a porta da cave, houve outro relâmpago e um estrondo súbito de trovão que sacudiu toda a casa e ribombou nas escadas à minha frente. Desci à cave, a minha mão a tremer e o toco de vela a dançar e a projetar estranhas sombras na parede.

Não queria ir lá abaixo, mas, se não passasse no teste do Mago, provavelmente seria recambiado para casa assim que fosse dia. Imaginei a minha vergonha ao ter de contar à mãe o que sucedera.

Oito degraus e contornava já a esquina, ficando com a cave à vista. Não era uma cave grande, mas tinha sombras escuras nos cantos que a luz da vela não conseguia alcançar plenamente e havia teias de ara­nha pendendo do teto em imundas cortinas frágeis. Viam-se peque­nos pedaços de carvão e grandes caixotes espalhados pelo chão de terra e havia uma velha mesa de madeira ao lado de um barril enorme de cerveja. Contornei o barril de cerveja e percebi algo no canto mais distante. Algo mesmo por detrás de alguns caixotes que me apa­vorou tanto que ia deixando cair a vela. Era uma forma escura, quase semelhante a um monte de farrapos, e emitia um ruído. Um leve som rítmico, como a respiração.

Dei um passo na direção dos farrapos; depois outro, servindo-me de toda a minha força de vontade para obrigar as minhas pernas a an­darem. Foi então, quando me aproximei tanto que quase lhe podia ter tocado, que a coisa cresceu de repente. De uma sombra no chão, empinou-se diante de mim até ficar três ou quatro vezes maior.

Quase corri dali para fora. Era alta, escura, encapuzada e aterra­dora, com olhos verdes brilhantes.

Só então reparei no bordão que segurava na mão esquerda.

— O que o deteve? — perguntou o Mago. — Vem quase com cinco minutos de atraso!

 

                   A CARTA

— Vivi nesta casa quando criança — disse o Mago —, e vi coisas que te deixariam todo arrepiado, mas eu era o único que as conseguia ver e o meu pai costumava bater-me por dizer mentiras. Era usual sair uma coisa da cave. Deve ter acontecido o mesmo com você. Acertei?

Acenei com a cabeça.

— Bem, não fique preocupado, rapaz. E só mais uma imagem fantasmagórica, um fragmento de uma alma perturbada que alcançou uma situação melhor. Se ele não deixasse para trás a sua pior parte, ficaria preso aqui para sempre.

— O que foi que ele fez? — indaguei, a minha voz ecoando ligei­ramente no teto.

O Mago abanou a cabeça pesarosamente. — Tratava-se de um mineiro cujos pulmões estavam tão doentes que teve de deixar de trabalhar. Passava os dias e as noites a tossir e com falta de ar, e a sua pobre esposa é que ganhava para o sustento de ambos. Trabalhava numa padaria, mas, para mal dos dois, ela era uma mulher muito bonita. Poucas são as mulheres em quem se pode confiar e as bonitas são as piores de todas.

«Para complicar, ele era um homem ciumento e a doença tornou-o mais amargo. Uma noite, ela atrasou-se muito no regresso para casa, do trabalho, e ele ia constantemente à janela, andando de um lado para o outro, ficando cada vez mais furioso por pensar que ela estava com outro homem.

«Quando a mulher finalmente chegou, ele estava numa fúria tal que lhe rachou a cabeça com um pedaço grande de carvão. Depois deixou-a ali, nas lajes, moribunda, e desceu à cave para abrir uma sepultura. Ela ainda estava viva quando ele voltou, mas não conse­guia se mexer, nem sequer gritar. E o terror que se apodera de nós, pois foi exatamente assim que ela se sentiu quando ele lhe pegou e a levou para a escuridão da cave. Ela ouvira-o cavar. Sabia o que ele ia fazer.

«Mais tarde, naquela noite, ele suicidou-se. É uma história triste, mas, apesar de agora repousarem em paz, a imagem fantasmagórica dele permanece aqui, assim como as últimas lembranças dela, ambas suficientemente fortes para atormentarem pessoas como nós. Vemos coisas que os outros não conseguem ver, o que é simultaneamente uma bênção e uma maldição. Porém, é algo muito útil, no nosso ofício.

Estremeci. Sentia pena da pobre esposa que fora assassinada e sen­tia pena do mineiro que a matara. Sentia até pena do Mago. Imagine, ter de passar a infância numa casa como esta!

Olhei para a vela, que colocara no meio da mesa. Estava quase no fim e a chama iniciava a sua última dança tremulante, mas o Mago não deu mostras de querer voltar lá para cima. Não gostei das sombras no rosto dele. Pareciam ir mudando gradualmente, como se lhe estivesse a nascer um focinho de porco ou outra coisa qualquer.

— Sabe como venci o meu medo? — perguntou.

— Não, senhor.

— Uma noite, estava tão aterrado que gritei antes de conse­guir me conter. Acordei todo mundo e, num acesso de fúria, o meu pai levantou-me pelo colarinho e me trouxe pelas escadas abaixo até esta cave. Depois, foi buscar um martelo e cravou pregos na porta, fechando-me aqui dentro.

«Eu não era muito crescido. Provavelmente, teria sete anos, no má­ximo. Subi as escadas e, gritando até rebentar, raspei e bati na porta. Mas o meu pai era um homem insensível e deixou-me completamente sozinho no escuro e tive de ficar aqui horas, até muito depois da aurora. Passados instantes, acalmei e, sabe o que fiz então?

Abanei a cabeça, evitando olhá-lo no rosto. Os seus olhos bri­lhavam com muita intensidade e pareceu-me mais do que nunca um lobo.

— Desci as escadas e sentei-me aqui nesta cave, às escuras. Depois respirei fundo três vezes e enfrentei o meu medo. Enfrentei a própria escuridão, que é a coisa mais aterradora de todas, especialmente para pessoas como nós, porque há coisas que vêm ter conosco no escuro.

Procuram-nos com murmúrios e assumem formas que só os nossos olhos conseguem ver. Mas saí-me bem e quando deixei esta cave, o pior passara.

Naquele momento a vela derreteu por completo e depois apagou-se, mergulhando-nos na mais absoluta escuridão.

— Agora é que é, rapaz — disse o Mago. — Só estamos você, eu e o escuro. Consegue agüentar? Está preparado para ser meu aprendiz?

A voz dele parecia diferente, mais cava e estranha. Imaginei-o a caminhar nas quatro patas, pêlo de lobo a cobrir-lhe o rosto, os dentes a aumentarem de tamanho. Eu tremia e apenas consegui falar depois de respirar fundo pela terceira vez. Só então lhe dei a resposta. Era o que o meu pai dizia sempre que tinha de fazer algo desagradável ou difícil.

— Alguém tem de o fazer — retorqui. — Portanto, posso ser eu.

O Mago deve ter achado piada, porque a sua gargalhada encheu toda a cave antes de ressoar pelas escadas ao encontro do próximo tro­vão, que vinha a descer.

— Há quase treze anos — afirmou o Mago —, enviaram-me uma carta lacrada. Era breve e concisa e estava escrita em grego. Foi a sua mãe que a mandou. Sabe o que dizia?

— Não — respondi tranqüilamente, sentindo curiosidade pelo que vinha a seguir.

— «Acabei de dar à luz um rapaz», escreveu ela, «e é o sétimo filho de um sétimo filho. Chama-se Thomas J. Ward e é a minha dá­diva ao Condado. Quando ele tiver idade suficiente, mandá-lo-emos chamar. Prepare-o bem. Será o melhor aprendiz que alguma vez teve, e também o seu último.»

«Nós não usamos magia, rapaz — continuou o Mago, a sua voz pouco mais do que um murmúrio na escuridão. — As principais fer­ramentas do nosso ofício são o bom senso, a coragem e proceder a registros rigorosos, para que possamos aprender com o passado. Acima de tudo, não acreditamos em profecias. Não acreditamos que o futuro está determinado. Por isso, se o que a sua mãe escreveu se vier a con­cretizar, então é porque nós fizemos com que isso se concretizasse. Compreende?

Havia um tom de raiva na voz dele mas sabia que não me era di­rigida e, por isso, anuí na escuridão.

— Quanto a ser a dádiva da sua mãe ao Condado, cada um dos meus aprendizes era o sétimo filho de um sétimo filho. Por isso não comece a julgar-se especial. Tem muito estudo e trabalho árduo pela frente.

«A família pode ser um estorvo — prosseguiu o Mago após uma pausa, a sua voz mais suave, já sem a raiva. — Só me restam agora dois irmãos. Um é serralheiro e damo-nos bem, mas o outro não fala comigo há mais de quarenta anos, apesar de ainda viver em Horshaw.

Quando abandonamos a casa, a tempestade dissipara-se e havia luar. No momento em que o Mago fechou a porta da rua, reparei pela primeira vez no que fora talhado na madeira.

O Mago indicou-o com a cabeça.

— Uso símbolos como este para avisar outros com capacidade para os lerem ou por vezes apenas para es­timular a minha própria memória. Reconhecerá a letra grega gama[2]. Tanto pode indicar um fantasma como uma imagem fantasmagórica. A cruz em baixo, à direita, é o numeral romano para dez, que é o grau mais baixo de todos. Acima de seis é apenas uma imagem fantasmagó­rica. Não existe nada naquela casa que te possa fazer mal, desde que seja corajoso. Lembre-se, o escuro alimenta-se do medo. Seja corajoso e não há muito que uma imagem fantasmagórica possa fazer.

Se ao menos eu o tivesse sabido desde o início!

— Anime-se, rapaz — disse o Mago. — A sua cara chega quase às botas! Bem, talvez isto te alegre. — Tirou do bolso um bocado de queijo amarelo, partiu um pequeno naco e entregou-me. — Mastigue-o — advertiu —, mas não o engula de imediato.

Segui-o pela rua empedrada. O ar estava úmido, mas pelo menos não chovia e a oeste as nuvens pareciam lã de carneiro e começavam a rasgar-se e a separar-se em faixas irregulares.

Deixamos a aldeia e continuamos para sul. Mesmo no seu limite, quando a rua empedrada se transformava numa viela lamacenta, havia uma pequena igreja. Parecia abandonada: faltavam telhas de lousa no telhado e a tinta desprendia-se da porra principal. Quase não tínhamos avistado ninguém desde que saíramos da casa, mas estava ali um homem de pé, à porta. Tinha cabelo branco, escorrido, gorduroso e desgrenhado.

As roupas escuras indicavam tratar-se de um padre, mas, quando nos aproximamos dele, o que realmente despertou a minha atenção foi a expressão no seu rosto. Olhava-nos ameaçadoramente, o semblante todo distorcido. E depois, de forma dramática, fez um enorme sinal da cruz, chegando mesmo a pôr-se na ponta dos pés ao começá-lo, esten­dendo o mais que podia o indicador da mão direita para o céu. Já vira antes padres fazer o sinal da cruz, mas nunca com um gesto tão exa­gerado, tão cheio de raiva. Uma raiva que parecia ser-nos dirigida.

Calculei que tivesse alguma razão de queixa do Mago, ou talvez do trabalho que ele fazia. Sabia que o ofício deixava a maior parte das pessoas nervosa, mas nunca vira semelhante reação.

— O que tem ele? — inquiri, depois de o deixarmos para trás e estarmos a uma distância a que não seríamos ouvidos.

— Padres! — grunhiu o Mago, a raiva nítida na sua voz. — Sabem tudo mas não vêem nada! E aquele é pior do que a maioria! É o meu outro irmão.

Teria gostado de saber mais coisas, mas por uma questão de bom senso, não continuei a questioná-lo. Parecia haver muito que saber sobre o Mago e o seu passado, mas parecia também que eram coisas que ele só me contaria quando se sentisse preparado.

Assim, continuei a segui-lo para sul, carregando o seu pesado saco e pensando no que a minha mãe escrevera na carta. Nunca fora pessoa de se gabar ou de fazer afirmações precipitadas. A minha mãe só dizia o que tinha de dizer, por isso havia uma intenção em cada pa­lavra sua. Normalmente, ela limitava-se a levar a vida a diante e a agir conforme as necessidades. O Mago dissera-me que não havia muito que se pudesse fazer pelas imagens fantasmagóricas, mas uma vez a minha mãe silenciara as da Colina do Carrasco.

Ser o sétimo filho de um sétimo filho não era nada por aí além, neste tipo de atividade — bastava tão-somente ser aceito como aprendiz do Mago. Mas eu sabia que havia algo mais que me tornava diferente.

Eu também era filho da minha mãe.

 

               DEMÔNIOS E BRUXAS

Dirigíamo-nos para aquilo que o Mago chamava a sua «Casa de Verão».

Enquanto caminhávamos, as últimas nuvens marinais dissiparam-se e percebi subitamente que o sol estava diferente. Mesmo no Condado, por vezes o sol brilha no Inverno, o que é bom porque normalmente isso significa que não vai chover; mas há uma altura em cada novo ano em que percebemos pela primeira vez o seu calor. É como o regresso de um velho amigo.

O Mago devia estar pensando quase exatamente o mesmo porque de repente estacou, olhou-me de lado e brindou-me com um dos seus raros sorrisos.

— Este é o primeiro dia de Primavera, rapaz — disse —, por isso vamos para Chipenden.

Pareceu-me uma afirmação um tanto estranha. Ele ia sempre para Chipenden no primeiro dia de Primavera, e, se sim, porquê? Resolvi perguntar-lhe.

— Instalações de Verão. Passamos o Inverno à beira de Anglezarke Moor e desfrutamos do Verão em Chipenden.

— Nunca ouvi falar de Anglezarke. Onde fica? — indaguei.

— No extremo sul do Condado, rapaz. É o lugar onde nasci. Vivemos lá até o meu pai se mudar para Horshaw.

Bem, pelo menos ouvira falar de Chipenden, o que me deixou ani­mado. Ocorreu-me que, na qualidade de aprendiz do Mago, teria de viajar muito e precisava de aprender a orientar-me.

Sem mais delongas, mudamos de rumo, encaminhando-nos para nordeste, na direção das colinas distantes. Não fiz mais perguntas mas, naquela noite, quando nos abrigamos novamente num celeiro frio e a ceia se resumiu a mais algumas dentadas de queijo amarelo, o meu estômago começar a achar que me tinham cortado a garganta. Nunca sentira tanta fome.

Perguntei-me onde iríamos ficar em Chipenden e se arranjaríamos ali algo decente para comer. Não conhecia ninguém que lá tivesse esta­do, mas ouvira dizer que era um lugar isolado e hostil em algum lugar nas Fells[3] — as distantes colinas de tom cinzento e púrpura que apenas se vis­lumbravam da fazenda do meu pai. Sempre me tinham feito lembrar enormes animais adormecidos, mas provavelmente a culpa era de um dos meus tios, que costumava me contar semelhantes histórias. À noite, dizia ele, punham-se em movimento, e às vezes, ao raiar do dia, desapareciam aldeias inteiras da face da terra, reduzidas a pó sob o peso deles.

Na manhã seguinte, escuras nuvens cinzentas encobriam mais uma vez o sol e tudo indicava que íamos ter de esperar algum tempo pelo segundo dia de Primavera. Estava também a levantar-se vento, sacu­dindo as nossas roupas à medida que começávamos a subir e disper­sando as aves por todo o céu, as nuvens precipitando-se para leste a fim de esconderem os cumes das Fells.

O nosso ritmo era lento e dei graças por isso, visto ter uma bolha horrível em cada calcanhar. Assim, estávamos quase no final do dia quando nos aproximamos de Chipenden, a luz começando já a dimi­nuir.

Nessa altura, apesar de o vento soprar ainda com intensidade, o céu limpara e as colinas púrpura recortavam a linha do horizonte. O Mago não falara muito durante a viagem, mas agora parecia quase excitado, ao proferir um por um os nomes delas. Havia designações como Parlick Pike[4], a que ficava mais próxima de Chipenden; ou então — umas visíveis, outras escondidas e distantes — Mellor Knoll[5], Saddle Fell e Wolf[6] Fell.

Quando inquiri o meu mestre sobre se existiam alguns lobos em Wolf Fell ele sorriu sinistramente. — As coisas mudam rapidamente aqui, rapaz — disse ele —, e temos de estar sempre atentos.

Quando se avistaram os primeiros relhados da aldeia, o Mago apon­tou para um caminho estreito que partia da estrada, subindo a ser­pentear junto à margem de um pequeno ribeiro gorgolejante.

— A minha casa fica nesta direção — anunciou ele. — É um per­curso ligeiramente mais longo, mas significa que escusamos de atravessar a aldeia. Gosto de manter uma certa distância da população que ali vive. E ela também prefere que assim seja.

Lembrei-me do que Jack dissera sobre o Mago e caiu-me o coração aos pés. Era uma vida solitária. Acabava-se a trabalhar sozinho.

Havia algumas árvores atrofiadas em cada margem, agarrando-se à vertente da colina por causa da força do vento, mas depois, subita­mente, mesmo lá à frente, avistou-se uma mata de sicômoros e freixos. Quando entramos nela, o vento reduziu-se a pouco mais do que um suspiro distante. Não passava de um grande maciço de árvores, talvez algumas centenas, que proporcionava abrigo do vento fustigante, mas, após alguns momentos, percebi que era mais do que isso.

Já antes reparara, de tempos em tempos, que algumas árvores eram ruidosas, com os ramos sempre a chiar ou as folhas a balançar, en­quanto outras quase não emitiam qualquer som. Ouvia lá em cima o sopro distante do vento, mas dentro da mata os únicos sons audí­veis eram os das nossas botas. Tudo o mais estava sossegado, toda uma mata cheia de árvores tão silenciosas que até senti um arrepio subir e descer-me pela espinha. Cheguei quase a pensar que estivessem a ouvir-nos.

Chegamos então a uma clareira, e mesmo lá à frente vislumbrei uma casa. Encontrava-se rodeada por uma sebe alta de espinheiro-alvar, pelo que só se viam o piso superior e o telhado. Erguia-se uma coluna de fumaça branca de uma chaminé. Seguia direto para o ar, impassível, até que, mesmo acima das árvores, o vento o empurrava para leste.

A casa e o jardim, reparei então, assentavam numa depressão na vertente da colina. Era como se um gigante amável tivesse vindo reti­rar o solo com a mão.

Segui o Mago ao longo da sebe até chegarmos a um portão de metal. Este era pequeno, não ultrapassava a minha cintura, e fora pintado de um verde-vivo, um trabalho que parecia concluído tão recente­mente que me perguntei se a tinta secara devidamente e se o Mago ficaria com a mão suja dela, uma vez que a estendia já para a tranqueta.

Subitamente, sucedeu algo que me fez suster a respiração. Antes de o Mago tocar na tranca, ela levantou-se sozinha e o portão abriu-se lentamente, como se empurrado por uma mão invisível.

— Obrigado — ouvi o Mago dizer.

A porta da rua não se moveu sozinha porque primeiro foi preciso abri-la com a enorme chave que o Mago retirou do bolso. Parecia idên­tica à que usara para abrir a porta da casa em Watery Lane.

— É a mesma chave que usou em Horshaw? — inquiri.

— É, rapaz — disse, olhando-me do alto enquanto abria a porta. — O meu irmão, o serralheiro, deu-me esta. Abre a maior parte das fechaduras desde que não sejam demasiado complicadas. Dá muito jeito, na nossa atividade.

A porta deslizou com uma sonora chiadeira e um gemido profundo e segui o Mago até um pequeno átrio obscuro. Havia umas escadas íngremes à direita e um corredor estreito e lajeado, à esquerda.

— Coloque tudo no fundo das escadas — disse o Mago. — Vá lá, rapaz. Deixe de moleza. Não há tempo a perder. Gosto da comida a escaldar!

Largando então o saco dele e a minha trouxa no lugar que me in­dicara, segui-o pelo corredor em direção à cozinha e ao apetitoso cheiro de comida quente.

Quando lá chegamos, não fiquei decepcionado. Fez-me lembrar a cozinha da minha mãe. Cresciam ervas aromáticas em grandes vasos no parapeito da janela ampla e o sol poente salpicava a divisão com as som­bras das folhas. No canto ao fundo ardia uma enorme fogueira, enchen­do a cozinha de calor e, mesmo no centro do chão lajeado, havia uma grande mesa de carvalho. Encontravam-se em cima dela dois pratos vazios enormes e, no seu centro, cinco travessas com comida até em cima, ao lado de um jarro cheio até à borda de molho quente fumegante.

— Sente-se e coma à vontade, rapaz — convidou o Mago, e não precisei que me dissesse uma segunda vez.

Servi-me de fatias grandes de frango e carne de vaca, quase não dei­xando espaço suficiente no prato para o monte de batatas assadas e legumes que se seguiu. Por fim, reguei tudo com um molho tão sabo­roso que só a minha mãe teria feito melhor.

Perguntei-me onde estava a cozinheira e como soubera que íamos chegar naquele exato momento para ter a comida quente a postos na mesa. Todo eu era perguntas, mas estava também cansado, pelo que guardei toda a minha energia para a comida. Quando engoli final­mente a última bocada, o Mago limpara já o seu prato.

— Gostou? — quis saber.

Acenei com a cabeça, quase cheio demais para falar. Senti-me ensonado.

— Depois de uma dieta de queijo, é sempre bom chegar em casa e tomar uma refeição quente — disse ele. — Comemos bem, aqui. Compensa as vezes em que estamos a trabalhar.

Voltei a acenar e comecei a bocejar.

— Há muito que fazer amanhã, por isso vá para a cama. O seu quarto é o da porta verde, no alto do primeiro lance de escadas — informou-me o Mago. — Durma bem, mas não saia do seu quarto e não ande a passear pela casa durante a noite. Ouvirá tocar uma sineta quando o desjejum estiver pronto. Desça assim que a ouvir — quando preparam comida boa, podem ficar aborrecidos se a deixar esfriar. Mas também não desça muito cedo, pois isso seria igualmente mau.

Anuí, agradeci-lhe a refeição e percorri o corredor em direção à parte da frente da casa. O saco do Mago e a minha trouxa tinham de­saparecido. Curioso sobre quem os teria levado, subi as escadas para me ir deitar.

O meu quarto novo acabou por se revelar muito maior do que o de minha casa, que durante um curto período tivera de partilhar com dois dos meus irmãos. Neste novo quarto cabiam uma cama, uma pe­quena mesa com uma vela, uma cadeira e uma cômoda, mas havia também muito espaço para caminhar. E ali, em cima da cômoda, a minha trouxa de pertences aguardava-me.

Mesmo em frente da porta ficava uma janela de guilhotina grande, dividida em oito vidraças tão espessas e irregulares que ape­nas conseguia ver espirais e volutas de cor lá fora. Parecia que a ja­nela não era aberta há anos. A cama fora colocada ao longo da parede por debaixo dela, pelo que descalcei as botas, ajoelhei-me na coberta e tentei abrir a janela. Apesar de estar um pouco enperrada, acabou por não ser tão difícil quanto supusera. Servi-me do cordão para levan­tar a metade inferior da janela com uma série de puxões, apenas o suficiente para pôr a cabeça de fora e apreciar melhor o que me ro­deava.

Consegui ver um amplo relvado por baixo de mim, dividido ao meio por um caminho de pedras brancas que desaparecia nas árvores. Por cima da linha das árvores, à direita, ficavam as extensões rochosas, a mais próxima tão perto que quase me pareceu possível estender a mão e tocar-lhe. Inspirei uma profunda lufada de ar fresco e senti o cheiro da relva antes de meter a cabeça para dentro e desatar a minha pequena trouxa de pertences. Couberam facilmente na gaveta de cima da cômoda. Quando a ia fechar, reparei subitamente nas inscrições na parede do fundo, nas sombras defronte dos pés da cama.

Estava coberta de nomes, todos rabiscados a tinta preta no estuque branco. Alguns nomes eram maiores do que outros, como se quem os escrevera se tivesse em alta conta. Muitos haviam sumido com o tempo e perguntei-me se seriam os nomes dos outros apren­dizes que tinham dormido neste mesmo quarto. Deveria acrescentar o meu próprio nome ou esperar até ao final do primeiro mês, altura em que talvez fosse aceite com caráter permanente? Não tinha caneta nem tinta, por isso seria algo a ponderar mais tarde, mas exa­minei a parede com mais atenção para determinar qual o nome mais recente.

Decidi que era BILLY BRADLEY — parecia-me o mais nítido e fora comprimido num pequeno espaço à medida que a parede ia sendo pre­enchida. Durante alguns momentos, ansiei saber o que faria Billy agora, mas estava cansado e pronto para dormir.

Os lençóis eram lavados e a cama convidativa, e assim, sem perder mais tempo, despi-me e, no preciso instante em que a minha cabeça assentou na almofada, adormeci.

Quando voltei a abrir os olhos, o sol entrava pela janela. Estivera a sonhar e fora acordado de repente por um ruído. Pensei que prova­velmente seria a sineta do desjejum.

Fiquei então preocupado. Teria sido realmente a sineta a chamar-me para o desjejum ou um sino no meu sonho? Como podia ter a certeza? O que deveria fazer? Provavelmente teria pro­blemas com a cozinheira, se descesse cedo ou tarde. Então, deci­dindo que provavelmente ouvira a sineta, vesti-me e desci imedia­tamente.

No caminho, ouvi um barulho de tachos e panelas vindo da cozi­nha, mas, assim que abri a porra, fez-se um silêncio de morte.

Cometi então um erro. Devia ter voltado logo para cima, porque era óbvio que o desjejum não estava pronto. Tinham sido le­vantados os pratos e travessas da ceia da véspera mas a mesa estava ainda vazia e a lareira cheia de cinzas frias. Na realidade, a cozinha estava gelada e, pior do que isso, parecia arrefecer mais a cada se­gundo.

O meu erro foi dar um passo na direção da mesa. Assim que o fiz, ouvi algo emitir um som mesmo atrás de mim. Foi um som irado. Não havia a menor dúvida. Um nítido silvo de raiva muito próximo da minha orelha esquerda. Tão próximo que senti o seu sopro.

O Mago avisara-me para que não descesse cedo e senti subitamente que corria verdadeiro perigo.

Mal aquele pensamento me ocorreu, algo me atingiu com força na nuca; cambaleei na direção da porta, por pouco não perdendo o equilíbrio e estatelando-me de comprido.

Não precisei de segundo aviso. Saí dali correndo e subi as escadas. Depois, a meio, fiquei estático. Encontrava-se um tanto no alto. Alguém alto e ameaçador, recortado na luz da porta do meu quarto.

Estaquei, sem saber para que lado ir, até ser tranqüilizado por uma voz familiar. Era o Mago.

Era a primeira vez que o via sem a comprida capa preta. Vestia uma túnica negra e calças cinzentas e pude ver que, apesar de ser um homem alto com ombros largos, o resto do seu corpo era magro, provavelmente porque havia dias em que apenas conseguia dar umas mordiscadas no queijo. Fazia lembrar os melhores criados de lavoura quando ficam mais velhos. Alguns, claro, engordam apenas, mas a maioria — como aqueles que o meu pai contrata para a ceifa, agora que quase todos os meus irmãos saíram de casa — são magros, com corpos duros e secos. «Magreza é destreza», diz constantemente o meu pai e agora, ao olhar para o Mago, via por que razão ele conse­guia caminhar a um ritmo tão rápido e durante tanto tempo sem descansar

— Avisei-o para não descer cedo — disse-me tranqüilamente. — Deve ter levado uns bofetões. Que te sirvam de lição, rapaz. Para a próxima é capaz de ser bem pior.

— Pareceu-me ouvir a sineta — respondi. — Mas deve ter sido um sino no meu sonho.

O Mago riu baixinho.

— Essa é uma das primeiras e mais impor­tantes lições que um principiante tem de aprender — disse ele —: a diferença entre estar acordado e a sonhar. Alguns nunca chegam a aprender.

Abanou a cabeça, deu um passo na minha direção e bateu-me delicadamente no ombro.

— Venha, vou mostrar-lhe o jardim. Tem de começar por algum lado e sempre passa o tempo até o desjejum estar pronto.

 

Quando o Mago me levou até lá fora, pela porta traseira da casa, vi que o jardim era muito grande, bem maior do que parecera do lado de fora da sebe.

Encaminhamo-nos para leste, semicerrando os olhos por causa do sol do princípio da manhã, até chegarmos a um amplo relvado. No lusco-fusco da véspera, parecera-me que o jardim estava completa­mente rodeado pela sebe, mas percebia agora o meu engano. Havia intervalos nela, e mesmo por cima ficava a mata. O caminho de pedras brancas dividia o relvado e desaparecia nas árvores.

— Na realidade, existe mais de um jardim — disse o Mago. — Melhor dizendo, três, alcançando-se cada um deles através de um ca­minho como este. Vamos ver primeiro o jardim oriental. É bastante seguro quando há sol, mas nunca percorra este caminho depois de es­curecer. Bem, a menos que tenha uma razão muito forte. Mas nunca se estiver sozinho.

Segui o Mago, cheio de nervosismo, em direção às árvores.

A erva era mais alta no extremo do jardim e estava salpicada de campainhas. Gosto das campainhas porque florescem na Primavera e me lembram sempre que os dias longos e quentes de Verão não tar­dam, mas naquele momento mal as olhei uma segunda vez. O sol da manhã estava escondido pelas árvores e de repente o ar ficou muito mais fresco. Fez-me lembrar a visita à cozinha. Havia algo de estra­nho e perigoso naquela parte da mata e parecia fazer cada vez mais frio, à medida que avançávamos para as árvores.

Havia ninhos de gralhas lá no alto, por cima de nós, e os gritos desa­gradáveis e zangados das aves ainda me causavam mais arrepios do que o frio. Eram quase tão musicais quanto o meu pai, que começava a cantar assim que terminávamos a ordenha. Sempre que o leite aze­dava, a minha mãe atribuía-lhe as culpas.

O Mago parou e apontou para o solo cerca de cinco passos mais à frente.

— O que é aquilo? — inquiriu, a sua voz pouco mais do que um murmúrio.

A erva fora limpa e no centro do grande pedaço de terra estava uma pedra tumular. Era vertical, mas ligeiramente inclinada para a es­querda. No chão diante dela, um metro e oitenta de solo estava cercado de pedras mais pequenas, o que era invulgar. Mas havia algo ainda mais estranho: por cima do pedaço de terra, e presas às pedras exteriores por pernos, encontravam-se treze barras de ferro grossas.

Contei-as duas vezes apenas para me certificar.

— Então, rapaz, fiz-lhe uma pergunta. O que se passa?

A minha boca estava tão seca que mal conseguia falar, mas balbuciei três palavras: — É uma sepultura...

— Muito bem, rapaz. Percebeu de primeira. Notou algo de invulgar? — perguntou ele.

Nesta altura não consegui de todo falar. Limitei-me a acenar com a cabeça.

Ele sorriu e bateu-me no ombro.

— Não há nada a temer. É ape­nas uma bruxa morta e bastante fraca na sua arte. Enterraram-na em solo profano do lado de fora de um cemitério, a não muitos quilôme­tros daqui. Mas ela insistia constantemente em vir à superfície. Dei-lhe uma boa reprimenda mas ela não quis ouvir, por isso tive de trazê-la para cá. Faz com que as pessoas se sintam melhor. Dessa forma, podem prosseguir as suas vidas em paz. Nem querem pensar em coisas como esta. É a nossa função.

Acenei novamente e percebi de repente de que não respirava, por isso, enchi bem os pulmões de ar. O coração batia-me desalmadamente no peito, ameaçando rebentar a qualquer instante, e eu tre­mia da cabeça aos pés.

— Não, ela agora incomoda pouco — prosseguiu o Mago. — Às vezes, na Lua cheia, consegue-se ouvi-la a agitar-se, mas não tem força para vir à superfície e as barras de ferro impedi-la-iam na mesma. Mas há coisas piores lá mais adiante, nas árvores — disse ele, apontando com o seu dedo ossudo para leste. — Dá cerca de vinte passos e chegará ao local.

Pior? O que podia ser pior? Fiquei intrigado, mas sabia que ele faria questão em me contar.

— Há duas outras bruxas. Uma está morta e a outra viva. A mor­ta encontra-se enterrada verticalmente, de cabeça para baixo, mas mesmo assim, uma ou duas vezes por ano temos de endireitar as bar­ras por cima da sua sepultura. Mantenha-se bem afastado do local, depois de escurecer.

— Porque foi enterrada de cabeça para baixo? — quis saber.

— Eis uma boa pergunta, rapaz — observou o Mago. — Sabe, o espírito de uma bruxa morta é o que chamamos normalmente «preso aos ossos». Encontra-se retido dentro dos ossos dela e, por vezes, elas nem sequer sabem que morreram. Primeiro, experimentamos colocá-las de cabeça para cima, e isso é suficiente a maioria das vezes. Todas as bruxas são diferentes, mas há algumas que são realmente teimosas.

Apesar de presa aos ossos, uma bruxa como esta esforça-se ao máximo por voltar ao mundo. É como se quisesse voltar a nascer, de maneira que temos de lhe criar dificuldades e enterrá-la ao contrário. Não é fá­cil sair pelos pés. Às vezes, os bebês humanos têm o mesmo proble­ma. Mas ela continua a ser perigosa, por isso mantenha-se bem longe.

«Certifique-se de que se mantenha afastado da que está viva. Seria mais perigosa morta do que viva, porque uma bruxa poderosa como aquela não teria dificuldade nenhuma em voltar ao mundo. Por esse motivo a mantemos num poço. O nome dela é Mãe Malkin e fala sozinha. Bem, na verdade, é mais um murmúrio. Ela é tão má quanto se pode ser, mas está no poço há muito tempo e a maior parte do seu poder escoou-se para a terra. Adoraria deitar as mãos em um rapaz como você. Por isso, mantenha-se bem distante. Prometa-me agora que não vai se aproximar. Quero ouvir-te dizê-lo...

— Prometo não me aproximar — murmurei, sentindo-me descon­fortável com tudo aquilo. Parecia uma coisa terrível e cruel manter qualquer criatura viva — mesmo uma bruxa — no solo, e não estava a ver a minha mãe a gostar muito da idéia.

— Lindo menino. Não queremos que se repitam mais acidentes como o desta manhã. Há coisas piores do que levar um bofetão. Bem piores.

Acreditei nele, mas não queria ouvir falar do assunto. Só que ele tinha outras coisas para me mostrar, por isso fui poupado de mais pala­vras assustadoras. Conduziu-me para fora da mata e percorremos outro relvado.

— Este é o jardim meridional — anunciou o Mago. — Também não venha cá depois de escurecer. — O sol foi rapidamente escon­dido por ramos densos e o ar ficou cada vez mais frio, pelo que soube estarmos a aproximar-nos de algo mau. Parou a cerca de dez passos de uma pedra grande que fora colocada deitada no solo, perto das raí­zes de um carvalho. Cobria uma área um pouco maior do que um jazigo e, a avaliar pela parte que estava acima do solo, a pedra era também muito grossa.

— Quem acha que está enterrado ali debaixo? — perguntou o Mago.

Procurei mostrar-me confiante.

— Outra bruxa?

— Não — disse o Mago. — Não é necessário tanta pedra para uma bruxa. Por norma, o ferro funciona. Mas a coisa ali debaixo pode escapulir-se através das barras de ferro num abrir e fechar de olhos. Preste atenção na pedra. Consegue ver o que está gravado nela?

Anuí. Reconhecia a letra mas não sabia o que significava.

— É a letra grega beta — disse o Mago. — É o sinal que usamos para um demônio[7]. A linha diagonal significa que se encontra preso artificialmente debaixo daquela pedra e o nome por baixo diz quem o fez. No canto inferior direito está o numeral romano para um. Quer dizer que é um demônio da primeira categoria e muito perigoso. Conforme mencionei, usamos graus de um a dez. Lembre-se disso — um dia poderá salvar-lhe a vida. Um de grau dez é tão fraco que as pes­soas nem sequer reparariam que estava lá. Já se for um de grau um poderia facilmente matar-te. Custou-me uma fortuna mandar trazer aquela pedra para cá, mas valeu cada cêntimo. Agora é um demô­nio aprisionado. Encontra-se preso artificialmente e ficará ali até Gabriel fazer soar a sua trombeta.

«Tem de aprender muito sobre os demônios, rapaz, e vou iniciar a sua preparação logo a seguir ao desjejum, mas existe uma diferença significativa entre aqueles que estão presos e os que estão livres. Um demônio livre consegue muitas vezes afastar-se quilô­metros da sua casa e, se estiver predisposto a isso, fazer maldades infi­nitas. Se um demônio se tornar particularmente incômodo e não der ouvidos à razão, compete-nos aprisioná-lo. Se o fizermos bem, fica o que chamamos aprisionado artificialmente. Desse modo não se con­segue sequer mover. Claro, é mais fácil dizer do que fazer.

O Mago carregou subitamente o cenho, como se recordasse algo desagradável.

— Um dos meus aprendizes meteu-se em sérios apuros ao atentar aprisionar um demônio — disse, abanando pesarosamente a cabeça —, mas como é apenas o seu primeiro dia, não vamos falar já disso.

Precisamente naquele momento, vindo da direção da casa, ouviu-se o som da sineta. O Mago sorriu.

— Estamos acordados ou a so­nhar? — indagou.

— Acordados.

— Tem certeza?

Acenei com a cabeça.

— Nesse caso, vamos comer — disse ele. — Mostrar-te-ei o outro jardim depois de termos enchido as barrigas.


 

             UMA MENINA COM SAPATOS BICUDOS

A cozinha modificara-se desde a minha última visita. Fora acesa uma pequena fogueira na lareira e estavam dois pratos de toucinho defumado com ovos em cima da mesa. Havia também pão acabado de assar e uma bola grande de manteiga.

— Coma, rapaz, antes que esfrie — convidou o Mago. Ataquei de imediato e não demoramos muito a dar conta das duas pratadas e também de metade do pão. O Mago recostou-se na cadeira, cofiou a barba e fez-me uma pergunta importante.

— Não acha — inquiriu ele, os seus olhos fitando diretamente os meus — que foi o melhor toucinho defumado com ovos que comeu?

Não concordei. O desjejum fora bem preparado. Estava bom, sim, sempre era preferível ao queijo, mas já comera melhor. Já comera melhor todas as manhãs quando estivera em casa. A minha mãe era muito melhor cozinheira, mas de certa forma não me parecia que fosse a resposta pretendida pelo Mago. Então, disse-lhe uma men­tira inofensiva, o tipo de falsidade que realmente não faz mal nenhum e as pessoas ficam mais satisfeitas ao ouvirem-na.

— Sim — referi —, foi o melhor desjejum que alguma vez saboreei. E peço desculpa por ter descido cedo demais. Prometo que não voltará a acontecer.

Ante aquelas palavras, o Mago esboçou um sorriso tão rasgado que julguei que o rosto se lhe fosse abrir ao meio; depois deu-me uma pal­mada nas costas e levou-me de novo ao jardim.

Só quando chegamos lá fora é que o sorriso desapareceu de vez.

— Muito bem, rapaz — disse ele. — Há duas coisas que reagem bem à lisonja. A primeira é uma mulher e a segunda é um demônio. Nunca falha.

Bem, eu não vira qualquer sinal de uma mulher na cozinha, o que só vinha confirmar as minhas suspeitas — que era um demônio que preparava as nossas refeições. O mínimo que posso dizer é que foi uma surpresa. Toda mundo pensava que um Mago matava demônios, ou que os manipulava para que não pudessem fazer maldades. Quem iria acreditar que tinha um a cozinhar e a limpar para ele?

— Este é o jardim ocidental — informou-me o Mago, enquanto percorríamos o terceiro caminho, as pedras brancas fazendo barulho sob os nossos pés. — É um local seguro de estar, seja de dia ou seja de noite. Eu próprio venho aqui com freqüência, sempre que tenho um problema que necessita de aturada reflexão.

Atravessamos outra abertura na sebe e não tardamos a caminhar por entre as árvores. Senti logo a diferença. As aves cantavam e as árvores os­cilavam de leve com a brisa da manhã. Era um local mais aprazível.

Continuamos a andar até abandonarmos as árvores e chegarmos a uma colina com uma vista para as extensões rochosas à nossa direita. O céu estava tão limpo que conseguia ver os muros de pedra que dividiam as vertentes inferiores em campos e marcavam o território de cada agricultor. Na realidade, a vista estendia-se até ao alto da extensão rochosa mais próxima.

O Mago indicou um banco de madeira à nossa esquerda.

— Sente-se, rapaz — convidou.

Fiz o que me mandavam. Durante alguns momentos, o Mago ficou a olhar para mim, os seus olhos verdes cravados nos meus. Depois co­meçou a andar para cima e para baixo diante do banco, sem dizer nada. Já não me olhava, mas fitava o espaço com uma expressão vaga nos olhos. Afastou a comprida capa preta e enfiou as mãos nos bolsos das calças, muito repentinamente, depois sentou-se ao meu lado e fez per­guntas.

— Quantos tipos diferentes de demônio acha que existem? Não fazia a menor idéia. — Já conheço dois tipos — referi —: os livres e os aprisionados, mas não seria sequer capaz de dar um palpite sobre os outros.

— Isso é duplamente bom, rapaz. Lembrou-se do que te ensinei e revelou-se alguém que não dá palpites à toa. Sabe, há tantos tipos de demônios quantos os tipos de pessoas e cada um possui persona­lidade própria. No entanto, convém salientar que existem alguns tipos que podem ser reconhecidos e designados por um nome. Umas vezes em virtude da forma que assumem e outras por causa do seu com­portamento e das partidas que pregam.

Remexeu no seu bolso direito e retirou um livrinho com encader­nação de couro preto. A seguir entregou-me.

— Tome, agora é seu — disse. — Tenha cuidado com ele e, faça o que fizer, não o perca.

O cheiro do couro era muito forte e o livro parecia novinho em folha. Foi com uma certa decepção que o abri e encontrei cheio de páginas em branco. Acho que estava à espera de o ver repleto dos se­gredos das atividades do Mago — mas não, tudo indicava que teria de ser eu a escrevê-los, porque logo de seguida o Mago tirou uma caneta e um pequeno frasco de tinta do bolso.

— Prepare-se para tomar notas — disse, levantando-se e recome­çando a andar para cá e para lá diante do banco. — E tenha cuidado para não entornar a tinta, rapaz. Ela não escorre do úbere de uma vaca.

Consegui desrolhar o frasco e depois, com muito cuidado, mergu­lhei nele a ponta da caneta e abri o livro de notas na primeira página. O Mago iniciara já a lição e falava muito depressa.

— Em primeiro lugar, há demônios peludos, que assumem a forma de animais. São sobretudo cães, mas existem quase tantos gatos e uma ou outra cabra. Mas não se esqueça de incluir também os cavalos — podem ser muito traiçoeiros. E, seja qual for a sua forma, os demônios peludos podem dividir-se naqueles que são hostis, naqueles que são amigáveis ou nos que não são nem uma coisa nem outra.

Depois há os barulhentos, que por vezes se transformam em arremessadores de pedras e podem ficar muito zangados quando pro­vocados. Um dos tipos mais desagradáveis de todos é o estripador de gado porque tem também um fraco por sangue humano. Mas não fique com a idéia de que nós, os Magos, só lidamos com demônios, pois os mortos perturbados nunca andam muito longe. A seguir, e só para complicar, as bruxas constituem realmente um problema no Con­dado. De momento, não temos bruxas locais com que nos preocupar, mas a leste, próximo de Pendle Hill, constituem uma verdadeira ameaça. E lembr-se de uma coisa: nem todas as bruxas são iguais. Inserem-se em quatro categorias rudimentares — as malévolas, as benévolas, as falsamente acusadas e as desconhecedoras.

Nesta altura, como certamente terão adivinhado, eu estava mesmo em apuros. Para começar, ele falava tão depressa que não conseguira escrever uma única palavra. Em segundo lugar, não conhecia sequer todos as palavras difíceis que ele estava a usar. Todavia, naquele mo­mento ele fez uma pausa. Acho que deve ter percebido a expres­são confusa no meu rosto.

— Qual é o problema, rapaz? — indagou. — Vamos, desembucha. Não tenha medo de fazer perguntas.

— Não compreendi tudo o que disse a respeito das bruxas — res­pondi. — Não sei o que significa «malévola». Ou, já agora, «benévola».

— Malévola significa má — explicou-me. — Benévola significa boa. E uma bruxa desconhecedora significa que é uma bruxa que não sabe que é bruxa e, por ser mulher, isso torna-a duplamente perigosa. Nunca confie numa mulher — disse o Mago.

— A minha mãe é uma mulher — contrapus, sentindo-me subi­tamente um tanto irado —, e eu confio nela.

— As mães são normalmente mulheres — afirmou o Mago. — E as mães são normalmente dignas de confiança, desde que se seja seu filho. De outro modo, fique atento! Já tive mãe e confiava nela, por isso co­nheço bem a sensação. Gosta de garotas? — perguntou de repente.

— Na verdade, não conheço quaisquer garotas — confessei. — Não tenho irmãs.

— Bem, nesse caso, pode ser facilmente vítima das manhas delas. Fique atento às garotas da aldeia. Em especial a alguma que use sa­patos bicudos. Anote isso. É um começo tão bom como qualquer outro.

Perguntei-me o que haveria de tão terrível em usar sapatos bicudos. Sabia que a minha mãe não ficaria satisfeita com o que o Mago acabara de dizer. Ela defendia que se deviam aceitar as pessoas tal como eram e não dar ouvidos à opinião de outrem. Mas eu tinha outra escolha? Então, mesmo no alto da primeira página escrevi «Garotas da Aldeia com Sapatos Bicudos».

Ele me viu escrever, depois pediu-me o livro e a caneta. — Olha — disse —, vai ter de ser muito mais rápido a tomar notas. Há muito que aprender e não tardará que tenha enchido uma dúzia de livros destes, mas, por agora, três ou quatro tópicos serão suficientes para começar.

Depois ele escreveu «Demônios Peludos» no alto da segunda pá­gina. A seguir «Barulhentos» no alto da terceira página; e, por últi­mo, «Bruxas» no alto da quarta página.

— Pronto — disse. — Já tem um começo. Escreva apenas algo que aprenda hoje debaixo de cada um destes quatro tópicos. Mas de momento há um assunto mais urgente. Necessitamos de provisões. Por isso vai ter de ir à aldeia; caso contrário, amanhã passaremos fome. Nem o melhor cozinheiro consegue apresentar resultados sem provisões. Lembre-se de que terá de vir tudo dentro do meu saco. É o açougueiro que o tem, portanto dirija-se lá em primeiro lugar. Pergunte apenas pela encomenda de Mr. Gregory.

Deu-me uma pequena moeda de prata, avisando-me que não per­desse o troco, e depois mandou-me descer a colina pelo caminho mais rápido para a aldeia.

Não tardou que voltasse a caminhar por entre as árvores até che­gar finalmente a uns degraus que me levaram a um carreiro íngreme e estreito. Cerca de cem passos mais adiante, virei uma esquina e apa­receram as placas cinzentas dos telhados de ardósia de Chipenden.

A aldeia era maior do que eu esperara. Havia pelo menos uma cen­tena de pequenas cabanas, depois uma taberna, uma escola e uma igreja grande com campanário. Não se via sinal de uma praça de mercado, mas a rua principal empedrada, que era bastante inclinada, estava cheia de mulheres com cestos carregados que entravam nas lojas e saíam apressadas. Cavalos e carroças aguardavam de ambos os lados da rua, pelo que era evidente que as mulheres dos agricultores locais vinham aqui às compras e, sem dúvida, também as gentes dos luga­rejos vizinhos.

Dei facilmente com o talho e juntei-me a uma fila de mulheres ruidosas, que gritavam todas com o açougueiro, um homem bem-disposto, grande e corado de barba ruiva. Parecia conhecer cada uma delas e estas riam sonoramente das suas piadas, que pareciam não ter fim. Não entendi a maior parte, mas via-se que as mulheres percebiam e dava a impressão de estarem realmente a divertir-se.

Ninguém me prestou muita atenção, mas chegou finalmente a minha vez de ser atendido.

— Venho buscar a encomenda de Mr. Gregory — disse ao açougueiro.

Assim que falei, fez-se silêncio no estabelecimento e as gargalha­das cessaram. O açougueiro baixou-se por detrás do balcão e pegou num saco grande. Ouvi as pessoas cochichar atrás de mim, mas, apesar de ter apurado o ouvido, não percebi muito bem o que diziam. Quando me virei, olhavam para todo o lado menos para mim. Algumas esta­vam até de olhos postos no chão.

Entreguei a moeda de prata ao açougueiro, verifiquei cuidadosamente o troco, agradeci-lhe e saí da loja com o saco, colocando-o ao ombro quando cheguei à rua. A visita ao vendedor de hortaliças não demo­rou nada. As provisões estavam já embrulhadas, de maneira que meti o volume no saco, que começava agora a ficar bastante pesado.

Até ali correra tudo bem, mas quando me encaminhei para a pada­ria, vi o grupo de rapazes.

Eram uns sete ou oito, sentados num muro de jardim. Não havia nada de estranho nisso, exceto o fato de não estarem a conversar uns com os outros — concentravam-se em olhar-me com rostos famintos, qual matilha de lobos, observando cada passo que eu dava ao aproxi­mar-me da padaria.

Quando saí de lá, continuavam no mesmo lugar e, no momento em que principiei a subir a colina, eles começaram a seguir-me. Bem, ape­sar de ser demasiada coincidência pensar que tinham decidido subir a mesma colina, não fiquei preocupado. Seis irmãos haviam-me dado montes de prática de luta.

Ouvi o som das suas botas cada vez mais próximo. Estavam a al­cançar-me muito rapidamente, mas isso talvez se devesse ao fato de eu caminhar cada vez mais devagar. Sabem, não queria que pensas­sem que estava com medo e, de qualquer forma, o saco pesava e a colina que subia era muito íngreme.

Apanharam-me cerca de uma dúzia de passos antes dos degraus, precisamente no ponto em que o carreiro se dividia numa pequena mata, as árvores aglomerando-se de cada lado para bloquearem o sol da manhã.

— Abra o saco e mostre-nos o que temos — ordenou uma voz atrás de mim.

Era uma voz sonora, cava, acostumada a dizer às pessoas o que fa­zerem. Possuía um timbre de dureza e perigo que me disse que aquele a que pertencia gostava de infligir dor e andava sempre à procura da sua próxima vítima.

Virei-me para o enfrentar mas agarrei o saco ainda com mais força, mantendo-o firmemente ao ombro. Aquele que falara era o líder do grupo. Não existia a menor dúvida. Os restantes tinham caras magras e chupadas, como se estivessem a precisar de uma boa refeição, mas parecia que ele andara a comer pelos outros todos. Tinha pelo menos mais uma cabeça de altura do que eu, com ombros largos e um pes­coço semelhante ao de um touro. O seu rosto também era grande, de faces vermelhas, mas tinha uns olhos muito pequenos e não dava mos­tras de pestanejar sequer.

Acho que se ele não tivesse estado ali nem tentado desafiar-me, tal­vez eu me houvesse compadecido. Afinal, alguns dos rapazes pareciam meios esfomeados e havia imensas maçãs e bolos no saco. Por outro lado, não eram meus para os estar a distribuir.

— Isto não me pertence — disse. — Pertence a Mr. Gregory.

— O último aprendiz dele não parecia muito incomodado com isso — redarguiu o líder, aproximando mais o seu rosto grande do meu. — Ele costumava abrir o saco para nós. Se tivesse algum juízo, faria o mesmo. Se não o quiser fazer por bem, então terá de ser por mal. Mas não vai gostar muito e no fim virá a dar tudo no mesmo.

O grupo começou a acercar-me e senti alguém atrás de mim puxar o saco. Mesmo assim, não o larguei e olhei para os olhos miudinhos do líder, esforçando-me por não pestanejar.

Naquele momento, aconteceu algo que nos apanhou a todos de sur­presa. Verificou-se um movimento nas árvores em algum lugar à minha direita e viramo-nos todos para lá.

Estava um vulto negro nas sombras e, quando os meus olhos se adaptaram ao escuro, vi que era uma garota. Avançava lentamente na nossa direção, mas a sua aproximação era tão silenciosa que até se podia ouvir cair um alfinete e tão suave que ela parecia flutuar, em vez de caminhar. Depois parou mesmo à beira da sombra das árvores, como se não quisesse avançar para a luz do sol.

— Porque não o deixam em paz? — inquiriu. Parecia uma per­gunta, mas o tom na voz dela dizia-me que era uma ordem.

— O que tem a ver com isso? — perguntou o líder do grupo, espetando o queixo e cerrando os punhos.

— Não é comigo que deve se preocupar — respondeu ela das sombras. — Lizzie voltou, e se não fizer o que eu digo, terá de res­ponder perante ela.

— Lizzie? — estranhou o rapaz, recuando um passo.

— Lizzie dos Ossos. É minha tia. Não me diga que nunca ouviu falar dela...

Já alguma vez sentiram que o tempo passa tão devagar que quase parece parado? Alguma vez ouviram um relógio em que o próximo tique parece levar uma eternidade a seguir o último taque? Bem, foi exatamente assim até que, muito subitamente, a garota sibilou sonoramente através dos dentes cerrados. Depois voltou a falar.

— Vamos — disse ela. — Desapareçam! Vão-se embora, e depressa, senão mato-os!

Foi imediato o efeito sobre o grupo. Captei a expressão em alguns dos rostos deles e vi que não estavam apenas com medo. Estavam apavorados e à beira do pânico. O líder girou nos calcanhares e fugiu imediatamente colina abaixo, com os outros a segui-lo muito de perto.

Não sabia por que motivo estavam tão assustados mas queria também fugir. A garota fitava-me de olhos arregalados e não me achei capaz de controlar devidamente as pernas. Sentia-me como um rato paralisado pelo olhar fixo de um furão prestes a saltar.

Obriguei o meu pé esquerdo a mover-se e, lentamente, virei o meu corpo para as árvores a fim de seguir a direção em que o meu nariz apontava, mas continuava a agarrar o saco do Mago. Fosse ela quem fosse, não estava disposto a abrir mão dele.

— Não vai fugir também? — perguntou-me ela.

Abanei a cabeça, mas tinha a boca tão seca que não confiava em mim para tentar falar. Sabia que diria as palavras erradas.

Ela teria provavelmente a minha idade — quando muito seria li­geiramente mais nova. Tinha um rosto bastante bonito, pois possuía olhos castanhos grandes, malares salientes e cabelo preto comprido. Envergava um vestido preto cingido na cintura com um pedaço de corda branca. Mas enquanto eu registrava tudo isto, percebi subitamente de algo que me incomodou.

A garota calçava sapatos bicudos, e lembrei-me de imediato do avi­so do Mago. Mas mantive-me firme, decidido a não fugir como os outros.

— Não vai me agradecer? — perguntou ela. — Seria agradável ouvir um obrigado.

— Obrigado — disse-lhe, desajeitadamente, conseguindo final­mente dizer uma palavra.

— Bem, já é um começo — gracejou ela. — Mas para me agradecer como deve ser, precisa de me dar algo, não é verdade? Um bolo e uma maçã serão suficientes de momento. Não estou a lhe pedir muito. Há muitos no saco e o Velho Gregory não irá dar por isso, e se der, não dirá nada.

Fiquei chocado de a ouvir chamar «Velho Gregory» ao Mago. Sabia que ele não gostava que o tratassem assim e alertou-me para dois aspectos. Em primeiro lugar, a garota tinha pouco respeito por ele, e, em segundo, não o temia nem um bocadinho. Mas, no lugar de onde eu vinha, a maioria das pessoas tremia só da idéia de que o Mago pu­desse estar nas proximidades.

— Lamento — respondi —, mas não o posso fazer. Não me com­pete dá-los.

Ela olhou-me então com dureza e durante um bom bocado não falou. Pensei a dada altura que fosse sibilar entre dentes. Olhei para ela, tentando não pestanejar, até que um tênue sorriso lhe iluminou o rosto e ela voltou a falar.

— Então terei de me contentar com uma promessa.

— Uma promessa? — estranhei, perguntando-me o que preten­deria.

— Uma promessa de me ajudar assim como eu te ajudei. Não preciso de qualquer ajuda neste momento, mas talvez venha a preci­sar um dia.

— Está bem — respondi-lhe. — Se alguma vez vier a precisar de ajuda, é só pedir.

— Como se chama? — indagou ela, brindando-me com um largo sorriso.

— Tom Ward.

— Bem, o meu nome é Alice e vivo acolá — disse, apontando para o meio das árvores. — Sou a sobrinha preferida de Lizzie dos Ossos.

Lizzie dos Ossos era um nome estranho mas teria sido indelicado da minha parte mencioná-lo. Fosse lá quem fosse, o seu nome bastara para apavorar os rapazes da aldeia.

E a nossa conversa terminou ali. Viramo-nos os dois e seguimos caminhos separados, mas enquanto nos afastávamos, Alice gritou por cima do ombro.

— Agora tenha cuidado. Não queira ter o mesmo fim que o último aprendiz do Velho Gregory.

— O que lhe aconteceu? — inquiri.

— É melhor perguntar ao Velho Gregory! — gritou ela enquan­to desaparecia por entre as árvores.

Quando regressei, o Mago verificou cuidadosamente o conteúdo do saco, dando baixa na lista.

— Tive algum problema na aldeia? — perguntou, depois de finalmente terminar.

— Uns rapazes seguiram-me colina acima e mandaram-me abrir o saco mas eu neguei-me a fazê-lo — referi.

— Foi muito corajoso — afirmou o Mago. — Para a próxima não haverá nenhum problema se os deixar tirar alguns bolos e maçãs. A vida já é bastante difícil, mas alguns deles são de famílias muito pobres. Encomendo sempre a mais, para o caso de eles pedirem.

Fiquei aborrecido. Se ele me tivesse dito aquilo antes!

— Não o quis fazer sem antes lhe perguntar — redargui.

O Mago arqueou os sobrancelhas.

— Querias dar-lhes alguns bolos e maçãs?

— Não gosto que me provoquem — disse —, mas alguns deles tinham um ar realmente esfomeado.

— Para a próxima confie nos seus instintos e use a sua iniciativa — replicou o Mago. — Confie na voz dentro de si. Raramente se en­gana. Um Mago depende muito dela, porque às vezes pode significar a diferença entre a vida e a morte. Mas isso é outra coisa que precisa­mos de descobrir a eu respeito. Se pode ou não confiar nos seus ins­tintos.

Fez uma pausa, fitando-me intensamente, os seus olhos verdes perscrutando o meu rosto. — Algum problema com garotas? — in­quiriu subitamente.

Como ainda estava aborrecido, não dei uma resposta direta à pergunta dele.

— Problema nenhum — disse.

Não era uma mentira, pois Alice ajudara-me, o que era precisa­mente o oposto. Mesmo assim, julguei que me estivesse a perguntar se encontrara alguma garota e sabia também que lhe devia ter fala­do dela. Especialmente porque usava sapatos bicudos.

Cometi muitos erros como aprendiz e aquele foi o meu segundo mais grave — não contar toda a verdade ao Mago.

O primeiro, mais grave ainda, foi fazer a promessa a Alice.

 

             ALGUÉM TEM QUE FAZER

Depois daquilo, a minha vida entrou numa rotina atarefada. O Mago ensinava-me depressa e obrigava-me a escrever até ficar com o pulso a doer e os olhos a arder.

Uma tarde, levou-me até ao fundo da aldeia, para lá da última cabana de pedra, onde havia um pequeno círculo de salgueiros que, no Condado, têm o nome de «vimes». Era um lugar triste e havia ali uma corda pendendo de um ramo. Olhei para cima e vi um sino grande de latão.

— Quando alguém precisa de ajuda — disse o Mago —, não vem até em casa. Ninguém o faz, a menos que tenha sido convidado. Sou muito rigoroso nisso. Descem aqui e tocam aquele sino. Depois nós vamos ter com eles.

O problema era que, mesmo depois de terem passado semanas, nin­guém viera tocar o sino, e só precisei de ir para lá do jardim ociden­tal quando houve necessidade de ir buscar as provisões semanais à aldeia. Sentia-me também sozinho, com saudades da minha família, por isso foi boa idéia o Mago manter-me ocupado — isso queria dizer que não tinha tempo para me pôr a pensar no assunto. Quando ia me deitar estava tão cansado que adormecia mal a minha cabeça pousava na almofada.

As lições eram a parte mais interessante de cada dia, mas não aprendi muito sobre imagens fantasmagóricas, fantasmas e bruxas. O Mago explicou-me que, no primeiro ano do aprendizado, os temas principais eram os demônios, juntamente com assuntos como a botâ­nica, o que implicava aprender tudo sobre plantas, algumas das quais eram realmente úteis em mezinhas ou podiam ser comidas se não se encontrasse outro alimento. Mas as minhas lições não se limitavam a tomar notas. Parte do trabalho era tão duro e físico como o que eu fazia lá na nossa fazenda.

Começou numa manhã quente e ensolarada, em que o Mago me mandou pôr de lado o livro de notas e segui-lo até ao jardim meri­dional. Entregou-me duas coisas para levar: uma pá e uma vara de medição comprida.

— Os demônios livres deslocam-se através de linhas — explicou. — Mas por vezes algo corre mal. Pode ser conseqüência de uma tem­pestade ou talvez de um tremor de terra. Nunca se registrou um tremor de terra a sério no Condado desde que há memória, mas isso não importa, porque as linhas estão todas interligadas e algo que acontece numa, mesmo a milhares de quilômetros, pode afetar todas as outras. Então, os demônios ficam presos no mesmo lugar durante anos e chamamos-lhes «aprisionados naturalmente». Muitas vezes não conseguem se mover mais de uma dúzia de passos em qualquer sentido e causam poucos problemas. A menos que se aproxime demais de um deles. Por vezes, no entanto, podem ficar presos em lugares estranhos, perto de uma casa ou mesmo dentro dela. Então, talvez pre­cise de mudar dali o demônio e aprisioná-lo artificialmente noutro lugar.

— O que é uma linha? — inquiri.

— Não existe um consenso, rapaz — explicou-me ele. — Há quem pense que são apenas caminhos antigos que atravessam a terra, os caminhos que os nossos antepassados percorreram em tempos an­tigos, quando os homens eram homens de verdade e a escuridão conhecia o seu devido lugar. Havia mais saúde, vivia-se mais tempo e toda a gente estava feliz e contente.

— O que aconteceu?

— A camada de gelo desceu do norte e a terra ficou gelada du­rante milhares de anos — esclareceu o Mago. — Foi tão difícil so­breviver que os homens se esqueceram de tudo o que haviam aprendido. O conhecimento antigo não era relevante. Tudo o que importava era manterem-se quentes e terem comida. Quando o gelo finalmente recuou, os sobreviventes eram caçadores vestidos com peles de animais. Haviam esquecido como se obtinham boas colheitas e criavam animais. As trevas eram soberanas.

«Bem, agora está melhor, apesar de ainda termos um longo cami­nho pela frente. Tudo o que resta daqueles tempos são as linhas, mas, na verdade, são mais do que meros caminhos. As linhas são ver­dadeiras vias de poder, bem nas profundezas da Terra. Estradas secre­tas invisíveis que os demônios livres podem usar para se deslocarem a grande velocidade. São estes demônios livres que causam a maior parte dos problemas. Quando se instalam num novo local, com fre­qüência não são bem-vindos. E isso deixa-os irados. Pregam peças — às vezes perigosas — e isso significa trabalho para nós. Então, é preciso aprisioná-los artificialmente num poço. Como aquele que vai abrir agora...

«Este é um bom local — disse, apontando para o solo perto de um enorme carvalho antigo. — Acho que deve haver espaço suficien­te entre as raízes.

O Mago entregou-me a vara de medição para que eu pudesse abrir o poço exatamente com um metro e oitenta de comprido, um metro e oitenta de profundidade e noventa centímetros de largura. Mesmo à sombra, fazia demasiado calor para cavar e levei horas e horas até conseguir acertar porque o Mago era um perfeccionista.

Depois de abrir o poço, tive de preparar uma mistura malchei­rosa de sal, limalhas de ferro e um tipo especial de cola feita com ossos.

— O sal pode queimar um demônio — informou o Mago. — Por outro lado, o ferro faz a ligação ao solo: tal como um raio dá com o caminho até à terra e perde a sua força, o ferro pode por vezes fazer com que as coisas que habitam o escuro percam a força e a substân­cia. Pode pôr fim à malvadez de demônios incômodos. Usados jun­tos, o sal e o ferro formam uma barreira que um demônio não consegue atravessar. Na realidade, o sal e o ferro podem ser usados em diversas situações.

Depois de agitar a mistura num balde grande de metal, servi-me de uma trincha para revestir o interior do poço. Era como se pintasse, mas mais trabalhoso, e a camada tinha de ficar perfeita para evitar que até o demônio mais habilidoso conseguisse escapulir.

— Faça um trabalho minucioso, rapaz — disse-me o Mago. — Um demônio é capaz de fugir por um buraco do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Claro que, assim que o poço ficou concluído a contento do Mago, tive de tapá-lo e recomeçar. Obrigou-me a abrir dois poços por se­mana para treinar, o que era um trabalho duro e fatigante e me ocupava grande parte do tempo. Metia também um certo medo porque eu estava a trabalhar perto de poços que continham demônios verdadeiros e, mesmo à luz do dia, era um lugar medonho. No en­tanto, reparei que o Mago nunca se afastava muito e parecia sempre atento e alerta, dizendo-me que nunca se devia correr riscos com demô­nios, mesmo quando estavam presos.

O Mago disse também que eu ia precisar de conhecer cada palmo do Condado — todas as suas vilas e aldeias e o caminho mais rápido entre quaisquer dois pontos. Só que, apesar de o Mago dizer que pos­suía muitos mapas lá em cima na biblioteca, parecia que eu tinha sempre de seguir o caminho mais difícil, e então começou por me mandar desenhar o meu próprio mapa.

No meio situava-se a casa dele e os jardins e foi preciso incluir a aldeia e a extensão rochosa mais próxima. A idéia era ele ir ficando gradualmente maior, de modo a incluir cada vez mais a região em redor. Mas o desenho não era o meu forte e, como referi, o Mago era um perfeccionista, pelo que o mapa levou muito tempo a crescer. Só então ele começou a me mostrar os seus próprios mapas, mas obri­gava-me depois a passar mais tempo a dobrá-los cuidadosamente do que propriamente a estudá-los.

Comecei também a ter um diário. Para o efeito, o Mago entregou-me outro livro de notas, dizendo-me pela enésima vez que eu preci­sava de registrar o passado para que pudesse aprender com ele. Não escrevia nele todos os dias e às vezes doía-me demais o pulso de tanto rabiscar à pressa no outro livro de notas, enquanto tentava acompanhar o que o Mago dizia.

Depois, uma manhã, ao desjejum, estava eu com o Mago apenas há um mês, ele perguntou-me: — Qual a sua opinião até aqui, rapaz?

Estaria a referir-se ao desjejum? Talvez houvesse um se­gundo prato para compensar o toucinho fumado, que ficara um pouco esturricado naquela manhã. Limitei-me a encolher os ombros. Não queria ofender o demônio, que estaria provavelmente à escuta.

— Bem, é um trabalho difícil e não o culparia se decidisse de­sistir neste momento — disse ele. — Decorrido o primeiro mês, dou sempre a cada novo aprendiz a oportunidade de ir a casa e pensar a sério se quer ou não continuar. Gostaria de fazer o mesmo?

Esforcei-me por não me mostrar demasiado ansioso mas não con­segui esconder o sorriso que afluiu ao meu rosto. Só que, quanto mais eu sorria, mais triste o Mago parecia. Deu-me a impressão de que ele queria que ficasse, mas eu estava ansioso por partir. A idéia de voltar a ver a minha família e poder saborear os cozinhados da minha mãe parecia-me um sonho.

Numa hora, estava pronto para ir a casa.

— É um rapaz cora­joso e de espírito vivo — disse-me ao portão. — Passou no seu mês à experiência por isso pode dizer ao seu pai que, se quiser conti­nuar, irei visitá-lo no Outono para receber os meus dez guinéus. Possui os predicados de um bom aprendiz, mas é com você, rapaz. Se não voltar, então saberei que decidiu o contrário. De outro modo, espero-o de volta dentro de uma semana. Depois receberá cinco anos de preparação que te tornarão quase tão bom quanto eu, no ofício.

Parti para casa, animado. Sabem, não quisera dizer nada ao Mago, mas no momento em que ele me dera a oportunidade de ir a casa e possivelmente não voltar, eu decidira fazer exatamente isso. Era um trabalho horrível. Pelo que o Mago me contara, para além da solidão, era perigoso e aterrador. Ninguém se importava se sobrevivíamos ou morríamos. Só queriam que os livrássemos do que quer que os ator­mentava, mas não pensavam nem por um segundo nas implicações que isso poderia ter para nós.

O Mago mencionara-me que uma vez quase fora morto por um de­mônio. Mudara, num abrir e fechar de olhos, de barulhento para arremessador de pedras e por pouco não lhe rachara a cabeça com uma pedra do tamanho de um punho de ferreiro. Disse que nem sequer lhe tinham pago ainda, mas contava receber o dinheiro na Primavera seguinte. Bem, a Primavera seguinte ainda vinha muito longe, por isso de que servia? Quando parti rumo a casa, parecia-me que estaria melhor a trabalhar na fazenda.

Mas foram quase dois dias de viagem e tive muito tempo para pen­sar durante o caminho. Lembrei-me das vezes que me sentira enfa­dado na fazenda. Conseguiria realmente agüentar trabalhar ali o resto da minha vida?

A seguir, comecei a pensar no que diria a minha mãe. Ela estava firmemente decidida a que eu fosse o aprendiz do Mago e, se desis­tisse, decepcioná-la-ia muito. Portanto, a parte mais difícil seria con­tar-lhe e observar a sua reação.

Ao anoitecer do meu primeiro dia de regresso a casa, consumira já todo o queijo que o Mago me dera para a viagem. Assim, no dia se­guinte só parei uma vez, para mergulhar os pés num riacho, chegando a casa mesmo antes da ordenha.

Quando abri o portão do pátio, o meu pai dirigia-se para o estábulo. Ao ver-me, o seu rosto iluminou-se num amplo sorriso. Ofereci-me para ajudá-lo na ordenha, a fim de podermos conversar, mas ele mandou-me ir falar imediatamente com a minha mãe.

— Ela sentiu a sua falta. Será um deleite para a vista. Batendo-me nas costas, foi ordenhar as vacas, mas eu ainda não dera meia dúzia de passos quando Jack saiu do celeiro e veio direito a mim.

— O que o traz de volta tão depressa? — perguntou. Pareceu-me um pouco frio. Bem, para ser sincero, ele estava mais gélido do que frio. O seu rosto apresentava-se contorcido, como se tentasse carregar o cenho e sorrir ao mesmo tempo.

— O Mago mandou-me a casa por uns dias. Tenho de decidir se quero ou não continuar.

— E o que é que vai fazer?

— Vou conversar com a minha mãe sobre o assunto.

— Levará sem dúvida a água ao seu moinho, como sempre — disse Jack.

Nesta altura, Jack estava mesmo carrancudo e fiquei com a impres­são de que acontecera algo enquanto eu estivera fora. Por que outro motivo ficaria de repente tão antipático? Seria porque não queria que eu voltasse para casa?

— E nem quero acreditar que levou a caixa de mechas do pai — acrescentou.

— Ele me deu — retorqui. — Quis que eu ficasse com ela.

— Ele ofereceu-a, mas isso não significava que tivesse de aceitá-la. O seu mal é só pensar em si. Pense no pobre do pai. Ele adorava aquela caixa de mechas.

Não disse nada porque não estava interessado em criar uma dis­cussão. Sabia que ele estava errado. O pai quisera que eu ficasse com a caixa de mechas, tinha a certeza absoluta.

— Enquanto aqui estiver, poderei dar uma ajuda — disse, tentando mudar de assunto.

— Se quer realmente ganhar o seu sustento, então vá dar comi­da aos porcos! — gritou enquanto se afastava. Era uma tarefa de que nenhum de nós gostava. Os porcos eram grandes, peludos e malchei­rosos e estavam sempre tão esfomeados que nunca era seguro virar-lhes as costas.

Apesar do que Jack dissera, não deixei de me sentir satisfeito por estar em casa. Enquanto atravessava o pátio, olhei para a casa. As rosas trepadeiras da minha mãe revestiam a maior parte da parede das trasei­ras, e sempre se tinham dado bem ali, não obstante estarem viradas a norte. Agora começavam a rebentar, mas em meados de Junho esta­riam cobertas de flores vermelhas.

A porta de trás encravava constantemente porque uma vez a casa fora atingida por um raio. A porta incendiara-se e fora subs­tituída, mas a ombreira continuava ligeiramente empenada e eu tive de empurrá-la com bastante força. Valeu a pena, pois a primeira coisa que vi foi o rosto sorridente da minha mãe.

Estava sentada na sua velha cadeira de balanço, no canto mais afas­tado da cozinha, um local onde o sol poente não conseguia chegar. Se a luz fosse demasiado intensa, feria-lhe os olhos. A minha mãe pre­feria o Inverno ao Verão e a noite ao dia.

Claro que ficou satisfeita de me ver, e a princípio tentei dizer-lhe o mais tarde possível que viera para ficar. Assumi uma expressão corajosa e fingi estar feliz, mas ela não se deixou enganar. Nunca lhe conseguia esconder nada.

— O que se passa? — perguntou-me.

Encolhi os ombros e procurei sorrir, provavelmente disfarçando os meus sentimentos ainda pior do que o meu irmão.

— Fale — ordenou-me. — E inútil guardar tudo só para si.

Durante um grande bocado não respondi porque estava tentando encontrar uma maneira de o expressar por palavras. O ritmo da ca­deira de balanço da minha mãe abrandou gradualmente, até acabar por cessar completamente. Aquilo não era bom sinal.

— Passei no meu mês à experiência e Mr. Gregory disse que tenho de decidir se continuo ou não. Mas sinto-me sozinho, mãe — acabei por confessar. — É tão mau quanto esperava. Não tenho amigos. Ninguém da minha idade com quem conversar. Gostaria de voltar a trabalhar aqui.

Podia ter continuado, referindo-lhe o quanto costumávamos ser fe­lizes quando todos os meus irmãos viviam ali. Não o fiz — sabia que ela também sentia saudades deles. Pensei que se pudesse compadecer, mas estava muito enganado.

Seguiu-se uma longa pausa antes de a minha mãe falar e ouvi Ellie a varrer na divisão ao lado, cantando baixinho enquanto trabalhava.

— Sozinho? — perguntou a minha mãe, a sua voz cheia de raiva em vez de compaixão. — Como pode sentir-se sozinho? Tem a si próprio, não tem? Se alguma vez se perder, então é que estará realmente sozinho. Entretanto, pare de se queixar. Já é quase um homem e um homem tem de trabalhar. Desde que o mundo é mundo, os homens têm trabalhado naquilo de que não gostam. Porque have­ria de ser diferente no seu caso? É o sétimo filho de um sétimo filho, e este é o trabalho que nasceu para fazer.

— Mas Mr. Gregory preparou outros aprendizes — saiu-me abrup­tamente. — Um deles podia voltar e olhar pelo Condado. Porque tem de ser eu?

— Ele preparou muitos, mas pouquíssimos foram até ao fim — disse a minha mãe —, e aqueles que o fizeram não lhe chegam nem aos calcanhares. Ou são imperfeitos ou fracos ou covardes. Seguem um caminho desonroso, recebendo dinheiro a troco de muito pouco. Por isso agora só resta você, filho. É a última oportunidade. A última es­perança. Alguém tem de fazê-lo. Alguém tem de enfrentar o escuro. E você é o único capaz disso.

A cadeira recomeçou a balançar, ganhando lentamente velocidade.

— Bem, fico contente por isto estar resolvido. Quer esperar pela ceia ou que te sirva assim que ficar pronta?— perguntou a minha mãe.

— Não comi nada o dia inteiro, mãe. Nem sequer o desjejum.

— Bem, é coelho guisado. Deverá conseguir animar-te um pouco. Sentei-me à mesa da cozinha, sentindo-me mais desanimado e triste do que nunca, enquanto a minha mãe se atarefava em volta do fogão. O coelho guisado cheirava deliciosamente e começou a dar-me água na boca. Não havia melhor cozinheira do que a minha mãe e valia a pena voltar para casa, nem que fosse para uma única refeição.

Sorrindo, a minha mãe trouxe um grande prato fumegante de gui­sado e colocou-o diante de mim.

— Vou preparar o seu quarto — disse. — Já que está aqui, pode perfeitamente ficar um dia ou dois.

Murmurei os meus agradecimentos e não perdi tempo a começar. Assim que a mãe foi para cima, Ellie entrou na cozinha.

— Que bom voltar a ver-te, Tom — disse ela, com um sorriso. Depois olhou para a minha generosa pratada de comida. — Quer acompanhar com pão?

— Sim, por favor — respondi e Ellie cortou-me três fatias gros­sas com manteiga, antes de se sentar à mesa defronte de mim. Termi­nei tudo sem parar uma só vez para respirar, limpando finalmente o prato com a última fatia grande de pão acabado de cozer.

— Sente-se melhor, agora?

Anuí e tentei sorrir, mas sabia que não estava a resultar porque de repente Ellie mostrou-se preocupada.

— Não pude deixar de ouvir o que disse à sua mãe — aludiu. — Estou certa de que não é tão mau quanto isso. Só que o trabalho é novidade e estranho. Não tardará a acostumar-se. De qualquer forma, não precisa voltar imediata­mente. Após alguns dias em casa, se sentirá melhor. E será sempre bem-vindo aqui, mesmo quando a fazenda pertencer a Jack.

— Não creio que Jack tenha ficado satisfeito de me ver.

— Ora essa, o que te leva a pensar semelhante coisa? — inquiriu Ellie.

— Ele não me pareceu muito amistoso, é tudo. Acho que não me quer aqui.

— Não se preocupe com o seu irmão grande e mau. Eu resolvo tudo com ele num instante.

Sorri então amplamente, porque era verdade. Como dissera uma vez a minha mãe, Ellie conseguia dar a volta a Jack com o dedo mindinho.

— O que mais o preocupa é isto — disse Ellie, passando a mão pela barriga. — A irmã da minha mãe morreu do parto e a nossa família ainda hoje fala disso. Deixa Jack nervoso, mas eu não estou nada preocupada porque não podia encontrar-me em melhor lugar, com a sua mãe a cuidar de mim. — Fez uma pausa. — Mas há outra coisa. O seu novo ofício preocupa-o.

— Ele parecia bastante satisfeito antes de eu ir embora — res­pondi.

— Estava a fazê-lo por você, porque é irmão dele e se preocupa com você. Mas o trabalho de Mago assusta as pessoas. Deixa-as inquietas. Acho que se tivesse ido logo embora, provavelmente não haveria pro­blema. Mas Jack afirmou que no dia em que se foi, subiu a colina até à mata e desde então os cães têm andado agitados. Agora nem sequer querem ir à pastagem norte.

«Jack pensa que você perturbou algo lá em cima. Acho que se resume tudo a isto — prosseguiu Ellie, batendo delicadamente na barriga. — Ele só está querendo proteger-nos, é tudo. A pensar na família dele. Mas não se preocupe. Tudo irá se resolver.

Acabei por ficar três dias, tentando mostrar-me corajoso, mas de­pois senti que estava na hora de ir. A minha mãe foi a última pessoa que vi antes de partir. Estávamos os dois na cozinha e ela apertou-me o braço e disse-me que se orgulhava de mim.

— Você é mais do que sete vezes sete — afirmou, sorrindo-me ca­lorosamente. — Também é meu filho e possui a força para fazer o que tem de ser feito.

Não pude deixar de anuir porque queria que ela ficasse feliz, mas o sorriso desapareceu do meu rosto assim que deixei o pátio. Arrastei-me penosamente até casa do Mago com o coração mesmo aos pés, sentindo-me magoado e desiludido por a minha mãe não me querer de volta.

Choveu o tempo todo até Chipenden e quando cheguei estava ge­lado, molhado e infeliz. Mas quando me aproximei do portão, para minha surpresa, a tranca levantou-se sozinha e o portão abriu-se sem que eu lhe tocasse. Foi uma espécie de boas-vindas, um encora­jamento a entrar, algo que eu julgara estar unicamente reservado ao Mago. Acho que aquilo me deveria ter deixado satisfeito, mas não. Causou-me arrepios.

Bati à porta três vezes, antes de perceber que a chave es­tava na fechadura. Como não respondessem às minhas pancadas, rodei a chave e depois abri a porta.

Verifiquei todas as divisões aqui em baixo, exceto uma. Depois cha­mei das escadas. Não obtive resposta, de modo que arrisquei entrar na cozinha. O fogo ardia na lareira e a mesa fora posta para uma pes­soa. No seu centro estava um enorme tacho de guisado fumegante. Tinha tanta fome que me servi e quase limpara tudo quando vi o bi­lhete debaixo do saleiro.

Tive de ir a Pendle. Problema com bruxa, por isso vou estar ausen­te algum tempo. Instala-se à vontade mas não se esqueça de ir buscar as provisões para esta semana. Como sempre, o açougueiro tem o meu saco, por isso passe lá primeiro.

Pendle era uma enorme extensão rochosa — quase uma montanha, na realidade — na região leste do Condado. Toda a zona estava infes­tada de bruxas e era um local arriscado onde ir, especialmente sozi­nho. Recordou-me novamente quão perigoso podia ser o trabalho do Mago.

Mas, ao mesmo tempo, não pude deixar de ficar um pouco abor­recido. Todo aquele tempo à espera de que acontecesse algo, depois, assim que viro costas, o Mago vai-se embora sem mim!

Dormi bem naquela noite, mas não tão profundamente que não ouvisse a sineta a chamar-me para o desjejum. Desci a tempo e fui recompensado com o melhor prato de toucinho defumado com ovos que alguma vez comera na casa do Mago. Fiquei tão satisfeito que, antes mesmo de me levantar da mesa, falei em voz alta, usando as palavras que o meu pai proferia todos os Domingos depois do almoço.

— Estava excelente — disse. — Parabéns ao cozinheiro.

Mal acabei de pronunciá-las, as chamas brilharam com mais intensidade na lareira e um gato começou a ronronar. Não via nenhum gato, mas o barulho que fazia era tão sonoro que era capaz de jurar que as vidraças estremeciam. Obviamente o elogio fora apreciado.

Então, sentindo-me bastante satisfeito comigo mesmo, pus-me a caminho da aldeia para ir buscar as provisões. O sol brilhava num céu azul sem nuvens, as aves cantavam e, depois da chuva da véspera, o mundo parecia brilhante, resplandecente e novo.

Comecei pelo açougueiro, recolhi o saco do Mago, passei ao vende­dor de hortaliças e terminei na padaria. Havia alguns rapazes da aldeia encostados a um muro próximo. Não eram tantos quanto da última vez e o líder deles, o rapagão com pescoço de touro, não se encon­trava ali.

Lembrando-me do que o Mago dissera, fui ter com eles.

— Des­culpem da última vez — disse —, mas sou novo e não conhecia bem as regras. Mr. Gregory disse que podiam ficar com um bolo e uma maçã cada um. — Dizendo isto, abri o saco e entreguei a cada rapaz o que prometera. Os olhos deles arregalaram-se tanto que quase sal­taram das órbitas, e balbuciaram agradecimentos.

No alto do caminho estava alguém à minha espera. Era a garota chamada Alice, e mais uma vez se colocara na sombra das árvores, como se não gostasse da luz do sol.

— Pode ficar com uma maçã e um bolo — disse-lhe.

Para minha surpresa, ela abanou a cabeça.

— Não tenho fome de momento — respondeu. — Mas há algo que quero realmente. Preciso que honre a sua promessa. Preciso de ajuda.

Encolhi os ombros. Uma promessa é uma promessa e lembrava-me de a ter feito. Por conseguinte, que mais podia fazer, a não ser cumprir a minha palavra?

— Diga-me o que quer e farei o melhor que puder — repliquei.

Mais uma vez o rosto dela se iluminou num sorriso verdadeira­mente rasgado. Trazia um vestido preto e os sapatos bicudos mas, não sei como, aquele sorriso fez-me esquecer tudo isso. Mesmo assim, o que ela disse a seguir deixou-me apreensivo e estragou por completo o resto do dia.

— Não vou te contar agora — disse ela. — Fá-lo-ei esta noite, pode ter a certeza, assim que o Sol se puser. Venha ter comigo quando ouvir o sino do Velho Gregory.

Ouvi o sino mesmo antes do pôr do Sol e, com um peso no peito, desci a colina em direção ao círculo de salgueiros onde os caminhos se cruzavam. Não me parecia certo ela estar a tocar o sino daquela maneira. A menos que fosse trabalho para o Mago, mas tinha as mi­nhas dúvidas.

Lá no alto, os últimos raios de sol incidiam nos cumes das colinas rochosas com um tênue brilho cor-de-laranja, mas aqui em baixo, entre os vimes, estava cinzento e cheio de sombras.

Estremeci ao ver a garota porque ela puxava a corda apenas com uma mão e, no entanto, os badalos do sino grande soavam exageradamente. Apesar de ter os braços magros e a cintura estreita, devia ser muito forte.

Parou de tocar assim que apareci e pousou as mãos nas ancas en­quanto os ramos continuavam a dançar e a tremer lá em cima. Ficamos a olhar um para o outro uma eternidade, até os meus olhos serem atraí­dos para um cesto aos pés dela. Havia algo lá dentro coberto com um pano preto.

Pegou no cesto e estendeu-o na minha direção.

— O que é? — perguntei.

— É para você, para que possa cumprir a sua promessa. Aceirei-o, mas não me sentia satisfeito. Curioso, meti a mão lá den­tro para levantar o pano preto.

— Não, deixe assim — Alice falou bruscamente, um tom cortante na sua voz. — Não podem apanhar ar, senão estragam-se.

— O que são? — indaguei. Escurecia mais a cada minuto que pas­sava e começava a sentir-me nervoso.

— São apenas bolos.

— Muito obrigado — disse-lhe.

— Não são para você — retorquiu ela, começando a bailar-lhe um tênue sorriso aos cantos da boca. — Esses bolos são para a Velha Mãe Malkin.

Fiquei com a boca seca e um arrepio percorreu-me a espinha. Mãe Malkin, a bruxa viva que o Mago mantinha no poço no seu jar­dim.

— Não creio que Mr. Gregory vá gostar disto — disse. — Ele disse-me para me afastar dela.

— O Velho Gregory é um homem muito cruel — respondeu Alice. — A pobre Mãe Malkin está naquele buraco escuro e úmido no solo faz agora quase treze anos. Está certo tratar tão mal uma mu­lher idosa?

Encolhi os ombros. Aquilo também não me agradara. Era difícil concordar com o que ele fizera, mas alegara possuir muito bons mo­tivos para tal.

— Olha — prosseguiu ela —, não se meterá em apuros porque o Velho Gregory não precisa saber. Só lhe vai levar consolo. São os bolos preferidos dela, feitos pela família. Não há nada de mal nisso. É só para ela se fortalecer por causa do frio, que atinge até os ossos.

Voltei a encolher os ombros. Parecia que todos os melhores argu­mentos lhe pertenciam.

— Dê-lhe apenas um bolo cada noite. Três bolos para três noites. É melhor fazê-lo à meia-noite porque é nessa altura que ela tem mais apetite. Dê-lhe o primeiro esta noite.

Alice preparava-se para ir embora mas parou e virou-se para me sorrir.

— Podíamos ser bons amigos, você e eu — disse com uma ri­sada.

Depois desapareceu nas sombras cada vez mais densas.

 

               A VELHA MÃE MALKIN

De regresso à cabana do Mago, comecei a ficar preocupado, mas, quanto mais pensava no assunto, menos esclarecido me sentia. Sabia qual seria a reação do Mago. Deitaria fora os bolos e dar-me-ia uma longa lição sobre bruxas e os problemas com meninas que usam sa­patos bicudos.

Mas ele não estava ali, por isso excluía-se a hipótese. Havia duas coisas que me faziam ir à escuridão do jardim oriental, onde ele man­tinha as bruxas. A primeira era a minha promessa a Alice.

— Nunca prometa nada que não esteja preparado para cumprir — dizia-me sempre o meu pai. Mas eu tinha pouca escolha. Ele en­sinara-me a distinguir o certo do errado, e lá porque era o aprendiz do Mago, isso não significava que tivesse de mudar tudo na minha maneira de ser.

Em segundo lugar, não concordava que se mantivesse uma velha prisioneira num buraco no solo. Fazê-lo a uma bruxa morta ainda vá, mas não a uma viva. Lembro-me de me perguntar que crime terrível teria cometido para merecer tal destino.

Que mal poderia haver em dar-lhe três bolos? Um pouco de con­forto da família contra o frio e a umidade, nada mais. O Mago dis­sera-me que confiasse nos meus instintos e, depois de ponderar a questão, achei que estava a tomar a atitude certa.

O único problema era ter de ser eu a levar os bolos, à meia-noite. O escuro é mais que muito nessa altura, especialmente se não houver luar.

 

Aproximei-me do jardim oriental levando o cesto. Estava real­mente escuro, mas não tão escuro quanto eu esperara. Por um lado, a minha visão sempre foi bastante apurada à noite. A minha mãe sempre viu bem no escuro e acho que herdei isso dela. E, por outro lado, como estava uma noite sem nuvens, o luar ajudou-me a dar com o cami­nho.

Quando penetrei nas árvores, ficou subitamente mais frio e senti um arrepio. Quando cheguei à primeira sepultura, aquela que tinha a cercadura de pedra e as treze barras, senti ainda mais frio. A pri­meira bruxa fora enterrada ali. Era fraca, com pouca força, ou pelo menos o Mago assim afirmara. «Não precisa de se preocupar», disse para com os meus botões, esforçando-me por acreditar.

Decidir dar os bolos à Mãe Malkin à luz do dia era uma coisa, mas agora, ali no jardim, quase à meia-noite, já não tinha tanta certeza. Ele avisara-me mais de uma vez, por isso devia ser uma regra impor­tante e agora eu estava a violá-la.

Ouvia-se todo o tipo de sons tênues. Os sussurros e agitações provavelmente não eram nada, apenas pequenas criaturas que eu in­comodara ao sair do meu caminho, mas recordaram-me que não tinha o direito de estar ali.

O Mago informara-me que as outras duas bruxas estavam cerca de vinte passos mais adiante, por isso contei-os com cuidado. Cheguei a uma segunda sepultura que era exatamente igual à primeira. Aproximei-me mais, apenas para me certificar. Lá estavam as barras e podia ver-se a terra logo por baixo delas, solo calcado, sem uma única erva. Esta bruxa estava morta, mas ainda era perigosa. Era a tal que fora enterrada de cabeça para baixo. Isso significava que as solas dos pés estavam em algum lugar mesmo por debaixo do solo.

Quando olhei para a sepultura, pareceu-me ver algo mexer-se. Foi uma espécie de contração; provavelmente, apenas fruto da minha imaginação, ou talvez algum animal pequeno — um rato, um musaranho ou assim. Avancei rapidamente. E se tivesse sido um dedo do pé?

Mais três passos levaram-me ao local que procurava — não havia qualquer dúvida. Mais uma vez, tinha uma cercadura de pedras com treze barras. No entanto, apresentava três diferenças. Em primeiro lugar, a zona por debaixo das barras era um quadrado em vez de um losango. Em segundo lugar, era maior, provavelmente cerca de qua­tro passos por quatro. E em terceiro, não havia terra calcada por debaixo das barras, apenas um buraco muito negro no solo.

Parei e escutei cuidadosamente. Não houvera muitos ruídos até ao momento, apenas os tênues sussurros de criaturas notívagas e uma suave brisa. Uma brisa tão ligeira que mal dei por ela. No entanto, percebi quando cessou. De repente ficou tudo muito sossegado e a mata tornou-se estranhamente silenciosa.

Sabem, estivera à escuta para tentar ouvir a bruxa e agora sentia que era a mim que ela escutava.

O silêncio pareceu prolongar-se eternamente, até que, subita­mente, percebi uma leve respiração vinda do poço. De certa forma, aquele som fazia com que parecesse possível mover-me, de modo que dei mais alguns passos até me encontrar muito próximo da sua beira, com a ponta da minha bota mesmo a tocar na cerca­dura de pedra.

Naquele instante, lembrei-me de algo que o Mago me dissera a respeito de Mãe Malkin:

«A maior parte do seu poder escoou-se pela terra, mas ela adora­ria deitar as mãos a um rapaz como você.»

Recuei então um passo — não me afastando demais, mas as pa­lavras do Mago tinham-me feito pensar. E se saísse uma mão do poço e me agarrasse o tornozelo?

Querendo acabar aquilo rapidamente, chamei baixinho no escuro.

— Mãe Malkin — disse. — Trouxe-lhe uma coisa. É um presente da sua família. Está aí? Consegue ouvir-me?

Não obtive resposta, mas o ritmo da respiração lá em baixo pare­ceu acelerar. Então, não perdendo mais tempo e desesperado por vol­tar para o calor da casa do Mago, enfiei a mão no cesto e apalpei debaixo do pano. O meus dedos fecharam-se sobre um dos bolos. Pareceu-me mole e um bocado pegajoso e úmido. Retirei-o e segu­rei-o por cima das barras.

— É apenas um bolo — disse-lhe baixinho. — Espero que a faça sentir-se melhor. Trar-lhe-ei outro amanhã à noite.

Ditas aquelas palavras, larguei o bolo e deixei que ele caísse na es­curidão.

Devia ter voltado imediatamente para a cabana mas fiquei mais al­guns segundos à escuta. Não sei o que esperava ouvir, mas foi um erro.

Registrou-se um movimento no poço, como se algo se arrastasse pelo solo. E depois ouvi a bruxa começar a comer o bolo.

Pensei que alguns dos meus irmãos faziam ruídos desagradáveis à mesa, mas este era muito pior. Parecia ainda mais repugnante do que quando os nossos porcos grandes e peludos enfiavam os focinhos no balde da lavagem, uma mistura de fungadelas, resfôlegos e mastiga­ção juntamente com respiração pesada. Não soube se ela estava ou não a gostar do bolo, mas certamente fazia bastante barulho a comê-lo.

Naquela noite, tive imensa dificuldade em adormecer. Não pen­sava senão no poço escuro e que teria de lá voltar na noite seguinte.

Desci para o desjejum mesmo à tangente e o toucinho defu­mado estava queimado e o pão um bocado para o seco e duro. Não conseguia entender — ainda na véspera o trouxera do padeiro. E não ape­nas isso: o leite estava azedo. Acaso estaria o demônio zangado comi­go? Sabia o que eu andara a fazer? Estragara o desjejum de propósito como uma espécie de aviso?

O trabalho numa fazenda é duro, e eu estava acostumado a ele. O Mago não me destinara quaisquer tarefas, por isso não tinha nada que me ocupasse o dia. Fui até à biblioteca, pensando que provavel­mente não se importaria se eu tentasse encontrar algo útil que ler, mas, para minha decepção, a porta estava trancada.

O que me restava, a não ser ir dar um passeio? Decidi explorar as colinas rochosas, subindo primeiro Parlick Pike; uma vez no alto, sentei-me no monte de pedras e admirei a vista.

Estava um dia de céu limpo e dali conseguia ver o Condado es­tender-se por baixo de mim, com o mar distante de um azul convi­dativo e cintilante, mais para noroeste. A extensão rochosa continuava indefinidamente, grandes colinas com nomes como Calder Fell e Stake House Fell — tantas que parecia ser necessária uma vida inteira para as explorar.

Ali próximo ficava Wolf Fell e pus-me a pensar se haveria real­mente lobos na região. Os lobos podiam ser perigosos e diziam que no Inverno, quando o tempo arrefecia, eles por vezes caçavam em alcatéias. Bem, estávamos na Primavera, e claro que não vi qualquer sinal deles, mas isso não significava que não estivessem lá. Fez-me perce­ber que estar nas colinas rochosas depois de anoitecer poderia ser bas­tante assustador.

Não tão assustador, decidi, quanto ter de ir dar outro bolo de comer à mãe Malkin e não tardou que o Sol começasse a descer em direção ao ocaso e me visse obrigado a regressar a Chipenden.

Dei comigo mais uma vez a transportar o cesto pela escuridão do jardim. Desta vez, decidi despachar tudo rapidamente. Sem qualquer perda de tempo, atirei o segundo bolo pegajoso para o poço negro atra­vés das barras.

Só quando já era tarde demais, no preciso instante em que deixou os meus dedos, é que percebi de algo que me gelou logo o coração.

As barras por cima do poço tinham sido dobradas. A noite anterior estavam perfeitamente retas, treze barras de ferro paralelas. Agora, as do meio tinham quase largura suficiente para fazer passar uma cabeça.

Podiam ter sido dobradas por alguém no exterior, acima do solo, mas tinha as minhas dúvidas. O Mago dissera-me que os jardins e a casa estavam guardados e que ninguém conseguia entrar. Só não re­ferira como, nem pelo quê, mas palpitava-me que era algum tipo de demônio. Talvez o mesmo que preparava as refeições.

Por isso, só podia ser a bruxa. Ela devia ter saído de alguma forma pela parte lateral do poço e começado a trabalhar nas barras. De re­pente, fez-se luz no meu espírito sobre a verdade do que estava a acon­tecer.

Fora tão estúpido! Os bolos fortaleciam-na.

Ouvi-a, lá em baixo na escuridão, começar a comer o segundo bolo, emitindo os mesmos ruídos horríveis a mastigar, fungar e resfolegar. Abandonei rapidamente as árvores e voltei para a cabana. Cá para mim, ela nem sequer precisava do terceiro.

Após outra noite insone, tomara uma decisão. Estava resolvido a ir ver Alice, devolver-lhe o último bolo e explicar-lhe o motivo por que não podia cumprir a minha promessa.

Primeiro precisava encontrá-la. Logo a seguir ao desjejum, fui até a mata onde nos tínhamos encontrado da primeira vez e atravessei-a até ao fundo. Alice dissera que vivia «acolá», mas não havia sinal de quaisquer edifícios, apenas colinas pouco elevadas e vales e mais matas ao longe.

Pensando que seria mais rápido perguntar, desci à aldeia. Surpreen­dentemente, andavam por ali pouquíssimas pessoas, mas, tal como esperara, alguns dos rapazes rondavam a padaria. Parecia ser o seu local preferido. Talvez gostassem do cheiro. Eu cá gostava. O pão acabado de assar tem um dos melhores cheiros do mundo.

Não se mostraram muito simpáticos, atendendo a que da última vez que nos tínhamos encontrado eu dera um bolo e uma maçã a cada um deles. Provavelmente porque agora o rapagão de olhos miudinhos estava com eles. Mesmo assim, ouviram o que eu tinha a dizer. Não entrei em pormenores — disse-lhes apenas que precisava de encon­trar a garota que tínhamos visto na orla da mata.

— Eu sei onde ela talvez possa estar — disse o rapagão, com uma expressão muito carregada —, mas seria uma estupidez ir lá.

— E porque haveria de ser?

— Não ouviu o que ela disse? — perguntou, arqueando as sobrancelhas. — Ela disse que Lizzie dos Ossos era tia dela.

— Quem é Lizzie dos Ossos?

Entreolharam-se e abanaram as cabeças como se eu fosse maluco. Porque seria que todos tinham ouvido falar dela menos eu?

— Lizzie e a avó passaram aqui um Inverno inteiro, antes de Gregory lhes tratar da saúde. O meu pai está sempre a falar delas. Eram as bruxas mais medonhas que alguma vez houve nestas para­gens. Vivia com elas algo igualmente assustador. Parecia um homem mas era muito grande, com demasiados dentes para lhe caberem na boca. Foi o que o meu pai me contou. Ele disse que nessa altura, du­rante o tal Inverno longo, as pessoas nunca saíam depois de escurecer. Que grande Mago há de ser, se nunca ouviu falar de Lizzie dos Ossos!

Não me agradou nem um pouco aquela parte. Percebi que fora bem estúpido. Se tivesse falado ao Mago da minha conversa com Alice, ele teria percebido que Lizzie voltara e haveria feito algo para o remediar.

Segundo o pai do rapagão, Lizzie dos Ossos vivera numa fazenda cerca de cinco quilômetros a sueste da casa do Mago. Há anos que estava abandonada e nunca lá ia ninguém. Por isso era o local mais provável onde se encontrar de momento. Pareceu fazer sentido, para mim, porque fora nessa direção que Alice apontara.

Nesse momento, saiu da igreja um grupo de pessoas com expres­são soturna. Viraram a esquina numa fila desordenada e subiram a colina em direção à extensão rochosa, o pároco da aldeia na frente. Vestiam roupas quentes e muitas delas levavam cajados.

— O que vem a ser aquilo? — perguntei.

— Desapareceu uma criança a noite passada — respondeu um dos rapazes, cuspindo para as pedras. — De três anos. Acham que ela foi até lá acima. Mas, olha, já não é a primeira. Há dois dias, deram por falta de um bebê numa fazenda para as bandas de Long Ridge. Era demasiado pe­queno para andar, por isso deve ter sido levado. Acham que podem ter sido os lobos. Tem sido um mau Inverno e isso às vezes os traz até aqui.

As indicações que me deram revelaram-se bastante boas. Sem con­tar que voltei atrás a buscar o cesto de Alice, em menos de uma hora avistei a casa de Lizzie.

Naquela altura, com o sol forre, levantei o pano e examinei o úl­timo dos três bolos. Cheirava mal mas o aspecto era ainda pior. Parecia feito de pequenos pedaços de carne, pão e mais outras coisas que não consegui identificar. Estava úmido e muito pegajoso e quase negro. Nenhum dos ingredientes fora cozinhado, apenas ligado e compri­mido. Reparei então noutra coisa ainda mais horrível. Havia minús­culas coisinhas brancas a rastejar pelo bolo, que pareciam ser larvas.

Senti um arrepio, tapei-o com o pano e desci a colina até à fazenda abandonada. As vedações estavam partidas, faltava metade do telhado do celeiro e não se viam animais.

Porém, houve um pormenor que me deixou mesmo apreensivo. Saía fumaça da chaminé da casa da fazenda. Parecia estar alguém em casa e comecei a ficar preocupado com a coisa que tinha dentes demais para lhe caberem na boca.

Estava contando com o quê? Ia ser difícil. Como conseguiria falar com Alice sem ser visto pelos outros membros da família dela?

Quando parei na vertente, tentando decidir o que fazer em seguida, fiquei com o problema resolvido. Saiu uma figura esbelta e escura pela porta de trás da casa da fazenda e começou a subir a colina mesmo na minha direção. Era Alice — mas como soubera que eu estava ali? Havia árvores entre a casa da fazenda e o lugar onde me encontrava, mas nenhuma janela virada naquela direção.

Mesmo assim, ela não subia a colina por acaso. Veio direita a mim e estacou a cerca de cinco passos.

— O que quer? — perguntou rispidamente. — Só pode ser es­túpido, para vir até aqui. Felizmente para você que estão todos dor­mindo lá dentro.

— Não posso fazer o que me pediu — disse-lhe, estendendo o cesto.

Cruzou os braços e carregou o cenho.

— Porque não? — quis saber. — Prometeu-me, não foi?

— Não me disse o que iria acontecer — referi. — Ela comeu já dois bolos e está ficando mais forte. Já dobrou as barras por cima do poço. Mais um bolo e ficará livre e acho que você sabe. Não foi essa a idéia desde o início? — acusei, começando a ficar furioso. — Enganou-me, por isso a promessa já não conta.

Ela deu um passo na minha direção, mas agora a sua própria raiva fora substituída por algo mais. Subitamente, pareceu assustada.

— A idéia não foi minha. Eles obrigaram-me a fazê-lo — disse, gesticulando na direção da casa da fazenda. — Se não cumprir o que prometeu, estaremos ambos em maus lençóis. Vá lá, dê-lhe o ter­ceiro bolo. Que mal pode fazer? A Mãe Malkin já teve o castigo que merecia. Está na hora de libertá-la. Vá lá, dê-lhe o bolo e ela irá embora esta noite e nunca mais te incomodará.

— Acho que Mr. Gregory deve ter tido um motivo muito forte para a meter naquele poço — afirmei lentamente. — Sou apenas o novo aprendiz dele, por isso, como posso saber o que é melhor? Quando ele voltar vou contar-lhe tudo o que aconteceu.

Alice esboçou um pequeno sorriso — o tipo de sorriso de alguém que sabe algo que nós desconhecemos.

— Ele não vai voltar — disse. — Lizzie pensou em tudo. Tem bons amigos perto de Pendle. Fariam qualquer coisa por ela. Enganaram o Velho Gregory. Quando estiver perto, vai ter o que merece. Nesta altura provavelmente já estará morto e enterrado. Espera para ver se não tenho razão. Em breve nem sequer estará seguro lá em cima, na casa dele. Uma noite virão buscar-te. A menos, claro, que ajude agora. Nesse caso, talvez te dei­xem em paz.

Mal ela disse aquelas palavras, virei costas e subi a colina, dei­xando-a ali especada. Acho que ela me chamou diversas vezes, mas não ouvi. O que ela dissera sobre o Mago dava voltas dentro da minha cabeça.

Só mais tarde percebi que levava ainda o cesto, de maneira que o atirei junto com o último bolo para um rio; depois, de volta à cabana do Mago, não levei muito tempo a perceber o que acontecera e a decidir o que fazer de seguida.

Fora tudo planejado desde o começo. Tinham arranjado um ardil para afastar o Mago dali, sabendo que, na qualidade de seu novo aprendiz, eu seria ainda inexperiente e fácil de enganar.

Não me parecia que o Mago fosse tão fácil assim de matar, senão não teria sobrevivido tantos anos, mas não podia contar que ele chegasse a tempo de me ajudar. Tinha de impedir Mãe Malkin de sair do poço.

Necessitava desesperadamente de ajuda e pensei descer à aldeia, mas sabia ter à mão um tipo de ajuda mais especial. Então entrei na cozinha e sentei-me à mesa.

Fiquei à espera de levar um bofetão a qualquer momento, por isso falei rapidamente. Expliquei tudo o que sucedera, sem omitir nada. Disse depois que a culpa era minha e agradecia que me dessem uma ajuda.

Não sei o que esperava. Não me senti ridículo a falar sozinho para o ar porque estava muito transtornado e assustado, mas à medida que o silêncio se prolongava, fui percebendo que estivera a perder o meu tempo. Porque haveria o demônio de me ajudar? Tanto quanto sabia, estava encarcerado, preso à casa e ao jardim pelo Mago. Podia ser apenas um escravo, desesperado por se libertar; podia até estar satis­feito por me ver em apuros.

No momento em que me preparava para desistir e sair da cozinha, lembrei-me de algo que o meu pai costumava dizer antes de partir­mos para o mercado local: «Toda a gente tem o seu preço. É tudo uma questão de fazer uma proposta que agrade ao outro mas tão te preju­dique em demasia.»

Então fiz uma proposta ao demônio...

— Se me ajudar neste momento, não o esquecerei — disse-lhe. — Quando me tornar o próximo Mago, dar-te-ei folga todos os Domingos. Nesse dia, prepararei as minhas próprias refeições para que possa descansar e fazer o que lhe agradar.

De repente, senti algo roçar nas minhas pernas debaixo da mesa. Ouviu-se também um barulho, um ligeiro ronronar, e saiu de lá um grande gato cor de camarão que avançou na direção da porta.

Devia ter estado o tempo todo debaixo da mesa — era o que me dizia o senso comum. Todavia, tinha a certeza de que não era verdade, por isso segui o gato pelo corredor e depois escadas acima, onde se deteve do lado de fora da porra trancada da biblioteca. A seguir es­fregou nela o dorso, como costumam fazer os gatos nas pernas das mesas. A porta abriu-se lentamente, mostrando mais livros do que alguém alguma vez conseguiria ler numa vida inteira, dispostos orde­nadamente em filas de prateleiras paralelas. Entrei lá dentro, perguntando-me por onde começar. E quando me virei novamente, o gato cor de camarão desaparecera.

Cada livro tinha o título bem visível na capa. Havia muitos escri­tos em latim e uns quantos em grego. Não se via pó nem teias de ara­nha. A biblioteca estava tão limpa e bem cuidada quanto a cozinha.

Percorri a primeira fila até algo me despertar a atenção. Perto da janela, havia três prateleiras muito compridas cheias de livros de notas encadernados, tal como aquele que o Mago me dera, mas a prateleira de cima tinha livros maiores com datas nas capas. Cada um parecia abranger um período de cinco anos, de maneira que peguei no que estava ao fundo da prateleira e abri-o cuidadosamente.

Reconheci a caligrafia do Mago. Folheando-o, percebi que era uma espécie de diário. Continha o registro de cada trabalho que fi­zera e da quantia que lhe fora paga. Mais importante, explicava o que fizera a cada demônio, fantasma e bruxa.

Voltei a colocar o livro na prateleira e dei uma vista de olhos às ou­tras lombadas. Os diários vinham quase até à atualidade e recuavam centenas de anos. Ou o Mago era muito mais velho do que aparentava, ou os primeiros livros tinham sido escritos por outros Magos que ha­viam vivido há séculos. De repente, perguntei-me se, mesmo que Alice estivesse certa e o Mago não voltasse, existia a possibilidade de eu con­seguir aprender tudo o que era necessário estudando apenas aqueles diários. Melhor ainda, em algum lugar naqueles milhares e milhares de páginas poderia estar a informação que me ajudaria naquele momento.

Mas como poderia encontrá-la? Bem, poderia levar tempo, mas a bruxa estivera no poço quase treze anos. Tinha de haver uma descri­ção da maneira como o Mago a pusera lá. Eis senão quando, numa prateleira inferior, vi algo muito melhor.

Os livros ali eram ainda maiores, cada um dedicado a um tema em particular. Um intitulava-se Dragões e Serpentes. Estavam arrumados por ordem alfabética, pelo que não demorei muito a encontrar exatamente aquilo que procurava.

Bruxas.

Abri-o com mãos trêmulas e verifiquei que estava dividido nas quatro secções previsíveis...

As Malévolas, As Benévolas, As Falsamente Acusadas e As Desconhecedoras.

Passei rapidamente à primeira secção. Estava tudo escrito na cali­grafia legível do Mago e, mais uma vez, cuidadosamente organizado por ordem alfabética. Numa questão de segundos, encontrei uma página intitulada: Mãe Malkin.

Era pior do que eu esperara. Mãe Malkin era quase tão má quanto se podia imaginar. Vivera em muitos lugares e em cada zona onde permanecera algum tempo acontecera algo terrível, tendo a pior coisa de todas ocorrido num pântano a oeste do Condado.

Vivera ali numa fazenda, proporcionando guarida às mulheres jovens à espera de bebê mas que não tinham maridos a apoiá-las. Era daí que vinha a denominação «Mãe». Isto continuara durante vários anos, mas algumas das mulheres jovens nunca mais haviam sido vistas.

Estivera um filho seu a viver ali com ela, um homem novo, de força incrível, chamado Tusk. Tinha dentes grandes e assustava tanto as pes­soas que nunca ninguém se aproximava do lugar. Mas a população local acabara por se revoltar e Mãe Malkin fora obrigada a fugir para Pendle. Após a sua partida, tinham sido encontradas as primeiras se­pulturas. Havia um campo cheio de ossos e carne putrefata, princi­palmente os restos mortais das crianças que ela assassinara para ali­mentar a sua necessidade de sangue. Alguns dos corpos pertenciam àquelas mulheres; em cada caso, o corpo fora esmagado, as costelas partidas ou estaladas.

Os rapazes da aldeia tinham falado de uma coisa com demasiados dentes para lhe caberem na boca. Poderia tratar-se do tal Tusk, filho de Mãe Malkin? Um filho que provavelmente atacara aquelas mulhe­res, tirando-lhes brutalmente a vida?

Fiquei com as mãos a tremer de tal forma que mal consegui man­ter o livro suficientemente firme para o ler. Parecia que algumas bru­xas recorriam à «magia dos ossos». Eram necromantes que obtinham o seu poder invocando os mortos. Mas Mãe Malkin era muito pior. Mãe Malkin usava a «magia do sangue». Obtinha o seu poder usando sangue humano e gostava particularmente do sangue de crianças.

Pensei nos bolos pretos e pegajosos e senti um arrepio. Desa­parecera uma criança em Long Ridge. Uma criança jovem demais para andar. Teria sido raptada por Lizzie dos Ossos? Teria o seu sangue sido usado para fazer aqueles bolos? E a segunda criança, aquela de que os aldeãos andavam à procura? E se Lizzie dos Ossos a tivesse raptado também, para que, quando Mãe Malkin fugisse do poço, pudesse usar logo o sangue dela para efetuar a sua magia? A criança podia estar neste momento na casa de Lizzie!

Fiz um esforço para continuar a ler.

Há treze anos, no princípio do Inverno, Mãe Malkin viera viver em Chipenden, trazendo consigo a neta, Lizzie dos Ossos. Quando regressara da sua casa de Inverno em Anglezarke, o Mago não perdera tempo a tratar dela. Depois de expulsar Lizzie dos Ossos, prendera Mãe Malkin com uma corrente de prata e levara-a para o poço no seu jardim.

O Mago parecia estar a argumentar consigo próprio no relato. Via-se que não lhe agradava enterrá-la viva, mas explicava por que mo­tivo tivera de o fazer. Acreditava que seria por demais perigoso matá-la: uma vez morta, teria poderes para voltar e se tornaria ainda mais forte e perigosa do que antes.

A questão era: poderia ela ainda escapar? Só com um bolo conse­guira dobrar as barras. Apesar de não ter comido o terceiro, dois se­riam talvez suficientes. Podia ainda sair do poço à meia-noite. Como agir?

Se era possível prender uma bruxa com uma corrente de prata, então talvez valesse a pena tentar passá-la por cima das barras dobradas, para impedi-la de sair do poço. O problema era que a corrente de prata es­tava no saco do Mago, que o acompanhava sempre para todo o lado.

Vi outra coisa quando saí da biblioteca. Estava ao lado da porta, por isso não reparara ao entrar. Era uma longa lista de nomes em papel amarelo, exatamente trinta e todos escritos pelo punho do próprio Mago. O meu nome, Thomas J. Ward era mesmo o último, e logo acima dele estava o nome William Bradley, que fora riscado com um traço horizontal; ao lado viam-se as letras DEP.

Fiquei então completamente gelado, porque sabia que queriam dizer Descansa em Paz e que Billy Bradley morrera. Mais de dois ter­ços dos nomes no papel tinham sido riscados; daqueles, outros nove tinham morrido.

Calculei que uma parte deles tivesse sido simplesmente riscada por­que não haviam conseguido alcançar o nível de aprendizes, talvez nem chegando sequer ao final do primeiro mês. Aqueles que tinham mor­rido eram mais preocupantes. Perguntei-me o que sucedera a Billy Bradley e lembrei-me do que Alice dissera: «Não queira ter o mesmo fim que o último aprendiz do Velho Gregory.»

Como é que Alice sabia o que acontecera a Billy? Provavelmente seria do conhecimento de toda a gente na localidade, ao passo que eu era um forasteiro. Ou tivera a família dela algo a ver com isso? Esperava que não, mas só serviu para aumentar as minhas preocupações.

Não perdendo mais tempo, desci à aldeia. O açougueiro parecia ter algum contato com o Mago. De que outra forma arranjava o saco onde colocar a carne? Decidi então falar-lhe das minhas desconfianças para tentar persuadi-lo a ir procurar a criança desaparecida na casa de Lizzie.

A tarde ia já no fim quando cheguei à loja dele, e esta estava fecha­da. Bati às portas de cinco cabanas antes de alguém me responder. Confirmaram o que eu já suspeitava: o açougueiro partira com os outros homens para procurar nas colinas rochosas. Não voltariam senão na tarde do dia seguinte. Parecia que depois de andarem à procura nas colinas da região, iam atravessar o vale até à aldeia no sopé de Long Ridge, onde desaparecera a primeira criança. Ali efetuariam uma busca mais exaustiva e passariam a noite.

Tinha de encarar a realidade. Estava entregue a mim próprio.

Pouco depois, triste e receoso, subia o caminho em direção à casa do Mago. Sabia que se Mãe Malkin saísse da sepultura, então a criança estaria morta antes do amanhecer.

Sabia igualmente que era o único que poderia tentar fazer algo para impedi-lo.

 

               NA MARGEM DO RIO

De volta à cabana, fui ao quarto onde o Mago guardava as roupas de caminhar. Escolhi uma das suas capas velhas. Claro que me estava enorme e a bainha dava-me quase pelos tornozelos, enquanto o capuz me caía constantemente sobre os olhos. Mesmo assim, não deixaria entrar o frio mais desagradável. Levei também emprestado um dos seus bordões, o que melhor me serviria de apoio: era mais curto do que os outros e ligeiramente mais grosso numa das extremidades.

Era quase meia-noite quando deixei finalmente a cabana. O céu es­tava iluminado e havia uma Lua cheia que acabara de surgir por cima das árvores, mas sentia o cheiro a chuva e soprava um vento refrescante de oeste.

Fui até ao jardim e encaminhei-me diretamente para o poço de Mãe Malkin. Estava cheio de medo, mas alguém tinha de o fazer e quem mais a não ser eu? Além disso, a culpa fora minha. Se ao menos tivesse contado ao Mago que encontrara Alice e que ela dissera aos ra­pazes que Lizzie estava de volta! Ele teria resolvido logo tudo. Não teria sido atraído a Pendle.

Quanto mais pensava, pior era. A criança de Long Ridge podia não ter morrido. Sentia-me culpado, tão culpado, e não conseguia su­portar a idéia de outra criança poder morrer e também isso ser culpa minha.

Passei a segunda sepultura onde a bruxa morta estava enterrada de cabeça para baixo, e avancei muito lentamente, em bicos de pés, até alcançar o poço.

Um raio de luar filtrava-se por entre as árvores, iluminando-o, pelo que não havia dúvida em relação ao que acontecera.

Chegara tarde demais.

As barras haviam sido afastadas ainda mais, estavam quase com a forma de um círculo. Até o açougueiro teria conseguido enfiar os seus ombros maciços por aquele intervalo.

Espreitei para a escuridão do poço mas não consegui ver nada. Acho que tinha remotamente esperança de que ela pudesse ter-se esgotado a dobrar as barras e estivesse agora por demais cansada para subir.

A sorte sorriu-me. Naquele momento, uma nuvem encobriu a Lua, tornando tudo muito mais sombrio, mas consegui ver o mato pisa­do. Percebi a direção que ela tomara. Havia luz suficiente para se­guir o seu rasto.

Então, fui atrás dela pelo escuro. Não me deslocava rápido demais e estava a ser muito, muito cauteloso. E se ela estivesse escondida à minha espera, lá mais adiante? Sabia também que prova­velmente não fora muito longe. Por um lado, não passariam mais de cinco minutos ou assim da meia-noite. Independentemente do con­teúdo dos bolos que ela comera, sabia que a magia negra devia ter surtido alguma influência na recuperação das forças. Era uma magia que supostamente seria mais forte durante as horas de escuridão — particularmente à meia-noite. Ela só comera dois bolos, não três, pelo que isso jogava a meu favor, mas pensei na terrível força necessária para dobrar aquelas barras.

Uma vez fora do abrigo das árvores, não tive dificuldade em seguir o rasto dela sobre a erva. Descia a colina mas numa direção que a afastava da cabana de Lizzie dos Ossos. A princípio, fiquei intrigado, até me lembrar do rio lá em baixo na ravina. Uma bruxa malévola não conseguia atravessar água corrente — o Mago ensinara-me isso — por conseguinte, teria de seguir ao longo das suas margens até ele se curvar sobre si mesmo, deixando-lhe o caminho livre.

Uma vez avistado o rio, parei na colina e perscrutei a terra lá em baixo. A Lua saiu de trás da nuvem, mas no começo, mesmo com a sua ajuda, não conseguia ver nada junto ao rio porque havia árvores em ambas as margens, projetando sombras escuras.

Mas, então, reparei subitamente em algo muito estranho. Havia um rasto prateado na margem de cá. Só era visível quando o luar inci­dia nele, mas fazia lembrar o rasto brilhante deixado por um caracol. Alguns segundos depois vi uma coisa escura, umbrosa, toda curvada, arrastando-se muito perto da margem do rio.

Comecei a descer a colina o mais rapidamente possível. A minha intenção era interceptá-la antes de chegar à curva do rio e avançar di­retamente para casa de Lizzie dos Ossos. Consegui-o e fiquei ali, o rio à minha direita, virando para jusante. Mas a seguir vinha a parte difícil. Tinha agora de enfrentar a bruxa.

Eu tremia e agitava-me e estava tão sem fôlego que se poderia pen­sar que passara uma hora ou mais a correr para baixo e para cima pelas colinas. Era um misto de medo e nervos e dava a impressão de os meus joelhos irem ceder a qualquer momento. Só apoiando-me pesadamente no bordão do Mago é que me conseguia manter de pé.

Para rio, este nem tinha assim muita largura, mas era profundo, engrossado pelas chuvas da Primavera, a ponto de quase galgar as mar­gens. A água deslocava-se também rapidamente, passando por mim para se ir precipitar na negrura por debaixo das árvores onde estava a bruxa. Olhei com muito cuidado, mas levei ainda alguns momentos a encontrá-la.

Mãe Malkin deslocava-se na minha direção. Era um tanto mais escura do que as sombras das árvores, uma espécie de negrura onde podíamos cair, uma negrura que nos engoliria para sempre. Ouvi-a então, mesmo acima do ruído feito pelo rio de águas rápidas. Não era apenas o som dos seus pés descalços, que emitiam uma espé­cie de ruído deslizante ao avançarem para mim pela erva comprida à beira do rio. Não — havia outros sons que lhe viriam da boca e tal­vez do nariz. O mesmo tipo de ruídos que fizera quando lhe dera o bolo. Havia resfôlegos e fungadelas que me trouxeram mais uma vez à mente a lembrança dos porcos peludos a comerem do balde da la­vagem. Depois um som diferente, um ruído de sugar.

Quando ela saiu de baixo das árvores para campo aberto, o luar in­cidiu nela e vi-a bem pela primeira vez. Tinha a cabeça curvada, o rosto escondido por uma massa emaranhada de cabelo branco e grisa­lho, pelo que dava a idéia de estar a olhar para os pés, que se viam mesmo por debaixo do vestido escuro que lhe descia até aos tornoze­los. Usava também uma capa preta e, ou era demasiado comprida para ela ou os anos que passara na terra úmida tinham-na feito encolher. Arrastava-a pelo solo atrás de si e era este arrastar pela erva que pa­recia estar a deixar o rasto prateado.

O vestido apresentava-se manchado e rasgado, o que não causava surpresa, mas algumas das nódoas eram recentes — manchas escuras e úmidas. Escorria algo para a erva ao lado dela e as gotas vinham do que ela agarrava com força na mão esquerda.

Era um rato. Estava comendo um rato. A comê-lo cru.

Não parecia ter dado ainda por mim. Estava agora muito perto e, se não acontecesse nada, colidiria comigo. Subitamente, tossi. Não era para a avisar. Tratou-se de uma tosse nervosa e nada intencional.

Ela olhou então para mim, erguendo para o luar um rosto que era algo saído de um pesadelo, um rosto que não pertencia a uma pessoa viva. Oh, mas ela estava viva e bem viva. Via-se bem pelos ruídos que fazia ao comer aquele rato.

Contudo, houve algo mais nela que me apavorou a ponto de quase desfalecer ali. Eram os seus olhos. Pareciam dois carvões em brasa ardendo dentro das órbitas, dois pontos vermelhos de fogo.

E depois falou comigo, a sua voz algo entre um murmúrio e um resmungo. Pareciam folhas mortas secas a roçagar em conjunto ao vento de finais do Outono.

— Olha, um rapaz — disse ela. — Gosto de rapazes. Venha aqui, rapaz.

Claro que não me mexi. Limitei-me a ficar ali pregado ao chão.

Sentia-me tonto e de cabeça vazia.

Ela continuava a avançar para mim e os seus olhos pareciam ir fi­cando maiores. Mas não eram apenas os olhos dela: todo o seu corpo dava a impressão de estar a inchar. Expandia-se numa imensa nuvem de negrura que dentro de momentos escureceria os meus olhos para sempre.

Sem pensar, levantei o bordão do Mago. As minhas mãos e os meus braços é que o fizeram, não eu.

— O que é isso, rapaz, uma varinha de condão? — resmungou. Depois riu-se sozinha e largou o raro morto, erguendo ambos os bra­ços na minha direção.

Era a mim que ela queria. O meu sangue. Em absoluto terror, o meu corpo começou a oscilar de um lado para o outro. Eu fazia lem­brar uma árvore nova agitada pelos primeiros sopros de um vento, o primeiro vento tempestuoso de um Inverno escuro que nunca iria ter­minar.

Eu podia ter morrido então, na margem daquele rio. Não havia ninguém para me ajudar e sentia-me incapaz de me ajudar a mim próprio.

Mas eis que aconteceu algo...

O bordão do Mago não era uma varinha mágica, e não existe apenas um tipo de magia. Os meus braços invocaram algo especial, movendo-se mais depressa do que eu conseguia sequer pensar.

Levantaram o bordão e atiraram-no com força, apanhando a bruxa na têmpora com uma pancada forte.

Ela soltou uma espécie de resmungo e tombou para o lado, no rio. Ouviu-se um grande chapinhar e ela foi submersa mas apareceu muito perto da margem, cerca de cinco ou seis passos logo abaixo. A princípio julguei que tivesse sido o seu fim, mas, para meu horror, o braço esquerdo saiu da água e agarrou um tufo de erva. A seguir, o outro braço estendeu-se para a margem e ela começou a arrastar-se para fora de água.

Sabia que tinha de fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais. Então, usando toda a minha força de vontade, obriguei-me a dar um passo na sua direção, enquanto ela ia içando mais o corpo para a mar­gem.

Quando me aproximei o suficiente, fiz algo que continuo a recor­dar vivamente. Ainda tenho pesadelos. Mas havia outra alternativa? Era ela ou eu. Só um de nós ia sobreviver.

Atingi a bruxa com a extremidade do bordão. Atingi-a com força e continuei a bater-lhe até ela finalmente se soltar da margem e ser levada para a escuridão.

Mas ainda não terminara. E se ela conseguisse sair da água mais a adiante? Podia ainda assim alcançar a casa de Lizzie dos Ossos. Tinha de me certificar de que isso não sucedia. Sabia que era errado matá-la e que um dia provavelmente ela voltaria mais forte do que nunca, mas como não dispunha de uma corrente de prata, não a podia prender. O que importava era o presente, não o futuro. Por mais difícil que fosse, sabia que tinha de seguir o rio em direção às árvores.

Muito lentamente, comecei a caminhar ao longo da margem do rio, parando a cada cinco ou seis passos para escutar. Ouvia apenas o vento a suspirar tenuamente através dos ramos lá em cima. Estava muito escuro, apenas um esporádico raio de luar conseguia penetrar a abóbada de folhas, cada um como uma comprida lança de prata cra­vada no solo.

Da terceira vez que parei, aconteceu. Sem qualquer aviso. Não ouvi nada. Senti simplesmente. Uma mão deslizou até à minha bota e antes que me pudesse afastar, agarrou ferreamente o meu tornozelo esquerdo.

Senti a força daquele aperto. Era como se o meu tornozelo estivesse a ser esmagado. Quando olhei para baixo, tudo o que consegui ver foi um par de olhos a fitar-me da escuridão. Apavorado, bati às cegas na direção da mão invisível que me agarrava o tornozelo.

Tarde demais. O meu tornozelo foi torcido violentamente e caí por terra, o impacto expulsando todo o ar do meu corpo. E, pior, o bordão voou da minha mão, deixando-me indefeso.

Fiquei ali um momento ou dois, tentando recuperar o fôlego, até me sentir arrastado para a margem do rio. Quando ouvi o chapinhar, soube o que estava acontecendo. Mãe Malkin servia-se de mim para sair do rio. As pernas da bruxa debatiam-se na água e calculei que fosse acontecer uma de duas coisas: ou ela conseguia sair ou eu iria acabar no rio com ela.

Desesperado por fugir, rebolei para a esquerda, destorcendo o tor­nozelo. Ela não o largou, de maneira que voltei a rebolar e imobilizei-me com o rosto comprimido contra a erva úmida. Avistei então o bordão, a sua extremidade mais grossa banhada por um raio de luar. Estava fora do meu alcance, à distância de três ou quatro passos.

Rebolei na direção dele. Rebolei uma vez e outra, cravando os dedos na terra macia, torcendo o meu corpo como um saca-rolhas. Mãe Malkin agarrava com força o meu tornozelo, mas era tudo o que ela tinha. A metade inferior do seu corpo continuava dentro de água, por isso, apesar da sua enorme força, não conseguia me impedir de rebo­lar nem de torcê-la na água acompanhando os meus movimentos.

Alcancei finalmente o bordão e apontei-o bruscamente na direção da bruxa. Mas a mão dela deslocou-se para o luar e agarrou a outra extremidade.

Pensei que acabara então. Julguei que era o meu fim, mas, para sur­presa minha, Mãe Malkin gritou subitamente muito alto. Todo o seu corpo ficou rígido e os olhos se reviraram. Depois soltou um longo e profundo suspiro e ficou muito silenciosa.

Permanecemos ambos estendidos na margem do rio o que pareceu uma eternidade. Só o meu peito subia e descia, ao respirar; Mãe Mal­kin não se mexia sequer. Quando finalmente o fez, não foi para res­pirar. Muito lentamente, uma mão largou o meu tornozelo e a outra soltou o bordão e ela deslizou pela margem para o rio, entrando na água quase sem ruído. Não sabia o que sucedera, mas ela estava morra — disso tinha certeza.

Vi o corpo dela ser levado da margem pela corrente e rodopiar direito ao meio do rio. Ainda iluminada pela lua, a cabeça dela mer­gulhou. Desaparecera. Morrera de vez.

 

                 POBRE BILLY

Fiquei tão fraco depois que me ajoelhei, e passados instantes senti-me indisposto — mais indisposto do que alguma vez estivera. Vomitei sem parar, mesmo quando já só saía bílis pela minha boca e as minhas entranhas pareciam dilaceradas e reviradas.

Por fim acabou e consegui levantar-me. Mesmo assim, a minha res­piração demorou bastante a regularizar e o meu corpo a parar de tremer. Só queria voltar para casa do Mago. Já fizera o suficiente para uma noite, não?

Mas não podia — a criança estava em casa de Lizzie. Era o que os meus instintos me diziam. A criança estava prisioneira de uma bruxa que era capaz de assassinar. Portanto, eu não tinha alternativa. Não havia mais ninguém senão eu e se não ajudasse, então quem o faria? Tinha de ir a casa de Lizzie dos Ossos.

Estava a formar-se uma tempestade a oeste, uma linha escura e irregu­lar de nuvens que encobria as estrelas. Muito em breve começaria a chover, mas quando desci a colina em direção à casa, a lua ainda brilhava — uma Lua cheia, maior do que eu alguma vez me lembrava de a ter visto.

A minha sombra projetava-se lá à frente, ao caminhar. Vi-a crescer, e quanto mais me aproximava de casa, maior ela parecia ficar. Tinha o capuz puxado e levava o bordão do Mago na mão esquerda, pelo que a sombra já não parecia pertencer-me. Movia-se à minha frente, até que incidiu na casa de Lizzie dos Ossos.

Virei-me então, esperando em parte ver o Mago de pé atrás de mim. Não estava lá. Fora apenas uma ilusão da luz. Continuei a avan­çar até transpor o portão aberto e entrar no pátio.

Parei diante da porta da frente para pensar. E se eu chegara tarde demais e a criança já estivesse morta? Ou, então, se o seu desapareci­mento não fora obra de Lizzie e eu me expusera desnecessariamente ao perigo? A minha mente não parava de pensar, mas, tal como suce­dera na margem do rio, o meu corpo sabia o que tinha a fazer. Antes que a conseguisse suster, a minha mão esquerda bateu pesadamente três vezes com o bordão na madeira.

Durante alguns momentos reinou o silêncio, seguido do som de passos e uma súbita nesga de luz debaixo da porta.

Enquanto esta se abria lentamente, recuei um passo. Para meu alí­vio, era Alice. Segurava uma lanterna ao nível da cabeça pelo que uma metade do seu rosto era iluminada enquanto a outra estava no escuro.

— O que quer? — perguntou, a sua voz cheia de raiva.

— Sabe o que quero — repliquei. — Vim buscar a criança. A criança que vocês roubaram.

— Não seja ridículo — falou rispidamente. — Vá embora antes que seja tarde demais. Eles foram encontrar-se com Mãe Malkin. Podem voltar a qualquer instante.

De repente, uma criança começou a chorar, um lamento fraco vindo de algum lugar dentro da casa. Afastei então Alice e entrei.

Havia apenas uma única vela a tremular no corredor estreito, mas as divisões propriamente ditas estavam às escuras. A vela era invulgar. Nunca vira uma feita de cera preta, mas agarrei-a na mesma e deixei que os ouvidos me guiassem até ao quarto certo.

Abri a porta. O quarto não tinha qualquer mobília e a criança estava deitada no chão, em cima de um monte de palha e bocados de pano.

— Como se chama? — perguntei, esforçando-me ao máximo por sorrir. Encostei o bordão na parede e aproximei-me.

A criança parou de chorar e pôs-se em pé, vacilante, de olhos muito arregalados. — Não se preocupe. Não precisa de ter medo — disse-lhe, tentando incutir a maior tranqüilidade possível à minha voz. — Vou levá-lo à sua mãe.

Pousei a vela no chão e peguei na criança. Cheirava tão mal quanto o resto do quarto e estava fria e molhada. Envolvi-a com o braço di­reito e embrulhei-a o melhor que pude na minha capa.

Subitamente, a criança falou.

— Sou Tommy — disse. — Sou Tommy.

— Bem, Tommy — disse-lhe —, temos o mesmo nome. Também me chamo Tommy. Agora está seguro. Vai voltar para casa.

Ditas aquelas palavras, peguei no meu bordão, dirigi-me para o corredor e saí pela porta da frente. Alice estava no pátio, próximo do portão. A lanterna apagara-se, mas a lua brilhava ainda e, ao encami­nhar-me para ela, projetou a minha sombra na parte lateral do celeiro, uma sombra gigante, dez vezes maior do que eu.

Tentei passar, mas ela barrou-me diretamente o caminho, pelo que fui obrigado a parar.

— Não se intrometa! — advertiu-me, a sua voz muito ríspida, os dentes reluzindo brancos e afiados ao luar. — Este assunto não te diz respeito.

Não estava disposto a perder tempo com discussões e, quando avan­cei direito a ela, Alice não tentou impedir-me. Saiu do meu caminho e gritou atrás de mim: — É um tolo. Devolva-o antes que seja tarde demais. Eles irão atrás de você. Nunca conseguirá escapar.

Não me dei ao trabalho de responder. Nem sequer olhei para trás. Transpus o portão e comecei a subir, afastando-me da casa.

A chuva principiou então a cair com intensidade, diretamente sobre o meu rosto. Era o tipo de chuva que o meu pai costumava cha­mar «chuva que molha». Toda a chuva molha, mas alguns tipos pare­cem deixar-nos encharcados mais rapidamente do que outros. Esta era mesmo muito molhada e dirigi-me para casa do Mago o mais rapi­damente possível.

Não sabia ao certo se estaria seguro mesmo ali. E se o Mago tivesse realmente morrido? Continuaria o demônio a guardar a casa e o jardim?

Não tardaram a surgir preocupações mais imediatas. Comecei a perceber que era seguido. Da primeira vez que o senti, parei e pus-me à escuta, mas não havia nada senão o uivar do vento e a chuva a fustigar as árvores e a tamborilar na terra. Também não tinha grande visibilidade porque agora estava muito escuro.

Continuei então, dando passos ainda maiores, esperando estar a se­guir na direção certa. Uma vez, me deparei com uma sebe espessa e alta de espinheiro-alvar e tive de efetuar um longo desvio até en­contrar um portão, sentindo o tempo todo que o perigo lá atrás esta­va cada vez mais próximo. Só depois de ter alcançado uma pequena mata é que tive certeza de que alguém estava ali. Subindo uma coli­na, parei para respirar perto do seu cume. A chuva abrandara por um momento e olhei para a escuridão lá atrás, na direção das árvores. Ouvi o estalar e partir de ramos. Alguém se deslocava muito rapida­mente pela mata, direito para mim, não se preocupando com o lugar onde punha os pés.

No topo da colina olhei mais uma vez para trás. O primeiro re­lâmpago iluminou o céu e o solo lá em baixo e vi duas figuras saírem das árvores e começarem a subir a vertente. Uma delas era feminina, a outra tinha a forma de um homem, grande e corpulento.

Quando o trovão voltou a ribombar, Tommy desatou a chorar. — Não gosto de trovões! — lamuriou-se. — Não gosto de trovões!

— Os trovões não podem lhe fazer mal, Tommy — disse-lhe, sa­bendo que não era verdade. Também me metiam medo. Um dos meus tios fora atingido por um raio quando tentava recolher o gado. Acabara por morrer. Não era seguro andar ao ar livre com um tempo daqueles. Mas, apesar de os relâmpagos me apavorarem, não deixavam de ter a sua utilidade. Mostravam-me o caminho, cada clarão intenso iluminando-me o percurso de volta a casa do Mago.

Não tardou que a respiração me saísse entrecortada, um misto de medo e exaustão, ao mesmo tempo que fazia um esforço para seguir cada vez mais depressa, esperando apenas que estivéssemos a salvo mal entrássemos no jardim do Mago. Ninguém estava autorizado a pôr os pés na propriedade do Mago a menos que fosse convidado — dizia constantemente de mim para mim, porque era a nossa única hipótese. Se conseguíssemos lá chegar primeiro, o demônio proteger-nos-ia.

Avistara as árvores, o banco debaixo delas, o jardim à espera do outro lado, quando escorreguei na erva molhada. A queda não foi aparatosa, mas Tommy começou a chorar ainda mais alto. Quando consegui levan­tá-lo, ouvi alguém correr atrás de mim, os pés batendo com força na terra.

Olhei para trás, respirando a custo. Foi um erro. O meu persegui­dor vinha cerca de cinco ou seis passos à frente de Lizzie e alcançava-me rapidamente. Um novo relâmpago e vi a metade inferior do rosto dele. Parecia ter chifres saindo de cada lado da boca e, ao correr, movia a cabeça de um lado para o outro. Recordei o que lera na biblio­teca do Mago a respeito das mulheres mortas que tinham sido encon­tradas com as costelas esmagadas. Se Tusk me apanhasse, me faria o mesmo.

Por um momento, fiquei pregado ao chão, mas ele começou a emi­tir um bramido, tal como um touro, e isso pôs-me novamente em mo­vimento. Neste momento, quase corria. Se pudesse, teria acelerado, mas carregava Tommy e estava cansado demais, as minhas pernas pesadas e lentas, a respiração áspera na garganta. Contava ser agarrado por trás a qualquer momento, mas passei o banco onde o Mago me dera lições e depois, finalmente, vi-me debaixo das primeiras árvores do jardim.

Mas estaria a salvo? Se assim não fosse, seria o fim de ambos, por­que era impossível caminhar mais rapidamente do que Tusk até à casa. Cessei de correr e tudo o que consegui foi dar alguns passos antes de parar completamente, tentando recuperar o fôlego.

Foi nesse instante que algo roçou pelas minhas pernas. Olhei para baixo, mas estava escuro demais para ver fosse o que fosse. Primeiro senti a pressão, a seguir ouvi um ronronar, uma vibração cava que sa­cudiu o chão por debaixo dos meus pés. Senti-o passar por mim, em direção à orla das árvores, posicionando-se entre nós e aqueles que nos tinham seguido. Agora não ouvia nada correr, mas escutei uma outra coisa.

Imaginem o miado zangado de um gato macho multiplicado por cem. Era uma mistura semelhante a um miado vibrante e um grito, enchendo o ar com o seu desafio admoestador, um som que se pode­ria ouvir numa extensão de quilômetros. Era o som mais aterrador e ameaçador que jamais ouvira e percebi então por que motivo os aldeãos nunca se aproximavam da casa do Mago. Aquele grito anun­ciava a morte.

Atravessem esta linha, dizia, e arrancar-lhes-ei o coração. Atravessem esta linha, e reduzir-lhes-ei ossos a pasta e sangue coagulado. Atravessem esta linha e arrepender-se-ão de terem nascido.

Por conseguinte, de momento estávamos a salvo. Entretanto, Lizzie dos Ossos e Tusk correriam colina abaixo. Ninguém seria tolo a ponto de se meter com o demônio do Mago. Não admirava que tivessem pre­cisado de mim para dar os bolos de sangue à Mãe Malkin.

Havia sopa quente e um fogo vivo à nossa espera na cozinha. Em­brulhei o pequeno Tommy num cobertor grosso e dei-lhe um pouco de sopa. Mais tarde, trouxe para baixo duas almofadas e preparei-lhe uma cama perto da lareira. Dormiu que nem uma pedra enquanto eu ouvia o vento a uivar lá fora e a chuva a bater com força nas janelas.

Foi uma noite longa, mas eu estava quente e confortável e sentia-me em paz na casa do Mago, que era um dos lugares mais seguros em todo o mundo. Sabia agora que nada de indesejável conseguiria sequer entrar no jardim, muito menos transpor a soleira da porta. Era mais segura do que um castelo com ameias altas e um fosso largo. Comecei a ver o demônio como meu amigo, um amigo mesmo muito poderoso.

Pouco antes do meio-dia, levei Tommy até à aldeia. Os homens tinham já voltado de Long Ridge e, quando me dirigi a casa do açougueiro, mal ele viu a criança, o seu cenho carregado transformou-se num sorriso rasgado. Expliquei sumariamente o que acontecera, adiantando apenas os pormenores necessários.

Assim que terminei, ficou novamente carrancudo. — Eles têm de ser eliminados de vez — disse.

Não me demorei muito. Depois de entregar Tommy à mãe e ela me agradecer pela décima vez consecutiva, tornou-se óbvio o que ia suce­der. Nesta altura, tinham-se reunido mais de trinta aldeãos. Alguns deles traziam mocas e varapaus e falavam furiosamente em «apedre­jar e queimar».

Sabia que tinha de se tomar uma atitude, mas não me queria en­volver diretamente. Apesar de tudo o que se passara, não suportava a idéia de Alice ser queimada, de modo que fui dar um passeio pelas co­linas rochosas durante uma hora ou mais para desanuviar as idéias, antes de regressar lentamente a casa do Mago. Resolvi sentar-me um pouco no banco e desfrutar do sol da tarde, mas lá já se encontrava alguém.

Era o Mago. Afinal escapara! Até aquele momento, evitara pensar no que fazer em seguida. Quer dizer, quanto tempo teria permane­cido em sua casa antes de decidir que ele não ia voltar? Agora estava tudo resolvido, porque ele se encontrava ali, a olhar através das árvo­res para o lugar onde uma nuvem de fumaça castanha se elevava. Estavam a queimar a casa de Lizzie dos Ossos.

Quando me aproximei do banco, reparei numa enorme equimose roxa por cima do seu olho esquerdo. Ele viu-me olhar para ela e es­boçou-me um sorriso cansado.

— Fazemos muitos inimigos, nesta atividade — disse ele —, e por vezes são precisos olhos na nuca. Mesmo assim, as coisas não cor­reram muito mal, porque agora temos menos um inimigo com que nos preocupar nas imediações de Pendle. Sente-se. — indicou o lugar a seu lado no banco. — O que andou tramando? Conte-me o que tem acontecido aqui. Comece pelo princípio e vá até ao fim, sem omitir nada.

Assim fiz. Contei-lhe tudo. Quando terminei, ele levantou-se e mirou-me do alto, os seus olhos verdes fitando os meus com imensa dureza.

— Quem me dera ter sabido que Lizzie estava de volta. Quando coloquei Mãe Malkin no poço, Lizzie partiu um bocado à pressa e não julguei que ela alguma vez tivesse o descaramento de voltar a apare­cer. Devia ter-me contado o encontro com a garota. Teria poupado incômodos a toda a gente.

Baixei o olhar, incapaz de corresponder ao dele.

— Qual foi a pior coisa que aconteceu? — perguntou-me. Voltou a lembrança, com toda a nitidez, da bruxa velha a agarrar-me a bota e a tentar sair da água. Recordei o grito dela quando se agarrou à extremidade do bordão do Mago.

Quando lhe mencionei o sucedido, ele soltou um suspiro longo e profundo.

— Tem certeza de que ela morreu? — indagou.

Encolhi os ombros.

— Ela não respirava. Depois o seu corpo foi levado para o meio do rio e arrastado.

— Bem, é certo que foi uma péssima experiência — comentou —, e a sua lembrança ficará contigo para o resto da sua vida, mas irás aguentar. Teve muita sorte em levar consigo o mais pequeno dos meus bordões. É de sorveira-brava, a madeira mais eficaz de todas quando lidamos com bruxas. Em circunstâncias normais, não teria afetado uma bruxa tão velha e tão forte. Mas ela encontrava-se dentro de água corrente. Por isso teve sorte, mas saiu-se bem para um novo aprendiz. Mostrou coragem, verdadeira coragem, e salvou a vida de uma criança. Mas cometeu dois erros gravís­simos.

Baixei a cabeça. Estava convencido de que, provavelmente, come­tera mais de dois, mas não ia contestar.

— O seu erro de maior gravidade foi matar aquela bruxa — afir­mou o Mago. — Ela devia ter sido trazida de volta para cá. Mãe Malkin é tão forte que até se conseguiria libertar dos seus ossos. É muito raro, mas pode suceder. O espírito dela há de conseguir vol­tar a nascer neste mundo, juntamente com todas as suas lembranças. Depois, virá à sua procura, rapaz, e há de querer vingança.

— Isso pode levar anos, não pode? — inquiri. — Um bebê recém-nascido não tem muito poder. Primeiro ela tem de crescer.

— Essa é a pior parte — disse o Mago. — Pode acontecer mais cedo do que julga. O espírito dela apodera-se do corpo de alguém e usa-o como se fosse o seu. Chama-se «possessão» e é péssimo para todos os intervenientes. Depois disso, nunca saberá quando, nem de que direção virá o perigo.

— Ela pode possuir o corpo de uma mulher jovem, uma mulher com um sorriso estonteante, que conquistará o seu coração antes de te tirar a vida. Ou pode servir-se da beleza dela para subjugar um homem forte à sua vontade, um cavaleiro ou um juiz, que te atirará para uma masmorra, onde ficará à mercê dela. E, mais uma vez, o tempo estará do seu lado. Ela pode atacar quando eu não estiver aqui para ajudar — talvez daqui a muitos anos, quando houver perdido a juventude, quando a sua visão falhar e as suas articulações começa­rem a estalar.

«Mas existe outro tipo de possessão, aquele que é mais provável neste caso. Muito mais provável. Sabe, rapaz, é problemático man­ter uma bruxa viva num poço como aquele. Em especial uma bruxa tão poderosa que passou a sua longa vida a praticar a magia do san­gue. Terá andado a comer vermes e outras coisas viscosas, com a umidade a ensopar-lhe constantemente a carne. Por conseguinte, da mesma maneira que uma árvore pode ficar petrificada aos poucos e transformar-se em rocha, o corpo dela terá começado a mudar lenta­mente. Ao agarrar o bordão de sorveira-brava, o coração dela pode ter parado, lançando-a para lá da barreira, na morte, e o fato de ter sido levada pelo rio talvez acelerasse o processo.

«Neste caso, ela ainda estará presa aos ossos, tal como a maior parte das outras bruxas malévolas, mas, em virtude da sua enorme força, conseguirá mover o seu corpo morto. Sabe, rapaz, ela estará o que nós chamamos «latente». É um termo antigo do Condado, o qual lhe será, sem dúvida, familiar. Assim como uma cabeleira postiça pode estar cheia de piolhos que não se vêem, o corpo morto dela hospeda o seu espírito malévolo. Este se agitará como uma tigela de larvas e rastejará, deslizará ou se arrastará em direção à vítima escolhida. E, em vez de ser duro como uma árvore petrificada, o corpo morto dela estará mole e maleável, capaz de se enfiar no espaço mais ínfimo. Capaz de se infiltrar pelo nariz ou pelos ouvidos de alguém e possuir o seu corpo.

«Só existem duas maneiras de termos a certeza de que uma bruxa tão poderosa como Mãe Malkin não conseguia voltar. A primeira é queimá-la. Mas ninguém deveria ter de sofrer semelhante dor. A outra maneira é por demais horrível para se pensar sequer nela. Trata-se de um método de que poucos ouviram falar porque foi praticado há muito tempo, numa terra distante, do outro lado do mar. De acordo com os seus livros antigos, se comer o coração de uma bruxa, ela nunca mais consegue voltar. E tem de o comer cru.

«Se usássemos qualquer dos métodos, não seríamos melhores do que a bruxa que matamos — disse o Mago. — São ambos bárba­ros. A única alternativa que resta é o poço. É igualmente cruel, mas fazemo-lo para proteger os inocentes, aqueles que seriam as suas futuras vítimas. Bem, rapaz, de uma maneira ou de outra, ela agora está livre. Vem aí apuros naa certa, mas pouco poderemos fazer neste momento para os evitar. Teremos apenas de estar muito atentos.

— Não se preocupe comigo — disse-lhe. — Hei de desvencilhar-me.

— Bem, era melhor começar a aprender a ter mão num demô­nio — disse o Mago, abanando pesarosamente a cabeça. — Esse foi o seu outro grande erro. Um domingo de folga por semana? Foi ex­cessivamente generoso! De qualquer forma, o que deveríamos fazer em relação àquilo? — inquiriu, indicando a fina nuvem de fumaça que era ainda visível a sudeste.

Encolhi os ombros. — Acho que entretanto já terá acabado tudo — respondi. — Havia muitos aldeãos irados e eles estavam a falar em apedrejamento.

— Tudo acabado? Não acredite nisso, rapaz. Uma bruxa como Lizzie possui um faro mais apurado do que qualquer cão de caça. Ela conse­gue cheirar as coisas antes de elas acontecerem e há muito que terá partido, antes de alguém conseguir se aproximar. Não, ela terá fugido novamente para Pendle, onde vive a maior parte do grupo. Devíamos ir atrás dela, mas estou caminhando há cinco dias e estou cansado demais e dolorido e necessito de recuperar forças. Mas não podemos deixar Lizzie livre por tempo demais, senão ela voltará a fazer das suas. Tenho de ir procurá-la antes do final da semana e você vem comi­go. Não vai ser fácil e, agora, já podia ir se acostumando à idéia. Mas primeiro o mais importante, por isso, siga-me...

Enquanto o seguia, reparei que apresentava um ligeiro mancar e ca­minhava mais lentamente do que de costume. Portanto, o quer que acontecera em Pendle não deixara de ter custos para ele. Levou-me até a casa, subimos as escadas e entramos na biblioteca, parando ao lado das prateleiras mais distantes, as que ficavam perto da janela.

— Gosto de guardar os meus livros na biblioteca — disse —, e gosto que a minha biblioteca vá crescendo em vez de diminuir. Mas, em virtude do que aconteceu, vou abrir uma exceção.

Estendeu a mão e tirou um livro da prateleira mais acima e en­tregou-me. — Precisa mais disto do que eu — disse. — Muito mais.

Como livro, não era muito grande. Era até mais pequeno do que o meu livro de notas. Tal como a maioria dos livros do Mago, estava encadernado a couro e tinha o título impresso tanto na capa como na lombada. Dizia: Possessão: os Malditos, os Desequilibrados e os Desesperados.

— O que significa o título? — inquiri.

— O que diz, rapaz. Exatamente o que diz. Lê o livro e descobrirá.

Quando abri o livro, fiquei decepcionado. Lá dentro, cada palavra de cada página estava impressa em latim, uma língua que eu não con­seguia ler.

— Estude-o bem e traga-o sempre com você — frisou o Mago. — É uma obra decisiva.

Deve ter-me visto fazer uma careta porque sorriu e apontou para o livro com o dedo. — Decisivo significa que até ao momento é o me­lhor livro que alguma vez foi escrito sobre a possessão, mas trata-se de um tema muito difícil e foi escrito por um homem jovem que ainda tinha muito que aprender. Por isso, não é a última palavra sobre o as­sunto e há mais para desvendar. Vai ao fim do livro.

Fiz o que ele me mandava e verifiquei que as últimas dez ou mais páginas estavam em branco.

— Se descobrir algo novo, então anote-o aí. Cada pedacinho aju­da. E não se preocupe com o fato de estar em latim. Vou começar a ensiná-lo assim que tivermos comido.

Fomos tomar a refeição da tarde, que fora preparada quase na per­feição. Mal engoli a última bocada, algo se moveu debaixo da mesa e começou a roçar-se nas minhas pernas. Subitamente, ouviu-se o som de ronronar. Foi ficando gradualmente mais alto até todos os pratos e travessas no aparador começarem a tilintar.

— Não admira que esteja satisfeito — comentou o Mago, aba­nando a cabeça. — Um dia de folga por ano teria sido a conta ideal! Mas não fique preocupado, vai correr tudo bem e a vida continua. Traga o seu livro de notas, rapaz, temos muito que estudar hoje.

Segui então o Mago pelo caminho até ao banco, desarrolhei o frasco de tinta, mergulhei a caneta e preparei-me para tirar notas.

— Assim que passam no teste em Horshaw — disse o Mago, começando a mancar para trás e para frente defronte o banco —, nor­malmente tento iniciar os meus aprendizes no ofício o mais suave­mente possível. Mas dado que já estive frente a frente com uma bruxa, sabe o quão difícil e perigosa pode ser a tarefa, além disso, acho que está preparado para descobrir o que aconteceu ao meu último aprendiz. Tem a ver com demônios, o tema que temos estado a estu­dar, por conseguinte, podia também aprender com ele. Procure uma página em branco e escreva o seguinte como cabeçalho...

Fiz o que ele me mandava. Escrevi: «Como Prender um Demônio.» Depois, enquanto o Mago contava a história, tomei notas, esforçando-me, como sempre, por acompanhá-lo.

Tal como já sabia, era necessário muito trabalho árduo, que o Mago chamou «preparativos», para prender um demônio. Primeiro, tinha de se abrir um poço o mais perto possível das raízes de uma árvore grande e adulta. Depois de todas as escavações que o Mago me obri­gara a fazer, fiquei surpreendido ao saber que raramente um Mago abria pessoalmente o poço. Quem se encarregava disso eram um aparelhador e o seu ajudante.

A seguir, eram precisos os serviços de um pedreiro para cortar uma laje de pedra que encaixasse no poço como uma pedra tumular. Era muito importante que a pedra fosse cortada rigorosamente, para vedar bem. Depois de revestidos a parte inferior da pedra e o interior do poço com a mistura de ferro, sal e cola forte, era chegado o momento de enfiar o demônio seguramente lá dentro.

Isso não era demasiado difícil. Sangue, leite ou uma mistura de ambos resultava sempre. A parte realmente difícil era deixar cair a pedra corretamente enquanto ele se alimentava. O êxito dependia da qualidade da ajuda contratada.

Era conveniente ter um pedreiro a postos e dois aparelhadores usando correntes controladas por um cavalete de madeira colocado por cima do poço, de modo a descer a pedra com rapidez e segurança.

Fora esse o erro cometido por Billy Bradley. Estava-se no final do Inverno, fazia um tempo péssimo e Billy estava com pressa de voltar para a sua cama quente. Então, resolveu economizar.

Contratou mão-de-obra local que nunca efetuara esse tipo de tra­balho. O pedreiro fora cear, prometendo regressar daí a uma hora, mas Billy estava impaciente e não conseguiu esperar. Meteu o demônio no poço sem grandes problemas mas teve dificuldades com a pedra. Estava uma noite chuvosa e ela escorregou, prendendo-lhe a mão esquerda debaixo da extremidade.

A corrente encravou, pelo que não foi possível levantar a pedra, e enquanto os operários estavam a braços com ela, e um deles foi a cor­rer chamar o pedreiro, o demônio, furioso por se ver preso debaixo da pedra, começou a atacar os dedos de Billy. Sabem, era um dos de­mônios mais perigosos. Chamam-lhes «Estripadores» e normalmente alimentam-se de gado, mas este gostava de sangue humano.

Quando conseguiram levantar a pedra, decorrera quase meia hora, e nessa altura já era tarde demais. O demônio comera os dedos de Billy até à base dos dedos e estivera entretido a sugar-lhe o sangue do corpo. Os seus gritos de dor tinham-se reduzido a uma lamúria e quando lhe libertaram a mão só restava o polegar. Morreu pouco depois, do cho­que e da perda de sangue.

— Foi um caso triste — disse o Mago —, e agora ele está sepul­tado debaixo da sebe, mesmo do lado de fora do cemitério de Layton — aqueles que seguem o nosso ofício não conseguem fazer repousar os ossos em solo sagrado. Aconteceu há mais de um ano, e se Billy tivesse vivido, eu não estaria agora a conversar com você porque ele ainda seria meu aprendiz. Pobre Billy, era um excelente rapaz e não merecia tal sorte, mas é um trabalho perigoso e se não for bem feito...

O Mago olhou para mim com tristeza, depois encolheu os ombros.

— Aprenda com isto, rapaz. Precisamos de coragem e paciência, mas, acima de tudo, nunca podemos ter pressa. Usamos o cérebro, pensa­mos com cuidado, depois fazemos o que tem de ser feito. Por via de regra, nunca mando um aprendiz sair sozinho antes de terminado o primeiro ano de preparação. A menos, claro — acrescentou com um tênue sorriso —, que ele resolva agir por sua própria iniciativa. Mais uma vez, preciso de ter certeza de que ele está preparado. Bom, vamos ao que interessa — disse ele. — Está na hora da sua primeira lição de latim...

 

               O POÇO

Aconteceu apenas três dias depois...

O Mago mandara-me à aldeia buscar os gêneros alimentícios para a semana. A tarde ia já bastante avançada e, no momento em que saí da casa dele levando o saco vazio, as sombras principiavam a alongar-se.

Quando me aproximei dos degraus, vi alguém de pé mesmo na orla das árvores, próximo do alto do caminho estreito. Quando per­cebi que era Alice, o meu coração começou a bater mais depressa. O que fazia ali? Porque não fora para Pendle? E se ela ainda ali esta­va, onde parava Lizzie?

Abrandei, mas tinha de passar por ela para chegar à aldeia. Podia ter voltado para trás e efetuado um percurso mais longo, mas não lhe queria dar a satisfação de pensar que estava com medo. Não obstante, depois de subir os degraus, permaneci do lado esquerdo do caminho, mantendo-me junto da sebe alta de espinheiro-alvar, mesmo à beira da vala funda que seguia ao longo dela.

Alice estava de pé no escuro, apenas com as pontas dos seus sapa­tos bicudos a saírem para a luz do sol. Fez-me sinal para que me apro­ximasse mais, mas mantive a distância, ficando a uns bons três passos dela. Depois de tudo o que acontecera, não confiava nela nem um bocadinho, mas, ainda assim, estava satisfeito por não ter sido quei­mada ou apedrejada.

— Vim despedir-me — anunciou Alice —, e avisá-lo para nunca se aproximar de Pendle. É para lá que vamos. Lizzie tem família a viver ali.

— Ainda bem que escapou — comentei, parando e virando-me diretamente para ela. — Vi a fumaça quando incendiaram a sua casa.

— Lizzie sabia que eles vinham — disse Alice —, por isso fugi­mos com bastante antecedência. No entanto, ela não o pressentiu, não é? Todavia, sabe o que fez à Mãe Malkin, mas só descobriu de­pois de ter acontecido. Não deu sequer por você e isso a preocupa. E disse que a sua sombra tinha um cheiro esquisito.

Não pude deixar de soltar uma sonora gargalhada. Quer dizer, era absurdo. Como podia uma sombra ter cheiro?

— Não tem piada — acusou Alice. — Não é para rir. Ela só chei­rou a sua sombra no lugar onde incidiu no celeiro. Na realidade, eu a vi e estava completamente errada. A lua mostrou a verdade em você.

De repente, ela aproximou-se mais dois passos, na direção da luz do sol e cheirou-me. — Tem um cheiro esquisito — disse ela, franzindo o nariz. Recuou rapidamente e, de repente, pareceu ame­drontada.

Sorri e pus a minha voz simpática. — Ouça — disse-lhe —, não vá para Pendle. Só tem a ganhar mantendo-se à distância deles. Olhe que são péssima companhia.

— As péssimas companhias não me afetam. Não vão me mudar, não é? Já sou má companhia. Má por dentro. Nem se passam pela cabeça as coisas que tenho sido e feito. Desculpe — disse —, voltei a ser má. Não sou suficientemente forte para dizer não.

Então, tarde demais, compreendi a verdadeira razão do medo no rosto de Alice. Não estava com medo de mim. Era do que se encon­trava atrás de mim.

Não vira nem ouvira nada. Quando isso sucedeu, já era tarde demais. Sem aviso, o saco vazio foi arrancado da minha mão e enfiado pela minha cabeça e os meus ombros e ficou tudo escuro. Mãos for­tes agarraram-me, prendendo-me os braços ao lado do corpo. Debati-me durante alguns instantes, mas em vão: fui levantado e levado com a mesma facilidade com que um criado de lavoura carrega uma saca de batatas. Enquanto era transportado, ouvi vozes — a voz de Alice e depois a voz de uma mulher; supus que se tratasse de Lizzie dos Ossos. A pessoa que me levava limitou-se a grunhir, por isso só podia ser Tusk.

Alice atraíra-me para uma armadilha. Fora tudo cuidadosamente planejado. Deviam ter estado escondidos na vala, quando desci a colina vindo da casa.

Estava apavorado, mais apavorado do que alguma vez estivera na minha vida. Quer dizer, eu matara a Mãe Malkin e ela era avó de Lizzie. Por conseguinte, o que iriam me fazer agora?

 

Passada uma hora ou mais, atiraram-me para o chão com tanta força que todo o ar foi expelido dos meus pulmões.

Assim que consegui voltar a respirar, fiz um esforço para me liber­tar do saco, mas alguém me bateu duas vezes nas costas — e bateu com tanta força que me mantive muito quieto. Teria feito qualquer coisa para evitar voltar a ser agredido daquela maneira, pelo que fiquei ali, mal ousando respirar, enquanto a dor diminuía lentamente para uma pontada constante.

Ataram-me com uma corda, passando-a pela boca do saco, à volta dos meus braços e da cabeça e dando-lhe um nó apertado. Depois Lizzie disse algo que me enregelou até aos ossos.

— Pronto, agora ele já não foge. Pode começar a cavar.

O rosto dela estava muito perto do meu de modo que pude chei­rar o seu mau hálito através do tecido grosseiro. Era como o bafo de um cão ou de um gato. — Bem, rapaz — disse ela. — Qual a sensação de saber que nunca mais voltará a ver a luz do dia?

Quando ouvi o som distante de alguém a cavar, comecei a tre­mer de medo. Lembrei-me da história do Mago sobre a mulher do mineiro, especialmente a pior parte de todas, em que ela ficara ali paralisada, incapaz de gritar, enquanto o marido cavava a sua se­pultura. Agora estava a me acontecer o mesmo. Ia ser enterrado vivo e teria feito tudo para voltar a ver a luz do dia, nem que fosse por um momento.

A princípio, quando cortaram as cordas e me retiraram o saco, fi­quei aliviado. Nesta altura, o Sol pusera-se, mas olhei para cima e consegui ver as estrelas, com a Lua em quarto minguante sobre as árvo­res. Senti o vento no rosto e nunca me senti tão bem. Porém, o meu alívio não durou mais de uns momentos, porque comecei a perguntar-me o que teriam ao certo em mente. Não me ocorria nada pior do que ser enterrado vivo, mas provavelmente a Lizzie dos Ossos sim.

Para ser sincero, quando vi Tusk de perto pela primeira vez, não me pareceu tão mau quanto esperara. De certa forma, afigurara-se pior na noite em que me perseguira. Não era tão velho quanto o Mago, mas o seu rosto estava enrugado e queimado do sol e uma massa de cabelo grisalho gorduroso cobria-lhe a cabeça. Os dentes eram gran­des demais para lhe caberem na boca, o que significava que nunca a conseguiria fechar bem, e dois deles curvavam para cima como presas amarelas, de cada lado do nariz. Também era grande e muito peludo, com fortes braços musculados. Sentira aquele aperto e achara-o bas­tante mau, mas sabia que ele possuía naqueles ombros força suficiente para me apertar tão firmemente que todo o ar seria expulso do meu corpo e as minhas costelas se partiriam.

Tusk tinha uma faca grande e curva no cinto, com uma lâmina que parecia muito afiada. Mas o pior nele eram os olhos. Estavam com­pletamente apagados. Era como se não houvesse nada vivo dentro da cabeça dele; era apenas algo que obedecia a Lizzie dos Ossos, sem um único pensamento. Sabia que ele faria tudo o que ela mandasse sem questionar, por mais terrível que fosse.

Quanto a Lizzie dos Ossos, não era nada escanzelada e eu sabia, pelo que lera na biblioteca do Mago, que provavelmente lhe chamavam assim porque usava a magia dos ossos. Cheirara já o hálito dela mas, à primeira vista, ninguém a tomaria por uma bruxa. Não era como Mãe Malkin, toda mirrada da idade, assemelhando-se a algo que já estava morto. Não, Lizzie dos Ossos era apenas uma versão mais velha de Alice. Provavelmente não teria mais de trinta e cinco anos, com belos olhos castanhos e cabelo tão negro como o da sobrinha. Usava um xale verde e um vestido preto, com um cinto de couro estreito a cingir a sua cintura esbelta. Havia sem dúvida uma semelhança fami­liar — à exceção da boca. Não era tanto a sua forma, mas a maneira como a movia; a maneira como se contorcia e fazia esgares quando ela falava. Uma outra coisa em que reparei foi que nunca olhava diretamente para mim.

Alice não era assim. Tinha uma boca bonita, ainda moldada para sorrir, mas percebi então de que acabaria por ficar igual à de Lizzie dos Ossos.

Alice enganara-me. Era por sua causa que eu estava ali, em vez de são e salvo na casa do Mago, a cear.

A um sinal de Lizzie dos Ossos, Tusk agarrou-me e amarrou-me as mãos atrás das costas. Depois segurou-me pelo braço e arrastou-me por entre as árvores. Primeiro vi o monte de solo escuro, depois o poço fundo ao lado e captei o fedor de terra úmida e barrenta acabada de revolver. Cheirava simultaneamente a morte e vida, com coisas trazi­das à superfície que realmente deviam estar enterradas bem fundo.

Provavelmente, o poço teria mais de dois metros de profundidade, mas, ao contrário daquele em que o Mago conservara a Mãe Malkin, apresentava uma forma irregular, apenas um grande buraco com pa­redes íngremes. Recordo-me de pensar que, com toda a minha prá­tica, teria feito bem melhor.

Naquele momento, a lua mostrou-me algo mais — algo que preferia não ter visto. A cerca de três passos dali, do lado esquerdo do poço, estava um losango de solo recém-revolvido. Parecia exatamente uma nova sepultura.

Nem tive tempo de começar a me preocupar com aquilo, fui logo arrastado para a beira do poço e Tusk puxou-me com força a cabeça para trás. Vislumbrei o rosto de Lizzie dos Ossos perto do meu, en­fiaram-me algo duro na boca e deitaram-me um líquido frio de travo amargo pela goela abaixo. Sabia mal e encheu-me a garganta e a boca até à borda, vindo por fora e irrompendo-me até pelo nariz, de modo que comecei a sufocar, arfando e esforçando-me por respirar. Tentei cuspi-lo fora mas Lizzie dos Ossos apertou-me as narinas com força entre o indicador e o polegar, pelo que, para respirar tinha primeiro de engolir.

Feito aquilo, Tusk largou-me a cabeça e transferiu a pressão para o meu braço esquerdo. Vi então o que fora enfiado à força na minha boca — Lizzie dos Ossos segurou-o para eu ver. Era um pequeno frasco de vidro escuro. Um frasco com um gargalo estreito e comprido. Virou-o de modo a ficar com a boca a apontar para o solo e caíram al­gumas gotas na terra. O resto estava já no meu estômago.

O que é que eu bebera? Ter-me-ia ela envenenado?

— Isto vai te manter os olhos bem abertos, rapaz — disse com um sorriso escarninho. — Não queríamos que adormecesse, não é? Não queríamos que perdesse nada.

Sem qualquer aviso, Tusk atirou-me violentamente para o poço e o meu estômago contraiu-se quando caí no espaço. Aterrei pesadamente, mas o fundo era macio e, apesar de a queda me tirar o fôlego, fiquei ileso. Virei-me então para olhar para as estrelas, pensando que, afinal, talvez me fossem enterrar vivo. Mas, em vez de uma pazada de terra a cair na minha direção, vi o contorno da cabeça e dos ombros de Lizzie dos Ossos a espreitar para baixo, uma silhueta recortada no fundo de estrelas. Começou a entoar uma estranha espécie de murmúrio gutural, muito embora não conseguisse compreender as palavras proferidas.

A seguir, esticou os braços por cima do poço e vi que segurava algo em cada mão. Soltando um grito estranho, abriu as mãos e duas coisas brancas desceram na minha direção, aterrando na lama perto dos meus joelhos.

Com o luar, vi nitidamente o que eram. Quase pareciam brilhar. Deitara dois ossos para o poço. Eram ossos de polegar — conseguia ver as articulações.

— Goze a sua última noite nesta terra, rapaz — gritou-me lá de cima. — Mas não se preocupe que não vai ficar sozinho, deixá-lo-ei em boa companhia. O Finado Billy virá reclamar os seus ossos. Está mesmo ao lado, por isso não precisa de se deslocar muito. Irá ter con­tigo não tarda e vocês os dois têm muito em comum. Foi o último aprendiz do Velho Gregory e não verá com bons olhos que lhe tenha ocupado o lugar. Depois, mesmo antes da aurora, lhe faremos uma úl­tima visita. Viremos recolher os seus ossos. São especiais, os seus ossos, ainda melhores do que os de Billy e, assim acabados de apanhar, serão sem dúvida os melhores que consigo desde há muito tempo.

O rosto dela recuou e ouvi passos a afastarem-se.

Portanto, já sabia a sorte que me esperava. Se Lizzie queria os meus ossos, isso significava que ia me matar. Lembrei-me da enorme faca de lâmina curva que Tusk trazia à cintura e comecei a tremer.

Antes disso, porém, teria de enfrentar o Finado Billy. Quando ela dissera «mesmo ao lado», devia estar a referir-se a uma nova se­pultura ao lado do poço. Mas o Mago dissera que Billy estava enter­rado mesmo do lado de fora do cemitério de Layton. Lizzie devia ter desenterrado o corpo dele, cortado os polegares e enterrado o resto do corpo aqui no meio das árvores. Agora, ele vinha reaver os pole­gares.

Iria Billy Bradley querer fazer-me mal? Eu nunca lhe fizera nada, mas provavelmente ele gostara de ser o aprendiz do Mago. Talvez es­tivesse ansioso por concluir o período de aprendizado e tornar-se um Mago. Agora eu viera ocupar o que em tempos lhe coubera. Não ape­nas isso — e então o feitiço de Lizzie dos Ossos? Ele podia julgar que fora eu quem lhe cortara os polegares e os atirara para o poço...

Consegui ajoelhar-me e passei os minutos seguintes a tentar desesperadamente desamarrar as mãos. Os meus esforços pareciam fazer com que a corda me apertasse ainda mais.

Também me sentia esquisito: com a cabeça oca e a boca seca. Quando olhei para as estrelas, pareceram-me muito brilhantes e cada estrela tinha uma gêmea. Se me concentrasse seriamente, podia fazer com que as estrelas duplas voltassem a ser uma só, mas, assim que relaxei, elas separaram-se. Ardia-me a garganta e o meu coração batia três ou quatro vezes mais depressa do que o seu ritmo normal.

Continuava a pensar no que Lizzie dos Ossos dissera. O Finado Billy viria reclamar os seus ossos. Ossos esses que estavam na lama a menos de dois passos do lugar onde me encontrava ajoelhado. Se ti­vesse as mãos livres, atirá-los-ia para fora do poço.

De repente, notei um ligeiro movimento à minha esquerda. Se es­tivesse de pé, seria mesmo ao nível da minha cabeça. Olhei para cima e vi uma cabeça comprida e gorda de verme a sair da parede lateral do poço. Era maior, muito maior do que qualquer outro verme que já tivesse visto. A sua cabeça cega e inchada movia-se num círculo lento enquanto fazia sair o resto do corpo. O que seria? Era venenoso? Podia morder?

E depois veio direto para mim. Era um verme de caixão! Devia ser algo que estivera a viver no caixão de Billy Bradley, engordando e fi­cando nítido. Algo branco que nunca vira a luz do dia!

Estremeci quando o verme do caixão saiu da terra escura e caiu na lama aos meus pés. Perdi-o então de vista quando se enfiou rapida­mente debaixo da superfície.

Sendo tão grande, o verme branco desalojara um bocado de solo da parede do poço, deixando atrás de si um buraco semelhante a um túnel estreito. Observei-o, horrorizado, porque algo mais se movia lá den­tro. Algo revolvia a terra, que caía em cascata do buraco para formar um monte de solo cada vez maior.

O fato de não saber o que era só agravava a situação. Tinha de ver o que estava lá dentro, de modo que tentei pôr-me em pé. Cambaleei, sentindo novamente vertigens, as estrelas começando a andar à roda. Quase caí, mas consegui dar um passo, avançando e ficando perto do túnel estreito, agora mais ou menos ao nível da minha cabeça.

Quando olhei lá para dentro, desejei não o ter feito.

Vi ossos. Ossos humanos. Ossos que estavam articulados. Ossos que se moviam. Duas mãos sem polegares. Uma delas sem dedos. Ossos a deslocar-se na lama, arrastando-se pela terra macia na minha direção. Uma caveira sorridente de boca aberta.

Era o Finado Billy, mas em vez de olhos, as suas órbitas pretas fi­tavam-me, cavernosas e vazias. Quando apareceu ao luar uma mão branca sem carne e avançou diretamente no meu rosto, recuei, quase caindo, soluçando de medo.

Naquele momento, precisamente quando julgava que ia enlou­quecer de terror, o ar tornou-se subitamente muito mais frio e senti algo à minha direita. Havia mais alguém comigo no poço. Alguém que estava de pé onde tal era impossível. Via-se metade do seu corpo, o resto estava enfiado na parede de terra.

Era um rapaz pouco mais velho do que eu. Apenas lhe via o lado esquerdo porque o resto dele estava em algum lugar atrás, ainda no solo. Com a mesma facilidade com que se entra por uma porta, ele virou o ombro direito na minha direção e o resto dele apareceu no poço. Sorriu-me. Um sorriso caloroso, amigável.

— A diferença entre estar acordado e a sonhar — disse ele. — É uma das lições mais difíceis de aprender. Aprende-a agora, Tom. Aprende-a antes que seja tarde demais...

Pela primeira vez, reparei nas botas dele. Pareciam muito caras e ti­nham sido feitas com couro da melhor qualidade. Eram iguais às do Mago.

Ergueu então as mãos, que ficaram de cada lado da sua cabeça, as palmas viradas para fora. Faltavam os polegares em cada mão. A es­querda também não tinha dedos.

Era o fantasma de Billy Bradley.

Cruzou as mãos sobre o peito e sorriu mais uma vez. Enquanto Billy sumia, pareceu-me feliz e em paz.

Compreendi exatamente o que ele me dissera. Não, eu não estava a dormir mas, de certa forma, estivera a sonhar. Estivera a sonhar os sonhos negros que tinham saído do frasco que Lizzie me enfiara à força na boca.

Quando me virei para olhar para o buraco, este desaparecera. Nunca houvera um esqueleto a avançar na minha direção. Tão pouco existira um verme de caixão.

A poção devia ter sido alguma espécie de veneno: algo que tor­nava difícil distinguir entre estar acordado e a sonhar. Fora isso que Lizzie me dera. Obrigara o meu coração a bater apressado e impos­sibilitara-me de dormir. Mantivera os meus olhos bem abertos, mas também me fizera ver coisas que realmente não existiam.

Pouco depois, as estrelas desapareceram e começou a chover intensamente. Foi uma noite longa, desconfortável e fria, e pensei constantemente no que me aconteceria antes da aurora. Quanto mais se aproximava, pior eu me sentia.

Cerca de uma hora antes de o Sol nascer, a chuva passou a uns chuviscos antes de cessar por completo. Consegui voltar a ver as estrelas e agora já não me pareciam duplicadas. Estava encharcado e com frio mas pa­rará de me arder a garganta.

Quando apareceu um rosto lá em cima a espreitar para o poço, o meu coração disparou porque julguei que era Lizzie que vinha buscar os meus ossos. Mas, para meu alívio, era Alice.

— Lizzie mandou ver como estava — falou baixinho lá para o fundo. — Billy já esteve aqui?

— Já esteve e já se foi — respondi-lhe, furioso.

— Eu não queria que isto acontecesse, Tom. Se não tivesse se in­trometido, estaria tudo bem.

— Tudo bem? — repeti. — A esta hora haveria outra criança morta e o Mago também, se tivesse levado aquilo a diante. E aque­les bolos tinham lá dentro o sangue de um bebê. Acha que isso é estar tudo bem? Descende de uma família de assassinos e você própria é uma assassina!

— Não é verdade. Isso não é verdade! — protestou Alice. — Não havia nenhum bebê. Tudo o que fiz foi dar-te os bolos.

— Mesmo que assim fosse — insisti —, sabia qual ia ser o seu efeito. E não devia ter deixado que isso acontecesse.

— Não sou assim tão forte, Tom. Como podia impedi-lo? Como podia impedir Lizzie?

— Eu escolhi o que quero fazer — disse-lhe. — Mas o que você irá escolher, Alice? Magia dos ossos ou magia do sangue? Qual delas? Qual irá ser?

— Não vai ser nenhuma delas. Não quero ser igual a elas. Vou fugir. Assim que tiver oportunidade, fugirei.

— Se fala a sério, então, ajude-me agora. Ajude-me a sair do poço. Podíamos fugir juntos.

— Agora é perigoso demais — respondeu Alice. — Talvez daqui a umas semanas, quando eles não estiverem à espera.

— Quer dizer, depois de eu estar morto. Quando tiver mais sangue nas suas mãos...

Alice não respondeu. Ouvi-a começar a chorar baixinho, mas quando julguei que estivesse prestes a mudar de opinião e fosse aju­dar-me, afastou-se.

Fiquei ali sentado no poço, temendo o que me ia acontecer, lembrando-me dos enforcados e sabendo agora exatamente o que deviam ter sentido antes de morrerem. Sabia que nunca mais iria a casa. Nunca mais voltaria a ver a minha família. Acabara de perder por completo a esperança, quando se aproximaram passos do poço. Levantei-me, assustado, mas era de novo Alice.

— Oh, Tom, lamento muito — disse. — Eles estão a afiar as facas...

Aproximava-se o pior momento de todos e sabia que só tinha uma oportunidade. A minha única esperança era Alice.

— Se lamenta realmente, então vai ajudar-me — disse-lhe bai­xinho.

— Não há nada que eu possa fazer! — exclamou. — Lizzie irá se virar contra mim. Ela não confia em mim. Acha que sou branda.

— Vai buscar Mr. Gregory — pedi-lhe. — Traga-o aqui.

— É tarde demais para isso, não acha? — Alice soluçou, aba­nando a cabeça. — Os ossos apanhados à luz do dia não têm utilidade para Lizzie. Nenhuma utilidade mesmo. A melhor altura para apanhar ossos é precisamente antes de o Sol nascer. Por isso eles virão buscá-lo daqui a alguns minutos. É todo o tempo que tem.

— Então arranje-me uma faca — pedi.

— Não serve — retorquiu ela. — Eles são fortes demais. Não conseguirá vencê-los!

— Não — respondi. — Quero-a para cortar a corda. Vou tentar fugir.

De repente, Alice desapareceu. Fora buscar uma faca ou estava com medo demais de Lizzie? Aguardei alguns instantes, mas como ela não voltasse, fiquei desesperado. Debati-me, tentando separar os pul­sos, tentando partir a corda, mas era escusado.

Quando um rosto me olhou lá do alto, o meu coração sobressaltou-se com o medo, mas era Alice segurando algo por cima do poço. Largou-o e, quando caiu, o metal brilhou ao luar.

Alice não me desiludira. Era uma faca. Se ao menos eu conseguisse cortar a corda, ficaria solto...

A princípio, mesmo com as mãos atadas atrás das costas, nunca tivera qualquer dúvida na minha mente de que o conseguiria fazer. O único perigo era poder cortar-me, mas o que importava isso com­parado com o que eles me iam fazer antes de o Sol nascer? Não de­morei muito tempo a agarrar a faca. Foi mais difícil posicioná-la contra a corda e muito árduo deslocá-la. Quando a deixei cair pela segunda vez, entrei em pânico. Não faltaria nem um minuto para eles me virem buscar.

— Terá de fazê-lo por mim — disse lá de baixo a Alice. — Vamos, salte para o poço.

Não pensei que ela realmente o fizesse, mas para minha surpresa, o fez. Não saltou, desceu; primeiro os pés, virada para a parede do poço e ficando suspensa da borda pelos braços. Quando o seu corpo estava todo esticado, desceu num pulo o meio metro que faltaria.

Não demorou muito a cortar a corda. As minhas mãos ficaram livres e só nos faltava sair do poço.

— Deixe-me subir para os seus ombros — pedi-lhe. — Depois iço-te.

Alice não contestou e, à segunda tentativa, consegui equilibrar-me nos ombros dela e arrastar-me para a erva molhada. Depois veio a parte realmente difícil — tirar Alice do poço.

Estendi a mão esquerda. Ela agarrou-a com força e colocou a sua mão direita no meu pulso, para conseguir mais apoio. Depois tentei puxá-la.

O meu primeiro problema foi a erva molhada e escorregadia e tive dificuldade em não ser arrastado pela borda. Percebi então que não tinha força para fazê-lo. Cometera um erro enorme. Uma porque ela era uma garota, e isso não a tornava necessariamente mais fraca do que eu. Tarde demais me lembrei da maneira como ela puxara a corda para tocar o sino do Mago. Fizera-o quase sem esforço. Devia tê-la deixado subir para os meus ombros. Devia tê-la deixado sair primeiro do poço. Alice teria conseguido me puxar sem problemas.

Foi então que ouvi o som de vozes. Lizzie dos Ossos e Tusk avan­çavam por entre as árvores na nossa direção.

Vi por baixo de mim os pés de Alice rasparem na parede do poço, tentando agarrar-se. O desespero deu-me força suplementar. Com um puxão súbito, ela transpôs a extremidade e caiu a meu lado.

Fugimos mesmo a tempo, correndo desalmadamente, o som de ou­tros pés a perseguir-nos. A princípio estavam um pouco distantes, mas muito gradualmente começaram a aproximar-se cada vez mais.

Não sei durante quanto tempo corremos. Pareceu uma eternidade. Corri até as minhas pernas pesarem como chumbo e a respiração me queimar a garganta. Seguíamos no sentido de Chipenden — sabia-o pelos esporádicos vislumbres das colinas rochosas através das árvores. Corríamos em direção à aurora. O céu estava agora ficando cinzento e clareava mais a cada minuto. Então, precisamente quando me senti incapaz de dar mais um passo, as pontas das colinas rochosas brilha­ram com uma cor-de-laranja pálida. Era a luz do Sol e recordo-me de pensar que mesmo que fôssemos apanhados então, pelo menos era de dia e, assim, os meus ossos não teriam utilidade para Lizzie.

Quando saímos das árvores para a vertente coberta de erva e começamos a subi-la, as minhas pernas principiaram finalmente a fa­lhar. Pareciam de borracha e Alice começava a afastar-se de mim. Virou-se para me olhar, o seu rosto aterrorizado. Ouvia-os ainda a abrir caminho por entre as árvores atrás de nós.

Então, imobilizei-me completa e subitamente. Parei porque não havia necessidade de correr mais.

É que, lá adiante no alto da vertente, estava uma figura alta ves­tida de preto e trazendo um longo bordão. Era o Mago, sem a menor dúvida, mas de certa forma parecia diferente. O capuz assentava-lhe nos ombros e o cabelo, iluminado pelos raios do Sol nascente, parecia fluir-lhe da cabeça como línguas de fogo cor-de-laranja.

Tusk soltou uma espécie de rugido e correu vertente acima direito a ele, brandindo a faca, com Lizzie dos Ossos mesmo atrás de si. Não estavam preocupados conosco, de momento. Sabiam quem era o seu principal inimigo. Nós ficaríamos para depois.

Entretanto, Alice parará também, de modo que dei dois passos trêmulos para ficar ao lado dela. Ambos vimos Tusk efetuar o seu der­radeiro ataque, levantando a lâmina curva e gritando furiosamente en­quanto corria.

O Mago estivera de pé, imóvel como uma estátua, mas depois, em resposta, deu duas passadas vertente abaixo na direção dele e ergueu alto o bordão. Apontando-o como uma lança, arremessou-o com força à cabeça de Tusk. Mesmo antes de atingi-lo na testa, ouviu-se uma es­pécie de estalido e apareceu uma chama cor-de-laranja na ponta. Seguiu-se uma pancada forte ao acertar no alvo. A faca curva voou no ar e o corpo de Tusk caiu como uma saca de batatas. Estava morto antes mesmo de atingir o solo.

A seguir, o Mago atirou o bordão para o lado e levou a mão dentro da capa. Quando a sua mão esquerda reapareceu, agarrava algo que ele fez estalar no ar como um chicote. O sol incidiu-lhe e soube que era uma corrente de prata.

Lizzie dos Ossos virou-se e tentou fugir, mas era tarde demais: da segunda vez que ele fez estalar a corrente, seguiu-se quase de ime­diato um som metálico muito estridente. A corrente começou a des­cer numa espiral de fogo para se enrolar com força à volta de Lizzie dos Ossos. Ela soltou um grito enorme de angústia, depois caiu por terra.

Dirigi-me com Alice ao alto da vertente. Ali, vimos que a cor­rente de prata estava firmemente enrolada em volta da bruxa, da cabeça aos pés. Apertava mesmo com força a sua boca aberta, pressionando-lhe os dentes. Os olhos dela rolavam e todo o seu corpo se contorcia com esforço, mas não conseguia gritar.

Olhei para Tusk. Encontrava-se deitado de costas com os olhos arregalados. Estava morto e bem morto e havia uma ferida vermelha no meio da sua testa. Olhei então para o bordão, admirado com a chama que vira na sua ponta.

O meu mestre parecia doente, fatigado e subitamente muito enve­lhecido. Abanava constantemente a cabeça como se estivesse farto da própria vida. Na sombra da vertente, o seu cabelo retomara o tom gri­salho habitual e percebi a razão por que parecera fluir-lhe da ca­beça: estava encharcado em suor e ele alisara-o com a mão de modo que espetava e lhe saía por detrás das orelhas. Repetiu o gesto enquanto eu observava. Escorriam-lhe gotas de suor da testa e a sua respiração estava muito acelerada. Percebi que estivera correndo.

— Como foi que nos encontrou? — perguntei.

Demorou um bocado a responder, mas, por fim, a sua respiração começou a abrandar e conseguiu falar. — Há sinais, rapaz. Rastos que se podem seguir, se souber como. Mas isso é outra coisa que vai ter de aprender.

Virou-se e olhou para Alice. — Aqueles dois estão arrumados, mas o que vamos fazer em relação a você? — inquiriu, olhando-a intensamente.

— Ela me ajudou a fugir — intervim.

— Verdade? — perguntou o Mago. — E o que mais fez ela? Fitou-me então com dureza e procurei aguentar o olhar dele.

Quando o baixei para as minhas botas, ele soltou um estalido com a língua. Não podia mentir e sabia que ele adivinhara que ela ti­vera alguma participação no que me acontecera.

Olhou de novo para Alice. — Abra a boca, menina — ordenou com aspereza, a sua voz cheia de raiva. — Quero ver os seus dentes.

Alice obedeceu e o Mago estendeu a mão, agarrando-a pelo queixo. Aproximou o rosto da boca dela aberta e cheirou ruidosamente.

Quando se virou para mim, o seu estado de espírito parecia ame­nizado e soltou um suspiro profundo.

— O hálito dela é bastante agra­dável — comentou. — Cheirou o hálito da outra? — perguntou, soltando o queixo de Alice e apontando para Lizzie dos Ossos.

Anuí.

— É provocado pela sua dieta — disse. — E lhe diz logo o que andou a fazer. Aqueles que praticam a magia dos ossos ou do sangue têm um bafo de sangue e carne crua. Mas a menina parece bem.

Depois voltou a aproximar o rosto de Alice.

— Olhe-me nos olhos, menina — ordenou-lhe. — Aguente o meu olhar o máximo que puder.

Alice obedeceu mas não conseguiu olhá-lo por muito tempo, ape­sar de a sua boca se contorcer com o esforço. Baixou o olhar e começou a chorar baixinho.

O Mago olhou para os sapatos bicudos dela e abanou a cabeça pesarosamente. — Não sei — disse, tornando a virar-se para mim. — Olha que não sei qual a melhor atitude a tomar. Não é apenas ela. Temos de pensar nos outros. Inocentes que podem vir a sofrer no fu­turo. Ela viu demais e sabe demais para o seu próprio bem. Tanto pode dar para um lado como para o outro, e não sei se será se­guro deixá-la partir. Se ela for para leste e se juntar ao grupo em Pendle, então estará perdida para sempre e irá apenas aumentar as forças tenebrosas.

— Não tem outro lugar para onde possa ir? — perguntei delica­damente a Alice. — Nenhuns outros parentes?

— Existe uma aldeia perto da costa. Chama-se Staumin. Tenho outra tia que vive lá. Talvez ela me aceite...

— E se for como os outros? — inquiriu o Mago, olhando de novo fixamente para Alice.

— À vista não parece — respondeu ela. — Mesmo assim, fica muito longe e nunca lá estive. Podia levar três dias ou mais a che­gar lá.

— Eu podia mandar o rapaz acompanhar-te — sugeriu o Mago, a sua voz subitamente muito mais simpática. — Ele estudou bem os meus mapas, por isso calculo que consiga achar com o caminho. Quando ele voltar já saberá dobrá-los como deve ser. Seja como for, está deci­dido. Vou dar-te uma oportunidade, menina. Está na sua mão apro­veitá-la. Se não o fizer, então, um dia voltaremos a nos encontrar, e pode crer que da próxima vez não terá tanta sorte.

Depois o Mago tirou o pano habitual do bolso. Lá dentro estava um naco de queijo para a viagem.

— É para não passarem fome — disse —, mas não o comam todo de uma vez.

Tinha esperança de que fôssemos encontrar algo melhor para comer pelo caminho, mas não deixei de murmurar os meus agradecimentos.

— Não vá diretamente para Staumin — disse o Mago olhando-me duramente sem pestanejar. — Quero que volte primeiro a sua casa. Leve esta menina com você e deixe que a sua minha mãe converse com ela. Pressinto que talvez ela a possa ajudar. Conto que regres­se daqui a duas semanas.

Aquelas palavras fizeram-me sorrir. Depois de tudo o que aconte­cera, uma oportunidade de ir a casa por uns tempos era a concreti­zação de um sonho. Mas houve algo que me deixou intrigado, porque me lembrei da carta que a minha mãe mandara ao Mago. Ele não parecera ter ficado muito satisfeito com algumas das coisas que ela dissera. Nesse caso, porque pensaria que a minha mãe podia ajudar Alice? Não disse nada, pois não queria correr o risco de fazer o Mago mudar de idéia. Estava satisfeito por me ir afastar dali.


Antes de partirmos, falei-lhe de Billy. Anuiu, pesarosamente, mas disse que não me preocupasse porque faria o que era necessário.

Quando partimos, olhei para trás e vi o Mago pôr Lizzie dos Ossos ao ombro esquerdo e afastar-se em grandes passadas na direção de Chipenden. Quem o visse de trás, tê-lo-ia tomado por um homem com menos trinta anos.

 

               OS DESESPERADOS E OS DESEQUILIBRADOS

Ao descermos a colina em direção à fazenda, os chuviscos quentes batiam-nos no rosto. Em algum lugar ao longe um cão ladrou duas vezes, mas abaixo de nós estava tudo silencioso e imóvel.

A tarde ia avançada e sabia que o meu pai e Jack estariam nos campos, o que me permitiria conversar a sós com a minha mãe. Fora fácil para o Mago dizer-me que levasse Alice, mas a viagem dera-me tempo para pensar e não sabia como a minha mãe iria encarar a situação. Não me parecia que lhe agradasse ter alguém como Alice em casa, especialmente depois de eu lhe contar o que ela fizera. E quanto a Jack, conseguia ima­ginar qual seria a sua reação. Pelo que Ellie me relatara da última vez a respeito da atitude dele em relação à minha nova ocupação, ter em casa a sobrinha de uma bruxa era a última coisa que ele haveria de querer.

Quando atravessamos o pátio apontei para o celeiro. — É melhor se abrigar ali debaixo — disse. — Vou entrar e explicar.

Mal proferi estas palavras, veio da direção da casa da fazenda o choro sonoro de um bebê com fome. Os olhos de Alice cruzaram-se fu­gazmente com os meus, depois baixou-os e recordei a última vez que tínhamos estado juntos e uma criança chorara.

Sem uma palavra, Alice virou-se e encaminhou-se para o celeiro em silêncio, tal como eu esperara. Seria de pensar que, depois de tudo o que acontecera, houvéssemos conversado muito durante a viagem, mas, na realidade, mal havíamos trocado uma palavra. Calculo que ti­vesse ficado afetada pela forma como o Mago lhe agarrara o queixo e cheirara o hálito. Talvez a tivesse feito pensar em todos os seus atos no passado. O que quer que fosse, a maior parte da viagem ela pare­cera absorta em pensamentos e muito triste.

Acho que deveria ter me esforçado mais, mas estava es­gotado demais e cansado, por isso caminhamos em silêncio até que se tornou um hábito. Foi um erro. Devia ter-me esforçado então por ficar conhecendo melhor Alice — quantos problemas não teria evitado mais tarde!

Quando abri com força a porta de trás, o choro cessou e ouvi outro som: o estalido reconfortante da cadeira de balanço da minha mãe.

A cadeira estava junto à janela, mas as cortinas não se encontra­vam corridas na totalidade e percebi pela cara dela que estivera a es­preitar pela fresta entre elas. Vira-nos chegar ao pátio e, quando entrei na divisão, começou a balançar a cadeira cada vez mais depressa, fitando-me o tempo todo sem pestanejar, uma metade do seu rosto no escuro, a outra iluminada pela vela enorme que tremulava no castiçal grande, de latão, no centro da mesa.

— Quando traz contigo uma pessoa, é sinal de boa educação convidá-la a entrar em casa — disse ela, a sua voz um misto de contrariedade e surpresa. — Julguei que lhe tivesse ensinado melhores modos.

— Mr. Gregory mandou-me trazê-la aqui — respondi. — O nome dela é Alice, mas tem andado em más companhias. Ele quer que a mãe tenha uma conversa com ela, mas achei por bem contar-lhe primeiro o que aconteceu, para o caso de não a querer convidar a entrar.

Puxei então de uma cadeira e contei à minha mãe exatamente o que sucedera. Quando terminei, ela soltou um longo suspiro, depois um tênue sorriso suavizou as suas feições.

— Fez bem, filho — disse-me. — É jovem e novo no ofício, por isso os seus erros podem ser perdoados. Vá lá buscar a pobre menina, depois deixe-nos a sós para conversarmos. Se quiser pode ir lá em cima cumprimentar a sua nova sobrinha. Ellie irá certamente gostar de te ver.

Fui então buscar Alice, deixei-a com a minha mãe e subi as escadas.

Ellie estava no quarto maior. Pertencera aos meus pais, mas ti­nham-no cedido a ela e a Jack porque havia espaço para mais duas camas e um berço, o que seria útil à medida que a família deles fosse crescendo.

Bati de mansinho à porta, que estava meio aberta, mas só entrei no quarto depois de Ellie o permitir. Estava sentada na beira da cama grande de casal a amamentar a bebê, a sua cabeça meio escondida pelo xale cor-de-rosa. Mal me viu, a boca alargou-se num sorriso que me fez sentir bem-vindo, mas parecia cansada e tinha o cabelo escor­rido e oleoso. Apesar de eu ter desviado rapidamente o olhar, Ellie era perspicaz e percebi que me vira fitá-la e entendera a expressão no meu rosto, porque afastou rapidamente o cabelo dos olhos.

— Oh, desculpa, Tom — disse. — Devo estar medonha... estive de pé a noite toda. Devo ter dormido apenas uma hora. Temos de apro­veitar as oportunidades com uma bebê tão esfomeada como esta. Ela chora muito, especialmente de noite.

— Quanto tempo tem? — perguntei.

— Fará seis dias esta noite. Nasceu no sábado passado, pouco depois da meia-noite.

Fora na altura em que eu matara a Mãe Malkin. Durante um mo­mento, a lembrança voltou rapidamente e um arrepio percorreu-me a espinha.

— Olha, ela já acabou de mamar — disse Ellie com um sorriso. — Gostaria de lhe pegar?

Era a última coisa que eu queria fazer. A bebê era tão pequena e delicada que tive medo de apertá-la com força demais e não gos­tava da maneira como a cabeça dela pendia tanto. Não tive coragem de recusar, porque Ellie ficaria com certeza ofendida. Mas não segurei na bebê muito tempo dado que, mal chegou aos meus braços, o seu rostinho ficou vermelho e ela começou a chorar.

— Acho que esta coisa não gosta de mim — disse a Ellie.

— É ela e não esta coisa — admoestou-me Ellie, pondo uma ex­pressão austera e ultrajada. — Não se preocupe, o problema não é você, Tom — explicou, a sua boca suavizando-se num sorriso. — Acho que ela ainda está com fome, é tudo.

A bebê parou de chorar mal Ellie lhe pegou e depois daquilo não fiquei muito mais tempo. Então, quando ia a descer, chegou-me da cozinha um som inesperado.

Eram gargalhadas, o riso sonoro e caloroso de duas pessoas que se dão muito bem. No momento em que abri a porta e entrei, o rosto de Alice ficou muito sério, mas a minha mãe continuou a rir alto durante mais alguns instantes e, mesmo quando parou, o seu rosto continuou iluminado por um amplo sorriso. Tinham partilhado uma piada, uma piada muito engraçada, mas não quis perguntar o que era e elas não me disseram. A expressão nos olhos de ambas deu-me a sensação de se tratar de algo privado.

Uma vez, o meu pai disse-me que as mulheres sabem coisas que os homens ignoram. Que às vezes têm uma certa expressão no olhar, mas, quando a vemos, nunca devemos perguntar-lhes no que estavam a pensar. Se o fizermos, podemos acabar por ouvir algo que não que­remos. Bem, o fato de estarem a rir aproximara-as, sem dúvida, mais; a partir daquele momento parecia que já se conheciam há anos. O Mago tivera razão. Se alguém era capaz de lidar com Alice, só podia ser a minha mãe.

No entanto, reparei em algo. A minha mãe dera a Alice o quar­to em frente do dela e do meu pai. Eram os dois quartos no alto do primeiro lance de escadas. A minha mãe tinha o ouvido muito apu­rado e isso queria dizer que se Alice se virasse durante o sono, ela ouviria.

Por conseguinte, apesar daquelas gargalhadas, a minha mãe não deixaria de ficar atenta a Alice.

Quando voltou dos campos, Jack deitou-me um olhar muito carrancudo e murmurou algo entre dentes. Parecia furioso com alguma coisa. Mas o meu pai ficou satisfeito por me ver e, para mi­nha surpresa, apertou-me a mão. Fazia-o sempre que cumprimentava os meus outros irmãos que tinham saído de casa, mas esta era a primeira vez, para mim. Senti-me triste e orgulhoso ao mesmo tempo. Estava a tra­tar-me como se eu fosse um homem que seguia o seu próprio cami­nho na vida.

Jack não estava em casa nem há cinco minutos quando veio à minha procura.

— Lá para fora — disse, mantendo a voz baixa para que mais ninguém pudesse ouvir. — Quero falar com você.

Saímos para o pátio e ele seguiu à frente, contornando o celeiro até perto do chiqueiro, de onde não seríamos vistos da casa.

— Quem é a menina que trouxe com você?

— O nome dela é Alice. É apenas alguém que precisa de ajuda — respondi. — O Mago pediu-me que a trouxesse até aqui para a minha mãe poder conversar com ela.

— O que vem a ser isso de ela precisar de ajuda?

— Tem andado com más companhias, é tudo.

— Que tipo de más companhias?

Sabia que não lhe iria agradar, mas não tinha outra alternativa. Fui obrigado a contar-lhe. Caso contrário, ele iria perguntar à mãe.

— A tia dela era uma bruxa, mas não se preocupe, o Mago tra­tou de tudo e só vamos ficar alguns dias.

Jack explodiu. Nunca o vira tão furioso.

— Onde está o bom senso com que nasceu? — gritou. — Não pensa? Não pensou na bebê? Há uma criança inocente a viver nesta casa e traz para cá alguém de uma família dessas! É inacreditável!

Levantou o punho e pensei que me fosse bater. Mas, ao invés, deu um murro na parede do celeiro, a pancada súbita semeando a agita­ção entre os porcos.

— A mãe acha que não há problema — protestei.

— Sim, seria de esperá-lo da mãe — redarguiu Jack, a sua voz su­bitamente mais baixa, mas ainda cheia de raiva. — Como poderia ela recusar algo ao seu filho preferido? E ela tem um coração generoso demais, como você muito bem sabe. Por isso, não devia se aprovei­tar. Olhe, terá de se ver comigo se acontecer alguma coisa. Não gosto do ar daquela menina. Parece-me manhosa. Vou estar muito atento a ela e se pisar nem que seja uma só vez o risco, vão ambos daqui para fora em menos de um segundo. E terão de valer o que comem. Ela pode ajudar nas tarefas domésticas para facilitar a vida da mãe e você co­laborar no trabalho da fazenda.

Jack virou-se e começou a afastar-se, mas ainda tinha algo mais a dizer. — Estando tão ocupado com coisas mais importantes — acres­centou, cheio de sarcasmo —, é capaz de não ter reparado que o pai anda com um ar muito cansado. Ele tem cada vez mais dificuldade em trabalhar.

— Claro que ajudarei — gritei-lhe —, e Alice também.

À ceia, para além da minha mãe, estiveram todos muito calados. Acho que era a presença de uma estranha à nossa mesa. Apesar de a educação de Jack obstar a que falasse sem rodeios, olhou para Alice de uma forma quase tão carrancuda como para mim. Por isso, felizmente a minha mãe esteve bem-disposta e esforçou-se por animar todos à mesa.

Ellie teve de interromper duas vezes a ceia para atender à bebê, que não parou de chorar a ponto de deitar a casa abaixo. Da segunda vez trouxe-a para baixo.

— Nunca conheci um bebê que chorasse tanto — comentou a minha mãe com um sorriso. — Pelo menos tem pulmões fortes e sau­dáveis.

O seu rosto minúsculo estava outra vez todo vermelho e franzido. Nunca o teria dito a Ellie, mas não era um bebê muito bonito. O seu rosto fazia-me lembrar o de uma velha rezingona. Tão depressa cho­rava a ponto de rebentar, como depois, de um momento para o outro, se calava e ficava sossegada. Tinha os olhos muito arregalados e olhava fixamente na direção do centro da mesa, onde Alice estava sentada perto do enorme castiçal de latão. A princípio, não soube o que pen­sar daquilo. Julguei que a bebê de Ellie estivesse apenas fascinada pela chama da vela. Mas depois, Alice ajudou a minha mãe a levantar a mesa e, de cada vez que Alice passava próximo, a bebê seguia-a com os seus olhos azuis e, de repente, apesar de a cozinha estar aquecida, senti um arrepio.

Mais tarde, fui até o meu antigo quarto e, quando me sentei na cadeira de vime junto à janela e contemplei a paisagem, foi como se nunca tivesse saído de casa.

Quando olhei para norte, na direção da Colina do Carrasco, pensei no interesse que a bebê parecera demonstrar por Alice. Quando me lem­brei do que Ellie dissera antes, voltei a sentir um arrepio. A bebê dela nascera depois da meia-noite, mesmo na altura da Lua cheia. Era de­masiado próximo para ser coincidência. Mãe Malkin teria sido levada pelo rio mais ou menos no momento em que a bebê de Ellie nascera. O Mago avisara-me de que ela haveria de voltar. E se ela tivesse voltado ainda mais cedo do que ele previra? Contara que ela ficasse latente. E se estivesse enganado? E se ela se libertara dos ossos e o seu espírito pos­suíra a bebê de Ellie no preciso momento do seu nascimento?

Não preguei os olhos naquela noite. Só havia uma pessoa a quem podia expor os meus receios e essa pessoa era a minha mãe. A dificuldade estava em apanhá-la sozinha sem despertar a atenção para o fato de o estar fazendo.

A minha mãe cozinhava e efetuava outras tarefas que a mantinham ocupada a maior parte do dia e normalmente não teria sido proble­mático falar com ela na cozinha porque eu estava a trabalhar ali perto. Jack encarregara-me de reparar a fachada do celeiro e devo ter cravado centenas de novos pregos reluzentes antes do pôr do Sol.

Porém, a dificuldade era Alice. A minha mãe conservava-a na sua companhia o dia inteiro, obrigando realmente a meniba a trabalhar arduamente. Podia ver-se o suor na testa dela e as rugas que a sulcavam constantemente, mas, apesar disso, nem uma só vez Alice se queixou.

Só depois da ceia, quando acabou o barulho do lavar e limpar da louça, é que tive finalmente a minha oportunidade. Naquela manhã, o meu pai fora ao mercado da Primavera, em Topley. Para além de efetuar os seus negócios, dava-lhe a rara oportunidade de encontrar alguns dos seus velhos amigos, pelo que estaria ausente dois ou três dias. Jack tinha razão. Ele parecia cansado e sempre lhe proporcio­nava um descanso da fazenda.

A minha mãe mandara Alice ir repousar no quarto, Jack estava na sala da frente e Ellie encontrava-se lá em cima a tentar fechar os olhos durante meia hora antes da bebê acordar de novo para mamar. Por isso, não perdendo qualquer tempo, comecei a contar à mãe o que me preocupava. Ela estivera balançando a cadeira, mas mal conseguira proferir a primeira frase quando a cadeira parou. Escutou com muita atenção enquanto lhe expunha os meus receios e razões para descon­fiar da bebê. Mas o rosto dela permaneceu tão impassível e calmo que não fazia idéia o que lhe ia na mente. Assim que despejei a última palavra, ela pôs-se em pé.

— Espere aí — disse-me. — Precisamos resolver isto de uma vez por todas.

Saiu da cozinha e foi lá acima. Quando voltou, trazia a bebê, em­brulhada no xale de Ellie. — Vai buscar a vela — disse, avançando para a porta.

Fomos até ao pátio, a minha mãe caminhando depressa, como se soubesse exatamente onde ia e o que tencionava fazer. Acabamos por nos deter do outro lado da pilha de estrume, ficando em cima da lama à beira do nosso lago, que era suficientemente fundo e grande para abastecer de água as nossas vacas, mesmo durante os meses mais secos de Verão.

— Mantenha a vela bem alto para podermos ver tudo — disse a minha mãe. — Não quero que haja dúvidas.

Então, para meu horror, ela estendeu os braços e segurou a bebê sobre a água escura e parada. — Se ela flutuar, a bruxa está dentro dela — afirmou a minha mãe. — Se se afundar, está inocente. Bem, vamos ver...

— Não! — gritei, a minha boca abrindo-se sozinha e as palavras brotando mais depressa do que o meu pensamento. — Não faça isso, por favor. É a bebê de Ellie.

Por um momento, pensei que ela fosse deixar cair a bebê mesmo assim, depois sorriu, estreitou-a novamente e beijou-lhe muito delicada­mente a testa. — Claro que é a bebê de Ellie, filho. Não vê isso só de olhar para ela? De qualquer forma, a «flutuação» é um teste feito pelos tolos e nem sequer resulta. Normalmente, amarram as mãos aos pés da pobre mulher e atiram-na para águas profundas e tranquilas. Mas se ela se afunda ou flutua, é uma questão de sorte e depende do seu tipo de corpo. Não tem nada a ver com bruxaria.

— E então a maneira como a bebe olhava constantemente para Alice? — perguntei.

A minha mãe sorriu e abanou a cabeça. — Os olhos de um recém-nascido não conseguem focar convenientemente — explicou. — Provavelmente era apenas a luz da vela que lhe despertava a atenção. Não se esqueça — Alice estava sentada perto dela. Depois, de cada vez que Alice se deslocava, os olhos da bebê eram atraídos pela mu­dança na luz. Não se preocupe.

— E se a bebê de Ellie estiver possuída de alguma maneira? — in­daguei. — E se houver algo dentro dela que nós não conseguimos ver?

— Olha, filho, tenho trazido tanto bem como mal a este mundo e conheço o mal só de olhar para ele. Esta criança é boa e não existe nada de preocupante dentro dela. Nada de nada.

— No entanto, não é estranho que a bebê de Ellie tenha nascido mais ou menos na mesma altura em que Mãe Malkin morreu?

— Nem por isso — respondeu a minha mãe. — E mesmo assim. Por vezes, quando algo mau deixa o mundo, algo bom entra no seu lugar. Já vi acontecer isso antes.

Claro, percebi então de que a minha mãe nunca pensara se­quer em largar a bebê e que estivera apenas a tentar incutir algum juízo em mim, mas quando regressamos atravessando o pátio, os meus joelhos ainda tremiam só de pensar naquilo. Foi então, quando che­gamos à porta da cozinha, que me lembrei de algo.

— Mr. Gregory deu-me um pequeno livro com tudo sobre a pos­sessão — disse eu. — Mandou-me lê-lo com muita atenção, mas o problema é que está escrito em latim e até agora só tive três lições.

— Não é a minha língua preferida — comentou a minha mãe, parando junto à porta. — Verei o que posso fazer, mas terá de ficar para quando eu voltar, conto ser chamada esta noite. Entretanto, por­que não pede a Alice? Talvez ela possa ajudar.

A minha mãe acertara quando dissera que a iam chamar. Veio uma carroça buscá-la pouco depois da meia-noite, os cavalos todos suados. Parecia que a mulher do agricultor estava passando um bo­cado realmente mau e já se encontrava em trabalho de parto há mais de um dia e uma noite. Era também muito longe, quase trinta e dois quilômetros para sul. Isso queria dizer que a minha mãe esta­ria ausente dois ou mais dias.

Na verdade, eu não queria pedir a Alice que me ajudasse no latim. Sabem, tinha a certeza de que o Mago não iria concordar. Afinal, era um livro da biblioteca dele e não lhe agradaria sequer a idéia de Alice lhe tocar. Mas, que outra alternativa tinha? Desde que viera para casa, pensava cada vez mais em Mãe Malkin e não conseguia tirá-la da mente. Era apenas um instinto, uma impressão, mas achava que ela estava em algum lugar no escuro e se aproximava mais a cada noite que passava.

Então, na noite seguinte, depois de Jack e Ellie terem ido para a cama, bati suavemente à porta do quarto de Alice. Não era algo que lhe fosse pedir durante o dia, porque ela estava sempre atarefada, e se Ellie ou Jack escutassem, não iriam gostar. Especialmente com a aver­são de Jack ao ofício de Mago.

Tive de bater duas vezes antes de Alice abrir a porta. Estava com receio de que ela pudesse encontrar-se já a dormir, mas ainda não se despira e não consegui evitar que os meus olhos descessem até aos seus sapatos bicudos. Havia uma vela colocada no toucador, perto do es­pelho. Acabara de ser apagada — ainda fumegava.

— Posso entrar? — perguntei, levantando a minha própria vela para que lhe iluminasse o rosto de cima. — Queria pedir-te uma coisa.

Alice fez-me sinal para que entrasse e fechou a porta

— Preciso ler um livro, mas está escrito em latim. A minha mãe disse que me podia ajudar.

— Onde está? — perguntou Alice.

— No meu bolso. É um livro pequeno. Para uma pessoa que sabe latim, não deverá levar muito tempo a lê-lo.

Alice soltou um suspiro profundo e cansado. — Já tenho muito que fazer — queixou-se. — Do que trata?

— Possessão. Mr. Gregory acha que Mãe Malkin pode voltar para me apanhar e que se servirá da possessão.

— Mostre-me — pediu, estendendo a mão. Coloquei a minha vela ao lado da dela, depois enfiei a mão nas calças e retirei o pequeno livro. Ela folheou-o sem dizer uma palavra.

— Consegue lê-lo? — inquiri.

— Não vejo porque não. Lizzie ensinou-me e ela sabe latim de trás para a frente.

— Sempre vai me ajudar?

Ela não respondeu. Aproximou antes o livro bastante do rosto e cheirou-o ruidosamente. — Tem certeza de que é bom? — indagou. — Foi escrito por um padre e normalmente eles não sabem lá muito.

— Mr. Gregory chamou-lhe «obra decisiva» — disse eu —, o que significa que é o melhor livro alguma vez escrito sobre o assunto.

Ela levantou então os olhos do livro e, para surpresa minha, vi que transbordavam de raiva. — Sei o que significa decisiva — respondeu. — Acaso acha que sou estúpida? Olha que estudei durante anos, ao passo que você só agora começou. Lizzie tinha muitos livros, mas agora estão todos queimados. Pegaram fogo.

Balbuciei que lamentava e ela sorriu-me.

— O problema é que — disse ela, a sua voz suavizando-se de re­pente — vai levar tempo a lê-lo e, neste momento, estou cansada demais. Amanhã a sua minha mãe ainda estará fora e eu não terei mãos a medir com o trabalho. A sua cunhada prometeu ajudar, mas ela está muito ocupada com a bebê e levarei quase todo o dia a cozi­nhar e limpar. Mas se você me desse uma ajuda...

Não soube o que dizer. Ia ajudar Jack, pelo que não me sobraria muito tempo. O problema era que os homens nunca cozinhavam nem limpavam e não era assim apenas na nossa fazenda. Era o mesmo em todo o Condado. Os homens trabalhavam no exterior fizesse chuva ou sol e, quando regressavam, as mulheres tinham uma refeição quente em cima da mesa. A única ocasião em que ajudávamos na cozinha era no Dia de Natal, altura em que lavávamos a louça como presente especial para a minha mãe.

Foi como se Alice me lesse o pensamento, porque o seu sorriso alar­gou-se. — Não seria muito difícil, não é? — perguntou. — As mulheres dão comida às galinhas e ajudam na colheita. Assim sendo, porque não haveriam os homens de ajudar na cozinha? Basta que me ajude a lavar a louça, é tudo. E alguns tachos precisam de ser areados antes de eu começar a cozinhar.

Concordei então em fazer o que ela queria. Tinha outra escolha? Só esperava que Jack não me apanhasse em flagrante. Nunca iria entender.

Levantei-me mais cedo do que o costume e consegui arear os ta­chos antes de Jack descer. A seguir, tomei o desjejum demoradamente, comendo muito devagar, o que era invulgar em mim e foi o suficiente para suscitar um olhar desconfiado de Jack. Depois de ele ir para os campos, lavei rapidamente os tachos e comecei a limpá-los. Devia ter calculado o que iria acontecer, pois Jack nunca tivera muita paciência.

Entrou no pátio bradando e praguejando e me viu através da ja­nela, o seu rosto todo franzido de incredulidade. Depois cuspiu para o pátio e deu a volta e escancarou a porta da cozinha com um em­purrão.

— Quando estiver despachado — disse sarcasticamente —, há trabalho de homens para fazer. E pode começar por inspecionar e re­parar os chiqueiros. Snout[8] vem amanhã. Há que matar cinco animais e não queremos passar o tempo todo correndo atrás dos desgarrados.

Snout era a nossa alcunha para o matador dos porcos, e Jack tinha razão. Às vezes, os porcos entravam em pânico quando Snout metia mãos à obra e se houvesse qualquer ponto fraco na vedação, eles en­contravam-no com certeza.

Jack virou-se para se ir embora e depois, subitamente, praguejou alto e bom som. Fui até à porta ver o que era. Ele pisara sem querer um grande sapo gordo, transformando-o em polpa. Diziam que dava azar matar uma rã ou um sapo e Jack voltou a praguejar, carregando tanto o cenho que os seus espessos sobrancelhas pretos se uniram ao meio. Atirou o sapo morto com um pontapé para a pia de despejos e afas­tou-se, abanando a cabeça. Não soube que bicho lhe mordera. Jack não costumava ser tão mal-humorado.

Fiquei onde estava e limpei rapidamente o último tacho — já que ele me apanhara em flagrante, podia perfeitamente concluir a tarefa. Além disso, os porcos cheiravam mal e não estava muito ansioso por efetuar a tarefa que Jack me destinara.

— Não se esqueça do livro — recordei a Alice quando abri a porta para sair, mas ela limitou-se a sorrir-me de forma estranha.

Só consegui voltar a falar com Alice ao final daquele dia, depois de Jack e Ellie se terem recolhido. Tinha pensado ir fazer-lhe nova visita ao quarto, mas ela desceu antes à cozinha, trazendo o livro e sentando-se na cadeira de balanço da minha mãe, perto das brasas da lareira.

— Tratou muito bem aqueles tachos. Deve estar desesperado por saber o que está aqui — comentou Alice, batendo na lombada do livro.

— Se ela voltar, quero estar preparado. Preciso saber o que posso fazer. O Mago disse que provavelmente ela estará latente. Sabe o que é?

Os olhos de Alice arregalaram-se e anuiu.

— Portanto, tenho de estar preparado. Se houver algo nesse livro que possa ajudar, preciso saber.

— Este padre não é como os outros — comentou Alice, estendendo-me o livro. — Percebe do assunto, sim. Lizzie gostaria mais disto do que de bolos à meia-noite.

Enfiei o livro nas calças e puxei um escabelo para o outro lado da lareira, de frente para o que restava da fogueira. Depois, comecei a interrogar Alice. De início, foi uma tarefa muito difícil. Ela não adiantou muito e o que consegui arrancar-lhe fez-me sentir muito pior.

Comecei pelo estranho título do livro: Os Malditos, os Desequili­brados e os Desesperados. O que significava? Porquê dar semelhante nome ao livro?

— A primeira palavra não passa de conversa de padre — disse Alice, descaindo os cantos da boca em reprovação. — Eles aplicam essa palavra às pessoas que fazem as coisas de maneira diferente. As pessoas como a sua mãe, que não vão à igreja nem dizem as preces certas. As pessoas que não são como eles, às pessoas que são canhotas — rematou, sorrindo-me com ar entendido.

— A segunda palavra é mais útil — continuou Alice. — Um corpo possuído recentemente tem pouco equilíbrio. Está sempre a cair. Leva algum tempo, sabe, até o possessor que lá se instalou ficar confortavelmente adaptado ao seu novo corpo. É o mesmo que tentar calçar um par de sapatos novos. Deixa-o também mal-humorado. Uma pessoa calma e plácida pode atacar sem aviso. Logo, é outra ma­neira de o distinguir.

— Depois, quanto à terceira palavra, essa é fácil. Uma bruxa que já teve um corpo humano saudável está desesperada por arranjar outro. Então, mal o consegue, fica desesperada por o conservar. Não vai de­sistir dele sem lutar. Fará tudo. Seja o que for. Por isso os possessos são tão perigosos.

— Se ela voltasse, o que seria? — perguntei. — Se ela estivesse latente, quem tentaria possuir? Seria eu? Tentaria fazer-me mal dessa maneira?

— O faria, se pudesse — disse Alice. — No entanto, não é fácil, sendo você o que é. Também poderia me usar, mas não vou lhe dar a oportunidade. Não, ela escolherá os mais fracos. Os mais fáceis.

— A bebê de Ellie?

— Não, essa não lhe serviria de nada. Teria de esperar que cres­cesse. Mãe Malkin nunca teve muita paciência e estar presa naquele poço na propriedade do Velho Gregory só a terá tornado pior. Se for a você que ela queira fazer mal, primeiro arranjará um corpo forte e sau­dável.

— Nesse caso, Ellie? Ela escolherá Ellie!

— Mas, afinal, o que você sabe? — insurgiu-se Alice, abanando a cabeça, incrédula. — Ellie é forte. Seria difícil. Não, os homens são muito mais fáceis. Especialmente um homem que pensa sempre com o coração. Alguém capaz de se encolerizar sem sequer pensar.

— Jack?

— Será com certeza Jack. Pense o que seria ter o grande e forte Jack atrás de você. Mas o livro está certo numa coisa. Um corpo recentemente possuído é mais fácil de dominar. Está desesperado, mas igualmente desequilibrado.

Saquei do meu livro de notas e apontei tudo o que me pareceu im­portante. Alice não falava tão rapidamente quanto o Mago, mas ao fim de algum tempo entrou no seu ritmo normal e não tardou que me doesse o pulso. Quando chegou aos assuntos realmente importan­tes — como lidar com os possessos — eram muitos os sinais de que a alma original ainda estava aprisionada dentro do corpo. Por isso, se se ferisse o corpo, iria ferir também aquela alma inocente. Portanto, destruir o corpo para se livrar do possessor era tão mau quanto assassinar.

Na verdade, aquela seção do livro foi decepcionante: não parecia possível fazer muito. Sendo padre, o autor achava que um exorcismo, usando velas e água benta, era a melhor maneira de arrancar o pos­sessor e libertar a vítima, mas admitia que nem todos os padres o con­seguiam fazer e realmente bem só muito poucos. Parecia-me que alguns dos padres que o conseguiam fazer seriam, muito provavel­mente, sétimos filhos de sétimos filhos e essa era realmente a questão importante.

Depois de tudo aquilo, Alice disse que se sentia cansada e foi-se deitar. Eu também estava sonolento. Esquecera-me de quão árduo podia ser o trabalho na fazenda e estava dolorido da cabeça aos pés. Uma vez no meu quarto, fiquei grato por cair na cama, ansioso por ador­mecer. Mas, lá em baixo no pátio, os cães começaram a ladrar.

Pensando que algo os deveria ter alarmado, abri a janela e olhei para a Colina do Carrasco, enchendo os pulmões do ar noturno para me acalmar e aclarar as idéias. Aos poucos, os cães foram-se calando e acabaram por parar de ladrar definitivamente.

Quando ia a fechar a janela, a Lua saiu de trás de uma nuvem. O luar consegue mostrar a verdade das coisas — segundo apurara por Alice — tal como a minha sombra grande dissera a Lizzie dos Ossos que havia algo de diferente em mim. A Lua nem sequer es­tava cheia, era apenas um quarto minguante diminuindo para um crescente, mas mostrou-me algo novo, algo que não podia ser visto na sua ausência. À sua luz, vi um tênue rasto prateado que descia a Colina do Carrasco. Passava por debaixo da vedação e estendia-se pela pastagem norte, depois atravessava o campo de feno a leste até de­saparecer de vista algures por detrás do celeiro. Pensei então em Mãe Malkin. Vira o rasto prateado na noite em que a atirara ao rio. Eis agora aqui outro rastro que parecia quase igual, e encontrara-me.

Com o coração a bater com força no meu peito, desci as escadas na ponta dos pés e esgueirei-me pela porta de trás, fechando-a cuida­dosamente atrás de mim. A Lua escondera-se atrás de uma nuvem, por isso, quando dei a volta pela parte de trás do celeiro, o rasto prateado desaparecera, mas continuava a haver nítidos indícios de que algo des­cera a colina em direção aos anexos da nossa fazenda. A erva estava es­palmada, como se um caracol gigante tivesse deslizado sobre ela.

Esperei que a Lua reaparecesse para poder verificar a zona lajeada por detrás do celeiro. Alguns momentos depois, a nuvem afastou-se e vi algo que me deixou realmente assustado. O rastro prateado brilhava ao luar e a direção que tomara era inequívoca. Evitava o chiqueiro e serpenteava pelo outro lado do celeiro num arco amplo até alcançar o extremo mais distante do pátio. Depois, avançava na direção da casa, terminando mesmo por debaixo da janela de Alice, onde o velho alçapão de madeira cobria as escadas para a cave.

Algumas gerações antes, o agricultor que vivera aqui costumava destilar cerveja que fornecia às fazendas locais e até a algumas estalagens. Em virtude disso, as gentes locais chamavam à nossa proprie­dade a «Fazenda do Cervejeiro», muito embora nós lhe chamássemos apenas «lar». As escadas permitiam a entrada e saída dos barris de cerveja sem ser necessário atravessar a casa.

O alçapão tapava ainda as escadas, um grande cadeado ferrugento a manter as duas metades no lugar, mas havia um estreito intervalo entre elas, no lugar onde as extremidades da madeira não uniam bem. O intervalo não seria maior do que o meu polegar, mas o rasto pra­teado terminava exatamente ali e sabia que o que quer que deslizara até este ponto se conseguira introduzir por aquele minúsculo inter­valo. Mãe Malkin voltara e estava latente, o seu corpo suficientemente mole e flexível para se esgueirar pelos intervalos mais estreitos.

Alcançara já a cave.

Presentemente não nos servíamos da cave, mas lembrava-me bastante bem dela. O chão era de terra batida e estava cheio de bar­ris velhos. As paredes da casa eram espessas e ocas, o que significava que em breve ela poderia estar em qualquer lugar dentro das paredes, em qualquer lugar na casa.

Olhei para cima e vi uma chama de vela tremular na janela do quarto de Alice. Ainda estava de pé. Entrei em casa e, um momento depois, encontrava-me à porta do seu quarto. O truque era bater ape­nas com força suficiente para Alice saber que era eu, sem acordar todos os demais. Mas quando aproximei os nós dos dedos da porta, prepa­rado para bater, ouvi um som vindo de dentro do quarto.

Ouvi a voz de Alice. Parecia estar a conversar com alguém.

Não gostei nada daquilo, mas bati mesmo assim. Esperei um momento e, como Alice não abrisse a porta, encostei-lhe o ouvido. Quem poderia estar conversando com ela no quarto? Sabia que Ellie e Jack estavam já na cama e, fosse como fosse, só conseguia ouvir uma voz e esta era a de Alice. No entanto, parecia diferente. Fez-me lembrar algo que ouvira antes. Quando repentinamente me lembrei do que era, afastei a orelha da madeira como se me tivesse queimado e recuei uma passada da porta.

A voz dela subia e descia, tal como a de Lizzie dos Ossos quando estivera debruçada sobre o poço, segurando um pequeno osso branco de polegar em cada mão.

Antes mesmo de perceber o que fazia, agarrei no puxador, rodei-o e escancarei a porta.

Alice, abrindo e fechando a boca, entoava diante do espelho. Estava sentada numa cadeira de espaldar, a olhar fixamente pela parte de cima de uma chama de vela para o espelho do toucador. Respirei fundo, de­pois aproximei-me sorrateiramente para ver melhor.

Como estávamos na Primavera ali no Condado, depois de escure­cer o quarto ficava um pouco frio; não obstante, havia grandes gotas de suor na testa de Alice. Enquanto observava, duas delas juntaram-se e desceram-lhe para o olho esquerdo e depois continuaram para a face, como uma lágrima. Ela estava a olhar para o espelho, de olhos muito arregalados, mas quando chamei o nome dela, nem sequer pestanejou.

Coloquei-me por detrás da cadeira e captei o reflexo do castiçal de latão no espelho mas, para meu horror, o rosto no espelho por cima da chama não pertencia a Alice.

Era um rosto velho e enrugado, com cabelo crespo grisalho e branco a cair como cortinas sobre cada face descarnada. Era o rosto de algo que passara muito tempo em solo úmido.

Os olhos moveram-se então, deslizando para a esquerda ao encon­tro dos meus. Eram pontos vermelhos de fogo. Apesar de se ter es­tampado um sorriso no rosto, os olhos ardiam de raiva e ódio.

Não havia dúvida. Era o rosto de Mãe Malkin.

O que se passava? Alice fora já possuída? Ou estaria de alguma forma a usar o espelho para conversar com Mãe Malkin?

Sem pensar, peguei no castiçal e atirei a sua base pesada ao espe­lho, que explodiu com grande estrondo, seguido de uma chuva cin­tilante e tilintante de vidro a precipitar-se. Quando o espelho se estilhaçou, Alice soltou um grito sonoro e estridente.

Foi o pior grito que se possa imaginar. Estava cheio de tormento e lembrou-me o guincho que um porco dá às vezes, quando o estão a matar. Mas não senti pena de Alice, muito embora agora ela chorasse e puxasse os cabelos, os olhos arregalados e cheios de terror.

Percebi que a casa se enchera de repente de outros sons. O primeiro foi o choro da bebê de Ellie; o segundo foi a voz cava de um homem a praguejar e blasfemar; o terceiro, botas grandes descendo as escadas ruidosamente.

Jack irrompeu pelo quarto, furioso. Olhou para o espelho par­tido, depois avançou para mim e levantou o punho. Acho que deve ter julgado que fora tudo culpa minha, porque Alice continuava a gri­tar, eu segurava o castiçal e havia pequenos golpes nos meus dedos provocados pelos estilhaços de vidro.

Ellie entrou no quarto mesmo a tempo. Trazia a bebe aninhada no braço direito e esta chorava ainda a plenos pulmões, mas com a mão livre agarrou Jack e puxou-o até ele abrir o punho e baixar o braço.

— Não, Jack — suplicou. — De que servirá isso?

— Não acredito que ele o tenha feito — bradou Jack, fuzilando-me com o olhar. — Sabe quantos anos tinha aquele espelho? O que pensa que o pai vai dizer agora? Como se irá sentir quando vir isto?

Não admira que Jack estivesse furioso. Já fora mau acordar toda a gente, mas aquela mesinha de toucador pertencera à mãe do meu pai. Agora que ele me dera a caixa de mechas, era a última peça que per­tencera em tempos à sua família.

Jack deu dois passos na minha direção. A vela não se apagara quando eu partira o espelho, mas começou a tremular quando ele gri­tou novamente.

— Porque fez isso? O que diabo te deu? — bradou.

O que podia eu dizer? Limitei-me a encolher os ombros, depois olhei para as botas.

— E, afinal, o que está fazendo neste quarto? — insistiu Jack. Não respondi. Tudo o que eu dissesse só iria agravar a situação.

— A partir de agora, vê se não sai do seu quarto! — berrou Jack. — A minha vontade era pô-los aos dois já daqui para fora.

Olhei para Alice, ainda sentada na cadeira, a cabeça nas mãos. Parará de chorar, mas todo o seu corpo tremia.

Quando olhei para trás, a raiva de Jack dera lugar ao alarme. Olhava fixamente para Ellie, que parecera subitamente vacilar. Antes que ti­vesse tempo de se mover, ela desequilibrou-se e bateu na parede. Por uns momentos, Jack esqueceu-se do espelho enquanto acudia a Ellie.

— Não sei o que me deu — disse ela, toda agitada. — De repente senti a cabeça vazia. Oh! Jack! Jack! Quase deixei cair a bebê!

— Não deixou e ela está bem. Não se preocupe. Pronto, eu agora pego-lhe...

Assim que teve a bebê nos braços, Jack acalmou. — Para começar, vai limpar toda esta porcaria — ordenou-me. — Falaremos de manhã.

Ellie atravessou o quarto até à cama e apoiou a mão no ombro de Alice. — Alice, vem comigo até lá abaixo enquanto Tom limpa o quarto — sugeriu. — Vou preparar uma bebida para nós.

Momentos depois, tinham descido todos à cozinha, deixando-me a apanhar os cacos de vidro. Passados cerca de dez minutos, fui também até lá buscar uma vassoura e uma vasilha de metal. Estavam sentados à volta da mesa da cozinha a beber chá de ervas, a bebê ador­mecida nos braços de Ellie. Não falavam e ninguém me ofereceu uma bebida. Ninguém olhou sequer na minha direção.

Voltei para cima e limpei tudo o melhor que pude, depois regres­sei ao meu quarto. Sentei-me na cama e olhei pela janela, sentindo-me assustado e sozinho. Estaria Alice já possuída? Afinal, fora o rosto de Mãe Malkin que me olhara do espelho. Se sim, então a bebê e todos os demais corriam verdadeiro perigo.

Ela não tentara fazer nada até ali, mas Alice era relativamente pequena comparada com Jack, por isso Mãe Malkin teria de ser as­tuta. Esperaria que fossem todos dormir. Eu seria o alvo principal. Ou talvez a bebê. O sangue de uma criança faria aumentar a sua força.

Ou eu partira o espelho mesmo a tempo? Teria eu quebrado o fei­tiço no preciso instante em que Mãe Malkin se preparava para possuir Alice? Outra possibilidade era que Alice estivesse apenas a falar com a bruxa, servindo-se do espelho. Mesmo assim, já era suficientemente mau. Significava que eu tinha dois inimigos com que me preocupar.


Precisava fazer algo. Mas o quê? Enquanto estava ali sentado, com a cabeça a rodar, tentando refletir sobre o assunto, ouvi uma pancada na porta do meu quarto. Pensei que fosse Alice, de ma­neira que não fui lá. Depois uma voz chamou baixinho por mim. Era Ellie, por isso abri a porta.

— Podemos falar aí dentro? — perguntou. — Não quero correr o risco de acordar a bebê. Acabei de conseguir adormecê-la.

Anuí, Ellie entrou e fechou cuidadosamente a porta atrás de si.

— Está bem? — indagou, parecendo preocupada. Acenei com a cabeça, infeliz, mas não a consegui encarar.

— Gostaria de me falar do sucedido? — perguntou. — É um rapaz sensato, Tom, e deve ter tido um motivo muito forte para fazer o que fez. Talvez se sentisse melhor conversando.

Como podia contar-lhe a verdade? Quer dizer, Ellie adorava a bebê, por conseguinte, como podia dizer-lhe que havia uma bruxa em algum lugar à solta na casa que gostava do sangue de crianças? Percebi então que, por causa da bebê, ia ter de lhe contar alguma coisa. Ela pre­cisava saber até que ponto a situação era grave. Ela tinha de sair dali.

— Há uma coisa, Ellie. Mas não sei como lhe contar.

Ellie sorriu.

— O princípio seria um ponto tão bom como qual­quer outro...

— Algo me seguiu até aqui — disse eu, olhando Ellie diretamente nos olhos. — Algo pérfido que me quer fazer mal. Foi por isso que parti o espelho. Alice estava a falar com aquilo e...

Os olhos de Ellie chisparam subitamente de raiva.

— Conte isso a Jack e pode ter a certeza de que vai sentir o seu punho! Quer dizer que trouxe algo para cá, quando eu tenho uma bebê recém-nas­cida? Como pode? Como pode fazer isso?

— Eu não sabia que isto ia acontecer — protestei. — Só o desco­bri esta noite. Por isso estou te contando agora. Precisa deixar a casa e pôr a bebê a salvo. Vá agora, antes que seja tarde demais.

— O quê? Neste momento? No meio da noite?

Anuí.

Ellie abanou a cabeça firmemente.

— Jack se recusaria a partir. Não aceitaria ser expulso da sua própria casa a meio da noite. Por nada deste mundo. Não, vou esperar. Vou ficar aqui e rezar as mi­nhas preces. Aprendi isso com a minha mãe. Ela disse que se rezar­mos realmente com intensidade, nada do escuro nos poderá fazer mal. E eu acredito realmente nisso. E, depois, podia estar enganado, Tom — acrescentou. — É jovem e ainda está a começar a apren­der o ofício, portanto, pode não ser tão mau quanto julgas. E a sua mãe deve voltar a qualquer momento. Se não esta noite, com certeza amanhã à noite. Ela saberá o que fazer. Entretanto, mantenha-se afas­tado do quarto daquela menina. Há algo que não está certo nela.

Quando abri a boca para falar, tencionando fazer mais uma tenta­tiva para a persuadir a ir-se embora, surgiu repentinamente uma ex­pressão de alarme no rosto de Ellie e ela vacilou e apoiou a mão na parede para evitar cair.

— Vê só o que arranjou. Sinto-me fraca só de pensar no que se passa aqui.

Sentou-se na minha cama e apoiou a cabeça nas mãos por alguns momentos, enquanto eu me limitava a olhá-la, infelicíssimo, sem saber o que fazer ou dizer.

Ao cabo de alguns instantes, ela voltou a pôr-se em pé.

— Preci­samos falar com a sua mãe assim que ela voltar, mas não se esque­ça: até lá, mantenha-se afastado de Alice. Promete?

Prometi e, com um sorriso triste, Ellie voltou para o seu quarto.

Só depois de ela sair é que se fez luz no meu espírito...

Era a segunda vez que Ellie cambaleava e dissera que sentia a ca­beça vazia. Uma vez ainda podia ser acaso. Apenas cansaço. Mas duas! Ela estava com tonturas. Ellie não tinha equilíbrio e isso era o pri­meiro sinal de possessão!

Comecei a andar de um lado para o outro. Só podia estar enganado. Logo Ellie! Não podia ser Ellie. Talvez ela estivesse apenas cansada. Afinal, a bebê quase não a deixava dormir. Mas Ellie era forte e sau­dável. Fora criada numa fazenda e não era pessoa para se deixar abater pelas circunstâncias. E toda aquela conversa de rezar... Devia tê-lo feito só para não provocar desconfianças.

Mas Alice não me dissera que seria difícil Ellie ser possuída? Referira também que provavelmente seria Jack, mas ele não eviden­ciara qualquer sinal de desequilíbrio. Mesmo assim, era inegável que ele estava a ficar mesmo muito mal-humorado e agressivo também! Se Ellie não o houvesse impedido, teria me arrancado a cabeça dos ombros.

Mas, é claro, se Alice estava de conluio com Mãe Malkin, tudo o que ela dissera poderia destinar-se a despistar-me. Nem sequer podia confiar nas informações a respeito do livro do Mago! Ela podia ter-me contado mentiras o tempo todo! Eu não sabia latim, por isso era impossível verificar o que ela dissera.

Percebi que qualquer das hipóteses era possível. Dar-se-ia um ata­que a qualquer momento e eu não tinha como saber de quem partiria!

Com sorte, a minha mãe regressaria antes da aurora. Ela saberia o que fazer. Mas a aurora ainda vinha muito longe, pelo que não podia per­mitir-me dormir. Tinha de ficar de vigia a noite inteira. Se Jack ou Ellie estivessem possessos, não haveria nada que eu pudesse fazer a esse respeito. Não podia entrar no quarto deles, por isso só me restava ficar de olho em Alice.

Fui lá para fora e sentei-me nas escadas entre a porta do quarto de Jack e Ellie e a do meu. Dali conseguia ver a porta do quarto de Alice, mais abaixo. Se ela saísse do quarto, pelo menos poderia dar o alerta.

Decidi que se a minha mãe não voltasse, me iria embora ao raiar do dia; para além dela, só havia mais uma hipótese de ajuda...

Foi uma longa noite e, a princípio, sobressaltava-me ao menor som — um rangido nas escadas ou um tênue movimento das tábuas num dos quartos. Mas, aos poucos, acalmei-me. A casa era antiga e eu estava acostumado a ruídos daqueles — os ruídos que se espera ouvir quando ela sossega e arrefece durante a noite. Todavia, com o aproximar da aurora, principiei a ficar novamente inquieto.

Comecei a ouvir ruídos de raspadelas tênues vindos do interior das paredes. Pareciam unhas a arranhar a pedra e não era sempre no mesmo lugar. Por vezes, era mais ao alto das escadas, do lado esquerdo; ou­tras em baixo, mais perto do quarto de Alice. Eram tão leves que tinha dificuldade em dizer se estaria ou não a imaginá-los. Mas comecei a sentir frio, muito frio, e isso avisou-me de que o perigo rondava.

Depois os cães começaram a ladrar e, passados alguns minutos, os outros animais ficaram também enlouquecidos, os porcos peludos a guincharem tão alto que se pensaria que o matador já chegara. Como se não bastasse, a barulheira fez com que a bebê recomeçasse a chorar.

Sentia agora tanto frio que todo o meu corpo era sacudido e tre­mia. Tinha de fazer alguma coisa.

Na margem do rio, quando enfrentara a bruxa, as minhas mãos ha­viam sabido o que fazer. Desta vez, sucedeu que as minhas pernas foram mais rápidas do que o pensamento. Levantei-me e corri. Assustado e com o coração a bater descompassado, desci apressadamente as escadas, fazen­do ainda mais barulho. Só pensava em ir lá para fora e afastar-me da bruxa. Nada mais importava. Toda a minha coragem se fora.

 

             OS PORCOS PELUDOS

Saí de casa a correr e dirigi-me para norte, direito à Colina do Carrasco, ainda em pânico, só abrandando quando cheguei à pasta­gem norte. Precisava de ajuda, e rapidamente. Ia voltar a Chipenden. Só o Mago me poderia ajudar naquele momento.

Mal cheguei à vedação limítrofe, os animais calaram-se e virei-me e olhei para trás, na direção da fazenda. Vi, para lá dela, a estrada de terra batida serpenteando ao longe, como uma mancha escura na man­ta de retalhos dos campos cinzentos.

Foi então que avistei uma luz na estrada. Uma carroça avançava na direção da fazenda. Seria a minha mãe? Por um momento, a minha esperança renasceu. Mas quando a carroça se aproximou do portão da fazenda, ouvi uma tosse ruidosa, o som de mucosidades a serem reu­nidas na garganta, e depois alguém escarrou. Era apenas Snout, o ma­tador de porcos. Tinha de fazer o serviço a cinco dos nossos maiores porcos peludos; uma vez mortos, era preciso raspar muito cada um, por isso queria começar cedo.

Ele nunca me fizera mal, mas eu ficava satisfeito quando terminava o serviço e se ia embora. A minha mãe também nunca gostara dele. Detestava o hábito de estar sempre a reunir as mucosidades espessas e depois lançá-las para o pátio.

Era um homem grande, mais alto ainda do que Jack, com músculos salientes nos antebraços. Os músculos eram necessários para o trabalho que efetuava. Alguns porcos pesavam mais do que um homem e de­batiam-se com uns doidos para se esquivarem à faca. No entanto, havia uma parte de Snout que fora descurada. As suas camisas eram sempre curtas, com os dois botões de baixo abertos, e a barriga gorda, branca e peluda pendia sobre o avental de couro castanho que usava para evitar que as calças ficassem ensopadas de sangue. Não deveria ter muito mais de trinta anos, mas o seu cabelo era ralo e escorrido.

Desapontado por não ser a minha mãe, vi-o retirar a lanterna da car­roça e começar a descarregar as ferramentas. Efetuava os preparativos para a tarefa na parte da frente do celeiro, mesmo ao lado da pocilga.

Eu já perdera tempo suficiente e começara a escalar a vedação para a mata quando, pelo canto do olho, avistei um movimento mais abaixo na vertente. Uma sombra avançava, célere, ao meu encontro, na direção dos degraus no outro extremo da pastagem norte.

Era Alice. Não queria que ela me seguisse mas preferia enfrentá-la agora do que mais tarde, por isso sentei-me na vedação limítrofe e esperei que ela me alcançasse. Não tive de esperar muito porque ela subia a colina correndo.

Não se aproximou demais, ficando a cerca de nove ou dez pas­sos, de mãos no quadril, tentando recuperar o fôlego. Mirei-a de alto a baixo, vendo de novo o vestido preto e os sapatos bicudos. Devia tê-la acordado quando descera as escadas correndo; para me alcançar tão de­pressa, certamente se vestira rapidamente, seguindo-me de imediato.

— Não quero falar com você — gritei-lhe, o nervosismo fazendo com que a voz me tremesse e saísse mais esganiçada do que o cos­tume. — Também não perca tempo seguindo-me. Teve a sua opor­tunidade, por isso, de agora em diante é melhor que se mantenha bem longe de Chipenden.

— Era bom que falasse comigo se quer evitar problemas — su­geriu Alice. — Em breve será tarde demais, por isso há uma coisa que convém saber. Mãe Malkin já está aqui.

— Eu sei — respondi. — Eu a vi.

— Não apenas no espelho, porém. Não é só isso. Ela voltou, está em algum lugar dentro da casa — disse Alice, apontando para o fundo da colina.

— Já te disse que o sei — respondi-lhe, furioso. — O luar mos­trou-me o rastro que ela deixou, e quando fui lá acima para te avisar, o que foi que descobri? Você estava já a falar com ela e é natural até não ser a primeira vez.

Lembrei-me da primeira noite em que fora ao quarto de Alice e lhe dera o livro. Quando entrara, a vela ainda fumegava diante do es­pelho.

— Provavelmente trouxe-a até aqui — acusei. — Disse-lhe onde eu estava.

— Isso não é verdade — retrucou Alice, uma raiva na sua voz equiparável à minha. Deu cerca de três passos na minha direção. — Eu cheirei-a, sim, e servi-me do espelho para ver onde estava. Não sabia que ela estava tão próximo, está bem? Ela era forte demais para mim, por isso não consegui me afastar. Ainda bem que entrou na­quele momento. A minha sorte foi ter partido o espelho.

Queria acreditar em Alice, mas como podia confiar nela? Quando avançou mais uns passos, virei-me parcialmente, pronto para saltar para a erva do outro lado da vedação. — Vou a Chipenden buscar Mr. Gregory — disse-lhe. — Ele saberá o que fazer.

— Não há tempo para isso — respondeu Alice. — Quando voltar será tarde demais. Há que pensar na bebê. Mãe Malkin quer fazer-te mal, mas estará sedenta de sangue humano. Ela prefere o san­gue jovem. É esse que a torna mais forte.

O medo fizera-me esquecer a bebê de Ellie. Alice tinha razão. A bruxa não iria querer possuí-la, mas pretenderia, sem dúvida, o seu sangue. Quando eu chegasse com o Mago seria tarde demais.

— Mas o que posso fazer? — perguntei. — Que hipóteses tenho contra a Mãe Malkin?

Alice encolheu os ombros e os cantos da sua boca descaíram. — Isso é assunto seu. Certamente o Velho Gregory ensinou-lhe algo que possa ser útil, não? Se não o escreveu no seu livro de notas, então, talvez esteja dentro da sua cabeça. Só precisa de se lembrar, é tudo.

— Ele não me falou tanto assim sobre as bruxas — referi, sentindo-me subitamente aborrecido com o Mago. A maior parte da minha preparação fora sobre demônios, com alguns bocadinhos sobre imagens fantasmagóricas e fantasmas... quando todos os meus proble­mas tinham sido causados por bruxas.

Continuava a não confiar em Alice, mas agora, depois do que ela acabara de dizer, não podia ir a Chipenden. Nunca conseguiria trazer o Mago até aqui a tempo. O aviso dela sobre a bebê de Ellie parecera bem-intencionado, mas, caso Alice estivesse possessa ou do lado de Mãe Malkin, aquelas eram as palavras precisas que não me deixariam outra alternativa senão descer a colina em direção à fazenda. Aquelas palavras impediam-me precisamente de ir avisar o Mago, ao mesmo tempo que me colocavam à mercê da bruxa para ela por as mãos em mim quando lhe conviesse.

No percurso colina abaixo, mantive a distância de Alice, mas ela ia a meu lado quando entramos no pátio e o atravessamos até perto da parte da frente do celeiro.

Snout estava ali afiando as facas; ergueu o olhar quando me viu e bai­xou-me a cabeça. Correspondi à sua saudação. Depois de ele me cum­primentar, limitou-se a fitar Alice sem falar, mas olhou-a de alto a baixo por duas vezes. Depois, antes mesmo de chegarmos à porta da cozinha, assobiou longa e sonoramente, em aprovação.

Alice fingiu que não o ouvira. Antes de tratar do desjejum tinha outra tarefa a cumprir: foi direta para a cozinha e começou a prepa­rar o frango que iríamos comer à refeição do meio do dia. Pendia de um gancho junto à porta, o pescoço e as entranhas já retirados na noite da véspera. Começou por limpá-lo com água e sal, os olhos muito concentrados no que estava a fazer, para que os dedos atarefados não falhassem o mais ínfimo pedacinho.

Foi então, enquanto a observava, que me lembrei finalmente de algo que talvez pudesse funcionar num corpo possuído.

Sal e ferro!

Não tinha bem certeza, mas valia a pena tentar. Era o que o Mago usava para prender um demônio num poço e podia ser que desse re­sultado no caso de uma bruxa. Se o atirasse a alguém possesso, talvez conseguisse expulsar Mãe Malkin.

Não confiava em Alice e não queria que ela me visse servir-me do sal, por conseguinte, tive de esperar até ela terminar de limpar o frango e sair da cozinha. Feito isso, e antes de iniciar as minhas pró­prias tarefas, efetuei uma visita à oficina do meu pai.

Não levei muito tempo a encontrar aquilo de que precisava. Escolhi, de entre a enorme coleção de limas na prateleira por cima do banco de carpinteiro, a maior e mais dentada delas todas. Era aque­la a que chamavam «bastarda» e que, quando era mais novo, me pro­porcionava a única oportunidade de alguma vez usar tal palavra sem levar um sopapo na orelha. Comecei então a limar a extremidade de um balde velho de ferro, o ruído bulindo-me com os nervos. Mas não tardou que um ruído ainda maior cortasse o ar.

Foi o grito de um porco moribundo, o primeiro de cinco.

Sabia que Mãe Malkin podia aparecer em qualquer lado, e se ela não tivesse já possuído alguém, a qualquer instante escolhe­ria uma vítima. Fiz um esforço para me concentrar e ficar perma­nentemente atento. Pelo menos agora tinha algo com que me defender.

Jack queria que eu ajudasse Snout, mas eu tinha sempre uma des­culpa pronta, dizendo que estava a acabar isto ou que ia começar a fazer aquilo. Se me pusesse a ajudar Snout não poderia vigiar os demais. Como eu era apenas o irmão de visita por alguns dias, e não alguém contratado, Jack não pôde insistir, mas andou lá perto.

No fim, depois do almoço, de semblante muito carregado, lá se viu na obrigação de ajudar Snout, que era exatamente o que eu pre­tendia. Se ele estivesse a trabalhar defronte do celeiro, eu sempre o podia vigiar à distância. Usei constantemente de pretextos para ir ver Alice e Ellie também. Qualquer delas poderia estar possessa, mas, se fosse Ellie, não haveria grandes hipóteses de salvar a bebê: passava a maior parte do tempo ou nos braços da mãe ou a dormir no berço à sua beira.

Tinha o sal e o ferro, mas não sabia se seriam suficientes. Uma cor­rente de prata teria sido muito mais eficaz. Mesmo que curta, sem­pre seria melhor do que nenhuma. Quando eu era pequeno, escutara uma vez o meu pai e a minha mãe a falarem de um fio de prata que lhe pertencera. Eu nunca a vira usar tal coisa, mas podia encontrar-se ainda algures na casa — talvez na arrecadação mesmo por debaixo do sótão, que a minha mãe mantinha sempre fechada.

Mas o quarto deles não estava trancado. Em circunstâncias normais, nunca entraria ali sem autorização, mas estava desesperado. Procurei no guarda-jóias da minha mãe. Havia lá pregadores e anéis, mas ne­nhum fio de prata. Procurei em todo o quarto. Senti-me realmente culpado de andar a remexer nas gavetas, mas não deixei de o fazer. Pensei que pudesse haver uma chave da arrecadação, mas não a en­contrei.

Enquanto andava à procura, ouvi as botas de Jack a subir as escadas. Fiquei muito quieto, mal ousando respirar, mas ele foi ape­nas ao seu quarto por alguns momentos e desceu logo em seguida. Concluí então a minha busca e, não tendo encontrado nada, desci para vir ver mais uma vez como estavam todos.

Naquele dia, o ar estivera silencioso e calmo, mas, quando passei pelo celeiro, começou a levantar-se uma brisa. O Sol principiava a bai­xar no horizonte, iluminando tudo com um brilho quente e verme­lho e prometendo bom tempo para o dia seguinte. Havia agora na frente do celeiro três porcos mortos pendendo, de cabeça para baixo, de ganchos grandes. Eram cor-de-rosa e tinham sido acabados de ras­par, o último ainda a escorrer sangue para um balde, e Snout encon­trava-se ajoelhado, abraçado com o quarto, que estava lhe dando uma trabalheira — era difícil dizer qual deles grunhia mais alto.

Jack, a parte da frente da sua camisa encharcada de sangue, dei­tou-me um olhar fuzilante quando passei, mas limitei-me a sorrir e baixar a cabeça. Prosseguiam apenas a tarefa em mãos e faltava ainda um bom bocado, pelo que estariam ocupados muito depois de o Sol se pôr. Até ao momento, não houvera o menor sinal de desequilíbrio, nem sequer um indício de possessão.

Uma hora depois era já escuro. Jack e Snout trabalhavam ainda à luz da fogueira que projetava as suas sombras no pátio.

O horror começou quando fui ao barracão na parte de trás do celeiro a fim de trazer uma saca de batata de semente do armazém...

Ouvi um grito. Foi um grito cheio de terror. O grito de uma mu­lher que enfrenta a pior coisa que lhe poderia acontecer.

Larguei a saca de batatas e corri para a parte da frente do celeiro. Ali, estaquei de repente, mal podendo acreditar no que via.

Ellie encontrava-se a cerca de vinte passos, os dois braços estendi­dos, gritando a bom som, como se a estivessem a torturar. A seus pés estava Jack, com o rosto cheio de sangue. Pensei que Ellie gri­tasse por causa de Jack — mas não, era por causa de Snout.

Estava virado para mim, como se aguardasse a minha chegada. Agarrava na mão esquerda a faca afiada preferida, aquela comprida que usava sempre para degolar os porcos. Fiquei estático, horrorizado, por­que sabia o que ouvira no grito de Ellie.

Ele segurava a bebê aninhada no braço direito.

Havia sangue espesso de porco nas suas botas e escorria ainda mais do avental para elas. Aproximou mais a faca da bebê.

— Venha cá, rapaz — gritou na minha direção. — Venha cá. — Depois soltou uma gargalhada.

A boca dele abria e fechava ao falar, mas não era a voz dele que saía. Era a de Mãe Malkin. Tão pouco era a gargalhada cava e sonora dele. Era a risada da bruxa.

Avancei lentamente um passo na direção de Snout. Depois outro. Queria aproximar-me dele. Queria salvar a bebê de Ellie. Tentei ser mais rápido, mas não consegui. Parecia que os meus pés pesavam como chumbo. Era o mesmo que tentar correr desesperadamente num pesadelo. As minhas pernas moviam-se como se não me pertencessem.

Percebi, de repente, de algo que me provocou calafrios. Eu não estava a avançar para Snout porque queria. Mas porque Mãe Malkin me chamava. Ela estava a arrastar-me para ele ao ritmo que pretendia, aproximando-me da faca dele a postos. Eu não ia salvar, mas tão-somente morrer. Encontrava-me sob uma espécie de feitiço. Uma fórmula de compulsão.

Sentira algo semelhante à beira do rio, só que nessa altura a minha mão e o meu braço esquerdos tinham agido por si próprios para atirar Mãe Malkin à água. Agora os meus membros estavam tão incapazes como a minha mente.

Aproximava-me mais de Snout. Cada vez mais perto da sua faca a postos. Os olhos dele eram os de Mãe Malkin e o seu rosto alterara-se de forma horrível. Era como se a bruxa dentro de si lhe estivesse a distorcer a forma, inchando as faces ao ponto de arrebentarem, arrega­lando os olhos ao ponto de saltarem, carregando o cenho como pe­nhascos escarpados suspensos; por baixo deles, os olhos bulbosos e salientes com fogo no centro, lançando um brilho vermelho e sinis­tro à sua frente.

Dei outro passo e senti o meu coração bater forte. Novo passo e ele bateu novamente com força. Estava agora muito mais próximo de Snout. Pum, pum, fazia o meu coração, um batimento por cada passo.

Quando estava a menos de cinco passos da faca em riste, ouvi Alice correr na nossa direção, gritando o meu nome. Vi-a pelo canto do olho, saindo da escuridão para o clarão da fogueira. Vinha diretamente para Snout, o cabelo preto fluindo para trás como se corresse ao encontro de um vendaval.

Sem interromper sequer o passo, deu um pontapé com toda a força por cima do avental de couro dele, e vi a ponta do seu sapato bicudo enterrar-se fundo na barriga gorda dele, pelo que só aparecia o calca­nhar.

Snout arfou, dobrou-se e largou a bebê de Ellie mas, com a agili­dade de um gato jovem, Alice caiu de joelhos e apanhou-a antes mesmo de bater no solo. Depois virou-se bruscamente, correndo na direção de Ellie.

No preciso instante em que o sapato bicudo de Alice tocou na bar­riga de Snout, o feitiço quebrou-se. Eu estava novamente livre. Livre para mover os meus próprios membros. Livre para me deslocar. Ou livre para atacar.

Snout encontrava-se quase dobrado ao meio mas endireitou-se e, apesar de ter largado a bebê, segurava ainda a faca. Vi-o movê-la na minha direção. Vacilou também um pouco — talvez estivesse sem equilíbrio, ou talvez fosse apenas uma reação ao sapato bicudo de Alice.

Liberto do feitiço, brotou em mim toda uma série de sentimentos. Havia pena pelo que fora feito a Jack, horror ante o perigo que a bebê de Ellie correra e raiva por isto estar a acontecer à minha família.

E, naquele momento, soube que nascera para ser um Mago. O melhor Mago que alguma vez existira. Eu podia e iria fazer com que a minha mãe se orgulhasse de mim.

Sabem, é que em vez de estar cheio de medo, eu era todo gelo e fogo. Cá no âmago, eu estava enfurecido, cheio de uma raiva ardente que ameaçava explodir. Ao passo que, por fora, estava tão frio quanto o gelo, a minha mente encontrava-se alerta e lúcida, a respiração lenta.

Enfiei as mãos nos bolsos das calças. Depois retirei-as rapidamente, cada punho cheio do que encontrara ali e arremessei cada mão-cheia diretamente na cabeça de Snout, algo branco da minha mão direita e algo escuro na esquerda. Juntaram-se, uma nuvem branca e uma nuvem preta, no preciso instante em que lhe atingiram o rosto e os ombros.

Sal e ferro — a mesma mistura tão eficaz contra um demônio. Ferro para lhe retirar a força; sal para queimá-lo. Limalhas de ferro do balde velho e sal da despensa da minha mãe. Só esperava que surtisse o mesmo efeito sobre uma bruxa.

Acho que levar com uma mistura daquelas na cara não seria bom para ninguém — no mínimo, provocaria tosse e cuspidelas —, mas o efeito sobre Snout foi muito pior do que isso. Primeiro abriu a mão e largou a faca. Depois os seus olhos reviraram-se e caiu pesada e len­tamente para a frente, ajoelhando-se. A seguir bateu com toda a força com a testa no solo e o seu rosto virou-se para um dos lados.

Começou a sair-lhe algo espesso e viscoso da narina esquerda. Fiquei ali a ver, incapaz de me mexer, enquanto Mãe Malkin saía len­tamente a borbulhar e a contorcer-se da narina dele, adquirindo a forma que eu recordava. Era ela, sem dúvida, mas uma parte sua es­tava igual, enquanto outras se apresentavam diferentes.

Para começar, tinha menos de um terço do tamanho que apresen­tara da última vez que a vira. Agora, os ombros dela mal passavam dos meus joelhos, mas trazia ainda a comprida capa que arrastava pelo chão, e o cabelo grisalho e branco caía-lhe sobre os ombros curvados como cortinas bolorentas. O que estava realmente diferente era a sua pele. Toda lustrosa, estranha e como que torcida e esticada. No en­tanto, os olhos vermelhos não haviam mudado e fitaram-me uma vez, antes de ela se virar e começar a afastar em direção à esquina do celei­ro. Parecia estar a encolher ainda mais e perguntei-me se seriam o sal e o ferro que continuavam a surtir efeito. Não sabia o que mais podia fazer, por isso fiquei ali a vê-la afastar-se, exausto demais para me mexer.

Alice não se deteve por ali. Entregara entretanto a bebê a Ellie e veio correndo, dirigindo-se para a fogueira. Pegou num pedaço de ma­deira que ardia numa extremidade, depois avançou rapidamente para a Mãe Malkin, segurando-o diante dela.

Sabia o que ia fazer. Um toque e ela irromperia em chamas. Algo dentro de mim não podia deixar que isso sucedesse porque era horrível demais, de modo que agarrei Alice pelo braço quando ela passou correndo e rodei-a, posto o que largou a tora em chamas.

Ela virou-se para mim, o seu rosto todo em fúria, e julguei que fosse sentir um sapato bicudo. Mas agarrou-me o antebraço com tanta força que as unhas se chegaram mesmo a cravar fundo na carne.

— Endureça, ou não sobreviverá! — atirou-me na cara. — Só fazer o que diz o Velho Gregory não chega. Morrerá tal como os outros!

Soltou-me o braço e, quando olhei para ele, vi gotas de sangue no lugar onde as unhas tinham se cravado em mim.

— Tem de queimar uma bruxa — disse Alice, a raiva na sua voz a diminuir —, para se certificar de que não voltará. Metê-la na terra não serve de nada. Só retarda as coisas. O Velho Gregory sabe-o, mas é brando demais para usar o fogo. Agora é tarde demais...

Mãe Malkin desaparecia nas sombras, tendo contornado o celeiro, continuando a encolher a cada passo, arrastando a capa preta pelo solo atrás de si.

Foi então que percebi que a bruxa cometera um grande erro. Seguira o caminho errado, diretamente para o chiqueiro maior. Nesta altura estava suficientemente pequena para passar por debaixo da primeira tábua.

Fora um dia péssimo para os porcos. Cinco deles haviam sido mor­tos e houvera momentos de muito barulho e sujidade, que provavel­mente os deixaram bastante assustados. Por conseguinte, o que se pode dizer é que não estavam nada satisfeitos e, provavelmente, não seria a ocasião mais indicada para entrar no chiqueiro deles. E, além disso, os porcos grandes e peludos comem tudo, seja lá o que for. Não tar­dou que chegasse a vez de Mãe Malkin gritar e fê-lo durante muito tempo.

— Aquilo deve equivaler a queimá-la — comentou Alice, quando o som finalmente desapareceu. Pude constatar o alívio no rosto dela. Eu sentia o mesmo. Estávamos ambos satisfeitos por ter acabado tudo. Estava cansado, de maneira que me limitei a encolher os ombros, não sabendo muito bem o que pensar, mas olhava para Ellie e não gos­tei do que vi.

Ellie estava assustada e horrorizada também. Olhava-nos como se não pudesse acreditar no que acontecera e no que tínhamos feito. Era como se me tivesse visto devidamente pela primeira vez. Como se se percebesse de repente do que eu era.

Compreendi também algo. Pela primeira vez, sentia realmente o que era ser o aprendiz do Mago. Vira as pessoas atravessarem para o outro lado da rua a fim de evitarem passar perto de nós. Vira-as es­tremecer ou benzer-se só porque havíamos atravessado a sua aldeia, mas não o levara a mal. Na minha mente era a sua reação ao Mago, não a mim.

Mas não podia ignorar este fato, ou passá-lo para segundo plano na minha mente. Estava a acontecer-me diretamente e estava a acon­tecer na minha própria casa.

De repente, senti-me mais sozinho do que nunca.

 

             O CONSELHO DO MAGO

Mas nem tudo foi mau. Afinal, Jack não morrera. Eu não quis fazer perguntas demais, pois só iria deixar todos aflitos, mas pa­recia que quando Snout se preparava para começar a raspar a barriga do quinto porco com Jack, ficara louco assim sem mais nem menos, e atacara-o.

Era apenas sangue de porco no rosto de Jack. Perdera os sentidos ao levar com uma tábua. Snout fora então para casa e agarrara na bebê. Quisera usá-la como isca para se aproximar e poder usar a sua faca em mim.

Claro que não estou a contar a versão mais fiel dos acontecimen­tos. Na realidade, não era Snout quem estava a fazer aquelas coisas terríveis. Ele estava possesso e Mãe Malkin limitara-se a usar o corpo dele. Ao cabo de algumas horas, Snout voltou a si e foi para casa in­trigado e agarrado à barriga dolorida. Parecia não se lembrar de nada do que sucedera, e nenhum de nós o quis esclarecer.

Ninguém dormiu muito naquela noite. Depois de atear um fogo forte, Ellie ficou a noite toda na cozinha e não quis deixar a bebê longe da vista. Jack foi-se deitar para recuperar da cabeça dolorida, mas acor­dava constantemente e vinha correndo para o exterior, a fim de vomi­tar no pátio.

Mais ou menos uma hora antes da aurora, a minha mãe chegou a casa. Também não parecia muito satisfeita. Parecia que algo correra mal.

Peguei na mala dela para a levar para casa.

— Está bem, mãe? — perguntei. — Parece-me cansada.

— Não se preocupe comigo, filho. O que aconteceu aqui? Vejo pela sua cara que alguma coisa não está bem.

— É uma longa história — respondi. — É melhor entrarmos pri­meiro.

Quando chegamos à cozinha, Ellie ficou tão aliviada de ver a minha mãe que desatou a chorar e isso fez com que a bebê chorasse também. Jack desceu então e toda a gente quis contar tudo à mãe ao mesmo tempo, mas eu desisti ao cabo de alguns segundos, pois Jack come­çou a falar ruidosamente, como era seu hábito.

A minha mãe mandou-o calar rapidamente.

— Baixe a voz, Jack — disse-lhe. — Esta ainda é a minha casa e não suporto gritarias.

Ele não gostou que lhe falassem daquela maneira em frente de Ellie mas sabia que era escusado protestar.

Obrigou cada um de nós a contar-lhe exatamente o que aconte­cera, começando por Jack. Eu fui o último e, quando chegou a minha vez, ela mandou Ellie e Jack deitarem-se para que pudéssemos conversar a sós. Não que ela falasse muito. Limitou-se a escutar em silêncio, depois segurou-me a mão.

Por fim, foi até ao quarto de Alice e passou muito tempo a falar a sós com ela.

O Sol havia nascido há menos de uma hora quando o Mago che­gou. De certa forma, eu estava a contar com ele. Esperou junto ao por­tão e eu fui lá fora, narrando de novo os acontecimentos, enquanto ele se apoiava no bordão. Quando terminei, abanou a cabeça.

— Senti que algo estava errado, rapaz, mas cheguei tarde demais. Mesmo assim, agiu bem. Mostrou iniciativa e conseguiu lembrar-se de algumas das coisas que te ensinei. Se tudo o mais fa­lhar, pode sempre recorrer ao sal e ao ferro.

— Devia ter deixado Alice queimar Mãe Malkin? — inquiri. Ele suspirou e coçou a barba. — Como te disse, é uma coisa cruel queimar uma bruxa e pessoalmente não concordo.

— Acho que agora vou ter de enfrentar de novo Mãe Malkin — disse-lhe.

O Mago sorriu. — Não, rapaz, pode ficar descansado porque ela não voltará a este mundo. Depois do que lhe aconteceu no fim... Lembra-se do que te disse a respeito de comer o coração de uma bruxa? Bem, os seus porcos fizeram-no por nós.

— Não apenas o coração. Eles comeram tudo — contrapus. — Portanto estou livre? Realmente livre? Ela não pode voltar?

— Sim, está livre de Mãe Malkin. Existem por aí outras ameaças iguais ou piores, mas está livre, por agora.

Senti um grande alívio, como se me tivesse saído um peso enorme de cima dos ombros. Vivera num pesadelo e agora, eliminada a amea­ça de Mãe Malkin, o mundo parecia um lugar muito mais bonito e feliz. Acabara tudo, finalmente, e podia voltar a criar expectativas.

— Bem, está livre até cometer outro erro absurdo — acrescen­tou o Mago. — E não diga que não vai cometer. Aquele que nunca comete um erro nunca chega a lado nenhum. Faz parte do processo de aprendizagem. Bem, o que vamos fazer agora? — perguntou, semicerrando os olhos para o Sol nascente.

— A respeito de quê? — indaguei, curioso em saber ao que se referia.

— Da menina, rapaz — disse ele. — Parece que o poço a espera. Não vejo outra solução.

— Mas, no fim, ela salvou a bebê de Ellie — protestei. — Ela tam­bém salvou a minha vida.

— Ela usou o espelho, rapaz. Isso é mau sinal. Lizzie ensinou-lhe muito. Demasiado. Agora ela mostrou-nos que está preparada para o usar. O que irá fazer a seguir?

— Mas as suas intenções foram boas. Ela usou os seus conheci­mentos para tentar encontrar Mãe Malkin.

— Pode ser, mas ela sabe demais e também é inteligente. Neste momento é apenas uma menina, mas um dia será uma mulher e uma mulher inteligente é perigosa.

— A minha mãe é inteligente — redargui, aborrecido com o que ele dissera. — Mas também é boa. Tudo o que faz é com boas inten­ções. Ela usa a inteligência para ajudar as pessoas. Um ano, era eu mesmo muito pequeno, as imagens fantasmagóricas na Colina do Carrasco assustavam-me tanto que não conseguia dormir. A minha mãe foi lá acima depois de escurecer e calou-as. Ficaram sossegadas durante meses e meses.

Podia ter acrescentado que, na nossa primeira manhã juntos, o Mago me dissera que não havia muito a fazer em relação às ima­gens fantasmagóricas. E que a minha mãe provara que ele estava errado. Mas não o fiz. Já falara mais do que devia e desnecessaria­mente.

O Mago não disse nada. Olhava na direção da casa.

— Pergunte à minha mãe o que pensa de Alice — sugeri. — Parece dar-se bem com ela.

— Já tencionava fazê-lo — disse o Mago. — Está na hora de ter­mos uma conversinha. Espere aqui até terminarmos.

Fiquei vendo o Mago atravessar o pátio. Antes mesmo de chegar lá, a porta da cozinha abriu-se e a minha mãe veio recebê-lo à soleira.

Mais tarde, foi possível apurar algumas das coisas que tinham dito um ao outro, mas conversaram durante cerca de meia hora e nunca cheguei a descobrir se as imagens fantasmagóricas tinham feito parte da conversa. Quando o Mago saiu finalmente para a luz do Sol, a minha mãe ficou na porta. Ele fez então algo invulgar — algo que nunca o vira fazer. A princípio, julguei que tivesse baixado a cabeça à mãe ao despedir-se, mas houve algo mais naquele gesto. Houve tam­bém um movimento dos ombros. Foi ligeiro mas muito nítido, pelo que não restavam quaisquer dúvidas. Quando se despediu da minha mãe, o Mago fez-lhe uma pequena vênia.

Enquanto atravessava o pátio direto a mim, parecia sorrir de si para si.

— Vou voltar para Chipenden agora — disse —, mas acho que a sua minha mãe gostaria que ficasses mais uma noite. Seja como for, deixo isso ao seu critério — afirmou o Mago. — Ou traz a menina de volta e a prendemos no poço, ou levá-la à tia em Staumin. A escolha é sua. Use o seu instinto para tomar a decisão certa. Saberá o que fazer.

Depois foi-se embora, deixando-me com a cabeça a andar à roda. Sabia o que pretendia fazer em relação a Alice, mas tinha de ser a ati­tude certa.

Então, fui comer outra das ceias da minha mãe.

O meu pai regressara entretanto, mas, apesar de a minha mãe ficar satisfeita de o ver, havia algo que não estava muito bem, uma espécie de atmosfera, como uma nuvem invisível a pairar sobre a mesa. Portanto, não foi propriamente uma festa de comemoração e ninguém falou muito.

No entanto, a comida estava boa, um dos guisados especiais da minha mãe, pelo que não me ralei com a falta de conversa — estava demasiado ocupado a encher a barriga e a servir-me segunda vez antes que Jack tivesse tempo de limpar o prato.

O apetite de Jack voltara, mas ele estava um bocado acabrunhado, tal como os demais. Passara por muito, tinha um galo enorme na testa a prová-lo. Quanto a Alice, não lhe contara o que o Mago dissera, mas achava que ela devia saber, ainda assim. Não abriu a boca uma só vez durante o jantar. Mas a mais calada de todos era Ellie. Apesar da ale­gria de ter de volta a bebê, o que vira deixara-a muito transtornada e calculei que fosse demorar algum tempo a recompor-se.

Quando os outros se foram deitar, a minha mãe pediu-me que fi­casse. Sentei-me junto à lareira na cozinha, tal como fizera na noite que antecedera a minha partida para ir iniciar o aprendizado. Mas algo no rosto dela me disse que esta conversa ia ser diferente. Antes, ela mostrara-se firme comigo, mas esperançada. Confiante de que tudo iria correr bem. Agora parecia triste e cheia de dúvidas.

— Há quase vinte e cinco anos que trago bebês a este mundo no Condado — disse, sentando-se na sua cadeira de balanço —, e perdi alguns. Apesar de ser muito triste para a mãe e o pai, é apenas algo que acontece. Acontece aos animais da fazenda, Tom. Você próprio o viu.

Anuí. Todos os anos nasciam alguns carneiros mortos. Era algo com que se contava.

— Desta vez foi pior — disse a minha mãe. — Desta vez, tanto a mãe como o bebê morreram, algo que nunca me acontecera. Conheço as ervas certas e sei como misturá-las. Sei como tratar uma hemor­ragia grave. Sei exatamente o que fazer. E esta mulher era jovem e forte. Ela não devia ter morrido, mas não a consegui salvar. Fiz tudo o que podia, mas não a consegui salvar. E isso causou-me uma dor aqui. Uma dor no coração.

A minha mãe soltou uma espécie de soluço e agarrou o peito. Por um momento horrível, pensei que fosse chorar, mas depois ela respi­rou fundo e a força voltou-lhe ao rosto.

— Mas os carneiros morrem, mãe, e às vezes as vacas, quando parem — disse-lhe. — Uma mãe acaba por estar sujeita a morrer. É um milagre que tenha passado tanto tempo sem que isso lhe acon­tecesse.

Esforcei-me ao máximo, mas foi difícil consolá-la. A minha mãe estava a encarar muito mal a realidade. Fazia-a ver o lado negro da vida.

— Está ficando mais escuro, filho — disse-me. — E está a suceder mais depressa do que eu contava. Tinha esperança de que primeiro se tornasse um homem, com anos de experiência em cima. Por isso, vai ter de escutar com atenção tudo o que o seu mestre disser. A menor coisa contará. Vai ter de se preparar o mais rapidamente possível e trabalhar com afinco nas suas lições de latim.

Fez então uma pausa e estendeu a mão. — Deixa-me ver o livro. Quando lhe entreguei, ela folheou as páginas, parando de vez em quando para ler algumas linhas. — Ajudou-lhe? — inquiriu.

— Nem por isso — admiti.

— Foi o seu mestre que o escreveu. Ele lhe contou?

Abanei a cabeça. — Alice disse que fora escrito por um padre.

A minha mãe sorriu. — O seu mestre já foi padre. Foi assim que começou. Certamente um dia ele lhe contará. Mas não lhe pergunte. Deixe que ele te conte quando achar que é o momento certo.

— Do que foi que a senhora falou com Mr. Gregory? — per­guntei.

— Disso e de outras coisas, mas principalmente de Alice. Ele per­guntou-me o que eu achava que lhe devia acontecer. Disse-lhe que deixasse isso com você. Então, já se decidiu?

Encolhi os ombros. — Ainda não sei bem o que fazer, mas Mr. Gregory disse que eu deveria usar os meus instintos.

— É um bom conselho, filho — disse a minha mãe.

— Mas o que acha a mãe? — perguntei. — O que foi que disse a Mr. Gregory sobre Alice? Ela é uma bruxa? Pelo menos conte-me isso.

— Não — a minha mãe respondeu lentamente, medindo as pala­vras com cuidado. — Ela não é uma bruxa, mas será um dia. Nasceu com o coração de uma bruxa e não lhe resta senão seguir esse cami­nho.

— Nesse caso, deveria ir para o poço em Chipenden? — afirmei com pesar, abanando a cabeça.

— Lembre-se das suas lições. — A minha mãe falou de forma aus­tera. — Lembre-se do que o seu mestre te ensinou. Existe mais do que um tipo de bruxa.

— As «benévolas» — disse eu. — Está me dizendo que Alice pode vir a ser uma bruxa boa que ajuda os outros?

— Pode ser que sim. E pode ser que não. Sabe o que acho mesmo? É capaz de não querer ouvir isto.

— Quero — afirmei.

— Alice pode acabar por não ser nem boa nem má. Pode vir a ficar em algum lugar no meio. E isso faria com que fosse muito perigoso conhecê-la. Aquela menina pode ser a desgraça da sua vida, uma praga, um veneno em tudo o que fizer. Ou pode vir a revelar-se a melhor e mais forte amiga que alguma vez terá. Alguém que fará toda a dife­rença no mundo. Só não sei para que lado penderá. Não consigo ver, por mais que me esforce.

— Mas como poderia vê-lo, mãe? — inquiri. — Mr. Gregory disse que não acredita em profecias. Ele disse que o futuro não está deter­minado.

A minha mãe apoiou uma mão no meu ombro e apertou-o ligei­ramente para me encorajar. — Todos nós temos algumas escolhas em aberto — disse. — Mas talvez uma das decisões mais importantes que alguma vez venhas a tomar seja em relação a Alice. Agora vá se deitar e dorme bem, se puder. Tome a decisão amanhã, quando o sol brilhar.

Uma coisa que não perguntei à mãe foi como conseguira silenciar as imagens fantasmagóricas na Colina do Carrasco. Novamente os meus instintos. Sabia apenas que era algo de que ela não iria querer falar. Numa família, há coisas que não se perguntam. Sabemos que nos con­tarão quando chegar o momento certo.

Partimos pouco depois da aurora, o meu coração aos pés.

Ellie seguiu-me até ao portão. Parei ali mas fiz sinal a Alice para que continuasse e ela foi subindo vagarosamente a colina, sacudindo o quadril, sem olhar sequer uma vez para trás.

— Preciso de te dizer algo, Tom — começou Ellie. — Custa-me fazê-lo, mas tem mesmo de ser.

Notei pela voz dela que ia ser mau. Anuí, muito infeliz, e fiz um esforço para fitá-la nos olhos. Fiquei chocado ao ver que estavam ma­rejados de lágrimas.

— Continua a ser bem-vindo aqui, Tom — disse Ellie, afastando o cabelo da testa e tentando sorrir. — Isso não mudou. Mas temos de pensar na nossa filha. Portanto, é bem-vindo aqui, mas não depois de escurecer. Sabe, é por esse motivo que Jack tem andado tão mal-humorado. Não queria te dizer o quanto isso o incomoda, mas agora tem de saber. Não lhe agrada nada a sua atividade. Nem um pouco. Deixa-o arrepiado. E ele teme pela bebê.

— Estamos assustados, percebe? Receamos que, se alguma vez estiver aqui depois de escurecer, possa atrair algo mais. É capaz de trazer consigo algo mau e não podemos correr o risco de aconte­cer alguma coisa à nossa família. Venha visitar-nos durante o dia, Tom. Venha ver-nos quando o Sol tiver nascido e as aves estiverem a cantar.

Ellie abraçou-me e isso só piorou tudo. Sabia que surgira algo entre nós e que tudo mudara para sempre. Queria chorar, mas me contive. Tinha um grande nó na garganta e não consegui falar.

Vi Ellie voltar para a casa da fazenda e tornei a centrar a minha aten­ção na decisão que tinha de tomar.

O que iria fazer com Alice?

Acordara convicto de que era meu dever levá-la comigo para Chipenden. Parecera-me a atitude certa a tomar. E a mais segura tam­bém. Sentia-o como um dever. Quando dera os bolos à Mãe Malkin, deixara-me dominar pela brandura do meu coração. E vejam onde isso me levara. Portanto, o melhor era tratar já de Alice, antes que fosse tarde demais. Como dissera o Mago, tinha de pensar nos inocentes que poderiam vir a ser prejudicados no futuro.

No primeiro dia de viagem não falamos muito um com o outro. Disse-lhe que íamos voltar para Chipenden, para ver o Mago. Se Alice desconfiava do que lhe ia acontecer, o certo é que não se queixou. Depois, no segundo dia, ao aproximarmo-nos da aldeia e vermos já as vertentes mais baixas das colinas rochosas, a não mais de quilômetro e meio da casa do Mago, contei a Alice o que guardava bem guardado dentro de mim; o que me andava a preocupar desde que me aperce­bera do que continham os bolos.

Estávamos sentados na orla verdejante junto à beira da estrada. O Sol pusera-se e a claridade começava a diminuir.

— Alice, costuma mentir? — perguntei.

— Todo mundo mente às vezes — respondeu. — Não serias hu­mano se não o fizesse. Mas a maior parte das vezes digo a verdade.

— E na noite em que estava preso no poço? Quando te perguntei sobre aqueles bolos. Você disse que não havia outra criança em casa de Lizzie. Isso era verdade?

— Não vi nenhuma.

— A primeira que desapareceu ainda era bebê. Não podia ter-se afastado sozinha. Tem certeza?

Alice anuiu e depois baixou a cabeça, olhando para a erva.

— Acho que podia ter sido levada pelos lobos — referi. — Foi o que os rapazes da aldeia pensaram.

— Lizzie disse que vira lobos por estas bandas. Pode ter sido isso — concordou Alice.

— E então os bolos, Alice? O que continham?

— Sobretudo sebo e bocados de carne de porco. Miolo de pão tam­bém.

— E então o sangue? O sangue animal não teria servido a Mãe Malkin. Ela precisava de força suficiente para dobrar as barras por cima do poço. De onde veio então o sangue, Alice, o sangue que foi usado nos bolos?

Alice começou a chorar. Esperei pacientemente que terminasse, de­pois voltei a fazer a pergunta.

— Então, de onde veio?

— Lizzie disse que eu ainda era uma criança — contou Alice. — Elas tinham usado o meu sangue imensas vezes. Por isso, mais uma não teria importância. Não doía tanto assim. Quando já se acostumou... E, diga-me, como podia eu impedir Lizzie?

Então, Alice subiu a manga e mostrou-me o braço. Havia ainda luz suficiente para ver as cicatrizes. E eram bastantes — algumas an­tigas, outras relativamente recentes. A mais recente de todas ainda não sarara por completo. Ainda exsudava.

— E há mais do que estas. Muitas mais. Mas não posso mostrá-las todas — acrescentou Alice.

Não soube o que dizer, de modo que fiquei calado. Mas tomara já a decisão e não tardamos a mergulhar no escuro, afastando-nos de Chipenden.

Resolvera levar Alice diretamente para Staumin, onde morava a tia. Não suportava a idéia de ela acabar num poço no jardim do Mago. Era simplesmente horrível demais — e lembrei-me de outro poço. Lembrei-me de que Alice me ajudara a sair do poço de Tusk precisamente antes de Lizzie ter vindo buscar os meus ossos. Mas, acima de tudo, o que Alice acabara de me contar é que me fez finalmente mudar de idéia. Ela fora já um dos inocentes. Alice tam­bém fora uma vítima.

Subimos Parlick Pike e depois dirigimo-nos para Blindhurst Fell, mais a norte, mantendo-nos sempre nas terras altas.

Agradava-me a idéia de ir a Staumin. Ficava perto do mar e eu nunca tinha visto o mar, exceto do alto das colinas. O percurso que escolhi desviava-se um pouco do caminho, mas gostava de explorar e de estar ali em cima, perto do Sol. Pelo menos Alice não parecia im­portar-se nem um pouco.

Foi uma viagem agradável e apreciei a companhia de Alice e, pela primeira vez, começamos realmente a falar. Ela também me ensinou muito. Conhecia os nomes de mais estrelas do que eu e tinha muito jeito para apanhar coelhos.

Em matéria de plantas, Alice era perita em aspectos que o Mago não mencionara sequer até ali, como por exemplo as tóxicas beladona e mandrágora. Não acreditei em tudo o que ela disse, mas anotei-o ainda assim, porque ela fora ensinada por Lizzie e pareceu-me útil saber aquilo em que uma bruxa acredita. Alice sabia perfeitamen­te distinguir os cogumelos comestíveis dos venenosos, alguns dos quais eram tão perigosos que uma dentada podia fazer-nos parar o coração ou levar à loucura. Tinha comigo o livro de notas e, dando-lhe o título de «Botânica», acrescentei mais três páginas de informa­ções úteis.

Uma noite, quando estávamos a menos de um dia de caminho de Staumin, instalamo-nos numa clareira da floresta. Tínhamos acabado de cozinhar dois coelhos nas brasas de uma fogueira até a carne quase se desfazer nas nossas bocas. Após a refeição, Alice fez algo realmente estranho. Depois de se virar para mim, debruçou-se e segurou-me a mão.

Ficamos sentados assim durante muito tempo, ela a olhar para as brasas da fogueira e eu para as estrelas. Não queria me soltar, mas sen­tia-me completamente encabulado. A minha mão esquerda segurava a esquerda dela e senti-me culpado. Senti-me como se estivesse a dar a mão ao escuro e soubesse que o Mago não iria gostar.

Era-me impossível ignorar a verdade. Um dia, Alice iria ser uma bruxa. Foi então que percebi que a minha mãe tinha razão. Não tinha nada a ver com profecias. Conseguia vê-lo nos olhos de Alice. Ela es­taria sempre em algum lugar no meio, nem totalmente boa nem totalmente má. Mas isso não se aplicava a todos nós? Não havia ninguém per­feito.

Resolvi não retirar a mão. Fiquei ali sentado, uma parte de mim a gostar de lhe segurar a mão, o que até era reconfortante depois de tudo o que acontecera, enquanto a outra parte estava cheia de remorsos.

Foi Alice quem se soltou. Tirou a sua mão da minha e depois tocou no meu braço, no lugar onde as unhas dela se haviam cravado na noite em que tínhamos destruído Mãe Malkin. Podiam ver-se as cicatrizes com o brilho das brasas.

— Deixei-te aqui a minha marca — disse ela com um sorriso. — Nunca irá desaparecer.

Pareceu-me algo estranho de se dizer e não percebi muito bem onde ela queria chegar. Lá na fazenda, marcávamos o gado. Fazíamo-lo para mostrar que nos pertencia e para evitar que os animais tres­malhados se misturassem com os das propriedades vizinhas. Mas como podia eu pertencer a Alice?

No dia seguinte, descemos a uma extensa planície. Parte dela era terra pantanosa e, nos piores troços, pântano alagado, mas acabamos por dar com o caminho para Staumin. Nunca cheguei a ver a tia dela, pois não quis sair para me cumprimentar. Mesmo assim, concordou em receber Alice, pelo que não podia me queixar.

Havia um rio grande e largo ali perto e, antes de partir para Chipenden, descemos pela sua margem até ao mar. Não fiquei muito contente ao vê-lo. Estava um dia cinzento e ventoso e a água era da mesma cor do céu e as suas ondas, grandes e tumultuosas.

— Vai ficar bem aqui — disse-lhe, tentando mostrar-me ani­mado. — Deve ser bonito com sol.

— Tentarei tirar o melhor partido — respondeu Alice. — Não pode ser pior do que Pendle.

De repente, tive novamente pena dela. Às vezes, sentia-me sozi­nho, mas sempre podia conversar com o Mago; Alice nem sequer co­nhecia bem a tia e o mar encapelado fazia com que tudo parecesse ermo e frio.

— Olha, Alice, não conto que voltemos a nos ver, mas se alguma vez precisar de ajuda, mande-me um recado — prontifiquei-me.

Acho que o disse porque Alice era o mais próximo de um amigo que eu tinha. E como promessa, não era tão tola quanto a primeira que lhe fizera. Não estava efetivamente a comprometer-me com nada. Da próxima vez que ela pedisse algo, falaria primeiro com o Mago.

Para surpresa minha, Alice sorriu e ficou com uma expressão es­tranha no olhar. Lembrei-me do que o meu pai dissera uma vez, a respeito de as mulheres saberem coisas que os homens desconhecem — e quando suspeitávamos de tal, nunca deveríamos perguntar no que elas estavam a pensar.

— Oh, voltaremos a encontrar-nos — respondeu Alice. — Não tenho quaisquer dúvidas a esse respeito.

— Agora tenho de ir andando — disse-lhe, virando-me para partir.

— Vou sentir a sua falta, Tom — declarou Alice. — Não será o mesmo sem você.

— Também sentirei a sua falta, Alice — respondi, sorrindo-lhe.

Quando as palavras me saíram, pensei que as dissera por uma ques­tão de cortesia. Mas, não estava na estrada há mais de dez minutos quando percebi que me enganara.

Cada palavra fora intencional e sentia-me já sozinho.

Recorri sobretudo à memória para narrar estes acontecimentos, mas uma parte consta do meu livro de notas e do meu diário. Já me en­contro de volta a Chipenden e o Mago está satisfeito comigo. Acha que estou a fazer bons progressos.

Lizzie dos Ossos está no poço onde o Mago tinha preso a Mãe Malkin. As barras foram endireitadas e certamente ela não vai rece­ber de mim quaisquer bolos à meia-noite. Quanto a Tusk, encontra-se sepultado no buraco que cavou para minha sepultura.

O pobre Billy Bradley voltou para o seu jazigo do lado de fora do cemitério de Layton, mas, pelo menos, conseguiu recuperar os seus polegares. Nada disto é agradável mas é algo que faz parte do ofício. Mesmo que não gostemos, temos de fazê-lo, como diz o meu pai.

Há algo mais que lhes deveria contar. O Mago concorda com o que a minha mãe disse. Acha que os Invernos estão a ficar mais longos e o escuro a ganhar mais força. Tem a certeza de que o ofício será cada vez mais difícil.

Para que nunca me esqueça disso, vou continuar a estudar e a aprender — como me disse uma vez a minha mãe, se não tentarmos, nunca saberemos do que somos capazes. Por isso vou tentar. Estou a esforçar-me ao máximo, porque quero que ela se orgulhe realmente de mim.

Neste momento não passo de um aprendiz, mas um dia serei o Mago.

 

 

[1] Porão, adega ou divisão subterrânea

[2] Como os termos constantes do original, ghost e ghast começam por g, o autor recorreu à letra grega correspondente, gama. Entendeu-se por bem conservar o caráter original. (NT)

[3] Região de charnecas rochosas ou terrenos acidentados no Norte de Inglaterra. (NT)

[4] Pico. (NT)

[5] Pequeno monte. (NT)

[6] Lobo. (NT)

[7] Mais uma vez, a letra grega escolhida não encontra correspondência em português. O termo constante do original é boggart. (NT)

[8] Focinho de porco. (NT)

 

                                                                                Joseph Delaney  

 

                      

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