Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Arqueiro Verde / Edgar Wallace
O Arqueiro Verde / Edgar Wallace

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Arqueiro Verde

 

                  

 

UMA BELA HISTÓRIA

Spike Holland garatujou a última palavra de um original, traçou duas linhas horizontais para assinalar que havia terminado o trabalho e atirou a caneta, cuja pena se foi prender ao caixilho da vidraça; por um segundo, o cabo descolorido tremeu.

— Mão indigna não usará do instrumento de minha fantasia — disse ele, dirigindo-se ao companheiro.

— Que estava a escrever, Spike?

— "A exposição de cães realizada ontem", — respondeu o outro calmamente. Nada sei a respeito desses animais, senão que latem e agitam a cauda, mas Syme, que tem imaginação fértil, induziu-me a escrever sobre eles, dizendo que o repórter de crimes deve estar sempre informado desses assuntos. Aquele homem nada lhe parece como é; vive da imaginação. Contem-lhe um roubo num banco, e fantasiará uma história acerca do que têm para almoçar os presidentes de tal banco.

O outro afastou um pouco a cadeira.

— É comum esta espécie de mentalidade, e afirmo-lhe: a nossa gente parece estúpida comparada aos americanos.

— é essa a sua opinião? Os literatos constituem uma classe à parte e são incapazes de ver a vida através dos olhos do repórter. Chame-os redatores da cidade nos Estados Unidos, ou redatores de notícias na Inglaterra e em nada lhes modificará o espírito imaginativo. — Spike suspirou e pôs o pé sobre a mesa de trabalho. Era ainda jovem, sardento, tinha os cabelos vermelhos e mal asseados.

— "A exposição dos cães" é verdadeiramente interessante... — continuava, quando a porta se abriu violentamente para dar passagem a um homem que se apresentava em mangas de camisa, e cujo olhar brilhou através de enormes óculos.

— Spike... preciso de você. Está ocupado hoje?

— Pretendo almoçar com Wood, a quem ouvirei sobre as "Instituições para Crianças".

— Ele poderá esperá-lo; — e, com um aceno chamou o jornalista que o seguiu.

— Já ouviu falar de Abel Bellamy, um milionário de Chicago?

— Abe? Morreu? Sim, conheço-o e sei da história de um processo que lhe foi movido.

— Conhece-o bem?

— Sei que viveu em Chicago; é um homem grosseiro e se fez milionário trabalhando em construções. Está na Inglaterra há oito ou nove anos e creio... adquiriu um castelo... e tem a seu serviço um chinês, cuja grande virtude é ser mudo.

— Tudo isso eu sei. Mas quem é o "Arqueiro Verde"? Quem? — disse o redator impaciente. — O que preciso saber é que espécie de criatura ele é. í um espectro ou um homem?

— Espectro?

Syme, tomando um papel de notas, passou-o ao americano. Era uma mensagem de quem escrevia mal.

 

"Caro Senhor.

"O Arqueiro Verde" apareceu em Garre. Mr. Wilks, o mordomo, o viu. Caro Senhor, o "Arqueiro Verde" entrou no quarto de Mr. Bellamy e deixou a porta aberta; também foi visto no parque. Todos os criados o estão abandonando. Mr. Bellamy diz que não despedirá a quem disso falar, mas os criados o abandonam."

 

— Mas quem será esse fantasma?

Mr. Syme ajustou os óculos e sorriu; o repórter se admirou, pois ele não costumava ter gestos como este.

— O espectro de Garre Castle foi o mais famoso da Inglaterra. Não ria, pois sua história nada tem de bela. O fantasma original foi enforcado por um dos Curcys, antigos proprietários do castelo em 1487.

— Eh! Tudo isso é ilusão, — disse o repórter que o ouvia admirado.

— Não pense que gracejo. Foi enforcado e, ainda hoje, creio que poderá ver o galho de carvalho do qual pendia. Por cem anos vagou em Garre e mais tarde em 1799 fez uma aparição; em Berkshire se tornou um personagem lendário. Agora, afirmo-lhe: pode prestar crédito a esta carta escrita, evidentemente, por um dos criados que deixaram o castelo, obrigados ou levados pelo receio de que o nosso amigo "verde" lhes aparecesse novamente.

Holland franziu o sobrolho e mordeu o lábio.

— O fantasma que tiver o loucura de aparecer a Abe Bellamy, merece tudo que lhe vier a acontecer. Suponho que ele seja meio lenda, meio produto de um espírito doentio. Quer que procure Abe?

— Experimente e convença-o de abandonar o castelo por uma semana.

— Bem vejo que não o conhece. — respondeu o outro sacudindo a cabeça — estou certo de que, se eu lhe apresentar tal sugestão, me expulsará. Procurarei Savini, seu secretário, um eurasiano; é possível que ele me possa auxiliar. Ao que parece, o fantasma não fez mais que deixar aberta a porta do quarto de Abe Bellamy.

— Vá ter com ele, procure algum pretexto que lhe dê direito a entrar em sua casa; foi assim que ele conseguiu comprá-la há sete ou oito anos por cem mil libras. Obtenha a história, que será interessante, pois, há muito não escrevemos sobre esses assuntos. Nada, porém, o impede de ir ter com Wood; onde pretende encontrá-lo?

— Em Carlton. Wood está em Londres há poucos dias e voltará hoje, à noite, para a Bélgica.

— Isso facilitará o negócio, pois Bellamy está também em Carlton, e você poderá realizar ambos os empreendimentos.

Spike dirigiu-se para a porta.

— Histórias de fantasmas! Instituições para crianças! disse ele com amargura. — Minhas preocupações atuais são motivadas por um assassínio misterioso, e o jornal, naquele caso, não precisa de um repórter de crimes, mas de um escritor de contos de fadas.

— E você poderá sê-lo, — disse Syme, entregando-se a seus trabalhos.

 

O HOMEM SEM MEDO

Um ruído contínuo, um tinir de aço contra aço, o rumor monótono de motores, as pancadas infernais do martelo e do malho constituíam uma agradável música para os ouvidos de Abe Bellamy. Junto à janela de sua sala, com as mãos cruzadas às costas, tinha o olhar fixo naquela cena que poderia contemplar por muitas horas. Diante do hotel, o esqueleto de aço de um edifício em construção, sobressaía de todas as casas que lhe ficavam próximas.

Embaixo, na rua, haviam se reunido algumas pessoas que, boquiabertas, contemplavam uma viga de ferro que subia levada por um guindaste. Cada vez mais alto a grande máquina levantava o aço que se erguia com majestosa lentidão. Abe Bellamy resmungou uma palavra de contrariedade. A viga balançava perigosamente e ele avaliou a fração de uma polegada que a afastava do ponto em que devia ter sido colocada.

Se os maus atos dos homens fossem, como os antigos acreditavam, escritos em letras de sangue nos lugares em que eram perpetrados, o nome de Abe Bellamy teria sido manchado de vermelho várias vezes; numa pobre herdade em Montgomery County, Pensilvânia, no vestíbulo cinzento de Pentonville Prison — para não falar senão de dois lugares.

Nunca a insônia motivada pela recordação do passado perturbou a vida de Abe Bellamy; o remorso era estranho à sua natureza; o medo, não o conhecia. Praticara o mal e estava satisfeito. A lembrança de tantas vidas caprichosamente roubadas, de tantos sofrimentos deliberadamente infligidos, de crianças entregues à opressão e a dor, de uma mulher sacrificada para satisfazer o seu orgulho, nada lhe causava um segundo de inquietação de espírito. Se meditava naquelas velhas coisas, fazia-o com aprovação, pois parecia-lhe justo que aqueles que se lhe opunham fossem afastados de seu caminho. Apesar do requinte de maldade que ia naquele coração, a fortuna favoreceu-o grandemente. Aos vinte anos era operário, aos trinta e cinco possuidor de um milhão de dólares; aos cinqüenta e cinco seu capital tinha decuplado e ele, abandonando o meio em que se tinha feito, tornou-se proprietário abastado da Inglaterra, senhor de um domínio que a flor da cavalaria inglesa tinha conquistado com suas espadas e construído com o suor e temor dos escravos. Durante trinta anos satisfizera seus desejos de ferir; nada negara a si mesmo e de nada se arrependia. Bastante forte e vigoroso para sessenta anos, despertava atenção pela fealdade; a grande face vermelha apresentava profundas cicatrizes; o nariz largo e chato; um canto da boca rasgada levantava-se como num riso de escárnio, completando aquela máscara. Aquela fealdade não o preocupava, pois ele a considerava tão natural como suas más inclinações.

Tal era Abe Bellamy, outrora de Chicago, agora de Garre Castle em Berkshire, um homem a quem a natureza negara todas as virtudes.

Da grande janela do hotel, ele contemplava o trabalho progressivo.

Quem era o construtor e a que fim se destinava o edifício, não sabia nem cuidava. Seus olhos se fixaram em três homens que, livres da observação do mestre da obra, se haviam distraído do trabalho, e, instintivamente, voltou o olhar para a viga que oscilava, e disse consigo "perigo". No mesmo momento verificou-se o acidente. A ponta da viga tinha balançado no interior do andaime onde estavam dois operários. Um estrépito horrível se fez ouvir acima do ruído do trânsito da rua e, num relâmpago, um homem procurava salvar a vida, segurando-se ao andaime... então, alguma coisa caiu, virando e tornando a virar e desapareceu nos montes de tijolos e argamassa, atrás da trave que defendia a obra.

— Hum! — disse Abe Bellamy — que fará o construtor? E que influência terão nesse caso as leis do país?

— Se fosse meu o negócio, — pensava ele, teria mandado meu advogado procurar a viúva para que desistisse de seus direitos, antes de compreender que deles fora despojada; mas os ingleses são muito morosos.

Ao ruído da porta que se abria, Abe voltou a cabeça.

Julius Savini habituara-se a ser recebido com ar carrancudo, mas as maneiras do chefe fizeram-no perceber que havia alguma coisa estranha.

— Você me ouça, Savini; estou à sua espera desde as sete horas; se quer continuar em seu lugar, é preciso que cumpra mais pontualmente os deveres.

— Sinto muito desgostá-lo, Mr. Bellamy, mas ontem à noite — avisei-o de que viria mais tarde.

Julius Savini era quase humilde no falar, pois o emprego lhe havia ensinado que era necessária uma certa hipocrisia para bem viver.

— Quer receber um repórter do Globe?

— Um repórter? Você sabe que eles não me agradam. Que quer ele de mim? Quem é?

— É Spike Holland, um americano.

— Isto não faz com que seja bem-vindo. Diga-lhe que o recebo, mas não me quero ocupar de tolices de jornal. A respeito de que me quer ele falar? Você é meu secretário, não averiguou o que pretende?

— Ele deseja informações acerca do "Arqueiro Verde". Julius hesitou, e Abe Bellamy tremeu de cólera.

— Quem lhe falou do "Arqueiro Verde"? Você, você, renegado.

— Não estive com nenhum repórter — disse Julius. — Que lhe devo dizer?

— Faça-o subir. Se eu disser — pensou o velho — que não o posso receber, inventará alguma coisa; receio muito os jornalistas e este ainda mais, pois o Daily Globe goza de grande fama de Falmouth.

Savini introduziu o visitante.

— Você não precisa esperar — disse Bellamy ao secretário; e apenas ele saiu... — quer um cigarro? — continuou, dirigindo-se ao repórter e arremessando a cigarreira.

— Obrigado, Mr. Bellamy — disse Spike friamente — não costumo fumar cigarros de milionários, fazem-me mal.

— Bem, que quer então? — interrogou Bellamy.

— Falam por aí da história de um fantasma de Garre Castle, Mr. Bellamy, um arqueiro verde.

— É mentira — disse ele prontamente.

Se Abe se tivesse mostrado indiferente à pergunta, Spike poderia ter abandonado o assunto; a prontidão, porém, da negativa fez que o jornalista se interessasse ainda mais pela história.

— Quem lhe disse isso? — perguntou Bellamy.

— Obtivemos a informação de uma fonte digna de toda a confiança, — tal foi a resposta prudente... — e, de acordo com ela, o arqueiro verde de Garre, foi visto no castelo e esteve dentro e fora de seu quarto...

— Repito que é mentira, — e o tom de Abe Bellamy era violento. — Os criados andam sempre a ver fantasmas. É verdade que uma noite encontrei a porta de meu quarto de dormir aberta, mas creio que eu mesmo esqueci de fechá-la. Diga-me, quem lhe prestou informações tão faltas de verdade?

— Recebemo-las de três fontes diversas — disse Spike, falsamente... — e todas elas acordam no mesmo ponto. Agora, Mr. Bellamy — continuou sorrindo — há aqui uma coisa importante a considerar — a aparição de um fantasma num castelo encarece-lhe sempre o valor.

— Não lhe reconheço razão. Penso que servirá antes para depreciar a propriedade e se o senhor escrever uma linha acerca dessa história em seu jornal, eu o processarei. Percebeu?

— Esta proibição provém do medo que ele lhe causa.

O jornalista se retirou sem que em seu espírito se tivesse formado um juízo perfeito de Abe; não era o tipo comum do milionário que, vivendo na Inglaterra, se introduz na sociedade britânica. Era um homem rústico, pouco educado, sem ambições sociais, a não ser que o julgamento de Spike fosse defeituoso.

Novamente no vestíbulo, o repórter encontrou Julius que lhe pediu que esperasse, enquanto falava com um homem alto, de barbas grisalhas e que parecia operário.

— Pode subir, Mr. Creager, Mr. Bellamy o espera. Logo que o homem saiu, Julius foi ter com o jornalista.

— Que lhe disse ele, Holland?

— Ocultou o que sabia. Não haverá em tudo isso, Savini, propósitos inconfessáveis?

Julius sacudiu as espáduas emagrecidas.

— Não sei quem o teria posto nesta pista, quanto a mim estou certo de que nada lhe revelei, entretanto o velho zangou-se, julgando-me o autor desses boatos.

— Então é verdade — disse Spike — que você viu um horrível fantasma que caminhava ao longo das ameias do castelo? Diga-me, estava ele acorrentado?

— Nada obterá de mim, Holland, pois não desejo perder o emprego.

— Quem é aquele homem que você mandou subir? Seu olhar é investigador.

— Falava-me do mesmo assunto que trouxe você aqui. Chama-se Creager e é um — hesitou — bem, não posso dizer amigo, mas uma pessoa das relações do velho Abe e provavelmente trabalha para ele. Costuma vir aqui seguidamente a chamado do milionário e penso que não o faz sem motivo. Não devo subir antes que ele desça. Venha, pois, tomemos um coquetel.

Enquanto assim falavam, com grande surpresa de Julius, Creager descia as escadas. Vinha irado.

— Abe não me quer receber antes das duas horas — disse com mal dissimulada cólera. — Pensará que hei de esperá-lo? Está enganado. Pode-lhe dizer, Mr. Savini.

— Por que tanta contrariedade? — perguntou Julius.

— Já estou aqui, e não me devia fazer esperar até à tarde — disse o homem com grande desagrado — assim não me há de conquistar. Contrariou-o a visita de um certo repórter. Quem é ele?

— Sou eu — disse Spike.

— Diga-lhe — continuou Creager para Julius — que voltarei às duas horas. Preciso ter com ele uma longa palestra ou com o jornalista uma pequena conversa. — Com esta ameaça retirou-se.

— Savini — disse Spike antevejo aqui um belo assunto para um artigo.

O secretário subiu duas vezes, para atender o velho encolerizado.

 

JOHN WOOD

Spike olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para a uma, e ele se sentou para esperar John Wood que, pouco depois, entrava apressadamente. Era um homem alto, prematuramente envelhecido; os traços fisionômicos regulares e varonis faziam dele um tipo pouco comum; os olhos eram brilhantes e a boca expressiva parecia sempre sorrir.

Cumprimentou amàvelmente o repórter.

— Cheguei tarde? Estive muito ocupado esta manhã e pretendo seguir às duas e meia para o continente; devo, pois, me apressar.

Entraram ambos na grande sala de jantar e o criado os conduziu a uma mesa colocada a um canto. Spike, fitando o seu convidado, pensava no contraste entre essa figura insinuante e a fealdade do homem que há pouco deixara. Wood era a perfeita antítese de Abe Bellamy.

— Agora, de que falaremos? Conversemos enquanto nos servem a refeição. Sou americano...

— Como? eu não o imaginava — disse Spike.

— Vivi muito tempo na América, mas há alguns anos deixei aquele país. Não falemos porém demais a meu respeito; minhas virtudes não merecem tão grande atenção. Moro na Bélgica, no lugar denominado Wenduyne, onde mantenho uma "Instituição para Crianças" que talvez transfira para a Suíça. Sou inventor, bacharel, e basta.

— É justamente acerca disso que lhe desejo falar. Lemos alguma coisa a esse respeito no Belgian Independent, Dizem que o senhor procura reunir algum capital para a fundação de escolas maternais em todos os países da Europa. Diga-me, Mr. Wood, que é uma escola maternal?

Este refletiu, antes de responder.

— Em todos os países da Europa e particularmente aqui, há um problema a resolver — o das crianças abandonadas. Talvez "abandonadas" não seja propriamente o termo. Suponhamos uma viúva deixada na pobreza com dois ou três filhos: é-lhe impossível ganhar o sustento, se alguém não tomar a si o cuidado das crianças. Outras, cuja vinda ao mundo é temida, cujo nascimento é uma calamidade, devem deixar o lar desgraçado onde a falta de recursos fazem que a mãe não lhes possa dispensar os cuidados de que necessitam, nem educá-las. Vêem-se freqüentemente menores levados aos tribunais em virtude da má educação que receberam. — E continuou, reforçando as palavras — a "Instituição" tomará a seu cuidado a infância desamparada e será servida por senhoras especialmente preparadas para esse fim. Aceitaremos candidatas a quem instruiremos na arte de cuidar dos pequeninos, mediante uma gratificação. Espero que daqui a algum tempo estas instituições se poderão manter por si mesmas e serão capazes de dar ao mundo rapazes sadios e meninas aptas para enfrentarem as dificuldades da vida.

O assunto de suas palestras era sempre a infância, e era tal o ardor das palavras que empregava ao falar de uma orfãzinha alemã que estava na "Instituição" da Bélgica, que despertou a atenção dos hóspedes das outras mesas.

— Se não me leva a mal, Mr. Wood, dir-lhe-ei que acho estranho o seu capricho.

O outro sorriu.

— Concordo com sua opinião. Mas... quem são aquelas pessoas?

Um pequeno grupo entrara na sala: dois homens e uma jovem. Um deles era alto, magro, tinha os cabelos brancos e seu semblante revelava melancolia; o outro, ainda novo, vestia-se com elegância; tudo nele eram cuidados no trajar. Os olhares de Spike e Wood voltaram-se para a moça.

— Aquela jovem, vejo-a sempre acompanhada — disse o repórter.

— Quem é?

— Miss Howett, Miss Valéria Howett. O ancião é Walter Howett, um inglês que por muitos anos viveu nos Estados Unidos pobremente, até que um dia encontraram óleo em sua fazenda. Featherstone, o rapaz que está com eles, é também inglês e parece um ocioso, pois encontro-o freqüentemente, à noite, nos clubes de Londres.

Os novos hóspedes ocuparam uma mesa não muito distante, e Wood teve oportunidade de observar melhor a moça.

— É encantadora — disse em voz baixa.

Spike havia se levantado para ir cumprimentar o velho, voltando pouco depois.

— Mr. Howett quer que vá ter com ele em seus aposentos; Mr. Wood poderá dispensar-me?

— Certamente.

Duas vezes, durante a refeição, os olhos de Valéria voltaram-se para eles, como se a lembrança de Wood se lhe despertasse na mente. Onde o havia encontrado?

O repórter procurou abordar o assunto que presentemente o interessava.

— Mr. Wood, em suas viagens nunca encontrou fantasmas?

— Não, nem creio que existam.

— Conhece Bellamy?

— Abe Bellamy? Sim. É um homem que morou em Chicago e mais tarde adquiriu o Garre Castle.

Spike fez um sinal de assentimento.

— Garre Castle é a habitação do "Arqueiro Verde". O velho Bellamy não é orgulhoso de seu hóspede e ameaçou expulsar-me, quando o quis fazer ver nisso uma história interessante. — O repórter disse quanto sabia do arqueiro verde, e o companheiro o escutou sem comentários.

— É curioso, sei da lenda de Garre Castle e a ouvi de Mr. Bellamy.

— Conhece-o bem? — perguntou Spike, e o outro sacudiu a cabeça. Logo depois, Mr. Howett e seus companheiros levantaram-se e saíram; Wood procurou o criado, pagou a conta e retirou-se.

— Tenho de escrever uma carta. Espera o senhor se demorar na companhia do velho inglês?

— Uns cinco minutos. Não sei a respeito de que me quer ele falar, mas penso que não me deterá por muito tempo.

Howett esperava o jornalista em seu quarto, que ficava próximo de Bellamy. Mr. Featherstone parecia ter se retirado e apenas o milionário e a filha lá permaneciam.

— Entre, Holland — disse o velho. — Valéria, aqui está Mr. Holland, um jornalista que te poderá ser útil.

A jovem cumprimentou-o, sorrindo.

— Realmente era minha filha quem lhe desejava falar.

— A verdade é, Mr. Holland, que preciso descobrir a pista de uma mulher que viveu em Londres, há doze anos. — Ela hesitou —... Mrs. Held. Morava ela em Little Bethel Street, Camden Town. Todas as pesquisas para encontrá-la foram infrutíferas e não há quem possa dar notícias; apenas uma carta sua me chegou às mãos — novamente parou — nunca pude saber a quem era ela dirigida, pois foi guardado absoluto segredo a esse respeito. Poucas semanas depois de ela ter sido escrita, Mrs. Held desapareceu.

— E a senhora comunicou o desaparecimento à polícia?

— Sim, ela me tem auxiliado, por muitos anos; fiz quanto era possível para encontrá-la.

Spike meneou a cabeça.

— Receio que também o meu auxílio não seja eficiente.

— É o que penso — interveio Howett — mas, minha filha julga que, às vezes, o jornalista vê mais que o investigador.

Uma voz fora, no corredor, interrompeu a palestra; essa voz forte, estridente, de alguém que estava enraivecido, foi seguida imediatamente pelo baque de um corpo. Spike, saindo do quarto, viu o homem que Julius chamara Creager caído, enquanto a porta da sala era ocupada pela enorme figura de Abe Bellamy.

— Miserável! — bradou Creager.

— Fora daqui! — rugiu Bellamy — se tornar a esta casa, será arremessado pela janela.

— Fá-lo-ei pagar estas palavras!

— Não será certamente em dólares — disse o velho agressivamente — e ouça, Creager! Cuide que não vá perder a pensão que alcançou de seu governo. — E com essas palavras, voltou para o quarto e bateu com a porta.

Spike dirigiu-se a Creager.

— Que lhe aconteceu?

O homem procurava limpar a roupa.

— Saberá tudo — disse. — Não é repórter? Tenho muita coisa a dizer-lhe.

O rapaz era, em princípio, jornalista, e os fatos sensacionais eram seu alimento, constituíam a razão de sua vida. Voltou-se para Howett.

— Dê-me licença por um minuto, quero atender àquele homem.

— Quem o agrediu? Mr. Bellamy? — Era a jovem quem falava e havia tal veemência em suas palavras que Spike se surpreendeu.

— Sim, Miss Howett. Conhece-o?

— Ouvi falar dele.

Spike acompanhou Creager, que estava pálido e trêmulo, até à porta.

— É bem verdade o que ele disse. Posso perder minha pensão, mas hei de arriscar. Veja cá, Mr...

— Holland é o meu nome.

— Poderia falar-lhe aqui, mas se fosse à minha casa... Rose Cottage Field Road, New Barnet...

O repórter escreveu o endereço.

— Dir-lhe-ei coisas que hão de causar sensação. Sim, é o que farei, e repetiu com ênfase — sen-sa-ção.

— Excelente! E quando poderei vê-lo?

— Daqui a poucas horas — e despediu-se.

— O homem parece desalentado — disse Wood, que assistiu à cena como espectador interessado.

— Sim ele foi mal sucedido... creio que teremos um assunto interessante para o nosso jornal.

John Wood sorriu.

— Agora, Holland, devo deixá-lo, preciso ir. Vá à Bélgica e lá nos encontraremos. Talvez um dia — continuou ao despedir-se — eu lhe possa contar a vida de Abe Bellamy, a mais interessante que tenho visto. Se desejar melhores informações acerca de minha "Instituição", telegrafe-me.

Holland voltou aos aposentos de Mr. Howett e soube que a jovem se recolhera ao quarto, adoentada; a entrevista que com ela iniciara, fora adiada.

 

A FLECHA VERDE

Voltando ao trabalho naquela tarde, Spike escreveu um artigo a respeito do empreendimento de John Wood, e, logo depois, tomou um táxi para se dirigir a New Barnet. Quando passava por Fleet-Street, ouviu anunciar:

 

"O MISTERIOSO FANTASMA DE GARRE CASTLE".

 

Comprou o jornal. Sem dúvida, aquela notícia, dada em poucas linhas, fora fornecida pela mesma pessoa que escrevera a carta ao Globe. Uma nota à parte, contava a história de Garre Castle e as primeiras aparições do espectro.

"E tradicional a maneira de se apresentar o arqueiro de Garre — veste-se sempre de verde e verdes são também seu arco e flecha."

— Assim é — disse Spike.

Era longa a distância para New Barnet, e Field Road corria através dos campos.

Rose Cottage, escondida entre trepadeiras, com seu modesto jardim e pequena plantação, estava cercada de altas sebes. Spike, que a observara do carro, desceu e abriu o portão, bateu à porta que estava semicerrada; ninguém lhe respondeu. Bateu novamente e o mesmo silêncio. Chamou por Creager, e, quando se certificou de que não havia quem o recebesse, voltou para a estrada a procurar informações. Aproximou-se uma mulher que parecia vir de umas casas humildes que se viam ao longe, na estrada.

— Mr. Creager? Sim, senhor. Mora aqui e costuma estar em casa a esta hora.

— Entretanto, parece-me que agora não está. Morará alguém em sua companhia?

— Não senhor, mora só; minha irmã vem habitualmente nas primeiras horas do dia atender aos serviços domésticos. Quer entrar e esperá-lo?

Excelente idéia, pois começava a chover; Spike, entrando, dirigiu-se para uma sala confortavelmente mobiliada. Em cima da estufa havia um retrato em que Creager ostentava um estranho uniforme. O rapaz sentou-se e, tomando do jornal, leu novamente a história do "Arqueiro Verde". Era deveras extraordinário que persistisse tal lenda no século vinte, e que houvesse ainda pessoas que acreditassem em manifestações dessa natureza.

Depondo o jornal, o repórter olhou através da janela e viu ao longe, por trás de um arbusto, um pé que não se movia. Preocupado, saiu da sala, atravessou a clareira e dirigiu-se ao arbusto. , Ficou imóvel.

Deitado de costas, os olhos meio abertos, as mãos crispadas na agonia da morte, jazia Creager, que deveria ter caído, ao que parecia, vitimado por uma flecha aguda, ornada de penas verdes, que se lhe enterrava no peito. Spike ajoelhou-se ao lado do velho, procurando descobrir nele algum sinal de vida. Foi em vão; já era cadáver. Que fazer? Pensou então em dar uma rápida busca pela vizinhança, e, saltando por sobre a sebe iniciou as pesquisas. A dez passos havia um grande carvalho que se avistava da estrada; em torno, não encontrou vestígios. Observou a árvore, e, apoiando-se a um dos galhos mais baixos, subiu. Um pouco acima, havia um lugar de onde se avistava perfeitamente a vítima. A árvore era bastante copada para ocultar o assassino e ali devia ter sido o seu esconderijo. Assim refletindo, Spike desceu novamente, e seu esforço foi recompensado, pois encontrou na relva dois sinais claros de pés. Havia ainda algo mais importante que ele não percebeu imediatamente — era uma flecha em tudo semelhante à que atingira Creager: a ponta polida, brilhante, era pintada de verde, as penas eram novas e também verdes.

De volta, mandou o homem do volante em busca da polícia, que daí a momentos chegava, sendo logo seguida de um inspetor da Scotland Yard, que se encarregou da casa e do cadáver.

Spike havia feito uma cuidadosa inspeção, no intuito de esclarecei o que havia de positivo nas relações entre Creager e Abe Bellamy; nada, porém, encontrara. Dos documentos que examinou, pôde concluir, entretanto, a significação do uniforme que vestia o homem fotografado; fora ele guarda de uma prisão, onde servira vinte e um anos, tendo merecido a pensão que o governo lhe conferira ao despedi-lo. Com grande surpresa, vira ainda, pela carta de crédito de um banco, que o homem era relativamente rico, e possuía um depósito superior a duas mil libras. No princípio de cada mês, devia ele receber quarenta libras, e essa quantia era o único lançamento em sua conta. Tirou alguns extratos dos documentos e, continuando a busca, verificou que havia na sala um móvel antigo cuja gaveta não podia ser aberta sem o emprego de força, o que não convinha.

— O homem foi assassinado há mais de uma hora — disse o cirurgião ao examinar o cadáver. — A flecha, extraordinariamente aguda, atravessou-lhe o corpo.

Spike entregou ao representante da Scotland Yard a outra flecha e mostrou o lugar onde fora encontrada.

— Era astuto o homem que cometeu o assassínio — disse o investigador — atirou para matar e com admirável precisão; é o primeiro caso que se me apresenta nessas circunstâncias. Desejamos a sua cooperação, Holland, e penso que publicará em seu jornal uma notícia que fará grande ruído. Mas... diga-me, que fazia o senhor aqui?

Spike relatou o que se passara em Carlton e acrescentou informações que deixaram o investigador boquiaberto.

— O "Arqueiro Verde"! — disse ele incrèdulamente. — Creio que o senhor não quer insinuar que isto fosse feito por um fantasma, não é verdade? Nesse caso, ele devia ser muito poderoso, armado de um braço de ferro e um arco de aço. Vamos, entretanto, ouvir Bellamy.

Mr. Abe Bellamy estava de partida para Berkshire, quando chegaram os oficiais de polícia, e não manifestou a menor perturbação ao ouvir o que lhe contaram.

— Sim, é bem verdade que o expulsei de minha casa. Creager prestou-me serviços há alguns anos e eu o recompensei largamente. Salvou-me a vida, atirando-se ao rio, quando a embarcação em que eu viajava naufragou.

— É mentira — pensou Spike, fitando o velho.

— E qual foi a causa da contenda desta manhã, Mr. Bellamy?

— Não foi exatamente uma contenda. Há tempos vinha ele trabalhando para que eu lhe entregasse a quantia necessária à aquisição de uma nesga de terra perto de sua propriedade; recusei-me. Hoje estava impertinente em sua exigência e ameaçou-me... bem, não foi propriamente uma ameaça — corrigiu Mr. Bellamy com um riso de escárnio — mas, encolerizou-se contra mim e eu o repeli.

— Onde lhe salvou ele a vida? — inquiriu o investigador.

— Em Henley, há sete anos.

"Com isso quer o velho justificar a pensão que dava a Creager", refletiu o jornalista.

— E nesse tempo estava ele a serviço da prisão? — disse o oficial continuando a interrogá-lo.

— Sim — replicou impaciente, Bellamy —... mas, nessa ocasião estava em gozo de férias, o que poderá verificar facilmente no arquivo do estabelecimento. Suponho que é quanto lhe posso adiantar, senhor; o homem foi morto, não é o que dizem?

— Sim, foi vitimado por uma flecha, uma flecha verde — disse o oficial.

Por um momento Bellamy perdeu o domínio sobre si mesmo.

— Uma flecha verde — repetiu incrèdulamente. — Uma flecha... uma flecha verde? Que... — recobrou imediatamente a calma e esboçou um sorriso. — Então foi ele vítima da sua lenda, Holland? "Flecha Verde", e "Arqueiro Verde"!! E escreveu o senhor esse conto em seu jornal?

— Sim, pois os repórteres raramente escrevem para outros jornais — disse Spike — tenha a certeza, Mr. Bellamy, de que lera amanhã um belo artigo: o "Arqueiro Verde" merecerá uma coluna especial.

 

ABE BELLAMY E SEU SECRETÁRIO

Seria o "Arqueiro Verde" o assassino de Creager? Misterioso assassínio seguiu-se a uma contenda com o proprietário do castelo, onde habita o fantasma.

"Quem é o arqueiro verde de Garre? Estará ele envolvido na morte de Charles Creager, o antigo guarda de Pentonville?

Estas são as perguntas que faz a Scotland Yard. Creager foi ontem encontrado morto no jardim de sua casa por um repórter do Daily Globe, depois de violenta discussão com Abe Bellamy, o milionário de Chicago. O homem foi vitimado por uma flecha verde em tudo semelhante às usadas no século passado..."

 

Abe Bellamy dobrou o jornal e dirigiu-se ao secretário.

— A responsabilidade que lhe cabe nesse negócio eu a conheço. Alguém deve ter falado do fantasma aos jornalistas. Ouça, Savini. Essa história não me assusta, creia; e, se alguém pensa em se aproveitar disso para me incutir medo, saiba que nada alcançará. Destruirei o enredo, sem mesmo recorrer à Scotland Yard.

O velho andou até a janela e olhou a rua, voltando-se logo depois para continuar duramente.

— Savini, você obteve um bom negócio, não queira perdê-lo. Nunca tive a meu serviço pessoas de sua espécie. Conheço-lhe as más qualidades, sei que é mentiroso, velhaco, usa de astúcia e é por isso mesmo que me serve; não esqueça, porém, que o tirei do nada. Você estava na iminência de ser apanhado pela polícia, fazia parte de um bando cujos membros já estão no cárcere e, quando o investigador me interrogou sobre a morte de Creager, uma das primeiras perguntas que me fez, foi esta — sabe quem é o seu secretário?

A face morena de Julius Savini tornou-se pálida e havia em seu semblante um quê de interrogação.

— Não é a primeira vez que ouço falar de sua vida — continuou o velho — faz um ano que o Prefeito, o inspetor ou o... chame-o como quiser, procurou-me para tratar de um furto praticado no hotel e em que supunham estivessem envolvidas algumas criadas; eu, como sempre estou em boas relações com a polícia, recebi-o; conversamos, e almoçamos juntos quando ele, apontando para você, recordou o seu passado. Essa gente não costuma guardar segredos, e o mesmo faria Savini, talvez em busca de alguma recompensa, se de mim soubesse alguma coisa. Aqui recebeu acolhimento, enquanto seus companheiros perderam a liberdade; veja o que faz, seu futuro está em minhas mãos.

Abe caminhou em direção ao secretário e, agarrando-o pela gola do casaco, sacudiu-o violentamente.

— Toma bom rumo a história do "Arqueiro Verde". Ê melhor assim! É certo que alvejei alguma coisa que devia ser o arqueiro, mas não quero explicar o desenrolar dos fatos. Os jornais sugeriram que o autor da morte de Creager poderia ser o fantasma de Garre, e pode ser que tenham publicado pormenores do acontecimento. Reflita, sentiu agora a minha força e não me julgue tão ingênuo que não suspeite de você; com minha astúcia, sou capaz de envolvê-lo nas malhas de uma rede. — Asperamente repeliu o débil rapaz que cambaleou e caiu ao solo... Quero o automóvel para as cinco horas; terá livre o resto do dia.

Savini voltou ao quarto e procurou refazer-se do que sofrerá. Permaneceu por muito tempo com os braços apoiados na mesa, a olhar vagamente para a sua imagem refletida no espelho. Tinha dito a verdade quando negara que houvesse cooperado nas publicações sobre o "Arqueiro Verde"; havia fortes razões para não revelar o advento daquela aparição que a princípio fora para ele aflitiva, mas que se convertera agora em alívio. Por muito tempo vivera Julius no receio de que fossem descobertos os seus precedentes, e a razão daquela ansiedade, o velho não imaginava. Ao recordar tudo isso, um sorriso vago espalhou-se-lhe no semblante... nem mesmo Abe Bellamy imaginava...

Olhou o relógio. Passava das nove horas e estava livre até às cinco; assim, as escusas que havia preparado para obter dispensa, eram desnecessárias.

A arte de bem servir Bellamy consistia em deixá-lo só, quando tinha desejos de solidão, e havia dias em que não era visto, da manhã à noite; noutros, porém, Savini ocupava todas as horas em fazer sua correspondência acumulada.

Julius tomou um automóvel que o conduziu a Maida Vale. Entrou num grande edifício e, dispensando o rapaz do elevador que lhe oferecia os serviços, subiu ao segundo andar; tomou de uma chave que trazia no bolso e abriu a porta n? 12.

Uma jovem com um cigarro na boca apareceu para receber o visitante.

— Oh! é você? — disse ela indiferente, quando ele fechou a porta.

— E quem poderia ser?

— Esperava a criada que mandei comprar ovos — disse ela enquanto entravam para uma pequena mas confortável sala de jantar — onde esteve na noite passada? Esperei-o para jantar.

Era uma bela figura de jovem, apesar de mal cuidada, de cabelos alourados e olhos escuros. De um salto, ela sentou-se a um canto da mesa.

— Não me olhe — disse — quando ele a fitara com curiosidade. — Estive a dançar e ainda não me preparei. Recebi uma carta de Jerry, esta manhã — continuou, rindo, ao fitar a face contrariada de Julius, e, descendo da mesa, tomou uma sobrecarta que estava em cima da estufa.

— Não a quero ver — disse Savini — desagrada-me tocar em coisas vindas da prisão.

— Considere-se feliz por não ter estado lá, meu rapaz — disse ela acendendo um novo cigarro. — Jerry recuperará a liberdade daqui a seis meses e quer saber o que fará por ele. Você é milionário, Julius.

— Enlouqueceste?

— E por que não serão nossos os milhões de Bellamy?

— Tem havido grandes roubos — disse Savini, introduzindo a mão no bolso; e, voltando-se para a janela, seu rosto ficou na sombra — há meio milhão em Garre.

— De dólares ou libras?

— De libras.

— O velho Bellamy ficaria contrariado, se soubesse...

— Ele sabe, e sabe tudo.

— Que você é... — disse ela, fitando o rapaz com surpresa.

— Que sou um velhaco, tais foram suas palavras; assim me falou esta manhã.

— Afinal que me dirás do "Arqueiro Verde"? — perguntou ela, levantando-se para fechar a porta. O jornal hoje falava dele; li-o pela manhã.

Savini não respondeu imediatamente.

— Quanto a mim, nada vi, mas uma das criadas diz tê-lo visto, e o velho queixa-se de que alguém lhe abriu a porta do quarto naquela noite.

— Foi você! — ela o acusou, e admirou-se não vê-lo acenar negativamente.

— Não, não me era necessário fazer isso a horas tardias. Conheço todo o castelo e não convém que eu pense em tocar no cofre sozinho. Para isso, seria necessário o auxílio de alguém muito astuto. Dir-lhe-ei o que sinto, Fay — continuou o rapaz, franzindo o sobrolho — nosso grupo foi derrotado: Jerry está na prisão, Ben foi encarcerado, Walters fugiu para o continente e somente nós gozamos de liberdade. Que poderemos fazer sós? Umas poucas libras por semana mal chegam para pagar nossas despesas; o resultado é pequeno e os meios de aumentá-lo escassos. Aquele meio milhão nos acena e estou inclinado a adquiri-lo, mesmo pelo assassínio.

—'Qual é o seu plano? — perguntou ela, enquanto ele a acariciava — sempre você me desperta desconfiança, quando se mostra assim afetuoso. O que é que espera de mim?

— Conheço um lugar — São Paulo — onde um homem que possui cem mil dólares pode viver como príncipe; esta é justamente a soma com que o demônio do velho me satisfará e... quem sabe? talvez com mais ainda. Garre tem um segredo que vale cem mil libras, Fay, e na pior das hipóteses, eu possuo uma garrafa de tinta invisível que certamente vale vinte libras.

Julius usava de uma linguagem convincente e amorosa que encantava a sua companheira.

 

FEATHERSTONE

Nas viagens que fizera com o pai, cujos negócios chamavam freqüentemente à América, Valéria Howett tinha encontrado em Chicago, Nova Iorque e em muitas das grandes cidades dos Estados Unidos, jovens ricos, cujo único pensamento era desperdiçar as horas em divertimentos fúteis, cujas preocupações variavam entre as grandes emoções de importantes corridas e a calma das partidas simples. Foi por esse tempo que ela teve ocasião de observar, na Inglaterra, James Lamotte Featherstone que em tudo se assemelhava àqueles filhos do luxo; levava uma vida despreocupada, tendo entretanto sobre os outros a grande vantagem da modéstia. Nunca falava de si, porque sabia ter por assunto coisas mais interessantes. A elegância e fineza de suas maneiras, a expressão franca e leal daquele semblante, que revelava menos idade do que tinha realmente, fizeram com que Valéria, que a princípio apenas o tolerava, começasse a apreciá-lo; sua companhia era de fato muito mais agradável que a do investigador de que seu pai ameaçara fazê-la acompanhar, se ela persistisse em suas pesquisas pelas vizinhanças.

No dia seguinte ao do assassínio de Creager, Featherstone convidou-a para um passeio.

— Quero perguntar-lhe alguma coisa — disse ela quando chegaram ao parque — e é assunto muito pessoal.

— O motivo da palestra me encanta.

— Por que costuma acompanhar com tanta insistência certas jovens?

— A senhora é na verdade encantadora — disse ele seriamente — sempre me faz lembrar Beatriz d'Este — a jovem que Leonardo pintou — sua face, porém, parece-me mais delicada, seus olhos mais expressivos...

Ela corou e fê-lo parar.

— Mr. Featherstone! Não percebeu que eu gracejava? Não falava de mim.

— Entretanto, a senhora não conhece ninguém mais a quem eu tenha acompanhado — disse ele, manifestando-se sentido.

Ela riu, despeitada, e com ar sério continuou:

— Mr. Featherstone, quero lhe pedir um grande favor. Não sei por que me arrisquei a fazê-lo zangar-se. Meu pai preocupa-se demasiado com a minha pessoa e acha, contrariamente aos costumes atuais, que uma moça não deve andar só. Pensou até em encarregar um investigador da minha vigilância.

— Mr. Howett é um homem inteligente — disse Jim, sem refletir que não convinha manifestar assim seu parecer.

— Assim o julgo — disse Valéria, que dominava a custo a impaciência — mas a verdade é que quero andar só. Quero estar só todo o dia, entendeu Mr. Featherstone?

— Sim.

— Poderia realmente fazê-lo, se meu pai me supusesse em sua companhia; que tínhamos ido ao teatro... ao museu...

— Eu não a levaria lá — protestou Jimmy.

— O que quero — continuou ela exasperada — é ver realizado o meu plano. O senhor me procurará amanhã para me levar a passear; logo depois, me deixará e eu deliberarei sobre o destino que devo tomar. Se quiser, poderá dizer que vamos passar o dia fora, no rio... ou em qualquer outro lugar. Papai partirá para a Escócia quarta-feira à noite.

— Ao que vejo, pretende que eu a convide parta sair e depois a deixe livre, entregue a seus projetos.

— Como é inteligente! — disse ela, suspirando. — Sim, é esse justamente o meu desejo.

Jimmy Featherstone distraía-se a riscar a areia com a ponta da bengala.

— Imponho-lhe, entretanto, uma condição — disse calmamente.

— Uma condição? Qual é?

— De abandonar os negócios de Abe Bellamy — respondeu levantando a cabeça e fitando-lhe os olhos. —. Não é próprio de uma jovem! Se a polícia levasse suas pesquisas à plantação de Creager, Miss Howett teria sérias dificuldades em explicar sua presença lá.

Valéria encarou o companheiro; empalidecera.

— Eu... como? Não o compreendo.

Jimmy contemplou-a com um sorriso em que havia um misto de gracejo e repreensão.

— Pensa que levo uma vida despreocupada, e o ocioso dispõe de muito tempo para observações. Vi-a passar em St. Jame's Street em um carro que seguia o Ford guiado por Creager.

— Então, conhece Creager?

— Conheço-o de vista — disse Featherstone, brincando com a bengala, e desviando o olhar. Conheço muita gente de vista — continuou rindo — e alguns, intimamente. Sei, por exemplo, que a senhora despediu seu carro no fim de Field Road, andou até à casa de Creager e, como não estivesse certa do que faria, foi até a cancela para se dirigir à plantação, que não faz parte da propriedade, mas que utilizam por não estar cercada.

— Que imaginação fértil! — disse ela — certamente meu pai lhe contou que eu não tinha vindo para jantar...

— Não é um trabalho só de imaginação, pois estou certo de que, receosa de ser descoberta, não se quis retirar.

— Onde estava o senhor?

— Achava-me também lá, sinto muito dizer-lhe — continuou sorrindo — e, se assim não fora, eu teria visto o nosso amigo, o "Arqueiro Verde".

— Mas, que fazia lá? Como se atrevia a me espreitar, Mr. Featherstone?

— Miss Howett é inconseqüente — e, assim falando, seus olhos faiscaram, mas nenhum músculo da face se contraiu.

— Não sei o que pensar... por que julga que eu andava a seguir Creager?

— Permite-me que fume? — perguntou, tomando a cigarreira de ouro e, quando uma nuvem azul de fumaça se perdeu no ar, ele continuou: — a senhora o seguiu porque — e aqui há de fato um produto de imaginação — a antipatia que tem contra Abe Bellamy fê-la acreditar que Creager o traísse e, conseqüentemente, lhe desse as informações que procura há tantos anos.

Mis Howett fitou-o e o jovem elegante continuou, riscando na areia:

— Sei que procura uma mulher desaparecida em circunstâncias misteriosas e, com ou sem razão, suspeita que Bellamy seja o responsável pelo seu desaparecimento; assim refletindo, tem se deixado levar por indícios sem importância. Custou-me muito reconstruir o trabalho de seu espírito, mas, como imaginei, a senhora supôs que Bellamy tivesse seguido seu instrumento, e assim se lhe oferecesse oportunidade de ouvir o que eles diziam. Esperou perto de duas horas na plantação e Ja se aproximar da casa quando viu a polícia.

Jimmy atirou fora o cigarro; estava enfastiado dele.

— Eu daria uma grande soma de dinheiro para encontrar o arqueiro verde.

— Então, acredita? — perguntou ela com espanto.

— Não só acredito, mas estou absolutamente certo.

A moça contemplava o jovem com um novo interesse.

— Que homem extraordinário o senhor é, Mr. Featherstone! É tão inteligente como o investigador a cujos cuidados meu pai, há tempos, me pretendeu entregar.

— Tenho uma confissão a fazer-lhe, Miss Howett — disse ele rindo — sou aquele a quem foi confiada esta missão, sou o Capitão Featherstone da Scotland Yard, e tenho-a sob minha guarda desde que chegou a Londres.

 

UM HOMEM NA PREFEITURA DE POLICIA

A campainha do telefone tilintou e Spike Holland interrompeu o segundo artigo sobre o assassínio de Creager, para atender ao chamado.

— Convidam-me a comparecer à Scotland Yard — disse dirigindo-se a Syme — afinal, sou um homem importante.

O outro, lendo o que Spike escrevera, perguntou: —, Você está certo de que há uma mulher envolvida nesse mistério?

— Absolutamente certo. Duas pessoas a viram; o homem que a levou a Hay-market e que, em resposta às minhas interrogações, disse ter ordem de seguir o carro de Creager, e uma mulher moradora de Field Road que a viu atravessar o campo próximo da casa da vítima.

— E pensa que serão ambos capazes de reconhecê-la?

.— Oh! sem dúvida. Basta que se lhes proporcione ocasião de vê-la.

Em dez minutos estava Spike na Scotland Yard.

— O Chefe de Segurança o espera — disse o sargento que o recebeu.

— Não o conheço, entretanto, conduza-me a seu gabinete.

A sala em que o jornalista foi introduzido devia ser, pelo tamanho e adornos, escritório do alto funcionário que levantou a cabeça a sua entrada.

— Senhor — exclamou Spike — parece-me tê-lo já encontrado.

— Não me recordo — respondeu o outro oferecendo-lhe uma cadeira. — Sente-se, Mr. Holland. Sou o Capitão Featherstone e não costumo receber a ninguém; fiz uma exceção porque preciso falar-lhe. Aceita um cigarro?

— Pensei ser recebido de outra forma; podia ter tido ao menos uma palavra de elogio para meu belo cabelo vermelho, tão apreciado de todos...

Jim Featherstone riu.

— Sinceramente, Holland, foi essa a razão por que o mandei chamar. Sei que seguiu a pista do homem do volante que levou a Field Road uma senhora que depois passou para o terreno de Creager — sorriu à admiração de seu visitante e continuou. — Não há mistério, pois temos uma seção encarregada do registro dos condutores de táxis e aquele veio a relatar o fato à polícia, por lhe ter causado certa inquietação a insistência de suas perguntas, senhor.

— Os jornais deram essa notícia? — perguntou Spike.

— Não deram, nem darão.

— Nós, entretanto, já escrevemos um artigo que será publicado no Daily Globe.

— Chamei-o para lhe declarar que a notícia não pode vir a público. Conheço a senhora, e seus atos foram satisfatoriamente explicados. Compreendo que isto o contrarie, pois um assassínio sem uma mulher velada e misteriosa não é um assassínio para os jornalistas.

— Tudo estaria bem, se sua vontade fosse satisfeita mas... a história será divulgada.

— Vejamos — disse Featherstone, brincando com um corta-papéis — mostrar-lhe-ei um caminho ou mesmo dois que poderá seguir: o homem que assassinou Creager tem uma cicatriz vermelha nas costas.

— Pensa assim?

— Estou absolutamente certo, e poderei dar-lhe ainda mais esclarecimentos: o assassino carregava uma bengala ou um bastão de golfe. Estou inclinado a admitir a última hipótese, porque foi encontrado o anel de um bastão a um quarto de milha do lugar onde foi cometido o crime. Não sei se lhe serão úteis essas informações, mas talvez possa usá-las mais tarde, quando o assassino for encontrado.

— Será esta pista definitiva?

— Sim — replicou Jim — mas posto que verdadeira, não convém seja dada à publicidade. Não gracejo, Holland, pois deve saber que somente fazemos vir a público as pistas, quando elas podem impelir o criminoso a deixar o seu esconderijo. É este o último recurso de que se serve a polícia. Temos descoberto maior número de culpados usando desse meio do que pelas impressões digitais. O homem que procuramos, porém, não é um assassino vulgar.

— E qual é a sua idéia sobre a cicatriz que ele tem nas costas? — perguntou Spike, sem esperança de resposta; com surpresa, ouviu Featherstone explicar:

— Não sei há quanto tempo está em nosso país e o que sabe das leis inglesas. Usamos do açoite como castigo para alguns crimes, o que parecerá brutal para os sentimentais; tem dado, porém, excelentes resultados na repressão do roubo, que tem diminuído consideravelmente. Se um delito dessa natureza fosse praticado na rua, contra um cidadão, o juiz poderia ordenar trinta e cinco açoites ao réu. O azorrague é ainda castigo para outras faltas. Creager exerceu por sete anos a função de algoz em Pentonville; é um cargo desagradável, requer calma e habilidade, pois o golpe do açoite deve ser certo e, se tocar no pescoço, poderá ser fatal. Há delinqüentes que sofrem a pena sem revolta, outros, porém, nunca mais a esquecem, e parece-me, este é o caso do assassino que ora nos preocupa.

— E da bengala ou do bastão de golfe, que pensaremos? redargüiu Spike.

— Creager caiu vitimado por uma flecha arremessada por um arco poderoso que devia ser de aço. Ora, em Londres, ninguém poderia carregar arco e flecha sem despertar atenção; eis por que admito a possibilidade de ter sido usada a bengala ou bastão de golfe, para ocultar a arma.

Spike voltou ao escritório, sentindo que havia desaparecido o principal motivo de seu artigo.

— Pode suprimir tudo quanto se refere àquela mulher, Mr. Syme, — disse ele — a polícia esclareceu o seu papel, que nada tem a ver com o crime.

— Sempre desconfio das mulheres misteriosas — disse Syme. — Trouxeram um telegrama para você. Aqui está — e alcançou-o ao seu subordinado que o abriu e leu:

"Julga que Bellamy auxiliará a minha "Instituição"? Acha que a causa das crianças desamparadas poderá interessá-lo?"

Spike sentou-se e riu até lhe virem lágrimas aos olhos.

— Qual a causa dessa hilaridade? — perguntou Syme contrariado.

 

FAY ENCONTRA UM VELHO AMIGO

Valéria Howett era presa de grande tribulação. Estava aflita, quase em desespero.

— Querida — disse o pai, quando ela lhe contou o que lhe ia na alma. — Eu não devia proceder de outro modo; amo-te muito, és todo o encanto da minha vida e não posso permitir que te arrisques assim.

— Mas... por que não me disse que ele era investigador?

Na face de Walter Howett estampou-se um sorriso triste.

— Pai, ele está sempre a me vigiar, segue-me em toda a parte, quando penso que estou só, me acompanha; estava certa de que era um daqueles desocupados que se encontram a cada momento.

— É um excelente rapaz, Valéria, conheci-lhe p pai que era adido à embaixada em Washington. Não o ofendas, Vai, pois seu fito é auxiliar-nos e para isso conseguiu dois meses de férias; eu supunha que no fim desse tempo, estivesses cansada de tuas pesquisas; poderíamos então, estar de volta ao nosso lar.

Ela não respondeu, posto ele esperasse.

— Como chegaste a descobrir que ele pertencia à polícia? indagou o velho.

— Ele mesmo mo disse — e com essas palavras cortou o curso das inquirições do pai.

— Espero que tua maneira de agir não o tenha levado a abandonar-nos, pois sinto-me mais animado quando o tenho junto de mim.

— Ele prometeu que amanhã jantaria conosco. Papai, é terrível sentir que busca a polícia para me observar.

Aquele sentimento de humilhação, contudo, não a impediu de forçar Jim Featherstone a cumprir sua promessa. No dia aprazado, ele a convidou a sair; foram a Marble Arch, no extremo de Hyde Park, onde ela parou o carro e abriu a porta convidando-o a descer.

— Devo então deixá-la? — perguntou Jim sorrindo.

Valéria, ao contemplar o jovem investigador, não se pôde eximir a admiração de sua elegância, bem-vestir e maneiras delicadas; parecia-lhe quase impossível que ele já contasse trinta anos.

— Gostaria de saber para onde se dirige e a que aventura se vai entregar — disse, ainda ao lado do carro.

Valéria sorriu.

— E seria necessário perguntar, quando com toda a probabilidade, me fez acompanhar de dois policiais motociclistas?

— Sob minha palavra afirmo-lhe que está enganada, pois espero que hoje nada fará para me embaraçar; mas, como seu anjo da guarda que sou, devo tomar certo interesse por seu destino; esperarei em Carlton até às oito horas, e se a senhora não tiver voltado, avisarei imediatamente todas as estações da Inglaterra.

Dizendo isto, despediu-se; o carro partiu, e ela, voltando-se, viu que ele a seguia com o olhar. Quando desapareceu, Jim dirigiu-se ao parque. O dia estava quente e os passeios concorridos. Ele caminhava e seu espírito se distraía em pensar em Valéria Howett, que o preocupava mais que o assassínio de Creager, assunto principal de todas as palestras em Londres. A segurança de suas deduções não impedia que lhe causasse estranheza a presença da moça perto da casa de Creager. Não a tinha visto lá, mas vira-a entrar e sair; o que fizera, entre as três horas da tarde e as oito da noite, não lhe fora possível descobrir. Há dois meses seguia, qual sombra, a bela jovem, cujos caprichos a haviam levado a perigosas aventuras.

Quem era Mrs. Held? Que objetivo tinha Valéria em procurá-la? Mr. Howett, ele o conhecia; já o havia encontrado na Europa como na América; era viúvo e de seu consórcio havia uma única filha; tivesse ela uma irmã, e tudo estaria explicado. Quem poderia ser tão cara à jovem, que a levasse a despender tanto dinheiro e a afrontar tantos perigos, cuja lembrança o fazia tremer de susto? Devia ser uma grande amiga! Justificar-se-ia, porém, melhor aquele procedimento se o objeto de suas pesquisas fosse um homem.

Num revolver contínuo de idéias, num suceder constante de pensamentos, Featherstone viu-se cair num círculo vicioso de deduções. Caminhava e refletia, quando se lhe deparou uma pessoa de muito conhecida; a imagem de Valéria se dissipou por completo. Atravessou a relva e foi se colocar ao lado de uma elegante mulher que caminhava vagarosamente, acompanhada por um cãozinho. Suas maneiras permitiam pensar que residisse num bairro próximo de Hyde Park.

— Parece-me não estar enganado — disse Jim. — Como passa, Fay?

Ela fitou-o empalidecendo, e em seu semblante manifestou-se grande surpresa.

— Receio dizer-lhe, senhor, mas sua familiaridade desagrada-me — respondeu, friamente, olhando em torno, como que amedrontada.

Jim a custo pôde conter o riso.

— Fay, Fay! Desça do pedestal onde se colocou e diga-me onde estão as boas almas que constituíam o seu bando? Jerry está na prisão, ao que ouvi, e os outros ocultos em Paris?

— Céus, Featherstone, é incrível que uma mulher não possa fazer seu passeio sem ser importunada.

— Estranho suas maneiras — disse o investigador — ouvi a seu respeito algo de novo que muito me surpreendeu.

— Que foi? — indagou a jovem, em cujo olhar havia suspeita e antipatia.

— Contaram-me que você casou religiosa e civilmente. Quem é o homem feliz que conquistou esse coração?

— Está a sonhar, e não admira, pois os da Scotland Yard costumam acreditar quanto se lhes conta. Não me casei, Jim, e não insista. Sempre me senti atraída pelos homens belos, mas... permita-me que lhe diga, eles me parecem menos inteligentes que os feios — e, fitando nele um olhar irônico, continuou. — O que é que está a dizer, Featherstone?

— Não desejo contrariá-la, Fay, mas com quem casou?

— Com ninguém, pois não há no mundo homem digno de mim. Cheguei a essa conclusão, há algum tempo.

Quem os visse assim caminhar par a par, julgá-los-ia um casal entretido em muito amável palestra.

— Quem é aquele degenerado, o secretário do velho Bellamy? — perguntou ele notando que ela corava.

— Por que o trata assim? — inquiriu Fay, agressiva. — Se se refere a Mr. Savini, a quem estimo, deixe-me dizer-lhe que é descendente de uma antiga e distinta família portuguesa e não esqueça o que lhe digo, Featherstone! Que pensarão de mim os que me virem a conversar com um polícia?

— Perdoe-me se esqueci que Fay Clayton nunca chamou degenerado a um eurasiano. Teria ele agora se feito homem honesto?

A jovem estava exasperada, e em seus olhos havia um brilho estranho.

— Mr. Featherstone, não lhe permito mais falar de meu... de meu amigo e ficar-lhe-ia muito agradecida, se seguisse outro caminho.

— Pensam todos, Fay, que você está casada com Julius; se assim é, aceite meus parabéns.

Ela se retirou antes que Jim tivesse terminado a frase, e caminhava apressadamente; o investigador, após tê-la seguido com o olhar, dirigiu-se a Carlton com o fim de procurar Julius Savini, que já se havia retirado com Bellamy para Garre Castle.

 

O "ARQUEIRO VERDE"

Garre Castle com suas torres e ameias de aspecto triste e tenebroso, oferecia ao viandante uma impressão de medo, se não de pavor. Nenhum raio de luz brilhava nas aberturas do castelo, como se alguma coisa das trevas que ia no coração do proprietário se transmitisse a seus muros enegrecidos. Das janelas da biblioteca de Mr. Bellamy, que davam para um pátio gramado, avistavam-se as paredes de Sanctuary Keep.

Em muitos lábios havia esta interrogação — que moveria aquele homem, que nunca tinha lido um livro e a quem a História jamais encantara, a adquirir aquela relíquia da antiga e já morta cavalaria? Não se admirava, porém, quem o conhecia; fora a vista lúgubre de Garre que lhe atraíra a atenção, quando, há muitos anos, visitara a Inglaterra. Havia alguma coisa naquelas pedras que acordavam com a natureza cruel do velho Abe. Os escuros cárceres com suas portas espessas, as cadeias gastas que haviam torturado os homens, o poder e majestade do castelo, falavam-lhe de seus antecessores e despertavam-lhe na alma a maldade que encontra prazer até na recordação do sofrimento alheio. O velho sonhava possuir a propriedade que se tornou, mais tarde, a luz de seus olhos, o encanto de sua vida.

Nunca pernoitara fora de casa. Por importantes que fossem os negócios que o atraíam a Londres, voltava à noite, embora na manhã seguinte devesse regressar à cidade antes do romper do dia. Somente Julius e os criados do hotel conheciam-lhe esse hábito.

O tempo, despendia-o todo em caminhar em torno dos muros, gastando horas em cogitações que, às vezes, tinham por objeto uma pedra. Quem a teria colocado aqui? Como se chamaria quem fez este trabalho, qual a sua vida, como seria pago? E sempre voltava aos mesmos pensamentos.

Nos tempos dos antigos proprietários, como nos de Abe, não havia reuniões no castelo; nenhum estranho lá se introduzia. Se alguém se atrevia a penetrar nos terríveis segredos de Garre, era enforcado.

Ao alto, nos muros de Sanctuary Keep, via-se ainda o galho de carvalho onde haviam perecido os condenados; embaixo, uma porta estreita dera passagem aos que iam morrer. E o "Ar-queiro Verde", que havia roubado a caça dos senhores de Garre, tivera aquela sorte. Era de justiça, pensava Abe Bellamy, não era demasiado castigo para o crime; esta devia ser a lei.

Certa noite, sentou-se o velho milionário ao pé da grande estufa, na biblioteca; olhava abstratamente o fogo e ouvia o crepitar das chamas.

A sala era ampla e bem ornada, e a decoração das paredes feita em painéis; das janelas pendiam pesadas cortinas de veludo azul.

O olhar de Mr. Bellamy ergueu-se e foi se fixar na pedra que protegia a parte superior do fogão, onde estavam esculpidos artísticos leopardos que a ação do tempo havia quase destruído; embaixo, ainda perfeitamente visível, lia-se a divisa dos Curcys:

"Ryte is ryte"

Escreviam pessimamente os antigos, pensava Abe, que pouco mais sabia que soletrar. "Right is right" — direito é direito — grande tolice escreveram; é como se dissessem — o "preto é preto" ou a "água é molhada".

Era tarde e a tarefa do dia estava terminada; não lhe apetecia porém deixar a poltrona em que se acomodara. Afinal levantou-se, correu a cortina da porta, abriu-a e dispunha-se a sair, quando um pensamento o fez voltar; tocou a campainha e Julius Savini atendeu ao chamado.

— Leve as cartas que estão sobre a mesa, prepare as respostas e entregue-mas amanhã. Não me afastarei daqui no próximo mês; se quiser se ocupar de alguma coisa, pode fazê-lo; avise-me.

— Tenho um compromisso para quarta-feira — respondeu Julius, enquanto o velho resmungava alguma coisa que ele não percebeu.

— Bem, pode ir.

O secretário estava já à porta, quando Bellamy o chamou.

— Savini, há dias perguntou se eu já fizera o meu testamento. Pareceu-me natural a pergunta; refletindo melhor porém, cheguei à conclusão de que homens como você jamais fazem uma interrogação dessas sem terem um fim a atingir.

— Nada me preocupava senão o pensamento de que, como secretário, devia saber alguma coisa de seus negócios.

— Assim devia ser — disse o velho severamente. Apenas Savini se retirou, ele começou a medir a sala a largos passos. Havia em seu espírito uma inquietação que não podia compreender, nem justificar. Dirigiu-se a uma mesa, tomou de uma chave e abriu a gaveta. Isso fez quase mecanicamente, e uma pasta de couro foi colocada sobre a mesa, antes que pudesse determinar a causa de seu ato.

— És uma louca — disse Mr. Bellamy calmamente. — Amas, mas és louca.

Tinha aberto a pasta e descansou o olhar num retrato de mulher que vestia um traje antigo, usado há uns vinte anos, mas elegante e original. Era jovem e meiga, e os olhos, que pareciam procurá-lo sempre, eram de beleza celestial.

O velho olhou a fotografia e a pôs de lado. O segundo retrato era de um homem que devia ter entre trinta e quarenta anos.

— Um louco! Mick, eras um louco!

A terceira fotografia era de uma criança que regulava ter uns dois anos. Voltando-a, Abe leu num papel que lhe estava colado:

 

"Este oficial morreu num combate, a 14 de maio de 1918.

Tenente J. D. Bellamy, do exército dos Estados Unidos da América do Norte."

 

Reunia as fotografias quando alguma coisa lhe atraiu a atenção; inclinando a cabeça viu um cigarro.

— Oh! um cigarro!

A não ser Savini, ninguém aqui fuma, pensou Bellamy e ia fazer soar a campainha, quando refletiu melhor.

Afinal, se alguém ali tocara, fora ele o maior culpado pois, conhecendo o homem que tinha a seu serviço, devia ser mais prudente.

Antes de sair da biblioteca, guardou a pasta num cofre oculto na parede. E assim procedia todas as noites.

Duas horas se passaram desde a retirada de Savini, que se achava num quarto do outro lado do vestíbulo. Como a porta estivesse meio aberta, o secretário viu Abe apagar as luzes da sala.

— Pode se recolher — disse a Julius. — Boa noite.

O quarto de dormir de Mr. Bellamy, ficava num ângulo do castelo e era chamado Hall Chamber — era um quarto grande, pintado de cor escura, cuja mobília estava bastante usada. Tinha duas portas: uma externa, espessa, de carvalho; a outra interna, revestida de couro antigo, munida de um ferrolho a que estava amarrado um cordão de seda que o velho podia manejar mesmo do leito. Desse modo, podia mantê-la fechada durante a noite, e abri-la pela manhã, para os criados, sem se levantar. Depois de se certificar de que estava bem fechado o aposento, Abe preparava-se para se deitar à luz de uma vela; seu último ato, antes de dormir, era colocar sob o travesseiro uma chave que costumava trazer no bolso. Durante oito anos seu modo de proceder fora sempre o mesmo — a mesma ordem, a mesma regularidade.

O sono de Abe era leve e qualquer ruído o despertava. Naquela noite, três horas depois de se haver acomodado, acordou. As cortinas, não costumava deixá-las corridas à noite, e a luz branca da Lua, que brilhava num céu sem nuvens, entrava pela janela, iluminando o quarto. Olhou — a porta interna abria-se vagarosamente... pouco a pouco... Moveu-se apenas o necessário para tomar do revólver que ali estava pronto para qualquer ocasião de perigo.

A porta estava agora aberta e, por alguns minutos, ele esperou que entrasse alguém. Cautelosamente, ainda no leito, colocou-se junto à porta, o cotovelo apoiado nos joelhos. Nada via, nem ouvia; levantou-se e correu com a arma na mão. A princípio nada percebeu, daí a pouco, alguma coisa se movia, na sombra, para logo depois aparecer à luz da Lua — uma figura alta, esguia, a face pálida, duma palidez mortal, verde da cabeça aos pés, estava diante dele, aterradora, empunhando um arco.

Depois de um segundo de indecisão, Abe Bellamy atirou; fez fogo duas vezes.

 

O LENÇO

Ao detonar da arma de Bellamy, o fantasma desapareceu, como se mergulhasse nas sombras. O velho correu em seu encalço, braços estendidos, a pistola na mão, até o lugar onde ele estivera; deu uma busca breve, e de sua passagem não encontrou mais vestígios do que dois orifícios feitos pelas balas, na parede. Havia ali perto uma porta, e uma escada circular descia para o compartimento dos criados. Experimentou-a; estava fechada. Um pensamento lhe acudiu; voltou pelo corredor e, passando pelo quarto, foi chamar Julius; bateu fortemente.

— Savini! Savini!

Ninguém lhe respondeu. Neste ínterim, os criados se levantaram e um deles, em mangas de camisa, o chamou:

— Mr. Bellamy, que aconteceu?

— Não faças perguntas tolas. Vá, desperte os demais empregados e dê uma busca no castelo. Telefone para a casa do guarda.

Aqui, Savini abriu a porta e parou sobressaltado no limiar; vestia pijama e trazia na mão um castiçal.

— Que... — começou o secretário.

Bellamy entrou no quarto e lançou um olhar investigador. Uma das janelas estava aberta e ele pôde verificar que o para-peito corria junto dela e era bastante largo para um homem calmo nele caminhar.

— Não ouviu o tiro?

— Ouvi alguma coisa, mas julguei que a porta de seu quarto houvesse batido. Que sucedeu?

— Vista-se e desça à biblioteca.

Inopinadamente foi de encontro a Savini e abriu-lhe o casaco; esperava encontrar alguma coisa verde que o denunciasse mas... nada havia.

O secretário vestiu-se tão depressa quanto pôde e foi ter com o velho que caminhava a largos passos, enraivecido, qual leão engaiolado.

— Quem fechou a porta que dá para os quartos dos criados?

— Eu — respondeu Julius — recebi ordem sua de verificar todas as noites se estava fechada.

— E tem em seu poder a chave? — inquiriu Abe, com olhar perscrutador.

— Dei-a ao mordomo porque ele se levanta mais cedo e pode abri-la para que se faça a limpeza.

— Mas afinal, onde está ela? — e sua face estava inflamada de cólera. — Ouça, Savini, se você não está envolvido nesse negócio do "Arqueiro Verde", será um dos poucos enganos que tenho tido em minha vida. Chame Wilks.

O secretário saiu acompanhado de dois guardas do castelo.

— Tenho-a no bolso — respondeu o outro, ao receber o recado — mas, não creio que ele tenha tomado aquele caminho.

O criado, levando uma lanterna, dirigiu-se à biblioteca, acompanhado de Julius.

Bellamy tomou a pistola que trazia no bolso, desceu cautelosamente a escada, seguido pelos dois homens. A porta do andar térreo que dava para um depósito de víveres, anexo à cozinha, estava aberta; o velho examinou a chaminé; era o único lugar por onde poderia alguém ter entrado, pois as duas portas externas estavam fechadas por dentro.

— O intruso não poderia ter passado senão por aqui — disse o velho impacientemente.

Despontava o dia quando terminaram as pesquisas. O proprietário sentou-se ao pé da estufa e tomou, em grandes goles, uma xícara de café quente, enquanto o secretário o contemplava e, aborrecido, começava a bocejar.

— Há alguma grave intenção nas aparições do arqueiro verde — disse ele rompendo o silêncio em que se conservara no espaço de quase uma hora. — Um fantasma! Oh! Não creio neles nem nos demônios, e não há no mundo o que me cause medo. Conheço um sistema de combatê-los e, se novamente o encontrar, usarei desse meio; voltou a cabeça para a porta que se abria — entrava o mordomo; era um homem bem apessoado, apesar de seus trajes humildes.

— Tomei a liberdade de voltar ao depósito e de proceder a uma pesquisa mais minuciosa; lá encontrei isto.

Bellamy deu um salto e arrebatou das mãos de Wilks o objeto que parecia a princípio uma pequena bola vermelha; observando-o melhor, porém, verificou tratar-se de um lenço tinto de sangue.

— Um fantasma com sangue? — bradou ele para Savini — diga-me, amigo, poderá ser um fantasma? — e abriu o lenço, estendendo-o para melhor examiná-lo.

— É um lenço de mulher.

Era um trabalho delicado, feito em renda, e a um dos cantos havia um monograma.

— V. H. — disse ele, ao aproximá-lo da luz. — Com todos os diabos, que quererá isto dizer?

E, preocupado em desvendar o mistério, não reparou no espanto que se revelava no semblante de Savini.

V. H. — Valéria Howett.

 

OS HÁBITOS DE ABEL BELLAMY

Era uma clara e fria manhã de inverno. Mr. Bellamy caminhava lentamente através da campina, em direção à casa do guarda. Para o velho, dormir duas horas ou doze era o mesmo, pois acomodava o sono às exigências de seus afazeres. Era costume seu não admitir estranhos no castelo, e eis por que se dirigia tão cedo ao lugar onde o esperavam os que lhe queriam falar à entrada da propriedade.

O guarda, com o semblante carregado, tocou o chapéu à passagem de Abe que ia ao encontro de um polícia que o aguardava pacientemente.

— Bom dia, senhor; disseram-me que alguma coisa aconteceu no castelo...

— Conte-me quem lhe disse isto e obrigarei o importuno a não mais falar — respondeu irritado o proprietário que, introduzindo a mão no bolso, tirou certa quantia que colocou sobre a mesa. — É um pequeno presente que lhe faço, para que esqueça o que se passou em Garre. Tive um mau sonho e atirei contra uma sombra; como vê, é um fato vulgar.

— Bem, senhor, nada direi a meu chefe.

— Agora, veja cá: suponho que não está informado de um pequeno acontecimento na vila. Não tem visto pessoas estranhas aqui, ultimamente?

— É verdade, não só uma pessoa. Vem uma senhora ver Lady's Manor...

— Lady's Manor? — perguntou Bellamy. — A antiga propriedade vizinha?

— Justamente — respondeu o outro — pertence a Lorde Fetherton e se acha em tal estado de abandono que seria necessário muito dinheiro para repará-la; esta é uma das razões por que não foi ainda vendida.

— Quando veio ela à vila?

— Há dois dias; uma elegante e bela senhora, notavelmente bela; avistei-a, quando já ia de volta.

— Sabe de onde veio?

— De Londres, senhor; o carro era registrado naquela cidade e penso que viajava por Reading. A mulher que lhe deu as chaves da casa senhorial disse que ela já tinha estado em Solders, com os agentes da propriedade, incumbidos de vendê-la.

— Andava só?

— Sim, senhor; não vi ninguém em sua companhia. Bellamy dirigiu-se à sala de jantar da casa do guarda, onde estava instalado o telefone, e num momento falava com o agente, que se recordou perfeitamente de todas as circunstâncias: a senhora viera de Londres e tinha recebido dele uma ordem para ver a casa; quanto a seu nome, porém, nada indagara.

— Se ela lhe escrever, ou vier novamente falar-lhe, peço-lhe que veja se obtém mais informações a seu respeito — disse o velho e repôs o receptor no lugar.

Pela manhã, o proprietário fez nova pesquisa no depósito de provisões, pois esperava ver um rasto de sangue que o auxiliasse a desvendar o mistério; em vista de não ter encontrado vestígios, resolveu mandar Savini a negócios em Guildford.

Julius sentiu-se satisfeito com a incumbência que lhe fora dada e, apenas terminou o trabalho, correu a Londres, a Carlton.

— Não, eu não penso assim — disse o criado do hotel continuando a palestra que mantinha com Julius. — Não vi Miss Howett esta manhã; vou telefonar para seu quarto; posso dizei que o senhor lhe deseja falar?

— Sim — respondeu Julius, depois de um momento de hesitação.

Devia se decidir, pois a partida era perigosa. Com os olhos semicerrados o secretário seguiu o curso da palestra do criado ao telefone.

— Mr. Savini — disse, deixando o aparelho — Miss Howett não o pode receber; luxou um pé ontem à noite, ao descer do carro e está sendo atendida por um médico — é o que diz a criada. Recordo-me agora de que hoje ainda não vi a jovem.

Julius estava admirado do que ouvia. Não teria sido ela ferida pelas balas? Que faria, porém, em Garre? Que fim teria a filha do abastado Mr. Howett, ao se mascarar de "Ar-queiro Verde"? Essa suposição era um produto de sua fantasia e provinha da identificação das iniciais do lenço encontrado, com as de Valéria Howett, e da coincidência de se achar a moça com o pé doente. Há centenas de mulheres cujas iniciais são as mesmas, contudo era estranho... Havia uma pessoa cujo encontro Savini queria evitar naquele dia — era Spike Holland. Não dera porém uns doze passos, quando avistou o repórter.

— Não me posso deter, amigo. Se vir o velho Abe, por Deus, não lhe diga que me encontrou, pois me supõe em Guildford e bem sabe quanto é temível a sua cólera.

— É certo que ele recebeu uma visita esta noite?

— Juro-lhe... — começou Julius.

— Oh! Deixe-se disso. Por que ocultar uma tolice? O homem que encarregamos de vigiar o castelo nos avisou de que o arqueiro verde lá estivera na noite passada e que Bellamy atirara contra ele.

— Não é verdade. Se fossem publicadas essas notícias nos jornais e o velho viesse a saber que nos havíamos encontrado... Escute, Holland, quero auxiliá-lo e, se prometer que me deixará fora, contar-lhe-ei toda a história.

— E será possível o que você pede? — perguntou o jornalista, sacudindo a cabeça. — Venha Julius, quero ouvi-lo.

— Não lhe posso dizer exatamente o que aconteceu... — começou o secretário.

— Belo início para uma narração! Vamos à história. Savini contou fielmente o que se passara, intercalando de quando em quando uma súplica paca que guardasse segredo. Ele tinha todos os característicos dos eurasianos — era irrefletido em seus atos, mas quando depois de examiná-los, via que incorrera no desagrado de Bellamy, profundo medo o invadia.

— Diga-me, que faz o velho no castelo? Qual é a sua vida? Recebe visitas?

— Visitas! Ainda não vi uma só, desde que lá estou. Os dias, passa-os vagando pela propriedade; à noite, demora-se das nove às onze na biblioteca, onde às vezes também fica uma hora pela manhã.

— E conserva a porta fechada?

— Ambas, pois lá há duas. Mas, por favor...

— Nada receie, amigo — disse Spike — quererá contar-me ainda alguma coisa mais?

Julius, que já falara demasiado, apertou os lábios e olhou em torno, como a procurar um meio de fugir.

— É quanto lhe podia dizer; jure-me, Holland, que não me envolverá nisso.

— E onde janta o velho?

— Comumente na biblioteca; a sala de jantar é raramente utilizada. Agora devo ir — e, antes que o jornalista o pudesse fazer parar, sumiu-se.

De volta, Julius tremia ao pensar no que havia revelado, e sinceramente se arrependia de sua indiscrição. Ainda bem que não falara do lenço, que era a melhor parte da história.

Abe estava em excelente disposição de espírito e, à chegada do secretário, nem sequer indagou da razão de sua demora, sugerindo até, para alívio de Savini, que o fato viria a público.

— Não poderemos fazer calar os criados — disse — pelo menos, a metade deles sabe do acontecido e Wilks fala em deixar o castelo. A esse, eu lhe disse que, se o fizer sem meu consentimento, eu lhe moverei processo por rompimento de contrato. Savini, veja que todas as lâmpadas fiquem acesas durante a noite.

— Espera então nova visita? — perguntou o secretário, querendo continuar a palestra e recebendo, como resposta, uma imprecação.

Ao romper do dia, Bellamy examinou as portas do quarto. Pela externa podia, era sua opinião, entrar sem dificuldades quem usasse de instrumentos adequados. A interna, porém, com o trinco interior, parecia a salvo, e ele se sentia embaraçado por tê-la encontrado aberta. Como medida de segurança, tinha sido adaptada à grade da porta, para evitar que o fecho fosse levantado, uma pequena haste de ferro, cuja extremidade era visível pelo lado externo. A princípio ele pensou que ela podia ter sido tirada e o fecho levantado, mas verificou ser isso impossível. Não havia trave acima da porta e, posto tivesse Abe examinado cuidadosamente as paredes e o teto do quarto, não encontrou nada que explicasse o mistério. Nessa noite, ao deitar, colocou a arma em cima da mesa ao lado da cama e, às cinco horas, quando despertou, encontrou ambas as portas abertas de par em par e notou a falta da pistola.

 

VALÉRIA LUXOU O PÉ

— Pai — disse Valéria, quando almoçava — tenho desejos de possuir uma casa de campo.

— Que queres dizer? — perguntou Mr. Howett admirado.

— Desejo possuir uma casa de campo.

Ele, pensativo, contemplou-a; havia sombras escuras em seus olhos, estava pálida e fatigada.

— Vi um lugar que me encantou; fica próximo de Londres, mas tem a desvantagem de ser vizinho da propriedade de Bellamy.

— Querida, tenho deveres a cumprir na América, e não poderei permanecer aqui durante todo o inverno; apesar disso, porém, é possível que te possa satisfazer. Onde fica esse lugar?

— Em Garre, chama-se Lady's Manor e é uma casa antiga que, em algum tempo, pertenceu ao castelo; está bastante arruinada e será necessária uma soma não pequena para repará-la, — disse a jovem — e inclinou a cabeça pensativamente. — É o lugar que lhe convém, papai; lá poderá tranqüilamente tratar de seu livro.

Mr. Howett sonhara escrever a História da Inglaterra; era um projeto acariciado há vinte anos e já havia para isso colecionado apontamentos.

— é um sítio calmo — dizia a jovem em tom convincente — e estou certa de que lhe será fácil o trabalho que, na América, suas ocupações e compromissos impediriam. Em Londres, a dificuldade, pai, seria a mesma.

— Então é mesmo tranqüilo?

— Sim, e tão silencioso que se pode sentir o menor ruído. — Não duvido que tua proposta seja exeqüível, pois basta que seja desejo teu, Vai — disse o pai, recostando-se e olhando pensativamente para cima... — Telegrafei para Nova Iorque a ver se tudo pode ser arranjado. Não tens medo de fantasmas? — perguntou secamente — e ela sorriu.

— Não, não os receio, se o fantasma se chama o "Arqueiro Verde".

— é certamente original esse caso — e Mr. Howett sacudiu a cabeça. — Não conheço Bellamy a não ser de vista, mas do que tenho ouvido depreendo que nada o amedrontará, a não ser alguma perda de dinheiro.

— Nunca esteve com ele, meu pai?

— Não; vi-o, porém, diversas vezes aqui no hotel; não me agrada aquela figura e menos ainda a de seu secretário.

Valéria levantou-se e Mr. Howett dela se aproximou, para conduzi-la ao quarto.

— Querida, é preciso que um médico te examine o pé.

— Repousarei durante todo o dia; vou me deitar e não receberei ninguém.

Cumprimentou os hóspedes com um sorriso e caminhou vacilante para o quarto.

Daí a algum tempo, chegou uma visita que não podia deixar de ser recebida, e Mr. Howett bateu à porta do quarto da filha.

— É o Capitão Featherstone que te quer ver, pode entrar?

— Se promete não me aborrecer; hoje não estou disposta a ouvir repreensões.

— E quem se animará a te aborrecer? — perguntou o velho admirado.

— Diga-lhe que venha.

Jimmy Featherstone entrou no quarto pé ante pé, manifestando exagerada inquietação.

— Sinto muito vê-la assim abatida, e esperava que me recebesse menos amuada, pois o que aqui me trouxe foi um sentimento de viva simpatia.

Mr. Howett retirou-se à sala contígua para redigir um telegrama.

— Onde esteve na noite passada? — continuou o investigador.

— Na cama — respondeu ela.

— E na noite anterior?

— Também na cama.

— Devo-lhe parecer descortês com minhas interrogações, mas seria em sonhos que foi fazer uma visita às vizinhanças de Limehouse, à procura de um homem conhecido pelo nome de Coldharbour Smith?

A jovem proferiu uma exclamação de impaciência.

— Espere — disse ele. — Em busca daquele homem, foi dar numa casa mal freqüentada e foi salva do perigo que a ameaçava por um honesto mas humilde marinheiro, que, entretanto, não pôde evitar fosse ferida.

— E não era o senhor esse marinheiro?

— Não, era um dos meus homens — Sargento Higgins. Por que se entrega assim a aventuras perigosas?

— Porque é meu dever — respondeu agastada. — Era preciso ter encontrado Creager antes do que lhe aconteceu; eu sabia que ele era assalariado de Bellamy e que no passado havia cometido um grande crime. E este outro homem — continuou ela com terror. — É horrível!

— Coldharbour não é um homem de bem — afirmou o Capitão Featherstone. — Quem freqüenta os lugares onde ele costuma ir, não é, em regra, pessoa em quem se possa confiar. Estará também ele ao serviço do proprietário de Garre? De onde provêm essas informações?

— Paguei para obtê-las e penso que, na verdade, merecem ser recompensadas.

O investigador meditou por alguns momentos, olhando atentamente o tapete do quarto.

— Creio, entretanto, que a senhora está em caminho errado. Felizmente Smith estava escondido na noite passada e, se assim não fosse Abe teria sido cientificado dentro de vinte e quatro horas.

Dos olhos da jovem caíam grossas lágrimas e Jim perturbou-se ao contemplá-la.

— Tudo experimentei, tudo — disse ela — tive a louca vaidade de pensar que via mais que toda a polícia, mas começo a me desiludir.

— Está a perseguir uma sombra, Miss Howett.

— Não, não — exclamou ela. — Estou certa disso, há alguma coisa que me diz que tenho razão.

— Quererá responder ao que lhe vou perguntar? — disse Featherstone com voz amável. — Quem é a mulher que procura?

Os olhos de Valéria cerraram-se.

— Não lhe posso dizer, porque esse segredo não me pertence.

 

O ASSASSINO DE CRIANÇAS

O desejo de rever John Wood fez com que Spike se regozijasse à idéia apresentada por Syme de persuadir o altruísta habitante de Wenduyne a colaborar no Daily Globe com uma série de artigos acerca da proteção à infância.

Deixando Londres muito cedo, num pouco confortável barco de carreira, o repórter gastou cinco horas através do mar revolto.

Não era tanto a intenção de obter o trabalho de John que o movia a procurá-lo, pois já havia recebido a sua aquiescência ao convite, mas a probabilidade de obter mais seguras informações, dados mais precisos a respeito da vida de Bellamy, que, ao que parecia, não era desconhecida pelo filantropo. A maneira rápida por que ele desviara o assunto ao ouvir falar do proprietário de Garre, levara o jornalista a essa conclusão.

Estava Spike Holland em Ostend Quay e devia esperar ainda meia hora em Place de Gare, antes que lá chegasse o comboio que ia à fronteira da Holanda. Chovia torrencialmente e soprava um vento frio quando ele, com satisfação, se viu acomodado num compartimento de primeira classe. Suas visitas à Bélgica eram freqüentes e o monótono caminho através das dunas demasiado conhecido; limitava-se pois a observar as peças de artilharia abandonadas pelos alemães que haviam batido em retirada.. Wenduyne parecia uma pequena cidade; bem freqüentada na estação calmosa, agora era solitária, e apenas uns poucos homens do destacamento da polícia acompanhavam com curiosidade a sua passagem para o dique, sob um vento forte e gélido de nordeste.

A paisagem era triste. As casas como que emergiam das ondas de areia que cobriam os passeios. O mar agitado pelo vento, enfurecia-se, chegando até o dique onde ele caminhava vagarosamente. Ei-lo chegado ao número 94. Bateu à porta, mas não foi atendido; tentou segunda e terceira vez sem resultado e por fim decidiu fazer a volta para chegar à porta do fundo. Ao primeiro sinal, apareceu uma mulher gorda, de pequena estatura, cujo rosto redondo era bastante enfeado por um pequeno buço; ela o recebeu receosa.

— Faça o favor de dizer o seu nome. O Senhor Wood não atende a ninguém — disse ela em Francês.

— Ele me espera — respondeu o repórter — telegrafei-lhe ontem.

— Perfeitamente, lembro-me agora. Entre — e a essas palavras levou-o por uma escada desguarnecida que terminava num patamar. Bateu. Uma voz ordenou-lhe que entrasse e ela introduziu o visitante. Spike achava-se num quarto aparentemente estreito, em relação ao comprimento e altura. Uma das paredes era revestida de tapeçarias; na outra, havia uma estante de livros que a cobria quase inteiramente. A iluminação da sala se fazia por dois candelabros de prata, pois a luz que provinha da única janela era escassa em virtude dos vidros de cor que a ornavam.

John Wood, sentado a uma grande mesa de trabalho, levantou-se à entrada do jornalista e depôs a pena.

— Felicito-me por recebê-lo; ainda bem que e mau tempo não o impediu de vir. Sente-se, Holland, e, antes que me interrogue, dir-lhe-ei que já dei começo aos artigos a que se referiu em seu telegrama. Desejaria dar a maior publicidade possível ao meu trabalho; quero ser um anunciante audacioso.

Discutiam os artigos nos pormenores, e Spike traduziu em suas opiniões todas as idéias que Syme lhe havia transmitido. Tinham-lhes servido vinho e café com biscoitos.

— Que paz se goza aqui! É verdadeiramente invejável esse sossego, e não conheço melhor lugar para escrever.

John Wood sorriu.

— Hei de levá-lo a ver meus irrequietos companheiros, que estão agora a descansar.

— Há então crianças aqui?

—Trinta; três pavimentos estão inteiramente ocupados; entretanto, conservo nesta casa apenas os que gozam saúde; o sanatório fica abastado daqui.

Por uma hora falaram de crianças; era o assunto preferido de Wood.

— Senhor, quer me parecer que sabe, a respeito de Abe Bellamy, mais do que me tem dito.

John distraía-se a brincar com uma pequena e original estatueta de Pã que estava sobre a mesa.

— O que sei dele seria suficiente para levá-lo à forca — disse, sem desviar os olhos do objeto.

Spike ouviu-o admirado.

— Conhece-o tão intimamente? Ê grave o que me conta.

— Seria, se eu não falasse a quem merece toda a confiança — disse Wood, levantando os olhos.

Geralmente o repórter não gostava que lhe fizessem confidencias, mas desta vez a curiosidade se lhe aguçara.

— Não tenho uma só prova — continuou — entretanto, se relatasse o que sei às autoridades, haveria motivo para Abe ser enforcado, se a lei não fosse tão indulgente para as faltas humanas.

— O tom inflamado em que me fala, Mr. Wood, faz-me supor que ele tenha feito sofrer alguma criança, pois bem sei o encanto que lhe desperta a infância.

— Sim, uma criança que vagamente me recordo de ter conhecido. Não posso afirmar, todavia, se foi ele ou um de seus assalariados o autor do crime. O velho odeia essas criaturinhas. Não sei se teria tomado a sério o telegrama em que lhe perguntei se ele se interessaria pelas "Instituições para crianças". Era um gracejo! Fi-lo num momento de expansão. Abe Bellamy! Ser-lhe-ia mais fácil arrojar ao mar seu último dólar que despender a menor quantia para auxiliar os pequeninos.

— Poderia me dizer onde se passou o fato? Na América?

— Na América, há muitos anos. Receio ter falado demais. Cedo ou tarde obterei provas. Dois homens a meu serviço, trabalham desde muito — um na América, outro em Londres, para desvendar o mistério.

— Não estaria ele perseguindo uma sociedade de proteção à infância, na América?

— Sim, mas esse fato não se relaciona com o que há pouco lhe referi. Deu-se ainda outro caso em Nova Iorque — esteve a ponto de morrer um menino jogado por ele de uma escada de pedra. Tenho em meu poder o registro público de seus atos e procuro o registro particular. Sua maldade inata não tem atingido somente os pequenos inocentes; gastou cinco mil dólares para impedir um processo que lhe foi movido por um ato desumano que praticara contra um criado seu.

— Deus faz criaturas originais — disse Spike.

— E o demônio as faz mais originais ainda — replicou Wood com o semblante carregado... — Muitas de suas vítimas levou-as o perverso a um grau de existência bem semelhante à do animal.

O repórter abordou, então, a questão que tinha em vista.

— Que pensa do "Arqueiro Verde"? Será uma de suas vítimas?

— Há pessoas — respondeu John com um sorriso de escárnio — que julgam que o arqueiro verde é produto da imaginação de certo jornalista cujo nome não conviria citar.

A acusação hesitante e verídica divertiu Spike.

— Envaidecer-me-ia pensar que era o autor de um personagem capaz de preocupar toda a Inglaterra; infelizmente não é assim, — e aqui relatou a última aparição a John Wood, que o inquiriu:

— Além de Bellamy, alguém viu o fantasma?

— Ninguém. Quem sabe se não será ele uma criação do velho?

— Não é possível. Sua inteligência é incapaz de conceber esses ardis, não dê guarida a essa suposição. O "Arqueiro Verde" é uma realidade.

Seu semblante se anuviou, mergulhando em profundos pensamentos. Algo o preocupava. De repente levantou-se, foi até o cofre que se achava no extremo da sala e abriu-o; depois de alguns momentos, voltava, trazendo alguma coisa.

O jornalista preparava-se para se retirar; o tempo de que dispunha, gastara-o em discutir o trabalho de Wood.

— Olhe, Holland, — era um sapatinho de criança manchado e descolorido — um dia, se a justiça não o surpreender antes, hei de mostrá-lo a Abe Bellamy perante os tribunais americanos. Será, para o maldito, o dia negro de sua vida.

Assim falava, quando a mulher que recebera o repórter, entrou; trazia nos braços uma menina encantadora.

— Senhor, a pequena "alemã" não quer dormir sem vê-lo — disse, apresentando-lhe aquele rostinho rosado, cujos olhos fixaram-se logo nos candelabros acesos; fitando momentos depois Wood, na boquinha recortada esboçou-se um sorriso ingênuo; ouviu-se um alegre gorjear.

Grande modificação operou-se na fisionomia preocupada do homem; mudou instantaneamente. O sorriso que lhe iluminava sempre o semblante reapareceu, ao tomá-la nos braços.

— Aqui está uma parte do meu tesouro, Holland, muito mais precioso que todos os milhões de Bellamy. Uma pequena inimiga, e que terrível inimiga!

As faces delicadas da pequenina roçavam as de seu protetor e Spike viu, admirado, brilharem-lhe lágrimas nos olhos. John sentou-a a um canto da mesa de trabalho e deliciava-se em vê-la, satisfeita, contemplar a dourada figura de Pã que ele tinha na mão.

 

OS CÃES DE GARRE

Na manhã seguinte, quando Julius encontrou Bellamy, recebeu como cumprimento uma manifestação de mau humor. Assim costumava fazer o velho — toda a sua contrariedade, ele a derramava em palavras ásperas cujo alvo era quase sempre o secretário.

— Não se aproxime de meus cães — disse Abe. — Lembre-se que será para eles alimento completo.

Apesar da inquietação e receio que lhe causavam, Savini estava interessado por eles; até então, não houvera cães no castelo e o proprietário costumava dizer que não dispensaria cuidados nem mesmo aos animais.

— Comprei um casal de policiais — continuou — e, vestíbulo e corredor serão guardados por eles durante a noite. Se quer ouvir meus conselhos, nunca saia de seu quarto quando estiverem em liberdade.

Eram fortes, ameaçadores, pareciam dois lobos prontos sempre para o ataque e em sua nova morada ninguém deles se aproximava, exceto Bellamy a quem reconheciam como senhor. Mais tarde, Julius teve ocasião de vê-los de perto.

— Afague-os — disse o velho. — Não tenha receio, vamos.

Savini levou a mão ao que lhe estava mais próximo e, ante a agressão do animal, caiu de costas.

— Você está assustado e eles conhecem quando alguém os teme. Aqui, aqui — gritou Abe, estalando os dedos; o cão correu, sacudindo a cauda e postou-se a seu lado, levantando a cabeça inteligente para olhar o dono — o homem que mos vendeu, avisou-me de que não conseguiria me fazer obedecer por eles antes de um mês. É um tolo, mas... mas, ouça-me cá, a propriedade vizinha foi alugada; não ouviu falar disso?

— Refere-se a Lady's Manor? — perguntou Julius surpreendido.

— Venceram-me os novos locatários por cinco minutos apenas; falei pelo telefone com o agente da propriedade esta manhã e ele me disse que já estava alugada. Sabe algum pormenor desse negócio?

— Não, senhor; é a primeira vez que ouço falar disso. Quem é o inquilino?

— Não sei nem me interessa saber — disse ele sacudindo a cabeça. — Bem podiam ter procurado outro lugar.

Mais tarde, fez-se acompanhar de Julius ao longo da alameda numa rápida inspeção.

— Creio que é aquela casa — disse Abe, mostrando com a bengala as chaminés e o telhado que sobressaíam dos muros que circundavam o parque de Garre Castle. Tantas vezes vi aquele sítio, mas nunca pensei em adquiri-lo. Não há uma porta naquele muro?

— Parece — respondeu Julius — é bem provável que houvesse ali uma comunicação entre o castelo e a casa senhorial.

A porta era de ferro, e aquele sistema bastante antiquado caíra em desuso havia alguns anos; estava enferrujada e, em parte, coberta de hera. Convinha dificultar o mais possível a passagem, e o velho resolveu mandar construir um muro que a obstruísse.

— Você, Savini, irá procurar um pedreiro para tapar a porta; quero tomar essa medida para impedir que algum indiscreto se lembre de me vigiar as terras.

O secretário tomou nota da ordem, e naquela mesma tarde foram iniciados os trabalhos; a hera foi retirada e fizeram-se os preparativos para a obra. Quando Valéria Howett foi observar o jardim de sua nova residência, ouviu os golpes do aço contra a pedra e calculou o que faziam do outro lado.

O exterior de Lady's Manor permitia pensar que a casa estivesse arruinada de todo; entretanto, para satisfação de seus novos moradores, foram necessários apenas pequenos reparos interiormente. As paredes estavam pintadas e no teto bastaria uma mão de tinta. Em poucos dias tudo estava em boas condições e, mesmo antes que os operários se retirassem, Mr. Howett concordou em mobiliar a habitação; as ruas calmas de Berkshire se movimentaram com o transporte dos móveis que haviam de guarnecer a casa senhorial.

Uma manhã, ainda era cedo, Bellamy, chegando à janela de seu quarto de dormir, viu uma fumaça que, saindo dentre as árvores, se elevava no ar em direção ao castelo, Lady's Manor já era habitada. Ultimamente o velho se levantava muito antes dos criados, que relutavam para iniciar os trabalhos, enquanto os cães que durante a noite rondavam a casa, estavam em liberdade. A presença dos animais era eficiente, pois até Julius tremia ao ouvir-lhes os passos diante da porta do quarto, e o fantasma não fizera mais suas aparições.

Num belo dia, Mr. Bellamy leu no Daily Globe.

 

"Cães policiais guardam o milionário de Chicago, impedindo a entrada do "Arqueiro Verde."

 

Rugiu de cólera, embora já se houvesse resignado àquela pouco desejada publicidade; posto sentisse íntima revolta contra Spike, não o animavam sentimentos de vingança, ainda que em outros tempos, por muito menos, fizesse calar os jornalistas. Para maior contrariedade, Holland tivera a audácia de aparecer à entrada de Garre, no dia seguinte ao de sua volta da Bélgica pedindo que o recebesse.

— Diga-lhe — bradou o velho — diga-lhe que não se aproxime, mandar-lhe-ei meus cães ao encontro.

— Promete ele informações acerca de Creager, o homem que há poucos dias foi assassinado.

— Não me interessam — respondeu asperamente.

Horas depois, indo a uma de suas excursões, o espanto e a cólera o paralisaram — o repórter caminhava calmamente, mãos no bolso, cigarro no canto cia boca. Ao ver o milionário emudecido, fez-lhe um amável cumprimento.

— Como conseguiu vir até cá?

— Pulei o muro.

O velho estava irado.

— Volte pelo mesmo caminho. Não lhe permito a entrada. — Olhe cá, Mr. Bellamy, acalme-se; não é necessário tamanho barulho. Estou aqui e é melhor que me escute.

— Ouvi-lo? Nunca. Retire-se — e caminhou em direção g Spike, que não recuou um passo.

— Seria de bom aviso que me ouvisse. A polícia encontrou a cópia de uma carta que lhe dirigiu Creager a respeito de um certo Z... e estão todos aflitos por saber quem é essa pessoa e quando foi escrita a mensagem.

O velho transformou-se.

— Uma carta? — disse incrèdulamente — a mim dirigida? Ê loucura! Guardava ele então cópia de suas cartas?

O jornalista acenou afirmativamente.

— Foram encontradas centenas de cópias em seus papéis. Suponho que fosse um hábito seu.

— Entre — disse Abe, depois de um momento de reflexão. Spike Holland seguiu-o triunfante.

 

A CONTA DO GÁS

— Diga-me quanto sabe a respeito da carta. Como teve conhecimento dela?

— Estava lá quando a encontraram — disse Spike — e teria passado despercebida se eu não chamasse a atenção do investigador.

— é certo o que me diz? — perguntou o velho, aflito.

— Vi-a e tirei uma cópia, antes que o inspetor o fizesse; era uma coisa importante — e, tirando do bolso um livro de notas, separou uma folha que abriu sobre a mesa. — Vou ler-lha, não tem data e esse fato muito tem preocupado a polícia.

 

"Mr. Abel Bellamy.

"Z... está sob minha guarda, é um homem dotado de temperamento impetuoso. Penso que poderei fazer o que me sugeriu em nosso encontro, mas quero ser bem recompensado, porque posso perder o lugar que ocupo, principalmente se o plano não for bem executado e algum outro guarda me observar. Nesse caso, serei grandemente prejudicado e quero saber com que recursos poderei contar. Z... não é estimável; é mordaz, sempre pronto a dar à língua, e já tem dado ocasião a contendas. Se quiser levar avante a idéia, estarei a seu dispor amanhã; aproveitarei minhas férias para ir a Henley e, se achar conveniente, poderemos nos encontrar lá.

Assinado — J. Creager"

 

O milionário leu e releu a carta, dobrou-a e devolveu-a ao jornalista.

— Não me recordo de tê-la recebido. Nada sei de Z... nem mesmo quem é; a Creager, nunca o remunerei senão pelos serviços que me prestou. — Contrariamente a seus hábitos, o velho tinha na voz um acento de doçura, mas podia se perceber que era o resultado de um grande esforço para se dominar.

— Se estou bem lembrado, foi em Henley que ele lhe salvou a vida; é uma coincidência interessante ter ele determinado esse lugar para encontrá-lo. Estaria prevendo sua queda no rio?

— Não me agrada o assunto, — disse Abe numa explosão de cólera. — As informações que me pediu, Holland, já lhas prestei. Quanto à carta, não há provas de que me tenha sido dirigida e pode bem ser criação sua. Com que fim fazia pesquisas nos documentos de Creager?

— Com que fim? — repetiu Spike, repondo o papel no bolso. — Bem... nada tem a dizer, então, a respeito da carta, Mr. Bellamy?

— Nada, nunca me chegou às mãos e não conheço a pessoa a que se refere; só soube que Creager fora guarda de Pentonville quando me chegaram as informações do Daily Globe, o meu jornal predileto — acrescentou ironicamente.

— Bem, está dito. Haverá mais alguma notícia do fantasma?

— Quanto sei do arqueiro verde li-o também no Globe, o respeitável jornal que costumo ler sempre; é o portador de todas as novidades.

— Diga-me senhor, está disposto a que eu continue minhas observações sobre os muros do castelo?

— Pode continuá-las e cedo verá mais do que até agora.

Para se certificar de que a importuna visita se retirara, acompanhou-a ao portão e o guarda se surpreendeu de ver sair quem não entrara.

— Estes muros não são bastante altos Savini, — disse o velho, depois que o jornalista partiu. Chame pelo telefone para Guildford e peça que venha alguém que coloque arames farpados sobre eles. E...

Julius preparava-se para sair, quando ele continuou:

— E quero poupar-lhe um trabalho avisando-o de que aquelas fotografias não estão mais na gaveta de minha mesa, mas num cofre. Caso se interesse por tornar a vê-las, diga-me e hei de mostrar-lhas.

O secretário guardou silêncio; naquele momento era incapaz de formular uma resposta conveniente.

Garre Castle havia sofrido radical transformação, antes que Bellamy nele fixasse residência; sob a direção do proprietário, os operários trabalharam durante quase um mês para porem em execução os seus projetos: fez um novo abastecimento d'água, instalou luz elétrica e fez um sistema de canalização de gás, ligado a todos os quartos, exceto à biblioteca; além de uma grande fornalha na cozinha, havia estufas a gás, cujo consumo fora a causa de grandes contrariedades para Wilks, naquele dia.

Era costume irem todas as contas diretamente para o milionário; aquela, porém, relativa ao trimestre do verão, foi ter às mãos do mordomo que a estudou, antes de entregá-la a seu senhor.

— Que é isso? — perguntou Abe ao criado.

— é uma conta, senhor, e está errada. Há um engano contra nós — respondeu o outro, satisfeito de se mostrar conhecedor dos negócios do proprietário de Garre.

— Errada? Como?

— Sim; é bastante grande em relação ao pouco consumo que houve durante o verão, quando na fornalha só usamos carvão de pedra. Bellamy arrebatou o papel das mãos do homem.

— Deixe-a — disse ele.

— Mas... como quer que paguemos o que não consumimos?

— Deixe-a — trovejou o velho — e não torne a abrir as contas, ouviu? Não estão a seu cargo.

Era a gota d'água que fazia transbordar o copo. Mr. Wilks era bem remunerado, mas sofrerá muito do patrão e a paciência esgotara-se-lhe.

— Não admito que me fale desse modo, Mr. Bellamy, peço-lhe que pague o que me deve e me deixe ir; não estou habituado a...

— Dispenso-me de lhe ouvir discursos — disse Abe e colocou a mão no bolso, tirando uma nota que pôs sobre a mesa — aí tem o seu dinheiro, retire-se imediatamente ou forçá-lo-ei a justificar a demora.

Spike Holland fazia a sua refeição na vila quando lhe chegou a notícia da demissão do mordomo do castelo, um acontecimento capaz de comover o mundo, dadas as boas relações entre o milionário e o chefe dos criados.

Quando Mr. Wilks apareceu, foi obrigado a parar por diversas vezes pelos curiosos que o interrogavam.

O repórter abandonou a refeição para ir ao encontro do homem, que tremia à lembrança do que acontecera.

— Ê absolutamente impossível viver com ele. Não é um ser humano, é um animal. E agora que deu para ver fantasmas...

— Também você viu o "Arqueiro Verde"?

— Não, senhor; não quero mentir. Nunca vi e penso que é fruto da invenção de Bellamy, que tem algum fim a atingir. É um animal, repito; nunca encontrei, entre as famílias às quais servi, alguém que se lhe assemelhe. Nem sabe como se vive. Sua sala de jantar é talvez a mais bela do país, entretanto as refeições são feitas na biblioteca. E o que come, senhor! Sua alimentação bastaria para três pessoas: toma no almoço um litro de leite e meia dúzia de ovos... — e assim falava do prodigioso apetite do milionário.

Era um novo aspeto da vida do velho para o jornalista, que vira sempre nele uma pessoa normal.

— E que motivou sua saída de Garre Castle? — perguntou o repórter.

— Quis levá-lo a compreender que havia exagero na conta do gás que nos fora apresentada. Era seu próprio interesse que eu advogava; em lugar, porém, de ser grato, tratou-me como a um cão. Como vê, senhor, eu não podia permanecer lá.

Spike ouviu do criado toda a história de sua desgraça, sem se interessar pela questão que dera lugar à sua saída do castelo; o que o preocupava era a aparição do fantasma, que em nada foi esclarecida, pois Wilks falara apenas da presença dos cães, já conhecida do repórter. Entretanto, durante a palestra do mordomo, o jornalista colhia dados para um artigo que receberia o título:

"Aspectos da minha vida no Castelo dos Fantasmas".

De volta à cidade, Holland resolveu ir procurar, na Scotland Yard, Jim Featherstone, que o recebeu imediatamente.

— Que notícias nos traz? — e ofereceu-lhe a cigarreira em que o jornalista escolheu um cigarro.

— Houve novas ocorrências em Garre. O proprietário ofendeu o chefe dos criados por causa de uma conta de gás. Se o fato se passasse quatrocentos anos antes, Wilks teria sido enforcado e hoje estaria gozando da bela companhia dos fantasmas, que, à noite, se divertem no interior do castelo.

— Devagar, amigo, vamos mais devagar — disse Jim — minha inteligência não está clara esta manhã. Antes de mais nada, que houve com a conta do gás?

Spike contou-lhe tudo e, com admiração, viu que o investigador se interessava pelos pormenores do caso, fazendo tantas perguntas que seu cérebro estava cansado.

— Isso não me parece ser um ponto de partida para desvendar o mistério; é mais explicável que o uísque esteja a atuar no espírito do velho.

— Esse fato é, até agora, o que de mais importante soubemos de Garre Castle — disse Jim Featherstone. — Sou-lhe muito grato, Holland. Devo me afastar daqui por uma ou duas semanas; não nos poderemos encontrar, mas gostaria que comunicasse as informações que obtivesse, a meu assistente. Vou apresentar-lho.

Horas depois, Spike entrava no escritório de Syme.

— Tenho a certeza de que o fio da história de Creager está no castelo de Bellamy. Wilks foi despedido e conviria fazer substituí-lo por um dos nossos homens; eu mesmo iria, se não receasse ser conhecido imediatamente. Não poderíamos mandar Mason ou um dos outros rapazes? Apresentemo-los a uma agência que se encarregará de resolver o negócio.

— É uma idéia genial!

Esse pensamento não ocorreu só ao jornalista, mas, quase simultaneamente, a outras pessoas interessadas.

 

UM RUÍDO DESPERTA OS CÃES DE GARRE CASTLE

"Um assassínio premeditado por uma ou mais pessoas desconhecidas"

 

Abe Bellamy leu o relatório do auto de corpo de delito de Creager, sem se comover, pois aquele desaparecimento não significava para ele mais que uma economia anual de quatrocentas e oitenta libras. Haviam-no irritado grandemente as intermináveis indagações com que a polícia o importunara, e a que estava obrigado em virtude das relações que mantinha com o assassinado; felizmente, tudo terminara.

Dera-se com ele um fato curioso: não lhe despertava interesse o caráter bizarro de que se revestia o crime, nem podia estabelecer uma conexão entre ele e o sistema adotado pelo "Arqueiro Verde". Sentia-se instintivamente prevenido contra os jornais e, no primeiro artigo que leu, as circunstâncias do assassínio o induziram a pensar que ali tivesse influência preponderante o espírito imaginativo dos jornalistas. Provavelmente o homem não fora vítima de uma flecha, mas apunhalado por algum antigo inimigo que assim satisfazia o ódio e, nesse caso, a intenção do criminoso devia ser afastada do lugar.

Uma coisa havia que lhe chamava a atenção nos últimos tempos — era a melancolia do secretário que, desde a chegada do substituto do chefe dos criados, manifestara grande modificação no temperamento; de palrador, passara a ser silencioso; isso, porém, nenhuma ligação podia ter com o crime, ele a atribuía à revelação que lhe havia feito de seu passado e, satisfeito, conservava-o a seu serviço.

A presença dos novos inquilinos em Lady's Manor causava-lhe certa contrariedade, pois parecia-lhe inexplicável ousadia querer alguém aproximar-se do castelo; aqueles pensamentos, porém, não os alimentava por muito tempo, e de seus vizinhos nada sabia. A não ser Julius, ninguém mais lhe ouvira palavra a esse respeito, pois não se dirigia aos criados senão para repreendê-los.

Poucos dias depois da demissão de Wilks, falou asperamente ao novo mordomo.

— Ainda não me foi possível fazê-lo compreender que não, quero que se aproxime de mim senão quando o chamo. Ontem à noite teve o atrevimento de ir bater à porta da biblioteca, posto tivesse Savini o avisado de que não me devia importunar.

— Sinto muito, senhor, vê-lo desgostoso — disse cortesmente o criado — mas tudo no castelo me é estranho; cuidarei doravante em não tornar a aborrecê-lo.

Uma noite, no parque de Garre, Abe encontrou Savini que vagava em completo desalento.

— Que tem? Andará a polícia em seu encalço?

— Não, senhor, mas não me estou sentindo bem.

— Convém então que procure outro emprego, pois não penso em fundar sanatórios.

A admoestação tivera o efeito de despertar o secretário que ensaiou uma fingida alegria; o velho, notando o bom resultado da medida, continuou a repreendê-lo.

Mais de quinze dias se passaram desde a última aparição do fantasma.

É que ele teme os cães — pensava Bellamy. Naquela noite, porém, seu sono foi interrompido pelo ladrar de um dos animais e, saltando do leito, foi para o corredor; as luzes estavam acesas, como ordenara, e um dos cães estava parado no centro da passagem, em frente à escada de pedra que dava para o vestíbulo do andar térreo.

O velho assobiou; veio o primeiro que parava de quando em quando a olhar para trás; seguiu-o o outro que, aos pulos, galgou a escada.

— Que há, hein?

Abe voltou ao quarto, vestiu o roupão e colocou no bolso o revólver; seguido pelos cães, desceu ao vestíbulo. Nada viu que lhe pudesse despertar suspeita; abriu a porta da biblioteca, entrou, acendeu as luzes e deu uma busca sem resultado. Tranqüilizado, subiu novamente e voltou ao quarto. Mal adormecera e novo ladrar o despertou; dessa vez eram os dois cães que, parados diante da escada principal, lhe ouviam o chamado sem se moverem. Novo assobio e eles vieram.

— Que é isso? Estão loucos?

Um latido mais forte foi a resposta e, imediatamente, como se houvessem visto alguma coisa, voaram ao longo do corredor, e o proprietário os seguiu. Chegaram à entrada, farejavam o soalho; feita nova busca, nada foi encontrado.

Os animais estavam inquietos; deve ser costume deles andarem sempre a rosnar — pensou Abe — e acomodou-se novamente. Poucos minutos, e ouviu novo sinal a que não atendeu; dormiu, e eram cinco horas, ainda escuro, quando acordou. Levantou-se e com espanto viu que a porta interna estava inteiramente aberta; a outra, apenas encostada, e ele tinha a certeza de tê-las fechado, antes de se recolher. Que seria feito dos cães? Para procurá-los, saiu para o corredor e viu que estavam deitados ao lado um do outro, junto da parede, as pernas estendidas, pareciam mortos. Tocou-os, um abriu os olhos, fitou-o por um segundo e fechou-os novamente. Havia então estado alguém escondido, durante a noite, no castelo, e devia ser o "Arqueiro Verde".

Os cães em pouco tornaram a si e ele mesmo os prendeu: Por que teria novamente aparecido o arqueiro verde? Qual o seu objetivo? Não devia ser somente uma demonstração de que era hábil em entrar e sair de aposentos sem ser pressentido, nem um mero desejo de se arriscar; tampouco um gracejo.

Que quereria ele? No quarto de dormir de Bellamy não havia objetos de valor e tudo estava intacto; o roubo não servia, pois, de explicar suas visitas, e coisa muito séria devia movê-lo. Repentinamente, iluminou-se o cérebro do velho: o "Arqueiro Verde" andava em busca daquela chave que sempre o acompanhava — durante o dia trazia-a no bolso, presa a uma cadeia de metal; à noite, colocava-a sob o travesseiro. Naquela manhã, para maior segurança, prendeu a corrente ao pescoço, quando entrou no banho. Era interessante a forma daquela chave — muito longa e fina. Seria ela o móvel da aparição do fantasma? A ser assim, devia o arqueiro conhecer o segredo de Garre Castle!

Com esse pensamento, correu Bellamy à biblioteca, entrou e bateu com a porta. Savini, ainda meio dormindo, ouviu aquele ruído, e sonhando que o velho se havia suicidado, sorriu.

 

EM LADY'S MANOR

Quando Julius Savini se dirigia para o telégrafo, teve um encontro que o contrariou, e, se lhe fosse possível tomar outro caminho ou de qualquer modo passar despercebido ao homem ruivo que, despreocupadamente, fumava o seu cigarro, certo o teria feito, mas como para Spike era atada a ocasião, o secretário de Bellamy foi obrigado a atravessar a rua para atender-lhe o chamado.

— Estou... — começou o eurasiano.

— Você tem pressa, já sei. Certamente não lhe convém que o velho saiba que esteve em minha companhia, pois seria demitido. Não se admire de me ouvir chamá-lo assim, gostaria que entre nós houvesse intimidade e, além disso, seu nome me é muito simpático. Escute, quero fazer-lhe uma pergunta — conhece Featherstone, um homem da Scotland Yard?

— Sim, costuma andar na companhia dos Howetts e aconselho-o a que os procure em Lady's Manor para que lhe dêem informações.

— Estive com Mr. Howett. Conhece então Featherstone?

— Já lhe disse quanto sabia — replicou impaciente o outro — agora devo ir, Holland.

— Chame-me Spike; é preciso que nossas relações se estreitem mais. Que tal é o substituto de Wilks?

— É um homem vulgar — disse Julius — sacudindo os ombros. Veio de Londres.

— Um homem vulgar, hein? Tão vulgar que se ocupa em estudar-lhe os atos, não é? — acrescentou Spike com um olhar penetrante. — Não costuma ele ir à vila?

— Penso que sim.

— Você não o conhecia já?

— Por que me importuna assim com essas perguntas? Será o novo mordomo seu amigo?

— Como você está apressado — disse Spike, tomando do braço de Julius, quando ele experimentava sair. — Diga-me, há alguma novidade? Onde anda o "Arqueiro Verde"? Estará em férias?

— Não, não — respondeu Savini — ainda ontem andou por lá; narcotizou os cães e, agora mesmo vou ao telégrafo pedir mais dois animais, pois o velho pensa que lhe será mais difícil desvencilhar-se de quatro que de dois.

Retirou-se apressadamente; estava ansioso por que houvesse grande distância entre ele e o jornalista imprudente.

Spike naquela manhã tinha recebido notícias de John Wood, que prometia vir no fim da semana e o convidava para jantar. Eis uma parte da carta que interessou o repórter:

 

"Sou-lhe muito grato pelas notícias que me mandou de Bellamy e dos extraordinários acontecimentos de seu castelo; desde então, não tenho deixado de ler o Globe, pois as notícias do "Arqueiro Verde" são verdadeiramente interessantes. Em sua carta diz que o arqueiro cedo ou tarde vencerá os nervos do proprietário de Garre. Como já tive ocasião de lhe dizer, acho que não tem razão; nada no mundo será capaz de assustar aquele homem mau; tampouco concordo em que ele venha a ser assassinado pela mão que vitimou Creager. Penso que o velho sofre as conseqüências de um ardil, e seu destino depende inteiramente do que vier a descobrir o freqüentador de Garre Castle."

 

A carta trazia pormenores do empreendimento de Wood, e contava seus progressos; tendo conseguido interessar vários homens ricos da América e da Inglaterra, vira os resultados excederem às esperanças. Ao jornalista essas notícias não interessavam, porque atualmente se voltava só para o caso de Abe Bellamy.

Era extraordinária a diferença de caráter daqueles dois homens — pensava ele — um com ódio brutal, despedaçava corações, o outro, com a vida devotada à caridade, levava o consolo aos desamparados.

Spike Holland tinha se comprometido para um almoço com Mr. Howett, e caminhava pelo passeio que corria ao lado do castelo.

As chaminés da velha casa senhorial, já as tinha à vista e, como apreciador de antiguidades, conhecia melhor que os ingleses os edifícios históricos da Inglaterra. Lady's Manor tinha sido mandada construir no século XV, para Isabel D'Isle, amante de um dos Curcys. Algum tempo depois, a propriedade foi em parte destruída por um incêndio, e a reconstrução se fez imediatamente, de acordo com o gosto arquitetônico de Isabel.

A manhã estava clara e quente e Valéria determinava os trabalhos do jardineiro.

— Ao que parece, Miss Howett instalou-se aqui definitivamente — disse Spike, sorrindo ao cumprimentá-la.

— Ao menos permanecerei por muito tempo. Meu pai está na biblioteca; pode entrar.

Algo da melancolia que era o traço característico de Mr. Howett havia desaparecido, e ele estava satisfeito, quase alegre. Talvez a mudança de ambiente — pensou o repórter — tenha operado a transformação, mas daí a momentos, o orgulho com que ele lhe mostrou as notas acumuladas e as consultas feitas para a introdução de seu livro, modificaram-lhe a opinião.

— Já observou seu vizinho, Mr. Howett?

— Fala de Bellamy? — perguntou o outro mal humorado. — Não, nem quero saber dele; graças aos céus é um homem insociável, pois não me agradaria ser convidado para um chá em sua companhia, e... por falar nisso, Holland, já se deixou introduzir em nossos hábitos de tomar chá? Se não o fez, aconselho-o a ser prudente, pois uma vez adquirido o vício, será dele escravo por todo o sempre.

A propriedade de Lady's Manor não era extensa; não tinha mais que duas geiras e limitava com os muros do castelo.

Essas observações foram feitas depois do almoço, quando o jornalista passeava com a jovem.

— Parece haver uma porta aqui.

— De fato, mas Mr. Bellamy murou-a pelo outro lado.

— Receará ele o "Arqueiro Verde"? — disse o repórter ironicamente e continuou — desculpe-me a indiscrição, Miss Howett, mas não o teme?

— Não.

— Este é o lugar em que o muro é mais baixo — disse, inspecionando-o com interesse profissional — se quiser, terá oportunidade de fazer uma excursão pelo domínio feudal de Abe... e, andando um pouco mais, — aproximou-se e tocou com a mão a parte superior do muro — duas escadas pequenas, e estará lá; começo a invejá-la. Não me atrevo a pedir-lhe consentimento, mas, uma palavra sua de animação bastaria para que eu, numa noite escura, fosse lá procurar o fantasma.

Ela sorriu.

— Não me ouvirá essa palavra, Mr. Holland. Tem visto o Capitão Featherstone ultimamente?

— Não, desde segunda-feira. Avisou-me de que se afastaria da cidade. Duvido que o tenha feito, e sinceramente lhe digo estar convencido de que Jim é o novo mordomo do castelo. Estou certo de que os acontecimentos de Garre o interessam, principalmente o último — a conta do gás. A importância que terá isso, só Deus sabe.

— Não sei a que se quer referir.

Spike contou-lhe minuciosamente o que acontecera.

— Eu mesmo comuniquei a Featherstone o sucedido. Parecia-me conveniente que um de nossos homens se apresentasse para ocupar o lugar de Wilks; sugeri a idéia a Syme, mas enquanto foram tomadas as providências que o caso exigia outro pretendente foi aceito. Dentre a polícia deve haver quem possa ocupar o cargo, e ocorreu-me que Jim Featherstone em pessoa esteja lá. Esta manhã falei a Julius que, pela vida que levou, deve conhecer quase todos os homens da Scotland Yard. Se o investigador fosse o mordomo, penso que o teria denunciado a Bellamy.

Ela meditava.

— Então o Capitão Featherstone interessou-se pela conta do gás?

— Talvez porque tenha família, pois a mim, que sou solteiro, o caso não me preocupou.

— Jim não é casado — disse ela friamente e corou, quando Spike se desculpou do engano.

— Não sei por que se desculpa. Conhece Julius Savini? — perguntou ela, desviando o assunto. — Quer dar-me informações sobre ele?

— Por que não? — respondeu o rapaz, surpreso. — Dir-lhe-ei que é um eurasiano, filho de um inglês casado com uma índia e que herdou as más qualidades de ambos. Fazia parte do bando Crowley, que a polícia capturou há um ano, e Savini conseguiu evadir-se, aceitando o emprego que lhe oferecia Bellamy.

A princípio, não podia compreender como isso se dera, mas agora vejo que ele é o homem que convém ao milionário. É adulador sem escrúpulos e teme Abe pelo seu passado. Tal é Julius Savini; penso não lhe ter feito injustiça.

— Assim o creio — disse Valéria.

Spike tomara aposentos em Garre e duas vezes ao dia comunicava-se pelo telefone com o escritório; Syme, entretanto, pensava que o "Arqueiro Verde" não era mais que um pretexto para o afastamento de Holland, mas receava arrepender-se, se lhe ordenasse a volta para a cidade.

O jornalista estava a falar para o escritório, quando viu Miss Howett, que em seu carro seguia rumo a Londres. O telefone em Blue Boar estava colocado na entrada, e tornava-se incômodo para quem necessitava falar em segredo; contudo fez nova ligação e, em poucos minutos, era atendido.

— É Mr. Syme? Miss Howett dirigiu-se a Londres. Mande algum dos empregados que a conheça vigiá-la. Não divulgue o que descobrir, mas avise-me do que se passar.

— E será mesmo a pista do "Arqueiro Verde" que você está seguindo? — perguntou o outro com ironia.

— Creio que sim e espero ser bem sucedido.

 

EM EL MORO'S

Fay Clayton tinha seus aposentos, que eram para ela quase uma prisão, em Maida Vale; separada dos seus, contava, entretanto, amigos que a distraíam e faziam que a falta de Julius não fosse sentida, embora lhe dedicasse afeição e nunca tivesse duvidado de sua fidelidade.

Nos últimos meses, sua situação financeira melhorara consideravelmente; no tempo em que Julius e seus companheiros se entregavam ao roubo, os recursos materiais faltavam-lhe quase sempre; a subsistência durante semanas inteiras, eles a garantiam por meio de empréstimos ou empenhando jóias, e nos dias mais fartos de então, ela não havia gozado do bem-estar que tinha hoje. Atualmente, recebia uma grande pensão cuja procedência não se preocupara em estudar.

O marido, como secretário de Bellamy, recebia um salário comum; de onde provinha então, essa abastança? O dinheiro era obtido, pensava ela, por meios ilícitos, mas seguros, pois ele era notavelmente hábil em roubar. Nunca lhe falara de suas obrigações, e ela concluiu que devia estar em suas mãos a administração do dinheiro destinado às despesas do castelo; ele as podia estender como desejasse. Não somente lhe dava uma pensão generosa, mas ainda cumulava-a de jóias de valor considerável. Ela não tinha escrúpulos do que recebia, e usaria o novo anel de diamante no clube favorito, sem pensar que a sua cintilação pudesse despertar desconfiança, e que ela fosse convidada para um pequeno passeio à Prefeitura de Polícia. Esse pensamento não amedrontaria Fay, que tinha estado na prisão três vezes depois dos quinze anos; o terror do desconhecido deixara, pois, de ter influência sobre ela; o único inconveniente que via nisso era se ver forçada ao contato da polícia que, às mais das vezes, se tornava importuna em suas interrogações.

Era pela manhã, Fay, na cozinha, engomava uma blusa, quando- bateram à porta. A criada, se assim se devia chamar a mulher mal vestida que diariamente fazia a limpeza dos aposentos, havia saído, e ela dirigiu-se à porta, esperando encontrar o rapaz das compras; entretanto, deu com um homem magro, de olhos encovados que vestia uma roupa amarrotada.

— Quê! Jerry — exclamou ela. — Entra. Ele a seguiu para a sala de jantar.

— Quando saíste?

— Esta manhã. Dá-me alguma coisa de beber, estou sequioso. Onde está Julius?

Fay trouxe uísque e soda e colocou diante dele, que se serviu de uma boa dose.

— Isto é bom — e estalou os lábios, enquanto a cor lhe voltava às faces pálidas. — Onde está Julius?

— Está longe daqui; conseguiu um emprego fora.

Jerry olhou a garrafa como que a interrogar se podia servir-se novamente.

— Não consinto — disse ela, colocando o uísque no armário e fechando-o. — Que pretendes fazer?

— Não sei; suponho que nosso bando tenha sido dispersado. Então Julius está trabalhando? Anda direito?

— E muito direito. É preciso que também tu procures trabalho. Deixemos o bando.

Eram irmãos, posto ninguém imaginasse, vendo a bela jovem e as faces encovadas do prisioneiro.

— Vi Featherstone.

— E ele te viu entrar aqui?

— Não, encontrei-o longe; falou-me, perguntou-me como estava e que andava fazendo. Não é mau homem.

— É uma ilusão, Jerry. Mas que pretendes fazer? — inquiriu ela novamente.

— Não sei — e puxou a cadeira, olhando pensativamente para a mesa — há uma quadrilha de homens que trabalham no Atlântico e desejam que eu vá em sua companhia. Nunca me dediquei a essa espécie de aventuras que requer certo capital, pois a passagem de volta deve ser paga e corre-se o risco de fazer a viagem sem encontrar presa. Ser-te-ia possível conseguir-me algum dinheiro?

— Creio que sim — disse ela, depois de refletir.

— Podes estar certa de que to restituirei. Geralmente, os bandos que operam nos mares são bem sucedidos. É agradável voltar à liberdade; estou cansado da prisão.

— Onde estiveste, Jerry?

— Em Pentonville, onde trabalhou Creager, de quem se contam histórias de arrepiar os cabelos. Mas... dize-me, Fay, poderei ficar aqui?

— Sim, no quarto de Julius — respondeu hesitante.

— Não costuma ele vir, então? — inquiriu, franzindo o sobrolho.

— Não, nem mesmo recebo notícias diariamente, mas não me queixo.

Jerry contemplou, com certo desgosto a roupa que vestia.

— Bem, necessito um terno novo. Tens algum dinheiro?

— Vou ver se te posso auxiliar, pois não deves sair assim. Oxalá ninguém tenha te visto entrar aqui; não quero que meus vizinhos te encontrem, enquanto não estiveres mais apresentável. Penso que a polícia não te deixará gozar deste ar livre por muito tempo.

O rapaz riu.

— Foi o médico da prisão que me fez sair. Achou-me doente, meus pulmões não funcionam bem, e foi-me comutada a pena, por necessitar de tratamento especial. O cárcere foi feito para quem tem saúde. Arranjei umas roupas em Charing Cross Station — disse ele, mudando o curso da palestra — talvez possas ir buscá-las, pois não convém que eu ande por aqueles lugares.

Naquela tarde, Fay foi à estação da estrada de ferro em busca do baú. Tomando por um atalho, o carro a levou através Fitzroy Square. O lugar não lhe era estranho, pois lá havia um restaurante que ela freqüentara noutros tempos. Em salas pequenas, reuniam-se aqueles que deviam conferenciar e discutir assuntos de relevância, livres de olhares importunos; lá se reunira muitas vezes o bando a que ela pertencera.

Num homem que estava à entrada, ela, num volver d'olhos, reconheceu Julius; enquanto se encostava à vidraça para chamar-lhe a atenção, um carro chegou e ela viu uma jovem que descia. Julius Savini cumprimentou-a e juntos desapareceram no corredor estreito de El Moro's. Fay fez parar o táxi e seguiu-os; naquela jovem havia ela reconhecido imediatamente Valéria Howett, a quem só uma vez encontrara.

 

FAY CLAYTON

Valéria contemplava com curiosidade a decoração e mobiliário da sala de jantar — os dourados já sem brilho, as pesadas cortinas de veludo roçadas e descoloridas, o cheiro excessivo de cigarro que impregnava o ar, despertavam nela uma impressão de repugnância que não passou despercebida a Savini.

— Sinto muito tê-la trazido aqui, Miss Howett, mas é o único lugar onde poderemos conversar em liberdade.

— Que casa é esta? — perguntou ela.

— É um lugar muito conhecido — disse Julius, para acalmá-la. — Não quer se sentar? Receio ter pouco para lhe dizer — continuou, quando ela se acomodava a um canto do sofá; — Mr. Bellamy torna cada vez mais difíceis nossas pesquisas.

— Trouxe-me a fotografia?

— Quando fui procurá-la, encontrei a gaveta vazia. Bellamy percebeu que eu andara dando buscas em sua mesa e teve até a franqueza de me dizer o que pensava. Por sua causa, Miss Howett, tenho corrido grandes riscos.

— Que eu lhe tenho pago — continuou ela friamente — não estou certa de que tais perigos tenha-os afrontado por mim, e creio mais que seja movido pela cobiça. Sei que tem projetos e trabalha mais por seu próprio interesse que por mim. Isso, porém, não me importa; o que quero é obter aquela fotografia. Haverá outra?

— Sim, a de um sobrinho de Bellamy — disse Julius, e a jovem se surpreendeu.

— Seu sobrinho? — disse ela com incredulidade. — Não pensava que ele tivesse parentes.

— É uma suposição. Pelos dizeres que há no retrato, creio que foi morto na guerra.

Fay Clayton não se enganara ao pensar que o dinheiro que Julius lhe trazia tinha procedência ilícita. Todas as informações que Valéria obtinha de Bellamy, de suas relações e maneiras de agir, vinham-lhe do eurasiano, e a bolsa da jovem era a mina de ouro de onde provinham as rendas de Fay.

— Não há nada na outra fotografia que indique de quem ela é? Oh! por que não aproveitou a oportunidade que se lhe ofereceu?

— Bem o sinto, mas se o velho não a encontrasse, expulsar-me-ia; tremo só ao pensar no que teria acontecido!

Não escreveu em seu bilhete que o "Arqueiro Verde" tinha estado no castelo e narcotizado os cães?

— Entrou no quarto de Bellamy e é a única informação importante que lhe tenho a dar. Abe escreveu hoje a Smith e mandou-me ao correio registrar a carta. Ela pesava bastante e deduzi que continha dinheiro. Coldharbour é melhor recompensado que Creager; recebe umas cem libras por mês, é o que concluí do que observei no mês passado. Tinha já ido buscar essa importância no banco, quando Abe me pediu mais dinheiro para pagar Wilks — o antigo mordomo.

— E quem é o seu substituto? — perguntou Valéria.

— Não o conheço; é um homem a quem vejo poucas vezes.

Valéria refletia. Tinha sido desastrosa a tentativa de contato com o segundo assalariado de Bellamy, mas ela estava certa de que, através de Coldharbour Smith, alcançaria a solução do mistério que pretendia desvendar.

— É preciso que eu conheça melhor aquele homem. Não encontrou nada a seu respeito?

— Nada; o velho tem muito poucos papéis particulares e esses, conserva-os no cofre. Seria preciso grande astúcia para abrir a porta cuja chave o acompanha sempre. Já estive em seu quarto pela manhã, antes que ele se levantasse, e nunca a vi; imagino que ele a leve também para o leito.

— Conte-me agora o que há de mais novo. Não me disse que mandara vir mais cães? — disse ela, sorrindo. — Agora, que estou em Lady's Manor, serão fáceis nossas comunicações, Um bilhete atirado por sobre o muro...

Ouviram-se vozes de pessoas que altercavam. A porta abriu-se violentamente e uma mulher apareceu; estava enraivecida, os olhos brilhavam-lhe em fúria e decorreu algum tempo até que -ela pudesse falar à jovem que a contemplava admirada.

— Desejava saber que faz aqui em companhia de meu marido, Miss Howett?

— Não há nada de repreensível, estamos tratando de um negócio.

— Negócio, hein? — e Fay, com as mãos na cintura, observava Julius. — É uma bela história! Estão tratando de negócios! E não poderiam se ter encontrado no hotel em que mora esta senhora? Precisavam para isso, de um encontro furtivo?

Valéria conseguiu enfim tornar a si do espanto em que se achava.

— É sua esposa, Mr. Savini?

— Sim, sua esposa — gritou Fay — é preciso que o saiba! E é assim, Julius, que seus afazeres o retêm em Garre, não permitindo que me venha ver?

— Tudo explicarei, querida. Ia justamente ver você, eu o juro; um importante negócio com Miss Howett me deteve.

— E esta jovem vem então, sozinha, aqui, para tratar de um negócio importante? Vem a um lugar como El Moro's, sem alguém que a acompanhe? E incrível!

— Ela não o faria — disse uma voz vinda da porta. — Miss Howett veio em minha companhia.

Fay Clayton voltou-se e toda a cólera se lhe transformou em admiração.

— Oh!

— Sempre temos ocasião de nos encontrar, Fay — disse alegremente o Capitão Featherstone, e logo, voltando-se para Valéria que estava surpresa: — Vinha justamente perguntar-lhe por que se demorava tanto; tinha esquecido o encontro que estava marcado para as quatro horas?

Valéria tomou então a boa e a bolsa e seguiu o investigador em íntima revolta. E era particularmente feminino aquele ímpeto de cólera que não se dirigia a Julius ou Fay, mas ao homem que tão inesperadamente havia aparecido.

 

UM AVISO

Jim Featherstone deu a mão a Valéria, fê-la entrar no carro e seguiu-a, mesmo sem ser convidado.

— Nem todos os lugares convém a uma jovem; em El Moro's não posso consentir que Miss Howett seja vista; é uma casa freqüentada por toda a sorte de viciados e não poderei deixar de censurar Julius por tê-la levado lá, quando me encontrar a sós com ele.

— A culpa me cabe — disse Valéria — pedi-lhe que procurasse um lugar onde não fosse conhecida e onde pudéssemos conversar.

— Permita-me sugerir que de futuro deve escolher para suas entrevistas o cimo da Catedral de São Paulo ou a Cripta da Abadia de Westminster que são mais recomendáveis. Julius certamente lhe tem fornecido informações a respeito de Bellamy; há muito que o suspeito, e advirto-a de que aquele homem, posto possa servi-la fielmente em certos pontos, não hesitará em ludibriá-la para ser bem sucedido...

— Sei disso — disse ela calmamente, e continuou. — Suponho que me tenha vigiado todo o dia.

— Quase toda a tarde.

— Fazia-o longe daqui. Sabe, Capitão Featherstone, que me põe nervosa sua insistência em acompanhar-me?

— E eu não terei nervos também? Julga que não me aborrecerei de segui-la qual sombra através de Londres, há tantos meses?

Ela reconheceu-lhe o sacrifício.

— Pesa-me contrariá-lo — disse com humildade — e admiro sua inteligência em me fazer sentir o perigo das aventuras a que me entrego. Sou-lhe muito grata pelo auxílio que me prestou há pouco; sentia-me bastante embaraçada. Será aquela mulher esposa de Savini?

— Jamais indaguei desse casamento minuciosamente, mas o orgulho com que Fay ostenta o anel nupcial faz-me crer que é autêntico o matrimônio. Para esses caracteres viciosos, um só traço honesto na vida é motivo de desvanecimento.

— Julgava-o longe daqui — repetiu ela.

— A senhora já o havia dito. Sinto de coração não me ter afastado e, se houvesse atendido somente a um ímpeto natural, estaria agora nos Alpes do Tyrol.

Valéria, não calculava quanto de inverdade ia naquelas palavras, pois em nenhum lugar Jim se sentia tão bem como ao lado daquela jovem encantadora.

Subitamente, ela proferiu uma exclamação de contrariedade.

— Oh! Esqueceu-me perguntar a Julius... E era uma coisa que eu precisava saber.

— Talvez eu lhe possa adiantar.

— Não, não me poderá esclarecer.

— Penso — disse ele rindo — que em breve abrirá um escritório de informações como não há igual.

Depois de um momento de hesitação, ela abriu a bolsa e tirou um embrulho amarrado, que abriu cuidadosamente sobre os joelhos.

— A planta do castelo! — exclamou Jim.

— Uma planta antiga que obtive de um livreiro em Guildford. Não é o castelo de hoje, mas o de duzentos anos atrás. Veja, a disposição dos compartimentos não é a mesma... onde está a biblioteca era o chamado "Vestíbulo da Justiça".

— Era o lugar onde os Curcys interrogavam os prisioneiros. Lá — apontou ele — onde atualmente é a entrada do castelo, era o "Quarto das Torturas", onde se levavam os criminosos a confessar a verdade. Por vezes lastimo a abolição desse castigo para os crimes que imperam na Inglaterra. Hoje, se uns poucos de graciosos instrumentos de punição pendessem sobre o réu...

— Fale seriamente — disse ela. — Está certo de que é aqui a biblioteca?

— Sem dúvida, tenho uma planta mais moderna que esta que me foi fornecida pelo último dono da propriedade.

— E quereria deixar-me vê-la?

— Para quê?

— Para satisfazer-me a curiosidade.

Posto não fosse convincente o argumento, Featherstone concordou.

— Quero adverti-la, minha jovem amiga, de que se quiser, poderá ir a Limehouse investigar a casa de Coldharbour; vá também a El Moro's e não terá a sofrer mais que a mancha de sua reputação; não experimente, porém, ir a Garre Castle — Falava vagarosa e seriamente, e continuou: — nunca lá poderá penetrar senão por meios extraordinários, e quero que me prometa que não o fará.

— Não — disse ela, depois de ter refletido — não lhe posso prometer isso.

— Mas, que espera encontrar? Julga que o velho Bellamy tenha escrito suas confissões para lhe dar a ler? Supõe que mesmo que possa entrar no castelo, descobrirá alguma coisa importante? Deixe tudo em minhas mãos, Miss Howett; receio pelo seu futuro, pois conheço aquele homem vicioso, e os cães que o guardam, se a encontrarem, não lhe farão carinhos; o que temo ainda mais, é o "Arqueiro Verde".

— Como? — inquiriu Valéria, que não podia crer no que ouvia. — Ê certo que o arqueiro verde lhe causa temores? Oh!, Capitão Featherstone, está gracejando?

— Receio-o e muito. Valéria, você está brincando com o mais terrível dos perigos. Não devo insistir para que me confie seu segredo, não posso obrigá-la a que me diga por que procura Mrs. Held, quem ela é ou em que circunstâncias desapareceu. Segundo a opinião de seu pai, um dia tudo me será revelado.

— E não lhe teria contado ele alguma coisa mais?

— Nada mais! Promete-me então que não tentará penetrar no castelo?

— Não, não posso. Penso que exagera o perigo e menospreza a importância de minhas pesquisas?

— Devo ficar aqui; tenha a bondade de parar o automóvel.

Estavam em Whitehall. Apenas se separaram, Valéria começou a refletir e avaliou o serviço que ele lhe havia prestado; era-lhe grata.

— Featherstone crê então na existência do "Arqueiro Verde" — pensava e sorria. — Será então o arqueiro capaz de alcançar tanto?

 

OS NOVOS CÃES

Julius Savini sob os olhos de Featherstone e na presença de Valéria Howett, era mais humilde do que quando a sós com a sua companheira, a quem reservara umas poucas palavras ásperas.

— Você destruiu de uma só vez o meu trabalho de tantos anos; sua única habilidade é gastar o dinheiro que consigo obter.

— Sinto bastante o que aconteceu, mas não sabia que Featherstone estava aqui — ela explicou — e senti-me enlouquecer quando você entrou em El Moro's em companhia de Miss Howett. Não sentiria o mesmo?

— Ainda não enlouqueci — disse Julius.

— E como poderia eu saber que tratavam de negócios?

— Nunca pensou, então, na procedência do dinheiro que lha dava? — para um temperamento como o de Savini era sempre agradável ter a quem censurar — supunha que o velho me desse de cada vez centenas de dólares? Tudo isso, porém, não me importa; preocupa-me apenas pensar que Featherstone ficou sabendo que estamos casados.

— Ele o sabia há muito — disse Fay — já mo havia dito, quando me encontrou no parque. Mas que tem isso? Você se envergonha de mim?

— Não seja tola — disse Savini, e foi pagar a conta. Felizmente ela aceitara o motivo com que ele justificava a volta imediata para Garre e o acompanhou à estação da estrada de ferro. Deixando-o, foi em busca do baú de Jerry.

No trem em que Julius viajava a Berkshire, embarcou também um homem que conduzia os dois ferozes cães encomendados por Abe, os quais pareciam mais temíveis que os primeiros.

— São para Mr. Bellamy?

— Sim, senhor — foi a resposta. — Espero que fique satisfeito, pois são dois demônios.

Na estação havia apenas um táxi, que Julius chamou, e ainda que a companhia o desagradasse, convidou o encarregado dos cães a acompanhá-lo; não foi uma viagem confortável.

Ainda uma vez teve Abe Bellamy ocasião de demonstrar o extraordinário domínio que tinha sobre os animais. Parecia haver harmonia entre as feras e a natureza brutal daquele homem, e quando ele irritou o mais feroz dos dois, batendo-lhe na cabeça escura, o cão se deitou a seus pés. Era o velho quem os prendia sem violência, pois o seguiam, submetendo-se documente à prisão. Era-lhe agradável o trabalho. Daí a pouco ele voltava ao vestíbulo em companhia de Julius que o havia seguido à distância.

Divertia-o o susto do secretário.

— Não há motivos para tanto medo; eles percebem sua timidez. Você se daria bem com os cães de cabelos compridos que acompanham as mulheres. Estas feras só seguem os homens — e, olhando a sombria torre que estava próxima, seus olhos encontraram o galho de carvalho. — Se estivéssemos naqueles dias, hein Savini?... Se tivéssemos vivido quinhentos anos atrás, eu me divertiria em provocar estes policiais para que o atacassem. Oh! isso seria bem agradável! — Só o pensar no terror do eurasiano ao ser atacado causava-lhe um estremecimento de prazer; continuou: — agora, entretanto, a polícia viria em meu encalço e seria preciso apresentar testemunhas e mentir... Em nossos tempos há leis em demasia, mas... que é a lei? É uma invenção dos fracos para se defenderem, mas quem não é capaz de combater por si só, deve morrer. Há dias li no Globe a notícia de que um homem, na Bélgica, fundou um asilo e um hospital para tratar das crianças. Mas, para que cuidar de crianças doentes? Para preparar cidadãos inúteis e cultivar a habilidade, o artifício com que hão de vencer os fortes?!

Julius concordou; não convinha, a quem não tinha autoridade para sustentar uma opinião, proceder de outro modo. Além disso, ele mesmo pensava que a soma que o engenheiro americano despendia com aquelas criaturinhas podia ser melhor empregada. Para ele, filantropia era loucura, e não podia conceber que houvesse satisfação em dar a quem não podia retribuir.

— Ouvi de meu advogado — continuou o velho — algo a respeito desse americano. Havia um... um homem, eu o conheci, que... foi morto na guerra — e, por momentos, um sorriso aflorou-lhe aos lábios grossos, como se a recordação daquela tragédia lhe despertasse alegria. Era um visionário, um louco. Wood, o engenheiro que era um seu amigo, depois da guerra engendrou um testamento que lhe deu direito a tudo... tudo... bem, ele era parente meu... deu-lhe quanto possuía, e não era muito.

Julius percebeu que ele falava do sobrinho que havia morrido e pensou na fotografia que estava na pasta de couro.

— É quanto sei dele; não é meu amigo, e afirmaria que ele desperdiça o dinheiro que recebeu, com aqueles anormais.

Haviam' sido postos de lado todos os laços de amizade que os uniam. Tal a teoria de Abe Bellamy, que não era o único a pensar que o altruísmo é uma qualidade que existe apenas na imaginação dos loucos.

Não voltou ao vestíbulo, passou pela porta, as mãos cruzadas às costas; Savini caminhava a seu lado, indeciso quanto à resolução que devia tomar — deveria acompanhá-lo ou se deter?

A grade que dava entrada à água para o fosso estava bem fechada, e Julius suspirou de alívio.

— Não posso explicar como o "Arqueiro Verde" entra no castelo e este parece o único caminho, — e dirigiram-se à grande grade de ferro que fora agora reforçada com uma pesada prancha de madeira.

Sobre ela haviam sido estendidos arames farpados para tornar mais difícil a passagem.

— Se esta era a sua entrada, não voltará mais — disse Abe. — a não ser que, como um raio, entre em Garre pelo pátio, o que me parece difícil.

— Ele bem pode entrar no castelo durante o dia e esconder-se — sugeriu Julius.

— Não seja tolo; todos os aposentos são revistados antes do por do sol, e você sabe disso. Não; seu caminho ainda não o descobrimos.

Se o "Arqueiro Verde" é um homem, e Julius tinha suas dúvidas, só por milagre poderia entrar e sair à vontade.

Havia apenas duas janelas, as da sala de jantar, que davam para fora, a altura média. À noite eram reforçadas com postigos de ferro; as do quarto de Mr. Bellamy, essas ficavam demasiado altas. O quarto que o mordomo ocupava em Sanctuary Keep poderia servir de entrada, se as estreitas janelas não ficassem a vinte pés e se não estivesse o aposento ocupado nas horas em que o arqueiro desenvolvia a sua atividade.

Spike Holland, estava no seu posto de observação sobre o muro do castelo, acerca de cem jardas da casa do guarda, e observava os dois homens através de um poderoso binóculo — o velho e o secretário entraram no vestíbulo. A chegada dos novos cães é que levara o jornalista àquele lugar e, mais tarde, no telefone, Syme fazia alguns comentários irônicos sobre o caso.

— A história do fantasma de Garre está se tornando pueril, Holland, e eu penso que a vinda dos novos cães justifica as férias que ele está fazendo. Não poderia ir ao castelo e falar com Bellamy?

— E não seria mais conveniente entrevistar o fantasma? — perguntou, com sarcasmo, o repórter. — Abe não toleraria que dele me aproximasse novamente. Deixe-me estar, Mr. Syme, tenho a certeza de que grandes acontecimentos haverá em Garre, antes do fim da semana. Então, pedirei ao velho uma entrevista.

O jornalista tinha o instinto particular de resolver dificuldades, mas aqui era ele o embaraçado. Estudava o mistério, mas não podia desvendá-lo.

Caminhava sem destino na vila, quando ouviu o ruído de um motor; afastou-se para ver Valéria passar. O carro já estava a umas doze jardas, quando ela o chamou:

— Mr. Holland, faça o favor...

Spike aproximou-se sem saber a causa da evidente perturbação em que estava a jovem.

— Quero lhe fazer um pedido — disse ela, aflita. — O senhor terá... poderá me obter um revólver? — E vendo a surpresa que lhe causava, continuou, apressada e incoerentemente. — Lady's Manor é quase isolada e ocorreu-me... é solitária, não é? Meu pai não costuma usar armas de fogo, eu queria comprar uma... queria comprar em Londres, mas o regulamento da polícia obriga a pedir permissão... Agora, encontrei-o e pensei...

— Pode estar sossegada, Miss Howett — disse Spike. — Tenho uma arma no hotel e nem sei para que a trouxe para lugar tão pacífico. Se quer esperar, irei buscá-la.

Ele voltou a Blue Boar e num momento reapareceu. — Está carregada — disse, tirando-a do bolso. — Mas, Miss Howett, se matar algum ladrão venha logo me contar.

 

UMA NOTICIA DE JORNAL

Além do Globe, que despertara a atenção de Bellamy, o único jornal que o interessava era o Berkshire Herald, fazendo parte das obrigações de Savini a sua leitura em voz alta, antes do jantar, todas as quinta-feiras, dia de sua publicação. Algumas vezes, ele devia ler esse semanário local, linha por linha, todos os anúncios da primeira e última página; noutras, o velho era menos exigente. Posto não se envolvesse na sociedade, nunca convidasse nem aceitasse convites, o proprietário do castelo não era indiferente ao que se passava nos limites de Berkshire. Recusava-se terminantemente às entrevistas pessoais, mas todas as subscrições que lhe chegavam às mãos eram bem recebidas; não negava auxílio às necessidades do lugar, sob a condição de que seu nome não aparecesse. Era de admirar que homem tão falto de caridade, fosse assim generoso. Não era, certamente, o desejo de amparar seus semelhantes ou de contribuir para o bem comum que o levava a proceder assim, e a explicação dessa prodigalidade, podemos achá-la na frase que pronunciou, quando assinava um cheque para Hunt Committee — "Garre Castle jamais mentiu às tradições de seus antigos senhores". — O velho pensava que devia seguir os hábitos dos antecessores, cujas bandeiras haviam flutuado em Sanctuary Keep, e os costumes medievais eram por ele continuados.

Naquele dia, Julius lembrava-se que o Berkshire Herald ainda não fora lido e regozijava-se interiormente em pensar que Abe, absorvido pela chegada dos cães, esqueceria as puerilidades que enchiam a folha. As palavras de Bellamy, entretanto, à sua entrada na biblioteca, dissiparam-lhe a ilusão.

O velho estava sentado em uma cadeira, as mãos cruzadas, os olhos fixos nas chamas do fogão.

— Tome o jornal, Savini.

Era um dos dias em que estava mais impertinente, e o secretário leu coluna após coluna, uma enorme lista de preços de gêneros e uma narração um tanto longa dos acontecimentos políticos da cidade vizinha.

— Não quero saber de política — interrompeu o velho. Julius chegou então à seção que tratava de propriedades.

— Há aqui alguma coisa sobre os habitantes de Lady's Manor — disse ele.

— Leia — determinou o milionário, e sentou-se, a cabeça inclinada, os olhos cerrados, parecia adormecido; tão calmo ficava nestas ocasiões, que Julius uma vez acreditou que ele adormecera. Foi um engano lastimável que nunca mais se repetiu.

— "O novo inquilino de Lady's Manor" — Savini leu —é um inglês cuja vida tem algo de romance; emigrado para a

América, lá adquiriu uma pequena fazenda em Montgomery County, Pensilvânia... "

— Ah! disse Abe Bellamy, como se houvesse despertado. — Fazendeiro em Montgomery County, Pensilvânia? Continue, continue...

Julius estava admirado daquele interesse repentino.

— Adiante — exclamou o velho.

—... "quando um súbito golpe de fortuna o levou à compra de uma grande fazenda noutro lugar do país, onde encontraram óleo; o achado foi a base de sua riqueza. Ambos, Mr. Howett e a filha, Miss Valéria Howett...

— Quê?! — gritou Abe que, de pé diante do secretário, tinha o olhar esgazeado — Valéria Howett! — repetiu. — Valéria Howett! Maldito! está a mentir... e, arrebatando o jornal das mãos de Savini, leu: "Valéria Howett!" Oh! meu Deus!

Pela primeira vez, desde que trabalhava com ele, Julius o via comovido; as mãos tremiam-lhe.

— Valéria Howett — repetiu ainda, pálido e nervoso — Lady's Manor!... aqui!...

Atravessou a sala, foi até a mesa e tentou abrir uma gaveta.

A perturbação fez que não encontrasse a chave; puxou-a com violência, quebrando o encaixe da fechadura. Tirou os papéis e um pequeno objeto que colocou sobre a mesa. O outro viu-o e estremeceu — era o lenço tinto de sangue encontrado no depósito das provisões.

— Valéria Howett — murmurou Bellamy e dirigiu-se ao secretário: — Veja, são as mesmas iniciais.

— Não posso ver relação entre Miss Howett e esse objeto que encontramos antes que ela viesse para a vizinhança.

— E verdade — Abe tomou o lenço e colocou-o na palma da mão; examinou-o para depois pô-lo novamente na gaveta. — Pode ir, quando o precisar, chamarei. Deixe o jornal e diga aos criados que me sirvam o jantar imediatamente.

Savini atravessou o vestíbulo e estava no quarto há dez minutos apenas, quando sentiu que a porta da biblioteca se abria.

— Venha cá — o velho chamou; já se acalmara da agitação, embora em seu semblante restassem ainda vestígios dela. — Devem ter-lhe causado estranheza as minhas maneiras de há pouco. Eu me explico — conheci alguém que se chamava Howett, e uma jovem cujo nome era Valéria. Foi essa coincidência que me perturbou. Diga-me, como é Miss Howett?

— É uma bela menina.

— Bela — disse o velho pensativo — e seu pai?

— Deve conhecê-lo, Mr. Bellamy, pois morava em Carlton, quando o senhor lá estava.

— Nunca o vi — interrompeu Abe impaciente — como é ele?

— É um homem alto, magro...

— De má aparência, hein? — perguntou Abe.

— Sem dúvida já o viu — disse o secretário.

— Não, nunca o encontrei; quero que você me diga. E a esposa? Está com ele?

— Não, senhor, penso que morreu.

O velho encostara-se à estufa e olhava atentamente o cigarro; não costumava fumar antes do jantar, e Savini compreendeu que o fumo era um calmante para seus nervos excitados.

— Talvez o tenha visto... e a menina? É mesmo encantadora? Morena ou clara?

— É morena.

— Viva, inteligente?

— Sim senhor, descreveu-a fielmente.

Abe sacudiu o cigarro e olhou a cinza que caía; colocou-o novamente entre os dentes brancos e forte e ficou a fitar o teto.

— Morreu-lhe a mãe — repetiu. — Onde estaria ela, antes de voltar à Inglaterra? Preciso saber se estava em Nova Iorque, há sete anos atrás, no Fifth Avenue Hotel, onde teve um quarto alugado naquele ano, apesar de não ter estado lá. Mande um telegrama ao gerente, para ver se podemos obter informações. E indispensável certificar-me do lugar onde ela se achava a 17 de julho de 1914. Vá ao telégrafo; se estiver fechado, tome um automóvel e vá a Londres. Depressa!

— Poderei mandar a mensagem pelo telefone — disse Julius.

— Sete horas, são portanto duas em Nova Iorque. Poderemos ter notícias ainda hoje, ainda esta noite. O telegrama deve ser urgente, e diga ao encarregado da estação que pagaremos quanto pedirem para que nos venha a resposta imediatamente; lá me conhecem. Cuidado, Savini: quero saber tudo "esta noite". Avie-se.

O secretário foi ao telefone e voltou cinco minutos depois com a notícia de que a mensagem estava em caminho. O velho estava na mesma posição em que o havia deixado.

— Já falou alguma vez à menina Howett?

— Uma vez, Mr. Bellamy, acidentalmente, em Carlton.

— Ela nunca se mostrou interessada por mim, pela minha vida?

— Não, senhor — respondeu Julius com bem dissimulada surpresa — e, se o fizesse, eu naturalmente nada lhe diria, e havia de lhe contar.

— Você está mentindo. Se ela lhe pagasse bem, você lhe diria quanto sabe. Com dinheiro tudo se alcança de Savini, até mesmo o assassínio.

Naquele momento era bem possível que ele fosse capaz de acrescentar a seus muitos crimes, o do homicídio.

Na ausência de Julius, o velho tinha aberto a gaveta e tirado o lenço que agora estava caído embaixo da cadeira; ele o levantou.

— Leve-o à criada da moça e veja se ela reconhece como pertencente a Valéria Howett, pois só as iniciais não nos servem de prova. Não; é melhor que não o leve; peça-lhe antes que consiga outro lenço para estabelecermos uma comparação. Pague-lhe, dar-lhe-ei o dinheiro que necessitar.

Tirou do bolso a comprida chave que o secretário já conhecia e contemplou-a como que para se assegurar de que estava em seu poder.

— Estará ainda na vila o repórter do Globe? — perguntou Abe.

— Não sei, Mr. Bellamy; pois nunca falo a jornalistas.

— Demônio! Não o estou acusando de coisa alguma. Sabe se ele ainda está aqui? Vá procurá-lo e traga-o à minha presença.

A ordem causava certa admiração a Julius, contudo obedeceu.

— Antes de sair — continuou o velho — peça uma ligação para 789 Limehouse e chame para a biblioteca.

 

SPIKE RECEBE UM CHAMADO

Recebidas as instruções, Julius, apressou-se a ir à vila e, com satisfação, encontrou logo Spike, entretido num jogo de bola com o campeão local.

— Quer ver-me — disse Spike — está delirando.

— Escute, Holland, lembre-se de que se o velho lhe fizer alguma pergunta a meu respeito, deve dizer que nunca me falou...

— Oh! Fique tranqüilo. Que quererá ele? Far-me-á perder toda a noite no castelo?

— Não sei. Hoje está bastante preocupado.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Spike, quando juntos caminhavam pelo parque.

— Nada — respondeu Julius que queria guardar para si a estranha impressão que notara no velho ao ouvir falar de Valéria Howett.

De chegada, bateu e deu uma volta ao trinco da porta da biblioteca; estava fechada e, por ser muito espessa e revestida de cortina, a voz de Abel Bellamy não chegava até eles.

— Deve estar ao telefone, pois mandou-me pedir uma ligação, antes de eu sair.

O jornalista admirava o vestíbulo de paredes de pedra e teto abobadado. A larga escada também de pedra era ainda a mesma dos tempos dos Curcys, apenas coberta agora por um tapete.

— Onde vai dar esta escada? — perguntou ele.

— Ao meu quarto. Além dele, está a sala de jantar, onde só eu faço as refeições, e a de visitas que não está mobiliada.

— E o mordomo? Que é feito dele? — perguntou Spike que tanto desejava conhecer o criado.

— Está atendendo ao jantar de Bellamy e não posso chamá-lo.

— Entre, Holland — disse o velho que aparecia à porta. — Pode se retirar, Savini; chamá-lo-ei, se precisar.

— Tenho pensado em muitas coisas, Holland — disse o velho — e o ar de alegria com que falava ia-lhe mal... — tenho bastante pesar de tê-lo maltratado; refleti melhor e, se quiser alguma informação sobre o "Arqueiro Verde", dar-lha-ei de boa vontade. Posso adiantar-lhe que se trata de uma pessoa, e que na noite passada narcotizou meus dois cães.

— Entrou então de novo em seu quarto?

O velho fez um sinal afirmativo, e Spike ocultou-lhe que já conhecia o fato em seus pormenores.

— Onde está hospedado, senhor?

— Na vila, em Blue Boar.

— Agrada-me sabê-lo; tome um cigarro; não são tão bons como os que lhe ofereci em Londres; não lhe estragarão o paladar — disse Abe, com fingido bom humor.

O jornalista escolheu um deles, pensando qual seria o objetivo do velho ao chamá-lo a Garre Castle.

— Já está bem relacionado com as pessoas da vila? Deve ter obtido bastantes informações particulares dos negociantes para escrever a história da minha vida, não? Boa gente!

— Verdadeiramente boa — disse Spike.

— Quem é o novo inquilino de Lady's Manor? Tem uma filha encantadora, dizem...

— É muito gentil — concordou Spike.

— Tem relações com eles? Já os conhecia na América? — Não, pois sou de Nova Iorque e eles estavam em Filadélfia.

— Todos os grandes jornalistas são nova-iorquinos — disse cie num cumprimento. — A jovem... como se chama? Valéria Howett... deve se interessar por este castelo. Não desejará vir até cá?

— Não lhe posso dizer se ele lhe despertou interesse particular, pois ela se ocupa muito de Lady's Manor — respondeu o repórter, observando que o velho parecia frustrado em seus desejos.

— Seria natural que lhe houvesse despertado atenção, pois um americano velho e rústico que vive num castelo milenar... Ela nunca lhe falou que gostaria de visitá-lo? Traga-a aqui, Holland, diga-lhe que terei prazer em recebê-la. E o pai? Tenho uma vaga idéia de conhecê-lo — continuou Abe depois de refletir — Não sofre de qualquer perturbação da vista?

— Parece que enxerga pouco, e agora me recordo de ter ouvido de Miss Howett que esteve quase cego.

— Bem, não se incomode em fazer à jovem um convite especial, diga-lhe apenas o que ouviu de mim.

— Farei o que me pede.

O tom em que falava Bellamy deu a conhecer ao repórter que a entrevista estava terminada, e que o fim de seu chamado era a missão de que o encarregara.

— Como jornalista, deve ter tido ocasião de encontrar muita gente pobre, Holland — e, colocando a mão no bolso, tirou um maço de notas do banco, dentre as quais escolheu duas que atirou sobre a mesa. — Se encontrar algum necessitado, poderá lhe ser útil esse dinheiro.

— Não espero encontrar mendigos, Mr. Bellamy, mas se isso acontecer, dir-lhes-ei que venham ao castelo. Nunca levo em meu bolso o que não me pertence.

— Bem, considere-o seu — disse Abe com um sorriso forçado.

— Só considero meu o que resulta de meu esforço próprio. O velho pegou as notas e colocou-as no bolso.

— Pode se retirar — e tocou a campainha.

O jornalista teve a esperança de que lhe aparecesse o mordomo, mas foi Julius que veio.

— Acompanhe Mr. Holland, Savini, e volte. Boa noite, senhor.

— Que lhe queria o velho? — perguntou Julius, quando estavam fora. — Não lhe perguntou se eu lhe havia dito...

— Coisa estranha! você não foi lembrado na entrevista, — respondeu Spike — e não posso compreender como pudemos conversar dez minutos sem lhe pronunciar o nome.

— Mas.. que queria ele afinal?

— Queria realizar um ato de bondade, de caridade, e estou a cogitar que plano trará em seu espírito. O que eu desejava, porém, era ver o mordomo, acrescentou pensativo.

 

UMA GRANDE AVENTURA

Julius esperou até que o repórter desaparecesse; e, caminhando junto do muro do castelo, dirigiu-se a Lady's Manor. Era um belo caminho de umas cem jardas, pois a casa senhorial ficava ao norte da vila; a ele, porém, parecia-lhe muito mais longo, pela pressa que tinha em cumprir o mandado.

Já segurava o trinco do portão, quando lhe pareceu que havia alguém à sombra de um teixo; recuou, perguntando:

— Quem está aí?

Uma figura moveu-se — era Mr. Howett.

— Sim, Mr. Howett, sinto dizer-lhe... mas... deu-me um grande susto.

Ao luar, a face do pai de Valéria parecia desfigurada; seria um efeito de luz? Não; Savini ia jurar que não era natural aquela palidez.

— Vem procurar Miss Howett?

— Sim, senhor.. queria falar-lhe; não será demasiado tarde?

— Não, não. Mas, Mr. Savini — disse ele hesitante — quero pedir-lhe um favor: não lhe diga que me encontrou.

— Pode ficar tranqüilo — respondeu Julius admirado.

— Ela julga que estou recolhido e assustar-se-ia se me soubesse aqui. Encantam-me estes passeios a horas tardias.

O secretário de Abe tocou a campainha, e a criada abriu-lhe a porta; o encontro parecia causar-lhe estranheza.

— A menina está ainda de pé; vou chamá-la.

Olhando para o portão, Savini viu que Mr. Howett havia se retirado; entretanto a criada voltou e o introduziu numa grande sala de visitas, onde Valéria o esperava.

— É inconveniente a hora, mas há um assunto de que lhe devo falar imediatamente. A importuna interrupção de nossa palestra trouxe-me ao espírito muitas idéias.

Ela sorriu; já lhe havia perdoado a falta, e divertia-se até em recordar aqueles desagradáveis cinco minutos.

— Dispenso-lhe as desculpas, Mr. Savini. Meu pai já está deitado, pois costuma acomodar-se cedo; pode se demorar quanto quiser.

Julius se absteve de qualquer declaração.

— Bellamy encarregou-me de lhe perguntar se havia perdido um lenço. Causou-lhe estranha impressão o saber que Mr. Howett e a filha habitam em Lady's Manor.

Ao ouvir o que Savini lhe contava, novas luzes vieram ao espírito de Valéria.

— Então, que me diz? É bem verdade? A ser assim, deve ter algum remorso a torturar-lhe a consciência. Por que razão se terá excitado ao ouvir falar de nós?

— É o que me preocupa.

— Mas, que há a respeito do lenço? Mais ou menos há uma semana perdi um dos seis que trouxe de Paris. Encontrou-o, acaso?

— Acharam-no em Garre Castle, ensopado em sangue — disse intencionalmente — na noite em que Bellamy alvejou o "Arqueiro Verde".

Valéria estava tomada de espanto.

— Meu lenço... em Garre Castle? Impossível. Ele descreveu minuciosamente o acontecido.

— Espere — disse ela, e correu ao quarto em busca de alguma coisa em que Julius reconheceu imediatamente um lenço igual ao que fora encontrado no quarto das provisões.

— é extraordinário! Lembro-me agora que o perdi na primeira vista que fiz a Lady's Manor, antes de pedir a meu pai que comprasse a propriedade; dei pela sua falta no carro, quando voltava para Londres.

— Não esteve então nos terrenos do castelo? Desculpe-me se são importunas as minhas perguntas, mas sei o interesse que Bellamy toma por esse fato. Não teria estado ao menos perto da casa do velho?

— Não; — e foi decisiva a sua resposta. — Estou certa de que o perdi em Lady's Manor; lembro-me perfeitamente de que o tinha ao vir para cá.

— É o que eu desejava saber, Mis Howett — e levantou-se para sair. — Abe queria que obtivesse de sua criada outro lenço que servisse para identificar o primeiro; por que é tão exigente, não sei.

Julius já estava próximo da porta quando ela se lembrou de que devia pagá-lo.

— Não, Miss Howett, isso não está direito — protestou ele, enquanto Valéria contava as notas — não devo estar sempre a receber o seu dinheiro.

— O trabalhador é digno de seu salário — disse ela, sorrindo, e Julius não sabia se deveria tomar aquela frase como um cumprimento.

Savini retirou-se e a menina ficou entregue a profundas cogitações. Travava-se em seu espírito verdadeiro conflito — de um lado a proibição de Featherstone, e o grande perigo de que se sentia ameaçada, de outro, o desejo de continuar as investigações. Jim tanto insistira para que ela se abstivesse de entrar no castelo, — mas Valéria, posto não fosse indiferente àquelas súplicas, estava resolvida a tudo afrontar. Era empresa difícil, tanto mais em se tratando de Garre Castle; embora conseguisse chegar até lá, teriam fruto suas pesquisas, agora que Bellamy sabia ou imaginava quem ela era? E ainda — perguntava a si mesma — poderei confiar na planta antiga do castelo? Depois de duzentos anos, não teria sido alterada a disposição anterior do edifício, de modo a tornar irrealizável o plano que arquitetei?

Em tempos passados, o castelo era circundado por um fosso; as águas de um regato vindo das florestas haviam sido desviadas para um canal que permitia ao proprietário manter esse fosso cheio, embora a construção estivesse sobre uma colina.

A primavera o secara e nele havia crescido a grama; a abertura, porém, por onde passavam as águas, permanecia, e Valéria, das janelas de Lady's Manor, vira-a guarnecida de uma pesada grade de ferro.

Por ali passava o homem que vinha trazer provisões e por ali Valéria pretendia fazer sua entrada no reinado dos mistérios de Abe Bellamy. Atravessar aquela abertura e ir até a cozinha, não era impossível, mas só podia considerar alcançado o sucesso, quando tivesse atingido a parte habitada do edifício. Era loucura, mas ela devia tentar. Dominava-a grande exaltação e, apesar dos obstáculos a vencer e dos temores que lhe assaltavam o espírito, a esperança ainda a fortalecia. O pai — ela pensava — já se acomodara e seu sono era sempre pesado; os criados ela os havia dispensado antes da meia-noite; Valéria era sempre a última a se recolher. Sentou-se em seu gabinete, esperando que as horas passassem. Preparara-se para a grande aventura, e mesmo o vestir tinha-lhe merecido especial cuidado, ela supunha que a vista curta de Mr. Howett não o houvesse notado: usava um trajo de esporte. Depois que o último criado se retirou, ela foi ao jardim e, com o auxílio de uma lanterna elétrica, escolheu o lugar que convinha e colocou convenientemente duas escadas que um operário havia trazido para proceder a alguns reparos na casa. Uma, ela a adaptou firmemente ao muro, a outra, passou-a para o outro lado, ligando as duas fortemente com um corda. Feito isso, voltou a casa; era ainda cedo e devia esperar uma hora. Escreveu duas cartas sem importância, e começava uma terceira quando se lembrou de que havia jantado mal; foi à cozinha, que ficava em nível inferior ao do edifício ligada a ele por uma longa passagem de pedra com alguns degraus; em Lady's Manor não havia luz elétrica e ela se muniu de uma vela. Tomando de um fósforo, acendeu o lume, colocou a chaleira e foi à copa, onde encontrou um prato de pastéis, que trouxe e descansou sobre a mesa. Voltou ao gabinete, deixando a vela acesa.

O silêncio no castelo era profundo e, para o estado de espírito em que se achava Miss Howett, assustador; se o piano lhe houvesse chegado, poderia se distrair. Sentou-se novamente à mesa e quis terminar a carta começada, mas apreensiva como estava não pôde concentrar o pensamento; ainda tinha a pena na mão, quando ouviu um ruído — alguém abria a porta do vestíbulo. Invadiu-a o medo e os nervos superexcitados fizeram-na estremecer. Um segundo passou e ela ouviu um rumor de passos cada vez mais perto no corredor; levantou-se, correu à porta e abriu-a precipitadamente. Uma réstia da luz que vinha da cozinha iluminou a passagem; nada viu que lhe chamasse a atenção.

— Quem está aí? — perguntou — é você, Clara?

O coração batia-lhe apressadamente e a respiração opressa denunciava o terror; a custo conteve o grito de rebate que lhe vinha aos lábios; com mãos trêmulas tomou da lanterna que trazia no bolso e alumiou o vestíbulo; lembrando-se do revólver que lhe dera Spike, voltou a buscá-lo.

— Há alguém aí?

Ninguém lhe respondeu; ela reuniu toda a coragem que ainda lhe restava e caminhou cautelosamente, atravessou o vestíbulo, desceu a escada e foi à cozinha. O prato estava quebrado e os pastéis espalhados no chão. Respirou de alívio; o visitante devia ser uma criatura humana.

Reacendeu a vela, cujo pavio estava ainda incandescente, e viu que dois pedaços do prato estavam sobre a mesa; alguém os devia ter posto ali. O compartimento estava deserto e a comunicação com a adega fechada. Por onde havia saído a misteriosa visita?

As janelas e a porta que davam para o pátio estavam aferrolhadas e não havia lugar onde se pudesse ter escondido; a porta que dava para o jardim, Valéria mesmo a havia fechado ao entrar, e a chave, tinha-a no bolso. Para melhor se certificar do que observara, voltou e pensou em chamar um dos criados que a auxiliasse na pesquisa; imediatamente, porém, pôs de lado a idéia, que iria modificar seus planos e, voltando-se para um canto, viu um par de olhos verdes que a fitavam, correu para lá e, rindo, com um riso nervoso, agarrou um gato.

— Pobre animalzinho! E eu a tomá-lo por um fantasma! Que susto me pregou o bichano!...

E ia continuar, quando se lhe deparou uma flecha verde no chão; a ponta ainda brilhava não muito longe dos cacos do prato. Uma flecha ornada de penas verdes!

 

COLDHARBOUR SMITH

Valéria Howett não desanimou. Vagarosa e mecanicamente colocou o gato no chão e foi levantar a flecha.

O "Arqueiro Verde"! Era bem verdade que havia estado em Lady's Manor. O ruído da chaleira a ferver chamara-a à realidade, — apagou a chama e voltou à sala de trabalho; já não tinha apetite.

O "Arqueiro Verde"! Por que temê-lo? Era inimigo de Bellamy, devia, pois, ser seu amigo.

Intentou repelir os temores que lhe enchiam a alma e, quando soou uma hora no campanário da vila, saiu ao jardim, trêmula, subiu a escada, e passou para o parque de Garre.

Era costume do velho milionário gastar duas horas no jantar, por vezes até mais; naquele dia porém modificara seus hábitos e em pouco mais de meia hora a refeição estava servida; chamou os criados para que pusessem em ordem a biblioteca.

— Chame pelo telefone o guarda-portão e diga-lhe que espero Mr. Smith, que deverá ser introduzido logo que chegar.

— Sim, senhor — disse Savini, que não podia compreender por que fora tão apressado o jantar.

— Traga-me aguardente e soda e uma carteira de cigarros baratos. Spike Holland não lhe perguntou por que o chamei aqui?

— Não — respondeu o secretário que não mentia à pergunta de Abe. — Os criados queixam-se de que a casa dos cães fica demasiado perto da cozinha e que os assusta a presença dos animais.

Substitua-os por outros que sejam menos tímidos, e não me traga mais essas lamentações, a menos que queira você mesmo acompanhá-los na cozinha.

Julius apressou-se a cumprir as instruções do velho, na curiosidade de saber por que Coldharbour Smith tinha sido chamado a Garre.

Daí a momentos, Bellamy modificou as ordens que dera, e mandou o secretário esperar o visitante. Eram quase onze horas quando Smith chegou num automóvel de Londres, e deviam ter parado muitas vezes no caminho para conversar; ambos, o viajante e o homem do volante, estavam ébrios o que contrariou o guarda-portão.

— Mr. Smith, convém que seu amigo seja mais prudente e evite fazer tanto ruído — disse Savini — fala-se muito de Garre Castle na vila e a Mr. Bellamy contrariará dar causa a novos comentários.

Coldharbour Smith era homem de seus cinqüenta anos, alto, forte, moreno e grosseiro no falar. O aviso de Julius não o agradara.

— Vá para o inferno — gritou. — Onde está o velho?

— No castelo, à sua espera.

— Deixe-o. Quero beber. Escute, Carlos, vamos a Blue Boar?

— Blue Boar está fechado há algumas horas — disse o secretário. — Entre Mr. Smith, não se faça esperar.

— Bem, irei, mas meu amigo me acompanhará.

— Não o consinto — replicou Savini a quem a autoridade de Abe aumentava a coragem e energia.

— Está bem — disse Smith com mau humor — espere-me, Carlos, e caminhou, cambaleando, ao lado de Savini.

— Por que me teriam mandado chamar a esta hora da noite? Quem é você?

— Julius Savini.

— Julius? Julius Savini? Acreditava-o na prisão com seus companheiros. Que faz aqui? Está a serviço de Mr. Bellamy?

— Sou seu secretário.

— Conhecerei mais alguém aqui? — perguntou o visitante, quando chegaram perto da casa. — Como vai o velho "Arqueiro Verde"? Ahn!... ahn... ahn — e riu às gargalhadas. — Fantasias de arqueiros verdes! Devem usar aqui bebidas muito fortes que os fazem ver coisas tão extraordinárias! Conte-me o que bebem.

Julius não respondeu, e felicitava-se de ter chegado ao vestíbulo do castelo.

Coldharbour Smith era ébrio contumaz, e muita vez a delegacia de polícia lhe havia servido de abrigo.

Ao entrar na biblioteca, o visitante vacilara, e a um aceno de Bellamy, o secretário, que desta vez não se interessava pela entrevista, retirou-se de boa vontade.

— Sente-se, Smith — disse o velho, oferecendo-lhe uma cadeira — quer tomar alguma coisa? — Notou então o estado de embriaguez em que se achava Coldharbour e continuou:

— Que é isso? Ousa apresentar-se nestas condições? Já não o avisei de que é preciso deixar de beber?

— Você vê vantagem em ser sóbrio? — perguntou o outro — não é verdade que também já se embriagou? Responda; é preciso ser conseqüente.

Abe Bellamy foi à mesa, e Smith já estendia a mão para receber o copo que continha aguardente, quando o velho arremessou-lhe o líquido à face. file recuou com um grito, levou a mão aos olhos e exclamou:

— Estou cego!

— Tome, tome isso — disse o milionário alcançando-lhe um guardanapo que havia ficado sobre a mesa.

Smith enxugou o rosto.

— Não foi boa a partida — gemeu — podia ter me feito perder a vista.

— Espero que a lição sirva de modificá-lo, bêbedo inveterado. Se não o houver conseguido ainda, usarei de meios mais enérgicos. Vamos! — A essas palavras, agarrou Smith pela gola do casaco, atirou-o ao solo e ainda o maltratou com bofetadas.

— Quem tem feito você para merecer o que lhe pago há cinco anos? Nada, miserável! Se os castigos alcançarem o que não conseguiu o dinheiro, se o fizerem abandonar esse vício abominável, hei de puni-lo sem compaixão!

Os olhos de Bellamy faiscaram e ele lutou com o ébrio para afinal jogá-lo com tal violência que a cadeira sobre que ele caiu estalou.

— Sente-se... tenho um serviço para você. Na carta que me escreveu há dias, dizia desejar ir para outro país, para a América do Sul; isso quer dizer que a polícia o procura e eu apostaria que você será capturado. O negócio que lhe vou propor há de levá-lo muito longe, e proporciona-lhe meios de passar desafogadamente o resto da vida. Entretanto, devo dizer-lhe, não é ainda certo. Quero torná-lo seguro, se você promete que não beberá mais.

— Prometo — disse Smith. O velho milionário fitou-o.

— Você bem poderá fazê-lo — disse. — É bastante feio... assemelha-se a uma serpente e é isso mesmo que eu preciso... devo querer — corrigiu. — Agora, ouça.

Dirigindo-se à entrada, fechou-a e, voltando ao hóspede, com ele palestrou durante uma hora.

 

EM PERSEGUIÇÃO

O mordomo ocupava, como seus antecessores, o chamado 'quarto do Rei" em Sanctuary Keep, o único habitado na torre. Nas antigas aberturas pequenas haviam sido feitas janelas estreitas que davam para a entrada principal do castelo.

O mordomo havia se retirado para o aposento muito antes que Mr. Smith houvesse saído; ia trabalhar.

Das duas modestas malas que trouxera para Garre Castle, uma continha roupa, a outra certos utensílios feitos à pressa foi um fabricante de instrumentos científicos; eram espigões de aço com cerca de uma jarda de comprimento; cada um deles tinha na extremidade uma larga abertura, onde havia sido adaptado um pequeno termômetro protegido por uma tampa de vidro semicircular. Ele os contemplou com certa satisfação, antes de procurar na mala um malho com cabeça revestida de borracha e uma corda enrolada em cuja ponta havia uma argola oval que ele prendeu à armação da cama, arrastando-a até junto da janela. Vestiu outra roupa e calçou uns sapatos cômodos de feltro.

Tudo era calma e silêncio; o luar prateava as águas do rio distante e banhava o parque em matizes suaves.

O mordomo apagou a luz e desceu ao vestíbulo; era o último a se recolher e Julius o encarregara de fechar as portas.

Passavam dez minutos da meia-noite e o ruído do automóvel de Smith se distanciava, tornando-se a pouco e pouco mais fraco, quando Bellamy trouxe os quatro grandes cães para o castelo.

— Savini, já se acomodou? — perguntou o velho.

— Sim, senhor — respondeu o chefe dos criados.

Os guardas vinham farejar os pés do dono e o mais selvagem dos quatro rosnava.

— Não o amedrontam estas feras? Enquanto estão em minha companhia, são menos temíveis; cuide, porém, de não sair à noite de seu quarto, quando eu já me houver retirado.

E, como que a reforçar o aviso do velho milionário, um deles levantou a cabeça e ladrou.

— Vamos, cala-te — disse Abe satisfeito com aquela demonstração. — Pode ir descansar — continuou — dirigindo-se ao servidor.

O mordomo subiu e, posto que um dos cães o seguisse de perto, não se voltou.

Ao chegar ao quarto, fechou a porta, mudou de roupa e tratou de descer pela corda que pendia da janela, depois de ter feito baixar os instrumentos; embaixo, desatou-os e iniciou um trabalho interessante.

Perto de Sanctuary Keep enterrou um dos espigões, servindo-se do malho revestido de borracha para evitar o ruído. Feito isso, continuou a andar junto do muro, para que a sombra o ocultasse. A certa distância parou e enterrou outro; o terreno estava úmido e o espigão penetrou com facilidade até desaparecer, sem que lhe ocorresse que seria difícil encontrá-lo depois; observou-lhe a direção, colocou uma pedra para marcar-lhe o lugar e seguiu. Andou em torno do castelo, continuando na mesma ocupação, e voltou ao lugar onde primeiro estivera; retirou o espigão e examinou o termômetro à luz de uma lanterna. Marcava quarenta graus, a temperatura era normal. Um por um foram todos desenterrados; havia o mesmo calor. Aquele, porém, cuja situação ele deixara marcada não o pôde achar; pesquisou cuidadosamente; seus esforços, porém, eram infrutíferos; não encontrava o ferro. Procurava ainda, quando um ruído fê-lo coser-se à parede; observou que se achava justamente sob o quarto de Bellamy, cuja voz se fez ouvir:

— Está aqui.

Por um momento o mordomo julgou que o haviam descoberto, mas, observando melhor o parque, viu alguma coisa que o fez esquecer o perigo que corria.

Alguém se movia, caminhava cautelosamente, procurando se ocultar atrás das árvores; vinha do lado do norte e ia em direção aos arbustos que cresciam num declive do terreno até o muro de leste.

Uma mulher! Imediatamente percebeu quem era e, em sobressalto, correu para ela.

Abe não se recolhera logo que deixara o mordomo; as impressões lhe haviam tirado o sono, precisava pensar.

Levando uma cadeira para junto da janela aberta, sentou-se, descansou os braços no parapeito e ficou a contemplar o parque silencioso. A luz da lua iluminava-o, permitindo-lhe observar até o portão. Nem a beleza da paisagem, nem o mistério dos acontecimentos conseguiram despertar-lhe o interesse; seu espírito estava longe, muito longe de Garre... há vinte um anos atrás, àquela hora... Era coincidência, não podia deixar de ser; devia haver no mundo milhares de Howetts e centenas de Valérias Howetts. Mas aquela vinda de Montgomery County... eram circunstâncias tão iguais que pareciam definir alguma coisa.

Se fosse ela? Os dentes se lhe mostraram num sorriso cruel. Uma bela notícia a ser transmitida à "Mulher grisalha". Aquele pensamento fazia-o reviver, rejuvenescia-o e seu coração pulsava mais fortemente.

Levantou-se e espreitou. Era uma sombra ou um reflexo de luz? Ia jurar que vira se mover alguém entre os aloendros; observou novamente; agora, estava certo, pois a sombra passara por entre os arbustos. Seria algum guarda? a resposta veio-lhe imediatamente — suas ordens haviam sido severas, eles deviam permanecer à noite no interior do castelo. Foi então que gritou e saiu para o corredor. O ruído dos passos despertou dois dos cães que correram a roçar as cabeças em seus joelhos; os outros permaneciam embaixo, no vestíbulo, e os olhos das feras brilhavam na escuridão. Cuidadosamente puxou os ferrolhos bem azeitados e abriu a porta da rua, procurando conter os animais até que estivesse absolutamente certo de que havia um estranho no parque.

Agora, vira bem.

— Vamos, toca — ordenou, e as quatro feras precipitaram-se em corrida veloz.

O intruso percebera o perigo e assim também o mordomo.

Abe viu a sombra precipitar-se e desaparecer entre as árvores que seguiam paralelamente ao muro; dois cães haviam visto a presa; um só, porém, perseguia-lhe o rasto.

Valéria Howett corria, o coração parecia estalar-lhe no peito, a respiração ofegante, era uma quase agonia... e o animal vinha mais e mais perto e atrás dele ela percebia alguém correr... Agora, chegava ao ângulo do muro e mergulhava na sombra das árvores. Conseguiria atingir a escada? Não ousava olhar para trás, e não era preciso para certificar-se de que era seguida, pois a respiração do cão ela a podia ouvir claramente! No revólver que trazia, nem pensava, posto sentisse o seu contato ao correr. O mato cada vez mais denso, e o declive, faziam que a fuga ' se tornasse, difícil. O cão corria... e ela sentia que se aproximava... Quase a tocava já, quando perdeu terreno. A percepção do perigo dava-lhe mais força, mais coragem; não fora isso e teria sucumbido à vista do seu terrível perseguidor. Ei-la chegada a uma clareira, e num esforço sobre-humano atinge o cume do outeiro. Nova e quiçá mais terrível vista a esperava — ao clarão da lua, imóvel, a face branca, lívido a contemplá-la, estava o "Arqueiro Verde"! E ela viu levantar-se o arco que brilhava ao luar e, ouvindo o som do desferir da flecha, caiu. Alguma coisa lhe havia tocado o ombro. De um relance vira a grande fera negra com manchas amarelas cair ferida de morte. Desmaiou.

 

A ABOTOADURA

— Mr. Howett deseja saber se a menina vai almoçar.

Valéria sentou-se na cama, e passou a mão sobre os olhos. A cabeça pesava-lhe.

— Almoçar? — disse como se não compreendesse a pergunta. — Sim, sim. Diga-lhe que já vou.

Seria sonho? Tremia à recordação daquela noite. Não, não estivera a sonhar. A saia de seda manchada de terra, atirada atrás de uma cadeira... ela bem se lembrava de ter subido para deitar-se. Onde havia estado? Ao recobrar os sentidos, achava-se em seu gabinete em Lady's Manor; como teria chegado até lá? O "Arqueiro Verde"! Estremeceu. Seria ele que a levara? As escadas a haviam traído, pensava, ainda com terror.

— Não devias ter descido, querida — disse Mr. Howett ao beijá-la e, colocando os óculos, observou-a. — Não me pareces bem. Que tens? Não dormistes, Vai?

— Sim, perfeitamente.

— Deves ter te deitado, então, muito tarde.

A refeição se fez quase em silêncio; ela apenas tocou nos alimentos e procurou logo uma escusa que lhe permitisse ir ter com as criadas.

— A porta do jardim, Miss? Estava fechada por dentro.

— Fechada? Pensei que a houvessem esquecido aberta.

De uma coisa ela estava certa — não havia chegado ao gabinete sem auxílio, alguém a havia levado; como, então, podia estar fechada a porta do jardim?

Valéria saiu e foi até o muro; a primeira coisa que se lhe deparou foram as duas escadas ainda no mesmo lugar; deviam ter servido a quem a havia conduzido à casa. De volta, entrou no gabinete'; esperava encontrar algum vestígio que a fizesse conhecer o seu salvador. As criadas já haviam posto em ordem a sala e sobre uma mesa colocaram os objetos encontrados no chão; viu o lenço, não se lembrava de tê-lo usado, entretanto, estava manchado como se alguém se tivesse servido dele; mais além, havia um pedaço de abotoadura — era de ouro e tinha um monograma. Tocou a campainha, a criada veio.

— Onde encontrou estes objetos?

— No soalho, perto do sofá; pensei que a abotoadura pertencesse a Mr. Howett; levei-lha, mas ele não a reconheceu.

— Mas, aqui há apenas uma parte, não encontrou a outra?

A corrente fora partida, havendo apenas três dos seus pequeninos anéis.

— Não senhora.

— Quer-me prestar um serviço, ajudando-me a procurar o que falta? Interessa-me encontrar, pois pertence a um amigo meu.

Depois de uma busca cuidadosa, a criada disse:

— Aqui está, Miss; achei-a escondida sob uma ponta do tapete e é exatamente igual à outra. Havia muitos fósforos no chão, quando vim varrer esta manhã e um deles queimou o tapete, veja...

— Sim, fui eu mesma; não pude encontrar a lâmpada. Agradeço-lhe os serviços, pode se retirar.

A jovem levou a abotoadura à janela e examinou o monograma. ,

— J. L. F.: James Lamotte Featherstone. Não pode ser, é impossível — disse ela consigo, colocando o objeto no bolso, quando a criada voltava a anunciar-lhe a visita de Spike Holland, que trazia muitas notícias.

— Não ouviu dizer que o "Arqueiro Verde" andou em Garre na noite passada? Parece que ele queria alvejar o velho Bellamy, pois matou um de seus cães. O milionário deve estar furioso. Dizem que o arqueiro foi visto no jardim do castelo — é a primeira vez que o vêem fora da casa — e que Abe atiçou-lhe os cães. Felizmente, o animal morto era o mais temido por Julius. Agora, Miss Howett, ouça o que é mais importante

— sou o portador de um convite de Abe Bellamy, Senhor do

Castelo de Garre e Alto Personagem de Berkshire.

— Um convite para mim? — perguntou ela cheia de surpresa.

O repórter acenou afirmativamente.

— E não é extensivo a seu pai, nem a mim, posto eu não creia que ele ponha objeções à nossa entrada. Avise-me do dia em que vai e procurarei me desculpar, mostrando o desejo que tenho de ver o castelo; não me fará voltar, vendo que a acompanho.

Ela meditava.

— Sim, irei... ainda hoje, depois do almoço. Agradará a Mr. Bellamy?

— Telefonar-lhe-ei para resolver, mas penso que em qualquer ocasião lhe convirá.

— Mr. Holland, poderá me dizer onde está agora o Capitão Featherstone?

— Ontem, estava em Londres; Julius o viu lá.

— Não está então na vila?

— Queria falar-lhe?

— Não, não. Era apenas para satisfazer uma curiosidade. — Só, na sala, a jovem entregou-se a seus pensamentos. Não havia dúvida — Jim Featherstone a havia levado para Lady's Manor, disso estava certa, e, quanto à porta do jardim, não havia mistério; ele devia ter saído pela entrada principal. Lembrava-se perfeitamente de ter ouvido o ruído da porta que se abria, passos no corredor, os pratos quebrados e... a flecha verde...

— Não é verdade — disse em voz alta — não pode ser verdade — e se esforçava por convencer-se de que Jim Featherstone, o inspetor de polícia, não era o "Arqueiro Verde".

 

VALÉRIA EM GARRE

A presença de Miss Howett na cozinha de Lady's Manor era explicada pelas criados como um novo capricho.

— É a terceira vez que a menina pergunta por que a porta da adega estava fechada ontem à noite, dizia o cozinheiro... entretanto, não o estava.

— É que ela encontrou internamente um ferrolho que eu antes nunca vira — adiantou a criada.

— Não admira, pois estás aqui há pouco tempo; quanto a mim, vi-o sempre lá.

Valéria entrou; trazia uma lanterna elétrica.

— Preciso ver o depósito de carvão.

— A menina vai sujar a roupa — avisou a criada; a jovem, porém, não se deteria à possibilidade de manchar um vestido.

Desceu alguns degraus e achou-se na adega; o carvão estava amontoado a um canto e tinham-no atirado por uma abertura que dava para fora. Havia três portas que se comunicavam com compartimentos pequenos a modo de celas; um tinha sido utilizado pelos inquilinos que a precederam, como depósito de vinho, no segundo havia garrafas vazias e fardos, o último estava fechado, e ela notou que a fechadura era nova; uma grade pequena, permitia-lhe ver o interior que, iluminando à luz da lanterna elétrica, deixava-lhe perceber apenas um baú grande e negro. Voltando, tomou todas as chaves que conseguira reunir e experimentou-as sem resultado; não lhe pareceu que merecesse o esforço de arrombar a porta somente para ver aquele velho baú evidentemente esquecido pelos primitivos habitantes da casa senhorial.

De volta à cozinha, ouviu o som de risos que a sua súbita aparição fez calar.

— Eu contava a Hate — explicou o cozinheiro — que na vizinhança dão à nossa adega um nome interessante... O povo que habita este lugar é simples e conserva os hábitos antigos, assim ao castelo chamam "Curcy", em atenção aos proprietários que o habitaram há séculos.

— E que nome dão a nossa adega? — interrogou a jovem sorrindo.

— Chama-na "Loveway": "O caminho do amor".

— E que os levaria a dar-lhe título tão curioso?

Os conhecimentos do criado não iam tão longe que lhe permitissem explicá-lo. Valéria via se aproximar a hora de sua visita ao castelo com um sentimento íntimo de receio. Nunca falara a Abe Bellamy, posto o houvesse visto muitas vezes e preocupava-a pensar se teria domínio sobre si mesma para ocultar-lhe a repulsa que ele lhe causava. Fora sempre o medo de se trair, que a impedira de travar relações com o velho milionário. A confusão que lançara em seu espírito o que descobrira em relação a Jim Featherstone fazia que fosse ainda mais intensa aquela impressão, e toda a vez que voltava a pensar nos acontecimentos da noite, sentia-se mais desorientada. Em vão procurava o motivo dos atos do investigador... Se a polícia suspeitasse de. Bellamy, havia muitos meios para observá-lo e ela bem conhecia suas maneiras de agir, para saber que nem mesmo hesitariam em dar uma busca no castelo de Garre, se houvesse causa para tanto. Que moveria então Jim a se mascarar de "Ar-queiro Verde"? Suas cogitações eram sem resultado, e foi com satisfação que viu chegar Spike Holland para acompanhá-la aos domínios do milionário. À entrada do portão, encontraram Julius Savini.

— Mr. Bellamy não me disse que o esperava, Mr. Holland. — Convém que o avise pelo telefone.

— Não consentirei que Miss Howett vá sozinha ao castelo; sou responsável por ela e não delegarei poderes para cuidá-la a quem quer que seja, Savini.

Sem consultar Abe, o secretário mandou o repórter entrar, e o velho não manifestou surpresa ao vê-lo no vestíbulo quando foi ao encontro da jovem para saudá-la.

Valéria sentia-se atemorizada pela fealdade do velho; aquela enorme face vermelha, a sua altura e tamanho das espáduas que faziam supô-lo dotado de grande força, porém, faziam-na olhá-lo com certo interesse. Havia qualquer coisa fora de comum naquele homem, algo que explicava seu imenso ódio, sua grande perversidade. Tais eram as impressões de Valéria Howett, ao falar pela primeira vez com o proprietário de Garre Castle.

 

OS CÁRCERES

— Estou encantado de vê-la em minha casa, Miss Howett. Os dedos finos de Valéria como que se perdiam naquela mão enorme que os retinha, e o olhar duro de Bellamy não se desviava de seu rosto delicado.

— Quero mostrar que aprecio meus vizinhos — continuou ele — se soubesse que estava tão perto, certamente a haveria procurado antes.

Na ala leste do castelo, onde estava a sala de jantar que não era usada, havia uma galeria de quadros antigos.

— Não sabia que era colecionador — Mr. Bellamy — disse o repórter, que de fato não suspeitava que ele se interessasse por coisas de arte.

O olhar frio do velho descansou sobre Spike.

— Até hoje só me tenho dedicado a colecionar dinheiro, nada mais. O que aqui vê, comprei com o castelo, custou-me meio milhão de dólares e, ao que dizem, vale o dobro dessa quantia. Quero que veja este quadro, Miss Howett, denominam-no A Dama da Cicatriz.

Era um exemplar da escola flamenga e representava uma bela figura de mulher, de braços nus, num dos quais se notava, levemente delineada, uma cicatriz.

— As senhoras não gostam que esses pormenores apareçam em seus retratos — continuou ele — mas o artista holandês que, ao que tenho ouvido, é o autor desta obra, costumava fazer exatamente o que via. Creio que uma jovem de nossos dias não se sujeitaria a ser tão fielmente retratada.

Foi um desafio que ela aceitou imediatamente.

— Não me parece que tenha razão, senhor — disse ela. — Tenho uma cicatriz no cotovelo esquerdo e não costumo escondê-la com tanto cuidado; caí, em pequenina, e feri-me.

Mal terminara aquelas palavras, e o arrependimento lhe veio; foi, porém passageiro o sentimento.

— Então a menina tem no braço o sinal do ferimento sofrido em criança? — repetiu Abe pausadamente, e ela percebeu a razão por que ele a convidara a visitá-lo; era sua intenção identificá-la, e ela bem podia tê-lo conservado na dúvida, se melhor se dominasse.

O proprietário conduziu os visitantes à biblioteca; parecia que todo o interesse de lhes mostrar o castelo tinha desaparecido, e deu a entender que pouco mais havia que merecesse atenção.

— Não nos mostrou os cárceres — disse Holland.

— Julguei que a esta jovem não agradassem lugares tão tristes, quer vê-los, Miss Howett?

— Sim — e sua voz era trêmula apesar do esforço que fazia para ocultar a comoção.

— Bem, vou mostrar-lhos... são agora menos lúgubres que em outros tempos.

Voltaram ao vestíbulo e ele os fez esperar, enquanto ia, em busca das chaves, ao quarto de Savini, que intencionalmente se lhes reuniu, esperando que o velho o despedisse a cada momento; entretanto sua presença nem parecia ser notada.

Passaram novamente pela galeria e entraram num quarto de pedra, que o velho explicou ter sido o corpo da guarda do edifício; naqueles tempos havia ali uma saída para o parque que agora já não existia; uma escada circular de pedra levou-os ao outro compartimento.

— Vou acender as luzes — disse Bellamy — e eles viram um grande quarto, cujo teto era suportado por três grossos pilares... — Esta é a prisão principal que guardou muitas criaturas. Àquelas grades, Miss Howett, prendiam-se as cadeias.

— É horrível — exclamou a menina.

— Isto é um paraíso, se compararmos aos cárceres pequenos, disse ele, rindo do susto que lhe causava aquela vista. Andaram até o extremo; ele parou, para abrir um alçapão e continuou. — Se quiserem descer, verão aposentos menos confortáveis, mas quero avisá-los de que as escadas são um tanto longas e é preciso levarmos luz.

— Gostaria de conhecê-los — disse a jovem, e Abe mandou Savini em busca de uma.lanterna.

Havia quatro masmorras naquele nível — duas muito grandes e outras duas extraordinariamente pequenas, cujo tamanho em pouco excederia às casas de cães, e cuja altura não era suficiente para um homem se ter de pé.

— Nestes túmulos, homens e mulheres viveram anos — explicava ele mostrando as inscrições gravadas nos muros. — Este lugar é chamado o "pequeno repouso"; aquela pedra era o leito dos prisioneiros e, se observarem, verão como está polida e gasta pelos que, ano após ano, nela descansaram.

Valéria olhava com terror.

— E quem eram essas criaturas que mais tinham de feras que de homens, que assim torturavam seus semelhantes?

— Não sei, mas algum motivo deviam ter para proceder assim.

— Mas por que então não lhes davam logo a morte?

— Isto seria perdê-los — respondeu ele admirado — não seria vingança. Suponhamos que a senhora odeie um homem; se lhe tira a vida, ele lhe foge, se, porém, o encerra numa prisão, tem-no sempre à vista, sabe que ele está lá.

A menina não respondeu.

— E é quanto lhes posso mostrar do castelo, a menos que se interessem pelas instalações de gás, torres ou quartos de pedra vazios.

— Que é aquilo? — inquiriu a jovem, mostrando no solo um buraco cujos bordos recortados deixavam ver o rochedo bruto, onde havia sido cavado. Ele levantou os olhos e fixou-os ao alto; ela seguiu aquele olhar que lhe mostrava um galho de carvalho semelhante ao de Sanctuary Keep e estremeceu.

— Ê que poucas pessoas eram enforcadas lá, muitas aqui, — explicou Abe com satisfação.

Valéria estava ansiosa por rever a luz do dia.

— Bem, creio que nada mais há digno de ser visto — disse o velho, quando chegaram ao vestíbulo.

— Mr. Bellamy, eu desejava muito falar-lhe a sós.

Era irrefletido o seu ato. Momentos antes, ardia em desejos de deixar aquele lugar de tristezas e voar ao sol, respirar o ar fresco, não impregnado do sofrimento e do martírio, agora... que fazia?

Ele a contemplou com certa suspeita.

— Estou às suas ordens, Miss Howett. Mandei que nos servissem o chá na biblioteca; poderá ser depois, minha menina?

Ela aceitou; sentia-se quase voltada contra si mesma — sempre a agir irrefletidamente, sempre a se arrepender de suas loucuras... e procurava um meio, uma escusa para fugir àquela ocasião que ela mesma procurara. Uma criada os esperava.

— Onde está Philip? — indagou o velho.

— É sua tarde de folga — respondeu Julius.

— E quantas tardes de descanso tem ele na semana? — Bellamy começava a encolerizar-se, esquecendo as maneiras que lhe convinham diante dos hóspedes.

Valéria foi até a janela e ficou a contemplar aquela paisagem tranqüila — a relva verde, as árvores bem ordenadas e os passeios calçados de pedras cinzentas; vendo-a assim imersa em seus pensamentos, o proprietário de Garre Castle esboçou um riso sarcástico que o repórter percebeu.

Que pensamento secreto o fazia assim sorrir? O espírito ativo de Spike se distraía em examinar os pormenores do compartimento — era uma biblioteca em que havia poucos livros; apenas uma estante estava colocada junto da porta no extremo da sala que conservava, aliados à nobreza da ornamentação, os característicos da época. O soalho polido era guarnecido apenas por alguns tapetes de lã, cujas cores acordavam com a pintura das paredes.

Bellamy, observando-lhe o olhar, disse:

— É de pedra o piso deste compartimento, talvez não o houvesse imaginado, senhor, fi-lo cobrir de tábuas, porque a pedra é demasiado fria para um homem da minha idade.

Foi o único comentário sobre a biblioteca, e Holland e Julius, que reconheciam como desusada a honra daquele convite, levantaram-se.

— Savini o entreterá, senhor, enquanto atendo Miss Howett. Creio que não conversaremos por muito tempo.

— Assim o espero — respondeu a jovem.

A coragem a abandonava; que daria para se retirar com o jornalista? A lembrança de ficar a sós com aquele homem, fazia-lhe gelar o sangue. Covarde! Covarde! — dizia de si para si e se revoltava contra a sua fraqueza.

A porta fechou-se à saída dos dois homens e Bellamy voltou com as mãos nos bolsos, dando as costas ao fogão; fitava nela um olhar frio e aterrador.

— Agora, Miss Howett — disse asperamente, como a esconder uma ameaça — que quer de mim?

Aquela voz dura, aquele tom agressivo davam-lhe novas forças.

— Mr. Bellamy — falou ela calmamente — quero fazer-lhe uma pergunta.

— E eu lhe direi alguma coisa que convém que saiba — respondeu o velho, manifestando toda a sua selvageria.

— Diga-me — onde está minha mãe?

Nada atestou que ele houvesse sentido qualquer perturbação de ânimo; permanecia imóvel.

— Onde está sua mãe? — e, ao repetir, ia perdendo a calma, o corpo lhe tremia, a face tornava-se mais vermelha. Vagarosamente, como se se movesse contra a vontade, levantou a mão e ela recuou, fugindo-lhe à cólera.

— Quer que traga mais lenha para o fogão, senhor?

O olhar de Abe queria fulminar o intruso — era o novo mordomo, delicado, serviçal, notavelmente tranqüilo.

Era sobre-humano o esforço do milionário para se dominar; as veias da fronte estavam intumescidas.

— Quando for necessário, tocarei a campainha, Philip. Pensei que estivesse aproveitando a tarde.

— Saí, mas voltei cedo.

— Pode ir.

O criado curvou-se e saiu, fechando a porta. Abe Bellamy voltou-se para a menina.

— Sua mãe... quis, sem dúvida, assustar-me. Nunca encontrei essa senhora, Miss Howett. Não, nunca a vi. Sei que a menina morava no hotel em que eu tinha um quarto alugado, em Londres e creio que a mesma coincidência se deu em Nova Iorque mais ou menos em julho de 1914. Minha correspondência, que era grande, costumava ser enviada para lá, posto eu me achasse na Inglaterra; pois bem, a 14 daquele mês, foi-me roubado um maço de cartas. É bem possível que o autor ou autora desse furto houvesse encontrado algum papel que fizesse suspeitar que eu conhecia o paradeiro dessa mulher. Não sei, porém, onde ela se acha — e continuava, procurando dar cada vez mais força às palavras. — Não sei se ainda vive... é bem possível que esteja descansando no sono final. Se alguma coisa soubesse, nada me impediria de lhe contar. Creio que deve ter morrido. A morte, a mais das vezes, não deixa vestígios, e não há melhor esconderijo que a sepultura.

— Onde está minha mãe? — e a voz lhe saía fraca, quase imperceptível.

— Não lhe posso responder. Essa loucura, Valéria Howett, é o fruto da leitura da correspondência que me foi roubada. Se leu alguma das cartas que ela me escreveu, terá facilidade em encontrá-la.

Com um movimento de cabeça, ele a despediu como faria a uma criada; ela se dirigiu para a porta, com passos mal seguros; voltou-se ainda e notou o olhar de terrível malícia com que ele a fitava.

— Que houve? Que aconteceu?

Spike vinha ao encontro da menina, a oferecer-lhe o braço.

— Nada; senti-me mal. Preciso sair e desejo que me acompanhe, Mr. Holland — disse, olhando em torno à procura do mordomo que se achava perto.

— Que lhe fez o velho? — inquiriu o repórter com indignação. Vou procurá-lo e...

— Não, não — e ela o fez parar — leve-me à minha casa, por favor; caminhemos vagarosamente e, se eu desmaiar, esforçar-se-á para me fazer voltar os sentidos?

Andavam ao longo do passeio, quando viram Savini que, apressadamente, procurava o chefe dos criados.

— O velho o chama, disse em voz baixa... e está encolerizado.

— Também eu estou enraivecido — e foi atender Bellamy.

— Como se chama? — perguntou Abe, asperamente.

— Philip, senhor — Philip Jones.

— Quantas vezes já o avisei de que não deve entrar nesta sala sem ser chamado?

— Julguei que estivessem todos aqui.

— Julgou isso? E ouviu o que dizia a menina?

— Ela não falava, quando entrei; pensei que Mr. Bellamy a divertia com alguma habilidade de salão — disse o mordomo, desembaraçadamente.

— Que foi que pensou? — gritou o velho.

— Pela posição de suas mãos, imaginei que lhe mostrava sua destreza em alguma mágica; tenho visto muitas pessoas divertirem assim suas visitas — explicou o mordomo. — Sinto muito que tenha sido de trop.

— Não o compreendo, explique-se.

— É uma expressão francesa.

— Proíbo-o de usar expressões francesas em minha presença — rugiu Abe — e, se voltar aqui sem ser chamado, será despedido, entendeu?

— Perfeitamente, senhor. Que deseja para o jantar? E o velho, como única resposta, mostrou-lhe a porta.

 

UMA HISTÓRIA

Era tarde. O sol lançava seus últimos raios sobre o jardim, e Valéria, entregue às suas cogitações, recordava os acontecimentos da véspera, caminhando sob as árvores, quando a atenção lhe foi despertada por alguma coisa, muito branca, que se movia sobre o muro; apressou-se a tomá-la — era um papel. Abriu-o, leu-o o guardou na bolsa. Às dez horas chegava uma visita esperada pela jovem — James Featherstone.

— Estava ansiosa para que viesse — disse ela. — Quero lhe contar a história de Mrs. Held. Antes, porém, hei de lhe devolver alguma coisa que lhe pertence. Aqui está; a criada encontrou-a hoje, pela manhã... e tomou um pequeno embrulho da gaveta da mesa.

Estavam sós na sala de visitas.

— Minha abotoadura! Procurei-a, mas não me podia demorar; era preciso que me retirasse, antes que lhe voltassem os sentidos.

— Foi, então, Jim que me trouxe aqui? Não, não me diga mais nada... e ela erguia as mãos... nada mais quero saber. Como tem sido bondoso comigo, Capitão Featherstone! e sem dúvida eu teria evitado muitos males, muitas loucuras, se tivesse sido franca como serei agora. É bem possível que sua inteligência clara, seu espírito lúcido já o houvessem prevenido — o muito querido Mr. Howett não é meu pai.

Era novo para ele, ela bem o notou na expressão de sua fisionomia.

— Mr. Howett há vinte e três anos era um homem pobre. Vivia numa antiga e modesta fazenda em Montgomery, no lugar chamado Trainor, e sua existência tornou-se ainda mais difícil, quando teve de vender aquela propriedade. Sobreveio-lhe naquela ocasião terrível moléstia de olhos, que o fez quase cego. Minha boa mãe adotiva vivia muito só; não tinham filhos, posto estivessem casados havia muitos anos e, embora lhes fosse difícil a manutenção de alguém em sua companhia, pois eram-lhes escassos os meios de subsistência, pensaram em adotar uma criança, mas dos pedidos que fizeram para diversos lugares, nenhum teve resposta satisfatória. Nada lhe direi da alteração da vida de Mr. Howett e da sorte que teve em adquirir uma fazenda em outro lugar do Estado, onde depois descobriram óleo.

Um dia, Mrs. Howett, que se encarregava da correspondência, recebeu uma carta, ei-la — e tirou de uma gaveta da mesa um papel que entregou ao investigador; era datada de um hotel da Seventh Avenue.

 

"Amigo.

Em resposta a seu anúncio, digo-lhe com satisfação que há aqui uma menina de doze meses, cujos pais morreram recentemente e a quem você faria grande bem, se lhe dispensasse os cuidados de que necessita. Ofereço-lhe em recompensa desse serviço, mil dólares."

 

— Nessa ocasião — continuou Valéria — Mr. Howett sofria forte opressão de um homem a quem fora hipotecada a fazenda e eu creio que, desejoso como estava de ter uma criança em casa, a oferta que se lhe fazia era conveniente; decidiu-se pois a meu favor — era eu a menina; escreveu aceitando, e, dias depois, um homem chegava à fazenda num tílburi e colocava nos braços de Mrs. Howett uma pequenina envolta em mantilhas. Em casa havia, naquele tempo, um rapaz empregado, que tinha grande gosto por fotografias e a quem haviam presenteado com uma máquina fotográfica. O primeiro quadro que se lhe deparou foi o homem ao descer do carro; retratou-o. Toda a pista para a pesquisa de meus verdadeiros pais teria desaparecido, se os fabricantes da máquina não houvessem oferecido prêmios mensais às melhores provas; a fotografia foi premiada e reproduzida em uma revista. Assim, cheguei a vê-la e tenho até uma ampliação. Veja — disse, tirando um rolo de papel da mesa de trabalho — veja, aqui tenho todos os meus dados, para usar a maneira de falar de meu pai.

Desenrolou a prova e colocou-a sob a lâmpada, na mesa; Featherstone se aproximou.

— Não há dúvida — disse ele depois de observá-la — este homem é Abe Bellamy. Não pode haver engano.

— E curioso — continuou a jovem — que Mrs. Howett não tenha notado nele nada que a fizesse suspeitar, mas creio que ela tinha, como meu pai, pouca vista. Fui, desde então, considerada por todos filha dos Howetts e perante a lei assim reconhecida, pelos documentos de adoção encaminhados por um procurador; legalmente não tenho outros pais. Foi depois da morte de minha mãe adotiva, que vim a saber da verdade. Não me interessei imediatamente por descobrir meus pais verdadeiros, pois, ainda criança, os estudos me absorviam inteiramente, e só mais tarde, quando comecei a pensar por mim mesma, ocorreu-me a idéia de procurá-los; eu era rica e única herdeira dos bens de Mr. Howett, e já havia recebido grande soma por morte de sua esposa. A fotografia do homem ao descer do tílburi tornou-se então de valor incalculável. Obtive também um negativo, mandei fazer uma ampliação e imediatamente Abe Bellamy era reconhecido. A ninguém revelei minhas resoluções. Já ouvira falar dele e diziam-me que era um homem cuja má reputação todos conheciam, e cada vez mais adquiria a certeza de que não havia sido o desejo de me socorrer que o havia feito me levar aos Howetts. Procurei investigadores — parecia impossível que alguém aceitasse comissão de uma menina de dezessete anos — fí-los trabalhar e puderam concluir que ele tivera um único parente, um irmão que já falecera e que se havia casado, tendo desse matrimônio dois filhos que haviam também morrido. Averiguaram ainda que Abe se desgostara por ter de auxiliar o irmão com quem não vivia em boa amizade. Toda a minha atenção, concentrei-a no proprietário de Garre Castle, embora nada houvesse dito a Mr. Howett. Estava decidida a desvendar o mistério e determinei que meus agentes examinassem a correspondência de Bellamy, que passava a maior parte do tempo na Europa, estando em Nova Iorque apenas três meses durante o ano; a Chicago, nunca ia. Conseguiram apreender uma carta do milionário e aqui tem o original — colocou à luz um papel — a tinta era fraca, a letra irregular:

 

"Little Bethel Street"

Londres, N. W.

"Sua maldade feriu-me o coração. Devolva-me a filha que me arrebatou, devolva-ma e satisfarei suas exigências. Sinto-me abatida no corpo e no espírito por sua interminável perseguição. Você é um demônio cujos atos vão além da compreensão humana: tirou-me tudo, levou o que me era mais caro e a vida é hoje para mim horrível; não quero mais viver.

Elaine Held."

 

Logo abaixo, havia algumas palavras que, mesmo à perícia de Featherstone, quase escaparam; era difícil decifrá-las:

 

"Use de generosidade, diga-me... a pequena Valéria... Há justamente dezessete anos... em abril..."

 

— Foi em abril, há vinte e quatro anos, que me levaram a Mrs. Howett — disse a menina. — Bellamy, num momento de irreflexão chamou-me Valéria, ao me entregar à minha mãe adotiva; apenas percebeu o erro em que caíra, disse que se havia enganado e pediu-lhe que me desse o nome de Jane. A Mrs. Howett, entretanto, agradou-lhe mais o primeiro e assim me chamou sempre.

Featherstone caminhava vagarosamente ao longo da sala, as mãos às costas, a cabeça baixa.

— Pensa que sua mãe vive ainda? — perguntou afinal.

— Estou certa — disse ela, e os lábios tremiam-lhe.

— E julga que Abe conhece o seu paradeiro?

— Sim, creio que ela está no castelo e sonho encontrá-la.

Depois de um curto silêncio, ele disse:

— Sei que teve uma entrevista com o velho, conte-me o que se passou. — E, depois de lhe ter ouvido a fiel narração da palestra, continuou: — Não convém que eu lhe aumente as esperanças, Miss Howett...

— Há poucos dias, chamou-me Valéria, seria por engano? Continue a tratar-me assim. É bem possível que, quando eu o conhecer melhor, também o chame... William, não é?

— Jim, corrigiu ele, e à menina, apesar da aflição em que estava, não lhe passou despercebida a cor que coloriu a face do investigador — e a senhora sabia que era Jim. Bem, Valéria, não torne ao castelo, nem cometa outras imprudências.

— Não era conveniente, disse-o há pouco, aumentar-me as esperanças... por que não terminou a frase?

— Ia dizer que não partilho de toda a sua confiança; tenho uma parte pequena, muito pequena... repito exatamente o ato que lhe recriminei — construo o edifício de minhas esperanças sobre a areia movediça... mas, daqui a um dia ou dois, poderei lhe dizer quão sólidos se tornaram os alicerces. A propósito, está ainda em seu poder a planta do castelo? Quer dar-ma? Penso que poderei usá-la com vantagem.

Andaram par a par até o portão da entrada.

— É preciso que me ouça os avisos... porte-se bem.

Ela fez um sinal afirmativo; estava escuro e a luz apenas permitiu a Featherstone ver a jovem.

— Boa noite — disse, tomando-lhe a mão e retendo-a por algum tempo.

— Boa noite, Jim.

James Lamotte Featherstone caminhava através da vila, seus passos eram ligeiros e uma satisfação íntima lhe inundava o coração.

 

O NOVO MORDOMO

Julius estava preocupado, pois sua fonte de renda que tanto bem-estar lhe proporcionava havia se extinguido inesperadamente. Agradava-lhe a mulher que desposara e não convinha que se revoltasse contra ela, posto reconhecesse que ela havia contribuído para a dificuldade da situação; inteligente e ativo, começou a procurar alguém que lhe oferecesse meios de adquirir dinheiro e vacilava entre Valéria Howett e Bellamy.

Há mais de um ano estava ao serviço do proprietário de Garre, sem ter podido descobrir nada que merecesse qualquer recompensa, e a dificuldade de investigar aumentava constantemente. Com aquele esforço continuado, não chegaria a surpreender algum segredo que lhe trouxesse uma renda igual a que recebia regularmente Coldharbour Smith? A aparição do "Arqueiro Verde" e a vinda dos cães policiais criaram novos embaraços, impedindo-o de examinar os cofres à noite, pois durante o dia era difícil encontrar ocasião propícia. Não desanimaria, porém; cedo ou tarde poderia fugir, procurar ocupação em outras terras, pois ainda que Abe guardasse seus haveres com portas de aço, descobriria meios de arrebatá-los. Astuto e previdente, Savini havia diminuído a pensão dada a Fay, explicando a razão de seu ato, e como resposta ela lhe pedira que voltasse imediatamente para a cidade.

Jerry tinha se reunido ao bando que operava no Atlântico; a ocasião era azada para um homem da capacidade e engenho de Julius, que por um momento foi tentado. O risco era pequeno, pensava, mas pequenas eram também as recompensas, e ele não costumava trabalhar senão a grandes preços. Aqui o perigo era maior, mas a soma a adquirir também mais conveniente. Há tempos, dissera que não hesitaria em sacrificar a vida de Abe Bellamy, se tanto fosse necessário, e era verdade, pois, tivesse ele certeza de fuga e o mataria com tanto pesar como se o fizesse a um rato. Só uma coisa o fazia recuar — era o receio de seu próprio futuro.

Rejeitou, pois, a proposta da esposa, pedindo-lhe que não mais lhe falasse do plano, e receoso de que ela insistisse em levá-lo a trabalhar com o irmão, expulsou-o de casa.

— Fay, você é uma boa esposa — disse com voz suave — há dias, censurou-me asperamente e eu consenti que me ofendesse, mas não o esqueci.

— Poltrão.

— Talvez seja, receio muita coisa neste mundo, mas você e seus aliados não me intimidam. Vivo com uma criatura quase selvagem a quem não duvidarei esmagar a meus pés, não temo, pois, coelhos. Ordeno-lhe que permaneça aqui, porque assim o quero e tenho o direito de exigir. Se você acompanhar Jerry e seus companheiros, persegui-la-ei sem descanso até matá-la. Dei-lhe um nome que, apesar de não ser muito digno, é meu.

Quando Julius saiu, estava certo de que a esposa não ousaria tomar nova resolução. Fay, que a princípio se sentira abatida, reanimou-se, pensando que Savini era eurasiano e como tal desprezível aos olhos de todos. Tudo se passara poucos dias depois da reunião que tivera lugar no castelo e os acontecimentos seguiam seu curso normal; apenas em Abe notava-se alguma modificação — era agora mais silencioso e menos comunicativo.

Certa noite, Coldharbour Smith apareceu inesperadamente e conferenciou em segredo com o milionário durante muitas horas. Mr. Smith não estava embriagado e tinha então aparência ainda mais desagradável. Era homem de mau aspeto: calvo, a face branca empalidecida, o maxilar inferior proeminente, os olhos pequenos e fundos, a barba escassa. O novo mordomo, sabendo que ele havia chegado, pediu a Savini que o introduzisse.

— E não poderia você fazê-lo?

— Não me agrada aquela figura, que me faz ter maus sonhos... foi a resposta do chefe dos criados.

Veio um dia de acontecimentos extraordinários que tiveram início cedo, logo após o almoço.

Abe foi à casa dos cães para por em liberdade os três que ainda restavam e passava justamente na entrada do vestíbulo, quando o criado-mor instruía uma das serviçais em certo trabalho; repentinamente uma das feras, deixando Bellamy, avançou para a rapariga que, assustada, caiu; o animal, sem perda de tempo, atirou-se contra ela para despedaçá-la. O mordomo inclinou-se, levantou o cão e arremessou-o a umas doze jardas no declive gramado; o animal enfurecido voltou direto ao homem que, com um golpe na mandíbula o fez fechar a boca, jogando-o novamente a distância, onde caiu extenuado. Bellamy não tentara evitar a agressão.

— Que fez ao meu policial? — perguntou irado — matou-o...

— Não está morto, apenas cansado. Fácil me teria sido tirar-lhe a vida.

Abe olhou o criado-mor de alto a baixo.

— Que demônio lhe teria dado força para vencer o animal?

— Senhor, pergunto-lhe eu, que demônio lhe teria dado pesar para a ver a fera abatida e calma para presenciar o ataque que sofreu a pobre menina? Se tivesse chamado o cão, impediria o acidente.

Abe o ouvia agastado.

— Sabe a quem está falando?

— A Mr. Bellamy que me aceitou aqui para que cuidasse de seus serviçais e não para tratar de cães; — e, dando-lhe as costas, atravessou o vestíbulo para ir confortar a rapariga que chorava ainda, sob a impressão do susto.

O proprietário fez menção de segui-lo, mas, pensando melhor, continuou o seu caminho; pouco depois, dava ordem a Savini para que mandasse vir o chefe dos criados.

— Onde está Philip?

— Junto à menina que se acha extremamente nervosa.

— Mande-a embora, — rugiu o velho —... e ao mordomo, diga-lhe que não o pago para que ande a distrair as criadas.

Philip veio atendê-lo.

— Veja... seja qual for o seu nome, pode preparar a mala e retirar-se, levando a sua menina.

— Minha menina? Por quê? Não me interesso particularmente por nenhuma — respondeu o criado-mor — afirmo-lhe que há uma jovem por quem sou responsável, mas não está aqui neste momento. Espere, senhor — disse, enquanto o outro estava quase a explodir em cólera — não está tratando com Valéria Howett ou com alguém que o tema.

Abe empalideceu; não era o medo, mas uma raiva incontida que o dominava ao ouvir o homem continuar:

— Não me amedrontará como a elas, pode estar certo.

— Você... você...

— Guarde distância. Estou diante de um velho a quem não quero ferir, pois não é esse o fim para que estou aqui.

— Seu... fim? — perguntou Abe Bellamy quase num sussurro.

— Sou o capitão James Featherstone, Chefe da Segurança da Scotland Yard; tenho em meu poder uma autorização para dar busca ao castelo de Garre e o que é mais, se for necessário, prendê-lo como acusado de ilegalmente deter aqui uma mulher — Elaine Held.

 

A BUSCA

Abe Bellamy parecia não compreender, e Featherstone repetiu as palavras.

— Você é da polícia? Você? — disse o velho por fim; já estava perfeitamente calmo; era admirável o domínio que tinha sobre si mesmo... — Creio que tenha autorização de seus superiores, entretanto não fui cientificado e aviso-o de que o farei sofrer por isso. Sou cidadão americano...

— A mulher que procuro é também americana — respondeu Jim e abriu a porta; com grande surpresa e indignação, Abe viu alguns homens parados no vestíbulo.

— Invadem minha propriedade, hein? — inquiriu furioso — Bem, vá à frente, vá, e procure o que quiser.

— As chaves — pediu o investigador.

— Eu o verei...

— Quero as chaves! Por que tanta revolta, Mr. Bellamy? O proprietário atirou sobre a mesa um molho de chaves. — Exijo ainda a que costuma levar à corrente.

O milionário ficou imóvel por um instante, depois, tirando a chave, jogou-a para junto das outras.

— Que é que ela abre?

— O cofre — rugiu o outro. — Não quer que alguém lhe sirva de guia? Talvez pretenda que lhe mostre o cofre...

— Dispensá-lo-ei desse incômodo.

Jim encaminhou-se para a parede onde se achava o fogão; tocando num dos painéis, fê-lo mover-se, descobrindo uma superfície de aço e, colocando a chave na fechadura, deu duas voltas para abri-la. O cofre continha algumas estantes em que, em lugar de livros, havia caixas de ferro; sobre uma delas, estava uma pasta de couro.

— Tem as chaves destas caixas? — Não estão fechadas.

Featherstone tomou uma delas e colocou-a sobre a mesa; estava cheia de papéis.

— É melhor que se recolha a seus aposentos, senhor; demorar-me-ei aqui. Considere-se preso durante esse tempo...

O capitão esperava encontrar alguma resistência no cumprimento da ordem, mas Abe era prudente.

— Quando chegar ao fim de suas pesquisas, avise-me. Espero que seja melhor polícia que mordomo — e com essas palavras retirou-se da biblioteca, seguido por um dos agentes.

Todas as caixas foram cuidadosamente examinadas. Uma delas parecia não conter mais que papéis particulares; subitamente, porém, Featherstone encontrou algo que lhe despertou a atenção; chamou o assistente.

— Jackson, venha cá... que é isto?

Era um bastão de cerca de quinze polegadas de comprido, tão grosso que os dedos do polícia mal podiam conter, e coberto com três faixas largas de couro; a uma das extremidades estavam presos açoites de corda, que deviam ter duas vezes o tamanho do cabo e cujas pontas eram ligadas com seda amarela. Eram nove cordas e estavam manchadas duma cor escura.

— Que pensa disto, Jackson?

— Que é uma disciplina, senhor — disse o sargento, tomando do objeto e observando um letreiro vermelho, meio desbotado, em forma de coroa. — "Propriedade dos Agentes da Prisão".

— Um presente de Creager — disse o investigador — e, a um novo exame, seus olhos peritos descobriram que ele fora usado uma só vez, pois ainda restavam nas cordas vestígios de dobras, que provavam que viera ainda novo da prisão.

Que mentalidade a daquele homem! Conservar como relíquia, como recordação, aquele instrumento de tortura que causara tantas dores, tanto sofrimento!...

Depôs a disciplina e voltou a cuidar das outras caixas. Esperava encontrar alguma coisa que o capacitasse a seguir a pista de Mrs. Held; não havia porém, até agora, uma linha, nada que lhe indicasse um caminho a seguir.

Um maço de cartas parecia ter merecido cuidados especiais de Bellamy — eram assinadas por "Michael" e dirigidas de diversas cidades dos Estados Unidos; três delas tinham sido mandadas de Chicago, as outras de Nova Iorque. As primeiras, afetuosas e amigas, revelavam uma certa dificuldade da pessoa que escrevia, que evidentemente era um irmão do velho milionário, em se manter em sua posição de mestre-escola. A correspondência deixava perceber ainda que, houvera modificações na vida do autor. Michael subira, ganhara muito dinheiro, tornara-se proprietário e se envolvera em negócios de corretagem. Uma mudança brusca começava-se então a notar nas cartas. Michael Bellamy achava-se novamente em situação difícil e confiava no auxílio que o irmão lhe podia dispensar. Demasiado tarde, porém, descobriu que aquele a quem via com tanta simpatia e amizade, fora a causa de sua ruína. As frases da última carta bem revelavam o sentimento que lhe enchia o coração:

 

"Querido Abel.

"Estou aturdido pelas notícias que me mandaste. Que teria eu feito para merecer que, com tamanha frieza e insensibilidade, assim me arruínes? Por misericórdia, em consideração a meu filho, vem em meu auxílio para que possa atender às reclamações de meus credores."

 

Em consideração ao menino! Pobre Michael Bellamy! Não poderias fazer apelo mais vão, nada dirias que mais inflamasse o desejo de vingança de Abe que se comprazia em ferir os inimigos, fazendo sofrer os filhos! Assim procedia com Mrs. Held. E aquele homem sem remorsos se deixaria mover pelos pedidos do irmão?

Três horas gastou Featherstone em examinar os papéis; terminado que foi o trabalho, colocou-os novamente no cofre.

De volta à biblioteca, os grandes agentes deram contas do que haviam feito; todos os cantos e esconderijos haviam sido devassados. Os cárceres também foram pesquisados e nada encontraram.

Jim mandou chamar Savini; a face morena do secretário estava pálida e em seu semblante estampava-se o medo de que se deixara tomar.

— Isso vai me deixar mal — lamentava o eurasiano — o velho deve pensar que eu estava ciente de tudo.

— E não é assim? — perguntou Jim com um sorriso — não se queixe e, se ele o interrogar pode lhe dizer que o ameacei para que guardasse silêncio,  É preciso que explique a Spike Holland a sua maneira de agir, pois creio que lhe terá jurado que eu não era o novo mordomo. Você se portou bravamente, disse com ironia, batendo no ombro do outro...

O proprietário voltou à biblioteca; o olhar era calmo e triunfante, e havia um sorriso vago naquela medonha face.

— Bem, encontrou a pessoa que procurava? Mrs.... como se chama?

— Não, não está aqui, a menos que tenha modificado a planta do castelo e haja algum quarto secreto que não tenhamos encontrado.

— E pensa que há? — zombou o velho — Mr. Featherstone, suas leituras favoritas devem ser as novelas policiais; elas não lhe convém, senhor, podem lhe fazer germinar idéias inconvenientes no cérebro. Já ouviu falar de meus advogados?

— Satisfaz-me saber que emprega pessoas tão respeitáveis. Suas chaves... e estendia a mão para lhas alcançar, quando se deteve repentinamente.

Um grito estridente se fizera ouvir. Era um som como de um lamento, forte a princípio, depois enfraquecido até se sumir num soluço. Vinha de não muito longe e enchia a sala silenciosa; era um clamor de agonia, a agonia de um mulher.

— Ai... ai... ai...!

Jim Featherstone ouviu e a respiração lhe ficou suspensa.

— Que é isto? — perguntou com voz rouca.

 

JIM DA EXPLICAÇÕES

— Devem ser os canos d'água; fazem esse ruído quando se põem em movimento os motores — disse Abe Bellamy voltando-se para o interlocutor.

O grito não se repetiu, e Jim fitou o velho cujo olhar não se desviou.

— Que é que fica aqui embaixo?

— Nada; os cárceres estão sob o vestíbulo. Havia uma escada que ia ter lá, mas agora foi tirada.

Deixando-o, o investigador foi pessoalmente dar busca nos cárceres; penetrou em todas as masmorras, sem descobrir nada; as prisões ficavam, de fato, embaixo do vestíbulo, e ele encontrou os restos da escada de que falara o proprietário. Abrindo a antiga planta do castelo, fez ainda alguns cálculos breves; ali a biblioteca ficava no rés do chão, o que pouco significava, pois diversas incorreções haviam sido encontradas na referida planta, que evidentemente era antes um produto de informações antigas, do que de um exame atual. Assim, os cárceres subterrâneos não estavam todos determinados ali. Ocupava-se justamente desse estudo, quando ouviu um som fraco; olhou: em cima, num ângulo da abóbada, havia um cano de ferro. Esperou e o som se fez ouvir novamente — era um rumor estranho. Não fora assim o que ouvira antes, e podia ser aceitável a explicação de Abe. De volta à biblioteca, soube que lá nada haviam percebido.

— Então, deu ordem de prisão aos canos de gás? — perguntou zombeteiramente o velho. — Gostaria que se tivesse vingado no operário que lá os colocou, Mr. Featherstone.

Jim sorriu, embora não estivesse em boa disposição.

Os agentes já iam através do parque, em direção à saída, quando ele se retirou; foi o último.

— Veja! — disse Bellamy, chamando-o com um aceno — não terá esquecido alguma coisa?

O investigador depôs a mala que continha os instrumentos.

— Que eu saiba, não.

— Tome; é seu — e tirou do bolso uma nota de banco que atirou ao inspetor — é o seu salário, continuou com sarcasmo.

— Tem razão, é meu, e embolsou o dinheiro.

Na vila, encontrou Spike Holland que assim se queixava da deslealdade de Savini.

— Perguntei-lhe se não era Featherstone o criado-mor e ele teve a coragem de jurar que não o conhecia, que nunca o havia encontrado antes.

— Queria dizer que jamais me vira nessa profissão — respondeu James, tomando-o pelo braço e caminhando para Blue Boar_ — Sou responsável por essa mentira, pois dei-lhe ordens severas para que nada revelasse, principalmente a você.

— E que encontrou? Pela manhã, ao sair do quarto vi logo que alguma coisa havia acontecido, pois dei com diversos homens respeitáveis, calçados com grandes botas. Os policiais não sabem iludir; pode vesti-los como o Príncipe de Gales ou disfarçá-los de qualquer outro modo, e sempre se há de perceber quem são. Que encontrou afinal?

— Nada, isto é, nada que denuncie o paradeiro de Mrs. Held.

— Quem é enfim Mrs. Held? — perguntou o jornalista, e Jim pensava que aquela informação era preciosa e convinha ser discreto.

Explicou como pôde, sem mencionar Valéria Howett; Holland estava admirado.

— Prisioneira! Céus! É uma bela história! Diga, amigo, não poderia publicar que a polícia pensa que nos escuros e sombrios cárceres de Garre está uma mulher?

— Seria muito mau que o velho se irritasse e fizesse algazarra. Há sempre perigo, certeza até, de que ele não queira que se toque nesse assunto, e se os jornais publicarem particulares da invasão de sua propriedade, sem dúvida nos moverá algum processo.

Featherstone deixou a mala em Blue Boar e, em companhia do repórter, dirigiu-se a Lady's Manor. Miss Howett estava no quarto; tendo-os visto através da janela, correu-lhes ao encontro.

— Valéria, perdemos a partida.

— O velho o descobriu? — perguntou aflita.

— Não, não me descobriu, mas infelizmente eu também nada descobri. Pesquisamos cuidadosamente o castelo; eu havia me munido de uma ordem, pois, como sabe, na Inglaterra não se podem invadir domínios sem uma autorização prévia, assinada por um magistrado. Recebi-a pelo correio desta manhã e, antes que me tivesse levantado, estavam na vila doze homens mandados pela Scotland Yard. Receio que estejamos condenados a ver o "Arqueiro Verde" a distância.

A jovem olhava-o calmamente.

— E já o viu de perto? — inquiriu em voz baixa.

— Não, não disse isso. Penso que ele esteve no castelo na noite em que a senhora foi até lá, mas muito depois da sua fuga.

Como podia o investigador dizer que nada sabia do arqueiro verde?

— Jim, confesse por algum motivo ou com algum intento, visto que vigiava Bellamy, terá se mascarado de "Arqueiro Verde"? Fê-lo uma vez, não negue!

Não podia ser fingida a admiração que nele se notava.

— Nunca. Nem sequer sonhei fazer tal coisa. Nada obteria com isso.

— Mas será verdade que nunca o tivesse visto ao menos? Viu-o certamente, quando me trouxe até aqui.

— Não sei o que quer dizer. Quando o velho lançou os cães em sua perseguição eu estava preocupado numa pesquisa: tomava a temperatura do solo em torno do castelo. Não se surpreenda; não estou brincando, foi realmente uma das mais sérias ocupações que lá^tive. Percebi que a pessoa que os animais seguiam era Valéria e corri em seu socorro.

— Seria então o ruído de seus pés que eu ouvia atrás do cão?

— Por um momento perdi-a de vista. Cheguei a uma clareira, vi a fera caída e a menina a seu lado; do arqueiro, porém, não havia vestígios; na ocasião, não notei que o animal tinha sido morto por uma flecha, pois meu único pensamento era salvá-la; levantei-a, subi a escada e trouxe-a para Lady's Manor. Tentava justamente acomodá-la, quando, batendo o punho contra o sofá, quebrei a abotoadura; gastei uns dez minutos em procurar os pedaços.

Agora que a jovem achava a explicação de quanto acontecera, sorria à lembrança da estranheza que causara à criada o encontrar fósforos queimados sobre o tapete.

— Então, Jim, você é o fantasma? — perguntou com um suspiro dé alívio.

— Céus! Não! Fui mordomo, sou um oficial da polícia bastante embaraçado, nunca, porém, fantasma.

— E nada conseguiu saber acerca de...

— Nada, — interrompeu ele — nada que lhe dissese respeito.

Encontrei apenas algumas cartas, do irmão de Bellamy; e, naturalmente, omitiu o achado da disciplina, como coisa que desagradaria à jovem.

Ainda cedo, voltou a Blue Boar e cogitava qual seria o melhor rumo a tomar. O automóvel estava na vila e fora o que lhe permitira ir diariamente a Londres, deixando Julius encarregado de encobrir sua ausência. Abe concedia ao criado-mor um dia de descanso durante a semana, e ao secretário competia explicar quando ele se retirava, que era aquele o seu dia de folga. Na tarde em que fora oferecido a Miss Howett o chá, no castelo, ele de lá não saíra, mas enquanto Spike Holland a acompanhava, por discrição mantivera-se afastado, e somente quando a jovem, a sós com o velho, estivera quase a sofrer-lhe a agressão, foi que, avisado por Savini interveio.

— Estava resolvido a voltar para Londres, mas parece-me que convém que esteja aqui de vez em quando, e por isso tomei um quarto em Blue Boar. Você, amigo, poderá fazer um pequeno trabalho de polícia, comunicando, durante a minha ausência o que ocorrer. Além disso, deixarei um homem aqui.

— Para vigiar Bellamy?

— Não é exatamente isso... para vigiar.. as vizinhanças. — Já sei, para cuidar de Miss Howett — disse Spike zombeteiramente.

No caminho para a cidade, o caso do proprietário de Garre apresentava-se a Featherstone sob um novo aspeto — havia ali um grande perigo, disso estava certo, e a pessoa ameaçada era Valéria Howett. Embora sentisse qualquer correlação entre esse receio e a visita de Coldharbour Smith a Abe, não podia precisar que fim teriam eles, e seu propósito foi ir a Golden East.

 

GOLDEN EAST

Golden East fora um clube de boa reputação, constituído por oficiais da marinha mercante que viajavam para a índia, mas assegurar a vida de uma sociedade com tão limitado numero de membros era difícil, e resolveram então facilitar a entrada de novos sócios que se diziam interessados no comércio com a China. Gradualmente o conceito em que era tido desceu e, quando os estatutos foram alterados, Golden East caiu rapidamente em decadência.

Coldharbour Smith tinha se inscrito na sociedade; ativo como era, tornara-se logo interessado no negócio e em breve, era o proprietário exclusivo. Foi o tempo de maior prosperidade para a agremiação. Ainda que coisas estranhas lá acontecessem, mesmo ofensas às leis, o governo não mandou fechar o clube, pois ele tinha utilidade imediata para a polícia — era o ponto de reunião dos homens cuja captura era desejada e que seria difícil encontrar em outros lugares.

Smith era liberal e grandemente generoso em suas dádivas para certos membros da polícia que eram responsáveis por sua liberdade, e teria se surpreendido se soubesse que a soma que todos os sábados dava ao inspetor local para o orfanato, chegasse às mãos do oficial encarregado dos fundos de reserva daquela instituição.

A princípio, a sociedade ocupava uma casa pequena de esquina, mas gradualmente aumentou, chegando a ser um estabelecimento considerável. No andar térreo havia escritórios e o clube funcionava do primeiro andar até as águas furtadas, onde era feito o jogo que se prolongava através da noite. Â grande sala de dança, afluíam pessoas de diversas classes — atrizes de West End, rapazes que desejavam gozar da sensação do convívio da gente de classe inferior; uns poucos de chineses e sempre um grande número de mulheres bem vestidas, cuja única ocupação era freqüentar o clube. Junto dessa sala havia um restaurante, onde Coldharbour costumava estar com o característico cigarro ao canto da boca.

à meia-noite a alegria culminava. Os teatros de West tinham fechado e os visitantes começavam a chegar. Os criados em suas librés iam de mesa em mesa atender os recém-vindos enquanto  a orquestra continuava a tocar. O luxo que ostentavam seus freqüentadores estava em contraposição com as misérias daquele bairro, onde homens, mulheres e crianças viviam na mais completa pobreza, mal vestidos, famintos, a espreitarem da rua, trêmulos de frio, os automóveis que paravam.

Golden East era um clube elegante que os forasteiros não deixavam de visitar.

Tudo ali eram risos e vibrações de entusiasmo, quando Jim Featherstone entrou, e apenas com um sinal ao porteiro, subiu escadas atapetadas. O criado tocou a campainha e, à chegada de Jim, um quase silêncio reinava na sala. A música parará, os dançarinos voltavam às mesas, pois Coldharbour Smith havia pronunciado a palavra mágica — polícia!

— Estou encantado de vê-lo, capitão — disse o proprietário, andando até o meio da sala e oferecendo-lhe a mão cheia de jóias.

— Como isto está calmo hoje!

— Costuma ser sempre assim; aqui nunca há muito barulho. — Jim havia feito um rápido exame dos que ali estavam.

— Gente respeitável você tem esta noite. Quem estava naquela mesa?

— Oh! pessoas que saíram acerca de meia hora.

— E deixaram intacta uma garrafa de vinho recém-aberta e quatro copos que denotam terem sido esvaziados há poucos instantes?

— Eram pessoas estranhas para o senhor; creio que vieram de West End e não queriam ser vistos aqui — explicou Smith, entrando novamente para o restaurante seguido pelo investigador. — Venha beber, capitão — disse, lançando um olhar furtivo para o homem que servia — não o temos muitas vezes por cá, não é assim? Esta noite visitaram-nos alguns capitães do mar — e mostrou um pequeno grupo a uma mesa, num canto da sala. Eram homens mal vestidos, evidentemente estrangeiros... — Recebemos sempre muitos marinheiros que parecem gostar de vir ao antigo lugar que conheceram, quando não era tão animado.

— É possível — respondeu Jim secamente — mas, talvez venham para receber suas ordens.

— Minhas ordens, capitão? Que quer dizer?

— Gostaria de saber quantas cargas de uísque fez transportar para os Estados Unidos, Smith. Seja sincero e deixe essa expressão de inocência ofendida, pois bem sabemos que você tem sido exportador desse gênero de mercadoria.

— Não tanto como poderia ser — concordou o homem. — Estivemos em apuros e deitamos ao mar duas cargas.

— Então os mares de oeste devem estar cheios de peixes mortos — disse Featherstone — mas... não é meu intento aborrecê-lo por isso, pois ainda não bastariam para envenenar a América.

— Não sou mais que agente, essa é a verdade. Minha ação é restrita, e os grandes sócios é que tomam a si a parte importante do negócio. Vamos tomar alguma coisa, senhor?

— Não; o que me trouxe aqui foi o desejo de uma palestra. Não haverá um lugar onde possamos conversar a sós?

Atrás havia uma peça pequena que servia de quarto ao encarregado do restaurante; para lá se dirigiram. Coldharbour iluminou o aposento, e Jim, ao entrar, sentiu um cheiro que não lhe era estranho, e deixou cair um olhar frio sobre Smith.

— Veja bem, é proibido...

— O meu gerente trouxe isso para cá, mas juro-lhe, capitão, que o fez em minha ausência e logo que tive conhecimento, expulsei-o do clube.

— Pode ser que tenha falado a verdade, mas pode também estar mentindo; não consinta que se repita esse fato. — Puxou uma cadeira e sentou-se, descansando o braço na mesa e fitando o homem esperto.

— Esteve no castelo na noite passada?

— Em Garre Castle, em casa de Bellamy? Sim, é verdade, capitão, e recentemente estive lá mais duas vezes por causa de um negócio; já sabia disso? — perguntou inocentemente, e Featherstone sorriu.

— O velho hoje lhe comunicou pelo telefone que eu lhe havia invadido a propriedade esta manhã; não negue, pois tínhamos um homem escutando.

As maneiras do investigador podiam parecer incivis, mas ele, ao chegar àquele lugar, notara que já era esperado e pensava que provavelmente o velho milionário havia avisado Smith de sua visita.

— Falei de fato com Mr. Bellamy sobre um negócio particular — respondeu Coldharbour que parecia inclinado a dizer alguma coisa mais.

— E que negócio tem você com o proprietário de Garre?

— Sou seu amigo desde muitos anos e ele me emprestou a quantia com que comprei este estabelecimento.

— Ah! e não lhe salvou também a vida, atirando-se ao rio, para tirá-lo de lá?

— Não, senhor, isso não — disse Smith e seu tom era jocoso e havia em seu olhar certa expressão que deu a conhecer a Jim quanto ele desejava saber.

— Então emprestou-lhe dinheiro? Creio que lhe é muito grato e certamente já estará pagando o que lhe deve. Mas... diga-me, amigo, antes de vir para cá, por onde andou? Não tenho lembrança de lhe ter visto o nome nos registros.

— Vivi aqui nas vizinhanças, por algum tempo. Costumava estar em Camden Town.

— Em que parte de Camden Town?

— Em Little Bethel Street.

— Little Bethel Street? Então conhece Mrs. Held? — e Jim, de pé, assumira a posição de acusador.

— Nunca ouvi esse nome. Que quer dizer, capitão? De quem fala?

— Você conhece Mrs. Held e contribuiu para o seu desaparecimento. Agora, veja, — e bateu com o punho na mesa — tudo irá bem, se você falar sinceramente; do contrário, farei fechar esta casa dentro de uma semana.

Espalhou-se um sorriso no rosto empalidecido de Smith.

— Isso não me perturba. Vendi o Golden East e já tenho metade do dinheiro... — e bateu no bolso. Se der ordem de fechá-lo, não sentirei muito — e era sincero o homem, Jim bem o reconheceu. — Por que zomba, capitão? Tenho procurado andar direito e nada pode haver contra mim. Quero viver em boa amizade com a polícia e, se não o consigo, não é culpa minha. Aceite uma bebida, senhor.

Não passara despercebido a Jim Featherstone o olhar que Smith dirigiu ao homem do restaurante, e a insistência que punha em conseguir que ele aceitasse alguma coisa para beber, posto soubesse que esse convite era sempre recusado. Como que em resposta ao olhar de Coldharbour, o homem de branco mostrara-lhe, também sem falar, alguém que se achava no quarto; Jim o notou, embora antes não o tivesse visto. Convinha, ele o reconhecia, que tivesse entrevistado o dono da casa em lugar mais freqüentado.

— Por que insiste em me fazer beber, homem? Bem sabe que nada aceito aqui.

— Não é uma visita de amigo que me faz?

No compartimento havia um telefone e o investigador o havia visto.

— Dá licença que me utilize do aparelho? Quero falar a um amigo.

Coldharbour hesitou.

— Está mal, creio que não conseguirá ligação.

— Deixe-me ver.

Recebeu imediatamente o sinal de que fora atendido e pediu um número. Smith, de pé no meio do quarto, mordia as unhas nervosamente, percebendo o que ia acontecer.

— Quem fala? É o sargento de serviço em Limehouse? Aqui é o Capitão Featherstone. Estou em Golden East. Sim... preciso quatro homens que me venham encontrar fora do clube imediatamente. Obrigado.

Deixando o aparelho, observou a perturbação de Smith e dissipou-se-lhe qualquer dúvida que ainda lhe restava no espírito.

— Preparou-me uma pequena partida fora, não, amigo? Vi o homem que me seguiu até cá, e deixei você perceber que eu tinha vindo só. Que estava preparado? Uma peleja na rua? Era coisa muito simples, não, Smith?

Dirigiu-se para a porta e deu volta ao trinco; a porta estava fechada.

— Foi sem dúvida o meu empregado que a fechou, mas há outro caminho, senhor, — e, abrindo uma porta, mostrou a escada.

— Encontrará uma saída, capitão — começou Smith.

— Suponho que você a achará mais facilmente, disse Jim, e o homem aceitou rindo o convite. Desceu a frente do investigador e abriu a porta, deixando entrar uma réstia de luz.

— Boa noite, capitão Featherstone — disse em voz alta.

— Boa noite.

Ao passar diante do proprietário do Golden East, com um movimento rápido agarrou-o pelo colarinho e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, atirou-o à rua. Alguém que estava oculto à sombra do muro, apareceu e bateu-lhe duas vezes com uma bengala. Smith caiu com um gemido. Num momento estava James na rua e perseguia o agressor; apanhou-o acerca de vinte jardas e com um golpe fê-lo parar, jogando-o a seus pés.

— Eu ia tão calmamente — dizia o homem, deixando cair a arma. — Nada tenho a ver com esse negócio; Coldharbour me contratou para que espancasse alguém que ia sair da casa.

— Meu amigo, ele já deve estar bem arrependido do que fez. — Arrastando o prisioneiro, levou-o para a luz duma lâmpada da rua — era o homem que o havia seguido. Reconheceram-se mutuamente e o agressor empalideceu.

— Coldharbour vai me matar por isso — lamentava-se. Viram que Smith aos poucos tentava sentar-se, levando as mãos à cabeça e Jim ouvia com interesse as recriminações que ele dirigia ao outro.

— Se você disser que mandei esperar esse senhor, é um mentiroso e quando eu conseguir pôr-lhe as mãos, matá-lo-ei, velhaco. Trancafie o tratante, capitão.

— Trancafiar-me! Se você não está em apuros, Smith, é porque soube fazer o negócio. Você é que ficaria muito bem no cárcere.

Sob a traição do companheiro o homem mais e mais se enraivecia nas mãos de Jim.

— Não terá nada a beber aqui. Nem mesmo Valéria... — Apenas pronunciara essas palavras e Jim o empurrou para longe.

— Que é isso? — perguntou asperamente.

— Valéria Howett, será Senhora Smith — gritou o prisioneiro. Jim sentiu o sangue gelar-lhe nas veias.

 

UM AVISO A SMITH

— Não lhe dê ouvidos, capitão, disse Smith em voz rouca... ele está louco, sempre foi louco... esteve num hospital.

Em língua estranha rompeu numa torrente de injúrias contra o prisioneiro que o ouvia silencioso.

— Fale Inglês com este homem. Agora, meu amigo, quero que me explique por que proferiu o nome daquela senhora.

— Eu estava brincando...

— Gozo de muito bom humor — disse Jim entre dentes —mas hoje não estou para risos. Que sabe de Miss Howett?

— Nada, senhor.

— Apenas viu-lhe o nome nos jornais — disse Coldharbour — ele é demente. Você não esteve no hospital de alienados, Isaacs?

— Ê verdade — concordou o outro aliviado — não sou inteiramente responsável pelo que digo.

— Levem este homem à Prefeitura — disse o investigador aos quatro policiais que haviam chegado — é réu de assalto comum. Irei vê-lo depois.

Quando levaram o prisioneiro, Jim se dirigiu a Smith.

— Suponho que deve estar ansioso por saber a parte que lhe toca nesta aventura; em pouco será satisfeito. Logo que acabar de atender aquele homem, voltarei a você.

— Não me assusta, capitão — disse Smith, apoiando nas mãos a cabeça ferida.

— Não é questão de susto, mas de morte, guarde bem. O inspetor seguiu os agentes à Prefeitura, onde o homem estava recolhido.

— Isaacs dizia a verdade, Capitão Featherstone — disse o sargento que o guardava — é de fato louco e tem estado por diversas vezes internado no hospital de dementes desde que o conheço.

— Qual é o seu registro?

— Muito mau. Esteve em Old Bailey por três vezes por assalto e roubo. Ultimamente trabalha no Golden East, sob as ordens de Coldharbour Smith.

Jim estava sem esperanças; evidentemente Smith quando lhe falara em Valéria, oferecera-lhe alguma recompensa para que nada dissesse. Estava certo de que não fora casual aquela referência — Senhora Smith! Que trabalho diabólico estaria preparando o demônio do velho e seu vicioso assalariado?!

Desceu à cela com outro oficial e interrogou o prisioneiro, mas foi tempo perdido.

Isaacs tinha o pescoço torto; a fronte baixa recuava, denunciando não só mentalidade deficiente, como esperteza no emprego dessa deficiência para satisfação de seus fins.

Recebeu as interrogações do investigador calmamente.

— Não me lembro de ter dito nada a respeito de... como se chama a senhora?

— É inútil — disse Jim ao agente, quando voltavam ao Golden East — não sei se conviria conservá-lo preso; Smith que se encarregue dele. Se nada adiantar ao que disse, ponha-o em liberdade.

Estavam no pequeno aposento atrás do restaurante, mas desta vez havia um polícia à porta, embaixo, e outro no vestíbulo, e Coldharbour, que não tinha a intenção de cuidar do útil companheiro, disse francamente:

— Já esgotei a paciência com o imbecil. Não é irritante saber que esperava o capitão para atacá-lo? Graças aos céus, que me feriu em seu lugar.

— Agradeço-lhe sensibilizado... Agora, falemos de Miss Valéria Howett e das razões que tem Isaacs para associar aquele nome ao seu, Smith.

— Não sei mais que o senhor aqui. São interessantes as associações de idéias dos dementes...

— Mude de tática, amigo — disse Featherstone com uma calma perigosa — não se esqueça que você está perfeitamente são.

— Senhor, repito-lhe — nada sei, nunca ouvi antes aquele nome. Não posso imaginar o que queria Isaacs.

— Ele falou como você o faria, se estivesse embriagado. Um perigo o ameaça e não é o perigo da prisão; não ria; veja que o posso fazer prender, quando quiser. Pensa que está a salvo porque ninguém o incomoda, mas não há liberdade duradoura para um homem como você. Nem mesmo é preciso inventar alguma coisa para apanhá-lo. Está em perigo — e levantou o dedo ameaçadoramente — está em minhas mãos, mas, sofrerá ainda mais de alguém que não terá piedade de você. — A porta da rua se fechou à saída do oficial, e Coldharbour permanecia na mesma posição — numa das mãos apoiava o cotovelo, com a outra cocava o queixo barbado.

Daí a momentos abriu a porta que comunicava com o restaurante e dirigiu-se, com palavras ásperas, ao homem que lá estava.

— Mande entrar aquele marinheiro e traga uma garrafa de vinho e alguns cigarros. Passarei aqui a maior parte da noite.

 

UMA ENTREVISTA COM JOHN WOOD

Em resposta a um telegrama urgente, John Wood, deixando a Instituição, dirigiu-se apressadamente a Londres, para ir à Scotland Yard. Era o primeiro encontro que ia ter com Jim Featherstone, bem que se lembrasse de o ter visto em Carlton no dia em que almoçava com os Howetts.

A figura de Wood era impressionante: os semblantes dos homens são como os livros em que se lêem as histórias de suas vidas e a expressão do filantropo era como que um convite para que dele se aproximassem.

— Receio tê-lo obrigado a uma longa e pouco confortável jornada, senhor — disse o Chefe da Segurança — mais aviso-o de que o Prefeito se encarregará de todas as suas despesas, posto não o possa compensar do incômodo de ser privado da sua ocupação favorita.

— Compreendo que Mr. Spike Holland já lhe falou dos meus pequeninos — disse ele rindo e suspeito que lhe tenha também relatado uma pequena história que lhe contei confidencialmente. Opus-me a que o fizesse, embora esperasse que cedo ou tarde cometeria a indiscrição. Mandou-me procurar por causa de Mr. Bellamy?

— Sim, precisava informações particulares sobre uma criança que dizem ter sido assassinada por ele.

John Wood não aceitou a cadeira que lhe era oferecida; ficou de pé, as mãos cruzadas, o olhar vago.

— Uma criança... Que lhe poderei dizer? O acontecimento.pertence a um passado obscuro e caiu no esquecimento de quase todos... creio que apenas eu e Abe Bellamy ainda pensamos nele, se é que o último alguma vez se deixou perturbar por tão negras recordações. — Deteve-se por alguns instantes como que a falar consigo mesmo, para depois continuar: — O caso a que se refere pertence diretamente à polícia da América e duvido que, mesmo que eu fosse capaz de pô-lo ao corrente de todos os seus pormenores, pudesse agir. O velho parece ter empregado toda a riqueza que lhe veio às mãos para quebrar, massacrar aqueles que lhe ofereciam qualquer oposição, não querendo sugerir que seja um criminoso na acepção comum da palavra. A história é clara. O homem era poderoso e para assegurar esse poder não hesitou em empregar os mais infames processos; qualquer empecilho aos desejos, fazia crescer nele uma como que natureza diabólica e, quando aquele que o contrariava, podia ser ferido, ele despedia o golpe vagarosa, mas firmemente. Costumava vingar-se dos pais nos filhos e conheço dois casos autênticos em que voltou seu ódio contra quem, real ou imaginariamente, causara-lhe desgosto, ou de qualquer modo contrariara-lhe a vontade. Num deles, os filhos eram crescidos, noutro era uma criança ainda pequena. Não lhe direi, senhor, o que moveu Bellamy nesta instância, não estou absolutamente certo da causa imediata, posto imagine qual tenha sido. Um dia desapareceu uma criança. O pai estava em desespero, a mãe prostrada pelo sofrimento; tenho razões para pensar que houve qualquer correspondência desconhecida do pai, entre a mãe e o terrível Abe. A menina foi raptada pela criada, que contou que enquanto falava com um amigo, a criança desaparecera do carrinho onde dormia. Quinze dias depois houve uma colisão de trens em River Bend onde morreram queimadas diversas pessoas. Nos escombros foi encontrado um sapatinho reconhecido pelo pai como pertencente à pequena. Houve testemunhas de que a criada viajava no trem com a criança e acreditaram que ela teria sido vítima do desastre. Assim sendo, o raptor levava a presa para algum lugar desconhecido, quando houve o acidente.

— E teriam relatado à polícia o acontecido?

Com surpresa Jim viu que Mr. Wood fazia um gesto negativo.

— É o que me faz pensar que a mãe sabia quem era o responsável pelo crime, e, temendo pelo que viria a acontecer à menina, ocultou as informações que poderiam levar ao descobrimento do autor do rapto. Não tenho dúvida de que o proprietário de Garre Castle é responsável pelo fato.

— E está certo de que a criança morreu? — perguntou o investigador, e o outro acenou afirmativamente. — Quando aconteceu isso?

— Posso fixar a data pelo acidente, bem que não houvesse assistido a ele pessoalmente. A criança desapareceu em agosto de 1890.

— Eu esperava poder dizer-lhe que a pequena ainda vive, mas receio que as datas estejam erradas.

— Não penso que seja esse o seu único crime — disse Wood. — Parece uma culpa fantástica que se coloca aos ombros de um homem da posição de Abe Bellamy, mas, em cinco anos, sei de dois desaparecimentos misteriosos, cujas vítimas eram filhos de pessoas que se haviam atravessado em seu caminho. A paixão dominante de Abe era o poder. Pode ser que ele seja louco, mas não creio.

— Talvez, senhor, possa me adiantar um pouco mais.

— Receio que não.

— Diga-me quem era o pai da menina.

— Não lhe posso dizer. Veja, Capitão Featherstone, tenho responsabilidade nisso.

Jim voltou a página do livro onde tomara as notas.

— Vamos a outro assunto talvez menos desagradável — disse sorrindo. — Não era seu amigo um sobrinho de Bellamy, um oficial que, suponho, morreu num combate?

— Sim, em Hanover, num reconhecimento — concordou o outro.

— E ele lhe falou alguma vez no tio?

— Nunca.

Teria alguma mágoa contra o parente?

— Nada disse a esse respeito.

— E o senhor sabia que ele era da família de Abe Bellamy?

— Sim.. sabia — disse Wood depois de um momento de hesitação.

— Que espécie de homem era ele? — insistiu Jim — tinha alguma semelhança com o tio?

John Wood riu.

— Não podia haver maior diferença.

Featherstone olhava pensativamente.

— Nunca lhe ocorreu, Mr. Wood, que o jovem Bellamy podia viver ainda e que por qualquer razão quisesse ocultar sua identidade?

— Não há dúvida que não é impossível... Muitas coisas aconteceram na guerra — homens que se julgavam mortos, provaram que viviam — disse, depois de algum tempo.

— Não concorda que é provável? E se ele ainda vivesse, Mr. Wood, como seu amigo, devia sabê-lo.

— Esquece que fui beneficiado no testamento e que todos os seus bens passaram-me às mãos?

Antes que se separassem, John Wood fez-lhe uma pergunta que o preocupava.

— Não é certo que tem dúvidas a respeito das datas, capitão Featherstone? Sabe de alguma outra vítima da maldade de Bellamy?

Jim respondeu afirmativamente.

— Quer me dizer quem é?

— Devo seguir seu exemplo e pedir que não me interrogue, — disse o investigador, sorrindo. — Está certo que o rapto a que se referiu ocorreu em 1890?

— Sim, estou certo. A ocorrência se deu a 29 de agosto de 1890 e é chamado — o desastre de River Bend.

Antes de partir para a Bélgica, John Wood procurou Spike Holland. Mr. Syme foi quem o recebeu e o redator, quando recebia visitas, era bem diferente de quando tratava com os subalternos.

— Holland está ainda em Garre, mas eu o chamarei amanhã. O interesse do "Arqueiro Verde" desapareceu; não houve novas aparições e creio que o arqueiro esteja oculto. Pode bem ser, acrescentou com esperança... que com a volta do repórter para Londres, ele reapareça.

 

O HOMEM QUE APARECEU

Julius Savini previa que se aproximava o fim de seus trabalhos em Garre Castle. O velho não era nem mais ofensor nem mais agressivo que de costume, e nada acontecera que ele pudesse tomar como indício de novas intenções de Abe Bellamy, mas Julius era dotado de um sexto sentido, que o avisava quando ia perder dinheiro, e esse pressentimento o acompanhava havia algum tempo.

Desde a partida do novo mordomo, muitos de seus deveres haviam passado para Savini e era sua obrigação, de manhã, abrir a porta do quarto das provisões e introduzir os criados que deviam fazer a limpeza. Os serviçais estavam sempre a proporcionar ao milionário o mínimo de contrariedade; a biblioteca era posta em ordem enquanto ele fazia o passeio através do parque, hábito que não interrompia nem mesmo quando o tempo estava mau; a limpeza dos quartos de dormir e corredores era feita logo depois.

Embora se considerasse indispensável, Julius sabia que o velho preparava uma modificação, e talvez fosse a doçura de suas maneiras que despertasse a suspeita no eurasiano que, com essa convicção, começou a formar o plano de uma fuga proveitosa.

Bellamy costumava guardar muito pouco dinheiro em casa; tinha uma soma pequena numa filial do Banco de Londres, e quando precisava quantia grande era dever de Savini tomar o carro e ir buscá-la à cidade. "Grande" era um termo relativo, pois as importâncias que passavam pelas mãos do secretário não mereciam que ele se arriscasse. Conhecido como era pela polícia e não tendo o proprietário ilusões sobre seu caráter, se desaparecesse seria perseguido como ladrão, não só em Londres como fora do país. Resolvera imigrar para o Brasil, pois além do clima saudável que lhe acenava dessas terras, sua língua materna era a portuguesa. Havia considerado o assunto cuidadosamente e calculara, com toda a sagacidade de seus juizes, a soma exata que seria necessária para viver confortàvelmente o resto da vida, e essa quantia ultrapassava as que estava habituado a receber do patrão, que consentia que ele enchesse os cheques e permitia mesmo que ficasse com eles.

Quando finalmente o eurasiano havia decidido que chegara o momento extremo, que era necessário se decidir pelo assassínio do velho, se tanto fosse preciso, adotou um plano que tinha a vantagem da simplicidade. Uma manhã, tomando um maço de cheques, levou-os a Abe para que os assinasse. Eram contas pequenas de negociantes, e a última representava uma quantia insignificante para um agente de notícias locais.

— Por que não pagou isso à vista? — rugiu ele ao garatujar a assinatura, e não era capaz de imaginar o que Julius tinha arquitetado em seu espírito.

O secretário em vez de por o valor no correio, mandou chamar o homem e pagou-o, guardando o papel cautelosamente no livro de notas, e como a data, a quantia e o nome do credor tinham sido escritos com uma tinta que desaparecia dentro de três horas, quando Savini novamente observou-o, viu que estava em branco, salvo a assinatura de Bellamy.

Naquela tarde, foi à cidade ver a esposa.

— Peça a Goldberg que lhe prepare o passaporte e tome para você passagem; não viajaremos juntos; irei de avião a Paris, onde embarcarei num navio alemão; tenho um amigo em Lisboa que me obterá uma passagem e um passaporte português.

— E os nossos aposentos? — perguntou ela. — Posso vender a mobília...

— Não venderá nada — respondeu ele grosseiramente — terá a metade da polícia de Londres a inquirir, antes que se possa desfazer do menor objeto.

— Temos em móveis quatrocentas ou quinhentas libras — protestou ela, e o econômico Julius se deixou impressionar.

— Irei só; talvez seja melhor, e você me poderá encontrar daqui a alguns meses. Ser-lhe-á fácil ir a Nova Iorque e depois ao Rio; escrever-lhe-ei para o "velho lugar".

O "velho lugar" era El Moro's, onde chegavam cartas com endereços estranhos todos os dias e eram furtivamente recolhidas. De volta a Garre, no quarto, depois que todos repousavam, Julius tomou o documento do livro de notas e escreveu — cem mil dólares. As contas de Abe Bellamy eram pagas em dólares, porque o câmbio era desfavorável à libra. Como esperava, as palavras do velho na manhã seguinte foram:

— Amanhã terá de ir à cidade buscar dinheiro, Savini.

— Posso ir hoje mesmo — respondeu Julius — lembrando-se que datara o cheque daquele dia — não tenho muito que fazer.

— Pode ir amanhã cedo — disse Abe — faça um cheque de cinco mil dólares. Julius voltou daí a momentos trazendo-o, junto com uma carta para o gerente do banco.

— Que é isto? — perguntou o velho desconfiado.

— Na última vez que recebi essa importância — disse o esperto secretário — Mr. Sturges avisou que não era de seu agrado pagar somas grandes sem que apresentasse uma carta sua.

— Já deviam conhecê-lo — acrescentou o milionário ao assinar a carta.

Fora simples o negócio — pensava Julius, com um olhar de maliciosa satisfação, ao prever a revolta do homem, quando descobrisse o roubo de que fora vítima, e nessa ocasião estaria longe, muito longe, fora do alcance da língua e daquelas mãos enormes. Tão facilmente havia executado o plano, que começava a ficar nervoso. E se o banqueiro telefonasse para Garre, pedindo confirmação antes de pagá-lo? E se fosse descoberto antes de chegar a Paris?

Julius tremia.

Naquela tarde, Abe Bellamy pediu o carro e saiu com destino desconhecido. O secretário imaginava que ele tivesse ido ao encontro de Coldharbour Smith, pois havia sido feito um chamado para Limehouse naquela manhã e o velho estivera fechado a falar ao aparelho um quarto de hora. Sua ausência era conveniente, pois Julius tinha muitos afazeres naquele dia — cartas que deviam ser destruídas, roupas que prepararia para que não o traíssem; a última carta fora queimada, o último casaco examinado rigorosamente, quando saiu do quarto para o corredor a pensar se seus nervos seriam bastante fortes para suportar o convívio de Abe nas doze horas em que devia ainda estar no castelo.

A porta pequena por onde costumavam entrar os criados e através da qual o "Fantasma Verde" havia desaparecido, deixando o lenço manchado de sangue como vestígio da fuga, movia-se cautelosamente. Com o espírito preocupado na execução de seus projetos, Savini se detivera a distância, observando-a; por um segundo seu coração quase cessou de bater, posto fosse dia e muito provável que um dos criados viesse a terminar algum trabalho atrasado. Havia, porém, alguma coisa de furtivo, de cauteloso naquele movimento que o fazia pensar no fantasma, e o retinha naquele lugar, sem lhe permitir que se movesse. A porta estava enfim aberta e um homem andava cuidadosamente — era alto, cadavérico, tinha a cabeça descoberta e usava óculos com aro de tartaruga. Apenas viu o secretário, recuou e puxou a porta, fechando-a com ruído. Julius permanecia no mesmo lugar, boquiaberto, com o olhar fixo naquele ponto. O homem cuja aparição fora tão inesperada quanto inexplicável, era Mr. Howett.

 

O TERMÔMETRO

Era Mr. Howett que passava pela porta que servia de entrada ao "Arqueiro Verde"! Como podia ele ter chegado à parte mais central do castelo, apesar das precauções de Abe Bellamy?

Julius deu um grande suspiro e voltou ao quarto, tirou o cheque e queimou-o; encontrara um modo de proceder mais proveitoso e menos arriscado. Howett era um homem rico e podia pagar bem! Tomou as chaves e abriu a porta que costumava estar fechada com um trinco; desceu a escada de pedra e foi ao quarto das provisões onde, como esperava, não encontrou ninguém. A comunicação com a cozinha estava aberta e ele passou para os domínios do cozinheiro.

— Não, senhor, ninguém passou por aqui. Os criados que fizeram a limpeza vieram há algumas horas.

Experimentou a porta externa que estava aferrolhada e trancada interiormente e voltou ao quarto de pedra, onde fora encontrado o lenço de Valéria. Não havia mais mistério, pois, quem, a não ser o vizinho do castelo poderia tê-lo trazido, talvez por engano?

Agora, pouco importava a Julius que o velho o despedisse, pois havia encontrado uma fonte de renda para o resto da vida. Saindo para o parque, pôs-se a contemplar Lady's Manor como se já fosse seu proprietário, e pensou quanto seria fácil obter dinheiro dali por diante. A vista de um homem no caminho do portão, distraiu-o, e assustou-se ao reconhecer Jim Featherstone.

— Arrastando-se como cobra! Que anda fazendo, Featherstone? — perguntou ele, enquanto seus sonhos róseos se dissipavam.

— Gozo as horas de sol. Contaram-me que o velho saiu, entretanto esperava encontrá-lo, quando saí de Londres.

— Não lhe é permitido entrar no castelo, Capitão Featherstone — disse Julius agitado — perderia meu emprego se o deixasse ir até lá.

— Fui informado...

— Informado... de quê? — gaguejou o secretário.

— Savini, quando um homem como você começa a visitar as agências de vapores e procura saber o dia da partida de navios alemães que viajam de Vigo ao Rio, pode-se concluir que está correndo o perigo de ser despedido e prepara-se para uma mudança de ar e de cenário. Ouça-me, fosse embora Abel Bellamy o demônio em pessoa, era minha obrigação protegê-lo contra o roubo, e aviso-o de que será severamente perseguido se pretender deixar Londres, seja pelo prosaico bote da carreira, seja pelo mais romântico avião.

Julius estava quase a desmaiar. Que fuga tinha ele preparado!

— Não sei como pode pensar tais coisas de mim, senhor, — disse com ar de inocência. — Tenho andado direito, mas os agentes da polícia não permitem a um homem mudar de sorte.

— Esse tom de mártir cristão, diverte-me. Agora, Julius, você me pode ser útil. Ando à procura de alguma coisa no jardim; não quero ir ao vestíbulo aristocrata.

— Que é? — perguntou o outro e a curiosidade ultrapassou-lhe o susto.

— Uma noite destas, enterrei aqui um certo número de espigões, encontrei-os todos, exceto um; foi na noite em que os cães perseguiam o "Arqueiro Verde".

— Um espigão? — perguntou Julius intrigado.

— Sim, e não lhe posso dizer o porquê do assunto; ajude-me a procurá-lo. Deve estar naquele canteiro junto ao muro. Penso que ali fica a biblioteca, não é? — e mostrou a parede escura.

Julius teve um gesto afirmativo.

— Deve conhecer todos os lugares agora, capitão; se o velho imaginasse que eu sabia quem o senhor era, teríamos tido grandes tempestades.

— Já obtiveram um novo mordomo?

— Sou eu o criado-mor, o velho demônio trata-me agora como a um serviçal.

A pesquisa durou pouco; Jim não havia procurado mais que cinco minutos, quando viu brilhar um ponto e, cavando a terra, desenterrou o espigão.

— Que é isso?

— É um termômetro e deve marcar quarenta graus. — Limpou o mostrador do instrumento e, examinando a escala, assobiou. Oitenta graus! — disse à meia voz.

Não havia dúvida, a coluna vermelha marcava aquela temperatura.

— Oitenta graus! — repetiu ele, olhando para Julius. — A terra aqui é quarenta graus mais quente que em outro qualquer lugar do parque, o que explica a conta do gás.

— Mas, que significa isso? — perguntou o secretário — e como pode influir na conta do gás? Será ele que aquece a terra aqui?

— É exatamente o que penso — e o investigador examinava outra vez o instrumento. Marcava agora cinqüenta e cinco; enterrado novamente, subiu a oitenta.

— Não o posso entender, Featherstone — disse o outro irritado. — Que direi ao velho, quando voltar?

— Não lhe dirá coisa alguma — foi a resposta. — Manter-se-á naquela discrição que tão extraordinariamente distinguiu sua maneira de ser, quando tive a honra de viver aqui.

Felizmente para Julius, não lhe foi necessário mentir; apenas Featherstone preparava-se para sair, quando o carro de Abe Bellamy entrava, e o homem saltou antes que o motor parasse.

— Trouxe outra... como se chama? Outra ordem de busca? — perguntou. — Satisfeito de vê-lo, Capitão Featherstone; o que eu admiro no povo inglês é que ele não precisa ser convidado para fazer visitas. Que é isso? — inquiriu asperamente.

Jim alcançou-lhe o espigão e o velho franziu a testa.

— Poucas noites antes de deixar o castelo, Mr. Bellamy, tomei a liberdade de andar em torno do parque, enterrando hastes semelhantes a esta que contém um termômetro; todas, com exceção desta que naquela ocasião não encontrei, marcaram quarenta graus. Esta última, que só agora achei, mostra uma temperatura de oitenta.

— É bem possível que vá encontrar um vulcão — disse Abe impassível — ou outra fonte de calor. Quem sabe se pensa em me prender porque a terra está quente?

— Somente acho que é curioso o fato.

— Não gosto de desgostar pessoas inteligentes como o senhor, Featherstone, mas acharia a solução se se tivesse ido informar do guarda, pois, com perfeição americana, tive o cuidado de encanar água quente para a sua casa. Certamente tocou o cano da água; é a segunda vez que um encanamento lhe dá que fazer, — e ria a zombar do investigador.... — Sempre o mesmo... tenho curiosidade de saber o que pensava encontrar.

— Sem dúvida o que eu não esperava era achar um encanamento de água quente a uma distância de doze pés.

A explicação do velho era lógica e ele sentiu que Abe mais uma vez tinha vencido. As informações obtidas na entrada, confirmaram-na em tudo. E confessou o erro a Spike Holland.

— Não sei exatamente o que esperava achar — disse — queria saber se o gás era usado em alguma coisa que estivesse fora do nosso alcance. Enquanto estive no castelo, tinha a oportunidade de examinar o medidor, e observei que o consumo de gás era maior do que as estufas e o fogão podiam gastar.

— Quero contar-lhe uma coisa — disse Spike, quando o problema tinha sido estudado. — Depois de sua saída chegou à vila um estranho que veio habitar numa casa pequena, perto de Lady's Manor, e eu o tenho visto vagando pela estrada à noite, na vizinhança da propriedade de Mr. Howett.

Featherstone riu.

— E um dos homens que deixei aqui para vigiar os acontecimentos. Infelizmente o prefeito o afastou hoje — disse mais seriamente — não tive motivo razoável para retê-lo aqui, e atualmente é só com você, Holland, que conto para me auxiliar. Confidencialmente lhe digo que acredito que Miss Howett está em sério perigo, cuja natureza não lhe posso explicar, porque ainda não conheço; contudo, algum motivo que ainda não compreendo, levou Bellamy a conceber um ódio terrível à pobre menina e, a menos que eu esteja em grande engano, ele lhe prepara alguma desgraça. Se quiser permanecer aqui, irei ter com o redator e explicar-lhe-ei. Dir-lhe-ei o bastante para fazê-lo compreender que de Garre Castle sairá uma grande história que será privilégio seu, se me auxiliar.

— Que quer que eu faça?

— Quero que passe a maior parte dos dias na cama e a maior parte das noites a vigiar Lady's Manor.

— fio fantasma que você procura?

— file não me preocupa, pois que pode guardar-se a si mesmo; basta-me saber que não é seu intuito causar qualquer mal a Miss Howett. Minhas suspeitas recaem em Coldharbour Smith que é mais perigoso, creia-me, que o mais cruel arqueiro.

De volta à cidade naquela noite, fez parar o carro no cimo da estrada do outeiro de Garre e olhou para trás. As tristes linhas do castelo desenhavam-se nos matizes sangüíneos do ocaso, ameaçadoras e sinistras. Que segredos encerravam aquelas muralhas, que tragédias jaziam ali escondidas! Eram mistérios ainda não revelados!

 

A MULHER GRISALHA

Uma noite, às oito horas, uma criada trouxe para a biblioteca a mesa redonda em que estava disposta uma farta refeição; pôs-lhe ao lado uma cadeira e, com um assustado "O jantar está servido, senhor", retirou-se. Abe Bellamy, que não lhe parecia ter notado a presença, assustou-se ao som de sua voz e, murmurando alguma coisa que ela não compreendeu, encaminhou-se para a porta que fechou; sem se sentar à mesa, começou a distribuir os alimentos nos pratos; ao terminar, puxou a escrivaninha até que o tapete, sobre o qual estava colocada, estivesse livre, enrolou-o cuidadosamente e de uma gaveta da mesa tirou um copo pequeno, cuja vista tinha muitas vezes despertado a curiosidade de Julius. Com ele fez pressão num dos quadrados de madeira que formavam desenhos e que em se levantando, deixou ver um buraco de fechadura em que introduziu a chave que costumava trazer à cadeia; com uma volta abriu-a, e então, suspendendo uma espécie de alçapão que se adaptava tão perfeitamente ao soalho que passava despercebido, descobriu uma laje em que havia outra fechadura; novamente usou a chave e, colocando o pé sobre a pedra, fez pressão fazendo mover-se um eixo de aço que a abriu deixando ver uma escada. Voltou à mesa, tomou de um prato e desceu; posto estivesse escuro, andou até um banco onde o colocou e, acendendo um fósforo aproximou-o de um bico de gás. Na extremidade do quarto havia uma porta que abriu. Agora já se achava fora dos muros do castelo, pois a abertura fora colocada no alicerce que por muito espesso tinha a aparência de um túnel pequeno. Além, havia um quarto grande e depois dois compartimentos menores; o primeiro era iluminado por bicos de gás providos de globos opacos, tinha pilares maciços de pedra e o teto era formado por uma abóbada sombria; era mobiliado luxuosamente. Belos tapetes cobriam-lhe o piso de pedra, tapeçarias de valor escondiam as paredes; havia cômodas cadeiras e sofás. Sobre uma mesa pequena, estava um grande vaso de prata com algumas flores. Os móveis que guarneciam os aposentos tinham sido trazidos furtivamente pelo velho, uns após outros. Depôs o prato em cima da mesa e olhou em torno: não havia ninguém; andou até a cozinha pequena perfeitamente provida do necessário, onde havia uma abertura através da qual se via um quarto de banho.

Com um resmungar de contrariedade, voltou ao quarto principal.

— Elaine! — chamou e uma mulher veio vagarosamente do terceiro compartimento.

Vestia um informe roupão escuro e seus movimentos eram vagarosos e negligentes.

— Aqui está o jantar. Já pensou no que aconteceria, se eu a esquecesse? Suponha que eu desapareça — e ria ao pensamento — quem a encontraria? Morreria de fome e daqui a centenas de anos, milhares talvez, achariam-na e seria considerada como uma daquelas antigas rainhas, hein, Elaine?

Já tão habituada estava a ouvir aquelas palavras que não deu atenção, e o único sinal que fez para demonstrar que havia compreendido o visitante, foi trazer uma cadeira para junto da mesa e sentar-se. Enquanto fazia a refeição mecanicamente, ele a contemplava. Oito anos de vida solitária no subterrâneo, estavam estampados na palidez daquela face.

Nem todas as privações, nem as humilhações a que era submetida diariamente, nem os insultos e ameaças que a brutalidade de Abe Bellamy a fazia suportar, tinham conseguido abatê-la ou destruir a beleza singular daquela mulher, cujos cabelos grisalhos eram o único indício de que já não contava trinta anos. Ele, encostado a um dos pilares, com os braços cruzados, fitava-a.

— Hoje vi Valéria, Elaine Held. Ela lhe teria enviado muitas palavras amorosas, se soubesse que estava aqui. Dentro de um mês, querida, ela será uma noiva feliz. Lembra-se de Coldharbour Smith?

— Não acredito, quando me diz ter visto Valéria; tão pouco creio que ela esteja aqui perto; é uma de suas tantas mentiras.

— Conhece Coldharbour Smith? — repetiu ele.

Mrs. Held não respondeu, mas a mão que lhe levava o copo d'água aos lábios tremia.

— Você deve bem lembrar-se dele, — continuou o velho levantando a voz ameaçadoramente — e o verá em breve. Há alguém que anda a vigiar o castelo e ouviu suas explosões de mau humor, um dia destes. Sim, senhora, achava-se ele em nossa casa, quando lhe escutou o queixume, e uma gargalhada horrível ecoou no subterrâneo... Sim, é um rapaz inteligente que, tomando a temperatura da terra, encontrou sua cozinha; mas... frustrei-lhe os planos.

Ela conservou-se silenciosa, e aquele sistema não o irritava mais.

— Valéria é encantadora — continuou ele — sim, a menina é Elaine Held em sua mocidade — o mesmo olhar, a mesma distinção, o mesmo orgulho... Em um mês estará casada.

Ela se levantou com um suspiro, olhou-o por momentos, e falou:

— Estou convencida de que Valéria morreu.

— Sempre a mesma loucura. Quis desposar você Elaine, isso era-lhe uma ventura; hoje, não a aceitaria por esposa.

— Apraz-lhe repetir sempre as mesmas palavras; oh, meu Deus!, era bem preferível que eu tivesse morrido! — e cobriu o rosto com as mãos e ouviram-se soluços.

— Por que não morre? Porque é covarde. É tão fácil... uma volta à chave do gás e vá dormir... tem também facas, quer afiá-las?

— Não, não quero morrer assim. Viverei para vê-lo castigado por todo o mal que tem feito no mundo, por todo o sofrimento que tem derramado nos corações humanos, Abe Bellamy.

Ele mostrou os dentes com escárnio, moveu-se vagarosamente e segurou-a pelos ombros.

— Você tem medo da morte! — exclamou, contemplando-lhe a face — eu não! Espero pelo dia em que serei abatido lá em cima e estou certo de que Elaine morrerá aqui, sem que ninguém suspeite onde está. E o mais doce pensamento que levarei comigo. E as pessoas que retirarem o meu corpo do castelo, hão de caminhar sobre seu túmulo, sem o saberem e sem que você os conheça.

Ela estremeceu.

— Você não tem coração humano!

Abe Bellamy escarnecia. Tomou o prato e, balançando-o na palma da mão, dirigiu-lhe ainda um olhar de desdém com estas palavras:

— Nunca a encontrarão! Nunca! Guardá-la-ei aqui.

Dirigiu-se à porta, bateu-a fortemente e, passando pela escada, atingiu a biblioteca; o alçapão de pedra retomou sua posição com um estalido ameaçador.

 

O FANTASMA

As feras de Garre habitavam agora um antigo telheiro que havia abrigado os cães de caça dos de Curcys; Abe Bellamy dera ordens sobre a alimentação dos animais que recebiam sua última ração à tarde, ainda cedo, deixando-os com fome propositadamente; um cão faminto está sempre alerta e é mais selvagem, pensava o velho. Era ele quem lhes dava a sua primeira porção e costumavam esperá-lo diante da porta do quarto, o olhar inteligente voltado para ele.

— Amanhã irá à cidade, Savini, e quero que volte cedo. É verdade que está casado?

— Sim, senhor — respondeu Julius.

Quem lhe teria dado essas informações? — pensava o secretário; — Featherstone certamente não teria sido. De súbito, uma explicação lhe ocorreu — devia ser Coldharbour Smith, o homem de quem a lealdade era desconhecida.

— Dizem que tem uma bela esposa — disse Bellamy, fitando no outro um olhar perscrutador. — É encantadora, não?

— Sim, senhor.

— Smith tem um negócio para ela — e voltou a examinar um jornal ilustrado que tinha nas mãos. — Penso que não a priva de ganhar dinheiro... honestamente?!

Julius deixou passar despercebido o insulto, ocupado em descobrir o plano do milionário; era, na verdade, um fato inesperado, posto que ele nem por um momento imaginasse o patrão capaz de agir desinteressadamente, pois não era seu sistema.

— Estou satisfeito de ouvir-lhe tantos elogios para minha esposa; Fay é uma boa menina e nada sabe da vida que levei...

— Não minta, ela pertencia a seu bando; se fosse honesta, eu não pensaria em lhe dar trabalho, e o que é mais, Smith não lhe aceitaria o concurso. Escreva-lhe, Savini... não, vá falar com ela amanhã, diga-lhe que se Smith pedir o seu auxílio, ela lhe dê, pois será bem paga.

Com o característico movimento de cabeça, deu a entrevista por terminada e Julius foi se deitar, quando viu que o velho ia em busca dos cães, pois não costumava esperar-lhes a chegada. Em pouco Bellamy estava de volta e os animais esperaram que ele fechasse a porta para segui-lo na escada; pararam diante do quarto, olhando em torno; um deles estendeu-se no soalho, os outros farejavam a porta dos aposentos de Savini.

Reinava silêncio no castelo; o tique-taque de um velho relógio no vestíbulo era ouvido por Julius que, meio adormecido, ainda pensava no misterioso interesse do velho por Fay. Passava da meia-noite, quando ouviu um ruído de passos cautelosos no corredor e o rosnar de um dos guardas. Abe também ouviu e, despertado, saltou do leito e olhou para fora. Os cães caminhavam no passadiço e ao vê-lo, tornaram a rosnar.

— Quietos! — rugiu o homem com selvageria e como um "já" as feras deitaram-se, as patas estendidas, os olhos fitos no dono.

Abe fechou à chave as portas e em poucos minutos dormiu. Duas horas soavam, quando a porta das provisões se abriu vagarosamente, polegada por polegada; tão cuidadosos eram os movimentos, que o cão deitado a umas doze jardas não percebeu. Tornaram a fechá-la, mas no soalho junto da parede, havia agora uma grande tigela de leite. O primeiro a descobri-la foi o animal que estivera no vestíbulo, embaixo, e o ruído que fazia ao beber o leite chamou a atenção dos companheiros que se reuniram em torno da tigela que em breve estava vazia; um por um se deitou, lambendo as gotas do líquido que lhes tinham caído nas patas. Todos estirados adormeceram; cinco minutos haviam passado quando uma figura verde entrou furtivamente, subiu a escada e apagou a luz. Moveu-se na escuridão e curvando-se, levantou um dos cães que abriu os olhos; o homem acariciou-lhe as orelhas sedosas e ele adormeceu num segundo.

Parou imóvel à entrada do quarto de Bellamy. Esbelta, muito alta parecia; a face branca intumescida era grotesca, e aterradora a sua imobilidade. Numa das mãos segurava um grande arco verde e numa aljava que lhe pendia ao lado, viam-se as penas verdes das flechas. Esperou por muito tempo e então, inclinando-se, introduziu no buraco da fechadura um instrumento agudo; prendeu ao trinco um arame fino que estava dentro da aljava e, sem nenhum ruído, abriu a porta e descobriu o revestimento interno de couro; novamente o objeto foi aplicado e desta vez à extremidade da haste de ferro que servia de reter o trinco, quando se levantava. O instrumento parecia magnetizado, pois, através da barra de ferro, conseguiu levantar o trinco suficientemente para que a porta se abrisse...

Quando Abel Bellamy despertou, o mostrador fosforescente do relógio, ao lado da cama, marcava quatro horas e um quarto.

Acostumara-se, apenas acordava, a verificar se tudo estava em ordem; como visse as portas abertas, fechou-as e deitou-se outra vez, acomodando melhor os travesseiros; ouviu um fraco tinir de aço, e levantou-se para apanhar a corrente com a chave que havia caído; não dormiu e deixou-se ficar pensando; suas cogitações não eram agradáveis.

Valéria Howett! Devia agora repousar e em seus sonhos não seria advertida do perigo que a ameaçava, pensava ele.

De certo modo se enganava; a menina não dormia naquele momento.

Para todas as jovens há um período na vida em que deixam de ser livres e independentes e compreendem que estão sob a guarda de outrem. É suave a lembrança, mas também pode ser irritante, principalmente quando não há nada definido nesse domínio e os laços são ainda vagos e incertos. Tal era o estado de espírito em que se achava Miss Howett, diante de Jim Featherstone que, embora não lhe tivesse falado de amor, estava tão inteiramente ligado a seus pensamentos que se algum homem a tivesse pedido em casamento ela não se julgaria livre para aceitar. Ainda nenhuma promessa haviam trocado, nem mesmo ela sabia, se ele poderia desposá-la. Experimentava ordenar as idéias, recordando as circunstâncias em que havia encontrado o Chefe da Segurança, mas via-se obrigada a abandonar suas ilusões, pensando que, com toda a probabilidade, ele via nela unicamente "um caso" interessante de sua profissão e, apesar daquela vibração estranha de sua voz ao cumprimentá-la no portão, ela não podia esquecer que seu pai o havia procurado para que a vigiasse e, pensando assim, queria achar uma explicação mais lisonjeira. Parecia-lhe que há muito não se encontravam, bem que há poucas horas se tivessem separado. Tão só se sentia em sua ausência, e tão grande era a falta que ele lhe fazia, que, revoltada contra esse sentimento inexplicável para ela, resolutamente rasgou a carta que lhe havia escrito. Achava-se na décima página e não lhe havia dito ainda a metade do que sentia; não era possível que ele se interessasse pela sua vida, pensava consigo mesma, ao contemplar as folhas rasgadas que havia atirado à cesta de papéis, e foi ao perceber que quase inconscientemente havia recomeçado outra, que, com decisão, apagou a luz e subiu para o quarto.

Mr. Howett havia-se recolhido mais cedo que de costume e ela, deixando uma criada encarregada de fechar a casa, deitou-se, aborrecida de sua própria inconseqüência. Alguma coisa a havia feito esquecer a urgência das suas pesquisas em torno de Elaine Held, e ela não podia achar a razão.

O quarto de Valéria dava para o jardim de Lady's Manor e além da sebe ficava a estrada. O investigador encarregado de vigiar-lhe a propriedade tinha sido afastado e ela, olhando através da janela, viu um homem que andava pelo caminho e sorriu interiormente, percebendo que era Spike Holland que se havia encarregado da sua guarda; era ela ainda uma vez, objeto dos cuidados de Jim. Comumente dormia bem; naquela noite, porém, passou-se uma hora antes que pudesse adormecer. Acordou duas vezes e, na segunda, resolveu levantar-se e tomar um copo de leite. Olhou para a estrada deserta e não viu Spike que, pensava ela, devia ter ido descansar; vestiu um roupão, procurou os chinelos e acendeu uma vela; tinha já aberto a porta do quarto, quando o som de vozes que murmuravam fê-la apagar a luz. Seu coração batia apressadamente e foi até a balaustrada para olhar o vestíbulo. Nada podia ver, mas as vozes eram distintas e alguém chorava; não sonhava, estava certa disso. Deveria despertar o pai?

Tinha já levantado a mão para bater à porta, mas hesitava. Novamente ouvia vozes que segredavam embaixo, e os soluços haviam cessado. Não podia ser alguma criada, pois se alguém estivesse doente, a menina seria chamada em seu socorro; abrindo a porta do quarto de Mr. Howett, entrou, e na escuridão, foi até o leito, procurando-o; a cama estava vazia. Não podia acreditar na evidência de suas observações; com mão trêmula acendeu uma vela e viu que ele não se havia deitado, o pijama dobrado estava sobre o travesseiro. Sentia-se desorientada mas cheia de coragem, pois devia ser Mr. Howett que provavelmente havia sido procurado. Tomando a luz, desceu a escada, e embora o fizesse cuidadosamente, seus passos foram sentidos e cessou o murmurar. Foi direto à sala de visitas, pois as vozes pareciam vir de lá e experimentou a porta que estava fechada.

— Quem está aí? — perguntou aflita.

Por um momento ninguém lhe respondeu e ela ouviu um soluço abafado.

— É teu pai, Valéria.

— Que aconteceu? — interrogou com um suspiro de alívio. — Tenho em minha companhia um amigo, mas... já vou ter contigo, — foi a resposta hesitante.

— Mas, quem é papai? — insistiu.

— Vai, querida, vai descansar; não convém que as criadas se levantem.

Embora contrariada, voltou para o quarto. Quem era o amigo que o visitava a tais horas? E por que o pai não se havia deitado? Não era seu hábito; como homem sistemático, não costumava alterar o curso de sua vida e ela não se lembrava de ter visto fatos desses; estava certa de que ele odiava as coisas misteriosas, e agora o via participar do maior dos mistérios. Embora nada pudesse compreender, sentia-se mais calma, pensando que ele estava lá; mas... quem seria o outro?

Sentou-se na cama com a porta aberta, ficou a escutar; percebeu que alguém vinha da sala e ouviu o ruído da porta da entrada que se abria. Curiosa, levantou-se e foi até o topo da escada; olhou para baixo. No centro do vestíbulo, escassamente iluminado, estava o "Arqueiro Verde".

 

A DÚVIDA

Deitando um olhar à figura sinistra, Valéria voltou apressada para o quarto e fechou a porta. Era incrível, impossível, ia além dos limites da razão. Seu pai! E quem poderia ser o visitante? Ouviu o ruído do motor de um automóvel, mas não pôde vê-lo e instintivamente compreendeu que o estranho, cujos soluços havia escutado, tinha partido. Mas... Mr. Howett — o "Arqueiro Verde"! — O cérebro da menina trabalhava.

Sentou-se, a cabeça entre as mãos, imóvel, sentiu que o pai se recolhia e fechava a porta do quarto à chave.

Valéria desceu cedo para almoçar, a cabeça estalava-lhe, estava fatigada, mas ansiosa por saber a explicação que lhe daria o pai sobre os acontecimentos da noite. Resolvera ocultar que lhe conhecia o segredo e ao encontrá-lo pela manhã, nada deixou transparecer de suas preocupações.

— Sua visita o deixou muito tarde, papai — disse, sentando-se e observando-lhe a palidez; evidentemente ele não dormira.

— Sim, Vai — murmurou, evitando-lhe o olhar. — Prometi que te iria ver ontem à noite, não foi? Eu... bem... achava-me um tanto comovido, Ficarias magoada se não te explicasse o que se passou?

— Certamente não, meu pai — respondeu carinhosamente, embora estivesse contrariada.

— Penso que te assustaste, querida, e é o que eu não queria que acontecesse. Foste a meu quarto?

Ela fez um sinal de assentimento.

— E encontraste o leito vazio; imagino como teria te causado aflição! Quanto daria para que não houvesses despertado!

— Sua visita era, então, muito importante?

— Muito, na verdade — respondeu — Valéria, não me agrada a maneira como estão preparados estes ovos.

Era costume seu referir-se à refeição, quando desejava desviar o assunto que os entretinha à mesa.

— Hoje irei à cidade — disse, quando haviam já terminado o almoço. — Lá está um homem vindo de Filadélfia a quem preciso falar; talvez volte tarde.

Fora tão minucioso em explicar-lhe os motivos que o levariam a Londres, que ela pensou que não havia sinceridade em suas palavras e que ele não lhe dera a conhecer a verdadeira razão que o movia; entretanto, não o interrogou, aparentando nada achar de estranho naquela maneira de proceder, embora se recordasse que no dia anterior ele dissera que somente uma moléstia o afastaria do trabalho do livro que escrevia.

De algum modo causava-lhe satisfação o afastamento de Mr. Howett, pois desejava obter das criadas certas informações e talvez uma busca na sala a levasse a descobrir a identidade do visitante.

Ele partiu logo após a refeição, e Spike, vendo-o sair, dirigiu-se apressadamente a Lady's Manor.

— Há alguma novidade, Miss Howett? — interrogou ansioso o repórter.

— É uma pergunta que devia ser feita ao anjo da guarda dos Howett — e ela sorriu à expressão de contrariedade do jornalista.

— Seu anjo da guarda sentou-se ao pé de uma sebe e caiu em estado de coma — e, vendo o susto que lhe causava, explicou: — adormeceu. Devia ter me preparado para cumprir o meu dever, mas a verdade é que os dias são tão cheios de interesse que não penso em repousar antes da hora da vigília. Algo estranho se passou no castelo.

— Que foi?

— O nosso "amigo verde" trabalhou na noite passada e, ao acordar pela manhã, o velho encontrou os cães sob os efeitos de um poderoso narcótico.

— Outra vez narcotizados?

— Sim, estive com Julius que me disse que Bellamy daqui por diante conservará os guardas em seu próprio aposento; está furioso. Reuniu todos os criados, interrogou-os e falou em chamar a polícia.

— Pobre Mr. Savini! Deve estar em sérios embaraços!

— Não tanto como pensa. Nunca o vi tão atrevido e espirituoso. Fala do caso zombando, e diz que melhor seria que o "Arqueiro Verde" houvesse envenenado as feras do que apenas adormecido. Mr. Howett saiu muito cedo?

— Tinha uma entrevista em Londres.

— A propósito, falei pelo telefone com Jim Featherstone esta manhã.

— Mr. Holland, viu passar um automóvel esta madrugada?

— Sim era um "Delarge" ensanefado, apesar de não estar chovendo; ao vê-lo, pensei donde viria tão cedo. Por que pergunta?

— Vi-o também, acordou-me — respondeu, dissimulando a verdade e o interesse de Spike se dissipou.

— Não viu quem o guiava?

— Apenas de relance. Foi a luz do farol que me despertou; deve ter sono muito leve, Miss Howett, pois, apesar de ser um carro grande, o ruído que fazia era insignificante. O que me chamou a atenção foi que uma mulher, envolta numa capa, ia ao volante.

— Havia alguém com ela?

— Não posso afirmar. Mas por que é tão insistente em suas interrogações? Houve algum fato extraordinário em Lady's Manor, esta noite?

— Não — respondeu ela imediatamente — apenas me interessava saber quem viajara a tais horas.

Apenas Spike se retirou, Valéria procedeu ao interrogatório das criadas, que nada puderam adiantar. Na sala, não encontrou o que lhe revelasse quem era o visitante. Deveria examinar o quarto do pai? O respeito que merecia o homem cuja caridade a havia salvo, fê-la rejeitar o plano e reduziu-a à evidência do que observara.

 

UMA PROPOSTA A FAY

Antes da chegada de Julius, Fay Clayton tinha recebido uma visita que não lhe agradou, pois a reputação de que gozava Coldharbour Smith não era das melhores.

— Julius não está... trabalha fora.

— Pensa que não sei? Não está ao serviço de um amigo meu, Mr. Bellamy?

— Um amigo seu — exclamou Fay — aprecio sua maneira de falar, entretanto não lhe posso permitir a entrada, pois não devo recebê-lo.

— Esqueça-se disso — respondeu Smith — preciso falar-Ihe e vim de Limehouse para lhe oferecer algum dinheiro; quero auxiliar Julius também. Pagá-la-ei, Fay, se me atender.

— Entre — disse ela apressadamente, abrindo um pouco mais a porta — não se demore, porém; tenho um cozinheiro e uma criada — acrescentou expressivamente.

— Pouco me importa que estivesse em sua casa mesmo o Arcebispo de Canterbury; vim para tratar de um negócio e Julius estará aqui, dentro de um quarto de hora.

— Como sabe disso? Esteve com ele?

— Não, Bellamy mandou-o à cidade e permitiu-lhe que viesse vê-la.

— Então ele sabe?

— Sem dúvida, uma pessoa como Bellamy sabe todas as coisas. É a minha influência que mantém Julius naquele cargo, pois quando o velho percebeu a espécie de homem que ele é, quis despedi-lo, mas eu lhe disse...

— Falemos do negócio, é muito cedo para ouvir contos. Creio que ele mesmo tenha contado sua vida a Mr. Bellamy.

— Então somos ambos mentirosos, pois o milionário aceitou Julius sem ouvir a ninguém, nem a mim, nem a ele; isso, porém, não importa, Fay — disse, baixando a voz e inclinando-se — ofereço-lhe quatrocentas libras, para não fazer nada.

Ela o fitou com firmeza.

— Não prometeria quatrocentas libras a quem nada fizesse, Smith; que quer? Não cometerei vilezas, entendeu? Se quer alguém que o divirta, procure outra, porque me convém ficar fora do jogo.

— Bonito procedimento — disse Smith admirado — estou satisfeito de ouvi-la, porque também eu ficarei fora dele. O que lhe quero propor é tão direito como... bem, é muito direito. Conhece a menina Howett?

Fay fez um sinal de assentimento.

— E uma bela menina, não? Teve uma discussão com ela em El Moro's?

— Não foi uma discussão; apenas lhe disse "como vai"? E foi tudo.

— Assim me haviam contado; fui a Moro's e lá me relataram o fato. Pretendo fazer um gracejo com Featherstone que está enamorado dela e anda sempre em torno da casa dos Howetts; é um homem orgulhoso e pensa que agrada a todos.

— E que gracejo é?

— É mais ou menos isso: Suponha que você vai visitá-la — poderá ir num automóvel luxuoso, porque não há limite para as suas despesas — e tem com ela uma palestra; não haverá dificuldade, porque a conhece. Agora, isso é o importante, — e levantou o dedo ameaçadoramente —... isso, não dirá a Julius.

— Estou habituada a nada ocultar de meu marido.

— Talvez sim, talvez não, mas é preciso que nada lhe conte, ouviu?

— Bem, diga o que quer.

— Irá procurá-la como amiga — e Smith falava apressadamente, pois havia se demorado e temia que Julius entrasse a cada instante. — A jovem anda à procura de alguém — uma mulher. Sem razão, julga que sua mãe está em Garre Castle, entretanto a verdade é que morreu. O que quero, Fay, é que vá vê-la e lhe diga que viu Mrs. Held num lugar oculto cujo conhecimento lhe veio acidentalmente e que sabe um caminho secreto para lá, por onde poderá conduzir a jovem qualquer noite, Se ela lhe falar em ir ter com Featherstone, avise-a de que, se a polícia vier, há uns doze meios de retirar do clube Mrs. Held a quem nunca mais verá; lembre-se de dizer isso.

— E que acontecerá a Miss Howett?

— Nada; apenas a trará ao clube, onde lhe proporcionaremos um meio de se divertir e uma grande ceia...

Fay Clayton sacudiu a cabeça.

— Não quero me envolver nisso, embora seja uma loucura que a leva a procurar a mãe. Que lhe acontecerá afinal, quando chegar a Golden East? Eu mesma não iria lá, se não acompanhada de um homem em que pudesse confiar.

Smith sentou-se e olhou-a de mau humor.

— Pode dizer a Julius que o meu intuito é contrariar Featherstone, não o faça entretanto conhecedor do plano.

— Não sei se lhe terei falado bastante claro e repito que não me envolverei nesse negócio; procure outra mulher.

— É você quem me deve ajudar; o que é que teme? Nenhum mal acontecerá à menina, pois é apenas um gracejo que quero fazer ao investigador.

— Embora eu esteja sempre bem humorada — disse Fay com decisão — não posso compreender a graça desta história.

— Se Savini a aconselhasse...

— Nem um cento de Savinis me levariam a praticar esse ato indigno, é o que lhe tenho a dizer, Smith; aí vem Julius.

Ouviram o ruído da porta que se fechava e Savini entrou. Estava surpreendido, mas não agradado, de encontrar Coldharbour Smith.

— Fazia uma proposta à sua esposa, Julius, e pode ser que possa mover-lhe o bom senso. Preciso de sua colaboração num pequeno negócio e será bem recompensada — quatrocentas...

— Bellamy falou-me de quinhentas — interrompeu Julius — para depois se dirigir a Fay: — não quer aceitar, querida?

— Nem por um milhão — respondeu ela — e o marido compreendeu que era irrevogável o seu propósito.

— Discutam o assunto — disse Smith, levantando-se para sair — e não esqueça, Fay...

— Mrs. Savini — corrigiu ela — tal é o meu nome perante a lei; desejo ser tratada assim.

— Mrs. Savini"! — exclamou Julius à saída do visitante, depois de perceber que ele se havia afastado, continuou: — o velho quer então que o auxilie num trabalho? Qual é?

— Não é um trabalho digno, Julius, e não quero concorrer para uma baixeza; não lhe posso dizer entretanto o que quer ele de mim porque lhe prometi que não o faria, além de que em nada melhorará a situação, se chegar a seu conhecimento.

— Não insisto, posto não possa achar o motivo por que tem tanta aversão à proposta.

— Modificou seus planos de sair do país? Julius fez um sinal negativo e ela continuou:

— Não obteve dinheiro?

— Tenho-o no bolso, mas uma renda certa, sem risco, é melhor que uma grande soma, para cuja obtenção se correm perigos; além disso, Featherstone soube da fuga que eu preparava; nada lhe contei por carta, receoso de que pudessem descobrir o projeto, entretanto ele está ciente de tudo, até da maneira por que eu viajaria; é um homem inteligente o investigador — concluiu, com certa relutância em manifestar a admiração que ele lhe merecia.

Julius não procurou conhecer os pormenores do plano de Smith; era uma combinação original, um acordo tácito não se intrometerem nos negócios um do outro, excelente sistema que por vezes os salvou de sérios embaraços; da negativa de Fay, ele inferiu que não só era impraticável o plano, como inútil insistir, pois bem a conhecia.

Julius Savini era aventureiro sem escrúpulos, ladrão sem remorsos, trapaceiro cuja consciência não se alterava às investigações da polícia. Amava porém aquela jovem que passara a infância e se desenvolvera numa atmosfera impregnada de maldade, sob a proteção do pai — Baldie Clayton, criminoso contumaz. Desejava para ela uma vida, se não abastada, pelo menos livre da ansiedade, e fora esse pensamento que o levara a escolher a menos arriscada e mais fácil maneira de usurpar o dinheiro alheio, de preferência a enfrentar os perigos de um grande roubo.

— Voltarei ainda hoje; deixei o velho quase desvairado. O tal fantasma esteve lá na noite passada.

— O "Arqueiro Verde"?

— Como ele entra no castelo, não pude ainda descobrir, é coisa inconcebível. E, se fosse apanhado...

— Qual é a sua opinião a respeito dele? Há quem pense que você não o desejaria ver preso.

— É provável.

— Sinceramente, Julius, não será uma farsa sua esse arqueiro verde?

— Minha? — interrogou admirado. — Julga que eu teria a loucura de enfrentar aqueles terríveis cães? Nem todos os milhões de Bellamy me levariam a arrostar tais perigos — e Savini falava a verdade.

Depois de sua partida, Fay atendeu a um chamado do te'e fone — era Smith.

— Falou a Julius?

— Sim.

— E se teria tornado mais sensível?

— Sou justamente a mulher mais sensível da cidade.

— Aceitará então a proposta?

— Nunca me persuadiria a fazê-lo.

— Então Julius perderá o emprego — disse a voz selvagem do homem — e você ficará mal colocada. Prejudicará seu marido, a quem aprecio tanto, que desejaria fazer ir-lhe às mãos uma grande quantia.

— Isso é verdade, mas o que me propõe é indigno.

Com essas palavras, depôs o receptor. Fay não duvidava da maldade de Coldharbour Smith e, não se sentindo segura, sua maneira de agir era de defesa. Não era seu hábito intervir nos negócios de outrem, mas seu pensamento não se afastava da intenção de avisar Valéria Howett do perigo que corria. Lembrou-se de chamar para Garre e soube que em Lady's Manor não havia telefone. Ocorreu-lhe então que Julius lhe falara em Spike Holland e pediu ligação para Blue Boar; foi-lhe dito que o jornalista não estava e não voltaria antes de uma hora. Não havia nada a fazer, a menos que... Estava irresoluta. Poderia escrever à menina, contando-lhe quanto Smith havia sugerido e deixando que tomasse suas medidas de precaução. Era de justiça dizer que era odiosa a Fay Clayton a idéia de ir ter com James Featherstone; em certas circunstâncias, pensava ela, era-lhe permitido avisar a vítima; sentia-se porém diminuída em sua própria estima, se cogitasse de despertar a atenção da polícia.

Valéria estava no correio da vila, que era também a estação telefônica, e esperava os selos que pedira, quando a avisaram de que houvera um chamado para Lady's Manor; como não havia aparelho na propriedade, a pessoa que falava pedira ligação para Blue Boar, procurando Mr. Holland que não se achava lá.

— Quem era? — perguntou Valéria curiosa.

— Era uma voz de mulher.

Miss Howett estava admirada; as poucas senhoras que conhecia sabiam que em sua casa não havia telefone e o que mais a preocupava era que o chamado para Spike deixava perceber certa relação com o castelo.

Devia ter sido James Featherstone e era provavelmente sua datilografa quem falara.

— Pode ligar para um número de Londres? — perguntou ela e, em dez minutos, falava com James.

— Não a chamei, Valéria — disse ele — e em meu escritório não há senhoras. Quem pensa que poderia ter sido?

— Não tenho a mais leve idéia. Julguei que fosse daí, porque procuraram Mr. Holland. Tem estado com ele?

— Sim, depois que foram narcotizados os cães.

— Foi original, não acha? Não pensou que seria conveniente vir fazer uma investigação?

— Irei amanhã. Gostaria que o fizesse ainda esta noite? — perguntou ele, e havia tanto ardor em sua voz, que ela corou.

— Não, amanhã está bem, — disse apressadamente e terminou a palestra.

Quem teria sido? — pensava ela ao voltar para Lady's Manor. Quem sabe se a mulher cujos soluços havia escutado, e então quem era ela? Cem vezes tornara à mesma interrogação e resolvera, para sua própria tranqüilidade, pedir ao pai que lhe revelasse o segredo. Ao passar pelos portões do parque de Garre Castle, viu Abe Bellamy que caminhava em direção à casa. Rapidamente ele se voltou e ela lhe fez um cumprimento cortês que pareceu passar-lhe despercebido, pois nem sequer levou a mão ao gorro, apesar de a ter seguido com o olhar até perdê-la de vista.

 

O CÁRCERE VAZIO

De volta, Julius encontrou no parque o milionário que parecia aflito por vê-lo, pois fez parar o carro em meio caminho, para que o secretário descesse.

— Viu sua esposa?

— Sim, senhor.

— Fará ela o que eu... o que Mr. Smith deseja?

— Não — respondeu Julius — não quer ter parte no negócio.

— Suponho que sabe que isso significa que vai ser despedido.

— Sinto muito, senhor...

— Dê-me o dinheiro — rugiu Bellamy, e o secretário passou-lhe às mãos o que recebera no banco.

Savini já ia perto da entrada do vestíbulo, quando Abe o chamou.

— Disse-lhe ela o que queria Mr. Smith?

— Não.

— Assim devia ser — continuou Bellamy, lançando-lhe um olhar perscrutador.

O milionário queria o jantar mais cedo naquele dia, pois tinha saído sem ter merendado. À mulher grisalha pouco lhe importava sua ausência, pois tinha uma boa provisão de conservas de que se servia, quando Abe passava dias sem lhe fazer uma visita. Uma vez, propositadamente, deixara que se lhe esgotassem os alimentos e dois dias não desceu ao cárcere; ela, porém, reconhecendo-lhe a malícia, deixou passar o incidente sem comentário. Se o castelo era a menina dos olhos do milionário, aquela prisão secreta era-lhe ainda mais cara. Ele próprio a havia mobiliado, feito a instalação do gás e os meios de ventilação; iluminá-la à eletricidade constituía sério perigo, pois um curto-circuito podia indiscretamente revelar-lhe a existência e seria difícil esconder convenientemente os fios. Durante uma semana havia trabalhado para fazer a ligação de uma das velhas chaminés do edifício principal com o subterrâneo, para conseguir uma renovação constante de ar.

O jantar foi trazido às seis horas e tinha as proporções costumadas. Julius que fiscalizava a disposição de tudo na mesa, se retirou. Desta vez o velho fez a refeição antes de levar os alimentos à infortunada hóspede. Estava preocupado com o "Arqueiro Verde". Como seria interessante capturá-lo e encerrá-lo naquele "pequeno repouso" subterrâneo, fechando as portas de ferro à sua vista, para que o tempo passasse, ano após ano, até morrer sem que ninguém lhe conhecesse o paradeiro! O alçapão de pedra dos cárceres superiores podia ser cimentado, podia deixá-lo lá até que enlouquecesse. O coração de Abe Bellamy batia mais apressadamente a esse pensamento. Quem era éle? A princípio suspeitara de Julius, agora estava inclinado a pensar que bem podia ser Featherstone. E se fosse uma mulher? Seria Valéria? Que doce vingança! Poderia preparar para a menina uma prisão em nível inferior. Sacudiu a cabeça; o outro caminho era melhor, Smith! Riu ao se levantar, e puxou a escrivaninha. Naquela noite, tudo fazia vagarosamente, pois não estava disposto a pressa. Levantou o alçapão, mas não desceu a escada. Estudava o melhor meio de castigar a jovem — deveria entregá-la a Smith?... Não depositava confiança em seu auxiliar; seria ele capaz de fazer um inferno a vida da filha de Elaine Held?

Levando a bandeja, desceu na escuridão, acendeu o gás e abriu a porta; chamou pela mulher, dirigindo-se ao quarto de dormir.

— Aqui tem seu jantar, responda quando a chamo. Somente o eco lhe repetiu as palavras.

— Elaine! — gritou.

Teria seguido seu conselho? Estaria morta? Teria procurado na asfixia o fim daquela vida infeliz? Entretanto, não sentia cheiro de gás.

Abriu a cozinha, estava vazia; no quarto de banho, não havia ninguém. Corria de um a outro compartimento como louco, procurava-a atrás dos pilares; empurrou o canapé e voltou para a porta; espreitou.

— Elaine! — chamou.

Elaine não se achava lá; havia desaparecido! Onde estaria? Devia estar ali, devia! Não podia ter saído! Os muros eram sólidos e até agora não encontrara as passagens secretas que diziam haver em Garre Castle. Examinou todas as pedras, todas as lajes do piso. Correu para o quarto de dormir, arrastou a cama, supondo que ela se tivesse escondido, para assustado — não a encontrou.

Sentou-se aturdido, a cabeça entre as mãos. A mulher grisalha fugira; mas por onde? Como? Não havia outro caminho a não ser o da biblioteca, mesmo que passasse pela porta... Não, não era possível, pois estava fechada. O "Arqueiro Verde"! Ainda o fantasma! Mas o arqueiro também não poderia ter passado através do piso. Nenhuma outra chave abria a fechadura que, como a do cofre, havia sido feita especialmente por um serralheiro alemão; a mesma chave fina servia para ambos.

Voltou à biblioteca, trazendo a bandeja, e examinou o alçapão de pedra, antes de fechá-lo. Não havia vestígios de que houvesse sido forçado! Ela não saíra por ali.

Eram perto de nove horas, quando deixou a biblioteca e Julius olhou-o atentamente — em três horas o semblante do velho havia mudado. Estava cadavérico, os olhos encovados, horrível.

— Peça uma ligação para Limehouse e diga a Sen que venha cá.

Savini estava admirado, pois o homem nunca tinha transposto a entrada de Garre Castle.

Sen era chinês e Abe Bellamy o havia encontrado numa visita a Seattle; era impenetrável; havia sido educado na missão americana em Hankowe, tinha a curiosa qualidade de entender quatro línguas e de não falar nenhuma, pois era mudo de nascimento. Foi esse último predicado que lhe assegurou o emprego. Abe pagara sua matrícula numa escola de condutores de automóveis e há oito anos, tinha-o a seu serviço; morava em cima da garage que Bellamy mandara construir num extremo do parque e levava uma vida simples, ocupando o tempo como nem o grande Roll fazia ao traduzir o Lun Yü o — livro dos livros — para o inglês.

Seu salário, ninguém além de Bellamy, conhecia; que fazia dele, nem mesmo o patrão imaginava.

Sen tinha um deus que era o milionário, posto ele não lhe houvesse dito mais de umas dozes frases no decurso de um ano. Da mudez parecia ter-lhe nascido um novo sentido, uma percepção penetrante do espírito de Bellamy, e era ele o único homem a quem o velho não mostrara o mau gênio; as ordens, dava-as por um telefone particular — uma pancada de Sen era o sinal que o havia entendido, duas que desejava que o recado fosse repetido. Era bem apessoado para um chinês: magro, olhos escuros e sombrios, feições belas, e no seu uniforme de condutor de carro, a verdadeira nacionalidade ficava disfarçada. Ao alcance da mão, no automóvel, trazia um certo número de cartões; um dizia — sou mudo mas compreendo-o; nos outros — gasolina, óleo, etc, tudo o que podia ser necessário para uma viagem. Sua habitação era completamente independente do castelo; evitava sempre o encontro de Julius e a única tentativa que o secretário fizera para se aproximar dele, tinha encontrado um olhar frio e fora correspondida pela retirada brusca de Sen.

Featherstone havia descoberto alguma coisa das poucas relações do homem com Abe e nela não havia pormenores que o interessassem. Uma vez, quando havia saído a conduzir o patrão à cidade vizinha, Jim deu busca em seus aposentos, mas não viu mais que uma grande biblioteca chinesa e uma série de quartos bem asseados.

A Abe tinha-lhe ocorrido instalar o chinês no castelo para que vigiasse o "Arqueiro Verde"; mas a impossibilidade de Sen falar, seria inconveniente e ele desistiu do que planejava.

Julius chamou o homem ao telefone e o sinal de que havia sido compreendido veio logo.

— Mr. Bellamy precisa de você para um mandado, não quer entretanto o automóvel.

Sen chegou pouco depois. Quando não estava no volante, usava seu quimono e com as mãos escondidas nas grandes mangas, foi à presença do velho.

— Tome um dos automóveis e vá a Newbury Junction, espere na estrada escura que vem da estação e mude a chapa do carro. Há de procurá-lo um homem a quem conduzirá; fará o que ele lhe disser e à noite voltará a Garre.

Sen curvou-se, esperou mais instruções e como nada lhe fosse dito, saiu.

 

FAY DENUNCIA SMITH

Jim Featherstone preparava-se para uma reunião e o criado o advertiu de que ele não parecia bem disposto a satisfazer o convite para o jantar anual que costumava ter com os antigos companheiros do regimento que tomara parte na grande guerra.

— Angus, falaste a verdade — disse Jim. — Nunca me senti menos inclinado a ouvir discursos patrióticos e referências cheias de comoção aos perigos e provações sofridos.

— Pode bem ser que quando tiver tomado... um ou dois...

— Se queres sugerir que a bebida me trará alguma felicidade — respondeu contrariado o investigador — afirmo-te que estás enganado. Antes quisera ir a outro lugar!

— Há uma estréia em Gaiety, senhor.

— Não penso nas estréias de Gaiety, sou superior a essas coisas.

— Estou certo de que se sentirá melhor no clube, jogando uma partida de bridge.

— Também lá não estaria bem; não queiras, Angus, penetrar em meus segredos sombrios.

— Senhor, tal coisa não me passou pela cabeça.

Enquanto o criado com os dedos ágeis lhe ajustava a gravata, Featherstone pensava no que diria Angus se lhe confessasse que só estaria bem numa sala, em Garre, a fitar os mais amáveis olhos do mundo. O criado, provavelmente o desprezaria, pois era homem pouco inclinado ao amor; vivia com a mãe e dedicava-se a criar coelhos.

A reunião foi divertida e Jim, por momentos, arrependeu-se da pouca vontade que tivera de encontrar tão bons amigos, com quem viera e por assim dizer, perto de quem quase morrera, naqueles horríveis anos em Flandres.

A festa terminou às onze horas com a saída de Featherstone, que se dirigiu para a Scotland Yard; ia receber os relatórios, pois substituía um funcionário superior em gozo de férias.

Achava-se no escritório e examinava rapidamente as ordens de prisão que eram relatadas, quando o criado entrou.

— Há uma senhora que quer vê-lo.

— Já estava me esperando?

— Não senhor, veio agora.

— Quem é? — perguntou Jim, enquanto seu pensamento voava até Valéria.

— Não a conheço, porém diz que é importante o assunto que a traz aqui. É uma.... Miss Clayton...

— Fay! Introduza-a, faça o favor — e, dirigindo-se à visita: — Fay» é uma alegria inesperada!

Ela parou à porta contemplando-o e, contra a vontade, admirando-o, pois o investigador era uma bela figura de homem em trajo de noite; brilhavam-lhe no peito condecorações.

— Ninguém o julgaria um polícia, Featherstone; parece mais um nobre. Que são essas medalhas em seu peito?

— São prêmios conquistados numa "exposição de gado", — respondeu ele num riso zombeteiro. — Sente-se. Creio que me responderá mais rapidamente se estiver bem acomodada. Desculpe-me o dito chistoso, pois acabo de deixar companheiros alegres; bem, Fay, que foi que a trouxe aqui?

— Sabe que estou casada? Na verdade, isso pouco lhe importa, mas estou embaraçada e é um meio de iniciar o assunto. É certo que lhe merece cuidados aquela menina? — continuou ela, mudando repentinamente de tom.

— Que menina? Fala de Miss Howett?

Com um sinal afirmativo ela continuou:

— Vai lhe suceder alguma coisa e não posso bem ver o que é. Recebi uma visita de Coldharbour Smith esta manhã. Conhece-o? Sem dúvida, não lhe é estranho.

— Que há com Coldharbour Smith? — perguntou ele com certa impaciência. — Que é que há? Perdoe-me se sou grosseiro — disse, notando certa contrariedade no semblante de Mrs. Savini — mas estou um tanto aflito.

— Ele tinha um grande plano de fazer um gracejo a Miss Howett, gracejo esse que não me despertou vontade de rir, embora esteja sempre de bom humor. A idéia era dizer-lhe que uma mulher a quem ela procura e que, ao que dizem, é sua mãe, acha-se em Golden East; depois de tê-la interessado bastante, cabia-me levá-la a Limehouse e aí estava a minha missão terminada, devendo eu receber pelo trabalho quatrocentos dólares. Que pensa disso, Capitão Featherstone?

A interrogação era supérflua, pois a fisionomia do investigador bem revelava seu modo de sentir.

— Quando devia isso acontecer?

— Não sei, não foi fixada a noite, mas creio que devia ser nesta semana.

Levantando-se, ele caminhou até a estufa e olhou as chamas. Ela não lhe podia ver o rosto e imaginava que ele escolhera aquela posição propositadamente. Depois de um momento, ele se voltou:

— Não lhe posso dizer quanto lhe sou grato, Mrs. Savini; agiu como uma pessoa de bem e não estou surpreendido.

A face da jovem enrubesceu; desde muito não recebia um cumprimento.

— Sei que fiz uma acusação e nunca sonhei que assim pudesse proceder.

— Mas fê-la e em nada depõe o fato contra você. — Olhou o relógio; eram onze e meia... — Desejava falar com Spike Holland.

— Experimentei, hoje...

— Foi você então, Fay? Miss Howett disse-me que alguém quisera comunicar-se com ela pelo telefone... Que boa alma você é!

Dirigiu-se à jovem e estendeu-lhe a mão que ela tomou, embora contrariada.

— Pode-me esperar, enquanto falo?

A um sinal afirmativo de Mrs. Savini, ele pediu uma ligação para Blue Boar e com surpresa foi logo atendido por Spike.

— Pensei que estivesse de vigília, Holland.

— Não era necessário, capitão; Miss Howett saiu às sete horas?

— Saiu? Com quem? — perguntou Jim aflito.

— Com um homem mandado pela Scotland Yard; não chegou ainda aí?

— Não; respondeu o investigador asperamente e deixou o aparelho.

— Miss Howett não está em Garre, saiu esta tarde com um homem que se dizia da polícia.

Por minutos deixou-se ficar abatido pelo choque das notícias, mas logo depois, a um chamado seu, acudiu um rapaz uniformizado a quem deu ordens.

— Chame a Divisão K; que todas as reservas cerquem Golden East que invadiremos; entendeu? As reservas da Divisão A que se venham a reunir a mim imediatamente. Dois carros de polícia... depressa.

De uma gaveta da mesa de trabalho, tomou uma browning, abriu a túnica e tirou a cartucheira que colocou no bolso; tomou de cima da mesa, o sobretudo.

— Ia dizer que convinha que me acompanhasse, Fay, entretanto, penso que é melhor que não o faça. Ninguém a viu chegar aqui?

— Featherstone! — e a voz de Fay tremia. — Coldharbour Smith sabe alguma coisa a meu respeito que pouco lhe deve interessar, mas que para Julius será de grande importância. Se ele provocar luta... não o poupe.

A sombra de um sorriso passou pelo semblante do investigador.

— Mulher sanguinária — disse ele, no tom de sua antiga vivacidade, e saiu.

Ao chegar ao pátio interno daquele palácio de tristezas, onde estavam reunidos alguns homens, o investigador falou brevemente, explicando-lhes o serviço.

— É uma invasão ostensiva que faremos para apanhar os jogadores. Tenho uma ordem de prisão há três meses, executá-la-ei esta noite; espero encontrar uma senhora que escondem na casa e, se alcançar o que desejo, considerarei um favor se um dos meus me impedir de matar Coldharbour Smith.

 

A INVASÃO

Um carro chegou naquele momento e os homens embarcaram para seguir ao longo da avenida do Thames Embankment, à claridade de Whitechapel, antes que viesse a segunda condução.

O povo abandonava os teatros, e o automóvel se via forçado a diminuir a marcha; dentro de um quarto de hora, estavam em Golden East e Jim saltou antes que o carro tivesse parado.

O cerco fora feito imediatamente; Jim entrou e subiu a escada; a orquestra tocava e uma dúzia de pares dançavam; Featherstone passou pela sala e dirigiu-se ao restaurante onde o homem vestido de branco, o auxiliar de Coldharbour Smith. recostado negligentemente a um canto, parecia absorvido na contemplação da dança.

— Onde está Smith? — perguntou Featherstone.

— Não esteve aqui esta noite, capitão.

O investigador voltou à sala de baile e fez um sinal ao regente da orquestra, que parou.

— Todos devem tomar seus sobretudos e abrigos e passar diante de mim uns após outros — ordenou ele e os convidados obedeceram entre risos, posto que um ou outro mal humorado, parecesse ressentido com a interrupção da festa.

Nesse ínterim, os homens de serviço haviam penetrado no edifício e dois deles seguiram James para o fundo do restaurante.

— A porta está fechada e Coldharbour levou a chave — disse o encarregado das bebidas, contrariado.

Jim Featherstone forçou-a e, com um ruído, ela cedeu. As luzes estavam acesas no quarto vazio e sobre a mesa havia uma garrafa de champanha com um pouco de líquido, ao lado, em um copo que ele examinou.

— Passem por ali, e mostrou a porta que dava para a rua... Há uma saída embaixo... e continuou a subir as escadas.

Em cima, havia um patamar e sob uma porta fechada via-se uma réstia de luz. Bateu e não foi atendido; empurrou-a com o ombro e conseguiu abri-la; estava escuro.

— Acenda as luzes! — ordenou. — Quem quer que me pretenda atacar, será alvejado.

Um polícia atrás dele iluminou a sala com uma lanterna elétrica e puderam ver uns doze homens em torno de uma mesa verde em cima da qual estava um baralho espalhado.

— Estão todos presos — disse Jim — que estavam a jogar?

— Bridge — respondeu uma voz.

— Diga isso a quem o interrogar amanhã.

Saindo do quarto, o investigador achou-se na cozinha; nada havia lá. Desceu novamente ao compartimento atrás do restaurante, onde encontrou o encarregado das bebidas.

— É bastante penoso para mim o acontecido. Há apenas uma semana que adquiri o clube e gastei quanto possuía.

— E perdeu tudo — completou Jim asperamente.

Que o homem falava a verdade, Featherstone compreendeu desde logo, pois Smith lhe havia dito que pretendia passar a outrem o negócio.

— O Golden East será fechado dentro de poucos dias, pois despertaram-me sérias suspeitas os homens que encontrei lá em cima. Que pensa de tudo isso, Barnett?

O homem, que de fato pouco havia cogitado, começou:

— É bem triste para mim...

— Coldharbour esteve aqui nesta noite? Com quem veio? Barnett recusava-se a falar.

— Serei condescendente com você — insistiu o Chefe da Segurança. — Veja, farei que tudo lhe corra bem e consentirei que continue com a casa aberta, se me disser, quando Coldharbour esteve aqui.

— Há uma meia hora.

— Trouxe alguém em sua companhia?

— Uma senhora.

— Quem mais?

— O homem que a acompanhava e que saiu.

— E onde estarão agora?

— Não sei, Capitão. Juro-lhe que não sei Smith reuniu o dinheiro que lhe deviam e saiu, dizendo que ia para a América ou para qualquer outro lugar.

— Como poderia ele ir? Antes de segunda-feira nenhum navio sairá do porto com destino à América. Como terá ele ido, Barnett? Fale.

— Não sei, senhor — e o homem hesitava. — Ele tem relações com os capitães do mar que freqüentam regularmente o clube e... um deles esteve durante muitas horas em sua companhia, aqui.

— Quem era?

— Um tal Fernandez, proprietário de uma pequena embarcação — Contessa — que está ou estava ancorada em Pool.

Jim, indo ao telefone, pediu um número.

— E o superintendente da Divisão do Tâmisa? Aqui fala o Capitão Featherstone. Quero que capture o Contessa que está fundeado em Pool... Certamente o conhece, não?

Esperou um momento até que se pudesse comunicar com a estação da margem do rio.

— Sim... É o Capitão Featherstone. É preciso que retenha o Contessa; está ele em Pool? Bem!

Um automóvel o levou à sede da Polícia Marítima, onde tomou uma lancha que já o esperava.

— No Contessa não há sinal de movimento — disse o inspetor que o conduzia... Está ainda ancorado.

— Teria alguma embarcação saído de Pool?

— Sim, muito cedo, esta manhã, saiu o Messina, um navio de carga que vai para a América do Sul.

O Contessa, com as luzes acesas no mastro, estava justamente parado em Pool, ao largo do Tâmisa, onde os vapores de todo o mundo vinham se reunir.

A lancha se aproximou e o polícia, por meio de uma escada de corda, subiu ao convés, seguido de Jim.

Aparentemente não havia sentinela e o polícia desceu. O capitão do Contessa, despertado de um profundo sono produzido por bebidas alcoólicas, subiu para o salão, onde mais tarde declarou que não vira ninguém e nada ouvira. A tripulação, pensava ele, devia estar toda embriagada; não estava enganado, aos menos quanto aos oficiais.

— Não deve ser este o navio — disse Jim abatido, quando voltavam ao convés — os marinheiros estão ébrios e não há a bordo quem seja capaz de por o navio em movimento.

A busca foi breve, mas cuidadosa, e verificaram com surpresa que eles não poderiam levantar ferro, mesmo que esse fosse o seu desígnio, porque os fogos estavam apagados.

— Embarcaram, sem dúvida, no navio que partiu esta manhã — disse o investigador.

O inspetor sacudiu a cabeça.

— Devem estar agora no mar, a menos que esperem que o Contessa se" lhes vá reunir.

Desceram a escada e passaram à lancha. Valéria ouviu o ruído do motor que se afastava e em seu coração desapareceu a esperança, fugaz que há pouco alimentava.

 

VALÉRIA É LEVADA A GOLDEN EAST

Era já tarde quando chegou a Lady's Manor um homem de aparência respeitável, incapaz de despertar qualquer suspeita. Valéria, descendo à sala, encontrou-o sentado, com o olhar fixo no tapete. Levantou-se à entrada da menina.

— Sou o Sargento Brown, senhora. O Capitão Featherstone me ordenou que a acompanhasse à Scotland Yard. Creio que encontramos Mrs. Held.

— Realmente? Oh! não é possível! Está certo do que me diz?

— Absolutamente certo. Encontramo-la no Golden East, um clube de reputação má, de propriedade dum tal Coldharbour Smith. Parece que ela deve estar encerrada lá há uns dois anos.

— Espere, espere — gritou ela e dirigiu-se ao quarto; vestiu-se sem o auxílio da criada e desceu a escada para pedir o automóvel; encontrou o homem na sala de espera.

— Meu carro está aqui. O Chefe da Segurança acha mais conveniente irmos nele.

— Ele é muito bondoso.

Apressadamente tomou ainda um abrigo de pele e escreveu a Mr. Howett um bilhete para lhe ser entregue quando voltasse; entrou no grande carro que esperava no portão, sem reconhecer o homem do volante. O pretenso enviado de James Featherstone a seguiu.

Quando passavam através da vila, o automóvel teve de se deter para permitir que desse volta um veículo que transportava um grande tronco de árvore e foi então que Savini, parado à entrada do castelo, pôde ver à luz da lâmpada que iluminava o portão, a menina e seu companheiro que não notaram a presença do eurasiano, oculto na sombra. Num segundo, Julius tomou sua decisão; desobstruído o caminho, o carro já tomava velocidade, quando ele alcançou a parte traseira destinada a carregar a bagagem, e fê-la cair. Num supremo esforço atingiu o banco improvisado; respirava com dificuldade e quase se arrependia da loucura que cometera. Um polícia, no extremo da rua, viu o carro e causou-lhe estranheza o meio de locomoção de Savini, cujo desconforto era aumentado pela pressa com que iam. Houve momentos em que parecia que ia morrer, mas persistia, com tenacidade, em se conservar em seu posto; sujo e desgrenhado atravessou os subúrbios de Londres, objeto de escárnio e de riso; estava porém resolvido a tudo arrostar para conseguir o êxito da empresa.

Valéria conservara-se silenciosa durante a viagem; entregue a seus próprios pensamentos e à felicidade que antegozava de ver a mãe, não queria quebrar o encanto de suas meditações; quando atravessaram o rio, ela percebeu que se dirigiam ao extremo leste de Londres.

— Então, não vamos à Scotland Yard?

— Não, senhora. O Capitão a espera em Golden East. Ao chegarem lá, ela reconheceu o clube, mas a porta onde parou o automóvel não lhe era conhecida. O pretenso polícia imediatamente saltou e abriu a entrada.

— Mr. Featherstone está em cima, senhora.

Miss Howett não duvidou um instante sequer que ele falasse a verdade, e mesmo que houvesse permanecido naquele compartimento e encontrado face a face Coldharbour Smith, não perceberia o perigo que a ameaçava; não o conhecia, embora o tivesse procurado uma vez para interrogá-lo; ao dar, porém, com ele, viu logo de quem se tratava.

— É Mr. Smith? — interrogou com um sorriso.

— Sim, senhora. O capitão teve de se afastar e me encarregou de lhe oferecer um refresco.

Sobre a mesa havia uma garrafa de champanhe que ele abriu.

— Mr. Featherstone disse que Miss Howett deve estar muito fatigada da longa viagem que fez.

— Não, não estou e não tomo champanhe.

Uma voz interior como que a avisava, agora, do perigo que corria e pela primeira vez pensou quão imprudente fora em crer no que lhe haviam dito.

— Faça o favor de chamar o Capitão Featherstone.

— Não está aqui no momento — e olhava, fascinado pela beleza da jovem — ele encontrou Mrs. Held, sim, Miss Howett, encontrou sua mãe.

— Minha mãe? Está certo disso? — disse num quase grito de alegria, esquecendo a delicadeza da situação em que se achava.

— Sim. Foram em seu socorro, justamente quando o velho Bellamy planejava mandá-la para a América. Mr. James foi achá-la já a bordo de um navio... está doente, muito doente mesmo; tem uma enfermeira que a acompanha dia e noite — e continuou, dirigindo-se ao homem que levara Valéria: Você conduzirá a menina ao Contessa.

— Ao navio?... mas, eu não posso ir... A que distância está ele?

— A menos de uma milha. Nada deve temer, tendo a seu lado o sargento; além disso, o Tâmisa está sempre vigiado pela Polícia Marítima.

A jovem lhe deveria ter causado espanto estar ainda, o carro esperando à porta, mas a ânsia de ver aquela que a levara a arrostar tantas e tão arriscadas aventuras, aquela a quem procurava havia tantos anos, fê-la correr, despercebida do mal que a esperava.

O automóvel andou ao longo de uma rua muito longa e estreita, voltou para a direita, passou ao pé dos muros altos dos armazéns e parou junto duma pequena abertura, através da qual ela viu as águas do rio. Não muito longe, umas crianças brincavam de soldados e ela ficou a pensar onde teria o comandante arranjado aquela espada...

— Espero que esteja uma embarcação à sua espera — disse o suposto polícia.

Ela hesitou, estava irresoluta. Parecia-lhe tão escura, tão ameaçadora a abertura estreita por onde devia passar...

— Não seria possível pedir ao capitão que me viesse falar aqui em terra?

— Parece-me mais conveniente ir até lá. Não há nenhum perigo, pois o marinheiro que nos levará é um "lobo do mar" e eu não me surpreenderia se fosse mandado um homem da Polícia Marítima para buscá-la.

Não eram, porém, homens da polícia do Tâmisa que ela via, ao sentar-se na popa do bote oscilante, mas desconhecidos, mal apessoados e ébrios.

— Quero voltar — disse Valéria, por favor, levem-me daqui.

— Sente-se, ordenou o homem — fará virar a embarcação, se não for prudente, e mergulharemos todos. Creio que não agradarão a Featherstone as suas maneiras, senhora.

Miss Howett retomou o seu lugar, trêmula, aflita. Viu um bote que ia contra a corrente e cujos remos se moviam ritmadamente. Um grito e estaria salva, pois era a patrulha do Tâmisa, mas nem ela os distinguiu, nem reconheceu a situação perigosa em que se achava.

Chegados que foram ao navio, ela teve de subir por uma escada vertical para o convés deserto.

— Estão todos embaixo — explicou o homem — mostrar-lhe-ei o caminho.

Ela o seguiu, e antes que pudesse compreender o que acontecia, ele a fez entrar num compartimento, fechando logo a porta. Era um salão pequeno onde se sentia um cheiro forte de alho; as vigias estavam fechadas e apenas uma lâmpada pendente o iluminava.

Valéria experimentou a porta e viu que seria em vão tentar abri-la. Se ao menos se tivesse lembrado de trazer o revólver que lhe dera Spike... Posto houvesse pesquisado febrilmente o salão, não encontrou uma arma que lhe pudesse servir.

Ouviu um rumor de passos na escada, fora. A porta se abriu e um homem entrou, fechou-a novamente e ficou a contemplar, encantado, a moça.

— Mr. Smith — balbuciou ela — onde está o Capitão Featherstone e que significa isso?

— Que significa? Bem, vou dizer-lhe — significa que nos casaremos e iremos ao Rio em viagem de núpcias.

Miss Howett encarou-o admirada.

— Não o compreendo. Deixe-me sair, quero ir ao convés. É preciso que eu saia deste navio — e exaltada, quis afastá-lo do caminho; ele porém, tomando-a nos braços, ria.

— Faremos uma grande viagem, querida, e se estará casada ou não no fim dela, pouco importa. Se me causar qualquer contrariedade — e o tom de sua voz mudou repentinamente — contar-lhe-ei o que farei.

Com as mãos enormes, apertava-lhe a garganta; ela se debatia, mas aqueles dedos cruéis cada vez mais a oprimiam; já não podia respirar, já o sangue lhe subia à cabeça...

Subitamente ele a soltou e fê-la cair de joelhos, ofegante.

— Trate-me bem e será mais considerada. Atenderei a todos os seus pedidos, mas seja condescendente e... os dentes lhe apareceram num riso terrível.

Ela se deixou cair numa cadeira e, com a cabeça entre as mãos, procurava ordenar os pensamentos.

— Não convém fazer ruído, principalmente agora. A tripulação está embriagada e, se assim não fosse, ser-lhe-ia ainda pior. Não seja imprudente, minha menina...

Alguém bateu à porta e uma voz agitada o chamou; ele saiu e daí a poucos momentos voltou.

— Venha cá! — e, vendo que ela não obedecia. — Venha! Arrastou-a por um braço, obrigando-a a subir uma escada,

e o homem que se dizia oficial da polícia, levantou uma alçapão de ferro; meteram-lhe os pés pela abertura.

— Fique aí embaixo! — rugiu Smith.

Ela caiu sobre uma escada de ferro e foi descendo de degrau em degrau. Um cheiro forte de ferrugem e o ar viciado fizeram-na perceber que estava no porão do navio; tinha os pés sobre um montão de correntes; o compartimento era insuficiente para se ter de pé e Coldharbour, que a havia seguido, mantinha-se bem junto dela, tão pequeno era o espaço.

— Não pensei que viessem tão cedo, murmurou — os nossos homens estão ébrios e os fogos apagados... nunca pensarão que zombamos deles.

— Quem os terá posto na pista? — perguntou o outro.

— Barnett... ou talvez tivessem alguma sentinela perto do clube... Featherstone é bastante perspicaz... maldito seja!

O compartimento era oval e em ambos os lados havia aberturas por onde passavam grossos cabos.

Do lugar onde estava, Valéria via o rio e ouvia o ruído do motor da lancha; sentiu-lhe também o choque contra o navio e percebeu que falavam — era a voz de Jim Featherstone. Ia gritar, chamar, pedir socorro, quando a mão grosseira de Smith, tapou-lhe a boca.

— Cale-se ou a estrangularei!

O homem estava amedrontado, tremia; ainda passos no convés, e de novo reinou silêncio absoluto.

— Desceram — segredou o outro e Coldharbour concordou.

Alguns minutos, que para ela pareciam uma eternidade, decorreram até a volta dos pesquisadores.

— Lá é a prisão; se quiser, posso dar uma busca.

— Não creio que estejam a bordo. Barnett recebeu o dinheiro e enganou-nos.

O homem na escuridão ria e gozava de vê-los desanimados. Ainda uma consulta e se afastaram; o ruído da embarcação se ouvia mais e mais longe.

— Foram-se — disse Smith e sentiu que a moça desfalecia. Levaram-na para o convés e se apressaram a descer; um bote pequeno que estava junto da popa moveu-se vagarosa e furtivamente ao lado do Contessa; o viajante tinha a roupa coberta de poeira, os cabelos desgrenhados, as mãos delicadas estavam feridas, sangravam com o exercício a que não estavam habituadas. Julius Savini aproximou o bote, subiu pela escada de corda e saltou cautelosamente, levando na mão uma arma curiosa que levara do fundo da embarcação.

 

FAY RECEBE UMA MENSAGEM

— Há alguma coisa a pagar, senhora — disse, o carteiro a Fay.

— Não recebo cartas sem selo — respondeu ela que, ainda de roupão, atendera contrariada, por a terem despertado com um violento bater à porta.

— Não é uma carta, nem sequer um cartão.

— De quem é?

— É um recado de alguém que se chama Julius.

Fay quase lhe arrebatou das mãos o papel; entrou, foi ao quarto em busca do dinheiro e de volta, em cinco minutos decifrou a mensagem escrita com mão trêmula, numa folha arrancada de um livro de notas; dum lado do papel fora escrito, a lápis, o seu endereço.

 

"Lacy levou Miss H. Vi-os na vila e saltei para o carro que os conduzia. Foram para Golden Éast.

Smith, L. e Miss H. foram para bordo de um navio. Vou segui-los. Conte a Featherstone. "

 

Apenas tomou conhecimento do que lhe escrevera o marido, a jovem foi ao telefone. Três ligações lhe foram dadas, antes que ela encontrasse Jim, entretanto, deixou um chamado em todas. Acabava de mudar o vestido, quando o telefone tocou fortemente; era ele.

— Procura-me, Fay?

Depois que ela lhe leu o bilhete, o investigador disse:

— Que felicidade para Julius! Que carimbo traz o recado?

— E. 5. Não viu meu marido?

— Não, nem dele tenho ouvido falar. Não disse onde estava ou qual era o navio para onde iam?

— Não, certamente não o sabia. Não acha?

— É verdade, vou até aí — e colocou o receptor em seu lugar.

Dez minutos depois achava-se junto dela; parecia fatigado, a barba crescida, a roupa coberta de pó.

— Fomos a um navio ancorado na foz do rio, mas não os encontramos a bordo e não podiam ter partido até às quatro horas da manhã, pois a maré estava baixa.

Ela se apressou a ir à cozinha e trouxe café com que o obsequiou.

— O telefone chama — disse Jim — talvez seja Savini. Posso atender?

— Arrisco a minha reputação, mas explique que não costumo receber polícias para almoçar.

— Savini está aí?

O investigador reconheceu a voz de Bellamy e deu o receptor a Fay.

— Está aí seu marido? — repetiu o velho.

— Não, Mr. Bellamy; não está ele em Garre?

— E eu o havia de procurar se estivesse aqui? Saiu à noite e não voltou; diga-lhe que mande buscar as roupas e o dinheiro; está despedido.

— Talvez esteja com Lacy — respondeu ela com voz meiga. — Lacy levou Miss Howett a Coldharbour Smith; até a polícia teve conhecimento do fato.

Seguiu-se tão longo silêncio, que ela julgou que Abe tivesse deixado o aparelho; afinal sua voz se fez ouvir mais calma.

— Nada sei de Lacy ou da menina Howett — que tolice me está a dizer? — e, depois de uma pausa: — Que fez a polícia?

Fay, colocando a mão sobre o transmissor, repetiu a pergunta a Jim que a aconselhou:

— Diga-lhe que demos ordem aos navios de não saírem do porto.

— Há alguém aí — disse o homem com suspeita — quem é?

— fio Capitão Featherstone — disse a menina a um aceno do investigador e ouviu uma blasfêmia e o ruído do receptor que caía.

— Agora, resta-nos saber onde está Julius — acrescentou Jim. — Confesso que me sinto meio aliviado de sabê-lo perto dela. Nunca sonhei que houvesse de confiar tanto no auxílio dele.

— James Featherstone não conhece Julius Savini — exclamou Fay, orgulhosa.

Infelizmente, pensou ele, conheço-o demasiado.

O investigador voltou ao escritório onde havia deixado Mr. Howett, que recebera com extraordinária coragem a notícia do perigo que corria a filha adotiva.

— Não posso crer que lhe vá acontecer alguma desgraça — dizia ele — capitão, não poupe despesas para encontrar minha menina.

— Se com dinheiro pudéssemos comprar a liberdade de Miss Howett, ela já estaria salva — disse Jim quase impaciente. — Desculpe se estou irritado e nervoso. Não estava em Lady's Manor, quando ela saiu?

— Não... achava-me em Londres — e o pai de Valéria falava com certa dificuldade. — Mas ainda que lá estivesse, não a impediria de sair com alguém mandado pela Scotland Yard. Já tem alguma pista a seguir?

— Creio que sim — e saiu a chamar o secretário. — Veja os registros e procure Lacy — Henry Francis Lacy, se estou lembrado. Cumpriu há três anos em Old Bailey uma pena por tei cometido crime de arrombamento e roubo. Envie os sinais do homem a todas as estações, recomendando que o prendam preventivamente onde quer que o encontrem e me avisem logo. Lacy não é marinheiro mas, a menos que suspeite que o procuramos, poderá ser visto nas proximidades de Golden East. Barnett não me deu o nome de quem acompanhava Smith, e ele sem dúvida, espera descobrir até que ponto está envolvido neste negócio.

— Que pensa do desaparecimento de Savini?

— Julius é astuto e há traços de nobreza em seu caráter, de que ninguém suspeita. Satisfizeram-me as notícias que ele mandou à esposa de se achar perto de Valéria. Nunca me passou pela imaginação que Savini me pudesse despertar inveja — disse, quase em segredo.

Um banho e a troca de roupa reconfortaram Featherstone, reanimando-o para o trabalho. A polícia do Tâmisa tinha organizado uma pesquisa cuidadosa a todos os vapores ancorados em Pool, da Ponte de Londres até Greenwich e Jim foi-se reunir à pequena embarcação a vapor que levava o inspetor-chefe de navio para navio. Nada encontraram. Passando pelo Contessa, que o investigador visitara na noite precedente viu uma fumaça amarela que saía do cano, mas a única pessoa que se lhe deparou foi um marinheiro que, de braços cruzados, olhava despreocupadamente para terra.

— Não há vantagem em dar nova busca — disse James.

— Assim também me parece — replicou o inspetor — dificilmente levariam a moça para bordo de um navio ainda não preparado para levantar ferro. Parece-me que Barnett mentiu ao dizer que Coldharbour a havia conduzido ao Contessa.

Embora pensasse que era assim, o investigador olhava atentamente a embarcação, desejoso que o auxiliar de Smith houvesse falado a verdade e, quando mais tarde o foi interrogar novamente, encontrou-o em lágrimas.

— Se eu morresse neste momento, certo não o enganaria, senhor, e se o que lhe disse não é exatamente a verdade, é porque Coldharbour, tendo percebido que eu escutava no buraco da fechadura, desviou o assunto.

— E ouviu alguma coisa mais, além do que me disse a respeito da ida para o Contessa?

— Sim, senhor; ouvi Coldharbour dizer que a bordo se casaria e falar ao capitão espanhol da beleza da jovem que ia desposar e do modo como procederia para conseguir que lhe comprassem roupas. Ah! senhor! Quanto tinha, despendi neste clube, tomei até dinheiro sob hipoteca. Imagine em que circunstâncias me acho!

Jim acreditava no que lhe dissera o homem e, se havia qualquer inverdade capaz de desviá-los da pista, não seria culpa dele. Coldharbour bem podia ter arranjado convenientemente a conversação, e o fato de terem falado Inglês, provava que a haviam preparado intencionalmente.

Para descanso de Barnett e salvação de seu pecúlio, a polícia não via conveniência em levar a efeito a ameaça de fechar o Golden East. Os pontos de reunião de criminosos tornavam-se escassos e fora preciso um trabalho intenso para acreditar naqueles meios um novo lugar. Moro's prestava-se a esse fim, e, como mariposas em torno da chama, lá se reuniam todos os perseguidos da justiça de West End. Golden East era do mesmo modo útil, no extremo posto da cidade.

Featherstone interrogava Barnett, quando Spike Holland chegou, trazendo novidades. Quando se dirigia para lá, detivera-se no caminho a fazer investigações com respeito ao carro que conduzira a jovem e o pretenso policial.

— Um homem viajava no transporte da bagagem; viram-no em uns dois ou três lugares e especialmente num dos subúrbios de Londres. O polícia que o viu, quis até fazê-lo descer e pela descrição que fez, penso que devia ser Julius.

— Savini! — disse Jim pensativamente — esses pormenores estão de acordo com a mensagem mandada a Fay. Agora, onde estará ele? Se o achássemos, acharíamos também Miss Howett.

— O velho Bellamy esteve na cidade e voltou esta manhã — explicou o repórter. — Vai ser difícil obtermos quaisquer informações, agora que Julius não está lá e que o guarda-portão em nada nos auxiliará... Apesar disso, ele me disse que o milionário se ausentou por alguns dias, o que é verdadeiramente curioso, porque ele nunca passou, durante oito anos — tal foi a informação que obtive — uma só noite fora do castelo. Capitão, demos um bom passo na descoberta do "Arqueiro".

James Featherstone não estava disposto a falar do arqueiro, mas escutou-o pacientemente.

— O homem que usa do arco e da flecha habilmente, deve ter se adestrado por muito tempo — disse Spike — isso não o havia ainda preocupado?

— De fato não pensara no assunto — respondeu o investigador meio impaciente, pois estava ansioso por continuar o trabalho interrompido.

— O jogo do arco não é usado — continuou o jornalista — como nos tempos do bom Rei Hokum, quando os jovens e as meninas se exercitavam e todas elas queriam ser vistas junto daquele que era o vencedor; não sabia disso?

— Sim, mas onde quer chegar?

— Imaginei que se déssemos uma busca nos arquivos das sociedades desse desporto, poderíamos encontrar o arqueiro verde; vou, pois, procurar o secretário da Toxophilite Society; o que quer dizer Toxophilite não sei, mas vou ter com ele e é possível que me dê algum esclarecimento.

— Vamos — disse Jim, aflito por ver Holland pelas costas.

A Toxophilite Society tinha sua sede em Regent's Park e, felizmente para Spike, ao chegar lá, à entrada, encontrou o secretário.

— Sim, posso lhe mostrar a lista dos membros que fizeram parte do clube nos últimos trinta anos, e o oficial se prontificou a apresentar o registro a Spike que passou uma tarde a examiná-lo.

Nesse estudo encontrou uma lista de antigas competições e um nome fê-lo parar boquiaberto; saiu a chamar o funcionário que voltou com ele para o escritório.

— Não conheço o nome — disse ele — está na lista dos sócios?

Novamente inspecionaram o livro de registro, mas não o encontraram.

— Foi um concurso ao qual concorreram estranhos — disse o secretário. — É curioso que a pessoa não tenha sido incluída na lista dos sócios, pois deve ser admirável o vencedor dessa partida. Conhece o jogador?

— Penso que sim — respondeu o repórter, ainda sob 'a comoção do que descobrira. Oh! sim! penso que sim!

Finalmente havia encontrado o "Arqueiro Verde".

 

COMO JULIUS SAVINI AGIU

Tudo no navio era desconhecido para Julius. Embora já tivesse viajado por mar, nunca havia estado numa embarcação como o Contessa. Chegando à proa, olhou em torno — uma escada de ferro conduzia ao convés onde estavam os botes e o lugar era excelente esconderijo; subiu apressado, levando a arma, a espada que ele havia arrebatado do comandante do batalhão infantil, que havia encontrado a brincar no quarteirão meia hora antes, posto que antiga, tinha ainda a ponta aguda e podia, numa emergência, ser empregada com resultado. Savini bem gostaria de tê-lo recompensado, mas, não dispondo de dinheiro, furtou-a, sendo então perseguido pelos valentes soldados cujo armamento tinha sido levado; voou ao cais onde tinham feito embarcar a menina e, encontrando um bote próximo, tomou-o e fez-se ao largo, tendo então passado pela embarcação que ia buscar Coldharbour Smith.

Julius não era esgrimista e ignorava o manejo da espada, mas o possuí-la trouxe-lhe a coragem indispensável em momento tão crítico.

Que faria agora? — não havia ainda resolvido.

Valéria Howett estava a bordo e para lá havia sido levada por Lacy, a quem ele reconhecera imediatamente como o trapaceiro auxiliar de Smith. Era bem possível que Savini houvesse empreendido aquela viagem penosa, aquela aventura cheia de perigos, com o desejo de obter dinheiro; entretanto, ele procurava convencer a si mesmo de que seu móvel era um sentimento superior de humanidade.

Anoitecera há pouco e ele imaginava o que devia fazer; Smith estava no Contessa e não viera só — quatro homens o acompanhavam; vira-os furtivamente, quando estavam perto do navio, mas não os identificara. Ouvia agora o ruído do motor da embarcação que partia cautelosamente; andou ao longo do convés para além da chaminé; guiava-o uma luz que passava através do vidro embaciado de uma vigia e, ao alcançá-la, levantou-se cuidadosamente uma ou duas polegadas, podendo observar o canto de um salão mal asseado. Excitado, Julius quase traiu sua presença, pois a primeira pessoa que viu foi Valéria Howett, sentada junto de uma mesa; tinha a face descorada e seu aspeto revelou ao eurasiano quanto ele desejava saber; pois em seu espírito havia nascido a suspeita de que, voluntariamente, ela tivesse acompanhado Lacy, apesar de conhecê-lo, e então teria sido inútil, mesmo inexplicável, o sacrifício que fizera; agora, tudo compreendia. Coldharbour Smith estava à sua direita, as mãos cheias de jóias descansavam sobre a mesa e a face diabólica voltava-se para ela. Conversavam; o marulhar das águas impedia-o de ouvir o que diziam.

Encontrando um gancho de latão que servia para manter aberta a vigia, com muito cuidado fê-lo cair no encaixe e, deitando-se, aplicou o ouvido ao orifício; Coldharbour não poderia vê-lo, pois a sala era iluminada por uma lampião cujo quebra-luz fazia alumiar somente a mesa.

— Partiremos amanhã de noite — dizia Smith — e aconselho-a a que perca qualquer esperança de salvação vinda de seu amigo Featherstone. Sabe o que me aconteceria, se a encontrassem?

Ela não se voltou e deixou-se ficar olhando vagamente.

— Perderia a vida... enforcar-me-iam, e eu morreria por sua causa, senhora.

— Se é dinheiro que quer, posso lhe dar mais...

— Esqueça-se disso, já obtive quanto desejava e não pense que me persuade a deixá-la fugir. Nunca viu Dartmoor Prison, do contrário não pensaria que eu me arriscasse a ir para lá. As prisões americanas são palácios, onde os homens são tratados como tais; Dartmoor, porém, é um inferno... prosseguirei ou serei enforcado. Sempre pensei em me casar, entretanto, nunca tive predileção por esta ou aquela jovem. Casar-nos-emos a bordo; qualquer capitão do navio poderá fazer o casamento, se estiver a três milhas daqui.

— E mais um trabalho de Abel Bellamy — balbuciou ela tão fracamente que a Julius lhe foi difícil ouvir.

— Nomes não importam... Quanto sei é que irá comigo para bem longe e espero que ao chegarmos ao nosso destino, ter-se-á tornado menos irritada e mais sensível — levantou-se e ficou a fitá-la, para depois continuar: — Chama-se Valéria, não? E como a tratarei de hora em diante. Diga Coldharbour ou Harry... Harry é meu nome.

Esperou uma resposta, mas a jovem nem levantou os olhos; então, tomando do chapéu que, por extraordinária deferência havia tirado ao entrar, andou afetadamente para a porta.

— Há atrás daquela cortina um beliche e um quarto para banho. É confortável o navio, capaz de satisfazê-la.

Saiu, puxou a porta e fechou-a. Julius esperou até que ele desaparecesse, levantou a vigia e passou por ela, indo cair sobre a mesa, diante da menina que o fitava com espanto.

— Silêncio — murmurou ele.

— Mr.... Mr. Savini...

— Silêncio!

Tirou os sapatos e foi até a porta; não se ouvia o menor ruído, mas a cada momento Smith podia aparecer. Voltando à mesa, apagou a lâmpada e dirigiu-se ao lugar onde estava Valéria.

— Acompanhei-a, vinha atrás, no automóvel — explicou ele.

— Poderá me salvar?

— É possível, mas não tenho ainda certeza — e olhou para a vigia. — Será capaz de sair por ali? Talvez seja melhor arrombar a porta ou esperar que Smith a abra, pois estou certo de que voltará aqui antes de se deitar.

Esperaram uma hora e o homem não veio; Julius começou então o trabalhar com a ponta da espada na fechadura.

— Nada conseguirei aqui — disse, enxugando a fronte. — É preciso que saia pela vigia; não há outro meio.

Enquanto falavam, sentiram passos pesados em cima, e logo o relâmpago de uma lanterna e alguém, tirando o gancho, fez cair o vidro. Estava perdida aquela esperança de fuga.

— Creio que Coldharbour não voltará. Deite-se e durma Miss Howett.

Custou-lhe muito convencê-la de que aceitasse o conselho.

Valéria encontrou uma luz no camarote, atrás da cortina. O leito estava preparado e os travesseiros asseados convidavam ao repouso; ,deitou-se sem pensar que adormeceria, mas fechou os olhos para descansar.

Julius Savini colocou a cadeira junto à porta e sentou-se, a espada sobre os joelhos, fatigado, os olhos pesados. Alternativamente dormiu e acordou durante a noite. Despontou o dia, os primeiros raios do sol iluminaram o navio e, passando através da vigia, a luz penetrou no salão; de repente, a face de Coldharbour Smith apareceu.

— Bom dia, querida — começou ele, mas, ao dar com Julius, retirou-se.

Savini, alerta e pronto para a luta, ouviu o voltar da chave na fechadura e esperou; a porta se abriu bruscamente e ele, vendo o cano da browning de Smith deixou cair as mãos.

— Conversemos, Julius — disse Coldharbour, mas, antes de mais nada, ponha a espada sobre a mesa. — O outro obedeceu e ele continuou: — Que pretende? Quem o mandou aqui?

— O velho — respondeu Julius, a uma inspiração de momento. — Muito preocupado com a menina, mandou-me procurá-lo, pois deseja que a leve de volta.

Os lábios de Smith crisparam-se num riso horrível.

— Com todos os diabos! Que idéia, Julius! Se de fato foi mandado aqui, por que não me procurou diretamente?

— Não pude encontrar seu camarote, ou melhor, pensei que era aqui e, entrei cedo pela vigia, antes que a fechassem, para que os marinheiros não me vissem.

— Mandei fechá-la, é verdade, mas nunca imaginei que houvesse apanhado tal pássaro! Então Bellamy quer que eu leve minha presa para a terra? Certamente preparou o terreno para me livrar dos embaraços deste negócio. Julius, você está mentindo, e olhou o outro com suspeita... sua roupa está coberta de pó e que faz com aquela espada? Vou prendê-lo e mandar alguém ao velho para que esclareça o fato. Você não anda aqui desinteressadamente... e como se uma idéia lhe ocorresse... Foi Featherstone quem o trouxe, deve ser isso. Bem, não me surpreende.

A um assobio atendeu um marinheiro com quem falou em voz baixa; este saiu e voltou, trazendo um par de algemas.

— Algumas vezes faço trabalho de polícia — disse Coldharbour. — Entregue-se, Julius. — Savini obedeceu, as correntes prenderam-lhe os pulsos, e foi conduzido pelo convés passando depois por uma porta estreita, ao porão.

— Sente-se — ordenou Smith, e empurrou o eurasiano. — Se o velho disser que você está falando a verdade, eu lhe pedirei desculpas; caso contrário, ficará aqui e quando estivermos no mar, decidirei a sua sorte.

Saiu e fechou a porta com a aldrava de ferro que a protegia.

Savini regozijou-se interiormente, pois as correntes estavam folgadas, e tinha os pulsos livres antes que Coldharbour tivesse se distanciado.

 

O INTERROGATÓRIO DE LACY

Era tarde quando um investigador que aparentemente passeava na Comercial Road, viu uma pessoa conhecida.

— Lacy, se não estou enganado — disse, e deu-lhe a voz de prisão.

— Que aconteceu, Johnson? — perguntou com inocência fingida o prisioneiro.

— Vamos fazer um pequeno passeio.

Lacy, que não sabia o que lhe estava reservado, acompanhou-o sem resistência à próxima Divisão de Polícia, protestando ignorar o motivo daquele ato inexplicável. O Capitão Featherstone veio entrevistá-lo na cela, mas não lhe explicou a razão por que estava detido. Era um dos momentos mais críticos da vida do investigador, que decidira praticar um ato que lhe poderia trazer sérias contrariedades e até a perda do cargo; nada havia, porém, que o detivesse, quando perigava a salvação de Valéria Howett. Renunciaria à própria vida, se com isso pudesse restituí-la ao pai.

Jim vivia em Saint James Street, que, naquela noite de sábado, era uma das mais calmas ruas de Londres.

— Vou levar este homem para a Scotland Yard para interrogá-lo e não preciso da sua assistência, Johnson; relatará a seu chefe esta prisão.

Com grande surpresa para Lacy, ele foi tirado da cela e levado a um confortável automóvel que Jim guiava.

— Considere-se livre por alguns momentos — disse o investigador.

— Para onde me leva?

— Para a minha casa — foi a resposta surpreendente.

— Por que fui preso, capitão?

— Dir-lhe-ei dentro em pouco.

Lacy entregava-se a toda a sorte de pensamentos. O carro parou diante de uma loja fechada em cima da qual ficavam os aposentos de Jim; não havia outros locatários e o proprietário do estabelecimento morava num subúrbio. Angus, o criado, encontrou-os à porta.

— Traga uma bebida a Mr. Lacy e vá depois recolher o carro; não precisa voltar.

Foi ao quarto, tirou o casaco e o colarinho e, de volta, encontrou o criado que o esperava.

— Leve o automóvel e não volte esta noite — repetiu Jim. Mr. Lacy, com o copo de uísque e soda na mão, estava agora preocupado e um tanto nervoso.

— Acabou, Lacy? Vai subir agora ao meu gabinete.

O compartimento mais parecia um gymnasium: era uma sala grande sem tapetes; presas ao teto viam-se duas cordas grossas que terminavam em argola; num extremo, havia outros instrumentos. Jim cerrou a porta, fechou-a à chave e convidou o homem a sentar-se.

— Por que levantou assim as mangas, capitão? — perguntou assustado.

— Saberá mais tarde...Onde está Miss Valéria Howett?

— Miss... quem, senhor?

Apenas havia murmurado essas palavras, quando um punho que parecia de ferro o fez cair de encontro à parede; vagarosamente se levantou, quase a soluçar.

— Para que fez isso? Vai me espancar outra vez? Por Deus...

— Onde está Valéria Howett? — repetiu Jim no mesmo tom.

— Não sei — respondeu Lacy, que apesar de se haver preparado para receber o golpe, caía novamente a distância.

— Levante-se.

— Não me levantarei. Relatarei o que fez, Featherstone; hei de denunciá-lo...

— De pé — gritou o investigador —... e não se iluda em pensar que não será de novo atingido por estar sentado. Vamos!

— Vê-lo-ei antes no inferno — rugiu o homem que, com um salto, se livrou das botas de Jim prestes a caírem sobre ele. — Eu me vingarei. Irei ao Prefeito, segunda-feira pela manhã.

— Se ainda tiver vida. Ouça bem: responda o que lhe perguntei, ou hei de amarrá-lo e será torturado.

— Torturar-me?! Não me pode fazer sofrer! Não ouse, a lei não o permite.

— Bellamy uma vez me disse que é adepto desses meios violentos e a mim me pareceu selvagem, brutal o seu pensar; hoje, concordo com ele e afirmo-lhe que não lhe deixarei carnes sobre o ossos, se não me disser onde se acha Valéria Howett.

Lacy fitou-o por um momento e o braço de James, caindo sobre ele, atirou-o com ruído contra a porta. A dificuldade da situação em que se achava dera-lhe, porém, coragem, e ele, num esforço, atacou Jim que o venceu, deitando-o por terra.

— Diga o paradeiro de Valéria Howett e lhe darei mil libras.

— Não o faria, nem por um milhão. Está em lugar seguro, não a apanhará mais, miserável! Smith a tem em seu poder e...

O investigador tinha o culpado a seus pés e apertava-o contra a parede.

— A vida não lhe é cara, Lacy? — e sua voz era forte e vibrante... não tem amigos? ninguém que deseje ainda encontrar? nenhum lugar que queira rever?

— Morrerei antes que lhe revele qualquer coisa.

— Morrerá sim, mas depois de me haver dito o que preciso saber — e brutalmente despedaçou a roupa do homem; foram aquelas ameaças terríveis que o fizeram falar.

— Direi! Direi! — gritou. — Está no Contessa.

— Mente. Não, ela não está lá.

— Juro-lhe, senhor. Estávamos a bordo, no porão, quando lá esteve na noite passada. Miss Howett queria gritar, chamá-lo, mas Smith obrigou-a a se manter em silêncio; posso prová-lo: ouvi-o dizer, ao passar perto, que ela não estava lá.

— Levante-se — e mostrou-lhe um banco. — Pode se sentar. Quando saiu do Contessa?

— Na noite passada. Não posso estar em navios pequenos... sinto-me mal...

— E a menina ainda está lá?

— Sim.

— Onde? Em que lugar do navio?

— Coldharbour preparou-lhe um camarote. O Contessa viajará para a América e Miss Howett pertence a Smith. Os fogos não foram acesos e a embarcação permanecerá em Pool um ou dois dias, até que tudo se acalme.

Jim abriu a porta e voltou à sala.

— Acabe de tomar o seu uísque.

— Não me vai prender, capitão, assim espero, depois do que me fez sofrer.

— Se for verdade o que me diz, não o prenderei. Tome sua bebida. Vou averiguar se é exata a sua afirmação; nesse caso, será posto em liberdade dentro de duas horas. Se, pelo contrário, tiver mentido, voltará aqui e conversaremos.

Lacy se conservou em silêncio; sofria ainda com os ferimentos que recebera. No caminho para a Scotland Yard, Jim perguntou:

— Viu Julius?

— Julius? Não está envolvido no negócio.

— Pois creio que tem parte importante nele.

 

A FUGA DE SAVINI

O camarote em que Valéria Howett passara a maior parte do dia atestava os cuidados especiais que a moça merecia de Smith, pois havia sido preparado especialmente para ela. Fora feita uma abertura para ligá-lo com o que ele chamava o quarto de banho e que, na realidade era o único compartimento que existia no navio, destinado a esse fim. A porta que abria para o convés, estava parafusada, e as vigias tão fortemente encaixadas, que lhe era impossível movê-las. Havia ainda uma porta corrediça entre o beliche e o salão, e apesar de cuidadosamente oculta pela cortina, Valéria a havia descoberto acidentalmente, quando o homem a deixara só; animou-a o pensar que era uma proteção, pois, fechada, sempre daria algum trabalho para a arrombar.

Tendo presenciado o que se passara entre Smith e Julius, aventurou-se a jovem a inquirir do que acontecera a seu intrépido protetor.

— Está salvo — foi a resposta que ouviu.

Foi um dos dias de contrariedade aquele em que Coldharbour, que não era educado e cujas maneiras nada tinham de distintas, foi fazer a refeição em companhia da menina.

— Valéria, minha querida, em breve estará habituada comigo; começo a apreciá-la, bem que não seja inclinado a me deixar prender facilmente. Agora, em Golden East...

Miss Howett ouviu e estremeceu, e ele tomou aquele movimento como efeito da comoção que suas palavras produziram.

— Partiremos hoje à noite; os marinheiros prevêem uma grande cerração que nos favorecerá a fuga, não permitindo que a polícia nos veja.

— Nunca estará a salvo — disse ela com veemência — não imagina que em qualquer lugar onde eu esteja, irei me queixar a polícia?

— Então, já será minha esposa, e suas palavras voltar-se-ão contra si — disse sorrindo...

— Onde está minha mãe?

— Não sei — e ria francamente — há alguns anos que o velho a levou, não pretendo iludi-la. Ela se hospedou em minha casa, em Camden Town, mas esteve apenas uma semana escondida.

— Escondida?

Coldharbour fez um sinal afirmativo, e continuou.

— De Bellamy, que tinha verdadeiro encanto por ela, tanto quanto eu pela menina. Preparei justamente um bom negócio para Abe e ganhei muito dinheiro. Sabendo que Elaine procurava aposentos onde se alojasse, ele mandou que eu fosse ter com ela e lhe oferecesse minha casa; ela aceitou, porque era conveniente o aluguel. Mrs. Held, que supunha o milionário na América, pois ele costumava ter sempre quartos tomados em seis hotéis de diferentes cidades, apesar de nunca ir além de Queenstown, se julgou salva. Uma noite, contei-lhe a mesma história que Lacy 'lhe contou e consegui levá-la a Garre, prometendo-lhe que lá encontraria a sua Valéria que então devia contar dezesseis anos; foi a última vez que a vi. O velho diz que ela fugiu...

— Fugiu! — e Valéria levantou-se, os olhos brilhavam-lhe de excitação.

— Sente-se! Sente-se — disse Coldharbour impertinente — não se comova assim; o velho está a mentir. Ela morreu e é tudo. A Abe não lhe convinha dizer a verdade — e sua face tornou-se mais sombria, suas maneiras ainda mais brutais. — Devo alguma coisa ao velho demônio... quase desejo que ela tenha fugido; mas é uma farsa... toda a história do "Ar-queiro Verde" é uma farsa que Abe inventou para explicar a saída da prisioneira. Arqueiro verde! e ria. A menina estava pensativa. Suponhamos que seja verdade! Deve ser. Era, quando menos, uma explicação para a vingança que Bellamy tomava dela, mas... bem podia ter planejado o rapto, antes que Elaine houvesse desaparecido, quando descobriu que Valéria Howett era a criança que ele roubara havia vinte e três anos.

— Creio que ela morreu — continuou Smith — nem é possível imaginar que alguém possa viver encerrada oito anos num subterrâneo. Veja bem! mesmo em Dartmoor onde se tem ar e se faz exercício...

— Então ela esteve lá todo esse tempo? — inquiriu Valéria.

— Sem dúvida, não sei em que lugar do castelo, mas é certo que estava lá.

Isso se passou à hora da merenda e ela não tocou nos alimentos; à tarde, era grande a atividade a bordo do Confessa, era constante o movimento e o rumor de vozes a dar ordens. Embaixo, uma bomba trabalhava. Valéria não tinha visto, da tripulação, mais que o criado negro que servia as refeições, e julgava que havia poucos marinheiros. Onde tinha seu camarote o capitão, não sabia. Que teria acontecido a Julius? Não se atrevia a consentir que seu pensamento se detivesse nem em Jim, nem no pai, nem no seu próprio destino.

Smith descera para jantar e, ao subir de novo, ela notou que ele havia bebido. A face do homem estava grotescamente colorida de duas manchas vermelhas, o olhar amortecido.

— Encantadora e alegre menina!! trouxe-lhe vinho ou — e, colocando sobre a mesa uma garrafa preta, sentou-se. — E Julius, hein? Veio para bordo para me entregar à polícia! Trocou a esposa pela vida no oceano! É porque não é tão bela como a minha!

Encaminhou-se para ela e procurou tomar-lhe a mão; não o conseguindo, tirou a rolha da garrafa com os dentes e encheu o copo com um líquido cor de âmbar.

— Beba! — ordenou. Valéria pôs de lado o copo.

— Beba!

— Não beberei! — disse ela e jogou o copo ao soalho.

O ato divertiu-o.

— Disso é que eu gosto... energia!

Sem mais palavras tomou o grande prato que o criado trouxera, saboreou o conteúdo, encheu o copo de aguardente e levantou-se, mal se podendo ter de pé.

— Meu amor! — e tentou agarrá-la.

Valéria fez rodar a cadeira giratória e procurou esconder-se.

— Venha, ele gritou. Eu quero...

Com a coragem que lhe dava a situação difícil, ela o empurrou e, vendo-se livre da mão que a segurava pela manga, correu ao camarote e fechou a porta.

— Saia — rugiu ele, batendo com o punho; a madeira estalava. Smith era um demônio irado; arranhava a porta com as unhas, batia com os pés e, arrastando a língua, dizia coisas ininteligíveis, entre as quais ela pôde perceber algumas palavras:

— Há de sair! Savini aconselhou-a... Savini...!

O homem atravessou o pequeno espaço entre o salão e o lugar onde estava o prisioneiro; a bebida o enlouquecera e o assassínio já estava em seu pensamento. Abriu a porta da prisão.

— Savini! Acabarei agora com você, ouviu?

— Ninguém lhe respondeu, e às apalpadelas, procurava o homem que lá havia encerrado.

Savini tinha desaparecido.

 

A FLECHA VERDE

A comoção fez o homem voltar a si. Não podia compreender o mistério, e chamou por um marinheiro.

— Quem abriu a prisão? — perguntou.

— Levei-lhe alimento há duas horas — respondeu o homem.

— E fechou a porta?

— Sim, enquanto fui em busca da água que ele pedira.

Coldharbour Smith acendeu um fósforo e pesquisou a prisão. Como era de esperar, algemas e cordas jaziam no soalho; resolveu ir ao camarote do comandante do navio.

— Emil, a que horas poderemos partir?

— Dentro de duas horas estaremos em condições de seguir — disse o espanhol, mas o amigo deve reparar na pesada cerração que nos cerca.

Na verdade era tão espessa a neblina, que mal se divisavam as luzes a pequena distância.

— Tanto melhor; será mais fácil. Vamos sair imediatamente?

— Impossível — replicou o capitão — não há vapor suficiente, talvez dentro de uma hora... mas, se o tempo não melhorar, que poderei fazer?

— Sigamos encobertos pela neblina, você conhece o rio... e alcançaremos o mar.

Voltando ao salão, lançou um olhar à porta fechada do quarto da moça e sentou-se para refletir — se Julius fosse à terra...

Coldharbour tomou do bolso o revólver, que descansou sobre a mesa.

Valéria estava silenciosa; Smith pensava que seria melhor não a ter assustado, mas se ocupava mais em cogitar do que fizera Savini. Se pudesse apanhá-lo... Se ele alcançasse o cais, o fim estaria próximo, mas se ainda estivesse no navio... e havia tantos lugares onde alguém se podia ocultar...

Com esses pensamentos, saiu para o convés e, espreitando através da pesada cerração, viu um bote e um homem que remava rumo ao Contessa; vinha só e devia ser um dos marinheiros que voltava; observando melhor porém o solitário remador, viu-o passar para se sumir no nevoeiro espesso. Novamente se dirigiu ao salão e sentou-se diante da porta aberta, sempre pensando na fuga de Julius e refletindo que não devia ter compaixão da moça, se algum perigo o ameaçasse, pois seria ela, sem dúvida, a causa.

Passaram-se alguns minutos. Ouvira a voz do capitão que ordenava que levantassem ferro, e o cabrestante fora já retirado, quando um rumor estranho o sobressaltou. Por um segundo ficou imóvel, e depois, segurando com mão firme o gatilho da arma...

 

A lancha que sulcava as águas, parou imediatamente ao lado do Contessa. Jim previu o que podia acontecer e deu instruções para que fizessem parar as máquinas do navio.

Saltando para bordo, o investigador, seguido pela Polícia Marítima, dirigiu-se ao convés que estava deserto.

— Prenda o comandante — segredou a um dos que o acompanhavam.

Featherstone andou até o salão e deu volta ao trinco da porta que estava aberta; entrou. Não havia luz e era absoluto o silêncio. Tomando do bolso uma lanterna, foi até o camarote onde Valéria estivera encerrada, e ali penetrando encontrou no leito o abrigo da jovem que, entretanto, não estava lá, nem no compartimento vizinho. De volta, iluminou a mesa e vendo um homem atirado sobre uma cadeira, levantou o revólver e gritou:

— Mãos ao alto!

Era Coldharbour Smith que, meio deitado, com a mão crispada sobre a mesa, segurava ainda a browning; os olhos já sem brilho, tinha-os ainda fitos na vigia aberta. Estava morto; do peito pendia-lhe uma flecha verde.

 

O HOMEM DO BOTE

Jim chamou o inspetor da Polícia Marítima e fez luz no salão, antes de iniciar a busca. Coldharbour Smith devia ter morrido instantaneamente; a flecha atravessara-lhe o coração, e fora atirada com tal força que havia penetrado no espaldar da cadeira.

— O homem viu o que quer que fosse, e tomou a pistola,

— disse Jim. — Há quanto tempo está morto? As mãos estão ainda quentes, creio que deve ter sido assassinado enquanto nos dirigíamos para cá. Notou que o quebra-luz da lâmpada não está frio?

O tempo que despendeu ali foi o indispensável, e apressou-se logo em ir à procura do comandante, que se desfez em lágrimas, mostrando-se extremamente nervoso ao ter conhecimento da tragédia.

— Eu sabia que estava a bordo uma senhora — soluçou —mas, por — e proferiu rapidamente o nome de vários santos — não tive ciência do que estava acontecendo, sou um homem sensível e bondoso, senhor, e, se tivesse sabido que a senhora não era esposa de Smith...

— Onde está a moça agora? Afirmo-lhe que, se me quiser iludir, não verá Vigo outra vez.

Nesse ínterim havia chegado outra embarcação e no convés do navio viam-se muitos homens uniformizados. Tudo foi pesquisado, sem que encontrassem a jovem.

— A vigia do salão estava completamente aberta, senhor —fez notar um agente — não lhe parece estranho numa noite como esta?

A Jim nada lhe passara despercebido; um exame do convés levou-o a notar uma escada de corda ligada evidentemente por mãos inexperientes a uma escora. Demais, faltava um bote que tinha descido a meia altura, para servir de apoio aos homens que haviam estado a calafetar a embarcação. Os ferros que o prendiam, balançavam na extremidade das cordas. Valéria não poderia ter descido para o bote sozinha — disso, Jim estava certo.

— Onde se achava Julius Savini?

O comandante se prontificou a informar.

— O pobre Smith tinha-o preso no depósito das cordas, mas ele fugiu e nadou para terra.

Souberam também que o homem que levara a refeição a Julius, vendo-o dentro d'água, havia atirado contra ele um ferro pesado, mas não ousara contar a Smith o modo como o prisioneiro fugira.

Voltando ao salão, Featherstone pediu mais luz e iniciou nova busca no quarto.

— O delito tem todos os característicos dos assassínios do "Arqueiro Verde"; a flecha o feriu exatamente como a Creager. E pelo menos um indício para apanhar o criminoso, ou melhor, o executor.

— Como teria ele chegado a terra? — perguntou o inspetor admirado — a não ser que conhecesse o rio, não se aventuraria a atravessá-lo sob tal nevoeiro.

O investigador, sob terrível opressão, pensava que o mesmo poderia se dizer da jovem, a menos que estivesse com o arqueiro verde.

Uma vez avistada a terra, seria simples chegar até lá e desembarcar, pois muitas ruas estreitas partiam da avenida do cais que terminava num declive. O fantasma, com todas as probabilidades, devia estar no rio, naquele momento, remando através da cerração, num esforço supremo para salvar-se.

Deixando a bordo alguns de seus homens, Jim embarcou na primeira lancha e iniciou a inspeção do rio. Ao longe, muito ao longe, avistou uma embarcação que se movia vagarosamente; o viajante fê-la navegar apressada, ao sentir que o procuravam alcançar.

O Gaika — uma embarcação mercante de pesca do G. I. C, explicou o agente. A intervalos, a máquina da lancha parava e eles ouviam o bater de remos n'água; mas só depois de terem se adiantado muito, puderam verificar do que se tratava.

— É um bote, escutem — segredou um dos homens, inclinando a cabeça.

— Não é navegante experimentado — disse o outro — um remo cai sempre antes do outro.

Agora podiam localizar o ruído, e a lancha ia vagarosamente. Já divisavam o vulto de um armazém através da cerração e Featherstone viu o bote. Um homem remava em direção a uma das ruas que iam ter ao cais.

Instantaneamente a lancha tomou velocidade e foi para ao lado da pequena embarcação, quando o seu tripulante saltava em terra.

— Alto! — gritou Jim, e pulou no cais coberto de limo.

— Não é Featherstone? — perguntou o desconhecido, voltando-se para ele, que parará tomado de admiração, reconhecendo a voz de Mr. Howett.

— Que?!... quê?! Mr. Howett! que faz por aqui?

— Soube que o amigo tinha ido para o Contessa e segui-o — respondeu o interpelado. — Encontrei este bote, ou melhor, vi que um homem nele remava e pedi que mo cedesse.

Não parecia falar a verdade e, se tratasse com outra pessoa, Jim não aceitaria a explicação.

— Encontrou-a? — perguntou Mr. Howett, e sua voz era extraordinariamente firme.

— Não, não a encontrei. Smith está morto.

— Morto? E Valéria não está lá? Como morreu ele?

— Foi assassinado pelo "Arqueiro Verde" — disse Jim, e o outro se manteve em silêncio.

— Valéria fugiu ou foi tirada da embarcação — continuou o Chefe da Segurança. — Vou à Scotland Yard; quer acompanhar-me?

Dentro de uma hora Jim estava na Prefeitura. O nevoeiro era ainda mais espesso na cidade, onde o trânsito se tornara difícil. Não encontrou novidades; entregara o caso à Polícia Marítima e, depois de se ter despedido de Mr. Howett que se recolhera ao hotel, sentou-se a escrever o relatório, apesar de extremamente fatigado.

Todos os destacamentos se ocupavam na procura da jovem, e o investigador foi obrigado a interromper várias vezes o trabalho para receber informações; estava a terminar, quando Fay Clayton foi anunciada.

Vinha pálida e parecia ter chorado.

— Encontrou Julius?

— Nada sei de positivo, mas espero que esteja salvo. Smith

prendeu-o no Contessa, mas ele parece ter conseguido evadir-se.

Diga-me, Fay, Savini é bom nadador?

Ela sorriu apesar de sua tristeza e respondeu com orgulho: — Excelente; meu marido nada onde as baleias se afogam; é o melhor nadador que você poderá encontrar, Featherstone, por quê?

— Atirou-se do navio, quando já era pesada a cerração, mas... se sabe nadar, já estará em terra.

A esposa começou a se afligir...

— Pereceu afogado! Por que não procurou por ele? Só, abandonado no rio... não se poderá salvar!

— Tenho certeza de que ele está bem! — exclamou Jim consolando-a — quisera ter a mesma esperança quanto a Miss Howett — e contou-lhe então o fim de Coldharbour Smith.

— Ele bem o merecia — disse ela. — Não era digno de viver. Uma fera... penso que não supõe que fosse Julius o assassino, — exclamou de repente — nem mesmo seria ele capaz de reconhecer um arco e uma flecha, se os encontrasse.

Jim acalmou-a, explicando-lhe que nada suspeitava de Savini e aconselhou-a a que se recolhesse a casa.

O transporte a tais horas e com tão espessa cerração não era fácil e Fay andou, encontrando o caminho com dificuldade; seriam talvez duas horas, quando alcançou o edifício onde tinha seus aposentos. Ao chegar, à porta, notou que estacionava ali um automóvel que encontrara poucos minutos antes e que um homem se ocultava na sombra da entrada fechada; era Abe Bellamy.

— Quero entrar — disse ele — mora aqui um amigo meu. Não sabia que fecharam a porta externa.

— Não é possível — disse ela com decisão. — Depois da maneira por que tratou Julius, admira-me que tenha coragem de vir até cá e a tais horas.

— Então você é a esposa, hein?... é Mis. Savini? Bem, quero entrar, porque preciso dizer algumas palavras a seu marido.

— Conte-me o que quer, e sem demora, pois estou cansada.

— Diga-lhe que descobri ter ele me roubado três mil dólares e que estou providenciando a sua prisão É tudo, Mrs. Savini.

Ela tomou-lhe o braço, quando ele se preparava para sair.

— Espere. Não é impossível, mas o senhor é bastante inteligente para não lhe ter proporcionado uma ocasião... Entre, quero ouvi-lo.

O velho seguiu-a pela escada e alcançaram os aposentos.

— Entre — disse ela, acendendo a luz na sala de jantar. Ã primeira vista, Fay espantou-se de sua fealdade.

— Meus Deus! que beleza! — exclamou.

— Beleza, eu? — perguntou Abe acomodando sua enorme figura numa das sólidas cadeiras. — Felizmente posso lhe retribuir o cumprimento.

— Bem, que há a respeito do furto, Mr. Bellamy? Estou certa de que Julius não está envolvido, pois não é capaz disso...

— É essa a sua opinião? Deve conhecê-lo melhor que eu... mas, não desejo acusá-lo... nem mesmo perdi dinheiro... o que quero é justamente ter uma palestra com você.

— Então me enganou, miserável?! Mentiu para entrar em minha casa. Agora, saia imediatamente, ou telefonarei à polícia.

Os olhos frios de Abe Bellamy fitaram-na por um momento e ela sentiu fugir-lhe a coragem.

— Não telefonará a ninguém... quero falar com Julius.

— Já lhe disse que não está.

— Vá ver, ordenou ele, e Fay deixou a sala.

O que a levou a abrir a porta do quarto de Jerry, ela não sabia; talvez fosse o estar mais próxima... fez luz e ficou tomada de espanto... Julius estava deitado, sujo, sem colarinho, barbado, profundamente adormecido. A princípio não pôde crer no que via, depois, com um grito, abraçou-o fortemente, soluçando de alívio, encostada ao casaco empoeirado do marido que aos poucos despertou, evitando a luz.

— Fay, espero que não tenha pensado... diga-lhe que vá descansar em seu quarto...

Fay correu ao dormitório... Reclinada, coberta com um acolchoado, estava uma jovem que ela não necessitava perguntar quem era. Valéria moveu-se e suspirou; Fay Clayton curvou-se com cuidado, contemplando-a e beijou-lhe a face.

 

UM OFERECIMENTO REJEITADO

De volta ao quarto, Fay encontrou Julius sentado a um canto da cama.

— Que aconteceu? — perguntou ele.

— Bellamy está em nossa casa.

Ele cerrou os olhos, esforçando-se por concentrar os pensamentos.

— Bellamy... Abe Bellamy aqui? Que quer?

— Quer lhe falar. Há quanto tempo está aqui, Julius?

— Não sei... creio que há algum tempo.

Ele havia tirado as botinas ao deitar-se e procurava-as. Ela lhe alcançou uns chinelos.

— Não vá ter com ele, se não o deseja.

— Sim, vou vê-lo — disse Julius, com um sorriso... Miss Howett está bem?

Espreguiçando-se e bocejando, Savini levantou-se e foi à sala de jantar. Era uma nova sensação encontrar aquele homem que ele tanto temia; contudo fê-lo com certa serenidade.

— Bem, justifique seus atos — ordenou o velho.

— Não pretenda me intimidar — replicou o secretário, agitando a mão como que a querer dissipar a visão de Abe Bellamy do espírito.

— Onde está a moça?

— Que moça? — perguntou o outro, afetando inocência. — A que você seguiu ao Contessa?

— Em casa.

— Mentir para você é coisa natural; ela está aqui, nesta casa ou aposento ou... qualquer que seja o nome que queira dar a este lugar. Viram-no trazê-la para cá.

— Por que então me interroga? Sim, está aqui. O velho mordia os lábios.

— Como fugiu de lá?

— Isso não lhe importa.

— E Smith não o viu...

— Coldharbour Smith morreu. — era Fay quem falava, dando a conhecer o trágico acontecimento.

— Morreu? — disse o velho com incredulidade. — Morreu? Ela fez um sinal afirmativo e ele continuou:

— Quem lhe disse isso?

— Featherstone, acerca de uma hora.

— Mas... Como? Quem o matou?

— O "Arqueiro Verde."

— Você está louca... o "Arqueiro Verde"? Viram-no?

— Está mesmo resolvido a me inquirir? Ouça, Mr. Bellamy; não sou agente de informações, mas Coldharbour Smith foi encontrado morto no salão; uma flecha verde atravessou-lhe o peito. É quanto sei.

Entreolharam-se marido e mulher e nos olhos de Savini havia um quê de inquietação que não pretendeu disfarçar; como a Abe Bellamy, a notícia o deixava aturdido.

— Tanto melhor — disse o milionário por fim. — Savini, nós nos compreendemos. Sem mais palavras, ofereço-lhe dez libras... cinco mil dólares... a Fay prometo a mesma quantia, se me quiserem satisfazer as exigências. Sabem o que quer dizer cem mil dólares que lhes darão o rendimento de seis ou sete mil dólares por ano? Um homem pode viver confortável e desafogadamente com tal quantia.

— Não faz esse oferecimento sem pedir muito de nós... — disse Fay. — Que quer que façamos?

— Miss Howett está lá — e Abe Bellamy mostrava a porta... Levem-na para Garre Castle.. ainda esta noite; iremos juntos, meu carro está à porta.

Julius sacudiu a cabeça.

— Há muitas coisas que se fazem por dinheiro, Mr. Bellamy; o que me pede, porém, não; e não haveria o que me obrigasse a fazê-lo.

Fay concordava com o marido.

— Ninguém saberá — disse o velho, baixando a voz quase num sussurro. — A menina desapareceu do navio e não há quem conheça o seu paradeiro. Vejam, serão muito bem pagos para, na verdade, nada fazerem. Dar-lhes- ei quinze mil...

— Se me oferecesse quinze milhões, não seria atendido. Julius não o faria e, quanto a mim... — disse Fay — havia de odiá-lo, se procedesse de outro modo.

Abe Bellamy descansou o olhar na mesa e permaneceu muito tempo imóvel, a pensar; depois, levantando a gola do casaco, continuou em tom mais suave.

— Muito bem, seja! Pode voltar para Garre segunda-feira, pela manhã, Savini, verei se lhe posso proporcionar negócio mais rendoso.

— Não voltarei a Garre.

Abe via-se frustrado em seus desejos.

— Não voltará? — perguntou ameaçadoramente. — Pensa talvez obter mais de Howett do que de mim?

— Não cuidei receber favores de Mr. Howett — disse o secretário com indignação — nada fiz esperando recompensa, além disso... — parou a refletir e depois, com surpresa da esposa continuou: — Tornarei a Garre na manhã de segunda-feira, Mr. Bellamy.

O milionário fitou-o por um momento. — Enfim parece prudente.

Fay acompanhou-o até à porta, fechou-a, e antes de voltar, mandou a Jim Featherstone um recado que o fez correr na cerração sem sobretudo, nem chapéu.

— Não faça rumor — segredou Fay — ela ainda dorme. Que lhe direi, Featherstone? Julius conseguiu salvá-la. Meu esposo é o homem mais útil... — e ocupou-se em elogiá-lo em voz baixa.

Savini, vestindo um amplo roupão, estava acordado e bastante abatido.

— Felizmente, capitão, temo-la aqui — disse, cumprimentando o visitante. — Neste momento comuniquei-me com Mr. Howett, avisando-o de que Miss Valéria está salva, e dorme.

— Como fugiu?

— Foi fácil, mas desagradável... Vendo-me livre das algemas, desatei os pés. Bastava então somente conseguir a porta aberta, o que tive de esperar até a tarde, quando se lembraram de me levar alimento. Quando entraram, saltei, antes que o marinheiro pudesse compreender o que se passava e atirei-me à água. O homem quase me apanhou, arremessando um instrumento pesado de que me consegui desviar. O nevoeiro era denso e a água extremamente fria, e não tinha permanecido muito tempo ali quando percebi que, fatigado e enfraquecido como estava, não poderia chegar a terra. Refletindo, pensei que havia abandonado Miss Howett e resolvi então nadar para o outro lado do navio e subir por uma das amarras. Já me sentia embaraçado e cheio de susto, quando vi uma corda pendente de um bote, descido a meia altura. Não sei como consegui subir até a embarcação, pois me sentia muito fraco; finalmente a alcancei, deitei-me e me deixei ficar pensando no que faria. Teria, alguma vez, experimentado estar num bote aberto, inteiramente molhado, sob uma terrível cerração? Já não podia lá estar; subi, pois, para o convés e, ouvindo vozes no salão, abri a vigia. — Smith estava embriagado e pretendia divertir-se com Miss Howett; ela, porém, se refugiou no quarto, fechando a porta. Creio que foi o achado de uma escada de corda que me fez tomar uma resolução. Levantei-a e prendi a uma escora, para que me servisse de subir e descer do bote; foi quando vi Smith precipitar-se do salão ao convés para me procurar, que me veio uma inspiração; introduzi a escada pela vigia e desci. Temia, mas estava firme, confesso francamente; receava que o homem voltasse. Custou-me muito convencer Miss Howett de que era eu e não Coldharbour Smith, mas por fim, ela abriu a porta e eu sustive a escada para que ela subisse, seguindo-a logo. Num momento estávamos dentro do bote. Eu não conhecia o manejo dos turcos, mas a menina, que fizera viagens de recreio em iates, mostrou-me como faria para descer a embarcação, e em poucos minutos a tínhamos n'água. Embarcar e navegar para terra, foi coisa fácil e a dificuldade que encontramos foi apenas achar um ancoradouro. Por felicidade, avistamos um táxi e eu sugeri que seria conveniente que Miss Howett viesse para cá, pois Fay lhe poderia dispensar os cuidados de que ela necessitava.

— Quando saiu do Contessa, viu algum bote? — perguntou Jim.

— Sim, um em que um homem viajava; ia no lado sul da embarcação. Desejávamos saber quem era, mas não estávamos tão próximos que pudéssemos distingui-lo. Pensa que seria o arqueiro?

— Devia ser — replicou Jim.

— Curioso! Chamamos por ele, porque não estávamos certos da direção a tomar, devia ter ouvido, mas não respondeu.

Jim levantou-se para sair.

— Graças a Deus que foi bem sucedido. Agora deve descansar, Savini. Mr. Howett e uma das criadas estarão aqui em breve. Fay, — continuou tomando as mãos da moça — começo a partilhar da confiança que lhe merece Julius Savini, e em qualquer circunstância em que nos encontremos no futuro, pode contar com um bom amigo.

Julius não falara ao investigador da visita do milionário, o que lhe lembrou a esposa, quando ficaram a sós.

— Não — disse ele, cocando o queixo. — Não seria de bom aviso. Ouviu o que disse Featherstone? Ele nos seria útil no caso de... Pretendi obter muito dinheiro de certa pessoa, mas essa idéia se tornou desagradável; voltarei ao velho plano. Penso que Bellamy se arrependerá de me ter convidado para tornar a Garre.

— E talvez você se arrependa ainda mais — profetizou Fay.

 

UM ACHADO NO BOTE

Era domingo. Em Carlton, cinco pessoas felizes se reuniam para almoçar. O grande restaurante não estava totalmente cheio, mas, para dois dos convivas, todo o mundo se resumia naquela mesa pequena.

Mr. Howett mostrava-se preocupado e tão absorvido em seus pensamentos, que parecia despertar cada vez que o criado lhe colocava à frente um novo prato.

Julius explicava um dos meios que empregara na fuga, quando entrou Spike Holland e, se o jornalista assomava em Carlton, era fora de dúvida que não vinha só. Nessa ocasião era seu hóspede o homem de cabelos grisalhos que Valéria vira, há tempo, jantar numa mesa próxima, quando ainda não conhecia as ocupações de Jim Featherstone.

James, levantando-se, curvou-se à passagem de John Wood. Desta vez ocuparam uma mesa no outro extremo da sala e havia pouco que se tinham acomodado quando Spike, veio ter ao grupo.

— Um homem que comete um assassínio em sábado, merece a morte — disse ele — todos os jornais de domingo ocupam-se com o "Arqueiro Verde", Capitão Featherstone, quando sua história pertence exclusivamente a mim, e eu não disse sobre ela uma só palavra.

— Muito mau! — sorriu Jim. — A mim não me cabe a culpa disso, Holland, e você devia ter tido sua parte, mas dar-lhe-ei a verdadeira notícia depois do almoço. Vejo que está acompanhado do "amigo das crianças".

— Sim, veio ontem da Bélgica e hospedei-o em seus aposentos. Está providenciando para a abertura duma nova "Instituição" na Inglaterra e quer negociar com o velho Bellamy, a compra de Garre Castle. Que pensa dessa idéia? Diz que não poderá ser feliz até que as ameias do castelo sejam guarnecidas de pequeninos de dois anos que desafiarão o "Arqueiro Verde", com suas vozes alegres. É curioso, mas ele pensa que é um excelente lugar para tal instituição e, posto não simpatize com ò proprietário, irá procurá-lo esta semana.

— Conhece-o bem? — perguntou Mr. Howett que de súbito se interessara pela palestra.

— Mantenho com ele relações jornalísticas, mas considero-o um bom amigo, digno e instruído. Por acaso, Mr. Howett —inquiriu Spike, com delicadeza — esteve em Londres acerca de quinze anos?

Mr. Howett inclinou a cabeça.

— Estive na Toxophiliti Society num destes dias — continuou o jornalista — fiz pesquisas com a intenção de descobrir o arqueiro verde e encontrei um Howett como vencedor numa antiga competição.

— Interessava-me de fato pelo desporto — respondeu o outro. — Tivemos uma sociedade semelhante em Filadélfia, há alguns anos; penso, porém, que já não exista. Recordo-me de ter tomado parte num encontro, quando estive aqui a passeio... Sentia-me quase isolado, quando anunciaram a partida, mas não me lembro do resultado.

— Papai, nunca pensei que se ocupasse do jogo do arco — disse Valéria tomada de espanto.

— Sim, em tempos passados — respondeu Mr. Howett, e procurou desviar o assunto.

Julius escutava excitado.

— Seu amigo é notavelmente simpático — disse Valéria, quando Spike voltava à mesa — não me recordo de ter visto outra pessoa que me agradasse tanto.

— Estou triste pelo que ouço — exclamou Jim.

— Que idade terá ele? — perguntou a jovem.

— É difícil afirmar; pode ter trinta e oito como vinte e oito; o cabelo, porém, é prematuramente grisalho.

— Fale-me dele — pediu a jovem; e com um admirável domínio sobre si mesmo, pois nenhum homem gosta de ver elogiadas as virtudes de outro pela mulher que ama, Jim contou a história da mania de Wood.

— Ele conhece Mr. Bellamy?

— Sim, e muito bem; era amigo de um sobrinho do proprietário do castelo e, ao morrer, o jovem Bellamy deixou-lhe quanto possuía. Vi o testamento que foi feito na Inglaterra e registrado em Sumerset Houses; posto não fosse legado de grande valor e consistisse apenas em livros e instrumentos científicos adquiridos durante a guerra, o fato de ter sido tudo deixado a Wood, bem mostra a afeição que os ligava. Acidentalmente John me deu provas que me fizeram crer a princípio que havia decifrado o enigma do seu passado, Valéria, — disse em voz mais baixa, contando o rapto da criança e o desastre de River Bend. — Foi, porém, passageira essa esperança, pois o fato aconteceu há vinte anos, quando a menina devia ter três de idade e, evidentemente, Valéria seria de meses apenas, quando passou para o cuidado dos Howetts.

— Lembro-me de ter lido alguma coisa acerca desse acidente; sem dúvida os assentamentos estão acima de qualquer suspeita de erro e não posso ser eu... eu sei — e ela sorriu — porque vi as roupas que vestia, quando me levaram para a casa de Mr. Howett.

Jim não esperava que o pai de Valéria quisesse voltar a Lady's Manor; pensava que, prevenido pelo terrível acontecimento, conservaria a moça na cidade ou a levaria para a América, e a última proposição era causa de pesar para o jovem. Partiram, porém, naquela tarde.

O inquérito relativo ao assassínio de Coldharbour Smith tinha sido marcado para sexta-feira e, posto ele desejasse evitar de qualquer modo que ela aparecesse, não lhe foi possível conseguir que a dispensassem do depoimento.

O investigador voltou ao vestíbulo em busca do sobretudo e chapéu, depois que eles tinham saído, e encontrou John Wood e Spike Holland que conversavam em voz baixa. Não era seu intento interromper a conferência e passou com um sorriso.

A Scotland Yard era um deserto aos domingos e Jim nesses dias faria lá apenas um ato de presença; agora, porém, preocupado com o mistério do "Arqueiro Verde" era para ele um dia cheio de ocupações. Um oficial interrompeu o trabalho ao vê-lo passar.

— O inspetor Fair da Divisão do Rio está' em seu escritório e eu lhe disse que esperasse, pois, creio que lhe quer falar particularmente; eu já havia avisado para seus aposentos pelo telefone. — Embora Jim não se surpreendesse, admirava-se da urgência com que ele o procurava e o agente, que mais parecia um marinheiro do que um polícia, estava sentado à entrada.

— Sinto incomodá-lo, Capitão Featherstone; lembra-se que na noite passada um amigo seu que desembarcava de um bote... Mr. Howett, não é?

— Mr. Howett.. sim! — disse Jim.

Fair levantou do soalho dois objetos que havia ocultado embaixo da cadeira e colocou-os sobre a mesa de Jim. Um era um arco de metal o outro uma flecha verde.

— Onde os encontrou?

— No bote de Mr. Howett — respondeu o inspetor.

 

UMA CONFIDENCIA

Jim não podia fugir à evidência dos fatos, e permaneceu durante muito tempo sem falar, lutando por achar uma explicação.

— Mr. Howett disse ter visto um homem que remava para o cais e pediu-lhe que lhe cedesse o bote.

— Mr. Howett diz também que o remador nada replicou; não lhe parece interessante a história, Capitão Featherstone?

— Nada vejo de interessante — disse Jim friamente — parece-me provável que o homem do bote, sobressaltado ao ver Mr. Howett no cais, esquecesse de tirar a arma ou mesmo a deixasse deliberadamente lá para desviar a atenção.

— Hum! — disse o outro pouco convencido — é seu o caso e não me devo envolver nele, capitão, mas se quiser aceitar o conselho de um homem muito mais velho que o senhor, digo-lhe que não afaste de todo Mr. Howett da suspeita de ter causado a morte de Coldharbour Smith; demais ele poderia ser justificado, se lembrássemos que o tratante lhe levara a filha.

— Mr. Howett... absurdo!

— Pode ser absurdo! — replicou o imperturbável oficial — mas, que vai fazer depois de tudo isso? Vai interrogá-lo? Isso é o mais importante. Quantos fossem vistos no rio nessas circunstâncias, poderiam ser suspeitos de qualquer interferência no crime e deviam, penso eu, ser chamados a prestar informações ao Prefeito, do que viram e ouviram.

Jim estava em sérias dificuldades; era impossível conservar o nome da moça fora daquele caso, e ele queria pelo menos limitar a associação dos Howetts. Quem seria o homem que Valéria e Julius tinham visto remar através da cerração e a quem tinham chamado, sem obter resposta? Seria Mr. Howett ou o homem a quem procuravam? Resolvera estudar o pai da menina na primeira oportunidade e pensava resolutamente que ele não poderia ter ingresso no tribunal.

Era pois acrescentado àquela série de crimes impunes, mais um assassínio por flecha.

Feita a busca no que deixara Smith, encontraram uma grande soma em moeda em circulação nos Estados Unidos, o que significava que a pessoa de quem provinha o dinheiro não podia ser determinada.

Do ponto de vista policial o inquérito requeria maneira delicada de agir. Já os jornais estavam cheios de artigos sobre o crime misterioso, e a morte de Creager era lembrada em todos os pormenores; foi então que na manhã do inquérito, o Daily Globe trouxe a público um relatório completo dos feitos do "Arqueiro Verde", tendo o cuidado de afastar Abe Bellamy das tragédias.

— A dificuldade é — dizia Spike, ao fazer o usual chamado para a Scotland Yard no dia da publicação — a dificuldade é ligar os dois assassínios, pois a única relação que existe entre eles é Miss Howett morar em Lady's Manor que fica em Garre, justamente na esfera de ação do fantasma.

— Não me atrevi a ler a notícia — disse Jim — espero, porém, amigo, que tivesse sido bastante discreto.

— A discrição é a minha principal virtude, e demais, essa história deverá continuar. Coldharbour Smith, um criminoso, seqüestrou Miss Howett para que o pai a resgatasse; com esse fim, levou-a para bordo do Contessa e supomos — pelo menos supôs o Globe — que tivesse mandado uma mensagem ao pai, dizendo-lhe que ela lhe seria entregue mediante o pagamento de alguns milhões. É um caso comum de imposto exigido por salteadores, tal como o apresentei. Não falei em casamento ou em outra qualquer intenção do homem e tampouco sugeri que o velho Bellamy tivesse qualquer interferência no assunto.

— Se eu puder arranjar as coisas, é este o caminho que seguirá o inquérito; o único perigo é...

— Lacy, — completou Spike — é quem pode entornar o caldo, especialmente se o culpar de conivente no rapto e portanto no assassínio. É possível também que ele tenha alguma coisa a dizer de você, Featherstone — continuou Spike expressivamente — pois me contou algo de um castigo tremendo que lhe infligiu e de seus planos de vingança.

Lacy era o perigo, Jim bem o compreendia e, quando no inquérito ele foi chamado, não atendeu, nem tampouco foi encontrado pelos que o procuraram; o investigador sentiu-se aliviado, posto o adiamento do interrogatório apenas retardasse os acontecimentos. Como o homem não aparecesse à intimação, Jim tinha apenas um caminho a tomar — prendê-lo, e muita contra a sua vontade deu a ordem ao assistente. Lacy porém, desaparecera de casa e não o viram mais no distrito em que habitava. Três dias depois o inquérito era resumido, e Spike Holland, observando os atos judiciais deixava-se impressionar pela espantosa falsidade; nenhuma palavra sobre Garre Castle, nenhuma referência ao "Arqueiro Verde", nada sobre a flecha, exceto as palavras de um jurado indiscreto a quem o Prefeito censurou. Era um assassínio excêntrico em algumas circunstâncias, prosaico em outras e, quando o estulto júri voltou com o veredicto, foi destruído o que podia restar de romanesco no caso. Ei-lo:

 

"Achamos que Henry Arthur Smith foi morto a bordo da embarcação Contessa, dentro da área de Rotherdithe no County of London, vítima de um instrumento agudo, por uma ou mais pessoas desconhecidas, contra quem lavramos o veredicto de assassínio premeditado."

 

O depoimento de Valéria fora prestado em voz tão baixa, que os repórteres dificilmente ouviram.

— Um veredicto ideal — disse Jim com um suspiro de alívio. — Que pensará Bellamy?

Mr. Howett convidou o investigador a ir a Lady's Manor e ele não tardou em aceitar o convite.

Ordinariamente reservado, o pai da moça era agora quase taciturno, segundo lhe disse Valéria, logo depois de sua chegada.

— O castelo é presentemente mais guardado que nunca — dizia ela — e Mr. Bellamy recusa-se a receber até os vendedores, que deixam suas mercadorias na entrada. Mr. Savini tornou-se uma espécie de mordomo e sua esposa...

— Fay — perguntou Jim incredulamente. — Está lá?

— Chegou na terça-feira e é quase uma governante. Mr. Savini pensa que o terrível Lacy está escondido no castelo e eu prometi que nada lhe diria a respeito disso.

— E é como se eu nada soubesse; pois não desejo conhecer seu paradeiro, enquanto não estiver preparado para acusar Abe Bellamy de todos os seus crimes.

Estavam no jardim, e ela, distraída, desfolhava um grande crisântemo branco.

— Pensa que deverei alimentar a esperança de encontrar minha mãe, Jim?

— Esperança! E um sentimento que não necessita ser alimentado — disse ele, para não responder diretamente.

Ela desejava contar-lhe alguma coisa e para isso o havia trazido ao jardim. Quantas vezes havia tentado falar e se detinha, não que fosse segredo, mas suas palavras poderiam despertar suspeita contra quem ela amava tanto. Mas, revelar o que dia e noite lhe ocupava o espírito, era o meio mais seguro de alívio.

— Jim, estou atribulada e a confiança que me inspira me anima. É de meu pai.. é de Mr. Howett que lhe vou falar. Promete-me esquecer que é oficial de polícia, para pensar unicamente que é meu amigo?

Ele lhe tomou carinhosamente a mão fria.

— Fale, Valéria.

Ela sentou-se a seu lado num banco de madeira e, ora hesitante, ora resoluta, contou-lhe o que se passara naquela noite em que, percebendo o som de vozes a que se misturava de quando em vez, um soluço, sentira tanto medo.

— Ao ouvir de meu pai que era ele quem estava na sala, devia ter me recolhido, entretanto a curiosidade me fez ir espreitar e... Oh! Jim! pensei que morria! Lá... no vestíbulo... estava o arqueiro verde!

Featherstone parecia surpreendido e não pouco preocupado..— Viu Mr. Howett subir? Ela acenou negativamente.

— Recolheu-se logo ao quarto...? Ia apressado? — indagou o rapaz.

— Com muita pressa... — e ela vacilava ao pronunciar as palavras.

— Não lhe bateu à porta para lhe desejar boa noite?

— Não; dirigiu-se ao quarto e fechou-se.

— E a mulher... não chegou a vê-la?

— Não; Mr. Holland pensa que era ela quem dirigia o carro que, passando por ele, o despertou. Jim duvidava.

— Uma senhora nervosa é incapaz de guiar um automóvel, bem que as mulheres sejam capazes de reagir extraordinariamente. Ê, na verdade, uma história curiosa...

— Sei de alguma coisa ainda mais curiosa — e contou-lhe o rumor estranho que ouvira na noite de sua visita ao castelo, quando depois encontrou na cozinha uma flecha verde.

Voltando então à sala de visitas, ela tomou da flecha e entregou-a a James, que a mediu.

— é a maior das três que já vi — disse ele. — As que vitimaram Creager e Smith deviam ter seis polegadas menos; esta é idêntica às que usavam os antigos arqueiros — e examinou a ponta aguda, através de um vidro de aumento.

— Trabalhada à mão — exclamou ele — o que nos impede de obter informações nos lugares em que se fabricam flechas. A seta é igualmente muito bem acabada.

Ele a voltou sob a luz e tornou a examiná-la.

— Há alguns sinais digitais aqui, são provavelmente seus, mas talvez conviesse fotografá-los. Posso levar a flecha para a cidade?

— Não — disse ela tão aflita que causou surpresa a Featherstone, que não percebeu imediatamente a razão.

Ela temia... temia que os sinais revelassem a identidade do "Arqueiro Verde".

file lhe devolvia justamente a flecha, quando a porta se abriu para dar passagem a Mr. Howett.

— Querida — iniciou ele e, surpreso, parou. — Que é isso? inquiriu severamente.

— Uma flecha, pai — respondeu Valéria.

Mr. Howett, tomando a arma das mãos da menina, sem uma palavra, retirou-se apressado do quarto.

O olhar dos dois jovens se encontraram e no de Valéria havia tanta mágoa, que Jim Featherstone se entristeceu.

 

UM RUÍDO ESTRANHO

Os cães de Garre tinham sido levados e no castelo se respirava agora mais livremente. Abe Bellamy, encontrando o secretário, anunciou-lhe a resolução que tomara.

— Mandei-os embora — disse — eram inúteis, pois consentiam em ser narcotizados. Savini, preciso de uma mulher que tome conta da casa... não quero mais mordomos, mas alguém que possa guiar os criados no trabalho. Gostaria de trazer sua esposa para Garre?

O primeiro impulso de Savini foi recusar. — Creio que ela não aceitaria a posição de governante, que nada mais é do que uma espécie de criada.

— Convide-a — insistiu o velho.

Julius escreveu, não julgando entretanto que Fay aceitasse. Para sua surpresa ela em pessoa veio lhe responder, trazendo já a bagagem.

— Estou cansada de viver sozinha e curiosa de ver o tal fantasma, Julius; gosto dos castelos; embora não tenham a beleza de Holloway, aqui se goza muito mais liberdade.

O marido estava contrariado, pois não gostava de recordar que a esposa fora hóspede daquela prisão em Holloway Road. Levou-a à biblioteca a falar com Bellamy, que não parecia admirado de sua pronta aquiescência. O velho a recebeu com boas maneiras, mesmo cortesmente, e deu-lhe as chaves do castelo e um aviso.

— Tenho um guarda que dá sentinela à noite; não se assuste pois, se ouvir barulho. Durante o dia, costuma dormir muito e não o poderá ver.

Ao voltarem ao quarto, Fay tinha umas poucas de perguntas a fazer a respeito da sentinela noturna.

— Não sei quem é — disse Julius. — O velho me disse exatamente o mesmo. Imagino que seja alguém que ele manda vigiar o "Arqueiro Verde".

Quando naquela noite ele leu o relatório do inquérito que tão bem conhecia, lembrou:

— É Lacy — e a esposa estava de acordo, e muito se admiraram de não terem sido chamados a depor.

Pensando nisso, ela, sentada no leito, fumando seu último cigarro, chegou a esta conclusão:

— Featherstone preparou tudo para evitar que o nome de Bellamy fosse envolvido no caso.

— Por quê? Isso Featherstone não faria, pois deseja apanhar o milionário. Você é inteligente, Julius, mas nunca representaria dignamente o seu país; a diplomacia não é sua especialidade. Suponha que Featherstone acusasse o velho demônio; onde estão as provas contra ele? E como o poderia levar ao tribunal, sem fazer vir a público a grande história de Valéria Howett? Estou certa de que Bellamy está envolvido nela; a não ser assim, por que lhe pagaria a moça para que lhe desse informações do milionário?

Acomodou-se melhor na cama, segurando os joelhos; as sobrancelhas franzidas atestavam que estava preocupada.

— Tenho estado a pensar em muitas coisas. Por que me quererá ele aqui?

— Só Deus o sabe, mas provavelmente terá mais confiança em mim, se você estiver perto.

Ela não respondeu, e ele estava meio adormecido, quando ouviu-a dizer:

— Em Holloway estaríamos mais seguros.

Fay não dormiu bem naquela primeira noite que passava no castelo. Ouviu alguém que procurava conter a tosse ao passar cautelosamente pela porta e resolveu levantar-se; vestindo o roupão, foi à janela e afastou a cortina para contemplar a noite escura. Chovia. Nada podia ver, mas isso não a impedia de imaginar muito. Tiritando, voltou à cama. Estava novamente quase dormindo, quando ouviu um bater fraco e regular. A princípio pareceu-lhe que era dentro do quarto, escutando, porém, percebeu que vinha de baixo.

"Tap, tap, tap" e uma pausa. "Tap, tap, tap", e continuava o ruído. Sacudiu Julius e o acordou.

— Que é isso?

— Não sei — respondeu ele, sentando-se e escutando — parece haver alguém no andar inferior.

— Que é que fica aqui em embaixo?

— A sala de jantar... não, o vestíbulo — disse depois de refletir — mostrei-o a você, quando chegou; sentiu que ela estremecia.

— A entrada das prisões! — exclamou amedrontada. — Oh! Julius! Tenho medo.

— Não sejas tola — disse, acariciando-a — talvez sejam os canos d'água. Bellamy sempre conta deles coisas extraordinárias — mas ele mesmo se admirava do estranho ruído.

— Não; deve ser no quarto da guarda, isto me parece o bater do martelo contra o aço, e podemos agora ouvir mais distintamente.

— E onde será? — perguntava ela.

— Savini, que era hábil em localizar sons, compreendeu logo que vinha do cárcere, daquele lugar de tristeza.

— Donde vem? — insistiu a esposa.

— São os canos d'água — repetiu Savini — durma que vou providenciar para que cesse o ruído.

Tomou o casaco e ela percebeu que ele abria a gaveta da escrivaninha.

— Não seria necessário um revólver para um cano d'água — disse em lágrimas.

— Sou um homem nervoso e não me animaria a atravessar o castelo...

Fay saltou da cama e Savini a viu vestir um roupão.

— Não ficarei aqui só...

Julius não insistiu, pois também se sentia receoso de sair desacompanhado.

Uma luz brilhava no corredor por onde passaram cautelosos. A porta do quarto de Abe Bellamy estava aberta.

— Ainda não se acomodou — cochilou o secretário.

Havia luz embaixo e Julius desceu a escada com muito cuidado. A porta da biblioteca estava fechada e os dois ouviam agora distintamente o ruído que parecia vir da sala de jantar. Seguido de Fay, passou pela grande sala e penetrou no quarto de pedra onde brilhava um lanterna descansada no piso; havia outra luz no primeiro degrau da escada que levava aos cárceres. Arrastou-se naquela direção, espreitando para baixo; não via ninguém, mas eram agora perfeitamente claros os golpes do martelo.

Empunhando a arma, o homem tremia ao pisar na escada de pedra. De súbito, cessou o rumor e, ouvindo passos, tomou a esposa pelo braço e fugiu em retirada; do andar superior avistava-se perfeitamente o vestíbulo e os dois se detiveram alguns instantes a observar, antes que o trabalhador aparecesse. Era Abe Bellamy.

Sem casaco, a camisa aberta, mostrando o largo peito, as mangas levantadas até os ombros, deixando ver dois braços musculosos manchados de cinzento. Trazia numa das mãos um grande martelo e na outra carregava a lanterna; quando chegou ao vestíbulo, voaram para o quarto, fechando a porta.

— Que estaria ele a fazer? — sussurrava Fay.

— Faz reparos nos canos d'água — disse Julius com ironia, e muito longe estava de pensar que era quase acertada a resposta.

 

UMA CILADA

Julius despertara muito cedo naquela manhã para iniciar os trabalhos. Sobravam-lhe motivos para ir ao quarto da guarda, pois suas novas obrigações permitiam-lhe que penetrasse em todos os recantos do edifício; aquele lugar lhe escondia uma grande surpresa. Uma pesada grade de ferro que servia para fechar a entrada das prisões e que nunca fora usada por Bellamy, estava agora presa por um cadeado. Quando o secretário encontrou mais tarde o velho, não deixou de interrogá-lo sobre aquela modificação.

— Em sua ausência, uma criada quase caiu escadas abaixo,

— explicou o proprietário — e resolvi fixá-la para evitar acidentes; mas por que se interessa por isso?

— Pensei que poderia mostrar os cárceres à minha esposa — justificou o outro.

— Não — foi a resposta lacônica.

Quando noutra ocasião os dois homens se encontraram, Abe voltou ao assunto.

— Se Fay deseja visitar os cárceres, eu mesmo a acompanharei num desses dias. — Savini agradeceu, indo relatar à esposa o que ocorrera.

— Não quero ver as prisões — exclamou imediatamente — Julius, quero ir-me embora; os aposentos de Maida Vale não são um palácio, mas são muito menos humilhantes.

O marido aceitou a decisão sem comentários, o que não se deu com o milionário.

— Diga-lhe que é impossível — trovejou o velho — terá de ficar pelo menos uma semana.

— É melhor que o patrão mesmo lhe apresente suas razões

— disse o astuto secretário.

— Mande-a aqui.

Fay vinha muito aflita.

— Savini diz que você quer deixar o castelo.

— E é verdade. Garre Castle me torna nervosa, senhor.

— Receia os fantasmas?

— Não; tenho medo de Abe Bellamy.

O velho estava satisfeito. Fay Clayton, se pretendesse agradá-lo, não acharia melhor meio.

— Medo de mim? Por quê? Os homens feios não assustam as mulheres; ao contrário são geralmente estimados por elas.

— Carrascos nunca me agradaram — disse Fay — e não seria sua aparência sem elegância que me ornamentaria a casa. Embora não se preste para ser um ídolo, não é propriamente Mr. Bellamy que me aborrece, mas a monotonia do velho castelo e os rumores à noite...

— Que rumores? — perguntou Abe.

— Diz Julius serem os canos d'água, e talvez tenha razão, mas não posso dormir e estou a perder uma grande parcela de minha beleza que tanto estimo...

Ele a observava com os olhos meio cerrados, e quando ela terminou, uma risada estridente, se fez ouvir... riu novamente como se se esforçasse por torná-la alegre.

— Deve ter seus motivos, mas fique até o fim da semana, e então poderá ir.

Estava resolvida a se retirar imediatamente, mas concordou.

— Nem eu mesma sei por que disse sim. Mais alguns dias aqui, e meus cabelos se tornarão brancos, Julius.

— Que tolice! — replicou Savini.

Naquela noite, ambos ouviram o mesmo ruído, mas dormiram. Na terceira, porém, o secretário acordou sobressaltado, encontrando a esposa já à escuta.

— Que foi? — perguntou ele.

— Parece uma explosão — e falava ainda quando um rumor surdo fez estremecer o soalho.

Savini precipitou-se no corredor e desceu; estava em meio do vestíbulo, quando encontrou o velho.

— Que quer?

— Que aconteceu? — perguntou Julius, sentindo um cheiro forte de explosivo.

— Nada, nada que possa assustar... provoquei uma pequena explosão.

— Uma explosão... a tais horas?

— Podia haver ocasião melhor? Num dos muros parecia estar alguma coisa escondida. Em todos os castelos antigos havia tesouros ocultos e há muito tempo eu alimentava o desejo de dar uma busca para ver se encontrava algum.

Abe Bellamy não era homem que escolhesse as três horas da madrugada para desenterrar dinheiro.

— Sua esposa está receosa? Julguei que só a minha presença fosse capaz de amedrontá-la! Volte, Savini, vá dormir.

Tornando ao quarto, Julius dirigiu-se a Fay.

— O velho está a fazer buracos na parede.

— Se está fazendo um buraco para me enterrar, penso que é melhor fugirmos. E você quis vir assim mesmo, Julius... que importa que tenhamos muito dinheiro? Por que ele o fez voltar?... por que me chamou? Somos pessoas inconvenientes para ele, pois podemos denunciá-lo. Percebi que Smith agia a seu mandado, e ele mesmo mo disse... você não foi também encarregado de me levar instruções? Bellamy não podia permitir que ficássemos em liberdade. Eu estava cega! Como não vi o que queria ele de nós? Se odeia as mulheres e não as quer ter perto, porque insistiu para que eu viesse? Vamos sair daqui logo que amanheça...

Julius não lhe reconhecia razão.

— Sem dúvida é assim — continuou ela. — Julius Savini morrerá, se permanecer aqui. Aquela velha raposa premeditou alguma vingança. Não são os buracos que ele possa abrir que me assustam... creio que não há dinamite suficiente para fazer voar Garre Castle, mas o plano que se esconde atrás desse modo de agir.

Bellamy estava na biblioteca e lia o exemplar do Globe que publicava o inquérito, quando os dois se apresentaram.

— Querem se retirar?

— Voltamos para casa — respondeu Fay. — Pensei que esperariam o fim da semana. Você também vai, Savini?

Julius fez um sinal de assentimento.

— Bem... É loucura, mas não discutirei. Aqui têm seus salários, embora não tenham feito por merecê-los, se me deixam desta maneira. Assine dois recibos.

O secretário obedeceu, sentando-se pela última vez à mesa de Abe Bellamy.

— Savini, lembra-se daquela pasta de couro? Não me pergunte qual. Recorda-se dos meios que usava para violar os segredos em minha ausência, das informações que continuamente levava a Valéria... qual é o seu nome? — Abe empurrou a mesa, afastando o tapete para o lado, enquanto Julius o observava — fui ferido — continuou — ferido cruelmente; o tal Featherstone sabe tudo a respeito daquela mulher que eu tinha no subterrâneo e creio que vocês também não ignoram, ou não pretenderiam fugir.

Levantou uma parte do soalho e meteu a chave; Savini admirado, via mover-se o alçapão de pedra; sem uma palavra, o velho desceu.

— Venham ver.

Julius segui-o, enquanto Fay vacilava.

O milionário acendeu um bico de gás e abriu a porta; o cárcere estava iluminado.

— Entrem.

— Ficarei aqui — disse o secretário e sentiu que a mão de Fay tremia.

— Bem... fiquem... a mulher lá está, se quiserem ver...

Súbito foram empurrados antes que Savini pudesse reagir contra a indecisão em que estava. A porta se fechou com ruído e ouviram o correr dos ferrolhos; a face de Abe Bellamy apareceu à grade.

— Voltam para casa? Juro-lhes que este será o seu lar derradeiro. Deixarão de ser portadores de recados. Aí estão e aí hão de ficar até a morte!

A voz do proprietário do castelo era um rugido tremendo; entregue à fúria, estava quase louco.

— Esperei em você, Savini! Sua esposa... — e saltou para o lado ainda em tempo, pois uma bala passou e foi encontrar a parede; uma segunda bateu nas grades. Não lhe ocorreu que o prisioneiro podia estar armado.

Deixou cair a porta de ferro que revestia a grade e, subindo a escada, fechou o alçapão.

Sentou-se e escreveu uma longa carta que ele mesmo levou ao guarda.

— Anda de bicicleta? Leve isto a Lady's Manor.

O homem saiu e Abe ficou a espreitá-lo. Daí a dez minutos o criado estava de volta, e logo depois uma figura conhecida vinha de Blue Boar.

— Vá àquele senhor, e diga que lhe quero falar.

— Bom dia, Holland, seu amigo abandonou-me.

— Savini, Mr. Bellamy?

— Saiu com a esposa. Apanhei-os quando tentavam abrir-me o cofre à noite e os despedi. Não lhe agrada a notícia para o Globe?

— Excelente — disse Spike sem entusiasmo. — Que caminho tomaram? Não os vi em Boar.

— Não; seguiram para Newbury... é pelo menos o que Savini pretendia fazer e falava em procurar lá um advogado. Estou sem sorte. Não se pode confiar nos ingleses e o homem é meio inglês.

— Que tenciona fazer?

— Vou despedir todos os criados depois de pagá-los, e fechar tudo, deixando apenas o guarda-portão e um encarregado de vigiar a propriedade. Se você vier cá, durante a semana, contar-lhe-ei uma bela história.

Os olhos do repórter brilharam.

— Que vai fazer do "Arqueiro Verde"?

— Vou encarregá-lo da propriedade como lhe disse há pouco. Talvez lhe possa contar alguma coisa do arqueiro que enlouqueceu a muitos, mas não a mim que nunca lhe vi a face. E você? Já o encontrou?

— Não — respondeu calmamente o jornalista — não é a face dele que eu desejo ver... mas as costas.

— As costas?

— Gostaria de observar os sinais que lhe deixou o açoite de Creager.

O jornalista não esperava que suas palavras produzissem tão grande efeito.

Bellamy cambaleou como se tivesse sido ferido, procurando se segurar ao pilar de pedra do portão; empalideceu e os olhos brilharam.

— Quer ver-lhe os sinais do açoite de Creager... — murmurou e correu como se um espectro o perseguisse. Foi direto à biblioteca, entrou e fechou a porta, dirigindo-se à cadeira favorita onde caiu exausto.

— O homem que Creager açoitou! Apareceu em Garre um fantasma mais terrível que o arqueiro verde!

Por duas horas teve o olhar fixo na janela, o coração a bater fortemente: Era o temor da morte.

 

UM VISITANTE DA BÉLGICA

Jim Featherstone estava no jardim, quando Valéria, sem uma palavra, lhe entregou uma carta.

 

"Cara Miss Howett.

Quando esteve no castelo me fez perguntas sobre sua mãe e eu lhe respondi que nada sabia. Havia razões para calar, mas agora afirmo-lhe que ainda vive e, se me quiser conceder a honra de uma palestra, dar-lhe-ei todas as informações possíveis. Só esta manhã li uma notícia dos acontecimentos desagradáveis em que esteve envolvida, o que lamento de todo o coração.

Sinceramente

Abe Bellamy."

 

Jim leu e releu o bilhete.

— Uma moderna versão sobre a aranha e a mosca — disse o Chefe da Segurança — e penso que, Valéria, não faria nada mais imprudente que aceitar o convite.

— Desejava saber por que diz isso, e demais...

— Provavelmente não há nada a temer... concordo, e Abe Bellamy deve estar praticando um ato de lealdade...

— Que perigo poderia haver? — perguntou a jovem, e Jim respondeu com energia.

— Como amigo, peço-lhe que não vá ao castelo; como polícia proíbo-a. Abe não ousaria iludi-la na estrada, à luz do dia, mas... eis Spike Holland, vem correndo; que quererá?

O jornalista voou através do jardim; vinha com as faces afogueadas.

— Savini e a esposa deixaram o castelo e o proprietário está a despedir seus servidores, disse respirando com dificuldade... Mas... Julius não saiu de Garre Castle! Estive desde cedo a vigiar os portões, porque o secretário me prometera um artigo interessante e às dez horas apareceu o velho, dizendo que ele partira havia poucos momentos em companhia de Fay; tinham sido apanhados a forçar o cofre...

— E que concluiu de tudo isso?

— Que Bellamy está mentindo. Savini permanece lá e, ou estão a auxiliar o milionário em seus planos funestos, ou...

— Quê?

— Ou prisioneiros. Não me surpreenderei pelo que acontecer em Garre Castle.

Jim tencionava ir à cidade naquele dia, mas, apesar disso, telefonou para o escritório, dando ordem para que procurassem Julius Savini e a esposa; à tarde, quando lhe responderam que ambos não tinham sido encontrados, mandou um oficial ao castelo para inquirir.

O velho, inteligente, recebeu com delicadeza as perguntas do oficial e informou que todos os empregados, exceto o guarda-portão e Sen, tinham partido pelo trem do meio-dia; mais explicações sobre Julius e Fay, não poderia dar.

— Quem o recebeu à porta?

— Mr. Bellamy em pessoa, senhor, e quando o deixei, ouvi fechá-la e trancá-la.

Não havia outra coisa a fazer senão esperar; mas Abe Bellamy, esse, não se costumava deter e a única dificuldade que se lhe oferecia na execução do plano, resolveu-se providencialmente quando foi ao quarto das provisões, procurar leite para o seu café.

Acima da biblioteca, em Garre Castle, havia alguns quartos sem janelas que serviam de depósito às coisas inúteis. Presentemente via-se num deles uma figura de semblante sombrio cuja presença no castelo Julius suspeitava.

Lacy era ladrão profissional e se dizia pintor, porque de todas as ocupações na prisão, a pintura era a mais fácil e os condenados se ocupavam comumente nos misteres que exerciam em seus tempos de liberdade. Homem de maneiras censuráveis, assumira desde a chegada a Garre um ar de igualdade que o proprietário não comentou e mesmo fingiu não ter percebido.

Quando o último dos criados se retirou, Lacy abriu a porta da biblioteca sem pedir consentimento e foi à presença do chefe; trazia um dos cigarros de Bellamy, entre os dentes. A ilusão do sucesso tem atraído homens muito melhores que esse.

— Foram-se todos? Penso ter feito quanto podia para auxiliá-lo, mas não espere que lhe sirva de criado; isso, nunca farei.

— E penso que não lhe pedi — resmungou Abe.

O homem tirou o cigarro da boca e olhou-o com desprezo.

— Este não é dos melhores que usa, Mr. Bellamy; nunca pensaria em oferecer semelhante cigarro ao pobre Smith, e agora, que estou em seu lugar, mereço melhor tratamento.

— Há uma caixa sobre a mesa — respondeu o milionário. — Que quer, Lacy?

— Pensei em vir aqui ter uma palestra — disse o homem, acomodando-se na cadeira do chefe. — Não compreendo bem suas intenções. Pretende que fique aqui por muito tempo?

— Não deseja ver Featherstone, não é assim? A essas palavras a face do criminoso se anuviou.

— Vê-lo-ei num desses dias — disse entre dentes — preciso pagar-lhe alguma coisa que lhe devo.

— Não se apoquente, você o tornará a ver e — franziu a testa — e pagará o que quiser.

O homem fumava, preocupado, e o velho o contemplava atentamente.

— Que quer de mim?

— Que auxilie Sen.

— Nunca trabalhei com chineses, e não me parece bem fazê-lo agora.

Mr. Lacy tinha maneiras ofensivas, e o velho, que poucas vezes o ocupara, recebia a queixa com paciência surpreendente para uma pessoa de sua tempera; o homem continuou:

— Quando saiu Julius?

Bellamy que, sentado sobre a mesa examinava algumas notas que lhe deixara o secretário, pareceu não ouvir a pergunta e, como fosse repetida, respondeu:

— Esta manhã.

O interlocutor fumava em silêncio e parecia refletir; depois de alguns momentos, falou:

— Penso que foi loucura deixar que Savini partisse. Ele lhe pode preparar uma armadilha antes que o torne a apanhar. Tem me admirado muito o quanto se tem arriscado neste negócio. Julius, Fay e eu estamos senhores de seu segredo. Suponha que um de nós procurasse a polícia... Como se arranjaria?

— Não — replicou o milionário — não os receio, como também você não me assusta.

Em sua mesa havia dois telefones, um dos quais punha-o em comunicação com a casa do guarda. O aparelho tilintou interrompendo a palestra.

Há um senhor aqui que deseja vê-lo, Mr. Bellamy — disse o porteiro.

— Diga-lhe que não receberei ninguém — respondeu agastado o velho. — Quem é?

— Deseja falar-lhe sobre a venda do castelo.

— Não tenciono vendê-lo — e ia deixar o receptor, quando se lembrou de perguntar novamente. — Quem é?

— Mr. John Wood. Diz ele ter vindo especialmente da Bélgica para se encontrar com o patrão.

 

VALÉRIA ENCONTRA JOHN WOOD

Transformou-se a face de Abe Bellamy.

— Diga-lhe que entre — e descansou o aparelho, voltando-se para Lacy.

— Pode se retirar, pois espero uma visita. O homem relutava...

— Estou cansado deste negócio. Tenho estado escondido e a dormir em canto escuro desde que aqui cheguei; sinto-me aborrecido!

O velho não respondeu e apenas acompanhou com o olhar o homem que saía descontente.

Foi Sen quem abriu a porta e recebeu o visitante, introduzindo-o na biblioteca. Bellamy, com as costas voltadas para a estufa, as mãos cruzadas e a cabeça inclinada para o lado, em posição característica, não pronunciou palavra senão quando Sen st havia retirado.

— Mr. Wood!

— é o meu nome! Falo com Mr. Bellamy? Informaram-me de que ia deixar o castelo e que ele estava à venda...

— Sente-se — interrompeu o proprietário.

— Ficarei de pé, se isso não o incomoda — replicou o outro.

— Então ouviu dizer que o castelo seria vendido? Quem lhe deu tal informação naturalmente zombava de sua credulidade. Não tenciono fazê-lo agora, nem futuramente. Por que desejava adquiri-lo?

— Tenho estado a reunir grande soma de dinheiro para organizar uma casa de proteção à infância, na Inglaterra — explicou John Wood, sem desviar os olhos da face do milionário —... ocorreu-me que o castelo com alguns modernos melhoramentos, seria um lugar ideal. Possui salas espaçosas que, creio, não são atualmente utilizadas, e além disso poderíamos construir...

— O castelo não está à venda.

John Wood inclinou a cabeça e voltava-se para sair, quando uma palavra do velho o deteve.

— Parece-me conhecer-lhe o nome, Mr. Wood. Talvez esteja enganado, mas me recordo... não era amigo de um parente meu?

— Refere-se a seu sobrinho? — perguntou calmamente o visitante, e o proprietário fez um gesto afirmativo. — Sim; estávamos no mesmo esquadrão.

— Foi morto, hein? Está certo disso?

— Foi oficial a notícia, e eu herdei quanto ele possuía.

— E será isso verdade? Muitos dos homens, considerados mortos durante a guerra, vivem ainda.

— As autoridades do exército americano são muito escrupulosas e tomam grande cuidado em verificar as mortes relatadas; além disso, o governo alemão a confirmou.

O velho Abe refletia.

— Era ele comunicativo? Falou-lhe alguma vez a respeito... — e o milionário estava embaraçado para terminar a frase — ... a respeito de seu passado?

— Nunca — respondeu o outro.

— Hum! — exclamou Bellamy aliviado.

Acompanhou o visitante até a porta e o observou até sumir-se entre os arbustos próximos ao portão; ao voltar à biblioteca, encontrou Sen que, procurando arranjar-lhe a mesa, entregou-lhe um papel.

"Não há leite", dizia.

— Não há no quarto das provisões? Sen fez um gesto negativo.

— Há diversas latas, irei eu mesmo procurá-las.

Foi quando se ocupava nesse trabalho, que fez uma notável descoberta.

Naquela tarde ao escurecer, mandou Lacy a Londres com instruções para fazer certas compras.

 

Jim Featherstone caminhava pela rua principal de Garre, quando viu que alguém, que ele reconheceu imediatamente, saía dos portões do castelo. Com uma desculpa à jovem que acompanhava, apressou o passo e encontrou John Wood justamente quando se preparava para tomar um antigo ônibus que punha em comunicação Garre com a estação da estrada de ferro.

— Fui comprar o castelo — disse Wood, depois dos primeiros cumprimentos, e Jim sorriu.

— Nunca pensei que falasse sério. Miss Howett, quero explicar-lhe: Mr. Wood, veio comprar Garre Castle e foi mal sucedido. E qual é a impressão que traz do proprietário, senhor?

— Não é muito simpático — respondeu John com um sorriso. Para a jovem esse estranho representava mais do que um interesse comum. Dizia a si mesma que era sua mania que a encantava, mas seria mais justificável pensar que fosse a extraordinária personalidade que a atraíra, mesmo antes de lhe ter falado.

— Volta para seus pequeninos, Mr. Wood?

— Ainda não; tenho alguns negócios a atender na Inglaterra antes de tornar a meu trabalho. Agrada-lhe a minha excentricidade? — perguntou com extrema delicadeza.

— Tanto quanto me permite o pouco que sei dela — respondeu, -r- Quer almoçar conosco?

— Sim — respondeu ele depois de alguma hesitação.

Ao passarem pelos portões do castelo, ele voltou-se e contemplou o edifício.

— Está a procurar nosso "papão"? — perguntou Valéria.

— Não pensei nele. Se eu possuísse o castelo... veria a bandeira americana a tremular em todas as torres; mas parece-me que Abe Bellamy é ainda menos patriótico que humanitário.

Palestraram os dois todo o caminho de volta a Lady's Manor, e Jim sentia-se desagradado. Era como se Valéria conhecesse sua visita há muitos anos, e quando se dirigia a Featherstone era sempre para reforçar alguma afirmação de Wood. Isso devia ter entristecido o Chefe da Segurança, além do curioso modo de proceder de Mr. Howett que, desde o começo da refeição, guardou absoluto silêncio; ele que costumava agradar seus convidados e a quem o pior dos inimigos não podia acusar de reservado, conservou-se indiferente até que Spike Holland, que também viera se reunir aos amigos, encaminhou a palestra para o assunto do jogo do arco. Então, introduziu-se nela, e ocorreu a Jim que Mr. Howett procurava responder à questão que o repórter levantara há dias em Carlton.

— É uma coincidência ter-me interessado no desporto, uma dessas coincidências que se encontram a cada passo. Por exemplo, você encontra uma palavra técnica que nunca viu; procura seu significado ao dicionário e dentro de doze horas encontra várias vezes essa palavra noutros lugares. Quando era ainda jovem e meus olhos tão fortes como os seus, muito me interessei pelo jogo do arco. Meia dúzia de meninos do lugar e eu nos ocupávamos do divertimento e muitas vidraças foram nossas vítimas; naquele tempo eu era considerado o melhor arqueiro do grupo. Mais tarde, progredi ainda mais, e quando me tornei rico, procurei organizar uma sociedade em Filadélfia, mas compreendi que meus olhos já não me auxiliavam. Há anos fui à Alemanha consultar um oculista, e, voltando à Inglaterra com estes óculos, soube da competição que se ia travar e, querendo prová-los, tomei de novo do arco.

— Quer me parecer que a palestra cairá sobre o "Arqueiro Verde" — e John Wood sorria. — Tem sido visto? Nem sempre leio jornais ingleses.

Então a conversa tornou-se geral, e foi Valéria que por meio de sábias perguntas descobriu que Wood tinha uma tarde livre e levou o pai a convidá-lo para jantar no outro dia.

Jim retirou-se preocupado; mas era bastante inteligente para ocultar o ciúme que justamente sentia.

 

UMA ABERTURA NA PAREDE

Filósofo por natureza, Savini aceitou a nova situação com uma calma que despertou na esposa profundo respeito. Há dois dias estavam na prisão e não tinham tornado a ver o carcereiro. Nada porém lhes faltava, pois na dispensa havia conservas, biscoitos, leite; tinha água também em abundância e mesmo o gás não fora apagado.

Um exame da sala subterrânea fê-los descobrir as atividades noturnas de Abe Bellamy. Uma abertura quadrada de cerca de quatro pés fora feita na parede e revestida por uma grade de ferro que resistiu a todos os esforços de Savini para movê-la. Espreitando por ela, observaram que dava para os cárceres que o velho mostrara às visitas.

— Eis o motivo do rumor que ouvimos à noite. Fay... Abe trabalhou por semanas para fazer esta abertura e deve ter despendido muitas horas, depois da explosão, para fixar a grade.

— Pode abri-la? — perguntou ela.

— Está cimentada, e mesmo que conseguíssemos passar para o outro lado, encontraríamos outra grade de ferro no topo da escada.

— Está certo de que são as prisões que conhecemos?

— Sem dúvida; vejo o alçapão na abertura inferior que está também cimentada. Por que, não sei, mas o milionário parece ter muito orgulho do seu "pequeno repouso", Querida, estamos em bem difícil situação, e posto esteja armado de revólver e oito cartuchos, não sei como utilizá-los; não devia ter dado a conhecer a Bellamy que o trazia. O melhor que podemos fazer é nos alimentarmos, procurando economizar quanto possível as provisões.

Lembrara-se de arrombar a fechadura da porta, mas depois de minucioso exame, compreendeu que seria esforço inútil e traria o único resultado de torná-la impossível de abrir.

— Talvez queira somente nos assustar — disse. Mas Fay compreendeu que ele apenas procurava acalmá-la.

— Viveremos tanto quanto pudermos, Julius — exclamou, acariciando-o — e Featherstone sem dúvida adivinhará o que se passa.

— Jim estava certo de que havia uma mulher escondida no castelo, mas não a encontrou. Não o censuro por isso... mas, como teria ela fugido?

Uma idéia lhe despertara no espírito e ele começou a examinar as paredes, gastando nesse trabalho a maior parte do dia.

— Suponho que haja aqui muitas passagens secretas e também algum caminho para fora. Se pudéssemos encontrá-lo!...

Terminada a busca, despertaram; nada haviam adiantado. No outro dia, Fay distraía-se a revolver as gavetas de uma mesa, quando deu com um livro encapado de vermelho e escrito à mão. Estavam todas as páginas ocupadas e também a capa não fora poupada. Era um diário.

— Julius! — chamou, e o marido que se ocupava agora em procurar uma saída pelo piso de pedra, dirigiu-se a ela.

— É o diário da mulher — continuou. — Valeria centenas de milhões se pudéssemos sair daqui.

Ele tomou-lhe o livro das mãos e leu durante uma hora; era uma grande história de que Savini não perdia uma só palavra. Ao terminar, levantou-se, abandonando o livro.

— Ponha-o onde o possamos encontrar facilmente, Fay. Não espero poder fugir, mas se o conseguirmos, teremos uma casa em Monte Cario e aposentos em Berkeley Square para o resto de nossa vida.

Durante o dia leram alternativamente um para o outro e Julius, que tinha excelente memória, tomava notas mentais. Seriam dez horas quando se acomodaram, depois de terem colocado na mesma gaveta o achado precioso.

O sistema de ventilação era ali maravilhoso, e no quarto de dormir, apesar de bastante acanhado, o ar se conservava puro. A renovação se fazia por meio de um cano que corria próximo ao teto abobadado.

— O velho deve ter despendido muito tempo para preparar este lugar — disse ele, estirando-se na cama e observando — e trabalhava só. Disse-me o guarda-portão que ele aqui esteve muitos meses, antes de admitir criados e mobiliar o edifício, é sem dúvida um homem inteligente, começou a vida como construtor e sua força extraordinária substituiu facilmente os auxiliares.

Fay, sentada diante do toucador, fazia calmamente as unhas.

— Julius, sabe o que penso?

— Gostaria de saber.

— Que somos os primeiros da fornada. Aquela grade que dá para os outros cárceres foi colocada intencionalmente. Abe está trabalhando para apanhar mais alguém. E tampouco acho que seja necessário economizar as provisões.

— Como assim?

— Porque quando chegarem os outros prisioneiros, Bellamy virá fazer um ajuste aqui nestes cárceres e os artigos mais baratos serão as nossas vidas.

Savini, estremecendo, sentou-se.

— Que quer dizer?

— Justamente o que disse. Ele nos enganou e está pronto para o grande fim que será agora fácil, pois morreu Coldharbour Smith. Ainda restam, porém, alguns: você, eu, Lacy, Featherstone...

— E Miss Howett — lembrou Julius.

— Pensava justamente nela, e não sei por que ele a persegue. Sem dúvida desejaria trazê-la para Garre, e é bem possível que o consiga.

O sono de Fay era leve e ao menor ruído ela acordava. Julius sentiu que o seguravam pelos ombros e que uma mão lhe tapava a boca.

— Não faça barulho — segredou ela.

— Que é? — perguntou ele no mesmo tom.

— Há alguém fora.

Julius tomou o revólver que estava embaixo do travesseiro e, levantando-se cuidadosamente, abriu a porta. Havia deixado seis luzes acesas, agora havia apenas uma, e o cárcere estava escuro. Espreitou... nada viu, era entretanto evidente que alguém havia apagado o gás. De onde estava, podia ver a porta por onde tinham sido trazidos e ainda a observava, quando ouviu o barulho da chave na fechadura.

— Bellamy — disse tristemente ao voltar ao quarto — se o tivesse -percebido... porque não me despertou antes, Fay?

— Chamei-o logo que senti rumor. Está certo de que era ele?

O marido não respondeu mas, tomando-lhe o braço fê-la calar. Escutaram... e ouviram o bater do alçapão na biblioteca.

— Era Abe, não há dúvida — disse Julius, e saiu do quarto a ver se descobria o motivo de tão inesperada visita; acendeu o gás, esperando encontrar ao menos uma carta, que lhes explicasse o motivo do fato, mas nada encontrou. Que teria vindo fazer?

Fay bocejou e sacudiu a cabeça.

— Que horas são, Julius?

— Cinco horas e não me sinto disposto a voltar para a cama. Prepare o chá.

Enquanto ela se dirigia à cozinha, ele procurava uma explicação para o caso; desanimado, experimentou a porta: estava fechada.

— Estou bem satisfeita de ter acordado — disse ela quando trazia o chá... Veja, é muito mais confortável esta prisão do que as outras que conheço, e colocou as xícaras em cima da mesa. Vou buscar o diário.

— Abriu a primeira gaveta, a segunda, e procurava febrilmente; soltou uma exclamação.

— Está aí?

— Levaram-no, Julius.

 

OS MOSQUETÕES

Savini estava surpreendido.

— Não o encontrou?

Esvaziaram as gavetas em cima de um dos tapetes.

— Está certa de que o colocou aqui?

Era tola a pergunta porque ele a vira guardar o livro naquele lugar. Entreolharam-se.

— Foi o que o trouxe cá. Provavelmente só se lembrou agora de procurá-lo — disse Fay.

Julius Savini praguejava.

— Foi loucura tê-lo deixado aqui, devíamos ter pensado que ele o viria buscar.

Às nove horas da manhã achavam-se ainda sentados, desconsolados, tristes, no grande canapé; Julius com a cabeça entre as mãos, a jovem esforçando-se por ler. De repente ouviram abrir a portinhola que cobria a grade e a voz de Bellamy os chamou. O secretário levantou-se num momento, o revólver na mão, e ocultando-se atrás de um grande pilar, esperou.

— Deponha a arma, Savini — ordenou o velho. — Coloque-a sobre aquela mesa onde eu a possa ver; só então irei lhe falar. Se não me atender, não entrarei.

Julius considerou rapidamente; nada lucraria em se conservar assim agressivo, e descansou a pistola.

— Agora venha até a porta; não deve recear, pois se quisesse matá-lo poderia fazê-lo mesmo com a grade fechada.

— Que pretende, Mr. Bellamy? Não compreendo por que nos encerrou aqui; não confia em nós?

— Certamente não. Vim dizer-lhes que andam em seu encalço. Vieram ter comigo esta manhã e disseram-me que foram encontrados em seus aposentos papéis que denunciavam a sua fuga; creio que o estão procurando, Savini. Cuidem em economizar os alimentos, pois não receberão novas provisões. Ficarão aqui para sempre. A chave, atirei-a fora... no poço.

— Está mentindo — disse Julius calmamente — na noite passada esteve aqui, em busca do diário.

O velho o contemplava admirado.

— Repita o que disse.

— Esteve aqui na noite passada para roubar o diário.

— Que diário?

— Que vantagem tem em se fazer desentendido? Veio às cinco horas da manhã, e digo-lhe que é o homem mais afortunado que jamais vi.

— Mas que é isso? De que se trata? Teria ela deixado um diário? Eu o devia ter previsto. Onde está ele?

— Já lhe disse que desapareceu, — e Julius estava impaciente. — Veio...

— Você é louco! Não venho cá desde que os prendi — decorreu algum tempo até que o milionário recobrasse o domínio de si mesmo. — Diga-me, Savini... eu o tratei lealmente, diga-me, era o diário de uma mulher?

— "Quem o conhecerá melhor que Bellamy? — e a pergunta irritou ainda mais o velho.

— Já lhe disse que nada sei. Repito-lhe que nunca o vi... você leu-o? — e a voz era mais fraca.

Ao recitar-lhe Julius um trecho que retinha na memória, Abe vacilou e caiu como ferido. Após alguns momentos reapareceu, e embora a luz fosse fraca, o secretário notou-lhe uma palidez de morte.

— Foi um mal para você, Savini, disse com voz cavernosa... foi um mal... Outro poderia vir-lhe ocupar o lugar; agora, porém, você sabe demais...

A portinhola bateu fortemente antes que Julius lhe pudesse responder. De volta, o eurasiano encontrou os olhos perturbados da esposa.

— Que fez, Julius? Por que lhe falou do nosso achado, vendo que ele não o conhecia? Foi imprudente.

— Que importa? — e sacudiu os ombros. — Não creio que pretendesse nos dar a liberdade. Estamos aqui para sempre, e, abraçando-a, acariciou-lhe a face... Não é tão mau como o julgava... Sempre temi a morte, e a perspectiva de perecer aqui encerrado deveria ter me levado à loucura, entretanto estou calmo, querida.

Ela se afastou delicadamente.

— Julius, se morrermos, sem dúvida Bellamy será o assassino! Se alguém descobriu um caminho para cá, nós poderemos achá-lo e fugir.

Ele sacudiu a cabeça.

— Só o "Arqueiro Verde"!

Era admirável aquela serenidade! Não era o Julius que ela conhecia, ameaçador, insolente com os mais fracos ou vil escravo na presença do proprietário do castelo.

Uma união original aquela! Para Fay, o casamento fora apenas uma conveniência e ela ostentava o luxo de possuir um marido ante as mulheres menos afortunadas. Por vezes chegara a desprezá-lo, provocava-o até; a prudência, porém, a fazia reservar aquelas provas de antagonismo para quando estavam sós.

— Mr. Savini é uma revelação para mim.

— Sou uma revelação para mim mesmo — confessou. — Havemos de presenciar fatos interessantes e o mais importante é que o velho se prepara para um trabalho infernal; cometerá assassínios como ações honestas. Quisera saber com que fim adquiriu mosquetões.

— Que quer dizer? — perguntou ela.

— Há uma caixa dessas armas na torre de Sanctuary; encontrei acidentalmente meia dúzia de manulichers de desporto e duas grandes caixas de cartuchos. Estão no quarto situado sobre o que habitava Featherstone. Palpita-me que ouviremos tiros dentro em breve?

— Que pretenderá ele fazer?

Com um gesto Julius demonstrou a Fay sua ignorância.

— Uma ocasião ele me disse ser mau atirador — contou Julius. — Antes não lhe tivesse falado do diário, talvez isso o leve a usar das armas.

Na calma de sua sala favorita, Abe estudava a situação cheia de perigos em que se achava, posto fosse essa a última circunstância que costumava considerar.

A infelicidade para aquele homem cruel consistia em ver fugir-lhe a possibilidade de vingança, em sentir que lhe haviam roubado a mulher que odiava, justamente quando a sorte lhe proporcionava os meios de atingir o termo da tragédia.

Desde o momento em que a mulher grisalha desaparecera, procurava-a sem descanso; onde se teria refugiado? Como teria fugido? Não podia sequer imaginar; somente compreendia que alguém, ou muito afastado ou muito próximo, trabalhava para abatê-lo, e nesse pensamento delineava-se em seu espírito a figura do "Arqueiro Verde"! Se tentassem contra ele, tinha confiança que Garre Castle seria uma fortaleza contra os inimigos de seu senhor. Deixassem que ele cumprisse seus desígnios, e poderiam então arrombar as portas ou escalar os muros, e ele morreria satisfeito.

Sen veio interromper-lhe o curso dos pensamentos, colocando diante dele um papel onde fazia uma pergunta por escrito, O homem arremessou-o longe, impaciente.

— Não quero alimento. Quando desejar alguma coisa, hei de chamá-lo. Sen, quer voltar para a China?

O homem acenou afirmativamente, e o velho levantou-se, abriu o cofre e tomou um maço de notas de banco que entregou ao mudo.-

— Tem aí uma boa quantia; não a contei. Se alguma coisa acontecer, o melhor será voltar para a sua terra.

O homem franziu o sobrolho.

— Quer saber o que pode acontecer? Muita coisa e, demais, nunca foi seu hábito fazer perguntas em todos esses anos. Mandá-lo-ei a Londres um dia destes e não desejo que torne ao castelo; apronte seus livros e escritos, reúna quanto lhe agrada e leve consigo.

Sen esperava; parecia tentar repetir a indiscrição mas, pensando melhor, saiu da biblioteca.

O fim se aproximava. Algo de misterioso no coração de Abe Bellamy lhe dizia claramente que em breve chegaria o dia de deixar Garre Castle, e todo aquele ódio e amor seriam esquecidos no silêncio da morte.

Se pudesse tornar a ver aquela mulher!... Se por alguma estranha sorte ela lhe voltasse às mãos!... Não havia agência de informações em Londres que já não se tivesse ocupado em procurá-la. Desaparecera como se o solo se tivesse aberto para protegê-la... e a polícia ainda não tinha vindo. Como ficaria satisfeito se Featherstone se apresentasse com alguma daquelas ordens para dar busca no castelo!

O diário! Que teria ela escrito? Julius não poderia inventar a passagem que lhe recitara e lá devia haver muita coisa a seu respeito. Levantou-se depois de algum tempo, para continuar o trabalho nos cárceres e Julius, que o percebeu, ia se colocar na grade empunhando a pistola, quando notou que uma tábua não lhe permitia observar o trabalhador, que não descansou durante todo o dia. Era um constante martelar, e depois de algum tempo Fay ouviu um som estranho que a princípio a assustou e depois a encheu de curiosidade. Alguns segundos mais e pôde explicá-lo — Abe cantava. Mrs. Savini estava admirada.

 

A CABANA DO MATO

— O "Arqueiro Verde" não desperta o interesse público, — dizia Mr. Syme, e Spike daquela vez não podia descobrir nada que justificasse a sua permanência em Garre.

— Além disso — dizia a voz do redator de notícias no telefone. — Bellamy escreveu-me na semana passada, ameaçando mover uma ação contra nós, pois acha que você está a depreciar-lhe a propriedade.

— Ignorante! — exclamou Holland — aquele fantasma lhe aumentou de dez mil dólares o valor. Sinceramente, Mr. Syme, a história merece ser aguardada.

— Volte e espere no escritório — insistiu severamente — e ocupe seu tempo em trabalho mais proveitoso.

O aparelho estava colocado à entrada de Blue Boar, e geralmente, quando o jornalista ocupava o telefone, a sala estava movimentada, o que era grande vantagem, pois o rumor da palestra abafava-lhe a voz e tornava as palavras incompreensíveis; nessa ocasião, porém, o restaurante achava-se deserto e somente um velho fazendeiro, sentado a uma mesa, bebia alguma coisa.

O ancião acenou amigavelmente ao homem da cidade.

— Fantasmas?! Este lugar está infestado deles; apareceu agora um em Cloister Wood; assim me contaram, e um dos meus carreteiros o viu por várias vezes.

— Tanto pior — disse Spike com polidez. — A lenda do arqueiro verde ultimamente tinha tomado um aspecto um tanto desprezível, toda a gente aqui diz conhecer esse personagem.

— Esse de que falo não é, porém, o mesmo; trata-se de uma mulher. Meu carreteiro viu-o de perto.

— Onde fica Cloister Wood? — perguntou o jornalista interessado.

— A umas seis milhas pela estrada, mas se atravessar Monks Field e tomar a direção de Adderley Road, alcança-la-á. Supõem que há uma cabana escondida na floresta. Parece não morar ninguém lá, posto sempre seja vista nos arredores uma mulher.

— Como?! — exclamou Holland — estou intrigado. O fazendeiro meneou a cabeça.

— Também eu não compreendo, mas o que mais me despertou a atenção é que tenho visto sempre lá os sinais das rodas de um automóvel novo; não é Ford, mas carro grande. Alguém viaja seguidamente por ali.

— Para a cabana? Já o viram? O velho fez um sinal negativo.

— Há um galpão próximo da casa e os vestígios deixados pelas rodas vão naquela direção e se encontram principalmente pela manhã, quando a relva está úmida.

— E desde quando é vista lá a mulher?

— Nada ouvi falar antes de sábado — era ainda cedo e o homem caminhava pela floresta rumo à minha fazenda em Caddle Heath, onde moro há cinqüenta e cinco anos. Bem, Tom é seu nome, andava distraidamente, quando viu a mulher a gritar; quase caiu de susto e, reagindo, correu como uma lebre. Diz ele que é um fantasma.

— E isso se passou próximo à cabana?

— Muito perto, e foi esse o motivo que me levou a contar-lhe o fato, pois pensei que talvez ela morasse lá.

Spike naquela ocasião se serviria de qualquer pretexto para permanecer em Garre, e havia falado a verdade quando dissera que pressentia o desenlace do drama de Abe Bellamy; a despeito da aparente normalidade da vida no castelo, um sentimento original o prevenia da iminência da tempestade, e abandonar aquele caso que cuidara com tanto desvelo, era terrível sacrifício. A mulher encontrada na floresta parecia-lhe, porém, fraca justificativa; todavia, resolveu andar as três milhas, talvez menos, pelo atalho indicado pelo velho fazendeiro, para ir a Cloister Wood.

Era um dia sombrio e o frio do inverno já se fazia sentir; caminhar, era pois um prazer, e o jornalista atingiu a orla de Cloister Wood sem cansaço.

O mato quase fechava a propriedade, posto que o dono fizesse algum esforço para cuidar do terreno. Era possível, transpondo uma das cercas arruinadas, desviar-se da estrada estreita que se estendia através da floresta de pinheiros e arbustos. A cabana não era visível da estrada principal, pois ficava no extremo do caminho que dela partia em ângulo reto; seguindo as instruções que recebera do fazendeiro, Spike não tivera dificuldade em encontrá-la. Era um lugar por onde não passavam automóveis há muitos anos, e onde se viam agora sinais recentes, largas marcas de pneus. Avistava enfim a cabana construída de madeira, quase encoberta pela hera. Não muito longe, entre as árvores, estava o celeiro. Das chaminés não saía fumo e as janelas do lado achavam-se fechadas. Não havia ali sinal de vida, tudo estava deserto, file caminhou em direção à porta e bateu; esperou dois ou três minutos, e como ninguém lhe respondesse, decidiu fazer um reconhecimento. Indo ao fundo da casa, encontrou duas janelas abertas e, espreitando, viu um quarto mobiliado com simplicidade. O leito estava desmanchado e parecia que alguém se levantara havia pouco; o que, porém, lhe atraiu a atenção foi um par de sapatos novos de mulher, que se achavam ao pé da cama. No soalho havia duas grandes caixas de papelão cheias de papel de seda branco e, examinando melhor, percebeu outras do mesmo feitio a um canto do aposento. Continuando as pesquisas chegou à porta do fundo, onde bateu; não lhe responderam, e ele voltou a observar o quarto. Levou algum tempo a cogitar, e por fim experimentou cautelosamente as janelas. Com não pequena surpresa, viu que uma estava aberta e levantou o caixilho; deveria entrar? Era nem mais nem menos um desrespeito ao proprietário, que a cada momento podia aparecer, e perante quem não sabia como se desculpar; a vista daquele par de sapatos excitava-lhe a curiosidade e, depois de respirar profundamente, transpôs com um salto a janela e achou-se dentro do quarto.

Verificarei primeiro se estou a salvo — disse Spike — e deu uma volta pela casa antes de examinar mais detidamente o aposento.

Apenas dois quartos eram mobiliados — o de dormir, através do qual passara e um pequeno onde havia apenas uma mesa, uma cadeira e diversos cabides presos à paredes, de um deles pendia um pesado casaco de couro guarnecido de lã; a mesa estava descoberta e sobre ela apenas se via um par de luvas também de couro, grandes e usadas. O repórter voltou ao corredor e falou:

— Há alguém aqui?

As palavras ecoaram pelas peças vazias.

— Não há ninguém — disse ele alto, e voltou ao primeiro compartimento.

O leito era estreito e duro, mas os lençóis de cambraia muito fina e os dois cobertores de lã de camelo pareciam novos; sobre a mesa, ao pé da cama, estava um frasco de aguardente, dois vidros de remédio e uma seringa hipodérmica, que ele examinou cuidadosamente. Os sapatos não tinham sido usados e deviam ter sido adquiridos em algum dos mais luxuosos sapateiros em West End... aqui Spike fez uma importante observação... não eram iguais: cada par era a metade do precedente. Colocou-os no chão e voltou aos vidros de remédio que ainda continham um pouco de líquido e cujos rótulos eram de um farmacêutico de Londres; levantando as roupas da cama, encontrou um vestido de- mulher — era um roupão amplo de cor cinzenta e muito usado; as mangas, à altura dos cotovelos, haviam sido cerzidas, os punhos tinham sido recentemente mudados e na bainha faltava um pedaço de seda, que sem dúvida fora tirado para o conserto. Spike saiu pela janela e fechou-a. Dirigindo-se ao celeiro, no meio das árvores, a distância da casa, encontrou novamente sinais de automóvel naquela direção. As portas estavam fechadas a cadeado, mas, puxando a corrente, pôde, pela fresta, espreitar o interior.

O lugar que devia ser o do carro, estava desocupado; ao longo da parede, alinhadas, havia latas de gasolina vazias e, mais além, três rodas cujas dimensões deram a perceber ao jornalista o tamanho do automóvel.

Voltando a Garre, ia pensativo, não havia razão para que a misteriosa locatária da cabana não usasse sapatos caros e talvez tivessem sido mandados para experimentar; era porém, original que ela não soubesse o tamanho do próprio pé. Repentinamente veio-lhe a solução do problema — alguém lhos podia ter mandado sem conhecer o número que ela calçava, era claro. Resolvida pois aquela dificuldade, agora o mistério se resumia em saber quem eram os habitantes da moradia; nunca tinham sido vistos, ainda que estivessem sempre lá; possuíam um grande carro e viviam numa cabana de quinhentos dólares — era estranho; não via, porém, relação entre o caso e o lendário fantasma de Garre Castle.

Spike suspirou. Não era razão suficientemente importante para que Mr. Syme reconsiderasse o chamado que lhe fizera.

De volta ao quarto, subiu e trocava de roupa, quando bateram à porta. Featherstone entrou. Jim, deixando os Howetts naquela manhã, fora levar sua bagagem à hospedaria.

— Jantará em Lady's Manor, Holland? Desejaria que fosse portador das minhas desculpas, pois irei a Londres esta noite à procura dos Savinis.

— Capitão, os Savinis estão em Garre Castle — afirmou com ênfase o jornalista — juro-lhe que não saíram.

— é possível, não esqueça entretanto que, posto tenha Julius algumas boas qualidades, é um trapaceiro. Não haverá outras saídas no castelo?

— Nunca o ouvi falar de ter encontrado esses caminhos, quando lá estava como mordomo. Afirmo-lhe, Featherstone — disse com ironia — há uma saída de Garre e foi Syme que a achou para mim; partirei para a cidade amanhã e o "Arqueiro Verde" nada mais significa para Spike Holland.

— Penso que todos estão cansados de esperar acontecimentos extraordinários.

— Que pressa há? — perguntou o repórter, amarrando cuidadosamente a gravata e olhando para o investigador sentado no leito. — Vá amanhã, sei que Mr. Howett o espera, pois encontrei a menina que me fez lembrar que jantaríamos lá. Wood também nos fará companhia; veio de Londres.

— Então, compreendo — disse Jim num tom que fez o outro olhá-lo interrogativamente.

Um Chefe da Segurança e um grande filantropo rivais! Amam a filha do milionário, pensou Spike.

Não era unicamente a contrariedade de testemunhar a vitória do novo convidado que levava Jim àquela decisão; chefe de uma das seções da polícia, tinha reconhecido, com certo sentimento, que negligenciara o trabalho e o aviso de um superior o advertira de que sua ausência causava inconvenientes.

O carro estava à porta, quando Holland desceu e Jim ao volante acendia o cachimbo.

— Far-me-ia um grande bem, Featherstone, se telefonasse para Syme, dizendo-lhe que seria quase uma calamidade nacional deixar Garre antes que o caso esteja resolvido.

— E eu sempre a mentir por você — disse o investigador — concordo que agora não estamos mais perto de desvendar o mistério do que quando aqui chegamos. Não esqueça de me justificar perante Miss Valéria.

Spike esperou até que ele partisse e só então se dirigiu a Lady's Manor, onde já encontrou John Wood sentado ao lado da moça, no canapé; fazia uma boa hora que lá estava. Ela ouvia atentamente a exposição de seu grande plano, e quase não notou a chegada do jornalista.

— Onde está o Capitão Featherstone? — perguntou.

— Trago-lhe suas desculpas, pois teve de ir à cidade. Houve um aumento de crimes desde que ele partiu e os funcionários da polícia estão um tanto preocupados.

— Fala seriamente?

— É claro. O fato é que ele está aflito por Julius Savini... pensa que o velho o tenha retido no castelo... e eu também penso assim.

A expressão da jovem mudou, mas em poucos minutos parecia ter esquecido a existência de Jim Featherstone e, quando se sentaram à mesa, o jornalista pensou que nunca a tinha visto tão animada, tão encantadora, tão bela.

Mr. Howett, como de costume, ouvia mais do que participava da conversa e para o fim parecia intensamente absorvido por algum problema que lhe ocupava por completo a atenção. Valéria notou e se entristeceu.

Para Spike, Mr. Howett era uma figura de grande interesse; sua teoria sobre o arqueiro tinha amadurecido e ele colaborava naquilo que a princípio chamara fantasia.

Wood permaneceria em Lady's Manor naquela noite; não havia trem para voltar à cidade, e Valéria não permitia que ele ficasse na estalagem. Era curioso que ela não tivesse protestado contra o fato de Jim Featherstone ter seus aposentos em Blue Boar. Spike bem o havia notado.

Às nove horas, Ms. Howett retirou-se da sala; parecia desejar afastar-se do grupo e era inevitável que então a palestra derivasse para o assunto do fantasma. John Wood queria falar do estranho visitante.

— Já o viu, Miss Howett? Ela estremeceu.

— Sim.

— Quê? — perguntou Spike admirado — ainda não mo havia dito... Já viu o arqueiro?

— Prefiro não falar dele... especialmente de minha própria experiência, mas... já o vi duas vezes, uma delas nos terrenos de Garre Castle.

— E que fazia no castelo? — insistiu o jornalista.

— Procurava por alguém. Foi um ato de loucura que teve um fim trágico para mim; penetrei uma noite no parque.

— Viu-o? Onde? — perguntou o repórter.

Apesar do horror que lhe causava a recordação, a menina sorria.

— Se publicar isso em seu jornal, nunca mais lhe direi palavra, Mr. Holland, mas, se me promete guardar segredo, mostrar-lhe-ei o lugar onde avistei o arqueiro; ainda hoje estive a observá-lo, não sabia que era visível daqui. Foi num outeiro que se divisa de Lady's Manor. Há lá um mato que entra pelas terras do castelo... — e repentinamente se levantou —... vou mostrar-lho mas... — e levantou o dedo, ameaçando —... nunca dirá sob qualquer pretexto que o encontrei. Não é um fantasma.

Os dois homens seguiram-na através do vestíbulo e da cozinha e passaram a porta do jardim, que estava escuro, e onde ela parou.

— Não sei se poderão ver.

— Há luz suficiente, uma vez que nos habituemos à escuridão da noite. Se me mostrar o sítio, talvez possa fazer uma pequena investigação. Farei uma pesquisa amanhã com a luz do dia; preciso ter uma prova do arqueiro, ou meu nome perderá o prestígio no Daily Globe.

Spike tinha razão; embora estivesse escuro, não só se distinguiam as linhas do castelo, como o mato; colocaram a escada e ela subiu ao muro; o jornalista foi logo após e sentou-se, alongando a vista pelo parque afora. John Wood, entre os dois ajoelhara no parapeito.

— Eis ali o castelo — disse ele.

— E um pouco além o mato — ela apontou — daqui se avista justamente a pequena elevação onde ele estava, mas a pouca luz nos impede de observar bem.

— É verdade — concordou o repórter — talvez pela manhã permita-me atravessar o jardim...

Sentiram um ruído, quando Spike acendia um fósforo. Por um segundo a luz brilhou, iluminando o ângulo do muro, e ele viu alguma coisa, ouviu um grito da moça e amparou-a, deixando cair o fósforo.

De pé, a pequena distância, num canto do gramado, com a face branca, informe, olhando para cima, estava o "Arqueiro Verde".

 

BELLAMY OUVE FALAR DA MULHER GRISALHA

John Wood foi o primeiro a dominar-se; saltou para o outro lado do muro, e Spike, ouvindo-lhe os passos, percebeu que corria ao longo do passeio; o jornalista estava agora muito preocupado com a jovem que quase desfalecia.

— Viu-o? Viu-o? — ela cochichava a tremer da cabeça aos pés, sendo necessário auxiliá-la para que descesse a escada... Viu-o? — tornou a perguntar.

— Vi alguma coisa — confessou Spike.

— Onde está Mr. Wood?

— Foi verificar do que se tratava.

Ela fechou os olhos como para dissipar uma horrível visão e insistiu.

— Que foi, Mr. Holland?

— Bem — disse o repórter que não desejava crer na evidência do fato — pareceu-me ver alguém e talvez fosse o arqueiro mas não posso admitir que me pretendesse desafiar.

Cerca de um quarto de hora depois, voltou John Wood, que parecia fatigado.

— Tive de galgar a parede sem auxílio — disse ele, e a Valéria cabia a culpa.

— Estou bastante entristecida, devia lhe ter dado a outra escada. Pesa-me o esquecimento.

— Não se apoquente — e sorria como se alguma coisa o divertisse.

— Chegou a percebê-lo?

— De relance... apenas de relance, mas não o alcancei. Entreolharam-se.

— Era o "Arqueiro Verde", Miss Howett? — perguntou o jornalista.

— Sim, não tenho dúvida. Onde vai, Mr. Holland?

— Vou ter com Bellamy. Pesquisarei o terreno e espero encontrar o arqueiro, ou o Daily Globe tem um repórter inútil.

Foi bater à porta da casa do guarda que já se havia acomodado. O pobre homem negava-se a telefonar para o castelo e só depois de grande trabalho Spike conseguiu convencê-lo.

— Diga a Mr. Holland que chegue ao aparelho — disse Abe, e quando o repórter o atendia: — Que há, Mr. Holland?

— Vi seu "Arqueiro Verde" no parque, senhor.

— Venha até cá — disse o velho depois de uma pausa e deteve-se à espera da visita, à entrada escura do vestíbulo.

— Que tolices são essas de fantasmas?

— Eu o vi — respondeu o jornalista — e mais claramente do que posso percebê-lo aí.

— Onde estava você? E ele?

— Eu nos muros de Lady's Manor. Miss Howett mostrava-me a beleza do castelo visto à noite.

— Devia ser um belo panorama — disse o velho com sarcasmo. — As luzes acesas!... Esperavam por alguma exposição de fogos de artifício?

— Digo-lhe que vi o arqueiro a uma distância de menos de três jardas.

— Se espera que eu o vá auxiliar a escrever histórias de fantasmas, está enganado. Devia se ter poupado ao incômodo de vir até cá. Existe um fantasma — continuou em tom de bom humor — mas um espectro que não sai à noite, sem se resfriar; costuma viver no interior e o ar livre poderia matá-lo. Não, Holland, procure outro assunto.

— Não quer, então, examinar o terreno? — insistiu Spike.

— Nada — respondeu impaciente. — Que criados teria eu para fazer pesquisas? Talvez pretenda procurar o seu amigo Featherstone para fazer suas reservas...

O velho, que se mantinha parado à entrada, voltou-se repentinamente.

— Entre — disse — quero lhe fazer uma pergunta. Quando alcançaram a biblioteca, e depois de ter fechado a porta, o milionário disse sem mais preâmbulos:

— Que me falou no outro dia sobre o homem a quem Creager açoitou? Não quis interrompê-lo no momento, mas mais tarde comecei a pensar o que quereria você dizer.

— O assassino de Creager fora dantes sua vítima. Empregado em uma prisão, seu serviço era flagelar os condenados e é opinião da polícia que ele pereceu nas mãos de um dos desgraçados a quem açoitara.

Bellamy ofereceu uma carteira de cigarros ao visitante, e tomando também um deles ao acaso, acendeu-o.

— Parece-me muito possível... pouco sei do que se passa nos cárceres da Inglaterra, mas recordo-me de ouvir falar que Creager fora guarda... É uma opinião muito razoável — e acrescentou enquanto uma nuvem de fumo se desfazia no ar: — Já identificou o "Arqueiro Verde"?

— Todas as semanas mudo de parecer; eu me preocupo com o... senhor.

— Comigo? É certamente divertido... Desconfia de Julius?

— Tenho desconfiado de todos, mas espero hoje ter absoluta certeza...

— Quem é? — perguntou Abe, observando-o.

— Não tenciono acusar quem pode ser inocente... ocorreu-me agora Mr. Bellamy, que ouvi falar a respeito de sua ameaça de mover uma ação contra meu jornal?

— Não se aflija por isso... não pretendo injuriá-lo, é um bem rapaz e poderei mesmo fazê-lo enriquecer...

— É maravilhoso...

O velho esforçava-se por se fazer amável.

— Costumo pagar grandes quantias por grandes serviços e você está em condições de se tornar rico. Essa idéia sobre o assassino de Creager partiu de Featherstone?

— Disse-lhe que obtive esta informação da polícia e penso que Jim deve conhecer tudo que por lá se passa. Onde está Savini? Teve notícias dele?

— Que poderia saber, se o despedi porque me tentou roubar? E que diz a polícia de seu desaparecimento?

— Está certa de que Savini ainda está no castelo — respondeu o repórter.

— Essa gente de pouca inteligência pode crer nisso, pois admite a existência do "Arqueiro Verde"! — e o velho ria com desdém.

— E a mulher grisalha? — inquiriu Spike.

O silêncio que se seguiu a princípio não o surpreendeu, pois era um hábito de Bellamy, e ele não podia ver a face do velho que estava voltado para a estufa. De súbito o jornalista estremeceu sem saber a causa; parecia-lhe que a porta se abrira e um vento fresco por ali passara, mas, voltando-se, verificou que se conservava fechada. Então Abe Bellamy falou, ainda na mesma posição.

— Que mulher, Holland?

— É uma nova descoberta; — disse o repórter — um dos semeadores de feno viu uma mulher que vagava nas proximidades de Cloister Wood, há três milhas daqui.

— Eu os conheço — disse Bellamy, ainda contemplando o fogo. — Que há a respeito dela?

— Vejo-o perturbado... isso o interessa? Dizem que andava a falar. É provavelmente apreciadora do ar livre.

— E é grisalha? Onde mora?

— Não estou certo, mas suponho que habite uma cabana no mato. Dei-me ao trabalho de investigar e encontrei a casa que então estava deserta; entretanto, alguém andara por lá. Para me certificar, Mr. Bellamy, entrei e procedi a minucioso exame.

O jornalista tinha razões especiais para desejar agradar o milionário, e não lhe parecia haver mal em relatar a aventura.

— Sapatos novos, remédios, marcas de automóvel — repetiu Bellamy. — É estranho, muito estranho até, e ela esteve lá pela manhã?

— As marcas das rodas eram frescas e a cama, ainda desfeita, atestava ter sido utilizada durante a noite.

— Talvez seja como diz — uma daquelas alegres que amam a natureza.

Voltara-se. O jornalista cogitava que partida estaria jogando com ele. Parecia-lhe que o milionário envelhecera nesses momentos e sua fisionomia era ainda mais repulsiva.

— É um excelente rapaz, Spike — disse ele — mas se lhe oferecesse algum dinheiro, negar-se-ia a recebê-lo? E se o presenteasse com um automóvel?... Gosta de guiar?

— Não tanto que pense em adquirir um carro — respondeu — e tinha curiosidade em saber qual o motivo desse inesperado gesto de generosidade.

— Pode examinar o parque, se quiser, mas acho que será perder tempo — disse Bellamy. — Venha pela manhã, darei ordem ao guarda-portão para que lhe permita a entrada. Penso que nada encontrará, pois meu fantasma gosta de casas quentes e não sairá em tempo úmido.

Quando a visita se retirou, o milionário chamou Sen.

— Traga-me o sobretudo e vá em busca do automóvel. Estarei fora por muito tempo.

Toda a noite esteve Bellamy a esperar na chuva que o morador da cabana se recolhesse. Escondia-se entre as janelas abertas, protegendo-se do vento que soprava da floresta e da chuva que lhe fustigava a face. Se o homem tivesse voltado, não teria embaraçado mais o velho Abe, mas raiou o dia sem um único sinal e Abe voltou a Garre sem nada ter alcançado.

 

MORTO, Mr. BELLAMY?

A mulher grisalha! Havia estado na vizinhança todo aquele tempo, permanecia talvez ali, escondida, talvez ao alcance de sua mão. Era ela, ele a havia reconhecido pela descrição que lhe fizeram. Nunca aceitara as roupas que ele lhe oferecera, embora lhe tivesse trazido as mais encantadoras criações das modistas francesas; tudo era rejeitado, não consentindo em trocá-las pelo roupão cinzento que usava no dia em que chegou ao castelo.

Bellamy não se deitou naquela noite e pela manhã, fechando a biblioteca, desceu aos lugares secretos, onde Savini estava encerrado. A porta estava aberta e Bellamy entrou antes que ele pudesse tomar da pistola.

— Quero a arma, entregue-ma — rugiu o milionário e, recebendo-a do prisioneiro que a tinha no bolso, voltou a fechar a porta. — Vamos conversar, Savini, você me falou de alguém que entrou aqui à noite e levou um livro; estava mentindo?

— E por que mentiria eu? — perguntou Julius de mau humor.

— Viu quem era?

— Não, apenas ouvi o ruído da porta que se fechava.

— Aquela porta? — e o velho mostrou a abertura por onde entrara.

Julius fez um sinal afirmativo. Abe Bellamy caminhou pelo quarto e puxou as cortinas que escondiam o guarda-roupa; os vestidos da mulher grisalha estavam ainda lá como no dia em que ela foi aprisionada e ele, sobraçando-os, saiu.

— Quanto tempo nos vai deixar ainda aqui, Bellamy? — perguntou Fay. — já se torna monótona esta prisão.

—  Está com seu marido; que mais quer? É quanto pode desejar uma boa mulher como você.

— Não nos comovem seus discursos e isso nada tem que ver com o que lhe pergunto. Até quando nos conservará aqui?

— Enquanto eu quiser — disse o velho — e se é uma companhia o que deseja, vou arranjar-lha.

Fay não respondeu e o velho já se dirigia para a porta, quando ela caiu sobre ele; apertou-lhe o pescoço, puxando-o para trás.

— Depressa, Julius — pedia ela — mas antes que ele a acudisse, era subjugada por aquelas mãos pesadas; ele que nem se preocupara em tomar da pistola, atirou-se contra o eurasiano que verificou sua impotência.

Fay levantou-se branca, mas intrépida, causando admiração a Bellamy.

— Se seu marido tivesse a sua força, seria um homem — disse ele.

— É um homem e bastante forte para combatê-lo. Dê-lhe a pistola e entregue-se à sua sorte, miserável!

Com uma risada estridente dirigiu-se novamente à porta; ela de novo pretendeu agarrá-lo pelo braço, mas ele a atirou à distância. Voltando à biblioteca tomou os vestidos e, chamando Sen, foi a um lugar escondido do terreno, perto da garage; embebeu a roupa em gasolina e fez uma fogueira.

— Isto está pronto — disse — e desceu novamente aos cárceres para continuar o trabalho.

Toda aquela tarde Julius ouviu o martelar, mas não pretendeu descobrir o que fazia o velho, imaginando que se ocupava em revestir a grade que fechava a abertura.

Pela primeira vez Savini estava quase em desespero; privado de sua única arma de defesa, disse sem esperança:

— Fay, ficaremos aqui por muitos anos. Ela sacudiu a cabeça.

— Eu preferia pensar assim mas... já cogitou, Julius, do que aconteceria se o velho morresse repentinamente?

Ele estremeceu.

— Por Deus não dê guarida a pensamentos tão sombrios; morreríamos aqui enterrados.

— Não será possível arrombar a porta? — perguntou ela?

— Não temos instrumentos; nada que nos possa servir, nada que possamos usar como alavanca.

— Eu desejava que o velho descesse cá novamente. Gostaria de possuir uma mangueira.

— Quê? — perguntou o marido admirado.

— Uma mangueira — disse ela calma — é uma fantasia.

Abe Bellamy estava ainda a trabalhar nos cárceres e o constante bater do martelo chegava-lhe ao ouvido. Repentinamente ela resolveu ir até a abertura, arrastando-se para a grade, mas além, nada pôde ver, pois Abe a havia tapado.

— Bellamy! — ela chamou.

— Que quer? — perguntou ele, suspendendo o trabalho.

— Se pretende que fiquemos aqui, é preciso que nos dê conforto — disse Fay, quando ele tirava a cobertura para vê-la.

— Não é bastante confortável a prisão? Que é o que pede?

— Quero uma mangueira. Os banhos de imersão são fatais para uma mulher delicada como eu.

— Quê! — rugiu ele, e desatou a rir e ria alegremente e ela o fitava temerosa. — Gostaria de ter uma recâmara preparada especialmente para você? Não suponha que eu lhe vá instalar banhos de ducha...

— Não é isso o que quero, nem desejo que entre aqui, porque suas maneiras são sempre inconvenientes. Preciso um tubo de borracha para adaptar à torneira.

Ele murmurou alguma coisa e deixou cair a cobertura; meia hora depois ela o ouviu chamar e, indo até lá, recebeu pela grade o tubo vermelho de borracha.

— Se for muito longo, pode cortá-lo, e se pensa em enchê-lo com água para me afogar à entrada aí, aconselho-a a formar novos planos.

Ela arrastou a borracha, vitoriosa.

— Que pretende fazer com isso, Fay? — perguntou Julius em voz baixa, e ela lhe fez sinal que calasse.

Quando tudo estava em silêncio, naquela noite, ela desaparafusou um bico de gás e colocou a extremidade do tubo no cano. A mangueira era larga demais e ela rasgou tiras de lençol com que a encheu; no outro extremo colocou um pedaço do tubo de latão que havia tirado do bico e amarrou-o cuidadosamente. Ambas as pontas foram tapadas com sabão e quando tudo estava terminado, Julius abriu o cano de gás e a moça acendeu a outra extremidade, formando uma longa chama que levou à porta, aplicando-a à fechadura. Num segundo a madeira começou a arder.

— Traga um balde d'água — segredou Fay. — É preciso apagar o fogo, logo que a porta esteja acesa.

Assim trabalharam durante toda a noite. O subterrâneo estava cheio duma fumaça azul e havia um cheiro forte de madeira queimada; às três horas da manhã Julius puxou a porta e a fechadura caiu; estavam exaustos — as faces escurecidas pelo fumo, as gargantas ressequidas, os olhos lacrimosos. Fay arrastou-se para o quarto que ficava embaixo da biblioteca e se encostou à parede, respirando com dificuldade; lá estava o alçapão sob a escrivaninha de Bellamy e essa era a maior dificuldade, acrescida ainda pelo fato de Julius não conservar a lembrança clara daquela construção. Subiu a escada iluminada pela chama do gás e fez um exame.

— É inútil, Fay, só o que podemos fazer é esconder-nos sob a escada para deixar o velho descer, e então cair sobre ele.

— Com quê? — perguntou ela.

— Com o tubo; ele mesmo lhe deu a idéia.

Julius desceu para o quarto ainda cheio de fumaça; desprendeu a mangueira do cano de gás e cortou um pedaço que dobrou em dois.

— Isso não é suficiente para vencê-lo, é preciso que achemos outro meio. — Uma busca no quarto revelou que nada encontrariam que lhes servisse de arma. Savini foi novamente à escada e experimentou a prancha, empregando toda a força no lugar onde sabia estar a fechadura. Um rumor de passos fê-lo instintivamente baixar a cabeça; ouviu o fraco tinir de uma campainha e logo uma voz que ele reconheceu.

— é o Capitão Featherstone?... Poderá vir imediatamente a Garre Castle? Mr. Bellamy morreu às duas horas da manhã e deixou escrita alguma coisa que desejava que o senhor visse.

Julius por instantes não compreendeu a significação daquelas palavras. Desceu horrorizado e foi ter com a esposa.

— Que aconteceu, Julius? — e Fay tomava-lhe os braços e aproximava a face da sua com ansiedade.

— Nada... não é nada.

— Você ouviu alguém falar. Que foi?

— Foi... não sei, penso que foi Lacy...

— Lacy? a esta hora da manhã... Com quem falava?

— Com Featherstone — e hesitava — é melhor que você saiba. Bellamy morreu.

— Oh! — ela exclamou, com espanto. — Abe Bellamy morreu? — perguntou com incredulidade. — A quem se dirigia o homem?

— Ao Chefe da Segurança; Bellamy escreveu alguma coisa que desejava que ele lesse.

A jovem deitou um olhar cheio de suspeita.

— Bellamy, morto!? — e ela zombava — Lacy a chamar o investigador que o procura para prender! Pensa que é possível? Se o velho tivesse feito suas disposições, poderiam tê-las mandado pelo correio ou esperado que o homem se retirasse. Bellamy morto não poderá mais auxiliá-lo. Que fará Featherstone? Supõe que venha derramar suas lágrimas, soluçar sobre o peito de Lacy, dizendo que todo o passado foi esquecido? Não, Julius não é assim. Jim pode cair na armadilha, porque, enamorado de Valéria Howett, pouco reflete. Se pensasse no caso, isso não lhe pareceria bem. Julius, você é um homem original! Está a tremer, entretanto pretende apanhar o velho sem auxílio. Voltemos ao quarto e conversemos.

Tão perfeito era o sistema de ventilação não subterrâneo que a fumaça tinha desaparecido.

— Vamos ter companhia — continuou Fay. — O milionário é um verdadeiro profeta.

 

JIM FEATHERSTONE EM PODER DE BELLAMY

Jim Featherstone vestiu-se às pressas e saiu para a rua deserta e fria sem pensar que não havia tanta urgência em ler o que escrevera Bellamy. Procurava o carro na escuridão, quando correu a auxiliá-lo um agente que, suspeitando se tratasse de um automóvel roubado, já se preparava para levá-lo à estação próxima; entraram em explicações e em um quarto de hora, o investigador estava em caminho ao longo do Embankment, através da solidão de Chelsea.

Abe Bellamy morto! Não lhe parecia possível. Fora Lacy quem falara e Jim lhe tinha reconhecido a voz imediatamente; o fato de ter sido chamado pelo homem contra quem fora expedida uma ordem de prisão, fê-lo sentir que qualquer coisa de extraordinário se passava em Garre Castle. Às quatro e meia ele descia o outeiro de Garre e transpunha os portões do castelo que estavam abertos, evidentemente à sua espera, posto não visse sinal do guarda-portão. Penetrou no vestíbulo e passou à biblioteca, cuja porta estava entreaberta; entrou, resoluto, e instantaneamente ela foi fechada com ruído. O Chefe da Segurança voltou-se, mas antes que pudesse tomar do bolso a arma, alguém cuja força ele bem conhecia, segurou-o.

— Muito satisfeito de vê-lo Capitão Featherstone — disse-lhe, motejando uma voz. — Veio para o funeral? Bem, será de fato um funeral, mas não meu — e a mão do homem tirava-lhe a arma do bolso. — Chegou a muito boa hora; a pontualidade sempre me encantou e por esse meio ganhei centenas de milhares de dólares em contratos. Agora, queira me acompanhar, faremos um pequeno passeio.

A força do homem era admirável e seria loucura pretender vencê-lo.

— É seu supremo ultrage, Bellamy, e não creio que possa fazer outros — disse calmamente quando seguia o velho ao longo do corredor, passando pela sala de jantar, para ser introduzido no vestíbulo que precedia os cárceres.

— Penso que seja, de fato, o último — concordou Abe — apanhei-o e isso lhe deve tirar qualquer dúvida que possa ter de minhas intenções. É meu último assassínio e será também o maior.

Jim não vira a grade ao descer para as prisões; estava satisfeito da oportunidade que se lhe deparava de ir ao "pequeno repouso" e ficou agradàvelmente surpreendido, quando o milionário lhe soltou o braço ao chegar à escada.

— Vou deixá-lo na escuridão — e depôs a lanterna que acendera para a chegada do investigador. — Fui à cidade há poucos dias, Featherstone, e sei que foi cientificado disso, pois dois de seus homens me seguiram. Indo consultar o meu medico, ele me avisou que estou sofrendo do coração e posso morrer repentinamente. Certamente me interessava saber isto porque tenho muitos planos a executar antes da morte, e um deles é sem dúvida, pô-lo onde quero que fique. Savini, aquele Savini de que se deve lembrar, era excelente leitor e entre muitas coisas que leu, recordo-me da história de um grande rei que, em tempos remotos, costumava sacrificar muitos de seus súditos, porque, pensava ele, a morte seria mais suportável se muitas pessoas o precedessem no sofrimento. É exatamente o que acontece comigo, Featherstone — e, tomando a lanterna, balançava-a ritmadamente, enquanto em surdina, ia repetindo uma cantiga. — Sim, meu rapaz, é o que lhe vai suceder — e se retirou; a meio da escada voltou-se. — Se precisar de qualquer coisa, pode recorrer a Savini que está lá, e mostrou o muro... chame-o, toque a campainha. Boa noite!

Era como se se despedisse dum hóspede a quem dispensasse muitas considerações. Dirigiu-se à grade, que fechou, dando volta à chave do cadeado; ainda do outro lado, mostrou aquela face que o sorriso tornava ainda mais medonha.

Sen o esperava no vestíbulo.

— Leve o carro do homem que estava aqui, leve-o à ponte; a uma distância de três milhas há um caminho que vai ter ao rio... conhece-o? e o chinês fez um sinal de afirmação... deixe lá o automóvel; pode levar a bicicleta em que voltará... Olhou o relógio — eram quase cinco horas — temos ainda duas horas antes do amanhecer — disse, satisfeito, e foi ao quarto onde alguém o esperava.

O investigador, ao ouvir o bater da grade, percebeu que estava preso; examinou cuidadosamente os bolsos, encontrando o cachimbo, os fósforos e um canivete; estava pois desarmado. A escuridão era completa e a única luz que via era a do mostrador fosforescente do relógio. Andando às apalpadelas, chegou a uma parede e caminhou cautelosamente encostado a ela; esperava a todo o momento encontrar Julius Savini, entretanto fez o circuito completo do cárcere sem dar com o companheiro de infortúnio e procurava justamente um lugar onde se pudesse sentar, quando ouviu uma voz, embaixo, que segredava.

— Quem está aí?

— Featherstone, é você Savini?

— Sim, sou eu, Fay também está aqui.

— Mas, onde? — perguntou Jim.

— No cárcere de luxo — respondeu a voz de Fay — baixe a mão e sentirá uma grade.

O investigador obedeceu e encontrou a mão pequena que apertou.

— Pobre Fay — disse carinhosamente — caiu na armadilha.

— Não conhecia esta espécie de prisão que é bem semelhante a um túmulo. É pior do que alguma coisa que você nos podia proporcionar, Featherstone — e baixou a voz. — Ele pode estar nos escutando do topo da escada.

— Creio que não — disse Jim — ouvi-lhe os passos ao longo do corredor; além disso, ele mesmo me avisou de que os encontraria aqui. Onde estão?

— No lugar onde ele encerrava a prisioneira, a mulher que procuram... Mrs. Held.

— E ela não está aí agora? — não lhe responderam. — Creio que para aqui virá mais alguém. Deus meu! — Valéria vinha-lhe à lembrança.

— Está a pensar em Miss Howett? — interrogou Fay inteligentemente... Featherstone, tem uma faca?

— Um canivete que não é muito bom.

— Bata com ele na grade. O cimento ainda não deve estar duro.

Seguindo as instruções, começou ele a golpear o revestimento de uma das barras.

— É inútil, nada conseguirei! Estão presos desde o dia em que resolveram abandonar o castelo?

— Ele lhe disse isso? Então ouça, capitão. Conseguimos abrir a porta do nosso cárcere, mas não foi possível arrombar o alçapão, — cujo mecanismo o secretário explicou em poucas palavras.

— Eu podia tê-lo descoberto — disse Jim com amargura — na velha planta a biblioteca era chamada o "Vestíbulo da Justiça" e em todos os castelos esse vestíbulo se comunica diretamente- com as prisões, em geral por uma escada de pedra. Encontra-se essa disposição em Nuzemburg, na Torre de Londres, no Castelo de Chillon; se houvesse um pouco mais de inteligência neste servidor da polícia, tudo se teria evitado. Você tem uma arma, Savini?

— Não, o velho ma levou.

— Nunca me senti tão fraco! Ele os tem vindo ver? Ter-lhes-ia dito algo a respeito de Miss Howett? — perguntou aflito — falou-lhes de trazê-la para cá? O maldito só se deterá quando estivei cansado de praticar o mal. Reduziu-me à impotência, prendendo-me aqui.

— O único recurso, que é na verdade muito pequeno, é o velho ter deixado a ferramenta aí em seus aposentos, Featherstone — disse Julius e Jim sorria ao nome original que Savini dava ao cárcere de pedra. — Espere, vou trazer uma luz. Vamos encobrir a entrada para que ele não nos veja.

Fay colocou o cobertor na abertura e se retirou para aquecer o café que entregou através das grades. O cárcere foi iluminado logo e o investigador pôde examinar-lhe todos os cantos.

— Como puderam abrir a porta? — perguntou Jim, e contaram-lhe todo o plano arquitetado por Fay.

— Se tivéssemos uma alavanca, poderíamos tentar arrombar as grades — disse Julius pesaroso — quando amanhecer vá ao topo da escada e veja se se pode desembaraçar daquele obstáculo, Featherstone.

— Não compreendo para que teria Abe cavado aquele buraco na parede; não foi, é certo, para nos facilitar a comunicação — afirmou Fay — pode apostar a vida, porque tenho razão; Bellamy não seria capaz disso. Aquela grade causa-me tanto medo... Toda a vez que olho aquelas barras, sinto gelar-me o sangue nas veias.

O dia veio enfim e os raios do Sol, passando através da entrada, iluminaram a prisão. Logo que a claridade permitiu, Jim foi ao topo da escada e procurou o cadeado, verificando ser impossível a fuga por ali, pois nenhuma das chaves que trazia servia na fechadura, que tinha uma forma especial. Espreitando, verificou que a porta da passagem, que era demasiado espessa, estava encostada e, mesmo que gritasse, sua voz não seria ouvida, pois não havia criados no castelo. Viu então pela primeira vez um grosso cano que, saindo da parede, entrava no piso, e foi perguntar a Julius para que serviria.

— Há dois deles. O velho quis fazer aqui uma piscina e por aí viria a água. Custou-lhe muitos milhões a pretensão, que finalmente reconheceu impossível de realizar.

Foi assim que Featherstone veio a compreender a utilidade da grade que separava os cárceres.

 

O CERCO

Os Howetts estavam a almoçar, quando Spike Holland chegou. Trazia novidades e pelo ar grave que assumia, Valéria compreendeu desde logo que algo de sério havia acontecido.

— Featherstone esteve aqui na noite passada? — perguntou ele imediatamente.

— Não — respondeu a moça. — Por quê?

Acabo de telefonar para Jackson, seu assistente, que me informou que o investigador foi chamado ontem à noite e não tornou ao aposento; seu automóvel que também havia desaparecido, foi encontrado no rio, a três milhas daqui.

Miss Howett em vão procurou dominar-se. O jornalista julgou que ela ia desfalecer e aproximou-se para ampará-la.

— Havia uma mensagem de Garre. A polícia, procurando investigar a procedência no centro telefônico, concluiu que viera do castelo — e Spike continuou — desse modo puderam determinar a hora em que saiu Jim; se chegou, porém, ao castelo ou não, é o que não pudemos saber. Jackson não quer que eu vá ter com Bellamy, antes que ele chegue com seus homens. Abe não se vai sentir muito bem!

Mr. Howett, que se preparava para ir à cidade, estava pronto para desistir do intento, mas a moça, que desejava ficar só, insistiu para que tal não fizesse. Alguma coisa interiormente lhe dizia que Jim estava com vida, mas caíra nas mãos do velho Bellamy.

Ela estava na vila quando chegou o automóvel que conduzia a polícia.

O próprio Prefeito em sua figura respeitável a comandava e entrevistou Spike.

— Não esteve com Bellamy, nem o avisou?

— Não, senhor.

— Posso dar-lhe apenas as informações que obtive de um trabalhador que em seu caminho encontrou um carro em tudo semelhante ao do Chefe da Segurança; saía de Garre e dirigia-se para Londres.

— E o carro ao ser encontrado deixava supor que viajasse para a capital.

O comandante lançou um olhar para o grande portão do castelo donde pendia uma campainha; deu sinal, mas o guarda não atendeu, novamente tocou, e o mesmo silêncio.

A altura não era pequena e o polícia tomou sua resolução imediatamente — um trole passava e por sua ordem um dos agentes o fez parar.

— Volte seu carro contra esse portão com a força máxima — ordenou o Prefeito.

— Ele se quebrará — disse, indeciso, o homem do volante. — É justamente o que quero.

O trole, com meia velocidade, fê-lo ceder com um estalido e o prefeito dispensou-o.

Podiam ver agora claramente os arbustos e tinham uma completa vista da fachada do edifício de cujo pórtico se ouviu partir um estampido, e o homem que seguia à esquerda de Spike caiu ao solo, esvaindo-se em sangue.

— Ocultem-se — ordenou o comandante — e, sem demora, os soldados deitaram-se.

Abe Bellamy estava em dificuldades.

Valéria ao ouvir o primeiro tiro, compreendeu logo o que se passava.

Ela, entre algumas pessoas que se haviam reunido para assistir ao arrombamento, foi advertida por um dos agentes.

— É perigoso, Miss — avisou o homem — o velho está a atirar pela abertura da torre; há pouco vi que a fumaça partia de lá.

Mal pronunciara essas palavras e alguma coisa passou por ela assobiando, e um ruído de vidros quebrados se fez ouvir. O soldado, amparando-a, procurou afastá-la da linha de fogo. A bala despedaçara uma lâmpada e atingira o telhado de uma casa.

— Por pouco escapou, Miss, aposto que ele a estava esperando.

Valéria sentia-se satisfeita com a ausência do pai. Ele se atemorizaria por vê-la assim arriscar-se; seu modo de proceder não seria agradável nem a ele nem a Jim, que sem dúvida devia estar oculto por aquelas paredes sombrias, como prisioneiro; mas a jovem não desejava se recolher, sem saber o que se estava passando.

Enquanto assim refletia, Spike, que deixara a entrada, dela se aproximou extremamente excitado.

— Abe defende o castelo — e ria nervosamente — bem disse a Syme que a história se aproximava do fim, mas o homem não me compreendeu.

Novo estampido!

— Continua a reagir — exclamou o jornalista.

— Está lá o Capitão Featherstone?

— Suponho que sim — disse Spike e a moça percebeu que o repórter estava no auge do entusiasmo. — Não conseguirão arrombar o castelo; o comandante mandou a Reading pedir uma companhia de soldados e esperam que mandem artilharia para destruir a porta, mas isso é um ato violento... — e, sem se desculpar, abandonou a jovem e correu para se comunicar com Mr. Syme.

Mais tarde, refletindo, Miss Howett concluiu que Londres não enviara forças militares para bombardear o castelo; demais,

Abe Bellamy era cidadão americano e não desejariam ofender o seu país.

Várias tentativas tinha sido feitas para falarem com o proprietário pelo telefone, e só depois de muita dificuldade obtiveram uma ligação.

— O melhor que tem a fazer é render-se, Mr. Bellamy — disse o Prefeito. — É mais prudente e mais fácil.

— Eu sei o meio mais fácil — respondeu o milionário — dê-me doze horas para refletir.

— Posso conceder-lhe uma.

— Doze — foi a resposta lacônica — passará mais que esse tempo, antes que me façam tomar outro caminho.

Valéria fez várias visitas à entrada do parque. Agora a polícia tinha sido reforçada e estava organizando um cordão para impedir que se aproximassem pessoas desautorizadas. Havia também recebido armamento, e o fogo continuou, de parte à parte, durante toda a tarde.

Cheia de ansiedade ela tornou a casa e teve conhecimento de que as criadas a tinham abandonado, para presenciarem o estranho combate. Uma idéia então lhe ocorreu: foi ao muro do jardim, colocou a escada e subiu para espreitar. Podia ver perfeitamente o que se passava. A fumaça partia das mais altas aberturas de Sanctuary Keep, posição inatingível, pois de lá não só descortinava a entrada dos portões, como todas as vizinhanças do castelo.

Atrás daquelas sombrias paredes que tinham resistido a tantos cercos, que tinham presenciado a vinda e a retirada da cavalaria inglesa, que tinham observado as alegres bandeiras que tremulavam nas cruzadas, quando saíam em direção à Terra Santa, um homem escondido desafiava as leis não só da Inglaterra, como de todo o mundo.

Subitamente ela sentiu que alguma coisa batia fortemente no muro, a seu lado, fazendo saltar estilhaços de argamassa que se perderam no ar. Assustada, desceu, mas ainda um segundo tiro se fez ouvir e atingiu exatamente o lugar onde estivera; um pedaço de pedra alcançou-lhe a mão, ferindo-a.

Não era Bellamy quem atirava. O chinês mudo, curvado diante da estreita abertura, foi repentinamente agarrado e arremessado à parede.

— É a segunda vez que faz fogo contra ela, louco; repito-lhe que não torne a alvejá-la.

Sen estremeceu, e com um vago sorriso, descansou a arma.

— Faça alvo no bosque, a polícia está lá — disse o velho, e desceu para cerrar os postigos de ferro de seu quarto de dormir, pois à noite poderia aumentar o bombardeio.

Feito isso desceu ao vestíbulo para examinar o que poucas visitas que haviam assomado ao castelo tinham visto — a porta que, presa a um encaixe do teto de pedra, descia e subia com grande facilidade. Desprendeu a corda grossa que punha em movimento o mecanismo e fê-la cair vagarosamente. Esperou que descansasse sobre as chapas do soalho e, apressado, dirigiu-se ao cárcere principal.

— Está aí, Featherstone? Seus amigos já chegaram, creio que já sabe.

— Ouvi que faziam fogo.

— Fui eu a princípio, mas ele agora receberam armamento. Acontecerão grandes coisas esta noite.

Jim subiu a escada e, estendendo as mãos, segurou as grades. — Eles o apanharão, Bellamy — disse, com extraordinária calma.

— Só morto — foi a resposta. — Julga que tenho medo? — e olhou para baixo — está enganado. Nunca fui tão feliz em minha vida. Poderia deixá-lo ir, mesmo os outros, e gozo ao pensar nisso, mas me arruinariam os planos; é sabendo que o tenho aqui e que seus companheiros estão lá fora, que o castelo pode escondê-lo, e que eu zombo deles, que sinto enorme satisfação. Não me inveja, Featherstone?

— Você, Bellamy, não é digno de inveja — disse Jim, e retirou as mãos em tempo, pois os pesados sapatos do velho, iam lhe esmagar os dedos contra o ferro.

Voltou à grade que punha em comunicação as prisões, e se curvou para falar com Fay.

— É muito bom amigo Mr. Bellamy.

— Que está se passando, Featherstone? Estão combatendo?

— Sim, a policia, muitos homens, e a posição parece perigosa, pois estão a receber armamento. Vim a saber que o velho tenta defender o castelo.

— É questão de horas — respondeu ela calmamente — Jim, que pensa de Julius?

— Nada posso dizer contra ele depois do que fez por Miss Valéria e por mim.

— Pensa que é covarde, não? Tem me ouvido ridicularizá-lo e talvez julgue que o tenho em mau conceito, mas não, não! Eu o amo e desejo que ele o saiba. Entre nós não se dá muita importância ao amor, e o casamento, as mais das vezes, nada mais é que uma garantia para o futuro. Mas eu o estimo tanto que me sinto feliz em morrer com ele.

O investigador, passando a mão por entre a grade, acariciou-lhe a cabeça.

— Fay é excelente criatura. Se você sair daqui, eu...

— Não me prometa trabalho honesto — suspirou ela. — Prefiro roubar a escovar soalhos. Não sou orgulhosa.

Featherstone, ouvindo o bater do martelo, subiu a investigar. O velho lá estava, despido até a cintura, a pregar barrotes um sobre o outro na porta da passagem; trabalhava febrilmente.

— Que é isto, Bellamy? vai nos encerrar? O velho olhou em torno.

— Oh! é você? Sim, vou encerrá-los.

James em silêncio contemplava-lhe o trabalho: madeira sobre madeira... já lhe iam à altura dos joelhos.

— Será enforcado, Bellamy, se o apanharem; disse o investigador.

— Não se entristeça — zombou — não me deixarei prender, e levantando-se, ergueu os braços, descuidado.

Jim foi bastante ligeiro em apanhar o martelo que Abe deixara sobre as grades num momento de irreflexão, e atirou-o ao piso do cárcere.

— Dê-me isso — rugiu o velho. — Dê-me ou tirar-lhe-ei a vida.

— Venha buscá-lo, — e esperou na escada, pronto para o ataque.

Bellamy, que não pretendia por em execução a ameaça, afastou-se, e o investigador ouviu-lhe os passos no corredor. Cinco minutos depois, o combate recomeçava com mais intensidade, deixando perceber que o proprietário de Garre Castle estava em seu posto.

 

UM FANTASMA EM LADY’S MANOR

Valéria, que nada sabia do interesse do velho em salvá-la, voltou para casa abalada pelo perigo que correra. Os criados haviam saído e o pai ainda não voltara. O cloque-cloque do detornar das armas fazia-a nervosa; deveria ir se reunir à multidão que, pasmada, assistia ao estranho espetáculo? Ela bem desejava que Spike viesse, mas o repórter estava ora na linha de fogo, ora ao telefone e em frases destacadas se comunicava com o estenógrafo; era tão fantástico o acontecimento, variavam tanto as probabilidades da vitória, que ela não podia conceber que aquilo fosse real. Tudo lhe lembrava que Garre Castle estava sitiado e que fora, no bosque, lá onde os cães quase a haviam apanhado, homens estavam a esperar com as armas na mão que Abe Bellamy aparecesse. E Jim? O coração quase lhe parava ao pensamento do perigo que ele corria, e ela saía e caminhava pela estrada sem nada poder ver além do povo que, paciente, esperava o fim da tragédia. Uma criança passou a correr e Valéria chamou.

— Não, Miss, nada aconteceu, mas vieram muitos soldados.

Vagarosamente a moça voltou, relutava em entrar pela porta aberta; desejava que o pai estivesse em casa... foi novamente à entrada, esperava que chegasse alguém que fosse em busca das criadas; ela mesma podia ir, mas... era absurdo estar assim nervosa.

John Wood tinha partido antes do almoço para tomar o trem e ela devia ter ido em sua companhia.

"Cloque-cloque".

— Era original, ali, numa tranqüila vila da Inglaterra, uma batalha se feria e a população aglomerada a presenciava; dois homens sobre o telhado de uma cabana estavam absorvidos na contemplação do espetáculo.

Valéria entrou em casa, foi à sala de visitas e tomou um livro; ia ler. Súbito ouviu rumor de passos; devia ser alguma das criadas que voltara e fora à cozinha procurar quem a acompanhasse; o compartimento estava meio escuro.

— Há alguém aí? — perguntou, indo para a copa.

Dois braços... dois longos braços a apertaram — eram verdes e as luvas tinham a mesma cor.

Ela gritava e, olhando aquela máscara branca, desmaiou nos braços do homem vestido de verde. Poucos minutos depois, quando recuperou a consciência, era levada através de um túnel em absoluta escuridão. Onde estaria? E então se recordou do que se passara e reagiu.

— É você? — dizia cheia de medo — é você, pai? — ele não respondeu e apenas perguntou se ela já podia andar. — Penso que sim, mas não vejo o caminho.

— Não iremos longe... apare-se à parede e poderá seguir.

Os muros eram de pedra bruta e ela sentia umidade ao tocá-los. Alguma coisa, um como que raio de luz verde atravessou-lhe na frente; ela recuou.

— É um rato — explicou o homem, para tranqüilizá-la. Chegaram finalmente a um lugar onde da passagem derivavam dois caminhos e ele, tomando-lhe o braço, fê-la parar.

— Por aqui — indicou — e a menina teve de subir três degraus — incline a cabeça, há pouca altura.

Ela obedeceu, andou curvada uns doze passos e subiu mais dois degraus, encontrando um paredão; ali brilhava a luz do sol.

— Pule — ordenou o homem; ela saltou ao solo e caminhou sob um arco baixo, entrando num compartimento onde havia prateleiras cheias de conservas.

— Onde estou? — e não ousava fitar aquela face branca.

— Em Garre Castle, foi a resposta — e aqui ficará, senhora.

Ela, desvencilhando-se das mãos que a retinham, correu para a porta que estava fechada, mas antes que pudesse alcançar a entrada da cozinha, ele a tinha apanhado. Na luta, conseguiu arrancar-lhe a máscara — era, na verdade, uma máscara e gritou:

— Você... você, o "Fantasma Verde"!

Era Lacy.

 

FAY NO CÁRCERE

Lacy nada lhe respondeu, fê-la passar por uma pequena porta, sob a escada, e ainda por outra no vestíbulo que ela reconheceu como uma das que iam ter às prisões; a princípio pensou que era levada para aí, porém, al